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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A PRAIA DO DESTINO / Anita Shreve
A PRAIA DO DESTINO / Anita Shreve

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

O espaço de tempo que demora a percorrer a distância entre o balneário, no paredão de Fortune's Rocks, onde deixou as botas e descalçou discretamente as meias, e a linha de água ao longo da qual as ondas lambem continuamente a areia rósea e prateada, ela descobre o significado do desejo. O desejo que sustém a respiração, que provoca uma interrupção em plena articulação de uma frase, que lhe permite apenas olhar os pés descalços que se dirigem para a água. Esta primeira e breve consciência do seu próprio desejo - e de ser objecto de desejo, um estado de que nunca tivera o mais leve sinal - atinge-a como uma espécie de choque sereno, como se o ar se condensasse à sua volta, e causa o que parece ser a primeira sensação de desfalecimento da sua vida adulta.

Toca na aba de linho do chapéu esboçando um gesto que não teria feito um Verão antes nem tão-pouco um dia antes. Talvez passe também os dedos pela longa faixa de tule do chapéu. À sua volta estão homens de fato-de-banho ou de camisa e colete branco; e, se levantar os olhos, vê-lhes os rostos: semblantes pálidos e in vernais que parecem inalar o ar do oceano como se de sais aromáticos se tratasse, mitigando o opressivo torpor de intermináveis meses dentro de portas. Há homens de todas as idades, alguns bastante altos, e, embora conversem entre si, é a ela que observam.

O seu andar ao longo do baixio da praia transforma-se. Os pés, ao avançar lentamente, produzem delicadas e indecorosas marcas na areia. O vestido, de seda cor de pêssego, adquire um translúcido tom de sépia quando entra na água. O ar está quente, mas a água está gelada; a diferença de temperatura fá-la estremecer.

Tira o chapéu e chapinha na água, projectando com os pés pequenos respingos entre as ondas. Inspira longamente o ar do mar, o que lhe aclara as ideias. Possivelmente, nesse momento, os homens que a observam especulam sobre o modo como a volúpia parece subitamente tomá-la e enchê-la do prazer da antecipação. E deixam-se surpreender, tanto como ela, pela sua aceitação do destino. Porque no espaço de tempo que demorou a percorrer a distância entre o paredão e o mar, talvez uns cem metros, ela passou de rapariga, com a necessidade infantil, reprimida e quase frenética de desfrutar os prazeres da praia, a mulher.

 

 

 

 

É o vigésimo dia de Junho, do último ano do século, e ela tem quinze anos.

O pai de Olympia, de fato branco e o cabelo ruivo claro ao vento, está nos rochedos, na ponta norte da praia, a chamar por ela. Dos rochedos onde foi sina de muitos marinheiros naufragar, emprestando assim à praia e à terra adjacente o nome de Fortune'. Põe as mãos em concha à volta da boca, mas a rebentação torna- a surda. Um vulto branco entre o cinzento, o pai é um homem brando e carinhoso, irrepreensível na sua atitude para com ela, apesar de se julgar proprietário do seu corpo e da sua alma, como se estivessem à sua disposição para malbaratar ou doar.

Umas horas antes, Olympia, o pai e a mãe haviam partido de Boston em direcção a norte, de comboio e com destino à casa de férias. O interior da casa estava totalmente branco devido aos lençóis que cobriam a mobília e estranhamente desprovido de pó. Ao ver os lençóis, Olympia desejou que a mãe não pedisse a Josiah, o criado pessoal do pai, que os retirasse, pois criavam fantásticas formas abstractas, recortadas contra os seis pares de janelas a toda a altura da comprida sala. Para lá dos vidros e da fina película de sal estendia-se o Atlântico com o seu manto de neblina brilhante. Ao longe, havia pequenas ilhas que pareciam pairar sobre o horizonte.

 

' Fortune significa fortuna, destino, sorte, sina. (N. do T. )

 

A casa poderá ser considerada modesta, segundo certos padrões, ainda que o pai de Olympia seja um homem abastado. Mas é única nas suas proporções e ela considera-a inexprimivelmente encantadora. Branca com portadas azuis-escuras, ergue-se em dois pisos e está cercada por vários e encantadores alpendres. Está construída ao estilo dos grandiosos hotéis ao longo de Fortune's Rocks Rye e Hampton, a sul: ou seja, o telhado é ligeiramente curvado e tem diversas lucarnas regularmente espaçadas. Nunca funcionou como hotel, mas foi no passado um convento, morada da Ordem de Saint Jean Baptiste de Bienfaisance, constituída por vinte freiras que fizeram voto de pobreza e desposaram Jesus Cristo. Com efeito, uma das peculiaridades da casa são os seus muitos quartos que evocam celas, dos quais dois são ocupados por Olympia e pelo pai e três foram ligados para uso da mãe. Anexa ao rés-do-chão da casa está uma pequena capela; e, embora tenha sido secularizada, a família de Olympia continua a preferir não colocar os seus bens no interior das suas paredes de madeira. À excepção de uma dúzia de bonitos bancos de madeira e uma grande pedra de mármore que servia de altar, a capela permanece vazia.

No exterior da casa e por baixo dos alpendres, existem emaranhados maciços de hortênsias. O relvado da frente estende-se até ao paredão que pouco mais é do que uma barricada rochosa contra o oceano e que, nesta época do ano, está coberto de uma profusão de rosas rugosas. Assim, a vista do alpendre compõe-se de folhas verde-esmeralda com laivos de rosa que se recortam contra um céu tão cristalino que é mais uma experiência de luz do que uma cor. A oeste do relvado, situam-se pomares de macieiras Sheepnose e Black Gillifiozeer, e a norte fica a praia, que se alonga por três quilómetros ao longo da costa. Fortune's Rocks não é apenas o nome da meia-lua de terra que acolhe a praia, mas também do aglomerado de casas de férias que se espalham pelas suas dunas e rochedo, no qual se inclui a dos Biddefords.

Dos rochedos, o pai volta a acenar-lhe. - Olympia, chamei por ti - diz quando ela, com a ponta do vestido molhada, sobe ao rochedo onde ele se encontra. Prevê que ele esteja zangado com ela. Na sua impaciência por sentir o mar, foi inadvertidamente à praia durante o período em que os homens se banham, o que talvez fosse tolerado numa rapariga, mas não numa jovem mulher. Olympia desculpa-se o melhor possível; esqueceu-se pura e simplesmente do período de banhos dos homens e não o ouviu chamá-la por causa do vento. Mas, ao aproximar-se do pai, levantando os olhos para o seu rosto e notando a forma como ele desvia rapidamente os olhos - uma atitude que não lhe é habitual - apercebe-se de que ele deve tê-la observado a caminhar de pernas nuas do paredão até à beira-mar. Os olhos dele lacrimejam um pouco com o vento e parece momentaneamente desorientado, perplexo até, com a sua presença física.

- O Josiah preparou um tabuleiro de pão e pâtés - diz o pai, voltando-se novamente para ela e recuperando da ligeira perda de compostura. - Levou-o para o quarto da tua mãe para que comam qualquer coisa depois da viagem tão longa. - Pestaneja uma vez e olha para o relógio. - Meu Deus, Olympia, que confusão! - acrescenta.

Refere-se, naturalmente, à casa.

- O Josiah parece estar a lidar muito bem com a situação - sugere ela.

- Devia ter sido tudo preparado para a nossa chegada. A estas horas, já devíamos ter cozinheira.

O pai ainda tem a sobrecasaca vestida. As suas botas pretas são pesadas e estão cobertas de pó, e ela pensa que ele deve sentir imenso calor e desconforto. Torna-se claro que nesse dia se vestiu com uma certa hesitação - não conseguindo deixar de arrastar consigo a rotina do dia-a-dia de Boston apesar de ansiar pelo mar.

Sob a intensa luz do sol, Olympia vê o rosto do pai mais claramente do que durante o Inverno. É um rosto poderoso, cheio de carácter, um rosto que herdou do pai dele e que, mais tarde, pela sua própria conduta, veio a merecer. O seu traço mais impressionante é o azul-escuro dos olhos, um azul tão vívido que estes só por si, não obstante os laivos cor de ferrugem na íris, sugerem rectidão moral. Um leque de rugas, porém, assim como as pregas de pele nas pálpebras, suavizam o efeito da integridade sugerida. O seu cabelo está a embranquecer nas têmporas, mas possui boas cores e ainda não começou a empalidecer como é tantas vezes o caso dos homens ruivos na meia- idade. Olympia não está certa de alguma vez ter pensado na altura do pai, nem a pode afirmar com segurança - sabe apenas que é mais alto do que a mãe e do que ela, o que parece conforme à ordem correcta do universo. O seu rosto é afilado, como o de Olympia será um dia, embora nenhum deles seja propriamente magro.

- Quando acabares de lanchar quero falar contigo no meu escritório - diz o pai recuperando os seus modos habituais, embora até ela se aperceba de que alguma coisa mudou entre os dois. O sol desenha-lhe na pele imperfeições que se transformam sob a luz implacável em minúsculas cintilações de prata e cobre e se alongam pela linha do seu maxilar. Ele semicerra os olhos com a intensidade da luz.

- Preciso de falar contigo sobre alguns assuntos que se prendem com os teus estudos durante o Verão e outras coisas - acrescenta.

Ela sente um baque no coração à menção dos estudos no Verão porque está ansiosa por um interregno na sua instrução que, ainda que individual, era intensa. O pai, tendo perdido a fé nas instituições académicas, assumiu a responsabilidade pela sua educação. Ela é, assim, a sua única aluna e ele o seu único professor. Ele continua convencido de que esta educação progride a um ritmo inimaginável nas academias e colégios de raparigas e que lugar nenhum na Nova Inglaterra, que é o mesmo que dizer nos Estados Unidos, ultrapassa a sua amplitude. É possivelmente verdade, na opinião de Olympia que, todavia, não está segura disso: haviam passado quatro anos desde que tivera aulas com outras raparigas.

- Com certeza - responde.

Ele olha para ela e deixa em seguida alongar o olhar por sobre o seu ombro direito até ao mar. Dá meia-volta e começa a caminhar em direcção a casa. Ao observar a sua postura ligeiramente corcovada, um traço físico em que nunca reparara antes, sente subitamente pena do pai e daquilo que ele está a perder, o domínio sobre a sua infância.

Ela deambula pela casa, apreciando as esculturas criadas pelos lençóis brancos estendidos sobre os móveis. Um bengaleiro transforma-se no fantasma de uma donzela; uma mesa de jantar comprida numa sala de operações; um conjunto de cadeiras amontoadas umas sobre as outras e envoltas em branco transforma-se num trono. Sobe as escadas do vestíbulo da entrada até aos aposentos da mãe.

A mãe está tranquilamente a descansar numa chaise-longue azul-pavão, entretanto destapada, e olha para o mar. Parece não reparar no homem empoleirado numa escada mesmo do lado de fora da janela. Este tem numa mão uma garrafa de vinagre e na outra uma bola de papel de jornal. Josiah vestiu um fato-macaco para executar esta tarefa, embora traga por baixo um colete com um colarinho formal. Mais tarde, depois de as janelas estarem limpas, ele tirará o fato-macaco, voltará a vestir o casaco do fato, ajustará os punhos debaixo das mangas e entrará no escritório onde perguntará ao pai de Olympia se deseja o seu habitual copo de cerveja preta de Londres. Em seguida, Josiah, um homem que está ao serviço do pai há dezassete anos, antes mesmo do casamento deste e do nascimento dela, e que sem se queixar tomou a seu cargo a limpeza das janelas dos aposentos da mãe porque não quer que a vista que lhe proporcionam do oceano seja obscurecida logo no primeiro dia da sua visita estival (ainda que tal tarefa seja absolutamente indigna dele), dirigir-se-á a Hampton Street pelo longo caminho de cascalho para repreender o novo empregado que devia ter a casa preparada antes de a família de Olympia chegar.

Como a mãe de Olympia tem uma queda por tonalidades de azul, mesmo nos meses de Verão, tem hoje vestida uma blusa de crepe de um lilás azulado com botões de madrepérola e punhos largos e compridos que lhe escondem os pulsos e lhe favorecem as mãos. Na cintura, tem uma faixa de seda persa. Esta preferência pelo azul revela-se igualmente nos tecidos do quarto - na cama, o edredão de cetineta de um pálido tom azul-claro, a seda brocada azul-pavão da chaise-longue, os reposteiros de veludo azul-celeste nas janelas. Olympia considera que os aposentos da mãe sugerem uma feminilidade excessiva. Formam uma saleta privada, isolada do resto da casa, cujo excesso dispensa qualquer aprovação ou visibilidade e não tem paralelo em mais nenhum ponto da austera decoração da casa.

A mãe leva uma chávena aos lábios.

- A tua pele está rosada - diz a Olympia num tom ligeiro mas que não exclui uma subtil admoestação maternal. Fora por diversas vezes avisada de que deveria usar chapéu a fim de proteger o rosto do sol, mas Olympia fora incapaz de renunciar a senti-lo durante esses breves momentos de felicidade à beira-mar. Sabe que, apesar da sua preocupação desmesurada com a beleza, a mãe não lhe censura seriamente este pequeno prazer.

A beleza, como Olympia acabou por compreender, incapacitou a mãe e arruinou-lhe a vida pois tornou-a dependente de pessoas ansiosas por vê- la e servi-la: o seu próprio pai, o marido, o médico e os criados. A preservação da beleza parece ser, aliás, tudo quanto resta da vida da mãe, como se os outros componentes do espírito - a diligência, a curiosidade e a filantropia - se tivessem atrofiado e apenas tivesse sobrevivido este apêndice. O cabelo da mãe, de tal forma colorido que adquirira a tonalidade de um ruão, está apanhado com travessas e enrolado numa complicada série de cachos com uma arte que a própria Olympia terá ainda de dominar. A mãe tem olhos claros, cinzento-pérola. O rosto, belo e poderoso, contradiz o seu espírito, que é singularmente frágil, tão frágil que Olympia o viu com frequência estilhaçar-se em fragmentos cintilantes.

- O Josiah preparou um tabuleiro - diz a mãe, indicando com um gesto o aparato de sanduíches depâté.

Olympia senta-se na beira da chaise-longue. Os joelhos da mãe formam pequenos outeiros na paisagem cor de anil da sua saia. Não tenho fome - diz Olympia, e é verdade.

- Tens de comer qualquer coisa. Ainda falta muito para o jantar.

Para agradar à mãe, Olympia pega numa sanduíche. Por um momento, evita o seu olhar perscrutador e limita-se a observar o quarto. Não têm a sua melhor mobília em Fortune's Rocks porque o ar do mar e a humidade a danificam. Mas Olympia gosta particularmente do toucador da mãe com as suas inúmeras caixas de vidro e de prata que contêm travessas e perfumes e o fino pó branco que ela usa à noite. É aí que estão também os seus muitos medicamentos e tónicos. Do ponto onde está sentada, Olympia consegue ver o leite cor de chumbo, os comprimidos cor de poejo e o tónico cor de gengibre.

A mãe é, desde que Olympia se lembra, tratada como uma inválida - situação que não parece incomodá-la e que ela parece, aliás, cultivar. As suas enfermidades são vagas e não especificadas e Olympia não sabe bem se alguma vez foi devidamente diagnosticada. Consta que sofreu uma lesão na anca quando era ainda jovem, e Olympia ouve, de vez em quando, pela casa a expressão doença cardíaca. Em Boston, há um médico que a visita com frequência e talvez não seja o charlatão que o pai de Olympia julga. Embora, ainda menina, Olympia tivesse a certeza de que o Dr. Ulysses Branch visitava a mãe mais pela sua companhia do que por razões de saúde. A verdade é que a mãe nunca parece estar indisposta e, por vezes, Olympia pensa no termo inválida no sentido em que lhe é aplicado: in válida, não válida, como se, para além da força física, faltasse à mãe uma certa autenticidade.

Em resultado destas vagas debilidades, não é a mãe de Olympia que se ocupa da família mas, antes pelo contrário, a pessoa de quem a família se ocupa. Olympia concluiu que esta situação deve convir perfeitamente a ambos os pais porque nenhum deles alguma vez se esforçou seriamente por corrigi-la. E com o decorrer do tempo, talvez como resultado de uma atrofia real, a mãe transformou- se numa espécie de válida inválida. Raramente sai de casa, excepto quando deseja que o marido a acompanhe, ao crepúsculo, ao paredão onde se senta e canta para ele. Durante anos, a mãe defendeu que o ar do mar exerce um efeito salutar na sua disposição e nas suas cordas vocais. Apesar da humidade, possui também um piano em Fortune's Rocks e, ocasionalmente, sai dos seus aposentos e toca com alguma aptidão. A mãe de Olympia tem uma bela estrutura óssea, mas Olympia não herdará nem as suas feições nem a estrutura do seu corpo nem, felizmente, a sua fragilidade espiritual.

A mãe de Olympia, que conheceu o marido em Boston quando tinha vinte e três anos, num jantar organizado pelo pai dela, só casou aos vinte e oito. Embora fosse considerada uma mulher elegante, era voz corrente que a sua ansiedade, que a subjugava ao ponto do quase aniquilamento, a tornava demasiado delicada para o matrimónio. O pai de Olympia, sempre pronto para um desafio e cativado precisamente pelas características que afugentavam outros homens - ou seja, a inconstância da mãe, essa espécie de movimento de fuga entre uma intensa tranquilidade e imaginativos voos de fantasia - cortejou-a com um ardor que ele próprio raramente admite. Olympia não sabe como interpretar a vida dos pais enquanto casal pois a mãe parece ser, apesar da sua sensibilidade excessiva, a menos carnal das mulheres e, muitas vezes, se apanhada de surpresa, pode ser vista a encolher-se perante o contacto do marido. Os pensamentos de Olympia evitam, porém, atravessar o véu que encobre esse lugar proibido, onde talvez pudesse imaginar em pormenor o casamento dos pais. Porque se trata de um casamento que parece ter-se rarefeito à medida que foi resistindo, até Olympia ter a impressão, no Verão dos seus quinze anos, que entre eles apenas existe a única filha e uma ligação das mais vagas e formais.

- Estás muito calada, Olympia - diz a mãe, observando-a atentamente. Apesar de frágil, a mãe é perspicaz e é difícil esconder-lhe o que está realmente a pensar. Olympia estava, com efeito, a pensar no seu passeio pela praia, vendo-o como que de uma perspectiva exterior, observando a figura um pouco desfocada e vaga de uma jovem mulher com um vestido de seda cor de pêssego, encaminhando-se para a beira da água sob o escrutínio de várias dezenas de homens e rapazes. E, no quarto da mãe, enrubesce de súbito, como se tivesse sido apanhada em falta.

A mãe mexe-se ligeiramente na chaise-longue. - Receio que já seja demasiado. demasiado tarde para esta conversa - começa hesitantemente -, mas não posso deixar de reparar. acho mesmo que estou muito impressionada com isso... quero dizer, tenho hoje perfeita consciência de determinadas características físicas da tua pessoa e acho que devemos falar em breve sobre eventuais ocorrências futuras, sobre dilemas necessários e delicados, que todas as mulheres têm de enfrentar.

Embora a frase não possa ser analisada, o seu significado não deixa lugar a dúvidas; e Olympia abana imediatamente a cabeça ou acena com a mão, como que a dizer-lhe que não precisa de continuar. É que tem podido contar com a ajuda preciosa de Lisette, a criada da mãe, para a sua instrução sobre os assuntos do corpo. Por um momento, a mãe mostra-se surpreendida como uma pessoa que preparou à pressa um longo discurso e foi interrompida a meio de uma frase. Mas depois, ali sentada, Olympia observa o alívio que a invade e lhe embeleza as feições.

- Alguém teve esta conversa contigo - pergunta a mãe.

- A Lisette - responde Olympia, desejando que a conversa termine.

- Quando?

- Há algum tempo.

- Pois, bem me tenho interrogado.

E também Olympia se interroga sobre o silêncio de Lisette a respeito da filha da ama. Espera que não venha a receber uma repreensão por causa desta confidência.

- Já te instalaste? - pergunta rapidamente a mãe, também agora ansiosa por mudar de assunto. -, Sentes-te feliz aqui?

- Muito feliz - responde Olympia, o que é verdade e é o que a mãe quer ouvir. É essencial que a placidez da mãe não seja perturbada.

À janela, Josiah move-se na escada, levando as duas a olhar na sua direcção.

- Será que. - diz a mãe, reflectimdo. - Achas o Josiah um homem bonito?

Olympia olha para a figura que aparentemente o ar emoldura. Tem cabelo castanho claro ondulado, uma testa alta e um rosto afilado que parece condizer com a altura da sua constituição magra. Levemente atónita, como Olympia sempre fica com qualquer fissura súbita e surpreendente no aprumo há muito praticado da mãe, não lhe ocorre qualquer resposta.

- Achas que tem uma amante em Ely Falls? - pergunta a mãe, simulando malícia. Mas, em seguida, após um brevíssimo silêncio, durante o qual Olympia imagina ouvir a mãe desejar (e imediatamente rejeitar) outra vida, responde: - Não, acho que não - diz ela.

No geral, é um dia em que todos em redor de Olympia parecem estar a conduzir-se de um modo estranho. Não sabe se é consequência de um comportamento realmente alterado da parte deles ou da sua nova percepção de si própria que ela pensa estar a desprender como um odor. De que outro modo explicar a incoerência verbal pouco característica do pai ou as incursões da mãe em tópicos que normalmente evita?

- Agradecia que levasses contigo o tabuleiro quando saíres. Para ajudar o Josiah que, infelizmente, está assoberbado de trabalho.

Olympia não fica surpreendida, tanto quanto poderia ficar, com esta quebra na sequência lógica da conversa, porque a mãe tem o dom de abandonar assuntos que decide subitamente não desejar continuar a discutir. Olympia levanta-se da chaise-longue, satisfeita por ajudar Josiah, de quem gosta. Sente alívio ao ser mandada embora.

- Deves proteger-te mais - diz a mãe quando Olympia sai do quarto.

Depois de Olympia levar o tabuleiro para a cozinha, dirige-se ao escritório do pai, onde ele está sentado num colossal cadeirão de mogno, a ler, como ela pode ver, The Shores of Saco Bay, de John Staples Locke, o primeiro de muitos livros que há-de devorar durante o Verão. O pai é, por profissão e inclinação, um homem disciplinado e erudito, a disciplina sendo, segundo a sua convicção, uma barreira necessária contra a dissolução; assim, não gosta de alterar a sua rotina, nem no primeiro dia de férias, apesar da falta de preparação para a chegada da família e do consequente caos.

Durante este Verão, como em Verões passados, o pai convidará para sua casa uma sucessão de hóspedes que conheceu mercê, sobretudo, da sua posição como presidente do Clube Literário do Atlântico ou como editor de The Bay Quarterly, um periódico de considerável renome literário. Terá longas conversas com estas pessoas que são, na sua maioria, poetas, ensaístas ou artistas, numa espécie de permanente tertúlia. Durante o dia, ocupar-se-á da recreação dos visitantes que consistirá em banhos na praia, partidas de ténis no Clube de Ténis de Ely ou em passeios de barco ao pôr-do-sol pelos pântanos tingidos de rosa da baía. As refeições à noite serão demoradas e prolongar-se-ão até altas horas, ainda que a mulher se retire cedo. As mulheres que estarão presentes nestes jantares usarão vestidos de linho brancos e xailes de seda lavrada. Olympia sempre se sentiu fascinada com o vestuário e os acessórios das suas convidadas.

O pai olha para a bainha da saia dela, que ainda está molhada. Ela pergunta-lhe que livro lhe recomenda que comece por ler este Verão. Ele tira os óculos e pousa-os na mesa de mármore verde ao lado da cadeira, que é uma réplica da mesa que tem na sua biblioteca de Boston. À sua volta, as janelas estão abertas de par em par e a sala está inundada pela fragrância almiscarada do sal da vazante.

- Gostaria que lesses os ensaios de John Warren Haskelldiz ele, pegando num volume e entregando-lho. - E depois vamos os dois discutir o conteúdo porque o autor está cá, em Fortune's Rocks, e vem passar o fim-de-semana connosco.

E é esta a primeira vez que ela ouve o nome de John Haskell.

- O Haskell vai trazer a mulher e os filhos - acrescenta o pai -, e espero que ajudes a entretê-los.

- Com certeza - diz ela, passando a palma da mão pela capa de seda castanha do livro e tacteando com o dedo o título gravado a ouro -, mas em relação a estes ensaios, não conheço o autor.

- O Haskell é um homem da medicina e dá aulas de vez em quando na universidade, onde o conheci; mas a verdadeira vocação dele, a meu ver, é de ensaísta e eu publiquei vários dos seus melhores ensaios. Os interesses do Haskell prendem-se com as classes trabalhadoras e parece especialmente apostado em melhorar as condições de vida e de trabalho das operárias das fiações. Daí o seu interesse acrescido em Ely Falls.

- Compreendo - responde ela enquanto folheia as páginas do modesto livro. E, embora se sinta à partida levemente enfadada com este tópico, mais tarde esquadrinhará e voltará a esquadrinhar a memória desta conversa, na esperança de descobrir algum pequeno fragmento apetitoso que lhe tenha passado despercebido e que possa assim saborear.

- O Haskell tem uma clínica em Cambridge leste - diz o pai.

- Vai oferecer os seus préstimos em Ely Falls, durante a época balnear, e substituir um dos médicos efectivos que está de licença. O pai pigarreia. - O Haskell considera que foi uma circunstância extremamente feliz porque não só lhe permite estar por perto enquanto a sua própria casa é construída mais adiante na praia, como lhe dá a possibilidade de estudar em primeira mão as condições que tanto lhe interessam. E quanto a mim, também considero a visita dele uma circunstância feliz pois agradam-me a sua inteligência e a sua companhia. Acho que vais adorar a Catherine, a mulher dele, e as crianças.

- Devo então agir como uma preceptora? - pergunta Olympia em jeito de brincadeira, mas o pai leva a pergunta a sério e mostra-se estarrecido.

- Claro que não, minha querida - responde. - Os Haskell são nossos convidados apenas durante o fim-de-semana; depois o Haskell continua cá, alojado no Highland Hotel, como até aqui, até a casa deles estar concluída, o que deverá acontecer no final de Julho. Até lá, a Catherine e as crianças ficarão em York com a família dela. Valha-me deus, Olympia, como é que foste pensar que eu te exploraria dessa maneira?

O escritório do pai está na obscuridade apesar de as janelas estarem abertas; e os seus livros, que Josiah parcialmente desempacotou, já começaram a deformar-se com a humidade. Todas as segundas-feiras, durante todo o Verão, Josiah colocará os livros em grandes montes que calcará com ferros pesados para os levar a recuperar, por algumas horas, a forma e espessura originais.

Olympia anda pela sala, tocando em vários objectos familiares que o pai coleccionou ao longo dos anos e que guarda em Fortune's Rocks: um pesa-papéis de malaquite da África Oriental; uma cruz recamada de jóias que comprou em Praga quando tinha dezanove anos; um corta-papel de marfim manchado de Madagáscar; a caixa de prata que contém todas as cartas da mãe, escritas quando o pai passou um ano em Londres, antes de casarem; e um candeeiro de mesa em vitral com borlas de cristal âmbar que pertencera à avó de Olympia. O pai colecciona igualmente conchas, como um rapazinho, e quando caminham juntos pela praia nunca se esquece de levar um recipiente onde as guardar. Possui nas prateleiras conchas de vieira de extremidades delicadamente afiadas, valvas escuras e iridescentes de mexilhões comuns e conchas brancas de ostra incrustadas. Quando fuma, o pai usa as conchas como cinzeiros.

Observa-a a andar pelo escritório.

- Gostaste da tua primeira visita à praia? - pergunta-lhe cautelosamente.

Ela pega no pesa-papéis de malaquite. Mesmo que quisesse, não tem a certeza de conseguir descrever o seu passeio pela praia.

- Foi maravilhoso, depois de um Inverno tão longo, sentir o mar e a maresia - responde. Mas quando levanta os olhos para ele, repara que ele pôs os óculos num vago gesto de despedida.

Sai do escritório do pai para o alpendre. Tem o livro que o pai lhe deu, mas está demasiado distraída para o abrir. Durante o Inverno, atingiu a sua estatura de adulta de maneira que agora, quando se senta numa cadeira no alpendre, consegue ver por cima da balaustrada o relvado que precisa de ser cortado. Uma flor, que não é capaz de identificar, liberta no ar uma fragrância doce que, combinada com o mar, cria à sua volta uma nuvem inebriante e soporífera.

Desaperta dois botões do vestido e abana o pescoço com o tecido. Tira o chapéu e pousa-o, o que o faz deslizar imediatamente pelo alpendre até ficar preso na barra inferior da balaustrada. Enfia as mãos por baixo do vestido e desprende as meias das ligas, como fez anteriormente no balneário antes de se encaminhar para o mar. Amarfanha as meias e senta-se em cima delas e, em seguida, levanta até aos joelhos a ponta do vestido que endureceu com a água salgada. Estica as pernas, surpreendida com a alvura da sua pele, a que nunca prestara grande atenção. A brisa húmida e fresca afaga-lhe a parte de trás dos joelhos e a barriga das pernas. Imagina a expressão chocada de Josiah ou do pai ou da mãe caso dobrassem a esquina e a apanhassem naquele estado pouco decoroso; mas decide que o intenso prazer de sentir o ar envolver-lhe as pernas compensa o preço que poderá ter de pagar mais tarde como consequência. Os seus olhos repousam sobre o horizonte, no ponto em que o mar se une ao céu, onde parece que todo o movimento ficou suspenso. E, na realidade, hoje parece que ela própria paira num estado de suspensão - que está à espera de qualquer coisa que não é capaz de imaginar e para que apenas agora começa a estar preparada.

Olympia gosta de imaginar as primeiras habitantes da casa, as irmãs de Saint Jean Baptiste de Bienfaisance, vinte raparigas e mulheres franco-canadianas da província do Quebec. Embora as irmãs tivessem feito voto de pobreza e estivessem ligadas à paróquia de Saint Andre, em Ely Falls, viviam na casa de Fortune's Rocks, onde podiam desfrutar de toda a beleza que semelhante cenário tinha para oferecer. Por vezes, Olympia imagina as freiras contemplativamente sentadas no alpendre a admirar o mar; ou deitadas nas suas estreitas camas de crina de cavalo, em celas adornadas apenas com uma cruz por cima de uma mesa rústica; ou a orar juntas na capelinha de madeira com pensamentos franceses e palavras latinas; e depois, a fazer a viagem através da vasta extensão de marnota, entre Fortune's Rocks e Saint Andre, para poderem assistir aos serviços religiosos juntamente com os padres e os imigrantes canadianos. Olympia sente-se por vezes intrigada com o contraste entre os jardins luxuriantes da casa e os hábitos austeros das mulheres que nela residiram; mas, como não é católica, não tem co nhecimentos suficientes para questionar os princípios teológicos que presidem a este paradoxo. Na verdade, no início do Verão de 1899, quando está absorta a especular sobre as mulheres que devem ter deslizado de chinelos pelos soalhos envernizados da casa, não conhece uma única pessoa da fé católica - uma falha que a perturba já que parece ser mais uma manifestação da sua existência excessivamente protegida.

Só fora a Ely Falls uma vez, no Verão anterior, quando o pai a levara à cidade para ver o fenómeno natural das quedas de água que se despenham no rio Ely e tornam a localidade tão desejável para a construção de uma fiação têxtil. Viajaram de carruagem de Fortune's Rocks até ao centro da cidade composto por maciças fábricas de tijolo escuro e fiadas estreitas de habitações operárias, e durante a viagem achou que era como se atravessassem diversas esferas de nomes: desde os Whittier e os Howell de Fortune's Rocks, uma classe endinheirada e algo ociosa que todos os anos parte de Boston em direcção a norte para passar os meses de Verão, até aos Hull e aos Butler de Ely propriamente dita, velhas famílias ianques que vivem em robustas casas de madeira e que são proprietárias e administradoras das fiações e das lojas circundantes; aos Cadorette e Beaudoin de Ely Falls, franco- canadianos do Quebec, de primeira e segunda geração, que emigraram para o Sul do Maine e para a costa de New Hampshire à procura de trabalho. Os habitantes de Fortune's Rocks - que é, em grande medida, inabitável no Inverno por causa da severidade das tempestades nordestinas, estão continuamente a tentar autonomizar-se do governo de Ely, mas este governo, que abrange Fortune's Rocks e Ely Falls, permanece avesso a deixar escapar os habitantes abastados de Fortune's Rocks porque as receitas fiscais das casas de férias são consideráveis. O pai de Olympia, homem de vistas moderadamente progressistas, não apoia a secessão. Disse repetidamente à filha que acredita ser seu dever moral contribuir para o bem-estar dos habitantes da cidade fabril ainda que o governo dessa cidade seja desmedidamente corrupto.

Embora, naquele dia, com o pai, Olympia se sentisse verdadeiramente deslumbrada com o imponente espectáculo de vinte milhões de litros de água por minuto, em queda de uma altura de quase vinte metros, num jacto polvilhado de diamantes que alimentava as máquinas de fiar e os teares das fiações de Ely Falls, foram as casas citadinas, utilitárias e mesmo, muitas vezes, decrépitas, onde residiam as operárias, que mais a intrigaram. Ao atravessarem a cidade de carruagem, o pai, que era um homem de letras e descendente de segunda geração de industriais de calçado de Brockton, Massachusetts, de onde provinha a fortuna da sua própria família, tecendo comentários lúcidos sobre a economia de exploração da indústria têxtil - comentários que deviam ser entendidos como tão integrantes da educação dela como as obras de Ovídio e de Homero que estudara na Primavera - quando o que Olympia desejava desesperadamente era contemplar as fachadas desses edifícios, aqui e ali com um livro, um chapéu de plumas ou um jarro de vidro para o leite numa janela, e imaginar, baseada unicamente no ângulo do chapéu ou na simplicidade do jarro, as vidas das mulheres por trás dessas enigmáticas vidraças. Olympia estava certa de que, nessas divisões, havia raparigas pouco mais velhas do que ela, vivendo vidas de que desejava desesperadamente ter um vislumbre, senão mesmo experimentar na pele. Vidas muito mais independentes e recheadas de aventura do que a sua, por mais que apreciasse o conforto que a rodeava. E continua sem saber se a sua própria inquietude, que sempre pareceu fazer parte do seu carácter, é resultado da sua educação disciplinada e confortável ou se está simplesmente destinada, em função da mesma herança biológica que torna a mãe intolerante para com os episódios mais insignificantes da realidade, a possuir um temperamento menos complacente e talvez mais curioso do que os seus iguais. Mas, nesse dia, não disse nada ao pai; porque se o tivesse feito, ele tê-la-ia fitado, tomado de pasmo e consternação, e teria considerado necessário rever a sua opinião sobre a maturidade e discernimento da filha.

Em 1892, o bispo Pierre Bellefeuille da igreja de Saint Andre, tendo decidido que a paróquia ganharia mais com a mudança das irmãs para a cidade a fim de poderem assumir a administração do hospício e do orfanato, vendeu o convento ao pai de Olympia, que se encontrava, por coincidência, na sala de fumo do Highland Hotel na noite em que o prelado aí foi tomar uma bebida. Ao ouvir mencionar a venda iminente, o pai, amavelmente (e com grande sensatez, por sinal), ofereceu-se para comprar o convento, unicamente com base na descrição do bispo a quem entregou um cheque pelo valor total, ali mesmo na sala de fumo. As obras de conversão levaram um mês e começaram com a transformação de vinte quartos minúsculos em oito de dimensão razoável e uma série de quartos mais espaçosos para a mãe, assim como a instalação de canalização interior, luxo a que as irmãs não se haviam permitido.

Olympia está sentada, considerando distraidamente as freiras, o convento e a cidade de Ely Falls, num banco de madeira no interior da capela secularizada, ligada à fachada norte da casa. É uma construção pequena com um telhado de quatro águas e janelas de vidro cristalino através das quais se pode admirar os muitos encantos da natureza, senão mesmo de Deus, embora Olympia tenha a certeza de que, no tempo das irmãs, a capela não era assim. Além da forma do edifício e dos seus bancos, o único artefacto religioso é o altar - uma laje baixa e pesada de mármore branco com delicados veios que, sem a cruz, os castiçais e os restantes acessórios da missa católica, parece despido.

É o fim da manhã do dia do solstício de Verão e, através de uma janela aberta, Olympia está a tentar captar no seu caderno de desenho os traços de um barco de madeira, sem pintura, com velas antigas de um branco-marfim sujo. Mas não é, e sabe-o, uma artista muito dotada e as suas tentativas para retratar o barco são mais impressionistas do que realistas, já que o principal propósito dos seus esboços não é tanto aperfeiçoar as suas aptidões para o desenho, mas criar uma oportunidade para reflectir. Porque, nesta fase da sua vida, Olympia dedica muito do seu tempo ao exercício mental: não necessariamente o pensamento construtivo e nada que produza soluções brilhantes para os problemas, mas o devaneio, à imagem dos sonhos, as ideias movendo-se ao acaso de um lugar para outro, seleccionando alguma coisa, examinando-a, pondo-a novamente de parte, tal como as pessoas se movimentam nas lojas. Quando dá os seus passeios diários ao longo do paredão (ou pelo Jardim Público, em Boston) ou se senta no alpendre a contemplar o mar ou faz companhia aos convidados do pai à mesa do jantar, observando a forma agradável como a luz das velas brinca nos seus rostos, os seus pensamentos erram e o cenário muda, embora à mesa do jantar se dedique por vezes a um jogo privado em que procura conciliar aquilo que uma pessoa possa estar a dizer num dado momento, com os pensamentos mais desconexos e mais genuínos que a imagina a ter; um jogo que a tem tornado excepcionalmente atenta ao carácter.

Assim, os seus desenhos são um estratagema dentro de um esquema mais vasto. Mas, ainda que o sejam - e ela experimenta mais do que uma leve satisfação por a deixarem simplesmente sozinha num banco da capela, sente-se um pouco perturbada pela sua incapacidade de captar, mesmo que de forma aproximada, o tamanho relativo do barco em comparação com as ilhas em segundo plano. Está, pois, ligeiramente absorvida na sua tarefa quando ouve, de início debilmente e, depois, com maior nitidez, as vozes insistentes e excitadas de crianças. Quando se levanta para espreitar pela janela para a casa, repara que estão efectivamente crianças no alpendre da frente; e, embora pareça que lhes veio bater à porta uma sala de aula inteira, apenas conta quatro corpos esguios. Apercebe-se imediatamente, claro, de que significa que John Warren Haskell e a sua família chegaram e que deve ir ao seu encontro para os cumprimentar.

Ao atravessar o relvado, Olympia vê de imediato que as crianças são todas aparentadas: há três raparigas de cabelo escuro, variando as idades entre os doze e os três anos aproximadamente, e um rapaz, um pouco mais velho do que a rapariga mais nova, cujo cabelo é grosso e liso e de um louro que ofusca a vista. Quando alcança os degraus do alpendre, com o caderno de desenho debaixo do braço, e as crianças, curiosas, perscrutam por sobre a balaustrada a estranha de vestido de linho branco que se aproxima delas, Olympia repara que todas têm sobrancelhas escuras (até o rapaz) e a mesma boca forte e larga. As duas raparigas mais velhas já perderam a gordura de bebé e são bastante magras; Olympia repara que a rapariga mais velha terá, um dia, uma altura notável pois já possui ombros largos e longas pernas. A rapariga está de pé, com as pernas ligeiramente apartadas e as mãos nas ancas. O seu vestido azul-claro, com gola branca e um bordado delicado, parece destoar da sua postura atlética; e a atitude é, enquanto Olympia a observa, levemente provocadora.

A outra rapariga é tímida e tem a mão na boca. A mais nova e o rapaz estão constantemente em movimento, incapazes de ficarem quietos em ponto algum do alpendre com receio de perderem qualquer vista que possa revelar-se quase intoleravelmente excitante. Enquanto as crianças observam o relvado, os rochedos e o mar e a jovem mulher que se aproxima delas, exibem uma expressão que Olympia reconhece de si própria no dia anterior: o inalar quase febril das primeiras e pungentemente arrebatadoras lufadas estivais.

Chegada ao alpendre, detém-se primeiro para cumprimentar as duas crianças mais pequenas que inclinam as cabeças com embaraço, depois a rapariga do meio que aperta timidamente a mão de Olympia mas não profere uma palavra e, por fim, a rapariga mais velha que diz a Olympia chamar-se Martha.

- Eu sou a Olympia Biddeford - diz. A rapariga aperta-lhe a mão, mas olha por cima do ombro direito dela.

- E eu sou o John Haskell - ouve uma voz anunciar atrás de si.

Olympia dá meia-volta. Vê uma cabeleira cor de noz e olhos cor de avelã. O homem acena quase imperceptivelmente com a cabeça. A sua camisa perdeu a frescura com a humidade e tem as dobras das calças cobertas de uma fina camada de areia molhada. Está com as mãos nos bolsos, os suspensórios fazendo-lhe marcas nos ombros. Tem os punhos da camisa desapertados, embora não tenha chegado ao ponto de arregaçar as mangas. Calcula, no breve espaço de tempo que ele demora a atravessar o alpendre e a estender a mão, que é aproximadamente da idade do pai, talvez um ou dois anos mais novo, o que o situaria nos quarenta anos. Não é propriamente robusto porque é alto, mas é espadaúdo. Tem a impressão de que a roupa o constringe.

Ao apertar-lhe a mão, ele sai da sombra do alpendre e entra num rectângulo de sol. Talvez os dedos de Olympia tenham tremido imperceptivelmente quando ele lhe toma a mão porque ele inclina rapidamente a cabeça de maneira a que o sol não lhe bata nos olhos. Dirige o olhar para as duas mãos cingidas e novamente para o rosto dela. Não fala durante os segundos seguintes e ela também não. Nem uma palavra, um cumprimento ou um gracejo. E Olympia pensa que a mãe, que nesse momento chega ao alpendre, deve ter reparado nesse silêncio.

- Tenho muito prazer em conhecê-lo - diz Olympia finalmente.

- Igualmente - responde ele, largando- lhe a mão. - Já conhece a Martha.

Olympia confirma com um gesto de cabeça.

- E esta é a Clementine - diz ele, indicando a jovem mais tímida. Dá meia-volta para procurar com os olhos as crianças mais pequenas. - E os que não param quietos são o Randall e a May.

Olympia sente percorrer-lhe o corpo uma sensação que é um misto de vergonha e confusão.

- Sabes nadar? - pergunta Martha ao seu lado, a sua voz cortando a tepidez do cumprimento de John Haskell como uma descarga de água gelada sobre a pele.

- Sei - responde Olympia.

- Há conchas na praia?

- Muitas - replica.

Olympia sente um desejo súbito de abandonar o alpendre e a vigilância da mãe que não transpôs a soleira da porta nem proferiu uma palavra.

- De que espécie?

- Espécie de quê? - pergunta Olympia distraidamente.

- De conchas - diz Martha com alguma impaciência.

- Bem, há ostras e mexilhões, claro. E amêijoas.

- Tens um cesto?

- Acho que se arranja - responde.

John Haskell afasta-se. Encosta-se à balaustrada do alpendre e estuda a paisagem.

- Onde? - pergunta Martha.

- Há vários na cozinha - diz ela.

- Em que é que estás a trabalhar?

Inicialmente, Olympia não compreende a pergunta. Martha aponta para o caderno de desenho que ela tem debaixo do braço.

- Num retrato - esclarece. - Não saiu muito bem.

- Deixa-me ver.

Embora não queira, Olympia não vê razão para não aceder ao pedido de Martha.

- Pois não - diz Martha com uma frontalidade cândida depois de olhar para o desenho.

- Martha - diz John Haskell num tom de leve repreensão. Não devemos reter Miss Biddeford por mais tempo. Vem passear comigo, por favor.

Olympia fica a observar John Haskell e a filha, que não lhe chega aos ombros, a descerem os degraus do alpendre e a atravessarem o relvado. Olympia vira-se e olha para a mãe que a observa pensativamente. Olympia acerca-se dela e faz menção de lhe passar ao lado, perguntando (e ouve a estranha nota de falsidade na sua voz) se deve levar as crianças mais pequenas a passear ao longo do paredão. E, depois, imediatamente, antes de a mãe ter a oportunidade de falar, Olympia dá a resposta: - Deixa-me só mudar de botas e pegar num xaile - diz, passando pela mãe. E, se a mãe lhe dirige alguma palavra, Olympia não a ouve.

O quarto de Olympia tem um ambiente tranquilizante e, à semelhança da mãe, ela busca com frequência refúgio dentro das suas quatro paredes. Foi forrado com um papel azul-celeste que emula o céu; contra o fundo, tem ramos diminutos de rosas creme. O quarto apenas tem espaço para a sua cama individual, uma pequena mesinha-de-cabeceira, um toucador, uma escrivaninha de senhora e uma cadeira. Olympia colocou a escrivaninha junto à janela a fim de poder alongar o olhar através do relvado até ao oceano, uma vista de que nunca se cansa, nem nos piores dias que a costa de New Hampshire tem para oferecer. A emoldurar a vista estão cortinas de musselina branca presas dos lados de forma que o suave tecido proporciona uma abertura em losango sobre o mar. Ela pensa que poderá ser a luz difusa através da gaze branca que quase sempre lhe transmite uma sensação de tranquilidade quando fecha a porta e repara que está finalmente só.

Mas hoje não há paz que experimente nesse quarto nem em nenhum outro. Aproxima-se da janela e afasta-se de novo. Deita-se na cama e logo se levanta e começa a deambular. Aproxima- se do espelho sobre o toucador e perscruta o rosto, que vira de um lado para o outro, tentando imaginar como poderá ser visto nos primeiros segundos de um cumprimento, que juízos poderão ser tecidos sobre a sua beleza física ou ausência dela. Volta-se de perfil e estuda-se a si, à sua figura e à forma como o vestido lhe assenta no peito. Inclina-se, quase tocando o espelho, para inspeccionar a pele acima da gola rendilhada do vestido e, ao fazê-lo, repara que tem a pele sarapintada nas maçãs do rosto. Tem subitamente a certeza de que a mãe também deve ter notado estas manchas. Pensa então na mãe que decerto está à espera para ver se Olympia não demora a descer, com xaile e botas, para levar as crianças a passear na praia como prometeu. E, nesse momento, como que em resposta, batem à porta.

Compondo-se o melhor possível, Olympia aproxima-se da porta e abre-a. A mãe está do outro lado, de braços cruzados e boca aberta, como que a articular uma pergunta que não chega a formular. É graças ao acaso e a um golpe de sorte que Olympia não merece, que parece estar tão adoentada quanto diz estar. Mente à mãe descarada e exuberantemente, e diz-lhe que está com cólicas possivelmente devido a qualquer coisa que comeu. Não se sente febril, acrescenta, mas ficou a repousar por um momento. E depois, antes que a mãe possa falar, Olympia pergunta-lhe se já falou às crianças no passeio pois duvida que esteja em condições de as levar à praia como tencionava.

- Estou a ver - diz a mãe, embora Olympia se aperceba da dúvida na expressão da sua boca. Não é a primeira vez que Olympia mente, mentiras inofensivas para impedir que a mãe descubra alguma verdade insignificante que pudesse apoquentá-la desnecessariamente, mas não está ciente de alguma vez lhe ter mentido para se proteger ou desculpar. E, a seguir, pensa que, embora a mãe opte muitas vezes por se refugiar num mundo em que precisa de tomar poucas decisões, está nesse momento a tomar uma. E que a mãe está, à sua maneira, quase tão desconcertada com o estado visivelmente agitado de Olympia como ela própria.

- Então não vais descer para jantar - diz a mãe e Olympia ouve-lhe na voz que não se trata de uma interrogação mas de uma afirmação.

Depois de ela sair, Olympia deita-se na cama. Fixa o vazio e tenta acalmar-se com o som das ondas a rebentar na areia. E, ao fim de algum tempo, este esforço começa a recompensá-la com uma respiração normalizada. Tanto assim é, na verdade, que se soergue, procurando no quarto sinais de ocupação. O seu tricô está no saco de tecido junto ao toucador, o caderno de desenho abandonado na escrivaninha. Na mesinha- de-cabeceira vê o livro que o pai lhe deu no dia anterior. Pega nele e passa os dedos pelas letras em ligeiro relevo do título dourado. Leva consigo o livro para a única cadeira do quarto e começa a ler.

Nessa tarde, Olympia lê o livro de John Haskell de fio a pavio, não para se cultivar nem para compreender o seu conteúdo, que ainda ontem parecia um desafio enfadonho, mas para procurar indícios sobre a mente de outra pessoa na combinação específica das palavras, como se a estrutura das frases e as palavras nelas contidas fossem fórmulas que, uma vez decifradas, pudessem revelar pequenos segredos. Mas, à medida que lê, e não obstante as suas verdadeiras intenções, deixa-se absorver pela temática do próprio livro. O princípio é falaciosamente simples e invulgar, pelo menos na experiência limitada de Olympia. Em Nas Margens dos Rios, John Warren Haskell apresenta ao leitor sete histórias, ou antes retratos, na opinião de Olympia - retratos extraordinariamente minuciosos e traçados com aparente objectividade - de sete pessoas ligadas às fiações de Lowell, Holyoke e Manchester: quatro operárias e três operários. A caracterização destes retratos está praticamente desprovida de retórica e de qualquer tentativa discernível por parte do autor para elogiar ou insultar qualquer dos homens ou mulheres. Pelo contrário, é feita ao leitor uma pintura de um estilo de vida que, unicamente através das imagens das lutas quotidianas, fala com mais eloquência da sorte quase intolerável do trabalhador braçal do que a retórica alguma vez falaria, conclui Olympia. Os retratos são crus e contêm passagens que são, para ela, simultaneamente esclarecedoras e de leitura complexa - não pela linguagem, mas pelas imagens que evocam; porque o conhecimento do autor em questões domésticas e clínicas é extremamente pormenorizado. Pensa por um momento sobre a motivação do pai ao expô-la a esta matéria, embora não seja a primeira vez que ele a põe em contacto com temáticas difíceis ou controversas que outros professores poderiam excluir. Nas suas conversas ele sempre encorajou Olympia a não virar costas ao penoso nem ao hediondo, pelo menos no texto impresso.

Nessa tarde, no seu quarto, sem se levantar da cadeira, demora-se nas palavras: fiandeiro, sarna e calomel. Retrai-se ante a descrição de uma intervenção cirúrgica na fase inicial de um cancro. Sente-se fascinada pela canalização das pensões. E interroga-se, com um certo interesse, sobre como é que John Haskell sabe de máquinas de fazer malha e das dores do parto. Enquanto lê e se interroga sobre estas coisas, é admitida, página a página, na magnitude do conhecimento do autor sobre o corpo humano e sobre a natureza humana, de forma que tem a sensação de que conversou em profundidade com John Haskell quando, evidentemente, não o fez.

Quando levanta os olhos, repara que a luz atingiu esse excelente momento do dia em que todos os objectos se cobrem de maior claridade do que antes. E consegue convencer-se de que, de algum modo, foi capaz de substituir uma série inaceitável de sentimentos por uma série aceitável, ou seja, engendrou respeito a partir da confusão e admiração a partir da agitação, e de que esta alquimia lhe permite encarar a descida para o jantar num estado quase normal.

Com o tempo, Olympia aprenderá o que é a obsessão pelo outro" essa pessoa contra quem o roubo é perpetrado – a esposa, a ex-amante, a noiva. A morbidez inexorável que leva outra mulher a tornar-se um objecto de curiosidade quase intolerável. O fascínio torturante que não esmorece deseja conhecer os outros. Nesse Verão, descobrirá que mal conhece os íntimos pormenores sobre a vida de Haskel. Em anos vindouros, Olympia perguntar-se-á se não terá de facto, iniciado uma espécie de relação amorosa com Catherine Haskel e a sua curiosidade sobre a mulher e os anos que viveu com Haskell, anos que Olympia não viveu e em que foram feitos e celebrados votos matrimoniais, em que nasceram filhos que foram acarinhados, em que foi penetrado e abandonado um milhar de vezes o leito conjugal -, não constituíram uma forma deturpada do próprio amor, um amor que nunca poderia, pela sua natureza intrínseca, ser retribuído nem saciado.

Olympia toma a decisão de descer para jantar e confronta-se com a realidade da sua aparência desalinhada no espelho sobre o toucador. Embora disponham de uma lavadeira em Fortunes Rocks, Olympia não tem criada pessoal (como não tem em Boston) já que o pai acredita que a auto-suficiência em questões de vestuário e higiene pessoal é uma componente essencial da educação de uma jovem. Tão-pouco aprova a vaidade numa rapariga e, com essa finalidade, insistiu com Olympia para que se arranje e se vista do modo mais simples possível, sem se aventurar nas esferas do excêntrico. No entanto, parece que estes ensinamentos sobre a simplicidade de gostos apenas se aplica à filha e não à mulher: o pai parece satisfeito com as sedas azul-alfazema e os vaporosos tecidos azuis-marinhos da mãe, assim como com os rolos e travessas intrincados e de morosa aplicação que ela usa no cabelo. A mãe de Olympia, naturalmente, tem uma criada pessoal, que é Lisette.

Olympia nunca se importou com as admoestações do pai a respeito do seu vestuário e aparência porque se habituou a cuidar de si. Na verdade, pensa que consideraria uma falta de gosto partilhar, apenas para fins de cuidados físicos, as intimidades do seu corpo. Contudo, apesar de assim ser, passa uma desagradável meia hora no quarto, pondo de parte um vestido e escolhendo outro, desconcertada com uma modesta selecção de joalharia e indecisa quanto a deixar o cabelo solto ou prendê-lo, ambas as opções aparentemente carregadas de um significado latente: é uma rapariga ou é uma mulher? Este jantar é uma ocasião normal ou, pelo contrário, mais formal? O pai gostaria de vê-la com o cabelo caído, mas a mãe com ele preso? Olympia decide-se pelo cabelo solto com bandolete e por um vestido de linho branco e azul- marinho que tem no peito fiadas de galão branco a sugerir uma gola de marinheiro. Mas no momento em que vai a sair do quarto, entrevê-se ao espelho e fica um tanto horrorizada ao aperceber-se de que se parece mais com um colegial que cresceu demasiado depressa do que com uma jovem mulher prestes a participar num jantar na noite do solstício de Verão. Desaperta freneticamente os botões do corpete, tira o ofensivo vestido pela cabeça e selecciona dentre as roupas espalhadas sobre a cama uma blusa branca de cambraia e uma saia comprida preta de lã challis com um cós alto. Arranca a igualmente ofensiva bandolete do cabelo e começa a prendê-lo num carrapito no alto da cabeça. O seu cabelo, nesta época do ano, antes de captar as suas madeixas estivais, é pesado e da cor do carvalho e requer um número extraordinário de ganchos para se fixar. Mesmo assim, conclui que tem de deixar farripas soltas caídas sobre os ombros, senão perde o jantar por completo. Prudentemente, decide não relancear para o seu aspecto no espelho ao sair do quarto.

Ao ouvir vozes abafadas vindas do alpendre decide fazer um desvio e dirigir-se à sala de jantar, relutante para já em entabular conversa. Uma vez que é o primeiro jantar festivo da época, a mesa está posta mais elaborada do que o habitual, com porcelana esmaltada, os copos de cristal lapidado da mãe e montes de rosas creme em miniatura espalhadas aparentemente ao acaso, mas com o toque artístico da mãe, sobre o damasco branco da toalha. Dezenas de velas foram acendidas em castiçais e candelabros e reflectem-se em dois espelhos sobre dois aparadores de mogno colocados em lados opostos, dando a impressão de que existe um número infinito de luzes bruxuleantes de um amarelo quente. Como ainda é crepúsculo, ela vê através dos grandes resguardos de rede das janelas as sebes de rosas rugosas que orlam o lado sul do relvado e, para lá destas, os pomares. O ar que circula através da rede é suave e aflora o corpo como um espírito a atravessar a sala. Olympia segue o rasto deste espírito, observando as chamas tremeluzentes das velas. Atrás da porta da copa ouve vozes sonoras e o tinido de metal contra metal. E depois ouve outro som, o frufru sibilante de saias à porta.

- Deves ser a Olympia.

Olympia repara, em primeiro lugar, como sem dúvida toda a gente, nos grandes olhos verdes, de um verde tão transparente como vidro do mar. Catherine Haskell avança e Olympia surpreende-se ao descobrir que a mulher não é tão alta como ela e que coxeia quase imperceptivelmente.

- Que bonita sala! - exclama Catherine, tirando o chapéu e examinando a mesa num relance. Olympia nota que o cabelo dela tem uma cor muitíssimo invulgar: um louro escuro abundantemente salpicado de fios prateados, o que lhe confere a aparência de uma delicada gaze.

- Deve ser Mrs. Haskell - responde Olympia, recobrando a fala.

- Nunca consigo habituar-me ao esplendor de Fortune's Rocks por mais que cá venhamos - diz Catherine, tentando compor uma madeixa solta na nuca. Olympia fica impressionada com o sorriso dela, que não é exactamente um sorriso de auto-satisfação mas antes parece de genuíno contentamento.

- Estive a caminhar - diz Mrs. Haskell, explicando o chapéu que levanta na mão. Traz um vestido de tafetá verde com muitos saiotes. Uma escolha estranha para passear, pensa Olympia. Talvez Catherine Haskell estivesse apenas demasiado impaciente para mudar de roupa, como Olympia no dia anterior. Olympia repara que as botas dela e a ponta das saias estão empoeiradas.

- Estava com medo de atrasar o jantar - diz.

Olympia abana a cabeça.

- Espero que os miúdos não te tenham estado a aborrecer - diz Catherine. - Já os conheceste? Aposto que a Martha deve ter ficado encantada contigo e vai querer interrogar-te sobre todo o tipo de coisas, mas deves mandá-la embora sempre que quiseres.

- Oh, de maneira nenhuma - responde Olympia, pensando que Martha não ficou de maneira alguma encantada com ela. Mal os vi, fomos apenas apresentados porque passei a tarde no meu quarto.

- Ai sim? Num dia tão bonito? Porquê?

Instantaneamente, Olympia lamenta ter admitido a reclusão no quarto e apercebe-se também que não pode contar a esta mulher que passou toda a tarde a ler os ensaios do marido. Embora, nesse momento, Olympia não consiga articular precisamente a razão, a ideia parece rude e importuna como se tivesse estado a estudar um álbum de fotografias privadas.

- Estive a descansar - esclarece.

- Ah, espero que não estejas maldisposta.

- Não, estou muito bem - responde Olympia, confusa, olhando para os pés.

- Catherine - diz a mulher pausadamente, pronunciando o seu nome em três sílabas. - Chama-me Catherine por favor. Caso contrário, fazes-me sentir demasiado velha.

Olympia levanta os olhos e tenta sorrir, mas repara que Mrs. Haskell está a examiná-la, os olhos errando até à sua cintura, ao seu cabelo. Regressam em seguida ao rosto e detêm-se aí por um momento antes de se voltarem para o alpendre.

- Achas que tenho tempo de dar um salto ao meu quarto e pôr um vestido que não tenha andado a arrastar pela areia e pelo musgo? - pergunta Mrs. Haskell.

Não é realmente uma pergunta já que Olympia não é decerto o árbitro da hora do jantar. Mrs. Haskell sai da sala com o mesmo frufru sibilante de saias com que entrou.

Olympia encosta-se por um momento ao caixilho da porta e vê, por acaso, através da rede de uma das janelas, uma pequena foca a subir para um rochedo.

Nessa noite, são sete pessoas à mesa, com o acréscimo de Rufus Philbrick de Rye, proprietário de hotéis e pensões na cidade, e de Zachariah Cote, um poeta de Quincy de férias no Highland Hotel. (É apressadamente colocado outro talher para Olympia que não era esperada). As crianças, tendo comido mais cedo, foram temporariamente retiradas da casa pela preceptora dos Haskell que obsequiosamente as levou a passear pela praia. Mr. Philbrick, um homem entroncado com suíças e barba de um branco puro, tem vestido um casaco de riscas com calças bege. Olympia toma-o por um dândi e por um homem de posses. Cote, de cuja poesia leu excertos, que pôs de lado pois as suas imagens delico-doces e lamentosas não foram do seu agrado, é um homem extraordinariamente bem-parecido com cabelo louro escuro e dentes espantosamente brancos, qualidade de que deve orgulhar-se, pensa Olympia, pois parece sorrir profusamente. (E esses olhos são realmente cor de alfazema? ) A mãe, vestida de chiffon cor de jacinto e com travessas no cabelo, parece estar animada, o que faz disparar um levíssimo alarme na mente de Olympia e também, imagina ela, na mente do pai; pois ambos assistiram antes a episódios de exuberância e alegria como este e têm razões para temer o colapso que, por vezes, se segue. Mas tal é a beleza bruxuleante da sala com os seus sete convivas, as velas repetidamente reflectidas nos dois espelhos sobre os aparadores e o ar húmido a circular através da rede, um ar que sugere a imensidão de possibilidades que encerram as noites futuras, que Olympia se sente inebriada com o luxo que transmitem e só pode experimentar exaltação.

É cumprimentada, interpelada e interrogada ao início da refeição, uma modesta chuva de atenções que aprendeu a esperar e a satisfazer. Quando os convidados tiverem feito todas as perguntas obrigatórias e o ensopado de peixe der lugar às ostras servidas em conchas de vieira, será deixada à vontade, livre para escutar os outros, que é a parte da refeição de que mais gosta.

Forma rápidos juízos acerca dos convidados. Repara, pela sua conversa e pelos seus gestos, que Zachariah Cote está demasiado ávido para agradar ao pai, que ainda não decidiu se publicaria os versos do poeta. E acha que esta demonstração particular de avidez, como é inevitável que aconteça em tais circunstâncias, é mais patética do que agradável. Prefere o comportamento perfeitamente abrupto de Rufus Philbrick, com o seu estranho fato de riscas e as suas respostas mordazes às perguntas do pai que, por sua vez, suscitam neste jovialidade pois sabe que o seu jantar incluirá, pelo menos, uma pequena dose de vivacidade de espírito. A mãe de Olympia parece beber uma grande quantidade de champanhe e não tocar na comida e, de vez em quando, o pai de Olympia olha para a mulher ou pousa fugidiamente os dedos sobre a mão dela. Olympia sabe que ele tem esperança de que ela se retire cedo antes de começar a desintegrar-se. Catherine Haskell, com um vestido de helio trópico crepe da China que realça dramaticamente o seu cabelo louro e prateado, responde delicadamente às perguntas dos homens e gravita protectoramente em direcção à mãe de Olympia, felicitando-a com aparente sinceridade pela abundância de minúsculas rosas na mesa e pedindo-lhe a opinião sobre a conveniência de as raparigas andarem de barco nos pântanos.

John Haskell está sentado no extremo oposto da mesa e é apenas ocasionalmente que Olympia consegue ouvir a sua voz. Parece que os homens, incluindo Haskell, estão a contar a Cote, que não conhece bem a região, uma história que envolve a poetisa Celia Thaxter, de quem o pai publicou várias obras e que admira. Thaxter; Olympia sabe, desempenhou um papel periférico, ainda que crucial, num crime local ocorrido cerca de vinte e cinco anos antes. Mas, como para Olympia se trata de uma história que já ouviu muitas vezes e que considera, por sinal, bastante macabra, deixa os seus pensamentos errar por alguns minutos até os medalhões de borrego e os croquetes de arroz serem servidos e as boas maneiras compelirem mais uma vez os convivas a incluí-la na conversa. Está, neste Verão, suficientemente informada sobre determinados tópicos para participar na conversação se interpelada, facto de que o pai está consciente; e é possível que, a qualquer momento, ele possa demonstrar a cultura da filha chamando-a àum debate sobre o liberalismo americano ou a reforma social cristã. Mas, nessa noite, ela observa que também o pai parece mais animado do que habitualmente, quase afogueado, e pensa que, por qualquer razão, este estado de espírito deve atribuir-se à beleza de Mrs. Haskell e da mãe, mais redobradas ainda - não, quadruplicadas - pelos dois espelhos por cima dos aparadores. Na verdade, Olympia descobre, ao passar os olhos pela mesa, que todos os homens estão bem posicionados em relação aos dois espelhos e são, assim, os receptores de uma infinita multiplicação dos encantos inerentes a um certo inclinar de cabeça, a um pescoço longilíneo que conduz a uma nuvem de gaze prateada e dourada, a um sorriso fugazmente oferecido, a um ligeiro franzir do sobrolho, ao desdobrar de pérolas sobre um colo alvo, à queda de uma madeixa de cabelo que se soltou de uma travessa de âmbar-negro cravejada de diamantes. E também ela está profundamente atenta a tais encantos, como um aprendiz estaria a um carpinteiro ou a um ferreiro. Mas quando, no decurso dos seus pensamentos errantes, olha de relance para o lado oposto da mesa, repara que John Haskell não está a contemplar os encantos da mulher ou de Rosamund Biddeford, mas a contemplá-la a ela.

Não pode haver engano a propósito desse olhar. Não é um olhar que se transforme num cortês aceno de reconhecimento nem num gesto de encorajamento para que fale. Nem tão-pouco é o resultado de um alheamento devido a uma concentração intensa. É, pelo contrário, um olhar absolutamente penetrante sem barreiras nem limites. É um escrutínio como Olympia nunca experimentou em toda a sua curta vida. E pensa que, nesse momento, toda a mesa deve ter ficado paralisada, como ela, e sentido a sua quase intolerável intensidade.

Inclina a cabeça mas não consegue apreender nada, nem o garfo na mão, nem a renda da manga da blusa nem os medalhões de borrego no prato. Quando ergue os olhos, vê que o olhar dele continua imperturbável. Por fim, não consegue afastar a desorientação do rosto. Talvez em virtude da sua confusão, que deve de súbito ser visível, ele vira rapidamente a cabeça para o pai, como se fosse diri gir-lhe a palavra. E é então que o pai, sem dúvida surpreendido com a atenção abrupta de Haskell (ou talvez, inconscientemente, surpreendido com o intenso olhar do homem na direcção da filha), diz ao grupo de convivas: - Dei à Olympia o novo livro do John para ela ler.

O silêncio que se segue é mais terrível do que qualquer comentário natural que ela pudesse ter proferido em seu lugar, um silêncio em que o pai e os convidados dele esperam que ela fale, um silêncio durante o qual ela arrisca transformar o prazer do pai em desilusão. Assim, decorridos alguns instantes, ele sente-se compelido a dizer, com o vago eco do mestre-escola na voz: - Não é assim, Olympia? Ou será que ainda não tiveste tempo de passar os olhos pelos ensaios do Haskell?

Ela levanta o queixo com uma audácia que não sente e dirige-se mais a John Haskell do que ao pai: - Já li quase todos os ensaios, Mr. Haskell, e gostei muito.

Respira tão superficialmente que não consegue insuflar ar nos pulmões. Segue-se outro silêncio que, ao prolongar-se, começa a irritar o pai.

- Com certeza que és capaz de ser mais específica, Olympia

- diz ele por fim.

Ela inspira e pousa o garfo.

- A forma dos seus ensaios é falaciosamente simples, Mr. Haskell - diz. - Dá ideia de que escreveu sete histórias sem tecer juízos ou comentários, mas creio que os retratos são, pela acumulação de pormenores, mais convincentes do que qualquer retórica poderia ser.

- Convincentes em que aspecto? - pergunta Philbrick que não leu os ensaios.

- Convincentes de que é necessário melhorar as condições de vida dos operários - responde ela.

John Haskell olha rapidamente para Philbrick que é, afinal, proprietário de uma série de pensões em Rye, como que a determinar se o homem ficará ofendido com a continuação do debate sobre o tema. Mas Haskell, sem dúvida, também se apercebe, como ela, do leve sorriso no rosto do pai, um sorriso que lhe indica a ela que a sua insistência para que fale sobre o livro talvez se inscreva, com efeito, no seu plano para suscitar um debate animado. Haskell transfere a sua atenção de Philbrick para Olympia que deseja que ele não diga que os seus comentários são demasiado generosos porque sabe que se o fizer estará a menosprezá-la por completo.

- Os seus retratos são crus e têm passagens que são, para mim, simultaneamente esclarecedoras e de leitura complexa - continua, antes de ele conseguir falar -, não pela linguagem, mas pelas imagens que criam, sobretudo no que diz respeito a acidentes e a assuntos clínicos.

- É bem verdade, Olympia - diz o pai, começando a recuperar ligeiramente o seu orgulho na filha.

- Acho que serão muito raros os leitores capazes de ficar indiferentes a esses retratos - acrescenta.

- As suas percepções parecem desmentir a sua idade - interpõe subitamente Rufus Philbrick, estudando-a com olhos penetrantes. Ela descobre que não se importa com a franqueza do seu olhar.

- De maneira nenhuma - diz o pai. - A minha filha possui uma instrução excepcionalmente boa.

- E em que escola é ministrada? - pergunta Zachariah Cote, dirigindo-se-lhe educadamente. O súbito sorriso do homem desagrada a Olympia, como desagrada o comprimento extraordinário das suas patilhas e, mais ainda, a forma como a conversa se desviou para ela e não para a obra de John Haskell.

- Na escola do meu pai - responde.

- Ai sim? - pergunta Rufus Philbrick, um pouco surpreendido. - Não frequenta aulas normais?

O pai responde por ela. - A minha filha frequentou o Colégio Feminino da Commonwealth, em Boston, durante seis anos, altura em que se tornou dolorosamente claro que os conhecimentos dela eram muito superiores aos dos professores. Tirei-a de lá e, desde então, tenho-a instruído em casa; embora, dentro de um ano, conte matriculá-la na Universidade de Wellesley.

- Não te importas? - pergunta Catherine Haskell, suavemente, voltando-se para ela. - De estar separada das raparigas da tua idade?

- O meu pai é um professor dotado e benevolente - diz Olympia com diplomacia.

- Então está muito bem informado sobre as fiações? - pergunta Rufus Philbrick a John Haskell.

- Não tanto quanto gostaria - responde ele. - Uma das desvantagens de criar retratos para contar a história de alguém é que raramente permitem ao escritor que revele uma perspectiva histórica global e receio que este aspecto seja uma das maiores falhas do livro. Acho que entender os precedentes históricos de uma determinada situação é um requisito fundamental para a compreensão do seu estado actual. Não concordam?

- Sim, penso que sim - diz o pai de Olympia.

- Nos primeiros tempos das fiações - continua Haskell -, quando a mão-de-obra consistia na quase totalidade em raparigas de fazendas ianques, os proprietários das fiações tinham uma atitude benevolente em relação aos seus empregados e sentiam-se obrigados a providenciar habitações decentes e hospitais asseados. As raparigas eram alojadas aos pares em quartos e eram-lhes servidas diariamente três refeições colectivas na cantina. Em certos aspectos, a pensão era uma outra casa longe de casa, uma espécie de residência universitária. Havia bibliotecas e sociedades literárias para as raparigas, por exemplo, e concertos e peças de teatro e por aí fora. Podia dizer-se que uma jovem alargava os seus horizontes se fosse trabalhar para uma fiação.

- Mesmo assim, ouvi dizer - diz Rufus Philbrick - que trabalhavam dez ou doze horas por dia, seis dias por semana, e que não era raro darem cabo da vista ou apanharem doenças.

- É absolutamente verdade, Philbrick. Mas o que quero dizer é que, quando as raparigas ianques começaram a regressar a casa foram substituídas pelas irlandesas e pelas franco- canadianas, as condições deterioraram-se rapidamente. Estas imigrantes começaram a afluir com as famílias, famílias numerosas que se viram obrigadas a viver apinhadas em quartos anteriormente destinados a duas pessoas. As habitações originais são incapazes de suster uma população tão numerosa e as condições sanitárias e de saúde deterioram-se. Foi só nos últimos anos que os grupos progressistas começaram a defender uma melhor habitação, melhores clínicas e cuidados infantis.

- Já ouvi falar desses grupos progressistas - diz Zachariah Cote, olhando em volta da mesa.

- Em Abril passado - diz Haskell -, eu e vários médicos de Cambridge deslocámo-nos a Ely Falls e efectuámos um estudo com todos os homens, mulheres e crianças que conseguimos persuadir a participar. O incentivo, sete dólares por família, foi tão atractivo que nos permitiu examinar quinhentas e trinta e cinco pessoas. Destas, só pudemos considerar sessenta como inteiramente saudáveis.

- Essa proporção é incrivelmente baixa - comenta a mãe de Olympia.

- Pois é. Descobrimos que as pensões pululavam de doenças; tuberculose, sarampo, pulmão branco, cólera, tísica, escarlatina, pleurisia. podia continuar indefinidamente. Já continuei indefinidamente.

- John, uma das dificuldades, ao que percebo - diz o pai de Olympia -, é que alguns dos imigrantes, por razões cultúrais, não se opõem com veemência ao trabalho infantil. Os franco-americanos, por exemplo, encaram as famílias inteiras como famílias trabalhadoras e, assim, tentam furtar-se às leis sobre o trabalho infantil, pondo as crianças a fazer trabalho à peça em casa, numa sala com pouca ou nenhuma ventilação, por vezes durante catorze horas diárias dependendo do nível de desespero em que a família está.

- Que tipo de trabalho à peça? - pergunta Catherine Haskell.

- As crianças cosem, alinhavam ou descosem costuras - explica o marido. - Tarefas simples e repetitivas. - Abana a cabeça.

- Você não acreditava nestas crianças se as visse, Philbrick. Muitas estão doentes. Outras são raquíticas e deram cabo dos olhos. E são crianças que ainda não têm doze anos de idade.

A conversa interrompe-se para que este facto espantoso, que deve ser convenientemente digerido, seja considerado antes de que prossigam. Olympia pica com o garfo os seus croquetes de arroz.

Com a fugaz ousadia inspirada pela estimulante conversa, mais uma vez se dirige a John Haskell.

- E há outra coisa, Mr. Haskell - diz. - Os seus retratos respiram afecto. Creio que deve sentir uma grande afeição por esses trabalhadores.

John Haskell responde-lhe com um leve, mas inequívoco sorriso. - Tinha esperança de que essa afeição fosse patente para o leitor - diz -, mas parece ter escapado completamente à atenção dos meus críticos.

- Julgo que o crítico Benjamin Harrow é mais conhecido pela seriedade do que pelo bom humor - observa o pai, sorrindo.

- Estou a pensar se esses ensaios não serão, estritamente falando, outra coisa diferente, John - diz Zachariah Cote, continuando a procurar uma forma de participar na conversa, que tem decorrido perfeitamente sem o seu contributo.

- Não são certamente ensaios no sentido restrito da palavra

- diz John Haskell. - São apenas quadros biográficos. Mas agrada-me pensar que os pormenores de uma vida formam um mosaico que, por sua vez, informa o leitor sobre qualquer coisa de excepcional importância. Também tenho desenhos desses trabalhadores, que encomendei e que gostava de ter incluído no livro, mas o meu editor convenceu-me de que as ilustrações diminuiriam a seriedade da obra e, por isso, não os incluí. uma decisão que aliás lamento.

- Eu também - diz Olympia. - Gostaria imenso de ver desenhos das pessoas sobre quem escreveu.

- Então far-lhe-ei a vontade, Miss Biddeford - diz ele. E Olympia vê, pela rapidez com que a mãe vira a cabeça, que talvez tenha sido demasiado ousada no pedido que fez.

- Mas isso não destrói a própria finalidade do retrato escrito? - pergunta Philbrick. - Como é que as palavras podem igualar a exactidão da imagem?

- Há decerto muita coisa que não se pode captar numa descrição - diz John Haskell. - Os factos históricos, por exemplo, ou a felicidade conjugal. A angústia resultante da morte de um filho. Ou simplesmente um espírito desalentado.

- Mas, quanto a mim, sempre pensei ser possível ler uma vida num rosto - diz Philbrick. - É assim que conduzo os meus negócios, pelo que vejo num rosto. Lealdade. Honestidade. Astúcia. Fraqueza.

- Bem, então estamos com sorte - diz Catherine Haskell animadamente -, porque o meu marido trouxe a máquina fotográfica. Talvez se consiga convencê-lo a tirar fotografias a cada um de nós amanhã. Depois, podemos decidir por nós se é ou não possível ler o carácter num rosto.

- Oh, nem pensar! - exclama a mãe de Olympia, confundindo a terna provocação da convidada com uma intimação. - Nunca hei-de deixar que me tirem uma fotografia. Nunca!

- Minha querida - diz o marido, estendendo o braço para tocar e depois imobilizar a mão trémula da mulher, num gesto em que Olympia sempre pensará como possuindo uma infinita elegância -, nunca consentiria que fotografassem a tua beleza pois teria ciúmes loucos tanto do fotógrafo, como de quem se atrevesse a olhar para o produto acabado.

E quer seja pela lembrança ténue do perigo ou pelo humilde reconhecimento da generosidade do amor conjugal, todos os convivas ficam em silêncio enquanto Lisette coloca na mesa o pudim Sunderland que começa a servir com uma colher.

As notas de Fantaisie-Impromptu de Chopin flutuam através dos ínfimos quadrados dos resguardos de rede metálica até ao alpendre onde os homens estão sentados com charutos e grandes e delicados balões de conhaque. A mãe de Olympia, como era de esperar, retirou-se e o pai voltou da visita que lhe fez ao quarto. Catherine Haskell toca, na opinião de Olympia, com uma destreza consumada, plangente até, que suscita grande admiração. Voam mariposas em torno das candeias e ela senta-se um pouco afastada da luz e dos homens. Como não está nenhuma mulher no alpendre, não pode juntar-se aos homens, mas também não suporta a ideia de estar dentro de casa numa noite tão amena.

A lua desenha longos cones no mar, que acalmou com a escuridão, e evoca, com a aproximação da maré-cheia, um lago magnífico. O sussurro contínuo da rebentação envolve a conversa e a música do piano numa sensação calmante. Olympia não consegue ouvir o que os homens estão a dizer, mas o som das suas vozes é imediatamente reconhecível: as declarações seguras e amáveis, se bem que por vezes pedantes, do pai; as breves explosões sincopadas de entusiasmo e os conselhos de Rufus Philbrick; o tom um tanto sussurrado e demasiado deferente de Zachariah Cote; e, finalmente, as frases guturais e firmes de John Haskell, cuja voz raramente sobe ou desce. Esforça-se por captar palavras da conversa: mercadoria. Manchester. fabricante de coches. imitação grosseira. benefícios. Palavras masculinas saturadas de fumo e ligeiramente entarameladas. De quando em quando, os homens baixam a voz, num tom conspirativo, aproximam as cabeças e depois, subitamente, separam-se com explosivas e ásperas gargalhadas. Nesses momentos, Olympia pensa que talvez deva sair do alpendre. Mas a sua lassidão e bem-estar físico são tão profundos que não é capaz de incutir acção no seu corpo. Ocorre-lhe que é capaz de adormecer simplesmente na cadeira e aí ficar toda a noite, toda esta curta noite do solstício de Verão. Que é capaz de observar o nascer do sol. E assim só se apercebe que Catherine Haskell acabou de tocar quando ouve a voz dela atrás de si.

- Sabias que quase todas as civilizações consideraram que a noite do solstício de Verão possui poderes mágicos? - pergunta.

Olympia endireita-se na cadeira, mas Catherine impede-a, pondo-lhe uma mão no ombro. Senta-se ao lado dela e olha por sobre a balaustrada.

- Toca maravilhosamente - diz Olympia.

Catherine Haskell sorri vagamente e faz um aceno com a mão como que a declinar elogio tão imerecido.

- Não tão maravilhosamente como a tua mãe, segundo ouvi

- diz ela. O heliotrópico crepe da China do vestido dela tem, na escuridão, o efeito de desaparecer por completo, de forma que ela parece, à luz difusa das candeias, apenas constituída por dois braços esguios, um pescoço, um rosto e uma imensa cabeleira.

- E que o aglomerado mais antigo de pedras azuis de Stonehenge está alinhado com o momento do nascer do sol no solstício de Verão? Nesse dia, faziam-se sacrifícios. Há quem pense que eram sacrifícios humanos.

- Numa noite como esta, sou capaz de acreditar que tudo é possível - diz Olympia.

- Sim. Absolutamente.

Olympia ouve o ranger do vime quando Mrs. Haskell se reclina e começa a baloiçar-se na cadeira. As suas sandálias brancas reluzem levemente ao luar.

- Espero que a tua mãe não esteja indisposta - diz Catherine.

- Cansa-se facilmente - esclarece Olympia.

- Sim, claro.

Olympia hesita. - É de constituição frágil - diz.

- Compreendo - diz Catherine Haskell imediatamente, como se fosse alguma coisa que já tivesse adivinhado. Vira a cabeça para Olympia que só consegue ver um quarto crescente de rosto.

- Acho que deves ser como o teu pai - diz Catherine.

- Em que aspecto?

- Protectora. Forte, parece-me.

Do outro lado, chega outra explosão de riso que as leva a olhar na direcção dos homens. As duas mulheres examinam o quadro à luz da candeia.

- Herdaste, naturalmente, a beleza da tua mãe - acrescenta Catherine. Alisa uma saia invisível com os braços de alabastro. Sempre achei que há um momento na vida de uma raparigacomeça, mas depois cala-se. Ouvem a voz de John Haskell elevar-se por um momento acima das outras com o fragmento de uma frase: deterioraram-se com a chegada do. - Com momento, continua Catherine -, quero dizer um período de tempo, uma semana ou talvez meses. Mas limitado. Um momento para o qual o corpo esteve a preparar-se. - Cala-se, como se procurasse os termos adequados para prosseguir. - E, nesse momento, a rapariga transforma-se em mulher. No embrião de uma mulher talvez. E nunca é tão bela como durante este período de tempo, por mais breve que seja.

Olympia fica satisfeita por estar escuro e o seu rosto estar oculto porque sente-o enrubescer.

- O que quero dizer, minha querida - acrescenta Catherine

- é que julgo que estás precisamente no vértice do teu momento. Olympia baixa os olhos para o regaço.

- A tua beleza está na tua boca - diz ainda Catherine e lympia sobressalta-se com tão franca declaração.

- Claro que está no rosto - apressa-se a acrescentar -, mas antes de mais na boca, na sua forma não convencional, no facto de teres lábios carnudos. A tua boca merece um retrato próprio.

Olympia ouve a repetição deliberada da palavra retrato. Na obscuridade, a porta de guarda-ventos da cozinha range ao ser aberta e batida. A cozinheira deve estar de regresso a casa. Olympia sente-se demasiado perturbada para articular uma resposta que não seja idiota e, ao mesmo tempo, um pouco alarmada com a intimidade do comentário de Catherine Haskell, pois mal a conhece. Embora, mais tarde, com a perspectiva dos anos, Olympia venha a pensar que a declaração de Catherine se dirigira mais a ela própria do que a Olympia, como se, ao definir uma coisa, se conseguisse esvaziá-la de poder.

- Bem, és encantadora de uma maneira geral - diz Catherine Haskell, empregando um tom diferente, a voz casual de uma tia ou prima predilecta, como se tivesse pressentido as apreensões de Olympia. - E não tenho dúvida de que este vai ser o teu Verão.

- Lisonjeia-me demasiado, Mrs. Haskell.

- Catherine.

- Catherine.

- E não te lisonjeio o suficiente. Como acabarás por comprovar. Posso pedir-te um favor?

Olympia faz um gesto de assentimento.

- Estava a pensar se podias levar as raparigas mais velhas a andar de barco enquanto cá estamos. A Martha ia adorar de certeza.

- Com todo o prazer - responde Olympia.

- Só a Martha e a Clementine, acho eu. Os outros são demasiado pequenos.

- Temos coletes salva-vidas - diz Olympia.

- Mesmo assim, preferia que fosses tu a levá-las, se não te importares. Não confio na opinião da Millicent. Conheces a preceptora das crianças? Noutras questões, sim. Mas em passeios de barco, não. Tem pouca experiência com a água.

Uma voz masculina, lisonjeira e insistente, eleva-se ligeiramente acima das outras. Instintivamente, Catherine Haskell e Olympia olham na direcção dos homens junto da porta do alpendre, para a revoada de mariposas sobre as suas cabeças.

- Acho o Cote um cretino rematado - sussurra Catherine. E Olympia ri, aliviada e reconhecida por alguém partilhar a sua opinião.

Mas ao rir, e talvez seja simplesmente uma ilusão causada pelo luar, a pele branca do rosto de Catherine Haskell parece tornar-se, por um breve momento, transparente e fatigada.

- Não te deites tarde - diz, pondo a mão no pulso de Olympia para se apoiar enquanto se levanta, e Olympia recorda que ela coxeia.

- Estás tão quente - diz ela, baixando os olhos.

O seu rosto paira a centímetros apenas do de Olympia, tão próximo que ela sente o odor do hálito de Catherine, um hálito doce da hortelã- pimenta do borrego. Por um momento, Olympia julga que Catherine a vai beijar.

Olympia conhece outros factos a respeito do solstício. Que entra em Gémeos e que, nesse dia, em Assuão, que se situa a oitocentos quilómetros a sudeste de Alexandria, os raios solares incidem precisamente na vertical ao meio-dia. Que os adeptos de cultos visionários pintam os corpos com símbolos e saúdam o céu com lamentações até caírem inconscientes ou receberem as visões que esperam. Que produz as mais altas marés do ano, em particular se coincidir com a lua cheia. Hoje, a lua não está completamente cheia, mas quase, e Olympia sabe que constituirá uma fonte de preocupação para as poucas pessoas que residem em casas demasiado próximas da praia em Fortune's Rocks.

Sai do alpendre e caminha ao longo da orla do relvado, na obscuridade, para não atrair as atenções dos homens. Dirige-se ao paredão e descobre uma rocha seca em que se senta. Senta-se num ressalto natural sobre uma caligrafia cintilante de algas marinhas que são humedecidas de cada vez que as ondas penetram, projectando chuviscos na fissura da rocha mais próxima dela. A maré está efectivamente alta e chega a lamber os rochedos mais elevados. Com a aproximação da água, a temperatura desce gradualmente e sente um pouco de frio ao sentar-se sobre as pernas dobradas. O alpendre da casa, mais ou menos a trinta metros de distância, está banhado em charcos de luz amarela que tremeluzem com a brisa ligeira. Embora veja o grupo de homens junto à porta, a rebentação não lhe permite ouvir as suas vozes.

Tira as sandálias e as meias e pousa-as de lado. Com as plantas dos pés pressiona o escorregadio musgo marinho na rocha. A sensação é desagradável, dando imediatamente origem a pensamentos sobre as milhares de formas de vida aquática que existem logo abaixo da superfície ilusoriamente calma da água. No Verão anterior, o pai insistiu para que Olympia tivesse aulas de natação porque não autoriza ninguém que não saiba nadar a andar sozinho no barco. As aulas tiveram lugar na baía e, a princípio, a sensação do limo entre os dedos dos pés nus e o possível contacto com quaisquer criaturas marinhas viscosas assustaram-na tanto que aprendeu a nadar num tempo quase recorde. Pelo menos, aprendeu o suficiente para ter alguma hipótese de se salvar caso caísse do barco, estando este razoavelmente perto da margem. E tudo isto apesar da aparência extraordinária, para não dizer absolutamente cómica, do pai, de fato-de-banho, e do seu profundo embaraço por estar tão desprotegido. (E agora ocorre-lhe que a velocidade com que aprendeu a nadar poderá ter sido resultado não só do medo de tocar no desconhecido limoso, mas também da pressa dele em vestir uma indumentária mais decente. )

Não sabe quanto tempo fica sentada nos rochedos a observar a maré a subir até ao seu ponto mais alto. Está a pensar em regressar a casa quando uma onda errante vem rebentar contra a rocha onde está sentada e arrasta consigo uma sandália como um ladrão que desaparece instantaneamente na noite. Levanta-se de repente, fisi camente chocada pela água gélida que lhe encharcou a parte de trás da saia. Baixa-se para apanhar a sandália que vê a flutuar fora do seu alcance e, ao fazê-lo, recebe novo banho gelado causado por uma onda que reivindica não só a outra sandália mas também as meias. Recua precipitadamente e endireita-se de novo. Torna-se claro que nunca mais há-de recuperar as sandálias e as meias. Vêdistanciar-se lentamente dos rochedos, um dos sapatos desaparecendo de vista por completo. Tiritando levemente e com a combinação toda molhada atrás, dá meia-volta para regressar a casa. Atravessa o relvado a reluzir com o orvalho e obscurecido pela noite. Espera ardentemente que ninguém ouça a porta de guarda-ventos abrir e fechar quando entra em casa.

Está a meio do relvado quando começa a distinguir, na sombra do alpendre, um vulto solitário. O seu coração fica subitamente gelado. O pai, irritado, ficou à sua espera e há-de estar furioso por isso. Mas quando avança mais alguns passos, distingue, pela postura e tamanho da pessoa, que não é o pai. A ansiedade dá lugar ao alívio, mas este alívio é rapidamente substituído pela apreensão.

Quebra o andamento e faz uma pausa momentânea. Foi vista e agora não pode voltar atrás sem parecer rude ou assustada, e não deseja sugerir nem uma coisa nem outra. Com uma naturalidade forçada, continua a caminhar. John Haskell avança e aproxima-se dos degraus. Estende-lhe a mão, que ela toma por um momento.

- Esqueceu-se dos sapatos - diz ele.

- O mar levou-os - responde.

- E receio que nunca mais os devolva.

Ela consente que ele a conduza ao alpendre.

- Disse ao seu pai que achava que se tinha ido deitar - diz ele -, mas vejo que me enganei. É muito tarde. Devia ir para a cama.

- Tem razão - diz ela.

- Está pálida - diz ele. - Deixe-me preparar-lhe um chá quente.

- Não - responde ela, com um gesto de recusa. - Vou só sentar-me por um momento para recuperar o fôlego.

Sente uma mão no ombro guiá-la para uma cadeira.

- Está encharcada - diz ele.

Ela sabe que ele viu a parte de trás da saia.

John Haskell passa-lhe uma chávena. - É minha - diz. - Por favor, faça-me a vontade e beba um gole.

Ela recebe a chávena nas palmas das mãos e leva-a aos lábios. O chá quente aquece-a e provoca-lhe um formigueiro reconfortante nos braços e nas pernas. Bebe mais um gole e devolve-lhe a chávena.

Desde o jantar que John Haskell tinha o colarinho desapertado. O seu casaco está pousado no espaldar da cadeira de baloiço de vime em que está sentado. Ela tem uma consciência aflitiva dos seus próprios tornozelos e pés descalços, que procura esconder sentando-se mais hirta e escondendo os ofensivos apêndices.

Pondo a chávena de lado, John Haskell reclina-se na cadeira, que está tão próxima da dela que, se estendesse a mão, conseguia tocar- lhe no joelho. Os seus braços começam a tiritar violentamente.

- Demorou-se demasiado no paredão - diz ele.

- É a noite do solstício de Verão - responde, como se a explicação bastasse.

- É verdade. Achei os seus comentários sobre o meu livro muito lisonjeiros.

Pronto, aí está, pensou ela, o menosprezo. Mas está enganada.

- Dá-me ideia que é a minha leitora ideal - acrescenta ele.

- De maneira nenhuma - diz ela rapidamente. - As suas intenções são evidentes para qualquer leitor.

- Se conseguir chegar-lhes - observa ele. - Receio ter errado ao escrever um livro que apenas terá um punhado de leitores. Devia ter publicado um opúsculo, como inicialmente me ditaram os meus instintos. Mas infelizmente o orgulho levou a melhor.

- Sente necessidade de chegar a um público mais alargado? pergunta ela.

- É indispensável - responde ele. - As condições são aterradoras. Receio que o esclarecimento tenha sido substituído por camadas sucessivas de desprezo e incúria.

- Compreendo - diz ela. Sabe que devia ir deitar-se e vestir roupa seca, mas não sente para já vontade de sair do alpendre. - E deseja recuperar parte do que foi perdido? - pergunta.

Ele abana a cabeça. - Nada de tão grandioso - responde ele.

- Antes de mais nada, tenho de me preocupar com a saúde dos trabalhadores das fiações. A sua saúde pessoal, as condições sanitárias, os cuidados médicos, aspectos que são, todos eles, absoluta mente deploráveis, acredite.

- Vai então trabalhar na clínica.

- Sim, já comecei. Um breve silêncio enche o espaço que os separa.

- Foi muito simpático da sua parte pedir para ver as fotografias - diz ele.

- Quero muito vê-las - repete ela.

- Pois bem, nesse caso, vou mandar buscá-las.

- Não quero dar-lhe maçada - diz ela.

- Não é maçada nenhuma.

- Tenho de ir - diz ela, levantando-se abruptamente. Ao fazê-lo, o seu cabelo, que descuidara durante a caminhada pelo relvado (ou talvez com o movimento de cabeça sobressaltado que fez quando o mar lhe molhou a saia), descai ligeiramente para o lado e liberta uma travessa que tilinta no chão do alpendre. John Haskell, que se levantou ao mesmo tempo, baixa-se para apanhá-la.

- Obrigada - diz ela, fechando a travessa na mão.

- A sua autoconfiança é extraordinária. - diz ele, de súbito. Inclina a cabeça como que para a examinar de outro ângulo. - A presença de espírito. Absolutamente notável para uma jovem da sua idade. Acho que deve ser resultado da sua educação singular.

Ela abre a boca, mas não lhe ocorre nenhuma resposta.

- Estava lá ontem - diz ele. - Na praia. Vi-a na praia. Ela abana a cabeça, sem palavras, e, em seguida, roda nos calcanhares, desmentindo num instante a verdade do elogio de Haskell.

A pós o seu encontro com John Haskell, no alpendre, Olympia sobe ao quarto num estado de agitação. Abre a janela, põe as mãos no peitoril e curva a cabeça. Uma membrana de humidade cobre-lhe o rosto, o cabelo e a garganta.

Veste uma camisa de noite de linho branco, uma peça que não usava desde o último Verão. A leveza do tecido proporciona-lhe prazer, embora note que cresceu tanto durante os meses de Inverno que as mangas lhe ficam pelo menos dois centímetros mais curtas. Os punhos apresentam uma delicada espiguilha que a mãe fez, sendo a espiguilha uma técnica que se ajusta ao seu estatuto de inválida e que ela tentou ensinar à filha sem sucesso. Olympia senta-se na cama e, como habitualmente, faz uma trança no cabelo, os pés pousados sobre o soalho ligeiramente húmido. Há muito que se recosou à omnipresente humidade; de facto, é frequente à noite enfiar-se em lençóis levemente húmidos ou tirar do guarda-fatos vestidos que perderam a sua rigidez com o ar do mar.

Pouco depois de acabar de apanhar o cabelo, enfia-se na cama e sucumbe a um sono agitado. Tem sonhos diferentes de quaisquer outros que tenha tido até então, diferentes pela sua textura e substância. São um tanto chocantes, mas não aterradores, pois contêm as sensações físicas mais privadas e aprazíveis que jamais experimentou na sua curta vida. Desperta num estado de grande desorientação, deitada num emaranhado de lençóis enrolados, convencida de que falou com John Haskell momentos antes quando, naturalmente, não falou. E por um breve momento pensa se se passará alguma coisa de errado consigo, se teve realmente alucinações, se corre o perigo de se transformar afinal na filha da sua mãe. Mas depois rejeita esta especulação porque os sonhos que teve e as sensações que a visitaram são, apesar da sua extraordinária novidade, reconfortantes como um banho quente. E se estas sensações não parecem inteiramente convenientes, são profundas e autênticas. E a verdade é que sente relutância em vê-las diluir-se e dissipar-se com o sol da manhã.

Nessa manhã, com Philbrick e Cote e, naturalmente, os Haskell ainda hospedados em casa, todos se ocupam com a fotografia, uma experiência em que Olympia considera ser tão intrigante observar como participar. As sessões começam pouco depois do pequeno-almoço, tendo Haskell decidido avisadamente começar pelas crianças para que estas pudessem ficar livres para outras actividades o mais cedo possível. A máquina fotográfica é inglesa e um instrumento bastante bonito com a sua caixa de mogno e acessórios de latão. Haskell explica que, no interior da máquina, existe um cone metálico forrado a veludo preto no qual se introduz o rolo. Uma vez exposto à luz, é extraído pelo outro lado. A máquina fotográfica leva película para quarenta exposições, acrescenta, o que permitirá tirar várias fotografias a cada um. Olympia fica aliviada ao reparar que a máquina fotográfica pode ser utilizada manualmente e que não terá a experiência agonizante de que ouviu falar - uma experiência em que o infeliz fotografado é obrigado a permanecer imóvel numa cadeira enquanto a máquina, fixa nu tripé, regista durante um processo fatigantemente longo a rígida expressão do participante e em que o menor sorriso ou movimento arruinam o resultado.

Para captar a melhor luz, que abunda nesse dia, Haskell usa os degraus da frente como palco. Enquanto uma pessoa está a ser fotografada, as outras circulam pelo alpendre e ocupam-se a ler ou a conversar ou simplesmente a contemplar o mar, uma fascinante actividade que pode consumir muitas horas do dia. Olympia traz uma cadeira para perto da acção e observa Haskell a trabalhar e, enquanto observa, descobre que um sonho cria uma intimidade inexistente, que se sente durante todo o dia seguinte ao sonho como se certas palavras tivessem sido ditas ou certas acções realizadas ainda que não o tenham sido. De forma que o objecto do sonho parece familiar quando, de facto, não existe familiaridade nenhuma.

Haskell, de fato de linho branco e gravata, com um chapéu de palha que tira quando começa a trabalhar com afinco, sugere de vez em quando uma inclinação de cabeça, uma posição de braço. Ocasionalmente, atravessa o espaço fotográfico e move o ombro para que a postura seja perfeita. Como seria de esperar, as crianças estão impacientes e custa- lhes estar quietas. Olympia, porém, fica impressionada com a impiedade de Haskell ao obrigar os filhos mais novos, Randall e May, a posar, esperando por um momento em que ambos avistam um barco de pesca não muito longe da costa e ficam a contemplar a visão desconhecida com atenção embevecida, mas ávida, de olhos arregalados e bocas ligeiramente abertas. Mais tarde, Olympia verá as fotografias, depois de estas e de a câmara serem reenviadas a Haskell, de Rochester, e ficará impressionada com a sua claridade, uma nítida precisão de linha e traço fisionómico que não se tem tendência para observar na realidade pois o rosto pode estar na sombra ou o olhar, por necessária cortesia, ser demasiado fugaz.

Nos degraus do alpendre, Martha parece uma jovem rapariga desesperada por ser levada a sério; Clementine, alguém que tem uma grande dificuldade em levantar os olhos para a objectiva. Ambas trazem vestidos suíços de alças com pintas brancas e combinações num tom azul-claro, e cada uma tem uma fita no cabelo. Haskell faz a mulher sentar-se de lado, uma ténue sugestão de uma bota alta de atacadores a espreitar por debaixo das saias, o corpo e o rosto de perfil. Olympia nota que Catherine tem um perfil encantador, em que as linhas não são planas nem o queixo afilado, mas antes um perfil com maçãs do rosto proeminentes e um pescoço esguio. A postura de Mrs. Haskell, embora aparentemente relaxada, é perfeita. Nesse dia, pôs um chapéu de palha com uma fita larga e muitas flores na aba. Tem-no enfiado na cabeça com a abundante cabeleira apanhada em rolos. No entanto, o seu traje é o mais impressionante, um fato branco do mais excelente linho, muito justo na cintura, com o rodado do casaco a cair-lhe graciosamente para a anca, um fato que sugere ao mesmo tempo uma elegância informal e um desprezo pela ostentação. Enquanto fotografa a mulher, Haskell comunica com ela numa linguagem de gestos simples e monossílabos, um código que indica à-vontade, senão mesmo um razoável nível de intimidade.

Philbrick, que está muito interessado na marca e na mecânica da máquina fotográfica, que é, segundo Haskell, uma Luzo, tem vestido o casaco de riscas da noite anterior. Recusa sentar-se quieto, levantando-se constantemente para espreitar pelo visor, para perguntar por que razão a imagem está invertida e para pasmar com o facto de Haskell conseguir distinguir com precisão os traços fisionómicos. Cote enverga uma sobrecasaca azul-marinho que lhe acentua os planos do rosto e uma camisa de seda branca. O pai, o que não surpreende, pede a Haskell que o fotografe de pé, de chapéu, colete e relógio de bolso, pois é defensor da ideia de que não se deve fomentar demasiada informalidade na praia. Até a mãe de Olympia acaba por ceder e se deixar fotografar, ainda que escondida atrás de um véu e de olhos baixos, encolhendo-se de cada vez que ouve o estalido do obturador como se pudesse apanhar um tiro.

Quando esta actividade está a chegar ao fim, Haskell olha para Olympia.

- Esteve muito atenta - diz-lhe. - Acho que conseguia fazer isto sozinha.

- Sem dúvida que é fascinante - responde ela, decidindo não acrescentar que, na sua opinião, uma pessoa pode aprender tanto com a observação do sujeito a posar como com a fotografia acabada.

- Ora bem, vamos lá ver então o que se consegue fazer consigo - diz ele, e ela nota que, à semelhança da mulher na noite anterior, o seu tom é o tom afectuoso de um familiar. - Por favor, sente-se aqui nos degraus - diz ele, apontando com a mão.

Ela obedece, ajeitando as saias por baixo do corpo e virando os joelhos de lado quando as pregas do tecido se lhe avolumam no regaço. Está determinada em não ser um modelo difícil, mas sente qualquer coisa de deselegante na sua pose. Haskell deve também achá-la desajeitada pois apercebe-se de um interesse muito acentudo da parte dele. Por alguns momentos, pensa que todos os defeitos das suas feições ou da sua figura devem ser agora evidentes para ele; e pensa que, neste aspecto, não é de estranhar que ele se tenha deixado atrair pela fotografia e pela medicina: não exigem ambas que uma atenção rigorosa seja dedicada ao corpo?

Nesse dia pôs um vestido solto de cambraia branca que forma um franzido sobre uma faixa larga azul-marinho, que ela apertou o mais que pôde. Tem sobre os ombros um xaile azul-marinho e, na cabeça, um chapéu branco de abas largas que, a seu ver, teria beneficiado com um ramo de rosas rugosas ou até uma única hortênsia, se se tivesse lembrado antes. Um pouco agitado, Haskell aproxima-se dela e depois afasta-se, para a esquerda e para a direita, levantando ocasionalmente os olhos do visor e estudando o seu rosto.

- Olympia, levante o ombro... - diz ele. - Isso. Agora vire a cabeça para mim. Devagar. Sim. Pare. Óptimo. Fique quieta.

Ela obedece.

Ele prime o obturador, levantando simultaneamente os olhos e fazendo avançar o rolo na máquina.

- Não - diz ele, num tom desapontado, tanto para si mesmo como para os outros.

- A mim parece-me muito bem - diz Philbrick que, tendo já posado e examinado todos os aspectos da máquina fotográfica, está agora impaciente para não perder o período de banhos das famílias na praia, do meio-dia à uma hora, e, o que é talvez ainda mais importante, para comer o piquenique que irão levar.

- Bonita pose - diz Catherine que está a tricotar.

Acho que ela devia sentar-se mais aprumada - diz a mãe. A Olympia deixa descair os ombros muitas vezes.

- Descontraia o braço - diz Haskell - e incline assim a cabeça.

Ligeiramente irritada com tantas instruções, Olympia levanta os braços e desprende o gancho que lhe segura o chapéu. Tira o chapéu e atira-o para os degraus. Cruza as mãos no regaço. Parece-lhe que a mãe, sentada ao pé da balaustrada, disse algo porque, nessa manhã, mulher alguma foi fotografada sem chapéu.

Haskell permanece imóvel por um momento. Em seguida, avança. Ela pensa que ele vai falar com ela, mas ele levanta-lhe o queixo com as pontas dos dedos. Levanta-lhe o queixo bem alto e mais alto ainda de forma que ela se vê obrigada a olhá-lo nos olhos. Ele mantém esta posição no ponto mais alto, estudando o seu rosto e depois deixa a mão, que ela tem a certeza absoluta de que está escondida da vista dos outros, tocar-lhe o queixo e descer até à garganta. O contacto é tão breve e suave que podia ser um cabelo a aflorar-lhe a pele.

Este roçar fugidio dos seus dedos, o primeiro toque íntimo que alguma vez um homem lhe dedicou, desencadeia uma inesperada imagem dos sonhos da noite anterior. O olhar dela divaga e a cor assoma-lhe às faces. Parece-lhe ter nas maçãs do rosto o rubor febril da agitação. E receia denunciar, nos vários segundos em que é obrigada a estar imóvel, o conteúdo das cenas e das imagens que flutuam diante dos seus olhos.

Aguarda uma confirmação qualquer de que os outros observaram o contacto de Haskell. Mas apercebe-se, pelos tons de impaciência e enfado dos assistentes, de que o episódio passou despercebido a toda a gente. E interroga-se então: aconteceu realmente ou imaginou-o?

Mais tarde, quando vê pela primeira vez as fotografias, ficará surpreendida com o aspecto calmo da sua expressão - a firmeza do olhar, o aprumo da postura. Na fotografia, tem os olhos ligeiramente fechados e uma sombra no pescoço. O xaile envolve-lhe os ombros e as mãos estão pousadas no regaço. Nesta enganadora fotografia, tem o ar de uma jovem mulher que não está, de maneira nenhuma, perturbada ou constrangida, mas parece, pelo contrário, muito séria. E interrogar-se-á se a fotografia, pela sua capacidade de ilusão, será muito diferente do mar, capaz de oferecer ao observador uma superfície serena quando esconde abismos e corrente nas suas profundezas.

- Óptimo - diz Philbrick, levantando- se. - Eu, pela minha

parte, vou para a praia.

Conforme combinado, partem todos ao meio-dia com excepção da mãe e também de Catherine que fica a fazer-lhe companhia. Josiah embalou um elaborado piquenique num cesto de vime tão grande que são precisos dois rapazes para o carregar. O dia continua luminoso e um pouco ventoso e, embora a rebentação seja decididamente enérgica, todos, menos Olympia e Haskell, se aventuram na água. Olympia decidiu intencionalmente não pôr o fato-de-banho, sentindo-se pouco à vontade na companhia dos presentes para se mostrar tão despida. Haskell não teve tempo para mudar de roupa porque esteve a trabalhar com a máquina fotográfica até ao último minuto. De facto, ainda a tem consigo na respectiva caixa de mogno.

O dia e a hora parecem ter atraído quase toda a população de Fortune's Rocks. Olympia observa muitas crianças vigiadas de perto pelas preceptoras. Uma mulher, com oito bebés a seu cargo, colocou as crianças em cestos da roupa. Do ponto em que Haskell e Olympia estão sentados, apenas vêem cabeças e rostos minúsculos a baloiçar e a espreitar por cima da borda dos cestos, o que constitui um espectáculo verdadeiramente cómico. Noutros grupos, estão mulheres com roupa demasiado sofisticada para a ocasião, com vestidos de tafetá preto e chapéus, luvas e botas complexos e sombrinhas de folhos, como se estivessem desesperadas para não deixar um único grão de areia ou raio de sol tocar-lhes o corpo. Olympia admira-se que não derretam, estando envolvidas, como estão, em tantas peças de vestuário. Noutros grupos de pessoas, estão homens com fatos-de-banho que os privam razoavelmente de dignidade: os fatos possuem o aspecto depauperado do vestuário interior e o tecido pinga de um modo desastroso quando molhado. Mas não existe na praia, pensa ela, uma certa permissividade no vestir, uma liberdade de costumes?

Depois de disporem a refeição sobre a manta, Philbrick, Cote e relutantemente) o pai acompanham Martha e as outras crianças, de fatos de marinheiro e meias escuras, até à beira da água, a cerca de quinze metros de distância. Haskell e Olympia ficam para trás. Não é nenhum ardil da parte deles, Olympia sabe, embora esteja convicta de que têm ambos consciência das circunstâncias algo embaraçosas quando os outros os deixam. Haskell despe o casaco e descalça os sapatos, retira a gravata e as meias e enrola a flanela branca das calças até acima dos joelhos. Reclina-se na manta, apoiando-se num cotovelo e observa o grupo de banhistas a avançar para o mar.

Para se ocupar, Olympia prepara um prato de ovos cozidos, uva enrolada, pão e manteiga e passa-o a Haskell que pega nele.

Prepara igualmente um prato de comida para si. Comem lado a lado, Olympia num pequeno banco que foi levado para a ocasião. Durante algum tempo, não falam. De vez em quando, uma rajada de vento obriga um ou outro a estender a mão para prender um canto da manta ou um chapéu que ameaça voar.

- O que é que faz quando está na clínica? - pergunta ela, a voz soando tensa, pelo menos aos seus ouvidos.

- Um pouco de tudo - diz ele. - Trato ossos partidos, amputo dedos estropiados, cuido de casos de difteria, pneumonia, tifo, disenteria, gripe, sífilis. - Faz uma pausa. - Mas esta conversa não é própria para uma rapariga - diz ele, limpando a boca com o guardanapo. Tem os olhos encobertos pela aba do chapéu de palha.

- Porque não?

- Alguma vez esteve em Ely Falls?

- Só uma vez - confessa ela. - Com o meu pai, no Verão passado. Mas não vi grande coisa. O meu pai obrigou-me a ficar na carruagem enquanto foi tratar dos assuntos dele.

- É precisamente aí que quero chegar. É um lugar atroz, Olympia. Superpovoado, imundo e assolado de doenças.

O vento levanta-lhe as saias que ela ajeita nos joelhos. A luz do sol é tão intensa sobre a água que, mesmo com o chapéu de abas largas, ela sente necessidade de semicerrar os olhos.

- Acha que posso acompanhá-lo um dia à clínica? - pergunta. - Fala em condições terríveis e eu gostava de vê- las com os meus próprios olhos. Talvez até possa ajudar.

- A miséria é dura, Olympia. E feia. As pessoas são perfeitamente decentes. não pretendo sugerir que não sejam. é só que uma clínica não é um lugar indicado para uma rapariga.

- Diga-me então uma coisa - diz ela, sentindo-se levemente desafiada e relutante em abrir tão cedo mão do debate. - Existem operárias de quinze anos nas fiações?

Sabe perfeitamente bem que existem.

- Existem - diz ele a contragosto. - Mas isso não quer dizer que devam lá estar.

- E é permitida a entrada na clínica a raparigas de quinze

anos?

Ele hesita. - Às vezes - responde. - Como doentes. Ou para olhar pelas mães.

- Bem, então.

- Não é boa ideia - insiste ele. - Seja como for, teria de pedir autorização ao seu pai e sinceramente duvido que ele a dê.

- Talvez não - diz ela. - Mas ele é bem capaz de o surpreender. Tem pontos de vista invulgares no que toca à minha educação.

Haskell pega num punhado de areia e observa-a a cair-lhe por entre os dedos. Tira o chapéu, deita-se na manta e fecha os olhos.

Saberá, nesse momento, que ela o observa? Parece tranquilo, como se estivesse a dormitar ou a dormir. As linhas do seu rosto e do seu corpo são alongadas, formando-lhe uma cavidade na base da garganta que por sua vez se reproduz na camisa. Abaixo dos joelhos, as pernas estão nuas; e ela repara na suavidade da sua pele, sedosa com pêlos escuros.

Desvia rapidamente os olhos para a água e volta a olhar para Haskell. Sabe que faltam apenas instantes para os outros regressarem, molhados e enregelados, embrulhados em mantas, com os pés incrustados de areia fina molhada, ansiosos por comer e beber, e sentindo-se virtuosos e revigorados com o exercício no mar. Nessa manhã, observara a forma como Haskell manejara a máquina fotográfica, o suficiente para saber como a operar. Silenciosamente para não o perturbar, retira a máquina da caixa e espreita pelo visor. Atrás de Haskell, em segundo plano, encontra-se numa peixaria uma família de banhistas numerosa, Olympia repara que alguns dos seus membros estão a observá-la com a máquina. Imagina que é ser uma família de Ely Falls, porque não trouxeram um grande piquenique. Onze ou doze pessoas estão apinhadas numa única planta, de forma que as da periferia estão parcialmente sentadas na areia e têm de se inclinar para o centro do grupo. Conclui que estiveram todos a nadar, incluindo as mulheres, porque têm os cabelos desarranjados e penteados para trás. Fitam-na de um modo estranhamente rude. Pensa que uma ou duas das crianças, pelo menos, devem estar subalimentadas pois têm o rosto chupado.

Prime o obturador.

Estremunhado, Haskell abre os olhos. Ela repõe a máquina fotográfica na caixa.

- Olympia - diz ele, sentando-se.

Ela fecha a tampa e prende o fecho.

Simultaneamente, avistam o pai de Olympia a emergir do mar e a envolver-se num roupão que deixou junto à água para não ter de se mostrar em público de fato-de-banho molhado. Ela observa o pai a avançar do mar para o sítio onde estão sentados, pensando se a terá visto fotografar Haskell. Quando ele chega ao pé deles, ela pensa que é impossível que não repare na tensão instalada entre ela e Haskell, tensão essa que ambos procuram imediatamente atenuar com exageradas atenções para com as necessidades do pai, Haskell levantando-se com um agasalho, Olympia preparando um prato de comida. Mas o pai não a questiona sobre o tempo passado com Haskell, nem nesse momento nem mais tarde.

Os outros não se fazem esperar muito, Zachariah Cote proporcionando um espectáculo um pouco cómico com o seu fato inteiriço que revela ancas bastante largas e sugere que o homem fica melhor de sobrecasaca. (Mas que homem não fica? Olympia pergunta- se). Philbrick, com alguma falta de modéstia ou de inibição, aproxima-se da manta com passo vivo, senta-se para almoçar e começa a deglutir a refeição com entusiasmo. Incapaz de se manter calma na companhia deles, Olympia levanta-se e encaminha-se para o mar com agasalhos para as raparigas, que se encolhem nos tecidos secos como se formassem casulos. Até Martha parece satisfeita ao vê-la, embora a rapariga tenha arranjado maneira de deixar entrar areia para as meias que descaem com o peso e formam estra nhas protuberâncias nas pernas.

Voltam para a manta como se Olympia fosse uma preceptora e elas as suas pupilas encharcadas. Pelo caminho, quando arrisca levantar os olhos, repara que Haskell se foi embora.

Nessa noite, ele não reaparece para jantar. Quando Olyimpia pergunta por ele, Catherine diz que foi chamado à clínica. Olympia perdeu o apetite e debate-se para chegar ao fim da refeição. A ausência de Haskell afecta-a mais do que alguma vez imagina a primeira de muitas noites em que vai sentir que à sua vida, que parecia perfeitamente preenchida ainda na noite anterior, falta uma peça essencial.

Desejando estar sozinha, puxa a cadeira para trás. A trovoada abana a casa e Olympia sente as vibrações através das tábuas do soalho. Um relâmpago trespassa o céu do lado de lá das janelas da sala de jantar.

- Uma tempestade - diz Catherine.

- O homem que traz as lagostas disse que ia trovejar - responde a mãe.

- Tenho de ir lá cima fechar a minha janela - diz Olympia, aliviada por ter uma desculpa para sair da mesa.

- Sabiam - pergunta o pai aos convivas - que um trovão desta violência faz com que muitas das lagostas destas águas percam, pelo menos, uma pinça?

- Fascinante - comenta Catherine.

Nesse momento, começa a chover, uma chuva pesada que cai obliquamente sob o beiral do telhado e bate contra as vidraças das janelas como se quisesse entrar.

Olympia sobe ao seu quarto e estende-se na cama num estado para o qual não está preparada e sobre o qual não pode falar - nem a Lisette que talvez tivesse algum conselho prático. Como pode Olympia admitir a quem quer que seja que alimenta sentimentos tão extraordinários e condenáveis por um homem que mal conhece Um homem quase três vezes mais velho do que ela? Um homem que parece bem casado com uma mulher que Olympia admira?

Ao fim de algum tempo, senta-se na cama e pega no volume que continua na mesinha-de-cabeceira. Começa a reler o livro de Haskell. Lê até se lhe turvarem os olhos, entorpecerem os sentidos e poder enfrentar com serenidade os preparativos para se deitar.

Mais tarde, saberá que nessa noite Haskell não foi à clínica, mas antes dar um passeio pela praia, assolado por pensamentos perturbadores, até que a tempestade inesperada o apanhou de surpresa, encharcando-o quase imediatamente e obrigando-o a ter de correr novamente para a casa para se abrigar.

Pouco antes do nascer do dia, Olympia é acordada por um grito rouco. Por momentos, pensa que faz parte de outro sonho a que não consegue escapar até que se apercebe de que o alarido vem de perto da janela do seu quarto. Quando sai da cama, os berros recrudescem e ela percebe então que envolvem vários homens.

Como a temperatura esfriou, pega no xaile que está na cadeira. Quando olha pela janela, repara que, ao longo da praia de Fortune's Rocks, foram acendidas fogueiras que ardem agora vivamente. A princípio não compreende o significado dessas fogueiras até reparar nos homens de equipamento de salvação e cintos de cortiça que se encontram junto da fogueira mais próxima da casa. Outros homens, incluindo Rufus Philbrick, o pai e John Haskell, ainda de roupão, rondam o perímetro deste grupo. Como todos gesticulam na direcção do mar, Olympia estende o olhar, descobrindo o que tanto os excita; e fica surpreendida ao ver um grande veleiro sem mastros a afundar-se na espuma branca das vagas que rebentam a menos de cem metros da praia. A proa da embarcação quebrou e parece despedaçada, crivada de rombos. Enquanto observa, o barco desgovernado sobe, inclina-se e atinge os rochedos que já foram cenário de tantos naufrágios.

As portas do posto de socorro de Ely, construído apenas no ano anterior, abrem-se de par em par. Meia dúzia de homens de oleados e galochas de cano até às virilhas começam a manobrar o comprido e estreito barco salva-vidas, sempre a postos para estas ocasiões, até à estrepitosa orla do mar. Entretanto, a operação atraiu uma multidão e Olympia sente-se compelida a pôr o xaile pelos ombros e a encaminhar-se para a praia.

Detém-se no frio e na obscuridade, logo atrás da reveladora luz das fogueiras, o vento forte começa a desfazer-lhe as tranças pacientemente feitas na noite anterior. O vento liberta faúlhas das fogueiras e ameaça apagar as luzes de sinalização das lanternas de globos vermelhos. Por entre a espuma das correntes, Olympia vê que a embarcação se inclinou num ângulo pouco natural e homens e também mulheres estão a abandonar as cobertas e a tentar alcançar os cabos.

Sente uma mão no braço e, sobressaltada, vira-se. - Olympia

- diz Catherine Haskell, abrindo uma capa e colocando-a nos ombros dela. - Vi-te do alpendre. Não devias estar cá fora.

Olympia aceita a capa, aconchegando- a mais ao corpo. - Que aconteceu? - pergunta a Catherine.

- Oh, minha querida, é uma coisa terrível. Um horror!

Só espero que os salva-vidas cheguem a tempo.

- Quem são? - pergunta Olympia.

- Segundo o Rufus, é um barco inglês, de Liverpool. Deviam ter atracado em Gloucester, mas a tempestade desviou-os da rota.

A ventania dificulta a conversa. O cabelo de Catherine esvoaça em volta da cara e a saia da camisa de noite de Olympia bate-lhe contra as canelas. Observam ambas um canhão que é trazido do posto de socorro numa carroça e apontado ao veleiro.

- O que é que estão a fazer? - pergunta Olympia.

- É para a bóia-calção - responde Catherine.

Um foguete de sinalização ilumina a embarcação em perigo. Tma mulher cai à água sem que se ouça qualquer som e alguém grita na praia. Catherine volta-se para Olympia e puxa-a para si, como que a proteger- lhe o rosto. Mas Olympia é mais alta do que Catherine e o abraço é obstrutivo e ligeiramente e desajeitado; assim, separam-se e vêem um homem ser engolido por uma onda que se desfaz em crista.

- Meu deus - diz Catherine.

Até aquele momento, a vida de Olympia fora tão protegida que nunca assistira a nada que se assemelhasse com a morte. Assusta-se com o súbito estrondo do canhão. Vê uma bola com uma corda amarrada a desenrolar-se através das vagas e a aterrar atrás do barco. É imediatamente estabelecida uma linha tensa entre o navio afundado e a praia. Um dos homens de equipamento de salvação prende-se na bóia- calção, um dispositivo que se parece simplesmennte com algo grotesco. Enquanto os homens em terra puxam a corda por uma roldana, o mergulhador salva-vidas avança lentamente para a embarcação, com as pernas a balouçar com destreza a centímetros apenas da rebentação.

A beira da água, John Haskell e o pai de Olympia agarram no barco salva-vidas e empurram-no para a água. A expressão do pai é solene, as feições absolutamente concentradas. O cinto do médico desapertou-se e Olympia fica surpreendida ao entrever as pernas finas e magras, que raramente vê. Embora Olympia se sinta mbaraçada com a visão do corpo dele, experimenta orgulho pela força que o pai demonstra nesta ocasião. Haskell e o pai estão indiferentes a qualquer possível mal-estar causado pelo tempo, pelo mar ou pelas suas diligências, integrando ambos o contingente encarregado de puxar a corda. Mais tarde, Olympia e Catherine virão a saber que o veleiro, que se chamava Nlary Dexter e transportava imigrantes noruegueses, sofreu danos nas docas do Quebec, mas o capitão, demasiado ansioso para terminar a viagem, fez-se imprudentemente ao mar antes de se poderem efectuar as reparações.

Catherine e Olympia vêem a bóia- calção regressar pela corda, não com o homem que momentos antes a percorreu, mas com a forma dobrada de uma mulher que, por sua vez, tem uma criança nos braços.

- Ela vai deixar cair a criança - exclama Catherine. As pessoas à beira-mar devem sentir o mesmo receio porque Haskell despe o roupão e mergulha na rebentação de camisa de dormir para agarrar nos pés da mulher. Quando a tem firmemente segura, puxa-a para terra e, com a ajuda de Rufus Philbrick, desamarra-a do aparelho. Outro mergulhador salva-vidas entra para a bóia e parte em direcção ao veleiro atingido.

- Tenho de ir ter com ele - diz Catherine. - Ficas bem aqui?

- Sim, sim, claro - diz Olympia. - Estou muito bem. Olympia observa Catherine que corre contra o vento para junto do marido. Enquanto o pai cuida da passageira, envolvendo-a num cobertor que Josiah trouxe para o local, John Haskell pousa imediatamente a criança numa manta e começa a administrar a respiração boca a boca. Olympia vê Catherine pousar uma mão nas costas do marido que levanta os olhos para ela. Diz-lhe qualquer coisa, talvez lhe dê instruções, porque ela começa imediatament a ocupar-se da mulher de quem o pai de Olympia estava a cuidar. Haskell, tendo aparentemente insuflado ar à criança, pega nela ao colo e encaminha-se para a casa num passo vivo. Olympia inspira bruscamente pois apercebe-se de que, para chegar a casa, ele terá de passar pelo ponto onde ela está, na periferia das operações de salvamento.

O seu cabelo esvoaça em completo desalinho e ela tem de o afastar para conseguir ver Haskell. Ele transporta a criança junto ao peito, mas na horizontal, paralela ao solo, segurando-a por detrás. Não se detém, agora não pode parar, mas olha, no entanto, directamente para Olympia ao passar por ela. É apenas um momento porque vai a caminhar depressa. Talvez ela pronuncie o seu nome, não John, mas Haskell, porque assim se habituou a pensar. Mas, no mesmo instante, ele desapareceu.

Permanece como se tivesse sido esvaziada.

Ouve o pai chamar por ela. Acena-lhe. Quer ajudar; evidentemente que quer. Tenta correr, mas há um problema qualquer com as pernas, como se o corpo estivesse momentaneamente paralisado. O pai, impaciente, faz-lhe sinal e ela repara que a sua necessidade é urgente. A areia fá-la arrastar os pés e os seus movimentos são indolentes como, por vezes, em sonhos. Esforça-se por correr mas tropeça na camisa de noite ou são as pernas que cedem e cai.

Quando levanta os olhos, vê o pai aproximar-se dela e pronunciar o seu nome. Abana a cabeça; não quer que ele a veja assim. Ele baixa-se e põe- lhe a mão no ombro. O seu contacto é alheio e estranho porque raramente se abraçam, mas a estranheza do toque trá-la à razão. Esfrega os olhos com a manga da camisa de noite.

- Olympia? - diz ele, num tom hesitante.

Ela levanta-se desajeitadamente. O dia quase rompeu e ela avista o veleiro afundado e a tragédia que aí se desenrola mais nitidamente do que antes.

- Estou bem, pai - diz. - Tropecei na camisa de noite. Enfia os braços nas mangas da capa que Catherine lhe trouxe.

- Diz-me o que queres que eu faça - diz ela. - Quero ajudar.

Às primeiras horas da manhã do dia 23 de Junho de 1899, sessenta e quatro passageiros e o comandante do Nlary Dexter morreram afogados, enquanto outros cinquenta e oito passageiros são salvos por meio da bóia-calção. Outro homem, um mergulhador salva-vidas de Ely, sucumbe durante as operações de salvamento. O barco salva-vidas propriamente dito, com quase só voluntários, afasta-se da infeliz embarcação imediatamente antes de esta se virar, popa sobre proa, no mar, e se desfazer em manchas de madeira contra os rochedos.

Apesar da gravidade do naufrágio, os cidadãos de Fortune's Rokhs não podem deixar de sentir um certo orgulho no sucesso da bóia-calção que nunca antes fora testada no posto de socorro de Fortune's Rokhs.

Como a casa é invulgar pelo facto de ter sido outrora um convento, ainda existe, no segundo andar, um grande número de quartos do tamanho de celas com camas e toucadores, alguns dos quais são ocupados por empregados domésticos, enquanto muitos outros continuam desocupados. Com os Haskell hospedados na casa, instala-se uma espécie de hospital de campanha e todos, a reduzida família de Olympia e os seus hóspedes e criados, se transformam no respectivo pessoal: o pai, no general reformado destacado para a missão; John Haskell, no oficial médico com todas as responsabilidades e familiaridades que tal posição exige; Catherine Haskell, na enfermeira, vestida com o seu simples roupão cinzento e um avental branco que descobriu na cozinha; Josiah, no sargento veterano, excelente numa situação de crise, com capacidades organizativas sem igual; Philbrick, no contramestre que se encarrega de suprir mantimentos para a casa superlotada; Zachariah Cote, numa espécie de soldado ausente sem autorização oficial, que se finge adormecido durante toda a operação de salvamento e parece pensar que o seu único contributo consiste em fazer companhia à consternada mãe de Olympia nos aposentos dela; e Olympia, na inexperiente praça, iniciada nas fileiras da idade adulta por falta de mulheres capazes.

Olympia não dorme mais nessa noite já que se ocupa, juntamente com os outros, de numerosas tarefas. Como nenhum dos imigrantes noruegueses fala sequer o mais rudimentar inglês, nem nenhum dos americanos norueguês, Olympia é chamada a decifrar pedidos e súplicas unicamente por meio de expressões faciais e vê-se muitas vezes reduzida a responder com gestos. Como um grande número dos homens noruegueses perdeu a vida no mar, muitas mulheres estão dilaceradas pela dor. Uma destas mulheres, de cabelo castanho e olhos cinzentos claros, tem consigo cinco filhos de idades inferiores a onze anos. A sua expressão, ao entrar na casa, era de desespero, como se temesse mortalmente pela vida e, de início incapaz de olhar pelos filhos, que Olympia e Catherine lavam e vestem. É frustrante, para Olympia, não conseguir transmitir as mais elementares expressões de condolências às mulheres norueguesas, embora tenha esperança de que os seus gestos sejam suficientemente tranquilizadores. Olympia apercebe-se que, como a maioria dos refugiados que se encontram na casa, ela está num estado físico deplorável, mesmo considerando a provação por que acaba de passar; este facto leva Olympia a interrogar-se sobre as condições a bordo do barco de imigrantes ainda antes do seu naufrágio.

Pelos corredores da casa ouve-se uma cacofonia de sons: crianças a chorar, mulheres a falar excitadamente numa língua estrangeira, Josiah e os outros criados numa correria de divisão em divisão. É instalada na cozinha uma banheira de cobre e apressadamente montada uma cortina. A missão de Olympia e dar banho às crianças, tanto às raparigas como aos rapazes; e assim observa que até a mais severa das convenções, cujo verniz é impecavelmente mantido em tempos normais, pode ser rapidamente abandonada em tempo de crise.

A meio da manhã, já se estabeleceu alguma ordem. Olympia está a dar banho a uma menina pequena com caracóis prateados cujo nome pode ou não ser Anna. Embora a comunicação de Olympia com a criança seja limitada, conseguem transmitir uma à outra muita coisa através de uma inventiva escultura em sabão que representa um veleiro que flutua por algum tempo e desaparece depois na água turva. Como qualquer criança pequena, a menina parece recuperada do quase fatal acidente e, por agora, dá ideia de que simplesmente desfruta do seu banho. Quando Olympia se ajoelha ao lado da banheira, suportando o aborrecimento passageiro da criança enquanto lhe lava o cabelo, ouve um ruído atrás de si. Quando se volta, repara que John Haskell entrou na cozinha.

- Não interrompa o que está a fazer por minha causa – diz ele, apertando a cana do nariz entre o dedo polegar e o indicador.

Encosta-se a uma mesa de pinho e cruza os braços. Está com um ar fatigado e ela sabe que o está. Há horas que vestiu roupa seca, embora o cabelo esteja ainda um pouco desleixado.

Protegendo a cara da criança com a mão, Olympia despeja outro jarro de água sobre a cabeça prateada. A menina guincha e agita-se, encorajando-a a terminar a tarefa com brevidade. Através de uma janela aberta, Olympia avista a armação da infeliz embarcação, visão que evoca o esqueleto de uma baleia escoriada a dar à luz. E como é estranho ver o posto de socorro, que ainda horas antes era o centro de tão febril actividade, sereno e até encantador à luz do sol. O edifício é uma elegante estrutura com muitas janelas amplas e uma grande torre de vigilância. O beiral do telhado vermelho, que se inclina até a uma acentuada cumeeira, está decorado com esculturas intrincadas. Como tudo parece em ordem, pensa ela. E como a natureza parece não sentir remorsos na sua calma indiferença.

- Foi um esforço corajoso - diz Haskell.

- Sim.

- Sessenta e cinco almas salvas e só um mergulhador perdido. É. - calcula rapidamente - um pouco menos de cinquenta por cento dos passageiros e da tripulação do navio e só oito por cento dos barcos salva-vidas.

Ela reflecte sobre os cálculos dele.

- Se eu fosse a mulher do homem afogado - diz ela -, talvez considerasse isso paga insuficiente pelo risco porque, para mim e para os meus filhos, a perda seria de cem por cento.

Ele estuda-a por um momento. - Acho a sua inteligência extraordinariamente precoce para a sua idade - observa. Ela cora de prazer, embora mais tarde pense se a observação não encerraria mais esperança do que rigor.

- E os outros? - pergunta ela imediatamente.

- Temos vários ossos partidos; há um homem com um grande ferimento no pescoço que é capaz de o deixar paralítico. Neste momento, o Philbrick está a ver se consegue a transferência dos feridos e dos doentes para o hospital de Rye, mas o Mason declaroú a casa em quarentena e disse que ninguém podia sair.

Haskell refere-se ao inspector de saúde de Ely Falls que chegou de manhã cedo. Aproxima-se da banheira e levanta a criança norueguesa da água, a espuma caindo-lhe na camisa. Olympia estende-lhe uma toalha e ele envolve nela a menina. Deita-a na mesa da cozinha e examina-a com modos que Olympia considera conscienciosos e meigos, apesar das limitações de tempo e do sentido de urgência que os rodeia. Afasta-se para o lado, sem saber bem se deve ficar ou sair, mas a indecisão acaba por retê-la.

Observa Haskell que retira um pano seco de um cesto que Josiah trouxe. Volta a agasalhar a criança. Pega nela debaixo do braço - uma coisinha tão pequena na segurança do seu abraço - e fala constantemente disto e daquilo, palavras para ela incompreensíveis, mas cujo efeito calmante é evidente pela expressão sonolenta dos seus olhos.

- Mr. Mason disse quanto tempo espera que a quarentena dure? - pergunta Olympia, pensando no ligeiro incómodo de não poder sair de casa.

- Não, ele é como todos os funcionários menores no exercício arbitrário de um poder reduzido. Não, recusa-se a dizer, o que me aborrece um pouco porque a Catherine e as crianças têm de partir hoje para York.

Olympia atarefa-se com as roupas molhadas no chão da cozinha.

- Onde é que Mrs. Haskell e os seus filhos vão ficar em York?

- pergunta.

- A mãe da Catherine tem uma casa lá. A minha mulher há-de cá vir todos os fins-de-semana, claro, e depois volta de vez em Agosto, se a casa nova estiver pronta, o que espero que aconteça.

Olympia põe a roupa noutro cesto, no canto da cozinha, e aproxima-se de John Haskell.

- Com licença - diz, tirando-lhe a menina dos braços. E parece um gesto absolutamente elementar - tirar uma criança a um homem.

No terceiro dia após o naufrágio do Llary Dexter, os visitantes da casa vêem a quarentena ser levantada. Olympia interroga-se sobre o que acontecerá aos refugiados. Uma vez que agora já não possuem bens com que negociar a sua entrada na América muitos são incorporados nas fiações de Ely Falls e o que acontece às crianças pequenas, como Anna, nunca chega a saber.

Catherine e as crianças seguem para York. Haskell hospeda-se, mais uma vez, no Highland Hotel. Durante algum tempo, Olympia não o vê já que ele trabalha a maior parte do dia na clínica de Ely Falls e não se apresenta qualquer oportunidade natural para que se encontrem.

Aparentemente, Olympia passa o tempo da forma habitual. Lê livros constantes de uma lista que o pai lhe preparou. Mais tarde, recordará, em particular, O Vale da Decisão, Um Conto de Duas Cidades e A Letra Escarlate pois são todos obras escritas num círculo a respeito de outro, cuja finalidade é uma questão que ela e o pai discutem minuciosamente (o pai defendendo o ponto de vista que os costumes sociais de uma era anterior poderão melhor esclarecer determinados dilemas morais do nosso próprio tempo e Olympia partilhando a ideia de que Edith Wharton, Charles ckens ou Nathaniel Hawthorne poderão simplesmente ter-se sentido atraídos pela linguagem barroca e pelo colorido mais rico de uma época anterior). Como as capacidades de Olympia para o desenho foram consideradas inferiores, recebe instrução do pintor francês Claude Legny, que está a passar a época balnear nas ilhas de Shoals e que aceita tomar o ferry até ao continente todas as sextas de manhã para lhe dar aulas. Embora Olympia possua vários talentos, a ilustração não é um deles e ela sabe que desilude o professor. É perfeitamente capaz de observar um motivo, de o descrever até sofrivelmente por palavras, mas não consegue transmitir a subsequente visão aos dedos da mão direita. A situação não é muito diferente da de um adulto que dá instruções a uma criança que produz um resultado que, infelizmente, nem sequer possui encanto infantil.

No entanto, é mais bem-sucedida na equitação e no ténis. Quanto à equitação, que está a aprender na herdade de Hull, em Ely, é uma técnica que já domina e não pode, por conseguinte, invocar tratar-se de uma aquisição deste Verão. Mas o ténis é uma novidade para ela e uma das raras actividades organizadas que lhe exige concentração total e proporciona breves interregnos nas suas reflexões e devaneios.

Mais do que qualquer outra coisa, os dias que passam mantêm-na num estado de suspensão, um pouco à semelhança de uma pausa alongada numa bela composição musical - um prelúdio interrompido. Por vezes, é tudo de quanto é capaz para se concentrar minimamente numa actividade ou tarefa. Sente-se, com frequência, aturdida e preocupada, incapaz de afastar pensamentos perturbantes. Na verdade, interroga-se de tempos a tempos se não estará possessa: todos os momentos que viveu com Haskell são examinados e reexaminados; todas as palavras que trocaram são lembradas e relembradas; todos os olhares, gestos e nuances interpretados e rein terpretados. Enquanto está sentada à mesa de jantar ou a escrever cartas no alpendre ou a ler para a mãe no quarto dela, Olympia inventa diálogos e discussões com Haskell e urde historietas divertidas para lhe contar acerca dos acontecimentos aparentemente banais da sua vida diária. Na verdade, as suas actividades quotidianas parecem existir agora unicamente para se revelar a um homem que mal conhece. Mas, embora repita mental e incessantement as mesmas conversas e cenas, não consegue esgotá-las. É como se bebesse de um copo que se enche continuamente, o último tão demorado e fresco tão necessário como o primeiro, a sua sede insaciável. De vez em quando, o seu infatigável escrutínio do tempo que passou na presença de Haskell é, para ela, uma agonia, pois não vislumbra nenhum desfecho satisfatório para o que começou nem qualquer possível sequência. Tem apenas quinze anos e Haskell é quase da idade do pai. É casado e tem filhos. Ela continua à guarda do pai. É praticamente uma criança, talvez mesmo uma criança transtornada e teimosa, obcecada com uma fantasia que assenta unicamente nuns tantos episódios passageiros que, afinal de contas, pode ter interpretado mal. Ainda assim, atormenta-se com as suas intermináveis divagações e não existe hora em que Haskell não domine os seus pensamentos. O que a leva a pensar se não existirá, em simultâneo com o tormento, um elemento intensamente agradável na angústia por ela própria gerada. Apesar do facto de parecer quase ausente do universo que o seu corpo físico habita, os dias parecem mais vivos e cativantes do que alguma vez experimentou. As cores intensificam-se; a música, que até então apenas encarara como agradável ou difícil, tem agora a capacidade de hipnotizar; o mar, por que sempre se sentiu atraída, assume uma grandiosidade épíca e parece infinitamente sedutor - tanto que fica, muitas vezes, terrivelmente impaciente com qualquer solicitação que a impeça de simplesmente contemplar a água e deixar os seus pensamentos vogar pela sua superfície.

A praia em Fortune's Rocks sempre foi democrática e em ocasião alguma o é mais do que no 4 de Julho quando toda a população da comunidade balnear, assim como de Ely e de Ely Falls, se reúne para a tradicional mariscada. O areal, desde o paredão até à beira da água, enche-se de veraneantes, comerciantes e respectivas famílias e muitos franco-americanos e irlandeses das fiações. Faz-se a enorme fogueira que é coberta com algas marinhas molhadas, que dá a impressão de que o vapor que se desprende se eleva da própria areia. E em redor desta fogueira juntam-se homens de todas as classes e posses, alguns de traje de cerimónia, outros com indumentárias mais informais e festivas, quase todos desfrutando a atraente bebida refrescante contida nos jarros que foram enterrados na areia. Periodicamente, são levadas para junto da fogueira grandes canastras de amêijoas que são amontoadas, juntamente com com tas, sobre as algas. Quando uma determinada fornada se considera cozida, as amêijoas são colocadas em pratos de metal. As mulheres, algumas com sombrinhas, descansam em bancos de madeira enquanto as crianças se sentam de pernas cruzadas nas mantas. Como a ocasião está associada a uma certa permissividade, tanto os homens como as mulheres estão de fato-de-banho e brincam nas ondas. Ocasionalmente, um criado leva um banhista para a rebentação, ajudando-o a atenuar o choque do frio. A água raramente sobe acima dos dezoito graus centígrados, temperatura que é anunciada diariamente ao meio-dia com toques de trombeta do Highland Hotel (um toque longo e oito breves). Olympia apercebe-se de que o Ely Club está a organizar corridas a pé à beira- mar, ao longo das extensões da vazante em que a areia está mais dura. Estacionadas junto a uma parte do paredão estão carruagens e cavalos, assim como um ou dois automóveis, novidades que intrigam imenso as crianças que se juntam em redor dos veículos, não se atrevendo a tocá- los com medo que se ponham em marcha e desapareçam. (Uma estranha premonição de calamidade já que, no Verão seguinte, um dos automóveis é inadvertidamente posto a trabalhar por um miúdo; e o automóvel galga o paredão, enterrando-se, não levando consigo a criança felizmente, na areia mole, na ponta elevada da praia, onde fica atolado durante um ano até que uma parelha de cavalos o consegue rebocar).

Olympia veste um fato de que gosta especialmente: uma blusa fina, cinzenta clara, com cinto, sobre uma simples saia azul-marinho de linho. Por qualquer razão que não é capaz de determinar, talvez relacionada com o clima geral de permissividade que premeia o dia, não pôs chapéu. Tem ainda um xaile azul-marinho que pôs na expectativa de brisas marítimas que não se materializaram, na verdade, o dia está tão quente que não tarda a abandonar completamente o xaile e a desabotoar os punhos da blusa, arregaçando as mangas. E imagina que a razão por que gosta tanto desta roupa é por ser confortável, solta, e não dar nas vistas pois aquilo que deseja é a liberdade de observar as pessoas à sua volta, mantendo-se no seu escrutínio, senão invisível, pelo menos discreta. E quanto aos efeitos dessa mesma liberdade, ouviu dizer que, neste ano, se iniciam mais romances, se decidem mais noivados e se reacendem mais casamentos adormecidos do que em qualquer outro ano, suposição sustentada todos os anos pelo número anormalmente elevado de partos na primeira semana de Abril.

Sendo a sua tolerância em relação a acontecimentos públicos extraordinariamente diminuta, Rosamund Biddeford senta-se com Olympia durante um curto período de tempo, come exactamente uma amêijoa que, por qualquer razão, a confecção colectiva parece ter contaminado em sua intenção, queixa-se moderadamente de uma dor de cabeça causada pelo sol e chama Josiah para a acompanhar de volta a casa. Como nada disto é inesperado, Olympia não se importa nada de ficar sozinha, sentada na cadeira de lona, satisfeita com um prato de amêijoas e bolachinhas salgadas, a observar os movimentos dos celebrantes com as suas diferentes indumentárias. E, enquanto observa, não larga de vista o pai que ronda na periferia da fogueira com mais alguns homens e parece estar a beber uma quantidade desmesurada de whisky. De vez em quando, pessoas próximas falam com Olympia e algumas convidam-na para se juntar a elas; mas ela declina, alegando falsamente que está à espera que a mãe regresse.

No entanto, decorrido algum tempo, Olympia começa a sentir-se inquieta, relutante em continuar tanto tempo sentada num dia tão bonito. E assim começa a deambular pela praia, serpenteando pelo meio de famílias e grupos sociais, alguns complexamente ecquipados com belvederes de lona, cestos com gelo e belas toalhas de linho e baixela de prata. Outros são mais modestos, apenas com os pratos de metal e os copos de limonada que prepararam para a ocasião. Avista uma família em que até as crianças estão vestidas como que para ir à igreja, sentadas o mais formalmente que a sua postura permite. E, perto delas, está uma família franco-americana das fiações, igualmente vestida com os seus melhores atavios, mas não tão aprumada pois fez claramente bom uso das várias garrafas de vinho de que se muniu. O seu convívio parece animado, para não dizer estridente.

Por toda a praia, nos alpendres das casas, decorrem festas como é tradição no 4 de Julho. Olympia e a família foram

con vidadas para algumas destas festas. Como é o primeiro ano em que Olympia é autorizada a visitar alguém das suas relações particulares, sem a presença ou protecção dos pais, tinha já pensado que não deixaria de dar um salto a casa dos Farragut; Victoria Farragut era a jovem cuja companhia lhe agradou noutras ocasiões. Mas Olympia descobre, ao enterrar as biqueiras das botas na areia, que não lhe apetece conversar e, como tal, passa pela casa dos Farragut, reparando na disposição festiva dos convivas no alpendre, mas evitando olhar nessa direcção. Não deseja ser vista nem interpelada.

Ao fim de algum tempo, tira as botas e começa a caminhar descalça, o que se sentiu encorajada a fazer por um bom número de estranhos bem-dispostos por quem passou. Uma vez que tenciona voltar a calçar as botas quando regressar à festa, não está receosa de ser vista pelo pai que, naturalmente, reprovaria. Durante algum tempo, sente-se ousada e brinca com o mar, levantando a saia o suficiente para fazer deslizar os pés pelas pequenas poças de água na areia e afastando-se num salto rápido perante a ameaça de uma onda mais imponente.

No entanto, à medida que se aproxima do Highland Hotel, o seu avanço torna-se mais hesitante. O hotel é grandioso, bem ao estilo de muitos dos hotéis dispersos por essa extensão da costa; mas nenhum deles, na sua opinião, é tão encantador como o Highland, com os seus alpendres fundos, as balaustradas impecavelmente brancas e as cadeiras de baloiço em vime preto alinhadas contra as balaustradas como sentinelas de vigia. Passam por ela homens e mulheres, que saem e entram no hotel ostentando um distinto ar de festividade. Observa um grupo de empregados a posar nos degraus do hotel para uma fotografia; parecem incapazes de conter a excitação perante a aventura, para grande consternação do infeliz fotógrafo. Atrás deles, estão a ser oferecidos pratos de ostras a muitos hóspedes do hotel, alguns dos quais esplendidamente vestidos, as mulheres com chapéus tão largos e ornados que parecem luxuriantes peónias capazes de dobrar os caules esguios que ostentam. Mais homens e mulheres, de raquetes na mão, perambolam menos formalmente na extremidade do alpendre, parecendo aguardar o início de uma partida de ténis.

Os seus olhos observam o alpendre e pousam numa figura

sentada numa cadeira de baloiço. Sem colarinho nem chapéu, está a ler um opúsculo. Ela estaca abruptamente na areia. A sua imobilidade súbita deve ter-se destacado no cenário porque ele olha na sua direcção.

Ela dá meia-volta e começa a caminhar vivamente pela areia, com as botas na mão. A única coisa que ouve é o tumulto e insensatez na cabeça: em que estaria a pensar para ter a ousadia de aparecer no hotel? Sabendo que podia encontrar Haskell? Sabendo como a sua presença seria imprópria? Com o corpo curvado para a frente, está determinada a chegar ao extremo contrário da praia o mais depressa possível. E tanto assim é que, a princípio, não ouve chamar o seu nome e é só quando sente no braço uma mão que a retém que pára e se vira.

- Olympia - diz Haskell, sem fôlego por ter tentado apanhá-la. - Avistei-a do alpendre.

Ela deixa cair a saia.

Ele dobra-se para recuperar o fôlego. - Tenho pena de não ter podido visitá-la, a si e ao seu pai - diz ele -, porque gostei muito da minha estadia com a sua família.

- E nós também - diz ela delicadamente.

Ele endireita-se e põe as mãos nas ancas. - E como estão o seu pai e a sua mãe - pergunta. - Espero que estejam bem. - Sim, estão óptimos - responde ela. - E Mrs. Haskell e as crianças? Estão a passar o feriado consigo?

- Não - diz ele. - Daqui a uma hora tenho de estar na clínica e dei a tarde de folga a quase toda a gente. Pareceu-me um disparate pedir à Catherine que viesse quando não podia acompanhá-la às festividades. De qualquer modo, amanhã já estou com ela.

Olympia leva a mão aos olhos para os proteger da luz. É obrigada a levantar os olhos para Haskell para falar com ele.

- E como corre o seu trabalho na clínica? - pergunta.

- Com dificuldade - diz ele sem hesitação. - Não tenho tempo suficiente para reorganizar o pessoal como deve ser e continuo à espera de materiais e medicamentos de Boston que estão indesculpavelmente atrasados.

- Lamento saber - diz ela.

- Bem, acho que nos arranjaremos sem problemas. Embora aqui esteja terrivelmente deficitário de pessoal esta tarde - acrescenta metendo as mãos nos bolsos das calças. Parece ter recuperado o fôlego. - Posso acompanhá-la até ao seu destino? - pergunta. - Gostaria muito de ter oportunidade de cumprimentar o seu pai, se ele estiver consigo.

Os seus olhos perscrutam o rosto dela.

Ela volta-se e começam a caminhar em direcção à fogueira. A praia decliva acentuadamente e ela é quase tão alta como ele. Imagina que o seu andar é inibido e os movimentos rígidos e artificiais porque se sente nervosa na sua presença. Haskell, porém, parece consideravelmente mais descontraído e, de vez em quando, baixa-se para apanhar uma concha ou para fazer saltar uma pedra nas ondas. Ao fim de algum tempo, pede para parar por um momento porque as suas botas estão a encher-se de areia. Pousa as botas fora do alcance da maré que sobe e diz que as irá buscar mais tarde, gesto que a faz pensar que ele acredita na natureza humana mais do que será talvez prudente. Retomam a caminhada e, embora ela tenha mil perguntas para lhe fazer, descobre que está emudecida. Eloquente nos seus devaneios, fica sem fala na presença dele.

Nesse dia, o mar exibe um resplandecente tom verde-azul, uma cor raramente observada nas águas da costa do New Hampshire onde o oceano quase sempre se apresenta ou de azul-escuro ou cinzento-metálico. Na verdade, a água, o céu e a luz estão tão intensos e deslumbrantes que Olympia pensa que a natureza, na sua generosidade, deve estar igualmente numa disposição festiva neste centésimo vigésimo terceiro aniversário da independência nacional.

- Já comeu? - pergunta ela.

- A comida no Highland, lamento dizer, é extraordinariamente má apesar do elevado nível do serviço. Acho que estão a precisar de outro cozinheiro.

- Então está com sorte porque as amêijoas estão a ser apreciadas por toda a gente. Conhece esta tradição?

- Ouvi falar dela ao pequeno-almoço e passei a manhã a ver o pessoal escapulir-se nas suas melhores fatiotas. Agrada-me o que se con te porque tenho a certeza que a sala de jantar está como um navio abandonado. Está a ficar com a cara rosada - diz ele. - Devia ter posto o chapéu.

Caminham lado a lado, a areia tornando os seus passos irregulares e lentos. Ocasionalmente, um ou outro tropeça e uma manga roça outra manga ou um ombro outro ombro. O calor aquece a ponto de distorcer a visão. As ondas surpreendem-nos e, a certa altura, Haskell dá um pequeno grito devido ao frio que, por mais que se esteja habituado a visitar esta parte da costa da Nova Inglaterra, provoca inevitavelmente um choque contra a pele melindrosa dos tornozelos.

À distância, Olympia repara que, na sua ausência, as festividades ganharam algum ímpeto. Homens e rapazes estão a jogar à bola, com redes e raquetes. Mais perto da água, onde a areia é mais dura, vários pares instalaram ickets e estão a jogar croquete, embora pareça uma actividade infrutífera visto que as bolas rolam naturalmente todas para o mar. Para lá do paredão e das barracas de peixe, há vendedores ambulantes com carroças a apregoar as suas mercadorias: refrescos gelados, cestos índios, gelados e guloseimas de todos os géneros.

Ela estaca abruptamente, relutante em juntar-se já à multidão.

Haskell avança até se aperceber que ela ficou para trás. Volta para junto dela.

- Que foi? - pergunta. - Passa-se alguma coisa?

Ela repara nos ombros dele, onde os suspensórios lhe fazem marcas na camisa. Olympia tem marcas de transpiração em volta da gola e sente vontade de a desapertar. Vê um balão às riscas azuis e laranja elevar-se por sobre o ombro direito dele.

Nobalão sobe lentamente no ar um pouco denso - um objecto maciço, vistoso e imponente -, ganha altitude e flutua na direcção deles. Estão dois homens em pé nas barras paralelas suspensas do chão. Acenam à multidão em baixo. Olympia pensa na vista de que devem estar a desfrutar e, por um momento, sente inveja e deseja estar a voar com eles.

- Olympia, não se sente bem? - Haskell volta a perguntar.

Está tão próximo dela que ela lhe distingue os poros da pele e o seu odor aliado à goma da camisa. Debaixo dos braços tem marcas de suor. Apetece-lhe deitar-se. Observa o balão que começa a subir mais rapidamente e a passar por cima deles. E, em seguida, surpreendida pela visão dos aeronautas a desprenderem-se do ar e a lançarem-se de pára-quedas para terra. Parecem apenas pequenos pontos no ar e, Á distância, ouve a exultação abafada da multidão.

Lentamente e sem preâmbulos, Olympia pega na mão de Haskel e leva-a à sua garganta. Abre-lhe os dedos e pressiona-os contra a sua pele. Instala-se entre ambos um silêncio prolongado.

- Olympia - diz Haskell em voz baixa, retirando a mão -, tenho de lhe dizer uma coisa agora. Daqui a pouco, estamos junto da fogueira com o seu pai e não haverá outra oportunidade.

Prende-se-lhe a respiração no peito.

- Tenho-me censurado mil vezes desde o dia em que tomei certas liberdades consigo em sua casa - diz ele. - Quando a fotografei. Na altura, senti-me incapaz de me conter, embora seja cobardia refugiar-me agora nessa desculpa.

Ela abana levemente a cabeça.

- É imperdoável, imperdoável - diz ele acaloradamente. - E peço-lhe sinceramente que me perdoe, e tem de perdoar-me porque não consigo trabalhar em paz e sossego só de pensar nisso e no mal que lhe fiz.

À volta deles, as crianças gritam e correm, indiferentes ao drama que se desenrola ali tão perto. As gaivotas, sempre na esperança de um pedaço de comida rejeitado, descem em voos picados perigosamente próximos das cabeças de ambos. Haskell abre a boca e fecha-a. Abana a cabeça. Desvia os olhos rapidamente para o mar e de novo para ela.

Os aeronautas aterram na areia. O balão prossegue o seu voo no caminho no céu.

- Vou-me agora embora - diz Haskell. - Se o seu pai nos tiver visto juntos, diga-lhe por favor que fui chamado de urgência. E é verdade. Vou já para a clínica. Não voltarei a visitá-la. Compreende certamente. Não voltarei a visitar a sua família, por mais constrangedor que isso se possa revelar.

E como ela pensa que ele tem sinceramente a intenção de a deixar ali, estende a mão para o seu braço e, embora apenas agarre uma pequena parte do punho da camisa, é o suficiente.

- Vou consigo - diz calmamente. Não se sente imprudente. Está segura das suas palavras e lúcida acerca das suas implicações.

- Ainda há pouco disse que esta tarde está com falta de pessoal.

- A clínica não é sítio para. - começa ele, mas depois cala-se. Já tiveram esta conversa.

- Acho que sou capaz de fazer recados como qualquer um. Não dei provas na noite do naufrágio?

- Olympia, vai arrepender-se disto - diz ele solenemente.

Ela estende o olhar até ao horizonte, onde o balão não passa de um pequeno ponto, pensando onde acabará por aterrar.

- Então deixe-me ao menos vivê-lo antes de me arrepender - diz ela calmamente.

Ele abre a boca como se fosse falar, mas hesita. - Não, não posso permitir uma coisa destas - diz finalmente e deixa-a.

Ela fica a vê-lo afastar-se até ele se tornar num ponto indistinto na areia. Quando está quase fora de vista, começa a segui-lo. Durante algum tempo, caminha num passo normal e, em seguida, larga numa corrida.

Olympia espera, como combinaram, nas traseiras do Highland enquanto ele vai buscar uma carruagem à cavalariça. Está em pé, tem areia nas botas e não deseja cruzar-se com ninguém conhecido dela ou do pai pois não poderá explicar muito bem a sua presença na berma da estrada nem, se Haskell aparecer nesse momento, a sua intenção de o acompanhar na carruagem. Espera que o pai tenha bebido o suficiente para dormir a sua habitual sesta do 4 de Julho na areia junto da fogueira de algas, como muitos dos homens neste dia, um destroçar democrático das tropas se é que tal coisa existe.

Haskell surge da esquina numa pequena charrete com um toldo que bamboleia violentamente na estrada de terra batida, crivada de sulcos. A carruagem está pintada de verde-garrafa e tem rodas amarelas. De lado está escrito, numa letra singela, Highland Hotel. Haskell foi ao quarto buscar a sua maleta, o casaco e o chapéu e apresenta aos olhos dela um aspecto tão agradável que, apesar dos tremores, apesar do facto de ter começado a tremer perante a audácia dos seus actos, não pode deixar de sentir uma alegria interior ante a expectativa de ir sentada ao seu lado. Ele desce da carruagem para a ajudar a entrar.

Percorrem toda a estrada sinuosa entre a baía e o oceano, passando por muitas casas, muros de pedra e carruagens que circulam aos solavancos pela superfície compacta de terra batida, tal como o coração deles. Homens de bicicleta tocam as campainhas e levantam os chapéus em jeito de saudação e uma família de ciganos, com latas para as esmolas, tenta deter a charrete. Esta parte do mundo é plana, apenas delimitada por muros de pedra, casas de madeira, algumas árvores e pinheiros-anões. Passam por um grande grupo de foliões numa carroça de feno e, ao virarem no fim da estrada costeira, ela avista novamente o posto de socorro. Pensa se o pessoal de serviço terá autorização para participar nos festejos e depois conclui que não porque a natureza, nos seus caprichos e furores, não conhece feriados. Imagina que, no mínimo, os nadadores-salvadores terão de estar vigilantes não vá algum banhista perdido ser engolido pelas ondas.

Atrás do posto de socorro, o sol é reflectido pelo oceano com tal ferocidade que ela não consegue ver a casa do pai nos rochedos no extremo da praia - o que só lhe dá satisfação porque, neste momento, não deseja que nada lha recorde. Vira a cabeça para a baía que proporciona uma vista mais tranquila com a sua flotilha de chalupas e escaleres fundeados. Vê o campanário castanho e ocre da igreja congregacionalista, a decrépita cooperativa das pescas e o comprido cais que tanto atrai embarcações mercantes como de recreio. Mais ao largo vêem-se muitos esquifes e botes com cavalheiros aos remos e senhoras muito aprumadas sentadas à ré, desfrutando os seus agradáveis passeios debaixo de sombrinhas de folhos.

Pouco depois, saem de Fortune's Rocks e entram nos pântanos, um labirinto aquático de juncos altos, aves raras e lírios rosa e brancos. Olympia prefere atravessar os pântanos de esquife ao pôr-do-sol, ou antes, na meia hora que o precede, quando a luz cor de ferrugem do sol poente incendeia as ervas e transforma a água cor-de-rosa em azul metálico. Por vezes, nestas excursões solitárias, perdem-se deliberadamente no meio das passagens pouco fundas, descobrindo uma espécie de plácida emoção nos juncos cor de gengibre. O desafio é então encontrar o caminho de volta através do labirinto aquático e só recorda uma ocasião em que deu consigo num improdutivo beco sem saída e teve de pedir ajuda a um rapaz que estava a pescar na margem.

Silenciosamente, atravessam a aldeia de Ely com as suas imperturbáveis casas de madeira, construídas um século antes por homens que evitavam adornos. No centro da aldeia, há um talho, uma carroça da carne estacionada ao lado, uma oficina de ferragens, um boticário, a bomba colectiva. Por causa do feriado, não se vêem pessoas nas ruas. Na realidade, a calma é quase fantasmagórica, como se uma epidemia tivesse dizimado a população, ainda que Olympia saiba que foi uma febre de boa disposição que contagiou as pessoas e as fez sair da aldeia.

Seguem o trajecto do trolley para Ely Falls onde os edifícios estão enegrecidos pela fuligem das fiações. Não conversam muito, trocam alguns gracejos que lhe soam estranhos. Procura prestar atenção ao mundo à sua volta, mas continua preocupada. Ao dirigirem-se para a clínica, tanto a beleza dos pântanos como o bulício da cidade parecem simples paisagem ou um estribilho do verdadeiro drama que presentemente se desenrola: o drama silencioso e mudo representado por ela e por Haskell.

A rua principal da cidade está repleta de lojas, todas decoradas com metros e metros de bandeiras festivas: farmácias, confeitarias, bares, chapelarias, relojoarias. Passam por um restaurante e uma fábrica de sapatos: Coté e Reny. Por cima das lojas, há mais nomes franceses e alguns irlandeses: Lettre, Dudley, Croteau, Harrigan, LaBrecque. Dobram uma esquina e ficam lado a lado com um desfile em honra do feriado. Olympia repara nos homens de trajes napoleónicos e nas bandas em marcha, nas corporações de bombeiros em bicicletas de segurança. Descobrem que o desfile termina quando são obrigados a fazer um desvio numa tenda de circo de dois postes que parece ter atraído, pelo menos, metade da cidade. Os edifícios das fiações propriamente ditas são enormes e dominam a cidade. São na sua maioria estruturas de tijolo com janelas amplas e estendem-se por toda a margem do rio Ely. Para lá destas fábricas, encontram-se as casas dos operários, fila atrás de fila de pensões com um aspecto insípido e utilitário. Talvez os quarteirões de residências tenham tido outrora uma aparência nova e extravagante, mas é claro que os edifícios, que não possuem portadas nem pintura, foram abandonados à degradação e os esforços de conservação foram insuficientes.

Detêm-se à porta de um edifício de tijolo pouco atraente, um entre muitos. Haskell ajuda-a a descer e agarra na mala que está no fund o da carruagem. Ela segue-o até à porta da entrada onde ele leva a mão ao fecho. Hesita e parece que vai falar.

Ela abana rapidamente a cabeça para calar as palavras dele. - Não se preocupe por minha causa - diz. - Não fizemos nada de mal.

Embora ambos saibam - como podiam não saber? - que fizeram. Fizeram e muito.

É no barulho que Olympia repara em primeiro lugar. Numa ampla divisão que ela deduz ser uma sala de espera, ouve um grupo de crianças pequenas a guinchar e a berrar enquanto se perseguem umas às outras pelos corredores. Junto delas, uma mulher que parece completamente encolhida sobre si mesma, chora e pragueja alternadamente. Homens com mais ou menos roupa cospem asperamente catarro e uma mãe, com uma voz rouca, repreende um grupo de rapazes que tentam apinhar-se numa balança. Olympia ouve igualmente os murmúrios irritados de pacientes que se vêem obrigados a esperar e os gemidos de outros que estão visivelmente com dores: uma velha que choraminga e uma mulher mais nova, em trabalho de parto, que geme desesperadamente. Estas pessoas estão sentadas ou deitadas numa série de bancos de madeira que pela sua disposição lembram bancos de igreja; e a assembleia inteira parece-lhe nada mais nada menos do que uma congregação de fiéis; bizarra e ruidosa, que espera, exaltada, pelo seu pastor. À medida que Haskell atravessa a sala em passadas largas e decididas, começa a instalar-se uma espécie de ordem como se os doentes pudessem antever a sua cura. Haskell fala imediatamente com uma enfermeira que tem uma touca engomada de musselina branca e um vestido azul com mangas que Olympia assume já terem sido brancas, mas que agora estão pintalgadas ou manchadas de sangue e outras substâncias em que não quer pensar. A enfermeira tem um maço de papéis numa mão e, na outra, um relógio que mantém preso ao cinto com uma corrente. É uma postura infeliz porque implica que está a repreender Haskell por chegar atrasado.

- O feriado é pior do que o sábado à noite por causa das brincadeiras e dos ferimentos daí resultantes - diz a enfermeira num sotaque de vogais abertas que Olympia reconhece ser natural.

- Há sete doentes que chegaram com intoxicações alimentares, causadas por carne de conserva estragada e há três rapazes que caíram no canal de escoamento das águas da catarata, o que andavam a fazer a atravessar o rio nesse ponto não lhe sei dizer, mas pode-se dizer que estão em muito mau estado. E hoje estamos com falta de pessoal. bem, não admira que se tenha chegado a este ponto. Ah, e há um rapaz, o filho dos Verdenne, que deu entrada ainda não faz uma hora com garrotilho diftérico e lamento dizer que faleceu, doutor.

(A meia hora que reteve Haskell na praia, pensa Olympia, com o primeiro de muitos pequenos choques que sofreria nessa tarde).

Haskell parece perturbado, mas não excessivamente. Talvez saiba que a criança teria morrido mesmo se tivesse estado presente.

- Esta é Miss Olympia Biddeford - diz ele, virando-se para ela. - Olympia, esta é a enfermeira Graham - acrescenta, em jeito de apresentação.

A enfermeira Graham, que aparenta cerca de vinte e cinco anos, estreita os olhos na direcção de Olympia, mas o seu escrutínio é rápido. Tem outros problemas mais prementes com que se preocupar.

- Prometi à minha família que terminava às duas horas, doutor - diz ela.

- Sim, com certeza - responde Haskell. - Está alguém lá atrás?

- A Yvonne Paquet está cá, doutor. E o Malcolm.

- Divirta-se então - diz ele, voltando-se para inspeccionar o rebanho que, por esta altura, já se calou e o observa com grande interesse. Haskell inspira e sustém o ar e, em seguida, expira com longo e lento suspiro.

- Vamos lá começar - diz a Olympia.

A clínica ocupa o rés-do-chão de um edifício que fora até recentemente um armazém têxtil. Tem várias divisões, uma das quais Olympia tem oportunidade de examinar à vontade pois é aquela em que Haskell instalou o seu consultório temporário. Contém uma secretária, uma marquesa e vários armários repletos de medicamentos que Haskell frequentemente lhe pede, à medida que avança: quinino, acónito, álcool, mercúrio, estricnina, arsénico. Existe um quadro optométrico e uma balança com inúmeros pesos, um vaporizador, um copo graduado e compridas tinas de metal com instrumentos - bisturis, agulhas e tesouras. Repara numa grande redoma de vidro, num microscópio e em vários sacos cobertos com flanela cuja finalidade não chega a determinar. Num fogão próximo fervem continuamente panelas com água.

A enfermeira Paquet, uma rapariga insípida e taciturna, não muito mais velha do que Olympia, interroga os doentes enquanto Olympia funciona como assistente de enfermagem, indo buscar ligaduras, medicamentos e tónicos, limpando instrumentos e voltando a colocá-los na água fervente e, por uma ou duas vezes, segurando no braço ou na mão de uma criança enquanto Haskell procede aos tratamentos. O primeiro paciente que examina nesse dia é um homem que poucas semanas antes perdera o braço até ao cotovelo numa máquina de fiar. Haskell começa por desenrolar a ligadura do homem com movimentos extremamente cuidadosos. Fala num tom de voz calmante, tentando distrair o mecânico com perguntas e gracejos, e Olympia deduz que incutir confiança no doente e suscitar a sua colaboração são procedimentos prioritários em qualquer tratamento. Nessa tarde, observa que Haskell é um médico afectuoso, para não dizer terno.

- Olympia, traga-me ligaduras novas - instrui. - Aí, nesse armário de metal.

Ela encontra a gaze e tiras de tecido rasgadas onde ele disse que estariam e entrega-as a Haskell.

- Contrariamente à opinião médica estabelecida, o pus não tem qualquer valor intrínseco - diz ele, desenrolando as ligaduras imundas e indicando com um gesto a exsudação de um coto arroxeado que exala um odor tão poderosamente execrável que ela leva sem querer, as costas da mão ao nariz e se afasta. - Diz-nos simplesmente que o doente está a sofrer e que a ferida está infectada continua ele. - Dei instruções para que qualquer doente que entre na clínica com um curativo malcheiroso deve ser imediatamente atendido, mas por vezes é difícil convencer enfermeiros destes procedimentos, quando lhes ensinaram o contrário.

Olympia olha para a enfermeira Paquet, cuja expressão solene não se altera. Olympia observa Haskell que retira instrumentos de panelas de água fervente. Depois de limpar meticulosamente a pinsa com ácido carbólico, começa a raspar a zona infectada. O paciente, apesar das palavras tranquilizadoras de Haskell e de uma raspagem competente, não consegue evitar gritar de dor. No entanto, Olympia observa que Haskell é rápido e preciso nos seus gestos e que, quando a dor parece intolerável, pára e administra láudano com uma colher de chá para atenuar o sofrimento do paciente - o que, milagrosamente, acontece. O homem, que deixa de gritar e de tremer, mantém-se imóvel enquanto Haskell termina o tratamento e volta a ligar a ferida. Nessa tarde, Haskell engessa uma perna partida, ministra várias injecções, usa um Pulmotor num jovem que está em fase terminal de pulmão branco e trata outro homem que se queixa de secura na língua, febres durante a noite e dores junto dos mamilos. Diagnostica escarlatina com base numa reveladora mancha cinzenta no palato, limpa um abscesso, apalpa as costas de uma criança que suspeita de ter pleurisia e distribui tónicos. Um dos rapazes que caiu ao rio morre nessa tarde em resultado dos feri mentos sofridos, e a mulher que gemia na sala de espera dá à luz uma menina saudável (embora não assistida pessoalmente por Haskell).

Olympia observa tudo isto como se estivesse a ser iniciada numa nova língua e devesse prestar atenção. Sente várias vezes o estômago subir à garganta, mas está determinada a não trair qualquer fraqueza. Ocasionalmente, Haskell manda-a pôr uma máscara na presença de alguma doença altamente infecciosa e lembra-lhe constantemente que lave as mãos, que estão quase esfoladas quando a tarde chega ao fim. E, embora se esforce por manter a compostura, é impossível não se deixar tocar pelas pessoas tratadas por askell e, por vezes, dá consigo à beira das lágrimas. Já próximo do fim da sua visita à clínica, um rapaz e uma mulher entram e queixam-se de pruridos entre os dedos que, entretanto, começaram a sangrar copiosamente. Haskell diagnostica sarna. Mas a verdadeira enfermidade, como Olympia imediatamente se apercebe, é uma doença séria como nunca encontrou antes. A mulher está embriagada e Olympia acha que o rapaz também deve estar, embora não possa ter mais de dez anos. A mulher traz uma blusa de seda verde desbotada e um lenço fino de lã preta atado ao pescoço. O cabelo cai-lhe em madeixas desgrenhadas de um chapéu de palha imundo. A roupa do rapaz - uma camisa velha de algodão, calças e um colete, fica-lhe tão grande que teve de ser arregaçada e presa. As botas pretas da mãe estão rotas e o rapaz está descalço.

Quando Olympia olha para aqueles pés enfezados, incrustados não de areia, mas de lixo, sente uma onda de vergonha. Ter-se comprazido, ainda horas antes, em andar descalça parece agora escandalosamente insensível. Como pode desdenhar do que tão poucos têm? Nesse momento, Haskell olha para ela e ela pensa que deve estar pálida.

E ele olha-a, sim, nesse dia. Olha. Muitas vezes. Uma dúzia de vezes, talvez. Os seus olhares cruzam-se e, embora não troquem palavras - e ele não altere a sua expressão nem interrompa a conversa com um paciente -, cada olhar parece a Olympia carregado de intenção. Estes olhares são, de um modo estranho, simultaneamente perturbantes e reconfortantes para ela. Por várias vezes, sob o seu olhar acutilante, ela sente receio de simplesmente se desfazer ou desintegrar. Mas depois recompõe-se porque à sua volta estão os doentes e os feridos que exigem, no mínimo, a profunda atenção de outra pessoa.

Estranhamente, nenhum dos doentes questiona a sua presença.

Talvez sejam a blusa cinzenta e a saia azul-marinho ou a ausência de adornos que os levam a tomá-la por uma enfermeira estagiária ou uma aprendiz; e parecem aceitar que ela permaneça no consultório enquanto são tratados. O que não podem saber e que, na e dade, nem ela é capaz de se aperceber, é que, embora observe o funcionamento da clínica, estuda também o médico. É uma iniciada, mas não, como pensam os doentes, nas artes da enfermagem.

Quando finalmente sair da clínica nesse fim de tarde, não será a mesma pessoa que entrou. No espaço de cinco horas, terá visto mais dor, sofrimento e alívio do que em toda a sua vida. Sim, o pai pode falar-Lhe do mundo, ou ela pode ler sobre ele nos livros, discuti- lo com cortesia à mesa do jantar, mas sempre a uma distância segura. Ao longo da tarde, Haskell mostra-lhe um pouco do verdadeiro e do visceral. Abre as costuras e fá-la olhar. E, de modo estranho, está a prepará-la, mas não da forma que a imaginaram: é uma iniciação rápida e brutal nos mecanismos do corpo, um vislumbre do que é possível, um antegosto da intimidade futura. Mais tarde, ela virá a compreender que ele revelou tanto do seu carácter ao iniciá-la deste modo quanto ela própria, ao instigar esta instrução.

Ao fim da tarde, a clínica começa a acalmar à medida que os pacientes vão, um a um, sendo mandados embora ou admitidos em enfermarias improvisadas. Depois de Haskell examinar uma criança com sarampo, diz a Malcolm, que parece ser um faz-tudo apesar de claramente conhecedor dos nomes dos instrumentos e tónicos medicinais: - Vou só levar Miss Biddeford a casa e volto mais tarde, depois de comer. A enfermeira Paquet fica a tomar conta até eu regressar.

- Sim, senhor doutor - responde Malcolm -, mas antes de ir, Mrs. Bonneau pergunta se pode tratar uma jovem mulher que está com dores de parto violentas. Pede para levar o láudano porque é um parto com apresentação pélvica e susceptível de causar dificuldades terríveis à mãe.

Haskell olha para Olympia.

- Não precisa de se apressar para me levar a casa - diz ela sem hesitação. - O meu pai não dá pela minha falta porque acha que eu estou em casa dos Farragut. E eles quase de certeza já desistiram de esperar por mim e julgam que eu estou em casa com o meu pai. Como vê, estou numa espécie de limbo de liberdade no que respeita ao meu paradeiro.

Não é inteiramente verdade, como ela bem sabe, o pai depois

ao acordar da sua sesta do 4 de Julho, pode perfeitamente andar um momento à sua procura. Mas também sabe que o dia em si tem uma certa liberdade de acção que não lhe é normalmente permitida e que, se for astuta e o pai tiver bebido o suficiente, poderá justificar a sua ausência a contento do pai.

Haskell acaba de lavar as mãos e seca-as num pano que Malcoln segura. Olympia vê-o desenrolar os punhos da camisa e colocar os botões que guardou no bolso das calças. Ele tira o avental, fá-lo numa rodilha e atira-o para um cesto de roupa suja. Tem uma mancha de sangue junto ao ombro e o rosto perdeu alguma da cor com a fadiga. Mais tarde, ela compreenderá que está aganhar tempo, a pensar seriamente nas consequências de ir com ele à sala em que Mrs. Bonneau e a doente esperam; porque compreende, e ela não, que Olympia está prestes a ver uma coisa para a qual preparação alguma será adequada e que, uma vez testemunhada, nunca poderá ser apagada da memória.

Retira o casaco do cabide atrás da porta. - Há um saco com panos esterilizados no armário da sala ao lado, Olympia - diz ele. - Não é pesado. Se puder trazê-lo, podemos ir.

A luz suavizou-se um pouco e há sombras nas ruas. Uma brisa fresca e húmida de leste desliza através das ruelas estreitas e perpassa-as a intervalos regulares. O céu está de um azul- celeste vívido e limpo de nuvens. Será uma noite agradável, Olympia sabe, e mesmo agora, nesta rua feíssima, a luz brinca de forma deslum brante sobre os tijolos, captando uma vidraça e fazendo-a cintilar em tons de prata, transformando as pontas das folhas das árvores num rosa bruxuleante. Caminham lado a lado, pouco falando, ten tando ignorar a imundície que vão encontrando pelo caminho, não apenas os detritos do quotidiano citadino, mas também as sobras dos muitos foliões de um dia de festa: garrafas partidas, dejectos humanos, peças de roupa despidas e não recuperadas, charcos de água de lavagem lançada de janelas de segundo andar, restos de comida, louça que tresanda a cerveja. Mais do que uma vez, Olympia receia apanhar um banho na cabeça e arrepende-se de não ter posto o chapéu. Mas chegam sem incidentes à casa geminada indicada e sobem as escadas até ao local onde a infeliz mulher reside. Haskell abre a porta e entra sem bater.

O quarto não é maior do que o de Olympia em Fortune's Rocks, uma câmara exígua com apenas uma janela que abre para um muro a menos de três metros de distância. Embora seja ainda dia, a luz é escassa e Olympia demora um momento a adaptar-se à penumbra. Na cama, está deitada uma mulher em sofrimento evidente porque se contorce, cerra os dentes e expele o ar em sopros violentos, gritando palavras num francês tão pronunciado que Olympia não consegue compreendê-la. Tem as saias arrepanhadas até à cintura e, já da porta, Olympia vê a pele e o travesseiro encardido cobertos de sangue. As pernas nuas, a virar-se e a torcer-se na cama, são chocantes e Olympia tem a sensação de que levantou uma pedra e encontrou inesperadamente uma massa de vermes transparentes, incolores por nunca terem estado expostos ao sol.

Olympia respira com dificuldade. Refreia o impulso de vomitar e de sair porta fora.

Pouco depois, Haskell despe o casaco. Uma rápida inspecção ao quarto indica a ausência de uma bomba de água e ela apercebe-se de que ele decide passar sem lavar as mãos por uma questão de tempo. Quando se senta na cama, os dedos dele desaparecem por baixo do diminuto recato da fina tira de tecido que esconde a parte mais privada da mulher cujo nome, Olympia fica a saber, é Marie Rivard. Haskell fica, por um momento, ocupado e parece confirmar o que lhe foi dito. Fala em francês com Mrs. Bonneau, uma mulher mais velha com uma atitude nervosa, que lhe explica ter sido chamada por um dos filhos da mulher que receava pela vida da mãe. E que fora mais ou menos esta a cena com que se deparara ao chegar. Acrescenta, com grande expressividade e muitas imprecações, que a rapariga acamada é uma imigrante recém-chegada. Tinha marido, mas este havia abandonado a família alguns meses anttes. Marie Rivard, que deve ter, pelos cálculos de Olympia, vinte e muitos anos - embora seja impossível atribuir uma idade à convulsiva figura na cama - não conseguiu arranjar trabalho por estar grávida.

Olympia repara então nos restantes ocupantes do quarto: três crianças, das quais nenhuma parece ter mais de nove anos, sentadas no chão e encostadas à parede. Estão todas descalças e trazem roupas imundas de um tecido miserabilíssimo, escuras, descoradas e muito disformes. É evidente que as crianças não tomam banho há muito tempo. A pestilência no cubículo exíguo e abafado é considerável. As paredes do quarto não têm papel e, com anos a cozinhar no interior, escureceram e ficaram engorduradas. Não há nenhum guarda-fatos nem baú, apenas uma despensa pouco funda; e quando a porta desta é aberta, Olympia fica surpreendida ao descobrir que não está atafulhada com os pertences dos ocupantes, mas completamente vazia. Embora esteja pendurado num cabide um casaco de omem, não se vislumbram quaisquer outros sinais de ocupação masculina. Um canto do quarto, onde o soalho contacta com o quarto do lado, está queimado como se já ali tivesse sido acendida uma fogueira. Por cima do fogão encardido encontram-se alguns utensílios de cozinha grosseiros: um coador, uma faca, uma panela. Há várias peças de roupa penduradas em pregos pregados em cornijas. Apercebe-se de que não se vêem sinais de um brinquedo ou de um jogo para nenhuma das crianças. Contudo, nos recessos do peitoril da janela, está uma pilha alta de roupa dobrada, parcialmente embrulhada em papel castanho. Ao lado deste embrulho, está um porta-retratos em filigrana de prata com a fotografia de um homem e de uma mulher no dia do seu casamento. A noiva enverga um vestido comprido de cetim branco com uma delicada mantilha que lhe cai sobre a fronte. O homem, com um fato de lã grossa, está aprumado e como que em sentido. Olympia olha para a mulher na fotografia e para a mulher na cama. Poderão ser a mesma pessoa? E se são, como é possível que esta espantosa fotografia e o porta-retratos tenham sido poupados à sorte de serem trocados por comida, como quase tudo o mais no quarto parece ter sido?

Haskell não perde tempo a administrar colheres de láudano à parturiente. Usa o seu próprio utensílio e tem o cuidado de não deixar cair quaisquer gotas. As convulsões na cama diminuem e gritos inenarráveis transformam-se em gemidos suaves.

- Olympia, dê-me o saco.

Ela passa-lhe o saco de panos esterilizados e observa-o com curiosidade e admiração enquanto ele tira um lençol do saco, faz a cama de um lado, estica bem o lençol e, com um truque cuja mecânica ela não consegue captar, passa o lençol por baixo da mulher, prendendo-o rapidamente do outro lado. Tapando-a com um pano branco, ele e Mrs. Bonneau conseguem despir-lhe a roupa imunda.

- Olympia, importa-se de tentar encontrar a bomba? disse ele rapidamente num tom neutro, como se estivesse simplesmente a pedir-lhe um lápis enquanto considera a correcção de um parágrafo meio escrito. - Pegue nessa panela aí e traga-a cheia de água. Tenho de lavar a mulher.

Olympia retira a panela do respectivo gancho por cima do fogão e dirige-se para o corredor à procura de uma bomba. Sabe que deve situar-se nas traseiras da casa de tijolo, mas a princípio não consegue determinar como se chega às traseiras do edifício; tem de contornar o quarteirão inteiro e entrar na viela. No entanto acaba por descobrir na cave uma pequena porta que dá para um tanque ressequido. A bomba no centro deste está enferrujada e os seus movimentos são secos; mas ao cabo de várias tentativas infrutíferas Olympia consegue por fim que a água flua. O odor pestilento da latrina próxima é quase sufocante e ela pensa que não deve ser esvaziada há bastante tempo. Respirando a custo, enche a panela, volta pelo mesmo caminho e sobe os dois lanços de escadas até ao quarto de onde há pouco saiu. Quando lá chega, dá com a porta fechada e as três crianças à espera no corredor. Estão sentadas no chão, com as pálidas pernas esticadas, a arrancar botões de peças de roupa que tiram do embrulho de papel que Olympia viu no peitoril da janela, tendo o cuidado de não deixar a roupa tocar no chão. Com movimentos destros, manejam os pequenos canivetes, fazem saltar os botões no ar, apanham-nos à primeira e atiram-nos para uma lata que têm à sua frente. Se a cena não fosse tão angustiante pelas suas implicações, o talento com que as crianças cumprem a tarefa, as mãos quase voando mais depressa do que os olhos conseguem acompanhar, seria espantoso e talvez até divertido. Mas como a sua destreza apenas testemunha as centenas de horas que devem ter passado a aperfeiçoar tal talento, qualquer espanto ou divertimento que Olympia pudesse sentir transforma-se rapidamente em consternação.

De trás da porta do quarto, ouve um grito profundo e gutural. As crianças não se mexem. Só a mais pequena, que não pode ter mais de três anos, se imobiliza por um momento e chupa no dedo polegar que a rapariga mais velha imediatamente lhe afasta da boca com uma palmada.

Olympia está desamparada com a panela nos braços, sem saber que fazer pelas crianças. Bate uma vez à porta e a velha abre-a. Tira a panela das mãos de Olympia e coloca-a no fogão. Quando Olympia olha para a parturiente na cama, depara-se-lhe uma visão exctraordinária. Haskell manobrou a mulher de modo a pô-la de joelhos, apoiada nos cotovelos. Haskell está ajoelhado com os braços entre as suas coxas, as mãos profundamente mergulhadas dentro dela. Olympia, condoída, sente um aperto no estômago. Mas apercebe-se de que não consegue desviar os olhos.

Sobre a realidade do nascimento, Olympia tem apenas uma noção muito vaga, sendo os seus conhecimentos de anatomia, quando muito, deficientes. O nascimento é mais do que apenas um mistério para ela; é um assunto sobre o qual nenhuma pessoa educada alguma vez falou - nem sequer Lisette que a educou em alguns factos da vida, mas que se limitou a esses fragmentos de informação absolutamente necessários para que Olympia desse os primeiros passos na idade adulta. Assim, sente-se ao mesmo tempo receosa e exultante perante a visão das pernas abertas de uma mulher, o seu lugar mais privado distendido, dorido e roxo, violado não só pelas mãos do seu médico, mas também pela vida violenta que se arremessa inexoravelmente contra ela e a faz gemer num torpor induzido por drogas. Se Olympia tem quaisquer pensamentos conscientes perante esses breves momentos assombrosos, é para se espantar com a crueldade de um Deus que só através de violência, dor e sofrimento, é capaz de oferecer à humanidade a grande dádiva dos filhos.

Enquanto ela observa em transe, Haskell parece debater-se com o bebé, como se estivesse a arrancar um nabo obstinado da terra dura. A mulher grita, mesmo sob o efeito do láudano. Quantidades copiosas de sangue derramam-se no lençol branco. Mas Haskel parece satisfeito com o desenrolar da situação ao retirar a mão e pressionar com força o ventre da mulher, massajando e friccionando a massa viva que se encontra dentro. Num abrir e fechar de olhos, parece- lhe, Haskell muda abruptamente de posição e vira com suavidade a mulher de costas. Põe as mãos em concha como um padre que espera água benta. A escorregadia criatura púrpura azul desliza para fora, para o seu novo mundo.

Haskell tira um pano do saco e limpa fluidos dos olhos, nariz e boca do bebé. Segura o recém-nascido num ângulo estranho. Olympia repara que é uma menina. O primeiro berro ouve-se de imediato; e ao fim de vários sopros, a pele perde o seu tom azulado e torna- se rosada. Olympia começa a chorar - não sabe se de alívio, de exaltação ou do choque do nascimento.

Haskell examina as extremidades e orifícios da criança e

serve-se da água morna para a lavar. Ocupa-se da mãe e extrai-lhe substâncias do útero. Exausta do trabalho de parto, a mãe sucumbe a um sono profundo que evoca a morte. Ele dá instruções a Bonneau que coloca o bebé lavado no peito da mãe inerte. escuta a respiração de Marie Rivard e dá mais instruções. É outra vez, neste dia, que Olympia ouve irritação na sua voz e que deve ser resultado do seu próprio cansaço ou talvez consternação e frustração com as horríveis condições em que vive a indigente família.

Lava as mãos e os pulsos na pouca água que resta, usando um sabonete antracite e deixando uma espuma de sangue e a água cinzenta que faz Olympia desviar-se. Haskell diz à velha que massaje o útero dorido e que vai mandar Malcolm com panos lavados e gaze para estancar a hemorragia. Leva a mão ao bolso do casaco e tira algumas notas de dólar que entrega a Mrs. Bonneau. Manda-a comprar laranjas, leite e pão de trigo para as crianças, com a recomendação de não dar o dinheiro a nenhum parente masculino e não o gastar em bebida. Inquestionavelmente reconhecida ao Dr. Haskell por ter salvo a vida da criança e possivelmente também a da mãe franco-canadiana recém-chegada, Mrs. Bonneau promete fazer exactamente o que ele pede. Mas quando Olympia olha para o rosto de Haskell, nota que a sua expressão é irónica, para não dizer sardónica; e pensa que ele não deve ter muita esperança que as suas instruções sejam cumpridas à risca.

Depois de Haskell se limpar e vestir, faz um gesto a Olympia e saem do quarto. Alinhadas no chão, sempre a fazer saltar destramente botões, estão as três filhas da mulher que acabou de dar à luz. Se sabem que agora têm mais uma irmã, não o demonstram. Haskell acocora-se diante da mais pequena das três, toma-lhe a cabeça nas mãos e puxa para trás a pálpebra do olho direito da criança. Examina-a pensativamente e depois diz em francês: Porque é que não estás a brincar lá fora no feriado? - A criança encolhe os ombros. Haskell mete a mão no bolso da camisa e retira uma mão-cheia de caramelos, que distribui pelas três crianças. Em

seguida, levanta-se e, sem bater, abre a porta do quarto. Dá à velha mais uma série de instruções.

- Oui, oui, oui - ouve Olympia do outro lado da porta.

Encaminham-se para a charrete. Haskell ajuda-a a entrar, subindo ele a seguir e pegando nas rédeas. Durante a sua ausência o sol já quase se pôs e o céu exibe a aparência de pó de anil. Seguem o mesmo trajecto, ao longo da linha do trolley, e dirigem-se para Fortune's Rocks, uma distância de cerca de doze quilómetros. De quando em quando, Olympia começa a tremer à recordação dos extraordinários acontecimentos dessa tarde. Estranha que Haskell não sucumba perante o simples peso do seu convívio com ferimentos e doenças mortais. Mas depois depreende que um médico, familiarizado com as vicissitudes físicas do nascimento e da morte, quando não, de facto, acostumado a elas, encara possivelmente as ocorrências dessa tarde como simples lugares-comuns; embora não consiga imaginar como é que ver o corpo humano às portas da morte, como acabaram de ver, pode alguma vez ser assimilado como uma questão de rotina. As mangas da camisa dele estão sarapintadas de sangue e de outras substâncias e ele exala um odor distintamente masculino - não desagradável, mas testemunho das suas próprias canseiras. Decorrido algum tempo, ele fala:

- Não deve ficar assustada com o nascimento de uma criança

- diz ele. - O que acabou de ver não é antinatural nem anormal. Difícil talvez. A natureza faz, por vezes, uma entrada estrondosa e uma saída lamurienta, embora lhe garanta que pode acontecer de outro modo. Receio ter ferido gravemente a sua susceptibilidade.

- Não feriu - diz ela. - Atordoou talvez. E não sou tão susceptível como imagina. Estou-lhe, aliás, muito agradecida por me ter deixado assistir ao nascimento, que foi um milagre assombroso. E não é sempre melhor conhecer a verdade das coisas?

- Tenho opiniões contraditórias a esse respeito - diz ele pensativamente.

- Mas que ganha uma mulher em esconder-se das realidades físicas do seu corpo? Para ficar aterrorizada quando o momento chega? Não sei como teria alguma vez tomado conhecimento destas questões quando tenho sido tão excessivamente protegida.

- E muito avisadamente - diz Haskell. - A protecção de que é alvo permitiu-lhe crescer, desenvolver-se e florescer de forma perfeitamente saudável e apropriada. E se a alternativa à protecção é arrancar botões em condições de imundície e degradação, então sou a favor dessa protecção, ainda que seja asfixiante. - As crianças deviam ser entregues a um orfanato - diz acaloradamente.

- Tiradas à mãe? - pergunta ela.

- Porque não? Como pode uma mulher tão indigente ser boa mãe? Pelo menos num orfanato, aos cuidados das irmãs, as crianças tomam banho, comem regularmente, vestem roupa lavada, apanham ar puro e recebem alguma instrução. No que me diz respeito, aquilo a que acabámos de assistir não foi um nascimento mas antes uma espécie de infanticídio.

- Mas não podemos decerto culpar a mãe pela miséria em que vive - argumenta Olympia. - Com certeza que há um homem envolvido que, pelos vistos, agora está ausente.

- Sentia-me mais inclinado a concordar consigo se não tivesse visto algumas destas jovens imigrantes. tanto irlandesas como franco- canadianas. bêbadas com mais frequência do que me agrada imaginar. E há outras mulheres infelizes, mulheres desesperadas, que ao menos têm o bom senso de pedir ajuda, que suplicam que lhes aceitem os filhos em orfanatos, desde que seja possível arranjar-lhes lugar.

- Não consigo conceber o abandono de um filho - diz Olympia, um pouco confusa. Viu com os seus próprios olhos que as Rivard são crianças aflitivamente negligenciadas, embora lhe custe mais do que a Haskell culpar a mãe. Decerto que não seria de esperar de uma mulher da posição da mãe dela separar-se de um filho mesmo se se visse numa situação difícil na sequência do abandono do marido, mesmo se bebesse excessivamente de vez em quando. A tarde cai subitamente, trazendo consigo a consciência de que Olympia está prestes a chegar imperdoavelmente atrasada. É talvez de justificar a ausência durante o dia, mas à noite o pai ficará de certeza preocupado.

Quanto à sua questão anterior - diz Haskell -, a verdade é que defendo que se proteja uma jovem, no limiar do casamento das particularidades físicas do que, sem dúvida, a aguardar certas situações. e o parto é uma delas. a ignorância era fatal. Já me deparei com jovens mulheres, e não foram poucas, que chegaram ao meu consultório com as dores de parto sem sequer saberem que estavam grávidas.

Olympia interroga-se como tal será possível porque lhe parece que uma ingenuidade destas implica uma ignorância quase intencional. Passam por Ely e apercebem-se de sinais de vida na pequena aldeia: candeias acesas em janelas e vultos obscuros a moverem-se pelas ruas que, como ela sabe, o trolley recentemente largou. Ouvem canções e alguns berros de bêbados, mas os foliões, na sua maioria, fatigaram-se e acalmaram. Ocorre-lhe subitamente, ao jeito dessas percepções que são absolutamente óbvias, que todas as pessoas que estão nesse momento na rua entraram no mundo de uma forma semelhante àquela a que assistiu nessa tarde. E pensa ainda que o espanto reside, não no facto de ter estado presente no parto, mas no facto de ter chegado aos quinze anos sem o ter observado mais cedo e com mais frequência.

- Assistiu ao nascimento dos seus filhos? - pergunta a Haskell.

A pergunta parece surpreendê-lo. Ao entrarem nos pântanos, a meia-lua eleva-se e, com as suas ondulações nacaradas de luz sobre a superfície da água, ilumina todos os trilhos ziguezagueantes e sinuosos do salobro labirinto, conferindo à paisagem uma beleza quase mágica, a aparência do covil subterrâneo de um deus, talvez, ou de um túnel para o reino de uma rainha cruel.

- Estava ausente quando os meus dois filhos mais velhos nasceram - diz Haskell - e presente quando nasceram os três mais novos.

- Tinha a impressão de que tinha quatro filhos - diz Olympia sem pensar.

- O último foi um nado-morto - responde ele.

- Ah, lamento muito.

- Também assim se manifesta a natureza - diz ele, interrrompendo-a. -Teria sido uma criança grotescamente deformada.

Olympia é então assaltada por imagens perturbantes. A de Haskell ajoelhado entre as pernas da mulher, uma imagem em agudo contraste com o casto comportamento do casal na sala de jantar; e a da criança, completamente diferente da que nessa tarde, antes uma criatura de membros informes, empurrava ferozmente para vir ao mundo e perecendo à nascença. Olympia cinge-se com os braços.

E depois, numa sucessão de pensamentos desligados, recorda a fotografia no peitoril da janela do quarto dos Rivard, a pequena imagem na moldura de filigrana prateada, a beleza e a juventude das duas pessoas que posaram no dia do casamento, o belo cetim do vestido e a mantilha com a sua coroa de pérolas. E espanta-se perante a disparidade entre essa pose de civilidade no dia das núpcias e a postura animalesca no ambiente hediondo desse quarto de pensão. E imagina ainda que, se os noivos na fotografia tivessem podido antever as circunstâncias em que esse porta-retratos viria um dia a encontrar-se, os dois inocentes teriam fugido do altar numa incredulidade aterrada.

Haskell pára a carruagem.

- Fomos longe de mais - diz ele, virando-se para ela.

- Não - diz ela -, eu.

Ele inala o ar salgado como se fosse o seu próprio láudano. Inclina a cabeça para trás. Pressente, sem realmente ver, os morcegos que voam na sua direcção e depois se afastam.

- Olympia, quero dizer-lhe uma coisa, mas não o quero fazer sem o seu consentimento.

Ela endireita a cabeça e olha para ele. - Não precisa de pedir, nem eu preciso de dar o meu consentimento - diz ela suavemente.

- As circunstâncias em que nos encontramos não são normais, embora me pareçam tão naturais como respirar. - Pronuncia estas últimas palavras com uma segurança tranquila.

- São tudo quanto temos - diz ela, num tom neutro. Com os dedos ele vira o rosto dela para si. Ela entrega-se livremente a este gesto.

- Olympia, não tenho pensado em mais nada senão em si desde o dia em que saí de sua casa - diz ele.

Ela fecha os olhos por um momento.

- Faço-lhe o pior mal que um homem na minha posição pode fazer a uma jovem mulher - diz ele -, que é falar de sentimentos inexprimíveis.

Quando olha para Haskell crê ver o reflexo da lua nos seus olhos.

- Esta semana foi insuportavelmente longa - acrescenta tão próximo dela que ela lhe sente o hálito. Tem vontade de se encostar a ele, de lhe pousar a cabeça no peito.

- Mr. Haskell - diz ela -, eu.

- Não me tornei John, pelo menos nos seus pensamentos? pergunta ele de mansinho.

- Quando penso em si, o que é constante, é sempre Haskell - responde ela sem hesitação.

E a confissão desta verdade contém um momento de alegria e de libertação espiritual das mais extraordinárias que Olympia alguma vez experimentou.

- Não pode ser - diz ele. - Não posso ter permitido que isto chegasse a este ponto.

- Não é responsabilidade sua.

- Não podemos falar mais sobre isto.

- Não.

- Isto é tudo - diz ele. - Isto é tudo quanto poderemos ter. Compreende isso?

- Compreendo - diz ela.

- Não tenho qualquer direito de lhe falar deste modo e a forma como abusei do seu bom coração está para além de qualquer esperança de perdão. Aliás, ao parar aqui, estou a aproveitar- me da sua docilidade e da sua juventude, o que é o pior tipo de oportunis mo que um homem da minha idade e posição pode demonstrar. Não posso causar-lhe nada senão mal.

- Não o considero, nem por um momento, culpado de oportunismo - diz ela com sinceridade.

O ar está impregnado do odor pungente da maresia e também do aroma húmido, mas não desagradável, dos rasos de lama e limo marinho. A maré está vaza, mas não completamente.

- Então não tem medo? - pergunta ele.

- Não - diz ela.

Ele coloca-lhe as mãos nos pulsos e faz deslizar lentamente os dedos pelos seus braços até aos cotovelos sob os punhos subidos. Pronuncia o seu nome e toca-a como se tencionasse impregná-la de toda a sua energia. Com o dedo, desaperta-lhe o botão da blusa, beija-Lhe a base da garganta para onde ela conduzira a mão dele:

Olympia sente, pela primeira vez, o corpo transformar-se, liquidificar-se, abrir-se, não desejando nada mais do que mais. Segue- se uma imobilidade absoluta. É um beijo demorado, se é que um toque assim se pode chamar beijo - Olympia vive-o como uma coisa diferente. A recordação da mulher franco-canadiana com as pernas abertas, a tumultuosa massa viva a abrir caminho apodera-se de Olympia e parece agora, não uma ocorrência a temer, mas antes uma sensação a saborear; e é como se compreendesse um pouco o que, a seu tempo, lhe está reservado. Toca na nuca de Haskell e sente os cabelos finos que se encaracolam em forma de vírgula. Ele encosta a testa à testa dela e suspira como se só este abraço em particular pudesse dar-lhe alento.

Permanecem nessa posição enquanto a meia-lua se eleva mais no seu arco e os grilos cantam a sua melodia repetitiva. À distância ouvem uma carruagem aproximar-se.

- É tarde e eu tenho de ir - diz ela. - Leve-me até ao paredão ao pé da minha casa que eu vou a pé a partir daí.

A outra carruagem torna-se visível e eles separam-se relutantemente. O condutor saúda-os à passagem. Haskell pega nas rédeas e continuam viagem. Quando chegam ao paredão, que está apinhado de foliões nocturnos, ele ajuda-a a descer da carruagem, pega-lhe na mão e deseja-lhe boa- noite com a formalidade necessária para desmentir a intimidade que partilharam minutos antes.

O pai está sentado no alpendre quando ela regressa. Está a fumar - uma figura sombria numa cadeira, apenas com o morrão do charuto claramente visível.

- tu, Olympia - chama ele.

- Sou, pai - diz ela, subindo os degraus. Entra no campo de visão dele. Ele acende uma candeia e levanta-a para a iluminar. Estuda-lhe o semblante e o vestuário.

- Temos estado preocupados contigo desde as dez horas. - diz ele. - Já passa.

- Fui dar um longo passeio na praia e encontrei a Julia Fields com quem jantei - diz ela, compreendendo de imediato que, se disser a mentira óbvia, que esteve na festa dos Farragut, será desmascarada.

- Acho que não conheço a Julia Fields - diz ele, um pouco intrigado. - Quando não apareceste ao crepúsculo, fui buscar-te a casa da Victoria Farragut - acrescenta, dando assim razão ao logro pragmático de Olympia.

- Estive lá por pouco tempo, no alpendre - diz ela -, mas como vi que para entrar tinha de me envolver numa longa conversa com o Zachariah Cote, vim-me logo embora porque preferi a minha própria companhia.

É uma mentira inteligente porque o pai compreenderá facilmente o aborrecimento de se ser apanhado numa conversa com um homem que se revelou bajulador e enfadonho à mesa. O pai sorri ligeiramente; mas depois, quando Olympia pega na candeia, vê-o olhar para a gola que ela não se lembrou de voltar a abotoar. O seu esboço de sorriso desaparece e a sua expressão denuncia um vago alarme.

- Estou exausta, pai - diz ela imediatamente, passando por ele. - Desejo-te uma boa noite.

Mas não se inclina para o beijar como é seu hábito, porque de toda ela se desprende o distinto odor de John Haskell, como se os poros da sua pele tivessem absorvido a essência dele, uma essência estranha em que se delicia tanto quanto teme as suas consequências.

Os dias sucedem-se aos dias e parece que toda a costa está coberta por uma mortalha cinzenta que, durante quase uma

semana, não se dissipa nem ganha ímpeto suficiente para se tornar uma verdadeira tempestade. Mas chove, uma chuva miudinh que torna impraticáveis quase todas as actividades ao ar livre. A sua sensação de isolamento, de estar separada das pessoas que a rodeiam, apenas se intensifica com o mau tempo; e é como se habitasse um casulo quente e impenetrável num mundo húmido e irrelevante.

Embora passeie sozinha pelo alpendre ou se molhe ao andar a pé pela praia, ou coma à mesa de jantar ou converse, ainda que distraidamente, com o pai, ou tente ler John Greenleaf Whittier ou jogar gamão com a mãe, todos os momentos são consagrados a John Haskell - não, reivindicados por ele - de forma que não há qualquer pensamento consciente ou sonho inconsciente que o inclua.

A sua inquietação não passa despercebida, apesar de as pessoas à sua volta não lhe conhecerem a causa. À medida que os dias passam, vai perdendo a capacidade (ou a vontade) de dissimular e de esconder os seus sentimentos; e, em várias ocasiões, aproxima-se perigosamente da revelação do verdadeiro motivo da sua agitação. Uma ou outra vez, menciona arriscadamente o nome de Haskell em conversa com o pai, referindo-se com mais frequência do que a prudência aconselha ao volume que Haskell escreveu ou à obra que está a fazer em Ely Falls. E, numa festa em que tanto Rufus Philbrick como Zachariah Cote estão presentes, dá um jeito para desviar a conversa para uma discussão sobre as fiações e as reformas progressistas; porque a simples menção das palavras fiações ou progressista em voz alta, na companhia deles, é, de um modo secreto, gratificante e até emocionante. Imagina, contudo, depois de o fazer, que Mr. Cote a fita com uma expressão estranha e pensativa e, depois, com um sorriso muito ténue, o que a faz pensar se será tão transparente que os seus verdadeiros pensamentos lhe podem ser lidos no semblante.

Repara que, à sua volta, os outros a examinam, a sua perplexidade transformando-se num sorriso ou numa crispação, dependendo de como avaliam do seu comportamento. O pai é cuidadoso com ela: dificilmente a pode acusar de uma coisa que não pode provar. E ela está convicta de que, embora tenha havido entre ambos, nessa noite no alpendre, uma fugaz mas declarada insubordinação, ele decidiu deliberadamente não a considerar. Olympia julga que a mãe poderá estar mais vigilante do que até então, mas como ela raramente se aventura fora do quarto, não tem muito para vigiar. Se os pais reflectem, de forma consciente, sobre a sua inquietação, está convencida de que a atribuem a esse estado temperamental que se apodera de muitas jovens da sua idade. Ou então imaginam que está envolvida num romance inocente com um rapaz que conheceu há pouco. Ou pensam que participa num namorico inofensivo em que, na sua ingenuidade, investiu decerto demasiada importância.

Estranhamente, durante este período de tempo, sempre que recebem visitantes em casa ou lhe acontece observar Josiah ocupado com as suas tarefas ou o pai a ler, começa a reparar em certas características masculinas que nunca observou antes - ou nunca soube que tinha observado: os três ou quatro centímetros de entre o punho e o pulso de um homem que, por vezes, ficam expostos quando levam a mão a uma porta, por exemplo; ou a graciosa languidez dos homens casualmente em pé, com as mãos nos bolsos das calças; ou a forma como o núcleo do corpo parece estar imediatamente abaixo do ponto médio entre os ombros. E certa de que, embora já tenha realmente visto tais atributos masculinos - isto é, embora já os tenha fisicamente absorvido com os olhos - nunca originaram pensamentos conscientes como os que tem agora em abundância durante este fluxo de dias chuvosos.

Na tarde do sexto dia, Olympia está a tricotar no quarto, actividade que está a mergulhá-la num torpor letárgico. Para espertar, decide fazer uma chávena de chá. Ao descer os degraus atapetados, ouve vozes masculinas vindas do escritório do pai. Estaca com o calcanhar suspenso contra o espelho do degrau, escutando atentamente para identificar os oradores. Uma voz, naturalmente, é a do pai e a outra é inconfundível. Estão a falar sobre um livro de fotografias.

Respirando cautelosamente, Olympia continua a descer as escadas e, com uma postura falsamente casual, entra no escritório do pai como se fosse simplesmente espreitar para ver quem lhe fazia companhia. O pai olha para ela. Detém-se a meio de uma frase. Haskell, que estava de costas para ela, volta-se. Após uma brevíssima hesitação, avança com os modos perfeitos de um cavalheiro e estende-lhe a mão.

- Miss Biddeford - diz -, é um prazer voltar a vê-la.

- Acho que já conhece a minha filha suficientemente bem para lhe chamar Olympia - diz alegremente o pai (sem que possa saber com que ironia torturante para Haskell e para Olympia).

- Seja, Olympia - diz Haskell afavelmente.

Tem um chapéu de coco na mão. Ela vê minúsculas gotas de água no seu sobretudo. As botas apresentam uma mancha semicircular preta de humidade nas biqueiras. O chapéu assapou-lhe um pouco o cabelo e tem as faces coradas como se tivesse andado a correr. Debaixo do braço tem um livro, talvez o pretexto da sua visita.

Como se revelam ardilosos e capazes de enganar nestes poucos minutos em que debitam as frases de um ritual há muito praticado, deixam cair as mãos exactamente no momento certo e se voltam ligeiramente na direcção do pai de Olympia com o objectivo de o imcluirem na saudação. O pai, que parece particularmente satisfeito por ver Haskell, cuja companhia lhe agrada sinceramente e cujo trabalho honestamente admira, insiste de imediato para que Haskell fique para o chá.

- Ia agora mesmo à cozinha preparar um bule para mim - diz Olympia.

- Excelente - diz o pai. - O seu sentido de oportunidade é óptimo, Haskell. Olympia, leva-o para o salão. Aqui ficamos muito apertados e, infelizmente, no alpendre está muito frio para mim.

Olympia deixa-os e, com um andar tenso, atravessa a sala de jantar e a copa e entra na cozinha. Mas, assim que largou a porta de vaivém e esta se fechou, apoia pesadamente as mãos na beira da grande mesa da cozinha e baixa a cabeça. Ela própria se sente chocada com a sua falsidade, a facilidade com que mentiu.

Ao fim de algum tempo, endireita-se, pega na chaleira que está em cima do fogão, enche-a e volta a colocá-la no fogão que ainda está quente do almoço. Mrs. Lock, que chegou há pouco tempo de Halifax e que não voltará antes da hora de preparar a refeição da noite, deixou um prato de scones de mirtilo no balcão. Na despensa, Olympia encontra manteiga e compota para barrar os scones e dispõe tudo num tabuleiro marchetado que descobriu na copa. Em seguida, senta-se numa cadeira à espera que a água ferva e que as mãos cessem de tremer.

A cozinha é uma divisão ampla que foi pintada de verde-claro com um friso branco. Numa das paredes, tem uma série de janelas que dão para uma latada e para o jardim das traseiras. Na parede do lado oposto, encontra-se uma fornalha em tijolo tão alta que Martha cabia lá dentro em pé. O chão é de tábuas de pinho largas e Olympia repara que Mrs. Lock é uma cozinheira de tal modo meticulosa que não se vê uma partícula de massa ou de farinha ou mesmo de pó nas fissuras entre as tábuas. Dentro de armários com portas de vidro encontram-se os mantimentos e os pratos e num canto está uma geleira de carvalho polido.

Baixa os olhos para o regaço e fica subitamente apavorada

ao descobrir que está com o desengraçado vestido castanho-claro de chita, impróprio para ser visto por pessoas estranhas à família. Vestiu-o nesse dia porque não ia a nenhum lado nem esperava visitas. Agarra o pavoroso tecido nos punhos e pensa freneticamente em como poderá trocar a horrível peça. Mas compreende imediatamente que não pode mudar de roupa pois, embora possa facilmente esgueirar-se pelas escadas das traseiras até ao quarto, será pior mostrar que trocou de vestido do que ficar como está. O cabelo, apercebe-se para sua grande consternação, apalpando os cachos feitos à pressa na nuca, está, neste dia, penteado com uma tal falta de jeito, que não está apenas feio, mas também desgrenhado.

Ouve o raspar da porta de vaivém. Volta-se na cadeira.

- Olympia - diz Haskell e ela levanta-se.

A expressão dele é inicialmente inescrutável. Com a iluminação da cozinha, ela apercebe-se das olheiras profundas que lhe rodeiam os olhos.

- Não consegui manter-me afastado - diz ele.

Ela põe uma mão nas costas da cadeira. Haskell atravessa o espaço que os separa.

- O seu pai está à procura de um livro no escritório - diz com o cauteloso pragmatismo de um amante secreto. - Eu disse que vinha ajudá- la a levar o tabuleiro. Só temos um minuto, dois minutos no máximo.

Ela toca-lhe na lapela do sobretudo. Está húmido da chuva.

Haskell passa-lhe o braço em redor dos ombros e puxa-a para si num gesto apertado e vigoroso. Ela tem uma distinta sensação de vigor. Pouco habituada a sentir-se pequena, quase se perde no seu abraço. Libertando um braço, estende a mão para a nuca dele e puxa-o para si, as suas acções tão instintivas como é para um morcego evitar em voo um rosto humano. Ele abre a boca, chocando-a pois nunca ela recebera um beijo assim. Sente-lhe o gosto da língua, do interior dos seus lábios. Tem a cabeça inclinada e o pescoço esticado e exposto. A boca de Haskell desliza lentamente pela sua pele e ela estremece nos seus braços.

E é tudo. É todo o tempo de que dispõem.

Ele recua, as mãos vazias desenhando uma forma, a boca aparentemente desejosa de falar. A sua gravata desapertou-se e, incapaz ela própria de falar, aponta para a gola do vestido para o avisar. Sente o peso do cabelo desalinhado que começa a soltar-se. Tenta voltar a prendê-lo. O rosto de Haskell tomou uma tonalidade vermelha pouco natural e ela sente a boca em carne viva.

O pai entra pela porta de vaivém.

- Sempre a encontrou - diz o pai afavelmente, olhando para eles mas sem realmente olhar para eles. - É este o livro que lhe queria mostrar, Haskell. As fotografias são espantosas.

Olha de Haskell para Olympia e parece intrigado com a imobilidade da filha.

- Posso ajudar? - pergunta.

Depois do seu encontro com Haskell, na cozinha, sentam-se no alpendre, rodeados pelo brocado cinzento de um inexorável manto de nuvens. Haskell conversa delicadamente com o pai; como consegue fazê-lo, Olympia não é capaz de imaginar. Parece incongruente - mais do que incongruente - estar a comer scones de mirtilo e a falar de fotografia e do novo século quando ainda momentos antes, ela e Haskell caíam nos braços um do outro. E, como lhe acontecerá com frequência este Verão, é assolada por um momento de puro assombro por tais ocorrências poderem sequer estar a suceder na sua vida. Basta-lhe pensar no beijo para se sentir alvoroçada e a cor lhe subir ao rosto. Revive essa realidade uma e outra e outra vez numa série de breves choques para a alma e para o corpo. Interroga-se como ela e Haskell podem ter feito uma coisa dessas. Eles que não têm o direito de proceder a tal transgressão. E, no entanto, da mesma forma que duas ideias ou teorias diferentes e contraditórias podem coexistir no mesmo pensamento, no momento seguinte convence-se de que não têm alternativa senão reagir como reagem, que aquilo que a atrai em Haskell e que o atrai nela é tão natural como respirar.

Na manhã seguinte desperta com um mar verde-azeitona, a superfície plana, sem reflectir a menor luz, como um lago coberto de espuma. Passou uma noite desassossegada e não está segura de ter sequer dormido; e interroga-se se a sua percepção da cor do oceano não será resultado não só das inclinações da natureza mas também do seu estado insone.

Como é domingo e o pai não considera decente interromper o tributo a Deus com prazeres estivais, Olympia sabe que vão à igreja. Veste-se num estado de torpor tão absorto que demora quase o dobro do tempo habitual a concluir uma toilette perfeitamente vulgar. Desce as escadas com pressa e distracção e pega na capa e no chapéu que Josiah lhe estende. Este diz-lhe que é possível que o sol rompa através do manto de nuvens antes do fim do dia. Está igualmente vestido para ir à igreja e acrescenta que os acompanhará.

- A mãe e o pai da menina já estão na carruagem - diz ele, olhando para ela de um modo estranho. - Espero que não esteja indisposta.

- Não, Josiah, estou perfeitamente bem - responde ela, ocultando o cabelo debaixo do chapéu e dando graças por a aba larga esconder a agitação que o seu semblante denuncia. À porta, ele estende o braço e ela sente-se aliviada por ter, naquele momento, alguém em quem se apoiar.

É uma modesta igreja em madeira fasquiada castanha com guarnições pintadas a ocre. Tem uma flecha alta de madeira sobre a única empena e, em cima desta, uma cruz singela que é visível de Fortune's Rocks inteira. Aos quinze anos, Olympia ainda não passou por qualquer crise de fé, mas também não é devota. Deus e os seus mandamentos, conforme interpretados pelo Homem, constituem para ela, antes de tudo, obrigações sociais e familiares. Quando está na igreja aprecia por vezes a sensação de calma que ocasional mente se propaga pela congregação e a música cativa-a. Mas é mais frequente sentir-se inquieta nesse santuário obscuro, desejando estar ao ar livre.

As estradas estão lamacentas e a viagem é vagarosa. O frio infiltra-se pelos lados e os quatro vão sentados, encolhidos e de cabeças baixas, protegendo-se contra os elementos tão fora de estação. Entram na igreja e dirigem-se para o banco habitual. A atmosfera à sua volta está permeada do odor a lã molhada e do som das capas a serem sacudidas para remover a humidade. As janelas de arcos de chumbo estão pintadas de vermelho escuro e dourado acastanhado. A obscuridade que criam é apenas quebrada por velas nos castiçais das paredes. É como se já fosse noite dentro da igreja, os rostos e as formas dos paroquianos inicialmente difíceis de discernir. O púlpito, de cerejeira lavrada, está suspenso do tecto abobadado por uma corrente. Mais do que uma vez, em criança, Olympia imaginou os elos da corrente a ceder e a provocar a queda do púlpito e o subsequente tombo do pastor, maldosas fantasias que eram mais o resultado do desassossego infantil do que uma crítica à qualidade dos sermões.

Sentam-se silenciosamente sem que nenhum deles fale, cada qual entregue aos seus próprios devaneios. Olympia também não considera nenhum dos pais particularmente devoto, mas quem poderá alguma vez conhecer verdadeiramente o alcance da fé de outra pessoa, reflecte; a fé, que é a riqueza mais íntima e bem guardada que se possui. Assim, é só quando o coro dá início ao hino que Olympia olha casualmente para a direita, para lá da figura hirta e concentrada do pai, e repara na pessoa sentada no banco do lado oposto. Talvez lhe escape então um som sumido que penetra a compostura do pai, que lhe lança um olhar rápido. Mas salva-a de alguma pergunta a necessidade de se levantarem para o hino.

Não passou de um relance: um chapéu com uma aba que esconde quase por inteiro uma massa de cabelo louro prateado; uma luva de camurça com um botão de pérola; a pequena bota de uma criança a balouçar; o tecido de um guarda-pó de algodão azul que estica quando um ombro se vira; a dobra da perna de umas calças, molhada na bainha; e, acima destas, um perfil masculino, sem barba nem bigode. Ele deve tê-la visto, pensa imediatamente. Deve saber que ela está ali. Deve ter sido então Catherine que, com perfeita inocência, se deixou guiar pelo arrumador até ao banco oposto ao do seu pai, que, sem dúvida, tenciona cumprimentar quando terminar o ofício.

Olympia senta-se, imóvel e decidida a não deixar transparecer nada. A excessiva rigidez da sua postura, porém, deve de algum modo denunciá-la porque o pai olha-a repetidamente de soslaio. Mas não fala pois a etiqueta da igreja impõe silêncio.

Se alguma vez Olympia teve consciência de outra pessoa numa igreja, consciente apenas da presença física de outra pessoa - embora a congregação consista em, pelo menos, cem pessoas - foi nessa manhã, durante essa hora e meia durante a qual podia orar, podia pedir orientação, podia jurar banir Haskell dos seus pensamentos. Mas, embora faça uma tentativa para comunicar com Deus, não consegue, impedida pelas interferências que lhe zumbem na cabeça e pela relutância da sua alma em renunciar ao que tão recentemente conquistara. E, apesar de arder por um vislumbre de Haskell, contenta-se em ver simplesmente, pelo canto do olho, o tecido que lhe cobre a perna, o movimento do seu pé.

Mais tarde, Olympia convencer-se-á de que foi durante essa hora e meia, nessa igreja castanha e ocre, rodeados pelas respectivas famílias, com uma congregação de testemunhas, que compreendeu que ela e Haskell viriam a ter um futuro. E que não levantaria qualquer impedimento ao seu desenrolar.

Catherine convida-os para almoçar no Highland, um convite feito com tanta cordialidade que nem a mãe de Olympia consegue esconder o seu prazer perante a perspectiva de uma distracção face à claustrofóbica clausura imposta pelo tempo. Na verdade, Mrs. Haskell diz, tendo quase de certeza planeado o discurso durante as orações pastorais, que eles não precisam sequer de voltar a casa, podem simplesmente seguir os Haskell até ao hotel. Tudo isto é dito e feito na coxia central da igreja enquanto Olympia olha fixamente para uma representação incaracteristicamente horripilante da Última Ceia. Não seria apropriado que Haskell lhe dirigisse a palavra nesse momento; e não dirige, nem ela a ele. Mas, a certa altura, quando se encaminham para a nave, o seu olhar cruza-se com o dele, e é um olhar tão íntimo, tão carregado de significado, que ela cora imediatamente, facto em que ele não pode deixar de reparar.

Olympia interpreta como um presságio o facto de o céu ter aclarado durante a hora e meia em que estiveram na igreja e o vento oeste, agora palpável, afugentou quase todas as nuvens que forma uma linha que se afasta em direcção ao mar. A semana de chuva constante deixou o mundo a cintilar com gotículas em todas as folhas, em todas as tiras de sargaço, em todas as rosas rugosas. A caminho do hotel, o reflexo da luz nos rochedos é tão intenso que Olympia mal consegue olhar.

No Highland, transpõem a porta de entrada de painéis de vidro, dirigem-se a um átrio cavernoso com um balcão de mogno de nove metros de comprimento e daí passam à sala de jantar que é tão ampla que podia albergar mil comensais. Preparada como está para o almoço de domingo, com as suas toalhas engomadas, as pratas polidas e a louça branca imaculada, a sala de jantar parece, ela pprópria, ao entrar, um oceano de hospitalidade muito distante do interior sombrio da igreja que abandonaram minutos antes. E ela pergunta-se por que razão os homens que projectam os lugares de culto não consideram com mais frequência na sua arquitectura o fascínio da luz e da beleza.

Catherine, no seu papel de anfitriã, senta Olympia com a mãe de um lado e Martha do outro, como se Olympia não fosse nem mulher nem rapariga, mas antes habitasse um qualquer mundo intermédio. As suas posturas e gestos são formais, como convém num almoço de domingo, mas a refeição está impregnada de cordialidade e até de animação; e pode acontecer que a corrente, que Olympia sabe passar entre ela e Haskell que está sentado à cabeceira da mesa, seja em parte transvasada pelos outros. Catherine convida Josiah a almoçar com eles, mas ele desculpa-se imediatamente, imvocando que deseja muito dar um passeio pela praia para aproveitar a rara oportunidade de apanhar ar fresco depois de uma reclusão tão prolongada. Se não fosse a presença de Haskell Olympia teria desejado ardentemente acompanhá-lo.

Olympia escuta as interpelações bem-humoradas que trocam

ao instalarem-se para a refeição.

Catherine, está com óptimo aspecto.

Agora que veio o sol estou óptima.

OJosiahjá se foi embora?

Mãe, tenho de me sentar ao pé do Randall? Diz então que ainda não recebeu os medicamentos? Essaspérolas são lindíssimas.

Achei que foi um sermão brilhante.

E quem era o solista?

Ouvi dizer que servem aqui um borrego excelente. Ai servem?

Olhando para ela da ponta da mesa, Haskell parece mais um atraente desconhecido do que alguém com quem partilhou um momento de intimidade. E, nesse momento, parece admirável a Olympia a prontidão com que se entrega o coração - a alma mesmo - a alguém que mal se conhece.

Olympia repara que mais do que uma pessoa, ao entrar na sala de jantar, se volta para olhar para Catherine e Haskell juntos, o moreno e a loura, Catherine já não escondendo debaixo do chapéu a beleza das suas feições nem a delicada gaze prateada do cabelo. Distraidamente, enquanto Olympia os observa, Catherine estende a mão para o marido e prende-lhe uma farripa de cabelo atrás da orelha, um gesto conjugal que obriga Olympia a desviar os olhos. E pensa que o próprio Haskell não pode ficar indiferente à ironia de se submeter a esta carícia na sua presença.

À volta deles, ouve-se um tilintar agradável de prata contra faiança, de gelo a tilintar em copos, o suave murmúrio de conversas afectuosas e até animadas. Pelas janelas, que cintilam de uma lavagem com vinagre, vislumbra-se a omnipresente rebentação - um ruído surdo e constante ocasionalmente pontuado pelos gritos e grasnidos das gaivotas.

O pai monopoliza a atenção de Haskell, o que é, na opinião de Olympia, um alívio para Haskell e para ela. Catherine, animada pela sua própria boa disposição ou talvez simplesmente pela alegria proporcionada pelo sol após tantos dias lúgubres, mantém a mãe em permanente conversa - tarefa nada fácil, embora até ela pareça contagiada pelo convívio ameno.

Martha está sentada ao lado de Olympia, para quem constitui um esforço renunciar ao debate e conversa bem- humorada dos adultos para prestar atenção aos bizarros e desconexos comentários da rapariga, todos eles pensados, ao que parece, para captar a total atenção. Mas, de vez em quando, Martha consegue penetrar nos devaneios de Olympia, lembrando-lhe a falta de educação demonstrada ao ignorá-la. Assim, depois da sobremesa, quando Martha lhe pergunta se ela gostaria de subir lá acima para ver o quarto, Olympia não é capaz de recusar sem chamar desnecessariamente a atenção sobre si própria. Quando se levantam, Martha puxa-lhe pela manga, ansiosa por abandonar a mesa.

- A sobremesa foi horrorosa - diz Martha ao atravessar a sala de jantar em direcção ao átrio. - Detesto framboesas, tu não? Colam-se aos dentes e magoam quando se trinca.

- Pois é - diz Olympia distraidamente.

- Hoje de manhã saí cedo, antes de a mãe acordar, e apanhei muitas conchas nacaradas diferentes que devem ter dado à praia com o mau tempo. Tens de me dizer o que são.

- Posso não saber - responde Olympia.

Sobem as escadas até ao quarto andar onde os Haskell têm quartos com vista para o mar. Pelo caminho, Olympia fica impressionada com as paredes azuis-claras dos corredores e os tectos altos e brancos. Pelas portas abertas, vê outros quartos e, para lá destes, o oceano que parece suspenso do lado de fora das vidraças. O efeito do azul e do branco evoca o céu com nuvens bonançosas e ela considera a decoração inspirada. Martha condu-la por uma porta para uma sala que leva a outras divisões - quartos, imagina Olympia, porque entraram claramente numa sala de estar. Sabiamente, as agradáveis janelas não haviam sido guarnecidas com pesados reposteiros, mas antes emolduradas com musselina. Banha a sala uma delicada luz que entra através da gaze e que deve ter uma influência sedativa sobre o espírito, mas os sentidos de Olympia estão sobre naturalmente alerta; sente ao mesmo tempo curiosidade e receio do que possa encontrar, à maneira de um amante que se depara com a correspondência privada da pessoa que ama. Enquanto Martha palra e dispõe as preciosas conchas numa mesa para serem inspeccionadas, os olhos de Olympia percorrem todas as superfícies das mesas e das cadeiras à procura de qualquer sinal de Haskell e da forma como habita este espaço.

Numa escrivaninha a um canto estão vários volumes e o que parece ser um livro de contas aberto, a letra cursiva inclinada, a bonita cor de anil. Está pousado ao lado do livro um par de óculos que a surpreendem pois nunca viu Haskell de óculos. No sofá cor de malva clara está um cobertor leve de croché branco, amarrotado como se tivesse recentemente aquecido os pés de alguém. No chão ao lado do sofá, está um livro, Gleanings from the Sea, de Joseph Smith, com uma fita de seda a marcar as páginas.

Martha não se cala com perguntas. Olympia faz os possíveis por identificar os tesouros da rapariga, embora haja várias raridades que não reconhece - uma concha de uma opalescência delicada, tão transparente que dá a ideia de que pode desfazer-se ao toque.

- A melhor não está aqui - queixa-se Martha. - O Randall deve ter pegado nela. Pegou de certeza. Espera aqui. Já sei onde ele deve tê-la escondido.

Martha sai da sala de estar com passadas largas, em direcção a um dos quartos. Olympia fica ali por alguns momentos, a olhar para o mar. Há muitas pessoas a passear pela praia e a brincar na rebentação, sem dúvida graças ao bom tempo depois de uma semana tão soturna.

Enquanto espera por Martha, Olympia dá consigo a aproximar-se lentamente da porta do lado oposto. Não sabe ao certo o que está a fazer nem porquê; acontece simplesmente que quer estar mais próxima de Haskell, compreender como ele vive. Em silêncio, transpõe o limiar e entra no segundo quarto.

É um quarto masculino - não pode haver qualquer dúvida, embora tenha visivelmente colocado o seu malão num suporte, Catherine parece ser mais uma visita do que uma ocupante. Olympia repara numa escova e num pente de tartaruga no toucador sobre o qual se encontra um espelho manchado. A cama, se bem que feita, está ligeiramente amarrotada como se um homem se tivesse sentado nela, não há muito tempo, para calçar as meias. Num mesa de tampo de mármore junto às janelas, estão um lavatório de porcelana, artigos para barba, uma escova, uma bacia e uma navalha. Ao lado da mesa está um cabide com uma sobrecasaca pendurada nos ombros de madeira.

Encorajada pela continuada ausência de Martha, Olympia avança ainda mais até conseguir ver o quarto na totalidade - especificamente, uma larga cómoda de carvalho, cuja superfície está coberta de fotografias. À distância, só distingue imagens: uma parte de um chapéu, uma balaustrada como a de um alpendre. Aproximando-se um pouco mais, apercebe-se de que se trata das fotografias tiradas nos degraus de sua casa no dia em que Haskell levou a máquina fotográfica.

As fotografias estão dispostas em leque. Na ponta de uma das fotografias, escondida atrás das outras, repara na perna de umas calças. Retira-a e reconhece-a como sendo a que tirou a Haskell no dia em que fizeram o piquenique na praia: um rosto em repouso, roupa solta, calças arregaçadas revelando pernas cobertas de pêlos escuros e areia; uma família franco-canadiana em segundo plano.

Fecha os olhos. Quando os abre, vê a margem branca de outra fotografia, escondida atrás da de Haskell. Com o dedo indicador, separa-a das outras. Descobre que é a sua. Mas não é a imagem em si que é interessante, o que lhe prende a atenção é a impressão indistinta das dedadas de quem removeu a emulsão.

Martha entra no quarto, com o seu tesouro na mão estendida. A sua expressão é confusa. Olympia pousa a fotografia em cima da cómoda. Assume uma atitude de ligeiro enfado e indiferença. - Estava à procura duma casa de banho para lavar as mãos - diz.

- Não é aqui - diz Martha, franzindo o sobrolho.

- Encontraste a tua concha - acrescenta Olympia, avançando para ela.

- Não é uma concha - responde a rapariga. Fecha a palma da mão e estuda Olympia atentamente. - É vidro do mar.

- Posso ver? - pede Olympia, retribuindo o olhar de Martha com a mesma firmeza.

- Não devíamos estar aqui.

- Não, claro que não. Deixa-me levar isto para a janela da sala de estar para ver melhor a cor.

Ao saírem do quarto de John Haskell, encaminhando-se para junto da janela, enquanto Martha oferece relutantemente o seu tesouro a Olympia - um fragmento azul-claro, a superfície do vidro baça por meses ou anos a embater contra as rochas e a areia, Olympia apercebe-se, tarde de mais, de que o facto de ter perturbado a ordem das fotografias na cómoda será imediatamente evidente para o seu dono.

Quando elas voltam os pais de Olympia estão com os Haskell no átrio. Não olha para Haskell nem olha Catherine nos olhos. Está apreensiva caso Martha, por razões que só ela sabe, deixe escapar o acto de Olympia ter entrado no quarto dos pais. Mas Martha fica para trás, ainda intrigada, pensa Olympia, por qualquer coisa que pressente mas não compreende bem.

O pai de Olympia, que à refeição bebeu mais vinho do que seria talvez prudente, convida Catherine e John Haskell para jantar com eles na terça-feira. Catherine agradece-lhe afavelmente mas diz que volta com as crianças para York ao fim dessa mesma tarde.

Faz uma observação sobre abandonar o marido, pegando-lhe na mão a seguir. Olympia relanceia por acaso, no momento desse contacto; e depois, porque não consegue refrear-se, olha para o rosto de Haskell. E talvez só Olympia seja capaz de ler a complexa combinação de angústia e remorso que nele se estampa: angústia pela mulher e por eles próprios e remorso por actos ainda não cometidos mas pelos quais ela já compreende que terão um dia de responder.

Olympia espera, durante a interminável tarde e durante toda a noite até ao romper do dia - essa hora em que há luz mas o sol ainda não nasceu, em que o mundo está absolutamente quedo por um momento, aparentemente a recobrar energias em silêncio. Lava-se e veste-se sem fazer ruído, no seu quarto, e põe-se à escuta de quaisquer movimentos inquietos da mãe ou do pai, ou de Josiah ou Lisette, que poderão ter-se levantado mais cedo do que é habitual. Esperando não perturbar ninguém, sai do quarto, atravessa a casa e sai para o exterior.

A maré está completamente vaza, a linha da costa uma vasta extensão de areia e limo. Tiras compridas de musgo marinho caem das rochas expostas como bigodes de morsa. Já andam pessoas na praia a desenterrar amêijoas e, mais longe, um barco solitário com velas de um tom branco-marfim navega paralelo à costa. De início; Olympia limita-se a caminhar decididamente, segurando as bolas numa mão e a saia na outra. Mas, em seguida, a cautela abandona-a por completo e ela larga a correr. As decisões difíceis foram todas tomadas no dia anterior. O dilema, o pouco que existiu, já foi silenciado e resolvido.

No acto mais atrevido da sua curta vida, senta-se nos degraus do hotel, calça novamente as botas e as meias e entra no átrio onde é imediatamente confrontada com a crua realidade do recepcionista da noite. Este está a ler o programa das corridas e a fumar cachimbo. Levanta os olhos e fica visivelmente espantado ao ver uma rapariga no átrio àquela hora.

- Mandaram-me chamar o Dr. Haskell - diz Olympia imediatamente, inventando uma emergência enquanto fala. - Precisam dele na clínica. Mrs. Rivard está a ter um parto difícil...

O recepcionista fica bruscamente atento. - Ah, sim, menina - diz sem hesitar, não desejando que ela se explique mais. - Vou lá acima pessoalmente. Não saia daqui.

Olympia anui. Um pouco nervosa agora, põe-se a andar pelo átrio, inspeccionando os sofás em crina, os retratos a óleo nas paredes, os pilares esculpidos em redor dos quais foram colocados bancos de veludo para os hóspedes. Tem a sensação de que espera muito tempo pelo regresso do recepcionista. E enquanto espera começa a duvidar da prudência do seu acto. E se Catherine e as crianças não partiram na tarde do dia anterior, como ela disse? E se Haskell ficou furioso com Olympia por causa deste estratagema? A verdade é que vai ficar furioso, não é assim? Olympia mal o conhece. Há-de achá-la, sem dúvida, uma tonta, senão completamente desvairada.

Entrando subitamente em pânico, olha em seu redor. Não deu o nome ao recepcionista. Haskell deduzirá quem é, mas ela não precisa realmente de ficar ali, pois não? Encaminha-se rapidamente para a porta de entrada. Mas ao aproximar-se da soleira, ouve o anúncio ofegante do recepcionista.

- Ali está ela, senhor doutor. Óptimo.

Haskell, com o casaco numa mão e a maleta na outra, vê-a do outro lado do amplo átrio. Olympia não pode andar nem para a frente nem para trás. Com passos lentos, Haskell dirige-se para ela.

- Então é Mrs. Rivard - diz Haskell em voz baixa. Olympia só consegue anuir com a cabeça.

- Muito bem, vamos falar mais sobre o assunto no alpendre. Obedientemente, ela transpõe a porta e sai para o alpendre e, seguindo- o, desce os degraus. Em silêncio, caminham juntos até às traseiras do hotel. Ao dobrarem a esquina, ela tropeça num tubo que está à vista e, durante esse movimento repentino, ele segura-a pelo braço.

- Olympia, olhe para mim, por favor. Ela vira-se e levanta os olhos para ele.

- Desejava do fundo do coração - diz ele - que pudesse ser eu a ir ter consigo. Compreende isso?

Ela faz um gesto de assentimento porque acredita nele.

Vai subir à frente, diz ele, para abrir a porta do quarto. Após um intervalo conveniente, ela deverá segui-lo.

O sol nasceu e, pelas janelas dos corredores, a luz é extraordinariamente intensa, causando um encandeamento contínuo enquanto Olympia transita da sombra para a luz e novamente para a sombra. Os sinais de movimento são ainda escassos no hotel, embora ela ouça água a correr e, uma vez e por pouco tempo, passos atrás de si. Através das janelas laterais, vê roupa a secar e um grupo de camareiras sentadas com chávenas de chá nos degraus das traseiras.

Quando entra no quarto, Haskell está em pé junto das janelas, de braços cruzados sobre o peito, o corpo uma silhueta obscura contra a musselina luminosa. Ela tira o chapéu e coloca-o em cima de uma mesa de apoio.

Ele inclina a cabeça e estuda-a demoradamente como se estivesse a preparar-se para lhe pintar o retrato, como se estivesse a ver planos, traços e curvas em vez de uma fisionomia.

Mas a sua expressão também denota expectativa. Expectativa, definitivamente.

- Olympia - diz ele. - Descruza os braços e aproxima-se dela. Pousa-lhe as mãos na nuca e puxa-lhe a cabeça de encontro ao peito. Olympia fica reconhecida, invadida por uma profunda sensação de alívio.

- Se eu te amasse verdadeiramente - diz ele -, não te deixava fazer isto.

- Amas-me verdadeiramente, sim - diz ela.

Ele acaricia-lhe as costas. Hesitante, ela cinge-o com os braços; Nunca abraçou um homem antes, nunca sentiu as costas largas de um homem. Já não sente medo, mas também não sente a sofreguidão intensa que mais tarde conhecerá. A sensação é antes uma espécie de resvalamento contra outra pessoa, um afundamento, sentindo-se mais líquida do que corpórea. Toca o peitilho da camisa dele.

Ele parece estremecer levemente. O seu corpo é mais robusto do que ela o imaginou ou talvez seja apenas porque a sua tangível presença física, sob as mãos dela, é mais substancial do que a lembrança que guardou dela. E parece-lhe, nesse momento, que tudo à sua volta é intensificado, exaltado, mais grandioso do que nos sonhos.

- Olympia, não podemos fazer isto.

Ela fica surpreendida, não está preparada para discutir.

- Já fizemos - responde.

- Não, não fizemos. Podemos parar agora. Eu posso parar.

- Não é isso que queres - diz ela, e acredita que é verdade. Espera que seja verdade.

- Eu sou um homem casado. Tu só tens quinze anos.

- E esses factos importam? - pergunta ela.

- Têm de importar - diz ele.

Haskell recua um passo. As mãos dela caem no vazio. Abana a cabeça. Invade-a um pânico súbito de que as dúvidas dele o levem a afastar-se.

- Não é o que estamos a fazer - diz ela. - É o que somos.

Ele fecha os olhos por um momento.

- Pensei que compreendias isso - diz ela suavemente.

- Não seremos perdoados.

- Por quem? - pergunta ela bruscamente. - Por Deus?

- Pelo teu pai - diz ele. - Pela Catherine.

- Não - diz ela. - Não seremos perdoados.

Uma expressão de capitulação - ou será de facto alegria? parece banhar-lhe o rosto. Ela sente o esforço da resistência abandonar-lhe o corpo.

- Vai ser muito estranho para ti - diz ele, tentando adverti-la.

- Que seja estranho então - responde ela. - Quero que seja estranho.

Ele tenta desabotoar-lhe a gola da blusa mas atrapalha-se com as patelas de madrepérola que são difíceis de desapertar. Ela afasta-se dele por um momento e desabotoa ela própria a gola, ansiosa por reentrar nesse mundo líquido que existe unicamente em si mesmo, que não é um prelúdio, uma consequência ou uma distracção, mas sim um universo completamente absorvente e envolvente.

Nesse momento, ocorre uma mudança de ritmo, um acelerar da respiração dele e talvez da dela também. Abraçam-se desajeitadamente. Ela bate com a base das costas contra um canto do sofá e retesa-se. A roupa parece-lhe incómoda e excessivamente complicada. Ele despe o casaco com um único movimento sinuoso. Ela tem a blusa desabotoada, aberta até à clavícula.

- Deixa-me deitar - diz ela.

Se nunca nada é ensinado, como é que o corpo sabe como se mexer e onde se colocar? Deve ser uma espécie de instinto - é com certeza que é - um sentido de pragmatismo físico. Olympia nunca ouviu o acto do amor ser-lhe explicado, nem viu ilustrações, nem leu quaisquer descrições. Até os filhos do mais ignorante lavrador teriam mais conhecimentos do que ela.

Entra no quarto sozinha, no quarto onde Haskell e a mulher ainda recentemente dormiram juntos. A cama está por fazer e em desalinho, o seu ocupante tendo saído dela à pressa. Não se vêem agora vestígios de Catherine, nem das fotografias que estavam na cómoda. Olympia despe o vestido e as meias, o espartilho e a combinação. Só com as calcinhas e a camisola interior, deita-se e tapa-se.

Haskell entra no quarto e detém-se aos pés da cama. - Só queria que soubesses como te vejo - diz ele.

Ela observa enquanto ele tira o colarinho e desaperta a camisa. Pela primeira vez na vida, Olympia vê um homem despir-se. Repara na forma como Haskell se debate com os botões de punho, a forma como retira o colarinho da camisa como se estivesse a libertar-se de uma canga. Sente-se esquisita e fria debaixo do edredão de cetim e assustada com a ideia da nudez de um homem que, na realidade, não vê inteiramente neste dia. Haskell pára de se despir antes de tirar a roupa interior e enfia-se na cama com ela.

Ela rola para a curva do seu braço e pousa aí a cabeça. Pousa a palma da mão sobre a camisola interior dele. Constrangidos e expectantes, ficam mudos por momentos. As suas acções não têm nada de impetuoso, absolutamente nada. Embora a impetuosidade não tarde a chegar, é como se cada movimento na direcção do outro tenha de ser realizado com alguma premeditação, com algum entendimento daquilo que fazem.

Ele muda de posição, desalojando-a do braço, e ela fica deitada por baixo dele. - Vi-te na praia naquele dia. Não te lembras de mim.

- Não tenho a certeza.

- Acho que nesse momento me apaixonei. Sim, estou certo que sim.

- Como é possível?

- Não sei - responde ele. - Mas tenho a certeza. E quando te vi no alpendre na noite do solstício, senti as palavras. - Que te conhecia. Que te ia conhecer.

- Sim - diz ela porque sentiu o mesmo.

- Não podes saber a que ponto isto é precioso - diz ele. Hás-de pensar que é sempre assim. Mas não é.

Ele apoia o peso do corpo nos antebraços. Beija-a lentamente no pescoço. Como se dispusessem de todo o tempo do mundo quando, na verdade, não dispõem.

- Invejo-te - diz ele. - Invejo o facto de não teres conhecido mais nada.

Ela sente-o fazer pressão contra ela, um peso que se baixa enquanto as mãos lhe puxam a camisola interior e lhe despem o resto da roupa. Por um momento, ele atrapalha-se com qualquer coisa que devia ter na mão quando entrou na cama, uma coisa que ela não é agora capaz de identificar, embora mais tarde ele lhe explique a sua precaução.

Olympia sente dor? Não propriamente. Não uma dor terrível. É, mais a sensação de um peso maior, de uma estocada contra ela, embora não ofereça resistência. Deseja recebê-lo dentro de si.

- Estou a magoar-te? - pergunta-lhe ele a certa altura.

- Não - diz ela, debatendo-se para respirar. - Não. Está emocionada, trémula com o que está a acontecer. O sol move-se e cria um rectângulo de luz quente no edredão de cetim cor de topázio, estranhamente pouco masculino, uma colcha semelhante à da mãe. Estão rodeados pelo algodão suave de lençóis excessivamente lavados - quase sedosos, quase brancos - e, para lá destes, o austero mogno do mobiliário lavrado: o guarda- fatos, a cama, as mesinhas-de-cabeceira. Em cima de uma cadeira e espalhadas pelo linóleo, pintado para evocar uma carpete, estão roupas de homem. Ela olha para o padrão do tecto em folha-de-flandres verde-salva.

É somente próximo do fim, somente no fim, que ela sente um ligeiro estremecimento, uma ínfima sugestão de prazer, um antegosto daquilo que um dia terá. Estranhamente, compreende esta profecia no momento em que ouve, pela primeira vez, a quietude abafada, a exalação acelerada da respiração, e sabe que o episódio findou.

O peso dele, que foi grande em cima dela, torna-se ainda maior. Pensa que ele não se apercebe que vai esmagá-la. Mexe-se ligeiramente debaixo dele e ele desliza para o lado. Mas, ao fazê-lo, puxa-a consigo, aconchegando-a no interior da vírgula que o seu corpo forma como se aconchegasse uma criança, como poderia, aliás, ter aconchegado os seus próprios filhos. Ela ajeita-se para se encaixar no seu abraço.

Durante algum tempo, Olympia ouve a respiração de Haskell, que entra e sai de um sono leve, uma forma particular de dormir que, com o tempo, virá a apreciar, que virá a sentir-se privilegiada por testemunhar.

Ele acorda estremunhado.

- Olympia.

- Estou aqui.

- Meu deus, que coisa extraordinária!

- Sim - diz ela.

- Não posso dizer que esteja arrependido.

- Não, não devemos dizer isso.

Ela move-se de forma a poder encará-lo.

- Sinto-me diferente agora - diz ela.

- Sentes? Não é só...

- Não. - Como se nunca mais pudesse voltar a ser a rapariga

que era. - Não sabia sequer o suficiente para me interrogar sobre isto - diz. - Não fazia ideia nenhuma. A mínima ideia.

- Estás perturbada?

- Não, não estou. Parece um milagre. Tornarmo-nos um só,

Desta maneira.

- É um milagre contigo - diz ele. - Contigo é.

- Tenho de ir - diz ela. - Antes de as criadas chegarem.

E ele parece ficar triste por ela ter aprendido tão depressa a

arte de enganar. - Ainda não - diz ele.

Ficam deitados até ouvirem passos no corredor. Relutantemente, Haskell levanta-se e passa-lhe a mão ao longo do braço, como se não suportasse separar-se fisicamente dela. Veste-se mais lentamente do que poderia, nunca deixando de olhar para ela na cama. só quando ouvem vozes no corredor - sotaques nativos, camareiras - é que ele cai em si e acaba de se vestir mais rapidamente. Sai do quarto por um momento e volta com uma toalha, que entrega a Olympia. Esta sente a súbita incongruência de Haskell face á sua nudez. - Vais precisar disto - diz ele, baixando-se para a beijar.

Discretamente, Haskell encaminha-se para a sala de estar e fecha a porta para que ela possa vestir-se. Quando ela sai da cama apercebe-se, nas pernas e nos lençóis, daquilo que explica a toalha. Fica chocada com tanto sangue. Não sabia. Mas ele sim. Claro que sim. Ele sabe tudo o que há para saber sobre estas questões, não é verdade?

Ele volta a entrar no quarto quando ela está a apertar as botas. Ela levanta-se e vira-se para ele, do outro lado da cama, e nesse momento repara que não tapou a nódoa. Ele abre a boca para falar, mas ela impede-o com um gesto. O momento exige um certo decoro, é necessário agir, embora ela não saiba bem o que fazer. Não se sente exactamente embaraçada, mas não quer falar do assunto. Não definitivamente, não quer falar do assunto. Debruçando-se e sem pressa, puxa o edredão cor de topázio até às almofadas e cobre a mancha. E tem a certeza de que ambos recordam nesse instante o parto a que assistiram juntos.

Dirigem-se ambos para a porta. É pena, pensa ela, que ele tenha de ficar enquanto ela tem de sair. É difícil falar. Agrada-lhe que ele não considere necessário fazer planos para voltarem a encontrar-se. Compreende que acontecerá naturalmente porque agora não podem mais estar separados.

Ele beija-a à porta. Ela sai do quarto para o corredor. À sua volta paira o som de conversas como se o resto do mundo tivesse despertado: a voz estridente de uma mulher, insistente, fazendo valer os seus argumentos; o riso gutural e malicioso de um homem. O ar transformou-se e consigo trouxe o odor a laranjas. Ouve Haskell fechar a porta atrás de si.

Sente as pernas fracas ao descer as escadas. Pensa no que Haskell fará com a toalha ensanguentada e o lençol. Vê-se num espelho no corredor e fica assustada ao reparar que a sua boca parece esborratada, como se os seus traços estivessem indefinidos. Relutante em sair pelas traseiras como um ladrão, decide afrontar o átrio, mas quando o atravessa, sabe que uma dezena de olhos a inspeccionam. Calcula que o recepcionista deve estar a interrogar-se sobre o que está ali a fazer quando devia ter levado o Dr. Haskell a ver a mulher chamada Rivard. Hóspedes do hotel, que desceram para o pequeno-almoço e aguardam os seus acompanhantes à porta da sala de jantar, olham-na de relance quando passa. Os criados observam-na ao cruzarem o átrio com roupa branca dobrada nos braços. Ela dirige-se para o alpendre onde se detém por um momento junto a uma

cadeira de vime, recobrando as forças, ainda relutante em pôr à prova as pernas no íngreme lanço de escadas. O sol já nasceu há muito, mas a luz é desmaiada. À distância, vê pescadores nas suas lagosteiras a verificar as bóias.

- Miss Biddeford?

Sobressaltada, Olympia volta-se. Deve transparecer do seu rosto uma expressão de medo porque Zachariah Cote estende a mão para a sossegar.

- Não queria assustá-la - diz ele.

Olhar para o poeta no seu colete de seda cinzenta, o carácter dissimulado realçado pela forma como o sorriso repentino parece nada ter a ver com os olhos, é como olhar para uma aparição vinda de um universo que ela deixou para trás e no qual não quer reentrar.

- Encontro-a nos sítios mais estranhos - diz ele cordialmente.

- Como assim? - pergunta ela, recuando um passo. Ele avança um passo na direcção dela. - Tenho a certeza que era a Olympia, na noite do 4 de Julho, numa carruagem na berma da estrada? Nos pântanos?

Pousa um cotovelo na palma da mão e assenta o queixo nos nós dos dedos. Estuda-a de um modo absolutamente impertinente e, de súbito, ela sente-se mais despida do que sentiu no quarto momentos antes. Na verdade, o olhar dele é tão frontal e o seu sorriso tão calculista que tem vontade de o esbofetear.

- Não creio que tenha sido eu - diz ela.

- Então estou enganado - diz ele, embora não pareça convencido. - Mas porque é que está aqui? - Faz a fita de consultar o relógio de bolso. - Ainda é muito cedo. Ia mesmo entrar para tomar o pequeno- almoço. Fui dar uma volta. Faz-me companhia?

- Não, não posso - responde ela. Ele ergue uma sobrancelha. Ela deixa-o ali especado. Desce os degraus e encaminha-se para o mar que começa a tomar tonalidade plúmbea graças a um tecto de nuvens que se adensa.

O pai de Olympia toma normalmente o pequeno-almoço sozinho ou, se estiverem presentes outras pessoas, absorvido num livro que segura ao lado do prato. Mas na manhã do dia que se segue à visita de Olympia a Haskell, o pai levanta os olhos quando ela entra na sala do pequeno-almoço e continua a observá-la enquanto ela ocupa o seu lugar e abre o guardanapo no regaço. Embora não lhe falte vontade, Olympia não pode pedir-lhe que interrompa essa observação pois seria não apenas reconhecer uma situação anormal, mas também falar-lhe com modos inaceitáveis. Em vez disso, deseja-lhe bom-dia e serve-se de uma chávena de chá. Quando se atreve a olhar para ele, compreende que ele não a olha zangado mas sim com uma certa perplexidade, como se sentisse necessidade de se assegurar que a rapariga à sua frente não é, como poderia parecer, uma impostora.

- Olympia, estás com um ar macilento - diz o pai, imobilizando o garfo diante da boca. - Sentes-te bem? Às vezes preocupas-me. Fiquei particularmente apreensivo ontem à noite, quando não apareceste para o jantar.

- Estou óptima - diz ela, examinando a comida à sua frente. Está esfomeada e o bolo de framboesa tem um aspecto particularmente apetitoso. - Preocupas-te demasiado. A sério, pai, estou óptima. Se estivesse doente, dizia.

Ele bebe um gole de chá.

- Bem, sempre foste uma rapariga sensata - diz ele. - Esse vestido é bonito.

- Obrigada - responde ela.

- A propósito, estou a pensar em dar uma festa, em parte em honra do teu décimo sexto aniversário.

- Uma festa? Aqui?

- Eu e a tua mãe temos muito orgulho em ti, Olympia, e eu alimento grandes esperanças em relação ao teu futuro.

Embora a palavra futuro toque numa corda desconfortável e dissonante, faz um gesto de assentimento na direcção do pai. Obrigada - diz.

- E também recebi uma carta do reverendo Edward Everett Hale. Diz que talvez me faça uma visita por essa altura. Vamos ter um jantar dançante. Estou a pensar no dia dez de Agosto. Aí umas cento e vinte pessoas? Muitos dos veraneantes de Boston, claro, e o Philbrick e o Legny. É, seria excelente. Quer dizer que preciso que acabes de ler os sermões do Hale antes da festa. Já leste naturalmente Homem Sem Pátria".

- Já, pai.

- E também vou convidar os Haskell porque sei que o John está ansioso por conhecer o Hale. Tanto quanto percebi, a casa do Haskell deve ficar pronta até lá. De certeza que o John não aprecia muito comida de hotel a todas as refeições, por mais bem confec cionada que seja.

- O dia dez é daqui a menos de quatro semanas - diz Olympia.

- É, já não há muito tempo. Os convites têm de seguir depois de amanhã o mais tardar. Eu e tu vamos ter de preparar uma lista de convidados logo à tarde. A tua mãe ajuda-nos com certeza a escrever os convites.

- Sim, claro - diz Olympia.

Em silêncio, encara os planos do pai com medo e excitação. Medo porque será penoso e constrangedor estar em público com Haskell e não poder estar com ele. Excitação porque qualquer oportunidade para estarem um com o outro, mesmo em público, parece desejável.

- Se houver alguém das tuas relações que queiras convidar

- sugere o pai. Mais uma vez, estuda-lhe o semblante que ela espera nada denuncie.

- Não, não há ninguém - responde.

Ele anui. - Tenho de escrever uma mensagem e enviá-la. Sim, o Josiah tem de levar uma mensagem ao Haskell porque preciso de saber se a data é conveniente para ele e para a Catherine. Acho que o John nunca mais me perdoaria se o Hale cá estivesse numa noite em que ele tinha algum impedimento. Creio que o John e o reverendo partilham um interesse excepcionalmente entusiástico por automóveis.

- Deixa-me levá-la - diz Olympia num impulso. - Fazia-me bem o passeio.

Voltam-se ambos em simultâneo para a janela para apreciar o tempo que não está especialmente ameno. Mas ela sabe que o pai aceitará a sugestão já que é tão defensor da sua educação física como da sua educação intelectual.

- Sim - responde. - Um passeio é exactamente o que é preciso depois de um pequeno-almoço substancial. Mas deixa a mensagem na recepção. Não quero que o Haskell pense que estou reduzido a depender da minha filha para me fazer recados.

- Claro - diz ela, barrando com demasiada manteiga a segunda fatia de bolo de framboesa. O seu apetite não se deixa saciar.

- Um homem notável, não concordas - pergunta o pai.

- Gosto muito dele - replica Olympia.

- Refiro-me ao Hale - esclarece ele.

Um céu carregado de nuvens baixas impede a formação de sombras e confere à paisagem um aspecto monótono que a cor não mitiga. Talvez não haja nenhuma paleta na natureza, pensa Olympia ao caminhar pela praia, que seja tão susceptível de transformação como o litoral. Ainda dois dias antes, a água apresentava uma vívida tonalidade azul-marinho e as rosas rugosas formavam lindos borrões cor-de-rosa. Mas hoje essa mesma geografia está desprovida de cor, o mar agora cinzento e as rosas baças.

Avança com a mensagem do pai no bolso e as botas na mão. Está a imaginar como Haskell ficará satisfeito se lhe levar a mensagem ao quarto. Mas depois ocorre-lhe outro pensamento: não poderá ficar ofendido ou estar ocupado noutro sítio? Ela não conhece o horário dele, ainda não conhece a sua rotina.

Estão poucas pessoas no alpendre do hotel, contando-se entre elas uma mulher a tricotar, que sorri a Olympia quando ela sobe os degraus, e uma preceptora com uma criança pequena. Olympia empurra a porta do átrio, tira a mensagem do bolso e entrega-a ao recepcionista atrás do balcão que, felizmente, é diferente do do dia anterior.

- Ah, é para o Dr. Haskell então? - pergunta o recepcionista, lendo o envelope. - Ele está precisamente a tomar o pequeno-almoço na sala de jantar, menina... Vou já lá pedir que lhe entreguem. - Faz sinal ao porteiro e entrega-lhe a mensagem.

- Obrigada - diz ela.

Sai para o alpendre e demora-se junto à balaustrada. Fixa os olhos no oceano, apesar de não ver nada. Ouve os passos de Haskell atrás dela antes de ele falar.

- Isto é mais do que eu podia esperar - diz ele, em voz baixa. Traz uma camisa azul com um colete de linho cinzento. Tem o cabelo molhado que ainda exibe as marcas da escova.

Olympia volta-se. Haskell dá involuntariamente um passo na sua direcção e estende a mão, como se fosse tocá-la, mas depois controla-se a tempo, embora, pensa Olympia, se denuncie no momento seguinte ao olhar de soslaio para a mulher que está a tricotar.

- Olympia - diz ele.

Ela não pode tratá-lo pelo nome que ouviu a mulher dele usar com tanta ternura.

- Estavas de saída - diz ela, reparando no casaco e na maleta.

- Tenho de ir para a clínica. - Aproxima- se mais dela. - Só tenho pensado em ti - diz ele numa voz baixa que só ela consegue ouvir. - É uma tortura andar assim desconcentrado. Mas é uma tortura que desejei. Não posso negá-lo.

Havia tanto para lhe dizer, mas Olympia não consegue sequer articular as palavras.

Ele interpreta mal o seu silêncio prolongado.

- Estás angustiada - diz ele. - Foi por isso que vieste.

- Não - diz ela, sentindo um rubor de agitação subir-lhe

às faces. Tem dificuldade em olhá-lo nos olhos e, de súbito, torna-se agudamente consciente da sua juventude, da sua ingenuidade. também sabe que, se se permitir pensar no mal feito, estarão ambos perdidos, que aquilo que tão recentemente iniciaram ficará inquinado. - Não - repete -, não estou angustiada. Sinto unicamente felicidade e não há lugar para mais nada.

Ele olha mais uma vez de relance para a mulher que tricota e que estende agora a obra para verificar o progresso feito. Pega no cotovelo de Olympia e guia-a pelos degraus abaixo. Ela não hesita em deixar-se conduzir. Contornam o hotel pelas traseiras e detêm-se numa pequena cerca. Há um banco com uma bicicleta encostada. Estão sós, embora ainda visíveis do hotel. Sentam-se no banco.

Ele passa os dedos pela saia dela, do joelho à anca, e deixa-os demorar-se no cimo da coxa. Ela põe a mão sobre a dele. Uma camareira passa pela abertura da cerca.

- Isto é uma loucura - diz ele, retirando relutantemente a mão. Ficam sentados em silêncio durante algum tempo. Ao fim de uns momentos, ele lembra-se da mensagem do pai dela.

- Que vem a ser esta festa? - pergunta, tirando a mensagem do bolso. - É o teu aniversário?

- Não nesse dia - responde ela.

Ele volta a ler a mensagem e guarda-a a seguir. Olympia acha que, nesse momento, ele não deseja que nada lhe recorde a sua idade.

- É claro que não podes. - diz Olympia.

- Mas vou ter de falar disto à Catherine porque ela há-de saber de qualquer maneira - diz ele. - Há-de querer vir. Haverá talvez muitas ocasiões.

- Falta muito tempo - diz Olympia. - Não sou capaz de pensar nisso agora. Diz o meu pai que a tua casa já estará pronta.

Ele faz um gesto de assentimento.

- Um dia gostava de ver como está a avançar.

Ele olha-a de um modo estranho. - Não posso conversar de coisas normais contigo, Olympia, em termos normais. É como se tivesse perdido o hábito da normalidade da noite para o dia. O único assunto em que desejo pensar e de que desejo falar és tu. E para quê lembrarmo-nos de uma casa em que terei de viver sem ti?

- Porque é real - diz ela. - Porque vai acontecer. Ele parece surpreendido por ela já ter pensado no fim. - Se eu tivesse uma ponta de dignidade, mandava-te embora. Se tivesse respeito pela tua dignidade.

Esta afirmação irrita-a. - Que importa a dignidade perante isto? - pergunta.

Ele abana a cabeça. - Nada, nada - responde. - Absolutamente nada. Deixas-me assombrado, Olympia.

Ela desvia os olhos. Um nevoeiro aproxima-se pelo relvado das traseiras.

- Escrevi uma carta - diz Haskell. - Escrevi-a para mim mesmo ontem à tarde. Não foi escrita para tu leres. E ainda não está acabada, não passam de uns sarrabiscos. Nunca pensei em dar-ta, mas agora quero dar, por mais imperfeita que esteja. Leva a mão à maleta e retira um envelope. Guarda-o por um momento na mão e depois entrega-lho. Consulta o relógio. Agora tenho de te deixar. Estão à minha espera na clínica.

Entra um rapaz na cerca, estacionando timidamente a bicicleta. Deve ser um dos criados do restaurante, pensa Olympia, ou um moço de estrebaria. Talvez seja um dos auxiliares do jardineiro do hotel.

Haskell levanta-se abruptamente. - Quem me dera que não fosse assim, Olympia - diz fervorosamente. - Quem me dera poder ser eu a ir ter contigo.

Olympia levanta-se também.

- Não adianta querermos o que não podemos ter - diz ela. é

Olympia encaminha-se para casa com passos propositadamente lentos ao longo da linha de água e através do nevoeiro que se adensa. Esgueira-se o mais silenciosamente possível até ao quarto. Mas, uma vez fechada a porta, abre o envelope. Em anos futuros há-de lembrar este momento como uma cena um tanto cómica: sentada na cama por fazer, o chapéu ainda posto, a rasgar o envelope em pedaços.

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14 de Julho de

Queridíssima Olympia,

Se alguma vez um homem sentiu o espírito dissolver-se e fundir-se no de outra pessoa, foi contigo esta manhã. Por que razão assim foi, não sei dizer. Esta ligação que começámos é desastrosa por mais razões do que me atrevo sequer a enumerar. És muito nova e eu não. Tens uma vida inteira à tua frente que eu sei que destruí irreparavelmente. Perdoa-me, Olympia. Não, não perdoes. Não se pode pedir perdão por aquilo que não se lamenta; e eu não posso, como homem e como amante, lamentar os preciosos momentos que me foi consentido passar na tua companhia.

Nunca julguei ser o tipo de homem que viveria uma grande paixão, julguei que esses estados eram ficções escritas por pessoas que pretendiam empolar um acto físico natural mais do que aconselhava a necessidade ou até a prudência. Na verdade, a minha equanimidade nestes assuntos era um atributo que muitas vezes me congratulei por possuir e por encontrar igualmente em Catherine, que nunca se revelou uma pessoa declaradamente apaixonada. Peço desculpa se te ofendo ao escrever-te em termos tão francos. Deus sabe que, se pudesse, também pediria desculpa a Catherine por a expor deste modo, embora saiba que ela não permitiria qualquer desculpa com a mesma certeza com que sei que ficaria profundamente infeliz com a minha infidelidade.

Queridíssima Olympia, a minha vida está completamente

transtornada desde o momento em que te vi pela primeira vez, na praia. Não te recordas de mim, mas eu recordo-me de ti: uma jovem com um vestido de seda cor-de-rosa claro que mal parecia conter a vida dentro das suas pregas. Caminhaste descalça pelo areal e todos os homens nessa praia te observaram e desejaram. Mais tarde, no alpendre, quando nos conhecemos, senti um choque profundo ao ver-te, como se já nos tivéssemos conhecido.

Até aqui, a minha vida tem sido de satisfação pessoal, de orgulho no meu trabalho, de serviço à comunidade e de contentamento junto da minha família; mas tudo isso agora é decerto menos do que era. Não é suficiente. Não, nunca mais será suficiente. Como posso explicá-lo a mim mesmo, quanto mais a ti? A ti, tão nova e que mal iniciaste o teu percurso?

Tenho-me igualmente prezado por possuir um entendimento instintivo das questões físicas quando, de facto, não possuía a mais pequena compreensão. Pensei que me conhecia bem - os meus hábitos sempre foram regulares - mas hoje descubro que sou um estranho a mim mesmo, um desconhecido. Como era plácido e presumido.

Tudo em ti é extraordinário para mim. Já sabes como dar prazer a alguém e a ti própria, creio, qualidade que a Catherine não possui. Apesar do amor dela por mim e do seu desejo de agradar aos outros, não sabe dar prazer a si própria. Acho que não é uma situação que a perturbe muito. Quando uma coisa destas é um facto aceite, não se sabe o que se perde. Mas acho que até hoje não me apercebi da importância que o prazer de uma mulher tem para um homem (e como o inverso, naturalmente, também deve ser verdade).

Não deves arrepender-te do que fizeste, Olympia. Não deves sentir vergonha. E tenho a impressão - na realidade, trata-se de uma das coisas que tanto me espantam em ti - de que não sentes, de que não sentirás. Não por isto. Talvez por outras coisas, mas não por isto. Estarei a iludir-me, a desejar o impossível? Acredito sinceramente que não. Creio que compreendes aquilo que fazes. Ou estarei tão enganado que só vejo o que desejo ver? Desejar e, por conseguinte, acreditar que és mais madura do que a idade que tens, que possuis um entendimento físico que escapa a tantas mulheres durante a vida inteira?

(Não pretendo sugerir com isto que estivesses a pensar no teu próprio prazer hoje nem que o nosso orgasmo simultâneo te tenha dado prazer, embora um dia venhas a sentir essa ventura física; estou seguro disso).

Perdoa-me, Olympia. Perdoa-me por te roubar o que não tenho o direito de possuir.

Como tudo isto é imprudente. E perigoso.

Conheci a Catherine no segundo ano do exercício da minha profissão. Fui cativado pela sua tranquilidade interior e ternura. O pai dela é pastor metodista, um homem de meios modestos, embora erudito e agradável, um homem cuja aprovação foi importante para mim. (E agora, meu deus, como este homem me desprezaria, se soubesse! Existe entre os homens, entre um pai e um pretendente, um entendimento de certos aspectos da vida de um homem que não se pode reconhecer abertamente nem, decerto, na presença da mulher; deve assim existir entre os homens um sentido de confiança, de convicção de que a filha que um dia se tornará esposa não será, de modo algum, maltratada. E ainda que não seja expressa, é uma espécie de confiança sagrada. Entre mim e o pai da Catherine existia esta confiança e eu considerava necessário honrá-la. E agora experimento uma angústia terrível por ter traído essa confiança).

Não posso escrever sobre isto.

Queria descrever-te a ti, a quem desejo contar tudo, em que circunstâncias nasceu o meu amor pela Catherine bem como o desejo de a desposar. Tive oportunidade de a observar muitas vezes no papel de guardiã das sobrinhas, cuja mãe, Gertrude, morreu prematuramente de tuberculose. Admirava a forma como a Catherine tratava das crianças e compreendi que seria uma excelente mãe para os seus próprios filhos. Hás-de considerar esta atitude oportunista e imagino que foi; mas também ela me deve ter considerado um bom partido porque não creio que quando casámos me amasse profundamente mas sim de um modo alegre e agradável, condições que fazem uma boa esposa e um bom casamento. E, pelo meu lado, espero não ter sido uma desilusão para ela.

(Embora o seja a partir de agora. Desejo encontrar-te nela. A todos os minutos do dia. E por essa razão, assim como pelo segredo que carrego no peito, temo o regresso dela na sexta-feira à noite. Não me está no sangue comprazer-me na mentira).

Pergunto a mim mesmo por que razão a paixão, quando ocorre fora do casamento, é tão absolutamente errada? É uma questão que me intriga. Como pode uma coisa que se sente como autêntica, honesta e pura, que é como devo descrever os meus sentimentos por ti, e declaro que são amor, que nunca julguei possível ao fim de tão pouco tempo (e como mais uma vez me enganei), ser tão feia para causar tanto sofrimento?

E, mais intrigante ainda, não ter um desfecho feliz? Nenhum... nenhum.

Não posso negar que conheci a Catherine de todas as formas possíveis a um homem e que ela tem sido generosa. Então porquê... porque é que não foi suficiente? Porquê? Procuro uma resposta racional quando a razão não é bem-vinda. Procuro uma resposta científica quando a ciência não é desejada.

Ou será possível que uma união como a que iniciei contigo tenha na origem uma ciência particular? As suas próprias leis e fórmulas físicas? Poderemos um dia detectar esta coisa que cega chamada paixão, e quantificá-la, poupando-nos assim a esta agonia desesperada?

E, contudo, posso desejar que assim seja? Posso, em verdade, desejar que esta exultação, este mistério, sejam quantificados e portanto domados?

Tenho de terminar agora porque tudo isto não passa de delírio, perigoso delírio que me esgota.

Não sou escritor, mas um homem da medicina, infectado com uma doença tão subversiva que o paciente não deseja a sua própria cura.

Olympia deixa cair as páginas da carta no chão. Tapa o rosto com a saia. Fica sentada nessa posição durante algum tempo.

Nunca leu uma carta assim. Nunca antes compreendeu tão intimamente um significado ou sentiu, à parte a história específica nela contida, que podia ter sido ela a escrevê-la.

Larga a saia. Com um puxão impaciente, desaperta as fitas do chapéu.

Meu deus, pensa. Que fomos nós fazer?

Não pode haver dúvida agora de que pôs em marcha uma série de acontecimentos irreversíveis, de que violou imperdoavelmente os direitos de um homem e da sua família, a confiança de um pai e a bondade de uma mulher. A única solução é fazer com que Haskell a esqueça para suavizar as arestas desta loucura. Uma insanidade que ela própria sente e pela qual deve agora considerar-se responsável.

Jura que nunca mais estará com Haskell nem consentirá que ele esteja com ela. E, se ele aparecer em sua casa, ausentar- se-á.

Como foi irreflectida, egoísta, preocupando-se unicament com a sua felicidade quando estão em jogo as mais graves consequências. Sabe que perderia para sempre o pai se ele descobrisse seus actos clandestinos, que ele nunca mais confiaria nela.

Estende-se na cama e passa as mãos pelos olhos. Fica deitada a olhar para o tecto durante algum tempo e, talvez por estar exausta adormece.

Acorda estremunhada e senta-se. Dirige-se a uma mesa onde está uma bacia e um jarro de água. Deita água na cabeça e na cara molhando o cabelo. Enxuga a cara e examina-se ao espelho.

E, com a mesma velocidade com que a madeira pega fogo, esquece a decisão anterior. O seu desejo de estar com Haskell é tão intenso que tem de resistir inconscientemente ao impulso de se dobrar como se tivesse recebido um golpe no âmago do seu ser.

Reflecte e conclui que, no mínimo, deve discutir com Haskell as questões e os sentimentos expressos na carta. Não devem pelo menos isso a si próprios? E se for demasiado perigoso falarem pessoalmente, não devia escrever-lhe uma carta? Sim, sim, devia. Fá-lo-á agora.

E mais tarde pensará: a mente engana-se a si própria com astúcia. Porque a necessidade de responder é interminável, não é? Ele a ela e ela a ele, e por aí adiante!

Não sabe que horas são. Não tem relógio no quarto e não se quer apresentar lá em baixo neste momento. Espreita para o mar, tentando discernir as horas pela cor da água e do céu, mas depara-se com a mesma luz acromática de antes. É de tarde. Deixou passar o almoço. Se deixou, porque não a chamaram? Tenta secar o cabelo o melhor possível, escovando-o e voltando a prendê-lo. Encontra papel e pena na gaveta e senta-se a escrever.

Meu caro senhor,

Ainda agora começo e já a língua se me prende, deixando-me sem fala (qual é o equivalente de sem fala, quando se trata de papel e tinta e não da língua? ) porque não posso chamar-te senhor nem John, que é o nome que os outros (e aqui estou a pensar em Catherine) te dão e, nos meus pensamentos, como te disse, és sempre Haskell; deixa-me então corrigir o tratamento e embora o nome possa soar demasiado formal, garanto-te que não o é, de modo algum, quando penso em ti, o que é constante.

Meu querido Haskell,

Como viajámos longe em tão breves horas, horas tão-pouco passadas na companhia um do outro, mas sós com os nossos pensamentos e palavras, por mais inadequados que possam revelar-se. Tive a intenção, depois de ler a tua carta, que apreciei ainda mais pela sua espontaneidade e carácter inacabado, de insistir para que não voltássemos a estar um com o outro, nem a comunicar ou a permitir-nos estar na companhia um do outro, independentemente da formalidade da ocasião. E tencionava fazê-lo não respondendo à tua carta e rompendo o que existe entre nós com um único e brutal golpe. Mas concluí que não sou capaz. Não há uma só parte de mim capaz de manter essa decisão. Na verdade, concluo que não quero mais nada senão estar contigo.

A princípio, devo confessar, fiquei horrorizada com a tua carta, profundamente arrasada por termos ido tão longe, e não me refiro apenas ao envolvimento físico em que nos deixámos absorver ontem, mas igualmente ao domínio ainda mais absorvente do espiritual que parece ter-se apoderado de nós e não nos libertar. Desejo dizer-te que sou, pelo menos, tão responsável pelo que sucedeu ontem como tu e que, aconteça o que acontecer entre nós ou por mais difícil que seja a situação em que venhamos a encontrar-nos - pois que bom resultado poderá advir? Nenhum, receio tanto como tu, nenhum - nunca considerarei que fui seduzida. Não tenho a idade, mas tenho determinação e algum entendimento e, embora o que se passou tenha sido uma novidade para mim, compreendi-o, aceitei-o de todo o coração e podia tê-lo interrompido a qualquer momento. Mesmo agora posso escrever com toda a sinceridade que me deleito na lembrança de ontem e, embora estas recordações não passem de vagos ecos da realidade, são tesouros de que não me separaria de livre vontade. A tua imagem está gravada em mim como a luz em papel fotográfico. Sei já que nenhuma outra forma humana alguma vez me será tão querida.

(E sim, fui eu quem desarranjou as fotografias em cima da tua cómoda. Mas percebeste logo isso, não percebeste? )

A tua angústia é a maior porque és casado com uma boa mulher. E, embora eu partilhe essa angústia sempre que vejo mentalmente o rosto dela, sei que carregas o fardo mais pesado porque me é impossível conhecer aquilo que tu conheces, aquilo que viveste com ela todos estes anos. (E o pecado está em saber que a ferimos, não é? Não só dormimos juntos, como, ao escrever estas palavras, lhe fazemos conscientemente um mal incalculável ).

Admiro profundamente o teu trabalho. Pela minha parte, nunca poderia ser médica porque, embora o corpo me interesse, não tenho coragem para enfrentar diariamente a ameaça da fealdade e da morte. Nem, estranhamente, nutro grande respeito pelos médicos da mente porque considero que a alma é um lugar demasiado privado para resistir a esse tipo de invasão. Por vezes, penso que gostaria de escrever contos ou poesia, se bem que o meu talento seja insuficiente, e não sei bem que utilidade tal esforço teria. Ainda não estou persuadida da glorificação da arte acima de outras actividades que exigem talento e perícia. Não existirá mais utilidade e, por conseguinte, maior valor, numa cadeira simplesmente construída? Ou num casaco bem feito? A tua pobre Mrs. Rivard é decerto capaz de pensar assim. Admiro-te enquanto escritor, mas admiro-te mais enquanto médico pois tive abundantes provas da tua competência e generosidade.

Sim, vem à imponderada festa do meu pai. Vem. Escreve ao meu pai a dizer que vens. (Não estarei eu agora a decidir a minha sorte com o meu maior pecado, encorajando a continuação do que iniciámos e, pior ainda, na presença da Catherine e do meu pai, que não hesitámos em trair? ) Mas não posso, honestamente, dizer que não desejo ter-te aqui. Não falarei contigo para além do que a ocasião exige nem causarei à tua mulher qualquer amargura. Contentar-me-ei simplesmente em contemplar-te à distância e em saber que já estivemos juntos na mais íntima das circunstâncias. Só imaginar as palavras silenciosas que trocaremos já me enche de prazer.

Crê-me em tudo tua.

Olympia lê e relê a carta e disciplina os seus pensamentos descontrolados com pontuação e uma letra fluida e legível. Sela a mensagem, pensando na melhor maneira de lha fazer chegar. E depois concebe rapidamente o plano de a mandar por Josiah. Se Josiah mencionar por acaso a incumbência ao pai, Olympia pode explicá-la sugerindo que se sentiu indisposta para entregar pessoalmente a mensagem anterior e que acabou por ter de pedir ao empregado. Tomada a decisão, sai do quarto à procura dele. Procurando na sua aparência sinais visíveis do tumulto que se apossou dela antes, desce as escadas da frente e põe-se à escuta de indícios relativamente à hora. Enquanto avança pelo corredor até à cozinha, onde conta encontrar Josiah entregue a uma tarefa suficientemente insignificante para se deixar convencer a entregar a carta, conclui que o pai deve estar a dormir ou no escritório. É assim que transpõe silenciosamente a porta de vaivém e se depara com uma visão extraordinária.

Durante um segundo crítico - o segundo durante o qual podia ter recuado, sem ser vista - é incapaz de interpretar com exactidão aquilo com que inadvertidamente esbarrou. Vê uma criatura indecifrável, meia em pé, meia sentada, com os membros cingidos em redor do corpo numa posição inverosímil, uma confusão de roupas em desalinho, uma dupla imagem de globos de carne brancos, uma cabeça atirada para trás, um esgar no rosto. E depois, no instante seguinte, levada por um impulso que a empurra para dentro da cozinha, analisa a imagem e repara que a figura em pé de costas para ela - mas agora a cara vira-se na sua direcção, o corpo incapaz de deter a sua arremetida - é Josiah e que os membros em seu redor, numa embrulhada de meias e anáguas, são as pernas de Lisette. Os globos de carne unidos (e depois unidos novamente) são respectivamente as nádegas do homem e os seios da mulher; o esgar sorridente é a expressão do prazer nas feições de Lisette.

O acto do amor, tal como Olympia o vivenciou com Haskell no dia anterior, foi fluido, um movimento aparentemente sinuoso. Mas agora, visto com os olhos do observador desprevenido, o acto parece ser, na melhor das hipóteses, grotesco e, na pior, brutal, de tal forma que nenhum amor ou ternura são necessariamente trans mitidos, apenas o acasalamento animal de duas criaturas carnais. Ocorre-lhe imediatamente a animalidade do parto que desmentt igualmente o seu contexto sagrado e a sua beleza.

Olympia abandona a cozinha, sabendo que a viram. Encosta-se à parede da copa e sente a vergonha que se apodera do voyer incauto, o choque de interromper um acto tão privado. Embora estranhamente, não sinta horror. E sente-se reconhecida por o seu conhecimento do acto ter resultado da sua experiência com Haskell e não da visão da canhestra criatura na cozinha pois a ideia do amor físico poderia - e quem sabe por quanto tempo? - tê-la descoroçoado em absoluto.

Ainda tem na mão a carta, que enfia na manga. Sai para o alpendre para apanhar ar. Deduz então que o pai deve estar ausente pois Josiah não correria tal risco se o pai estivesse em casa. E depois, de súbito, está completamente envolvida por elas: as realidades do corpo. Contemplando o mar, compreende, sob o choque de impulsos de associação, que também a mãe e o pai partilharam esta vida física e continuam a partilhar. Que os aposentos da mãe são tão declaradamente femininos porque o pai gosta deles assim. Vê a camisa de noite de seda da mãe pousada na cama todas as noites, os lençóis de cetim cor de glicínia, as velas na mesinha-de- cabeceira, as urnas de incenso e as muitas jarras de flores, os complexos penteados e toilettes da mãe à noite e as prolongadas ausências do pai quando leva a mãe ao quarto depois do jantar. Se Haskell e Josiah são criaturas sexuais, também o pai e a mãe o são naturalmente.

Relutante em continuar a imaginar o que uma filha não deve contemplar, Olympia afasta estes pensamentos, avistando nesse momento um grupo de rapazes a jogar à bola na praia. Animada por uma ideia, dirige- se ao quarto, tira algumas moedas da carteira e encaminha-se para o paredão. Chama o rapaz mais alto que acorre junto dela com os seus calções curtos, o cabelo comicamente esculpido pela água salgada e pelas brisas marítimas.

- Quero que me vás entregar uma carta - diz ela. - Ao Dr. Haskell que está no Highland Hotel. Sabes onde fica?

- Sei, sim.

- Toma alguns centavos pelo incómodo. Preciso que vás entregá-la.

- Sim, obrigado.

Entrega a carta e as moedas ao rapaz e fica a vê-lo correr pela areia dura junto à água, a sua silhueta e atitude evocando as do próprio Mercúrio.

Ouve um incêndio horrível ontem à noite em Rye. Soubeste?

- Um incêndio? - pergunta Olympia. Está acocorada no chão do alpendre, a tentar abrir o fecho do estojo de mogno que contém o telescópio que o pai mandou vir de Nova Iorque para o seu décimo sexto aniversário. A ideia dele é que o instrumento seja montado para que ela possa ter vistas excelentes do mar e das aves embora Olympia desconfie secretamente que o pai e os seus hóspedes o usarão mais frequentemente do que ela e que, quando o usarem, direccionarão o instrumento para as casas de férias que curvam em meia-lua ao longo de Fortune's Rocks.

Mas está a ter dificuldades com o fecho.

- Dá cá, deixa-me abrir - diz o pai, baixando-se e arrastando as abas da casaca pelas tábuas pintadas do soalho.

- Disseste um incêndio? - A sua atenção não está inteiramente na tarefa e menos ainda nas palavras do pai.

- Um incêndio terrível. No Centennial Hotel. Um edifício obsoleto e há muito tempo em decadência. Ouvi dizer que não se podia abrir uma janela com medo de que os vidros caíssem. Os paquetes tinham de bater na tubagem com um martelo para fazer os hóspedes pensar que o calor do vapor subia. Pronto, já está.

Ela retira do estojo um telescópio de latão e madeira, um tripé desmontável e várias extensões. O pai, que raramente se compraz em posses materiais, parece uma criança com um novo brinquedo no Natal. Levanta-se imediatamente e começa a tentar montar o instrumento. Mas, tal como a filha, não tem paciência para as instruções e portanto não as lê; e acaba por demorar o dobro do tempo a montar o aparelho.

- Ardeu todo no espaço de uma hora - diz o pai. - Uma verdadeira acendalha. São todos. Os hóspedes fumam e adormecem ou os fornos incendeiam-se. Já é o quarto hotel a arder este ano.

- Espero que nenhum pertencesse a Mr. Philbrick - diz ela.

- Não, o Rufus tem tido sorte. Olympia, ajuda-me aqui. Porque é que estás para aí sentada a olhar para o mar?

Talvez ela suspire ou emita um som de exaspero.

- Francamente, Olympia - diz o pai. - Não percebo o que se passa contigo. Andas tão... tão... não sei. Alterada. Diz-me que não é para durar.

- Vais precisar de uma chave inglesa - diz ela.

Deixa o pai por um momento e dirige-se à cozinha à procura

de ferramentas que se encontram numa caixa no vestíbulo das traseiras. É verdade que anda inquieta. Não só não teve resposta à carta que enviou a Haskell, como não tem qualquer maneira de determinar se ele a recebeu sequer. Imagina que é possível que o rapaz que incumbiu da entrega a tenha simplesmente lançado ao mar e desaparecido com as moedas.

- Pai, acho que devíamos instalar um telefone - diz ela quando volta com a chave inglesa.

- A que propósito? - pergunta ele. - Uma pessoa vem de férias precisamente para fugir a essas invenções.

- Podemos ter uma emergência. Já tivemos uma emergência.

Podíamos ter telefonado às pessoas para virem ajudar-nos.

- Se bem me lembro, tivemos imensa ajuda e, tirando a perda

de vidas acerca da qual tu e eu nada podíamos fazer, desenvencilhámo-nos muito bem, dadas as circunstâncias.

Olympia reclina-se na cama de rede e observa o pai, que não tem realmente muito jeito para a mecânica, a montar o telescópio. Acha melhor não interferir uma vez que duas pessoas mecanicamente ineptas são, sem dúvida, piores do que uma só. Quando ele, por fim, acaba de montar a ocular, espreita atentamente por ela e ajusta alguns botões. Solta uma exclamação perante a vista.

- Olympia, chega aqui, tens de ver isto.

Ela aproxima-se do telescópio e encosta o olho à lente. A princípio, não consegue imterpretar o que está a ver. Recua por um momento e repara que tem o telescópio focado no montante da balaustrada do alpendre. Inclinando-se novamente, levanta o instrumento e move-o para o lado e, depois, ajustando um botão, observa a móvel massa azul tornar- se o mar, uma mancha branca uma gaivota e um borrão vermelho um barco de pesca a baloiçar na água. A vista pelo telescópio é estranha aos seus olhos. Apenas consegue ver círculos altamente particularizados e desnorteantes dentro da realidade mais vasta, e custa-lhe por vezes visualizar o todo mentalmente. Pensa que deve ser necessário um ajuste qualquer porque a imagem trémula ganha e perde constantemente nitidez, fazendo-a sentir-se tonta. Mas quando vira o telescópio na direcção da praia, é gratificada com a visão da casa de férias dos Farragut com a sua madeira fasquiada batida pelo tempo, as suas cadeiras de baloiço em vime deformadas e a sua agradável fiada de guarda-ventos nas janelas. Vislumbra a mãe de Victoria sentada num canto do alpendre, uma janela aberta através da qual duas pontas brancas de cortinas se agitam com a brisa marítima e uma corda da roupa onde lençóis e fronhas azuis-claros se enfunam e depois aquietam. Abandonando a casa dos Farragut, Olympia manobra o telescópio lentamente ao longo da orla marítima, inspeccionando cada casa de férias, reparando em determinados aspectos a que, ao nível do solo, nunca prestara atenção - as formas dos telhados ou o número de empenas - até que o instrumento acaba por pousar na fachada do Highland Hotel. Durante algum tempo, estuda o alpendre do hotel, o seu extenso relvado frontal e até as janelas de certos quartos em que está interessada. Andam muitas pessoas nas imediações mas, como não vê a figura que procura, deduz que Haskell deve estar na clínica ou ainda no quarto. É assim que fica duplamente sobressaltada quando ouve o pai dizer, precisamente atrás de si, com alguma surpresa e prazer: - Olha quem aqui está! Como é que vai, John?

Haskell, num fato cor de trigo e com o chapéu de palha na mão, está à entrada. Por um momento terrível, Olympia pensa que ele veio falar ao pai da relação entre ambos e que trouxe a carta dela como prova. Mas assim que capta o olhar de Haskell e a sua particular combinação de angústia e expectativa, o medo dá lugar à razão. Ele avança e pega- lhe na mão para a cumprimentar.

- Olympia - diz ele -, é um prazer voltar a vê-la.

- E a si - responde ela.

Larga-lhe a mão com relutância.

- O seu pai tem-na mantido ocupada.

- Ainda agora estava a comentar com a Olympia que ela parece anormalmente alheada este Verão - diz o pai.

Haskell perscruta-lhe o rosto. - Com um miradouro encantador como este - diz -, também eu andaria um pouco alheado.

Como exigem as boas maneiras, Haskell volta a sua atenção para o telescópio. - Mas o que é que tem aqui, Biddeford?

- Chegou hoje - diz o pai com um certo orgulho.

- Um belo instrumento - comenta Haskell. - Posso espreitar?

Inclina-se e olha para a paisagem, ajustando o foco à sua própria visão.

- Tem uma resolução excelente, Biddeford - diz. Aponta o telescópio mais para longe na praia e ajusta um botão. – Posso mostrar-lhe uma coisa? Venha ver, Olympia.

Ela aproxima-se de Haskell e espreita pela ocular. Tem consciência dele ao seu lado e atrás de si e sente-lhe a perna a pressionar ligeiramente a sua. Demora alguns instantes a focar como deve ser, mas quando foca distingue a estrutura de madeira de uma casa de praia. Fica no cimo de um outeiro de dunas e rodeada de areia e erva-serra. Apercebe-se de que será uma casa espaçosa e com alpendres fundos. Foi colocada uma larga empena que já suporta no centro uma enorme janela redonda com muitas vidraças pequenas. Pergunta-se a quem pertencerá um dia essa janela. A Martha? A Haskell e à mulher?

Olympia levanta os olhos e afasta-se para o lado. O pai toma o seu lugar e estuda a casa. - Um belo desenho, Haskell - exclama. - Sinceramente. E o empreiteiro está a avançar bem. Prevêem terminar até um de Agosto?

- Disseram-me que levam uma semana de atraso - respondeu Haskell. Faz rodar o chapéu de palha na mão. - Porque não vem comigo agora ver a casa, Biddeford? Se tiver tempo, tenho algumas perguntas e apreciaria muito os seus conselhos.

Claramente lisonjeado e satisfeito, o pai de Olympia mostra-se imediatamente desalentado. - Maldição - diz, com evidente desapontamento. - Adorava visitar a obra consigo, John, mas prometi que ia ao dentista. Que aborrecimento, se pudesse contactá-lo.

- Se tivéssemos telefone, pai. - diz Olympia, incapaz de resistir a um sorriso.

O pai pigarreia. - A minha filha é de opinião que devíamos instalar um telefone em Fortune's Rocks, mas eu tentei explicar-lhe que uma pessoa vem de férias precisamente para ignorar tais instrumentos. - Abana a cabeça. - Não, não posso ir consigo - acrescenta.

- Fica então para outra vez - diz Haskell educadamente.

- Mas a Olympia adoraria ir - diz subitamente o pai a Haskell, como se ela nem sequer estivesse presente no alpendre. - Seria aliás uma excelente distracção para ela - acrescenta. - Ultimamente não anda bem e fazia-lhe bem sair.

Haskell olha Olympia nos olhos. - Seria uma honra mostrar-lhe a obra - diz. - Se acha que ela não se vai aborrecer muito.

- Duvido que me aborreça - diz Olympia em voz baixa.

- Então está assente - diz o pai, tristonho. - E espero que também tenha vindo dizer-me que estará presente com a Catherine na festa que vamos dar, John. Disse-lhe na minha mensagem que era em honra do décimo sexto aniversário da Olympia?

A chamada de atenção para a idade de Olympia, na presença de Haskell e do pai, propaga uma breve e ligeira vibração pelo ar que ela acha que até o pai deve ter notado porque olha primeiro para Haskell e depois para ela.

- Um marco importante, sem dúvida - observa Haskell. Claro que tenho de perguntar primeiro à Catherine antes de me comprometer.

- O Hale vai cá estar - anuncia orgulhosamente o pai.

- O Hale - diz Haskell, olhando para Olympia como se não se lembrasse de onde conhece o nome. - O Hale - repete. - Sim, claro. - Faz-se uma pausa. - Vamos, Olympia?

Ajuda-a a subir para a carruagem verde-garrafa.

- Não consegui ficar longe - diz. Sobe para o lado dela. - Se conseguisse, queria que me escrevesses todos os dias.

- Então vou escrever-te todos os dias - diz Olympia. – Mas tens de me prometer que destróis as cartas.

- Não sei se serei capaz disso.

- Então não escrevo porque não quero correr o risco de a Catherine as descobrir.

- Seja, digo-te então que as destruo, mas na realidade não destruo nada - diz ele.

E ela não consegue conter um sorriso.

Haskell não toma o percurso da estrada costeira, como sugeriu ao pai de Olympia, mas desvia imediatamente para a estrada de Ely.

A maré está vaza e os pântanos ostentam ravinas até perder de vista.

A lama forma penhascos e gargantas em miniatura no labirinto.

Quando ambos desaparecem do alcance da vista da casa, Haskell

detém-se abruptamente na berma da estrada.

- Tenho uma coisa para ti - diz.

Tira do bolso uma caixa de veludo minúscula e abre-a. Ela não está preparada para o medalhão, numa magnífica forma oval em ouro com as suas iniciais delicadamente gravadas na superfície.

- Não posso aceitar - diz ela.

- Sim, Olympia, podes. Quero que aceites.

O ouro cintila ardentemente à luz do sol.

- Há tão pouca coisa que te posso dar - diz ele. – Aceita isto por favor. Dá-me o prazer de saber que o usas.

Roda-lhe os ombros para poder apertar-lhe o fecho.

- Nunca o hei-de tirar - diz ela, voltando-se.

- Eu sei que não podes deixar que ninguém o veja - diz ele.

- Mas podes usá-lo assim. - Enfia-lhe o pendente por baixo da

gola do vestido. Ela sente o ouro cair-lhe entre os seios. Ele toca com o dedo o tecido no ponto em que o medalhão caiu. E talvez seja esse gesto íntimo, esse único gesto em cem gestos, que lhe enche os olhos de lágrimas.

- Queria fazer-te feliz - diz ele, puxando-a de encontro ao peito. - Oh, Olympia, é um erro envolveres-te nisto.

Ela separa-se dele e seca os olhos. Funga. - Se o nosso envolvimento é ou não um erro é irrelevante - diz ela, relutante em renunciar ao que tão recentemente conquistaram. - Claro que é um erro. E muito mais no teu caso. É um erro para ambos. Mas pensei que tínhamos concordado em não desperdiçar a nossa felicidade com a autopunição.

O chapéu cai-lhe para trás e tomba na erva. Ele entrelaça os dedos no cabelo dela e puxa-lhe a cabeça para trás de forma a expor-lhe o pescoço. Ela está contorcida no banco de madeira e tem já a saia subida até aos joelhos. O abraço deles é desajeitado e ele salta do banco, pega-lhe na mão e condu-la para os pântanos.

Caem juntos de joelhos, a erva alta dobrando-se por debaixo deles, e ele empurra-a mais para baixo de forma a ficarem deitados de lado, voltados um para o outro. Haskell debate-se para despir o casaco e tira os suspensórios. Desaperta-lhe o peitilho do vestido enquanto ela lhe desprende a camisa das calças. O tecido enfuna-se como um pára-quedas. Olympia faz deslizar a mão pelo peito dele acima e parece-lhe o gesto mais ousado da sua vida.

Nas proximidades ela ouve o ruído surdo e o agitar da asa de um pássaro a bater na água. Uma coisa aguda espeta-se-lhe no flanco. O sol é tão ofuscante que ela tem de deslocar o rosto dele para a frente do seu para proteger os olhos. Quer dizer a palavra bem-amado em voz alta. Hesita e, em seguida, di-la - uma vez, duas vezes, três vezes por fim - a palavra emergindo em soluços, como se estivessem a socá-la. Olympia, sussurra Haskell, as cabeças juntas.

Toma-lhe o lóbulo da orelha na boca e toca-a através do tecido do vestido. Ela sente um alvoroço percorrer-lhe o corpo. Com um instinto que não sabia possuir, as suas ancas elevam-se de encontro à mão dele. Como é que o corpo sabe? Estica as pernas e impele-se com urgência contra ele. As novas sensações dentro de si são intensas e acutilantes. Os seus ombros descaem sobre a erva e ela arqueia as costas. Haskell abraça-a com força, o rosto enterrado no pescoço dela.

Estão deitados lado a lado, nos pântanos. A humidade exsuda da erva.

- Nunca imaginei uma coisa destas - diz ela.

Quer continuar a falar desta coisa que lhe abalou o corpo como se fosse um boneco de trapos, desta coisa que lhe deixou um estranho fio de desejo que perdura. Quer Haskell dentro de si como no quarto dele. Não lhe ocorre outra forma de lhe dizer isto senão levantar as saias.

Como está a tornar-se surpreendentemente ousada, pensa.

- É assim que é? - pergunta-lhe. - É este o segredo que todos os homens e mulheres partilham?

- Alguns partilham - responde ele. - Mas não todos. Quase todos os homens têm isto. Há mulheres que nunca o têm, que não se permitem tê-lo.

E Catherine, Olympia interroga-se de imediato. Como é com Catherine?

- Não podemos estar aqui deitados - diz ele. Ajudam-se mutuamente a levantar e ele beija-a. - Vou levar-te agora à casa - diz ele. - Sentamo-nos ao sol para a roupa secar.

As pernas dela estão vacilantes e tem de subir para a carruagem com a ajuda das duas mãos. Tem o vestido húmido de um dos lados.

Haskell pega nas rédeas, faz o cavalo dar meia-volta e dirige-se para a casa nova. Pega na mão de Olympia, que aperta entre as pregas do vestido dela.

- Brincas com o fogo - diz ela.

- Não faz normalmente parte do meu feitio. - Pressiona a mão contra a perna dela. - Às vezes digo a mim mesmo que nunca mais devemos estar um com o outro e estou determinado a isso.

O coração dela aperta-se ao ouvir esta declaração.

- e depois, segundos depois, compreendo que essa disciplina nunca será possível.

Percorrem a estrada costeira até ao fim, Olympia desejando que não se cruzem com ninguém seu conhecido. Passado algum tempo, ele pára a carruagem junto ao esqueleto da casa nova. Olympia apercebe-se de que terá uma vista fabulosa, tendo como jardim frontal apenas o Atlântico. Ele ajuda-a a descer e pega-lhe no braço. Ela pensa se o pai estará, nesse momento, a tentar vê-los pelo telescópio, se ela existe agora no universo circular do instrumento. A estrutura da casa está quase terminada e há muitos pontos de onde se pode ver o oceano. Olympia começa a fantasiar sobre como será envolver uma casa destas inteiramente com janelas - ter sempre luz, sentir-se rodeado por areia e mar.

- Acho que nunca vi uma casa em construção - diz ela. Entram juntos e circulam pelas divisões que para já apenas existem na imaginação, câmaras rectangulares e oblongas travejadas a pinho e carvalho, que formam uma casa que um dia abrigará uma família. Interroga-se como uma estrutura assim pode ser construída, como é que se sabe exactamente onde colocar uma estaca ou uma viga, como construir rigorosamente uma janela. De vez em quando, Haskell murmura ao seu lado: Aqui vai ser a cozinha, ou Aqui vai ser o solário, mas ela não lhe presta grande atenção. Prefere momentaneamente pensar na casa como efémera e insubstancial.

- Aqui vai ser a sala de jantar - diz ele quando têm de se deter num ponto parcialmente vedado.

E ela não consegue deixar de pensar nas dezenas de jantares que ele e Catherine darão um dia nessa sala. Talvez até Olympia venha a ser convidada para jantar e a sentar-se onde agora está. Abana rapidamente a cabeça e afasta-se.

- O que foi? - pergunta ele.

- Isto. - diz ela. - Não tem importância.

- Não devia ter-te trazido aqui.

- Que idade tem a Catherine? - quer Olympia saber.

- Trinta e quatro anos - responde Haskell, hesitante.

- E tu?

- Quarenta e um.

- Tens família? Quero dizer, irmãos e irmãs? Os teus pais ainda são vivos?

- A minha mãe ainda é viva. O meu pai, não. A minha mãe vive com a minha irmã em Cambridge. Tenho um irmão que é pastor em Milton.

Olympia sente-se como se algo lhe oprimisse o peito. Por que razão, pergunta-se - será a primeira de muitas vezes em que fará a si mesma esta pergunta -, é que o amor tem de ser tão inclemente? Por que razão, logo a seguir aos momentos de mais profunda felicidade, têm de persegui-la imagens que apenas causam sofrimento: imagens de Haskell com outra, dizendo palavras que podiam ter sido guardadas para ela, partilhando intimidades de que só a ideia lhe é difícil suportar? Por que razão, pergunta-se, ali naquela sala que ainda não é uma sala, é que tem de imaginar, com todos os pormenores, uma refeição que Haskell não partilhará com ela, mas com a mulher? Na carta que ele lhe escreveu, disse que tinha conhecido Catherine de todas as formas possíveis a um homem". As inplicações da frase são obcecantes. No momento em que Haskell lhe pega na mão, Olympia é assaltada pela imagem de Haskell a pegar na mão de Catherine; e embora a persistência do seu toque faça Olympia cair aos poucos em si e apague momentaneamente todos os pensamentos sobre o passado, sente uma angústia que, caso não seja contrariada, irá mitigar a sua felicidade e desgastar as arestas do seu prazer.

Desta vez são rápidos, como se, a qualquer minuto, o pai dela pudesse aparecer à procura deles ou um operário desgarrado pudesse entrar. São obrigados a ficar de pé contra uma parede. Ela não imaginou que o corpo pudesse voltar a desejar tão cedo. Sente uma culpa redobrada, a culpa pela traição de ambos e a culpa adicional por estarem nos braços um do outro na casa que um dia será de Haskell e da mulher. Mas, à mistura com a culpa, há um arrebatamento estranho e tranquilo, uma entrega ao momento, sem pensar no que vem a seguir e no que virá mais tarde. E com ele igualmente uma distinta sensação de posse. A casa não é dela, mas o momento é e não lhe pode ser roubado.

Imediatamente antes de saírem, ela passa o dedo pelo fio de ouro e tira o medalhão de dentro do vestido. - Obrigada por isto - diz, beij ando-o.

- É um simples medalhão - diz ele.

- Não - diz ela. - Não é.

Durante algum tempo, ela será capaz de recordar cada um dos dias que passou com Haskell: o que ele trazia vestido no primeiro dia, o que ela trazia vestido no segundo, o dia em que almoçaram juntos no hotel e o que comeram, o modo formal como se cumprimentaram e falaram em público e todas as palavras que trocaram pelo meio. Recordará vividamente o fim de tarde em que foram andar de barco nos pântanos, perdendo-se pelo labirinto aquático. E a noite em que saiu do quarto num frenesim, sem se importar de ser descoberta, correndo descalça pela praia fora, deleitando-se com a escuridão e vendo, depois, as janelas iluminadas do hotel como um refúgio, um santuário, o que a fez chorar de alegria. Recordará cada meiguice e frase de amor, assim como as palavras de uma discussão chorosa que ela e Haskell tiveram quando ele se culpou severamente por tê-la seduzido e ela, com toda a sua argúcia, não conseguiu convencê-lo de que era pelo menos, pelo menos, tão responsável como ele pelo que tinha acontecido entre ambos.

Mas em anos futuros apenas terá imagens, imagens indistintas, uma impressão de como era, mas não o conteúdo preciso: um rosto por barbear ligeiramente virado de lado; o odor da pele húmida que, por vezes, a acompanhava depois de o deixar; uma blusa de crepe branco-marfim que usava muitas vezes e de que ele gostava; estar ajoelhada na areia a rir dele vestido com um fato-de-banho; a mão dele a deslizar da planta do pé dela para a barriga da perna e pela coxa; um prato de ostras que ele mandou levar ao quarto e que ambos devoraram debaixo dos lençóis; a inclinação melancólica da cabeça dele quando se despedia dela à soleira da porta do quarto com um aceno.

Por vezes, Olympia tem a sensação de que ela e Haskell estão sempre a despedir-se. Enquanto ele trabalha na clínica, ela inventa razões para se ausentar de casa durante as suas esporádicas horas livres e, ocasionalmente, precisa de recorrer a toda a sua astúcia para criar desculpas adequadas para as suas ausências. Com este fim, inventou toda uma galeria de amigos, de conhecidos e de actividades e, tanto quanto o pai sabe, começou a dedicar-se ao golfe com grande fervor. Olympia escolheu este desporto porque o próprio pai não o joga e, assim, parece diminuto o risco de ele um dia a desafiar para uma partida - o que é uma felicidade já que ela própria não faz a menor ideia de como bater na bola nem de como fazê-la entrar nos buraquinhos por baixo das bandeirolas. Olympia estabeleceu igualmente amizades, com uma série de raparigas, entre as quais Julia Fields, para apaziguar a curiosidade dos pais acerca da sua subitamente agitada vida social. Uma ou outra vez, quase é apanhada nestas ficções e, em várias ocasiões, sente-se profundamente envergonhada com a habilidade pouco escrupulosa que desenvolveu a mentir.

Sabe que o pai está intrigado com a sua nova conduta e que parece reavaliá-la a cada passo. Já não a encara como a rapariga que amava e acarinhava em Junho, mas olha-a antes como uma criatura estranha que anda perpetuamente alheada. Subitamente, ela tornou-se numa má aluna que tem dificuldade em prestar atenção às suas aulas informais. Olympia tem consciência de que põe a paciência dele à prova, o confunde e entristece com mais frequência do que lhe dá alegrias. Quanto à mãe, Olympia está perfeitamente segura de que ela considera a filha uma sedutora. Fez a Olympia, em várias ocasiões, perguntas destinadas a persuadi-la a partilhar uma confidência, a arrancar-lhe o nome de um rapaz. Ocasionalmente, quando a mãe está a olhar para ela, Olympia vê-a passar em revista os nomes dos filhos das famílias que veraneiam na zona. Apesar destes momentos difíceis, Olympia sabe que tem sorte de ambos os pais estarem, por natureza, frequentemente, preocupados com outros assuntos: o pai com a sua vida intelectual, a mãe com um mundo que lhe exige todas as suas faculdades para se abstrair dele. Há decerto interrupções estimulantes desta rotina, como quando o horário de Haskell muda, permitindo-lhes inesperadamente encontrar-se, e ele consegue dar-lho a saber; e Olympia dissimula estes hiatos o melhor possível. O romance entre eles é uma imprudência total, embora tenham concordado em nunca se encontrarem quando Catherine e as crianças vêm passar o fim-de-semana. Do mesmo modo, Haskell não voltou a visitar a casa de Olympia.

Nesta altura, já visitaram várias vezes as obras da nova casa cuja construção os abriga mais a cada dia que passa. Vão de manhã cedo ou à noite quando os operários ainda não chegaram ou já se foram embora. À medida que a estrutura ganha corpo, torna-se-lhes mais fácil esconderem- se atrás e debaixo das grossas vigas de madeira e das ripas de cedro. Fazem amor na sala que há-de vir a ser um solário, sob um beiral que poderá um dia embelezar o quarto de um criado, ou no chão duro da sala das traseiras que será uma cozinha. Nestas ocasiões, Haskell leva fatias de bacon que surripia da cozinha do hotel e que cozinham na fornalha juntamente com fatias de pão e, mais tarde, Olympia não se recordará de comer nada tão delicioso como essas sanduíches de bacon. Curiosamente, como estar com Haskell a torna voraz, é frequente haver comida, por vezes em abundância e, por vezes, até champanhe. Em resultado, está a engordar um pouco e a desenvolver, no peito, nas coxas e no ventre, o corpo de uma mulher - como se a sua forma exterior procurasse pôr-se a par com as experiências da sua vida interior.

Olympia observou com interesse as janelas da casa ganharem forma e serem envidraçadas, a entrada da casa ser configurada e depois vedada com maciças portas duplas de madeira, os soalhos serem areados, polidos e revestidos com linóleo de diversas cores os quartos serem adornados com cornijas e o tecto fechado às estrelas. Com o decurso dos dias, é como se ela e Haskell ficassem cada vez mais isolados do universo - separados, postos de parte e cada vez mais temerariamente livres para se explorarem um ao outro.

Olympia pensa que é uma bela casa, com muitas empenas e alpendres amplos e um rendilhado delicadamente lavrado em toda a extensão dos beirais. As vidraças superiores das janelas têm painéis de vidro cor de alfazema em forma de losango e, em todas as salas comuns, foram instalados magníficos lambris em cerejeira. Situada como está directamente sobre a praia, possui uma vista ampla e incomparável de areia e mar. É uma casa em que se construirão memórias, uma casa que será transmitida de pai para filha e para filho, uma casa em que Haskell viverá com a mulher.

Estão deitados no chão num emaranhado de mantas e panos

manchados com o sumo de pêssego que lhes escorreu do queixo para o tecido que seguram no peito em jeito de guardanapo. Olympia tem o medalhão ao pescoço e nada mais. Tem um prato com queijo, chutney de manga e migalhas de pão integral precariamente equilibrado na coxa, deixando uma nódoa de chutney cor de âmbar no lençol improvisado.

- Ollie é nome de rapaz - protesta ela. - De Oliver.

- Não. Podia ser um diminutivo de Olivia - diz ele.

- Mas podia ser de Olaf - diz ela, mais uma vez avançando um nome de rapaz.

- Olive - responde ele, aceitando o desafio.

- Olney - diz ela, recusando deixar-se bater.

- Olinda - responde ele imediatamente.

Ela reflecte um momento. - Olin.

- Não - diz ele. - Não posso aceitar isso.

- Então... - Ela concentra-se. - Ole.

- Seja - diz ele. Mas não está disposto a ser superado neste

jogo. - Olwen - dispara.

- Mas esse nome é de homem - protesta Olympia.

- Não, por acaso não é.

Ela franze os olhos. - Oleksandr! - exclama.

Ele pensa um pouco e inclina a cabeça. Depois beija-a. – Acho que ganhaste - diz, indulgente.

- Obrigada, Dr. Haskell - diz ela, encaixando-se nele. E depois, abruptamente, pergunta: - Achas que o amor que sinto por ti é igual ao que sentes por mim?

- Como assim?

- Bem, de certeza que as tuas imagens e recordações se centram mais em mim do que em ti próprio, ao passo que eu só te vejo a ti e só te sinto a ti e só te falo a ti. E, por seres homem, com a sensibilidade e o corpo de um homem, não tens sensações diferentes das minhas e portanto recordações diferentes?

- Todos os amantes procuram a ilusão de uma identidade única - responde ele. - Mas tens razão. Uma ligação amorosa passa-se quase toda na imaginação.

- Passa? - pergunta ela.

- Claro, há os momentos em que estamos juntus - diz ele. Quando exprimimos o nosso amor um pelo outro. Mas não se limitarão estes episódios a alimentar a amante verdadeira e voraz que é a imaginação, criatura independente e com vida própria? De forma que o amor não é apenas a soma de doces saudações, despedidas dolorosas, beijos e abraços, mas é mais feito da recordação do que aconteceu e do imaginar do que está para vir.

- Mas se isso fosse verdade - diz ela -, então não seria necessário estarmos fisicamente juntos. Podíamos simplesmente imaginar e chegava. E não nos afligir com a possibilidade de sermos apanhados, nem de ferir outras pessoas.

- Pois. Bem. - diz ele - a imaginação tem de ser alimentada. Tem de ter alguma coisa em que basear as suas recordações. No princípio, quando nos encontrávamos, costumava espantar-me por nunca começarmos exactamente onde tínhamos ficado, parecendo antes que tínhamos avançado para outro nível e depois para outro. A mente é intoleravelmente impaciente. É capaz de imaginar a totalidade de uma ligação amorosa num instante.

Instala-se subitamente um silêncio incómodo entre ambos.

- Fizeste isso? - pergunta ela, em voz baixa. - Já imaginaste a totalidade da nossa ligação?

- Já - responde ele -, e tu também.

Ela levanta-se e dirige-se à janela, tendo há muito perdido o pudor na presença dele. - A casa fica pronta até ao fim-de-semana?

- Fica.

- Então a Catherine e as crianças vão voltar de vez - acrescenta, afirmando uma verdade óbvia que há algum tempo a consome.

- Sim - responde ele, com simplicidade. Sai da cama e junta-se a Olympia na janela.

- O que é? - pergunta ele, embora já saiba.

O futuro parece adensar-se como um gás cada vez mais espesso à sua volta. Ambos temem o regresso de Catherine, não apenas porque significa que a casa, a casa deles, aquela que Olympia e Haskell baptizaram e onde se amaram, será ocupada, mas também porque significará que Haskell terá de sair do Highland Hotel.

Assim, deixarão de ter onde se encontrar. Para Olympia, o dia dez de Agosto agiganta-se no futuro, não como um dia de festa, mas antes como uma data em que terá início uma pena particularmente dolorosa.

- O nosso tempo esgotou-se - diz ela.

- Se nos entregarmos à dor - diz ele -, teremos já esbanjado

todo o nosso prazer. Foste tu que me ensinaste isto.

- A festa do meu pai vai ser uma charada grotesca. Vou fingir que estou doente.

Mas ambos sabem que ela não pode.

Para lá das janelas cobertas de sal, vêem os banhistas do meio-dia na praia. Observam um homem de chapéu de coco a construir uma elaborada barraca com lona e estacas de madeira em redor e por cima da figura hirta de uma mulher. Esta está rigidamente sentada numa cadeira de madeira articulada e contempla a água. O dia está quente, com uma espécie de neblina cor de limão ao longo da costa e ela está excessivamente vestida com um fato grosso de tafetá preto. E, apesar de usar chapéu e de o marido tentar febrilmente erigir a barraca, segura uma sombrinha preta de folhos numa posi ção absolutamente vertical. A atitude altiva e fria da mulher contrasta aflitivamente com o comportamento demasiado ansioso por agradar do marido e parece sugerir um desequilíbrio no casamento, se de facto são casados, ou um desejo da parte do homem de a compensar por alguma transgressão desconhecida. Olympia deseja subitamente, ao olhar para a água, poder tomar banho nesse momento e que Haskell a possa acompanhar.

Pousa-lhe a cabeça no ombro. Conhece-o agora muito bem:

os tufos de pêlos entre os nós dos dedos, os tendões salientes na parte de trás das coxas, a suspensão muda, como se o mundo inteiro parasse de respirar, e depois a exalação mansa e rápida do prazer.

Mas por vezes a dúvida insinua-se nos seus pensamentos e ela não pode deixar de se interrogar: poderá Catherine conhecer aspectos de Haskell que Olympia não teve tempo de apreender?

- Que mulher idiota - diz Haskell, observando a triste comédia do marido castigado e da mulher excessivamente vestida.

Coloca-se atrás dela e envolve-a com os braços imediatamente abaixo dos seios. Olha pela janela por sobre o ombro dela. - Mas aqueles parecem estar a divertir-se - diz, apontando pela janela para um casal com uma criança pequena numa manta perto da água.

A mulher traz um vestido branco e largo com a saia subida até aos joelhos. Parece descontraída, mas Olympia repara que ela não larga de vista a criança que está a brincar à sua frente na água. O marido esteve a tomar banho porque o fato pinga sob o peso da água. Senta-se ao lado dela e acaricia-a sobre o fino tecido das costas da camisa. Olympia sente uma pontada aguda, para não dizer violenta, de ciúme e mágoa pois o que esse casal partilha ela e Haskell nunca poderão partilhar e, por essa ser a sua natural forma de relacionamento, ela aprendeu a desvalorizá-la: um filho, um casamento, a possibilidade de se sentarem em público e se tocarem.

Vira-se rapidamente para Haskell. O seu corpo arde novamente com o incêndio, esse incêndio que se repete infinitamente. A necessidade do alívio e da libertação que só ele pode oferecer. Encosta a cabeça ao seu ombro.

- Só temos mais um dia - diz ela.

Como que num reflexo do homem e da mulher lá fora, Haskell passa- lhe os dedos pelas costas.

- Na nossa imaginação - diz -, temos uma vida inteira.

Chega mais tarde do que disse que chegava e, enquanto caminha, compõe desculpas: a mãe da Victoria convidou-me para ficar para o chá. Estavam a organizar um jogo de croquete no hotel. Eu e a Julia estivemos a tocar duetos ao piano e eu perdi a noção do tempo. A areia está dura e ela tem o vestido amarrotado. Levanta os olhos para a casa, aterrorizada por ter de lá entrar e, quando entra, fica assustada ao ver que a mãe, Catherine Haskell e Zachariah Cote estão sentados no alpendre.

Mas Catherine está em York, pensa Olympia.

Instintivamente vira-se e baixa-se na areia como se tivesse deixado cair um lenço ou a carteira.

Meu deus, pensa. Possivelmente fomos descobertos. Endireita-se devagar e tenta alisar a saia. Procura com os dedos os botões na gola para se certificar de que estão apertados. Verifica se o medalhão está dentro do vestido. Quando se volta, a mãe já está a acenar na sua direcção, fazendo-lhe sinal para que se junte a eles. Olympia dirige-se para casa e sobe os degraus do alpendre.

- Olympia - diz Catherine, quando ela chega. - Fico encantada em ver-te. Como é que estás a sobreviver a este tempo deplorável?

- Hoje em dia dá ideia que a Olympia tem uma vida secreta - responde a mãe por ela.

- Ai sim? - observa Cate, lançando- Lhe um sorriso radioso.

- Fala-me dela - suplica Catherine. - Tens um namorado.

- Não - diz Olympia, embaraçada.

- Senta-te, Olympia - diz a mãe.

- É só que fiz algumas amigas aqui este Verão e tenho passado muito tempo com elas - diz Olympia numa voz tensa, tensão que acha que não pode passar despercebida a Catherine e a Cote.

- A Olympia aprendeu a jogar ténis - diz a mãe. Olympia sente o escrutínio de Cote ao seu lado.

- Fantástico - diz Catherine.

- A Catherine regressou um dia mais cedo - a mãe explica -lhe. - Quer fazer uma surpresa ao John.

- Mas assaltou-me um desejo súbito de visitar a tua mãe diz Catherine, inclinando-se para Olympia e pondo-lhe a mão no joelho. - Para discutir esta emocionante festa em tua honra, no sábado à noite. A tua mãe esteve a descrever-me o teu vestido.

- E eu também cheguei cedo - diz Cote. - Não quis fazer a viagem para norte naquele comboio horroroso de sexta-feira e portanto saí mais cedo da cidade. Aliás, acho que vou agora ficar uns tempos em Fortune's Rocks. - Faz uma pausa para impressionar. - Estou certo de que a musa me há-de encontrar aqui - acrescenta, voltando a sorrir na direcção de Olympia. Aceita outro copo de limonada da mãe de Olympia e reclina-se na cadeira.

- Antigamente também jogava ténis - diz a mãe de Olympia, sem atender a qualquer sequência lógica.

Olympia mal se atreve a olhar para a mãe ou para Catherine.

- Era bastante boa - acrescenta a mãe timidamente. - Por sinal, tive um namorado que era jogador de ténis. Antes do Phillip, claro está.

Olympia esforça-se por prestar atenção ao que a mãe está a dizer. Pergunta-se se deve alertar Haskell de algum modo, contar-lhe do regresso de Catherine. Procura lembrar-se se deixaram alguma coisa na casa.

- Era filho de um fabricante de coches em Rowley - diz a mãe, entusiasmando-se com o assunto.

- Oh, Rosamund, conte-nos tudo. - diz Cote.

- Há muito pouco para contar.

- Tem de contar, Rosamund - insiste Catherine.

A mãe desvia os olhos e pousa-os novamente nas mãos, que estão cruzadas no regaço.

- Conheci-o no dia em que o papá me pediu para o acompanhar numa visita ao fabricante de coches dele - diz ela. - Era nova, tinha talvez dezassete anos, e vínhamos para o Norte no Verão só havia meia dúzia de anos. O papá entrou na oficina, mas eu fiquei à espera na charrete. Lembro-me de ter ficado muito zangada com ele porque estava calor e eu tinha sede e ele parecia estar a demorar um tempo desmesurado. Mas enquanto estava ali sentada

um rapaz aproximou-se da carruagem. - Levanta a mão para ajeitar o cabelo e só nesse momento parece aperceber-se de que se comprometeu a contar a história.

- Como é que ele era? - pergunta Catherine.

- Tinha sobrancelhas louras claras e pestanas louras e espessas - responde a mãe de Olympia.

- Como é que se chamava? - pergunta Cote.

- Gerald - diz a mãe. - Dizia que era galês, mas o meu pai insistia que era irlandês. Eu gostava muito dele. Nesse dia, conversamos durante bastante tempo, tanto que, quando o papá voltou, eu e o Gerald já tínhamos combinado um encontro num clube de ténis, na manhã do dia seguinte. - Faz uma pausa. - Nas semanas seguintes, arranjámos maneira de nos vermos com frequência. Eu saía de casa e andava um bom pedaço e encontrávamo-nos num sítio previamente combinado. Não sei porquê, mas na manhã que acabou por ser a última em que estivemos juntos, tinha decidido que ia dizer-lhe que gostava dele porque sentia que ele também gostava muito de mim.

Fica pensativa por um momento como se, caso espere o suficiente, possa ser-lhe concedido um perdão e a liberdade de alterar o desfecho da história. - Nesse dia tínhamos planeado ir fazer um piquenique à praia. Quando caminhávamos pela areia, ele chegou-se a mim e disse-me qualquer coisa que, durante estes anos todos, tenho tentado reconstruir, ouvir. Mas antes de ele poder repetir a frase, um homem pago pelo meu pai para nos seguir apareceu por trás e levou-o.

- Não, Rosamund - diz Catherine.

- Passei o resto do Verão mais ou menos fechada no meu quarto.

- Que horror - diz Cote.

- Nunca mais soube nada do Gerald - diz a mãe de Olympia. - É que não tinha maneira nenhuma de o contactar nem acesso a ninguém que o conhecesse. Nem sequer tinha uma morada para onde escrever. Mas, mais tarde nesse Verão, deixaram-me sair de casa para assistir a uma partida de ténis em Exeter. Como ia com o meu pai e a minha mãe, suponho que acharam que não me acontecia nada de mal. Quando, no intervalo, fui buscar um copo de água, esbarrei com uma vitrina com troféus no átrio. Havia dentro medalhas, placas e fotografias de equipas vencedoras. Numa dessas fotografias estava o Gerald. Corri o vidro, meti a mão lá dentro e tirei a fotografia. Escondi-a no vestido quando cheguei a casa, peguei numa tesoura e cortei a fotografia dele. Ainda a tenho.

- Tem de nos mostrar essa fotografia - diz Cote.

- Talvez mostre - diz ela, levando o copo aos lábios. E, nesse momento, surge subitamente diferente aos olhos de Olympia, fisicamente diferente como se um retrato tivesse sido alterado.

Olympia pensa que é possivelmente necessário fazer esses ajustes em relação a todas as pessoas que a rodeiam. Quando se conhece alguém, dá-se início a um esboço que, durante a relação, seja íntima ou não, se vai completando, é pintado um retrato a óleo; a pastel, a tinta preta ou a aguarela que só depois de a pessoa morrer é que se pode considerar terminado. E talvez nem sequer nessa altura.

- É uma bonita história - diz Catherine, embora Olympia tenha dificuldade em ver mérito no facto de uma pessoa ter o seu destino arbitrariamente negado.

- Nunca soube o que ele disse - acrescenta a mãe de Olympia. - Quantas vezes desejei poder voltar atrás e ouvi-lo.

Catherine estende o braço e aperta por um momento a mão da mãe de Olympia.

- Tem sentido com certeza saudades desse seu belo marido - diz Cote a Catherine, mudando prematuramente de assunto, na opinião de Olympia.

- Sinto imensas saudades - diz Catherine. - Claro que sinto. Estou morta que a casa fique pronta. Daqui a nada vou até lá.

Olympia sente o suor correr-lhe pelas costas.

- E onde é que o bom doutor está esta tarde? - pergunta Cote.

- Acho que está a trabalhar na clínica - responde Catherine.

- Aliás, nem sequer sabe que cá estou. Quero fazer-lhe uma surpresa.

- E estou certo que há-de ficar muito surpreendido - observa Cote. Volta-se para olhar por cima da balaustrada do alpendre.

- Meu deus, que vista magnífica. E, se não me engano, está mesmo a correr uma brisa. Que alívio estar aqui neste encantador alpendre e não em Ely Falls.

- Veio agora de Ely Falls - pergunta a mãe de Olympia.

- Precisei de ir ao alfaiate. Alterações de última hora. Para a festa.

- Sim, pois claro.

- Digo com franqueza que não suporto estes franco-americanos - diz Cote.

- Não? - pergunta a mãe de Olympia, lançando um rápido olhar à filha.

- O meu alfaiate é um homenzinho impertinente, de bigode carregado de pomada, que se dá ares de mais importante do que é. Como todos os franco-americanos, posso acrescentar.

- Olympia, minha querida, sabes que horas são? - pergunta a mãe de Olympia.

- É do conhecimento público que são todos libertinos e profundamente corruptos. Para não dizer bêbados e estúpidos.

- Zachariah - diz por fim a mãe de Olympia, num tom de leve reprovação, chamando-lhe a atenção para a presença de Olympia.

- Peço desculpa, Rosamund. Uma pessoa deixa-se levar. Mas digo que são uma praga nas nossas cidades. Receio que tomem conta de Ely e de Fortune's Rocks. Aliás, há dias em que a praia rebenta positivamente pelas costuras com eles.

Um comentário estranho, pensa Olympia, de alguém que nem sequer veraneia em Fortune's Rocks. E depois, ao estudar a fisionomia dele - o rosto atraente, o nariz aquilino, os olhos cor de alfazema (demasiado próximos um do outro talvez? ) - ocorre- lhe subitamente a imagem de um letreiro por que passou uma vez a caminho de Ely Falls: Coté e Reny. E, em seguida, tem uma ideia que leva perversamente a outra e a uma tentação a que não é capaz de resistir.

- Surpreende-me a sua aversão pelos franco-americanos, Mr. Cote - diz Olympia. - Na verdade, estava agora mesmo a pensar. O nome Coté não é francês? - pergunta ela, dando ao nome a sua pronúncia francesa.

A sua astuta, se bem que indesculpavelmente rude, conjectura fá-lo mostrar-se ofendido e empertigar-se. Comprime os lábios num sorriso tenso. - Não, por sinal é um antigo nome inglês - explica, e Olympia tem imediatamente a certeza de que ele está a mentir.

Instala-se um silêncio constrangedor, durante o qual Olympia sente o olhar frio da mãe.

- É uma pena o John não estar cá - diz Cote -, porque eu sei que nutre uma afeição especial pela Olympia e pela Rosamund também, claro, não é verdade?

O comentário causa um pequeno sobressalto em Olympia.

Catherine parece não reparar na referência ao marido e a Olympia na mesma frase, ainda que o tom sugestivo que Cote imprimiu ao nome de Olympia antes do da mãe seja perturbante, para não dizer rude.

- Ele. bem, com certeza. penso que considera a Rosamund. e a Olympia. Sim, naturalmente - remata Catherin aturdida.

- O Hale já chegou? - pergunta Cote à mãe de Olympia, denunciando, na opinião de Olympia, a razão da sua visita.

- Não. O Phillip diz que só chega no sábado.

Um fugaz lampejo de desapontamento perpassa o rosto do poeta. - Vem de Exeter ou de Boston - pergunta.

- De Boston. Conhece a família?

- Sim, conheço perfeitamente - responde Cote. - O ramo de Nova Ilorque. O primo do Hale casou com uma Plaisted, não foi?

- A Lavinia. Sim.

- Ela é prima em segundo grau da minha tia - diz Cote, talvez desejoso de realçar as suas ligações americanas. - Claro que os meus primos consideram o Hale uma espécie de ovelha negra. Não chegava terem um escritor na família, não é assim? - pergunta num tom que pretende de autocrítica espirituosa, mas que por qualquer razão não suscita a reacção esperada nos seus ouvintes. Bebe um longo gole de limonada e vira-se para Olympia. - Tivemos pena de não a ver no 4 de Julho. Acho que os Farragut contavam consigo na festa deles.

Olympia considera que a referência a Haskell e ao feriado com uma diferença de segundos não pode ser acidental da parte de Cote. Respira superficialmente para não trair a sua preocupação. Os instintos de Cote são, compreende agora, de uma brutal sagacidade e farejará qualquer sombra de medo.

- Estive ocupada com outras coisas - explica Olympia.

- Deve ter estado - diz Cote. - Mas tenho tido o grande prazer de me cruzar com a Olympia este Verão em todo o género de sítios - acrescenta, falando com as duas mulheres mais velhas.

- Ai sim? - pergunta a mãe de Olympia, olhando para a filha. - E onde foi isso? Sinceramente, gostava muito de saber. Há semanas que ando intrigada com a Olympia.

- Anda? - diz ele. Indica as sanduíches com um gesto. - Dá licença?

- Faça favor - responde a mãe. - Queres uma sanduíche Olympia?

- Não estou com fome - diz ela rapidamente. - Por sinal, tenho de me ir embora. Prometi à Julia que ia andar a cavalo com ela.

- Com este calor? - pergunta Cote. - Não pode ser. Seria um crime para os cavalos.

Olympia pensa: o desplante do homem.

- Claro, agora estamos numa agradável expectativa em relação à festa em honra da Olympia - diz Cote, ignorando o embaraço de Olympia e limpando meticulosamente um pouco de maionese do canto da boca. - Quantos anos vai fazer?

- Dezasseis - responde ela.

- Uma idade encantadora, não acha, Catherine?

- Sem dúvida - diz Catherine. - Uma idade encantadora. Estava a dizer isso mesmo à Rosamund antes de ter chegado.

Cote olha para Olympia com declarada impertinência. - Porque é que está tão macambúzia, pequena? - pergunta, dando outra dentada na sanduíche. - Sorria. A vida não pode ser assim tão má.

E Olympia, que nunca gostou que ninguém a mandasse sorrir, e muito menos Zachariah Cote, subitamente fatigada das insinuações, dos gracejos bajuladores e de uma inquietação moral quase intolerável, levanta-se da cadeira e escusa-se. Atravessa a casa, sai pela porta das traseiras e dirige-se ao paredão onde descalça as botas e as meias, as abandona no mesmo local e corre como nunca correu pela superfície endurecida da areia.

Na manhã do dia dez, Olympia está sentada no quarto, a olhar pela janela, incapaz de se mexer, falar, ler ou pensar, num estado catatónico, como se fosse surda e muda. Por mais que tente expulsar esses pensamentos, não consegue pensar senão no facto de Catherine e de as crianças estarem a mudar para a nova casa nesse preciso momento; e não consegue deixar de se sentir mortificada com a ironia de Mrs. Haskell a passear-se pela casa, indiferente aos seus anteriores ocupantes, pensando nela como sua, toda sua, o que evidentemente agora é. Olympia procura imaginar, a sua imaginação intensificada pelo conhecimento íntimo de Haskell e da casa, como ele se arranjará numa situação tão constrangedora e dolorosa. Não pode, decerto, comungar da felicidade da mulher. Mas será capaz de fingir interesse? Ou estará, como ela, tomado de um estado catatónico semelhante? Se sim, Catherine notará e comentará?

Haskell e Olympia haviam-se separado apenas no dia anterior, não falando, por acordo tácito, da dificuldade da sua situação, porque dar- lhe mais palavras seria dar-lhe mais vida. E dar-lhe vida seria não encontrar palavras nem respostas satisfatórias. Não estava em seu poder libertá-lo dos laços do casamento nem podia propriamente renunciar a ele e, assim, ficaram à entrada do quarto, a olhar um para o outro e depois para longe um do outro, recaindo sobre Olympia o fardo mais pesado pois era a ela que competia afastar-se.

Os seus passos ecoaram no corredor. Ficou surpreendida por as pernas se moverem de todo. Ao fundo das escadas, teve de se apoiar no balaústre antes de transpor as portas de vidro gravado. Para ela, representava uma separação não apenas de Haskell, da pessoa de Haskell, mas também do idílio que fora o Verão pois sabia que, mesmo que ela e Haskell conseguissem conceber um meio de estarem juntos, nunca seria a mesma coisa.

Houve ocasiões, nas últimas semanas, na privacidade dos seus próprios pensamentos, em que contemplou uma vida a dois com Haskell, ambos vivendo em quartos alugados, em Ely Falls ou em Cambridge. Talvez Olympia o ajudasse na clínica ou viesse a tornar-se professora. Teriam filhos e constituiriam um lar. Mas, momentos depois, não retira muito prazer destes pensamentos porque, com estas fantasias, vem a percepção de que uma vida dessas só pode acontecer à custa da infelicidade de uma mulher rejeitada e dos filhos; e Olympia sabe que homem nenhum seria capaz de sustentar uma felicidade própria a um preço tão exorbitante. Mesmo partindo do princípio de que Haskell era capaz de suportar a dor de Catherine, não seria capaz de renunciar a Martha, Clementine, Randall e May sem danos irreparáveis. Pior do que todos os outros horrores, é a imagem dela e de Haskell sentados um dia, frente a frente e incapazes de se olhar nos olhos. É certamente melhor sofrerem um pelo outro do que desprezarem-se mutuamente, pensa. Do rés-do-chão, ouve um alarido provocado pelos homens das entregas e os criados que chamam uns pelos outros através das salas, de mobília a ser deslocada ou da entrega das flores. O pai mandou vir de Boston a melhor louça, as pratas e os cristais da família e, em resultado, o alpendre está atulhado de caixotes de madeira e restos de palha. Os pais contam com cento e quarenta convidados para o jantar e para o baile e montaram uma comprida tenda branca no relvado. Aí os convivas jantarão à meia-noite uma refeição de lagosta, champanhe, ostras e mirtilos. Enchem a balaustrada do alpendre maciços de hortênsias de um tom azul de alfazema. A relva foi tão bem tratada que parece um campo de golfe em miniatura. Normalmente, Olympia teria desfrutado os preparativos e teria apreciado particularmente os momentos que antecedem a chegada dos convidados, quando a casa está completamente pronta mas tranquila e silenciosa e ela pode andar pelas salas e sair para o relvado, admirando um fugidio momento de perfeição.

Levanta-se da cama e aproxima-se do armário estreito em cuja porta está pendurado o vestido dessa noite. É branco, como serão aliás todos os vestidos nessa noite. Passa os dedos pelo vestido de noite de cetim com as suas fiadas de pérolas miúdas no corpete e depois pela capa de chiffon branco que mais parece uma nuvem do que uma peça de vestuário, tão leve e efémero é o tecido. É um vestido sofisticado, uma confecção que a mãe mandou vir de Paris e que se poderia usar num baile estival de cerimónia ou até num jantar de noivado. Uma vez que a mãe sugeriu pérolas, Olympia está ocupada a procurar no guarda-jóias brincos a condizer quando ouve bater à porta.

Quando a abre, vê que é Josiah com um tabuleiro. Embora Olympia não esteja com fome, sente-se imediatamente comovida com a bondade dele.

Cruzaram-se muitas vezes pela casa desde o dia em que ela o encontrou com Lisette na cozinha. Embora Olympia não soubesse até então que Josiah e Lisette gostavam um do outro, tem desde esse dia reparado em muitos pequenos gestos e olhares trocados entre o casal que, se tivesse sido mais atenta, poderiam tê-la ajudado a adivinhar mais cedo. Inicialmente, Josiah parecia alarmar-se sempre que via Olympia, depois do incidente na cozinha, mas quando se tornou evidente que ela não revelaria o que viu, mostrou-se reconhecido pelo seu silêncio. Ela queria dizer-lhe que não havia qualquer problema e que se sentia até, de um modo que não podia muito bem explicar, feliz por ele; mas claro que falar sobre isso os teria embaraçado terrivelmente aos dois. No entanto, Olympia não tem conseguido evitar olhar para Josiah de um modo um pouco diferente daquele que olhava no passado e tem a impressão de que ele deve, pelo menos em parte, aperceber-se dessa diferença. Por vezes, tem vontade de lhe dizer que também ela tem um amor secreto. Que também ela compreende o que é encontrar momentos furtivos para estar com alguém.

Mas isso é, naturalmente, impensável.

- Obrigada, Josiah - diz ela, pegando no tabuleiro. Ele hesita e não sai da entrada. Ela pousa o tabuleiro no toucador. Tem a janela completamente levantada. Com a porta aberta, uma rajada de vento sopra todos os papéis que estão em cima da escrivaninha e faz as cortinas voar até ao tecto.

- Anda tudo numa roda-viva em casa - diz ela, baixando-se apressadamente com Josiah para apanhar os papéis do chão. - Deves estar horrivelmente ocupado - acrescenta.

- Estamos a pé desde as quatro, menina. E com certeza que vamos estar a pé até às quatro da manhã. Mas é uma ocasião importante e o seu pai está muito animado com os preparativos.

Ela olha em silêncio para Josiah e pensa que é a primeira vez - a primeira vez absoluta? - que os seus olhares se cruzam verdadeiramente.

- A menina não está bem - diz ele.

- Não - responde ela com sinceridade.

- Lamento muito saber.

Entrega-lhe os papéis que apanhou e fica com as mãos juntas atrás das costas, as pernas afastadas, preso ao chão.

- Obrigada - diz Olympia.

Ele tem o colete manchado com nódoas escuras, possivelmente por ter estado a dar lustro às pratas. - Eu e a Lisette. vamos casar - diz ele. - Tencionamos falar amanhã com o seu pai sobre o assunto, quando a festa tiver passado.

- E ele há-de ficar satisfeito - diz ela imediatamente.

- Não queria que pensasse.

- Não pensei - diz ela.

- Quer que chame a sua mãe? Ou a Lisette?

- Não - responde Olympia. - Não, estou bem. E estarei bem logo à noite. É só gripe.

É uma mentira evidente, mas sente que ele não sabe o que perguntar ou dizer a seguir.

- Deixe o tabuleiro à porta, menina, se não quiser ser incomodada.

- Assim farei. Obrigada.

- E espero que se divirta logo à noite.

- Vou tentar, Josiah.

Os seus braços estão pesados com uma letargia que torna difícil levá-los à cabeça para arranjar o cabelo. Tem dúvidas de que consiga aguentar o serão se não recobrar as energias. Lisette ofereceu-se para lhe apanhar o cabelo depois de acabar de ajudar a mãe, mas Olympia acha-se incapaz de suportar conversas de circunstância sobre a festa iminente com uma rapariga que, ao contrário de si, alimenta todas as expectativas de uma felicidade próxima.

Com algum esforço, Olympia acaba de se vestir. Coloca-se diante do espelho para avaliar o resultado. Vê uma jovem mulher que aparenta ser consideravelmente mais velha do que aparentava em Junho, que tem o rosto, as pernas e os braços mais cheios, cujo peito é mais proeminente do que há dois meses atrás. O cabelo adquiriu algumas madeixas douradas com a sua imprudente exposição ao sol e há um vestígio de sardas no peito que ela não conseguiu inteiramente disfarçar com o pó. Penteou o cabelo num carrapito duplo e prendeu-o com travessas nacaradas. O vestido de seda modela-lhe o corpo e é a mais sugestiva peça de roupa que alguma vez usou.

No conjunto, Olympia considera a sua imagem no espelho satisfatória, mas não bela: falta um sorriso, um brilho nos olhos. Olympia sabe que uma mulher tem uma aparência muito diferente quando é feliz, quando a sua beleza emana de uma sensação de bem-estar ou de se saber profundamente amada. Até uma mulher feia atrai os olhares, se for feliz, ao passo que a mulher mais elaboradamente penteada e coberta de jóias, parecerá apenas decorativa se não transpirar contentamento.

Senta-se na cama, refreando as lágrimas em vão. Se ao menos pudesse falar com Haskell, pensa. Se ao menos pudesse encostar-se a ele por um momento, ficaria bem. Ele saberia o que dizer-lhe. Olharia por ela. Mas depois, no momento seguinte, Olympia sabe que não é assim. Ele não pode olhar por ela. É obrigado a olhar por outra pessoa. Arranca as travessas do cabelo e deixa-o cair em desalinho, desfazendo de um golpe o aturado trabalho de uma hora antes. Não quer saber. Não vai descer para a festa. Vai ficar no quarto e ninguém há-de conseguir obrigá-la a sair. Pelo menos, tem esse controle sobre a sua vida, não tem? Ninguém pode forçá-la a estar presente na festa, ninguém pode compeli-la a entrar em conversas de circunstância com John Haskell e a mulher.

Mas depois, ali sentada, com o cabelo completamente despenteado em volta dos ombros, os soluços começam a acalmar e ela levanta a cabeça. Diz a si mesma que tem de descer para a festa. Claro que tem. Porque se ficasse no quarto, magoaria o pai de forma irreparável. E que egoísmo o seu considerar sequer essa possibilidade! Será assim tão fraca, tão desesperadamente pueril, que não é capaz de estar no mesmo grupo de pessoas que John Haskell e a mulher? Pensa no sofrimento por que outros passam diariamente - a mulher chamada Rivard e os filhos, por exemplo - e sente vergonha do seu tormento exageradamente imaginado. É tão pouco o que lhe é pedido. Não consegue ao menos dar isso? Haskell disse que podia haver muitos encontros destes. Também vai faltar a esses?

Reparar os estragos que causou à sua aparência demora tanto tempo que, quando acaba, os convidados já começaram a chegar. Assim que abre a porta do quarto ouve as primeiras ondas de saudações típicas de um princípio de noite que pressagia um oceano de vozes, a rebentação a avolumar-se à medida que as horas avançam. Quando está no cimo das escadas, a olhar para baixo, vê que já estão reunidas no corredor talvez vinte ou trinta pessoas, a quem foram endereçados convites orlados a azul-marinho; as mulheres estão envolvidas em seda branca, challis, chiffon, crinolina, moiré, cetim e voile, os homens ostentando elegantes smokings brancos. Ao fundo das escadas, a receber os convidados, estão os pais que formam um belo par. A mãe, cujo cabelo foi moldado numa intrincada série de cachos soltos, presos com bonitos fios de pérolas, exibe um porte resplandecente e oferece um sorriso que só Olympia e o pai sabem ser-lhe estranho, um sorriso que sugere completo bem-estar e hospitalidade. É, porém, uma actuação maravilhosa e Olympia sente-se momentaneamente incapaz de abandonar o seu privilegiado ponto de observação no patamar superior.

Diz-se da mãe que é capaz de recordar o nome de todos os convidados e de fazer uma saudação pessoal. Que conhece os nomes dos filhos dos convivas e ainda dos seus amigos mais íntimos. Olympia não sabe como ela é capaz disto. Por vezes, imagina a nos seus aposentos, a estudar intermináveis listas de nomes como uma colegial a preparar-se para os exames. O pai, cuja postura igualmente admirável, conseguiu essa combinação rara, mas necessária, num anfitrião: aprumo e afabilidade. Ao contrário da mãe, o pai conhece efectivamente todos os convidados pois elaborou pessoalmente as listas. E, ao contrário da mãe, o pai nutre um afecto genuíno por quase todas as pessoas que convidou. Passou um tempo considerável a pensar nas apresentações que fará e qual o melhor lugar para sentar um determinado conviva à mesa ou integrá-lo num grupo de pessoas de forma a reforçar a animação do serão. Muitos dos convidados, esta noite, são oriundos dos mundos que o pai frequenta: a literatura, o jornalismo, a arte, a música e a arquitectura. Mas o pai incluirá ainda uma boa percentagem de homens de negócios, como Rufus Philbrick, para garantir que as suas festas nunca se tornam enfadonhas. Olympia observa os pais durante algum tempo, reparando com interesse que a mãe arranjou forma de usar levíssimos tons de água-marinha em alguns rectân gulos do vestido e que os seus pingentes são opalas com um vivo brilho azul; e, desta maneira, a mãe permanece leal aos seus hábitos quase obsessivos. Apesar dos anseios ou desilusões que possam apoquentá-los, os pais irradiam um ar de à-vontade, opulência e respeito considerável que, por sua vez, transmite aos convidados uma impressão de segurança e conforto. E tudo isto contribui para formar a ideia desejável e necessária (para que uma festa se salde num êxito) de que esta casa em especial, nesta noite em especial, é o único sítio no mundo para se estar.

Olympia inspira e expira lentamente. Começa a descer as escadas. O pai levanta os olhos, seguido da mãe, e depois, um a um, os outros convidados nas proximidades fazem o mesmo, de forma que ela desce perante uma assistência que talvez tivesse dispensado. Mas não se permite sentir um verdadeiro incómodo porque é a festa do pai e ele sente orgulho nela; e ela sabe que deve ter a generosidade de lhe permitir este orgulho. Vê o rosto de Philbrick, cujo sorriso é tão rasgado que se podia pensar que Olympia era filha dele, e os rostos dos jovens de Newburyport, Exeter e Boston que passam as férias com as famílias no Norte, em Fortune's Rocks, há anos, senão mesmo gerações. Homens que poderão, dentro de um ou dois anos, ser considerados pretendentes condignos à mão de Olympia. E, nesse momento, ao aproximar- se do patamar inferior, com uma dor súbita que quase a faz estacar, assalta-a a ideia: Como serei capaz de fazer isso?

Ocorre-lhe em pormenor a imagem de uma sucessão de jovens a visitá- la, a persegui-la e talvez a pedi-la em casamento, e ela a ter constantemente de evitá-los por causa do segredo que transporta.

E é então que compreende que nunca se casará e nunca terá filhos, que desbaratou o seu futuro. Estende a mão para se equilibrar. Repara que o pai fica momentaneamente desconcertado. E no instante seguinte pensa: não devo pensar nestas coisas agora. Não posso. Não posso. Recompõe-se e continua a descer.

Quando chega ao fundo das escadas, o pai avança e pega-lhe na mão. Ambos os pais a recebem com beijos na face. O pai diz de forma a que muitos ouçam: - Olympia, estás deslumbrante. - E a mãe, que é menos efusiva mas que aparentemente não fica menos satisfeita com o efeito do vestido e do penteado de Olympia, sorri-lhe e prende-lhe uma madeixa de cabelo atrás da orelha.

- Estou muito orgulhoso de ti esta noite, minha querida Olympia - diz-lhe o pai mais em privado. E Olympia apercebe-se da iminente onda de lágrimas a assomar aos olhos do pai. Mas, num instante, ele endireita-se mais uma vez para dar as boas-vindas a Zachariah Cote.

Cote cumprimenta o pai e depois, apressadamente - demasiado apressadamente, com rudeza até, na opinião de Olympia - vira-se para ela.

- Miss Biddeford - diz o poeta, pegando-lhe na mão enluvada e fazendo uma vénia. Embora levante a cabeça, aperta-lhe os dedos com força. Ela sente-se apanhada numa armadilha destinada a um animal pequeno. Parece-lhe mesmo sentir o odor do óleo capilar de Cote, um cheiro repugnante e enjoativo que lhe provoca náuseas.

- Está deslumbrante - diz ele, formando mais uma vez um sorriso que os olhos não acompanham. - Como uma jovem mulher na sua festa de noivado, diria mesmo. Ou até no dia do casamento.

Horrorizada com o facto de os pensamentos impertinentes de Cote reflectirem as suas próprias reflexões de uma hora atrás, retira bruscamente a mão, como um pescador que sacode violentamente alguma criatura viscosa que apanhou entre a pescaria.

- Ora, de maneira nenhuma - diz a mãe ao seu lado, apertando a mão de Cote. - O que é que o levou a dizer uma coisa dessas, Zachariah? Acho que a animação da noite lhe subiu à cabeça. Olympia só tem dezasseis anos, como bem sabe. Ainda é muito cedo para pensar em casamentos.

A mãe diz estas palavras num tom ligeiro, consonante com o espírito festivo da noite, mas Cote, antes de se afastar de Olympia, lança-lhe um olhar cuja frieza e intencionalidade não deixam quaisquer dúvidas. Como se lhe dissesse: Se persistir nesta charada.

Embora Olympia fique transtornada com o encontro, subentende-se que deve permanecer com os pais e receber os outros convidados que começam a chegar em grande número. Assim faz até não aguentar mais. Escusa-se e sai para o alpendre.

A maré trouxe uma neblina difusa e iluminada que filtrou a luz e conferiu a todos os objectos uma tonalidade salmão, particularmente aos vestidos brancos das mulheres e aos compridos festões da tenda. Com um truque de luz que ela não compreende inteiramente, a neblina rosada criou ainda um mar verde-azulado com muita espuma na linha da costa. É uma vista que preenche os sentidos com a doçura quase insuportável do melhor que a natureza tem para oferecer, uma consciência que se torna ainda mais vívida e pungente com o entendimento de que uma beleza assim é transitória, que não tardará a desaparecer e que, graças à singular física da luz que ela não compreende muito bem, poderá nunca mais voltar. Pensa que o pai deve estar jubiloso por ter a natureza tão bem vestida, nesta importante ocasião, como a família e os convidados.

A beleza da noite começa a apagar a recordação do desagradável episódio com Cote. Olympia dirige-se à tenda, por onde circula, olhando para as mesas elegantemente postas com a louça de Limoges e os pesados talheres de prata de lei com as iniciais da mãe a ouro nos cabos. Estão preparadas taças de vidro opalino para o champanhe e tremeluzem velas brancas em todas as mesas. Já rondam alguns convidados pelas proximidades, espreitando para dentro. Estão a postos criados para servir ostras e bebidas.

- Olympia - chama por ela uma voz.

Olympia vira-se no momento em que Victoria Farragut estende uma mão enluvada de branco e lhe agarra no braço. - Isto está fabuloso - diz ela. - E tu estás lindíssima. Não consegui alisar o cabelo, por mais que tentasse. É esta malfadada humidade.

Olympia olha para o cabelo de Victoria que encaracolou à volta da cara de um modo que, na sua opinião, lhe assenta bem e assim lho diz.

- Oh, não - exclama Victoria. - Estou um susto. Mas tu estás encantadora. Sei que esse vestido veio de Paris porque a minha mãe me disse.

É oferecido champanhe tanto a Victoria como a Olympia, um pouco para surpresa desta. Olympia já bebeu goles de champanhe noutras festas formais, mas até conhecer Haskell nunca tinha bebido um copo inteiro. No entanto, as bolhas secas parecem agora dolorosamente familiares e, por um momento, invade-a toda uma espécie de recordações físicas desencadeadas, não por pensamentos, mas por sensações.

- Isto arranha-me a garganta - diz Victoria, tossindo levemente. - Não conheço metade das pessoas que estão aqui. São todas de Fortune's Rocks? Não, não podem ser de certeza.

- Alguns convidados são de Boston e Newburyport. Mas eu também não conheço quase ninguém.

- A minha mãe perdeu imenso tempo com o vestido - confessa Victoria. - Tenciona arranjar marido. Não, não te devia dizer isto.

Olympia sorri. - Espero que arranje - diz. - Parece que não faltam aqui homens elegíveis - acrescenta, inspeccionando a multidão em que os homens, de todas as idades, parecem superar em número as mulheres.

- Mas ninguém quer uma mulher com filhos quase adultos - diz Victoria, soltando um pequeno suspiro. - E muito menos uma mulher com poucos recursos financeiros.

- Acho que um homem não escolhe uma mulher em função do seu dinheiro - diz Olympia. - Nem deixa de se interessar por uma mulher por causa de uma filha crescida. Não existe algo chamado amor?

- Oh, duvido muito que a minha mãe tenha muita esperança no amor - diz Victoria. - O que ela quer é um marido. Com rendimentos. Vais dançar se te convidarem?

- Suponho que tenho de dançar - diz Olympia.

- Olympia, pareces uma velha já cansada da vida.

- Desculpa - diz ela. - Talvez esteja apenas cansada. - Bebe outro gole de champanhe e observa Rufus Philbrick, que se aproxima delas, com a sua barba branca e smoking branco, os botões quase a rebentar no peitilho da camisa.

- Aí vem uma pessoa para te convidar - diz Victoria num tom conspirativo.

- Por amor de deus, Victoria, o homem é mais velho do que o meu pai - diz Olympia, pensando imediatamente na ironia inerente à afirmação e ignorando-a a seguir.

Rufus Philbrick pega na mão de Olympia. Esta apresenta-o a Victoria. Philbrick faz-lhe uma pequena vénia. - Conheci o seu pai - diz Philbrick. - Fizemos alguns negócios juntos. Espero que esteja a desfrutar o Verão e a sua mãe também.

- Estamos, sim - responde Victoria. - Obrigada. O que me faz lembrar que tenho de ir para junto dela. Se me dão licença.

Philbrick e Olympia ficam a observar Victoria que abre caminho por entre os convidados que saíram para o relvado.

- Fez mais amigos este Verão? - pergunta-lhe Philbrick e Olympia tem uma imagem súbita da noite em que Philbrick e Haskell se sentaram juntos à mesa do jantar.

- Por sinal tenho andado ocupada com outras questões - responde.

- Nada de grave, espero? - diz ele.

- Não - diz ela. - Nada de demasiado grave.

Olympia sente o impulso espontâneo e poderoso de contar a este homem abrupto e bem-intencionado a sua história com Haskell. Contar a alguém, por mais impróprio que seja. Pronunciar as palavras em voz alta, dar-lhes vida. É um impulso irreflectido, semelhante ao de estar à beira de um precipício e sentir um desejo irreprimível de saltar.

- À sua saúde, minha querida - diz Philbrick, chamando um criado para lhe encher a taça de champanhe. - Acho que o rapaz que a levar um dia há- de ser um felizardo, há-de ser, sim.

Olympia olha para ele e pensa na diferença de tom entre as suas palavras e as de Cote porque, ao contrário das deste último, as de Pilbrick não contêm nada de insinuante.

- Oh, espero que não me levem para muito longe do meu pai e da minha mãe - diz ela, alegremente, para atalhar o resto da frase.

- Parece-me uma pessoa aventureira, Olympia Biddeford. Reflecte por um momento. - Sim, estou a imaginar. Vai conhecer um rancheiro, partir para oeste, ser dona de hotéis e ter oito filhos.

Ela ri. - Espero que não seja tão bom nas profecias como nos negócios.

Ele sorri e olha-a por sobre a taça. À volta deles parece dar-se uma genérica mudança de tom na conversa, uma subida de volume, o que leva ambos a voltar-se na direcção do alpendre, agora quase a transbordar de convidados.

- Dei uma olhada pelo seu telescópio - diz Philbrick. - Ouvi dizer que foi o presente do seu pai pelos seus anos.

Ela faz um gesto de assentimento.

- Um instrumento maravilhoso. Muito preciso. Consegui ver até Appledore, no princípio da semana.

- Esta noite não seria possível - diz ela.

- Não, mas a neblina exerce sempre um estranho fascínio sobre as pessoas, não concorda?

Olympia pergunta-se subitamente por que razão nunca vê Philbrick com mulher ou filhos. Viverá sozinho? Num dos seus hotéis? Escrutina o alpendre onde os convivas parecem concentrar-se num só grupo. Mais uma vez pensa, ali na presença de Philbrick, que todas as pessoas esplendorosas e impecavelmente arranjadas que estão na sua festa vieram ao mundo como a pequena Rivard; e, ainda, que quase todas as pessoas no alpendre, num ou noutro momento, quando não com frequência, abriram a boca e as pernas e estiveram nuas na presença de um amante e se contorceram de prazer, gritaram e soltaram, talvez até, sons obscenos ou terríveis; e, ainda, que estão em sua casa casais que se conheceram desse modo íntimo nesse mesmo dia. E tudo isso leva-a a interrogar-se sobre a disparidade entre os vestidos de seda e as posturas naturais do corpo e a pensar: até onde, até onde, estamos dispostos a ir no fingimento de que não somos de todo carnais?

- Ah - diz Philbrick -, chegou o Hale. O nosso convidado de honra.

- Não mais do que o senhor - responde Olympia. Ele olha para ela e abre-se num sorriso. - Bem me parecia que era democrata - observa.

Observam em conjunto o personagem que sai para o alpendre com uma mulher pelo braço. Olympia tem um vislumbre de um tom pálido e cabelo ralo. Como o homem está rodeado por convidados que querem conhecê-lo e por outros que querem simplesmente observar os primeiros, é difícil não o perder de vista; mas Olympia sabe que não tardará a ser apresentada a Hale. É algo por que não anseia já que não leu os sermões do homem conforme o pai a instruiu. Duvida muito que Hale se importe com isso, mas sabe que o mesmo não se passa com o pai. Contudo, espera que este esteja tão absorvido pela festa que não se lembre de a questionar sobre o assunto diante do próprio Hale.

Mas acontece que acaba por nunca conhecer Hale, nem nessa noite nem mais tarde.

- Lá está o John Haskell e a mulher - diz Rufus Philbrick ao seu lado.

O seu coração pára momentaneamente. Inspecciona rapidamente a multidão e vê o casal emergir da porta principal para o alpendre. Repara imediatamente que se passa qualquer coisa de errado. É a forma ansiosa como Catherine se move ao lado do marido ou talvez seja a tensão no rosto de Haskell. Não se dirigem para Hale, mas afastam-se como se, por acordo tácito, tivessem decidido gravitar para a margem do grupo. Lentamente, avançam para a balaustrada mais próxima do ponto em que Philbrick e Olympia se encontram.

Philbrick adianta-se alguns passos para os cumprimentar, mas Olympia está incapaz de se mexer.

O cabelo de Haskell está ligeiramente desgrenhado como se o tivesse penteado e, depois, sem pensar, tivesse passado os dedos por ele. O nó da gravata está mal feito. Catherine, com umas compridas luvas de seda branca, toca ao de leve no braço do marido. Ele parece não reparar em Olympia, que está na sua linha directa de visão, parecendo antes olhar para essa meia distância que apenas reflecte os pensamentos do observador. Philbrick dirige-se ao alpendre e cumprimenta Catherine, beijando-lhe a mão. Haskell volta-se por um momento na direcção de Philbrick, mas parece não conseguir dizer mais do que o absolutamente necessário.

Não está em si, pensa Olympia. Está doente.

Não sabe se há-de afastar-se por completo ou ir ter com eles ao alpendre. Philbrick, sem dúvida constrangido com o silêncio de Haskell, envolve-se numa conversa com um homem de Rye que Olympia reconhece vagamente. Haskell pousa as mãos na balaustrada, inclina-se e olha para os pés, na postura de um homem que talvez precise de vomitar. De vez em quando, Catherine vira parcialmente a cabeça, tentando controlar o comportamento do marido. Parece mais perplexa do que outra coisa - apreensiva decerto, mas também desconcertada com a incaracterística rudeza de Haskell.

Mas não é a rudeza que explica o seu comportamento pouco natural. De maneira nenhuma. E é Catherine, ao virar de novo parcialmente a cabeça, a primeira a avistar Olympia.

- Olympia - chama, iluminando-se-lhe a expressão. - Oh, Olympia, olha só para ti. Estás a ver, John? Não está deslumbrante?

Haskell move os olhos na direcção de Olympia. Apesar de haver uma certa distância entre ambos, ela vê-o claramente. O rosto dele não denuncia nada. Ela espera por um sinal, uma indicação de como deve comportar-se. Mas ele limita-se a acenar brevemente com a cabeça e não diz nada.

Catherine fala vivamente com os modos de alguém que deseja dissimular um constrangimento.

- Oh, chega aqui, Olympia - chama. - Temos de te ver em condições. Ouvi dizer que o teu vestido era um espanto, mas não fazia ideia. Claro que é a rapariga dentro dele que o faz resplandecer, não concordas, John? E como é que estás aí sozinha, Olympia? os rapazes não estão a disputar as tuas atenções?

Haskell comprime os lábios.

Catherine saberá? Olympia interroga- se, alarmada. Haskell

ter-lhe-á contado? E estará Catherine, por qualquer razão, incrivelmente determinada em superar a crise? A pôr tudo para trás das costas? É disso que se trata? Que se passou entre marido e mulher esta tarde na casa nova? Olympia perscruta o rosto de Haskell, os seus olhos dardejando, mas não vislumbra nada que responda às suas perguntas.

E depois ele endireita-se e parece recuperar o controle.

- Olympia, boa-noite - diz. - Peço desculpa.

De quê? Olympia quer gritar. De que é que queres que ta

desculpe? O facto de Haskell ter sequer falado traz um alívio visível a Catherine. Consegue sorrir.

- Chega aqui, Olympia, senão vou eu aí buscar-te.

Olympia obedece. Levanta ligeiramente as saias e sobe os degraus laterais, os mesmos degraus no cimo dos quais Haskell esteve em tempos a observá-la a regressar da beira-mar. Mas desta vez quem aí está para a cumprimentar é Catherine, que estende a mão enluvada. Olympia é cingida num abraço de gardénias e sabonete de azeite, sob os quais se sente um levíssimo bafo de mau hálito.

O vestido de Catherine é apanhado debaixo do peito ao estilo imperial e cai-lhe elegantemente sobre a cintura e as ancas. Traz pedras-da-lua e deixou o cabelo solto. Olympia tem a distinta impressão de que é imaterial, de que pode inesperadamente dissolver-se como algodão-doce. Catherine segura-lhe no braço como uma tia solteirona que tomou uma sobrinha sob protecção. Haskell volta-se, inclina-se e beija a mão enluvada de Olympia. Mais perto dele agora, ela vê a profunda tensão nos músculos do seu rosto.

- Gosta da sua casa nova? - vê-se obrigada por cortesia a perguntar a Catherine.

Haskell desvia a cabeça e olha para o mar.

- Oh - diz Catherine com deleite evidente. Junta as mãos como se fosse bater palmas. - uma maravilha. Nunca vi uma casa assim. Vê-se o mar de todas as janelas e a maresia. A sério, Olympia, tens de nos ir visitar o mais depressa possível porque quero mostrar-te, a ti e à tua mãe, as salas todas. A atenção ao pormenor. E as raparigas. Cada uma tem uma sala de estar sua e, como podes imaginar, estão absolutamente excitadas.

Catherine faz uma pausa. Olympia devia responder, mas não lhe ocorrem quaisquer palavras. O silêncio prolonga-se por alguns segundos. À volta deles, as vozes são animadas, o que apenas serve para sublinhar que a sua não é. Olympia sente um aperto no coração.

Catherine olha de Haskell para ela e novamente para ele.

- O John não está em si hoje - diz Catherine, desculpando os maus modos do marido. - Receio que ande a trabalhar de mais.

- Lamento saber - diz Olympia.

Nem Catherine, com todas as suas competências sociais, consegue avançar mais na conversa. O silêncio constrangido de Haskell é sufocante e Olympia sente vontade de fugir. Não aguenta mais estar na companhia do casal. A tensão é tão grande que receia que ela ou Haskell deixem escapar a verdadeira razão do silêncio.

- Se me dão licença, tenho de ir ter com o meu pai - diz Olympia apressadamente. - Ele fica zangado comigo se eu não fizer um esforço por me apresentar a Mr. Hale o mais depressa possível.

Antes de Catherine ou Haskell poderem responder, Olympia deixa-os e começa a caminhar pelo alpendre em direcção à casa. As pessoas abrem-lhe caminho ou é ela que as afasta? Não, não, não é assim tão dramático. Limita-se a avançar, acenando educadamente com a cabeça, enfiando-se por aberturas na multidão, evitando ser interpelada. Entra em casa e atravessa a sala de estar que transborda de gente e alegria. Continua a vogar, sem destino, desejando apenas criar distância entre ela e Catherine Haskell com quem já não pode, em boa consciência, permitir-se falar.

Enquanto avança, procura disciplinar- se em silêncio: não deve nunca, em nenhuma circunstância, visitar Catherine. Deve desencorajá-la de aparecer novamente em sua casa. Deve evitar a todo o custo quaisquer possíveis encontros casuais, todos os compromissos sociais em que haja o perigo de se cruzarem. Deve ir embora de Fortune's Rocks e regressar a Boston. Terá de inventar um pretexto, mas é capaz disso. Não será difícil persuadir o pai a mandá-la. Partirá imediatamente. Pela manhã. Está num corredor, a afastar-se das pessoas. Ouve uma orquestra afinar os instrumentos. Não tardará a começar a música. Oh, meu deus, pensa, como vou ser capaz?

Chega ao corredor deserto que liga a casa principal à capela e pára para recuperar o fôlego. Encosta-se a uma parede, inclina a cabeça para trás e fecha os olhos. Permanece nessa postura, tentando acalmar-se, durante alguns minutos. Ouve uma viola de arco, uma valsa que começa. Haskell dançará com Catherine? Olympia passa as mãos pelos olhos. Arranca violentamente as travessas nacaradas do cabelo e olha-as. Aperta-as com força, enterrando os dentes nas palmas.

Ouve passos no soalho polido e vira a cabeça. Apercebe-se

de que sabia que ele a seguiria. Vê-o avançar na sua direcção e não se mexe. Ele tem no rosto uma expressão que ela conhece bem: expressão de angústia e expectativa. Ele aproxima-se dela e sente o seu hálito aflorar-lhe os olhos. Ouve um estremecimento, uma exalação. Ele inclina a cabeça e pressiona a boca firmemente contra o ombro dela e, por um momento, Olympia tem medo.

Sente-lhe os dentes. Ele nunca fez isto. A sua pele está húmida e, subitamente, sabe que ele está a chorar. Chora do modo que um homem chora, a um tempo silenciosa e audivelmente, reprimindo os soluços. É uma perda de controle tão absoluta que as lágrimas desencadeiam o desejo carnal ou talvez seja o inverso. Ela quer segurar-lhe no rosto, aproximá-lo do seu, acalmá-lo, mas ele tem a boca no seio dela e enlaça- a com tanta força que ela mal consegue respirar. Caminham ou cambaleiam pelo corredor, à procura de escuridão, de abrigo, de alguma coisa que os oculte. Ela colide contra a parede, fazendo tombar um quadro. É inconcebível que não alertem um criado ou um conviva. Ela segura-lhe na cabeça e viram-se de forma a ele ficar de costas contra a parede. Ela calca a baínha do vestido e ouve-o rasgar ligeiramente na cintura. Entram na capela e detêm-se a olhar para o altar secularizado, para os bancos de madeira. Atrás de si, ela ouve a porta fechar-se. Haskell corre o ferrolho. Olympia dirige-se para a laje de mármore e senta-se nela. Haskell eleva-se sobre ela. Ela não lhe vê o rosto.

- O que é que aconteceu - pergunta ela.

- Não lhe contei - responde ele.

Ela cinge-lhe as pernas com os braços e inclina a cabeça sobre elas.

- Não posso viver naquela casa - diz ele. - Não posso. Não posso.

- Não - diz ela, abanando a cabeça. E como Haskell, está a chorar.

- Vou-me embora daqui - diz ele. - Hei-de arranjar um pretexto. Não posso ficar nesta terra.

- Deixa-me - diz ela, levantando os olhos para ele -, deixa-me ser eu a partir. Tu fazes falta aqui e eu não. Já decidi que vou falar com o meu pai amanhã.

Ele acocora-se para pôr a cabeça à altura da dela. Enterra-lhe os dedos no cabelo. - Não, não posso ficar - diz ele. - Não há uma única vista que não me faça recordar-te, que não me faça desejar-te. Pousa a boca na boca dela. É um beijo, mas mais do que um beijo. É como um afogamento talvez.

Mas o corpo não se contenta com beijos, por mais completos ou generosos que sejam. O corpo precipita-se na sua urgência. Assim ela deita-se, a cabeça contra o mármore frio, as pernas abertas de cada lado da pedra. O mármore é duro e desconfortável e ela sente-se deselegante, com as pernas abertas, as cuecas a tocar o chão. Haskell ajoelha-se. A sua face está húmida contra a coxa dela. Ela tenta soerguer-se para o olhar nos olhos. Chama pelo nome dele. Mas ele está perdido na mais poderosa luxúria que existe: a que nasce do desespero. Ela está assustada - tanto por ele pelo menos como por si própria. E, contudo, sabe que não pode suspender o momento, que ele terá o seu próprio ímpeto, o seu próprio princípio e o seu próprio fim.

E é nesse momento que ela vira a cabeça e, olhando através da janela aberta da capela, vê Zachariah Cote a afastar-se cortesmente do seu lugar no alpendre, deixando Catherine Haskell aproximar-se do telescópio, baixar os olhos para a ocular e ajustar por um momento os botões até que a cena para a qual Cote apontou com exactidão o instrumento entra incompreensível e nitidamente em foco.

Olympia imagina que se terá passado assim: Catherine ter-se-á endireitado, os lábios ligeiramente apartados, uma mão enluvada espalmada contra o peito. Cote, fingindo-se curioso, ter-se-á baixado para o telescópio e depois ter-se-á aprumado, aparentemente chocado com o que acabara de ver. Minha querida, poderá ter dito. Sinto imenso. Que coisa horrível para si. Se alguma presença de espírito lhe restou após o choque, Catherine poderá ter levantado os olhos para o rosto de Cote e terá visto o sobrolho franzido, em sinal de apreensão, que não terá dissimulado inteiramente o sorriso manhoso nos seus lábios. E talvez se tenha retraído e depois recuado e tido a capacidade de esbofetear o homem. Olympia espera que sim.

Quando Olympia chega ao corredor central, a segurar o vestido rasgado na cintura, parece-lhe que tudo à sua volta é uma confusão, o som de todos os relógios do mundo dessincronizados. Ela e Haskell causaram isto, este caos, este pandemónio? À sua volta as pessoas e os objectos redemoinham, movendo-se a grande velocidade. Haskell foi à sua frente e ela procura-o, procura Catherine. O rosto da mãe está branco e gélido e não consegue falar. O pai acerca-se dela com uma interrogação no olhar. É verdade, Olympia?, pergunta. Ela responde-lhe, mas é como se falasse uma língua estrangeira; ele não parece capaz de compreender as suas palavras.

E depois vê na sua expressão o momento da tomada de consciência, a leve tremura, e observa por fim o choque a calar-lhe fundo na alma: a ruína, tudo aquilo a que dá valor - a filha, a reputação, a possibilidade de alguma vez voltar a Fortune's Rocks, a casa que tanto adora, a vida que tanto adora. E ela pensa que o momento mais triste de toda a noite dá-se quando o pai se recompõe corajosamente, tentando manter a postura no próprio momento em que a terrível verdade se lhe infiltra por todos os poros, a forma como tenta falar com os convidados, tranquilizá-los, permanecer o capitão competente e afável de sempre, apesar do rombo no casco e da água que entra a jorros pelas anteparas.

O pai tenta pegar-lhe na mão, mas ela retira-a. Corre de sala em sala. Há convidados que saem, chamando pelas carruagens. Tem de falar com Haskell. Tem de encontrar Catherine. Tem de dizer qualquer coisa a Catherine.

Olympia encontra-os finalmente no corredor que leva à cozinha. Catherine esteve a chorar e não deixa o marido tocar-lhe ainda que ele tente. Ele olha para Olympia e não fala. O seu rosto está devastado.

Não podemos ter feito isto, Olympia quer gritar-lhe. Não podemos ter feito isto.

Saem juntos pela entrada das traseiras. Marido e mulher. Ele tem de ir com a mulher. Tem de acompanhá-la à casa nova, não é assim? Mas que horrores os esperam lá? Olympia interroga-se. Que gritos soarão na noite enquanto Catherine dorme e acorda, dorme e acorda outra vez, num padrão cruel e inexorável?

Olympia vê Haskell sair de sua casa, deixá-la ali em pé no corredor. A orquestra há muito que deixou de tocar. Ela cai de joelhos. Vê as costas do casaco de Haskell que transpõe uma porta aberta. E só nesse momento compreende verdadeiramente o que devia ter sabido desde o princípio. Ele não lhe pertence. Nunca lhe pertenceu.

 

Olympia e os pais abandonam Fortune's Rocks, na manhã do dia 1 de Agosto, de comboio, deixando Josiah e Lisette, que

acabaram por não ter tempo para fazer o seu anúncio pessoal ao pai, à frente de um exército de criados temporários cuja missão é extirpar a casa de quaisquer vestígios da desastrosa festa. A mãe faz toda a viagem de lábios comprimidos e, de vez em quando, a enfermeira que os acompanha tem de reanimá-la com sais. O pai não dirige a palavra a Olympia enquanto não alcançam a privacidade da sala de estar da casa de Boston que ainda não está excessivamente povoada de criados. Com fúria mal controlada, anuncia que Olympia arruinou a família e destruiu qualquer possibilidade de felicidade para todos os seus membros. Ademais, a sua irresponsável indiferença face às consequências dos seus actos desbaratou completamente o seu próprio futuro. Embora considere que ela tenha sido seduzida por um canalha, será considerada culpada das suas acções até ao fim da vida. E será que ela compreende, acrescenta, cuspindo e borrifando a pergunta por toda a sala com toda a fúria de um pai cujo pior pesadelo se realizou praticamente antes de ter tido tempo e sequer o imaginar, que essa culpa não só inclui a ruína de Catherine Haskell, uma mulher inteiramente irrepreensível e completamente enganada, mas também abarca as vidas dos filhos inocentes?

Sobre o próprio John Haskell, o pai não consegue falar, incapaz de pronunciar sequer o nome dele, desejando, nestes primeiros tempos, infligir ao homem, em quem confiou como num amigo, sérios danos corporais.

Ela senta-se em silêncio e ouve os pormenores da sua sentença: não será autorizada a sair de casa num futuro previsível e, pelo menos durante um mês, enquanto ele e a mãe reflectem sobre o que fazer com ela e como salvar as poucas migalhas de futuro que lhe restam, não será autorizada a sair do quarto. Na verdade, ficará confinada ao quarto sem companhia, sem acesso a cartas nem ao mundo exterior e sem livros para a distrair. As refeições ser-lhe-ão levadas num tabuleiro e nem um passeio pelo parque lhe será consentido. A finalidade desta privação, explica o pai cuidadosamente, é conceder-lhe tempo suficiente para contemplar a gravidade da sua posição. Em seguida, para consternação de Olympia, o pai começa subitamente a soluçar, ali mesmo na sala de estar, o que resulta muito pior do que a feroz repreensão. Senta-se pesadamente numa cadeira, como que prostrado. Ela levanta-se da cadeira e acocora-se diante dele, implorando-lhe que não chore porque não suporta a sua tristeza. Nesse momento, ele endireita-se e insiste para que ela se levante. Pede-lhe o favor, nas semanas e meses futuros, de se abster de dramatismos nas conversas que tiverem, que lhe dá a entender se limitarão apenas às frases que é absolutamente necessário dirigir a outro ser humano com quem se partilha o mesmo tecto. E assim, mandando-a friamente embora, ordena-lhe que comece sua clausura.

Nem com toda a premeditação do mundo, podia o pai ter concebido pior castigo para ela. Estar sentada numa cadeira, hora após hora, a reflectir sobre a sua queda é suficientemente mau: nunca terá um marido nem uma família; não poderá prosseguir a sua educação, quer com o pai quer numa instituição; será relegada à pior das condições para uma mulher, a de solteirona e de absoluta inutilidade; até ao fim da vida, o escândalo, que poderá alternadamente deliciar ou alarmar os outros, persegui-la-á; será apresentada às raparigas mais novas como exemplo da devastação do pecado; e, em suma, será alvo do mais cruel e desprezível de todos os sentimentos, que é a piedade. Mas saber que se é responsável pela desgraça de inocentes é quase insuportável. De vez em quando, o pai bate à entrada no quarto e transmite-lhe fragmentos de informação que considera instrutivos ou susceptíveis de afiar os gumes da sua punição.

Catherine Haskell e os filhos regressaram a York no dia 11 de Agosto, anuncia-lhe um dia o pai laconicamente, não lhe consentindo a formulação de quaisquer perguntas. Mais tarde, é-lhe dito que esse homem foi destituído da sua posição tanto na universidade, como nas clínicas de Cambridge e de Ely Falls. Não lhe é comunicado o seu paradeiro nem as condições com que agora ganha a vida. Não lhe é dito como Catherine e os filhos sobreviverão, apenas que a casa nova, onde o fatídico casal passou apenas essa terrível noite, foi posta à venda.

Olympia fica entregue aos seus pensamentos e conjecturas que, todas as manhãs, se renovam ao acordar e só gradualmente começam a parecer familiares. Mas, decorrido um mês, aprende um facto curioso sobre si mesma: a sua capacidade de remorso é finita. Descobre que o espírito não se submete facilmente ao aniquilamento e, assim, conceberá uma maneira, embora o caminho possa atravessar os mais complexos labirintos com obstáculos permanentes, de se desoprimir e mitigar as suas feridas. E é o que faz, na clausura do seu quarto, com a memória. Tem recordações, viscerais e efémeras que ninguém lhe poderá arrebatar; e, se bem que os acontecimentos que deram origem a estas recordações apenas tenham conduzido à catástrofe, contêm em si pepitas de doçura que as posteriores consequências não podem inteiramente amargar. E assim, o passado se converte na sua melhor companhia.

Por volta dos finais de Outubro, Olympia começa a sentir-se francamente indisposta. Durante dias, sente um sabor metálico no fundo da garganta e afligem-na ataques de bílis. No dia 29 de Outubro, arranja finalmente coragem e fala a Lisette do seu mal-estar pois deseja que ela chame o Dr. Branch. Lisette olha Olympia em silêncio durante alguns minutos e depois suspira gravemente. Olympia apercebe-se, nesse momento, com uma espécie de clareza que lhe escapou antes, da natureza exacta da sua condição. Por um momento, sente-se tonta, mas depois, ao pôr a mão na fronte, passa por sensações de incredulidade e vergonha e não consegue afastar completamente um sorriso do espírito, quando não mesmo dos olhos. Porque, embora compreenda plenamente a calamidade da situação, sente por outro lado uma semente de felicidade pela semente que perdurou dos seus dias e semanas com John Haskell. É alguma coisa. É alguma coisa.

Lisette oferece-se para transmitir a notícia ao pai, mas Olympia diz-lhe que tem coragem suficiente para o fazer. Na manhã seguinte, antes do pequeno-almoço, Olympia veste-se meticulosamente com um sóbrio vestido azul que não esconde inteiramente a sua condição, mas também não a apregoa. O pai está a ler A Letra Es carlate de Hawthorne quando ela entra na sala de jantar, coincidência que acha tão desconcertante que quase dá meia-volta e sai. Uma chuva persistente tamborila contra a janela e o odor a café faz-lhe subir a bílis à garganta. Esforça-se por não vomitar, por não trair qualquer fraqueza diante do pai.

A princípio, ele não acusa a sua presença, embora ela sinta que o desconcerta. Normalmente não toma o pequeno-almoço com ele, pelo que a sua chegada é um tanto suspeita. O mais calmamente que pode, pega nos ovos e nas bolachas do aparador e serve-se de uma chávena de leite quente. Mas, assim que pousa o prato e a chávena à frente, apercebe-se de que não será capaz de ficar muito tempo diante da comida sem passar por uma situação embaraçosa. Por conseguinte, lança-se de imediato no discurso que ensaiou atéà exaustão.

- Pai, tenho uma coisa muito importante para te dizer porque não há forma de esconder isto e não quero que saibas por.

Ele vira a cabeça e olha para ela.

- Sinto muito diz ela.

- O que é, Olympia? - pergunta ele.

- Estou começa ela. - Há.

Pousa a mão no ventre.

- Não.

Ele pronuncia esta única palavra em voz baixa, demasiado baixa, e ela ouve a sua incredulidade indignada. A postura dele é rígida e perdeu completamente a cor. Recusa-se a olhar para ela, fitando antes o espaço à sua frente, com os dedos ainda no livro. Olympia nunca viu um homem debater-se tanto para não perder o controle. Ele humedece os lábios com a língua. Bebe água.

- Diz-me que não é verdade - diz ele.

Ela fica em silêncio.

Ele bebe outro gole de água. Ela repara que os seus dedos tremem. Instala-se um silêncio prolongado.

- Vamos. ter de tomar disposições - diz ele numa voz ligeiramente rouca com o choque.

Ela inclina a cabeça e faz um gesto de assentimento. Disposições para o parto.

- Santo deus! - explode o pai. - O homem não pensou?

- Nada disto foi feito com o objectivo de te magoar - diz ela.

- Nunca mais terei razões para acreditar em nada do que dizes - diz calmamente o pai.

Ela fecha os olhos.

- Isto vai matar a tua mãe - diz ele.

E talvez seja o exagero desta afirmação que desperta a sua cólera.

- Isto não tem nada a ver com a mãe - exclama Olympia, abandonando a sua determinação em manter a calma. - Quem está grávida sou eu. Quem perdeu a pessoa que ama fui eu. Quem sofreu fui eu.

- Basta! - diz ele rispidamente. Limpa a boca ao guardanapo e pousa-o na mesa. - Mete bem isto na cabeça, Olympia - diz ele, com os lábios comprimidos com a tensão, a cabeça a abanar como se sofresse de paralisia. - Eu preocupo-me contigo em todos os segundos da minha vida. Mas isto tem a ver com a tua mãe. Tem a ver com a tua mãe e comigo e com a nossa vida em comum. Isto tem a ver com a criança inocente, por nascer, que agora me dizes que trazes dentro de ti. Isto tem a ver com a Catherine Haskell e com os filhos dela. Isto tem a ver com o Josiah e com a Lisette que tiveram de viver este horror connosco. E, por muito que me custe pronunciar o nome dele, também tem a ver com o John Haskell, o homem que, apesar de tudo, tem a vida arruinada pelas ofensas que cometeu. Não tem a ver, repito, não tem a ver apenas com a Olympia Biddeford.

Dito isto, o pai levanta-se. Empurra com cuidado a cadeira e repara em A Letra Escarlate, só então, aparentemente, se apercebendo da coincidência do livro porque o deixa cair na mesa. Sai da sala sem dizer mais nada.

Depois desse dia, o pai comunica com ela por meio de mensagens deixadas de manhã na mesa de jantar ou levadas ao quarto dela por Lisette que abana a cabeça perante a tarefa. Uma mensagem diz: Eu e a tua mãe vamos estar fora duas semanas. Outra: O electricista vem fazer reparações na sexta-feira, deixa por favor o teu quarto arranjado. No entanto, Olympia está agora autorizada a ler e, como tudo está perdido, é-lhe permitida uma boa diversidade de materiais de leitura: Walt Whitman e Jack London e alguma poesia de Christina Rossetti. Há também um ensaio médico, A Biblioteca Familiar da Saúde, cuja finalidade é educá-la mais sobre as dores de parto e o nascimento. Lê o volume como se o inalasse e, anos mais tarde, será capaz de recitar palavra por palavra certas passagens-chave: A roupa da paciente deverá ser o habitual saiote e camisa de noite enrolados à altura da cintura para evitar que se sujem. Os gritos emitidos geralmente assemelham- se mais a gemidos prolongados e podem serprontamente reconhecidos a uma distância considerável por quem estiver familiarizado com a sua natureza. A febre puerperal é uma forma de demência susceptivel de ocorrer uma semana ou dez dias após o parto, em que frequentemente se verifica uma singular aversão à criança e talvez também ao marido, São igualmente proeminentes tendências suicidas e as pacientes assim afectadas deverão ser vigiadas com a mais infatigável atenção. Mas, apesar destas declarações alarmantes, ela não tem tanto medo do parto quanto seria de supor porque, apesar de tudo, é difícil à pessoa não iniciada imaginar a dor.

Durante todo este tempo, pensa constantemente em Jo Haskell. Descobre que dizerem-lhe para não amar é inútil porque o espírito se revolta. Embora considere improvável voltar a ver Haskell, não consegue deixar de o recordar, de se perguntar o que será feito dele e se ele pensará nela como ela nele. Apenas sabe (através do pai) que a casa dos Haskell em Cambridge foi vendida. E que, num futuro previsível, Catherine e as crianças ficarão em casa com a mãe de Catherine, embora um dia esbarre acidentalmente com os nomes deles no jornal, como passageiros esperados a bordo do SS Lundgren com destino ao Havre. Olympia tenta imaginar a clausura do seu quarto, exactamente o que aconteceu nas primeiras horas da manhã do dia 11 de Agosto, na casa dos Haskell. Que disse Haskell a Catherine e ela a ele? Deixou a mulher e os filhos nessa noite? Ou foi o contrário: Catherine acordou os filhos, vestiu-os às escuras e arranjou um motorista para os levar a York?

No dia 31 de Dezembro de 1899, Olympia está sentada junto à janela de ressalto arredondada da casa citadina do pai, voltada para o Jardim Público. Através das vidraças cor de alfazema, observa o reverendo e os celebrantes a passar para cima e para baixo na rua. Começa a cair uma neve ligeira que torna o pó mais compacto. Já se vêem pessoas por todo o lado, na maioria vestidas com as suas melhores capas e chapéus, apressando-se na neve em direcção aos seus destinos. Enchem a rua cabriolés e cavalos e, enquanto ela observa, o trânsito congestiona-se cada vez mais em torno do Jardim. Ainda não acendeu as luzes eléctricas no salão para melhor ver o exterior; e, em resultado, a penumbra no interior da sala está a tornar-se quase impenetrável. O pai, a mãe, Josiah e Lisette estão algures em casa, mas Olympia não ouve sons de actividade humana. Josiah e Lisette, que agora vivem juntos no andar de cima da casa depois de terem discretamente casado no dia de Acção de Graças, sairão mais tarde, nesta véspera do novo século. O pai e a mãe ficam em casa.

Olympia e os pais passaram recentemente um Natal taciturno, a mortalha do futuro imediato e desconhecido abafando mesmo as tentativas forçadas de boa disposição do pai. Os presentes foram escassos. Olympia tinha feito um xaile de renda em croché para a mãe e um cachecol em malha para o pai já que não podia sair de casa para lhes comprar nada nas lojas. Os presentes deles para ela foram ridiculamente descabidos - um par de patins para o gelo e uma capa curta de veludo azul - como se desejassem negar completamente a sua realidade actual. Só o presente que Lisette lhe levou ao quarto na véspera de Natal (depois de todos os outros terem saído para os serviços religiosos) reconhecia a sua condição: uma caixa amarela almofadada cheia de roupa de bebé, toda bordada à mão com minúsculas flores amarelas. A bondade da rapariga fê-la ficar com lágrimas nos olhos.

O fogo na lareira atenua o frio mas, mesmo assim, há humidade no salão. Olympia aconchega o xaile à volta dos ombros e deixa o cabelo cair-lhe no regaço. Como adorava estar lá fora na última noite do século, ainda que apenas para participar fisicamente na importante comemoração centenária. Embora considere a data arbitrária - pois quem pode afirmar em que dia a contagem dos milénios começou? - e desprovida de poderes místicos, está muito intrigada com a quase histeria e torrente de profecias que infectaram o país com a aproximação dos minutos finais do século. Já se apercebeu que os celebrantes se entregam à folia com uma licenciosidade sem igual em anteriores celebrações de Ano Novo. Algumas pessoas, sabe pela leitura dos jornais de Boston, chegaram mesmo a construir abrigos subterrâneos a fim de sobreviverem à realização das profecias específicas do Apocalipse, que associam com o primeiro dia do ano de 1900. Outras assistirão a serviços religiosos até horas tardias da noite. Em circunstâncias normais, os pais estariam agora a vestir-se para participar numa destas celebrações. Ou talvez tivessem planeado, antes do dia 10 de Agosto, organizar eles próprios uma festa de Ano Novo; casos houve em que os convites haviam sido enviados com um ano de antecedência. Mas tudo isso, é claro, tinha agora mudado. Os pais não voltaram a conviver socialmente desde a partida de Fortune's Rocks.

Enquanto Olympia escuta o tiquetaque do relógio de nogueira no canto do salão não consegue deixar de imaginar que os minutos da sua vida vão passando de igual modo, nessa opressiva sala de pesado damasco, mogno ornado e tapetes persas de padrões contrastantes. Como anseia por uma sala com janelas amplas cujas cortinas deixem filtrar a luz difusa do sol. Sente o agora familiar movimento dentro de si que compara a bolhas de champanhe, imagem que agrada particularmente a Lisette. Em conjunto alargaram todos os seus vestidos, mas é claro que nem essa estratégia dotará Olympia de um guarda-roupa. Por fazer pouco exercício está a engordar de semana para semana e há muito que perdeu o desejo de disfarçar o seu estado. Alisa a roupa de lã sobre o ventre e pensa, como faz com frequência, no parto iminente, de que sente pouco receio, e no pai da criança cujo paradeiro continua a desconhecer. Quando escurece completamente, Olympia está autorizada a passear pela periferia do parque. Será a sua saída do dia, como foi aliás o caso durante todo o Outono e Inverno. Josiah e Lisette acompanhá-la-ão.

Acende-se uma luz na sala, o reflexo que imediatamente se forma na janela oblitera os celebrantes na rua.

- Lisette - pergunta Olympia -, achas que podíamos dar o nosso passeio agora? As minhas pernas estão quase a rebentar por falta de exercício.

- Não é a Lisette - diz o pai em voz baixa.

Olympia volta-se na cadeira.

- Não te levantes - diz ele. Aproxima-se e puxa uma cadeira para junto dela. É visível a tensão no seu peito pois, desde o dia em que ela lhe falou da gravidez, nunca mais entabulou conversa com ela por sua iniciativa. O pai emagreceu consideravelmente e a sua aparência, nos últimos meses, passou da de um homem de meia-idade para a de um homem quase idoso, o que é apenas mais uma coisa por que Olympia se sente responsável. Traz uma sobrecasaca de lã vulgar e rapou o bigode. Como perdeu igualmente algum cabelo, na generalidade parece mais pequeno do que no Verão.

- Há alguns assuntos que temos de discutir - diz o pai e, embora seja uma declaração formal, o tom não é. Contém uma doçura que ela já não ouve há muito tempo. Pensa que o pai talvez não consiga manter a intensidade da sua raiva.

- Suportaste o teu castigo com nobreza, Olympia - diz-lhe, e o coração dela começa a serenar com as palavras. - Tenho sido demasiado severo.

- Pai. - começa ela.

Ele levanta a mão. - Não há mais nada a dizer sobre isso. Embora ele se aprume e se esforce por assumir o seu anterior porte quase militar, ela repara que, no seu íntimo, algo se abateu de tal forma que a sua postura agora, mesmo sentado, é levemente encurvada.

- Tomei disposições - diz ele, incapaz de dominar um relance para o corpo inchado da filha.

- Que disposições? - pergunta ela.

Ele desvia os olhos e fita a janela.

- É melhor não falarmos delas em pormenor - responde. Ela começa a falar, mas ele abana a cabeça.

- Está fora de questão ficares com a criança - diz ele rapidamente. - Será entregue em boas mãos, garanto-te.

Embora Olympia soubesse que este desfecho seria possível, tem evitado imaginar uma separação absoluta. - Mas, pai - diz ela, debruçando-se -, eu quero ficar com a criança.

- Está fora de questão ficares com a criança - repete. - A tua mãe não o permite e eu também não, e deves saber que não poderás, de maneira alguma, sobreviver sem o nosso apoio.

- Mas, pai. - protesta Olympia.

- Ouve-me, Olympia. Deves confiar em mim. Com o tempo, esquecerás por completo este episódio terrível. Prevejo que, no Outono do próximo ano, já tenhas recuperado inteiramente deste desastre. E, embora tenham ocorrido danos que nunca poderão ser reparados, acho que podes vir a ter uma vida autónoma. Afinal, estamos na era moderna. As mulheres tornam-se independentes e seguem o seu próprio caminho. Não é totalmente impensável. Mas precisas de instrução, de formação para uma ocupação futura.

- A criança é minha! - exclama Olympia. - É minha e do John Haskell! Quem deve decidir o que lhe acontece somos nós.

As faces do pai cobrem-se de manchas vermelhas e decorrem alguns momentos até conseguir recompor-se.

- Como te atreves a mencionar o nome desse homem na minha presença? - diz friamente.

Ela abre a boca para continuar a falar, mas ele levanta a mão.

- No Outono, vou mandar-te para a região ocidental do estado, para o Colégio Feminino de Hastings - diz, e o seu tom não deixa dúvidas de que não dará ouvidos a qualquer oposição a este plano. - O único caminho para ti... o único caminho para ti... é tornares-te professora. Existe uma necessidade enorme de bons professores, sobretudo nas zonas rurais da Nova Inglaterra e, deste modo, a tua vida terá algum valor para os outros.

- Pai, não me faças uma coisa destas. Ele olha demorada e duramente para o rosto da filha. Olympia imagina o que ele vê: uma rapariga roliça de dezasseis anos cujo discernimento deixou de merecer qualquer crédito.

- Não há nada mais a dizer sobre este assunto - diz ele. Ela morde o lábio com força para refrear mais protestos. Aperta tanto os braços da cadeira que sentirá, mais tarde, cãibras nos dedos.

Pensa em não lhe obedecer. Aceitará o seu desafio implícito e partirá sozinha. Mas, no momento seguinte, pergunta a si própria como será capaz disso? Sem o apoio do pai, não pode alimentar qualquer esperança de sobreviver. E se ela própria não sobreviver, a criança também não conseguirá.

O pai finge observar os celebrantes, mas Olympia sabe que a única coisa que ele consegue ver é ele próprio e ela, enquadrados pela moldura creme do peitoril fundo da janela. Parece não gostar do que vê e volta- se para ela.

- Quando terminares a tua formação, gostaria de que arranjasses um lugar longe de Boston, onde a tua história não seja imediatamente conhecida - diz ele, e torna-se claro que passou dias a reflectir sobre isto. - Ainda assim, deves estar preparada para o facto de as pessoas irremediavelmente acabarem por tomar conhecimento do teu passado porque duvido que haja algum lugar para onde possas ir onde não haja pelo menos uma possibilidade de a história chegar aos ouvidos das pessoas que te rodeiam. A não ser que mudes de nome.

Considera esta ideia por um momento.

- Não - diz ele. - Não, não farás isso. Não há necessidade de cobardia nesta família. É claro que proverei às tuas necessidades. Não creio que possas viver desafogadamente com um salário de professora. Não serei pródigo, apenas justo. Olympia, apesar de tudo - ela olha penetrantemente para ele pois detecta uma ínfima brecha na sua compostura -, eu e a tua mãe amamos-te sinceramente.

Os olhos vidram-se-lhe com esta afirmação pois não crê que o pai alguma vez lhe tenha falado de amor.

O pai suspira como se esta confissão lhe tivesse exigido mais energias do que havia imaginado. Levanta o queixo e inspira rapidamente.

- Agora - diz o pai, constrangido por se ter aventurado demasiado no domínio dos sentimentos -, vai buscar a capa e o chapéu. Esta noite, levo-te eu a passear no parque. E depois voltamos para casa e fazemos cacau e, deste modo simples, celbraremos o novo século em que espero que tenhas uma vida de contentamento, senão de verdadeira felicidade.

Olympia tenta levantar-se. O pai pega-lhe no braço e ela nota o seu desconcerto ao aperceber-se de como ela se tornou volumosa, pois já passou muito tempo desde que esteve tão próximo dela.

Ela desprende o braço do seu. - Estás enganado numa coisa, pai - diz ela o mais calmamente de que é capaz. - Muito enganado.

- Em quê? - pergunta ele, quase distraidamente, tendo cumprido a sua obrigação em tempo útil. Está agora um pouco mais relaxado do que quando entrou na sala.

Ela olha para o rosto dele e espera que o seu olhar se cruze com o dela.

- Prevês que, no Outono do próximo ano, eu esteja inteiramente recuperada deste episódio, como lhe chamas. Mas estás enganado. Nunca hei-de recuperar, pai. Nunca. Se me tirares a criança, nunca me resignarei.

Ele estuda-a por momentos.

- Olympia - diz ele -, ainda és muito nova.

Pouco depois da meia-noite, às primeiras horas do dia 14 de Abril, Olympia acorda com uma sensação de humidade. Ao ver melhor, descobre que a camisa de noite e a cama estão encharcadas com um fluido tépido. A custo, sai da cama e veste uma camisa de dormir seca. Sabe pelo livro médico o que significa. Dirige-se ao fundo das escadas que levam ao terceiro andar e bate na parede com toda a força a que se atreve. Não quer acordar nenhum dos pais.

Josiah grotescamente despenteado, aparece no patamar de roupão.

- Chama a Lisette - diz Olympia.

Lisette, de tranças e camisa de noite entra no quarto. Abraça Olympia e parece tão excitada como se fosse ela que estivesse prestes a dar à luz. Como a ausência de medo e a boa disposição de Lisette são um pouco contagiantes, Olympia está menos apreensiva do que seria de imaginar. Senta-se numa cadeira no quarto e observa Lisette enquanto esta lhe muda a roupa da cama. Quando acaba, Olympia volta a enfiar-se na cama, puxa a coberta para si e espera. Está uma noite amena. Pergunta a Lisette se alguma vez assistiu a um parto. Lisette diz que sim, várias vezes. É a mais velha de sete irmãos e a mãe fazia-os saltar cá para fora como biscoitos.

- Eu também assisti a um parto - diz Olympia.

- Assistiu? Quando?

- Quando estava com o John Haskell - responde Olympia, surpreendendo- se com o nome dito em voz alta. Nunca falou do tempo que passou com Haskell a ninguém, nem sequer a Lisette.

- Fui com ele quando ele acudiu a um parto. Foi numa pensão em Ely Falls.

- Entrou no quarto?

- Vi tudo. Foi um parto com apresentação pélvica e a mulher, uma franco-americana pobre com mais três filhas, estava quase demente com a dor. O Dr. Haskell deu-lhe láudano, acho eu, e ela sossegou um pouco. Mas lembro-me dele aflito para virar o bebé. Tinha as mãos.

No entanto, Olympia não consegue continuar porque sente, nesse momento, a primeira pontada de dor. Rígida com a surpresa, sustém a respiração até passar. Quando diminui, exala um longo suspiro. Lisette está a seu lado. - Não deve suster a respiração - diz ela. - Deve expirar sempre que sentir a dor.

Olympia aquiesce, abalada com a ferocidade da contracção. - É asssim que vai ser? - pergunta.

- Ouça - diz Lisette, aproximando uma cadeira da cama. - Toma a mão de Olympia na sua. - Está habituada a comportar-se de determinada maneira. É muito correcta. Quase nunca se zanga e, quando zanga, não exterioriza. Mas agora não é o momento indicado para ser correcta. É mau para o bebé e para si. Não se aflija se gritar de dor. Não se aflija com as coisas embaraçosas que o seu corpo vai fazer porque vai fazer muitas. Quer que vá chamar a sua mãe?

- Não - diz Olympia. - Não há necessidade.

Nesse momento, as dores surgem com violência e são terríveis. Olnpia está aterrorizada embora esteja ainda na primeira hora que ela pensa ser com certeza a última do trabalho de parto, já que qualquer intensificação da dor lhe parece insuportável.

Depois do nascer do dia, a mãe de Olympia, chamada por Lizeté, entra no quarto. Traz um roupão de seda azul apertado na cinta. Tem o cabelo enrolado para trás. - Chama o Dr. Branch imediatamente - diz a Lisette. Humedece um pano numa bacia, acerca-se da cama e coloca a toalha espremida e dobrada na testa da filha. Tem a cara besuntada de um creme que brilha à luz do candeeiro eléctrico. - E vou precisar de rebuçados duros para a Olympia chupar - acrescenta a mãe. - Estão no meu quarto, num frasco de prata no toucador.

Olympia fica um pouco surpreendida com a facilidade com que a mãe assume o comando. Segura o pano contra a testa de Olympia no momento em que Olympia cerra os dentes e amarfanha a roupa da cama nas mãos. Lisette volta com o recado de que o médico anda por fora a fazer a ronda dos seus doentes e que virá assim que o localizarem. Quando Olympia sente dores, a mãe inclina-se sobre a cama e prende-lhe os braços, o que estranhamente, parece ajudar. Entre as contracções, a mãe desenrola o cabelo, bebe uma chávena de chá que Lisette lhe leva e, a certa altura, chega a levantar-se para inspeccionar a caixa almofadada amarela com os seus minúsculos tesouros. Assim, a mãe abandona o seu normal porte elegante e a sua reserva e envolve-se na mecânica do parto tanto quanto Lisette. Revela ter coragem, bondade e senso comum, qualidades que Olympia nunca notou que ela tivesse em abundância. A dado momento, Olympia acorda de um curto sono e ouve a mãe em amena cavaqueira, a rir até, com Lisette. Apesar da dor, Olympia reconforta-se com o à-vontade delas uma com a outra. Se não estão aterradas, então também ela não deve estar.

O médico chega pouco depois do meio- dia e Olympia sente-lhe o cheiro a álcool no hálito. Interroga-se sobre onde terá estado, se terá tomado uma bebida com o pai no escritório antes de subir, embora lhe pareça improvável sendo ainda tão cedo. Olympia está pouco coerente, poupando todas as suas energias para suportar a dor medonha e recorrente. Pensa que é a certeza de que a dor volta vezes sem conta que a fatiga, a certeza de que não pode travá-la. Pede láudano e o Dr. Branch dá-lhe três colheradas de um líquido acastanhado que a faz entrar e sair de um sono leve, para sentir novo abalo de cada vez que acorda com mais dores. Vê a mãe e Lisette debruçadas sobre ela.

Às duas horas da tarde do dia 14 de Abril, Olympia começa a gritar. Está em trabalho de parto há treze horas. O Dr. Branch está no quarto e, subitamente, fica mais alerta do que até aí. Diz depois a Olympia e a Lisette que soergam Olympia. Depois, atam-lhe os pés às colunas da cama. A mãe de Olympia fala constantemente com ela numa voz doce.

- Não sou capaz - grita Olympia. - Não sou capaz! E, com esta declaração, o filho, um rapaz, vem ao mundo.

E quantas vezes lamentará Olympia ter implorado a droga ao Dr. Branch? Porque, se estivesse alerta e acordada após o parto, podia talvez tê-los impedido de lhe levarem a criança. Em anos vindouros, recordará apenas um brevíssimo momento com o filho: o despertar para a surpresa da trouxa enfaixada, enfiada ao seu lado na cama, o virar da cabeça para perscrutar um rosto enrugado, o abrir da roupa o suficiente para libertar uma mão delicada. Mas sedada e exausta, não consegue evitar adormecer. Na verdade, o seu corpo, senão mesmo o seu coração, desejam-no.

Mais tarde, esquadrinhará estes breves momentos um milhão

- não, dez milhões - de vezes à procura de um lampejo ou fragmento de memória que possa ter-lhe escapado. Recordará o cabelo preto espetado, os olhos azuis absolutamente inocentes, a boca minúscula, curva, delicada. Nunca dá o peito ao filho. Nunca lhe vê os pezinhos. Nunca o ouve chorar. E, quando finalmente acorda consciente, a droga tendo-lhe abandonado o corpo, ele desapareceu.

No dia 27 de Setembro de 1900, Olympia chega ao Colégio Feminino de Hastings, em Massachusetts oeste. A aldeia em que se situa o colégio é uma localidade fabril, a fábrica domina a paisagem, transborda para as ruas, apodera-se das igrejas, das lojas e do próprio colégio, de tal forma que é impossível determinar onde começa e acaba a fábrica já que todos os edifícios são de tijolo, incluindo as casas dos proprietários. A fábrica produz sapatos e botas e existem tantas fábricas de curtumes na localidade que até as árvores cheiram a vísceras de animais. Torna-se imediatamente visível a Olympia que o pai nunca visitou o colégio porque, se tivesse visitado, a quase perfeição de tal sítio como um lugar de reclusão teria desafiado até o seu sentido de justiça. Crime algum que a filha possa ter cometido merecia tal exílio.

Olympia guardará imagens deste ano, de meses que são como uma incessante dor de cabeça mas cuja passagem não se traduziu por qualquer noção rigorosa de tempo. Carne de vaca fria num prato de ramagens azuis. Uma tapeçaria suspensa sobre uma cama. Raparigas difíceis de contentar que professavam ter medo do amor. Uma rapariga de vestido estampado que cassoa. Cem ovos para bolos de creme. Galochas na casa de uma escrivaninha em cerejeira com tampo verde. Uma lata com uma ardósia. Um alpendre de madeira à sombra de ulmeiros. Uma rapariga a chorar na casa de banho. Lençóis brancos e rígidos no pátio de secar roupa. Tapetes castanhos dourados com cadeiras azul-pavão. Uma hora de recitação seguida de uma hora de oração. Pálidos pastores metodistas que vigiavam raparigas com arcos nos exercícios rítmicos. Os Elementos de Worcester e a Inglaterra de Goldsmith. Jovens mulheres enviadas para o estrangeiro. Os malões devem ser feitos até domingo à noite.

O colégio, Olympia vem a saber, foi fundado por filantropos metodistas, em 1873, como um estabelecimento de ensino para as operárias da fábrica usufruirem nas suas horas livres e, por conseguinte, tinha a particularidade de ser a primeira escola nocturna do país. No entanto, quando se tornou claro para os seus fundadores que as operárias tinham muito poucas horas livres (e as que tinham não desejavam passá-las em mais clausura), o colégio começou a orientar a sua estratégia de recrutamento para as classes médias: filhas de pastores, vendedores e professores. A teoria e mesmo a prática do colégio consistem em educar jovens que possam mais tarde ensinar: em Esmirna, na Turquia, em Indiana ou em Worcester ou trabalhar entre os zulus na África do Sul. Para além dos seus deveres docentes, espera-se que as diplomadas possam igualmente funcionar como modelos esclarecidos e cristãos para as raparigas de todo o mundo. Nessa época, é um reflexo do alheamento de Olympia da vida o facto de considerar tal perspectiva com equanimidade: não receia nem deseja um exílio continuado, todos os locais além da Fortune's Rocks das suas memórias merecem-lhe idêntica indiferença.

No colégio, Olympia estuda Latim e Geografia, Matemática e Biologia, e outras disciplinas com programas suplementares em Composição, Calistenia, Canto Coral, Costura e Administração Doméstica. A orientação é prática: os verdadeiros académicos são a excepção. Como nem o currículo nem os professores são especialmente intimidantes, o estabelecimento, para surpresa de todos, floresce extraordinariamente e recebe muito mais candidaturas a admissão do que as vagas existentes. Olympia acha espantoso o facto de tantas jovens estarem prontas a abandonar as suas casas, isto é, as suas aldeias na Nova Inglaterra, para irem para territórios estrangeiros onde se pode morrer de solidão ou adoecer com enfermidades infecciosas. E interroga-se se esta passividade colectiva é uma consequência de desastres individuais, que lhes retiraram as perspectivas de casamento, ou de uma falta de confiança generalizada no futuro.

A partir do edifício central, a escola expandiu-se como uma nódoa que se alastra, ocupando pensões devolutas adjacentes à propriedade da escola, competindo com a própria fábrica por território. Na época em que Olympia a frequenta, entre 1900 e 1903, a escola possui dezassete edifícios, incluindo um ginásio e um observatório que foi doado por uma ex-aluna que casou com um Mellon. Olympia vem a saber que a maioria das mulheres, casar-se-ão, quando casam, com homens de bastante menos fortuna ou sem fortuna alguma e não são poucas as que ficam solteiras. Uma mulher com quem Olympia tem aulas virá a ser proprietária de hotéis no oeste e Olympia lembrar-se-á de Rufus Philbrick e das suas profecias.

Durante o seu tempo no colégio, Olympia não tem de partilhar um quarto com ninguém, circunstância pela qual se sente reconhecida. (O pai terá pago mais para evitar a troca de confidências com uma companheira de quarto?) O seu quarto, que consiste numa cama individual e dois cobertores grosseiros de lã, uma lareira, uma escrivaninha individual, uma cadeira e uma ampla janela que dá para o relvado oval no centro do campus principal, é, apesar das suas condições espartanas, uma espécie de refúgio. E como Olympia não tem qualquer desejo de sair ou de fugir deste quarto, começa, com o tempo, a considerá-lo mais um local de recolhimento do que de reclusão. Quando se ausenta, por causa das aulas, das refeições ou durante exercícios obrigatórios, só pensa em regressar a esse despretensioso refúgio, onde se pode sentar na cama estreita e contemplar a parede castanha-clara em frente, vendo rostos, imaginando cenas ou recordando incidentes do passado. Saiu de um lar de freiras apenas para tomar o hábito, os hábitos, das irmãs católicas. Contemplação. Meditação. Reflexão. Ruminação.

Mas não oração. Orar é ter esperança e ter esperança é admitir no espírito a dor da desesperança. E isto Olympia não deseja fazer.

Não é de admirar que Olympia desenvolva a reputação de pessoa reservada, porque falar da mais da pequena parcela de história pessoal pode levar inadvertidamente à revelação de outra parcela que se deseja secreta. E assim pouco conta de si própria, uma característica que as outras olham com alguma desconfiança. Não é popular, embora pense que também não é detestada. É antes uma vizinha que se conhece mal, apesar de tentativas de relacionamento bem-intencionadas.

No entanto, existe um professor que Olympia admira, em particular, um biólogo, Mr. Benton, de Syracuse, que possui um gabinete em Belcher Hall, uma sala repleta de objectos e de livros, onde tem a fotografia de uma mulher (esposa? ) que, uma vez, dá a entender a Olympia ter perdido. No segundo ano, tomam frequentemente chá juntos quando ela decide optar pelo curso de Biologia; e talvez seja porque Mr. Benton, que é de compleição clara e tem provavelmente, quando ela o conhece, trinta e muitos anos, lhe faz lembrar o pai como este era antes da catástrofe, o que suscita a sua afeição por ele. Mr. Benton e Olympia conversam calmamente, e num registo comedido, de anatomia, de plaquetas e das circunvoluções do cérebro e, se ele pressente nela uma reserva que esconde uma mágoa, também ela suspeita de uma história por detrás da sua pálida fachada: talvez a mulher da fotografia não seja afinal a sua mulher. Conversam da vida através das metáforas das células e das espécies, uma linguagem que não permite discussões sobre as questões do coração, embora o coração físico propriamente dito seja muitas vezes dissecado. E, deste modo, pensa ela, são almas gémeas. Anos depois, pensará com frequência em escrever-lhe; mas então teria de contar-lhe a sua vida e empregar um vocabulário que seria tão estranho a essas tardes crepusculares como chinês ou curdu, e assim não escreve.

Quanto ao pai, que Olympia apenas visita no Natal e nas férias do Verão pois a viagem é demasiado longa para as curtas férias de Acção de Graças e da Páscoa, retomou parte da sua vida antiga, embora desprovida agora de esplendor, como um anel que perdeu o diamante: embora o engaste continue resistente, está incompleto com o seu gritante buraco. Ocasionalmente, ele escreve-lhe. Ten reservas sobre a sua opção pelo curso de Biologia. Limitará as suas perspectivas de uma forma que a História não limitaria. Mando-te com esta carta vinte dólares para poderes comprar roupa quente para os meses que aí vêm. Ouvi dizer que Mrs. Nlonckton Hadley Street é uma costureira razoável. A tua mãe insiste que façamos uma viagem a Paris. Espero que tenha forças para isso.

O pai nunca lhe escreve sobre o passado, nem lhe pergunta como está, nem alude a nada que possa suscitar uma resposta emotiva. Não pergunta a Olympia se está a gostar dos estudos, se fez amizades ou se tem sido capaz de esquecer.

E se perguntasse, Olympia dir-lhe-ia o seguinte: Não sou capaz de esquecer. Nem por um dia. Nem por uma hora.

O pai vaticinou que ela estaria bem pelo Outono. Não está.

Não passa um dia em que Olympia não se interrogue sobre o que aconteceu ao filho. Sente esta ausência como um vazio no seu íntimo, um vazio que não pode preencher com a leitura, o estudo, a fantasia nem mesmo se se dobrar sobre si própria. Um dia, quando está a atravessar Holyoke Street a caminho de Belcher Hall, vê uma mãe com um rapaz de cerca de três anos. O cabelo dele tem um arrepio teimoso que lhe dá graça e as meias de algodão caem-lhe pelos tornozelos de um modo quase confrangedor pela sua inocência. O par está envolvido por uma luz dourada, a luz do sol filtrada pelas folhas amarelas e translúcidas dos carvalhos silvestres. Olympia observa o rapaz a atravessar a rua lamacenta com a mãe, a criança segura de que, se apertar com força a mão da mãe, nenhum mal jamais lhe sucederá. Enquanto caminham, uma folha carmim tomba. O rapaz estende a pequena mão. Apanha a folha e levanta o seu tesouro para que a mãe o veja.

Olympia dá abruptamente meia-volta e regressa ao quarto, mal conseguindo fechar a porta antes de ser tomada de tonturas e se afundar na cama. Desata a soluçar violentamente, tanto que alerta Mrs. Cowper, a encarregada dos alojamentos das estudantes, que chega à porta do quarto de Olympia e insiste em entrar. E Olympia tem de lhe dizer que acaba de saber que a mãe está a morrer (continua a saber mentir de forma brilhante sob pressão) para que Mrs. Cowper a deixe em paz.

E, se Olympia pensa no filho desconhecido todos os dias, pensa em Haskell ainda mais pois possui dele mais para recordar e, portanto, para imaginar. É como se ele se tornasse também um hábito entranhado nos seus ossos: os seus devaneios com ele são constantes, embora muitas vezes vagos e informes. Por vezes, esquece-se das suas feições. Muito cedo, perde o timbre da sua voz. Quase todos os seus pensamentos são de natureza especulativa: imagina um encontro fortuito e o que dirão. Ele estará de costas para ela numa estação de comboios. Ela reconhecerá - o quê? - um ombro virado, a forma como ele se posiciona de mãos nas ancas. Vê-lo-á consultar o relógio. Trará um casaco escuro e uma mala de couro aos pés. Tirará um chapéu de feltro de aba estreita e afastará o cabelo da testa. Silenciosamente, ela aproxima-se pelo lado e, pressentindo-a, ele volta- se. Olympia, diz, como se ela tivesse renascido dos mortos.

Ousará tocá-la nesse momento? Ali na estação, à vista de todos? Ela imagina a moderação a dar lugar a revelações ofegantes e rápidas absolvições. Imagina remorso e também exultação. E imagina a surpresa de Haskell quando souber que tem um filho. E depois entregar-se-lhe-á e ele olhará por ela. Estes devaneios são, inquestionavelmente, os seus momentos mais felizes em Hastings.

Olympia descobre que uma característica peculiar do colégio é o seu inovador programa de trabalho no Verão, um conceito único, ao que lhe dão a entender, no sistema educativo americano. Como a maioria das estudantes são raparigas de famílias com recursos moderados, muitas das quais mal podem pagar as propinas, é prática da escola mandar as raparigas para fora, no Verão, para ocuparem lugares de preceptoras ou de auxiliares de mulheres que se dedicam a obras beneméritas de forma a poderem ganhar dinheiro que contribua para as contas. Uma posição típica no Verão, por exemplo, poderá ser a de assistente do administrador de uma instituição de beneficência ou de preceptora numa casa com crianças que não tiveram o benefício da instrução.

Por volta dos finais do seu terceiro ano de estudos, Olympia começa a pensar onde poderá ser colocada. Já compreendeu que quem tiver espírito de iniciativa pode solicitar um determinado posto; e na realidade quase todas as finalistas regressam por vezes às posições ocupadas no Verão anterior, sendo que as mais desejáveis são em Boston. Olympia, todavia, não deseja ficar de novo em Boston embora isso signifique que pode ficar a viver com a família (ou especialmente porque pode ficar a viver com a família, pois já passou os três últimos Verões nessas divisões sufocantes de Beacon Hill. Foram temporadas quase insuportáveis para Olympia: a única coisa em que conseguia pensar era no lugar onde não estava, ou seja em Fortune's Rocks. À medida que assinalava as datas importantes, cada dia se revelava uma pequena tortura: há um ano, neste dia, conheci Haskell no alpendre; há dois anos, neste dia, vi um balão a subir no céu; há três anos, neste dia, amámo-nos numa casa semiconstruída.

Para evitar a recorrência destes dolorosos aniversários, assim como o intenso tédio e o calor da cidade nos meses estivais, Olympia agarra-se à possibilidade de uma posição na outra ponta do estado: Passe o Verão numa quinta nos Berkshires, diz o anúncio à porta do gabinete da directora. Precisa-se de preceptora para três crianças. Tarefas simples; pagamento considerável.

Candidata-se por escrito ao lugar e é aceite. A resposta é enviada por uma mulher que se apresenta como irmã de um pai viúvo que procura uma preceptora para os três filhos. Esta irmã (que dá a impressão de viver sob o mesmo tecto do irmão, o que mais tarde se revela não ser o caso) apressa-se a assegurar a Olympia que ela irá gostar muito da quinta do irmão, que achará uma agradável alternativa ao colégio. Embora Olympia não concorde que as suas perspectivas de felicidade sejam promissoras, por outro lado pensa sinceramente que a quinta poderá ser uma boa alternativa a Hastings e a Boston.

Olympia escreve ao pai a falar da colocação, omitindo que se candidatou activamente ao lugar. Contudo, fica assente que Olympia irá a casa imediatamente após os exames finais para uma breve visita e que, duas semanas depois, viajará de comboio para Massachusetts oeste.

Olympia passa o tempo em Boston a ler Emily Bront à mãe, que se senta na sua chaise longue, reconfortada por tapeçarias azul-pavão e cenille azul-celeste, com uma chávena de chá nas mãos, enquanto Olympia lê sobre charnecas e grandes paixões. O pai, quando não se fecha no escritório, anda de um lado para o outro nas salas de cima com as mãos nos bolsos.

Apesar de ser uma visita breve, Olympia descobre ao fim de apenas duas semanas que está profundamente impaciente para sair dessa casa onde um vago odor a vergonha e fracasso continua a persegui-la e parece agarrar-se às paredes, às carpetes e à mobília as inúmeras salas como fumo no rescaldo de um incêndio. Tem dezanove anos, uma idade em que a maioria das raparigas da sua classe deixam as cidades para passar o Verão nas estâncias balneares ao longo da costa da Nova Inglaterra. Participam em bailes de cerimónia, festas e partidas de ténis e depois ficam noivas de rapazes bem- parecidos ou idiotas. Como um noivado deste tipo nunca se apresentará a Olympia, infere-se que será melhor estar ocupada noutro lado.

A viagem para Massachusetts oeste é longa e árdua ainda que Olympia se sinta muito cativada pela suave ondulação azul da paisagem a oeste das localidades fabris. Depois de um considerável segmento da viagem nas montanhas de Berkshire, apeia-se do comboio no que parece ser uma encruzilhada com uma loja e um pequeno edifício de pedra. Quando pergunta ao revisor se é este o destino final, ele garante-lhe que está no local correcto. Espera na encruzilhada que o seu patrão, Averill Hardy, apareça para a levar para casa.

Mr. Hardy é um homem robusto com cerca de trinta e cinco anos. Tem uma cabeleira farta que parece ter-se tornado prematuramente grisalha e uma barba que lhe dá quase pelo meio do peito. Tem dois dentes de madeira e está quase sempre tostado do sol. Teve com a mulher, Mary Catherine, quatro filhos, três dos quais ainda vivem com ele na quinta. O quarto foi para Springfield. Como não vivem mulheres na casa, espera-se que ela se ocupe da confecção das refeições, lave e remende a roupa quando não estiver a ensinar aos filhos a ler e a escrever. Olympia indigna-se perante esta sugestão e questiona Mr. Hardy, muito energicamente a princípio, dizendo-lhe que não lhe deram a entender estas condições. Mas, mais tarde, quando se torna claro que o pobre homem e a casa dele estão num estado deplorável, decide ajudar; caso contrário teria igualmente de viver numa esqualidez quase completa. E como a sua única alternativa é desistir do lugar e regressar a Boston, coisa que lhe repugna intensamente, começa a ceder às expectativas de Mr. Hardy.

E, verdade seja dita, Olympia não se importa com este trabalho. Aprendeu competências domésticas em Hastings e considera que a rotina das lides caseiras exerce uma influência calmante sobre o espírito. A casa rural em si é idêntica a outras da região e o facto de ter dois pisos em tabuado branco sobreposto, portas pretas e uma ala em forma de U nas traseiras. A construção não é desagradável, embora a casa se situe perto do celeiro que alberga gado leiteiro e exala um odor pestilento em dias de calor. O seu quarto, que é pequeno e dá para um muro de carvalhos e bordos fica nas traseiras da casa.

Os rapazes são tímidos e musculosos e as suas idades variam entre os doze e os dezassete anos, e Olympia considera extraordinário que não saibam ler. Quando acorda de manhã, Mr. Hardy e os filhos já estão a pé a tratar dos animais e da terra, que consiste em quarenta hectares de forragem. A cozinha é espaçosa e com boas condições de trabalho, e Olympia aprendeu o suficiente das artes culinárias no colégio para saber confeccionar alguns pratos. Antes do fim da tarde, Olympia terá preparado quatro refeições para Mr. Hardy e para os filhos, incluindo um pequeno-almoço de salsichas, papa de aveia e ovos que tem pronto meia hora depois de acordar. Nunca come com os homens, toma antes as refeições sozinha à mesa depois de eles terminarem e saírem novamente. Após o almoço, ao meio-dia, se Mr. Hardy puder dispensar os filhos nesse dia, estes dirigem-se ao salão onde ela lhes ensina os saberes mais rudimentares. Os rapazes são educados, sentindo-se mesmo agradecidos, embora o mais velho, que se chama Seth, seja lento a aprender e sofra um pouco em comparação com os irmãos mais novos. Quando Olympia se apercebe da necessidade desesperada que as crianças têm dos seus mais elementares ensinamentos, decide que não se importa com o lugar que lhe coube em sorte.

Por vezes, Mr. Hardy regressa a casa antes das refeições da tarde e da noite e dirige-lhe uma observação bem-humorada; mas a verdadeira finalidade destas visitas, como Olympia não tarda a descobrir, é ir ao salão e, quando tem a certeza de que ela não está a olhar, abrir o armário e tomar uma bebida. Ela não sabe quando é que ele lava o copo que usa pois nunca o vê na cozinha. Mas, com o tempo, acaba por compreender que as boas cores de Mr. Hardy não se devem exclusivamente aos efeitos do tempo.

Um dia, estava Olympia na quinta havia três semanas e já dominava as rotinas da governação da casa e os rudimentos do ensino. Hardy demora-se à mesa depois do almoço. Olympia fica ligeiramente aborrecida porque está com fome e normalmente não se senta para a sua refeição antes de ele sair da cozinha. Em regra, depois de pousar o almoço na mesa, retira-se para o segundo andar da casa, onde conserta roupa sentada numa cadeira no quarto de Mr. Hardy, o quarto que no passado ele partilhou com a mulher e onde ainda se encontram a mesa e a caixa de costura dela. É um quarto agradável para passar algum tempo, aliás o mais agradável da casa, na opinião de Olympia, e na verdade o único com alguma luz digna do nome. Mrs. Hardy era claramente conhecedora das artes domésticas e decorou o quarto com muitos dos seus lavores. Olympia admira os numerosos tapetes multicolores e de padrões complexos, feitos à mão com gancho, assim como as colchas de retalhos, intrincadamente cosidas, que estão dobradas em cima de uma arca, à espera do Inverno.

Quando Olympia ouve passos nas escadas, fica sobressaltada e pousa o trabalho. Ocorre-lhe que Mr. Hardy poderá estar doente e que volta para o quarto para se deitar na cama. Levanta- se da cadeira, segurando a peça e a agulha na mão à altura da cintura.

Ele aparece à porta, onde se detém. Ela repara que os seus olhos brilham ou estão marejados de água e assalta-a um novo pensamento: está a chorar pela falecida mulher. Está calor no quarto e o sol cria um rectângulo nas tábuas do soalho envernizadas.

- A Olympia é boa rapariga - diz Mr. Hardy da porta. Ela julga que talvez ele esteja a tentar sorrir-lhe, embora não tenha certeza porque ele nunca sorriu até aí e a sua boca assume um aspecto estranhamente torto por causa dos dentes de madeira que não constituem um espectáculo agradável. Dá-lhe também ideia que nunca viu Mr. Hardy tomado de tal nervosismo.

Olympia sente-se atrapalhada por estar ali de pé com ele a falar-lhe naqueles termos, sabendo que não será capaz de articular uma resposta conveniente e muito menos de entender claramente a razão da vinda dele ao quarto. Avança na sua direcção, pensando que ele se afastará para a deixar passar. Mas ele interpreta o pensamento dela de forma diferente. Instala-se um momento de confusão quando ela não sabe onde pousar o pé.

Mr. Hardy, que está seguramente sob o efeito de uma grande dose de álcool, põe os braços desajeitadamente à volta dela e puxa-a para si de forma que ela fica esmagada contra o peito dele. Olympia procura resistir mas não consegue e não está certa de que ele compreende que está a resistir. Mr. Hardy, que é trinta centímetros mais alto do que ela, inclina a cabeça, encontra-lhe a cara e beija-a com um beijo molhado e repugnante. Ela sente as arestas grosseiras dos dentes de madeira. A barba dele é áspera e arranha-lhe a cara e o pescoço. Ela sente-lhe o mau hálito, que é, como sabe melhor do que ninguém, um misto de bebida, salsichas e queijo curado. Depois, antes de ela ter qualquer hipótese de se recompor, ele espalma-lhe a mão enorme no peitilho do avental e pressiona-lhe o peito como se pretendesse achatá-lo. Neste momento, ela debate-se e consegue afastar-se.

- Não! - exclama.

Ele larga-a e ela recua aos tropeções.

- Não gostou? - pergunta Mr. Hardy com uma voz roufenha. E Olympia fica espantada ao notar que ele está sinceramente consternado e talvez até surpreendido com a reacção dela.

Mas Olympia está muda com o choque do odor e com o contacto físico. Em pé, incapaz de se mexer ou de responder-lhe, ainda a segurar na agulha e na roupa, está desejosa de que o incidente acabe quando subitamente acaba e ela repara que ele saiu do quarto.

As suas mãos começam a tremer. Deixa cair a agulha e a peça de roupa ao chão.

- Meu deus - diz. Senta-se bruscamente na cadeira de Mr. Hardy. - Isto não está a acontecer comigo.

Baixa os olhos para as mãos e depois levanta-os para as colchas dobradas em cima da arca. Como é que chegou a este ponto?

Porque lhe foi permitido acreditar que era indigna e inferior? E porquê? Porque um dia foi amada? Porque esse amor gerou um filho? Porque o pai e o mundo em que ele depositou a sua fé declarou que assim era?

Abana a cabeça como que a sacudir a sua passividade. Volta a cabeça para a névoa azul das colinas do outro lado da sebe meticulosamente reparada da janela. Aproxima-se desta e abre-a de par em par, pondo a cabeça de fora. Inala o ar, as suas aspirações aclarando com cada sopro como se estivesse drogada há anos e agora, com um sobressalto, emergisse do seu torpor. O ar apresenta agora uma promessa quando antes não havia nenhuma. É uma promessa que pode alimentar uma vida quando antes apenas houve inanição.

Abandonará esta quinta e não voltará, diz a si mesma. Porá fim ao seu exílio. Regressará ao único lugar onde foi feliz.

 

Durante todo o trajecto até New Hampshire desde Massachusetts oeste - dos Berkshires a Springfield de carruagem, de Springfield a Rye de comboio, para Ely de trolley eléctrico e depois para Fortune's Rocks novamente de carruagem de aluguer - Olympia ponderou sobre como conseguiria entrar numa casa fechada há anos. Estará entaipada e impenetrável, como desconfia que está? Ou terá sido o sono tranquilo de uma casa desonrada perturbado por vagabundos? Será possível que Josiah e Lisette, com a pressa de proceder à limpeza após a catastrófica festa, tenham deixado a porta destrancada, permitindo assim a entrada dos curiosos na cena do mais recente, ou talvez maior, escândalo de Fortune's Rocks?

A paisagem é familiar e não é, exaltante ao fim de tantos anos de ausência, mas assustadora nas suas transformações. Onde outrora havia longas extensões de areia e rochedos, estão agora casas de vários tamanhos e estilos, tantas só em Rye que se não fosse o inconfundível passeio junto à praia era capaz de não saber onde se encontrava. Passam por uma pista de bolling de que não se recorda e por um novo salão de jogos que, situado entre dois vetustos hotéis, destoa como uma meretriz. Nesta segunda semana de Julho, as pensões estão apinhadas de veraneantes, a praia atulhada de banhistas vestidos com fatos-de-banho que lhe parecem mais ousados do que os últimos que se lembra de ver. Mas quando a carruagem sai de Rye e se aproxima de Fortune's Rocks, uma espécie de calma começa a invadir não só a paisagem mas também o seu espírito agitado. Aqui as transformações foram menores, apenas aqui e ali algumas tabuletas de cedro ainda não batido pelo tempo assinalam novas construções.

Desabotoa a capa (cuja lã é indicada para o frio dos Berkshires, mas demasiado quente para a costa da Nova Inglaterra em Julho) e ocorre-lhe que pouca da roupa que trouxe consigo na fuga de Massachusetts oeste será confortável ou própria para a praia. Ao seu lado, o condutor, um nativo magro, de traços angulosos e com uma barba de dias no queixo, esporeia os cavalos e o coração começa a pulsar-lhe mais depressa no peito. Viram para a pequena e estreita estrada sinuosa que os levará a Fortune's Rocks e ela pensa; e se a casa já lá não estiver de todo? E se, nos anos entretanto passados, a casa ardeu por completo e o pai simplesmente não lhe disse? Ou, sem o seu conhecimento, vendeu a casa e ela vai encontrar, nos seus alpendres, crianças que não lhe são familiares?

Mas antes de poder entregar-se a mais conjecturas, o condutor dobra uma curva e ela avista, com uma súbita dor, a familiar meia-lua de casas de férias, os rochedos na maré baixa a projectar do mar os seus narizes escuros como focas, a praia de Fortune's Rocks. Estica-se para a frente na carruagem. Dobram outra curva e ela vê então a casa: a casa do pai, outrora um convento, agora abandonada.

Deixa escapar um som e o condutor olha para ela. As portadas das janelas e das portas da casa estão cerradas, emprestando-lhe a aparência de uma cara com os olhos e a boca muito fechados, não traindo segredos.

- Não quer dizer aqui com certeza, menina - diz o condutor, cujo sotaque de vogais abertas denota alarme.

De momento, ela não consegue responder ao homem. Ela quer dizer aqui? É esta a casa que John Haskell, a mulher e os filhos fatidicamente visitaram, nenhum deles capaz de imaginar sequer a calamidade que espreitava? A pintura do tabuleiro sobreposto está a descamar e a erva está com meio metro de altura, mas na casa da sua memória a luz entrava a jorros pelas janelas, deslizavam silenciosamente pés de chinelos por soalhos polidos.

- Sim, é esta casa - diz ela ao condutor ao seu lado.

Não surgiram novas casas nas imediações da do pai e ela interroga-se porquê. O pai será proprietário dos terrenos adjacentes? Esta terra terá talvez sido transferida por escritura para o convento há anos atrás. Repara que o vizinho mais próximo continua a ser o posto de socorro, cuja recente pintura branca e guarnições vermelhas reluzem ao sol e fazem a casa do pai parecer particularmente lúgubre. À beira-mar, vislumbra muitas figuras em graus diversos de ausência de roupa. Recorda - a memória agora intensificada pela visão da paisagem real e, portanto, mais vívida do que foi durante anos - o seu passeio indolente do balneário até à água, quatro anos antes, enquanto Haskell, um homem que lhe era então desconhecido, observava os seus passos hesitantes.

Olympia paga a corrida ao relutante condutor e espera que ele retire o seu malão da carruagem. Ele verga-se com o peso. Embora se ofereça para lho transportar até casa, ela pede-lhe que o deixe na porta das traseiras porque não deseja revelar o facto de não ter chave e não poder abrir essa porta nem nenhuma outra. Detém-se na soleira e observa o condutor a afastar-se. Acena uma vez, na esperança de parecer estar simplesmente à espera de que um vigilante invisível, ainda que lento a aparecer, lhe abra a porta e a convide a entrar.

Mas vigilante algum pode aparecer. Quando Olympia tem a certeza de que o condutor seguiu caminho, começa a contornar a casa, procurando uma maneira de entrar. Na sua pressa para deixar os Berkshires e viajar para Fortune's Rocks, deixou passar em branco várias refeições e praticamente não dormiu. Experimenta as portadas (agora desbotadas e a descamar) e não fica surpreendida ao descobrir que estão trancadas por dentro. Um tabique que dá para a cave está igualmente aferrolhado, tal como as quatro portas da casa. Não teria quaisquer escrúpulos em partir um vidro se conseguisse ter acesso a algum, mas inicialmente não se apercebe de nenhuma abertura na formidável blindagem da casa. Não quer pedir ajuda porque seria anunciar a sua presença; e embora saiba que não poderá guardar segredo da sua estadia durante muito tempo, pelo menos gostaria de estar dentro de casa antes de ser molestada por curiosos.

Junto à capela, recua em relação à casa e inspecciona-a do relvado. As ervas bravias enfiam-se-lhe por baixo das saias e fazem-lhe cócegas nas pernas. Repara que se desprenderam telhas do telhado e que as paredes estão a precisar desesperadamente de pintura. A balaustrada do alpendre foi fustigada por uma tempestade, talvez a mesma tempestade que despiu as lucarnas das suas guarnições. Há, com efeito, muitas reparações que deviam ser efectuadas, reparações de que é pessoalmente incapaz, e surpreende-a a súbita percepção de que está a olhar para estas falhas - uma fissura num balaústre, o caixilho de uma porta que empenou com a humidade, tijolos da chaminé que se soltaram - de um modo como nunca olhou antes, ou seja, com olhos de proprietária. E é nesse momento, durante esta inspecção, que se apercebe da dobradiça partida.

Procura um objecto a que possa subir porque a portada da janela está fora do seu alcance e descobre, de um lado da casa, uma mesa como as que se poderia usar em jardinagem. Com um esforço considerável (mas ai, como os seus braços e pernas estão endurecidos do trabalho em Hastings, trabalho em que não suporta sequer pensar agora), arrasta a mesa para debaixo da janela. Sobe para o seu tampo tosco e, com uma série de puxões abruptos e violentos, desprende a teimosa portada, consegue finalmente soltá-la da do bradiça que restava e atira-a para o chão. Limpa a ferrugem dos dedos. Bate no caixilho da janela com a palma da mão para o separar do fecho dilatado pela humidade e, quando a janela cede, consegue refrear um grito de triunfo. Com um impulso, trepa o parapeito da janela, equilibra-se por um momento no peitoril e cai depois para o pavimento de pedra, em baixo.

Levanta-se e olha para o interior da capela e, quase imediatamente, invade-a a dor, uma torrente de água do mar a encher a lagoa. Vê o altar e os seus desesperados momentos finais com Haskell; observa uma rapariguinha a fazer desenhos na vidraça, com um único pensamento inquietante na cabeça; vê um rapaz; criança que nunca conheceu, que poderia ter ali brincado. Finalmente só, sem testemunhas, senta-se no banco de mármore e entrega-se à dor, a fadiga alimentando os seus soluços. As lágrimas são fios nas suas faces empoeiradas da viagem e ela limpa o nariz à ponta da saia. Decorrido algum tempo, endireita-se, certa de que o pior já passou, e desaperta os dois primeiros botões da blusa; este gesto, este tactear inocente, desencadeia uma recordação intensa e tão doce que mais uma vez é abalada por breves tremores de saudade, vagas que forçam a entrada no seu corpo.

Pouco depois, tira as mãos da cara e olha em redor. Entraram vândalos na capela e escreveram a carvão ou a tinta preta no mármore e nas paredes. Papéis encerados, como para embrulhar peixe frito, estão amarfanhados num canto. Um pano está pendurado num banco de madeira e, quando se levanta para investigar, descobre que é uma camisola interior de mulher, a musselina barata manchada de azul. Deixa cair a peça de roupa ao chão. Sente-se estranhamente violada. Mas os primeiros a profanar esta câmara não foram Haskell e ela? Ou não foi uma profanação, mas antes o mais sagrado dos sacramentos humanos? Não sabe, embora tenha reflectido sobre a questão durante anos. Ainda assim, considera esta nova violação pior. Os papéis encerados, as garatujas e a camisola interior são para ela uma profanação da memória, agora a mais valiosa das suas possessões.

Sai da capela e dirige-se ao estreito corredor que a liga à casa propriamente dita, abrindo à passagem portadas, janelas e portas, de forma que, embora à sua frente só haja escuridão, atrás há luz. Os tacões das botas ecoam agradavelmente no pavimento de ardósia, atravessa a cozinha cujos armários e mesas estão vazios. Os ratos passarinharam pelas superfícies e formou-se ferrugem no lava-loiça. Transpõe a porta de vaivém que um dia a levou, como uma intrusa, a Josiah e a Lisette. Percorre o corredor apainelado onde viu pela última vez o rosto de Haskell, atravessa a sala de jantar, onde jantaram juntos e entra, por fim, no salão, fantasmagórico com formas brancas, imperturbáveis, intactas. Pensa que é uma visão espectral cujas memórias aguardam ser desvendadas com o levantar dos panos. Uma película de salsugem nas janelas lembra-lhe o mar e, embora consiga ouvir o mar no seu constante fluxo e refluxo, não o vê com clareza. Está no centro da sala que cheira imtensamente a mofo, desaperta o chapéu e deixa-o flutuar até ao chão.

Tira a capa e o laço do pescoço e depois baixa-se e desaperta as botas estaladas que usa há semanas. Desabotoa os punhos da camisa e arregaça as mangas até aos cotovelos.

Com um rasgado movimento teatral, arranca um pano que tapa uma cadeira de seda vermelha e creme. O estofo foi roído pelos ratos ou sempre foi assim puído? Puxa por outro pano e revela uma mesa de apoio redonda em mogno com pés em forma de garra. Como a mesa parece pesada, escura e masculina na sala embranquecida. Aproxima-se de uma porta, destranca o fecho de segurança e abre-a. A súbita lufada de ar desanuvia-lhe imediatamente a cabeça e parece-lhe conseguir ver mais nitidamente do que alguma vez viu. Avança para a balaustrada, protegendo com a mão os olhos de uma imensa extensão de luz cintilante e prateada. Inspecciona lentamente os rochedos, os velhos pomares, o paredão, a praia. Viverá nesta casa, diz a si mesma, e será livre.

- Menina?

Sobressalta-se com a voz, que é a do condutor da carruagem que a deixou pouco antes. Está ao fundo dos degraus do alpendre, de olhos erguidos para ela, boné na mão, o corpo esguio e ligeiramente corcovado.

- Voltei para saber se está bem - diz na sua pronúncia arrastada e emotiva. - Não me agradou deixá-la aqui à soleira da porta com a casa toda fechada com esse aspecto assustador.

- Obrigada - diz ela.

- Vejo que entrou.

- Sim - diz ela.

- Tem água corrente?

- Não sei - responde ela.

- Então se calhar não tem. A bomba vai precisar de obras.

- Sim.

Repara que o casaco dele, de uma lã grosseira azul-marinho, está rasgado no ombro. Os seus braços são excepcionalmente compridos e pendem-lhe dos lados como apêndices pouco naturais. Os olhos, de um azul transparente, brilham através da barba crestada da sujidade no rosto.

- Também não há-de ter a electricidade nem o gás ligado - diz ele. - Tem algum sítio onde passar a noite?

- Vou ficar aqui - diz ela.

Ele coça a barba e mostra-se céptico. - Acho que este sítio não é indicado para uma pessoa como a menina - diz frontalmente. Ela tenta adivinhar-lhe a idade. Trinta e cinco anos? Quarenta? As suas feições, curtidas da constante exposição aos elementos, não denunciam nada. - E como se está a fazer tarde, sugiro que arranje onde dormir antes de escurecer. Quase todos os sítios por aqui estão cheios nesta época do ano, mas a minha irmã Alice aceita hóspedes que estejam desesperados.

Olympia não se vê como uma pessoa desesperada. Mas, relutantemente, considera a proposta do homem. Ele tem razão. Sem água, não pode ficar ali, por muito que o deseje.

- Sim - diz finalmente. - Obrigada.

- Está pronta para ir?

Ela hesita. Não suporta a ideia de abandonar já a casa. - Eu.

- Esteja pronta daqui a uma hora então - diz ele.

- Obrigada - diz ela. - É muita bondade sua. Como é que se chama?

- Ezra Stebbins. Costumava cá vir entregar lagosta quando o seu pai e a sua mãe cá viviam.

- Estou a ver - diz ela. - É pescador.

- Sou sim senhor.

- Vive aqui perto?

- Em Ely, menina.

Ela desvia os olhos por um momento e olha por sobre a balaustrada. Pensa se ele também saberá por que razão a casa esteve deserta todos estes anos. Apruma-se. Se quer instalar-se em Fortune's Rocks, este não passa de um de muitos encontros que terá de suportar nas próximas semanas. Volta a olhar para o pescador para falar com ele, mas quando baixa os olhos para o fundo dos degraus do alpendre, apercebe-se de que se foi embora.

Não há cadeiras no alpendre, unicamente um velho banco entalado num canto da balaustrada. Desprende o banco, coloca-o no centro do alpendre e senta-se, as saias amarrotando-se em volta dos joelhos. Quatro anos antes, ela e Haskell conheceram-se ao pé da balaustrada deste alpendre. Recorda vividamente a forma como se cumprimentaram, com Martha, Clementine, Randall e May presentes, e a forma como ela, Olympia, parecia já saber que o seu encontro com John Warren Haskell não era exactamente o que viria a ser, não de uma maneira observável mas apenas porque lhe percorreu o corpo, para além de uma sensação que aliava vergonha e confusão, a distinta impressão de que havia camadas dentro de camadas no interior das quais os gestos simples e aparentemente inocentes de ambos poderiam um dia vir a ser interpretados. E agora interroga-se se, em todas as vidas, não haverá momentos no tempo, talvez quatro, cinco ou mesmo sete, em que a vida se transforma completamente ou dispara numa direcção não imaginada, uma direcção que parecia demasiado fantástica ou demasiado penosa para ser previamente contemplada. Estes momentos podem surgir espontaneamente, quando menos se espera, e muitas vezes em circunstâncias difíceis, desastradamente erradas ou até banais; e podem chegar tão suavemente ou tão fugidiamente que parecem meros passarinhos a pousar no ramo mais saliente de uma árvore. Com a excepção de que estes pássaros em particular não voltam a levantar voo. Um momento assim pode acontecer no espaço de um olhar ambíguo no rosto de um amante ou da primeira leitura desprevenida de uma única palavra num telegrama (e aí, quase se pode ver, a vida começa a desviar-se do seu progresso inicial). E, o que é o mais extraordinário, no finito contínuo do tempo pelo qual todas as pessoas viajam, o terrível momento é fixo, inamovível, incapaz de ser obliterado, por mais fervorosa ou apaixonadamente que possa mais tarde desejar esse apagamento.

O momento em que ela conheceu Haskell no alpendre foi um momento desses, Olympia sabe; e decerto que outro foi o preciso instante no tempo em que Catherine se inclinou sobre o telescópio, um momento de que só o aflorar à consciência faz Olympia estremecer (se ao menos se pudesse apagar um momento como pensa agora). Mas interroga-se igualmente se não terá havido um ponto no tempo em que uma vida foi gerada? E que momento será esse exactamente? A primeira tarde no quarto de Haskell? Quando dormiram juntos na casa semiconstruída? Na areia, em plena noite, quando ela se escapuliu de casa sem ser vista? Haskell explicou uma vez de que modo procurava impedir a concepção e, por ela via e sentia os pequenos balões molhados; mas também lhe explicou que esse método podia não ser sempre eficaz. E, assim, deitada no chão da casa inacabada, interrogou-a sobre as suas regras; sente-se agora comovida ao pensar que tiveram essa conversa, que falou com um homem de tão íntimas considerações; e, como foi fácil então fazê-lo. Uma nova tristeza apossa-se dela, tristeza que tem de sacudir vigorosamente do corpo ao levantar-se, saindo do alpendre em direcção à praia.

Durante dez dias, Olympia vive na pensão de Alice Stebbins, irmã de Ezra, o pescador que se tornou seu amigo. Olympia tem um pequeno quarto no andar de cima da casa e são-lhe servidas três refeições diárias. Como a pensão fica em Ely, não pode facilmente, durante este tempo, visitar a casa do pai, mas não obstante consegue contratar um novo caseiro. Do poço é extraída água que recomeça a circular generosamente pelas bombas. Conclui-se que os cabos eléctricos que alimentam a casa estão em mau estado e precisam de profundas reparações, facto que não dissuade Olympia da decisão de se instalar em Fortune's Rocks já que não faltam na casa candeias de querosene. Quando finalmente se muda, Olympia tem razões para estar grata pelo tempo passado em Hastings pois ensinaram- lhe rudimentos suficientes sobre o governo da casa e as artes culinárias para lhe permitir tornar a casa habitável, fonte de enorme satisfação para ela. Varre os soalhos e bate os tapetes. Com a água da bomba manual na cozinha, lava toalhas, lençóis e janelas. Liberta os armários de gerações de traças; limpa teias de aranha, poda arbustos, limpa o pó à mobília e passa blusas a ferro. Areja roupa que foi abandonada e, quando há buracos, ponteia-os. Forra todas as gavetas e arrasta os colchões para o sol, batendo-os com um pau. Esfrega panelas, passa a pano os soalhos, puxa o lustro às madeiras e remove as manchas dos cães de latão da lareira. Gradualmente, a casa começa a emergir do seu estado de abandono e até a brilhar sob a luz do sol. A roupa da cama cheira a sol e a maresia e à noite é uma felicidade deitar-se, exausta, entre os lençóis suaves e lavados.

Com o pouco dinheiro que lhe resta das despesas de viagem que o pai lhe deu antes do início do Verão, consegue comprar alimentos e alguns artigos na aldeia. A caminhada até à loja é considerável, mas ela sai de manhã cedo, quando é menos provável que se cruze com alguém que possa reconhecê-la. Embora sejam muitas as pessoas que conhecem a história da catástrofe, são menos as que poderão reconhecer-lhe as feições que, de qualquer maneira, se modificaram durante os quatro anos em que esteve ausente. A sua testa tornou-se mais definida, o queixo talvez um pouco mais afiado. Quando está sol, usa óculos escuros que comprou ainda em Hastings. No entanto, sabe que não pode continuar incógnita por muito tempo nem esconder dos vizinhos mais próximos o facto de que está a residir na casa. Já houve uma certa curiosidade - passantes a olhar para a roupa a secar nas traseiras, rapazes pequenos a espreitá-la quando recolhe folhas secas da vegetação rasteira - e, se os vizinhos sabem da sua presença, será apenas uma questão de tempo até o pai saber. Assim, uma tarde, pouco depois de se instalar, senta-se à sua velha escrivaninha e redige uma carta.

Escreve ao pai a informá-lo de que está em Fortune's Rocks e que decidiu aí ficar por algum tempo. Escreve que não será dissuadida do seu intento e que não regressará ao colégio de Hastings no Outono. Acrescenta que, se ele insistir em expulsá-la da casa, cortará todos os laços com a família para sempre. Finalmente, diz- lhe que precisa de recursos visto que a casa está necessitada de muitas reparações, que enumera. Além disso, já não lhe resta muito dinheiro.

Durante dias após escrever a carta, Olympia aguarda uma resposta. Quando nenhuma carta chega prontamente, prevê e depois teme a chegada do pai em pessoa. Sempre que ouve uma carruagem na estrada, sobressalta-se. No décimo segundo dia, porém, o carteiro traz um envelope com uma caligrafia familiar.

3 de Agosto de 19...

Minha querida Olympia,

Fiquei chocado ao saber que estás em Fortune's Rocks. Não considero que seja um lugar apropriado para ti. E lamento mais do que posso exprimir, que desejas abandonar os teus estudos em Hastings. Confesso que tinha alimentado esperanças de que encontrasses alguma satisfação na docência e consolo numa vida independente. Mas não tenho coragem para te pedir mais. Talvez satisfação e consolação não sejam aquilo que queres para ti própria. Confesso que, eu próprio, quando tinha a tua idade não dei grande importância a estas virtudes, embora lhes dê hoje um extremo valor.

Devias ter-me escrito imediatamente, Olympia. Recebi carta da directora Bardwell poucos dias depois de teres abandonado o teu lugar. Ela estava evidentemente muito preocupada com o facto de teres desaparecido e conseguiu transmitir-me essa profunda preocupação. Foi-me dado a entender que te foste embora voluntariamente, mas mesmo assim fiquei extremamente preocupado contigo. Durante algum tempo, pensei que esse homem te tinha, de alguma maneira, contactado e que tinhas fugido com ele. Presumo que me estás a dizer a verdade e que não estás, de facto, com ele neste momento.

Preocupo-me contigo, Olympia. Não sei como te vais arranjar nessa casa cheia de correntes de ar. Mas se estás determinada em instalar- te aí, não te impedirei. Não tenho qualquer desejo de alguma vez voltar a essa casa nem à costa de New Hampshire. Serei, naturalmente, obrigado a vender a casa um dia, mas de momento não tenho quaisquer planos nesse sentido pois duvido que obtivesse um bom preço por ela na actual conjuntura económica.

Eu e a tua mãe lamentamos não estar contigo no teu vigésimo aniversário. Quero que saibas que pensamos em ti todos os dias. E, por favor, escreve-me de vez em quando. Preciso de saber que estás bem.

O teu pai que te ama

  1. Junto envio-te um cheque de cento e cinquenta dólares. Todas as contas relativas a reparações de maior envergadura na casa deverão ser-me enviadas directamente.

Depois de ler a carta, Olympia deita a cabeça na mesa da cozinha. Não suporta pensar que o pai se sente triste. Por alguns momentos, a única coisa que deseja é fazer uma mala e dirigir-se à estação para poder apanhar um comboio de regresso a Boston e ser abraçada pelos pais. Pensa no tempo todo que o pai passou com ela a ensiná-la, em quanto de si mesmo investiu um dia no seu futuro.

Passado algum tempo, pousa a carta na mesa. Debaixo do lava-loiça, descobre uma escova de pêlos duros. Enche um balde com água e sabão e, baixando-se na lareira, começa a esfregar as manchas de carvão das fogueiras de estações anteriores. A pedra tornou-se quase negra e não tarda a ter de encher o balde com água limpa. Esfrega vigorosamente as manchas porque cada vez mais lhe parece que só o trabalho físico pode mitigar a dor da irresolução.

Mas quanto prazer extrai dessas tarefas simples! Muitas vezes ao fim do dia, quando acaba de trabalhar, Olympia percorre as divisões da casa, admirando a sua obra. Adora o brilho do corrimão, a forma como o vidro ondulado nas janelas lavadas com vinagre distorce a linha do horizonte e como a tinta nos peitoris reluz. Por vezes, quando acaba de limpar a fundo uma sala, muda a mobília de sítio. A princípio, limita-se a mudar de posição uma mesa ou uma cadeira, mas mais tarde, quando descobre que não lhe agrada o excesso de mobília, começa a levar as peças que consegue carregar para a capela, onde as armazena. Em resultado, a sala da frente torna-se cada vez mais vazia e, estranhamente, este vazio fá-la sentir-se melhor. Não consegue deslocar o piano, naturalmente, nem o sofá, nem a escrivaninha inglesa, mas leva um candeeiro de borlas de cristal, um escabelo em chenille, a pele felpuda de um animal que tem servido de tapete, um relógio de ferro marmoreado, um elaborado castiçal, mesas de apoio com muitas abas, um sofá de bambu, tapeçarias penduradas há anos nas paredes, reposteiros dourados que têm revestido as janelas, um suporte de mogno para plantas, um biombo pintado, um espelho ornado com moldura dourada e vários vasos de plantas que murcharam há muito. Tem uma cadeira, uma Windsor com um compartimento secreto escondido debaixo do assento, que coloca no centro da sala de forma a poder, quando se senta, olhar pelas janelas directamente para o oceano. E isto fá-lo com frequência, levantando-se ocasionalmente para fazer um bule de chá, ou por vezes tricotando e só muito raramente lendo. Em relação aos livros é cautelosa pois não deseja desencadear inadvertidamente alguma emoção indesejável. Há semanas que se ocupa a escorar uma fundação e a construir andaimes e não deseja que as robustas paredes que erigiu se desmoronem em resultado de palavras numa página.

Durante a maior parte do tempo, usa vestidos simples visto que está quase sempre envolvida em tarefas domésticas. Mas de vez em quando veste um piqué ou um tafetá que foi deixado num guarda-fatos. Vestir-se, sentar-se na cadeira Windsor e contemplar o mar é quase sempre ocupação que baste e compreende agora o que significa uma cura de repouso. Está certa de que, se os seus instintos a tivessem conduzido a esta situação, nunca teria recuperado e, com o tempo, poderia ter desenvolvido várias enfermidades nervosas debilitantes de que parecem sofrer muitas mulheres na idade adulta, com destaque especial para a mãe.

Ao fim de cada dia, Olympia sente-se, em geral, deliciosamente fatigada e parece estar sempre com fome. Come milho doce, mirtilos, bolachas de fermento e queijo branco. Do leiteiro tem o leite, da carroça do pão o pão e com Ezra um acordo para que lhe traga, uma vez por semana, lagosta ou outro peixe fresco. E é, de facto imediatamente a seguir a uma das entregas de Ezra, no momento em que está a guardar bacalhau fresco na geleira, que um automóvel preto reluzente estaciona junto ao portão das traseiras. Pela janela, Olympia observa, pasmada, Rufus Philbrick a sair do carro.

Olha para o vestido - uma peça de chita desengraçada - e passa os dedos pelo cabelo que não lava há mais de uma semana. Não há tempo para se vestir em condições. Pela primeira vez desde que chegou a Fortune's Rocks, lamenta a falta de um criado para abrir a porta.

- Espero que não seja um momento inoportuno para a visitar

- diz Philbrick, tirando o chapéu e pegando-lhe na mão quando ela lhe abre a porta.

- Não, claro que não - responde, um pouco atordoada com este acontecimento completamente inesperado.

Fica igualmente surpreendida quando nota que Philbrick está consideravelmente mais robusto do que quando o conheceu e recorda-se de imediato que, além de um dândi, ele é um epicurista. Repara, com efeito, que ele precisa de andar com a ajuda de uma bengala e que calça sapatos diferentes, um deles bastante maior do que o outro. Possivelmente sofre de gota. Rapou as suíças, revelando faces rosadas e pesadas bochechas. Tem os olhos ligeiramente ornados de vermelho. Ao convidá-lo a entrar em casa, olha mais umma vez para o vestido de chita desbotada que traz e pensa: ele também me deve ver de modo diferente.

Ele segue-a até à cozinha que, apesar de espartana, é acolhedora. Uma jarra de rosas rugosas está no centro da mesa de trabalho e um vaso de hortênsias no peitoril da janela. Ainda levemente aturdida, não consegue pensar, a princípio, no que há-de fazer com Philbrick. Além de Ezra e dos homens das entregas, não recebeu uma única visita (e esses dificilmente se podem chamar visitas). Mas depois recompõe-se e diz a Philbrick que tem limonada e scones se ele quiser acompanhá-la num chá improvisado. E, embora ele assegure que não lhe quer dar qualquer maçada, ela repara que ele encara a perspectiva de doçaria fresca com agrado.

- Está com bom aspecto - diz ele quando estão sentados no salão da frente. Philbrick ocupou a cadeira Windsor, Olympia uma cadeira de baloiço de senhora que trouxe do quarto da mãe. As janelas estão abertas ao dia magnífico e ouve-se o som regular da rebentação, apenas aqui e ali interrompido pelos gritos distantes de crianças na praia.

- Obrigada - diz ela, oferecendo-lhe um copo de limonada.

- Há quanto tempo cá está? - pergunta ele, passando os olhos pela sala. Ela percebe que ele está um pouco perplexo com a falta de mobília.

- Estive no Colégio Feminino de Hastings, em Massachusetts oeste, no ano passado - diz ela -, mas decidi não regressar. Estou cá desde meados de Julho.

- O seu pai e a sua mãe estão bem?

- Estão, sim. Obrigada por perguntar. Quer uma sanduíche de pasta de arenque?

- Sim, sou muito capaz de aceitar.

Ela pousa o prato à frente dele. - Mr. Philbrick, como é que soube que eu estava cá?

- Oh, minha querida - diz ele com simpatia. - Lamento dizer-lhe, mas a notícia chegou-me de muitas fontes. Pretendia manter segredo sobre a sua presença aqui? Se pretendia, receio que tenha avaliado muito mal a natureza de uma comunidade pequena.

Pela primeira vez, ela repara no fato extraordinário que ele veste - um colete amarelo e preto sobre uma camisa amarela-clara, e sobre estes um esplêndido fato de bom linho. Olympia interroga-se distraidamente onde ele arranjará roupas destas no New Hampshire.

- Não, não era minha intenção manter segredo sobre a presença aqui - responde ela -, mas também não tenciono anunciar a minha estadia. Mas fico muito satisfeita com a sua visita, Mr. Philbrick. É a minha primeira visita.

- Santo deus, Olympia, tornou-se uma reclusa. Queria simplesmente saber se precisava de alguma coisa. Houve um tempo em que considerava o seu pai o meu melhor amigo.

- Obrigada - diz ela calorosamente -, mas não preciso de nada por agora. - Olha em volta. - Excepto um sistema de aquecimento a vapor.

Ele parece surpreendido. - Tenciona passar aqui o Inverno?

- É possível - diz ela, oferecendo-lhe outra sanduíche. Sabe que Philbrick é um homem de apetite.

- Porquê? - pergunta ele. - Os Invernos aqui são medonhos.

- Tenho vindo a preparar a casa para os meses de Inverno. E vou fechar algumas divisões, claro.

- Mesmo assim.

Olympia faz um gesto de assentimento. - Sinto necessidade de viver sozinha durante algum tempo - diz, em voz baixa.

Ele estuda-a.

- E já fui muito feliz aqui - acrescenta ela com sinceridade.

Philbrick pousa o copo. Cruza as mãos sobre o estômago considerável. Instala-se entre eles um silêncio prolongado.

- Olympia, sinto pena pelo que lhe aconteceu - diz Philbrick finalmente. - Em geral, não sou pessoa para fazer juízos. Atrevo-me a afirmar que compreendo um pouco os amores difíceis e as suas consequências. - Faz uma curta pausa e, durante esta pausa, Olympia pergunta-se de fugida qual será exactamente essa compreensão dos amores difíceis. - Compreendo também as dificuldades por que passou por ter conhecido o amor já que não tenho dúvidas que a sua relação com o John Haskell nasceu do amor. Em rettrospectiva, creio que me apercebi do que se passava entre ambos.

A princípio, Olympia não consegue responder.

- Uma certa corrente no ar quando estavam os dois na mesma sala - acrescenta, gesticulando de um modo descritivo. Olympia anseia por poder discutir Haskell com outra pessoa. Mas sabe que fazê-lo com Rufus Philbrick será transgredir o domínio da familiaridade, pôr em risco uma opinião que talvez já esteja formada.

- Por sinal - diz Philbrick, pegando noutro scone após ter atravessado com sucesso a paisagem ligeiramente traiçoeira do amor -, até pensei que tinha vindo aqui por causa da criança. - Apanha uma migalha do colete de seda.

Nesse momento, Olympia tem a sensação de que o mundo inteiro pára de respirar, de que o próprio chão cede e se despenha num abismo. Mais tarde, admirar-se-á por ter conseguido - à parte um relance momentâneo e talvez demasiado abrupto na direcção de Philbrick - fingir que sabia mais sobre o que ele estava a falar do que de facto sabia.

- Uma instituição de superior qualidade - acrescenta Philbrick.

Olympia passa a língua pelo céu da boca que subitamente está seco como papel. No entanto, não se atreve a levar o copo de limonada aos lábios pois está certa de que as tremuras da sua mão não passarão despercebidas a Philbrick.

- Alguns orfanatos são horríveis - diz Philbrick -, mas Madre Marguerite dirige a instituição com mão de ferro, justiça seja feita. Os padres de Saint Andre estão sempre a importunar-me para fazer doações e suponho que acabaram por achar necessário dar-me assento no conselho de administração. - Encolhe os ombros. - Não me importo, claro. É uma organização excelente que precisa continuamente de ajuda.

Olympia anui com cortesia. Apercebe- se de que continua com a respiração suspensa. Expira lentamente o ar para não se denunciar.

Abre a boca, mas não é capaz de falar.

Philbrick inclina-se em frente. - Minha querida - diz -, empalideceu. Eu não devia ter falado. Devia ter o bom senso de não trazer assuntos penosos à conversa. Bem, o tacto nunca foi o meu forte. - Estuda-a atentamente. - Peço-lhe encarecidamente que perdoe a falta de maneiras de um velho. Olympia abana a cabeça. - Sempre admirei a sua frontalidade - diz ela sinceramente.

Philbrick limpa a boca ao guardanapo. - Não a retenho, querida Olympia. Vou-me embora antes que cometa mais disparates. Por favor, não hesite em visitar-me se tiver necessidade. Terei o maior prazer poder ajudá-la no que for preciso.

Levanta-se e Olympia faz o mesmo.

- Receio tê-la transtornado terrivelmente - diz Philbrick.

- A sua visita representou uma pausa maravilhosa nas minhas tarefas diárias - diz ela imediatamente para afastar as suspeitas dele. - Espero que volte a visitar-me.

Philbrick tira um cartão de uma carteira de couro e entrega-lho.

- Pode escrever para esta morada sempre que quiser. Por favor, dê os meus cumprimentos ao seu pai e à sua mãe.

Ela volta-se e encaminha-se para a porta, sabendo que, atrás dela, ele a observa.

- Obrigado pela limonada - diz ele à porta, estendendo a mão - e, por favor, dê os meus cumprimentos à cozinheira.

- Não há cozinheira - responde ela.

- Meu deus, Olympia, está mesmo sozinha - observa ele.

- Estou e prefiro assim.

Ele desce para o relvado e torna a observá-la.

- Sempre achei que teria um futuro extraordinário - diz.

Ela fecha a porta e espera até ouvir o automóvel arrancar. Tem a visão do olho direito toldada e começa a sentir uma dor aguda na têmpora esquerda. Leva a mão à cabeça, mas a dor concentra-se num pequeno núcleo fora do seu alcance. Creio que me apercebi do que se passava entre ambos, disse Philbrick. Sente náuseas e pressiona a testa contra o vidro frio da porta. Precisa de aclarar as ideias e dirige-se para o quarto. Uma corrente no ar. Dá meia-volta para reentrar em casa e tem de levar a mão à parede para se equilibrar. No canto dobra-se subitamente, temendo vomitar. Que tinha vindo aqui por causa da criança. Limpa a cara com a saia e procura concentrar-se. Tem de chegar à cama. A dor aumenta, febril, e lateja-lhe no interior do crânio. Alguns orfanatos são horriveis.

À sua volta, o corredor rodopia; o filho está em Ely Falls.

Há dias que Olympia está deitada na cama, na sua casa excepcionalmente limpa. Chove tão copiosamente que o leite, o pão e as lagostas formam um pacote, primeiro impecável e depois enlameado, à porta da cozinha. De tempos a tempos, ouve bater à porta e sabe que deve ser Ezra. Não quer que o homem tenha de se preocupar com ela para além de todas as suas demais responsabilidades, mas não consegue levantar-se para o receber.

No terceiro ou quarto dia, sai da cama, débil por não se alimentar. O quarto tem um desagradável cheiro a mofo. Lava-se, veste roupa lavada e penteia o cabelo. Abre a porta da cozinha, contra os alimentos que aí foram colocados e deita-os fora à excepção de uma baguette seca que torra e come com chá. Espanta-a o facto de o pai ter sido capaz de entregar o seu bebé ao orfanato de Falls e não lhe dizer nada. Pensa como ele deve ter empalidecido ao ver o carimbo postal de Fortune's Rocks num envelope com a sua caligrafia. Pensa se, nesse preciso momento, ele estará preocupado com o facto de ela poder inadvertidamente descobrir o paradeiro da criança. Imagina-o a andar de um lado para o outro no escritório.

Soube, desde o instante em que Philbrick saiu de sua casa, que procurará a criança. Os dias em que esteve na cama foram passados, não em indecisão, mas antes a ganhar forças para a tarefa que se avizinha. Teve de se perguntar muitas vezes se está preparada para tal empreendimento: e, se encontrar a criança, o que acontecerá depois?

Poderá simplesmente exigir que o filho lhe seja entregue? E, se sim, entregar-lho-ão? E se o recuperar, será capaz de cuidar dele convenientemente? O menino terá agora pouco mais de três anos. Interroga-se se a criança tem sido bem tratada e pensa que sim. Não sabe o seu nome.

Então, como poderá sequer encontrá- lo? Que primeiro nome lhe terão atribuído? E o apelido? O pai de Olympia terá consentido no nome Biddeford ou terá sido autorizado a mudar completamente de nome? Como é que se processam estas coisas? Olympia não faz ideia e não pode, de maneira alguma, interrogar o pai sobre estas questões pois correria o risco de o alertar para o facto de ter descoberto o paradeiro da criança. E, se correr esse risco, corre o risco ainda maior de ele transferir a criança ou viajar até Fortune's Rocks para a enfrentar, coisa que sinceramente não deseja. Na manhã do sétimo dia, veste um fato de seda moiré azul-alfazema, esquecido no guarda-vestidos de mogno da mãe, e fá-lo acompanhar de um chapéu de aba larga em seda franzida. Ao experi mentá-lo ao espelho, descobre que, se inclinar um nadinha o chapéu, quase todo o rosto fica oculto. Fá-lo não tanto por recear ser descoberta mas principalmente por não desejar admitir ainda, no frágil universo que criou, quaisquer pessoas que possam conhecê-la. É possível apanhar o trolley para Ely Falls em Ely, que fica a mais de cinco quilómetros da praia de Fortune's Rocks. Considerou ir a pé, mas concluiu que, se o fizesse, poderia sujar as saias e as botas, e uma aparência tão desalinhada poderia não ser vantajosa para a sua missão. Assim, Ezra, com quem falou no dia anterior, vem buscá-la e condu-la ao trolley.

O pescador de lagostas, que ela sabe agora ter trinta e cinco anos, constitui para ela uma companhia agradável na curta viagem para Ely.

- O seu pai também era pescador? - pergunta ela pelo caminho.

- Era. E já o pai dele também - responde Ezra com vivacidade.

- E gosta dessa vida? - pergunta ela.

- Tenho duzentos covos na água, o que me mantém ocupado

- diz ele. - Verifico-os ao nascer do dia antes de o sol aparecer no horizonte. Tenho três filhos e espero que um ou mais me sigam as pisadas, embora tenha tentado desencorajá-los desse futuro. Acho que aí tem a resposta. É uma vida dura. - Diz isto sem autocomiseração, as vogais abertas do seu sotaque soam calmantes aos ouvidos de Olympia. E, na verdade, quando baixa os olhos, vê as marcas de muitos incidentes penosos escritas nas costas das suas mãos. Sem pensar, estende a mão e toca numa das cicatrizes, e esse toque sobressalta-os aos dois.

Olympia desculpa-se pelo atrevimento, desculpa que ele ignora, explicando que os cortes profundos foram feitos por pinças de lagosta nos escassos segundos antes de conseguir espetá-las. Ela quer interrogá-lo acerca da mulher, acerca da vida dela; e mais, quer saber, mas não perguntará - não, nunca perguntaria tal coisa - se ele ama a mulher, se acha que a mulher o ama; se, à maneira deles são felizes juntos. Porque, embora a sua experiência seja limitada sabe que o amor é muitas vezes inescrutável, indecifrável a quem observa e, todavia, é essa intimidade que ela mais anseia por compreender. Quando chegam ao trolley, ele deseja-lhe boa viagem e diz que virá esperá-la às quatro horas.

O trolley está apinhado de nativos e veraneantes, muitos dos quais vieram de Rye, sem dúvida com a intenção de passar um dia a fazer compras em Ely Falls. Não há lugares vagos quando ela entra no veículo empoeirado e parece que todo o calor do dia se concentrou no interior das paredes de madeira da viatura. Os passageiros atropelam-se e acotovelam-se graças à irregularidade do piso da estrada e o odor das pessoas excessivamente acaloradas é muito desagradável. Se não tivesse de se agarrar à pega com ambas as mãos para não cair, taparia o nariz com um lenço perfumado.

Ocasionalmente, através da multidão, tem um vislumbre da

paisagem. Foram construídas novas casas e parece que os limites exteriores de Ely Falls começam mais cedo do que quatro anos antes. Passam por letreiros comerciais que dizem: MEDICAMENTOS REGISTADOS e LIBRAIRIE FRANÇAISE e H. P. POISSON, FOTóGRAFO. Em seguida, ARTIGOS DE FANTASIA, DEFUMADOURO DE PARADAY e FARMÁCIA BOYNOINS. Há toldos às riscas de muitas cores e armazéns grandes em que não reparou em viagens anteriores à cidade ou que ainda não existiam. As ruas e passeios transbordam de gente e de carruagens e a multidão no trolley parece infectada por uma atmosfera de actividade. Apeia-se do trolley quando quase toda a gente o faz, embora não faça ideia de onde se encontra.

Interpela um polícia na rua e são- lhe dadas indicações do caminho para o orfanato. Enquanto caminha o céu adquire uma tonalidade preta azulada. À distância, ouve trovoada. Começa a correr mas é apanhada no aguaceiro repentino e vê-se obrigada a abrigar-se no vão da porta de um banco. Ao fim de alguns minutos, desassossegada com a sua missão, faz-se de novo ao caminho e apanha outra molha a um quarteirão do destino. Correndo agora desenfreadamente, a princípio confunde a alta estrutura de granito, com as suas janelas regularmente espaçadas na esquina de Merton e Washington, com um grande armazém. E depois, à passagem, repara nas palavras O Orfanato de Saint Andre por cima da porta.

O pavimento do vestíbulo central é de pedra. À medida que Olympia se dirige a uma porta onde se lê ADMINISTRAÇÃO, as botas deixam um rasto de pequenas poças de água. Após um momento de hesitação, bate à porta.

Abre-a uma minúscula mulher de hábito e touca. Tem pequenos olhos negros com muitas dobras nas pálpebras e a boca enrugada e crispada. Inicialmente parece surpreendida ao ver Olympia em pé, mas depois começa a estudá-la mais de perto. A irmã repara no chapéu de seda franzida de Olympia, as botas molhadas e as saias azuis-alfazema que se lhe colam às pernas. A observação a que é submetida é intensa e Olympia acha que a freira lhe vai fechar a porta na cara.

- Peço desculpa por incomodar - diz Olympia -, mas desejo falar com alguém encarregado do orfanato.

- Com que finalidade? - pergunta a irmã. A pergunta é imediata, à maneira de um mestre-escola que exige uma resposta novamente imediata. A irmã fala com um sotaque franco-canadiano.

Olympia ensaiou o discurso tantas vezes que se convence que nada poderia levá-la a enganar-se. Mas o semblante da freira é tão austero que Olympia dá consigo a gaguejar, apercebendo-se ao mesmo tempo de que a gaguez enfraquecerá a sua posição.

- De. desejo encontrar uma criança - diz Olympia. é. desejo certificar-me do bem-estar de uma certa criança. Foi para cá trazida há três anos. Na Primavera.

- Mas porquê? - pergunta a freira, continuando a esquecer-se de convidar Olympia a entrar no gabinete.

- Porque Olympia inspira. - Porque é minha - diz rapidamente.

A irmã suspira profundamente e afasta-se para o lado. - Entre

- diz.

A irmã dirige-se a uma cadeira atrás da secretária e senta-se.

- Vocês, raparigas novas, são todas iguais - observa. - Julgam que podem abandonar os filhos, deixá-los na soleira da nossa porta e aparecer depois, passados dois ou três anos, para os levar. As coisas não se passam assim.

- Não - diz Olympia, aproximando-se da secretária. A irmã manda-a sentar-se com um gesto rápido.

A parte de trás das saias de Olympia está encharcada e ela tem a certeza de que vai deixar uma marca húmida na cadeira. O chapéu pesa- lhe tanto com a chuva que se vê obrigada a tirá-lo. Os cachos que fez no cabelo cedem sob o peso da chuva. Prende as madeixas soltas atrás das orelhas.

- Como se chama? - pergunta a irmã.

- Olympia Biddeford.

Se conhece o nome, a irmã não deixa transparecer. Cruza as mãos e encosta-as debaixo do nariz. - E como se chama a criança?

- Não sei - diz Olympia.

Os dedos da freira estão vermelhos e luzidios. Tem uma aliança na mão esquerda.

- Deseja simplesmente saber se a criança está de boa saúde? pergunta a irmã.

- Eu. - Olympia baixa os olhos para o regaço. Trouxe a bolsinha e nela uma quantia de dinheiro considerável. Não lhe agrada pensar em ter de pagar a restituição da criança, mas se for caso disso, está preparada.

- Não tenho a certeza - diz Olympia, não sendo totalmente sincera.

- É casada?

Olympia abana a cabeça.

A irmã estica o queixo num rápido gesto de reprovação.

- E como é que se propõe sustentar essa criança?

- Tenho recursos - responde ela. - Tenho uma casa. - Onde fica essa casa?

- Em Fortune's Rocks.

A irmã estuda Olympia com o vago desdém dos íntegros a julgarem os privilegiados.

- Tem familia? Governanta?

- De momento não. A minha família, quero dizer, o meu pai e a minha mãe vivem em Boston.

- Compreendo. Tinha dinheiro quando a criança foi abandonada?

- Abandonada não é o termo - diz Olympia. - A criança foi-me tirada. Eu era muito nova.

- Isso vê-se. - A irmã observa-a atentamente. - Que idade tem agora?

- Vinte anos - responde ela.

- Há procedimentos a ter em conta - explica a irmã. - Nós não entregamos assim as crianças. Deve compreender isso.

- Sim.

- Em que nome foi deixada a criança?

- Não sei.

- Então vai ser difícil - diz a irmã. - Quem trouxe a criança?

- Não sei bem. O meu pai tirou-ma assim que ela nasceu. terá sido ele a trazer pessoalmente o bebé, mas não sei se terá usado o nome dele na. - debate-se para encontrar a palavra indicada - transacção.

- Exactamente - diz a irmã.

A freira abre a secretária e retira um registo repleto de papéis. Lê atentamente o diário durante algum tempo. As páginas estalam vivamente quando as folheia.

- Não vejo aqui nenhum Biddeford - diz a irmã. - Pela menos, na data que refere. Poderá estar sob outro nome?

Olympia hesita. Baixa os olhos para o centro da secretária.

Haskell - responde num fio de voz.

A irmã, cujo nome Olympia ainda não sabe, levanta os olhos para ela.

- Estou a ver - diz, desta vez sem sequer consultar o

registo - É o john.

- E porque é que esse nome poderá ter sido usado?

- Ele foi. é. o pai - responde ela.

- Pois, compreendo. - A irmã parece voltar a observá-la. E poderá ter sido ele a trazer a criança pessoalmente?

- Não, não - diz Olympia. - Acho que não. O meu pai recusava-se a falar com o Dr. Haskell ou a permitir que o nome dele fosse referido em nossa casa. Duvido sinceramente que ele tivesse quaisquer contactos com ele.

- E onde poderá estar John Haskell neste momento?

- Não sei - responde Olympia.

A irmã emite um som gutural e abana a cabeça. - Compreende com certeza que não se pode tratar disto a correr.

Olympia sente o coração saltar-lhe no peito. Significará que é possível obter a tutela da criança? - Sim - diz Olympia, sorrindo talvez.

- E que a criança pode nem sequer aqui estar?

A irmã olha para Olympia com uma expressão carrancuda, obrigando-a a fingir uma expressão mais tranquila. - Tenho rezado para que isso não aconteça - diz Olympia, apercebendo-se de imediato que a irmã não dará grande crédito às suas preces protestantes.

- Uma coisa é certa, vai precisar de aconselhamento legaldiz a irmã.

- Desejo saber se a criança está bem - diz Olympia. - E desejo saber. Como se chama.

A freira abana lentamente a cabeça. Olympia interroga-se subitamente sobre que vida uma mulher destas poderá levar? Uma vida de celibato e oração, a servir os outros. Seria anormal a tão natural vontade de amar e ser amado tão intensamente a ponto de se sentir sempre a sua falta ou, pelo contrário, desapareceria com a devoção religiosa?

- Muitas das crianças são entregues a famílias antes mesmo de as mães virem reclamá-las - informa a irmã. - De vez em quando, são legalmente adoptadas. Porque é que esperou este tempo todo?

- Só recentemente me foi possível considerar sequer uma opção destas - diz ela.

- A dádiva de uma criança é um tesouro inestimável - diz a freira - Acha que uma rapariga que pecou deve ver a sua frivolidade recompensada com uma dádiva dessas?

Olympia abre a boca para falar mas não consegue responder. A irmã levanta-se da cadeira. - Não saia daqui - diz ela, saindo da sala.

Olympia senta-se com as saias molhadas e espera que a freira católica regresse. A sala arrefece e Olympia tirita, se de medo, frio ou de apreensão não sabe. Não tem qualquer peça de roupa seca com que se agasalhar. A chuva bate nas janelas altas cujos peitoris lhe dão pelo queixo. As paredes estão pintadas de castanho e as fissuras e mossas da tinta reluzem sob a luz eléctrica. Atrás da secretária da freira encontra-se uma enorme cruz ornada com um Jesus em sofrimento.

O diário com os seus papéis - papéis de diferentes cores e tamanhos - está pousado na secretária. Se o consultar, Olympia pergunta-se, encontrará o nome que procura?

Levanta-se da cadeira e caminha pela sala para aquecer as pernas. As saias continuam a colar-se-lhe às coxas e ela tem de as descolar. Está agora a tiritar violentamente e estranha a demora da irmã. Onde é que ela foi exactamente?

A irmã conhecia o nome de John Haskell. Disso Olympia não tem dúvidas.

Aproxima-se da janela e olha para a chuva constante que se seguiu à trovoada. Depois, volta-se e estuda o gabinete, os altos armários de arquivo em carvalho que ocupam parte de uma parede, os muitos livros numa estante até ao tecto. A única cadeira de visitas, aquela em que se sentou, é austera e espartana e Olympia pensa que a freira não deve encorajar muitos visitantes.

Começa a bater os dentes e cerra-os. Procura uma fonte de calor e apercebe-se de que há um radiador por detrás da cadeira da freira, mas quando se aproxima e o tacteia descobre que está apenas tépido. Mesmo assim, pensa, tépido é melhor do que nada; encosta-se a ele. Está com tanto frio que já não se importa que a irmã a apanhe atrás da secretária.

Põe-se à escuta na tentativa de ouvir os sons típicos de crianças, mas não consegue ouvir nada. Contudo, uma vez ouve o barulho de tacões pela pedra e volta para a cadeira, mas é um falso alarme; momentos depois, Olympia dá consigo novamente encostada ao radiador. Pergunta a si mesma onde estão as crianças? No edifício frio de granito? Decerto que não. Como é que isto pode ser um lar para crianças? Não quer pensar no assunto. Passa-lhe pela cabeça a desagradável imagem de camas de criança alinhadas contra uma parede, como as dos soldados num hospital de campanha. A irmã leva tanto tempo a voltar que Olímpia começa a imaginar que ela a esqueceu definitivamente.

Pensa se deverá ir à procura dela. Olha fixamente para a secretária, hipnotizada pela visão do diário com a lombada partida e o recheio de papéis colori dos de diferentes tamanhos. Do seu ponto de observação, encostada ao radiador, distingue algumas palavras a tinta: o bebé que é deixado, lê. Avança um passo. Estende a mão e com a ponta do dedo imdicador, abre o diário.

Está uma carta entre duas folhas.

24 de Maio de 1897

As Irmãs do Orfanato,

Mal sei o que hei-de escrever, a não ser que sou a mãe da querida bebezinha que foi deixada na soleira da vossa porta com três dólares no cesto anteontem à noite. Não posso falar da terrível dor que sinto por ter de me separar da minha adorada mas, como não posso ficar com ela porque ninguém me dá emprego com um bebé (e não tenho marido nem pai

para me ajudarem), vejo-me obrigada a entregá-la aos vossos cuidados. Por favor, tratem-na bem e sejam bondosas com ela e digam-lhe que a mãe se chama Francine. Não posso agora dizer-lhes qual é o meu outro nome, mas um dia direi, quando for buscá-la, o que espero que aconteça em breve, se for diligente, trabalhadora e conseguir poupar dinheiro. Ela só tem quatro semanas e não pude pagar um baptizado, por isso peço-lhes que tenham a bondade de a baptizar. Chama-se Marie Christine e espero que mantenham este nome para que eu possa um dia voltar a encontrá-la. E, caso Deus não o permita, espero que nos reunamos no Céu.

Uma mãe

Olympia fecha os olhos. 1897. Que idade terá agora Marie Chris? Sete, oito anos. A mãe terá vindo buscá-la como esperava? Olympia vira outra página.

15 de Dezembro de 1899

Irmã Marguerite, Madre Superiora,

Esta criança é o fruto de uma violação praticada sobre uma jovem mulher que teve a oportunidade de ser entregue aos meus cuidados. É uma rapariga decente mas demasiado pobre para sustentar a criança, tendo já outra de pai desconhecido. Assisti ao parto desta criança que declarei de boa saúde, embora a rapariga me diga agora que respirou deficientemente durante alguns dias. Esta criança ainda não está baptizada. Será aconselhável darem- na para adopção caso tenham essa oportunidade pois duvido sinceramente que a jovem em causa volte para o reclamar. O acontecimento que deu origem ao filho é uma fonte de grande sofrimento para a rapariga, que, em resultado disto, teve de se afastar da mãe e do padrasto e espero fazer- me entender a este respeito.

Respeitosos cumprimentos, Dr. R. Martin

O rosto de Olympia começa a aquecer e tem o contorno do couro cabeludo perlado de suor. Vira outra página e depara-se com uma folha que, à excepção do cabeçalho está em branco. Repara no nome Irmã Marguerite e decide que deve ser a mulher pequena de olhos negros de quem continua à espera. E, em seguida, Olympia apercebe-se que, no cabeçalho, juntamente com uma data de outros nomes impressos na margem esquerda, sob o título Administração, está o nome de Rufus Philbrick. Pois! Olympia vira outra página e puxa para si uma mensagem que certamente terá sido escrita num pedaço de papel de embrulho castanho.

4 de Fevereiro

Caras Irmãs,

São tão bondosas que sei que vão adorar o meu pequeno Charles. Na vossa bondade, perdoem por favor uma mãe cujo coração está despedaçado. Por favor também, se é que posso pedir isto, coloquem-no no seio de uma família católica, pois não gosto de imaginar que o Céu lhe será negado por não conhecer a Igreja. Perdoar-me-ão por não lhes dizer o meu nome.

Olympia volta para a cadeira e fita o diário. Será que todos os outros fragmentos de papel no livro contêm idênticas cartas de imfelicidade? Põe a cabeça entre as mãos. Separou-se do filho sem não-só uma carta ou um dólar e que desculpa tinha? Não era pobre. Não era vítima de brutalidade. E a criança, fossem quais fossem as circunstâncias, foi concebida com amor. Pelo menos isso era inegável. Como pôde entregar a criança com tanta facilidade? Olympia sobressalta-se quando ouve a porta abrir atrás de si. A irmã passa por ela e senta-se à secretária, parecendo não notar nada fora do sítio. Não explica a Olympia a razão da sua demora, o seu ar também não é tão severo como antes. Aliás, parece ter-se cansado consideravelmente.

- Está com frio - diz a irmã.

Olympia não responde.

- Quer que lhe vá buscar um agasalho? Ou uma chávena de chá?

Olympia abana a cabeça.

- Obtive autorização para lhe dizer o nome da criança. Olympia comprime as mãos uma na outra como que a rezar e segura o queixo nas pontas dos dedos.

- Chama-se Pierre - diz a irmã.

E Olympia pensa, sustendo a respiração com o choque do nome: chama-se Pierre!

- Mas infelizmente também tenho notícias muito decepcionantes para lhe transmitir - diz a freira. Mostra-se preocupada e Olympia fica paralisada.

- Arranjou-se um lar para o rapaz - diz a irmã.

- Que quer isso dizer? - pergunta Olympia.

- Que tem pais adoptivos - explica a irmã.

- Não - diz Olympia. - Não pode ser.

- Receio bem que sim, minha filha.

- Não - diz Olympia mais enfaticamente. Coloca as mãos na secretária da freira. - Deve haver alguma maneira de o reaver. - Posso reavê-lo, não é verdade? Afinal, ele é meu. É do meu sangue. Não pode haver nenhuma lei que me impeça de o ter. - consegue afastar um tom de desespero da voz.

- Infelizmente tudo isto sucedeu há bastante tempo - diz suavemente a irmã, mas com uma inconfundível nota de irrefutabilidade.

Olympia sente-se ficar sem pinga de sangue. A irmã deve ter reparado porque pergunta imediatamente a Olympia: - Vai desmaiar?

- Onde é que ele está? - pergunta Olympia cuja boca secou. A irmã franze os lábios e abana a cabeça. - Não lhe posso dar essa informação - diz. - A nossa política.

- Tem de me dizer - interrompe Olympia. - Por favor, preciso de saber onde ele está.

- Não posso - diz ela. - Posso, no entanto, dizer-lhe que tem uma mãe e um pai que o adoram. Conheço as pessoas em questão e sei que é bem tratado.

- Vivem aqui em Ely Falls?

- Não posso responder a essa pergunta - diz ela. - Lamento muito, mas não se trata realmente de uma circunstância rara. E, pensar nisto do ponto de vista do menino, não terá sido melhor para ele ter estado todo este tempo em boas mãos num lar caloroso, com boa alimentação e cama, do que ter vivido com uma mãe solteira e desonrada que é talvez demasiado nova para cuidar de uma criança pequena?

- Não me sinto desonrada - responde Olympia. A irmã recosta-se na cadeira. - É muito impertinente - observa friamente. - Vem aqui pedir a minha ajuda, ajuda essa que lhe dou, e atreve-se a dizer-me, a uma madre superiora da Igreja Católica, que não pecou? Não tem consciência, pequena?

- Tenho consciência - diz Olympia calmamente. - Sinto o mal que causei a outra mulher e aos filhos dela. Mas não tenho remorsos por ter amado ou ter sido amada. E não me considero demasiado nova para cuidar de um filho. Teria cuidado bem dele, mesmo quando nasceu.

- Ah, pois, mas não cuidou, pois não? - A freira sorri maliciosamente. - Há-de descobrir que a Lei, assim como a Igreja, duvidará veementemente de que é uma pessoa capaz de cuidar de um filho. Uma mãe solteira, imoral aos olhos da sociedade e pecadora aos olhos de Deus, é considerada a menos capaz de possíveis mães.

- Mas isso não é verdade - diz Olympia, exaltada. - Considera um pai que viola a filha mais capaz do que uma rapariga nova e saudável a quem aconteceu ter concebido um filho fora do casamento?

- Conceber filhos não é coisa que simplesmente aconteça às pessoas - diz a freira. - Implica vontade e intenção. Como é evidemte que não foi enganada nem vítima de brutalidade, tudo leva a crer que pecou voluntariamente contra a natureza, contra Deus e contra outra mulher e a família dela. Que Deus tenha piedade da sua alma!

Olympia apruma-se. - Amar não é nenhum pecado contra a natureza e eu nunca acreditarei que seja.

A freira levanta-se. - Não pode esperar ser devolvida à sociedade e à comunidade dos íntegros se não confessar os seus pecados e pedir perdão.

Olympia levanta-se também. - Pedirei - diz ela. - Pode crer que pedirei. - Pega na bolsinha, a bolsinha que contém o dinheiro por que estava disposta a comprar o filho. Pensa agora que talvez devesse tê-lo feito de imediato, começado por oferecer o dinheiro. Mas agora é tarde de mais.

- Pode crer que pedirei, suplicarei, lutarei e recorrerei a todos os meios que estiverem ao meu alcance - diz Olympia cautelosa- Mas um dia descobrirei o nome completo do meu filho e tê-lo-ei ao meu lado.

Indicando o fim da conversa, a madre superiora benze-se, um procedimento que Olympia acha repugnante e levemente assustador.

16 de Agosto de 1903

Caro Mr. Philbrick,

Disse-me recentemente que podia escrever-lhe se tivesse necessidade da sua ajuda. Não o incomodaria, se a situação não fosse de extrema importância, e espero que aceite receber-me e ouvir o que tenho para dizer.

Gostaria de visitá-lo na próxima terça-feira, às onze horas da manhã, se for conveniente para si. Por favor, não escreva ao meu pai sobre esta carta nem sobre a nossa conversa anterior. Tenho agora vinte anos e posso falar com o senhor, se mo permitir, como uma pessoa adulta.

Fico a aguardar a sua resposta.

Respeitosamente,

Olympia Biddeford

17 de Agosto de 1...

Cara Miss Biddeford,

Com certeza que a ajudarei naquilo que puder. Aqui a espero na terça-feira, dia 21, às onze horas. Penso que ainda terá o meu cartão com a morada.

Espero que esteja de boa saúde.

Atenciosamente, R. Philbrick

Na terça-feira, o dia amanhece brilhante, o que Olympia interpreta como o presságio de um desfecho feliz. Está nervosa com a ideia de apresentar o seu caso a Rufus Philbrick mas, sempre que se sente vacilar na sua resolução, pensa na incomparável recompensa de uma busca bem-sucedida. Imagina um rapaz chamado Pierre sentado ao seu colo no alpendre enquanto lhe fala do doce movimento das marés e do sol que já se ergue no levante. Do solstício, de um jogo chamado ténis e de criaturas crustáceas, de aspecto estranho, chamadas lagostas. Há-de apresentá-lo a Ezra e há-de levá-lo consigo à mercearia. Hão-de percorrer a praia juntos a apanhar conchas que ele há-de pôr num balde.

Neste dia, Olympia põe um vestido de um claro tom que passa a ferro e engoma sem deixar escapar um centímetro para dar a impressão de ser capaz e dotada para os trabalhos domésticos. No seu nervosismo, calcula mal o tempo que demora a ficar pronta e chega quase uma hora antes da hora prevista para a entrevista. Ensaia o discurso já preparado, esforçando-se por conseguir um equilíbrio subtil entre razão e paixão. A ajuda de Rufus Philbrick é essencial à sua causa.

Ezra vai buscá-la à hora combinada e ela está tão ansiosa com a sua missão que tem uma extrema dificuldade em fazer conversa com o pescador. E, como Ezra é por natureza taciturno, fazem a viagem praticamente em silêncio. Quando entram em Rye, Olympia tira o cartão de Philbrick da bolsinha e dá a morada a Ezra. A princípio, ele parece intrigado, apesar de parecer saber para onde se dirigir. Ao cabo de uma série de viragens em ruas que se tornam cada vez mais estreitas, chegam por fim a uma ruela onde mal cabe uma carruagem e Ezra estaciona à porta de uma pequena casa.

- É aqui? - pergunta Olympia, incrédula.

- É sim, menina.

- Não me parece que possa ser aqui - diz ela.

Inspecciona a casa, enfiada numa paisagem de densas madressilvas e com o mar relativamente próximo. A casa, em madeira já consumida pelo tempo, tem duas janelas de múltiplas vidraças na frente de um amplo solário envidraçado de lado. No segundo andar, se é que é, na realidade, um segundo andar e não umas águas-furtadas, há janelas compridas e estreitas que se estendem a toda a largura da casa. É um edifício encantador que lhe faz lembrar mais a casa de jardineiro do que de um homem das finanças. Deve haver, com certeza, um engano qualquer.

Mas, nesse momento, vê Rufus Philbrick em pessoa, com um

fato de linho azul-claro, a emergir do solário para a cumprimentar; não pode senão descer da carruagem e avançar ao seu encontro, estendendo-lhe a mão.

- Mr. Philbrick.

- Miss Biddeford.

Como combinaram previamente, Ezra deverá esperar por ela. Fala ao pescador e depois deixa que Philbrick lhe pegue no braço e a conduza para dentro de casa.

- É muito delicada e por isso não comenta, mas ficou chocada quando viu a minha casa - diz Philbrick, com uma grande franqueza. Sim, sim, bastante - responde ela, sorrindo levemente. - Nunca teria imaginado.

- Eu sei. Sou um homem de parcas necessidades, tirando as minhas vaidades, e descobri que prefiro de longe viver numa casa pequena do que andar perdido numa mansão que é claramente demasiado grande para um homem só. Por outro lado, também não me agrada a constante invasão de privacidade que os criados necessariamente causam. Portanto, há alguns anos decidi trocar a imponência pela liberdade e devo dizer que nunca lamentei a troca. Mas como as minhas capacidades domésticas são mínimas, para não dizer inexistentes, tenho uma empregada que vem duas vezes por semana e cozinha para mim. Mas estou para aqui a dar à língua e Olympia aí de pé a precisar de comer e beber algo.

- Não, não - protesta ela ao passar- lhe a sombrinha. - Por favor, não se incomode.

- Disparate. É raro ter visitas e Mrs. Marsh fez tarte de bagos de Marion. Vamos para a saleta e fazemos um almoço ligeiro de sanduíches e o que mais houver e depois a tarte. Ou prefere sentar-se aqui?

Olympia corre os olhos pelo solário, pelo friso em madeira branca que se ergue até ao guarda-cadeiras, pelas amplas janelas inclinadas por cima. Algumas das janelas foram fixas ao tecto por linguetas permitindo a circulação de brisas através dos guarda-fatos. Alguém plantou rosas rugosas e, de um dos lados, vê-se o oceano. Pela porta aberta da casa, tem-se um vislumbre de cozinha. Sem enfeites. Madeira amarela.

- Aqui seria óptimo - diz ela.

Ele convida-a a sentar-se numa de duas cadeiras de baloiço de vime que aproximou de uma pequena mesa redonda. Sem o alardear visivelmente, desaparece na cozinha. Olympia imagina que a saúde dele tenha melhorado. Levanta- se e segue Philbrick para a cozinha e pergunta se há algum sítio onde possa refrescar-se.

- Minha querida. Com certeza. Vá por aí, sempre em frente, no fundo do corredor encontra a casa de banho.

Olympia segue as instruções, admirando uma pequena sala que se assemelha mais ao escritório de um homem do que à sala de estar. Numa intrincada secretária de nogueira, compartimentos, está uma meia dúzia de porta-retratos diferentes tamanhos com fotografias possivelmente incluindo várias de jovens bem-parecidos que poderiam ser irmãos mais novos de Philbrick. Noutro canto está um piano de cauda, demasiado grande para uma sala tão pequena, e em cima deste um fragrante ramo de flores numa jarra de vidro cor-de-rosa. Ao lado do piano, está um pequeno sofá de seda, assim como um ornado cadeirão em madeira, não muito diferente do do seu pai. Um tapete persa cobre todo o chão, chegando a tocar as paredes. É uma sala repleta de mobília que pertencia claramente a uma casa maior - peças demasiado queridas para serem abandonadas.

Ao longo do corredor, forrado com bom gosto a papel às riscas verdes e pretas, estão vários quadros a óleo de qualidade. Reconhece um de Childe Hassam, outro de Claude Legny. Ao fundo do corredor há duas divisões e ela calcula que a casa de banho é a da direita. Contudo, apercebe-se imediatamente do engano; entrou aparentemente no quarto de Philbrick. O mobiliário é claramente masculino: a cama de casal, mal feita; um toucador de cerejeira, quase vazio à excepção de escovas de homem e de um humidificador; outra cómoda de pinho claro onde se encontram uma bacia e um jarro. Dá meia-volta para sair, mas qualquer coisa de estranho no quarto a leva a demorar-se um segundo mais do que deveria e é nesse momento que repara no segundo conjunto de escovas de pêlo de javali, nos dois roupões idênticos de seda estampada em cabides ao lado da cómoda, nos dois pares de pijamas dobrados, ambos debaixo da respectiva almofada na cama de casal. Nas mesinhas-de-cabeceira estão dois candeeiros condizentes em vitral e, junto de um deles, grandes cinzeiros dourados com pontas de charuto. Aproxima-se de uma das mesinhas e pega numa fotografia num porta-retratos marchetado. O jovem tem belas feições, vistas de uma nuvem de cabelo louro em contraluz. A pele é lisa, sem os planos das maçãs do rosto proeminentes e dramáticos. Ollympia fica incomodada, mas não admirada, não admirada como poderia ter ficado no passado. E também não fica perturbada. embora não possa ter a certeza e não seja capaz de compreender inteiramente este novo dado, não pode deixar de encarar Philbrick como um homem um pouco diferente do que era há momentos. E, ao pensar nas fotografias dos outros jovens nos porta-retratos de prata sobre a escrivaninha de nogueira (afinal talvez não sejam irmãos), recorda a afirmação de Philbrick acerca do amor, que considerou levemente estranhas na altura, mas que agora fazem todo o sentido. Atrevo-me a afirmar que compreendo um pouco os amores difíceis e as suas consequências, dissera-lhe ele.

Retratos, pensa ao repor o porta- retratos marchetado. Somos todos retratos inacabados.

Quando regressa ao solário, Philbrick aparece com pratos de sanduíches e um jarro de chá gelado de cujo vidro escorre a condensação. A visão de Philbrick de linho azul nesse ambiente modesto - e mais ainda, a imagem de Philbrick com o roupão de seda estampada a conversar com um jovem postado em frente de uma cómoda a apertar a gravata - comove-a e, por um momento, Olympia esquece-se das boas maneiras e não consegue evitar olhar fixamente para ele. Mas logo se recompõe, o cheiro da comida desperta-a, a visão do rude Philbrick com pratos de sanduíches nas mãos é tão espantosa que lhe dá vontade de sorrir apesar da seriedade da sua missão.

Abre a boca para falar, mas ele levanta a mão.

- Eu sei que veio falar de um assunto importante - diz ele - mas defendo que nunca se deve falar de coisas sérias com o estômago vazio pois essa situação só leva à frivolidade e à cobardia.

Olympia não tem argumentos contra esta lógica; e, além disso, sente-se inesperadamente esfomeada. Mais tarde, recordará este almoço ligeiro como uma das melhores refeições da sua vida, a simplicidade da comida e as circunstâncias estimulando uma fome que estava latente há semanas.

Durante algum tempo, conversam de pasta de peixe, de pratos com ramagens azuis, da lamentável licenciosidade dos fatos-de-banho e do vistoso salão de jogos na cidade. - Tem um apetite devorador - diz Philbrick em tom de agrado depois de darem, em conjunto, conta de quase todas as sanduíches. - Vá, agora vamos provar a incomparável tarte de bagas de Marion.

Vai buscar à cozinha dois pratos brancos manchados com motivos escuros. - É uma baga da região - explica Philbrick, passando-lhe um prato e um garfo. - Um cruzamento entre framboesas e uva-do-monte.

Olympia prova a tarte, deixando cair uma gota do garfo para a camisa cor de pêssego. Philbrick estica-se para a nódoa com o guardanapo. Durante algum tempo, comem num silêncio amigável em que o único som é o diligente zumbido das abelhas do lado de fora da janela do solário. - É uma delíciadiz Olympia decorridos uns momentos. - Simultaneamente doce e ácida. Não sabia da existência de uma coisa destas.

- Um segredo bem guardado - diz Philbrick.

Olympia pousa o copo. - Mr. Philbrick - começa -, eu sei que é uma pessoa ocupada e não lhe vou roubar muito tempo. Deixe-me explicar-lhe a razão da minha vinda.

- Faça favor. Que assunto sério é esse?

- Em Abril de 1900, como sabe, dei à luz um rapaz - diz corajosamente, o sangue latejando-lhe nas orelhas com a audácia. Nunca antes dissera a frase a ninguém. Philbrick, que se inclinara para pousar o copo na mesa, reclina-se lentamente na cadeira.

- A criança foi-me imediatamente tirada - continua ela. - O meu pai tinha tomado disposições. Não sei a quem deu a criança. Sei que ele próprio não saiu de casa nesse dia nem no dia seguinte.

- Compreendo - diz ele.

- Quando o senhor me visitou, eu não sabia que a criança tinha sido trazida para Ely Falls - diz ela.

Olympia decidira previamente ser directa e honesta com Philbrick pois sabe que ele é um homem capaz de detectar falsidade numa pessoa. E, se a detectar nela, a sua campanha fracassará. - Foi um choque para mim saber que a criança tinha sido confiada ao orfanato de Saint Andre. Pouco depois da sua visita, fui ao orfanato perguntar por ela.

- Foi? A sério? - pergunta Philbrick, estudando-a atentamente.

- Falei com uma irmã.

- A Madre Marguerite Pelletier, desconfio - diz ele. - Pequena, mas aterradora.

- Muito.

- E sobreviveu.

- Por pouco.

Olympia inspira. - A irmã só me disse que o meu filho se chama Pierre. E que foi dado para adopção.

- Não conhecia o nome da criança antes?

- Não, nunca me disseram. Não era um assunto que o meu pai discutisse comigo.

- Sim, não devia ser. - Rufus Philbrick limpa os cantos da boca com o guardanapo. - Quer saber onde o seu filho está? pergunta.

- Sim, sim, quero. Quero saber o nome completo dele. Quero saber onde está, com quem vive. Quero saber se está bem.

-E?

Ela cruza as mãos no regaço. - Podia mentir-lhe - diz - e dizer-lhe que desejo simplesmente certificar-me de que está bem, mas não quero ser falsa consigo quando lhe estou a pedir ajuda. A minha esperança é que um dia possa tê-lo a viver comigo.

Philbrick parece agora avaliá-la por inteiro, como que a aferir a sua força moral. Cruza os dedos debaixo do queixo. - É uma responsabilidade muito séria.

- Sim, eu sei - diz ela. - Mas, em boa verdade, não lhe posso dizer que não vou tentar recuperá-lo. Ele foi-me tirado, roubado pode-se dizer, e a perda devastou-me. Já vivo com isto há muito tempo. Julgo que paguei um preço elevado.

Philbrick fica em silêncio. Ajusta a gravata e baixa os olhos para o estômago, como que a avaliar se está confortável. Depois debruça-se, enfatizando a seriedade do que está prestes a dizer.

- Sempre a considerei, Olympia Biddeford, como uma jovem responsável e talentosa. Confesso que fiquei chocado e triste com os acontecimentos de há quatro anos. Parecia tão incaracterístico de si que nem soube o que pensar. Fiquei angustiado pelo seu pai, naturalmente, que era meu amigo, e muito preocupado com Haskell e as crianças. Lamento trazer isto à baila novamente, mas estas coisas têm de ser ditas.

- Claro.

- A verdade é que, ao saber da criança, não fiquei tão espantado quanto seria de supor. lÉ triste dizê-lo, mas não é uma ocorrência rara. Daí a existência do orfanato.

- Sim.

- Mas deixe-me perguntar-lhe uma coisa, Olympia. Está preparada para arrancar uma criança pequena, pouco maior do que um bebé, do seu ambiente familiar? Da única mãe que conheceu?

Ela reflectiu nesta pergunta e ensaiou a resposta. - Sou a mãe - diz Olympia prontamente.

Philbrick abana a cabeça. - Já prejudicou uma família. Lamento dizer- lhe isto com tanta severidade, mas aí tem. Tem a certeza absoluta de que deseja fazê-lo novamente? Com certeza que não espera que uma mãe adoptiva se desfaça de um filho assim tão facilmente.

- Não é filho dela - repete Olympia.

- Duvido muito que a mulher em questão pense desse modo.

- E se a mulher não estiver a cuidar da criança como deve ser? pergunta ela. - E se tiver outros filhos e não tiver o amor suficiente a todos? E se for franco-americana? A verdade é que é franco-americana quase de certeza a julgar pelo nome que lhe deu. Será que quero que um filho meu seja criado numa cultura em que não cresceu?

- E se a mãe for uma mulher extremosa e dedicada? - perguntou Philbrick. - Num caso desses, a posição social, os rendimentos a cultura importam? Não leva em conta o que é melhor para a criança?

- Levo - exclama Olympia. - Levo. E penso que serei eu. Tenho alguns recursos. Não tenho outras responsabilidades. Sei que posso cuidar bem do menino. Que serei uma boa mãe. Acredito sinceramente nisto.

O lympia ouve a nota de quase histeria na voz e procura dominar-se. - Mr. Philbrick, não posso argumentar a favor da minha causa, porque é uma causa escrita com o sangue do meu corpo. É um combate mais sentido com o coração do que com a razão.

Nesse momento, Philbrick levanta-se e aproxima-se de uma mesa.

Estou condenada ao castigo eterno de nem sequer saber do paradeiro do meu próprio filho? - pergunta Olympia. - Não me pode dizer ao menos se ele é bem tratado e qual é a sua situação? Poderá isso ser-me negado até ao fim dos meus dias?

Pillbrick volta-se. - Deixe-me reflectir sobre estas questões, Olympia. É um problema complexo. Creio que posso pelo menos dar-lhe uma resposta - diz - Não sei ao certo que nome a criança tem agora, mas tem o nome de Haskell.

- O meu pai pôs o nome de Haskell ao rapaz? - pergunta Olympia.

- Foi o John quem trouxe a criança - diz ele, em voz baixa. Olympia desvia os olhos e fita, através da rede da janela, um velho lilás agora desprovido de flores. Philbrick inclina- se para ela, mas ela repele-o com um gesto.

- Não, não sabia - diz ela. - Pensei apenas que o meu pai, sabendo da existência do orfanato e concluindo ser longe de Boston, tinha tomado essas disposições.

- E com certeza tomou - diz Philbrick. - Mas tomou-as com o Haskell.

Ela abana a cabeça. É-lhe inconcebível que o pai tenha comunicado com John Haskell durante o período terrível antes do parto. Inconcebível que Haskell tenha entregado o seu próprio filho. E por outro lado, enquanto tira um lenço da bolsinha ao seu lado, recorda-se de uma discussão que uma vez teve com Haskell numa carruagem, no regresso do parto de Mrs. Rivard, e como ele advogou que a vida num orfanato seria preferível para uma criança de uma mãe solteira que não estava preparada para as suas responsabilidades.

- Então nunca teve notícias do John? - Philbrick torna a perguntar em voz baixa.

- Não.

Philbrick pigarreia. - Estou em crer que a criança está a ser criada sadiamente - diz. - Embora já tenha passado algum tempo desde que me informei. Por sinal, envergonha-me dizer que foram anos. Para mim é novidade saber que foi dada para adopção.

- Como é que o meu pai e o Haskell se atreveram a concorrer para me tirar a criança? - diz Olympia num impulso súbito. Num abrir e fechar de olhos, o choque deu lugar à raiva.

- Oh, minha querida - diz Philbrick. - Sabe, decerto fizeram-no por si. Estou certo de que pensaram que era o melhor.

- Eles não podiam, de maneira nenhuma, saber o que era melhor para mim - diz Olympia, exaltada. Levanta-se. - Tenho de ir embora - diz, só então se lembrando das boas maneiras. - Foi um almoço saboroso. Francamente delicioso. Falo com toda a sinceridade. Invejo a cozinheira!

- Inveja?

Ela estuda-o por um momento à espera de algum sinal que explique a sua vida nesta casa modesta, de alguma pista sobre a sua vida secreta; mas ele continua, com o seu fato de linho azul, apenas um benévolo, se bem que abrupto, homem de finanças. - Não vai escrever ao meu pai? - pergunta ela.

- Não - responde ele, acompanhando-a à porta. - Posso prometer-lhe isso. Este assunto é entre nós os dois.

Saem para o relvado da frente. Ezra está à espera na rua.

- Vou tentar descobrir o paradeiro da criança - diz Philbrick

-, e depois vou determinar pessoalmente se está a ser bem tratada antes de voltarmos a discutir este assunto. Não me agrada ser o árbitro do seu futuro, mas colocou-me nessa posição.

- Não me ocorre outro procedimento.

- Eu escrevo-lhe - diz ele. E, dito isto, inclina-se e beija Olympia ao lado da boca, o que é para ela quase tão espantoso como a notícia que ainda pouco antes teve de digerir.

Como em cada uma das onze tardes desde que visitou a casa de Rufus Philbrick, Olympia senta-se a contemplar o mar, uma ocupação que consome quase todo o seu tempo. Por vezes leva um livro para o alpendre e até ocasionalmente a roupa para pontear, acabou por compreender que não passam de acessórios da verdadeira tarefa que não é tarefa nenhuma, mas antes a simples necessidade de ser paciente, estar sentada, olhar para o mar e esperar por uma carta.

Observa um pescador a trabalhar num barco a menos de quinze metros dos rochedos, no fundo do relvado. Visão familiar, o barco baloiça na ondulação ligeira enquanto o homem puxa covos de madeira do fundo do oceano. A embarcação é uma chalupa, não, uma escuna talvez, carregada de barris de isco e pescado - uma vida encantadora, mas testemunho de uma vida mais dura do que qualquer outra que Olympia tenha alguma vez suportado, mesmo durante as terríveis semanas na quinta de Hardy. Antes de conhecer Esra Olympia pouco reflectira sobre estes homens ou as suas aspirações. Já passou dezenas de vezes pelas dezenas de bairros toscos em que os pescadores de lagostas trabalham, vendo as barracas, os barcos e até os homens a bordo como um simples pano de fundo do verdadeiro teatro de Fortune's Rocks, a vida da privilegiada colónia de férias na sua ociosidade quando, evidentemente, muito mais o inverso, sendo estes lavradores do mar os herdeiros sagrados pelo tempo da praia nativa e dos seus arredores.

E mais uma vez impressiona-a, como tantas vezes nos últimos tempos, a facilidade com que nos escapa o que está, de facto, diante dos nossos olhos.

Com um gesto abrupto e impaciente, Olympia pousa o livro que esteve a fazer de conta que lia, um enfadonho tratado sobre pintura paisagística italiana. Todos os seus pensamentos orbitam sobre si mesmos e nunca faz progressos. É esta maldita indolência, este hediondo estado de suspensão a que se votou. Sete, oito, ocasionalmente dez vezes ao dia, dirige-se à porta das traseiras com a sua calha para o correio e fixa o chão, desejando ver um envelope na superfície pintada. Embora a distribuição postal seja muitas vezes irregular, habituou-se a conhecer bem os hábitos do carteiro e dá frequentemente consigo no ponto em que o caminho das traseiras desemboca na estrada, encetando conversa com o homem levemente perplexo, sempre com esperança de um envelope com o seu nome.

Levanta-se e começa a andar de um lado para o outro no alpendre. Por que razão Rufus Philbrick demora tanto tempo a responder? Será possível que tenha simplesmente decidido não dar afinal andamento à investigação? Mas, nesse caso, não escreveria a informá-la dessa decisão? Sempre lhe pareceu um homem de palavra e, se disse que tentaria ajudá-la, deve estar a fazê-lo com certeza.

Paciência, aconselha a si mesma. Mas está cansada de ser paciente, exausta de permanecer passiva.

Pega no livro e pousa-o imediatamente. Há com certeza alguma coisa mais animadora para ler do que a prosa quase impenetrável de um desinspirado crítico de arte italiano. Atravessa a casa e entra no escritório do pai, onde ficaram alguns volumes, ainda húmidos, empenados e lamentavelmente deformados. Quase não se aventurou nesta sala desde que regressou a Fortune's Rocks; a presença do pai impregna as próprias paredes e o soalho da pequena divisão dando a impressão de que está sempre sentado no cadeirão de madeira, examinando-a criticamente.

Assim, com um movimento indirecto (e evitando momentâneamente a visão do cadeirão), entra no escritório e procura nas prateleiras quase vazias um livro que possa, pelo menos fisicamente, ser lido e que possa encerrar a promessa de a prender. No entanto, enquanto inspecciona os títulos, Biologia Marinha de Uma Breve História da Nação Zulu e Nepos De Vita Excellentium Imperatorum, a esperança de sucesso começa a dissipar-se. Desiludida, vira-se para sair do escritório e voltar para o alpendre, quando os seus olhos pousam sobre um volume escuro com letras douradas, um livro atado com fio e com a capa virada para baixo, abandonado no chão, ao lado da cadeira do pai, quase como se ele o tivesse deixado cair. E, quando Olympia se apercebe do título, espanta-se que o livro tenha sequer sobrevivido, que não tenha sido atirado pelo ar nem queimado na lareira, porque é precisamente o mesmo volume que outrora a iniciou na amplitude e alcance do pensamento de John Haskell.

Pega no livro e senta-se na única cadeira da sala, esquecendo de momento o seu espectral ocupante. Desata o fio e, de imediato, desliza- lhe das páginas para o regaço uma série de cartas. Conhece bem a caligrafia, a letra masculina, que não é a do pai, e a visão da escrita de Haskell fá-la reclinar-se na cadeira. Demora algum tempo a conseguir abrir as cartas. Claro, pensa ao desdobrar a primeira; claro, Haskell ter-se-á correspondido com o pai nesse Verão.

10 de Junho de 1899 Meu caro Biddeford,

Obrigado pelo seu agradável convite para passar o fim-de-semana de 21 de Junho consigo e com a sua família em Fortune's Rocks. Tem toda a razão em julgar que a vida de hotel não agradará muito à Catherine e às crianças aquando das suas visitas de fim-de-semana, mas também não desejamos...

26 de Junho de 1899 Caro Biddeford,

Como poderei descrever-lhe como a nossa estadia com a sua família no passado fim-de-semana foi encantadora? Foi uma visita excelente, exceptuando a tragédia do naufrágio, e o momento em que vos deixamos causou-nos uma angústia considerável! A Catherine está muito bem-disposta, sente que

encontrou na Rosamund uma verdadeira companheira e futura confidente. Eu, naturalmente, adorei, como sempre aliás, as minhas discussões consigo e com o Philbrick.

E as crianças estão rendidas à sua espantosa filha, Olympia.

2 de Julho de 1899

Meu prezado Biddeford,

Não, confesso que não compreendo a sua argumentação relativamente aos méritos do Zachariah Cote como poeta e que ficaria indiferente à publicação das suas obras mais pequenas no seu reputado Quarterly. Penso que lhe falta vigor para apurar a sua poesia, que está imbuída de descrições barrocas e pieguices femininas. Mas por esta razão é você o editor desta excelente revista e eu apenas um homem de ciência.

1 de Julho de 1..

Caro Biddeford,

Obrigado pelo seu amável convite para jantar consigo no Club no dia 14, mas nesse dia espero uma visita do eminente médico Dwight Williston, de Baltimore, e estou assim comprometido.

11 de Julho de...

Caros Rosamund e Phillip,

Eu e John aceitamos com prazer o vosso amável convite para a festa do dia 10 de Agosto, em honra do décimo sexto aniversário da vossa filha Olympia.

Com grande expectativa e saudações calorosas, Catherine Haskell

Olympia amarrota as cartas e, em seguida, num impulso, alisa-as no regaço. Que extraordinário que, nesse Verão, houvesse este outro laço entre o pai e John Haskell, um homem que o pai muito admirava, admiração consideravelmente correspondida. E como o pai se deve ter sentido traído em duplicado (não, em triplicado) - pela filha, pelo amigo e por esta fraudulenta correspondência com as ironias que a acompanhavam. Teria o pai relido estas cartas à luz das descobertas na noite da festa? Olympia pensa que não, não podia ter relido pois tê-las-ia decerto destruído numa fúria.

O livro abre acidentalmente na folha de guarda e ela lê aí uma dedicatória: Para Phillip Biddeford e o seu fascinante intelecto, este humilde presente. Afectuosamente, John Haskell.

Volta a meter as cartas no livro e fecha a capa. Pensa se Haskell estará novamente a trabalhar numa vila fabril. Ou se terá renunciado à sua formação de médico. Se terá também abandonado a escrita. Ou se ela própria poderá um dia entrar numa biblioteca, abrir uma revista literária ou política e encontrar o seu nome como autor de um ensaio aí publicado. Olha através da porta aberta que dá para a sala de jantar, essa elegante sala com os dois espelhos e aparadores, as suas graciosas proporções e a sua vista para o mar. Levanta os olhos para o candelabro, uma peça de cristal que evoca um colar suspenso no pescoço de uma mulher. Passa os dedos, no seu próprio pescoço, pelo medalhão que Haskell um dia lhe ofereceu, um medalhão de que nunca se separou, nem durante o período passado no colégio ou o exílio em Boston, nem tão- pouco durante os difíceis momentos do nascimento do seu filho (do filho de ambos).

Fecha os olhos e deixa-se invadir pelas recordações que vêm, como sempre, em enxurrada, o fluxo de uma maré em que aprendeu a deixar-se submergir. E, quando termina, pousa o livro na mesa de mármore ao lado da cadeira do pai e levanta-se. Há-de enlouquecer se ficar nesta casa um momento mais.

A areia forma uma crosta que se esboroa à medida que Olympia avança. Homens e mulheres, de fatos-de-banho de algodão pecado, estão à beira da água, a olhar desoladamente para o mar. Quase todos os Verões de que se recorda, há uma semana em Agosto em que a água parece estagnada com torrões escuros de algas marinhas, viscosas, com alforrecas à superfície. Durante esta semana ninguém toma banho no mar com medo das picadas destas gelatinosas criaturas. Quase toda a gente conhece bem a história do infeliz Tommy Yeaton, outrora o solitário agente da polícia de Fortune's Rocks, que decidiu ir a banhos num sábado à tarde, em Agosto e teve a infelicidade de ser atacado por um cardume de alforrecas. O homem faleceu na manhã seguinte em resultado de uma febre provocada pelas picadas e Olympia lembra-se de o pai lhe contar esta história, de tempos a tempos, enquanto caminhavam pela praia, desejando sem dúvida transmitir uma admoestação.

Mas sabe que a praia não tardará a ficar deserta. Só resta uma semana até ao final da época e, nessa altura, a maioria dos veraneantes abandonará Fortune's Rocks. Descobre que está profundamente ansiosa por que chegue o Outono, quando a praia está silenciosa à excepção dos sons produzidos pelas gaivotas e pelo mar, e as casas estão fechadas. Os dias arrefecerão e, para o interior, as folhas das árvores mudarão de cor. Comprará uma boa reserva de fruta, de legumes enlatados e de bacalhau seco, e ainda carvão para os fogões. Talvez venha a ser necessário passar para o andar de baixo, pensa; tem, aliás, praticamente a certeza de que terá de passar. Imagina-se num dia frio de Novembro, na sala da frente, a olhar através das janelas a toda a altura das paredes, contemplando o ar e pensando em cada uma das outras casas fechadas, à espera que seu proprietário regresse para lhes insuflar vida; e essa imagem evoca uma pontada tão súbita e inesperada de uma espécie de pesar, que suspende a caminhada. Surpreendentemente, reconhece de imediato que é pesar pelo pai pois compreende, mais lucidamente do que nunca (e talvez, até agora, não tenha sido capaz de se permitir compreender), como o pai deve ter ficado aniquilado com a ruína da filha, da sua única filha, e com a destruição irreversível de todas as suas esperanças. Não era Olympia a sua obra, o seu filho? Recorda a noite do jantar, na presença de Haskell e de Philbrick, e os termos em que o pai falou da erudição superior da filha. E, nessa época, era verdade, Olympia pensa; possuía educação excepcional. Mas que fim serviu?

Olympia acocora-se na areia e envolve as pernas com os braços, pousando a testa nos joelhos. O chapéu desliza- lhe para a cara. Pensa em todas as horas que o pai passou a instruí-la, em todos os dias de aulas e de debate. Que fará ele agora com todas essas recordações?

- Sente-se bem? - ouve uma voz atrás de si perguntar. Levanta rapidamente os olhos para o rosto de um rapaz. Ele está de sobrolho franzido e parece um pouco intrigado com a sua estranha postura. Inclina-se para trás na areia e apoia-se nas mãos.

- Sinto - diz ela, tranquilizando-o. - Agora sinto. Ele fica delicadamente em pé, com o fato-de-banho azul-marinho seco e as mãos meticulosamente cruzadas atrás das costas, posição que incongruentemente sugere a de um soldado. O rapaz tem caracóis louros e uma mancha de sardas debaixo dos olhos que são de um azul tão claro que parecem água num copo.

- Está triste - diz ele.

- Um bocadinho.

- Por causa das alforrecas?

Ela sorri. - Não, não propriamente.

- Como é que se chama?

- Olympia.

- Ah.

- E tu?

- Edward. Tenho nove anos.

Ela oferece-lhe a mão, que ele aperta como um rapaz a tentar ser um homem.

- Está de férias - pergunta o rapaz.

- Não, moro aqui.

- Ah, tem sorte.

Olympia endireita-se e põe os braços em redor dos joelhos. Mas ainda não passei cá nenhum Inverno. Dizem que os Invernos são difíceis.

- Eu moro em Boston - diz espontaneamente o rapaz, sentando-se ao lado dela. - Posso?

- Podes, claro - responde ela, sorrindo face aos seus bons modos. - Estás aqui com os teus irmãos e irmãs?

- Com uma irmã, mas ainda é bebé - diz ele, implicando que a bebé não adianta de muito.

Olympia olha em volta e não vislumbra nenhum adulto preocupado. - O teu pai e a tua mãe não estão preocupados contigo?

- Acho que não. Estão em França. Eu estou aqui com a minha

governanta. - E ela não fica preocupada se não souber onde estás?

- Quando a deixei, estava a dormir no alpendre. - Indica uma casa grande, em madeira batida pelo tempo, com guarnições brancas, para lá do paredão.

Olympia faz um gesto de assentimento. - Mas sabes que não deves ir para a água sem a companhia de um adulto?

- Sei, mas de qualquer maneira hoje também não devo ir.

- Pois não.

Ela vê o rapaz esticar as pernas que são compridas, finas e magras. Ele enterra os calcanhares na areia.

- São horríveis - pergunta o rapaz subitamente. - As picadas?

- Nunca fui picada. Mas ouvi dizer que sim.

- E uma pessoa morre?

- Pode morrer. Mas nem sempre. Às vezes só se apanha utn: febre. Houve uma vez um polícia que foi picado. Chamava-se Tommy Yeaton. Nadou para o meio de um cardume de alforrecas é foi picado dezenas de vezes. No dia seguinte morreu.

O rapaz parece considerar este novo dado.

- Quer fazer uma corrida? - pergunta-lhe subitamente.

- Uma corrida? - pergunta ela, rindo.

- Sim - diz ele. - Podíamos começar aqui e. - Ele perscruta a extensão da praia. - Está a ver ali? Aquele guarda-sol às riscas ao longe?

- Estou.

- Que tal o primeiro que chegar ao guarda-sol ganha?

- Bem. - diz ela, hesitando. Não se lembra da última vez que participou numa corrida. Desde criança, pelo menos. O pedido do rapaz é tão ardente que ela tem dificuldade em resistir.

- Porque não - diz, começando a desapertar as botas. O rapaz põe-se em pé de um salto. Traça uma comprida marca na areia. - Aqui é a linha de partida - anuncia, excitado.

- Está bem - diz ela. Discretamente descalça as meias e

mete-as nas botas. O rapaz coloca-se na linha marcada, inclina-se para a frente, põe um pé atrás na tradicional posição de partida. Olympia deixa as botas e as meias junto ao chapéu, posiciona-se na linha ao lado do rapaz e levanta as saias do seu vestido amarelo suficientemente para não tropeçar.

- Está pronta?

- Sim, acho que sim.

- Então, quando eu contar até três?

O rapaz larga numa corrida desenfreada, de queixo levantado e cabelo a esvoaçar, como se tivesse aprendido a correr assim na es cola. Olympia, sentindo-se de início um pouco sem jeito, atira-se à corrida e tenta manter-se a par dele. Quase imediatamente o cabelo solta-se-lhe dos ganchos e bate-lhe com força contra o pescoço. O rapaz, vigoroso e resistente, olha por cima do ombro e, vendo-a tão próxima, intensifica o andamento. Os pés de Olympia enterram-se na areia. Os músculos transmitem-lhe uma agradável sensação de força depois de muitas semanas de lides domésticas. Levanta mais as saias para poder esticar as pernas. A princípio sente-se levemente embaraçada por estar a divertir-se assim, mas este embaraço logo se transforma numa distinta sensação de exuberância que quase a entontece. Ergue o rosto para o sol. Meu Deus, pensa, há tanto tempo que não me sentia assim.

E, ao aproximarem-se do guarda-sol às riscas, Olympia olha de relance para o rapaz e vê que é capaz de ganhar inadvertidamente a corrida. O rapaz corre com desenvoltura e determinação, mas as suas jovens pernas começam a cansar-se. Nesse momento, Olympia finge-se exausta e abranda ligeiramente o ritmo. Com o prémio à vista, o rapaz, encontra novas energias, corre para o guarda-sol, sobressaltando os seus ocupantes, que estão sentados em cadeiras de lona, e ganha um ímpeto tal que se espalha na areia. Quando Olympia chega junto dele, ele está deitado na areia com as pernas abertas, tentando recuperar o fôlego. Ela debruça-se e inspira uma golfada de ar. O rapaz tem areia na testa e no lábio superior. - Ganhaste! - diz ela, esbaforida, com as mãos nos joelhos. Ele está tão exausto que nem consegue sorrir. Mas logo Lhe assoma ao rosto uma expressão de apreensão. - Não me deixou ganhar, pois não? - pergunta.

Ela empertiga-se. - Claro que não - responde. - Nunca faria umacoisadessas.

Ele sacode a areia da cara e das pernas.

- Se quiser, podemos correr outra vez amanhã.

- Sim, boa ideia - diz ela.

- E pode ser que amanhã ganhe - acrescenta ele timidamente.

Ela procura não sorrir. - Então venho ter contigo - diz. - E amanhã vou ganhar.

- Está bem - diz o rapaz. Levanta-se, mas parece relutante em ir-se embora. - Tem um menino? - pergunta abruptamente.

- Tenho - diz ela com simplicidade.

- Como é que se chama?

- Peter.

- Acha que ele gostava de correr connosco?

- Era bem capaz mas, para ser franca, acho que lhe ganhávamos sem problemas. Só tem três anos.

- Ah - diz o rapaz com visível desapontamento.

- Mas sei que ele havia de gostar de te conhecer um dia - acrescenta Olympia imediatamente. - Gosta muito de meninos de nove anos como tu.

- Gosta?

- Gosta, pois.

A afirmação dá origem a um sorriso inesperado. Ele olha na direcção da casa em madeira.

- Agora é melhor ires-te embora - diz Olympia. - Amanhã venho ter contigo - diz ela.

Ele acena em sinal de concordância. Começa a afastar-se devagar e depois vira-se e acena-lhe rapidamente. Ela acena também. Nesse momento, ele larga numa corrida e Olympia fica a vê-lo correr até ao lugar onde se encontraram na praia como se já estivesse a praticar para a prova do dia seguinte.

Observa-o até ele não passar de um pontinho.

Sim, pensa. Tenho umfilho com três anos.

Olha para os pés cobertos de areia. Toca no cabelo que lhe cai pelas costas num emaranhado de nós. Por baixo do vestido, está a transpirar por causa do esforço. Tenta em vão prender o cabelo nos ganchos, mas este solta-se de imediato devido ao peso.

Não quer voltar já para casa porque regressar a casa é esperar por uma carta e ela não quer recair nesse estado entorpecedor de suspensão. Encaminha-se mais uma vez para a outra ponta da praia. Recolherá os sapatos, as meias e o chapéu mais tarde.

Caminha num passo vivo, ainda animada com o exercício de há pouco e é só quando avista o Highland Hotel à distância que abranda o passo. Nunca se aventurou tão longe na praia desde que voltou para Fortune's Rocks. Regista o alpendre, os hóspedes sentados nas cadeiras de baloiço, as janelas dos andares superiores, uma certa janela repetidamente batida por um pano de cores alegres como se lá dentro uma mulher estivesse a sacudir uma colcha. A aparência do hotel está extraordinariamente intacta, embora pareça haver mais pessoas por ali do que recorda do passado. Vem-lhe à memória um mar de lençóis brancos, um livro aberto com letra cursiva. Vê cortinas de musselina nas janelas, a forma como uma camisa foi atirada para um soalho ocre. Ouve uma voz: Só queria que soubesses. Quase sente o algodão sedoso dos lençóis muito lavados, quase distingue o tecto em folha-de-flandres verde: alva com o seu desenho em relevo. Ouve o eco dos seus próprios passos no poço das escadas.

Repara então num grupo de pessoas na ponta sul do alpendre. Deduz que se trata de uma festa de fim de estação e pensa: Como as mulheres ficam elegantes com as suas mangas vaporosas. E depois, ao observar casualmente os hóspedes, os seus olhos pousam sobre uma figura familiar. Retesa-se ao reconhecer uma cabeça com uma inclinação afectada, um perfil característico, um lampejo de dentes brancos. Ele tem vestido um colete amarelo e preto de xadrez e exibe um monóculo novo. Deixou crescer as suíças, um estilo que Olympia nunca apreciou. Enquanto observa, Zachariah atira a cabeça para trás e ri e Olympia, mesmo à distância, vê que o gesto é exacerbado em intenção do seu público. Ouviu dizer que Cote fez sucesso, que a sua poesia se tornou popular; é publicado em revistas femininas e particularmente admirado por mulheres casadas. Olympia já se deparou, várias vezes, com edições dos seus poemas e não recuou na sua opinião de que são péssimos:

cheios de sentimentalismo e sobrecarregados de um pendor condoído. E subitamente apossa-se dela um azedume por ter sido Cote, entre tantas pessoas, a ter singrado. Por ser Cote - e não o pai ou a mãe ou John Haskell ou Catherine Haskell, - a ser bem recebido naquele local num dia de fim de Verão de 1903.

No entanto, não foi Cote, de todos eles, o único que agiu com verdadeira maldade? Não foi intencionalmente que convidou Catherine e Haskell para admirar as vistas ao telescópio, sabendo o que encontraria? E não seriam os pais de Olympia e a própria Catherine Haskell absolutamente irrepreensíveis se não fosse uma associação inocente, se bem que estreita, com o escândalo? Embora Olympia não se iliba de qualquer culpa ligada à catástrofe, a sua raiva recrudesce enquanto está ali no areal. Que cretino, disse Catherine do homem uma vez. Nessa altura, Olympia achou o comentário apropriado e continua a achar. Interroga-se se a própria Catherine Haskell alguma vez teve ocasião de se deparar inadvertidamente com os poemas do poeta e, se se deparou, como digeriu a experiência.

E é no momento em que este pensamento lhe ocorre que Cote, continuando a simular para os seus espectadores, se vira ligeiramente e divisa Olympia na areia - de vestido de guingão amarelo, descalça, o cabelo caído em nós pelas costas. Ela resiste ao impulso de se afastar e retribui-lhe antes o olhar com a mesma firmeza com que ele a olha. Apercebe-se da surpresa do homem, da sua perplexidade momentânea, das rápidas interrogações enquanto o sorriso se lhe desfaz na boca.

A mulher ao lado de Cote fala e ele dá-lhe uma atenção passageira; mas não larga Olympia de vista. A mulher relanceia na direcção dela, perguntando-se decerto quem captou tão intensamente a atenção de Zachariah Cote. Mas, se a mulher reconhece Olympia, não o deixa transparecer.

Olympia não arreda pé enquanto Cote se desembaraça do grupo de admiradores e desce as escadas do alpendre na sua direcção.

Que desplante extraordinário, pensa ela ao vê-lo aproximar! Ele detém-se a um metro dela. Por um momento, nenhum deles fala.

- Miss Biddeford - diz ele por fim. Fita-a demoradamente, como que a avaliar como o encontro se poderá desenrolar. O sorriso começa num canto da sua boca, o sorriso de um jogador de xadrez que possivelmente entreviu uma saída para um xeque-mate.

- Que surpresa encantadora!

- Não vejo nada de encantador - replica Olympia em tom neutro.

- Claro que já sabia que estava cá a residir - diz, corando a grosseira resposta dela. - Não é propriamente uma surpresa.

Ela fica em silêncio.

- Mas está realmente a viver sozinha? - pergunta. - É uma ideia espantosa. - A postura dele é-lhe sinistramente ludíbrio; um braço a cruzar o peito, o queixo pousado nos nós dos dedos da outra mão.

- Creio que a forma como estou a viver não lhe diz respeito, Mr. Cote.

Ele leva a mão ao coração. - Oh, fico magoado - diz, zombando dela.

Ela continua: - Mas fico encantada com esta oportunidade de lhe dizer que o considero o mais desprezível dos homens.

Observa-o a estudar-lhe os pés descalços, o cabelo desgrenhado, o vestido fora de moda.

- Essa é boa vinda de si, não lhe parece? Mas, por outro lado, tenho de dar o devido desconto à sua impertinência porque é certamente a mais infeliz das mulheres.

- Não - diz ela. - Acho que a mais infeliz das mulheres é aquela que um dia se tornar sua. Ou já foi rejeitado?

- Mas que coisa! Mudou muito, Olympia Biddeford. Antigamente era muito dócil. E talentosa. Não lhe conhecia essa língua!

- Tomara que a minha língua fosse, neste momento, tão afiada como uma navalha - diz ela.

- Bruxazinha! - Os lábios de Cote ficam subitamente exangues. - Como se atreve a falar-me nesse tom? Uma mulher que cometeu o mais hediondo dos crimes? Que alardeou o seu carácter dissoluto para quem quis ver? Julgou que eu não sabia da sua relação com o John Haskell? Desde o momento em que a vi na berma da estrada abraçada a ele, soube em que estavam metidos. E caleimuito bem calado. Calei-me durante semanas, Miss Biddeford. E, como era infinitamente superior a mim, custava-lhe fazer o obséquio de me dirigir a palavra. Julgou que eu não notava os seus ares de superioridade? E perante isso julgou que eu ia ficar calado para sempre a vê-la a si e ao Haskell continuarem sem pensar nas consequências? Julgou que eu podia simplesmente deixá-la desgraçar não só a vida da Catherine Haskell, mas também as do seu pai e da sua mãe... por quem, devo dizer, já não sinto qualquer admiração? Meu Deus, Olympia Biddeford, costumava vir para este hotel com esse homem!

Diz esta última frase e aponta fisicamente para o hotel, com várias mulheres no alpendre a voltar-se para ver que alvoroço é aquele. Olympia baixa os olhos para as mãos e, pela primeira vez, repara como estão vermelhas e os nós dos dedos salientes.

Levanta os olhos para Cote. Sabe, como aliás soube desde o início, que dali a nada ele voltará para o alpendre e descreverá este encontro a todos os hóspedes reunidos; e imagina, por um momento, como ele contará exactamente a história do escândalo e da desgraça da sua família. Quase sente o intenso prazer que lhe dará relatar esta história familiar.

- O que eu fiz - diz Olympia a Cote -, fi-lo por amor. O que o senhor fez, fê-lo com o coração de uma serpente.

Roda então nos calcanhares e afasta-se, lentamente e com um passo firme, lutando para transmitir toda a dignidade de que uma mulher descalça, de vestido de guingão, é capaz. Sente as têmporas a latejar e custa-lhe respirar; esforça-se por avançar sem olhar para trás. Quando está certa de que está fora da vista dele, o seu corpo começa a tremer violentamente, tanto que se vê obrigada a aproximar-se do mar, apesar das algas marinhas e da ameaça das alforrecas, para que o choque da água gelada nos pés, nas canelas e joelhos possa devolver-lhe as faculdades. Mas quando chega à água descobre que não consegue mexer-se nem para um lado nem para o outro; e assim fica nessa posição, a única banhista na praia, alvo de muitos olhares curiosos, até que os pés ficam tão entorpecidos que já não os sente por debaixo das saias.

Quando volta ao sítio onde deixou os sapatos, as meias e o chapéu, o rapaz, Edward, está à espera dela. Levanta-se de um pulo quando a vê aproximar-se.

- Estava preocupado consigo. Demorou tanto tempo a chegar.

Ela estende a mão para lhe tocar no alto da cabeça, com a sua espessa e sedosa cabeleira de caracóis.

1 de Setembro

Cara Miss Biddeford,

Perdoe a minha resposta tardia ao seu pedido, mas levei algum tempo a descobrir as respostas às suas perguntas e mais tempo ainda a ponderar sobre a prudência de lhe passar esta informação. A Madre Marguerite, como sabe por experiência própria, é uma guardiã bastante temível e, apesar de membro do conselho de administração, foram precisos quase todos os meus poderes de persuasão para a convencer a deixar-me, por assim dizer, passar a soleira da porta.

Pois bem, Olympia, preste muita atenção ao que tenho a dizer-lhe. Escrevi os factos que me pediu numa folha de papel separada que meti e selei no envelope anexo. Mas insisto para que tenha a coragem de destruir o envelope antes de o abrir. O que aí está escrito tem o potencial de lhe causar a si e a muitas outras pessoas uma angústia considerável.

Se precisar de mais alguma coisa de mim nesta ou noutras matérias, não hesite em visitar-me quando quiser.

Com afectuosos cumprimentos. R. Philbrick

Olympia pousa o envelope anexo na mesa e estuda-o durante algum tempo, em parte por respeito a Rufus Philbrick e à advertência dele e, em parte, com medo do que poderá encontrar. Mas, minutos depois, sabe que não tem, nesta matéria, nem coragem nem lucidez de discernimento e que o seu desejo de descobrir o apelido do filho e as suas circunstâncias se sobrepõe a todas as outras considerações. Com olhos sôfregos, abre o segundo envelope.

O rapaz chama-se Pierre Francis Haskell. Foi baptizado a 20 de Maio de 1900 na igreja de Saint Andre. Foi entregue aos cuidados de Albertine e Telesphore Bolduc, ambos empregados na fiação de Ely Falls e residentes em 137, Alfred Street, em Ely Falls. É saudável e tem-no sido desde que nasceu.

Olympia fecha os olhos e leva a folha de papel amarrotada ao peito. Tem um filho, pensa calmamente, e é saudável. Tem um filho de seu nome é Haskell.

Atordoada com a multidão no trolley, Olympia sai na esquina de Alfred Street e Washington Street. O céu demasiado brilhante projecta uma luz branca e baça sobre as ruas, transformando ulmeiros em níquel e os rostos das mulheres em porcelana. É um dos piores dias que a costa marítima do New Hampshire tem para oferecer: o ar está quente e abafado e não corre uma única lufada de vento leste. Talvez esteja iminente uma tempestade.

Com a carta de Philbrick na mão, avança pelo passeio à medida que verifica os números em ferro forjado ao lado das portas. Alfred et, descobre, é uma rua comercial e residencial, o nível do rés-do-chão ocupado por lojas e os andares superiores dos edifícios reservdos à habitação. Nesse dia, quase todas as janelas desses andares superiores estão abertas, pessoas debruçam-se nos peitoris, abandonando-se na esperança de uma brisa errante. Olympia encontra os números 135 e 139 e deduz que o 137 deve pertencer ao edifício sem número, entalado entre os dois, uma construção ao lado de um consultório dentário. Consulta a folha de Pilbrick, não ousando acreditar que descobriu o endereço correcto. No entanto, desejando permanecer o mais anónima possível, enfia imediatamente o papel na bolsinha e procura em redor um lugar condizente para esperar.

Vislumbra duas possibilidades: um banco à sombra a uns vinte metros a norte da casa e uma padaria atrás dela, que anuncia na montra pãezinhos doces e bolinhos de geleia.

Decidindo que a padaria é capaz de estar abafada devido ao calor, Olympia opta pelo banco.

Alfred Street está a abarrotar de homens e mulheres que tentam abrigar-se à sombra dos toldos das lojas, os homens de camisas sem colarinho, os suspensórios pendentes da cintura, e as mulheres de blusas com as golas abertas e as mangas arregaçadas. Um vendedor de gelados e refrigerantes atraiu uma considerável procissão de crianças, algumas quase despidas, que rondam o vendedor, sem dúvida à espera de um pedaço transviado de gelado para chupar. Olympia, com sede após a viagem, sente-se momentaneamente tentada a comprar uma bebida fresca, mas a perspectiva de chamar publicamente o vendedor e, por conseguinte, atenção sobre si própria parece-lhe imprudente.

Arrepende-se de ter posto o chapéu e de não ter trazido o vestido fino de linho branco que é o mais fresco que possui. Tal como está, está banhada em suor na parte de trás das coxas e dentro das botas. Estuda os letreiros nas janelas do outro lado da rua.

PRÓTESES DENTÁRIAS. 8. 00, CÊNTIMOS. OBTURAÇÕES DE PRATA. 50 CÊNTIMOS. Ao lado do consultório dentário há uma drugstore que promove, através de um letreiro de cartão sarrabiscado à pressa SALSAPARRILHA FRESCA. Todas as portas das lojas ao longo da rua estão abertas de par em par e Olympia vê nas soleiras muitos donos, reconhecíveis pelos aventais brancos, alguns a fumar, oú a limpar com lenços os pescoços cobertos de suor.

Apesar do calor extraordinário e das distracções da rua, Olympia mantém, contudo, o olhar apontado para a pequena porta que se ergue sobre três degraus de pedra aninhados entre os negócios da drugstore e do dentista. E, enquanto observa, toma consciência de que um homem com um fato de xadrez castanho amarelado se sentou ao seu lado. No ar estagnado, o odor do corpo mal lavado à mistura com o aroma enjoativo de água-de-colónia barata, por sua vez submerso no cheiro a fumo de tabaco quase a asfixia. Afasta-se dois ou três centímetros. Para comoção de Olympia, o homem chega-se ainda mais a ela e pergunta a que horas é o próximo trolley. Sem se voltar totalmente na sua direcção, ela diz que lamenta, mas que não sabe.

- Eu, cá por mim, vou para a praia - anuncia ele. Não aguento o calor desta cidade horrorosa nem mais um minuto.

Olympia não responde, relutante em encorajar o homem a conversar.

- Permita-me que me apresente como deve ser - diz o homem. - Lyman Fogg, caixeiro-viajante da Boston Drug, que a esposa coloca no café para evitar os excessos alcoólicos dos maridos. É a nossa frase publicitária, a propósito.

Estende a mão e Olympia, que acaba de tirar as luvas por causa do calor, vê-se forçada a pôr a sua mão na dele. O homem está excessivamente vestido, de um modo absurdo, com um fato de lã e cartola, que usa num ângulo pouco convencional e da qual lhe caiu para a testa um oleoso caracol preto. Com a mão livre, enfia o charuto na boca e expele uma rápida baforada que fica a pairar como que suspensa no ar à frente deles. As suas cores são extraordinariamente rubicundas e Olympia repara que, além do odor quase intolerável, o homem também emana calor.

- Está quente como tudo, não está? - diz ele. Tira o chapéu revelando uma orla escura do suor. Olympia desvia os olhos para observar a entrada da porta.

- Também está à espera do trolley?

- Não - responde ela com bons modos. - Estou só a descansar.

- Ora, não sou então um felizardo? - diz o homem alegremente. - Porque estava aqui a dizer com os meus botões: Lyman, ali está um belo banco com uma bela mulher sentada, porque é que não te vais apresentar?

Mesmo com a cabeça ligeiramente afastada do homem, Olympia sente- lhe o cheiro a álcool no hálito. Ele recosta-se no banco e ao fazê-lo, arranja maneira de se aproximar ainda mais de Olympia.

Ela retira da bolsinha um lenço perfumado e leva-o ao nariz, esperando que ele perceba a sugestão. Mas o homem parece impermeável ao seu mal-estar.

- Pois quer-me parecer - começa ele em tom de conjectura, e ela sente os olhos do homem em cima dela - que não é destas bandas, o que me leva a pensar e até a ter o atrevimento de perguntar o que é que uma bela jovem como a menina está a fazer sentada num banco em Alfred Street que, embora tenha os seus encantos, não é um sítio próprio para uma senhora?

Pelo canto do olho, Olympia vê abrir-se a porta azul entre o consultório dentário e a drugstore. Uma mulher com um vestido de algodão cor de malva encosta-se à porta, aparentemente a segurá-la para outra pessoa. Tem a mão estendida para o interior do edifício.

- Não - continua o homem ao lado -, posso deduzir seguramente que é dos lados de Fortune's Rocks, onde há aquelas casas todas elegantes. Estou correcto na minha dedução?

Olympia observa a mulher à porta a inclinar-se ligeiramente para falar com alguém no interior do edifício.

- Menina?

- Como? - pergunta Olympia distraidamente. - Ah, sim. Sou.

- Está a ver? - diz o homem ao seu lado, satisfeito por ter adivinhado. - E posso saber o seu nome? - acrescenta, talvez encorajado pelo sucesso.

A mulher na porta leva a mão ao cabelo, que está penteado à Pompadour com franja. Passa a mão pelas três pregas do corpete do vestido. Olympia calcula que poderá ter trinta anos. Sobre a saia do vestido, a mulher tem um avental preto. Retrocede para dentro do edifício, deixando a porta oscilar, quase se fechando. Volta a sair com um rapazinho.

- Ou talvez esteja a ser demasiado atrevido - está a dizer o homem ao lado de Olympia.

A mulher e a criança, de mãos dadas, detêm-se ao cimo dos degraus de cimento, como que a avaliar o movimento da rua. Olympia distingue claramente as feições da criança.

Cabelo cor de noz. Olhos cor de avelã. Os traços são inconfundíveis.

Olympia aperta os nós dos dedos contra a boca.

O homem ao lado dela olha-a incisivamente. - Está doente, menina? - pergunta.

O desejo é instintivo e esmagador. Mais tarde, reconhecerá nesta estranha sensação um desejo duplo: deseja o rapaz e deseja o pai com quem ele tanto se parece.

Observa a mulher e a criança a descerem os degraus de pedra. Ele traz uns calções azuis desmaiados com um casaco a condizer: Volta-se e começa a afastar-se de Olympia com a mãe. Agora ela só vê o dorso da criança, o cabelo impecavelmente cortado, os sapatos estragados de couro castanhos, as pequenas pernas gorduchas. Olympia levanta-se.

- Então, menina - diz o homem ao seu lado, levantando-se também -, não há necessidade disso. Espero não a ter ofendido. Se calhar estou a ser muito atrevido, não? Se estou, queira desculpar um vendedor cansado por causa do calor.

Olympia está a perdê-los de vista no meio da multidão no passeio. Em pânico, avança um passo.

- Posso começar do princípio sugerindo que vamos até àquela drugstore ali, onde por sinal me conhecem bem, tomar duas dessas salsaparrilhas frescas que estão a anunciar na montra e que nos serão servidas, acredite, gratuitamente?

Olympia abana distraidamente a cabeça. - Deixe-me - diz, impaciente, embora seja ela quem se afasta.

Atravessa a rua e caminha num passo enérgico, à procura de um vestido cor de malva na multidão. Acotovelam-na com rudeza e talvez também ela acotovele pessoas com rudeza. Estuga o passo, quase a correr agora, quando vê na esquina seguinte as figuras de uma mulher e de um rapaz a entrar numa loja. O letreiro sobre a porta diz: CONFEITARIA.

Olympia dirige-se à loja e aproxima-se da porta tanto quanto lhe é possível. Finge estar a examinar o conteúdo da bolsinha, como se estivesse à procura de alguma coisa que não sabe onde pôs. Carrega o sobrolho com uma expressão concentrada.

Isto é uma loucura, pensa, embora não modifique a postura. Nem sequer sei se são a mulher e a criança certas.

E então, no momento seguinte, pensa: Claro que sei. À sua volta estão homens e rapazes com os suspensórios soltos, camisas sem colarinhos. Ouve-os falar uns com os outros mas não distingue as palavras. Quando a mulher e a criança saem da loja, ele segura um cone de gelado que pinga para o seu pulso pequenino. Talvez alarmado por esta comida que se move, parece prestes a chorar. A mulher inclina-se, tira-lhe o cone e lambe as gotas. Devolve-lho e ele parece ficar mais descansado.

Olympia está tão perto que podia estender a mão e tocar no rapaz. A parecença é absolutamente extraordinária. É como se estivesse a olhar para o rosto de John Haskell em criança.

A mulher do vestido de algodão cor de malva, talvez consciente do estranho olhar de Olympia, pega na mão do menino e afasta-se. Olympia fica paralisada com a bolsinha ainda aberta, praticamente incapaz de respirar. Pouco depois, a mulher baixa-se e pega no rapaz ao colo, beijando-o na face. Olympia distingue a custo os seus pequenos sapatos castanhos, muito gastos e estalados.

Uma violenta pontada de ciúme sacode- lhe o corpo e fá-la deixar cair a bolsa. Tilintam pelo passeio moedas e travessas para o cabelo.

Tomada de uma paralisia momentânea, está incapaz de se baixar para apanhar os objectos. Sente o cheiro a fumo de charuto e tem vagamente consciência de que o homem de fato de xadrez castanho e amarelado se acocora para lhas apanhar.

- Agora estou mesmo convencido de que não está bem - escuta o homem a dizer ao lado dela. Ela sente uma mão no cotovelo.

- Segui-a - está o homem a dizer. - Espero que não se importe porque percebi que havia qualquer coisa que não estava bem consigo.

Ele condu-la até à loja sombria. Manda- a sentar numa cadeira metálica. Ela obedece, deslizando pesadamente para a sua superfície dura. Entre eles está uma mesa de vidro redonda.

- E depois não pude deixar de reparar que estava a remexer na bolsinha. Deve ter apanhado um susto terrível porque ficou branca como a cal. - Pega numa chávena de uma mesa desocupada: Branca como esta chávena.

Quando ela olha para o homem, vê sobrancelhas desgrenhadas e astutos olhos verdes, uma boca rosada e carnuda com uma

ponta de tabaco no lábio inferior; mas, por mais que tente, não consegue formar um rosto coerente. Pontinhos brancos e brilhantes obscurecem a visão do seu olho direito.

O homem inclina-se para ela e ela volta a sentir o cheiro a Álcool no seu hálito cediço. - Perdeu alguma coisa de muito valor? - pergunta-lhe.

Os pontinhos brancos expandem-se, quase eclipsando à sua frente. Olympia começa a rir e apercebe-se de que o seu riso deixa o homem embasbacado.

E pensa, sentindo-se cair, cair lentamente, como uma pena a flutuar indolentemente no ar pesado - Sim, sim, é isso, perdi uma coisa de grande valor.

O céu está carregado e emana uma estranha luz amarela. O ar está parado, demasiado parado, pior do que no dia anterior, sulfuroso. Quando chega à baía, descalça as botas e penetra no limo preto que, duas vezes por dia, se apresenta na maré vaza. Os seus pés são compridos, brancos e macios, a parte realmente mais sensível do seu corpo, e será doloroso pisar inadvertidamente uma concha ou um seixo grande. Ela pensa como é estranho que se tenha força e músculos noutras partes do corpo quando as suas raízes são tão vulneráveis.

Algas marinhas de muitas e variadas cores e texturas espalharam-se na linha da água juntamente com límulos e alforrecas que deram à costa e repousam transparentes à superfície do lodo. Tem de ver com cuidado onde põe os pés para evitar a sua desagradável textura gelatinosa, assim como a picada. Quando estão secas, as algas marinhas na linha da maré alta assemelham-se, mais do que qualquer outra coisa, a papel de jornal rasgado. Ouviu falar de pessoas que fazem sopas e guisados com esta vegetação marinha, mas tem a certeza de que, no seu caso, não havia de gostar.

Com o ancinho para apanhar berbigão que Ezra lhe emprestou, recolhe os pequenos moluscos que se escondem no lodo. Ocupa-se deste modo quase uma hora, enchendo o balde praticamente até a cima com amêijoas. A saia do vestido de guingão amarelo foi, mais do que uma vez, sugada pela lama, de forma que os pés e a orla do vestido parecem estar cobertos de melaço. Dirige-se a uma rocha grande, que entra pelo mar, senta-se e lava os pés e a ponta do vestido. Quando tem os pés secos, calça as meias e as botas.

No dia anterior, quando desfaleceu na confeitaria em Ely Falls, ian Fogg apanhou-a mesmo antes de ela cair da cadeira. Recuperou os sentidos quase imediatamente, a dor de cabeça era insuportável. O homem deu-lhe água enquanto ela se esforçava por recuperar as forças, apesar da dor na cabeça. Deixou-o levá-la ao trolley e até acompanhá-la a Ely mas, quando chegaram à estação, agradeceu-lhe, despediu-se inequivocamente dele e, apesar dos muitos protestos do homem, apanhou sozinha uma carruagem para casa. Uma vez chegada, subiu ao quarto e caiu na cama. Sucumbiu a um sono profundo e só acordou quase ao meio-dia do dia seguinte.

Diz a si mesma que não voltará a Ely Falls. Viu o filho e isso basta. Escreverá a Rufus Philbrick a agradecer a sua ajuda e ele há-de gostar de saber que ela pôs o assunto de parte.

É-lhe penoso mover-se naquela atmosfera tão carregada, mas Olympia pega no balde de amêijoas e encaminha-se para casa. É como se o mar, o litoral e as casas mais atrás estivessem cobertos por uma película amarela e turva e não pudessem respirar. Decide que vai cozinhar as amêijoas no vapor para a refeição. Tem bolachas salgadas e leite para acompanhar, e com o caldo vai fazer um guisado.

Lava repetidamente as amêijoas, como Ezra lhe ensinou. Descobre uma panela grande e põe água a ferver. A cozinha torna-se rapidamente sufocante. Abre todas as janelas e, como isso não ajuda muito, faz o mesmo na sala da frente.

Olha para a praia, hoje quase deserta, em parte graças à atmosfera desagradável mas também devido ao facto de muitas famílias já terem partido e regressado à cidade. O rebentar violento de trovão assusta-a e, por um momento, pensa que caiu qualquer coisa pesada e dura no pavimento do andar de cima. Em seguida, o dia fecha-se, como se a noite caísse prematuramente. Levanta-se vento que fustiga as paredes da casa. Os caixilhos das janelas tremem sob as rajadas de vento irregulares.

A temperatura desce drasticamente. Enregelada, Olympia encontra um xaile numa cadeira e agasalha-se. O céu, apesar de ameaçador, está estranhamente belo; e ela pensa em como um temporal, ainda que horrendo nas suas circunstâncias, pode criar uma cena de grande beleza. Um hotel em chamas, por exemplo, pode suscitar medo e, por vezes, a bravura das testemunhas da catástrofe, mas comove também esses mesmos observadores pela sua majestade.

O naufrágio foi um acontecimento que ela recorda pela

paradoxal beleza no meio do horror e do medo. Lembra-se do momento em que John Haskell passou por ela com a criança. Em que estava a pensar nessa altura? Que, embora não quisesse chamar as atenções, não se importava que John Haskell a visse? Que nesse instante não podia, voluntariamente, ter-se afastado dessa areia branca e fria em que os seus pés estavam enterrados, a não ser perante a mais extrema ameaça do pai? Que, embora pretendesse ajudar apenas na operação de salvamento, não podia desviar os olhos de John Haskell, cujas formas ela e todos à volta dela viam perfeitamente pois o mar já tinha encharcado o roupão e a camisa de dormir que ele usava por baixo.

E que se passou exactamente entre ela e Haskell na praia durante os escassos segundos que antecederam a alvorada? Não pode ter sido amor - não, claro que não pode - nem sequer paixão, que exige, imagina ela, muito mais experiência mútua do que eles tinham então, sendo ainda o início do Verão. Não, está certa de que foi antes uma espécie de reconhecimento, como se cada um deles conhecesse o outro não apenas do dia anterior mas também de uma data futura.

A chuva abate-se sobre a casa num ângulo quase horizontal, infiltrando-se debaixo do beiral do telhado do alpendre. Uma rajada de vento derruba uma cadeira de vime no alpendre e, tarde de mais, ela lembra-se de que estão lençóis a secar na corda.

Mas foi amor, diz a si mesma. Claro que foi. Já nesse momento. Já nessa noite. Não tinham ela e Haskell já sucumbido a esse perigoso estado de enfeitiçamento a que pode chamar-se amor, obsessão, romance ou simplesmente ilusão, dependendo da proximidade a que se está do acontecimento e da capacidade que se tem para acreditar na noção de que duas almas, que se agitam no universo, podem estar destinadas a encontrar-se e podem ter sido feitas exclusivamente uma para a outra?

O mar arremete contra a areia, desgastando a praia e criando grandes ravinas. Ela sabe que a erosão porá as casas em risco. Encostada a uma vidraça, sente o vento a fazer vibrar o vidro. Não compreendeu as consequências de se apaixonar por John Haskell? Pode ter sido assim tão incauta? Ou imaginou-se magicamente intocável, aflorando simplesmente a superfície das coisas desastrosas e letais como uma gaivota a voar sobre o oceano, nunca as usando verdadeiramente, mas brincando com as ondas? Levanta os olhos e aconchega mais o xaile aos ombros. Onde estará ofilho agora? pergunta-se. E por onde é que ele e a mulher passeiam? Porque é que a mulher tinha um avental preto? Olympia recorda os sapatos gastos de couro castanho do menino, num mau estado quase confrangedor. Sapatos herdados, certamente, porque não pode ter sido ele a desgastá-los assim.

Um grande amor surge uma vez e apenas uma vez, Olympia compreende agora, porque, por definição, não pode haver duas ocorrências destas: o único grande amor perdura na memória, na língua e nos olhos da pessoa outrora amada e nunca pode ser esquecido.

Mergulha a cabeça nas mãos.

Porque tem o amor de ser tão inclemente?

Um vento monstruoso assalta a casa e ela sente a madeira vibrar ao seu contacto. Apavorada, observa o vento a fustigar a praia soprando as cristas das ondas, levantando nas alturas vegetação, madeira e algas marinhas desgarradas. Uma gaivota permanece imóvel sobre a água, incapaz de avançar contra o vento, e uma rajada empurra-a para trás. Mais adiante na praia, uma grande chapa de metal é arrancada a um barracão de pesca. As cadeiras de vime resvalam pelo chão pintado do alpendre e embatem contra a balaustrada com uma série de baques surdos. Olympia ouve vidro a cair no andar de cima.

O furacão vergasta a linha da costa até Bar Harbor. Durante toda a noite, Olympia encolhe-se na cozinha, ouve o estalar da madeira, a elevação das ondas e os gemidos agudos do vento. Um pinheiro tomba junto de casa, não lhe acertando por um triz e, uma ou duas vezes, quando o vento sopra com especial ferocidade, Olympia enfia-se debaixo da mesa da cozinha para se proteger. Pensa em Ezra e espera que ele tenha conseguido chegar a terra antes da tempestade. Num barco no mar, ninguém sobrevive numa noite destas.

De tempos a tempos, Olympia dirige-se à janela da sala e olha para o posto de socorro. O farol está aceso e ela ouve, intermitentemente, como código Morse a ser emitido de um instrumento, a sirene de nevoeiro de Granite Point. Por vezes, o vento força as vigas da casa e o ranger da madeira assusta-a; lembra-a um navio a afundar-se no mar.

Ao nascer do dia, já certas zonas da praia foram erodidas quase até ao paredão. Há casas que foram levantadas dos alicerces e alpendres a que foi arrancada toda a estacaria. O relvado da frente de Olympia está submerso em detritos - folhas e ramos e, como um mau presságio, um impermeável de homem. Ao longo da meia-lua de Fortune's Rocks, há casas que perderam as janelas e os tectos. Onde a tempestade não ravinou a praia, esta está coberta de caixas de metal, pedaços de madeira e vidro. Só o mar, como que vitorioso de uma luta sem nome, continua indómito, as suas ondas monstruosas rolando num estilo majestoso ao longo de um litoral redesenhado.

A medo, as pessoas começam a dirigir-se à praia para inspeccionar os estragos. Olympia põe um xaile sobre os ombros e sai para o alpendre. O ar está desanuviado e cortante como que acabado de lavar. Encaminha-se para o paredão e olha para trás para a sua própria casa da qual repara que caiu um cano da chaminé. Mas embora examine a sua casa, os seus pensamentos estão longe, e interroga-se como, aliás, se há-de interrogar um milhar de vezes (e é como se já compreendesse que, porque nunca se libertará desta apreensão, deve dar-lhe uma solução ou enlouquecer com a distância, com a impotência da distância) sobre o que aconteceu à mulher e à criança. Decerto que a tempestade teve menos impacto no interior, mas poderão essas pensões resistir aos ventos tremendamente fortes de um furacão? E os cabos eléctricos? Haverá água corrente a criança, cujo verdadeiro nome Olympia não consegue pronunciar ainda, está em segurança?

No décimo dia depois da tempestade, Olympia apanha o primeiro trolley da estação de Ely para o que se torna uma árdua viagem de hora e meia até Ely Falls, três vezes a duração de uma

viagem normal. Ao longo do trajecto, Olympia e os restantes passageiros ficam levemente aturdidos ao contemplar os destroços da tenpestade: linhas telefónicas e eléctricas ainda por terra, carruagens capotadas e telhados que desabaram sob o peso de pinheiros tombados cujas raízes pouco fundas não conseguiram mantê-los de pé sob a violência do vento.

No rescaldo da tempestade, a temperatura arrefeceu. Pela primeira vez desde que voltou para Fortune's Rocks, Olympia tirou fatos de lã dos baús, arejou-os no alpendre e pendurou-os nos armários estreitos de vários quartos. Para a viagem a Ely esta manhã, escolheu o seu melhor fato de dia, um casaco e uma saia de lã challis cinzento-acastanhados que ela gosta de vestir com uma blusa de gola subida e laço de veludo. O chapéu, um toque cor de ameixa, repousa-lhe de viés sobre o carrapito. Apercebe-se imediatamente, ao olhar para os seus companheiros de viagem no trolley, que a moda se alterou durante os quatro anos que esteve ausente. As saias são mais compridas, as mangas mais cheias e, na globalidade, o vestuário parece menos complicado.

Com vários outros passageiros, Olympia apeia-se na esquina de Alfred Street e Washington Street onde há homens em andaimes a reparar um telhado e a envidraçar janelas. Leu, no Ely Falls Sentinel, que dezassete operários fabris pereceram quando uma fiação; ruiu durante o furacão, o dono da fiação relutante em cancelar o turno da noite apesar das súplicas repetidas dos trabalhadores para suspender as operações. Olympia leu a lista dos mortos como uma esposa que examina listas de baixas de guerra, os olhos passando rapidamente os nomes, à procura de um único apelido. Ao contrário do ambiente da cidade na visita anterior de Olympia - que apesar do calor opressivo, estranhamente animado - hoje os habitantes citadinos parecem solenes e até sombrios. Olympia percorre Alfred Street, reparando nas montras que ainda estão entaipadas em muitas lojas.

A meio da rua, Olympia sobressalta-se com o som de um

toque, semelhante ao de um comboio que se aproxima. Poucos minutos depois, a rua fervilha de homens e mulheres que se encaminham rapidamente para as entradas das pensões. Olympia levanta os olhos para a torre do relógio na esquina de Washington; é meio-dia e cinco. Deve ser com certeza uma pausa para almoçar.

Encontra a porta do 137 e, mais uma vez, senta-se no banco do outro lado da rua. Entram várias mulheres pela porta azul, mas não a mulher que Olympia procura. Reflecte sobre a sensatez de abordar alguém nos degraus desse edifício a perguntar pela Bolduc mas, perante a falta de bom senso do plano, abandona a ideia. Apercebe-se quase imediatamente de que não poderá permanecer muito tempo no banco porque o tempo arrefeceu, andam poucas pessoas pelas ruas e, desse modo, dará mais nas vistas que na última visita.

Precisamente à uma menos dez, saem da porta da pensão dezenas de pessoas, as mulheres a calçar luvas, a verificar as carteiras, a segurar nos chapéus enquanto estugam o passo pelo passeio de volta ao trabalho. À uma hora, já a rua está silenciosa.

Enregelada no fato de callis cinzento-acastanhado, Olympia dirige- se à padaria e entra. Uma empregada de uniforme preto, com um avental azul, olha para Olympia, surpreendida, como se a padaria estivesse fechada.

- Queria uma chávena de chá - pede Olympia.

- Já acabámos de servir os almoços - diz a empregada -, mas acho que para uma chávena de chá se dá sempre um jeito.

- Obrigada - diz Olympia. Ocupa uma cadeira junto de uma janela e coloca-se de forma a ter uma excelente vista do número 137. Descalça as luvas e coloca-as no bolso do fato. Encorajada pela ideia de que pode muito bem sair de Ely Falls sem mais um único fragmento de informação sobre o filho, pergunta à empregada, quando ela volta com o chá, se conhece uma família de nome Bolduc.

- Devo conhecer - diz a rapariga com um sotaque que soa irlandês. - Dezenas de Bolducs por estas bandas. A que família se refere?

- Albertine? - diz Olympia, prendendo-se-lhe a respiração.

- Telesphore?

- Então está com sorte - diz a empregada, limpando as mãos ao avental. - Vivem mesmo aqui em frente.

Olympia sorri perante a sua aparente boa sorte.

- Mas qual deles quer? - pergunta a rapariga. - Hoje só encontra a Albertine em casa depois das quatro horas, quando o primeiro turno acabar. Mas, se é com o Telesphore que quer falar, ele está em casa até às quatro. - Olhe - diz a rapariga, apontando para a porta azul -, é ali que vivem. Não tem ar de ser parente, deve ser amiga.

- Amiga - confirma Olympia.

- Deve conhecer o menino.

- Sim - diz Ulímpia.

- É um amorzinho, não é?

Olympia aquiesce.

- Não sei quando é que o marido e a mulher estão juntos - diz rapariga. - Com turnos desencontrados. Um a entrar, o outro a sair. Como o guarda-nocturno e a mulher-a-dias. Sou capaz de lhe arranjar um prato de guisado de ostras, se estiver com fome.

Olympia, que não deseja rejeitar nada do que a rapariga tiver para oferecer, responde que lhe saberia muito bem.

O guisado está aguado, mas Olympia esforça-se por comer. Come devagar para ganhar tempo, não querendo abandonar o seu ponto de observação privilegiado. A empregada serve-lhe bolachas salgadas, scones e pastéis e depois pede licença, dizendo que estará nas traseiras a almoçar.

Durante algum tempo, Olympia fica sentada à mesa que o sol da tarde agora aquece. Comeu tanto que quase passa pelas brasas. Mas, às 3h50, segundo a torre do relógio, fica alerta quando Albertine, hoje de austero vestido de algodão preto com avental da mesma cor, subir a correr os degraus de pedra de acesso à porta azul. Cinco minutos mais tarde, um homem com camisa de trabalho azul e boina de pano preta (tem a cabeça baixa e Olympia não lhe apreende completamente as feições) sai pela porta e desce os degraus para o passeio. Confusa agora quanto ao que há-de fazer, pois não tem a menor intenção de ir bater à porta, Olympia continua sentada por mais algum tempo. E, pouco depois, a sua paciência é recompensada. Às quatro e vinte, Albertine Bolduc abre uma vez a porta. Olympia prepara-se para o choque que sabe que está para vir mas, quando a criança aparece, detendo-se no degrau de cima e pestanejando com a luz do sol, Olympia compreend que preparação alguma jamais será suficiente para o golpe que a abate com tal força que tem de apertar os nós dos dedos contra a mesa.

O abundante cabelo cor de noz do rapaz parece ter sido recentemente cortado, usando uma tigela como molde. Cai-lhe doramente sobre as sobrancelhas, acentuando-lhe o luminoso de avelã dos olhos. Os olhos dominam-lhe as feições, pequenino, a boca arqueada e a barbela roliça. Pega instintivamente na mão da mãe e, juntos, descem os três degraus de pedra. Desta vez, veste calças mais compridas e uma camisola cinzenta com uma boina de lã a condizer. Só os sapatos, os atacadores estragados de couro castanho, são os mesmos.

Olympia deixa algumas moedas na mesa e sai da loja. Segue o par a uma distância discreta. Está consciente que um tipo particular de loucura se apoderou dela e de uma forma que nunca julgou possível. Sente-se desconfortavelmente como a espia que é na realidade. Mas, apesar de compreender o absurdo das suas acções, não é capaz de desviar os olhos nem de deixar a mulher e a criança desaparecerem de vista. Mantendo-se pelo menos a um quarteirão de distância deles, Olympia segue o par até à esquina de Alfred e Washington Street e depois por Washington até Pembroke, sempre ladeada por pensões, edifícios de tijolo idênticos com janelas pequenas e paliçadas sem pintura a cercar relvados pelados. Albertine e a criança entram numa destas pensões, o rapaz sobe a correr os degraus de entrada e abre a porta como se o tivesse já feito uma centena de vezes.

Olympia, incapaz de os seguir em Pembroke com receio de ser detectada, fica na esquina e observa este pequeno quadro. Quer sentar-se e esperar que o rapaz torne a sair, porque ir-se embora significa abandoná-lo, e decorrem alguns minutos até conseguir dar meia-volta e dirigir-se de novo para a paragem do trolley. São quase cinco horas e ela sabe que deve apanhar o último transporte para Ely senão ficará retida em Ely Falls.

Durante algum tempo, caminha às cegas, incapaz de parar para pensar no filho. Será isto tudo quanto há-de ter dele? Para sempre? Estes vislumbres clandestinos? Porque nunca poderá existir qualquer interacção com Albertine, Olympia compreende agora. Nunca. Nem Olympia pode insistir nestas contemplações furtivas sem correr o risco de ser descoberta. E para isso não está preparada.

Não pode continuar assim. Não pode. Tem de pôr fim a esta obsessão como uma vez jurou fazer. Tem de o esquecer e seguir em frente. Tem de arranjar um emprego, talvez como preceptora ou professora. Talvez possa pedir ajuda a Rufus Philbrick nesta matéria. Imagina que ele se mostrará consideravelmente mais entusiástico em ajudá-la a conseguir trabalho do que se mostrou em relação ao filho.

Consumida com estes pensamentos, Olympia avança sem reparar por onde vai e, ao fim de algum tempo, quando levanta os olhos, descobre que, embora continue na zona comercial de Ely Falls, não sabe onde se encontra. Quando olha em volta, repara no banco de New Hampshire e na sede do Ely Falls Sentinel. Há uma agência funerária e uma companhia de seguros que parece ocupar completamente um maciço prédio de escritórios em pedra. Há mais alguns escritórios com letreiros na frontaria ou nas janelas ou, mais discretamente, em placas de latão ao lado das campainhas. Divisa, do outro lado da rua, ao nível do rés-do-chão, um letreiro preto por cima de uma porta. Um letreiro preto com nomes gravados a dourado. ADVOGADOS. Desvia os olhos do letreiro e olha fixamente através da vidraça para o átrio do banco. O banco está fechado e ela interroga-se sobre que horas serão.

Pensa que os escritórios também estarão encerrados. Mesmo que batesse à porta, ninguém atenderia. E, se não estiver lá ninguém, será um sinal, um presságio, não é assim? Poderá então afastar-se definitivamente deste problema. Regressará a Fortune's Rocks, ficará por lá e nunca mais voltará a Ely Falls. Sim, será um sinal. Um sinal que não poderá ignorar.

E, assim, armada destas frágeis ilusões, Olympia atravessa Street, em Ely Falls, a 14 de Setembro de 1903, e entra no consultório jurídico de Tucker & Tucker, pai e filho, advogados, a anunciar que pretende exigir a restituição do seu filho, Peter Francis Haskell, e que têm de ajudá-la a consegui-la.

 

E diz que o conheceu em casa do seu pai? - pergunta Payson Tucker.

O jovem advogado tem no regaço um caderno marmoreado, idêntico aos que Olympia usava para praticar caligrafia quando era mais nova. Tucker toma notas de tempos a tempos, embebendo a pena num tinteiro de vidro listrado que tem na secretária atrás de si. O gabinete é pequeno - madeira polida, couro castanho e tachas de latão - e lembra a Olympia a biblioteca do pai, em Boston. E talvez seja essa associação ou os modos sérios e atenciosos de Tucker que emprestam autoridade às suas perguntas.

- Conhecemo-nos no dia 21 de Junho de 1899, em casa do meu pai em Fortune's Rocks - diz Olympia. - Lembro-me particularmente bem porque foi o dia do solstício de Verão.

- E que idade tinha então?

- Quinze anos. - Observa Tucker atentamente à espera de uma reacção, mas a sua expressão mantém-se impassível.

- E que idade tinha Mr. Haskell?

- Tinha quarenta e um anos nessa altura.

- E que idade tem agora, Miss Biddeford?

- Vinte anos.

Tucker ajeita os óculos de aros dourados e estuda-a por um momento. - E John Haskell estava em sua casa de visita ao seu pai? - acrescenta.

- Sim - responde ela. - Estava com a mulher e os filhos.

- Compreendo - diz Tucker, evasivamente, e Olympia interroga-se sobre o que ele compreenderá ao certo. Tenta adivinhar-lhe a idade. vinte e cinco, vinte e seis anos mas ele parece um homem que pretende aparentar mais idade, as entradas que já tem no cabelo ajudando a este esforço. É um homem esguio, de bigode, pele clara e cabelo preto e sedoso, que ocasionalmente lhe cai sobre o rosto quando baixa a cabeça.

- Importa-se de me dar os nomes deles? - diz ele.

- Catherine - responde ela. - É. era. a mulher dele. Não sei ao certo se se divorciaram formalmente. Só ouvi dizer que ela não vive com ele e creio que nunca mais se encontraram desde Agosto de 1899. Os filhos chamam-se Martha, Clementine, Randall e May.

Poucos momentos antes, ao entrar no consultório de Tucker & Tucker, Olympia interrompeu Payson Tucker no acto de pegar na pasta e no chapéu para se ir embora no fim do dia de trabalho. Apresentou-se, gaguejando um pouco, e disse que precisava de um advogado. Tucker pareceu um pouco espantado e fez-lhe sinal para que se sentasse. Desde então tem estado a responder às suas perguntas o melhor de que é capaz.

- Que idade tinham na altura? - pergunta ele.

- Doze, no caso da Martha. Os outros eram mais novos.

- E onde está John Haskell agora?

- Não sei.

Tucker pousa a pena. - Talvez seja melhor contar-me a história toda desde o princípio - diz.

Olympia desvia momentaneamente os olhos para uma estante alta de carvalho. Há centenas de volumes nas prateleiras, livros encadernados a couro com títulos complicados. Hesita, embaraçada com a ideia de partilhar os pormenores dos actos mais privados da sua vida, pois as palavras, como ela sabe, mesmo nas suas melhores combinações, ficam inevitavelmente aquém da realidad e nunca todas as palavras que possui poderão descrever a alegria e felicidade que viveu com Haskell. Receia, pelo contrário, correr o risco de reduzir essas experiências extraordinariamente sublimes a movimentos mecânicos, a simples imagens. Imagens pelas quais outra pessoa poderá encolher-se de horror. Perante as quais um observador incauto, que abriu súbita e inadvertidamente a cortina sobre um casal de amantes nos seus mais íntimos momentos, poderá ficar escandalizado. E esta interrupção, este outro par de olhos, não transformará, em última instância, o acontecimento subtraindo-lhe algo de precioso?

- Posso contar-lhe o que se passou - diz Olympia ao advogado -, mas antes tenho de lhe chamar a atenção para uma coisa importante.

- Sim, com certeza.

- Embora eu fosse muito nova e não compreendesse totalmente a magnitude do que estava a fazer, não fui seduzida. Nunca fui seduzida. Tinha vontade própria e alguma percepção das coisas. Podia ter parado em qualquer momento. Compreende?

- Penso que sim - diz ele.

- Acredita em mim?

Ele avalia-a ponderadamente, segurando a pena entre o polegar e o dedo indicador, sacudindo-a inconscientemente para trás e para a frente. Ela pensa se Tucker & Tucker significa pai e filho ou irmão e irmão. - Sim - responde ele. - Sim, acredito. Julgo que não diria isso se não fosse verdade.

Está calor no consultório e ela descalça as luvas. - Eu e o John Haskell estivemos na companhia um do outro várias vezes nesse primeiro fim-de-semana - começa ela. - E depois voltámos a encontrar-nos no 4 de Julho. Tornámo-nos. íntimos. cerca de duas semanas mais tarde. Estivemos juntos apenas durante sete semanas nesse Verão.

- E o John Haskell e a família viviam onde?

- O Haskell vivia no Highland Hotel. Em Fortune's Rocks. A Catherine e os filhos estavam em York, no Maine, com os pais dela, enquanto a casa deles em Fortune's Rocks não ficava pronta.

- Sim, conheço o Highland. E no seu caso Tucker hesita

sacudindo um borboto imaginário da manga da sobrecasaca de riscas finas - ia com ele para este hotel? Ou ele ia ter consigo a sua casa? Ou encontravam-se noutro local?

- Normalmente, era eu que ia ter com ele ao hotel - diz ela com dificuldade, pensando: não havia nada de normal na situação.

- Ele visitou a minha casa em três outras ocasiões, e foi a última vez que o vi.

- E isso foi quando?

-10 de Agosto.

- O que aconteceu nesse dia?

Olympia olha para o regaço. Está a apertar as mãos uma na outra com tanta força que os nós dos dedos estão brancos. Pensa em quando viu Haskell pela última vez, em todos os dias que desembocaram nessa última vez. Em todos os dias em que podia ter impedido Haskell e Catherine de aparecerem em casa do pai para a festa. Mas não impediu porque já tinha entrado, sabe-o, nessa fase de uma ligação amorosa em que todos os encontros com a pessoa amada são desejáveis, por mais formais ou constrangedores que sejam, pois oferecem não só uma oportunidade de contemplar o amante, mas também de experimentar essa emoção estranhamente deliciosa da comunicação muda na presença de circunstantes inocentes. Olympia podia dizer a Payson Tucker que desejava que o pai não tivesse convidado os Haskell ou que estava apreensiva com a possibilidade de causar a Catherine Haskell, que admirava sinceramente, a mais pequena preocupação, mas fazê-lo seria insincera; para não dizer completamente falso.

- O meu pai deu uma festa e os Haskell estiveram presentes. A Catherine Haskell descobriu-nos juntos nessa noite.

O advogado embebe a pena no tinteiro e toma uma nota. - Descobriu-os ou alguém descobriu e lhe disse?

Olympia desvia os olhos.

- Se for demasiado penoso. - diz ele.

- Mrs. Haskell teve ajuda - responde. - De um homem chamado Zachariah Cote.

Payson Tucker levanta os olhos do caderno. Olympia capta

o reflexo de luz dos óculos dele. - O poeta?

- Sim - responde, um pouco surpreendida por Tucker ter ouvido falar de Cote. - Não voltei a ver o John Haskell desde esse dia - acrescenta Olympia.

- Para onde é que ele foi?

- Na noite de 10 de Agosto ficou na casa nova. Não sei onde foi depois disso. Acho que deixou Fortune's Rocks e Elly Falls.

- Também vivia em Ely Falls - pergunta o advogado.

- Não, era médico no hospital da fiação de Ely Falls.

- Ah, compreendo. E quando descobriu que estava grávida?

Tucker faz a pergunta como se fosse um facto entre mil, uma simples frase num parágrafo. Olympia abre a boca para falar, mas não consegue. Sente o calor alastrar-se-lhe pela cara. Tucker, que a observa atentamente, inclina-se na sua direcção. Uma madeixa de cabelo cai-lhe para a frente e ele prende-a atrás da orelha.

- Miss Biddeford, eu sei que estas perguntas são penosas. E acho que demonstrou grande coragem nas suas respostas. Mas, se vou aceitar o seu caso, preciso desta informação. Preciso igualmente de saber se tem a energia necessária para enfrentar determinadas reali dades do seu passado. Acredite quando lhe digo que isto não passa de um levíssimo antegosto das perguntas que lhe serão feitas caso decida levar avante a acção judicial.

Olympia inspira e faz um gesto de assentimento. - Eu e a minha família deixámos Fortune's Rocks na manhã do dia 11 de Agosto

- diz ela. - Os meus pais vivem em Beacon Hill, em Boston. Descobri que estava grávida no dia 29 de Outubro.

- Foi examinada por um médico?

- Não imediatamente.

Tucker reclina-se na cadeira. Atrás dele, na secretária, num porta- retratos de prata, está a fotografia de uma bela mulher na casa dos trinta - a mãe dele decerto, imagina Olympia. Quando era nova.

- Miss Biddeford, a próxima pergunta é extremamente embaraçosa, mas tenho de a fazer. Há alguma possibilidade de ser outro homem, um homem que não John Haskell, o pai do rapaz de que fala?

Apesar da advertência de Tucker, Olympia fica chocada, não tanto com a pergunta em si, mas com a ideia de que alguma vez pudesse ter tido uma relação dessas com outra pessoa que não Haskell.

- Não - responde com veemência. Absolutamente nenhuma possibilidade.

- Óptimo - diz ele, e parece genuinamente aliviado. - Muito bem. Nessa altura, contactou John Haskell para lhe dar a notícia?

- Não.

- Diga-me o que aconteceu no dia em que deu à luz.

- Não sei bem o que aconteceu. Deram-me láudano na fase final do parto e eu fiquei sonolenta, de forma que, quando acordei, a criança já me tinha sido tirada.

- Mas viu o bebé?

- Vi.

- E sabia que era um rapaz?

- Disseram-me que era um rapaz.

- Teve a assistência de um médico ou de uma parteira?

- Um médico. O Dr. Ulysses Branch de Newbury Street, em Boston.

- Foi ele que lhe tirou a criança?

- Não sei. Presumo que quem quer que tenha sido o fez a pedido do meu pai já que ele se tinha referido, por uma ou duas vezes, às disposições, que tinha tomado. Embora nunca tivesse falado directamente comigo, nem nessa altura nem mais tarde, sobre o que era feito da criança.

- Alguma vez o questionou frontalmente?

- Não - responde ela. - Não questionei. - E agora parece-lhe estranho não o ter feito. Como pôde ter aceitado a sua sorte de uma forma tão submissa?

- O seu pai saiu de casa nessa noite?

- Não, não saiu.

- Então deve ter entregado a criança a outra pessoa?

- Sim. Não sei exactamente a quem entregou a criança,

tenho razões para crer que o bebé foi entregue pouco depois

aos cuidados do próprio John Haskell.

- A razão por que estou a insistir nos pormenores do momento é que a questão do modo e do momento em que a criança lhe foi tirada pode ser importante - explica ele.

- Sim, eu compreendo.

- Como é que soube do paradeiro da criança?

- Por acidente - diz ela. - Pouco depois de chegar a

Fortune's Rocks. ou antes, de ter voltado para Fortune's Rock's em Julho passado. recebi a visita de um velho amigo do meu pai, Rufus Philbrick.

- Sim, sei quem é - diz Tucker, interrompendo-a.

- Nessa visita, deixou escapar inadvertidamente que a criança estava no orfanato de Saint Andre.

- E como é que ele tinha conhecimento disso?

- É membro do conselho de administração - respondeu ela.

- No dia seguinte fui a Saint Andre e falei com uma freira que julgo chamar-se Madre Marguerite Pelletier. Ela disse-me que a criança estivera no orfanato, mas que tinha sido dada para adopção. Disse-me o primeiro nome do rapaz. Recusou-se a dizer o apelido.

- Mas diz que a criança se chama. - Tucker consulta os seus apontamentos - Pierre Francis Haskell.

- Sim - diz Olympia. - Fiz uma visita ao Rufus Philbrick e pedi- lhe para descobrir o paradeiro do menino. Ele disse-me que a criança tinha tido. se é que não continuava a ter. o nome de Haskell. Mais tarde, confirmou este facto.

- Que mais é que ele lhe disse?

- Não pôde dizer-me muito mais nesse dia em particular, mas mais tarde escreveu-me a dizer que os tutores da criança eram franco- americanos, Albertine e Telesphore Bolduc. Que viviam no número 137 de Alfred Street, aqui em Ely Falls, e trabalhavam na fiação de Ely Falls. Que o menino tinha três anos e era saudável. Já o vi e tem uma aparência sadia. É tudo o que sei. Ah, e foi baptizado segundo a religião católica.

- Falou com ele?

- Não, vi-o à distância.

Tucker tira os óculos e limpa-os com um lenço. - Alguma coisa na aparência do rapaz lhe sugere que é a criança em questão?

Olympia sabe que nunca esquecerá o choque ao ver as feições do rapaz. - Sim. Definitivamente. Parece-se muito com o pai. Creio que qualquer pessoa notaria a parecença.

Tucker volta a colocar os óculos. - Falou com Albertine ou Telesphore Bolduc?

- Não.

- Comunicou a alguém o seu desejo de exigir a restituição do seu filho?

- Apenas ao Rufus Philbrick.

- E diz que viu a criança hoje novamente?

- Sim.

Tucker recosta-se na cadeira e cruza as mãos diante do queixo.

- Não lhe posso dizer hoje se é ou não possível interpor esta acção - diz.

- Compreendo.

- Vou precisar de investigar determinados aspectos. Ela faz um gesto de assentimento.

- Para isso, vou ter de contratar um investigador particular. É um procedimento normal nestes casos.

- Sim - diz Olympia.

- Lamento ter de abordar a questão dos honorários, mas receio.

- Eu tenho dinheiro - diz imediatamente Olympia. - O dinheiro não constitui problema.

- Muito bem então - diz ele, levantando-se, e ela interpreta isto como uma deixa para fazer o mesmo.

- Posso mandar vir a sua carruagem? - pergunta ele. - Ou tem automóvel?

- Mr. Tucker, eu vivo sozinha - diz Olympia. - Não tenho carruagem nem automóvel e penso que perdi o último trolley para Ely. Se não se importar de me chamar um táxi.

Tucker tira o relógio de ouro do bolso do colete e consulta-o.

- Sim, sim, com certeza - diz. Volta-se e parece procurar qualquer coisa na secretária. - Está contactável por telefone?

- Não.

- Então vou precisar da sua morada.

- Sim, certamente.

- Poderei ter de visitá-la em Fortune's Rocks de tempos a tempos para discutir este processo - diz Tucker casualmente. Vira-se para ela com um livro de endereços na mão. E ela fica surpreendida ao notar, na expressão de Payson Tucker, que ele a acha interessante ou intrigante ou possivelmente até atraente. E que, por esse motivo, aceitará o seu caso. Por um momento, Olympia pondera na embaraçosa questão de tirar ou não partido desta atracção para obter o que deseja.

E, em seguida, pensa no seu filho e nos seus sapatos de couro estalado.

- Ficarei ansiosamente à espera das suas visitas - responde.

Quando Olympia regressa a Fortune's Rocks, escreve a Philbrick a dizer-lhe que contratou um advogado para tratar do filho. Escreve também ao pai a pedir dinheiro, omitindo este caso. Enquanto aguarda a resposta de ambos, considera a possibilidade de ganhar algum dinheiro adicional para custear umadvogado para a acção de custódia; mas não lhe ocorre nenhuma solução imediata para ganhar a vida, excepto oferecer os seus serviços como preceptora, coisa que francamente não deseja fazer. Para passar o tempo, lê livros e jornais, mas o mundo exterior parece-lhe cada vez mais remoto, sobretudo com a partida dos veraneantes de Fortune's Rocks. Os dias arrefecem ainda mais e ela começa a duvidar se conseguirá, afinal, continuar na casa.

No dia 28 de Setembro, Olympia recebe uma carta - mas não de Rufus Philbrick nem do pai.

27 de Setembro de 1903 Cara Miss Biddeford,

Estarei no Highland Hotel no dia 2 de Outubro e teria muito prazer em que jantasse comigo. Compreendo que possa ser difícil para si e, se preferir, tenho todo o gosto em sugerir uma alternativa. Em qualquer dos casos, posso ir buscá-la às seis horas da tarde do dia 2. Tenho algumas informações relativas à sua acção de custódia que julgo que terá interesse em saber.

Respeitosamente, Payson Tucker, Esq.

Olympia senta-se à mesa da cozinha com a carta na mão e lê-a mais uma vez. O Highland Hotel. Vê os tectos altos, o átrio cavernoso, os compridos balcões de mogno. Nunca imaginou que conseguisse entrar novamente no Highland, mas agora parece um acto de cobardia ter de dizer a Payson Tucker que não é capaz de lá ir, sobretudo quando deseja impressioná-lo com a sua coragem e determinação. Tira uma pena e tinta da gaveta da mesa da cozinha e começa a escrever.

29 de Setembro de 1903 Caro Mr. Tucker,

Terei todo o gosto em jantar consigo no Highland Hotel na noite do dia 2 de Outubro. Espero pois que me venha buscar às seis horas. Estou ansiosa por saber que informações recolheu.

Aguardando a sua chegada, creia-me, Olympia Biddeford

Seca a carta com mata-borrão, mete-a num envelope e sela-a com lacre. Passa os olhos pela cozinha.

Está então a começar, pensa.

Olympia veste, para a noite de 2 de Outubro, um fato de veludo verde-esmeralda debruado a galão entrançado em preto e com alamares. O fato, embora um pouco fora de moda, endireita-lhe os ombros e favorece-lhe o peito. Veste uma blusa de seda branco-marfim de gola alta que pertencia à mãe e ficou esquecida nos armários dela. Como adorno, Olympia opta por pérolas: brincos de pingente, um colar e uma pulseira. Ocupa-se com o penteado durante quase uma hora, formando madeixas largas dos lados e um duplo carrapito atrás. Quando acaba de se arranjar, examina-se ao espelho da cozinha e fica um tanto surpreendida ao notar que suas feições parecem-lhe consideravelmente mais adultas, com planos mais acentuados. Está igualmente mais magra, de algum modo mais esguia, ou talvez seja apenas uma ilusão criada pelo fato. Não, está definitivamente mais magra. Parece uma estranha aos seus próprios olhos e, contudo, estranhamente familiar, familiar de um tempo em que não era raro vestir veludo e usar pérolas e passar uma hora a arranjar o cabelo.

Payson Tucker aparece exactamente às seis horas, tal como dissera, num elegante automóvel preto e amarelo-limão. A sua camisa branca brilha com a luz dos faróis ao passar diante da viatura, depois de a ajudar a entrar. Parece mais entroncado, mais ágil do que ela o recorda. Como é apenas a segunda vez que Olympia anda de automóvel (embora não o diga a Tucker), está ligeiramente mais que trémula quando começam a rolar mais depressa do que seria prudente pela estrada estreita e sinuosa entre o paredão e as casas de férias de Fortune's Rocks.

- Deve ser uma das poucas pessoas que ainda estão aqui na praia - diz ele.

- Acho que sim.

- Não se importa de estar tão isolada? – pergunta ele.

- Não - Olympia responde. - Por acaso, acho que até estou a gostar.

No hotel, um criado ocupa-se do automóvel de Tucker, que toca ao de leve no cotovelo de Olympia guiando-a pela longa escadaria. Embora se tenha preparado, ela hesita um pouco quando entram no átrio, um passo em falso que procura dissimular com a conversa.

- O que o traz ao Highland tão no fim da época? - pergunta a Tucker.

- Tenho assuntos a tratar em Fortune's Rocks hoje e amanhã - responde ele, conduzindo-a com segurança através do átrio - e pareceu-me não fazer sentido viajar para Exeter, onde resido, e voltar para cá. E, além disso, deu-me uma oportunidade excelente para voltar a vê- la.

Condu-la para a sala de jantar que parece não ter mudado em nada. Ela repara que se encontram presentes poucos comensais nesta terça-feira de Outubro. Olympia e Tucker são conduzidos a uma mesa com velas brancas e rosas estivais tardias e, ao sentar- se, regista os copos cintilantes, os baldes de gelo de prata para o champanhe, os talheres pesados, o maciço candelabro de cristal no centro da sala de jantar e, depois, o menu (guisado de carneiro e feijão verde, peru com molho de ostras, sopa de carne de vitela, pudim de maçã), reflectindo que passaram quatro anos desde que apareceu em sociedade pela última vez. E reflecte ainda que, quando aparecia, não dava valor ao luxo, à decoração, à comida, aos atavios, como se fossem uma regalia hereditária, um direito, nem pensava - por mais vagamente que fosse - naqueles a quem esse luxo nunca seria proporcionado. Talvez o esquecimento seja necessário, pensa, para desfrutar ou mesmo tolerar este excesso.

- O hotel só vai estar aberto mais uma semana - diz Tucker.

- Parece que não estão cá muitos hóspedes. Vai estar um pouco perdido por aqui.

- Se me permite que lhe diga... e espero que não fique ofendida... está muito bonita esta noite - diz Tucker. Tira os óculos e coloca-os na mesa, ao lado do prato. Ela fica surpreendida ao ver que sem os óculos de aros dourados os olhos dele são imtensamente negros e as pestanas compridas e sedosas.

- Se ficar ofendida com essa afirmação - diz Olympia -, não sei como havemos de prosseguir com o meu caso. Se bem me lembro, falámos de assuntos bem mais inquietantes aquando da nossa primeira conversa no seu consultório.

O cabelo de Tucker, hoje penteado para trás, brilha com pomada ou óleo capilar. Deve ser também uma nova moda, pensa Olympia, e está certa de que o seu fato verde-esmeralda, por mais alterações que sofra, será visto como desesperadamente antiquado.

- Vive com a sua família em Exeter? - pergunta ela.

- Vivo com a minha mãe, o meu pai e uma irmã - responde ele. - Estou a trabalhar com o meu pai que teve a amabilidade de me aceitar. Se tivesse chegado meia hora mais cedo ao nosso consultório, o seu advogado seria ele.

- Bem, então, ao menos uma vez na vida, fico contente por ter chegado atrasada - diz ela.

- E eu também fico extremamente contente - diz Tucker tal vez com mais entusiasmo do que o necessário para Olympia sentir à vontade.

Um criado chega com um champanhe que é tão seco que, quando Olympia bebe o primeiro gole, parece borbulhar-lhe pelo estômago acima.

- Gosta de ostras? - pergunta ele.

- Sim, gosto.

- Sinto-me na obrigação de mencionar, visto que não quero enganá-la nem comprometer de maneira nenhuma a sua acção, que só concluí o curso de Direito em Yale há um ano - diz ele com a maior candura, depois de o criado se afastar. - Discuti o caso com o meu pai e, se preferir que ele a represente, não me sentirei de maneira alguma melindrado. Na verdade, aconselho-a a considerar seriamente esta opção. O meu pai tem muito mais experiência com os tribunais estaduais do que eu, embora o seu caso seja invulgar, e ele nunca tenha defendido, lamento dizer, uma causa como a sua. Não consigo, aliás, encontrar nenhum processo semelhante nos arquivos do condado.

- É assim tão invulgar? O meu caso? - pergunta ela.

- Parece que sim. Tanto quanto me apercebo, só se deram dois processos semelhantes na Nova Inglaterra.

Dá ideia de que vai continuar a falar, mas abstém-se, cofiando o bigode.

- E o resultado desses dois processos? - pergunta ela decorridos uns momentos.

- Nenhum dos casos foi bem sucedido - diz ele, em voz baixa.

- Estou a ver - diz Olympia.

- Fiquei fascinado ao ler a história da sua casa - diz Tucker, numa tentativa evidente para mudar de assunto.

- Teve oportunidade de ler a história da minha casa? - pergunta ela, levantando os olhos.

- Pareceu-me reconhecer a morada quando esteve no meu consultório. Há seis meses, quando estava a trabalhar num processo da diocese católica de Ely Falls, deparei-me com uns documentos antigos relacionados com o convento - diz ele. - Sabia que a Igreja foi obrigada a encerrar o convento? Pelos vistos, houve um escândalo.

- Não - diz ela. - Sempre pensei que a igreja tinha decidido transferir as irmãs para Ely Falls para que pudessem administrar o hospício e o orfanato. Tenho a certeza de que foi o que disseram ao meu pai.

- Pois, não duvido disso. Parece que o escândalo foi abafado.

A Igreja Católica tinha... tem... uma tremenda influência política em Ely Falls. - Faz uma pausa enquanto o criado serve as ostras numa grande travessa de prata com gelo esmagado, limão e molho de rábano. - A casa foi construída nos finais da década de 1870 para albergar raparigas que as próprias famílias consideravam rebeldes ou que tinham prevaricado. Um convento dentro dum convento, por assim dizer - explica Tucker.

- Colegiais?

- Algumas só tinham doze anos. Outras vinte. Algumas eram

vítimas de maus tratos ou eram criadas de quem os patrões tinham...

Olympia pousa o garfo das ostras. - Mr. Tucker, surpreende-me com essa história.

- Miss Biddeford - diz ele ao jeito de um homem que acaba de tomar consciência de uma terrível gafe social -, sinto muito.

- Não é por causa da história - diz ela. - Mas por causa do seu evidente paralelismo com a minha situação. Presumo que estamos a falar de mães solteiras.

- Claro, não foi minha intenção... não sei como é que fui... pura e simplesmente não a vejo como uma dessas infelizes raparigas. Peço-lhe sinceramente desculpa se a ofendi.

- Não, não - diz ela, acenando com a mão. - Não se preocupe. Não posso fingir que essa história não me surpreende e, obviamente, sou muito sensível à minha própria situação, mas já agora aproveito para lhe dizer, Mr. Tucker, que senti um enorme alívio por poder falar com alguém sobre tais assuntos. Tenho-os guardado no coração durante todos estes anos e nunca me abri com ninguém. E quando não podemos falar de factos que são verdadeiros, vemo-los crescer, distorcer-se e ganhar mais importância do que devíamos permitir, e o resultado é que ficamos atrofiados pelos actos do passado. A verdade é que tenho vivido estes quatro anos sem qualquer outra realidade.

Tucker fica momentaneamente calado. - Lamento que o passado a tenha onerado tanto, Miss Biddeford - diz ele, com preocupação evidente -, e, no entanto, confesso que me sinto honrado por ser o recipiente dessas verdades intimamente guardadas.

Olympia leva o guardanapo à boca. - Normalmente não sou assim tão susceptível - diz ela rapidamente. - Por favor, conte a sua história. Espicaçou-me a curiosidade.

- Bem, é uma história absolutamente sinistra. Os bebés eram tirados às raparigas à nascença e entregues ao orfanato. Nesse tempo, o grosso da população do orfanato era composto por bebés que eram, em grande medida, a razão da sua existência: nem todas as raparigas estavam em situações tão difíceis. Algumas, por terem personalidades excessivamente efusivas, eram simplesmente consideradas problemáticas pelas famílias.

- E as famílias internavam-nas por isso?

- Sim, com a ideia de que as raparigas seriam então domadas, como cavalos, suponho. A disciplina era muito severa. As raparigas eram obrigadas a fazer voto de silêncio, como os membros da própria ordem. - Faz uma pausa. - Até custa imaginar.

- Estou consternada por pensar que a casa do meu pai foi utilizada dessa maneira, Mr. Tucker. Tinha imaginado uma coisa completamente diferente, muito mais tranquila e contemplativa.

- Precisamente.

O criado traz o prato seguinte, que é peru. - O escândalo veio a lume quando uma rapariga, internada pelo tutor por comportamento dissoluto e lascivo, acusou um padre de a violar e o processou em tribunal - continua Tucker. - Antes de se chegar a acordo, descobriu-se que o padre. cujo nome foi apagado dos registos, devo acrescentar. examinava fisicamente as raparigas para determinar se estavam Tucker faz uma pausa. Olympia repara que está a corar. - É impossível pôr isto em termos delicados - diz ele. - Segundo os resultados destes exames, as raparigas eram então segregadas na base de que aquelas que se descobria não estarem. intactas. poderem corromper as inocentes.

- Compreendo.

- O processo foi resolvido por conciliação. E como parte do acordo, a Igreja concordou em fechar a instituição. As freiras, na maioria, claro, irrepreensíveis, foram transferidas para Ely Falls. As duas irmãs que colaboraram com o padre foram recambiadas para o Canadá. Como sabe certamente, as irmãs da Ordem de Saint Jean Baptiste de Bienfaisance possuem agora um historial notável de obras de caridade, muitas com sacrifícios consideráveis. E já não fazem voto de silêncio como antigamente.

- Não é muito prático.

- Não. Realmente. Aliás, em retrospectiva, considerou-se que foi o silêncio que permitiu a continuação dos abusos.

- E que aconteceu às raparigas?

- Os registos não esclarecem.

Olympia tenta imaginar a sorte delas. - As famílias tê-las-ão recebido de volta? - pergunta.

- Não faço ideia.

- Estou a ver. As ostras estavam deliciosas, a propósito - observa ela.

Ele sorri. - Tem um apetite devorador, Olympia Biddeford. Um pouco envergonhada, ela alisa o guardanapo no regaço. - É a segunda vez que me dizem isso este Outono - diz ela.

- É uma qualidade extraordinária, o seu apetite considerável - diz Tucker. - Não suporto as mulheres que se sentem obrigadas a parecer de constituição delicada quando, na realidade, não o são. Quase todas as mulheres deviam comer tão regular e substancialmente como os homens. E a que propósito é que uma mulher não há-de saborear a comida? A verdade é que é um dos maiores prazeres da vida, não concorda?

Espera que o criado os deixe. - Miss Biddeford, há alguns assuntos que temos de discutir - diz ele. - Se pudesse, adiava para sempre a referência a questões tão desagradáveis, mas é evidente que não posso se vamos avançar com a sua acção. Mas queria dizer, antes de começarmos, que estou a desfrutar tremendamente a sua companhia e tenho esperança de que um dia, sem assuntos de tra balho para discutir, possamos jantar juntos.

- Concordo - diz ela. - Obrigada.

- Posso agora falar com franqueza? - pergunta.

- Por favor.

- Não desejo desencorajá-la - diz ele -, mas devo adverti-la de que o seu processo é difícil. Na maioria dos estados que delib raram sobre a matéria, a mãe biológica possui menos direitos á tutela que a figura maternal substituta. No seu caso, claro, é a mãe biológica e Albertine Bolduc será vista como a mãe substituta.

Olympia fica incomodada à menção de outra mulher como mãe do filho, por mais que saiba que é a verdade.

- Além disso, uma mãe solteira é a pessoa menos susceptível de receber a custódia de uma criança. Uma mãe solteira que é vista como tendo abandonado um filho não tem essencialmente quaisquer direitos sobre a criança.

- Compreendo - diz ela.

- Eu sei que isto é difícil - diz Tucker. - Por favor diga, se já estiver a transtorná-la demasiado.

Olympia esforça-se por recuperar a serenidade. Sabe que

deve preparar-se para todo o género de revelações. Não pode dar-se ao luxo de desanimar tão cedo. E pensa agora que a conversa de Tucker sobre as origens da casa do pai deve ter sido uma tentativa deliberada para a preparar, pelo menos numa pequena medida, para o assunto ainda mais difícil do seu próprio caso.

- Não, estou bem - responde. - Isto é, não estou claro que não estou. Mas compreendo que tenho de ouvir o que tem para dizer. Aliás, desejo saber tudo o que sabe, caso contrário não posso tomar quaisquer decisões inteligentes.

Tucker anui. A sua mão não anda longe da dela sobre a toalha e ela sente que, em circunstâncias diferentes, ele seria capaz de a tocar, mas que não o fará agora.

- É por isso que é muito importante estabelecermos que não abandonou o seu filho, mas sim que a criança lhe foi tirada - continua ele. - Tenho mais alguns factos que gostava de lhe transmitir, se se achar capaz de ouvi-los.

- São assim tão terríveis?

- São difíceis.

- Não posso estar mais preparada - diz ela.

- Pouco depois de o rapaz nascer, o seu pai entregou-o a Josiah Hay - começa Tucker.

- O Josiah! - Olympia exclama, incapaz de se conter. Tucker levanta uma mão. - Apenas para transportar a criança

- diz ele. - Ele e a mulher, Lisette, levaram a criança e viajaram de comboio para Ely Falls na tarde em que ela nasceu.

Olympia sente-se entontecer com a notícia. Lisette! Como é possível? Olympia pensa no dia do parto. Lisette estava ao seu lado quando deu à luz? Não consegue recordar-se. Não, talvez não estivesse. Não foi, de facto, a mãe que se sentou ao seu lado durante esse longo dia enquanto Olympia perdia e recobrava os sentidos?

- Levaram a criança a John Haskell, que estava alojado num hotel em Ely Falls. Pude concluir que John Haskell examinou a criança e mandou embora o Josiah e a Lisette que apanharam o comboio seguinte de regresso a Boston. Subsequentemente, o Dr. Haskell levou a criança ao orfanato de Saint Andre. Já tinha tomado disposições nesse sentido.

- Acho isso difícil de compreender - diz Olympia. - Não sei como é que ele pôde entregar o bebé - acrescenta, momentanieamente paralisada.

- Quer fazer uma pausa? Olympia abana a cabeça.

Tucker volta a pôr os óculos. - Pouco depois - continua -, o rapaz foi entregue à guarda de Albertine e Telesphore Bolduc. Não o adoptaram formalmente porque não se conhece o paradeiro de John Haskell e ele não assinou o necessário termo de renúncia antes de partir. Não foi, por conseguinte, possível efectivar a adopção, mesmo que os Bolduc tivessem dinheiro para os custos legais, que não têm. Mas esta adopção será possível se este processo for instaurado.

- Posso então instaurar o processo? - pergunta Olympia.

- Legalmente pode. Na ausência de John Haskell e considerando que ele abandonou a criança.

- Mas está a dizer-me que, se eu perder, os Bolduc podem adoptar legalmente o menino?

- São obrigados segundo a lei do estado.

- Compreendo - diz Olympia. - E sabe onde está o John Haskell? - pergunta Olympia.

- Não. Se soubesse, garanto-lhe que lhe dizia. Contactámos a ex-mulher, Mrs. Haskell, que se divorciou do marido há dois anos, mas ela não nos respondeu e aparentemente não vai responder. Tivemos, sim, uma conversa com o advogado dela que nos deu a entender que o Dr. Haskell envia dinheiro regularmente a Mrs. Haskell através do Banco de New Hampshire.

Olympia fecha os olhos, consternada por saber que Catherine foi imiscuída neste assunto. Consternada por lhe ter sido pedido que contribua com informações. E, nesse momento, Olympia compreende, como nunca compreendeu até aqui, que aquilo que porá em marcha será maior do que ela própria e que agora não pode parar.

- Albertine e Telesphore vivem com a criança numa divisão - diz Tucker. - Albertine trabalha como cardadora na fiação Falls das cinco e meia da manhã às quatro da tarde, seis dias por semana, a pentear algodão em rama para poder ser fiado. Trabalho perigoso, devo acrescentar, por causa da elevada incidência de pulmão branco. Sabe com certeza o que é o pulmão branco?

- Sei.

- Por este trabalho, ganha 336. 96 dólares por ano.

Olympia fixa intensamente Payson Tucker.

- O casal parece ter tomado disposições adequadas relativamente aos cuidados com a criança - continua Tucker -, Por mais difíceis que essas disposições possam ser para o próprio devo dizer-lhe que a diligência e zelosa atenção deles às necessidades da criança, assim como os sacrifícios que estas envolvem, serão vistas a uma luz favorável por qualquer juiz.

Olympia faz um gesto de assentimento.

- Tenho mais para lhe dizer - diz Tucker - e devo avisá-la de que é pior.

Olympia levanta os olhos. - Como é que alguma coisa pode ser pior?

Tucker cruza os braços na mesa e debruça-se na direcção dela.

- Digo-lhe desde já que não deve avançar com a acção - diz ele. - Deixe-me explicar-lhe o que lhe acontece caso avance. O julgamento será extenuante. Será considerada como pertencente ao estrato mais baixo da sociedade, o das mães solteiras. As suas transgressões tornar-se-ão do conhecimento público de uma forma que nunca imaginou. Muito provavelmente, os jornais de Boston vão considerar que a história deste julgamento é material noticioso. Nos dois casos que referi há pouco, os danos às autoras foram consideráveis. Uma das raparigas suicidou-se pouco depois do julgamento.

Olympia sente as mãos arrefecer. Sem que Tucker se aperceba, agasalha-as nas pregas da saia.

- Lamento ser tão duro - diz Tucker -, mas quero que compreenda que, se avançar com a acção, não lhe restará nenhuma reputação quando tudo terminar, seja qual for o desfecho. Não creio que o advogado dos Bolduc poupe as suas sensibilidades ou se preocupe com a sua delicadeza. A ironia é que nem eu posso poupar a sua delicadeza. Terei de ser tão implacável como a oposição.

- E quais são as minhas alternativas?

- A alternativa é simples, Miss Biddeford. Não instaure o processo.

Olympia olha para Payson Tucker, para os seus óculos de aros dourados, o cabelo empastado, o bigode bem cuidado. - Nesse caso, nunca mais verei o meu filho - diz ela.

- Exactamente.

- Nunca o abraçarei. Tucker fica calado.

- Nunca o ensinarei - diz ela, elevando a voz. - Nunca o verei. Nunca falarei com ele nem ele comigo.

- Não.

- Então não há alternativa, Mr. Tucker. Tenho de avançar.

Tucker suspira e reclina-se na cadeira. Inspecciona a sala de jantar excessivamente adornada e os poucos comensais presentes.

- Nesse caso, deixe-me ajudá-la - diz simplesmente.

A lua foi encoberta por nuvens e ela apenas consegue ver os segmentos de estrada que os faróis do automóvel iluminam: o lampejo de um muro em pedra, a esquina em madeira fasquiada de uma casa, a silhueta recortada de um poste telefónico.

- Só andei de carro uma vez - confessa Olympia. - Na es cola. Tivemos a visita de um benfeitor. Eu fui das estudantes solicitadas para o acompanhar de automóvel a uma colina para visinar um observatório.

- Que escola frequentou?

- Não é sítio de que tenha ouvido falar, posso garantir-lhe. O Colégio Feminino de Hastings. Em Fairbanks, no Massachussets oeste.

- Gostou?

- Do passeio ou da escola?

Ele sorri. - Bem, já agora dos dois.

- Durante o passeio estava aterrada. Tinha a certeza de que íamos cair pe