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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A PRIMAVERA DO AMOR / Heinz G. Konsalik
A PRIMAVERA DO AMOR / Heinz G. Konsalik

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A PRIMAVERA DO AMOR

 

Todos os que conheciam Kathinka Braun pela primeira vez logo ficavam fascinados por ela.

 

Esta afirmação apenas era naturalmente válida em relação aos homens; as mulheres observavam-na com outros olhos. Havia muita coisa no seu porte e corpo, na sua aparência e simpatia que as outras mulheres contemplavam com sentimentos de inveja.

 

Chegava-se à conclusão de que a sua maneira de vestir era elegantemente prática, e o facto de, aos trinta anos de idade, usar o cabelo castanho, solto e pelos ombros era considerado como dando-lhe uma aparência extraordinariamente juvenil. Havia que aceitar que ela conduzisse um automóvel desportivo italiano e vivesse numa das casas mais luxuosas de Hanôver, na medida em que Kathinka teria de aplicar o seu dinheiro em qualquer lado. E dinheiro não lhe faltava! Não o tinha herdado, não casara e também não o recebia de um amigo rico - o que de bom grado lhe teriam apontado -, mas ganhava-o honrada e esforçadamente numa profissão em que se via obrigada a defrontar uma poderosa concorrência masculina: Kathinka Braun era arquitecta.

 

Não era uma arquitecta de interiores. Construía arranha-céus, blocos habitacionais, edifícios administrativos e, de vez em quando - de certo modo uma compensação a nível artístico -, vivendas de estilo exclusivo na Floresta Negra, junto ao mar Morto e nos Alpes da Baviera. Ela não conhecia fronteiras; para os que se podiam dar a esse luxo, o nome Kathinka Braun era um artigo de marca. Reconhecia-se uma ”casa KB” à primeira vista: junto ao portão de entrada havia as letras KB incrustradas a ouro na parede. Um selo de qualidade da fantasia artística.

 

Todas as damas da sociedade consideravam, evidentemente, ridículo aquele KB em ouro. O cúmulo da presunção! Pois o KB também se encontrava impresso na carroceria do seu automóvel desportivo, pendurado em ouro e com uma cercadura de brilhantes, como medalhão, à volta do belo pescoço de Kathinka e também aparecia no canto do seu papel de carta. Corria em Hanôver o boato de que o casamento do industrial Heinrich Schneller se tinha desfeito só porque, durante uma das deslocações ao estrangeiro do director da fábrica, Frau Schneller mandara colocar o KB junto à porta de entrada.

 

Os boatos eram uma presença constante na vida de Kathinka Braun, rodeavam-na como uma teia invisível, um perfume característico; contudo, esta mulher famosa, esta beleza fria, ante cuja visão o sangue corria com mais força nas veias dos homens e o sobrolho das mulheres se franzia, jamais dera motivo a alcoviteirice social. Não se lhe conheciam ligações amorosas, amantes, encontros secretos - era inacreditável! O seu atelier de arquitectura empregava vinte e três homens, dentre os quais dezassete ainda possuíam aquela aparência masculina que não deixara indiferentes outras mulheres. No âmbito das suas funções em Hanôver, muitos construtores haviam sido convidados da sua casa sem que nunca houvessem conseguido devassar a sua intimidade. Na vida de Kathinka Braun tudo indicava não existirem homens.

 

Era um erro. Existia um bom amigo. Chamava-se Herbert Vollrath e era professor na Escola Superior de Arquitectura. Era um homem robusto, de ombros largos, que, de vez em quando, aparecia aos domingos com um ramo de flores no apartamento de Kathinka, bebia uma garrafa de champanhe na sua companhia e outras vezes um conhaque, um Lepanto espanhol que lhe sabia melhor do que o francês; em seguida conversavam sobre arquitectura moderna, espectáculos de ópera e concertos. Pela quarta vez em seis anos - Herbert Vollrath era tão fiel como isto - dispôs-se a dizer-lhe:

 

- Isto não é situação, Kathi! Conhecemo-nos bastante bem, tão bem que podemos dizer...

 

- Não!

 

- O que quer dizer ”não?” - Ela desencorajava-o com uma só palavra. Em seguida deu-lhe a resposta de sempre:

 

- Por nos conhecermos tão bem, Herbert, é que devemos desistir da ideia de que entre nós exista mais alguma coisa do que uma boa amizade. É uma coisa muito rara entre as pessoas. Gosto da minha profissão...

 

- Não precisavas de abdicar dela.

 

- Tu és professor, Herbert, e eu construo máquinas habitacionais... E depois passamos as noites juntos, bocejamos, falamos dos problemas do dia-a-dia, descarregamos mutuamente as nossas queixas, vamos para a cama, lemos durante uns minutos e adormecemos com os óculos no nariz! Um casamento ideal, não achas?

 

- E não sentes o desejo de dar um rumo diferente à tua vida? Não podes esquecer-te de que és uma mulher, Kathi. Uma mulher maravilhosa...

 

- Obrigada.

 

- Sabes perfeitamente que nenhum homem consegue passar por ti sem olhar para trás e mirar-te! És uma mulher que desperta os desejos e os sonhos! A tua aparência maravilhosa tem de ser mais do que uma fachada, dado que existe uma harmonia entre o corpo e a alma! Não és uma pedra polida, mas uma vida pulsante.

 

- Tenho as minhas razões - respondeu simplesmente Kathinka Braun.

 

Herbert Vollrath sentia sempre uma punhalada, cujos efeitos demoravam a passar. Decorridos uns momentos expressou a mágoa que sentia:

 

- A que chamas razões? Os flirts passageiros durante as férias?

 

- Talvez.

 

- Um amor de Verão em Tenerife... um amor de Inverno em Pontresina... Um ovo da Páscoa nas Caraíbas como no ano passado...

 

- Uma alegria sem fronteiras. É isso mesmo, Herbert... - Quando baixou a voz e lhe estendeu o copo de conhaque, ele apercebeu-se de que a conversa iria continuar: - Não fui uma mulher talhada para o casamento! Sou demasiado independente, tenho uma teimosia enorme, possuo uma vontade que tenho sempre de levar avante e possuo os meus próprios meios de sobrevivência... Nenhum destes predicados abona a favor de um casamento em que duas vidas devem ser levadas em uníssono. Casar comigo equivale a uma catástrofe.

 

- Kathinka Braun, a imagem personificada da emancipação! O êxito profissional numa embalagem perfeita. Iludes-te a ti própria, Kathi! Receias que por detrás da grande empreendedora se possa descobrir a rapariguinha com todos os seus receios.

 

- Tretas! - ripostou ela com um riso um tanto forçado.

 

Em seguida, foi colocar no pick-up um disco de música sul-americana, aninhou-se, de pernas cruzadas, com a cabeça deitada para trás. O cabelo comprido e solto espalhava-se pelo forro de seda azul-clara do sofá; e Herbert Vollrath sonhou mais uma vez como deveria ser indescritivelmente maravilhoso possuir aquela mulher.

 

- Onde tencionas passar as férias este ano? - perguntou-lhe num tom premente.

 

- Porquê?

 

- Porque também apareceria de bom grado no lugar, tentando ser a aventura das tuas férias. Aparentemente, seria a minha única oportunidade.

 

- Falhada.

 

- O que quer dizer ”falhada?”

 

- Riscarei igualmente essa possibilidade.

 

- Ah! Vais, por conseguinte, passar as tuas próximas férias num convento de monjas?

 

- Ainda não sei.

 

Fitou-o, penetrantemente, com os olhos de um verde-acinzentado. Herbert Vollrath sentiu vontade de se erguer

 

de um salto e tomar muito simplesmente aquela mulher nos seus braços; contudo, aquele olhar forçou-o a que se mantivesse sentado. Sentiu repentinamente as pernas como se fossem de chumbo. ”Se fosse na Idade Média, queimavam-na como bruxa”, pensou.

 

- Podia mencionar-te, pelo menos, cinquenta homens que se disporiam, imediatamente, a ser companheiros de viagem.

 

- Eu sou o primeiro da lista! - comentou Vollrath com uma risada fraca. - Quer no Pólo Norte ou na floresta virgem, nem sequer quereria saber.

 

- E, em seguida, acordávamos durante quatro ou seis semanas ao som do despertador com a mesma pergunta: ”Amamo-nos? Devemos casar-nos? Não é situação...» Não, Herbert! Estragaríamos tudo!

 

- Por outras palavras: não queres casar.

 

- Não sei. De facto, não sei se a vida é melhor quando se assina um papel burocrático, se troca de nome, se tem noite após noite, e durante anos, um homem a dormir connosco na cama e se fica acorrentada a esse homem para a vida e para a morte...

 

- Acorrentada - ecoou Vollrath num tom tenso. Também não tens anseios. Não achas que seria uma coisa bela teres um filho?

 

- Um filho... - Pareceu repentinamente arrastada pela fantasia. - Um filho seria realmente maravilhoso

- retorquiu em seguida suavemente. - Um pedaço de mim por quem vale a pena viver. Mas para quê andar com o progenitor atrás uma vida inteira?

 

Vollrath passou a mão pelos olhos.

 

- Não estás por acaso a falar a sério? - perguntou acaloradamente.

 

- Isso parece-me um excesso de emancipação, Kathi! Se todas as mulheres pensassem assim...

 

- Por sorte não pensam. - Soltou uma gargalhada, levantou-se e dirigiu-se ao bar forrado de espelho. Vou preparar-te um cocktail. Pede o que queres.


Vollrath examinou-a atentamente. Ela vestia uma exótica e comprida túnica de seda. O padrão era um mar de flores que lhe envolvia o corpo esguio. Oferecia uma imagem maravilhosa. Vollrath esfregou as mãos. Tinha as palmas quentes, como se estivesse a arder em febre.

 

- Prepara-me um cocktail a que iremos dar o nome de ”acordar”.

 

- E devemos acordar para quê?

 

- Eu não. Tu é que deves acordar desse teu complexo de que uma mulher famosa não pode suportar um homem por muito tempo.

 

Tudo se passou como sempre: também nessa tarde beberam e conversaram, dançaram mesmo algunsfoxtrots e um tango; mas quando no meio da dança Herbert quis beijá-la na curva do pescoço, Kathinka afastou-se e riu-se.

 

- Deixa-te disso! - exclamou, ao mesmo tempo que se desprendia dos seus braços. - Não somos propriamente parceiros de discoteca.

 

- com mil raios! Amo-te. - Dirigiu-se ao bar, serviu-se de uma dose generosa de conhaque e esvaziou o copo de um trago. - Não aguento o desgosto. Vou embriagar-me...

 

- Pensa no automóvel que está diante da porta.

 

- Podia dormir no sofá, Kathi.

 

- Não - riu ela, acompanhando a palavra de um gesticular acalorado. - Nem pensar nisso! Em minha casa nunca dormiu um homem, nem sequer no sofá.

 

Decorridas umas horas, Herbert Vollrath conduzia de volta a casa. Apesar da declaração de amor novamente falhada, sentia-se feliz. ”Continuo a ser o seu único e verdadeiro amigo”, pensava. ”É alguma coisa, se bem que muito pouco.”

 

Era assim Kathinka Braun. É necessário conhecer tudo isto a seu respeito para se compreender o que aconteceu nas semanas seguintes...

 

Em Maio, na edição de quarta-feira, foi publicado num grande jornal um anúncio na rubrica ”Conhecimentos”. Era este o texto:

 

Senhora com carro próprio procura companheiro de viagem simpático para férias no Sul (Riviera francesa?). Despesas separadas. Respostas ao número C 15678.

 

Candidataram-se vinte e três indivíduos. A começar por um jardineiro, que se orgulhava da sua ”forte potência em ventos e intempéries”, até um professor de botânica que pretendia investigar uma mutação florística na região de Cap Bénat, na península de Cabasson, junto de Lê Lav andou. O mais jovem dos pretendentes a companheiro de viagem contava dezassete anos de idade e o mais velho setenta e dois. A carta deste último vinha acompanhada de uma fotografia que o mostrava vestido com um reduzido fato de banho. Por baixo, lia-se: ”Alma sã em corpo são.”

 

Kathinka Braun retirou esta carta do monte e atirou-a para o cesto dos papéis. Desde logo se havia apercebido de que a maioria dos candidatos deixava bem claras as suas intenções. Também resolvera pôr este anúncio de certo modo para abafar o seu íntimo desejo de felicidade, como confirmação de que cada homem procura, basicamente, na mulher um objecto de prazer e só depois se dedica ao esforço de lhe rebuscar a alma. com a posse do corpo, um homem coloca ponto final quanto ao entendimento da mulher. Que lhe interessa no fundo, a faceta espiritual?

 

Era este o muro por detrás do qual Kathinka Braun sempre se resguardava, quando se dava conta de que os

seus anseios naturais pretendiam destruir a couraça que para si própria tinha construído. Mantinha-se por detrás deste muro protector como um toureiro que, numa tourada espanhola, se resguarda com um salto, por detrás das tábuas do animal raivoso e toma nova consciência da sua dignidade.

 

As respostas ao seu anúncio vinham comprovar-lhe o mesmo de sempre: o mundo que tinha criado, com aplicação e força de vontade, era perfeito. Apenas não entendeu uma das cartas. Era muito breve, indicava como emissário uma morada de um apartamento em Munique e não vinha acompanhada de qualquer fotografia, mas de uma pequena mosca de asas verdes e brilhantes e um anzol de ferro. Uma mosca para pescadores à linha.

 

”Isto sou eu”, explicava o autor da carta. ”Se estiver interessada e quiser saber mais coisas, poderemos trocar correspondência.”

 

Era tudo.

 

Tratava-se de uma das mais curiosas cartas que Kathinka Braun recebera até essa altura. Examinou-a demoradamente, sentou-se com ela a uma bonita secretária de estilo barroco, cujo valioso trabalho em talha maravilhava todos os visitantes, fez incidir o candeeiro na carta, como se assim conseguisse tornar visíveis as impressões digitais, ao mesmo tempo que brincava com a mosca de um verde brilhante, virando-a com a ponta da esferográfica em ouro.

 

- Que idiotice! - acabou por concluir em voz alta.

 

- Não Vou responder. - Meteu a carta e a mosca numa gaveta e encerrou a experiência do anúncio com um juízo de valor negativo: - Este ano Vou novamente sozinha para férias. Seis semanas na Riviera e um outro homem desconhecido entre uma série de desconhecidos...

 

Decorrida uma semana recebeu pelo correio uma carta do jornal (Departamento de Publicidade) com a nota de que havia chegado ”uma resposta atrasada” ao anúncio em causa. Mesmo sem abrir o envelope, Kathinka já sabia que não se tratava de um atraso, mas de mais um sinal de vida do indivíduo que lhe enviara a mosca.

 

Dominou a curiosidade até à noite. Conservou a carta dentro do bolso mas, nesse dia, andou sempre nervosa e irritável, sem conseguir concentrar-se, e estranhamente inquieta.

 

No seu apartamento - a carta encontrava-se, agora, na bandeja da correspondência - bebeu uma dose generosa de sherry seco e deixou que no silêncio da casa ecoasse o seu:

 

- Não.

 

Foi um protesto disparatado na medida em que não deitou fora a carta nem a rasgou; abriu-a sim com o corta-papel e tirou de dentro do envelope uma folha de papel quase em branco.Na folha havia um número de telefone escrito em grandes algarismos e nada mais.

 

- Que atrevimento! - exclamou Kathinka Braun em voz alta.

 

Bebeu mais um sherry e, em seguida, pegou no auscultador do telefone. Era um número de Munique; assim que o marcou, atenderam quase de imediato. Dava a sensação de que o desconhecido esperava a sua chamada como se nunca se tivesse afastado de junto do telefone desde que mandara a carta.

 

- Boa tarde - cumprimentou.

 

Tinha uma voz forte e agradável, mas que a Kathinka desagradou de imediato. Aquela forma grave como entoara o ”Boa tarde”. ”Que pretensioso!”, pensou.

 

- Como foi capaz de tal atrevimento? - inquiriu de chofre.

 

- Ah!

 

- Que quer dizer essa exclamação?

 

- A senhora com carro próprio...

 

- Apenas lhe telefono para lhe dizer que a sua mosca para pescadores à linha não me impressionou. Se é a isso que chama originalidade... Não sou, aliás, um arenque que se deixe apanhar assim.

 

- Truta - corrigiu aquela voz agradável de homem.

 

- Como disse?

 

- O arenque é um peixe do mar que se apanha com rede. Movimenta-se em cardumes. Que eu tenha ouvido falar, nunca um arenque foi pescado à linha. com essa bonita mosca a servir de isca apanham-se, pelo contrário, nomeadamente trutas, maravilhosos peixes pequenos e esguios, com pintas ou uma pele de arco-íris, os manequins da classe dos peixes.

 

- Também não sou uma truta - retorquiu Kathinka num tom indignado.

 

- O que seria da nossa vida sem metáforas? Li o seu anúncio e pensei: ”Cada homem que lhe escrever irá mandar uma carta em que apresente as suas qualidades como se fosse um charlatão. Também enviará uma fotografia... com toda a probabilidade, uma em que ressalte a sua virilidade.” Depois, quando as pessoas se conhecem, é tudo inteiramente diverso. A fotografia foi tirada há muitos anos atrás, e de cima para baixo para realçar o físico, e regra geral o indivíduo é uma desilusão total.

 

- E considera-se excepção?

 

- Não estou a gabar-me.

 

- Você manda moscas para pescadores à linha. Como devo interpretar?

 

- É o meu cartão de visita.

 

- É, então, pescador profissional? Ainda há disso?

 

- Tem a mosca diante de si?

 

- Tenho.

 

Logo após fazer esta confissão, já Kathinka Braun se arrependera. Indicava que tinha dado mais atenção ao autor da carta do que pretendia dar a entender.

 

- Essa mosca é um modelo especial - disse imediatamente a voz através do fio do telefone - e construída segundo os mais recentes conhecimentos científicos de pesca. As asas de um verde brilhante (a patente está registada por mim), são transparentes e dão ao peixe a ilusão de que a isca está dentro de água. Dentro da psicologia dos peixes tal significa que o factor identificação se altera...

 

- Você fala muito e de coisas sem interesse - interrompeu-o Kathinka Braun furiosa. - Apenas lhe queria dizer que parto sozinha de automóvel para a Riviera. Peço-lhe que acabe com a correspondência...

 

- Que idade tem? - perguntou subitamente o desconhecido.

 

Kathinka estremeceu e fitou encolerizada a mosca artística que tinha na sua frente.

 

- Não tem absolutamente nada com isso! - respondeu rudemente. - Segundo parece, o tempo que dedica aos problemas da psicologia dos peixes levou-o a pôr de lado as boas maneiras.

 

- Gosto de ser muito directo. Nada tenho a ocultar a nível pessoal. Tenho um metro e setenta e nove de altura, sou magro, à excepção de uma pequena barriga que em nada estraga o conjunto, na medida em que posso perfeitamente permiti-la, dados os meus trinta e cinco anos de idade.   Ainda   tenho   cabelo,   louro-claro,   ligeiramente ondulado; depois de molhado fica frisado, o que muitas senhoras consideram como indício de um temperamento introvertido. Calço quarenta e três, tenho olhos azuis com uma expressão leal...

 

- Boa noite - despediu-se Kathinka, furiosa.

 

- Por favor, não desligue ainda. De onde está a telefonar?

 

- De Hanôver.

 

- Tão longe.

 

- A própria distância elimina a continuidade de contactos.

 

- Amanhã podia ir no voo que chega a Hanôver ao meio-dia.

 

- Oh, céus! Não! Porquê?

 

- Gostaria de provar-lhe que sou um homem decente.

 

- Não atribuo qualquer valor a essa demonstração. Para quê?

 

- Se pretendemos viajar juntos de automóvel à Riviera...

 

O desconhecido riu. Tinha um riso juvenil e tão cristalino que Kathinka não pousou o auscultador, que já colocara muito próximo do gancho.

 

- Como se chama? - perguntou ele.

 

- Isso não tem a mínima importância. Daqui a segundos não ouviremos falar mais um do outro.

 

- Amanhã chego, por conseguinte, a Hanôver às doze e cinquenta e cinco. Voo directo Munique-Hanôver, da Lufthansa.

 

- Se lhe der prazer...

 

- Não quer fazer o favor de ir esperar-me?

 

- Não! - quase espumou Kathinka ao telefone. A sua audácia não conhece realmente fronteiras.

 

- Não deixará aliás de reconhecer-me - prosseguiu ele do outro lado do fio sem se demover. - Levarei comigo um jornal, o Deutsche Anglerblatt. Na primeira página, impressa a quatro cores, um pescador arranca briosamente um salmão a um rio de águas turbulentas. O episódio passa-se na Irlanda. O pescador sou eu! Ver-me-á, por conseguinte, em duplicado. Impossível deixar de me reconhecer.

 

- Poupe-me a esse voo - retorquiu num tom áspero.

- Quando eu disser adieu é definitivo. Adieu!

 

- Até à vista. Desligou e recostou-se.

 

- Idiota! - exclamou furiosa. - Deste tipo de conversa estúpida tenho que me chegue.

 

Contudo, durante a noite, algo de estranho aconteceu: Kathinka Braun, que sempre se gabara de comandar o sono, mantinha-se sentada na cama sem pregar olho. Leu um romance histórico, mas nem isso a acalmou ou provocou fadiga. Tinha os nervos em franja. ”Não há dúvida”, pensou, embora desejasse afastar o assunto da mente, ”de que é um pantomimeiro nato! Considera-se espirituoso e original, e com trinta e cinco anos mostra-se ainda extraordinariamente infantil!.»

 

”A mosca é patente minha”, dissera-lhe. Deus do céu! Será que fabricava mesmo iscas para pescadores à linha? ”Claro que pode tratar-se de um ramo profissional e de um bom negócio; no entanto, quantos milhões de pescadores à linha existem no mundo inteiro?” Um âmbito totalmente estranho com que Kathinka nunca se tinha familiarizado. No entanto, já escutara bastantes vezes da boca dos seus patrões: ”Quando ia pescar de vez em quando... sabe, dantes, no mar Vermelho, quando andava atrás de tubarões... o ano passado, na costa da ístria, pesquei um exemplar maravilhoso. Lutei durante quase três horas com o animal...”

 

Lutado? Será que podia lutar-se com um peixe? Nessa altura tinha escutado e esquecido novamente, na medida em que considerava a pesca como a forma mais aborrecida de lazer. Agora ocorriam-lhe vários episódios. Lutar com um peixe? Claro, visto que um peixe grande não se deixa muito simplesmente pescar junto à costa. Existe mesmo um famoso conto em que um homem luta com um peixe enorme. O autor da narrativa fora até galardoado com o Prémio Nobel. Ernest Hemingway - O Velho e o Mar. Poderia aprender-se qualquer coisa com ele a respeito dos pescadores à linha?

 

Levantou-se da cama, foi procurar o livro do conto à sua biblioteca e, em seguida, recostou-se na almofada, que colocou por trás das costas. Leu até de manhã sobre a luta desesperada do velho contra os tubarões que lhe despedaçaram a pescaria da sua vida, um peixe-espada gigantesco. Em seguida, deixou-se adormecer, esgotada. Telefonou para o atelier por volta das dez horas e comunicou que estava com uma enxaqueca e que se podiam protelar alguns prazos. Depois de um duche alternadamente quente e frio, sentiu-se de facto revigorada; debicou apenas o pequeno-almoço e, por volta do meio-dia, dirigiu-se de automóvel ao aeroporto.

 

”Estás doida”, dizia de si para si. «Estás doida, Kathi! Volta para trás! Tudo por causa de um homem que tem o retrato na primeira página de um jornal de pesca! Esta famosa arquitecta Braun com palpitações, qual menina de liceu que tem o namorado à sua espera na esquina... Estás no teu estado normal, Kathi? Sai da estrada e vai ter com o Herbert à Escola de Arquitectura. Almoça com ele e vais ver como ficará feliz...»

 

Estacionou o automóvel diante do edifício da chegada dos voos e verificou pelo relógio eléctrico que ainda dispunha de dez minutos. Bebeu rapidamente uma bica na cafetaria, acendeu nervosamente um cigarro e encostou-se à parede, junto ao portão A.

 

O avião de Munique aterrou pontualmente. Uma insípida voz masculina fez-se ouvir no altifalante, e no quadro das chegadas apareceram as letras electrónicas ATERRADO.

 

”Ainda posso voltar para trás”, pensou. ”Meia volta, saída da sala de espera, entrada no automóvel e pronto! Seria uma atitude definitiva. Ele não sabe o meu nome nem a morada ou o número de telefone. O jornal encontra-se sob obrigatoriedade de segredo em relação aos anúncios. E se me escrever? Posso dar instruções para que devolvam ao remetente todas as respostas que chegarem... Não preciso de voltar costas e ir embora.”

 

Deixou-se ficar.

 

Aparentemente, o avião de Munique viera com a lotação esgotada. Dele desceu uma quantidade de passageiros, que se dirigiram apressadamente ao local de devolução da bagagem. Entre os últimos - Kathinka Braun não esperara outra coisa - avançou o autor da carta.

 

Não se tratava de uma aparição de tirar a respiração, nem um tipo estilo Gary Grant; também não era de uma virilidade espantosa, mas situava-se perfeitamente no género vulgar. Vestia um fato de desporto, trazia um abafo leve no braço, um saco de viagem de pele de búfalo castanha na mão esquerda e na direita o Deutsche Anglerblatt com a fotografia mencionada. Empunhava-o diante dele como um ardina e só faltava que começasse a apregoar: ”O novo jornal de pesca! A história sensacional do homem no rio! O novo jornal de pesca...”

 

”Foi um erro não ter voltado para trás”, pensou Kathinka. ”Um erro tremendo. Agora é tarde de mais. Exactamente como o tinha imaginado... um palhaço de trinta e cinco anos!”

 

Não se mexeu; deixou-se ficar no mesmo sítio, esperando que o indivíduo se aproximasse mais. Ele passou os olhos em redor, pousou o pequeno saco e apertou mais o jornal de encontro ao peito. Eram agora duas imagens que se misturavam: a dele e a do jornal. Deixou-se ficar no mesmo lugar até estar sozinho diante do portão A. Ninguém mais estava à espera, salvo uma extraordinariamente bonita e elegante senhora vestida com um casaco primaveril e que, de longe, se via ter a etiqueta parisiense.

 

Kathinka Braun e o estranho puseram-se quase simultaneamente em andamento e encontraram-se no meio da sala.

 

- Se tivesse sabido... - pronunciou ele, em vez de a cumprimentar.

 

Dobrou o jornal e meteu-o no bolso de fora do casaco.

 

- Se tivesse sabido o quê? - inquiriu Kathinka num tom reservado.

 

Observado de perto, parecia um cavalheiro. Tinha uns olhos vivos e azuis, um queixo enérgico, uma pele bronzeada - de umas férias na montanha ou do solário? - e uns cabelos frisados. Nesse dia pairava sobre Hanôver uma humidade particularmente elevada.

 

- É, realmente, uma lady - declarou.

 

- De que estava à espera? Um chamariz que sobrevive por meio deste tipo de anúncios?

 

- Não sei explicar.

 

- Porque não? Tanto quanto me foi possível verificar até ao momento, não se enquadra no tipo dos homens tímidos.

 

- Foi a primeira vez que respondi a um anúncio deste género.

 

- Vejam só!

 

- E também ignoro porque o fiz. Li o seu anúncio (e devo acrescentar que costumo ler cuidadosamente os jornais, desde os comentários políticos aos anúncios de calicidas para a planta dos pés), e pensei repentinamente: ”Escreve!” Fiquei com curiosidade de saber quem pusera o anúncio. Foi exactamente como se tivesse atirado uma isca para águas totalmente desconhecidas.

 

- Costuma examinar sempre todas as coisas dentro da perspectiva do pescador? Tenha cuidado para que ninguém lhe coma o peixe-espada.

 

- Como disse?

 

Fitou-a surpreendido e apanhado de surpresa. Kathinka fez uma careta. ”Também não conhece Hemingway”, pensou. ”Despido de ambições literárias. Um idiota que só sabe de pesca.”

 

- Como devo interpretar essa referência ao peixe-espada?

 

- Fez reserva de quarto? - respondeu Kathinka com uma outra pergunta.

 

- Sim. No Hotel Welfenpark.

 

- Um sítio muito bom.

 

- Foi-me recomendado.

 

A conversa ameaçava terminar. Kathinka meteu as mãos nos bolsos e fitou o saco de viagem que estava ao lado dela.

 

- Ainda tem de recolher bagagem? - perguntou-lhe finalmente.

 

- Não. Chamo-me Zipka.

 

- Como?

 

- Ludwig Zipka. com Z no princípio e A no fim. Precisamente ao contrário do alfabeto.

 

- O meu nome é Kathinka Braun.

 

- Ka-thinka. Recorda-me as planícies orientais, as florestas de bétulas e os campos de girassóis. Conhece a canção popular russa Kathinka!

 

- Se conheço! Escuto-a no Natal, na Páscoa e no dia de anos, por todo o lado onde me querem alegrar! Se agora quer começar com isso, aconselho-o a reservar rapidamente uma passagem de regresso no próximo voo.

 

- Não Vou cantar uma única nota, embora seja uma pena, pois possuo uma bela voz de barítono. Os entendidos de ópera chamam-lhe qualquer coisa como ”barítono de cavalaria”. Posso cantar-lhe a Truta, de Schubert, no hotel...

 

- Não devemos continuar com este género de diálogo ridículo, Herr Zipka - contrapôs Kathinka num tom pouco comunicativo. - Além disso, disponho de pouco tempo. Quer que o leve ao hotel ou tinha outros planos em mente?

 

- Vim a Hanôver a fim de estar ao seu dispor. Queria acima de tudo apresentar-me. Faça o que quiser de mim, por favor.

 

- Se estiver de acordo, vamos sentar-nos no café da Ópera. Ali poderemos falar sem que nos incomodem e concluir que a sua viagem a Hanôver foi um investimento falhado.

 

Ludwig Zipka esboçou um aceno de cabeça, pegou no saco de viagem e começou a andar atrás de Kathinka, que se lhe adiantara uns três passos. Observava-a enquanto caminhavam. As pernas compridas e esguias, o cabelo solto de tom acastanhado, o corpo bem modelado, aquele emanar de segurança... O que levaria uma mulher daquelas a procurar um companheiro de viagem através de um anúncio de jornal? Um gesto bastava para que uma centena de homens lutassem por poderem ser seus companheiros de viagem.

 

Quem era aquela mulher? Senhora com carro próprio... Tudo compreensível, mas não numa mulher como Kathinka Braun.

 

Seguiu-a; saíram da sala de espera do aeroporto e pararam depois em frente do automóvel desportivo italiano. Zipka bateu com o indicador na capota do automóvel.

 

- Um carro com asas. Duzentos e vinte à hora.

 

- Duzentos e quarenta e cinco.

 

- E atinge essa velocidade?

 

- Quando tenho a estrada livre, porque não?

 

- Fico perturbado! Para quê guiar tão depressa? Qual a razão dessa necessidade?

 

- Nenhuma. É simplesmente maravilhoso saber que se voa a duzentos e quarenta e cinco; que se domina essa velocidade; que se chegou à fronteira do possível.

 

- Gosta, por conseguinte, do risco?

 

- Gosto. - Atirou o cabelo para trás e entrou no automóvel. - Uma vida sem risco seria monótona.

 

Zipka deu a volta ao carro e teve dificuldade em acomodar as longas pernas. Naquele automóvel era mais fácil uma pessoa deitar-se do que sentar-se. A extensão de estrada estendia-se rectilínea por baixo deles, apenas separada por uma leve chapa de ferro. Era a sensação com que se ficava, apesar dos assentos forrados a cabedal e do revestimento em madeira.

 

”Deve estar cheia de dinheiro”, pensou Zipka. ”E uma mulher destas põe um anúncio no jornal? Há qualquer coisa que não joga bem.”

 

- Não gosta do risco, pois não? - prosseguiu Kathinka com a conversa, após Zipka ter finalmente encontrado a melhor posição de ir sentado. - Mas o que faria se apanhasse um peixe-espada e os tubarões lho quisessem tirar novamente?

 

- ”Outra vez o peixe-espada!” Zipka fixou os olhos na estrada. Meteram-se na fila de trânsito que seguia para o centro da cidade, e ele procurou uma resposta.

 

- Ainda não apanhei um peixe-espada. Mas já apanhei tubarões na costa do Norte de África! com as ”Viagens Tummler - Desportos, incluindo a pesca.” Duas semanas em Marrocos, com garantia da pesca do tubarão, apenas por mil cento e cinquenta e sete marcos. Regime de meia pensão. Muito interessante, mas não ao meu gosto. Tem de se enganar o lúcio, que é um maroto inteligente, frequentemente mais esperto do que o pescador.

 

Mas o tubarão é um estúpido glutão, que morde à toa onde quer que lhe cheire a sangue! Isso já não é arte! A pesca só pode ser, realmente, uma arte...

 

- Vive disso?

 

- Mais exactamente: vivo dos pescadores. A minha profissão é desenhador. Especialidade: desenhador de iscas para pescadores.

 

- Ainda há disso?

 

Kathinka soltou uma súbita risada e por breves instantes pousou o olhar no companheiro. Ela tinha uma condução muito enérgica e chegava a fazer ultrapassagens mesmo à justa. Zipka fechou frequentemente os olhos. Ele próprio era bom condutor, mas por várias vezes respirou furioso pelo nariz quando Kathinka Braun reagia de forma diferente à que ele teria reagido.

 

- Sou por assim dizer o Dior das moscas para pescadores - continuou Zipka. - Já fui distinguido quatro vezes com um prémio para desenhadores.

 

- E pode sobreviver-se disso?

 

- As coisas não me correm mal. Sou independente e disponho de muito tempo.

 

- Nisso acredito - retorquiu, fitando-o de través. Porque respondeu ao anúncio?

 

- Para ver quem era o tipo de pessoa que o pusera.

 

- Na sua opinião, forçosamente pessoas fúteis, certo? Talvez sejam apenas pessoas muito sós, não?

 

Zipka conteve a respiração. Kathinka Braun ultrapassou novamente ”a rasar.” No último instante desviou-se alguns metros de um automóvel que vinha em sentido contrário, aproveitando uma abertura do trânsito. O outro condutor fez sinais de luzes e buzinou ao passar por ela.

 

- Ele tem razão! - retorquiu Zipka. - Você conduz como um gangster americano.

 

- Agora já está com medo?

 

- Sim. O que quer dizer esse ”agora já?”

 

- No entanto, pretendia ir passar férias comigo de automóvel. Seis semanas! E arregala os olhos dessa maneira ao circularmos em Hanover? Não é uma boa carta de recomendação.

 

- Iremos neste foguetão?

 

- Acho pouca graça a mochilas.

 

- E tem a certeza de que chegaremos à Riviera?

 

- Há dois anos atravessei a Finlândia de uma ponta à outra.

 

- Isso explica muita coisa! - exclamou Zipka, aliviado.

 

- O quê?

 

- Os milhares de mares que lá existem...

 

- E daí?

 

- São as lágrimas conjuntas de todos os que habitam junto às estradas...

 

- Que espirituoso!

 

Cerrou os dentes, mas passou a guiar mais cuidadosamente, e parou junto do café da Ópera.

 

No café da Ópera descobriram uma mesa a um canto onde ninguém os incomodaria.

 

- Um conhaque! - encomendou Zipka, quando o criado apareceu. - Uma dose tripla, por favor. Preciso de recuperar o equilíbrio.

 

Esperaram até que pusessem a mesa. Kathinka bebeu um chá e comeu uma fatia de torta sem chantilly. Zipka mostrava-se satisfeito com o conhaque.

 

- Não me arrependo de ter apanhado o avião até Hanôver - declarou subitamente.

 

- É uma opinião unilateral.

 

- Não sou o seu tipo?

 

- Fala como um idiota. Jamais entenderia o que me levou a pôr este anúncio.

 

- De acordo. Quem será capaz de entender?

 

- Sou arquitecta. Vivo e trabalho numa sociedade exclusivamente masculina. O que há de feminino na construção? Conheço a escala do temperamento dos homens de A a Z.

 

- Posso fazer-lhe uma sugestão diferente: de Z a A.

 

- Eu sei: Zipka! - Riu e passou as mãos pelos cabelos. - Desenhador de moscas para pescadores à linha! Devemos encarar os episódios na mera qualidade de episódios e esquecê-los rapidamente. Vou viajar sozinha, como até aqui!

 

- Em Agosto! - retorquiu Zipka casualmente. Kathinka deixou-se apanhar.

 

- Não. Em Junho. O mês de Junho na Riviera é maravilhoso. Tenciono partir a três de Junho.

 

A conversa terminou rapidamente. Kathinka ainda leVou Ludwig Zipka ao hotel. Ali seguiu-se a despedida e a consciência de que não se veriam mais. Era a melhor saída - meio-dia que mal deixava recordações.

 

No dia 2 de Junho, às nove da manhã, tocou o telefone em casa de Kathinka Braun.

 

- Orgulhosa Kathinka Braun? - pronunciou uma voz alegre. - Daqui fala Zipka. Estou em Hanôver. Sedente de viagem e preparado para tudo, até mesmo para o risco.

 

Kathinka tinha vivido umas últimas semanas bastante movimentadas e nervosas. Havia não só a referir os dissabores com os operários e as repartições de obras, que, na sua opinião, deveriam chamar-se verdadeiros impecilhos à construção, mas também aquele agente da repartição de finanças que contribuía para que Kathinka andasse de péssimo humor de um lado para o outro no seu atelier e para que os colaboradores se afastassem do seu caminho sempre que lhes era possível... Havia um silêncio que a perturbava acima de tudo e lhe arrasava os nervos. O silêncio de Ludwig Zipka.

 

O que jamais imaginara tinha realmente acontecido: Zipka considerara, de facto, como definitiva aquela despedida em frente da entrada do hotel. Não houvera mais cartas, nem telefonemas, o mínimo sinal de vida, nada. Nas primeiras duas semanas, que se tinham seguido ao seu encontro, Kathinka ficara surpreendida pelo facto de, ao sentar-se à mesa do pequeno-almoço, ficar à espera de que lhe trouxessem a correspondência particular. Na terceira semana vira-se a perguntar:

 

- Será possível que hoje em dia ainda se extraviem cartas?

 

A resposta do funcionário de serviço não lhe dera qualquer sentimento de tranquilidade. Dissera-lhe ele:

 

- Tudo é possível. Basta um código postal errado para que a carta ande de um lado para o outro. É uma espécie de computador que selecciona as cartas. Mas os computadores também podem errar. Falta-lhe alguma carta?

 

- Não, não - apressara-se imediatamente a replicar.

- Estou apenas a perguntar.

 

- É sempre mais seguro registar.

 

- Claro.

 

No fim da terceira semana surgira-lhe a ideia de telefonar para uma agência de informação de moradas para saber onde habitava um tal Ludwig Zipka. No entanto, logo pusera o pensamento de lado. Não devia telefonar por preço algum desta vida!

 

Passadas quatro semanas, Kathinka começara a tranquilizar-se a si própria. ”Tenho trinta anos”, dizia de si para si. ”com os diabos! Ainda sou nova! Tenho na minha frente os melhores anos da vida de uma mulher. Contudo, aos trinta anos já não se tem a mesma frescura da juventude; e há homens que encaram uma mulher de mais de trinta anos com um certo receio da idade. Se Zipka pertence a esse género de homens, que passe muito bem! Que ande pelas discotecas e se ponha à caça de rapariguinhas... Cada um tem os seus gostos...”

 

Contudo, estes pensamentos eram incomodativos e assemelhavam-se à lagarta que se instala na maçã apodrecida.

 

Agora eram muitas as vezes em que Kathinka, à noite, se punha diante do espelho a mirar-se. ”Estou com um ar cansado”, criticava para o espelho. ”É falta de sono.

 

Tenho olheiras e pequenas rugas nos cantos da boca; e o olhar um pouco fatigado também. Não é de admirar para quem se ocupa, dez horas por dia, de centenas de pormenores, engendra novos planos, debate todas as especificações com os colegas, lida com os construtores, controla o processamento dos trabalhos nos locais da construção, passa em revista os orçamentos dos marceneiros, electricistas, canalizadores e telhadores e verifica, em pânico, que os prazos determinados não poderão ser cumpridos, porque alguém sofre de falta de pontualidade e um outro partiu para férias. Cada dia que passa com a sua torrente de acontecimentos e decisões durante dez horas vinca uma pessoa, especialmente no rosto.”

 

Kathinka Braun ocupara-se então de retoques exteriores: mudara de penteado e de maquilhagem, apanhara banhos de sol artificiais de dois em dois dias, trocara as bebidas alcoólicas por sumos de fruta, deitara-se mais cedo e nadara todas as manhãs dez voltas na piscina do apartamento. Por outras palavras: dispusera de mais tempo para si própria.

 

Aos olhos de Herbert Vollrath também a mudança não passara despercebida: as idas ao teatro haviam-se tornado mais escassas e as horas que costumava passar depois de uma ópera ou de um concerto na companhia de Kathinka, entre cocktails e longas conversas, tinham acabado por completo.

 

- O que se passa contigo? - perguntara-lhe Vollrath um dia.

 

- Nada...

 

- Sabes perfeitamente que estás a tentar enganar-me! Sinto-te nervosa, delicada como uma bomba em que não se pode tocar sob o risco de explosão. Estás a viver fora da tua própria pele.

 

- Que estupidez!

 

- Outra coisa que não terias dito antes. O que te preocupa?

 

- Talvez a curiosidade do mundo que me rodeia e as tuas perguntas indiscretas - replicara Kathinka num tom agressivo. - Deus do céu! Deixa-me em paz! Sinto-me óptima, tenho a tensão normal, a minha actividade cerebral não mostra falhas... o que queres mais?

 

- Estás muito simplesmente madura para férias. Vollrath não deveria ter dito aquilo, mas como poderia

 

sabê-lo? Ela dera meia volta, fulminara-o com o olhar e declarara num tom tenso:

 

- Não parto para férias! Este ano não Vou mesmo. E não me olhes como se eu fosse uma cadela com cio. Boa noite.

 

Deixara Vollrath à porta e desaparecera dentro de casa. Herbert limitara-se a abanar a cabeça e esperara até o elevador chegar lá acima. Como todos os outros, também ele pensara: ”O stress diário dá cabo dela. É simplesmente demasiado. Se os homens se desgastam profissionalmente, quanto mais uma mulher.”

 

E, inesperadamente, às nove da manhã, o telefone tocou e a voz amaldiçoada e ansiada fez-se ouvir:

 

- Fala Zipka.

 

Kathinka Braun respirou fundo e bebeu um gole de chá quente. De momento, não conseguiu pronunciar uma palavra. O reaparecimento de Zipka era inesperado em demasia. Kathinka olhou para os telhados de Hanôver através da janela. O sol da manhã banhava as cúpulas e telhados com os seus raios dourados. Uma grande cidade de contos de fadas.

 

- Está a ouvir-me? - perguntou Zipka quando a sua alegria não obteve eco.

 

- Claro. Apenas bebi um gole de chá.

 

- Gosta de chá? Fabuloso! Eu também! Sou eu próprio que preparo a minha mistura de chá: colheita da Primavera. As folhas tenras de piteira proporcionam uma maravilhosa chávena de chá de cor dourada, quando se adiciona um pouco de chá de Ceilão. Não se deve deixar ferver mais do que dois ou três minutos! Posso garantir-lhe que se sente no corpo e na alma. As articulações desenferrujam-se.

 

Logo de manhã um pássaro paradisíaco trina nos meandros do cérebro...

 

- O quê? - perguntou Kathinka confusa.

 

- Trina. Pi-pi-sisit-rri-ri...

 

- Desde o nosso encontro que me apercebi da sua criancice. Só não sabia que estava tão adiantada...

 

- A sua disposição revela que deve estar a beber um chá forte.

 

- O que pretende, afinal? - interrompeu-o Kathinka rudemente.

 

- Amanhã é dia três de Junho! A que horas está prevista a partida? De manhã cedo? É a melhor altura para se começarem férias. De manhã cedo, quando os galos cantam...

 

- Não parto para férias.

 

- Nesse caso o mundo deve estar às avessas.

 

- O quê?

 

- Há três dias que estou em Hanôver...

 

- É preciso dizer-lhe, cara a cara, que o acho importuno?

 

- Informaram-me na sua firma (tomei a liberdade de telefonar e de me fazer passar por um fabricante de louça para casa de banho) textualmente: ”A chefe está de férias.” A chefe, foi o que disseram. É mesmo conceituada. A chefe! Quase se podia escutar o martelar do respeito.

 

- Estou a passar férias em casa!

 

- Mandou fazer uma revisão completa na oficina ao seu foguetão da morte. Citação sua: ”Preciso dele para fazer uma viagem ao Sul. Tem de estar cem por cento em ordem.” Verdade?

 

- Andou nesse caso a espiar-me? Que audácia espantosa!

 

- Preferia chamar-lhe precaução ou instinto de conservação - comentou Zipka com uma risada alegre. Tinha de informar-me se podia aventurar-me nesse foguetão de quatro rodas! O dono da oficina garantiu-me que agora o carro está óptimo.

 

- Vou mudar de oficina.

 

- Porque é que é uma mulher tão amarga, Kathinka Braun? Esperam-nos seis semanas cheias de sol. A Riviera! Já me cheira a alfazema. Conheço algumas enseadas maravilhosas que ainda conservam o aroma original e onde cheira realmente a alfazema.

 

- Não tenho o mínimo prazer em continuar a escutá-lo! - Kathinka Braun sorveu um gole de chá, que entretanto, arrefecera ligeiramente. - A Riviera está riscada do mapa! Se viajar, escute bem, se viajar será até à Camargue. Mas não Vou fazê-lo.

 

- A Camargue - ecoou Zipka, ao mesmo tempo que a voz adquiria uma tonalidade romântica e sonhadora. Que pedacinho de mundo fantástico! O gigantesco delta do Ródano, os lagos com os bandos de flamingos, os mares salgados, a relva da altura de um homem e o galope selvagem dos cascos de cavalos brancos! Por cima um céu infinito, em redor uma vastidão onde um homem se apercebe da sua pequenez. Um local em que a natureza é ainda, realmente, uma criação de Deus e não uma obra dos habitantes da Terra. Aí tudo respira grandeza e uma beleza intacta. A Camargue, que ideia espantosa a sua! Por entre as miríades de mosquitos, escaravelhos e outros insectos, os peixes habitam ali em quantidades incomensuráveis. Irei construir uma nova mosca para os pescadores: a mosca Camargue Zipkaciana.

 

- Basta! - interrompeu-o Kathinka num tom áspero, e desligou.

 

Em seguida sentou-se diante do telefone, fumou nervosamente um cigarro e mordiscou um pãozinho com mel. Quando o aparelho voltou a tocar, contou até oito. Só depois atendeu.

 

- Sim?

 

Pretendia parecer despreocupada e casual.

 

- Uma vez li um livro sobre a Camargue - disse Zipka, como se não tivesse sido interrompido. - Um livro maravilhoso e dramático. A história de um garanhão branco que se apaixonou pela amazona.

 

- Vou desligar imediatamente - sibilou Kathinka.

 

- Não, por favor! Quando é a partida?

 

- Nem pense nisso! A sua obstinação é aparentemente doentia! Podia ter evitado todas estas despesas. A viagem até aqui, o hotel...

 

- O Hotel Welfenpark - interrompeu-a ele.

 

- Já calculava. Escute-me de uma vez por todas, Herr Zipka: não tenho qualquer interesse em vê-lo novamente.

 

E desligou, antes que ele pudesse responder-lhe. Respirou fundo, bebeu o chá frio e, em seguida, dirigiu-se à ampla janela panorâmica. Encostou a testa ao vidro e só nessa altura tomou consciência de como a cabeça lhe escaldava, ao sentir o vidro tão agradavelmente frio.

 

Ficou à espera. Deixou-se estar sentada sem fazer nada, leu o jornal da manhã sem assimilar o que lia e assim decorreu uma hora inteira.

 

O telefone manteve-se silencioso. ”Um homem nojento”, pensou. ”Um fala-barato! Um tagarela que se julga muito esperto e irresistível; um jogador de palavras atrás das quais esconde a sua mesquinhez espiritual, A mosca Camargue Zipkaciana! Ao ouvir-se uma coisa destas...”

 

Kathinka começou finalmente a ocupar-se da bagagem. Duas malas e dois grandes sacos de viagem, um rádio, uma máquina fotográfica e uns binóculos de longo alcance. Levou tudo, de elevador, para a garagem do prédio e carregou o automóvel.

 

Em seguida telefonou ao surpreso Herbert Vollrath para fazer as despedidas.

 

- Vou partir - comunicou. - Acabei agora mesmo de me decidir. Pensei que na Camargue...

 

- Sozinha? Vais morrer de pasmo, Kathi! Não é uma região por onde uma mulher viaje sem companhia! A vastidão e a monotonia darão contigo em doida.

 

- Preciso de descanso, Herbert. Descanso absoluto.

 

- Não és o tipo de mulher capaz de viver semanas a fio como um homem das cavernas. Já que te decidiste por essa região, nesse caso visita a Provence. Vai até Aries,

 

Avinhão, Nimes... A arte à mistura com o Sol centenário. Atravessa o país dos trovadores!

 

- Talvez. - Observou as luzes do tráfego nocturno da cidade imersa na noite. - Conheces por acaso um livro, cuja acção se passa na Camargue?

 

- Há muitos livros com esse cenário.

 

- Um em que um cavalo... se apaixona pela amazona?

 

- Esse tipo de idiotice não é o meu género de leitura, Kathi.

 

- De acordo. O livro deve ser terrivelmente idiota. Também ouvi essa mesma opinião. Então passa bem, Herbert. Terás notícias minhas dentro de seis semanas.

 

- Espera, Kathi. - Vollrath dava a sensação de estar agitado. - Quando vais partir?

 

- Amanhã, muito cedo. Por volta das cinco horas. Porquê?

 

- Queria dar-te um beijo de despedida. Importas-te que apareça?

 

- Não, Herbert. Por favor. Porquê complicar tudo?

 

- Queres-me para teu companheiro de viagem? Uma palavra tua e...

 

- És o meu melhor amigo. Peço-te que deixes as coisas como estão!

 

Durante a noite, Kathinka Braun teve dificuldade em dormir. Imersa numa espécie de sonolência, escutou o tic-tac do relógio, algures na casa, e em seguida foi como se escutasse o seu próprio respirar. Apesar disso, acordou de um sono profundo quando o relógio tocou a despertá-la. Quatro horas da manhã. O Sol erguia-se em Hanôver, de um vermelho sangue, envolto em nuvens. Os telhados flamejavam, como se a cidade estivesse em chamas.

 

Pouco antes das cinco, Kathinka subiu a rampa do Hotel Welfenpark e travou a fundo diante do pórtico de entrada, apoiado em Colunas.

 

Ludwig Zipka estava sentado em cima de uma mala de tamanho médio e acenou-lhe.

 

O porteiro da noite, que lhe estivera a fazer companhia até essa hora, saiu do hotel com uma mochila e um cavalete enrolado. Surpreendida, Kathinka deixou-se ficar a observar como o indivíduo transportava às costas as malas, a mochila e o cavalete, para em seguida desaparcer novamente no interior do hotel com um amável ”Boa viagem”.

 

Zipka abriu a porta do outro lado do condutor.

 

- Como sabia que eu passaria por aqui às cinco horas? - perguntou Kathinka com um ar de poucos amigos.

 

- Intuição. Disse com os meus botões: ”Se ela se levantar ao romper do sol, deve estar aqui por volta das cinco horas.” Telefonei para sua casa há um quarto de hora e ninguém me respondeu: por conseguinte, vinha a caminho.

 

- Que idiotice!

 

- Chamar-lhe-ia antes a expressão de uma pessoa cheia de génio.

 

Ludwig Zipka instalou-se no assento de cabedal macio e apertou imediatamente o cinto de segurança. Em seguida uniu as mãos e suspirou:

 

- Só uma informação: aumentei o meu seguro de vida.

 

- Pode voltar a descê-lo! - espumou Kathinka. É esta toda a sua bagagem?

 

- Sou um indivíduo modesto.

 

- O que tenciona fazer com o cavalete? Também sabe pintar?

 

- Esqueceu-se de que pretendo esboçar a mosca Camargue Zipkaciana.

 

- Num cavalete? Como se fosse um quadro a óleo?

 

- As minhas moscas são obras de arte; ainda virá a reconhecê-lo. Aposto consigo em como Rembrandt seria incapaz de pintar estas moscas.

 

- Nisso acredito eu. Mas aviso-o de que sou muito impulsiva.

 

- Maravilhoso!

 

- Talvez lhe bata com a pintura na cabeça!

 

- A cabeça! É isso mesmo! - exclamou Zipka, fitando Kathinka de lado. - Tem outro penteado.

 

- Agrada-lhe?

 

- Gostava mais do outro.

 

- Pois eu não!

 

- Dava-lhe uma expressão mais suave!

 

- Não quero ter uma expressão suave. Detesto a suavidade em todos os aspectos.

 

- Parece um anjo...

 

- Cale-se! Não sou um anjo.

 

- Não me deixou acabar a frase. Parece um anjo que anda a testar os pecados na Terra por incumbência de Deus.

 

- Teria o maior prazer em atirá-lo para fora do automóvel.

 

- É difícil. Tenho o cinto de segurança apertado. Pelo emissário dos deuses, Hermes, você passou a rasar. Acalme-se, Tinka!

 

Ela encolheu-se como se tivesse recebido uma bofetada, e em seguida virou-se para Zipka com os olhos chispantes.

 

- O que é que acabou de dizer? - sibilou entre dentes e num tom agressivo.

 

- Apenas invoquei Hermes.   O corredor olímpico de ralis...

 

- Não é isso! A última palavra!

 

- Tinka.

 

- Você é doido varrido?

 

- Na minha opinião, Tinka é o diminutivo mais afectuoso de Kathinka. Kathi não passa de uma sopa de puré de batata comparado a Tinka! Tinka é a brisa das estepes e das flores de ginjeira também. O seu pai deve ter tido dons telepáticos.

 

Ela procurou uma resposta adequada, mas não a encontrou, o que só serviu para que ficasse ainda mais furiosa.

 

Era talvez a primeira vez em que se sentia incapaz de dar uma resposta a um homem. Por conseguinte, carregou no pedal do acelerador e crispou as mãos no volante. O automóvel saltou como se fosse um cavalo e obedeceu com ruído estrondoso do motor. Zipka sentiu-se como que numa prensa e procurou apoio no tabelier.

 

- Lá vamos nós! - gritou alegremente. - Acredita que atingiremos a auto-estrada sem danos pessoais?

 

- Se tem medo pode sair em qualquer altura.

 

- Vou resistindo.

 

Tinham descido a rampa do hotel, passando por um VW azul. Eles não lhe prestaram atenção, mas foram observados por dois homens novos, que os fitaram mal-humorados pelo retrovisor.

 

- Ela não ia viajar sozinha? - perguntou um deles.

 

- Foi o que disse na oficina.

 

- E quem é o tipo que vai sentado ao lado dela?

 

- Não faço ideia. Ninguém falou nele.

 

- E agora?

 

- Tudo correrá segundo os planos. Tratamos do tipo à nossa maneira e pômo-lo quieto. Por dois milhões vale bem o risco.

 

Puseram o motor em marcha e arrancaram atrás do automóvel desportivo. Algumas centenas de metros decorridos já o tinham apanhado, na medida em que Kathinka Braun diminuíra para uma velocidade normal. Ludwig Zipka tinha-lhe explicado que não conseguia deixar de bater com os dentes.

 

- Como é que imaginou realmente esta viagem? quis saber Kathinka.

 

- É uma pergunta de difícil resposta - contrapôs Zipka.

 

- O que espera?

 

- Sol, mar, céu azul, um ”dolce fare niente”. Tenho de reorganizar ideias.

 

- Como assim?

 

- Primeiro, o objectivo chamava-se Riviera; tinha contado com noites loucas. Mas agora, na Camargue, dedicar-nos-emos por inteiro à natureza. Observaremos os flamingos, como eles arrancam as penas...

 

- Para mim constitui um enigma porque me acompanha nesta viagem, uma vez que leva as coisas a brincar e põe tudo a ridículo.

 

- E para mim é um enigma o que a levou a procurar um companheiro de viagem através de um anúncio no jornal.

 

Nesse aspecto a minha curiosidade não tem limites...

 

- Ficaria muito desiludido se soubesse.

 

- Aguardemos.

 

- Talvez eu seja uma mulher histérica que necessite de um pára-raios para os seus caprichos durante seis semanas...

 

- Essa não! - exclamou Zipka com uma nova risada alegre. - Já estou demasiado usado para uma coisa assim. Só mais uma coisa, Tinka...

 

- Não utilize mais essa palavra horrível.

 

- Temos despesas separadas.

 

- Claro.

 

- Exijo, porém, uma outra separada: biologia.

 

- O quê?

 

Fitou-o com uma expressão irritada. Diante deles estendia-se o acesso à auto-estrada. Agora, Kathinka voltava a conduzir mais depressa.

 

- Como é que me hei-de expressar sem escandalizá-la? Expliquemos desta maneira: se durante estas seis semanas eu conhecer uma bela rapariga que não seja antipática... compreende? Então exijo a minha liberdade pessoal a nível de erotismo. Seis semanas de atmosfera marítima, carregada de iodo e de um sentimento de liberdade, devem fazer correr o sangue com mais força nas veias! Não tenho intenção de jejuar seis semanas.

 

- Também eu não. Cada um de nós dispõe da sua liberdade pessoal. E podemos separar-nos se concluirmos que bulimos demasiado com os nervos um do outro.

 

- Era isso exactamente o que eu queria dizer! - Zipka recostou-se satisfeito no assento. - De facto, na Camargue deve haver raparigas muito bonitas.

 

Saudáveis, de.ancas redondas e pernas rijas. Crescidas no meio da natureza e ainda não estragadas pela civilização. Aaah!

 

- O que se passa? - perguntou Kathinka, sobressaltando-se. - Porque grita dessa maneira?

 

- Foi um grito de alegria antecipada!

 

- Você vai descer quando chegarmos a um sítio de auto-estrada de onde possa regressar a Hanôver de táxi! Se é essa a sua única motivação! - exclamou Kathinka, espumando de raiva. Faço questão de vincar que o considero o companheiro de viagem mais indesejável que se possa imaginar. Petulante, arrogante, palrador; em resumo: um chato!

 

Tinham entrado na auto-estrada. Kathinka carregou a fundo no acelerador e atirou-se como uma louca pela faixa da esquerda. Buzinava ferozmente, afastando tudo quanto via pela frente.

 

- Chega-lhe Herr Zipka?

 

- Perfeitamente!

 

Zipka desapertou o botão do colarinho. A atmosfera estava escaldante dentro do automóvel desportivo.

 

- Estava à espera de uma aventura?

 

- Para falar francamente, sim!

 

- Quartos separados, mas com a porta de comunicação aberta...

 

- Exactamente. com todos os matadores. Quando se lê um anúncio deste género no jornal, a fantasia começa imediatamente a entrar em acção. No entanto, logo a seguir nós conhecemo-nos e eu interroguei-me: ”O que a levará a fazer isto? É uma das mulheres mais bonitas e atraentes que me foi dado conhecer, atingiu êxito, pode ter o mundo aos pés... e, no entanto, procura um companheiro de viagem através de um anúncio no jornal! Alguma coisa não joga certo...”

 

- O facto de querer acompanhar-me tratou-se, por conseguinte, de pura curiosidade?

 

- Assim se poderá chamar-lhe.

 

- De resto, deixe que lhe participe que estou apaixonada - replicou Kathinka subitamente.

 

- Vejam só! - observou Zipka, sem que parecesse muito surpreendido.

 

- Há quatro anos.

 

- Por um russo?

 

- Como assim, um russo?

 

- Por poder esperar tão pacientemente. Os russos têm uma noção de tempo muito especial.

 

- É professor.

 

- Ah! E há quatro anos que lhe faz a corte sem avançar mais. Aparentemente, o indivíduo não tem grande poder de convicção. Ele sabe que viaja de automóvel comigo até à região dos bandos de flamingos?

 

- Claro que sabe para onde vou.

 

- E não vem imediatamente atrás? Alcança-nos, bloqueia o caminho, atira-me para fora do automóvel e dá-me uma tareia...

 

- É como você agiria em condições idênticas, certo?

 

- Sem dúvida!   Faria em bocados qualquer outro homem que visse ao seu lado. O seu amante de há tanto tempo deve ser um santo.

 

- É um cavalheiro.

 

- Então, jamais serei um cavalheiro.

 

- No entanto, tínhamos combinado de antemão que cada um de nós podia levar a sua própria vida.

 

- De acordo. Também não estou apaixonado por si.

 

- Isso seria, aliás, horrível!

 

Zipka esboçou um aceno de concordância e começou a tamborilar com o dedo indicador de encontro ao vidro.

 

- Ainda faltam quinze quilómetros! - disse subitamente.

 

Kathinka fitou-o estupefacta. Foi mesmo a ponto de passar para a faixa de rodagem da direita.

 

- O que é isso dos quinze quilómetros?

 

- Havia ali uma placa. Quinze quilómetros até à próxima bomba de gasolina.

 

- Tenho o depósito cheio.

 

- Mas lá posso mandar chamar um táxi. Não disse que se queria ver livre de mim?

 

- Você é mesmo um vómito.

 

- Eu sei. Mas não se esqueça de que o vómito pode, igualmente, ser um remédio. Através dele deita-se tudo o que incomoda cá para fora! Uma pessoa sente-se aliviada por dentro. E decide-se viver mais sensatamente...

 

- Devia ter sido padre - interrompeu-o Kathinka num tom áspero.

 

Olhou de relance para o retrovisor. Um VW azul seguia atrás deles e acabara de ser ultrapassado por uma enorme limusina. Kathinka reagiu rapidamente; guinou e carregou de novo a fundo no acelerador. O pesado veículo atrás deles buzinou e fez sinais de luzes.

 

- Cortou-lhe a ultrapassagem! - observou Zipka. Neste momento, o condutor está a pensar: ”Típico da mulher ao volante!”

 

- Essa presunção dos homens! Você deve conhecê-la melhor que ninguém.

 

- Oh, não! - exclamou Zipka, unindo as mãos. Não me venha agora com a conversa de que é uma emancipada! Uma feminista! Por favor, não me faça isso! Nesse caso, teria realmente de fugir, de me pôr a milhas.

 

- Porquê essa vontade de fugir?

 

- Quero impedir que caia sobre mim a vingança dirigida contra todos os homens. Nessas circunstâncias, seis semanas de férias resumir-se-iam a seis semanas de luta impiedosa.

 

- Bateu no ponto certo, Herr Zipka - ripostou Kathinka calmamente. - Basta-lhe como explicação para o meu anúncio no jornal?

 

- Aceito! - Zipka inclinou-se para diante e ligou o rádio do automóvel. Transmitiam música para dançar. - Por onde começamos? Como quer iniciar a guerra, Tinka?

 

- Vou começar por contar quantas vezes me chama Tinka, para mais tarde, lhe dar um pontapé nas canelas por cada Tinka. - Riu. Era um riso mau, pelo menos assim queria dar a entender. - Também não o trato por Lu.

 

- Seria injusto. Lu não se coaduna nada com o meu carácter. Soa-me a trela. Mas se pudéssemos concordar em Wig seria óptimo.

 

- Wig? Alguma originalidade?

 

- Sim. Wig poderia ser uma sigla; um diminutivo para wird immer geliebt 1 ! Quando me chamar Wig, saberei que estará a falar com o coração.

 

- Que tolice! Seria como que um retorno à linguagem por símbolos.

 

- Zipka encolheu os ombros e ergueu o braço.

 

- Pare! - gritou. - Trave! Para a direita...

 

- O que se passa? - Kathinka crispou as mãos no volante. Em vez de travar, carregou a fundo no acelerador. - Porque gritou dessa maneira?

 

- Era um posto de gasolina. Queria sair!

 

- Tarde de mais! Agora já deve começar a entender como a sua conversa estúpida prejudica o poder de concentração.

 

- O próximo posto de gasolina fica a cinquenta e quatro quilómetros de distância.

 

- Sobreviveremos até lá.

 

- Só que o táxi ficará mais caro.

 

- Eu pago metade das despesas da viagem. Entendido?

 

- Certo. - Zipka recostou-se novamente no banco, que era de cabedal macio e emanava um cheiro agradável. - Tinka...

 

”Serás sempre amado (JV. da T.)

 

- Mais um pontapé, depois!

 

- Sinto-me satisfeito com a ideia da Camargue.

 

- Nunca chegará lá.

 

- Se continuar a essa velocidade, sou da mesma opinião.

 

Kathinka Braun hesitou, mas, em seguida, tirou o pé do acelerador e moderou a velocidade.

 

O VW azul aproximou-se. O condutor assobiou entre dentes e limpou com o cotovelo o suor que lhe escorria da testa. O indivíduo novo, que seguia ao seu lado, soltou uma sonora exclamação de alívio e, em seguida, procurou o maço de cigarros no bolso do casaco.

 

- Se continuar assim, perdemo-la! Que idiotice a de seguir esta bomba com um velho Volkswagen.

 

- Quando tivermos a massa, também poderás alugar um carro de desporto.

 

- E onde queres resolver esta coisa?

 

- Em França, como estava planeado. Lá há limite de velocidade e não pode fugir-nos.

 

- O que não me agrada mesmo é o tipo que a acompanha. O que fazemos com ele? Também temos de o aguentar?

 

- Não podemos soprá-lo.

 

- Porque não?

 

Ambos se entreolharam por breves instantes. Tinham recuperado a distância e agora seguiam mesmo atrás de Kathinka Braun. Repararam que o homem se ajoelhava no banco e remexia na bagagem arrumada no estreito banco traseiro. Ele pegava num recipiente de plástico amarelo e destapava-o.

 

- O tipo gosta de bananas - observou o condutor do VW azul. - Se soubesse o que lhe vai acontecer em França...

 

Kathinka Braun olhou com ar reprovador para o recipiente de plástico, onde ele arrumara pão com manteiga e três bananas. Zipka descascou um bonito exemplar com visível agrado.

 

- Era só o que me faltava! - retorquiu num tom venenoso. - Um lanchinho! Salada de batatas com salsichas.

 

- Nada disso. Pão integral com queijo. E bananas! O pão integral facilita a digestão, e contém minerais e muitas vitaminas. Deve esperar de um companheiro de viagem que ele seja saudável, Tinka.

 

- Cinco vezes! - Agarrou nervosamente o volante.

- Tem mesmo de comer agora?

 

- Ainda estou em jejum.

 

- Também eu.

 

- Um estômago vazio de manhã provoca mau humor.

 

- Bebi chá.

 

- Não chega. Se bem que tenhamos acordado em despesas separadas, não quero ser mesquinho e Vou partilhar o meu pequeno-almoço consigo. Tenho Camembert e queijo trapista no pão.

 

- Trapista? Não é daquela ordem de monges que fizeram voto de silêncio perpétuo? Um trapista nunca mais pode falar...

 

- Exacto. O queijo com esse nome impressiona-me sempre agradavelmente. Emana tanta calma.

 

- Céus! Para o escutar, é preciso ter nervos de aço.

 

Abrandou mais um pouco, respeitando o limite de velocidade; em seguida olhou para a direita e parou num local de descanso junto à estrada.

 

Alguns bancos e mesas em pedra destacavam-se no meio de altas faias e bétulas; àquela hora tão matutina ainda estavam vazios. Havia três camiões junto do acesso à auto-estrada. Os condutores ainda estavam a dormir.

 

O VW azul também os imitou, se bem que mantendo-se a uma distância discreta.

 

Kathinka Braun saiu, espreguiçou-se e sacudiu os cabelos. Zipka desapertou o cinto de segurança e saiu também; fez três flexões e pronunciou em voz bem sonora:

 

- Ah! Este ar. E como os ossos me estalam! No seu automóvel, uma pessoa tem de viajar toda encolhida.

 

Em seguida sentaram-se a uma das mesas. Zipka retirou a comida de dentro do saco de plástico, estendeu um grande guardanapo de papel a servir de toalha de mesa e ofereceu a Kathinka o pão com queijo. Ele levara igualmente uma garrafa-termos. O chá era de um amarelo-dourado e tinha um aroma delicioso: mistura Zipkaciana.

 

- Sabe que é a primeira vez que como num sítio destes? - disse Kathinka.

 

- E... agrada-lhe?

 

- Praticamente, sim.

 

- O que significa praticamente?

 

- Se não fosse consigo...

 

Os dois homens do VW azul ocupavam uma mesa a uns vinte metros, fumando em silêncio. Olhavam para Ludwig Zipka, avaliando a força que teria.

 

- Não tem muito que se lhe diga! - concluiu o condutor, falando em voz baixa. - Um ligeiro toque e cai. Só é uma chatice que tenhamos de o levar connosco. Não tínhamos previsto complicações. De qualquer maneira, não pode haver mortos. Tudo neste assunto tem de sair com a maior limpeza...

 

Passaram a primeira noite em Baume-les-Dames.

 

Um nome muito francês e um sítio correspondendo a essa impressão: trata-se de uma pequena cidade de sonho entre Belfort e Besançon, nos Doubs, enquadrada numa paisagem maravilhosa cheia de jardins e hortas, entre vinhedos e simpáticas casinhas rústicas, dando a sensação de que ainda no dia anterior ali pernoitou a jovem de Orleães.

 

Infelizmente, Ludwig Zipka não era sensível a esta beleza romântica. Quando Kathinka Braun estacionou na pequena praça do mercado e abriu a porta do automóvel, ele saltou do seu banco, deslizou curvado até junto do radiador, endireitou-se e apalpou-se de cima abaixo. Kathinka observava-o desconcertada.

 

- Hurra! Ainda funciona! - ouviu Zipka gritar.

 

Ele deu, em seguida, três voltas a correr ao automóvel com os braços dobrados junto ao corpo e acabou por parar diante de Kathinka com uma espécie de pirueta.

 

- Você é completamente desaparafusado? - inquiriu Kathinka.

 

- Jamais acreditaria que ainda era capaz de qualquer movimento.

 

Ludwig Zipka mexeu as articulações das mãos. Parecia um tanto assustado.

 

- Deus do céu! Estava com medo que seguisse até à Camargue de um só fôlego. De Hanôver a Belfort com uma pequena pausa e uma curta paragem para meter gasolina! E está aí como se tivesse apenas virado a esquina da rua. Nunca se cansa verdadeiramente? Não sente os ossos?

 

- Quando ando de carro, não. Quando me sento atrás do volante, sinto-me como que liberta.

 

- Pode ser realmente um prazer. Mas sabe quantos quilómetros deixámos hoje para trás das costas?

 

- Não estou minimamente interessada. Queria chegar hoje a Baume-les-Dames e cá estou! Tinha feito os cálculos exactos.

 

- Aaah!

 

- Antes de fazer o que quer que seja, planeio com exactidão!

 

- A arquitecta!

 

- Amanhã continuamos até Beaune e lá tomamos a auto-estrada sobre Lião, rumo a Avinhão. Aí viramos e atravessamos Tarascon e Aries, até ao centro da Camargue.

 

- Tudo num dia?

 

- Não é façanha nenhuma.

 

- Pelo que vi no primeiro dia, parece ser uma devoradora de quilómetros.

 

Zipka encostou-se ao guarda-lama da frente e, para variar, movimentou as articulações dos pés. Kathinka fez uma careta.

 

- Pensemos em Avinhão. Não haverá tempo para visitar o maravilhoso palácio do papa? Ou a espantosa fortaleza da Idade Média? Há que ser vista! Julgo que tem oito portões e trinta e nove torres. Ali começa-se a sonhar com os trovadores...

 

- Por favor. Se quiser ficamos uma hora em Avinhão.

 

- Ou Aries! com o seu famoso anfiteatro romano e a sua catedral romana. Lá residiam, de vez em quando, os imperadores romanos. A partir do ano quatrocentos e seis foi capital da perfeitura gaulesa. Trará-shibum!

 

- Que quer dizer isso agora? - inquiriu Kathinka, olhando em volta.

 

Custava-lhe tomar consciência de como Zipka se cornportava de uma forma infantil.

 

- Estou a ouvir os passos da legião romana marchando no pavimento de Aries...

 

- Muito bem. Que seja feita, por conseguinte, a sua vontade. Mais uma paragem de uma hora em Aries.

 

- Ou Tarascon. Toda a cidade cheira a fruta e a vinho! Que terra! E passamos por ela como se estivéssemos em apuros ou nos faltassem os travões...

 

- bom. Conseguida, também, uma outra paragem em Tarascon.

 

- E tudo num dia só?

 

- Sim.

 

- Para si, quantas horas tem o dia de amanhã?

 

Ela encolheu os ombros e olhou em redor, mas não reparou no velho VW estacionado na praça do mercado. Em seguida comentou num tom casual:

 

- Mas primeiro do que nada, e para já, tem de ir à procura...

 

- À procura? De quê?

 

Zipka desabotoou mais a camisa. Fazia calor.

 

- De uma cama. Já que tencionava viajar sozinha, reservei, evidentemente, um quarto simples. Ficaria muito surpreendida se no pequeno hotel ainda houvesse algum quarto livre.

 

Kathinka Braun não precisava de se surpreender; claro que não havia quartos livres. O Hotel Chez Doubs, situado na orla da cidadezinha e no meio de um jardim florido, só tinha nove quartos - e estavam ocupados. O último tinha sido alugado há uma hora a um casal holandês.

 

O dono do hotel desfez-se em desculpas e telefonou para algumas residenciais mais pequenas, mas por todo o lado já os quartos - entretanto eram quase nove horas da noite - estavam alugados.

 

- É o começo da saison, monsieur - esclareceu, num tom pesaroso, o pequeno, gordo e simpático dono do hotel. - Talvez consiga encontrar alojamento numa casa particular. Que malheur! Se tivesse sabido duas horas antes... Podia-se ter trocado o quarto simples por um quarto de casal...

 

- Teria sido excelente! - apressou-se Zipka a observar, antes que Kathinka pudesse levantar objecções. Mas talvez se pudesse colocar uma outra cama no quarto simples...

 

- Não! - contrapôs Kathinka com um abanar enérgico de cabeça. - Como lhe passou essa ideia pela cabeça?

 

- O quarto ficaria muito apertado; é difícil, monsieur.

- O dono do hotel coçava a cabeça. - Tínhamos de afastar o roupeiro, o que nos arranjaria um problema com o laboratório. Também não se pode mudar a janela... um problema, monsieur!

 

- Descobrirei qualquer coisa - retorquiu Zipka. Deve existir algures uma hipótese de uma pessoa se estender.

 

Enquanto Kathinka, com a ajuda de um empregado da casa, descarregava o automóvel e deixava que levassem as malas para o quarto, Zipka foi lavar o rosto e as mãos à casa de banho; em seguida, recebeu a chave do automóvel das mãos de Kathinka.

 

- Lamento - disse Kathinka, embora num tom isento de sinceridade. - As maiores felicidades! Prosseguimos viagem, às sete. Peço-lhe o favor de ser pontual.

 

Ludwig Zipka voltou uma hora depois. Kathinka Braun estava sentada à mesa do restaurante a comer um bocado de perna de borrego assada quando Zipka se lhe juntou calmamente e cheirou a comida.

 

- Alho! - exclamou. - Não recua diante do que quer que seja!

 

- Adoro alho!

 

- E que tal o amor com alho?

 

- Não estou a perceber...

 

- Só costuma beijar os homens de máscara?

 

- Bem podia poupar-me aos seus comentários idiotas! Os homens que me beijam são igualmente entusiastas pelo alho.

 

- Nunca se deixa de aprender na vida - retorquiu Zipka com uma careta.

 

A empregada de cabelos pretos bateu as pestanas e esboçou um sorriso cheio de promessas.

 

- Uma sopa de alho - encomendou Zipka. - Em seguida queria, por favor, borrego salpicado de alho, uma salada com Roquefort coberta de alho e como sobremesa...

 

- Não há pudim, nem sorvete, nem crepes com alho

- interrompeu-o Kathinka num tom sibilante.

 

- Contudo, em França, há um maravilhoso queijo de alho. Como sobremesa quero uma fatia enorme desse queijo, mademoiselle.

 

- Porta-se sempre da pior maneira - replicou Kathinka, após a criada, de andar bamboleante, se ter afastado. - Se pretende passar a noite com a criada, peço-lhe que não o dê a entender na minha presença. Considero isso de uma absoluta falta de gosto.

 

- Dormir! Ah, sim! - Zipka serviu-se da garrafa de vinho tinto que se encontrava em cima da mesa. - Baume-les-Dames está na realidade a deitar por fora. Ninguém iria acreditar que não consegui encontrar um sítio onde passar a noite. E, no entanto, andei a bater de porta em porta como se fosse um vendedor! Só o facto de, pela maneira de falar, me identificarem como alemão impediu que alguns homens casados me espancassem. Informaram-me por três vezes de que, infelizmente, os maridos regressariam dos turnos de trabalho em Besançon durante a noite. Só teria arranjado alojamento imediato em casa de uma viúva de meia idade, mas o aluguer não me pareceu de forma alguma ir corresponder ao esperado descanso nocturno... Deu-me ideia de que a viúva era uma mulher cheia de iniciativa.

 

- E então?

 

- Então voltei.

 

- Informe-se junto da criada. Ela certamente não se importa de lhe dar lugar.

 

- Gostava de não a irritar, Tinka.

 

- É-me completamente indiferente. De resto, quantas vezes foi hoje pronunciado Tinka?

 

- Se não errei as contas, vinte e nove vezes.

 

- Terá de ir à procura de uma clínica especial de ortopedia se por cada uma das vezes eu lhe der um pontapé nas canelas, tal como prometi.

 

O jantar processou-se laconicamente. Zipka comeu todos os pratos fortemente condimentados com alho e cheirou o vinho.

 

- O vinho ainda não mudou de cor - anunciou satisfeito. - O que significa que ainda dá para aguentar.

 

- É para rir?

 

- Kathinka Braun levantou-se e permitiu que Zipka lhe ajeitasse o leve casaco de lã em redor dos ombros. Ao fazê-lo, ele tocou-lhe no pescoço. Ela sentiu como que uma labareda a percorrer-lhe o corpo, mas ninguém se apercebeu. Controlou-se divinamente. Apenas os lábios formaram um ricto, os cantos da boca suavizaram-se e ela semicerrou um pouco os olhos. ”Ainda podes salvar-te, Kathi”, pensou.   ”Uma coisa destas não pode acontecer-te. De forma alguma! Nunca e em tempo algum com este idiota do Zipka! Se o aguentas ao teu lado é só porque é diferente viajar com um verdadeiro bobo!”

 

- Há uma possibilidade - disse, ao mesmo tempo que se virava, disposta a ir-se embora.

 

Zipka piscou o olho à criada. Esta correspondeu-lhe com um aceno de cabeça e inclinou-se para diante, exibindo os seios e ficando numa atitude de expectativa. A blusa apertada dava a sensação de que iria rebentar de um momento para o outro.

 

A testa de Kathinka franziu-se ligeiramente.

 

- Qualquer coisa relacionada com o alho? - perguntou Zipka num tom ingénuo.

 

- A casa de banho não tem banheira, mas sim duche. Podia-se, assim, colocar um divã de abrir e fechar. Não é muito confortável, mas para uma noite...

 

- Também posso dormir deitado aos pés da sua cama, como um tapete com vida. Apenas sinto vontade de esticar os meus pobres ossos doridos da viagem de automóvel.

 

- Falei com o dono do hotel. Ele tem o divã.

 

- Espantoso! E se eu tivesse descoberto um quarto?

 

- Sabia que iria voltar! - Fixou-o por breves instantes. - Não se torna difícil prever o seu comportamento sem maneiras.

 

De facto, já estava tudo preparado quando entraram no quarto de Kathinka Braun. O divã estava na casa de banho e havia até um banquinho ao lado, como mesa-de-cabeceira.

 

Ludwig Zipka dirigiu-se à janela e olhou para fora. O quarto situava-se no rés-do-chão, e o aroma das flores entrou-lhe pelas narinas. Mesmo por baixo da janela desabrochava uma roseira baixa.

 

- Maravilhoso! - exclamou Zipka. - Irei sonhar com espinhos.

 

- Garanto-lhe que, se de noite sair da casa de banho, desato aos gritos!

 

- Você não me conhece, Tinka -retorquiu Zipka, sentando-se no banquinho. - Quando me ponho na horizontal, solto um suspiro e adormeço que nem uma pedra!

 

- E ressona?

 

- Dizem que sim...

 

Ela deu meia volta como se a tivessem pisado e fitou-o.

 

- Quem diz isso?

 

- Tenho trinta e cinco anos de idade, Tinka, e não sou um santo.

 

- Claro que não. Por conseguinte, ressona.

 

- E sonho também! A forma como sonho algumas vezes é absolutamente dramática! Uma vez (assim me contaram) parece que rasguei o lençol da cama e gritei por Mary-Lou!

 

- Que idiotice! - Virou-se, parou no meio do quarto e fitou a parede oposta. - Ainda pode ir beber qualquer coisa. Volte daqui a meia hora, pois nessa altura já estarei na cama e terá a casa de banho livre.

 

Zipka regressou pontualmente decorrida meia hora, bateu delicadamente à porta e, ante o silêncio de Kathinka Braun, atravessou o quarto nos bicos dos pés. Quando chegou à casa de banho, despiu-se e, em seguida, espreitou para o quarto através de uma fresta da porta. A cama de Kathinka estava imersa em profunda escuridão. Ele apenas avistava os pés em madeira trabalhada. Esboçou um sorriso satisfeito ao escutar como Kathinka se virava na cama e, aparentemente, o procurava com o olhar.

 

- Pode abandonar o seu posto de espreita - disse ela, subitamente, num tom de voz nada cansado. - Feche essa porta e depois... boa noite.

 

- Ela chama-se Jacqueline...

 

- Quem?

 

- A meiga criada. O quarto dela fica por baixo do telhado. Corredor do último andar, à esquerda, quarta porta a contar da escada...

 

- Nesse caso, o que é que está ainda a fazer aqui? O tom de voz de Kathinka tornara-se nitidamente sibilino.

 

- O cansaço! Mero cansaço! De facto, nada me agradava mais do que dormir! Tinka...

 

- Feche essa porta!

 

- De seguida. Uma palavra apenas...

 

- Não!

 

- Não poderei adormecer.

 

- Porquê?

 

- O meu quarto está impregnado do seu perfume...

 

- Nesse caso areje-o!

 

- Vou tomar as minhas precauções. Rodeado do seu perfume, irei sonhar que estarei nos seus braços. Não se admire, por favor, se durante a noite me ouvir gritar: Tinka!...

 

Fechou rapidamente a porta, no momento em que um objecto voou pelos ares e foi embater contra a madeira no meio do escuro. Ludwig Zipka estendeu-se, satisfeito, no estreito divã e apagou a luz.

 

- Dorme bem, Tinka - pronunciou em voz baixa na escuridão. - E acredita-me: amo-te...

 

Em qualquer altura da noite, Zipka teve a sensação de que a pequena janela se tinha entreaberto. Contudo, estava tão cansado que não reagiu imediatamente. Em seguida, um pesado objecto atingiu-o na cabeça e ele quis saltar da cama.

 

Ficou, no entanto, como que paralisado, e uma dor enorme acompanhada de um zumbido encheu-lhe o cérebro... e depois perdeu a consciência.

 

A certa altura foi acordado por pancadas fortes na porta. Levantou a cabeça, teve uma sensação estranha e sufocante, pestanejou e verificou que tinha clareado. A janela estava realmente aberta, e junto da cama havia uma pedra, um seixo enorme, acastanhado, com um papel preso por um elástico.

 

- Seis horas! - anunciou Kathinka do quarto ao lado. - Arranje-se, porque também quero ir tomar banho! Continuaremos viagem às sete em ponto.

 

- Uns minutos só - respondeu Zipka, que se levantou do divã, apanhou a pedra e leu o bilhete.

 

Este dizia, em maiúsculas:

 

         ”VOLTE PARA TRÁS, OU JAMAIS O FARÁ

         O PRIMEIRO E ÚLTIMO AVISO.”

 

Zipka aproximou-se da janela, olhou para fora, mas evidentemente nada mais se avistava para além de um jardim florido e frondoso, banhado pelos primeiros raios do alvorecer, e de um céu azul-claro sem nuvens. Uma galinha cacarejava alegremente e num prado distante e vedado chafurdavam nove porcos.

 

Na medida em que, segundo os conhecimentos gerais, jamais se ouvira falar de que as galinhas ou os porcos conseguissem atirar pedras e escrever bilhetes, Zipka dirigiu-se ao espelho, apalpou um pequeno alto no lado direito da cabeça e recordou-se de que enquanto estava a dormir durante a noite lhe fora aplicada uma estranha pancada na cabeça.

 

”Isto começa bem, Ludwig”, disse para a imagem reflectida no espelho; despiu-se, tomou um duche frio e ficou satisfeito ao ver que os cabelos tapavam o pequeno alto e que, por conseguinte, Tinka não poderia vê-lo.

 

Quando voltaram a soar pancadas enérgicas na porta, vestiu-se e abriu. Já tinha atirado a pedra pela janela, mas guardara o bilhete no bolso das calças.

 

- Precisa de tanto tempo para se arranjar? - inquiriu Kathinka Braun.

 

Oferecia uma imagem maravilhosa, vestida com um roupão curto. As compridas pernas nuas eram uma provocação. Já tinha escovado os cabelos e dera-se ao trabalho de voltar a deixá-los cair lisos sobre os ombros, como agradava a Ludwig Zipka.

 

- Sou um homem limpo. - Zipka, de tronco nu, afastou-se para lhe dar lugar e fez um gesto convidativo para que ela entrasse. - Faz favor! Também posso vestir a camisa. Se lhe interessa saber, o cheiro que sente é um perfume masculino, Torero olé. Faz parte de uma série de requintados perfumes para homem...

 

- Não me cheira a nada - retorquiu Kathinka, fechando-lhe a porta na cara.

 

Pouco depois, ele pôde ouvir a água a correr do chuveiro; vestiu uma camisa, sentou-se no sofá junto da janela e começou a pensar quem lhe poderia ter atirado à cabeça uma pedra com uma mensagem tão significativa e acima de tudo porquê? Para aquele episódio só encontrava a explicação de que qualquer admirador de Kathinka Braun achava a presença dele incomodativa, na medida em que ele próprio fazia tenção de convencer a solitária dama quanto ao prazer de viajar a dois.

 

”Desta forma, nunca”, pensou Ludwig Zipka. ”Muito pelo contrário: aceito o desafio. Vamos ver o que entende o autor do bilhete por ”último aviso.”

 

Pouco depois das seis e meia, Kathinka saiu da casa de banho e fitou Zipka com um ar superior.

 

- Agora Vou vestir-me - anunciou. O que significa: desapareça!

 

Zipka levantou-se e dirigiu-se à casa de banho, onde fez a barba.

 

- Que idade tem esse professor? - perguntou. Kathinka fitou-o interrogativamente.

 

- Que professor?

 

- O seu amigo.

 

- Herbert Vollrath? Porquê?

 

- Ele é geólogo? Coleccionador de pedras?

 

- Como sabe isso?

 

- Ah! Então é verdade?

 

- O Herbert colecciona cristais raros. Já possui uma colecção bastante valiosa...

 

- Mas não liga muito a pedras vulgares...

 

- Que perguntas são essas? - Mediu Zipka com a cabeça levemente inclinada. - Por detrás de toda essa conversa existe algo mais! Está a preparar alguma...

 

- Considera possível que esse tal Herr Vollrath ainda se deixe arrastar por impulsos infantis e, em determinadas situações, se comporte como um miúdo de doze anos leitor de Karl-May?

 

- Se é possível? Céus! No que se refere aos homens, tudo é possível.

 

- Vollrath sabe que neste momento vai a caminho?

 

- Sabe...

 

- Conhece também o itinerário?...

 

- Porque não?

 

- Qual é o carro dele?

 

- Um BMW. Agora não me pergunte qual o modelo, porque não sei. Mas para quê todas essas perguntas? Receia mesmo que Herbert Vollrath nos esteja a seguir e a vigiar?

 

Kathinka soltou uma súbita risada e deitou o corpo para trás; o roupão entreabriu-se. Por um instante apenas, Zipka observou a maravilhosa pele nua, após o que o roupão foi novamente apertado.

 

- Isso é um absurdo! - exclamou Kathinka. - Deus do céu! Herbert na nossa peugada... E se assim fosse? Ficaria nervoso?

 

- Talvez ficasse com dores de cabeça - respondeu Zipka, com dupla intenção. - Até onde vão os direitos dele?

 

- Não é da sua conta. Contudo, mesmo assim Vou responder-lhe: não tem rigorosamente direitos nenhuns. Não há ninguém que tenha direitos sobre mim! Pertenço inteiramente a mim própria. Mais alguma coisa?

 

- Não - respondeu Zipka, sacudindo a cabeça.

 

- Notou alguma coisa? Há alguém a vigiar-nos? A voz dela soava agora tensa. - As suas perguntas devem ter uma razão de ser.

 

- Você ultrapassa a lógica, Tinka.

 

- A lógica?

 

- Se eu fosse um homem que possuísse uma fracção de direitos sobre si, para provar-lhe o meu amor segui-la-ia até à Austrália ou à volta do mundo.

 

- Herbert Vollrath jamais o faria. - Kathinka pegou num lenço, com que prendeu o cabelo. - É um homem de princípios. Nesse aspecto é duro como pedra.

 

- Acredito inteiramente nessas palavras! - retorquiu Ludwig Zipka, fechando a porta da casa de banho atrás de si.

 

Dirigiu-se novamente à janela e olhou lá para fora, contemplando o jardim florido.

 

”Impossível!”, pensou. ”Um professor não atira pedras com bilhetes atados. Não é o seu estilo. Mas, por outro lado, quando se ama uma mulher como Tinka perde-se a razão. Assim, podem-se assumir atitudes ditadas pelas circunstâncias e que num estado normal se enquadrariam na categoria de idiotas... Meu Deus! O que fazes de um homem que ama!”

 

O limite de velocidade na auto-estrada francesa era de cento e trinta. A polícia francesa é muito rígida neste aspecto, e também para com os estrangeiros, na medida em que parte do princípio de que os que não são franceses também sabem ler tabuletas.

 

Kathinka Braun conduzia por esse motivo prudentemente, sem ultrapassar os cento e trinta. No entanto, sempre que a auto-estrada se apresentava desimpedida, pisava o acelerador e disparava sobre a pista dentro daquela sua velha maneira de ser. Esta pequena brincadeira processou-se tão frequentemente que chegaram mais cedo a Avinhão do que Kathinka havia calculado. Ela parou em frente dos imponentes muros do palácio do papa e fitou Zipka com uma expressão de desafio.

 

- Aqui está o espavento pretendido. Pode mesmo vaguear duas horas pelo passado.

 

- É inacreditável - ripostou.

 

- O quê?

 

- Uma arquitecta que não se interessa por construções veneradas há séculos. Um dia ainda gostava de ver a sua casa, Tinka! Hipermoderna, não? Carrega-se num botão e sai uma cama da parede ao mesmo tempo que um coro infantil entoa uma canção de embalar de Brahms...

 

- Não iria acreditar, mas já construí uma vivenda no estilo da Grécia antiga, a pedido de um industrial de Dusseldórfia, com cento e quarenta e cinco colunas...

 

- Que extravagância!

 

Zipka manteve-se sem sair do automóvel. Olhava para o retrovisor exterior da direita, à espera de que um automóvel com matrícula alemã desse a curva e estacionasse na praça diante do palácio. Seria, infalivelmente, o lançador de pedras - o professor Vollrath? Contudo, não apareceu qualquer automóvel alemão à excepção de um velho VW de um azul desbotado e que passou ao lado deles. Não chamou a atenção de Zipka na medida em que nele seguiam dois homens.

 

- Ainda não perguntei qual o nosso destino.

 

- Moulin Saint Jacques, em Mas d’Agon.

 

- Ei! Isso faz lembrar As Cartas do Meu Moinho, de Alphonse Daudet. Moulin Saint Jacques. Deve cheirar a lagos e a relva.

 

- É um antigo moinho, mesmo junto ao lago de Vaccarès. Nas proximidades há uma velha capela, onde se faziam romagens. Contudo, não é ele apenas a nossa meta. De lá tenciono explorar o mundo dos milhares de ilhotas e lagos...

 

- Lá é proibido andar de automóvel - replicou Zipka.

 

- Andarei a cavalo.

 

- Também sabe montar?

 

- É evidente que você não sabe! - riu Kathinka. Nessas alturas terá tempo para desenhar e construir a sua nova mosca Camargue.

 

- De forma alguma! Seria incapaz de a deixar andar sozinha por aqueles canaviais gigantescos.

 

-- Os homens da Camargue são os mais respeitadores do mundo! A grandiosa natureza cria igualmente pessoas grandiosas.

 

- Mesmo assim... Arranjarei um cavalo que seja capaz de trotar atrás do seu. Não será preciso mais nada... E agora não quer visitar o palácio do papa?

 

- Conheço-o. Já estive duas vezes em Avinhão. E também em Aries e Tarascon.

 

- Você é mesmo malvada, Tinka! - Zipka voltou a fechar a porta do automóvel, que já tinha aberto. - Porque não me disse isso ontem? Ter-me-ia dado tanto prazer poder mostrar-lhe alguma coisa de belo. Decorei, especificamente por sua causa, um livro turístico sobre a Provence.

 

- Aparentemente, toda a sua viagem falhou a nível de investigação antecipada - retorquiu Kathinka alegremente. - Então, não quer descer?

 

- Não. Nem em Aries nem noutro sítio qualquer. Só junto ao seu Moulin Saint Jacques. Como conseguiu realmente descobri-lo?

 

- É citado em todos os guias turísticos. A descrição fascinou-me. Escrevi ao presidente da Câmara Municipal de Mas d’Agon e ele respondeu-me. O moinho pertence a um estalajadeiro chamado Francois Dupécheur.   Há anos que está desabitado e, por conseguinte, em ruínas. Telefonei seis vezes a monsieur Dupécheur até o convencer de que não era uma louca. Alugou-me o moinho por seis semanas; por minha própria conta e risco, como me disse. Contudo, julgo que ainda me considera um tanto desmiolada.

 

- Vou beijar as duas bochechas desse bom homem! Kathinka fulminou-o com o olhar e deu a volta à chave

 

de ignição do motor.

 

- Vamos embora! - exclamou. - Ou devo levá-lo à estação de caminho-de-ferro? Ainda é simples regressar daqui.

 

- Tarde de mais, Tinka. - Zipka correu o vidro da janela. - Despertou em mim o louco desejo da aventura...

 

- E não sei como Vou aguentar a sua companhia durante seis semanas - queixou-se Kathinka.

 

Saíram de Avinhão e, sem fazerem qualquer outra paragem, atravessaram Aries e Gimeaux lês Passerons. Em seguida, chegando a Mas de Gould, tomaram pela estrada n° 570 e, depois do almoço, chegaram à pequena localidade de Mas d’Agon, tendo atravessado a grande região pantanosa de Marais de la Grand Mar. O Sol brilhava abrasante sobre a terra infinita, banhando com os seus raios as casinhas caiadas de branco ou pintadas de azul e amarelo, de telhados de colmo ou de telha. Reinava um silêncio tão profundo que podia escutar-se o próprio bater do coração.

 

O único automóvel na estrada de Mas d’Agon era o deles. O facto pareceu compelir o polícia da aldeia a abandonar a sua secretária e a sair da esquadra, a fim de se dirigir, gravemente, ao encontro dos estranhos.

 

Kathinka tinha saído do automóvel, deixando voar os cabelos soltos naquela brisa quente e suave que chegava do mar; Zipka repetia os seus malditos exercícios de desentorpecimento.

 

O polícia levou a mão ao boné e enfiou o polegar da mão esquerda no cinturão. Deitou um olhar de relance para a matrícula do carro e, em seguida, perguntou num mau alemão:

 

- Posso ajudá-la, madame? Perdeu-se?

 

- Podemos falar na sua língua, monsieur - disse Kathinka Braun, dirigindo um sorriso ao polícia.

 

É então assim: quando Kathinka ri, assemelha-se ao derreter da manteiga ao Sol. Um homem fica inerte, na medida em que perde o elo de ligação entre o raciocínio e a capacidade de acção. E o polícia de Mas d’Agon era um homem como os outros...

 

Era um indivíduo robusto, com uma pequena barriga, um homem imponente a que a barriga nem sequer ficava mal, mas até servia para lhe acentuar a personalidade. Além disso, era sargento e viúvo há dois anos. Tinha um orgulho imenso nas suas obrigações, usava o uniforme orgulhosamente, tal como o padre a sua batina, e podia gabar-se de ser o polícia mais conceituado de toda a Provence, mesmo de toda a França: em vinte e seis anos de serviço em Mas d’Agon, jamais houvera um incidente. Nenhuma infracção, tão-pouco um roubo ou uma desordem, nem sequer um conflito conjugal em que se tornasse necessária uma interferência, e muito menos um homicídio. Tão-pouco existia um código de trânsito escrito, talvez porque no lugar apenas havia dois camiões e os restantes veículos eram puxados por cavalos. Os estrangeiros eram um caso raro em Mas d’Agon. Há vinte e seis anos que a secretária do posto da Polícia estava limpa.

 

O último acontecimento fora o suicídio de um pintor que havia cortado os pulsos nas redondezas do local, porque não conseguira pintar o divino pôr do Sol naquele belo cenário. Ainda hoje se falava do caso em Mas d’Agon, e o posto da Polícia vivia mesmo, por assim dizer, deste auto. Era sempre citado nos relatórios mensais. O último incidente em... há vinte e seis anos...

 

- Em que posso ajudá-la, madame? Sou o sargento Emile Andratte. - Esboçou uma nova saudação, ainda mais bizarra do que a anterior, e lançou um olhar de través para Zipka, que se dedicava aos seus exercícios. O monsieur tem problemas de circulação de sangue?

 

- Não consegue habituar-se a andar de carro - explicou Kathinka Braun.

 

Zipka suspendeu os exercícios e aproximou-se deles.

 

- O senhor é um homem muito robusto, sargento. Basta olhar para si. Tem um cão?

 

- Tenho - respondeu Andratte amigavelmente. ”São pessoas educadas”, pensou ele ”Têm boa aparência e sabem apreciar correctamente os outros.”

 

- E um pássaro?

 

- Claro. Até tenho um papagaio cinzento.

 

- As minhas felicitações, sargento.

 

- Muito obrigado, monsieur!

 

- O que diria o seu cão se o metessem na gaiola do papagaio?

 

O sargento Andratte riu gostosamente; imaginou a cena e riu uma vez mais.

 

- Nem pensar numa coisa dessas! O meu César ganiria.

 

- Está a ver! O meu autodomínio impede-me de ganir. Olhe para mim e depois para o banco desse automóvel. Tenho a certeza de que me abraçará cheio de pena como a um irmão.

 

Andratte soltou mais uma gargalhada, mirou Kathinka e deixou que o olhar se fixasse na blusa dela. Em seguida, passou a língua pelos lábios e declarou de si para si que aquele dia terminava bem.

 

- Se puder ser útil... - repetiu.

 

- Procuro Francois Dupécheur, sargento...

- O estalajadeiro?

 

- Sim. Eu aluguei o Moulin Saint Jacques.

 

- Oh, é a própria?

 

Os olhos de Emile Andratte brilharam. Pensou na descrição de Dupécheur e ficou satisfeito que tudo fosse diferente. Não. Aquela mulher não era desmiolada, como o estalajadeiro suspeitara. Pelo contrário... Devia encarar-se como uma dádiva dos céus que Mas d’Agon fosse abençoado com a presença de uma mulher assim durante seis semanas.

 

- O moinho - disse Andratte - é uma construção isolada. Francois e a sua mulher Florence estão lá em baixo, à espera da madame e do monsieur. Vou acompanhá-los. Se não se importam, sigo de bicicleta. Há quinze anos que requeri um automóvel de serviço... - Andratte suspirou fundo. - Mas na perfeitura de Aries são de opinião de que uma bicicleta chega. No entanto, ainda não perdi a esperança. Continuo a preencher requerimentos. Se ao menos se passasse alguma coisa por estes lados... Seria um motivo para receber imediatamente um automóvel.

 

Andratte, o simpático sargento de Mas d’Agon, ainda não suspeitava nesse momento de como iria receber rapidamente um automóvel de serviço.

 

Pedalava, suando em abundância, à frente do automóvel de desporto; depois apontou com o braço esticado para diante quando surgiu o lago de Vaccarès e saíram da estrada principal.

 

Seguiram por um caminho de areia e cascalho, por entre canaviais. Aproximadamente a uns cem metros destacava-se num contraste branco banhado pelo Sol, o Moulin Saint Jacques, com o telhado inclinado e as velas de pás.

 

Kathinka travou; desceram do automóvel e aproximaram-se de Emile Andratte, que limpava o suor que lhe molhava o boné.

 

- Lá está ele - indicou ao mesmo tempo que se abanava. - Deve ter uns quinhentos anos. No ano de mil quatrocentos e cinquenta e sete uma mulher foi ali decapitada pelas pás. Consta nos autos de Aries.

 

- Um rincão de terra maravilhoso! - comentou Zipka num tom sarcástico. - As pás ainda funcionam?

 

Olharam para baixo, na direcção do velho moinho e para a orla prateada da vastidão das águas. Bandos de aves eram os únicos habitantes sob o céu azul.

 

- Sinto-me contente - retorquiu Kathinka num tom suave. - Esta calma, após toda a agitação, assemelha-se a estar no paraíso.

 

A alguma distância deles, e a coberto de um canavial, duas pessoas deitadas no chão observavam os estranhos através de binóculos. Tratava-se de um homem vestido com um elegante fato de montar e de uma mulher jovem com um rosto de boneca pintado.

 

- São eles - murmurou o homem. - Não era, por conseguinte, conversa fiada. Um casal vindo da Alemanha alugou de facto o Moulin Saint Jacques!

 

- E agora, Raoul? - perguntou a mulher nova com uma voz mimada.

 

- Temos de entrar imediatamente em acção! Têm de sair do moinho! Só espero que esses estrangeiros hoje se sintam demasiado cansados e sem um mínimo de curiosidade. Mas amanhã tudo será diferente...

 

Voltou a observar através do binóculo e em seguida virou-o na direcção do moinho.

 

O casal Dupécheur esperava os estrangeiros.

 

- Mas que aborrecimento! - comentou o homem elegante, que se escondeu um pouco mais porque o sargento Andratte se virara nesse preciso instante. - Quem poderia calcular que dois alemães desmiolados resolvessem passar férias num sítio em ruínas?

 

O casal Dupécheur cumprimentou os recém-chegados de uma forma extraordinariamente afável e com a delicadeza tipicamente francesa, mas dentro de uma atitude de expectativa e reserva. Quando Kathinka e Zipka desceram do automóvel, junto ao moinho, e o sargento voltou a limpar o suor do boné, Florence sussurrou ao marido:

 

- Não me parecem nada malucos.

 

- A madame é uma beleza! - declarou Dupécheur num tom entendido.

 

- Isso não tem nada a ver com a maluquice! - retorquiu Florence com um sorriso de um canto ao outro da boca, pois nesse preciso instante Kathinka estava a olhar para ela. - Para ti, a madame é uma hóspede e não uma beleza, compris?

 

- Espero que lhe agrade, monsieur - disse Dupécheur, após as apresentações e cumprimentos.

 

A grande porta do Moulin Saint Jacques estava escancarada, as cinco janelinhas da construção de pedra redonda estavam abertas e o vento sussurrava no telhado inclinado e fazia ranger as pás. Um bando de grandes aves de um cinzento-esbranquiçado, que Zipka não conhecia, sobrevoaram em círculo o velho moinho soltando guinchos agudos e, em seguida, mergulharam nas águas prateadas com as suas ilhotas de canaviais. Kathinka estava aparentemente dentro da razão: o lugar podia transformar-se num paraíso.

 

- Estou fascinado - replicou Zipka num francês tão perfeito que Kathinka (como muitas vezes lhe acontecia) perguntou a si própria se aquele homem horrível seria realmente desenhador de moscas para pescadores à linha. - Esta paisagem provoca uma espécie de humildade nas pessoas prosseguiu. - Debaixo deste céu toma-se consciência de como se é realmente um nada insignificante. Sim. Aqui pode aprender-se a amar a vida. Não é verdade, meu tesouro?

 

Kathinka Braun ignorou a última palavra. Ergueu o olhar na direcção da elevada construção e apreciou depois o que a rodeava. Via-se uma horta (ainda se reconhecia o lugar onde haviam sido plantadas beterrabas), que não era cuidado, há anos. Cardos da altura de um homem erguiam-se na direcção do céu.

 

O sargento Andratte esboçou um gesto largo com a mão, parecendo alimentar a esperança de que Kathinka, no último momento, se decidisse por um local mais acolhedor.

 

- Aqui não há nada! - declarou num tom melancólico. - Nem telefone nem lojas. Que tal estamos de água, Francois?

 

- A bomba de mão funciona. Estivemos a experimentá-la.

 

- Uma bomba de mão! - exclamou Andratte, como se cuspisse uma ostra balofa.

 

- Está no antigo jardim. Enchemos seis baldes retorquiu Dupécheur, ao mesmo tempo que erguia seis dedos. - Se não bastarem, podemos encher mais.

 

- Baldes - exclamou Andratte com um esgar. E sem luz...

 

- Sem luz? - perguntou Kathinka.

 

- Claro que há luz, mas de candeeiros de petróleo. Para quê instalar electricidade aqui? O último morador morreu em mil oitocentos e noventa e três. Caiu pelas escadas íngremes e partiu... não, não foi o pescoço, foi muito pior... uma vértebra da espinha. Deixou de poder correr, dobrar-se, nada. E como ninguém se importava com ele nem lhe sentia a falta, enforcou-se. Só o encontraram um ano depois e por acaso, porque vieram caçar galinholas nas redondezas. Já estava mumificado.

 

- Uma região abençoada! - exclamou Zipka, ao mesmo tempo que apontava para cima. - Não há hipótese de se ser degolado pelas pás do moinho?

 

- Não. Estão paradas. A mó interior está bloqueada com uma trave.

 

- Mas pode tirar-se a trave?

 

-- Claro. Mas porque iria alguém fazê-lo?

 

Kathinka lançou um olhar irritado ao eterno perguntador Zipka e, em seguida, entrou no moinho. O interior redondo estava - tanto quanto era possível - esfregado. Do antigo armazém tinham feito uma grande sala de estar, de onde partia uma íngreme escada, que parecia realmente prestes a ruir, até ao andar de cima. Aí, a antiga habitação dos moleiros compunha-se de dois quartos e de um quartinho de lavagens. Duas enormes camas em madeira, dois guarda-fatos e algumas cadeiras, que se via serem de fabrico manual, constituíam o escasso mobiliário. Uma comprida arca dominava o quartinho de lavagens, onde se encontrara lugar para dois lavatórios, dois jarros de água e um espelho articulado. Como luxo especial e tipicamente francês, os Dupécheurs haviam colocado um bidé de plástico amarelo. Não havia pia e o remédio consistia em vasar muito simplesmente a água pela janela.

 

As comodidades da casa de banho correspondiam à frugalidade rústica: por detrás da sala, no rés-do-chão, um estreito corredor levava a uma divisão, ao fundo da qual estava montada uma caixa de madeira. Uma tampa redonda de madeira com uma argola de ferro servia de respiradouro. Havia, por outro lado, a contrapartida da maravilhosa paisagem que se avistava quando uma pessoa se sentava naquela caixa de madeira e olhava através da janela: viam-se as águas reluzentes, a margem de canaviais, os bandos de pássaros e os barcos de pescadores que deslizavam silenciosamente sobre a água.

 

- Dá realmente uma alegria enorme estar aqui! exclamou Zipka, falando desta feita em alemão. A arquitecta deverá recolher inspiração. Da próxima vez, Tinka, construa as suas retretes com uma paisagem bonita. Actua de uma forma psicológica positiva. Uma pessoa que se sente aqui, vê-se liberta de todas as preocupações...

 

Kathinka Braun deixou muito simplesmente Zipka no mesmo sítio e regressou à espaçosa sala redonda. Estava escassamente mobilada com uma mesa e algumas cadeiras; um aparador tosco e um fogão atrás da íngreme escada, bem como um jogo de sofás forrados no meio da sala e uma mesinha baixa eram uma concessão às necessidades de luxo do homem civilizado. Os Dupécheurs tinham trazido os sofás de casa, bem como a louça, os talheres, os tachos e as panelas, a roupa branca - tudo o necessário a uma vida normal. Era forçoso elogiá-los: tinham pensado em tudo, até mesmo numa espingarda de caça. O sargento Andratte forneceu a explicação:

 

- Aqui entre nós, monsieur e madame. Para uma espingarda de caça é necessária uma licença de porte de arma, que é preciso requisitar em Aries. Seria um caminho complicado. O processo podia demorar mais tempo do que o que vão passar aqui. - Sentou-se no sofá, acendeu um cigarro e deu três fumaças com prazer, antes de prosseguir: - Mas sem espingarda, a vida aqui seria difícil. Estariam dispostos a ir de automóvel a Mas d’Agon de cada vez que quisessem um pedaço de carne? Diante da porta correm coelhos, lebres, faisões, galinholas e pombos. Sabe manejar uma espingarda?

 

- De vez em quando Vou carregá-la para caçar respondeu Zipka. - Ainda não descobri um almocreve.

 

- Ah! Ah! - riu o sargento Andratte. - Em Lês Cabanes tivemos um caso há dois anos. Fora do meu distrito, graças a Deus! Um turista atingiu-se a ele próprio nas costas! Toda a gente se espantou que tal fosse possível.

 

Pouco mais de duas horas depois, Kathinka Braun e Ludwig Zipka ficaram sós. Deixaram-se ficar diante do moinho a acenar ao sargento Andratte e ao casal Dupécheur, até o velho Citroen do casal ter desaparecido. Em seguida, deram os dois a volta ao moinho e pararam junto da entrada.

 

- Vamos desfazer as malas? - perguntou Zipka cautelosamente.

 

- Porque não? - Kathinka virou o rosto para receber bem o vento. - Já imaginava que fosse assim.

 

- E tencionava ficar aqui só? Durante seis semanas?

 

- Sim. Acha que não era capaz?

 

- A caçar coelhos?

 

- Evidente.

 

- E a esfolá-los?

 

- O quê?

 

- A tirar-lhes a pele. Estripá-los. Arranjá-los, madame Robinson! Pelo menos seja um pouco sincera neste momento e confesse que está satisfeita por me ter trazido consigo!

 

- A sua robustez é verdadeiramente grandiosa!

 

- Gostaria de saber como tencionava passar o tempo?

- Zipka dirigiu-se ao automóvel e levantou a tampa do porta-bagagens. - Eu não tenho necessidade de nada. Quando me lanço a algo de novo, entrego-me da cabeça aos pés...

 

- Transforma-se em mosca de pescadores, não? retorquiu Kathinka trocista. - Onde aprendeu a falar um francês tão correcto?

 

- Obrigada.

 

- O que significa esse obrigada?

 

- Foi o primeiro elogio que me dirigiu.

 

Zipka arrastou a mala de pele de búfalo de Kathinka para dentro do moinho e pô-la junto do sofá. - Deus do céu! Também trouxe trabalho consigo? Porque pesa tanto?

 

- Não faz a mínima ideia das coisas que uma mulher precisa - replicou Kathinka, ao mesmo tempo que se sentava no braço do sofá. Esperou até que Zipka aparecesse carregado com a segunda mala. - E você sabe disparar? Talvez também faça projectos nesse ramo, não?

 

- Claro que sim. Cheguei mesmo a desenhar uma faca de mato. - Ludwig Zipka suspirou e deixou-se cair numa das velhas cadeiras. As molas deram sinal. - Com uma dose de brincadeira. Quando se desembainhava a faca para cortar um ramo, lia-se no cabo: ”É na floresta que busco a minha alegria...” Infelizmente o modelo não teve êxito. Os caçadores recusaram-no.

 

- Que idiotice! - comentou Kathinka irritada. As malas têm de ir para o andar de cima.

 

- Eu sei - respondeu Zipka, ao mesmo tempo que media a íngreme escada de pedra com o olhar.   De facto, devia usar-se uma corda. Já sei! Você fica ao fundo das escadas, que eu caio suavemente!

 

Não foi realmente uma tarefa simples levar as pesadas malas para os quartos do andar superior. Zipka transportou-as ao ombro, agarrando-se com uma das mãos ao corrimão, que abanava, enquanto com o pé tacteava o degrau seguinte. Kathinka ficou, na verdade, ao fundo das escadas a segui-lo com o olhar, mordendo nervosamente o lábio superior; chegou mesmo a soltar um pequeno grito quando, a meio caminho, uma das malas escorregou do ombro de Zipka. Este teve de fazer um movimento brusco para a agarrar e começou a oscilar perigosamente.

 

- Merda! - Praguejou em voz alta, mas soltando uma risada íntima sem que Kathinka se apercebesse.

 

”Ela está com receio”, pensou satisfeito. ”Está realmente com receio por minha causa! Se eu escorregasse, agarrar-me-ia, indubitavelmente, com risco pessoal. É maravilhoso saber que assim é.”

 

- Desculpe - disse,   arquejante.   - Escapou-me. Apenas pretendia dizer: mala mazinha, muito mazinha...

 

- Continue! - gritou-lhe Kathinka. - Ou então, não! Parta o pescoço.

 

O resto da tarde foi preenchido com o desfazer das malas e outros afazeres. Enquanto Zipka fez um fogo com madeira e carvão a um canto da cozinha e pôs a aquecer uma chaleira com água, Kathinka ocupou-se do andar superior. O som de cada passo dela ecoava através do soalho velho.

 

Zipka examinou as provisões e decidiu-se a fazer para o jantar uma sopa de rabo de boi e galinha com aipo. Os Dupécheurs tinham levado comida para os primeiros dias. Para acompanhar havia um vinho tinto da terra que cheirava ligeiramente a canela. Zipka tinha-o provado, elogiando intimamente o Sol da Provence.

 

- Daqui a dez minutos a comida está pronta! - gritou lá para cima. - O rabinho de boi está quase quente.

 

Kathinka Braun desfizera as malas. Os vestidos estavam pendurados por todo o lado onde se podia pendurar cabides. O conteúdo da segunda mala encontrava-se espalhado pelo chão ou pela cama enorme. Kathinka estava sentada no meio de todo aquele espalhafato e enfrentou, desafiadoramente, Ludwig Zipka. Nos seus olhos podia ler-se que sabia o que Zipka iria dizer.

 

- O céu seja louvado! - exclamou ele, encostando-se à porta. - Não há memória!... dez vestidos de noite, os sapatos a condizer... Até mesmo dois casacos de peles. Marta e coelho...

 

- Chinchila! - corrigiu Kathinka maldosamente.

 

- Pior ainda. A pequena chinchila de cauda comprida e a grande chinchila de cauda curta: dois animais extraordinariamente raros. Já reparou na diferença? As chinchilas pequenas têm caudas compridas e as grandes...

 

Zipka cobriu o rosto com as duas mãos quando Kathinka deu um salto para diante e agarrou numa bolsa de noite que servia perfeitamente de objecto de ataque.

 

- Por favor, não, Tinka! Contra a cabeça, não. Hoje estou sensível. No entanto, interessar-me-ia saber se os seus casacos são de chinchila de cauda comprida ou de cauda curta...

 

- Odeio-o! - exclamou Kathinka num tom surdo, ao mesmo tempo que voltava a sentar-se em cima da cama.

- Agora sei, finalmente, o que não conseguia expressar como deve ser, o que não podia explicar: odeio-o! É isso!

 

- De resto, agora me recordo: aprendi o meu francês em Genebra.

 

- A que propósito vem isso?

 

- A sua pergunta de há bocado ficou sem resposta. Depois do curso liceal, sabia tanto francês que já podia fazer uma proposta a uma rapariga sem apanhar uma bofetada. Mas para mim era pouco. Inscrevi-me, portanto, num curso de férias. ”Francês tal como se fala”, era assim que se chamava), e em oito semanas aprendi o que ainda sei hoje. Além disso, foi no mar de Genebra que construí a minha famosa mosca brilhante.

 

- Oh, céus! Desapareça! - murmurou Kathinka, fatigada. - Vá encarregar-se do jantar.

 

- A galinha já está a cacarejar no aipo, madame.

 

- Não vai desfazer as suas malas?

 

- Não tinha perdido a ligeira esperança de que me dissesse:   ”Wig. Para dentro do automóvel.   Seguimos pelo caminho mais rápido até Saint Tropez! Durante toda a noite...»

 

- Eu fico.

 

- Com dez vestidos de noite?...

 

- Porque não usar vestidos de noite num moinho histórico?

 

- Sim! Porque não, afinal?

 

Zipka assobiou uma velha melodia entre dentes - parecia ser uma gaivota -, esboçou seguidamente alguns passos de dança elegantes e clássicos e depois voltou a descer as escadas.

 

Quando Kathinka surgiu um pouco mais tarde - com um vestido comprido e estampado e o cabelo apanhado, o que mais lhe ressaltava a beleza do rosto -, Zipka tinha posto a mesa, deitado vinho nos copos e servido a sopa. Cortou uma fatia de pão, que estendeu a Kathinka.

 

- Tem aí o sal - declarou com um tom de voz diferente e grave. - O pão e o sal representam o símbolo da vida, da hospitalidade, da fraternidade e da paz. Fechemos um pacto de paz.

 

Kathinka hesitou, mas meteu um pedacinho de pão no saleiro.

 

- Também gostaria - acabou por retorquir.

 

- E o que a impede, Tinka?

 

- Esse seu estúpido Tinka, por exemplo!

 

- Kathinka é comprido de mais para o meu gosto. Sou um homem racional. Kathinka soa-me a chocalho... e que mais para além disso?

 

Ergueu o copo. O vinho reluziu à luz dos dois candeeiros de petróleo, como se emitasse raiozinhos de sol.

 

- Às nossas férias!

 

Tocaram os copos e o jantar processou-se sem novidade. Através do rádio portátil chegava-lhes uma suave música de dança; o vento marítimo aumentava e assobiava em redor, fazendo ranger as vigas e as pás do moinho. Uma lua pálida iluminava a vasta paisagem e transformava os canaviais em fios prateados.

 

- Ouvi qualquer coisa! - exclamou Kathinka repentinamente, levantando a cabeça. Pôs-se à escuta e susteve a respiração. Em seguida, perguntou num tom tenso: Não ouviu nada?

 

- O que podia ter sido?

 

Zipka esvaziou o copo e encheu-o novamente.

 

- Um grito.

 

- Foi o saxofone...

 

- Desligue o rádio.

 

Sentaram-se e ficaram à espera. Agora apenas se ouvia o vento e, de vez em quando, o ligeiro crepitar das achas na lareira.

 

- Outra vez! - disse Kathinka, e o corpo retraiu-se-lhe. - Também não ouviu nada agora?

 

- Não.

 

- Tem mesmo um ouvido duro...

 

- Não tenho nada. Mas se isso a descansa, Vou dar uma vista de olhos.

 

Zipka levantou-se, pôs a camisola sobre os ombros e dirigiu-se à porta. Nos olhos de Kathinka transpareceu um medo repentino.

 

- Leve a espingarda! - pediu num fio de voz.

 

- Quem está a gritar a uma hora destas não me fará certamente mal.

 

- Por favor!

 

- Se isso a tranquiliza!

 

Zipka tirou a espingarda da parede, onde estava pendurada num prego, carregou-a e abriu a porta. Uma corrente de ar fez tremer as luzes dos candeeiros de petróleo. Lá fora, o vento uivava.

 

- Não saia! - gritou Kathinka, dando um salto para diante. - Fique aqui. Foi, certamente, apenas o vento.

 

- Com os diabos! Tem razão! - retorquiu Zipka da porta.

 

- Não é verdade? É só o vento?

 

- Há alguém a gritar lá fora. O som vem do lago. Mas que ouvido. Vou ver o que se passa.

 

- Fique aqui... Por favor!

 

- Se alguém está a precisar de auxílio...

 

- Não pode deixar-me sozinha.

 

- Ficarei onde me possa ver.

 

- Mesmo assim...

 

- Nítido, agora... está a ouvir? Socorro...

 

- Wig... - chamou Kathinka num tom lamuriento.

- Wig... Não vá, por favor.

 

- Fique junto à porta e agite um candeeiro. Talvez alguém se tenha perdido no canavial.

 

- Quem é que andaria lá por fora a uma hora destas?

 

- É precisamente o que Vou saber!

 

Deixou-se ficar à espera que ela trouxesse o candeeiro. Colocou-lhe o braço à volta do ombro e puxou-a a si.

 

- Tinka!

 

Ela não protestou nem lhe deu pontapés na canela, como tantas vezes ameaçara que faria - levantou apenas o candeeiro de petróleo bem alto e começou a agitá-lo.

 

- Está a tremer - comentou Zipka num tom baixo, ao mesmo tempo que se sentia invadido por uma enorme ternura.

 

- Arrefeceu - desculpou-se ela, afastando-se. - Se alguém vaguear realmente por aí, descobre o caminho até nós...

 

- E se já não puder andar?

 

- Porque não havia de poder?

 

- Pense no homem que partiu aqui a vértebra da coluna e se enforcou porque ninguém cuidava dele. Vaguear... foi o que disse, Tinka. Talvez seja a sua alma...

 

O barulho da água de encontro à margem chegava-lhes aos ouvidos. O vento agitava-a e as canas vergavam-se. Na noite soavam ruídos estranhos, assobios e murmúrios, gemidos e ais... Vivia-se um ambiente estranho.

 

Zipka meteu a espingarda debaixo do braço e desengatou-a. Desesperada, Kathinka continuou a fazer sinais com o candeeiro e sentiu faltar-lhe o ar, tal o medo. ”O que se passa comigo?”, pensou. ”Nunca fui uma pessoa medrosa. Subi a andaimes onde praticamente mais ninguém se atrevia a pôr o pé. Fiquei desprotegida em plataformas de arranha-céus, com os projectos na mão, e li o medo nos olhos dos homens. E, repentinamente, num velho moinho em França aprendo o que é o medo? Medo porque este homem idiota se afasta, pela noite, atrás de um grito vindo não se sabe donde? O que se passa de errado contigo, Kathinka Braun?”

 

Zipka avançou às apalpadelas por entre o alto canavial na direcção das águas. A Lua suspensa no céu iluminava a terra. Após vinte passos, Zipka parou e meteu a cabeça entre os ombros.

 

O grito! Lá estava novamente. Muito nítido, à sua esquerda. Desse lado via-se um pequeno conjunto de juncos e canaviais, rodeado de salgueiros dobrados pelo vento.

 

- Ei! - gritou Zipka através do vento. - Ei! Lá vou. Onde está?

 

Passados dez minutos encontrou quem pedia auxílio uma jovem com um rosto infantil de boneca, que estava deitada, de costas, num velho barco a remos; ela agarrava-se com toda a força ao estreito assento de madeira, chorava e pedia auxílio aos gritos.

 

Mesmo quando Zipka já estava muito perto, fitou-o como se não o visse, crispou os dedos no banco e gritou ainda mais alto:

 

- Aqui! Aqui! Socorro...

 

Zipka inclinou-se sobre o barco a remos, sacudiu a jovem e desprendeu-lhe as mãos do assento. Foi uma tarefa difícil, na medida em que os dedos se tinham crispado com uma força enorme, uma força que apenas pode ser conferida pelo grau máximo de desespero...

 

No momento em que Zipka ergueu a vítima, ela soltou um grito agudo, após o que lhe tombou nos braços e se deixou arrastar. Com o último grito perdera os sentidos; a cabeça caiu-lhe para trás, e Zipka só então reparou que ela sangrava de uma ferida na cabeça. O cabelo louro prateado estava vermelho e pegajoso junto à fonte esquerda.

 

Zipka olhou novamente para o barco. Não se viam remos nem nenhum pau para movimentação através das plácidas águas do lago; era um barco muito velho e bolorento, que noutros tempos fora azul-claro. Não tinha um número, um nome, uma pista...

 

Começou a correr, encostando a vítima ao corpo, e minutos depois chegou ao moinho. Kathinka continuava na entrada e agitava o candeeiro de petróleo.

 

- Depressa! - gritou Zipka ainda a uma certa distância. - Preciso da mala de primeiros-socorros do carro! Veja o que encontrei!

 

Passou por Kathinka, entrou na sala, deitou a rapariga no sofá e pendurou a espingarda no canto.

 

A desconhecida continuava desmaiada - estava vestida com umas jeans brancas, evidentemente sujas, e uma blusa amarela-dourada, que era quase transparente devido ao facto de estar molhada e que mostrava bem que ela não usava soutien, o que realmente não precisava. Nos pés tinha calçadas umas botas elegantes de salto alto. Entre os seios brilhava através da blusa húmida uma corrente de ouro com um amuleto em forma de um pequeno peixe com olhos de rubis.

 

Zipka levantou o candeeiro e iluminou a desconhecida. Ela devia andar por volta dos vinte anos, os cabelos eram visivelmente pintados, o que se verificava pela raiz escura, e os lábios grossos apresentavam ainda marcas de um baton cor-de-laranja.

 

- Um belo exemplar! - observou Zipka, sentando-se junto da rapariga. Afastou-lhe o cabelo para o lado e pôs a descoberto a ferida por cima da fonte que já tinha crosta

- Onde está a mala dos primeiros-socorros?

 

Kathinka fitou a estranha. Sentiu, instintivamente, que nos tempos mais próximos ia desaparecer a calma do Moulin Saint Jacques, e que Zipka levara uma simpática variante para casa. E isso punha-a nervosa. Não se mexeu do mesmo sítio; deteve-se a examinar silenciosamente a rapariga desmaiada.

 

- O que se passa? - perguntou Zipka num tom impaciente.

- Já não está a sangrar.

 

- Mesmo assim, deve limpar-se as feridas com tintura de iodo. Pode surgir uma infecção. A miúda está inconsciente.

 

- Pode acordá-la com beijos!

 

- O conhaque era preferível! Está ali a garrafa. Se quiser ter a bondade, Tinka...

 

Kathinka dirigiu-se hesitante à cozinha”, desrolhou a garrafa e estendeu-a a Zipka. Ele conseguiu, com algum esforço, introduzir umas gotas na boca da jovem. Ela não engoliu, e o conhaque escorreu-lhe dos lábios para a blusa.

Contudo, o cheiro do álcool produziu, aparentemente, efeito: ela pestanejou e mexeu os dedos.

 

Zipka inclinou-se sobre a rapariga e acariciou-lhe as faces.

 

- Estamos aqui! Se me está a ouvir, mademoiselle, não é São Pedro que lhe fala. Ainda que, segundo digam, Deus viva na França, Pedro não fala francês!...

 

- As suas palavras idiotas ainda lhe vão provocar uma síncope - interrompeu-o Kathinka ironicamente. O que é que fazia uma rapariga sozinha lá por fora a estas horas da noite?

 

- Isso é o que vamos ambos descobrir. Temos de a despir.

 

- Já calculava!

 

- Tem a roupa toda molhada, Tinka. Pode apanhar uma pneumonia. - Levantou-se do sofá. - Vou buscar a mala dos primeiros-socorros. Entretanto, pode despir a desconhecida e embrulhá-la num cobertor quente.

 

Enquanto saía apressadamente, ainda ouviu as palavras de Kathinka para a rapariga:

 

- Acorde! Olhe para mim! Agora já não precisa ter medo.

 

Quando Zipka voltou, a desconhecida estava deitada no sofá, embrulhada num cobertor, e fitava-o da mesma forma que no barco. Parecia não se aperceber do que a rodeava. As roupas dela estavam a secar penduradas junto do fogão.

 

- Não reage - informou Kathinka, ao mesmo tempo que bebia um gole de conhaque. - Às perguntas que eu lhe faço, limita-se a olhar.

 

Zipka observou que a jovem tinha uns olhos azuis-claros que se lhe adequavam e vincavam ainda mais o ar de boneca.

 

- Deve ter sofrido um choque enorme. O melhor será levá-la ao hospital mais próximo.

 

- Mas onde fica ele?

 

- Em Aries, sem dúvida. Oh! solitário paraíso.

 

Zipka abriu a mala de primeiros-socorros, de onde retirou tintura de iodo e um rolo de ligaduras, pincelou a pequena ferida com a tintura, o que fez com que a rapariga se contraísse e, em seguida, colocou-lhe a ligadura à volta da cabeça.

 

- É praticamente tudo o que posso fazer, mademoiselle - disse, pondo-se de pé mesmo em frente dela.

 

Contudo, a rapariga manteve o mesmo olhar vazio e inexpressivo, que o trespassou como se ele fosse de vidro.

 

- Chamo-me Ludwig Zipka...

 

- Ludwig...

 

- Ninguém é capaz de pronunciar. Aqui seria ”Ludwisch”. Olhe para mim, mademoiselle. Está tudo em ordem! Está salva! Já não há razão para ter medo. Recorde-se: ia de barco pelo lago e subitamente levantou-se vento...

 

A desconhecida mantinha-se em silêncio. Estava deitada de costas, não se mexia e fixava as vigas do tecto.

 

- Ligue novamente o rádio, Tinka - disse Zipka.

 

- Agora?

 

- Talvez a música ajude. Ela tem de reagir a qualquer estímulo.

 

Contudo, também a música não serviu de nada. A jovem virou de facto a cabeça para o lado, na direcção do rádio, mas o olhar nada acusou.

 

- Já é alguma coisa - observou Zipka baixo. Apercebe-se da música. Pergunto a mim próprio: de onde vem uma rapariga tão bonita? Já a viu bem?

 

- Fui eu que a despi.

 

- E daí?

 

- Tem pernas esguias - retorquiu Kathinka sombriamente. - E um sinal de nascença na anca direita...

 

- Que ternura!

 

- Assim, podemos desmascará-la...

 

- Desmascará-la?! Que palavra essa! E como?

 

- Não devem ser assim tantas as pessoas com sinais de nascença na anca direita. Por esse meio, pode descobrir-se a identidade.

 

- Você tem realmente um verdadeiro sentido de investigadora criminal, Tinka!

 

Zipka serviu-se de um conhaque e bebeu-o. A desconhecida continuava a fitar o tecto sem se mexer: uma figura de porcelana respirando suavemente...

 

- Poremos um anúncio nos grandes jornais do Sul da França: ”Quem conhece rapariga, vinte e poucos anos, tipo boneca, com sinal de nascença na anca direita?” Acredite que seria bem sucedido?

 

Kathinka manteve-se calada e pensativa. Tamboilava com as pontas dos dedos no copo de conhaque.

 

- O que é que se segue? - acabou por perguntar.

 

- Temos de arrancá-la ao estado de choque.

 

- Nós? Cabe-nos essa função? Amanhã informamos o sargento Andratte do que se passa e deixamos que levem a rapariga.

 

- Se estiver em condições de ser levada.

 

- Numa maca!

 

Este diálogo deu a sensação de penetrar na consciência da desconhecida. Ela moveu a cabeça, virou-a e fitou Zipka com um olhar quase normal, após o que abriu a boca.

 

- Aaahhh... - disse, num fio de voz.

 

- bom. Já temos alguma coisa.

 

Zipka inclinou-se sobre ela e afastou-lhe o cabelo da testa.

 

Kathinka achou que o gesto era terno de mais e sentiu-se irritada.

 

- Bem-vinda a este lado, mademoiselle! Encontra-se junto a monsieur Zipka no Moulin Saint Jacques...

 

- Aaahhh... - respondeu a bonita desconhecida, num arrastar do gemido.

 

- E ao meu lado está madame Braun - concluiu Zipka a apresentação. - Pode igualmente pronunciar ”Brun”, que é mais fácil e o mesmo.

 

- Aaahhh...

 

- Somos boas pessoas e queremos ajudá-la.

 

- Aaahhh...

 

Zipka engoliu mais um trago de conhaque.

 

- O vocabulário dela não é lá muito vasto -- obserVou sarcástico. - Talvez não seja francesa...

 

- Também não me parece kisuaheli! - retorquiu Kathinka.

 

Zipka pegou nos dedos da desconhecida entre as mãos. Kathinka reparou desagradada no gesto.

 

- Quem é você? - perguntou.

 

- Não sei - respondeu a jovem com uma voz mais clara mas baixa.

 

- De onde vem?

 

- Não sei...

 

- Em que sítio subiu para a canoa?

 

- Não sei...

 

- Como se chama?

 

- Não sei...

 

Zipka pegou novamente na garrafa de conhaque.

 

- Pelo menos avançámos um passo! Agora, para além de ”Ah”, também diz ”Não sei”.

 

Molhou o polegar no conhaque, e humedeceu-lhe os lábios secos com o líquido.

 

A rapariga abriu imediatamente a boca e começou a lamber como uma gatinha. No olhar pairou-lhe um arremesso de sorriso.

 

- Onde estava quando o Sol nasceu? - inquiriu rapidamente Zipka.

 

E obteve a mesma resposta e no mesmo tom sussurrante:

 

- Não sei.

 

- Pescámos um problema.

 

Zipka levantou-se, tirou um maço de tabaco do bolso do casaco e acendeu um cigarro. Em seguida, acendeu mais um e estendeu o primeiro a Kathinka.

 

- Obrigada - agradeceu ela, sem se mostrar desdenhosa como ele esperava. - Que problema?

 

- Um fenómeno extraordinariamente invulgar: a nossa bela desconhecida perdeu a memória. O que faremos com ela? Não sabe quem é, de onde vem, para onde quer ir, parece não entender nada e possui apenas um vocabulário mínimo.

 

Kathinka fumava nervosamente e molhou as fontes da rapariga com conhaque.

 

- Isto pode aquecê-la - retorquiu laconicamente. - E se lhe fizéssemos um chá? - sugeriu Zipka.    

 

- Os franceses são apreciadores de café.

 

- Claro. Estou mesmo confuso.

 

- Também não é motivo para tanto.

 

- Para si, não, Tinka. Mas é para mim, na minha qualidade de homem. Já reparou nestes seios, que são uma dádiva de Deus?

 

- Exagera, como sempre! Dádiva de Deus! E relacionada com seios! Não está bom da cabeça. – Kathinka apagou o cigarro num recipiente de madeira e levantou-se bruscamente. - Vou fazer-lhe um café que lhe redobrará a tensão! Talvez com o fervilhar do sangue recupere a memória. E quando estiver mais clara, chamamos o sargento Andratte. Ele ocupar-se-á dela e irá tirar-nos a responsabilidade de cima. Ou tinha pensado fazer disto um asilo para jovens vagabundas?

 

Zipka começou a andar de um lado para o outro, apercebendo-se com satisfação de que o olhar da jovem o seguia. Ela participava, por conseguinte, no que a rodeava sem reagir mais do que aquilo.

 

- Confesso que o caso me interessa - retorquiu Zipka, vincando as palavras.

 

- Deve estar no manicómio! - protestou Kathinka do canto, onde se ocupava a preparar o café. Você não é médico, Zipka. Pense na ferida da fonte. E se ela tiver uma fractura de crânio?

 

- Isso não tem de certeza.

 

- Como pode fazer essa afirmação com tanta segurança?

 

- Nesse caso estaria sem sentidos, o seu estado geral seria muito diferente e além disso não me piscaria o olho...

 

- O que é que ela fez?

 

Kathinka regressou imediatamente do fogão até junto do sofá.

 

A desconhecida mantinha-se imóvel, absorta no tecto, e ria como se fosse uma criança acabada de sair do banho. Contudo, era um riso ausente... Parecia estar a ver qualquer coisa de belo, mas fora deste mundo.

 

- Tem um sorriso bastante idiota - comentou Kathinka. - Uma fachada pintada nada nos diz do interior. Na qualidade de arquitecta, sei isso certamente melhor do que você! Se ela explodir...

 

- O que quer isso dizer?

 

- Não é provável que sofra de um distúrbio mental, tenha estado a ser tratada algures até este momento e se haja, muito simplesmente, escapulido quando lhe surgiu uma oportunidade? Esse tipo de doentes tem reacções imprevisíveis. Mansos como cordeiros e repentinamente raivosos como lobos. O acidente na altura da fuga pode ter servido para lhe agravar o estado.

 

- Essa é a sua versão, Tinka.

 

- E qual é a sua? Como a manteiga a derreter. Tipicamente masculina: um rostozinho de madona, uns seios bem fartos e os anjos rejubilam!

 

- Não pretende por acaso insinuar que a nossa desconhecida tem o diabo no corpo? - retorquiu Zipka, ao mesmo tempo que sentia o aroma do café vindo do fogão. - O seu café está tão forte como se fosse veneno.

 

- Também pretende ser um remédio.

 

Kathinka dirigiu-se apressadamente ao nicho que servia de cozinha, deitou a mistela - outra coisa não poderia chamar-se àquele café - numa chávena e regressou com a bebida a fumegar. A rapariga ergueu a cabeça e sacudiu-se como uma galinha.

 

- Ah! - exclamou Zipka, entusiasmado. - Só o cheiro da sua beberagem serve para dar vida a um morto, Tinka. Você tem indubitavelmente tendência para o papel de Isolda: acho-a capaz de preparar uma poção de amor!

 

- Que certamente não lhe darei a beber! - Pousou a chávena de café em cima da mesa e sentou-se a um canto do sofá junto da desconhecida. - Apetece-lhe beber alguma coisa? - perguntou em francês.

 

- Sim... cheira-me a café...

 

- Ela cheira! - exclamou Zipka com uma voz cheia de júbilo. - Mas que progresso!

 

- Não se entusiasme demasiado - disse Kathinka, cortando o arrebatamento do seu companheiro de viagem.

 

Kathinka estendeu a chávena à rapariga. A desconhecida pegou-lhe, cheirou, levou-a cuidadosamente à boca e sorveu um pequeno gole.

 

- Oh! - exclamou. - Está bom...

 

- Está a recuperar as sensações - declarou Zipka.

- Também lhe posso oferecer galinha com aipo, mademoiselle .

 

- Obrigada...

 

A rapariga sentou-se. O movimento fez com que o cobertor lhe escorregasse dos ombros, expondo o tronco. Aparentemente, não se preocupou; bebeu ainda alguns goles do café quente e devolveu a chávena a Kathinka.

 

- A fogueira está a atear-se - disse Zipka.

 

- Não cante de galo tão depressa. - Kathinka voltou a pousar a chávena na mesa. Fez um ruído enorme. Vê perfeitamente que a maneira como ela se comporta não é normal...

 

- Porque havia de se envergonhar? De mim? No fundo salvei-lhe a vida. - Fez uma vénia diante da desconhecida e num tom de voz insinuante perguntou-lhe: Como se chama, mademoiselle?

 

- Chamar? - Ela fitou-o com os olhos muito abertos. Em seguida encolheu os ombros, levou a mão à cabeça ligada, voltou a tapar os seios com o cobertor e encostou-se para trás. - Quem são vocês?

 

- Esta é madame Brun e eu chamo-me Ludwig Zipka. Está no Moulin Saint Jacques, na margem do lago de Vaccarès.

 

- Onde é isso? - perguntou a desconhecida.

 

- Agora a situação está a tornar-se divertida. - Zipka bebeu o resto daquele café forte e infernal. - Não tem ideia?

 

- Ideia?...

 

- Onde viveu até agora?

 

- Não sei. - Havia uma expressão de súplica na forma como os olhos azuis-claros fitavam Zipka. - Estou aqui. De onde venho? Porque estou aqui? Peço-lhe que me ajude, monsieur...

 

- Perda absoluta da memória - explicou Zipka em alemão. - Até hoje, nunca acreditei que pudessem acontecer coisas destas, Tinka. Uma pessoa bate com a cabeça em qualquer coisa dura e deixa de saber quem é. Os médicos chamam-lhe amnésia total.

 

- Um desenhador de moscas para pescadores à linha que sabe tudo.

 

- Dois amigos meus são médicos. Na pesca, familiarizamo-nos com os temas mais variados.

 

- E o que vamos fazer com ela?

 

- Não nos resta outra alternativa senão a de esperar até amanhã. Sugiro que fique aqui junto do nosso achado enquanto eu regresso corajosamente lá acima. Talvez daqui a umas horas tudo pareça diferente. Se tomarmos em consideração que um cérebro normal funciona decerto nessa caixa craniana...

 

- Boa noite! - despediu-se Kathinka em voz alta. Não se incomode mais...

 

Ludwig Zipka trepou a escada íngreme, e depois de entrar no quarto estendeu-se na enorme cama de madeira e apagou o candeeiro de petróleo. Não ouvia o mínimo ruído no andar inferior.

 

Algo não jogava bem, pensou Zipka; e quanto mais analisava a situação mais estranha lhe parecia o aparecimento da desconhecida.

 

Havia o barco apodrecido. Pelo aspecto, há muito que não era utilizado e fora trazido para terra por qualquer processo. Não havia remos nem pau... Ou poderia ter acontecido que a desconhecida tivesse perdido os remos por causa do vento repentino que se levantara no lago? Fora arrastada e ficara presa no canavial... No entanto, essa hipótese era improvável, visto que o barco teria sido arrastado para o largo, pelas ondas subitamente altas, e feito em bocados. Jamais teria alcançado a margem, pois a madeira estava tão podre que bastaria um pontapé para se desfazer o casco. Uma onda teria bastado... Mas não! A desconhecida devia ter sido arrastada de longe naquele barco, na medida em que entre Lês Cabanes, a este, e Dom de Méjeanne, a oeste, não havia qualquer lugarejo, mas apenas casas de pescadores espaçadas e pequenas herdades, onde se criavam patos, galinhas, porcos e cavalos. A desconhecida não vinha desses sítios. Isso era uma certeza.

 

E não o abandonava o pensamento: era impossível, igualmente, andar umas centenas de metros que fosse, naquele barco apodrecido. Só restava, por conseguinte, uma alternativa: alguém tinha metido a jovem no barco a fim de simular que dera à terra e afastara-se em seguida.

 

Zipka sobressaltou-se. Na ombreira da porta recortava-se a figura de Kathinka, que levou um dedo aos lábios.

 

- Adormeceu - sussurrou ela.

 

- Depois daquele café tão forte? Gostava bem que o meu sistema nervoso também o permitisse! - Zipka apontou para o canto da cama. - Venha...

 

- Fazer o quê?

 

- Pôr-se à vontade.

- Endoideceu?

 

- Não lhe pedi que me fizesse carícias. Apenas que se sentasse. Não gosto de falar à distância.

 

Kathinka entrou no quarto com passos vagarosos, sentou-se no extremo da cama e colocou as mãos no colo. Zipka rodeou-lhe, cuidadosamente, a cintura e sentiu que ela se retraía e todos os seus músculos ficavam tensos.

 

- Não vamos transportá-la para Aries - disse ele. Kathinka virou-se na sua direcção e afastou-lhe o braço sem brusquidão.

 

- Já estava a calcular! Não terá escrúpulos em fazer de uma rapariga visivelmente doente o objecto dos seus desejos eróticos, só porque ela o estimula anatomicamente...

 

- Expôs o assunto de uma forma espantosa, Tinka. Não podia ser mais directa. Mas está a tirar conclusões precipitadas. Quero manter aqui a nossa desconhecida porque, pelo raciocínio lógico, há algo que não joga certo.

 

- Aí está! Por esse motivo necessita de cuidados médicos.

 

- Ela não foi arrastada para a margem - explicou Ludwig Zipka.

 

- Como assim?

 

- Foi metida num barco cheio de bolor, que já se encontra a apodrecer há anos no canavial. Tal significa que quem a colocou lá sabia exactamente que nós a descobriríamos. Foi planeado, Tinka! Interrogo-me: por que motivo deveríamos encontrá-la? Escapa-me a lógica do assunto.

 

- Alguém se queria ver livre da rapariga - retorquiu Kathinka. Era um pensamento pouco agradável e, naquele instante, ela ficou satisfeita quando Zipka voltou a pôr-lhe o braço à volta da cintura e lhe sentiu o calor do corpo através do vestido. - O motivo é óbvio - prosseguiu Kathinka. - Ela está mentalmente perturbada, perdeu a memória, a carga torna-se pesada de mais... alguém quis, muito pura e simplesmente, desembaraçar-se dela.

 

- Há ainda outras possibilidades, Tinka.

 

- Não pretendiam matá-la. Recuaram ante a ideia de assassínio. Contudo, abandoná-la pareceu uma boa solução. Desembaraçarem-se dela num sítio onde pudesse ser descoberta e tratada por outras pessoas. Tem de facto razão, Wig. - Fitou Zipka com um olhar interrogativo.

- Mas não quer, por acaso, fazer o papel de bom samaritano, não?

 

- Quero descobrir de onde ela vem, nada mais.

 

- A França é grande. Por amor de Deus, largue esse assunto. Amanhã, Emile Andratte vem buscá-la e leva-a para Aries. É a solução mais simples.

 

Ainda debateram bastante tempo o problema que lhes tinha caído em casa. E, assim, não se aperceberam de que lá em baixo, a desconhecida se esgueirava até à porta de casa, levando na mão o candeeiro de petróleo. Ela agitou o candeeiro e em seguida colocou a mão diante da chama e voltou a tirá-la. Repetiu o gesto duas vezes por um curto espaço de tempo e uma terceira mais demoradamente: sinais de morse com aquela luz.

 

De alguns metros de distância chegou-lhe a resposta sob a forma da luz de uma lanterna de bolso. A rapariga fez mais um sinal e voltou a retomar o lugar no sofá, regressando em bicos dos pés e nua como estava. Enrolou-se novamente no cobertor, apagou a luz do candeeiro e ajeitou-se comodamente. Ouviu, lá em cima, o ruído de vozes abafadas. O vento rangia nas vigas, infiltrava-se pelas fendas e lá fora agitava o canavial.

 

Nesta grandiosa natureza o homem não passa, realmente, de um grão minúsculo.

 

Na manhã seguinte, o Sol ergueu-se no horizonte como se não tivesse existido uma noite tempestuosa. Zipka levantou-se cedo e desceu as escadas. No entanto, não se levantou tão cedo como isso, na medida em que a desconhecida já se encontrava de pé, junto do fogão, a vigiar a chaleira que começava a fumegar.

 

Vestia as jeans apertadas e a blusa e tinha apanhado ao alto o cabelo louro oxigenado. Tinha atado em volta da testa uma fita vermelha que Zipka não vira antes e que decerto ela tinha no bolso das calças. Emanava juventude, e virou-se rapidamente ao ouvir passos atrás de si.

 

- Mas o que vêem os meus olhos?! - exclamou Zipka, surpreendido, encostando-se a uma coluna de madeira que servia de apoio à plataforma superior. - Tudo em ordem?

 

- Não sei - respondeu ela. O tom em que se expressou soou uma vez mais a desespero, mas havia um reflexo alegre no olhar. - monsieur Louis, não é verdade? E quando Zipka esboçou um aceno de concordância, bateu as mãos e denotou uma satisfação infantil. - Como vê, fixei. E a madame chama-se Brun.

 

- Catherine...

 

- A água está a ferver. A mesa está posta.

 

Zipka olhou em redor. A desconhecida havia decorado a mesa como que para uma festa, e os próprios guardanapos estavam dispostos artisticamente. Numa panela grande tinha posto um ramo de flores campestres e coloridas.

 

- Fabuloso! - elogiou Zipka. Não descobri uma jarra.

 

- Acho que seria impossível, porque suspeito que ninguém pensou nisso.

 

- Colhi as flores lá fora. Ao alvorecer. - Ergueu um pouco a chaleira do lume, pois a água já estava a deitar por fora. - Entre nós existe um ditado: ”Quem colhe flores ao acordar, o Sol leva para o lar.”

 

- O que significa esse entre nós? - apressou-se Zipka a inquirir.

 

”Agora apanhei-a”, pensou ele triunfante. ”Ocorreu-lhe qualquer dado relacionado com o passado, agora tem de explicar algo...»

 

- Em Oberpfaffenhofen - respondeu a estranha num fio de voz.

 

- Onde?

 

- Na Córsega.

 

Zipka passou as mãos pelos cabelos e em seguida agarrou a desconhecida por um braço. Puxou-a até ao sofá colocado num canto da cozinha e obrigou-a a sentar-se. Ela instalou-se comodamente e soltou uma leve risada quando Zipka se sentou ao seu lado, pronto a escutar.

 

- Mais devagar e cada coisa a seu tempo - disse ela num tom calmo, embora nada houvesse a acalmar. - Há aí uma certa confusão. O que se passa quanto a Oberpfaffenhofen? Conheço o sítio pessoalmente, mademoiselle. Estive lá muitas vezes.

 

- Oh!

 

Um olhar brilhante dos olhos azuis despertou-lhe um calor agradável. Ludwig Zipka sentiu a boca seca. «Desce, Tinka», pensou. ”Desce depressa. Aqui reina o perigo.”

 

- Esteve na Córsega, monsieur l

 

- De passagem! - Zipka sacudiu a cabeça. - Oberpfaffenhofen fica na Alemanha, mais precisamente na Baviera. Não me pode dissuadir disso, mademoiselle. E mesmo que me queira explicar uma centena de vezes que fica na Córsega, eu jamais poderei concordar. Por outro lado, seria totalmente improvável que também na Córsega houvesse uma Oberpfaffenhofen. Assim: como vem desse lugar? - Mudou subitamente para a língua alemã e fez-lhe um teste: - Muitas vezes me estendi nas pastagens de Oberpfaffenhofen.

 

Era uma afirmação idiota, visto que não havia pastos em Oberpfaffenhofen. Contudo, a armadilha falhou, na medida em que a desconhecida não se deixou apanhar.

 

- Impossível! - respondeu ela, ao mesmo tempo que fitava Zipka com um suave sorriso e erguia o braço num gesto gracioso. - A água está a ferver...

 

- Você é, por conseguinte, da Córsega. Contudo, não veio da Córsega até aqui num barco a remos a cair de podre.

 

Como explica, nesse caso, a sua presença? Onde estava ontem?

 

- É o que me irá explicar, monsieur Louis.

 

- Eu? Como?

 

- Foi o senhor que me despiu.

 

- Não. Foi madame Catherine.

 

- Deve, mesmo assim, saber onde eu estava.

 

- Deitada num barco, preso no canavial. Como Moisés na sua barca...

 

- Quem é Moisés?

 

- Disso falamos mais tarde. Mas tem certamente um nome?

 

- Lulu...

 

Falava naturalmente francês, e o nome soava como ”Liilii”. O facto irritou enormemente Zipka, visto que em francês existe igualmente Lulu - escrevendo-se porém Lou-Lou. Contudo, a desconhecida tinha pronunciado ”Lulu”; porque não Lou-Lou?

 

- No entanto, não foi batizada certamente com o nome Lulu - retorquiu Zipka. - Chama-se Louise?

 

- Lulu.

 

- Não é um nome da Córsega nem de Oberpfaffenhofen! Contudo, aceitemo-lo! Lulu! E que mais?

 

Ela bateu as pestanas e dirigiu-se, com um rebolar de ancas, até ao canto da cozinha. Ali encheu uma caneca enorme de café e pôs uma frigideira ao lume.

 

- Não sei - respondeu.

 

- O que vai fazer com a frigideira?

 

- Fritar ovos. Ou não gosta de toucinho com ovos ao pequeno-almoço? Entre nós, na Córsega, comemos todas as manhãs toucinho com ovos. Saídos directamente da frigideira.

 

- Refere-se à terra de Oberpfaffenhofen?

 

- Exacto, monsieur.

 

Ludwig Zipka estava totalmente desesperado. Aquela mistura da Baviera com a Córsega por uma rapariga que sofria de amnésia era a coisa mais louca que poderia pensar-se. Era uma conjugação que ultrapassava simplesmente a capacidade de entendimento. Caso se partisse do princípio de que Lulu era natural da Córsega - o que igualmente poderia justificar o seu áspero francês -, era por completo idiota a ligação com Oberpfaffenhofen. Como poderia uma corsa conhecer esse lugar? Era provável que, em qualquer visita à Alemanha, tivesse vivido um episódio em Oberpfaffenhofen que se houvesse infiltrado na psique e que agora - neste caso raro de amnésia - se misturasse no inconsciente com a Córsega...

 

Continuava, pois, a constituir um enigma o facto de Lulu se encontrar à noite num barco a cair de podre e de ter gritado por socorro no canavial. Sem qualquer influência estranha era praticamente impossível. Uma pessoa pelo menos devia, forçosamente, ter influenciado o destino de Lulu e mesmo desempenhado a parte dominante.

 

Zipka respirou de alívio quando Kathinka desceu as escadas. Ela lançou imediatamente olhares desconfiados a Zipka e à rapariga o que anunciavam uma atitude calamitosa.

 

- O que se passa aqui? - perguntou num tom bastante áspero.

 

- O café está feito. E os ovos chiam na frigideira.

 

- bom dia, madame - cumprimentou Lulu do canto da cozinha.

 

- Há quanto tempo está a pé? - quis saber Kathinka, virando-se para Zipka.

 

- Há cerca de vinte minutos.   A Lulu antecipou-se-me. Já tinha preparado café, colhido flores e posto a mesa: uma verdadeira pérola!

 

- Chama-se, portanto, Lulu? Conseguiu arrancar-lhe o nome?

 

- Não estive inactivo.

 

- Lá nisso acredito - retorquiu Kathinka maliciosamente.

 

Os ovos chiavam audivelmente na frigideira e o toucinho deitava um aroma delicioso. Aparentemente, também Lulu se mostrava muito contente, assobiando mesmo baixinho.

 

- Mas que alegria! - comentou Kathinka irónica. O entendimento parece avançar a passos largos.

 

Lulu surgiu vinda do canto da cozinha, balançou a frigideira de ovos na sua frente, dividiu os ovos por três pratos e esboçou um aceno convidativo a Kathinka.

 

- É a Lulu de Oberpfaffenhofen, na Córsega! - declarou Zipka, ao mesmo tempo que dava um estalo com a língua. - Ficou um tanto abismada não, Tinka?

 

- Já não ligo à sua idiotice. Apenas me surpreendem as variações.

 

Kathinka retirou a frigideira vazia das mãos de Lulu com um gesto um tanto brusco, levou-a para um canto da cozinha e regressou com a caneca do café.

 

- Oh, madame! - exclamou Lulu num tom capaz de amolecer pedra. - Deixe-me fazer isso...

 

- Ela agora deu em empregada doméstica? - perguntou Kathinka a Zipka. - Não preciso de ninguém em férias.   Se se trata de uma nova forma de fascínio...

 

- A Lulu quer sem dúvida provar que está grata por nós termos dado um final tão agradável à sua viagem desde a Córsega.

 

- Já não acredito em finais agradáveis! - Kathinka mostrava-se visivelmente incrédula. - Isso da Córsega faz sentido?

 

- Assim parece. - Zipka sentou-se à mesa atraído pelos ovos. - Em toda a história existe apenas um erro paisagístico.

 

- E qual?

 

- Oberpfaffenhofen! - exclamou Zipka, gesticulando com a faca e o garfo. - Antes que possa arranjar qualquer comentário com que me atacar, Tinka, devo acrescentar que esta combinação é da autoria da Lulu! Confesso que também fiquei surpreendido. Teria aceite todos os lugares da Córsega mas não este. É absurdo de mais! Por outro lado, temos de aceitar a realidade de que ela acredita ser esse o seu lugar de origem.

 

- Foi o que eu disse: ela é louca! - retorquiu Kathinka, de olhos postos nos ovos. - Você controlou este cozinhado? Verificou o que ela pôs nos ovos?

 

- Cianeto não é, pois cheira a amêndoas. O veneno para ratos fica torrado na frigideira... Ainda não sentiu nada, Tinka? O sangue a fervilhar nas veias?

 

- Não toco em nada! - decidiu Tinka, empurrando o prato para diante e ficando a observar de cenho franzido o apetite com que Zipka e Lulu devoravam o pequeno-almoço.

 

- Uma pena que a madame esteja doente! - disse Lulu, entretanto, sem deixar de mastigar.

 

- Como assim, doente? - replicou Kathinka, mal-humorada. - Sinto-me lindamente.

 

- Só deitei nos ovos um pouco de alho e de noz moscada..,

 

- O alho é bom - observou Zipka com uma careta, ao recordar-se de Baume-les-Dames e da orgia que fizera com o condimento. - A madame é uma feiticista do alho.

 

Após ter bebido duas chávenas de café, Kathinka levantou-se da mesa e disse:

 

- Agora Vou buscar o Emile Andratte. Há que colocar ponto final neste teatro!

 

Prendeu os cabelos com um lenço e dirigiu-se à porta, mas hesitou só nessa altura, ponderando que Zipka ficaria mais tempo sozinho com aquela Lulu se ela se fosse embora. Era uma ideia que, repentinamente, se tornava difícil de aceitar e que logo pôs de parte.

 

- Uma outra sugestão... - disse Kathinka no tom mais indiferente que conseguiu. - Vá você de automóvel buscar o Andratte!

 

Ludwig Zipka reteve um sorriso e molhou um bocado de pão na frigideira.

 

- Está disposta a confiar-me a sua preciosa viatura? O seu terceiro olho?

 

- Nesta situação excepcional... estou!

 

- Não tenho o mínimo sentido de orientação!

 

- Não há que enganar. Só existe uma estrada até Mas d’Agon.

 

- Além disso, você própria referiu como este tipo de doentes pode ser perigoso. Recorda-se? De cordeirinho para lobo... Não posso deixá-la de maneira nenhuma com um monstro, Tinka! Um homem consegue dominar muito melhor a situação...

 

- Muito bem, então... - anuiu, comprimindo os lábios. Tirara as suas conclusões e agora via-se obrigada a arrostar com as consequências. - Eu vou! Mas digo-lhe desde já: à tarde vai acabar toda esta fantasia. Trago a maca comigo!

 

Deu meia volta e saiu do moinho, batendo a porta atrás de si.

 

Lulu ergueu os olhos interrogativamente e fez uma boquinha de amuo. Não tinha naturalmente entendido o diálogo travado em alemão, mas apercebera-se do tom áspero em que Kathinka se expressara. Qualquer outro homem teria certamente dado um salto, atraindo-a a ele para a consolar e acariciar. Zipka teve de utilizar todas as suas forças para não se deixar vencer pelos seus impulsos masculinos de protecção e consolo.

 

- A madame estava zangada - queixou-se Lulu com a sua voz de criança, que deixava adivinhar um soluço.

- Porquê? Os ovos não estavam bons?

 

- Não discutamos agora os ovos”, Lulu - pediu Zipka, num tom apaziguador. - É tempo perdido. Você tem muito simplesmente de recuperar a memória. Por amor de Deus! Não me fite com os seus olhos azuis. Poderíamos ligar tudo se se recordasse de um pormenor que fosse! Vamos tentar?

 

- Sim...

 

Lulu recostou-se no sofá, estendendo as bonitas pernas.

 

Lá fora, o motor do automóvel pegou. Kathinka carregou no acelerador e meteu pela estrada...

 

- Para evitar mal-entendidos, Lulu, sou eu que faço as perguntas!

 

- Por favor, monsieur Louis.

 

- Tinha, por conseguinte, pai e mãe?

 

- Claro.

 

- E os seus tios e tias... como lhe chamavam?

 

- Lulu...

- E mais?

 

- Pupette.

 

- Oh, céus! Não me interessa saber que costumassem chamar-lhe ”bonequinha”! Tinha, por conseguinte, um diminutivo! E quando lhe perguntavam: ”Lulu, como se chama?” O que respondia?

 

A estranha pôs a cabeça de lado, fixou o vazio e deu a sensação de rebuscar na névoa das recordações perdidas. Zipka quase nem se atrevia a respirar. Sentia chegado um momento decisivo.

 

- Não sei... - acabou por responder, chorosa. Porque não me ajuda?

 

- Consegue lembrar-se de uma casa, de pessoas, de acontecimentos da sua vida, de animais?

 

O rosto de boneca de Lulu iluminou-se: - Tínhamos um cão...

 

- Maravilhoso!

 

- Chamava-se Wurstl...

 

- Isso soa a Oberpfaffenhofen.

 

- O Wurstl, era grande e peludo: um cão pastor-corso.

 

- Desisto, Lulu! - exclamou Zipka, escondendo o rosto entre as mãos.

 

”Não vamos mais longe”, pensou. ”Pelo menos com rapidez. Neste caso é necessário muito tempo e paciência.”

 

Contudo, tempo era uma coisa de que ele não dispunha. Dali a três horas Kathinka estaria de volta com o sargento Andratte. E com eles viria a maca para transportar Lulu a um hospital, onde a enfiariam num quarto juntamente com outros perturbados mentais.

 

Uma imagem horrível!

 

Um quarto sem chave na porta. Grades diante da janela. Privada da companhia humana. Apenas um corpo com funções vegetativas...

 

Como é que naquele meio iria recuperar a memória?

 

- Não faz sentido! - declarou Zipka num tom brusco. - Desta maneira não, Lulu! Encontrei-a e agora também me sinto responsável por si. Não tenha medo. Estou do seu lado...

 

Ainda não tinham passado duas horas quando Zipka ouviu Kathinka regressar.

 

Foi até à porta do moinho e avistou imediatamente o sargento Andratte, que avançava pelo terreno junto ao canavial numa barulhenta motorizada, tendo dificuldade em não perder o equilíbrio. Era a motorizada de Francois Dupécheur, um autêntico objecto de museu, que deitava uma grande fumarada quando se punha a trabalhar e tinha outras mais particularidades. O pedal de arranque, por exemplo: podiam fazer-se todas as tentativas que nada acontecia. Contudo, quando menos se esperava a motorizada decidia-se: dava um salto para diante e começava a funcionar a todo o gás. Quem não conhecia o truque caía imediatamente. O próprio Dupécheur tinha sido uma vez atirado para o chão e vira-se obrigado a ficar três semanas de cama.

 

O sargento Andratte conhecia esta particularidade,

 

mas, apesar disso, sempre que havia uma emergência pedia emprestada a Francois aquela máquina diabólica sem dúvida em sinal de protesto contra a teimosia das autoridades de Aries na recusa de lhe cederem’ um automóvel de serviço.

 

Também naquele dia se atrevera a montar o ”bicho”, agarrando-se com força ao guiador e rezando intimamente para que os travões funcionassem no momento exacto e não se visse forçado a dar algumas voltas ao moinho até que o motor decidisse ir abaixo.

 

Atrás de Andratte vinha o elegante carro desportivo de Kathinka, mas nada mais. Não se avistava em parte alguma uma ambulância. Zipka respirou de alívio: já era meia vitória. Andratte era um homem com quem se podia falar. Um conhaque, um cigarro, uma anedota sobre pescadores... Em caso de necessidade - mas apenas em última instância - Lulu teria de se mostrar sem blusa e fazer o papel de tímida...

 

Emile Andratte entrou no terreno em frente do moinho, desligou o motor, pisou o travão, sentiu que o objecto infernal correspondia e saltou do selim antes de o motor ter parado completamente.

 

A motorizada ainda andou uns metros sozinha e virou-se no pomar por tratar. Andratte tirou o boné com um suspiro de alívio, abanou-se com ele e ajeitou o fecho do cinturão colocado a meio da barriga.

 

Kathinka parou igualmente com um guinchar de travões. Saltou do carro, deu a volta e abriu a porta do banco ao lado do condutor. Um homem baixo, magro e seco desceu do automóvel, pousou uma típica maleta de médico no tejadilho do automóvel, desentorpeceu as pernas - facto que Zipka observou com compreensível simpatia - e alisou seguidamente os escassos cabelos brancos.

 

- Sei o que isso é - disse-lhe Zipka. - Já tenho o conhaque à espera.

 

O homenzinho apertou a mala de encontro ao corpo, quase voou como se fosse uma pena até junto de Ludwig Zipka e parou no momento exacto antes do choque.

 

- Sou o doutor Bombette - disse ele num tom agitado e como que à beira de soltar um suspiro de alívio. Julien Bombette! Tenho setenta anos de idade, monsieur, e nunca tive medo na vida. Mas agora sei o que é isso. Deve ser um herói, monsieur, para se arriscar a andar de carro com a madame... Onde está a doente?

 

- Desaparecida - respondeu Zipka secamente.

 

- Desaparecida? - repetiu o sargento Andratte, que suava abundantemente.

 

- O que significa isso de... desaparecida? - interrogou Kathinka.

 

- Abriu a porta, saiu de casa e não voltou. Tão simples como isso.

 

Ludwig Zipka caíra num erro ao partir do princípio de que Kathinka Braun ficaria satisfeita com a explicação.

 

Ela fitou-o a espumar de raiva, esticou o lábio inferior que não lhe ficava assim tão mal - como às vezes parecia tão atraente quando estava irritada! -, e puxou nervosamente o lenço do cabelo.

 

- Não acho mesmo nada simples - contrapôs, obstinada. - Porque não a agarrou?

 

- Não me competia. Longe de mim impedir a liberdade de alguém.

 

- Mas ela é louca...

 

- Não sou médico. Não me cabe fazer um diagnóstico desses.

 

A palavra médico provocou nova interferência do Doutor Bombette no diálogo. Pôs-se muito direito e explicou soprando junto ao rosto de Zipka:

 

- É para isso que aqui estou. Tenho experiência dessas coisas. Faz ideia de quantos loucos habitam por aqui, monsieur! Todos parecem no seu juízo perfeito, mas quando se começa a conhecê-los de mais perto... digo-lhe, falta-lhes a todos um parafuso!

 

O sargento Andratte tossicou e abanou-se com o boné.

 

- Não tinha dito que o conhaque estava à espera, monsieur! - perguntou.

 

- Claro que sim! O senhor é um homem das coisas práticas, sargento. Vamos entrar.

 

Na grande sala de estar estava fresco. Zipka serviu o conhaque, que todos beberam silenciosamente, de olhar preso nos copos e meditando. Kathinka era a única que percorria, nervosamente, a sala de um lado para o outro. Sentia o que quer que fosse; havia ”algo no ar”, como se costuma dizer, mas não conseguia expressá-lo em palavras.

 

- Conte como foi - acabou por dizer o Doutor Bombette. Saboreava o terceiro cálice de conhaque com aquele ar de apreciador tão próprio dos franceses.

 

- A madame já lhe deve, certamente, ter explicado tudo, doutor...

 

- De uma forma tendenciosa! - O Doutor Bombette revelava-se como um homem extraordinariamente franco e directo. - Entrou-me intempestuosamente pela casa acrescentou ele - e gritou: ”Venha depressa! O meu marido encontrou uma louca no lago!”

 

Zipka riu intimamente e procurou Kathinka com o olhar. Esta tinha desaparecido no canto da cozinha e fazia um barulho enorme com uma frigideira.

 

- E ela disse o meu marido? - inquiriu Zipka, com um ar inocente.

 

O confiante Doutor Bombette esboçou um aceno afirmativo.

 

- Não é assim?

 

- Claro que é! Salvei a rapariga. Contudo, foi a minha mulher quem primeiro ouviu os gritos. - Zipka vincou propositadamente a minha mulher, e Kathinka bateu fortemente com dois tachos junto do fogão. - Sim, ela tem um ouvido espantoso, a minha mulher!

 

O sargento Andratte inclinou-se para diante, parecendo excitado.

 

- Ela gritou? O que é que gritou? - Quando alguém grita, tudo passa a pertencer ao âmbito da polícia. Andratte sentia-se feliz na medida em que, finalmente, a tranquilidade do seu distrito fora quebrada por um grito e pelo aparecimento de uma pessoa mentalmente perturbada. - Preste o seu contributo, monsieur .

- Gritou: ”Socorro! Socorro!” Quando finalmente a descobri naquele barco a cair de podre, que só por milagre conseguiria flutuar, já estava desmaiada. Ao recobrar novamente os sentidos, tinha perdido a memória.

 

- Por completo? - quis saber o Doutor Bombette, imediatamente interessado.

 

- Totalmente! Acreditava ter vindo de Oberpfaffenhofen, na Córsega.

 

- Ah! - exclamou o Doutor Bombette. - E?...

 

- E? Não basta?

 

- Pelo menos, recorda-se de onde provém. Já é um passo em frente. - O Doutor Bombette recostou-se na cadeira. - Um lampejo na escuridão. Da Córsega...

 

- Só que Oberpfaffenhofen fica na Alemanha, próximo do Ammersee! Quando se vira na auto-estrada de Lindauer na direcção de Wessling...

 

- Tem a certeza? - interrompeu Andratte, num tom áspero de quem entrou em campo.

 

- A certeza absoluta! O meu automóvel é capaz de percorrer o caminho sem ser guiado, tão bem o conhece.

 

- Nesse caso, a doente não pode ser natural da Córsega! - concluiu o médico, num tom importante.

 

- Isso já eu disse! Mas para uma alemã fala, por outro lado, um francês muito bom, sem sotaque! É um enigma com que me tenho debatido, meus senhores! Como é possível que uma jovem venha da Córsega precisamente de Oberpfaffenhofen?

 

- Um total desdobramento de personalidade! - O Doutor Bombette esvaziou o conhaque do copo e conservou-o a uma altura suficiente para levar Zipka a entender o pedido silencioso e a servi-lo mais uma vez. - A literatura médica cita uma série de fenómenos idênticos sem conseguir explicá-los. Houve uma vez uma mulher que, depois de cair de uma janela (o seu trabalho era limpar vidros de janelas), ficou a falar assírio! Está a ver? Falava fluentemente uma língua que toda a gente desconhecia há mais de três mil anos. O que é Oberpfaffenhofen em comparação? Uma pena que tenha deixado escapar este novo fenómeno da ciência médica, monsieur. - Vamos procurar imediatamente essa rapariga decidiu o sargento Andratte, levantando-se. - Nesta região é impossível andar a pé! - Enfiou o boné, oferecendo, assim, uma aparência oficial. - Comecemos pelo barco. Faça favor de nos conduzir ao local, monsieur.

 

Zipka esboçou um aceno de concordância. Olhou na direcção do nicho da cozinha, onde Kathinka se apoiava a uma das colunas de madeira.

 

- Vens connosco, tesouro?

 

- Como? - sibilou ela, erguendo o queixo.

 

- Não queres acompanhar-nos, minha querida? As mulheres são, frequentemente, os melhores detectives. Com o seu instinto...

 

Ela empertigou-se, apertou mais o lenço à volta do pescoço e saiu do moinho sem uma palavra. -

 

O Doutor Bombette seguiu-a com o olhar e em seguida fitou Zipka.

 

- A madame está de mau humor?

 

- A rapariga que encontrámos é muito bonita, doutor...

 

- Ah! Ah! Isso explica muitas coisas!

 

O médico era um bom psicólogo. Piscou o olho a Zipka, deixou que o sargento saísse e depois agarrou o braço de Zipka. Aproximou-se mais como um conspirador.

 

- Que idade? - perguntou baixinho.

 

- Talvez no princípio da casa dos vinte...

 

- Tipo?

 

- De   bonequinha!   Cabelos   louros-prateados,   uma bonequinha de sonho! As curvas nos locais certos.

 

- E está realmente doente? - O Doutor Bombette olhou interrogativamente para Zipka. - Estamos sós, monsieur...

 

- Juro-lhe, doutor: tirei a rapariga esta noite de dentro do barco e nunca a tinha visto antes! E quando a jovem recuperou a fala só saíam coisas ao contrário.

 

- E mesmo assim a madame mostra-se ciumenta?

 

- O que para mim constitui a maior das surpresas, doutor!

 

- Porquê? Estava à espera de uma outra reacção? A madame ama-o...

 

- Se assim o diz...

 

- ”Ela tem de se ir imbora! Imediatamente”, gritou-me, após me ter explicado a situação em poucas palavras. Logo nessa altura pensei: ”O achado deve ser muito bonito.” Não se reage de uma forma tão violenta em relação aos pobres doentes, porque se fica com pena, compris? Acredita que seremos capazes de a encontrar?

 

- Espero que sim - respondeu Zipka, com uma gargalhada. - O senhor é um indivíduo ”fresco”, doutor...

 

Pouco depois afastaram-se todos do moinho; avançaram com dificuldade pelo terreno, patinharam no canavial e chegaram à margem do lago, onde Zipka tinha descoberto o barco com Lulu lá dentro. O barco cheio de bolor e apodrecido, sem remos nem vara.

 

Mas ele tinha desaparecido.

 

Também para Zipka o facto constituiu uma verdadeira surpresa. Ele apontou de braço esticado para o sítio onde estivera o barco.

 

- Aqui! - indicou. - Estava aqui encalhado no canavial.

 

- E onde está agora? - inquiriu o sargento Andratte no mesmo tom oficial.

 

- Afastou-se novamente com o barco - disse Kathinka, numa voz onde o alívio se misturava com a satisfação. - Talvez rumo à Córsega!

 

- Neste momento, idiotices não, por favor! - Zipka assumira uma expressão grave. - Não pode ter utilizado o barco.

 

- E porque não? - quis saber Andratte.

 

- Primeiro, o barco estava apodrecido de mais para poder pôr-se novamente ao largo e, em segundo lugar, devemos ter em conta que a mademoiselle só desapareceu há duas horas. De certeza que ainda não consegue remar, dada a sua frágil constituição!

 

- Já sinto lágrimas nos olhos! - comentou Kathinka, desdenhosa. - Talvez se tenha afogado, não?

 

- É uma possibilidade - expressou o Doutor Bombette, em concordância.

 

- Deus do céu!

 

O sargento Andratte pôs-se de joelhos e examinou o canavial onde estivera o barco. Estava a pensar que, finalmente, poderia ter surgido um verdadeiro ”caso” para o livro de registos do posto de Polícia de Mas d’Agon: desaparecimento de uma jovem doente em pleno dia! Possivelmente afundada num barco. Tal significava: grandes notícias na prefeitura de Aries, entrada em acção da guarda-marítima, até mesmo da brigada de criminologia, dos bombeiros de Dom de Méjeanne, Saint Gilles, Aries e também do velho carro dos bombeiros de Mas d’Agon, intensa busca policial, nas margens do lago Vaccarès e talvez mesmo interferência de militares com barcos sapadores e homens-rãs... Andratte sentiu-se um pouco estonteado ao imaginar o que podia desencadear com a sua informação. Acima de tudo, porém, este caso iria dar grande peso ao seu pedido de concessão de um automóvel de serviço.

 

- Tudo joga certo! - exclamou Andratte, subitamente, por entre os pensamentos tumultuosos que o assaltavam. - Neste sítio esteve um objecto de grandes proporções. Contudo, ele já saiu daqui há bastante tempo e não apenas há duas horas. As canas estão direitas e para tal torna-se necessário muito tempo!

 

- Um novo enigma! - exclamou Zipka, um tanto agitado. - A minha mulher pode confirmar que a Lulu ainda há duas horas preparou aqui no moinho ovos com alho e noz moscada e comeu...

 

- O que é que ela fez? - interrompeu o Doutor Bombette, atónito. - Ela trabalhou?

 

- Queria engodar o monsieur com os seus dotes culinários! - retorquiu Kathinka Braun, viperina.

 

- E cozinhou devidamente?

 

- Estava tudo muito apetitoso - respondeu Zipka, calmamente.

 

- E também comeu com ela?

 

- Porque não? Comer alho de manhã cedo corresponde a mudar o óleo de um motor...

 

- Coordenemos ideias! - exclamou o Doutor Bombette, ao mesmo tempo que enunciava os factos servindo-se dos dedos pequenos e gordos. - Perdeu a memória, caiu numa dupla personalidade, mas apesar de tudo cozinhou primorosamente e desapareceu com um barco carcomido e bolorento. Um pouco despropositado, não é verdade? E, além disso, bonita como uma boneca...

 

- Como o sabe, doutor?

 

- Monsieur descreveu-ma com palavras entusiásticas

- respondeu o médico com uma indiferença satânica.

 

- Ah! Descreveu?

 

Kathinka contemplou a água agora calma do lago. Um bando de aves voava, ao longe, em círculo, sob o céu azul. O bater das asas aproximou-se... Naquele silêncio soava a aplausos.

 

Em seguida, Kathinka perguntou num tom de voz que mal conseguia controlar:

 

- E agora? Continuamos a procurar ou aceitamos que essa dama de nome Lulu tenha voltado a tomar as rédeas da sua vida?

 

- Uma doente, madame? - interrogou o Doutor bombette. - Como a senhora descreveu, não pode ser deixada só. Temos de encontrá-la.

 

- É isso exactamente o que devemos fazer! - O sargento Andratte empertigou-se e enfiou os dois polegares no cinturão; para ele, havia-se iniciado uma parte importante da sua vida. - Não podemos permitir que uma pessoa desapareça simplesmente do pé para a mão. É uma infracção à ordem. Enquanto for vivo, cada cidadão tem o dever de estar presente. O Estado preocupar-se-á agora com os pobres doentes. Não percamos tempo, madame e messieur.

 

Kathinka e Zipka ficaram a acenar ao sargento e ao Doutor Bombette quando ambos desceram, aos solavancos, o acesso do caminho à estrada, montados na velha motorizada dos Dupécheurs.

 

O médico ia fortemente agarrado às costas do sargento, com a sua mala muito apertada contra o peito, e visto de trás assemelhava-se a um macaco. Bombette não ligou à situação, na medida em que já fizera uma viagem desconfortável. Quem foi médico uma vida inteira na Camargue pode aguentar bastante.

 

- Tudo despachado! - exclamou Kathinka, aliviada.

 

- Agora podem começar realmente as férias.

 

- Seria bom de mais, meu tesouro.

 

- O quê? - Deu meia volta e olhou para Zipka de alto a baixo como se tivesse acabado de ser esbofeteada.

 

- Que expressão foi essa?

 

- Costumo chamar meu tesouro à minha mulher. Sou um indivíduo terno. Tenho, aliás, uma quantidade de nomes de reserva: conchinha, gatinha, ratinha, passarinho...

 

- Se alguém o matasse devia receber uma menção honrosa - espumou Kathinka.

 

- Um momento. Quem é que disse: ”O meu marido...”?

 

- Foi uma mentira ditada pela necessidade. Como iria explicar ao velho médico qual a nossa relação?

 

- De maneira nenhuma...

 

- Mais uma vez pergunto o que quer dizer isso?

 

- Não estamos ligados por qualquer relação! Confesso que, para os estranhos, se trata de algo difícil de entender. Habitamos sob o mesmo tecto, viajamos juntos pela França... e não há nada! Ninguém nos acredita, de facto, mas é essa a triste realidade.

 

- É a coisa mais normal deste mundo! - retorquiu Kathinka, dando meia volta e dirigindo-se para o moinho. - Quem o escutar cinco minutos seguidos apercebe-se imediatamente. - De súbito parou e torceu o nariz. - Que estranho! Cheira-me a qualquer coisa. Você não sente?

 

- Cheira-me a café - retorquiu Zipka, realista.

 

- Vem do moinho.

 

- Do céu é que este aroma não pode vir...

 

- Fez café, antes de virmos até ao canavial? Tinha oferecido conhaque... eu estava no nicho da cozinha...

 

- Foi exactamente assim, meu tesouro.

 

- Mas cheira...

 

Kathinka ficou pregada ao chão durante uns segundos, após o que desatou a correr até ao moinho. Zipka foi atrás e chocou com ela, pois Kathinka parara na ombreira da porta.

 

A jovem Lulu estava sentada na cadeira e tinha diante

de si um prato com croissants acabados de fazer. Pusera pmanteiga e mel em pequenas taças e havia pratos e copos dispostos na mesa. A rapariga sorriu com uma doçura indescritível, uma inocência intocável.

 

- Mas... isto é inacreditável! - exclamou Kathinka, sem conseguir dar um passo.

 

- Tenho a certeza de que a madame agora já está com mais apetite - retorquiu Lulu suavemente.

 

- De onde é que ela surgiu?

 

- Lá de cima - explicou Zipka. - Por cima dos nossos quartos há uma outra divisão, com toda a aparelhagem técnica das pás do moinho, enferrujada e inútil.

 

- Ela esteve lá durante todo o tempo? Toda a nossa busca não passou de encenação sua?

 

- Não tive muito simplesmente coragem de deixar que levassem a Lulu numa maca - confessou Ludwig Zipka.

 

- O   cavaleiro   medieval!   - troçou   Kathinka,   ao mesmo tempo que se sentava no braço do sofá. O vestido leve entreabriu-se, deixando ver as pernas compridas. Eram as mais bonitas que Zipka vira em toda a sua vida.

- Vamos pôr de vez as coisas a claro: quem procurou uma companhia para passar férias?

 

- Tu, meu tesouro.

- Fui eu que me ofereci ou você que se ofereceu?  

 

- Tinha toda a liberdade de me candidatar ao lugar.

 

- Portanto, são as minhas férias! - declarou Kathinka num tom firme.

 

- Com uma lógica de trazer por casa, são!

 

- Cabe-me, por conseguinte, o direito de decidir, quem habita na minha morada de férias.

 

- Com despesas a meias...

 

- Mas eu gostaria de estar só.

 

- Mais ou menos...

 

- O que quer dizer isso? Se se quiser dar ao trabalho de tomar a seu cargo desdobramentos de personalidade, Herr Zipka, faça-o em todos os sítios menos no Moulin Saint Jacques.

 

- O café irá arrefecer, madame - interrompeu Lulu com um sorriso encantador. - E os croissants sabem melhor, quando estão quentes.

 

- Por outras palavras: queres que eu saia? - inquiriu Zipka, ficando muito calmo.

 

- Se essa tal senhora Lulu de Oberpfaffenhofen lhe merece um interesse ilimitado, deve decidir-se por ela.

 

- Conseguiu expressar tudo isso de uma forma realmente distorcida, Tinka.

 

- Deus seja louvado!

 

- Porquê?

 

- Por ter deixado de me tratar por tu. É um passo em frente.

 

- Fá-lo-ei,   imediatamente,   assim   que   estivermos unidos.

 

- O que nunca acontecerá.

 

- Uma outra sugestão: façamos como... - Zipka tinha pegado num bocado de croissant quente e molhara-o no mel, após o que o comera gostosamente, ficando a lamber os dedos - se não estivesse aqui.

 

Kathinka observava-o com os olhos semicerrados.

 

- Quem?

 

- Lulu. Ou por outras palavras: façamos como se ela pertencesse ao inventário do moinho. Como se fosse uma parte da casa. Uma galinha à solta talvez...

 

- Antes uma gatinha!

 

- De acordo.

 

- De acordo coisa nenhuma. Como imagina que isso seja possível? Não se pode deixar de ver uma pessoa que está presente.

 

- Nesse caso, tentemos habituar-nos a essa pessoa.

 

- Completamènte impossível. Vou chamar novamente o sargento Andratte e o doutor Bombette!

 

- Se fizeres isso, meu tesouro - retorquiu Zipka, devagar e acentuando as palavras -, então...

 

- Então o quê? - replicou Kathinka, disposta a lutar.

 

- Então deixo-te realmente sozinha neste moinho.

 

- Isso não é uma ameaça, mas antes uma libertação.

 

- Como quiseres! - Zipka curvou-se diante de Lulu.

- Daqui a minutos, vamos embora, mademoiselle. Tenho só de emalar umas coisas. Infelizmente, não posso oferecer-lhe nenhum meio de transporte. Temos de ir a pé. Onde gostaria de ir? Até à Córsega ou a Oberpfaffenhofen? Decida-se. Volto já.

 

Bebeu um pequeno gole de café e, em seguida, dirigiu-se à escada. Kathinka fitava-o com os olhos muito abertos. Quando Zipka tinha posto o pé no segundo degrau, gritou:

 

- Onde é que vai?

 

- Fazer a mala. Já tinha dito.

 

- Não seja criança, Wig.

 

- Sou apenas lógico.

 

- Está a comportar-se como um rapazinho obstinado. Como se dissesse: ”Não, não como a sopa!”

 

- Eu bem queria comer, mas você não me deixa.

 

- E que acha de sermos nós a ir embora?

 

- Uma alteração de planos? Porquê?

 

- Estou a pensar num passeio até Saint Maries de la Mer. Visitamos a famosa igreja, regressamos à tarde... e podemos falar de tudo isto.

 

- E deixamos a Lulu só?

 

- Ela também veio só.

 

- Vá sossegado, monsieur - interrompeu Lulu, cruzando as pernas. Semelhante a um anjo caído dos céus.

 

- Eu encarrego-me de arrumar a casa. Há muito que fazer.

 

- Fantástico! - exclamou Zipka, voltando atrás. Continue assim! Ainda acabamos por saber quem você é.

 

- Pôs o braço em volta da cintura de Kathinka, atraiu-a a ele e beijou-a na face - Não achas maravilhoso, meu tesouro? Restituir a Lulu à vida. Acho que foi uma boa ideia: vamos dar um passeio e deixar a Lulu a sós com o seu passado enublado...

 

A ideia foi boa enquanto o automóvel desportivo de Kathinka avançou pela estrada. Contudo, próximo de Mas de Cacharet começou a dar solavancos, indo frequentemente abaixo, até que finalmente se recusou por completo a pegar. Kathinka deixou descair o automóvel até um pequeno acesso e puxou bruscamente o travão de mão.

 

- E mandei eu fazer uma revisão extra na oficina para uma grande viagem! - exclamou, saindo do carro. O que será?

 

- Talvez esteja cansado? Sempre com o acelerador a fundo. Quem aguenta uma coisa assim?

 

- Eu. Comigo os records são uma norma.

 

- Assim percebo porque é que os homens se sentem diminuídos na sua presença.

 

Zipka desenroscou-se do assento e dedicou-se aos habituais exercícios de desentorpecimento.

 

Kathinka desceu até junto de um lago, sentou-se na erva alta e rodeou os joelhos dobrados com os braços. Na sua frente, garças orgulhosas pavoneavam-se num charco afastado do canavial e patos de um verde e um azul brilhante nadavam em grupos, próximo de terra, nas águas do lago. À sua esquerda, o vento sussurrava de encontro a um curioso grupo de arbustos, de onde lhe chegavam os cantos, assobios e trinados de inúmeras aves.

 

Kathinka deitou-se para trás, cruzou os braços debaixo da nuca e fechou os olhos. Escutou a aproximação de Zipka. Estremeceu ligeiramente ao sentir que ele se deitava ao seu lado. Os corpos tocavam-se.

 

- Este silêncio... - pronunciou Kathinka, baixinho.

- Consegue escutar o silêncio? Por mim consigo banhar-me nele...

 

- Parece-me que se trata de velas gastas - observou Zipka.

 

- Idiota! Não consegue sentir, por conseguinte, a grandiosidade da natureza? Vivo um ano inteiro rodeada de barulho: terrenos de construção, betoneiras, guindastes, monta-cargas, dragas. Admito que não queria que fosse diferente. Nem sequer me quero preocupar. Não me deixo ficar apenas pelo projecto; para mim, uma construção só está pronta quando pode ser habitada. Até lá, jamais abandono o local! Mas depois, uma vez por ano, tenho de me desligar de todas estas obrigações; tenho de viver como anseio. Nessas alturas, apenas quero ser uma pessoa; um bocado da própria natureza. Sabe que arbustos são esses que tem ao seu lado?

 

- Não.

 

- Zimbros fenícios...

 

- Que toada! Fenícia... O país da púrpura vermelha... e dos deuses, sendo principalmente adorada Astarte, a deusa do amor... Mas havia ainda uma outra imponente divindade, adorada acima de tudo pelas raparigas: Adónis, o deus da vida sempre repetida... Devíamos pensar muito mais em termos fenícios, Tinka.

 

Conservaram-se um bocado sem falar ao lado um do outro.

 

Em seguida, Zipka perguntou:

 

- Está a ouvir este pássaro? - Colocou um braço sobre o ombro dela, cautelosamente e esperando ser repelido. No entanto, Kathinka reagiu de uma forma inteiramente diversa. Virou a cabeça de lado e apoiou-se no seu peito. - Conhece-o?

 

- Não - respondeu ela.

 

- É um pássaro dos canaviais.

 

- O que se aprende a desenhar moscas para pesca à linha!

 

- Tinka...

 

- E que ave era esta? Este grasnar de quem era?

 

- Uma gralha.

 

- Tantas vozes e, no entanto, este silêncio...

 

- Amo-a!

 

- À gralha?

 

- Não. A ti!

 

Ludwig Zipka soergueu-se, inclinou-se sobre Kathinka e examinou-lhe o rosto de olhos cerrados. Nos cantos dos lábios divisou um esboço de sorriso. Zipka pôs-se de sobreaviso, na medida em que aquele riso não estava de acordo com o que dela conhecia.

 

- Somos o par enamorado mais louco que Deus pôs ao cimo da terra - declarou ele num tom rouco. - Se agora te beijar apanho uma bofetada, embora seja disso que estás à espera...

 

- Experimenta...

 

Beijou-a, de início cautelosamente e, depois -, quando a bofetada não aconteceu e os lábios dela se entreabriram -, com todo o amor que sentia. Kathinka envolveu-o nos braços e soltou um leve suspiro; mantiveram-se deitados na relva trocando o beijo mais longo da vida deles. Só quando a respiração se começou a tornar ofegante é que se soltaram, dominados pela emoção que os transportava.

 

- Combati tanto este momento - confessou Kathinka num murmúrio.

 

- Eu nunca.

 

- Se quisermos ser francos temos de admitir que isto é pura loucura.

 

- Porquê? Chegámos finalmente à conclusão de que pertencemos um ao outro.

 

- O que entendes por isso?

 

- A coisa mais natural do mundo; que jamais te deixarei .

 

Ela virou a cabeça para ele e soltou nova gargalhada. Contudo, era uma gargalhada tão triste que o sobressaltou. Julgou ler-lhe o pensamento no olhar e sacudiu a cabeça.

 

- Não - garantiu-lhe num tom de voz firme. – Não é falar por falar. Nem um flirt de férias. Amo-te verdadeiramente ! Desde o momento em que te vi parada no aeroporto. Pode soar a banalidade e idiotice, mas foi amor à primeira vista.

 

- De qualquer maneira, tenho medo - retorquiu Kathinka. - Pegou-lhe na mão, beijou-lhe suavemente a palma e colocou-lha em seguida no peito. - Imagina só: eu, uma mulher de trinta anos, tenho subitamente medo de mim própria. Sinto que me estou a deixar arrastar. Apercebi-me logo de que estava a deixar fugir a lógica...

 

- Nunca amaste verdadeiramente? - quis ele saber.

 

- Amar! - Ela soltou uma gargalhada um tanto atormentada. - Claro que não sou, como se diz romanticamente, uma página em branco. Já se encontram algumas linhas na página... Mas, se se for a lê-las, fazem infelizmente pouco   sentido!   Frases   passageiras,   nada mais. Algumas vezes, também, apenas assinaturas; autógrafos com um ”adeus” por baixo. - Hesitou um momento e deteve-se a examinar a mão dele, que se enfiava devagar na blusa e começava a acariciar-lhe os seios. Houve um homem - prosseguiu - que uma vez expressou claramente a situação. Foi há cinco anos, chamava-se Herald e era dono de uma fábrica de peças de automóveis... mas isso nada tem a ver com o assunto... ”Viver contigo”, disse-me, ”deve ser o primeiro passo para o purgatório. Todos os vulcões da paixão se desfazem em gelo. Mesmo nos momentos de maior felicidade, tem-se a sensação de que pensas unicamente no décimo quarto andar do teu novo arranha-céus.”

 

- Mas esse tal Herald não era poeta! - Zipka beijou-lhe os olhos e a curva do pescoço esguio. - Além disso era um indivíduo materialista. Deus do céu! Tenho a impressão de que até agora só amaste cobardes. Todos os homens se rendem diante de ti.

 

- E tu não?

 

- Não o creio.

 

- És um pantomimeiro por natureza. – Kathinka agarrou-lhe firmemente a outra mão, que lhe apalpava as coxas e erguia a saia. - Podem ver-nos da estrada disse ela.

 

- Nesse caso, vamos para trás do teu automóvel!

 

- Wig! - ela rolou para o lado e uniu as pernas. Ele sentiu como os músculos ficavam tensos sob as suas carícias. - Não te comportes como um adolescente.

 

- Mas amo-te, Tinka. E o facto de te beijar, não impede que te leve para trás do automóvel. Porque falamos tanto? Palavras e mais palavras! Sabemos exactamente o que se passa dentro de nós... Temos de viver o momento. Não temos de pensar em mais nada...

 

Atraiu-a a si, puxou-a para trás da relva elevada e abafou todos os protestos, enquanto a beijava uma e outra vez como ainda não beijara outra mulher...

 

O cavaleiro que se aproximava em passo de trote do Moulin Saint Jacques não parecia ter pressa. Detinha de vez em quando o robusto cavalo branco da Camargue, contemplava a ampla paisagem e o lago, continuando a cavalgar em seguida pelos altos canaviais e através do charco, aproximando-se do moinho pelo lado do lago.

 

Antes de desmontar, observou mais uma vez a região atentamente pelos binóculos, detendo-se em particular na estrada que levava a Mas d’Agon.

 

Era um homem de figura esbelta e elegante, a quem o fato de montar assentava maravilhosamente. Usava um pequeno bigode sobre o lábio superior no rosto comprido, onde se lia a melancolia de um velho fidalgo que raramente saía. O cabelo preto e encaracolado apresentava fios prateados que, nas fontes, começavam a transformar-se em manchas brancas.

 

Desceu da sela e prendeu firmemente o cavalo a um velho posto. Olhou mais uma vez em volta, após o que se dirigiu com passadas enérgicas a uma das janelas do moinho e bateu com os nós dos dedos.

 

Fê-lo de uma forma curiosa, com um ritmo particular, que se assemelhava a uma melodia conhecida.

 

A janela foi levantada, e a cabeça de Lulu espreitou lá para fora.

 

- Entra - convidou alegremente.

 

- É preferível não perder o acesso de vista.

 

- Não regressam antes do entardecer. Foram dar uma volta de carro.

 

- Mas o Emile Andratte... nunca se sabe que reacção irá ter. A qualquer momento pode voltar acompanhado dos bombeiros, a fim de passar uma busca ao lago. O cavaleiro soltou uma ligeira risada e manteve-se atento ao caminho através do canavial. - Até este momento tens desempenhado bem o teu papel, ma chérie...

 

- Sim. Tudo está a correr pelo melhor, Raoul. De resto, os dois alemães não são casados. Tratam-se por ”você” e comportam-se como se fossem desatar à pancada de um momento para o outro.

 

- Isso não interessa. Quando tencionam ir embora?

 

- Acho que vão ficar. - Lulu ergueu as mãos no momento em que o cavaleiro ia fazer um reparo. - É completamente impossível afastá-los. A mulher é teimosa e o homem do tipo a que nada consegue abalar.

 

- E dizes-me que tudo corre bem! - O cavaleiro bateu com a chibata na parede do moinho. - Temos de nos livrar deles. Vai haver uma catástrofe, Lulu, se descobrem em cima do que estão sentados!

 

- Ainda não descobriram a entrada da cave, e tal não acontecerá enquanto eu estiver nesta casa. É a nossa chance, Raoul: tenho de ficar com eles e desviar-lhes a atenção até partirem. Impedirei que descubram o alçapão.

 

- Não é possível a longo prazo - retorquiu o cavaleiro, impaciente. - Além disso, estamos a lutar contra o tempo. Hoje voltei a receber notícias do Júlio. Vêm buscar as coisas dentro de dez dias; e daqui a dois dias o Achmed faz nova entrega! Os estranhos têm, por conseguinte, de desaparecer daqui imediatamente! Trata-se literalmente da nossa salvação, chérie!

 

Há problemas que podem ser resolvidos com palavras

- os políticos são mestres nesse tipo de coisas -, mas há também os outros que se tornam mais graves a cada palavra pronunciada, e cuja solução entra no caminho desesperado: tem-se a sensação de se errar por um labirinto, um labirinto sem saída.

 

A estada de férias dos alemães no Moulin Saint Jacques dava a sensação de estar a transformar-se num problema desse género. Lulu assim o expressou, de uma forma banal:

 

- Não podemos fazê-los desaparecer por magia - disse. - Já os conheço o suficiente: só vão retirar-se se o moinho arder.

 

- Nem podemos pensar numa coisa dessas!

 

O cavaleiro a quem ela tratava pelo nome de Raoul voltou a observar, através do binóculo, a região que se estendia até Mas d’Agon.

 

- O que fazemos, então? - O rosto de boneca de Lulu adquiriu repentinamente uma expressão tensa. Os grandes olhos azuis deixaram transparecer uma expressão de medo. - Não! - pronunciou num fio de voz. - Não faço isso! Não podes exigi-lo.

 

- O quê? - retorquiu o cavaleiro, ajustando o binóculo para um ponto longínquo.

 

- Não podes muito simplesmente matá-los!

 

- Quem falou nisso? - retorquiu Raoul num tom indiferente.

 

- Pelo teu silêncio, sei no que estás a pensar! Agora, enquanto estão longe, ainda podemos tirar daqui alguns sacos.

 

- Tarde de mais! Vem aí o Andratte com o carro dos bombeiros. Esconde-te novamente.

 

- Não vais matá-los! - gritou Lulu subitamente. Passou as duas mãos pelos cabelos. - Essa porcaria que está na cave não vale a pena.

 

- Essa porcaria, como lhe chamas, representa cerca de quatro milhões de francos! - O cavaleiro pronunciou esta frase com uma calma que soou a Lulu de uma forma sinistra. - Trazem o nosso velho carro de incêndios. A ideia do desaparecimento no lago foi realmente idiota. Agora este sítio será concorrido, diariamente, por um formigueiro de gente. Exactamente o oposto do que nos conviria.

 

- A ideia foi de Ludwig Zipka.

 

- Quem é esse?

 

- Monsieur...

 

- Tens de te esconder, chérie.

 

- Se fazes tenção de matar, terás de me fazer o mesmo.

 

- Ainda podemos falar no assunto. - O cavaleiro guardou os binóculos, fez uma festa na cara de Lulu e em seguida deu-lhe uma ligeira e terna palmada. - Depressa. Desaparece lá para cima! Ocorrer-me-á qualquer ideia para afastar as pessoas do moinho. Eu próprio me ocuparei disso.

 

Puxou a janela para baixo, fez mais um sinal de cabeça

a Lulu e dirigiu-se em seguida ao seu cavalo branco. Sentou-se elegantemente na sela e revelou-se um cavaleiro exímio. Deixou que o bonito cavalo executasse alguns passos, após o que o lançou a trote na direcção da margem do lago. Ali, pôs o cavalo a passo, seguiu junto ao canavial e fê-lo exactamente como se perscrutasse cada metro de solo.

 

O carro dos bombeiros de Mas d’Agon avançava pelo acesso aos solavancos e a deitar fumo. Se bem que em ”parte alguma se visse qualquer obstáculo ou alguém para ultrapassar, o carro pintado de vermelho tocava o sino estridente, reforçado de vez em quando pelo barulho de uma velha buzina. O sargento Andratte seguia na motorizada emprestada por Dupécheur atrás do velho carro, ocupado por quatro homens e o condutor. Andratte segurara o boné com um francalete atado em redor do queixo. Saltava como um corredor através do acidentado acesso ao moinho, agarrado firmemente ao guiador e inclinado para diante; brilhava-lhe uma obstinação no olhar, que provinha mais do receio de ser cuspido do assento da motorizada do que de uma vontade férrea do cumprimento do dever.

 

Ao chegar diante da entrada do moinho, travou, deixou que a motorizada se voltasse e afastou-se com três saltos, como se temesse que aquele objecto diabólico pudesse ainda explodir nas suas costas.

 

Contudo, o carro dos bombeiros de Mas d’Agon avançou orgulhosamente pelo acesso com um toque do sino e da buzina.

 

Há que vincar que este carro dos bombeiros era o orgulho de Mas d’Agon. Talvez não houvesse um habitante no vasto distrito que não se referisse a este monstro pintado de vermelho com respeito e orgulho nacional. Não se ligava o facto a que os corajosos bombeiros tivessem salvo qualquer coisa no valor de milhões com a sua bravura - por exemplo um palácio medieval ou um museu de pintura valioso - ou apagado um incêndio numa extensão de quilómetros que teria destruído uma parte da natureza... Não, os bombeiros de Mas d’Agon ainda não tinham vivido um acontecimento desse género.

 

Para além da sua presença em alguns incêndios locais

 

- o maior fora o do estábulo da herdade de Raimond Lacoste, que não se conseguira extinguir, pois, precisamente nesse dia, a velha bomba de água falhara e a mangueira não tivera pressão suficiente para apagar o fogo, o que custara a Lacoste uma cabra cega esquecida no estábulo - e pequenos fogos, o carro de incêndio estava sempre guardado na garagem. Era cuidadosamente limpo e polido, e nas ocasiões festivas - no dia 1 de Maio, para a procissão do Corpo de Deus, e no feriado nacional

 

- conduziam-no como um carro triunfal até aos locais mais importantes.

 

Contudo, o carro tinha sido construído em 1935 e ainda cumpria o seu dever: sem um pingo de ferrugem nem de pó, e a funcionar como hoje se não encontra já. Havia, por exemplo, a buzina! De latão maciço e com um som que afastava todas as coisas que lhe surgiam na frente. A escada de mão já era admirada em 1935, ano em que fora construída, e desde então nada tinha perdido dos seus atractivos. Até esse dia, para todos os habitantes em redor de Mas d’Agon, continuava a ser um enigma o facto do Governo ter tido a ideia de colocar um tal exemplar na solidão do lago de Vaccarès.

 

No entanto, havia uma explicação.

 

O carro dos bombeiros de Mas d’Agon tornou-se famoso em 17 de Abril de 1965. Estava à porta a reeleição de Charles de Gaulle para presidente da República, e por esse motivo aproximou-se, vindo de Aries, um grupo de comunistas em dois camiões abertos, agitando bandeiras vermelhas, apelando à agitação e soltando gritos revolucionários.

 

O sargento Andratte, pálido de emoção, já tinha receibido um aviso telefónico de Aries: os comunistas faziam-se acompanhar de um grande boneco, cuja cabeça era uma imitação da de De Gaulle e a quem haviam vestido um uniforme de general. Pretendiam queimar o boneco na margem do lago! A rádio e a televisão já se encontravam nas proximidades, a fim de transmitirem o espectáculo para o mundo inteiro.

 

Era grande a indignação que reinava em Más d’Agon, cujos habitantes respeitavam De Gaulle.

 

A sirene de incêndio começou a soar, e o carro dos bombeiros saiu com o reservatório cheio de água. Tal como se se tratasse de um grande incêndio, puseram-se capacetes, os homens muniram-se de machados e, controlando a bomba por precaução, ficaram à espera da invasão comunista no cruzamento da estrada de acesso a Mas d’Agon.

 

O sargento Andratte, na qualidade de impositor da ordem neutro, entrou em contacto com Aries e informou que estava doente com uma forte inflamação nos brônquios ... Já era demasiado tarde para convocar outros polícias para o local da catástrofe.

 

O que se passou em seguida consolidou o orgulho dos habitantes de Mas d’Agon para séculos vindouros: os dois camiões abertos dos comunistas surgiram no cruzamento; desciam a estrada que vinha de Villeneuve e já tinham sido avisados, pois haviam sido atingidos com esterco de cavalo. Não previam, contudo, nada de mal ao avistarem o carro dos bombeiros e as mangueiras desenroladas. Os carros da rádio e da televisão também avançavam na direcção do cruzamento.

 

Os homens da Camargue são pessoas de poucas palavras. Jerôme Dulalier, o comandante do carro dos bombeiros, limitou-se a dizer: ”Ligar a água”, e carregou na alavanca da bomba. Dois homens seguraram fortemente a mangueira e fizeram pontaria.

 

É característico da objectividade da rádio e da televisão o facto desta hora gloriosa de Mas d’Agon jamais ter sido divulgada nem publicada na imprensa ou de qualquer modo transmitida ao resto do mundo. Sabe-se apenas que o boneco representativo de De Gaulle não foi queimado, que os camiões abertos deram meia volta com os manifestantes ensopados até aos ossos e que uma valiosa câmara de televisão se partiu, sem que um só protesto fosse proferido.

 

Uma hora mais tarde, o sargento Andratte, milagrosamente recuperado da doença, pôde informar para Aries: ”Manifestantes dispersos e de volta. A situação encontra-se normalizada”.

 

Andratte, por estranho que pareça, não recebeu qualquer elogiu por esta acção, mas o grito dos bombeiros de Mas d’Agon desde esse dia do ano de 1965 que se comparou à coroa de glória de Napoleão... com um chiar semelhante a um grito, o carro vermelho parou nas proximidades do moinho. André Dulallier, o filho do heróico Jerôme Dulallier de 1965, que agora ocupava o posto de comandante, numa obediência à tradição, saltou do banco ao lado do condutor. Os restantes quatro homens saltaram igualmente do carro, como se se preparassem para apagar um incêndio. Tudo se passou de uma forma realmente imponente, fazendo com que os corações batessem com mais força no peito.

 

Entretanto, o cavaleiro fizera o cavalo dar meia volta e avançava nesse momento ao encontro dos homens. O cavalo branco resfolegou e avançou a trote calmamente. O barulho não o perturbou.

 

Emile Andratte desembaraçou-se do francalete e do boné. Os bombeiros retiraram redes e varas enormes do carro de incêndios. Dulallier retirou um barco pneumático vermelho e novo de um caixote.

 

Andratte aproximou-se do cavaleiro e cumprimentou-o em posição de sentido.

 

- bom dia, senhor marquês - saudou, com nítido, respeito na voz. - Já ouviu falar do terrível incidente?

 

- Já. Há bocado. Pelo Dupécheur.

 

- Um fala-barato, esse Francois.

 

- Sou uma pessoa a quem se pode contar essas coisas, sargento. - O marquês Raoul de Formentière (era esse o nome completo do cavaleiro) desmontou e aproximou-se do lago. - Percorri a margem a cavalo. Só de pensar como a infeliz avançou pelo lago... passo a passo... sentindo que a água ia subindo, até lhe chegar à boca... e depois o último e derradeiro passo... Horrível!

 

- Ela tinha um barco, marquês.

 

- O quê? Um barco? Já se sabe isso?

 

- Foram os alemães que estão aqui em férias que forneceram a informação.

 

- É verdade! - exclamou Raoul de Formentière, ao mesmo tempo   que dava uma palmada na testa.   O moinho está alugado. Mas não há lá ninguém. A porta está fechada.

 

- Os estrangeiros foram recuperar do susto para algum lado.

 

Andratte tirou o relógio do casaco do uniforme e viu as horas.

 

O carro dos bombeiros de Mas d’Agon avançou com o barco pneumático, as redes e as varas até à margem do lago.

 

- Estão à espera de mais bombeiros, sargento? perguntou o marquês.

 

- Não! Vamos tratar sozinhos deste caso! No entanto, virá um comissário da Polícia de Aries. Na verdade, acho inútil, mas o doutor Bombette insistiu em que assim fosse. Conhece o doutor Bombette, senhor marquês? Fez tanto barulho que tivemos de ceder. Quer passar a certidão de óbito. Julga ser o seu primeiro caso por afogamento. - Andratte voltou a pôr-se em sentido. – Vamos dar início à busca, senhor marquês. Tenho de entrar no barco. Quer ficar aqui?

 

- Talvez possa ajudar, não? Terei o maior prazer em vos colocar à disposição o meu barco a motor e o meu motorista. Por acaso, ele também sabe mergulhar! O marquês contemplou as águas. - Se a jovem se afogou ao largo, agora poucas hipóteses têm de encontrá-la. Onde quer fazer a busca? Só passado um certo tempo é que os afogados sobem à tona de água, devido aos gases que se acumulam no corpo...

 

Andratte mudou de cor, ficou pálido, e a sua maçã de Adão tornou-se mais vincada.

 

- Veremos, senhor marquês - replicou, num tom acalorado. - Seria bom se pudesse ceder-nos o seu motorista.

 

Entretanto Dulallier, o comandante, já tinha pegado nos remos. Ajudou Andratte a subir para o pneumático e depois afastou-se da margem.

 

Raoul de Formentière esperou uns minutos mais, após o que montou novamente no cavalo e olhou para cima na direcção do moinho. Suspeitava de que Lulu observara a cena através de uma fresta da janela no cimo do moinho.

 

”Daqui a dez dias estará tudo acabado”, pensou. ”Tem de estar, porque nessa altura virão descarregar aqui. E o Moulin Saint Jacques terá de se encontrar mergulhado na permanente solidão de há séculos. A ideia de uma bela rapariga desaparecida nas águas é um entrave.”

 

Como se chamava o alemão? Ah, sim. Ludwig Zipka. E, na opinião de Lulu, devia ser um indivíduo que não recuava perante nada.

 

”É o que veremos”, pensava o marquês de Formentière. ”Encarregar-me-ei pessoalmente de si, monsieur Zipka. Não esquecerá facilmente a Camargue...”

 

Colocou o cavalo em trote ligeiro, avançando pela margem lodosa, acenou a Dulallier e a Andratte, que seguiam no barco pneumático, observou os restantes bombeiros, que rebuscavam metro a metro o fundo do lago servindo-se das varas, após o que esporeou o cavalo e se afastou a galope.

 

Oferecia uma bela imagem. Todos na região conheciam o marquês Raoul de Formentière, um homem muito rico e que se dava ao luxo de ir a pé da sua propriedade até Mas d’Agon, para na loja de Dupécheur beber um Pernod ou uma garrafa de Pinot e ali partir e comer pão como um simples trabalhador na terra. Tudo isto formava um flagrante contraste com um indivíduo que fizera fortuna com as salinas e se deslocava de Citroen para ir duas casas mais abaixo buscar um maço de Gauloises à venda do Mauriac. De Formentière era, pelo contrário, um fidalgo genuíno, de casta. Mas d’Agon sentia-se orgulhosa do «seu marquês”, se bem que ele apenas vivesse na região há cinco anos e ninguém soubesse de onde vinha, porque vivia precisamente ali com miríades de caprichos e porque rodeara o seu pedaço de terra de uma rede electrificada, onde estavam penduradas tabuletas com imagens de caveiras.

 

Corria o boato de que o marquês tinha uma série de Picassos verdadeiros em casa. Capaz disso era ele. E o prefeito de Aries era uma visita frequente da sua propriedade resguardada, onde até esse momento nenhum dos habitantes de Mas d’Agon pusera pé. À excepção do Doutor Bombette, mas esse resguardava-se atrás do seu segredo profissional de médico e observava meramente: ”Fantástico! Simplesmente fantástico! Uma coisa grandiosa.”

 

Tudo isto punha a imaginação a funcionar e provocava um sentimento de orgulho. Ninguém se atrevia a olhar de soslaio o marquês Raoul de Formentière.

 

A água do lago chamado Imperial tinha a temperatura exacta para refrescar depois de uma tão grande manifestação de amor. Ludwig Zipka afirmou que o calor do seu corpo a fazia evaporar.

 

- Vê só! - gritou alegremente, ao mesmo tempo que dançava na água que lhe chegava aos quadris. - Estou rodeado por uma nuvem! Não posso avançar mais, senão evapora-se a água do lago.

 

Kathinka mantinha-se acocorada na margem do lago, nua como Zipka, e soltou uma gargalhada ante a exuberância alegre daquele homem. No entanto, inundavam-na ao mesmo tempo pensamentos muito graves.

 

Havia uma interrogação premente: ”É este, finalmente, o homem indicado para levar uma vida inteira ao teu lado?” De facto, não é uma pergunta a fazer quando se ama. O amor não deve conhecer dúvidas... Nessa situação, apenas há que pensar que se pertence um ao outro eternamente.

 

Contudo, Kathinka Braun nem nos momentos de felicidade perdia o sentido da realidade, e essa sua maneira de ser contribuíra certamente para afastar os seus homens após um período bastante reduzido. Eles sentiam que Kathinka metia o seu amor - será que alguma vez existira um verdadeiro amor? -num saco de lógica e o sufocava.

 

No caso de Ludwig Zipka, a situação assumia um rumo diverso. Kathinka estava disposta a não pensar em mais nada para além daquele sentimento: ”Amo-o...” E agora, no momento em que a razão tentava mais uma vez fazer-se ouvir, lutava contra ela. Kathinka enfrentava pela primeira vez a sua lógica.

 

”Estás doida”, sussurrava-lhe esta salobra lógica. ”Há quanto tempo o conheces? Há uns dias apenas! E o que é ele? Um desenhador de moscas para pesca à linha! Não podia ser uma coisa mais louca! És uma arquitecta vedeta, dona de um milhão. O teu nome tem fama no círculo da profissão. E queres precisamente prender-te a um Ludwig Zipka que inventa moscas de asas brilhantes? O que é que te aconteceu, Kathinka? Sê sensata. Volta à realidade e encara isto como todas as outras aventuras de férias. Daqui a seis semanas tudo estará acabado. Um aperto de mão, um sorriso, um último olhar e ponto final. Ao fim de seis semanas já têm que baste um do outro: sabes que o estômago dele dá sinal durante a noite e ele sabe que tu pões creme de noite para conservares a pele jovem e sem rugas. Daqui a seis semanas estás tão desiludida como um alcoólico privado da bebida e que sente a nuca arrepiada só de cheirar aguardente. É o que se irá passar em relação a Ludwig Zipka... Daqui a seis semanas ficarás histérica só de ouvires falar dele de longe! Aceita-o agora como ele é, Kathinka, entrega-te ao prazer de amar, mas nunca penses: fica ao meu lado!” ”O que percebes tu disso?”, contrapunha o sentimento à razão. ”Nunca conseguirás entender que se anseia por ficar presa entre dois braços fortes e deitar para trás todo esse mundo barulhento e horrível. Não se quer pensar em nada, ouvir nada, nem compreender nada... Apenas se pretende sentir e ser feliz. Apenas se quer ser, como um nervo que se estende da ponta dos pés à ponta dos cabelos e que se acaricia até que todo o corpo explode num calor indescritivelmente agradável! Apenas se deseja escutar o bater do seu coração, a respiração dele, quer-se somente sentir a electricidade dos dedos que nos acariciam, a tensão dos músculos, o peso do seu corpo no nosso... Desejaríamos meter-nos dentro dele numa fusão eterna... Deixa de se querer ser uma só pessoa. Quer-se viver através dele, com ele, nele, uma respiração única... Nunca entenderás isto. Amo-o... Por isso, afasto tudo o mais!”

 

Soltou uma gargalhada no momento em que Zipka fez o pino dentro de água, de maneira a que apenas ficaram fora de água as pernas e o traseiro nus. E riu novamente quando ele regressou a correr ao seu encontro, a deitou sobre a relva e lhe molhou o corpo que, entretanto, secara.

 

- Com os diabos! Não tens que ver! - exclamou um homem oculto por detrás de uma pequena duna e agarrando firmemente o binóculo quando o companheiro lho quis tirar da mão. - Não é coisa para ti! Tira a mão! Falta-te calo para ficares calmo com estas cenas!

 

Acomodou-se mais no esconderijo e, em seguida, sentou-se. Diante deles, numa descida, estava o velho e amachucado VW. O outro homem deixou-se escorregar e mostrou-se muito ofendido.

 

- És um tipo de merda! - insultou. - Como pude ser tão parvo e aceitar a tua estupidez? Como estão a correr as coisas, agora? Estamos no meio da França, numa região cheia de mosquitos, suamos no meio da relva, assistimos a uma cena sexual em que não podemos participar, temos de dormir no automóvel e continuas a dizer: ”Espera! A coisa vai correr bem! Vamos receber um milhão!” A coisa foi toda por água abaixo. Porque não os apanhámos na Alemanha?

 

- Onde, meu parvo? - O mais velho dos dois homens acendeu um cigarro. O outro estendeu a mão e tirou também um do maço. - Na auto-estrada? De noite já estavam em França, e por isso tive de raciocinar de outra maneira.

 

- Só ouço falar em pensar - troçou o mais novo.

 

- Ninguém sabia que ela viria acompanhada de um tipo. Embora não passe de um piolho, a verdade é que incomoda. O nosso aviso não o assustou; por conseguinte, antes do mais temos de nos encarregar dele! Depois apanhamos a mulher, e tudo vai correr como planeado! Nada pode ir por água abaixo, depois de eliminado o tipo. Tenho tudo teoricamente pensado, homem! O caso é praticamente à prova de água!

 

- Essa coisa do helicóptero é como nos filmes!

 

- Perfeitamente normal. Hoje em dia podem-se alugar helicópteros em qualquer lado e observar o mundo por cima. Se os terroristas procurados o fazem nas barbas da polícia, porque havíamos nós de fracassar, homem?

- Fumava apressadamente, soprando o fumo com força, e escavava o chão com a biqueira do sapato. - O moinho é o sítio exacto, na medida em que ninguém lá chega facilmente. Foram eles próprios a escolher o lugar da armadilha...

 

- E o que fazemos em relação a Lulu? - perguntou Kathinka.

 

Estava deitada de braços abertos no canavial, e Zipka mantinha-se acocorado, aos seus pés, com metade do corpo nas águas. Voltara a afirmar que conseguia sentir como o lago secava debaixo dele.

 

Este pedacinho de prado assemelhava-se a uma ilha no canavial.

 

- Como podes falar neste momento da Lulu? - retorquiu Zipka com um suspiro. - Preferia contar-te como vivo em Munique. Tudo o que sabes a meu respeito é na realidade falso.

 

- Foi o que suspeitei desde o primeiro instante. Como é possível que se seja desenhador de moscas para pesca à linha?

 

- É a única coisa verdadeira!

 

- Essa não! Tu não és um problema, mas a Lulu sim! Não podemos conservá-la connosco, Wig.

 

- Claro que não.

 

- Tem, por conseguinte, de aparecer novamente ao olhar público. - Kathinka levantou a cabeça e fitou Zipka. Ele deitara-se de barriga para baixo e brincava com os dedos dos pés dela. - Levamo-la para Aries?

 

- E abandonamo-la como a uma cadela? Não podemos fazer uma coisa dessas, Tinka.

 

- Podemos confiá-la aos cuidados de um médico.

 

- Metem-na num hospital.

 

Chegou-se mais a ela, beijou-lhe a canela, o joelho e o interior da coxa. Ela uniu as pernas e enterrou-lhe as mãos nos cabelos.

 

- Deixa-te disso - murmurou ela. - Não comeces novamente! Não te reveles como um milagre da medicina. Já sei que és o mais viril de todos os homens... satisfeito?

 

- A Lulu tem de pertencer a qualquer sítio. - Zipka retomou o tema e escondeu a cara no regaço de Kathinka. Era uma cama quente e macia. - Ponhamos de lado a idiotice de que quer ser natural de Oberpfaffenhofen, na Córsega... Algures, neste mundo, deve haver alguém que deu pelo seu desaparecimento. Uma rapariga como ela tem parentes, conhecidos, amigos, e na minha opinião amantes também. Os últimos com toda a certeza, pois não me parece ingénua. Temos de encontrar simplesmente uma destas pessoas. Nessa altura ficamos também a saber quem ela é.

 

- E como queres pôr essa ideia em prática?

 

- Vou publicar o retrato dela no jornal. E por baixo a legenda: ”Quem me conhecer, que me escreva!” Fantástico, não? Uma ideia maravilhosa! Uma coisa das que só podem sair da cabeça do genial Ludwig Zipka.

 

- Realmente! Ontem, só isso seria motivo para te dar um pontapé nas canelas...

 

- E hoje? - perguntou ele, erguendo a cabeça. Ela agarrou-o e voltou a pô-lo na mesma posição.

 

- Deixa-te estar assim, monstro!

 

- Veremos quem responde.

 

- De Oberpfaffenhofen.

 

- Isso seria bom de mais. Contudo, tenho a certeza de que haverá reacções. Poucas pessoas estão inteiramente sós. Apenas julgam que assim é e que os outros não se dão ao trabalho de se preocuparem com a vida deles. E é o que faremos com a Lulu.

 

- Daqui, do Moulin Saint Jacques?

 

- Porque não? Vou fotografá-la e mandar os retratos para vários jornais alemães e franceses; depois é só esperar.

 

- Ficarás surpreendido com as cartas. - Kathinka soltou uma ligeira risada. - Todos irão pensar: ”Ah! Aqui está uma nova rede de call-girls!” Com esse método só irás provocar sujeiras. Sei o que isso é!

 

- Estás a pensar no teu anúncio. ”Senhora com carro próprio...”

 

Ela esboçou um aceno de concordância e acariciou-lhe o rosto.

 

- Senti-me como se estivessem a despir-me... Mas não quero pensar mais nisso.

 

Zipka estendeu a cabeça e beijou os seios de Kathinka.

 

- Púnhamos então de lado os indivíduos potentes que irão responder. Fica, no entanto, alguém que a conhece de nome e também em pessoa! E conseguimos o que queremos. Também é possível uma terapia dirigida. Pode-se-lhe rebuscar o passado na memória até que se recorde de tudo.

 

- Por outras palavras: continuamos com a bela Lulu por muito tempo às costas...

 

- Não o expressaria de uma forma tão dura, Tinka. Essa rapariga precisa de nós neste momento! Se nós não nos preocuparmos, ela acabará por desaparecer no anonimato de qualquer clínica. - Ergueu o braço e atraiu Kathinka a si. Prometo-te, minha querida, que Vou começar imediatamente com as investigações.

 

Kathinka suspirou, beijou-lhe os olhos e beliscou-lhe a barriga.

 

- Não se te pode recusar nada - murmurou. - E agora tira daí a mão, sê corajoso, veste-te e pensa que temos de regressar.

 

Só regressaram ao pôr-do-Sol.

 

Zipka tinha-se empenhado a fundo para pôr o automóvel a trabalhar. Não se tratava só de um problema das velas, como suspeitara, mas também do distribuidor. Ele mexeu nos fios condutores, utilizou fita isoladora e uma pequena escova, limpou, raspou, fez ligações e experimentou até conseguir pôr o motor a funcionar novamente para poderem iniciar a viagem de regresso.

 

- És um artista! - exclamou Kathinka, ao mesmo tempo que beijava Zipka alegremente. - O que é que estava estragado?

 

- Não faço a mínima ideia. Confiei na sorte e limpei o que podia. Mete-te depressa no automóvel, antes que esta coisa pare novamente.

 

A viagem até ao moinho processou-se por etapas. O automóvel parou nove vezes, e foram nove as vezes que Zipka limpou as velas e declarou que estavam completamente enferrujadas.

 

- O teu superautomóvel... - queixou-se na quinta etapa. - A entrada de gasolina não se faz como deve ser... ou é a refrigeração que não funciona... que sei eu? Não faço a menor ideia! De qualquer maneira, o problema é das velas. Avançamos aos solavancos. Mas também é assim, afinal, que vimos ao mundo...

 

À distância, verificaram que tudo em redor do moinho estava iluminado. Os faróis de um carro de bombeiros estavam acesos, três outros projectores iluminavam a margem do lago, sobre a água flutuavam três barcos, onde se sentavam homens que iluminavam a superfície das águas, e em frente do moinho estavam estacionados alguns carros, como se pretendessem formar um cerco.

 

- Valha-me   Deus!   -   exclamou   Zipka,   abrindo muito os olhos.

 

Era ele agora quem conduzia o automóvel de Kathinka, e garantira-lhe que lhe devia desculpas. O pequeno foguetão manobrava-se facilmente e caía-se na tentação de carregar no acelerador a fundo. Além disso, descobriu que atrás do volante se ia muito mais confortavelmente do que no banco ao lado do condutor.

 

- O Andratte está no caminho errado. Que sorte...

 

- Como assim?

 

- Refiro-me à Lulu. Não deve estar tão louca que apareça à janela lá de cima e grite: ”U-U! Estou aqui!”

 

- E o que fazemos agora? - perguntou Kathinka, bastante perturbada.

 

- Aparecemos e lançamo-los noutras pistas!   Tem confiança nas ideias de Zipka, meu tesouro.

 

A confiança por si só não basta, quando as circunstâncias exteriores são contra. Foi o que Zipka suspeitou ao chegarem ao moinho. O terreiro em frente assemelhava-se a uma praça de mercado. Dupécheur levara um atrelado e tinha montado uma espécie de buffet, a que não faltava vinho tinto; estava sentado numa cadeira de dobrar, junto ao seu bar ao ar livre, e gesticulava com os dois braços. Gritou imediatamente ao avistar Zipka:

 

- Monsieur! Oh, pardon, madame... Chegaram finalmente! Um copo de Pinot? Acompanhado de queijo fresco de cabra? Ele chegou finalmente, messieurs] Estão a ver, ali em cima, aquele senhor careca? É o comissário Flacon, de Aries. Já conhecem o doutor Bombette. E, lá atrás, o Alain vem a sair da água neste momento. Isso mesmo. O homem-rã. É o motorista do marquês de Forimentière. Um indivíduo com garra. Já retirou montes de icoisas do lago: uma bicicleta enferrujada, uma nassa esquecida e uma boneca enorme. Quando surgiu de dentro de água com ela, todos gritámos: ”Ah!”, e pensámos que ele a descobrira. Não é servida de um Pinot, madame? Cheire só... Que tal? E o queijo de cabra está mesmo fresco! Mas d’Agon em peso não tardará a estar aqui para Hparticipar no grande dia.

 

Zipka e Kathinka recusaram delicadamente a oferta e cumprimentaram o Doutor Bombette. Estava acocorado no estribo do velho carro de incêndios e mastigava um bocado de queijo; equilibrava o copo de vinho no joelho esquerdo.

 

- Já vamos adiantados - exclamou com os olhos brilhantes. - Descobriram o barco. Estava enterrado a quatro metros de profundidade. No próximo mergulho, o Alain vai tirá-lo da água.

 

- A quem? - perguntou Zipka, surpreendido.

 

- À nossa pobre louca! - O Doutor Bombette esvaziou o resto do copo e pousou-o em cima de uma mangueira enrolada. - Neste sítio, quase não há corrente. Não pode ter-se afastado muito. Que coisa horrível!

 

- Concordo - retorquiu Zipka. - Morrer daquela maneira...

 

- Não me refiro à morta, mas a toda a confusão que aqui reina. As pessoas fazem do acontecimento uma festa popular!   Estão a ver o Dupécheur? Uma vergonha. ”Comes e bebes”, como se se tratasse de um feriado nacional! Só faltam as bandeiras. Ou então reparem no Andratte: até aqui já se deixou fotografar doze vezes para a imprensa! Doze vezes! Junto ao homem-rã Alain, de braço dado com ele e numa delas até com a água pelo joelho, em seguida junto ao comissário Flacon, que também participa nesta idiotice, quatro vezes com a vara de buscas metida na água, duas vezes dentro do barco pneumático ao lado de Dulallier, agitando um archote e com um pseudo cão-polícia! Andratte irá transformar-se no polícia mais famoso da França. Mas ainda está para chegar a minha hora. Quando a tirarem da água e eu me aproximar, curvo-me sobre ela e digo para as câmaras apontadas na minha direcção: ”Ela está morta. Afogada”. Isso irá superar tudo o mais. - O corpo do Doutor Bombette ficou de súbito tenso. - Ah! Agora o Alain vai mergulhar novamente. Monsieur, madame... daqui a poucos minutos termina o drama...

 

Contudo, o repórter fotográfico não demorou a entrar novamente em acção.

 

Era o único fotógrafo que o sargento Andratte chamara de Aries. O homem devia esta exclusividade noticiosa ao acaso de viver com uma rapariga que era filha da irmã de Andratte e, por conseguinte, sobrinha do sargento.

 

Assim, o fotógrafo deu grande relevo ao tio e garantiu-lhe uma reportagem que poria o seu nome em todas as bocas.

 

O mergulhador Alain fez uma pose junto ao barco antes de subir e se afastar pelo lago. O flash da máquina disparou algumas vezes, e o comissário Flacon passou as suas mãos pela careca. Na sua companhia encontravam-se três indivíduos, que haviam trazido um estreito caixão em zinco. Todos eles fumavam.

 

A atmosfera apresentava-se carregada de dramatismo. Zipka estremeceu involuntariamente ao escutar um soluço nas suas costas.

 

Era madame Florence Dupécheur, que deixara de poder esconder o seu nervosismo por mais tempo. Embora não deixasse de preparar pãezinhos com queijo de cabra, chorava desabaladamente.

 

O Doutor Bombette saltou do estribo do carro de incêndios e agarrou na sua maleta de médico.

 

- Vem também, monsieur l - perguntou a Ludwig Zipka.

 

Kathinka, que até esse momento se mantivera em silêncio, puxou Zipka de lado.

 

- Não achas que devemos ir para casa? - perguntou num tom de voz preocupado.

 

- Porquê?

 

- Penso que... tu sabes...

 

- Não há motivo para preocupações! - riu maliciosamente. - O que me interessa não está em casa. Só quero saber quem levou o barco apodrecido para o lago e, em seguida, o afundou?

 

- Talvez o vento...

 

- Impossível. O barco estava de tal maneira preso no canavial que não poderia soltar-se sem ajuda de estranhos. Disso percebo eu como pescador, tesouro. Alguém deve ter arrastado o barco dali. E a Lulu não foi.

 

- Estás a querer implicar que... - Kathinka abriu muito os olhos. - Isso significaria que...

 

- Nada de suposições por enquanto, peço-te. Seja como for, tenciono observar o barco quando o trouxerem para terra.

 

- O Alain está mesmo em cima do local! - exclamou ao lado deles o Doutor Bombette, num tom excitado. Essa maldita gente dos jornais! Só o Alain e o Andratte é que estão a ser fotografados. Tenho de ir até lá. Pardon, madame...

 

Meteu a maleta de médico debaixo do braço e desceu até junto da margem.

 

O repórter continuava a fotografar e, a fim de obter uma melhor luminosidade, fez incidir dois projectores sobre o mergulhador. Uma fotografia imponente, até mesmo com um ligeiro toque artístico.

 

Nesse momento, o comissário Flacon estava a cumprimentar o médico - embora já se encontrassem juntos há horas - e fornecia as devidas informações ao jornalista.

 

As próximas três fotos incluíam o grupo da criminologia. O Doutor Bombette assumiu pose junto do estreito caixão, trazido pela polícia, com a maleta de médico na mão direita, e no rosto uma expressão de tristeza contida e um ar daquela superioridade de que nada abala os médicos.

 

Um tanto à parte, e até esse momento sem ter sido fotografado, estava um indivíduo alto, elegante e magro, que conversava com o sargento Andratte. Vestia umas simples jeans azuis e umas botas de cano alto, como é hábito dos pescadores junto às torrentes onde há salmão. As botas eram prolongadas com uma protecção e um peitilho de borracha, uma vestimenta impermeável se se caísse à água. Na cabeça, o homem usava um barrete amarrotado e já sem cor.

 

Zipka avaliou-o com o olhar e, do ponto de vista do pescador, achou-o simpático. Um homem vestido daquela forma tão adequada às suas funções só podia despertar amistosidade. Os pescadores constituem uma espécie de família. Era visível que o indivíduo se dispunha a passar a vau a fim de poder tornar-se útil na recolha do cadáver.

 

Zipka colocou o braço à volta da cintura de Kathinka, e avançaram.

 

Alain avançou na água até à altura da cabeça. À luz dos projectores, assemelhava-se a um gigantesco peixe negro, o que naturalmente também foi fotografado.

 

O terreiro diante do moinho foi-se enchendo lentamente, e aconteceu o que Dupécheur tinha previsto: Mas d’Agon em peso viera a pé, de motorizada, de bicicleta ou mesmo a cavalo. O buffet de Francois ficou rodeado de pessoas que bebiam Pinot e discutiam a tragédia que tão repentinamente se abatera sobre o lago.

 

Em último lugar surgiu, acompanhado de um acólito, o pároco da região, o venerável e gordo reverendo que há anos sofrera um enfarte, chamava-se Valerie Ortège e achava que o milagre do prolongamento da sua vida se devia unicamente a um vinho local, que recebia da Provence. Um vinho muito leve que lhe rejuvenecia o coração.

 

O reverendo Ortège avançou até à margem, servindo-se das suas pernas curtas e gordas, cumprimentou o comissário Flacon, apertou a mão ao Doutor Bombette - o tempo suficiente para permitir que também uma fotografia fosse tirada - e passou em seguida a mão pela barriga saliente.

 

O sargento Andratte olhou em volta: o que era possível fazer tinha sido feito! Bombeiros, homem-rã, brigada de crime, médico e reverendo. Um tal talento de organização iria ser louvado até mesmo em Aries.

 

O indivíduo de botas de borracha e barrete de pescador descobriu a cabeça ao aperceber-se da aproximação de Zipka e Kathinka. O sargento Andratte abriu os braços como se fosse uma mãe ao encontro da qual os filhos acorressem.

- Chegaram finalmente, madame e monsieur! – exclamou com voz de trovão. - Vêm no momento exacto. Estamos prestes a recuperar o cadáver!

 

- Zipka - apresentou-se este, esboçando um cumprimento de cabeça. - Louis Zipka. Esta é a minha mulher Catherine...

 

O elegante indivíduo levou a mão de Kathinka até uns milímetros dos lábios, reteve-a um momento e respondeu de acordo com a elegância inimitável de um cavalheiro francês:

 

- Encantado, MAdame! Um   acontecimento   triste este... A sua presença traz um pouco de sol a esta hora trágica... De Formentière. Raoul de Formentière.

 

- Marquês de Formentière - acrescentou Andratte, num tom orgulhoso.

 

Era bom que os alemães soubessem em que região dotada estavam a passar férias. Aqui até morava um marquês...

 

Após este cumprimento, Zipka reconsiderou intimamente a avaliação que fizera. ”Um idiota presunçoso”, pensou. ”Frases caras e bem sonantes! Um autêntico showl”

 

Contudo, Kathinka aparentemente gostou. Dirigiu ao marquês um sorriso capaz de derreter qualquer homem. Raoul captou o sorriso e conservou a mão de Kathinka na sua.

 

- Ouvi dizer que alugou o moinho - disse, esboçando um aceno de cabeça a Zipka para lhe dar a entender a pouca importância que lhe atribuía. - Para tal é necessário uma enorme coragem.

 

- Apenas um pouco de fantasia! - observou Zipka.

 

- Por favor! - No entanto, Raoul largou finalmente a mão de Kathinka, mas levou a outra mão ao coração num gesto dramático. - Todos os que aqui habitam sabem que o Moulin Jacques é assombrado. Há gerações que as pessoas passam ao largo. As próprias entidades de protecção dos monumentos perderam o interesse e deixaram o moinho entregue ao acaso, depois de lá terem passado duas noites. Escutam-se claramente gemidos através das frestas...

 

- Isso é verdade! - concordou Zipka, com um sorriso de um canto ao outro da boca. - Também vivemos essa experiência. É muito simplesmente o vento que se infiltra por elas.

 

- E a cabeça que rola pelo quarto?

 

- Ainda não nos saiu na rifa. Em vez disso, apareceu-nos uma jovem com um desdobramento de personalidade.

 

- Vejam só! - exclamou Raoul de Formentière, olhando para Kathinka com verdadeira preocupação. Então continua. Só que os métodos se tornaram mais modernos.

 

- Sim. É de facto espantoso como os espíritos se adaptam às circunstâncias.

 

Ludwig Zipka pôs o braço em redor da cintura de Kathinka. ”Um momento, senhor marquês!”, pretendia ser aquele o significado das palavras. ”Sou eu o dono desta mulher maravilhosa! Pode abrir mão dos seus encantos... eu, porém, encontro-me sempre pelo meio e encarrego-me de impedir a corte!”

 

- O problema reside apenas em que não temos medo, marquês. Se a cabeça rolar pelo quarto, apenas considerarei o facto como uma incitação a que jogue futebol.

 

- Deveria poupar a madame a esse tipo de emoções! O marquês virou o olhar na direcção do lago, de onde

 

Alain, o seu motorista, acabava de surgir nesse preciso instante, acenando com a mão direita. ”Nada”, era o significado do gesto. Em seguida, mergulhou novamente. O reverendo Ortège dava a sensação de estar dedicado a uma prece, na medida em que o comissário Flacon, os três companheiros e o Doutor Bombette apresentavam expressões dominicais. Diante do moinho reinava agora uma enorme algazarra; o vinho começava a produzir os primeiros efeitos e Dupécheur encetou um segundo tonel.

 

- A madame é realmente corajosa - observou Zipka, num tom malicioso. - Agrada-nos o moinho. A quem é que pertence?

 

- Porquê?

 

- Quando nos tivermos habituado, talvez pensemos’ em comprá-lo.

 

- O moinho pertence ao Estado - explicou Andratte, com um ar importante. - A administração é da conta da Câmara de Mas d’Agon. É o casal Dupécheur quem trata dele. Comprar o moinho? Impossível!

 

- Também já fiz a tentativa. Totalmente impossível

- retorquiu Raoul de Formentière. -Houve uma altura em que pensei mesmo fazer um hotel do moinho. Não: obterá êxito, monsieur. ’-,

 

O homem-rã surgiu novamente à tona de água, agitou a mão desesperado e mergulhou uma vez mais. Um outro projector entrou em funcionamento e iluminou a zona de busca com uma luz intensa.

 

- Segundo parece, há dificuldades - comentou Zipka, hipocritamente. - Talvez a infeliz tenha ficado presa algures. Existem por aqui amontoados de algas?

 

O marquês deixou passar em branco a sarcástica interrogação. Olhou para Kathinka, que lhe devolveu o olhar e foi ao ponto de afastar o braço de Zipka, o que o magoou. ”Isto começa bem”, pensou, amargurado. ”Ainda há algumas horas éramos donos do céu e do infinito... E agora vem este presunçoso murmurar banalidades sobre a região e que Kathinka engole tão facilmente como se fossem bombons! Até o próprio fato de borracha! Vestido por ele assemelha-se a uma máscara, um disfarce carnavalesco... mais ridículo não pode ser! Uma figura cómica que só serviria para provocar o riso nos verdadeiros pescadores. Aposto mesmo que nem sabe como se apanham carpas... Se ao menos não revirasse os olhos dessa maneira idiota, respeitável senhor!”

 

- Proponho - dizia agora Raoul de Formentière que abandonemos este local à sua tristeza. Seria para mim uma grande honra se a madame... e naturalmente também o monsieur... fossem meus convidados. Daqui ao meu tecto não são mais do que dez minutos. Presumo que a madame deve estar muito perturbada com este trágico episódio. Seriam necessários nervos de aço para quererem passar agora a noite no moinho. Principalmente... esta noite! A minha casa está à disposição, madame! Considere-a como se fosse sua!

 

Zipka mordeu ligeiramente o lábio inferior.

 

- Isso está absolutamente fora de questão! - replicou num tom firme.

 

- Como assim, tesouro? - inquiriu Kathinka, fitando-o surpreendida.

 

- Como assim? - ecoou Zipka, irritado. - Não podemos abandonar o moinho! Ou será que podemos?

 

O marquês observava com dissimulada alegria os esforços de Zipka para recordar a Kathinka a jovem Lulu. Kathinka apercebeu-se imediatamente do pretendido, mas encarou o problema de um lado prático: se aceitassem a oferta do marquês e fossem seus convidados, Lulu, entregue a si própria, poderia a curto ou a longo prazo encontrar uma nova rota de futuro. Da mesma forma que tinha surgido do nada, assim voltaria a desaparecer. Não era um pensamento muito humano, mas na sua perspectiva constituía uma solução sem dramatismo.

 

- Acho que o senhor marquês tem razão - arriscou-se ela a sugerir.

 

Pela primeira vez, desde que o seu amor começara, Zipka pensou a sério em afastar muito simplesmente pela força outro homem da vida de Kathinka.

 

- Tens de admitir que o moinho é sinistro, querido!

- prosseguiu ela. - Dado o terrível destino da Lulu... não conseguiria dormir de noite. Não me sairia de diante dos olhos o quadro de como se deve ter afogado...

 

- Porque hesita, monsieur! - inquiriu o marquês, voltando a enfiar o barrete de pescador.

 

Alain, o homem-rã, saiu pela terceira vez da água, agitou freneticamente os braços no ar e voltou a

mergulhar. A multidão dividiu-se em dois grupos que interpretaram este sinal de duas formas diferentes. O comissário Flacon considerou-se como um malogro e o Doutor Bombette disse ser um sinal de que se descobrira algo. O homem que se encontrava junto do caixão calçou as luvas de borracha. Apoiava a posição do médico.

 

- Não vê como a madame está pálida? - argumentou o marquês insidiosamente. - Têm de aceitar o meu convite! Um acontecimento destes pode causar um choque incurável... um trauma psicológico! Na minha casa, a madame irá respirar de alívio...

 

- Iremos pensar no assunto, marquês - ripostou Zipka, sentindo-se a rebentar de desprezo. - Ainda tínhamos, além disso, de fazer as malas.

 

- Poderá encarregar-se desse assunto sozinho, monsieur.

 

- Claro. Só que fazer malas é uma das especialidades da minha mulher. Ninguém consegue dobrar as camisas como ela, nem arrumar os fatos sem os enrugar. E quanto ao preenchimento dos espaços vazios das malas... desenvolveu uma técnica que é simplesmente imbatível! É capaz de meter numa mala o triplo do que o mais optimista dos fabricantes proclama! Não provoque essa situação, marquês! Se fosse eu sozinho a fazer as malas, apareceria na sua casa com metade da bagagem debaixo do braço.

 

- O Alain pode dar-lhe uma ajuda.

 

- Obrigado. Permita-nos que nos mudemos amanhã.

 

- Mas a noite terrível que têm na frente...

 

- Tomarei um sonífero - retorquiu Kathinka, voltando a fixar o olhar no marquês.

 

Ele agarrou-lhe espontaneamente a mão e beijou-lha. Estes modos de fidalgo!

 

- E eu tenciono embriagar-me! - declarou Zipka, grosseiro. - E, em seguida, pouco me importará que qualquer cabeça decepada role pela sala! Ah! Lá está novamente o homem-rã...

 

Alain tinha surgido uma vez mais à tona de água; desta vez não trepou para o barco, mas nadou até à margem com um bater de barbatanas. Quando a profundidade já era pouca, levantou-se e avançou para terra.

 

O Doutor Bombette, que já tinha aberto a sua maleta de médico, fechou-a novamente com um estalido seco. O comissário Flacon e o sargento Andratte dirigiram-se a correr até à margem do lago; o repórter fotográfico bateu uma chapa daquela corrida dramática.

 

- Nada! - gritou Alain, mesmo antes de chegar a terra. - Apenas o barco. Com um buraco do lado esquerdo. Nada mais.

 

- A corrente... - arquejou Flacon, encolhendo-se, porque Alain tirou o capacete da cabeça e salpicou tudo de água à sua volta. - Já tinha falado na corrente!

 

- Lá em baixo não há corrente! - ripostou Alain, enquanto se desembaraçava da garrafa de oxigénio que transportava às costas. - Lá em baixo está tudo tão calmo como dentro de um caixão. Não se mexe uma palha...

 

Alain soltou uma risada despropositada e quase histérica; Flacon franziu o sobrolho, porque apesar da sua profissão era um esteta. Começava a entender que o caso aparentemente inofensivo de uma rapariga mentalmente perturbada se estava a transformar num enigma de primeira. Os cadáveres desaparecidos são desde sempre o pesadelo dos criminologistas e ficam como casos pendentes. No entanto, cada ”caso aberto” constitui um esgar terrível no rosto de um polícia.

 

- Só há duas possibilidades - declarou o comissário em voz alta, para dissipar a perplexidade que dele se apoderara. - Ou foi arrastada ou nunca entrou dentro de água!

 

- E o barco? - contrapôs Zipka lá detrás.

 

O comissário Flacon deu meia volta, como se o tivessem esbofeteado.

 

- Quem é você? - rugiu.

 

- Louis Zipka, de Munique.

 

- Ah! Porque é que só agora se apresenta? Foi a última pessoa que viu a rapariga! Aproxime-se imediatamente. Espero o seu depoiemento. Onde está você, Bonaparte? Sempre que se precisa deste indivíduo, ele nunca está. À semelhança do seu parente de nome.

 

Bonaparte Esmouchard, secretário criminal de profissão, surgiu do quiosque de venda de vinho montado por Dupécheur ainda a mastigar um pedaço de pão com queijo. Parou bruscamente diante de Flacon e tirou o bloco de estenografia e o lápis do bolso do casaco.

 

Zipka verificou com desagrado que Kathinka não o acompanhou ao local de interrogatório, mas se manteve junto do marquês e soltou uma risada arrulhante - pelo menos a Zipka assim pareceu - sobre qualquer graça indubitavelmente idiota.

 

Zipka descreveu em poucas palavras o que presenciara em relação a Lulu. Flacon fixava o olhar no dele, o reverendo Ortège arquejava de emoção e o Doutor Bombette contribuía com o seu diagnóstico. Anunciou num tom de voz agitado:

 

- Uma ausência total de memória, mas não um caso de epilepsia! Trata-se de uma ausência de carácter traumático. Um caso do maior interesse! Temos de descobrir a doente, senhor comissário!

 

- O senhor os protegerá! - declarou o reverendo Ortège num tom brando.

 

- Porque deixou que a doente se fosse embora? esbravejou Flacon.

 

- O que devia ter feito?

 

- Agarrá-la.

 

- Isso seria privá-la de liberdade. Sou incapaz.

 

- Tratava-se, porém, de uma doente em estado grave. Em tal caso seria esse mesmo o seu dever!

 

- Depois de vivida a situação é-se sempre mais esperto! Depois, também a galinha se admirou de conseguir ter posto um ovo tão grande. E por isso cacareja...

 

- Monsieur l - exclamou Flacon, respirando fundo.

- Peço-lhe que tome as coisas a sério. Quando recolheu a jovem e ficou a par da sua doença, assumiu a responsabilidade total!

 

- Agora quer atribuir-me culpas do que se passou, senhor comissário?

 

- Tinha obrigação de a vigiar. Não devia tê-la deixado afastar-se...

 

- Foi a minha mulher quem o ordenou...

 

- A madame! - Flacon fixou o olhar em Kathinka e no marquês. Tudo indicava que os dois se entregavam a uma conversa animada. - A madame é que ordenou? Como devo interpretar tal facto?

 

- A rapariga era muito bonita. Ou melhor, excepcionalmente sexy...

 

A respiração do reverendo Ortège era ofegante, mas ele não pronunciou palavra.

 

- Tinha um rosto doce - prosseguiu Zipka. - Um corpo de gazela e uns seios...

 

- Não vem ao caso - resmungou Flacon, ao mesmo tempo que corava até às orelhas.

 

- Vem sim! - ripostou Zipka, levantando queixosamente as mãos. - A madame estava ciumenta. Os olhos da madame chispavam de ciúme. E quando a madame fica num estado desses há que obedecer às suas ordens.

 

- É um motivo cem por cento aceitável! - interferiu com ar de compreensão o Doutor Bombette.

 

O comissário Flacon esboçou um aceno de concordância mudo. Viu-se obrigado a pensar na sua própria mulher e acometeu-o um sentimento de fraternidade para com o alemão. ”Vivemos num espaço limitado...”, filosofou intimamente. ”Há destinos a que não é possível fugir...”

 

- bom. Admitamos que assim é! - disse rispidamente. - Mas podia ter acompanhado ou vigiado a doente...

 

- Com o perigo de me ver numa difícil situação conjugal?

 

Flacon suspirou, esboçou um aceno grave e estremeceu quando o secretário lhe perguntou:

 

- O que devo escrever no protocolo?

 

- Nada! Pode voltar ao seu vinho, Bonaparte! Esperou até Esmouchard estar fora do alcance das suas palavras, e em seguida disse: - E é uma coisa destas que pretende um dia vir a ser comissário! E aposto que o conseguirá! Tenho receio quanto à polícia das gerações vindouras. O mundo sucumbirá ao caos!

 

- Deus vê tudo! - proferiu o reverendo Ortège. Flacon esboçou um forte aceno de cabeça.

 

- Ele vê? Preferia que fôssemos nós a ver! - Passou os olhos pelo círculo que o rodeava. - O que acham, messieurs! Damos a busca por terminada?

 

O sargento Andratte suava abundantemente, devido à emoção que o invadia. O seu belo caso ameaçava rebentar como uma bola de sabão. Há muito que os bombeiros de Mas d’Agon o pareciam ter reconhecido: os homens de vigia tinham-se reunido junto ao quiosque de Dupécheur e bebiam quais peregrinos sedentos.

 

O Doutor Bombette coçou o nariz. Também ele se despedia da sua certidão de óbito.

 

- Devo dizer que... sim... ainda nos resta uma hipótese - explicou.

 

- E qual é, doutor Bombette? - inquiriu Flacon num tom solícito.

 

- Esperar até que o cadáver venha à superfície. Se é que posso esclarecer clinicamente: num cadáver afogado formam-se...

 

- Obrigado! - interrompeu Flacon rudemente. O caso fica, por conseguinte, em aberto até ver. As pessoas podem dispersar, sargento.

 

Emile Andratte indicou o terreiro em frente do moinho com um aceno de cabeça. Ali reinava um movimento semelhante ao de dia de mercado.

 

- Estão a festejar! - declarou o sargento num tom surdo. - Não há hipótese de os mandar para casa.

 

- Mas não há um cadáver! - rugiu Flacon, histérico.

 

- Agora, para eles é indiferente - retorquiu Andratte com um encolher resignado de ombros. - Quando festejam, festejam mesmo...

 

Por volta das três da manhã, quando Andratte foi o último a abandonar o moinho, acalmado por Zipka, reinou finalmente a calma.

 

O marquês de Formentière já se fora embora há uma hora, conduzido pelo motorista Alain, que trocara o fato de mergulhador por um discreto uniforme azul com um brasão no lado esquerdo do peito. O marquês tinha prometido - e não fora pronunciado qualquer protesto que Alain iria buscar monsieur e madame no dia seguinte por volta do meio-dia, a fim de os conduzir à propriedade. ”Será recebida como uma rainha!”, anunciara o marquês, o que Zipka considerara uma afirmação sobejamente idiota. Em seguida, fitara Kathinka, beijara-lhe demoradamente a mão com o maior à-vontade e fizera as despedidas dela como se fosse partir para uma viagem pelo mundo.

 

- Exagera descaradamente, não achas? - inquiriu Zipka, maliciosamente, no momento em que Kathinka lhe acenava. - Não achas?

 

- Não mais do que tu com essa Lulu! - replicou Kathinka. - Seja como for, é um homem culto.

 

- E pesca com minhocas no mar!

 

- Quem disse tal?

 

- Perguntei-lhe.

 

- Já devia imaginar. A tua única bitola de apreciação das pessoas reside nas moscas da pesca à linha.

 

- Só pesco no mar com pequenos lagostins.

 

- Zipka, o papá dos pescadores! - Apontou na direcção do moinho. - Já decidiste o que vamos fazer agora em relação à Lulu?

 

Esta pergunta só pôde ser respondida depois de também Andratte se ter afastado pela estrada na sua barulhenta motorizada. Esperaram até as luzes do veículo terem desaparecido à distância; em seguida, Zipka abriu a porta do moinho e acendeu o candeeiro de petróleo que se encontrava junto à entrada.

 

Lulu estava deitada no sofá, tapada com um cobertor de lã e adormecida. Durante o sono notava-se um arremesso de amuo nos lábios. A blusa estava aberta, revelando os seios.

 

- Que maravilha! - sussurrou Zipka, perdido na contemplação.

 

- Vai embriagar-te - sibilou Kathinka, irritada.

 

- Tinka! Apesar da característica maldade feminina, tens de admitir que ela é um encanto e que seria uma pena abandonar uma coisa destas.

 

- Também queres levá-la para casa do marquês?

 

Kathinka acendeu os outros candeeiros e tapou resolutamente o busto de Lulu com um cobertor. Ela entreabriu um pouco os lábios, mas continuou a dormir.

 

- Aceitar esse convite foi a coisa mais idiota que fizeste na tua vida inteira! Mas suspeito das tuas motivações! - Zipka sentou-se numa cadeira e fitou a jovem adormecida. - Achas que ela deve acabar sozinha...

 

- Ela é um perigo.

 

- Ah!

 

- Sinto isso, Wig.

 

- O que sentes não passa do mais barato dos ciúmes.

 

- Não tantos como tu, quando pensas no marquês. Não consegues ocultá-lo.

 

- É uma coisa totalmente diversa!

 

- Oh! E porquê?

 

- Que eu saiba, o marquês não sofreu um ataque de amnésia.

 

- Isso não serve como argumento.

 

- Ah, não? Ter ciúmes da Lulu é que é um sentimento barato. É uma pobre doente! Mas o marquês? Compreendo perfeitamente que tenha perdido o pouco de sensatez que lhe resta.

 

Kathinka surgiu, vinda do canto da cozinha. Trazia uma garrafa de vinho e dois copos.

 

- Falemos racionalmente, meu tesouro - disse ela, numa tentativa de entendimento.-Ela é realmente perigosa!

 

- E achas isso uma atitude lógica?

 

Zipka serviu o vinho e passou um dos copos a Kathinka.

 

- Não consigo explicar-te, Wig. Há qualquer coisa no ar!

 

- Que eu saiba, aqui não existe vento.

 

- Sê razoável, querido - repetiu ela, meigamente.

- Acho inquietante, mas a verdade é que consigo prever frequentemente as coisas. Uma vez mandei evacuar um andaime, embora todos afirmassem que não podia ser mais seguro; no dia seguinte o vento derrubou-o. Em sonhos, vi um pássaro preto e gigantesco que voava sobre o meu telhado; dois dias mais tarde caiu um avião particular nas proximidades.

 

- Só me faltava essa! - comentou Zipka, bebendo um gole de vinho. - Que pressentimentos tiveste quando me conheceste?

 

- A ti, amo-te...

 

- Serve para me convencer. Tem de haver algo de verdadeiro nas tuas premonições. E quanto à Lulu?

 

- Não sou capaz de explicar concretamente. Apenas sinto algo de sinistro. Olho para ela e digo como tu: ”Como é uma ternura!” E logo uma voz no meu íntimo me segreda: ”Tem cuidado! O perigo espreita...” Não é possível concretizar esta desconfiança. Compreendes o que quero dizer?

 

- Sim e não. Pergunto a mim próprio: como é possível que uma rapariga assim represente perigo para nós?

 

- Ela não. Talvez... o meio dela.

 

- Não o tem.

 

- Ela veio de qualquer lado.

 

- É isso mesmo o que pretendo aclarar. Meu Deus, Tinka! Será que subitamente estás com medo?

 

- Estou - concordou ela, acenando várias vezes com a cabeça. - Ficarei muito mais tranquila quando estivermos em casa do marquês.

 

- Precisamente o contrário do que eu penso – retorquiu Zipka, sarcástico. - E se o marquês tiver a colecção das obras de Shakespeare? Terei de reler o Otelo. Estamos, porém, a desviar-nos do tema central. Continuamos sem chegar a uma conclusão quanto ao que fazer com a Lulu.

 

- Eu fico aqui - declarou Lulu, de olhos fechados. Kathinka e Ludwig estremeceram, como se realmente

 

uma cabeça tivesse rolado pela sala.

 

- Ela está acordada! - exclamou Zipka, surpreendido.

 

- E entende alemão! - retorquiu Kathinka.

 

- Mas responde em francês! - Zipka esboçou um gesto horrível. Os candeeiros de petróleo deitavam um cheiro horrível. - Cá estamos novamente perante o enigma do desdobramento de personalidade! - Inclinou-se e fez estremecer o sofá. - Abre os olhos, Lulu

- disse em francês. - Trata-se de ti. Já reflectiste? Já sabes onde estiveste antes? Não tens uma pequena e obscura suspeita? Não consegues recordar-te de qualquer coisa? De um cão? De um gato... talvez?

 

- Wurstl - Pronunciou Lulu num tom feliz.

 

Zipka ficou contente ao ver que a pergunta de chofre produzira impacto. Ante a palavra ”cão”, a recordação surgira novamente! Wurstl, - Podia tratar-se de um mero cão rafeiro, se bem que Lulu o definisse como um grande e peludo cão pastor. Não havia um corso em toda a Córsega que baptizasse o seu cão de Wurstl. Só que também nenhuma corsa conseguiria pronunciar Wurstl. Os progressos mantinham-se iguais.

 

- O Wurstl também entra em casa?

 

- Sim.

 

- Qual é o aspecto da casa?

 

Lulu fez um visível esforço de pensamento e em seguida respondeu tristemente:

 

- Não sei. Ajude-me, monsieur Louis.

 

Zipka fitou Kathinka. Ela olhava-o de um canto, porque agora não podia ajudá-lo. Era uma situação para a qual não conhecia saída.

 

- Querem ir-se embora? - murmurou Lulu.

 

- Não propriamente... - deixou escapar Zipka por entre os lábios. - Estamos... fomos convidados.

 

- E não posso ir também?

 

- Fora de questão! Nunca, depois de ter estado escondida aqui enquanto a procuravam lá fora e ter sido dada como morta.

 

- Morta? - repetiu Lulu num tom surdo. A palavra soou com um som primorosamente teatral - Já não se importam comigo?

 

- De momento, não.

 

- Nesse caso, porque se preocupam com uma pessoa morta?

 

Zipka deu-lhe uma sonora palmada na perna.

 

- Cá temos uma conclusão! Perdeu a memória... mas não   uma   lógica   caracteristicamente   feminina.   Você, Lulu, chegou mesmo a dizer: ”Eu fico aqui!” Era uma hipótese. Dizemos ao nosso amigo que queremos continuar a habitar o moinho e deixamos algumas coisas aqui. Em seguida, não chamará as atenções se viermos vê-la e trazer-lhe alimentos... Só que não poderá sair do moinho durante o dia. Talvez consigamos descobrir quem é. Apenas precisamos de tempo...

 

- Tenho muito tempo, monsieur Louis. Ergueu-se; o cobertor escorregou e os seios ficaram

novamente à mostra. Kathinka pensou: ”Mas que refinadíssima sabida! Apesar de todas as falhas do cérebro, conhece bem os truques de amansar um homem. Como será ela quando está na posse de todas as faculdades mentais? Os homens devem andar à sua volta como moscas.”

 

- Quando partem?

 

- Amanhã   ao meio-dia!   - respondeu   Kathinka, num tom de voz elevado. - Quer dizer, hoje! A manhã já começou a romper.

 

Diante da janela começava de facto a recortar-se um céu vermelho. As águas do lago ofereciam uma tonalidade dourada. Um bando de garças sobrevoava as águas, assemelhando-se a pequenos pedaços de névoa.

 

Kathinka mantinha-se silenciosa. As palavras eram um desperdício frente a tanta beleza.

 

- São tão bons para mim - sussurrou Lulu, desta vez falando sinceramente. O Sol que se erguia no horizonte dava-lhe um ar terno e melancólico ao rosto. Não o mereço de forma alguma.

 

Kathinka Braun deitou um olhar surpreso e inquisitivo à rapariga. E novamente se lhe instaurou no íntimo aquele sentimento inexplicável e sinistro de um perigo iminente.

 

No entanto, logo a seguir venceu a ”parte técnica”, como Zipka lhe chamava.

 

Era quase certo que o hospedeiro Dupécheur e a sua mulher Florence iriam limpar o moinho e preocupar-se para que tudo estivesse em ordem durante a ausência de madame e de monsieur.

 

Pelo que se conhecia do sargento Andratte, ele não esqueceria facilmente o malogro do cadáver por encontrar, e iria passar cada minuto livre junto da margem do lago a fim de possivelmente descobrir quaisquer marcas.

 

O comissário Flacon tinha também dado a entender que, eventualmente, se procederia a mais uma busca no lago com um barco a motor e uma rede de arrasto se este ”caso” justificasse um tal aumento de encargos. No entanto, havia primeiro que sondar Aries.

 

Era igualmente trágico que a morte da rapariga que sofria de amnésia não tivesse impacto suficiente para convencer o Comissário de Aries de que o sargento Andratte precisava de um automóvel de serviço. A sua argumentação de que, devido à falta de um meio de transporte mais rápido do que até mesmo a própria motorizada de Dupécheur, perdia muito tempo e de que conm uma bicicleta nada podia fazer ficava enfraquecida pela lógica de que nem mesmo tendo um automóvel poderia ter impedido o suicídio, pois apenas fora chamado a entrar em acção após o desaparecimento da jovem. As diferenças de tempo não desempenhavam, assim, um papel importante.

 

- Quando pressentir alguém junto da porta, corro imediatamente lá para cima - disse Lulu. - Ninguém vai abrir o alçapão que dá o mecanismo dentado das pás do moinho.

 

- E se o descobrem? - retorquiu Zipka.

 

- Porque haviam de descobrir? - Lulu apercebeu-se do olhar reprovador de Kathinka e voltou a tapar os seios com o cobertor. - Fecho o trinco por dentro e todos pensarão que a porta não se abre devido à velhice e à ferrugem. Aposto que ninguém se dará ao esforço de a arrombar.

 

- Para uma pessoa que perdeu a memória, fala com bastante lógica! - interferiu Kathinka. - Como conhece os detalhes do moinho?

 

- Tive tempo bastante para dar uma volta por aqui e esconder-me...

 

- Teve realmente - concordou Zipka. - Mas partindo do princípio de que, de facto, a descobrem, a surpreendem...

 

- Impossível!

 

- Impossível como? - ripostou Kathinka imediatamente, num tom brusco. - Se estiver adormecida neste sofá não dará pela entrada de Dupécheur quando ele aqui vier.

 

- Passarei a dormir lá em cima. Na cama do monsieur... - disse Lulu, esboçando um sorriso sedutor.

 

- O lugar indicado para si... - espumou Kathinka.

 

- É mesmo! - concordou Lulu, com uma expressão ingénua no rosto. - É o melhor lugar para se ouvir quando alguém anda cá em baixo. O seu quarto fica muito afastado das escadas, madame.

 

- Não percamos tempo a discutir em que cama é que a Lulu dorme. - Zipka inclinou-se para trás e fitou o alto e velho tecto de madeira do moinho. – Pensemos antes na situação mais perigosa de todas: apanham-na, Lulu... O que é que fará?

 

- Direi que tinha andado por aí e que acabava de regressar. Quem provará o contrário?

 

- Ninguém. Só que a levariam imediatamente para Mas d’Agon, e o sargento Andratte encarregar-se-ia de a transportar a Aries de automóvel...   e lá metê-la-iam numa clínica onde as portas não têm trincos.

 

- Isso depende de quem me descobrir, monsieur contrapôs Lulu, acomodando-se melhor.

 

O Sol da manhã entrava a jorros pelas janelas e pelas fendas.

 

- Como devo interpretar essa afirmação? - inquiriu Zipka.

 

- És mesmo um anjo bem intencionado - retorquiu Kathinka, viperinamente. - Ela quer dizer que se quem a descobrir for um homem não representa perigo...

 

- Oh, madame, compreenda-me! - exclamou Lulu, ao mesmo tempo que fitava Kathinka como se ela fosse sua cúmplice. - Faria a mesma coisa, não é verdade? Não acredito que monsieur Dupécheur possa levar-me como a uma garça, se ao vê-lo na minha frente eu lhe disser: ”Que homem forte! Gosto de homens assim...” Assim, não me porá certamente na cadeia.

 

- Era... era capaz de fazer isso? - retorquiu Zipka um tanto desapontado com o que percebia. - Era capaz de... com um homem estranho...

 

- Se se tratasse da minha liberdade... Não quero ser metida numa clínica! Sou uma pessoa sã.

 

Ergueu-se subitamente do sofá, deixando deslizar o cobertor. Lulu não tinha mais nada em cima do que a bela pele lisa e macia recortando-lhe as formas bem delineadas do corpo.

 

”Mas que sabida!”, pensou Kathinka, fitando Zipka. ”Que manha! Há muito tempo que esperava por esta grande entrada em cena. Agarrou a deixa e já pode desempenhar o papel.”

 

- Sou uma pessoa sã! - repetiu Lulu. - Olhe para mim, Monsieur: estou doente? Diga que estou sã...

 

- Monsieur Louis não é monsieur Dupécheur! - retorquiu Kathinka num tom áspero. - Ponha alguma coisa em cima do corpo. Não precisa de convencer monsieur Louis de que o seu físico foi feito por medida para homens de todas as idades!

 

- Obrigada pelo elogio, madame.

 

- Suponhamos - contrapôs Zipka num tom de voz um tanto excitado e enquanto Lulu voltava a enrolar-se no cobertor -, que Dupécheur não se deixa apanhar...

 

- Totalmente impossível! - ripostou Lulu num tom presunçoso.

 

- Ou que aparece o sargento Andratte?

 

- Tenho vindo a observá-lo - retorquiu Lulu, dando um estalido com os dedos. - O sargento não seria problema.

 

- Ou o doutor Bombette?

 

- Um homem com a idade dele arde como palha...

 

- Desiste, meu pobre querido! - interferiu Kathinka, ironicamente. - Ela leva todos os homens para a cama. Conforma-te. Nem todos os que parece serem anjos o são.

 

- Dá ideia de que andamos em círculo! - exclamou Ludwig Zipka, batendo com uma mão na outra. O problema mantém-se sempre o mesmo: o que será de si, Lulu?

 

- Deixo isso totalmente ao cuidado do monsieur...

 

- Ao meu cuidado? - retorquiu Zipka, entre a satisfação e a perplexidade.

 

- Sim.

 

- Bonito! - riu Kathinka, de uma maneira um tanto forçada.   - Por favor,   não conte que nós a adoptemos.

 

- Mas espero que descubram de onde venho. O rosto de Lulu deixou transparecer um reflexo de uma tristeza infantil. - Gostaria tanto de me encontrar outra vez onde pertenço. Não consigo lembrar-me de nada... de nada. Surgi repentinamente aqui... Farei tudo o que quiserem... apenas peço a vossa ajuda!

 

Após esta tirada, Zipka convenceu-se de que tinha aos ombros uma tarefa realmente importante. Kathinka encarava o assunto de uma outra perspectiva - havia aquela sensação permanente de alarme -, mas era impossível falar nisso a Zipka.

 

Dentro de medidas de segurança, Zipka e Kathinka ficaram a vigiar o acesso ao Moulin Saint Jacques, discutindo a falta de vergonha da sua hóspede - Lulu foi tomar banho ao lago e regressou em seguida nua e a escorrer água até dentro de casa. Ali vestiu-se e ofereceu-se, igualmente, para preparar o pequeno-almoço.

 

Ludwig e Kathinka nadaram também sem roupas até ao largo, onde a água era mais fria, refrescava maravilhosamente e lhes arrancava o cansaço dos corpos.

 

Ao chegarem à ilha dos canaviais, pisaram terra, beijaram-se sob a protecção dos juncos enormes e sentiram-se felizes ante aquele contacto físico.

 

- Vê só o que nos acontece! - exclamou Kathinka, suspirando. - Para fazermos amor, temos de nos esconder.

 

- Quando estivermos em casa do marquês teremos um belo quarto.

 

- Ele considera-nos casados há muito. Nunca estaremos sós.

 

- De onde te veio a ideia de te deixares convencer por esse playboy?

 

- Quem te diz que ele é um playboy?

 

- Tem todo o aspecto de ser! Não posssuo a mínima experiência com esse tipo de homens, na medida em que não frequento a alta roda... mas é assim que imagino um playboy! Se bem que este marquês Raoul de Formentière já tenha o cabelo grisalho... eles são os piores! Correm permanentemente atrás da sua juventude e nunca envelhecem. Cada rapariga que lhes aparece torna-se um caso de afirmação! Recusemos esta mudança de casa, Tinka!

 

- Não! - gritou-lhe ela, ao mesmo tempo que avançava novamente pela água.

 

Ele seguiu-a até ela ter a água pelo peito.

 

- O que te atrai?

 

- Nada relativamente ao marquês. Mas é muito importante que não estejas junto da Lulu...

 

- Oh, vento, para onde me arrastas! - exclamou Zipka com um largo sorriso. - Ciumenta, Tinka?

 

- Sim - respondeu ela com sinceridade e sem hesitar. - Pela primeira vez na vida.

 

- É mentira.

 

- Nunca tive ciúmes. Fiquei algumas vezes um tanto desiludida, mas sobrevinha sempre o alívio ao pensar: ”Foi o caminho mais sensato”. Agora é diferente. completamente diferente.

 

- Porquê?

 

- Porque te amo, monstro idiota. É esse o motivo! Sei que é uma estupidez crassa, mas nada posso fazer contra.

 

Deu repentinamente um salto, atirou-se para diante, mergulhou e nadou debaixo de água, afastando-se um grande bocado de Zipka. Ele seguiu-a, agarrou-a e atraiu-a a si. Beijaram-se desesperadamente, como se estivessem na iminência de se afundarem.

 

- Ganhaste - declarou Zipka quando chegaram a terra e se embrulharam nas toalhas de banho. - Iremos mudar-nos para casa do marquês. E amanhã pomos uma série de anúncios em Aries. Está completamente fora de causa que não haja ninguém a dar pela falta da nossa Lulu!

 

Antes do motorista do marquês chegar no automóvel, a fim de ir buscar os convidados, Zipka fotografou a rapariga de todos os ângulos.

 

Inicialmente Lulu recusou-se, mas por fim acedeu.

 

Não tinha pensado nesta complicação. Contudo, agora não havia qualquer maneira de se esquivar nem um motivo sólido para que não quisesse deixar-se fotografar. Continuava apenas a dizer: ”Não quero! Não quero!”, como uma criança mimada. Pôs as mãos à frente, desempenhou o papel de assustada, virou o rosto para a parede, fez esgares horríveis, deitou a língua de fora, encheu as bochechas de ar. Zipka deu na verdade provas de uma paciência infinita, falando-lhe bondosamente e tentando explicar-lhe, até que Kathinka procedeu a uma interferência enérgica:

 

- Se continuar a fazer teatro, Lulu, bato-lhe!

 

- E eu arranco-lhe os olhos! - retorquiu Lulu. Aperto-lhe o pescoço. Não faz ideia da força que tenho.

 

- Levo-a acorrentada até Aries! - ripostou Kathinka, sem se deixar impressionar.

 

Lulu virou-se para Zipka, que manejava a máquina fotográfica.

 

- Ela quer... - gritou histérica.

 

- Sim! Eu também.

 

- Também você?

 

Lulu raciocinava a toda a pressa. Raoul tinha de dar uma ajuda neste ponto. O rolo jamais poderia ser revelado. Era completamente impossível que as fotografias aparecessem nos jornais! Quando fosse a caminho, o filme devia ser destruído. Lulu baixou a cabeça.

 

- Estou sob o seu domínio, monsieur.

 

- Nem pensar. Isso é uma falsa impressão, Lulu. As fotografias apenas têm como finalidade ajudar-te, devolver-te o teu verdadeiro passado...

 

Agora tratava-a por tu como a uma criança; levou-a para trás do moinho e encostou-a a um muro de madeira em ruínas. Em seguida, tirou fotografias - de perfil, só da cabeça, do corpo inteiro. Gastou todo o rolo, trinta e seis fotografias, e regressou ao moinho na companhia de Lulu.

 

Entretanto Kathinka já fizera as malas, uma para si e uma mais pequena para Zipka. Apenas o imprescindível, de forma a poderem dizer em qualquer altura que tinham de regressar ao moinho para irem buscar o restante. Também se poderia dar uma razão quanto a não deixar livre o moinho: os dias na casa do marquês deviam ter o carácter de mera visita, até a madame ter recuperado do choque das últimas horas - assim se expressaria a questão. O pretendido era continuar as férias no Moulin Saint Jacques.

 

Ao meio-dia em ponto, Lulu, que se encontrava de vigia junto à porta, informou:

 

- Lá vem ele!

 

Ludwig e Kathinka levaram as malas para fora, carregaram o automóvel de desporto de Kathinka e fingiram trancar a porta do moinho. Lulu ainda lhes gritou: ”Felicidades!” do lado de dentro, ao mesmo tempo que Alain travava diante do terreiro e descia do automóvel. Vestia novamente o uniforme azul; tirou o boné da cabeça e esboçou uma profunda vénia.

 

- Cumpre-me levar a madame ao senhor marquês.

 

- Obrigada, mas levo o meu carro.

 

- O senhor marquês deu-me ordens expressas para não permitir que a madame conduzisse. Faz muita questão de que a madame utilizasse o automóvel dele. O senhor marquês não quer que a madame se fatigue com esta viagem. O monsieur pode levar o automóvel da madame.

 

- Que amabilidade! - comentou Zipka, viperino.

 

- Um verdadeiro cavalheiro! - exclamou Kathinka, reprimindo o riso. - Nunca te passaria pela cabeça que os meus nervos destroçados me impedissem de conduzir. A tua terapia de descanso residiria, com toda a probabilidade, em me colocares com uma cana de pesca na mão junto a um charco fedorento e sem peixes...

 

- Vamos embora! - interrompeu-a Zipka, irritado e subindo para o descapotável de Kathinka. - Para qual sobes?

 

- Para o do marquês, claro!

 

- Combinado! - retorquiu Zipka,   dando a volta à chave da ignição. - Fico satisfeito.

 

- De um momento para o outro?

 

- Sim. O bom marquês ainda não conheceu com toda a certeza uma pessoa como eu.

 

- Tencionas, por conseguinte,   assumir conscientemente um comportamento indelicado?

 

- Isso posso desde já prometer-te. O querido marquês vai ficar com muitos mais cabelos brancos. Até aqui sempre detestei uma onça...

 

- Uma quê?

 

- Um pedaço de tabaco para mascar.

 

- E para que te serve isso, imbecil?

 

- Vou-me habituar. Com um pedaço de tabaco para mascar na boca, pode-se cuspir nos avozinhos respeitáveis...

 

- Wig! - Ela mantinha-se de pé junto ao seu carro, fitando Zipka com uma expressão séria. - Se fizeres uma coisa dessas, separamo-nos.

 

- O teu profundo amor está dependente de um pedaço de tabaco para mascar?

 

- Não. Mas não me agradaria ficar mal colocada por ter um marido assim. Todos pensam que somos casados.

 

- Ainda uma pessoa nem sequer se habituou à ideia de ter uma mulher e já começa a prisão! Muito bem. Portar-me-ei como um ser civilizado, madame! E, agora, suba para o automóvel. O Alain continua ali de cabeça descoberta e o vento fresco ainda acaba por lhe gelar o cérebro. Mas só uma coisa, madame: as impertinências do marquês terão o troco adequado. Devo isso à minha honra!... E agora vai-te embora, minha querida!

 

Decorrida aproximadamente meia hora, chegaram à propriedade cercada do marquês de Formentière.

 

Um grande portão dava acesso a um amplo pátio interior, e ao fundo erguia-se a mansão senhorial. A direita e à esquerda havia estábulos, celeiros, armazéns, garagens e sítios de recolha para as máquinas agrícolas.

 

Tudo dava a entender que na casa junto ao portão vivia o homem-rã e motorista Alain, curiosamente o único empregado da grande propriedade. Esta enquadrava-se num estilo provincial, muito rústica e romântica, além de bem protegida pelos grossos muros de pedra.

 

Quando os dois automóveis entraram no pátio interior, Raoul de Formentière esperava-os à porta da enorme mansão. Em seguida, apareceram igualmente duas mulheres de idade que logo se reconheciam serem camponesas da Camargue - trabalhavam apenas durante o dia na propriedade e à tardinha regressavam à aldeia. Um velho Renault estava preparado para esse efeito; impossível pensar que fossem transportadas na luxuosa limusina.

 

O marquês avançou de mãos estendidas ao encontro de Kathinka Braun.

 

- Bem-vinda! - exclamou num tom entusiasta. Bem-vinda. Não espere um palácio, madame, mas aqui estará certamente liberta de espíritos, fantasmas e intrusos.

 

- Acho tudo isto maravilhoso, marquês!

 

Kathinka olhou em redor e fixou o grande portão que se fechava como que por mão invisível. ”Uma prisão de luxo”, pensou involuntariamente. ”Se o marquês não quiser, ninguém mais sairá daqui. Um mundo isolado com o qual ninguém se preocupa!”

 

Kathinka sentiu que um ligeiro arrepio lhe percorria a espinha. Olhou para Zipka e sentiu-se satisfeita por tê-lo ao seu lado. Aparentemente, ele não se deixava impressionar pelo que quer que fosse. Desceu do automóvel desportivo, praticou os habituais exercícios de desentorpecimento, exclamou: ”Uf!” e bocejou sem cerimónia. O marquês fitou-o indignado.

 

- Costuma fazer sempre isso? - inquiriu.

 

- O quê? - perguntou Zipka, com uma expressão inocente.

 

- Essas cómicas corridas em círculo, quando sai do automóvel?

 

- Tal pergunta só pode partir de quem não sentiu a emoção de se sentar numa bomba e ficar com os músculos e os tendões presos. No entanto, este carro é da minha mulher. Pelo que me diz respeito, prefiro o género de automóveis onde se possa ir sentado como numa poltrona de clube. Devia saber que sou um indivíduo comodista.

 

O interior da mansão era extraordinariamente valioso e no entanto de uma agradável simplicidade. O mobiliário era constituído por verdadeiras antiguidades, os quadros pendurados nas paredes caiadas eram peças de museu e as carpetes no chão de ladrilhos eram tão valiosas que se tinha a tentação de não as pisar.

 

Raoul de Formentière era aparentemente um amante e conhecedor de antiguidades; por todo o lado que era possível viam-se peças valiosas: vasos, taças, mármores, objectos em vidro ou pedra, animais da mitologia antiga, moedas, fósseis. A enorme sala de estar era dominada por uma lareira em pedra. Aqui se encontrava o único toque moderno, dado pelo conjunto de poltronas forradas de pele de búfalos da Camargue.

 

- Fantástico! - exclamou Kathinka, num tom que não deixava dúvidas quanto ao entusiasmo sentido. Posso pronunciar-me, marquês. Sou arquitecta.

 

- Que coincidência e que sorte! - retorquiu o marquês, esboçando um gesto largo. - Tenho vindo a adiar, de ano para o ano, o projecto de remodelar a casa. Coloco-o, agora, nas suas mãos, madame! Está disposta a redecorar a minha casa? Não lhe imporei quaisquer regras... entrego-me completamente ao sabor da sua fantasia.

- Deu meia volta e fitou Zipka, que se mantinha em pé junto à enorme lareira, passando a mão pela pedra centenária.

 

- Também é arquitecto?

 

- Não. Sou desenhador.

 

- Decorador de interiores?

 

- Assim se lhe poderá chamar. - Zipka encostou-se à lareira e começou a doutrinar: - Quando, por exemplo, se apanha um perca, em latim Perca fluvialis, um bom pescador reconhece com exactidão a psique deste peixe. Engodá-lo-á com uma isca diferente da utilizada para uma truta ou uma carpa...

 

- Não compreendo - retorquiu o marquês, irritado.

 

- A minha profissão sai um pouco da vulgaridade. Preparo iscas para peixes.

 

- E pode viver-se disso?

 

- Enquanto houver peixes... - Zipka virou a cabeça para o lado. - Nunca acendeu a lareira?

 

Raoul de Formentière abanou a cabeça despreocupadamente.

 

- Não pega. É uma construção falsa. Nunca mandei prepará-la para o efeito. Para quê, também? Agrada-me o seu formato... não precisa de funcionar. Para esse fim existe o petróleo.

 

Alain apareceu na sala. Tinha mudado de indumentária mais uma vez, agora para roupas de mordomo. Trazia numa bandeja três taças de champanhe que distribuiu.

 

O marquês ergueu a sua taça e fitou Kathinka com um brilho no olhar.

 

- Que se sinta perfeitamente à vontade na minha casa! Não! Que se sinta feliz! Depois de comermos, Vou mostrar-lhe toda a propriedade...

 

Mais tarde, após uma visita pela casa e pelo parque, Zipka e Kathinka estavam sentados em cima da cama do grande quarto de hóspedes a olhar os vastos terrenos através da janela. Uma ligeira névoa pairava sobre o lago de Vaccarés, tornando os contornos difusos.

 

- O que tens a dizer agora? - perguntou ela baixinho, como se receasse que alguém estivesse à escuta.

 

- Por enquanto nada - respondeu Zipka.

 

- O que significa esse por enquanto?

 

- Ainda não está bem claro na minha mente porque estamos aqui... ou melhor, porque nos convidou o marquês? Por tua causa? Pouco provável, pois nesse caso teria de me eliminar, visto que não me afastarei um metro que seja do teu lado. Disso podes ter a certeza.

 

- Tens uma imaginação tenebrosa, Wig! Como é que ele...

 

- Xeque-mate em duas jogadas. Primeira jogada: deita-me qualquer coisa na bebida! O resultado consiste em se perder a consciência durante horas . Segunda jogada: enche-te a tal ponto de álcool que não passarás de um brinquedo sem vontade nas suas mãos! Não serias a primeira mulher do mundo a transformar-se completamente através do álcool.

 

- Nesse caso, conhece-me mal. Aprendi a saber beber com os meus clientes. Além dissso, não o considero capaz disso. Depois de cada noite há sempre uma manhã, e o marquês iria passar um mau bocado.

 

- É tudo tão absurdo!

 

Ludwig Zipka levantou-se e aproximou-se da janela. Lá em baixo, no jardim, três enormes cães de guarda rondavam a casa. Eram Dobermann, para cujas dentadas não há remédio. Como se se tivessem apercebido do movimento na janela, ficaram parados, deram meia volta e pousaram os olhos negros e frios em Zipka. Abriram as mandíbulas, deixando ver os dentes, mas não emitiram qualquer som.

 

- Vem aqui, Tinka - sussurrou Zipka. - Não temos a mínima chance.

 

Kathinka fitou silenciosamente os grandes animais. Encostou-se a Zipka e deixou de disfarçar que tremia.

 

- E daí? - sussurrou. - Estamos a ser idiotas, Wig. Claro que tem cães para guardarem a propriedade durante a noite, porque não? Fica num sítio bastante solitário. O que o levaria a armar-nos uma armadilha? Não podemos ser assim tão importantes para ele!

 

- Ocultei-te uma coisa, querida.

 

- O quê, meu Deus? - retorquiu ela, sobressaltada.

 

- Naquela primeira noite, em Baume-les-Dames, atiraram-me com uma pedra à cabeça através da janela. Com um papel colado que me avisava que não te acompanhasse mais até à França. Nessa altura, julguei que fosse o teu galã Herbert Vollrath que nos seguisse...

 

- Impossível! O Herbert nunca faria tal coisa. Não, não é o seu estilo. Herbert é um esteta e não um gangster. Teria falado contigo, como é usual entre cavalheiros que se prezam... Mas isso nem está em causa. Porque não me contaste logo tudo, Wig?

 

- Na altura, teria sido inútil. Limitar-te-ias a comentar que se tratava de mais um dos meus habituais truques para chamar as atenções. Além disso, o que haveria a lucrar? Os que tinham atirado a pedra há muito que haviam desaparecido e sem deixar rasto, como aliás verifiquei. Contudo, neste momento tudo se me afigura dentro de uma perspectiva diferente. O que desabou sobre nós nos últimos dois dias não pode considerar-se normal. Alguma coisa pende sobre nós... não sei o quê, mas ela existe.

 

- Lulu!

 

- Tinhas de vir com isso! A Lulu nada tem a ver com o assunto. Trata-se apenas de uma acumulação de coincidências.

 

- Foi por intermédio da Lulu que conhecemos o marquês.

 

- Ou o marquês aproveitou-se da infelicidade da Lulu para se aproximar de nós.

 

- Mas o que pretende de nós?

 

- Se eu soubesse! - Zipka bateu desesperadamente com a mão na testa. - É tudo tão absurdo e sem nexo. A quem é que disseste que tencionavas vir até à Camargue?

 

- Apenas a Herbert Vollrath e ao chefe do meu atelier.

 

- Ambos sabem onde fica o Moulin Saint Jacques?

 

- Lá estás tu! Que absurdo, Wig. São ambos cem por cento de confiança. Mas no que te diz respeito? A quem...

 

- Quando me foste buscar ao hotel em Hanôver, nem eu sabia para onde tencionavas ir.

 

- Acho que ambos nos estamos a deixar arrastar pelo histerismo, Wig! - exclamou ela, olhando perplexa para Zipka.

 

- A pedra não era fingida, mas bem real. Atingiu-me na cabeça.

 

- Talvez um erro! Enganaram-se na janela...

 

- Seria coincidência a mais! Tinka...

 

- Sim, Wig?

 

- Promete-me que a partir deste momento nada farás sem mim.

 

- Prometo-te. Mas responde-me com a verdade: estás com medo de alguma coisa?

 

- Não. Sinto apenas uma raiva enorme de termos abandonado o nosso moinho!

 

Ao entardecer, a jovem Lulu foi dar uma volta pelas traseiras do moinho.

 

Tomara precauções quanto a todos os lados. A terra estendia-se, rodeada de silêncio, sob o céu nocturno. Se um automóvel se aproximasse, ela avistaria os faróis à distância. Cada luz era, neste local, detectada de longe

- o mesmo podendo dizer-se em relação a uma motorizada ou a uma pessoa que se aproximasse do lago munida de lanterna de bolso.

 

Os dois homens, que se mantinham imóveis e quase sem respirar no canavial, tinham ido até ali sem luz. O seu ameigado VW estava arrumado lá em cima, junto a um pequeno bosque. Tinham ido - como se disse sem utilizar os faróis, e do seu posto de observação Lulu também não poderia ter visto como duas sombras haviam deslizado até ao Moulin Saint Jacques para em seguida se deitarem no chão.

 

Lulu mantivera-se corajosamente metida no moinho o dia inteiro, mas agora, aproveitando a escuridão, queria ir até à margem do lago e respirar a brisa fresca e salgada.

 

Curiosa como era, Lulu tinha metido o nariz nas duas malas que Kathinka deixara; experimentou um vestido que achou um espanto, mirou-se ao espelho e decidiu pô-lo nessa noite. Colocou igualmente por cima dos ombros a gabardine clara e desportiva de Kathinka, prendeu os cabelos com um lenço e saiu em seguida rumo ao lago.

 

- É ela - sussurrou um dos homens, dando uma cotovelada no companheiro. - Temos caça. Anda sozinha...

 

- E onde está o tipo?

 

- Sentado lá dentro a embebedar-se, aposto! Uma sorte incrível de uma só golpada. Antes que ele dê pelo que se passa, estaremos longe. - Levantou a cabeça, mas logo voltou a esconder-se. - Ela decidiu passear, rapaz. Agora nada pode correr mal. Tudo sem barulho. Pensa sempre nisto: um milhão! Atenção... vai voltar para trás!

 

Os dois homens agacharam-se, protegidos pelos altos canaviais, e prepararam-se para saltar sobre a presa.

 

Sem a mínima suspeita do que estava para acontecer, Lulu brincava com um ramo, enquanto regressava do lago, assobiando baixinho. Raoul deveria aparecer a qualquer hora da noite, ou mandar o motorista, para verificar se tudo estava em ordem no que lhe dizia respeito. Aquele estúpido assunto das fotografias tinha de ser resolvido, mas para Raoul não seria problema. Ele conhecia inúmeros truques - que importância teria, por conseguinte, um pequeno rolo de fotografias na máquina de um homem tão inofensivo como Ludwig Zipka?

 

Como que numa pretensão de rebuscar as sombras que se estendiam à sua esquerda e à sua direita, Lulu parou e olhou novamente para o lago.

 

Os homens, que conseguiam ver-se um ao outro, ergueram as mãos num sinal.

 

Em seguida, tudo se processou, realmente, com o máximo silêncio e rapidez.

 

Dois corpos abateram-se sobre a rapariga, foi-lhe enfiada uma espécie de saco pela cabeça, tirando-lhe o ar e fazendo-a perder os sentidos. Foi erguida do solo como uma boneca e atirada para um ombro largo; depois o homem correu com o seu fardo através da relva alta e dura e pela estrada, seguido pelo outro homem, que de vez em quando parava, olhava para o moinho e verificava a carga.

 

Lá em cima, junto ao pequeno bosque, atiraram a jovem desmaiada para o banco traseiro do velho VW, ligaram o motor e afastaram-se sem acender os faróis na direcção de Albaron, para nesse sítio se meterem por um estreito acesso que levava aos terrenos pantanosos de Marais de la Grand Mar.

 

Quando Lulu começou a mexer-se no banco traseiro, o indivíduo que ia ao lado do condutor inclinou-se sobre o assento e bateu-lhe ao de leve na cabeça com um martelo cuidadosamente envolto numa protecção. Os movimentos pararam de imediato.

 

- Tiveste cuidado? - perguntou o condutor.

 

Não era nada fácil guiar sem luzes naquela região. O automóvel deu um solavanco.

 

- Fui muito terno! - respondeu o companheiro com um esgar, ao mesmo tempo que voltava a recostar-se no banco. - Só ficará com um galo. Depois, encarrego-me de a refrescar.

 

- Mas que sensação, rapaz! - exclamou o condutor alegremente, passando a língua pelos lábios.

 

- O quê?

 

- Atravessarmos a região de automóvel com um milhão! Não achas fantástico? Só se passa por uma coisa destas uma vez na vida, Karl!

 

Esta declaração aplicava-se literalmente ao caso. Johann Kranz e Karl Lubizek tinham preparado o rapto de Kathinka Braun tão solidamente quanto era possível no mais curto espaço de tempo.

 

O plano tinha nascido, por assim dizer, espontaneamente, quando Johann Kranz, o mecânico da oficina de automóveis onde Kathinka Braun pusera o seu carro a arranjar, recebeu ordens do patrão: ”O automóvel tem de ficar impecável, Johann. Frau Braun quer viajar até ao Sul.”

 

Nessa ocasião, Kranz descobriu ainda que a senhora ia viajar sozinha, o que lhe fez soar uma espécie de campainha no cérebro. A campainha tinia: ”Frau Braun é uma milionária, toda a gente o sabe em Hanôver. Um rapto será uma verdadeira sensação e o pagamento do resgate não oferece qualquer dificuldade. Se se actuar cautelosamente, nada poderá correr mal. Vai viajar sozinha até ao Sul... Algures, nesta viagem, desaparece... Oportunidades para isso não faltarão... Uma coisa bastante simples...”

 

Karl Lubizek, quando estava a tomar uma cerveja, à tarde, na companhia de Johann, via o assunto de uma forma diferente, mais complicada. ”Estás doido varrido, Johann!” E, em seguida, após Kranz ter desenvolvido os detalhes do seu plano, disse: - Esse tipo de coisas sempre falhou! Até agora, ainda ninguém conseguiu fazer isso na Alemanha. Foram todos apanhados, mais cedo ou mais tarde!

 

- Porque imaginaram coisas complicadas de mais! replicou Johann, num tom insistente. - Um deles esconderam-no numa casa em Dusseldorf, outro por baixo de um parque de estacionamento, um outro até mesmo num caixote... Tudo estava, desde o início, muito pura e simplesmente destinado a ir por água abaixo!

 

- E como tencionas levar a tua avante?

 

- De uma forma moderna. No campismo.

 

- Idiota.

 

- Obrigado. Escuta e limita-te a participar! Eu meto o dinheiro em caixa e tu encarregas-te da senhora. Não passará pela cabeça de ninguém que temos uma arca de ouro metida numa tenda de campismo.

 

- Até que ela dê o alarme, rasgue a tenda ou faça qualquer coisa do género. Acha-la capaz de ficar deitada no colchão a beber chá?

 

- Pensei em tudo - respondeu Johann Kranz, confiadamente. - Queres entrar ou não nisto? Meio milhão para cada um de nós, rapaz!

 

Mais tarde veio a comprovar-se que Johann Kranz não tinha, porém, pensado em tudo, mas nessa altura já não se encontrava preparado para desistir do empreendimento. Quem poderia, também, suspeitar que Kathinka Braun não iria viajar sozinha mas acompanhada de um homem totalmente desconhecido? Como teria sido possível imaginar que ela não ia à Riviera - como dissera o dono da oficina - mas até essa monótona Camargue que, segundo a linguagem livre de Karl Lubizek, era uma ”terra de merda”? E quem teria pensado que Frau Braun, juntamente com a sua companhia, se iria esconder num velho moinho que se encontrava no meio da aldeia a que pertencia?

 

Johann Kranz reflectia intensamente nas novas situações, quanto Karl Lubizek preferia esperar pelo lucro de um milhão e esquecer que avançava aos solavancos naquele automóvel velho.

 

- O nosso plano não se altera em nada - declarou Johann Kranz na tarde em que tinham observado, invejosamente, Kathinka e Zipka a fazer amor na margem do lago. - Esta região é a ideal para fazer campismo. Resta-nos escolher um belo lugar e ergueu a tenda.

 

- E o tipo? - perguntou Lubizek.

 

- Temos de esperar. Será uma coisa a resolver-se por si. Se for necessário, tratamos-lhe da saúde! Temos de saber improvisar, Karl! De agir habilmente!

 

- Falas como um professor! - retorquiu Lubizek, mal-humorado. - Uma coisa te prometo, no entanto: se este negócio correr mal e eu for parar com os costados à prisão, bem podes fugir para o Pólo Sul! Dou-te cabo do canastro! Entendido?

 

- Completamente! - riu Kranz, com uma expressão triunfante. - E, agora, comecemos a procurar um lugarzinho adequado para a tenda...

 

Descobriram um lugar ideal que não poderia convir melhor aos seus propósitos. Em Marais de la Grand Mar, os pastores das manadas de touros negros, que se chamavam guardiães, há anos que tinham construído, terra adentro, um abrigo provisório murado, que tinham coberto de terra. A toda a volta havia, entretanto, crescido relva e flores, que lhe davam a aparência de uma minúscula elevação nas estepes. Apenas uma pesada porta de madeira, que ainda denotava vestígios de tinta azul-clara, indicava o acesso à entrada da cabana.

 

Este bunker, como Johann Kranz baptizara a cabana, encontrava-se rodeado de bosquedos de zimbro e cardos elevados de um tom azulado - um rincão de terra selvagem e esquecida, sob um céu de uma vasta imensidade.

 

O interior da cabana já não revelava vestígios de presença humana. As paredes apresentavam-se caiadas de um branco rachado, a cor estava sumida e o chão cheirava a podre. Não havia mesas, nem bancos ou assentos apenas a divisão vazia.

 

- Fantástico! - exclamara Johann Kranz ao sair da cabana. - Montamos a tenda diante da porta e disfarçamo-la com ramos. Assim, nem ao ar livre nos descobrirão! Temos a dama e nada nos pode acontecer. Aqui ninguém nos virá procurar!

 

Lubizek tinha rosnado entre dentes, à semelhança de um cão que fareja um osso a que não pode chegar; em seguida, tinham montado e disfarçado a tenda.

 

O próprio Lubizek, que trepara para o telhado daquele abrigo de terra, tivera de anuir:

 

- Está bem. Não se avista, realmente, nada.

 

E agora tinham igualmente recebido Kathinka Braun de presente e viajado, com os mínimos, através da Camargue até ao esconderijo.

 

O primeiro obstáculo estava vencido: Johann tinha passado pelo pequeno acesso sem o ver e vira-se forçado a dar meia volta até encontrar o caminho certo para, dali, poder penetrar mais naquela região solitária. Quando finalmente divisaram, por entre a escuridão, o bosquedo e o pequeno montículo, Karl Lubizek soltou um assobio de alívio entre dentes.

 

Esconderam o automóvel nos elevados arbustos de zimbro, retiraram o corpo inerte do banco traseiro e transportaram-no, inconsciente, através da tenda para o abrigo de pedra.

 

Ali deitaram a raptada no chão e tiraram-lhe o saco da cabeça; mas antes que Karl Lubizek tivesse tempo de a iluminar com a lanterna de bolso, eles ouviram uma voz que disse:

 

- Vocês são uns idiotas chapados! O que vem a ser isto? Se receberem um milhão pelo meu resgate até sou capaz de pintar o céu de verde!

 

- Luz! - pediu Johann Kranz num tom raivoso. Luz, Karl! Com os raios!

 

O interruptor da lanterna de bolso soou com um estalido e a luz incidiu numa cabeça de mulher que não tinha uma cabeleira castanha, mas caracóis de um louro palha; o rosto também de forma alguma denotava parecenças com a beleza aristocrática de Kathinka Braun, mas tinha muito mais a ver com uma cabeça de boneca, de onde desaparecera nesse momento a pintura dos lábios e dos olhos. A jovem e estranha dama, que pouco se expressava como uma dama, tinha-se endireitado, apoiado os cotovelos no chão e fitava-os, encadeada pelo foco da lanterna de bolso.

 

- Mas que idiotice é esta? - disse a dama, cujo alemão denotava um toque nitidamente da Baviera. - Comigo vocês agiram com os tomates e não com a cabeça!

 

- Quem é você, então? - quis saber Kranz, num tom rouco.

 

Lubizek fez-lhe incidir a luz no rosto, examinou-lho e deu um murro na parede mais próxima.

 

- Merda! Raios! - explodiu, atingindo mais uma vez a parede que não tinha culpa de nada. - Merda! Agora apanhámos a mulher errada! Uma maldita galinha!

 

- Que é isso de estares com um dos vestidos de Frau Braun? - gritou Kranz, agitado.

 

- É emprestado! - retorquiu Lulu, ao mesmo tempo que dava uma pequena palmada na testa. - Confessem a vossa idiotice de quererem fazer o papel de raptores! Fazem-me dobrar de riso...

 

- E como foi morar para o moinho? - explodiu Kranz, que cada vez estava mais fora de si.

 

- Sou visita de Frau Braun.

 

- E ela deixou que se andasse a passear com as suas roupas?

 

- Não. Ela não sabe de nada. Nem sequer lá está.

 

- Onde está então?

 

- De visita ao marquês de Formentière...

 

- Um marquês! - rugiu Lubizek. - Ah! Ah! A nossa milionária a beber champanhe na casa de um senhor marquês! Como numa opereta! E nós apanhámos a falsa...

 

- Também como na opereta! - observou Lulu, dobrando os joelhos. - Numa opereta há sempre um par de idiotas que estragam sempre tudo. Assim parece...

 

- Enganas-te, bonequinha! - interrompeu-a Kranz, inclinando-se sobre ela. - Uma opereta é divertida e tem sempre um happy-end; raras vezes existe alguma com mortos. É aqui que reside a diferença. Connosco não existe um happy-end e ainda é bastante incerto se vais sair daqui viva...

 

- Não me venham com conversa de merda! - retorquiu Lulu impassível, mas deixando transparecer nos olhos uma expressão cautelosa e não perdendo um movimento dos homens. - O meu desaparecimento será conhecido o mais tardar de manhã cedo, e a partir de então não haverá um minuto mais de sossego para vocês! Nunca mais porão o dedo em Kathinka Braun! Um rapto não pode repetir-se. Façam as malas e regressem a casa, rapazes!

 

- Quem és tu? - perguntou Kranz, erguendo Lulu do chão e atirando-a de encontro à parede, tal a raiva que sentia.

 

Karl Lubizek soltou um grunhido. Foi pôr-se junto da rapariga e coçou o queixo.

 

- Ela não tem culpa de que sejas estúpido! - replicou com voz de trovão.

 

- Chamo-me Emmi Schmidt - disse Lulu, massajando o ombro esquerdo com o qual embatera na parede.

- Mas aqui ninguém sabe. Aqui chamo-me Lulu. Simplesmente Lulu...

 

- Só me faltava esta! - gritou Kranz, fora de si. Uma idiota!

 

- Sou a amante do marquês de Formentière...

 

- A amante! - pronunciou-se Kranz, num tom de cana rachada. - Também se chama assim nos círculos da sociedade? - Em seguida ficou repentinamente sério e mediu a rapariga como se ela fosse um objecto de venda. Depois esfregou a cana do nariz. - O negócio em grande foi por água abaixo, admito. Mas pelo menos temos de cobrar as nossas despesas com alguns juros. Quanto é que o teu senhor marquês estaria disposto a cuspir por ti?

 

- Nada! - respondeu Lulu imediatamente.

 

- E é a isso que se chama um grande amor?

 

- O Raoul não se submete a chantagem. É coisa que não conhece, rapazes! Uma chamada telefónica e vocês sofrem uma perseguição até se mijarem todos!

 

- A pequena é mesmo boa! - observou Lubizek com um sorriso de um canto ao outro. - Fala no tom exacto! Com ela não lucrarás um tusto, Johann!

 

- Talvez não seja assim - contrapôs Lulu, ao mesmo tempo que passava as mãos pelos cabelos. - Se conseguirem deixar de me encarar como refém e ver-me como amiga, falando sensatamente comigo... principalmente sem ser aqui... talvez possa dar-vos uma gorgeta.

 

- Já conhecemos esse truque - rugiu Kranz. - Ficas aqui!

 

- Idiotas! - riu Lulu baixinho. - Para onde iria a meio da noite? Sei, por acaso, onde estou? E, além disso, iria a pé?

 

- Ela tem razão! - exclamou Lubizek. - Não pode afastar-se.

 

Johann Kranz esboçou um aceno de cabeça afirmativo. Saíram do abrigo e foram sentar-se na tenda de lona; Lubizek tirou três cervejas do interior de uma arca congeladora.

 

- Tirou as tampas, distribuiu-as, e em seguida todos beberam silenciosamente.

 

Ficaram a olhar em frente; Lubizek deu um arroto, pediu até ”desculpa” e começou a tamborilar com os dedos na garrafa de cerveja.

 

- Estou disposto a escutar! - acabou Kranz por anuir. - Qual é a gorgeta?

 

- Talvez para vocês fique nos cem mil francos.

 

- Não é muito. O franco está a quarenta e seis pfennig.

 

- E depois ainda temos de dividir fifty-fifty... Uma ninharia! - rosnou Lubizek.

 

- Mas é alguma coisa, mesmo assim. - Lulu bebeu um enorme gole de cerveja. - Por mim, o marquês não dará um vintém que seja. Mas se lhe falarem do moinho...

 

- O moinho? - retorquiu Kranz, que era agora todo ouvidos. - O que se passa com essa velha casa?

 

- Nada de pormenores,   rapazes!   Limitem-se simplesmente a informar o marquês: ”Temos a Lulu em nosso poder e sabemos o que se passa com o moinho! Cem mil francos e recebe a rapariga, e nós esquecemos o que torna o moinho tão valioso...

 

- Quinhentos mil francos - interrompeu-a Kranz, como se estivesse num leilão.

 

- Negócio falhado! - comentou Lulu, com um sacudir de cabeça.

 

- Mesmo sendo o moinho tão valioso?...

 

- Mesmo assim! Ao ouvir falar em quinhentos mil o marquês mostrar-se-á teimoso e irá atrás de vocês como se fossem coelhos.

 

- E por cem mil não?

 

- Não compensava as despesas. Não posso dizer-vos mais nada, rapazes, mas se o Raoul puder obter calma a troco de cem mil francos, ele paga; por meio milhão vai exercer represálias.

 

- O assunto não me cheira nada bem - comentou Johann Kranz, ao mesmo tempo que atirava a garrafa de cerveja vazia para um canto da tenda.

 

- Não entendem que vos entregarei cinquenta mil francos de bandeja a cada um? - Lulu expressava-se de uma forma tão convincente que Lubizek, ante a apetitosa aparência de Lulu, estava disposto a acreditar em tudo, esboçou um aceno de cabeça aprovador. - Desempenharei um papel de isca fantástico.

 

- E como é que és visita de Frau Braun?

 

- Estou a cumprir uma missão para o marquês. Tenho de mantê-los afastados do moinho. E consegui... os alemães estão agora a morar na propriedade do marquês. Quem poderia ter calculado a vossa presença?

 

- Tocas, portanto, todos os instrumentos? - replicou Kranz num tom depreciativo.

 

- Se o som agrada, porque não? - Soltou nova gargalhada. - A vida está cheia de surpresas! Tem de se dar uma ajuda aqui e ali de vez em quando para não se ser apanhado na sua teia. - Lulu deu uma palmada na coxa e estendeu as belas pernas. - Estamos entendidos, rapazes? Têm de ser mais fixes, se querem dinheiro do grosso! Sei que o marquês irá ao moinho falar comigo. Têm de começar a agir já.

 

- O nosso belo milhão! - retorquiu Karl Lubizek, olhando tristemente em frente. - Já tinha suspeitado! Devíamos ter ficado em Hanôver quando vimos esse tipo entrar no automóvel. De onde veio ele, afinal?

 

- Não faço a menor ideia - respondeu Lulu, bebendo o resto da cerveja. - Chama-se Ludwig Zipka. Um homem fantástico! Por ele seria capaz de me apaixonar...

 

Johann Kranz argumentou que por cem mil francos não valia a pena grandes esforços. Escreveu por conseguinte num pedaço de papel uma comunicação ao marquês de Formentière que Lulu traduziu para francês:

 

Temos a Lulu em nosso poder e sabemos o que está escondido no moinho e a que se destina. Pode recuperar as duas coisas: Lulu e o nosso silêncio. Custa a ridicularia de cem mil francos! Ponha o dinheiro em notas pequenas por detrás da capela, na D 37, junto ao muro, mesmo por baixo da placa. Nada de polícia nem de vigia! Só aparecemos se tudo estiver em ordem. Antes disso não verá a Lulu. Caso nos molestem, não haverá mais Lulu e a polícia passará revista ao moinho. Confiança em troca de confiança - somos indivíduos sérios...

 

- Humor não vos falta! - Exclamou Lulu quando acabou de fazer a tradução e Kranz passou o texto a limpo. - ”indivíduos sérios”... Isso é para rir? Que horas são?

 

- Onze horas - respondeu Karl Lubizek, consultando o relógio de pulso.

 

- Está na hora, então! O Raoul vai ao moinho depois da meia-noite...

 

Foi uma bela noite, se se puser de lado o facto de que o marquês Raoul de Formentière se preocupou quase exclusivamente com Kathinka Braun, considerando Ludwig Zipka como um mero acessório; a sua maneira de falar com o alemão era tão convencida de que qualquer indivíduo menos educado o teria esbofeteado.

 

Ludwig Zipka aguentou a situação, mas vingou-se dando a entender mais do que uma vez ao marquês de que o considerava um grande imbecil e que aos seus olhos um título de nobreza e muito dinheiro não serviam para tornar uma pessoa válida.

 

A ceia - outra coisa não era de esperar em França! foi do maior requinte; o vinho poderia levar os apreciadores a excessos, e Alain encarregou-se de que o serviço funcionasse impecavelmente.

 

Depois de comerem, Raoul dançou três vezes com Kathinka, o que levou Zipka a interrogar-se como correria a digestão, pois quando dançou com Kathinka pela primeira vez mostrou como se dançava um tango com todos os matadores. Desenhou as figuras mais ousadas e era como se a noite marcasse uma antecipação das batalhas vindouras. Era um medir de forças, um pesar de hipóteses mútuas, um fechar de portas ao rival. Os próximos dias prometiam vir a ser interessantes...

 

Depois de Raoul de Formentière se ter despedido de Kathinka com um beijo na mão e um olhar demorado e Alain ter acompanhado os hóspedes aos seus aposentos, Ludwig Zipka sentou-se novamente na cama e ficou a observar Kathinka enquanto ela se despia e ia tomar duche.

 

Ela movimentava-se de braços erguidos sob a torrente de água, e ao longo da pele lisa as gotas assemelhavam-se a pérolas que escorregavam infinitamente; toda ela parecia uma estátua entregue a um jogo de água oferecia uma visão que penetrava no íntimo e tirava a respiração.

 

- Fantástico! - exclamou Ludwig Zipka, tomado de enorme admiração.

 

- O que é? - perguntou ela, pondo a cabeça fora de água. - Disseste alguma coisa, querido?

 

- Sim. Acho que neste momento consigo compreender que reis e imperadores tenham sacrificado os seus reinos a uma mulher bonita, Roma ou Cleópatra... também para mim não haveria que hesitar!

 

- E antes tinhas uma opinião diferente?

 

Kathinka saiu do duche, enfiou um amplo roupão de banho e limpou os cabelos com uma toalha mais pequena. Nesse momento parecia jovem, quase uma adolescente. Sentou-se numa poltrona, estendeu as pernas, e Zipka agarrou na toalha turca e secou-lhe os pés.

 

Em seguida, beijou-lhe os dedos dos pés e agarrou-lhos.

 

- Que idiotice! - exclamou, absorto.

 

- O quê, tesouro?

 

- A maneira como me comporto. Se alguém me tivesse dito que viria a beijar os dedos dos pés de uma mulher, ter-lhe-ia chamado doido. E o que é que estou a fazer aqui? Não há explicação!

 

Kathinka retirou os pés de entre as mãos de quem os acariciava e recostou-se mais na poltrona. Enrolou seguidamente a pequena toalha como um turbante em redor da cabeça.

 

- Sempre satisfizeste as mulheres? - perguntou Kathinka.

 

- Não entendo a pergunta - respondeu ele, olhando-a irritado.

 

- Consegues   ser   extraordinariamente   terno...   murmurou ela.

 

- É isso que me espanta.

 

- Como eras dantes?

 

- Nunca me dei ao trabalho de me observar. Lamento.

 

- Porque não te casaste?

 

- Porque me afastei sempre no momento exacto. Parecia ser típico das mulheres que conheci: depois de uma conversa de travesseiro, começavam logo a pensar no casamento e trabalhavam nesse sentido; tomavam sempre tudo tão a sério...

 

- E tu nunca tomaste nada a sério, verdade?

 

- Isso é a chamada pergunta fatal. Sei onde pretendes chegar. As pessoas apaixonam-se, dormem uma com a outra, deixa de haver segredos... tudo deve ser sem compromisso... Uma mera brincadeira! Um prazer biológico! A psique da mulher que interessa ao homem? Desde que ele tenha prazer... - Ludwig tossicou e desabotoou a camisa. - Quero tentar explicar-te.

 

- Porquê? Não quero casar contigo! - retorquiu Kathinka.

 

- Não? - replicou ele, fitando-a boquiaberto.

 

- Não!

 

- Mas, Tinka...

 

- Em caso algum! Não precisas de uma mulher para viver... ela pertence meramente à categoria dos estimulantes, como uma garrafa de vinho ou um bom conhaque. De resto, comigo passa-se exactamente o mesmo. Passaremos juntos seis semanas agradáveis e depois não nos veremos mais. Entendido?

 

- Não! Eu amo-te. Sabes perfeitamente que é assim. Contigo, tudo assume uma perspectiva diferente! Não consigo imaginar a vida sem ti ao meu lado.

 

- Passado ainda tão pouco tempo?

 

- É precisamente o que me surpreende! Seria capaz de cortar às postas qualquer homem que se aproximasse mais do que um metro de ti. Esse corrupto Raoul...

 

- Comportas-te, aliás, de uma maneira impossível...

 

- Ainda não foi o suficiente! Sou capaz de tocar outros instrumentos! - Tirou a camisa pela cabeça e desatou os atacadores dos sapatos. - O que quer afinal esse tipo? Não consigo responder a esta pergunta. Se se tratasse apenas de ti, hoje ter-se-ia comportado de uma forma diferente.

 

- Como?

 

- Sem tanta estupidez!

 

- Foi, no entanto, um verdadeiro gentleman. E sabe dançar o tango... contrariamente a ti!

 

- O meu tango não teve ímpeto?

 

- Achei-o ordinário e vulgar. Como tu dançaste dança-se nos cabarés. Não foi um tango... quase pareceu uma violação.

 

Zipka acabou de se despir e foi meter-se imediatamente no duche. Regulou a água primeiro para quente e depois para frio.

 

Saiu do duche a pingar e examinou o quarto. Kathinka já estava deitada e viam-se-lhe os ombros nus.

 

- Soube-me   muito   bem!   - exclamou   Zipka,   ao mesmo tempo que se friccionava. - Um duche frio! Seria capaz de deitar árvores abaixo!

 

- Por favor, não faças isso! - murmurou Kathinka.

- Vem para o meu lado... Passamos a vida a falar como dois idiotas, Wig! E só porque ainda não nos habituámos à ideia de que estamos mudados. Ambos! Eu amo-te... e isso é para mim uma coisa tão horrível como para ti.

 

Ele sentou-se no seu lado da cama, afastou o cobertor e estendeu-se. Deixou espaço suficiente entre ele e Kathinka, que o fitava surpresa.

 

- Não vais abandonar-me? - perguntou-lhe ele.

 

- Não, Wig...

 

- Nem depois destas seis semanas?

 

- Não! Nunca! E tu?...

 

- Sem ti, o meu mundo ficaria vazio e nu. És a minha vida...

 

- Vem... - convidou ela, estendendo os braços. Comprimiu os lábios com força. - Vem depressa...

 

Mais tarde, sentaram-se na cama e puseram-se à escuta.

 

Do lado de fora chegava-lhes um ruído estranho, um barulho de cascos.

 

- É um cavalo - disse Zipka, sem erguer a voz. Alguém vai a cavalo pelo pátio. Que horas são?

 

Kathinka estendeu a mão para o relógio.

 

- Uma hora da manhã. Quem anda a cavalo a esta hora?...

 

- É o que Vou ver.

 

Ludwig Zipka levantou-se de um salto, correu até junto da janela e perscrutou as trevas com o olhar. Divisou apenas duas sombras - um cavalo e um homem que o montava. Ao chegar junto do portão, o cavaleiro voltou-se na sela e depois avançou a trote pela noite. Impossível reconhecê-lo, mas para Zipka tudo se tornou muito claro.

 

- O teu marquês! - sussurrou de junto da janela. Cavalga como se fosse um Dom Quixote.

 

- A meio da noite?

 

- Desconhecia que os sonâmbulos também cavalgavam. É um tipo novo de sonambulismo. - Voltou novamente até junto dela e apoiou-se à cama. - Há qualquer coisa que não me cheira bem, Tinka! - declarou em seguida com uma expressão grave. - Ninguém sai a cavalo à uma hora da manhã pela região, a não ser que tenha   um   motivo   verdadeiramente   pesado!   Gostava, realmente, de saber o nosso papel no meio disto!

 

- De manhã regressamos ao moinho, Wig.

 

- Bravo! Ficaremos a saber se ele nos deixa!

 

- E se não deixar?

 

- Será um desenrolar de acontecimentos.

 

- Estamos em minoria, Wig. - Kathinka deu um salto da cama e agarrou na roupa. - O marquês não está cá. É a melhor oportunidade de nos pormos a andar!

 

- Impossível! - exclamou Zipka, apontando com o polegar na direcção da janela. - Lá por fora andam os cães. Diante deles até eu desisto...

 

Meia hora mais tarde, Raoul de Formentière chegava ao Moulin Saint Jacques. Não tomou qualquer cuidado particular em actuar com discrição, pois sabia que não encontraria ninguém.

 

Nessa altura, já o sargento Emile Andratte estaria a ressonar abençoadamente na cama, convencido de que a ideia de alguém vaguear à noite pela região de Mas d’Agon seria pura estupidez. Aqui, no coração da Camargue, nada havia que valesse a pena levar durante a noite de uma forma ilegítima. Ninguém se atrevia a roubar os cavalos, porque os cães estavam atentos. Também pelos canaviais as pessoas não ousavam aventurar-se, na medida em que um rebanho acordaria imediatamente os guardas; e um touro, criado na região selvagem, jamais poderia ser desviado em qualquer veículo sem que o partisse primeiro.

 

Há três anos tinham levado três touros para o pasto, após o que os tinham morto e transportado dali cortados em pedaços. Contudo, este caso logo foi descoberto em Aries, quando o dono de um talho, René Lapoche, levou a sua furgoneta para ser reparada na oficina e se descobriu um pedaço de pele de touro numa frincha. Na medida em que no matadouro apenas se pode comprar carne sem pele, e Lapoche abastecia-se no matadouro, ele foi delicadamente convidado a prestar declarações na polícia, onde lhe apresentaram o pedaço de pele e lhe disseram amigavelmente:

 

”É contigo, Lapoche. Ou confessas ou levamos-te até ao pasto onde os touros foram abatidos.”

 

Lapoche empalideceu. Pensou nos guardas que ali estariam à sua espera e não lhe restaram ilusões do que tencionavam fazer com ele. Por conseguinte, confessou.

 

Encontrou mesmo um juiz benévolo, porque confessou que precisava de ganhar mais dinheiro do que o que fazia no seu talho. Tinha em Saint Gilles uma fogosa rapariga com sangue cigano que herdara da avó, e isso custava dinheiro. O juiz interrogou também a mulher de Lapoche, examinou-a, e foi acometido de um profundo sentimento de camaradagem para com o preso na sua qualidade de homem igual a ele. Concedeu atenuantes a Lapoche, condenando-o a dois meses de prisão com pena suspensa e ao pagamento de cinco mil francos para o orfanato de Aries.

 

Também não havia vigia policial durante a noite em Mas d’Agon. A esta hora não havia passeantes e também não erravam automóveis por aquelas paragens. O marquês de Formentière não tinha qualquer dificuldade em cavalgar a trote até ao moinho.

 

No entanto, ali - e contrariamente à promessa de Lulu de deixar arder à meia-noite uma pequena vela no lado esquerdo da janela de cima - tudo estava mergulhado na escuridão.

 

O marquês deteve a montada, examinou o moinho imerso em trevas e, em seguida, avançou cautelosamente. Percorreu o último bocado a pé. Depois bateu com os nós dos dedos na janela das traseiras, que dava para a cozinha.

 

Nada aconteceu.

 

”Está a dormir”, pensou Raoul de Formentière. ”Sempre o velho ditado: não se pode confiar nas mulheres!” Em Lulu, porém, este nunca se enquadrara, pois ela constituía uma excepção. Ele tinha descoberto que ela era uma daquelas raparigas modernas que superavam o homem comum em presença de espírito, inteligência e força de vontade. Beleza com temeridade é uma mistura invulgar. E o marquês descobriu que, em Lulu, existia essa rara combinação.

 

Dirigiu-se um tanto agitado até à porta do moinho e ia bater quando avistou o pedaço de papel. Estava preso à madeira com fita-cola e esvoaçava na brisa nocturna.

 

Raoul arrancou o bilhete, voltou atrás e acendeu o isqueiro. Leu as escassas linhas à luz da chama trémula e soube imediatamente que, por um acaso demoníaco, se encontrava preso entre dois fogos. Para ele, podia significar a aniquilação total...

 

Dobrou lentamente o bilhete, empurrou a porta e entrou no moinho. Lá dentro, acendeu um dos candeeiros de petróleo e dirigiu-se às traseiras, a uma espécie de quarto de arrumações onde antigamente se colocavam os sacos de farinha; afastou uma porção de tralha para o lado e pôs à mostra um alçapão. Era difícil de descobrir, tão metido estava no solo.

 

Com a ajuda de um gancho de ferro que tirou do bolso, levantou a tampa, prendeu-a e, em seguida, desceu por uma estreita escada. Lá em baixo havia uma divisão com grossas paredes em pedra, cheirando a mofo, mas seca, apesar da água que corria no subsolo.

 

O marquês de Formentière levantou o candeeiro, cuja chama tremia.

 

Amontoados por todo o lado, havia filas e filas de caixas e caixotes. Em cima de uma pequena plataforma em madeira, protegida da humidade do chão, estavam acamados pequenos sacos de linho branco.

 

Raoul examinou o seu tesouro e deteve-se a pensar.

 

Tirar dali os sacos era impossível, ainda que Lulu e Alain o ajudassem. Havia apenas uma resolução a tomar: ganhar tempo até que fossem buscar a mercadoria. Todos os problemas deviam ser resolvidos antes da entrega do novo carregamento. Cem mil francos não eram obstáculo.

 

Meia hora mais tarde, o marquês saiu do Moulin Saint Jacques, mas não regressou à sua propriedade...

 

Cavalgou na direcção de Dom de Méjeanne, ao longo da margem do lago, e deteve-se junto a uma das escassas e isoladas cabanas de pescadores. A casa apresentava-se quase metida no lago, estava pintada de branco e rodeada de estacas, avistando-se ainda uma carroça numa cocheira aberta.

 

O marquês de Formentière desmontou, prendeu firmemente, o cavalo a uma estaca, aproximou-se da casa e bateu com os nós dos dedos numa janela trancada. O som lá dentro assemelhou-se a pancadas de timbales.

 

Nada dava a entender nesse momento que a região fosse qualquer terra de fadas desaparecidas, uma região de terra intocável pelo desfiar dos séculos, um paraíso cheio de harmonia e bem-aventurança...

 

Uma pessoa não pode deixar-se iludir pelos maravilhosos bandos de flamingos e de garças, pelos cavalos brancos e as manadas de touros negros da Camargue, pelas águas de um prateado-brilhante e inundado de Sol, do lago pejado de ilhas de canaviais e bosquedos... Por todo o lado habitam, igualmente, pessoas nas suas casas de pedras cúbicas, lisas e pintadas: pescadores, camponeses, pastores e operários. E se você é uma pessoa alegre, amável e algumas vezes até fechada, porque a natureza tem aparentemente mais a dizer-lhe do que os outros, preste igualmente atenção à velha regra: onde estão três pessoas, acaba-se a paz.

 

Os habitantes desta Camargue, deste gigantesco pedaço de natureza na foz do Ródano, são pessoas de uma raça muito especial. O tempo curtiu-lhes não só a pele mas também a alma. Não são fáceis de abalar, quer pelas chuvas ou secas, tão-pouco por pragas de mosquitos, peste bovina, ou investidas de moscardos. Também as fraquezas humanas são, regra geral, abafadas pela calma omnipresente e pelas pastagens infindas, mas quando um homem da laia de Marcel Bondeau vive no local já é possível perder-se a paciência. Pode-se atirar o barrete para trás, enrolar as mangas da camisa e, segundo os bons e velhos costumes, ”malhar” neste Marcel Bondeau, que não se defende, porque está habituado a este tipo de pancada.

 

Marcel Bondeau é um natural da Camargue.

 

O seu bisavô já tinha deixado rasto atrás de si: Dominique Bondeau ficara na história desta região, porque conseguira a proeza de se afundar em álcool. Consta que fora criado com vinho local e que regulava diariamente a tensão arterial com licor de anis.

 

O seu filho Frederic não era um bêbado, era um tecelão. Pintava. Em França e, particularmente, na Provence, a pintura não só é a arte mais nobre que se pode imaginar mas também um pintor usufrui da liberdade de ser louco; mas aquilo a que Frederic Bondeau se permitia ultrapassava todos os limites da tolerância. Intitulava-se ”Vincent II” e proclamava ser um segundo Van Gogh.

 

As pessoas já tinham aceite o facto, mas quando ele começou a besuntar, com pinturas indecorosas, as paredes da casa caiada de branco, o celeiro e, posteriormente, as redondezas - e tudo com a justificação de que era essa a verdade humana -, a família Bondeau começou pela primeira vez a receber um tratamento à parte. Frederic, o génio ignorado, era, de vez em quando, violentamente espancado, tendo morrido louco aos cinquenta e cinco anos - tal como o exemplo da sua vida, Van Gogh.

 

O pai do nosso Marcel, o contramestre Yves Bondeau, era um indivíduo de características muito especiais: bebia como o avô, não pintava como o pai, mas onde quer que pusesse o pé dedicava-se a contar das mais grosseiras piadas. Tudo o que era mulher também fazia melhor em se afastar não só das suas piadas mas igualmente das suas mãos, na medida em que estas, com a velocidade de um raio e a pontaria certa, se metiam por baixo de todas as saias, arrancando protestos agudos das vítimas.

 

Isto apenas para acentuar que a gente que morava no lago bem queria ensinar maneiras a este exemplar da família Bondeau, mas tal não era infelizmente possível.

 

Yves Bondeau, o contramestre, era um indivíduo com a força de um urso; transportava sacos de cimento como se fossem sacos de pão, conseguia acarretar pedras aos ombros e, em caso de necessidade, rebocar sozinho uma viga de andaime. Toda a região soltou um suspiro de alívio quando um dia Yves caiu do andaime e partiu o pescoço. Corre a lenda de que na igreja de Saint Gilles se pronunciou uma oração de graças por esse motivo e se acenderam algumas velas.

 

Marcel Bondeau vivia na casa solitária do lago sob o peso da hereditariedade. Era bêbado como o bisavô, um besuntão como o avô, tinha a má-língua do pai e além disso era pedreiro. Tinha uma mulher, a que chamava, afectuosamente, de ”minha porquinha”, mas faltava-lhe a força do pai. Podiam, assim, espancá-lo impunemente.

 

No entanto, tinha uma outra característica que lhe dava uma particularidade invulgar, como sempre acontecia aos membros da família Bondeau: quando estava bêbado e se metia em qualquer desordem, podia, após uma pancada na cabeça, cair num estado de morte aparente.

 

Quando tal aconteceu pela primeira vez, o infeliz que o atingiu julgou tê-lo morto. O Doutor Bombette, que logo foi chamado, não lhe sentindo a pulsação, preparou uma certidão de óbito e mandou que levassem Marcel Bondeau para a câmara mortuária. O sargento Andratte iniciou a caça ao assassino, mas passado um dia foi novamente convocado. Tinha acontecido um milagre. Marcel Bondeau levantou-se do caixão, espreguiçou-se, bocejou, deixando evolar um bafo nada agradável a álcool, saltou por cima de uma velha que rezava junto ao caixão e que ao vê-lo logo desmaiou, montou numa bicicleta de um estranho, que estava encostada à parede da capela mortuária e dirigiu-se assobiando até ao lago, de regresso a casa.

 

Josephine, a sua mulher, que para festejar a morte dele preparara um assado, ficou com um olho negro. Logo a seguir, Marcel Bondeau apareceu ao sargento, que ficou muito pálido, e insultou-o. O visitante seguinte foi o Doutor Bombette; este viu-se obrigado a ouvir que era tudo menos um médico e teve de passar um atestado comprovativo de que Marcel Bondeau continuava vivo. Por esse motivo, o Doutor Bombette enfiou-se na biblioteca, a fim de investigar que tipo de estranha doença poderia ter atacado o homem. Comprovou-se que em toda a literatura médica ainda não havia indício de um tal caso de morte aparente. Tratava-se indubitavelmente de um problema psíquico que fez de Marcel Bondeau um prodígio, na medida em que a partir dessa altura caiu sete vezes nesse estado de morte aparente, sempre que o espancavam quando estava bêbado. Nunca mais foi passada qualquer certidão de óbito. Levavam, muito pura e simplesmente, o morto-aparente para casa e depositavam-no diante da porta da infeliz Josephine.

 

Torna-se necessário saber tudo isto para se entender o que levou o marquês de Formentière a bater nessa noite à janela da casa de Marcel Bondeau.

 

Uma vez que alguém, depois da meia-noite, batia na sua janela e rugia: ”Apareça, Bondeau! Venha cá fora!”, só podia querer dizer que se iniciara uma campanha de vingança contra Marcel Bondeau. Só era estranho o tratamento por ”você”...

 

Marcel Bondeau saiu furtivamente da cama, arrancou um machado de cabo grande da parede e agarrou-o com ambas as mãos. Josephine, a sua corajosa mulher, muniu-se de um cacete que Marcel, numa inteligente antecipação, munira com pregos.

 

- Onde estiveste hoje? - sibilou ela. Vestida com uma camisa de noite cinzenta que chegava ao chão, oferecia na realidade um aspecto sinistro. - Em quem te puseste? Quem insultaste? Quem pode ser a estas horas?

 

- Um estranho! - respondeu Marcel, de ouvido à escuta e sem largar o machado. - Só pode ser um estranho. Ele disse: ”Venha cá fora!” Mas hoje não encontrei pessoas estranhas...

 

- Um turista, talvez! Confessa! Se calhar meteste as mãos na blusa de uma turista?

 

- Estive a fazer um muro para o Pauillac! Não tive tempo. Hoje foi um dia, extraordinariamente, sossegado. Não sei mesmo o que quer esse que está lá fora!

 

- É o que vamos saber imediatamente!

 

Josephine dirigiu-se à porta e, enquanto Marcel se colocava de pernas abertas e com o machado erguido sobre a cabeça, abriu-a.

 

Lá fora nada se mexeu.

 

- Entra! - rugiu então Marcel Bondeau, num tom excitado. - Entra na casa! Estou aqui... Marcel Bondeau... Mostra-te!

 

- Preciso de falar consigo - respondeu uma voz surgida do escuro da noite.

 

- Ih! Ih! Oh! Oh! - exclamou Marcel Bondeau, cheio de força e de coragem renovada. - Mete a cabeça na porta!

 

Josephine era mais corajosa do que o marido e, tal como a maioria das mulheres em situações difíceis, fez o que parecia mais certo.

 

Josephine colocou o cacete com pregos na sua frente, saiu de casa e gritou:

 

- De mim não quer nada. Por conseguinte, aproxime-se...

 

Depois, calou-se bruscamente, deixou cair o cacete e fez uma espécie de mesura.

 

Marcel, que ficara a observar esta saída ousada na segurança da casa, respirou fundo e deixou pender o machado. Para que Josephine se tivesse tornado humilde só havia três explicações: chegara o pároco, o Doutor Bombette encontrava-se diante da porta ou viera uma alta individualidade policial de Aries. No entanto, qualquer destas três hipóteses significava algo de desagradável...

 

Josephine afastou-se para o lado e o visitante nocturno recortou-se no campo de visão de Marcel. Agora, ele compreendia o que levara a mulher a reagir de uma forma tão humilde. Apoiou-se ao cabo do machado, passou a mão pelo cabelo encrespado e esboçou um arremesso de sorriso embaraçado.

 

- Senhor marquês... - pronunciou com voz insegura. - A meio da noite! É realmente o senhor?

 

- Posso entrar? - perguntou Raoul de Formentière, delicadamente: Em seguida abriu os braços. - Como vê, estou desarmado.

 

- Ah! Ah! Uma boa piada, senhor marquês! - Marcel Bondeau soltou uma risada de atrapalhação, pôs o machado de lado e bateu com a mão no peito. - Agora também estou. Quer realmente entrar? Na minha casa? Nesta espelunca?

 

Virou-se, dirigiu-se apressadamente à sala de estar, endireitou uma cadeira, meteu-lhe um trapo por baixo a servir de calço e atirou para um canto a garrafa de Pastis que tinha esvaziado na tarde anterior. Do tecto da sala pendia uma lâmpada, que balançava de um lado para o outro e onde Marcel Bondeau bateu com a cabeça.

 

O marquês comportava-se como se tivesse vivido sempre neste ambiente; sentou-se na cadeira, cruzou as pernas e esperou até que os dois Bondeau também estivessem sentados.

 

- Querem ganhar cinco mil francos? - perguntou, em seguida, calmamente.

 

Marcel fitou-o sem compreender e manteve-se silencioso.

 

Josephine cruzou instintivamente as mãos, como se o marquês tivesse dado início a uma missa.

 

- Juntamente com um caixote de vinho e um de licor de anis.

 

Marcel engoliu em seco, mas continuou sem pronunciar palavra. Olhava para o marquês embasbacado - era o mesmo olhar de um peixe atirado para fora de água.

 

Josephine sentiu-se assaltada de um leve tremor, em parte por causa dos cinco mil francos e por outro lado devido aos dois caixotes de álcool, cujo consumo lhe poderia acarretar problemas imprevisíveis. Já tinha experiência...

 

- Não chega? - continuou o marquês, com uma risada maliciosa. - Estou ainda disposto a oferecer mais dois mil francos se tudo bater certo.

 

- Quem devo eliminar? - quis saber Marcel Bondeau, num tom de voz surdo. Por uma soma tão elevada não era de esperar outra missão. - Ainda nunca fiz isso...

 

- Marcel nunca matou ninguém - retorquiu Josephine, queixosa.

 

- Só tem de se matar a ele mesmo - replicou o marquês, num tom despreocupado.

 

- Por sete mil francos e dois caixotes de bebida? gaguejou Marcel Bondeau.

 

- Vou explicar-lhe o que pretendo, monsieur Bondeau. Marcel enfiou a cabeça entre os ombros. Monsieur

 

Bondeau... agora o caso tornava-se perigoso! Os próprios polícias de Aries lhe diziam: ”Diz a verdade, Marcel. Abre a boca, pá...”

 

Monsieur era um tratamento que nunca ninguém lhe dava. Mergulhou nos seus próprios pensamentos... Há nove anos, pelo menos!

 

Da cidade, tinha vindo uma criada nova para casa de madame Lefèvre. A madame era dona de uma vivenda de Verão em Pâtis de Ia Trinité; viera de Avinhão, era imensamente rica, porque tinha recebido uma herança de um negociante de vinhos, e chamava sempre Marcel para proceder a reparações. E assim, há nove anos... Estava a arranjar uma parede da cozinha e a nova empregada tinha-o cumprimentado com um delicado: ”bom dia, monsieur” Marcel Bondeau acabou por engravidar a criada. Saiu-se, no entanto, brilhantemente do caso na medida em que também o motorista de madame Lefèvre estava implicado na paternidade. E como homem decente que era, foi ele a casar com a rapariga. Como tudo isso estava longe...

 

- O que quer que vá dizer, senhor marquês - balbuciou Marcel -, a verdade é que gostaria de continuar vivo.

 

- E continuará! O que preciso de si é a sua capacidade de passar por morto sem o estar! Expressei-me claramente?

 

- Não - gaguejou Marcel, cada vez mais confuso.

 

- Isso já nos trouxe problemas que cheguem - disse Josephine com voz trémula. - O doutor Bombette já não trata do meu marido quando ele cai repentinamente. E no entanto pode haver uma vez em que esteja, de facto, morto... Quem pode sabê-lo?

 

- Hoje em dia a medicina está tão avançada que se pode declarar com precisão se as funções vitais apenas diminuíram ou... para quem está realmente morto... terminaram!

 

- Na cidade, talvez - declarou Marcel com uma expressão sombria. - Mas aqui? Estamos entregues ao doutor Bombette.

 

- E isso é um bem, monsieur Bondeau. Tomarei a meu cargo que o doutor Bombette passe uma outra certidão de óbito.

 

- Nunca o fará!

 

- Fará sim. Deixe isso ao meu cuidado! E terá de ficar como se estivesse morto durante dois ou três dias.

 

- E depois enterram-no com vida! - gritou Josephine. - Desiste imediatamente desse negócio, Marcel! É uma heresia...

 

- Encarregar-me-ei pessoalmente de que nada lhe aconteça, monsieur Bondeau. O meu criado Alain fornecer-lhe-á de comer e de beber e estará junto do seu caixão a fim de que ninguém o incomode...

 

Raoul de Formentière levou a mão ao bolso do fato de montar, de onde tirou um maço de notas que atirou para cima da mesa.

 

Marcel Bondeau arregalou os olhos como uma rã que descobre um bico de cegonha sobre si.

 

- Um adiantamento! Dois mil francos...

 

- E tenho de me manter imóvel? - perguntou Marcel, engodado.

 

- Sim, mas só quando aparecerem estranhos. Nos restantes momentos, pode jogar ou beber na companhia de Alain... o que quiser. Só tem de fazer de morto quando o inspeccionarem.

 

- Por sete mil francos? - inquiriu Marcel, sacudindo-se como se tivesse acabado de sair de dentro de água.

 

- E porquê?

 

- Vou explicar-lhe de seguida. - Raoul de Formentière deu a volta à pergunta. - A sua missão tem várias fases. Primeiro, embriaga-se até não poder mais...

 

- Nisso é ele especialista! - interferiu Josephine.

 

- Cala a boca, porquinha! - ordenou Marcel, num tom áspero.

 

- Em seguida,   será apresentado a um casal.   Um homem tipo desportivo e uma senhora bonita e muito elegante. São alemães, mas falam muito bem francês. Quando, por conseguinte, disser à madame: ”Reservei um quarto para nós os dois, meu tesouro...”

 

- Nunca digo essas coisas! - protestou Marcel, fazendo um gesto de recusa com as mãos. - Torno tudo muito mais simples!   Agarro-a pela cintura murmuro: ”Vamos, bebé?” - Marcel soltou um grunhido de satisfação. - Dá sempre resultado, não é Josephine? Foi assim que conheci a minha mulher, senhor marquês. Mas neste caso é mais difícil...

 

- Porquê?

 

- O marido chega-me!

 

- É isso o que se espera dele! E, em seguida, você cai morto! E a sua missão fica cumprida. O marido deve sentir-se assassino...

 

- Mas passados três dias estarei novamente vivo...

 

- Nessa altura, há muito que tudo estará acabado...

 

- Raoul de Formentière levantou-se. Marcel e Josephine deram um salto das cadeiras. - Entendido?

 

- Há qualquer escolha, quando se é pobre? - respondeu Josephine num tom lamurioso, em vez do marido. Uniu de novo as mãos e ergueu os olhos ingenuamente na direcção do tecto. - Que Deus nos perdoe por abusarmos assim do descanso eterno.

 

- Ele perdoará... - declarou o marquês, laconicamente.

 

- E eu serei um cadáver exemplar - retorquiu Marcel Bondeau, ao mesmo tempo que contava o dinheiro. Estavam ali dois mil francos certos. - Não terá razão de queixa de mim, senhor marquês...

 

Kathinka Braun e Ludwig Zipka esperavam pelo regresso do marquês junto à janela do quarto imerso na escuridão.

 

Decorrido bastante tempo, ouviram o ruído de cascos de cavalo. O cavaleiro desmontou junto ao portão e conduziu o cavalo, pelas rédeas, até ao estábulo tão silenciosamente quanto possível. O marquês olhou uma vez de relance para a janela e pareceu tranquilo ao ver que nada se mexia.

 

- Uma pessoa com a consciência tranquila comporta-se desta maneira? - inquiriu Zipka, num murmúrio.

- Quanto tempo esteve ausente?

 

- Mais de quatro horas. O dia está quase a romper...

 

Sobre o longínquo delta do Ródano, o céu já se apresentava, de facto, claro. Um brilho de luz riscava a linha do horizonte. A noite desaparecia - iniciava-se a passagem para uma manhã de Sol.

 

- Ainda podemos dormir um pouco até ao pequeno-almoço - disse Zipka, com um bocejo.

 

Dirigiu-se à cama, onde se deixou cair. Kathinka permaneceu junto da janela.

 

- Consegues realmente dormir? - perguntou ela, num tom de censura.

 

- Na medida em que as noites aristocráticas são, aparentemente, fatigantes, devemos aproveitar todas as oportunidades para reunir forças mediante o sono, Tinka. É certo que até ao pequeno-almoço não vai passar-se mais nada de dramático.

 

- Não consigo pregar olho, Wig. Meu Deus! É preciso teres nervos de aço para conseguires dormir numa altura como esta...

 

- As coisas não irão melhorar se andar de um lado para o outro no quarto. - Bateu com a mão, convidativamente, no lugar ao seu lado. - Tinka, minha querida... vem deitar-te! Não podemos dar-nos ao luxo de estar cansados quando precisarmos de todas as forças.

 

Kathinka esboçou um aceno de concordância, deitou-se corajosamente ao lado dele e aninhou-se no braço que ele lhe passou por baixo da nuca.

 

Ele acariciou-lhe a face e começou a brincar meigamente com os seus cabelos. Era um tipo de ternura que ela podia aceitar, que a acalmava e lhe afastava o medo.

 

- Tenho uma ideia... - declarou Kathinka, subitamente.

 

- Cautela! Até aqui as tuas ideias foram sempre boomerangs que nos fizeram galos!

 

- Continuamos viagem de automóvel! - Ergueu a cabeça, depositou um beijo no nariz de Zipka e, em seguida, instalou-se novamente no refúgio que o braço dele lhe oferecia. - O que nos impede? Continuamos, simplesmente, viagem. Ao longo de toda a costa, até aos Pirenéus. Ali, em Languedoc-Rousillon, há praias maravilhosas com águas límpidas. E estamos longe, muito longe da Camargue.

 

- Queres, portanto, fugir?

 

- Se é isso o que lhe queres chamar...

- Tens medo!

 

- Tenho.

 

- Devemos ficar ainda alguns dias - retorquiu Zipka, fechando os olhos e atraindo Kathinka a si. - Este marquês passou a interessar-me. Há algo na nossa presença que lhe desagrada, e tenho de saber o que é. Sinto-me como se estivesse a destruir-lhe o espaço vital. Mas... Como? - Ludwig Zipka soltou novo bocejo, espreguiçou-se e prosseguiu quase num sussurro: - Fugir? Nunca. Daremos a volta ao prego. Não largaremos mais o elegante Raoul. Colar-nos-emos a ele como abelhas a um pote de mel. Ele chamou-nos... Voilá! Tem-nos em cima do pescoço! Terá de inventar outra coisa, e eu estarei tão alerta como a raposa à espreita do ganso... Céus! Como estou cansado! Boa noite, tesouro...

 

- Idiota!

 

Kathinka deixou-se ficar acordada, verificando, surpreendida, que ele adormecera realmente e que a respiração se lhe tornara calma.

 

Lá fora, o céu ia ficando mais claro e os minutos que faltavam para o surgir de um novo dia faziam com que o coração de Kathinka batesse mais depressa. Em seguida, também ela adormeceu e tudo se dissolveu no esquecimento.

 

Na casa de Marcel Bondeau iniciara-se, a esta hora, uma espécie de batalha doméstica.

 

Josephine entrincheirara-se por detrás da mesa e atingia Bondeau com panelas e tachos; Bondeau, por seu lado, agarrava numa vassoura esfrangalhada e tentava atingir a mulher na cabeça ou no peito. Tudo por causa dos dois mil francos que o marquês tinha adiantado.

 

Josephine havia-se apoderado rapidamente do dinheiro, que metera dentro da camisa de noite, entre os seios, enquanto Marcel acompanhava delicadamente a visita nocturna até à porta. Ao voltar, ele deu logo por falta do dinheiro.

 

- Dá-me o dinheiro para cá, porquinha - disse, num tom ainda amigável.

 

- Isto não vai ser para as tuas bebedeiras! - gritou Josephine num tom imperioso. - É a primeira vez que há dinheiro nesta casa! Vou pagar as dívidas com ele!

 

- Ela quer pagar as dívidas! - rugiu Marcel, quase arrancando o cabelo de raiva. - Desde quando é que um Bondeau paga as dívidas? Fazem-se dívidas, mas não se pagam! Caso contrário não havia dívidas! Passa para cá o dinheiro.

 

- Só por cima do meu cadáver!

 

- É o que pode acontecer-te!

 

Assim começara a luta; e, nessa altura, ainda se encontrava por resolver.

 

Marcel manejava a vassoura em seu redor e Josephine bombardeava-o com pratos e garrafas, que por ali não faltavam.

 

Quando o Sol da manhã iluminou a casa dos Bondeau, Marcel propôs um armistício.

 

- Metade para cada um! - sugeriu. - É justo!

 

- Nem um vintém para a tua bebedeira! - contrapôs Josephine, obstinada. - Vais receber duas caixas do marquês.

 

- Depois! Mas tenho de me encharcar para fazer de morto.

 

- Duzentos francos... não mais!

 

- Não chega! Com isso fico alegre e nada mais! Marcel Bondeau apoiou-se ao cabo da vassoura.   O contrato é que eu beba até cair. Se não conseguir... que situação! E todo o dinheiro vai por água abaixo. Com os raios! Preciso de capital para empatar!

 

A luta continuou, e quando o Sol dourou o céu, Marcel tinha vencido. Atingiu Josephine na cabeça; ela cambaleou, dando-lhe oportunidade a que a agarrasse, lhe rasgasse a camisa de noite do corpo e lhe arrancasse uma mão cheia de notas de entre os seios. O resto do dinheiro espalhou-se pelo chão.

 

Josephine ficou satisfeita por Bondeau não ter ficado com o dinheiro todo, mas se tivesse contentado com o que conseguira apanhar. Capitulou com um profundo suspiro, ao mesmo tempo que Marcel saía de casa a toda a pressa.

 

”Talvez desta vez morra mesmo”, pensou Josephine, não de uma maneira muito cristã, imaginando como o mundo podia ser diferente se não houvesse um Marcel...

 

Sairia dali provavelmente para Avinhão, onde poderia ganhar bom dinheiro como florista. E também encontraria outro homem, embora não da laia do seu Marcel...

 

Soltou novo suspiro, pegou no dinheiro que restava e contou-o.

 

A quantia que ficara satisfê-la. Era mais do que teria sido se tivesse dado a Marcel o que ele lhe exigira. Como os homens são tão estúpidos...

 

Na propriedade do marquês, Alain punha a mesa para o pequeno-almoço. Em seguida, telefonou para o quarto do marquês.

 

- Devo ir acordar os senhores?

 

- Eles falaram em hora?

 

- Não. O monsieur disse apenas que não gostaria de tomar o pequeno-almoço tarde, porque ainda queria dar uma volta por aí...

 

- Nesse caso, acorda.

 

Raoul de Formentière ainda estava deitado na cama a ler, repetidamente, o bilhete de chantagem que tinha arrancado da porta do moinho. E quanto mais estudava o texto, mais estranho e estúpido ele lhe parecia. De uma coisa estava certo: não eram profissionais! Não se tratava de adversários a tomar a sério, não era um golpe de eventuais concorrentes, cuja impassibilidade tão bem conhecia. Supunhamos que por detrás de tudo isto se encontrasse Armand Dularge.

 

Era absolutamente ridículo que ele escrevesse uma carta, exigisse cem mil francos e depois deixasse Lulu em liberdade. Há muito que Dularge teria obrigado a rapariga a falar com as suas bestialidades e há muito que teria esvaziado o moinho. Nessa mesma noite.

 

Também Zubiniak, essa besta do Líbano, não teria hesitado um momento em destruir o belo rosto de Lulu para se apoderar do segredo.

 

Não. Quem cola este tipo de cartinhas nas portas e se contenta com a ridicularia de cem mil francos é um vigarista do acaso! Contudo, também estes se podem tornar importunos quando julgam ter descoberto uma bomba de gasolina ao dispor.

 

Raoul de Formentière decidiu actuar mediante uma sequência: primeiro tratar de Ludwig Zipka, depois encarregar-se destes principiantes no gangsterismo. Quando a Lulu, não se deu ao trabalho de se preocupar - era muito pior o facto do moinho não se encontrar agora sob vigilância.

 

Dobrou com todo o cuidado o bilhetinho da chantagem, tomou um banho frio e refrescante, porque o Sol da manhã já parecia invulgarmente quente, escolheu um elegante fato cor de areia com uma camisa de seda e um lenço de pescoço também em seda a condizer, perfumou-se discretamente e sentiu-se satisfeito consigo mesmo. Detestava a maneira brutal como o seu sócio e os concorrentes no negócio actuavam e para os quais a vida humana de nada valia.

 

Podia agir-se de maneira diferente, e há muito que ele o tinha comprovado. Havia muitos no ramo que não o tomavam a sério; mas depois de, nos últimos três anos, com as suas maneiras elegantes, ele se ter apoderado de todo o negócio no Sul da França e de dois adversários particularmente convencidos terem morrido afogados, casualmente, um a seguir ao outro, no Mediterrâneo - o marquês foi aos enterros e depositou coroas gigantescas de flores nos caixões -, houve uma mudança de opinião. Agora chamavam ao marquês de Formentière um ”diabo de casaca”. Raoul nada fizera para desacreditar essa reputação.

 

O telefone tocou novamente.

 

Alain comunicou que os senhores tinham ido ao jardim de Inverno e que o monsieur dissera: ”Dormi muito bem, Alain. E este tempo é maravilhoso! Tenho uma fome que só pode ser acalmada com seis ovos...”

 

Depois do pequeno-almoço, em que Raoul denotou um encanto inexcedível, contando histórias de caça aos patos no lago e anunciando que estava para se construir uma praça de touros em Aries, foi mostrar a sua propriedade a Kathinka e a Zipka.

 

Os três cães seguiram-nos a uma certa distância, maravilhosamente treinados, marcando presença mas sem darem nas vistas.

 

- Ao meio-dia vamos comer a Mas d’Agon - sugeriu o marquês, enquanto Alain servia sumo de laranja gelado. - Tive de fazer essa promessa aos prestáveis Dupécheurs. Para eles, é uma honra especial cozinhar para nós. Digo-lhe uma coisa, madame: O Francois faz um lombo de carneiro como não consegue encontrar em toda a costa! E os lagostins grelhados... uma maravilha! Não podemos perder!

 

Por volta da uma hora, Alain esperava com o automóvel preparado. Kathinka estava no quarto a pôr um pouco de rouge e Zipka mudava de camisa. Fazia imenso calor.

 

- Entendes isto? - perguntou ela, casualmente. Não se passa nada.

 

- Ele é um requintadíssimo safado.

 

- Mas comporta-se como um grande senhor, Wig. E se apenas estivéssemos a imaginar fantasmas? Se não formos mais do que seus convidados? Este almoço na estalagem dos Dupécheurs, o programa que planeou... se fosse apenas e só uma perfeita hospitalidade?

 

- Confesso que também eu me sinto hesitante - disse Zipka. - Seria bom de mais se me tivesse enganado...

 

Nesta altura, já havia soado o alarme em Mas d’Agon: Marcel Bondeau estava a beber como nunca! E o mais espantoso é que pagava! Metia simplesmente a mão no bolso e punha francos em cima do balcão!

 

O sargento Andratte não conseguiu entender quando recebeu as novidades pelo telefone.

 

- Só está a beber do melhor! - informou Dupécheur.

- E de que maneira! Está a encher como se fosse um barril. É muito estranho! Devias ver, Emile! O Marcel leva a garrafa à boca como se estivesse a tocar clarim! O que hei-de fazer? Daqui a meia hora tenho o marquês e o casal alemão como convidados! O Marcel está a insultar a minha casa com a sua presença!

 

- Basta pô-lo fora! - retorquiu Andratte.

 

- Não posso. Está a pagar o que bebe. Segundo a lei, sou obrigado a servir os que pagam. Mas se a polícia...

 

- Só posso intervir se o Marcel perturbar a ordem pública ou a calma. Ele está, pelo menos, a berrar?

 

- Não, não. Limita-se a beber calmamente.

 

- Cospe para o chão? Está a infringir de qualquer maneira os bons costumes?

 

- Nem pensar. Está a portar-se à altura. Acho tudo muito estranho. O que hei-de fazer?

 

- Eu Vou aí.

 

- Obrigado, Emile.

 

Contudo, também o sargento Andratte não descobriu qualquer razão para intervir quando chegou à estalagem de Dupécheur. Marcel Bondeau fitou-o completamente embriagado, mas cumprimentou delicadamente a autoridade, levando a mão à testa e balbuciando:

 

- Vive la France, sargento!

 

Andratte engoliu em seco. Contra aquela atitude, nada havia a fazer. Não podia prender-se um homem que dava vivas à pátria. À semelhança de todos os presentes, também Andratte se surpreendeu quando Marcel Bondeau encomendou uma nova garrafa e colocou a respectiva quantia em cima do balcão.

 

- Vai para casa, Marcel! - convidou Andratte, num tom benévolo. - Por hoje basta!

 

- Monsieur Bondeau - corrigiu Marcel, num tom extraordinariamente   calmo.   -   Chamo-me   monsieur Bondeau, sargento. Na qualidade de cidadão da grande república francesa, cabe-me o direito de que me tratem por monsieur. O que é que disse... por favor... sargento?

 

Andratte engoliu uma praga e ficou vermelho.

 

- Nem mais uma palavra!

 

Marcel Bondeau esboçou um gesto de indiferença e começou a tamborilar no balcão, enquanto Dupécheur, de olhos muito abertos, trazia mais uma garrafa.

 

Florence apareceu a correr, vinda da cozinha, de onde se podia avistar a estrada.

 

- Vêm aí! - anunciou. - Suplico-te, Emile: interfere!

 

Afasta o tipo! Não há uma lei que permita que se prendam os bêbados?

 

- Só quando estão a incomodar.

 

- Sinto-me incomodado!   - exclamou Dupécheur; mas era tarde de mais; ouviu-se o guinchar de travões diante da porta, e Dupécheur estremeceu. - Tudo estragado! Tudo! Quando se pede ajuda à polícia...

 

- Tenho as minhas normas! - retorquiu Andratte num tom brusco, ao mesmo tempo que se endireitava, se punha como se fosse um muro diante de Marcel Bondeau e fazia a continência.

 

Raoul de Formentière e os seus convidados entraram no local.

 

Pode pensar-se o que se quiser de Marcel - a maioria dos pensamentos nada de bom -, só que, apesar de ser um bêbado e da sua falta de barreiras morais, havia no mais fundo do seu coração uns resquícios da velha galanteria francesa. Talvez não se acredite, mas assim era!

 

Por cima dos largos ombros do sargento Andratte, Marcel Bondeau mirou Kathinka Braun... e sentiu repentinamente que não se encontrava à altura da missão! Até esse momento, havia sempre ofendido mulheres ou raparigas que respondiam com um guincho ou um forte insulto, raparigas que provinham de um meio em que um beliscão nas mamas não era considerado uma violação física e também não constituía um grande crime do ponto de vista moral.

 

Até esse momento, Marcel nunca tivera um gesto insultuoso contra uma dama de verdade. Neste caso, o instinto ditava-lhe o terreno que pisava. As damas distintas ficariam extraordinariamente ofendidas ou exigiriam a intervenção do advogado... As raparigas da Camargue soltavam, pelo contrário, um guincho ou qualquer exclamação que era motivo suficiente para ir a confissão. Contudo, em casos extremos, entravam uns indivíduos no plano e espancavam Marcel.

 

Marcel apercebeu-se, imediatamente, de que aqui o caso era diferente. Tratava-se de uma senhora de extraordinária beleza e encanto.

 

O marquês piscou-lhe um olho, mas Marcel continuou a sentir-se embaraçado. Estendeu a mão para a nova garrafa, levou-a à boca, bebeu um gole enorme e em seguida tossiu mesmo para cima do robusto pescoço do sargento.

 

Andratte ergueu os ombros, empalideceu, mas devido à presença da alta individualidade resolveu não chamar Marcel à ordem.

 

Dupécheur pediu ao Senhor, no íntimo do coração, para sobreviver a este dia. Entretanto, a mulher acompanhava os convidados a uma mesa reservada a um canto da sala e repetia-lhes mais uma vez como se sentiam felizes por eles terem ido comer lá a casa.

 

Marcel arrotou ao ouvido esquerdo de Andratte, deu a volta por trás do sargento, antes que ele o pudesse impedir, e afastou-se a cambalear de junto dele, sem lhe dar tempo a que o agarrasse.

 

Dupécheur soltou uma exclamação abafada, que se assemelhava ao grito de um elefante furioso, mas de nada serviu.

 

Marcel Bondeau, que nesse momento pensava apenas nos sete mil francos e nos dois caixotes de álcool, começou a desempenhar o seu papel.

 

Kathinka Braun ainda não se tinha sentado, estando a conversar com Florence Dupécheur; e Marcel já se encontrava ao seu lado. O marquês recuou prudentemente, deixando assim o caminho mais curto aberto para Zipka, se bem que dando a entender que ia afastar a cadeira para que Kathinka se sentasse.

 

Marcel respirou fundo, reuniu toda a sua coragem e deu um ligeiro beliscão nas nádegas da dama.

 

Dava sempre resultado.

 

Kathinka estremeceu involuntariamente e deitou um olhar reprovador a Zipka.

 

Nesse mesmo momento, Marcel exclamou:

 

- Que belo traseiro! Curvas por todo o lado e uma boca com o desenho exacto... Vem cá, rapariga! Uma mulher só fica verdadeiramente bonita depois de me conhecer...

 

Dupécheur deu a volta ao balcão munido de uma garrafa vazia como arma.

 

- Desaparece - ordenou o marquês num sussurro. O sargento Andratte suava abundantemente devido à

 

excitação; deixou escapar todo o ar que inalara e em seguida rugiu:

 

- Vem cá, Marcel!...

 

No entanto, Kathinka Braun agarrou-lhe os dedos no preciso momento em que ele estendia a mão, visivelmente para lhe apalpar os seios.

 

Foi um erro, na medida em que Marcel Bondeau, completamente embriagado, soltou um berro tão agudo que o próprio Zipka estremeceu.

 

- Ela... ela bateu-me! - gritou Marcel. - Oh, como me bateu. Tenho os dedos da mão partidos. Ah, esta dor! Como arde e corno me dói! Uma dor que me penetra até ao coração! Tens de consolar-me...

 

Avançou aos tropeções para Kathinka, abriu os braços e dispôs-se a novo contra-ataque.

 

O que Raoul de Formentière esperava, aconteceu de imediato. Ludwig Zipka não o desiludiu: impediu o caminho a Marcel Bondeau, avaliou por breves momentos o rosto avermelhado pelo álcool e bateu-lhe. Aplicou um golpe seco, um ”gancho” como se chama no boxe, no ponto exacto, mesmo por baixo do queixo.

 

Ao longo da vida, Marcel Bondeau tinha sido esmurrado muitas vezes, mas era a primeira vez que lhe aplicavam um golpe tão perfeito.

 

Sentiu, admirado, como se ia tornando cada vez mais leve, até começar a ficar suspenso no ar - e a impressão era agradável. Desenhou ainda uma pirueta sem ter os pés assentes no chão, os rostos à sua volta perderam contornos e, cheio de uma felicidade interior, caiu redondo no chão sem qualquer dor.

 

Nesse mesmo instante, a sua respiração parou. Entrava em actividade o fenómeno médico que caracterizava Marcel Bondeau.

 

Kathinka fitou assustada a figura estendida à sua frente. Em seguida, levou a mão direita à boca e pousou os olhos, em que transparecia o medo, em Ludwig Zipka.

 

Entretanto, o marquês ajoelhou-se junto ao corpo de Marcel Bondeau, encostou o ouvido ao peito do morto aparente, humedeceu o polegar e levou-o aos lábios de Marcel.

 

Por detrás do balcão, Florence Dupécheur soluçava histericamente.

 

O sargento Andratte agarrou firmemente o furioso Dupécheur, que ainda pretendia bater em Marcel com a garrafa vazia.

 

Raoul de Formentière levantou-se com uma expressão grave e estendeu a mão para um guardanapo branco bordado com um monograma.

 

- Está morto! - declarou o marquês, num tom surdo.

 

- Não! Por amor de Deus! Não! - balbuciou Kathinka Braun. - Wig! Oh, Wig... não é possível...

 

Chegara agora, porém, o grande momento de Andratte.

 

Aproximou-se de Marcel Bondeau, virou-o de lado com o bico da bota e disse num tom imperioso:

 

- Nada de excitação, meus senhores! Já conhecemos a cena! Marcel não está morto... embora assim pareça. O doutor Bombette diz que se trata de um caso único na história da medicina.

 

Amanhã voltará a si.

 

- Está morto! - insistiu o marquês, colocando o braço em redor do ombro de Kathinka. - Peço que confiem em mim; sei reconhecer quando alguém está morto. Sou caçador! O doutor Bombette irá confirmar. Chamem o médico, por favor.

 

- Ele não vem!

 

Dupécheur inclinou-se sobre o corpo de Marcel, que começava a ficar sem cor, e arrancou-lhe a camisa do peito.

 

Nem um movimento, o menor indício de respiração!

 

Não fazia agora sentido esbofetear Marcel ou utilizar quaisquer outros meios para o fazer vir a si... O seu estado, para o qual a medicina não encontrara ainda solução, prolongava-se por vinte e quatro horas. Isso sabia-se. Da última vez, alguém tentara fazê-lo recuperar os sentidos com amoníaco - mas também essa medida não tinha resultado! As suas funções vitais não reagiam fosse a que estímulo fosse!

 

- Exijo que chamem imediatamente o doutor bombette! - exclamou o marquês num tom enérgico. Os meus convidados encontram-se metidos, por este acaso, numa situação invulgarmente desagradável. Nem todos os dias um homem é espancado de morte diante de mim...

 

- Permita-me, marquês! - interferiu Zipka. - Eu não...

 

- Nada de excitação, monsieur] Agora convém manter a cabeça fria! Somos todos testemunhas. Você comportou-se de uma forma cavalheiresca, como qualquer de nós o teria feito. Apenas se me antecipou, pois eu também lhe ia bater! Mas tal não altera o facto de que o homem está morto! - Olhou em redor. - Deixou alguém?

 

- Uma mulher. É Marcel Bondeau, o pedreiro. Dupécheur dirigiu-se apressadamente ao telefone e

 

marcou o número do Doutor Bombette. Falou durante muito tempo com ele e depois regressou muito contrito.

 

- O doutor Bombette vem aí, mas disse: ”Se o Macel Bondeau estiver novamente a fazer teatro e não estiver de facto morto, pagará o meu peso em ouro!” Tal como Aga Khan! Ainda bem que o doutor pesa uns meros cinquenta e cinco quilos!

 

O sargento Andratte afastou uma cadeira, sentou-se a uma mesa e retirou um bloco-notas do bolso.

 

O marquês olhou-o surpreendido e sacudiu a cabeça.

 

- O que significa isso, sargento?

 

- É meu dever escrever uma informação. - Andratte molhou a ponta do lápis e colocou a data no papel. - O interrogatório começa imediatamente...

 

- Interrogatório? Mas você estava presente, Andratte. Foi um acidente! - exclamou Zipka. - Você mesmo é testemunha disso!

 

- Agora sou investigador, monsieur! Tudo pela sua ordem! Quando chegar a devida altura, eu próprio serei interrogado.   As circunstâncias são conhecidas: atingiu um homem com um murro no queixo e o homem está morto. Provavelmente, rebentou-lhe uma veia no cérebro, monsieur. Mas que murro. Devia ter licença de porte de arma para o seu próprio punho! Como se chama?

 

- Não será melhor esperar até o doutor Bombette ter procedido ao exame, sargento? - interferiu o marquês.

 

Sentia-se muito satisfeito. Até essa altura, não se tinham verificado contratempos, embora se visse forçado a admitir que o aspecto de Marcel Bondeau e a ausência total de vida demonstrada eram de chocar. Até então, só conhecia tais fenómenos através de descrições... Agora, confrontado com os factos, era difícil acreditar que Marcel Bondeau ainda se encontrava realmente vivo. O marquês não estava a gostar nada da cor do rosto. Não havia nenhum ser vivo com aquela cor branco-amarelada...

 

Kathinka Braun havia-se encostado a Ludwig Zipka, como se assim fosse possível afastar todas as investidas que lhe fossem dirigidas.

 

- O que havemos de fazer? - sussurrou ela, enquanto o marquês falava com Andratte.

 

- Não podemos fazer nada, querida - sussurrou Zipka, em resposta.

 

- E se o mataste, realmente?

 

- Tenho de admitir que não é motivo para me alegrar, não duvides.

 

-- Significa prisão! Metem-te na prisão durante anos, Wig. E ainda por cima és estrangeiro... alemão! Um alemão mata um pobre bêbado francês... virão ao de cima todos os antigos ressentimentos! Meu Deus! Como é possível?

 

- Só nos resta esperar! Foi um caso de legítima defesa.

 

- Mas não foi a ti mas a mim que ele atacou! Oh, Wig! E tudo por minha causa!

 

A porta abriu-se de rompante. O Doutor Bombette, o indivíduo baixo com voz de trovão, entrou no local, afastou Dupécheur para o lado e curvou-se sobre Marcel Bondeau.

 

- Será uma visita cara! - rugiu. - Toda a gente vê que o Marcel está cheio de álcool! Desejou expressamente que aqui viesse, senhor marquês?

 

- Sim. Estou preocupado...

 

- Esta consulta custa dois mil francos!

 

- Pago-lhe dez mil francos se me garantir que monsieur Bondeau ainda está vivo!

 

- Está vivo! Tem-se mantido conservado em álcool uma vida inteira.

 

Atingiram-no.

 

- Também faz parte da história do costume!

 

- No queixo. Caiu como uma árvore. Já não respira.

 

- Marcel Bondeau constitui um caso raro de morte aparente perfeita.

 

- Como pretende comprovar isso, doutor?

 

- Há que esperar! Se não ficar com rigidez cadavérica ou os restantes sinais da morte, o tipo está vivo. Daqui a três dias ficaremos a saber exactamente. Mas nunca ficou assim durante tanto tempo. Amanhã já andará outra vez por aí. Um milagre!

 

- Essa declaração acalma-me extraordinariamente. O marquês dirigiu-se a Andratte, que esperava resultados. - Ante tais dúvidas, um interrogatório policial não faz sentido. Esperemos até ver o que acontece a Marcel Bondeau...

 

- De acordo - anuiu o sargento, guardando o bloco.

- Levem Marcel para casa...

 

- Para onde? - inquiriu o marquês.

 

- Para casa! Para onde ele pertence. O seu lar. A Josephine já está habituada.

 

- Mas se ele estiver realmente morto?

 

- Protesto! - exclamou o Doutor Bombette, ao mesmo tempo que dava um estalido com os dedos. Dupécheur estendeu-lhe um copo de conhaque. - Não permito que leigos ponham em dúvida o meu diagnóstico.

 

- Sugiro que cheguemos a um entendimento: Marcel Bondeau seja depositado numa das capelas mortuárias e o meu criado Alain ficará de vela - disse o marquês.

 

O sargento Andratte abanava-se com o bloco de apontamentos.

 

- Impossível. O pároco recusa-se a receber o Marcel mais uma vez, depois de já lhe ter dado a bênção eterna por três vezes. Ninguém está disposto a aceitá-lo.

 

- A polícia - retorquiu Zipka.

 

- Não é uma missão da incumbência da polícia ocupar-se de mortos aparentes - replicou Andratte com um olhar viperino. - Também não fazem isso na Alemanha, monsieur l

 

- Mas têm certamente uma cela onde ele possa esperar...

 

- Onde não pertencem mortos, quando estão mortos.

 

- Resta apenas o hospital de Aries - replicou Kathinka, deprimida.

 

- Um hospital só aceita doentes, mas mortos não. Andratte limpou o suor da testa e suspirou. - O que tem a dizer, doutor?

 

- Que ninguém quer aceitar Marcel Bondeau! - rugiu o Doutor Bombette. - Um hospital precisa de um certificado de internamento. O que hei-de escrever? Choque devido a álcool? Em Aries irão considerar-me louco se ele estiver de facto morto. Se escrevo falecimento por choque e ele está vivo, qual a minha posição? Podem-se dar voltas e mais voltas que a questão é sempre a mesma: este indivíduo só nos traz problemas.

 

- Mas a verdade é que ele tem de ir para qualquer lado! - disse o marquês, agora num tom enérgico. Não pode ficar aqui para sempre!

 

- De forma alguma! - exclamou Dupécheur, que até esse momento se conservara silencioso. - Sou dono de uma estalagem e não de uma capela mortuária!

 

- Tive uma ideia! - exclamou Ludwig Zipka, que pôs um dedo no ar como um aluno de escola que pretende uma informação. - Os bombeiros de Mas d’Agon! Deitamo-lo na garagem dos bombeiros. Ali fica seguro e não incomoda ninguém.

 

- Muito bem! E o meu criado fica de vela! - O marquês esboçou um aceno de agrado. - A polícia também tem alguma coisa contra?

 

- Da discussão nasce a luz... foi sempre um dos meus lemas!

 

O sargento Andratte olhou para o corpo imóvel de Marcel Bondeau. Foi acometido por algumas dúvidas. Marcel nunca ficara com aquele aspecto. Deveria talvez chamar-se Josephine? Ela conhecia melhor as particularidades deste estado do marido.

 

- Levamo-lo, portanto, para os bombeiros. Quanto tempo pode durar o fenómeno, doutor Bombette?

 

- Não me pergunte isso. - O médico auscultou Marcel Bondeau e em seguida abanou a cabeça. - Nada! Mas já não é novidade para nós. Quem é que lhe bateu?

 

- Eu! - respondeu Zipka, com um encolher de ombros. - Se tivesse sabido...

 

- Agora não fique para aí com um sentimento de culpa, monsieur. Há anos que esperávamos que o Marcel Bondeau deixasse de nos comer por tolos e morresse mesmo.

 

- Mas eu não tenho qualquer ambição de ser o factor que desencadeie a situação - retorquiu Zipka, num tom acalorado. - Não se pode dar qualquer injecção a Marcel Bondeau?

 

- Para quê? - retorquiu o Doutor Bombette, com uma risada de censura. - Cada medicamento aplicado seria eliminado pela enorme concentração de álcool. Também poderia injectar uma garrafa inteira de conhaque.

 

Entretanto, a estalagem de Dupécheur enchera-se de curiosos.

 

Tinha-se espalhado a notícia de que Marcel Bondeau deveria ser novamente posto de costas e transportado para os bombeiros. O facto alarmou o chefe dos bombeiros de Mas d’Agon, o galhardo Dulallier, que irrompeu por ali dentro com o palavreado:

 

- Protesto! Protesto! Não Vou abrir a garagem dos bombeiros. Primeiro tenho de saber quem vai pagar a limpeza.

 

- Limpeza? - perguntou o marquês, consternado. As coisas assumiam um aspecto diferente. - O que é que haverá para limpar?

 

- Oh! Como é possível que faça uma pergunta dessas? - Dulallier deixou-se cair numa cadeira e fitou o corpo de Marcel Bondeau, que assumira uma rigidez cadavérica. - Parece tão inofensivo, agora! Mas esperem só até ele acordar! Então, o seu corpo vai explodir por todas as aberturas... E querem que ponha as instalações dos bombeiros à disposição? Nunca! Protesto!

 

- E se desta vez estiver realmente morto? - retorquiu Andratte, num tom pensativo.

 

- Podem garantir-me isso? - perguntou Dulallier, fitando intensamente o Doutor Bombette.

 

- Claro que não - rugiu o médico. - O bombeiro está a pretender ser mais esperto do que a medicina?

 

Acordou-se em que o marquês se responsabilizaria por tudo, e o pobre Marcel seria, por conseguinte, finalmente levado dali. Deitaram-no na parte de trás do carro de incêndios, numa maca, e colocaram junto uma cadeira, onde Alain, o criado do marquês, ficou a velar. Florence Dupécheur foi mesmo ao ponto de levar um ramo de flores, que colocou num grande vaso de barro e com o qual decorou a divisão.

 

O Doutor Bombette examinou o infeliz uma vez mais.

 

- Nada - comunicou, quando se ergueu novamente.

- Mas também nenhuma rigidez.   Sinto-me curioso, messieurs, muito curioso...

 

A meio da tarde, Josephine Bondeau apareceu no posto dos bombeiros, chorou comovedoramente, colocou um ramo de flores silvestres no peito de Marcel e disse a Alain:

 

- Agora morreu mesmo. Nunca ficou com este aspecto!

 

Em seguida, dirigiu-se ao talho, comprou um pedaço de carne de carneiro e pagou a pronto. À estalagem de Dupécheur foi buscar uma garrafa de vinho tinto do melhor.

 

- Ele mereceu que o venere sempre - explicou, num tom triste. - Por isso, como.

 

O almoço na estalagem dos Dupécheurs ficou naturalmente anulado. Tão-pouco Kathinka ou Zipka sentiam agora apetite.

 

Beberam dois copos de Picon para tomarem coragem e, em seguida, deixaram-se transportar de automóvel até à propriedade do marquês.

 

Para trás, metade da aldeia trocava impressões e bebia.

 

No final, Dupécheur ficou satisfeito com o movimento da casa.

 

Os acontecimentos dramáticos prosseguiram durante a tarde. Raoul de Formentière não se dava ao cuidado de disfarçar que se encontrava muito preocupado. Fez alguns telefonemas do escritório - pelo menos foi o que comunicou a Zipka e Kathinka quando voltou ao salão que apenas serviram para lhe aumentar as preocupações.

 

- Ponderando todas as hipóteses, temos de concordar

- declarou com uma gravidade a que se aliava um certo mistério - que se encontra numa situação difícil, monsieur.

 

- Eu sei - retorquiu Zipka, francamente.

 

- No entanto, ele só quis defender-me! - interferiu Kathinka. - Ninguém poderia prever as consequências.

 

- Esse é o ponto de vista moral da questão, madame. Já contactei com os meus advogados em Avinhão e Marselha. Todos são unânimes em declarar que houve uma grave lesão corporal... mesmo que não seja a morte, que isso saberemos daqui a três dias! Se partirmos do princípio de que acontece o pior, segue-se um processo legal. Até mesmo a pena menor teria para si consequência fatal de ficar cadastrado. Com uma morte às costas! Literalmente pelas próprias mãos. Esta suposição é, no entanto, aterradora, não é?

 

- Teria de habituar-me a viver com ela - retorquiu Zipka, num tom sombrio. - O que me resta como alternativa?

 

- Podia abandonar imediatamente a França...

 

- De que serviria? Passariam imediatamente um mandato de captura, a fuga assemelhar-se-ia a uma confissão de culpabilidade e a situação tornar-se-ia pior ainda.

 

- Ser-me-ia possível utilizar a minha influência e apresentar a morte de Marcel Bondeau como consequência de uma intoxicação de álcool. Uma síncope resultante do excesso de álcool.

 

- Quem atestaria uma coisa dessas, marquês? - inquiriu Kathinka, deixando que a esperança lhe transparecesse na voz.

 

- O doutor Bombette. Em Mas d’Agon ninguém está interessado em que se dê muita importância ao caso de Marcel Bondeau. Pois bem, você aplicou um golpe de boxe ao bêbado; bateu-lhe com uma força invulgar, que se pode mesmo definir como o clássico K.O... só que esse golpe nunca teria morto um homem normal! No que se refere a Marcel Bondeau, as circunstâncias são diferentes. O seu organismo está deteriorado e o álcool destruiu-o. Não era uma coisa que pudesse saber. Contudo, por estes sítios todos o sabem. Por conseguinte, o caso será encarado sob uma perspectiva de compreensão.

 

- Da parte do sargento Andratte também?

 

- Escreverá na acta que se tratou de um acidente. Um bêbado conhecido encontrou a morte em estado de delírio.

 

- Como é que aqui se consegue mentir de uma forma tão elegante? - inquiriu Zipka.

 

- Mentir? - exclamou Raoul de Formentière, com uma risada maliciosa. - Chamamos muito pura e simplesmente as coisas pelos seus próprios nomes. Quero salvá-lo, monsieur! Estou a construir-lhe a ponte de ouro e você está a hesitar em atravessá-la...

 

- Ainda não ando fugido! - retorquiu Zipka, num tom áspero.

 

- Wig, por favor... - interferiu Kathinka, olhando-o de través. - Vamos embora amanhã. De preferência para casa. Já não tenho qualquer desejo de passar férias...

 

- A madame está a reconhecer o caminho exacto declarou o marquês num tom galante, ao mesmo tempo que beijava a mão fria de Kathinka. - Proponho que partam ainda esta noite! Partam antes que o doutor bombette descubra quaisquer indícios de morte definitiva em Marcel Bondeau. Confiem em mim para tudo o resto... eliminarei as dificuldades do caminho!

 

- Não sei como lhe agradecer! - murmurou Kathinka, num fio de voz.

 

- Se de vez em quando se recordar de mim com amizade, madame, será para mim um agradecimento mais do que bastante!

 

- É muito amável, marquês!

 

- Desejava poder ficar sempre vosso verdadeiro amigo. Zipka fez uma careta. Todo aquele comportamento galante, precisamente naquela situação, lhe parecia despropositado e estúpido.

 

Levantou-se, dirigiu-se à ampla janela e pôs-se a contemplar o jardim, onde os cães se passeavam novamente. Declarou num tom resoluto:

 

- Fico aqui!

 

- Não! - contrapôs Kathinka, perplexa. - Não faças isso, por favor!

 

- Aqui não posso protegê-lo, monsieur. - O marquês parecia consternado. - Tem de estar fora daqui! Criar as circunstâncias ideais! E pense, por favor, também em mim! É meu convidado...

 

Zipka esboçou um aceno de satisfação. O tom em que o marquês se expressava tornava-se agora mais directo, quase grosseiro. O facto agradou-lhe. Tinha desaparecido a suavidade.

 

- Não tenho medo.

 

- Afastamento não significa medo, monsieur! O que o leva a querer fazer o papel de herói germânico que se banha no sangue do dragão?

 

- Sou uma pessoa responsável pelos meus actos... o que nada tem a ver com Siegfried. Pode ser uma questão de falta de modernismo; de qualquer maneira, assemelha-se a esperteza política, porque se fosse norma que todos os políticos fossem chamados à responsabilidade por todos os seus actos não haveria ninguém disposto a ocupar um assunto no Ministério. Eu vejo o caso de um ângulo diferente, marquês. Derrubei esse tal Marcel Bondeau... com motivo justificado... e não me furto às consequências.

 

- Peço-lhe   apenas   que   reconsidere!   -   retorquiu Raoul de Formentière, com um encolher de ombros. Apenas quis ser prestável para acalmar a madame...

 

Mais tarde, quando se encontravam no quarto, Kathinka disse-lhe, irritada:

 

- Eu sei o que te leva a quereres ficar! O que te leva a não quereres abandonar este local: Lulu.

 

- Nunca mais pensei em tal coisa! Mas ainda bem que falas nela. O que seria, realmente, da Lulu? Não podemos, muito pura e simplesmente, abandoná-la no moinho!

 

- O que agora está em causa és tu, Wig, e não a Lulu! Não haverá ninguém que deixe de cuidar dela!

 

- O mesmo em relação a mim, no que se refere a prisões. Onde poderia entrar? Tanto Aries como Avinhão têm prisão perpétua? Ou é preferível Marselha?

 

- Não acho um bom momento para brincadeiras! replicou Kathinka, irritada e tomando consciência de que os seus nervos começavam a ceder. - Atingiste um francês de morte!

 

- Isso terá de ser primeiro clinicamente diagnosticado. O teu marquês fez com que no meu cérebro se acendesse uma luz que brilha cada vez mais intensamente. Um só golpe, aplicado no queixo, não pode matar uma pessoa no espaço de segundos. Ainda que tivesse tido um derrame no espaço de segundos. Ainda que tivesse tido um derrame cerebral, era uma coisa para durar dias ou semanas! Estou a par dos acidentes de boxe. Se, de facto, Marcel Bondeau caiu por terra e morreu, existe uma outra causa.

 

- Mas tu bateste-lhe, Wig!

 

- Pensa num exemplo relacionado com a tua profissão, Tinka. Imagina que construíste uma ponte. Um cameão passa por essa ponte e... krr... a ponte cai. A culpa é do camião? De forma alguma. A ponte está construída para que se passe por cima dela. As pessoas viram-se, por conseguinte, contra o construtor...

 

- Um mau exemplo! O queixo de Marcel Bondeau não estava ali para que tu lhe batesses. Devíamos ir embora ainda hoje, Wig. - Respirou fundo. - E para que vejas como o meu medo é enorme, podemos levar a Lulu, se quiseres!

 

Zipka sacudiu a cabeça negativamente.

 

- Já te disse uma vez que não fujo! Sou a favor da clarificação das circunstâncias. - Encostou-se à parede e fitou Kathinka demoradamente, que estava sentada numa cadeira e torcia as mãos. - Uma clarificação das circunstâncias - repetiu. - Queres ser minha mulher, Tinka?

 

- Céus! Deixa-te agora desse tipo de idiotices, Wig

- disse ela, atormentada.

 

- Não é uma idiotice, mas um pedido de casamento oficial.

 

- Agora? Aqui? Estás a pensar nessas coisas em circunstâncias tão difíceis?

 

- É precisamente o momento exacto, Tinka. Tenho de saber se de facto me amas...

 

- Se ainda não tinhas reparado...

 

- Vamos casar?

 

- Sim... - Ela deitou a cabeça para trás, cobriu os olhos com as duas mãos e começou a chorar. - Oh, Wig, Wig... Este devia ser o momento mais feliz das nossas vidas! Como imaginei este instante...

 

- É também um momento especial, Tinka. A partir de agora, vamos agarrar-nos a estas férias como um castor para o qual nenhum tronco de árvore é grosso de mais... Caem todas pela força dos seus dentes! Ficamos em Mas d’Agon! As pessoas não irão dizer que um tal Ludwig Zipka se põe a andar quando o vento não corre a seu favor! Pedirei ao marquês para apelar ao Ministério Público, em Aries. Oh, Tinka! Como te amo...

 

Quando a noite caiu sobre a terra, Alain começou a ficar pouco à vontade. Marcel Bondeau continuava imóvel, deitado na maca.

 

Dupécheur tinha levado dois candeeiros de petróleo e quatro velas enormes, e Florence um cesto com pão, manteiga, queijo, salsichas e carne fria; também tinham levado três garrafas de vinho por conta do senhor marquês. Emile Andratte tinha ido examinar cumpridoramente Marcel Bondeau e anotara no seu bloco: ”21h

17 minutos: o homem continua morto.”

 

O chefe dos bombeiros Dulallier foi igualmente certificar-se do estado de Marcel Bondeau; por fim, o Doutor Bombette levantou os braços e as pernas de Bondeau e constatou, profundamente perplexo:

 

- Ainda não há rigidez cadavérica! Mas também não sinto respiração! Uma coisa destas!

 

Josephine Bondeau não se deixava ver por perto. Tinha comido a sua perna de carneiro, bebido uma garrafa inteira de vinho e encontrava-se agora na sua cama, balbuciando frases para si mesma. Compreendia repentinamente o mundo do seu marido Marcel. Tudo se tornava mais belo quando se tinha a barriga cheia e o cérebro enevoado. Era tudo mais bonito e a vida mais fácil de suportar.

 

- Mon chérie... - pronunciou, com uma voz entaramelada. - Não te compreendi. Perdoa à tua Josephine...

 

Passava bastante da meia-noite quando Alain, que tinha adormecido na sua cadeira, foi acordado por uma tosse forte. Abriu os olhos sobressaltado e percebeu então porque é que a mulher que estivera outrora a rezar na capela tinha caído sem sentidos quando Bondeau se levantara do caixão.

 

Para qualquer pessoa com nervos normais um momento destes era altamente chocante: Marcel Bondeau encontrava-se sentado no meio das velas a arder: coçou o tronco nu, tossiu com força e endireitou-se repentinamente. Olhou em volta e exclamou:

 

- Onde é que se pode mijar aqui? Estou a rebentar...

 

- Aqui não! - exclamou Alain, pondo-se logo em pé.

 

- Foi até à porta das traseiras e apontou para o exterior. - Lá fora! Atrás da casa! E não deixes que te vejam até...

 

Marcel Bondeau esboçou um sorriso e desapareceu na escuridão. Alain retirou o cesto com comida debaixo do caixão, a fim de cumprir as ordens do marquês quanto a manter uma boa disposição.

 

com uma rapidez que nada deixava adivinhar, Marcel voltou para dentro da garagem dos bombeiros, fechando a porta atrás dele.

 

- Vem aí alguém! - murmurou.

 

- Deita-te.

 

Marcel estendeu-se novamente na maca, cruzou as mãos e tentou suster a respiração. Contudo, os movimentos rápidos que havia feito tiveram consequências: o peito subia e descia, o que não era possível esconder; num morto, era uma coisa improvável.

 

Munido de presença de espírito, Alain puxou a manta até ao queixo de Marcel Bondeau e apagou as velas. A luz do pequeno candeeiro deixava a figura deitada imersa praticamente no escuro.

 

O sargento Andratte apareceu. Deixou-se ficar à porta e farejou como se fosse um cão.

 

- Tudo em ordem? - perguntou num murmúrio. Cheira mal...

 

- Que disparate! - Alain mostrou-lhe um embrulho.

- É queijo de cabra. O que se passa, Andratte? Agora a polícia também controla os mortos?

 

- Há um problema,   Alain.   O teu   marquês mandou-me chamar. Explicou-me que era impossível que eu declarasse que tinha visto monsieur Zipka, o alemão, bater em Marcel. De facto, ele nem lhe chegara a bater, disse o marquês. Tencionava realmente bater, mas antes que o seu punho aterrasse em Marcel Bondeau, o nosso Marcel caiu por terra. Eu não conseguia ver, porque estava no ângulo errado. De onde eu estava, parecia que o monsieur tinha batido... é o que diz o marquês... E acho lógico! Na vida, tudo depende de onde se está e do ângulo de onde se vêem as coisas... é uma questão de se encarar isso subjectivamente... diz o marquês. - Andratte suspirou aliviado. Em seguida, revolveu: - Uma pessoa tem de se deixar convencer pelos argumentos.

 

Nesse momento, Marcel Bondeau sentiu uma tremenda comichão na narina esquerda.

 

Até aí, nunca se tinha ouvido um morto espirrar. Tais situações são sempre fatais e, na maioria das vezes, surgem quando são mais inconvenientes. Por exemplo, numa ópera ou num concerto, no preciso instante em que se toca o mais belo solo de piano, o nariz prega uma partida. Ou quando se cumprimenta uma dama de certo modo importante e romântica e, em vez de um beijo na mão, se aplica um espirro particularmente forte nas costas da mão. Pi or ainda é quando, por qualquer motivo, se aparece na televisão e se acaba por cumprimentar os milhões de espectadores com uma chuva de salpicos. Uma tal circunstância, é extraordinariamente desagradável e só em muito poucos casos evitável. Uma comichão no nariz reivindica sempre os seus direitos e não há inalação de ar que ajude, nem massagem na cana do nariz, nem tapar as narinas com o lenço ou com as pontas dos dedos... Só depois da descarga é que a pessoa sente um sentimento enorme de bem-estar, que apenas é estragado pela má disposição dos que estão em redor.

 

Marcel Bondeau experimentou primeiro e custosamente o antigo mas inútil processo de reter a respiração para ganhar tempo para pensar. De acordo com o desejo do marquês, o seu estado deveria prolongar-se por três dias... Se agora regressasse mais uma vez à vida, através do espirro, seria a altura normal a que os seus conterrâneos já se tinham habituado mas estragaria os planos do seu fornecedor de dinheiro.

 

E Marcel Bondeau pensou tão intensamente nos sete mil francos e nas duas caixas de álcool que conseguiu bater com o pé, por baixo da manta, em Alain, que se mantinha diante dele.

 

Este entendeu o aviso.

 

Agarrou o sargento por baixo do braço e levou-o até ao exterior.

 

- Não haverá inquérito - declarou, puxando o protector da lei consigo e fechando a porta atrás com estrondo. - Também não posso prestar declarações. Precisamente como tu, também não me encontrava no ângulo de visão exacto...

 

- Ah!

 

Andratte sentou-se no banco que estava em frente da garagem dos bombeiros e em cujas costas havia uma tabuleta com a seguinte inscrição: ”Doado por monsieur Roger Bérluc.”

 

Tinha sido um homem que há uns dez anos fora passar férias a Mas d’Agon, tendo ficado tão encantado com o local e os seus habitantes que doara aquele banco.

 

Já ninguém se recordava de Roger Bérluc, mas quando o banco chegou no comboio de mercadorias gerou-se uma discussão acalorada sobre onde se iria colocá-lo. Para não favorecer ninguém, tinha-se escolhido a garagem dos bombeiros como um local neutro. Daqui o panorama não era especialmente interessante nem típico da Camargue - avistava-se o saguão da casa de Sylvester Dragony, o ferreiro, onde cheirava na maioria das vezes a madeira queimada, porque era ele quem ferrava os cavalos -, mas não houve mais discussões.

 

O sargento Andratte estendeu as pernas diante de si, enfiou as mãos atrás do cinturão de couro e perguntou:


- Quem é que afinal viu qualquer coisa de concreto?

 

- Ninguém!

 

- Foi o que eu pensei! Sempre o mesmo! Andratte sobressaltou-se e abriu muito os olhos. Do interior da garagem dos bombeiros chegara-lhe um ruído estranho. Assemelhava-se a uma explosão.

 

- O que foi isto? Lá... lá dentro...

 

Alain deixou-se ficar sentado e actuou com a maior das calmas. Piscou o olho e abriu uma das garrafas de vinho tinto que levara consigo.

 

- Morcegos... - respondeu.

 

- O quê?! - exclamou Andratte, ao mesmo tempo que olhava intensamente a porta da garagem.

 

- Há morcegos no posto dos bombeiros, Emile.

 

- E fazem destes ruídos?

 

- Quando batem de encontro a qualquer coisa...

 

- Os morcegos não batem de encontro a nada. Têm radar...

 

- Quem é que te disse uma idiotice dessas? Radar? Morcegos?

 

- Foi o que mostraram na televisão, Alain.

 

- Na televisão! E tu acreditas em tudo o que mostram na televisão, Emile? Pertences à categoria de pessoas que lêem o jornal e acham que ali só se diz a verdade? Digo-te que observei três morcegos na garagem dos bombeiros que iam de encontro ao automóvel por ele reluzir tanto! Os animais estavam completamente loucos... Alain estendeu a garrafa na direcção de Andratte. Bebe uma golada, Emile!

 

Marcel Bondeau não tinha conseguido suster o primeiro espirro. Explodiu mais rapidamente quando pôde afastar a manta do nariz. Agora, ao espirrar pela segunda vez, enfiou a cabeça no cobertor, mas não foi capaz de impedir que a ampla sala ecoasse como se tivesse amplificador.

 

Ouviu-se um barulho semelhante a um trovão.

 

O sargento Andratte, que acabara de pegar na garrafa, engasgou-se e abriu os braços, sendo vítima de um ataque de tosse.

 

- Outra vez! - ofegou, quando recobrou a respiração. - Agora devíamos ir verificar se Marcel... talvez...

 

Escancarou a porta antes que Alain pudesse impedi-lo e entrou de rompante na garagem dos bombeiros.

 

Marcel Bondeau estava rigidamente deitado na maca, à luz do candeeiro que parecia quase a apagar-se.

 

Andratte esfregou os olhos e abandonou a garagem.

 

- Nada? - perguntou Alain, que se conservara diante da porta.

 

- Pobre Marcel! - exclamou Andratte, sentando-se novamente no banco doado. - Tudo acabou para ele. Já passou o tempo habitual de acordar?

 

- Três horas, Emile.

 

- O doutor Bombette já esteve outra vez aqui?

 

- Voltará ao romper do dia.

 

- Mantém-se, por conseguinte, a hipótese de um acidente. Ninguém viu o golpe ser aplicado.

 

- O único que pode prestar informações é o próprio monsieur Zipka.

 

- Ele tem de se precaver. Mas... porquê realmente? Se estiver inocente... Vou interrogá-lo.

 

- É necessário para a contestação dos factos, Emile?

 

- Para aquietar as coisas! - respondeu Andratte voltando a beber um gole da garrafa. - Na qualidade de cidadão de Mas d’Agon, para ti já não existem dúvidas... mas como agente da ordem, tenho de acalmar a minha consciência.

 

Johann Kranz e Karl Lubizek ficaram de sentinela o dia inteiro.

 

Actuando por turnos - na medida em que um tinha de vigiar Lulu, que estava a comportar-se de uma forma exemplar, tendo até preparado o almoço no fogão de campismo -, mantiveram-se deitados na relva alta por detrás de um montículo, praticamente indigno de tal nome, mas que oferecia protecção suficiente, observando com binóculos a pequena capela na estrada em causa.

 

Até ao pôr-do-Sol contaram trinta e quatro automóveis, que no entanto passaram pela capela sem parar, além de uma rapariga montada numa bicicleta e com um lenço preto na cabeça que entrou na capela com um ramo de flores campestres, mas que não deu a volta à pequena casa de Deus a fim de deixar qualquer coisa.

 

- com os raios! - exclamou Lubizek, quando regressou da última vigia. - Nada. E agora vai ficar escuro de mais para se poder reconhecer o que quer que seja.

 

- O teu senhor marquês passou-te bem a perna retorquiu Johann Kranz com uma careta e abrindo uma lata de massa com carne. - Não deve ser um amor assim tão grande!

 

- É um porco! - replicou Lulu, com poucas maneiras de senhora. - Julguei que viesse a correr imediatamente com o dinheiro.

 

- Deves sentir-te contente por te termos afastado. Esses senhores de uma figa! Um dia destes ainda acabavas por levar um pontapé como um cão aleijado...

 

- Raoul nunca se atreveria a tal! Sei demasiado...

 

- É sobre isso mesmo que ainda temos de falar. Kranz colocou um tacho em cima do fogão a gaz e deitou a massa lá para dentro.

 

Lulu já tinha posto a mesa de abrir e fechar - as suas ambições de dona de casa revelavam-se até mesmo numa situação de rapto. Utilizara como guardanapos e toalhas lenços de papel que tinha encontrado no velho VW. Ela já se havia enquadrado na nova situação, o que era uma especialidade sua que Zipka tinha igualmente admirado. Apoderava-se de cada nova situação para a preencher com os seus atributos.

 

- O que sabes a respeito do marquês?

 

- Afastem-se dele, rapazes! - respondeu Lulu, num tom reservado.

 

- O que há no moinho, bonequinha? - inquiriu Lubizek, abrindo uma lata de coca-cola. - Não há hipótese de nós participarmos no bolo?

 

- Impossível!

 

- Isso é o que se verá - interferiu Kranz.

 

- Esquece, rapaz! - Lulu sentou-se à mesa e apoiou a cabeça entre as mãos. Pôs-se a pensar e depois continuou: - A coisa é peixe grosso de mais para vocês! Passa-se a nível internacional, por todo o mundo.

 

- Podíamos pôr-nos a andar, baby.

 

- com este tipo de material não teriam saída, acreditem! Se aparecessem com ele em quantidade no mercado, soaria logo o alarme geral. Em seguida, a vossa cabeça começava a ser procurada. Não sobreviveriam mais do que uma semana! Para que diabo estão interessados em ficar com um buraco na cabeça, rapazes?

 

- Contrabando de armas! - exclamou Lubizek, num tom baixo e respeitoso. - Verdade? O marquês ganha a vida com contrabando de armas?

 

- Ou estupefacientes! - sugeriu Johann Kranz. Ponto de transbordo em França. Uma coisa em grande no negócio de droga com África. Certo?

 

- Não me perguntes, porque não Vou responder. E não me venham agora com a história de que me vão arrancar tudo, porque tenciono ficar calada, rapazes!

 

- Apesar do teu cavaleiro nem sequer estar disposto a pagar cem mil francos por ti? No teu caso rebentaria como um balão, bonequinha! Mostrar-lhe-ia o meu valor.

 

- E é o que vai acontecer! - retorquiu Lulu, num tom de voz perigosamente calmo. - Contudo, primeiro tenho de estar em segurança.

 

- Quem és tu, realmente? - Karl Lubizek vasou a massa quente e fumegante nos pratos de plástico. Apenas a amante do marquês?

 

- Agora, há mais de um ano que vivo com ele. Conhecemo-nos na Córsega... num concurso de misses.

 

Kranz soltou uma exclamação.

 

- Fui eleita Miss Turismo; primeiro prémio: uma semana no hotel de luxo Mare Nostrum, uma noite com o actor cinematográfico Jean Panther (o que foi uma merda, porque o tipo queria-me sempre em roupa interior) e compras numa boutique até cinco mil francos. Foi ali que o marquês me dirigiu a palavra e me ofereceu coisas no valor de vinte e cinco mil francos! Serviu para me convencer. Acompanhei-o de automóvel, primeiro até Marselha e depois até aqui. É um homem adorável, nunca me bateu...

 

- Que idade tens, então?

 

- Vinte e três anos.

 

- Mas que experiência, baby. Queres voltar à Alemanha?

 

- Não - respondeu ela, pondo-se às voltas com a comida e sacudindo a cabeça em negativa. - O que iria fazer para lá? Mesmo que um homem me mantenha por conta, tenho de pagar impostos por isso! Só a ideia de que o fiscal de impostos está sempre comigo na cama põe-me doente! Aqui ninguém me pergunta nada... vivo tão liberta como os patos bravos e os flamingos.

 

- Mas se deixas fugir o marquês acaba tudo, baby!

 

- Há outros homens ricos! - ripostou Lulu com à-vontade e continuando a comer a sua massa com carne.

- Agradeço que se preocupem tanto comigo, rapazes, mas eu caio sempre de pé. Neste aspecto, sou parecida com os gatos.

 

- Uma meiga gatinha - observou Lubizek, sombriamente. Já não via hipótese de encarar Lulu como uma mina do acaso. - E se o marquês ainda vier trazer o dinheiro durante a noite?

 

- Nesse caso, abraço-me a ele, agradeço-lhe a minha ”libertação” e continuo a amá-lo!

 

- Por uma coisa dessas também eu pagaria cem mil francos, se tivesse o dinheiro dele! - rugiu Lubizek entre dentes. - Os prazeres deste mundo estão mal divididos, rapariga! Nós, os pobres, ficamos sempre com os lugares da geral...

 

Quando a noite ia adiantada, Kranz dirigiu-se de automóvel à pequena capela.

 

Parou o carro a uma distância respeitável, percorreu o resto a pé e aproximou-se, como um lobo, das traseiras do pequeno edifício, olhando para todos os lados.

 

Conservou-se uma outra meia hora deitado numa plantação de alfazema e pensou que surgiria de algures qualquer armadilha. Ao ver que nada se mexia, rastejou de bruços até junto da capela e descobriu, mesmo por baixo da placa indicada, uma pasta preta.

 

O cauteloso Johann Kranz esperou mais um quarto de hora; em seguida atreveu-se a transpor os últimos metros. A pasta estava presa com um arame a uma argola da parede da capela, o que Kranz achou muito razoável. ”Um homem muito correcto, este marquês, e que pensa em tudo”, disse de si para si.

 

Um profissional teria achado o facto suspeito. O que Kranz não sabia - e também não suspeitava - era que o arame estava ligado a um alarme à distância. Quando arrancou o arame da argola com um puxão, acendeu-se algures uma pequena lâmpada vermelha.

 

O marquês desligou a fraca corrente e montou a cavalo. Este tinha os cascos protegidos com panos, o que permitia que se movimentasse quase sem ruído através do terreno relvado. Um bosquedo de salgueiros e tamariscos protegia o cavaleiro do olhar do homem que pegou na pasta.

 

O marquês esperou até que Johann Kranz se afastasse a correr da capela; depois seguiu-o a cavalo, ao lado da estrada, que oferecia uma difícil orientação. Decorrido algum tempo, ouviu o barulho de um motor; ergueu-se na montada e passou a seguir pela estrada.

 

À distância, desapareciam os faróis do automóvel.

 

Raoul de Formentière esporeou o cavalo e meteu-se a meio galope. Só quando Johann Kranz enfiou por um caminho estreito que levava ao meio de um terreno pantanoso e de estepes é que o cavaleiro suspendeu a perseguição.

 

A direcção era agora conhecida - quando se sabe por onde uma raposa anda, descobre-se igualmente a sua toca.

 

Segundo as regras de jogo internacionais da rede a que o marquês de Formentière pertencia, Karl Lubizek e Johann Kranz eram já dois homens mortos.

 

Custava extraordinariamente ao marquês sacrificar também Lulu. A sua beleza e meiguice tinham-no alegrado frequentemente. Acima de tudo, jamais se mostrara monótona, o mesmo já não podia ele dizer das suas antepassadas.

 

”Uma verdadeira perda”, pensou o marquês. ”Contudo, há alturas em que as regras do negócio se sobrepoem às emoções pessoais.”

 

Até ao romper do dia, Marcel Bondeau só foi uma vez incomodado. O marquês apareceu a cavalo na garagem dos bombeiros e foi conduzido por Alain até junto de Marcel Bondeau. Ele estava sentado, completamente desperto, em cima da manta e mordiscava um pedaço de salsicha.

 

- Como está? - inquiriu o marquês, sentando-se na cadeira de Alain.

 

- Uma maravilha!

 

- Executou um trabalho de mestre, Bondeau.

 

- Não foi difícil.

 

- Houve um momento em que eu próprio cheguei a pensar que estava morto.

 

- Tudo o dava a entender. Esse alemão parece um garanhão a bater. Desmaiei mesmo a sério. Acho que me assustei quando comecei a ver a andar à roda. Nunca me tinha acontecido uma coisa igual!

 

Marcel Bondeau soergueu-se e limpou as mãos à manta. Em seguida estendeu-as na direcção do marquês.

 

- O que significa isso? - perguntou Raoul de Formentière, admirado.

 

- Ainda tenho cinco mil francos a receber.

 

- Quando tudo estiver terminado, Bondeau. Depois de amanhã, monsieur Zipka ainda não se foi embora.

 

- Interessa-me principalmente que a minha mulher não receba o dinheiro, compreende?

 

- Acabo de ver a sua mulher.

 

- E... o que está ela a fazer? Chora?

 

- A porta estava aberta e ela embriagada em cima da cama.

 

- Aquela porquinha! - comentou Marcel Bondeau, num tom sombrio. - Festeja, enquanto eu estou para aqui a sofrer! Tenho de espancá-la novamente, pois é a melhor forma de a ensinar.

 

- Sim. Todos temos preocupações com as mulheres!

 

- retorquiu o marquês. - Não me desiluda, Bondeau. Quando estavam fora da garagem dos bombeiros,

 

o criado informou o amo quanto ao que acontecera.

 

- Não podemos aguentar três dias, senhor marquês disse Alain. - Pense naquele espirro. E quando amanhã o doutor Bombette vier fazer novo exame ainda será mais difícil enganá-lo. O Marcel já respira.

 

- Volta a embriagá-lo e dá-lhe um murro nos queixos... tal significará mais umas horas de morte aparente.

 

- Raoul de Formentière deu uma palmada amigável no ombro do criado. - Confio em ti, Alain. Não pode haver falhas. Está muita coisa em jogo.

 

Aconteceu, por conseguinte, que Marcel Bondeau foi novamente posto, contra vontade, num estado de morte aparente.

 

Alain forneceu-lhe uma garrafa de conhaque, que Mareei Bondeau, tomado de uma sede infernal, quase esvaziou de um gole. Impossível saber o que mais admirar nele: o coração, que em vez de sangue devia, na realidade, bombear meramente álcool; o cérebro, que sobrevivia a tão elevadas percentagens de álcool; ou o fígado, que, aparentemente, nada assimilava do que Marcel Bondeau ingeria.

 

Depois de ter bebido, Marcel entoou uma cantiga indecente, que já o seu pai costumava cantar, e tombou como um cepo quando Alain o atingiu no queixo com um murro.

 

Não cedo de mais, na medida em que, pouco depois, o Doutor Bombette apareceu com um aparelho especial para verificar a respiração. Assemelhava-se a um estetoscópio com um tubo de borracha.

 

O criado mantinha-se sentado na cadeira, cansado, com a cabeça inclinada. Junto a Marcel, as velas continuavam acesas.

 

- Tudo isto é simplesmente sinistro - foi o primeiro comentário do Doutor Bombette, que começou a fungar. O homem ainda deita cheiro de aguardente por todos os poros. - Encostou-se ao carro dos bombeiros e examinou o corpo inerte. - Nenhuma alteração, Alain?

 

- Não notei nada, senhor doutor.

 

- Finalmente a rigidez cadavérica...

 

- Não lhe toquei.

 

O médico pegou no braço de Marcel Bondeau, levantou-o e deixou-o tombar. Fez o mesmo com as pernas.

 

- Continua inerte! Céus, que fenómeno! Ainda irei escrever sobre este assunto no Jornal de Medicina. Enfiou o tubo entre os dentes de Marcel Bondeau e colocou o curioso instrumento no ouvido. - Nada! Absolutamente nada! Marcel Bondeau está morto! Este aparelho registaria o mínimo indício de respiração. Mas não há nenhum. - O Doutor Bombette sentou-se no estribo do carro dos bombeiros e passou as duas mãos pela careca. - Foi preciso chegar a esta idade para viver um acontecimento destes! Você estava perto quando tudo se passou, Alain. As declarações contradizem-se. O sargento Andratte já não sabe exactamente o que viu, lança afirmações duvidosas... Como foi isso, afinal? monsieur Zipka bateu com demasiada força?

 

- Ele queria... - começou Alain, prudentemente. - Mas não... - Ninguém viu.

 

- Contudo, o próprio monsieur Zipka afirma que atingiu o Marcel.

 

- Talvez o Marcel lhe tenha caído sobre o punho, quando se virou...

 

- Compreendo. - O Doutor Bombette fez um esgar. - Nada pode ser oficializado. Contudo, de mim exigem que passe uma certidão de óbito oficial. Como poderei fazê-lo perante sintomas tão estranhos? - Bebeu um conhaque que Alain lhe ofereceu, cheirou novamente Marcel Bondeau e acabou por retorquir: - Um homem que ainda tresanda a álcool...

 

Em seguida saiu da garagem dos bombeiros.

 

Alain, tão cansado como um cão perseguido, estendeu-se à entrada da garagem dos bombeiros, enrolou o casaco a servir de almofada e adormeceu imediatamente quando encostou a cabeça e fechou os olhos. Tinha a certeza de que Marcel Bondeau não lhe iria dar problemas durante as próximas oito horas.

 

O marquês Raoul de Formentière não tinha conseguido que Zipka abandonasse a Camargue nessa mesma noite. Também Kathinka tentara o seu melhor e trocara impressões com Zipka até se aperceber de que era inútil. O seu sentido de justiça aliara-se à obstinação.

 

- É absolutamente criminoso o facto de monsieur Zipka pretender desempenhar o papel de herói! - declarou o marquês, num tom áspero. - Peço-lhe que tome em consideração que a minha hospitalidade ficará muito afectada devido a essa atitude.

 

- Não posso alterar seja o que for - retorquiu Kathinka, desmoralizada. - Esgotei toda a argumentação possível.

 

- Não esqueçamos, além disso, marquês - interferiu Zipka -, que não nos impusemos como seus convidados. Foi o senhor quem nos quis levar para a sua propriedade.

 

- Obrigado - agradeceu o marquês com uma risada amarga. - A gentileza é uma questão de temperamento.

 

Fiquei muito preocupado por causa da madame. O trágico acidente com a rapariga, a lenda do moinho...

 

- Já se encontrou a miúda?

 

- A busca foi interrompida. Não pode fazer-se mais do que se fez. Agora há que esperar...

 

- E se ela nunca mais aparecer à superfície?

 

- É algo situado no âmbito das possibilidades. Os lagos apresentam-se pejados de canaviais que, frequentemente, prendem, durante meses, esse tipo de pobres vítimas. Algumas vezes, nunca mais aparecem. Vivemos numa terra primitiva, monsieur. Aqui, os segredos são praticamente diários... vive-se com eles.

 

- Nunca mais irão procurar, assim, essa tal Lulu? perguntou Zipka sem erguer a voz.

 

- Não. Onde mais se iria procurar?

 

- Assim se elimina simplesmente uma pessoa do mapa...

 

- Não está a expressar-se correctamente, monsieur. Trata-se de se curvar ao desejo da natureza... assim é melhor! Aqui, a vontade do homem é insignificante...

 

- Teoricamente é, por conseguinte, viável deixar que uma pessoa desapareça, e lastimar que esta... como é que lhe chamou?... terra primitiva tenha voltado a atacar? E que cada um aqui respeite o facto com um calafrio de horror?

 

- Expressou-se de uma forma muito bela.

 

Raoul de Formentière olhou de lado para Zipka. ”O homem é perigoso”, pensou. ”Parece inofensivo, algumas vezes idiota mesmo, este desenhador de iscas para pescadores à linha, e no entanto por detrás da sua ingenuidade esconde-se uma alarmante inteligência. Sem o saber, bateu no ponto exacto: também Lulu irá desaparecer sem deixar lembranças. Oficialmente já é conhecida como a jovem que se afogou no lago. Ninguém lhe sentirá a falta... Os parentes na Alemanha, se é que os tem, nem sequer suspeitam que ela vive na Camargue. As últimas notícias que ela deu foi da Córsega e já há muito tempo. É uma dessas raparigas que andam pelo mundo das estrelas como borboletas e que um dia caem no solo, sem que ninguém dê por tal, quando queimam as asas. Restos assemelhando-se a cinza de cigarro...”

 

- Muito bela mesmo - repetiu o marquês, após uma ligeira pausa. - Só que o seu esquema de pensamento é altamente macabro. Ainda ninguém chegara a essa ideia: atacar. A gente da Camargue é boa, respeitável e livre... precisamente por estar tão ligada à natureza! O marquês uniu as mãos e fitou Kathinka por cima das pontas dos dedos. - Como será agora o curso dos acontecimentos, uma vez que não quer partir?

 

- A primeira coisa será não continuarmos sob este tecto, marquês - declarou Ludwig Zipka. - Regressamos ao moinho.

 

- Não pode ser - ripostou calmamente o marquês.

- O Moulin Saint Jacques vai ficar oficialmente selado a partir de amanhã.

 

Zipka sentiu que os pelos da nuca se lhe arrepiavam.

 

”Vão fechar a Lulu. Selá-la. A fim de não morrer à fome tem, por conseguinte, de sair do esconderijo, o que trará complicações inesperadas.”

 

Pousou rapidamente os olhos em Kathinka e leu-lhe a mesma preocupação no rosto.

 

- Porque é que vão fechar o moinho? - inquiriu, num tom acalorado.

 

- Trouxe infelicidade que chegue. O último caso, da pobre Lulu, deve ser de facto o último! Caso o moinho não se encontrasse sob a lei de protecção dos monumentos, há muito que teria sido deitado abaixo. Na realidade, já não tem qualquer utilidade... Não passa de restos de séculos passados...

 

- Mas não podemos ir lá buscar as nossas coisas? perguntou Kathinka num tom preocupado.

 

- Claro que sim! O moinho será fechado quando forem buscar as vossas coisas. Irão colocar pregos em todas as saídas e janelas.

 

Zipka mordeu o lábio inferior.

 

A situação complicava-se. Quando, juntamente com as malas, também Lulu saísse de súbito do moinho, só restava denotar surpresa. Contudo, para a pobre rapariga, tal reaparecimento significava o transporte para uma clínica em Aries.

 

- Sugiro que nos desloquemos amanhã cedo ao moinho para ir buscar as malas - disse Zipka. - Em seguida, alugaremos um quarto na estalagem de Dupécheur...

 

- Por favor! Podem continuar a usufruir da minha hospitalidade! - apressou-se o marquês a insistir. Se estiver disposto a que lhe seja levantado um processo de dano físico com consequência mortal...

 

- Gostaria de ficar na aldeia, marquês. Suspeito que vão surgir e aumentar complicações para nós e não o queremos sobrecarregar! - retorquiu Zipka, batendo com os punhos um de encontro ao outro. - Iremos morar para a estalagem de Dupécheur.

 

O marquês esboçou um aceno de concordância.

 

O seu plano impecável começava a abrir buracos por todo o lado. Por um lado, era necessário que o alemão ficasse convencido de que era um assassino e de que teria de desaparecer imediatamente, em particular naqueles três dias em que Marcel Bondeau ainda podia ser considerado como morto; por outro lado, o sargento Andratte estava disposto a não levantar um processo e a encarar o caso de Marcel Bondeau como um acidente. O que, sem dúvida, monsieur Zipka não podia suspeitar era que dali a três dias Mas d’Agon assistiria ao milagre de Marcel Bondeau ressuscitar, beber novamente para ganhar coragem e dar uma tareia na mulher, que festejava a sua morte. Tal desviaria, em contrapartida, a atenção do facto de Lulu desaparecer para sempre, quando os chantagistas a libertassem. Ela tinha demonstrado representar um grande risco para o negócio do marquês; um risco que poderia ser mortal para ele. Estava a ser uma arte fazer de malabarista com todas estas bolas...

 

Durante a noite, Kathinla e Zipka verificaram que o marquês ia novamente buscar o cavalo ao estábulo e se afastava.

 

Conservaram-se sentados no quarto imerso em escuridão, atrás dos cortinados, e surpreenderam-se quando viram que o marquês transportava um objecto semelhante a uma pasta e o colocava diante de si na sela.

 

- O indivíduo tem uma vida dupla - comentou Zipka, depois do marquês se ter afastado. - Daria tudo para poder segui-lo a cavalo.

 

- E se formos atrás dele de carro, sem acender os faróis?

 

- Ruidoso de mais. Nestas silenciosas noites da Camargue, um motor assemelha-se a um trovão. Além disso, não podemos aproximar-nos do automóvel. Está na cocheira, junto da cozinha, e a cocheira tem um único portão, que dá para o jardim. E ali há três cães mortíferos. A melhor solução é, de facto, mudar amanhã para o Dupécheur.

 

- E o que será da Lulu?

 

- Só há uma possibilidade: terá de contar que não foi até ao lago, mas andou por aí simplesmente sem rumo; quando se sentiu cansada e sem saber o que fazer, limitou-se simplesmente a regressar. Todos irão respirar de alívio, em particular o sargento Andratte e o comissário Flacon.

 

- E em seguida chega uma ambulância...

 

- É o que impedirei, enquanto tiver algo parecido com tutoria sobre a rapariga que perdeu a memória. Será meu dever cuidar dela.

 

- Mesmo na qualidade de assassino, Wig? As autoridades irão permitir?

 

Zipka fitou Kathinka, perplexo.

 

- Tens razão - concordou, vencido. - Não posso tornar-me suspeito...

 

- Contudo, Bondeau, o pedreiro, está na garagem dos bombeiros.

 

- Raios! No fim de contas, acredito que o marquês me indicou o único caminho certo.

 

Zipka passou as mãos trémulas pelo rosto. Não se esforçou por dissimular o tremor. ”Também me é permitido ter nervos”, pensou.

 

- Temos de ir buscar a Lulu ao moinho e, em seguida, pormo-nos a andar o mais rapidamente possível. Tenho de me habituar ao papel de fugitivo.

 

Na manhã seguinte, Raoul de Formentière mostrou-se muito aberto aos novos planos de monsieur Zipka. Elogiou a sua justa apreciação das circunstâncias e a decisão de fugir a uma justiça francesa talvez não totalmente objectiva.

 

- Regresse à Alemanha! - aconselhou ele, insistente. - Repito a minha oferta: nada irá suceder! Encarregar-me-ei de pôr tudo em ordem por aqui e fazer com que as coisas caiam no esquecimento.

 

- Trata-se ao que parece de uma especialidade sua!

- replicou Zipka, num tom sarcástico.

 

- Onde há muita água, nada-se muito! - comentou o marquês com uma gargalhada. - Aqui vivemos no meio da água... - Esperou até que a empregada que tinha tomado a seu cargo as funções de Alain saísse da sala do pequeno-almoço e continuou: - Tenho, aliás, uma agradável surpresa para si, monsieur Zipka: o sargento Andratte quer desistir de abrir um processo se você partir ainda hoje. Como vê, esforcei-me bastante.

 

- Preferia ficar até ao enterro de Bondeau...

 

- Impossível, monsieur] Poderia ser tomado como provocação! Pense na ira popular, que pode exactamente descarregar-se numa tal ocasião! O homem que derrubou Bondeau, o estrangeiro, mantém-se junto à sua campa... as pessoas ficariam encolerizadas. Iriam encarar esse gesto não a título de compaixão mas como impertinência. O marquês acendeu o cigarro a Zipka. - O contrário estará certo: estar longe quando se iniciarem as cerimónias fúnebres! Proponho irmos já ao moinho buscar as vossas coisas.

 

- Pretende ir connosco? - perguntou Zipka, preocupado.

 

- Claro que sim. Quero que os meus convidados se encontrem em segurança - riu o marquês, amavelmente.

- Talvez precisem ainda da minha protecção...

 

- Não é necessário, marquês - replicou Kathinka, que se apercebera imediatamente das intenções de Zipka.

 

Se fossem sozinhos ao moinho, seria fácil arrancarem Lulu de lá sem que ninguém a visse.

 

- Mas sinto-me responsável por si, madame.

 

- Já lhe demos aborrecimentos que cheguem, marquês - disse Ludwig Zipka, consultando o relógio. Gostaria de partir imediatamente. Já fizemos as malas durante a noite...

 

Tratava-se de uma observação dita casualmente, mas intencional no sentido, e o marquês apercebeu-se logo.

 

- Oh! Dormiram mal? Lamento. Algo os incomodou?

 

- Tenho sempre dificuldade em me adaptar a camas estranhas - sorriu Zipka. ”Assim ficas sem saber se te vimos sair a cavalo ou não”, pensou. - Parto do princípio de que também sabe, marquês, que por aqui se ouvem curiosos ruídos. Um estalo aqui, um ranger mais além... o ouvido torna-se invulgarmente sensível, como se estivesse programado para o perigo. É com toda a probabilidade uma mera idiotice, mas é assim que reajo às camas estranhas.

 

- E aqui em casa o silêncio é completo - retorquiu o marquês. - Só quando há vento se ouve o seu barulho dentro de casa. Contudo, adoro o som... Estar sentado junto à lareira e saber que me encontro debaixo de um tecto firme e de paredes seguras... costumo sempre festejar essa sensação com uma garrafa de Bordeaux velho.

 

Zipka não tinha o mínimo prazer em continuar a ouvir as extravagâncias românticas do marquês. Estava preocupado com Lulu.

 

- Quando tencionam selar o moinho? - perguntou.

 

- Andratte falou que seria hoje. Fiz-lhe chegar a informação de que iriam buscar as vossas coisas hoje de manhã. Em seguida, talvez o Jerôme, o carpinteiro, vá fechar o moinho. Só mais tarde é que a vila, que sempre considerou essas ruínas como um monumento, se irá preocupar com o assunto. Dupécheur, que até hoje tem tomado a cargo a sua manutenção, desistiu da função.

 

- Vamos, então! - decidiu Zipka, levantando-se. Foram umas férias curtas mas plenas de acontecimentos, marquês. Mas comigo é sempre assim. Quando as outras pessoas vão passar quatro semanas de férias podem deitar-se ao Sol e no regresso só têm banalidades para contar. Quando eu apareço, onde quer que seja, vivo mais um dia do que os outros lêem nos livros em quatro semanas!

 

- Há casos assim! - concordou o marquês com um aceno de cabeça. - Algumas pessoas atraem a aventura como se tivessem íman. Vivem com o perigo...

 

- ”Foi um aviso dissimulado”, pensou Zipka. ”Começamos a entender-nos, Raoul. Cada vez melhor. Se não fosse a Lulu... não te largaria.”

 

- Nunca senti as coisas dessa maneira - retorquiu Zipka, amavelmente. - Perigo? Talvez eu não tenha realmente nervos que cedam ao perigo. Em situações onde outros entram em pânico, eu fico mais corajoso. Há uns que ficam paralisados ao verem um leão e se deixam devorar e outros que lhe dão um tiro nos olhos. É por esse motivo que esta fuga me repugna, mas compreendo que as circunstâncias a tal me obrigam.

 

Passado meia hora, dirigiram-se todos ao moinho, da mesma forma que o haviam abandonado dois dias antes: o marquês na companhia de Kathinka, no automóvel grande, e Zipka atrás, conduzindo o carro desportivo de Kathinka.

 

No cruzamento da estrada para Mas D’Agon encontraram Josephine Bondeau, que ia montada numa bicicleta velha. Ela desmontou imediatamente ao reconhecer o automóvel do marquês.

 

Raoul de Formentière travou e disse para Kathinka:

 

- Peço desculpa, madame, mas tenho de dirigir algumas palavras de conforto à pobre mulher.

 

Desceu; Zipka interrogou-se sobre se deveria imitá-lo. Manteve-se, no entanto, no seu lugar.

 

Josephine começou a chorar e apoiou-se à bicicleta.

 

- Não lhe disse que devia ficar em casa? - sibilou o marquês quando se aproximou o suficiente dela. O que faz aqui?

 

- Ele está morto! - chorou Josephine, fungando.

 

- Mesmo assim podia esperar sozinha durante três dias!

 

- O Marcel está mesmo morto!

 

- Que disparate! Sabe perfeitamente como é!

 

- Mas o doutor Bombette, diz que o Marcel está... Eu não queria isso! Se tivesse sabido antes... Meu pobre Marcel... Era tão bom...

 

- Ele está vivo! - interrompeu-a o marquês num tom áspero. - E agora comporte-se sensatamente. Ele já comeu durante a noite, depois bebeu uma garrafa de conhaque e agora encontra-se outra vez no estado de morte aparente.

 

- Não! - gritou Josephine; e depois disse mais baixo:   -   Ele   comeu?   E   voltou   a   beber   conhaque?

 

- É como ouve! O doutor Bombette deixou-se enganar.

 

- Ele está vivo! Já não se pode confiar em nada!

 

Josephine Bondeau deu meia volta à bicicleta, começou a chorar outra vez copiosamente, montou no selim e afastou-se aos ziguezagues, como se estivesse embriagada.

 

Raoul de Formentière aproximou-se do automóvel descapotável e curvou-se na direcção de Zipka.

 

- O desgosto dá cabo dela - pronunciou, num tom muito grave. - Era a viúva de Bondeau. Agora está completamente só no mundo.

 

- Vou deixar-lhe uma considerável quantia de dinheiro. Vá andando para o moinho, marquês, enquanto Vou comunicar a minha decisão à mulher.

 

- Por favor, não se detenha, monsieur - retorquiu o marquês com um sacudir de cabeça. - Convém que apareça o menos possível. O povo explode com facilidade. Todos os que virem a chorosa Josephine Bondeau irão querer ajustar contas consigo. É realmente melhor que desapareça desta região o mais depressa possível.

 

Zipka reconheceu que assim era e não foi atrás de Josephine.

 

Decorridos dez minutos, haviam chegado ao Moulin Saint Jacques. Zipka buzinou algumas vezes para avisar Lulu e estacionou junto ao pesado carro do marquês.

 

- Porque se dedicou a um concerto desses? - inquiriu o marquês bruscamente. - Se é que posso pedir-lhe, tudo deve ser feito com a máxima discrição.

 

- É um velho e estúpido hábito meu! Quando revejo qualquer coisa de belo, tenho de dar sinal. Por exemplo, em Munique: passo umas quatro vezes por dia junto ao Profileu e buzino sempre! É algo simplesmente mais forte do que eu.

 

- E passa-se exactamente o mesmo em relação a este velho moinho?

 

- Habituei-me a gostar dele. Porquê? Porque está muito de acordo com o meu íntimo, como costuma dizer-se, e não são precisos mais comentários.

 

Ergueu os olhos para o velho edifício e esperou que Lulu viesse espreitar pela pequena janela parecida com uma seteira e se apercebesse da situação.

 

Kathinka abriu a pesada porta de madeira e deixou-a escancarada.

 

Dentro do moinho cheirava a bafio e ainda a farinha fermentada, se bem que a mó não funcionasse há centenas de anos. Kathinka percorreu o piso inferior, abrindo todas as janelas e portas de madeira e deixando que o ar entrasse. Em seguida, começou a fazer barulho com os tachos na cozinha, a fim de que Lulu, escondida algures no andar superior, entendesse que devia continuar sem que a vissem.

 

Entretanto, Zipka não fez menção de entrar no moinho. Encostou-se ao automóvel de desporto e acendeu um cigarro.

 

- De quanto tempo vão precisar? - perguntou o marquês, impaciente.

 

Talvez uma hora...

 

- Se pudessem demorar menos...

 

- Caso esteja com pressa, marquês, não queremos de forma alguma detê-lo. Como já disse, causámos-lhe incómodos mais do que suficientes. Faremos as malas e desapareceremos imediatamente. Só vamos passar pela estalagem de Dupécheur, a fim de pagar o aluguer...

 

- Já está pago, monsieur.

 

- Não posso aceitar, marquês.

 

- Foram meus convidados e quase não se utilizaram do moinho. Por conseguinte, era meu dever encarregar-me de todas as despesas. Foi um prazer, e peço-lhe que não fale mais do assunto, monsieur Zipka. Além do que agora seria quase masoquismo ir até à aldeia! Aconselho-o com toda a sinceridade a tomar o caminho mais rápido: daqui até Albaron e em seguida pela N 570, rumo directamente a Aries.

 

- Era a minha intenção!

 

Zipka olhou para o moinho. Kathinka estava junto à porta e acenava com os dois braços. O rosto denotava uma expressão preocupada.

 

- Desculpe. Acho que sou necessário.

 

- Se puder ser útil...

 

- Obrigado. Já nos ajudou o suficiente.

 

Zipka passou junto a Kathinka e entrou na grande sala de estar, pondo-se a olhar em volta.

 

- O que se passa? - quis ele saber.

 

- Lulu... a Lulu já não está aqui - balbuciou Kathinka.

 

- Não está aqui? Deixa-te de graças, por favor, Tinka...

 

- Procurei por toda a parte. Estive mesmo lá em cima, junto às pás do moinho. Chamei e nada!

 

- Está com medo!

 

- De nós?

 

- Avistou sem dúvida o marquês. Vai até lá fora, Tinka, e encarrega-te de entreter esse tipo. Eu Vou arrancar Lulu ao esconderijo.

 

Contudo, decorrida meia hora, Zipka apareceu à porta e encolheu resignadamente os ombros. Nada! Lulu tinha, na verdade, abandonado o moinho. Agora andaria sem rumo pela região... uma rapariga sem memória...

 

Um pensamento horrível.

 

- Passa-se algo de errado? - inquiriu Raoul de Formentière.

 

Zipka esboçou um gesto, dando a entender que não.

 

- Não me entendo com a mala. Se pudesses vir aqui, Tinka, por favor...

 

Kathinka correu de volta ao moinho e não perguntou o que Zipka pretendia, na realidade, dela. Apenas disse apressadamente:

 

- O que fazemos agora? Não podemos procurá-la.

 

- Não. Quem sabe quando é que ela se foi embora? Pode já ter desaparecido há um dia.

 

- Talvez seja melhor assim, Wig...

 

- De maneira alguma. Só que não podemos alterar a situação.

 

Kathinka encostou-se à pesada coluna de madeira da escada e deixou pender os braços. Zipka contemplou a mesa sacudindo a cabeça.

 

Ainda estava posta, tal como a haviam deixado. Só que a louça estava limpa, como se ela os tivesse esperado...

 

- Regressamos a Hanôver, Wig? - perguntou Kathinka.

 

- Não. Estive a pensar que vamos prosseguir as nossas férias em Espanha. Continuamos ao longo da costa, até encontrarmos um local calmo e tranquilo para nós. Ainda deve existir em Espanha. E ali deitar-nòs-emos na areia ou à sombra dos pinheiros e diremos... quer seja verdade ou não... isto: o amor faz de tudo uma Primavera! Se for verdade, todas as rochas da costa, a areia junto ao mar e a terra à nossa volta irão transformar-se num verdadeiro jardim! É assim que te amo...

 

- Tens uma arte muito especial de dizer essas coisas nos sítios mais inadequados e nas alturas mais impróprias, Wig. O que hei-de fazer numa situação destas?

 

- Alegrares-te e encerrar o capítulo ”Camargue”. Envolveu-a com o braço, atraiu-a a si e beijou-a.

 

- Mandarei escrever a palavra ”Camargue” em letras douradas e depois penduro-a. Não há quadro que possa ser mais valioso. Foi aqui que descobri o que é realmente o amor.

 

- Temos de fazer as malas, Tinka.

 

- Para dizer a verdade, foi apenas por teimosia que vim à Camargue, sabes?

 

- Suspeitava!

 

- Irritaste-me tanto que disse de mim para mim: ”Não quero ver mais homens. Agora Vou fazer férias onde esteja completamente sozinha.” Foi nessa altura que ouvi falar do velho moinho... e aluguei imediatamente o Moulin Saint Jacques.

 

- Temos de ir embora, Tinka - disse ele, beijando-lhe a ponta do nariz. - Temos duas catástrofes às costas: Bondeau e Lulu...

 

- Agora começas a pensar de uma forma destruidoramente sensata. O que sempre recusaste.

 

- Há um motivo, Tinka. Agora quero sair daqui o mais rapidamente possível e ser feliz contigo seja onde for! Quero deitar-me sob um céu azul e poder gritar para o infinito: somos felizes!...

 

O entusiasmo dele contagiou-a. Subiu as escadas a correr e começou a meter as coisas nas malas.

 

A esta hora ainda ninguém suspeitava como iria terminar o dia.

 

Mas d’Agon deveria finalmente enriquecer a sua história, falha de acontecimentos, com um capítulo dramático.

 

Os acontecimentos precipitaram-se como é raro nesta vida; ou seja, decorrem anos ou mesmo décadas numa total harmonia, como se se estivesse em pantufas, após o que de súbito o destino irrompe de uma maneira tão rápida que a razão não o apreende.

 

A onda dos nossos acontecimentos foi solta através da carta que Raoul de Formentière colocara na pasta juntamente com os cem mil francos.

 

Lamentavelmente, só foi lida depois de terem contado o dinheiro.

 

Lubizek, que nunca acreditara que o dinheiro fosse pago a pronto, executou uns alegres passos de dança em frente da tenda, agarrou em Lulu e beijou-a; em seguida abriu uma garrafa de brande e comportou-se como se tivesse assaltado o banco mais importante de França.

 

Ao câmbio da moeda alemã, o ganho era na realidade modesto, na medida em que metade do dinheiro pertencia a Lulu; mas doze mil e quinhentos marcos constituíam um êxito, tomando em atenção que o grande rapto tinha falhado e a mina de ouro que Kathinka Braun representava jamais seria explorada.

 

Só depois de terem dividido o dinheiro e bebido algumas goladas de brande e depois de Lulu ter aquecido um bocado de frango assado e de o terem devorado alegremente é que Johann Kranz descobriu um bilhete no fundo da mala.

 

- Ainda há mais uma coisa! - exclamou.

 

- Talvez um recibo? - sugeriu Lubizek, num tom jocoso. - Lançamento de despesas! Ah! Ah!

 

- Uma participação, Lulu. Traduz...

 

Eram apenas algumas linhas que o marquês tinha escrito à máquina. Lulu leu-as devagar. O seu rosto adquiriu uma expressão fixa e, finalmente, quase de medo.

 

Estão juntos os cem mil francos para a libertação de Lulu. Não tenho o hábito de ceder a tais criancices, mas neste caso o investimento vale a pena - por causa de Lulu.

 

Soltem-na, porque alguém estará à espera dela na estrada. Podia ter-vos mandado apanhar no pântano, mas não quis arranjar complicações nem molhar os pés. Espero que desarmem a tenda e desapareçam com o automóvel. Ainda têm muito que aprender para se tornarem vigaristas a sério. Adieu, ”messieurs”...

 

Johann Kranz deixou-se ficar a olhar em frente, à luz fraca do candeeiro a gás. Também ele percebeu muito antes de Lubizek o que aquela mensagem significava. Um forte pontapé no traseiro...

 

- Ele   conhece   o   nosso   esconderijo   -   observou Kranz, num tom sombrio. - Sabe tudo! E mesmo assim pagou o dinheiro!

 

- Mas como? - retorquiu Karl Lubizek, surpreendido - Como pode saber que estamos aqui se não vimos ninguém a espiar as proximidades? Só há a hipótese de te ter seguido quando foste buscar a pasta... mas, no entanto, o bilhete já estava na mala, debaixo do dinheiro! Há qualquer coisa que não está bem...

 

- Isso também eu vejo! - Lulu segurava o bilhete nas mãos, que começaram subitamente a tremer. - É um grande bluff, rapazes! Raoul não sabia de nada! Contudo, imaginou que pudesse ser assim.

 

- E o que significa nesse caso essa mensagem? Está aí bem claro que nos devemos pôr a mexer assim que te tivermos deixado na estrada.

 

- Levem-me com vocês... - murmurou Lulu. A sua voz infantil tremia um pouco.

 

- Estás chalupa? - retorquiu Kranz, surpreendido.

- Connosco não podes ganhar dinheiro.

 

- Levem-me até Paris. Por favor...

 

- É um desvio.

 

- Então pelo menos até Lião. Tenho medo...

 

- Mas porquê? O marquês estará à tua espera na estrada com um ramo de flores na mão.   E depois na cama...

 

- Cala o bico! - rugiu Lubizek. - Se ela está com medo...

 

- Mas de quem?

 

- Cometi um erro - lamuriou-se Lulu. - Um erro enorme por tão pouco dinheiro.

 

- Esta perdeu o tino! - exclamou Johann Kranz, levando o dedo à testa. - Estás livre, rapariga!

 

- Não! - exclamou Lulu, num tom que não admitia réplicas. - Têm de me levar com vocês...

 

- No entanto, ele escreve...

 

- ”Soltem-na”, é o que ele escreve.” ...Alguém estará à espera dela na estrada...” Soltem-na, como se se tratasse de um cão que se põe na estrada e a que se dá em seguida um pontapé: agora corre já para casa! Isto aqui, isto aqui... - ergueu o papel no ar e a mão tremia-lhe é uma sentença. Quer dizer: entreguem-na por estes cem mil francos que do resto encarrego-me eu.

 

- Talvez seja assim! - gaguejou Lubizek.

 

- Ele vai matar-me.

 

- Parvoíce! Não estamos em Chicago.

 

- Não, não estamos - concordou Lulu, amargamente. - Aqui é pior. Vocês não podem fazer a mínima ideia, rapazes. Não suspeitava que ele pudesse abater-me tão friamente. Ele é um demónio, digo-vos eu... um demónio risonho, encantador e elegante.

 

E logo a seguir, dominada pelo medo que a invadia, informou-os do que se encontrava sob o alçapão, na adega secreta do Moulin Saint Jacques.

 

Kranz e Lubizek fitaram-na com a palidez estampada no rosto. O dinheiro que guardavam no bolso pareceu-lhes subitamente ferro em brasa. Raoul de Formentière tinha razão: para gangsters a sério faltava-lhes tudo, e principalmente coragem. Tomaram consciência de que se tinham metido num negócio que em nada se enquadrava com eles e que os podia aniquilar se não reagissem imediatamente.

 

- Céus! - exclamou Kranz, num tom agitado. Temos de nos pôr a andar imediatamente! Não quero ter nada a ver com isso! Mais de vinte milhões de marcos?

 

- Aproximadamente. Pode ser mais, menos é que não.

 

- Desmontemos a tenda! - retorquiu Lubizek, levantando-se de um salto. - A caminho e já. Não quero ficar aqui um minuto mais do que o necessário.

 

- E levam-me com vocês? - perguntou Lulu, desesperada.

 

- Claro. Kranz começou a desmontar os móveis e a tirar o ar dos colchões. Em seguida pronunciou-se num tom decidido: - Mas antes gostaria de dar uma lição a esse senhor marquês que o ensinasse. Que coisa tão porca! Compreendo uma série de trafulhices, grandes ou pequenas... O mundo é tão mau, porque havemos de querer melhorá-lo?... Mas há coisas que não estão dentro da minha maneira de ser; em particular, tudo o que tenha a ver com crianças. - Estava de pé e fitava Lulu com os olhos em brasa. - Sabes que tenho uma irmã?

 

- Não. Como havia de saber?

 

- Tem dezassete anos e é encantadora. Aprendeu o ofício de cabeleireira e queria ser esteticista. Depois conheceu um tipo numa discoteca que era perseguido por todas as mulheres: bigode farto, nariz adunco e sempre com dinheiro no bolso. Foi com ele que aprendeu a cheirar e também foi ele que a injectou pela primeira vez... uma quantidade tão grande de heroína que ela se tornou dependente. - Kranz respirava com dificuldade. - Hoje está internada numa clínica e com a vida toda estragada. Toda ela estragada. Durante meses andei à procura do tipo. Tornei-me cliente de todas as discotecas, mas ele tinha desaparecido. Segundo o que ouvi mais tarde foi para Francoforte. Digo-vos que se lhe tivesse deitado a mão... E o teu marquês é um gajo da mesma laia!

 

Passada uma hora tinham desmontado a tenda, emalado tudo e avançavam aos solavancos no velho VW pelo atalho rumo à estrada. Agora já não se escondiam procuravam com os faróis nos máximos o caminho que os levasse para bem longe daquela inóspita região.

 

Ao romper da manhã chegaram a Aries e perguntaram a um polícia que encontraram onde ficava o comissariado.

 

Ali tiveram dificuldade em falar com um comissário, na medida em que o funcionário de serviço de patente mais elevada estava preparado para tudo, até mesmo para um assassínio, mas não para a participação que lhes foi feita.

 

Pôs-se em comunicação com o director do comissariado, que ainda estava, naturalmente, a dormir, dada a hora matinal, e que só se mostrou muito excitado ao ser pronunciado um nome: marquês Raoul de Formentière!

 

- Raios! - exclamou o comissário. - Que completa idiotice! Esses tipos estão bêbados? Não? O que são eles? Alemães? De Hanôver? E têm uma rapariga com eles? Emmi Schmidt, de Oberpfaffenhofen? Meu Deus! Um francês decente não falaria assim. E esse trio acusa o marquês de Formentière? Aguenta, meu caro Daniel, aguenta! Vou imediatamente! Há qualquer coisa por detrás disso! Essa acusação é demasiado absurda...

 

O comissário Philippe Mauren apareceu com a firme decisão de pôr a ferros os alemães. Contudo, depois de ter lido a acusação, que já se encontrava por escrito, sentiu como que um anel de aço a apertar-lhe o coração.

 

A ser verdade, tinham vivido lado a lado e sem suspeitar com um dos mais procurados desconhecidos de França. A rápida ascensão do tráfico de estupefacientes fora assinalada com o maior cuidado - mas ninguém sabia até esse momento os canais por onde a droga era introduzida em França.

 

O comissário Mauran sentia-se enojado.

 

”E isto tinha de acontecer precisamente aqui, na Camargue?”, pensou. ”A morte mais amaldiçoada tinha de provir de um paraíso como o nosso lago de Vaccarès? E durante anos comemos juntos e tivemos o marquês de Formentière como convidado em todos os acontecimentos importantes? Que situação ridícula!”

 

Pegou no telefone e pediu informações para a Divisão de Pessoal. Ali procederam a morosas buscas antes de lhe responderem:

 

- É o sargento Emile Andratte que exerce em Mas d’Agon - respondeu o porta-voz da Divisão de Pessoal.

- O que há?

 

- Quais são as informações sobre ele? - inquiriu Mauran, impaciente.

 

- Um empregado bom e diligente. As melhores informações, à excepção de uma repreensão na folha de serviço...

 

- Ah! E o que é?

 

- Chamou ”nojento miserável” ao director do Departamento de Fornecimento de Material. Valeu-lhe a repreensão.

 

- E porque é que o colega é um velho miserável?

 

- Nojento, senhor comissário.

 

- Ou isso, com os diabos! Porquê? - rugiu Mauran.

 

- Há anos que o sargento Andratte anda a solicitar um automóvel de serviço e o pedido tem sido sempre indeferido.

 

- com que base?

 

- Falta de necessidade. Diz-se que o distrito do sargento Andratte é o mais calmo de toda a França.

 

- Irão admirar-se! - exclamou Mauran, amargamente. - Andratte teria necessidade de uma brigada inteira. Obrigado, colega!

 

A polícia francesa é conhecida pela sua meticulosidade de trabalho... quando desata a trabalhar. Supera no âmbito das ideias todos os outros países, incluindo a Inglaterra com a sua Scotland Yard. A semelhança da França, que quando se trata de arte, floresce e ofusca o resto, também a sua polícia tem o lado estético - porque o trabalho da polícia é igualmente encarado pelos leigos como uma arte.

 

O comissário Philippe Mauran interrogou durante meia hora Johann Kranz e Karl Lubizek, de Hanôver, bem como Emmi Schmidt, de Oberpfaffenhofen. Interrogou-os em separado, mas ao passo que os dois homens de Hanôver apenas podiam informar o que tinham escutado da boca de Emmi Schmidt, esta expôs o leque de conhecimentos da vida íntima do marquês de Formentière.

 

O comissário Mauran ficou verdadeiramente abalado.

 

- E como sabe tudo isso, mademoiselle? - perguntou.

 

- Era amante do marquês - respondeu ela, imperturbável.

 

Para um francês, esta é a resposta mais convincente que existe. Não há argumentos com força bastante que se lhe contraponham. Quando uma amante alivia o coração, surge lado a lado com a confusão toda a verdade.

 

Mauran deu por findo o interrogatório; estendeu a mão para o telefone, encomendou um automóvel de serviço, lançou o alarme no comissariado e exigiu um carro do Exército com vinte polícias para uma operação relâmpago.

 

Em seguida, pôs-se em contacto com Mas d’Agon.

 

Quando a campainha do telefone tocou, o sargento Andratte acabara precisamente de comer os seus dois ovos estrelados do pequeno-almoço e estava a molhar um pedaço de pão no prato.

 

O seu primeiro pensamento foi: ”Marcel Bondeau”.

 

Agora era uma certeza: o Doutor Bombette tinha feito o diagnóstico final.

 

Levantou o auscultador e pronunciou num tom seguro:

 

- Agora está finalmente em paz!

 

Sentiu vontade de desligar ao ouvir uma voz estranha que lhe rugia ao auscultador:

 

- Pelo contrário! Acabou-se o descanso! Obtenha as informações correctas, sargento.

 

Há que conhecer os habitantes de Mas d’Agon para se entender a reacção do sargento Andratte. Aos olhos de Andratte constituía uma total. impossibilidade que alguém do comissariado de Aries telefonasse àquela hora matutina.

 

Só podia haver uma interpretação, e o sargento Andratte apressou-se a retorquir:

 

- Vai deitar-te outra vez e deixa-me em paz.

 

- Daqui fala Mauran! Comissário Mauran! - grunhiu a voz ao telefone. - Departamento de Tráfico de Droga!

 

Andratte esboçou um aceno de cabeça. O que podia lembrar às pessoas! Não conhecia nenhum comissário Mauran. E, além disso, o que tinha a ver um polícia de Mas d’Agon com o Departamento de Tráfico de Drogas?

 

- Escuta, Mauran - declarou bem disposto. - Estou a acabar de comer os meus ovos. Quando acabar, podes vir ter comigo e...

 

- Sargento! - interrompeu Mauran, num tom perigosamente brusco. - Daqui a meia hora estarei aí com vinte homens e os membros do meu comissariado. Dirija-se imediatamente, sob qualquer pretexto, a casa do marquês de Formentière e vele para que ele não se escape. Torno-o inteiramente responsável por isso! Entendeu?

 

Andratte deixou pender o maxilar, e o pão molhado no ovo caiu dentro do prato. Como sempre lhe acontecia nas situações críticas, o suor brotou-lhe imediatamente por todos os poros e começou a correr-lhe pelo rosto.

 

- Quem fala? - acabou por perguntar num fio de voz.

 

- O comissário Mauran, de Aries. Do comissariado! Está finalmente acordado, Andratte? Como se chega a casa do marquês?

 

- Há três possibilidades - balbuciou o perplexo Andratte. - A pé, de bicicleta, ou pedindo a motorizada emprestada a Dupécheur, o estalajadeiro. Mas só em casos urgentes. É urgente?

 

- Escute bem, sargento - retorquiu Mauran, que respirava ofegante ao telefone, o que contribuiu para aumentar a atrapalhação de Andratte. Quando os superiores fumegam, o caso é invulgar. - Irá receber um automóvel de serviço.

 

- Oh, céus! - O coração de Andratte deu um salto no peito. ”Vou ter um enfarte”, pensou, encostando-se na cadeira. ”Um automóvel para mim! Mantém-te calmo, Emile”. - É mesmo verdade? - murmurou.

 

- Prometo-lhe. Peça emprestada pela última vez a motorizada ao Dupécheur e dirija-se imediatamente a casa do marquês.

 

- Sim, senhor. E o que devo dizer?

 

- Qualquer coisa!   bom dia...   e depois conte-lhe qualquer história. Não importa o quê... Só é preciso que ele não escape! Certamente lhe ocorrerá qualquer coisa...

 

- Ontem, o ferreiro Sylvester Dragony ferrou um cavalo a Julien Bellefille e desde essa altura o animal ficou a coxear. Agora Bellefille quer abater o cavalo e fazer com que o ferreiro o engula aos pedacinhos...

 

- Fantástico! É uma história maravilhosa! Mauran desligou. Olhou resignadamente para os companheiros de trabalho. - Quando me reformar, tenciono retirar-me para Mas d’Agon - declarou, esgotado. - Deve ser o paraíso do Senhor...

 

Dez minutos mais tarde, um cortejo de automóveis saía do comissariado de Aries. O velho VW também se contava entre eles! Kranz, Lubizek e Lulu tinham-se transtornado em testemunhas principais!

 

Costuma dizer-se que uma desgraça raramente vem só.

 

Pouco depois, Marcel Bondeau acordava antes do tempo. Soltou um profundo suspiro no preciso momento em que o Doutor Bombette acabava de pôr a sua assinatura na certidão de óbito e agitava o papel no ar para que secasse.

 

É falsa a afirmação de que um médico não se deixa abalar pelo que se passa com um doente. É igualmente ousado partir do princípio de que os médicos tomaram a frieza por sua conta - se bem que se leia frequentemente que assim é, e que frases como ”Saltar faz bem à circulação” ditas a um amputado tenham dado origem a uma tal crença.

 

O Doutor Bombette pertencia ao tipo de médicos que se pode definir como ”extraordinariamente austero”.

 

Apesar disso, empalideceu e encostou-se subitamente, com os joelhos a tremer, ao carro dos bombeiros quando o declarado oficialmente como morto se levantou, soltou um enorme suspiro e - como já se conhecia de anteriores ressurreições de Marcel Bondeau - gritou num tom bem perceptível:

 

- Tenho de mijar já...

 

O Doutor Bombette cambaleou por conseguinte um pouco e aplicou um pontapé no traseiro de Marcel Bondeau. Marcel virou-se para a parede e apoiou, por momentos, a testa de encontro à cal a estalar.

 

- Devia matar-te para que a certidão de óbito fosse finalmente válida! - ameaçou o Doutor Bombette, rangendo os dentes. - Que situação ridícula! És um perigo para toda a ciência médica. Como é possível que estejas novamente vivo?

 

- Foi um contrato! -respondeu Marcel Bondeau, num tom choroso.

 

Virou-se e fitou o médico com os olhos raiados de sangue de bêbado.

 

- O que ficou assente?

 

- Eu devia manter-me deitado até também o senhor ser de opinião de que eu estava morto. O mais elevado tempo de repouso: três dias!

 

- Oh! Sinto-me a explodir - disse o Doutor Bombette.

- Quem tramou isso tudo?

 

- Foi um negócio, doutor...

 

- Um negócio?

 

- Compraram-me três dias de morte aparente. Em troca de sete mil francos e dois caixotes de bebida.

 

- Quem é que inventou essa monstruosidade? - perguntou o Doutor Bombette, num tom insistente. - Diz-me o nome, Marcel... Ou desde já te prometo que se alguma vez precisares de médico... e precisarás... te injecto rícino nas veias... Quem foi?

 

- O marquês - informou Marcel Bondeau, docilmente.

 

- Continuas   embriagado - rugiu   o   médico.   O marquês? Ele que se preocupou tanto contigo...

 

- Precisamente porque me tinha alugado durante três dias. Foi Alain quem teve de me pôr inconsciente outra vez.

 

- Alain. Sim, isso tem cabimento. E onde está o Alain agora?

 

- Não sei. Quando me bateu ainda aqui estava, naturalmente...

 

- O Alain também te... - O Doutor Bombette susteve a respiração. - Conta-me tudo, Marcel. Por ordem...

 

- Mas eu tenho de...

 

- Lá para fora!

 

- Sim, aqui não. Senão o Dullalier também ainda me espanca.

 

Marcel correu para a pequena porta das traseiras e saiu para o ar livre.

 

Decorrido um grande bocado voltou e foi encontrar o Doutor Bombette ainda muito excitado. O médico estava sentado no estribo do carro dos bombeiros e balouçava as pernas como se quisesse dar pontapés com as duas pernas.

 

- Porque quis ele que fizesses de morto? - perguntou o Doutor Bombette imediatamente quando Marcel entrou na garagem dos bombeiros.

 

- Isso não sei. Alguém liga a pormenores por sete mil francos?

 

- E o marquês não fez quaisquer insinuações?

 

- Nenhumas.

 

Ambos se sobressaltaram ao ouvir o ruído de uma motorizada. Marcel Bondeau deu um pulo para a maca e estendeu-se.

 

- Ainda tenho de ficar aqui? - perguntou quase ingenuamente.

 

- Põe-te em pé! - ordenou o Doutor Bombette.

 

A porta escancarou-se e o sargento Andratte apresentou-se, com uma atitude belicosa. No cinturão trazia uma pistola.

 

Marcel encolheu-se e fitou o sargento.

 

Andratte, que queria falar com Alain, ergueu os braços e deu a sensação de que pretendia fazer parar o trânsito numa grande cidade.

 

- Oh, céus! - gaguejou. - Não pode ser verdade...

 

- Está vivo! - gritou o Doutor Bombette, ao mesmo tempo que dava um salto do carro dos bombeiros. - Tomou-nos a todos por idiotas, e o marquês pagou-lhe para isso!

 

- Novamente o marquês - comentou Andratte, deixando pender os braços. - E onde está metido o Alain?

 

- Desapareceu! - respondeu Marcel. - E no entanto devia cuidar de mim e avisar-me...

 

- Avisar? De quê? Contra quem?

 

- Quando alguém se aproximasse da garagem dos bombeiros. Fiz um contrato por três dias: não podia acordar, oficialmente, antes. Só quando estivesse sozinho com o Alain...

 

- Agora ficas aqui! - ordenou Andratte num tom oficial. - Agora és uma coisa política. Entendido?

 

- Não, Emile.

 

- És uma testemunha - rugiu Andratte. - Não te vais mexer deste sítio até te chamarmos!

 

- Vou interrogá-lo - anunciou o Doutor Bombette. Ainda não sei o que está em jogo, mas Vou tirar tudo a limpo! A minha carreira de médico podia ficar destruída! Por detrás disto, encontra-se forçosamente um motivo de peso... O que queria daqui, sargento?

 

- Vinha sondar o Alain, doutor Bombette - respondeu Andratte, levando um dedo aos lábios. - Tenho de vigiar o marquês. Segredo de Estado. Ordens superiores de Aries...

 

- Então aconteceu por fim qualquer coisa! - exclamou o Doutor Bombette num tom muito tenso. - Passou-se algo em Mas d’Agon.

 

Andratte suava como um cavalo perseguido.

 

- Que alvoroço! Prometeram-me um automóvel de serviço!