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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A PRESA / Allison Brennan
A PRESA / Allison Brennan

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Quando Rowan deixou o FBI para dedicar-se a escrever novelas de suspense, acreditou que começava uma vida muito mais tranqüila e relaxada.

Equivocava-se: um assassino em série está recriando em suas vítimas os crimes dos livros que ela escreve, passo a passo, fundindo realidade e ficção em um pesadelo do qual a jovem não pode escapar.

Forçada a aceitar a proteção da equipe formada pelos irmãos John e Michael, Rowan se dá conta de que a chave para encontrar o assassino está oculta em seu próprio passado, em uma infância que não se atreve a recordar.

E enquanto enfrenta seus demônios interiores, a relação com os dois homens que têm que protegê-la se complica inesperadamente…

O passado de Rowan antes de sua entrada na academia do FBI é um mistério: só consta que mudou de nome e foi parar em um orfanato. Sinais mencionam um acontecimento terrível em sua infância, de uma ferida profunda que lhe deixou a pessoa que deveria tê-la querido e protegido mais que ninguém. Agora sabe usar uma arma, tem sucesso, é uma mulher forte, segura de si mesma. Mas de novo tem que enfrentar o medo, a ameaça que se infiltra em seus momentos mais vulneráveis. Um demônio do seu passado retornou na forma de assassino. Para vencê-lo, terá que aprender a confiar em outras pessoas e enfrentar seus fantasmas mais horrorosos.

Antigo membro do corpo de elite Delta Force, John agora ganha a vida em um negócio familiar de segurança, junto a seus irmãos Michael e Tess. Recém-chegado de uma missão na selva colombiana, descobre que seu irmão tem um interesse mais que profissional pela mulher a quem deve proteger, Rowan Smith. Não é raro que isso aconteça a Michael, o namorador. O estranho é que o próprio John, muito a contragosto, seja também seduzido pela formosa e independente escritora. Um perigoso triângulo de emoções, sobre tudo quando um desumano assassino em série ronda a jovem e ameaça qualquer um que esteja perto dela.

 

 

 

 

Observou-a de longe. Objetivamente, como um cientista contemplaria um micróbio interessante. Inclusive dessa distância, era uma mulher atraente.

Cabelo loiro e comprido recolhido em um coque compacto. Um perfil aristocrático. Um nariz como um ponto pequeno e afunilado. Os ossos do rosto poderiam parecer traços de nobreza, embora ele os considerasse muito angulosos. Tinha um corpo magro e atlético, discretamente musculoso. Nenhum de seus traços era suave.

Exceto os olhos.

Estavam ocultos atrás de óculos de sol John Lennon, mas ele lembrava que eram da cor do mar, da cor cinza azulada do oceano Atlântico em um dia limpo. Sim, tinha olhos suaves porque neles se adivinhava a emoção, e por isso os ocultava atrás desses óculos horríveis. Ela queria ser tão dura quanto parecia, mas por dentro era suave. Frágil. Uma mulher.

Veria esses olhos pela última vez no momento antes de matá-la. Encheriam-se de medo, porque entenderia a verdade. Com o coração pulsando com força, sentiu que o sangue lhe subia à cabeça. Sim, quando ela entendesse a verdade, ele teria se libertado. Sorriu.

Ela pensava que ele não podia tocá-la. Será que pensava nele alguma vez? Não sabia. Mas antes que acabasse o jogo, pensaria nele, teria-lhe medo, sentiria a força de sua vingança.

Matá-la não era o princípio e, certamente, não seria o final. Muitas outras também mereciam morrer.

Mas a morte dela seria a que lhe proporcionaria maior satisfação.

Enquanto a olhava, observou que hesitava ao abrir a porta de sua Mercedes cupê preto e olhava a seu redor. O coração lhe acelerou ligeiramente. Será que o pressentia? Ela não podia vê-lo e, se por acaso o visse, lembraria-se? O seu era um rosto normal e comum, o rosto de um cara qualquer. Ela sabia o que era a loucura, mas ele não estava louco. Sabia o que era o terror, mas ele não era aterrorizador. Agora, não. Sabia dissimular habilmente sua excitação, sua raiva, sua fúria.

Era muito divertido brincar com ela! Um último olhar. Olhou-o, embora não o visse. Entretanto, provavelmente intuísse algo porque subiu rapidamente no esportivo e o pôs em funcionamento. Com o coração galopante e os punhos apertados, ele imaginou que a agarrava pelo pescoço longo e magro e o quebrava.

Não, não lhe quebrarei o pescoço. Muito fácil. Muito rápido.

Ao contrário, estrangularei-a pouco a pouco. Afogarei-a. Ficarei olhando enquanto fica azul. Então a soltarei, que respire algumas vezes. Que pense que tem uma possibilidade, que há uma esperança.

E depois voltarei a apertar.

Veria como seu olhar se enchia de entendimento, de medo, e de uma vaga esperança cada vez que ele a deixasse respirar. E, finalmente, a consciência de que toda esperança era inútil. Só a morte. E quando esses olhos claros o olhassem, ela entenderia que tudo era culpa dela.

Devia ter morrido anos atrás.

Ficou olhando a estrada um bom tempo depois que o carro desapareceu de sua vista. Devolveu com cuidado os binóculos ao estojo.

   Ela não iria a nenhuma parte. Tinha todo o tempo do mundo para matá-la. Voltou para seu carro caminhando e lançou um último olhar para a casa antes de dirigir-se ao aeroporto. Esperava-lhe muito trabalho nas próximas vinte e quatro horas, mas voltaria a tempo para ver o seu rosto quando lhe contassem o que tinha feito.

Tinha chegado o momento de pôr mãos à obra.

 

Rowan Smith se inteirou do assassinato de Doreen Rodriguez pelos repórteres que invadiram seu jardim. Foi na segunda-feira pela manhã.

Ouviu a porta de um carro que se fechava violentamente e despertou assustada. Procurou instintivamente a pistola, que já não estava sob seu travesseiro, e enquanto procurava entre os frescos lençóis de algodão, lembrou que a tinha deixado em sua mesinha de cabeceira. Hesitou um instante, mas em seguida agarrou a Glock e sentiu o metal frio nas mãos. Não conseguia pensar em um bom motivo para pegar sua pistola, mas se sentia bem empunhando-a.

Havia dormido usando uma calça de moletom e uma camiseta, um velho costume de estar preparada para qualquer coisa. Desceu descalça as escadas e da janela de seu escritório olhou para ver quem a visitava tão cedo da manhã. O som surdo de uma porta de furgão deslizandoe até fechar lhe fez pensar que os visitantes eram mais de um. Com o dedo, apartou um pouco as venezianas para olhar.

Pelas suas roupas amassadas e cadernetas, soube que eram repórteres da imprensa. Os da televisão cuidavam muito mais da indumentária e aspecto. Haviam se juntado três caminhonetes e dois carros na entrada de sua casa alugada em frente à praia. Rowan odiava os jornalistas. Já tinha se relacionado muito com eles quando trabalhava no FBI.

Soou a campainha, e ela teve um sobressalto. Embora de seu escritório pudesse ver o jardim, não conseguia ver a porta da entrada. Ao que parecia, um dos repórteres mais ousado se armou de coragem para tocar a campainha.

O que queriam? Acabava de conceder uma entrevista a respeito da estréia de Crime de Paixão fazia dois dias. Esperava que agora não pretendessem realizar uma entrevista coletiva.

Foi até a porta e então se deu conta de que levava a arma. Imaginou as manchetes: ex-agente se apresenta armada a uma entrevista. Guardou a pistola na gaveta de sua mesa de trabalho e se dirigiu a passo rápido à porta, sem quase dar-se conta do frio que estavam os ladrilhos que pisava.

Ao mesmo tempo em que a campainha repetia seu odioso ding-dong, soou o telefone. Genial. Os jornalistas a espreitavam de todas as partes. Já tinha tratado com eles, e teria que voltar a fazê-lo. Não foi até que abriu a porta que teve a intuição de que tinha acontecido algo ruim e que provavelmente não deveria falar com eles.

Muito tarde.

— Você tem algum comentário a fazer a respeito da morte do Doreen Rodriguez?

— Não conheço Doreen Rodriguez — disse ela, sem vacilar, embora o nome a pôs em alerta. Resultava-lhe familiar, mas não conseguia situá-lo nesse instante. Enquanto tentava atar fios, uma sensação desagradável a foi invadindo. Quando ia fechar a porta, escutou outra pergunta.

— Não sabe que assassinaram uma mulher de vinte anos chamada Doreen Rodriguez em Denver no sábado à noite, da mesma maneira que assassinam sua personagem Doreen Rodriguez em sua novela Crime de Oportunidade?

Rowan bateu a porta. Não temia os repórteres que se apresentavam sem terem sido convidados. Denunciaria-os por violação de propriedade privada sem pensar duas vezes. Só queria que seu definitivo e sonoro «Sem comentários» se ouvisse alto e claro.

Afinal, o telefone deixou de soar. E em seguida, ao fim de trinta segundos, reiniciou-se o incessante ring-ring. Voltou correndo a seu escritório e olhou na tela do aparelho. Era Annette, sua produtora.

Levantou o fone e perguntou:

— Que diabos está acontecendo? — Assim que perguntou, ouviu que na frente da sua casa se detinha outro carro com uma freada.

— Já estás sabendo.

— Há um montão de repórteres na frente da minha casa, e enquanto falamos estão chegando mais. — Voltou a olhar pela janela. Uma das caminhonetes era de uma cadeia de televisão. Rowan levou uma mão ao ventre. Tinha a sensação de que estava acontecendo algo muito grave.

— Um jornalista de Denver me deu os detalhes — disse Annette com pressa, pondo o acento em certas palavras. — Na noite de sábado assassinaram uma garçonete de vinte anos de nome Doreen Rodriguez. Ontem encontraram seu corpo em um contêiner frente a, e cito, «um pequeno café italiano perto do South Broadway que poderia se qualificar de pitoresco se não fosse pelas manchas de sangue nas paredes brancas da fachada».

Rowan escutou as palavras que tinha escrito anos atrás. Esfregou as têmporas e, pela primeira vez desde que renunciara a seu posto no FBI fazia quatro anos, desejou ter um cigarro à mão.

— Deve ser uma brincadeira de muito mau gosto.

— Sinto muito, Rowan.

— Meu Deus, não posso acreditar que ocorra algo assim. —Fechou os olhos com força, tentando assimilar o que Annette acabava de lhe dizer. Ficou sem fôlego e levou uma mão à boca. Tinha que ser uma casualidade. Algum repórter sem escrúpulos que informava sobre um crime violento e tentava criar uma notícia sensacionalista comparando-o com uma de suas novelas.

Teve uma fugaz imagem do corpo ensangüentado e esquartejado de Doreen Rodriguez. Abriu os olhos imediatamente. Sua visão do assassinato era muito real porque ela a tinha criado. Não podia ser um crime similar. Certamente era só uma coincidência de nomes.

— Rowan, mataram-na com um facão contra a parede do restaurante, e atiraram o corpo em um contêiner. — A voz de Annette tinha adquiriu um tom febril. — Trabalhava em Denver e nasceu em Albuquerque. Algum louco copiou o crime exatamente como você o escreveu.

Rowan pressionou a têmpora com força. Alguém tinha copiado seu crime fictício? Não podia ser. Como o assassino tinha encontrado alguém tão parecido a seu personagem de ficção?

E, ainda mais importante, por que?

Ficou de joelhos no chão junto a sua mesa e afundou o rosto entre os braços, enquanto sustentava o telefone com o ombro. Voltou a respirar fundo e segurou a respiração. Antes de mais nada, tinha que controlar-se, e então veria como chegar ao fundo do assunto.

Tinha que haver um engano.

— Você está bem? — Havia verdadeira inquietação na voz de Annette.

— O que você acha? — respondeu com um sussurro rouco.

— Estou preocupada com a sua segurança, Rowan.

— Eu sei como cuidar de mim mesma.

— Vou para aí em seguida.

Quase sorriu ao pensá-lo. A pequena Annette O'Dell, de cinqüenta e tantos anos, produtora de Hollywood, corria para proteger a sua escritora estrela de um maço de malvados repórteres. Rowan sacudiu a cabeça.

— Não, vou sair para dar uma corrida e depois tenho que ir aos estúdios. Marquei com o diretor para falar sobre repetir a rodagem de uma cena.

— Os repórteres a seguirão. É provável que já estejam reunidos lá.

— Ao diabo com os repórteres! Não farei comentários, e pronto. Nada, zero. Não quero que fale disto com ninguém, nenhuma palavra. Vou aos estúdios e cumprirei com meu trabalho. Não sou polícia. Que eles se ocupem disto. — Já não queria continuar brincando de polícia. Não queria mais sangue em suas mãos.

Entretanto, aí estava o sangue. Limpou as mãos na calça e lhe veio à mente a figura de lady MacBeth, tentando desesperadamente lavar as mãos de um sangue que não via.

Doreen Rodriguez. Ela não tinha matado essa pobre mulher, mas em certo sentido tinha causado sua morte.

— Rowan, me deixe contratar um serviço de segurança…

Rowan cortou Annette com um «clique» quando devolveu o fone a seu lugar.

Demorou um minuto para recuperar o controle e erguer-se do chão. Viu que lá fora chegava outro carro, mais abutres espreitando. Era uma grande cópia do original, pensou, ironicamente. Um autêntico caso de novela policial trazida à realidade: O Imitador de ficções. O assassino Imitador. Na realidade, dava a impressão de que a imprensa gostava dos assassinatos. Sobre tudo os crimes mais escabrosos. Não havia nada de emocionante em uma típica briga doméstica, um roubo ou um tiroteio rotineiro entre bandos rivais. Mas que a vítima fosse esfaqueada com um facão contra a parede de um pitoresco restaurante italiano…

Sacudiu a cabeça. Será que ela era melhor? Escrevia histórias policiais violentas. Embora seus cadáveres fossem obra de ficção, não fazia ela o mesmo que os repórteres? Aproveitava-se do interesse das pessoas pelos crimes escabrosos? A fascinação do homem pela morte remontava a milhares de anos atrás. Os violentos mitos gregos e romanos tinham atenuado o temor dos seres humanos ante o desconhecido. Desde então, havia constância de práticas tão horrorosas em todas as gerações.

Doreen Rodriguez. Era possível que o assassinato tivesse as mesmas características que ela havia descrito? O ritmo do coração lhe acelerou ao imaginar a dor e o horror que tinha sofrido aquela moça.

Não lhe serviria de nada pensar na vítima agora. Rowan recordou os mais de dez anos de treinamento que tinham lhe ensinado a manter distâncias com as coisas. Quando uma história se convertia em algo pessoal se cometiam erros.

Ignorou a campainha da porta e do telefone. Entrou na Internet e encontrou a página do jornal local de Denver. Ainda tinha a esperança de que se tratasse de um engano, de um mal-entendido. Mas o assunto já estava nas manchetes. As más notícias viajam rápido, e a prova disso era o bando que havia se instalado na entrada de sua casa.

Tudo o que Annette tinha lhe contado estava na tela. Rowan se perguntou que tipo de detalhes ocultava, na realidade, a notícia. Calculou quanto tempo a polícia demoraria em vir interrogá-la. Se a imprensa tinha mostrado interesse pela coincidência, a polícia não podia estar longe. Já conheceria os detalhes quando viessem procurá-la.

Não. Não podia implicar-se. Dentro de duas horas tinha uma reunião nos estúdios. Tinha criado uma vida nova para si mesma, uma vida tranqüila. Por nada deste maldito mundo deixaria que um assassino louco controlasse seu futuro. Pela segunda vez.

Dirigia-se a seu quarto para vestir-se quando na porta soou uma chamada familiar. A polícia.

Ora, chegaram rápido.

—Senhora Smith — chamou uma voz abafada. — Senhora Smith, é a polícia. Temos que falar com você.

Voltou-se para a porta. Tudo tinha começado.

Sentaram-se ao redor da mesa da sala de jantar, em frente à janela com sua imagem de postal que emoldurava as águas verdes do Pacífico. De lá, a cerca de seis metros acima da linha da praia e uns bons trinta metros para o interior, ainda podiam se ver as ondas, uma atrás de outra, com suas cambalhotas, agitadas por um ligeiro vento. Havia maré baixa e a praia estava vazia.

Rowan pôs duas xícaras bem cheias de café quente ante os inspetores e abriu a janela. Respirou fundo e o ar penetrante e salgado a relaxou. Tinha que estar tranqüila e alerta mas, sobre tudo, tinha que saber controlar-se.

Sentou-se em frente aos inspetores com sua própria xícara de café entre as mãos.

Ben Jackson era um homem baixo e magro e a cor de sua pele era igual a do café forte de sua taça. Seu rosto de pôquer não conseguia dissimular olhos inteligentes. Por sua postura rígida e músculos que se percebia debaixo de seu impecável casaco, Rowan pensou que o cara estava em forma e levava seu trabalho a sério. Tinha voado de Denver de madrugada para falar com ela.

Pelo visto, o Departamento de Polícia de Denver não poupava esforços. Era evidente que acreditavam que o assassinato de Rodriguez estava vinculado a sua novela.

Jim Barlow pertencia ao Departamento de Polícia de Los Angeles. Era maior e, comparado com Jackson, a cor de sua pele era a de um fantasma. Tinha o aspecto do policial modelo, com um ligeiro sobrepeso. O tipo de policial que vestia calças amassadas e jaqueta esportiva muito justa com remendos de couro nos cotovelos. Com seus olhos de cor azul clara parecia não perder nem um detalhe, enquanto fazia gestos com a mão como se tivesse um cigarro entre os dedos. Um ex-fumante, pensou Rowan, com um reflexo de simpatia.

Os dois lhe causaram boa impressão. Seu instinto lhe dizia que podia confiar neles.

— Está ciente do assassinato de Doreen Rodriguez — disse Jackson, fazendo um gesto vago para a entrada da casa. Os repórteres começavam a sair. A ameaça dos policiais de detê-los por violação à propriedade privada tinha seu peso, pensou, o qual lhe arrancou um ligeiro sorriso.

— Li a notícia no site da Web do jornal de Denver — assentiu Rowan.

— Você trabalhou no FBI.

— Seis anos.

— É provável que ganhou alguns inimigos. Assim foi em meu caso.

— O que quer dizer?

— Acredito que sua vida corre perigo e que deveria contratar um serviço de segurança.

— Sou uma ex-agente do FBI, inspetor. Tenho experiência e sei como me defender.

— Sim, é provável. E é provável que ainda durma com uma pistola sob o travesseiro. — Jackson assentiu com a cabeça e percebeu uma ligeira reação em seu semblante. E continuou. — Foi um crime brutal e está dirigido a você. Claro que deve ter refletido sobre as semelhanças entre a vítima e um personagem de sua novela.

— Eu lhe disse que li a notícia.

Era a única coisa que Rowan podia fazer para manter o contato visual. Não queria aceitar o fato de que aquele assassinato tivesse algo a ver com ela. Entretanto, seu instinto lhe dizia justamente o contrário. Tratava-se de um assunto pessoal.

— Eu não me apressaria a tirar conclusões — disse ela. — Se houver outro crime, pode ser que este maníaco decida imitar outro escritor. Mas, se lhe tranqüiliza que o diga, terei muito cuidado.

Maldita seja, a frase soava como um sarcasmo embora não fosse sua intenção. Puseram-se à defensiva.

Jackson fez uma pausa antes de falar.

— Você conhecia a verdadeira Doreen Rodriguez? Utilizou-a para sua novela?

— Inventei o nome — replicou ela, sacudindo a cabeça. — Tinha que pôr um nome no personagem.

— Há uma coisa que não contamos à imprensa — disse Jackson. — O sacana deixou um livro seu debaixo do cadáver.

— Meu livro? — A voz de Rowan era apenas um sussurro. Tomou um gole de café, pensando que esse gesto de normalidade lhe ajudaria a ordenar as idéias.

— Crime de Oportunidade — confirmou o inspetor. — E como se fôssemos muito estúpidos para nos dar conta, deixou sublinhado o fragmento onde se descreve o assassinato da Doreen Rodriguez fictícia. — A voz estava carregada de raiva, o tipo de raiva que os policiais se esforçam para controlar.

Sua novela na cena do crime.

— Alguma outra coisa? Alguma nota dirigida a mim, algum comentário, ou algo que faça pensar que voltará a matar?

Jackson se inclinou para frente.

— Só os fragmentos sublinhados. O que pensa?

Rowan olhou fixamente para Jackson e sacudiu a cabeça.

— Já não trabalho para o FBI e, quando trabalhava, a minha especialidade não eram os perfis. Se quiser uma opinião perita, chame a eles.

Entretanto, seus pensamentos já se dispararam. Alguém a tinha identificado pessoalmente? Era possível que algum dos criminosos que tinha metido atrás das grades executasse uma ardilosa vingança contra ela? Podia conseguir cópias de todos os casos em que tinha trabalhado e revisá-los atentamente, embora ainda recordasse até o último crime violento que tinha contribuído a encerrar.

Barlow falou pela primeira vez desde que se apresentaram.

— Tenho lido seus livros, senhora Smith. Suponho que se poderia dizer que sou um leitor fiel. Suas histórias são bastante aterradoras. Autênticas — acrescentou, e fez uma pausa. — Acredito que voltará a agir. Estamos investigando os ex-namorados de Doreen Rodriguez em Denver, amigos, colegas — disse, quase sem lhe prestar importância. — Mas o fato de que seu livro tenha aparecido dispara os alarmes.

Rowan respirou fundo, mas se manteve em silêncio. A ela também tinham disparado os alarmes. Em sua cabeça ressonava toda uma orquestra de advertências.

— Meus superiores já se puseram em contato com os Federais — disse Jackson. — Esperam certa colaboração. Mas nos ocorreu que talvez você tenha alguma idéia especial, de modo que decidi falar com você. Algum dos criminosos que deteve saiu da prisão? Alguém a ameaçou?

Rowan não pôde evitar começar a rir, mas o som vazio de sua risada não tinha graça.

— Me ameaçar? Você trabalhou mais tempo que eu de polícia. Certamente que a algum de seus detidos não agradasse muito que o prendessem. — Sacudiu a cabeça e seguiu: — Quando alguma das pessoas contra quem testemunhei ou que detive obtém a liberdade condicional, comunicam para mim. Devo dizer sinceramente que todos os que detive estão mortos ou na prisão.

Jackson fez uma careta que parecia um sorriso.

— Eu gostaria de poder dizer o mesmo — disse. — Uma trajetória impressionante.

Ela respondeu encolhendo os ombros.

— Na realidade, não. Não fui eu quem pegou a todos esses malditos assassinos — disse.

— E em relação aos familiares desses condenados? Alguém que pretenda vingar-se porque você pôs entre grades um pai ou irmão, um primo, um amante?

— Não sei — disse ela, negando com a cabeça. — Teriam que rever os relatórios dos meus casos. Não me ocorre ninguém em especial, mas não tenho aqui minhas anotações e não pensei muito nisso.

Entretanto, sabia que a partir de agora seus dias e noites estariam marcados pela obsessão com aqueles velhos casos até que descobrissem o assassino. Ela mesma se encarregaria de conseguir uma cópia de seus casos. Ela iria garantir que não tinha ignorado algum detalhe de seus sete anos no FBI. Ignorar alguma coisa que havia custado a vida de Doreen Rodriguez.

Talvez nunca o descobrissem. E embora só tivesse matado a uma pessoa, ao menos segundo as informações que tinham, algo dizia a Rowan que voltaria a agir.

E que não demoraria.

— Poderia tratar-se de um admirador? Alguém que tenha escrito ou telefonado, ou inclusive tentado visitar?

— Um admirador que se propõe a recriar meus assassinatos fictícios? — Era uma possibilidade, mas não lhe parecia provável, e o disse a Jackson. — Este assassino não é um admirador meu.

— Por que diz isso? — inquiriu Barlow.

— Ele quer converter meus assassinatos fictícios em realidade. Em sua opinião, não fui o bastante longe, então ele irá. Tem que demonstrar sua própria genialidade, que é capaz de atos de muita mais substâncias que uma simples escritora de novelas.

— Então se trata de um maluco?

— Não — disse ela. — É uma pessoa saudável.

— Como chega a essa conclusão?

— Foi planejado com perfeição. — Deixou a xícara na mesa, levantou-se e foi até a janela aberta. Mas não viu as ondas do mar nem as gaivotas que passavam grasnando. Ao contrário, imaginou o mal. — Procurou uma mulher com o mesmo nome e profissão que um de meus personagens, e a matou da mesma maneira em um cenário similar. Dedicou muito tempo a planejar e investigar para que todos os detalhes estivessem em seu lugar. A perfeição. Continuando, deixou meu livro junto ao cadáver. Arrogância. É inteligente, mas acredita que os todos outros são estúpidos, e por isso tem que explicar o porquê ou, de outra maneira, nunca o descobririam. Não foi um crime passional nem um crime por dinheiro… foi um crime de oportunidade. — Assim que o disse, deu-se conta de que era o título de seu livro. — Foi premeditado. E isso é uma prova de sua saúde mental. Atreveria-me a dizer que tem um plano, algo que não tem nada que ver com as vítimas.

— Terá a ver com você? — perguntou Barlow, e Rowan teve um leve estremecimento.

Por muito que quisesse negar, tinha que ter alguma relação. A menos que cometesse outro assassinato, usando como orientação o livro de outro autor. Encolheu os ombros e olhou aos policiais com o rosto inexpressivo, sem delatar-se em nada. Não queria falar até que pudesse refletir mais sobre isso.

— Não sei.

— É provável que o FBI entre em contato com você.

— Certamente.

Rowan já o estava temendo. Alguém tinha se proposto a brincar com ela, e ela não sabia nem quem nem por que. Embora tivesse controlado suas emoções durante toda a entrevista, agora sentia como um torvelinho em seu interior. Mas ela era uma profissional consumada, e saberia manter a compostura. Ao menos até que estivesse a sós.

— Você recebeu alguma ameaça?

— Não.

— Tem certeza? E sobre as cartas de seus fãs?

— Minha agente lida com a minha correspondência. Eu recebo relatórios do que me escrevem. Suponho que me avisaria se houvesse uma ameaça. — Ela mesma ia descobrir.

Jackson tomou algumas notas.

— E sobre os estúdios cinematográficos? Os atores do filme que estão rodando? Alguém recebeu ameaças, ou notou algo estranho?

— A produtora é Annette O'Dell. Seu escritório é nos estúdios. Eu não trabalho lá, só me dedico à adaptação do roteiro. — Rowan pensou que de lá também não provinha a ameaça. Annette o teria dito.

— E o que lhe parece algum motivo pessoal? Algum ex-namorado que tenha optado pela violência? Alguém que se sinta desprezado por seu êxito?

— Para lhe ser franca, não tive uma vida pessoal muito intensa desde que cheguei a Califórnia faz dois meses para trabalhar neste filme. — Voltou a sentar-se e tomou seu café, já morno. Caiu-lhe como uma bola de chumbo. — Inclusive antes, acabei o roteiro e comecei a trabalhar em meu novo livro. Estou tão ocupada agora como quando trabalhava no FBI.

— Já publicou quatro livros, não é mesmo? — perguntou Jackson.

Ela assentiu com a cabeça.

— E o quinto será publicado nas próximas semanas.

— E este é seu segundo filme?

— O terceiro. O segundo sairá dentro de duas semanas. Este não estará em cartaz até o final do próximo ano.

— Saiu-se muito bem desde que deixou o FBI.

— O que quer dizer? — perguntou Rowan, irritada. Queria colaborar, mas essas perguntas eram irrelevantes. Queria sair para dar uma corrida como todos os dias e depois tomar uma ducha. Sobre tudo, necessitava de tempo para pensar.

— Estamos tentando reunir todos os detalhes.

Os inspetores trocaram um olhar que significava que tinham acabado. Quase se pôde ouvir o suspiro de alívio de Rowan.

Acompanhou-os até a porta. O inspetor Jackson virou-se para ela.

— Você deveria pensar em tomar medidas de segurança extraordinárias. Tem um sistema de alarme instalado?

— Sim, inspetor, e o utilizo.

Ele assentiu para dar sua aprovação e lhe estendeu a mão. Rowan a estreitou, e sentiu calor e força.

— Me chamo Ben. Somos da mesma equipe. Jim ou eu lhe telefonaremos mais tarde para dar notícias. Eu volto para Denver esta tarde. Enquanto isso, tome cuidado.

— Obrigado, isso farei. — Fechou a porta, virou-se e se apoiou contra a sólida porta de carvalho. Deixou-se cair lentamente até derrubar-se no chão frio de ladrilhos, e escondeu o rosto entre as mãos.

Um brutal assassinato a mil e quinhentos quilômetros de distância tinha destruído em questão de minutos a paz relativa que tinha forjado com tanta ilusão. A idéia de ser cúmplice daquele crime era insuportável. Levou a mão ao ventre em um gesto nervoso. Como podia viver consigo mesma se sua imaginação havia se manifestado em um fato tão cruel? Embora fosse outro quem tivesse segado uma vida, a fórmula do mal era obra dela, ela a tinha ideado. Sua decisão casual de chamar Doreen Rodriguez à primeira vítima de Crime de Oportunidade, tinha tido como conseqüência a morte de uma Doreen Rodriguez real, de Albuquerque. Aquilo era perverso e cruel.

Rowan tinha aprendido uma e outra vez que a morte era injusta e brutal. Abria um talho de miséria nos corações de todos os que tocava. E a morte não era cega. Via a dor, o coração ressentido, e se fazia mais forte.

Tudo tinha começado quando tinha dez anos, e não tinha aspecto de que ia acabar.

  

Michael Flynn seguiu as instruções que Annette O’Dell tinha lhe dado para chegar à casa de Rowan Smith, embora não precisasse conhecer o endereço exato para saber qual das grandes casas em frente à praia era a dela. Inclusive agora, um dia depois de tornar-se pública a notícia, uma dúzia de carros e caminhonetes, mais uma solitária moto — todos com credenciais de imprensa — estavam estacionados em frente ao número 25450.

Conduziu seu SUV preto pela encosta da entrada. A casa, a partir da fachada principal, decepcionou-lhe pelo tamanho e comum que era, embora as casas de Malibu, neste bairro fossem espaçosas e aproveitassem ao máximo a vista que tinham do mar. A casa de Smith se encontrava no final de uma fileira de construções que compartilhavam uma praia privada. Se não recordava mal, várias daquelas casas tinham sido destruídas há vários anos por uma forte tempestade. Como prova da destruição, viu os reforços de concreto que seguiam a linha do barranco em torno das casas para evitar os deslizamentos de terra, principais causadores dos danos às propriedades do litoral.

Trancou o carro se por acaso algum membro da imprensa predatória se interessasse por sua identidade. Claro que haviam sido advertidos sobre a violação da propriedade privada porque, apesar de perceber a sua chegada, ficaram na rua, e na margem da propriedade.

Flynn respirou fundo, e lhe agradou o penetrante ar salgado. Pensou que poderia acostumar-se a um lugar como aquele.

Olhou ao redor da casa e franziu o cenho. Era difícil proteger as propriedades que estavam na primeira linha de mar. Não havia grades nem cercas entre as casas, e podia chegar a elas por qualquer um dos quatro lados. Entretanto, um dos lados da casa de Smith se encontrava com as paredes de um barranco. Era virtualmente impossível que alguém pudesse ter acesso à propriedade a partir daquele ponto.

Restavam três lados desprotegidos.

De repente, um Fusca amarelo chegou quase voando até a entrada e se deteve atrás de sua caminhonete. Michael franziu o cenho ante essa maneira imprudente de Tess tinha de dirigir. Ele tinha sido surpreendido com a aprovação dela no exame para obter a licença de dirigir na primeira tentativa. Agora a viu sair do carro com seu laptop na mão e aproximar-se dele com pressa, com seu cabelo preto e encaracolado agitando-se na brisa. Flynn sacudiu a cabeça. Sua irmã sempre transbordava energia.

— Lamento chegar tarde — disse, e ao sorrir apareceram em suas bochechas duas covinhas.

— Não chegaste tarde. Se presume que você não tem motivo para estar aqui.

— O que você quer dizer? Sou sua sócia.

— Eu trato com os clientes. Você se ocupa do escritório.

O pouco que conhecia do caso o inquietava. Não queria pôr em perigo a vida de sua irmã. Afinal, Tess era perita em informática, não guarda-costas.

Ela suspirou com um ar melodramático.

— Desta vez não, Mickey. John está fora da cidade, de modo que tens a mim, você goste ou não. — Tess sorriu e piscou um olho.

Michael não pôde evitar um sorriso. Tess se ocupava de tudo o que ele e John lhe ordenassem fazia dois anos. Estava disposta a freqüentar cursos de defesa pessoal e de manejo de armas, tinha lido todos os livros que eles lhe passavam, e suportava os exercícios espontâneos que eles ideavam para ajudá-la a preparar-se para o trabalho de campo. Mas nem ele nem John iam deixar que sua irmã menor trabalhasse na rua, ainda que tivesse se convertido em um membro cada vez mais importante da equipe. Quer dizer, do escritório.

— Só por esta vez — ele disse, e se notou a advertência em sua voz. — Pelo que Annette me disse, acredito que teremos que lançar mão de sua genialidade com os computadores.

Tess deu um tapinha em seu laptop e voltou a sorrir.

— Vamos lá.

— Mas lembre-se de quem é o chefe.

— É John, mas está na América do Sul.

— Tess — advertiu Michael, franzindo o cenho.

Ela se apoiou na ponta dos pés e o beijou na bochecha.

— Não esquecerei, chefe.

  

Rowan fechou as venezianas de seu escritório, o que lhe impedia de ver as duas pessoas que conversavam na entrada da casa. Pensou que se tratasse da equipe de segurança que Annette queria contratar. Estupendo. Sua produtora, que agora rondava próxima da porta de seu escritório, esperava que aceitasse a proteção de um cara que não tinha visto um cabeleireiro em meses, e a sua mulherzinha saltitante, ou namorada, ou o que fosse, que conduzia um fusca de cor amarela gritante. Um modelo de discrição.

Rowan tinha se encerrado no escritório há dez minutos, farta de que Annette a tratasse como uma menina. Olhou a pistola Glock que agora sustentava com ambas as mãos.

Às vezes desejava ter morrido no exercício do dever porque, para ela, acabar com sua própria vida não era uma opção.

Havia dado voltas e voltas no assunto com sua produtora. Annette tinha boas intenções, mas se encontrava fora de seu contexto habitual. Plantou-se na casa no dia anterior e se recusava a sair. Parecia quase emocionada com tudo o que estava acontecendo, o qual desanimava Rowan, embora soubesse que era simplesmente a maneira de ser de Annette. Ela tinha insistido inclusive em dormir no quarto de hóspedes, apesar de que a pequena produtora estava muito mal preparada para defender a alguém. Tampouco Rowan pensava por um instante que necessitasse de proteção.

Rowan não sabia a que se devia a sorte de ter uma amiga tão fiel, e agradecia os seus sentimentos. Mas Annette a estava deixando louca.

No final, com o telefonema de seu ex-chefe na noite anterior, se havia resignado que se não aceitasse a segurança que lhe ofereciam os estúdios, o FBI lhe atribuiria uma equipe para sua proteção.

— Você está bem? — perguntou-lhe Roger quando ela atendeu a chamada em seu escritório.

Ela ouviu o medo em sua voz, e o coração lhe acelerou. Não queria que ele se preocupasse. Roger era mais que seu ex-chefe. Tinha-lhe salvado a vida.

— Estou bem, Roger.

— Está mentindo. Como vais estar bem?

— Você está informado dos detalhes.

— Até o último detalhe. Pedi para a polícia de Denver que me enviasse um fax com uma cópia do relatório. Há quatro agentes designados à revisão de seus antigos casos em busca de alguém capaz de algo assim, sobre tudo amigos e parentes homens.

— Bom. Quero uma cópia de todos os processos. Talvez eu me lembre de alguma coisa, algo que tenha passado despercebido, uma entrevista, um familiar, homem, não sei. —Respirou fundo e em seguida soltou o ar lentamente. — Não posso ficar sentada sem fazer nada.

— Entrarei em contato com o diretor do FBI em Los Angeles e eles baixarão os arquivos. Pode recolhê-los amanhã pela tarde.

— Obrigada — disse, e esclareceu garganta. — Ei, você não está pensando que… quero dizer, eu presumo que não há maneira de que meu pai possa…?

— Liguei para Bellevue. Macintosh continua nas mesmas condições.

— Obrigada. — Lhe quebrou a voz e fechou os olhos. Depois de tanto tempo, deveria controlar melhor minhas emoções.

Não esperava que, depois de vinte e três anos, seu pai recuperasse a sanidade mental, embora desde que os inspetores Jackson e Barlow se despediram no dia anterior, não parava de pensar nele. Tranqüilizava-lhe saber que o velho seguia preso em sua própria mente. Esperava que seguisse vivendo no inferno.

— Gracie e eu estamos preocupados contigo. Volta para Washington. Sempre terá um quarto disponível em nossa casa.

— Eu sei — murmurou ela. Detestava pensar que Roger se preocupava com ela. Não queria dar mais sustos a seu maltratado coração. Não depois de tudo o que ele e Gracie haviam feito por ela. — Mas não posso sair daqui.

— Enviarei uma equipe para te proteger.

— Não — disse, com o tom mais alto do que era sua intenção.

— Droga. Li os relatórios. Esse cara está te buscando.

Imaginou Roger de pé atrás de sua velha e escura mesa, esticando a mandíbula quadrada, os olhos escuros entrecerrados e as rugas de angústia lhe sulcando a testa.

— Isto não sabemos — replicou ela. — Terá que deixar que a polícia continue com sua investigação. Pode ser que não tenha nada a ver comigo. — Na realidade, não acreditava, embora às vezes os ex-namorados ou os maridos violentos chegavam a extremos para dissimular seus crimes. Talvez fosse isso o que tinha acontecido com Doreen Rodriguez.

— É evidente que você não tem as coisas claras se te opõem. Esse cara vai até você, e não descansarei até que encontrar o safado. Vou te proteger, mesmo você não goste da idéia.

— Roger, por favor não mande ninguém. Dificilmente o departamento possa pagar com o escasso orçamento que tem o depois de onze de setembro. — Ainda assim, Rowan sabia que o tom de Roger não deixava lugar a negociações. E o conhecia bastante bem para encontrar uma alternativa aceitável para os dois.

— Os estúdios contrataram uma empresa de segurança.

— Você está me dizendo a verdade?

— É o que quer minha produtora, Annette O'Dell. Eu disse a ela que não queria ninguém, mas…

— E aceitarás, não é? — Roger não se conformaria com um não.

— Sim, aceitarei — disse ela, resignada. — Amanhã Annette enviará alguém para uma entrevista.

— Será melhor que sejam bons, Ro, que não seja um desses guardas de supermercados que vão colocando o nariz por toda parte.

Rowan não pôde evitar um sorriso.

— Conhecendo Annette, serão bons. E discretos. Não quero que a imprensa farejando além da conta, que é o que têm feito até agora. — Era pouco provável que alguém xeretasse em seu passado. Não queria reviver esse pesadelo em público, embora vivesse com ele cada dia de sua vida.

— Se te der a impressão de que a equipe não é boa, faça-me saber e eu conseguirei uma autorização do diretor do FBI em Los Angeles. Combinado?

— Parece justo.

— Te amo — disse Roger, em voz baixa. — Por favor, se cuide.

Ela reprimiu um soluço. Seria tão fácil voltar para Washington e deixar tudo nas hábeis mãos de Roger. Deixar que Gracie a mimasse. Ou, melhor ainda, esconder-se em sua cabana. Tinha saudades dos bosques de pinheiros, das noites frias, do ar puro de sua casa no Colorado.

Mas não podia fazer isso. Era impossível sair quando tinha tantos compromissos e responsabilidades.

— Prometo — disse.

   Depois do telefonema dessa noite, um pesadelo perturbou o sono de Rowan. Levantou-se cedo para dar uma corrida na praia, muito antes que o sol despontasse nas colinas de Malibu, e dedicou-se a fundo na corrida. Depois de tomar banho, meteu-se no escritório enquanto Annette se ocupava de assuntos pendentes na sala de jantar.

Um violento assassinato fazia três dias e, depois, nada. A calma antes da tormenta. Aquela idéia a fez estremecer.

Rowan estava sentada ante sua mesa de trabalho encerrada em seu escritório, sentindo-se culpada por um crime que não tinha cometido. De repente, ouviu chegar os carros. Ninguém se aproximou da porta, de modo que olhou por entre as venezianas e viu os dois agentes de segurança conversando. A linguagem corporal dava a entender que se sentiam bem juntos. Uma equipe.

Ela nunca tinha gozado disso. Inclusive com seus colegas no FBI, nunca havia se sentido perto de alguém. Não podia. E se algo acontecesse com eles?

Soou a campainha. Necessitava de alguns minutos mais para recuperar a compostura. Queria muitíssimo a Roger mas a conversa da noite passada, somada a todo o resto, havia lhe trazido lembranças que tinha que voltar a enterrar, ao menos até que se encontrasse de novo a sós.

 

—Bonito lugar — disse Tess.

Michael olhou a seu redor, franzindo o cenho. Apreciava a beleza do lugar mas agora lhe preocupavam mais os aspectos relacionados com a segurança.

— Há muitas janelas. Onde estão as cortinas?

— O proprietário nunca as pôs no lado de oeste. — Annette sacudiu seu cabelo escuro com um sutil movimento da cabeça. Annette era uma mulher elegante e atraente, de olhos azuis e inteligentes. — É muito excêntrico. Assim às vezes pela tarde faz calor. — A produtora sempre falava com acentuadas flexões. Às vezes era irritante.

— Acreditava que Smith era uma mulher.

— É. O proprietário é meu amigo, um ator que está rodando um filme na Austrália. Aluga a casa a Rowan.

Michael olhou a seu redor, assimilando a distribuição do espaço.

Tudo era branco e deslumbrante, e havia muito vidro. Os móveis, a pintura das paredes, os tapetes. A única cor visível era a de alguns quadros abstratos de cores primárias em tons fortes que decoravam as paredes aqui e ali. Estéril. Frio. Ele não viveria em um lugar assim, disso tinha certeza.

Estavam em uma sala ampla, em um nível inferior do primeiro andar. Três grandes janelas moldavam a vitrine do mar. À direita havia uma sala de estar, uma espécie de biblioteca com um bar em uma parede. À esquerda estava a sala de jantar, em um nível mais elevado, também com vista para o oceano. As três salas tinham portas janelas de duplo batente que davam à sacada.

Aquela casa era um maldito aquário.

— O que acontece? — perguntou Annette.

— Temos que fazer alguma coisa com estas janelas — disse, com um movimento do braço.

— Como o que?

— O que for.

— Mas ninguém pode ver de lá de fora. A casa está orientada em direção ao mar.

Michael procurou responder discretamente.

— É verdade, mas alguém poderia estar lá fora de noite, na sacada, e ver todo o interior, com a casa acesa como uma árvore de Natal, e ninguém nem sequer se daria conta. — Jogou um olhar a seu redor. — Onde está a senhora Smith?

— Está em seu escritório — disse Annette. — Irei buscar-la.

Está sozinha?, pensou Michael. Já começava a não gostar do clima daquela missão. Não sabia nada a respeito de Smith exceto que era uma ex-agente federal convertida em escritora. Agora trabalhava em um roteiro para Annette e vivia em uma casa de vidro. E, certamente, sabia o que tinha lido nos jornais sobre o assassinato em Denver.

Michael seguiu à produtora com a vista enquanto se afastava pelo corredor e se detinha ante a primeira porta de batente duplo. Conhecia Annette e confiava nela, mas tomou nota mentalmente para pedir a Tess que fizesse uma breve e discreta investigação sobre a produtora e sua empresa. Embora nunca tivesse ouvido falar de assassinatos perpetrados para conseguir publicidade, mas sabia de casos montados para chamar a atenção sobre uma jovem estrela ou sobre um filme com crítica ruim.

— Rowan? — disse Annette, do corredor. — Chegaram os seguranças.

Ouviu-se uma resposta ininteligível.

Annette se voltou para Michael com um meio sorriso.

— Sairá em alguns minutos.

— Ouça, não pode estar aí sozinha. Se alguém tiver se proposto a matá-la, deveria estar visível a todo momento. —Passou junto a Annette e chamou com força à porta. — Senhora Smith, sou Michael Flynn. Por favor, saia.

— Eu disse cinco minutos — respondeu ela do outro lado.

— Não, não está segura aí dentro.

Ouviu-a rir, e a esse som seguiu outro, perfeitamente reconhecível, de um carregador que se introduzia em uma pistola. O coração lhe acelerou. Estava sozinha? Tentou abrir. Estava trancada. Então viu que uma das maçanetas girava lentamente. Encostou-se contra a parede. A porta mal se abriu e Michael esperou que ela saísse. Quando não apareceu, deslizou-se junto à parede e abriu a porta totalmente.

No meio do escritório havia uma loira alta com olhos da cor do mar. Tinha o olhar ausente, inexpressiva, e usava o cabelo recolhido para trás.

Apontava uma pistola para peito dele.

— Bang, você está morto.

— Abaixe essa maldita pistola! Que diabos acredita que é? O que está fazendo?

— Estou me protegendo.

Michael girou sobre seus calcanhares e se dirigiu à porta.

— Tess, vamos embora.

— Michael — disse Tess, mordendo o lábio.

— Agora. — Dizer que estava furioso seria pouco. Michael não tolerava que ninguém lhe apontasse uma arma. Será que estava louca?

— Por favor, Michael — disse Annette, pondo uma mão sobre seu braço. — Rowan está muito abalada. Escuta. Ela precisa de você.

Michael olhou para Annette e em seguida para a loira que saía do escritório com os braços cruzados, sustentando em uma mão uma Glock com gesto descontraído, apontando para o chão. Via-se que estava muito tensa, o qual contradizia sua atitude relaxada. Era muito magra, mas Michael percebeu músculos bem cuidados por debaixo das mangas curtas de sua blusa. Estava pálida mas, ainda assim, era uma mulher bela. Tinha a mesma expressão perdida de quando tinha apontado com a maldita pistola. Entretanto, a intensidade de seus olhos o dissuadiu de abrir a porta e ir embora. Acabava de entender o sentido da frase «Os olhos são as janelas da alma». Os olhos de Rowan Smith diziam que estava assustada, mas que era uma mulher forte, angustiada mas atrevida. Era uma combinação cativante.

— Vou lhe dar dez minutos para explicar-se — disse Michael, entre dentes.

 

 Demorou vários dias para encontrar a loja de flores adequada. Teria sido muito mais fácil se ela tivesse lhe dado um nome.

   As mãos enluvadas abriram o livro pela página que tinha marcado.

   A fachada da singela floricultura o recordava o bairro onde tinha crescido. Uma janela grande emoldurada por um toldo branco e verde, e as armações metálicas transbordavam com uma variedade de rosas vermelhas como o sangue recém derramado, samambaias que acabavam de ser orvalhados, gotejando lágrimas de água.

Perfeito, até as vermelhas rosas e as samambaias regadas.

Ele abriu a porta de vidro e uma campainha soou por cima de sua cabeça. Acolheu-o o aroma fragmentado de flores, de terra e de plantas, e um jovial «Olá, no que posso servi-lo?»

Respirou a essência da terra enquanto observava alguns arranjos de Primaveras de tons claros junto à porta. Esperou que duas mulheres tagarelas recolhessem seus pedidos no balcão e saíssem.

Um dos arranjos chamou sua atenção. Era um ramo triangular desenhado com excelente gosto, com maravilhosos esporões rosa e lilás rodeadas por um conjunto de narcisos de uma intensa cor amarela, cravos brancos e rosa e lírios cor púrpura tremendo sob o ar condicionado da loja.

Teria sido perfeito para ela em qualquer outra ocasião, mas não para um funeral. Era uma lástima.

Procurou outra página no livro murcho. Embora tivesse decorado a passagem de cor, agradava-lhe ver as palavras. Ele procurava um prazer que quase o enjoava, como se lesse inclinado sobre seu ombro enquanto ela o teclava no computador.

Lírios de Casa Branca, cravos, rosas, moluccellas, dragones, gipsófilas, todas de branco impoluto, emolduravam o arranjo floral funerário, e umas folhas de plumosus brindavam o contraste com seu verde suave, realçando a intensidade do branco. As flores, cheias de sua fragrância, tão viva, nunca deveriam ter-se instalado junto ao ataúde fechado, um ataúde que continha o corpo inerte e esquartejado de uma vida segada prematuramente.

— No que posso lhe servir?

Ele girou-se e sorriu para a jovem atendente que se aproximou para atendê-lo. Menos de trinta anos, loira. Felizmente, o texto não abundava na descrição de outros traços. Embora houvesse centenas de floriculturas em Los Angeles, teria sido difícil encontrar a conjunção de cenário e vítima se a autora tivesse incluído mais detalhes. Tinha demorado seis meses em encontrar uma garçonete que se chamasse Doreen Rodriguez em Denver.

Seu vôo para Portland sairia em menos de duas horas.

— Sim, eu gostaria de comprar uma coroa funerária. —Observou que os outros clientes saíam da loja, conversando, alheios a ele. Não tinham nem idéia de que acabavam de cruzar-se com um deus. Essa duplicidade o encheu de energia, e sorriu à simpática empregada.

— Lamento a sua perda — disse a moça. Na identificação que tinha presa dizia «Christine».

Doreen não tinha sido uma grande perda. Na realidade, nem sequer havia oposto uma grande resistência, mas ele não tinha intenção alguma de comentar esse detalhe com sua próxima vítima.

Fechou o livro e descreveu as flores que queria para a coroa. Christine tentou fazer algumas sugestões e mostrar outros belos arranjos, com muito verde, explicando que as coroas estavam fora de moda. Ele escutou educadamente.

— Isto é o que ela teria gostado — explicou.

— Eu compreendo — disse ela, com um sorriso caloroso, e a dose justa de simpatia em seus belos olhos azuis.

Era uma lástima que tivesse que matá-la.

 

— Alguém a ameaçou?

Estavam sentados à mesa de jantar. Annette esclarecia a maioria dos detalhes, mas Michael ainda tinha perguntas sem resposta. Olhava para Rowan mas não sabia com quem tratava. Ela usava óculos pequenos de aro metálico com uma pátina cinza que o impedia de ver os olhos. Não eram óculos de sol mas tinham o mesmo efeito. Estava sentada em um extremo da mesa e olhava pela janela.

— Não abertamente — disse Rowan, depois de um momento. Resumiu o que a polícia havia lhe dito no dia anterior, mas teve a precaução de não incluir o detalhe de seu livro abandonado junto ao cadáver. — Sou perfeitamente capaz de me cuidar sozinha — disse, olhando-o. — O que você faria, especificamente, para me proteger? — Seu tom condescendente irritou Michael.

Era evidente que tinha trabalhado para o FBI. Todos os federais acreditavam saber de tudo, pensou Michael, com um ar zombador. Ainda assim, necessitava de proteção. Um louco tinha utilizado seu livro como manual de instruções para um assassinato. Talvez o assassino tivesse seus próprios planos, ou quem sabe, quisesse chegar até ela. Aumentar a segurança naquela casa era uma boa maneira de começar.

Também tinha consciência de que um caso de alto perfil como esse podia dar um importante impulso a sua empresa.

— Fui policial durante quinze anos e trabalhei outros dois como guarda-costas. Asseguro que sou bastante competente para lhe guardar bem as costas — afirmou. Eram costas muito bonitas e agradáveis de olhar, pensou. O pacote completo era atraente.

— Não respondeu a minha pergunta — disse Rowan, que conservava a rigidez. — O que pode fazer por mim que não possa fazer eu mesma?

Era deliberada a sua teimosia? Certamente que ela sabia para que servia um guarda-costas.

— Você trabalhou para o FBI. Sabe perfeitamente bem do que me ocuparia. Atender à porta. Acompanhá-la quando sair de casa. Fechar tudo à noite e, se o cara aparecer, levá-la a um lugar seguro. Que mais quer saber?

Rowan arqueou uma sobrancelha e parecia a ponto de dizer algo quando soou a campainha. Levantou-se e Michael a olhou com cara de poucos amigos.

— Diria que atender à porta faz parte de minhas obrigações — disse.

Ela assentiu, e tirou a Glock da cartucheira que levava sob sua camiseta branca.

Annette quase parecia excitada, e Tess tirou seu próprio trinta e oito curto.

Rowan não pôde evitar um sorriso ao ver a arma de Tess Flynn.

— Que pistola bonitinha — disse, antes que pudesse reprimir seu odioso comentário.

Michael desapareceu pelo corredor em direção ao vestíbulo. Tinha sido policial por quinze anos, e certamente teria ingressado na academia logo depois de acabar o colégio. Tinha esse ar duro dos policiais curtidos, um balanço um pouco arrogante ao andar, uma imagem rígida. Quase soltava faíscas, com essa espécie de energia contida, mas em torno de seus olhos verdes se marcavam as linhas da risada, e tinha o cabelo muito comprido para ser um corte regulamentar. Tinha o aspecto de um rebelde, quase. Rowan não pôde evitar perguntar-se por que teria abandonado a corporação sendo tão jovem. Quando se aposentasse, não receberia todos os benefícios, um detalhe muito importante para a maioria das pessoas que trabalhavam nas corporações de segurança.

Propôs-se investigar a questão.

Por outro lado, dava a impressão de saber o que fazia em matéria de segurança pessoal. Se não aceitasse a ele, Roger mandaria alguns agentes. Rowan não gostava da idéia de que o Departamento utilizasse tantos recursos nela. Ao menos até que tivessem uma informação confiável sobre o assassino.

O problema era que não gostava de estar sujeita às decisões de outros. A idéia de necessitar de um guarda-costas a punha de mau humor. Era perfeitamente capaz de cuidar-se sozinha, tal como havia dito a Roger e, agora, a este outro cara, Michael Flynn.

Suspirou e esfregou os olhos sob os pequenos óculos, resignada ante a idéia de que teria que ser Michael ou um ex-colega. Não necessitava de óculos para ver, mas os usar também lhe permitia observar às pessoas.

Depois de um tempo, Michael voltou para a sala de jantar com uma enorme coroa funerária branca e verde.

Rowan ficou pálida. Tinha visto essa coroa antes. Em sua imaginação.

O aroma doce e enjoativo das flores lhe recordou de todos os funerais aos quais já tinha assistido. Eram muitos, mas recordava de todos e cada um deles. Quem disse que o excesso de abundância de beleza fazia da morte algo mais tolerável? A morte, quando era prematura, era algo que jamais podia perdoar-se.

— Vem com um cartão — avisou Michael, e o procurou.

— Não o toque! — exclamou Rowan, e se aproximou rapidamente.

Michael se deteve, com uma mão suspensa no ar.

— Revisei o pacote antes de deixar que o entregador partisse. Está limpo. — Com os lábios apertados em uma linha rígida, parecia incomodado, como que irritado porque ela tivera a ousadia de questionar sua competência.

— Não, não é isso. Reconheço-as.

— As flores?

— São exatamente como as descrevi em uma de minhas novelas — disse ela, assentindo com a cabeça. A voz lhe tremeu ao falar, e expressava perfeitamente o que sentia. O assunto não tinha bom aspecto e se tinha alguma esperança de que houvesse um engano na entrega, esta se esfumou quando Rowan tirou o cartão de um dos lados com as unhas.

A mensagem pré-impressa «IN MEMORIAM» aparecia seguido de uma frase escrita à mão: Rogo-lhe aceite minhas profundas condolências pela morte de seu personagem, Doreen. Estava assinado por «Um admirador».

Rowan soltou o cartão sobre a mesa como se tivesse se queimado, com o coração pulsando a toda velocidade. Sentiu o estômago revolto com o café e a banana que tinha ingerido três horas antes ao tomar o café da manhã.

Michael se inclinou para ler a mensagem.

— O que significa?

Rowan esperava equivocar-se, mas temia que não seria assim.

— Chame à polícia. Voltará a matar. Se é que já não o fez.

Quando a polícia partiu, várias horas depois, junto com Annette e Tess, Rowan estava esgotada. Michael não disse nada quando viu que se retirava a seu escritório. A polícia seguiria a pista das flores, mas Rowan já parecia resignada de que alguém tinha morrido. A atitude depreciativa que tinha tido ante a presença de Michael desapareceu. Rowan se fechou emocionalmente e lhe disse que fizesse o que fosse necessário.

Michael estudou o sistema e o perímetro de segurança, e comprovou as janelas e portas. Estavam bem fechadas.

Ao cair a noite, Michael sentiu que o estômago lhe rugia de fome, e se lembrou que não tinha comido desde o café da manhã. Na geladeira de Rowan não havia grande coisa, mas encontrou um pouco de massa. Não era massa fresca, mas bastaria. Enquanto fervia a água, inspecionou a despensa e tirou um molho de espaguete, um frasco de cogumelos, uma lata de azeitonas e tomate cortado em cubo.

Flynn desfrutava da tranqüilidade que lhe proporcionava cozinhar, sobre tudo em uma cozinha de gourmet como essa. Enquanto o jantar fervia em fogo baixo, revistou os armários até que encontrou uma garrafa de bom vinho tinto. Olhou o ano de colheita com um gesto de aprovação. Um bom vinho. Ele não podia beber quando estava de serviço, mas talvez uma taça relaxaria Rowan Smith.

— Me alegro de que o aprove — disse Rowan da porta.

Michael teve um sobressalto. O havia pego de surpresa. Estava acostumado a dar-se conta quando o observavam.

— Pensei que talvez você gostasse de uma taça para relaxar.

Ela assentiu com a cabeça e foi sentar-se em um dos bancos altos. Ele desarrolhou a garrafa, serviu-lhe uma taça e a ofereceu.

— Obrigada — disse ela, com um meio sorriso.

— O vinho é seu.

— Por me deixar estar um momento a sós. — Já não estava usando os pequenos óculos, e ele tentou não olhar diretamente a seus belos olhos de cor cinza azulada. Eram olhos muito expressivos, apesar de seu rosto hierático e sua postura rígida. Nesse momento, expressavam seu cansaço, mas ela seguia pensando, provavelmente revisando mentalmente todos os casos em que tinha trabalhado.

— Vi que não há grande coisa para comer, assim improvisei algo — disse ele, enquanto olhava o refogado.

— A comida se estraga. Compro o que necessito quando o necessito.

— Falou como uma autêntica mulher solteira.

— Nem todas nos casamos, não somos esse tipo de mulher.

— Suponho que não. — Michael voltou para a cozinha e remexeu o molho. Ele tinha pensado em casar-se em mais de uma ocasião. A mais recente era com Jessica. Pensar nela lhe despertava um sentimento de raiva e uma profunda tristeza. Isso fora há dois anos, e parecia que ainda não o tinha superado.

— Está tudo bem? — perguntou Rowan.

Droga, pensou, não sabia que se notava tanto. Claro, ela tinha sido da polícia, e estava acostumada a interpretar a linguagem corporal.

— Bem — respondeu com voz baixa, e lhe deu as costas enquanto escorria as verduras, juntava tudo e o servia em dois pratos. Quando deixou o prato em frente a Rowan, já tinha conseguido apartar Jessica de seus pensamentos.

— Normalmente, iria acompanhado de pão e uma salada, mas não havia — disse, tentando não dar importância a seus armários de cozinha vazios.

— Está com um cheiro maravilhoso.

— Obrigado.

Comeram em meio a um silêncio de velhos camaradas, cotovelo com cotovelo junto a bancada da cozinha. Quando acabaram, Michael começou a recolher mas ela lhe tocou o braço.

— Você cozinhou. Eu recolherei.

Rowan recolheu tudo com rapidez e movimentos precisos. Ele tinha mil perguntas para fazer, mas decidiu mostrar-se precavido. Rowan Smith era muito mais que um rosto bonito e um talento para contar uma história de terror. Nas poucas horas transcorridas desde que a conheceu, Michael tinha se dado conta de que era uma mulher extremamente retraída.

Também era uma mulher inteligente e competente, com um passado misterioso. Uma ex-agente do FBI convertida em escritora. Tranqüila e reservada, ela dava a impressão de que tinha muita energia armazenada fervendo sob a pele. Era um contraste interessante. Michael queria saber por que tinha renunciado ao que parecia uma promissora carreira no FBI. Por que tinha decidido escrever novelas policiais? O que a tinha levado a deixar Washington e mudar-se para costa oeste? Desde que tinha alugado temporalmente esse lugar, para onde ligava quando ligava para casa?

Propôs-se a missão de descobrir tudo o que havia para saber a respeito de Rowan Smith. Por razões profissionais, certamente, pensou.

Depois de uma última ronda de vigilância, comprovou que Rowan havia retirado para dormir por essa noite, instalou-se em um dos quartos de hóspedes e ligou para o apartamento de Tess.

— Já encontrou alguma coisa? — Tinha pedido que procurasse dados sobre o passado de Rowan Smith.

— Não é grande coisa. — Tess o informou a respeito do pouco que tinha averiguado. Rowan tinha se demitido do FBI fazia quatro anos. Tinha uma casa em Washington, mas vivia em Denver, Colorado, fazia três anos.

Tess tinha razão. Não era grande coisa.

Michael se recostou na cama com a cabeça apoiada no braço.

— O que você diria dela?

— Ainda não tenho um veredicto, Mickey. Sua demonstração de poder com a pistola esta tarde me incomodou. Não estou acostumada a ver alguém apontando uma pistola a meu irmão. Quero dizer, quando foi policial, sabia que podia acontecer, mas eu não gostava. Me diga, de verdade temos que aceitar este trabalho?

Ele também havia se irritado com aquele incidente.

— Acredito que está com medo. É uma pessoa muito retraída. Está acostumada a estar consigo mesma e a não contar com ninguém. — Suspirou, esfregou os olhos e reprimiu um bocejo. — É um trabalho relativamente seguro. Precisamos mantê-la segura. Aqui na casa ou nos estúdios. Não se trata de andar seguindo-a por toda parte como se fosse um possível alvo.

— Suponho que você tem razão. — Não parecia muito convencida. — Acredito que é uma mulher sozinha.

Michael ficou pensando nisso.

— Sim, pode ser que tenha razão.

— Mickey, não se envolva.

— Não me envolvo. Por que diz isso? — perguntou, e pelo seu tom de voz percebeu que encolhia os ombros.

— Eu te conheço. Sei como é com as mulheres. Carla primeiro, depois Jessica. Rowan Smith não necessita ser resgatada por um cavalheiro de brilhante armadura.

— Não me venha com sua psicologia de supermercado, Teresa — advertiu ele. — Sei perfeitamente como fazer meu trabalho. Não deixarei que uma leve atração física me impeça de protegê-la. — Mas que inferno, não tinha querido insinuar a Tess que achava Rowan sexy. Quem não a achaca sexy? Ele era capaz de controlar-se.

Sua irmã soltou um suspiro, dando a entender que não discutiria com ele nesse momento, embora para ela a conversa não acabasse aí.

— Vou procurar mais a fundo. Esta tarde fiz uns alguns telefonemas. Demorarei alguns dias em ter respostas.

— Não viole nenhuma lei.

— Quem? Eu? — Tess riu e desligou.

Enquanto conciliava o sono, pensou em Rowan Smith. Era uma mulher complexa e bela, e ele intuía que havia algo problemático no seu passado. Esperava poder ganhar sua confiança, que ela falasse com ele. Na falta disso, conformaria-se com o que Tess encontrasse.

E, ao contrário do que pensava sua irmã, Michael sabia que Rowan não era Jessica. Não tinham nada em comum.

 

Tess esteve caminhando para cima para baixo durante metade da noite, perguntando-se o que deveria fazer com a informação que acabava de obter.

Embora respeitasse a competência de Michael, recordava muito bem as vezes que seu irmão havia se implicado emocionalmente com mulheres que tinham problemas. A necessidade muito real que Rowan tinha de que alguém a protegesse atrairia a seu irmão mais que tudo.

Tess tinha várias dúvidas em relação aos dados fragmentados que tinha conseguido sobre o passado de Rowan. Por que tinha deixado o FBI, por exemplo. Queria saber mais a respeito de seus casos. Quando Rowan entregasse cópias dos arquivos de seus casos, Tess também queria analisá-los. Rowan tinha falado abertamente de sua carreira, mas assim que as perguntas de Michael se tornaram pessoais, suas respostas se tornaram curtas e cortantes. Aí acontecia algo, mas Tess ignorava o que podia ser. Um ex-marido? Não tinha encontrado nenhum indício de que tivesse sido casada, mas isso era o de menos. Um ex-namorado? Era uma possibilidade.

Esperava que Michael a perdoasse por ligar a seu irmão John, mas necessitava de uma opinião mais objetiva. Michael era um bom investigador, um bom guarda-costas, mas às vezes deixava que seus sentimentos pessoais nublassem o julgamento. Rowan o intrigava, disso Tess havia se dado conta.

Ligou para o telefone particular de John.

— É Tess.

Seguiu uma pausa.

— O que está acontecendo?

— Temos um novo trabalho, mas acredito que talvez fiquemos sobrecarregados. — Contou-lhe sobre Rowan Smith, o assassino e a coroa funerária. — Michael me pediu que investigasse seu passado.

— E?

— Nada.

— E então, o que?

— Pois…, nada. É como se tivesse nascido aos dezoito anos, ao começar os estudos universitários.

— Talvez você não seja tão boa quanto acredita — disse John, com uma ligeira intenção de provocar.

— John, estou preocupada. Essa coroa funerária me pôs os cabelos em pé. Li sobre a morte de Doreen Rodriguez nos jornais e em seguida o capítulo de sua novela. São idênticos.

— O que descobriu sobre ela?

— Formou-se em Georgetown há doze anos e ingressou diretamente na academia do FBI. Foi a primeira de sua turma. Tem vários prêmios em tiro ao alvo, e encontrei alguns recortes de notícias que falam de sua intervenção na detenção de um criminoso, mas a ela não citam textualmente. Demitiu-se há quatro anos, justo quando publicaram seu primeiro livro.

— Parece um caso típico de agente queimado. Às vezes acontece.

— Já ia chegar a isso. Há um documento judicial de mais de vinte anos atrás. Mudança de nome.

— Ah, sim?

— Era menor de idade. E é informação confidencial.

— Está bem, fiquei curioso.

— Não terminei. Tem seu endereço em Washington, assim fiz uma busca pelo proprietário. A casa está em nome de Roger e Grace Collins.

— Esse nome me é familiar.

— Roger Collins é diretor adjunto do FBI. Há algo de estranho nisso, você não acha? Que tenha trocado de nome quando era menor de idade e que tenha vivido na casa de um dos diretores do FBI? — perguntou, e permaneceu em silêncio. — O que acontece se souber mais a respeito deste assassino do que dá a entender? Por que uma menina precisaria trocar de nome? Proteção de testemunhas?

— Me ocorrem vários motivos, e nem todos são maus.

Tess o ignorou.

— E já me dei conta de que Michael gosta da garota. Estou preocupada, John. — Pesava-lhe dar essa informação a seu irmão antes de falar com Michael, mas sabia que John tinha melhor intuição. Contaria a Michael amanhã.

— Estou prestes a terminar aqui. Me dê dois dias.

Ao desligar, Tess se sentiu mais tranqüila. Confiava em Michael, mas John tinha mais experiência em casos relacionados com os órgãos de segurança. Michael estava acostumado a ser muito confiante, enquanto que John era justamente o contrário, às vezes tão desconfiado que irritava Tess. Jamais tinha conhecido alguém tão obsessivo quanto seu irmão mais velho, tão comprometido com seu trabalho em todo tipo de casos.

Se alguém podia chegar ao fundo do caso de Rowan Smith, esse era John.

  

John desligou seu telefone celular e deixou de lado as preocupações de Tess. Tinha que terminar rapidamente sua missão se quisesse voltar para Califórnia e ajudar seu irmão. Embora confiasse na competência de Michael mais que Tess, inquietava-lhe Smith e seu passado. Sabia quão enganosos podiam ser o pessoal do FBI, sobre tudo quando protegiam a um dos seus.

Não podia dedicar mais tempo a essa operação. Ligou para seu contato da DEA para transmitir a longitude e latitude do armazém onde estavam escondidos mais de dez mil quilogramas de heroína pura. Tinha esperança de encontrar o paradeiro do esquivo Reinaldo Pomera, mas desta vez não foi possível.

Baixou o olhar e viu seus punhos fechados. Tinha certeza de que desta vez se veriam a cara a cara Pomera e ele. Tinha chegado muito perto. Tão perto que quase podia cheirar esse safado.

Obrigou-se a relaxar respirando lenta e profundamente. Recordou a si mesmo que suas missões de apoio ao DEA era um trabalho esporádico, na melhor das hipóteses. Sua nova profissão era a empresa de segurança montada com Michael e Tess. Já não era um agente a serviço do governo.

Salvo quando eles o necessitavam, naturalmente, por sua grande habilidade em encontrar o paradeiro dos grandes barões da droga, como Pomera, e detê-los, pensou, amargurado. Então recordou que tinha sido sua decisão afastar-se dessa profissão.

Também não tinha tido grandes opções. Vender a alma ao diabo para apanhar o diabo. Não era uma alternativa muito digna.

Deu algumas voltas e comprovou os movimentos no armazém mediante os sensores eletrônicos que tinha instalado. Quatro guardas vigiavam o perímetro e outros dois o interior. Ninguém estava em alerta. O típico.

Embora Tess não o tivesse chamado para que voltasse para Los Angeles, em breve seria chamado para dar luz verde à batida policial. O carregamento da droga estava previsto para o dia seguinte à noite, e sua intuição dizia que Pomera não apareceria.

Não ia deixar que essa droga acabasse nas ruas dos Estados Unidos. Era um pequeno golpe contra o gigantesco cartel, mas não deixava de ser um golpe. E se um só garoto não morresse graças a isso, teria valido a pena.

Se tudo corresse bem, estaria em Los Angeles dentro de trinta e seis horas.

  

Um golpe suave na porta despertou Michael. A luz da primeira hora da manhã se filtrava pelas cortinas. De um salto, estava fora da cama, em guarda, sem se importar que estivesse somente de cueca.

Ela desviou o olhar.

— Vou sair para dar uma corrida.

— Irei com você.

— Não é preciso.

— Vou acompanhar-la. Dê-me três minutos.

Não tinha dormido bem, e no espelho viu que se notava. A barba de dois dias o fazia parecer ainda mais desarrumado do que se sentia. Tinha os olhos verdes injetados de sangue, e brilhavam muito. Lavou o rosto com água fria, penteou-se com a mão e colocou uma calça de moletom e uma camiseta.

O aroma do café o levou até a cozinha. Rowan estava junto a pia e bebia um copo grande de água. Tinha o cabelo comprido e liso recolhido em uma trança. Não tinha se maquiado, mas Michael a achou igualmente atraente.

— Vamos — disse, deixando de lado seu interesse pessoal em Rowan. Não deixaria que o distraísse de seu trabalho. Ela não o fazia a propósito, pensou. Ao contrário, mantinha uma respeitável distancia física e emocional com os que a rodeavam.

— São quase cinco quilômetros daqui até o outro extremo da praia, ida e volta. Faço-o duas vezes. Será capaz?

— Nenhum problema — respondeu. — Deixe eu dar uma olhada. — Viu que tinha uma pistola no coldre estava ajustado às costas. Não era a Glock. Esta era uma pequena Heckler & Koch, a «Rolls-Royce» das semi-automáticas de nove milímetros. — Bonita peça — disse —, pelo visto se ganha bem a vida escrevendo. Com certeza não poderia pagar algo assim com o salário de empregado.

Michael viu que era bela quando sorria.

— Sim, foi genial quando entrei na loja e paguei por ela em dinheiro. Poderíamos ir ao stand de tiro, praticar um pouco. Deixarei que prove.

— Não seria ruim — disse ele.

Deu uma olhada à praia e a sacada, e disse:

— A partir de agora, se tiver vontade de dar uma corrida, talvez devesse considerar a possibilidade de ir a outro lugar de carro.

— Talvez. — Não parecia muito disposta a pensar em sua sugestão, e pôs-se a correr em ritmo vigoroso, com o qual evitou toda conversa.

Rowan se surpreendeu ao se sentir confortável com Michael Flynn. Se não pensasse nele como seu guarda-costas, poderia inclusive acostumar-se a sua companhia. Enquanto pensasse nele como um mero apoio, poderia viver com a falta de intimidade. Por ora.

Fascinava-a correr pela praia quando a areia compacta e molhada era bastante dura para pisar, mas bastante suave para amortecer cada passo. Era cedo e fazia frio, e o ar estava salgado, espesso. A espuma acariciava a beira e em seguida se retirava, um ciclo infinito do ir e vir das águas. A beira do mundo, onde o grande oceano Pacífico chegava a terra, fazia qualquer pessoa se sentir pequena quando via sua força.

No final das duas voltas, Rowan voltou correndo até as escadas que conduziam à sacada da casa. Estava a ponto de entrar na casa quando Michael lhe ordenou:

— Espere. — Passou a seu lado, abriu a porta e deu uma olhada. Quando viu tudo em ordem, disse-lhe que entrasse.

Um aviso de quem era ele e por que estava ali.

  

Nesse dia, Rowan e Michael não tiveram oportunidade de ir ao stand de tiro. Precisavam dela nos estúdios para reescrever uma parte do roteiro. Annette sugeriu que os interessados se reunissem em Malibu, mas Rowan se opôs e disse:

— Tenho que sair desta casa.

Tess se reuniu com Michael e Rowan no minúsculo escritório que esta tinha nos estúdios. Rowan lhes lançou um olhar cético.

— Michael, pensei que tínhamos combinado que aqui eu estaria a salvo.

Era verdade. Ao chegar, falaram com os responsáveis pelos estúdios e Michael ficou tranqüilo que o chefe de segurança entendesse os riscos. Mas Michael queria alguém dos seus aí dentro, alguém que respondesse diretamente a ele. Já que John estava fora da cidade, Tess era a única alternativa à mão.

— Diga que sim, está bem?

Rowan entreabriu os olhos e mudou de tema.

— Vou ligar para o FBI e averiguar onde estão os arquivos dos meus casos. Acreditava que a esta altura já os teriam mandado. Podemos recolhê-los no quartel geral ao voltar.

— De acordo. Tome cuidado, Rowan.

— Sempre.

Viu que Tess saía junto com Rowan e sentiu uma pontada de arrependimento por ter que ausentar-se. Mas queria consultar o com Departamento de Polícia de Los Angeles se tinham seguido o rastro das flores. Não seria demais assegurar-se de que o chefe soubesse que ele trabalhava no caso. Poderia dar um pouco de informação sobre o estado da investigação.

Rowan estaria a salvo sempre que se encontrasse nas dependências dos estúdios

Chegou na delegacia de polícia um pouco antes das três, mas os inspetores Jackson e Barlow estavam reunidos com os federais. Michael esperou, conversou com seus antigos colegas e começou a perder a paciência quando, ao final de uma hora, a reunião não tinha acabado.

No final, quando estava a ponto de partir, a secretária do chefe lhe avisou:

— Agora pode entrar.

O delegado Bunker estava sentado ante sua mesa com o telefone apoiado entre a cabeça e o ombro.

— Flynn, me alegro em te ver. Eu gostaria que fossem outras as circunstâncias — disse. Desligou o telefone de repente, com o cenho enrugado, e estreitou a mão de Michael. — Barlow acaba de sair com os federais à cena de um crime. Localizaram a floricultura.

— E?

— Uma loja perto da Missão São Fernando. Os relatórios dizem que Christine Jamison vendeu a coroa funerária no domingo para que a entregassem à senhora Smith na terça-feira. Mandamos a dois agentes a seu apartamento. Está morta.

  

Michael estava a ponto de subir no SUV quando ouviu a campainha de seu telefone celular. Na tela viu que era Tess.

— O que foi?

— Mickey! — Tess parecia estar sem fôlego.

A adrenalina disparou. Algo tinha ocorrido.

— O que aconteceu?

— Venha o mais rápido possível. Aconteceu algo aqui nos estúdios.

— Rowan está bem? — O coração lhe pulsava com força.

—Não, ela acredita que foi uma brincadeira. Me disse que não ligasse para você, mas…

— Chego em seguida. — Interrompeu a ligação e discou a linha direta do chefe de polícia para lhe pedir que mandasse uma patrulha aos estúdios, embora ainda não tivesse todos os detalhes.

Chegou aos estúdios em tempo recorde. No set, os agentes uniformizados já estavam falando com Annette, que os olhava como com vontade de estrangulá-los. Viu Rowan de pé ao fundo do set. Estava a salvo. Tess se aproximou com pressa para lhe contar o acontecido.

— Estávamos olhando um ensaio aqui no estudo B e os atores fizeram uma pausa. David Cline, o diretor, começou a falar com Rowan sobre certas mudanças e então se ouviu um grito. Disse a Rowan que ficasse onde estava. Tirei minha pistola, mas ela também, e foi ela a primeira em ir para o set.

O coração de Michael se encolheu em somente imaginar a sua irmã menor com uma arma na mão. Ele a tinha treinado, mas Tess ainda não estava preparada para a ação de campo. Não deveria ter lhe confiado a proteção de Rowan. Embora, na realidade, não imaginava que algo pudesse acontecer nos estúdios. Sobre tudo pelas medidas de segurança que sempre vigoravam.

— Marcy Blair, uma das atrizes, a que gritou, estava junto a uma poça de sangue — prosseguiu Tess. — Não havia ninguém ferido. Rowan ficou olhando o sangue por um bom tempo e eu pensei que ela capaz de qualquer coisa. E então se inclinou e a tocou. Era de mentira. Ninguém viu quem a tinha derramado. Tinham saído todos durante o descanso. Marcy Blair foi a primeira em voltar.

Alguém tocou em Michael no braço e ele se girou, rápido, tenso pelas notícias e pela escassa informação.

Era Rowan. Estava pálida e abatida, mas decidida.

— Michael, confie em mim. Isto não é um crime. Diga aos agentes que saiam.

— Como você sabe? — Estava zangado consigo mesmo por ter confiado na segurança dos estúdios. Se algo tivesse acontecido a Tess, ou a Rowan… não queria nem pensar nisso. Não voltaria a deixar-las sozinhas. Afinal, era seu dever proteger Rowan, com ou sem a segurança dos estúdios.

Rowan se aproximou e ele tragou saliva. Havia algo nessa mulher que lhe resultava tremendamente atraente, mas nesse momento estava muito irritado e frustrado para pensar nisso.

— Michael — disse ela, com voz suave. — Sei quem derramou o sangue falso. É um bom menino e não quero que se meta em problemas. Deixarei que você fale com ele se prometer não dar maior importância ao assunto. Por favor, diga à polícia que houve um mal-entendido.

Estava tentado a não lhe dar atenção. Tinha vontade de colocar medo no corpo de alguém, e um menino travesso vinha mesmo a calhar.

— É melhor você estar certa — disse, entre dentes.

Aproximou-se dos agentes, disse-lhes que se tratava de um mal-entendido e que ele falaria pessoalmente com o chefe. Aquilo os convenceu e decidiram partir. Annette tentou lhe repreender por chamar gente do exterior, como a polícia. Mas Michael a ignorou. Chamaria a quem fosse necessário para cumprir com seu dever.

Michael acompanhou Rowan a seu escritório, e ela recolheu suas coisas.

— Certo, o que está acontecendo?

— Adam Williams é meu admirador número um — disse, com um ar malicioso. — Tem dezenove anos e vem de um lar conflituoso. Conheci-o faz dois anos quando vim a Los Angeles para trabalhar no meu primeiro roteiro. Começou a me seguir por toda parte e, no final, tive que me defrontar com ele. —Rowan fechou a porta de seu escritório e saíram para o estacionamento para procurar o SUV de Michael.

— É um bom garoto — prosseguiu Rowan. — É um pouco estranho, mas não tem ninguém com quem falar, além da internet. A última vez que voltei ao Colorado, mantivemo-nos em contato através do correio eletrônico. Eu gostei dele. Consegui-lhe um emprego no departamento de cenários quando voltei há dois meses, e hoje o vi no estúdio B. Isso é algo típico dele. — Encolheu os ombros e o olhou com um meio sorriso. — Gosta de brincadeiras macabras.

— Deveria pedir que o prendam. — Seria uma brincadeira? Talvez Michael tivesse que julgar por si mesmo as intenções do rapaz.

— Isso lhe faria tanto mal, não pode nem imaginar — disse ela, com o olhar um pouco perdido. — Tem que me deixar fazer as coisas a minha maneira. Não permitirei que o ameace. Adam não é um deficiente mental, mas é um pouco lento.

— Já veremos. — Quando ela lhe lançou um olhar severo, Michael se virou para trás. — O farei a sua maneira… ao menos para começar.

Rowan levou Michael até chegar a um pequeno duplex a somente três quadras dos estúdios, em um bairro mais antigo e bem cuidado de Burbank.

— Adam vive na parte de trás. Por favor, deixe que eu trate disto — repetiu.

Ele quis protestar, mas ao ver que Rowan esticava a mandíbula, soube que estava decidida. Ao mesmo tempo, percebeu seu cansaço, que dava certo brilho a seus olhos. Tocou-lhe a bochecha com a ponta dos dedos, e o gesto se converteu em carícia. Então deixou cair o braço.

— Eu cuidarei de suas costas.

Rowan assentiu, com um meio sorriso. Ela caminhou em direção a entrada, e em seguida até a parte de trás. Bateram na porta. Sem resposta.

— Adam, sou eu, Rowan.

Ouviram passos que se arrastavam. Então uma fechadura de segurança deslizando-se e a porta se abriu. Ao olhar pela porta gradeada, por cima da cabeça de Rowan, Michael viu um rapaz alto, magro e pálido. Tinha enormes olhos castanhos e o cabelo curto. Usava uma camiseta preta e jeans gastos. No rosto não tinha nem um pelo. Parecia tão jovem que Michael se perguntou se, na realidade, barbeava-se.

Adam olhou de Rowan a Michael e de volta a Rowan, enquanto esfregava os pés.

— Olá.

— Podemos entrar, Adam?

Adam lançou a Michael um olhar suspeito.

— Te apresento o meu amigo, Michael Flynn. Trabalha para os estúdios. — Quando Adam não se moveu, Rowan acrescentou — É da segurança.

Adam franziu o cenho.

— Você já sabia que fui eu, não?

— Eu gostaria de entrar — disse ela.

Adam abriu a porta gradeada e os deixou entrar. Michael ficou surpreso ao ver quão organizado era o rapaz, embora a decoração da sala fosse estranha. Os desmantelados móveis estilo anos cinqüenta, mesmo não tendo nada de atraente, eram funcionais. Em um canto havia uma estante repleta de livros, mas os quatro romances de Rowan estavam separados e muito bem colocados na parte superior. Michael sentiu uma espécie de irritação com os pôsteres de cinema de terror colados na parede com tachinhas, mas o que de verdade o sobressaltou foi o boneco tão realista em um canto da sala, com a cabeça meio cortada e o sangue e os tendões à vista. O sangue parecia tão real, com pátina de umidade. Ao olhá-lo mais de perto, via-se que era só plástico.

— Ouça, Rowan — Adam sorriu entusiasmado —, espera aqui. Quero te mostrar algo. — Foi correndo até a parte de trás da casa e, por um momento, Michael ficou tenso. O menino parecia inofensivo, mas às vezes as aparências enganam. Colocou-se diante de Rowan.

— Acreditei que cuidaria das minhas costas — sussurrou ela.

— Sigo sendo seu guarda-costas — respondeu ele, com voz igualmente baixa.

Adam voltou com pressa para a sala com uma caixa nas mãos.

— Acredito que solucionei o problema que Barry tinha com o vazamento de sangue. Pus uma válvula aqui, vê? — Abriu a caixa e mostrou o conteúdo a Rowan, dando as costas a Michael, deliberadamente, excluindo-o, como uma criança ciumenta. — Se criarmos um vácuo na bolsa, quando se abrir a válvula, o sangue sairá mais lentamente. Posso ajustar a válvula à velocidade que quiserem.

— Você é muito inteligente, Adam. Eu não teria sido capaz de inventar algo assim.

— Acha que Barry gostará?

— Sim, acredito que gostará.

Adam era todo sorriso enquanto se balançava sobre a ponta dos pés.

— Adam, tenho que falar contigo sobre o que aconteceu no estúdio B esta tarde.

Adam franziu o cenho, como um menino a ponto de receber uma reprimenda.

— Eu… eu não queria te assustar, Rowan. Acreditei que nada te assustava. Mas Marcy se comportou muito mal com Barry esta manhã. Não foi culpa dele que o vaso se quebrasse antes do tempo. Barry lhe disse que o sustentasse pela base, e ela não deu importância. Nunca dá importância. Barry estava muito zangado e eu pensei que seria bom lhe dar um susto porque é muito má, realmente. — O lábio inferior tremeu, como se fizesse um bico.

Rowan o pegou pela mão e o levou até o sofá. Sentou-se e indicou que ele fizesse o mesmo. Fez um sinal a Michael com a cabeça, olhando para uma cadeira no canto, junto ao boneco descabeçado. Ele se sentou e fez uma careta ao boneco. Como podia se viver com uma coisa assim te olhando todo o dia?

— Adam, já havia te dito antes que não pode fazer esse tipo de brincadeiras nos estúdios. Há pessoas que não as acham engraçadas.

— Mas não fiz mal a ninguém! Só queria dar um susto nela.

— Eu sei que não faria mal a ninguém de propósito. Mas, às vezes, as brincadeiras nos escapam das mãos. — Ficou em silêncio por um momento e prosseguiu: — Marcy é má, e Barry não merecia que gritassem com ele. Mas Marcy não merecia que lhe dessem um susto. Barry me disse que é muito importante em sua equipe, que trabalha bem. Não quero que ponha em perigo seu emprego, Adam.

— Não me despediriam, não? Eu não queria — balbuciou, a beira das lágrimas.

Rowan lhe apertou a mão.

— Não, prometo que por esta vez não o despedirão. Mas amanhã terá que contar a Barry o que fez. E tem que nos prometer, a ele, e a mim, que não fará mais brincadeiras pesadas a ninguém nos estúdios.

— Não farei. Sinto muito. Não queria machucar ninguém. —Piscou e a olhou como um cachorrinho perdido. — Continuamos sendo amigos?

— Claro. Sempre seremos amigos, Adam.

— Sinto muito — repetiu ele, assentindo com a cabeça.

— Adam, posso confiar em ti, certo?

— Oh, sim. Sempre — disse, e beijou o polegar como as crianças pequenas fazem quando juram uma promessa solene.

— Você vai ler alguma notícia nos jornais, e eu quero te contar o que está ocorrendo. Há um homem muito mau que matou algumas pessoas utilizando minhas histórias. Tira os assassinatos dos meus livros, que são assassinatos falsos, e os transforma em realidade.

—Isso é ruim — disse Adam, com os olhos muito abertos.

— A polícia está investigando e os estúdios contrataram o senhor Flynn para cuidar de mim.

Adam olhou Michael em um gesto curioso, avaliou-o com uma espécie de varredura visual, e franziu o cenho.

— É seu guarda-costas.

Ela assentiu com a cabeça, embora Michael a visse vacilar. Ainda não se sentia cômoda com seu papel.

— Quero que tenha muito cuidado — disse Rowan. — Não fale com ninguém sobre mim. Se alguém se apresentar dizendo que é um funcionário, peça sua identificação. Você sabe ver a diferença entre algo de verdade e algo falso.

— Sim, conheço a diferença — disse ele, assentindo energicamente.

— Bom. Me avise se vir ou se ouvir algo estranho, algo que pareça estar fora de lugar. Pode me ligar quando quiser.

— Eu cuidarei de ti. Eu prometo.

— Sei que o fará. — Voltou a lhe apertar a mão e se levantou. — Agora tenho que ir. Lembra do que eu te disse.

— Lembrarei — levantou-se de um salto e os acompanhou até a porta.

De seu pequeno vestíbulo, Adam viu Rowan e seu guarda-costas, o senhor Flynn, que se afastavam para a entrada. Quando já não pôde vê-los mais, entrou em casa e preparou sua sopa preferida, frango com estrelinhas. Comeu todo o prato porque estava lá, então o lavou e o guardou. Rowan havia lhe dito que era importante guardar porque ninguém o faria em seu lugar.

Quando acabou, sentou-se para ler outra novela policial. E em seguida esqueceu quase tudo o que Rowan havia lhe dito.

 

Rowan olhou pela janela do passageiro do carro de Michael. Estava preocupada, frustrada e irritada. Voltavam para Malibu depois de um longo dia. Entre os estúdios, a conversa com Adam e com a visita frustrada aos escritórios do FBI no centro de Los Angeles, Rowan ansiava chegar à casa na praia. Embora detestasse a decoração vazia, tinha saudade da paz, do ruído das ondas rompendo na beira e, o mais importante, sua intimidade.

O diretor do FBI em Los Angeles tinha entregue os velhos arquivos de seus casos ao agente especial Quinn Peterson. Com certeza que nesse momento ele a estaria esperando em casa. Rowan havia dito a Roger que não mandasse ninguém de Washington, mas ele confiava em Quinn. Não deveria lhe surpreender que Roger escolhesse alguém que os dois conheciam para se ocupar do caso.

Ela, certamente, não queria voltar a vê-lo. De todos os agentes que Roger poderia ter atribuído, por que Quinn?

— O FBI está levando isso muito a sério — disse Michael.

Ela deixou de olhar pela janela e fechou os olhos. Não tinha a menor intenção de falar de sua complicada amizade com Quinn Peterson com alguém que era virtualmente um estranho.

— Em Washington começaram a revisar os casos em que trabalhei e estão atualizando a informação sobre a situação dos detentos e seus familiares, mas pedi a Roger que me deixasse revisar meus casos. — Sacudiu a cabeça. — Não sei se servirá de algo, mas tenho que fazer alguma coisa ou ficarei louca.

— Roger Collins?

Ela assentiu com a cabeça e o olhou de esguelha. Michael Flynn não parecia surpreso. Tampouco teria lhe parecido muito estranho que este fizesse uma pequena investigação sobre seu passado.

— Meu ex-chefe. É diretor adjunto. — Havia vários diretores adjuntos, embora nem por isso deixasse de ser um posto importante.

— Não tive a oportunidade de dizer-lhe antes, mas a polícia encontrou a florista. — Depois de um momento de silêncio, acrescentou: — Está morta.

Rowan esperava a notícia, mas não a tranqüilizou em nada saber que tinha acertado. O medo atroz que tinha começado ao inteirar-se da morte de Doreen Rodriguez se fez ainda mais intenso. Sua peregrina esperança de que aquilo não fosse um assunto pessoal se desvaneceu por completo.

Era um assunto pessoal. Agora a urgência de revisar todos seus casos um por um para ver se alguma coisa tinha passado desapercebido era mais forte que nunca.

— Como? — Aquele grasnido de voz era seu? Não o reconheceu.

— Chamava-se Christine Jamison e lhe cortaram o pescoço.

— Com uma faca de sua cozinha — disse Rowan, recordando o crime. Recordando sua novela. Era tal como ela o havia descrito.

— Como pôde…? Ah, já entendo.

— Quando?

— Ontem, mais ou menos à mesma hora em que você recebeu as flores.

O safado tinha planejado tudo. Até o ponto de atormentar a ela, mandando flores enquanto matava a florista. Talvez experimentasse uma emoção doentia ao confirmar que a polícia se daria conta da coincidência.

— Deixaram um de seus livros na cena do crime — seguiu Michael, e lhe agarrou a mão. Ela baixou o olhar, incômoda, mas não retirou a mão. Não havia sentido muito consolo nos últimos dias, e esse pequeno gesto de contato humano lhe dava energias para seguir adiante.

— Crime de Paixão — murmurou Rowan. — Nesse livro, o assassino mata uma florista para que não identificasse o homem que a espreitava e lhe enviava rosas brancas.

— Você ainda pensa que isto não está relacionado com você? — perguntou ele.

— Que inferno! Eu sei que está relacionado comigo! Mas não quero admitir isso. É algo pessoal e premeditado. E haverá mais vítimas, a menos que resolvamos este problema. E então virá até mim. E não sei por que! — Retirou a mão da de Michael e deu um soco no painel.

Rowan agradeceu o silêncio de Michael. Seguiu olhando pela janela, pensando em cada um dos casos em que tinha trabalhado. Roger lhe comunicaria imediatamente se um de seus detentos saísse em liberdade. Mas eram contados os que poderiam ter elaborado um plano criminoso tão sofisticado.

Poderia ser o caso de William James Stanton. Um sádico sexual, um júri sem critério o tinha condenado a prisão perpétua em lugar de dar a pena de morte. Haviam engolido sua triste história de que a mãe tinha abusado dele quando era pequeno. Na realidade, dizia, quando matava aquelas mães belas e jovens na costa leste, o crime não era contra elas mas contra sua mãe abusadora, uma e outra vez.

Rowan não o tinha engolido. Stanton experimentava um prazer intenso torturando e matando suas vítimas.

Ou Lars Richard Gueteschow, o Carniçeiro de Brentwood. O cara esquartejava adolescentes, rapazes ou garotas, não importava, não havia um componente sexual nisso, e guardava seus corpos em pedaços na geladeira. Até que uma garota escapou. Rowan o imaginava experimentando um prazer perverso torturando-a, a ela, ao agente que tinha reunido as provas e testemunhado contra ele. Mas Stanton esperava no corredor da morte de San Quintín.

A maioria dos crimes que tinha investigado eram casos jurisdicionais, crimes violentos em cuja investigação participava o FBI porque os assassinatos ocorriam em mais de um estado. Não eram muitos os assassinos capazes de orquestrar uma operação tão detalhada como a destes assassinatos.

E onde podia procurar? Entre seus familiares? Seus amigos, vizinhos ou colegas? Gente que sentia uma fascinação grotesca com seus crimes? Por esse caminho, apareceriam milhares de suspeitos. Doía-lhe a cabeça. Esfregou os olhos e de repente se sentiu muito cansada.

O pior era não saber se teriam tempo suficiente antes que o safado voltasse a agir.

  

Rowan estava com o cabelo solto, e sua postura agora era menos rígida. Olhou algumas vezes por cima do ombro, e deu um pulo quando o guarda-costas a tocou.

A certa distância, ele sorriu. Ela estava esgotada e tinha medo. Bom. Ele sentia uma terrível emoção ao pensar que a fazia passar noites em claro. Esperava que cada vez que ela conseguisse dormir fosse despertada por pesadelos de sangue. Sentia ela alguma culpa? Alguma cumplicidade? Afinal, eram suas próprias palavras as que determinavam quem vivia e quem morria. Soltou uma risada afogada enquanto a observava.

Tinha voltado para casa com o guarda-costas e havia se encontrado com o agente do FBI que a esperava na porta fazia uma hora. O agente tinha batido na porta várias vezes, e de vez em quando olhava seu relógio enquanto caminhava para cima e para baixo. O federal não lhe preocupava.

O guarda-costas, porém, preocupava-lhe um pouco. Conhecendo Rowan como ele a conhecia, não tinha imaginado que pediria ajuda. Era uma mulher tão segura de si mesma, tão serena. Não era o tipo de mulher que pediria um guarda-costas. Seu amante? Não, não tinha estado com um cara desde antes de deixar o FBI. Como se chamava esse cara? Ah, sim. Hamilton. Também era um federal.

Ah, sim, ele a vinha observado, de uma maneira ou outra, fazia muito tempo.

Do guarda-costas se ocuparia quando chegasse o momento certo. Bastaria um silenciador, embora detestasse as armas. Convertia o assassinato em um algo tão impessoal.

Isso seria para mais tarde.

Primeiro, tinha que quebrar Rowan. Queria que se derretesse, que ardesse. Necessitava suas emoções, seu temperamento. Sobre tudo, queria ver seu medo. Então, e só então, apareceria para ela.

Até então, tinha muitas coisas de que se ocupar. Tinha marcado os escolhidos para morrer. Agora nada podia alterar seus destinos. Ele era um deus, e o destino seguiria seu curso. Então ele e Rowan voltariam a encontrar-se. Ela saberia quem era ele, e ele lhe ensinaria o que era o medo.

E lhe imploraria por sua vida antes de morrer.

Esperou até que escureceu, e partiu. Esperava-lhe um vôo a outro destino.

  

Esperou que Tess fechasse a porta de seu apartamento e, nesse momento, tapou-lhe a boca com a mão. Ela reagiu com a velocidade de um raio, lançou o laptop para trás e o golpeou com força no ombro, mas ele aproveitou o impulso do golpe para lhe dobrar o braço. Obrigou-a a soltar o laptop e lhe dobrou o braço para trás sem piedade. Viu-a fazer uma careta de dor e tentar dar a volta para recuperar o controle, mas já tinha perdido.

Soltou-a e acendeu as luzes.

— Já te disse mil vezes que seu atacante pode aproveitar seu impulso para utilizá-lo contra ti.

— John! Que safado! — Tess tentou acertá-lo, mas ele a agarrou pelo braço. — Como conseguiu entrar?

Ele a olhou com um ar misterioso.

— Suas trancas são um jogo de crianças para mim, mas na realidade eu entrei pela janela do banheiro. Já te disse não sei quantas vezes que coloque uma trava de segurança. — Olhou-a com uma careta. — Vamos lá, você perdeu, diga o que disser. Deixa pra lá — disse, e a abraçou com força. — Senti a tua falta, irmãzinha.

— Eu também senti saudades, até uns dois minutos atrás. — Tess se virou para trás e o olhou como uma mãe olharia a seu filho perdido, com o carinho e a preocupação transparecendo em seu belo rosto de duende. — Você perdeu alguns quilos.

— As selvas da América do Sul. Tudo o que come ou bebe sai no suor.

— Deixa que te prepare algo para comer.

— Pensei que nunca ia propor isso. — Seguiu-a à diminuta cozinha, comprovando as janelas no caminho. — Tem um pouco de suco?

— Suco de laranja — disse, apontando para a geladeira. Pegou uma panela da bancada e a encheu de água. — Sabe que a única coisa que sei cozinhar é espaguete.

— Algumas coisas nunca mudam. Mas eu adoro espaguete. — Na realidade, John não se importava tanto com o processo de comer como o fato de proporcionar combustível para seu corpo. Tirou a caixa de suco, sacudiu-a e engoliu o conteúdo. Em seguida a atirou a lata de lixo e voltou a olhar na geladeira. Tirou uma garrafa de água e bebeu a metade de um só gole.

Tess o olhava com um meio sorriso.

— Sim, há algumas coisas que nunca mudam.

— Me conte mais sobre o caso de Mickey. — John pegou uma cadeira e se sentou em frente à pequena mesa da cozinha apoiando-se no encosto até que a cadeira ficou tão inclinada que se levantaram as pernas.

Ela encolheu os ombros e esvaziou uma lata de tomate em uma caçarola.

— Não há muito que contar a não ser que morreu uma segunda mulher. Uma florista.

— Uma imitação do livro de Smith? — No aeroporto do México tinha comprado o último romance de Rowan Smith, Crime de Corrupção. O leu de uma sentada no avião, totalmente envolvido. Gostou do protagonista, um agente do FBI muito sério, com defeitos muito reais, e o mau era a maldade personificada com uma cara tão normal como… como a sua.

Se não soubesse que essa maldade existia, teria pensado que exagerava. Mas tinha conhecido alguns assassinos tão astuciosos e desmiolados que não estranhava de verdade que fossem capazes de dissimular sua maldade.

Até mesmo Satanás tinha sido um anjo.

— John?

Ele sacudiu a cabeça e sorriu.

— Nada, estava sonhando acordado.

— Parecia mais um pesadelo — disse Tess. — Está bem?

— Não conseguimos pegar o Pomera.

Sua irmã o olhou com um brilho de simpatia.

— Foi porque eu liguei fora do tempo? Te tirei de lá muito cedo?

Ele negou com um gesto de cabeça.

— Tinha que encontrar o esconderijo ou resignar-nos que na próxima semana tivéssemos toneladas de droga chegando à nossa costa. Ao menos encontramos um contrabando grande. Demorarão um tempo em recuperar suas perdas e refazer o inventário. Um mês, possivelmente dois.

— E depois voltarão a fazer negócios? — perguntou Tess, que tinha ficado boquiaberta. — Depois de apenas dois meses? De que serve? Faça o que fizer, destrua as toneladas que destruir, sempre haverá mais.

Essa era a triste realidade da luta contra as drogas. Matassem aos homens que matassem, e por muitas toneladas de cocaína e heroína que destruíssem, sempre haveria criminosos mais ousados e legiões de camponeses pobres que se dedicariam ao cultivo e, ao final, sempre haveria mais droga. Mas se pudesse salvar a um só garoto de cometer a mesma estupidez que Denny…

Não podia pensar em seu amigo morto agora. Não depois de ter estado tão perto de capturar Pomera. Entretanto, o maldito filho da mãe sempre estava além de seu alcance. Na próxima vez.

Já não era seu trabalho, recordou a si mesmo, ao menos não o era oficialmente. Só quando certos poderes o necessitavam, a ele e a suas conexões, então tinha carta branca para caçar legalmente Pomera. Deixava-se utilizar porque em cada uma dessas ocasiões tinha a oportunidade de destruir um carregamento. Eliminar ao menos um contrabando de droga das ruas dos Estados Unidos. E talvez, na teoria, salvar uma vida.

— Isso mesmo, Tess.

— Não tem por que lutar por uma causa perdida. Fique aqui e ajude Mickey.

— Falando de Mickey — disse John, trocando de tema. Tess não o entenderia. Não poderia. Não sabia o dano que pessoas desalmadas fazia a outras pessoas. As pessoas que conheciam, e também a estranhos.

Concentre-se no problema que tem diante de ti.

— Você acha que o relacionamento entre eles está crescendo? — Não seria a primeira vez, mas Michael era um bom policial. Sim, às vezes tinha se deixado levar pelos sentimentos, mas nunca deixava de cumprir com seu trabalho.

Ela assentiu.

— Assim como com a Jessica.

John recordou a foto de Rowan Smith na contracapa de seu livro, sobre tudo porque era pouco habitual entre os escritores. Em vez de ser em primeiro plano, ou em de um plano médio, a foto fora tirada de certa distância, e ela estava apoiada contra um pinheiro, com o chão coberto de neve e os ramos por cima de sua cabeça também. Nem sequer era uma foto de frente mas sim de perfil. Um perfil aristocrático, elegante e desafiante.

A maioria das pessoas não a reconheceria na foto. Estava toda de branco, com o cabelo comprido tão loiro que se confundia com a neve do fundo. Caía-lhe sobre os ombros, suave e sedoso. A foto transmitia uma sensação entristecedora de solidão, de separação.

— Estou preocupada com Michael — disse Tess.

John pegou a sua mão e a apertou, enquanto sacudia a cabeça.

— Mickey já é maior de idade. É um bom guarda-costas. Sabe o que faz.

— Não me refiro a sua competência profissional. Preocupa-me sua implicação pessoal neste caso.

— É um pouco cedo para fazer esse tipo de considerações, não achas? — Embora John se opunha a essa especulação, pensou que a intuição de sua irmã era acertada. Michael se lançava de cabeça quando se tratava de mulheres. Era algo que acontecia sempre, desde Missy Sue Carmichael, a aluna do último curso do colégio que acabou com a virgindade de seu irmão quando tinha quinze anos. Em seguida foi Brenda, no ano seguinte, Tammy, Maria… ora, John perdia a conta das mulheres pelas quais Michael tinha se apaixonado ao longo dos anos.

Tess o olhava, enrugando seu pequeno nariz com um gesto de incredulidade.

— Eu pensava a mesma coisa, John.

Sim, Tess conhecia Michael tão bem como ele.

— Não se preocupe com ele, Tessie. Sabe cuidar-se sozinho.

— Pode ser que sim. O que acontece é que tenho a impressão de que este caso é diferente, por algum motivo. Há mais coisas em jogo.

— Ficarei atento — prometeu John.

  

Depois de trinta minutos de conversa extremamente discreta, frustrante e cheia de tensão com o agente especial Quinn Peterson e Rowan, Michael abandonou a sala e foi se encerrar no escritório. Tinha que fazer alguns telefonemas.

Havia boas notícias, e eram que o FBI tinha revisado as medidas de segurança que Michael tinha proposto e o escritório de Los Angeles ia atribuir outros dois agentes, apesar de que Rowan se opunha a isso. Amanhã interrogariam os vizinhos de Rowan em Malibu. Quatro dúzias das casas desse lado da praia estavam vazias, alugadas ou fechadas porque os donos viviam em uma residência principal. O FBI tinha alertado a todas as imobiliárias das propriedades para que vigiassem estreitamente essas casas e notificassem se algo parecesse estar fora de lugar.

Seriam enviados equipamentos necessários, mas devido aos recursos escassos, não podiam manter uma vigilância permanente, só uma equipe para todo o dia, além de Peterson e seu companheiro. Entretanto, o FBI trabalhava em estreito contato com os órgãos de segurança para coordenar as informações. Além disso, ofereciam dar prioridade máxima ao caso em seus laboratórios em Quântico.

Peterson havia trazido uma caixa cheia de velhos arquivos dos casos de Rowan. Ela não deixava de folhear os documentos, ansiosa para começar, sem dissimular que tinha vontade de que Peterson partisse.

Michael sentiu que havia algo mais que uma relação profissional entre Rowan e o agente do FBI. Ela voltava a proteger-se atrás de seu escudo invisível. Os esforços de Michael para penetrar em sua mente, entendê-la e lhe dar confiança para que baixasse suas defesas, desvaneceram-se por completo quando Quinn Peterson apareceu. Michael sentiu uma forte descarrega de ciúmes, mas rapidamente dominou a emoção.

Ele não podia se permitir iniciar uma relação íntima com outra mulher vulnerável. Não que Rowan fosse vulnerável no sentido tradicional. Justamente o contrário, sua força e sua visão clara das coisas pareciam admiráveis. Mas necessitava dele, e Michael era muito consciente de seu passado junto a mulheres que o necessitavam. Em seu interior lutavam dois lados, e ele estava decidido a manter sua distância com ambos.

Entretanto, tinha que reconhecer que Rowan o intrigava. Era diferente de todas as mulheres que tinha conhecido.

No escritório, Michael pegou o telefone e discou o número de um amigo que trabalhava no escritório do FBI em Los Angeles.

— Tony, é Michael Flynn.

— O que, quanto tempo. Como vai?

— Necessito de uma informação. — Contou ao agente sobre o caso e pediu que olhasse nos arquivos do FBI sobre Rowan, em Q-T. Embora os federais já estivessem trabalhando na investigação, Michael queria saber tudo o que faziam.

Tony lhe respondeu com um sussurro de voz.

— Você está me pedindo que me meta nos assuntos da alta direção. Eu só me ocupo das fraudes bancárias.

— Você é a única pessoa que conheço no escritório. Não pode olhar e ver se encontra algo?

— Vou tentar, mas não conte com isso — disse Tony, depois de uma pausa. — Por que não pede a seu irmão? Tem melhores contatos, e provavelmente sejam em Washington.

— John está fora do país. — Além disso, Michael não queria misturá-lo. Pediria ajuda a seu irmão quando a necessitasse de verdade, nem um minuto antes. Se não, John se apropriaria do caso, como estava acostumado a fazer.

— Está bem, Mick, verei o que posso encontrar. Mas, francamente, duvido que possa encontrar algo sem chamar muita atenção.

— Obrigado, Tony. Agradeço qualquer coisa que encontrar. — Ao desligar, pensou que Tony tinha razão em uma coisa. John tinha bons contatos. Seria conveniente pedir a ajuda dele, mas Michael preferia não fazê-lo.

Ainda assim, depois da florista…, deveria ligar para ele, embora fosse somente para pedir conselho. Pegou o telefone e ligou para a casa de John. Sabia que não estava, mas que escutaria as mensagens.

— John, sou eu, Michael — disse —, me ligue quando voltar para casa. Quero saber sua opinião sobre um novo caso que tenho nas mãos.

John deveria estar de volta a Los Angeles em alguns dias, pensou Michael. Falaria com ele então.

O telefone soou assim que Michael desligou, e deixou que a secretária eletrônica se ativasse.

— Rowan, me ligue. — Pausa. E em seguida desligou.

Uma voz de homem, preocupado.

Michael franziu o cenho. Podia ser inofensivo, talvez um velho amigo da universidade, ou um antigo colega do FBI. Ou talvez não.

Rowan guardava algum segredo? Algo que podia lhe custar a vida?

Michael fez outro telefonema.

 

Rowan fechou as portas duplas do escritório e respirou fundo. Por fim tinha convencido Quinn de que partisse e então pediu a Michael alguns minutos a sós para relaxar.

Ver Quinn tinha sido como uma avalanche de lembranças, boas e más. Eles haviam se conhecido e tornado amigos enquanto ela estudava na Academia do FBI em Quântico. Rowan não tinha muitos amigos. Nunca tinha se enganado, sabia que Quinn havia se proposto ser amigo dela e de Olívia porque saía com sua companheira de quarto, Miranda Moore. Segundo o protocolo, não era precisamente o mais indicado que um agente mantivesse uma relação com uma aluna da Academia, de modo que para ele era uma prioridade absoluta conquistar a amizade e cumplicidade dela e de Olívia.

Entretanto, Rowan não o perdoava por ter arrancado de Miranda o mais importante para ela, seus sonhos. Depois de tudo o que Miranda tinha vivido… pensou Rowan, e sacudiu a cabeça. Não era justo, e tudo era culpa de Quinn.

Estava tão imersa em suas lembranças que não escutou a mensagem na primeira vez. Pulsou «Rewind» e em seguida «Play».

— Rowan, me ligue. — Pausa. Clique.

Era Peter.

Discou o número de Boston. A mão tremia tanto que teve que desligar e discar novamente. Na Costa Leste era passado das onze horas da noite.

No terceiro assobio, respondeu uma voz muito baixa.

— Saint John'S.

— Com o padre O'Brien, por favor — pediu Rowan, tranqüila. Olhou para a porta do escritório. Estava fechada.

Depois de um minuto, respondeu a voz familiar de seu irmão.

— Sou o padre O’Brien. No que posso lhe ajudar?

De seus olhos brotaram lágrimas que não pôde reprimir.

— Peter, sou eu.

— Graças a Deus que você ligou. Estava muito preocupado.

— Desculpe por não ter te ligado. Não… não pensei. — Não queria que corresse perigo.

— Não se censure por isso. Vi os jornais e não pude entrar em contato contigo. Sabia que estava bem, mas tinha que ter certeza. Precisava escutar sua voz.

— Estou bem.

— Você está chorando.

Ela engoliu seus suspiros, e disse, lentamente:

— Estou com saudades.

— Eu também estou com saudades. Rezo por ti todos os dias.

— Não tem por que rezar.

Silêncio.

— Rowan…

— Certo, sinto muito. — Rowan sentia a presença reconfortante de Peter a quase cinco mil quilômetros. Não se viam muito freqüentemente. Rowan sabia que era culpa dela. Peter teria se mudado a qualquer lugar do país para estar perto dela, mas ela não queria usar-lo como muleta. Ele se entregaria feliz a esse papel, mas ela não podia lhe fazer isso. Nem podia fazer isso a si mesma. A única vez que procurou refúgio nele tinha sido quatro anos atrás, mas nessa ocasião as alternativas eram Peter ou o hospital psiquiátrico, e não estava disposta a sacrificar sua saúde mental por seu trabalho. Peter a tinha ajudado a varrer os cacos quebrados.

— Você tomou as precauções necessárias?

— Sim. Os estúdios contrataram um guarda-costas e o FBI também está ciente do caso — mordeu uma unha, pensando em Michael. Assim que Quinn havia partido, ele tinha oferecido amavelmente sua ajuda. Era fácil cair na armadilha da proteção, agarrar-se a alguém que oferecia uma forte dose de força mental e física. Mas isso não era justo para Michael e, certamente, não era o que ela necessitava nesse momento.

— Bom. — O alívio na voz de Peter era patente.

— Sei me cuidar sozinha.

— Você acha que pode se cuidar sozinha.

— Claro que posso. Embora, para ser honesta, estou contente de ter ajuda. Alguém que me acompanhe, por assim dizer. Certamente, não diria isso a ele. — O que mais surpreendia Rowan era que se alegrasse de ter Michael em casa. Era um cara inteligente, tinha experiência e respeitava a intimidade que ela necessitava. Sentia-se cômoda em sua presença. Como com Peter. Só queria tirar essa sensação de que a olhava com algo mais que olhos de polícia.

— Independente até o final. Deus te acompanha.

— Não me venha com sermões, Peter — disse Rowan, sem hesitar, e se arrependeu imediatamente. Não queria ofendê-lo. Era a única pessoa que lhe importava de verdade agora que já não lutava por defender às vítimas.

— Não é um sermão. Só digo a verdade — disse ele, e ficou em silêncio por um momento. — Quer vir a Boston por uma temporada?

— De maneira nenhuma. Não quero te pôr em perigo. —Entretanto, o que mais tinha saudades era ver seu irmão.

— Ninguém sabe quem eu sou.

— E eu não quero mudar isso. Não deveria ter ligado para você de casa. Tenho que ser mais cautelosa.

— Em todo caso, o que pensariam se a vissem aqui? Já estiveste antes em Boston.

— Embora não soubessem quem é realmente, temo por meus amigos. Qualquer conhecido poderia ser um alvo.

— Você não tem amigos. É uma ermitã.

— Isso não é verdade. Claro que tenho amigos.

— Me dê um nome.

— Posso te dar dois nomes. Miranda e Olívia.

— Suas ex-companheiras da Academia? — Peter soava um pouco cético. — Ainda está em contato com elas?

— Claro que sim — disse ela, sentindo um pingo de culpa pela mentira. Quando tinha falado com Liv a última vez? Fazia mais de um ano, embora na semana passada tivesse lhe enviado um cartão eletrônico para seu aniversário, antes que acontecesse tudo aquilo. E Miranda? Tinha passado mal depois de ser expulsa de Quântico. Às vezes recebia uma nota ou um postal pelo correio, mas nada desde o Natal. Rowan não a reprovava. Miranda tinha uma missão, uma missão que ela entendia perfeitamente.

— Rowan?

— Sinto muito. Estava distraída.

— Na realidade, não tem a ninguém que te apóie neste momento, não é assim?

— Não necessito de ninguém. De verdade, Peter, estou bem.

— Duvido.

— Não duvide — secou as lágrimas do rosto, respirou fundo e decidiu não desabar… — eu te amo, Peter.

— Eu também te amo. Me ligue se necessitar de algo. O que for.

— Farei isso. E, Peter… em qualquer caso, tome cuidado.

Desligou e ligou para Roger em sua casa em Washington. Tinha que assegurar-se de que seu irmão estivesse a salvo.

 

John assobiava baixinho quando ele e Tess chegaram à casa de Malibu.

— Bonito lugar.

— Não é dela. É de um amigo, ou algo assim. Ela tem uma cabana no Colorado e está em Los Angeles enquanto durar a rodagem do filme de um de seus livros.

— Parece que você está com ciúmes — disse John, com um sorriso provocador.

Ela deu de ombros e o atingiu com um golpe no braço.

— Na realidade, não. Talvez um pouco pela casa e tudo isso, mas não parece a mulher mais feliz do mundo, apesar do dinheiro que ganha com seus livros e filmes.

Michael abriu quando bateram na porta, e ficou boquiaberto, olhando de John para Tess e de volta a John.

— Eu achava que você ainda estaria na América do Sul até este final de semana.

— Como você vê, acabei antes do previsto. — John entrou, fechou a porta e olhou a seu redor. — Excelente trabalho, Mickey.

— Enquanto você tomava sol na Bolívia, me ligaram — disse Michael, o olhando com um grande sorriso. — Me alegro de que você tenha retornado de uma peça, Johnny — disse, e abraçou a seu irmão enquanto dava palmadas em suas costas.

— Eu também me alegro — disse John, e deu um passo para trás. Agarrou Michael pelos ombros e sorriu. — Me alegro de verdade em te ver. — Soltou-o e olhou ao redor. O ambiente era frio, estéril e artificial. Certamente, não daria nem um centavo para viver nessa comemoração ao minimalismo. — Precisa de ajuda?

Michael deu um passo para trás, vacilante. John sabia que custava muito a Michael pedir sua ajuda. A Tess, sim ele pediria ajuda. À polícia, também. A seu irmão mais velho, não.

— Claro. Como sempre. Na realidade, te deixei uma mensagem. Tess não me contou que você havia voltado antes do previsto. — Michael franziu o cenho ao olhar para Tess, mas a abraçou pelo ombro e lhe estampou um beijo na cabeça.

A breve reunião foi interrompida pelo pigarro de uma mulher. John se virou para olhar Rowan Smith pela primeira vez.

Surpreendeu-lhe sua própria reação. Ele não era do tipo que sentia atração à primeira vista. Entretanto, a imagem que tinha de Rowan pela foto de seu livro não era nada comparada com a mulher em pessoa. Tinha o mesmo ar rígido e distante que tinha visto na foto. Uma mulher elegante, com classe. Uma mescla de mulher provocadora dos anos trinta e profissional do século vinte e um que mantêm sua distância. Sem dúvida uma mulher bela e atraente. Entretanto, havia algo mais. Seus olhos azuis inteligentes e atormentados, observadores e curiosos. John se fixou em como se mantinha distante deles, com o corpo levemente virado, como se estivesse preparada para dar um salto embora o estivesse olhando fixamente nos olhos.

Era cativante.

John olhou para Michael e viu esse olhar familiar na expressão de seu irmão. Estava totalmente enfeitiçado. Michael o olhou e franziu o cenho, quase imperceptivelmente. Possivelmente visse em John um rival, ao menos no que se referia à senhorita Rowan Smith.

Olharam-se por um instante, e John tentou calcular até onde Michael tinha caído. Sem dúvida, seu irmão já estava bastante ligado, mas dissimulava bem suas emoções. Se John não conhecesse Michael tão bem, não teria visto o brilho da rivalidade em seu olhar.

Quando estavam no colégio, inventaram a regra de «Eu a Vi Primeiro», para não brigar pelas garotas. Só durou um ano, e freqüentemente acontecia que gostavam das mesmas garotas. Para que a paz reinasse na família, decidiram que o primeiro a ver uma garota tinha direito a ser o primeiro em expor-se a uma rejeição.

Desta vez não.

John esqueceu a regra nesse preciso instante. Pelo modo como Michael o olhava, ele também sabia.

Já o compensarei.

Por outro lado, não tinham tempo para diversões nem jogos enquanto um assassino andasse solto. E a primeira responsabilidade de John era proteger aos seus. E agora, também a Rowan Smith.

  

Ela se encontrava frente à pitoresca casa branca de dois andares de estilo colonial, com o coração desbocado, e as costas banhada em suor. Sentia a pele úmida e pegajosa. Não estaria incubando alguma enfermidade?

A casa lhe era familiar, embora ela nunca tivesse estado nessa parte de Nashville. Lançou um olhar ao agente de polícia local Tom Krause, um veterano curtido que tinha trabalhado com ela há dois anos em outro caso de homicídio múltiplo.

Nesta parte do jardim cresciam árvores antigas e grandes, plantadas em intervalos regulares. Algumas sebes bem cuidadas serviam de sentinelas, marcando a parte baixa de todas as janelas, agora fechadas, de cada uma das persianas de cor vermelha sangue. As fitas amarelas da polícia na cena do crime se destacavam naquela serena paisagem, um indício sinistro do que os esperava no interior.

Rowan tinha visto centenas de cenas de crimes. Tinha visto o pior que o homem podia fazer a seus congêneres. Sempre dona de suas emoções, sabia as sepultar no mais profundo de si mesma, além de sua alma. Entretanto, desta vez estava lhe custando muito manter a distância com a cena do crime. Por algum motivo, este assassinato era diferente. Familiar.

Deteve-se no vestíbulo da impecável casa. Limpa, cômoda, móveis caros, madeiras lustrosas. Reinava uma perturbação geral associada à presença policial mas, além disso, a casa estava perfeitamente arrumada. O aroma de um detergente com essência de limão se mesclava com esse aroma de cobre que ela conhecia muito bem, o aroma metálico do sangue já insinuando-se em seu olfato, em sua boca. Fechou os olhos e se encheu de coragem.

Por que lhe custava tanto seguir em frente?

— Agente Smith, encontra-se bem?

A voz de Tom interrompeu sua hesitação. Em seguida abriu os olhos e assentiu com um gesto da cabeça.

— Claro que sim, só estava pensando. Quem eram as vítimas?

Tom consultou seu bloco de notas.

— Karl e Marlena Franklin e seus filhos. Suspeita-se que os assassinatos precederam a um suicídio, mas por agora os técnicos só inspecionaram a cena para fotografá-la.

Ela assentiu com um gesto e seguiu sua inspeção do lugar. A escada começava no vestíbulo, e subia em uma elegante curva em direção ao segundo andar. Distribuídas pela parede, havia fotos de uma família conforme foi crescendo, dispostas degrau a degrau e ano após ano. A mãe e o pai, de cabelo escuro e olhos azuis. Juntos com um bebê. Juntos com um menino pequeno e um bebê. Com um menino pequeno e outro em seu primeiro dia de maternal. Com dois meninos pequenos e um bebê. Com dois meninos mais velhos, outro que dava seus primeiros passos, e um bebê. Cabelo castanho, olhos azuis, uma atraente família.

Com três meninos e a pequena, ainda bebê.

No alto da escada se encontrava o último retrato de família. Três meninos, o maior de uns doze anos. Uma menina pequena, de uns três anos, com tranças escuras e fitas vermelhas no cabelo.

Tranças e fitas.

Corre! Foi sua mente que gritou, mas ela se sentia obrigada em ir em frente. Ouvia Tom falar, mas não escutava o que dizia.

Corre!

Tinha os pés cravados naquela casa muito familiar.

No primeiro quarto só havia sangue na cama. O filho mais velho, seguidor dos Packers, tinha troféus nas estantes e nas paredes. Segundo quarto. Beliches, mais sangue. O aroma e o sabor se metiam nos pulmões e teve um enjôo.

— Rowan.

A voz vinha de longe. Ela se adiantou para se afastar de Tom.

— Rowan!

Empurrou a última porta, sabendo o que encontraria antes de abri-la.

O quarto da pequena, decorado com cortinas rosa e branca, cheia de ursos de pelúcia e bonecas. Alguém tinha deixado algo de comer no chão, junto com um jogo de chá do elefante Babar com seus convidados. Um urso de pelúcia, uma girafa e Babar tomando o chá ao redor da mesa. Era a brincadeira do dia anterior.

Uma cadeira vazia, onde a pequena teria se sentado.

Dani.

A pequena talvez estivesse dormindo. Teria dormido até que lhe arrebataram a vida. O sangue empapava seu edredom branco. Meu Deus. Como podia haver tanto sangue em um corpo tão pequeno?

Tranças.

Dani.

Gritou.

  

John tomava o café na sala de jantar escutando o que Michael contava a respeito da investigação da polícia e o papel do FBI. Menos de meia hora antes, Rowan tinha adormecido no sofá na sala contígua. Quando John a viu pela primeira vez, parecia esgotada. Certamente não tinha conseguido conciliar o sono nas últimas noites por culpa da pressão que o assassino exercia sobre ela.

Rowan deixou escapar um gemido e ele e Michael se levantaram em uníssono. Ficaram se olhando por um momento, John suspirou e voltou a sentar-se.

— É seu caso — disse, embora não estivesse seguro de que sua decisão fosse a mais indicada. Michael tinha se ocupado das medidas de segurança como o profissional que John via nele, mas cada vez que olhava para Rowan uma suavidade se apropriava de seu rosto. Uma expressão familiar, pensou John, não fazia muito, quando Michael havia se apaixonado por Jessica Weston, a embusteira.

Michael se aproximou do sofá com um passo cauteloso enquanto Rowan dava voltas em seu sono.

— Rowan — disse, em voz baixa.

De repente, Rowan deixou escapar um grito e seu rosto se transformou no retrato vivo do terror, enquanto se debatia entre o pesadelo e a vigília.

— Rowan! Rowan! Acorde! — Michael se sentou atrás dela e quase a pegou em seu colo; tentava lhe segurar os braços que ela agitava no ar. Do outro lado da sala, até John podia ver quão tensa ela estava, com os braços presos e tremendo, quase um abraço no vazio.

— Dani, Dani! — gritou, sumida em seu pesadelo.

— O que está acontecendo? — perguntou Tess, inquieta, e se levantou do canto de trabalho onde havia se instalado com os computadores.

— Um pesadelo — disse Michael, com voz grave.

Quem é Danny?, pensou John, franzindo o cenho. Observava de braços cruzados, embora também tivesse se levantado.

Rowan foi se acalmando com as palavras que Michael lhe sussurrava no ouvido enquanto a atraía para ele, acariciava-lhe o cabelo e o alisava pelas costas. Rowan se sacudia com violentos soluços, mas em absolutamente silêncio.

— Rowan…

— Desculpe, eu sinto muito — virou-se para o peito de Michael e seu soluço apagado chegou ao coração de John.

Mas John tinha que ir ao fundo desse assunto.

— Quem é Danny? — perguntou, e sua voz soou mais dura do que tinha desejado.

Ela levantou a cabeça e lançou um olhar cheio de raiva, os olhos vermelhos com as lágrimas não derramadas.

John ignorou os gestos que Michael lhe fazia para que se calasse. Havia algo em tudo aquilo que era importante.

Rowan se separou de Michael, procurou algo em suas costas e tirou a Glock de seu coldre. Comprovou a munição, devolveu a arma ao coldre e ficou parada no meio da sala de jantar. John viu que controlava o terror do pesadelo e ao mesmo tempo concentrava toda sua raiva nele. Por que? Só tinha feito uma pergunta evidente. Uma pergunta que Michael deveria ter feito em lugar de estar aí consolando-a.

No fundo de seu coração, John também queria abraçar Rowan. Mas, ao contrário de seu irmão, sabia deixar os sentimentos de lado quando tinha vidas em jogo.

— Tenho que ligar para o meu chefe. Meu ex-chefe — se corrigiu. — Me lembrei de um caso em que trabalhei. Meu último caso. Pergunto-me se não terá algum tipo de conexão. —Rowan sacudiu a cabeça e fechou os olhos. — Não o entendo —disse, como se falasse consigo mesma —, mas por que, se não, sonharia com o assassinato dos Franklin agora?

— O assassinato dos Franklin? — inquiriu John.

Ela abriu os olhos e o olhou.

— Um caso brutal, de assassinato e suicídio. Ou ao menos foi isso o pensamos naquela época. Havia certas dúvidas, mas eu não participei da investigação. Preciso estudar o caso, mas não está na caixa de arquivos que Quinn me trouxe.

John assentiu com a cabeça. Observou que Rowan recuperava a compostura à medida que voltava a si. Era uma pessoa muito diferente da mulher que acabava de despertar de um violento pesadelo.

— Quem é Danny? — Voltou a perguntar. — Uma das vítimas?

Ela olhou para Michael, não para John, e em seus olhos se via que tentava se proteger da dor que tinha visto há um momento. Rowan se encolheu de ombros.

— É outro caso. Passei a maior parte do dia revisando fotos e notas sobre cenas de crimes. Não sei com o que estava sonhando.

Maldição. John sabia que ela estava mentindo. Tinha tido um pesadelo com um cara chamado Danny, quem quer que fosse ele.

Intuiu que não era o momento de entrar em detalhes. Talvez fosse verdade que tinha tudo misturado em suas recordações. Entretanto, algo havia aí, algo que ele tinha que revelar. Talvez fosse algo que Rowan nem sequer considerava importante.

— Vou ligar para Roger — anunciou Rowan, e saiu da sala sem olhar para trás.

Michael se aproximou de seu irmão e lhe afundou um dedo no peito.

— Que chateação você estava fazendo? A estava interrogando? Não viu que acabava de ter um pesadelo?

John ficou boquiaberto.

— Não acha que sua reação é um pouco exagerada, Mickey? Há alguma coisa escondida na cabecinha da senhora Smith, e já é hora de que alguém se atreva a fazer as perguntas difíceis. Poxa! Eu acredito que nem sequer ela sabe o que se passa. Mas temos que seguir, temos que chegar ao fundo deste assunto. O FBI está se ocupando disto porque ela é uma ex-agente, mas não estão aqui nesta sala, não é?

— Você está fazendo novamente — disse Michael, o que fez John piscar.

— O que?

— Você está se apropriando do meu caso.

John elevou as duas mãos, um raro sinal exterior de frustração e se aproximou com algumas passadas à janela de vidro escuro que refletia a irada expressão de Michael e os olhos vigilantes de Tess. Aquela discussão não era nova.

— Não é que eu me aproprie de seu caso, Mickey — se explicou John, embora no fundo ardia de desejo de fazer precisamente isso. Os planos de Michael eram razoáveis, mas na opinião de John, demoraria muito na sua realização. Talvez Michael estivesse tentando mimar Rowan para que ela confiasse nele, mas John não se enrolava. E esperava que outros tampouco o fizessem.

— Pois eu não diria isso — replicou Michael em tom baixo.

—Aqui ocorrem muitas coisas das que não estamos sabendo. Draga, ela sabe de algo pelo que poderiam matar a todos nós. Tenho certeza de que se trata de um maldito assunto de segurança do FBI, e, droga, não deixarei que nem você nem Tess corram um risco só porque o maldito FBI não quer compartilhar sua informação. — John se virou e encarou a seu irmão. — E se ela não tem consciência disso, asseguro que o tem guardado em sua cabeça, e com sua compaixão melosa não conseguirá lhe surrupiar a verdade.

— Fui policial por quinze anos, se por acaso você o esqueceu — disse Michael, e deu uns passos na direção de John. — Pode ser que não tenha chegado a ser um grande comando Delta, mas te asseguro que sei muito bem como me proteger e proteger aos que estão sob minha proteção.

— Você não pode ver além de seu lindo rosto!

Michael apertou os punhos, tremendo de raiva.

— Você nunca esquecerá meu maldito fracasso com Jessica.

John estava zangado consigo mesmo. Não queria ferir os sentimentos de seu irmão.

— Sinto muito, Mickey. Não era minha intenção confundir as duas situações. Mas, meu Deus, não vê que nesse mato tem cachorro? Não deixarei que arrisque sua vida por uma mulher, por ninguém, que não nos conte tudo. É evidente que o assassinato dos Franklin tem algo a ver, sobre tudo se ela tiver pesadelos. Acredito que temos que averiguar algo mais a respeito de Rowan Smith. Ela tem a chave.

No final, Michael lhe devolveu o olhar.

— Tem razão, John. Amanhã pela manhã, quando todos nós tivermos tempo para pensar nisso, sentaremos com Rowan e escavaremos em seu cérebro.

— Parece-me um bom plano — disse John, e se aproximou de seu irmão. Alargou o braço e lhe deu um apertão no ombro. — Somos uma equipe neste assunto, Mickey, como sempre.

— Somos?

John mal o ouviu, embora estivessem um ao lado do outro.

— Sim, Mickey, somos — respondeu, também com um fio de voz.

Mas não acreditava que seu irmão o escutasse.

John deixou escapar um suspiro, tirou seu telefone celular e discou um número de Washington.

— É Flynn. Necessito de uma informação.

  

Eles pareciam tão encantadores, sentados juntos no sofá comendo pipoca e olhando um idiota filme romântico na televisão. Tinham preparado as pipocas com uma antiga panela para pipocas, não com sacos para microondas que se cozinhavam em quatro minutos. Não, estas eram das que se faziam pondo azeite no fundo e manteiga em cima. As pipocas saltavam até que enchessem a panela. Como sua mãe estava acostumada a fazer.

Retrato de uma família perfeita, dizia o livro. Perfeita? Que brincadeira!

Pensou em sua patética família. Seu pai podia ser forte, mas a maioria das vezes se comportava como um idiota, um fraco. Deixava que sua mãe se encarregasse da casa quando a cadela não fazia outra coisa a não ser resmungar. Sempre pedindo isto ou exigindo aquilo. Seu pai trabalhava duro para alimentar à família e tinha lhes dado uma bonita casa nos subúrbios, mas sua mãe não fazia mais que resmungar e resmungar e sempre pedir mais.

Dinheiro. Só pensava nisso, a cadela.

Ouvia a voz de sua mãe como se fosse ontem.

Estava fuçando na bolsa de sua mãe em busca de dinheiro quando a ouviu vir pelo corredor. Então se escondeu no armário e deixou a porta deslizante entreaberta para ver se ela se aproximasse. Era de noite e ela pensava que ele estava na cama.

Ele só tinha oito anos, mas fazia muito que roubava dinheiro. Hoje necessitava de mais balas de pequeno calibre para a pistola de ar comprimido. Recordava quando seu pai a tinha comprado, o gesto mais maravilhoso que já tinha tido com ele. E quando essa cadela começou a protestar ele só lhe disse que se tinha vontade de comprar uma pistola de ar comprimido para seu filho, ele o faria sem hesitar um instante.

Sorriu, pensando o porque necessitava das balas. Tinha gasto trinta e seis balas para finalmente matar o estúpido gato da senhora Crenshaw.

Para seu próximo aniversário, pediria uma pistola calibre vinte e dois.

Sua mãe começou a fazer essas coisas que fazem as garotas em frente a penteadeira: tirar a maquiagem e escovar o cabelo, quando seu pai entrou.

— Olá, querido — disse sua mãe. — Chegou tarde em casa.

— Tenho que alimentar e vestir a toda família — disse seu pai, que parecia irritado com alguma coisa.

— Já sei. Só que senti saudades de você.

Levantou-se, se aproximou e o beijou. Eca. Sempre que se davam esses beijos, ele tinha vontade de vomitar.

Seu pai suspirou e lhe tocou o ventre. Começava a crescer. Outro bebê. Por que tinham que ter outro? Por acaso não havia suficientes moleques nessa casa?

Seu pai afrouxou a gravata e sua mãe disse:

— Hoje fui olhar camas para as garotas. Já que têm que compartilhar um quarto, acredito que seria bonito comprar camas idênticas.

— Por que você não me perguntou antes? Suponho que não comprou nada.

— Não, não, só estive olhando. Pensava que… já que lhe deram esse pagamento extra, poderíamos comprar algumas coisas para a casa que necessitamos faz tempo. Já sabe, nada extravagante, mas…

— Isso é a única coisa que te preocupa? O dinheiro? — Seu pai deu um golpe com tanta força na penteadeira que os vidros de perfume e outras coisas de garotas caíram no chão e se quebraram.

— Não, querido, você sabe que não… Mas agora que vem o bebê, pensei que…

Zas! Uma bofetada!

— Fique quieta sobre esse maldito bebê.

Sua mãe começou a soluçar.

— Você me disse que te alegrava.

Foi como se o tempo parasse, e seu pequeno coração ficou a pulsar com tanta força, cheio de medo e de uma espécie de excitação que não acabava de entender. O que seu pai ia fazer?

Depois de alguns minutos, seu pai passou a mão pelo cabelo, que usava muito curto.

— Sinto muito, querida, não queria… só que estou com muita tensão no trabalho — inclinou-se para beijá-la na bochecha avermelhada.

— Eu sei, eu sei. — Sua mãe chorava e o abraçava. — Tudo ficará bem. Eu posso voltar para o trabalho e…

Ele a afastou bruscamente.

— Trabalhar? Nunca. Fizemos um trato. Você cuida das crianças e se ocupa da casa, e eu ganho o dinheiro necessário para viver.

— Eu sei, e eu adoro ser sua esposa, de verdade. Mas se nos custa chegar a fim de mês, se vamos perder a casa, se…

Zas! Uma bofetada!

— Por que você quer voltar a trabalhar? Tem algo que ver a visita do George Claussen na semana passada?

—George, eu… ele me disse que podia recuperar meu trabalho de antes, se o quisesse. Meia jornada, enquanto as crianças estão no colégio. E quando chegar o bebê…

Zas! Outra bofetada!

— Você e George andam fazendo coisas quando eu não estou, não é?

— Não!

Bofetada!

— Não minta para mim!

— Não estou mentindo. — Soluços. Mais soluços. As garotas só sabiam chorar. Sobre tudo sua mãe. Sempre chorando e seu pai sempre cedia. Que estúpido!

Odiava a sua mãe.

— Você não voltará a trabalhar. Nós não necessitamos. Eu me encarregarei. Sempre te darei o que necessita. Acredita em mim, não é? Acredita ou não?

— S… sim. Eu sinto muito. Não quero voltar a trabalhar. É um marido e um pai maravilhoso. Amo-te muito — começou choramingando no chão, dizendo tolices sem parar.

— Ai, querida.

Enquanto ele observava do armário, viu que a raiva de seu pai desaparecia enquanto levantava sua mãe do chão e a abraçava.

— Sinto muito, sinto muito. Não queria… Já sei que não me enganaria. Sei que me ama.

— Claro que te amo, te amo — disse ela entre soluços, agarrando-se a ele.

   Fizeram amor na cama enquanto ele olhava do armário. Tinha ouvido falar do sexo, mas não sabia do que se tratava.

Agora sabia.

No começo, pensou que seu pai ia matar a sua mãe. Ela grunhia e gritava e o tom de sua voz era muito agudo. Por um momento, ficou desconcertado e pensou que sua mãe estaria morta, que ela iria, junto com esse estúpido bebê que levava no ventre.

Mas não morreu. E seu pai se desculpava uma e outra vez. Disse-lhe que a amava, que amava o bebê, que amava a todo mundo.

Trouxa!

Um trouxa.

Teve um estremecimento na noite. O ar úmido de Portland o recordava sua infância, e isso lhe recordava o muito que odiava a sua família.

Olhou pela porta do pátio e sorriu. A família perfeita para a foto, sentados no sofá, sorrindo. Soltou uma risadinha. Não havia famílias perfeitas. As pessoas acreditavam que sua família era perfeita. Ao menos durante um tempo. Que piada!

No interior da casa, a mãe, a senhora Gina Harper, divorciada, levantou-se e se espreguiçou.

É hora de deitar, murmurou.

A menina mais velha, uma adolescente, bocejou e se levantou lentamente do sofá. A menina menor, de uns cinco ou seis anos, protestou. Usava o cabelo preto e encaracolado preso em tranças. Gina Harper a pegou, lhe fez cócegas e a levou da sala. A garota mais velha olhou para onde estava ele com um gesto estranho, então juntou os pratos de pipoca e as latas de refrigerante, apagou as luzes e seguiu sua mãe e sua irmã.

O coração dele se acelerou em apenas pensar que talvez ela o tivesse pressentido. Que de algum jeito conhecia seu destino.

Que ela seria a próxima a morrer.

Mas, é obvio, ela nem sequer o tinha visto, nem sequer sabia que estava no pátio de tijolos, no exterior da sala da família. Preparou-se com muito cuidado.

Desta vez haveria uma discordância menor com o livro, mas tinha certeza que a autora lhe agradeceria.

 

Rowan dormiu a rajadas, com as emoções ainda a flor da pele. O pesadelo continua lá, embora agora estivesse acordada, e não tinha que ver somente com os assassinatos da família Franklin. Outros demônios de mais de quatro anos atrás tentavam voltar a sua memória consciente. Tinha que lutar com toda sua raiva para mantê-los presos. E de tanto esforço, veio-lhe uma dor de cabeça tão aguda que a deixou atordoada.

Tomou dois comprimidos de Motrin, um medicamento de prescrição médica, e desceu. Michael estava sentado à mesa de jantar lendo os papéis de um arquivo.

— O que é isso?

Ele levantou o olhar, franziu o cenho e fechou a pasta.

— Você está com um aspecto horrível.

— Obrigada. — Certamente, ele não ia contar sobre pasta. Ela pensou que teria algo que ver com o assassinato da florista, ou com a pobre Doreen Rodríguez. Não tinha por que olhar a pasta, já tinha visto os assassinatos em sua imaginação.

— Vou preparar algo para você comer.

Ela disse que não com um gesto da cabeça. Comer nunca tinha sido importante. Em épocas de crise, freqüentemente se esquecia de comer.

— Quero sair para correr.

— Não é uma boa idéia.

— Não me importa.

A campainha soou e Rowan deu um salto. Desde quando a assustavam as pequenas coisas da vida cotidiana? Tirou a Glock de seu coldre e a sustentou, preparada.

Michael tirou sua própria pistola e fez um sinal para que esperasse na cozinha.

Ele se certificou de quem era pelo olho mágico.

— Quem é? — perguntou.

— Trago um pacote do correio Express para Rowan Smith.

— Da parte de quem?

O homem olhou a folha com os dados.

— Harper.

Rowan deu uma olhada, refletiu um segundo e em seguida deu de ombros olhando para Michael, que franzia o cenho.

— Não sei — disse.

— Deixe o pacote na entrada.

— Preciso que alguém assine.

— Espere um momento. — Michael se separou da porta. Indicou a Rowan que ficasse onde estava. Passou a seu lado e saiu pela porta de trás.

Ela esperou, ansiosa, por um momento distraída pelo café que Michael acabara de preparar. Serviu-se uma xícara grande de café forte, e tomou um gole.

Ao voltar, Michael fechou as portas, voltou a ligar o alarme e examinou o pacote com as mãos enluvadas. Rowan olhava do outro lado da mesa.

— Parece normal — disse, e a olhou esperando uma confirmação.

Ela cruzou a sala de jantar, deixou a xícara e colocou um par de luvas de látex que Michael passou.

Era um pacote leve, talvez umas duzentos gramas. O aproximou do ouvido. Silêncio. Olhou todas as bordas, e nenhuma parecia conter um mecanismo de detonação oculto. Seria difícil enviar uma bomba pelo correio a menos que estivesse programada. Os pacotes eram manipulados de qualquer maneira e neste as etiquetas não assinalavam que se tratasse de um objeto frágil.

— Está bem — afirmou. Começou a abrir o pacote, mas Michael a deteve.

— Deixe que eu abra.

Rowan deixou o pacote a contra gosto e se afastou, com os punhos apertados. Não suportava que a protegessem.

Observou enquanto Michael abria o pacote com cautela. O coração pulsava com pressa, e a indignava que aquela entrega criasse uma corrente de medo. A caixa, envolta com papel marrom era branca, uma simples caixa de presente, sem etiqueta, do tamanho de um vídeo. Uma única parte de fita adesiva selava a borda. Michael a rompeu com o dedo e levantou a tampa.

Duas brilhantes fitas de cor vermelha, atadas com laços em torno de algumas mechas de cabelo preto e encaracolado. Cabelo humano. Como se tivessem cortado duas tranças, conservadas pela mãe depois do primeiro corte de cabelo de sua filha quando já fosse mais velha. Guardadas por uma mãe que não queria que sua filha crescesse.

Fitas vermelhas, cabelo preto.

Não, outra vez não.

Dani.

As lágrimas rolaram, silenciosas, pelas bochechas de Rowan enquanto olhava o conteúdo da caixa nas mãos de Michael. Uma tristeza profunda lhe marcava até a última ruga do rosto.

— Rowan? — Michael deixou a caixa na mesa e se aproximou. — Rowan? — Com um dedo, subiu-lhe o queixo até que os olhares se encontraram.

A dor nua e crua que Michael viu em seu rosto o impressionou. Jamais tinha visto olhos tão expressivos em sua vida, e agora uma agonia profunda transbordava deles.

— O que significa isto? — Olhou atentamente o conteúdo para assegurar-se de que nada lhe passasse despercebido. Uma mecha de cabelo preto preso com uma fita vermelha. Deixou-o na mesa e a agarrou pelos braços. Rowan estava tremendo, e ele a abraçou. — Fale comigo, Rowan. Não posso te ajudar se não falar comigo.

— Dani — disse ela, com um fio seco de voz, e se apoiou em seu peito.

— Quem é Danny?

Ela não respondeu. Michael a pegou e a levou até o sofá, onde a sentou sobre seus joelhos e a embalou por um longo momento, até que seus soluços se converteram em pranto, seu pranto em gemidos e, afinal, em uma quietude absoluta. Por algum motivo, o silêncio era o pior.

Rowan tinha afundado a cabeça no peito de Michael. Ele a apartou.

— Rowan, confia em mim. Você tem que confiar.

Ela o olhou nos olhos, procurando… O que procurava? Honestidade? Confiança? Ele não sabia. Os lábios de Rowan tremeram e ele lhe selou a boca vermelha e frutosa com um dedo.

— Confia em mim — voltou a murmurar.

Ela tragou com dificuldade.

— Eu… eu. — Depois dessas palavras, pronunciadas com voz rouca, ficou em silêncio.

Ele a beijou suavemente na testa. Ela o necessitava. Aquela mulher forte e independente o necessitava, e ele se sentiu cheio de desejos e fantasias. Todos seus instintos de proteção estavam centrados nela, e Michael já estava meio apaixonado.

Estreitou-a contra seu peito.

— O que? Conte-me.

— Não… não posso — disse, com voz entrecortada.

Ele lhe virou o rosto, procurando seus olhos, sua boca, as rugas de ansiedade em sua testa. Tremiam-lhe os lábios. Michael tinha uma vontade desesperada para beijá-la, de demonstrar que ele podia protegê-la, que sempre estaria a seu lado.

Não podia beijá-la. Era muito vulnerável, via-a muito desamparada. Mas, que inferno, que vontade tinha de provar esses lábios vermelhos e trêmulos, aliviar a dor de seu rosto. Só faltava que ela o deixasse entrar.

Desfez-se de seu abraço tão rápido que ele nem sequer sentiu como o rechaçava.

— Michael, isto não é boa idéia.

Ela também havia sentido a conexão, e isso lhe dava esperanças. Talvez, quando tudo isto acabasse, houvesse uma esperança para os dois.

— Rowan, posso esperar. — Diabos, como custava pronunciar essas palavras. Não tinha vontade de esperar. Queria entregar-se a ela por inteiro, completamente, nesse mesmo instante. Mas não ia cometer os enganos que tinha cometido no passado.

Uma vez mais, soou a campainha.

— Droga — resmungou, enquanto se dirigia à porta.

Rowan suspirou aliviada ao separar-se de Michael, e se aproximou de propósito da mesa de jantar. Gostava de Michael e começava a confiar nele… como companheiro, não como amante. Era incapaz de dar a qualquer homem outra coisa que sexo. Fazia tempo, um namorado havia dito que era fria como o gelo.

E gostava muito de Michael para fazê-lo acreditar algo a respeito dela que não era verdade. Tinha demonstrado ser um cara competente, e lhe proporcionava o espaço e o apoio que necessitava.

Pegou sua xícara de café, evitando olhar a caixa. Tremeu-lhe a mão. Só queria que tudo aquilo acabasse. Não se derrubaria. Nunca mais.

Ouviu a voz de Quinn da outra sala.

— Houve outro assassinato. Onde está Rowan?

Rowan quase deixou cair a xícara. Depositou-a sobre a mesa com cuidado e se deixou cair em uma cadeira. Fechou os olhos e tragou com dificuldade. Outro assassinato. As tranças. Nunca tinha escrito que seus malvados assassinos cortassem o cabelo da vítima, mas sabia que aquilo estava relacionado com ela.

Esse homem tinha um desejo desesperado para lhe causar dano.

— Não acredito… — começou a dizer Michael. Rowan abriu os olhos. Quinn estava na entrada da sala de jantar e olhava com o cenho franzido em seu belo rosto.

A companheira de Quinn, Colleen Thorne, estava atrás dele. Rowan se lembrava de Colleen de seus tempos no FBI, uma agente tranqüila, discreta, que Rowan respeitava, embora nunca tivessem sido amigas, o que não era nenhuma novidade. Rowan não travava amizade facilmente com seus colegas. Era mais fácil manter distância com as pessoas que cultivar vínculos que pudessem feri-la.

Colleen a saudou com um gesto de cabeça e ela respondeu ao gesto. Olhou para Quinn.

— A quem matou? — perguntou.

— Uma mãe divorciada com suas duas filhas — disse Quinn.

— Portland. Harper. Crime de Claridade. — Fechou os olhos, com a imagem das tranças ainda gravada em sua mente. — Traga um saco para provas.

— O que está acontecendo? — perguntou Michael.

— Uma das vítimas era uma menina de cinco anos, a que, pelo visto, cortaram-lhe o cabelo. Cor castanha — acrescentou Quinn.

— Outro crime de imitação.

Quinn sacudiu a cabeça.

— Sim e não. No livro, uma família de sobrenome Harper é assassinada. Uma mulher e suas duas filhas adolescentes. É o mesmo sobrenome, uma filha adolescente, mas outra de cinco anos. No romance de Rowan, não cortaram o cabelo da menina assassinada.

— Mas tem certeza de que foi a mesma pessoa? — perguntou Rowan, embora ela mesma não tivesse a menor duvida.

— Deixou seu livro na cena do crime — disse Quinn, com expressão grave. Sentou-se ante a mesa, em frente a ela. — As diferenças com o romance poderiam ser pessoais, talvez seus próprios fetiches doentios. Talvez não pudesse encontrar uma família Harper em Portland que coincidisse com a descrição, de maneira que introduziu uma leve variação.

Quinn também colocou luvas e colocou a caixa, o papel e o cabelo em um saco para provas. Ele entregou tudo para Colleen. Disse-lhe algo que Rowan não conseguiu ouvir, e sua companheira saiu da sala de jantar.

O romance de Rowan. A culpa de Rowan. Fechou os olhos e apoiou a cabeça nas mãos, sabendo que devia conservar a prudência. Sabia que o assassino havia se desviado deliberadamente da novela porque conhecia seu passado. E, por algum motivo, tinha certeza de que a mataria quando terminasse de destruí-la.

Quem era esse safado? Como sabia da existência de Dani? Rowan não acreditava nas coincidências. Tinha que saber alguma coisa sobre sua irmã menor.

Mas ninguém sabia que Dani tinha sido assassinada.

De repente, algo se encaixou em seu lugar. Suas lembranças sobre o assassinato dos Franklin na outra noite. A pequena também tinha o cabelo castanho. Foi essa visão da pequena massacrada em sua cama, com suas tranças negras, o que tinha impulsionado Rowan a devolver seu distintivo.

Outra conexão com Nashville. O típico assassinato com suicídio? Talvez não. Provavelmente havia algo mais.

— Quinn. Isto tem que estar relacionado com o assassinato dos Franklin. Falei com Roger sobre isso. Ele me disse que me mandaria os arquivos.

— Mas você não trabalhou nesse caso — disse Quinn, franzindo o cenho. Olhou-a com os olhos desconfiados que punha durante os interrogatórios.

Ela resistiu ao impulso de encerrar-se em si mesma. Não suportava ter que mostrar sua debilidade para que o mundo inteiro pudesse vê-la.

— Foi meu último caso. Eu fiz a primeira inspeção. E depois me demiti.

Michael e Quinn ficaram em silêncio, de pé em frente a ela como sentinelas em um interrogatório, esperando que em algum momento falhasse. Talvez não. Provavelmente não era mais que seu medo. De voltar a derrubar-se. Uma vez mais.

Adotou uma postura firme e deixou as mãos descansarem sobre a mesa, como se estivesse relaxada. Evitou brincar com a xícara. Não sabia se tinha forças para lutar contra aquele mal desconhecido, mas não ia mostrar sua fraqueza para o resto do mundo.

— Levaremos o cabelo ao laboratório e o analisaremos para confirmar se corresponde à vítima — disse Quinn. — Liguei para o Roger, que esteve na cena do crime, para saber o que pensa sobre o cabelo. É a segunda vez que o assassino se pôs em contato contigo diretamente. Está muito perto.

O cara estava procurando por ela. Sabia. Se a polícia ou o FBI não o pegassem antes, viria procurá-la. O assassinato dos Franklin pesava sobre sua consciência. Se não tivesse se demitido do FBI quatro anos antes, teria mudado algo? Se tivesse seguido com o caso como a boa agente treinada pelo FBI, deixando de lado todos seus sentimentos pessoais, o resultado teria sido diferente? Não sabia, e o fato de não saber se acrescentava ao peso que levava em cima.

Tanta morte em sua vida. Talvez sua própria morte a libertasse algum dia.

— Haverá mais um — avisou Rowan, com voz trêmula. O assassino tinha escolhido um assassinato de cada um de seus três livros. Tinha-os escolhido ao acaso? Ou tinham uma relevância especial para o assassino? Rowan pigarreou. — Crime de Corrupção. Nesse romance há sete assassinatos. Pode fazer algo para divulgar esse detalhe? Há sete mulheres em perigo. —Pegou a xícara de café e bebeu um gole. Estava frio, mas tinha que fazer algo com as mãos.

— Estaremos atentos — disse Quinn. — A polícia de Washington D.C. está alerta. A imprensa se lambuzou com esta história e já publicou os nomes das mulheres que morrem assassinadas em sua novela. Suponho que os livros estarão esgotados em todas as livrarias. — Começou a sorrir, e então se deu conta de que tinha cometido uma gafe. — Desculpe, Rowan, não queria…

Ela deixou a xícara na mesa com tanta força que se fez em pedaços. A raiva acumulada contra o assassino desconhecido se voltou de repente contra Quinn. Como se atrevia a dizer uma coisa assim? Como se ela não soubesse. Como se toda aquela publicidade não desejada não a pusesse nervosa. O assassino a tinha despojado do único prazer catártico que possuía: o prazer de escrever, de inventar histórias onde o bem sempre triunfava sobre o mal. Não sabia se algum dia voltaria a escrever.

— Como te atreve? É dinheiro manchado de sangue. Não penso nem tocá-lo! — Jogou a cadeira para trás e passou como um redemoinho por Michael e se afastou pelo corredor para seu escritório.

A batida da porta deu o toque final.

— Droga — disse Quinn, passando a mão pelo cabelo. — Eu deveria lhe pedir perdão.

— Por que não lhe dá um pouco de tempo? — disse Michael. Não deixaria que Quinn se aproximasse de novo de Rowan. Era evidente que tinham compartilhado algo no passado.

Quinn olhou Michael de cima a baixo.

— Senhor Flynn, Rowan e eu fomos colegas e amigos por muito tempo — disse. — Vou falar com ela.

Michael fechou o caminho.

— Dê-lhe um pouco de tempo — insistiu Michael. Os dois eram igualmente altos, mas Michael pesava ao menos seis quilos mais que Quinn, era todo músculo.

Ficaram assim olhando-se, cara a cara, durante um bom minuto. Michael estava decidido a negar a Quinn o acesso a Rowan, enquanto Quinn media as vantagens e desvantagens de enfrentar ao guarda-costas. Foi Quinn quem quebrou o silêncio.

— Deixarei Rowan por esta noite, mas tem que vir ao quartel geral do FBI amanhã para revisar os casos dela.

— É o que esteve fazendo aqui — observou Michael.

— Encontramos alguns quantos que requerem uma atenção mais detalhada. Seu conhecimento e familiaridade com estes casos são importantes.

— Eu a acompanharei.

— Obrigado — disse Quinn quando abria a porta para sair. — Eu lhe agradeço.

Rowan ouviu que se fechava a porta de entrada e se sentiu aliviada com a partida de Quinn. Era um bom agente mas, droga, ela acreditava que ele a conhecesse melhor. O dinheiro. O dinheiro não lhe importava nem um pouco. Ela escrevia porque tinha que fazê-lo, como uma purgação da dor que tinha guardado encerrada tantos anos. Em seus livros, a justiça sempre triunfava. Em seu mundo de fantasia, os maus sempre morriam. As vítimas eram vingadas, o bem prevalecia sobre o mal.

Entretanto, na vida real nada disso era verdade. Às vezes, as vítimas recebiam uma compensação da justiça. Às vezes se castigava os maus. Às vezes o bem derrotava o mal.

Mas, com a mesma freqüência, quem vencia era o mal.

Ouviu alguns passos que chegavam até sua porta e se detinham. Não queria falar com Michael. Tinha boas intenções, mas era impossível que a entendesse. Por sorte, os passos passaram e se afastaram pelo chão de ladrilhos.

Respirou como se estivesse contendo a respiração sem dar-se conta e olhou a pistola que sustentava na mão. Toda sua dor podia desaparecer nesse instante com uma só bala.

Era uma covarde. Não se atrevia a acabar com sua própria vida. Só queria que esse safado viesse procurá-la antes que alguém mais morresse.

  

O diretor adjunto Roger Collins tomou o primeiro vôo para Portland para inspecionar a última cena do crime do «Assassino Imitador», o nome que os meios de comunicação tinham dado ao último assassino em série dos Estados Unidos. Três horas mais tarde, voltava para leste, mas não para o aeroporto de Dulles.

— A que hora está previsto que cheguemos a Logan? —perguntou a um auxiliar de vôo que passava.

— Aterrissamos as dezesseis e dez, hora do leste.

Collins pegou sua carteira e extraiu um cartão que guardava debaixo de sua carteira de motorista. Olhou-o por um logo momento antes de tirar o telefone celular do encosto do assento dianteiro, discou os números de seu cartão de crédito e pediu para falar com o diretor.

— Roger.

A voz do doutor Milton Christopher era grave e áspera, e não tinha mudado nos mais de vinte anos que Roger o conhecia.

— Milt, quem me dera que eu estivesse te ligando para conversar.

— O que está acontecendo?

— Estou caminho de Boston e preciso falar com Macintosh.

Seguiu uma longa pausa.

— Não houve mudanças.

— Já sei, mas tenho que vê-lo. Chegarei depois da hora de visita.

— Tem alguma coisa a ver com esse assassino em série da costa Oeste?

Agora foi a vez de Roger fazer uma pausa.

— Pode ser.

— Estarei aqui — disse o médico, com um suspiro.

— Obrigado. — Roger desligou e olhou pela janela. Tinha que fazer uma ligação mais. Discou o número.

— Penitenciária de Shreveport.

— Tenho que falar com o diretor a respeito de um detento.

  

Quando Roger estacionou o sedan de aluguel em frente ao Hospital de Bellevue para Detentos Deficientes Mentais, acabava de falar pelo telefone com as autoridades do sistema penitenciário do Texas. Olhou-se no espelho retrovisor e não lhe surpreendeu ver que estava com olheiras. O cabelo grisalho que Gracie sempre achava tão «distinto» lhe dava um aspecto mais envelhecido do que seus cinqüenta e nove anos.

Iam rolar cabeças por ter transferido essa semente do diabo sem lhe terem informado. Entretanto, depois de quatro horas e meia de ligações, desvios de chamadas e ameaças, Roger tinha descoberto onde estava e tinha falado com o diretor de Beaumont, um cárcere de alta segurança no Texas. O diretor James Cullen tinha respostas para todas suas perguntas e tinha passado a noite examinando uma cópia de todos os antecedentes pertinentes.

Roger ia descer de seu carro em Bellevue quando soou seu celular. Esteve a ponto de não atender. Eram mais de seis horas e não queria que Milt esperasse muito mais. Mas deu uma olhada no número e em seguida reconheceu-o como sendo o de Rowan.

Sentiu um nó no estômago, porque sabia que se algum dia se soubesse a verdade, ela nunca o perdoaria. O fato de que tudo o que fizera fora para protegê-la não serviria de desculpa.

— Collins — respondeu.

— Quinn falou contigo hoje?

— Sim. — Por isso estava em Boston, mas não podia dizer-lhe.

— Colocaste proteção para Peter, não é? Se ele sabe sobre a Dani, pode que…

— Peter está a salvo, Rowan.

— Contratarei um guarda-costas, se for necessário. Se houver um problema de dinheiro, tenho suficiente.

— Já está feito.

— Obrigada. — Seguiu uma pausa e Roger teve vontade de contar-lhe tudo. Mas não o fez.

— Alguma outra coisa?

Parecia derrotada. Desejava estar ali com ela, ser o pai que necessitava e que nunca tinha tido. Inclusive quando Rowan vivia com ele e Gracie, ele trabalhava doze e quatorze horas por dia. Sobre tudo no princípio, quando ela o tinha necessitado mais.

— Vamos agarrar esse filho de uma cadela.

— Sei. — Não dava a impressão de que Rowan acreditasse nele. — Adeus.

— Espera… — Mas Rowan já tinha desligado.

Fechou o celular de um golpe e deu um soco no teto do carro. Droga, droga, droga.

— Posso te ajudar em alguma coisa?

Roger se virou rapidamente. Milt Christopher já o tinha visto. Na realidade, estava muito cansado para fazer as coisas bem. Sacudiu a cabeça.

— Só quero que me leve para ver Macintosh.

Caminharam em silêncio pela grama. Presumia-se que os prados amplos e bem cuidados acalmassem a loucura que se escondia atrás das paredes.

Milt utilizou seu passe de segurança para abrir uma porta em um canto do pátio. Ele e Roger tiveram que assinar ante um guarda e então seguiram por um corredor longo e branco; cruzaram outras duas portas de segurança até chegar à entrada do quarto de Robert Macintosh.

— Tem certeza de que não confia em mim para isto?

— Confio em ti, Milt, mas tenho que vê-lo em pessoa.

Milt assentiu com a cabeça e então abriu a porta com uma chave.

Robert Macintosh estava sentado em uma cadeira em frente a uma janela com barras de ferro que dava ao pátio que acabavam de cruzar. Estava quase escuro, mas pelo olhar vazio de seus olhos azuis, Roger pensou que Macintosh não sabia ou não se importava. Aproximou uma cadeira, pô-la em frente a ele e o olhou, desejando ver algo, alguma coisa menos a expressão vazia que recordava.

Roger acreditava que a maioria das pessoas não estava desequilibrada quando cometiam crimes odiosos. Segundo todos os documentos públicos, Robert Macintosh tinha estado em seu juízo vinte e três anos antes. O que o tinha quebrado? O que tinha cortado o fino fio da sanidade mental? Acaso estava desequilibrado quando matou a sua mulher, ou seu brutal assassinato lhe esvaziou a mente para encontrar-se com sua alma morta?

Não era justo. Tinha querido que o peso da lei caísse sobre esse safado mais que sobre qualquer outro assassino que tinha conhecido em seus trinta e cinco anos no FBI. E Macintosh não tinha pronunciado nenhuma palavra desde dia em que o encontraram sentado junto ao corpo desmembrado de sua mulher morta, lambuzado com o sangue que manchava a cozinha onde ela morreu.

— Safado — sussurrou.

Milt, o médico, pigarreou.

Roger procurou os olhos cegos de Robert Macintosh, e não encontrou nada humano, nada que estivesse vivo em suas profundidades. Aquela carapaça vazia de ser humano vivia do erário público a um custo de mais de cem mil dólares ao ano. Deveriam tê-lo executado na cena do crime quando o primeiro agente de polícia chegou à casa dos horrores em Boston.

Roger se levantou.

— Alguém veio vê-lo recentemente?

— Na verdade sim — disse Milt, e piscou.

— Tenho que ver os registros de segurança.

Uma hora mais tarde, Roger saía com cópias dos registros de visitas desde o dia 10 de maio até em 23 de setembro do último ano, e com a promessa de que Milt pediria os vídeos de segurança correspondentes a aqueles dias e os enviaria imediatamente à sede do FBI.

Em vinte e três anos ninguém tinha visitado Robert Macintosh, até o ano passado, quando Bob Smith veio vê-lo duas vezes.

Quem diabos era Bob Smith?

  

Rowan despertou cedo; voltava a ter uma dor de cabeça horrível. Colocou a mão sob o travesseiro, tirou a Glock e ficou olhando um momento. Quase não recordava tê-la trocado de seu lugar habitual, em sua mesinha de noite, para debaixo do travesseiro.

Tinha dormido com uma calça de moletom e uma camiseta, e não se incomodou em mudar de roupa. Limitou-se a tirar os braços das mangas da camiseta, colocou um sutiã e voltou a colocar os braços. Era um truque que seus escassos amantes admiravam, e deveria ter demonstrado que se deixavam impressionar facilmente.

Entrou no banheiro, penteou-se e prendeu o cabelo em um rápido rabo de cavalo para sua sessão de corrida. Tentou ignorar a mulher de olheiras profundas que viu no espelho, mas não pôde.

Nunca tinha se preocupado com seu aspecto. Um de seus ex-namorados, Eric Hamilton, havia lhe dito que era bela como a escultura de uma deusa. Ela não prestou atenção a seu elogio como se fosse sem importância, sem interessar-se muito em um homem que prestava mais atenção a seu aspecto que a sua inteligência. Francamente, não lhe interessavam as relações. Antes de Eric, tinha tido relações com outros homens, nenhum deles do FBI, e nenhum era sério. Só sexo e uma xícara de café, nada mais.

Como podia aproximar-se de alguém quando todas as pessoas que conhecia morriam? Como ia compartilhar seu passado quando nem sequer podia pensar nele, exceto em seus pesadelos?

Sua relação com Eric foi o mais parecido a uma relação de verdade, de todas as que tinha tido, e só teria que ver o patético resultado. Ele pedia tudo dela, mas não podia vê-la pelo que era. Estava ferida. Com Eric interpretou um papel, o de uma agente do FBI tranqüila, comprometida e inteligente que não tinha medo de enfrentar aos maus em um beco escuro. Com Eric era quente na cama, mas fria nas conversas. Ela o sabia mas não podia mudar. Nem sequer sabia se tinha vontade de fazer o esforço.

Ele tinha pedido que se mudasse para seu apartamento. Ela tinha se negado. Não podia renunciar a sua independência, a sua intimidade e seu lar. A vida que tinha construído para si mesma com muito esforço não podia mesclar-se com a de alguém que não entendia o fato de morrer e a morte.

Eric era um bom agente. Era um homem inteligente, seguro de si mesmo e competente. Mas Rowan jamais sentiu que tentasse entendê-la. Desejava-a sobre tudo porque era inalcançável. Quando ela se mostrou ser diferente do que ele imaginava, ou quando ele não pôde moldá-la como queria, procurou consolo em outra parte.

E sua infidelidade foi um alívio.

Examinando o retrospecto, deveria ter escutado Olívia. Quando vivia em Washington, antes do assassinato dos Franklin, ela e Eric saíam freqüentemente com Liv e com o que agora era seu ex-marido. Eric não lhe agradava nem a Liv nem a Grez. Isso devia tê-la posto de sobreaviso.

Rowan sacudiu a cabeça, tentando se livrar do assédio das lembranças. Depois de escovar os dentes e beber um copo de água morna, desceu para procurar Michael no quarto dos convidados.

Estava a ponto de bater em sua porta quando alguém do outro lado do corredor disse:

— Bom dia.

Rowan se virou e viu o irmão de Michael. Estava apoiado na soleira da porta da cozinha com uma xícara fumegante de café na mão.

Parecia-se um pouco a Michael, mas seus olhos verdes eram mais escuros, o cabelo mais curto, o corpo mais magro. Rowan sentiu uma comichão estranha no estômago, e se sentiu confusa. John era um homem atraente mas, certamente, ela não ia deixar que os hormônios ditassem seu comportamento. Tragou saliva, surpreendida por sua própria reação. John Flynn era um homem muito sexy para seu próprio bem, e ele sabia.

Mas, sobre tudo, era um homem prático. Via-se em sua atitude tão relaxada. Debaixo dessa postura tranqüila havia um homem transbordante de energia, um homem de que emanava força e uma visível segurança sem nem sequer querer. Não era tão grande nem musculoso como seu irmão, mas Rowan sabia em quem apostaria em uma briga. John ganharia com as mãos atadas.

Era perigoso. Seu olhar inocente parecia lhe sondar a alma. Procurava a motivação que a fazia viver, o mecanismo que tinha feito dela uma agente do FBI que depois tinha se demitido, que escrevia e que tinha atraído a atenção de um assassino em série.

Michael Flynn era mais fácil de lidar. Ela podia controlar suas perguntas, distraí-lo para que não se aprofundasse muito em sua psique. Manter uma relação profissional, transparente.

Mas com John não. A ele não podia distrair, esmagar nem satisfazer com respostas curtas. Era um perigo. Para sua alma.

—O que você faz aqui? — perguntou, aproximando-se pelo corredor até parar em frente a ele.

—Pensei que viria bem um pouco de apoio a Michael. Está há muito tempo trabalhando vinte e quatro horas por dia.

Ela assinalou o café com um gesto da cabeça.

— Pelo visto, já está se sentindo em casa.

Ele sorriu, revelando uma solitária covinha que teria parecido íntima se não representasse um grave perigo para sua privacidade.

— Você tem uma boa despensa. Autêntico café em grão. Eu adoro.

Ela passou a seu lado, roçando-o, tentando ignorar a descarga de sensualidade que experimentou ao lhe roçar o braço. Para não olhá-lo, serviu-se de uma xícara de café. Tomou um gole e deixou a xícara. Maldição, esse olhar em seu rosto inexpressivo a deixava nervosa.

— Vou sair para dar uma corrida — avisou.

Ele se girou na soleira da porta mas não se moveu.

— Vai dar uma corrida?

Ela entrecerrou os olhos e lhe lançou um olhar de poucos amigos. Qualquer outra pessoa teria andado com cuidado, mas ele parecia só divertido. Aquilo a tirou do sério.

— Talvez eu deva despertar o Michael. Provavelmente você não consiga seguir o ritmo.

Em seu rosto apareceu um brilho de irritação, mas em seguida as defesas relaxaram. De modo que, pensou Rowan, era um cara competitivo. Pois ela também era.

Ele se aproximou e se deteve a apenas centímetros de seu rosto. Ela não se alterou, mas ficou olhando com uma expressão que manteve deliberadamente vazia.

— Quem é Danny?

Ela tragou ar e segurou a respiração, temendo de verdade uma hiperventilação. Soltou lentamente o ar e deu um passo na direção dele, tremendo de raiva e dor. Elevou a cabeça a alguns centímetros dele e disse, em voz baixa:

— Que se foda.

Ia passar longe dele mas ele a agarrou pelo braço. Ela desencapou a pistola e a pôs na cabeça.

— Me solte. — Ninguém, absolutamente ninguém, agarrava-a pelo braço a menos que ela deixasse.

Ficaram olhando-se por um longo minuto antes que John a soltasse.

— Você me contará — disse isso, com total segurança. Rowan viu que tinha um tic nervoso no pescoço, e soube que estava zangado.

Baixou a pistola, contente de tê-lo irritado. Odiava-o. Era uma ameaça a tudo o que ela tinha construído trabalhosamente ao longo dos últimos vinte e três anos. Droga. Ela não necessitava aquilo. Sobre tudo, não necessitava dessa confusão, nem a esse homem que a olhava e parecia saber de tudo a respeito dela.

Era impossível. Ele não podia saber quem ela era, nem conhecer seu passado nem seus pensamentos. Era absurdo pensar isso, disse-se, enquanto se dirigia à porta lateral.

— Dani não tem nada a ver com isto. É um caso fechado faz muito tempo. Roger me prometeu que os arquivos do caso Franklin estariam aqui hoje e, depois dessas tranças… — A voz lhe quebrou e Rowan se zangou consigo mesma. — É outra conexão com o caso dos Franklin.

Não o olhou. Não podia olhá-lo. Já havia dito mais do que era sua intenção. Como tinha conseguido que falasse? Recordou que não tinha pronunciado o nome de Dani em anos. Quase toda uma vida.

— Espere — disse John, e lhe pôs uma mão no ombro. — Eu irei primeiro.

Detestava ser a mulher protegida, mas deixou que John saísse da casa, comprovasse o perímetro e voltasse.

— Tudo bem. Aonde pensa ir correr?

— Na praia — Foi a única coisa que disse.

— Eu também gosto da água — disse ele, assentindo com a cabeça.

— A marinha?

— O exército.

Ela inclinou a cabeça para um lado.

— Você não pertence ao exército. A menos que seja um comando Delta. — Rowan fez essa afirmação como se soubesse que era a realidade.

— Era — disse ele, franzindo o cenho.

Ela sorriu como se soubesse de uma piada que ele não conhecia.

— Quinze quilômetros — disse, e saiu pela porta.

Ela marcou o ritmo, e John a seguiu a meia distancia. Ela soube em seguida que John tinha muito mais experiência que seu irmão. Quando Michael a acompanhava na corrida, observava a ela. John não. Ele olhava a praia, o mar, as casas. Sempre alerta ante a presença de um franco-atirador, um pequeno bote, um avião de pequeno porte que voasse muito baixo.

Muito parecido ao que ela faria.

Duas crias da mesma ninhada, pensou quando começava a última volta. Com Michael havia corrido duas voltas. Com John correu três. Não ia lhe pôr as coisas fáceis e, além disso, suspeitava que ele não lhe agradeceria se o fizesse.

Rowan tentava esquecê-lo enquanto corriam, mas lhe resultava impossível. A presença de John a subjugava, e não podia concentrar-se em sua própria segurança. Ele tinha indagado sobre Dani e não seria tão fácil despistá-lo como a Michael.

Pensou em Michael e sentiu uma pontada de culpa. Ontem tinha querido beijá-la, e ela não podia compartilhar seus sentimentos. Michael era um homem amável, inteligente e atraente, mas ela não sentia essa… atração. Tinha aprendido a apreciá-lo durante esses poucos dias, mas não da maneira que ele esperava.

Estimava-o como estimava a Peter. Como a um irmão.

John poderia não lhe dar muito tempo se insistisse em que ela falasse, embora não houvesse nenhuma relação entre sua infância e o assassinato de Dani com o que estava ocorrendo nesse momento. Todos os implicados naquele antigo episódio estavam mortos. Exceto ela. E Peter. Inclusive Roger parecia absurdo pensar nisso.

Entretanto, John provavelmente ligaria para onde fosse em Washington para averiguar que coisas eram vitais para Rowan Smith. E ela teria que fazer todo o possível para impedir que obtivesse as respostas que procurava. Se soubessem de tudo, não tinha certeza de que pudesse reconstruir sua vida. Seu passado estava pondo em perigo seu presente. Tinha que pôr fim, mas não sabia como.

Quando deu meia volta ao final da praia, os pulmões lhe queimavam e sentia um formigamento na pele. O cabelo lhe açoitava o rosto e a brisa do mar lhe chegava nas bochechas. Nunca se sentia tão viva como quando corria. Sobre tudo ali, na beira do mar. Se não estivesse tão presa a sua cabana no bosque, pensaria em mudar-se para a costa.

Rechaçou essa idéia assim que lhe ocorreu. Muita gente. E, além disso, detestava a casa que tinha alugado. Muita luz, muito branco, muito exposta.

Mas na praia se sentia em paz. Sabia que seguindo a costa, a norte de São Francisco, havia umas casas em frente ao mar mais isoladas. Muito frio para nadar, mas ela não precisava nadar. Só necessitava desse penetrante ar salgado, o largo mar sempre agitado e a praia plana e úmida. Quanto mais frio, melhor. Ter frio era estar vivo.

Começou a subir as escadas de madeira que iam da praia até a sacada da casa quando John se aproximou, agarrou-a pelo braço e a fez girar-se. Ficaram cara a cara, ela um degrau acima dele.

John respirava com dificuldade, e Rowan se alegrou. Também lhe custava respirar, mas não tinha afrouxado durante toda a corrida. A resistência era a chave.

O suor lhe grudava a camiseta ao peito, delineando uns músculos sutis e firmes. Seu rosto parecia inexpressivo, mas seus olhos verde escuro brilhavam. Era raiva? Frustração?

Saudade?

Rowan piscou e a sensação já não estava mais lá. John franziu o cenho ao olhá-la, e ela se fixou em seus lábios… lábios generosos que dava vontade de beijar. Todo seu rosto refletia uma sutil virilidade, a de um homem que se sentia cômodo consigo mesmo, que conhecia seu lugar no mundo, que não era precisamente um lugar inferior. Em sua mandíbula quadrada aparecia uma covinha, e não havia se barbeado. Tinha uma barba condenadamente sexy.

Rowan voltou a olhá-lo nos olhos e desejou não tê-lo feito. Voltou a sentir que John via seus pensamentos mais íntimos.

Tragou saliva sem dar-se conta.

— Você acredita que tem as coisas sob controle — disse ele, com voz grave, rouca, dura como sua barba. John se inclinou para frente, com o peito ainda agitado depois da corrida de quinze quilômetros. — Descobrirei o que é o que está escondendo de nós. E lhe asseguro, Rowan, que se for um estúpido jogo do FBI e meus irmãos ficarem feridos, você pagará por isso.

Rowan seguiu olhando-o com rosto inexpressivo, mas sentiu que uma corrente de raiva e temor se disparava com suas palavras.

— Nenhum de meus segredos tem nada a ver com isto. —Enquanto o dizia, temeu estar equivocada. Como, se não, o assassino sabia das tranças?

Tinha que ser uma coincidência.

Por isso tinha se demitido do FBI depois do assassinato dos Franklin. Aquelas malditas tranças a perseguiam em seus sonhos. Não conseguia ver as coisas com clareza, não podia investigar um crime tão próximo a ela. Não podia ser imparcial, assim decidiu se demitir.

John a olhou em dúvida e ela desviou o olhar para não ter que enfrentar-se a ele. Ele esticou a mão e a fez virar o rosto. Ela lhe lançou um golpe de caratê no braço e ele a soltou com uma careta de dor. Rowan aproveitou para libertar-se de um puxão.

— Não me toque — resmungou entre dentes.

Ele elevou as mãos como dizendo «tranqüila, não a tocarei» e com um gesto lhe disse que se situasse a suas costas. Ela obedeceu a contra gosto, mas desencapou sua arma, sentindo que o ritmo cardíaco se regularizava assim que empunhou o metal com ambas as mãos. Sua pistola a ancorava à realidade. John olhou sua Glock de relance, assentindo com um gesto quase imperceptível, um indício de sorriso.

Ela franziu o cenho quando ele lhe deu as costas e começou a subir as escadas. O que passava com John Flynn?

Quando Rowan entrou pela porta lateral, a primeira coisa que viu foi Michael apoiado contra a bancada com uma xícara fumegante de café na mão. Sua atitude relaxada contradizia seu semblante sério, mas ao vê-la, seu olhar se tornou caloroso.

Rowan sentiu o peso da culpa no estômago.

— Desculpe — disse, passando junto a John. Quando ao passar lhe roçou o peito, reagiu como se tivesse se queimado.

Entretanto, o calor lhe vinha de dentro.

A Rowan bastou um breve contato visual para saber que John sentia a mesma excitação, e os dois se olharam arqueando as sobrancelhas. Sem dizer uma palavra, ela se dirigiu ao corredor e subiu ao segundo andar.

John esfregou o braço com um gesto inconsciente. Não era dor apenas a urgente necessidade de voltar a tocar em Rowan.

— Que imposição você está fazendo? — perguntou Michael assim que ela saiu da cozinha.

John lançou um olhar a seu irmão, foi até a geladeira, abriu-a e tirou uma garrafa de água. Bebeu-a inteira e lançou a garrafa vazia à lata de lixo.

— Ela está em forma — disse John e cruzou os braços em frente a Michael. — Temos que admirá-la.

Michael golpeou com a xícara a superfície de granito da bancada e deu um passo na direção de seu irmão com os punhos apertados.

— Você não acha nem por um momento que vai dirigir este caso — disse, com o rosto tenso.

John elevou as mãos.

— Ouça, eu só vim para ajudar. É seu assunto.

— Eu vi como você a olhava.

— Ai, irmão, não sou eu quem anda olhando para todos os lados. Você vai se meter em uma boa confusão se não colocar certa distância entre você e a loira. — Enquanto o exortava, dava-se conta de que ele fazia exatamente o mesmo.

A única diferença, pensou, era que ele não tinha medo de ferir-la se com isso chegasse à verdade. Era um pensamento que não se acomodava bem em sua consciência.

— Não sei do que você está falando — espetou Michael. — Estou aqui há quase uma semana e agora chega você e começa a expor exigências, a assustá-la e…

—Não continue. — John se separou da bancada e deu um passo na direção de seu irmão. — Ela está ocultando algo e você a deixa. Esse «Danny» de quem falou tem algo a ver com isto. E a menos que comece a pensar com a cabeça em lugar de… — disse, olhando para abaixo do cinto de Michael —, acabará morto.

— Você não sabe nada sobre Rowan!

— Nem você — respondeu John, com voz apenas audível. — E será melhor que comece a te fazer certas perguntas em lugar de andar babando atrás da senhorita loirosa. Ela está te usando, Mickey. Vale-se da evidente atração que você sente por ela para não responder às perguntas difíceis.

— É você quem baba. Não acha que não vi como a olhava.

John sacudiu a cabeça e se apoiou contra a bancada.

— Mickey, Mickey. Tudo isto é como com a Jessica.

— Não pronuncie seu nome.

— E uma merda se acha que te deixarei cometer duas vezes o mesmo erro! Esteve a ponto de morrer porque ela mentiu para ti. E bem, a boca fechada de Rowan Smith equivale a mentir, e minha intuição me diz que sabe alguma coisa a respeito deste assassino. — John tentou passar ao lado de seu irmão. Não tinha vontade de brigar com ele. Mas Michael o agarrou pelo braço e o fez girar-se.

— Me solte — disse John.

Michael apertou com mais força antes de soltá-lo.

— Não a pressione. Está vivendo um inferno.

Você não sabe nem a metade do que está passando, Mickey, pensou John. Suspeitava que Rowan Smith tinha ido e voltado do inferno várias vezes. Adivinhava-o em seus olhos, olhos que ocultava sempre que podia porque a expunham ao mundo. Mas enquanto Michael se propunha a protegê-la para que não voltasse a viver no inferno, John sabia que a única maneira de vencer o mal era enfrentando-se a ele.

Para isso, Rowan teria que contar tudo. E John suspeitava que a única maneira de fazê-lo seria descobrir a verdade antes que ele.

— Não te metas nisto — o advertiu Michael.

— É muito tarde. — Os dois ficaram se olhando. Se a situação não fosse tão malditamente séria, John teria começado a rir.

Soou o telefone, mas nenhum dos dois fez um gesto para atender. Quando soou pela terceira vez, Michael agarrou o telefone que estava pendurado na parede.

— Residência de Rowan Smith — disse, com voz intratável. — Quem é? — Ficou em silêncio e olhou seu relógio. — Está no banho. Estaremos aí em uma hora — disse, e desligou.

John o olhou elevando as sobrancelhas, mas não perguntou quem tinha ligado.

— Era o agente Peterson — disse Michael. — Está tudo pronto para que Rowan revise o arquivo dos Franklin.

— Então, deixarei que o faças — disse John, e se foi para a sala.

— O que você fará?

— Tenho que fazer algumas ligações — disse John, olhando por cima do ombro. — Vigiarei a casa.

— Não tem por que ficar aqui.

John se voltou, carrancudo. O que Michael queria dizer, na realidade, era Não quero que fiques aqui.

— Já sei — disse —, mas quero fazê-lo. — Afastou-se pelo corredor em busca de um banheiro onde tomar banho. Mas de repente se deteve e se voltou para seu irmão.

— Mickey — disse —, me desculpe pelo comentário sobre Jessica. Foi um golpe baixo.

— Já está esquecido.

John esperava que seu irmão o dissesse sinceramente. A discussão deles era como uma ardência que era melhor não coçar, e isso o irritava. Discutiam freqüentemente, mas sempre terminavam como amigos.

— Tome cuidado, certo?

— Farei isso — disse Michael. E sorriu apenas. — E quando tudo isto tiver acabado, podemos brigar por Rowan Smith como Deus manda.

— Não há nada pelo que brigar. — Mas enquanto o dizia, John caiu na conta de que ele também sentia algo pela loira em questão, algo que não podia ser conciliado com seu desejo de que Rowan falasse.

Michael se deixava dominar freqüentemente pelas emoções, e isso lhe nublava sua opinião profissional, mas John prometeu a si mesmo que isso não ocorreria a ele.

Encontrou a ducha no final do corredor, despiu-se e se meteu sob o jorro de água quente. Não podia tirar Rowan Smith da cabeça. Seu perfil duro e seus olhos suaves. Essa maneira de observar tudo o que ocorria a seu redor sem mover a cabeça. Absorvia o ambiente em volta, e lhe custava implicar-se, mas John sempre sabia quando estava na mesma sala, embora não pudesse vê-la.

Sim, sentia uma fraqueza por ela. Mas, ao contrário de Michael, conhecia a diferença entre o desejo e o amor. Não acreditava no amor a primeira vista, nem no destino nem em nenhuma dessas coisas absurdas. John era um homem prático que sabia distinguir entre os negócios e o prazer.

E o trabalho era o primeiro.

Enquanto lavava o suor da corrida, planejou a maneira exata de conseguir que Rowan desabafasse. Intuía que uma vez que começasse a falar, teria muito que contar.

 

As fotos em preto e branco não deixavam de ser ilustrativas, apesar da ausência de cor.

Ficou olhando a foto de Karl Franklin, com a pistola junto à mão, a mancha escura no tapete claro debaixo de sua cabeça. A metade da cabeça. A outra metade tinha ficado esmagada na parede ao receber o tiro.

Depois de ler os relatórios sobre o assassinato dos Franklin lhe surpreendeu descobrir que o caso não estava encerrado. Não havia suficientes provas conclusivas de que Karl Franklin tivesse matado a toda sua família e que em seguida houvesse se suicidado. Embora fosse evidente que havia se suicidado, havia certas discrepâncias nas provas físicas que assinalavam que poderia ter morrido antes que as demais vítimas, e que todas as mortes tinham sido rápidas.

Rowan não sabia. Não tinha se importado o suficiente para comprová-lo.

Não, isso não era verdade. Importava-lhe muito. Era a razão pela qual tinha sofrido a crise e por isso tinha saído correndo. Tinha sido muito fraca.

Tecnicamente, declarou-se que o caso era um provável assassinato com suicídio, mas não estava encerrado. Depois de quatro anos, estava frio. Muito frio.

A menos que Karl Franklin não tivesse matado a sua família. Que alguém os tivesse assassinado sem ser descoberto. O arquivo era surpreendentemente direto. Além de Franklin, não se mencionava outros suspeitos. Tinham interrogado os vizinhos e os parentes, e ao único membro da família imediata que ainda estava vivo. O filho de Karl, de um casamento anterior, estava na universidade e tinha um sólido álibi.

Dado que a seqüência de tempo era muito justa e que nas melhores circunstâncias resultava difícil estabelecer a hora exata da morte, o provável assassinato e suicídio tinha relegado o caso ao esquecimento.

Rowan deixou cair com força a pasta sobre a mesa de reuniões e os conteúdos se esparramaram sobre a lustrosa superfície. Quinn ficou olhando, sacudindo a cabeça enquanto recolhia o monte de papéis. Tess, que trabalhava em um canto com seu laptop, franziu o cenho. Michael, sempre voluntarioso, permaneceu junto à porta com os braços cruzados, observando-a.

Ela não se importava. Eles não o entendiam. Era possível que ao se demitir tivesse permitido que escapasse um assassino? Era Karl Franklin inocente do crime de que todos o acusavam?

E, se era inocente, era possível que o verdadeiro culpado tivesse decidido eliminar a ela por alguma razão desconhecida?

— Estava tão convencida de que encontraria alguma coisa — disse, com voz trêmula.

Olhou o arquivo que Quinn se dispunha a guardar e viu outra foto. Uma foto que tinha evitado. Como se fosse um castigo por sua fraqueza, a foto estava no alto do monte.

— Para. — Agarrou a mão de Quinn até que ele cedeu.

— O que acontece? — perguntou, mas ela o ignorou. Com as mãos tremendo, agarrou a foto com a imagem que a tinha perseguido durante quatro anos.

E mais.

Rebecca Sue Franklin. Devia estar dormindo, sonhando com a festa que tinha montado com seus animais de pelúcia e suas bonecas na mesma tarde. Em troca, estava coberta com seu edredom branco, com a mancha escura, um aviso sinistro de que estava morta. Assassinada enquanto dormia. Um fio de sangue escuro se derramava da boca aberta, congelada no tempo.

Suas tranças escuras, emaranhadas durante o sono, contrastavam com a capa do travesseiro, branca e engomada. Os animais de pelúcia, as bonecas e os brinquedos que velavam por ela olhavam com olhos pretos e vazios. Testemunhas mudas.

Rowan não percebeu as lágrimas que rolavam por suas bochechas até que uma caiu sobre a foto. Aquilo a sobressaltou e voltou de repente para a realidade.

— Nada, nada conclusivo — disse, devolvendo a foto de Rebecca Sue Franklin à pasta. Fechou os olhos. — Acredito que Roger deveria dar prioridade à revisão deste caso. Não sei por que, mas há algo familiar aqui. Como, se não, saberia o assassino sobre as tranças? Por que as mandar para mim? Eu nunca escrevi que isso acontecesse.

— Uma coincidência — disse Quinn, enquanto recolhia os papéis.

— É nada, e você sabe. Não existem coincidências.

— Será que não estamos andando em círculos, Rowan! Perseguindo um caso encerrado por uma intuição… é um desperdício de recursos.

— Te ocorre algo melhor? — perguntou ela. Tinha gritado, mas não se importava. — Qualquer coisa? Porque nenhum de meus casos nos deu uma só pista. Esta é a única anomalia.

— Ainda estamos revisando seus outros casos, declarações, tudo. Leva tempo.

— Já sei, mas este caso é diferente. Era meu último caso. Dani… — disse, e calou. — Rebecca Sue e suas tranças. As que me enviaram. Tem que haver uma conexão.

— Danny? — perguntou Quinn, confuso.

Rowan o descartou com um movimento da mão, como um deslize, mas conseguiu ver que Michael elevava as sobrancelhas. Quase tinha esquecido que estava na sala.

— Não o vê? — continuou. — Aqui há algo. Quero uma cópia deste processo. Quero voltar a lê-lo.

— Não posso — disse Quinn, e esfregou o rosto com ambas as mãos. — De acordo, leve isso.

— Obrigada.

— Temos que falar da proteção preventiva.

Ela sacudiu a cabeça inclusive antes que ele acabasse a frase.

— Resta um longo caminho, e penso em resistir.

— Já não é mais uma agente. Não jogue o conto do policial duro comigo. Posso fazer que lhe outorguem proteção preventiva com isto — disse, fazendo estalar os dedos —, é só me olhar de cara feia. E não pensa que não o farei. Roger me autorizou.

Como ele se atrevia? Sentiu que seu mau humor entrava em ponto de ebulição.

— Jamais.

— É para sua própria segurança, Rowan.

— Não penso em me esconder. Não penso em fugir. Nunca mais.

Michael interveio dando um passo para frente. Pôs-lhe uma mão no ombro e lhe deu um ligeiro apertão.

— Nós todos estivemos submetidos a muita pressão esta manhã. E já passou do meio-dia. Por que não vou almoçar com Rowan em algum lugar? De qualquer maneira, já terminamos por aqui.

— Posso ficar? — Tess estava sentada ante uma mesa em um canto do escritório que o FBI tinha habilitado como quartel geral para a informação sobre o Assassino Imitador. Estava atarefada teclando no computador, embora Rowan não tinha nem idéia do que fazia. Michael tinha mencionado que o FBI a tinha aceito como assessora civil devido a seus conhecimentos de informática, depois de passar por um controle de segurança. Era algo habitual.

— Claro — disse Quinn. — Tenho trabalho pendente. Pedirei que tragam sanduíches.

— Tenho que sair daqui. — Rowan empurrou a cadeira para trás e se levantou. Agarrou a pasta e a apertou contra o peito. Essa noite voltaria a revisá-la e falaria com Roger.

Lançou um olhar a Quinn e saiu. Havia visto suficiente por hoje. Quinn não entendia. Assim como ela não entendia por que ele tinha traído Miranda. Apesar de sua inteligência e de sua boa presença, Quinn Peterson nunca entenderia as chaves.

Proteção preventiva. Nunca.

Michael a seguiu. Não tinha esperado menos. Que inferno. O que ela queria era um pouco de privacidade. Os dez minutos que tinha estado a sós nessa manhã na ducha não era tempo suficiente para pensar. E agora, com a foto de Rebecca Sue Franklin gravada na memória, não tinha vontade de comer, e menos ainda de sustentar uma conversa.

Tirou um comprimido de Motrin do bolso de sua calça jean e a engoliu sem água.

Michael a pegou pela mão.

— O que é isso? — perguntou.

— O que é o que? — disse ela, soltando-se bruscamente de sua mão.

— Esse comprimido. É a terceira vez esta manhã que toma um. O que está fazendo? — Pôs-lhe as mãos nos ombros e a olhou com os lábios apertados.

Rowan olhou a seu redor se por acaso alguém tivesse ouvido a acusação de Michael. Se a tinham ouvido, foram bastante discretos para ignorar a cena.

— Me solte — disse, entre dentes.

Michael a soltou e passou a mão pelo cabelo.

— O que está fazendo a si mesma?

Ela meteu a mão no bolso e tirou outros três comprimidos de Motrin.

— Satisfeito?

Ele foi bastante sensato para adotar um semblante de envergonhado, mas o aborrecimento não tinha passado.

— Sinto muito, eu…

— Esquece — disse Rowan. Cruzou a sala e abriu a porta principal. Michael a fechou com uma batida.

— Se lembre que eu vou primeiro.

— Merda — resmungou ela. — Este assunto me deixa cansada.

— Já sei. — Michael o disse com um ar de simpatia, mas não entendia nada.

John sim entendia. John entendia a ela. E ela o odiava por isso.

Sua intuição lhe dizia que John tinha trabalhado como agente federal em algum momento de sua vida. Não para o FBI. Possivelmente para a CIA, mas o mais provável era o DEA. Tinha a presença sigilosa e os movimentos ágeis típicos dos agentes do DEA, ao menos lhe parecia. Durante sua carreira tinha conhecido suficientes agentes do DEA e os podia identificar onde fosse.

Em qualquer caso, era um militar. Tinha mencionado o Comando Delta, o melhor que tinha o exército. Era mais velho que Michael, mas muito jovem para ser um veterano do Vietnã. Delta tinha tido um importante papel na operação Tormenta do Deserto e nas hostilidades no Oriente Médio durante as duas últimas décadas, os assassinatos clandestinos, as operações de resgate… Se perguntava quando John havia se retirado. E por que o tinha feito. Se é que tinha se retirado.

Provavelmente tinha tantos segredos quanto ela.

— Rowan?

Piscou, quase como se tivesse esquecido onde e com quem estava.

— Estava no mundo da lua — disse, lhe dando as costas.

— Onde você quer almoçar?

— Não me importa — disse ela, dando de ombros.

— Você tem que recuperar as forças.

— Estou bem. — Rowan olhou rua acima e assinalou um restaurante fast food. — Esse está bom.

Michael fez uma careta.

— Porcaria? Não acredito — disse ele, e a virou na direção oposta. — Vi um restaurante italiano na esquina.

— Claro — disse Rowan, e deixou que Michael a levasse. Era mais fácil que discutir. Mas a comida não importava nesse momento. Não depois dos assassinatos, das tranças, da espera e da vigilância e das suposições sobre quando voltaria a aparecer o rosto do mal.

O assassino tinha revisado seus três primeiros livros e de cada um tinha escolhido um assassinato. Doreen Rodriguez. A florista. A família Harper. Um livro mais. E tocaria nela. Uma vítima mais e ela veria seu rosto.

A não ser que ele quisesse continuar brincando com ela. Utilizar seu quinto livro, que sairia na próxima semana. Esperar e voltar a matar.

— Para — disse, quase gritando.

Michael se deteve diante dela e a olhou por cima do ombro.

— O que? O que viu?

— Nada. Nada. Tenho que fazer um telefonema.

— Não aqui na rua.

— É importante. — Tirou o telefone celular e discou o número particular de Roger.

— Collins.

— Roger, sou eu.

— O que acontece?

— Ligue para o meu editor. Tem que parar a distribuição dos livros. Está previsto que estejam na rua na próxima semana.

— Necessito de uma ordem judicial, e…

— Não, não, eles o pararão. Até que apanhem a esse cara. Se não, conseguiremos uma ordem judicial para que o atrasem.

— Ocuparei-me disso.

— Quero falar contigo mais tarde. Sobre o assassinato dos Franklin.

— Encontraste algo? — Parecia otimista.

— Não, ainda não, mas tenho todo o arquivo e voltarei a revisá-lo. — Olhou a Michael, que olhava atentamente a rua. — Tenho certeza de que não encontrarei nada que outros não tenham visto, mas algumas olhadas a mais… não sei. — Pela primeira vez, duvidou de si mesma. Talvez estivesse se aproximando da árvore errada, desperdiçando tempo e recursos. Mas que alternativa tinham?

— Não deixaremos pedra sem levantar, Rowan. Eu lhe prometo isso. — A voz de Roger soava convincente, a quase cinco mil quilômetros de distância. — O pegaremos. É só uma questão de tempo.

— Mas quem morrerá antes que isso aconteça?

Rowan desligou. Falaria com ele de noite, mas não se esperava nada novo.

Será que ela conhecia o assassino? Tinha-o visto? Ou seria um cara que havia ficado obcecado por algum delirante motivo e tinha averiguado tudo sobre ela, seu passado, seu presente? Reconheceria o assassino se o visse?

De quanto seria a espera? Os três primeiros assassinatos haviam ocorrido em uma semana. Mas ela suspeitava que aquele assassino queria fazê-la sofrer. Inquietá-la. Que tivesse medo. Quase podia sentir como se alimentava de seu medo, como se gozasse vendo-a tremer e encolher-se de medo. Endireitou-se. Se ele se alimentava de medo, não seria o seu.

Não lhe daria essa satisfação.

 

Durante toda a semana, Adam havia se sentido culpado por ter feito uma sacanagem a Marcy, embora o merecesse pelas coisas horríveis que havia dito sobre Barry. Barry era seu amigo e nunca gritava com ele, e era sempre amável e o deixava ficar na velha oficina de efeitos especiais para que visse todo esse material tão divertido. Mas a sacanagem tinha incomodado Rowan, e Rowan também era sua amiga. Escutava-o e se preocupava com ele como sua mãe nunca tinha feito. Às vezes desejava que Rowan fosse sua mãe, embora isso fosse uma tolice porque era muito jovem. Mas seria uma boa mãe, e não gritaria nem diria que não valia nada e que nunca deveria ter nascido.

Adam tinha se desculpado com Barry todos os dias até hoje, quando este havia dito que deixasse de repetir «desculpe» porque, depois de um tempo, já não significava nada. Adam não entendia isso, porque o lamentava de verdade, mas Barry era inteligente e sabia como funcionavam as coisas, assim Adam deixou de dizer «desculpe».

Mas não tinha visto Rowan durante toda a semana. Não tinha vindo aos estúdios nem o tinha visitado nem nada, e ele sentia saudades dela. O que aconteceria se Rowan estivesse zangada com ele? Disse-lhe que não, que não o estava, mas as pessoas sempre mentiam. Rowan nunca tinha mentido, mas talvez desta vez estivesse mentindo.

Não tinha podido comer nem dormir nos últimos dois dias porque lhe preocupava que Rowan já não gostasse dele. Tinha que encontrá-la e dizer que sentia muito.

Adam não tinha carteira de motorista, mas Barry freqüentemente o deixava dirigir pela área do estacionamento. Não pensou duas vezes e decidiu tomar emprestado um dos caminhões dos estúdios e dirigir até Malibu. Era emocionante dirigir pela rodovia. Tanto poder! Pela primeira vez se sentiu como uma pessoa normal, quase como se fosse um garoto integrado.

Tinha ido a casa de Rowan em uma ocasião. No mês passado, quando contou a Rowan que nunca tinha visto o mar apesar de ter vivido toda sua vida em Los Angeles, e ela imediatamente o tinha levado a sua casa.

O mar lhe dava um pouco de medo, mas isso não contou a Rowan. Da sua varanda, era muito bonito, e lhe deixou ficar até o pôr-do-sol, e isso era o mais belo que tinha visto em toda sua vida. Bom, quase. Rowan era mais bonita que o sol. Olhava com um lindo sorriso enquanto trocavam as cores no céu.

Adam não se lembrava como se chegava à sua casa, assim imprimiu um mapa no computador.

Rowan nunca o tratava como se fosse um estúpido. Não como Marcy e os outros atores, que o chamavam o garoto atrasado da cenografia. Barry não gostava dessa palavra, e falava em voz baixa quando a ouvia, e Adam sabia que Barry tentava lhe levantar o ânimo, embora não pudesse. Só com Rowan se sentia melhor e, se ele não entendia algo, ela voltava a explicar até que ele o entendesse, e nunca suspirava nem franzia o cenho nem tinha esse olhar como se quisesse estar em qualquer outra parte em lugar de estar com ele.

Tomou a auto-estrada um para Malibu e viu um posto de flores junto ao caminho. Será que Rowan gostava de flores? Tinha ouvido Barry dizer a um dos câmeras que comprasse uma dúzia de rosas para sua namorada porque as mulheres gostavam desse tipo de coisas. Rowan era uma mulher e também gostaria das flores, deduziu Adam.

Desviou-se para o acostamento de cascalho. Assustou-se quando o caminhão pulou com tal força que ele golpeou a cabeça no teto. Reduziu a velocidade até deter-se e esperou que seu coração voltasse a pulsar normalmente. Talvez conduzir não fosse tão fácil como parecia. Desceu com cuidado do caminhão e o vento frio lhe bateu no rosto. Uns escarpados enormes, só a alguns metros, caíam em direção ao oceano. Adam sentiu que se enjoava, e de repente entendeu como se sentia Scottie, em Vértigo. Afastou-se tudo o que pôde da borda sem pisar na auto-estrada.

O homem que vendia flores tinha a pele escura, mas não era negro. Tinha olhos castanhos pequenos e um sorriso muito simpático que tranqüilizou Adam. Afinal, nunca tinha comprado flores para uma garota.

Um carro preto se deteve atrás do caminhão de Adam, mas ele nem se deu conta. Assinalou as rosas.

— São rosas, não? — perguntou.

—Sim, senhor — disse o homem. — Um dólar cada uma, ou dez dólares a dúzia.

Uma dúzia, uma dúzia.

— Isso é doze rosas por dez dólares?

— Sim, senhor.

Adam tinha dez dólares. Em sua carteira tinha uma nota de vinte, uma de dez e três de um dólar.

— Certo — disse, com voz pausada, querendo ter certeza de que sua decisão era correta. Ele gostava muito de rosas, mas, Rowan gostaria? Eram muito bonitas. Brancas ou vermelhas, vermelhas ou brancas. Talvez seis de cada cor? — Pode me dar umas brancas e outras vermelhas.

—Sim, senhor.

O homem do carro preto se aproximou.

— Comprando flores para sua garota?

Adam olhou ao homem, que lhe pareceu vagamente familiar, embora não sabia por que. Tinha o cabelo loiro puxando para o castanho, um pouco comprido, e usava óculos de sol. Tinha um aspecto agradável e ia bem vestido. Adam pensou que o laranja combinava bem com o marrom, embora Marcy sempre se burlava de sua maneira de vestir. Retrô, chamava-o, e em seguida começava a rir.

— N… não — balbuciou Adam, e moveu os pés. Pela maneira como se vestia, aquele homem tinha dinheiro, e os homens com dinheiro não gostavam de falar com os rapazes da cenografia. Muitos homens que vinham aos estúdios tinham dinheiro, mas nenhum deles falava com ele, e se ele dizia algo eles se zangavam.

— Uma amiga?

— Sim. — Disse-o com voz baixa e lançou um olhar ao florista, que os observava.

— O que queria comprar?

— Rosas.

— Ah, rosas. As rosas são encantadoras.

Adam se animou.

— Sim, é verdade? Você pensa isso?

Ele disse que sim com a cabeça. Adam inclinou a sua, perguntando-se de onde conhecia esse homem, embora não recordasse onde o tinha visto. Enrugou a testa. Detestava ser idiota. Sua mãe o chamava assim, idiota e estúpido.

— Sim, acredito que as rosas são muito bonitas — disse o homem.

— Quero uma dúzia de rosas — disse Adam, decidido, ao homem de pele morena.

— Isso sim — disse o homem de dinheiro —, eu conheço a flor perfeita da amizade.

Adam franziu o cenho, confuso. Será que ele não acabara de lhe dizer que as rosas eram encantadoras?

— Melhor que as rosas.

— Oh, sim — inclinou-se para frente e tirou uma flor branca, longa e bela, que quase parecia uma taça. — Cheira isto.

Adam farejou. Não cheirava nada, mas a flor era bela. Bela como Rowan.

— Como se chama esta?

— É um lírio. E acredito que a sua amiga adorará.

— Mais que as rosas.

— É claro que sim.

Dava a impressão de que o homem endinheirado sabia do que falava e Adam não sabia nada de flores.

— Certo — disse. — Uma dúzia de lírios.

— Boa escolha — disse o homem.

O homem de tez escura envolveu as flores em papel e Adam pagou quinze dólares em lugar dos dez das rosas. Mas não importava, porque Adam sabia contar o troco e recebeu cinco notas de dólar, que guardou cuidadosamente em sua carteira antes de pegar as flores.

Quando se dirigia de volta ao caminhão, recordou suas boas maneiras. Girou-se e fez gestos ao simpático homem.

— Obrigado, senhor — disse.

— Me alegro de ter ajudado — disse o homem, levantando um braço.

Adam voltou para caminhão que tinha tomado emprestado, emocionado após ter comprado as flores perfeitas da amizade. Lírios.

Deixou-as com cuidado sobre o assento e as contemplou com admiração. Sorriam e eram belas, eram brancas, como o cabelo de Rowan. Sim, tinha certeza de que ela gostaria.

Pôs o caminhão em marcha e voltou a incorporar-se com prudência ao tráfego, sem dar-se conta de que o homem olhava quando ele se afastava.

  

John esperava fora do escritório de Rowan sem tirar o olho da fechadura. A culpa lhe roia a consciência. Sabia que não devia invadir seu espaço. Mas já tinha estado em seu dormitório e ali não havia nada de interesse, salvo dois carregadores de sua Glock na gaveta de sua mesinha de noite e uma escopeta debaixo da cama.

O que ela temia?

Rowan passava muito tempo no escritório. Ali estava seu computador. Quando queria estar sozinha, ia ao escritório. Por que?

E por que ele se sentia culpado? Fazia coisas muito piores na vida que fuçar entre os objetos pessoais de uma mulher de cuja proteção era o responsável. Certamente, não era seu caso mas o de Michael. Mas ela ocultava algo, alguma coisa importante, embora não soubesse. E talvez fosse Michael quem pagasse por seu silêncio.

Ou, provavelmente, seria a própria Rowan.

John não ia deixar que isso ocorresse. Abriu a porta antes que pudesse mudar de opinião, e a fechou após entrar, com o coração acelerado. Não pretendia bisbilhotar na vida de Rowan. Sem seu convite, não.

A decoração do escritório era diferente do branco nu que imperava no resto da casa. Revestimentos de cerejeira, estantes embutidas e uma grande mesa de canto dominavam a pequena sala. Havia duas poltronas de couro frente a frente no meio. Uma cadeira de leitura, uma mesa e um abajur em um canto. O chão de ladrilhos do escritório era o mesmo do corredor, mas estava quase todo coberto por um grosso tapete de cor branca.

Era um ambiente convencional e acolhedor, decididamente mais adequado para Rowan que o branco imaculado da casa da praia de Malibu.

Ao ver a mesa desordenada, montões de livros na mesa de leitura e uma xícara com um fundo de café frio, John pensou que esse era o verdadeiro lar de Rowan. Sentia-se pior invadindo esse espaço entrando em seu dormitório.

A maioria dos livros versava sobre crimes da vida real, romances policiais e clássicos literários. Sobre sua mesa havia um exemplar velho de Alguém Voou Sobre o Ninho do Cuco. Nas estantes havia mais clássicos conhecidos. Podia ser que fosse uma casa de aluguel, mas era evidente que ela havia trazido muitas caixas de livros. Por alguma razão, John suspeitava que o dono daquela asséptica casa não fosse leitor de Steinbeck e As Uvas da Ira, ou de Sangue Frio, do Truman Capote.

John ficou olhando a mesa. Ligou o computador. Enquanto acabava de ligar, procurou algo que lhe desse uma pista sobre Rowan e seu passado.

O monte de jornais junto ao computador eram cópias de jornais da Internet que tratavam do recente assassinato. Denver, Los Angeles, Portland. Ele já os tinha lido. A polícia não havia revelado o detalhe dos livros abandonados na cena do crime, mas a imprensa já tinha relacionado os assassinatos com os livros de Rowan.

Aquela associação devia torturá-la. Ter passado seis anos lutando contra os assassinos em série e assassinatos múltiplos para acabar sendo protagonista de um caso similar.

John sabia como se sentia. Tinha perdido a conta dos anos que travava uma guerra interminável contra as drogas, e em ocasiões tinha perdido de vista o limite entre os bons e os maus, onde acabavam uns e começavam outros. Entretanto, era uma guerra que havia jurado travar até que o último desalmado que penetrasse pelas frestas da lei estivesse morto e queimando no inferno.

Os outros montes de papéis pareciam cópias de faturas, nota para seus livros, impressões de capítulos. Sabia por Michael que trabalhava em um novo livro e no roteiro do filme que estavam rodando. Mencionou algo sobre seu primeiro filme, que tinha sido rechaçado, e lhe disse que Rowan não estava disposta a deixar ninguém reescrever seus livros para transformá-los em algo que não eram.

John também entendia isso. Na realidade, acreditava ter encontrado algo profundo em Rowan que não podia explicar. Era como se soubesse como ia reagir, o que pensaria em uma situação qualquer, e suspeitava que esses assassinatos a estavam corroendo por dentro. A via irritada e se mostrava inflexível em sua atitude mais superficial, mas quando ele olhava em seus olhos, via neles tudo o que ela não dizia.

Rowan Smith ocultava suas emoções profundamente dentro se si. Assim como ele.

John se sentou ante o computador quando não encontrou nada mais entre os papéis. Sua correspondência eletrônica era principalmente com as pessoas dos estúdios, e a maioria dela versava sobre o roteiro em que Rowan trabalhava. Não guardava os e-mails antigos. Ele podia ligar o seu laptop e copiar seus arquivos antigos mas, por algum motivo, não pensava que tivesse nada importante em seu computador. Ao que parecia, só o usava para escrever.

Crime de Paixão era o filme que estrearia nesse fim de semana. Crime de Claridade era o que estavam rodando agora. Folheando seus documentos, viu que Crime de Risco era o romance que sairia à rua na próxima semana e que A Casa dos Horrores era o romance no qual trabalhava agora.

John se sentia confuso. Rowan estava segura de que haveria uma vítima mais, de seu quarto romance, Corrupção, e que então o assassino viria até ela. Mas, o que tinha que o último romance? Esse livro não tinha conservado o título da série «Crime de…» Se perguntou a que se devia isso. Teria que perguntar-lhe. Mas se o perguntasse, ela saberia que tinha entrado em seu computador.

Era possível que o assassino tivesse com uma cópia do manuscrito do livro? Tratava-se de alguém que Rowan conhecia bem? O bastante para convidá-lo à sua casa?

John apagou o computador e deu uma olhada em sua mesa de trabalho. A gaveta dos arquivos continha quase unicamente correspondência pessoal ou relacionada diretamente com seus livros.

Exceto uma pasta.

Notícias de jornais, ligeiramente amarelados, de uns quatro anos atrás, informavam de um massacre em Nashville, Tennessee.

O empresário Karl Franklin assassina toda sua família e se suicida.

A notícia informava que Karl Franklin havia chegado tarde em casa em uma segunda-feira de noite depois do trabalho e matou sua mulher e a seus quatro filhos enquanto dormiam. Todo mundo estava espantado. Franklin era um homem de negócios bem-sucedido, não tinha problemas econômicos e sempre falava com entusiasmo de sua família.

Não havia motivos visíveis, nenhuma razão. O homem havia se derrubado e assassinado a sua família quando nada deveria tê-lo quebrado. E em seguida havia tirado a sua vida, e ninguém pôde lhe perguntar por que.

Fazia quatro anos. Era o caso que aparecia nos pesadelos de Rowan. Era o caso que estava revisando no FBI nesse preciso momento.

Algo se insinuou vagamente em sua consciência. Tirou seu telefone celular e ligou para um contato em Washington.

— Olá, Andy, é John Flynn.

— Flynn. É a segunda vez que me liga esta semana. Parece que está trabalhando.

— Poderia se dizer que sim. Estou ajudando meu irmão com um caso. Tem algo para mim?

— Não. Disse que demoraria. Me colocar para averiguar coisas sobre a vida do diretor adjunto poderia me custar o emprego, amigo. Espero que tenha um emprego para mim no comando Delta.

John riu.

— Pode me acompanhar na próxima vez que eu for para a América do Sul.

— Não, obrigado. Prefiro trabalhar em um McDonald'S. Queria um relatório da situação. Agora não tenho nada. Me ligue na semana que vem.

— Não. Outra pergunta, que deveria ser fácil.

— Fale.

John ouviu que um veículo se detinha em frente à casa. Aproximou-se da cortina e olhou, mas não viu nada.

— Quando Rowan Smith deixou o FBI? Foi há quatro anos. Quero uma data exata.

— Eu posso dizer isso. Não desligue.

— Obrigado.

Enquanto esperava, John seguiu olhando pela janela. Só podia ver os tetos dos carros que passavam pela auto-estrada a uns quinze metros, por um elevado que a separava da casa de Rowan. Era uma estrada muito transitada.

Antes que Andy voltasse para telefone, um caminhão velho passou lentamente diante da casa mas sem parar. Se o condutor procurava uma casa, podia ser qualquer uma das dezenas que havia nessa parte da estrada do Pacífico. O caminhão passou ao longo e saiu de seu campo visual. Mas John nunca duvidava de sua intuição e esperou junto à janela, ajustando a veneziana para ver sem ser visto.

— John?

— Ainda estou aqui.

— Sua baixa data de trinta e um de agosto, mas ela se demitiu de toda atividade em dois de maio.

John não tinha que voltar a olhar o jornal para saber que Franklin havia matado sua família em primeiro de maio. Não só tinha sido seu último caso mas também o motivo de sua demissão. Por que? John tinha lido outros relatórios. Alguns eram crimes muito mais brutais, e ela os tinha investigado sem hesitar.

— Uma coisa mais.

Andy suspirou com um ofego trágico.

— Vão me despedir.

— Pode olhar e ver se houve outros crimes similares ao de Franklin.

— Onde? Quando?

— Estados Unidos. Qualquer data.

— Droga, John. Sorte que suas perguntas não são nada difíceis.

John não pôde evitar um sorriso.

— Devo-te uma — disse.

— Pode apostar que sim. Te ligarei. Não sei quando. É um assunto muito extenso que cobrir.

— Obrigado, colega. O ideal seria o mais breve possível.

— Já não sei se seguimos sendo colegas — disse Andy, e desligou.

John sorriu. Andy nunca mudaria. Era agradável quando a reação das pessoas se tornava previsível.

Ficou junto à janela e esperou. Depois de dez minutos, pensou que o condutor tinha vindo de visita à outra casa na rua. Afastou-se da janela e passeou o olhar pelo escritório uma última vez.

Aquele lugar não podia revelar nada mais. Mas John saiu com a sensação de que conhecia Rowan Smith muito melhor.

Saiu do escritório, não sem antes assegurar-se de que tudo estava tal como tinha encontrado. O computador desligado, o monte de papéis, as gavetas fechadas. Tudo em ordem.

Era passada da hora do almoço, e estava com fome. Embora não soubesse cozinhar nem a metade de bem que seu irmão, sabia fazer sanduíches muito saborosos. Tess havia dito que Rowan tinha pouca comida em casa até que Michael chegasse. Enquanto John olhava na geladeira e na despensa bem sortidas, não pôde evitar perguntar-se até quando Michael ficaria. Pela quantidade de comida, parecia que pensava ficar para sempre.

Uma vez mais, era como no caso de Jessica. E o pior era que Michael não via isso.

John preparou um sanduíche para si, e começou a comer, mais por uma questão de hábito que por gostar de seu sabor.

Se não lhe falhava sua intuição, tinham atribuído o caso Franklin a Rowan e ela tinha se demitido depois de visitar a cena do crime. Era provável que tivessem lhe proposto tirar uma dispensa antes que aceitassem sua demissão, com a esperança de que mudasse de opinião. John sabia que alguns agentes que trabalhavam em tarefas muito duras às vezes necessitavam de um tempo para recuperar a saúde mental. De outra maneira, queimavam-se.

Rowan Smith, um caso clássico de agente queimada. Mas em lugar de integrar-se em um órgão de polícia menor, como faziam outros, ou de trabalhar como consultora particular, ou aceitar um trabalho em um escritório, ela tinha iniciado uma segunda carreira, muito bem-sucedida, escrevendo romances policiais. Em seus livros aprofundava-se nos detalhes do horror que um ser humano podia infligir a outro, coisas que teria visto não poucas vezes, sobre tudo nos casos que investigava.

Mas, talvez não fosse um caso clássico.

John ouviu um rangido na sacada de fora e ficou quieto, a prestes a dar uma dentada ao sanduíche. Retresou-se inteiro ante a alerta. Suas orelhas quase se estremeceram procurando localizar um possível intruso.

Seguiram outros rangidos. Crac, crac.

Alguém subia as escadas que vinham da praia.

Sem fazer ruído, John deixou o prato e desencapou sua pistola. Quando se aproximou da porta lateral seus tênis não rangiam sobre o chão de ladrilhos. Desceu sigilosamente as escadas e seguiu para a praia.

Cuidando para não mostrar-se ao intruso ocultando-se atrás dos pilares de apoio da sacada, seguiu até chegar às escadas de trás. Ela as tinha revistado ao chegar na primeira vez e sabia que se pisasse no exterior do degrau, evitava o rangido da madeira.

Deteve-se uns dez degraus da parte superior e olhou pelo corrimão. Um intruso. Era um jovem de uns vinte anos. Era alto e magro e tinha o cabelo escuro. Levava um enorme buquê de flores. Se tivesse batido na porta de entrada, John não teria lhe dado maior importância.

O menino bateu na porta traseira e apoiou a mão no vidro para olhar para dentro. Tentou abrir lentamente a porta.

John se aproximou sigilosamente por trás.

— Não se mova. Tenho uma pistola. Quem é você? O que faz aqui?

O menino se girou bruscamente, e olhou de um lado a outro, nervoso.

— É… estou procurando Ro… Rowan. — Abriu desmesuradamente os olhos ao ver a pistola de John e apertou com força o buquê de flores.

— Quem é você?

— Adam. Sou Adam. Adam Williams. Quatro-quatro-cinco, West Toluca Alameda, Bloco B.

John teve a impressão de que era um garoto confiável. Havia algo estranho nele. Entretanto, os criminosos mais ardilosos sabiam fingir. Com voz severa, perguntou:

— De onde conhece a Rowan?

— Ela me… conseguiu meu emprego. Sou seu fã número um. Tenho lido todos seus livros. Ela conseguiu meu emprego. Trabalho para Barry nos estúdios. Barry é um cara muito bom, mas se zangou comigo pela sacanagem que fiz a Marcy, e Rowan também se zangou e eu disse que sentia muito mas pensei que Rowan gostaria das flores porque é uma garota e minha mãe dizia «todas as garotas gostam de flores, estúpido».

John embainhou a arma, confiando que o garoto era quem dizia ser.

— Adam. Sou John Flynn, também sou amigo de Rowan.

Adam franziu o cenho.

— Como sei que não está mentindo? Rowan disse que havia um homem mau que fazia mal às pessoas. — Adam deu um passo para trás.

John elevou as mãos para demonstrar que não era um inimigo.

— Podemos ligar para ela. Quer ligar?

Adam assentiu com um gesto enérgico. Em seguida parou, e negou com a cabeça com a mesma convicção.

— Não, poderia ser uma armadilha. Poderia ser que você tenha lhe armado uma armadilha. Não, ela deveria manter-se afastada. Tem um guarda-costas, sabia isso?

— Sei. É meu irmão, Michael. Você o conhece?

Um ar de reconhecimento passou fugazmente pela expressão de Adam, mas seguiu alerta.

— Poderia ser — disse, como um menino desafiante.

John colocou a mão no bolso e tirou seu telefone celular.

— Vou ligar para Rowan e ela virá para casa e falará contigo. Certo? — Quando viu que o garoto seguia indeciso, disse: — Você também poderá falar com ela. Ela te dirá que não sou um perigo, então entraremos na casa e esperaremos.

— Certo — aceitou Adam, em voz baixa.

John discou o número do celular de Michael, recriminando-se por não ter o número de Rowan.

— Mickey, é o John. Me deixe falar com a Rowan.

— Por que?

— Porque tenho uma situação delicada aqui e quero que ela me ajude.

— Me diga do que se trata.

Mas que inferno. Queria se fazer de difícil.

— Adam Williams veio para saudá-la e não está seguro de que eu não seja o cara mau do qual Rowan lhe advertiu. Quero que ela fale com ele.

— Adam? O garoto retardado?

John fez uma careta, temendo que o garoto o tivesse ouvido.

— Sim, o fã número um de Rowan.

— Já suspeitava que tramava algo. Você, o segure aí. Eu chamarei à polícia e…

— Não, Michael — disse John, com voz mais severa do que era sua intenção. — Pode fazer o favor de…?

— Olhe, John, estou trabalhando neste caso muito mais tempo que você e… — John ouviu a voz de Rowan ao fundo, mas não o que dizia. Em surdina, ouviu que Michael dizia: «Mas não tem certeza de que seja inofensivo. Por que não pedimos à polícia que fale com ele?»

— É obvio que não! — exclamou Rowan, o bastante forte para que John a escutasse. Mais vozes na surdina, e em seguida Rowan falou.

— John?

— Sou eu.

— Me deixe falar com Adam.

John não pôde evitar um sorriso, mas ao olhar para Adam, ficou sério. O garoto estava estrangulando os lírios.

— Adam, Rowan quer falar contigo.

Com as mãos tremendo, ele agarrou o celular.

— O… Olá?

John observou enquanto a expressão de Adam passava do medo à preocupação, e desta à calma. E outra vez preocupação.

— Não… não pedi a Barry. Eu tinha algumas vezes, e pensei que podia fazê-lo. Não fiz nada ao caminhão, prometo isso. — Passaram vários minutos, mas ao que parecia o que Rowan disse apaziguou Adam. — Posso te esperar aqui? — A resposta provavelmente foi sim, porque Adam sorriu, fascinado, e devolveu o celular a John. — Rowan quer falar com você.

— Rowan?

— John, chegaremos em quinze minutos. Eu disse a Adam que podia me esperar. Terei que levá-lo de volta a Burbank. Não tem carteira de motorista.

— Eu o levarei.

— Você faria isso? — perguntou, depois de um silêncio.

— E por que não?

O que pensava que era? Um imbecil? Era evidente que Adam era um pouco lento. Também adorava Rowan. Não pretendia feri-la e era provável que na cidade não passasse muito bem.

— Eu… certo. Te agradeço.

Rowan desligou e John ficou olhando o telefone por um momento. Rowan Smith era uma alma desconfiada, o que não o incomodava, salvo que, ao que parecia, não confiava nele.

E então, ele tinha invadido deliberadamente seu espaço, e tinha feito perguntas muito duras, a maioria das quais ainda estavam sem resposta. E, além disso, considerava-a uma mulher cativante.

O que ela tinha de tão fascinante? Certamente, era uma mulher bonita. Seu cabelo loiro quase branco tinha um aspecto suave e sedoso, e lhe encantaria acariciá-lo. Tinha um aroma fresco e natural. E seus olhos, esses olhos cinza azulado mostravam seus sentimentos com tanta ou mais clareza que suas palavras ou suas maneiras.

Rowan desafiava seu cérebro pensando no que tinha feito para merecer a atenção desse louco. John a admirava por sua maneira de centrar-se, por sua firmeza e por aquela carreira que tinha deixado. Não entendia por que tinha se demitido, mas era evidente que alguma coisa no assassinato dos Franklin a tinha sacudido. Queimou-se? Não era típico de uma personalidade como a sua, ao menos da pessoa forte e independente que mostrava ao mundo.

Entretanto, Rowan era uma pessoa introvertida e privada, e retinha informação sem reconhecer quão importante era, quão valiosa podia ser. John não gostava dos enganos, intencionados ou não e exigia que todas as pessoas com quem trabalhava agissem com a mesma franqueza. Que confiassem nele. Era um código de honra necessária nas selvas da América do Sul, nas ruas do México e em todos os portos do litoral onde a droga se infiltrava. Se não podia confiar nela, com o que contava?

E se ela não confiasse nele, como podia aproximar-se dela?

Era o que queria. Descobrir o que a fazia vibrar. Como seu amigo, Adam. Era um garoto um pouco lento, mas tinha lhe prestado atenção quando era evidente que não tinha tido uma vida fácil. Outra faceta de sua complexa personalidade.

— Adam, o que te parece se entrarmos na casa?

— Está fechada.

— Eu sei. Mas eu tenho uma chave da porta lateral. — John o conduziu ao interior e em apenas alguns minutos já tinha Adam sentado ante o bar do centro. O garoto ainda sustentava nas mãos as pobres flores.

— Quer que eu as ponha em um jarro com água?

— São para Rowan.

— Eu sei. Mas as flores necessitam de água.

— Sim, é verdade. Necessitam de água. — Adam parecia intimidado, e deu pena a John. Pelo comentário anterior, sua mãe não tinha lhe prestado nenhum apoio. Era evidente que Rowan o tinha acolhido com uma paciência de santa. John não podia deixar de sentir admiração por esse detalhe.

Encontrou um vaso na estante de cima da despensa e o encheu de água, e então esvaziou o pacote de cristais que vinham com o ramo para prolongar seu viço. Arrumou as flores no vaso e sacudiu a cabeça.

— Não sou muito bom com estas coisas.

Adam as arrumou um pouco e adquiriram um aspecto muito melhor.

— Eu quebrei uma — disse Adam, franzindo o cenho.

— Não importa. Ainda se sustenta. — John pegou o vaso, levou-o a sala de jantar e o deixou no centro da mesa. Da abertura que dava à cozinha, perguntou. — Estão bem aqui?

Adam apareceu, viu-as e sorriu.

— Sim. São muito bonitas.

John voltou para a cozinha.

— Quer um copo de água? Coca-cola?

Adam assentiu com a cabeça.

— Leite. E Rowan disse que tinha bolachas de chocolate e que eu podia comer uma.

John procurou as bolachas e as encontrou na despensa, um pacote pela metade de bolachas de chocolate gourmet de camada dupla. Rowan gostava de doces, e John não pôde evitar um sorriso. Afinal, era uma mulher de verdade, algo mais que a carapaça externa de uma mulher perfeita.

Nesse momento, Rowan entrou na cozinha, com Michael seguindo-a. John e Adam estavam comendo bolachas e tomando leite ante a bancada. John elevou um olhar tímido, com um bigode de leite desenhado sobre o lábio superior. Parecia tão ridículo que Rowan teve vontade de rir. Um ex-militar duro e valente com um bigode de leite. Achou-o tão enternecedor que se virou rapidamente para Adam e afastou John de seus pensamentos.

— Adam, por que vieste até aqui de carro? — inquiriu.

Adam a olhou, preocupado, com o copo na mão. Parecia envergonhado e emocionado ao mesmo tempo.

— Queria te dizer que sinto muito o que aconteceu com a Marcy.

— Você já se desculpou. E te disse que não estava zangada.

Adam franziu o cenho e ficou olhando o copo de leite quase vazio.

— Já sei — murmurou —, mas Barry estava zangado e às vezes age como se ainda o estivesse. Diz que talvez Marcy tente fazer que me despeçam.

— Não deixarei que Marcy faça que o despeçam, já disse isso.

— Nem Barry?

— Nem Barry.

— Me promete isso?

— Farei tudo o que puder. — Rowan pegou o queixo de Adam para que a olhasse. — Mas o que fez hoje está errado. Liguei para Barry e contei sobre o caminhão. Nem sequer tinha se dado conta de que tinha desaparecido. O que teria acontecido se tivesse chamado à polícia pensando que alguém o tinha roubado?

— Não pensei nisso. Não pensava em me ausentar por muito tempo, só para te trazer as flores e voltar.

— Entendo. Mas você não tem carteira de motorista, Adam. Poderia ter feito mal a alguém porque não conhece as normas de direção. Já te disse que quando quiser aprender a dirigir, eu te ensinarei e ajudarei a tirar a carteira. Mas não pode dirigir quando te der vontade.

— Sinto muito. Sou um estúpido. Está zangada comigo?

Rowan tentava adotar uma atitude severa, mas lhe custava. Com Adam, custava muito. Ela gostava muito dele e teria estrangulado à mãe dele por sua cruel indiferença e seus abusos verbais.

— Você não é estúpido, Adam. Não quero voltar a ouvir você dizer isso. Entendido?

— Mas…

— Adam.

— Sim, Rowan. Não está zangada?

— Não estou zangada. Mas não volte a fazer isso.

Ele deixou escapar um profundo suspiro de alívio, e Rowan o abraçou. Olhou para John, que a observava com expressão pensativa. Virou-se rapidamente. Não queria sentir-se atraída por John Flynn. Era um homem perigoso. Perigoso para ela.

O telefone celular de John soou e este atendeu. Rowan não podia ouvir a conversa, mas viu que a expressão de John passava da contemplação a uma expressão vazia em um abrir e fechar de olhos. Era sobre ela. Ela queria interpelar, mas se estivesse em sua pele ela teria feito o mesmo. Entretanto, não tinha por que gostar disso.

— Obrigado, Andy — disse, e desligou. Conseguiu ver que ela o olhava, mas sua expressão seguia sendo inescrutável.

Estava tramando algo. O que seria?

— Do que estavas falando? — perguntou Michael.

Rowan quase tinha esquecido que Michael estava presente. Inclinou-se contra a saleira da porta, e sua atitude relaxada contrastava com a tensão que ela percebia em seu pescoço e ombros. Ao princípio, acreditava que John e Michael eram dois bons irmãos, mas agora observava que cada vez que estavam juntos no mesmo espaço se sentia uma tensão incômoda.

— Negócios — disse John, e guardou o celular no bolso da calça. — Adam trouxe flores.

John mudou deliberadamente de tema, e Rowan estava segura de que tinha indagado sobre ela. Aquela possibilidade a irritou, mas seu impulso de insistir se desvaneceu quando Adam começou a falar, excitado.

— John encontrou um vaso. Espero que esteja bem, mas eu não queria que se murchassem. Eu quebrei uma, assim pode tirá-la, mas são bonitas.

— Claro que são bonitas, Adam, mas não tinha que me trazer nada.

Adam sacudiu energicamente a cabeça.

— Oh, sim. Barry sempre compra flores para Sylvie quando ela se zanga com ele. E embora você tenha dito que não estava zangada comigo por ter feito a sacanagem com a Marcy, sabia que estava um pouco zangada e queria te dizer que sentia muito, mas não só dizê-lo, me entendes?

Rowan sorriu.

— Sei. Foi muito amável de sua parte —d isse Rowan, olhando pela cozinha. — Onde estão?

— John as pôs na sala de jantar. — Adam saltou do banco e tomou Rowan pela mão para levá-la à sala contígua. — Eu ia comprar rosas, mas o homem me disse que os lírios eram melhores para as amigas. Nós somos amigos. Não lhe parecem bonitas?

Rowan sorriu até que viu as flores.

Lírios.

Lhe nublou o olhar, até que só viu os lírios brancos. Uma voz morta, tão clara como se sua mãe estivesse a seu lado, disse:

— Não lhe parecem bonitas? Assim como você, Lily.

Lily olhou a sua mãe e sorriu.

— São mais bonitas, mamãe.

Mamãe riu e sacudiu a cabeça.

— Quando você for mais velha, será um encanto para os homens, querida. — Acariciou-lhe o cabelo com seus dedos suaves e magros, e Lily se entregou à carícia com um sorriso. — Sabe que coloquei o nome de Lily porque seu pai me deu de presente lírios no dia de nosso primeiro encontro.

— Eu sei, mamãe. — Ela adorava essa anedota. Não podia imaginar seu pai dando flores de presente para sua mãe. Estava sempre tão sério. E às vezes gritava com a mamãe. Ela não o via freqüentemente. Na maioria das noites já estava na cama quando ele chegava do trabalho, e o único dia em que ela falava com ele era aos domingos. E compartilhar sua atenção com seus dois irmãos e duas irmãs era difícil. Ela preferia ler ou brincar no pátio traseiro.

Três irmãs, disse a si mesma enquanto olhava o berço. Danielle era muito bonita.

— Por que não colocaste o nome de Rose ao bebê para que sempre lhe trouxessem rosas? As rosas são mais bonitas que os lírios — disse Lily, e enrugou o nariz. Na realidade, não gostava de ramos de flores. Eram bonitas quando estavam recém cortadas e arrumadas em um vaso, mas logo morriam e mamãe as atirava ao lixo, quase como se não lhe importasse. Lily não sabia por que às pessoas gostavam de ter flores na casa todo o tempo, se morriam tão rápido.

Lá fora, no jardim, as flores estavam sempre vivas. Dormiam durante o inverno mas voltavam em todas as primaveras. Essas eram as flores que Lily gostava.

Mamãe riu e a beijou na cabeça.

— É uma menina muito divertida.

Danielle começou a berrar. Na realidade, não era um pranto, era como um gemido.

— Acredito que está com fome, Lily. Podes pegar ela?

— Eu? — Lily tinha muita vontade de pegar o bebê nos braços, mas seu pai dizia que não o tocasse, que os bebês não eram bonecas.

— Claro que sim, você.

Lily foi até o berço e olhou a sua irmãzinha. Amava-a desde o momento em que papai havia trazido as duas para casa na semana anterior. Mas saber que a podia pegar e levar-la até a mamãe para que lhe desse de mamar, elevava esse amor a outras alturas. Ela podia se fazer de mamãe. Não podia alimentá-la porque ainda não tinha seios, mas podia trocar as fraldas e a roupa e levar-la até a mamãe.

Sorriu com vontade.

— Olá, bebê — disse, com sua melhor voz de mãe. — Sou sua irmã mais velha, Lily. Vamos ser muito amigas.

Com cuidado e ternura, pegou a recém-nascida, sustentando a cabeça como mamãe tinha ensinado. Deu três passos até o sofá.

Mamãe tomou o bebê para amamentá-lo. Ela chupava e Mamãe tinha um olhar sonhador.

— Lily, não há nada melhor no mundo que amamentar a seu bebê. Algum dia crescerá e será mamãe.

— Eu gostaria de ter muitos filhos.

Mamãe sorriu.

— Pode ter todos os que quiser. Pode fazer o que quiser com sua vida, querida. Pode ser médica, ou advogada, ou professora, ou mãe. Todas as profissões são importantes.

— Mas as mamães são as mais importantes porque os bebês precisam delas — disse Lily, sentindo-se muito inteligente.

— Sim, os bebês necessitam de suas mães.

De cima se ouviu um forte golpe que sobressaltou Lily, que se aproximou de sua mãe.

— Estúpido, mau. Te afaste do meu caminho.

Era Bobby. A julgar pelo ruído, estaria furioso. Inclusive mais furioso que papai quando mamãe não fazia algo bem.

— Querida, vá cuidar de Peter. Ande depressa.

Lily saiu correndo da sala, porque o temor por Peter era maior que o medo que tinha de Bobby. Deteve-se no pé da escada e olhou para cima.

— Não! — gritou.

Bobby empurrou Peter e as pequenas pernas deste cederam. Agarrou-se ao corrimão quando Bobby desceu a escada em grandes passadas.

Lily subiu correndo e Bobby riu dela.

— Espero que você quebre o pescoço, Lily a idiota.

Lily o ignorou e viu Peter que se cambaleava e caía três degraus e agarrava o corrimão. O menino gritou mas ela conseguiu agarrá-lo.

— Está bem, bebê? — perguntou, enquanto ajudava Peter a voltar para o alto da escada. Ouviu-se uma batida de porta. Bobby tinha saído. Tomara que nunca voltasse. Dava-lhe muito medo.

Odiava-o.

 

Rowan bateu no vaso com o braço e o lançou voando da mesa. Ao cair no chão, a água se derramou por toda parte. O vaso se fez pedaços e os lírios ficaram espalhados.

John franziu o cenho, confundido com o que acabava de acontecer. Viu Rowan voltar-se para Adam, com os olhos abertos exageradamente e cheios de terror.

— Quem te disse…? Quem te disse isso?

— Eu… eu… eu — balbuciou Adam, e as lágrimas rolaram por suas bochechas.

John se aproximou de Rowan antes de Michael e a tomou pelo rosto, obrigando-a a olhá-lo.

— Rowan, já basta. É o suficiente.

Ela piscou ao olhar para John, e em seu rosto só havia confusão. Então olhou para Adam, que havia ficado petrificado.

— Adam, me perdoe — disse, e deu um passo para trás, tremendo.

— O que aconteceu? — perguntou John, e apoiou a mão em seu ombro. Deu-lhe uma pequena sacudida, preocupado. Em seu rosto viu a indecisão de não saber se podia ou não confiar nele. — Pode confiar em mim.

Os olhos de Rowan se encheram de lágrimas quando levou a mão tremente à boca. Incorporou-se de um golpe e saiu com toda pressa da sala.

Mas que inferno. Tinha estado tão perto. Ia sair para procurá-la quando Michael levantou um braço.

— John, lhe dê um minuto.

— Droga, Michael, há algo que não nos contou, algo que está diretamente relacionado com o que está acontecendo. Não podemos permitir que nos mantenha na incerteza.

— Não será bancando o valentão que conseguirá que ela confie em ti — disse Michael, com a mandíbula tremendo de raiva.

John mexeu seu cabelo. Rowan havia voltado a reviver uma velha lembrança ao ver as flores. As tinha olhado durante mais de um minuto antes de quebrar o vaso. O que havia nelas capaz de despertar essa reação?

John olhou para Adam. Havia se aninhado contra a parede, com os braços ao redor das pernas, e lágrimas silenciosas lhe rolavam pelas bochechas. Rowan ia se sentir muito mal quando se desse conta do que tinha feito.

John se agachou junto a ele.

— Adam?

Não houve resposta.

— Adam, não está acontecendo nada.

— Ligarei para os estúdios para que alguém venha buscá-lo.

— Não — disse John, e sua voz soou mais dura do que pretendia. — Prometi a Rowan que o levaria para casa. —Esticou o braço e tocou em Adam. — Adam, preciso que me faça um favor.

Adam soluçava.

— Ela me odeia.

— Não, Adam, Rowan não te odeia. Ela gosta muito de você, muito. Está muito sentida pelas flores.

— Ela odeia flores. Não deveria ter escutado esse homem.

Instintivamente John sentiu soar a alerta.

— O homem? Que homem? O florista?

Adam negou com a cabeça, mas seguiu sem olhar a John.

— Não, não falava muito bem inglês.

— Quem era? Um cliente?

— Acredito… acredito que sim.

— Onde você comprou as flores?

Adam deu ombros, e suas costas se sacudiram com os soluços.

— Adam, isto é muito importante — disse John. — Preciso que me mostre onde você comprou as flores.

— Por… por que? Rowan me odeia.

— Não, Adam, Rowan não te odeia. Mas se me mostrar onde comprou as flores, Rowan ficará muito feliz.

Adam levantou a vista pela primeira vez e John sentiu um nó no coração quando viu a angústia no rosto do garoto. Tinha o cabelo escuro esmagado contra a cabeça, e sua tez muito branca era um contraste fantasmagórico.

— Rowan nunca está feliz.

A realidade da frase simples de Adam sacudiu John. Rowan tinha algo guardado muito profundamente, e não restava dúvida de que, fosse o que fosse, o assassino sabia. Agora puxava os seus fios. Copiando seus assassinatos fictícios, mandando as tranças, a coroa funerária… convencendo Adam a comprar lírios.

Aquele homem estava brincando com Rowan, obrigando-a a reviver lembranças que, John suspeitava, ela tinha enterrado há muito tempo.

Mas nada podia ficar enterrado para sempre.

— Adam, por favor. Isto é muito, muito importante. Necessito que me leve ao lugar onde você comprou as flores.

— Certo — disse o garoto, com a voz de um menino que haviam repreendido.

John o ajudou a levantar-se. Adam viu as flores no chão e o lábio inferior tremeu. John saiu com ele da sala e se voltou para Michael.

— Voltarei logo — disse. — Se souber de algo por ela, me ligue.

—Claro.

John voltou a olhar para Michael antes de sair, mas seu irmão tinha um olhar distante. O que acontecia? Agora não era o momento nem o lugar para averiguar o que acontecia na cabeça de Michael, mas suspeitava que tudo tivesse que ver com seus sentimentos por Rowan. Michael não tinha nem um cabelo de tolo, e se dava conta de que John também estava se implicando emocionalmente.

Não queria que aquele caso prejudicasse a amizade com seu irmão. Tampouco queria que aquela mulher a prejudicasse. Mas temia que talvez fosse muito tarde.

 

—Rowan? Querida?

Michael bateu na porta de seu quarto, mas ela não abria. Querida. Rowan tinha um nó no estômago. Não queria estar preocupada porque Michael se sentisse ferido. Era um homem bom, mas não a entenderia. Certamente a abraçaria e daria tapinhas nas costas como se fosse uma menina e diria que tudo ia sair bem.

Tudo não ia sair bem. Alguém sabia. Alguém sabia que seu nome era Lily. E se sabia que seu nome era Lily, sabia tudo a respeito dela.

Alguém que a odiava tanto para desejar que ela revivesse a pior noite de sua vida.

No último ano do colégio, Rowan leu A Portas Fechadas. Três pessoas presas no purgatório reviviam seu pior pesadelo. Uma e outra vez, assim era sua vida. Um grande pesadelo. Ela acreditava que tinha começado quando tinha dez anos mas, na realidade, tinha começado muito antes. Antes que ela nascesse. Quando seu pai havia conheceu sua mãe e a convidado para sair e lhe deu de presente alguns lírios.

— Rowan?

Ela se aproximou da porta, levantou uma mão e a apoiou na madeira.

— Michael, por favor, me deixe sozinha.

— Você tem que falar sobre que te incomoda.

— Agora não.

Ele não insistiu, mas ela não o ouviu afastar-se. Depois de um momento, disse:

— Rowan, por favor, me conte a verdade. Os assassinatos estão relacionados com isso que está te incomodando?

Com isso que a estava incomodando. Como se o assassino fosse um mosquito, e seu passado o de uma família conflituosa. Incomodava-lhe sua própria existência. Sua vida estava envolta na dor, no ódio e na perda, que ela tinha que ocultar em seu coração para seguir vivendo. Entretanto, agora tinham arrancado o véu. Seu coração sangrava, e sentia a alma invadida por lembranças tão dolorosas. Não havia forma de arrumar aquela caixa, não havia forma de voltar a pôr a tampa. Os segredos se derramavam e a estavam sangrando até a morte. Teria que enfrentar-se à verdade, não tinha outra alternativa.

Mas não sabia se poderia seguir adiante.

— Como está Adam?

— Se recuperará — disse Michael, mas Rowan sabia que isso não era verdade. Não sabia como reparar aquele dano, e não se perdoava por tê-lo tratado mal. — John o acompanhou até os estúdios.

Rowan suspeitava que averiguaria sobre as flores. Tinha visto como John se relacionava com Adam enquanto comiam bolachas e tomavam leite na cozinha. Se alguém podia tirar alguma informação de Adam, era John.

— Michael, vá embora — disse, fazendo uma careta ao dar-se conta de seu tom de voz tão duro. — Por favor — acrescentou, mais suave.

— Estarei lá embaixo — disse ele, depois de um longo silêncio.

Quando teve certeza de que ele se fora, foi para o outro lado do quarto e pegou seu celular. Se John estivesse na casa, sabia que escutaria todas suas conversas. Michael não faria isso. Ainda assim, não podia correr esse risco.

— Collins.

— Roger, sou eu, Rowan.

— O que aconteceu? — perguntou ele, com voz tensa, preocupado.

— Alguém sabe. Alguém sabe meu nome.

Seguiu um longo silêncio.

— Não entendo.

—Claro que entendes. Lembra que te falei daquele garoto amigo meu, Adam? Alguém lhe disse que comprasse lírios para mim.

— Ele te deu alguma descrição? Leve-o para que se sente por algum tempo com um perito em retratos falados. Eu me ocuparei de encontrar um. E não esqueça…

— Roger — interrompeu Rowan. — Adam demorará um tempo. Deixa-se influir muito facilmente e o retrato não seria confiável. John verá o que pode averiguar.

— John?

— John Flynn. É o irmão e sócio do meu guarda-costas. São da empresa de segurança. É um antigo membro do Comando Delta.

— Eu o conheço.

Ao escutar o tom de voz de Roger, Rowan se endireitou na cadeira.

— Ah, sim?

— Conheço-o por sua reputação, não pessoalmente. Lembra daquele carregamento de droga que entrou por Baton Rouge faz uns seis ou sete anos?

— Houve milhares de carregamentos de droga durante o tempo que estive no FBI. Eu não trabalhava nisso.

— Não, mas te lembrará deste. Billy Grayson morreu e George Petri perdeu um olho e uma perna.

Rowan lembrava. Tinham chamado o FBI para apoiar a operação, mas o assunto se converteu em uma grande batalha sangrenta e morreram quatro agentes do FBI e outros três sofreram lesões permanentes. Billy pertencia ao mesmo departamento que ela na academia. As baixas do DEA foram ainda mais numerosas.

— Onde entra John Flynn em todo o assunto? Aquilo foi uma bobagem fenomenal.

— Poderia ter sido muito pior. Flynn trabalhava infiltrado na operação de Pomera, um peixe gordo, originário da Bolívia, mas não tenho nem idéia de onde trabalha agora. Inteiraram-se do movimento e decidiram retirar todos os agentes atribuídos ao caso. Instalaram explosivos nos armazéns e ao longo das docas. Flynn esteve a ponto de delatar-se ao desativar as bombas. Quando não explodiram, os homens de Pomera entraram em pânico e encheram o lugar de tiros. Apanhamos a seis homens. Um disparo fez explodir uma carga de C-4 sob a doca e ali morreram a maioria dos nossos. Sem Flynn teríamos perdido a dezenas de agentes.

Roger fez uma pausa e pigarreou.

— Depois disso, soube mais coisas a respeito dele. Nem sempre joga seguindo as regras. Faz alguns anos, esteve seis meses em um cárcere na América do Sul, e a CIA o ameaçou com a prisão perpétua porque havia estragado uma de suas operações. Não conheço os detalhes, mas os rumores dizem que um dos caras passou para outro bando e Flynn ficou sabendo. Ficaram contra ele, deixaram-no na prisão e o acusaram de ser o delator.

A Rowan não custava imaginar Flynn como agente secreto no hemisfério sul. Mas, a prisão… não podia imaginá-lo preso em uma cela. Tinha muita energia na mente e no corpo. Sua intuição lhe dizia que John preferiria morrer a estar encerrado.

— E a CIA conseguiu tirá-lo?

— Não. Fugiu. Desde então, apenas trabalha para o governo. Eu diria que tem suas razões.

Eu também.

— Rowan, os lírios poderiam ser uma coincidência.

Ela fechou os olhos.

— Não, Roger, não foi uma coincidência. Adam disse que um homem os tinha recomendado. É ele.

— Quem?

— O assassino. Tenho certeza.

— Colocarei Peterson para trabalhar nisso em seguida.

— Certo — concordou ela. — Mas lhe diga que não pressione Adam. Adam é um garoto inteligente, mas não é como outros. É um pouco lento. — Ficou em silêncio e esfregou os olhos. — Roger, como é que sabe meu nome? — perguntou, com voz trêmula.

— Suponhamos que este cara queira pegar você. Não sabemos por que. Talvez alguém comprometido em um de seus casos. É evidente que planeja as coisas minuciosamente. Os assassinatos estão bem executados, bem planejados e está te torturando psicologicamente. É provável que também tenha investigado sua vida. Eu guardei seus arquivos com muito cuidado, mas ainda existem.

— Você teve oportunidade de se aprofundar no assassinato dos Franklin? Tenho lido os arquivos. Não é um caso fechado. Há alguma coisa aí. Tem que haver algo.

Porque se não houvesse nada, queria dizer que alguém que a tinha conhecido quando era pequena era um assassino.

— O irmão de Karl Frank sempre disse que era inocente. Nos colocamos em contato com ele e o cara estava amargurado. Não queria falar. Amanhã irei a Nashville para falar pessoalmente com ele.

Era uma esperança.

— Sério? Acredita que poderia ser ele?

— Não sei, Rowan, mas estamos trabalhando com todas as hipóteses.

— Roger, o que acontece se for alguém relacionado com minha infância? Alguém que sabe o que aconteceu. Que conheceu Dani. As tranças, os lírios… está tudo relacionado.

Roger soltou um suspiro ruidoso. Quando falou, tremia-lhe ligeiramente a voz.

— Rowan, me escute. Não te metas aí. Não pode seguir revivendo o passado. Todos os que estão relacionados com essa noite morreram.

— Mas…

— Eu prometo. Olharei os arquivos esta noite. Prometo que não deixarei de olhar até no último canto. Não ficou ninguém vivo, exceto sua tia em Ohio, mas não acredito que ela seja a responsável.

Rowan se desmoronou. Sua tia. A mulher que não queria a ela nem a Peter. A mulher que lhes fechou sua porta dizendo que eram a semente do diabo.

— Não vou assistir à estréia na sexta-feira de noite — sussurrou.

— De seu filme?

— Muito perigoso.

— Peterson disse que lhe dará cobertura.

— Talvez, mas esse safado seria capaz de explodir o cinema.

— Você acha isso? — perguntou Roger, com voz sumida.

Rowan se esfregou a cabeça.

— Não — reconheceu. — Ainda resta cometer um assassinato. Do meu quarto romance. Mas já saiu do roteiro em uma ocasião. Poderia voltar a fazê-lo.

— A polícia de Washington DC difundiu uma advertência às mulheres de cabelo castanho em toda a região — disse Roger. — Não vamos ficar de braços cruzados sem fazer alguma coisa para protegê-las.

— Eu sei, mas… — disse, e se calou. Como iam proteger a todas as mulheres de menos de trinta anos que viajavam para Washington D.C.? Nem todas as pessoas escutavam as notícias ou liam os jornais, ou acreditavam que sua vida corria perigo.

Esse era o miolo do assunto. Não acontecerá comigo. Eu estou a salvo. Quantos sobreviventes haviam dito: Não pensei que podia acontecer comigo. Jamais pensei que poderiam seqüestrar a minha filha. Só me ausentei um minuto. O carro estava na frente do edifício. O estacionamento estava iluminado.

Uma e outra vez. Pensavam que se corressem o bastante rápido, o mal não saberia que tinham baixado a guarda.

Rowan estremeceu e expressou seu medo.

— Embora meu editor tenha atrasado a saída de meu próximo livro, pode ser que o assassino consiga uma cópia. Houve suficiente publicidade e resenhas para que tenha uma idéia dos crimes em questão. Talvez fosse conveniente advertir às prostitutas de Dallas e Chicago que aumentem suas precauções.

  

Roger Collins desligou e enviou um correio eletrônico a seus homens para que contatassem com os departamentos de polícia de Dallas e Chicago o mais rapidamente possível. Revisou seu itinerário de vôo a Nashville e tomou notas para sua conversa com o irmão de Karl Franklin. Durante todo esse tempo, não podia tirar da cabeça o medo de Rowan.

Lily.

Quem conhecia seu passado? Ele tinha oculto muito bem a informação para protegê-la, para lhe permitir levar uma vida normal. Mas Rowan nunca tinha tido uma vida normal. Inclusive antes da violência que tinha arrebatado a sua família, havia crescido em um ambiente cruel com um pai raivoso e uma mãe assustada.

Tinha tentado convencê-la de que não pensasse em sua infância. Pela primeira vez em sua vida lhe preocupava que as mentiras que tinha contado fazia tantos anos agora cobrassem a conta. Mas como poderia ter sabido?

Depois de ligar para Gracie para dizer que hoje também chegaria tarde, dirigiu-se a sua caixa forte pessoal e tirou a grossa pasta onde estava recolhido o passado de Rowan. O passado que ele tinha tentado sepultar por ela. Para protegê-la. Para lhe dar uma oportunidade.

Mas ela nunca tinha tido essa oportunidade. E essas batidas agudas que sentia na cabeça o fizeram entender que tinha cometido um erro fatal.

Sentou-se em sua mesa e abriu a pasta. Não se moveria daí sem antes ter revisado até o último relatório para ver se não teria passado por cima de algum detalhe.

Ou de alguma pessoa.

  

John olhou para Adam sentado rigidamente no assento do passageiro do desmantelado caminhão. Franziu o cenho, preocupado pela atitude retraída do jovem. Não sabia grande coisa a respeito de Adam, mas intuía que a reação de Rowan o tinha afetado profundamente.

Antes que a estrada 101 virasse para o leste, afastando-se da Auto-estrada da Costa, John viu o posto de flores. Tinha passado por aí várias vezes nos últimos dias, mas não tinha prestado atenção.

— É aqui onde comprou os lírios? — perguntou a Adam.

Ele assentiu com um gesto quase imperceptível de cabeça e, com uma manobra ilegal, John atravessou o meio-fio.

— Vamos falar com o homem que lhe vendeu as flores.

— Não quero — respondeu ele, e cruzou de braços com uma careta.

— Lembra o que te disse, Adam? Esse homem que viu poderia ser o que tem feito mal a todas essas pessoas. Que feriu Rowan. Sei que você estima Rowan e não quer que ninguém lhe faça mal.

John não o pressionou mais, dando tempo para que pensasse nessa informação. Passaram vários minutos, e de repente Adam abriu a porta sem sequer olhá-lo.

Bem, pensou John, e desceu pelo seu lado.

Adam caminhava arrastando os pés, mas seguiu John até o mexicano magro que atendia o posto de flores.

— Olá, senhor.

— Olá — respondeu o homem. Olhou para Adam e sorriu. — A senhora gostou das flores? — perguntou, com um gesto para os coloridos arranjos florais.

Adam olhou, com a testa enrugada, e negou com a cabeça.

— Senhor — seguiu John —, meu amigo — disse, e deu a Adam umas palmadas nas costas para identificá-lo e o ter a seu lado —, conheceu aqui a um homem. Você se lembra dele?

— Se eu lembro? —assentiu o homem, em espanhol. — Sim.

— Pode descrevê-lo? Seu cabelo? — perguntou, tocando o cabelo.

— Sim, um cabelo como a areia.

— Da mesma cor da areia?

O homem assentiu e assinalou para a praia, lá sob os penhascos. Loiro, pensou John. Um pouco mais escuro.

— Viu-lhe os olhos?

O homem negou com a cabeça.

— Usava óculos de sol. Óculos escuros.

Droga.

— Altura? — perguntou, elevando a mão.

O homem olhou de John para Adam.

— Como ele — disse, assinalando a Adam e então juntou os dedos, deixando uns centímetros. — Mais alto.

— Você se lembra o que dirigia? Seu carro?

— Um sedan. Como um Ford — disse, e deu de ombros. — Não tenho certeza.

— Se lembra por onde se foi?

O homem assinalou para Los Angeles. Afastando-se de Rowan. Teria ido até sua casa? O cara sabia onde vivia, mas o fato de que estivesse espreitando-a preocupava John por vários motivos.

— Comprou um lírio e o lançou pelo penhasco — disse o homem, assinalando para o outro lado do caminho. — Achei estranho, mas não fiz perguntas.

Tinha comprado um lírio e o tinha atirado barranco abaixo. Droga.

— Como se vestia?

— Bem. Calça marrom clara. Uma camisa como a sua — disse, e assinalou a pólo de John. — Azul — acrescentou, encolhendo os ombros. — Não recordo mais. Um indivíduo de aspecto agradável, de uns quarenta anos.

Nada que o distinguisse muito. Ao menos era mais do que tinham antes, pensou John. Agradeceu ao homem e voltou com Adam para o caminhão.

— Lembra de alguma outra coisa? — Adam não respondeu, mas John insistiu. — Eu acredito que se lembra de algo. Acredito que há algo que não me contaste.

— Não, não — replicou Adam. — Não se zangues comigo você também.

John suspirou, tentando ser paciente.

— Não estou zangado contigo, Adam. Foi um dia duro para ti, eu sei. Mas se lembrar de algo, embora não te pareça importante, preciso saber.

Adam mordeu o lábio.

— Parecia alguém conhecido.

— Conhecido? Como se já o tivesse visto antes?

— Pode ser — disse ele, encolhendo os ombros.

— Pensa, Adam! É muito importante. — John não queria perder a calma, mas sua frustração estava aumentando.

— Não sei. Simplesmente me pareceu familiar. Como se já o tivesse visto antes. Sou um idiota. Não me lembro. Sou um idiota! — disse, e deu um soco no painel.

John respirou fundo e pôs o caminhão em movimento.

— Você não é um idiota, Adam. Já se lembrará. E quando lembrar, quero que ligue para mim. — John escreveu o número de seu celular em um cartão e o entregou. — Me ligue quando quiser e me conte qualquer coisa que lembre. Certo?

Adam pegou o cartão e franziu o cenho. Fez girar o cartão entre os dedos.

— Certo.

  

Pensava nas muitas mulheres de cabelo castanho em Washington D.C. que ignorariam as advertências da polícia. Algumas viajavam em grupo, mas a maioria saía do trabalho e se dirigiam ao metrô sozinhas, ou se separavam de suas amigas ao subir nos trens dos subúrbios.

Tinha que agradecer a Rowan esse detalhe. Quatro das vítimas de seu romance eram anônimas, de modo que não tinha que encontrar uma vítima que coincidisse com um nome. Tinha sido mais difícil em Portland encontrar uma família Harper que encaixasse com a descrição, mas ao ver a filha menor, soube que podia se desviar do plano e enviar a Rowan uma lembrança. Adaptar-se. Adaptou-se às circunstâncias toda sua vida. Adaptar-se, manipular, destruir.

Entretanto, encontrar uma mulher sozinha, de cabelo castanho, entre vinte e trinta anos que viajasse de Washington D.C. para Virginia era muito mais fácil. Na semana anterior tinha identificado uma possível vítima. Esta noite a esperou perto de seu carro.

Outra pequena variação, mas Rowan saberia apreciá-la. Depois de onze de setembro, os sistemas de segurança do metrô tinham mudado, e não podia correr o risco que o vissem nas câmeras. Perguntava-se se Rowan o reconheceria depois de tanto tempo, mas acreditava que sim. Se ela não se lembrava dele, a polícia revisaria qualquer imagem no laboratório e descobriria que tinha antecedentes.

Não podia ser. Rowan não demoraria em conhecer sua identidade. Mas segundo suas condições, quando ele decidisse.

Fascinavam-lhe todos e cada um dos livros de Rowan. Estavam tão cheios de detalhes, eram tão ricos em questões de vida ou morte. Surpreendia-lhe que aquela vadia pudesse ser tão criativa. Enquanto estudava a fundo a protagonista, perguntava-se se Rowan havia descrito Dara Young como se fosse ela mesma. Dara não se parecia em nada com Rowan. A agente fictícia do FBI era uma mulher de cabelo castanho com olhos castanhos, mais velha e, de fato, tinha amigas.

Não tinha família, pensou, com um largo sorriso.

Rowan jamais suspeitaria o que tinha planejado, mas era brilhante. Brilhante! Sempre tinha sabido que era inteligente. Muito mais que o comum dos imbecis que andam por aí. Mas agora… agora se sentia inspirado.

A destroçaria mentalmente. E então a mataria.

Ouviu que o metrô se detinha na estação, o final do trajeto. Sorriu pensando na ironia do destino. Final de trajeto. Esperava com ânsias esse capítulo em particular. Todas as vítimas do malvado Judson Clemens do romance de Rowan eram violadas. Ele nunca tinha pensado em violar uma mulher. Para que? Afinal, podia transar quando quisesse, e pagar por isso se fosse necessário. Na prisão, não, mas as bichas se mantinham a distância desde que ele tinha fatiado o membro do primeiro que tentou foder com ele. Os estupradores que havia conhecido na prisão tinham problemas com o «controle da raiva», como o chamavam os psiquiatras. Isso o fez rir. Ele não tinha problemas para controlar sua raiva, nenhum tipo de problemas.

A dissimulava muito bem.

Mas, na realidade, ele não violaria a mulher. Só se limitaria a seguir o roteiro que Rowan tinha posto tão amavelmente a seu dispor. Era o plano dela. Eram suas vítimas.

Sinto muito por ti, Melissa Jane Acker, chegaste ao final de seu trajeto.

  

Rowan colocou um longo vestido preto simples e um colar de pérolas. Não queria fazer alarde de elegância para essa estréia. Nem sequer tinha vontade de ir. Entretanto, Roger tinha razão em uma coisa. Embora fosse possível que aquele safado optasse por alguma outra variante se essa fosse necessária, não seria seu estilo lançar uma bomba no cinema.

Ainda assim, sentia o estômago revolto e não tinha podido comer nada durante todo o dia. Antes de vestir-se, tomou um copo de leite para acalmar o estômago, embora agora o sentisse como um grande inchaço. Esperava que sobrevivesse à noite sem vomitar tudo.

Normalmente, tinha um estômago a prova de bombas. Mas aquelas circunstâncias dificilmente podiam qualificar-se de normais.

Quando havia saído para correr nessa manhã com Michael, tinha sentido falta de John. Não é que Michael não lhe parecesse apto como guarda-costas. Michael era mais que competente, embora Rowan se sentisse um pouco incômoda porque percebia que ele ficava olhando-a quando pensava que ela não se dava conta.

John se parecia mais a ela. Quando olhava para John, ou o escutava falar, tinha a sensação de que ele sentia o mesmo que ela. Não era só uma questão de fazer justiça. Michael tinha sido policial e se comportava como tal. Acreditava na justiça. Mas John entendia o verdadeiro sentido da justiça, sobre tudo para as vítimas que não podiam fazer ouvir sua voz.

Fazer justiça não era sempre sinônimo de prisão.

Era mais que isso. John tinha uma visão única do mundo e muito particular. Depois de falar com Roger na noite anterior, fez alguns quantos telefonemas discretos para inteirar-se de mais coisas a respeito de John Flynn. Rowan não se deixava impressionar facilmente, mas sentiu uma espécie de orgulho, que não entendia muito bem, ao descobrir que John era um dos bons, embora alguns no governo o considerassem não de todo politicamente correto. A justiça era o mais importante para John. Rowan quase se sentia culpada por ter deixado o FBI. A justiça também tinha sido o mais importante para ela.

Mas agora, o único que importava era sobreviver.

John tinha vivido situações difíceis, inclusive uma temporada em uma prisão na América do Sul, e nunca se desmoronou. Decidiu trocar de chefe e substituiu o governo por si mesmo, e então seguiu lutando pela justiça. Aquilo era admirável, e Rowan lamentava não ter sido capaz de fazer o mesmo quatro anos antes.

Mas nessa época pensava que ficaria louca.

Não podia deixar de perguntar-se pelo passado de John. Que fazia no Comando Delta? E depois? Roger havia dito que John era um ex-agente do DEA convertido em consultor independente. Por que o tinha deixado? Para fundar uma empresa com Michael? Ou havia outras razões, mais profundas e particulares? Tudo o que tinha averiguado sobre John a intrigava. Queria saber mais.

Raramente havia sentido tanta curiosidade como agora. Rowan não se aproximava das pessoas porque isso implicava que lhes cobraria carinho. E se começava a lhes cobrar carinho, podia chegar muito longe.

Temia ter cruzado já a primeira soleira com John. Já gostava dele.

Quando desceu as escadas, John e Michael estavam no vestíbulo falando com Quinn. Os três homens de smoking, os três extremamente atraentes.

John viu como o olhava. Ela sentiu que lhe faltava o fôlego e, por uma fração de segundo, experimentou algo que ia além de uma relação profissional.

Ele franziu o cenho. Também o havia sentido.

E então Michael se colocou a seu lado e ela sentiu a tensão entre os dois irmãos.

O último que queria era causar um conflito na família. Quando John havia voltado da América do Sul, ela tinha notado no discreto afeto que tinham um pelo outro. Eles seguiriam sendo uma família durante muito tempo depois que esse caso fosse resolvido, quando ela fosse somente uma longínqua lembrança.

— Rowan — disse Michael, e lhe tocou o braço.

Quinn os interrompeu.

— Houve outra vítima. Melissa Jane Acker, vinte e quatro anos, cabelo castanho, seqüestrada por um sujeito desconhecido na estação do metrô de Falls Church. A violaram e estrangularam.

Rowan tentou escapar da dor, mas a golpeou com tal força que quase perdeu o equilíbrio.

— Quando? — inquiriu com voz apagada.

— Ontem à noite. A mulher não foi trabalhar pela manhã e seu chefe ligou para seu apartamento, mas não atenderam. A mãe foi vê-la para saber se estava bem, e a encontrou. —Quinn ficou silêncio por um momento, e então disse, com voz mais suave — Eu sinto muito.

Rowan fechou os olhos. Sentiu que Michael lhe tocava o braço, tentando apoiá-la, lhe dar ânimo. Era uma presença que a consolava e, nesse momento, apreciou seu gesto. John a olhava como se a acusasse. Ou provavelmente fosse sua imaginação. Pode confiar em mim, havia-lhe dito ele, ao ver sua reação ante os lírios. Mas podia confiar realmente?

Como era possível que seu passado tivesse algo a ver com o que estava acontecendo? Nem sequer Roger pensava que seu temor era justificado. Ele, mais que ninguém, deveria saber. Ele tinha estado presente, tinha lutado para que se fizesse justiça por Dani e por todas as demais vítimas.

Mas, droga, o medo fervia em seu interior, e ameaçava sair à superfície. Embora seu temor não estivesse justificado, isso não queria dizer que não fosse real. Quanto tempo poderia controlá-lo?

— Não é obrigada a ir — disse Michael. — Ninguém a reprovará por isso.

Rowan olhou o semblante preocupado de Michael e então viu o intenso olhar de raiva de John. Os dois esperavam uma resposta, mas dava a impressão de que John esperava algo mais.

— Eu vou — anunciou Rowan. — Se ele estiver aguardando minha reação e eu não for, saberá que me tocou. Não posso deixar que veja que estou… preocupada. — Esteve a ponto de dizer «assustada». Mas não tinha a menor intenção de reconhecer isso ante nenhum desses três homens.

John sorriu, quase imperceptivelmente, mas Rowan sentiu que aprovava sua decisão.

— O lugar está vigiado. Peterson me mostrou hoje e está limpo.

— Temos cães adestrados na busca de explosivos que estão revistando tudo neste momento — disse Quinn —, e você entrará pela porta de trás.

— Por atrás? Se estiver olhando, não me verá.

Quinn olhou para Michael com cara de preocupado.

— É por causa dos jornalistas, Rowan. Pensamos que você não gostaria de enfrentar algumas das perguntas que lhe possam fazer.

Maldição, não queria entrar pela porta grande mas tampouco queria que o assassino soubesse que estava assustada.

— Não penso em fugir como um coelho assustado. Entrarei pela porta grande.

— Acredita que é uma decisão acertada? Os repórteres não serão nada amáveis. — Michael a olhava com uma mescla de preocupação e outra coisa, um pouco mais pessoal. Rowan desviou rapidamente o olhar. O amparo emocional de Michael lhe convinha para evitar a intensidade de John, mas não queria que Michael pensasse que ela procurava algo mais que uma muleta. Simplesmente estava aí e ela a usava. Acaso era tão superficial?

— Estou acostumada aos repórteres agressivos — disse, separando um passo de Michael. Tirou a mão dele das costas e por fim Rowan pôde respirar tranqüila. Tinha tomado a decisão correta, sabia. Separar-se, não servir-se da força que Michael oferecia. Não seria justo com ele. — Queria saber mais a respeito deste último assassinato. Há provas? Cometeu algum erro?

Quinn lhe tocou o ombro.

— Olívia dirige a equipe que recolherá as provas — disse. — Ela se ofereceu como voluntária.

Rowan se sentiu mal. Não tinha ligado para Olívia nem para Miranda para contar o que estava acontecendo. Faria-o no dia seguinte.

— Não sabia que ela fazia trabalho de campo.

— Ela não faz trabalho de campo, mas tem autorização. Roger deu o visto de aprovação e eu prefiro a ela para processar as provas. Se o assassino deixou algo dele, Olívia o encontrará.

— Quem é Olívia? — perguntou John.

— Licenciamo-nos juntas na academia. — Rowan lançou um olhar a Quinn e ele se virou, com a mandíbula tensa. Segue sendo um tema delicado, pensou. — Olívia agora dirige o laboratório de provas em Quântico.

— John nos disse que talvez seu amigo Adam Williams tenha visto o suspeito — disse Quinn. — O dono da banca de flores lhe deu uma descrição, mas é muito vaga.

— Ele me disse isso. — John havia ligado para ela depois de levar Adam ao estúdio e contou o que tinha averiguado. Por desgraça, aquela vaga descrição não despertava nenhuma lembrança. Poderia ter sido qualquer um.

— Adam foi até o perito em retratos falados? — perguntou, embora não tinha grande esperança.

John disse que não com a cabeça.

— Ele tentou. Não tinha suficientes detalhes. Talvez servisse de algo ter uma foto do suspeito, mas inclusive assim, eu não confiaria na memória de Adam.

— Mas se era ele — interveio Quinn —, e se ontem à noite esteve em Washington, isso significa que tem que ter tomado um vôo em algum momento depois da uma da tarde de quarta-feira, e chegado em algum momento antes das cinco da tarde de quinta-feira, hora do leste. Isso nos dá uma margem mais ampla — disse. Entusiasmou-se enquanto falava. — Colleen está revisando as linhas aéreas e procurando na base de dados a um homem que viaja sozinho de Los Angeles ou Burbank ao National Airport ou ao de Dulles. Poderemos ver os vídeos das câmeras de segurança e, se tivermos sorte, conseguiremos um plano nítido.

Rowan sentiu o coração na garganta. Esta poderia ser a oportunidade que esperavam. Podia ser que tivesse cometido seu primeiro erro. Poderia reconhecê-lo? Seria alguém de seu entorno? Alguém de quem ela tinha suspeitado, um parente, um admirador? Um amigo? A idéia a fazia tremer. Tinha poucos amigos, e essa traição lhe doeria.

Não podia ser um amigo. Acaso não seria capaz de vê-lo em seus olhos?

— Talvez convenha ampliar a busca a San Diego, ao condado de Orange e a Ontário — disse. — É um cara inteligente. Não fará o que nós esperamos. E terá que comparar com os vôos de volta. Não necessariamente do mesmo aeroporto, mas esta noite não estará longe. Quererá observar, estará aguardando. Para ver se me afetou. É uma intuição.

Mas que inferno, como era bela.

John sentiu que se esticava assim que a viu descer as escadas com o simples vestido preto que rodeava o corpo magro e atlético. Seu cabelo longo e loiro caía como seda líquida pelas costas, e o colar de pérolas acariciava o pescoço nu como a mão de um amante. Se perguntou se a pele dela seria tão suave quanto parecia, se seu duro interior de gelo se derreteria quando o homem indicado a tocasse no lugar indicado.

Desejava-a.

Mas era uma mentirosa.

Não era uma mentirosa no sentido tradicional, mas ocultava algo, e isso o inquietava muito. Tinha-o visto freqüentemente em seu ofício. O engano não só como uma técnica usada por criminosos como Pomera, mas em seu próprio governo. Já na luta contra o crime ou na busca da justiça, os segredos matavam.

Entretanto, continuava desejando-a. E sentia que ela também desejava a ele.

John olhou a seu irmão e viu Michael que não tirava o olho de cima dele. Sabia. Sabia, e John não tinha a menor intenção de dizer que não a tocaria. Não ia poder cumprir essa promessa, e não mentia para sua família. Sentia-se como um hipócrita, e não gostava disso. Não acabava de dizer a Michael que não se deixasse levar por seus sentimentos?

Observou com interesse que Rowan tinha deixado de apoiar-se em Michael. Perguntou-se por que tinha feito isso. Se não se refugiava na compreensão tranqüila de Michael, John sabia que conseguiria que confessasse os segredos que mantinha ocultos em sua linda cabecinha. Se eram ou não relevantes para o caso, ele precisava saber.

Rowan o roçou ao passar para a cozinha. Ele se girou para segui-la, mas Michael foi mais rápido. E nesse momento soou seu celular.

Desculpou-se e se meteu no escritório de Rowan para falar a sós quando viu que era uma ligação restringida de Washington.

— Sou eu, Andy.

John se endireitou e se aproximou da janela para olhar para a entrada sem um motivo especial.

— Encontraste algo?

— Fica me devendo essa.

— Já sabe que pagarei isso.

Andy soltou um suspiro.

— Poderiam me despedir. Isto chega até Roger Collins.

— Merda. É algo ruim?

— Não sei. Só os fatos. Roger e sua mulher Grace foram os procuradores legais de Rowan desde que tinha dez anos. — John esticou todo o corpo quando Andy prosseguiu. — O mantinham muito escondido, mas o encontrei nos documentos de mudança de nome. Trocou de nome aos dez anos.

— Aos dez anos? — perguntou John.

— Seu nome de nascimento é Lily Elizabeth Macintosh.

— E seus pais?

— Pediu-me que revisasse crimes similares aos do assassinato dos Franklin. E bem, no princípio encontrei os típicos casos de assassinato com suicídio — disse, e fez uma pausa. — De verdade que me deve uma grande, Flynn.

— Prossiga — disse este, com os dentes apertados. Começava lhe pulsar a cabeça, como intuindo o que tinha descoberto Andy.

— Todos os relatórios juvenis de Rowan Smith estão selados, mas encontrei a mudança de nome e comecei a procurar por Macintosh. Era uma intuição.

— E?

— Faz uns vinte e cinco anos, Robert Macintosh matou a sua mulher. Dois meninos menores foram acolhidos em custódia. Seus nomes foram suprimidos, mas adivinha a quem o FBI atribuiu o caso.

— Roger Collins — disse John, sentindo um nó no estômago.

— Exatamente.

Macintosh. Não podia ser uma coincidência. Roger Collins acolheu em seu lar Lily Macintosh e se converteu em seu procurador. Por que? Programa de proteção de testemunhas? Não tinha mais família?

E o que tinha acontecido com o outro sobrevivente, menino ou menina?

— O pai se matou?

— Está em um hospital psiquiátrico em Massachusetts.

— Tem certeza?

— Maldição, John, o que queria que eu fizesse? Que ligasse para eles para perguntar? Collins tem marcadores em todos estes relatórios. Se não me delataram a esta altura, é por puro milagre.

John teria que pressionar Rowan. Essa noite. Não tinha alternativa.

— Obrigado, Andy, agradeço de verdade.

— Se me despedirem, irei pedir que você me dê trabalho.

— E o terá. — John desligou e ficou pensando naquela informação incrível que Andy acabava de lhe transmitir. Sempre tinha acreditado em sua intuição. E sua intuição dizia que o passado de Rowan era fundamental para este caso.

Lily. Ela havia ficado louca ao ver os lírios, e se de verdade Adam tinha falado com o assassino, este conhecia seu passado e o estava usando para atormentá-la. Quem era o outro? Um irmão? Um irmão que talvez fosse tão perigoso quanto seu pai.

John não podia deixar de se perguntar se as tranças tinham algo a ver. Ou o pesadelo que tinha tido com Danny. Seu namorado? Marido? Filho? Irmão?

Essa noite Rowan lhe contaria tudo. John não duvidava que conseguiria que ela falasse sempre e quando Michael não estivesse presente ocupando-se dela como uma galinha poedeira. Se Rowan não contasse tudo e não o fizesse logo, aquele safado a pegaria.

Só de pensar nisso, ficava doente.

  

Horas depois da estréia do filme de Rowan, Michael entrou em um clube do North Hollywood com vontade de briga.

Aproximou-se a um banco perto do extremo do balcão e fez um gesto com a cabeça ao garçom.

— Um uísque duplo. E uma cerveja.

Afinal, eram suas horas de descanso, e agora quem o substituía era o traidor de seu irmão. John tinha comentado com Quinn, esse idiota arrogante, que Michael estava trabalhando sem parar por uma semana inteira, e Peterson se mostrou de acordo em lhe dar um dia livre.

E em deixar John a sós com Rowan.

Bebeu a metade do copo e deixou que o calor do álcool o esquentasse até a fria boca de seu estômago. Lançou um olhar raivoso a uma fulana que o observava muito interessada do outro extremo do balcão e se virou para o outro lado.

John tinha se atrevido a voltar a mencionar o tema sobre Jessica. Seu irmão não tinha nem idéia do que tinha acontecido entre ele e Jessica. Se soubesse, saberia que tinha sido pior do que se imaginava.

Jessica era uma beleza. Cabelo longo e preto, enormes olhos cor de chocolate. Tinha contratado a eles porque seu ex-namorado a assediava, e tinham atribuído à tarefa a Michael.

Jessica estava muito agradecida por sua ajuda já que temia de verdade por sua vida, assim Michael lhe deu o número de seu celular e disse que o chamasse quando quisesse. E foi isso que ela fez, e Michael acabou visitando-a em sua casa virtualmente todas as noites.

Acabaram na cama, e Michael se apaixonou. Ela o necessitava, apoiava-se nele, e ele estava muito contente de poder protegê-la.

Mas Jessica não tinha sido sincera com ele. Michael se convenceu de que era porque tinha medo, embora no fundo soubesse que ela o utilizava. Acreditava que Jessica o amava a sua maneira, mas a verdade era que ela o necessitava para algo mais que proteger-se de um perseguidor. O homem que a acossava não era seu ex-namorado, mas seu ex-marido, o chefe de um bando de criminosos de pouca importância.

Jessica acabou dizendo a Michael que voltar com seu marido era a única maneira de continuar viva. Michael tentou convencê-la para que fugissem juntos, disse que poderia protegê-la, que poderiam começar uma nova vida em outro estado, com novas identidades, qualquer coisa. O que fosse para ela não voltar com seu marido.

Entretanto, foi precisamente o que Jéssica fez. E, dois anos mais tarde, seu corpo foi encontrado flutuando em um dique de drenagem nas montanhas de São Gabriel.

Michael tragou o resto do uísque para afogar as lembranças.

Rowan não se parecia em nada com Jessica. Sim, necessitava-o, e ele estaria aí para ela quando fosse necessário. Entretanto, os sentimentos que albergava por Rowan eram muito mais profundos.

John se negava categoricamente em escutá-lo. Tinha-o levado à parte depois da estréia, aproveitando que Rowan falava com sua produtora, Annette, e havia dito que parecia cansado e que deveria tirar a noite livre. Ele tentou explicar que seu dever era proteger Rowan, e então John voltou a lançar Jessica à cara. Não era a mesma situação, mas John não o entendia.

E então, John tinha tirado esse truque da manga. O FBI tinha concedido uma permissão de doze horas de descanso, mas ele sabia que era manobra de John para voltar para casa com Rowan.

Imbecil.

Tomou um longo gole de cerveja. Suspirou e passou a mão pelo cabelo. Michael se dava conta de que possivelmente o imbecil era ele. Tinha levado o conflito com seu irmão a extremos exagerados, deixando seu ego se interpor na busca da verdade.

Não era culpa de John. Ele tinha se apaixonado de verdade por Jessica. Apaixonou-se. Poderia ter assumido o papel de cavalheiro andante mas, de algum jeito, com o tempo tinha chegado a ser muito mais que isso. Ele tinha ignorado a atuação de Jessica, todas as coisas sobre as quais mentia, e tudo porque a amava.

Devia uma desculpa a John. Algumas das coisas que havia dito nessa noite eram muito agressivas. Sobre tudo a respeito de Rowan.

Pela primeira vez, se deu conta de que Rowan e Jessica não tinham nada em comum. Apreciava Rowan, gostava de verdade… mas não estava apaixonado por ela. Talvez, com o tempo… mas não era o mesmo. Não era como com Jessica. Quando viu Rowan correndo com John, teve a sensação de que entre eles existia certa camaradagem, um estilo similar, uma maneira de ser independente e algo mais.

Quando aquele caso se desse finalmente por encerrado, poderia viver com o fato de que John e Rowan tivessem uma relação? Que Rowan se sentiu atraída por John e não por ele?

Podia ser que seu ego saísse machucado, mas ele já era mais velho. O superaria. O primeiro que faria no dia seguinte seria dizer a John… algo. Acalmar as coisas. Paciência, era impossível para ele ficar zangado com seu irmão por muito tempo.

Alguém se sentou no banco junto a ele e o barman lhe serviu um uísque de excelente marca.

—Parece que perdeste seu melhor amigo — disse o estranho. — Lhe pago uma taça?

Michael deu de ombros e olhou o cara. Terno e gravata, sapatos bem lustrados. Uns quarenta anos.

— Estou bem, obrigado — disse, voltando para sua cerveja. — Só tive uma discussão com meu irmão. Já passará.

O executivo fez um gesto ao barman para que servisse dois uísques duplos. Michael sacudiu a cabeça.

— Já estou melhor.

— Trabalha esta noite?

— Não, tenho a noite livre.

— Então outra taça não lhe fará mal, não acha?

Michael pensou. Não tinha tido uma noite de descanso em uma semana. Pensou que uma taça não seria ruim.

— Obrigado — disse.

— Zangado com o irmão, é? — perguntou o executivo.

— Não mais — disse Michael, negando com a cabeça.

Quando o barman deixou as taças em frente a eles, Michael disse «salute», e tomou a metade do uísque. Não tinha jantado essa noite e pensou no que tinha em casa para preparar. Nada. Vivia na casa de Rowan.

Acabou a taça e beliscou um prato de nozes no balcão. Pensou em sair à rua e comprar um pouco de comida rápida para levar. Mas a somente a idéia lhe revolveu o estômago. Mas a essa hora da noite, não tinha muitas alternativas.

Michael pensou em pagar uma taça ao executivo antes de ir, mas quando levantou a vista, o cara tinha desaparecido. Ele, certamente, não necessitava de outra taça. Dois uísques duplos e uma cerveja com o estômago vazio não cairia bem.

Ficou de pé, deixou uma gorjeta e saiu. Um pouco de comida rápida, e casa. Seu apartamento ficava só a duas quadras do bar, e por isso tinha escolhido esse lugar. Depois dormiria e estaria preparado para dizer a John que Rowan era toda sua. Sempre e quando não lhe fizesse mal. Michael a apreciava e John jogava duro. No trabalho e com as mulheres.

Michael tinha toda a intenção de estar à altura de suas responsabilidades como guarda-costas, e embora devesse a John uma desculpa por algumas coisas que havia dito. Seu irmão teria que entender que esse caso seguia sendo seu, e desta vez não seria substituído, por muito que John pensasse de maneira diferente. Em seguida jogariam um pulso, o melhor de três tentativas, e o perdedor teria que comprar ao ganhador uma caixa de cervejas.

  

Rowan subiu para seu quarto para se trocar assim que voltaram para a casa da praia. John aproveitou para comprovar o perímetro de segurança. Depois tirou o smoking e colocou uma calça jeans e uma camiseta preta.

Ficou a pensar em seu confronto com Michael.

Tinha sido um golpe baixo colocar Peterson no assunto, tinha que reconhecê-lo, mas Michael necessitava de uma noite livre. Começava a perder a objetividade. Entretanto, quando John lhe disse, teve a impressão de que Michael estava a ponto de arremeter contra ele.

John lamentava seu papel na discussão. Não queria brigar com seu irmão. Não queria recordar uma vez mais Jessica. Simplesmente precisava estar um momento a sós com Rowan para conseguir que falasse, sabendo que Rowan não diria nenhuma palavra sobre seu passado se Michael estivesse ali protegendo-a.

John tinha que saber a verdade a respeito de Lily Macintosh e seu pai. Ignorava a forma como tudo aquilo se encaixava com esse louco que andava por aí solto. Mas, de algum jeito, havia uma relação. Era a única coisa que tinha sentido.

Esperava que Michael o perdoasse. Estava seguro de que o faria assim que passasse a raiva. Tinham tido discussões piores no passado, mas quando se tratava de fechar o cerco, estavam sempre um junto ao outro.

Quando Rowan não tinha descido depois de transcorridos trinta minutos, John subiu a seu quarto e bateu na porta.

— Rowan, temos que falar.

— Estou cansada. Boa noite.

— Não conseguirás o que queres tão facilmente. Abre esta porta ou a derrubarei.

— Não te atreveria.

— Tome cuidado comigo, Lily. — O coração lhe disparou. Era uma aposta arriscada, mas tinha que conseguir que ela abrisse a porta. Que confiasse nele o suficiente para contar-lhe tudo.

Não disse nada mais, e tampouco ela. Vários minutos depois, ouviu o clique da fechadura. Preparou-se enquanto ela abria a porta.

Rowan tinha o ódio pintado no rosto, a mandíbula tensa e o pescoço palpitante. Tinha os punhos muito apertados. Entretanto, nos olhos não havia ódio. Só mostravam uma emoção: dor.

— Rowan — disse John, e ela lançou em cima com os punhos fechados e começou a golpeá-lo no peito.

— Quem lhe disse isso? Quem? Safado! Como te atreve a invadir minha intimidade! Como te atreve? — Acabou sua frase com um soluço e ele a agarrou pelas mãos e a fez entrar no quarto.

— Conta-me tudo.

— O que? Você não sabe? — disse ela, com um gesto de amargura. — É evidente que descobriu que me chamo Lily — disse, e se separou dele, dando com o cabelo no rosto quando se virou para ir até o outro extremo do quarto. Ficou olhando pela janela. Lá fora estava totalmente escuro. Ele viu seu reflexo no vidro, a dor de sua expressão de derrota, e sentiu que o coração acelerava.

Odiava fazer isso, mas era a única alternativa.

— Sim — disse com voz suave. — Você se chamava Lily Elizabeth Macintosh e Roger Collins se converteu em seu procurador quando tinha dez anos. Nasceu em Boston e seu pai ainda vive lá. — Por seu reflexo no vidro, viu que abria desmesuradamente os olhos. — E eu sei onde está.

Ela se virou e o encarou elevando o queixo.

— E não sabe por quê?

Ele fez um gesto quase imperceptível.

— Quero que você me conte.

— Por quê? Se você sabe de tudo. Quanto tempo demorou em encontrar esses relatórios? Quatro, cinco dias? Bom trabalho — disse, e a voz quebrou.

— Temo que não reste mais tempo, Rowan — disse, subindo a voz. — Acredito que esse cara vem pegar você e eu não posso te proteger se não souber contra quem estou lutando. Acredito que você sabe. Acredito que sabe exatamente quem é o assassino de todas essas mulheres.

— Se soubesse, diria — disse isso ela, boquiaberta ante suas palavras. — Não tenho nem uma maldita idéia de quem está por detrás de tudo isto! — Fechou os olhos e John observou como se esforçava por recuperar sua compostura. Lhe deu vontade de aproximar-se dela, de consolá-la e mimá-la.

Mas sabia que então ela se fecharia. Aquela era a única maneira.

— Me convença — disse. Sentou-se na beira da cama e cruzou os braços.

Rowan abriu os olhos e ficou olhando. Odiava John Flynn. Todos seus temores e toda a dor sepultada por tanto tempo lhe embargavam o coração. Estava a ponto de desmoronar. Era assim se sentia uma pessoa quando estava a ponto de perder a sanidade mental? Como se um milhão de quilos de pressão empurrassem de dentro, ameaçando explodir.

A mandíbula tremeu e ela a endureceu. Voltou a virar-se para a janela. A isso se reduzia tudo. Dissesse o que dissesse Roger, apesar de ter assegurado na última semana que os assassinatos não tinham nada a ver com seu passado, Rowan não podia deixar de sentir a sensação de que alguém sabia sobre Dani. Quem era? Não tinha a menor idéia. Por que? Por que teria que persegui-la agora? Depois de tanto tempo? Quem era essa pessoa a quem ela tinha ferido tanto e que agora havia se proposto destruí-la?

Acaso Roger estava muito perto da situação para vê-la com clareza? Ela tinha acreditado tanto tempo em sua força e sua sabedoria que agora não questionava seus julgamentos. Roger tinha sido mais que um pai, um mentor mais importante que qualquer de seus muitos companheiros. Ela o amava e confiava nele. Mas e se ele não tinha notado algo? Algo importante?

Olhou a John por cima do ombro. Sabia sobre seu pai, mas em seus olhos verde escuro não via nem pena nem desprezo. Eram uns olhos curiosos, inquisidores.

E compreensivos.

Talvez, só talvez, uma terceira pessoa imparcial poderia dar algum sentido a aquele assunto sem pé nem cabeça.

Quando falou, surpreendeu-lhe a tranqüilidade de sua voz.

— Mudei de nome. Não queria o nome que meu pai tinha me dado. Não queria seu nome. — Viu o reflexo de John no vidro, e se sentiu incapaz de escapar desses olhos penetrantes. Entretanto, de algum jeito aquilo a aliviava, e então reuniu a energia que restava para contar sua história, um passado que tinha permanecido sepultado por vinte e três anos. — Eu tinha dez anos — começou, e sua voz soava alheia, distante, limpa. — Era tarde, passava das onze horas da noite. Eu olhava o show de Johnny Carson na televisão do quarto de meus pais. Alguma coisa me despertou.

Saltou da cama com o coração acelerado. O que era isso? O que era esse ruído?

Outra vez. Um grito de dor.

Aproximou-se rapidamente da cama do bebê em um canto, procurou Dani entre todos os animais de pelúcia. Aí estava, entre Winnie-the-Pooh e sua enorme girafa.

— Comecei a descer as escadas e ouvi que meu pai dizia: «Não posso confiar em ti! Não posso confiar em ti!» Minha mãe gritou.

— Não posso confiar em ti!

— Robert, não, por favor! As crianças!

E então gritou, mas foi um grito apagado. O som do silêncio foi ainda pior. E então, gemidos e um grito de meu pai que não era um grito humano. Golpes, um grito, uma batida de porta.

— Beth! Beth! Meu Deus, Beth!

— Eu não queria seguir as vozes, mas era um impulso mais forte que eu. Estavam na cozinha.

As paredes brancas estavam vermelhas, e fios de sangue corriam pela superfície lisa da pintura. Um arco de sangue manchava as cortinas xadrez azul e branco de Mamãe, as cortinas novas que tinha costurado há um mês.

— Meu pai não me viu. Tinha uma faca na mão, e estava manchada de sangue. Estava ensopado em sangue e, por um momento, acreditei que havia se cortado. E então vi mamãe.

Ela tinha um braço que tapava o rosto, e sua camisola estava toda tingida de vermelho. Estava molhado e o sangue emanava de seu corpo. Um olho azul a olhava. O outro tinha desaparecido. Sua mamãe já não estava lá. Mamãe estava morta.

— Eu gritei, mas meu pai não me ouviu. Soltou a faca e pegou Mamãe em seus braços e começou a embalá-la como um bebê. Mas eu sentia que ele já não estava ali. Era como se ele tivesse ido. Tinha um olhar vazio, sombrio. E então ele entrou.

— Quem? — perguntou John, mas sua voz soava muito distante.

— Bobby, meu irmão, era o mais velho. Tinha dezoito anos.

Bobby ficou parado na porta olhando com uma expressão estranha. Quase sorria. Olhou para ela e franziu o cenho.

— Você. Estou de saco cheio de ti, desde o primeiro dia. Agora é a sua vez.

— Bobby agarrou a faca que meu pai tinha soltado. Disse-me que corresse.

— Corre, vadia. Que eu já te pegarei. Quando me tiver ocupado dos outros. Morrerão um após o outro, e depois pegarei você.

— Saí correndo — disse Rowan, e a voz quebrou. Recordou com toda sua crueldade a dor que tinha lhe apertado o peito.

— Vá! Sai daqui! — Ela saiu disparada para a porta.

—Não podia sair da casa. Não sem Dani e Peter. Como podia deixá-los morrer? Passei correndo pela porta da entrada justo quando escutei que a fechadura se abria. Melanie e Rachel tinham ido ao cinema, e nesse momento voltavam para casa. Gritei para elas que escapassem, mas acredito que de minha boca não saiu nem um som.

— Chamem à polícia! Por favor! Saiam daqui! — Era ela que tinha falado? Não sabia, mas a porta se abriu e ali estava Bobby, justamente atrás. E então sim que gritou.

— Lily? — disse Rachel, e ficou boquiaberta quando viu que Bobby se lançava contra ela de faca na mão. Não teve tempo de gritar, mas Mel sim teve.

— Esfaqueou Rachel e Mel no vestíbulo. Uma e outra vez, e eu vi tudo. Era como se não pudesse me mover. E então me olhou, ele embaixo e eu em cima das escadas.

— Que excitante, Lily, não te parece? — Bobby respirava com dificuldade, coberto de sangue, e voltou a afundar a faca no corpo de Rachel e a deixou cravada aí. Cruzou em direção ao armário da sala e ela soube que ia pegar a escopeta de Papai. Deu meia volta e pôs-se a correr pelo corredor.

— Tinha uma arma. Peter acabava de sair de seu quarto e estava no corredor, tremendo. Agarrei-o e entrei em meu quarto para pegar Dani. Eu chorava, não podia parar de chorar e nós três nos metemos no quarto de mamãe.

Girou a chave da porta, mas temia que Bobby entrasse.

— Lily, o que está acontecendo? — perguntou Peter, com voz trêmula.

— Entra no armário! Pega a Dani! — ordenou-lhe ela.

— Peguei o telefone e liguei para o 911. Esperei e esperei e no final alguém atendeu. Mas eu já ouvia Bobby que se aproximava pelo corredor. Ria, mas não era uma risada.

— Nove-um-um. Trata-se de uma emergência?

— Mm… minha mamãe morreu. P… papai. Bo… Bobby tem uma arma. — Não podia deixar de balbuciar, e se odiou por isso.

— Não desligue. Agora mesmo, está em perigo?

— Sim!

Ouviu-se uma descarga de escopeta no corredor e outra gargalhada de Bobby. Ela gritou e soltou o telefone.

— Entrei no armário com Peter e Dani e tentei fazer que não fizessem ruído, mas eu chorava e sabia que a polícia não chegaria a tempo. Rezamos juntos, Peter e eu, e eu segurava Dani entre os dois.

Mais disparos, e a porta do quarto se abriu de repente.

— Sei que está aqui dentro, Lily, vadia. Acreditei que você fosse mais inteligente. Já vi como me olha. Pois, agora serei eu quem vai rir por último. — Escutou-se outro disparo, e outro, e outro…

Rowan se virou e ficou olhando para John. Tinha o rosto banhado em lágrimas. As secou com a mão em um gesto de impaciência.

— Ouvi as sirenes e os disparos cessaram. Não sei para onde Bobby se foi, mas depois Roger me contou que tinha saltado pela janela de um quarto para escapar. O agarraram no final da rua e o detiveram. Também detiveram papai, mas ele já não estava presente. Em sua cabeça já estava morto.

Fechou os olhos e imaginou Dani. Sua irmãzinha pequena, tão linda.

— Não soube que Dani tinha morrido até que a ambulância chegou e me tiraram ela dos braços. Havia sido baleada e tinha morrido na hora. Eu acreditava que o líquido morno que nos banhava eram nossas lágrimas. Era seu sangue. Tinha-me ensopado.

Não ouviu John levantar-se, mas de repente ele a agarrou em seus braços e lhe acariciou o cabelo. Ela se afundou nele, aferrando-se a suas costas, alimentando-se de sua força.

E então sentiu que ele a levantava no ar. John a levou até uma cadeira grande em um canto e a sentou sobre seus joelhos. Ela se apoiou nele, com a cabeça no ombro e se sentiu um pouco mais tranqüila.

— O que aconteceu com Peter? — perguntou John, com voz suave.

— Foi adotado por uma família maravilhosa de Boston. Agora é sacerdote. Mantemo-nos em contato, mas ninguém sabe dele. Ninguém sabe que é meu irmão.

— Não tinham ninguém mais da família? Ninguém que cuidassem de vocês?

Rowan se deu conta de que aquela rejeição seguia viva nela quando retomou seu relato com voz mais calma.

— Minha mãe tinha uma irmã. A tia Karen. Veio para… veio nos ver, a Peter e a mim. Não quis nos acolher. Ela… enfim, éramos filhos dele. E ele tinha matado a nossa mãe, a sua irmã. Não podia nos perdoar por isso.

— Mas eram apenas crianças!

— E depois meus avós, os pais de meu pai. Eram idosos. Mais de sessenta anos. Agora estão mortos. Tentaram, mas não podiam cuidar de nós. — Rowan respirou fundo. — Eu tinha pesadelos. Peter não queria, ou não podia falar. Eles não sabiam como nos ajudar.

— E então apareceu Roger Collins?

Ela respirou fundo e soltou lentamente o ar.

— Conheci Roger quando decidi testemunhar contra meu irmão, Bobby. Não era um caso do FBI, mas Roger era um investigador perito nas cenas de crimes e tinha experiência trabalhando com as pessoas que sobreviviam. Fez eu dar parte. — Dar parte, que clínico soava. — Tinha pena de mim e me perguntou se queria viver com ele e sua mulher. Disse que sim. Mas não quis que me adotassem.

— Por quê?

— Não podia — disse ela, encolhendo os ombros. — Não queria amá-los. Todas as pessoas que amo acabam mortas.

— Onde está Bobby agora? — A voz de John saiu como um grunhido rouco, com a raiva a flor da pele. Rowan o percebeu em seus músculos tensos.

— Morto. — Ficou em silêncio por um momento e então respirou bruscamente até acabar em um soluço. — Tentou escapar a caminho do tribunal. Matou dois guardas. E em seguida caiu crivado de balas quilômetros mais à frente quando tentava seqüestrar alguém em seu carro. Me alegro de que se livraram dele.

— Você queria testemunhar — disse John, enquanto lhe acariciava o cabelo.

— Sim, droga! Queria que todo mundo soubesse o que ele tinha feito. Livrou-se muito fácil. Eu queria que ele sofresse. — Apertou a mão que apoiava contra sua camiseta e um soluço longo e gutural escapou de seu peito.

Ficou assim por um bom tempo, até que pôde controlar a respiração e deixou de tremer. A força pura que emanava do corpo de John, que a sustentava, e seus braços musculosos que a apertavam contra seu peito davam uma paz que nunca havia sentido. Embora não fosse mais que por esse momento, sentiu-se segura de verdade.

Rowan tinha tirado um peso de cima de seus ombros, como se compartilhar sua dor com John lhe tivesse lavado a alma. Por isso, deixou que a consolasse, permitiu que compartilhasse sua dor. Sentia-se quase livre, e aquilo era uma experiência embriagadora.

John a embalou por um bom tempo, refletindo sobre tudo o que ela tinha contado. Ele já suspeitava que Rowan tinha vivido uma experiência traumática na infância, e quando soube que seu pai tinha matado a sua mãe não pôde imaginar nada pior.

Entretanto, era muito pior. O deixava doente. Teria estrangulado esse safado com suas próprias mãos. A seu pai e a seu irmão morto.

Tanta morte, tanta miséria para uma menina de dez anos. Era assombroso que não tivesse tido um colapso antes.

— É por isso que deixou o FBI? O assassinato dos Franklin te afetou muito?

Ela ficou rígida em seus braços e ele deixou escapar uma silenciosa maldição. Não era justo o que fazia, mas tinha que saber de tudo. De algum jeito, seu passado e os fatos de agora estavam relacionados. Talvez o assassinato dos Franklin se encaixasse de algum jeito.

— Acreditei que ficaria louca quando vi morta à pequena Rebecca Sue Franklin, porque era igual a Dani. Satisfeito? —perguntou, com voz pretensamente dura e amarga, mas não o conseguiu. Soava mais como derrotada.

— Não tenho intenção de te fazer mal, Rowan. Mas tem que enfrentar à verdade. Algo no seu passado está relacionado com estes assassinatos. Alguém sabe o que te aconteceu. Depois de receber as tranças e os lírios, não pode me dizer que isso é impossível.

Ela ficou em silêncio por um longo momento, e John se perguntou se finalmente falaria.

— Depois das tranças, pensei de verdade que tudo estava relacionado com o assassinato dos Franklin. Por isso abandonei o FBI. Foi o impulso que me ajudou a me centrar para começar a escrever, porque era incapaz de trabalhar. Acreditei que certamente que… — disse, e sua voz se desvaneceu.

— E?

— Roger interrogou o irmão de Franklin, que nunca acreditou que Franklin matasse a sua família e depois se suicidasse. Revisou os arquivos do caso. Agora eu os vi pela primeira vez. Tem uma dúzia de agentes revisando não só esse caso mas também todos meus casos. E nada, absolutamente nada.

Fez uma longa pausa, e John não interrompeu sua reflexão. Após um momento, disse:

— Perguntei a Roger se alguém mais sabia de mim, alguém do passado. Um parente do qual não soubesse nada, um policial que estivesse mal da cabeça, qualquer um. Prometeu que investigaria, mas até agora… — disse, e encolheu os ombros. — Estão todos mortos, John. Desaparecidos.

— E sobre seu irmão?

— Já lhe disse. Está morto.

— Seu outro irmão, Peter.

Ela se incorporou de um salto e se separou dele. Todo o corpo tremia.

— Peter? Está falando sério? Como te atreve?

— Só estou tentando me fazer um quadro — disse ele, ficando lentamente de pé e elevando as mãos. Esperava que ela entendesse que não pretendia lhe fazer mal. Ela seguiu retrocedendo.

— É o mais ridículo que ouvi em minha vida! Peter é sacerdote, droga! É o homem mais amável e generoso que conheço. Jamais, jamais tiraria a vida de alguém. E nunca me faria mal.

John falou lentamente, sem inflexões, querendo que Rowan fosse rigorosa e pensasse em todas as possibilidades, mas não tinha certeza de conseguir.

— Rowan, me escute. Alguém conhece seu passado, detalhes íntimos de sua família e de sua irmã Dani. Diabos, demorei quase uma semana em conseguir o que consegui e não temos feito mais que roçar o superficial. Alguém conhece sua dor. Seu irmão Peter é uma possibilidade.

— Não. Não! — exclamou ela, sacudindo a cabeça. — Você não o conhece. — Tampou o rosto com as mãos e começou a soluçar amargamente.

John se aproximou. Ela tentou rechaçá-lo, mas em sua angústia tropeçou e ele a levantou.

— Sinto muito, Rowan, sinto muito. — Beijou-a na testa e se sentou com ela na beira da cama.

— Não é Peter — murmurou ela no fim de longos minutos, relaxando por fim contra o peito de John, embora ainda tremesse inteira. — Roger tem uma equipe do FBI que o vigia desde o segundo assassinato. Como proteção. Se andasse de um lado a outro matando as pessoas, eles saberiam.

Parecia uma explicação lógica, pensou John, enquanto acariciava o cabelo de Rowan. A única pessoa viva que conhecia o passado de Rowan sabia como atormentá-la. Estava convencido de que assim que Rowan começasse a falar, revelaria a resposta. Peter era uma das poucas pessoas que sabiam o que tinha ocorrido naquela noite, que sabiam sobre o cabelo de sua irmã e que Rowan se chamava Lily. Estava disposto a perdoá-la por proteger seu irmão menor, e não desejava acreditar que ele fosse o culpado.

Mas se Peter estava sob vigilância, não havia maneira de que pudesse ir e vir de Los Angeles a Portland, Washington, e Boston. E o que aconteceria se Rowan estivesse errada? E se Peter tinha um cúmplice? E se pagasse alguém para que o ajudasse? John tinha um sem-fim de possibilidades.

O assunto justificava de sobra um telefonema a Roger Collins.

— Tem certeza de que seu pai ainda está preso? — perguntou finalmente.

— Sim. Não voltou a falar desde que matou a Mamãe. Roger ligou para o hospital logo depois do primeiro assassinato. Para ter certeza.

Era uma possibilidade remota. Agora não tinham nada. Embora não de tudo. Restava Peter. Olhou seu relógio. Eram mais de três horas em Washington. Ligaria para Collins cedo pela manhã.

Manteve Rowan em seus braços, sentindo como ela relaxava pouco a pouco. Ela se sentia bem aí, como se esse fosse seu lugar no mundo. Ele lhe esfregou as costas de cima a baixo, massageando-a para aliviar a tensão dos músculos. O que ela tinha vivido… John fechou os olhos. Pensaria em sua dor mais tarde, quando estivesse sozinho e pudesse refletir mais atentamente. Tentaria entender sua confiança total e absoluta em Roger Collins.

Collins mantinha as coisas muito silenciosas. Por que pensaria que era tão importante manter em segredo o passado de Rowan? Para protegê-la? De suas emoções… ou de outra pessoa?

Sabia o diretor adjunto de mais do que dava a entender? As coisas que intuía lhe zumbiam na cabeça. Em sua busca de respostas, Rowan tinha recorrido a Collins para confirmá-las com ele. Ele tinha assegurado que suas inquietações a propósito de seu passado não tinham fundamento. Ela acreditava porque confiava nele.

John tinha a impressão de que a confiança de Rowan naquela figura paterna estava a ponto de se esfarelar.

Passou uma mão pelo pescoço e ela deixou escapar um suave gemido de prazer quando lhe massageou os músculos tensos. Sentindo a umidade de suas lágrimas na mão, olhou-a no rosto.

Era muito bela. Tinha os olhos fechados mas se aproximou mais a ele para facilitar a massagem no pescoço. Apesar de sua pele pálida corada pelas lágrimas e a emoção, tudo nela, suas maçãs do rosto proeminentes, seu nariz elegante e seus lábios vermelhos e carnudos, tudo o chamava a aproximar-se dela.

Resistiu ao desejo de beijá-la e fechou os olhos. Cada vez estava mais perto do abismo. Era precisamente o que ele tinha advertido a Michael.

Provavelmente já tinha caído?

Sentiu que ela lhe beijava o pescoço, apenas um roçar de beijo, mas a sensação chegou até mais baixo da cintura.

— John? — sussurrou em seu ouvido.

— O que? — Sua voz soou rouca, e pigarreou, e a mão com a qual lhe acariciava o magro pescoço ficou quieta.

— Não vá.

Ele a abraçou com mais força e tragou saliva. Ela lhe beijou o lóbulo da orelha. John pensou que deveria ir. Rowan estava alterada, órfã, emocionalmente vazia. Sentia como se estivesse se aproveitando.

Rowan lhe deixou uma trilha de beijos da orelha até o ombro. Rodeou-lhe o pescoço com uma mão e com seus dedos longos e finos lhe acariciou o cabelo, um gesto que transmitiu calor a todas as costas.

Não iria a nenhuma parte. Deixou de lado seus sentimentos de hipocrisia e entendeu pela primeira vez o que Michael tinha sentido por Jessica.

Jamais deveria ter julgado seu irmão com tanta rapidez. Prometeu a si mesmo que lhe diria no dia seguinte.

John seguiu com a massagem, esfregando as costas de Rowan. Viu que a Glock lhe pressionava o peito e a tirou de sua capa. Ela ficou rígida ao sentir-se desarmada, mas lhe tirou a arma das mãos e a deixou debaixo do travesseiro. Ele desencapou sua própria pistola e a deixou sobre a mesinha de noite, sem tirar os olhos de Rowan.

— Rowan, tem certeza…?

Ela lhe pôs um dedo nos lábios.

— Shh. Não diga nada.

Ele queria falar, mas não queria perder essa conexão com ela. Havia sentido uma enorme atração desde o momento em que a viu, e tudo o que tinha ocorrido após os tinha aproximado ainda mais. Mais tarde teriam tempo para falar.

John lhe agarrou as mãos, beijou-lhe os dedos e os levou a boca. A dor e a tensão em seu rosto se desvaneceram. Não deveriam estar fazendo isso, mas, droga, era muito agradável. Tirou os dedos de sua boca, inclinou a cabeça e lhe roçou os lábios.

Um só beijo não bastaria. Empurrou mais profundo, desejando lhe dar o calor e o contato físico que necessitava, sabendo que já não havia volta atrás. Aquele não seria um guarda de uma única noite, não poderia lhe dar um beijo de despedida e desaparecer sem mais de sua vida.

Já a tinha alojada na alma.

Empurrou-a docemente para a cama e rodeou seu pescoço com os braços, atraindo-o com mais força, respondendo ao poderoso assalto de sua boca exuberante. Abriu a boca e deixou escapar um gemido. Ele lhe lambeu os lábios, o pescoço, atrás da orelha. Ninguém deveria jamais viver o que Rowan tinha vivido. Ninguém. Era assombroso que tivesse agüentado tanto. Era uma mulher extraordinária.

Beijou-a até voltar para seus lábios e afundar-se entre eles com sua língua. Ela respondeu beijo a beijo, entrelaçando sua língua com a dele, enquanto lhe esfregava e arranhava as costas.

Com um gesto de impaciência, ela puxou sua camiseta e ele interrompeu o beijo para tirá-la com um puxão por cima da cabeça e jogá-la a um lado. Ela ainda usava o diminuto vestido negro e ele esticou a mão e baixou o zíper das costas até embaixo. Ela tirou o vestido com um gesto rápido e ele viu seu corpo delicioso.

Rowan tinha cicatrizes. John beijou uma ferida que parecia claramente a de um disparo que tinha roçado a costela inferior direita. Tinha a parte de cima do braço marcada por uma ferida de arma cortante, uma velha ferida. John a beijou. Desabotoou o sutiã e pegou os seios na palma das mãos e os acariciou. Olhou-a no rosto. Tinha os olhos fechados e a boca aberta. As lágrimas tinham cessado.

Não queria voltar a vê-la chorar, jamais.

Beijou-lhe um seio, pegou o mamilo para chupá-lo e ela gemeu. Repetiu o gesto com o outro seio, desfrutando de como ela respondia a seu contato. Antes, havia se comportado como um bloco de gelo. Agora estava se derretendo, ao fogo vivo. Rowan puxou sua calça e ele a tirou com movimentos impacientes. Descansou todo seu peso sobre ela e voltou a beijá-la.

Jamais se sentiria satisfeito, e então soube que estava caído redondamente por ela.

Rowan deixou vagar suas mãos pelo corpo duro e musculoso de John. Sob sua pele bronzeada, palpitavam todos seus músculos, e só uma linha por debaixo de sua cintura demonstrava que não tomava sol nu.

Ela não queria que tudo isso ocorresse, mas quando John a sustentou em seus braços, o coração disparou e se sentiu segura. Pela primeira vez em muito tempo, sentou-se segura. Ele tinha compartilhado com ela sua dor, e agora seu passado parecia mais leve de levar. Ignorava como era possível que isso tivesse acontecido depois de que John a obrigasse a despir sua alma, mas libertar-se de seus segredos era um alívio. Não tinha falado disso em vinte e três anos.

Como se lhe tivessem tirado um véu do coração. Seu fardo parecia mais leve, como se John a ajudasse a levá-lo. Sentia-se mais livre que nunca. Graças a ele.

Assim o beijou no pescoço e pediu que ficasse. Não estava segura de que ele o faria. Se ele se fosse, encontraria uma maneira de viver sem ele. Ela sobreviveria, sozinha.

Mas se alegrou de que ele ficasse. Suplicar para que seus desejos se cumprissem não era algo que fizesse facilmente, mas nesse momento ela não estava para remilgos quando se tratava de conseguir que ele ficasse com ela.

Talvez pela primeira vez nas duas semanas transcorridas desde o assassinato de Doreen Rodriguez, cessariam os pesadelos.

Entretanto, mais que o sentimento de segurança, sentia uma camaradagem e um entendimento com John que não tinha tido em toda sua vida. Sua maneira de olhá-la, com seus olhos profundos e escuros, chamando-a, prometendo que podia confiar nele, e que não se deixaria matar. Que era bastante forte para arcar com ela e com o mundo.

Excitava-a como nenhum homem a tinha excitado antes. Era algo mais que seu aspecto de homem bonito, seu corpo bronzeado e duro. Era sua maneira de concentrar-se na tarefa que tinha nas mãos, tentando arrancar as lembranças do seu passado, fazer justiça ou lhe fazer sentir-se novamente em sua plenitude, aqui e agora. Fazendo amor.

Rowan tinha infinidade de perguntas, e queria saber de tudo a respeito dele. E quando soubesse tudo, desejaria-o ainda mais. Amaria-o muito.

Isso era algo que já tinha acontecido.

Afastou esses pensamentos de sua mente, esticou as mãos e lhe tocou as nádegas, duras como pedra. Fincou os dedos nelas e ele se impulsionou para frente. Tinha o membro rígido em contato com ela e ela o desejava. Beijou-o e ele respondeu acolhendo a boca profundamente na sua, sem que suas mãos deixassem de mover-se, lhe acariciando todo o corpo, conservando seu calor, deixando-a quente.

— Faça amor comigo — lhe murmurou ao ouvido, e então lambeu o ponto sensível atrás do lóbulo. Ele se estremeceu em seus braços.

— Ainda não. — Sua voz era rouca e grave. Tirou-lhe as calcinhas com os dentes. Ela se esfriou sem seu corpo firme sobre ela, mas então, com a língua, John lhe abriu a vagina e ela deu um pulo quando um calor líquido lhe alagou a virilha.

Agarrou o edredom em um punho enquanto com a língua John fazia a magia acontecer. Deixou escapar um gemido, prazer misturado com um pingo de dor quando sentiu vir o orgasmo e sua boca que a chupava. Arqueou as costas, levantou os quadris da cama e ele mordiscou suavemente sua protuberância. Ela se deixou arrastar por um orgasmo tremente que a deixou ofegando e com a voz enrouquecida.

E então ele montou sobre ela e a beijou com força. Ela se agarrou a ele, atraindo-o quanto pôde. Ele lhe abriu as pernas para penetrá-la.

E então ela deu uma virada aos dois.

John nem sequer se deu conta do que tinha acontecido. Em um momento estava a ponto de afundar-se profundamente no corpo ardente de Rowan, necessitando-a, querendo-a, desejando-a com todo seu ser. E no momento seguinte estava estendido de costas e o cabelo longo e loiro de Rowan lhe caía sobre o rosto. Tirou um cabelo de sua boca e começou a dizer «O que?» quando ela o beijou com força e se endireitou.

Ele olhou enquanto ela o agarrava em suas mãos magras e o guiava para seu interior. A ela faltou fôlego quando ele entrou apenas a ponta. Fechou os olhos e entreabriu os lábios. Era tudo o que John podia fazer para não penetrá-la até o fundo e gozar. Estava a um triz de gozar.

Mas estava fascinado olhando-a. Rowan era como uma deusa suspensa sobre ele, com as costas arqueadas, os seios firmes, os mamilos duros e bicudos. Tinha a pele muito branca, suave e perfeita, apesar das cicatrizes.

E então ela fez que ele se deslizasse até o fundo e John viu as estrelas.

Agarrou-lhe as mãos e as sustentou com força. Era ela quem dirigia, e era o único que ele podia fazer para permiti-lo. John queria recuperar o controle, mas se deleitava com seu abandono. Rowan deixava que se fosse afundando ainda mais nela e gemia, em seguida subiu até quase deixá-lo fora, e voltou a afundá-lo nela.

Era uma tortura difícil de suportar, mas maravilhosa ao mesmo tempo.

Rowan o apertava com os músculos ao afundar-se nela e ela ficou trêmula, desatando uma sucessão de ondas que iam desde seu testículo até o cérebro. John não podia esperar mais.

Agarrou-a por seu formoso traseiro com ambas as mãos, empurrou-a para baixo até tê-la inteira, e então começou a empurrar. Ela gemeu e se deixou cair sobre seu peito, tremendo. Ele sentiu seus músculos que se fechavam em torno dele.

Seu orgasmo foi o mais poderoso que recordava ter tido alguma vez. Manteve-a apertada contra ele enquanto ela se balançava com seu próprio orgasmo.

Fez-a virar-se suavemente e tapou aos dois com o edredom. Agarrou-a, beijou-lhe o cabelo, o rosto, os lábios. Seu membro já estava duro novamente, ainda agasalhado por seu corpo quente.

— Rowan, quero fazê-lo outra vez.

Ela o beijou por um longo e doce momento. Juntos, explodiram.

 

Michael entrou com dificuldade no seu apartamento, com a cabeça martelando e o estômago bem revolto. Não deveria ter comido os dois hambúrgueres com queijo e batatas fritas com o estômago cheio de uísques e cerveja. Tem que chegar até a pia, não parava de repetir-se. Não suje o chão.

Chegou a tempo, e se inclinou ante o deus de porcelana durante uns bons dez minutos. Quando se levantou, já não se sentia doente, e por um momento pensou em voltar para casa de Rowan para dar uma mão a John com a segurança. Não, dormiria tranqüilamente e voltaria pela manhã.

Depois de beber água diretamente da torneira da pia, voltou devagar até a sala. A porta da entrada tinha ficado totalmente aberta.

— Droga — murmurou, se recriminando por sua estupidez. Cruzou o corredor e a fechou de uma batida.

— Olá, senhor Flynn.

Michael se virou de repente e viu que no meio de sua sala havia uma figura que pareceu familiar. O desconhecido. O executivo do bar.

Michael quis desencapar sua pistola mas sabia que era muito tarde. Três balas lhe atingiram o peito. Sentiu calor e uma dor horrível que se apoderava de seu corpo. Estava ardendo.

Ele foi contra a parede e caiu no chão. Tudo se movia em câmara lenta. O desconhecido se aproximou, com a luz refletida em seu cabelo loiro castanho. Sacudiu a cabeça, com um sorriso sinistro pintado no rosto quando olhou Michael caído.

— Sinto muito, senhor Flynn. Não estava no livro mas, às vezes, temos que improvisar.

O livro. Rowan. Merda, tinha feito besteira. Sinto muito, John. Tinha razão.

Um brilho de luz, uma câmera? Talvez fosse um túnel. Sim, um túnel de luz.

E então o mundo se apagou.

  

John teve que se obrigar a cumprir com seu trabalho naquela manhã quando Rowan e ele saíram para correr ao longo da praia. Ele queria observá-la, mas isso implicava um perigo. Tinha que vigiar as casas, estar atento à costa ou a qualquer pessoa que nesse momento andasse pela praia.

Voltava a desejá-la. Se não soubesse que Michael os estaria esperando na casa quando acabassem o exercício, teria considerado a possibilidade de fazer amor com ela na praia. Mas seria preferível que Michael não soubesse ainda do ocorrido.

John não sabia se poderia fazer cara de que nada havia acontecido.

Depois de fazer amor pela segunda vez, tinham dormido por algumas horas. John despertou repentinamente às quatro da madrugada. Rowan gemia em seu sono e chamava Dani. Ele a tomou em seus braços e experimentou uma estranha sensação de paz quando ela se acalmou e se aconchegou contra ele. John não queria analisar seus sentimentos com muita profundidade. Afinal, estava convencido de que quando apanhassem o assassino, Rowan seguiria com sua vida normal. E ele voltaria para a caça de Pomera.

Entretanto, seus problemas, sua dor pela morte de Denny e de outros nas mãos de traficantes assassinos como Pomera, pareciam insignificantes comparado com o que ela tinha sofrido em cada dia de sua vida desde que tinha dez anos. Inclusive antes dos dez. Ver que Rowan tinha a coragem de seguir em frente, embora sua existência estivesse longe de ser perfeita, dava-lhe ainda mais força.

Rowan se deteve ao pé das escadas e respirou várias vezes profundamente. O ar era fresco e saudável. Sorriu-lhe com olhos vivos. Quase parecia despreocupada e ele se alegrou de lhe ter dado um pouco de paz depois dos acontecimentos das últimas duas semanas.

— Você vem tomar banho comigo?

John quase teve uma ereção só de vê-la transpirar, vendo seus seios miúdos apertados contra o tecido úmido da camiseta. Agarrou-a e a beijou apaixonadamente, saboreando o sal de seus lábios, o suor de suas costas, sua energia depois do exercício e uma tórrida noite de amor.

Mas não demorou em soltar-se do abraço. Não era o lugar indicado.

— Vamos — disse, com voz rouca, e pigarreou.

Não esqueceu suas responsabilidades. Comprovou a sacada e a casa para revisar que a segurança funcionava. Olhou seu relógio. Sete horas.

— Não temos muito tempo — disse.

— Então, será melhor que andemos com pressa. — Rowan se dirigiu rapidamente até seu quarto e ele a seguiu, não sem antes fechar as portas. Ela se despiu diante dele, e ele não pôde senão admirar sua ágil musculatura. Entretanto, tudo o que tinha que ser suave o era.

— Rowan, eu…

Ela lhe fechou os lábios com um dedo.

— Como você disse — disse, com voz suave —, não temos muito tempo.

Ele não deixou de captar o duplo sentido. Não sabia por que lhe incomodou quando escutou ela dizê-lo, embora ele pensasse no mesmo.

Rowan o conduziu até a ducha, tendo saudades da proximidade que tinham forjado na noite anterior. Jamais havia se sentido tão necessitada, tão poderosamente desejosa.

Começaram na ducha, onde ela começou a ensaboá-lo, e ele seguiu. Ela deixou. Ele pegou o sabonete sua mão grande e segura e a ensaboou inteira até deixá-la tremendo com algo mais que mera luxúria. Rowan se sentiu presa de uma saudade, precisava prolongar aquela estreita intimidade. Era algo delicado e transparente e, como todo o novo, podia ser facilmente destruído.

Rowan não queria perdê-lo.

Ele a lavou, beijou-lhe a pele até ouvi-la gemer em voz alta.

— Rowan — ele murmurou no ouvido dela quando a empurrou contra a parede de ladrilhos da ducha.

— Desejo-te. — Sua voz era rouca e grave, e soava como se não fosse ela.

Ele se deslizou para dentro dela e ela o envolveu com suas pernas, apoiada na parede. Rowan acariciou a pele dura, sem barbear do rosto e seguiu até seus lábios, buscando a língua, o prazer de seu sabor, desejando ficar aí e esquecer o mundo exterior. Lhe dar amor que jamais tinha podido compartilhar. Tomar o amor que ele lhe dava.

Não tinham muito tempo, e ela decidiu aproveitar ao máximo.

Apertou os músculos e deixou escapar um gemido na boca de John. Empurrou a pélvis com força, e ele retrocedeu.

Ela abriu os olhos e franziu o cenho.

— O que aconteceu?

— Nada.

John a levantou e a levou, ainda molhada, até a cama. Nunca tinha visto Rowan tão relaxada. Ela se levantou e lhe tocou o rosto com um gesto íntimo e o coração de John acelerou. Penetrou-a lentamente, olhando a reação que sua sensual invasão desenhava no rosto. Entreabriu os lábios ao fechar os olhos.

— Abre os olhos — disse ele, com voz grave, e ela os abriu imediatamente.

Ele lhe sustentou as mãos por cima da cabeça e a olhou de frente enquanto faziam amor. Rowan sentia um prazer cada vez mais intenso, e lhe envolveu a cintura com as pernas, respondendo com um embate a cada um dos de John. Quando os olhos se tornaram vidrados de paixão, ele a agarrou em seus braços e se derramou nela. Rowan chegou ao orgasmo com um gemido, murmurando seu nome.

Ficaram assim enredados, um nos braços do outro, respirando rapidamente. Ele puxou o lençol para cobrir-se e a estreitou em seus braços. Sabia que deviam levantar-se, mas não queria deixá-la ir. Agora, não.

Ela apoiou a mão sobre seu peito, sobre seu coração, e ele sentiu o coração dela pulsando contra seu braço. Apartou-lhe uma mecha de cabelo molhado do rosto e a beijou na testa.

— Ouvi que trabalhava para o DEA e que o deixou — disse Rowan depois de um momento. A mudança da paixão para o trabalho o surpreendeu. — Suponho que é… só curiosidade. Saber de sua vida.

Rowan fez gesto para separar-se, mas ele voltou a estreitá-la. Se ela acreditava que ia poder afastar-se de seu lado, esperava-lhe uma surpresa.

— Depois de cinco anos no Comando Delta, decidi que já tinha tido suficiente e que era hora de pedir um cômodo posto no governo. — John tentou rir, mas sua risada soou vazia.

— Hmmm. E eu ingressei no FBI porque queria ser Dana Scully.

Rowan fazendo uma brincadeira? Mas John não sorriu. Pensava no olhar de Denny, em seus olhos vazios e mortos, como se tivesse encontrado seu corpo ontem.

— Tive uma infância idílica — disse, após um momento. — Um lar ao estilo do Leave it to Beaver. Meu pai era policial, um homem direito e respeitado. Minha mãe ficava em casa, fazia bolachas no forno, levava-nos a todas as atividades possíveis e imagináveis, sempre estava ali para nos escutar. Era uma boa vida. Era perfeita.

Sentia falta de seus pais. Tinham morrido com menos de um ano de diferença. Seu pai, de um repentino enfarte, e sua mãe, suspeitava John, de um coração quebrado. Aquilo tinha acontecido há três anos, mas ainda o entristecia.

— Não estão vivos? — inquiriu Rowan, com voz suave.

— Não. — John pigarreou e tragou aquela dor que de repente tinha aflorado. — Meu melhor amigo era Denny Schwartz. Vivia na mesma rua e fazíamos tudo junto. Michael estava acostumado a vir conosco, mas Denny e eu tínhamos a mesma idade, íamos à mesma classe. Aos dois gostavam dos mesmos jogos. Mickey sempre queria fazer o policial, como nosso pai. Assim quando brincávamos de policia e ladrão, ele era sempre o policial.

— Você era o ladrão?

— Às vezes. Freqüentemente me inventava outros papéis, às vezes com Mickey, às vezes com Denny. Havia outros meninos na turma, mas Denny era… o melhor.

Denny sempre inventava as brincadeiras de papéis mais originais e complexos. E sempre sorria. Sempre o fazia rir. John se surpreendeu da intensa emoção que o embargou quando recordou a voz de Denny lhe murmurando no ouvido: Não posso acreditar que você esteja chorando pelo passado quando tem esta fêmea quente em seus braços.

— Denny era um brincalhão. Sempre de brincadeiras. Minha mãe não lhe tinha nenhum apego especial, mas o aceitava em sua casa porque vinha de um lar destroçado. Seu pai os abandonou quando ele tinha cinco anos, a ele e a duas irmãs menores. Sua mãe trabalhava em dois lugares diferentes para chegar ao fim do mês. Não era fácil, mas Denny nunca se queixava.

Tenho um plano, Johnny. Eu cuidarei de mamãe e das meninas, você verá.

— Eu queria que ele se alistasse no exército comigo. Me alistei aos dezoito anos. Não tinha grandes sonhos de ir à universidade, embora fosse ali onde acabei depois de meus cinco anos no exército. Patrocinado pela Lei GI Hill.

— É um bom programa.

Ele se encolheu de ombros.

— Sim, pois Denny não quis alistar-se. Tinha grandes planos. Sempre pensando em algo novo. — John fez uma pausa, reprimindo sua vontade de gritar. Se ele tivesse sabido quais eram os grandes planos de Denny, teria renunciado ao exército e o teria levado o mais longe possível de Los Angeles. — Seu grande plano estava relacionado com as drogas. Todo um projeto.

— Você não sabia.

— Nem sequer suspeitava. — Ainda se reprovava não ter percebido as atividades ilegais de seu amigo. — Éramos jovens, não estávamos acostumados a nos escrever com muita freqüência, e ainda não existia o correio eletrônico. Tess me escreveu, contou-me que Denny havia se colocado com gente de má índole, mas ela não era tão próxima a ele, não sabia até que ponto eram má índole, não sabia quão maus eram. E Mickey ainda ia ao colégio, depois para academia de polícia e a escola noturna. Denny não tinha a ninguém mais.

— Sente-se culpado por tê-lo abandonado.

Claro que se sentia culpado. Se tivesse ficado em Los Angeles, Denny não teria morrido. Jamais teria se metido com as drogas, não as teria vendido aos garotos, não teria morrido por morder a mão que lhe dava de comer.

Rowan lhe acariciou o peito. Não era um gesto de luxúria mas sim de compreensão. Ele lhe agarrou a mão e a levou aos lábios. Cheirava a sabão e a sexo e ele não podia imaginar estar em outra parte a não ser com ela. Compartilhar uma história que não tinha compartilhado com ninguém, nunca com esses detalhes.

— Voltei para Los Angeles e me matriculei na UCLA. Procurei Denny. Já não vivia em casa, e sua mãe não o via freqüentemente. Era estranho. Sempre tinha estado muito perto de sua mãe e suas irmãs.

A senhora Schwartz parecia cansada, desgastada pelos anos que levava trabalhando em dois lugares e criando sozinha a seus três filhos.

— Johnny, não sei onde ele vive agora — disse, encolhendo os ombros. — Vem de vez em quando, entrega um maço de notas e se vai. Não sei onde o consegue. — A mulher fez uma pausa e o olhou com olhos chorosos. — Não posso gastá-lo. Acredito que… acredito que está metido em algo feio.

— Segui-lhe a pista graças a velhos amigos. Em seguida soube que estava tramando algo. Um de seus planos para enriquecer de repente. Um de seus grandes planos. Certamente, ele não me contou isso. Não me deu a entender que estivesse passando drogas a garotos do colégio. E a outros, mais jovens. — A voz lhe quebrou. — Não, tive que descobrir sozinho. Quando o segui.

— Sinto muito. Devia doer você saber.

— Não, não me fez mal. Estava muito zangado para que me fizesse mal. Denny não me escutou, assim consegui que meu pai fosse falar com ele, que tentasse levá-lo para o bom caminho. Meu pai podia fazer alguma coisa. Era esse tipo de homem. Sabia como inculcar algo de sentido aos jovens criminosos que se gabavam de saber de tudo. Criminosos como Denny. Porque era isso precisamente no que ele se converteu. Em um criminoso traficante de drogas.

— Denny, garoto — disse Pat Flynn, olhando a opulenta casa de Malibu que, inexplicavelmente, Denny tinha comprado com a idade de vinte e quatro anos, sem ter um emprego conhecido nem meios de ganhar a vida. — Acredito que te colocaste em um atoleiro muito profundo.

John observava da perspectiva de seu pai, seguro de que podia lhe fazer refletir. Denny tinha os braços cruzados, em atitude desafiante.

— Ouça, senhor Flynn, você não deveria ter vindo — além de sua atitude arrogante, dava a impressão de que Denny tinha medo.

Tinha motivos para estar assustado, pensou John. Ele teve vários garotos que haviam morrido de overdose. Ele mesmo agora consumia essa porcaria, a julgar pelo nariz irritado e seus olhos injetados de sangue. Maldição, tinham vivido juntos os quatro anos do colégio, sem ter cedido jamais à tentação da droga, exceto em uma ocasião, aos dezesseis anos, quando a bela Mandy Sayers tinha compartilhado com eles um baseado.

— Denny, eu posso te ajudar. Posso te tirar de toda esta confusão.

— Não sei do que está falando, senhor Flynn. Não estou metido em nenhuma confusão.

Denny passou a mão pelo cabelo e sorriu com uma careta enquanto com a outra mão tocava a orelha. Nunca tinha sabido mentir convincentemente.

— Meu pai tentou. Por Deus que tentou. Nunca o tinha visto tão frustrado. Acabou gritando com Denny. Meu pai nunca gritava. Não assim, colérico. Mas Denny negava categoricamente que estivesse metido em algo ilegal. Mentiu a meu pai. Mentiu para mim.

— Era como se tivesse te traído.

— Sim — concordou John, com voz baixa, e lhe apertou a mão.

— O que lhe aconteceu? — perguntou Rowan após um momento.

—Ele foi executado.

Fazia uma semana que tentava convencer Denny de que delatasse a seus camelos e jogasse do lado dos bons para variar. Quando isso não sortiu efeito, só queria que Denny saísse da droga antes que o matasse. Denny nem sequer reconheceu que traficava, nunca reconheceu que estava metido até o pescoço nessa merda.

— Foi minha culpa.

— Por quê? Denny tomou suas próprias decisões. Ninguém o obrigou a começar a traficar.

— Nem meu pai nem eu o abandonamos. Uma noite, a noite antes que o matassem, disse-me que era um homem marcado. Que seu chefe tinha visto os policiais em sua casa. Eu sabia que ele se referia a meu pai, mas não o disse.

— Eu lhes contarei toda a verdade. Não é o que está pensando, Johnny. Mas, mas… acredito que será melhor que deixe de vir por aqui, certo? Simplesmente desapareça durante um tempo, certo?

— Não queria nada mais a ver comigo, disse. Fui embora. Sentia-me ferido, tinha muita raiva e não sabia o que fazer. Voltei a falar com meu pai. Então ele me contou que tinha falado sobre Denny com o departamento de entorpecentes. Após isso lhe seguiam a pista, esperando que os levasse até Reinaldo Pomera.

— Pomera — murmurou Rowan, que conhecia o nome.

— Assim é. Naquela época, Pomera ainda não era o chefe que é agora, mas já era letal. O principal traficante da América do Sul a Califórnia. Meu pai não me falou dos detalhes. Nesse momento, não. Nunca me contou isso. Depois, soube que Pomera estava no país e que a polícia tinha intenção de apanhá-lo. Denny era a melhor pista. Tinham oferecido a ele acolher-lo no programa de proteção de testemunhas, mas ele negou que necessitasse de algo, insistiu em que não estava metido em nada ilícito.

»Na noite seguinte, já não o suportava mais. Não queria trair a meu pai, mas sabia que algo ruim acontecia com Denny. Tinha que escapar, e tinha que fazê-lo rápido. Eu não tinha muito dinheiro, mas era suficiente para levá-lo a alguma cidade onde pudesse escondê-lo e inculcar algum juízo, maldito idiota. — A voz voltou a lhe quebrar, e a ardência das lágrimas não derramadas fez arder a garganta.

Uma lembrança dele e Denny. Tinham doze anos, e andavam de bicicleta pelo canal do controle de inundações. Rindo, dando saltos que não deviam praticar. Tiveram sorte de não quebrar um braço, ou uma perna, ou algo pior. Denny sempre usava o cabelo muito comprido, e lhe ficava por cima dos olhos como um cão pastor.

— Voltei, pela última vez, e aí o encontrei.

A casa estava toda iluminada, como se estivesse se incendiando. Mas não era fogo. Era a morte, e era fria.

O aroma da morte não era desconhecido. Tinha perdido alguns amigos na linha de fogo. O aroma acobreado do sangue, misturado com o fedor dos fluidos corporais quando, no momento da morte, o corpo relaxava… a morte tinha rodeado a casa de Denny.

A morte de Denny.

— Tinham-no matado como se fosse uma execução. Toquei-o, examinei-o para ver se podia salvá-lo.

Os olhos vidrados o olhavam, escuros e vazios. Ele lhe devolveu o olhar, como se visse seu melhor amigo pela primeira vez.

— Já estava morto. Mas o corpo ainda estava morno. Tinha chegado apenas minutos depois de que o assassino fugisse.

— Também teriam matado a ti — disse Rowan, com a voz tocada pela emoção.

— Eu sei. — John respirou fundo, e acabou seu relato. — Contra os desejos do meu pai, investiguei por minha conta. Descobri que Pomera estava na cidade. Soube pelos amigos do movimento de Denny que Pomera tinha ordenado a execução porque Denny estava roubando parte da mercadoria. Entretanto — seguiu, com a voz marcada por um ódio intenso —, acredito que foi o próprio Pomera que apertou o gatilho. Por tudo o que soube a respeito desse safado de merda, ele teria gostado de matar a um patético camelo de meio pelo e drogado como Denny.

— E por isso você ingressou no DEA?

— Sim.

— E por que o deixou?

Mas que inferno, Rowan fazia as perguntas mais difíceis. Fazia muito tempo que John não pensava em tudo isso, mas devia isso a ela, sobre tudo depois de que ela arrancasse o véu de seu próprio passado. Depois do que tinham compartilhado.

— Por acaso alguém não disse que a confissão era boa para a alma?

— É um pouco complicado.

— Não tem que me contar.

— Eu quero lhe contar.

Soou a campainha e o momento foi interrompido. Rowan ficou tensa junto a ele, e em seguida se separou dele e deixou a cama de um salto. Foi depressa para o armário embutido e fechou a porta firmemente a suas costas.

Erro no cálculo do tempo. Falha de planejamento, também, pensou ele, enquanto recolhia sua calça de moletom suja, ainda úmido de suor. A colocou rapidamente, fez o mesmo com a camiseta, pegou sua pistola e desceu as escadas correndo. O sexo, e em seguida a purgação dos demônios… Recuperou a compostura e esperou que Michael não pudesse ler em seu rosto o que tinha vivido nas últimas doze horas.

Olhou pelo olho mágico e franziu o cenho. Quinn Peterson, o agente federal. Seu aspecto desalinhado e sua barba incipiente davam a entender que não tinha dormido muito na passada noite.

Não podia tratar-se de outro assassinato. Isso queria dizer que a seguinte seria Rowan. John ficou tenso em apenas pensar nisso. Não, Rowan não. Ele não deixaria que o assassino se aproximasse.

Preparou-se para a má notícia e abriu a porta.

— Peterson.

— Flynn. — Peterson entrou e John trancou a porta e voltou a ativar o alarme.

— Onde está Rowan?

— Na ducha — disse John.

— Estou aqui — disse Rowan, que descia as escadas.

John lhe lançou um olhar de relance. Estava muito composta, vestida com uma calça jeans e uma camiseta branca, o cabelo penteado e recolhido em um rabo de cavalo molhado. Sua pele tinha uma camada de cor que estava ausente no dia anterior. John não pôde mais a não ser alegrar-se de ser a causa dessa melhoria de ânimo.

Mas esse brilho desapareceu quando viu a cara de Peterson. John se virou para voltar a olhar ao federal.

— O que aconteceu?

— Vamos nos sentar — disse Peterson. Cruzou o vestíbulo e se aproximou das janelas que olhavam ao mar. Não os olhou.

— Quinn, nos diga o que aconteceu? Assassinou a alguém mais? — perguntou Rowan, com voz trêmula.

Peterson se voltou para olhá-los, com os olhos avermelhados.

— É Michael. O safado atirou nele.

John nem sequer ouviu o sobressalto na respiração de Rowan. Sentiu o coração como um martelo no peito, um zumbido nos ouvidos. Seu irmão. Não.

— Que hospital? Onde?

— Michael morreu.

— Não. — John sacudiu a cabeça. — Mas que inferno! Não! — Lançou um pontapé à mesa de centro de vidro com o pé descalço, e esta caiu e se fez em pedaços contra a mesa do fundo da sala.

Michael. Não, Michael, não. John olhou para Peterson e soube que não havia nenhum engano.

Michael estava morto.

Um intenso vazio físico se apoderou de seu peito, dez vezes pior que qualquer dor vivida antes. A morte de seu pai foi um golpe que sacudiu toda a família. A morte de seus companheiros no exército era uma ferida na alma. A morte absurda de Denny tinha transtornado tudo aquilo no que John acreditava, e tinha acabado de forjar seu caminho.

Mas, Michael. Seu melhor amigo. Seu irmão.

Todas as mortes, todos os assassinatos absurdos por questões de drogas. Tinha visto mais sangue e entranhas abertas que qualquer um em toda sua vida. Nada o tinha preparado para isto.

Imaginou Michael, o sangue fluindo de seu corpo inerte. Os olhos abertos, vidrados… Teve que afastar aquela visão com os olhos imprecisos pelas lágrimas não derramadas.

— O que… aconteceu? — Seu fôlego era um assobio áspero, enquanto tentava controlar sua ira.

— Ontem à noite ele foi a um bar, a umas quadras de seu apartamento. O Pistol. Ao que parece, é um lugar aonde os policiais vão.

John conhecia o lugar. Michael estava acostumado a ir quando estava arrasado. E a noite anterior estava de saco cheio.

— Esteve ali uma hora, mais ou menos, bebeu moderadamente forte. O barman não pensou que estivesse bêbado, só um pouco tocado. Foi a um restaurante de comida rápida, comeu algo, e voltou caminhando para casa. Falou com alguém no bar durante um tempo, e a polícia está interrogando o barman para obter uma descrição. É um cara de cabelo loiro escuro, uns quarenta anos. Saiu antes que Michael, mas…

Quinn fez uma pausa, pigarreou, e seguiu:

— Michael entrou em seu apartamento e a polícia acredita que lá dentro um intruso o esperava. Dispararam-lhe três tiros no peito. Morreu em seguida.

John apertou os punhos com força. Tinha vontade de golpear a alguém. Matar a alguém.

— Não, não pode ser. — Mas seu tom de voz dizia justamente o contrário.

— Não se incomodou em ocultar o corpo. Três vizinhos chamaram o 911. Eu teria vindo antes mas a polícia local demorou um tempo em relacioná-lo com os outros casos. O chefe em pessoa me chamou faz menos de uma hora. Vim em seguida.

Quinn ficou olhando, e em seu próprio rosto se adivinhava a dor e a compaixão.

— É o mesmo safado. Deixou… uma nota. Sinto muito, John. Sinto de verdade.

A cabeça de John era uma mescla de lembranças, de planos e vingança. O assassino tinha ido pegar Michael. Por que? Não estava nos livros. O fez porque podia. Para demonstrar a Rowan que podia alcançar a ela também.

Girou-se e olhou para Rowan. Sentiu-se açoitado por emoções complexas e contraditórias. Raiva. Tristeza. Dor. Culpa. Era culpa sua. Havia dito a Michael que fosse para casa para que ele pudesse conseguir que Rowan falasse.

E deitar-se com ela.

Tinha desejado isso desde o começo, sabendo que entre eles havia um vínculo invisível assim que se cumprimentaram. Michael apreciava Rowan, mas John não lhe reconhecia nenhuma capacidade de saber onde estavam seus sentimentos. Tinha-lhe atirado na cara o caso de Jessica como recriminação. Tirou Michael do prumo, o manipulou para tirá-lo de cogitação. Brigaram e John tirou seu ás da manga, conseguiu que o FBI dissesse a Michael que tomasse uma noite livre.

Ele tinha mandado seu próprio irmão para a morte.

Jamais poderia dizer a Michael quanto o sentia.

Deixou escapar um gemido rouco e gutural, e não pôde olhar para Rowan nem ver as lágrimas que lhe banhavam o rosto. Necessitava de ar. Tinha que sair dali.

— Tess — disse, com uma voz que traduzia toda a dor não reprimida.

— Ainda não sabe. Tem que reunir-se comigo no quartel geral as nove, mas…

— Eu o direi. — Passou junto de Rowan sem olhá-la. Saiu da casa sem dizer uma palavra.

Rowan o viu partir, sentindo toda sua dor na própria carne. Sentindo sua própria dor.

Era tudo culpa dela.

Aquele safado queria torturar a ela, mas enquanto isso estava fazendo mal a pessoas inocentes.

Quem era? Quem conhecia seu passado? Tinha que ligar para Roger. Tinha que saber que dados ele tinha, o que tinha descoberto. Ele era o maldito FBI! Não podiam ficar tanto tempo nessa incerteza. Tinham que suspeitar de alguém.

E se o assassino sabia sobre sua família, podia ser que soubesse da existência de Peter. Se alguma coisa acontecesse a ele…

Mas não podia deixar de pensar em Michael.

Em John. Em Tess.

Meu Deus, por que? Por que ele tinha pegado Michael?

Porque podia.

— Rowan. — Quinn se aproximou, pisando nos pedaços de vidro sobre o tapete. Franziu o cenho ao ver os cacos, mas não disse nada. — Temos que te levar para uma casa segura.

—Não — disse ela, e fechou os olhos enquanto esfregava a testa. A dor de cabeça que se desvaneceu em algum momento da noite anterior voltou, com renovada virulência.

— Seja razoável. Roger não te permitiria…

— É não. E já está feito. O assassino virá até mim. E eu matarei a ele.

— É um cara difícil de pegar. É inteligente. Não posso deixar que se exponha a esse risco — advertiu, e lhe pôs uma mão no ombro. Ela a tirou de cima.

— A decisão não é assunto teu. Não penso em sair fugindo para que siga matando a mais pessoas. Se ele pode matar Michael… — disse. A voz lhe quebrou e reprimiu um soluço. — Pode matar a qualquer um. A ti. A Tess, a Roger. Mas ele procura a mim. Dedica-se a estas variações para me demonstrar que é mais inteligente. Mais forte.

Respirou fundo e endireitou os ombros.

— Não tem nem uma maldita idéia de com quem se meteu.

  

Rowan esperou durante uns cinco longos minutos. Afinal, Roger atendeu.

Sem preâmbulos Rowan lhe perguntou.

— O que você conseguiu averiguar?

— Rowan, passei toda a noite lendo seus arquivos. Tenho a uma equipe seguindo a pista de cada um dos policiais atribuídos à investigação. E bem, isto foi o que pensei ontem à noite. O que tem sobre as famílias dos dois guardas que Bobby matou? Não posso entender como nem por que acossariam a ti, mas é o único que me ocorre.

O coração de Rowan se acelerou. Vingança. Perseguiam-na porque seu irmão tinha matado brutalmente a um pai, a um irmão, talvez a um de seus filhos. Era plausível, sobre tudo porque Bobby tinha morrido e era impossível vingar-se dele. Mas por que agora? Por que dessa maneira?

Durante muitas noites ao longo dos anos, Rowan tinha despertado tarde da noite, desejando que Bobby estivesse vivo para que ela pudesse matá-lo com suas próprias mãos. Ele lhe tinha roubado tudo, tudo exceto a vida, mas sua própria existência era um vazio desde que Bobby tinha matado a suas irmãs.

Se de algum jeito aquilo estivesse relacionado com Bobby, teria um pouco mais de sentido para ela.

— Você está verificando? — Estava desesperada. Desesperada e agarrada a uma folha de grama. — Mas por que esperar vinte e cinco anos? Por que esperar algo?

— Tenho Vigo trabalhando em um retrato falado, mas ainda não produziu nada útil. — Hans Vigo era o melhor perito em retratos falados do FBI, mas Rowan sabia que o retrato era só tão bom como a informação que se dava ao especialista.

Faltava-lhes muita informação. Mais do aceitável. Pela primeira vez em quatro anos, arrependeu-se de ter deixado o FBI.

— O que há sobre o assassinato dos Franklin? Disse que falaria com o irmão de Karl Franklin. Há…?

— Nada — a interrompeu Roger. — Eu fui ver-lo, falei com ele. O homem está em uma cadeira de rodas. Fui ver seu médico e é verdade. Não pode caminhar. Não poderia estar implicado, embora tivesse um motivo. Tudo em Nashville acabou em um beco sem saída.

Um beco sem saída. E ela estava tão segura de que estava relacionado com o caso Franklin. As tranças.

Dani.

Estava relacionado com Dani. Relacionado com sua família.

— Tem que ver com meu passado, Roger. Tem que descobrir o que está acontecendo. E me dizer isso em seguida. Falo a sério, Roger, não tente me proteger. Tenho que saber a verdade.

Depois, ligou para Peter na casa do pároco em Boston, mas seu irmão estava na igreja. Deixou uma mensagem breve, com seu código pessoal, e então se deixou cair na enorme cadeira do escritório. Ocultou o rosto entre as mãos e se permitiu um momento de auto-compaixão, de dor por sua própria vida. Sua família morta. E agora, Michael.

E a perda de algo que quase tinha tido com John, uma conexão com ele que não havia sentido jamais com outro homem. Durante aquele breve interlúdio, acreditou que podia converter-se em algo grande, melhor do que ela merecia.

Mas agora tudo isso tinha acabado. Como uma vida segada antes de tempo, qualquer indício de relação entre ela e John havia se apagado bruscamente.

O que esperava? Ela não merecia John. Freqüentemente tinha pensado em si mesma como meia pessoa, incompleta. menos da metade. Não podia apontar aquilo que não tinha, mas sabia que algo lhe faltava. Por que, se não, era incapaz de tecer vínculos de afeto com outros como uma pessoa normal? Por que lhe custava tanto manter-se em contato com suas poucas amigas, como Olívia e Miranda? Por que não podia ter uma relação com um homem?

Com John tinha desenvolvido um vínculo mais forte que com qualquer um de seus amantes anteriores. Mas tinha que ver onde estavam agora.

John nunca a perdoaria. E ela não podia perdoar a si mesma.

Sobressaltou-se com campainha do telefone, mas esperou até o segundo toque para atender.

— Rowan. É Peter. O que aconteceu?

Ele sabia que ela nunca deixaria uma mensagem a menos que fosse importante.

— O safado filho da puta matou Michael. Meu guarda-costas.

— Meu Deus. — Rowan imaginou Peter fazendo o sinal da cruz. — Lhe feriram?

— Não, matou-o em sua noite livre. — Enquanto eu fazia o amor com seu irmão. O sentimento de culpa a fazia tremer inteira.

— Posso chegar em questão de horas…

—Não! Fique aí. Está seguro. — Não tinha sido sua intenção gritar, mas se algo acontecesse a Peter… Não podia nem pensar nisso. — Não há algum lindo monastério, um lugar seguro, onde você possa ficar por algumas semanas? — Quis que sua voz soasse relaxada, mas fracassou categoricamente.

— Se não veio até mim, é por que não sabe da minha existência.

— Se algo acontecesse a ti, não sei o que faria.

— Estarei alerta. Além disso, há alguns de teus amigos do FBI estacionados em um sedan muito ostensivamente camuflado frente à casa do pároco. Tenho certeza de que aqui não me acontecerá nada.

Era o mesmo que Michael pensava. Rowan se estremeceu.

— Peter…

— Ficarei, a menos que me necessite.

— Se mantenha afastado de mim.

— Estou preocupado contigo.

— Saberei me cuidar sozinha. — Falava como uma garota petulante. — Acredito que este cara sabe tudo o que aconteceu com mamãe e às meninas. Sabe tudo. Não sei por que, mas pegar a mim. Te ocorre alguém… por absurdo que pareça… que pudesse fazer algo assim? Lembra de alguma coisa daquela noite, dessa época, de algo, que dê a Roger uma pista para investigar?

— Roger já me ligou no outro dia.

— Outro dia? — perguntou ela, franzindo o cenho.

— Sim, acredito que foi na quarta-feira.

Na quarta-feira? Mas isso foi antes que Rowan lhe falasse de suas novas suspeitas. Talvez ele tivesse chegado às mesmas conclusões e não quis preocupá-la. Que estranho que não o mencionasse quando haviam se falado antes.

— O que queria?

— Exatamente o mesmo que você. Lembranças. E eu disse que não tinha nada. Bobby está morto, e é o único que me ocorre que seja capaz de matar tão sem piedade.

  

Com o coração descontrolado, John caminhava de cima para baixo pelo pequeno apartamento de Tess, como um tigre enjaulado e enfurecido. A pele ardia. Cada fôlego era um golpe de dor quente e penetrante contra seu estômago.

Michael estava morto.

Ao contar isso a Tess, ela havia ficado histérica. Chorou, e seus soluços nasciam das vísceras; seus gritos eram agonizantes. Durante uma hora, agarrou-se a John. Culpou Rowan de tudo.

— É minha culpa — disse John. — Eu insisti que ele tomasse umas horas livres. — Para poder me atirar sobre Rowan. Uma culpa negra lhe apertava o coração.

— Não, não, é ela! Você disse que ela guardava alguns segredos! Ela o matou. Matou o meu irmão!

John demorou um bom tempo para acalmar Tess e convencê-la a se deitar um pouco. Ela soluçou em silêncio e quando parou, John foi vê-la. Já adormecida, seu rosto irritado era uma viva testemunha de sua dor.

A ira, a raiva e a culpa lhe roíam as entranhas até que viu tudo em vermelho; sua fúria consumindo até o último poro. E agora caminhava de um lado para outro.

Matarei esse safado.

É tudo minha culpa.

Michael teria ficado na casa de Rowan se ele não tivesse intervindo. Se ele não tivesse estado tão crédulo de que podia conseguir que Rowan falasse, e tão convencido de que Michael não seria mais que um estorvo, seu irmão estaria vivo. Se não tivessem discutido, Michael não teria ido ao bar. Teria podido defender-se se não o tivesse pegado com as defesas baixas. Recordava que, segundo Peterson, o intruso no apartamento tinha disparado imediatamente.

Não tinha tido tempo de reagir. Mas Michael era treinado. Se não tivesse bebido, teria tido uma oportunidade.

Possivelmente.

Um gemido agonizante escapou de sua boca e se tragou as lágrimas que lhe queimavam. Já teria tempo para sofrer. Agora tinha que encontrar a um assassino.

Serviu-se de alguém que lhe devia um favor para conseguir o número do celular de Roger Collins, e o chamou.

— Collins — respondeu o diretor adjunto depois de três toques.

— Senhor Collins, sou eu, John Flynn.

Seguiu uma longa pausa.

— Acabo de saber sobre o seu irmão. Sinto muito.

— E eu ouvi coisas a respeito de você.

— E isso o que se supõe que significa?

— Sei tudo a respeito de Lily Macintosh e de que você era seu representante.

— Rowan lhe contou?

— No final, eu tive que surrupiar, mas ela me contou tudo. — John olhou pela janela do apartamento de Tess, concentrado só em obter informação. — Você conhece os detalhes deste caso. Esse idiota conhece o passado de Rowan. Sabe sobre sua família. Sabe que se chamava Lily! — Não tinha intenção de gritar, mas estava muito tenso. Não ajudará Michael se perder a calma agora.

Mais tranqüilo, John disse:

— Sei que Peter Macintosh está vivo e que agora se chama Peter O'Brien. Pelo visto, é sacerdote em Boston. Suponho que está bem informado do passado de Rowan.

— Peter? Você está muito perdido, Flynn.

— Não acredito. A menos que você tenha outra idéia.

Outra longa pausa.

— Tenho uma equipe vigiando Peter desde que houve o segundo assassinato. Não saiu de Boston.

— Acredito que teria que rebater essa informação.

— Ouça, Flynn, não me diga como tenho que fazer meu trabalho.

John ignorou a ameaça implícita no tom do diretor adjunto. Não se importava se os funcionários de alta classe se zangassem.

— Você sabe que este cara vai tentar pegar Rowan. E o conseguirá, a menos que você verifique quem conhece seu passado. Ao que parece, você é o único que está em uma posição para fazer algo a respeito — ficou em silêncio por um momento. — Meu irmão está agora em um necrotério porque você e Rowan ocultaram seu passado. Todos os recursos destinados a revisar seus casos é tempo perdido. Deveríamos nos ter remontado mais atrás. Sem reter informação. E vocês, ao contrário, ficaram calados. A morte de meu irmão pesa sobre sua consciência.

— Você não se atreva a dizer isso a Rowan, senhor Flynn. Rowan esteve no inferno e voltou, e…

— Isso não me importa nada. — John fechou os olhos com força e apertou a ponta do nariz. Só podia ver a expressão de desamparo de Rowan quando contava o assassinato de sua mãe. Merda.

Entretanto, Michael estava morto.

— Por que não investigou com mais profundidade, Collins? Embora Rowan não soubesse, ou não entendesse, tudo o que havia em jogo quando lhe aconteceu isso de pequena, você sim o entendia.

— Estive revisando velhos arquivos, falei com pessoas…

— Pelo visto, não foi o suficiente.

— Tenho seis agentes seguindo a pista da família dos dois guardas que Bobby Macintosh matou quando tentou escapar.

— Deveria tê-lo feito desde o começo. — John tinha a mandíbula tão apertada que quase não podia falar.

— Flynn, estamos fazendo tudo o que está em nossas mãos. Acaso não se dá conta de quão complexa é esta situação? —Roger falava com um tom de frustração, falava muito alto e rápido.

— Complexa? O que você está ocultando? — perguntou John. Algo não estava bem.

— Não sei do que você está falando — disse Roger, rápido e seco. — Estive trabalhando vinte e quatro horas por dia sem parar desde que mataram Doreen Rodriguez. Não acredita que não tenho feito todo o possível. Rowan preocupa-me mais do que você poderia imaginar. Como se fosse minha própria filha.

Minha filha. Aquilo lhe recordou o sacerdote.

— Espero que investiguem Peter O'Brien a fundo e que você pense no assassinato da família de Rowan com um pouco mais de clareza. Alguém que tem um conhecimento íntimo de sua família matou a meu irmão. E — prosseguiu John, em voz baixa —, matará Rowan se não encontrarmos ele antes.

— Já sei disso. — A voz de Collins tremia de raiva.

Bom, pensou John. É importante que se zangue.

— Flynn, sei que é um momento difícil, mas pensa seguir com este caso? Tenho que substituí-lo?

John fechou os olhos. A vingança que procurava lhe pesava na língua, nublava-lhe o juízo. Era capaz de fazê-lo? Era capaz de proteger Rowan?

Ou talvez ele também acabasse morto, com os reflexos anulados pela raiva em lugar do álcool? Mas que outra coisa podia fazer? Se não tomasse parte de tudo aquilo, teria que se desligar. Não podia ficar à margem, olhando o que ocorria, perguntando-se se a morte de Michael seria vingada, ou se safado pegaria prisão perpétua.

Ou se Rowan também acabaria morta.

Tinha as emoções muito a flor de pele no que concernia a ela, assim a afastou de seus pensamentos e se despediu de Collins.

— Amanhã voltarei. Hoje tenho que estar com minha família.

— Eu entendo.

— Me mantenha informado — disse John, e desligou.

Não podia pensar em Rowan. Nesse momento, não. Aquilo era um trabalho, e algo mais que um trabalho. Deixaria de pensar nela, ao menos durante esse dia.

Dirigiu-se ao quarto de Tess. Pensou que a tinha ouvido mover-se enquanto falava pelo telefone, e queria assegurar-se de que se encontrava bem.

— Tess? — perguntou, e chamou brandamente.

Não houve resposta.

John abriu a porta e ficou olhando a cama desfeita. Não estava. Depois de uma rápida olhada pelo apartamento, soube que tinha saído.

E ele sabia exatamente aonde tinha ido.

  

Rowan ouviu o zumbido familiar de um Volkswagen na entrada e suspeitou que Tess tivesse vindo para dizer o que pensava sobre ela. Fechou os olhos e se reclinou em sua cadeira preferida, uma cadeira de ler muito acolchoada que lhe tinha fascinado ao entrar naquela casa estéril uns meses atrás com Annette.

Tinha pensado em passar ali o mês de julho e então voltar para sua cabana nos subúrbios de Denver. Sentia falta do único lugar que considerava seu lar desde aquela fatídica noite de vinte e três anos atrás.

Mas poderia ir dentro de dois meses? Apanhariam o assassino? Ou ela seria sua próxima vítima? Seria a última?

Podia ser que valesse a pena sacrificar sua vida se ela fosse a última. E se pudesse desmascará-lo de uma vez.

Aquela idéia, na realidade, acalmou-a. Vingança, justiça, paz. Depois do assassinato de Michael, nada que não fosse a morte lhe devolveria a paz. Embora ela não tivesse apertado o gatilho, como podia viver sabendo que era responsável por sua morte? O assassinato de Michael estava vivo em sua alma, e temia que essa ferida nunca sarasse. Michael tinha ido se reunir com Dani. E com Rachel, Mel e sua mãe.

Enquanto ela jazia satisfeita nos braços de John, haviam baleado Michael.

Não sabia se seria capaz de voltar a olhar para o rosto de John. A dor e a agonia que certamente estava vivendo… e a tristeza em seu rosto. Sabia muito bem como se sentia. Algo lhe retorceu dolorosamente no estômago.

A porta do escritório se abriu com tanta violência que a maçaneta bateu contra a parede e amolgou o revestimento. Tess entrou com grandes passadas, o rosto banhado em lágrimas mas com gesto decidido. A dor. O ódio. O cabelo curto e preto estava todo emaranhado, e tinha o vestido enrugado.

Quinn estava atrás dela, com cara de preocupação, mas Rowan não lhe prestou atenção. Concentrou-se na irmã de Michael.

— É tudo culpa sua! — exclamou Tess.

— Sinto muito — disse Rowan. — Acredite que sinto muito. — levantou-se e se virou para olhar Tess de frente, disposta a assumir qualquer castigo.

— Você mentiu! Você guarda seus segredos e Michael está morto. John me contou tudo. Eu… não te perdoarei jamais. Espero que ele te encontre. Espero que acabem os dois ardendo no inferno.

O que Rowan podia dizer? Ela também esperava que o assassino a encontrasse. Então teria a oportunidade de detê-lo. E, se morresse na tentativa, não seria uma grande perda para o mundo.

— Eu sei. — Foi o único que disse.

— Tess, não diga essas coisas — disse Quinn, e lhe pôs uma mão no ombro. Ela o apartou com um gesto e avançou um passo.

— Sim, eu sei.

Rowan não se deu conta antes, mas agora viu que Tess tinha os mesmos olhos verdes de seus irmãos, só que um pouco mais claros. Eram muito parecidos. Tess. Michael. John. Não podia pensar em John nem no que tinham feito na noite anterior. Que engano mais estúpido e egoísta! Um engano havia custado a vida de Michael. Michael deveria ter estado ali, ainda vivo.

Mas se John tivesse voltado para seu apartamento, acaso o assassino teria preparado uma armadilha mortal a ele?

Michael não teria se zangado com seu irmão por obrigá-lo a tomar a noite livre. Enfrentado John por causa dela.

A consciência dessa verdade quase lhe fez cambalear. Michael tinha se dado conta, ou ao menos intuído a tensão e a atração que havia entre ela e John. Estava ciumento. Brigou com seu irmão por causa dela, não só porque John insistisse em que descansasse aquela noite.

Era culpa dela.

Elevou o queixo e, olhando a Tess, assentiu.

— Não te reprovo nada, Tess. Michael era um cara excelente, e eu…

— Não diga isso! — chiou Tess e avançou para Rowan com as mãos apertadas nos lados. — Não fale dele! Era meu irmão! Cadela! — Começou a golpear Rowan com os punhos e Rowan a deixou. Por dentro se sentia intumescida, morta. Tinha alguma dor para comunicar? A dor dos golpes era como a agonia da morte, os pesadelos, a culpa que lhe apertava a alma com seu punho ferino.

— Tess, por favor. — Quinn se aproximou delas e tentou suavemente que soltasse Rowan.

Ouviu-se uma batida de porta na entrada. Quinn desencapou sua arma e saiu da sala com toda pressa. Um instante depois, John irrompeu no escritório com Quinn lhe seguindo os passos.

— Tess! — John a agarrou e a fez virar-se. Tess chorava descontroladamente e começou a golpear a seu irmão no peito. Ele a agarrou pelas mãos e tentou dominá-la com gestos suaves. — Tess, querida, pare. Por favor, querida, não continue. —Falava com voz tranqüila, acalmando-a, controlando a situação.

O lábio inferior de Tess tremeu e tinha o rosto banhado em lágrimas. Afinal, deixou-se cair em seus braços, soluçando.

John conseguiu cruzar um olhar com Rowan antes de sair do escritório. A mescla de dor e raiva que Rowan viu em sua expressão dura e angulosa foi como uma punhalada.

Quinn se aproximou, pôs-lhe um braço no ombro e a ajudou a sentar-se novamente na cadeira.

— Rowan, não é tua culpa. — Acariciou-lhe as costas e lhe apartou o cabelo do rosto. — Não culpe a si mesma.

Ela não respondeu. O que podia dizer? As últimas duas semanas tinham sido um longo e interminável pesadelo. Acabaria de uma vez? Ele a encontraria finalmente para que pudesse ter um pouco de paz?

A justiça.

Não podia deixar que escapasse. Quando a encontrasse, será que lhe contaria entusiasmado todos os seus crimes? Procuraria suas adulações? Seu horror? Sua ira? Não importava o que ele quisesse dela, porque só estava disposta a lhe dar um balaço.

Mas primeiro tinha que confirmar que Roger fazia o que lhe tinha pedido.

— Rowan. Tess não dizia nada disso a sério. Está destroçada.

Rowan olhou para Quinn. Seu rosto atraente traduzia toda sua tristeza e sua inquietação.

— Protege-a, Quinn. Quando as pessoas se alteram, fazem tolices. E chama à polícia de Dallas e de Chicago, e ao FBI. Te assegure que entendam a importância de avisar as prostitutas. Sobre tudo às garotas da muita importância.

— Já nos encarregamos disso…

— Volta a ligar! — exclamou Rowan, e se apertou a ponto do nariz. Não servia de nada gritar com Quinn. Não era culpa dele.

— Certo — disse ele, com voz fraca. — Rowan, pode ser que te surpreenda, mas sei o que faço. Faz quinze anos que trabalho como agente. E Roger não descansou desde que isto começou.

— Eu sei, sinto muito. — Rowan o tocou no braço. — Só que… — disse, e gesticulou para a estante onde guardava os exemplares de seus livros. Aproximou-se deles e ficou olhando.

— Sentia algo tão catártico ao escrever estes livros, sempre conseguindo que o bem triunfasse sobre o mal, quando nós dois sabemos que os maus ganham freqüentemente. — Olhou os títulos da estante. Crime de Oportunidade. Crime de Paixão. Crime de Clareza. Crime de Corrupção. E seu último livro, cujo lançamento tinham adiado até que apanhassem a aquele miserável, Crime de Risco.

Tinham-lhe enviado como adiantamento vinte exemplares, mas ela havia trazido cinco a Malibu, se por acaso precisasse enviar a alguém. Tinha dado um a Adam…

E restavam três na estante.

Ficou olhando fixamente, e de repente o pulso se acelerou. Restavam três. Tinham que ser quatro.

— Rowan… — Quinn disse.

— Ele esteve aqui — disse, com voz apenas audível.

— Quem?

— O assassino. Esteve aqui. Aqui mesmo — disse, e apontando a estante. — Ele tem o último livro. Poderia matar a qualquer momento.

  

Faltavam três dias.

Aproximou-se da janela e olhou para a escuridão. Eram três horas da madrugada e tudo estava muito, muito escuro aqui na costa. Ele o detestava. Odiava o mar, as manhãs frias e nebulosas e o ar salgado. Vê-la correr todas as malditas manhãs naquele ar úmido era algo que superava seu entendimento, mas a verdade é que ela sempre tinha sido estranha. O contrário dele.

Com uma exceção. Ela sabia inventar alguns procedimentos muito refinados para a cena da morte.

Em Crime de Risco, o alter ego de Rowan, Dara Young, investiga o assassinato de uma prostituta em Dallas, um crime vinculado a uma série de assassinatos sem resolver em Chicago. As vítimas eram mutiladas e os órgãos vitais eram extraídos com precisão.

Ele já tinha estudado os procedimentos básicos de cirurgia, mas lia as melhores partes, os detalhes de cada assassinato, três vezes para aprender corretamente. Tal como Rowan o tinha imaginado.

Afastou-se da janela e cruzou a sala espaçosa e pouco mobiliada e subiu para deitar-se. Pegou um livro em sua mesinha de noite e acariciou a capa. Crime de Risco. Não estaria nas livrarias até dentro de três dias, mas ele havia subtraído esse exemplar sob o nariz da própria Rowan fazia semanas. Semanas. Antes que Doreen Rodriguez exalasse seu último suspiro. Antes que ele acabasse de desenhar cada golpe, antes de planejar o que faria Rowan.

Mas agora sabia, e seria algo substancial. Muito, muito substancial.

Isso sim, primeiro, Risco. Dallas ou Chicago. Chicago ou Dallas. Hmmm. Pensar em voltar para o Texas o deixava um pouco nervoso, mas o desafio não deixava de ser emocionante.

Chicago, Dallas. Dallas, Chicago. Não lhe importava. Alguma estúpida puta ia morrer com o ventre estripado, de uma maneira ou outra.

Recostou-se na cama, nu e se tapou com o quente edredom. Tinha que concentrar-se seriamente em seus planos.

O dinheiro estava acabando. Era muito difícil se encarregar da puta se não tivesse dinheiro para pagar um bilhete a Dallas. Roubar não era, na verdade, o seu caso, mas a intervalos de alguns meses assaltava algumas lojas e tirava dinheiro suficiente para ir levando. O truque estava em escolher lojas onde as mulheres estivessem no balcão. Estavam acostumados a entregar o dinheiro sem pigarrear e ele abandonava o local em menos de cinco minutos. Só uma vez tinha tido que matar.

Ocuparia-se de suas finanças no dia seguinte, e poria ponto final a seus planos para a puta.

Quanto sabiam? Era evidente que sabiam o suficiente para manter Rowan debaixo de sete chaves.

Havia vários federais cuidando dela. Uma dupla fora da casa, em um sedan que pretendia passar despercebido, e o turno trocava a cada doze horas. Ela se mostrava muito amigável com um dos agentes. E o irmão do guarda-costas. Esse lhe preocupava um pouco. Era um cara esquivo, mais difícil que o guarda-costas que tinha matado. Era mais como um federal curtido, um agente secreto.

Não subestimaria ao irmão. Não, isso seria um engano. Mas tinha tempo. Uma puta no meio oeste e Rowan seria sua.

Sorriu antes de dormir pacificamente.

  

Já era tarde quando John foi ao necrotério. Tinha pedido a sua tia que ficasse com Tess, e então falou com o delegado de polícia, o antigo chefe de Michael, para que ordenasse o reconhecimento do cadáver.

John apenas se deu conta da baixa temperatura no porão enquanto o ajudante do juiz de instrução o conduzia pelo corredor até uma das numerosas salas do depósito. Abriu a fechadura da gaveta B-4, segunda fila debaixo, mas não a abriu.

— Darei-lhe alguns minutos — disse o ajudante, e saiu da sala para que John pudesse desfrutar de certa intimidade.

John ficou olhando para gaveta.

Michael. Michael se encontrava na gaveta B-4.

John se inclinou, pegou o puxador com decisão e fechou os olhos. Como pode estar morto? Como é possível que tenha desaparecido?

A sua relação nem sempre tinha sido fácil, inclusive na infância. A diferença de idade era um pouco mais de um ano, os dois rivais nos esportes e com as mulheres. Mas sempre tinham sido amigos, inclusive quando brigavam. John ingressou no exército, no Comando Delta, e Mickey havia se transformado em policial. Os dois tinham herdado o estrito sentido da justiça de seu pai. Os dois observavam a mesma compaixão de sua mãe pelas vítimas. Quando o pai morreu de uma parada cardíaca aos cinqüenta anos, formaram uma dupla para cuidar de sua mãe e sua irmã. E quando sua mãe morreu no ano seguinte, seguiram juntos. Fundaram a empresa. Cuidavam de Tess.

Claro que tinham tido pontos de desacordo. Jessica era um deles, o mais grave. John nunca tinha acreditado nela, mas Michael tinha certeza de que Jessica mudaria. Umas quantas brigas mais, por isso ou aquilo. Mas quando brigavam, sempre se reconciliavam. Como um casal em um bom casamento, não iam se deitar zangados.

Até a noite de ontem.

Um soluço vazio escapou de sua garganta e John se agachou junto à gaveta. A última vez que tinha falado com Michael estava zangado. Ele tinha ganhado na manobra, e Michael sabia. John sempre ganhava porque jogava melhor. Sabia que teclas apertar e as apertava com acerto para conseguir a reação que queria.

E quando o agente Peterson viu que Michael perdia os estribos, concordou que ele necessitava de uma noite livre. Um planejamento perfeito do tempo. Tempo estabelecido por John. Agora Michael estava morto. E ele não podia dizer a seu irmão que havia se equivocado.

John abriu a gaveta e um jorro de ar frio lhe deu no rosto. O aroma já familiar do produto químico misturado com o aroma da morte lhe embargou os sentidos. Havia visto muitos cadáveres em sua vida. No necrotério, no campo de batalha, na selva.

Mas nenhum era seu irmão.

Os três buracos escuros no peito de Michael contrastavam com a palidez azul de sua pele. O corpo parecia menor estendido na prancha de aço. O cabelo de Michael estava umedecido pelo frio gélido da câmara. Usava o cabelo muito comprido, mas Michael nunca tinha gostado do corte militar que John preferia. Michael, sempre tão cheio de vida e de risadas, sempre disposto a desfrutar com uma boa piada, agora estava morto.

John não se deu conta de que estava chorando até que uma lágrima caiu sobre o pescoço de Michael. Levou uma mão aos olhos e os fechou com força, reprimindo a dor aguda da emoção. Respirou mais fundo, a saltos, sentindo uma pontada no peito que lhe recordava sua tristeza.

— Michael, sinto muito — disse, com um fio de voz. — Encontrarei o seu assassino. E te vingarei. Prometo isso. Não voltarei a te decepcionar nunca mais.

John a observava em seu sono.

Parecia um novelo na cadeira de seu escritório. Segundo todos os indícios, Rowan não tinha saído da sala desde o dia anterior. Seu aspecto era o mais vulnerável. Sua longa cabeleira lhe cobria o rosto, e tinha o rosto apoiado no braço da cadeira e as pernas dobradas. Não parecia uma postura muito cômoda. Inclusive sob a tênue luz que vinha da sala, parecia muito pálida. Perguntou se ela teria comido, e então se perguntou se, na realidade, importava-lhe.

Não lhe importava. Agora, não.

John olhou seu relógio. Eram cinco e meia. Não tinha dormido mais de uma hora, e às quatro horas decidiu que essa noite não dormiria. Não podia tirar da cabeça a imagem de Michael estendido, morto ante seus olhos. Entretanto, por algum estranho motivo, sentia-se tranqüilo. Agora tinha um propósito, um objetivo. A vingança.

Acabava de substituir Peterson e agora preparava café. Collins ligou para lhe dizer que Peter O'Brien, o irmão de Rowan em Boston, não poderia ter cometido nenhum dos assassinatos. Tinha um álibi bastante sólido, a missa diária. John suspeitava que O'Brien não estava implicado, sobre tudo porque era vigiado pelos federais. Ainda assim, insistiu ante o diretor adjunto para que investigassem a ele e a qualquer um que pudesse ter um motivo para perseguir Rowan com esses procedimentos tão doentios dignos de um sádico.

Collins revisava os relatórios do assassinato dos Macintosh e prometeu lhe enviar por fax os recortes dos jornais, as fotos ou qualquer coisa que pudesse servir, ao quartel geral do FBI.

John teria preferido outra maneira de fazer as coisas, mas horas de insônia e de dar voltas e mais voltas, de caminhar e voltar a sentar-se, tinham-no deixado frente à única conclusão possível. Alguém que Rowan conhecia bem tinha matado Michael, e esse alguém tinha formado parte da vida dela há vinte e três anos.

Rowan tinha que olhar os relatórios, procurando algo que saltasse à vista e lhes permitisse encontrar esse safado. Peterson disse que traria Adam Williams para que olhasse as fotos. John estava muito distraído para sentir-se culpado, mas o aguilhão do remorso não cessava. O pobre garoto não estaria tranqüilo no escritório do FBI olhando fotos de cenas de crimes, mas ele era o único que tinha visto o assassino, disso tinha certeza. Era sua melhor esperança.

John pigarreou suavemente, cuidando para não despertar Rowan, mas ela se incorporou de um salto com a pistola na mão. Ele não se deu conta de que dormia com a Glock debaixo do travesseiro.

— John — disse, com voz espessa e adormecida. Afundou-se lentamente na cadeira para tranqüilizar-se.

— Preparei café.

— Obrigada — disse ela, assentindo com a cabeça. Tossiu para esclarecer a garganta. — Onde está Quinn?

— Acabo de substituí-lo.

Ela franziu o cenho quando o olhou.

— Pensei que…

— Seguirei no caso até que apanhe o assassino do meu irmão. — Sua voz soava dura, mas com as emoções a flor da pele.

— Suponho que dar uma corrida hoje não será possível.

— Se você quer dar uma corrida, iremos correr. — Ficou olhando, cuidando-se de conservar um rosto inexpressivo.

— Necessito de um minuto — disse ela finalmente.

— Estarei na cozinha. — Assim que ele fechou a porta do escritório, John recuperou uma respiração normal. Não tinha se dado conta de quão tenso estava falando com Rowan. Detestava vê-la tão assustada, derrotada e com esse olhar vazio. Mas não podia pensar nela, não podia considerá-la e, certamente, não podia preocupar-se com ela.

Protegeria sua vida. Nada mais e nada menos.

Porque se não fosse por ele e seus malditos hormônios, além de sua ridícula briga com Michael, seu irmão ainda estaria vivo. John tinha acusado Michael de deixar-se levar por suas emoções, mas ele tinha caído exatamente no mesmo. Não só se acreditava o único capaz de conseguir que Rowan soltasse toda a verdade, tinha desejado não só sua sinceridade mas também seu corpo.

Rowan viu John sair e afogou um grito. Tapou-se a boca na tentativa vã de prender o som. Não sabia como seria capaz de sustentar-se durante o dia, mas de algum jeito tinha que aquietar-se.

Como podia perdoar a si mesma? Como John a perdoaria?

Subiu para seu quarto e jogou água fria no rosto. Ficou olhando seu reflexo fantasmagórico no espelho. Era ela? Seus olhos azuis claro eram mais cinzas que de costume, vítreos e sem vitalidade. Sua pele tinha uma cor amarelada, o cabelo um tom apagado e seu hálito era horrível. Escovou os dentes duas vezes, lavou o rosto com sabonete e se penteou antes de prender o cabelo.

Na realidade, não tinha vontade de correr, mas lhe parecia importante segurar a barra diante de John. Se ela vinha abaixo, ele teria uma coisa a mais com o que se preocupar. Não queria que ele se inquietasse por ela. Era uma mulher madura, tinha vivido com dor e culpa quase toda sua vida. Um assassinato mais não a faria fraquejar. Limitaria-se a guardá-lo nessa câmara de seu coração onde conservava as lembranças de todos aqueles cuja morte ela tinha contribuído involuntariamente

Michael estava em boa companhia.

Apertou a ponta do nariz e respirou fundo algumas vezes. Era uma tolice sair para correr, sabia. Não tinha comido desde sexta-feira de noite. Mas talvez ajudasse a mitigar a dor.

  

John esperava com ânsia sair para correr. Necessitava disso. Algo que neutralizasse a dor de seu coração. Começariam com três voltas. Quatro voltas poderiam combater a dor. Cinco voltas poderiam afogá-lo.

Mas seria um erro cansar-se tanto. Se alguém os vigiava, seria o momento indicado para atacar.

John olhou pela janela da cozinha, mas só viu a parede da casa vizinha a de Rowan, e uns vinte e cinco metros do precipício reforçado entre os dois terrenos.

Já estava na terceira xícara de café e se obrigou a comer uma torrada. Tinha sabor de papel e agora tinha um nó no estômago, mas lhe serviria para absorver a cafeína. Começava a sentir-se um pouco mais humano.

Rowan entrou na cozinha e se serviu de um copo de água. Tinha melhor aspecto que vinte minutos antes, mas ainda estava pálida. Seus pequenos óculos escuros tapavam os olhos. Parecia preparada. Rígida. Fria. Inexpressiva.

Um pensamento preocupante cruzou por sua cabeça. Rowan não era tão fria como ele tinha acreditado ao conhecê-la. Era uma maneira de ocultar seus sentimentos, como esses óculos que serviam para ocultar seus olhos. Talvez todo o acontecido estivesse lhe afetando.

Maldição, isso não lhe importava. Ele tinha uma missão a cumprir. Encontrar o assassino de Michael e proteger Rowan do fogo cruzado. Não tinha energia para ocupar-se dos sentimentos dela.

— Vamos — disse.

Sobre a areia molhada, ela apurou o passo. Ele conservava uma distância prudente, duas pernadas atrás, mas a apressava a seguir com sua respiração na nuca, lhe pisando nos calcanhares para ir mais rápido, mais duro. Como purgaria a dor a um ritmo tão lento? Necessitava do ar frio para temperar a dor quente, a ardência do sal em seus pulmões.

Por isso a urgia a seguir. Quando ela quis deter-se no final de duas voltas, ele não quis. Nem sequer estava cansado. Sabia que Rowan podia correr duas ou três voltas mais. Tinham corrido muitas vezes e ela estava em excelente forma. Acaso pensava que ele não poderia? Que ficaria pelo caminho? Nem louco.

Quase tinham chegado de volta às escadas da casa quando Rowan começou a correr mais devagar.

— Venha, corre! — gritou-lhe ao ouvido, como um sargento da marinha.

Rowan tropeçou e caiu de joelhos. Ele saltou por cima para não cair sobre ela, mas ao roçá-la tropeçou e caiu ao chão.

Levantou-se rapidamente e permaneceu agachado, varrendo a cena com um olhar e com a pistola desencapada. É uma armadilha, foi a primeira coisa que pensou. O assassino tinha plantado algo na areia para que tropeçassem. Acaso espreitava para dar o golpe?

Só viu as casas tranqüilas longe da praia. Não ouviu mais que o rugido das ondas, a brisa, o grasnido das gaivotas em busca de peixes. Nenhum reflexo do rifle de um franco-atirador, nem rastro de armadilhas.

Por que, então, lhe tinha arrepiado o cabelo da nuca?

— Está limpo, mas teremos que voltar — disse John.

Rowan seguia de quatro, e respirava com dificuldade. Ele lhe estendeu a mão, mas ela não a aceitou.

—Que diabos? — disse. — Temos que continuar. Você é um alvo perfeito aí sentada.

—Deixa-o. — Rowan se deixou cair na areia e afundou a cabeça entre os braços.

— O que está dizendo? — John se agachou e a levantou pelo pulso até a colocar de pé. Tinham-lhe saltado os óculos na queda, e tinha os olhos cheios de lágrimas. Cambaleou-se, incapaz de sustentar-se, e caiu contra ele, enquanto o empurrava.

— Me deixe — murmurou, tentando que ele soltasse o braço.

Não tinha forças e John não custou em sustentá-la. Mas a deixou ir. Ela voltou a cair na areia, com as pernas como duas plumas.

— Me deixe. Ele virá. Você vigia da sacada e, quando vier, o matarás. Em meu armário há um rifle de franco-atirador.

De que diabos ela falava? Utilizar a si mesma como isca? Se Rowan morresse, John perderia outro ente querido. Não podia deixá-la morrer, e não o faria.

Olhou-a no rosto, avermelhado pelo esforço e meio coberta de areia depois da queda. Ela não olhava para ele a não ser ao mar, com os olhos alagados de lágrimas. Seguia respirando com dificuldade e tinha as bochechas afundadas.

Ele não queria pensar na sua dor. Não queria que lhe recordassem o que ele estava fazendo quando Michael morreu. Como tinha manipulado a seu irmão e o tinha enviado à morte.

Como tinha desfrutado estando nos braços de Rowan, abraçando-a, penetrando-a.

Aquele não era nem o momento nem o lugar adequado para uma relação, nem sequer para o sexo. Mas Rowan não tinha a ninguém. Não deixaria ela se oferecer ao assassino como se fosse um cordeiro para um sacrifício.

Levantou-a em seus braços e a levou até a casa. Quando Rowan nem sequer protestou ao ser agarrada como um bebê, ele soube que não estava nada bem.

John não tinha refletido sobre como Rowan se sentia pelo assassinato de Michael. Pouco a pouco foi se dando conta de que tudo aquilo lhe provocava uma dor espantosa. Mas Michael não era seu irmão, nem seu melhor amigo. Só tinha sido seu guarda-costas.

Ainda assim, em sua imaginação, ela era responsável por todas aquelas vítimas que caíam nas mãos do assassino. John deveria ter pensado antes nessa associação, mas tinha estado muito concentrado em conseguir que lhe contasse a verdade e depois em chorar a morte de Michael.

Ela também estava sofrendo.

Deixou-a sobre o sofá, mas ela não queria olhá-lo, e ficou estendida olhando o teto. Ele a viu esforçar-se para controlar suas emoções, e a viu retirar o escudo que tinha construído com tanto êxito.

Rowan estava esgotada pelo esforço depreendido na corrida além do pouco sono. Teria comido? John duvidava. Ele não tinha podido comer no dia anterior. Só tomou algumas colheradas da sopa e unicamente porque Tess o tinha obrigado a comer algo.

Deixou-a e foi à cozinha para servir-se de mais café. O que ia fazer agora? Mal podia manter a compostura. E o que faria para que Rowan mantivesse a sua?

Centrar-se, droga; ele sabia centrar-se. Todos esses meses, e anos, perseguindo Pomera e suas operações. Depois que Denny morreu, infiltrado no bando de traficantes e encarregando-se lenta e trabalhosamente dos camelos, um após o outro. Centrar-se. Perseverança. Paciência.

Faria-o. Por Michael.

Isso significava que necessitava de Rowan e qualquer informação que guardasse em sua cabeça. Embora lhe parecesse irrelevante. E não poderia obter nada dela se ficasse doente de culpa.

A comida não era mais que combustível, e isso era bom, posto que John não sabia cozinhar. Torrou um pouco de pão de trigo e fez um sanduíche de manteiga de amendoim com geléia. Presumiu que Rowan gostava de manteiga de amendoim com geléia, posto que as tinha comprado. Serviu-lhe uma xícara de café e a levou para a sala.

Rowan não estava.

— Droga. — Foi ao escritório e a encontrou ali, em um canto, olhando pela janela através das venezianas parcialmente abertas.

— Ele esteve me observando — disse, sem se voltar, com voz suave e rouca.

— Como sabe?

— No princípio, foi uma intuição. Não tinha me dado conta antes, mas de vez em quando me sentia incômoda. Uma comichão nas costas, mas não vi ninguém que me observasse de maneira estranha. — Sacudiu a cabeça e se olhou os pés. — Esteve aqui, John. Na minha casa.

— O que? — John ficou tenso e imediatamente ficou em alerta.

Por fim, Rowan lhe dirigiu um olhar por cima do ombro antes de se virar para a biblioteca. Naquele momento, seu rosto expressava todo o tumulto de emoções que normalmente dissimulava.

— Levou um de meus livros. Sei que foi ele. Eu o disse a Quinn. Ele ordenou que revistassem toda a casa mas por enquanto não há nada. Não acredito que seja capaz de agüentar isto, John.

Ele teve que aguçar o ouvido para entender o que dizia. Deixou o sanduíche e o café na mesa e se colocou atrás dela.

— Claro que poderá.

Estremeceu-se ao pensar que o assassino de Michael tinha estado na casa de Rowan. Teria entrado enquanto ela dormia lá em cima? Quando? Quanto tempo levava espreitando-a antes de idealizar essa tortura doentia e cruel?

— Não sou tão forte como pensa. Abandonei o FBI porque era fraca.

— Abandonou porque tinha que descansar. Todos necessitamos de uma pausa, sobre tudo por fazer o que fazemos. Rodeados pelo mal. Lutando contra o mal e nem sempre saindo vencedores.

Ela se girou e lhe lançou um olhar, embora os olhos pareciam surpreendentemente vazios. No que estaria pensando? Tinha decidido desistir?

— Você nunca desistiu — disse. — Nunca desistiu de lutar por Denny.

— Isso é diferente.

— Dom Quixote e os moinhos de vento — disse ela, assentindo pausadamente com a cabeça. — Eu só sou um moinho a mais, John. Volta para sua irmã. Ela te necessita. O FBI não me deixará desprotegida.

Acaso queria que ele partisse?

— Não — disse —, ficarei até o final.

Ela o olhou fixamente, o rosto endurecido, embora um leve franzido dos lábios delatasse um biquinho reprimido.

—Não posso viver com o peso de outra morte em minha consciência.

— Não me acontecerá nada. — John a agarrou pelos ombros. Não tinha a intenção de sacudi-la com tanta força, só lhe dar uma pequena sacudida para que ela soubesse que falava a sério. Entretanto, ela lançou a cabeça para frente e ele viu uma faísca do fogo presente em seu olhar.

Bem. Tinha que saber que sua decisão era a sério.

— Rowan, ficarei até o final. Esse cara matou meu irmão. E matou outras seis pessoas inocentes. Está te atormentando. Não descansarei até que ele esteja morto. — Tinha querido dizer «até que seja capturado», mas não se corrigiu.

— Ou até que você morra — murmurou ela, e se separou dele. Deteve-se junto à mesa onde esperavam o sanduíche e o café. Ficou olhando o pão por um bom momento, mas não o tocou. Dirigiu-se à porta. — Acabo de falar com Roger. Pedi-lhe que me mandasse todos os arquivos sobre a morte de minha mãe e Dani. Me disse que já os enviou. — Ficou olhando. Não era um olhar acusador mas sim de cumplicidade. — Quando saímos?

— Devia ter dito — disse ele, pensando que deveria tê-la avisado.

Ela assentiu com gesto silencioso.

— Em duas horas. Peterson está ordenando os arquivos à medida que os recebem de Washington.

— Estarei no meu quarto — disse ela, e saiu.

Droga. O que tinha ocorrido? No que Rowan pensava? Tinha que saber que ele a protegeria até o final.

  

Rowan sonhava.

Incapaz de pôr fim ao sonho, este ocupava sua mente, quase a acalmava, como uma canção de ninar. Ela estava fora de sua cabana no Colorado, a casa em forma de A que ela considerava seu lar. A paz e a alegria. Lar. Finalmente a sós. A morte, a violência e o sangue eram uma lembrança do passado distante.

Ainda clareava quando saiu para o jardim da cabana, mas ao voltar a entrar já estava escuro. As luzes não funcionavam, mas ela ouviu alguém no andar de cima. E embaixo. Intrusos? O coração lhe pulsava com força.

Rowan, sou eu.

Michael, disse ela, pronunciando seu nome em voz alta. Michael, você está morto.

Ele riu e ela não pôde reprimir um sorriso. Os mortos não sorriam. Não falavam nem lhe faziam sentir-se como se tudo fosse sair bem.

Tudo era só um pesadelo. Tudo. Nada disso ocorreu. Ninguém te espreita. Tudo sairá bem.

Graças a Deus. Talvez as orações de Peter tinham sortido efeito, e o Deus que ela via como cruel e perverso tinha algo de bondoso.

Lily! Brinca comigo!

Dani veio correndo até ela e se enredou entre suas pernas. Tinha três anos, e suas tranças escuras e encaracoladas balançavam no ar, para cima e para baixo.

Dani. Mas se…

Era tudo um pesadelo, disse Michael, saindo de entre as sombras. Estava usando um smoking. A mancha vermelha que se estendia pelo peito lhe chamou a atenção.

Michael, atiraram em você. Era sua voz? É um sonho, disse. Nada disto é real.

É real, Lily. Dani a olhou com seus grandes olhos azuis. Rowan se agachou e abraçou a sua irmã.

Dani, amo você.

Puxou de uma das tranças, como estava acostumada a fazer, mas esta se desprendeu e ficou na mão. Ela olhou o cabelo que segurava e então a deixou cair, como se lhe queimasse. Olhou a sua irmã, reparou na mancha escura em seu pijama azul, e na cor vítrea de seus belos olhos. Dani desabou em seus braços, e o sangue fluiu entre os dedos de Rowan. Então gritou.

Não grite! Ele te ouvirá.

Era Michael de novo. Michael estava morto e agora falava com ela.

Ele te ouvirá.

Era Doreen Rodriguez, do sofá. Ou, bem, de sua cabeça. O resto de seu corpo estava espalhado pela sala. Uma mão amputada quis agarrar Rowan e ela correu até o outro extremo da sala com Dani nos braços.

Lily, minha doce Lily.

Mamãe?

Mamãe estava na cozinha. Viu-a sair, coberta de sangue. Lily, Lily, sinto muito. As lágrimas de Mamãe eram de sangue.

Ai, Mamãe. Tenho tantas saudades de ti!

Apertou Dani contra seu peito, mas quando voltou a olhar, já não era Dani.

Era Tess.

Não, não! Tinha matado Tess. A ela também? Não podia ser. Ele a tinha matado. Mas John nunca a perdoaria. Primeiro, Michael, depois Tess. Quem mais? Quem mais devia morrer em seu nome?

Por que, por que, por que? Fechou os olhos com força.

Agora caía e abriu os olhos. Estava em sua cama. Em sua própria cama, na galeria de sua cabana. Não estava sozinha. John estava a seu lado, e lhe tocava os seios, o ventre. Suas mãos eram quentes e ela deu um suspiro de alegria. Era seu lugar no mundo. Se aconchegou contra ele, cheia de uma paz e uma saudade que nunca havia sentido, um desejo profundo de estar perto de alguém.

John.

John, que fazia amor com ela. Lento, quente, afetuoso. Era algo belo, não se parecia em nada que tivesse vivido antes. Ele formava parte dela. Eram inseparáveis. Necessitavam um ao outro. Ela o necessitava. Necessitava-o como nunca tinha necessitado a alguém.

Virou-se para olhá-lo no rosto, com movimentos lentos e torpes, como se estivesse sob a água, uma água espessa como o sangue.

John?

Esticou a mão para tocá-lo. Quando a retirou, estava quente e pegajosa. Úmida. Levou os dedos ao rosto. Sangue. O sangue de John.

Levantou-se e ficou olhando a cama. John estava aí estendido, esquartejado. A cabeça saia das vértebras, faltava-lhe um braço e o peito era um corte de entranhas e músculos. Ele a olhava, e seus olhos verdes escuro e vítreos eram acusadores.

É tudo tua culpa. É tudo culpa tua.

De repente, o coração aberto lhe pulsou no peito e lançou um jorro de sangue que a ensopou. John se sentou e os intestinos saíram e começaram a se arrastar para ela. Ele a apontou com o braço estendido. Foi você. Você fez isto. Você, Lily, é você.

Os intestinos subiram por suas pernas e ela gritou. E não parou de gritar.

  

John olhava pela janela da sala enquanto pensava em Michael quando a ouviu gritar. Não era um grito qualquer. Era um grito cheio de terror e dor. Desencapou a pistola, subiu a escada de três em três e irrompeu no quarto.

Rowan se retorcia na cama, e soluçava. John comprovou rapidamente que não havia ninguém mais no quarto. Quando chegou a seu lado, deu-lhe uma bofetada no rosto para tirá-la de seu pesadelo. Mas quando abriu os olhos, viu que ainda estava presa no terror que tinha imaginado. Rowan o olhava com os olhos muito abertos. Tremia tanto que lhe batiam os dentes.

— Você está morto! Você está morto! — exclamou, e descarregou os punhos contra o peito de John. Ele a abraçou quando viu que desabava.

Seus soluços de angústia lhe partiram o coração. Jamais tinha ouvido tanta agonia em uma voz. Mas ela não permitiu que ele a abraçasse por muito tempo. Compôs-se mais rapidamente do que ele esperava e se separou dele.

— Tenho que tomar banho.

— O que aconteceu?

— Um pesadelo. — Rowan se deslizou para fora de seu abraço e desapareceu no banheiro. Ele ouviu que trancava a porta.

Depois de quinze minutos, desceu. Estava de banho recém tomado mas ainda estava pálida e parecia esgotada.

— Você tem que comer algo — disse ele, e a conduziu até a cozinha. Conseguiu que comesse a metade de um sanduíche e tomasse um copo de leite.

Acabavam de sentar-se com uma xícara de café recém feito quando Peterson ligou para lhe informar de que os arquivos de Rowan estavam preparados. John teve dúvidas a respeito da conveniência daquela idéia. Temia que Rowan estivesse a beira do abismo, e que aquilo pudesse lhe dar o empurrão final.

Entretanto, ele tinha que encontrar o assassino do seu irmão.

Quando se desatava uma batalha, devia prevalecer a justiça. E assumir as conseqüências.

— Ninguém te obriga a fazer isto — lhe disse, meia hora mais tarde. Estavam no estacionamento subterrâneo quase vazio do quartel geral do FBI em Los Angeles. Nos domingos não havia muita atividade.

Ela se olhou as mãos e as sustentou apertadas sobre a saia.

— Sim, tenho que fazê-lo. Você sabe e eu sei. — Falou com voz baixa mas firme. Olhou-o com olhos inexpressivos. — Não se preocupe comigo.

Foi como se lhe fincassem uma faca nas costas. Não se preocupe comigo. Rowan o disse como se suspeitasse que ele não se preocupava com ela. E o irônico era que quando tinha disposto aquilo, não lhe preocupava. Não lhe importavam as conseqüências que pudesse ter para ela.

Agora sim lhe importava.

Pegou-lhe uma mão.

— Rowan, tudo sairá bem. Uma palavra tua e te levo de volta para casa.

— Tenho que olhar. Queria que o tivesse visto antes. Mas nunca… nunca pensei que estivesse relacionado com meu passado. Meus casos, o caso dos Franklin, um admirador desequilibrado… mas, não… não minha família. — Respirou fundo e reprimiu um soluço. — Se o tivesse relacionado, talvez o teríamos detido antes…

Ficou olhando as mãos entrelaçadas, mas não acabou a frase. Com a mão livre, sustentou-lhe o queixo e a obrigou a olhá-lo.

— Não é tua culpa. Você o abordou racional e metodicamente — inclinou-se para frente e lhe roçou os lábios com um gesto suave. — Não está sozinha nisto.

Quando se afastou, viu em seu olhar o alcance de sua surpresa. E então Rowan voltou a ativar as defesas, e de seu corpo musculoso e alongado emanou só uma tranqüila frieza. Retirou a mão lentamente.

— Acabemos com isto de uma vez — disse, e abriu a porta.

Quando entraram na sala de reuniões, John se surpreendeu ao ver Tess sentada ante uma mesa em um canto e teclando a toda velocidade. Tinha o cabelo curto escorrido mas limpo. Não usava maquiagem e seu rosto irradiava uma férrea determinação.

Tess levantou a vista, olharam-se nos olhos e o saudou com um sorriso desinteressado. Então viu Rowan e voltou imediatamente para seu trabalho.

Tess necessitava de tempo. Mas o tempo não cura todas as feridas. Tinha a esperança de que sua irmã não tivesse que viver com essa desgraça.

Quinn Peterson estava sentado ante a longa mesa examinando os conteúdos de um grosso arquivo. Levantou-se quando John fechou a porta.

— Roger nos mandou por fax tudo o que não pudemos descarregar dos arquivos — disse. — Mandei meu colega para procurar o senhor Williams.

Rowan ficou tensa.

— Adam? — Olhou de Quinn para John, sem ocultar sua indignação. — Pensam trazer Adam até aqui?

— Pode ser que seja nossa única esperança de identificar este cara antes que seja muito tarde — disse John, com voz pausada.

Ela fechou os olhos com força.

— Nunca se recuperará — disse, e soltou um longo suspiro. — Mas têm razão — acrescentou, uma vez dissipada a indignação, ou talvez sepultada. John não sabia qual dos dois. — John, poderia te pedir um favor?

—O que quiser.

—Poderia descer e te reunir com o agente Thorne quando chegar com Adam e lhe explicar o que vamos fazer? Adam levará um grande susto quando o forem procurar em casa e o trouxerem até aqui. — Lançou um olhar a Peterson. — Poderia ter me dito isso. Teria falado com ele.

— Não acredito que tivesse falado contigo — disse John, e ela voltou sua atenção para ele. Abriu os olhos exageradamente, não de raiva mas sim de surpresa e algo mais. Decepção? Dor? — Depois do incidente com os lírios, acredito que Adam se sente um pouco intimidado.

Sentia-se ferida. Em seus olhos acesos, decididamente estava ofendida. Ela assentiu com a cabeça e se virou, mas ele conseguiu ver o brilho de uma lágrima.

— Falarei com ele — assegurou John, e abandonou a sala.

Rowan olhou o grosso arquivo cheio de pastas. O coração pulsava tão sonoramente que pensou que Quinn e Tess o ouviam com toda clareza. Tinha muito medo, mas não estava disposta a reconhecê-lo. Não nesse momento.

— Nunca soube — disse Quinn, lhe pondo uma mão no ombro. Ela deu de ombros, temendo que se falasse lhe tremeria a voz. — Miranda sabia, não é?

Rowan assentiu em silêncio e respirou fundo.

— A maior parte. Na primeira semana que passamos na academia, Miranda, Olívia e eu contamos por que queríamos ser agentes. Fomos beber margaritas, eu quase nunca bebo. —Esboçou uma ameaça de sorriso, recordando o agradável que era encontrar a duas mulheres que a entendiam. — Nunca tinha falado disso com ninguém, nem sequer com Roger. Ele não queria tocar no tema, acredito. Era uma questão do passado, e eu devia seguir em frente. Eu…, pois… tinha alguns problemas naquela época.

— Não me surpreende.

Ela ignorou seu comentário com um gesto da mão e se sentou à mesa, sem olhar as pastas que a esperavam. Teria que as revisar, mas necessitava de um minuto. Olhou para Tess, que ao que parecia seguia ocupada em alguma tarefa, embora Rowan intuísse que tinha uma orelha colada na conversa. O que importava? A verdade acabaria saindo à luz de todos os modos. Não se importava. Tampouco era possível que Tess a odiasse mais do que já a odiava.

— Miranda foi muito sincera conosco desde o primeiro dia. É uma das coisas que eu gosto nela.

Rowan elevou a vista para olhar a Quinn, que a observava de braços cruzados e com a mandíbula apertada, com seus olhos escuros impenetráveis. Sentia algum tipo de remorso ou raiva a propósito do que tinha acontecido com Miranda em Quântico? Rowan teria querido lhe perguntar, mas ele a teria acusado de se desviar do tema.

— Em qualquer caso — seguiu —, estávamos bebendo e Miranda nos perguntou por que estávamos ali. Saiu assim, sem mais. — Rowan ficou em silêncio. Inclusive depois de haver contado tudo a John, resultava difícil falar do que tinha passado naquela noite.

— Por que queria ser agente? Por influência de Roger?

— Em parte. Ele me salvou a vida. Não fisicamente, mas psicologicamente. Deu-me a capacidade de me centrar mentalmente. Roger se importa muito com a justiça.

— A ti também.

— Sim, importa-me. Mas ele quer castigar os criminosos, e eu quero vingar às vítimas — disse, e calou. A diferença era tão sutil que não sabia como explicar.

— Nunca entendi como meu pai pôde matar a minha mãe. Apesar dos maus tratos físicos permanente, nunca pensei… quero dizer, acreditava de verdade que a amava a sua maneira, embora retorcida. Mas eu era só uma menina, não entendia o que estava ocorrendo. Agora sei, depois de anos de aulas de psicologia e criminologia, que a violência doméstica não é amor. Mas tinha que tentar descobrir por que meu pai perdeu a razão. Como Bobby podia ser tão cruel. Se soubesse por que, seria uma agente melhor preparada. Podia lutar melhor pelas vítimas se entendesse seus agressores.

— Encontrou as respostas que procurava?

— Não. A todos criminosos que interrogava perguntava o por que. Jamais me deram uma resposta que eu entendesse.

— Talvez porque você não é uma assassina.

Não, não sou uma assassina. Meu pai sim é. Meu irmão o era. Eu não. Ainda não.

Ficou olhando a pasta, temendo seu conteúdo, sabendo que as fotos e os relatórios lhe fariam mal e lhe trariam lembranças que tinha tentado sepultar. Já não podia seguir fugindo. Tinha que fazê-lo. Pôr fim a aquela loucura.

Abriu a pasta.

Os documentos, que tinham sido impressos do computador ou que Roger tinha mandado por fax, não guardavam nenhuma ordem. A primeira página era o relatório original da polícia. Homicídio múltiplo. Os dados correspondentes às vítimas eram nome, idade, lugar e aparente causa da morte.

Elizabeth Regina Macintosh, 46, mulher branca, encontrada na cozinha. Múltiplas feridas de arma aguda, falecida.

Melanie Regina Macintosh, 17, mulher branca, encontrada na entrada da casa. Apunhalada múltiplas vezes, falecida.

Rachel Suzanne Macintosh, 15, mulher branca, encontrada na entrada da casa. Apunhalada múltiplas vezes, falecida.

Danielle Anne Macintosh, 4, mulher branca, encontrada no quarto do casal. Recebeu um disparo no peito de uma pistola de 9 mm, falecida.

Rowan respirou fundo. Voltava a sentir-se como uma menina. Viu o corpo inerte e ensangüentado de sua mãe. Viu morrer a suas irmãs. Correu com Peter e Dani até o armário.

Mas Bobby os perseguia.

Virou uma página e encontrou os papéis do processo de seu pai. Tinha os lido tantas vezes no passado que sabia de cor, assim virou rapidamente a página.

A detenção de Bobby.

O suspeito do homicídio múltiplo escapou por uma janela do segundo andar e foi perseguido até a esquina da Crestline Drive e Bridgeview Court, onde foi detido sem maiores incidentes. Leram seus direitos e o suspeito solicitou um advogado.

Sua descrição era clínica. Robert William Macintosh Júnior, 18 anos. Cabelo loiro, olhos azuis, um metro oitenta e cinco, 77 quilos. Não há marcas distintivas. Não há tatuagens. Não há piercings.

Bobby parecia simpático, mas ela sabia a verdade. Sempre tinha sabido que era malvado. Graças a Deus que tinha morrido.

Entretanto, Bobby a tinha perseguido do túmulo. Em seus pesadelos. Na escolha de sua carreira, em sua decisão de ingressar no FBI e depois em abandoná-lo. Controlava sua vida desde o começo, mais agora que estava morto do que jamais pôde em vida. Como é que não o tinha visto antes? Como podia ter vivido tanto tempo sob sua sombra perversa sem dar-se conta do controle que Bobby seguia exercendo sobre ela?

Agora sabia. E lhe poria fim de uma vez por todas.

Virou a página.

— Está bem, Ro? — perguntou Quinn, com voz suave, e pôs um copo de água diante dela.

Assentiu e aceitou, agradecida, a água. Tomou um gole, e o líquido frio lhe acalmou a garganta irritada. Quinn permanecia de pé atrás dela como um soldado. Ela sentia seu olhar cravado nas costas. Ouvia também o clic-clic-clic do Tess no teclado. Pausa. Clic-clic-clic. Se não fosse tão rítmico, seria desagradável.

Virou outra página.

Fotos.

Deixou o copo, temendo que sua mão trêmula derramasse a água sobre a pasta. A cozinha. Mamãe não estava, mas ela viu a crueldade da imagem em preto e branco, as paredes salpicadas de sangue, a cadeira no chão. Alguns artistas escolhiam o branco e o preto porque seu impacto era mais potente que a cor. Não havia nada que se comparasse com o sangue em tom cinza escuro. As pessoas esperavam que fosse de cor vermelha, e não se davam conta de que tinha tanta profundidade até que a cor era lavada da imagem.

Folheou rapidamente as fotos. Não podia olhar. Tinha vindo para fazer isso, mas não podia. Quinn as agarrou do monte e as colocou de barriga para baixo, longe dela. Rowan passou a mão pelo rosto, e lhe surpreendeu dar-se conta de que tinha as bochechas úmidas.

Tinha que concentrar-se nos relatórios. Imaginar que não tinha estado na cena. Só se tratava de uma investigação mais, os membros da família eram estranhos.

Não sabia se seria capaz de terminar, mas tinha que fazê-lo.

Voltou a pegar as fotos e respirou fundo.

Percebeu que a sala havia ficado em silêncio. Quinn a observava atentamente. Tess tinha deixado de trabalhar e a olhava com o cenho franzido. Droga. Se as respostas estavam ali, naquela maldita pasta, ela tinha que as encontrar.

Soou o telefone celular de Quinn e ele atendeu.

— Peterson… Certo, obrigado por me dizer, e desligou o celular com gesto brusco.

— O que aconteceu? — perguntou Rowan, temendo o pior. Não será outro cadáver.

— Colleen está com Adam e John na garagem. Estão subindo agora.

Ela assentiu e voltou para as pastas. As palavras eram imprecisas. Ia desmaiar? Não. Eram lágrimas. Tinha conhecido essas pessoas quando era uma menina? Estavam agora de algum jeito em sua vida?

Tinha que fingir, pensar que essa família massacrada sem piedade não era a sua. Imaginar que eram estranhos.

Isso. Estranhos que vinham incomodá-la em seus sonhos.

Elevou a vista e viu que Tess seguia olhando-a, com uma expressão estranha pintada no rosto. A porta se abriu e Tess voltou para seu trabalho no computador. John entrou na sala com Adam, acompanhando-o com uma mão no ombro. O garoto parecia apavorado e olhava para John em busca de segurança. Quando viu Rowan, retrocedeu com um gesto visível e se aproximou de John. Rowan se sentiu pequena e miserável. Havia feito mal a alguém que amava e agora não sabia como repará-lo. Tampouco sabia se era possível.

John murmurou algo no ouvido e Adam relaxou um pouco, mas evitou olhar para Rowan. John o sentou ante outra mesa olhando para a parede.

— As fotos? — perguntou para Quinn.

Rowan lançou um suspiro de alívio quando Quinn pegou a pasta que tinha diante dela e a entregou para John.

Este a abriu, repassou-a rapidamente e tirou as fotos.

— Adam, lembra o que eu te disse — disse John, inclinando-se sobre a mesa e olhando fixamente ao garoto assustado. — Eu estarei aqui. Só quero que você olhe estas fotos e me diga se alguma vez viu a alguma destas pessoas. Lembra, pode ser que não tenham o mesmo aspecto, pode ser que agora sejam mais velhas.

— Sim, John — disse Adam, com voz trêmula.

Rowan tentou concentrar-se em sua tarefa e deixou de olhar para John e para Adam.

Sentia o peso do coração no peito. John olhou as fotos com Adam, e olhou para ela. Era tristeza o que ela via em seus olhos? John apertou a mandíbula e ela viu o pulso latejando no pescoço.

Não, não era tristeza, mas raiva. Não ia dirigida contra ela, mas a punha incômoda. Não queria que ninguém, sobre tudo John, lutasse contra seus fantasmas. Mas, se não podia controlar-se, não poderia combater seus demônios, nem ao demônio real que era o assassino nem aos demônios de seus pesadelos.

Voltou a concentrar-se no arquivo.

A sala permaneceu em silêncio durante os dez longos minutos seguintes. Adam foi o primeiro a falar, com a cabeça encurvada.

— Sinto muito, sinto muito. Não está aqui. Juro, John, não está aqui. Lembraria dele, tenho certeza, certeza! — disse, elevando a voz, frustrado.

John apoiou a mão no ombro de Adam.

— Não se preocupe, Adam. — Olhou para Quinn. — Peterson, conseguiste aquela foto da qual te falei?

— O'Brien? Sim. — inclinou-se sobre a mesa onde estava Rowan e entregou a John uma pasta fina.

Rowan levantou a cabeça como impulsionada por uma mola e entrecerrou os olhos.

— Já te disse que Peter não tem nada a ver com isto!

— Collins o comprovou, mas só quero uma segunda verificação.

Ela lhe deu as costas e apertou os olhos até que lhe doeu.

Peter não tinha nada a ver com tudo isso. Mas se ela não o conhecesse tão bem, acaso não pensaria também que havia razões para suspeitar dele?

— Tem razão, John — murmurou, embora reconhecê-lo lhe partisse o coração. Peter, por favor, me perdoe. — Temos que descartá-lo.

John levou a pasta ao Adam.

   — Adam, reconhece este homem? — perguntou, e lhe mostrou uma foto. Rowan não pôde resistir a tentação de ficar de pé e olhar a foto com seus próprios olhos.

Peter não se parecia em nada a ela, exceto, talvez, pelos olhos. Tinha o cabelo escuro, como Dani. Na foto saía retratado sem a gola que o identificava como padre, e vestia uma camisa. De onde Quinn a tinha tirado? Parecia recente.

Sentia falta dele. Ao ver a foto recordou que tinha afastado deliberadamente seu irmão de sua vida. Ele tinha a igreja, sua família adotiva, sua própria vida. Ela era um aviso do passado para ele, como ele o era para ela. Mas Rowan ainda o amava.

— Adam? — disse John.

Adam negou com a cabeça.

— Sinto muito. Sinto muito, muito, muito. Não é ele.

Rowan relaxou. Sabia que não era Peter, mas não deixava de sentir certo alívio ante a afirmação de Adam.

— O que aconteceria se tivesse o cabelo loiro? — perguntou John. — Como se o tivesse tingido. Lembra que o homem que viu usava óculos de sol.

Adam voltou a negar com a cabeça.

— Não é ele, tenho certeza. O homem que eu vi no posto das flores tinha o nariz torto.

John olhou para Quinn.

— O nariz torto? Como se o tivesse quebrado? Como o agente Peterson, aqui?

Adam se virou para examinar Quinn. Inclinou a cabeça para um lado, como se visse algo que ninguém mais na sala via. Rowan ficou tensa.

— Sim, como seu nariz — disse Adam, quase surpreso por ter reconhecido ao menos um detalhe. — Não era reto, como este — disse, assinalando a foto. — E o homem que eu vi tinha o queixo mais pronunciado.

—Estou orgulhoso de ti, Adam. Recordaste muitas coisas.

— Mas o que eu vi não é ele — disse, assinalando a foto de Peter.

— Não importa. Que diferenças vê entre esta foto e o homem que viu?

Adam franziu o cenho, como se não entendesse.

— Não sei.

Mas que inferno, tinham chegado tão longe. Se tivessem uma foto do suspeito, Rowan não duvidava de que Adam o teria reconhecido.

— John? — chamou Tess, esgotada. — John, Quinn, acredito que encontrei algo.

Os dois homens se equilibraram sobre sua mesa.

— O que? — perguntou John.

— Fiz uma busca por Robert Macintosh na base de dados médicos que Quinn me deu acesso. Olhe isto.

Olharam em silêncio.

— Merda! — disse John. — Rowan, vêem aqui. — Era uma ordem, e Rowan obedeceu. Mas sentia os pés pesados, como se arrastasse todo o corpo.

Olhou a tela por cima do ombro de Tess. No princípio, não viu o que John tinha visto. Cada uma das filas pareciam entradas médicas sobre Robert William Macintosh. Seu pai. Todas as entradas provinham do hospital de Bellevue, em Boston. Exceto uma, duas semanas depois do assassinato. Múltiplas feridas de arma de fogo. A data de alta era quatro semanas mais tarde, sob custódia federal.

— Meu pai não foi ferido a bala.

—Mas seu irmão, que também se chamava Robert Macintosh, sim, quando tentou escapar.

— Mataram Bobby quando tentava escapar — disse Rowan, negando com a cabeça.

— Segundo estes dados, não.

Rowan começou a tremer descontroladamente. Bobby não podia estar vivo. Era impossível. Como? Onde tinha estado todo esse tempo? Roger lhe teria contado. Acaso tinha lhe mentido todos esses anos?

John se aproximou mas ela se separou dele.

Roger tinha que ter sabido. Tinha que ter estado informado de que Bobby estava vivo. E se Bobby estava vivo era perfeitamente capaz de ter matado essas pessoas. Doreen Rodriguez. A pequena Harper, a menina das tranças.

Michael.

Agarrou o monte de fotos da mesa e as folheou, descartando a maioria, sem se importar com as que caíam ao chão.

Bobby.

Escolheu a foto mais nítida de Bobby que havia no monte. Estava algemado, e um policial o segurava enquanto outro abria a porta de um carro patrulha. Bobby tinha sangue na roupa. O sangue de Mel e Rachel. Ninguém podia apunhalar um ser humano e sair ileso.

Tinha o cabelo loiro, um pouco mais escuro que o dela. Tinha os olhos fixos nela. Arrogante. Sem remorsos.

Tragou bílis em apenas pensar que Bobby seguia com vida. Não podia ser. Isso significava que Roger tinha lhe mentido desde que a conhecia.

Esmagou a foto contra a mesa em frente a Adam.

— Este é o homem que você viu? — Não conseguia dissimular o medo e a raiva em sua voz.

— Rowan. — John estava junto a ela, e lhe pôs uma mão no braço. Ela tentou soltar-se, mas lhe apertou o pulso. — Necessitamos de uma foto recente. Passaram vinte e três anos.

Vinte e três anos. Sim. Bobby teria mudado, pensou Rowan. Que aspecto teria agora? Era possível que o tivesse visto e não soubesse? Que não soubesse que seu maldito irmão estava vivo e andava livre pelas ruas?

Adam balbuciou algo, e ela se voltou para ele.

— Adam, sinto muito. Eu… Oh, merda — disse, sem acabar, com a voz débil.

— Talvez — murmurou Adam.

Rowan tirou seu celular e discou o número direto de Roger.

— Collins.

— Por que nunca me contaste que Bobby estava vivo? —perguntou, com voz fria, impessoal, como se outra pessoa falasse por sua boca.

Roger ficou sem responder por um tempo muito comprido.

— Rowan, ele te ameaçou. Eu estive sentado frente a essa semente do diabo e o escutei me dizer como te mataria. Quando escapou, matou a dois guardas. Julgamos por essas mortes para que você não tivesse que testemunhar. Havia muitas testemunhas, e com dois policiais mortos, não demoraram a lhe dar prisão perpétua sem liberdade condicional. Não ia sair em toda sua vida, Ro. E você tinha pesadelos horríveis. Gracie e eu estávamos preocupados. Se pensasse que estava morto, fazíamo-lhe algum dano? Nunca pensei…

— Esteve na prisão durante todo este tempo e eu não sabia? Como te atreveste? Como te atreve a me ocultar uma informação tão importante? Já não sou uma garotinha medrosa. Teria sido capaz de lutar com isso.

— Mas…

— Onde está ele? Agora mesmo, onde está ele?

— No Texas.

— Quero vê-lo.

— Falei com o diretor da prisão depois do primeiro assassinato, e…

— Suspeitou dele? — Rowan sentiu que tudo lhe dava voltas. Sentiu as mãos de John em seus braços, acalmando-a, obrigando-a a sentar-se. Mas não via nada. Estava cega pela raiva, uma raiva da cor de sangue. Imaginou Roger, o homem que freqüentemente tinha desejado ter como seu verdadeiro pai, sentado a sua mesa, dizendo que tinha mentido durante vinte e três anos.

— Não, na realidade, não. Só o comprovava. Queria me assegurar de que não houvesse enganos. Está na prisão de máxima segurança, a prova de fugas.

— Quero vê-lo. Agora.

— Rowan…

— Com ou sem você. — Era incapaz de falar com Roger. Lançou o celular para John e ele o agarrou.

— Collins? — disse. — Onde fica a prisão? — Seguiu uma pausa. — Tomaremos o próximo vôo — disse, e desligou. — Rowan, se…

—John — interrompeu Tess. — Olhe.

John e Rowan se viraram para a tela. Tess tinha encontrado a foto de Bobby quando o encarceraram.

— Esta é de cinco anos atrás.

Bobby tinha envelhecido notavelmente bem no cárcere, pensou Rowan. Tinha escurecido o cabelo e usava um corte de estilo militar. Tinha o rosto duro, o olhar frio, a tez pálida. Mas, na realidade, parecia uma pessoa qualquer. Uma pessoa normal.

— Quero ir para casa — se queixou Adam, de sua cadeira.

John se voltou para ele e lhe ajudou a levantar-se.

— Uma foto mais, Adam. Só uma.

— Promete? — inquiriu Adam, com gesto carrancudo.

— Prometo.

Adam se deixou levar até o computador de Tess. Ficou olhando a tela.

— Adam, é este o homem que viu no posto de flores?

Adam assentiu com a cabeça.

— Posso ir para casa agora? — perguntou, com lágrimas nos olhos.

Quinn fez um gesto para Colleen, que permanecia em silêncio em um canto desde que tinha entrado com John e Adam.

— Adam, Colleen te levará para casa.

Rowan olhava a foto na tela. Era Bobby o responsável por tudo isso? Como era possível? Se ele estava apodrecendo na cela de uma prisão, como Adam poderia tê-lo visto em Malibu?

— Obrigado, Adam — disse, tentando expressar seu agradecimento. Adam saiu sem olhá-la.

— Vou mandar um boletim de busca e captura para Robert Macintosh — disse Quinn. — Bom trabalho, Tess. Se alguma vez quiser trabalhar no governo, me ligue.

— Temos que ir — disse Rowan. — Tenho que vê-lo entre grades. O que acontecerá se ele não estiver lá? E se fugiu? —Mas aquilo era impossível. Teriam informado Roger. Todo o país teria estado em alerta procurando um assassino fugido da prisão.

Nada tinha sentido.

John se mostrou de acordo.

— Quinn, quanto tempo demoraremos em chegar?

— No primeiro vôo disponível. Vocês, vão a Burbank, e eu mandarei descer do avião quem for necessário.

— Obrigado — disse John, e olhou para Rowan. — Está preparada?

Ela assentiu com a cabeça. Preparada ou não, tinha que enfrentar-se a Bobby.

  

Rowan não falou durante o trajeto para o aeroporto. John estava agradecido com Peterson por ter removido céus e terra para lhes encontrar lugar em um avião que saía em menos de uma hora e por ter passado por cima dos controles de segurança.

O próprio Peterson viajava perto da cabine, ocupando o lugar de polícia daquele vôo, já que na ausência de um guarda de segurança aérea, em sua condição de agente federal ele cumpria essa função. John e Rowan viajavam na parte de trás.

John deu a Rowan todo o espaço que necessitava. Sofria por ela. Por que a tinha arrastado para aquilo? Ele poderia ter interrogado Adam sozinho. Albergava a peregrina idéia de que a revisão dos relatórios despertaria nela lembranças reprimidas e a impulsionaria a recordar alguma coisa.

E então recordou que Rowan tinha querido vir. Precisava vir.

Jamais teria imaginado que Bobby Macintosh estava vivo. Mas agora não tinha nenhuma dúvida de que a pessoa encerrada naquela cela da prisão do Texas com o nome de Robert Macintosh Júnior não era o irmão de Rowan.

Quando a olhou, soube que ela suspeitava da mesma coisa.

O avião decolou quase imediatamente depois que eles embarcaram. Rowan ainda não havia dito uma palavra e John começava a ficar nervoso. Depois de lançar um olhar de relance ao executivo que viajava na fila do lado, John se inclinou para Rowan e lhe falou suavemente ao ouvido.

— Estás bem?

Ela não respondeu, e se limitou a seguir olhando pela janela.

— Rowan, me diga algo. — Não pretendia soar tão brusco mas, que droga, não podia suportar o silêncio nem esse olhar inexpressivo dela.

— É Bobby. Tenho certeza.

— Não demoraremos em averiguar.

— Roger mentiu. Desde o começo — disse, com uma voz trêmula e cheia de angústia. John sabia perfeitamente como se sentia. Mentiras, enganos, traições. Teve que apartar essas idéias de sua cabeça, não era nem o momento nem o lugar indicado. Tinha saudades de tomá-la e estreitá-la em seus braços, só abraçá-la para que soubesse que não estava sozinha. Mas caminhava sobre um telhado de vidro. Não sabia quanto mais podia suportar depois do trauma emocional de ter que revisar as fotos do assassinato de sua família e descobrir que aquela figura paterna em que ela tinha acreditado levava anos lhe mentindo sobre um algo tão importante.

— Quando Roger me interrogou — seguiu —, depois que me avisaram que tinham detido Bobby, que estava no cárcere e não podia me machucar, foi sincero comigo. Disse-me que o caso era sólido, embora eu fosse a única testemunha. Com meu testemunho, estava garantido que Bobby passaria o resto de sua vida entre as grades.

Ele lhe pegou a mão e a apertou suavemente. Ela acabou por afastar o olhar da janela, voltou-se e olhou as mãos entrelaçadas, mas não fez gesto de romper a conexão.

John não sabia por que, mas se sentia aliviado.

— O que sentiu a respeito disso? — Se lembrou que Rowan só tinha dez anos naquele momento. Ele tinha visto as fotos. Que tragédia mais absurda! Uma menina pequena que tinha perdido quase toda sua família em uma noite tão espantosa. E depois foi rechaçada pela tia e pelos avós. Não lhe custava imaginar quão valente Rowan tinha sido.

— Zangada. Confusa. Queria lhe machucar pelo que me fez, mas naquela época não entendia os procedimentos. — Depois de uma pausa, seguiu — Foi Roger também quem me contou sobre o meu pai, que não havia dito nem palavra desde que a polícia o encontrou na cozinha. Eu insisti em vê-lo. Assim Roger me levou para Bellevue. Não queria fazê-lo, mas me levou.

Seus olhares se cruzaram. Quando John viu a dor em seu rosto lhe deu vontade de tomá-la em seus braços e lhe dizer que ele a protegeria.

Mas ela não queria sua proteção a não ser sua compreensão.

— Roger tinha razão — disse, com voz apenas audível. — Vim abaixo quando vi o olhar vazio de meu pai. Tinha cortado todo o vínculo com a realidade. Não estava possuído pelo diabo, não tinha um olhar diabólico. Não gritava nem delirava. Simplesmente, não estava presente — acrescentou, e voltou a olhar pela janela. — Suponho que por isso Roger mentiu para mim — disse, depois de um momento. — Pensou que eu não seria capaz de enfrentar o testemunho, sem importar o que eu pudesse dizer.

Rowan nunca esqueceria a imagem de seu pai naquela última vez. Já não parecia aquele homem forte, às vezes zangado, às vezes maravilhoso que tinha chegado a admirar e temer.

— Mamãe, por que Papai te bate?

Tinha sete anos quando fez essa pergunta. Estava pondo Dani para dormir na poltrona de sua mãe em seu quarto, e lhe sussurrava suaves palavras ao ouvido. Sua mãe deixou cair a escova sobre a mesa da penteadeira.

— De onde que vem essa pergunta?

— Sinto muito.

Começou a balançar Dani, com a esperança de que sua mãe não tivesse se zangado com ela. Nunca lhe batia. Seu pai, sim, duas vezes. Em uma ocasião, quando quebrou a bandeja de vidro que era a preferida de sua mãe. E também no ano anterior, quando havia fugido de casa. Mudou-se com todas suas coisas ao abrigo.

Por causa de Bobby. Bobby lhe dava medo.

— Querida — disse sua mãe, e se aproximou delas. Ajoelhou-se em frente à poltrona e parou o balanço do bebê. Obrigou Lily a olhar em seus olhos.

Uns olhos tão bonitos, pensou Lily. Papai dizia que eram como irmãs. Só queria ser igualmente bela como sua mamãe quando fosse mais velha.

— Querida, é muito pequena para entender estas coisas. Papai não quer me machucar. E… na realidade, não dói.

Mamãe olhou para Dani e Lily soube, embora não entendia por que, que sua mãe mentia.

— Certo — disse, com voz baixa e trêmula.

Mamãe lhe apertou a mão.

— Às vezes, equivoco-me quando digo ou faço algo. Papai se zanga. Já sabe que ele trabalha muito todos os dias, muito. E com seis filhos necessitamos muito dinheiro, sabe? — Sua mãe falava muito rápido.

— Certo, Mamãe.

— Mas Papai me ama. Muito, muito. E eu amo a ele. E não é sempre assim, só algumas vezes. Quase nunca.

O que dizia Mamãe não tinha sentido. E então, inclinou-se e beijou Lily na cabeça e foi como se o mundo melhorasse um pouco.

— Rowan?

A voz de John era suave, mas urgente.

— Rowan, você está bem?

— Estava pensando — disse ela, e respirou fundo. Ele já sabia tudo. Só um segredo mais para compartilhar. — Meu pai maltratava a minha mãe. Batia-lhe. Ela sempre o justificava. Dizia que era culpa dela. Em uma ocasião, perguntei-lhe por isso e me disse que era ela quem se equivocava em certas coisas. Defendeu-o.

Tinha os nódulos brancos de apertar com tanta força os punhos. Fez um esforço consciente para liberar-se da tensão nos músculos.

— Não acredito que matá-la tenha sido algo saído de um nada — disse John. — É um padrão, você já deve saber. As relações em que há mau trato muitas vezes acabam com uma morte.

— Estavam casados há dezenove anos. Seis filhos. E ela… ela sempre esteve a seu lado, fizesse o que lhe fizesse. —Rowan recordou as flores que ele estava acostumado a comprar. Os beijos que lhe dava quando voltava de noite. — Era como o doutor Jekyll e mister Hyde. Lhe batia. Discutiam muito. Mas não podia acreditar que a tivesse matado. Não queria acreditá-lo. Ele estava acostumado a chamá-la «minha rainha».

Ela respirou fundo. Não se deu conta de que estava chorando até que John lhe secou as lágrimas das bochechas.

— Eu amava a meu pai e o odiava. Podia ser uma pessoa maravilhosa, brincava conosco, levava-nos ao parque, a comer picolés… mas batia na minha mãe. — A voz lhe tremeu. — Eu estava muito confusa. E depois, vê-lo tão… tão vazio — disse, e voltou a respirar fundo. — Isso eu não soube aceitar. Naquele momento, não.

— Você era só uma menina, Rowan. Uma menina obrigada pela vida a amadurecer muito rápido.

— Bobby era diferente.

Rowan não tinha esquecido a crueldade de seu irmão. O terror silencioso que despertava neles. Inclusive em Mamãe.

— Há pessoas que nascem malvadas.

Ela não disse nada para contradizê-lo.

— Acredito que Bobby aprendeu o pior de meu pai e o fez mais ardiloso. Quero dizer, era o mais velho. Sabia o que estava acontecendo. Comportava-se como um valentão do bairro com Mel e Rachel, assim como o Papai com Mamãe. Batia nelas.

— E ninguém fazia nada? — A voz de John era de assombro. Aquilo não era raro, porque, afinal, a dele tinha sido uma infância feliz.

— Em uma ocasião, Mel contou a meu pai. Disse-lhe que Bobby tinha batido tão forte em Rachel que a tinha atirado escada abaixo. Papai e Bobby tiveram uma briga muito forte na garagem. Bobby se foi e ficou ausente vários dias. E eu me sentia feliz. Muito feliz.

— Mas voltou.

Com uma vingança em mente, pensou Rowan. Isso tinha ocorrido um ano antes dos assassinatos. Ela tinha a esperança de que quando fizesse dezoito anos, Bobby fosse embora. Mas não se foi.

— Bobby disse a meu pai que era um fraco e um amargurado. Eu não sabia o que significava isso naquela época. Mas nunca o desafiou cara a cara, exceto essa única vez. Quando meu pai não estava em casa, Bobby nos aterrorizava. Quebrou o braço de Peter quando ainda não sabia caminhar. Eu o vi. Mas ele me disse que se contasse a verdade, mataria-me. Eu acreditei nele, e disse para Mamãe que tinha sido um acidente.

— Ninguém teria te culpado, Rowan — disse John.

— Teria mudado alguma coisa se eu tivesse dito a verdade então? — seguiu ela, como se não lhe tivesse ouvido. — Se tivessem levado Bobby? O teriam castigado? Fariam algo?

Rowan sacudiu a cabeça e soltou um suspiro profundo e cansado.

— Nunca saberei — concluiu. Riu, mas sem ver nada divertido nisso. Só um vazio profundo e permanente. Perguntou-se se algum dia voltaria a sentir a felicidade de estar viva.

John lhe apertou a mão e a tomou entre as suas. Rowan estava fria. A garganta de John ardia. Vinham-lhe lágrimas de indignação e raiva, e ele as reprimiu. Nenhum menino deveria viver o que Rowan tinha vivido. Pensar na loucura e no horror de tudo o que tinha agüentado era como uma estocada no coração.

Entretanto, o que de verdade lhe indignava não era a maldade de Bobby. Eram os pais. O que faziam vivendo com um filho que maltratava a outros, um jovem que atormentava a eles e a seus filhos? Como era possível que não o remediassem? Como podia viver a mãe nessa casa, deixar que seus filhos fossem testemunhas do mau trato e não tirá-los dali?

Havia outras duas garotas mais velhas. Não poderia uma delas ter ido às autoridades? Era evidente que tinham sofrido os maus tratos de Bobby. Elas mesmas tinham sido vítimas. Entretanto, Rowan carregava com todo o peso, como se tivesse sido a única que poderia ter feito algo e depois desistido.

Queria poder lhe explicar, lhe dar segurança, lhe dizer que o fato de que tivesse feito algo ou não, nada tinha que ver com o que tinha ocorrido.

— Rowan, nada disso foi tua culpa — disse John, com voz suave.

Ela encolheu os ombros. Teria ouvido o que ele lhe havia dito?

— Suponho que quero dizer que sabia que Bobby algum dia faria algo de mau. Alguma coisa muito má.

— Por que acha que seu pai se veio abaixo?

— Não sei. É a razão pela qual estudei psicologia criminal na universidade. Por isso ingressei no FBI. Queria respostas. E encontrei respostas. Mas não sobre meu pai. Só o habitual: acontece freqüentemente que os cônjuges que maltratam também matam ou são assassinados.

John a atraiu para ele. Não suportava escutá-la torturar-se a si mesma. O mal não conhecia limites. Ricos ou pobres, homens ou mulheres, velhos ou jovens. Não sabia o que tinha impulsionado Robert Macintosh a matar a sua mulher, mas o tinha arrasado para sempre. Vinte e três anos sem falar, sem sequer reconhecer a presença de outro ser humano.

Bobby Macintosh era outra coisa. Se John estivesse certo e o irmão de Rowan era o protagonista daquele festim sangrento, expertamente desenhado e premeditado que durava já três semanas, tinha o coração mais retorcido e era muito mais saudável que seu pai.

  

Roger Collins caminhava de cima a baixo pela sala de espera de Beaumont, a prisão de segurança máxima para onde tinham transferido Bobby Macintosh há um ano. O diretor ordenou que o levassem a uma sala de reuniões privada, mas Roger esperava Rowan.

Tinha vontade de estrangular John Flynn mas, ao mesmo tempo, temia que sua teoria fosse acertada. Que Bobby Macintosh não estivesse em Beaumont mas em liberdade, e que fosse ele quem estivesse aterrorizando Rowan.

Deixando de lado as boas intenções, tinha cometido um grave erro. Um erro que havia custado a vida de sete pessoas. E talvez fossem mais.

Aos dezoito anos Bobby Macintosh era apenas um jovem, mas mais perigoso que muitos criminosos curtidos com décadas de agressões em seu currículo. Nenhum remorso e, certamente, divertia-se pensando na noite de sua matança.

— Olhe, olhe, olhe. Se não é o agente especial Roger Collins — havia dito Bobby Macintosh vinte e três anos antes, quando Roger o interrogou na cela de uma prisão em Boston.

Roger estava no outro lado das barras e olhava ao garoto que tinha matado a três de suas irmãs.

— Lily testemunhará contra você — havia dito para Bobby, querendo vê-lo retorcer-se. — Está viva, goza de boa saúde e quer te enviar à cadeira elétrica.

Bobby entrecerrou os olhos enquanto lançava a Roger um olhar diabólico.

— Em Massachusetts não há pena de morte. É inconstitucional — se burlou ele.

— Que pena. Eu apertaria o interruptor de boa vontade. Lily também. Fez o possível por lhe destroçar a vida, mas ela é forte. Mais forte do que acredita. Mais forte do que jamais lhe reconheceste. Quando subir para testemunhar, não haverá nem um só jurado que vote pela absolvição. Passará o resto de sua vida na prisão.

Aproximou-se das barras, a alguns centímetros de seu rosto. Jamais havia sentido tanta repugnância por um suspeito. Depois de ouvir o relato de Lily, Roger odiava a esse garoto.

— E se acredita que viverá muito tempo entre grades —acrescentou, com voz grave e segura —, pense nisso duas vezes.

Bobby se limitou a olhá-lo com olhos zombadores, e se reclinou comodamente na cama.

— Você não me conhece — disse, sacudindo a cabeça. — Sou um sobrevivente. E se acredita que passarei o resto de minha vida no xadrez, quem está louco é você.

Bobby se sentou, pôs as mãos sobre os joelhos e franziu o cenho. A ira reconcentrada de sua expressão obrigou Roger a tragar saliva sem querer. Este era o homem que Lily temia, o irmão com quem tinha vivido dez anos, um garoto que matava sem remorsos. Ele o fazia por puro prazer.

— Matarei Lily. Não agora. Nem amanhã. Algum dia. Pegarei o seu pescoço de desnutrida e o quebrarei.

— Não conte com isso — disse Roger, apertando os dentes. Deu meia volta e saiu com grandes passadas da prisão. Mas ouviu as últimas palavras de Bobby Macintosh.

— Não me subestime.

No dia seguinte, levou Lily para ver seu pai. E a pobre menina se veio abaixo por completo e tiveram que sedá-la. Foi então quando Roger pensou que talvez não fosse capaz de subir ao banco e testemunhar, ou que testemunhar poderia lhe causar seqüelas para o resto de seus dias. E, depois de tudo o que tinha vivido, Collins não queria que tivesse que enfrentar mais tortura.

Bobby tentou escapar enquanto o transferiam para uma sessão preliminar. Disparou e matou a dois guardas e ficou ferido. Enquanto o operavam, Collins rogou a um Deus no qual mal acreditava que o levasse ao inferno, onde pertencia de verdade.

Mas o jovem assassino sobreviveu.

Felizmente, desta vez as circunstâncias eram diferentes. Bobby tinha matado dois policiais. Roger Collins convenceu ao promotor do distrito de que Lily não tinha a integridade suficiente para suportar um julgamento. Julgaram Macintosh pelos assassinatos dos policiais em lugar de julgá-lo pelo assassinato de sua família. Prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional.

Maldito estado de Massachusetts. Teriam que lhe ter dado a pena de morte.

Roger contou a Lily que Bobby tinha morrido quando tentava escapar.

Pensando-o retrospectivamente, era um bom plano. Macintosh estava na prisão, e economizava a angústia do julgamento a Lily e o medo que seu irmão estivesse vivo e lhe fizesse mal. E assim tinha crescido uma garota encantadora. Bela, inteligente e dedicada. Ele a tinha conduzido para o FBI porque tinha a empatia e a capacidade mental para ser uma ótima agente.

Mas depois do assassinato dos Franklin, Rowan se demitiu, e Collins se perguntou pela primeira vez se não havia se equivocado com ela. Se não o tinha feito ao tomá-la em custódia preventiva e converter-se em seu procurador. Estimulando-a em romper o contato com Peter. Convencendo-a de que mudasse de nome.

Tudo o que Roger Collins fazia era porque amava Lily. Rowan era a filha que ele e Gracie nunca teriam. Quando seus avós ligaram para lhe dizer que não sabiam como lidar com ela nem com Peter, que as crianças tinham pesadelos de noite e que o psiquiatra queria provar uma terapia a base de medicamentos, Roger tomou uma decisão. Entrou em contato com um policial que havia lhe dito que ele e sua mulher estavam dispostos a adotar Lily e Peter.

Mas depois de um período de prova, haviam-lhe dito que ficariam só com Peter.

Rowan não facilitava para ninguém naquela época. Quem podia culpá-la? Torturava a si mesma pela morte de Dani. Por não ter salvado a sua família.

Collins decidiu acolher Rowan. E, desde aquele dia, tinha-lhe mentido.

Um guarda abriu a porta da sala de reuniões e fez entrar Rowan, Quinn Peterson e a um homem de cabelo escuro que, Collins supôs, seria John Flynn.

Um só olhar para Rowan bastou a Collins para que deixasse de se perguntar se tinha cometido erros. Agora tinha certeza de que sim.

Rowan estava agitada por seu arrebatamento emocional no avião, apesar de que havia se proposto a manter a calma. Surpreendia-lhe que John tivesse se mostrado tão compreensivo, tendo em conta que seu irmão havia matado o dele. John a escutou, fez-lhe perguntas simples e não havia dito que tudo sairia bem.

Nada voltaria a «sair bem».

Olhou para Roger e franziu o cenho.

— Você mentiu para mim.

— Acreditei que era a melhor solução — disse ele, assentindo com a cabeça. — Eu sinto muito. Equivoquei-me.

Era o mínimo que se podia dizer. Rowan sacudiu a cabeça, sem saber se poderia falar sem ir a abaixo. Se falasse com Roger, suas frases estariam infestadas de maldições e veneno. Roger tinha mentido, sempre, não tinha acreditado nela para contar a verdade. Tinha pensado que era provável que acabasse em um manicômio, como seu pai. Talvez tivesse acabado assim. Talvez ainda acabasse assim.

Mas a traição de Roger a marcaria para toda a vida. Não sabia se seria capaz de perdoá-lo algum dia.

Deu as costas a Roger e se encontrou frente a frente com os olhos verdes e profundos de John. Ele a pegou pelo braço e ela se inclinou apenas para ele para demonstrar que agradecia seu apoio. Pela primeira vez durante aquele longo dia, Rowan pensou que talvez sobrevivesse.

O diretor entrou, um homem surpreendentemente pequeno, de calvície avançada. Caminhava muito erguido e exibia um sorriso nervoso.

— Diretor adjunto Roger Collins. Sou o diretor James Cullen. O detento está preparado para sua visita. — Em seguida olhou para Rowan e para John. — Senhorita Smith, correto?

Ela assentiu com a cabeça.

— Apresento o meu companheiro, John Flynn. —Companheiro? Tinha escapado. Tinha querido dizer guarda-costas. Ela nem sequer pertencia ao serviço. Já não tinha um companheiro.

Ninguém disse nada, mas ela percebeu uma sutil mudança na atitude de John. Não o olhou, mas se perguntou no que pensava.

Rowan seguiu o diretor, e John a seguiu de perto, com seu discreto aspecto protetor. Roger e Quinn iam atrás. Cruzaram um corredor longo e largo, dobraram várias vezes e o diretor teve que teclar um código de segurança em três portas diferentes. Acompanhavam-nos dois guardas armados.

Através do espelho adulterado que olhava à sala de interrogatórios, muito iluminada, via-se um homem de pouco mais de quarenta anos, algemado nos pés e nas mãos. Tinha o cabelo curto, de cor loira palha, o queixo pronunciado e olhos azuis. Media e pesava o normal, e mostrava o olhar arrasado da derrota que tinham muitos condenados a prisão perpétua.

Parecia-se com Bobby Macintosh. A primeira vista, Rowan acreditou ter certeza de que o homem encadeado atrás da mesa era seu irmão.

Mas não era.

Roger falou, e em sua voz grave e trêmula se percebia a raiva. E o medo.

— Esse não é Macintosh.

 

— Verá, senhor, verificamos seu arquivo, e é ele — disse o diretor Cullen com um movimento rígido da cabeça e passando a mão pela calva suave. — Está aqui há quatorze meses. Nossos novos protocolos de segurança nos obrigam a analisar uma amostra de DNA quando o réu ingressa. Quando você ligou há três semanas, tomamos outra amostra de DNA. É Robert Macintosh, sem dúvidas.

— Tem que ter feito a troca durante a transferência — disse Roger, como se falasse sozinho.

— Desculpe? — disse John.

— A segurança é muito estrita — explicou o diretor Cullen. — Há dois anos, os detentos novos devem ter uma análise de DNA registrado em seus arquivos. Além de fotos recentes e impressões digitais, certamente. Antes, as impressões digitais e as marcas corporais eram as principais características distintivas.

— Tudo está no computador — prosseguiu, agora mais seguro. — Assim quando ingressamos Robert Macintosh nesta prisão há quatorze meses, comparamos sua foto, suas marcas e impressões digitais com os registros informáticos. Coincidiam perfeitamente.

— E o DNA? — perguntou Roger.

— Tomamos uma amostra de seu DNA quando ingressou — disse o diretor, franzindo o cenho.

— De modo que não tinham nada com que comparar.

— As amostras de DNA são caras, diretor Collins. São feitos os exames aos novos detentos quando faltam. Macintosh está no sistema há vinte anos. Aos detentos já existentes se aplica o exame à medida que se conseguem recursos.

- Macintosh esteve na Louisiana desde que o condenaram até quatorze meses atrás, quando foi transferido para cá. Não lhe tinham feito um exame de DNA — explicou o diretor.

— Eu não fiquei sabendo que o tinham transferido para cá até três semanas atrás — disse Roger, sem olhar Rowan nos olhos. Ao contrário, ficou olhando ao impostor.

— Transferido — repetiu John, incapaz de dissimular sua frustração.

Roger assentiu com gesto tímido.

— Enviaram-me uma cópia do arquivo. Uma turma na prisão tinha lhe dado uma surra, e não era a primeira vez. Louisiana teve certos problemas, e o advogado de Macintosh solicitou uma transferência. A concederam. Supõe-se que teriam que me notificar, mas não o fizeram.

— Não há motivo para acreditar que não seja Robert Macintosh, júnior — disse o diretor, com a voz tensa de indignação. — Todos os dados coincidem.

— Registros informáticos — resmungou John, e passou a mão pelo cabelo. — Pode que os tenham trocado.

— Desculpe, senhor Flynn — disse o diretor —, mas a segurança informática é muito rigorosa. Estamos em uma penitenciária federal. Contamos com uma boa proteção contra os piratas informáticos.

— Não há nenhum sistema seguro — sentenciou John, com a mandíbula tensa.

Rowan assinalou com um gesto de cabeça ao homem do outro lado do espelho, o homem que se passava por seu irmão.

— Ele sabe a resposta.

Dois minutos mais tarde, Rowan estava sentada em frente ao homem que se fazia passar por seu irmão há quatorze meses. John ficou de pé junto à parede e ao lado de um dos dois guardas. Roger se sentou à direita de Rowan, e o diretor Cullen, já bastante nervoso, permaneceu a sua esquerda.

— Quem é você ? — perguntou Rowan.

— Bobby Macintosh, mas isso vocês já sabem — disse o impostor, olhando-a e tentando parecer feroz, embora sem êxito.

— Não, você não é Bobby — disse ela, sacudindo a cabeça. — Bobby é meu irmão. Eu o conheço. Você não é Bobby.

— Ouça, boneca, mudei.

— Nos conte como fizeram a mudança — disse Roger.

— Não sei do que estão falando — disse o detento. Removeu os pés e as correntes tilintaram, deixando um eco na sala quase vazia.

Rowan lhe lançou um olhar furioso. Aquele homem tinha ajudado seu irmão a matar.

— Planejaram isso juntos? Cúmplice de assassinato. Bem. No Texas há pena de morte, não é assim, diretor?

— Pois, sim, é.

— Suponho que um cúmplice não pode ser executado — disse Rowan, com voz neutra e dura.

— Bom, existem circunstâncias especiais em que se pode executar um cúmplice — disse o diretor.

Rowan controlou sua reação. Era uma mentira, mas o impostor não saberia. Tinham que aproveitar a escassa margem de que dispunham. Além disso, todos sabiam que o Texas tinha uma das legislações de pena de morte mais duras de todo o país.

O impostor se movia e removia, até que se cruzou de braços sobre o peito.

— Não sei do que estão falando.

— Bom. Vou lhe explicar. Temos seu DNA. Eu tenho meu DNA registrado no FBI. O diretor adjunto Collins — disse, olhando para Roger —, já ligou para pedir que mandem meus dados. Se de verdade for meu irmão, os perfis de DNA o demonstrarão. — Lançou um olhar ao diretor Cullen, que entendeu rapidamente o blefe.

— Guarda, por favor, ligue para meu escritório e pergunte se já chegou o fax de Washington.

Um dos guardas abandonou a sala e o impostor ficou visivelmente nervoso. Certamente, tinha ouvido de mais de um criminoso que tinham prendido graças ao DNA. O DNA era a rainha das provas em mais de um julgamento, e isso poria inseguro a qualquer detento.

— Eu, isto… — disse.

— Nos diga onde está Bobby Macintosh — disse Roger.

— Não sei — murmurou o detento. Seu olhar ia de Rowan para Roger e em seguida ao diretor. — Acredito que necessito de um advogado.

Roger deu um soco na mesa.

— Não!

O diretor Cullen franziu o cenho. Rowan se inclinou para frente.

— Senhor, como se chama?

— Lloyd — respondeu ele, e as correntes soaram.

— Lloyd, eu sou Rowan Smith.

— Eu já sei — disse ele, encolhendo os ombros.

— É por minha causa que Bobby queria sair da prisão, não é assim? — inquiriu ela.

Lloyd vacilou, e depois assentiu com a cabeça.

Rowan sentiu que a cabeça dava voltas. Era Bobby. Sempre tinha sido ele, e queria destruí-la. Despojá-la do que não tinha podido lhe tirar há vinte e três anos.

— Bobby lhe falou de mim — disse ela, com voz firme e bem modulada.

— Realmente, acredito que necessito de um… — disse ele, vacilando.

— Olhe, Lloyd, vou te dizer uma coisa — interveio o diretor Cullen. — O que você nos dizer aqui não será usado contra você, certo? Responda às perguntas.

— Ele me matará se eu falar — disse Lloyd, que não parecia convencido.

— E se você não falar, sou eu que vou te matar — disse Rowan, olhando-o fixo.

— Senhorita Smith — advertiu o diretor.

O guarda voltou com duas folhas que pareciam documentos oficiais. As entregou ao diretor, que as leu e assentiu. Lloyd empalideceu, e a cor pastosa de sua tez ficou ainda mais branca.

— Isto demonstra que não é Robert Macintosh. Quer colaborar ou prefere que lhe acusem de cumplicidade em um assassinato?

— Assassinato? Mas se ela ainda não morreu!

— Bobby começou por matar a outros — disse Rowan. — Quer acabar comigo. Mas eu não tenho a menor intenção de deixar que ele me mate — afirmou, com uma expressão rígida e os olhos ocultos. Sabia que parecia temível. Era uma expressão que a imprensa comentava quando trabalhava no FBI. Também dava bons resultados com os criminosos.

Agora não podia vir a baixo. Não agora, que tinham chegado tão perto.

Lloyd tragou saliva, lançou um olhar ao diretor e então para ela. Rowan não moveu um músculo, mas o coração pulsava com tanta força que tinha certeza de que todos o ouviam. Desta vez não podia falhar. E não falharia.

— Quero ver por escrito que não me acusarão de nada disto — disse. Reclinou-se na cadeira e fechou a boca.

Roger olhou ao diretor, que suspirou e tirou uma caderneta. Escreveu ele mesmo uma declaração em duas folhas de papel, assinou as duas e entregou a caneta a Lloyd. Este as assinou torpemente, com as mãos algemadas e o diretor as guardou. Rowan olhou as folhas. Lloyd tinha assinado com o nome de Robert Macintosh.

Aquela declaração não era legal sem seu verdadeiro nome, mas ninguém disse nada. Pobre imbecil, pensou Rowan. Não era de estranhar que Bobby o tivesse manipulado tão facilmente.

— Conheci Bobby na prisão, na Louisiana. Assim que ingressou. Um garoto rebelde. Nos demos bem em seguida. Éramos parecidos. Falou-me de você — disse, olhando para Rowan. — Ele a odeia.

— O sentimento é mútuo — disse Rowan, apertando os dentes e sentindo a secura da boca. Não ia deixar que esse cara a afetasse.

— Eu saí depois de dez anos. Pediu-me que a encontrasse. Claro, por que não? Não tinha nada melhor a fazer. Mas me custou muito encontrá-la. Até que Bobby me falou deste Roger Collins, aqui e me disse que talvez tivesse trocado de nome. Mas tinha seu número de segurança social, e com isso encontrei seu arquivo acadêmico. — O cara sorriu, visivelmente orgulhoso de si mesmo. — E, então, dediquei-me em seguí-la. Não sempre, não tinha por que. Sabia seu nome, podia olhar de vez em quando. Mantinha Bobby informado.

— Você. Me espreitava. — Foi a única coisa que pôde dizer para não avançar e agarrar o safado pelo cangote.

— Maldição, não, a mim você importava nada. E tampouco estava sempre vigiando-a. Tinha que passar despercebido, já sabe. Trabalhava, pagava os impostos. Voltei para o xadrez por uma acusação falsa, no norte do estado de Nova Iorque. Estive preso por quase dois anos. Baixaram a condenação por boa conduta — disse, com uma risada. — No entanto, me dei conta de algo importante.

— Do que? — perguntou Roger, impaciente.

Ele encolheu os ombros e olhou com um sorriso torto.

— A verdade é que eu gosto de estar no xadrez. Não tenho que trabalhar se não quiser. Tenho um teto, um lugar onde viver, e de graça. Nunca matei ninguém, assim não tenho que viver no corredor da morte. Quero dizer, a liberdade está super valorizada. Tentei explicar tudo a Bobby, mas ele não me escutou.

— Durante um tempo, perdi a sua pista, e Bobby ficou nervoso. Quando ficou sabendo que era uma escritora de sucesso, ou algo assim, e que ganhava muito dinheiro, alucinou. Inventou tudo isto, mas levou seu tempo. Dois anos para planejar e fazer que tudo encaixasse.

— Como vocês fizeram a troca? — perguntou Roger.

— Isso foi mais fácil do que eu pensava. Não acreditei que Bobby fosse capaz de fugir, mas ele tinha certeza de que funcionaria, e eu pensei, o que me importa? Se me pegassem, me dariam o que eu queria, uma temporada na prisão. Se funcionasse, me trariam para cá, Beaumont. Bonito lugar. Muito melhor que lá em Louisiana.

— Como? — repetiu Roger, com a raiva a flor da pele.

— Bobby montou um acidente, uma briga com um bando, parece. O levaram ao hospital, e tinha cortes por toda parte. Havia um guarda fora do quarto, mas não dentro. Fizemos a troca. Eu me vesti como os caras da limpeza e entrei sem problemas. Claro que Bobby teve que me cortar, e essa parte eu não gostei de muito, mas funcionou, e vim para cá e ele saiu do hospital. Foi totalmente perfeito.

— E sobre suas impressões digitais? — perguntou Cullen.

— Antes que Bobby fosse embora da Louisiana, meteu-se no sistema informático e trocou nossos números de identidade. Já sabem, com as impressões digitais e tudo. Está tudo aí, no computador. E Bobby é muito inteligente. Jogou bem lá dentro. Conseguiu acesso à biblioteca e aos escritórios. Conhecia um cara que estava preso por fraude informática, e lhe ajudou.

— Quem era? — perguntou o diretor.

— Não perguntei — disse Lloyd, dando de ombros.

Rowan mal acreditava no que Lloyd lhes contava. Bobby estava há quatorze meses na rua. Durante um tempo se manteve fora de circulação para comprovar que o sistema penitenciário não havia se dado conta, e quando não viu nada nos jornais, começou a segui-la. Leu seus livros. Planejou as torturas psicológicas. Como matar seus personagens e fazê-la sofrer.

— É um safado. — Esticou as mãos sobre a mesa. Tinha os nódulos brancos.

— Ouça! Eu não matei ninguém. Não mato as pessoas. Eu sou um ladrão. — Disse-o com orgulho, e Rowan sacudiu a cabeça e apertou a ponta do nariz. Bobby estava vivo. Andava solto matando as pessoas.

— Sabe onde Macintosh está agora? — perguntou Roger, com voz branda.

— Não estivemos em contato, se é que me entende — disse Lloyd, encolhendo os ombros. — Para que? Ele tinha o que queria e eu também.

— Levem-no de volta a sua cela — ordenou o diretor, com cara de repugnância.

Os guardas levantaram Lloyd e o fizeram sair. Por cima do ombro, olhou para Rowan.

— Bobby me disse que você era uma vadia frágil. Não sei. Acredito que a subestima — disse, e ficou em silêncio. E depois acrescentou: — Mas sei que você não deveria subestimar o Bobby.

  

O diretor Cullen lhes cedeu seu escritório enquanto ele se reunia com seu pessoal em outra sala para pô-los à par da situação.

Roger reforçou o aviso que Quinn Peterson tinha emitido antes a todas as unidades, enviou uma equipe para vigiar sua casa e proteger Gracie e, quando não teve mais ligações para fazer, sentou-se e finalmente olhou para Rowan.

— Sinto muito, Rowan.

— Você é um safado. Eu confiava em ti.

Ele fechou os olhos. Quando os abriu, Rowan se surpreendeu ao ver as lágrimas. Roger tragou saliva.

— Só queria te proteger, Rowan. É a filha que nunca tive. Mas fui um desastre de pai, droga. Nunca estava para te apoiar. Empurrei-te para que ingressasse no FBI, para que conhecesse o mundinho e para que ficasse. Pensei, diabos, não sei o que pensei. Retribuição, justiça, eu não sei?

Rowan se surpreendeu quando sentiu que as lágrimas afloravam, ardendo, a seus próprios olhos. Queria odiar Roger por ter ocultado uma informação tão importante, por mentir, mas não podia odiá-lo.

Rowan sentia amargura e raiva. Roger a tinha decepcionado. O sistema sabia que Bobby estava vivo e Roger teria que ter dito a verdade quando todo aquele pesadelo começou a gerar-se.

Poderiam ter sabido antes da verdade. E ter salvado a vida a alguém. Michael, por exemplo.

— Roger, você foi o pai que eu necessitava. Jamais acreditei que mentiria para mim. Que me ocultaria um segredo tão importante. E as pessoas que morreram por causa de seu silêncio? E Michael?

— Acredite em mim quando te digo que comprovei uma e duas vezes sobre a situação de Bobby. Não tinha razão alguma para pensar que não estava na prisão.

— Mas e quando todas as pistas resultaram falsas? Quando a leve esperança de que fosse alguém relacionado com o assassinato dos Franklin não deu resultado? O que aconteceu com eles?

Rowan passou a mão pelo rosto, secando as lágrimas com um gesto impaciente. Um rápido olhar para Quinn e John, que permaneciam a um lado, recordou-lhe que não estava sozinha com Roger. Estavam tão calados que tinha esquecido que seguiam na sala.

— Não sei — disse Roger, em voz baixa. — Não sei se poderíamos ter evitado o que aconteceu.

— Tem razão. Não sabemos. Não sabemos porque nunca tivemos a oportunidade de tentar. — Rowan olhou para Collins e viu um homem que já não reconhecia. Tinha o físico de Roger Collins, cabelo escuro grisalho, olhos azuis e claros, rugas incipientes em torno dos olhos e da boca. Mas não era o Roger com quem ela tinha vivido a metade de sua infância, o homem que tinha lhe ensinado que valia a pena lutar pela verdade e pela justiça. O homem que tinha ante ela era um mentiroso, e isso doía.

— Peter. — Abriu exageradamente os olhos ao se dar conta de que se Bobby sabia de sua existência, tinha que saber um pouco sobre Peter. — Peter, irá a procura dele!

Roger negou com a cabeça.

— Não, porque acredita que Peter está morto.

Ela o olhou, desconcertada.

— Por que?

— Acredita que Peter morreu naquela noite, que você foi a única que sobreviveu. Ele fez alusão a isso quando o interroguei, e eu nunca o corrigi.

— É evidente que ele viu os recortes da imprensa e descobriu que não era verdade!

— Falou-se que Peter estava em estado crítico, mas nunca se publicou uma nota da imprensa esclarecendo se sobreviveu ou se faleceu.

— Em estado crítico? — Rowan recordava que Peter tinha ficado tão transtornado emocionalmente que o tinham sedado depois dos assassinatos. Mas não tinha ficado ferido. Respirou fundo. — Temos que comprovar a versão deste cara e averiguar o que Bobby esteve fazendo nos últimos quatorze meses. — Deu um soco na mesa enquanto se afundava em uma cadeira. — Bobby está a quatorze meses na rua e ninguém tinha nem idéia!

Rowan respirava com muita dificuldade e John lhe pôs uma mão no ombro. Curiosamente, sentiu-se melhor. John, com sua presença serena durante o vôo, o interrogatório e, agora… era justo o que necessitava. Elevou o olhar e lhe respondeu com um leve gesto da cabeça.

— Há algo mais que tenho que te dizer — avisou Roger sentando-se na cadeira do diretor.

Ela se virou para ele, preparando-se para o pior, mas se surpreendeu quando lhe disse:

— Acredito que Bobby visitou seu pai duas vezes no ano passado.

Ela o olhou com olhos exagerados.

— E ninguém se deu conta?

— Utilizou um nome e uma identificação falsa. Bob Smith. Tentei recuperar as fitas de vídeo, mas o protocolo exige que as apaguem a cada três meses. Conservam-se em formato digital em um arquivo fora do estado, e ainda têm que mandar isso. Deveria receber-las esta noite ou amanhã.

— Não necessitamos das fitas. Era Bobby.

— Concordo, mas assim teremos uma foto mais recente.

— Quero ir a Boston — anunciou Rowan, depois de respirar fundo.

— Não me parece uma boa idéia — disse John, que ainda não tinha falado.

Ela se voltou para olhá-lo. Tinha a mandíbula tensa e a boca apertada em uma linha magra e furiosa. Não importava. Ela tinha que ir.

— Tenho que ver meu pai. Talvez saiba algo dos planos de Bobby. Seria muito típico de Bobby fazer alarde — disse, e ficou em silêncio. — Ele pensava que nosso pai era fraco. Adoraria esfregar na cara dele e demonstrar que ele é mais forte. Que é capaz de matar sem desmoronar e que gosta do que está fazendo. Que pensava em matar a todos nós.

— Quero que manhã você se mude para uma casa segura — disse Roger. — Teremos dezenas de agentes nas ruas procurando Macintosh. Mas ele procura por ti. Não quero te expor ao perigo.

— Não — disse Rowan. — Vou para Boston. Vou ver meu pai e depois ligarei para Peter e contarei a verdade. Tenho que fazê-lo. Não posso deixar que siga vivendo uma mentira. E embora Bobby não saiba que existe, sabe o bastante a respeito de mim para encontrá-lo. Tenho que alertar Peter.

— Não posso fazer você mudar de opinião — disse Roger. Aquilo era uma constatação da realidade.

Ela sacudiu a cabeça.

— Amanhã pela manhã pegarei o avião para Boston. Contigo ou sem.

John se inclinou e lhe sussurrou no um ouvido.

— Não irá a nenhum lugar sem mim, Rowan. Ainda necessita de um guarda-costas.

Ela se voltou e procurou seu olhar. John não havia dito uma palavra em todo o dia. Culpava-a pela morte de Michael e culpava a si mesmo. Ela o tinha visto com seus próprios olhos. Mas e agora? Estava doído. Queria vingança. Mas também tinha aberto aquela defesa invisível a seu redor para protegê-la. Sentia-se mais forte quando ele estava presente, como se agora fosse capaz de superar aquilo. Sentia-se viva, e bem.

— Obrigada — disse, sem palavras, e então se voltou para Roger. — Às seis horas. No vestíbulo. E não deixe que o doutor Christopher lhe diga que irei vê-lo. Pode ser que neste caso funcione o elemento surpresa.

  

Na segunda-feira pela manhã, Bobby Macintosh entrou em uma importante livraria de Dallas para comprar um exemplar de Crime de Risco.

Não precisava dele. Mas queria outro exemplar. Seguir o mesmo padrão. Deixar o livro com a vítima. Embora tivesse certeza de que Rowan, por mais estúpida que fosse, já o teria entendido.

Rowan. De onde tinha tirado esse nome tão ridículo? Provavelmente pensava que assim o enganaria. Que nunca a encontraria se trocasse de nome. Sorriu. Pode fugir, mas não poderá te esconder, Lily.

O fim estava perto. Um livro mais, uma vítima mais. Já tinha escolhido a pessoa perfeita, tinha o crime perfeito planejado, e era tanta a espera que quase o deixava tonto. Tinha chegado a hora. Uma vítima mais e poderia enfrentar a sua irmã.

Não podia estar mais contente, se tivesse sido ele mesmo que tivesse escolhido todas as variáveis. Certamente, Doreen Rodriguez era a que tinha requerido mais esforço e planejamento. Mas agora este assassinato tinha que ser perfeito para demonstrar a Lily que ele era mais inteligente que ela.

A essa altura, a vadia devia estar aterrorizada. Tinha contratado um guarda-costas, mas ele já havia se ocupado dele. Um cara fraco. Um inútil.

Muito esperto. Tinha averiguado que a garota que andava por aí era a irmã do guarda-costas. Tinha-a seguido por uns quantos lugares. Seria fácil chegar até ela. Se necessitasse dela.

A segurança, que piada! A segurança não era nada para um gênio.

Tinha pensado em se desfazer do outro cara. John Flynn. Enquanto esperava que o imbecil do guarda-costas voltasse do bar, fez algumas pesquisas e averiguou alguma coisa sobre o irmão, que acabava de voltar da América do Sul. Bobby se perguntava por que.

John Flynn era mais esquivo. Mas logo estaria assistindo a um funeral, não? Hmmm. Aquilo podia interferir em seus planos atuais. Teria que andar depressa. E com a pressa vinham os erros. Ele não podia permitir-se erros, não agora, que estava tão perto de conseguir exatamente o que queria.

Sua vingança.

Além disso, matar Flynn na presença de Rowan tinha suas vantagens. Se ela resistisse, ele a obrigaria a obedecer. Ela não poderia derrotá-lo, certamente, por muito treinamento que tivesse tido no maldito FBI. Ele tinha treinado a fundo na prisão. Ele a venceria com as mãos atadas.

Mas o primeiro era o primeiro.

Não encontrou o livro de Lily entre as publicações recentes. Franziu o cenho e procurou na loja enquanto aumentava sua frustração.

— Posso lhe ajudar em algo? — A atendente era jovem, loira e pequena.

— Onde posso encontrar Crime de Risco?

— Desculpe?

Ele respondeu com um bufo. Vadia estúpida.

— Um romance. Rowan Smith. Supõe-se que hoje tinha que estar nas livrarias.

— Perguntarei ao gerente. Eu não o vi — disse, e se escapuliu.

Não podia se desviar do plano. O guarda-costas tinha sido um divertimento especial; queria demonstrar a Lily que tinha estado muito perto, que podia chegar a qualquer um. Agora tinha que fazer as coisas ao pé da letra.

Achou graça de seu próprio trocadilho. Assim que tivesse se ocupado de sua irmã, seria um homem livre. Que idéia mais emocionante! Todos de sua família estariam mortos, como devia ser, e por fim poderia começar a viver. Deixariam de persegui-lo em seus pesadelos com suas caras de superioridade.

Mal agüentava a vontade de ver Lily morrer. A última da família. E, posto que tudo tinha saído tão bem, talvez se ocupasse também de seu querido pai.

Mas o que tem de divertido em matar alguém que nem sequer sabe quem é a mão assassina?

Tinha lhe parecido incrível que seu pai fosse um zumbi catatônico que passava seus dias em um manicômio. A primeira vez que o viu por trás, sentado em uma cadeira, olhando o jardim, pensou, que fraude. Seu pai tinha vencido ao sistema e agora só tinha que fingir que era um balde de lixo. Queria lhe ajudar a fugir.

E então o olhou nos olhos. Seu pai nem sequer estava presente naquele corpo magro.

Seu pai sempre tinha sido fraco. Ainda assim, Bobby tinha a esperança de que pudessem trabalhar juntos, compartilhar com ele a sensação incrível de poder torcer a mente de Lily. Escolher seus personagens e fazê-los reais. Vê-la sofrer.

Tinham trabalhado juntos antes, não? Seu pai tinha começado a tarefa e ele a tinha acabado.

Entretanto, seu pai jamais o teria acabado, pensou Bobby, sentindo a raiva que lhe engasgava. Seu pai era um imbecil. Sempre pedindo perdão. Sempre ficando de joelhos e pedindo que o perdoassem.

Safado de merda.

Quando tinha quatorze anos, Bobby recordava que seu pai fazia precisamente isso, ficar de joelhos ante sua mãe. Estavam no pátio traseiro e a vadia fez alguma estupidez. Esqueceu-se de algo. Seu pai lhe deu uma bofetada no rosto, e o sangue brotou do canto de seus lábios.

Seu olhar de pânico fez que o coração de Bobby se acelerasse. Ter todo esse poder, que o olhassem com um medo tão visceral, era apaixonante. Ansiava que chegasse o dia em que sua mãe se encolhesse de medo ante ele e se desse conta de quem mandava naquela casa.

E então seu pai fez algo que não tinha perdão. Pegou-lhe as mãos, ficou de joelhos e lhe disse que sentia muito.

Que sentia muito!

Beijou-lhe as mãos, rogou-lhe que o perdoasse, com o rosto banhado em lágrimas. Seu pai chorava. A raiva que se apoderou de Bobby nesse momento era um sentimento que nunca tinha experimentado. Ver seu pai acovardado e, além disso, de joelhos, converteu a raiva que sentia em uma ira descontrolada.

Entrou na casa, incapaz de assistir essa cena vergonhosa, de ver como sua mãe ficava de joelhos e beijava o seu pai. Eu sei, querido, eu sei, eu também sinto muito.

Os dois mereciam morrer.

Nesse momento, algo lhe roçou os pés. Olhou e viu o cachorrinho que seu pai havia trazido para casa para toda a família duas semanas antes. O cachorrinho o olhou com uns olhos castanhos que lhe pareceram tão patéticos que teve vontade de lhe dar um pontapé e lançá-lo ao outro lado da sala.

Mas agarrou o cachorrinho e saiu da casa.

Ninguém voltou a ver o estúpido cão.

Bobby sacudiu a cabeça e olhou a seu redor. Já não tinha quatorze anos nem estava em casa. Estava no meio de uma estúpida livraria, esperando. Onde tinha se metido a loira?

Olhou seu relógio. Dez minutos. Estava inquieto.

Andou até um dos caixas e foi o primeiro da fila.

—Estava esperando para saber o que aconteceu com Crime de Risco. Estava previsto que saísse hoje. Tenho que ir procurar em outra livraria?

O garoto magro do caixa o olhou de maneira estranha e a loira pequena se aproximou com toda a pressa. Por que tinham que ser todos tão jovens?

—Sinto muito, senhor, mas o pedido não chegou. O gerente diz que o lançamento foi atrasado e que não chegará até dentro de uma semana, no mínimo. Posso-lhe ajudar em alguma outra coisa?

Atrasado. Por que? Era acidental, ou intencional? Por acaso a polícia pensava que se não tivesse o livro não levaria até o fim sua missão?

Que imbecis. Já lhes demonstraria que ele era mais esperto que todos outros.

Saiu com grandes passadas da livraria sem dizer uma palavra. Talvez tivesse que ser assim. Isso. Deixaria-lhe seu próprio exemplar do estúpido livro junto ao corpo da fulana. Já tinha dado uma olhada em uma prostituta.

Sadie.

Se ele acreditavam que podiam vencê-lo, estavam muito equivocados. Assim que a puta tivesse morrido, ele se encontraria com Rowan. Com Lily.

Sentindo uma espécie de pesar porque o jogo chegava a seu fim, voltou para o quarto do hotel para acabar seus preparativos.

  

Fazia muito frio em Boston para essa época do ano. Em lugar de uma leve brisa, de árvores em flor e de céus limpos, tudo tinha uma palidez cinzenta. Uma umidade gélida penetrava rapidamente nas capas de roupa e se afundava na medula dos ossos.

Nem John nem Rowan estavam vestidos para o clima de Boston. Tinham saído de uma Los Angeles ensolarada com o que tinham posto e tinham comprado só o essencial na loja de presentes do hotel ao chegar em Dallas. Mas entre jérseis e jaquetas, os dois tinham tido que comprar roupa muito cara no Aeroporto de Logan.

Rowan não tinha falado muito durante o vôo nem no carro que os levou até Bellevue. John respeitou o espaço que ela necessitava para estar a sós. Embora não muito. Vigiava-a em todo momento e a seguia de perto para que soubesse que não estava sozinha. Afinal, era seu guarda-costas. E alguma coisa a mais.

Mas nesse momento não pensava nisso.

Não sabia se ele a ajudava em algo, embora de vez em quando ele a surpreendia olhando-o com uma expressão estranha.

John nunca tinha tido problemas para entender às pessoas, mas Rowan não era uma pessoa qualquer. Levava muitos anos ocultando suas emoções para proteger-se. John se dava conta agora. Algo em seus olhos o chamava. Seus olhos expressavam sua dor, sua raiva, seus medos e sua incerteza. Também via inteligência, esperança e força, uma vitalidade que lhe impedia de ceder ao desespero, e que tinha convertido a vítima de um trauma aos dez anos em uma implacável agente do FBI e, posteriormente, em escritora. Embora Rowan acreditasse que era fraca, perseguida por pesadelos que a obrigaram a se demitir do FBI, ele via uma mulher bastante inteligente para saber quando necessitava de um descanso. Antes que o trabalho acabasse com ela.

Ela era mais forte que ele. John seguia arremetendo contra os moinhos de vento, sabendo que o moinho de vento maior, a suposta luta contra as drogas, era uma causa perdida. Cada vez que detinham um carregamento, havia um segundo carregamento duas vezes maior que o primeiro.

Entretanto, era seu trabalho. Não podia abandonar, ao menos enquanto Reinaldo Pomera estivesse vivo.

O Hospital de Bellevue para criminosos doentes mentais oferecia um aspecto sereno contra o céu cinza e brumoso. Roger dirigia, e Rowan viajava sentada a seu lado. O agente Peterson tinha pego um avião de volta a Los Angeles para coordenar a busca a Bobby Macintosh.

Embora John não pudesse lhe ver o rosto, via sua mandíbula apertada e captava a tensão que emanava de todo seu corpo. Queria consolá-la, dizer que não era obrigada a fazer isso, que ele a salvaria da dor.

Mas ela não o aceitaria. Agora não. Talvez mais tarde, quando tivesse terminado, necessitaria de alguém em quem apoiar-se. E ele pensava estar com ela nesse momento.

— Rowan — disse Roger, ao apagar o motor —, tem certeza?

Ela não respondeu e devolveu um olhar frio. Quando foi abrir a porta do passageiro, John desceu rapidamente do carro e a abriu. Rowan pareceu surpresa com o gesto, em seguida suspirou e permitiu que a escoltasse até a porta de entrada.

Roger se apressou em segui-los. Tinha ligado com antecedência e o doutor Christopher os esperava no vestíbulo.

— Collins — disse o médico com um gesto seco de cabeça. — Você deve ser Rowan Smith — acrescentou, olhando para Rowan.

— Sim.

— Só posso permitir que duas pessoas visitem senhor Macintosh. Eu devo estar presente como observador.

— Eu sou seu guarda-costas — disse John, olhando diretamente a Collins.

— Esperarei aqui — disse Roger, derrotado. Ele tinha estragado tudo, e tinha perdido a confiança e o respeito de Rowan. John quase sentia pena por ele. Até que recordou que Michael estava morto.

John seguiu ao doutor Christopher e a Rowan pelo longo corredor. O silêncio reinava naquelas dependências, um vazio inquietante que chamou a atenção de John. Não deveria haver zeladores aqui e lá, enfermeiras com medicamentos, pacientes que necessitavam de ajuda? Era como se fossem as únicas pessoas vivas dentro do recinto, e isso o deixava nervoso.

— Onde estão as pessoas? — perguntou, finalmente, enquanto cruzavam por uma porta de segurança e ainda não se encontraram com ninguém desde sua chegada ao vestíbulo.

— Nesta ala temos um contingente mínimo de pessoal — disse o doutor Christopher. — Nossos pacientes seguem um horário estrito. Não são os típicos doentes mentais. Todos os que acabam aqui o fazem obrigados por uma ordem judicial. A maioria morrerá aqui. Os pacientes violentos estão na ala norte. É uma zona com muito mais pessoal e é muito mais ruidosa que este setor. Entretanto, todos os quartos e todos os corredores são controlados por câmeras de segurança — disse, e assinalou para as câmeras que havia em todos os cantos. — Uma equipe médica preparada e armada pode chegar a qualquer ponto do hospital em sessenta segundos ou menos.

O doutor Christopher se deteve diante de uma porta larga. Através da janela, John viu as costas de um homem magro sentado em uma cadeira, um pouco curvado, frente a uma janela de vidro blindada que dava a um jardim exuberante. Olhou para Rowan. Ela olhou a seu pai, e o medo a fez tremer.

John lhe pegou o queixo, obrigando-a a olhá-lo. Ela lhe sustentou o olhar.

— Pode enfrentar isso, Rowan. Eu estarei junto a ti em todo momento. Só te fará mal se você deixar.

— Estou preparada — disse, com voz trêmula, mas clara.

— Muito bem. — O doutor Christopher introduziu seu cartão no painel de segurança e a porta se abriu com um «clic» eletrônico.

Com a mente em branco, Rowan não se moveu. Só via seu pai, mas não nesse momento, naquele quarto estéril e mal mobiliado. Via-o soltando uma faca ensangüentada, recolhendo a sua mulher morta. Beth. Beth. O que eu fiz?

— Rowan?

A voz de John chegava de muito longe, do final de um túnel, banhado em luz. Ela se voltou para ele, querendo, necessitando sua força. Ele a olhou com seus olhos de cor verde escura e transmitiu toda sua vitalidade.

— Rowan, estou aqui — dizia.

Sentiu que John lhe apertava a mão. Não sabia se ela tinha procurado a ele ou ao contrário.

Não importava. Não estava sozinha.

Rowan colocou a única outra cadeira da sala em frente a seu pai. Respirou fundo, sentou-se e se obrigou a olhá-lo nos olhos.

Ele não a via.

Seus olhos de cor azul cinzento, tão parecidos com os dela, olhavam vazios, além dela. Não viam ela, não viam nada. Seu pai seguia ausente, seu corpo convertido em uma carapaça vazia, tal como era vinte e três anos atrás, depois de matar a sua mãe.

— Papai — murmurou, com um grasnido de voz. — É Lily.

Nenhum reconhecimento. Nenhum movimento. Nada mais que um olhar vazio.

Voltou a tentar.

— Papai, sei que Bobby veio te visitar.

Silêncio.

Silêncio total! Como podia ficar aí sentado e não estar em parte alguma?

— Papai, preciso de você! — Rowan elevou a voz. — Acorda, droga!

—Senhorita Smith, ele pode lhe ouvir perfeitamente — interveio o doutor Christopher. — Mas seu cérebro não faz conexões entre o pensamento e a fala.

— O que quer dizer isso? Que seu cérebro está morto? Como se estivesse em coma? — perguntou ela, incrédula.

—Não, não se parece em nada com isso. Embora se pareça mais a um coma que a qualquer outra coisa — explicou o doutor Christopher. — A condição de seu pai é puramente psicológica e, tecnicamente, o estado de coma é provocado por uma lesão interna ou externa do cérebro. Por exemplo, um acidente de carro ou um tumor. Seu pai sofre de um transtorno neuropsicológico, bastante raro, embora existam casos documentados. Seu pai ouve tudo o que lhe diz, mas não pode entender. Pode ver, mas não pode processar as imagens. Se fechou em sua própria mente devido ao trauma do crime que cometeu. Se não tivesse feito isso, é provável que houvesse se suicidado ao dar-se conta do que tinha feito. E é provável que se seu irmão não tivesse pego a faca, seu pai a tivesse usado contra si mesmo.

Rowan escutava o que o médico lhe dizia, mas o único em que pensava era por que? Por que seu pai tinha matado a sua esposa? Embora por seus anos de estudo soubesse que os maridos que maltratavam freqüentemente chegavam a matar, ainda lhe custava relacionar o mau trato com o assassinato, ou a violência com seus pais.

Queria pôr fim a essa parte de sua vida e começar de novo. Mas apesar da nova vida que tinha criado para si mesma, separada de seus anos de infância, seguia sentindo um estreito vínculo com seu pai. Com sua mãe. Com suas irmãs mortas.

Com Bobby.

— Por que, Papai? — disse, surpreendida de que sua voz soasse tão infantil. — Por que matou a Mamãe?

Ele pestanejou. Rowan percebeu que o médico prestava uma atenção especial a sua pergunta. Ninguém disse uma palavra.

— Eu te vi, Papai, vi você apunhalar a Mamãe.

— Beth.

Rowan segurou a respiração. Seu pai tinha pronunciado o nome de sua mãe.

Rowan se parecia com sua mãe. Só ela e Bobby tinham o cabelo loiro como ela. Assentiu com um movimento de cabeça.

— Sim, Robert. Estou aqui.

Ele voltou a pestanejar. Desta vez, uma lágrima solitária rodou por sua bochecha. Rowan ficou olhando quando a lágrima ficou suspensa no queixo um segundo e depois caiu sobre suas mãos.

— Robert, preciso da sua ajuda. — Ele não respondeu, mas ela prosseguiu. — Bobby veio te visitar. Falou contigo. O que ele te disse?

— Beth.

Era impossível. Rowan teve que reprimir o impulso de inclinar-se e dar uma bofetada a seu pai. Ao contrário, insistiu:

— Robert, Lily necessita de sua ajuda. Bobby quer machucá-la. O que ele te disse?

Silêncio.

Ouviu que o doutor Christopher escrevia algo com pressa em um papel, que depois lhe entregou. Pergunte a ele por que matou você.

Rowan fechou os olhos. Ela era capaz de enfrentar aquilo. Com certeza que podia. Sentiu as lágrimas que estava a ponto de derramar, sentiu o nó na garganta.

— Papai, por que me matou?

Ele pestanejou e voltou seu olhar para ela. Sua expressão não era normal, mas tampouco era o olhar vazio que tinha quando ela entrou.

O coração lhe pulsava com tanta força que sentiu uma dor no peito. Conservou sua expressão imutável, firme. Não viria abaixo. Não aí, nem nesse momento.

— Bobby voltou a te ver com ele. Eu te disse que não te aproximasse dele, mas você não obedeceu.

Bobby. Rowan afogou um grito e sentiu uma mão no ombro. John. Compartilhando sua força com ela. Respirou fundo.

— Bobby quer machucar Lily. Por favor, me ajude a detê-lo.

Seu pai sacudiu a cabeça muito lentamente para frente e para trás.

— Bobby matou os nossos filhos, Beth. Lily está morta.

— Não, não estou morta, p… Robert. Lily está viva. Bobby quer matá-la.

Seu pai voltou a sacudir lentamente a cabeça. Falou com uma voz arrogante, como um menino.

— É como se estivesse morta. Bobby me disse isso.

Rowan queria gritar, golpeá-lo, sacudi-lo até que dissesse algo que tivesse sentido.

Provou com tudo o que lhe vinha à cabeça, mas seu pai não voltou a falar. Ficou ali sentado, olhando-a com olhos ausentes, com seus olhos que viam e não viam. Sacudia a cabeça, para frente e para trás, até que Rowan não pôde mais. Levantou-se e saiu apressada para a porta. Estava fechada, e não pôde sair. Golpeou a porta com os punhos, até que John se aproximou e lhe pôs o braço sobre os ombros. O doutor Christopher os deixou sair.

O médico estava emocionado.

— Jamais pensei que viria visitá-lo, mas o ajudou a dar um passo muito importante. Incrível. — O doutor Christopher se balançava sobre os calcanhares. — Virá de novo? Podemos trabalhar juntos para tirar-lo de sua prostração mental. É a primeira vez que vejo a possibilidade de chegar a ele.

Rowan ficou olhando, boquiaberta, com os olhos muito abertos.

— Está falando a sério? Espero que apodreça no inferno.

O médico franziu o cenho e piscou.

— É um doente mental, senhorita Smith. Não sabia que fazia quando matou a sua mãe.

— Eu não acredito isso. Espero que esteja sofrendo nesse mundo que criou para ele. Sempre batia na minha mãe. Batia até deixar hematomas e fazê-la sangrar. Ela ficava ao seu lado porque dizia que o amava — disse, com um sorriso amargo. — E agora está morta. Ele a matou. Espero que quando finalmente morra queime no inferno. — Calou e ficou olhando ao médico com expressão desafiante.

— Nunca pensei que houvesse pior castigo que a morte. Mas possivelmente há.

— Você está bem? — perguntou John, enquanto esperavam uma mesa no restaurante do hotel.

Depois de deixar Bellevue, dirigiram-se aos escritórios do FBI, onde Collins tinha estabelecido um quartel de operações provisório para coordenar-se com Los Angeles e Washington. A prioridade número um era distribuir a foto de Bobby Macintosh ao pessoal das linhas aéreas em todo o país. Depois de onze de setembro, criou-se um mecanismo precisamente com esse fim, embora sua eficácia dependesse dos funcionários locais.

Depois que Rowan contou a Collins o que seu pai havia lhe dito, encerrou-se em si mesma. John não podia culpá-la. Ele também teria querido estar a sós depois de uma experiência como essa. Agora estavam sozinhos. Collins tinha se retirado para seu quarto, embora John duvidasse que pudesse conciliar o sono. A culpa era um poderoso elemento para manter-se insone.

— Estou bem — disse Rowan.

— Você sabe que pode falar comigo, não é?

Ela o olhou como se estivesse intrigada, e John franziu o cenho. Acaso não confiava nele? Depois de tudo o que tinham vivido juntos?

Entretanto, ele a tinha tratado como um trapo depois da morte de Michael na sexta-feira de noite.

Na sexta-feira. Tinham passado três noites, setenta e duas horas desde que Michael morrera baleado. E John estava ali, em um elegante restaurante de Boston com a mulher pela qual seu irmão havia se apaixonado.

— John? — perguntou Rowan, preocupada.

Ele não tinha vontade de falar de Michael, mas ela tinha direito de saber o que pensava.

— Não te culpo pela morte de Michael. Por favor, acredite em mim. Não estava em meu juízo, e disse coisas que não queria dizer. Passei da conta.

Ela assimilou suas palavras e John a viu sacudir lentamente a cabeça.

— Pode ser que não me culpe, mas isso não impede que a culpa seja minha.

— Rowan, você nem sequer sabia que o assassino era seu irmão. Tinha toda a razão do mundo para pensar que estava morto.

Os olhos de Rowan se encheram de lágrimas, que não chegaram a derramar-se.

— Não posso acreditar que Roger tenha ocultado isso de mim por tanto tempo.

Uma garçonete se aproximou.

— Sua mesa está pronta — avisou. — Para três.

— Obrigado — disse John, e assentiu com a cabeça.

— A quem esperamos? Espero que não seja Roger. Não… não posso estar com ele neste momento.

— Não é Roger. É Peter.

Rowan o olhou com expressão de surpresa.

— Peter? Mas se supõe que tem que seguir mantendo-se no anonimato. O que acontecerá…?

Ele lhe selou os lábios com o dedo.

— Rowan, Roger me deu seu número e o liguei. Quer ver-te. Acredito que te faria bem, sobre tudo depois do que viveste hoje.

A indecisão que se adivinhava em seu rosto era evidente. Amava a seu irmão, mas temia por ele.

— Tem uma escolta do FBI, se isso te faz sentir melhor.

— Um pouco — confessou ela.

Sentaram-se à mesa e Rowan não deixava de virar a cabeça procurando a seu irmão.

Respirou fundo e, quando falou, sua voz estava tensa.

— John, cheguei a apreciar muito a Michael. Eu gostava dele. Lamento muito que já não esteja mais.

— Não continue. — Sua voz era mais rude do que teria desejado. — Eu não te culpo, Rowan. Tem que deixar de te culpar.

John respirou longa e profundamente. Tinha os punhos apertados e os relaxou lentamente, tentando aliviar a tensão acumulada desde a morte de Michael. Era mais culpa sua que de alguém mais.

Não queria gritar com Rowan, mas tinha que fazê-la entender.

— Sou tão responsável como você do fato de que Michael estivesse onde estava. Não deveria ter insistido que fosse para casa naquela noite. Fui egoísta, e o criticava por sua maneira de levar o caso. — Ora, custava dizê-lo com palavras, mas já o havia dito.

— Quem é Jessica?

John franziu o cenho ante o inesperado giro da conversa.

— Uma mulher com a qual Michael teve uma relação.

— Um dia ouvi que você e Tess diziam que eu era uma segunda Jessica. O que queriam dizer com isso?

John ficou pensativo. Não podia contar-lhe tudo sem trair Michael em algum sentido, mas não queria mentir. Não podia mentir. Optou por uma versão rápida da verdade.

— Michael era policial, e foi a vez dele de se ocupar do caso. O ex de Jessica a perseguia. Um valentão da máfia. Michael a ajudou, e continuou vendo-a. A coisa não funcionou. Jessica voltou com seu cara, e ele a acabou matando — ficou em silêncio e então acrescentou: — Michael tinha uma debilidade pelas garotas em apuros.

— A mim dificilmente poderia chamar de uma rapariga em apuros — disse ela e, quando baixou o olhar, John não pôde lhe ver o rosto. Já era bastante difícil com todas aquelas barreiras que impôs a si mesma, mas se não pudesse ver os olhos, não podia saber no que pensava.

— Não, mas é uma mulher bonita e necessitava que alguém cuidasse de ti — disse ele, com voz suave. Esticou a mão para pegar a de Rowan. — Rowan, eu não me recuperarei tão facilmente do golpe que significa a morte de Michael. Foi culpa minha que estivesse sozinho. Não pensei… ninguém pensou… que Bobby iria pega-lo. — Elevou a mão que tinha livre quando ela fez gesto de lhe interromper. — Entretanto — prosseguiu —, superarei-o, com tempo e a minha maneira.

Ela assentiu, e em seus belos olhos se percebia compreensão.

— Rowan — disse uma voz a suas costas.

Rowan sentiu que John ficava tenso. Soltou-lhe a mão e se levantou.

— Peter — murmurou ela, e se girou para saudar seu irmão menor.

Peter usava um pulôver por cima de seu colarinho de clérigo, e em seus olhos cinzas aparecia um brilho de inquietação. Ofereceu-lhe os braços e ela se entregou a sua quente saudação, respirando seu aroma seguro e familiar, apoiando a bochecha em seu peito. Peter era bastante alto, mais alto que John, e mas bem magro.

Deu um passo trás e o olhou de cima a baixo. Nas incipientes rugas do rosto plácido e belo de seu irmão se via claramente sua inquietação. Seu cabelo escuro já tinha alguns fiod brancos, aqui e ali. Só tinha trinta anos. De onde tinham saído esses cabelos grisalhos? Acariciou-lhe o rosto.

— Me alegro tanto de ver-te. — E era toda a verdade. Era mais que alegria, era quase como uma cura.

Ele a beijou na testa, deu um passo para trás e estendeu a mão a John, que tinha se posto de pé e assumido seu aspecto de guarda-costas, situando-se ao lado de Rowan, um pouco atrás.

— John Flynn?

— Sim, padre.

Peter sorriu, e em seu sorriso havia um toque de humor.

— Me chamando de Peter, basta. Obrigado por seu telefonema.

John assentiu com a cabeça e o convidou a sentar-se. Quando estavam instalados, a garçonete recolheu o pedido e se foi.

— O que John te disse? — perguntou Rowan, rompendo um incômodo silêncio. Tanto Peter como John pareciam medir-se com o olhar. Rowan se sentiu estranha.

— Suponho que deveria perguntar o que não me disse — disse Peter. — Por que veio a Boston?

Rowan entrecerrou os olhos.

— Para ver nosso pai.

— O que? — O impacto emocional na voz grave de Peter surpreendeu Rowan. — Mas, pensei que você… — balbuciou, e ficou em silêncio. — Por quê?

— Bobby está vivo — disse ela, com voz branda. — Está vivo e matou a várias pessoas. Ele é o assassino, Peter.

Rowan contou a Peter tudo o que sabia, do principio ao fim. Contou-lhe sobre os assassinatos, os lírios, as tranças, as mentiras de Roger. Chegou a comida e a todos custou muito começar; ninguém tinha ânimo para comer.

Quando Rowan terminou seu relato, Peter se voltou para John.

— Lamento muito a morte de seu irmão.

— Obrigado. — A Rowan pareceu que John respondia com certa rudeza, mas que outra coisa podia esperar? Acabava de contar a Peter como Bobby tinha assassinado Michael.

— Papai falou? Que estranho — disse Peter, e bebeu um gole de água.

Rowan assentiu.

— Também me parece isso. Sabe, não deixo de dar voltas em minha cabeça ao que me disse. Bobby lhe contou que Mamãe estava com alguém. Foi Bobby quem montou toda a tragédia? Queria provocar problemas entre Papai e Mamãe? Não o entendo.

— Bobby sempre sentia um prazer especial fazendo mal às pessoas. Física e emocionalmente — disse Peter. — Eu era muito pequeno para entender por que tinha essa raiva e esse ódio tão arraigados, mas sabia o bastante para me manter o mais longe possível dele.

— Acredito que Bobby manipulava papai há tempo. Provavelmente nunca pensou que ele mataria mamãe, e só queria causar problemas por puro prazer. Mas aconteceu algo a Papai e perdeu a cabeça.

Rowan afastou o prato.

— Ou talvez tentasse só justificá-lo.

— Porque batia na Mamãe.

Ela o olhou, surpreendida.

— Você sabia? Nunca me disse nada.

Um profundo pesar apareceu no olhar de Peter.

— Sabia, mas não o entendia. Eu tinha sete anos quando ela morreu. Estava acostumado a ouvir como brigavam, não os via. Exceto os machucados, que eu via — disse, e respirou fundo. — Mamãe decidiu ficar a seu lado. Isso faz que tudo seja mais difícil de assimilar.

Uma lágrima rodou pela bochecha de Rowan, e a secou.

— Teria que ter falado comigo. Talvez poderíamos ter ajudado um ao outro.

— Talvez, se tivéssemos sido mais velhos. E tivéssemos estado juntos. Mas quando O’Brien me adotou e Roger te acolheu em sua casa, já não nos víamos. E depois…, o tempo. O tempo é muito cruel, Rowan. Eu lutei com meu passado o melhor que pude, e estou em paz com isso. Que outra coisa posso fazer? Exceto tentar te ajudar. Mas você nunca deixou ninguém entrar. — Peter olhou para John. — Ao menos, foi assim durante muito tempo.

Rowan olhou de esguelha a John. Adivinhava-se a tensão em seu rosto, embora a olhasse com simpatia. E algo mais. Algo que os unia. Foi como se o coração tivesse parado quando se deu conta que, em muito pouco tempo, John tinha chegado a formar parte importante de sua vida. E ela nem percebeu.

Não era um pensamento de todo tranqüilizador.

— Por que os O'Brien não adotaram Rowan? — perguntou John, olhando de para o outro.

Peter ficou em silêncio por um longo momento.

— Eram momentos difíceis para os dois. Eram boas pessoas, mas duas crianças traumatizadas eram difíceis para qualquer um. A tia Karen, a irmã de nossa mãe, negou-se a nos aceitar. Rowan e eu ouvimos que nos chamava a «semente do diabo».

Rowan nunca esqueceria isso. Recordava-se sempre de onde vinha. Das entranhas do diabo.

— Nossos avós já estavam velhos — explicou ela, com voz entrecortada. — Estivemos com eles por uma semana, mas eu não facilitei para eles.

— Quem poderia lhe recriminar isso - disse Peter, como em um arranque, e em sua voz vibrava uma ira profunda. — Quando deixará de te culpar? O que você poderia ter feito, uma menina, para que nosso pai não matasse Mamãe a punhaladas? O que poderia ter feito para proteger Dani? Fez tudo o que pôde. Salvou a minha vida.

Ela afogou um soluço, e Peter lhe pegou a mão com força.

— Tem que deixar o passado ir.

— Eu sei — murmurou ela. — Mas não poderei até que detenham Bobby. Anda por aí, solto, matando as pessoas para chegar até mim. Por favor, tome cuidado, Peter. Se descobrir que você ainda está vivo, irá te pegar.

— Eu estou preparado, Rowan. Estou em paz. A pergunta é você também está?

  

Depois de despedir-se de Peter, John acompanhou Rowan até seu quarto. Ele ocupava o quarto contíguo, e se assegurou de deixar a porta aberta se por acaso ela corresse algum perigo. Duvidava que Bobby soubesse onde se encontravam, mas se contasse com ajuda ou tivesse acesso ilegal aos dados das linhas aéreas, seria possível ele conhecer seu destino.

John não podia dormir. Ficou estendido de costas olhando o teto do quarto, enquanto a tênue luz da rua projetava sombras nas paredes. Pensava em tudo o que Peter havia dito. Na frustração e na culpa que Rowan sentia. Isso ele entendia. Ele mesmo era vítima de uma profunda frustração e culpa.

Tinha saudades de Michael. Na quarta-feira era seu funeral e não queria assistir. Detestava os funerais. Tinha estado em muitos funerais em seus quase quarenta anos. Sua mãe. Seu pai. Os colegas. E os criminosos.

Denny.

Despediu-se de Michael no necrotério, cara a cara. Fechou os olhos e viu o corpo frio e inerte de seu irmão sobre a prancha de aço.

Mas, no final, assistiria. Tinha que fazê-lo. Por Tess. Por Michael.

Percebeu um leve movimento no quarto de Rowan e abandonou em silêncio a cama, com a pistola na mão.

— Sou eu — disse Rowan, quando ele cruzou a soleira. Seu cabelo longo e quase branco caía pelas costas e brilhava na escuridão. Usava uma camiseta longa que apenas chegava às coxas. Suas pernas longas e bem torneadas estavam nuas.

John relaxou e deixou a pistola a um lado.

— Tudo vai bem?

Ela assentiu com a cabeça.

— É que… Posso dormir contigo esta noite?

Eram as palavras de uma menina, mas a voz era rouca e sedutora. Seu corpo respondeu imediatamente.

— Tem certeza?

Ela se aproximou e lhe pôs uma mão no peito. Seus lábios estavam a escassos centímetros do rosto de John.

— Sim, John. Tenho certeza.

Rowan não tinha certeza de muitas coisas em sua vida, sobre tudo desde que tinha se demitido do FBI mas, nesse momento e lugar, sabia com certeza que necessitava de John. Era mais que uma necessidade. Era o desejo mais profundo que já tinha sentido por um homem.

Como era possível que algo tão poderoso, tão acertado, acontecesse tão depressa?

— Rowan. — A voz de John era grave, tingida pelo desejo. Ficou quieto, tremendo ante as mãos de Rowan que descansavam sobre seu peito largo e musculoso.

Ela não podia imaginar outro lugar onde queria estar. Com John.

Beijou-lhe o peito, e o calor dele se derramou por seus lábios, passou pela garganta, chegou-lhe até o fundo da alma. Sua respiração se tornou entrecortada quando entendeu que seus sentimentos por John eram mais profundos do que tinha imaginado. Queria gritar contra toda aquela injustiça que poderia acabar com sua vida. Ou com a vida de John.

Meu Deus, não. John, não. Não poderia viver consigo mesma se ele morresse protegendo-a.

— O que está acontecendo? — inquiriu ele, enquanto ela lhe deixava uma trilha de beijos no peito e seguia pelo ombro.

Ele era muito perspicaz. Ela não disse uma palavra, só seguiu beijando-o. Não queria falar. Só queria sentir.

Ele deu um passo para trás e, com um dedo, obrigou-a a elevar o queixo.

— Me fale.

Mas ela não podia falar disso. Não de seus medos, nem podia falar do que seu coração pedia a gritos.

Não podia dizê-lo. Todas as pessoas que ela amava morriam.

— Faça amor comigo — disse, e lhe roçou os lábios.

— Row…

— Shh — murmurou ela em seus lábios, e o levou suavemente para a cama.

Ele hesitou só um momento antes de entregar-se a seu abraço. Como um interruptor, passou das carícias suaves a uma paixão desatada. Ela percorria seu corpo robusto de cima a baixo, como se não pudesse deixar de tocá-lo. Como se fosse a última vez, tinha que tocá-lo por toda parte, desde seu cabelo curto até seus ombros, até chegar à cicatriz que ia da metade da coxa até o joelho.

Sua boca seguiu pelo peito até seu ventre. Ele estremeceu, e a agarrou pelo cabelo. Ela lhe beijou o umbigo, lambeu-lhe o ventre terso até chegar à pélvis, e suas mãos procuraram seu membro, duro e grande, e o meteu na boca. Ele gemeu, e ela o engoliu até o mais fundo.

O suor e um tórrido desejo masculino lhe embargaram os sentidos. Jamais a havia sentido tão apaixonada, tão desejável.

— Row… an. — Levantou-a, colocou-a de seu lado e montou sobre ela. — Está me deixando louco.

Afundou-se nela. Em seus lábios, procurando-a com a língua. Peito contra peito, pélvis contra pélvis. Afundou-se comodamente nela, até lhe arrancar um longo gemido do profundo de suas entranhas.

Não demoraram em encontrar o ritmo. Rápido, duro, intenso. Ela desejava aproximar-se mais e mais a ele. Ele a estreitou com mais força, afundou-se mais fundo, até precipitarem-se juntos para o orgasmo, agarrados um ao outro, quase enlouquecidos. Como se fosse a última vez.

Não. Não podia ser a última vez. Não podia perdê-lo agora que tinha encontrado alguém que encaixava tão bem em sua atormentada vida.

A menos que…

Não queria pensar nos sentimentos de John, mas tinha que fazê-lo. Ele a consolava, preocupava-se com ela, amava-a… essa noite. Esta noite era deles. Amanhã… talvez. Mas para sempre?

Era incapaz de imaginar para sempre. Nunca tinha havido um para sempre em sua vida, e era uma necessidade pensar que podia conviver com este homem complexo e duro e de alma tão generosa.

Respirou profundamente e tentou colocar-se de um lado.

— Não tão rápido. — John esclareceu garganta. Se Rowan acreditava que voltaria para sua cama, teria que se ver com ele.

John deslizou até o centro da cama e atraiu Rowan para ele. Cobriu os corpos nus e suados com o lençol. Não se recordava de ter tirado as calças nem de ter tirado a camiseta dela. Talvez ela tivesse fe