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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A Ordem de Fênix / J. K. Rowling
A Ordem de Fênix / J. K. Rowling

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Ordem de Fênix

                    

 

DUDA DEMENTE

O dia mais quente do verão até então estava chegando ao fim e um silêncio sonolento caía sobre as grandes casas quadradas da Rua dos Alfeneiros. Os carros que normalmente resplandeciam estavam empoeirados nos passeios e gramados que uma vez foram verde esmeralda e agora estavam secos e amarelados - pelo uso de mangueiras que haviam sido banidas devido à seca. Privados da lavagem dos carros e aparação da grama, os habitantes da Rua dos Alfeneiros se retirara  para a sombra de suas casas frescas, as janelas arreganhadas na esperança de atrair uma brisa inexistente. A única pessoa no lado de fora era um adolescente deitado de costas num canteiro de flores no exterior do número quatro.

 

Ele era um garoto esquelético, cabelos pretos e óculos, tinha uma aparência ligeiramente não saudável de alguém que crescera demais num pequeno espaço de tempo. Suas calças jeans eram gastas e sujas, sua camiseta  larga e desbotada, as solas de seus tênis estavam se soltando. A aparência de Harry Potter não o tornava querido pelos vizinhos, que eram o tipo de pessoa que achava que o desmazelamento deveria ser punido pela lei, mas já que ele se escondera atrás de um grande arbusto de hortênsias, esta noite ele estava bem invisível aos passantes. De fato, o único modo de ser notado era se seu tio Válter ou tia Petúnia meterem suas cabeças para fora da janela da sala de estar e olharem direto para o canteiro abaixo.

 

Por tudo, Harry achava que devia ser parabenizado pela idéia de se esconder ali. Ele não estava, talvez, muito confortável deitado na terra quente e dura mas, por outro lado, ninguém estava olhando feio para ele, rangendo os dentes tão alto que ele não conseguia ouvir as notícias ou lançando perguntas nojentas para ele, como acontecera toda vez que tentara se sentar na sala para assistir a televisão com os tios.

 

Quase como se este pensamento tivesse flutuado pela janela aberta, Válter Dursley, o tio de Harry, de repente falou.

 

- Bom ver que o garoto parou de tentar se meter. Onde ele está, aliás?

 

- Não sei - disse tia Petúnia, indiferente. - Não está na casa.

 

Tio Válter resmungou.

 

- Assistindo o jornal - ele disse ofensivamente -, gostaria de saber o que ele está realmente aprontando. Como se um garoto normal se importasse com as notícias. Dudley não tem a menor idéia do que está acontecendo; duvido que saiba quem é o Primeiro Ministro! De qualquer forma, não é como se houvesse algo sobre a turma dele no nosso jornal.

 

- Válter, psiu! - disse tia Petúnia. - A janela está aberta!

 

- Ah, sim, desculpe, querida.

 

Os Dursley silenciaram-se. Harry escutou uma música de comercial sobre o cereal Fruit'n' Bran enquanto observava a Sra. Figg, uma velha senhora louca que adorava gatos da próxima Wisteria Walk, passar trotando vagarosamente. Estava de testa franzida e murmurando para si. Harry ficou muito feliz por estar escondido atrás do arbusto, já que a Sra. Figg recentemente o chamava para tomar chá toda vez que o encontrava na rua. Ela tinha virado a esquina e desaparecido de vista antes da voz de tio Válter flutuar para fora da janela de novo.

 

 - Dudinha saiu para o chá?

 

- Na casa dos Polkiss – disse tia Petúnia carinhosamente. - Ele tem tantos amiguinhos, é tão popular.

 

Harry suprimiu um ronco com dificuldade. Os Dursley realmente eram incrivelmente estúpidos quando se tratava de seu filho, Dudley. Eles tinham engolido todas suas fracas mentiras sobre tomar chá com um membro diferente de sua turma toda noite das férias de verão. Harry sabia perfeitamente bem que Dudley não tomava chá em lugar algum; ele e sua turma passavam toda noite destruindo o parque de diversões, fumando nas esquinas das ruas e atirando pedras nos carros e crianças que passavam. Harry os vira fazer isso durante suas caminhadas noturnas por Little Whinging; passara a maior parte de suas férias vagando pelas ruas, varrendo as ruas caçando jornais das latas de lixo pelo caminho.

 

As notas de abertura da música que marcava o telejornal das sete horas chegou aos ouvidos de Harry e seu estômago se embrulhou. Quem sabe esta noite - depois de um mês de espera - seria a noite.

 

"Números recordes de turistas encalhados enchem os aeroportos enquanto a greve dos carregadores de bagagens espanhóis chega a sua segunda semana."

 

- Daria a eles uma cesta por toda vida, eu daria - reclamou o tio Válter no fim da frase do locutor, mas não importava: do lado de fora, no canteiro, o estômago de Harry parecera abrir-se. Se alguma coisa houvesse ocorrido com certeza seria o primeiro item do noticiário; morte e destruição eram mais importantes do que turistas encalhados.

 

Ele soltou um longo e baixo suspiro e ergueu os olhos para o brilhante céu azul. Todos os dias deste verão tinham sido iguais: a tensão, a expectativa, o alívio temporário e então a crescente tensão de novo... E sempre, ficando mais insistente todo tempo, a pergunta de por que nada tinha acontecido ainda.

 

Continuou escutando, só em caso de haver alguma pequena pista, não reconhecida pelo que realmente era pelos trouxas - um desaparecimento inexplicado, quem sabe, ou algum acidente estranho... Mas a greve dos carregadores de bagagem foi seguida pelas notícias sobre a seca no Sudeste.

 

- Espero que esteja ouvindo aí no vizinho! - berrou tio Válter. - E seu regador às três da manhã! - então um helicóptero que tinha quase caído num campo em Surrey, então o divórcio de uma famosa atriz do seu famoso marido.

 

- Como se estivéssemos interessados sobre seus casos sórdidos -, fungou tia Petúnia, que estivera seguindo o caso obsessivamente em cada revista que pudesse por suas mãos ossudas.

 

Harry fechou os olhos contra o céu noturno agora flamejante enquanto o locutor dizia: e finalmente, Bungy, o periquito descobriu um novo modo de manter-se fresco neste verão. Bungy, que vive no Cinco Penas em Barnsley, aprendeu o ski aquático! Mary Dorkins foi descobrir mais.

 

Harry abriu os olhos. Se tinham chegado aos periquitos que faziam ski aquático não havia mais nada que valesse ouvir. Ele rolou cuidadosamente e se pôs de quatro, preparando-se para rastejar para longe da janela.

 

Ele se mexera cerca de dois centímetros quando várias coisas aconteceram numa sucessão bem rápida.

 

Um som de chicote alto e ecoante quebrou o silêncio sonolento como um tiro; um gato correu debaixo de um carro estacionado e fugiu de vista; um berro, um xingamento gritado e o som de porcelana quebrando veio da sala de estar dos Dursley, e embora este fosse o sinal que Harry estivera esperando, ele se pôs de pé num salto, ao mesmo tempo tirando do cós do jeans uma fina varinha de madeira como se estivesse desembainhando uma espada - mas antes que pudesse se pôr de pé completamente o topo de sua cabeça colidiu com a janela aberta dos Dursley. O barulho resultante fez tia Petúnia gritar ainda mais alto.

 

Harry sentiu como se sua cabeça tivesse rachado em duas. Os olhos marejando, ele cambaleou, tentando concentra-se na rua para achar a fonte do barulho, mas mal tinha se endireitado quando duas grandes mãos púrpuras passaram pela janela aberta e fecharam-se com força em volta de sua garganta.

 

- Esconda isso! – tio Válter resmungou no ouvido de Harry. - Agora. Antes que alguém veja!

 

- Tira as mãos de mim! - Harry arfou. Por alguns segundos eles lutaram, Harry afastando os dedos tipo salsicha com a mão esquerda, sua direita segurando com força sua varinha erguida; então, enquanto a dor no alto da cabeça de Harry deu uma pulsação particularmente ruim, tio Válter gritou e soltou Harry como se tivesse recebido um choque elétrico. Alguma força invisível parecia ter passado pelo seu sobrinho, tornando-o impossível de se segurar.

 

Ofegando, Harry caiu sobre o arbusto de hortênsias, endireitou-se e olhou em torno. Não havia sinal do que causara o sonoro barulho de chicote, mas havia vários rostos espiando através de várias janelas próximas. Guardou sua varinha rapidamente nos jeans e tentou parecer inocente.

 

- Noite adorável! - gritou Tio Vernon, acenando para a Sra. do número sete, do lado oposto, que olhava furiosa detrás de suas cortinas. - Ouviram o escape bem agora? Deu a mim e a Petúnia um susto!

 

Ele continuou a sorrir de um modo horrível e maníaco até que todos os vizinhos curiosos desaparecessem de suas várias janelas, então o sorriso tornou-se uma careta de ódio enquanto acenava para Harry se aproximar.

 

Harry se aproximou mais alguns passos, tomando cuidado de parar um pouco antes do ponto em que as mãos esticadas de tio Válter pudessem continuar seu estrangulamento.

 

- Que diabos você quer com isso, garoto? - perguntou tio Válter numa voz coaxante que tremia com fúria.

 

- O que eu quero com o quê? - disse Harry friamente. Mantinha-se olhando para a esquerda e para direita da rua, ainda esperando ver a pessoa que tinha feito o barulho.

 

- Fazer uma algazarra como um revólver bem do lado de fora de nossa...

 

- Não fiz aquele barulho - disse Harry com firmeza.

 

O fino rosto de cavalo de tia Petúnia agora aparecia ao lado do grande e púrpura do tio Válter. Ela parecia lívida.

 

- Por que estava se escondendo debaixo de nossa janela?

 

- Sim... Sim, boa pergunta, Petúnia! O que estava fazendo debaixo da janela, garoto?

 

- Escutando o noticiário - disse Harry numa voz resignada.

 

Seus tios trocaram olhares de horror.

 

- Escutando o noticiário! De novo?

 

- Bom, ele muda todo dia, sabe - disse Harry.

 

- Não banque o espertinho comigo, garoto! Quero saber o que você está aprontando de verdade. E não me dê mais desta história idiota de escutar as notícias! Você sabe perfeitamente bem que sua laia...

 

- Cuidado, Válter! - sussurrou tia Petúnia, e tio Válter abaixou a voz de modo que Harry mal conseguia ouvi-lo. - Que sua laia não aparece nos nossos noticiários!

 

- Isso é tudo que você sabe - disse Harry.

 

Os Dursley arregalaram os olhos para ele por alguns segundos, depois tia Petúnia disse.

 

- Você é um mentirozinho nojento. O que estão todas aquelas - ela também abaixou a voz de modo que Harry teve que ler seus lábios a próxima palavra - corujas fazendo se não estão te trazendo notícias?

 

- Ahá! - disse tio Válter num sussurro de triunfo. - Saia desta, garoto! Como se não soubéssemos que você consegue todas suas notícias com aqueles pássaros pestilentos!

 

Harry hesitou por um momento. Custava algo a ele contar a verdade desta vez, embora seus tios possivelmente não pudessem saber quão ruim ele se sentia em admitir isso.

 

- As corujas... Não me trazem notícias - ele disse sem emoção.

 

- Não acredito nisso - disse tia Petúnia imediatamente.

 

- Não mais do que eu - disse tio Válter poderosamente. - Não somos tolos, sabe.

 

- Bom, isso é novidade para mim - disse Harry, seu humor piorando, e antes que os Dursley pudessem chamá-lo de volta ele girou nos calcanhares, cruzou o gramado da frente, pulou o baixo muro do jardim e saiu caminhando pela rua.

 

Ele estava com problemas agora e sabia disso. Teria que enfrentar os tios depois e pagar o preço por sua rudeza, mas não se importava muito no momento; tinha assuntos muito mais sérios na cabeça.

 

Harry tinha certeza de que o barulho de chicote tinha sido feito por alguém aparatando ou desaparatando. Era exatamente o som que Dobby, o elfo doméstico, fazia quando desaparecia no em pleno ar. Era possível que Dobby estivesse ali, na Rua dos Alfeneiros? Dobby poderia o estar seguindo bem agora? Enquanto este pensamento lhe ocorreu, ele girou em torno e fitou a Rua dos Alfeneiros, mas ela parecia estar completamente deserta e tinha certeza de que Dobby não sabia como se tornar invisível.

 

Ele continuou a caminhar, quase sem notar a rota que tomava, pois vagara por estas ruas com tanta freqüência ultimamente que seus pés o carregavam pelos caminhos favoritos automaticamente. Dava alguns passos e olhava para trás. Alguém mágico estivera perto dele, enquanto deitava-se entre as begônias moribundas de tia Petúnia, tinha certeza disso. Por que não falara com ele, por que não fizera contato, por que estavam escondendo-se agora?

 

E então, enquanto seu sentimento de frustração chegava ao máximo, sua certeza esvaziou-se. Quem sabe não seria nenhum som mágico, afinal de contas. Quem sabe ele estivera tão desesperado pelo menor sinal de contato do mundo ao qual pertencia que estava simplesmente exagerando com barulhos perfeitamente normais. Teria ele certeza de que não fora o som de algo se quebrando dentro de uma casa vizinha?

 

Harry sentiu afundar tolamente seu estômago e antes que percebesse o sentimento de desesperança que o atormentara por todo verão jorrou sobre ele mais uma vez.

 

Amanhã de manhã ele seria acordado pelo despertador às cinco horas, de modo que pudesse pagar a coruja que entregava o Profeta Diário - mas havia algum sentido em continuar a recebê-lo? Harry meramente olhava para a primeira página antes de atirá-lo fora ultimamente; quando os idiotas que dirigiam o jornal finalmente percebessem que Voldemort estava de volta, isso seria manchete, e este era o único tipo de notícia em que se interessava.

 

Se tivesse sorte, também haveria corujas carregando cartas de seus melhores amigos Rony e Hermione, embora qualquer esperança que ele tivera de que as cartas deles trouxessem notícias há muito tinha sido frustrada.

 

Nós não podemos dizer muito sobre você-sabe-o-quê, obviamente... Recebemos ordens de não dizer nada importante, no caso de nossas cartas serem desviadas... Estamos bem ocupados, mas não posso dar detalhes. Há muita coisa acontecendo, contaremos tudo quando o vermos.

 

Mas quando eles iriam vê-lo? Ninguém parecia se incomodar muito com a data precisa. Hermione rabiscara "Espero vê-lo em breve" dentro do cartão de aniversário mas quão em breve isso era? Até onde Harry podia dizer das vagas pistas das cartas deles, Hermione e Rony estava no mesmo lugar, provavelmente na casa dos pais de Rony. Ele mal conseguia agüentar a idéia deles se divertindo n'A Toca quando ele estava preso na Rua dos Alfeneiros. De fato, ele estava tão zangado com eles que tinha jogado fora, sem abrir, as duas caixas de chocolates da Dedosdemel que tinham enviaram pelo aniversário. Arrependera-se mais tarde, depois da murcha salada que tia Petúnia fizera para o jantar daquela noite.

 

E com o que Rony e Hermione estavam ocupados? Por que não estava ele, Harry, ocupado? Não provara ser capaz de lidar com muito mais do que eles? Tinham todos esquecido o que ele fizera? Não tinha sido ele quem entrara naquele cemitério e assistira Cedrico ser assassinado e fora amarrado naquela lápide e quase morto?

 

"Não pense nisso", Harry disse a si mesmo firmemente, pela centésima vez naquele verão. Já era muito ruim ele ficar revisitando o cemitério nos pesadelos, sem ter que lidar com eles nas horas em que estava acordado também.

 

Ele virou uma esquina na Rua Magnólia; no meio do caminho passou pelo estreito beco do lado de uma garagem, onde ele dera de cara com seu padrinho pela primeira vez. Sirius, pelo menos, parecia entender como Harry se sentia. Na verdade, as cartas dele eram tão vazias de notícias quanto as de Rony e Hermione mas pelo menos continham palavras de cautela e consolo, em vez de pistas irritantes:

 

"Sei que isso deve ser frustrante para você... Fique com o nariz limpo e tudo ficará bem... Seja cuidado e não faça nada precipitado."

 

Bom, pensou Harry enquanto cruzava a Rua Magnólia, virava para a Magnolia Road e se dirigia para o parque de diversões escurecido, ele tinha (no geral) feito o que Sirius aconselhara.

 

Tinha pelo menos resistido à tentação de amarrar seu malão na vassoura e partir para A Toca sozinho. De fato, Harry achava que seu comportamento fora muito bom, considerando quão frustrado e zangado se sentia, preso na Rua dos Alfeneiros por tanto tempo, reduzido a se esconder em canteiros de flores, na esperança de ouvir algo que pudesse apontar o que Lord Voldemort estava fazendo. No entanto, era bem torturante receber ordem de não ser imprudente por um homem que passara doze anos numa prisão bruxa, Azkaban, fugira, tentara cometer o assassinato pelo qual fora condenado inicialmente, então fugira com um hipogrifo roubado.

 

Harry saltou sobre o portão trancado do parque e andou pelo gramado seco. O parque estava tão vazio quanto às ruas em torno. Quando alcançara os balanços, ele afundara no único que Dudley e seus amigos não haviam conseguido quebrar ainda, enrolou um braço em volta da corrente e fitou o chão com mau humor. Não seria capaz de se esconder no canteiro dos Dursley novamente. Amanhã teria que pensar num modo novo de ouvir as notícias. Enquanto isso não tinha pelo que esperar a não ser outra noite perturbadora e sem descanso, porque mesmo quando ele escapava dos pesadelos com Cedrico, tinha preocupantes sonhos com longos corredores escuros, todos terminando em becos sem saída e portas trancadas, que supunha ter algo a ver com o sentimento preso que tinha quando estava acordado. Freqüentemente a velha cicatriz na testa beliscava desconfortavelmente, mas não se enganava que Rony e Hermione ou Sirius fossem achar que aquilo ainda era interessante. No passado, sua cicatriz doer tinha avisado que Voldemort estava se fortalecendo novamente, mas agora que Voldemort estava de volta ela provavelmente o lembraria que sua irritação regular era somente algo a ser esperado... Nada com que se preocupar... Notícia antiga...

 

A injustiça disso tudo corria dentro dele de modo que queria gritar de ódio. Se não fosse por ele, ninguém nem mesmo saberia que Voldemort estava de volta! E sua recompensa fora ficar preso em Little Whinging por quatro semanas inteiras, completamente cortado do mundo bruxo, reduzido a se agachar entre begônias moribundas, de modo que pudesse ouvir sobre periquitos que faziam ski aquático! Como Dumbledore poderia ter esquecido dele tão facilmente? Por que Rony e Hermione tinham se encontrado sem convidá-lo também? Quão mais ele deveria agüentar Sirius lhe dizendo para sentar direito e ser um bom rapaz; ou resistir à tentação de escrever para o estúpido Profeta Diário e avisar que Voldemort voltara? Estes pensamentos furiosos rodilhavam-se na cabeça de Harry e seu interior torcia-se com raiva, enquanto uma noite de veludo sufocante caía em torno, o ar cheio do cheiro da grama quente e seca, o único som que havia era o rugido do tráfego da estrada além das cercas do parque.

 

Não sabia por quanto tempo ficara sentado no balanço, antes que o som de vozes interrompesse suas reflexões e ele ergueu os olhos. Os postes das ruas vizinhas lançavam um brilho nebuloso forte o suficiente para delinear um grupo de pessoas caminhando pelo parque. Uma delas estava cantando uma canção alta e rude. As outras estavam rindo. Um barulho suave veio de várias bicicletas caras que estavam pedalando.

 

Harry sabia quem eram aquelas pessoas. A figura da frente era inegavelmente seu primo, Dudley Dursley, indo para casa, acompanhado por sua fiel turma.

 

Dudley estava tão largo quanto sempre, mas um ano de rígida dieta e a descoberta de um novo talento tinha forjado uma boa mudança no seu físico. Como tio Válter dizia prazerosamente a qualquer um que ouvisse, Dudley recentemente se tornara o Campeão de Boxe Peso Pesado Júnior Interescolar do sudeste. "O nobre esporte", como tio Válter o chamava, tinha tornado Dudley ainda mais formidável do que parecia a Harry nos dias do primário quando ele servira de primeiro saco de pancadas de Dudley. Harry nem remotamente temia mais seu primo, mas ainda não achava que Dudley aprender a socar mais forte e com mais precisão fosse motivo de comemoração. As crianças do bairro estavam aterrorizadas com ele - ainda mais do que eram "daquele garoto Potter" que, tinham sido avisados, era um vândalo insensível e freqüentava o Centro de Segurança St. Brutus para Rapazes Criminosos Incuráveis.

 

Harry observava as figuras escuras cruzando a grama e se perguntava em quem bateram naquela noite. Olhem em volta, Harry se descobriu pensando enquanto os observava. "Vamos... Olhem em volta... Estou sentado aqui completamente sozinho... Venham aproveitar..."

 

Se os amigos de Dudley o vissem sentado ali com certeza entrariam em fila para chegar nele, o que Dudley faria então? Ele não queria perder a pose na frente da turma ele ficaria assustado em provocar Harry... Seria mesmo divertido assistir o dilema de Dudley, para zombá-lo, observá-lo, com ele impotente para responder... E se qualquer dos outros tentasse acertar Harry ele estava pronto - tinha sua varinha. Deixe-os tentar... Ele adoraria descarregar sua frustração nos rapazes que uma vez haviam tornado sua vida um inferno.

 

Mas eles não se voltaram, eles não o viram, estavam quase nas cercas. Harry dominou o impulso de chamá-los... Procurar briga não era uma boa idéia... Ele não devia usar mágica... Estaria se arriscando a ser expulso de novo. As vozes da turma de Dudley esmoreceram; saíram de vista, dirigindo-se pela  Magnolia Road.

 

"Aí está, Sirius", Harry pensou tolamente. "Nada imprudente. Fique com o nariz limpo. Exatamente o oposto do que você fez".

 

Ele se pôs de pé e espreguiçou. Tia Petúnia e tio Válter pareciam sentir que quando Dudley aparecesse era a hora certa de estar em casa e qualquer momento depois disso era tarde demais. Tio Válter ameaçara trancar no armário se ele voltasse para casa depois de Dudley de novo, então, reprimindo um bocejo e ainda de cara feia, Harry saiu em direção ao portão do parque.

 

A Magnolia Road, como a Rua dos Alfeneiros, era cheia de grandes casas quadradas com passeios perfeitamente tratados, todas possuídas por donos grandes e quadrados, que dirigiam carros limpíssimos, parecidos com o do tio Válter. Harry preferia Little Whinging à noite, quando as janelas cortinadas lançavam quadrados de cor brilhantes como jóias na escuridão e ele não corria perigo de ouvir os murmúrios de desaprovação sobre sua aparência "delinqüente" quando passava pelos moradores. Ele andava rapidamente, de modo que na metade do caminho da Magnolia Road a turma de Dudley apareceu novamente; estavam despedindo-se na entrada da Rua Magnólia. Harry entrou nas sombras de uma imensa árvore e esperou.

 

"... gritou como um porco, não foi?", Malcolm dizia, para rir dos outros.

 

"Belo gancho de direita, Grande D", disse Pedro.

 

"Mesma hora amanhã?", disse Dudley.

 

"Perto da minha casa, meus pais estarão fora", disse Gordon.

 

"Até lá, então", disse Dudley.

 

"Até, Dud!"

 

"Até logo, Grande D!"

 

Harry esperou que o resto da turma continuasse antes de andar novamente. Quando suas vozes tinham desaparecido mais uma vez dobrou a esquina para a Rua Magnólia e andando bem rápido logo chegou a uma pequena distância de Dudley, que estava passeando cantarolando sua música desafinada.

 

- Hey, Grande D!

 

Dudley se voltou.

 

- Ah - ele resmungou. - É você.

 

- Desde quando você é "Grande D"? - disse Harry.

 

- Cale-se - reclamou Dudley, virando-se.

 

- Nome legal - disse, sorrindo e mantendo o passo ao lado do primo. - Mas você sempre será Dudinha para mim.

 

- Eu disse, CALE-SE! - disse Dudley, cujas mãos parecidas com presunto tinham fechado-se em punhos.

 

- Os rapazes não sabem que é assim que sua mãe o chama?

 

- Fecha a boca.

 

- Você não a manda fechar a boca. Que tal "Popkin" e "Dinky Diddydums", posso usá-los então?

 

Dudley não disse nada. O esforço de evitar bater em Harry parecia exigir todo seu autocontrole.

 

- Então, em quem esteve batendo esta noite? - Harry perguntou, seu sorriso desaparecendo. - Outro garoto de dez anos? Eu sei o que você fez com Mark Evans há duas noites.

 

- Ele estava pedindo isso - reclamou Dudley.

 

- Ah, é?

 

- Ele foi insolente.

 

- É? Ele disse que você parecia com um porco que aprendeu a andar com as patas traseiras? Porque isso não é ser insolente, Duda, é a verdade.

 

Um músculo estava tremendo na mandíbula de Dudley. Dava a Harry uma enorme satisfação saber quão furioso ele estava tornando Dudley; sentia como se estivesse esvaziando sua própria frustração no seu primo, o único escape que possuía.

 

Viraram exatamente no estreito beco onde Harry vira Sirius pela primeira vez e que era um atalho entre a Rua Magnólia e Wisteria Walk. Estava vazio e muito mais escuro do que as ruas que ele ligava, porque não havia postes. Seus passos eram abafados entre as paredes da garagem de um lado e uma alta cerca do outro.

 

- Você acha que alguma coisa carregando essa coisa, não é? - Dudley disse depois de alguns segundos.

 

- Que coisa?

 

- Essa... Essa coisa que está escondendo.

 

Harry sorriu de novo.

 

- Não é tão idiota quanto parece, não é, Duda? Mas suponho que, se fosse, não seria capaz de falar e andar ao mesmo tempo.

 

Harry tirou a varinha. Viu Dudley olhar de esguelha para ela.

 

- Você não tem permissão - Dudley disse imediatamente. - Sei que não. Você seria expulso daquela escola de malucos que freqüenta.

 

- Como sabe que não mudaram as regras, Grande D?

 

- Não mudaram - disse Dudley, embora ele não soasse completamente convencido.

 

Harry riu suavemente.

 

- Você não tem coragem de me enfrentar sem essa coisa, tem? - Dudley resmungou.

 

- Enquanto que você precisa de quatro amigos por atrás antes de espancar um garoto de dez anos. Sabe aquele título de boxe que você fica exibindo? Quantos anos tinha o seu oponente? Sete? Oito?

 

- Ele tinha dezesseis, para sua informação - reclamou Dudley - e ele ficou desmaiado por vinte minutos depois que acabei com ele e ele era duas vezes maior que você. Espera só eu contar a papai que você tirou essa coisa...

 

- Correndo pro papai agora, não é? O Dudinha campeão de boxe com medo da nojenta varinha do Harry?

 

- Não é tão corajoso à noite, não é? - zombou Dudley.

 

- Está de noite, Dudinha. É assim que chamamos quando tudo fica escuro como agora.

 

- Quis dizer quando está dormindo! - reclamou.

 

Ele parou de andar. Harry parou também, fitando o primo. Do pouco que podia ver do rosto largo de Dudley ele estava com um estranho olhar de triunfo.

 

- O que quer dizer, não sou corajoso quando estou dormindo? - disse Harry, completamente embaraçado. - Do que eu teria medo, travesseiros ou o quê?

 

- Ouvi você noite passada - disse Dudley sem respirar. - Falando dormindo. Gemendo.

 

- O que quer dizer? - Harry disse de novo, mas havia uma sensação de gelo mergulhando no seu estômago. Tinha revisitado o cemitério nos sonhos da noite passada.

 

Dudley soltou uma risada grosseira, então adotou uma voz chorosa aguda.

 

- Não mate Cedrico! Não mate Cedrico!" Quem é Cedrico, seu namorado?

 

- Eu... Você está mentindo - disse Harry automaticamente. Mas sua boca ficara seca. Ele sabia que Dudley não mentira, do contrário como saberia sobre Cedrico?

 

- "Papai! Me ajude, papai! Ele vai me matar, papai! Buu uhh!"

 

- Cala a boca - disse Harry calmamente. - Cala a boca, Dudley, estou avisando!

 

- "Venha me ajudar, papai! Mamãe, venha me ajudar! Ele matou Cedrico! Papai, me ajude! Ele vai..." Não aponte essa coisa para mim!

 

Dudley retrocedera contra a parede do beco. Harry estava apontando a varinha diretamente para o coração do primo. Podia sentir o ódio de catorze anos contra Dudley fervendo nas veias - o que não daria para atacar agora, azará-lo com tanta força que ele teria que rastejar para casa como um inseto, cheio de antenas...

 

- Nunca mais fale sobre isso de novo - Harry resmungou. - Entendeu?

 

- Aponte essa coisa para outro lugar!

 

- Eu disse, entendeu?

 

- Aponte para outro lugar!

 

- ENTENDEU?

 

- AFASTE ESSA COISA DE...

 

Dudley arfou estranhamente, estremecendo, como se houvesse mergulhado em água gelada.

 

Algo tinha acontecido com a noite. O céu azul polvilhado de estrelas de repente tornou-se totalmente preto e sem luz - as estrelas, a lua, os postes de ambos as pontas do beco desapareceram. O rugido distante dos carros e o sussurro das árvores se foram. A noite agradável estava repentinamente de um frio penetrante. Estavam rodeados por uma escuridão total, silenciosa e impenetrável, como se alguma mão gigante houvesse jogado um manto frio e grosso sobre todo beco, cegando-os.

 

Por um breve segundo Harry achou que tinha feito magia sem querer, a despeito do fato que estivera resistindo o máximo que podia - então seu senso predominou - não teria poder para sumir com as estrelas. Voltou a cabeça por todos os lados, tentando ver algo, mas a escuridão pressionava seus olhos como um véu leve.

 

A voz aterrorizada de Dudley surgiu no ouvido de Harry.

 

- O-o que está fa-fazendo? Pa-pare!

 

- Não estou fazendo nada! Cala a boca e não se mova!

 

- Não co-consigo ver! Fi-fiquei cego! Eu...

 

- Disse cala a boca!

 

Harry ficou parado, voltando seus olhos cegos para a direita e esquerda. O frio estava tão intenso que tremia todo; arrepios tinham erguido seus braços e os pêlos da nuca estavam em pé - ele abriu os olhos ao máximo, fitando em volta, sem ver nada.

 

Era impossível... Eles não podiam estar ali... Não em Little Whinging... Ele apurou os ouvidos... Escutá-los-ia antes de vê-los.

 

- Vou co-contar ao papai! - Dudley choramingou. - O-onde você está? O que está fa-fazendo-?

 

- Você vai se calar? - Harry silvou. - Estou tentando esc...

 

Mas ele se silenciou. Tinha ouvido exatamente o que temera.

 

Havia algo no beco além deles, algo que estava respirando longa e roucamente. Harry sentiu um horrível choque de terror enquanto ficava tremendo no ar congelante.

 

- Pa-pare com isso! Pare de fazer isso! Vou ba-bater em você, juro que vou!

 

- Dudley, cala...

 

PAM.

 

Um punho fez contato com o lado da cabeça de Harry, derrubando-o. Pequenas luzes brancas apareceram na frente de seus olhos. Pela segunda vez em uma hora, Harry sentiu como se sua cabeça tivesse lascado em duas; no momento seguinte, tinha caído com força no chão e sua varinha voara da sua mão.

 

- Seu idiota, Dudley! - Harry gritou, os olhos lacrimejando com a dor enquanto punha-se de quatro, sentindo os arredores freneticamente na escuridão. Ouvira Dudley desatinar a correr, atingindo a cerca do beco, tropeçando. - DUDLEY, VOLTE! ESTÁ CORRENDO DIRETO PARA ELE!

 

Houve um horrível grito e os passos de Dudley pararam. Ao mesmo tempo, Harry sentiu um frio fantasmagórico atrás dele que só podia significar uma coisa. Havia mais de um.

 

- DUDLEY, FIQUE COM A BOCA FECHADA! O QUE QUER QUE FAÇA, FIQUE DE BOCA FECHADA! Varinha! - Harry murmurou freneticamente, suas mãos voando pelo chão como aranhas. - Onde está... A varinha... Vamos... Lumus!

 

Ele disse a magia automaticamente, desesperado por alguma luz que o ajudasse na busca - e para seu alívio descrente uma luz brilhou a poucos centímetros de sua mão direita - a ponta da varinha se acendera.

 

Harry a agarrou, pôs-se de pé e voltou-se. Seu estômago deu um pulo. Uma figura alta e encapuzada deslizava diretamente até ele, flutuando no chão, sem pés ou rosto visível por baixo dos mantos, sugando a noite enquanto avançava.

 

Recuando tropeçando, Harry ergueu a varinha.

 

- Expecto patronum!

 

Um brilho prateado de vapor saiu da ponta da varinha e o dementador foi retardado, mas a magia não funcionara apropriadamente; tropeçando nos próprios pés, Harry recuou mais, enquanto o dementador avançava para cima dele, o pânico nublando seu cérebro - concentre-se.

 

Um par de mãos cinzentas, asquerosas e descascadas saíram de dentro dos robes do dementador, procurando alcançá-lo. Um barulho de algo correndo encheu os ouvidos de Harry.

 

- Expecto patronum!

 

Sua voz soou fraca e distante. Um outro brilho de fumaça prateada, mais fraca do que a última, saiu da varinha - não conseguiria fazê-lo mais, não conseguia lançar a magia.

 

Havia uma risada dentro de sua própria cabeça, uma risada aguda e estridente... Podia cheirar o bafo pútrido e frio como a morte do dementador preenchendo seus próprios pulmões, afogando-o. "Pense... Em algo feliz..."

 

Mas não havia felicidade nele... Os dedos gelados do dementador estavam se fechando sobre sua garganta - a risada aguda ficava cada vez mais alta e uma voz falava dentro de sua cabeça: "Curve-se para a morte, Harry... Pode até ser indolor... Não saberia dizer... nunca morri...".

 

Nunca mais veria Rony e Hermione...

 

E seus rostos apareceram claramente na sua mente enquanto lutava por ar.

 

- EXPECTO PATRONUM!

 

Um enorme cervo prateado surgiu da ponta da varinha de Harry; seus chifres pegaram o dementador no lugar onde o coração deveria ficar; atirou-o para trás, e enquanto o cerco atacava, o dementador se lançou para longe, derrotado.

 

- POR AQUI! - Harry gritou para o cervo. Girando nos calcanhares, ele se lançou pelo beco, segurando a varinha acesa no alto. - DUDLEY? DUDLEY!

 

- Mal correra alguns passos quando os alcançou: Dudley estava encaracolado no chão, seus braços tampando o rosto. Um segundo dementador se curvava sobre ele, agarrando seus pulsos com suas mãos pegajosas, abrindo-os com força devagar, quase carinhosamente, baixando sua cabeça encapuzada na direção do rosto de Dudley como se fosse beijá-lo. - PEGUE-O! - Harry berrou, e com um som de relincho ligeiro, o cervo prateado que ele conjurara passou galopando por ele. O rosto sem olhos do dementador não estava a mais de um centímetro do de Dudley quando os chifres prateados o pegaram; a coisa foi atirada no ar e, como seu companheiro, levantou vôo e foi absorvido na escuridão; o cervo chegou a meio galope no fim do beco e dissolveu-se numa bruma prateada.

 

A lua, as estrelas e os postes explodiram de volta a vida. Uma brisa quente varreu o beco. As árvores murmuravam nos jardins da vizinhança e o rugido mundano dos carros na Rua Magnólia encheu o ar novamente.

 

Harry ficou bem parado, todos seus sentidos vibrando, aceitando o abrupto retorno à normalidade. Depois de um momento, tornou-se consciente de que sua camiseta estava grudando nele; estava encharcado de suor.

 

Não conseguia acreditar no que tinha acabado de acontecer. Os dementadores ali, em Little Whinging.

 

Dudley ficara enrodilhado no chão, choramingando e tremendo. Harry se inclinou para ver se estava em bom estado para levantar-se, mas então ouviu passos alto correndo atrás dele. Instintivamente ergueu a varinha de novo, virou-se para encarar o recém-chegado.

 

A Sra. Figg, a velha e maluca vizinha, vinha arfando. Seu cabelo cinzento escapava pela redinha de cabelo, uma sacola de compras tinindo balançava no seu pulso e seus pés estavam metade fora dos chinelos de tartã. Harry guardou a varinha apressadamente para tirá-la de vista, mas...

 

- Não a guarde, garoto idiota! - ela gritou. - E se houverem mais deles por aí? Ah, vou matar Mundungo Fletcher!


 

UMA BICADA DE CORUJAS

- O quê? - disse Harry inexpressivamente.

 

- Ele saiu! - disse a Sra. Figg, fechando com força as mãos. - Saiu para ver alguém sobre um bando de caldeirões que caiu de uma vassoura! Disse a ele que o esfolaria vivo se saísse e agora veja! Dementadores! Foi sorte eu ter posto Seu Patinhas no caso! Mas não temos tempo para ficar por aqui! Apresse-se, agora, temos que levar vocês de volta! Ah, o problema que isso vai causar! Vou matá-lo!

 

- Mas...

 

A revelação de que sua velha e maluca vizinha obcecada por gatos sabia o que os Dementadores eram era quase tão chocante para Harry quanto encontrar dois deles no beco.

 

- Você é... Você é uma bruxa?

 

- Sou um aborto, como Mundungo sabe muito bem, então como eu poderia ajudá-lo a lutar contra dementadores? Ele deixou você sem nenhuma cobertura quando eu avisei a ele...

 

- Esse Mundungo estava me seguindo? Espera aí... Foi ele! Ele desaparatou na frente da minha casa!

 

- Sim, sim, sim, mas foi sorte eu ter colocado Seu Patinhas debaixo do carro só pra ter certeza e Seu Patinhas veio me avisar, mas na hora que cheguei na sua casa você tinha saído... E agora... Ah, o que Dumbledore vai dizer? Você! - ela gritou para Dudley, ainda deitado no chão do beco. - Tire a bunda gorda do chão, rápido!

 

- Você conhece Dumbledore? - disse Harry, fitando-a.

 

- Claro que conheço Dumbledore, quem não conhece Dumbledore? Mas vamos... Não serei de utilidade nenhuma se eles voltarem, nunca consegui nem transfigurar um saquinho de chá.

 

Ela se abaixou, agarrou um dos braços gordos de Dudley nas suas mãos ressecadas e o puxou.

 

- Levante-se, seu estúpido inútil, levante-se!

 

Mas Dudley ou não conseguia ou não queria se mover. Ele permaneceu no chão, tremendo e de rosto pálido, sua boca fechada com muita força.

 

- Eu faço isso - Harry pegou o braço de Dudley e o ergueu. Com um enorme esforço, ele o conseguiu pôr de pé. Dudley parecia estar a ponto de desmaiar. Seus olhos pequenos estavam rolando nas órbitas e o suor empapando seu rosto; no momento que Harry o soltou ele balançou perigosamente.

 

- Apressem-se! - disse a Sra. Figg histericamente.

 

Harry pôs um dos braços gordos de Dudley em torno de seus ombros e o arrastou pela rua, afundando ligeiramente sob o peso. A Sra. Figg cambaleava na frente deles, espiando ansiosa na esquina.

 

- Mantenha a varinha em mãos - ela falou a Harry, enquanto entravam da Wisteria Walk. - Nem se importe com o Estatuto do Sigilo agora, vai ser o diabo se livrar disso de qualquer forma, podemos ir do dragão para o ovo. Falando de Restrição de Magia Para Menores... Era exatamente isso que Dumbledore tinha medo... O que é aquilo no fim da rua? Ah, é só o Seu Patinhas... Não guarde a varinha, garoto, não lhe disse que sou inútil?

 

Não era fácil segurar a varinha com firmeza e rebocar Dudley ao mesmo tempo. Harry deu uma impaciente cutucada nas costelas do primo, mas Dudley parecia ter perdido todo desejo de movimento independente. Estava tombado sobre o ombro de Harry, seus pés grandes arrastando-se pelo chão.

 

- Por que não me contou que era um aborto, Sra. Figg? - perguntou Harry, arfando com o esforço de continuar andando. - Todas aquelas vezes que fui na sua casa... Por que não disse nada?

 

- Ordens de Dumbledore. Devia manter o olho em você mas não dizer nada, você era jovem demais. Desculpe se o fiz sofrer, Harry, mas os Dursley nunca o deixariam ficar comigo se soubessem que você gostaria. Não era fácil, sabe... Mas ah, palavra - ela disse tragicamente, fechando as mãos com força mais uma vez -, quando Dumbledore ouvir isso... Como o Mundungo pôde sair, ele devia ficar a serviço até meia-noite... Onde ele está? Como vou dizer a Dumbledore o que aconteceu? Não consigo aparatar.

 

- Tenho uma coruja, pode pegá-la emprestada - Harry gemeu, perguntando-se se sua espinha se partiria sob o peso de Dudley.

 

- Harry, você não entende! Dumbledore precisará agir o mais rápido possível, o Ministério tem seus próprios meios de detectar magia de menores, eles já sabem, guarde minhas palavras.

 

- Mas eu estava me livrando de dementadores, tinha que usar magia... Eles vão ficar mais preocupados sobre o que os dementadores estavam fazendo flutuando na Wisteria Walk, não?

 

- Ah meu querido, gostaria que fosse assim, mas temo que... MUNDUNGO FLETCHER, EU VOU MATAR VOCÊ!

 

Houve um sonoro som de chicote e um forte cheiro de bebida misturado a tabaco velho preencheu o ar enquanto um homem não barbeado e agachado usando um sobretudo esfarrapado se materializava bem diante deles. Ele tinha pernas curtas e curvadas, longos de cabelos cor de gengibre, desalinhados, olhos inchados e injetados que lhe davam a triste aparência de um basset. Também estava segurando um pacote prateado que Harry reconheceu imediatamente como uma Capa da Invisibilidade.

 

- Q'há, Figginha? - ele disse, olhando da Sra. Figg para Harry e Dudley. - O que 'conteceu quanto a ficar na moita?

 

- Vou lhe dar a moita! - gritou a Sra. Figg. - Dementadores, seu ladrão inútil e desprezível!

 

- Dementadores? - repetiu Mundungo, horrorizado. - Dementadores, 'qui?

 

- Sim, aqui, sua pilha de bosta de morcego inútil, aqui! - gritou a Sra. Figg. - Dementadores atacando o garoto na sua vigia!

 

- Nossa - disse Mundungo fracamente, olhando da Sra. Figg para Harry e de volta para ela. - Nossa, eu...

 

- E você saiu para comprar caldeirões roubados! Eu não te disse para não ir? Não DISSE?

 

- Eu... Bom, eu... - Mundungo parecia profundamente desconfortável. - Era... Era uma oportunidade de negócios muito boa, entende...

 

A Sra. Figg ergueu o braço em que segurava a sacola de compras e golpeou com força Mundungo no rosto e pescoço com ela; julgando pelo tinido que fazia estava cheia de comida de gato.

 

- Ai... Pára aí... Pára aí, sua morcega velha! Alguém tem que contar a Dumbledore!

 

- Sim... Tem! - gritou a Sra. Figg, batendo com a sacola de comida de gato em cada pedaço de Mundungo que conseguia alcançar. - E... É... Melhor... Ser... Você... E... Você... Pode... Contar... A... Ele... Por que... Não... Estava... Aqui... Para... Ajudar!

 

- Fique com a redinha no lugar! - disse Mundungo, seus braços sobre a cabeça, acovardando-se. - Estou indo, estou indo!

 

E com outro sonoro barulho de chicote, ele sumiu.

 

- Espero que Dumbledore o mate! - disse a Sra. Figg, furiosa. - Agora vamos, Harry, o que está esperando?

 

Harry decidiu não gastar o restante de seu fôlego comentando que mal conseguia andar sob o volume de Dudley. Ele deu uma puxada no semi-inconsciente primo e cambaleou adiante.

 

- Levarei você até a porta - disse a Sra. Figg, enquanto eles viravam na Rua dos Alfeneiros. - Só no caso de haver mais deles por aí... Ah, palavra, que catástrofe... E você teve que enfrentá-los sozinho... E Dumbledore disse que devíamos evitar que você fizesse mágicas a todo custo... Bem, não adianta chorar sobre a poção derramada, acho... Mas o gato está entre as fadas agora.

 

- Então - Harry arfou -, Dumbledore tem... Me mantido... Vigiado?

 

- Claro que tem - disse a Sra. Figg impaciente. - Esperava que ele deixasse você andar por aí sozinho depois do que aconteceu em junho? Bom Deus, garoto, me disseram que você era inteligente... Certo... Entre e fique lá - ela disse quando alcançaram o número quatro. - Acredito que alguém irá entrar em contato logo.

 

- O que vai fazer? - perguntou Harry rapidamente.

 

- Vou direto para casa - disse a Sra. Figg, fitando em torno da rua escura e estremecendo. - Precisarei esperar por mais instruções. Simplesmente fique na casa. Boa noite.

 

- Espere, não vá ainda! Quero saber...

 

Mas a Sra. Figg já tinha saído num trote, com os chinelos fazendo barulho, a sacola tinindo.

 

- Espere! - Harry gritou atrás dela. Ele tinha milhões de perguntas a fazer para alguém que estava em contanto com Dumbledore mas dentro de segundos a Sra. Figg foi engolida pela escuridão. Franzindo o cenho, Harry reajustou Dudley no ombro e fez seu lento e doloroso caminho pelo jardim do número quatro.

 

A luz do corredor estava acesa. Harry meteu a varinha de volta ao cós do jeans, tocou a campainha e observou o contorno de tia Petúnia ficar cada vez maior, estranhamente distorcido pelo vidro ondulado da porta da frente.

 

- Duda! Já estava na hora, estava ficando bem... Bem... Duda, o que foi!

 

Harry olhou de esguelha para Dudley e saiu debaixo do braço dele bem em tempo. Dudley cambaleou por um instante, seu rosto verde pálido... Então abriu a boca e vomitou por todo capacho.

 

- DUDA! Duda, o que está sentindo? Válter? VÁLTER!

 

O tio de Harry veio galopando para fora da sala de estar, o bigode em forma de cavalo marinho se mexendo para lá e para cá como sempre fazia quando estava agitado. Ele se apressou  para ajudar tia Petúnia a passar um enfraquecido Dudley pelo solado da porta, evitando pisar na poça de vômito.

 

- Ele está doente, Válter!

 

- O que é, filho? O que aconteceu? A Sra. Polkiss lhe deu algo estranho como chá?

 

- Por que está todo coberto de sujeira, querido? Esteve no chão?

 

- Espere aí... Você não foi assaltado, foi, filho? - tia Petúnia gritou. - Telefone para a polícia, Válter! Telefone para a polícia! Duda, querido, fale com a mamãe! O que eles fizeram com você?

 

Com toda confusão ninguém pareceu notar Harry, o que lhe agradou perfeitamente. Ele conseguiu entrar pouco antes de tio Válter bater a porta e, enquanto os Dursley faziam seu barulhento progresso pelo corredor em direção a cozinha, Harry se moveu cuidadosa e calmamente em direção à escada.

 

- Quem fez isso, filho? Nos dê nomes. Pegaremos eles, não se preocupe.

 

- Psiu! Ele está tentando dizer algo, Válter! O que é, Duda? Conte para mamãe!

 

O pé de Harry estava no primeiro degrau quando Dudley descobriu sua voz.

 

- Ele.

 

Harry congelou, o pé na escada, o rosto contorcido, cercado pela explosão.

 

- GAROTO! VENHA AQUI!

 

Com um sentimento de terror e raiva misturados, Harry removeu seu pé vagarosamente da escada e se voltou para seguir os Dursley. A cozinha meticulosamente limpa tinha um brilho estranhamente irreal depois da escuridão lá fora. Tia Petúnia estava conduzindo Dudley para uma cadeira; ainda estava muito verde e de aparência doente. Tio Válter estava de pé em frente do escorredor, olhando furioso para Harry através dos minúsculos olhos estreitados.

 

- O que fez com meu filho? - disse num rosnado ameaçador.

 

- Nada - disse Harry, sabendo perfeitamente bem que tio Válter não acreditaria.

 

- O que ele fez com você, Duda? - tia Petúnia disse numa voz trêmula, agora removendo o vômito da frente da jaqueta de couro de Dudley. - Foi... Foi você-sabe-o-quê, querido? Ele usou... A coisa dele?

 

Lenta e tremulamente, Dudley assentiu.

 

- Não usei! - Harry disse com severidade, enquanto tia Petúnia soltava um lamento e tio Válter erguia os punhos. - Não fiz nada com ele, não foi eu, foi...

 

Mas naquele momento preciso uma coruja chiando desceu através da janela da cozinha. Por pouco atingindo o topo da cabeça de tio Válter, ela pairou pela cozinha, largou um grande envelope de pergaminho que carregava no seu bico aos pés de Harry, virou-se graciosamente, as pontas de suas asas tocando de leve o topo da geladeira, então zuniu para fora de novo e partiu do jardim.

 

- CORUJAS! - berrou tio Válter, a bem conhecida veia na sua têmpora pulsando raivosamente enquanto ele fechava a janela com força. - CORUJAS DE NOVO! NÃO ACEITAREI MAIS CORUJAS NA MINHA CASA!

 

Mas Harry já estava abrindo o envelope e tirando a carta, seu coração localizado em algum lugar na região de seu pomo de adão.

 

"Caro Sr. Potter,

 

Recebemos informação de que realizou o Feitiço do Patrono às nove e vinte e três desta noite numa área habitada por trouxas e na presença de um trouxa. A severidade desta violação do Decreto de Restrição a Magia Para Menores resultou na sua expulsão da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Os representantes do Ministério irão à sua casa em breve para destruir sua varinha.

 

Como já deve ter recebido um aviso oficial por ofensa anterior sob a Seção 13 do Estatuto de Sigilo da Confederação Internacional dos Bruxos, nós lamentamos informar que sua presença é requerida numa audiência disciplinar no Ministério da Magia às 9 horas da manhã no dia doze de agosto.

 

Esperando que esteja bem,

 

Sinceramente,

 

Mafalda Hopkirk

 

Departamento de Uso Impróprio da Magia

 

Ministério da Magia"

 

Harry leu a carta duas vezes. Estava apenas vagamente consciente de tio Válter e tia Petúnia conversando. Dentro de sua cabeça tudo era gelo e dormência. Um fato que penetrara na sua consciência como um dardo paralisante. Estava expulso de Hogwarts.

 

Estava tudo acabado. Nunca voltaria. Ergueu os olhos para os Dursley. Tio Válter estava com o rosto púrpura, gritando, seus punhos ainda erguidos; tia Petúnia tinha os braços em torno de Dudley, que tentava vomitar de novo. O cérebro temporariamente estupefato de Harry pareceu acordar. "Os representantes do Ministério chegarão à sua casa em breve para destruir sua varinha". Só havia uma coisa a fazer. Ele teria que fugir - agora. Para onde iria Harry não sabia, mas tinha certeza de uma coisa: em Hogwarts ou fora dela precisava da varinha. Num estado quase de sonho, ele tirou a varinha e se voltou para abandonar a cozinha.

 

- Onde acha que está indo? - gritou tio Válter. Quando Harry não respondeu, ele cruzou a cozinha para bloquear a porta que dava para o corredor. - Não terminei com você, garoto!

 

- Saia do caminho - disse Harry calmamente.

 

- Você vai ficar aqui e explicar como meu filho...

 

- Se você não sair do caminho vou azará-lo - disse Harry, erguendo a varinha.

 

- Não pode usar essa coisa em mim! - resmungou tio Válter. - Eu sei que não tem permissão para usá-la fora daquele hospício que chama de escola!

 

- O hospício me chutou - disse Harry. - Então posso fazer o que quiser. Você tem três segundos. Um... Dois...

 

Um ressoante som de estalo encheu a cozinha. Tia Petúnia gritou, tio Válter gritou e se abaixou, mas pela terceira vez naquela noite Harry buscava pela fonte da perturbação que ele não fizera. Ele a notou imediatamente: uma coruja desmantelada estava sentada do lado de fora do peitoril da cozinha, tendo acabado de colidir com a janela fechada. Ignorando o grito angustiado de tio Válter de "CORUJAS!" Harry cruzou o aposento apressado e abriu com força a janela. A coruja apontou a perna, na qual um pequeno rolo de pergaminho estava amarrado, balançou as penas e partiu no momento em que Harry tirara a carta.

 

As mãos tremendo, desenrolou a segunda mensagem, que fora escrita afobada e negligentemente com tinta preta.

 

"Harry?

Dumbledore acabou de chegar no Ministério e está tentando resolver tudo. NÃO ABANDONE A CASA DE SEUS TIOS. NÃO FAÇA NENHUMA MAGIA. NÃO ENTREGUE SUA VARINHA.

Arthur Weasley"

 

Dumbledore estava tentando resolver tudo... O que isso significava? Quanto poder Dumbledore teria para sobrepujar o Ministério da Magia? Havia uma chance de que ele recebesse permissão para voltar a Hogwarts, então?

 

Um pequeno raio de esperança floresceu no peito de Harry, quase imediatamente estrangulado pelo pânico - como ele deveria recusar a entregar a varinha sem usar mágica? Teria que duelar com os representantes do Ministério e se fizesse isso teria sorte em escapar de Azkaban, sem falar a expulsão. Sua mente estava funcionando rápido... Poderia fugir e arriscar ser capturado pelo Ministério ou ficar e esperar por virem encontrá-lo ali. Estava muito mais tentado à primeira idéia mas sabia que o Sr. Weasley tinha os melhores interesses... E, afinal de contas, Dumbledore já resolvera coisas muito piores do que esta antes.

 

- Certo - Harry disse -, mudei de idéia, vou ficar - lançou-se na mesa da cozinha e encarou Dudley e tia Petúnia. Os Dursley pareciam sobressaltados por sua abrupta mudança de opinião. Tia Petúnia olhava com desespero para o tio Válter. A veia na sua têmpora púrpura estava latejando pior do que nunca.

 

- De quem são todas essas corujas? - ele resmungou.

 

- A primeira veio do Ministério da Magia, me expulsando - disse Harry calmamente. Apurava os ouvidos para captar quaisquer barulhos do lado de fora, no caso dos representantes do Ministério estarem se aproximando e era mais fácil e calmo responder as perguntas do tio Válter do que tê-lo encolerizado e berrando. - A segunda veio do pai do meu amigo Rony, que trabalha no Ministério.

 

- Ministério da Magia? - berrou tio Válter. - Pessoas como você no governo! Ah, isso explica tudo, tudo, não é de se espantar que o país esteja indo pro buraco - quando Harry não respondeu tio Válter olhou furioso para ele e então soltou: - E por que foi expulso?

 

- Por que fiz mágica.

 

- AHÁ! - rugiu tio Válter, batendo com o punho no alto da geladeira, que se abriu; vários doces dietéticos de Dudley desabaram no chão. - Então admite! O que você fez com Dudley?

 

- Nada - disse Harry, ligeiramente com menos calma. - Não fui eu...

 

- Foi - murmurou Dudley inesperadamente e tio Válter e tia Petúnia instantaneamente fizeram gestos para Harry a fim de silenciá-lo enquanto ambos se inclinavam sobre o garoto.

 

- Continue, filho - disse tio Válter. - O que ele fez?

 

- Conte-nos querido - sussurrou a tia Petúnia.

 

- Apontou a varinha para mim - Dudley murmurou.

 

- É, eu apontei, mas não usei... - Harry começou com raiva.

 

- CALE-SE! - rugiram tio Válter e tia Petúnia em uníssono.

 

- Continua, filho - repetiu tio Válter, o bigode se mexendo com fúria.

 

 - Ficou tudo escuro - Dudley disse roucamente, estremecendo. - Tudo escuro. E então eu o-ouvi... Coisas. Dentro da mi-minha cabeça.

 

Tio Válter e tia Petúnia trocaram olhares de absoluto horror. Se a coisa pior no mundo para eles era a magia - seguida de perto por vizinhos que trapaceavam mais do que eles quanto ao banimento da mangueira - as pessoas que ouviam vozes definitivamente estavam entre as dez mais. Obviamente pensavam que Dudley estava enlouquecendo.

 

- Que tipo de coisas você ouviu, Dudinha? - sussurrou tia Petúnia, muito pálida e com lágrimas nos olhos.

 

Mas Dudley parecia incapaz de dizer. Ele estremeceu de novo e balançou a cabeçorra loira e, a despeito da sensação de terror bestificante que tinha se estabelecido em Harry desde a chegada da primeira coruja, ele sentiu uma certa curiosidade. Os dementadores faziam uma pessoa reviver os piores momentos de sua vida. O que o mimado e brigão Dudley teria sido forçado a ouvir?

 

- Como você caiu, filho? - disse tio Válter, numa voz calma não natural, o tipo de voz que se usaria ao leito de uma pessoa muito doente.

 

- Tr-tropecei - disse Dudley tremulamente. - E então...

 

Ele gesticulou para o peito compacto. Harry entendeu. Dudley se lembrava do frio clemente que enchera os pulmões, enquanto a esperança e felicidade eram sugadas.

 

- Horrível - grasnou Dudley. - Frio. Frio mesmo.

 

- OK - disse tio Válter, numa voz de calma forçada, enquanto tia Petúnia punha uma mão ansiosa na testa de Dudley para sentir a temperatura. - O que aconteceu então, Dudinha?

 

- Senti... Senti... Senti... Como se... Como se...

 

- Como se nunca fosse ser feliz de novo - Harry ajudou, entediado.

 

- Sim - Dudley sussurrou, ainda tremendo.

 

- Então! - disse tio Válter, a voz restaurada a um volume total e considerável enquanto ele se endireitava. - Você pôs algum feitiço de loucura no meu filho então ele ouve vozes e acredita que estava... Condenado ao sofrimento ou algo assim, não?

 

- Quantas vezes tenho que dizer? - disse Harry, o mau humor e a voz se erguendo. - Não fui eu! Foi um bando de dementadores!

 

- Um bando de... O que é essa besteira?

 

- De-men-ta-do-res - disse Harry lenta e claramente. - Dois deles.

 

- E o que diabos são dementadores?

 

- Eles guardam a prisão dos bruxos, Azkaban - disse tia Petúnia.

 

Dois segundos de silêncio mortal seguiram as palavras antes que tia Petúnia tampasse a boca com a mão, como se tivesse dito um horrível palavrão. Tio Válter a olhava com olhos arregalados. O cérebro de Harry vacilou. A Sra. Figg era uma coisa... Mas tia Petúnia?

 

- Como sabe disso? - ele perguntou a ela, espantado.

 

Tia Petúnia parecia bem aterrorizada consigo mesma. Olhava para tio Válter numa desculpa temerosa, então abaixou a mão ligeiramente para revelar seus dentes cavalares.

 

- Ouvi... Aquele garoto horroroso... Contar a ela sobre eles... Anos atrás - ela disse pateticamente.

 

- Se quer dizer meus pais por que não usa o nome deles? - disse Harry em voz alta mas tia Petúnia o ignorou.

 

Ela parecia terrivelmente perturbada. Harry estava abalado. Exceto por uma explosão anos atrás, quando tia Petúnia gritara que a mãe de Harry fora uma aberração, ele nunca a escutara mencionar a irmã. Estava espantado que ela se lembrasse deste tipo de informação sobre o mundo mágico por tanto tempo, quando normalmente se esforçava ao máximo para fingir que ele não existia.

 

Tio Válter abriu a boca, fechou-a de novo, abriu-a mais uma vez, fechou-a, então, aparentemente lutando para lembrar-se como falar, abriu-a por uma terceira vez e grasnou:

 

- Então... Então... Eles... Er... Eles... Er... Eles realmente existem, é... Er... Dementesquisitos?

 

Tia Petúnia assentiu. Tio Válter olhava de tia Petúnia para Dudley e para Harry como se esperasse que alguém fosse gritar "primeiro de abril!". Quando ninguém o fez, ele abriu a boca novamente mas foi salvo da luta em encontrar mais palavras pela chegada da terceira coruja da noite. Ela zuniu pela janela ainda aberta como uma bala de canhão empenada e aterrissou barulhentamente na mesa da cozinha, fazendo com que os três Dursley pulassem assustados.

 

Harry tirou um segundo envelope de aparência oficial do bico da coruja e o abriu enquanto a coruja voava de volta para noite.

 

- Chega... De... Corujas - murmurou tio Válter distraidamente, indo até a janela e batendo-a novamente.

 

"Caro Sr. Potter,

Em acréscimo a nossa carta de aproximadamente vinte e dois minutos atrás, o Ministério da Magia revisou sua decisão de destruir sua varinha imediatamente. Você pode conservá-la até sua audiência disciplinar em doze de agosto, no momento em que uma decisão oficial será tomada. Segundo discussões com o diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, o Ministério concordou que o assunto de sua expulsão também será decidido neste momento. Deve, portanto, considerar-se suspenso da escola até o inquérito pendente.

Com melhores desejos,

Sinceramente,

Mafalda Hopkirk

Departamento de Uso Impróprio da Magia

Ministério da Magia"

 

Harry leu esta carta três vezes em sucessão rápida. O nó angustiante no seu peito se afrouxou ligeiramente com o alívio de saber que ainda não estava definitivamente expulso, embora seus medos de modo algum estivessem banidos. Tudo parecia depender desta audiência em doze de agosto.

 

- Bom? - disse tio Válter, chamando Harry à realidade. - E agora? Sentenciaram você a alguma coisa? Sua laia tem a pena de morte? - acrescentou como um pensamento tardio esperançoso.

 

- Tenho que ir a uma audiência - disse Harry.

 

- E eles vão sentenciá-lo lá?

 

- Acredito que sim.

 

- Não vou perder a esperança, então - disse tio Válter desagradavelmente.

 

- Bom, se é isso - disse Harry, pondo-se de pé. Estava desesperado para ficar sozinho, para pensar, quem sabe mandar uma carta a Rony, Hermione ou Sirius.

 

- NÃO, ISSO NÃO É TUDO! - berrou tio Válter. - SENTE-SE DE VOLTA!

 

- O que é agora? - disse Harry impaciente.

 

- DUDLEY! - rugiu tio Válter. - Quero saber exatamente o que aconteceu com meu filho!

 

- ÓTIMO! - gritou Harry e, no seu mau humor, faíscas vermelhas e douradas saíram da ponta da varinha, ainda na sua mão. Todos os três Dursley se acovardaram, parecendo aterrorizados. - Dudley e eu estávamos no beco entre a Rua Magnólia e Wisteria Walk - disse Harry, falando rápido, lutando para controlar seu humor. - Dudley pensou que daria uma de espertinho para cima de mim, eu puxei a varinha, mas não usei. Então dois dementadores apareceram...

 

- Mas o que SÃO os dementóides? - perguntou tio Válter furioso. - O que eles FAZEM?

 

- Eu contei... Eles sugam toda felicidade de você - disse Harry - e se eles têm a chance, beijam...

 

- Beijam? - disse tio Válter, seus olhos disparando ligeiramente. - Beijam?

 

- É o que eles chamam quando eles sugam a alma pela boca.

 

Tia Petúnia soltou um grito suave.

 

- A alma dele? Eles não a pegaram... Ele ainda tem a...

 

Ela agarrou Dudley pelos ombros e o chocalhou, como se testasse para ver se ela conseguia ouvir sua alma se agitando lá dentro.

 

- Claro que eles não a tiraram, você saberia se tivessem - disse Harry exasperado.

 

- Lutou com eles, não foi, filho? - disse tio Válter em voz alta, com a aparência de um homem lutando para trazer a conversa de volta a um plano que entendia. - Deu-lhes o velho um-dois, não?

 

- Você não dá a um dementador o velho um-dois - disse Harry através dos dentes apertados.

 

- Por que ele está bem, então? - zuniu tio Válter. - Por que não está todo vazio, então?

 

- Porque usei o Patrono...

 

WHOOSH. Com um barulho de asas e uma suave queda de poeira, uma quarta coruja saiu em disparada da lareira da cozinha.

 

- PELO AMOR DE DEUS! - rugiu tio Válter, arrancando grandes tufos de pêlos do bigode, algo que ele não fora levado a fazer em muito tempo. - EU NÃO RECEBEREI MAIS CORUJAS AQUI, NÃO VOU TOLERAR ISSO, ESTOU DIZENDO!

 

Mas Harry já estava tirando um rolo de pergaminho da perna da coruja. Estava tão convencido que esta carta era de Dumbledore, explicando tudo - os dementadores, a Sra. Figg, o que o Ministério está aprontando, como ele, Dumbledore, pretendia resolver tudo - que pela primeira vez na vida ficou desapontado ao ver a caligrafia de Sirius. Ignorando o bombardeio de tio Válter sobre corujas e estreitando seus olhos contra uma segunda nuvem de poeira quando a mais recente coruja subiu de novo pela chaminé, Harry leu a mensagem de Sirius.

 

"Arthur acabou de nos contar o que aconteceu. Não deixe a casa de novo, o que quer faça."

 

Harry achou esta resposta tão inadequada a tudo o que tinha acontecido esta noite que ele virou o pedaço de pergaminho, procurando pelo resto da carta, mas não havia nada mais. E agora seu mau humor se elevava de novo. Ninguém ia dizer "bom trabalho" por combater dois dementadores sozinho? Tanto o Sr. Weasley quanto Sirius estavam agindo como se ele tivesse se portado mal e estavam economizando as explicações até que tivessem certeza de quanto dano fora feito.

 

- ... uma bicada, quero dizer, um bando de corujas disparando para dentro e fora de minha casa. Não aceitarei isso, garoto, não...

 

- Não posso fazer as corujas pararem de vir - Harry soltou, amassando a carta de Sirius na mão.

 

- Quero a verdade sobre o que aconteceu esta noite! - latiu tio Válter. - Se foram dementeiros que feriram Dudley, como você foi expulso? Você fez você-sabe-o-que, você admitiu!

 

Harry respirou profundamente. Sua cabeça estava começando a doer de novo. Queria mais do que tudo sair da cozinha e se afastar dos Dursley.

 

- Fiz o Feitiço do Patrono para me livrar dos dementadores - disse, forçando-se a permanecer calmo. - É a única coisa que funciona com eles.

 

- Mas o que os dementóides faziam em Little Whinging? - disse tio Válter num tom ultrajado.

 

- Não saberia dizer - disse Harry cansado. - Não tenho idéia.

 

Sua cabeça doía com a iluminação agora. Sua raiva estava se exaurindo. Sentia-se drenado, exausto. Os Dursley todos o estavam fitando.

 

- É você - disse tio Válter poderosamente. - Tem algo a ver com você, garoto, eu seu disso. Por que mais eles apareceriam aqui? Por que mais eles estariam naquele beco? Você é o único.. O único... -  evidentemente, ele não conseguia forçar-se a dizer a palavra "bruxo". - O único você-sabe-o-que por quilômetros.

 

- Não sei por que eles estavam aqui.

 

Mas ante as palavras de tio Válter o cérebro exausto de Harry voltara à ação. Por que os dementadores haviam vindo a Little Whinging? Como poderia ser coincidência que eles tenham chegado no beco em que Harry estava? Tinham sido enviados? Teria o Ministério da Magia perdido o controle dos dementadores? Teriam eles desertado Azkaban e se juntado a Voldemort, como Dumbledore previra que fariam?

 

- Estes desmembrados guardam alguma prisão de esquisitos? - perguntou tio Válter, seguindo a trilha de pensamento de Harry.

 

- Sim - disse Harry.

 

Se pelo menos sua cabeça parasse de doer, se ao menos pudesse sair da cozinha e chegar ao seu quarto escuro e pensar...

 

- Oho! Eles vieram prendê-lo! - disse tio Válter, com o ar triunfante de um homem que chegou a uma conclusão inexpugnável. - É isso, não é, rapaz? Você está fugindo da lei!

 

- Claro que não - disse Harry, balançando a cabeça como se espantasse uma mosca, sua mente agitada agora.

 

- Então por quê...?

 

- Ele deve tê-los enviado - disse Harry calmamente, mas para si do que para tio Válter.

 

- Que o quê? Quem deve tê-los enviado?

 

- Lord Voldemort - disse Harry.

 

Ele registrou fracamente quão estranho era que os Dursley - que se acovardavam, recuavam e se contorciam se ouvissem palavras como "bruxo", "magia" ou "varinha" - conseguissem escutar o nome do bruxo mais maligno de todos os tempos sem o menor tremor.

 

- Lord... Espere aí - disse tio Válter, seu rosto contorcido, um olhar de compreensão alcançando seus olhos suínos. - Já ouvi esse nome... Foi ele quem...

 

- Matou meus pais, sim - Harry disse entediado.

 

- Mas ele se foi - disse tio Válter impaciente, sem o menor sinal de que o assassinato dos pais de Harry pudesse ser um assunto doloroso. - Aquele gigante disse isso. Ele se foi.

 

- Ele voltou - disse Harry pesadamente. Parecia estranhíssimo estar parado ali, na cozinha cirurgicamente limpa de tia Petúnia, ao lado da geladeira topo de linha e da televisão wide-screen, conversando tranqüilamente sobre Lord Voldemort com tio Válter. A chegada dos dementadores em Little Whinging parecia ter furado a grande e invisível muralha que dividia o mundo cruelmente não-mágico da Rua dos Alfeneiros e o mundo além, as duas vidas de Harry tinham de alguma forma se fusionado e tudo estava de cabeça para baixo; os Dursley perguntavam detalhes sobre o mundo mágico e a Sra. Figg conhecia Alvo Dumbledore; os dementadores flutuavam em torno de Little Whinging e ele poderia nunca mais retornar a Hogwarts. A cabeça de Harry latejou mais dolorosamente.

 

- De volta? - sussurrou tia Petúnia.

 

Ela olhava para Harry como se nunca o tivesse visto antes. E, inesperadamente, pela primeira vez na vida, Harry ligou completamente que tia Petúnia era irmã de sua mãe. Não saberia dizer por que aquilo o atingiu com tanta força naquele momento. Tudo que sabia era que não era a única pessoa no aposento que tinha uma noção do que a volta de Lord Voldemort poderia significar. Tia Petúnia nunca na sua vida o olhara daquele jeito antes. Os grandes e pálidos olhos dela (tão diferentes dos da irmã) não estavam estreitados com desgosto ou raiva, estavam arregalados e temerosos. O furioso fingimento que tia Petúnia mantivera por toda vida de Harry - que não havia magia nem outro mundo além do que ela habitava com tio Válter - parecia ter desvanecido.

 

- Sim - Harry disse, conversando diretamente com tia Petúnia agora. - Voltou há um mês. Eu o vi.

 

As mãos dela encontraram os grandes ombros cobertos de couro de Dudley e se agarraram neles.

 

- Espere aí - disse tio Válter, olhando de sua esposa para Harry e então de novo para ela, aparentemente ofuscado e confuso para compreensão sem precedentes que parecia ter aparecido entre eles. - Espere aí Este Lord Voldemort está de volta, você diz.

 

- Sim.

 

- Aquele que assassinou seus pais.

 

- Sim.

 

- E agora está mandado desmembradores atrás de você?

 

- Parece que sim - disse Harry.

 

- Entendo - disse tio Válter, olhando de sua pálida esposa para Harry e subindo as calças. Ele parecia estar inchando, seu grande rosto púrpura esticando diante dos olhos de Harry. - Bom, é isso - ele disse, a frente de sua camisa estirando como se inflasse -, você pode abandonar esta casa, rapaz!

 

- O quê? - disse Harry.

 

- Você me ouviu. FORA! - tio Válter berrou e até tia Petúnia e Dudley pularam. - FORA! FORA! Deveria ter feito isso anos atrás! Corujas tratando o lugar como casa de repouso, pudins explodindo, metade da sala destruída, o rabo de Dudley, Guida inflando até o teto e aquele Ford Anglia voador. FORA! FORA! Já chega! Você é história! Você não vai ficar aqui se tem um louco atrás de você, você não vai pôr em perigo minha esposa e filho, você não vai trazer problemas para nós. Se vai seguir o mesmo caminho que seus pais inúteis, já chega! FORA!

 

Harry ficou congelado. As cartas do Ministério, Sr. Weasley e Sirius, todas foram esmagadas na sua mão esquerda. "Não abandone a casa de novo, o que quer que faça. NÃO DEIXE A CASA DE SEUS TIOS."

 

- Você me escutou! - disse tio Válter, inclinando-se para frente, seu rosto púrpura e gordo chegando perto do de Harry, na verdade sentia salpicos de cuspe atingir seu rosto. - Vá andando! Você estava doido para partir meia hora atrás! Estou bem atrás de você! Saia e nunca apareça na nossa porta de novo! Por que cuidamos de você em primeiro lugar eu não sei, Guida estava certa, deveríamos tê-lo deixado no orfanato. Fomos gentis demais para seu próprio bem, pensamos que poderíamos arrancar isso de você, pensamos que poderíamos torná-lo normal, mas estava podre desde o início e já agüentei o bastante. Corujas!

 

A quinta coruja zuniu pela chaminé tão rápido que na verdade bateu no chão antes de voltar ao ar com um grito sonoro. Harry ergueu a mão para agarrar a carta, que estava num envelope vermelho, mas ela pairou direto sobre sua cabeça, voando diretamente para tia Petúnia, que soltou um grito e mergulhou, seus braços sobre a cabeça. A coruja soltou o envelope vermelho na sua cabeça, voltou-se e voou direto para a chaminé.

 

Harry se lançou para pegar a carta mas tia Petúnia chegou primeiro.

 

- Você pode abri-la se quiser - disse Harry -, mas escutarei de qualquer forma. Isso é um berrador.

 

- Solte isso, Petúnia! - rugiu tio Válter. - Não toque nisso, pode ser perigoso!

 

- Está endereçado a mim - disse tia Petúnia numa voz trêmula. - Está endereçado a mim, Válter, veja! Sra. Petúnia Dursley, a cozinha, número quatro, Rua dos Alfeneiros...

 

Ela prendeu a respiração, horrorizada. O envelope vermelho começara a fumegar.

 

- Abra-o! - Harry a encorajou. - Acabe com isso! Vai acontecer de qualquer maneira.

 

- Não.

 

A mão de tia Petúnia tremia. Ela olhava loucamente em torna da cozinha como se buscasse uma rota de fuga, mas tarde demais - o envelope caiu em chamas. Tia Petúnia gritou e o soltou.

 

Uma voz terrível encheu a cozinha, ecoando no espaço confinado, saindo da carta queimando na mesa.

 

"LEMBRE-SE DA MINHA ÚLTIMA, PETÚNIA."

 

Tia Petúnia parecia que ia desmaiar. Ela afundou na cadeira ao lado de Dudley, o rosto nas mãos. Os restos do envelope ardiam até virar cinzas em silêncio.

 

- O que é isso? - tio Válter disse rouco. - O que... Eu não... Petúnia?

 

Tia Petúnia não disse nada. Dudley fitava a mãe estupidamente, sua boca arreganhada. O silêncio se espalhava de modo horrível. Harry observava a tia, completamente assombrado, sua cabeça pronta para explodir.

 

- Petúnia, querida? - disse tio Válter timidamente. - P-Petúnia?

 

Ela ergueu a cabeça. Ainda tremia. Engoliu em seco.

 

- O garoto. O garoto terá que ficar, Válter - ela disse fracamente.

 

- O-o quê?

 

- Ele fica - ela disse. Não olhava para Harry. Pusera-se de pé novamente.

 

- Ele... Mas Petúnia...

 

- Se o chutarmos os vizinhos vão falar - ela disse. Estava recuperando rapidamente suas maneiras bruscas e cortantes, embora ainda estivesse muito pálida. - Farão perguntas estranhas, vão querer saber para onde ele foi. Temos que mantê-lo.

 

Tio Válter se esvaziou como um pneu velho.

 

- Mas Petúnia, querida...

 

Tia Petúnia o ignorou. Ela se voltou para Harry.

 

- Você fica em seu quarto - ela disse. - Não vai deixar a casa. Agora vá para cama - Harry não se moveu.

 

- De quem era o berrador?

 

- Não faça perguntas - tia Petúnia retorquiu.

 

- Está em contanto com bruxos?

 

- Eu disse para ir para cama!

 

- O que isso significa? Lembre-se da minha última o quê?

 

- Vá para cama!

 

- Como...?

 

- VOCÊ OUVIU SUA TIA, AGORA VÁ PARA CAMA!

 

 

A GUARDA AVANÇADA

"Acabo de ser atacado por dementadores e posso ser expulso de Hogwarts. Quero saber o que está acontecendo e quando eu vou poder sair daqui."

 

Harry copiou essas palavras em três pedaços diferentes de pergaminho assim que chegou na mesa do seu quarto. Endereçou o primeiro para Sirius, o segundo para Rony e o terceiro para Hermione. Sua coruja, Edwiges, estava caçando; sua gaiola estava vazia sobre a mesa. Harry ficou na cama aguardando por seu retorno, sua cabeça estava latejando, seu cérebro estava tão ocupado que não conseguia dormir. Suas costas doíam por ter carregado Duda até em casa e os dois galos em sua cabeça, resultado das pancadas que levou, estavam doendo muito.

 

Sua cabeça não parava de pensar em tudo o que acontecera. Ele estava furioso com tudo isso. Dementadores o caçando, a Sra. Figg e Mundungo Fletcher o espionando secretamente, a suspensão de Hogwarts e os avisos do Ministério da Magia - e ninguém pra lhe dizer o que estava acontecendo. E o que aquele berrador queria dizer? De quem era aquela voz que ecoou pela cozinha? Por que ele ainda estava sendo privado de notícias? Por que todos o tratavam como se fosse uma criancinha? Não faça mais nenhuma mágica, fique na casa...

 

Ele chutou seu malão quando passou por ele, mas longe de afastar sua raiva, agora se sentia pior, seu pé agora doía igual a seu corpo inteiro.

 

Edwiges entrou pela janela de forma tão suave que parecia um pequeno fantasma.

 

- Bem na hora! - disse Harry enquanto ela pousava em cima da gaiola. - Você pode

 

largar isso ai mesmo, eu tenho trabalho para você! Venha aqui.

 

Harry amarrou os 3 pedaços de pergaminho na pata dela.

 

- Leve essas mensagens para Sirius, Rony e Hermione e não volte sem uma resposta esclarecedora. Fique bicando eles até que escrevam uma carta bem longa. Entendeu?

 

Edwiges fez um ruído como se estivesse falando com ele.

 

- Então vá andando.

 

E ela saiu imediatamente. Harry se deitou na cama sem trocar as roupas e ficou olhando para o teto escuro. Agora além de tudo ele estava se sentindo culpado por ter falado de forma tão rude com Edwiges, sua única amiga na Rua dos Alfeneiros, número 4. Mas ele a recompensaria quando ela voltasse com as respostas.

 

Eles escreveriam de volta. Não poderiam ignorar um ataque de dementadores. Ele provavelmente acordaria com três cartas quilométricas cheias de simpatia e planos para sua remoção imediata para A Toca. E com aquela idéia confortante, o sono chegou sobre ele afastando todos os outros pensamentos...

 

Mas Edwiges não retornou na manhã seguinte. Harry passou o dia inteiro em seu quarto, saindo apenas para ir a banheiro. Três vezes naquele dia tia Petúnia empurrou comida por baixo da portinha que tio Válter colocou na porta do

 

quarto dele há alguns verões atrás. Cada vez que Harry a ouvia se aproximando ficava imaginando sobre o berrador... Mas não podia fazer nada. E isso continuou por três dias seguidos. Harry já estava ficando cheio disso.

 

E se enfrentasse o Ministério? E se fosse expulso e sua varinha quebrada? O que faria, pra onde iria? Ele não poderia voltar a viver com os Dursley, não agora que conhecia o outro mundo, ao qual ele realmente pertencia. Será que poderia ir viver com Sirius? Não sabia o que fazer...

 

Na quarta noite após a partida de Edwiges Harry estava deitado com a mente exausta quando seu tio entrou no quarto. Tio Válter estava vestindo a melhor roupa que tinha e estava com uma expressão de que era alguém importante.

 

- Nós estamos saindo - disse ele.

 

- Como?

 

- Eu disse que eu, sua tia e Duda vamos sair.

 

- Tudo bem.

 

- Você não vai sair desse quarto enquanto estivermos fora.

 

- Certo.

 

- Não ligue a tv, nem o som, e não mexa em nenhuma de nossas coisas.

 

- Sem problemas.

 

- E não pegue comida na geladeira.

 

- Pode deixar.

 

- Eu vou trancar sua porta.

 

- Pode trancar.

 

E tio Válter se virou, fechou a porta e saiu de casa. Harry não se importou com a saída dos Dursley. Pra ele não fazia nenhuma diferença se estavam em casa ou não. Ele não tinha forças nem pra se levantar e acender a luz. Ficou ouvindo os sons da noite, deitado em sua cama.

 

Então ouviu um som vindo da cozinha. Não podiam ser os Dursley, haviam acabado de sair e não tinha ouvido o carro. Houve silêncio por alguns segundos e depois vieram vozes.

 

"Ladrões", pensou ele. Mas um segundo depois lhe ocorreu que ladrões

 

não ficariam falando assim tão alto. Harry agarrou a varinha, que estava na mesinha de cabeceira, e se aproximou da porta do quarto para tentar ouvir melhor. Afastou pra trás ao ouvir a fechadura destrancar e abriu a porta.

 

Harry ficou parado diante da porta aberta tentando ouvir outros ruídos,

 

mas não havia nenhum. Hesitou por um momento e se moveu silenciosamente para fora de seu quarto em direção às escadas.

 

Seu coração parecia estar galopando. Havia pessoas de pé na sala abaixo, silhuetas contra a luz que entrava pelos vidros da porta, oito ou nove deles, e todos estavam olhando para ele.

 

- Abaixe sua varinha, garoto, antes que fure o olho de alguém - disse

 

uma voz em tom de grunhido.

 

O coração de Harry deu um salto. Ele conhecia aquela voz mas não abaixou a varinha.

 

- Professor Moody? - disse ele duvidoso.

 

- Não sei muito sobre "professor" - grunhiu a voz. - Desça aqui para vermos você melhor.

 

Harry abaixou a varinha, continuou a segurando com firmeza, mas não se moveu. Ele tinha todas as razões para suspeitar. Havia passado 9 meses em companhia

 

de Olho-Tonto Moody para no final descobrir que era um impostor que tentou matá-lo.  Mas antes que Harry pudesse tomar uma decisão uma segunda voz subiu pelas escadas.

 

- Está tudo bem Harry. Nós viemos para levá-lo daqui.

 

O coração de Harry saltou. Ele também conhecia aquela voz.

 

- Professor Lupin? É você?

 

- Por que estamos de pé no escuro? - disse uma outra voz completamente desconhecida. - Lumus.

 

E a ponta de uma varinha se acendeu. Harry piscou. As pessoas lá em baixo levantaram suas cabeças para que pudessem ser vistas melhor. Lupin era o que estava mais próximo. Parecia cansado e doente. Mas tentou sorrir para amenizar o estado de choque.

 

- Ah, ele realmente parece com o que eu imaginava - disse a bruxa que segurava a varinha. Ela parecia ser a mais jovem entre eles. - Wotcher, Harry!

 

- Sim, eu vejo o que você quis dizer, Remo - disse um mago negro que estava um pouco mais atrás -, ele parece mesmo com Tiago Potter.

 

- Exceto pelos olhos - disse uma outra voz. - Tem os olhos da Lílian.

 

- Você acha que é ele mesmo, Lupin - perguntou uma voz que vinha de trás de Moody. - Vamos perguntar algo que somente o verdadeiro Potter saberia responder, a não ser que alguém tenha trazido um pouco de Veritasserum.

 

- Harry, qual a forma que o seu Patrono tomou? – perguntou Lupin.

 

- Um cervo - respondeu Harry com nervosismo.

 

- É ele sim, Moody - disse Lupin.

 

Bem consciente que todos o olhavam, Harry desceu as escadas e guardou a varinha no bolso de trás da calça.

 

- Não coloque a varinha aí, garoto - disse Moody. - E se ela explodir? Bons magos já perderam a bunda por isso, você sabia?

 

- Quem você conhece que perdeu a bunda? - perguntou uma mulher de cabelo vermelho bem interessada.

 

- Não importa, apenas não guarde a varinha no bolso de trás - grunhiu Moody. - Regras de segurança-da-varinha, ninguém se importa mais com elas.

 

Lupin foi ao encontro de Harry.

 

- Como você está? - perguntou ele, olhando-o de perto.

 

- Estou bem... - disse Harry.

 

Harry mal acreditava que aquilo era real. Quatro semanas sem nada e de repente uma batalhão de bruxos estava em sua casa.

 

- Vocês têm sorte de os Dursley não estarem em casa... - murmurou ele.

 

- Sorte? Ha, ha, ha! - disse a mulher de cabelos violeta. - Fui eu quem criou a isca para que eles saíssem. Mandei uma carta pelo correio dos trouxas dizendo que eles estavam inscritos numa competição nacional. E eles estão indo para a premiação agora mesmo...

 

Harry já estava imaginando a cara do tio Válter quando visse que não havia competição alguma.

 

- Nós vamos embora, não vamos? - perguntou ele. - Logo?

 

- Praticamente já - disse Lupin. - Só estamos aguardando estar tudo limpo.

 

- Aonde nós iremos? Para a Toca? - perguntou Harry esperançoso.

 

- Não. Nós vamos para um quartel-general. Fica um pouco longe... - disse Lupin, seguindo pela cozinha junto com todos os outros bruxos.

 

Olho-Tonto Moody estava sentado na mesa da cozinha com seu olho mágico rodando em todas as direções, olhando para os aparelhos da cozinha dos Dursley.

 

- Esse é Alastor Moody, Harry – disse Lupin, apontando Moody.

 

- É, eu sei. É estranho ser apresentado a alguém que você acha que conhece...

 

- E essa é Nymphadora...

 

- Não me chame Nymphadora, Remo - disse a bruxa chateada. - É Tonks.

 

- Nymphadora Tonks, que prefere ouvir apenas seu sobrenome.

 

- Você também preferiria se sua mãe lhe desse o nome de Nymphadora - resmungou Tonks.

 

- E esse é Kingsley Shacklebolt - e apontou para o mago negro. - Elphias Doge. Dédalo Diggle...

 

- Já nos encontramos antes - disse Diggle, tirando o chapéu.

 

- Emmeline Vance. Sturgis Podmode. E Hestia Jones.

 

Harry fazia reverências com a cabeça a cada nome que era dito.

 

- Um número surpreendente de pessoas se voluntariaram para vir buscar você - disse Lupin.

 

- É isso, quanto mais melhor - disse Moody. - Somos sua escolta, Potter.

 

- Estamos apenas aguardando o sinal que nos diga que é seguro sair - disse Lupin, olhando pela janela da cozinha. - Temos uns 15 minutos.

 

- São muito higiênicos, esses trouxas, não são? - disse Tonks enquanto

 

olhava pela cozinha com muito interesse. - Meu pai é trouxa e ele é

 

um tanto quanto porcalhão. Acho que isso varia, assim como acontece

 

entre dos bruxos, não é?

 

- É... é - disse Harry. - Olhe... - e virou pra Lupin. - O que está acontecendo?

 

Eu não tenho tido notícias de nada nem de ninguém. O que Vol...?

 

Vários bruxos fizeram aquele barulho chiado...

 

- Cale-se - disse Moody.

 

- O quê? - disse Harry.

 

- Não podemos discutir nada aqui, é muito arriscado - disse Moody, olhando com o olho normal para Harry. Seu olho mágico continuava olhando o teto. - Que droga! - disse ele pondo a mão no olho mágico. - Começou a emperrar depois que aquele idiota ficou usando ele - e tirou o olho para limpá-lo.

 

- Para onde estamos indo? Quem vem nos buscar? - perguntou Harry.

 

- Vassouras - disse Lupin. - É o único jeito. Você é muito jovem para aparatar, estão vigiando a Rede do Flu e é mais que nossa vida arriscar abrir um portal não autorizado.

 

- Remo disse que você é um ótimo voador - disse Kingsley Shacklebold.

 

- Ele é excelente! - disse Lupin. - É melhor você juntar suas coisas Harry, precisamos estar prontos quando recebermos o sinal.

 

- Eu vou ajudar você - disse Tonks.

 

Ela seguiu Harry de volta ao quarto olhando tudo com muito interesse.

 

- Lugar engraçado esse - disse ela. - É tão limpo. Quase sobrenatural.

 

Entraram no quanto de Harry. Quando ele acendeu a luz ela percebeu que o quarto era bem diferente do resto da casa. Confinado por quatro dias durante uma "maré baixa" Harry não se importava muito com a organização. Os livros estavam espalhados pelo chão, a gaiola de Edwiges estava imunda, o malão estava aberto, roupas de trouxa e bruxo misturadas...

 

Harry começou a juntar as coisas e Tonks disse, se olhando no espelho:

 

- Acho que violeta não é a minha cor. Você não acha que eu fico esquisita?

 

- Bem... - disse Harry, olhando de relance pra ela.

 

- Fico sim - ela fechou os olhos como se tivesse tentando lembrar de algo. Um segundo depois o cabelo estava cor-de-rosa.

 

- Como você fez isso? - perguntou Harry espantado.

 

- Eu sou uma bruxa-metamorfa - disse ela, olhando-se novamente no espelho. - Significa que eu posso mudar minha aparência quando desejar. Eu nasci assim. Tirei nota máxima no exame de Auror sem nem precisar estudar.

 

- Você é uma Auror? - disse Harry impressionado. Ser um apanhador de bruxos das trevas era a única carreira que ele tinha considerado para quando terminasse Hogwarts.

 

- Sou - disse ela com ar de orgulhosa. - Kingsley também é. Ele é um pouco mais qualificado que eu. Eu só passei há um ano.

 

- É possível aprender como ser um bruxo-metamorfo? - perguntou Harry, que a essa altura já havia esquecido de juntar suas coisas.

 

- Bem, você pode aprender da maneira mais difícil. Metamorfose é algo realmente raro, você nasce assim, não dá pra fazer. A maioria dos bruxos usam a varinha ou poções para mudar sua forma. Mas nós temos que ir, Harry, devíamos estar fazendo as malas - disse ela com um olhar gentil passando pela bagunça que estava no chão.

 

- Ah, claro! - disse Harry agarrando mais alguns livros.

 

- Não seja estúpido, é muito mais rápido se eu... Empacotar!!! - berrou Tonks, agitando sua varinha num longo movimento.

 

Livros, roupas, telescópio, voou tudo pra dentro do malão.

 

- Não está muito arrumadinho... Minha mãe sempre reclamava... Bem... Pelo menos está tudo ai dentro - disse Tonks, fechando a tampa do malão. - Ah, podemos limpar isso aqui um pouquinho... – disse, apontando pra gaiola de Edwiges. – Scourgify - as penas e a sujeira sumiram. - Ah, agora está bem melhor. - Certo, já tem tudo? Caldeirão, Vassoura... NOSSA! Uma Firebolt!? – disse, arregalando os olhos pra vassoura na mão de Harry. - Puxa, e eu ainda estou montando uma Comet 2-60. Bem... Sua varinha está ai? Então vamos. Locomotor malão.

 

O malão de Harry flutuou alguns centímetros do chão e Tonks o conduziu escada abaixo, seguida por Harry, que vinha carregando a gaiola de Edwiges e a vassoura.

 

Lá na cozinha, Moody já havia recolocado o seu olho-mágico, que agora girava tão rápido que Harry se sentiu enjoado ao olhar pra ele. Lupin estava selando uma carta endereçada aos Dursley.

 

- Excelente - disse Lupin, olhando Tonks e Harry. - Temos cerca de um minuto. Vamos para o jardim. Harry, eu deixei uma carta dizendo a seus tios para não se preocuparem...

 

- Eles não irão. Acredite em mim - disse Harry.

 

- ... que você está a salvo...

 

- Isso vai decepcioná-los.

 

- ... e que você voltará no próximo verão.

 

- Isso é realmente necessário?

 

Lupin sorriu mas não respondeu.

 

- Vamos lá, garoto - disse Moody, tocando nas costas de Harry com a varinha. - Eu preciso Desilusionar você.

 

- Você o quê? - disse Harry nervoso.

 

- Desilusionar, é um encantamento - explicou Moody. - Lupin disse que você tem uma capa da invisibilidade, mas ela não vai servir quando estivermos voando, isso vai funcionar melhor. Aí vai...

 

Moody tocou com a varinha no topo da cabeça de Harry e ele sentiu uma sensação bem curiosa, como se um ovo tivesse sendo quebrado ali, estava descendo por todo o corpo.

 

- Muito bem, Olho-Tonto - disse Tonks.

 

Harry olhou para baixo e não viu seu corpo. Ele não estava invisível, simplesmente estava da mesma cor e textura do armário da cozinha que estava atrás de si. Ele parecia ter se tornado um homem-camaleão.

 

- Vamos lá - disse Moody, destrancando a porta dos fundos com sua varinha.

 

Todos seguiram para fora.

 

- Uma noite limpa - disse Moody. - Gostaria que houvesse um pouco mais de nuvens hoje. Certo, Harry, nós vamos voar numa formação fechada. Tonks vai na sua frente. Fique de olho nela. Lupin vai te dar cobertura por baixo e eu estarei logo atrás de você. O resto estará ao nosso redor. Não freie por nada nesse mundo, entendeu. Se um de nós morrer...

 

- O que isso quer dizer? - perguntou Harry apreensivo, mas Moody não respondeu.

 

- ...os outros continuam voando. Não parem. Se eles pegarem todos nós e você sobreviver, Harry, o restante da escolta vai lhe socorrer. Continue voando para o Leste e eles te encontrarão.

 

- Pare de ser tão pessimista, Olho-Tonto, ele vai pensar que não estamos levando isso a sério - disse Tonks enquanto pendurava as coisas de Harry em ganchos amarrados na sua vassoura.

 

- Eu só estou dizendo o plano. Nosso trabalho é entregá-lo em segurança ao quartel-general mesmo que morremos tentando.

 

- Ninguém vai morrer - disse Kingsley.

 

- Montem em suas vassouras. Esse é o primeiro sinal - disse Lupin, apontando para o céu.

 

Muito, muito longe deles, uma cascata de faíscas vermelhas estava brilhando próximo às estrelas. Harry sabia que eram feitas por uma varinha. Montou na vassoura, agarrou-se firme e imaginou que em um segundo estaria voando novamente.

 

- Segundo sinal, vamos! - disse Lupin ao ver mais faíscas, verdes desta vez, explodindo sobre eles.

 

Harry saltou do chão. O ar frio da noite passava por seus cabelos enquanto os gramados verdes da Rua dos Alfeneiros ficavam para trás junto com todas aquelas preocupações de representantes do Ministério quebrando sua varinha e tudo mais... Sentia como se seu coração fosse explodir de tanto prazer; estava voando novamente, era tudo o que ele mais sonhou neste verão... Estava indo para casa... Por alguns momentos gloriosos, todos os seus problemas pareciam ter se reduzido a nada, insignificantes diante do vasto e brilhante céu estrelado.

 

- Para a esquerda, para a esquerda, tem um trouxa olhando para cima - gritou Moody. Tonks desviou e Harry a seguiu, vendo seu malão balançar violentamente sob a vassoura dela. - Precisamos de mais altura. Subam mais 400 metros.

 

Os olhos de Harry ficaram úmidos enquanto eles subiam, agora não conseguia ver mais nada lá embaixo a não ser as pequenas luzes dos carros e dos postes. Duas daquelas pequenas luzes poderiam ser o carro dos Dursley... A qualquer momento eles estariam voltando da competição inexistente, cheios de raiva... E encontrariam a casa vazia. Harry deu uma gargalhada, mas sua voz se perdeu entre o ruído das capas tremulantes dos outros bruxos. Ele nunca tinha se sentido tão vivo este mês ou tão feliz assim.

 

- Seguindo para o sul - gritou Olho-Tonto. - Cidade à frente! Agora para sudeste, subam mais, tem algumas nuvens, não podemos nos perder de vista.

 

A noite estava ficando cada vez mais fria. Harry achou que teria sido bom vestir um casaco.

 

- Virando para sudoeste. Vamos evitar a auto-estrada - gritou Moody.

 

Harry imaginou que nenhuma viagem de carro ou viajando via Flu poderia ser tão gostoso. Agora os outros bruxos se aproximavam rodeando ele...

 

- Nós vamos voltar um pouco agora, só para ter certeza que não estamos sendo seguidos - gritou Moody.

 

- VOCÊ ESTÁ LOUCO, OLHO-Tonto? - gritou Tonks. Nós estamos congelando! Se ficarmos fazendo isso não chegaremos lá antes da semana que vem. Além do mais, estamos nos aproximando agora.

 

- Hora de começar a decida - disse Lupin. - Siga Tonks, Harry!

 

Harry seguiu Tonks num mergulho. Depois de algum tempo ele pôde ver luzes novamente. Queria muito chegar ao chão e achou que alguém teria que ajudá-lo a se desgrudar da vassoura, pois já estava congelando.

 

- Aqui estamos! - disse Tonks, e alguns segundos depois ela havia pousado.

 

Harry pousou logo atrás dela. Tonks já estava soltando o malão de Harry.

 

Ele olhou em volta. A frente das casas não eram muito amigáveis, algumas delas tinham janelas quebradas.

 

- Onde nós estamos? - perguntou Harry, mas Lupin retrucou dizendo:

 

- Explico em um minuto.

 

- Peguei - disse Moody e levantou um objeto que lembrava um isqueiro.

 

Apertou um botão e a luz do poste mais próximo sumiu. Ele continuou apertando o Apagueiro até que todas as luzes do quarteirão se apagassem, deixando visíveis

 

apenas as luzes das janelas através das cortinas e da lua.

 

- Peguei emprestado do Dumbledore - disse Moody, guardando-o no bolso. - Agora vamos.

 

Ele pegou Harry pelo braço e o conduziu pelo gramado, através da rua até chegar a um lugar pavimentado. Lupin e Tonks os seguiram carregando o malão e o resto da escolta, de varinha em punho, escoltando-os.

 

- Aqui - cochichou Moody e entregou um pedaço de pergaminho a Harry. Acendeu a varinha para iluminar e disse. - Leia rápido e memorize.

 

Harry olhou o papel. A escrita ela quase familiar.

 

"O Quartel-General da Ordem da Fênix pode ser encontrado no número 12, Grimmauld Place, Londres."

 

 

GRIMMAULD PLACE, NÚMERO 12

- O que é a Ordem da...? - Harry ia perguntar.

 

- Não aqui, garoto - falou Moody. - Espere até termos entrado - ele tomou o pedaço de pergaminho da mão de Harry e pôs fogo nele com a ponta de sua varinha. Quando o papel virou cinzas, Harry olhou novamente ao redor e viu que estavam diante do número 11; olhou para a esquerda e viu o número 10, olhou para a direita, e viu o número 13.

 

- Mas onde...?

 

- Pense no que você acabou de ler - disse Lupin.

 

Harry pensou e demorou um pouco para alcançar a parte sobre o número 12 do Grimmauld Place, então uma porta surgiu do nada entre os números 11 e 13, seguido por paredes e janelas. Era como se uma casa tivesse inflado, empurrando as outras duas casas para o lado. Sendo que tudo continuava normal, parecia que os trouxas não haviam percebido nada.

 

- Vamos, apresse-se - disse Moody, empurrando Harry.

 

Harry subiu nos degraus da porta recém materializada. A maçaneta tinha a forma de uma serpente enrolada. Não havia fechadura nem caixa de correio.

 

Lupin puxou sua varinha e tocou a porta uma vez. Harry ouviu diversos sons metálicos, como se uma porção de trancas estivessem abrindo. E a porta se abriu.

 

- Entre rápido, Harry - sussurrou Lupin. - Mas não vá muito longe nem toque em nada.

 

Harry passou pela porta e entrou na escuridão total da sala. O lugar parecia uma construção abandonada. Ele olhou sobre seu ombro e viu os outros entrando atrás dele. Lupin e Tonks carregando seu malão e a gaiola de Edwiges.

 

Moody estava no degrau mais alto, libertando as bolinhas de luz de volta aos postes de iluminação. Moody entrou e fechou a porta. A sala ficou em escuridão total.

 

- Aqui...

 

Ele tocou novamente na cabeça de Harry com a varinha; Harry sentiu que algo quente estava descendo por suas costas e percebeu que o encantamento de Desilusionar tinha sido removido.

 

- Agora todos fiquem parados, enquanto eu providencio um pouco de luz - sussurrou Moody.

 

O silêncio dos outros deu a Harry uma sensação de que tinham entrado na casa de uma pessoa que acabara de morrer. Ele ouviu um ruído suave e então as lâmpadas a gás tornaram-se fogo vivo ao longo das paredes. Pôde ver um candelabro e uma mesa, ambos tinham forma de serpentes.

 

Ouviram-se passos apressados vindo de uma porta lateral. Era a Sra. Weasley, a mãe de Rony. Ela veio dar as boas vindas e Harry percebeu que ela já não estava bem mais magra que da última vez que a tinha visto.

 

- Oh, Harry, que bom ver você! - sussurrou ela, puxando-o para um abraço bem apertado, depois o segurou nos braços e o examinou dos pés à cabeça. - Você parece faminto, mas já está quase na hora do jantar! - ela se virou para os outros bruxos e disse em tom urgente. - Ele já chegou, a reunião já começou.

 

Os bruxos atrás de Harry fizeram barulhos interessantes de excitação e começaram a passar por ele seguindo em direção a porta pela qual a Sra. Weasley tinha entrado. Harry tentou segui-los mas a Sra. Weasley o segurou.

 

- Não, Harry. A reunião é para membros da Ordem. Rony e Hermione estão no andar de cima, você pode esperar com eles até que as reuniões tenham terminado, então nós jantaremos. E mantenha sua voz baixa neste salão.

 

- Por quê?

 

- Não quero que nada seja acordado.

 

- O que você...?

 

- Eu explico mais tarde. Tenho que me apressar, eu deveria estar na reunião. Vou apenas mostrar onde você vai dormir.

 

Apertando o dedo contra os lábios, ela o conduziu andando na ponta dos pés. Harry pôde observar coisas bem estranhas, entre elas, troféus nas paredes, como aqueles com cabeças de animais, mas estes tinham cabeças de elfos-domésticos. Harry ficou intrigado. Por que estariam numa casa que parecia a casa do mais terrível dos bruxos?

 

- Sra. Weasley, por que...?

 

- Rony e Hermione vão explicar tudo, querido, eu realmente tenho que ir. Ali, aquela porta à direita. Eu venho chamar quando tudo acabar.

 

E ela desceu apressada pelas escadas. Harry seguiu pelo corredor até a porta do quarto, que também tinha a maçaneta em forma de cobra, e abriu a porta.

 

Ele foi entrando no quarto e viu duas camas. Então houve um barulho e sua visão ficou completamente obscurecida por uma enorme quantidade de cabelos volumosos. Hermione tinha se jogado encima dele num abraço que quase o derrubou no chão, enquanto a minúscula coruja de Rony voava ao redor de suas cabeças.

 

- HARRY! Rony, ele está aqui, Harry está aqui! Não ouvimos você chegar! Ah, como você está? Tudo bem? Você ficou chateado conosco? Aposto que ficou, sei que suas cartas foram em vão, mas não podíamos te contar nada, Dumbledore nos vez jurar que não contaríamos, ah, eu tenho tanta coisa pra te contar, e você tem coisas pra nos dizer. Os dementadores! Quando nós ouvimos... E as advertências do Ministério. É tão ultrajante, eu não acreditei, eles não podem expulsar você, eles não podem, existe exceções no Decreto do Uso Indevido de Magia por Menores de Idade falando sobre situações de perigo de vida...

 

- Deixe-o respirar, Hermione - disse Rony, enquanto fechava a porta atrás de Harry. Ele parecia ter crescido vários centímetros durante esse mês.

 

Ainda eufórica, Hermione soltou Harry, mas antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa um som suave de algo branco surgiu de um canto escuro e pousou gentilmente nos ombros de Harry.

 

- Edwiges.

 

- Ela está impossível - disse Rony. - Nos bicou quase até a morte quando trouxe sua última carta, olhe só...

 

Ele mostrou a Harry o dedo indicador da mão direita, que estava com um corte profundo.

 

- Ah, estou vendo - disse Harry. - Desculpe-me por isso, mas eu queria respostas, você sabe...

 

- Nós queríamos dá-las a você - disse Rony. Hermione estava desesperada, ela ficava dizendo que você iria fazer algo estúpido se não recebesse notícias, mas Dumbledore nos fez...

 

- ...jurar não me dizer nada - disse Harry. - É, Hermione já me disse.

 

O brilho quente que tinha sido aceso nele ao ver seus dois melhores amigos se extinguiu quando uma coisa congelante atingiu o seu estômago. E repentinamente ele sentiu que seria melhor Rony e Hermione deixá-lo sozinho. Houve um silêncio profundo, Harry afastou Edwiges e não olhou para os outros.

 

- Ele achava que seria o melhor a fazer - disse Hermione. - Dumbledore, quero dizer...

 

- Sei... - disse Harry. Ele viu que as mãos dela também tinha, marcas das bicadas de Edwiges e percebeu que não sentia tanto remorso assim.

 

- Eu acho que ele pensou que você fosse ficar seguro com os trouxas - disse Rony.

 

- É? - disse Harry, erguendo as sobrancelhas. - Por acaso algum de vocês foi atacado por dementadores neste verão?

 

- Bem... Não... Mas é por isso que ele tem pessoas da Ordem da Fênix seguindo você o tempo inteiro...

 

Então Harry sentiu como se o chão tivesse sumido sob seus pés. Então todos sabiam que ele estava sendo vigiado, exceto ele.

 

- Mas não funcionou como planejado, não foi? - disse Harry, fazendo questão de manter a voz alta. - Eu tive que cuidar de mim mesmo no final de tudo, não tive?

 

- Ele estão tão furioso - disse Hermione. - Dumbledore. Ele o viu. Quando ele percebeu Mundungo tinha abandonado o posto. Ele ficou assustado.

 

- Eu fico feliz que ele tenha saído - disse Harry com frieza. - Se ele não tivesse saído eu não teria feito mágica e Dumbledore provavelmente me deixaria na Rua dos Alfeneiros o verão inteiro.

 

- Você... Você não ficou preocupado com o aviso do Ministério? - perguntou Hermione.

 

- Não - mentiu Harry. E se afastou dele olhando ao redor do quarto, mas isso não animou seu espírito. - Então por que Dumbledore quer me manter no escuro? Vocês se importam de perguntar a ele? - disse Harry e olhou bem a tempo ver uma troca de olhares entre dos amigos que praticamente já sabiam como ele reagiria.

 

- Nós dissemos a Dumbledore que queríamos te contar o que estava  acontecendo - disse Rony. - Mas ele está realmente ocupado agora, nós só o vimos duas vezes desde que viemos para cá e ele não tem muito tempo, ele apenas nos fez jurar não te contar coisas importantes quando escrevêssemos, ele disse que as corujas poderiam ser interceptadas.

 

- Ele ainda poderia me manter informado se quisesse - disse Harry. - Ou vocês estão me dizendo que ele não conhece outros meios de mandar mensagens sem ser pelas corujas.

 

- Eu também pensei nisso - disse Hermione. - Mas ele não queria que você soubesse de nada.

 

- Talvez ele ache que eu não sou alguém confiável - disse Harry,  observando suas expressões.

 

- Não seja bobo - disse Rony com um olhar desconcertante.

 

- Ou que eu não sei cuidar de mim mesmo.

 

- Claro que ele não pensa assim - disse Hermione ansiosa.

 

- Então por que eu tinha que ficar com os Dursley enquanto vocês dois estavam juntos em tudo que está se passando aqui? - disse Harry com sua voz ficando mais alta a cada palavra. - Como vocês dois têm permissão de saber tudo o que se passa aqui?

 

- Nós não temos - interrompeu Rony. - Mamãe não nos deixa chegar perto das reuniões, ela diz que somos muito jovens...

 

Mas antes que ele se desse conta, Harry estava gritando.

 

- ENTÃO VOCÊS NÃO ESTAVAM NAS REUNIÕES, GRANDE COISA! VOCÊS AINDA ESTAVAM AQUI, NÃO É? VOCÊS AINDA ESTAVAM JUNTOS! EU, ESTAVA PRESO COM OS DURSLEY POR UM MÊS INTEIRO. E EU AGUENTEI MAIS DO QUE VOCÊS DOIS JÁ PUDERAM AGUENTAR E DUMBLEDORE SABIA DISSO. QUEM SALVOU A PREDRA FILOSOFAL? QUEM CUIDOU DE RIDDLE? QUEM SALVOU A PELE DE VOCÊS DOS DOIS DEMENTADORES?

 

Todas as coisas que Harry tinha feito nesses últimos meses estavam  saindo dele: a frustração de ficar sem notícias, de estar sendo seguido, de estar sozinho sem os amigos...

 

- QUEM PASSOU PELOS DRAGÕES E ESFINGES E TODAS AS  OUTRAS COISAS PERIGOSAS NO ANO PASSADO? QUEM FOI QUE VIU "ELE" VOLTAR? QUEM FOI QUE ESCAPOU "DELE"? EU!

 

Rony estava lá de pé, com a boca semi-aberta, enquanto Hermione estava banhada por lágrimas.

 

- MAS POR QUE EU DEVERIA SABER O QUE ESTÁ ACONTECENDO? POR QUE ALGUÉM SE IMPORTARIA EM ME DIZER O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

 

- Harry nós queríamos te contar, realmente queríamos... - disse Hermione.

 

- ACHO QUE NÃO QUERIAM TANTO ASSIM, OU VOCÊS TERIAM DADO UM JEITO DE ME MANDAR UMA CORUJA, MAS "DUMBLEDORE NOS FEZ PROMETER...".

 

- Bem, ele fez...

 

- EU PASSEI QUATRO SEMANAS PRESO NA RUA DOS ALFENEIROS, PEGANDO JORNAIS DO LIXO PRA TENTAR SABER O QUE ESTAVA ACONTECENDO...

 

- Nós queríamos...

 

- EU ACHO QUE VOCÊS ESTAVAM REALMENTE SE DIVERTINDO, NÃO ESTAVAM, AQUI, BEM JUNTINHOS...

 

- Honestamente, não...

 

- Harry, nós sentimos muito - disse Hermione desesperada, seus olhos brilhando de tantas lágrimas. - Você tem toda razão, Harry. Eu estaria furiosa se fosse você.

 

Harry a olhou ela, ainda respirando profundamente, e continuou observando o lugar.

 

- Afinal de contas, que lugar é esse? - perguntou olhando Rony e  Mione.

 

- É o quartel-general da Ordem do Fênix - disse os dois ao mesmo tempo. - E alguém se importa de me dizer o que é a Ordem do Fênix?

 

- É uma sociedade secreta - disse Mione. - Dumbledore está no comando, ele é o fundador. São as pessoas que lutaram contra Você-Sabe-Quem da última vez.

 

- Pouquíssimas pessoas...

 

- Nós vimos cerca de vinte delas - disse Rony -, mas nós achamos que há  mais.

 

- E então...? - disse Harry olhando de um para o outro.

 

- Er... Então o quê? - disse Rony.

 

- Voldemort! - disse Harry furioso, e Rony e Mione se assustaram. - O que está acontecendo?

 

- Nós dissemos a você. A Ordem não nos deixa entrar em suas reuniões - disse Mione nervosa. - Então não temos mais detalhes... Mas temos uma  idéia geral.

 

- Fred e Jorge inventaram Orelhas Extensíveis, vê... - disse Rony. - Elas são realmente úteis.

 

- Extensíveis?

 

- Orelhas, sim. Nós só tivemos que parar de usá-las porque mamãe as encontrou e ficou furiosa. Fred e Jorge tiveram que escondê-las para mamãe parar de chateá-los. Mas nós conseguimos fazer um bom uso delas antes que mamãe descobrisse o que estava havendo. Nós sabemos que alguns membros da Ordem estão seguindo Comensais da Morte conhecidos, mantendo o olho neles, você sabe...

 

- Alguns deles estão trabalhando recrutando mais pessoas para a Ordem - disse Mione.

 

- E alguns deles estão montando guarda ou algo assim - disse Rony. - Eles sempre falam sobre o serviço da guarda.

 

- E o que vocês andaram fazendo? Se não podem estar nas reuniões,  porque me disseram que estavam ocupados?

 

- Nós estávamos - disse Mione. - Estivemos descontaminando essa casa, ela está vazia há séculos e as coisas estavam feias por aqui. Tivemos que limpar a cozinha, a maioria dos quartos e tivemos que... AARGH!

 

Com dois estampidos, Fred e Jorge, os irmãos mais velhos de Rony, se materializaram no meio da sala.

 

- Parem de fazer isso! - disse Hermione gritando para os gêmeos.

 

- Olá, Harry - disse Jorge. - Nós pensamos ter ouvido sua doce voz.

 

- Você não deve engarrafar sua raiva daquele jeito, Harry - disse Fred  também caçoando. - Acho que tem umas pessoas há uns 50 quilômetros daqui que não conseguiram te ouvir.

 

- Então vocês dois passaram no teste de Aparatar? - perguntou Harry.

 

- Com louvor - disse Fred, que estava segurando o que parecia um longo pedaço de faixa recém colorida. - Só teria demorado uns 30 segundos a mais se vocês tivessem subido  pela escada - disse Rony.

 

- Tempo são galeões, pequeno irmão - disse Fred. - De qualquer forma, Harry, você estava interferindo com a recepção. Orelhas Extensíveis - disse ele ao ver a expressão no rosto de Harry, e levantou a faixa  que agora estava vibrando sobre o chão. - Estamos tentando ouvir o que está se passando lá em baixo.

 

- Tenha cuidado - disse Rony -, se mamãe ver uma dessas outra vez...

 

- Vale a pena correr o risco, essa é a maior reunião que já tivemos - disse Fred.

 

- Ah, olá, Harry! - disse a irmã mais nova de Rony, Gina, incrivelmente  animada. - Eu pensei ter ouvido sua voz. Ela se virou para Fred e Jorge e falou. - Não vai adiantar usar as Orelhas Extensíveis, ela colocou um Feitiço Imperturbável na porta da cozinha.

 

- Como você sabe? - perguntou Jorge, com um olhar desconfiado.

 

- Tonks me disse como saber - disse Gina. - Basta você jogar algo na  porta, se ela não fizer contato a porta está Imperturbável. Eu estava jogando  bombinhas nela do topo da escada e elas nem chegavam perto da porta, então não há como as Orelhas Extensíveis funcionarem.

 

- Droga. Eu realmente queria saber o que o velho Snape está tramando - disse Fred com ar deprimido.

 

- Snape! - disse Harry. - Ele está aqui?

 

- Sim - respondeu Jorge, fechando a porta com todo cuidado e sentando  em uma das camas; Fred e Gina o seguiram. - Fazendo o relatório. Segredo total.

 

- Traidor - disse Fred.

 

- Ele está do nosso lado agora - disse Mione, reprovando-o. Rony resmungou.

 

- Isso não o faz deixar de ser um traidor. O jeito que ele nos olha quando nos vê.

 

- Gui não gosta dele - disse Gina.

 

Harry não sabia se sua raiva já o tinha abatido, mas seu desejo por  informações superava a vontade de gritar. E ele ficou do lado oposto da cama.

 

- Gui está aqui? - perguntou ele. - Pensei que estivesse trabalhando no Egito?

 

- Ele preferiu pegar um trabalho burocrático para que pudesse vir pra  casa e trabalhar para a Ordem - disse Fred. - Ele diz que sente falta das  tumbas, mas tem suas compensações.

 

- O que você quer dizer?

 

- Você se lembra de Fleur Delacour? - disse Jorge. - Ela aceitou um  trabalho no Gringotes "parra melhorrar seu inglêss".

 

- E Gui até que tem dado a ela muitas aulas particulares... - disse Fred rindo.

 

- Carlinhos está na Ordem também - disse Jorge -, mas ele ainda está na Romênia. Dumbledore quer quantos magos estrangeiros puder, então Carlinhos está tentando fazer contatos nos dias de folga.

 

- Percy não poderia fazer isso? - perguntou Harry. Da última vez que ele ouviu falar, o terceiro irmão Weasley estava trabalhando no Departamento  Internacional da Magia como Cooperador do Ministério da Magia.

 

Com as palavras de Harry todos os Weasley e Hermione trocaram  olhares sombrios entre eles.

 

- Aconteça o que acontecer, nunca mencione Percy na frente de mamãe e  papai - Rony informou a Harry um tom tenso.

 

- Por que não?

 

- Porque cada vez que o nome de Percy é mencionado papai quebra o que estiver segurando e mamãe começa a chorar - disse Fred.

 

- Tem sido terrível - disse Gina com tristeza.

 

- O que aconteceu? - perguntou Harry.

 

- Percy e Papai tiveram uma discussão - disse Fred. - Eu nunca tinha visto papai discutir daquela forma com ninguém. Normalmente é mamãe quem grita.

 

- Aconteceu uma semana antes de virmos para cá. Percy chegou em casa e nos disse que tinha sido promovido - disse Rony.

 

- Você está falando sério? - disse Harry.

 

Como ele sabia muito bem, Percy tinha uma grande ambição, mas  aparentemente não tinha obtido muito sucesso em seu primeiro trabalho no Ministério da Magia. Percy cometeu o grande erro de não informar que seu chefe estava  sendo  controlado por Lord Voldemort (não que o Ministério iria acreditar nele - todos pensavam que Sr. Crouch tinha ficado louco).

 

- Pois é, todos nós ficamos surpresos - disse Jorge -, porque Percy  tinha se metido numa porção de problemas por causa do Crouch, havia um  inquérito e tudo mais. Eles disseram que Percy deveria ter denunciado Crouch  a um superior. Mas você conhece o Percy, Crouch o deixou no comando e ele não ia querer decepcioná-lo.

 

- Mas, como é que ele foi promovido?

 

- É exatamente isso que nós queríamos saber - disse Rony, que agora  estava conseguindo conversar normalmente, já que Harry tinha parado de gritar. - Ele veio pra casa realmente orgulhoso de si mesmo, ainda mais que o  normal, se é que você consegue imaginar isso; e disse a papai que tinham oferecido um cargo no escritório do Fudge. Uma coisa realmente boa para alguém que tinha acabado de sair de Hogwarts: Assistente Junior do Ministro. Ele esperava que papai fosse ficar impressionado, eu acho.

 

- Só que papai não ficou - disse Fred.

 

- Por que não? - perguntou Harry.

 

- Bem, aparentemente Fudge estava rondando pelo Ministério  verificando para que ninguém tivesse qualquer contato com Dumbledore - disse Jorge.

 

- O nome de Dumbledore é ruim para o Ministério nesses dias, sabe - disse Fred. - Eles acham que ele só vai causar problemas dizendo por aí que Você-Sabe-Quem está de volta.

 

- Papai disse que Fudge deixou bem claro que qualquer um que estivesse do lado de Dumbledore podia limpar a mesa - disse Jorge.

 

- O problema é, Fudge suspeitava de papai, ele sabia que papai tinha  amizade com Dumbledore, e estava sempre um pouco perturbado por causa da  obsessão do papai pelos trouxas.

 

- Mas o que aconteceu com o Percy? - perguntou Harry confuso.

 

- Estou chegando lá. Papai acha que Fudge só queria Percy em seu  escritório porque ele queria usá-lo para espionar a família, e Dumbledore.

 

Harry deixou escapar um assobio baixinho.

 

- Aposto que Percy adoraria isso - Rony deu uma risadinha sem graça.

 

- Ele ficou completamente alterado. Ele disse... Bem, ele disse uma porção de coisas ruins. Ele disse que estava sofrendo desde que chegou ao Ministério por causa da reputação do papai, que papai não tinha ambição e que por isso, você sabe, nós nunca tínhamos dinheiro, eu acho...

 

- O quê? - disse Harry sem acreditar.

 

- Eu sei - disse Rony. - E ficou ainda pior. Ele disse que papai era um idiota de correr atrás do Dumbledore, que Dumbledore só iria causar problemas, que papai iria se dar mal junto com ele, e que ele, Percy, sabia que sua lealdade pertencia ao Ministério. E se mamãe e papai fossem se tornar traidores do Ministério ele iria se certificar de que não mais faria parte de nossa família. Fez as malas na mesma noite e partiu. Ele está vivendo aqui em  Londres, agora.

 

Harry ficou desconcertado. Ele sempre tinha gostado de Percy como um  dos irmãos de Rony, mas nunca iria imaginar que ele diria coisas tão terríveis do Sr. Weasley.

 

- Mamãe ficou naquele estado - disse Rony. - Você sabe... Chorando e  coisa assim. Ela veio para Londres tentar falar com Percy mas ele bateu a porta na cara dela. Eu não sei o que ele iria fazer se encontrasse papai no  trabalho, ignorá-lo, eu acho.

 

- Mas Percy deveria saber que Voldemort está de volta - disse Harry. - Ele não é estúpido, ele precisa saber que seus pais não arriscariam tudo sem  provas.

 

- É, bem, seu nome também entrou na confusão - disse Rony lançando um  olhar furtivo a Harry. - Percy disse que a única evidência e... Eu não sei... Ele não achou que fosse suficiente.

 

- Percy leva o Profeta Diário muito a sério - disse Mione.

 

- Sobre o que você está falando?

 

- Você não estava recebendo o Profeta Diário? - perguntou Mione nervosa.

 

- Sim, eu estava.

 

- Você estava... É... Lendo ele por inteiro?

 

- Bem, não totalmente. Se eles fossem anunciar algo sobre Voldemort deveria ser notícia de capa, não é?

 

Todos se encolheram ao ouvir aquele nome. Hermione continuou.

 

- Você deveria lê-lo por inteiro para entender, mas eles... É...

 

Eles mencionaram você uma porção de vezes.

 

- Mas eu teria visto...

 

- Não se você estivesse lendo apenas a primeira página - disse

 

Hermione, balançando a cabeça. - Eu não estou falando de grandes artigos. Eles detonaram você, como se você fosse uma piada.

 

- O que você...?

 

- É asqueroso - disse Mione numa voz calmamente forçada. - Eles estão apenas publicando as coisas da Rita.

 

- Mas ela não está mais trabalhando para  eles, está?

 

- Claro que não, ela manteve sua promessa. Não que ela tivesse escolha - disse Mione satisfeita. - Mas ela deixou base para o que eles estão  tentando fazer agora.

 

- E o que seria? - disse Harry impaciente.

 

- Ok, você sabe que ela escreveu que você estava delirando e que estava dizendo que sua cicatriz estava doendo e tudo mais?

 

- Sei - disse Harry, que não esqueceria as histórias da Rita Skeeter  sobre ele.

 

- Bem, eles escreveram sobre você como se você estivesse nessa  ilusão, querendo ganhar atenção das pessoas para que pensassem que você é um tipo de herói trágico ou algo assim - disse Mione, muito rápido como se para Harry fosse humilhante ouvir essas coisas. - Eles continuaram fazendo esses comentários sobre você. Se uma história surgisse, eles diriam algo como "Um louco conto  do Harry Potter"... Você vê o que eles estavam fazendo? Eles queriam transformar você numa pessoa que ninguém acreditasse. Fudge está por trás disso, eu aposto. Ele quer que os bruxos pensem que você é um garoto estúpido que é uma piadinha, que diz histórias ridículas porque adora ser famoso e quer  continuar assim.

 

- Eu não pedi... Eu não queria... Que Voldemort matasse meus pais! Eu  fiquei famoso porque ele assassinou minha família mas não pode me matar! Quem quer ser famoso com isso? Eu preferia que nunca tivesse  acontecido...

 

- Nós sabemos, Harry - disse Gina.

 

- E claro, eles não disseram uma palavra sequer sobre os dementadores  que atacaram você - disse Hermione. - Alguém disse a eles para manter em sigilo. Essa certamente seria uma grande história, descontrole dos dementadores. Eles nem mesmo mencionaram que você transgrediu o Estatuto  Internacional de Magia. Nós achamos que eles iriam, isso iria cair bem na sua  imagem de garoto estúpido. Achamos que estão adiando até que você seja expulso, digo, se é que você vai ser expulso. Na verdade você não deveria ser, não se eles seguirem a risca às leis, nem mesmo haverá um caso contra  você.

 

Eles tentaram escutar novamente com as Orelhas Extensíveis mas Harry  não queria se meter nisso. Ele tentou encontrar outro assunto mas não  precisou pois o som de passos vinha subindo a escada.

 

- Ah, não!

 

Fred recolheu sua aparelhagem, houve outro estampido e ele e Jorge sumiram. Segundo depois a Sra. Weasley apareceu na porta do quarto.

 

- A reunião acabou, vocês podem vir jantar agora. Todos estão ansiosos para ver você, Harry. E quem foi que deixou todas aquelas bombinhas do lado de fora da cozinha?

 

- Bichento - disse Gina. - Ele adora brincar com elas.

 

- Ah - disse Sra. Weasley -, eu pensei que pudesse ter sido Kreacher, ele continua fazendo coisas desse tipo. Agora não esqueçam de manter suas vozes baixas lá no salão. Gina, suas mãos estão imundas. O que você andou fazendo? Vá lavá-las antes do jantar, por favor.

 

Gina seguiu sua mãe pelo corredor, deixando Harry a sós com Rony e Mione. Eles ficaram apreensivos pensando se Harry começaria a gritar novamente agora que todos haviam saído.

 

- Olhe... - murmurou Harry, mas Mione disse, interrompendo-o.

 

- Nós sabemos que você está zangado, Harry, nós realmente não te  culpamos mas você precisa entender, nós tentamos persuadir Dumbledore...

 

- É, eu sei - disse Harry.

 

E ele tentou encontrar um outro assunto, porque pensar  em Dumbledore o deixava novamente fervendo de raiva.

 

- Quem é Kreacher? - perguntou ele.

 

- O elfo-doméstico que vive aqui - disse Rony. - Louco. Nunca encontrei um como ele.

 

- Ele não é louco, Rony - retrucou Mione.

 

- A ambição de sua vida é ter sua cabeça cortada e colocada num troféu como o da mãe dele - disse Rony irritado. - Isso é normal, Hermione?

 

- Bem... Bem, se ele é um pouco estranho, não é culpa dele.

 

- A Hermione ainda não desistiu daquela idéia maluca de ajudar os  elfos-domésticos - disse Rony.

 

- Não é uma idéia maluca fazê-los ter auto-estima e lhes dar  direitos. E não sou apenas eu, Dumbledore diz que nós devemos ser legais com o Kreacher.

 

- Sei, sei - disse Rony. - Vamos lá que eu estou morrendo de fome.

 

Eles saíram pela porta mas antes que pudessem descer as escadas...

 

- Esperem - disse Rony, estendendo o braço para parar Harry e Mione. - Eles ainda estão no salão, talvez possamos ouvir alguma coisa.

 

Os três olharam cautelosamente para baixo. O salão abaixo estava cheio de bruxas e bruxos, incluindo toda a escolta de Harry. Eles estavam cochichando muito animados. Bem no centro do grupo Harry pode ver aquela figura sombria, seu mais detestado professor em Hogwarts, professor Snape. Ele estava muito interessado em saber o que Snape estava fazendo na  Ordem da Fênix...

 

E Harry viu um pedaço de faixa colorida descendo em frente a seus  olhos. Olhou para cima e viu Fred e Jorge no andar de cima, baixando  cautelosamente as Orelhas Extensíveis para ouvir as pessoas abaixo. Um momento depois, entretanto, todos eles começaram a se mover pela porta da frente e  ficaram fora de visão.

 

- Droga - Harry ouviu Fred sussurrar enquanto puxava de volta as  Orelhas Extensíveis.

 

Eles ouviram a porta abrir e depois fechar.

 

- Snape nunca come aqui - disse Rony para Harry. - Vamos lá.

 

- E não esqueça de manter sua voz baixa no salão, Harry - sussurrou  Mione.

 

Ao passarem pela galeria de cabeças de elfos-domésticos que estava na parede eles viram Lupin, a Sra Weasley e Tonks na porta da frente,  selando com mágica as muitas fechaduras agora que todos tinham partido.

 

- Nós vamos jantar na cozinha - sussurrou Sra. Weasley, juntando-se a  eles no pé da escada. - Harry, querido, se você for na ponta dos pés através do salão, fica atrás dessa porta aqui...

 

CRASH!

 

- Tonks! - berrou Sra. Weasley desesperada, virando para olhar atrás dela.

 

- Eu sinto muito! - falou Tonks, que estava deitada no chão. - Foi aquele guarda-chuva estúpido, é a segunda vez que ele me pega...

 

Mas o resto das palavras foi abafado por um terrível som, insuportável. E vieram gritos de uma pintura que estava atrás da cortina, como se fosse uma tortura, apesar de ser um quadro, parecia muito realista. Com esse barulho, diversas outras pinturas acordaram e começaram a gritar também, tão alto que machucava os tímpanos. Harry colocou as mãos sobre as orelhas para tentar diminuir um pouco o sofrimento. Lupin e a Sra Weasley correram e tentaram fechar as cortinas sobre a pintura de uma velha que estava gritando mas quando foram chegando perto ela gritou ainda mais alto e começou a xingá-los.

 

"Escória. Nojentos. Produtos da sujeira e imundice. Aberrações, sumam desse lugar. Quem permitiu que vocês entrassem na casa dos meus pais..."

 

Tonks se desculpou muitas e muitas vezes, a Sra. Weasley abandonou a tentativa de fechar as cortinas e correu pelo salão, batendo em todas as outras pinturas com sua varinha e um homem com um longo cabelo negro veio até a porta e encarou Harry.

 

- Cale a boca, sua bruxa velha e horrível, cale-se - gritou ele, cerrando as cortinas que a Sra. Weasley tinha abandonado.

 

O rosto da velha mulher empalideceu.

 

- Vocêêêêêêêêêê! - berrou ela, seus olhos saltaram ao ver o homem.

 

- Traidor, abominação, vergonha da minha carne!

 

- Eu disse, cale-se! - gritou o homem, e com um grande esforço, Lupin correu e fechou as cortinas novamente.

 

O grito da velha bruxa silenciou. Afastando os cabelos de cima de seus olhos, o padrinho de Harry, Sirius, voltou a olhar para ele.

 

- Olá Harry - disse ele. - Vejo que você se encontrou com minha mãe.

 

 

A ORDEM DA FÊNIX

- Sua...?

 

- Minha querida e velha mãe, sim - disse Sirius. - Nós estamos tentando mantê-la calma há um mês mas achamos que ela colocou um Feitiço Fixador Permanente no fundo da pintura. Vamos descer as escadas, rápido, antes que todos eles acordem novamente.

 

- Mas o que um retrato da sua mãe está fazendo aqui? - perguntou Harry, confuso, enquanto passava pela porta do salão e deixava e seguia por um lance de escadas com estreitos degraus de pedra, os outros bem atrás deles.

 

- Ninguém disse a você? Essa era a casa dos meus pais. Mas eu sou o último da família Black que restou, então ela é minha agora. Eu a ofereci a Dumbledore para ser o Quartel-General, era a única coisa útil que eu estava apto a fazer.

 

Harry, que esperava uma recepção melhor, notou quão severa e amargurada a voz de Sirius soava. Ele seguiu seu padrinho até o fim dos degraus e através de uma porta que levava à cozinha do porão.

 

Ela era pouco menos sombria que o salão superior, uma sala cavernosa com grosseiras paredes de pedra. A maior parte da luz estava vindo de uma grande tocha na extremidade da sala. Uma nuvem de fumaça pairava no ar, através da qual as ameaçadoras formas de frigideiras e panelas de ferro se tornavam gigantescas. Muitas cadeiras foram amontoadas dentro da sala para a reunião e uma longa mesa de madeira ficava no meio delas, coberta por rolos de pergaminho, taças, garrafas de vinho vazias, e um amontoado do que aparentava ser trapos. O Sr. Weasley e seu filho mais velho, Gui, estavam conversando calmamente com suas cabeças juntas no fim da mesa.

 

A Sra. Weasley limpou a garganta. Seu marido, um magro, calvo, homem ruivo de óculos, olhou em volta e pôs-se de pé com um salto.

 

- Harry! - disse o Sr Weasley, apressando-se para cumprimentá-lo, e apertou sua mão com vigor. - Que bom ver você!

 

Por cima do seu ombro Harry viu Gui, que ainda usava seu longo cabelo amarrado como rabo-de-cavalo, enrolando apressadamente os pergaminhos que haviam sido deixados na mesa.

 

- Fez uma boa viagem, Harry? - perguntou Gui, tentando juntar doze rolos de pergaminho de uma vez. - Olho-Tonto não te fez vir por Greenland, então?

 

- Ele tentou - disse Tonks, caminhando para ajudar Gui e imediatamente derrubou uma vela no último pedaço de pergaminho. - Oh, não – desculpe...

 

- Aqui, querida -, disse a Sra. Weasley, parecendo irritada, e ela consertou o pergaminho com um toque de sua varinha. No brilho da luz causado pelo feitiço da Sra. Weasley Harry pôde ver de relance o que parecia ser a planta de uma construção.

 

A Sra. Weasley percebeu o olhar dele. Ela apanhou a planta e a colocou nos braços já sobrecarregados de Gui.

 

- Esse tipo de coisa deveria ser retirada logo após o fim das reuniões - improvisou ela, antes de se dirigir a um velho guarda-louça do qual começou a retirar pratos para o jantar.

 

Gui pegou sua varinha, murmurou, "Evanesce!" e os rolos de pergaminho desapareceram.

 

- Sente-se, Harry - disse Sirius. - Você se encontrou Mundungus, não foi?

 

A coisa que Harry pensou ser uma pilha de trapos deu um prolongado e gemido ronco, e então acordou, sacudindo-se.

 

- Alguém disse meu nome? - Mundungus murmurou, sonolento. - Eu concordo com Sirius... - ele levantou no ar uma mão muito suja como se tivesse votando, seus debilitados, avermelhados olhos desfocaram.

 

Gina sorriu.

 

- A reunião acabou, estrume - disse Sirius, enquanto todos sentavam ao redor dele na mesa. - Harry chegou.

 

- É? - disse Mundungus, olhando totalmente sofrível para Harry através do seu assanhado cabelo avermelhado. - Sim... Você está bem, Harry?

 

- Sim - disse Harry.

 

Mundungus tateou nervosamente seus bolsos, ainda encarando Harry, e puxou um cachimbo preto meio sujo. Ele o colocou na boca, acendeu a ponta com sua varinha e deu uma boa tragada. Grandes nuvens de uma fumaça esverdeada o envolveram em poucos segundos.

 

- Devo desculpas a você - rosnou uma voz do meio da fumaça fedorenta.

 

- Pela última vez, Mundungus - repreendeu a Sra. Weasley -, você poderia fazer o favor de não fumar essa coisa na cozinha, especialmente quando nós estivermos na hora de comer!

 

- Ah - disse Mundungus. - Certo. Desculpe, Molly.

 

A nuvem de fumaça desapareceu quando Mundungus guardou seu cachimbo de volta no bolso, mas um cheiro amargo de coisa queimada permaneceu no ar.

 

- E se você quiser jantar antes da meia-noite eu vou precisar de uma ajudinha – a Sra. Weasley disse para as pessoas na sala. - Não, você pode ficar onde está, Harry, querido, você teve uma longa viagem.

 

- O que eu posso fazer, Molly? - disse Tonks com entusiasmo, saltando adiante.

 

A Sra. Weasley hesitante, olhou apreensiva.

 

- Er... Não, está tudo bem, Tonks, você precisa descansar também, você já fez muito por hoje.

 

- Não, não, eu quero ajudar! - disse Tonks claramente, derrubando uma cadeira enquanto ela acelerava em direção ao guarda-louça, onde Gina estava pegando os talheres.

 

Logo uma porção de facas pesadas estavam cortando carne e vegetais em sua própria harmonia, supervisionadas pelo Sr. Weasley, enquanto a Sra. Weasley mexia um caldeirão pendurado acima do fogo e os outros pegavam pratos, mais taças e comida da despensa. Harry foi deixado na mesa com Sirius e Mundungus, que ainda estava vacilando em sua melancolia.

 

- Encontrou-se com a velha Figg ultimamente? - perguntou ele.

 

- Não - disse Harry, - Eu não encontrei ninguém.

 

- Veja, eu não havia te abandonado - disse Mundungus, inclinando-se para frente, com um tom argumentativo em sua voz -, mas eu tinha uma oportunidade de negócios...

 

Harry sentiu algo roçando contra seus joelhos e afastou-se, mas era apenas Bichento, o gato avermelhado de pernas curvas da Hermione, enroscou-se em tono das suas pernas, ronronando, então pulou no colo de Sirius e se acomodou lá. Sirius o acariciou distraidamente atrás das orelhas enquanto ele se virava, ainda com sua cara amargurada, para Harry.

 

- Teve um bom verão?

 

- Não, ele foi nojento - disse Harry.

 

Pela primeira vez, alguma coisa como um leve sorriso surgiu no rosto de Sirius.

 

- Não sei sobre o que você está se queixando a mim.

 

- O quê? - disse Harry, incrédulo.

 

- Pessoalmente, eu recebi de bom grado o ataque dos dementadores. Um excessivo esforço para minha alma que quebrou a monotonia gentilmente. Você acha que foi uma coisa ruim, no entanto você foi capaz de se safar e ao menos esticou suas pernas e entrou em algumas brigas... Eu estive preso aqui dentro por um mês inteiro.

 

- Por que isso? - perguntou Harry, franzindo a testa.

 

- Porque os bruxos do Ministério da Magia ainda estão atrás de mim e Voldemort vai saber tudo sobre eu me tornar um animago agora, Rabicho dirá a ele, então meu grande disfarce é inútil. Não há muito que eu possa fazer pela Ordem da Fênix... Ou então Dumbledore perceberia.

 

Havia alguma coisa como uma leve diminuição no tom de voz com o qual Sirius expressou o nome de Dumbledore que Harry percebeu, também não estava muito feliz com o diretor. Sentiu um repentino aumento na afeição que tinha por seu padrinho.

 

- 'Ao menos você sabe o que irá acontecer - disse ele estimulado.

 

- Ah claro - disse Sirius com sarcasmo. - Ouvindo os relatórios de Snape, tendo que aceitar todas as pistas falsas que ele está trazendo aqui arriscando a vida enquanto eu estou sentado tendo umas férias bem confortáveis... Me perguntando como anda a limpeza...

 

- Que limpeza? - perguntou Harry.

 

- Tentando fazer esse lugar se tornar uma habitação humana - disse Sirius, balançando a mão pela triste cozinha. - Ninguém viveu aqui nos últimos dez anos, não desde que minha querida mãe morreu, a menos que você conte com o velho elfo-doméstico dela, e ele é maluco, nunca limpou nada todo esse tempo.

 

- Sirius - disse Mundungus, que parecia não ter prestado nenhuma atenção à conversa, mas esteve examinando de perto uma taça vazia. - Isso é prata de verdade, amigo?

 

- Sim - disse Sirius, olhando para ele entediado. - A melhor prata forjada por duendes no século XV, ornamentado como brasão da família Black.

 

- Ela ficou ofuscada, de qualquer forma - murmurou Mundungus, polindo a taça com seu punho.

 

- Fred, Jorge, NÃO, APENAS CARREGEM - gritou a Sra Weasley.

 

Harry, Sirius e Mundungo olharam ao redor e, numa fração de segundos, eles mergulharam para longe da mesa. Fred e Jorge haviam enfeitiçado um grande caldeirão de cozido, uma jarra de cerveja-amanteigada e uma pesada tábua de madeira de cortar pão, com faca e tudo mais, para empurrá-los pelo ar em direção a eles. O cozido derramou por cima da mesa e parou um pouquinho antes de chegar até a outra ponta, deixando uma grande queimadura na superfície de madeira; a jarra de cerveja-amanteigada caiu e quebrou, derramando o conteúdo por todo o lugar; a faca de cortar pão escorregou da tábua e aterrissou, com a ponta para baixo, agitando-se de

 

forma ameaçadora, exatamente onde a mão de Sirius estava segundos atrás.

 

- PELO AMOR DE DEUS! - gritou a Sra Weasley. - NÃO HAVIA NECESSIDADE DISSO. JÁ CHEGA, ESTOU FARTA. SÓ PORQUE AGORA VOCÊS TÊM PERMISSÃO DE USAR MAGIA NÃO DEVEM FICAR CHICOTEANDO SUAS VARINHAS POR QUALQUER COISA.

 

- Nós só queríamos apressar um pouco as coisas! - disse Fred, apressando-se para puxar a faca de pão da mesa. - Desculpe, Sirius, amigo... Não tinha a intenção...

 

Harry e Sirius estavam ambos rindo; Mundungo, que tinha caído de sua cadeira, estava praguejando enquanto se levantava; Bichento deu um assobio furioso e correu para baixo do guarda-louças, de onde seus grandes olhos amarelos brilhavam no escuro.

 

- Meninos - disse o Sr. Weasley, erguendo novamente o cozido de volta ao centro da mesa -, sua mãe tem razão, vocês deveriam mostrar senso de responsabilidade agora que chegaram na idade...

 

- Nenhum dos seus irmãos causou esse tipo de problema! - enfureceu-se a Sra. Weasley enquanto ela batia uma nova jarra de cerveja-amanteigada na mesa, derramando quase tanto quando da outra vez. - Gui nunca sentiu necessidade de aparatar a cada passo! Carlinhos nunca enfeitiçou tudo o que encontrava! Percy...

 

Ela parou de repente, tomando fôlego e olhando assustada para seu marido, que ficou com olhar grosseiro repentinamente.

 

- Vamos comer - disse Gui rapidamente.

 

- Parece maravilhoso, Molly - disse Lupin, colocando o cozido no prato dela com uma concha e entregando por sobre a mesa.

 

Por alguns minutos houve um silêncio exceto pelo ruído dos pratos e talheres e o ranger das cadeiras quando eles se inclinavam sobre a comida. Então a Sra Weasley se virou para Sirius.

 

- Eu pretendia dizer a você, Sirius, tem algo preso naquela escrivaninha do quarto, que fica se debatendo e sacudindo. Claro, poderia ser apenas um diabrete, mas pensei em pedir a Alastor para dar uma olhada antes de deixá-lo sair.

 

- Como quiser - disse Sirius com indiferença.

 

- As cortinas de lá também estão cheias de doxies - complementou a Sra. Weasley. - Eu acho que deveríamos tentar cuidar delas amanhã.

 

- Eu resolvo isso - disse Sirius. Harry ouviu sarcasmo em sua voz, mas ele não tinha certeza se alguém mais o faria.

 

Em frente a Harry, Tonks estava divertindo Hermione e Gina transformando seu nariz a cada colherada. Revirando os olhos a cada vez com a mesma expressão penosa que fez quando estava no quarto de Harry, seu nariz aumentou e tomou forma como a de um bico que lembrava o de Snape, encolheu para o tamanho de um cogumelozinho e então fez germinar uma grande quantidade de pêlos da cada uma das narinas. Aparentemente esse era um divertimento comum na hora das refeições, porque Hermione e Gina logo estavam pedindo seus narizes favoritos.

 

- Faça aquele que parece um focinho de porco, Tonks.

 

Tonks fez sem gostar e Harry, olhando pra ela, teve a ligeira impressão que uma cópia feminina de Duda estava sorrindo para ele do outro lado da mesa.

 

O Sr. Weasley, Gui e Lupin estavam tento uma intensa discussão sobre duendes.

 

- Eles ainda não estão desistindo de nada - disse Gui. - Eu ainda não posso trabalhar acreditando eles ou não que ele voltou. Certamente, eles preferem não tomar parte nisso. Sabe, ficar longe.

 

- Eu tenho certeza que eles nunca se unirão a Você-Sabe-Quem - disse o Sr. Weasley, balançando a cabeça. - Eles sofreram perdas também; lembra-se daquela família duende assassinada da outra vez, em algum lugar perto de Nottingham?

 

- Eu acho que depende do que eles oferecerem - disse Lupin. - E eu não estou falando sobre ouro. Se eles oferecerem a liberdade que nós negamos a eles durante séculos ficarão tentados. Você ainda não teve sorte com Ragnok, Gui?

 

- Ele está se sentindo um pouco antibruxo no momento - disse Gui -, ainda não esqueceu a raiva dos negócios de Bagman, contou que o Ministério fez uma cobertura, aqueles duendes nunca conseguiram dinheiro dele, você sabe...

 

Uma tempestade de risos vindos do centro da mesa abafou o restante das palavras de Gui. Fred e Jorge, Rony e Mundungo estavam girando em torno de suas cadeiras.

 

- ... e então - engasgou-se Mundungo, com lágrimas rolando em seu rosto -, e então, se vocês acreditam, ele me disse, ele disse "aqui, Dung, onde você conseguiu todos aqueles sapos? Porque algum filho da mãe roubou todos os meus!". E eu disse, "roubaram todos os seus sapos, Will? E você vai querer mais alguns, é?". E se vocês acreditam em mim, jovens, o estúpido gárgula comprou todos os sapos que eu tinha roubado dele de volta e pagou pelos mesmos sapos que já eram dele...

 

- Eu acho que não precisamos ouvir mais nenhuma história sobre seus negócios, muito obrigado Mundungo - disse a Sra. Weasley com severidade, enquanto Rony caía da mesa, uivando de tanto rir.

 

- Imploro seu perdão, Molly - disse Mundungo imediatamente, secando os olhos e piscando para Harry. - Mas você sabe, Will os tinha roubado de Warty Harris, então eu não estava fazendo algo realmente errado.

 

- Eu não sei onde você aprendeu sobre certo e errado, Mundungo, mas acho que você perdeu algumas lições essenciais - disse a Sra Weasley com frieza.

 

Fred e Jorge enterraram suas caras nas taças de cerveja-amanteigada, Jorge estava soluçando. Por alguma razão, a Sra. Weasley jogou um olhar bem asqueroso em direção a Sirius antes de se levantar e trazer um grande pudim. Harry olhou seu padrinho.

 

- Molly não aprova o comportamento de Mundungo - disse Sirius em voz baixa.

 

- Como foi que ele entrou na Ordem? - disse Harry, com bastante cautela.

 

- Ele é útil - murmurou Sirius. Conhece todas as trapaças... Bem, ele deveria, já que ele mesmo se vê como uma. Mas ele também é muito leal a Dumbledore, que o ajudou a sair de um aperto certa vez. É bom ter alguém como Dung por perto, ele ouve coisas que nós deixamos passar. Mas Molly acha que convidá-lo para o jantar é ir longe demais. Ela não o perdoou por ter falhado no trabalho quando deveria estar vigiando você.

 

Depois de três fatias de pudim o cinto na calça de Harry parecia bem apertado e desconfortável (mesmo essa calça já tendo sido de Duda). Quando soltou a colher havia uma calma geral na conversa: o Sr. Weasley estava escorado na sua cadeira, olhando satisfeito e relaxando; Tonks estava bocejando abertamente, seu nariz agora já estava de volta ao normal; Gina, que tinha atraído Bichento de baixo do guarda-louças, estava sentada no chão com as pernas cruzadas, jogando a rolha da garrafa de cerveja-amanteigada  para ele caçar.

 

- É quase hora de dormir, eu acho - disse a Sra. Weasley com um bocejo.

 

- Ainda não, Molly - disse Sirius, empurrando o prato vazio e tornando a olhar para Harry. - Você sabe, eu estou surpreso com você. Eu pensei que a primeira coisa que você iria me perguntar eram coisas sobre Voldemort.

 

A atmosfera na sala mudou com uma velocidade que Harry associou à chegada dos dementadores. Onde segundos antes estava sonolento e relaxado, agora estava alerta e até tenso. Um arrepio correu ao redor da mesa ao mencionar o nome de Voldemort. Lupin, que estava quase

 

tomando um gole de vinho, baixou sua taça vagarosamente, e olhou desconfiado.

 

- Eu perguntei! - disse Harry indignado. - Eu perguntei a Rony e Mione mas eles disseram que não podiam entrar na Ordem, então...

 

- E eles estão completamente certos - disse a Sra. Weasley. - Vocês são muito jovens.

 

Ela estava sentada em sua cadeira, os punhos fechados contra os braços da cadeira, sem nenhum sinal de cansaço ou sono.

 

- Desde quando alguém precisa estar na Ordem da Fênix para fazer perguntas? - perguntou Sirius. - Harry estava preso na casa dos trouxas o mês inteiro. Ele tem o direito de saber o que está acontecendo...

 

- Espere ai! - interrompeu Jorge.

 

- Por que é que Harry vai ter suas perguntas respondidas? - disse Fred furioso.

 

- Nós estivemos tentando arrancar alguma coisa de você o mês inteiro e você nem ao menos nos disse uma coisinha sequer - disse Jorge.

 

- "Vocês são muito jovens, vocês não estão na Ordem" - disse Fred, em um tom de voz bastante alto que soou estranhamento como o da sua mãe. – Harry também não tem idade!'

 

- Não é minha culpa não ter dito o que a Ordem está fazendo - disse Sirius com bastante calma -, foi decisão dos seus pais. Harry, no entanto...

 

- Não cabe a você decidir o que é bom para Harry! - disse Sra Weasley com severidade. A expressão de seu rosto que normalmente parecia tranqüila desta vez estava assustadora. - Você não esqueceu o que Dumbledore disse, eu suponho?

 

- Qual parte? - perguntou Sirius educadamente, mas com ar de um homem que se prepara para uma luta.

 

- A parte sobre não dizer a Harry mais do que ele precisa saber - disse a Sra. Weasley, colocando uma grande ênfase nas três últimas palavras.

 

As cabeças de Rony, Hermione, Fred e Jorge giravam de Sirius para a Sra. Weasley como se estivessem assistindo uma partida de tênis. Gina estava ajoelhada entre uma pilha de rolhas de garrafa, observando a conversa com sua boca levemente aberta. Os olhos de Lupin estavam fixos em Sirius.

 

- Eu não tenho intenção de dizer a ele mais do que ele precisa saber, Molly - disse Sirius. - Mas como ele é o único que viu que Voldemort voltou - novamente houve um tremor ao redor da mesa quando o nome foi pronunciado - ele tem mais direito do que a maioria...

 

- Ele não é um membro da Ordem da Fênix! - disse Sra. Weasley. - Ele tem apenas quinze anos e...

 

- E ele pode ser tratado como qualquer um que seja da Ordem - disse Sirius - e até melhor do que alguns.

 

- Ninguém está negando o que ele fez! - disse a Sra. Weasley, sua voz aumentando, suas mãos tremendo nos braços da cadeira. - Mas ele é apenas...

 

- Ele não é uma criança! - disse Sirius impaciente.

 

- Ele também não é um adulto! - disse a Sra. Weasley, com o rosto já corando. - Ele não é Tiago, Sirius!

 

- Eu sei perfeitamente quem ele é, obrigado, Molly - disse Sirius com frieza.

 

- Eu não tenho certeza disso! - disse a Sra. Weasley. - Às vezes, o jeito com que você fala sobre ele, é como se você pensasse que tem seu melhor amigo de volta!

 

- E o que há de errado nisso? - disse Harry.

 

- O que há de errado, Harry, é que você NÃO é o seu pai, mesmo que você possa parecer com ele! - disse a Sra Weasley, seus olhar ainda perfurando Sirius. - Você ainda está na escola e adultos responsáveis não deveriam esquecer disso!

 

- Você quer dizer que eu sou um padrinho irresponsável? - reclamou Sirius, com sua voz também aumentando.

 

- Penso que você sabe como agir imprudentemente, Sirius, e é por isso que Dumbledore continua relembrando que você deve ficar em casa e...

 

- Vamos deixar minhas instruções de Dumbledore fora disso, se você pode me fazer esse favor! - disse Sirius em voz alta.

 

- Arthur! - disse a Sra. Weasley contornando seu marido. - Arthur, me ajude!

 

O Sr. Weasley não falou nada. Ele tirou os óculos e os limpou cuidadosamente em suas vestes, sem olhar para sua esposa. Apenas quando ele os recolocou em seu nariz ele respondeu.

 

- Dumbledore sabe que as coisas estão mudando, Molly. Ele aceita que Harry precisa ser informado, até certo ponto, agora que vai ficar no Quartel-General.

 

- Sim, mas há uma diferença entre isso e convidá-lo a perguntar qualquer coisa que ele queira!

 

- Pessoalmente - disse Lupin calmamente, finalmente tirando a atenção que estava prestando a Sirius, e a Sra. Weasley se virou rapidamente para ele, esperançosa de que tivesse ganhado um aliado -, eu acho melhor que Harry saiba dos fatos. Não todos os fatos, Molly, mas de maneira geral. Por nós do que por uma versão distorcida... Dos outros.

 

Sua expressão era doce mas Harry teve a certeza que Lupin, pelo menos, sabia que as Orelhas Extensíveis tinham sobrevivido à limpeza da Sra. Weasley.

 

- Bem - disse Sra. Weasley, respirando fundo e olhando ao redor da mesa por um apoio que não veio. - Bem... Eu vejo que fui derrotada. Eu vou apenas dizer isso: Dumbledore deve ter tido suas razões para não querer que Harry soubesse demais e falando como alguém que tem os melhores interesses sobre o Harry em seu coração...

 

- Ele não é seu filho - disse Sirius calmamente.

 

- Mas é como se fosse - disse a Sra. Weasley ferozmente. - Quem mais ele tem?

 

- Ele tem a mim!

 

- Sim - disse Sra. Weasley, com seus lábios enrolando -, o fato é, foi bem difícil pra você cuidar dele enquanto estava trancado em Azkaban, não foi?

 

Sirius começou a se levantar da cadeira.

 

- Molly, você não é a única pessoa nessa mesa que se importa com Harry - disse Lupin com severidade. - Sirius, sente-se.

 

O lábio inferior da Sra. Weasley estava tremendo. Sirius afundou novamente em sua cadeira, com o rosto pálido.

 

- Eu acho que Harry deve dar uma opinião sobre isso - continuou Lupin. - Ele já é grande o suficiente para decidir por ele mesmo.

 

- Eu quero saber o que está acontecendo - disse Harry imediatamente.

 

Ele não olhou para a Sra. Weasley. Estava comovido com o que ela disse sobre ser como um filho  mas ele também estava com suas mimas. Sirius estava certo, ele não era uma criança.

 

- Muito bem - disse a Sra. Weasley, sua voz explodindo. – Gina, Rony, Hermione, Fred, Jorge, eu quero vocês fora dessa cozinha, agora.

 

Houve um ruído instantaneamente.

 

- Nós temos idade para isso! - gritaram Fred e Jorge juntos.

 

- Se Harry pode por que eu não posso? - berrou Rony.

 

- Mamãe, eu quero ouvir! - choramingou Gina.

 

- NÃO! - gritou a Sra. Weasley, ficando de pé com os olhos faiscando. - Eu proíbo definiti...

 

- Molly, você não pode repreender Fred e Jorge - disse o Sr Weasley com muito cansaço. - Eles são maiores de idade apesar de ainda estarem na escola. Mas  eles são legalmente adultos agora.

 

A Sra Weasley agora tinha o rosto vermelho.

 

- Eu... Ah, então está bem, Fred e Jorge podem ficar, mas Rony...

 

- Harry vai contar tudo a mim e a Hermione de qualquer forma! - disse Rony irradiante. - Você vai, não vai?' - complementou incerto, olhando Harry.

 

Por um segundo Harry pensou em dizer a Rony que não o diria uma palavra sequer, que ele poderia experimentar ficar no escuro e ver como se sentiria. Mas esse impulso asqueroso sumiu quando eles se entreolharam.

 

- Claro que eu vou - disse Harry.

 

Rony e Hermione sorriram.

 

- Muito bem! - gritou Sra. Weasley. - Ótimo! Gina, PRA CAMA!

 

Gina não ficou quieta. Eles podiam ouvir sua fúria e irritação por sua mãe por toda a escadaria até que os gritos da Sra. Black se uniram ao barulho. Lupin correu até o retrato para restaurar a calma e só depois que ele retornou, fechando a porta da cozinha e tomando seu lugar na mesa

 

outra vez, foi que Sirius falou.

 

- Ok, Harry... O que você quer saber?

 

Harry respirou fundo e fez a pergunta que mais o obcecou durante todo o mês.

 

- Onde está Voldemort? - disse ele, ignorando os calafrios e recuos que surgiram com o nome. - O que ele está fazendo?  Eu estive tentando ouvir o noticiário dos trouxas e não há nada acontecendo que pareça coisa dele ainda, nenhuma morte esquisita ou algo assim.

 

- É porque ainda não houve nenhuma morte esquisita ainda - disse Sirius -, não que nós saibamos, de alguma forma... Nós até que sabemos bastante.

 

- Mas do que ele pensa que nós sabemos - disse Lupin.

 

- Como foi que ele parou de matar pessoas? - perguntou Harry. Ele sabia que Voldemort tinha matado mas de uma vez no último ano.

 

- Porque ele não quer chamar atenção - disse Sirius. - Seria perigoso para ele. Seu retorno não foi da forma que ele esperava, você entende. Ele se atrapalhou.

 

- Ou de preferência, você o atrapalhou - disse Lupin, com um sorriso satisfeito.

 

- Como? - perguntou Harry perplexo.

 

- Você não deveria ter sobrevivido! - disse Sirius. Ninguém além dos seus Comensais da Morte deveria saber que ele tinha voltado. Mas você sobreviveu para testemunhar.

 

- E a última pessoa que ele queria que fosse alertado sobre seu retorno no momento que ele voltasse era Dumbledore - disse Lupin. - E você quis se certificar que Dumbledore soubesse imediatamente.

 

- Como isso ajudou? - perguntou Harry.

 

- Você está me gozando? - disse Gui incrédulo. - Dumbledore é o único de quem Você-Sabe-Quem tem medo!

 

- Graças a você, Dumbledore pode convocar a Ordem da Fênix cerca de uma hora após o retorno de Voldemort - disse Sirius.

 

- Então o que a Ordem está fazendo? - disse Harry, olhando em volta para todos eles.

 

- Trabalhando duro para nos certificarmos que Voldemort não possa levar adiante seus planos - disse Sirius.

 

- Como vocês sabem quais são os planos dele? - perguntou Harry rapidamente.

 

- Dumbledore teve uma idéia bem esperta - disse Lupin - e as idéias de Dumbledore normalmente são bem precisas.

 

- Então o que fez Dumbledore avaliar o plano dele?

 

- Bem, primeiramente ele quer reconstruir seu exército - disse Sirius. – Nos dias antigos ele tinha um imenso número sob seu comando: bruxas e bruxos que ameaçava ou enfeitiçava para seguí-lo, seus fieis Comensais da Morte, uma grande variedade de criaturas da escuridão. Você ouviu ele

 

planejando recrutar os gigantes; bem, eles são apenas um dos grupos que está procurando. Ele certamente não tentará invadir o Ministério da Magia com apenas uma dúzia de Comensais da Morte.

 

- Então vocês estão tentando impedi-lo de conseguir mais seguidores?

 

- Estamos fazendo o melhor possível - disse Lupin.

 

- Como?

 

- Bem, a principal coisa é tentar convencer a maior quantidade de pessoas possível de que Você-Sabe-Quem realmente retornou, para deixá-los alerta - disse Gui. - Mas está se tornando difícil, entretanto.

 

- Por quê?

 

- Por causa da atitude do Ministério - disse Tonks. - Você viu Cornélio Fudge depois que Você-Sabe-Quem retornou, Harry. Bem, ele não mudou sua posição de todo. Ele absolutamente se recusa a acreditar que aconteceu.

 

- Mas por quê? - disse Harry desesperado. – Por que ele está sendo tão estúpido? Se Dumbledore...

 

- Ah, bem, você apontou o problema - disse p Sr. Weasley com um sorriso amargo.- Dumbledore.

 

- Fudge está assustado com ele, você entende - disse Tonks com tristeza.

 

- Assustado com Dumbledore? - disse Harry com incredulidade.

 

- Assustado com o que ele está disposto a fazer - disse o Sr. Weasley. – Fudge pensa que Dumbledore está conspirando para derrubá-lo. Ele acha que Dumbledore quer ser o Ministro da Magia.

 

- Mas Dumbledore não quer...

 

- Claro que não quer - disse o Sr. Weasley. - Ele nunca quis trabalhar no  Ministério, mesmo que diversas pessoas quisessem que ele aceitasse quando Millicent Bagnold se aposentou. Fudge veio para o cargo ao invés dele, mas ele nunca esqueceu o quanto apoio da população Dumbledore tinha, mesmo nunca tendo exercido o cargo.

 

- No fundo, Fudge sabe que Dumbledore é muito mais esperto do que ele é, um bruxo muito mais poderoso, e nos dias atuais ele sempre esteve pedindo ajuda e conselhos a Dumbledore - disse Lupin. - Mas parece que ele começou a gostar do poder e que está muito mais confiante. Ele adora ser o Ministro da Magia e está conseguindo convencer a ele mesmo que é o mais esperto e Dumbledore simplesmente criando problemas para seu propósito.

 

- Como ele pode pensar isso? - disse Harry furioso. - Como ele pode pensar que Dumbledore iria criar tudo isso... Que eu criei tudo isso?

 

- Porque aceitando que Voldemort está de volta significaria problema, como se o Ministério não teve a competência durante quase quatorze anos - disse Sirius amargamente. - Fudge apenas não consegue encarar isso. É muito mais confortável convencer ele mesmo de que Dumbledore está mentindo para desestabilizá-lo.

 

- Veja o problema - disse Lupin. - Enquanto o Ministério insiste que não há nada a temer sobre Voldemort é difícil convencer as pessoas que ele está de volta, especialmente quando elas realmente não querem acreditar nisso em primeiro lugar. O que mais, o Ministério está apoiando fortemente o Profeta Diário a não publicar qualquer coisa do que eles estão chamando de rumores publicitários de Dumbledore, então a maior parte da comunidade bruxa está completamente inconsciente de que algo aconteceu, o que os faz alvos fáceis para os Comensais da Morte se eles estiverem usando a Maldição Imperius.

 

- Mas vocês estão dizendo as pessoas, não estão? - disse Harry, olhando para o Sr Weasley, Sirius, Gui, Mundungo, Lupin e Tonks. - Vocês estão fazendo as pessoas saberem que ele voltou?

 

Todos sorriram sem graça.

 

- Bem, como todos acham que eu sou um assassino maluco e como o  Ministério colocou uma recompensa de dez mil galeões como prêmio por minha cabeça eu dificilmente posso passear pela rua e distribuir folhetos, posso? - disse Sirius friamente.

 

- E eu não sou um convidado para jantar muito popular entre a maioria da comunidade - disse Lupin. - É um perigo ocupacional ser um lobisomem.

 

- Tonks e Arthur perderiam seus empregos no Ministério se começassem a falar sobre isso - disse Sirius -, e é muito importante para nós ter espiões dentro do Ministério, porque você pode apostar que Voldemort também terá.

 

- Nós temos conseguido convencer algumas pessoas, apesar de tudo – disse o Sr. Weasley. - Tonks, por exemplo. Ela era muito jovem para estar na Ordem da Fênix da última vez e ter Aurores do nosso lado é uma grande vantagem. Kingsley Shacklebolt está sendo um verdadeiro achado, também; ele está encarregado de caçar Sirius, então está dando ao Ministério informações de que Sirius está no Tibet.

 

- Mas se nenhum de vocês está divulgando que Voldemort está de volta... - Harry começou a dizer.

 

- Quem disse que nenhum de nós está divulgando? - disse Sirius.  – Por que você acha que Dumbledore está com tantos problemas?

 

- O que você quer dizer? - perguntou Harry.

 

- Eles estão tentando desonrá-lo - disse Lupin. - Você não viu o Profeta Diário da semana passada? Publicaram que ele tinha sido afastado da Presidência da Confederação Internacional de Bruxos porque estava ficando velho e perdendo a compreensão, mas isso não é verdade; ele foi

 

afastado pelo Ministério após ter feito o anúncio do retorno de Voldemort. Eles o rebaixaram do cargo de Bruxo Chefe em Wizengamont, que é a Corte Superma dos Bruxos, e estavam falando em retirar sua Ordem de Merlin, Primeira Classe, também.

 

- Mas Dumbledore diz que não se importa com o que eles estão fazendo desde que não tirem dele as figurinhas dos sapos de chocolate – disse Gui com um sorriso forçado.

 

- Isso não é engraçado - disse o Sr. Weasley com severidade. - Se ele continuar sendo desprezado pelo Ministério desse jeito pode acabar em Azkaban, e a última coisa que nós queremos é ter Dumbledore trancafiado. Enquanto Você-Sabe-Quem souber que Dumbledore está aqui fora e atento ao que está tramando ele vai ter que ir com cautela. Se Dumbledore estiver fora do caminho... Bem, Você-Sabe-Quem vai ter passe livre.

 

- Mas se Voldemort está tentando recrutar mais Comensais da Morte é  obrigatório avisar que ele voltou, não é? - perguntou Harry desesperado.

 

- Voldemort não passeia pelas casas das pessoas e bate nas suas portas, Harry - disse Sirius. - Ele engana,  azara e chantageia elas. Ele já tem prática de como agir em segredo. Em todo caso, reunir seguidores é apenas uma das coisas em que ele está interessado. Ele tem outros planos também, planos que pode pôr em prática bem rápido sem dúvida, e ele está se concentrando nesses no momento.

 

- O que mais ele quer além de seguidores? - perguntou Harry rapidamente.

 

Ele pensou ter visto Sirius e Lupin trocar o mais rápido dos olhares antes que Sirius respondesse.

 

- Coisas que ele só pode conseguir sendo discreto.

 

Quando Harry continuou a olhar surpreso, Sirius disse.

 

- Como uma arma. Alguma coisa que ele não tinha da última vez.

 

- Quando ele era poderoso antes?

 

- Sim.

 

- Que tipo de arma? - disse Harry. - Algo pior que a Avada Kedavra...?

 

- Já chega!

 

A Sra Weasley falou das sobras atrás da porta. Harry não tinha notado que ela estava de volta. Seus braços estavam cruzados e ela olhava furiosa.

 

- Eu quero vocês na cama, agora. Todos vocês - disse ela olhando para Fred, Jorge, Rony e Hermione.

 

- Você não pode mandar na gente... - começou Fred.

 

- Olhe para mim - resmungou a Sra Weasley. Ela estava tremendo levemente enquanto olhava Sirius. - Você deu a Harry toda a informação. Qualquer coisa a mais e você poderá também colocá-lo na Ordem imediatamente.

 

- Por que não? - disse Harry rapidamente. - Eu vou me unir, eu quero me unir, eu quero lutar.

 

- Não.

 

E não era a Sra Weasley que estava falando dessa vez, mas sim Lupin.

 

- A Ordem é composta apenas por bruxos maiores de idade - disse ele. - Bruxos que já terminaram a escola - disse quando Fred e Jorge abriram suas bocas. - Há perigos envolvidos os quais você não faz a mínima idéia, nenhum de vocês... Eu acho que Molly está certa, Sirius. Nós já falamos demais.

 

Sirius meio que encolheu os ombros mas não argumentou. A Sra Weasley chamou imperiosamente seus filhos e Hermione. Um por um eles levantaram e Harry, reconhecendo a derrota, fez o mesmo.

 

 

A ANTIGA E MUITO NOBRE FAMÍLIA BLACK

A Sra. Weasley os seguiu escada acima olhando desgostosa.

 

- Eu quero que todos vocês vão imediatamente para cama, sem conversa - disse ela quando eles chegaram ao primeiro andar. - Nós teremos um dia bem cansativo amanhã. Eu suponho que Gina está dormindo - disse para Hermione -, então tente não acordá-la.

 

- Dormindo, sim, tudo bem - disse Fred em voz baixa, depois que Hermione desejou boa noite e eles foram subindo para o andar seguinte. - Se Gina não estiver acordada esperando por Hermione para contar a ela tudo o que foi dito lá em baixo eu sou um verme-cego...

 

- Tudo bem, Rony, Harry - disse a Sra. Weasley no segundo andar, indicando o quarto deles e os fazendo entrar. - Já pra cama.

 

- Boa noite - Harry e Rony disseram aos gêmeos.

 

- Durma bem - disse Fred, piscando o olho.

 

A Sra. Weasley fechou a porta do quarto de Harry com uma batida forte. O quarto parecia, se é que poderia, ainda mais úmido e obscuro que à primeira vista. O retrato em branco na parede agora estava respirando bem lenta e profundamente, como se seus ocupantes invisíveis estivessem dormindo.

 

Harry vestiu seu pijama, tirou os óculos e subiu em sua cama fria enquanto Rony jogava comida para as corujas em cima do armário de roupas para acalmar Edwiges e Pichitinho, que estavam fazendo barulho e batendo suas asas friamente.

 

- Nós não podemos deixá-las sair para caçar todas as noites - Rony explicou enquanto vestia seu pijama marrom. - Dumbledore não quer muitas corujas descendo no quarteirão, ele acha que isso pode parecer suspeito. Ah, sim... Eu esqueci...

 

Ele foi até a porta e colocou o ferrolho.

 

- Por que você está fazendo isso?

 

- Kreacher - disse Rony enquanto apagava a luz. - Na primeira noite que eu estava aqui ele entrou vagando as três da manhã. Confie em mim, você não vai querer acordar e encontrá-lo rondando seu quarto. De qualquer forma... - ele subiu na cama, assentou-se sob as cobertas e voltou a olhar Harry na escuridão; Harry pôde ver seu contorno na luz da lua que entrava pela janela suja. - O que você acha?

 

Harry não precisou perguntar a Rony sobre o que queria dizer.

 

- Bem, eles não nos disseram mais do que nós poderíamos ter imaginado, não foi? - disse ele, pensando em tudo que havia sido dito lá em baixo. - Eu acho que tudo o que eles disseram foi que a Ordem está tentando evitar que mais gente se junte a Vol... - houve uma rápida alteração na respiração de Rony. - ...demort - disse Harry com firmeza. - Quando você vai começar a usar o nome dele? Sirius e Lupin usam.

 

Rony ignorou esse último comentário.

 

- Sim, você tem razão - disse ele -, nós já sabemos praticamente tudo o que eles nos contaram, por usarmos as Orelhas Extensíveis. A única coisa nova foi...

 

Crack.

 

- OUCH!

 

- Fale baixo, Rony, ou mamãe vai voltar aqui.

 

- Vocês dois acabaram de Aparatar nos meus joelhos!

 

- Sim, bem, é mais difícil no escuro.

 

Harry viu os contornos embaçados de Fred e Jorge descendo da cama de Rony. Houve um gemido das molas e o colchão de Harry desceu alguns centímetros quando Jorge sentou perto de seus pés.

 

- Então, já chegou lá? - disse Jorge avidamente.

 

- A arma que Sirius mencionou? - disse Harry.

 

- Digamos, mais ou menos assim - disse Fred com bastante gosto, agora sentado próximo a Rony. - Nós não ouvimos sobre isso nas velhas Extensíveis, não foi?

 

- O que você imagina que seja? - disse Harry.

 

- Pode ser qualquer coisa - disse Fred.

 

- Mas não poderia ser algo pior que a Maldição Avada Kedavra, não é? - disse

 

Rony. - O que é pior que a morte?

 

- Talvez seja algo que pode matar muitas pessoas de uma vez - sugeriu Jorge.

 

- Talvez seja um meio particularmente doloroso de matar pessoas - disse Rony.

 

- Ele tem a Maldição Cruciatus para causar sofrimento - disse Harry. - Não precisa de nada mais eficiente que isso.

 

Houve uma pausa e Harry percebeu que os outros, assim como ele, estavam imaginando que horrores essa arma poderia cometer.

 

- Então quem você acha que sabe sobre ela agora? - perguntou Jorge.

 

- Eu espero que esteja do nosso lado - disse Rony, soando levemente nervoso.

 

- Se estiver, Dumbledore provavelmente a está guardando - disse Fred.

 

- Onde? - disse Rony rapidamente. - Hogwarts?

 

- Aposto que sim! - disse Jorge. - Foi lá que ele escondeu a Pedra Filosofal.

 

- Uma arma é bem maior que a Pedra, no entanto! - disse Rony.

 

- Não necessariamente - disse Fred.

 

- É, tamanho não é garantia de poder - disse Jorge. - Olhe para Gina.

 

- O que você quer dizer? - disse Harry.

 

- Você nunca recebeu um de seus Feitiços de Morcego-Fantasma, recebeu?

 

- Shhh! - disse Fred, meio levantado da cama. - Ouçam!

 

Eles se calaram. Passos estavam subindo a escada.

 

- Mamãe - disse Jorge, sem mais cerimônias houve um alto barulho e Harry sentiu o peso sumir da ponta de sua cama. Alguns segundos depois ouviram a tábua do piso ranger do lado de fora da porta do quarto; a Sra. Weasley estava simplesmente ouvindo para verificar se eles não estavam conversando.

 

Edwiges e Pichitinho piaram tristemente. A tábua do piso rangeu novamente e eles a ouviram subindo as escadas para verificar Fred e Jorge.

 

- Ela não confia em nós, você sabe - disse Roney arrependido.

 

Harry tinha certeza que ele não seria capaz de dormir; o início da noite tinha sido tão cheio de coisas para se pensar que ele esperava ficar acordado por horas moendo tudo aquilo. Queria continuar falando com Rony, mas a Sra. Weasley agora estava fazendo as tábuas rangerem novamente no andar deles, e depois que ela se foi ele pôde ouvir os outros tomando seus caminhos escada acima...

 

De fato, muitas criaturas cheias de pernas estavam andando para cima e para baixo do lado de fora do quarto, e Hagrid, o Professor de Trato das Criaturas Mágicas, estava dizendo "Bonitinhas, não são, hein, Harry? Nós estudaremos armas nesse...", Harry viu que as criaturas tinham canhões no lugar das cabeças e que estavam virando e tentando acertá-lo... Ele se abaixou...

 

A última coisa que ele percebeu foi que estava enroscado numa bola quente por baixo da sua roupa de cama e a barulhenta voz de Jorge estava enchendo o quarto.

 

- Mamãe está mandando se levantar, seu café está na cozinha e ela precisa de você na sala de desenho, tem uma porção de Fadas Mordentes, muito mais do que ela pensava e encontrou um ninho de pelúcios embaixo do sofá.

 

Meia hora depois Harry e Rony, que tinham se vestido e tomado café rapidamente entraram na sala de desenho, uma comprida sala de teto alto no primeiro andar com paredes verde oliva cobertas de sujeira. O carpete exalava pequenas nuvens de poeira toda vez que alguém colocava o pé nele e as cortinas verde musgo estavam zumbindo como se fosse um enxame invisível de abelhas. E era ao redor dessas que a Sra. Weasley,  Hermione, Gina, Fred e Jorge estavam reunidos, todos olhando de forma particularmente estranha enquanto cada um tinha amarrada uma peça de roupa cobrindo o nariz e a boca. Cada um deles também segurava uma grande garrafa de um líquido preto com o bocal na ponta.

 

- Cubram seus rostos e peguem um spray – a Sra. Weasley disse para Harry e Rony assim que os viu, apontando para duas outras garrafas de líquido que estavam sobre uma mesa de pernas finas. - É fadamordentecida. Eu nunca vi uma infestação tão grande como essa. O que aquele elfo-doméstico esteve fazendo nos últimos dez anos...

 

O rosto de Hermione estava meio escondido por uma toalha fina, mas Harry viu que ela jogou um olhar repreensivo a Sra. Weasley.

 

- Kreacher é realmente velho, provavelmente ele não conseguiu manter...

 

- Você ficaria surpresa em saber o que Kreacher é capaz de fazer quando ele quer, Hermione - disse Sirius, que tinha acabado de entrar na sala carregando uma sacola ensangüentada do que aparentavam ser ratos mortos. - Eu apenas estou alimentando Bicuço - acrescentou ele, em resposta ao olhar investigativo de Harry. - Eu o deixo lá em cima, no quarto da minha mãe. De qualquer forma... Essa escrivaninha...

 

Ele soltou a sacola de ratos sobre uma poltrona, então se inclinou para examinar a gaveta trancada, a qual, Harry acabara de perceber, estava sacudindo levemente.

 

- Bem, Molly, eu tenho quase certeza que isso é um bicho-papão - disse Sirius, olhando pelo buraco da fechadura, mas talvez convenha deixarmos Olho-Tonto dar uma espiada antes de deixá-lo sair. Conhecendo minha mãe isso pode ser algo bem pior.

 

- Você tem razão, Sirius - disse a Sra. Weasley.

 

Ambos estavam falando com cautela, com vozes delicadas que deram a Harry a certeza de que nenhum dos dois havia esquecido os desentendimentos que tiveram na noite anterior.

 

Um alto ressoar de sino tocou no andar de baixo, seguido pela dissonância de gritos e gemidos que haviam sido despertados na noite anterior por Tonks caindo por cima do guarda-chuva.

 

- Eu continuo dizendo a eles para não tocar o sino da porta! - disse Sirius, irritado, saindo apressado da sala. Eles o ouviram trovejando pelos degraus enquanto os gritos da Sra. Black ecoavam mais uma vez pela casa inteira: "Mancha de desonra, mestiço asqueroso, traidor..."

 

- Feche a porta, por favor, Harry - disse a Sra. Weasley.

 

Harry demorou mais tempo do que precisava para fechar a porta, queria ouvir o que estava acontecendo no andar de baixo. Sirius obviamente estaria fechando as cortinas sobre o retrato de sua mãe, porque ela havia parado de gritar. Ele ouviu o padrinho andando pelo salão, depois o barulho do cadeado da porta de entrada e então uma voz profunda que ele reconheceu como sendo Kingsley Shacklebolt.

 

- Héstia acabou de me ajudar, agora ela está com a capa do Moody, acredito que tenho que informar a Dumbledore...

 

Sentindo os olhos da Sra. Weasley atrás de sua cabeça, Harry fechou a  porta arrependidamente e se juntou à festa das Fadas Mordentes.

 

A Sra. Weasley estava curvada para olhar a página sobre as Fadas Mordentes no Guia das Pestes Domésticas, de Gilderoy Lockhart, que estava aberto sobre o sofá.

 

- Certo, vocês todos, vocês precisam tomar muito cuidado, porque as Fadas Mordentes mordem e seus dentes são venenosos. Eu tenho um frasco de antídoto aqui, mas espero que ninguém precise usá-lo.

 

Ela se endireitou, posicionou-se bem em frente às cortinas e as puxou para frente.

 

- Quando eu der o sinal comecem a borrifar imediatamente - disse ela. – Elas virão voando para cima de nós, eu acho, mas no rótulo do spray diz que uma boa borrifada vai paralisá-las. Quando elas estiverem imobilizadas, apenas as joguem nesse balde.

 

Ela saiu cuidadosamente da linha de tiro e levantou seu próprio spray.

 

- Tudo pronto. Borrifem!

 

Harry tinha borrifado apenas alguns segundos quando uma Fada Mordente totalmente crescida veio voando de uma dobra no tecido, brilhante como um besouro com as asas zunindo, mostrando seus dentes afiados como agulhas, seu corpo de fada coberto de um grosso pêlo negro e seus quatro pequenos punhos cerrados com fúria. Harry a recebeu com uma borrifada de fadamordentecida bem no rosto. Ela ficou paralisada no meio do ar e caiu, com um surpreendente barulho, no velho carpete abaixo. Harry a pegou e jogou no balde.

 

- Fred, o que você está fazendo? - disse a Sra. Weasley com severidade. - Borrife de uma vez e jogue no balde!

 

Harry olhou ao redor. Fred estava segurando uma Fada Mordente que lutava entre seu dedo indicador e o polegar.

 

- Agora mesmo - disse Fred claramente, borrifando a Fada Mordente rapidamente no rosto para que ela desmaiasse, mas logo que a Sra. Weasley deu às costas ele colocou a fada no bolso, piscando um olho.

 

- Nós queremos fazer experiências com o veneno das fadas para nossas Caixinhas de Coceira - disse Jorge a Harry.

 

Borrifando duas Fadas Mordentes de uma vez só enquanto elas voavam bem em direção a seu nariz, Harry chegou mais perto de Jorge e murmurou pelo canto da boca.

 

- O que são Caixinhas de Coceira?

 

- Uma variedade de doces que deixam você doente - sussurrou Jorge, mantendo um olho atento nas costas da Sra Weasley. - Não doente de verdade, pense, apenas o suficiente para você não precisar ir a escola enquanto se sentir assim. Fred e eu temos trabalhado nisso durante o verão. Elas têm dois lados coloridos para mastigar. Se você comer a metade laranja das Pastilhas de Vômito você vomita tudo. Quando você for rapidamente retirado da sala de aula para ir a ala hospitalar, você engole a metade vermelha...

 

-...Que restaura sua saúde na hora, deixando que você continue suas atividades de lazer de sua própria escolha durante uma hora que de outra forma teria sido dedicada a um tédio nada proveitoso. É isso que nós estamos colocando nos anúncios - sussurrou Fred, que tinha desviado da linha de visão da Sra. Weasley e agora catando algumas Fadas Mordentes do chão e colocando em seu bolso. - Mas eles ainda precisam de um pouco de trabalho. No momento nossas cobaias estão tendo um pouco de dificuldade para parar de vomitar pelo tempo suficiente para engolir a metade vermelha.

 

- Cobaias?

 

- Nós - disse Fred. - Nós nos alternamos. Jorge testou os Desmaios Falsos e ambos tentamos os de Hemorragia Nasal...

 

- Mamãe pensou que nós estivéssemos duelando - disse Jorge.

 

- Então a loja de logros continua firme, não é? - murmurou Harry, fingindo estar ajustando o bocal de seu spray.

 

- Bem, nós não tivemos a chance de ter um local ainda - disse Fred, abaixando sua voz ainda mais enquanto a Sra. Weasley enxugava o suor do rosto com o cachecol antes de voltar ao ataque -, então nós estamos  trabalhando com pedidos via correio por enquanto. Nós colocamos anúncios no Profeta Diário da semana passada.

 

- Tudo graças a você, companheiro - disse Jorge. - Mas não se preocupe... Mamãe não suspeita de nada. Ela não lê mais o Profeta Diário, porque eles continuam falando mentiras sobre você e Dumbledore.

 

Harry deu uma risadinha. Ele forçou os gêmeos Weasley a pegar o prêmio de dez mil galeões que ele tinha ganhado no Torneio Tribruxo para ajudá-los com sua ambição de abrir uma loja de logros, mas ainda estava grato por saber que sua parte em promover os planos deles era desconhecido pela Sra. Weasley. Ela não achava que ter uma loja de gozações era uma carreira adequada para dois de seus filhos.

 

A desfadamordentização das cortinas tomou a maior parte da manhã. Já era mais de meio dia quando a Sra. Weasley finalmente tirou seu cachecol  protetor, afundou numa confortável poltrona e se levantou novamente com  um grito de desgosto, ela havia sentado em cima da sacola de ratos mortos.

 

As cortinas não estavam mais zumbindo; estavam fracas e úmidas da intensa borrifação. Aos seus pés as Fadas Mordentes inconscientes estavam enfiadas no balde ao lado de uma vasilha com seus ovos pretos, a qual Bichento estava cheirando e Fred e Jorge estavam jogando olhares de cobiça.

 

- Eu acho que cuidaremos desses depois do almoço – a Sra. Weasley apontou para os gabinetes com portas de vidro muito empoeiradas que ficavam ao lado da lareira. Eles estavam estufados de estranhos objetos: uma seleção de adagas enferrujadas, garras, uma pele de cobra enrolada, uma quantidade de caixas de prata manchadas com escritas em línguas que Harry não podia entender e, o mais desconfortável, uma garrafa de cristal ornamentada com uma opala na tampa, cheia do que Harry tinha certeza ser sangue.

 

O sino da porta tocou novamente. Todos olharam para a Sra. Weasley.

 

- Fiquem aqui - disse ela com firmeza, agarrando a sacola de ratos enquanto os berros da Sra. Black começaram novamente lá em baixo. - Eu trarei alguns sanduíches.

 

Ela saiu da sala, fechando a porta cuidadosamente atrás de si. Rapidamente todos correram para a janela para olhar a porta de entrada. Puderam ver uma cabeça de cabelos ruivos despenteados e uma porção de velhos Caldeirões.

 

- Mundungus! - disse Hermione. – Por que será que ele trouxe todos esses caldeirões?

 

- Provavelmente está procurando um lugar seguro para guardá-los – disse Harry. - Não era isso que ele estava fazendo na noite em que deveria estar me vigiando? Roubando caldeirões?

 

- É mesmo, você tem razão! - disse Fred, quando a porta da frente se abriu; Mundungus entrou com os caldeirões e sumiu de vista. - Blimey, mamãe não vai gostar disso...

 

Ele e Jorge foram em direção à porta e ficaram ao lado dela, ouvindo de perto. Os gritos da Sra. Black haviam parado.

 

- Mundungus está falando com Sirius e Kingsley - murmurou Fred, franzindo a testa ao se concentrar. - Não consigo ouvir bem... Você acha que podemos arriscar usar as Orelhas Extensíveis?'

 

- Pode valer a pena - disse Jorge. - Eu posso me esquivar até o andar de cima e pegar um par delas...

 

Mas no exato momento houve uma explosão de sons vindo do andar de baixo que fez com que as Orelhas Extensíveis deixassem de ser necessárias. Todos puderam ouvir exatamente o que a Sra. Weasley estava gritando com toda a força de sua voz.

 

- VOCÊ NÃO VAI ESCONDER ESSAS COISAS ROUBADAS AQUI!

 

- Eu adoro ouvir mamãe gritando com outras pessoas - disse Fred, com um sorriso satisfeito no rosto enquanto abria a porta alguns centímetros para deixar a voz da Sra. Weasley entrar melhor na sala. - Isso faz uma bela diferença.

 

-...COMPLETAMENTE IRRESPONSÁVEL, COMO SE JÁ NÃO TIVESSEMOS COM O QUE NOS PREOCUPAR SEM OS SEUS CALDEIRÕES ROUBADOS DENTRO DESTA CASA...

 

- Os idiotas vão deixar que ela chegue ao limite - disse Jorge balançando a cabeça. - Você precisa despistá-la logo senão ela vai ficar com a cabeça fervendo por horas. E ela está se mordendo para ter um momento como esses com o Mundungus cada vez que ele escapa, quando deveria estar vigiando você, Harry. E aí vão Sirius e mamãe novamente.

 

A voz da Sra. Weasley se perdeu em meio a novos gritos vindos dos retratos do salão. Jorge tentou fechar a porta para diminuir um pouco o barulho mas antes  que ele pudesse fazer isso um elfo-doméstico entrou na sala. Exceto pelo farrapo imundo amarrado como se fosse uma tanga ao redor de sua cintura, estava completamente nu. Parecia ser muito velho. A sua pele parecia ser muitas vezes maior que ele, apesar dele ser careca como todos os elfos-domésticos, havia uma certa quantidade de cabelos brancos crescendo e tinha orelhas de morcego. Seus olhos eram um pouco sangrentos e de um cinza aguacento, seu nariz mais parecia uma tromba.

 

O elfo não deu atenção a Harry e aos outros. Agindo como se não pudesse vê-los, andou com sua corcunda lentamente e com teimosia até o outro lado da sala, todo o tempo murmurando em seu rouco respirar, com uma voz profunda como o som de um sapo-boi.

 

-...Isso cheira mal, mas ela não é melhor, aquele traidor asqueroso com sua mal-criação estragando a casa de minha mestra, oh, minha pobre mestra, se ela soubesse, se ela soubesse a escória que eles deixam entrar em sua casa, o que ela diria ao velho Kreacher, oh, que vergonha, sangue-ruim e lobisomens e traidores e ladrões, pobre e velho Kreacher, o que ele pode fazer...

 

- Olá, Kreacher - disse Fred bem alto, fechando a porta com uma pancada.

 

O elfo-doméstico gelou em seu caminho, parou de murmurar e fez uma cara de surpresa que não conseguiu convencer ninguém.

 

- Kreacher não viu o jovem mestre - disse ele, virando-se e saudando Fred. Ainda batendo o carpete, ele adicionou de forma perfeitamente audível. - Asqueroso pirralho traidor é o que ele é.

 

- O quê? - disse Jorge. - Não entendi a última parte.

 

- Kreacher não disse nada - disse o elfo, com uma segunda ofensa para Jorge, falando num tom baixo, porém cálido. - E eles são idênticos, pequenas bestas não naturais eles são.

 

Harry não sabia se devia rir ou não. O elfo se endireitou, olhando todos eles com malevolência e aparentemente convencido que eles não podiam ouvi-lo enquanto continuava a murmurar.

 

-...E tem a sangue-ruim, ali de pé exibindo coragem, ah se minha mestra soubesse, oh, como ela choraria, e tem um novo garoto, Kreacher não sabe o nome dele. O que ele está fazendo aqui? Kreacher não sabe...

 

- Esse é Harry, Kreacher - disse Hermione. - Harry Potter.

 

Os pálidos olhos de Kreacher se abriram e ele murmurou mais rápido e mais furioso do que antes.

 

- A sangue-ruim está falando com Kreacher como se ela fosse minha amiga, se a mestra de Kreacher visse ele com essa desprezível companhia, oh, o que ela iria dizer...

 

- Não a chame de sangue-ruim! - disseram Rony e Gina juntos, com muita raiva.

 

- Não tem importância - sussurrou Hermione -, ele não está pensando direito, ele não sabe o que está...

 

- Não se engane, Hermione, ele sabe exatamente o que está dizendo – disse Fred, olhando Kreacher com grande desgosto.

 

Kreacher ainda murmurando e olhando para Harry, disse:

 

- Isso é verdade? Esse é Harry Potter? Kreacher pode ver a cicatriz, deve ser verdade, é o garoto que derrotou o Lord das Trevas, Kreacher gostaria de saber como ele fez...

 

- Nós todos gostaríamos, Kreacher - disse Fred.

 

- O que você está querendo aqui? - perguntou Jorge.

 

Os grandes olhos de Kreacher fitaram Jorge.

 

- Uma bela história - disse uma voz vinda de trás de Harry.

 

Sirius estava de volta; estava na porta olhando para o elfo. O barulho no salão tinha silenciado; talvez a Sra Weasley e Mundungus tivessem ido discutir na cozinha.

 

Ao ver Sirius, Kreacher se curvou numa ridícula corcunda que deixou seu nariz-tromba rente com o chão.

 

- Endireite-se - disse Sirius impaciente. - Agora, o que você quer?

 

- Kreacher está limpando - repetiu o elfo. - Kreacher vive para servir a Nobre Casa dos Black...

 

- E está ficando mais suja a cada dia, está imunda - disse Sirius.

 

- O mestre sempre gostou de fazer piadas - disse Kreacher, curvando-se novamente, e continuou em voz baixa. - O mestre é um porco asqueroso e ingrato que partiu o coração da sua mãe...

 

- Minha mãe não tinha coração, Kreacher - rebateu Sirius. - Ela se mantinha viva por pura maldade.

 

Kreacher se curvou novamente enquanto falava.

 

- O que quer que o mestre diga - murmurou furiosamente. - O mestre não é digno de limpar a lama dos sapatos de sua mãe, oh, minha pobre mestra, o que ela diria se visse Kreacher servindo ele, como ela o odiaria, que desapontamento ela teria...

 

- Eu perguntei o que você está querendo - disse Sirius com frieza. - Cada vez que você aparece fingindo estar limpando você rouba alguma coisa e esconde em seu quarto para que nós não joguemos fora.

 

- Kreacher nunca tirou nada de seu lugar na casa do mestre - disse o elfo, e murmurou bem rápido. - A mestra nunca perdoaria Kreacher se a tapeçaria fosse jogada fora, há sete séculos ela está na família, Kreacher precisa cuidar dela, Kreacher não vai deixar o Mestre e os traidores e os fedelhos a destruírem...

 

- Eu imaginei que fosse isso - disse Sirius, jogando um olhar desdenhoso para o outro lado. - Ela vai precisar colocar outro Feitiço de Fixação Permanente nela, eu não tenho dúvida, mas se eu puder me livrar dela certamente eu o farei. Agora vá embora, Kreacher.

 

Pareceu que Kreacher não desafiaria desobedecer a uma ordem direta, apesar disso o olhar que jogou para Sirius enquanto arrastava os pés ao passar por ele estava cheio do mais profundo ódio e murmurou por todo o caminho até sair da sala.

 

-...Volta de Azkaban mandando no Kreacher, oh, minha pobre mestra, o que ela diria se ela visse a casa agora, escória vivendo nela, seus tesouros jogados fora, ela jurou que ele não era mais filho dela e agora ele está de volta, eles disseram que ele era um assassino também...

 

- Continue murmurando e eu serei um assassino! - disse Sirius irritado enquanto batia a porta na cara do elfo.

 

- Sirius, ele não sabe o que está fazendo - alegou Hermione. - Eu não acho que ele saiba que nós podemos ouvi-lo.

 

- Ele esteve sozinho por muito tempo - disse Sirius -, recebendo ordens loucas do retrato de minha mãe e falando sozinho, mas ele sempre foi grosseiro assim...

 

- Se ao menos você o libertasse - disse Hermione esperançosa -, talvez...

 

Nós não podemos libertá-lo, ele sabe muito sobre a Ordem - disse Sirius de forma curta. - E de qualquer forma, o choque iria matá-lo. Sugira a ele deixar essa casa e veja o que ele faz.

 

Sirius atravessou a sala para onde a tapeçaria que Kreacher estava tentando proteger estava pendurada na extensão de toda a parede. Harry e os outros o seguiram.

 

A tapeçaria parecia imensamente velha; estava molhada e parecia que as Fadas Mordentes tinha mastigado em vários lugares. Apesar disso, os fios dourados com a qual foi bordada ainda cintilavam o suficiente para mostrá-los uma extensa árvore da família datada (até onde Harry podia dizer) até a Idade Média. Grandes palavras bem no alto da tapeçaria diziam:

 

A Nobre e Mais Antiga Casa dos Black

 

Toujours pur

 

- Você não está nela! - disse Harry, após verificar a parte baixa da árvore bem de perto.

 

- Eu costumava estar ali - disse Sirius, apontando para um pequeno detalhe arredondado, como um remendo que mais parecia uma queimadura de cigarro. - Minha doce mãe me expulsou após eu ter saído de casa. Kreacher é quem gosta de murmurar essas história por aí.

 

- Você saiu de casa?

 

- Quando eu tinha uns dezesseis anos - disse Sirius. - Eu não agüentava mais.

 

- E para onde você foi? - perguntou Harry, encarando-o.

 

- Para a casa do seu pai - disse Sirius. - Seus avós ficaram realmente satisfeitos com isso; eles praticamente me adotaram como um segundo filho. Sim, eu ia com o seu pai nos feriados da escola e quando eu tinha dezessete consegui um lugar só para mim. Meu tio Alphard me deixou uma boa quantidade de ouro. Ele também foi retirado da árvore, e provavelmente foi por ter feito isso. Em todo caso, depois disso eu fiquei por minha conta. Mas eu era sempre bem vindo na casa do Sr. e Sra. Potter para o almoço de domingo.

 

- Mas... Por que você...?

 

- Saí? - Sirius sorriu e correu seus dedos por seus longos cabelos despenteados. – Por que eu odiava todos eles: meus pais, com sua mania por puro-sangue, convencidos que ser um Black fazia de você praticamente da realeza... Meu irmão idiota, gentil o suficiente para acreditar neles... Aqui está ele.

 

Sirius apontou o dedo para a parte mais baixa da árvore, no nome "Regulus Black". Uma data de morte (por volta de quinze anos atrás) estava escrita ao lado da data de nascimento.

 

- Ele era mais novo que eu - disse Sirius - e um filho bem melhor, motivo pelo qual sempre me chamavam a atenção.

 

- Mas ele morreu - disse Harry.

 

- Sim - disse Sirius. - Estúpido e idiota... Ele se uniu aos Comensais da Morte.

 

- Você está brincando!

 

- Qual é, Harry, você não viu o suficiente nessa casa para dizer o tipo de bruxos que minha família era? - disse Sirius impaciente.

 

- Eram... Seus pais também eram Comensais da Morte?

 

- Não, não, mas acredite em mim, eles achavam que Voldemort tinha a idéia certa, eles eram a favor da purificação da raça dos bruxos, livrando-se dos nascidos trouxas e tendo apenas puros-sangues no lugar. Eles não estavam sozinhos, além deles havia algumas pessoas, antes de Voldemort mostrar sua verdadeira forma, que pensavam que ele tinha a idéia certa sobre as coisas... E vacilaram quando viram o que ele estava disposto a fazer para chegar ao poder. Mas eu aposto que meus pais achavam que Regulus era um herói por se unir a ele.

 

- Ele foi morto por um Auror? - perguntou Harry.

 

- Não, não - disse Sirius. - Não, ele foi assassinado por Voldemort. Ou por ordem dele, provavelmente; eu sempre duvidei que Regulus fosse importante o suficiente para ser morto por Voldemort em pessoa. Pelo que eu soube, depois que ele morreu, ele havia ido tão longe que entrou em pânico sobre o que estavam pedindo para ele fazer e então tentou sair. Bem, você não pode simplesmente pedir demissão a Voldemort. É um serviço para a vida inteira ou então a morte.

 

- Almoço - disse a voz da Sra. Weasley.

 

Ela estava segurando sua varinha erguida à sua frente, equilibrando uma gigantesca bandeja repleta de sanduíches e bolo na ponta da varinha. Ela estava com a cara vermelha e ainda parecia zangada. Os outros foram em sua direção, ansiosos por um pouco de comida, mas Harry ficou com Sirius, que ainda estava curvado próximo à tapeçaria.

 

- Há muito tempo eu não olhava isso. Tem o Phineas Nigelu; meu tataravô, está vendo?... O menos popular diretor que Hogwarts já teve... A Araminta Meliflua... Prima da minha mãe... Tentou fazer um projeto de lei para tornar a caça aos trouxas legal... E a querida tia Elladora... Ela começou a tradição da família de decapitar os elfos-domésticos quando eles ficavam velhos demais para carregar a bandeja de chá... É claro, qualquer um da família que produzisse algo que parecesse decente eles deserdavam. Estou vendo que Tonks não está aqui. Talvez seja por isso que Kreacher não aceita ordens dela. Ele supostamente faz qualquer coisa que alguém da família lhe peça...

 

- Você e Tonks são parentes? - perguntou Harry surpreso.

 

- Ah, sim, a mãe dela, Andrômeda, era minha prima favorita - disse Sirius, examinando a tapeçaria mais de perto. - Não, Andrômeda não está mais aqui, veja...

 

Ele apontou para outra marca de queimadura entre dois nomes, Bellatrix e Narcissa.

 

- As irmãs de Andrômeda ainda estão aqui porque tiveram um  respeitável casamento puro-sangue, mas Andrômeda casou com um trouxa, Ted Tonks, então...

 

Sirius imitou disparar um feitiço com sua varinha contra a tapeçaria e sorriu com mau humor. Harry, entretanto, não sorriu; ele estava muito ocupado olhando os nomes à direita da queimadura sobre o nome de Andrômeda.

 

Uma linha dupla bordada ligando Narcissa Black e Lúcio Malfoy e uma linha simples vertical saindo de seus nomes e levando ao nome Draco.

 

- Você é parente dos Malfoy!

 

- As famílias de puro-sangue são todas parentes - disse Sirius. - Se você só vai deixar seus filhos e filhas casarem com puros-sangues as escolhas são bem limitadas; dificilmente há algum de nós sobrando. Molly e eu somos parentes por causa de um casamento e Arthur é um tipo de primo segundo meu. Mas nem tente encontrá-los aqui. Se alguma vez uma família teve um ramo de traidores do sangue eles são os Weasley.

 

Mas Harry agora estava olhando para o nome à esquerda da queimadura sobre o nome de Andrômeda: Bellatrix Black, que estava ligada por uma linha dupla a Rodolphus Lestrange.

 

- Lestrange... - disse Harry bem alto. O nome mexeu com algo em sua memória; ele o conhecia de algum lugar, mas por um momento não podia lembrar de onde, sentiu um estranho arrepio em seu estômago.

 

- Ele está em Azkaban - disse Sirius.

 

Harry o olhou com curiosidade.

 

-Bellatrix e seu marido Rodolphus vieram com Bartô Crouch Jr. - disse Sirius, com a mesma voz apressada. - O irmão de Rodolphus, Rabastan, estava com eles também.

 

Então Harry lembrou. Tinha visto Bellatrix Lestrange dentro da penseira de Dumbledore, um estranho aparelho em que pensamentos e memórias podiam ser guardados: uma mulher alta com olhos encobertos estava de pé em seu julgamento e proclamou sua fidelidade a Lord Voldemort, o orgulho que tinha em buscar a ele imaginando que mesmo depois de sua queda, ainda convencida de que um dia seria recompensada por sua lealdade.

 

- Você nunca se referiu a ela como sua...

 

- Faz alguma diferença ela ser minha prima? - rebateu Sirius. - Até onde eu considero, eles não são minha família. Ela certamente não é minha família. Eu não a vi desde que eu tinha sua idade, a menos que você conte um relance que tive dela vindo para Azkaban. Você acha que eu tenho orgulho de ter parentes como ela?

 

- Desculpe - disse Harry rapidamente. - Eu não queria... Eu apenas fiquei surpreso, só isso...

 

- Não importa, não se desculpe - murmurou Sirius. Ele ficou de costas para a tapeçaria, com as mãos enfiadas nos bolsos. - Eu não gosto de estar aqui - disse, olhando através da sala. - Eu nunca pensei que pudesse ficar preso nessa casa outra vez.

 

Harry compreendeu completamente. Sabia como ele se sentia, quando cresceu pensou que estivesse livre daquele lugar para sempre, para voltar e viver no número quatro da Rua dos Alfeneiros.

 

- É ideal para o Quartel-General, sem dúvida - disse Sirius. - Meu pai colocava todo tipo de medidas de segurança conhecidas nela enquanto viveu aqui. É praticamente invisível, então os trouxas nunca puderam vir e tocar a campainha. Se é que eles iriam querer isso. E agora Dumbledore adicionou sua proteção, será muito difícil encontrar uma casa tão segura como esta em qualquer outro lugar. Dumbledore é o Fiel do Segredo da Ordem, você sabe, ninguém pode encontrar o Quartel-General a menos que Dumbledore em pessoa diga onde ele está, aquele bilhete que Moody lhe mostrou a noite passada era de Dumbledore... - Sirius deu uma risadinha. - Se meus pais pudessem ver o uso que a casa está tendo agora... Bem, o retrato de minha mãe pode te dar uma idéia.

 

Ele fez uma cara feia por um momento e então suspirou.

 

- Eu não me importaria se pudesse sair ocasionalmente para fazer algo de útil. Eu pedi a Dumbledore para poder escoltar você, em sua audiência, como Snuffles, certamente, para poder te dar um pouco de apoio moral, o que você acha?

 

Harry sentiu como se seu estômago tivesse afundado através do carpete empoeirado. Ele não tinha pensado sobre a audiência nenhuma vez desde o jantar da noite anterior; na excitação de estar de volta com as pessoas que ele mais gostava e ouvindo tudo sobre o que estava acontecendo, aquilo tinha lhe fugido da mente. Com as palavras de Sirius, no entanto, a pressão e o medo voltaram a ele. Olhou Hermione e os Weasley, todos enfiados entre os sanduíches, e pensou como se sentiria se voltassem para Hogwarts sem ele.

 

- Não se preocupe - disse Sirius. Harry olhou e percebeu que Sirius o esteve observando. - Eu tenho certeza que eles vão limpar sua barra, sei que existe algo no Estatuto Internacional da Magia sobre ser permitido usar magia para salvar sua própria vida.

 

- Mas se eles me expulsarem - disse Harry calmamente - eu posso voltar aqui e viver com você?

 

Sirius sorriu tristemente.

 

- Nós veremos.

 

- Eu me sentiria bem melhor sobre a audiência se eu soubesse que não teria que voltar para os Dursley - Harry o pressionou.

 

- Eles devem ser realmente maus se você prefere um lugar como esse – disse Sirius com tristeza.

 

- Apressem-se, vocês dois, ou não vai sobrar nenhuma comida - disse a Sra. Weasley.

 

Sirius deu outro grande suspiro, lançou um olhar sombrio para a tapeçaria então ele e Harry foram se juntar aos outros.

 

Harry fez o possível para não pensar sobre a audiência enquanto esvaziava os armários com portas de vidro durante a tarde. Felizmente, para ele era um trabalho que necessitava de um bocado de concentração, já que muitos dos objetos estavam muito relutantes em deixar suas prateleiras empoeiradas. Sirius sofreu uma mordida de uma caixa de rapé prateada; em poucos segundos sua mão ferida tinha criado uma desagradável cobertura como se fosse uma luva marrom.

 

- Está tudo bem - disse ele, examinando a mão com interesse antes de bater levemente sua varinha e restaurar a pele ao normal -, deve ter polvilho de verruga nela.

 

Ele jogou a caixa de lado dentro de um saco onde estavam depositando as ruínas dos armários; Harry viu Jorge embrulhar a mão cuidadosamente em um pano e colocar a caixa dentro de seu bolso, que já estava cheio de Fadas Mordentes.

 

Encontraram um instrumento prateado de formato desagradável, algo como um par de pinças com muitas pernas, que correu pelo braço de Harry como se fosse uma aranha quando a pegou, e tentou picar sua pele. Sirius agarrou e bateu nela com um pesado livro com o título Nobreza da Natureza: Uma Genealogia de Bruxos. Havia uma caixinha de música que emitia um fraco e sinistro toque quando se dava corda e todos se viram curiosamente fracos e sonolentos, até Gina teve o senso de fechar a tampa; um pesado medalhão que nenhum deles conseguiu abrir; uma grande quantidade de selos antigos e, numa caixa empoeirada, uma Ordem de Merlin, Primeira Classe, que havia sido ganha pelo avô de Sirius por "serviços prestados ao Ministério".

 

- Isso significa que deu a eles uma boa quantidade de ouro - disse Sirius desdenhosamente jogando a medalhão dentro do saco de lixo.

 

Muitas vezes Kreacher andou pela sala e tentou furtar algumas coisas, escondendo-as embaixo de sua tanga, murmurando maldições horríveis cada vez que eles o viam fazendo isso. Quando Sirius arrebatou de sua mão um grande anel de ouro que tinha o emblema dos Black, Kreacher explodiu em lágrimas furiosas e saiu da sala chorando e chamando Sirius de nomes que Harry nunca tinha ouvido antes.

 

- Era do meu pai - disse Sirius, jogando o anel no saco. - Kreacher não era tão devoto a ele quanto era à minha mãe, mas eu ainda o peguei escondendo um par de velhas calças do meu pai na semana passada.

 

A Sra. Weasley manteve todos trabalhando duro durante os dias que seguiram. A sala de desenho demorou três dias para ser desinfetada. Finalmente, a única coisa indesejável que sobrou foi a tapeçaria com a árvore genealógica da família Black, que resistiu a todas as tentativas de remoção da parede, e as pancadas na gaveta da escrivaninha. Moody ainda não tinha aparecido pelo Quartel-General, então não puderam se certificar do que tinha dentro dela.

 

Foram da sala de desenho para uma sala de jantar no andar térreo onde encontraram aranhas tão grandes quanto os pratos do guarda-louça (Rony saiu da sala apressadamente para fazer uma xícara de chá e não voltou por uma hora e meia). A porcelana, que tinha o símbolo dos Black e o lema, foi toda jogada sem nenhuma cerimônia dentro do saco por Sirius, e o mesmo destino teve uma porção de velhas fotografias que estavam em molduras prateadas manchadas, todos os seus ocupantes gritaram quando o vidro que os cobria se partiu.

 

Snape poderia se referir ao trabalho deles como "uma limpeza", mas na opinião de Harry estavam realmente declarando guerra à casa, que estava resultando numa boa briga, sendo ajudada e apoiada por Kreacher. O elfo-doméstico continuava aparecendo onde quer que se reunissem, seu murmúrio se tornando mais e mais ofensivo quando ele tentava remover qualquer coisa que pudesse dos sacos de lixo. Sirius foi o mais longe que pôde, ameaçando-o com roupas, mas Kreacher olhava fixamente para ele com seus olhos lacrimejantes e disse "O Mestre deve fazer o que desejar", antes de se virar e murmurar bem alto: "mas o mestre não vai dispensar o Kreacher, não, porque Kreacher sabe o que eles querem fazer, ah sim, eles estão tramando contra o Lord das Trevas, sim, com esse sangue-ruim e traidores e escória...". Então Sirius, ignorando os protestos de Hermione, agarrou Kreacher por trás de sua tanga e o jogou pessoalmente para fora da sala.

 

O sino da porta tocou várias vezes por dia, que era a deixa para a mãe de Sirius começar a gritar novamente, e para Harry e os outros a tentativa de ouvir a conversa do visitante por detrás da porta, para poder colher qualquer informação que pudessem antes que a Sra Weasley os chamasse de volta às suas tarefas. Snape entrou e saiu da casa diversas vezes, embora para o alívio de Harry eles nunca tivessem ficado frente a frente; Harry também avistou sua professora de Transfiguração, McGonagall, parecendo bem estranha em roupas de trouxa, e também parecia muito ocupada para se demorar. Algumas vezes, entretanto, os visitantes ficavam para ajudar. Tonks se juntou a eles para uma tarde memorável na qual eles encontraram um velho fantasma assassino escondido no banheiro do primeiro andar, e Lupin, que estava na casa com Sirius, mas que tinha saído por longos períodos para fazer trabalhos misteriosos para a Ordem, ajudou-os a consertar um relógio de pêndulo que tinha desenvolvido um hábito desagradável de atirar pesados parafusos em quem passasse perto. Mundungus se redimiu aos olhos da Sra. Weasley ao salvar Rony de um antigo conjunto de barretes vermelhos que tinham tentado estrangulá-lo enquanto ele os tirava do armário.

 

Apesar do fato de que ele estava dormindo mal, ainda tendo sonhos sobre corredores e portas trancadas que faziam sua cicatriz doer, Harry estava conseguindo se divertir pela primeira vez em todo o verão. Enquanto estivesse ocupado estaria feliz; quando a ação diminuía, entretanto, toda vez que baixava a guarda ou se deitava exausto na cama observando as sombras embaçadas se moverem através do teto, o pensamento sobre a audiência do Ministério que estava se aproximando retornava a ele. O medo golpeava seu interior como agulhas quando imaginava o que aconteceria com ele se fosse expulso. A idéia era tão terrível que não se atrevia a comentar nem mesmo com Rony e Hermione, que via freqüentemente cochichando juntos e jogando olhares inquietos em sua direção, seguido por sua determinação em não mencioná-lo. Às vezes ele não podia impedir sua imaginação de mostrá-lo um oficial anônimo do Ministério que estava partindo sua varinha em duas e ordenando a ele que voltasse a casa dos Dursley... Mas ele não iria. Estava determinado. Voltaria para Grimmauld Place e viveria com Sirius.

 

Ele sentiu como se um tijolo tivesse caído sobre seu estômago quando a Sra. Weasley virou-se para ele durante o jantar na quarta-feira e disse calmamente.

 

- Eu passei suas melhores roupas para amanhã de manhã, Harry, e eu quero que você lave seu cabelo hoje a noite, também. Uma boa primeira impressão pode fazer maravilhas.

 

Rony, Hermione, Fred, Jorge e Gina, todos pararam e olharam para ele.

 

Harry balançou a cabeça e tentou continuar comendo seu pedaço de carne, mas sua boca tinha ficado tão seca que ele não conseguia mastigar.

 

- Como eu vou chegar lá? - perguntou ele à Sra. Weasley, tentando parecer indiferente.

 

- Arthur vai levar você para o trabalho com ele - disse a Sra. Weasley com gentileza.

 

O Sr. Weasley sorriu de modo encorajador para Harry.

 

- Você pode aguardar em meu escritório até chegar a hora da audiência - disse ele.

 

Harry olhou para Sirius, mas antes que pudesse perguntar a Sra. Weasley já havia respondido.

 

- O Professor Dumbledore não acha uma boa idéia Sirius ir com você, e eu devo dizer que eu...

 

-...Acho que ele está com a razão - disse Sirius com os dentes trincados.

 

- Ele veio noite passada, quando você estava dormindo - disse o Sr. Weasley.

 

Sirius, com muito mau humor apunhalou uma batata com seu garfo. Harry baixou os olhos para seu prato. O pensamento de que Dumbledore tinha estado na casa na véspera de sua audiência e que não tinha pedido para vê-lo o fez se sentir ainda pior, se é que isso era possível.

 

 

O MINISTÉRIO DA MAGIA

Harry acordou às cinco e meia da madrugada, tão abrupta e completamente como se alguém houvesse gritado em seus ouvidos. Por alguns momentos ele permaneceu imóvel, como se a visão da audiência disciplinar preenchesse cada minúscula partícula de seu cérebro; então, incapaz de suportar isso, saltou da cama e pôs os óculos. A Sra. Weasley havia separado sua recém-passada calça jeans e uma blusa ao pé da cama. Harry os vestiu rapidamente. O quadro em branco na parede ria dissimuladamente.

 

Rony estava esparramado, de barriga pra cima, com a boca aberta, dormindo. Ele não viu Harry atravessar o quarto, sair e fechar suavemente a porta atrás de si. Tentando não pensar em qual seria a próxima vez que veria Rony, quando poderiam não mais ser companheiros em Hogwarts, Harry desceu tranqüilamente as escadas, passando pelas cabeças dos ancestrais de Kreacher, até chegar à cozinha.

 

Ele esperava a encontrar vazia, porém quando chegou à porta escutou o ruído de vozes do outro lado. Empurrou a porta e viu o Sr. e a Sra. Weasley, Sirius, Lupin e Tonks sentados ali, quase que como o esperando. Todos estavam bem vestidos, exceto a Sra. Weasley, que trajava um vestido acolchoado púrpura. Ela deu um pequeno salto quando Harry entrou.

 

- Café da manhã - disse enquanto puxava sua varinha e ia em direção ao fogão.

 

- B-b-bom dia, Harry - bocejou Tonks. Seu cabelo estava loiro e encaracolado esta manhã. - Dormiu bem?

 

- Sim - disse Harry.

 

- Est-tive acordada a noite inteira - disse ela, com outro estremecido bocejo. - Venha, sente-se...

 

Ela alargou uma cadeira, tocando sobre a que estava a seu lado.

 

- O que você quer, Harry? – a Sra. Weasley perguntava. - Mingau? Sanduíche? Salmão? Bacon e ovos? Torradas?

 

- Apenas... Apenas as torradas, obrigado - disse Harry.

 

Lupin olhou Harry e então Tonks.

 

- O que vocês estavam dizendo sobre Scrimgeour?

 

- Ah, sim bem, nós precisamos ser um pouco mais cuidadosos, ele tem perguntado a mim e ao Kingsley algumas questões engraçadas...

 

Harry se sentiu vagamente grato por não ser requisitado a entrar na conversa. Estava se contorcendo por dentro. A Sra. Weasley pôs algumas torradas e marmelada à sua frente; ele tentou comer mas era como mastigar carpete. Ela se sentou a seu lado e começou a ajeitar sua blusa, pondo a etiqueta pra dentro e acertando a costura aos ombros. Ele desejou que ela não estivesse fazendo isso.

 

- ...e eu tenho de contar a Dumbledore que não posso ficar encarregada da noite de amanhã, eu estou muito cansada - encerrou Tonks, bocejando largamente uma vez mais.

 

- Eu te cubro - disse o Sr. Weasley. - Eu estou bem, e preciso reportar uma coisa mesmo...

 

Arthur Weasley não estava trajando roupas de bruxo, mas calças listradas e uma velha jaqueta de couro. Ele se virou para Tonks e Harry:

 

- Como vocês estão?

 

Harry encolheu os ombros.

 

- Estará tudo acabado logo - disse o Sr. Weasley reconfortantemente. - Em algumas horas você estará limpo.

 

Harry não disse nada.

 

- A audiência é no meu andar, no escritório de Amélia Bones. Ela é a chefe do Departamento de Cumprimento da Lei Bruxa, e quem lhe interrogará.

 

- Amélia Bones é OK, Harry - disse Tonks séria. - Ela é justa, ela o escutará.

 

Harry concordou com a cabeça, ainda incapaz de pensar em qualquer coisa pra dizer.

 

- Não perca a cabeça - disse Sirius abruptamente. - Seja polido e atenha-se aos fatos.

 

Harry fez que sim com a cabeça novamente.

 

- A lei está do seu lado - disse Lupin tranqüilamente. - Mesmo bruxos menores de idade podem usar magia em situações de risco de vida.

 

Algo muito frio pingou na parte inferior das costas do pescoço de Harry; por um momento pensou que alguém estivesse pondo-lhe sob um feitiço ilusório, mas então percebeu que a Sra. Weasley estava atacando seu cabelo com um pente molhado. Ela o apertava com força contra o seu cabelo.

 

- Ele nunca fica direito? - perguntou desesperada.

 

Harry balançou a cabeça de um lado para o outro. O Sr. Weasley checou seu relógio e olhou para ele.

 

- Acho que devemos ir agora, estamos um pouco adiantados mas é melhor você estar no Ministério que vagando por aqui.

 

- OK - disse Harry automaticamente, largando sua torrada e ficando de pé.

 

- Você vai ficar bem, Harry - falou Tonks, batendo em seu braço.

 

- Boa sorte - disse Lupin. - Tenho certeza de que sairá tudo bem.

 

- E se não sair - disse Sirius sinistramente - eu verei Amélia Bones pra você...

 

Harry sorriu fracamente. A Sra. Weasley o abraçou.

 

- Estamos todos com os dedos cruzados.

 

- Certo - disse Harry. - Bem... Vejo vocês depois então.

 

Seguindo o Sr. Weasley, pôde escutar a mãe de Sirius roncando em seu sono atrás das cortinas. O Sr. Weasley abriu a porta e saíram para a fria e cinzenta manhã.

 

- Normalmente o senhor não caminha até o trabalho, não é? - Harry perguntou enquanto deixavam rapidamente do quarteirão.

 

- Não, em geral eu aparato - disse ele - mas obviamente você não pode, e eu acho que o melhor é chegarmos lá por um meio não mágico... Dá uma impressão melhor, considerando-se a razão por que lá está...

 

O Sr. Weasley manteve a mão dentro da jaqueta enquanto caminhavam. Harry sabia que estava segurando sua varinha. As ruas estavam praticamente desertas porém quando chegaram à pequena estação do metrô estava cheia de passageiros. Como sempre que se aproximava de trouxas indo ao trabalho, o senhor Weasley mal continha seu entusiasmo.

 

- Simplesmente fabuloso – sussurrou, indicando a máquina de bilhetes automática. - Incrivelmente engenhoso.

 

- Elas estão quebradas - disse Harry, apontando para o aviso.

 

- É, mas mesmo assim... - disse o senhor Weasley, sorrindo radiante para elas.

 

Compraram seus bilhetes, então, de um guarda com cara de sono (foi Harry quem fez a transação, já que o Sr. Weasley não era muito competente no trato do dinheiro trouxa) e cinco minutos mais tarde estavam a bordo de um vagão que se dirigia ao centro de Londres. O Sr. Weasley ficava checando e re-checando ansiosamente o mapa acima das janelas.

 

- Mais quatro paradas, Harry... Mais três apenas agora... Só mais duas, Harry...

 

Desembarcaram numa estação bem no coração de Londres e deixaram o vagão numa maré de homens e mulheres bem vestidos carregando pastas. Tomaram as escadas rolantes, passaram pela roleta (o Sr. Weasley ficou impressionado com a maneira como engolia seu bilhete) e emergiram numa rua larga, com prédios impressionantes, plena de tráfego.

 

- Onde nós estamos - disse o Sr. Weasley e por um momento Harry escutou seu coração bater, pensou que haviam saltado na estação incorreta, a despeito das constantes observações do Sr. Weasley em relação ao mapa; mas um segundo depois ele disse. - Ah, sim... Por aqui, Harry - e desceram a rua. - Desculpe, mas eu nunca venho de trem e isso tudo parece diferente sob uma perspectiva trouxa. Aliás, eu nunca usei a entrada de visitantes antes.

 

Quanto mais caminhavam menores e menos impressionantes se tornavam as construções, até que finalmente atingiram uma rua que continha uns poucos escritórios maltrapilhos, um pub e uma grande caçamba de lixo transbordando. Harry esperava ter uma impressão bem melhor do local onde estava o Ministério da Magia.

 

- Aqui estamos - disse o Sr. Weasley animado, apontando para uma velha cabine telefônica vermelha que parecia bastante danificada, defronte a um muro totalmente pichado. - Primeiro você, Harry.

 

Ele abriu a portinhola da cabine e entrou pensando em que cargas d'água era aquilo. O Sr. Weasley entrou em seguida, apertando-se contra Harry e fechando a porta. Harry estava jogado contra o aparelho telefônico, que estava dependurado, como se um vândalo tivesse tentado puxá-lo. O Sr. Weasley conseguiu tirar o fone do gancho.

 

- Senhor Weasley, acho que isso deve estar quebrado também - disse Harry.

 

- Não, não, tenho certeza de que está bom - disse o Sr. Weasley, segurando o fone acima de sua cabeça e fitando o discador. - Vejamos... Seis... - ele discou o número. - Dois... Quatro... E outro quatro... E Outro dois...

 

Assim que a placa de discagem zumbiu suavemente para seu lugar uma voz feminina, fria, soou dentro da cabine, e não do fone na mão do Sr. Weasley, mas tão alta e claramente como se uma mulher invisível estivesse diante deles.

 

- Bem-vindos ao Ministério da Magia. Por favor, digam seus nomes e assuntos.

 

- Er... - disse o Sr. Weasley, claramente incerto sobre dever ou não responder no fone, que segurava ao contrário. - Arthur Weasley, Escritório de Mau Uso dos Artefatos Trouxas, escoltando Harry Potter para uma audiência disciplinar...

 

- Obrigado - disse a fria voz feminina. - Visitante, por favor, pegue a identificação e a coloque na parte da frente de sua roupa.

 

Houve um clique e uma batida e Harry viu algo sair pela parte onde as moedas eram normalmente devolvidas. Ele pegou: era um broche quadrado, prateado, com a inscrição: "Harry Potter, Audiência Disciplinar". Ele o prendeu à frente da camisa e a voz feminina falou novamente.

 

- Visitante, você será inspecionado e sua varinha deve ser apresentada para registro no balcão de segurança, localizado ao final do Átrio.

 

O chão da cabine estremeceu; começaram a afundar vagarosamente no solo. Harry olhava apreensivo enquanto o pavimento parecia subir através das janelas de vidro da cabine, até que uma completa escuridão se encerrou sobre suas cabeças. Não se podia ver coisa alguma; podia escutar um pequeno ruído enquanto a cabine seguia descendo pelo subsolo. Após cerca de um minuto - que pareceu muito mais longo para Harry - um feixe dourado de luz surgiu, iluminando seus pés, e foi aumentando, subindo através do corpo até alcançar sua face, de modo que teve de piscar.

 

- O Ministério da Magia lhe deseja um bom dia - disse a voz feminina.

 

A porta da cabine se abriu e o Sr. Weasley saiu, seguido por Harry, que estava de queixo caído. Estavam no final de um longo e esplêndido Hall, com um piso muito bem polido de madeira escura. O teto azul-esverdeado estava repleto de símbolos dourados, brilhantes, que se moviam, mudando de posição, como um enorme quadro de avisos no céu. As paredes, de cada lado, tinham painéis de madeira enegrecida brilhante e várias chaminés com bordas douradas. A cada poucos segundos um bruxo emergia de uma das chaminés à esquerda com um pequeno barulho de vento. Ao lado direito pequenas filas se formavam, à frente de cada chaminé, pessoas esperando para partir.

 

Ao meio do Hall havia uma fonte. Um grupo de estátuas douradas, maiores que o tamanho natural, estavam no meio do círculo de água. Maior que todos, havia um bruxo de nobre olhar, apontando sua varinha para o céu; ao seu lado uma bela bruxa, um centauro, um duende e um elfo-doméstico. Os últimos três olhavam, como que adorando, os bruxos. Jatos reluzentes de água jorravam das varinhas dos bruxos, da ponta da flecha do centauro, da ponta do chapéu do duende, e de cada uma das orelhas do elfo, de modo que o barulho de água corrente adicionava-se aos "cracks" das pessoas aparatando e aos passos das centenas de bruxos, em sua maior parte abatidos, com olhar madrugador, que se dirigiam para um conjunto de portões dourados ao fim do Hall.

 

- Por aqui - disse o Sr. Weasley.

 

Eles se juntaram à multidão, tomando seu caminho entre os empregados do Ministério, alguns dos quais carregavam pilhas de pergaminhos, outros suas pastas; alguns liam o Profeta Diário enquanto caminhavam. Ao passarem pela fonte, Harry viu sicles de prata e nuques de bronze, brilhando ao fundo. Uma pequena placa manchada dizia:

 

"TODAS  AS  CONTRIBUIÇÕES  PARA  A  FONTE  DA  FRATERNIDADE  MÁGICA  SERÃO  DOADOS  O  HOSPITAL   ST.  MUNGUS  PARA  DOENÇAS E ACIDENTES MÁGICOS"

 

"Se não for expulso de Hogwarts porei dez galeões", Harry se pegou pensando desesperadamente.

 

- Por aqui, Harry - disse o Sr. Weasley, e saíram da multidão que se dirigia aos portões dourados.

 

Sentaram-se à uma mesa à esquerda; sob um sinal que informava "Segurança", um bruxo mal barbeado, em traje azul-esverdeado, encarou-os quando se aproximavam e deixou de lado seu Profeta Diário.

 

- Estou escoltando um visitante - disse o Sr. Weasley, apontando Harry.

 

- Venha aqui - disse bruxo numa voz mal humorada.

 

Harry caminhou para próximo a ele; o bruxo segurava um longo bastão dourado, fino e flexível como uma antena, e o passou de cima a baixo de Harry, frente e costas.

 

- Varinha - grunhiu o segurança para Harry, pondo de lado o instrumento.

 

Harry entregou sua varinha. O bruxo a colocou num estranho instrumento de latão, que parecia com um conjunto de escalas com um prato. Ele começou a vibrar. Uma pequena tira de pergaminho saiu de um buraco na base. O bruxo o pegou e leu o que estava escrito:

 

- Vinte e oito centímetros, pena de fênix, em uso por quatro anos. Está correto?

 

- Sim - disse Harry nervosamente.

 

- Eu fico com isso - disse o bruxo, guardando o pergaminho. - Você leva isso - disse entregando a varinha de volta.

 

- Obrigado.

 

- 'Pera lá... - disse o bruxo vagarosamente.

 

Seus olhos foram do broche de prata no peito de Harry para sua testa.

 

- Obrigado, Eric - disse o Sr. Weasley firmemente, e pegando Harry pelo ombro o levou de volta para a multidão que caminhava rumo aos portões.

 

Ligeiramente empurrado pela multidão, Harry seguiu o Sr. Weasley através dos portões para um Hall menor adiante, onde pelo menos vinte elevadores esperavam atrás de grades de ferro douradas. Ambos se dirigiram a um deles, acompanhados por várias outras pessoas. Próximo, estava um bruxo com uma grande barba, segurando uma caixa de papelão que emitia um som de arranhões.

 

- Tudo bem, Arthur? - disse o bruxo, acenando com a cabeça para o Sr. Weasley.

 

- O que você tem aí, Bob? - perguntou o Sr. Weasley, olhando pra caixa.

 

- Não estamos muito certos - asseverou o bruxo, sério. - Pensávamos que fosse algum tipo de galinha do pântano, até que começou a cuspir fogo. Parece-me uma séria violação ao banimento da criação de espécies experimentais.

 

Com um ruído estridente, o elevador chegou; a grade dourada se retraiu e Harry e o Sr. Weasley entraram no elevador com o resto da multidão, Harry se viu preso contra a parede. Vários bruxos o olhavam, curiosos; ele observava os pés, evitando o olhar dos demais, mexendo na franja. A grade se fechou ruidosamente e o elevador ascendeu devagar, as correntes rangendo, enquanto a mesma voz feminina que Harry escutara na cabine tornava a falar.

 

- Sétimo andar, Departamento de Jogos e Desportos Mágicos, incluindo a Sede das Confederações Britânica e Irlandesa de Quadribol, o Clube Oficial de Pedra Pesada e o Escritório de Patentes Ridículas.

 

As portas se abriram. Harry vislumbrou o corredor desarrumado, com diversos pôsteres de times de Quadribol ornando as paredes. Um dos bruxos, que carregava inúmeras vassouras, escapou com dificuldade do elevador e desapareceu no corredor. As portas se fecharam e o elevador ascendeu ruidosamente de novo, a voz anunciou:

 

- Sexto andar. Departamento de Transporte Mágico, incluindo a Autoridade sobre a Rede de Flu, o Controle de Vassouras, o Escritório de Portais e o Centro para Testes de Aparatação.

 

As portas uma vez mais se abriram e quatro ou cinco bruxos saíram; ao mesmo tempo diversos aviõezinhos de papel adentraram o elevador. Harry os olhou adejarem preguiçosamente sobre sua cabeça; tinham um pálido tom violeta e podia-se ler "Ministério da Magia" estampado em suas asas.

 

- São memorandos interdepartamentos - sussurrou-lhe o Sr. Weasley. - Nós usávamos corujas mas a confusão era inacreditável... Derrubando tudo sobre as mesas...

 

Assim que o elevador pôs-se a subir os aviõezinhos se dirigiram para a luz do teto.

 

- Quinto andar, Departamento Internacional de Cooperação Mágica, incluindo o Corpo de Padronização de Artefatos Mágicos Internacionais, o Escritório de Direito Mágico Internacional e a Confederação Internacional da Magia, cadeiras britânicas.

 

Quando a porta se abriu dois memorando zuniram para fora, mas diversos outros entraram, de modo que a luz acima tremeluzia enquanto adejavam à sua volta.

 

- Quarto andar, Departamento para a Regulação de Criaturas Mágicas, incluindo as Divisões de Feras, Seres e Espíritos, o Escritório Ligado aos Duendes e o Bureau para a Prevenção de Pestes.

 

- Licença - disse o bruxo que carregava a galinha flamejante, e deixou o elevador seguido por uma esquadrilha de memorandos. As portas se fecharam novamente.

 

- Terceiro andar, Departamento de Catástrofes e Acidentes Mágicos, incluindo o Esquadrão para Reversão de Acidentes Mágicos, o Quartel de Obliviadores e o Comitê de Desculpas para Trouxas.

 

Todos deixaram o elevador neste andar, exceto o Sr. Weasley, Harry e uma bruxa que lia um pergaminho tão longo que se desenrolava pelo chão.

 

Os memorandos remanescentes continuaram voando em torno da lâmpada quando o elevador tornou a ascender e a voz fez seu anúncio.

 

- Segundo andar, Departamento para o Cumprimento do Direito Mágico, incluindo o Escritório do Uso Impróprio da Magia, o Quartel dos Aurores e a Administração dos Serviços Wizengamot.

 

- Somos nós, Harry - disse o Sr. Weasley e seguiram a bruxa para fora do elevador, para um corredor cheio de portas. - Meu escritório é do outro lado do andar.

 

- Sr. Weasley - disse Harry, enquanto passavam por uma janela através da qual a luz solar entrava -, nós ainda estamos no subsolo?

 

- Sim, estamos. Essas janelas estão encantadas. A Manutenção Mágica decide qual tempo teremos todo dia. Tivemos dois meses de furacões da última vez que pedimos aumento... Vire aqui, Harry.

 

Harry olhou sorrateiramente através das portas enquanto passavam. Os aurores haviam coberto as paredes de seus cubículos com desde figuras dos Bruxos Procurados e fotos de seus familiares a pôsteres de times de Quadribol e artigos do Profeta Diário. Um homem em escarlate, com um rabo-de-cavalo maior que o de Gui, estava sentado com suas botas em cima da mesa, ditando um relatório para sua pena. Um pouco adiante uma bruxa com um curativo sobre um dos olhos conversava por sobre seu cubículo com Kingsley Shacklebolt.

 

- 'Dia, Weasley - disse Shacklebolt despreocupadamente ao se aproximarem. - Eu gostaria de ter uma palavrinha com você, se tiver um segundo...

 

- Claro, se for realmente um segundo - disse o Sr. Weasley -, eu estou realmente com pressa.

 

Eles falavam como se parcamente conhecessem um ao outro e quando Harry abriu sua boca para dar bom dia a Kingsley o Sr. Weasley lhe pisou o pé. Eles seguiram Kingsley até o último cubículo.

 

Harry teve um pequeno choque ao ver Sirius lhe piscando de todas as direções. Recortes de jornais e velhas fotografias - mesmo uma em que aparecia como padrinho no casamento dos Potter - adornavam as paredes. O único espaço sem Sirius era um mapa-múndi em que pequenos pontos vermelhos piscavam como jóias.

 

- Aqui - disse Kingsley bruscamente para o Sr. Weasley, empurrando um maço de pergaminhos em suas mãos. - Eu preciso de toda a informação possível sobre veículos voadores nos últimos doze meses. Recebemos informação de que Black possa estar usando sua velha motocicleta.

 

Kingsley deu uma longa piscada para Harry e continuou num sussurro:

 

- Dê-lhe a revista, ele vai achar interessante - e então voltou ao tom normal. - E não demore muito, Weasley, o atraso no seu relatório sobre arcas de fogo segurou nossa investigação por um mês.

 

- Se você tivesse lido meu relatório saberia que o termo é "armas de fogo" - disse o Sr. Weasley friamente. - E temo dizer que você terá de esperar por sua informação sobre motocicletas, nós estamos extremamente ocupados no momento - ele abaixou o tom de voz e disse. - Se você chegar antes das sete, Molly preparou almôndegas.

 

Tornou então para Harry e o tirou do cubículo de Kingsley, em direção a um novo conjunto de portas de carvalho para outra passagem; virou à esquerda, marcharam por mais um corredor, viraram à direita, chegando a um corredor mal-iluminado e puído e andaram até o final, onde uma porta à esquerda, entreaberta, revelava um armário de vassouras e numa porta à direita lia-se numa placa fosca: "Mau Uso de Artefatos Trouxas".

 

O sujo escritório do Sr. Weasley parecia ligeiramente menor que o armário de vassouras. Haviam posto duas mesas lá e mal havia espaço para se mover entre elas, devido ao excesso de fichários nas paredes, sobre os quais jaziam pilhas de documentos. O pequeno espaço restante era dedicado à sua obsessão: pôsteres de carros, incluindo o de um desmontado; duas ilustrações de caixas de correio, que pareciam retiradas de um livro infantil; e um diagrama ensinando a como instalar tomadas, no alto de uma das pilhas descansava uma torradeira, soluçando inconsolavelmente, e um par de luvas de couro cujos polegares brincavam se tocando. Uma fotografia da família no meio da qual, Harry assim achava, Percy havia se escondido.

 

- Não temos uma janela - disse o Sr. Weasley desculpando-se, tirando sua jaqueta de couro e colocando sobre o dossel da cadeira. - Nós pedimos, mas eles acharam desnecessário. Sente-se, Harry, não fique olhando como se Perkins ainda estivesse aí.

 

Harry se viu na cadeira de Perkins enquanto o Sr. Weasley brigava com o maço que Kingsley lhe dera.

 

- Ah - disse sorrindo, ao tirar uma revista intitulada "O Tergiversador" do meio. - Sim... - ele a folheou. - Sim, está certo, Sirius vai achar isso muito divertido. Oh, o que foi agora?

 

Um memorando zuniu através da porta e descansou em cima da torradeira chorosa. O Sr. Weasley o abriu e leu em voz alta:

 

- Terceira regurgitação num toalete público reportada em Bethnal Green, favor investigar imediatamente. Isso está ficando ridículo...

 

- Um toalete regurgitador?

 

- Uma peça nos trouxas - disse o Sr. Weasley, franzindo o cenho. - Tivemos dois casos semana passada, um em Wimbledon e um em Elefante & Castelo. Os trouxas dão descarga e em vez de tudo desaparecer... Bem, você pode imaginar. Os coitados continuam chamando aqueles... Encarnadores, acho que é assim que são chamados... Você sabe, aqueles que consertam tubulações e essas coisas...

 

- Encanadores?

 

- Sim, isso, mas, é claro, eles estão confusos. Só espero que peguemos quem está fazendo isso.

 

- Os aurores irão pegá-los?

 

- Ah, não, isso é muito trivial para os aurores; será a Patrulha para o Cumprimento do Direito Mágico. Ah, Harry, este é Perkins.

 

Um velho bruxo corcunda, tímido, com uma penugem de cabelo branco, entrara na sala, ofegante.

 

- Arthur - disse desesperado, sem olhar Harry -, graças a Deus, eu não sabia o que fazer, se esperar por você ou não. Acabei de enviar uma coruja para tua casa, mas é claro que não a recebeu, uma mensagem urgente chegou dez minutos atrás.

 

- Eu sei, sobre o toalete regurgitador - disse o Sr. Weasley.

 

- Não, não, não é sobre o toalete, é a audiência do menino Potter. Eles mudaram o horário e local. Começa às oito horas, no Tribunal Dez.

 

- Lá embaixo no... Mas eles não me disseram... Pelas barbas de Merlin!

 

O Sr. Weasley olhou em seu relógio, deixou escapar um grito e saltou da cadeira.

 

- Rápido, Harry, deveríamos estar lá há cinco minutos.

 

Perkins se atirou contra os fichários enquanto o Sr. Weasley deixava o escritório correndo, com Harry em seu encalço.

 

- Mas por que alteraram a hora? - Harry perguntou resfolegante enquanto corriam pelos cubículos dos Aurores, e estes erguiam suas cabeças, a fim de verem o que se passava. Harry sentia como se suas entranhas ainda estivessem na cadeira de Perkins.

 

- Não faço idéia, mas graças a Deus chegamos cedo; se você a tivesse perdido seria catastrófico - o sr. Weasley derrapou, parando defronte ao elevador, e golpeou impacientemente o botão "desce". - VENHA!

 

O elevador apareceu e eles correram para seu interior. Toda vez que parava o Sr. Weasley praguejava e apertava furiosamente o botão nove.

 

- Esses tribunais não são usados há anos - disse com raiva -, não consigo entender por que estão lá... A menos que... Não...

 

Uma bruxa roliça empunhando um cálice fumegante entrou e o senhor Weasley não continuou.

 

- O Átrio - informou a voz feminina e a grade dourada se abriu mostrando a Harry as distantes estátuas da fonte. A bruxa roliça deixou o elevador e um bruxo entrou, com cara de luto.

 

- 'Dia, Arthur - disse numa voz sepulcral enquanto o elevador descia. - Não costumo vê-lo muito aqui embaixo.

 

- Coisa urgente, Bode - disse o Sr. Weasley, que estava na ponta dos pés, olhando ansiosamente para Harry.

 

- Ah, sim - disse Bode, encarando Harry sem piscar. - Claro.

 

Harry não tinha emoções para esconder de Bode mas seu olhar fixo não o deixou mais confortável.

 

- Departamento de Mistérios - disse uma voz feminina e deixaram o elevador.

 

- Rápido, Harry - disse o Sr. Weasley ao deixarem o elevador, correndo ao longo de um corredor bem distinto dos acima.

 

As paredes eram nuas, não havia janelas ou portas, além de uma negra ao seu final. Harry esperava passar por ela mas o Sr. Weasley o tomou pelo braço, virando-o para a esquerda, onde um caminho levava a uma escada.

 

- Aqui embaixo, aqui embaixo - disse ofegante o Sr. Weasley, saltando dois degraus por vez. - O elevador não chega tão baixo... Por que estão fazendo isso, eu...

 

Terminaram o lance de escadas e trafegaram por mais um corredor, que guardava grande semelhança ao que levava às masmorras de Snape em Hogwarts, com paredes de pedras desiguais e tochas. As portas por que passavam eram pesadas, com trincos e fechaduras de ferro.

 

- Tribunal... Dez... Sim, estamos quase lá... Sim.

 

O Sr. Weasley parou diante de uma sinistra porta de madeira, com uma imenso ferrolho, e baixou repentinamente contra a parede, com a mão no peito.

 

- Entre - resfolegou, apontando com o polegar para a porta. - Entre lá.

 

- Você não... Você não vem comigo?

 

- Não, não, não é permitido. Boa sorte!

 

O coração de Harry batia violentamente contra seu pomo de adão. Ele respirou fundo, girou a pesada maçaneta de ferro, e adentrou o Tribunal.

 

 

A AUDIÊNCIA

Harry ofegou; não podia se segurar mesmo. A grande masmorra na qual tinha entrado estava horrivelmente familiar. Ele não tinha apenas visto aquilo antes, mas sim estado lá. Este era o lugar que tinha visitado na penseira de Dumbledore, o lugar que tinha observado os Lestrange serem sentenciados à prisão perpétua em Azkaban.

 

As paredes eram feitas de pedra escura, turvamente iluminadas por tochas. Bancos vazios eram vistos um ao lado do outro, mas na frente, nos mais altos bancos de todos, era onde estavam muitas figuras sombrias. Estavam falando em voz baixa mas com o fechar da pesada porta atrás de Harry um silencio ameaçador foi sentido.

 

Uma fria voz masculina soou na sala do tribunal.

 

- Você está atrasado!

 

- Desculpe - disse Harry nervoso. - Eu... Eu não sabia que o horário havia sido mudado.

 

- Não é culpa do Tribunal dos Bruxos - disse a voz. - Uma coruja foi enviada esta manhã para avisar você. Tome seu assento.

 

Harry deixou seu olhar cair sobre sua cadeira no centro da sala, cujos braços estavam cobertos por correntes Ele tinha visto aquelas correntes ganhar vida e amarrar qualquer um que sentasse entre tais. Suas pegadas ecoaram altamente enquanto andava pelo chão de pedra. Quando sentou cuidadosamente na ponta da cadeira as correntes tiniram de modo ameaçador mas não o prenderam. Sentindo-se bastante nauseado, olhou para as pessoas sentadas nos bancos acima.

 

Havia cerca de cinqüenta deles, todos, pelo que ele podia ver, vestindo túnicas cor de ameixa com um W bordado em cor de prata no lado esquerdo do peito e todos o estavam encarando, alguns com expressões muito severas, outras com olhar de curiosidade.

 

No meio da primeira fila se sentou Cornélio Fudge, o Ministro da Magia. Fudge era um homem solene que freqüentemente usava um chapéu verde-limão, embora naquele dia o tivesse dispensado; também tinha dispensado o generoso sorriso que usara quando uma vez falou com Harry. Uma jovem bruxa, bem aparentada, com o cabelo acinzentado muito curto, sentou à esquerda de Fudge; usava um monóculo e parecia ameaçadora. À direita de Fudge havia outra bruxa, mas ela se sentou tão longe no banco que seu rosto estava escondido nas sombras.

 

- Muito bem - disse Fudge. - O acusado está presente. Finalmente. Vamos começar. Estão todos prontos?

 

- Sim senhor - disse uma voz ávida que Harry conhecia. Percy, o irmão de Rony, estava sentado bem na ponta do banco da frente.

 

Harry o olhou, esperando algum sinal de reconhecimento dele, mas nada veio. Os olhos de Percy, por trás de seus óculos, estavam concentrados num pergaminho e uma pena na mão, pronta para escrever.

 

- Audiência Disciplinar do dia doze de Agosto - disse Fudge em voz alta e Percy começou a tomar notas imediatamente. - Entre os crimes cometidos sob o Decreto de Restrição do Uso Lógico da Magia por Menores de Idade e ao Estatuto Internacional de Segredo da Magia por Harry James Potter, residente no número quatro, Rua dos Alfeneiros, Little Whinging, Surrey. Interrogador: Cornélio Oswald Fudge, Ministro da Magia; Amélia Susan Bones, Chefe do Departamento da Imposição da Lei Mágica; Dolores Jane Umbridge, Subsecretária Sênior do Ministro. Escrivão da corte, Percy Ignatius Weasley -

 

- Testemunha de Defesa: Alvo Percival Wulfric Brian Dumbledore - disse uma frágil voz vinda de trás de Harry, que virou a cabeça tão rápido que estalou o pescoço.

 

Dumbledore estava caminhando tranqüilamente através da sala, vestindo uma longa túnica azul-da-meia-noite e uma expressão perfeitamente calma. Sua longa barba e cabelos prateados resplandeciam a luz das tochas enquanto ficava ao lado de Harry e olhava Fudge através de seus óculos meia-lua, que descansavam sobre seu nariz bastante curvo.

 

Os membros do Tribunal estavam murmurando. Todos os olhares agora estavam sobre Dumbledore. Alguns olhavam nervosos, outros amedrontados; duas bruxas mais velhas na fila de trás, entretanto, acenaram para ele dando boas-vindas.

 

Uma emoção forte tinha surgido no peito de Harry ao ver Dumbledore, um fortalecedor, e esperançoso sentimento como aquela que a canção da fênix deu a ele. Queria ver o olhar de Dumbledore mas não estava olhando para o lado dele; continuava a olhar para Fudge, que estava visivelmente perturbado.

 

- Ah - disse Fudge, que o olhou desconcertado. - Dumbledore. Sim. Então... Você... Recebeu a mensagem de que a hora... E o lugar da audiência havia sido mudado?

 

- Eu quase não cheguei a tempo - disse bem animado. - Entretanto, devido a um acaso da sorte eu já estava aqui no Ministério há mais de três horas, então não foi nada demais.

 

- Sim, bem, eu suponho que vamos precisar de outra cadeira... Eu... Weasley... Você poderia?

 

- Não se preocupe, não se preocupe - disse Dumbledore de forma agradável; pegou sua varinha, deu um pequeno giro e uma bela poltrona apareceu do nada próximo a Harry.

 

Dumbledore se sentou, uniu as pontas de seus longos dedos e olhou Fudge com uma expressão de interesse. O Tribunal ainda estava murmurando inquieto; apenas quando Fudge falou novamente que os demais presentes se sentaram.

 

- Sim - disse Fudge outra vez misturando suas anotações. - Bem, então, as acusações. Sim.

 

Ele desenrolou um pedaço de pergaminho da pilha que estava à sua frente, respirou fundo e leu.

 

- As acusações contra o acusado são as seguintes: que ele propositalmente, deliberadamente e de total consciência da ilegalidade de suas ações, tendo recebido avisos prévios por escrito do Ministério da Magia por uma acusação semelhante, produziu um Feitiço de Patrono numa área trouxa inabitada, na presença de um trouxa, no dia dois de Agosto às 9h23min, o que constitui uma crime sob o Parágrafo C do Decreto do Uso Lógico da Magia por Menores de Idade, 1875, e também sob seção Treze do Estatuto Internacional da Confederação de Segredo dos Bruxos. Você é Harry James Potter, da Rua dos Alfeneiros, número 4, Little Whinging, Surrey? - acrescentou, olhando Harry por cima do pergaminho.

 

- Sim.

 

- Você recebeu um aviso oficial do Ministério por usar magia ilegalmente três anos atrás, não recebeu?

 

- Sim mas...

 

- E você ainda conjurou um patrono na noite de dois de Agosto?

 

- Sim, mas...

 

- Sabendo que não é permitido a você usar magia fora da escola enquanto tiver idade menor que dezessete anos?

 

- Sim, mas...

 

- Sabendo que estava em área cheia de trouxas?

 

- Sim mas...

 

- Completamente ciente de que estava perto de um trouxa naquela hora?

 

- Sim - disse Harry zangado. - Mas eu só usei porque nós estávamos...

 

A bruxa com o cabelo curto falou, interrompendo Harry.

 

- Você produziu um patrono por completo?

 

- Sim. Por quê?

 

- Um patrono corpóreo?

 

- Um... O quê?

 

- Seu patrono teve uma forma bem definida? O que quero dizer é, ele era mais que vapor ou fumaça?

 

- Sim - disse Harry impaciente e ligeiramente desesperado. - É um cervo, sempre foi um cervo.

 

- Sempre? - perguntou Madame Bones. - Você já havia produzido um patrono antes?

 

- Sim, eu faço isso há mais de um ano.

 

- E você tem quinze anos?

 

- Sim, e...

 

- Você aprendeu isso na escola?

 

- Sim, o professor Lupin me ensinou no terceiro ano por causa do...

 

- Impressionante - disse Madame Bones, olhando-o. - Um patrono verdadeiro nessa idade... Muito impressionante mesmo...

 

Alguns dos bruxos e bruxas ao redor dela estavam murmurando outra vez; alguns concordando com a cabeça e outros franzindo a testa e balançando a cabeça para um lado e para o outro.

 

- Não é uma questão de quão impressionante foi a magia - disse Fudge impaciente. - De fato, quanto mais impressionante pior o caso, eu imaginaria, supondo que o garoto fez isso bem em frente a um trouxa!

 

Os que estavam franzindo a testa agora murmuraram concordando, mas foi a visão de Percy concordando hipocritamente que fez Harry falar novamente.

 

- Eu fiz isto por causa dos dementadores - disse em voz alta, antes que qualquer um pudesse interrompê-lo novamente.

 

Harry esperava mais murmúrio mas o silencio que surgiu parecia estar mais denso que antes.

 

- Dementadores? - perguntou Madame Bones depois de alguns segundos, com suas grossas sobrancelhas se levantando até que seu monóculo ameaçou cair do rosto. - O que você quer dizer com isso, garoto?

 

- Eu quero dizer que havia dois dementadores lá em baixo, na cidade, e eles atacaram a mim e a meu primo!

 

- Ah! - disse Fudge outra vez, mostrando um desagradável sorriso enquanto olhava o Tribunal, como se os estivessem convidando para ouvir uma piada. - Sim. Sim, eu acho que ouvimos algo parecido com isso.

 

- Dementadores na cidade? - disse Madame Bones, num tom de grande surpresa. - Eu não compreendo...

 

- Não compreende, Amélia? - disse Fudge, ainda sorrindo. - Deixe-me explicar. Ele estava pensando sobre isso e decidiu que dementadores dariam uma bela matéria para a primeira página do jornal, uma bela matéria mesmo. Trouxas não podem ver dementadores, podem, garoto? Muito conveniente, altamente conveniente... Então é sua palavra e nenhuma testemunha...

 

- Eu não estou mentindo! - disse Harry em voz alta, sobre outra erupção de murmúrios da corte. - Havia dois deles, vindo do outro lado da rua, ficou tudo escuro e frio e meu primo sentiu a presença deles e correu em direção a eles...

 

- É o bastante, já chega! - disse Fudge com um olhar presunçoso em seu rosto. - Eu sinto muito interromper o que para mim parece ser uma história muito bem ensaiada...

 

Dumbledore limpou sua garganta. O Tribunal ficou em silêncio outra vez.

 

- Nós temos, de fato, uma testemunha da presença dos dementadores naquela rua - disse ele. - Além de Duda Dursley, é claro.

 

A cara gorducha de Fudge pareceu se esvaziar, como se alguém tivesse deixado sair todo o ar dentro dela. Ele olhou Dumbledore por um ou dois segundos, então disse.

 

- Nós não tempos tempo para ouvir outras historinhas, sinto muito, Dumbledore. Eu quero resolver isso rápido...

 

- Eu posso estar errado - disse Dumbledore educadamente - mas eu tenho certeza de que, segundo A Carta de Direitos do Tribunal, o acusado tem o direito de apresentar testemunhas em seu caso. Não é a política do Departamento de Imposição da Lei Mágica, Madame Bones? - e continuou dirigindo-se para a bruxa de monóculo.

 

- Isso é verdade - disse Madame Bones. - Perfeitamente certo.

 

- Oh, muito bem, muito bem! - rebateu Fudge. - Onde está essa pessoa?

 

- Eu a trouxe comigo. Ela está lá fora. Eu posso...?

 

- Não... Weasley, vá você - gritou Fudge para Percy, que levantou uma vez, desceu correndo os degraus de pedra do balcão do juiz e passou apressadamente por Dumbledore e Harry sem olhá-los.

 

Um momento depois Percy retornou seguido pela Sra Figg. Ela parecia assustada e mais esquisita do que nunca. Harry desejou que ela estivesse usando algo diferente dos seus chinelos de flanela.

 

Dumbledore se levantou e deu sua cadeira a Sra Figg, criando uma segunda cadeira para ele mesmo.

 

- Nome completo - disse Fudge em voz alta quando Sra. Figg tinha se assentado nervosamente bem na ponta da poltrona.

 

- Arabella Doreen Figg - disse a Sra. Figg em sua voz trêmula.

 

- O quem exatamente você é? - disse Fudge com uma voz entediada e arrogante.

 

- Eu sou uma moradora da Rua dos Alfeneiros, próximo de onde Harry Potter mora.

 

- Nós não temos nenhum dado sobre bruxos ou bruxas vivendo nessa rua, nenhum outro além de Harry Potter - disse Madame Bones imediatamente. - A situação está sempre sendo monitorada de perto, devido... Devido aos eventos ocorridos.

 

- Eu sou um aborto - disse a Sra. Figg. - Assim, você não poderia ter me registrado, poderia?

 

- Um aborto, é? - disse Fudge, olhando-a de perto. - Nós vamos verificar isso. Você deve deixar detalhes de seu parentes com Weasley, meu assistente. Acidentalmente abortos poderiam ver dementadores? - disse, olhando da esquerda para a direita ao longo do banco.

 

- Sim nós podemos - disse a Sra. Figg indignada.

 

Fudge olhou novamente para ela, levantando as sobrancelhas:

 

- Muito bem - disse ele indiferente. - Qual é a sua história?

 

- Eu tinha saído para comprar ração para gato na loja da esquina, por volta das nove horas, na noite do dia dois de Agosto - disse a Sra. Figg rapidamente, como se tivesse decorado tudo aquilo que estava dizendo. - Quando eu escutei um barulho vindo da rua que fica entre a Magnólia e a Wisteria Walk. Ao chegar perto da rua eu vi os dementadores correndo...

 

- Correndo? - disse Madame Bones com severidade. - Dementadores não correm, eles deslizam.

 

- É o que eu quis dizer - disse a Sra. Figg rapidamente, com as bochechas ficando cor-de-rosa. - Deslizando ao longo da rua em direção ao que pareciam ser dois meninos.

 

- Com o que eles se parecem? - disse Madame Bones, fechando seus olhos de modo que a ponta do monóculo desaparecesse coberto por sua pele.

 

- Bem, um era muito gordo e o outro muito magro.

 

- Não, não! - disse Madame Bones impaciente. - Os dementadores... Descreva-os.

 

- Ah - disse a Sra. Figg, ficando cor-de-rosa na região do pescoço dessa vez. - Eles eram grandes. Grandes e usavam um manto.

 

Harry sentiu um horrível buraco no seu estômago. Não importava o que a Sra. Figg dissesse, soou para ele como se o máximo que ela tivesse visto fosse uma figura de um dementador, e uma figura nunca poderia mostra a verdadeira forma que esses seres tinham: o jeito assustador com que se moviam, flutuando acima do chão; ou o cheiro podre que exalavam; ou aquele terrível barulho que faziam enquanto sugavam o ar em volta...

 

Na segunda fila um bruxo baixinho com grande bigode se inclinou para sussurrar no ouvido da sua vizinha, uma bruxa com cabelo frisado. Ela deu uma risadinha e concordou com a cabeça.

 

- Grande e usando mantos - repetiu Madame Bones friamente, enquanto Fudge bufava menosprezando. - Eu sei. Mais alguma coisa?

 

- Sim - disse a Sra. Figg. - Eu os senti. Ficou tudo muito frio e essa era uma noite de verão muito quente, vejam bem. E eu senti... Como se toda minha felicidade tivesse sido tirada do mundo... E eu me lembrei... De coisas terríveis...

 

Sua voz se comoveu e silenciou. Os olhos de Madame Bones se abriram levemente. Harry podia ver marcas vermelhas abaixo da sua sobrancelha onde o monóculo estava colocado.

 

- O que os dementadores fizeram? - perguntou ela e Harry sentiu sua esperança aumentar.

 

- Eles foram em direção aos meninos - disse a Sra. Figg, sua voz estava mais forte e mais confiante agora, e a cor-de-rosa de suas bochechas desapareceram. - Um deles tinha caído. O outro tinha se virado, tentando afastar o dementador. Esse era Harry. Ele tentou duas vezes e só conseguiu produzir um vapor prateado. Na terceira tentativa ele produziu um patrono, que atacou o primeiro dementador e então, com esse ato encorajador, expulsou o segundo para longe do seu primo. E foi isto o que aconteceu - concluiu a Sra. Figg um tanto quanto fora do comum.

 

Madame Bones olhou a Sra. Figg em silêncio. Fudge não estava olhando para ela, estava inquieto com seus papéis. Finalmente ele levantou os olhos e disse, de forma agressiva.

 

- Foi isso o que você viu?

 

- Foi o que aconteceu - repetiu a Sra. Figg.

 

- Muito bem, você pode ir.

 

A Sra. Figg olhou assustada de Fudge para Dumbledore, então se levantou e se retirou. Harry ouviu o barulho da porta fechando-se atrás dela.

 

- Não é uma testemunha muito convincente - disse Fudge orgulhoso.

 

- Ah, eu não sei - disse Madame Bones, em sua voz rouca. - Ela certamente descreveu os efeitos de um ataque de dementadores com exatidão. E eu não posso imaginar porque diria que estavam lá se não estivessem.

 

- Mas dementadores vagando num subúrbio trouxa e somente para encontrar um bruxo? - disse Fudge com seu tom arrogante. - As probabilidades de isso acontecer são muito, muito pequenas. Nem mesmo Bagman apostaria nisso...

 

- Ah, eu não acho que algum de nós acredite que os dementadores estiveram por lá por pura coincidência - disse Dumbledore ligeiramente.

 

A bruxa sentada à direita de Fudge, com o rosto na sombra, moveu-se levemente mas todos os outros continuaram em completo silêncio.

 

- E o que você supõe que isso signifique - perguntou Fudge com frieza.

 

- Significa que eu acho que eles foram enviados para lá - disse Dumbledore.

 

- Eu acho que teríamos registros disso se alguém tivesse enviado um par de dementadores para passear pela cidade! - gritou Fudge.

 

- Não se atualmente os dementadores estiverem recebendo ordens de alguém que não é do Ministério da Magia - disse Dumbledore calmamente. - Eu já lhe disse o que eu penso sobre essa situação, Cornélio.

 

- Sim, você me disse - disse Fudge de forma imponente - mas eu não tenho nenhuma razão para acreditar que suas visões são mais do que apenas besteiras, Dumbledore. Os dementadores permanecem em Azkaban e estão fazendo tudo o que pedimos para eles fazerem.

 

- Então - disse Dumbledore calmamente mas claramente - nós devemos nos perguntar por que alguém dentro do Ministério mandaria uma dupla de dementadores para a cidade, no dia dois de Agosto.

 

No completo silêncio em que recebeu essas palavras a bruxa que estava à direita de Fudge inclinou-se para frente de modo que Harry viu o seu rosto pela primeira vez.

 

Ele achou que ela se parecia muito com um grande e pálido sapo. Estava particularmente agachada com um largo, rosto flácido, como o pescoço de tio Válter e uma boca muito grande e frouxa. Seus olhos eram grandes, arredondados e ligeiramente salientes. Até mesmo a tiara de veludo preto que usava na cabeça para prender os curtos cabelos cacheados a faziam lembrar uma grande mosca que estaria prestes a capturar com sua grande língua pegajosa.

 

- A direção reconhece Dolores Jane Umbridge, Subsecretária Sênior do Ministro - disse Fudge.

 

A bruxa falou numa voz vibrante, feminina, muito alta, que pegou Harry de surpresa; ele esperava que ela fosse coaxar.

 

- Eu tenho certeza que devo ter entendido você mal, professor Dumbledore - disse ela, com um sorriso que fez seus grandes olhos redondos parecerem mais frios do que nunca. - Que bobagem de minha parte. Mas isso pareceu por um momento como se você estivesse sugerindo que o Ministério da Magia tivesse ordenado o ataque a esse garoto!

 

Ela deu uma gargalhada tão nítida que fez os cabelos da nuca de Harry ficarem de pé. Alguns dos outros membros do Tribunal riram com ela. Mas sinceramente não parecia que qualquer um deles estivesse se divertindo.

 

- Se é verdade que os dementadores estão recebendo ordens apenas do Ministério da Magia e que também é verdade que dois deles atacaram Harry e seu primo uma semana atrás, então logicamente podemos concluir que alguém no Ministério deve ter ordenado o ataque - disse Dumbledore educadamente. - Certamente, esses dementadores em particular podem ter fugido ao controle do Ministério...

 

- Não há dementadores fora do controle do Ministério! - gritou Fudge, que agora parecia um tijolo de tão vermelho.

 

Dumbledore inclinou sua cabeça fazendo uma pequena reverência.

 

- Então sem dúvida o Ministério fará um inquérito completo para saber por que dois dementadores estavam tão longe de Azkaban e por que fizeram um ataque sem autorização.

 

- Você não decide o que o Ministério da Magia faz ou não faz, Dumbledore! - gritou Fudge, agora com uma cor vermelha que deixaria o tio Válter orgulhoso.

 

- É claro que não! - disse Dumbledore suavemente. - Eu estava meramente expressando minha confiança de que esta questão não ficará sem investigação.

 

Ele olhou Madame Bones, que reajustava seu monóculo e olhava de volta para ele, franzindo levemente as sobrancelhas.

 

- Eu queria lembrar a todos que o comportamento desses dementadores, se realmente eles não são apenas imaginação deste garoto, não é o assunto dessa audiência! - disse Fudge. - Nós estamos aqui para examinar os crimes de Harry Potter sob o Decreto de Restrição do Uso Lógico da Magia por Menores de Idade!

 

- Certamente estamos - disse Dumbledore -, mas a presença de dementadores naquela rua é altamente relevante. A Cláusula Sete do Decreto diz que magia pode ser utilizada à frente de trouxas em circunstâncias excepcionais, e essas circunstâncias excepcionais incluem situações que ameaçam a vida do bruxo ou bruxa, ou quaisquer bruxo, bruxa ou trouxa presente no momento do...

 

- Nós estamos familiarizados com a Cláusula Sete, muito obrigado! - resmungou Fudge.

 

- Certamente estão - disse Dumbledore com cortesia. - Então estamos de acordo que o uso do patrono de Harry cai precisamente nestas circunstâncias excepcionais que a Cláusula Sete descreve?

 

- Se houvesse dementadores, o que eu duvido.

 

- Você ouviu sobre isso da testemunha ocular - interrompeu Dumbledore. - Se você duvida da honestidade dela, chame-a aqui novamente e a interrogue outra vez. Tenho certeza que ela não faria objeção.

 

- Eu... Que... Mão... - esbravejou Fudge, mexendo nos papeis à sua frente. - Isto... Eu quero isso resolvido hoje, Dumbledore.

 

- Mas naturalmente, você não se importaria de quantas vezes ouvir uma testemunha, se a alternativa fosse um abuso da lei.

 

- Sério abuso, o meu chapéu! - disse Fudge no limite de sua voz. - Alguma vez você se ocupou em contar o número de histórias que todo mundo sabe que esse garoto inventou, Dumbledore, enquanto tenta encobrir o flagrante de uso indevido de magia fora da escola? Eu suponho que você tenha esquecido daquele feitiço de levitação que ele usou três anos atrás...

 

- E que não fui eu, foi um elfo-doméstico! - disse Harry.

 

- VOCÊ VÊ? - rugiu Fudge, gesticulando com extravagância em direção a Harry. - Um elfo-doméstico. Em uma casa trouxa! Eu pergunto a você!

 

- O elfo-doméstico em questão está atualmente trabalhando em Hogwarts - disse Dumbledore. - Eu posso trazê-lo aqui num instante para testemunhar se você quiser!

 

- Eu... Não... Eu não tenho tempo para escutar elfos-domésticos! De qualquer modo, não é apenas isto. Ele inflou a tia, pelo amor de Deus! - disse Fudge gritando, batendo seu punho na banca do juiz e derramando um vidro de tinta.

 

- E você muito bondoso não se queixou naquela ocasião, aceitando, eu presumo, que até os melhores bruxos nem sempre conseguem controlar suas emoções - disse Dumbledore calmamente, enquanto Fudge tentava limpar a tinta de suas anotações.

 

- E eu nem comecei a citar as coisas que ele fez na escola.

 

- Mas como o Ministério não tem autoridade para punir os estudantes de Hogwarts por mal comportamento na escola, o comportamento de Harry não é relevante nesta audiência - disse Dumbledore, mais educado do que nunca, mas agora com um ar de frieza em suas palavras.

 

- Oho! - disse Fudge. - Não é de nossa conta o que acontece na escola, não é? Você acha que é assim?

 

- O Ministério não tem autoridade para expulsar alunos de Hogwarts, Cornélio, como eu te avisei na noite de dois de Agosto. Nem tem o direito de confiscar suas varinhas até que as acusações sejam provadas e, novamente, como eu te avisei na noite de dois de Agosto, na sua pressa de se certificar que a lei fosse mantida, você se mostrou, descuidado, tenho certeza, de supervisionar algumas leis por si mesmo.

 

- Leis podem ser mudadas - disse Fudge em tom selvagem.

 

- Certamente que podem - disse Dumbledore, inclinando sua cabeça. - E você certamente parece querer fazer muitas mudanças, Cornélio. Porque, há poucas semanas, eu fui convidado a deixar o Tribunal Bruxo, e com isso ele já começou tratar um simples caso de uso indevido de magia por menores de idade como um ato criminoso do pior tipo!

 

Alguns dos bruxos acima deles se moveram incomodamente em seus assentos. Fudge ficou de uma cor quase castanha. A bruxa que se parecia com um sapo, à direita dele, entretanto, apenas encarou Dumbledore, com seu rosto quase inexpressivo.

 

- Até onde eu sei - continuou Dumbledore - ainda não há lei que diz que o trabalho desta corte é punir Harry por cada mágica que ele já fez. Ele tem sido acusado de uma transgressão específica e apresentou sua defesa. Tudo o que ele e eu podermos fazer agora é esperar seu veredicto.

 

Dumbledore uniu as pontas dos dedos novamente e não disse mais nada. Fudge desviou o olhar de Dumbledore, procurando algo mais; ele não achava que era certo Dumbledore dizer ao Tribunal que era hora de tomar a decisão. Novamente, entretanto, Dumbledore pareceu distraído demais para notar que Harry tentava ver seu olhar. Continuou a olhar para os bancos onde o Tribunal inteiro havia caído em urgentes cochichos.

 

Harry olhou para seus pés. Seu coração, que parecia ter aumentado para um tamanho anormal, estava batendo com tanta força por baixo das costelas que cada batida parecia um soco. Imaginou que a audiência duraria muito mais que isso. Não tinha certeza se tinha causado uma boa impressão. Realmente não tinha muito que dizer. Devia ter explicado mais sobre os dementadores, sobre como ele tinha caído, sobre como ele e Duda tinham quase sido beijados pelos dementadores...

 

Duas vezes olhou Fudge e abriu sua boca para falar mas seu coração agora estava diminuindo suas passagens de ar e ambas vezes ele simplesmente respirou profundamente e olhou novamente para seus sapatos.

 

Então os cochichos pararam. Harry queria olhar os juizes mas percebeu que era realmente muito, muito fácil ficar examinando seus cadarços.

 

- Aqueles que são a favor de retirar as acusações? - disse a voz rouca de Madame Bones.

 

A cabeça de Harry se ergueu num solavanco. Haviam mãos erguidas, muitas delas... Mais da metade! Respirando muito rápido, ele tentou contar mas antes que pudesse terminar Madame Bones disse.

 

- E aqueles em favor da acusação?

 

Fudge levantou sua mão e mais ou menos meia dúzia de outros, incluindo a bruxa à sua direita, o bruxo de bigode e a bruxa de cabelo frisado na segunda fila.

 

Fudge olhou em volta para todos eles, como se houvesse alguma coisa entalada em sua garganta, então abaixou sua mão. Ele respirou profundamente duas vezes e disse, numa voz distorcida por uma fúria reprimida.

 

- Muito bem, muito bem... Todas as acusações estão retiradas.

 

- Excelente - disse Dumbledore rapidamente, mostrando os seus sentimentos, puxou sua varinha e vez as duas poltronas sumirem. - Bem, eu preciso ir. Tenham um bom dia todos vocês.

 

E sem olhar para Harry, ele saiu da masmorra.

 

 

OS MEDOS DA SRA. WEASLEY

A partida de Dumbledore pegou Harry de surpresa. Ele permaneceu sentado onde estava, brigando com seus sentimentos de choque e alívio. Os componentes do Tribunal estavam todos se levantando, conversando, pegando seus documentos e os guardando. Harry se levantou. Ninguém parecia prestar atenção nele à exceção da bruxa com aparência de sapo, que estava à direita de Fudge, e que agora olhava para ele ao invés de Dumbledore. Ignorando-a, tentou olhar Fudge ou Madame Bones, querendo saber se estava livre para ir, mas este parecia estar determinado em não o olhar e Madame Bones estava ocupada com sua maleta, então ele fez menção de sair e como ninguém o chamou começou a andar mais rápido.

 

Ele fez os últimos passos correndo, forçou a porta e quase colidiu com o Sr. Weasley, que estava esperando do lado de fora, parecendo pálido e apreensivo.

 

- Dumbledore não falou...

 

- Inocente - Harry disse, fechando a porta atrás de si. - De todas as acusações!

 

O Sr. Weasley agarrou Harry pelos ombros.

 

- Harry, é maravilhoso! Bem, claro, eles não encontraram nenhuma culpa em você, nem evidências, mas mesmo assim, não posso fingir que eu estava...

 

Mas o Sr. Weasley parou, porque a porta da corte se abriu novamente. Os componentes do Tribunal estavam saindo.

 

- Pelas barbas de Merlin! - exclamou o Sr. Weasley, puxando Harry para deixá-los passar. - Você estava sendo julgado pela alta corte?

 

- Acho que sim - disse Harry baixinho.

 

Um ou dois bruxos acenaram para Harry enquanto passavam e uns poucos, incluindo Madame Bones, disseram "Bom Dia, Arthur" ao Sr. Weasley, mas a maioria ignorou seus olhos. Cornélio Fudge e a bruxa com cara de sapo foram uns dos últimos a sair da masmorra. Fudge agiu como se o Sr. Weasley e Harry fossem parte da parede mas, novamente, a bruxa olhou bem para Harry, avaliando-o enquanto passava. O último a deixar a masmorra foi Percy. Como Fudge, ele ignorou completamente o Sr. Weasley e Harry; seguiu enrolando um grande pergaminho e a mão cheia de penas para escrever, suas costas rijas e o nariz empinado. Linhas apareceram no lugar da boca do Sr. Weasley, tal a força que ele a apertava seus lábios, mas, além disso, ele não deu nenhum sinal de que havia visto seu terceiro filho.

 

- Vou levá-lo de volta de forma que eu possa contar aos outros as boas notícias - disse ele, guiando Harry à frente assim que os calcanhares de Percy desapareceram nas escadas que levavam ao nono andar. - Eu o deixarei lá no caminho para aquele banheiro em Bethnal Green. Vamos...

 

- Então, o que você fará sobre o banheiro? - perguntou Harry sorrindo.

 

De repente tudo parecia ser cinco vezes mais engraçado que o normal. Ele estava livre. Estava voltando para Hogwarts.

 

- Oh, é apenas um contra feitiço bem simples - disse o Sr. Weasley enquanto chegavam às escadas. - Mas o problema não é ter que consertar os danos. É mais a atitude por trás do vandalismo, Harry. Brincar com os trouxas pode divertir alguns bruxos mas há a impressão de algo mais profundo e sujo, e eu, por exemplo..

 

O Sr. Weasley parou no meio da frase. Eles alcançaram o nono andar e Cornélio Fudge estava parado a alguma distância deles, falando baixinho com um homem alto com um cabelo loiro escorrido e um rosto pálido.

 

O segundo homem olhou para eles ao ouvir o som de seus passos. Ele, também, parou no meio da conversa, seus olhos cinzentos brilhando e fixos no rosto de Harry.

 

- Bem, bem, bem... Patrono Potter... - disse Lúcio Malfoy friamente.

 

Harry se sentiu atordoado, como se tivesse batido contra algo sólido. A última vez que vira esses frios olhos cinzentos fora através de uma máscara, numa reunião de Comensais da Morte, e ouviu aquela voz gargalhando em um cemitério escuro enquanto Lord Voldemort o torturava. Harry não podia acreditar como Lúcio Malfoy ousava olhá-lo no rosto; não podia acreditar que ele estava ali, no Ministério da Magia, ou que Cornélio Fudge estava falando com ele, quando Harry tinha contado ao Ministro há apenas algumas semanas que Malfoy era um Comensal da Morte.

 

- O ministro estava me contando sobre sua sorte em escapar, Potter - disse o Sr. Malfoy. - É estranho como você continua entrando em buracos tão apertados... Como uma cobra, realmente.

 

O Sr. Weasley apertou o ombro de Harry em aviso.

 

- Sim - disse Harry -. sim, Eu sou bom em escapar.

 

Lúcio Malfoy levou seus olhos para o rosto do Sr. Weasley.

 

- E Arthur Weasley também! O que faz aqui, Arthur?

 

- Eu trabalho aqui.

 

- Não aqui, certamente? - disse o Sr. Malfoy, levantando suas sobrancelhas e mirando a porta atrás do ombro do Sr. Weasley. - Eu pensava que você ficava no segundo andar... Você não faz algo que envolve em pegar artefatos dos trouxas e enfeitiçá-los?

 

- Não - disse o Sr. Weasley, seus dedos agora beliscando o ombro de Harry.

 

- O que você faz aqui? - perguntou Harry a Lúcio Malfoy.

 

- Não acho que assuntos pessoais entre mim e o Ministro sejam de sua conta, Potter - disse Malfoy, fechando a frente de suas vestes. Harry escutou um som que parecia uma sacola cheia de ouro. - Realmente, apenas porque você é garoto favorito de Dumbledore não deve esperar a mesma indulgência do resto de nós... Podemos ir para o seu escritório então, Ministro?

 

- Certamente - disse Fudge, virando suas costas para Harry e o Sr. Weasley. - Por aqui, Lúcio.

 

Eles saíram juntos, conversando baixo. O Sr. Weasley não largou o ombro de Harry até desaparecerem no elevador.

 

- Por que ele não ficou esperando fora do escritório de Fudge se tinham assuntos juntos? - disse Harry, enfurecendo-se. - O que ele estava fazendo aqui embaixo?

 

- Tentando entrar na corte, se quer saber - disse o Sr. Weasley, parecendo extremamente agitado e olhando por cima do ombro para se certificar que de não estavam sendo ouvidos. - Tentando saber se você seria expulso ou não. Vou deixar um bilhete para Dumbledore quando for lhe deixar. Ele precisa saber que Malfoy está falando com Fudge novamente.

 

- Que tipo de negócio eles têm juntos?

 

- Ouro, eu imagino - disse o Sr. Weasley zangado. - Malfoy tem sido generoso em muitas coisas por muitos anos... Juntando-se às pessoas certas... Então ele pode pedir favores... Atrasar leis que não quer aprovadas... Lúcio Malfoy é muito bem relacionado.

 

O elevador chegou; estava vazio à exceção de vários memorandos que flutuavam a redor da cabeça do Sr. Weasley, enquanto ele pressionava o botão para a entrada do edifício e as portas se fecharam. Ele os afastou, irritado.

 

- Sr. Weasley... - disse Harry lentamente - Se Fudge está se encontrando com um Comensal da Morte como Malfoy, se ele está o vendo sozinho, como saberemos que ele não está sob o controle da Maldição Imperius?

 

- Não acho que isso tenha nos ocorrido, Harry. Mas Dumbledore acha que Fudge está agindo por ele mesmo no momento... Que, como Dumbledore disse, não é nenhum conforto. Melhor não falar nada por enquanto, Harry.

 

As portas deslizaram e saíram para o agora deserto salão de entrada. Eric, o segurança, estava escondido por trás do Profeta Diário novamente. Eles já estavam passando pela fonte dourada antes de Harry se lembrar.

 

- Espere... - disse ele para o Sr. Weasley e, puxando sua bolsa de dinheiro do bolso, virou para a fonte.

 

Olhou na bela face do bruxo, mas de perto ele parecia realmente fraco e tolo. A bruxa estava com um sorriso insulso como se fosse uma concorrente de um concurso de beleza e, pelo que Harry sabia sobre duendes e centauros, eles eram dificilmente pegos olhando daquela forma para humanos. Apenas a atitude do elfo-doméstico parecia convincente. Sorrindo ao pensar o que Hermione diria se ela visse a estátua, Harry virou a sua sacola e não só a esvaziou dos galeões mas de tudo o que havia nela dentro da fonte.

 

- Eu sabia! - gritou enquanto socava o ar. - Você sempre consegue sair de enrascadas!

 

- Eles tinham que lhe absolver - disse Hermione, que parecia positivamente que ia desmaiar de ansiedade quando Harry entrou na cozinha e estava agora segurando uma mão trêmula sobre seus olhos. - Não havia nada contra você. Não mesmo.

 

- Todos parecem aliviados, acho, considerando que todos vocês sabiam que eu estaria bem - disse Harry, sorrindo.

 

A Sra. Weasley estava limpando seu rosto no seu avental e Fred, Jorge e Gina estavam fazendo algum tio de dança de guerra com uma canção que dizia: "Ele conseguiu, ele conseguiu, ele conseguiu...".

 

- Já basta! Parem! - gritou o Sr. Weasley, mesmo que ele estivesse sorrindo. - Escute, Sirius, Lúcio Malfoy estava no Ministério...

 

- O quê? - disse Sirius rapidamente.

 

- Ele conseguiu, ele conseguiu, ele conseguiu...

 

- Quietos vocês três! Sim, nós o vimos falando com Fudge no nono andar, então eles foram para o escritório de Fudge juntos. Dumbledore precisa saber.

 

- Absolutamente - disse Sirius. - Nós contaremos a ele, não se preocupe.

 

- Bem, é melhor eu ir. Tem um banheiro que vomita esperando por mim em Bethnal Green. Molly, eu chegarei tarde. Tonks está me cobrindo mas Kingsley pode aparecer para jantar...

 

- Ele conseguiu, ele conseguiu, ele conseguiu...

 

- Basta! Fred, Jorge, Gina! - disse Sra. Weasley enquanto o Sr. Weasley deixava a cozinha. - Harry, querido, venha e se sente para almoçar. Você não comeu quase nada no café.

 

Rony e Hermione sentaram à frente dele, parecendo muito mais felizes do que estavam desde que Harry chegou a Grimmauld Place, e Harry se sentia aliviado. A casa sombria de repente parecia mais acolhedora e mais convidativa; mesmo Kreacher parecia menos feio quando botou seu nariz na cozinha para investigar a fonte de tanto barulho.

 

- Claro, assim que Dumbledore ficou do seu lado não havia nenhuma forma de deles lhe acusarem - disse Rony feliz, agora servindo enormes quantidades de batata nos pratos de todos.

 

- Sim, ele foi por mim - disse Harry. Sentiu que soaria muito ingrato ou mesmo criancice dizer "Eu queria que ele tivesse falado comigo, ou mesmo olhado pra mim". Enquanto pensava nisso, sua cicatriz doeu muito e ele pôs a mão sobre ela.

 

- O que é? - disse Hermione, parecendo alarmada.

 

- A cicatriz - cochichou Harry. - Mas não é nada... Tem acontecido todo o tempo...

 

Ninguém mais notou; todos estavam agora comendo satisfeitos devido ao resultado do julgamento de Harry; Fred, Jorge e Gina ainda estavam cantando. Hermione parecia ansiosa mas antes que pudesse dizer alguma coisa Rony disse alegremente.

 

- Eu aposto que Dumbledore aparecerá esta noite para celebrar conosco.

 

- Eu não acho que ele possa, Rony - disse a Sra. Weasley, colocando um grande prato de galinha cozida na frente de Harry. - Ele está muito ocupado no momento.

 

- Ele conseguiu, ele conseguiu, ele conseguiu...

 

- CALEM-SE! - urrou a Sra. Weasley.

 

Nos dias seguintes Harry não deixou de notar que havia uma pessoa no número 12 da Grimmauld Place que não parecia estar completamente satisfeito com o retorno de Harry para Hogwarts. Sirius demonstrou uma grande alegria quando soube da audiência, apertando a mão de Harry, parecendo satisfeito como todos os outros. Logo, porém, ele pareceu mais soturno e calado que antes, falando pouco com todos, mesmo com Harry, e passando mais e mais tempo com Bicuço.

 

- Não se sinta culpado! - disse Hermione, depois que Harry confidenciou alguns de seus sentimentos a ela e Rony enquanto esfregavam um armário mofado no terceiro andar alguns dias depois. - Você pertence a Hogwarts e Sirius sabe disso. Pessoalmente eu acho que ele está sendo egoísta.

 

- Isso foi um pouco grosso, Hermione - disse Rony, franzindo as sobrancelhas enquanto tentava remover um pouco de mofo que se prendeu firmemente ao seu dedo. - Você não iria querer ficar trancada nesta casa sem nenhuma companhia.

 

- Ele terá companhia! - disse Hermione. - Este é o Quartel-General da Ordem da Fênix, não é? Ele estava é com esperanças que Harry viesse viver aqui com ele.

 

- Não acho que seja isso - disse Harry. - Ele não me deu nenhuma resposta direta quando eu perguntei se podia vir.

 

- Ele apenas não quer mais perder suas esperanças - disse Hermione. - E ele provavelmente se sente um pouco culpado porque eu penso que uma parte dele queria que você fosse expulso. Então ambos seriam desgraçados.

 

- Deixe disso! - disseram Harry e Rony juntos, mas Hermione meramente deu de ombros.

 

- Achem o que quiser. Mas às vezes eu penso que a mãe de Rony está certa e que Sirius está confuso sobre quem é você e que era seu pai, Harry.

 

- Então você acha que ele está maluco? - disse Harry irado.

 

- Não. Eu apenas acho que esteve muito sozinho por muito tempo - disse Hermione simplesmente.

 

Nesse momento a Sra. Weasley entrou no quarto.

 

- Ainda não terminaram? - disse, colocando sua cabeça dentro do armário.

 

- Eu pensei que você veio aqui para nos dar um descanso! - disse Rony amargo. - Você sabe quanto mofo nós já tiramos desde que chegamos aqui?

 

- Vocês estão aqui para ajudar a Ordem - disse a Sra. Weasley. - O mínimo que vocês podem fazer é deixar o Quartel-General habitável.

 

- Eu me sinto como um elfo-doméstico - lamentou Rony.

 

- Bem, agora que você entende o quão horrível é a vida que eles levam, talvez você fique um pouco mais ativo no F.A.L.E.! - disse Hermione satisfeita, quando a Sra. Weasley os deixou. - Sabe, talvez não seja uma má idéia mostrar às pessoas exatamente como é horrível ter que limpar tudo todo o tempo. Nós podíamos preparar uma limpeza na sala comunal da Grifinória, patrocinada pelo F.A.L.E., aumentando a consciência como também as arrecadações.

 

- Eu vou patrocinar você para de falar sobre F.A.L.E. - Rony resmungou irritado, mas apenas Harry o ouviu.

 

Harry se achou sonhando com Hogwarts mais e mais enquanto o fim das férias se aproximava. Ele mal podia esperar para ver Hagrid novamente, jogar quadribol, mesmo andar pelas hortas a caminho da aula de Herbologia; seria um alívio deixar aquela casa poeirenta e mofada, onde metade dos armários ainda estava fechada e Kreacher jogava insultos quando você passava, porém Harry tinha cuidado para não dizer nada disso enquanto Sirius estivesse ouvindo.

 

O fato é que a vida no Quartel-General do movimento Anti-Voldemort não era tão interessante quanto ele pensou. Membros da Ordem da Fênix iam e vinham regularmente, algumas vezes ficavam para as refeições, algumas vezes só alguns minutos de conversação, a Sra. Weasley tendo certeza de que eles não estavam ouvindo nada (sejam com ouvidos normais ou com os Extensíveis) e ninguém, nem mesmo Sirius, parecia sentir que Harry precisava saber de algo mais do que apenas o que ouvira na noite de sua chegada.

 

No último dia das férias Harry estava limpando as fezes de Edwiges de cima do guarda-roupa quando Rony entrou no quarto carregando alguns envelopes.

 

- A lista de livros chegou - disse, atirando um dos envelopes para Harry. - Já não era sem tempo. Pensei que eles tinham esquecido, pois normalmente chegam bem antes disso...

 

Harry jogou o resto das fezes em um saco de lixo e jogou a sacola por cima da cabeça de Rony dentro de uma cesta de lixo no canto do quarto. Ele então abriu sua carta, que continha dois pedaços de pergaminho: um com a mesma mensagem dizendo que o período escolar começaria no dia primeiro de setembro; o outro com a lista de livros que ele precisaria.

 

- Apenas dois - disse, lendo a lista. - O Livro Básico de Feitiços, quinta série, por Miranda Goshawk, e Teoria da Magia Defensiva, por Wilbert Slinkhard.

 

Crack.

 

Fred e Jorge aparataram bem ao lado de Harry. Estava tão acostumado com eles fazendo isso que nem mesmo desceu da cadeira.

 

- Estávamos perguntando quem pediu o livro de Slinkhard - disse Fred.

 

- Porque quer dizer que Dumbledore encontrou um novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas - disse Jorge.

 

- E já não era sem tempo - disse Fred.

 

- O que quer dizer? - perguntou Harry, pulando da cadeira.

 

- Bem, nós escutamos papai e mamãe conversando com os Ouvidos Extensíveis há algumas semanas atrás - Fred disse a Harry - e pelos que estavam dizendo Dumbledore estava tendo muito trabalho para encontrar alguém para assumir o trabalho este ano.

 

- Não é surpresa, quando você olha o que aconteceu com os últimos quatro. - disse Jorge.

 

- Um expulso, um morto, um com a memória apagada e um trancado num malão por nove meses - disse Harry, contando-os nos dedos. - Sim. Eu sei o que quer dizer.

 

- O que há com você, Rony? - perguntou Fred.

 

Rony não respondeu. Harry o olhou. Rony estava parado, com sua boca meio aberta, mirando sua carta de Hogwarts.

 

- O que é? - disse Fred impaciente, indo para trás de Rony para olhar por cima de seu ombro o que estava escrito no pergaminho.

 

O queixo de Fred caiu também.

 

- Monitor? - disse, olhando a carta, incrédulo. - Monitor?

 

Jorge correu e pegou o envelope da mão do irmão e o virou de cabeça para baixo. Harry viu algo vermelho e dourado cair na palma da mão de Jorge.

 

- Não mesmo! - disse Jorge numa voz não muito calma.

 

- Deve haver algum engano - disse Fred, pegando a carta de Rony, segurando-a contra a luz, como se estivesse checando a marca d'água. - Ninguém com a cabeça no lugar faria Rony um monitor.

 

Os gêmeos viraram a cabeça para Harry ao mesmo tempo e pararam.

 

- Nós pensamos que você seria o monitor! - disse Fred, num tom que fazia parecer que Harry os havia enganado.

 

- Pensamos que Dumbledore iria escolher você! - disse Jorge indignado.

 

- Vencendo o Torneio Tribruxo e tudo o mais! - disse Fred.

 

- Eu suponho que todas as loucuras que fez pesaram contra ele - disse Jorge para Fred.

 

- É - disse Fred vagarosamente. - É, você causou muito problema, cara. Bem, pelo menos um de vocês tem as prioridades certas.

 

Ele andou até Harry e deu tapinhas nas suas costas enquanto olhava atravessado para Rony.

 

- Monitor... Roninho, o monitor.

 

- Oh, mamãe vai ficar revoltada - gemeu Jorge, jogando a insígnia de monitor para Rony, como se ela pudesse contaminá-lo.

 

Rony, que ainda não havia dito nada, pegou a insígnia e olhou por um momento, mostrou-a para Harry como se perguntando se era genuína. Harry a pegou. Um grande "M" estava sobreposto sobre o leão da Grifinória. Ele havia visto uma insígnia como esta anteriormente no peito de Percy, no seu primeiro dia em Hogwarts.

 

A porta abriu com um estrondo. Hermione veio chorando, suas bochechas vermelhas e seus cabelos esvoaçando. Havia um envelope na sua mão.

 

- Você... Você recebeu...?

 

Ela mirou a insígnia na mão de Harry e deixou escapar um gritinho.

 

- Eu sabia! - disse ela excitada, mostrando sua carta. - Eu também, Harry, eu também!

 

- Não - disse Harry rapidamente, entregando a insígnia para Rony. - Foi Rony, não eu.

 

- Foi... O quê?

 

- Rony é o monitor, não eu.

 

- Rony? - disse Hermione, seu queixo caindo. - Mas... Tem certeza? Digo...

 

Ela ficou vermelha quando Rony a olhou com uma expressão desafiadora.

 

- É meu nome na carta - disse.

 

- Eu... - disse Hermione, parecendo muito confusa. - Eu... Bem... Uau! Muito bem, Rony! É realmente...

 

- Inesperado - disse Jorge, concordando.

 

- Não - disse Hermione, ficando ainda mais vermelha que nunca. - Não é não... Rony fez muitas... Ele realmente é...

 

A porta abriu atrás dela e a Sra. Weasley entrou carregando uma pilha de vestes recém lavadas.

 

- Gina disse que as listas com os livros chegaram finalmente - disse ela, olhando para os envelopes enquanto seguia para a cama e começava a separar as vestes em duas pilhas. - Se me derem as listas eu as levarei ao Beco Diagonal esta tarde e pegarei os livros enquanto vocês terminam de preparar as malas. Rony, eu pegarei mais pijamas para você. Estes já estão ficando curtos. Não posso acreditar o quão rápido você está crescendo... Qual a cor que você gosta?

 

- Pegue algum dourado e vermelho, para combinar com a insígnia dele - disse Jorge, sorrindo falsamente.

 

- Combinar com o quê? - disse Sra. Weasley, ainda enrolando um par de meias marrons e as colocando na pilha de Rony.

 

- A insígnia dele - disse Fred, com um ar de que estava ficando pior a cada momento. - A adorável e brilhante insígnia de monitor dele.

 

As palavras de Fred demoraram a penetrar a preocupação da Sra. Weasley com os pijamas.

 

- Dele... Mas... Rony, você não...?

 

Rony mostrou a insígnia. A Sra. Weasley deixou sair um gritinho como Hermione.

 

- Eu não acredito! Eu não acredito! Oh, Rony, é maravilhoso! Um monitor! Como todos na família!

 

- O que somos Fred e eu, vizinhos? - disse Jorge, indignado, enquanto sua mãe o afastou para o lado e apertou os braços ao redor de seu filho mais novo.

 

- Espere até o seu pai saber! Rony, eu estou tão orgulhosa de você! Que ótimas notícias! Você pode ser um monitor-chefe como Gui e Percy, é só o primeiro passo! Oh, que coisa boa no meio de toda essa preocupação, eu estou tremendo, oh, Roninho...

 

Fred e Jorge estavam ambos fazendo barulhos estranhos por trás da Sra. Weasley, mas ela não percebeu; seus braços abraçando Rony pelo pescoço enquanto beijava todo o rosto dele, que se tornou mais vermelho que a insígnia.

 

- Mãe... Não... Mãe me solte... - ele gemeu, tentando afastá-la.

 

Ela o soltou e disse sem respirar:

 

- Bem, o que vai ser? Nós demos a Percy uma coruja, mas você já tem uma, é claro.

 

- O-o que quer dizer? - disse Rony, olhando como se não acreditasse no que havia ouvido.

 

- Você tem que ser recompensado por isso! - disse Sra. Weasley. - Que tal um novo jogo de vestes de gala?

 

- Nós já compramos isso pra ele - disse Fred, que parecia arrependido por sua generosidade.

 

- Ou um novo caldeirão. O velho caldeirão de Carlinhos está bem enferrujado, ou talvez um novo rato, como o Perebas...

 

- Mãe - disse Rony cheio de esperanças. - Posso ter uma nova vassoura?

 

O rosto Sra. Weasley mudou; vassouras eram bem caras.

 

- Não uma muito boa! - Rony disse rapidamente. - Apenas... Uma nova, para trocar...

 

A Sra. Weasley hesitou, e então sorriu.

 

- É claro que sim... Bem, é melhor eu ir indo se eu tenho que comprar uma vassoura pra você... Vejo vocês mais tarde... O pequeno Roninho, um monitor... Oh, estou tão excitada!

 

Ela beijou sua bochecha novamente, fungou alto e saiu do quarto. Fred e Jorge trocaram olhares.

 

- Você não se importa se não lhe beijarmos, não é Rony? - disse Fred em uma vozinha falsa.

 

- Nós podíamos lhe reverenciar, se você quiser - disse Jorge.

 

- Ah, calem-se! - disse Rony, com raiva.

 

- Ou o quê? - disse Fred, com uma risadinha. - Nos colocará em detenção?

 

- Eu adoraria vê-lo tentar - disse Jorge sorrindo.

 

- Ele poderia se vocês não tomarem cuidado! - disse Hermione com raiva.

 

Fred e Jorge saíram gargalhando e Rony falou baixinho:

 

- Esquece, Hermione.

 

- Nós temos que ter cuidado, Jorge - disse Fred, fingindo tremer. - Com esses dois atrás de nós...

 

- É, parece que nossos dias de quebradores de regras estão finalmente terminados - disse Jorge, balançando a cabeça.

 

E com outro estampido alto, os gêmeos desaparataram.

 

- Esses dois! - disse Hermione furiosa, mirando o teto, pelo qual se podia ouvir as gargalhadas de Fred e Jorge no quarto acima. - Não dê atenção a eles, Rony, eles estão apenas com inveja!

 

- Eu não acho que estão - disse Rony cheio de dúvidas, também olhando para o teto. - Eles sempre disseram que apenas burros se tornam monitores... Porém... - disse com um som realmente feliz. - Eles nunca tiveram vassouras novas! Eu adoraria ir com a mamãe e escolher... Ela nunca compraria uma Nimbus, mas tem uma nova Cleansweep, que seria ótima... É, eu acho que vou dizer a ela que eu gosto da Cleansweep, então ela saberá...

 

Ele correu da sala, deixando Harry e Hermione sozinhos. Por alguma razão, Harry percebeu que não queria olhar Hermione. Ele virou para sua cama e pegou a pilha de vestes que a Sra. Weasley tinha deixado e foi caminhado para o seu malão.

 

- Harry? - disse Hermione.

 

- Muito bem, Hermione - disse Harry, tão baixo que não pareceu sua voz realmente e, ainda não olhando para ela. - Brilhante. Monitor. Grande.

 

- Obrigada - disse Hermione. - Ah... Harry... Posso pegar a Edwiges emprestada? Para poder contar a mamãe e papai? Eles ficariam realmente satisfeitos... Digo, monitor é algo que eles podem entender.

 

- Claro, sem problema - disse Harry, ainda com aquela voz estranha que não parecia ser a dele. - Pode pegá-la!

 

Ele ficou mexendo no seu malão, colocando as roupas no fundo, fingindo estar procurando algo enquanto Hermione se dirigia ao armário e chamava Edwiges. Alguns momentos depois, Harry escutou a porta se fechar mas se manteve curvado sobre o malão, escutando; os únicos sons que podia ouvir eram a foto vazia na parede e o cesto de lixo que tossia devido às fezes de coruja.

 

Ele se levantou e olhou para trás. Hermione tinha saído e Edwiges já fora. Harry correu atravessando o quarto sala, fechou a porta, então retornou vagarosamente para sua cama e afundou nela, olhando para o pé do guarda-roupas sem muita atenção.

 

Esqueceu completamente que os monitores eram escolhidos no quinto ano. Estivera tão ansioso com a possibilidade de ser expulso que o fato de possuir aquelas insígnias pode guiar seus caminhos através de certas pessoas. Mas se ele tivesse lembrado... Se tivesse pensado sobre isso... O que esperaria?

 

"Não isso", disse uma vozinha dentro de sua cabeça.

 

Harry girou a cabeça e apoiou sobre as mãos. Ele não podia mentir para si mesmo; se soubesse que a insígnia seria entregue, esperaria que fosse a ele, não Rony. Isso o fazia tão arrogante quanto Draco Malfoy? Pensava que era superior a todos os outros? Realmente acreditava que era melhor que Rony?

 

"Não", disse a vozinha audaciosa.

 

Aquilo era verdade? Harry pensou, ansiosamente testando seus sentimentos.

 

"Eu sou melhor no quadribol", disse a voz. "Mas não sou melhor em nada mais."

 

Isso era realmente verdade, Harry pensou; ele não era melhor que Rony nas lições. Mas e sobre as lições práticas? E sobre as aventuras que ele, Rony e Hermione tinham participado juntos desde que entraram em Hogwarts, sempre correndo um risco pior que a expulsão?

 

Bem, Rony e Hermione estavam com ele a maior parte do tempo, disse a voz dentro da cabeça de Harry.

 

"Não sempre", pensou Harry argumentando a si mesmo. "Eles não lutaram comigo. Eles não derrotaram Riddle e o basilisco. Eles não acabaram com todos aqueles dementadores na noite que Sirius escapou. Eles não estavam naquele cemitério comigo na noite que Voldemort retornou..." E o mesmo sentimento que teve na noite em que chegou retornou a sua cabeça. "Eu definitivamente fiz mais", pensou Harry, indignado. "Eu fiz mais que qualquer deles!"

 

"Mas talvez...", disse a vozinha, "Talvez Dumbledore não escolha monitores porque entraram em situações perigosas... Talvez os escolha por outras razões... Rony teve ter algo que você não...".

 

Harry abriu seus olhos e fitou seus dedos, olhou através deles para o guarda roupas, lembrando o que Fred disse: "Ninguém com a cabeça no lugar faria Rony um monitor...".

 

Deu um pequeno riso. Um segundo depois se sentiu enojado com ele mesmo. Rony não tinha pedido a Dumbledore para receber a insígnia de monitor. Não era culpa de Rony. Ele era, Harry, o melhor amigo de Rony no mundo, chateado porque ele não tinha uma insígnia, rindo com os irmãos de Rony por suas costas, quando Rony pela primeira vez tinha batido Harry em algo?

 

Nesse momento escutou os passos de Rony. Ele se levantou, arrumou os seus óculos e fez um sorriso assim que Rony entrou pela porta.

 

- Consegui pegá-la! - disse feliz. - Ela disse que vai pegar a Cleansweep se puder.

 

- Legal - disse Harry, e ele estava feliz que sua a voz tinha parado de soar triste. - Escute... Rony... Muito bem, cara.

 

O sorriso sumiu do rosto de Rony.

 

- Nunca pensei que seria eu! '- disse, balançando a cabeça. - Eu pensei que seria você!

 

- Não, eu causei muitos problemas - disse Harry, parecendo Fred.

 

- É - disse Rony. - É, eu suponho... Bem, devemos preparar nossos malões, não?

 

Era incrível como seus pertences haviam se espalhado desde que chegaram. Eles precisaram de toda a tarde para pegar livros e pertences por toda a casa e colocá-los de volta nos malões. Harry percebeu que Rony sempre levava sua insígnia para onde iam. Primeiro colocou na mesa de cabeceira. Depois a colocava no bolso do jeans, depois colocava no malão por cima das vestes, para ver o contraste entre elas e o dourado e vermelho da insígnia. Somente quando Fred e Jorge apareceram e se ofereceram para pregar a insígnia na sua testa com um feitiço de Cola Permanente ele a colocou num par de meias marrons e fechou seu malão.

 

A Sra. Weasley retornou do Beco Diagonal perto das seis horas, carregando pilhas de livros e um longo pacote embrulhado que Rony recebeu de sua mãe com um longo lamento.

 

- Nem pense em abrir agora. Teremos algumas pessoas para o jantar e eu quero que todos desçam - disse, mas no momento que ela esta longe da vista Rony rasgou o papel como um louco e examinou cada centímetro de sua nova vassoura, uma expressão de êxtase no rosto.

 

No porão, a Sra. Weasley tinha pendurado uma faixa que dizia:

 

"PARABÉNS

 

RONY E HERMIONE

 

NOVOS MONITORES"

 

Ela parecia que estava com um humor melhor do quer estivera durante todo o feriado.

 

- Eu pensei que teríamos uma pequena festa, não um jantar - disse ela a Harry, Rony, Hermione, Fred, Jorge e Gina enquanto entravam na sala. - Seu pai e Gui estão a caminho, Rony. Mandei corujas aos dois e eles estão tremendo de felicidade! - completou ela.

 

Fred girou os olhos. Sirius, Lupin, Tonks e Kingsley Shacklebolt já estavam lá e Olho-Tonto Moody entrou assim que Harry foi pegar uma cerveja amanteigada.

 

- Oh, Alastor, estou feliz que esteja aqui - disse a Sra. Weasley, enquanto Olho-Tonto retirava sua capa. - Esperamos você há eras... Poderia dar uma olhada na escrivaninha e nos dizer o que está lá dentro? Não quisemos abrir no caso de ser algo realmente asqueroso.

 

- Sem problema, Molly...

 

O olho azul elétrico de Moody virou para frente, parou fixo no teto da cozinha.

 

- Sala de visitas... - murmurou, enquanto sua pupila se contraía. - Mesa do canto? É, eu vejo... É... É um Bicho-Papão... Quer que eu vá lá e o retire, Molly?

 

- Não, não, eu farei isso mais tarde - sorriu a Sra. Weasley. - Tome uma bebida. Estamos comemorando algo... - ela apontou para a faixa vermelha. - O quarto monitor na família! - disse, acariciando o cabelo de Rony.

 

- Monitor, hein? - murmurou Moody, seu olho normal em Rony e seu olho mágico girando para o lado de sua cabeça.

 

Harry teve um sentimento muito desconfortável de que estava olhando para ele e se movendo para Sirius e Lupin.

 

- Bem, parabéns - disse Moody, ainda olhando Rony com seu olho normal. - Figuras de autoridade sempre atraem problemas, mas suponho que Dumbledore acha que você pode cuidar da maioria dos feitiços ou não indicaria você.

 

Rony pareceu bem assustado com esse ponto de vista, mas foi salvo de responder pela chegada de seu pai e de seu irmão mais velho. A Sra. Weasley estava em tão bom humor que nem se preocupou que eles tinham trazido Mundungo; ele estava usando um longo sobretudo que parecia muito molhado em vários lugares, recusou ajuda para tirá-lo e o colocou junto ao casaco de Moody.

 

- Bem, eu penso que devemos fazer um brinde - disse o Sr. Weasley, quando todos tinham suas bebidas. Ele levantou seu cálice: - A Rony e Hermione, os novos monitores da Grifinória!

 

Rony e Hermione viram todos beberem à sua saúde e então aplaudirem.

 

- Eu nunca fui monitora - disse Tonks por trás de Harry enquanto todos se dirigiam à mesa para pegarem alguma comida. Seu cabelo estava vermelho-tomate e hoje tocava a cintura; ela parecia uma irmã mais velha de Gina. - A minha diretora dizia que me faltavam certas qualidades.

 

- Como o quê? - disse Gina, que pegava um tomate defumado.

 

- Como a habilidade de me controlar.

 

Gina riu; Hermione parecia que não sabia se sorria ou não e apenas tomou um gole de cerveja amanteigada e quase se engasgou.

 

- E você, Sirius? - Gina perguntou, batendo nas costas de Hermione.

 

Sirius, que estava ao lado de Harry, deu sua risada parecida com um latido.

 

- Ninguém me faria monitor. Eu gastei muito tempo em detenções com Tiago. Lupin era o bonzinho, ele conseguiu a insígnia.

 

- Eu acho que Dumbledore pensou que eu poderia exercer algum controle sobre meus melhores amigos - disse Lupin. - Eu devo dizer que eu falhei completamente.

 

O humor de Harry melhorou muito. Seu pai não tinha sido monitor também. Todos na festa pareciam muito mais agradáveis; ele encheu seu prato, sentindo-se duplamente satisfeito com todos na sala.

 

Rony estava falando sobre sua vassoura com todos que ouvissem.

 

- ...Zero a setenta em 10 segundos, nada mal hein? Quando você pensa na Comet 2-90 que ia apenas de zero a sessenta com uma queda na cauda de acordo com o "Qual Vassoura".

 

Hermione estava falando muito ardentemente com Lupin sobre a visão dela sobre o direito dos elfos.

 

- Digo, é a mesma coisa sem sentido como a segregação dos lobisomens, não? É tudo por causa dessa horrível coisa que os bruxos têm de acharem que são superiores às outras criaturas...

 

A Sra. Weasley e Gui estavam novamente conversando sobre o cabelo de Gui.

 

- ...Realmente demais, e você está com tão boa aparência, ele pareceria melhor se fosse um pouco mais curto, não é, Harry?

 

- Oh... Não sei... - disse Harry, levemente alarmado por perguntarem sua opinião; ele se afastou em direção ao Fred e Jorge, que estavam conversando num canto com Mundungo.

 

Mundungo parou de falar quando viu Harry mas Fred piscou e o chamou mais para perto.

 

- Tudo bem - disse para Mundungo. - Nós podemos confiar em Harry, ele é nosso financiador.

 

- Veja o que Dungo nos arranjou - disse Jorge, mostrando sua mão a Harry. Ela estava cheia do que pareciam sacolas pretas e murchas. Um barulho de pancadas leves vinha delas, mesmo que aparentemente estivessem totalmente paradas.

 

- Sementes de Tentácula Venenosa - disse Jorge. - Nós precisamos delas para os Petiscos de Cócegas, mas eles são uma Substância Não-comerciável classe C, então nós tivemos algum problema em conseguí-las.

 

- Dez Galeões o lote, então Dungo? - disse Fred.

 

- C`todo problema que tive em conseguí-las? - disse Mundungo, seus olhos vermelhos se alargando. - Me desculpem rapazes, mas eu não quero um nuque menos que vinte.

 

- Dungo gosta dessa piada - Fred disse a Harry.

 

- É, sua melhor piada foi seis sicles por uma sacola de Penas Knarl - disse Jorge.

 

- Tenham cuidado - Harry os avisou baixinho.

 

- O quê? - disse Fred. - Mamãe está ocupada adulando o monitor Rony, estamos OK.

 

- Mas Moody pode ficar com seu olho em você.

 

Mundungo olhou nervoso por cima do seu ombro.

 

- Bem lembrado - murmurou ele. - Certo, rapazes, dez então, se pegarem rápido.

 

- Saúde, Harry! - disse Fred satisfeito, quando Mundungo esvaziou os bolsos nas mãos dos gêmeos e correu para a comida. - É melhor levarmos isso pra cima...

 

Harry os viu indo, sentindo-se levemente preocupado. Ocorreu-lhe naquele momento que o Sr. e a Sra. Weasley iam querer saber como Fred e Jorge estavam financiando os negócios de sua loja de logros quando, inevitavelmente, soubessem. Dando aos gêmeos o seu prêmio do Torneio Tribruxo pareceu uma coisa simples de fazer naquele momento mas e se isso levasse a outra discussão familiar e uma situação como a de Percy? Iria a Sra. Weasley ainda sentir por Harry o mesmo bem se ela soubesse que ele tornou possível a Fred e Jorge iniciar a carreira que ela pensava não ser a ideal para eles?

 

Parado onde os gêmeos o haviam deixado, com nada mais do que o peso da culpa no seu estômago como companhia, Harry escutou o som do seu nome. A voz profunda de Kingsley Shacklebolts era audível nas conversas ao redor.

 

- ...Por que Dumbledore não nomeou Potter um monitor? - perguntou Kingsley.

 

- Ele deve ter tido suas razões - respondeu Lupin.

 

- Mas isso mostraria confiança nele. Seria o que eu faria - persistiu Kingsley. - Especialmente com Profeta Diário falando sobre ele todos os dias...

 

Harry não olhou ao redor; não queria que Lupin ou Kingsley soubesse que havia ouvido. Não totalmente com fome, seguiu Mundungo para trás da mesa. Seu prazer na festa se evaporou tão rápido como havia chegado; queria que estivesse lá em cima, na cama.

 

Olho-Tonto Moody estava cheirando uma coxa de galinha com o que restava de seu nariz; evidentemente não detectou nenhum traço de veneno, porque arrancou um pedaço com os dentes.

 

- ...O cabo feito de carvalho espanhol com Verniz Antifeitiço, e com controle de vibração interno... - Rony dizia para Tonks.

 

A Sra. Weasley bocejou largamente.

 

- Bem, eu acho que vou cuidar daquele Bicho-Papão antes de ir dormir... Arthur, eu não quero esse pessoal indo dormir muito tarde, certo? Noite, Harry, querido.'

 

Ela deixou a cozinha. Harry empurrou seu prato e imaginou como a poderia seguir sem chamar muita atenção.

 

- Está bem, Potter? - rosnou Moody.

 

- É, bem - mentiu Harry.

 

Moody tomou um gole de sua garrafa de bolso, seu olho azul elétrico encarando Harry de lado.

 

- Venha aqui, tenho algo que pode lhe interessar.

 

De um bolso interno de suas vestes Moody puxou uma fotografia de bruxo velha e esfarrapada.

 

- A Ordem do Fênix original - rosnou Moody. - Encontrei na última noite quando procurava minha Capa de Invisibilidade reserva, já que Podmore não teve a delicadeza de me devolver a minha melhor capa... Pensei que as pessoas gostariam de vê-la.

 

Harry pegou a fotografia. Uma pequena quantidade de pessoas, algumas acenando para ele, outros arrumando seus óculos, olhando de volta para ele.

 

- Este sou eu - disse Moody, desnecessariamente apontando para ele.

 

O Moody na foto era inconfundível, apesar de seu cabelo estar menos grisalho e seu nariz intacto.

 

- E aquele é Dumbledore do meu lado, Dédalo Diggle no outro lado... Esta é Marlene McKinnon, ela foi morta duas semanas depois que esta foto foi tirada, eles pegaram toda a sua família. Estes são Frank e Alice Longbottom...

 

O estômago de Harry, já desconfortável, apertou ainda mais enquanto olhava Alice Longbottom; conhecia aquele rosto redondo e amigável muito bem mesmo que não a tivesse encontrado antes, porque ela era a imagem de seu filho, Neville.

 

- ...Pobres diabos - rosnou Moody. - Melhor mortos do que o que aconteceu com eles... E esta é Emmeline Vance, você a encontrou antes, e ali está Lupin, obviamente... Benjy Fenwick, ele se foi também, nós encontramos apenas alguns pedaços... Mexa pro lado aqui - disse, empurrando a foto, e as pessoas se moveram de forma que os que estavam escondidos puderam se mover para frente. - Este é Edgar Bones... Irmão de Amélia Bones, eles o pegaram e a sua família também, ele era um grande bruxo... Sturgis Podmore, ele parece muito jovem... Caradoc Dearborn, desapareceu seis meses depois disso, nunca encontramos seu corpo... Hagrid, é claro, parece o mesmo de sempre... Elphias Doge, você o encontrou, eu esqueci que ele costumava usar esse chapéu estúpido... Gideon Prewett, foram precisos cinco Comensais de Morte para matá-lo e ao seu irmão, Fabian, eles lutaram como heróis... Movam-se, movam-se.

 

As pequenas pessoas tropeçaram neles mesmos e aqueles que estavam mais atrás apareceram na frente da foto.

 

- Aquele é o irmão de Dumbledore, Aberforth, essa foi a única vez que o vi, sujeito estranho... Aquela é Dorcas Meadowes, Voldemort a matou pessoalmente... Sirius, quando ainda tinha o cabelo curto... E aí vai, acho que isso vai lhe interessar!

 

O coração de Harry meio que virou. Sua mãe e seu pai sorriam para ele, sentados lado a lado de um homem que tinha os olhos cheios de lágrimas, que Harry reconheceu de imediato como sendo Rabicho, aquele que havia traído seus pais, dizendo a Voldemort onde estavam escondidos e então ajudando em sua morte.

 

- Eh? - disse Moody.

 

Harry olhou o rosto de Moody cheio de cicatrizes e buracos. Evidentemente estava com impressão de que havia dado um pouco de prazer a Harry.

 

- É - disse Harry, novamente tentando sorrir. - Er... Escute. Acabei de me lembra que eu ainda não empacotei minha...

 

Ele poupou o problema de inventar um objeto que não havia empacotado. Sirius disse:

 

- O que você têm aí, Olho-Tonto? - e Moody se virou para ele.

 

Harry cruzou a cozinha, escorregou pela porta e subiu a escada antes que alguém o chamasse. Ele não sabia por que tinha tido tal choque; já havia visto fotos de seus pais antes, além disso ele já havia encontrado Rabicho... Mas vê-los assim de súbito, sem estar esperando... Ninguém gostaria disso, pensou irado... E então vê-los junto com todos aqueles rostos felizes... Benjy Fenwick, que foi encontrado aos pedaços, e Gideon Prewett, que morreu como um herói, e os Longbottom, que foram torturados até enlouquecerem... Todos acenando felizes para sempre, não sabendo que estavam amaldiçoados... Bem, Moody podia achar isso interessante... Ele, Harry, achou isso perturbador...

 

Subiu as escadas nas pontas dos pés, passando pela sala com as cabeças empalhadas de elfos, feliz em estar sozinho novamente mas quando se aproximava do primeiro andar escutou ruídos. Alguém estava soluçando na sala de visitas.

 

- Olá? - disse Harry.

 

Não houve resposta mas os soluços continuavam. Subiu as escadas de dois em dois degraus e, chegando ao primeiro andar, abriu a porta da sala de visitas.

 

Alguém estava se encolhendo contra a parede escura, sua varinha na mão, todo o seu corpo tremendo e soluçando. Jogado no carpete empoeirado, em um raio de luar, claramente morto, estava Rony.

 

Todo o ar pareceu desaparecer dos pulmões de Harry; sentiu como se estivesse caindo no chão; seu cérebro ficou gelado... Rony morto, não, não podia ser.

 

Mas espere um momento. Não podia ser. Rony estava lá embaixo...

 

- Sra. Weasley? - Harry chamou.

 

- R-r-riddikulus! - a Sra. Weasley soluçou, apontando sua varinha trêmula para o corpo de Rony.

 

Crack.

 

O corpo de Rony se transformou no de Gui, virado de costas, seus olhos totalmente abertos e com expressão vazia. A Sra. Weasley soluçou mais que nunca.

 

- R-riddikulus! - soluçou novamente.

 

Crack.

 

O corpo do Sr. Weasley substituiu o de Gui, seus óculos torcidos, uma veio de sangue correndo por seu rosto.

 

- Não! - Sra. Weasley lamentou. - Não... Riddikulus! Riddikulus! RID-DIKULUS!

 

Crack. Os gêmeos mortos. Crack. Percy morto. Crack. Harry morto...

 

- Sra. Weasley, apenas saia daqui! - gritou Harry, encarando seu próprio corpo morto no chão. - Deixe outra pessoa...

 

- Que está havendo?

 

Lupin entrou correndo na sala, seguido de perto por Sirius, com Moody se arrastando pesadamente atrás deles. Lupin olhou da Sra. Weasley para o corpo de Harry no chão e pareceu entender num momento. Puxando sua varinha, disse, firme e claro:

 

- Riddikulus!

 

O corpo Harry desapareceu. Um globo prateado surgiu no ar sobre o local onde o corpo estava. Lupin agitou sua varinha mais uma vez e o globo desapareceu em um sopro de fumaça.

 

- Oh... Oh... Oh! - a Sra. Weasley engoliu em seco e caiu num choro inconsolável, suas mãos cobrindo seu rosto.

 

- Molly - disse Lupin desoladamente, caminhando até ela. - Molly, não...

 

Ela então se atirou no ombro de Lupin, chorando desesperadamente.

 

- Molly, era apenas um Bicho-Papão - disse ele, tranqüilizando-a, batendo levemente em sua cabeça. - Apenas um estúpido Bicho-Papão...

 

- Eu os vi mo-mo-mortos, todos eles! - a Sra. Weasley lamentando em seu ombro. - Todos de um-um-uma vez! Eu so-so-sonhei com isso...

 

Sirius estava olhando fixamente para o carpete, no lugar onde estivera o Bicho-Papão, fingindo ser o corpo de Harry. Moody estava olhando Harry, que evitou seu olhar. Ele tinha a estranha sensação de que o olho mágico de Moody o tinha seguido desde a cozinha.

 

- Nã-nã-não conte ao Arthur - disse a Sra. Weasley, engolindo em seco, secando seus olhos freneticamente com seus punhos. - Eu nã-nã-não quero que ele saiba o quanto fui tola...

 

Lupin lhe deu um lenço e ela assoou o nariz.

 

- Harry, me desculpe. O que você deve estar pensando de mim? - disse ela trêmula. - Nem mesmo consegui lidar com um Bicho-Papão...

 

- Não fique assim - disse Harry, tentando sorrir.

 

- Eu estou tã-tã-tão preocupada - disse ela, lágrimas caindo de seus olhos novamente. - Metade da fa-fa-família na Ordem, se-se-será um milagre se todos passarmos por isso... E P-P-Percy não está falando conosco... O que faria se algo te-te-terrível acontecesse e nós nunca m-m-mais falarmos com ele? E o que aconteceria se Arthur e eu fomos mortos, quem cui-cui-cuidaria de Rony e Gina?

 

- Molly, já basta! - disse Lupin firmemente. - Não será como a última vez. A Ordem está melhor preparada, já começamos a agir, nós sabemos o que Voldemort está querendo...

 

A Sra. Weasley deu um guincho de horror ao som desse nome.

 

- Oh, Molly, vamos, já está na hora de você ouvir esse nome. Olhe, eu não posso prometer que ninguém será ferido, ninguém pode prometer isso, mas estamos melhores que da última vez. Você não estava na Ordem, você não entende. Da última vez éramos poucos, vinte Comensais da Morte contra um de nós e eles estavam nos pegando um a um...

 

Harry lembrou da fotografia novamente, os rostos brilhantes de seus pais. Ele sabia que Moody estava olhando para ele.

 

- Não se preocupe com Percy - disse Sirius abruptamente. - Ele voltará. É só uma questão de tempo antes de Voldemort se mostrar; quando ele fizer isso todo o Ministério estará nos pedindo perdão. E eu não estou certo de que aceitarei suas desculpas - completou amargamente.

 

- E quem cuidará de Rony e Gina se você e Arthur morrerem - disse Lupin, sorrindo levemente. - O que acha que vamos fazer? Deixá-los morrer de fome?

 

A Sra. Weasley sorriu trêmula.

 

- Fui uma tola - disse novamente, enxugando seus olhos.

 

Mas Harry, fechando a porta do seu quarto atrás de si dez minutos depois, não achava a Sra. Weasley tola. Ele podia ver seus parentes olhando para ele da velha e carcomida fotografia, inconscientes de suas vidas, como a maioria daqueles ao redor deles. A imagem do Bicho-Papão aparecendo como o corpo de cada membro da família da Sra. Weasley ainda aparecia na frente de seus olhos.

 

Sem aviso, a cicatriz na sua testa queimou em dor e seu estômago doeu horrivelmente.

 

- Pare com isso! - disse firmemente, esfregando sua cicatriz enquanto a dor sumia.

 

- O primeiro sinal da loucura, falando para sua própria cabeça - disse uma voz astuta que vinha da moldura vazia na parede.

 

Harry o ignorou. Ele se sentiu mais velho do que nunca se sentira antes e parecia extraordinário que apenas uma hora atrás estava preocupado com uma loja de logros e com quem tinha ganhado uma insígnia de monitor.

 

 

LUNA LOVEGOOD

Harry teve uma noite de sono difícil. Seus pais iam e vinham nos seus sonhos, nunca falando; a Sra. Weasley soluçava sobre o cadáver de Kreacher, observada por Rony e Hermione, que usavam coroas, e então ele se viu andando aos tropeços como um palhaço por um corredor que terminava numa porta fechada. Acordou abruptamente com sua cicatriz ardendo e vendo Rony já vestido e falando com ele.

 

- ...Melhor se apressar. Mamãe está explodindo, dizendo que vamos perder o trem...

 

Havia muita agitação na casa. Pelo que ouviu enquanto se vestia a toda velocidade, Harry percebeu que Fred e Jorge tinham enfeitiçado seus malões, fazendo-os levitar, para evitar o aborrecimento de ter que carregá-los escada abaixo, com o resultado de bater em Gina e fazê-la cair rolando dois lances de escada até a sala; a Sra. Black e Sra. Weasley estavam ambas gritando a todo volume.

 

- ELA PODIA DE SE MACHUCADO SERIAMENTE, SEUS IDIOTAS!

 

- MALDITOS MESTIÇOS, SUJANDO A CASA DE MEUS PAIS!

 

Hermione chegou correndo na sala parecendo confusa. Edwiges estava balançando em seu ombro e estava carregando Bichento se contorcendo em seus braços.

 

- Mamãe e papai mandaram Edwiges de volta- a coruja se agitou gentilmente e voou até o topo de sua gaiola. - Ainda não está pronto?

 

- Quase. Gina está bem? - Harry perguntou, ajustando seus óculos.

 

- A Sra. Weasley a remendou - disse Hermione. - Mas agora Olho-Tonto está se queixando de que não podemos sair até Sturgis Podmore chegar, se não a Guarda vai ser de um só.

 

- Guarda? Temos que ir até a Estação King's Cross com uma guarda?

 

- VOCÊ tem que ir até a estação King's Cross com uma guarda - corrigiu.

 

- Por quê? - perguntou irritado. - Eu pensei que Voldemort estava supostamente escondido ou está dizendo que ele vai pular de trás de uma lixeira e me atacar?

 

- Eu não sei, é só o que Olho-Tonto disse - disse distraída, olhando seu relógio -, mas se nós sairmos logo definitivamente perderemos o trem...

 

- VOCÊS PODERIAM DESCER LOGO, POR FAVOR! - berrou a Sra. Weasley.

 

Hermione saltou como se estivesse sendo escaldada e saiu correndo da sala. Harry agarrou Edwiges, jogou-a dentro da gaiola e correu escada abaixo atrás da amiga, arrastando seu malão.

 

O retrato da Sra. Black estava gritando com fúria mas ninguém estava preocupado em fechar as cortinas; todo o barulho na sala a acabaria acordando de todo o jeito.

 

- Harry, você vai comigo e Tonks - berrou a Sra. Weasley acima dos repetidos gritos de "SANGUES-RUINS! ESCÓRIA! CRIATURAS DA LAMA!". - Deixe seu malão e sua coruja. Alastor vai cuidar das bagagens... Oh, pelo amor de Deus, Sirius! Dumbledore disse que não!

 

Um cão enorme como um urso apareceu ao lado de Harry enquanto passava por cima de vários malões que se misturavam na sala para chegar a Sra. Weasley.

 

- Oh, honestamente... - disse Sra. Weasley desesperada. - Bem, é sua cabeça que pode ser arrancada!

 

Ela destravou a porta da frente e saiu para uma fraca luz de setembro. Harry e o cão a seguiram. A porta bateu atrás deles e os gritos da Sra. Black cessaram imediatamente.

 

- Onde está Tonks? - Harry disse, olhando ao redor enquanto descia os degraus de pedra do número 12, que desapareceram no momento que tocaram o pavimento.

 

- Ela está esperando bem ali - disse a Sra. Weasley, evitando olhar para o cão ao lado de Harry.

 

Uma mulher velha acenava para eles da esquina. Ela tinha um cabelo grisalho amarrado apertado e usava um chapéu púrpura que parecia uma torta.

 

- Olá, Harry - disse, piscando. - Melhor nos apressarmos, não Molly? - disse, verificando o relógio.

 

- Eu sei, eu sei - lamentou a Sra. Weasley, aumentando o passo -, mas Olho-Tonto queria espera por Sturgis... Se pelo menos Arthur tivesse conseguido pegar alguns carros do Ministério novamente... Mas Fudge não o deixaria pegar emprestado nem um vidro de tinta vazio... Como os trouxas conseguem viajar sem mágica...

 

Mas o grande cão negro deu um latido feliz e saltou ao redor deles, atirando-se contra os pombos e perseguindo sua própria cauda. Harry não podia deixar de rir. Sirius estivera trancado por muito tempo. A Sra. Weasley apertou os lábios com um jeito muito parecido com a sua tia Petúnia.

 

Levaram vinte minutos para chegar à estação King Cross a pé e nada aconteceu durante esse tempo, mesmo que Sirius tenha perseguido alguns gatos, para o divertimento de Harry. Já na estação esperaram um pouco perto da barreira entre as plataformas nove e dez até parecer seguro o bastante para atravessar a barreira, onde o Expresso de Hogwarts estava soltando vapor sobre uma plataforma cheia de estudantes se despedindo de suas famílias. Harry sentiu um cheiro familiar e seu espírito se elevou... Ele estava realmente voltando...

 

- Espero que os outros cheguem a tempo - disse a Sra. Weasley ansiosa, olhos fixos no arco de onde os passageiros saíam.

 

- Cachorro legal, Harry! - chamou um garoto.

 

- Obrigado Lino - disse Harry, sorrindo, enquanto Sirius perseguia sua cauda freneticamente.

 

- Oh bom! - disse a Sra. Weasley, aliviada. - Aí vem Alastor com a bagagem, olhem...

 

Um chapéu de carregador puxado sobre seu olhos estranhos, Moody veio mancando através do arco, empurrando um carrinho cheio de malões.

 

- Tudo bem - murmurou ele para a Sra. Weasley e Tonks. - Não acho que tenhamos sido seguidos...

 

Segundos depois o Sr. Weasley apareceu na plataforma com Rony e Hermione. Eles tinham quase terminado de retirar a bagagem do carrinho quando Fred, Jorge e Gina apareceram com Lupin.

 

- Nenhum problema? - murmurou Moody.

 

- Nada - disse Lupin.

 

- Vou falar com Dumbledore sobre Sturgis - disse Moody. - Esta é a segunda vez que ele não aparece em uma semana. Está se tornando tão não confiável como Mundungo.

 

- Bem, cuidem-se - disse Lupin, apertando suas mãos. Ele chegou a Harry por último e deu um tapinha em seu ombro. - Você também, Harry. Tenha cuidado.

 

- É, mantenha sua cabeça baixa e seus olhos abertos - disse Moody, apertando a mão de Harry também. - E não se esqueçam, todos vocês. Cuidado com o que escrevem. Se houver dúvida, não ponham nada numa carta.

 

- Foi ótimo conhecer todos vocês - disse Tonks, abraçando Hermione e Gina. - Espero que nos vejamos logo.

 

Um apito soou; os alunos que ainda estavam na plataforma começaram a correr para o trem.

 

- Rápido, rápido - disse a Sra. Weasley distraidamente, abraçando-os ao acaso e abraçando Harry duas vezes. - Escrevam... Se esquecerem qualquer coisa eu mando depois... Para o trem, rápido...

 

Por um breve momento o grande cão negro ficou em pé com suas patas da frente nos ombros de Harry, mas a Sra. Weasley empurrou o garoto para a porta do trem e dizendo baixinho:

 

- Pelo amor de Deus, aja mais como um cachorro, Sirius!

 

- Até mais! - Harry falou da janela aberta enquanto o trem começava a se mover, enquanto Rony, Hermione e Gina acenavam atrás dele. As figuras de Tonks, Lupin, Moody e do Sr. e da Sra. Weasley desapareciam rápido, mas o cão negro estava correndo ao lado da janela, balançando sua cauda; pessoas na plataforma riam em vê-lo correndo atrás do trem, e então o virou numa curva e Sirius se foi.

 

- Ele não devia ter vindo com a gente - disse Hermione numa voz preocupada.

 

- Oh, alivia aí! - disse Rony. - Ele não via a luz do sol por meses, pobre sujeito.

 

- Bem - disse Fred, batendo as mãos. - Não posso ficar conversando todo o dia. Temos assuntos a conversar com Lino. Vemos vocês mais tarde - e ele e Jorge desapareceram pelo corredor.

 

O trem estava ganhando velocidade rapidamente, então as casas fora da janela passavam rápido quando perceberam que ainda estavam em pé.

 

- Vamos procurar uma cabine, então? - perguntou Harry.

 

Rony e Hermione trocaram olhares.

 

- Er... - disse Rony.

 

- Nós... Bem... Rony e eu devíamos estar no vagão dos monitores - Hermione disse sem jeito.

 

Rony não olhava Harry; parecia intensamente interessado nas suas unhas.

 

- Oh - disse Harry. - Certo. Tudo bem.

 

- Eu não acho que ficaremos lá toda a viagem - disse Hermione rapidamente. - Nossas cartas diziam que tínhamos apenas que receber instruções do monitor e monitora chefes e então patrulhar os corredores de tempo em tempo.

 

- Tudo bem - disse Harry novamente. - Bem, Eu... Eu vejo vocês mais tarde então.

 

- É, definitivamente - disse Rony, olhando ansiosamente para Harry. - É horrível ter que ir até lá, eu preferiria... Mas temos que ir... Digo, eu não estou apreciando isso. Eu não sou Percy.

 

- Eu sei que você não é - disse Harry e ele sorriu.

 

Mas enquanto Hermione e Rony arrastaram seus malões, Bichento e um Píchi engaiolado em direção à frente do trem, Harry sentiu um estranho sentimento de perda. Nunca havia viajado no Expresso de Hogwarts sem Rony.

 

- Vamos - chamou Gina. - Se nós andarmos vamos poder guardar lugares para eles.

 

- Certo - disse Harry, pegando a gaiola de Edwiges em uma mão e a alça do malão na outra.

 

Esforçaram-se pelo corredor, olhando através das janelas dos compartimentos enquanto passavam, vendo todos lotados. Harry não deixou de notar que várias pessoas olhavam de volta para ele com grande interesse e que muitos deles acotovelavam seus vizinhos e o apontando. Depois de passar por cinco outros compartimentos lembrou que o Profeta Diário vinha dito a todos os seus leitores durante todo o que mentiroso ele era. Imaginava que as pessoas estavam acreditando.

 

Na última cabine encontraram Neville Longbottom, colega de Harry na Grifinória, sua face redonda brilhando no esforço de puxar seu malão com uma mão e segurando seu sapo, Trevo.

 

- Olá, Harry - arquejando. - Olá, Gina... Está tudo lotado... Não pude encontrar um lugar...

 

- Do que você está falando? - disse Gina, que olhou por cima de Neville, espiando o compartimento atrás dele. - Há lugares neste aí, só tem a Loony Lovegood lá...

 

Neville murmurou algo sobre não querer perturbar ninguém.

 

- Não seja bobo - disse Gina, sorrindo. - Ela é legal.

 

Ele abriu a porta e puxou seu malão para dentro. Harry e Neville a seguiram.

 

- Olá Luna - disse Gina. - Tudo bem se pegarmos esses lugares?

 

A garota sentada ao lado da janela olhou. Tinha cabelos loiros longos e desgrenhados que iam até a cintura, sobrancelhas pálidas e olhos protuberantes que davam uma aparência de estar sempre surpresa. Harry agora sabia por que Neville tinha querido passar pela cabine. A garota deu uma olhar de distinta desimportância. Talvez pelo fato de que tenha colocado a mão perto da sua orelha para se proteger, ou porque ela usava um colar de rolhas de cervejas amanteigadas, ou porque estava lendo uma revista de cabeça para baixo. Seus olhos passaram por Neville e fitaram Harry. Ela acenou com a cabeça.

 

- Obrigada - disse Gina, sorrindo para ela.

 

Harry e Neville arrumaram os malões, a gaiola de Edwiges no suporte de bagagens e se sentaram. Luna olhou para eles por cima da revista, que se chamava The Quibbler. Ela não parecia precisar piscar como as outras pessoas. Fitou e fitou Harry, que havia sentado de frente para ela e que agora queria não ter sentado.

 

- Teve um bom verão, Luna? - Gina perguntou.

 

- Sim - disse Luna sonhadora, sem retirar os olhos de Harry. - Sim, foi muito divertido, sabe. Você é Harry Potter.

 

- Eu sei que sou - disse Harry.

 

Neville riu. Luna virou seus olhos pálidos para ele.

 

- E eu não sei quem você é.

 

- Eu não sou ninguém - disse Neville rapidamente.

 

- Não, você não é - disse Gina severa. - Neville Longbottom, Luna Lovegood. Luna está no mesmo ano que eu, mas na Corvinal.

 

- Inteligência sem medida é o maior tesouro do homem - disse Luna em uma voz cantante.

 

Ele levantou sua revista ainda de cabeça para baixo o suficiente para esconder seu rosto e se calou. Harry e Neville se olharam com as sobrancelhas levantadas. Gina segurou um risinho.

 

O trem prosseguia. Era um estranho tipo de dia; em um momento o vagão estava cheio de luz do sol e no outro estavam passando sob preocupantes nuvens cinzentas.

 

- Adivinhem o que ganhei no meu aniversário? - disse Neville.

 

- Outro Lembrol? - disse Harry, lembrando-se do dispositivo parecido com uma bola de gude que a avó de Neville lhe mandara num esforço de melhorar sua abismal falta de memória.

 

- Não - disse Neville. - Eu só precisava de um, de qualquer forma, eu o perdi eras atrás... Não, olhem isso...

 

Ele enfiou a mão que não estava firmemente segurando seu sapo na bolsa e depois de procurar um pouco a retirou, segurando o que parecia ser um pequeno cacto cinzento em um pote, exceto pelo fato de que estava coberto de bolhas ao invés de espinhos.

 

- Mimbulus mimbletonia - disse orgulhoso.

 

Harry encarou a coisa. Ela pulsava levemente, dando uma sinistra aparência de um órgão interno doente.

 

- É realmente muito, muito rara - disse Neville, radiante. - Eu não sei se há uma nas estufas em Hogwarts. Mal posso esperar para mostrá-la à Professora Sprout. Meu tio-avô Algie trouxe para mim da Assíria. Vou ver se consigo reproduzi-la.

 

Harry sabia que a matéria que Neville mais gostava era Herbologia mas não sabia o que se poderia fazer com essa pequena planta atrofiada.

 

- Ela... Er... Faz alguma coisa?

 

- Muitas coisas! - disse Neville orgulhoso. - Ela tem um incrível mecanismo de defesa. Aqui, segure Trevo pra mim...

 

Ele colocou o sapo no colo de Harry e pegou uma pena de sua bolsa. Os olhos de Luna Lovegood saltaram por cima da revista ainda de cabeça para baixo para ver o que Neville estava fazendo. Neville segurou a Mimbulus mimbletonia na altura dos olhos, sua língua entre os dentes, escolhendo um ponto, e dando um pequeno furo com a ponta da pena.

 

Um líquido espirrou por cada bolha da planta; jatos grossos, fedorentos, verdes escuros. Eles atingiram o teto, as janelas e respingaram na revista de Luna Lovegood; Gina, que colocou as mãos na frente do rosto a tempo, meramente parecia que estava vestindo um chapéu verde pegajoso, mas Harry, que estava ocupado segurando Trevo para evitar que fugisse, recebeu o jato direto na face. Ele cheirava a estrume curtido.

 

Neville, que a face e o peito estavam ensopados, balançou a cabeça para retirar o limo dos olhos.

 

- Des-desculpem - ele arfou. - Eu nunca tentei isso antes... Não imaginava que seria tão... Não se preocupem, a gosma não é venenosa - disse nervoso enquanto Harry cuspia um bocado no chão.

 

Nesse mesmo momento a porta da cabine abriu.

 

- Oh... Olá, Harry - disse uma voz nervosa. - Ah... Momento ruim?

 

Harry tirou um das mão de Trevo e limpou seus óculos. Uma linda garota, com cabelos longos, negros e brilhantes, estava sorrindo para ele: Cho Chang, a apanhadora do time de quadribol da Corvinal.

 

- Oh... Olá - disse Harry, embranquecendo.

 

- Hum... - disse Cho. - Bem... Eu queria apenas dizer olá... Tchau então.

 

Com o rosto particularmente rosado, ela fechou a porta e se foi. Harry tombou no assento e gemeu. Teria gostado que Cho o tivesse visto sentado ao lado de pessoas legais, rindo de uma piada que havia contado; não tinha escolhido estar sentado com Neville e Loony Lovegood, segurando um sapo e coberto de gosma.

 

- Podem deixar - disse Gina. - Vejam, podemos facilmente nos livrar de tudo isso - ela puxou sua varinha. - Scourgify!

 

A gosma desapareceu.

 

- Desculpem - disse Neville novamente, sua voz sumindo.

 

Rony e Hermione não apareceram por quase uma hora, quando a o carrinho da comida já tinha saído. Harry, Gina e Neville tinham terminado suas tortinhas de abóbora e estavam trocando cartões de Sapos de Chocolate quando a porta abriu e entraram, acompanhados por Bichento e o assobio agudo de Píchi na sua gaiola.

 

- Estou faminto - disse Rony, colocando Píchi perto de Edwiges, recebendo um Sapo de Chocolate de Harry e se jogando no assento ao seu lado. Ele abriu o pacote, mordeu a cabeça do sapo e se encostou com os olhos fechados como se tivesse tido um manhã muito exaustiva.

 

- Bem, há dois monitores do quinto ano em cada casa - disse Hermione, parecendo perfeitamente decepcionada enquanto se sentava. - Um garoto e uma garota cada.

 

- Adivinha quem é o monitor da Sonserina? - disse Rony, ainda com os olhos fechados.

 

- Malfoy - respondeu Harry de imediato, sabendo que seu pior receio tinha se confirmado.

 

- Claro - disse Rony amargamente, colocando o resto do sapo na boca e pegando outro.

 

- E aquela vaca completa da Pansy Parkinson - disse Hermione cruelmente. - Como ela conseguiu ser monitora quando é grosseira como um trasgo?

 

- Quem são os da Lufa-lufa? - perguntou Harry.

 

- Ernie MacMillan e Anna Abbott - disse Rony.

 

- E Anthony Goldstein e Padma Patil da Corvinal - disse Hermione.

 

- Você foi ao Baile de Natal com Padma Patil... - disse uma voz vagamente.

 

Todos viraram para olhar Luna Lovegood, que agora olhava sem piscar para Rony por cima da revista. Ele engoliu o resto do sapo de chocolate que estava na sua boca.

 

- É, eu sei que eu fui - disse, parecendo surpreso.

 

- Ela não gostou muito - informou Luna. - Ela acha que você não a tratou muito bem, porque você não dançou com ela. Eu não penso que teria me importado - disse pensativa. - Eu não gosto muito de dançar.

 

Ela voltou novamente para trás da revista. Rony fitou a capa com a boca aberta por alguns segundos, então olhou Gina, procurando alguma explicação, mas a menina tinha colocado os nós dos dedos na boca para parar de rir. Rony balançou a cabeça, confuso, e então olhou para o relógio.

 

- Nós temos que patrulhar os corredores de vez em quando - disse a Harry e Neville - e nós podemos dar punições se as pessoas se comportarem mal. Mal posso esperar para pegar Crabbe e Goyle...

 

- Você não deve abusar de sua posição, Rony! - disse Hermione severa.

 

- É, certo, porque Malfoy não vai abusar dela - disse sarcasticamente.

 

- Então você vai descer ao nível dele?

 

- Não, vou só ter certeza de pegar os colegas dele antes que ele pegue os meus.

 

- Pelo amor de Deus, Rony...

 

- Vou fazer Goyle escrever, isso vai deixá-lo maluco, ele odeia escrever - disse Rony feliz. Ele baixou a voz para parecer com a voz de porco de Goyle, contorceu o rosto numa forma de aparente concentração e fez que estava escrevendo em pleno ar. - Eu... Não... Devo... Parecer... Com... O... Traseiro... De... Um... Babuíno...

 

Todos caíram no riso, mas ninguém ria mais que Luna Lovegood. Ele soltou grito de felicidade que fez com que Edwiges acordasse e batesse as asas indignada, e Bichento saltou para cima do suporte de bagagens guinchando. Luna gargalhava tanto que a revista se soltou de sua mão, escorregou por suas pernas e caiu no chão.

 

- Isso foi engraçado!

 

Seus olhos saltados, banhados em lágrimas enquanto tomava fôlego, fixaram-se em Rony. Absolutamente embaraçado, ele olhou para os outros, que agora sorriam da expressão em seu rosto e da ridiculamente prolongada risada de Luna Lovegood, que se balançava para trás e para frente abraçada à sua barriga.

 

- Por que você está rindo tanto? - disse Rony, olhando para ela, suas sobrancelhas altas.

 

- Traseiro... De... Babuíno! - disse ela agarrada às costelas.

 

Todos estavam olhando para Luna gargalhando, com exceção de Harry, mirando a revista no chão, percebendo algo que o fez se abaixar para pegá-la. De cabeça para baixo ficava difícil ver o que a figura da capa era, mas Harry percebeu que era um desenho muito ruim de Cornélio Fudge; Harry apenas o reconheceu por causa do chapéu-coco verde limão. Uma das mãos de Fudge estava apertando uma sacola de ouro; a outra mão sufocava um duende. O título acima do desenho dizia: "Até onde Fudge vai para conseguir Gringotes?". Abaixo disto estavam listados outros artigos da revista.

 

"Corrupção na Liga de Quadribol:

 

Como os Tornados estão Tomando o Controle

 

Segredos das Runas Antigas Revelados

 

Sirius Black: Vilão ou Vítima?"

 

- Posso olhar? - perguntou Harry a Luna avidamente.

 

Ela concordou, ainda olhando fixamente para Rony, sem fôlego por causa da gargalhada.

 

Harry abriu a revista e procurou no índice. Até esse momento havia esquecido completamente da revista que Kingsley tinha pedido para o Sr. Weasley entregar a Sirius, mas devia ter sido esta edição do The Quibbler.

 

Encontrou a página e começou a ler o artigo.

 

Este também era ilustrado por um desenho muito ruim; de fato, Harry não saberia que era Sirius se não estivesse no título. Sirius estava em cima de uma pilha de ossos humanos empunhando a varinha. O cabeçalho do artigo dizia:

 

"SIRIUS - NEGRO O QUANTO É MOSTRADO?

 

Notório Assassino em massa ou um cantor inocente?"

 

Harry teve que ler esta sentença várias vezes antes de se convencer que havia entendido corretamente. Desde quando Sirius tinha sido um cantor?

 

"Por quatorze anos Sirius Black tem sido culpado por um assassinato em massa de doze trouxas inocentes e de um bruxo. A fuga audaciosa de Black de Azkaban dois anos atrás tem levado à maior caça humana jamais conduzida pelo Ministério da Magia. Nenhum de nós nunca questionou se ele merecia ser recapturado e entregue novamente aos dementadores.

 

MAS ELE REALMENTE FEZ ISSO?

 

Uma nova evidência assustadora recentemente veio à luz e mostra que Sirius Black não cometeu os crimes pelos quais foi mandado para Azkaban. 'De fato', disse Doris Purkiss, do número 18 da Acanthia Way, Little Norton, 'Black não esteve nem presente às mortes.'

 

'O que as pessoas não sabem é que Sirius Black é um nome falso', disse a Sra. Purkiss. 'O homem que todos acreditam ser Sirius Black é realmente Stubby Boardman, cantor principal do popular grupo The Hobgoblins, que se retiraram da vida pública depois de ser acertado por um nabo em sua orelha durante um concerto no salão da Igreja Little Norton a uns 15 anos atrás. Eu o reconheci no momento que eu vi sua foto no papel. Agora, Stubby não pode ter cometido esses crimes, porque no dia em questão ele estava em um jantar romântico comigo. Eu escrevi para o Ministro da Magia e espero que ele dê a Stubby, apelidado de Sirius, um perdão completo.' "

 

Harry terminou de ler e fitou a página, incrédulo. Talvez fosse uma piada, pensou, talvez a revista escrevesse artigos de humor. Voltou algumas páginas e achou o artigo sobre Fudge.

 

"Cornélio Fudge, o Ministro da Magia, negou que tivesse planos de tomar o controle Banco dos Bruxo, o Gringotes, quando foi eleito Ministro da Magia cinco anos atrás. Fudge sempre insistiu que não queria nada mais que 'cooperar pacificamente' com os guardiões do nosso ouro.

 

MAS SERÁ MESMO?

 

Fontes próximas ao ministro recentemente revelaram que a maior ambição de Fudge é controlar os suprimentos de ouro dos duendes e que não hesitará em usar a força se for necessário.

 

'Não seria a primeira vez, tão pouco', disse alguém próximo ao ministro. 'Cornélio 'Destruidor-de-Duendes' Fudge, é como os amigos o chamam. Se você pudesse ouvir que ele diz quando pensa que está sozinho, oh, está sempre pensando nos duendes que já cuidou; que afogou; que expulsou; que envenenou, que fez tortas...' "

 

Harry não continuou a ler. Fudge podia ter muitas falhas mas Harry achou extremamente difícil imaginá-lo ordenando duendes a serem cozidos em tortas. Folheou o resto da revista. Parou em algumas poucas páginas, onde leu: uma acusação de que os Tutshill Tornados estavam ganhando a Liga de Quadribol com uma combinação de chantagem, alteração ilegal de vassouras e tortura; uma entrevista com um bruxo que disse ter voado até a lua em uma Cleansweep 6 e que tinha trazido uma sacola de sapos da lua para provar; e um artigo sobre runas antigas que explicava o motivo pelo qual Luna estava lendo o The Quibbler de cabeça para baixo. De acordo com a revista, se você virar as runas de cabeça para baixo elas revelarão um feitiço para fazer a orelha de seu inimigo virar frutas. De fato, comparado com o resto dos artigos do The Quibbler, a sugestão de que Sirius poderia realmente ser o cantor principal dos The Hobgoblins era muito sensata.

 

- Algo de bom? - perguntou Rony enquanto Harry fechava a revista.

 

- Claro que não - disse Hermione ofensiva, antes de Harry puder responder. - O The Quibbler é lixo, todos sabem disso.

 

- Com licença... - disse Luna; sua voz tinha perdido de repente o ar sonhador. - Meu pai é o editor.

 

- Eu... Oh... - disse Hermione, parecendo embaraçada. - Bem... Ele é um pouco interessante... Eu digo, é um pouco...

 

- Pode me devolver por favor... - disse Luna friamente e, adiantando-se, ela tomou a revista das mãos. Folheando-a até a página cinqüenta e sete, virou a revista de cabeça para baixo novamente e desapareceu atrás dela, assim que a porta do compartimento se abriu pela terceira vez.

 

Harry olhou; esperava por isso, ver a imagem de Draco Malfoy com seu risinho falso entre seus companheiros Crabbe e Goyle não era nem um pouco agradável.

 

- O quê é? - disse ele agressivamente, antes de Malfoy sequer abrir a boca.

 

- Olhe as maneiras, Potter, ou terei que lhe passar uma detenção - disse Malfoy lentamente, seu cabelo loiro e liso e seu queixo pontudo exatamente como seu pai. - Sabe, eu, diferente de você, fui nomeado monitor, o que quer dizer que eu tenho o poder de aplicar punições.

 

- É - disse Harry. - Mas você, diferente de mim, é um idiota, então vá saindo e nos deixe em paz.

 

Rony, Hermione, Gina e Neville riram. O lábio de Malfoy se torceu.

 

- Diga-me. Como se sente sendo o segundo melhor depois de Weasley, Potter? - perguntou ele.

 

- Cale-se, Malfoy - disse Hermione severa.

 

- Parece que eu toquei em um calo - disse Malfoy, sorrindo. - Bem. Apenas tenha cuidado, Potter, porque eu estarei lhe caçando como um cão, no caso de você sair da linha.

 

- Saia! - disse Hermione, levantando-se.

 

Rindo com o canto da boca, Malfoy olhou uma última vez para Harry e saiu, Crabbe e Goyle seguindo seus passos. Hermione bateu a porta da cabine logo que saíram e então se virou para olhar Harry, que percebeu - assim como ela - que Malfoy quis dizer que sabia de algo e isso os deixou nervosos.

 

- Passe outro sapo - disse Rony, que aparentemente não notou nada.

 

Harry não podia falar livremente na frente de Neville de Luna. Ele trocou outro olhar nervoso com Hermione e então olhou para fora da janela.

 

Pensou que Sirius ter ido consigo para a estação tinha sido divertido mas de repente pareceu precipitado, para não dizer extremamente perigoso... Hermione estava certa... Sirius não devia ter ido. O que aconteceria se o Sr. Malfoy tivesse notado o cão negro e falado para Draco? O que aconteceria se tivesse deduzido que os Weasley, Lupin, Tonks e Moody sabiam onde Sirius estava se escondendo? Ou será que Malfoy falou usou a expressão "caçando como um cão" por coincidência?

 

O clima continuava indeciso enquanto viajavam mais e mais para o norte. A chuva castigava as janelas de forma indiferente, quando o sol se pôs numa aparência pálida antes das nuvens o cobrirem novamente. Quando a escuridão aumentou e as lâmpadas foram acesas dentro das cabines, Luna enrolou o The Quibbler, colocou-a com cuidado na sua bolsa, e começou a olhar para cada um dos ocupantes da cabine.

 

Harry estava sentado com sua testa encostada no vidro da janela, tentando ter o primeiro vislumbre distante de Hogwarts, mas era uma noite sem lua e a chuva escorria pela janela fazendo a visão ficar distorcida.

 

- É melhor nos trocarmos - disse Hermione finalmente, e todos abriram seus malões com dificuldade e retiraram suas vestes. Ela e Rony colocaram suas insígnias cuidadosamente na altura do peito. Harry viu Rony verificando seu reflexo na janela escura.

 

Finalmente o trem começou a diminuir e escutaram o usual arrastar de bagagem e os guinchos de animais sendo carregados. Como Rony e Hermione deviam supervisionar tudo isso, saíram do vagão, deixando Harry e os outros para cuidarem de Bichento e Píchi.

 

- Eu carregarei essa coruja se você quiser - disse Luna a Harry, pegando Píchi enquanto Neville colocava Trevo cuidadosamente num bolso interno.

 

- Oh... Eh... Obrigado - disse Harry, entregando a ela a gaiola e segurando Edwiges com mais segurança em seus braços.

 

Eles saíram da cabine sentindo a primeira pontada do ar frio da noite em suas faces enquanto se uniam à multidão no corredor. Devagar, aproximavam-se das portas. Harry podia sentir o cheiro dos pinheiros que eram alinhados próximos ao lago. Desceu até a plataforma e olhou ao redor, procurando aquela voz familiar que chamava "Os do primeiro ano... Aqui... Primeiro ano...".

 

Mas não escutou nada. Ao invés disso, uma voz bem diferente, uma voz feminina e rápida que chamava: "Os do primeiro ano alinhem-se aqui, por favor! Todos do primeiro ano aqui!".

 

Uma lanterna veio balançando até Harry e sob a luz ele viu o queixo proeminente e o cabelo curto da professora Grubbly-Plank, a bruxa que havia substituído Hagrid na aula de Trato de Criaturas Mágicas por algum tempo no ano anterior.

 

- Onde está Hagrid?

 

- Eu não sei - disse Gina. - Mas é melhor nós sairmos do caminho. Estamos bloqueando a porta.

 

- Ah, é...

 

Harry e Gina se separaram enquanto se moviam pela plataforma e passavam pela estação. Empurrado pela multidão, Harry procurou na escuridão por algum sinal de Hagrid; tinha que estar ali. Harry estava contando com isso. Ver Hagrid novamente era uma das coisas que mais queria. Mas não viu nenhum sinal dele.

 

- Ele não pode ter saído - Harry disse a si mesmo enquanto se misturava a multidão no caminho estreito que levava até a estrada. - Ele deve estar resfriado ou algo assim...

 

Procurou ao redor por Rony ou Hermione, querendo saber o que pensavam sobre o reaparecimento da professora Grubbly-Plank, mas nenhum deles perto, então se permitiu ser guiado até a estrada molhada e escura fora da estação de Hogsmeade.

 

Ele viu uma centena ou mais das carruagens sem cavalos que sempre levavam os estudantes acima do primeiro ano para o castelos. Harry olhou rapidamente para eles e se virou rapidamente para procurar Rony e Hermione e então voltou a olhar rapidamente de volta para as carruagens.

 

As carruagens não eram mais sem cavalos. Havia criaturas amarradas a eles. Se tivesse que lhes dar um nome supostamente os chamaria de cavalos, mesmo que tivessem uma aparência reptiliana também. Eram completamente sem carne, suas cobertas aderindo aos seus esqueletos onde os ossos estavam visíveis. Sua cabeças tinham uma aparência de dragões e seus olhos sem pupilas eram brancos e fixos. Asas saíam de cada lado - vastas, de um couro negro que os faziam parecer com morcegos gigantes. Parados e quietos escuridão, as criaturas pareciam assustadoras e sinistras. Harry não entedia por que as carruagens estavam sendo puxados por esses horríveis cavalos quando eram perfeitamente capazes de se mover por si mesmos.

 

- Onde está Píchí? - disse Rony bem atrás dele.

 

- Luna está carregando ele - disse Harry, virando rapidamente, ávido para conversar com Rony sobre Hagrid. - Você imagina...

 

- Onde o Hagrid está? Eu não sei - disse Rony, parecendo preocupado. - É melhor que ele esteja bem...

 

A alguma distância, Draco Malfoy, seguido por uma pequena gangue de companheiros incluindo Crabbe, Goyle e Pansy Parkinson, estavam empurrando alguns secundaristas tímidos de forma que eles e seus amigos pudessem pegar uma carruagem para eles. Segundos depois, Hermione surgiu ofegante do meio da multidão.

 

- Malfoy estava sendo absolutamente idiota com um garoto do primeiro ano ali. Eu juro que vou entregá-lo! Ele está com a insígnia há apenas três minutos e a está usando para ameaçar as pessoas mais do que nunca... Onde está Bichento?

 

- Gina está com ele - disse Harry. - Aí está ela...

 

Gina acabava de sair do meio da multidão, agarrando o Bichento, que se debatia agitado.

 

- Obrigada - disse Hermione, aliviando Gina do gato. - Vamos, vamos pegar uma carruagem junto antes que todas estejam cheias...

 

- Eu ainda não peguei o Píchi - Rony disse, mas Hermione já estava caminhando para uma carruagem desocupada. Harry ficou esperando com Rony.

 

- O que são essas coisas, você imagina? - perguntou ele a Rony, apontando para os horríveis cavalos enquanto os outros estudantes passavam por ele.

 

- Que coisas?

 

- Aqueles caval...

 

Luna apareceu segurando a gaiola de Píchi em seus braços; a coruja minúscula estava guinchando excitada como sempre.

 

- Aqui está você - disse ela. - Ele é uma corujinha doce, não?

 

- Er... É... Ele é legal - disse Rony irritado. - Bem, vamos então. Vamos entrar... O que você estava dizendo, Harry?

 

- Eu estava dizendo, o que são estas coisas? - Harry disse, enquanto ele, Rony e Luna se dirigiam para a carruagem onde Hermione e Gina já estavam sentando.

 

- Que coisas parecidas com cavalos?

 

- Essas coisas parecidas com cavalos puxando as carruagens! - disse Harry impaciente. Estavam a um metro do mais próximo; estava olhando para eles com seus olhos brancos e vazios. Rony, porém, olhou para Harry parecendo perplexo.

 

- Do que você está falando?

 

- Estou falando disso... Olhe!

 

Harry agarrou o braço de Rony e o empurrou para tão perto do cavalo alado que quase encostou o rosto do cavalo. Rony ficou parado por um segundo, e então olhou Harry.

 

- O que eu deveria estar vendo?

 

- O... Ali, entre as traves! Atado à carruagem! Bem na sua frente...

 

Mas Rony continuou a olhar confuso, um estranho pensamento passando na cabeça de Harry.

 

- Não ... Não pode vê-los?

 

- Ver o quê?

 

- Não vê o que está puxando as carruagens?

 

Rony pareceu bem alarmado agora.

 

- Está se sentindo bem, Harry?

 

- Eu... Sim...

 

Harry se sentiu absolutamente confuso. O cavalo estava lá na frente dele, resplandecendo na luz fosca que vinha da estação atrás deles, vapores saindo de suas narinas no ar fresco da noite. Porém, a menos que Rony estivesse brincando - e isso seria realmente uma brincadeira idiota -, não podia vê-lo.

 

- Vamos entrar, então? - disse Rony incerto, olhando Harry como se estivesse preocupado com ele.

 

- Sim. Sim, vamos...

 

- Está tudo bem - disse a voz sonhadora ao lado de Harry enquanto Rony desaparecia dentro da carruagem escuro. - Você não está louco ou algo assim. Eu posso vê-los também.

 

- Pode? - disse Harry desesperadamente, virando para Luna. Ele podia ver os cavalos com asas de morcego refletidos nos grandes olhos cinzentos dela.

 

- Oh, sim - disse Luna. - Eu os tenho visto desde meu primeiro dia aqui. Eles sempre puxaram as carruagens. Não se preocupe. Você é tão são quanto eu.

 

Sorrindo fracamente, ela entrou no interior mofado da carruagem após Rony. Não totalmente seguro, Harry a seguiu.

 

 

A NOVA MÚSICA DO CHAPÉU SELETOR

Harry não queria dizer aos outros que ele e Luna estavam tendo a mesma alucinação, se era isso mesmo, então não disse mais nada sobre cavalos, aconchegou-se na carruagem e bateu a porta atrás de si. Sem mais o que fazer, não pôde parar de olhar as silhuetas dos cavalos se mexendo pela janela.

 

- Alguém viu aquela mulher, a Grubbly-Plank? - perguntou Gina. - O que ela está fazendo aqui? Hagrid não pode ter saído, pode?

 

- Eu ficaria bem feliz se ele saísse - disse Luna -, ele não é um professor muito bom, é?

 

- Sim, ele é! - disseram Harry, Rony e Gina raivosamente.

 

Harry encarou Hermione. Ela limpou a garganta e disse rapidamente.

 

- Er... Sim... Ele é muito bom.

 

- Bem, nós, da Corvinal, o achamos uma piada - disse Luna, sem se chocar.

 

- Então você tem um horrível senso de humor - Rony respondeu bruscamente, enquanto as rodas abaixo estalaram em movimento.

 

Luna não pareceu se importar com a grosseria de Rony; pelo contrario, ela simplesmente os observou por um tempo como se ele fosse um programa de televisão um tanto interessante.

 

Chocalhando e balançando, as carruagens se moveram em escolta pela estrada. Quando passaram entre os altos pilares de pedra cobertos com javalis alados em ambos lados dos portões do jardim da escola, Harry se inclinou para frente para tentar ver se tinha alguma luz na cabana de Hagrid, na Floresta Proibida; o terreno estava em completa escuridão. O castelo de Hogwarts, no entanto, surgia ainda mais perto: uma massa elevada de torres, jatos negros contra o céu escuro, aqui e ali uma janela chamejante brilhava acima deles.

 

As carruagens pararam perto de uns degraus de pedras que levavam para as portas de carvalho da frente e Harry foi o primeiro a sair da carruagem. Virou de novo para ver se ascenderam as janelas da cabana da Floresta, mas definitivamente não havia sinal de vida na cabana de Hagrid. Derrotado, porque tinha tido uma meia esperança que tivesse sumido, ele virou seus olhos para as estranhas e esqueléticas criaturas que ficavam paradas quietas no frio ar noturno, com seus olhos brancos brilhando.

 

Harry já tinha tido a experiência de poder ver o que Rony não podia, mas aquilo tinha sido um reflexo no espelho, algo muito mais insubstancial que uma centena de bestas aparentemente muito sólidas e fortes o suficiente para empurrar num vôo uma frota de carruagens. Se Luna era para ser acreditada, as bestas estavam sempre lá, mas eram invisíveis antes. Então, por que Harry passou de repente a poder enxergá-los e por que Rony não?

 

- Você vem ou o quê? - disse Rony atrás dele.

 

- Ah... Sim - disse Harry rapidamente e se juntou à apressada multidão que subia os degraus de pedra dentro do castelo.

 

O Saguão de Entrada estava flamejante com tochas e ecoando com os passos enquanto os estudantes cruzavam os enfraquecidos pisos de pedra para as portas duplas à direita, levando para o Salão Principal e ao banquete de início do ano letivo.

 

As quatro longas mesas das casas estavam se enchendo embaixo de um teto negro sem estrelas, que era igual ao céu que podiam entrever pelas janelas. Velas voaram em meio ao ar por toda a mesa, Iluminando os fantasmas prateados que estavam parados sobre o Salão e os rostos dos estudantes falando ansiosamente, trocando novidades de verão, gritando boas-vindas a amigos de outras casas, comentando um ou outro novo corte de cabelo ou manto. De novo, Harry percebeu pessoas colocando suas cabeças juntas e cochichando enquanto ele passava; rangeu os dentes e tentou fingir que não viu ou não ligou.

 

Luna se separou deles na mesa da Corvinal. No momento em que chegaram a Grifinória, Gina foi saudada por uns amigos do quarto ano e foi sentar com eles; Harry, Rony, Hermione e Neville encontraram seus lugares juntos mais ou menos no meio da mesa, entre Nick Quase Sem Cabeça, o fantasma da casa de Grifinória, e Pavarti Patil e Lilá Brown, as últimas duas que deram a Harry uma arejada e exagerada boas-vindas que o fez ter quase certeza que elas acabaram de falar dele. Mas tinha coisas mais importantes para fazer, no entanto: estava olhando por cima da cabeça dos estudantes para a mesa de professores, que ficava no final do Salão.

 

- Ele não está aqui.

 

Rony e Hermione olharam a mesa também, mas não era realmente necessário; o tamanho de Hagrid o fazia instantaneamente óbvio em qualquer linha de visão.

 

- Ele não pode ter saído - disse Rony, soando um pouco ansioso.

 

- É claro que ele não saiu - disse Harry firme.

 

- Você não acha que ele se... Machucou, ou algo do tipo, você acha? - disse Hermione com dificuldade.

 

- Não - disse Harry de uma vez.

 

- Mas onde ele está, então?

 

Houve uma pausa e Harry disse bem baixinho, tanto que Neville, Pavarti e Lilá não puderam ouvir.

 

- Talvez ele ainda não voltou. Vocês sabem... Da sua missão... Aquilo que ele estava fazendo para Dumbledore no verão.

 

- Sim... Sim, deve ser isso - disse Rony, soando seguro novamente, mas Hermione mordeu seus lábios, olhando pra cima e pra baixo pela mesa dos professores como se tivesse esperando por alguma explicação conclusiva sobre a ausência de Hagrid.

 

- Quem é aquela? - ela disse cortantemente, apontando para o meio da mesa de professores.

 

Os olhos de Harry seguiram os dela. Pararam primeiro sobre o professor Dumbledore, sentando em sua alta cadeira dourada ao centro da longa mesa de professores, vestindo um manto roxo-escuro espalhado com estrelas prateadas e com um chapéu combinando. A cabeça de Dumbledore estava inclinada voltada para a mulher sentada próxima a ele, que estava falando em seus ouvidos. Parecia, Harry pensou, como uma tia solteira de alguém: agachada, com um curto, ondulado, cabelo marrom de rato em que tinha colocado uma horrível faixa de Alice, que combinava com o peludo cardigã rosa que vestia sobre seu manto. Então ela virou seu rosto levemente para beber um gole de seu cálice e ele viu, com um choque de reconhecimento, um pálido rosto que parecia um cogumelo e um par de proeminentes olhos iguais a bolsas.

 

- É aquela mulher, Umbridge!

 

- Quem? - disse Hermione.

 

- Ela estava em minha audiência, ela trabalha para Fudge!'

 

- Ótimo cardigã - disse Rony, sorrindo.

 

- Ela trabalha para Fudge! - Hermione repetiu, zangada. - Que diabos ela esta fazendo aqui então?

 

- Não sei...

 

Hermione olhou a mesa dos professores, seus olhos se estreitaram.

 

- Não - ela murmurou. - Não, com certeza não...

 

Harry não entendeu sobre o que ela estava falando mas não perguntou; sua atenção foi pega pela professora Grubbly-Plank, que tinha acabado de aparecer atrás da mesa dos professores; ela continuou seu caminho até o final da mesa e sentou no lugar que seria de Hagrid. Isso significava que os alunos do primeiro ano já haviam cruzado o lago e logo depois as portas do Salão Principal se abriram. Uma longa fila de alunos com caras assustadas entrou, liderada pela professora McGonagall, que estava carregando um banco onde havia um antigo chapéu de bruxo, pesadamente remendado e com um grande rasgo perto da desgastada aba.

 

O zumbido da fala no Salão Principal acabou. Os alunos do primeiro ano se enfileiraram em frente à mesa de professores e ficaram encarando o resto dos estudantes, a professora McGonagall colocou o banco cuidadosamente à sua frente e então foi para trás.

 

Os rostos dos alunos do primeiro ano brilharam palidamente sob a luz das velas. Um pequeno garoto no meio da fila pareceu que estava tremendo. Harry relembrou, passageiramente, como ele tinha ficado aterrorizado quando estivera lá, esperando pelo desconhecido teste que determinaria a casa a qual pertenceria.

 

Toda a escola esperava com uma respiração reduzida. Então o rasgo perto da aba abriu, como se fosse uma boca, e o Chapéu Seletor entoou numa música:

 

"Em tempos antigos, quando eu era novo

 

E Hogwarts mal havia começado

 

Os fundadores dessa nobre escola

 

Achavam que nunca se separariam:

 

Unidos por um objetivo comum,

 

Eles tinha a mesma aspiração,

 

Fazer a melhor escola de magia do mundo

 

E passaram todo o conhecimento deles.

 

'Juntos nós construímos e ensinamos'

 

Os quatro bons amigos decidiram

 

E nunca sonharam que eles

 

Seriam divididos algum dia,

 

Pois onde poderia haver amigos

 

Como Slytherin e Gryffindor?

 

A não ser se fosse o segundo par

 

De Hufflepuff e Ravenclaw?

 

Então como pode ter dado tão errado?

 

Como pode tal amizade falhar?

 

Bem, eu estava lá e posso contar

 

Todo o triste, pesaroso conto.

 

Disse Slytherin 'Nós ensinaremos apenas aqueles

 

Cujo ancestral é puro'

 

Disse Ravenclaw 'Nós ensinaremos aqueles

 

Cuja Inteligência é perfeita'

 

Disse Gryffindor 'Nós ensinaremos todos aqueles

 

Com bravos atos em seu nome'

 

Disse Hufflepuff 'Ensinarei a laia,

 

E os tratarei como iguais.'

 

Essas diferenças causaram poucas discussão

 

Quando pela primeira vez vieram à luz,

 

Pois cada um dos fundadores tinha

 

Uma casa em que podiam

 

Pegar somente o que ele queriam, então,

 

De início, Slytherin

 

Pegou somente bruxos de sangue puro

 

De grande astúcia, que nem a ele,

 

E apenas aqueles com a mente afiada

 

Eram ensinados por Ravenclaw

 

Enquanto os mais bravos e destemidos

 

Foram com o audacioso Gryffindor.

 

Boa Hufflepuff, ela pegou o resto,

 

E ensinou a eles tudo que sabia,

 

No entanto as casas e seus fundadores

 

Permaneceram com a amizade firme e verdadeira.

 

Então Hogwarts trabalhou em harmonia

 

Por muitos felizes anos

 

Mas então a discórdia cresceu entre nós

 

Alimentando nossas falhas e medos.

 

E as casas, que como quatro pilares

 

Tinham uma vez segurado nossa escola,

 

Agora se viraram uma contra a outra,

 

Divididas, procuravam dominar.

 

E por um tempo parecia que a escola

 

Encontraria um fim próximo,

 

O que com duelos e lutas

 

E a colisão de amigos com amigos

 

E então veio a manhã

 

Em que o velho Slytherin partiu

 

E então a luta morreu

 

Ele saiu bem magoado

 

E nunca, desde os quatros fundadores

 

Que foram reduzidos a três,

 

Tiveram as casas unidas

 

Como elas uma vez foram.

 

E agora o Chapéu Seletor está aqui

 

E todos vocês sabem o porquê:

 

E selecionarei vocês nas casas

 

Porque é por isso que eu estou aqui,

 

Mas esse ano eu irei mais longe,

 

Ouçam atentamente a minha canção:

 

Mesmo que condenem, eu separarei vocês

 

Ainda que eu ache isso errado,

 

Mas eu devo completar meu propósito

 

E devo dividi-los em quatro todo ano

 

Ainda eu espero que seja qual for a seleção

 

Não traga o fim que temo.

 

Oh, saiba os perigos, leia os sinais,

 

A história de aviso mostra,

 

Que nossa Hogwarts está em perigo

 

De externos, mortais inimigos

 

E nós devemos nos unir dentro dela

 

Ou nós iremos nos despedaçar

 

Eu os falei, eu os avisei...

 

Agora que a seleção comece.

 

O Chapéu ficou parado outra vez; aplausos surgiram, mas dessa vez vieram - pela primeira vez na memória de Harry - com murmúrios e sussurros. Por todo o Salão Principal alunos estavam trocando comentários com os seus vizinhos, e Harry, aplaudindo como todo mundo, sabiam exatamente o que todos estavam dizendo.

 

- Ele aumentou um pouco esse ano, não? - disse Rony, com seus olhos castanhos levantados.

 

- Com certeza que sim - disse Harry.

 

O Chapéu Seletor geralmente se confinava a descrever as diferentes qualidades procuradas por cada uma das quatro casas de Hogwarts e em seu próprio papel de sorteá-las. Harry não pôde lembrar de ter tentado dar um conselho à escola antes.

 

- Estive pensando se ele já deu avisos antes? - disse Hermione, soando um pouco ansiosa.

 

- Sim, já - disse Nick Quase Sem Cabeça, entendido, atravessando Neville na direção dela (Neville estremeceu; era muito desconfortável ter um fantasma atravessando você). - O Chapéu acha uma questão de honra dar à escola um aviso sempre que ele achar...

 

Mas a professora McGonagall, que estava esperando para ler as lista dos nomes dos alunos do primeiro ano, dava aos estudantes que cochichavam um olhar que chamuscava. Nick Quase Sem Cabeça colocou um dedo transparente em seus lábios e sentou ereto de novo enquanto o murmúrio chegou a um abrupto fim. Com um último olhar carrancudo que varreu as mesas das casas, a professora McGonagall abaixou seus olhos para o longo pedaço de pergaminho e chamou o primeiro nome.

 

- Abercrombie, Euan.

 

O garoto, que parecia aterrorizado e que Harry tinha visto antes, tropeçou para frente e colocou o Chapéu em sua cabeça; ele só não caiu direto em seus ombros devido às suas orelhas bastantes proeminentes. O Chapéu pensou por um momento e então o rasgo perto da aba abriu e gritou:

 

- Grifinória!

 

Harry aplaudiu altamente com o resto da Grifinória enquanto Euan Abercrombie cambaleou até a mesa e se sentou, olhando como se gostaria de afundar na mesa e nunca mais ser olhado.

 

Vagarosamente, a longa fila de alunos do primeiro ano diminuiu. Nas pausas entre os nomes e as decisões do Chapéu Seletor, Harry podia ouvir o estômago de Rony roncando alto. Finalmente, "Zeller, Rose" foi sorteada pra Lufa-Lufa, a professora McGonagall pegou o Chapéu e o banco e os levou para fora enquanto o professor Dumbledore ficava de pé.

 

Mesmo com seus recentes sentimentos amargos em relação ao diretor, Harry ficou de alguma forma aliviado de vê-lo erguido diante de todos. Diante da ausência de Hagrid e da presença daqueles cavalos "dragonídeos", sentiu que seu retorno a Hogwarts, há tanto previsto, estava cheio de surpresas inesperadas, como notas discordantes numa música familiar. Mas isto, pelo menos, era como deveria ser: o diretor da escola se levantando para dar as boas-vindas antes do início do banquete de início do trimestre.

 

- Para os nossos novatos - disse Dumbledore numa voz titilar, seus braços bem abertos e um alegre sorriso em seus lábios -, bem-vindos! Para os nossos alunos antigos. Bem-vindos de volta! Há uma hora para fazer discursos, mas não é agora. Sirvam-se!

 

Houve uma gargalhada apreciativa e uma onda de aplausos quando Dumbledore sentou destramente e jogou suas longas barbas sobre os ombros para que ficassem longe de seu prato - pois a comida tinha aparecido do nada, então as cinco longas mesas estavam gemendo sobre carnes e tortas e pratos de vegetais, pães e molhos e garrafas de suco de abóbora.

 

- Excelente - disse Rony, com um tipo de gemido pela espera, e se apoderou da prataria mais próxima de costeletas e começou a pilhá-las em seu prato, observado ansiosamente Nick Quase Sem Cabeça.

 

- O que você estava dizendo antes da Seleção? - Hermione perguntou ao fantasma. - Sobre o Chapéu dar avisos?

 

- Ah sim - disse Nick, que parecia feliz por ter uma razão para se virar de Rony, que agora comia tomates assados com quase o mesmo indecente entusiasmo. - Sim, eu já tinha visto o Chapéu dar vários avisos antes, sempre em tempos em que ele detectava períodos de grande perigo para a escola. E sempre, é claro, seu conselho era o mesmo: fiquem juntos, sejam fortes daqui pra frente.

 

- Omo le pudi zaber qui iscolaestaem peio selechapeu? - disse Rony.

 

Sua boca estava tão cheia que Harry achou um grande feito para ele conseguir fazer qualquer som.

 

- O que foi que você disse? - Nick Quase Sem Cabeça educadamente, enquanto Hermione parecia revoltada. Rony deu uma enorme engolida e disse.

 

- Como ele pode saber se a escola está em perigo se ele é um Chapéu?

 

- Eu não tenho idéia - disse Nick Quase Sem Cabeça. - Mas, claro, se ele vive no escritório de Dumbledore, então eu temo dizer que ele pega coisas lá em cima.

 

- E ele quer que todas as casas sejam amigas? - disse Harry, olhando para a mesa de Sonserina, onde Draco Malfoy estava em sua corte de influência. - Grande chance.

 

- Bem, agora, você não deveria ter essa atitude - disse Nick, reprovando-o. - Cooperação pacífica, essa é a chave. Nós, fantasmas, mesmo pertencendo a casas diferentes, mantemos vínculos de amizade. Devido às competitividades entre Grifinória e Sonserina, eu jamais sonharia em procurar um argumento com o Barão Sangrento,

 

- Somente porque você está assustado com ele - disse Rony.

 

Nick Quase Sem Cabeça pareceu muito insultado.

 

- Assustado? Eu digo que eu, Sir Nicholas de Mimsy-Porpington, nunca fui culpado de covardia em minha vida! O sangue nobre que corre em minhas veias...

 

- Que sangue? - perguntou Rony. - Com certeza você não tem mais nenhum...?

 

- É uma figura de linguagem! - disse Nick Quase Sem Cabeça, agora tão aborrecido que sua cabeça tremia sinistramente em seu pescoço parcialmente cortado. - Eu assumo que ainda estou permitido ao prazer de usar qualquer palavra que eu goste, mesmo que os prazeres de comer e beber me sejam negados! Mas eu estou bem acostumado a alunos fazendo graça da minha morte, eu te garanto!

 

- Nick, na verdade ele não estava rindo de você! - disse Hermione, jogando um olhar furioso a Rony.

 

Infelizmente, a boca de Rony estava cheia a ponto de explodir de novo e tudo o que ele pôde tentar falar foi:

 

- Eunão stavarindo dvocê - o que não pareceu a Nick constituir uma desculpa apropriada.

 

Levantando-se ao ar, ele ajeitou seu chapéu de penas e se distanciou até o outro lado da mesa, vindo a descansar entre os irmãos Creevey, Colin e Dennis.

 

- Muito bem, Rony - disse subitamente Hermione.

 

- O quê? - disse Rony indignado, tendo conseguido, finalmente, conseguido engolir sua comida. - Não posso fazer nem uma simples pergunta agora?

 

- Ah, esquece - disse Hermione irritada, e os dois passaram o resto da refeição num insolente silêncio.

 

Harry estava bem acostumado com a disputas deles para se preocupar em reconciliá-los; achou melhor usar esse tempo para comer fixamente seu bife e sua torta de rim, e então um grande pedaço de sua favorita torta de melaço.

 

Quando todos os estudantes terminaram de comer e o nível de barulho no Salão tinha começado a aumentar de novo, Dumbledore ficou de pé mais uma vez. O falatório cessou imediatamente e todos viraram seus rostos para o diretor da Escola. Harry estava se sentindo agradavelmente sonolento agora, sua cama estava lhe esperando lá em cima maravilhosamente quente e macia...

 

- Bem, agora que estamos todos digerindo outro magnífico banquete, peço uns poucos momentos de sua atenção para os nossos usuais avisos início de ano - disse Dumbledore. - Alunos do primeiro ano devem saber que a floresta do terreno é terminantemente proibida para alunos. E uns poucos de nossos alunos mais velhos devem estar sabendo agora também - Harry, Rony e Hermione trocaram sorrisos. - Sr. Filch, o zelador, me pediu, pelo que ele me disse é a quadricentésima sexagésima segunda vez, para lembrá-los que mágica não é permitida nos corredores entre classes, nem um monte de outras coisas, todas podem ser checadas na extensa lista que agora fica fixada na porta do escritório do Sr. Filch. Nós tivemos duas mudanças na equipe de professores esse ano. Estamos muito felizes em dar as boas-vindas de volta à professora Grubbly-Plank, que estará dando aulas de Trato das Criaturas Mágicas; também estamos encantados de apresentar a professora Umbridge, nossa nova professora de Defesa Contra as Artes das Trevas.

 

Houve uma onda de educados e sem entusiasmo aplausos, durante a qual Harry, Rony e Hermione trocaram olhares com um pouco de pânico; Dumbledore não tinha dito por quanto tempo Grubbly-Plank estaria lecionando. Dumbledore continuou.

 

- Tentativas para os times de Quadribol das casas serão...

 

Ele parou, olhando curiosamente para a professora Umbridge. Ela não era muito mais alta em pé do que sentada, houve um momento em que ninguém entendeu o porquê de Dumbledore ter parado de falar, mas então a professora Umbridge limpou sua garganta - Hum, hum - e ficou claro que ela ficou de pé e estava querendo fazer um discurso.

 

Dumbledore apenas olhou e ficou confuso, então se sentou espertamente e olhou em alerta para a professora Umbridge, como se não tivesse desejado nada melhor que ouvi-la. Outros membros da equipe não eram tão adeptos a esconder suas surpresas. Os olhos castanhos da professora Sprout desapareceram em seus cabelos e a boca da professora McGonagall ficou tão fina quanto Harry nunca tinha visto. Nenhum professor novo tinha interrompido Dumbledore antes. Muitos estudantes estavam cochichando; essa mulher com certeza não sabia como as coisas eram feitas em Hogwarts.

 

- Obrigada, diretor - a professora Umbridge disse, sorrindo - por essas educadas palavras de boas-vindas.

 

Sua voz era muito melancólica, ofegante e parecida com a de uma garotinha e, de novo, Harry sentiu um poderoso ímpeto de desgosto que não podia explicar para si mesmo; tudo o que sabia é que tinha odiado tudo sobre ela, desde sua estúpida voz até ao peludo cardigã rosa. Ela deu mais uma pequena tosse de limpar a garganta ("hum, hum") e continuou.

 

- Bem, é adorável estar de volta a Hogwarts, e devo dizer! - sorriu, revelando dentes bastante pontudos. - E ver rostos tão felizes olhando para mim!

 

Harry olhou em volta. Nenhum dos rostos que podia ver pareciam felizes. Pelo contrário, todos pareciam confusos em serem tratados como se tivessem cinco anos de idade.

 

- Eu estou realmente esperando conhecer todos vocês e estou certa que seremos ótimos amigos!

 

Estudantes trocaram olhares com isso; alguns estavam mal concedendo caretas.

 

- Eu serei amiga dela enquanto eu não tiver que usar aquele cardigã - Pavarti sussurrou para Lilá e ambas delas caíram em silenciosas gargalhadas.

 

A professora Umbridge limpou sua garganta de novo ("hum, hum"), mas quando continuou sua voz não parecia mais ofegante. Parecia muita mais como a de alguém de negócios e suas palavras tinham um monótono som de tê-las aprendido de cor.

 

- O Ministro da Magia sempre considerou a educação de jovens bruxos e bruxas de vital importância. Os raros dons com os quais vocês nasceram poderiam não servir para nada se não fossem nutridos e afiados por instruções cuidadosas. As habilidades anciãs exclusivas para a comunidade de bruxos devem ser passadas por gerações pois podemos perdê-las para sempre. O tesouro guardado pelo conhecimento mágico passado por nossos ancestrais deve ser guardado, reabastecido e polido por aqueles que foram escolhidos para a nobre profissão de lecionar.

 

A professora Umbridge pausou e fez uma pequena referência para seus colegas de equipe, nenhum deles referenciou de volta. Os olhos castanhos escuro da professora McGonagall tinham se contraído tanto que eles positivamente pareciam com os de um falcão, e Harry distintamente a viu trocar um significante olhar com a professora Sprout enquanto Umbridge deu outro pequeno "hum, hum" e voltou para seu discurso.

 

- Cada diretor e diretora de Hogwarts tem trazido algo de novo para a pesada tarefa de governar essa histórica escola, e assim é que deveria ser, pois sem progresso haveria estagnação e decadência. Há de novo, progresso por fazer progresso deve ser desencorajado, pois nossas tentadas e testadas tradições geralmente não requerem mudanças. Um balanço então, entre velho e novo, entre permanecer e mudar, entre tradição e inovação...

 

Harry viu sua atenção decaindo, como seu cérebro saísse e voltasse de uma canção. O silêncio que sempre se enchia no Salão quando Dumbledore estava falando estava sumindo enquanto alunos colocavam as cabeças juntos, cochichando e murmurando. Na mesa da Corvinal, Cho Chang estava tagarelando animadamente com usas amigas. A uns poucos assentos depois de Cho, Luna Lovegood tinha tirado o The Quibbler de novo. Nesse instante, na mesa da Lufa-lufa, Ernie MacMillan era um dos poucos que ainda olhava para a professora Umbridge, mas usava óculos e tinha certeza que estava apenas fingindo que ouvia apenas para fazer valer seu novo distintivo de monitor brilhando em seu peito.

 

A professora Umbridge parecia nem ter percebido a inquietação de sua platéia. Harry teve a impressão que uma revolta de grande escala podia ter surgido sobre seu nariz que teria continuado com seu discurso. Os professores, no entanto, ainda estavam prestando bastante atenção e Hermione parecia estar bebendo cada palavra que Umbridge dizia, ainda que, julgando pela sua expressão, não era de jeito nenhum de seu gosto.

 

- ...Porque algumas mudanças virão para melhor, enquanto outras virão, ao completar o tempo, a ser reconhecidas como erros de julgamento. Enquanto isso, alguns velhos hábitos serão mantidos, e com o mesmo direito, haverá outros, fora de moda e fora de gasto que devem ser abandonados. Vamos ir para frente, então, entrem numa era de aberturas, efetividade e acontabilidade, com o intento de preservar o que deve ser preservado e aperfeiçoar o que deve ser aperfeiçoado, podendo sempre que acharmos práticas que deveriam ser proibidas.

 

Ela sentou. Dumbledore aplaudiu. O corpo docente seguiu sua liderança, no entanto Harry percebeu que muitos juntaram suas mãos apenas uma ou duas vezes antes de parar. Uns poucos estudantes se juntaram, mas a maioria tinha ficado desavisados no final do discurso, não tendo ouvido mais que algumas poucas palavras dele, e antes de pudessem aplaudir propriamente Dumbledore tinha se levantado de novo.

 

- Muito obrigado professora Umbridge, isso foi bastante esclarecedor - ele disse, referenciando-se. - Agora, como eu estava dizendo, seleções de Quadribol serão...

 

- Sim, foi realmente esclarecedor - disse Hermione numa voz baixa.

 

- Você não está me dizendo que gostou? - Rony disse quietamente, virando um rosto evidraçado em Hermione. - Este foi um dos discursos mais chatos que eu já ouvi, e eu cresci com Percy.

 

- Eu disse esclarecedor, não agradável - disse Hermione. - Ela explicou muito.

 

- Foi? - disse Harry em surpresa. - Soou como um monte de bobeira para mim.

 

- Havia coisas importantes escondidas nessas bobeiras - disse Hermione espantada.

 

- Tinha? - disse Rony, empalidecendo.

 

- Que tal: "progresso por fazer progresso deve ser desencorajado"? Ou então "podendo sempre que acharmos práticas que deveriam ser proibidas"?

 

- Bem, o que isso significa? - disse Rony impacientemente.

 

- Eu vou dizer o que isso significa - disse Hermione por entre os dentes, que rangiam. - Isso significa que o Ministério está interferindo em Hogwarts.

 

Houve uma grande barulheira ao redor deles; Dumbledore tinha obviamente dispensado a escola, porque todos estavam de pé prontos para deixar o Salão. Hermione pulou, parecendo perturbada.

 

- Rony, nós deveríamos estar mostrando aos calouros aonde eles devem ir!

 

- Ah é - disse Rony, que tinha obviamente esquecido. - Hey... hey, vocês! Pigmeus!

 

- Rony!

 

- Bem, eles são, eles são baixinhos...

 

- Eu sei, mas você não pode chamá-los de pigmeus! Novatos! - Hermione os chamou, comandando-os pela mesa. - Por aqui, por favor!

 

Um grupo de novos estudantes andou timidamente pelo espaço entre a mesa da Grifinória e Lufa-lufa, todos dificilmente tentando não liderar o grupo. Realmente pareciam muito pequenos; Harry estava certo que não parecia tão novo quando chegara ali. Fez caretas a eles. Um garoto loiro próximo a Euan Abercrombie petrificado cutucou Euan e cochichou algo em seu ouvido. Euan Abercrombie olhou igualmente assustado e roubou um olhar horrorizado de Harry, que sentiu a careta desaparecer de seu rosto como bombas de bosta.

 

- Vejo vocês depois - ele disse monotonamente para Rony e Hermione e fez seu caminho fora do Salão Principal sozinho, fazendo tudo o que podia para ignorar mais cochichos, olhares e apontamentos enquanto ele passava.

 

Mantinha seus olhos fixos enquanto cortava seu caminho pela multidão na Saguão de Entrada, correu pela escadaria, pegou alguns atalhos de caminhos conhecidos e logo deixou a maior parte da multidão para trás.

 

Tinha sido estúpido em não esperar por isso, pensou raivosamente pelos corredores muito mais vazios acima das escadas. Claro que todos olhavam para ele; tinha emergido do labirinto do Tribruxo dois meses atrás carregando o corpo morto de um amigo estudante e clamando que viu Lord Voldemort retornar ao poder. Não houve tempo no último ano para se explicar antes de todos terem ido pra casa - mesmo que tivesse tido vontade de dar a toda a escola um detalhado conto sobre os terríveis acontecimentos naquele cemitério.

 

Harry alcançou o final do corredor da sala da Grifinória e parou em frente do retrato de uma Mulher Gorda antes de perceber que não sabia a nova senha...

 

- Er... - disse sonsamente, olhando para a Mulher Gorda, que amaciava as bordas de seu vestido rosa e olhava seriamente a ele.

 

- Sem senha, sem entrada - ela disse elevadamente.

 

- Harry, eu sei! - alguém apareceu atrás dele e Harry virou para ver Neville passando à sua frente. - Adivinhe o que é? Na verdade eu serei apto a lembrar de uma vez por todas... - ele balançou o estonteado pequeno cacto que tinha mostrado no trem. - Mimbuius mimbletonia!

 

- Correto - disse a Mulher Gorda e seu retrato se abriu para frente deles como uma porta, revelando um buraco circular na parede atrás, o qual Harry e Neville agora escalavam.

 

A sala da Grifinória parecia tão bem-vinda como nunca, uma sala torre circular acolhedora cheia de dilapidadas e esmagadas poltronas e desconjuntadas velhas mesas. Um fogo estalava alegremente numa grelha e algumas poucas pessoas estavam aquecendo suas mãos nele antes de irem para seus dormitórios; do outro lado da sala Fred e Jorge Weasley estavam pendurando algo no quadro de notícias. Harry deu boa noite a eles e foi direto para a porta dos dormitórios dos garotos; não estava com muito humor para conversas no momento. Neville o seguiu.

 

Dino Thomas e Simas Finnigan tinham alcançado o dormitório antes e estavam no processo de cobrir as paredes ao lado de suas camas com pôsteres e fotografias. Estavam conversando quando Harry empurrou para abrir a porta mas pararam abruptamente no momento em que o avistaram. Harry imaginou se eles estiveram falando de si ou estava ficando paranóico.

 

- Oi - disse, movendo-se para seu próprio malão e abrindo-o.

 

- Hey, Harry - disse Dino, que estava colocando um par de pijamas nas cores do West Ham. - Boas férias?

 

- Não foi ruim - murmurou Harry, como se a verdade sobre suas férias teria pegado a maior parte da noite para relatar e não podia encarar. - Você?

 

- É, foi ok - disse Dino com um riso contido. - Melhor que Simas, de qualquer forma, ele estava me falando agora mesmo.

 

- Por quê, o que aconteceu, Simas? - Neville perguntou enquanto colocava sua Mimbuius mimbletonia carinhosamente no armário ao lado da cama.

 

Simas não respondeu imediatamente, estava perdendo bastante tempo se assegurando que seu pôster do time de quadribol Kenmare Kestrels estava bem certo. Então disse, com as costas ainda viradas para Harry.

 

- Minha mãe não queria que eu voltasse.

 

- O quê? disse Harry, pausando o ato de tirar suas vestes.

 

- Ela não me queria de volta em Hogwarts.

 

Simas se distanciou de seu pôster e tirou seu pijama do seu malão, ainda não olhando para Harry.

 

- Mas... Por quê? - disse Harry, assombrado. Sabia que a mãe de Simas era uma bruxa e não podia entender, entretanto, o porquê de ela ter ficado tão parecida com os Dursley.

 

Simas não respondeu até ter terminado de abotoar seus pijamas.

 

- Bem - ele disse com uma voz medida. - Eu acho... Que é por causa de você.

 

- O que você que dizer? - disse Harry rapidamente.

 

Seu coração batia bem rápido. Sentiu vagamente que algo se aproximava.

 

- Bem - disse Simas de novo, ainda evitando os olhos de Harry. - Ela... Er... Bem, não é apenas você, é Dumbledore, também...

 

- Ela acredita no Profeta Diário. Ela acha que eu sou um mentiroso e que Dumbledore é um velho tolo?

 

Simas o olhou.

 

- É, algo assim.

 

Harry não disse nada. Jogou sua varinha na mesa ao lado da cama, tirou suas vestes, juntou-os nervoso em seu malão e tirou seus pijamas. Estava cansado disso: cansou de ser a pessoa que todos olhavam e falavam sobre todo o tempo. Se algum deles soubesse, se algum deles tivesse a menor idéia do que era se sentir ser o único em qual todas essas coisas aconteceram... A Sra. Finnigan não tinha idéia, aquela mulher estúpida, pensou raivosamente.

 

Foi para a cama e ia puxar as cobertas em volta de si mas antes de fazê-lo Simas disse.

 

- Olha... O que aconteceu naquela noite quando... Você sabe, quando... Com Cedrico Diggory e tudo o mais?