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A PRISIONEIRA / Marcel Proust
A PRISIONEIRA / Marcel Proust

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Em Busca do Tempo Perdido

A PRISIONEIRA

 

            Logo de manhã, a cabeça ainda virada para a parede, e antes de ter visto, acima das grandes cortinas da janela, qual era o matiz da raia de luz, eu já sabia que tempo estava fazendo. Os primeiros ruídos da rua já tinham informado, conforme chegassem amortecidos, desviados pela umidade ou vibrantes como flechas na área ressoante e vazia de uma manhã espaçosa, gélida e pura; desde o rodar do primeiro bonde, eu percebera se o tempo estava enregelado na chuva ou a caminho para o azul. E talvez esses mesmos ruídos também tivessem sido precedidos por uma certa emanação mais rápida, mais penetrante, que, deslizando através do meu sono, espalhasse nele uma tristeza anunciadora da neve, ou fizesse entoar, a determinada personagenzinha intermitente, tão numerosos cânticos à glória do sol, que estes acabavam por trazer até mim, que, ainda adormecido, principiava a sorrir e cujas pálpebras fechadas se preparavam para o deslumbramento, um atordoante despertar em música. Aliás, foi sobretudo do meu quarto que, durante esse período, percebi a vida exterior. Sei que Bloch disse que, quando vinha visitar-me à noite, ouvia o rumor de uma conversa; como minha mãe estava em Combray, e ele jamais encontrava ninguém no meu quarto, concluiu que eu falava sozinho. Quando, muito mais tarde, soube que Albertine então morava comigo, compreendendo que eu a escondera de todos, declarou que via enfim o motivo pelo qual eu nunca desejava sair nessa época da minha vida. Enganava-se. Era, aliás, bem desculpável, pois a realidade, mesmo se necessária, não é inteiramente previsível. Aqueles que chegam a conhecer algum pormenor exato sobre a vida de outra pessoa, logo tiram dali conseqüências que o não são, vendo no fato recém-descoberto, a explicação de coisas que precisamente não têm nenhuma relação com ele.

            Quando hoje penso que minha amiga fora morar, após o nosso regresso de Balbec, sob o mesmo teto que eu, em Paris, que renunciara à idéia de fazer um cruzeiro, que tinha o seu quarto a vinte passos do meu, no fim do corredor, no gabinete das tapeçarias de meu pai, e que todas as noites, bem tarde, antes de me deixar, deslizava sua língua dentro da minha boca, como um pão diário, como um alimento nutritivo e que tivesse a natureza quase sagrada de toda carne à qual os sofrimentos por que passamos devido a ela acabam por conferir uma espécie de doçura moral, o que logo recordo, por comparação, não é a noite que o capitão Borodino me permitiu que passasse no quartel, por um favor que, afinal, só curava um incômodo passageiro, mas aquela em que meu pai dissera a mamãe que fosse dormir na cama junto à minha. Desse modo, a vida, se mais uma vez deve livrar-nos de um sofrimento que parecia inevitável, fá-lo em condições diversas, por vezes opostas, a ponto de que há quase um sacrilégio aparente em constatar a identidade da graça outorgada!

            Quando Albertine sabia por Françoise que, na noite de meu quarto de cortinas ainda cerradas, eu não estava dormindo, não se incomodava de fazer um pouco de barulho ao se lavar no banheiro. Então, com freqüência, em vez de esperar uma hora mais tardia, eu ia para um banheiro contíguo ao dela e que era agradável. Outrora, um diretor teatral gastava centenas de milhares de francos para recamar de esmeraldas verdadeiras um trono em que a diva representava o papel de imperatriz. Os Balés russos nos ensinaram que simples jogos de luz, dirigidos aos pontos adequados, prodigalizam jóias tão suntuosas e mais variadas. Todavia, essa decoração, mais imaterial já não é tão graciosa quanto aquela que, às oito horas da manhã, o sol substitui à que tínhamos o hábito de ver quando só nos levantávamos ao meio-dia.             As janelas dos nossos dois banheiros, para que não nos vissem de fora, não eram lisas e sim enrugadas por uma geada artificial e fora de moda. De repente o sol amarelava essa musselina de vidro, dourava-a e, descobrindo suavemente em mim um rapaz mais velho que o hábito havia ocultado por muito tempo, me embriagava de lembranças, como se eu me encontrasse em meio à natureza, diante das folhagens douradas onde nem mesmo faltasse a presença de um pássaro. Pois ouvia Albertine assobiar sem parar:

                                   Les douleurs sont des folies

                                   Et qui les écoute est encore plus fou.

            ["As dores são umas loucas,/ E quem as escuta mais louco ainda." (N. do T)]

            Eu amava-a demais para não sorrir alegremente do seu mau gosto musical. Aliás, essa canção tinha encantado a Sra. Bontemps no último verão; e esta, ouvindo dizer que se tratava de uma inépcia, em vez de pedir a Albertine que a cantasse, quando estava com visitas, substituiu-a por:

                                   Une chanson d'adieu sort des sources troublées

            ["Uma canção de adeus sai das fontes turvadas." (N. do T)]

            Que por sua vez se tornou "uma chatice de Massenet com que a pequena nos martela os ouvidos".

            Uma nuvem passava, eclipsava o sol, e eu via extinguir-se e cobrir-se de grisalha a recatada e folhuda cortina de vidro.

            Os tabiques que separavam nossos banheiros (o de Albertine, todo igual, era um banheiro que mamãe, tendo outro na parte oposta do apartamento, jamais utilizara para não me fazer barulho) eram tão delgados que podíamos nos falar ao nos lavarmos cada qual no seu, prosseguindo uma conversa que só o ruído da água interrompia, nessa intimidade que, num hotel, muitas vezes permite a exigüidade do aposento e a aproximação das peças, mas que em Paris é bem rara.

            De outras vezes, eu permanecia deitado, devaneando o tempo que quisesse, pois tinham ordem de nunca entrar em meu quarto sem que eu tivesse tocado a campainha, o que, devido ao jeito incômodo com que haviam colocado a pêra elétrica acima do meu leito, levava tanto tempo que, muitas vezes, cansado de procurar alcançá-la e contente por estar sozinho, eu ficava alguns instantes quase que readormecido. Não é que eu fosse absolutamente indiferente à estada de Albertine em nossa casa. A sua separação das amigas conseguia aliviar meu coração de novos sofrimentos. Mantinha-o num repouso, numa quase imobilidade, que o ajudavam a curar-se. Mas enfim essa tranqüilidade que minha amiga me proporcionava era antes apaziguamento da dor do que alegria. Não que não me permitisse gozar de numerosas alegrias, às quais a dor muito viva me havia fechado, mas essas alegrias, longe de devê-las a Albertine, que aliás eu já não achava bonita, com quem me aborrecia e a quem eu tinha a sensação nítida de não amar, eu as gozava, ao contrário, quando Albertine não estava comigo. Assim, para começar a manhã, não mandava que a chamassem logo, principalmente se fazia bom tempo. Durante alguns momentos, e na certeza de que ele me fazia mais feliz do que Albertine, eu permanecia em colóquio íntimo com a personagenzinha interior, cantante saudadora do sol e de que já falei. De todas as que compõem o nosso indivíduo, não são as mais aparentes que nos são mais essenciais. Em mim, quando a doença as tiver lançado uma por uma em terra, ficarão ainda umas duas ou três que terão vida mais dura que as outras, notadamente um certo filósofo que só está feliz quando descobre uma porção comum entre duas obras, entre duas sensações. Porém, às vezes tenho me perguntado se a última de todas não seria o homenzinho, muitíssimo parecido a outro que o oculista de Combray havia colocado atrás de sua vitrina para indicar o tempo que fazia, e que, tirando o capuz logo que fazia sol, voltava a pô-lo assim que chovia. Eu conhecia o egoísmo desse homenzinho: posso estar sofrendo de uma crise de sufocação, que só a queda da chuva acalmaria, mas ele pouco se importa e, às primeiras gotas tão impacientemente aguardadas, perdendo sua alegria, repõe o capuz de mau humor. Em compensação, creio que, na minha agonia, quando todos os meus outros "eus" estiverem mortos, se acontecer brilhar um raio de sol, a personagenzinha barométrica, enquanto eu estiver exalando meus últimos suspiros, irá sentir-se bem à vontade e retirará seu capuz para cantar: "Ah! finalmente faz bom tempo."

            Eu chamava Françoise. Abria o fígaro. Procurava e acabava por verificar que nele não se encontrava um artigo, ou tido como tal, que eu enviara a esse jornal e que nada mais era, um pouco remodelada, do que a página, recentemente descoberta, outrora escrita no carro do doutor Percepied, ao contemplar os campanários de Martinville. Depois, lia a carta de mamãe. Ela achava esquisito, chocante, que uma moça morasse sozinha comigo. No primeiro dia, no momento de deixar Balbec, quando me vira tão infeliz e se inquietara por deixar-me sozinho, talvez minha mãe se sentisse feliz ao saber que Albertine viajaria conosco e ao ver que, com nossas malas, junto às quais eu passara a noite chorando no hotel de Balbec, tinham posto no "tortinho" as de Albertine, estreitas e pretas, que me pareciam ter a forma de ataúdes, sem que soubesse se iam trazer vida ou morte à minha casa. Mas nem havia pensado nisso, tão contente que estava, naquela manhã radiosa, por levar Albertine comigo depois do medo de ficar em Balbec. Mas a esse projeto, se no princípio minha mãe não lhe fora hostil (falando amavelmente à minha amiga, como uma mãe cujo filho acaba de ser gravemente ferido, e que é reconhecida à jovem namorada que dele cuidava com desvelo), passara a sê-lo desde que tal projeto se cumprira de todo e que a estada da moça se prolongava em nossa casa, e na ausência dela e de meu pai. Todavia, não posso dizer que minha mãe tenha me manifestado alguma vez essa hostilidade. Como antigamente, quando deixara de ousar censurar-me o meu nervosismo e minha preguiça, agora sentia escrúpulos que eu talvez não tenha adivinhado ou desejado adivinhar no momento em se arriscar, fazendo algumas reservas acerca da moça com quem lhe dissera que ia me casar, a entristecer a minha vida, a me tornar mais tarde menos devotado à minha mulher, a semear talvez, para quando ela própria já não existisse, o remorso de a ter desgostado ao casar com Albertine. Mamãe preferia parecer aprovar uma escolha da qual sentia não poder remover-me. Mas todos os que a viam por essa época disseram-me que, à dor de ter perdido a mãe, acrescentava-se um ar de constante preocupação. Essa contenção de espírito, essa discussão interior, davam a mamãe um grande calor nas têmporas, e ela abria constantemente as janelas para se refrescar. Mas não chegava a tomar qualquer decisão, por medo de me "influenciar" num mau sentido e de estragar aquilo que julgava ser a minha felicidade. Nem mesmo podia resolver-se a impedir que eu conservasse Albertine provisoriamente na casa. Não desejava mostrar-se mais severa que a Sra. Bontemps, que era a maior interessada naquilo e não lhe via inconveniente algum, o que muito surpreendia minha mãe. Em todo caso, lamentava ter sido obrigada a nos deixar ambos sozinhos, partindo justo naquela ocasião para Combray, onde poderia ter de ficar (e de fato ficou) longos meses, durante os quais minha tia precisou incessantemente dela dia e noite. Lá, tudo lhe foi facilitado graças à bondade e ao devotamento de Legrandin que, não recuando diante de nenhum sacrifício, adiou semana após semana o seu regresso a Paris, sem conhecer muito a minha tia, simplesmente, em primeiro lugar, porque fora amiga de sua mãe, e depois porque sentiu que a enferma, condenada, gostava de seus cuidados e não podia passar sem ele. O esnobismo é uma grave doença da alma, porém localizada, e que não a estraga de todo. Entretanto, eu, ao contrário de mamãe, estava bem feliz com a sua ida para Combray, sem a qual teria receado (sem poder dizer a Albertine que a ocultasse) que ela descobrisse a sua amizade com a Srta. Vinteuil. Para minha mãe, isso teria sido um obstáculo absoluto não só a um casamento, do qual, aliás, pedira-me que não falasse ainda em definitivo à minha amiga, e cuja idéia era-me cada vez mais intolerável, mas também a que Albertine passasse algum tempo em nossa casa. A não ser esse motivo tão grave e que ela ignorava, mamãe, pelo duplo efeito da imitação edificante e libertadora de minha avó, admiradora de George Sand, para quem a virtude consistia na nobreza do coração, e, por outro lado, de minha própria influência corruptora, era agora indulgente para com mulheres sobre cuja conduta se mostrara severa antigamente, ou mesmo nos dias de hoje, se se tratasse de suas amigas burguesas de Paris ou de Combray, mas de quem eu lhe gabava a grande alma e às quais ela perdoava em grande parte porque gostavam muito de mim. Apesar de tudo, e mesmo sem falar na questão das conveniências, creio que Albertine não teria tolerado mamãe, que conservara de Combray, de minha tia Léonie, de todos os parentes, hábitos de ordem de que minha amiga não tinha a menor noção. Não teria fechado uma porta e, em compensação, não ficaria mais constrangida que um cão ou um gato de entrar quando uma porta estivesse aberta. Seu encanto um pouco incômodo era, assim, o de estar na casa menos como uma moça do que feito um animal doméstico que entra numa sala; que sai, que se encontra em toda parte onde não é esperado, e que vinha; era para mim um repouso profundo; jogar-se em minha cama a meu lado, arrumando um lugarzinho de onde não se mexia mais, sem incomodar, como o teria feito uma pessoa. Entretanto, acabou por dobrar-se às minhas horas de sono, e evitou não só entrar no meu quarto, mas fazer barulho antes que eu tivesse tocado a campainha. Foi Françoise quem impôs essas regras. Era dessas criadas de Combray que conhecem o valor do patrão e acham que o menos que podem fazer é exigir que tenham com ele todas as atenções que julgam lhe serem devidas.

            Quando um visitante estranho dava a Françoise uma gorjeta para que a dividisse com a criada de cozinha, o doador mal tinha tempo de entregá-Ia, e já Françoise, com uma rapidez, uma discrição e uma energia iguais, passara a lição à criada de cozinha, que vinha agradecer não com meias palavras, mas francamente, em voz alta, como Françoise lhe havia dito que era necessário fazer.

            O cura de Combray não era um gênio, mas ele também sabia o que se devia fazer. Sob sua orientação, a filha dos primos protestantes da Sra. Sazerat se convertera ao catolicismo, e a família tivera um comportamento exemplar para com ele, ao se tratar de um casamento com um nobre de Méséglise. Os pais do rapaz escreveram, para pedir informações, uma carta bastante desdenhosa e onde era depreciada a origem protestante da moça. O cura de Combray respondeu em tom tão enérgico, que o nobre de Méséglise, curvo e prosternado, escreveu outra carta bem diferente, na qual solicitava, como o mais precioso favor, unir-se à jovem.

            Françoise não teve mérito em fazer respeitar o meu sono por Albertine. Estava imbuída da tradição. Por um silêncio que manteve, ou pela resposta peremptória que deu a um pedido de entrar no meu quarto ou de me perguntar alguma coisa, que inocentemente formulara Albertine, esta compreendeu, com assombro, achar-se em um mundo estranho, de costumes desconhecidos, regulados por leis de vida que ninguém podia pensar em transgredir. Já tivera um primeiro pressentimento daquilo em Balbec, mas em Paris não tentou sequer resistir e esperou pacientemente, todas as manhãs, o meu toque de campainha para ter coragem de fazer barulho.

            Aliás, a educação que lhe deu Françoise foi salutar até mesmo para a nossa velha criada, acalmando aos poucos os gemidos que, desde a nossa volta de Balbec, ela não deixara de soltar. Pois, no momento de subir para o trem, percebera que havia esquecido de despedir-se da "governanta" do hotel, criatura bigoduda que supervisionava os andares, mal conhecia Françoise, mas fora relativamente cortês com ela. Françoise queria porque queria voltar, descer do trem, regressar ao hotel, fazer suas despedidas à governanta e só partir no dia seguinte. O juízo e sobretudo o meu súbito horror a Balbec me impediram de conceder-lhe essa graça, mas ela cultivara um mau-humor doentio e arrebatado que a mudança de clima não fora bastante para fazer abrandar e que se prolongou em Paris. Pois, segundo o código de Françoise, tal como está representado nos baixos-relevos de Saint-André-des-Champs, desejar

a morte do inimigo, e até matá-lo, não é proibido, porém é horrível não fazer o que se deve, não retribuir uma gentileza, não despedir-se antes de partir, como uma perfeita grosseirona, de uma governanta de hotel.

            Durante toda a viagem, a lembrança, a cada instante renovada, de que não apresentara suas despedidas àquela mulher, fazia subir às faces de Françoise uma vermelhidão que podia assustar. E, se recusou beber e comer até Paris, foi mais talvez porque tal lembrança lhe dava um "peso" real "no estômago" (cada classe social tem sua patologia) do que para nos punir.

            Entre as razões por que mamãe me enviava todos os dias uma carta e uma carta onde nunca estava ausente alguma citação da Sra. de Sévigné- havia a recordação de minha avó. Mamãe me escrevia: "A Sra. Sazerat nos ofereceu um desses almoços de que ela possui o segredo e que, como teria dito a tua pobre avó, citando a Sra. de Sévigné, nos retiram a solidão sem nos trazer a sociedade." Em minhas primeiras respostas cometi a asneira de escrever a mamãe: "A essas citações, tua mãe te reconheceria de imediato." O que me valeu, três dias depois, este bilhete: "Meu pobre filho, se era para me falar de minha mãe, foste muito infeliz ao invocar a Sra. de Sévigné. Ela teria respondido como o fez à Sra. de Grignan: 'Então ela não era nada sua? Pensei que fossem parentes."

            No entanto, eu escutava os passos de minha amiga que saía ou entrava em seu quarto. Tocava a campainha, pois era a hora em que Andrée ia chegar com o motorista, amigo de Morel e emprestado pelos Verdurin, para buscar Albertine. Tinha lhe falado da longínqua possibilidade de nos casarmos; porém jamais o fizera de modo formal; ela própria, por discrição, quando eu dissera:

            "não sei, mas talvez fosse possível", sacudira a cabeça com um sorriso melancólico, dizendo:

            - Não, não, não seria - o que significava: "sou pobre demais".

            E então, apesar de dizer-lhe "nada é menos certo" quando se tratava de projetos para o futuro, atualmente fazia tudo para distraí-la, tornando-lhe a vida agradável, procurando talvez também, de modo inconsciente, fazê-la desse modo desejar casar comigo. Ela mesma ria de todo esse luxo.

            - A mãe de Andrée é que vai fazer uma cara quando me vir transformada numa dama rica feito ela, o que ela chama uma dama que tem "cavalos, carruagens, quadros". Como? Nunca lhe contei que ela dizia isso? Oh! É uma figura! O que me espanta é que ela ergue os quadros à dignidade dos cavalos e das carruagens.

            Pois veremos mais tarde que, apesar dos modos estúpidos de falar que lhe haviam ficado, Albertine se desenvolvera de forma assombrosa, o que me era de todo em todo indiferente, pois as superioridades do espírito de uma mulher me haviam sempre despertado tão diminuto interesse que, se as apontei a uma ou outra, tinha sido por pura cortesia. Somente o curioso gênio de Céleste talvez me tivesse agradado. Contra a vontade, eu sorria durante alguns momentos quando, por exemplo, sabendo que Albertine não se achava presente, ela me abordava com essas palavras:

            - Divindade do céu deposta num leito! -

            Eu dizia:

            - Ora, Céleste, por que "divindade do céu"?

            - Se o senhor imagina que se parece com esses que andam em nossa terra vil, está muito enganado!

            - Mas por que "deposto" num leito? Você vê muito bem que estou deitado.

            - O senhor nunca está deitado. Alguma vez já se viu alguém deitado assim? O senhor veio pousar aí. Neste momento o seu pijama, todo branco, e os movimentos de seu pescoço, dão-lhe o aspecto de uma pomba.

            Mesmo na ordem das coisas tolas, Albertine expressava-se de modo diverso da mocinha que era poucos anos antes em Balbec. Chegava a ponto de declarar, a propósito de um acontecimento político que reprovava:

            - Acho isso formidável -, e não sei se foi por essa época que aprendeu a dizer, para indicar que achava um livro mal escrito: - É interessante, mas, por exemplo, está escrito como se o fosse por um porco.

            Divertia-a bastante a proibição de entrar em meu quarto antes que eu tivesse tocado a campainha. Como adquirira o nosso hábito familiar das citações, e utilizava para tanto as das peças que havia representado no convento e que eu dissera que apreciava, comparava-me sempre a Assuero:

            Et la mort est le prix de tout audacieux/ Qui sans être appelé se présente à ses yeux.

            Rien ne met à /'abri de cet ordre fatal, Ni le rang, ni le sexe, et le crime est éga/.Moi même...

            Je suis à cette foi comme une autre soumise, Et sans /e prevenir i/ Taut pour lui parler

            Qu'il me cherche ou du moins qu'il me asse appeler.

[E a morte é a recompensa de todo atrevido/ Que sem ser chamado se apresenta a seus olhos.// Nada. me livra dessa ordem fatal, / Nem a posição, nem o sexo; e o crime é igual./ / Eu mesma... / Como qualquer outra estou submetida a essa lei, / E sem preveni-lo, se lhe quero falar/ É preciso que ele venha ou me mande chamar." (Racine, Esther, ato I, cena III, v. 195-96 [Racine escreve "à leurs yeux 9, 199-200 e 201-204.) (N. do T)]

            Fisicamente, ela também havia mudado. Seus longos olhos azuis mais alongados não tinham conservado a mesma forma; possuíam a mesma cor, mas pareciam ter passado ao estado líqüido. De modo que, ao fechá-los, era como quando a gente impede, com cortinas, a vista do mar. Era sem dúvida dessa parte dela mesma que eu principalmente me lembrava, ao deixá-la todas as noites. Pois, por exemplo, bem ao contrário, pelas manhãs, o crespo de seus cabelos me causou durante muito tempo a mesma surpresa, como uma coisa nova que eu jamais tivesse visto. E, no entanto, acima do olhar risonho de uma moça, o que existe de mais belo que essa coroa anelada de violetas negras? O sorriso propõe mais amizade; mas os aneizinhos envernizados dos cabelos em flor, mais parentes da carne, da qual pareciam a transposição em pequeninas ondas, captam melhor o desejo.

            Mal entrava em meu quarto, ela saltava sobre a cama e às vezes definia o meu tipo de inteligência, jurava, num transporte sincero, que preferiria morrer a me deixar: eram os dias em que eu me barbeara antes de mandar chamá-la. Albertine era dessas mulheres que não sabem distinguir a razão do que sentem. O prazer que lhes causa uma pele fresca, explicam-no pelas qualidades morais daquele que lhes parece, para seu futuro, representar uma felicidade, aliás passível de diminuir e de tornar-se menos necessária à medida que se deixa crescer a barba.

            Perguntava-lhe aonde pensava ir.

            - Creio que Andrée quer me levar aos Buttes-Chaumont, que não conheço.-

            Claro que me era impossível adivinhar, entre tantas outras palavras, se por trás destas se escondia uma mentira. Aliás, eu tinha esperança de que Andrée me dissesse todos os locais a que iria com Albertine. Em Balbec, quando me sentia muito cansado de Albertine, pretendera dizer mentirosamente a Andrée:

            "Minha querida Andrée, se tivesse voltado a vê-la mais cedo! Era você a quem eu teria amado. Mas agora o meu coração está preso alhures. Ainda assim, podemos ver-nos amiúde, pois meu amor por outra me causa grandes aflições e você me ajudará a consolar-me."

            Ora, essas mesmas palavras mentirosas tornaram-se verdadeiras três semanas mais tarde. Talvez Andrée tivesse acreditado em Paris que se tratava de fato de uma mentira, e que eu a amava, como sem dúvida o teria acreditado em Balbec; pois a verdade muda de tal maneira para nós que aos outros custa muito reconhecerem-se nela. E, como eu sabia que ela haveria de contar-me tudo o que teriam feito, ela e Albertine, eu lhe pedira, e ela concordara, que viesse buscá-la quase todos os dias. Poderia desse modo, sem preocupações, ficar em casa. E esse prestígio de ser Andrée uma das moças do "pequeno grupo" dava-me confiança de que ela obtivesse tudo o que eu queria de Albertine. Na verdade, poderia dizer-lhe agora, com toda a sinceridade, que ela seria capaz de me tranqüilizar. Por outro lado, a escolha de Andrée (que acontecia achar-se em Paris, tendo renunciado a seu projeto de voltar a Balbec) como guia de minha amiga relacionava-se ao que Albertine me contara da afeição que sua amiga sentira por mim em Balbec, num momento em que, pelo contrário, eu receava aborrecê-la, e, se eu o tivesse sabido então, seria talvez Andrée aquela a quem teria amado.

            - Como, não sabia? - indagou Albertine -, e todavia gracejávamos sobre isso entre nós. - Além do mais, não reparou que ela tinha dado para imitar o seu modo de falar e raciocinar? Principalmente quando acabava de deixá-lo, era assombroso. Ela não precisava dizer se o tinha visto. Quando chegava, se tinha estado com você, isto se via no primeiro instante. Nós nos entre olhávamos e ríamos. Ela era como um carvoeiro que gostaria que acreditassem que não é carvoeiro, embora esteja preto. Um moleiro não precisa dizer que é moleiro, isto se percebe muito bem por toda a farinha que o cobre: ainda traz a marca dos sacos que carregou. No caso de Andrée era a mesma coisa, ela franzia as sobrancelhas como você, depois o longo pescoço; enfim, nem sei como explicar. Quando pego um livro que esteve em seu quarto, posso ir lê-lo lá fora; ainda assim, todos sabem que procede de você, pois conserva algo de suas horríveis fumigações. É uma coisa de nada, não sei lhe dizer, mas no fundo é um nada bastante agradável. Toda vez que alguém falava de você com simpatia, ou dava a impressão de tê-lo em alta consideração, Andrée ficava encantada.

            Apesar de tudo, para evitar que houvesse algo preparado sem meu conhecimento, aconselhei-a a abandonar naquele dia o passeio aos Buttes-Chaumont e ir de preferência à Saint-Cloud, ou a outro lugar.

            É certo que isso não queria dizer que eu amasse Albertine nem um pouco. O amor talvez não passe da propagação desses redemoinhos que, em seguida a uma emoção, comovem a alma. Alguns deles tinham remexido com minha alma inteira quando Albertine, em Balbec, me falara da Srta. Vinteuil, mas agora estavam parados. Eu já não amava Albertine, pois não me restava mais coisa alguma do sofrimento, agora curado, que eu tivera no trem, em Balbec, ao saber como fora a adolescência delas, talvez com visitas à Montjouvain. Pensara demais em tudo isso, estava curado. Mas, por instantes, certos modos de falar de Albertine me faziam supor - não sei porquê - que ela deveria ter recebido, em sua vida ainda tão curta, muitos galanteios e declarações, e tê-los recebido com prazer, ou seja, com sensualidade. Assim, dizia ela a propósito de qualquer coisa:

            - É verdade? É verdade mesmo? -

            Decerto, se houvesse dito como uma Odette:

            - É verdade mesmo essa grande mentira? - eu não me inquietaria, pois o próprio ridículo da fórmula era explicado por uma estúpida banalidade de espírito feminino. Mas seu ar interrogativo: - É verdade? dava, por um lado, a estranha impressão de uma criatura que não pode perceber as coisas por si mesma, que apela para o nosso testemunho, como se não possuísse as mesmas faculdades que nós (diziam-lhe: "Faz uma hora que partimos", ou "chove", e ela perguntava: "É verdade?"). Infelizmente, por outro lado, essa dificuldade de se dar conta por si mesma dos fenômenos exteriores não devia ser a verdadeira origem de "É verdade? É verdade mesmo?". Antes parecia que tais palavras teriam sido, desde sua nubilidade precoce, respostas aos: "Sabe que jamais encontrei uma criatura tão linda como você", "sabe que sinto um grande amor por você, que estou num estado de excitação terrível", afirmações às quais respondiam, com uma modéstia faceiramente aprovadora, esses "É verdade? É verdade mesmo?", os quais só serviam a Albertine, em suas relações comigo, para responder com uma pergunta a uma afirmação do tipo:

            -Você dormiu mais de uma hora. - É verdade?

            Sem me sentir absolutamente enamorado de Albertine, sem contar no número dos prazeres os momentos que passávamos juntos, continuara preocupado com o emprego de seu tempo; certamente, fugira eu de Balbec para estar seguro de que ela não poderia mais ver tal ou qual pessoa com quem eu receava tanto que ela se comportasse mal, rindo-se, talvez rindo de mim, que havia tentado habilmente romper de um só golpe, com minha partida, todas as suas más relações. E Albertine era dotada de uma tal força de passividade, tão grande faculdade de esquecer e de se submeter, que essas relações de fato tinham sido rompidas, curando a fobia que me atormentava. Porém esta pode se apresentar sob tantas formas quanto o mal incerto que é o seu objetivo. Enquanto meu ciúme não se reencarnava em novas criaturas, eu tivera, depois de passados os meus sofrimentos, um intervalo de calma. Mas o menor pretexto serve para fazer renascer uma doença crônica, como aliás a menor ocasião pode servir para que, após uma trégua de castidade, se exerça de novo, com criaturas diversas, o vício da pessoa que é a causa deste ciúme. Eu conseguira separar Albertine de suas cúmplices e, desse modo, exorcizar minhas alucinações; se era possível fazê-la esquecer as pessoas, tornar breves os seus relacionamentos, todavia o seu gosto pelo prazer era igualmente crônico e talvez só esperasse uma oportunidade para saciar-se. Ora, Paris fornece tantas ocasiões para isto como Balbec. Em qualquer cidade ela não precisaria procurar, pois o mal não estava em Albertine apenas, mas em outras, para as quais toda ocasião de prazer é boa. O olhar de uma, logo entendido pela outra, aproxima as duas famintas. E é fácil a uma mulher sagaz dar a impressão de não ver, e cinco minutos depois dirigir-se à pessoa que a compreendeu e a está esperando numa rua transversal, e, com duas palavras, marcar um encontro. Quem saberá jamais? E era tão simples para Albertine dizer-me, para que aquilo continuasse, que desejava rever determinado ponto de Paris que lhe agradara. Assim, bastava que ela regressasse muito tarde, que seu passeio tivesse durado um tempo inexplicável, embora talvez bem fácil de ser explicado sem a ocorrência de qualquer motivo sensual, para que meu mal renascesse, desta vez relacionado a representações que não eram de Balbec, e que eu me esforçaria, como às precedentes, para destruir, como se a destruição de uma causa efêmera pudesse carrear consigo a de um mal congênito. Eu não me dava conta de que nessas destruições, onde tinha por cúmplice, em Albertine, a sua faculdade de mudar, a sua força de esquecer, quase de odiar, o objeto recente de seu amor, causava por vezes uma dor profunda a tal ou qual das criaturas desconhecidas com quem ela sucessivamente desfrutara o prazer, e que era debalde que causava essa dor, pois essas criaturas seriam abandonadas porém substituídas; e, paralelamente ao caminho balizado por tantos abandonos que ela cometeria levianamente, outro prosseguiria implacável para mim, apenas interrompido por muito breves intervalos; de modo que, pensando bem, meu sofrimento

não podia ter um fim senão comigo ou com Albertine.

            Mesmo nos primeiros tempos da nossa chegada a Paris, insatisfeito com as informações que Andrée e o motorista me haviam passado sobre os passeios que faziam com minha amiga, eu sentira os arredores de Paris tão cruéis como os de Balbec e saíra em viagem por alguns dias com Albertine. Mas em toda parte a incerteza sobre o que ela fazia era a mesma; as possibilidades de que fosse o mal, igualmente numerosas, a vigilância ainda mais difícil, de forma que voltei com ela a Paris. Na verdade, ao deixar Balbec, julgara abandonar Gomorra, arrancando Albertine de lá; ai de mim, Gomorra andava espalhada pelos quatro cantos do mundo. E parte devido ao meu ciúme, parte por ignorância dessas alegrias (caso que é bastante raro), eu havia regulado, sem o saber, esse jogo de esconde-esconde em que Albertine me fugiria sempre.

            Interrogava-a à queima-roupa:

            - Ah, a propósito, Albertine, será que sonhei ou você me disse que conhecia Gilberte Swann?

            - Sim, quer dizer, ela me falou no curso, porque possuía os cadernos de História da França, até foi muito gentil e me emprestou os cadernos, que devolvi assim que tornei a vê-la.

            - Será que ela é do tipo das mulheres de quem não gosto?

            -Oh, de jeito nenhum; pelo contrário.

            Mas, em vez de me entregar a esse gênero de conversas inquiridoras, dedicava-me com freqüência a imaginar o passeio de Albertine, as forças que não empregava em fazê-lo, e falava à minha amiga com esse ardor que os projetos irrealizados conservam inato. Expressava tamanha vontade de rever determinado vitral da Sainte-Chapelle, tamanha pena de não poder fazê-lo sozinho em sua companhia, que ela me respondia com ternura:

            - Mas, meu querido, já que isso lhe agrada tanto, faça um pequeno esforço, venha conosco. Esperaremos o tempo que você quiser até que fique pronto. Além disso, se lhe agrada mais estar sozinho comigo, basta mandar embora Andrée, ela voltará em outra ocasião. -

            Mas esses mesmos pedidos de sair aumentavam a tranqüilidade que me permitia ficar em casa.

            Eu não imaginava que a apatia em descarregar desse modo sobre Andrée ou o motorista os cuidados de acalmar a minha agitação, deixando-lhes a tarefa de vigiar Albertine, paralisasse em mim, tornando inertes, todos esses movimentos imaginativos da inteligência, todas as inspirações da vontade que auxiliam a adivinhar e a impedir o que uma pessoa vai fazer. Era tanto mais perigoso, visto que, por natureza, o mundo das possibilidades sempre me estivera mais aberto que o da contingência real. Isto ajuda a conhecer a alma, porém a gente se deixa enganar pelos indivíduos. Meu ciúme nascia através de imagens, devido a um sofrimento e não de acordo com uma probabilidade. Ora, pode haver na vida dos homens e dos povos (e um dia deveria haver na minha) um momento em que seja necessário ter dentro de si um chefe de polícia, um diplomata de larga visão, um delegado de segurança, que, ao invés de pensar nos possíveis que estende aos quatro pontos cardeais, raciocina corretamente, dizendo consigo: "Se a Alemanha declara isto, é que nos deseja fazer outra coisa, não uma outra coisa vaga, mas precisamente esta ou aquela que talvez já esteja começada. Se determinada pessoa fugiu, não foi para os locais a, b ou d, mas para o ponto c, e o local onde é necessário realizar nossas buscas é etc." Ai de mim, essa faculdade, não muito desenvolvida em mim, eu a deixava entorpecer-se, perder suas forças, desaparecer, ao me habituar a ficar sossegado no momento em que outros se ocupavam da vigilância por mim. Quanto à razão desse desejo, ter-me-ia sido desagradável externá-la a Albertine. Dizia-lhe que o médico me ordenara que permanecesse deitado. Não era verdade. E, mesmo que o fosse, suas prescrições não me impediriam de acompanhar a minha amiga. Pedia a esta que me dispensasse de acompanhá-la e à Andrée.

            Direi apenas uma das razões, e que era uma razão de cautela. Quando saía com Albertine, por um momento em que ela ficasse sem mim, eu me mostrava inquieto, imaginava que ela talvez falasse a alguém ou apenas olhasse alguém. Se ela não estava de muito bom humor, eu logo pensava que a estava fazendo perder ou adiar um projeto. A realidade não passa jamais de uma isca lançada a um desconhecido em cujo caminho não podemos ir muito longe. É preferível não saber, pensar o menos possível, não fornecer ao ciúme o menor detalhe concreto. Infelizmente, à falta da vida exterior, os incidentes igualmente são causados pela vida interior; à falta dos passeios de Albertine, as eventualidades encontradas nas reflexões que eu fazia sozinho forneciam-se às vezes esses pequenos retalhos de realidade que atraem a si próprios, como um ímã, um pouco do desconhecido, que desde então faz-se doloroso. Por mais que se viva sob o equivalente de uma campânula pneumática, as associações de idéias e as lembranças continuam a agir.

            Mas semelhantes choques internos não ocorriam de imediato; logo que Albertine saía para seu passeio, eu me sentia revivescer, nem que fosse apenas por alguns segundos, pelas virtudes exaltantes da solidão. Tomava a minha parte nos prazeres do dia que principiava; o desejo arbitrário a veleidade caprichosa e puramente minha-de gozá-los não teria bastado para pô-los à minha disposição, se o tempo especial que fazia não me tivesse não só evocado imagens passadas, como afirmado a realidade atual, imediatamente acessível a todos os homens a que uma circunstância contingente (e, por conseguinte, desprezível) não forçasse a ficar em casa.

            Em alguns dias bonitos fazia tanto frio, estávamos em tão ampla comunicação com a rua que parecia que haviam derrubado as paredes da casa, e cada vez que passava o bonde o seu timbre ressoava como o teria feito uma faca de prata batendo numa casa de vidro. Mas era sobretudo em mim que eu ouvia inebriado um som novo emitido pelo violino interior. Suas cordas são retesadas ou soltas por simples diferenças de temperatura e da luz exteriores. Em nosso ser, instrumento que a uniformidade do hábito fez silencioso, o canto nasce desses desvios, dessas variações, origem de toda música: o tempo que faz em certos dias transporta-nos logo de uma nota a outra. Reencontramos a ária esquecida cuja necessidade matemática poderíamos ter adivinhado e que nos primeiros instantes cantamos sem conhecer. Somente essas modificações internas, conquanto vindas de fora, renovariam para mim o mundo exterior. Portas de comunicação, desde há muito condenadas, reabririam-se em meu cérebro. A vida de certas cidades, a alegria de certos passeios retomavam o seu lugar em mim. Fremindo todo inteiro ao redor da corda vibrante, eu teria sacrificado minha mortiça vida de outrora e o meu porvir, apagados pela borracha do hábito, por esse estado tão particular.

            Se eu não tinha ido acompanhar Albertine em seu longo passeio, meu espírito vagabundeava mais ainda e, por haver recusado desfrutar com os sentidos aquela manhã, gozava em imaginação todas as manhãs parecidas, passadas ou possíveis, mais precisamente um gênero de manhãs de que as do mesmo tipo não eram mais que a intermitente aparição, e que eu logo reconhecia; pois o ar vivo se incumbia de virar as páginas necessárias, e eu achava bem indicado diante de mim, para poder segui-lo do meu leito, o evangelho do dia. Essa manhã ideal enchia meu espírito de realidade permanente, idêntica a todas as manhãs parecidas, e me comunicava uma alegria que meu estado de debilidade não fazia diminuir; o bem estar resulta, para nós, muito menos de nossa boa saúde que do excedente não empregado de nossas forças; podemos alcançá-lo tanto aumentando estas, como restringindo a nossa atividade. A que transbordava em mim e que eu mantinha em potencial em meu leito, fazia-me estremecer, saltar interiormente, como uma máquina que, impedida de mudar de lugar, gira sobre si mesma.

            Françoise vinha acender o fogo e, para fazê-lo, lançava nele alguns raminhos, cujo aroma, esquecido durante todo o verão, descrevia em torno da lareira um círculo mágico, dentro do qual, vendo-me a mim mesmo no ato de ler, ora em Combray, ora em Doncieres, sentia-me tão contente, permanecendo em meu quarto em Paris, como se estivesse a ponto de sair em passeio para os lados de Méséglise ou de reencontrar Saint-Loup e seus amigos em serviço no campo. Acontece muitas vezes que o prazer que todos os homens sentem em rever as lembranças que sua memória colecionou é mais vivo, por exemplo, naqueles a quem a tirania do mal físico e a esperança diária de cura privam, por um lado, de ir buscar na natureza os quadros que se assemelham a tais lembranças e, por outro lado, deixam bem confiantes de o poderem fazer em breve, para ficarem diante deles em estado de desejo, de apetite, e não considerá-los apenas como lembranças, como quadros. Porém, mesmo que nunca mais devessem ser senão isso para mim, e pudesse eu, ao recordá-los, revê-los somente, de súbito já se refaziam em mim, totalmente de mim, pela virtude de uma sensação idêntica, a criança e o adolescente que os tinha visto. Não houvera apenas mudança de tempo lá fora, ou modificação de aromas no quarto, mas, em mim, diferença de idade, substituição de pessoa. No ar gelado, o aroma dos raminhos de árvore era como um pedaço do passado, uma banquisa invisível destacada de um inverno antigo e avançando pelo quarto adentro, aliás muitas vezes estriada por tal perfume, tal clarão, como por anos diferentes onde eu me achava remergulhado, e até mesmo invadido, antes que os houvesse identificado pela alegria de esperanças abandonadas há muito. O sol chegava até minha cama e atravessava o tabique transparente de meu corpo adelgaçado, aquecia-me, tornava-me ardente como o cristal. Então, convalescente famoso que já se repasta de todas as iguarias que ainda lhe recusam, eu me perguntava se casar com Albertine não estragaria a minha vida, ou fazendo-me assumir o encargo, pesado demais para mim, de me consagrar a outra criatura, ou forçando-me a viver ausente de mim mesmo por causa de sua presença contínua, e privando-me para sempre das alegrias da solidão. E não somente dessas. Mesmo não pedindo ao dia senão desejos, existem alguns-os que são provocados não mais pelas coisas e sim pelas criaturas-cuja natureza é serem individuais. Assim, se, saltando da cama, ia abrir por um instante as cortinas da janela, não era apenas como um músico abre por um momento o seu piano, e para verificar se, sobre o balcão e na rua, a luz do sol estava exatamente no mesmo diapasão que na minha lembrança; era também para avistar alguma lavadeira carregando o seu cesto de roupa, uma padeira de avental azul, uma leiteira com um babador e mangas de algodão branco, segurando o gancho em que estão suspensas as garrafas de leite, alguma altiva jovem loura seguindo a sua governanta, uma imagem enfim cuja diferença de linhas, talvez quantitativamente insignificantes, bastava para fazer tão diferente de qualquer outra como, para uma frase musical, a diferença de duas notas, e sem cuja visão eu teria empobrecido o dia dos objetos que ele podia propor a meus desejos de felicidade. Mas, se o excesso de alegria, trazido pela visão das mulheres impossíveis de imaginara priori, fazia-me mais desejáveis, mais dignas de serem exploradas, a rua, a cidade, o mundo, dava-me, por isso mesmo a sede de ficar curado, de sair e, sem Albertine, de ser livre. Quantas vezes, no momento em que a mulher desconhecida com quem eu ia sonhar passava diante de casa, ora a pé, ora a toda velocidade de seu automóvel, sofri porque meu corpo não pôde seguir o meu olhar que a agarrava e, caindo sobre ela como que atirado do vão da minha janela por um arcabuz, deter a fuga do rosto no qual me esperava a oferta de uma ventura que eu, assim enclausurado, jamais poderia desfrutar!

            Em compensação, nada mais me restava para descobrir de Albertine. A cada dia ela me parecia menos bonita. Somente o desejo que excitava nos outros, quando, ao percebê-lo, eu começava a sofrer e queria disputá-la aos demais, a elevava em meus sonhos a um alto patamar. Ela era capaz de me causar sofrimento, mas de modo algum alegria. Só pelo sofrimento é que subsistia a minha tediosa ligação. Quando ela desaparecia, e com ela a necessidade de acalmar essa ligação, exigindo toda a minha atenção como uma distração atroz, eu sentia o nada que ela era para mim, que eu devia ser para ela. Sentia-me infeliz com a duração desse estado e por momentos desejava conhecer algo terrível que ela tivesse feito e que fosse capaz de nos deixar brigados até que eu me curasse, o que permitiria que nos reconciliássemos, que reatássemos de modo diverso e mais flexível a corrente que nos una. Enquanto esperava, encarregava mil circunstâncias, mil prazeres, de lhe proporcionarem junto a mim a ilusão dessa felicidade que eu já não me sentia capaz de lhe oferecer. Logo que estivesse curado, gostaria de partir para Veneza; mas como fazê-lo se me casasse com Albertine, eu tão ciumento dela que, mesmo em Paris, quando me resolvia a mexer-me era para sair com ela? Mesmo quando ficava em casa a tarde inteira, meu pensamento a seguia em seu passeio, descrevia um horizonte longínquo, azulado, engendrava em torno ao centro que eu era uma zona móvel de incerteza e vaguidão.

            - "O quanto Albertine", dizia comigo, "me pouparia as angústias da separação se, no decurso de um desses passeios, vendo que não mais lhe falava de casamento, decidisse não regressar e partisse com a tia, sem que eu precisasse de lhe dizer adeus!"-

            Meu coração, desde que sua chaga cicatrizava, já principiava a não aderir ao da minha amiga; por meio da imaginação, eu podia substituí-la, afastá-la de mim sem sofrer. Por certo, na falta de mim mesmo, algum outro seria seu esposo e, livre, ela talvez tivesse dessas aventuras que me causavam horror. Mas fazia um tempo tão lindo, eu estava tão seguro de que ela regressaria à noitinha, que, mesmo se essa idéia de possíveis culpas me vinha ao espírito, eu podia, por um ato livre, aprisioná-la numa parte de meu cérebro onde ela não tinha mais importância do que teriam para a minha vida real os vícios de uma pessoa imaginária; fazendo ranger os suaves gonzos de meu pensamento, eu tinha, com uma energia que sentia, na cabeça, ser a um tempo física e mental, como um movimento muscular e uma iniciativa espiritual, ultrapassado o estado de preocupação costumeira a que estivera confinado até então, e começava a mover-me ao ar livre, de onde tudo sacrificar para evitar o casamento de Albertine com um outro e criar obstáculo ao seu gosto pelas mulheres parecia tão desarrazoado a meus próprios olhos como aos de alguém que não a conhecesse. Aliás, o ciúme é uma dessas doenças intermitentes, cuja causa é caprichosa, imperativa, sempre idêntica no mesmo doente, às vezes completamente diversa em outro. Há os asmáticos que só acalmam suas crises abrindo as janelas, respirando o vento forte, o ar puro das alturas; outros, refugiando-se no centro da cidade, num quarto cheio de fumaça. Existem poucos ciumentos cujo ciúme não admite certas abolições. Este consente em ser traído, contanto que lhe confessem a traição; este outro contanto que lhe ocultem, no que um não é menos absurdo que o outro, visto que, se o segundo é mais verdadeiramente enganado, já que lhe dissimulam a verdade, o primeiro reclama, nessa verdade, o alimento, a extensão e o renovar de seus sofrimentos.

            Ainda mais, essas duas manias inversas do ciúme vão muitas vezes além das palavras, implorem ou recusem as confidências. Vêem-se ciumentos que só o são dos homens com que sua amante se relaciona longe deles, mas consentem que ela se dê a outro homem, com sua autorização, perto deles e, se não à sua vista, ao menos sob o mesmo teto. Esse caso é bastante comum entre os homens idosos apaixonados por uma moça. Sentem a dificuldade de agradá-la, às vezes a impotência de satisfazê-la e, em vez de serem traídos, preferem deixar que venha à casa deles, num quarto próximo, alguém que julgam incapaz de dar a ela maus conselhos porém não de lhe proporcionar prazer. Para outros, é exatamente o contrário: não deixando a amante sair um minuto sozinha numa cidade que eles conhecem, mantendo-a em verdadeira escravidão, permitem-lhe partir por um mês a um país que não conhecem, onde não podem imaginar o que ela há de fazer. Em relação a Albertine, eu cultivava essas duas espécies de mania apaziguadora. Não teria ficado com ciúmes se ela desfrutasse prazeres perto de mim, encorajados por mim, todos mantidos inteiramente sob minha supervisão, poupando-me desse modo o temor da mentira; também não me enciumaria se ela viajasse para um país bem desconhecido de mim, e afastado, para que eu não pudesse imaginar, nem ter possibilidade e tentação de conhecer seu gênero de vida. Em ambos os casos, a dúvida teria sido suprimida por uma ignorância ou por um conhecimento igualmente completos.

            O declínio do dia remergulhava-me pela recordação numa atmosfera antiga e fresca, e eu a respirava com as mesmas delícias que Orfeu o ar sutil, desconhecido desta terra, dos Champs-Elysées. Mas o dia já terminava, e eu era invadido pela desolação do entardecer. Olhando maquinalmente no relógio de pêndulo quantas horas passariam antes que Albertine voltasse, eu via que ainda dispunha de tempo para me vestir e descer a fim de pedir à minha proprietária, Sra. de Guermantes, algumas indicações sobre certas coisas bonitas de toalete que pretendia dar à minha amiga. Às vezes eu encontrava a duquesa no pátio, saindo para excursões a pé, mesmo se fazia mau tempo, com um chapéu baixo e um casaco de pele. Eu bem sabia que, para grande número de pessoas inteligentes, ela não era outra coisa senão uma dama qualquer, visto que o nome de duquesa de Guermantes não significava nada agora que não há mais duques nem principados, mas eu adotara um outro ponto de vista em meu modo de usufruir dos seres e dos países. Todos os castelos das terras de que ela era duquesa, princesa, viscondessa, essa dama de casaco de pele, afrontando o mau tempo, parecia-me carregá-los consigo, como as personagens esculpidas no dintel de um portal sustentam na mão a catedral que construíram, ou a cidadela que defenderam. Porém esses castelos e essas florestas, somente os olhos do meu espírito podiam vê-los na mão enluvada da dama de casaco de pele, prima do rei. Os olhos de meu corpo ali não distinguiam, nos dias em que o tempo se fazia ameaçador, senão um guarda-chuva de que a duquesa não receara armar-se.

            - Nunca se pode saber, é mais prudente, se me encontrar muito longe e um carro me pedir preços caros demais para mim.-

            As expressões "caros demais" e "exceder os meus meios" retornavam o tempo todo na conversa da duquesa, bem como esta: "sou muito pobre", sem que se percebesse muito bem se ela falava assim por achar divertido dizer que era pobre, sendo tão rica, ou porque julgasse elegante, sendo tão aristocrática, isto é, afetando ser uma camponesa, fingisse não dar à riqueza a importância das pessoas que são apenas ricas e que desprezam os pobres. Talvez antes fosse um hábito contraído numa época de sua vida em que, já rica, porém insuficientemente, a julgar pelo custo da manutenção de tantas propriedades, ela experimentava certas dificuldades de dinheiro que não desejava parecer estar dissimulando. As coisas de que falamos na maioria das vezes em tom de gracejo são geralmente, pelo contrário, as que aborrecem, mas das quais não queremos dar a impressão de estarmos aborrecidos, talvez com a inconfessa esperança de uma vantagem suplementar: a de que justo a pessoa com quem conversamos, ao nos ouvir gracejar a respeito, creia que aquilo não é verdade.

            Mas, na maioria das vezes, àquela hora, eu sabia que encontrava a duquesa em casa, e isso me fazia contente, pois era mais comodo para lhe pedir as demoradas informações desejadas por Albertine. E eu descia quase sem pensar o quanto era extraordinário que, à casa dessa misteriosa Sra. de Guermantes da minha infância, eu comparecesse exclusivamente a fim de me valer dela para uma simples comodidade prática, como fazemos com o telefone, instrumento sobrenatural, diante de cujos milagres a gente se maravilhava outrora, e do qual nos servimos hoje sem nem pensar nisso, para chamar o alfaiate ou encomendar um sorvete.

            As ninharias do vestuário davam grande prazer a Albertine. Eu não sabia me recusar a dar-lhe, todos os dias, um presente desse tipo. E cada vez que ela me falava com encantamento numa écharpe, numa estola, numa sombrinha que, pela janela, ou passando pelo pátio, com seus olhos que percebiam tão depressa tudo o que se relacionasse à elegância, ela avistara no pescoço, nos ombros, na mão da Sra. de Guermantes, sabendo que o gosto naturalmente difícil da moça (ainda marcado pelas lições de elegância dadas pela conversação de Elstir) não se satisfaria de modo algum com um simples objeto de imitação mesmo que fosse bonito, que substitui o verdadeiro aos olhos do vulgo, mas dele difere inteiramente, eu ia em segredo perguntar à duquesa onde, como, a partir de que modelo fora confeccionado aquilo que agradara a Albertine, como deveria proceder para obter exatamente aquilo, em que consistia o segredo do fabricante, o encanto (que Albertine chamava "o chique", "o gênero") de seu feitio, o nome exato a beleza da matéria tendo a sua importância e a qualidade dos tecidos que eu devia pedir que fossem utilizados.

            Quando eu dissera a Albertine, na nossa chegada de Balbec, que a duquesa de Guermantes morava à nossa frente, no mesmo palacete, ela assumira, ao ouvir o grande título e o grande nome, esse ar mais que indiferente, hostil, desdenhoso, que é o sinal do desejo impotente nas naturezas orgulhosas e apaixonadas. Por magnífica que fosse a de Albertine, as qualidades que encerrava só podiam se desenvolver no meio desses entraves que são os nossos gostos, ou esse luto dos gostos a que fomos obrigados a renunciar-como, no caso de Albertine, o esnobismo-e a que chamamos ódios. O de Albertine pela alta sociedade, aliás, guardava muito pouco espaço em seu espírito e me agradava por um aspecto de "espírito de revolução"-quer dizer, amor infeliz pela nobreza-inscrito na face oposta do caráter francês em que está o gênero aristocrático da Sra. de Guermantes. Albertine, pela impossibilidade de alcançá-lo, talvez nem se preocupasse com ele, mas, lembrando-se que Elstir lhe falara da duquesa como sendo a mulher que melhor se vestia em Paris, o desdém republicano quanto a uma duquesa cedera em minha amiga a um vivo interesse por uma elegante.

            Pedia-me freqüentemente informações sobre a Sra. de Guermantes e gostava que eu fosse buscar com a duquesa conselhos de toalete para ela própria. Sem dúvida eu poderia pedi-las à Sra. Swann e até lhe escrevi uma vez com essa finalidade. Mas a Sra. de Guermantes me parecia levar ainda mais longe a arte de se vestir. Se, descendo por um momento à casa dela, depois de me haver assegurado de que ela não saíra e tendo pedido que me avisassem logo que Albertine voltasse, eu encontrasse a duquesa envolvida na bruma de um vestido de crepe da China cinzento, aceitava esse aspecto que sentia dever-se à causas complexas e que não poderia ter mudado, deixava-me invadir pela atmosfera que dele se desprendia, como o fim de certas tardes envoltas num cinza-pérola por uma névoa vaporosa; se, pelo contrário, esse vestido caseiro era chinês, com flamas rubras e amarelas, eu a olhava como a um poente que se esbraseia; essas toaletes não eram um cenário qualquer, substituível à vontade, mas uma dada realidade poética, como o é a do tempo que faz, como o é a luz especial a uma determinada hora.

            De todos os vestidos ou chambres que a Sra. de Guermantes usava, aqueles que pareciam mais corresponder a uma determinada intenção, ser dotados de um sentido especial, eram os vestidos que Fortuny havia feito de acordo com desenhos antigos de Veneza. Será o seu caráter histórico, será antes o fato de cada um deles ser único o que lhes dá um caráter tão particular, que a pose da mulher que os veste enquanto nos espera, enquanto conversa conosco, adquire uma importância excepcional, como se essa roupa tivesse sido o fruto de uma longa deliberação, e como se essa conversa se desprendesse da vida cotidiana como uma cena de romance?

            Nos romances de Balzac vêem-se heroínas pôr intencionalmente este ou aquele vestido, no dia em que devem receber determinado visitante. Os vestidos de hoje não têm cunho tão pronunciado, com exceção das roupas de Fortuny. Nenhuma imprecisão pode subsistir na descrição do romancista, já que esse vestido existe de fato, e os seus menores desenhos são tão naturalmente determinados como os de uma obra de arte. Antes de vestir este ou aquele, a mulher teve de escolher entre dois vestidos, não mais ou menos parecidos, mas cada um profundamente individual, a que se poderia dar um nome.

            Mas o vestido não me impedia de pensar na mulher. A própria Sra. de Guermantes me pareceu, nessa época, mais agradável que no tempo em que eu ainda a amava. Esperando menos dela (pois não ia mais vê-la por ela mesma) era quase com a tranqüila sem-cerimônia com que pomos, quando sozinhos, os pés na grade da lareira, que eu a escutava como teria lido um livro escrito em linguagem de outrora. Eu tinha bastante liberdade de espírito para apreciar, no que ela dizia, aquela graça francesa tão pura que já não se encontra nem na maneira de falar, nem nos escritos de hoje. Escutava a sua conversação como a uma canção popular deliciosamente francesa; compreendia que a tivesse ouvido troçar de Maeterlinck (que aliás, agora, ela admirava por fraqueza de espírito de mulher, sensível a essas modas literárias cujos raios chegam tardiamente), como compreendia que Mérimée troçasse de Baudelaire, Stendhal de Balzac, Paul-Louis Courier de Victor Hugo, Meilhac de Mallarmé. Entendia perfeitamente que o trocista tivesse compreensão bem restrita em face daquele de quem troçava, mas também um vocabulário mais puro. O da Sra. de Guermantes, quase tanto como o da mãe de Saint-Loup, era-o a tal ponto que encantava. Não é nos frios pastichos dos escritores de hoje, que dizem au fait (por en realité), singulierement (por en particulier), étonné (por frappé destupeur) etc., etc. [Au fait, "de fato", en realité, "na realidade"; singulierement, "singularmente"; en parficulier, "em particular"; étonné, "espantado", "assombrado"; frappé de stupeur, "pasmo", "atônito". (N. do T)] Que se reencontra a antiga linguagem e a verdadeira pronúncia das palavras, e sim conversando com uma Sra. de Guermantes ou uma Françoise. Com esta, eu aprendera, desde os cinco anos, que não se diz o Tarn, mas o Tar, nem Béarn, mas o Béar. O que fez com que aos vinte anos, ao freqüentar a sociedade, não precisei aprender que não era necessário dizer, como o fazia a Sra. Bontemps, "Madame de Béarn".

            Mentiria se dissesse que a duquesa não tinha consciência desse lado rural e quase camponês que permanecia nela, e não pusesse uma certa afetação em exibi-lo. Mas de sua parte, era menos falsa simplicidade de grande dama que se faz de camponesa, e orgulho de duquesa que zomba das senhoras ricas desdenhosas dos camponeses a quem não conhecem, do que o gosto quase artístico de uma mulher que conhece o encanto do que possui e não vai estragá-lo com uma pincelada moderna. Do mesmo gênero era um restaurador normando que todo mundo conheceu em Dives, proprietário do "Guilherme-o-Conquistador", que tinha evitado-coisa bem rara-dar à sua hospedaria o luxo moderno de um hotel e que, sendo milionário, conservava a linguagem e a blusa de um camponês normando e permitia que o vissem, ele próprio, a preparar na cozinha, como no campo, um jantar que nem por isso deixava de ser infinitamente melhor e até mais caro do que nos maiores hotéis de luxo.

            Toda a seiva local que existe nas velhas famílias aristocráticas não é o suficiente; é preciso que nelas nasça uma criatura inteligente o bastante para não desdenhá-la, para não apagá-la sob o verniz mundano. A Sra. de Guermantes, infelizmente espirituosa e parisiense, e que, quando a conheci, só conservava de seu torrão o sotaque, ao menos, quando queria pintar sua vida de mocinha, achara para a sua linguagem (entre o que teria parecido involuntariamente provinciano demais ou, pelo contrário, artificialmente letrado) um desses compromissos que fazem o encanto de La Petite fadette de George Sand ou de certas lendas relatadas por Chateaubriand nas Memórias d'outre-tombe. Meu prazer era, sobretudo, ouvi-la contar alguma história acerca de camponeses com ela. Os nomes antigos, os velhos costumes, davam algo de muito saboroso a essa aproximação entre o castelo e a aldeia. Uma certa aristocracia permanece regional por ter mantido contato com as terras onde é soberana, de modo que a frase mais simples faz desenrolar-se diante de nossos olhos todo um mapa histórico e geográfico da História da França. Se não havia naquilo afetação, nenhum desejo de fabricar uma linguagem para seu próprio uso, então essa forma de pronunciar era um verdadeiro museu de História da França através da conversação.

            - Meu tio-avô Fitt-jam- nada tinha que espantasse, pois sabia-se que os Fitz-james proclamam de bom grado serem grãos senhores franceses e não querem que pronunciem seu nome à maneira inglesa. Aliás, é preciso admirar a tocante docilidade das pessoas que, até então, tinham julgado dever esforçar-se por pronunciar gramaticalmente certos nomes e que, de súbito, após ter ouvido a duquesa de Guermantes pronunciá-los diversamente, aplicavam-se à pronúncia que nem sequer haviam suposto. Assim, a duquesa, que tivera um bisavô que assessorava o conde Chambord, para implicar com o marido que se tornara orleanista, gostava de proclamar:

            - Nós, os velhos de Frochedorf. - O visitante que até então julgara correto dizer "Frohsdorf" mudava de opinião o mais depressa possível e passava a dizer sem parar "Frochedorf".

            Certa vez em que perguntava à Sra. de Guermantes quem era um jovem requintado que ela me apresentara como seu sobrinho e de quem mal ouvira o nome, tal nome não o distingui melhor quando, do fundo da garganta, a duquesa emitiu com força mas sem articular:

            - É o é leonês, cunhado de Robert. Ele pretende ter a forma do crânio dos velhos galeses. -

            Então compreendi que ela dissera: é o pequeno Léon (o príncipe de Léon, de fato cunhado de Robert de Saint-Loup).

            - Em todo caso, não sei se ele tem o crânio - acrescentou ela -, mas o seu modo de se vestir, que aliás é bem chique, não tem muito o jeito daquele país.

            Um dia em que, de Josselin, onde eu estava em casa dos Rohan, tínhamos saído em peregrinação, vieram camponeses, um pouco de todas as partes da Bretanha. Um grandalhão leonês olhava assombrado para as calças beges do cunhado de Robert.

            - Que tem você que tanto me olha? Aposto que não sabe quem sou eu -, disse Léon. E, como o camponês dissesse que não: - Pois bem, sou o teu príncipe.

            - Ah! - respondeu o camponês se descobrindo e pedindo desculpas -, pensei que o senhor fosse um englische. -

            E, se, aproveitando esse ponto de partida, eu estimulava a Sra. de Guermantes a falar dos Rohan (a quem sua família muitas vezes se aliara), sua conversação se impregnava um pouco do encanto melancólico das romarias bretãs e, como diria aquele verdadeiro poeta que é Pampille, "do acre sabor dos crêpes de trigo preto cozidos num fogo de juncos"'.

[Pampille era pseudônimo da Sra. Léon Daudet, autora de um livro de receitas. (N. do T)]

            Do marquês de Lau (de quem se conhece o triste fim, quando, surdo, fazia-se levar à casa da Sra. H***, cega), ela contava os anos menos trágicos, quando, depois da caça, em Guermantes, punha chinelos para tomar o chá com o rei da Inglaterra, ao qual não se considerava inferior e com quem, como se vê, não fazia cerimônia. Ela assinalava este fato com tanta graciosidade que lhe acrescentava o penacho à mosqueteiro dos fidalgos um tanto gloriosos do Périgord.

            Além disso, mesmo na simples qualificação de pessoas, ter o cuidado de diferenciar as províncias era na Sra. de Guermantes, fiel a si própria, um grande encanto que uma parisiense de origem nunca saberia possuir; e aqueles simples nomes de Anjou, de Poitou e do Périgord refaziam paisagens em sua conversação. Para voltar à pronúncia e ao vocabulário da Sra. de Guermantes, é por esse aspecto que a nobreza se mostra verdadeiramente conservadora, com tudo o que esse termo carreia, ao mesmo tempo, de um tanto pueril, um tanto perigoso, de refratário ao progresso, mas igualmente de divertido para o artista. Eu queria saber como se escrevia antigamente o nome Jean. Fiquei sabendo ao receber uma carta do sobrinho da Sra. de Villeparisis, que se assina-conforme foi batizado e figura no Gotha-Jehan de Villeparisis, com o mesmo e belo h inútil, heráldico, tal como é admirado, colorido de vermelhão ou de ultramar, num livro de horas ou num vitral.

            Infelizmente, não dispunha de tempo para prolongar indefinidamente essas visitas, pois desejava na medida do possível não voltar para casa depois de minha amiga.

            Ora, era sempre a conta-gotas que podia obter da Sra. de Guermantes as informações sobre suas toaletes, informações que eram úteis para mandar fazer toaletes do mesmo gênero para Albertine, na medida em que uma moça possa usá-las.

            - Por exemplo, senhora, no dia em que devia jantar na casa da Sra. de Saint-Euverte antes de ir à casa da princesa de Guermantes, estava usando um vestido todo vermelho, com sapatos vermelhos; estava extraordinária, parecia uma grande flor de sangue, um rubi em chamas; como se chamaria isso? E uma moça pode usar um vestido assim?

            A duquesa, dando ao rosto fatigado a radiosa expressão que possuía a princesa des Laumes quando Swann lhe fazia cumprimentos outrora, olhou, rindo até as lágrimas, com ar zombeteiro, interrogativo e deslumbrado, para o Sr. de Bréauté, sempre presente àquela hora, e que fazia amornar sob o monóculo um sorriso indulgente para esse figura de intelectual por causa da exaltação física de rapaz que ele parecia ocultar. A duquesa dava a impressão de dizer: "Que terá ele, estará louco?" Depois, virando-se para mim com ar carinhoso:

            - Eu não sabia que parecia um rubi em chamas ou uma flor de sangue, mas lembro-me de fato que usei um vestido vermelho: era de cetim rubro como então costumava usar-se. Sim, uma moça pode, a rigor, usar isso, mas você me disse que ela não saía à noite. É um vestido de festa de gala, não pode ser usado apenas para fazer visitas.

            O extraordinário é que daquele sarau, enfim não tão antigo, a Sra. de Guermantes só se lembrasse de sua toalete e tivesse esquecido uma coisa que no entanto, conforme veremos, deveria ter grande importância para ela. Parece que nas pessoas de ação, e os mundanos são pessoas de ação (minúsculas, microscópicas, mas enfim pessoas de ação), o espírito esgotado pela atenção naquilo que há de ocorrer dentro de uma hora, só confia muito pouco à memória. Muitas vezes, por exemplo, não era para despistar e parecer não ter se enganado, que o Sr. de Norpois, quando lhe falavam de prognósticos que ele havia emitido a respeito de uma aliança alemã que nem sequer fora concluída, dizia:

            - Devem estar enganados, não me recordo absolutamente, isto não parece coisa minha, pois nesse tipo de conversa sou sempre muito lacônico e jamais teria predito o sucesso de golpes espetaculares, que em geral não passam de cabeçadas e habitualmente degeneram em atos de violência. É inegável que, num futuro remoto, poderia efetuar-se uma aproximação franco-alemã, a qual seria muito vantajosa para os dois países, e dela a França não tiraria só desvantagens, creio; mas jamais falei sobre tal assunto, porque o fruto ainda não está maduro e, se querem a minha opinião, penso que, ao pedirmos a nossos velhos inimigos que convolem conosco em justas bodas, correríamos o risco de um tremendo fracasso e só receberíamos bordoadas. -

            Dizendo isto, o Sr. de Norpois não mentia, simplesmente se esquecera. De resto, a gente se esquece depressa daquilo que não pensou com profundidade, do que nos foi ditado pela imitação e pelas paixões circundantes. Elas mudam, e com elas modifica-se a nossa recordação. Ainda mais que os diplomatas, os políticos não se lembram do ponto de vista que adotaram em certa ocasião, e algumas de suas palinódias se referem menos a um excesso de ambição do que a uma falta de memória. Quanto às pessoas mundanas, estas lembram-se de pouca coisa.

            A Sra. de Guermantes afirmou-me que, no sarau ao qual comparecera de vestido vermelho, já não se lembrava que ali estivera a Sra. de Chaussepierre, que certamente eu me enganava. Ora, sabe Deus no entanto se, desde então, os Chaussepierre não ocuparam o espírito do duque e até da duquesa! Eis o motivo. O Sr. de Guermantes era o mais antigo vice-presidente do Jockey quando o presidente faleceu. Certos membros do clube que não têm relações e cujo único prazer é dar bolas pretas às pessoas que não os convidam, fizeram campanha contra o duque de Guermantes, o qual, certo de ser eleito e bem negligente quanto a essa presidência que valia muito pouco relativamente à sua posição mundana, não cuidou de nada. Ressaltaram que a duquesa era dreyfusista (no entanto, o Caso Dreyfus já se encerrara há muito tempo, mas vinte anos depois ainda se falava nele, e ela só o era havia dois anos), recebia os Rothschild, que se favoreciam demais desde algum tempo dos grandes potentados internacionais, como o duque de Guermantes, que era meio alemão. A campanha encontrou um terreno bastante propício, pois os clubes invejam muito as pessoas em destaque e detestam as grandes fortunas. A de Chaussepierre não era pequena, mas não dava para ofuscar ninguém; ele não gastava um tostão, o apartamento do casal era modesto, a mulher andava vestida de lã preta. Louca por música, dava muitas reuniões pequenas para as quais eram convidadas muito mais cantoras do que à casa dos Guermantes. Mas ninguém falava nelas, tudo isso se passava sem refrescos, até o marido estava ausente, na obscuridade da rua de Ia Chaise. Na ópera, a Sra. de Chaussepierre passava despercebida, sempre na companhia de pessoas cujo nome evocava o meio mais "ultra" da intimidade de Carlos X, mas pessoas apagadas, pouco mundanas. No dia da eleição, para surpresa geral, a obscuridade triunfou sobre o esplendor: Chaussepierre, segundo vice-presidente, foi eleito presidente do Jockey, e o duque de Guermantes levou carona, isto é, permaneceu como primeiro vice-presidente. Claro que ser presidente do Jockey não representa muita coisa para os príncipes da mais alta estirpe como eram os Guermantes. Mas não sê-lo quando chegou a vez, ver-se preterido por um Chaussepierre cuja mulher Oriane não só não cumprimentava dois anos antes, como chegava a se mostrar ofendida de ser cumprimentada por aquele morcego desconhecido era duro para o duque. Ele pretendia estar acima desse fracasso, assegurando aliás que era à sua velha amizade a Swann que o devia. Na realidade, sua cólera era interminável. Muito curioso era o fato de jamais terem ouvido o duque de Guermantes servir-se da expressão bel et bien, bastante trivial, no sentido de "inteiramente". Mas desde a eleição do Jockey, quando lhe falavam do Caso Dreyfus, bel et bien surgia logo:

            - Caso Dreyfus, Caso Dreyfus, é fácil de dizer e o termo é impróprio; não se trata de uma questão de religião, mas bel et bien de uma questão política.-

            Cinco anos podiam passar sem que lhe ouvissem dizer bel et bien se, nesse período, não lhe falassem do Caso Dreyfus; mas se, passados cinco anos, o nome de Dreyfus voltava à conversa, logo o bel et bien retornava automaticamente. Além disso, o duque não mais podia suportar que lhe falassem desse Caso "que provocou", dizia, "tantas desgraças", embora na realidade só fosse sensível a uma única, o seu fracasso na disputa da presidência do Jockey.

            Assim, na tarde de que estou falando e na qual recordei à Sra. de Guermantes o vestido vermelho que ela usava no sarau da sua prima, o Sr. de Bréauté foi muito mal recebido quando, querendo dizer algo, por uma associação de idéias que permaneceu obscura e que ele não revelou, começou fazendo manobrar a língua na ponta da boca em forma de cu de galinha:

            - A propósito do Caso Dreyfus... - (por que do Caso Dreyfus? tratava-se apenas de um vestido vermelho, e certamente o pobre Bréauté, que jamais pensara senão em fazer graça, não punha qualquer malícia naquilo). Mas bastou o nome de Dreyfus para franzir as sobrancelhas jupiterianas do duque de Guermantes.

            - Contaram-me - disse Bréauté - um belo gracejo, na verdade muito fino, do nosso amigo Cartier (avisamos o leitor que esse Cartier, irmão da Sra. de Villefranche, não tinha a menor sombra de relação com o joalheiro do mesmo nome), o que aliás não me espanta, pois ele tem espírito para dar e vender.

            - Ah - interrompeu Oriane-, não seria eu quem compraria. Não sei lhe dizer o quanto o seu Cartier sempre me enfadou, e jamais pude compreender o encanto infinito que Charles de Ia Trémoïlle e sua mulher encontram nesse maçante que vejo todas as vezes que vou à casa deles.

            - Minha iara duiesa - respondeu Bréauté, que dificilmente pronunciava os cc-, acho-a muito severa quanto a Cartier. É verdade que talvez lhe dêem confiança demais na casa dos La Trémoïlle, mas enfim é para eles uma espécie, como direi, uma espécie de fiel Acates, o que se torna um pássaro bem raro nos tempos que correm. Em todo caso, eis o que me contaram. Cartier teria dito que, se o Sr. Zola procurara um processo e quisera ser condenado, fora porque desejava experimentar uma sensação que ainda não conhecia, a de estar numa prisão.

            - Por isso fugiu antes de ser preso - interrompeu Oriane. - Isto não tem pé nem cabeça. Aliás, mesmo que fosse verossímil, acho o gracejo bem idiota. Se é isso que você chama de espirituoso...

            - Meu Deus, minha iara Oriane -respondeu Bréauté que, vendo-se contestado, começava a recuar-; o gracejo não é meu, eu o repito tal como me passaram; julgue-o pelo que vale. Em todo caso, foi motivo para que o Sr. Cartier tenha sido severamente admoestado por este excelente La Trémoïlle, que, com muita razão, não quer que se fale jamais em seu salão disso que chamarei, como dizer?, as questões em curso, e que ficou tanto mais contrariado pois estava presente a Sra. Alphonse Rothschild.             - Cartier teve de sofrer da parte de La Trémoïlle uma verdadeira descompostura.

            - Evidentemente - disse o duque de muito mau humor-os Alphonse de Rothschild, embora tenham o tato de jamais falar desse caso abominável, são dreyfusistas até a alma, como todos os judeus. Isso é até um argumento ad hominem (o duque empregava um pouco a torto e a direito a expressão ad hominem) que ainda não se fez valer o suficiente para mostrar a má-fé dos judeus. Se um francês rouba, assassina, não me sinto obrigado a considerá-lo inocente por ser um francês como eu. Mas os judeus nunca irão admitir que um de seus concidadãos seja traidor, embora saibam perfeitamente que o é, e preocupam-se muito pouco com as terríveis repercussões (o duque naturalmente pensava na maldita eleição de Chaussepierre) que o crime de um dos seus pode acarretar até... Vejamos, Oriane, você não vai pretender que não é deprimente para os judeus o fato de que eles apóiam um traidor. Não vai me dizer que não é porque são judeus.

            - Meu Deus, claro que não - respondeu Oriane (sentindo com irritação um certo desejo de resistir ao Júpiter tonante, e também de colocar um pouco de "inteligência" acima do Caso Dreyfus). - Mas talvez seja exatamente porque, sendo judeus e conhecendo-se a si próprios, sabem que é possível ser judeu sem ser forçosamente traidor ou antifrancês, como dizem que afirma o Sr. Drumont. Certamente se Dreyfus fosse cristão, os judeus não se interessariam por ele, mas interessam-se porque vêem perfeitamente que, se ele não fosse judeu, não o julgariam com tanta facilidade traidora priori, como diria o meu sobrinho Robert.

            - As mulheres não entendem nada de política - exclamou o duque encarando a duquesa. - Pois esse crime horrível não é simplesmente uma causa judia, mas bel et bien um imenso caso nacional que pode ter as mais tremendas conseqüências para a França, de onde deveriam ser expulsos todos os judeus, embora eu reconheça que as sanções decretadas até agora o foram (de um modo ignóbil que deveria ser revisto) não contra eles, mas contra seus adversários mais eminentes, contra homens de primeira categoria, postos de lado para desgraça do nosso pobre país.

            Senti que as coisas se azedavam e, precipitadamente, voltei a falar nos vestidos.

            - A senhora se lembra - disse eu - da primeira vez que foi gentil comigo?

            - A primeira vez que fui gentil com ele - repetiu ela, olhando risonha para o Sr. de Bréauté, cuja ponta do nariz se afilava, cujo sorriso se enternecia por polidez para com a Sra. de Guermantes, e cuja voz de faca ao ser amolada deixou ouvir alguns sons vagos e roucos.

            - A senhora trajava um vestido amarelo com grandes flores negras.

            - Mas, meu filho, é a mesma coisa, são vestidos de festa.

            - E seu chapéu de bleuets que tanto apreciei! Mas enfim, tudo isso pertence ao passado. Gostaria de mandar fazer para a moça em questão um casaco de pele como o que a senhora usava ontem de manhã. Seria possível que eu o visse?

            - Por ora, não. Hannibal vai ser obrigado a sair dentro de um instante. Porém volte aqui, e minha camareira lhe mostrará tudo isso. Apenas, meu filho, tenho muito gosto em lhe emprestar tudo o que desejar, mas, se mandar fazer os vestidos de Callot, de Doucet e de Paquin por costureirinhas, nunca sairá a mesma coisa.

            - Mas de modo algum pretendo ir à loja de uma costureirinha, sei perfeitamente que vai ser coisa bem diversa; mas a mim interessaria compreender por que seria diferente.

            - Mas você sabe que não consigo explicar nada, pois sou uma tola, falo como uma camponesa. É uma questão de ter boa mão, de feitio; quanto às peles, pelo menos posso lhe dar um bilhete para o meu fornecedor, que desse modo não há de roubá-lo. Mas saiba que mesmo assim isso lhe custará oito ou nove mil francos.

            - E aquele chambre que cheira tão mal, que a senhora usava outra noite e que é sombrio, felpudo, mosqueado, estriado de ouro com uma asa de borboleta?

            - Ah, aquilo é de Fortuny. A sua jovem poderia perfeitamente usá-lo em casa. Tenho muitos deles, vou lhe mostrar; posso até lhe dar alguns, se lhe agrada. Mas gostaria principalmente que visse o da minha prima Talleyrand. Preciso escrever-lhe para que me empreste.

            - Mas a senhora também estava de sapatos tão bonitos, ainda eram de Fortuny?

            - Não, eu sei do que está falando, é um couro dourado de cabrito que descobrimos em Londres, dando um passeio com Consuelo em Manchester. Era extraordinário. Nunca pude compreender de que forma era dourado, dir-se-ia uma pele de ouro; era apenas isto, com um pequeno diamante no meio. A pobre duquesa de Manchester está morta, mas, se lhe agrada, escreverei à Sra. de Warwick ou à Sra. Marlborough para que elas tentem descobrir outros idênticos. Pergunto-me se eu mesma ainda não terei dessa pele. Talvez seja possível mandar fazê-la aqui. Vou dar uma olhada esta noite e lhe mandarei informar.

            Como eu procurasse, na medida do possível, deixar a duquesa antes que Albertine regressasse, ocorria muitas vezes que encontrava àquela hora no pátio, ao sair da Casa da Sra. de Guermantes, o Sr. de Charlus e Morel, que iam tomar chá na casa de Jupien, favor supremo para o barão! Não cruzava com eles todos os dias, mas eles ali compareciam diariamente. Aliás, é de se notar que a constância de um hábito de ordinário está relacionada com o que existe de absurdo nele. As coisas brilhantes em geral só são feitas de modo imprevisto. Mas as vidas insensatas, em que o próprio maníaco se priva de todos os prazeres e se inflige os maiores males, estas vidas são as que menos mudam. A cada dez anos, caso tivéssemos curiosidade para tanto, voltaríamos a encontrar o desgraçado dormindo às horas em que poderia viver, saindo às horas em que não há quase outra coisa a fazer senão deixar-se assassinar nas ruas, bebendo gelados quando está com calor, sempre se curando de uma gripe. Bastaria um pequeno movimento de energia, um único dia, para mudar isto de uma vez por todas. Porém justamente essas vidas são de hábito o apanágio de seres incapazes de energia. Os vícios são um outro aspecto dessas existências monótonas, que a força de vontade bastaria para tornar menos atrozes. Ambos os aspectos podiam ser igualmente considerados quando o Sr. de Charlus ia todos os dias, na companhia de Morel, tomar chá na casa de Jupien. Uma única tempestade havia marcado esse costume cotidiano. Tendo a sobrinha do coleteiro dito certo dia a Morel:

            - Pois é, venha amanhã que eu lhe pagarei o chá.

            O Sr. de Charlus achara com razão a frase bem vulgar para uma pessoa de quem contava fazer sua quase nora; mas, como gostava de constranger e se embriagava com a própria cólera, em vez de dizer simplesmente a Morel que desse à moça uma lição de boas maneiras, todo o regresso passou-se em cenas violentas. No tom mais insolente, mais orgulhoso:

            - O toque, pelo visto, não é forçosamente aliado ao "tato"; e portanto impediu em você o desenvolvimento normal do olfato, já que tolerou que essa expressão fétida de pagar o chá, a quinze cêntimos suponho, venha trazer-me às régias narinas o seu odor de dejetos! Quando, em minha casa, terminou um solo de violino, alguma vez viu que o recompensavam com um peido em vez de um aplauso frenético, ou com um silêncio ainda mas eloqüente, pois é feito do medo de não poder reter, não aquilo com que sua noiva nos prodigalizou, mas o soluço que lhe sobe aos lábios?

            Quando um funcionário se vê infligido de tais censuras pelo seu chefe, invariavelmente é demitido no dia seguinte. Ao contrário, nada teria sido mais cruel ao Sr. de Charlus do que despedir Morel e, receando mesmo ter ido um pouco longe demais, pôs-se a fazer, sobre a moça, elogios minuciosos, cheios de gosto, involuntariamente semeados de impertinências.

            - Ela é encantadora. Como você é músico, penso que ela o seduziu pela voz, que é muito linda nas notas altas, onde parece esperar o acompanhamento do seu si sustenido. Seu registro grave me agrada menos, e isto deve relacionar-se com o triplo recomeçar do pescoço estranho e fino, que parece terminar mas continua a subir; nela, em vez de detalhes medíocres, o que me agrada é antes a silhueta. E, como ela é costureira e deve saber lidar com tesouras, é necessário que me dê um belo corte de si mesma em papel.

            Charlie pouca atenção dera a esses elogios, tanto mais que celebravam qualidades que sempre lhe haviam escapado em sua noiva. Porém respondeu ao Sr. de Charlus:

            - Está entendido, meu benzinho, eu lhe passarei um sabão para que não fale mais desse jeito. -             Se Morel dizia assim "meu benzinho" ao Sr. de Charlus, não é que ignorasse que mal teria um terço da idade do barão. Também não dizia como o teria feito Jupien, mas com aquela simplicidade que, em certas relações, postula que a supressão da diferença de idade tacitamente precedeu a ternura. A ternura fingida em Morel, a ternura sincera em outros. Assim, por aquela época, o Sr. de Charlus recebeu uma carta concebida nestes termos: "Meu caro Palamede, quando te verei? Estou muito aborrecido com tua ausência e penso muito em ti etc. Todo teu, PIERRE."

            O Sr. de Charlus quebrou a cabeça para descobrir quem era, dentre os parentes, que se permitia escrever-lhe com tanta familiaridade, e que devia por conseqüência conhecê-lo bem, e do qual, apesar de tudo, não reconhecia a escrita. Todos os príncipes a quem o Almanaque de Gotha dedica umas poucas linhas desfilaram por alguns dias na cabeça do Sr. de Charlus. Por fim, bruscamente, um endereço escrito no verso do envelope o esclareceu: o autor da carta era um moço de recados de um clube de jogo aonde o Sr. de Charlus ia às vezes. Esse rapaz não se julgara impolido ao escrever naquele tom ao Sr. de Charlus, que, ao contrário, gozava de grande prestígio a seus olhos. Mas imaginava não ser gentil não tratar por tu a uma pessoa que o havia beijado várias vezes e que, desse modo- pensava ele em sua ingenuidade-, dera-lhe a sua afeição. No fundo, o Sr. de Charlus ficou deslumbrado com aquela familiaridade. Chegou até a acompanhar o Sr. de Vaugoubert a casa, certo dia, para poder lhe mostrar a carta. E, no entanto, Deus sabe como o Sr. de Charlus não gostava de sair com o Sr. de Vaugoubert. Pois este, de monóculo no olho, contemplava de todos os lados os rapazes que passavam. Mais ainda: liberando-se quando estava com o Sr. de Charlus, fazia uso de uma linguagem que o barão detestava. Punha todos os nomes de homem no feminino e, como era muito imbecil, julgava esse gracejo bastante espirituoso e não deixava de rir às gargalhadas. Como, a par disso, era enormemente apegado a seu posto diplomático, os modos zombeteiros e deploráveis que ostentava na rua eram interrompidos constantemente pelo susto que lhe causava no mesmo momento a passagem de pessoas da sociedade, mas sobretudo de funcionários.

            - Esta pequena telegrafista - dizia, cutucando o barão carrancudo-, já me dei bem com ela, mas a velhaca resolveu mudar de vida! Oh! aquele entregador das Galerias Lafayette, que maravilha! Meus Deus, aí vem passando o diretor dos Assuntos Comerciais. Tomara que não tenha notado o meu gesto! Seria capaz de falar nisso ao ministro, que me poria em disponibilidade, tanto mais que também é "uma".-          O Sr. de Charlus explodia de raiva. Enfim, para abreviar aquele passeio que o exasperava, resolveu mostrar a carta e pedir ao embaixador que a lesse, mas recomendou-lhe descrição, pois fingia que Charlie estivesse com ciúmes, a fim de poder fazer crer que era amado.

            - Ora - acrescentou, com um impagável ar de bondade -, devemos sempre tentar causar o mínimo possível de sofrimento aos outros.

            Antes de retornar à loja de Jupien, o autor faz questão de dizer o quanto ficaria entristecido se o leitor se melindrasse com cenas tão estranhas. Por um lado (e é a menor parte da coisa), julgam que a aristocracia parece, proporcionalmente, neste livro, mais acusada de degenerescência que as outras classes sociais. Mesmo que assim fosse, não seria de admirar. As mais antigas famílias acabam por confessar, num nariz grosso e vermelho, num queixo deformado, sinais específicos em que todos admiram a "raça". Mas, em meio aos traços persistentes e sem cessar agravados, há os que não são visíveis, e estes são as tendências e os gostos.

            Uma objeção mais grave, se tivesse fundamento, seria dizer que tudo isso nos é estranho e que é preciso extrair poesia da verdade bem próxima. A arte extraída do real mais familiar existe de fato e seu domínio é talvez o maior. Mas não é menos verdade que um grande interesse, por vezes a beleza, pode nascer de ações decorrentes de uma forma de espírito de tal modo distanciada de tudo o que sentimos, de tudo em que acreditamos, que nem sequer podemos chegar a compreendê-Ias, e elas se apresentam diante de nós como um espetáculo sem motivo. Que existe de mais poético do que Xerxes, filho de Dario, mandando açoitar as águas que haviam engolido seus barcos?

            É certo que Morel, usando dos poderes que seus encantos lhe davam sobre a moça, transmitiu-lhe, tomando-os à sua conta, as observações do barão, pois a expressão "pagar o chá" desapareceu tão completamente da loja do coleteiro, como desaparece para sempre de um salão determinada pessoa íntima que era recebida todos os dias e com quem, por um motivo ou outro, brigou-se ou que convém ocultar e só se freqüenta fora de casa. O Sr. de Charlus ficou satisfeito com a desaparição de "pagar o chá", e viu naquilo uma prova de sua ascendência sobre Morel e o apagamento da única manchinha na perfeição da moça. Por fim, como todos os da sua espécie, embora sendo sinceramente amigo de Morel e de sua quase noiva, e ardente partidário da união deles, gostava muito do poder de criar à sua vontade brigas mais ou menos inofensivas, acima e fora das quais se mantinha tão olímpico feito o seria seu irmão.

            Morel dissera ao Sr. de Charlus que amava a sobrinha de Jupien, queria desposá-la, e era doce ao barão acompanhar seu jovem amigo às visitas, em que representava o papel de futuro sogro indulgente e discreto. Nada lhe agradava mais.

            Minha opinião pessoal é que "pagar o chá" vinha do próprio Morel, e que, por cegueira de amor, a jovem costureira adotara uma expressão da criatura adorada, expressão que destoava, pela feiúra, na linguagem bonita da moça. Essa linguagem, as maneiras encantadoras que se harmonizavam com ela, a proteção do Sr. de Charlus, faziam com que muitos fregueses para quem ela trabalhara a recebessem como amiga, convidando-a para jantar, mesclando-a às suas relações; aliás, a mocinha só aceitava esses

convites com a permissão do Sr. de Charlus e nas noites em que isto lhe convinha. "Uma costureirinha na alta sociedade?", diriam. "Que inverossimilhança!" Pensando bem, não era menos inverossímil que antigamente Albertine viesse ver-me à meia-noite, e agora vivesse comigo. E talvez fosse inverossímil com outra, de modo algum com Albertine, sem pai nem mãe, levando uma vida tão livre que, no começo, eu a tomara em Balbec pela amante de um ciclista, tendo por parente mais próximo a Sra. Bontemps que, já na casa da Sra. Swann, só admirava na sobrinha os seus maus modos e agora fechava os olhos, sobretudo se houvesse possibilidade de desembaraçar-se dela conseguindo-lhe um casamento rico, no qual parte do dinheiro fosse para a tia (na mais alta sociedade, mães muito nobres e muito pobres, tendo conseguido um casamento rico para o filho, deixam-se sustentar pelo jovem casal, aceitam casacos de pele, automóveis, dinheiro de uma nora de quem não gostam e que fazem ser recebida na sociedade).

            Talvez chegue um dia em que as costureiras, o que não me pareceria de modo algum chocante, freqüentem a alta sociedade. A sobrinha de Jupien, sendo uma exceção, não pode ainda deixar prevê-lo, pois uma andorinha não faz verão. Em todo caso, se a situação modestíssima da sobrinha de Jupien escandalizou algumas pessoas, não foi a Morel, pois sob certos aspectos sua estupidez era tão grande que, não só achava "burrinha" aquela moça mil vezes mais inteligente que ele, talvez apenas porque o amasse, mas também supunha serem aventureiras, sub-costureiras disfarçadas bancando damas, as pessoas muito bem relacionadas que a recebiam e de que ela não se envaidecia. Naturalmente não eram Guermantes, nem mesmo pessoas que os conhecessem, mas burguesas ricas e elegantes, de espírito bastante livre para achar que não há desonra em receber uma costureira, e de espírito bastante escravo para sentir algum contentamento em proteger uma moça que sua Alteza o barão de Charlus ia visitar todos os dias com a melhor das intenções.

            Ao barão, nada lhe agradava mais que a idéia desse casamento, pois pensava que assim Morel não lhe seria roubado. Parece que a sobrinha de Jupien cometera, quase criança, uma "falta". E o Sr. de Charlus, apesar dos elogios que fizera da moça a Morel, gostaria de contar essa "falta" ao amigo, que ficaria furioso, desse modo semeando a cizânia. Pois o barão, conquanto tremendamente mau, assemelhava-se a um sem-número de pessoas bondosas que elogiam esta ou aquela criatura para provar a própria bondade, mas evitariam como ao fogo as palavras benfazejas, tão raramente pronunciadas, capazes de fazer reinar a paz. Malgrado isto, o barão se absteve de qualquer insinuação, e por dois motivos. -"Se lhe contar" dizia consigo - "que sua noiva não é imaculada, seu amor-próprio ficará ofendido, e ele vai me querer mal. E depois, quem me diz que ele não está apaixonado por ela? Se não digo nada, esse fogo de palha se extinguirá depressa, e eu hei de governar as relações deles à minha moda, ele só haverá de amá-la na medida em que eu o desejar. Se eu lhe contar a falta passada da sua prometida, quem me diz que meu Charlie não está ainda apaixonado o bastante para ficar ciumento? Então, transformarei, por minha própria culpa, um flerte sem conseqüência, e que se conduz como bem se quer, num grande amor, coisa difícil de governar". Por esses dois motivos, o Sr. de Charlus conservava um silêncio que apenas aparentemente era discrição, mas que, por outro lado, era meritório, pois calar-se é quase impossível às pessoas de sua espécie.

            Além disso, a moça era deliciosa, e o Sr. de Charlus, em que ela satisfazia todo o gosto estético que ele podia ter pelas mulheres, estimaria possuir centenas de fotografias dela. O barão, menos imbecil que Morel, escutava com prazer o nome das senhoras elegantes que a recebiam e que seu faro social situava bem. Evitava, porém (querendo manter o império) dizê-lo a Morel, o qual, perfeito idiota no assunto, continuava a crer que, afora a "classe de violino" e os Verdurin, só existiam os Guermantes, as poucas famílias quase régias enumeradas pelo barão, o resto não passando de uma "turba". Charlie tomava ao pé da letra estas expressões do Sr. de Charlus.

            Como é que o Sr. de Charlus, debalde esperado todos os dias do ano por tantos embaixadores e duquesas, não jantando com o príncipe de Croy porque cede-se o passo a este, como é que o Sr. de Charlus, o tempo inteiro que rouba a essas grandes damas e grãos-senhores, costuma passá-lo na casa da sobrinha de um coleteiro? Em primeiro lugar, a razão suprema: Morel ali se achava. Não estivesse ele presente, e eu não veria nenhuma inverossimilhança, ou então julguem-no como o teria feito um garçom de Aimé. Não há como os garçons de restaurante para acreditar que um homem excessivamente rico usa sempre roupas novas e deslumbrantes, e que um senhor que é o que existe de mais chique dá jantares de sessenta talheres e só comparece de auto. Enganam-se. Na maioria das vezes, um homem excessivamente rico usa o mesmo jaquetão puído. Um senhor que é o que existe de mais chique é um indivíduo que, no restaurante, só fala com os empregados e, de volta a casa, joga cartas com seus lacaios.

            Isto não impede que ele se recuse a ficar atrás do príncipe Murat.

            Dentre as razões que faziam feliz o Sr. de Charlus com o casamento dos dois jovens, havia esta: a sobrinha de Jupien seria de algum modo uma extensão da personalidade de Morel e, assim, do poder e ao mesmo tempo do conhecimento que o barão possuía acerca dele. O Sr. de Charlus não teria um segundo sequer o menor escrúpulo de "enganar", no sentido conjugal do termo, a futura esposa do violinista. Mas ter "um jovem casal" para dirigir, sentir-se o protetor temido e todo poderoso da mulher de Morel, a qual considerando o barão como um deus provaria desse modo que o caro Morel lhe inculcara essa idéia e assim conteria algo de Morel, fizeram variar o gênero de dominação do Sr, de Charlus e nascer em sua "coisa", Morel, uma criatura a mais, o esposo, ou seja, conferiram-lhe algo a mais, algo novo e curioso para amar nele.

            Talvez até essa dominação fosse agora maior que nunca. Pois, naquilo em que Morel, sozinho por assim dizer, resistia muitas vezes ao barão, a quem se sentia seguro de reconquistar, uma vez casado, tremeria mais facilmente pelo seu lar, seu apartamento, seu futuro, e ofereceria às vontades do Sr. de Charlus mais superfície e mais tomada. Tudo isto, e mais, em caso de necessidade, nas noites de tédio, atear a guerra entre marido e mulher (o barão jamais detestara os quadros de batalha), agradava ao Sr. de Charlus. Menos, entretanto, do que pensar na dependência em que viveria dele o jovem casal. O amor do Sr. de Charlus por Morel reassumia uma novidade deliciosa quando ele dizia consigo: sua mulher também será minha, tanto quanto ele é meu, eles só agirão de modo a não me contrariar, obedecerão aos meus caprichos e, assim, ela será um sinal (até agora desconhecido para mim) do que eu quase esquecera e que é tão sensível ao meu coração como para todo mundo, um sinal para aqueles que me verão protegê-los, hospedá-los, e para mim mesmo, de que Morel é meu. Dessa evidência aos olhos dos outros e a seus próprios, sentia-se o Sr. de Charlus mais feliz que de tudo mais. Pois a posse daquilo que se ama é uma alegria maior ainda que a do amor. Freqüentemente os que escondem a todos essa posse fazem-no apenas de medo que o objeto querido lhes seja roubado. E essa prudência de se calarem diminui-lhes a felicidade.

            Talvez sejam lembrados de que antigamente Morel dissera ao barão que seu desejo era seduzir uma mocinha, especialmente esta, e que, para consegui-lo lhe prometeria casamento, mas, uma vez realizada a violação, ele "daria o fora para bem longe". Porém isto o Sr. de Charlus havia esquecido, diante das confissões de amor pela sobrinha de Jupien que Morel acabava de lhe fazer. Ainda mais, o mesmo talvez tivesse ocorrido com Morel. Talvez houvesse uma verdadeira lacuna entre a natureza de Morel, tal como a confessara de modo cínico e talvez mesmo habilmente exagerara e o momento em que ela voltara a impor-se. Convivendo mais com a moça, agradara-se dela e amava-a. Conhecia-se tão pouco que certamente imaginava estar amando, talvez mesmo para sempre. Claro, seu desejo inicial, seu projeto criminoso, subsistiam, mas recobertos por tantos sentimentos superpostos que nada nos pode afirmar que o violinista não fora sincero ao dizer que aquele desejo vicioso não era o verdadeiro móvel do seu ato. Aliás, houve um período de curta duração em que, sem que ele propriamente o confessasse, tal casamento lhe pareceu necessário. Naquele momento, Morel sofria de cãibras muito fortes na mão e via-se obrigado a encarar a eventualidade de ter de deixar de tocar violino. Como, afora a sua arte, era de uma preguiça incompreensível, impunha-se a necessidade de se fazer sustentar, e ele preferia sê-lo pela sobrinha de Jupien do que pelo Sr. de Charlus, oferecendo-lhe aquela combinação maior liberdade, e também uma grande escolha de mulheres diferentes, tanto pelas aprendizes sempre novas que ele encarregaria a sobrinha de Jupien de corromper, como pelas senhoras ricas às quais a prostituiria. Que sua futura esposa pudesse recusar-se a condescender a tais complacências e fosse perversa a esse ponto, nem por um instante entrava nos cálculos de Morel. Além disso, passaram ao segundo plano, dando lugar ao amor puro, logo que as cãibras cessaram. O violino bastaria, com o que lhe dava o Sr. de Charlus, e as exigências deste certamente diminuiriam uma vez que ele, Morel, estivesse casado com a moça. O casamento era a coisa urgente, por causa de seu amor e no interesse de sua liberdade. Mandou pedir a mão da sobrinha de Jupien, que a consultou. Afinal, não havia necessidade disto. A paixão da moça pelo violinista jorrava em torno dela, como seus cabelos quando estavam soltos, como a alegria de seus olhares esparsos. Em Morel, quase tudo que lhe era agradável ou proveitoso despertava emoções morais e palavras do mesmo gênero, às vezes até lágrimas.

            Portanto, era com sinceridade-se tal palavra pode aplicar-se a ele-que mantinha com a sobrinha de Jupien conversas tão sentimentais (sentimentais são igualmente as que tantos jovens nobres, desejando não fazer coisa alguma na vida, mantêm com a deslumbrante filha de um burguês riquíssimo) como eram de uma baixeza sem disfarce as teorias que ele havia exposto ao Sr. de Charlus a propósito da sedução e do defloramento. Só que o entusiasmo virtuoso a respeito de uma pessoa que lhe causava prazer e os solenes compromissos que assumia para com ela tinham o seu reverso em Morel. Desde que a pessoa já não lhe causasse prazer, ou até, por exemplo, se a obrigação de satisfazer as promessas feitas lhe provocava desagrado, ela tornava-se logo, da parte de Morel, objeto de uma antipatia que ele justificava aos próprios olhos, e que, após algumas perturbações neurastênicas, permitia-lhe provar a si mesmo, uma vez reconquistada a euforia de seu sistema nervoso, que estava até mesmo considerando as coisas de um ponto de vista puramente virtuoso, isento de toda obrigação.

            Desse modo, no fim de sua temporada em Balbec, havia perdido em não sei o que todo o seu dinheiro e, não tendo ousado dizê-lo ao Sr. de Charlus, buscava alguém a quem pudesse pedi-lo. Aprendera com o pai (que, apesar de tudo, proibira-lhe tornar-se um "facadista") que, nesse caso, é conveniente escrever, à pessoa a quem se deseja dirigir-se, "que se tem necessidade de lhe falar de negócios". Esta fórmula mágica encantava de tal maneira Morel, que imagino tenha desejado perder dinheiro apenas pelo prazer de solicitar um encontro "para negócios". Depois, na vida, viu que a fórmula não possuía toda a virtude que lhe atribuía. Havia constatado que as pessoas a quem ele próprio não teria escrito se não fosse para aquilo, não lhe tinham respondido cinco minutos após terem recebido a carta "para tratar de negócios".

            Se a tarde se escoava sem que Morel obtivesse uma resposta, não lhe passava pela cabeça que, na melhor das hipóteses, o senhor solicitado não tivesse voltado para casa, pudesse ter outras cartas para escrever, nem que estivesse viajando, ou se encontrasse enfermo etc. Se, por extraordinário acaso, Morel recebia uma resposta marcando-lhe um encontro para a manhã seguinte, abordava o solicitado com estas palavras: "Já estava surpreso de não ter recebido resposta e me perguntava se acontecia alguma coisa, quer dizer que sua saúde vai sempre bem etc." Logo, em Balbec, e sem me dizer que desejava falar-lhe de um "negócio", pedira que o apresentasse àquele mesmo Bloch com quem fora tão desagradável no trem, uma semana antes. Bloch não vacilara em lhe emprestar-ou melhor, em conseguir que o Sr. Nissim Bernard lhe emprestasse cinco mil francos. Desde aquele dia, Morel passara a adorar Bloch. Perguntava a si mesmo, com lágrimas nos olhos, de que modo poderia prestar serviço a alguém que lhe salvara a vida. Enfim, encarreguei-me de pedir, para Morel, mil francos mensais ao Sr. de Charlus, dinheiro que este remeteria imediatamente a Bloch, que assim rapidamente seria reembolsado. No primeiro mês, Morel, ainda sob a impressão da bondade de Bloch, enviou-lhe de imediato os mil francos, mas, depois disso, achou sem dúvida que um emprego diverso dos outros quatro mil restantes poderia ser mais agradável, pois começou a falar muito mal de Bloch. Bastava que o visse para ficar com idéias negras e Bloch, tendo ele próprio esquecido exatamente o quanto havia emprestado a Morel e reclamado três mil e quinhentos francos em vez de quatro mil, o que faria o violinista ganhar quinhentos francos, este último respondeu que, diante de tamanha falsidade, não só não pagaria mais um tostão como o seu credor devia julgar-se muito feliz que ele não o processasse. E dizendo isto seus olhos chamejavam. Aliás, Morel não se contentou com dizer que Bloch e o Sr. Nissim Bernard não tinham motivo para ter queixas dele, mas eles sim é que deveriam considerar-se felizes que não lhes guardasse rancor. Enfim, tendo o Sr. Nissim Bernard, ao que parece, declarado que Thibaud tocava tão bem quanto Morel, este julgou dever atacá-lo diante dos tribunais, pois tal afirmativa o prejudicava na profissão; depois, como não existe mais justiça na França, sobretudo contra os judeus (o antisemitismo em Morel fora o efeito natural do empréstimo de cinco mil francos por um israelita), passou a sair sempre com um revólver carregado. Um tal estado nervoso, seguindo-se a uma viva ternura, devia logo ocorrerem Morel relativamente à sobrinha do coleteiro. É verdade que o Sr. de Charlus foi, talvez sem desconfiar, um pouco responsável por essa mudança, pois muitas vezes declarava, sem acreditar no que dizia, e para aborrecê-los, que, uma vez casados, ele não voltaria a vê-los e os deixaria voar com as próprias asas. Tal idéia era em si mesmo absolutamente insuficiente para desprender Morel da moça; permanecendo no espírito de Morel, estava pronta a se combinar um dia com outras idéias afins e capazes, uma vez que a mistura se realizasse, de se tornarem um poderoso agente de ruptura.

            Aliás, não era muito seguido que me ocorria encontrar o Sr. de Charlus e Morel. Muitas vezes eles já tinham entrado na loja de Jupien quando eu deixava a duquesa, pois o prazer que sentia junto dela era tanto que acabava por esquecer não só a espera ansiosa que precedia o regresso de Albertine, mas até a hora desse regresso.

            Colocarei à parte, dentre esses dias em que me atrasava na casa da Sra. de Guermantes, um que para mim foi marcado por um pequeno incidente cujo cruel significado me escapou inteiramente e só o compreendi muito tempo depois. Naquele fim de tarde, a Sra. de Guermantes me dera, pois sabia que as apreciava, umas seringas vindas do Sul. [Siringa: Gênero de plantas arbustivas da família das oleáceas, muito comuns na Europa e na Ásia. (N. do T)] Quando, tendo deixado a duquesa, subi de volta para casa, Albertine já tinha regressado, e cruzei na escada com Andrée, a quem o aroma excessivamente forte das flores pareceu incomodar.

            - Como, vocês já voltaram? -disse eu.

            - Faz apenas um instante; mas Albertine tinha que escrever e me mandou embora.

            - Acha que ela tem em mente algum projeto censurável?

            - De modo nenhum. Ela está escrevendo à tia, creio. Mas ela, que não gosta de cheiros fortes, não ficará nada contente com as suas siringas.

            - Então eu tive uma péssima idéia! Vou dizer a Françoise que as ponha no patamar da escada de serviço.

            - Se pensa que Albertine não sentirá o cheiro da siringa em você! Este cheiro e o da angélica são talvez os mais persistentes. Além disso, acho que Françoise foi fazer compras.

            - Mas então, eu, que hoje estou sem minha chave, como é que poderei entrar?

            - Ora, basta tocar a campainha, que Albertine lhe abrirá a porta. E depois, talvez Françoise tenha voltado nesse meio tempo.

            Despedi-me de Andrée. Logo no primeiro toque, Albertine veio me abrir a porta, o que foi bastante complicado, pois, como Françoise havia saído, Albertine não sabia onde acender a luz. Por fim, conseguiu fazer-me entrar, mas as flores de siringa a puseram em fuga. Coloquei-as na cozinha, de modo que, interrompendo a sua carta (não entendi por quê), minha amiga teve de ir ao meu quarto, de onde me chamou, e de estender-se em minha cama. Mais uma vez, no momento, não achei em tudo aquilo nada que não fosse muito natural, no máximo um tanto confuso, em todo caso insignificante. Ela escapara de ser surpreendida com Andrée e ganhara tempo apagando tudo, indo para o meu quarto para não deixar ver a sua cama em desordem e fingira estar escrevendo. Mas veremos tudo isso mais tarde, tudo isso que eu jamais soube se era verdadeiro.

            Salvo este único incidente, tudo se passava normalmente quando eu voltava da casa da duquesa. Ignorando Albertine se eu desejaria ou não sair com ela antes do jantar, encontrava eu de costume, na antecâmara, o seu chapéu, seu casaco, sua sombrinha, que ela deixara para qualquer eventualidade. Logo que os avistava, ao entrar, a atmosfera da casa tornava-se respirável. Eu sentia que, em vez de um ar rarefeito, a ventura é que a enchia. Estava salvo da minha tristeza, a vista desses nadas me fazia possuir Albertine, corria para ela.

            Nos dias em que eu não descia à casa da Sra. de Guermantes, a fim de que o tempo me parecesse menos longo, durante aquela hora que precedia o regresso da minha amiga, eu folheava um álbum de Elstir ou um livro de Bergotte.

            Então-como as próprias obras que parecem dirigir-se apenas à vista e ao ouvido exigem que, para desfrutá-las, nossa inteligência desperta colabore estreitamente com esses dois sentidos-eu fazia, sem perceber, que saíssem de mim os sonhos que Albertine suscitara outrora, quando não a conhecia ainda, e que a vida cotidiana havia extinto. Eu os lançava na frase do músico ou na imagem do pintor como um crisol, e deles alimentava a obra que estava lendo. E esta, sem dúvida, me parecia mais viva. Porém Albertine não ganhava menos em ser desse modo transportada de um dos dois mundos a que temos acesso e onde podemos situar alternativamente um mesmo objeto, em escapar assim à esmagadora pressão da matéria para nos recrearmos nos fluidos espaços do pensamento. De súbito acontecia-me, e por um instante, poder sentir pela tediosa moça ardentes afetos. Nesse momento, ela parecia uma obra de Elstir ou de Bergotte, eu experimentava uma exaltação momentânea por ela, vendo-a no recuo da imaginação e da arte.

            Em breve, preveniam-me que ela acabava de regressar; ainda tinham ordem de não lhe pronunciar o nome se eu não estivesse sozinho, se, por exemplo, estivesse comigo Bloch, a quem eu obrigava a ficar mais um instante, de modo a que não se arriscasse a encontrar a minha amiga. Pois eu escondia que ela morava comigo, e até que a recebia em casa, tamanho era o medo de que um de meus amigos se enamorasse dela, fosse esperá-la fora, ou que, no instante de um encontro na antecâmara ou no corredor, ela pudesse fazer um sinal e marcar um encontro. Depois eu ouvia o ruído da saia de Albertine, que se dirigia para o quarto, pois por discrição e também, sem dúvida, por aquelas tentações com que, no tempo dos nossos jantares na Raspeliere, esforçava-se para que eu não ficasse enciumado, ela não vinha para o meu quarto, sabendo que não estava sozinho. Mas não era só por isto, eu a compreendia logo. Lembrava-me, havia conhecido uma primeira Albertine; depois, bruscamente, ela se mudara numa outra, a atual. E pela mudança não podia eu responsabilizar a ninguém, só a mim mesmo. Tudo o que ela teria logo me confessado facilmente, de bom grado, quando éramos bons camaradas, deixara de expandir-se desde que julgara que eu a amava, ou talvez sem pronunciar o nome do Amor, adivinhara um sentimento inquisitorial que pretende saber, entretanto sofre ao saber, e procura saber ainda mais. Desde aquele dia ela me ocultara tudo. Desviava-se do meu quarto se pensava que eu estava, nem mesmo, muitas vezes, com uma amiga e sim com um amigo, ela cujos olhos se interessavam outrora tão vivamente quando lhe falava de uma moça:

            - Convém tratar de convidá-la, gostaria de conhecê-la.

            - Mas ela tem aquilo que você chama de maus modos.

            - Justamente, seria bem mais divertido. -

            Naquele momento, eu poderia talvez saber tudo. E mesmo quando, no pequeno cassino, ela afastara os seios dos de Andrée, não creio que o fizesse devido à minha presença mas à de Cottard, o qual lhe teria dado fama, segundo pensava sem dúvida, de má reputação. Entretanto, já então ela começara a congelar-se, as palavras confiantes já não saíam de seus lábios, seus gestos eram reservados. Depois afastara de si mesma tudo o que teria podido emocionar-me. Às partes de sua vida que eu não conhecia, dava um caráter ao qual se fazia cúmplice a minha ignorância, para sublinhar o que possuía de inofensivo. E agora, completada a transformação, ela ia diretamente a seu quarto, se eu não estivesse sozinho, não só para não me incomodar, mas para me mostrar que era despreocupada em relação aos outros. Havia só uma coisa que ela nunca mais faria para mim, que ela só teria feito no tempo em que isso me fora indiferente, que teria feito facilmente por isso mesmo, era justamente confessar. Eu estaria, para sempre, como um juiz, reduzido a tirar conclusões incertas de imprudências de linguagem que não eram talvez inexplicáveis sem recorrer à culpabilidade. E ela sempre me sentiria ciumento e juiz.

            Nosso noivado assumia uma condição de processo e dava-lhe a timidez de uma pessoa culpada. Agora ela mudava de assunto quando se tratava de pessoas, homens ou mulheres, que não fossem velhos. Quando ela ainda não desconfiava que lhe tinha ciúmes é que eu deveria ter indagado o que desejava saber. É preciso aproveitar aquele tempo.

            É então que nossa amiga nos fala dos seus prazeres e até dos meios que emprega para dissimulá-los aos outros. Agora, já não teria me confessado como fizera em Balbec, um tanto porque era verdade, um tanto para se escusar de não mostrar mais sua ternura por mim, pois eu já então a deixava cansada, e ela havia percebido, pela minha amabilidade com ela, que não havia necessidade de me agradar tanto quanto aos outros para obter de mim mais do que deles-ela já não teria me confessado como então:

            "Acho estúpido deixar ver que se ama; comigo, é o contrário: quando uma pessoa me agrada, finjo não prestar atenção nela. Assim, ninguém fica sabendo de coisa alguma."

            Como! Era a mesma Albertine de hoje, com suas pretensões à franqueza e a ser indiferente a todos, que me dissera aquilo! Não teria me enunciado essa regra agora!

            Ao conversar comigo, contentava-se em aplicá-la dizendo acerca de tal ou qual pessoa que podia inquietar-se:

            - Ah! Não sei, não olhei para ela, é insignificante demais.

            E, de vez em quando, para antecipar-se às coisas que eu poderia acabar sabendo, fazia dessas confissões cuja entonação, antes que se conheça a realidade que elas são encarregadas de deturpar, de inocentar, já denuncia como sendo mentiras.

            Escutando os passos de Albertine com o confortável prazer de imaginar que ela não voltaria a sair aquela noite, admirava-me de que, para essa moça, com quem outrora acreditara jamais poder travar relações, voltar todos os dias para casa significava exatamente entrar em minha casa. O prazer feito de mistério e de sensualidade, que eu experimentara, fugitivo e fragmentário em Balbec, na noite em que ela tinha vindo dormir no hotel, estava completo, estabilizado, enchia a minha casa, outrora vazia, de uma permanente provisão de brandura doméstica, quase familiar, dispersa até pelos corredores, e na qual todos os meus sentidos, ora de fato, ora nos momentos em que eu estava sozinho, em imaginação e pela expectativa do regresso, se nutriam sossegadamente. Ao ouvir fechar-se a porta do quarto de Albertine, caso eu estivesse na companhia de um amigo, apressava-me a fazê-lo sair, só o deixando quando estava certo de que ele já se achava na escada, de que eu descia alguns degraus se fosse necessário.

            No corredor, Albertine vinha ao meu encontro.

            - Olhe, enquanto mudo a roupa, mando-lhe Andrée, ela subiu um momentinho para lhe dar boa-noite. -

            E, estando ainda envolvida no seu grande véu cinzento, que descia da touca de chinchila e que eu lhe havia dado em Balbec, retirou-se e voltou para seu quarto, como se tivesse adivinhado que Andrée, encarregada por mim de vigiá-la, ia, ao me contar numerosos detalhes, ao fazer menção ao encontro delas com uma pessoa conhecida, trazer alguma precisão às regiões vagas em que se desenrolara o passeio que haviam feito o dia inteiro e que eu não pudera imaginar.

            Os defeitos de Andrée tinham se denunciado; ela não era mais tão agradável como quando a conhecera. Havia nela, agora, à flor da pele, uma espécie de inquietação acre, prestes a recrudescer como no mar uma rajada de vento, se por acaso eu lhe falasse de alguma coisa que fosse agradável para Albertine e para mim. Isto não impedia que Andrée fosse melhor para mim, gostasse mais de mim e muitas vezes tive a prova disso -do que de pessoas mais amáveis. Mas o menor ar de felicidade que se tivesse, se não fosse causado por ela, produzia-lhe uma impressão nervosa, desagradável como o barulho de uma porta fechada com muita força. Ela admitia os sofrimentos em que não tomasse parte, não os prazeres; se me via doente, afligia-se, lastimava-se, teria cuidado de mim. Mas, se eu tivesse uma satisfação, tão insignificante como espreguiçar-me com ar de beatitude, ao fechar um livro, e dizer:

            - Ah, acabo de passar duas horas encantadoras a ler tal livro agradável -, estas palavras, que teriam dado prazer a minha mãe, a Albertine, a Saint-Loup, excitavam em Andrée uma espécie de reprovação, talvez simplesmente mal-estar nervoso. Minhas satisfações causavam-lhe uma irritação que ela não podia ocultar. Esses defeitos eram completados por outros mais graves; um dia em que eu falava daquele rapaz tão entendido em assuntos de corridas, jogos e golfe, e tão inculto quanto ao resto, que eu encontrara com o pequeno grupo em Balbec, Andrée começou a fazer troça:

            - Sabe? O pai dele cometeu um roubo, quase foi processado. Tornaram-se ainda mais petulantes, mas eu me divirto contando o caso a todos. Gostaria que me processassem por denúncia caluniosa. Que belo depoimento eu faria! -

            Seus olhos faiscavam. Ora, eu soube que o pai não cometera nenhum ato desabonador, que Andrée o sabia tão bem como qualquer um. No entanto, julgara-se desprezada pelo filho, havia procurado algo que o pudesse prejudicar, cobri-lo de vergonha, inventara todo um romance de depoimentos que imaginara e ela seria chamada a fazer e, à força de repetir os detalhes dessa invenção, talvez ela própria ignorasse que tudo aquilo não era verdade.

            Tal como se havia tornado (e até sem seus ódios curtos e doidos), não teria desejado vê-la, nem que apenas fosse por causa daquela suscetibilidade malévola que rodeava de um cinturão acre e glacial a sua verdadeira índole, mais calorosa e melhor. Porém as informações que só ela podia me dar sobre a minha amiga interessavam-me demais para que eu desprezasse uma tão rara ocasião para sabê-las.             Andrée entrava, fechava a porta atrás de si; elas haviam encontrado uma amiga, e Albertine jamais me falara dela.

            - Que foi que conversaram?

            - Não sei, pois aproveitei que Albertine não estava sozinha para ir comprar lã.

            - Comprar lã?

             - Sim, foi Albertine quem me pediu.

            - Mais uma razão para não ir, era talvez de propósito para afastá-la.

            - Mas ela me havia pedido antes de encontrar a amiga.

            - Ah! - respondia eu, recobrando o fôlego. E logo a suspeita me assaltava de novo: - Mas quem sabe se ela não tinha marcado um encontro de antemão com essa amiga e não combinara um pretexto para estar segura de ficar sozinha quando quisesse?-Além disso, não estaria eu certo de que a velha hipótese (a de que Andrée só me dizia a verdade) fosse a boa? Andrée talvez estivesse mancomunada com Albertine. Amor, dizia eu comigo em Balbec, a gente tem por uma pessoa cujos atos principalmente nos despertam o ciúme; sentimos que, se ela no-los contasse todos, talvez nos curássemos facilmente de amar. O ciúme, por mais habilmente dissimulado que seja por aquele que o sente, é bem depressa descoberto por aquela que o inspira, e que por sua vez usa de habilidade. Ela procura nos iludir acerca de que nos possa tornar infelizes, e o consegue, pois, àquele que não está prevenido, por que razão uma frase insignificante revelaria as mentiras que ela esconde? Não a distinguimos das outras; dita com temor, é ouvida sem atenção. Mais tarde, quando estivermos a sós, voltaremos àquela frase, e ela não nos parecerá perfeitamente adequada à realidade. Mas essa frase, lembramo-nos bem dela? Parece nascer em nós, espontaneamente, a seu respeito e quanto à exatidão de nossa lembrança, uma dúvida do tipo daquelas que fazem com que, no decurso de certos estados nervosos, a gente nunca possa lembrar se correu ou não o ferrolho, e isto tanto na qüinquagésima como na primeira vez; dir-se-ia que se pode recomeçar indefinidamente o ato sem que ele jamais seja acompanhado de uma lembrança exata e libertadora. Pelo menos podemos fechar a porta uma qüinquagésima primeira vez. Ao passo que a frase inquietante está no passado, numa audição incerta, cuja renovação não depende de nós. Então, exercemos nossa atenção sobre outras pessoas, que não escondem nada, e o único remédio, que absolutamente não queremos, seria ignorar tudo para não ter o desejo de saber melhor. Logo que o ciúme é descoberto, é considerado por aquela de quem é o objeto como uma desconfiança que autoriza a traição. Além disso, para tentar saber alguma coisa, nós é que tomamos a iniciativa de mentir, de enganar. Andrée e Aimé bem que nos prometem não dizer nada, mas o farão? Bloch não pôde prometer nada, visto que nada sabia, e, por pouco que converse com cada um dos três, Albertine, com a ajuda do que Saint-Loup teria denominado "cotejo", saberá que lhe mentimos quando pretendíamos ser indiferentes a seus atos e moralmente incapazes de mandá-la vigiar. Assim ocorrendo-relativamente ao que fazia Albertine-, à minha infinita dúvida habitual, indeterminada demais para não ser indolor, e que era para o ciúme o que são para o desgosto esses começos de esquecimento em que o sossego nasce do vago-o pequeno fragmento de resposta que me trazia Andrée colocava de imediato novas perguntas; eu não conseguira, ao explorar uma parcela da grande zona que se estendia ao meu redor, mais que afundar para dentro dela aquele incognoscível que é para nós, quando procuramos efetivamente nos representá-la, a vida real de uma outra pessoa. Continuava a interrogar Andrée, enquanto Albertine, por discrição e para me deixar (tê-lo-ia adivinhado?) todo o lazer de questionar sua amiga, prolongava o ato de despir-se no quarto.

            - Creio que o tio e a tia de Albertine gostam muito de mim - disse eu estouvadamente a Andrée, sem pensar no seu temperamento. E logo vi o seu rosto viscoso alterar-se como um xarope azedo, parecendo turvar-se para sempre. Sua boca se fez amarga. Nada mais restava em Andrée daquela alegria juvenil que, como todo o pequeno grupo e apesar de sua natureza enfermiça, ela ostentava no ano de minha primeira temporada em Balbec, e que agora (é verdade que Andrée estava um pouco mais velha) se eclipsava tão depressa nela. Mas eu ia fazê-la involuntariamente renascer antes que me deixasse para ir jantar em casa.- Alguém me fez hoje um imenso elogio de sua pessoa - disse-lhe. E logo um raio de alegria iluminou seu olhar, ela parecia amar-me de fato. Evitava olhar-me, mas ria no vago com dois olhos subitamente bem redondos.

            - Quem foi? - perguntou com um interesse ingênuo e glutão. Disse-lhe um nome e, fosse quem fosse, ela estava feliz.

            Depois, chegava a hora de ir embora, ela me deixava. Albertine voltava para junto de mim; tirara o vestido e agora trazia um dos peignoirs de crepe da China, ou dos chambres japoneses, cuja descrição  havia pedido à Sra. de Guermantes e para vários dos quais eu recebera certos detalhes suplementares da Sra. Swann, por meio de uma carta que principiava por estas palavras: "depois de seu longo eclipse, julguei, ao ler a sua carta relativa aos meus teagown, receber notícias de uma alma do outro mundo."             Albertine calçava sapatos pretos, ornados de brilhantes, que Françoise, com raiva, chamava de tamancos, semelhantes aos que, pela janela do salão, ela vira que a Sra. de Guermantes usava em casa à noite, assim como, tempos depois, Albertine usou sandálias, umas de pele de cabrito, douradas, outras de chinchila, e cuja vista lhe satisfazia porque umas e outras eram como sinais (que outros calçados não seriam) de que ela morava comigo. Também possuía coisas que não provinham de mim, como um belo anel de ouro, no qual eu admirava as asas abertas de uma águia.

            - Foi presente da minha tia - disse ela. - Apesar de tudo, ela às vezes é gentil. Isto me envelhece, pois ganhei-o quando fiz vinte anos.

            Por todas essas lindas coisas, Albertine era de um gosto bem mais vivo do que a duquesa, porque, como todo obstáculo aplicado a uma posse (como, para mim, a doença, que me tornava as viagens tão difíceis e tão desejáveis), a pobreza, mais generosa que a opulência, concede às mulheres bem mais do que o vestido que elas não podem comprar, o desejo desse vestido, e que é conhecimento verdadeiro, detalhado e aprofundado dele. Ela, porque não pudera comprar essas coisas, eu, porque, mandando fazê-las, procurava lhe dar prazer, éramos como esses estudantes que conhecem de antemão os quadros que anseiam ver em Dresde ou em Viena. Ao passo que as mulheres ricas, no meio da multiplicidade de seus chapéus e vestidos, são como esses visitantes a quem a ida a um museu, não sendo precedida de qualquer desejo, dá somente uma sensação de entorpecimento, fadiga e tédio.

            Aquela touca, aquela capa de zibelina, aquele peignoir de Doucet com mangas de forro cor-de-rosa assumiam para Albertine, que os avistara, cobiçara e, graças ao exclusivismo e à minúcia que caracterizam o desejo, os havia a um tempo isolado do resto num vazio sobre o qual se destacava às maravilhas o forro ou a écharpe, e conhecido em todas as suas partes-e para mim, que fora à casa da Sra. de Guermantes tentar fazer-me explicarem que consistia a particularidade, a superioridade e o chique da coisa, e o feitio inimitável do grande fabricante -, uma importância, um encanto que certamente não tinham para a duquesa, saciada antes mesmo de estar com apetite, ou mesmo para mim se os houvesse visto alguns anos antes, acompanhando esta ou aquela mulher elegante numa de suas aborrecidas turnês pelas lojas de costureiras. Decerto, Albertine se tornava, aos poucos, uma mulher elegante. Pois, se cada coisa que eu assim mandava fazer para ela era no gênero a mais bonita, com todos os refinamentos que nela poriam a Sra. de Guermantes ou a Sra. Swann, dessas coisas ela começava a ter muitas. Mas pouco importava, desde que ela as havia amado primeiro e isoladamente. Quando nos apaixonamos por um pintor, depois por outro, podemos afinal ter por todo o museu uma admiração que não é glacial, pois composta de amores sucessivos, cada qual exclusivo em seu tempo, e que por fim se reuniram e se reconciliaram.

            Aliás, ela não era frívola; lia muito quando estava sozinha e também lia para mim quando estava comigo. Tornara-se extremamente inteligente. Dizia, aliás enganando-se:

            - Fico assombrada ao pensar que sem você teria permanecido estúpida. Não negue; você me abriu um mundo de idéias de que eu nem suspeitava, e o pouquinho em que me tornei devo-o apenas a você.

            Da mesma forma, aliás, referira-se à minha influência sobre Andrée. Uma ou outra sentiriam algo por mim? E, em si mesmas, quem eram Albertine e Andrée? Para sabê-lo, seria preciso imobilizar-vos, não viver nesta espera perpétua de vós em que passais sempre outras, seria preciso não mais amar-vos para vos fixar, não mais conhecer vossa interminável e sempre desconcertante chegada, ó jovens, ó raio sucessivo no turbilhão em que palpitamos ao tornar a ver-vos reaparecer, ao mal reconhecer-vos na vertiginosa velocidade da luz. Talvez ignorássemos essa velocidade e tudo nos pareceria imóvel, caso uma atração sexual não nos fizesse correr para vós, gotas de ouro sempre dissemelhantes e que sempre ultrapassam a nossa expectativa. De cada vez, uma moça se assemelha tão pouco ao que era na vez anterior (fazendo em pedaços, desde que a vemos, a lembrança que havíamos conservado e o desejo que nos propúnhamos) que a estabilidade de natureza que lhe atribuímos é apenas fictícia e para a comodidade da linguagem. Disseram-nos que uma jovem é terna, amorosa, dotada dos mais delicados sentimentos. Nossa Imaginação acredita-o sob palavra e, quando nos aparece pela primeira vez, na moldura ondulada dos cabelos louros, o disco do seu rosto rosado, quase chegamos a temer que essa irmã excessivamente virtuosa nos arrefeça por sua própria virtude, e jamais possa ser para nós a amante com que havíamos sonhado. Pelo menos, quantas confidências lhe fazemos desde o primeiro momento, fiados nessa nobreza de coração, quantos projetos feitos em conjunto! Porém, alguns dias depois, lamentamos ter confiado tanto, pois a jovem rosada nos surge, da segunda vez, com expressões de deslavada sensualidade. Nas faces sucessivas que, após a pulsação de alguns dias, apresenta-nos a rósea luz interceptada, nem mesmo é garantido que um movimento exterior a essas moças não haja modificado o seu aspecto, e isso poderia ter ocorrido com as minhas jovens de Balbec. Elogiam para nós a doçura e a pureza de uma virgem.

            Mas, depois disso, sentimos que algo mais apimentado nos saberia melhor e aconselhamo-la a se mostrar mais picante. Em si própria, qual das duas ela era mais? Talvez nem uma nem outra, mas capaz de aceder a tantas possibilidades diversas na corrente vertiginosa da vida. Com outra, cujo atrativo residia em algo de implacável (que contávamos dobrar à nossa maneira), como, por exemplo, a terrível saltadora de Balbec, que nos seus pulos passava raspando pelas cabeças dos velhos apavorados, que decepção quando, na nova face mostrada por essa figura, no momento em que lhe dizíamos umas ternuras exaltadas pela recordação de tantas durezas para com os outros, nós a ouvíamos dizer, para início de conversa, que era tímida, que nunca sabia dizer nada sensato a alguém da primeira vez, de tanto medo que tinha, e que só depois de quinze dias é que poderia conversar tranqüilamente conosco! O aço se transformara em algodão, já não teríamos nada para tentar dobrar visto que por si mesma ela perdera toda consistência. Por si mesma, mas talvez por culpa nossa, pois as palavras ternas que havíamos dirigido à Dureza talvez lhe houvessem, mesmo que não o tivesse feito por cálculo interessado, sugerido fazer-se meiga. (O que nos desolava, contudo, mas enfim não era tão desajeitado, pois o reconhecimento por tanta doçura ia talvez nos forçar a mais que o enlevo diante da crueldade domada.) Não digo que não há de chegar um dia em que, mesmo a essas moças luminosas, não atribuamos caracteres tão marcantes, mas é que elas terão deixado de nos interessar, que a sua entrada já não será para o nosso coração o aparecimento que ele aguardava fosse diferente e que o deixa perturbado a cada vez por encarnações novas. Sua imobilidade decorrerá da nossa indiferença, que as entregará ao julgamento do espírito.

            Este, aliás, não decidirá de modo muito mais categórico, pois, após ter julgado que tal defeito predominante numa, estava felizmente ausente da outra, verá que tal defeito possuía, em contrapartida, uma qualidade preciosa. De modo que, do julgamento falso da inteligência, a qual só entra em jogo quando deixamos de nos interessar, sairão definidas certas naturezas de moças, estáveis, mas que não nos informarão mais que as surpreendentes fisionomias aparecidas a cada dia, quando, na velocidade estonteante da nossa espera, nossas amigas se apresentavam todos os dias, todas as semanas, diversas demais para nos permitir, visto que jamais se interrompe a corrida, classificar, estabelecer posições. Quanto aos nossos sentimentos, já falamos demais deles para repetir que, muitas vezes, um amor não passa da associação de uma imagem de moça (que sem isso se nos tornaria rapidamente insuportável) às batidas de coração inseparáveis de uma vã espera interminável, e de um "bolo" que a tal senhorita nos deu. Tudo isso é verdade apenas para os jovens imaginativos que lidam com moças mutáveis.

            Desde o tempo a que chegou a nossa narrativa, parece, soube-o depois, que a sobrinha de Jupien havia mudado de opinião sobre Morel e o Sr. de Charlus. Meu chofer, vindo em reforço do amor que ela sentia por Morel, gabara-lhe, como se de fato as houvesse no violinista, delicadezas infinitas nas quais, de resto, ela estava bastante inclinada a acreditar. E, por outro lado, Morel não cessava de lhe comentar o papel de carrasco que o Sr. de Charlus exercia sobre ele e que ela atribuía à malvadez, sem adivinhar que era amor. Aliás, via-se obrigada a constatar que o Sr. de Charlus assistia tiranicamente a todas as suas entrevistas. E, corroborando isto, ela ouvia as senhoras elegantes falarem da maldade atroz do barão. Ora, não fazia muito que seu julgamento mudara completamente. Descobrira em Morel (sem por isso deixar de amá-lo) abismos de maldade e de perfídia, aliás compensadas por uma doçura freqüente e uma real sensibilidade, e, no Sr. de Charlus, uma insuspeitada e imensa bondade, mesclada a durezas que ela não conhecia. Assim, não pudera fazer um juízo mais definido sobre o que eram, cada um em si mesmo, o violinista e seu protetor, do que eu sobre Andrée, a quem no entanto via todos os dias, e sobre Albertine, que morava comigo.

            Nas noites em que esta última não me lia em voz alta, ela tocava piano para mim ou jogávamos partidas de damas, ou conversávamos, jogo e conversa que eu interrompia para beijá-la. Nossas relações eram de uma simplicidade que as tornava repousantes. O próprio vazio de sua vida conferia a Albertine uma espécie de solicitude e de obediência para as únicas coisas que eu exigia dela. Por detrás dessa jovem, como detrás da luz purpurina que caía aos pés de minhas cortinas em Balbec, enquanto ribombava o concerto dos músicos, nacaravam-se as ondulações azuladas do mar. Com efeito, não era ela (no fundo de quem residia de modo habitual uma idéia de mim tão familiar que, depois de sua tia, eu era talvez a pessoa que ela menos distinguia de si mesma) a mocinha que eu vira pela primeira vez em Balbec, sob sua boina achatada, com seus olhos insistentes e risonhos, desconhecida ainda, delgada como uma silhueta recortada contra o fundo das ondas? Essas efígies que se conservam intactas na memória, quando as reencontramos, espantamo-nos com sua dissemelhança da criatura que já conhecemos; compreendemos então qual o trabalho de modelagem que o hábito cumpre diariamente. No encanto que Albertine possuía em Paris, junto à minha lareira, vivia ainda o desejo que me inspirara o séquito insolente e florido que se desenrolara ao longo da praia e, como Rachel conservava para Saint-Loup, mesmo depois que ele a fez largar o palco, o prestígio da vida teatral, naquela Albertine enclausurada em minha casa, longe de Balbec, de onde a trouxera precipitadamente, subsistiam a emoção, a desordem social, a vaidade inquieta, os desejos fugidios da vida dos banhos de mar. Ela estava tão bem engaiolada que até em certas noites eu não lhe mandava pedir que trocasse o seu quarto pelo meu, ela, a quem outrora todos seguiam, que me dava tanto trabalho para alcançá-la quando disparava na sua bicicleta, e que o próprio ascensorista não lograva me trazer de volta, não me dando qualquer esperança de que ela viesse, e que eu no entanto esperava a noite inteira. Pois não fora Albertine, diante do hotel, como uma grande atriz da praia em chamas, excitando ciúmes quando caminhava por aquele teatro da natureza, sem falar com ninguém, dando encontrões nos clientes habituais, dominando as amigas, e não era essa atriz tão cobiçada que, retirada por mim de cena, fechada em minha casa, a salvo dos desejos de todos, que de ora em diante podiam procurá-la em vão, ora no meu quarto, ora no seu, onde ela se entregava a algum trabalho de desenho ou cinzeladura?

            Sem dúvida, nos primeiros dias de Balbec, Albertine parecia estar num plano paralelo àquele em que eu vivia, mas que se aproximara (quando eu estivera na casa de Elstir), até se juntarem ambos, à medida que se estreitavam nossas relações, em Balbec, em Paris, depois de novo em Balbec. Além disso, entre os dois quadros de Balbec, o da primeira e o da segunda temporadas, compostos das mesmas vivendas de onde saíam as mesmas jovens diante do mesmo mar, quanta diferença! Nas amigas de Albertine da segunda temporada, tão bem conhecidas de mim, de qualidades e defeitos tão visivelmente gravados em suas fisionomias, conseguiria eu reencontrar aquelas frescas e misteriosas desconhecidas que outrora não podiam, sem que me batesse o coração, fazer ranger na areia a porta de seus chalés e roçar de passagem as tamargueiras frementes? Seus grandes olhos tinham se reabsorvido desde então, sem dúvida porque haviam deixado de ser crianças, mas também porque essas deslumbrantes desconhecidas, atrizes do romanesco primeiro ano e sobre quem eu não cessava de pedir informações, não mais tinham mistérios para mim. Obedientes aos meus caprichos, haviam se tornado, para mim, simples moças em flor, das quais não me sentia mediocremente orgulhoso de ter colhido, escondido de todos, a mais bela rosa.

            Entre os dois cenários de Balbec, tão diversos um do outro, havia o intervalo de vários anos em Paris, sobre cujo longo percurso se colocavam tantas visitas de Albertine.

            Eu a via, nos diferentes anos de minha vida, ocupando, em relação a mim, posições diversas que me faziam sentir a beleza dos espaços interferidos, aquele longo tempo que se passara sem que eu a visse, e sobre cuja profundeza diáfana a rósea pessoa diante de mim se modelava com misteriosas sombras e poderoso relevo. Este, aliás, era devido à superposição não só das imagens sucessivas que Albertine fora para mim, mas também das grandes qualidades de inteligência e coração, dos defeitos de caráter, uns e outros insuspeitados de mim, que Albertine, numa germinação, numa multiplicação de si mesma, numa florescência carnuda de cores sombrias, acrescentara a uma natureza antigamente quase nula, e agora difícil de aprofundar. Pois as criaturas, mesmo as que, de tanto sonharmos com elas, nos pareciam apenas uma imagem, uma figura de Benozzo Gozzoli que se destacasse sobre um fundo esverdeado e cujas únicas variações estávamos dispostos a acreditar se referissem ao ponto em que nos colocáramos para contemplá-la, à distância que nos afastava dela, à iluminação, essas criaturas, ao passo que mudam em relação a nós, igualmente mudam em si mesmas; e houvera enriquecimento, solidificação e acréscimo de volume na figura outrora simplesmente recortada contra o mar. De resto, não era somente o mar do fim do dia que vivia para mim em Albertine, mas, por vezes, a sonolência do mar na areia pelas noites de luar. De fato, algumas vezes, quando eu me levantava para procurar um livro no gabinete de meu pai, minha amiga, que me pedira licença para se deitar durante a minha ausência, achava-se tão cansada devido à longa excursão que fizera de manhã e de tarde, ao ar livre, que, mesmo se eu demorasse um instante apenas fora do quarto, ao voltar encontrava-a adormecida e não a despertava. Estendida ao comprido em minha cama, numa atitude de um natural que não se teria podido inventar, parecia-me uma longa haste em flor que tivessem colocado ali; e de fato assim era; o poder de devanear, que eu só possuía em sua ausência, reencontrava-o nesses instantes junto dela, como se, dormindo, ela se tornasse uma planta. Desse modo seu sono realizava, em certa medida, a possibilidade do amor; sozinho, eu podia pensar nela, mas ela me faltava, não a possuía. Presente, eu lhe falava, mas estava por demais ausente de mim mesmo para poder pensar.

            Quando ela dormia, eu já não precisava falar, sabia que não era mais observado por ela, não tinha mais necessidade de viver à superfície de mim mesmo. Fechando os olhos, perdendo a consciência, Albertine se despojara, um após outro, de seus diferentes caracteres de humanidade que me haviam decepcionado desde o dia em que a conhecera. Ela só estava animada da vida inconsciente dos vegetais e das árvores, vida mais diversa da minha, mais estranha e que, no entanto, me pertencia mais.

            Seu eu não fugia em todos os momentos, como quando conversávamos, pelas saídas do olhar e do pensamento inconfesso. Recolhera a si própria tudo o que, lhe pertencendo, estava do lado de fora; refugiara-se, enclausurada, resumida, em seu corpo. Tendo-a sob o meu olhar, em minhas mãos, tinha eu aquela impressão de possuí-la por inteiro, o que não ocorria quando ela estava acordada. Sua vida era-me submissa, exalava para mim o seu leve sopro. Eu escutava aquela murmurante emanação misteriosa, suave como um zéfiro marinho, fascinante como esse luar que era o seu sono. Enquanto este durava, eu podia sonhar com ela e todavia observá-la, e, quando ele se tornava mais profundo, tocá-la e beijá-la. O que eu experimentava então era um amor diante de algo tão puro, tão imaterial, tão misterioso, como se me encontrasse diante das criaturas inanimadas que são as belezas naturais. E, de fato, logo que ela dormia um pouco mais profundamente, deixava de ser apenas a planta que fora; seu sono, à beira do qual eu cismava com franca volúpia de que nunca me cansava, e de que poderia gozar indefinidamente, era para mim toda uma paisagem. Seu sono punha junto a mim algo tão calmo, tão sensualmente delicioso como essas noites de lua cheia na baía de Balbec, que se tornava suave como um lago e onde os ramos mal se moviam; onde, estendidos na areia, escutaríamos sem fim o quebrar do refluxo.

            Entrando no quarto, eu ficara de pé na soleira sem ousar fazer barulho e não ouvia outro senão o do hálito, que vinha expirar em seus lábios a intervalos intermitentes e regulares, como um refluxo, porém mais brando e suave. E, no momento em que meu ouvido recolhia esse rumor divino, parecia-me que era, nele condensada, toda a pessoa, toda a vida da cativa encantadora, estendida ali aos meus olhos. Passavam carros barulhentos na rua; sua fronte, porém, permanecia imóvel, tão pura, sua respiração bem leve, reduzida à simples expiração do ar necessário. Depois, vendo que seu sono não seria perturbado, eu me adiantava com prudência, sentava-me na cadeira ao lado da cama e depois na própria cama. Passei noites encantadoras conversando e brincando com Albertine, porém nunca tão doces como quando a olhava dormir.

            Por mais que ela tivesse tagarelando, jogando cartas, aquele ar natural que uma atriz não poderia imitar, era uma naturalidade mais profunda, uma naturalidade de segundo grau o que me oferecia o seu sono. A cabeleira, descendo-lhe ao longo do rosto corado, estava pousada a seu lado na cama e, às vezes, uma mecha isolada e reta dava o mesmo efeito de perspectiva dessas árvores lunares, delgadas e pálidas, que vemos nos quadros rafaelescos de Elstir. Se os lábios de Albertine estavam fechados, em compensação, da maneira como eu me colocara, suas pálpebras pareciam tão pouco unidas que quase me perguntava se ela estava dormindo de fato. Ainda assim, essas pálpebras baixas davam a seu rosto aquela continuidade perfeita que os olhos não interrompem. Há pessoas cujo rosto assume beleza e majestade desacostumadas quando não se lhes vê o olhar. Media com os olhos, Albertine estendida a meus pés. Por instantes, ela era percorrida por uma agitação leve e inexplicável, como as folhagens que uma brisa inesperada convulsiona durante alguns momentos. Tocava no cabelo, e depois, não o tendo feito como desejava, estendia de novo a mão em movimentos tão seguidos, tão voluntários, que eu estava certo de que ela ia acordar. De modo algum; tornava-se calma no sono, que não abandonara. Daí em diante permanecia imóvel.

            Pousara a mão sobre o peito num abandono do braço tão ingenuamente pueril, que eu era obrigado, ao olhá-la, a conter o sorriso que, pela sua seriedade, inocência e graça, nos provocam as criancinhas. A mim, que conhecia várias Albertines numa só, parecia-me ver muitas outras mais repousando a meu lado.

            Suas sobrancelhas, arqueadas como jamais as vira, cercavam os globos de suas pálpebras como um ninho suave de alcíone. Raças, atavismos e vícios repousavam no seu rosto. De cada vez que movia a cabeça criava uma nova mulher, freqüentemente não suspeitada por mim. Parecia-me possuir não uma, mas inúmeras moças. Sua respiração, aos poucos mais profunda, agora erguia-lhe o colo regularmente e, por sobre ele, as mãos cruzadas, as pérolas, deslocadas de modo diferente pelo mesmo movimento, como esses barcos, essas correntes de amarração que o movimento das ondas faz oscilar. Então, sentindo que ela estava em pleno sono, e que eu não iria ferir-me em escolhos de consciência agora recobertos pela maré montante do sono profundo, deliberadamente saltava para a cama, deitava-me ao comprido a seu lado, estreitava o seu talhe com um dos braços, pousava os lábios em seu rosto e no seu coração, e depois sobre todas as partes do corpo lhe pousava a mão que ficara livre, e que também era erguida como as pérolas pela respiração de Albertine; eu mesmo era levemente deslocado pelo seu movimento regular. Embarcara no sono de Albertine.

            Às vezes, tal sono me ofertava um prazer menos puro. Para tanto, eu não precisava fazer nenhum movimento; apertava a perna contra a dela, como um remo que se deixa à toa e ao qual se imprime, de vez em quando, uma leve oscilação parecida ao bater intermitente da asa, como fazem os pássaros que dormem voando. Para olhá-la, eu escolhia aquela face de seu rosto que nunca se via e era tão linda. Compreende-se, a rigor, que as cartas que alguém nos escreve sejam mais ou menos iguais entre si e desenhem uma imagem bem diversa da pessoa que se conhece para que constituam uma segunda personalidade. Porém, quanto é mais estranho que uma mulher seja colada, como Rosita e Doodica, [Rosita e Doodica: gêmeas siamesas, a primeira de nome verdadeiro Radica (e não Rosita), separadas em 1902 pelo professor Doyen. (N. do T)] a outra mulher, cuja beleza diversa leva a induzir um outro caráter, e que para ver uma seja necessário colocarmo-nos de perfil, e para ver a outra, de frente. O rumor de sua respiração, tornando-se mais forte, podia dar a ilusão do ofegante prazer e, quando o meu chegava ao fim, podia beijá-la sem interromper o seu sono. Nesses momentos, parecia-me acabar de possuí-la mais completamente, como uma coisa inconsciente e sem resistência da natureza muda. Não me inquietavam as palavras que ela às vezes deixava escapar ao dormir; o seu sentido me fugia, e, além disso, fosse qual a pessoa desconhecida a que se referissem, era sobre a minha mão, meu rosto, que sua mão, por vezes animada de um leve estremecimento, crispava-se por um instante. Eu fruía o seu sono com um amor desinteressado e calmante, assim como ficava horas a escutar a arrebentação das ondas. Talvez seja necessário que as criaturas se mostrem capazes de nos fazer sofrer muito, para que, nas horas de remissão, nos proporcionem o mesmo alívio que a natureza. Não tinha de lhe responder como quando conversávamos, e, mesmo que me calasse, como fazia também quando ela falava, ao ouvi-la falar eu não penetrava tão profundamente nela. Continuando a ouvi-la, a recolher de instante em instante o murmúrio tranqüilizador, como uma brisa imperceptível de seu hálito puro era toda uma existência fisiológica que estava diante de mim e para mim; tanto tempo como antigamente ficava deitado na praia, ao luar, teria ficado ali a contemplá-la, a escutá-la. Às vezes, dir-se-ia que o mar se encapelava, que a tempestade se fazia sentir até na baía, e eu me punha, como ela, a escutar o ronco do seu sopro, que rugia.

            Às vezes, quando ela sentia muito calor, tirava, já quase dormindo, o seu quimono, e o atirava numa poltrona. Enquanto ela dormia, eu dizia comigo que todas as suas cartas estavam no bolso interno desse quimono onde as punha sempre. Uma assinatura, um encontro marcado seriam o bastante para provar uma mentira ou dissipar uma suspeita. Quando sentia ser bem profundo o sono de Albertine, afastando-me dos pés da sua cama onde a contemplava há muito sem fazer um só movimento, eu arriscava um passo, tomado de ardente curiosidade, sentindo o segredo dessa vida oferecido, frouxo e sem defesa naquela poltrona. Talvez também desse aquele passo porque contemplar sem se mexer acaba por tornar-se cansativo. E assim, na ponta dos pés, voltando-me sem cessar para ver se Albertine não acordava, eu ia até a poltrona. Ali parava, ficava longo tempo a olhar o quimono como tinha estado longo tempo a contemplar Albertine. Mas (e talvez tenha sido um erro) nunca toquei no quimono, nem coloquei a mão no bolso ou olhei as cartas. Por fim, vendo que não me resolvia, desandava o caminho com passos de lã, voltava para junto da cama de Albertine e me punha de novo a olhá-la dormindo, ela que não me dizia nada, ainda que eu visse no braço da poltrona aquele quimono que talvez me dissesse muitas coisas. E, assim como as pessoas alugam, por cem francos diários, um quarto no hotel de Balbec a fim de respirar o ar marinho, eu achava muito natural gastar mais do que isso com ela, pois tinha o seu hálito junto à face, em sua boca, que contra a minha eu entreabria e onde pela minha língua passava a sua vida.

            Mas a este prazer de vê-la dormir, e que era tão bom quanto senti-la viver, um outro punha-lhe fim, e era o de vê-la despertar. A um grau mais profundo e misterioso, era o próprio prazer de que ela morasse em minha casa. Sem dúvida era-me doce tal prazer, à tarde, quando ela descia do carro, que fosse ao meu apartamento que ela regressasse. Era-o mais ainda que, quando do fundo do sono ela subisse os últimos degraus da escadaria dos sonhos, que fosse em meu quarto que ela renascesse para a consciência e para a vida, que ela se indagasse por um instante "onde estou?", e, vendo os objetos de que estava cercada, a lâmpada cuja luz fazia quase imperceptivelmente piscar os olhos, pudesse responder que estava em sua casa ao constatar que despertava na minha. Nesse primeiro momento delicioso de incerteza, parecia-me tomar de novo, mais completamente, posse de Albertine, visto que em vez de ela, depois de ter saído, entrar em seu quarto, era o meu quarto, assim que fosse reconhecido por Albertine, que ia encerrá-la, contê-la, sem que os olhos de minha amiga manifestassem qualquer perturbação, permanecendo tão calmos como se ela não tivesse dormido. A hesitação de despertar, revelada pelo seu silêncio, não o era pelo olhar.

            Reencontrava a palavra, e dizia:

            - Meu Marcel – ou - Meu querido-, ambos seguidos de meu nome de batismo, o qual, atribuindo ao narrador o mesmo prenome do autor deste livro, daria: "Meu Marcel", "Meu querido Marcel". Desde então, eu já não permitia que, em família, os parentes, chamando-me também "querido", tirassem às palavras deliciosas que me dizia Albertine o privilégio de serem únicas. Ao dizê-Ias, ela fazia um pequeno trejeito que logo se transformava em beijo. Tão depressa como adormecera ainda há pouco, com a mesma rapidez despertava.

            Esse enriquecimento real, esse progresso autônomo de Albertine não eram a causa importante da diferença existente entre o meu modo de vê-la agora e o meu modo de vê-la a princípio em Balbec, como não o eram também o meu deslocamento no tempo, e nem o fato de olhar uma moça sentada junto a mim sob a lâmpada que a ilumina de modo diferente do que o sol quando ela vinha caminhando pela praia. Muito mais tempo teria podido separar as duas imagens sem trazer uma mudança tão completa; ela ocorrera, essencial e repentina, quando eu soubera que minha amiga praticamente fora educada pela amiga da Srta. Vinteuil. Se antigamente eu me exaltara julgando perceber mistério nos olhos de Albertine, agora sentia-me feliz apenas nos momentos em que desses olhos, e até dessas mesmas faces, refletidoras como olhos, às vezes tão calmas mas rapidamente intratáveis, eu lograva expulsar todo mistério. A imagem que eu buscava, em que descansava, contra a qual desejaria morrer, não era mais a de Albertine de uma vida desconhecida, era a de uma Albertine tão conhecida de mim quanto possível (e é por isso que este amor não poderia ser duradouro, a menos que permanecesse infeliz, pois por definição não satisfazia a necessidade de mistério), uma Albertine que não refletisse um mundo distante, que não desejasse outra coisa-de fato, havia instantes em que aquilo parecia ser assim-senão estar comigo, inteiramente semelhante a mim, uma Albertine imagem do que precisamente era meu e não do desconhecido. Quando é assim de uma hora angustiada relativa a uma criatura, quando é da incerteza de poder ou não retê-la que nasceu um amor, este amor traz a marca da revolução que o criou, e lembra muito pouco o que tínhamos visto até então quando pensávamos nessa mesma criatura. E minhas primeiras impressões diante de Albertine, à beira das ondas, podiam subsistir numa pequena parte em meu amor por ela; na realidade, tais impressões anteriores ocupam muito pouco lugar num amor desse gênero; em sua força, em seu sofrimento, em sua necessidade de doçura e seu refúgio numa lembrança tranqüila, apaziguadora, a que desejaríamos ater-nos, sem nada mais saber sobre aquela a quem amamos, mesmo se houvesse alguma coisa odiosa a saber bem mais até, não consultar senão essas impressões anteriores -, um tal amor é feito de coisa bem diversa! Às vezes eu apagava a luz antes que ela voltasse. Era na escuridão, mal guiada pela luz de um tição na lareira, que ela se deitava a meu lado. Minhas mãos, minhas faces, eram os únicos que a reconheciam sem que meus olhos a vissem, meus olhos que muitas vezes temiam encontrá-la mudada. De modo que, graças a esse amor cego, ela se sentia talvez mais rodeada de carinho do que habitualmente.

            Eu me despia, deitava-me, e, com Albertine sentada num canto da cama, recomeçávamos nossa partida ou a conversação interrompida por beijos; e, no desejo, única coisa que nos faz achar interesse na existência e no caráter de uma pessoa, ficamos tão fiéis à nossa natureza (se, em compensação, abandonamos sucessivamente as diversas criaturas amadas por nós mesmos, uma após outra) que, uma vez avistando-me no espelho no momento em que beijava Albertine chamando-a de "minha filhinha", a expressão triste e apaixonada de minha própria fisionomia, semelhante à que teria sido outrora junto de Gilberte, de que já não me recordava, à que talvez fosse um dia junto de outra se alguma vez devesse esquecer Albertine, fez-me pensar que, acima das considerações pessoais (querendo o instinto que considerássemos a atual como a única verdadeira), eu preenchia os deveres de uma devoção ardente e dolorosa, dedicada como uma oferenda à juventude e à beleza da mulher. E contudo, a esse desejo que honrava com um ex-voto a juventude, bem como às lembranças de Balbec, misturava-se, à minha necessidade de assim conservar todas as noites Albertine junto a mim, alguma coisa que até então fora estranha à minha vida, pelo menos à vida amorosa, se não fosse inteiramente nova em minha vida. Era um tamanho poder de alívio como eu jamais havia experimentado desde os dias longínquos de Combray, quando minha mãe, debruçada sobre meu leito, vinha me trazer o repouso num beijo. Por certo eu ficaria bem espantado, naquela época, se me houvessem dito que eu não era inteiramente bom e sobretudo que tentaria alguma vez privar alguém de um prazer. Sem dúvida, eu me conhecia bem mal então, pois meu prazer de ter Albertine morando em minha casa era muito menos um prazer positivo do que o de ter retirado do mundo, onde cada um poderia desfrutá-la por seu turno, a moça em flor que, se pelo menos não me dava muita alegria, também não a dava aos outros. A ambição e a glória teriam me deixado indiferente. Mais ainda, eu era incapaz de sentir ódio. E, no entanto, para mim, amar carnalmente era o mesmo que triunfar sobre numerosos concorrentes. Nunca será demais repetir: era acima de tudo um alívio.

            Antes que Albertine regressasse, por mais que tivesse duvidado dela, por mais que a tivesse imaginado no quarto de Montjouvain, tão logo ela se sentava de peignoir diante de minha poltrona, ou se, como era mais freqüente, eu ficara deitado nos pés da cama, logo lhe transmitia as minhas dúvidas, confiava-as, para que ela as dissipasse, na abdicação de um crente que faz a sua oração. Durante todo o serão ela pudera, maliciosamente enrodilhada na minha cama, brincar comigo feito uma grande gata; seu narizinho róseo, que ela fazia ainda mais diminuto na ponta com um olhar faceiro que lhe dava a finura privilegiada de certas pessoas um tanto gordas, conseguira dar-lhe uma aparência rebelde e inflamada; pudera deixar cair uma mecha de seus longos cabelos negros sobre o rosto de cera rosada e, semicerrando os olhos, descruzando os braços, parecera dizer-me: "Faze de mim o que quiseres."             Quando, no momento de me deixar, aproximava-se de mim para me dar boa-noite, era a doçura quase familiar que eu beijava dos dois lados do seu pescoço firme, que então eu nunca achava por demais moreno nem de granulação suficientemente grossa, como se tais sólidas qualidades estivessem relacionadas em Albertine com alguma bondade leal.

            - Virá conosco amanhã, grande malvado? - perguntava antes de me deixar.

            - Aonde vai?

            - Isto dependerá do tempo e de você. Ao menos escreveu alguma coisa esta tarde, queridinho? Não? Então não adiantou de nada não ter vindo passear. A propósito, agora há pouco, quando cheguei, você reconheceu meu jeito de andar, adivinhou que era eu?

            - Naturalmente. Como poderia me enganar? Como não reconheceria entre mil o andar da minha gatinha? Que ela me permita descalçá-la antes que vá deitar-se, isto me daria muito prazer. Você é tão gentil e tão rosada em toda essa brancura de rendas.

            Tal era a minha resposta; no meio das expressões carnais, reconhecer-se-ão outras que eram próprias à minha mãe e à minha avó. Pois aos poucos eu ia começando a me parecer com todos os parentes, com meu pai que de um modo bem diverso de mim, é claro, pois se as coisas se repetem, é com grandes variações se interessava tanto pelo tempo que fazia; e não apenas com ele, mas cada vez mais com a tia Léonie. Sem isso, Albertine não teria podido ser para mim senão um motivo para sair, para não deixá-la ir só, sem meu controle. Minha tia Léonie, inteiramente beata, e com a qual eu teria jurado não ter um só ponto em comum, eu tão apaixonado por prazeres, totalmente diverso na aparência daquela maníaca que jamais conhecera nenhum e rezava o terço o dia inteiro, eu que sofria por não poder realizar uma vida literária, ao passo que ela tinha sido a única pessoa da família que ainda não pudera compreender que o ato da leitura era algo diverso de passar o tempo e de "divertir-se", o que tornava, mesmo no tempo da Páscoa, a leitura permitida no domingo, quando toda ocupação séria é proibida, a fim de que eu seja santificado unicamente pela oração. Ora, apesar de encontrar todos os dias a causa disso numa indisposição particular, o que me fazia tantas vezes permanecer deitado era uma criatura (não Albertine, não uma mulher que eu amava), uma criatura com mais força sobre mim do que um ser amado, era, transmigrada em mim, despótica a ponto de fazer calar às vezes as minhas ciumentas suspeitas, ou pelo menos ir verificar se eram fundadas ou não, era a minha tia Léonie. Não bastava que eu me parecesse exageradamente com meu pai, a ponto de não me contentar em consultar o barômetro como ele, mas de tornar-me eu próprio um barômetro vivo, não era bastante que me deixasse comandar pela tia Léonie para ficar observando o tempo, mas do quarto e até da minha cama? Eis que também agora falava a Albertine, ora como a criança que eu fora em Combray falando a minha mãe, ora como a minha avó me falava. Quando ultrapassamos uma certa idade, a alma da criança que fomos e a alma dos mortos de que saímos vêm jogar-nos, às mancheias, suas riquezas e seus maus destinos, exigindo colaborar nos novos sentimentos que experimentamos e nos quais, apagando sua antiga efígie, nós os refundimos em uma criação original. Assim todo o meu passado, desde os anos mais remotos, e para além deles o passado de meus pais, misturavam ao meu amor impuro por Albertine a doçura de um carinho a um tempo filial e maternal. Devemos receber, a partir de um dado momento, todos os nossos parentes chegados de tão longe e assentados ao nosso redor.

            Antes que Albertine me obedecesse e me deixasse tirar-lhe os sapatos, eu lhe entreabria a camisa. Os dois pequenos seios, empinados, eram tão redondos que pareciam menos fazer parte integrante de seu corpo do que terem amadurecido ali como dois frutos; e seu ventre (dissimulando o lugar que no homem se enfeia, como numa estátua desvendada, o grampo que ficou gravado) fechava-se na junção das coxas por duas valvas de uma curvatura tão suave, tão repousante, tão claustral, como a do horizonte quando o sol já desapareceu. Ela tirava os sapatos e se deitava perto de mim. Ó grandes atitudes do Homem e da Mulher, em que se procura juntar, na inocência dos primeiros dias e com a humildade da argila, o que a Criação separou, em que Eva fica admirada e submissa diante do Homem, ao lado de quem ela desperta, como ele próprio, ainda só, diante de Deus que o formou. Albertine cruzava os braços atrás dos cabelos pretos, os quadris bojudos, a perna caída numa inflexão de pescoço de cisne que se alonga e se recurva para voltar sobre si mesmo. Só quando ela estava inteiramente de lado, é que se via um certo aspecto de seu rosto (tão bom e tão bonito de frente) que eu não podia suportar, adunco feito em certas caricaturas de Leonardo da Vinci, parecendo revelar maldade, avidez pelo lucro, artimanhas de uma espiã cuja presença em minha casa me teria horrorizado, e que parecia desmascarada por esses perfis. E logo eu tomava o rosto de Albertine entre as mãos e a repunha de frente para mim.

            - Seja bonzinho, prometa-me que, se não sair amanhã, há de trabalhar - dizia a minha amiga recolocando a camisa.

             - Sim, mas não ponha ainda o seu peignoir. -

            Às vezes eu acabava dormindo ao lado dela. O quarto esfriara, era preciso lenha. Eu tentava encontrar a campainha às minhas costas; não a alcançava, tateando todos os varões de cobre que não eram os dois entre os quais ela ficava pendurada e, a Albertine, que saltara da cama para que Françoise não nos visse lado a lado, eu dizia:

            - Não, volte para aqui por um instante; não consigo achar a campainha.

            Instantes doces, alegres, na aparência inocentes e onde, no entanto, acumula-se a possibilidade do desastre, o que faz da vida amorosa a mais contrastada de todas, aquela em que a chuva imprevisível de enxofre e pez tomba após os mais risonhos momentos, e em que, a seguir, sem ter coragem de tirar uma lição da desgraça, reconstruímos imediatamente sobre os flancos da cratera, de onde só poderá sobrevir a catástrofe. Eu tinha a despreocupação daqueles que julgam duradoura a sua felicidade. Justamente porque foi necessária essa doçura para engendrar a dor -e aliás ela voltará para acalmá-la a intervalos -é que os homens podem ser sinceros com outrem, e até consigo mesmos, quando enaltecem a bondade de uma mulher para com eles, embora, feitas as contas, na intimidade de sua ligação circule constantemente, de modo secreto, inconfessado aos outros ou involuntariamente revelado por perguntas e inquéritos, uma dolorosa inquietação. Esta, porém, não poderia ter nascido sem a doçura prévia; mesmo a seguir, a doçura intermitente é necessária para tornar suportável o sofrimento e evitar rupturas; e a dissimulação do inferno secreto que é a vida em comum com essa mulher, até a ostentação de uma intimidade que fingimos ser doce, exprime um ponto de vista verdadeiro, um nexo geral de causa e efeito, uma das formas segundo as quais a produção da dor se tornou possível.

            Já não me admirava de que Albertine ali se encontrasse e só devesse sair no dia seguinte comigo ou sob a proteção de Andrée. Tais hábitos de vida em comum, essas grandes linhas que delimitavam a minha existência e em cujo interior não podia penetrar ninguém exceto Albertine, e também (no plano futuro, ainda desconhecido de mim, de minha vida ulterior, como o que é traçado por um arquiteto quanto aos monumentos que só se erguerão bem mais tarde) as linhas distantes, paralelas a essas, e mais amplas, com as quais se esboçava em mim, como uma ermida isolada, a fórmula um tanto rígida e monótona de meus amores futuros, na verdade tinham sido traçadas naquela noite em Balbec, onde, depois que Albertine me revelara, no trenzinho, quem a havia educado, eu desejara a todo preço subtraí-la a certas influências e impedi-la de estar longe da minha presença durante alguns dias. Os dias tinham-se sucedido uns aos outros, os hábitos tornaram-se maquinais, mas, como esses ritos de que a História busca descobrir o significado, eu poderia dizer (e não o desejaria) a quem me houvesse perguntado o que significava essa vida de retiro na qual me seqüestrava, a ponto de não ir mais ao teatro, que ela se originava na ansiedade de uma noite e na necessidade de provas a mim mesmo, nos dias seguintes, que a moça cuja infância deplorável eu acabara de conhecer, não teria a possibilidade, se o quisesse, de se expor às mesmas tentações. Não pensava senão muito raramente nessas possibilidades, mas elas deviam entretanto permanecer vagamente presentes na minha consciência. O fato de destruí-las-ou de tentá-lo -dia após dia era sem dúvida o motivo pelo qual era-me tão doce beijar aquelas faces que não eram mais bonitas que muitas outras; sob toda doçura carnal um pouco profunda, existe a permanência de um perigo.

            Eu havia prometido a Albertine que, se não saísse com ela, haveria de entregar-me ao trabalho. Mas, no dia seguinte, como se aproveitando de nosso sono a casa tivesse miraculosamente viajado, despertei num tempo diferente, sob diverso clima. Não se trabalha no momento de desembarcar num novo país, a cujas condições é preciso adaptar-se.

            Ora, todo dia era para mim um país diferente. Minha própria preguiça, sob as formas novas de que se revestia, como a teria eu reconhecido? Logo, dir-se-á que, em dias de mau tempo irremediável, somente a residência na casa, situada no meio de uma chuva igual e contínua, tinha a deslizante doçura, o silêncio calmante, o interesse de uma navegação; noutra ocasião, em um dia claro, ficando imóvel na cama, era deixar rodar as sombras em torno a mim, como à volta de um tronco de árvore. De outras vezes ainda, aos primeiros toques dos sinos de um convento próximo, raros como as devotas matinais, mal embranquecendo o céu sombrio com sua saraiva incerta que o vento morno fundia e dispersava, eu discernira um desses dias tempestuosos, desordenados e agradáveis, em que os telhados, batidos por pancadas intermitentes que uma brisa ou um raio de sol logo secam, deixam deslizar, aos arrulhos, uma gota de chuva e, enquanto o vento não recomeça a rodopiar, alisam ao sol momentâneo, que as irisa, suas ardósias furta-cor; um desses dias cheios de tantas mudanças de tempo, de incidentes aéreos, de tempestades, que o preguiçoso não os dá por perdidos, pois se interessou pela atividade que a atmosfera tem desenvolvido em vez dele, agindo de certo modo em seu lugar; dias semelhantes a esses tempos de rebelião ou de guerra que não parecem vazios ao estudante que não vai à escola, porque, nos arredores do Palácio da Justiça ou lendo os jornais, tem a ilusão de achar, nos acontecimentos ocorridos, à falta da tarefa que não pôde cumprir, um proveito para a sua inteligência e uma desculpa para sua ociosidade; enfim, dias aos quais se podem comparar aqueles em que ocorre, na nossa vida, uma crise excepcional e da qual o que nunca fez nada pensa que vai extrair, se tudo termina bem, hábitos de trabalho: por exemplo, a manhã em que ele sai para um duelo que vai se dar em condições especialmente perigosas; então lhe aparece, de súbito, no momento em que talvez lhe vá ser tirada, o preço de uma existência de que poderia ter aproveitado para iniciar uma obra ou simplesmente desfrutar prazeres, e da qual não soube gozar nada. "Se pudesse escapar com vida" pensa ele, "como começaria logo a trabalhar e também como haveria de me divertir!". De fato, a vida assumiu de repente, a seus olhos, um valor bem maior, pois ele põe nela tudo o que lhe parece que ela pode lhe oferecer, e não o pouco que ele lhe faz dar habitualmente. Vê-a segundo o seu desejo, não como sua experiência lhe ensinou que ele sabia torná-la, isto é, tão medíocre. Num instante, sua vida se encheu de labores, de viagens, de excursões a montanhas, de todas as belas coisas que ele imagina poderão ficar impossíveis com o desfecho funesto desse duelo, sem pensar que já o eram antes que se tratasse do duelo, devido aos maus hábitos que, mesmo sem duelo, teriam permanecido. Ele volta para casa sem sequer ter sofrido um ferimento. Mas encontra os mesmos obstáculos aos prazeres, às excursões, às viagens, a tudo de que há pouco receara por um momento ficar despojado para sempre pela morte; basta para isso a vida. Quanto ao trabalho-tendo as circunstâncias excepcionais por efeito exaltar o que de antemão existia no homem, no trabalhador o trabalho e no preguiçoso a preguiça-, resolve tirar férias.

            Eu fazia como ele e como sempre fizera desde que tomara resolução de me pôr, a escrever, assumida outrora, mas que me parecia datar de ontem, porque havia considerado cada dia, um após outro, como não tendo chegado. Procedia da mesma forma com este, deixando passar, sem nada fazer, seus aguaceiros e estiadas, e prometendo a mim mesmo começar a trabalhar no dia seguinte. Porém, nele eu já não era mais o mesmo sob um céu sem nuvens; o som dourado dos sinos não continha somente luz, como o mel, mas a sensação de luz (e também o sabor enjoativo dos doces, porque em Combray muitas vezes ele se demorava, como uma vespa, sobre nossa mesa depois de retirados os pratos, talheres e toalha). Nesse dia de sol deslumbrante, ficar o dia inteiro de olhos fechados era uma coisa permitida, comum, salubre, agradável e própria da estação, como manter as janelas fechadas devido ao calor. Eram em dias assim que, no começo da minha segunda temporada em Balbec, eu ouvia os violinos da orquestra por entre as massas de água azuladas da maré montante. Como eu possuía mais Albertine hoje! Dias havia em que o rumor de um sino que dava as horas trazia sobre a esfera de sua sonoridade uma placa tão fresca, tão poderosamente cortada de umidade ou luz, que era como uma tradução para cegos, ou, se quiserem, como uma tradução musical do encanto da chuva ou do encanto do sol. De modo que, nesse momento, de olhos fechados em meu leito, eu dizia comigo que tudo pode ser transposto, e que um universo somente audível poderia ser tão variado como o outro. Remontando preguiçosamente o correr do tempo como numa barca, e vendo sempre aparecer à minha frente novas recordações encantadas, que eu não escolhia, que no instante anterior me eram invisíveis e que minha memória me apresentava, uma após outra, sem que pudesse escolhê-las, eu prosseguia preguiçosamente, naqueles espaços uniformes, o meu passeio ao sol.

            Aqueles concertos matinais de Balbec não eram antigos. E, no entanto, naquele momento relativamente próximo, eu pouco me importava com Albertine. Mesmo nos primeiros dias após a chegada, não tivera conhecimento de sua presença em Balbec. Por quem o soubera então? Ah, sim! Por Aimé. Fazia um dia lindo como este. Bom Aimé! Estava contente de me rever. Mas ele não gosta de Albertine. Nem todos podem gostar dela. Sim, foi ele quem me informou que ela estava em Balbec. Como sabia disso? Ah, ele a tinha encontrado, e lhe achara umas maneiras estranhas. Neste momento, abordando o relato de Aimé por outro ângulo que não o que ele me apresentara no instante em que o fizera, meu pensamento, que até então navegara sorridente sobre aquelas águas bem-aventuradas, estourava de súbito, como se houvesse dado de encontro a uma mina invisível e perigosa, insidiosamente colocada naquele ponto da minha memória. Ele me dissera que a tinha encontrado, que lhe achara umas maneiras estranhas. Que pretendera dizer com maneiras estranhas? Eu tinha entendido maneiras vulgares, pois, para antecipadamente contradizê-lo, havia declarado que ela possuía distinção. Mas não, talvez ele quisesse dizer maneiras de Gomorra. Ela estava com uma amiga, talvez se abraçassem pela cintura e olhassem para outras mulheres, talvez de fato tivessem um "jeito" que eu jamais vira em Albertine na minha presença. Quem seria a amiga? Onde Aimé tinha encontrado essa odiosa Albertine? Eu tentava lembrar-me exatamente do que Aimé havia dito, para ver se aquilo podia se referir ao que imaginava, ou se ele quisera falar apenas de maneiras vulgares. Porém, por mais que indagasse, a pessoa que fazia a pergunta e aquela que podia oferecer a lembrança eram infelizmente uma só e a mesma pessoa, eu, que momentaneamente me duplicava, mas sem nada acrescentar. Eu questionava debalde, era eu quem respondia, não ficava sabendo mais nada. Já não pensava na Srta. Vinteuil. Nascido de uma suspeita nova, o acesso de ciúme que me assaltava era igualmente novo, ou melhor, não passava do prolongamento, da extensão de tal suspeita; tinha o mesmo cenário, que já não era Montjouvain, mas o caminho em que Aimé havia encontrado Albertine; e, por objeto, algumas amigas, das quais uma ou outra poderia ser a que estava com Albertine naquele dia. Talvez fosse uma certa Élisabeth, ou então, as duas moças que Albertine olhara pelo espelho no cassino, quando parecia não vê-Ias. Sem dúvida, mantinha relações com elas, e aliás também com Esther, a prima de Bloch. Tais relações, caso me fossem reveladas por um terceiro, teriam bastado para que eu ficasse meio morto, mas como era eu que as imaginava, tinha o cuidado de acrescentar bastante incerteza para amortecer o sofrimento. Sob a forma de suspeitas, chega-se a observar diariamente, em doses enormes, essa mesma idéia de que se é traído, de que uma quantidade bem pequena poderia ser mortal, inoculada pelo pico de uma palavra lancinante. E é por isso, sem dúvida, e por um derivado do instinto de conservação, que o mesmo ciumento não hesita em formular suspeitas atrozes acerca de fatos inocentes, com a condição, diante da primeira prova que lhe tragam, de se recusar à evidência. Além disso, o amor é um mal incurável, como essas diáteses em que o reumatismo só dá um pequeno descanso para ceder lugar a enxaquecas epileptiformes. Serenada a suspeita ciumenta, eu ficava agastado com Albertine por não ter sido carinhosa, quem sabe por ter zombado de mim com Andrée. Pensava com terror no juízo que ela formaria se Andrée lhe repetisse todas as nossas conversas; o futuro me parecia atroz. Essas tristezas só me deixavam se uma nova suspeita ciumenta me lançava em outras buscas, ou ia se, pelo contrário, as manifestações de ternura de Albertine tornassem insignificante a minha felicidade. Quem poderia ser essa moça? Era necessário que eu escrevesse a Aimé, que procurasse vê-lo, e a seguir verificaria suas palavras conversando com Albertine, pondo-a em confissão. Enquanto esperava, julgando que se tratasse da prima de Bloch, pedi a este, que absolutamente não entendeu com que objetivo, que me mostrasse uma só fotografia dela, ou, bem mais, que me fizesse encontrá-la casualmente.

            Quantas pessoas, cidades, estradas, o ciúme assim nos faz tão ávido para conhecê-las! Ele é uma sede de saber graças à qual, sobre pontos isolados uns dos outros, acabamos por ter sucessivamente, todas as noções possíveis, salvo a que desejaríamos. Não se sabe nunca se uma suspeita não nascerá, pois de repente a gente se recorda de uma frase que não era clara, de um álibi que não fora dado sem segundas intenções. No entanto, não voltamos a ver a pessoa, porém existe um ciúme posterior que nasce apenas depois que a deixamos, um ciúme retardatário. Talvez o hábito de guardar no fundo de mim mesmo alguns desejos que eu adquirira, desejo de uma moça da sociedade como as que eu via passar da minha janela seguidas da sua governanta, e mais particularmente daquela de que me falara Saint-Loup, que freqüentava os bordéis, desejo das belas camareiras e especialmente daquela da Sra. Putbus, desejo de ir ao campo, no começo da primavera, a fim de rever os espinheiros-alvos, as macieiras em flor, as tempestades, desejo de Veneza, desejo de me pôr, a trabalhar, desejo de levar a vida de toda a gente, talvez o hábito de conservar em mim, insaciavelmente, todos esses desejos, contentando-me com a promessa feita a mim mesmo de não me esquecer de satisfazê-los um dia, talvez esse hábito, antigo de tantos anos, do adiamento perpétuo, daquilo que o Sr. de Charlus estigmatizava com o nome de procrastinação, se tivesse tornado tão geral em mim que também se apropriava de minhas suspeitas ciumentas e, fazendo-me tomar nota mentalmente de um dia não deixar de ter uma explicação com Albertine a respeito da moça (talvez das moças, esta parte da narrativa era confusa, apagada, quer dizer, indecifrável, na minha memória) com a qual ou as quais - Aimé a encontrara, fazia-me atrasar essa explicação. Em todo caso, não falaria disso naquela noite com a minha amiga, para não me arriscar a parecer ciumento e aborrecê-la. Todavia, quando, no dia seguinte, Bloch me enviou a fotografia de sua prima Esther, eu me apressei a fazê-la chegar às mãos de Aimé. E no mesmo instante, lembrei-me que Albertine recusara-me, de manhã, um prazer que de fato poderia tê-la cansado. Seria então para reservá-lo para outrem, talvez naquela tarde? A quem? Assim é que é interminável o ciúme, pois mesmo que o ser amado, por exemplo estando morto, não pode mais provocá-lo com seus atos, ocorre que as lembranças, posteriormente a todo acontecimento, comportam-se de repente em nossa memória como outros tantos acontecimentos, lembranças que não tínhamos esclarecido até então, que nos tinham parecido insignificantes, e às quais basta a nossa própria reflexão sobre elas, sem nenhum fato exterior, para conferir um sentido novo e terrível. Não precisamos ser dois, basta estarmos sozinhos no quarto, pensando, para que se produzam novas traições de nossa amante, mesmo que esteja morta. Assim, não se deve temer no amor, como na vida comum, apenas o futuro, mas também o passado, que muitas vezes só se realiza para nós depois do futuro; e não falamos somente do passado de que ficamos sabendo muito tarde, mas daquele que conservamos desde longo tempo em nós e que de súbito aprendemos a decifrar.

            Não importa, eu me sentia bem feliz, a tarde findava, e já não tardava a hora em que ia pedir a Albertine o sossego de que precisava. Infelizmente, a noitada que chegou foi uma dessas em que tal sossego não me foi trazido, em que o beijo que Albertine me daria, ao me deixar, bem diferente do beijo habitual, não me acalmaria mais do que outrora o de minha mãe quando estava zangada, e quando eu não tinha coragem de chamá-la de novo, mas sentia que não poderia adormecer. Essas noites agora eram aquelas em que Albertine formara, para o dia seguinte, algum projeto que não queria que eu conhecesse. Se me houvesse confiado, eu teria posto em assegurar a sua realização um ardor que ninguém senão Albertine poderia me inspirar. Mas ela não me dizia nada e, aliás, não tinha necessidade de dizer coisa alguma: logo que regressava, mesmo à porta do quarto, como ainda estivesse de chapéu ou de gorro, eu já vira o desejo desconhecido, rebelde, encarniçado, indomável. Ora, era muitas vezes nas noites em que eu havia esperado o seu regresso com os mais ternos pensamentos, em que contava saltar-lhe ao pescoço com a maior ternura. Ai de mim, como tivera tantas vezes esses desentendimentos com meus pais, a quem achava frios ou irritados no momento em que corria para junto deles transbordando de ternura; não era nada diante dos desentendimentos que ocorrem entre dois amantes. O sofrimento neste caso é bem menos superficial, é bem mais difícil de suportar, tem por sede uma camada bem mais profunda do coração. Naquela noite, Albertine no entanto foi obrigada a me dizer uma palavra acerca do projeto que havia formado; compreendi imediatamente que ela, no dia seguinte, queria ir fazer uma visita à Sra. Verdurin, visita que, em si mesma, absolutamente não teria me contrariado. Mas com certeza era para ter lá algum encontro, preparar algum prazer. Se não fosse isto, não faria tanta questão dessa visita. Quer dizer, não teria repetido que não se empenhava por ela. Em minha existência, eu havia seguido um caminho inverso ao dos povos que só se utilizam da escrita fonética depois de terem considerado os caracteres apenas como uma seqüência de símbolos; eu, que durante tantos anos só buscara a vida e o pensamento reais das pessoas no enunciado direto que deles me forneciam elas voluntariamente, chegara pelo contrário, por culpa delas, a só dar importância aos testemunhos que não são expressão racional e analítica da verdade; as próprias palavras só me informam sob a condição de serem interpretadas como um afluxo de sangue ao rosto de uma pessoa que se perturba, ou ainda, à maneira de um súbito silêncio. Determinado advérbio (por exemplo, empregado pelo Sr. de Cambremer quando ele julgava que eu era "escritor" e que, não tendo ainda me falado, ao contar uma visita que havia feito aos Verdurin, voltara-se para mim, dizendo:

            - Estava lá justamente Borrelli- lançado numa conflagração pela proximidade involuntária, por vezes perigosa, de duas idéias que o interlocutor não exprimia, e da qual eu podia extraí-las por certos métodos de análise ou de eletrólise apropriados, dizia-me mais coisas que um discurso. Às vezes Albertine deixava escapar, em suas frases, um ou outro desses preciosos amálgamas que eu me apressava a "tratar" para transformá-los em idéias claras.

            De resto, é uma das coisas mais terríveis para o enamorado que, se os fatos particulares que só a experiência, a espionagem, entre tantas realizações possíveis, fariam conhecer-são tão difíceis de achar, em compensação, a verdade seja tão fácil de perceber ou apenas de pressentir. Muitas vezes eu a vira, em Balbec, fixar sobre as moças que passavam um olhar brusco e prolongado, semelhante a um contato, e após o qual, se eu as conhecia, indagava-me:

            - E se as convidássemos? Gostaria de lhes dizer uns desaforos. -

            E desde algum tempo, desde que sem dúvida me adivinhara o pensamento, nenhum pedido para convidar ninguém, nenhuma palavra, nem mesmo um desvio de olhar, que se tornara silencioso e sem finalidade, e com a fisionomia distraída e vaga de que eram acompanhados, tão revelador como outrora a sua magnetização. Pois bem, não me era possível censurá-la ou fazer perguntas a propósito de coisas que ela teria declarado ser tão ínfimas, tão insignificantes, que eu conservara na memória só pelo prazer de "esmiuçar". Já é difícil dizer "por que olhou para aquela moça?" e mais ainda "por que não olhou para ela?" E no entanto eu bem sabia, ou pelo menos teria sabido, se tivesse desejado acreditar, não nas afirmações de Albertine, mas em todos os nadas incluídos em um olhar, provados por ele e por tal ou qual contradição nas palavras, contradição da qual muitas vezes só me dava conta muito tempo depois de tê-la deixado, que me fazia sofrer a noite inteira, na qual não tinha mais coragem de voltar a falar, mas que nem por isso deixava de honrar minha memória de vez em quando com suas visitas periódicas. Muitas vezes, naqueles simples olhares furtivos ou desviados na praia de Balbec, ou nas ruas de Paris, eu podia indagar-me se a pessoa que os provocava não era somente um objeto de desejos no momento em que passava, mas uma conhecida antiga, ou então uma moça de quem lhe haviam falado e da qual, quando eu vinha a sabê-lo, ficava estupefato de que lhe houvessem falado, de tão fora que a julgava de todos os conhecimentos possíveis de Albertine. Mas a Gomorra é um puzzle feito de pedaços que vêm de onde menos se espera. Foi assim que, em Rivebelle, compareci a um grande jantar, onde por acaso conhecia, ao menos de nome, as dez convidadas, tão dissemelhantes quanto possível, e todavia perfeitamente ajustadas, de forma que jamais vi um jantar tão homogêneo, muito embora tão composto.

            Para retornar às jovens passantes, Albertine jamais teria olhado para uma senhora idosa ou um velho com tanta fixidez ou, pelo contrário, com reserva e como se não os visse. Os maridos enganados que não sabem de nada, ainda assim sabem de tudo. Mas é necessário um dossiê mais materialmente documentado para estabelecer uma cena de ciúme. Além disso, se o ciúme nos ajuda a descobrir, na mulher que amamos, uma certa propensão a mentir, ele centuplica essa propensão quando a mulher já descobriu que somos ciumentos. Ela mente (nas mesmas proporções em que nunca nos mentiu antes), seja por piedade ou medo, ou se furta instintivamente por uma fuga simétrica às nossas investigações. Decerto existem amores em que, desde o começo, uma mulher leviana afetou ser virtuosa aos olhos do homem que a ama. Mas quantas outras compreendem dois períodos perfeitamente contrastantes! No primeiro, a mulher fala quase com facilidade, com simples atenuantes, sobre o seu gosto pelo prazer pela vida galante que ele lhe proporcionou, coisas essas que negará inteiramente a seguir, com a máxima energia, ao mesmo homem, mas porque o percebeu enciumado dela e a espiona-la. Ela chega a ter saudades do tempo daquelas primeiras confidências, mas cuja lembrança o tortura. Se a mulher ainda as fizesse lhe forneceria, quase por si mesma, o segredo das culpas que ele persegue inutilmente todos os dias. E depois, que entrega não provaria isso, que confiança, que amizade! Se ela não pode viver sem engana-lo, pelo menos o enganaria como amiga, relatando-lhe seus prazeres, associando-o a eles. E ele lamenta semelhante vida que os começos de seu amor pareciam esboçar, que a sua continuação tornou impossível, transformando esse amor em algo atrozmente doloroso, que tornará uma separação, conforme o caso, inevitável ou impossível.

            Às vezes a escrita em que eu decifrava as mentiras de Albertine, sem ser ideográfica, necessitava simplesmente ser lida às avessas; foi assim que naquela noite ela me lançara com ar negligente esta mensagem destinada a passar quase despercebida:

            - É possível que amanhã eu vá à casa dos Verdurin, não sei absolutamente se irei,

não tenho muita vontade.-

            Anagrama infantil desta confissão: "Amanhã irei à casa dos Verdurin, é absolutamente certo, pois dou muita importância a isso." Esta aparente hesitação significava uma vontade resolvida e tinha por finalidade diminuir a importância da visita pelo fato de me anuncia-la. Albertine sempre usava o tom dúbio para as resoluções irrevogáveis. A minha não o era menos: eu trabalharia para que a visita à Sra. Verdurin não se realizasse. Muitas vezes, o ciúme não passa de uma necessidade inquieta de tirania aplicada às coisas do amor. Sem dúvida eu herdara de meu pai esse brusco desejo arbitrário de ameaçar as criaturas que eu mais amava nas esperanças em que se embalavam com uma segurança que eu queria mostrar-lhes ser ilusória; quando eu via que Albertine havia combinado, à minha revelia, ocultando de mim, o plano de um passeio que eu teria feito tudo no mundo para torna-lo mais fácil e mais agradável se ela me houvesse confidenciado, eu dizia com negligência, para fazê-la tremer, que esperava sair nesse dia.

            Pus-me a sugerir a Albertine outros objetivos de passeio que teriam tornado impossível a visita aos Verdurin, em palavras carregadas de uma fingida indiferença sob a qual eu tentava disfarçar meu nervosismo. Mas ela já a havia despistado. E meu sentimento encontrava nela a força elétrica de uma vontade oposta que o repelia com vivacidade; nos olhos de Albertine, eu via essa força soltar suas faíscas. De resto, de que adiantava cuidar do que diziam as pupilas naquele instante? Como é que eu não havia percebido há muito que os olhos de Albertine pertenciam à família dos que (mesmo numa pessoa medíocre) parecem feitos de vários pedaços, por causa de todos os lugares onde ele deseja encontrar-se e ocultar que quer achar-se nesse dia? Olhos, por mentira sempre imóveis e passivos, mas dinâmicos, mensuráveis pelos metros e quilômetros que é preciso transpor para chegar ao local do encontro marcado, implacavelmente marcado, olhos que sorriem menos ainda ao prazer que os seduz do que se aureolam da tristeza e do desânimo de que talvez existam obstáculos para ir a esse encontro. Entre nossas próprias mãos, tais seres são criaturas em fuga. Para compreender as emoções que causam e que outros seres até mais belos não causam, e preciso calcular que eles estão, não imóveis, mas em movimento, e acrescentar à sua pessoa um sinal correspondente ao que em física é o sinal que indica velocidade.

            Se perturbamos o seu dia, eles nos confessam o prazer que nos tinham ocultado: "Queria tanto ir tomar chá às cinco horas com tal pessoa amiga!" Pois bem, se seis meses depois acabamos conhecendo a pessoa em questão, saberemos que nunca a moça, cujos projetos transtornáramos, e que, apanhada em flagrante nos confessara, para que a deixássemos livre, o chá que assim tomava com uma pessoa querida todos os dias à hora em que não a víamos, saberemos que essa pessoa nunca a recebeu, que elas jamais tomaram chá juntas, que a moça dizia viver muito presa exatamente por nossa culpa.

            Assim, a pessoa com quem ela confessara que ia tomar chá, com quem ela suplicara que a deixássemos tomar chá, essa pessoa, razão confessada pela necessidade, não era aquela mas outra, e não se tratava de chá mas de outra coisa! Outra coisa, o quê? Uma outra, quem? Ai de nós, os olhos fragmentados, tristes, partindo para longe, talvez permitissem medir as distâncias, mas não indicam as direções. Estende-se o campo infinito das possibilidades e se, por acaso, o real se apresentava diante de nós, estaria de tal modo tão fora dos possíveis que, num súbito aturdimento, cairíamos para trás, indo bater contra essa parede inesperada. O movimento e a fuga verificados nem sequer são indispensáveis, basta que os induzamos. Ela nos havia prometido uma carta, estávamos tranqüilos, já não a amávamos. A carta não chegou, nenhum correio a trouxe, "que se passa?", a ansiedade renasce e com ela o amor. São principalmente tais seres que nos inspiram o amor, para nosso tormento. Pois cada nova ansiedade que sentimos por causa deles, rouba-lhes aos nossos olhos um pouco de sua personalidade. Estávamos resignados ao sofrimento, crendo amar fora de nós, e nos damos conta de que nosso amor é uma função da nossa tristeza, que nosso amor é talvez nossa tristeza, e que o objeto dele só em parte diminuta é a moça de cabeleira negra. Mas enfim, são principalmente tais seres que nos inspiram o amor. Na maioria das vezes, o amor não tem por objeto um corpo, a não ser quando nele se fundem uma emoção, o medo de perdê-lo, a incerteza de reencontrá-lo. Ora, esse tipo de ansiedade tem muita afinidade pelos corpos. Ela acrescenta-lhes uma qualidade que ultrapassa a própria beleza, o que é um dos motivos por que vemos homens, indiferentes às mulheres mais belas, amarem apaixonadamente algumas que nos parecem feias. A essas criaturas, a essas criaturas de fuga, sua natureza e a nossa inquietação emprestam asas. E até junto a nós o seu olhar parece dizer que vão alçar vôo. A prova dessa beleza, que excede a beleza acrescentada pelas asas, é que, muitas vezes, para nós, uma mesma criatura é sucessivamente alada e sem asas. Basta recearmos perdê-la para esquecermos todas as outras. Certos de conservá-la, comparamo-la a essas outras, que logo preferimos a ela. E, como essas emoções e certezas podem alternar-se de uma semana para outra, uma criatura pode, numa semana, ver sacrificarem-lhe tudo o que lhe agradava, na semana seguinte ser sacrificada, e assim por diante durante muito tempo. O que seria incompreensível, se não soubéssemos pela experiência que todo homem tem de ter em sua vida, ao menos uma vez, deixado de amar, esquecido uma mulher, o pouco em si mesma que é uma criatura quando já não o é mais, ou não é ainda permeável às nossas emoções. E ficamos bem entendidos que o que dizemos dessas criaturas de fuga é igualmente verdadeiro para as criaturas em prisão, mulheres cativas que julgamos jamais poder possuir. Desse modo, os homens detestam as alcoviteiras, pois elas facilitam a fuga, fazem brilhar a tentação; mas, se amam uma mulher enclausurada, procuram de bom grado as alcoviteiras para fazê-las saírem de sua prisão e conduzi-las a eles. O motivo pelo qual as uniões com mulheres raptadas são menos duradouras que outras, é que o medo de não chegarmos a obtê-las ou a inquietação de vê-las fugir compõe todo o nosso amor e que, uma vez roubadas a seu marido, arrancadas a seu teatro, curadas da tentação de nos abandonar, numa palavra, dissociadas de nossa emoção, seja qual for, elas são apenas elas próprias, ou seja, quase nada e, tão longamente cobiçadas, são logo abandonadas por aquele mesmo que tanto temera ser abandonado por elas.

            Eu disse: "Mas como é que não adivinhei?" Mas não o adivinhara desde o primeiro dia em Balbec? Não adivinhara em Albertine uma dessas meninas sob cujo envoltório carnal palpitam mais criaturas ocultas, já não digo que num baralho ainda na caixa, que numa catedral fechada ou num teatro antes que entremos, porém mais do que na multidão imensa e renovada? Não apenas tantas criaturas, mas o desejo, a lembrança voluptuosa, a busca inquieta por tantas criaturas. Em Balbec, eu não ficara perturbado, pois nem sequer supusera que um dia haveria de seguir pistas mesmo falsas. Não importa, para mim aquilo dera a Albertine a plenitude de um ser cheio até as bordas pela superposição de tantas criaturas, de tantos desejos e de lembranças voluptuosas de criaturas. E agora que ela me dissera um dia:

            - Srta. Vinteuil -, eu desejaria, não arrancar-lhe o vestido para ver seu corpo, mas, através do corpo, ver toda a sua agenda de recordações e de seus próximos e ardentes encontros marcados.

            Como as coisas provavelmente mais insignificantes assumem de repente um valor extraordinário quando uma criatura a quem amamos (ou a quem só falta aquela duplicidade para que a amemos) no-las esconde! Em si mesmo, o sofrimento não nos causa obrigatoriamente sentimentos de amor ou ódio pela pessoa que o provocou: um cirurgião que nos causa dor nos deixa indiferente. Mas uma mulher que nos afirmou durante algum tempo que éramos tudo para ela, sem que ela própria fosse tudo para nós, uma mulher que temos prazer em ver, beijar, em ter sobre os nossos joelhos, muito admirados ficamos ao descobrir, por uma súbita resistência, que não dispomos dela.

            A decepção acorda então às vezes em nós a lembrança esquecida de uma velha angústia, que no entanto sabemos não ter sido provocada por essa mulher, mas por outras cujas traições se escalonam sobre o nosso passado. E, além disso, como se tem a coragem de desejar viver, como se pode fazer um movimento para se preservar da morte num mundo em que o amor só é causado pela mentira e consiste apenas em nossa aspiração de ver acalmadas nossas dores pela criatura que nos fez sofrer? Para sair do acabrunhamento que sentimos ao descobrir essa mentira e essa resistência, há o triste remédio de procurar agir, contra a vontade dela, com a ajuda de pessoas que sentimos serem mais ligadas à sua vida do que nós próprios, sobre aquela que nos resiste e nos mente, usar de astúcia nós também, fazer-nos detestar. Mas o sofrimento de um tal amor é desses que invencivelmente levam o enfermo a procurar, numa mudança de posição, um bem-estar enganoso. Tais meios de ação não nos faltam, ai de nós! E o horror desses amores, que somente a inquietude gerou, decorre de que viramos e reviramos sem cessar dentro em nós frases insignificantes; sem contar que raramente as criaturas pelas quais os sentimos nos agradam fisicamente de maneira completa, visto que não é o nosso gosto deliberado, mas o acaso de um minuto de angústia, minuto indefinidamente prolongado pela nossa fraqueza de caráter, a qual refaz todas as noites as experiências e se rebaixa aos calmantes, que fez a escolha por nós.

            Sem dúvida o meu amor por Albertine não era o mais miserável daqueles até onde, por falta de vontade, a gente pode decair, pois não era inteiramente platônico; ela concedia-me satisfações carnais, e além disso era inteligente. Porém tudo isto era supérfluo. O que me ocupava o espírito não era o que ela pudesse dizer de inteligente, mas certa frase que acordava em mim uma dúvida sobre seus atos. Eu tentava me lembrar se ela dissera isto ou aquilo, com que ar, em que momento, em resposta a que palavras, reconstituir toda a cena de seu diálogo comigo, em que momento ela quisera ir à casa dos Verdurin, que palavra minha dera o ar contrariado a seu rosto. Se se tratasse do mais importante acontecimento, eu não teria me dado a tanto trabalho para restabelecer a verdade, para lhe recompor a atmosfera e o colorido exatos. Tais inquietudes, é evidente, depois de terem atingido um grau em que nos são insuportáveis, conseguimos por vezes acalmá-las de todo por uma noite. A festa a que deve comparecer a amiga que amamos, e sobre cuja verdadeira natureza o nosso espírito vinha trabalhando há dias, somos também convidados a ela; nossa amiga só tem olhos e palavras para nós, levamo-la de volta para casa, e conhecemos então, dissipadas as inquietações, um sossego tão completo, tão reparador, como o que se observa por vezes no sono profundo que ocorre após as longas caminhadas. Mas, na maioria das vezes, apenas mudamos de inquietação. Uma das palavras da frase que devia nos acalmar põe nossas suspeitas em outra pista. E sem dúvida um repouso desses merece que o paguemos bem caro. Mas não teria sido mais simples não comprarmos nós mesmos, voluntariamente, a ansiedade, e mais caro ainda? Além disso, sabemos muito bem que, por mais profundos possam ser esses desafogos momentâneos, a inquietação ainda assim será mais forte. Muitas vezes até, ela é renovada pela frase cujo fim era nos trazer repouso. As exigências do nosso ciúme e a cegueira da nossa credulidade são maiores do que o podia imaginar a mulher que amamos. Quando, espontaneamente, ela nos jura que determinado homem só é um amigo, deixa-nos transtornados ao nos informar coisa de que não suspeitávamos que para ela tratava-se de um amigo. Enquanto nos conta, para mostrar sua sinceridade, de que modo eles tomaram juntos o chá naquela mesma tarde, a cada palavra que ela diz, o invisível, o insuspeitado adquire forma à nossa frente. Ela confessa que ele lhe pediu que se tornasse sua amante e nós sofremos o martírio de que ela tenha podido ouvir as suas propostas. Recusou-as, diz ela. Mas dali a pouco, lembrando-nos de seu relato, nós nos indagaremos se a recusa é de fato verdadeira, pois entre as diversas coisas que ela nos disse há aquela ausência de nexo lógico e necessário que, mais do que os fatos contados, é o sinal da verdade. E, além disso, ela usou daquela terrível entonação desdenhosa:

            - Eu lhe disse não, - de modo categórico que se encontra em todas as classes da sociedade quando uma mulher mente. Cumpre no entanto agradecer-lhe por haver recusado, encorajá-la pela nossa bondade a continuar no futuro a nos fazer confidências tão cruéis. Quando muito, fazemos uma objeção:

            - Mas se ele já fizera propostas, por que aceitou tomar chá em sua companhia?

            - Para que ele não se aborrecesse comigo nem dissesse que eu não fora amável.- E não temos coragem de lhe dizer que, se recusasse, teria sido talvez mais amável conosco.

            Aliás, Albertine me assustava declarando que eu tinha razão de dizer, para não prejudicá-la, que não era seu amante, pois na verdade, acrescentava, "o fato é que você não o é". Com efeito, eu talvez não fosse inteiramente seu amante, mas então seria necessário pensar que todas as coisas que fazíamos juntos, será que ela também as fazia com todos os homens de quem me jurava não ter sido amante? Querer conhecer a todo custo o que Albertine pensava, o que ela via, o que ela amava-como era estranho que eu sacrificasse tudo a tal necessidade, pois havia experimentado a mesma necessidade de saber, a respeito de Gilberte, nomes próprios e fatos que hoje me eram tão indiferentes! Eu percebia muito bem que em si mesmas as ações de Albertine já não tinham interesse. É curioso que um primeiro amor, se, pela fragilidade que deixa em nosso coração, abre caminho aos amores seguintes, não nos dê, ao menos pela identidade mesma dos sintomas e das dores, a maneira de curá-los. Além disso, há necessidade de se conhecer um fato? Pois, de um modo geral, não conhecemos logo a própria mentira e discrição dessas mulheres que têm algo a esconder? Existe aí alguma possibilidade de erro? Elas acham que é uma virtude ficarem caladas, ao passo que gostaríamos tanto de fazê-las falar. E sentimos que elas afirmaram a seu cúmplice:- Nunca digo nada. Não é por mim que se há de saber alguma coisa, eu nunca digo nada.

            Damos a nossa fortuna, a nossa vida, por uma criatura, e no entanto sabemos muito bem que, com dez anos de intervalo, mais cedo ou mais tarde, negaríamos a essa criatura tal fortuna, preferiríamos conservar a vida. Pois já então essa criatura estaria desligada de nós, sozinha, isto é, seria nula. O que nos une às criaturas são essas mil raízes, esses fios inumeráveis que formam as lembranças do sarau da véspera, as esperanças da vesperal do dia seguinte; é essa trama contínua de hábitos de que não podemos nos livrar. Da mesma forma que existem os avarentos que economizam por generosidade, nós somos pródigos que gastamos por avareza, e é menos a uma criatura que sacrificamos nossa vida, do que a tudo o que ela pôde prender a si mesma de nossas horas, de nossos dias, daquilo em comparação do que a nossa vida ainda não vivida, a vida relativamente futura, nos parece uma vida mais longínqua, mais desligada, menos íntima e menos nossa. Necessário seria desfazermo-nos desses laços que de fato têm muito mais importância que a pessoa, mas cujo efeito é criar em nós deveres momentâneos para com ela, deveres que nos levam a não ter coragem de deixá-la por medo de sermos mal interpretados, ao passo que mais tarde ousaríamos, pois, livre de nós, ela não seria mais nós e a verdade é que só criamos deveres para nós mesmos (ainda que estes possam, por uma aparente contradição, nos levar ao suicídio).

            Se eu não amava Albertine (coisa de que não estava certo), este lugar que ela ocupava junto a mim nada tinha de extraordinário: nós só vivemos com o que não amamos, com o que só fizemos viver conosco para matar o insuportável amor, trate-se de uma mulher, de um país, ou ainda de uma mulher que em si mesma encerra todo um país. E teríamos muito medo de recomeçar a amar se ocorresse de novo a ausência. Quanto a Albertine, eu ainda não chegara a tal ponto. Suas mentiras e confissões deixavam-me por acabar a tarefa de esclarecer a verdade. Suas mentiras, tão numerosas porque ela não se contentava em mentir como toda criatura que se julga amada, mas porque, fora isso, ela era por natureza mentirosa, e aliás tão mutável que, mesmo dizendo-me de cada vez a verdade sobre o que, por exemplo, pensava das pessoas, de cada vez teria dito coisas diferentes; suas confissões, porque de tão raras, de tão interrompidas, deixavam entre elas, no que se referia ao passado, grandes lacunas inteiramente em branco, e sobre cuja extensão era-me preciso traçar, e para isso primeiro conhecer, a sua vida. No que respeita ao presente, tanto quanto eu podia interpretar as palavras sibilinas de Françoise, não era apenas sobre pontos particulares mas sobre todo um conjunto que Albertine me mentia, e eu veria "num belo dia" aquilo que Françoise aparentava saber, o que ela não queria dizer-me, o que eu não ousava lhe perguntar. Aliás, era sem dúvida por causa do mesmo ciúme que tivera outrora em relação a Eulalie, que Françoise falava as coisas mais incríveis, de tal modo vagas que se poderia ver nelas, quando muito, a insinuação bastante inverossímil de que a pobre cativa (que amava as mulheres) preferia um casamento com alguém que não parecia de modo algum ser eu. Se assim era, como, apesar de suas radio-telepatias, o teria sabido Françoise? Certamente os relatos de Albertine não podiam de maneira nenhuma esclarecer-me, pois eram todos os dias tão opostos como as cores de um pião quase parado. Além disso, parecia que era sobretudo o ódio que fazia falar Françoise. Não passava um dia sem que me dissesse, e eu não suportasse na ausência de minha mãe, palavras como estas:

            - Decerto, o senhor é amável e eu jamais esquecerei o reconhecimento que lhe devo (isto provavelmente para que eu criasse títulos à sua gratidão). Mas a casa está empestada desde que a amabilidade instalou aqui a trapaça, e que a inteligência protege a pessoa mais cretina que já se viu, depois que a finura, as boas maneiras, o espírito, a dignidade em todas as coisas, a aparência e a realidade de um príncipe se deixaram dominar e enganar, permitindo que eu, que há quarenta anos estou na família, fosse humilhada pelo vício, pelo que há de mais vulgar e mais baixo.

            A aversão de Françoise por Albertine decorria principalmente do fato de receber ordens de alguém que não fosse nós, de um aumento do trabalho de casa e de um cansaço que, alterando a saúde de nossa velha criada (que apesar disso não queria ser auxiliada no trabalho, não se julgando "uma pessoa sem serventia"), bastaria para explicar esse nervosismo, essa cólera odiosa. Decerto, ela gostaria que Albertine-Esther fosse banida. Era o voto de Françoise. E isto, consolando-a, já teria sossegado nossa velha criada. Mas, na minha opinião, não se tratava só disso. Um ódio dessa natureza só poderia ter nascido num corpo exausto. E, mais ainda que de cuidados, Françoise precisava de sono.

            Enquanto Albertine ia mudar de roupa, eu, para providenciar o mais depressa possível, peguei o receptor do telefone, invoquei as divindades implacáveis, mas não fiz mais que excitar a sua fúria, que se traduziu por estas palavras:

            - Está ocupado. -

            De fato, Andrée estava conversando com alguém. Enquanto aguardava que ela terminasse a ligação, eu me perguntava por que motivo, já que tantos pintores buscam renovar os retratos femininos do século XVIII, em que a engenhosa encenação é um pretexto para as expressões da espera, do arrufo, do interesse e do devaneio, por que motivo nenhum dos nossos modernos Boucher ou Fragonard pintou, em vez de La Lettre ['A Carta'] ou o Clavecin ['Cravo'], etc., esta cena, que poderia chamar-se: Diante do telefone, e na qual nasceria espontaneamente nos lábios da ouvinte um sorriso tanto mais verdadeiro por saber que não era visto. Finalmente, Andrée me ouviu:

            - Você vem buscar Albertine amanhã? e, ao pronunciar este nome de Albertine, pensava eu na inveja que me havia inspirado Swann quando me dissera, no dia da festa na casa da princesa de Guermantes:

            - Venha ver Odette - e eu ficara pensando no que, apesar de tudo, havia de forte num prenome que aos olhos de todos, e da própria Odette, somente na boca de Swann possuía aquele sentido absolutamente possessivo.

            E como semelhante embargo-resumido num vocábulo-sobre uma existência inteira me havia parecido, de cada vez que eu estava apaixonado, dever ser tão doce! Mas na realidade, quando se é possível dizê-lo, ou isto se tornou indiferente, ou então o hábito não embotou a ternura, mas ela mudou as doçuras em mágoas. A mentira é muito pouco, vivemos no meio dela não fazendo mais que sorrir, praticamo-la julgando não fazer mal a ninguém, mas o ciúme sofre por causa dela e enxerga mais do que ela oculta (muitas vezes a nossa amiga se recusa a passar a noite conosco e vai ao teatro simplesmente para que não lhe vejamos a fisionomia abatida), assim como freqüentes vezes se mostra cego ao que esconde a verdade. Mas o ciúme não pode obter coisa alguma, pois aquelas que juram não mentir recusariam, até o último instante, confessar o seu caráter. Sabia que somente eu podia dizer daquele modo "Albertine" a Andrée. E no entanto, para Albertine, para Andrée e para mim mesmo, eu sentia que não era nada. E compreendia a impossibilidade em que tropeça o amor. Imaginamos que ele tenha por objeto uma criatura que pode estar deitada diante de nós, fechada num corpo. Infelizmente ele é a extensão dessa criatura a todos os pontos do espaço e do tempo que ela ocupou e ocupará. Se não possuímos o seu contato com determinado lugar, com determinada hora, não a possuímos. Ora, não podemos tocar todos esses pontos. Ainda se nos fossem designados, talvez pudéssemos estender-nos até eles. Porém tateamos sem encontrá-los. Daí a desconfiança, o ciúme, as perseguições. Perdemos um tempo precioso a seguir uma pista absurda e passamos sem desconfiar ao lado da verdade. Porém já uma das divindades irascíveis, de servas vertiginosamente ágeis, irritava-se não mais porque eu falava, mas porque não dizia nada.

            - Mas fale, está livre! Há tempos que está em comunicação; se não falar, desligo. -

            Mas ela não fez nada e, ao mesmo tempo que suscitava a presença de Andrée, envolveu-a, grande poeta que é sempre uma telefonista, da atmosfera peculiar à casa, ao bairro, à própria vida da amiga de Albertine.

            - É você? - disse Andrée, cuja voz era projetada até mim com uma velocidade instantânea pela deusa que tem o privilégio de tornar os sons mais rápidos que o relâmpago.

            - Escute - respondi - vá aonde quiser, menos à casa da Sra. Verdurin. É preciso a todo custo amanhã afastar Albertine de lá.

            - Mas é que justamente ela deve ir lá amanhã.

            - Ah!

            Mas eu era obrigado a me interromper por um instante e fazer gestos ameaçadores, pois, se Françoise continuava como se se tratasse de coisa tão desagradável como a vacina ou tão perigosa como o aeroplano a não querer aprender a telefonar, o que, se nos teria aliviado das comunicações de que ela poderia ficar sabendo sem inconveniente, em compensação entrava imediatamente no meu quarto quando me dispunha a dar telefonemas bastante secretos para que fizesse questão de lhes ocultar.

            Por fim, quando ela saiu do quarto, não sem demorar-se apanhando vários objetos que ali estavam desde a véspera e onde poderiam ter permanecido uma hora a mais sem incomodar ninguém por nada neste mundo, e para recolocar uma acha de lenha no fogo, medida totalmente inútil devido ao calor abrasador que me davam a presença da intrusa e o medo de ter a ligação cortada:

            - Perdão - disse eu a Andrée -, fui atrapalhado. Tem certeza absoluta de que ela devia ir amanhã à casa dos Verdurin?

            - Absoluta, mas posso dizer a ela que isto o aborrece.

            - Não, pelo contrário, é possível que eu vá com vocês.

            - Ah! - fez Andrée com voz contrariada e como que surpresa pela minha audácia, que aliás não fez mais que se afirmar.

            - Então, deixo-a, e desculpe por tê-la incomodado por nada.           

            - De modo algum - disse Andrée, e (como agora o uso do telefone se tornara comum, em torno dele desenvolvera-se o adorno de frases especiais, como antigamente ao redor dos "chás") acrescentou: -Tenho grande prazer em ouvir a sua voz.

            Eu poderia dizer outro tanto, e mais verdadeiramente que Andrée, pois acabara de ficar infinitamente sensível à sua voz, não tendo até então reparado que era tão diferente das outras. Então, lembrei-me de outras vozes mais, sobretudo vozes de mulheres, umas vagarosas por causa da precisão de uma pergunta e devido à atenção do espírito; outras sufocadas, até mesmo interrompidas, pela onda lírica do que estão contando; lembrei-me, uma a uma, das vozes das moças que havia conhecido em Balbec, depois da de Gilberte, depois da de minha avó, depois da Sra. de Guermantes, achei-as todas dissemelhantes, moldadas numa linguagem particular a cada uma, tocando todas um instrumento diverso, e disse comigo que pífio concerto devem dar no Paraíso os três ou quatro anjos músicos dos velhos pintores, quando eu via elevar-se para Deus, às dezenas, às centenas, aos milhares, a harmoniosa e multissonora saudação de todas as Vozes. Não desliguei o telefone sem agradecer, com algumas palavras propiciatórias, àquela que reina sobre a velocidade dos sons, por ter querido usar em favor de minhas humildes palavras, de um poder que as tornava cem vezes mais rápidas que o trovão. Mas minhas ações de graça não tiveram como resposta senão o serem cortadas.

            Quando Albertine voltou para o meu quarto, usava um vestido de cetim preto que contribuía para torná-la mais pálida, fazer dela a parisiense lívida, ardente, estiolada pela falta de ar, pela atmosfera das multidões e talvez pelo hábito do vício,e cujos olhos pareciam mais inquietos porque não os animava o rubor das faces.

            - Adivinhe - disse eu - a quem acabo de telefonar: a Andrée.

            - A Andrée?! - exclamou Albertine em tom estridente, surpreso, emocionado, que uma notícia tão simples não comportava. - Espero que ela pensou em lhe dizer que tínhamos encontrado a Sra. Verdurin outro dia.

            - A Sra. Verdurin? Não me lembro - respondi, parecendo estar pensando em outra coisa, a um tempo para mostrar-me indiferente a tal encontro e para não trair Andrée, que me dissera aonde Albertine iria no dia seguinte. Mas quem sabe se a própria Andrée não me trairia, se amanhã não contaria a Albertine que eu lhe pedira que evitasse, seja a que preço fosse, que ela comparecesse aos Verdurin, e se ela já não lhe revelara que várias vezes eu lhe tinha feito recomendações análogas? Ela me garantira jamais tê-las repetido, mas o valor dessa afirmação era contrabalançado em meu espírito pela impressão de que já não via mais no rosto de Albertine a confiança que durante tanto tempo ela tivera em mim.

            No amor, o sofrimento cessa por instantes, mas para assumir um aspecto diverso. Choramos ao ver a mulher a quem amamos já não ter para conosco aqueles impulsos de simpatia, aqueles avanços amorosos do princípio; sofremos ainda mais ao ver que, não os tendo mais conosco, tenha-os com outros; depois somos distraídos desse sofrimento por um novo mal, mais atroz, a suspeita de que ela nos mentiu sobre a noite da véspera, onde ela sem dúvida nos traiu; tal suspeita igualmente se dissipa, a gentileza demonstrada por nossa amiga nos acalma; mas então uma frase esquecida nos volta ao espírito, disseram-nos que ela era ardente no gozo, e todavia sempre a conhecêramos tranqüila; tentamos imaginar o que teriam sido os seus frenesis com outros, percebemos o pouco que somos para ela, reparamos num ar de tédio, de nostalgia, de tristeza, enquanto falamos, reparamos, como se fossem um céu negro, nos vestidos descuidados que ela põe quando está conosco, guardando para os outros aqueles com que procurava a princípio deslumbrar-nos. Se, ao contrário, ela é carinhosa, que alegria por um instante! Mas, vendo essa lingüinha esticada como para um chamado dos olhos, pensamos naquelas a quem tantas vezes era dirigido esse chamado, que, mesmo talvez junto a mim, sem que Albertine pensasse nelas, tinha persistido como um sinal maquinal, por causa de um longo hábito. Depois, retorna a sensação de que a aborrecemos. Mas, subitamente, tal sofrimento se reduz a bem pouco ao pensarmos nos maus procedimentos desconhecidos de sua vida, nos lugares, impossíveis de conhecer, em que ela esteve, aonde vai ainda nas horas em que não estamos a seu lado, se mesmo ela não tenciona viver definitivamente nesses lugares, lugares em que está longe de nós, não é nossa, e sente-se mais feliz do que conosco. Tais são as eventualidades do ciúme.

            O ciúme é também um demônio que não pode ser exorcizado, e sempre reaparece, encarnado sob uma nova forma. Mesmo que chegássemos a exterminar todas elas, a guardar perpetuamente aquela a quem amamos, o Espírito do Mal tomaria então uma outra forma, ainda mais patética, o desespero de não ter obtido a fidelidade senão pela força, o desespero de não ser amado.

            Entre Albertine e mim havia muitas vezes o obstáculo de um silêncio feito sem dúvida de agravos que ela calava, pois julgava-os irreparáveis. Por mais terna que se mostrasse em certas noites, Albertine já não possuía aqueles movimentos espontâneos que eu lhe conhecera em Balbec quando ela me dizia:

            - Mas como você é gentil! -e o fundo do seu coração parecia vir até mim sem a reserva de nenhum

desses agravos que ela tinha agora, e que calava, pois sem dúvida julgava-os irreparáveis, impossíveis de esquecer, inconfessados, mas que, nem por isso deixavam de erguer entre nós a significativa prudência de suas palavras ou o intervalo de um silêncio intransponível.

            - E pode-se saber por que telefonou a Andrée?

            - Para perguntar se não ficaria contrariada se eu me juntasse à vocês amanhã e, assim, fazer aos Verdurin a visita que lhes prometo desde a Raspeliere.

            - Como quiser. Mas previno-o de que há um terrível nevoeiro esta noite e que certamente haverá outro amanhã. Digo isto porque não gostaria que você passasse mal. Sabe muito bem que, por mim, prefiro que venha conosco. Aliás - acrescentou com ar preocupado - não sei absolutamente se irei à casa dos Verdurin. Fizeram-me tantas gentilezas que, no fundo, eu deveria ir. Depois de você, foram as pessoas que me trataram melhor, mas há umas coisinhas que me desagradam na casa deles. É absolutamente necessário que eu vá ao Bon Marché ou aos Trois Quartiers para comprar um lenço branco para o pescoço, pois este vestido é escuro demais.

            Deixar Albertine ir sozinha à uma grande loja percorrida por tantas pessoas em quem a gente se esfrega, dotada de tantas saídas que se pode alegar que não se encontrou o carro, que esperava um pouco além, era coisa que eu estava resolvido a não consentir, mas sobretudo sentia-me infeliz. E no entanto, não percebia que de há muito deveria ter cessado de ver Albertine, pois para mim, ela havia entrado naquele período lamentável em que uma criatura, disseminada no espaço e no tempo, já não é para nós uma mulher, mas uma série de eventos sobre os quais não podemos fazer luz, uma série de problemas insolúveis, um mar que ridiculamente procuramos, como Xerxes, chicotear para puni-lo pelo que engoliu. Uma vez principiado esse período, estamos forçosamente derrotados. Felizes aqueles que o compreendem logo para não prolongar uma batalha inútil, exaustiva, cercada de todas as partes pelos limites da imaginação e onde o ciúme se debate tão vergonhosamente que o mesmo homem que outrora, se os olhares da que estava sempre a seu lado se dirigiam para um outro, imaginava uma intriga e experimentava tantos tormentos, resigna-se depois a deixá-la sair sozinha, às vezes com aquele que sabe ser seu amante, preferindo, ao que não pode conhecer, essa tortura ao menos conhecida! É uma questão de ritmo a adotar e que é seguido por hábito. Nervosos que não poderiam faltar a um jantar e que bem depois fazem curas de repouso nunca suficientemente longas; mulheres, ainda recentemente levianas, vivem na penitência; ciumentos que, para espionar a mulher amada, privam-se do sono, do repouso, sentindo que os desejos dela, o mundo tão vasto e tão secreto, e o tempo são mais fortes que eles, deixam-na sair sem a sua companhia, e depois viajar, e depois se separam. Assim, o ciúme acaba por falta do que alimentar-se e só durou tanto devido a tê-los reclamado sem parar. Eu estava bem longe desse estado.

            É claro que o tempo de Albertine me pertencia em quantidades superiores que em Balbec. Agora eu era livre para passear com ela quantas vezes quisesse. Como não demorara que se construíssem campos de aviação ao redor de Paris, e que são para os aeroplanos o que os portos representam para os navios, e como, desde o dia em que, perto da Raspeliere, o encontro quase mitológico com um aviador, cujo vôo fizera encabritar o meu cavalo, tinha sido para mim como uma imagem da liberdade, eu gostava muitas vezes que, ao entardecer, o fim das nossas jornadas - aliás agradável à Albertine, apaixonada por todos os esportes -fosse um desses aeródromos. Íamos para lá, atraídos ambos por essa vida incessante de partidas e chegadas que conferem tanto encanto aos passeios pelo cais ou apenas pela praia para aqueles que apreciam o mar, e às andanças em torno de um centro de aviação, para os que gostam do céu. A todo instante, por entre o descanso dos aparelhos inertes e como que ancorados, víamos um deles sendo tirado penosamente por vários mecânicos, como é arrastado sobre a areia um barco pedido por um turista que deseja dar um passeio no mar. Depois o motor era posto em funcionamento, o aparelho corria, tomava impulso e por fim, de repente, em ângulo reto, elevava-se lentamente no êxtase rígido, como que imobilizado, de uma velocidade horizontal súbito transformada em majestosa ascensão vertical. Albertine não podia conter o júbilo e pedia explicações aos mecânicos que regressavam, agora que o aparelho se pusera a voar. Entretanto, o passageiro não tardava a transpor quilômetros, e o grande esquife sobre o qual não cessávamos de fixar os olhos não era mais no azul do que um ponto quase indistinto, o qual, aliás, ia retomando aos poucos a sua materialidade, sua grandeza, seu volume, quando, aproximando-se do fim o tempo do passeio, chegava o momento de voltar a seu porto. Albertine e eu olhávamos com inveja, no instante em que saltava em terra, o passeante que desse modo fora desfrutar ao largo, naqueles horizontes solitários, o sossego e a limpidez da tarde. Depois, fosse do aeródromo, fosse de algum museu ou igreja que tivéssemos ido visitar, voltávamos juntos para a hora do jantar. E todavia eu não regressava calmo, como me sentia em Balbec, depois dos passeios mais raros de que me orgulhava durassem toda uma tarde, e que contemplava a seguir, destacando-se em belos maciços de flores sobre o resto da vida de Albertine como sobre um céu vazio diante do qual a gente sonha suavemente, sem pensar. O tempo de Albertine, por essa época, não me pertencia em quantidades tão amplas como hoje. No entanto, parecia-me então muito mais meu, porque eu só levava em consideração o meu amor regozijando-se como se fosse uma dádiva as horas que ela passava comigo; agora o meu ciúme procurando nelas, com inquietude, a possibilidade de uma traição; eu só levava em conta as horas que ela passava sem mim. Ora, amanhã ela iria desejar que houvesse tais horas. Seria preciso escolher entre cessar de sofrer e deixar de amar. Pois, assim como no princípio é formado pelo desejo, o amor, depois, só é mantido pela ansiedade dolorosa. Sentia que uma parte da vida de Albertine me escapava. O amor, tanto na ansiedade dolorosa como no desejo feliz, é a exigência de um todo. Ele só nasce, só subsiste se resta uma parte a conquistar. Só se ama aquilo que não se possui completamente. Albertine mentia ao dizer que certamente não iria visitar os Verdurin, como eu mentia ao dizer que desejava ir à casa deles. Ela procurava somente impedir-me de sair em sua companhia, e eu, devido ao brusco anúncio desse projeto, que de modo algum contava pôr em execução, queria ferir nela o ponto que adivinhava ser o mais sensível, atacar o desejo que ela ocultava e forçá-la a confessar que minha presença junto dela amanhã, a impediria de satisfazê-la. Em suma, ela o fizera ao deixar bruscamente de querer ir à casa dos Verdurin.

            - Se você não quer ir visitar os Verdurin -disse eu -, há no Trocadero uma representação magnífica de caráter beneficente.-

            Ela ouvia a minha sugestão com ar dolente.

            Voltei a ser duro com ela, como em Balbec, nos tempos do meu primeiro ciúme. Seu rosto refletia uma decepção e empreguei para censurar a minha amiga os mesmos motivos que tantas vezes me haviam sido dados por meus pais quando eu era criança e que me tinham parecido desinteligentes e cruéis à minha infância incompreendida.

            - Não. - apesar do seu ar triste dizia eu à Albertine - não posso lamentá-la; lamentaria se você estivesse enferma, se lhe houvesse acontecido uma desgraça, se tivesse perdido um parente; o que talvez não lhe desse nenhum pesar, devido ao desperdício de falsa sensibilidade que você faz por um nada. Além disso, não aprecio a sensibilidade de pessoas que tanto pretendem nos amar, sem serem capazes de nos prestar o menor serviço e cujo pensamento, ao se voltar para nós, as deixa tão distraídas que se esquecem de levar a carta que lhes confiamos e da qual depende o nosso futuro.

            Tais palavras, pois uma grande parte do que dizemos não passa de um recitativo, eu as ouvira pronunciar todas por minha mãe, a qual (explicando-me de bom grado que não convinha confundira verdadeira sensibilidade, o que, dizia ela, os alemães, cujo idioma admirava bastante, apesar do horror de meu pai por aquele país, denominavam Empfindung, com o sentimentalismo, Empfindelei) chegara certa vez a ponto de dizer, quando eu estava chorando, que Nero talvez fosse nervoso e não era melhor por causa disso. Na verdade, como essas plantas que se desdobram ao crescer, havia agora, diante da criança sensitiva que eu exclusivamente fora, um homem completamente diverso, cheio de bom senso, severo para com a sensibilidade doentia dos outros, um homem parecido com o que meus pais tinham sido para mim.

            Sem dúvida, visto que cada um deve fazer continuar em si a vida dos seus, o homem ponderado e zombeteiro, inexistente em mim no começo, juntara-se ao sensível, e era natural que eu por minha vez fosse igual ao que meus pais tinham sido. Ademais, no momento em que este novo eu se formava, encontrava a sua linguagem já pronta na lembrança da outra, irônica e rabugenta, que empregaram comigo e que eu agora usava com os outros, e saía muito naturalmente da minha boca, seja porque a evocasse por mimetismo e associação de lembranças, seja também porque as delicadas e misteriosas incrustações do poder genésico tivessem desenhado em mim, sem que o soubesse, como sobre a folha de uma planta, as mesmas entonações, os mesmos gestos, as mesmas atitudes que tinham tido aqueles de quem me originara. Pois, às vezes, bancando o homem prudente quando falava a Albertine, parecia estar ouvindo minha avó. De resto, não sucedera a minha mãe (de tantas obscuras correntes inconscientes refletirem em mim, até aos menores movimentos dos meus dedos para arrastá-los nos mesmos ciclos que meus pais) acreditar que se tratava de meu pai entrando, de tal modo eu tinha a mesma forma de bater que ele? Por outro lado, o acoplamento de elementos contrários é a lei da vida, o princípio da fecundação e, conforme veremos, a causa de muitas infelicidades. De hábito, detestamos o que nos é semelhante, e nossos próprios defeitos vistos de fora nos exasperam. Ainda mais quando alguém, que passou da idade em que os expressamos ingenuamente e que, por exemplo, assume um ar glacial nos momentos mais ardentes, execra os mesmos defeitos se se trata de outro, mais jovem ou mais ingênuo, ou mais bobo, que os exprime! Há pessoas sensíveis para quem a visão, nos olhos alheios, de lágrimas que eles próprios contêm, é exasperadora.

            É a máxima semelhança que faz com que, apesar da afeição, e às vezes quanto maior é a afeição, reine a divisão nas famílias. Talvez em mim, e em muitos, o segundo homem em que eu me tornara era simplesmente uma face do primeiro, exaltado e sensível ao lado de si mesmo, sábio Mentor para os outros. Talvez o mesmo ocorresse com meus pais, conforme fossem considerados em relação a mim ou em si mesmos. E, quanto a minha avó e minha mãe, era bastante visível que a severidade delas comigo era proposital e até mesmo lhes custava, mas talvez até no meu pai não seria a frieza apenas um aspecto exterior de sua sensibilidade? Pois não era talvez a verdade humana desse duplo aspecto, aspecto da vida interior e aspecto da vida das relações sociais, o que se expressava nestas palavras que outrora me pareciam tão falsas em seu sentido quanto plenas de banalidade em sua forma, quando se dizia, falando de meu pai:

            - Sob sua frieza glacial, esconde uma sensibilidade extraordinária; o que ele possui, acima de tudo, e o pudor de sua sensibilidade. -

            No fundo, não ocultava incessantes e secretas tempestades, aquela calma semeada, se preciso, de reflexões sentenciosas, de ironia pelas manifestações desastradas da sensibilidade, calma que era a sua, mas que agora também eu afetava diante de todos e de que não me afastava, em certas circunstâncias, diante de Albertine?

            Creio que, naquele dia, eu verdadeiramente ia decidir a nossa separação e seguir para Veneza. O que me prendeu de novo à minha ligação disse respeito à Normandia, não que Albertine manifestasse alguma intenção de viajar àquela região, onde eu tinha tido ciúmes dela (pois, por sorte, os seus projetos nunca tocavam nos pontos dolorosos das minhas recordações), mas porque, tendo-lhe dito:

            - É como se eu lhe falasse da amiga de sua tia que mora em InfreviIle-, ela respondera, encolerizada, feliz como toda pessoa que discute e que deseja para si o maior número possível de argumentos, para mostrar que eu estava errado e ela certa:

            - Mas minha tia jamais conheceu alguém em Infreville, e eu mesma nunca estive lá. -

            Havia esquecido a mentira que me dissera uma noite acerca da dama suscetível em cuja casa era de todo necessário que fosse tomar chá, ainda que, indo visitar essa dama, corresse o risco de perder minha amizade e ter de se matar. Não lhe recordei a mentira. Mas fiquei acabrunhado. E adiei o rompimento para outra ocasião. Não é necessária a sinceridade, e nem mesmo a destreza na mentira, para ser amado. Aqui, chamo de amor uma tortura recíproca. Nessa noite, eu não achava de modo algum repreensível falar-lhe como minha avó, tão perfeita, fizera comigo, nem, para lhe dizer que a acompanharia à casa dos Verdurin, ter adotado a maneira brusca de meu pai, o qual jamais nos comunicava uma decisão a não ser do jeito que nos pudesse causar o máximo de uma agitação desproporcionada, nesse grau, à própria decisão. De modo que estava coberto de razão quando nos achava absurdos de mostrarmos tanta angústia por tão pequena coisa, angústia que de fato correspondia à comoção que nos causara. E como (da mesma forma que o bom senso inflexível de minha avó) essas veleidades arbitrárias de meu pai viessem completar em mim a natureza sensível a que tinham permanecido por tanto tempo alheias, e a qual durante toda a minha infância fizeram sofrer tanto, essa natureza sensível informava-se bem exatamente sobre os pontos que deviam visar com eficácia: não existe melhor delator que um antigo ladrão, ou do que um súdito da nação que se guerreia. Em certas famílias mentirosas, um irmão que vem visitar outro irmão sem motivo aparente e lhe pede casualmente, à porta da rua, ao sair, uma informação que nem sequer parece ouvir, por isso mesmo dá a entender ao irmão que tal informação era a finalidade de sua visita, pois o irmão bem conhece aquele ar desligado, aquelas palavras ditas como que entre parênteses no último minuto, pois ele próprio as empregou várias vezes. Ora, existem igualmente famílias patológicas, sensibilidades aparentadas, temperamentos fraternos, iniciados nesse tácito idioma que faz com que em família as pessoas se compreendam sem falar. Assim, quem mais que um nervoso pode ser enervante? E além do mais, talvez houvesse na minha conduta, nesses casos, uma causa mais geral, mais profunda. É que, nesses momentos breves, porém inevitáveis, quando se detesta a quem se ama-esses momentos que duram às vezes toda a vida com as pessoas de quem não se gosta-, não desejamos parecer bons, para que não tenham pena de nós; queremos ao mesmo tempo ser malvados e cruéis o mais possível para que nossa felicidade seja verdadeiramente odiosa e ulcere a alma do nosso inimigo ocasional ou duradouro. Diante de quantas pessoas não fui eu mentirosamente caluniado, apenas para que meus "êxitos" lhes parecessem imorais e os encarniçassem ainda mais contra mim! Seria preciso seguir o caminho inverso, mostrar sem orgulho que temos bons sentimentos, em vez de os esconder tanto. O que seria fácil se soubéssemos jamais odiar, amar sempre. Pois então seríamos tão felizes por só dizer as coisas que podem dar alegria aos outros, enternecê-los, fazer com que nos amem!

            Decerto eu sentia um pouco de remorso por ser tão irritante para com Albertine, e dizia comigo: "Se não a amasse, ela me teria maior reconhecimento, pois eu não seria ruim com ela; mas não, isto se compensaria, pois eu também seria menos amável." E, para me justificar, poderia lhe dizer que a amava. Mas a confissão desse amor, além de não trazer novidade alguma a Albertine, talvez a deixasse mais fria a meu respeito do que as durezas e ardis de que justamente o amor era a única desculpa.

            É tão natural ser duro e ardiloso com quem se ama! Se o interesse que demonstramos aos outros não nos impede de sermos doces com eles e complacentes com aquilo que desejam, é que esse interesse é uma mentira. O próximo nos é indiferente, e a indiferença não convida à maldade.

            A noite passava; antes que Albertine fosse deitar-se, não havia tempo a perder se quiséssemos fazer as pazes e recomeçar com os beijos. Nenhum de nós ainda tomara a iniciativa.

            Sentindo que ela estava realmente zangada, aproveitei para lhe falar de Esther Lévy.

            - Bloch me disse (o que não era verdade) que você conhecera muito bem a sua prima Esther.

            - Eu nem sequer a reconheceria - disse Albertine com ar vago.

            - Vi a fotografia dela - acrescentei furioso. Ao dizer isto, não encarava Albertine, de modo que não vi sua expressão, que teria sido a única resposta, pois ela não disse nada.

            Já não era o sossego do beijo de minha mãe em Combray o que eu sentia junto de Albertine nessas noites, mas, ao contrário, a angústia daqueles dias em que minha mãe mal me dava boa-noite, ou até nem subia para o meu quarto, ou porque estivesse zangada comigo ou porque a retivessem os convidados. Essa angústia, não a sua transposição para o amor, não, essa própria angústia, que por algum tempo se especializara no amor, que se destinara unicamente a ele, depois de operada a partilha, a divisão das paixões, agora parecia de novo estender-se a todas, tornada outra vez indivisa, assim como na minha infância, como se todos os meus sentimentos, que estremeciam à idéia de não poder conservar Albertine junto ao meu leito, a um tempo como amante, como irmã, como filha, como mãe igualmente, de cujo boa-noite cotidiano eu recomeçava a sentir a necessidade pueril, tivessem começado a reunir-se, a se unificar na noite prematura da minha vida, que parecia ser tão breve como um dia de inverno. Mas, se eu experimentava a angústia de minha infância, a mudança da criatura que me fazia senti-la, a diferença de sentimento que ela me inspirava, a própria transformação do meu caráter, tornavam impossível reclamar-lhe o alívio como outrora à minha mãe. Eu já não sabia dizer: "Estou triste."

            Com a morte na alma, limitava-se a falar de coisas indiferentes que não me adiantavam em nada para uma solução feliz. Repisava em dolorosas banalidades. E com aquele egoísmo intelectual que, por menos que uma verdade insignificante se refira ao nosso amor, nos faz ter em grande conta aquele que a encontrou, talvez tão casualmente como a cartomante que nos anunciou um fato banal mas que desde então se cumpriu, eu não estava muito longe de acreditar Françoise superior a Bergotte e a Elstir, porque me dissera em Balbec:

            - Essa moça lhe dará desgostos.

            Cada minuto me aproximava do boa-noite de Albertine, que por fim ela me dava. Mas naquela noite o seu beijo, de onde ela própria estava ausente e que não me encontrava, fazia-me tão ansioso que, o coração palpitante, eu a contemplava ir até a porta, pensando: "Se quero achar um pretexto para chamá-la, retê-la, fazer as pazes, preciso apressar-me, ela só precisa de mais alguns passos para sair do quarto, mais dois, mais um, ela gira a maçaneta, abre, é tarde, já fechou a porta." Talvez não fosse tarde demais, apesar de tudo. Como antigamente em Combray, quando minha mãe me havia deixado sem me sossegar com seu beijo, eu queria lançar-me no encalço de Albertine, sentia que não teria sossego enquanto não a visse de novo, que o fato de revê-la iria tornar-se algo imenso como ainda não ocorrera até ali, e que, se não conseguisse me livrar sozinho dessa tristeza, talvez adquirisse o hábito vergonhoso de ir mendigar aos pés de Albertine; saltei da cama quando ela já estava em seu quarto, andava para cá e para lá no corredor, esperando que ela saísse e me chamasse; permanecia imóvel diante de sua porta, para não me arriscar a não ouvir um débil chamado, entrava por um instante em meu quarto para ver se minha amiga por felicidade não tinha esquecido um lenço, uma bolsa, alguma coisa que eu pudesse fingir recear que lhe fizesse falta e que me desse o pretexto de ir a seu quarto. Não, nada. Voltava a postar-me diante de sua porta. Mas na frincha desta já não havia luz, Albertine já a apagara, estava deitada, eu ficava lá, imóvel, esperando não sei que oportunidade que não vinha; e muito tempo depois, gelado, tornava a me deitar sob os cobertores e chorava a noite inteira.

            Assim, às vezes, em certas noites, recorria um ardil que me proporcionava o beijo de Albertine. Sabendo o quanto era rápido o seu adormecimento logo que se estendia na cama (ela também o sabia, pois instintivamente, quando se deitava, descalçava as sandálias que eu lhe dera, e o anel, que punha a seu lado, como fazia em seu quarto ao se acomodar), sabendo o quanto era profundo o seu sono e carinhoso o seu despertar, agarrava-me a um pretexto para ir buscar alguma coisa, fazia-a estender-se em minha cama. Quando voltava, ela adormecera, e eu via diante de mim aquela outra mulher em que se transformava quando estava inteiramente de frente. Mas ela mudava depressa de personalidade, pois eu me estendia a seu lado e a reencontrava de perfil. Podia pôr a minha mão na sua, nos seus ombros, no seu rosto, que Albertine continuava a dormir. Podia segurar sua cabeça, virá-la, encostá-la nos meus lábios, rodear meu pescoço com seus braços, e ela continuava a dormir como um relógio de bolso que não pára, como um bicho que continua vivendo qualquer que seja a posição que lhe dêem, como uma trepadeira, uma ipoméia que continua a estender seus ramos, seja qual for o arrimo de que disponha. Apenas o seu arfar se modificava a cada um dos meus contatos, como se ele fosse um instrumento que eu tocasse e ao qual fizesse executar modulações, tirando notas diferentes de uma, depois de outra de suas cordas. Meu ciúme se acalmava, pois sentia que Albertine transformada num ser que respira, que não é outra coisa, como o indicava o sopro regular pelo qual se exprime essa pura função fisiológica, a qual, inteiramente fluida, não possui a espessura da palavra nem do silêncio e, em sua ignorância de todo mal, ofegar extraído antes de um caniço oco que de um ser humano, realmente paradisíaco para mim, que naqueles momentos sentia Albertine subtraída de tudo, não só material mas moralmente, era o puro cântico dos anjos. No entanto, por aquele hálito eu de súbito considerava que talvez muitos nomes humanos, trazidos pela memória, deveriam passar.

            Às vezes, até a voz humana se acrescentava a essa música. Albertine pronunciava algumas palavras. Como desejaria obter-lhes o sentido! Acontecia que o nome de uma pessoa de quem tínhamos falado e que excitava o meu ciúme, subia-lhe aos lábios, mas sem me fazer infeliz, pois a recordação que trazia parecia ser apenas a das conversas que ela tivera comigo sobre o assunto. Entretanto, certa noite, de olhos fechados, meio que acordada, disse carinhosamente dirigindo-se a mim: "Andrée." Dissimulei minha emoção.

            - Estás sonhando, não sou Andrée - retruquei rindo. Ela também sorriu:

            - Não, eu queria te perguntar o que te disse Andrée há pouco.

            - Pensei que já tinhas deitado assim junto dela.

            - Não, nunca. - disse Albertine.

            Unicamente, antes de responder isto, escondera por um instante o rosto nas mãos. Logo, seus silêncios eram apenas véus, seus carinhos superficiais no fundo somente retinham milhares de lembranças que teriam me dilacerado sua vida, portanto, era repleta desses fatos cuja narrativa trocista e cuja crônica risonha constituem nossos mexericos diários a respeito dos outros, dos indiferentes, mas que, enquanto uma criatura permanece extraviada em nosso coração, nos parecem um esclarecimento tão precioso de sua vida que, para conhecer esse mundo subjacente, daríamos de bom grado a nossa. Então o seu sono me surgia como um mundo maravilhoso e mágico, onde por instantes se eleva, do fundo do elemento apenas translúcido, a confissão de um segredo que não se compreenderá. Mas em geral, quando Albertine dormia, parecia-me que reencontrava sua inocência. Na atitude que eu lhe atribuíra mas que em seu sono ela depressa tornava sua, dava a impressão de confiar-se a mim. Sua fisionomia perdera toda e qualquer expressão de manha ou de vulgaridade, e entre ela e mim, para quem erguia o braço, sobre quem descansava a mão, parecia haver um abandono completo, um elo indissolúvel. Aliás, o seu sono não a separava de mim, deixando subsistir nela a noção de nossa ternura, tendo antes por efeito abolido o resto; eu a beijava, dizia que ia dar alguns passos lá fora, ela entreabria os olhos e me dizia, com ar espantado -e de fato já era noite:

            - Mas aonde vais desse jeito, meu querido?-e, chamando-me pelo meu prenome, logo voltava a adormecer.

            Seu sono era apenas uma espécie de apagamento do resto da vida, um silêncio uniforme onde, de vez em quando, erguiam vôo palavras familiares de carinho. Aproximando-as umas das outras, teria sido possível compor a conversação sem mistura, a secreta intimidade de um amor puro. Este sono tão calmo encantava-me como encanta à mãe, que o considera uma qualidade, o bom sono de seu filho. E com efeito o sono de Albertine era o de uma criança. Outrossim o seu despertar, e é tão natural, tão carinhoso, antes mesmo que ela se desse conta de onde estava, que às vezes eu me perguntava, com terror, se ela tivera o hábito, antes de viver comigo, de não dormir sozinha e de encontrar alguém a seu lado ao abrir os olhos. Mas sua graça infantil era mais forte. Tal uma mãe, ainda maravilha-me que sempre acordasse de bom humor. Ao cabo de alguns instantes, ela readquiria a consciência, dizia palavras encantadoras, sem relação umas com as outras, um pipilar apenas. Por uma espécie de contradança, o seu pescoço, habitualmente pouco notado, e agora quase belo demais, tomara a importância enorme que seus olhos fechados pelo sono haviam perdido, seus olhos, meus habituais interlocutores e aos quais já não podia me dirigir desde o cerrar das pálpebras. Da mesma forma que os olhos fechados conferem uma beleza inocente e grave ao rosto, suprimindo tudo o que os olhares expressam demais, nas palavras, não sem sentido, mas entrecortadas de silêncio, que Albertine pronunciava ao despertar, havia uma beleza pura que não é a todo instante manchada, como o é a conversação, de hábitos verbais, de lenga-lengas, de vestígios de defeitos. Além disso, quando me decidia a acordar Albertine, podia fazê-lo sem medo, pois sabia que seu despertar não estaria de modo algum relacionado com a noite que acabáramos de passar, mas sairia do seu sono como da noite sai a manhã. Logo que ela entreabria os olhos sorrindo, estendia-me os lábios e, antes que dissesse alguma coisa, eu já lhe saboreara o frescor, calmante como o de um jardim ainda silencioso antes do despontar do dia.

            No dia seguinte àquela noite em que Albertine me dissera que talvez fosse à casa dos Verdurin, e depois que não iria, eu acordei cedo e, ainda meio adormecido, minha alegria informou-me que era, interpolado no inverno, um dia de primavera. Lá fora, temas populares finamente escritos por instrumentos variados, desde a buzina do consertador de porcelana, ou a corneta do empalhador de cadeiras, até a flauta do cabreiro que parecia num dia lindo ser um pastor da Sicília, orquestravam de leve o ar matinal numa "Abertura para um dia de festa". A audição, este sentido delicioso, traz até nós a companhia da rua, da qual retraça todas as linhas, desenha todas as formas que passam, mostrando-nos o seu colorido. As cortinas de ferro da padaria, da leiteria, que haviam abaixado a noite anterior sobre todas as possibilidades de ventura feminina, erguiam-se agora como as leves polés de um navio que aparelha e vai zarpar, cruzando o mar transparente, sobre um sonho de jovens empregadas. Este rumor da cortina de ferro que está sendo erguida talvez fosse o meu único prazer num bairro diferente. Neste meu, cem outros formavam a minha alegria, e nem um só eu quisera perder dormindo até mais tarde. O encanto dos velhos bairros aristocráticos é serem igualmente populares. Como às vezes os tiveram as catedrais, não longe das portadas (às quais ocorreu mesmo conservarem-lhes o nome, como o da catedral de Ruão, chamada dos "Livreiros", porque junto a ela expunham estes a sua mercadoria ao ar livre), diversos pequenos ofícios, mas ambulantes, passavam diante do nobre palacete de Guermantes, e por vezes faziam pensar na França eclesiástica de outrora. Pois o apelo que lançavam às pequenas residências vizinhas nada possuía com raras exceções, de uma canção. Diferia dela tanto quanto da declamação-mal colorida por variações insensíveis de Boris Godunov e de Pélleas; mas, por outro lado, lembrava o salmodiar de um padre no decurso dos ofícios, dos quais estas cenas de rua são apenas a contrapartida ingênua, forânea, todavia meio litúrgica. Eu jamais sentira tanto prazer com elas desde que Albertine morava comigo; parecia-me um alegre sinal de seu despertar e, interessando-me pela vida lá fora, faziam-me sentir melhor a virtude calmante de uma presença querida, tão constante como a desejava.

            Certos alimentos gritados na rua, e que eu pessoalmente achava detestáveis, eram muito do gosto de Albertine, de modo que Françoise os mandava comprar pelo seu jovem lacaio, que talvez se sentisse humilhado por se ver confundido na multidão plebéia. Naquele bairro tão tranqüilo (em que os rumores já não eram um motivo de tristeza para Françoise e haviam se tornado a razão de doçura para mim) chegavam-me, cada qual com sua modulação diversa, os recitativos declamados por aquelas pessoas do povo, como o seriam na música, tão popular, de Boris, onde uma entonação inicial quase não se altera pela inflexão de uma nota que sobre outra se debruça, música da multidão que antes é uma linguagem do que uma música. Era: "Olha o marisco, olha o marisco por dez tostões!", atraindo a freguesia para os cestos onde eram vendidas essas horríveis conchinhas que, não fosse Albertine, teriam me causado repugnância, assim como os caramujos que eu ouvia serem vendidos à mesma hora. Aqui, ainda era na declamação apenas lírica de Mussorgsky que fazia pensar o vendedor, mas não somente nela. Pois, após ter quase "falado": "Os caramujos estão fresquinhos, estão bonitos", era com a tristeza e a vaguidão de Maeterlinck, musicalmente transpostas por Debussy, que o vendedor de caramujos, num desses dolorosos finais com que o autor de Pélleas se parece com Rameau ("Se devo ser vencida, serás tu o meu vencedor?"), acrescentava com sua melancolia cantante: "A trinta tostões a dúzia..."

            Sempre me foi difícil compreender porque aquelas palavras tão claras eram suspiradas num tom tão pouco adequado, misterioso, como o segredo que faz com que todos tenham a fisionomia triste no velho palácio a que Mélisande não conseguiu levar a alegria, e profundo como um pensamento do velho Arkel, que busca proferir em palavras muito simples toda a sabedoria e o destino. As próprias notas em que se eleva com doçura crescente a voz do velho rei de Allemonde, ou a de Golaud, para dizer: "Não se sabe o que acontece aqui. Isto pode parecer estranho. Talvez não existam ocorrências inúteis", ou então: "Não precisas te assustar... Era uma pobre criaturinha misteriosa, como todo mundo", eram as que serviam ao vendedor de caramujos para repetir, numa cantilena indefinida: "A trinta tostões a dúzia..." Porém essa lamentação metafísica não tinha tempo de expirar à beira do infinito; era interrompida por uma forte trombeta. Desta vez não se tratava de comidas, as palavras do libreto eram: "Tosamos cachorros, cortamos gatos, as caudas e as orelhas."

            Certo, a fantasia e o espírito de cada vendedor ou vendedora introduziam, com freqüência, variantes nas frases de todas essas músicas que eu ouvia da cama. Entretanto, uma parada ritual, pondo um silêncio em meio a uma frase, sobretudo quando era repetida duas vezes, evocava constantemente a lembrança de velhas igrejas. Em seu pequeno carro, conduzido por uma burrinha que ele fazia parar diante de todas as casas para entrar nos pátios, o vendedor de roupa, segurando um chicote, salmodiava:

"Roupas, vendem-se roupas, rou... pas" com a mesma pausa, entre as duas sílabas de "roupas", com que teria entoado em cantochão: "Per omnia saecula saeculo... rum" ou: "Requiescat in pa... ce", embora não acreditasse na eternidade de suas roupas e nem tampouco as oferecesse como sudário para o supremo repouso na paz. E da mesma forma, como os motivos principiavam a cruzar-se desde aquela hora matinal, uma vendedora de hortaliças, empurrando o seu carrinho, usava para a sua ladainha a divisão gregoriana: As hortaliças, as hortaliças Alcachofras macias e bonitas Alca-chofras embora ela fosse provavelmente ignorante do antifonário e dos sete tons que simbolizam, quatro as ciências do quadrívio e três as do trívio.

            Tirando de uma flautinha, de uma gaita de foles, as melodias de sua região meridional, cuja luz combinava bem com os dias claros, um homem de blusa, tendo à mão um vergalho e na cabeça uma boina basca, parava diante das casas. Era o cabreiro com dois cães e, à sua frente, o rebanho de cabras. Como vinha de longe, passava bem tarde no nosso bairro; e as mulheres acorriam com uma tigela para recolher o leite que devia fortalecer os seus filhinhos. Mas às melodias pirenaicas daquele pastor benfazejo misturava-se já a campainha do amolador, que gritava: "Facas, tesouras, navalhas." Com ele não podia lutar o amolador de serrotes, pois, destituído de instrumento, contentava-se em chamar: "Quem tem serrotes para amolar? Olha o amolador!", ao passo que, mais alegre, o funileiro, depois de ter enumerado os caldeirões, as caçarolas, tudo quanto ele soldava, entoava o refrão: Tão, tão, tão Conserto até o chão/ Ponho fundo em tudo/ E tapo buracos/ Raco, raco, raco e italianinhos, carregando grandes caixas de ferro pintadas de vermelho, onde estavam marcados os números perdedores e ganhadores-, e tocando matraca, convidavam:

            "Venham, venham, minhas senhoras, eis a grande diversão." Françoise me trouxe o Fígaro. Bastou um só olhar para ver que o meu artigo ainda não fora publicado. Ela me disse que Albertine indagava se podia vir ao meu quarto e me mandava dizer que, em todo caso, desistira de fazer uma visita aos Verdurin e esperava ir, como eu lhe aconselhara, à vesperal "extraordinária" do Trocadero (o que hoje chamaríamos, para coisa muito menos importante, uma vesperal de gala) depois de um passeiozinho a cavalo que faria com Andrée. Agora que eu sabia que ela renunciara a seu desejo, talvez perverso, de ir visitar a Sra. Verdurin, respondi rindo:

            - Que venha! - e disse para mim mesmo que ela podia ir aonde bem quisesse, pois para mim seria indiferente. Sabia que, no fim da tarde, quando chegasse o crepúsculo, eu sem dúvida seria um outro homem, triste, dando às menores idas e vindas de Albertine uma importância que elas não tinham naquela hora matinal, e quando o dia era tão lindo. Pois a minha despreocupação era seguida pela noção bem clara de sua causa, mas sem ser alterada por ela.

            - Françoise me assegurou que você estava acordado e que eu não incomodaria - disse Albertine entrando. E, como aquele de me causar frio abrindo a janela num momento mal escolhido, o maior medo de Albertine era o de entrar no meu quarto quando eu cochilava:

            - Espero não ter feito mal - acrescentou. - Receava que você me dissesse: Que mortal insolente vem procurar a morte?'

            E ela riu com aquele riso que tanto me perturbava. Respondi-lhe no mesmo tom gracejador:

            - Foi para vós que se deu ordem tão severa?

            E de medo que ela a infringisse alguma vez, acrescentei:

            - Embora ficasse furioso se você me acordasse.

            - Eu sei, eu sei, não tenha medo - disse Albertine.

            E, para suavizar, acrescentei, continuando a representar com ela a cena de Esther, ao passo que na rua prosseguiam os apelos que ficavam confusos devido à nossa conversa:

            - Somente em vós encontro uma tal ou qual graça. Que me deslumbra sempre, mas jamais me cansa. (e comigo mesmo dizia: "Sim, ela me cansa muitas vezes"). E lembrando-me do que ela dissera na véspera, e agradecendo-lhe com exagero por ter renunciado ir aos Verdurin, para que de outra vez me obedecesse da mesma forma nisso ou naquilo, observei:

            - Albertine, você desconfia de mim, que muito a amo, e tem confiança em pessoas que não gostam de você (como se não fosse natural desconfiar das pessoas que nos amam e são as únicas que têm interesse em nos mentir para saber, para nos opor obstáculos).

            E acrescentei estas palavras mentirosas:

            - No fundo, você não acredita que eu a ame, é engraçado. De fato, não a adoro. -

            Ela por sua vez mentiu, dizendo que só confiava em mim, e a seguir foi sincera, garantindo que sabia muito bem que eu a amava. Mas tal afirmação não parecia implicar que ela não me julgasse mentiroso e capaz de espioná-la. E parecia perdoar-me, como se visse aí a conseqüência insuportável de um grande amor, ou como se ela mesma se achasse menos bondosa.

            - Peço-lhe, minha querida, nada de cabriolas como fez outro dia. Pense, Albertine, se lhe ocorre um acidente! -

            Mas é claro que não lhe desejava nenhum mal. Mas que bom seria se, com seus cavalos, ela tivesse a boa idéia de partir não sei para onde, onde se sentisse feliz, e de nunca mais voltar para a minha casa! Como tudo se simplificaria se ela fosse viver feliz algures, e nem mesmo me importava saber onde!

            - Oh, sei muito bem que você não sobreviveria quarenta e oito horas, acabaria se matando!

            Assim, trocávamos palavras mentirosas. Mas uma verdade mais profunda do que essa que proferiríamos se fôssemos sinceros pode às vezes ser expressa e prenunciada por outro meio que o da sinceridade.

            - Esses barulhos todos na rua não o incomodam? - perguntou ela-; pois eu os adoro. Mas você que tem o sono tão leve?-

            Ao contrário, eu o tinha às vezes bem profundo (como já disse, mas como o episódio que se segue me obriga a recordá-lo) e sobretudo quando só adormecia pela manhã. Como tal sono foi em média quatro vezes mais repousante, parece ter sido quatro vezes mais longo àquele que dormiu, quando de fato foi quatro vezes mais curto. Magnífico erro de uma multiplicação por dezesseis que confere tanta beleza ao despertar e na vida introduz uma verdadeira inovação, semelhante àquelas grandes mudanças de ritmo que, na música, fazem com que uma colcheia, no andante, tenha a mesma duração que uma mínima num prestissimo, e que são desconhecidas no estado de vigília. A vida aí é quase sempre a mesma, de onde as decepções da viagem. No entanto, bem parece que o sonho é feito às vezes da matéria mais grosseira da vida, mas tal matéria aí é tratada, amassada de tal modo, com um alongamento devido a que nenhum dos limites horários do estado de vigília a impede de desprender-se a tão enormes alturas, que ninguém mais a reconhece. Nas manhãs em que esta boa sorte me ocorria, em que a esponja do sono apagara do meu cérebro os sinais das ocupações diárias que nele são traçadas como num quadro-negro, eu precisava fazer reviver a minha memória; à força de vontade, pode-se reaver o que a amnésia do sono ou de um ataque fez olvidar e que renasce aos poucos, à medida que os olhos se abrem ou que a paralisia desaparece. Eu vivera tantas horas em alguns minutos que, desejando falar a Françoise, a quem chamara, numa linguagem conforme a realidade e de acordo com a hora, era obrigado a empregar todo o meu poder interno de compreensão para não dizer: "Ora, Françoise, já são cinco horas da tarde e não vejo você desde ontem à tarde." E para repelir os meus sonhos, em contradição com eles, mentindo para mim mesmo, eu dizia atrevidamente, e reduzindo-me com todas as minhas forças ao silêncio, palavras opostas:

            - Françoise, já são dez horas! -

            Eu nem dizia dez horas da manhã, mas simplesmente dez horas, para que essas dez horas, tão incríveis, dessem a impressão de ser pronunciadas no tom mais natural. Todavia, dizer essas palavras em vez daquelas que continuava a pensar, mal desperto, o dormidor que eu era ainda, exigia o mesmo esforço de equilíbrio que a alguém que, saltando de um trem em movimento e correndo por um instante ao longo da linha, consegue entretanto não cair. Corre por um instante porque o meio que abandona é um meio animado de grande velocidade, e muito diverso do solo inerte ao qual seus pés têm alguma dificuldade de se adaptar. Pelo fato de que o mundo do sono não é o mundo da vigília, daí não se segue que o mundo da vigília seja menos verdadeiro, pelo contrário. No mundo do sono as nossas percepções são de tal forma sobrecarregadas, cada qual engrossada por outra, superposta, que a reduplica e inutilmente a deixa cega, que nem sequer sabemos distinguir o que se passa no aturdimento do despertar; Françoise é quem viera ou fora eu que, cansado de chamá-la, tinha ido ao seu encontro? O silêncio naquele instante era o único meio de nada revelar, como no momento em que somos presos por um juiz instruído de circunstâncias que nos dizem respeito, mas das quais não temos conhecimento. Viera Françoise ou fora eu quem a chamara? Talvez Françoise é que dormia e eu a tinha despertado. Ainda mais, não estaria Françoise encerrada no meu peito, e a distinção das pessoas e sua interação existindo apenas nessa parda escuridão em que a realidade é tão pouco translúcida como no corpo de um porco-espinho, e onde a percepção quase nula talvez possa dar a idéia da de certos animais? Além disso, mesmo na límpida loucura que antecede esses sonos mais pesados, flutuam-se luminosamente alguns fragmentos de sabedoria, se os nomes de Taine e de George Eliot ali não são ignorados, nem por isso resta menos, para o mundo da vigília, aquela superioridade de ser possível continuar a cada manhã, o que não sucede a cada noite com o sonho. Mas talvez haja outros mundos mais reais que o da vigília. Aliás, temos visto que mesmo este é transformado a cada revolução nas artes, e muito mais, ao mesmo tempo, pelo grau de aptidão ou de cultura que diferencia um artista de um tolo ignorante.

            E muitas vezes uma hora de sono a mais é um ataque de paralisia após o qual é preciso reencontrar o uso dos membros, reaprender a falar. A vontade não o conseguiria.

            Dormiu-se demais, não se é mais. O despertar é apenas sentido mecanicamente e sem consciência, como o pode ser num tubo o fechamento de uma torneira. Sucede-se uma vida mais inanimada que a da medusa, na qual bem que se poderia imaginar que se está sendo retirado do fundo do mar ou voltando do banho, caso fosse possível pensar alguma coisa. Mas então, do alto dos céus, a deusa Mnemotecnia se inclina e nos confere, sob a forma "hábito de pedir o café com leite", a esperança da ressurreição. [Mnemotecnia: arte e técnica de desenvolver a memória. Aqui o termo é empregado em vez do nome da deusa da memória entre os gregos, Mnemósine. (N. do T)]

            E mesmo o dom súbito da memória nem sempre é tão simples. Temos muitas vezes junto a nós, nesses primeiros minutos em que nos deixamos deslizar para fora do sono, uma gama de realidades diversas onde julgamos poder escolher como num jogo de cartas. É manhã de sexta-feira e voltamos do passeio, ou então é a hora do chá à beira-mar.

            A idéia do sono e de que estamos deitados de camisola é muitas vezes a última que se nos apresenta. A ressurreição não chega de imediato, pensamos ter tocado a campainha e não o fizemos, agitamos palavras loucas no cérebro. Só o movimento é que nos devolve o raciocínio e, quando efetivamente tocamos a campainha, podemos dizer devagar mas com nitidez:

            - Já são dez horas. Françoise, traga-me o café com leite.

            Ó milagre! Françoise não pudera imaginar o oceano de irrealidade que ainda me banhava todo e através do qual eu tivera a energia de fazer passar minha estranha pergunta. De fato, ela me respondeu:

            - São dez e dez - o que me dava uma aparência razoável e me permitia não deixar perceber as conversas esquisitas que me haviam acalentado interminavelmente, nos dias em que não fora uma montanha do Nada que me cancelara a vida. A força de vontade eu me reintegrara no real. Desfrutava ainda dos destroços do sono, ou seja, da única invenção, do único renovo que existe no modo de contar, não comportando todas as narrativas em estado de vigília, ainda que embelezadas pela literatura, essas misteriosas diferenças de onde deriva a beleza. É fácil falar da que o ópio originou. Mas, para um homem habituado a só dormir sob o efeito de drogas, uma hora inesperada de sono natural desvendará a imensidão matinal de uma paisagem tão misteriosa e de maior frescura. Fazendo variar a hora, o local onde se adormece, provocando o sono de modo artificial, ou, pelo contrário, retornando por um dia ao sono natural o mais estranho de todos para qualquer pessoa que tenha o hábito de dormir tomando soporíferos-, chega-se a obter variedades de sono mil vezes mais numerosas do que as variedades de cravos e de rosas que obteríamos se fôssemos jardineiros. Estes obtêm flores que são deliciosos sonhos e outras também que se parecem a pesadelos. Quando eu adormecia de certo modo, despertava tiritando, julgando estar com sarampo ou, coisa bem mais dolorosa, que minha avó (em quem já nunca pensava) sofria porque eu zombara dela no dia em que, em Balbec, acreditando que ia morrer, ela quisera que eu tivesse uma fotografia sua. E depressa, apesar de acordado, queria explicar-lhe que ela não me havia compreendido. Porém já me reaquecia. O diagnóstico de sarampo estava afastado e minha avó se distanciava de mim a tal ponto que não mais fazia doer meu coração.

            Por vezes, abatia-se uma súbita escuridão sobre esses diferentes sonos. Eu sentia medo ao prolongar o meu passeio numa avenida completamente às escuras, onde ouvia passarem os vagabundos. De repente, erguia-se uma discussão entre um policial e uma dessas mulheres que muitas vezes exerciam a profissão de cocheiro e que, de longe, tomamos por um rapaz. Na sua boléia cercada de trevas eu não a enxergava, mas ela me falava e na sua voz eu lia as perfeições do seu rosto e a juventude do seu corpo. Caminhava na sua direção, dentro do negror, para subir no seu cupê antes que ela fosse embora. Estava longe. Felizmente, a discussão com o guarda se prolongava.

            Alcançava o carro, ainda parado. Este pedaço da avenida era iluminado por lampiões. A pessoa na boléia tornava-se visível. Era mesmo uma mulher, porém velha, alta e corpulenta, com cabelos brancos que lhe fugiam por debaixo do boné, e uma lepra vermelha no rosto. Afastava-me pensando: "É isso o que acontece com a mocidade das mulheres? Aquelas que encontramos, se de repente desejamos revê-las, tornam-se velhas? A jovem que desejamos será como um emprego de teatro, em que, pela decadência das criadoras de um papel, somos obrigados a confiá-lo a novas estrelas? Mas então já não é a mesma."

            Depois uma tristeza me invadia. Assim, temos em nosso sono numerosas Piedades, como as Pietà do Renascimento, mas não como elas executadas no mármore, mas pelo contrário, inconsistentes. Todavia, elas têm a sua utilidade, que é a de nos lembrar um certo ponto de vista mais enternecido e mais humano das coisas, que somos por demais tentados a esquecer no bom senso gelado da vigília, por vezes cheio de hostilidade. Assim me foi lembrada a promessa, que eu me fizera em Balbec, de sempre ser compassivo para com Françoise. E, ao menos durante toda aquela manhã, eu saberia me esforçar para não irritar-me com as rixas de Françoise e do mordomo, ser carinhoso com Françoise, a quem os outros tratavam com tão pouca bondade.

            Somente naquela manhã; e precisaria tentar estabelecer para mim um código mais estável; pois, assim como os povos não são governados durante muito tempo por uma política de puro sentimento, os homens não o são pela recordação de seus sonhos. Este já principiava a evolar-se. Buscando lembrá-lo para o descrever, fazia-o fugir ainda mais depressa. Minhas pálpebras já não estavam seladas com tanta força sobre meus olhos. Se tentava reconstituir meu sonho, elas se abririam totalmente. A todo instante é preciso escolher entre a saúde e a lucidez, de um lado, e os prazeres espirituais, de outro. Sempre tive a covardia de escolher a primeira. Aliás, o perigoso poder ao qual eu renunciava era-o ainda mais do que imaginamos. As Piedades e os sonhos não se dissipam sozinhos. Variando assim as condições em que adormecemos, não são apenas os sonhos que se dissipam, mas durante muitos dias, anos às vezes, a faculdade não só de sonhar mas de adormecer. O sono é divino, mas pouco estável; o mais leve choque deixa-o volátil. Amigo dos hábitos, estes o retêm cada noite, mais fixos do que ele, em seu lugar consagrado, preservam-no de todo choque. Mas, se o mudarmos de lugar, se não o mantivermos submisso, ele se desfaz como um vapor. Assemelha-se à juventude e aos amores, não o encontraremos mais.

            Nestes sonos diversos, ainda como na música, era o aumento ou a diminuição do intervalo que criava a beleza. Eu desfrutava dela, mas, em compensação, tinha perdido naquele sono, conquanto breve, uma boa parte dos pregões em que se nos torna sensível a vida circulante dos ofícios e dos alimentos de Paris. Assim, de hábito (sem prever, infelizmente, o drama que tais despertares tardios e minhas leis draconianas e persas de Assuero raciniano deviam em breve me acarretar), eu me esforçava por acordar cedo a fim de não perder coisa alguma daqueles pregões.

            Além da satisfação de conhecer o gosto de Albertine por eles e de sair de casa sem me erguer da cama, ouvia neles como o que o símbolo da atmosfera exterior, da perigosa vida turbulenta em cujo seio não a deixava circular sem minha tutela, num prolongamento exterior do seqüestro, e de onde a retirava à hora que quisesse a fim de fazê-la voltar para junto de mim.

            Portanto, foi com a maior sinceridade do mundo que pude responder a Albertine:

            - Pelo contrário, eles me agradam porque sei que você gosta deles.

            'Olha as ostras fresquinhas!'

            - Oh, as ostras! Tenho tanta vontade de comê-las! -

            Felizmente Albertine, meio inconstância, meio docilidade, esquecia depressa o que desejara e, antes que eu tivesse tempo de dizer que ela encontraria melhores ostras na casa Prunier, ela queria sucessivamente tudo o que ouvia ser apregoado pela vendedora de peixes: "Olha os camarões, os bons camarões, olha a arraia viva, vivinha!"-"Pescadas para fritar, para fritar!"-"Está chegando a cavala, cavala nova, cavala fresquinha!"-"Chegou a cavala, senhoras, é boa a cavala"-"Olha os mexilhões, bons e fresquinhos, os mexilhões!" - Contra a minha vontade, o pregão: "Está chegando a cavala" me fazia estremecer. Mas, como tais palavras não podiam aplicar-se ao nosso motorista," eu só pensei no peixe que detestava e minha inquietação logo se dissipou.

            - Ah, os mexilhões - disse Albertine -, gostaria tanto de comer os mexilhões.

            - Minha querida, isso era bom em Balbec, aqui não presta; peço que se lembre do que lhe disse Cottard a respeito dos mexilhões. -

            Porém a minha observação era tanto mais desastrada, pois a vendedora seguinte anunciava algo que Cottard proibia ainda mais: Alface romana, a boa alface! Não se vende, dá-se!

            Todavia Albertine consentiu-me o sacrifício da alface romana, contanto que lhe prometesse mandar comprar dali a uns dias à vendedora que apregoa: "Olha o belo aspargo de Argenteuil, olha o belo aspargo!" Uma voz misteriosa, e da qual seria de esperar as frases mais estranhas, insinuava: "Tonéis, tonéis!" Éramos obrigados a sentir a decepção de que se tratava apenas de tonéis, pois essa palavra era quase inteiramente abafada pelo pregão: "Vidrá, vidraceiro, vidraças quebradas, aqui está o vidrá, vidraceiro!", divisão gregoriana que, entretanto, lembrou-me menos a liturgia do que o fizera o grito do vendedor de roupas velhas, que reproduzia, sem o saber, uma dessas bruscas interrupções de sonoridades, no meio de uma prece, tão freqüentes no ritual da Igreja: Praeceptis salutaribus moniti et divina institutione fomarti audemus dicere - ["Do latim: "Instruídos em seus preceitos salvadores e formados pelo seu ensinamento divino, ousamos dizer..." Fórmula ritual que na missa precede o Paternoster ('Padre-nosso') (N. do T)] - diz o padre, concluindo vivamente no dicere. Sem irreverência, como o piedoso povo da Idade Média, na própria igreja, representava as farsas e as soties, é nesse dicere que faz pensar o vendedor de roupas velhas, quando, depois de arrastar a voz por todas as palavras, diz a última sílaba com uma precipitação digna do acento regulado pelo grande papa do século VII: [" Papa Gregório I Magno (590-604). Deu ao ritual da missa a forma que se mantém até hoje. (N. do T)] : "Trapos, ferro-velho pra vender!" (tudo isto salmodiado lentamente, bem como as duas sílabas seguintes, ao passo que a última acaba mais vivamente que dicere), "peles de coê-lhos."-"Olha a laranja fresquinha, a Valência, a boa laranja de Valência!", os próprios alhos-porros modestos: "Olha os bonitos alhos-porros", as cebolas: "Oito tostões a minha cebola!", ressoavam para mim como um eco das vagas onde, livre, Albertine poderia perder-se, assumindo desse modo a doçura de um suave mari magno." "Olha as cenouras! só dois vinténs o molho!"

            - Oh! - exclamou Albertine-, couves, cenouras, laranjas. Só coisas que tenho vontade de comer. Mande Françoise comprá-las. Ela fará cenouras com creme. E além do mais, será muito bom comer tudo isso junto. Serão todos os ruídos que ouvimos transformados numa boa refeição. Oh, peço-lhe, diga a Françoise para preparar de preferência uma arraia frita na manteiga queimada. É tão gostoso!

            - Meu benzinho, está combinado. Não demore mais, senão vai querer tudo o que essas mulheres estão vendendo.

            - Está feito, vou indo, mas de agora em diante só quero para os nossos jantares as coisas que tivermos ouvido apregoar. É bem divertido. E dizer que precisamos ainda esperar dois meses para ouvir: "Ervilhas macias, ervilhas, olha a ervilha!". Como fica bem dizer "ervilhas macias"! Sabe que gosto delas finas, bem fininhas, escorrendo molho de vinagre, nem se diria que as estamos comendo, macias como o orvalho. Ai de mim! É o caso dos requeijõezinhos, estão mais longe ainda: "Olha o requeijão fresquinho, o requeijão!", e as uvas brancas de Fontainebleau: "Tenho belas uvas brancas." - E eu pensava com pavor em todo aquele tempo que teria de ficar com ela até à época das uvas brancas. - Escute, estava dizendo que só queria as coisas que tivermos ouvido apregoar, mas é claro que faço algumas exceções. De modo que não será impossível que você passe no Rebattet para encomendar sorvete para nós dois. Você vai dizer que ainda não é tempo, mas tenho tanta vontade! -

            Fui agitado pelo projeto sobre Rebattet, tornado mais certo e suspeito para mim devido a estas palavras: "Não será impossível." Era no dia em que os Verdurin recebiam e, desde que Swann lhes dissera que era a melhor casa, era no Rebattet que eles encomendavam sorvetes e bolinhos.

            - Não faço qualquer objeção a um sorvete, minha querida Albertine, mas deixe-o por minha conta,

não sei mesmo se o encomendarei no Poiré-Blanche, no Rebattet, no Ritz, enfim, vou ver.

            - Então vai sair? - perguntou Albertine com ar desconfiado. Sempre dizia que ficaria encantada se eu saísse mais, mas se uma palavra minha podia deixar supor que eu não ficaria em casa, seu ar inquieto fazia pensar que a satisfação que ela teria em me ver sair com freqüência talvez não fosse sincera.

            - Talvez saia, talvez não, você sabe perfeitamente que nunca faço projetos antecipados. Em todo caso, os sorvetes não são coisa que se apregoe, que se venda pelas ruas; por que você os deseja então? - E aí ela me respondeu com estas palavras que me provaram o quanto, de fato, a inteligência e o gosto latente se haviam bruscamente desenvolvido nela desde Balbec, com estas palavras do tipo daquelas que ela pretendia serem devidas unicamente à minha influência, à constante coabitação comigo, palavras que no entanto eu jamais teria dito, como se me tivesse sido feita alguma proibição, por um desconhecido, de empregar na conversa formas literárias. Talvez o futuro não devesse ser o mesmo para Albertine e para mim. Tive quase o pressentimento disso, ao vê-la apressar-se a empregar, falando, imagens tão escritas e que me pareciam reservadas para outro uso mais sagrado e que eu ainda ignorava. Ela me disse (e apesar de tudo fiquei profundamente enternecido, pois pensei: "Com certeza não falaria desse modo, sofreu profundamente a minha influência, portanto ela não pode me amar, é obra minha"):

            - O que eu amo nessas comidas apregoadas é uma coisa ouvida, como uma rapsódia, muda de natureza às refeições, e se dirige ao meu paladar. Quanto aos sorvetes (pois espero que você os encomende naquelas formas fora de moda que têm todas as configurações possíveis de arquitetura), todas as vezes que os tomo, templos, igrejas, obeliscos, rochedos, é como uma geografia pitoresca que olho primeiro e, a seguir, converto seus monumentos de framboesa ou de baunilha em frescor na minha garganta. -

            Eu achava que aquilo era um tanto bem enunciado demais, porém ela sentiu que eu achava que estava bem dito e continuou, parando por um momento quando obtinha uma comparação feliz, para rir com seu belo riso que me parecia tão cruel por ser tão voluptuoso:

            - Meu Deus, no hotel Ritz receio muito que você encontre colunas Vendôme de sorvetes, sorvete de chocolate ou de framboesa, e então será preciso vários para que se pareçam à colunas votivas ou pilares erguidos numa alameda à glória do Frescor. Fazem também obeliscos de framboesa que se levantarão de sítio em sítio no deserto ardente de minha sede e cujo granito róseo irei derreter no fundo da garganta e que eles irão desalterar melhor do que os oásis (e aqui estalou o riso profundo, fosse pela satisfação de falar bem, fosse por zombaria consigo mesma por expressar-se em imagens tão continuadas, fosse, ai de mim, pela volúpia física de sentir em si própria algo de tão bom, tão viçoso, que lhe causava o equivalente de um orgasmo). Esses picos de sorvete do Ritz lembram às vezes o monte Rose, e até, se o sorvete é de limão, não desgosto que não tenha forma monumental, que seja irregular, abrupto, como uma montanha de Elstir. Então, não é necessário que seja muito branco, mas um tanto amarelado, com aquele aspecto de neve suja e embaçada das montanhas de Elstir. O sorvete pode não ser grande, ser meio sorvete apenas, se quiser; mesmo assim, esses sorvetes de limão são montanhas reduzidas a uma escala bem pequena, mas a imaginação restabelece as proporções como no caso daquelas arvorezinhas japonesas anãs que se percebe muito bem serem cedros, carvalhos, mancenilhas, de modo que, pondo algumas delas ao longo de um pequeno sulco no meu quarto, eu teria uma imensa floresta descendo para um rio e onde as criancinhas poderiam perder-se. Da mesma forma, junto ao meu sorvete amarelado de limão, vejo perfeitamente postilhões, viajantes, seges de posta, sobre os quais a minha língua se encarrega de fazer desabar glaciais avalanches que os engolirão (a cruel volúpia com que ela falou isto excitou o meu ciúme); da mesma forma - acrescentou ela-encarrego-me de destruir com meus lábios, coluna por coluna, essas igrejas venezianas de um pórfiro que é morango, e de fazer cair sobre os fiéis o que eu tiver poupado. Sim, todos esses monumentos hão de passar de sua praça de pedra para o meu peito, onde já palpita o seu frescor que se derrete. Mas, olhe, mesmo sorvetes, nada é tão excitante nem dá sede como os anúncios de fontes termais. Em Montjouvain, na casa da Srta. Vinteuil, não existia um bom sorveteiro nas redondezas, mas nós fazíamos no jardim a nossa excursão pela França, bebendo a cada dia uma água mineral gasosa e diferente, como a água de Vichy, que, ao ser servida, levanta logo das profundezas do copo uma nuvem branca, que se abranda e se dissipa se não bebemos depressa. -

            Mas ouvir falar de Montjouvain era penoso demais para mim, de modo que a interrompia.

            - Estou sendo aborrecida, adeus querido. -

            Que mudança desde Balbec, onde duvido que o próprio Elstir pudesse ter adivinhado essas riquezas de poesia em Albertine. De uma poesia menos estranha, menos pessoal que a de Céleste Albaret, por exemplo, que ainda na véspera viera visitar-me e, encontrando-me deitado, exclamara:

            - Ó majestade do céu deposta numa cama!

            - Por que do céu, Céleste?

            - Oh, porque o senhor não se parece com ninguém, está enganado se julga ter algo desses que viajam sobre essa nossa terra vil.

            - Em todo caso, por que "deposto"?

            - Porque o senhor nada tem de um homem-deitado, o senhor não está na cama, não se move, os anjos é que parecem ter descido para depô-lo aí. -

            Albertine jamais teria tido esse achado, mas o amor, mesmo quando parece a ponto de acabar, é parcial. Eu preferia a "geografia pitoresca" dos sorvetes, cuja graça excessivamente fácil me parecia um motivo para amar Albertine e uma prova de que eu tinha poder sobre ela, que ela me amava.

            Logo que Albertine saiu, senti como era cansativa para mim essa presença perpétua, insaciável de vida e movimento, que perturbava o meu sono com seus movimentos e me fazia viver num constante resfriado devido às portas que deixava abertas, forçava-me para achar pretextos que justificassem não acompanhá-la, sem todavia parecer muito enfermo, e por outro lado, para fazê-la acompanhar- a inventar cada dia mais artimanhas que Sherazade. Infelizmente, se por uma artimanha igual a narradora persa adiava a sua morte, eu apressava a minha. Assim, há na vida certas situações, nem todas criadas, como esta, pelo ciúme amoroso e por uma saúde precária que não permite compartilhar da vida de uma criatura ativa e jovem, mas em que, mesmo assim, o problema de continuar a vida em comum ou de retornar à vida separada de antes, coloca-se de uma forma quase médica: à qual das duas espécies de repouso é necessário sacrificar-se (continuando a estafa diária, ou regressando às angústias da ausência): à do cérebro ou à do coração?

            De qualquer modo, sentia-me bem satisfeito que Andrée acompanhasse Albertine ao Trocadero, pois recentes e aliás minúsculos incidentes faziam com que, mesmo tendo é claro igual confiança na honestidade do motorista, sua vigilância ou pelo menos a perspicácia da sua vigilância já não me parecia tão boa como antes. Assim é que, ultimamente, tendo eu mandado Albertine sozinha com ele a Versalhes, Albertine me dissera ter almoçado nos Reservatórios. Como o motorista me falara do restaurante Vatel, no dia em que percebi essa contradição, arrumei um pretexto para descer e falar ao chofer (sempre o mesmo, aquele que vimos em Balbec) enquanto Albertine se vestia.

            - Outro dia você me disse que havia almoçado no Vatel; a Srta. Albertine me fala dos Reservatórios. Que significa isso? -

            O chofer respondeu:

            - Ah, eu disse que tinha almoçado no Vatel, mas não posso saber onde a senhorita almoçou. Ao chegar a Versalhes, ela me deixou para tomar um fiacre puxado a cavalo, o que ela prefere quando não é para andar na estrada.

            - Já me enfureci pensando que ela ficara sozinha; enfim, fora apenas para almoçar. Você não poderia - disse eu com ar gentil (pois não queria parecer estar positivamente mandando vigiar Albertine, o que teria sido humilhante para mim, e duplamente, pois aquilo significaria que ela me ocultava as suas ações) - almoçar, não digo com ela, mas no mesmo restaurante?

            - Mas ela me havia pedido que só às seis da tarde estivesse na Praça de Armas. Eu não deveria

ir buscá-la à saída do seu almoço.

            - Ah - disse eu, procurando dissimular meu abatimento.

            E subi de novo.

            Assim, Albertine estivera sozinha mais de sete horas, entregue a si mesma. É verdade que eu bem sabia que o fiacre não fora um simples expediente para se desembaraçar da vigilância do chofer.  Na cidade, Albertine preferia passear de fiacre, dizia que se via bem, que o ar era mais puro. Apesar disso, ela passara sete horas sobre as quais eu nunca saberia coisa alguma. E não ousava imaginar no modo como ele as empregara. Achei que o motorista fora muito inábil, mas minha confiança nele, daí em diante, foi completa. Pois, se ele estivesse de combinação com Albertine, jamais teria me confessado que a deixara livre das onze da manhã às seis da tarde. Só haveria outra explicação, porém absurda, para a confissão do motorista. É que uma briga entre ele e Albertine lhe tivesse dado o desejo de, fazendo-me uma pequena revelação, mostrar à minha amiga que era homem capaz de falar e que, se depois da primeira advertência, feita de modo benigno, Albertine não andasse direito conforme ele queria, iria denunciá-la abertamente. Mas tal explicação era absurda; era preciso primeiro supor uma desavença inexistente entre ele e Albertine, e depois atribuir uma natureza de vigarista àquele bom chofer, que sempre se mostrara tão afável e tão bom rapaz. Aliás, dois dias depois eu percebi que, mais do que supusera; por um momento em minha loucura suspicaz, ele sabia exercer sobre Albertine uma vigilância aguda e discreta. Pois, tendo podido lhe falar particularmente a respeito do que me contara acerca de Versalhes, dizia-lhe com ar amistoso e natural:

            - Aquele passeio a Versalhes, de que me falou anteontem, era perfeito, e você foi perfeito como sempre. Apenas, como uma pequena recomendação, aliás sem importância, tenho tal responsabilidade desde que a Sra. Bontemps pôs a sua sobrinha sob a minha guarda, que sinto muito medo de acidentes; e me censuro tanto por não acompanhá-la que prefiro que seja você, tão seguro, tão maravilhosamente hábil, que leve a Srta. Albertine a toda parte. Assim, não receio nada.-

            O encantador chofer apostólico sorriu com finura, com a mão no volante em forma de cruz de consagração. Depois disse-me estas palavras que (expulsando as inquietudes do meu peito, onde logo foram substituídas pelo júbilo) me deram vontade de lhe saltar ao pescoço:

            - Não tenha medo - disse. - Nada pode lhe acontecer, pois, quando o meu volante não a leva, o meu olhar a segue por toda parte. Em Versalhes, como quem não quer nada, visitei a cidade por assim dizer com ela. Dos Reservatórios ela foi ao Château, do Château aos Trianons, e sempre eu na sua cola sem que parecesse vê-la, e o melhor é que ela não me viu. Oh, se ela me visse, não tinha importância. Era natural que, tendo o dia inteiro à minha frente sem fazer nada, eu também visitasse o Château. Tanto mais que a senhorita certamente já percebeu que tenho alguma leitura e que me interesso por todas as velhas curiosidades (era verdade, eu teria até ficado surpreendido se soubesse que ele era amigo de Morel, de tanto que ultrapassava o violinista em gosto e finura). Mas enfim, ela não me viu.

            - Aliás, deve ter encontrado amigas, pois tem muitas delas em Versalhes.

            - Não, estava sempre sozinha.

            - Devem observá-la então; uma jovem deslumbrante e sozinha!

            - É certo que a olhem, mas ela quase não dá atenção, pois tem os olhos no guia o tempo todo, e depois ergue-os para os quadros. -

            A narrativa do motorista me pareceu tanto mais exata quanto fora, de fato, um cartão-postal representando o Château e um outro representando os Trianons, que Albertine me mandara no dia de seu passeio. A atenção com que o gentil chofer a seguira passo a passo muito me comoveu. Como poderia supor que essa retificação, sob a forma de um vasto complemento às suas palavras da antevéspera, derivasse de que, no decurso desses dois dias, Albertine, alarmada com a idéia de que o chofer me falasse, fizera as pazes com ele? Tal suspeita nem mesmo me ocorreu.

            É certo que o depoimento do motorista, tirando-me todo o medo de que Albertine me enganasse, esfriou-me muito naturalmente em relação à minha amiga, tornando menos interessante o dia que ela passara em Versalhes. Todavia, creio que as explicações do chofer que, inocentando Albertine, fazia-a ainda mais aborrecida a meus olhos, não teriam talvez bastado para me acalmar tão depressa. Duas pequenas espinhas que minha amiga teve na testa durante alguns dias conseguiram, talvez melhor ainda, modificar os sentimentos do meu coração. Por fim, tais sentimentos se desviaram dela, a ponto de eu só me lembrar de sua existência quando a via, devido à confidência singular que me fez a camareira de Gilberte, encontrada por acaso. Fiquei sabendo que, quando eu ia diariamente à casa de Gilberte, ela amava um rapaz a quem via muito mais que a mim. Por um instante eu suspeitara disso, à época, e até mesmo interrogara a respeito esta mesma camareira. Mas, como ela sabia que eu estava apaixonado por Gilberte, havia negado o fato, jurando que a Srta. Swann nunca vira aquele rapaz. Mas agora, sabendo que meu amor estava morto há tanto tempo, que há muito eu deixara sem respostas as cartas de GiIberte (e talvez também porque já não estava a serviço da moça), espontaneamente contou-me por extenso o episódio amoroso que eu não tinha sabido. Isso lhe parecia muito natural. Lembrando-me de seus juramentos de então, julguei que ela não estivesse a par. Absolutamente; era ela mesma que, sob as ordens da Srta. Swann, ia prevenir o rapaz logo que aquela a quem eu amava estava a sós. Que eu amava então... Mas não me perguntei se meu amor de outrora estava tão morto quanto o julgava, pois essa narrativa me foi penosa. Como não creio que o ciúme possa ressuscitar um amor morto, imaginei que minha triste impressão era devida, ao menos em parte, ao meu amor-próprio ferido, pois várias pessoas de quem eu não gostava e que naquela época, e até mesmo um pouco depois isto mais tarde mudou-, afetavam a meu respeito uma atitude de desprezo, sabiam perfeitamente, enquanto eu estava tão apaixonado por Gilberte, que me portava como um iludido. E tal constatação me fez até indagar, retrospectivamente, se no meu amor por Gilberte não houvera uma parcela de amor-próprio, visto que sofria tanto agora por verificar que todas as horas de ternura que me haviam feito tão feliz, eram conhecidas como uma verdadeira traição de minha amiga à minha custa, pelas pessoas de quem eu não gostava. Em todo caso, amor ou amor-próprio, Gilberte estava quase morta em mim, porém não de todo, e esse aborrecimento acabou por impedir que eu me preocupasse demais com Albertine, que ocupava uma faixa tão estreita em meu coração. Não obstante, para voltar a ela (depois de um parêntese tão longo) e a seu passeio a Versalhes, os cartões-postais de Versalhes (pode-se, então, ter assim o coração simultaneamente consumido por dois ciúmes entrecruzados, cada qual se referindo a uma pessoa diferente?) me davam uma impressão um tanto desagradável, cada vez que, arrumando papéis, meus olhos caíam sobre eles. E eu pensava que, se o motorista não fosse um homem correto, a concordância de seu segundo depoimento com os cartões-postais de Albertine não teria significado muita coisa, pois o que é que nos mandam de Versalhes senão o Château e os Trianons, a menos que o cartão seja escolhido por um sujeito requintado, amoroso de uma determinada estátua, ou por algum idiota elegendo como vista a estação de bondes a cavalo ou a gare dos Chantiers?

            E ainda erro dizendo um idiota, pois esses cartões-postais nem sempre foram comprados por um deles ao acaso, pelo interesse de vir de Versalhes. Durante dois anos, os homens inteligentes e os artistas acharam Siena, Veneza, Granada uma chatice, e diziam de qualquer ônibus e de todos os vagões:

            - Isto é que é belo. -

            Pois esse gosto passou, como os outros. Nem mesmo sei se não se voltou ao "sacrilégio de destruir as coisas nobres do passado". Em todo caso, um vagão de primeira classe deixou de ser considerado a priori como mais belo que São Marcos de Veneza. Entretanto, dizia-se:

            - Ali é que está a vida, a volta para trás é uma coisa artificial -, mas sem tirar disso uma conclusão clara. Para estar mais seguro, e embora tendo toda a confiança no chofer e para que Albertine não pudesse livrar-se dele sem que ele ousasse recusar por medo de passar por espião, não a deixei mais sair sem o reforço de Andrée, ao passo que por algum tempo o chofer me bastara.

            Eu até a deixara então (o que não teria ousado fazer desde aí) ausentar-se durante três dias, sozinha com o chofer, e ir até as vizinhanças de Balbec, de tanta vontade que ela havia mostrado de rodar pela estrada em simples chassis a toda velocidade. Três dias em que eu ficara bem tranqüilo, embora a chuva de cartões-postais que ela me enviara só me houvesse chegado às mãos, devido ao detestável funcionamento do correio bretão (bom no verão, mas muito desorganizado no inverno), oito dias depois do regresso de Albertine e do chofer, tão corajosos que na própria manhã do regresso retomaram, como se nada tivesse havido, o passeio cotidiano. Mas desde o incidente de Versalhes eu tinha mudado. Estava entusiasmado que Albertine fosse hoje ao Trocadero, àquela vesperal "extraordinária", mas, sobretudo, tranqüilo por sabê-la na companhia de Andrée.

            Abandonando esses pensamentos, agora que Albertine saíra, fui colocar-me por um momento à janela. Primeiro houve um silêncio, em que o apito do vendedor de tecidos e a buzina do bonde fizeram ressoar o ar em oitavas diferentes, como um afinador de piano cego. Depois, aos poucos, tornaram-se distintos os motivos entrecruzados aos quais se juntavam outros novos. Havia também em outro apito, chamamento de um vendedor de quem nunca soube o que vendia, apito que era exatamente igual ao de um bonde, e como não fosse levado pela velocidade poder-se-ia dizer um só bonde, não dotado de movimento, ou que estivesse com uma pane, imobilizado, gemendo a curtos intervalos como um animal agonizante.

            E parecia-me que, se jamais devesse deixar esse bairro aristocrático a menos que me mudasse para outro inteiramente popular-, as ruas e as alamedas do centro (onde a frutaria, a peixaria, etc., estabilizada em grandes casas de gêneros alimentícios, tornavam inúteis os gritos dos vendedores, que aliás não teriam conseguido fazer-me ouvir) me dariam a impressão de serem bem tristes, bem inabitáveis, despojadas, filtradas de todas aquelas ladainhas dos pequenos ofícios e das comedorias ambulantes, privados da orquestra que vinha me encantar desde a manhã. Na calçada, uma mulher pouco elegante (ou obediente a uma moda feia) passava, clara demais num paletó saco de pêlo de cabra; mas não, não era uma mulher, era um motorista que, enfiado no seu casaco de pele, voltava a pé para a garagem. Saindo dos grandes hotéis, os grooms alados, de tons cambiantes, curvados sobre o guidom das bicicletas, corriam velozmente para as gares, a fim de alcançar os viajantes do trem da manhã.

            O ressôo de um violino era causado às vezes pela passagem de um automóvel, às vezes por eu não ter posto água suficiente no meu saco elétrico. Em meio à sinfonia destoava uma ária fora de moda: substituindo a vendedora de bombons que de costume acompanhava sua melodia com uma matraca, o vendedor de brinquedos, em cuja flauta de cana estava preso um boneco, que ele fazia mover em todos os sentidos, ia levando outros bonecos de engonço e, sem se preocupar com a declamação ritual de Gregório o Grande, com a declamação reformada de Palestrina e com a declamação lírica dos modernos, entoava a plenos pulmões, partidário atrasado da melodia pura:

Vamos, papais, vamos mamães/ Satisfaçam seus filhinhos: Eu mesmo os faço, eu mesmo os vendo/ E eu mesmo recolho o dinheiro. Tra-lá-lá-lá, trá-lá-lá-lé/ Trá-lá-lá-lá-lá-lá-lá Vamos, crianças!

            Italianinhos de gorro na cabeça não tentavam resistir àquela aria vivaz, e, sem dizer nada, ofereciam suas pequenas estatuetas. Enquanto que um pequeno pífaro obrigava o vendedor de brinquedos a afastar-se e a cantar de modo mais confuso, embora presto: "Vamos papais, vamos mamães." Seria o pequeno pífaro um daqueles dragões que eu ouvia de manhã em Doncieres? Não, pois o que se seguia eram estas palavras:

            - Aqui está o consertador de faianças e de porcelana. Conserto vidros, mármores, cristais, ossos, marfins e objetos de antigüidades. Aqui está o consertador. -

            Num açougue, onde à esquerda havia uma auréola de sol e à direita um boi inteiro pendurado, um

açougueiro muito alto e magro, de cabelos louros, com o pescoço saindo de um colarinho azul-celeste, separava, com rapidez vertiginosa e uma religiosa consciência, de um lado os filés mais escolhidos e de outro a pior alcatra, colocava-os em deslumbrantes balanças superadas por uma cruz, de onde pendiam belas correntes e (embora a seguir só se ocupasse em arrumar no mostrador os rins, turnedôs e entrecostos) dava na realidade muito mais impressão de um belo anjo que no Dia do Juízo Final irá preparar para Deus, conforme suas qualidades, a separação dos Bons e dos Maus, e a pesagem das almas. E novamente o pífaro agudo e esguio subia nos ares, anunciador não mais das destruições que Françoise temia, cada vez que desfilava um regimento de cavalaria, mas de "reparações" prometidas por um "antiquário" ingênuo ou zombeteiro, e que, de qualquer modo bastante eclético, longe de se especializar, tinha por objeto de sua arte as mais diversas matérias. As pequenas entregadoras de pão se apressavam a empilhar em seus cestos os pãezinhos destinados ao almoço, e, a seus ganchos, as leiteiras rapidamente penduravam as garrafas de leite. A nostálgica visão que eu tinha dessas meninas, podia considerá-la exata? Não seria uma outra caso eu pudesse conservar imóvel, junto a mim, por alguns instantes, uma dessas que, das alturas da minha janela, eu só enxergava na loja ou de fugida? Para avaliar a perda que me causava a reclusão, isto é, a riqueza que me ofertava o dia, seria preciso interceptar, no longo desenvolvimento da frisa animada, alguma garota que levasse leite ou roupa lavada, fazê-la passar por um momento, como uma silhueta de cenário móvel, entre os batentes, pelo vão da minha porta, e retê-la sob meus olhos, não sem obter a seu respeito algumas informações que me permitissem reencontrá-la um dia, semelhantes à ficha sinalética que os ornitólogos ou os ictiólogos pregam, antes de devolver-lhes a liberdade, no ventre dos pássaros ou dos peixes, cujas migrações desejam poder identificar.

            Assim, disse a Françoise que, para um recado que eu queria enviar, mandasse-me ela uma dessas meninas que vinham freqüentemente levar e trazer a roupa, o pão ou as garrafas de leite, e que ela muitas vezes mandava à rua em pequenas comissões. Nisso eu me parecia a Elstir, que, obrigado a ficar trancado em seu ateliê, em certos dias de primavera, quando, sabendo que os bosques estavam cheios de violetas, sentia um desejo violento de vê-las, mandava a porteira lhe comprar um buquê; então, comovido, alucinado, não era a mesa sobre a qual depusera o pequeno modelo vegetal, mas todo o tapete de vegetação rasteira, onde vira outrora, aos milhares, hastes serpentinas se dobrando sob seu bico azul, que Elstir pensava ter sob os olhos como uma zona imaginária, encerrada em seu ateliê pelo límpido aroma da flor evocadora.

            Num domingo não era de esperar que viesse uma lavadeira. Quanto à padeirinha, por um acaso infeliz ela havia tocado a campainha num momento em que Françoise estava ausente, deixara os pães no cesto, no patamar da escada, e escapulira. A vendedora de frutas só viria bem mais tarde. Uma vez eu tinha entrado na leiteria para encomendar um queijo e, no meio das empregadinhas, havia reparado numa moça, verdadeira extravagância loura, de porte alto embora pueril, e que, no meio das outras vendedoras, parecia sonhar, numa atitude bem altiva. Eu só a vira de longe e passando tão rápido que não poderia dizer como era, a não ser que devia ter crescido depressa demais e sua cabeleira dava muito menos idéia das particularidades capilares que de uma estilização escultural dos meandros isolados de nevados paralelos. Fora tudo o que eu distinguira, bem como um nariz muito desenhado (coisa rara numa criança) num rosto magro, e que lembrava o bico dos filhotes de abutres. Além disso, o grupo das companheiras a seu redor não fora a única coisa a me impedir de observá-la bem, mas igualmente a incerteza dos sentimentos que eu poderia lhe inspirar à primeira vista e a seguir, fossem de altivez indomável, ou de ironia, ou de um desdém que mais tarde exprimisse às amigas. Tais suposições alternativas que eu fizera em um segundo a seu respeito tinham espessado em torno dela a atmosfera perturbadora em que ela se ocultava, como uma deusa na nuvem que o raio faz tremer. Pois a incerteza moral é uma causa maior de dificuldades para uma exata percepção visual do que o seria um defeito material do olho. Naquela jovem magra demais e que também chamava demais a atenção, o excesso do que um outro talvez qualificasse de encantos era justamente o que me desagradava, mas, ainda assim, tivera como resultado impedir-me de perceber alguma coisa e, pela mais forte razão, de não me lembrar nada das outras empregadinhas, que o nariz arqueado desta, o seu olhar, algo tão pouco agradável, pensativo, pessoal, dando a impressão de julgar, tinham mergulhado na noite à maneira de um relâmpago louro que entenebrecesse a paisagem circundante. E assim, da minha visita para encomendar um queijo na leiteira, eu só me lembrara (se é que se pode dizer "lembrar-se" a propósito de um rosto, tão mal observado que adaptamos dez vezes ao nada do rosto um nariz diferente), eu só me lembrara da moça que me havia desagradado. Isso foi o bastante para fazer começar um amor. No entanto, eu teria esquecido a extravagância loura e jamais desejaria revê-la, se Françoise não me houvesse dito que, embora muito nova, essa garota era espertíssima e ia abandonar sua patroa porque, demasiado coquete, fizera dívidas no bairro. Diz-se que a beleza é uma promessa de felicidade. Inversamente, a possibilidade do prazer pode indicar um princípio de beleza.

            Pus-me a ler a carta de minha mãe. Através das citações da Sra. de Sévigné ("Se meus pensamentos não são inteiramente negros em Combray, são pelo menos de um cinzento-escuro; penso em ti a todo instante; desejo a tua presença; tua saúde; teus assuntos, tua ausência; que pensas que tudo isso pode fazer no luscofusco?") eu sentia que ela estava aborrecida por ver que a temporada de Albertine em nossa casa se prolongava, e se afirmavam, embora ainda não declaradas à noiva, as minhas intenções de casamento.

            Ela não me dizia mais diretamente por temer que eu largasse suas cartas em qualquer lugar. E ainda me censurava, por mais veladas que elas fossem, por não avisá-la imediatamente do recebimento de cada uma: "Sabes muito bem que a Sra. de Sévigné dizia: 'Quando se está distante, já não se zomba das cartas que principiam por: recebi a sua."' Sem falar do que mais a inquietava, ela se dizia zangada com minhas grandes despesas: "Em que se vai todo o teu dinheiro? Já me atormenta bastante que tu, como Charles de Sévigné, não saibas o que queres e que sejas 'dois ou três homens ao mesmo tempo', mas pelo menos trata de não ser como ele nos gastos e que eu não possa dizer de ti: 'Ele achou um meio de gastar sem parecer, de perder sem jogar e de pagar sem ficar quites."'

            Eu acabava de ler a carta de mamãe quando Françoise voltou para me dizer que ali estava justamente a pequena leiteira, um tanto ousada demais, da qual me havia falado.

            - Ela poderá muito bem levar a carta do senhor e dar algum recado desde que não seja para muito longe. O senhor vai ver, ela parece um Chapeuzinho Vermelho, - Françoise foi buscá-la e ouvi que a conduzia, dizendo:

            - Ora vamos, estás com medo porque há um corredor, sua fingida, pensava que fosses menos acanhada. Será que vou precisar segurar a tua mão? -

            E Françoise, como boa e honesta empregada que acha dever em respeitar o patrão como ela própria o respeita, revestia-se daquela majestade que enobrece as alcoviteiras nesses quadros dos velhos mestres, onde ao lado delas se dilui quase à insignificância o casal de amantes.

            Elstir, quando as olhava, não tinha de se preocupar com o que faziam as violetas. A entrada da pequena leiteira logo me tirou a calma de contemplador; só pensei em tornar verossímil a fábula da carta que ela haveria de levar e me pus a escrever com rapidez, sem ousar encará-la senão às furtadelas, para não parecer tê-Ia feito entrar só para aquilo. Para mim, ela estava ornada com o encanto do desconhecido, que eu não poderia ver acrescentado a uma bonita moça nessas casas em que elas nos esperam. Não estava nem nua nem disfarçada, mas era uma legítima empregadinha de leiteria, dessas que imaginamos tão bonitas quando não temos tempo de nos aproximar delas; era um pouco do que constitui o eterno desejo, a eterna tristeza da vida, cuja dupla corrente por fim é desviada e trazida para junto de nós. Dupla, pois trata-se do desconhecido, de uma criatura que adivinhamos dever ser divina, por causa da sua estatura, das suas proporções, seu olhar indiferente, sua tranqüila altivez; por outro lado, queremos que essa mulher seja bem especializada em sua profissão, permitindo-nos a evasão para esse mundo que um costume particular nos faz romanticamente julgar diverso. De resto, se procuramos enquadrar numa fórmula a lei das nossas curiosidades amorosas, seria preciso buscá-la no afastamento máximo entre uma mulher avistada e uma mulher que se aborda e acaricia. Se as mulheres daquilo que antigamente se chamava casas de tolerância, se as próprias meretrizes (desde que as saibamos meretrizes) nos atraem tão pouco, não é que sejam menos bonitas que as outras, é que elas estão inteiramente a nosso dispor; é que o que se busca exatamente atingir elas já no-lo ofertam; é que não são conquistas. O afastamento aí é mínimo. Uma prostituta já nos sorri na rua como o fará junto a nós. Somos escultores. Queremos obter de uma mulher uma estátua inteiramente diversa da que ela nos apresentou. Vimos uma jovem indiferente, mal-educada, à beira-mar; vimos uma caixeira ativa e séria, no seu balcão, que nos responderá com secura, ainda que seja apenas para não se tornar objeto das zombarias das companheiras, uma vendedora de frutas que mal nos responde. Pois bem, não sossegamos enquanto não pudermos experimentar se a jovem altiva de beira-mar, se a caixeira que pouco se importa com o que dizem dela, se a distraída vendedora de frutas não são suscetíveis, depois de manobras sagazes de nossa parte, de concordarem dobrar sua atitude retilínea, de rodear-nos o pescoço com esses braços que trazem frutas, de inclinar sobre nossa boca, num sorriso que consente, os olhos até então glaciais ou distraídos; beleza dos olhos severos nas horas de trabalho, em que a operária receava tanto a maledicência das companheiras, olhos que se furtavam aos nossos olhares obsessivos e que agora, que estamos a sós, baixam as pupilas ao peso ensolarado do riso quando falamos de fazer amor).

            Entre a caixeira, a lavadeira atenta a passar roupa, a vendedora de frutas, a moçada leiteria-e esta mesma garota que vai se tornar nossa amante-, atinge-se o máximo de afastamento, levado a seus limites extremos, e variado por esses gestos habituais da profissão, que fazem dos braços, enquanto dura o trabalho, algo tão diferente quanto possível, como arabesco, desses elos suaves que todas as noites já enlaçam nosso pescoço ao passo que a boca se apresta para o beijo. Assim, passamos toda a nossa vida em inquietas manobras, incessantemente renovadas, junto às jovens sérias e cujo mister parece afastá-las de nós. Uma vez em nossos braços, elas já não são o que eram, está suprimida a distância que sonhávamos franquear. Porém recomeçamos com outras mulheres, com tais empreendimentos gastamos todo o tempo de que dispomos, todo o dinheiro, todas as forças, explodimos de raiva contra o cocheiro demasiado lento que talvez nos faça perder o primeiro encontro, temos febre. Esse primeiro encontro, sabemos todavia que acarretará o desvanecimento de uma ilusão. Não importa; enquanto durar a ilusão, queremos ver se podemos mudá-la em realidade, e então pensamos na lavadeira em cuja frieza reparamos. A curiosidade amorosa é como a que em nós excitam os nomes de países; sempre decepcionada, renasce e permanece sempre insaciável.

            Ai de mim! Uma vez junto comigo, a loura leiteira de mechas estriadas, destituída de tanta imaginação, de tantos desejos despertados em mim, achou-se reduzida a si própria. A nuvem fremente de minhas suposições já não a envolvia de vertigem. Ela assumia um ar todo envergonhado de só ter um nariz (em lugar dos dez, dos vinte, de que me lembrava sucessivamente, sem poder fixar a lembrança), mais redondo do que o imaginara, que lhe dava um ar de estupidez e, de qualquer modo, perdera a faculdade de se multiplicar. Esse vôo capturado, inerte, aniquilado, incapaz de acrescentar coisa alguma à sua pobre evidência, já não dispunha da minha imaginação para colaborar com ele. Caído no real imóvel, tentei reagir; as faces, não percebidas na loja, pareceram-me tão lindas que fiquei intimidado e, para recobrar a naturalidade, disse à garota:

            - Poderia me fazer o favor de me alcançar o Fígaro que está aí; preciso ver o nome de um lugar aonde quero mandá-la.-

            Imediatamente, pegando o jornal, ela descobriu até o cotovelo a manga rubra da sua jaqueta e me estendeu o diário conservador com um gesto hábil e gentil que me agradou pela rapidez familiar, pela aparência macia e a cor escarlate. Enquanto eu abria o Fígaro, para dizer algo e sem erguer os olhos, perguntei à menina:

            - Como se chama esse seu casaco de tricô vermelho? É muito bonito. -

            Ela respondeu:

            - É o meu golfe. -

            Pois, devido a uma degradação costumeira a todas as modas, as roupas e os ternos que, alguns anos antes, pareciam pertencer ao mundo relativamente elegante das amigas de Albertine, eram agora usados pelas operárias.

            - Não se incomodará se eu a mandar a um recado um pouco longe? - disse-lhe, aparentando procurar no Fígaro. Logo que achei penoso o serviço que me prestaria, ela começou de fato a pensar que era um transtorno.

            - É que devo passear daqui a pouco de bicicleta. Droga, só temos o domingo para isso.

            - Mas não vai sentir frio, com a cabeça descoberta desse jeito?

            - Ah! Mas não estarei de cabeça descoberta, e sim com a minha boina, e poderia até passar sem ela por causa da minha cabeleira.-

            Ergui os olhos para as mechas flavescentes e frisadas, e senti que seu turbilhão me arrastava, o coração palpitante, na luz e nas rajadas de um furacão de beleza. Continuava a ler o jornal, mas, embora fosse apenas para me recobrar e ganhar tempo, enquanto fingia ler ia compreendendo, apesar do sentido das palavras que tinha diante dos olhos, e estas me deixaram atônito: "No programa da vesperal que anunciamos e que será executada esta tarde no salão de festas do Trocadero, é necessário acrescentar o nome da Srta. Léa, que aceitou comparecer em Les Fourberies de Nérine. ['As artimanhas de Nérine', comédia em versos de Théodore de Banville (1823-1891)(N. do T).] Evidentemente, ela fará o papel de Nérine, no qual é estonteante de vivacidade e de encantadora alegria."

            Foi como se me tivessem arrancado brutalmente do coração o curativo sob o qual ele começara a cicatrizar desde o meu regresso de Balbec. O fluxo de minhas angústias jorrou em torrentes. Léa era a comediante amiga das duas moças que Albertine, sem parecer vê-las, havia em uma tarde observado pelo espelho, no cassino. É verdade que, em Balbec, Albertine, ao nome de Léa, assumira um tom particular de compunção para me dizer, quase chocada de que se pudesse suspeitar de pessoa tão virtuosa:

            - Oh não, não é de modo algum uma mulher desse tipo; é uma mulher muito correta. -

            Infelizmente para mim, quando Albertine fazia uma afirmação desse gênero, isto nunca passava do primeiro estágio de afirmações diferentes. Pouco depois da primeira, vinha esta segunda:

            - Não a conheço.

            Em terceiro lugar, depois de me ter falado de tal pessoa como "acima de qualquer suspeita", e que, a seguir, afirmava não a conhecer, esquecia-se aos poucos, primeiro de haver dito que não a conhecia, e, numa frase em que se contradizia sem querer, voltava a falar que a conhecia. Consumado este primeiro esquecimento e tendo sido enunciada a nova afirmação, principiava um segundo esquecimento, o de que a pessoa era insuspeitável.

            - Será que essa fulana - indagava eu - tem esses hábitos?

            - Ora, naturalmente, todo mundo sabe disso! -

            Porém logo o tom compungido voltava para uma afirmação que era um vago eco, bastante atenuado da primeira:

            - Devo dizer que comigo sempre se mostrou muito correta. Naturalmente ela sabia que eu a teria posto em seu lugar, e de que maneira. Mas, afinal, pouco importa. Sou forçada a lhe ser grata pelo verdadeiro respeito que ela sempre testemunhou por mim. Vê-se que ela sabia com quem estava lidando.

            Lembramo-nos da verdade porque ela tem um nome, raízes antigas; mas uma mentira improvisada se esquece depressa. Albertine se esquecia dessa última mentira, a quarta, e, num dia em que desejava ganhar minha confiança por meio de confidências, chegava a me dizer da mesma pessoa, no começo tão distinta e que ela não conhecia:

            - Teve uma quedinha por mim. Três, quatro vezes me pediu para acompanhá-la até em casa e subir com ela. Eu não via mal nenhum em acompanhá-la, diante de todo mundo, em pleno dia, na rua. Mas, logo que chegava à sua porta, achava sempre um pretexto e nunca subi.

            Algum tempo depois, Albertine me fazia alusão à beleza dos objetos que se viam na casa da mesma pessoa. De aproximação em aproximação, talvez se chegasse a fazê-la dizer a verdade, uma verdade quem sabe menos grave do que eu era levado a crer, pois talvez, fácil com as mulheres, ela preferisse um amante, e agora que eu era o seu, não mas teria pensado em Léa. Em todo caso, quanto a muitas das mulheres, já teria me bastado apresentar numa síntese à minha amiga as suas afirmações contraditórias para convencê-la de seus erros (erros que são bem mais fáceis de verificar pelo raciocínio, como as leis astronômicas, do que de observar, de surpreender na realidade). Mas ela ainda teria preferido dizer que mentira quando fizera uma de suas afirmações, cuja retirada faria desse modo desmoronar todo o meu sistema, em vez de reconhecer que tudo o que havia contado desde o princípio não passava de uma trama de histórias mentirosas. Há casos iguais nas Mil e Uma Noites, e que nos encantam. Fazem-nos sofrer numa pessoa a quem amamos, e por causa disso nos permitem penetrar um pouco mais fundo no conhecimento da natureza humana, em vez de limitar-nos à sua superfície. O desgosto nos invade e obriga-nos pela curiosidade dolorosa a penetrar. Daí decorrem as verdades que não nos sentimos com o direito de ocultar, de modo que um ateu agonizante que as descobriu, seguro do Nada, despreocupado da glória, usa todavia suas horas derradeiras para tentar fazer com que sejam conhecidas.

            Sem dúvida, eu estava ainda na primeira daquelas afirmações sobre Léa. Ignorava até se Albertine a conhecia ou não. Pouco importa, dava no mesmo. Era preciso, a todo custo, impedir que Albertine, no Trocadero, pudesse reencontrar essa conhecida, ou travar relações com essa desconhecida. Disse que não sabia se ela a conhecia ou não; no entanto, é possível que o tivesse sabido em Balbec, através da própria Albertine. Pois o esquecimento apagava tanto em mim quanto em Albertine uma boa parte das coisas que ela me havia afirmado. Porque a memória, em vez de um exemplar em dobro, sempre presente a nossos olhos, dos diversos fatos da nossa vida, é antes um Nada de onde, por instantes, uma similitude atual nos permite extrair, ressuscitadas, lembranças mortas; mas existem ainda mil pequenos fatos que não caíram nessa virtual idade da memória e que permanecerão para sempre inverificáveis para nós. A tudo o que ignoramos relacionar-se à vida real da pessoa a quem amamos não prestamos atenção, esquecemos logo o que ela nos disse a propósito de um determinado fato ou de uma certa pessoa que não conhecemos, e o aspecto dela ao nos dizer tais coisas. Assim, quando a seguir o nosso ciúme é excitado por essas mesmas pessoas, para saber se ele não se engana, se é precisamente a elas que se deve relacionar uma certa pressa que a nossa amante tem de sair, certo descontentamento de ter sido privada de fazê-lo porque voltamos cedo demais, o nosso ciúme, examinando o passado para obter indicações, nada encontra nele; sempre retrospectivo, é como um historiador que tivesse de escrever uma história para a qual não dispusesse de documento algum; sempre atrasado, ele se precipita como um touro furioso para onde não se encontra a criatura brilhante e altiva que o irrita com suas picadas e cuja magnificência e astúcia a multidão cruel admira. O ciúme se debate no vazio, indeciso, como o somos nesses sonhos em que sofremos por não encontrar em sua casa vazia uma pessoa que conhecemos muito bem na vida, mas que aqui talvez seja uma outra e apenas tenha assumido as feições de outra personagem; indeciso, como o somos mais ainda quando, após o despertar, buscamos identificar tal ou qual detalhe do nosso sonho. Que jeito seria o da nossa amiga ao nos dizer isso? Teria um aspecto feliz, não estaria mesmo assobiando, coisa que ela só faz quando lhe ocorre um pensamento amoroso e nossa presença a importuna ou irrita? Não nos terá dito uma coisa que se acha em contradição com o que afirma agora, que conhece ou não conhece tal pessoa? Não o sabemos, não saberemos jamais, empenhamo-nos em procurar os destroços inconsistentes de um sonho, e durante esse tempo a nossa vida com a amante continua, nossa vida distraída diante do que ignoramos ser importante para nós, atenta ao que talvez o não seja, atormentada de pesadelos com criaturas que não têm relações reais conosco, nossa vida cheia de esquecimentos, de lacunas, de ansiedades vãs, nossa vida semelhante a um sonho.

            Dei-me conta de que a garota da leiteria ainda estava ali. Disse-lhe que decididamente era muito longe, que não precisava dela. E logo ela achou também que ia ser muito incômodo:

            - Vai haver um bom match daqui a pouco, gostaria de não perdê-lo. -

            Senti que ela já devia gostar de esportes e que dentro de alguns anos diria: viver sua vida. Disse-lhe que decididamente não precisava dela e lhe dei cinco francos. Imediatamente, como se não esperasse por isso, e considerando que se ganhara cinco francos para não fazer nada, poderia ganhar muito mais pela comissão, começou a achar que seu match não tinha importância.

            - Bem que eu poderia dar o seu recado. Sempre se consegue dar um jeito. -

            Mas eu a impeli até a porta, precisava estar sozinho; tinha a todo custo de impedir que Albertine encontrasse as amigas de Léa no Trocadero.

            Precisava, precisava consegui-lo; para dizer a verdade, ainda não sabia como; e, durante aqueles primeiros instantes, abria as mãos, olhava-as, fazia estalar as juntas dos dedos, ou porque o espírito que não pode achar o que procura, tomado de preguiça, concorda em fazer uma parada durante um momento, quando as coisas mais indiferentes lhe aparecem com nitidez, como essas pontas de capim que do vagão vemos tremer nos taludes ao sopro do vento, quando o trem pára em campo raso; imobilidade que nem sempre é mais fecunda que a do animal capturado, que, paralisado de medo, ou fascinado, olha sem se mexer-, ou porque eu mantivesse o corpo inteiramente preparado com minha inteligência dentro e, nela, os meios de ação sobre tal ou qual pessoa-como sendo apenas uma arma de onde partiria o golpe que haveria de separar Albertine de Léa e de suas duas amigas. Decerto, na manhã em que Françoise viera me dizer que Albertine iria ao Trocadero, eu havia pensado: "Albertine pode muito bem fazer o que quiser" e acreditara que até a noite, naquele tempo radioso, os seus atos não teriam importância perceptível para mim. Mas não fora apenas o sol da manhã, como pensara, que me fizera tão despreocupado; era porque, tendo obrigado Albertine a renunciar aos projetos que ela podia talvez preparar ou até mesmo realizar na casa dos Verdurin, e limitando-a a ir a uma vesperal que eu próprio escolhera e em função da qual ela não pudera combinar coisa alguma, sabia que o que ela faria forçosamente seria inocente. Da mesma forma, se Albertine dissera instantes depois:

            - Se eu me matar, pouco me importa-, fora por estar convencida de que não se mataria. À minha frente, à frente de Albertine, houvera aquela manhã (bem mais que a iluminação do dia) aquele meio que não vemos, mas através de cujo intermédio translúcido e mutável nós víamos, eu as suas ações, e ela a importância de sua própria vida, isto é, aquelas crenças que não percebemos mas que, como o ar que nos rodeia, não são assimiláveis a um puro vácuo; compondo ao nosso redor uma atmosfera variável, por vezes excelente, muita vez irrespirável, elas mereceriam ser destacadas e assinaladas com tanto cuidado como a temperatura, a pressão barométrica e a estação, pois os nossos dias têm sua originalidade física e moral. A crença, não notada por mim naquela manhã e na qual todavia estivera alegremente envolto até o momento em que abrira o Fígaro, de que Albertine só faria coisas inofensivas, essa crença acabava de desaparecer.

            Eu já não vivia num dia lindo, mas num dia criado no seio deste pela inquietude de que Albertine reatasse com Léa e mais facilmente ainda com as duas moças, caso estas fossem, como me parecia provável, aplaudir a atriz no Trocadero, onde não lhes seria difícil, num entreato, reencontrar Albertine. Eu não pensava mais na Srta. Vinteuil, o nome de Léa me fizera rever, para sentir ciúmes, a imagem de Albertine no cassino perto das duas moças. Pois eu só possuía na memória séries de Albertine separadas umas das outras, incompletas, perfis, instantâneos; desse modo, o meu ciúme se restringia a uma expressão descontínua, a um tempo fixa e fugidia, e às criaturas que a tinham feito aparecer na fisionomia de Albertine. Lembrava-me desta quando, em Balbec, era excessivamente olhada pelas duas moças ou por mulheres desse tipo; lembrava-me do sofrimento que senti ao ver percorrido por olhos ativos como os de um pintor que quer fazer um croqui, este rosto inteiramente coberto por eles e que, devido, é claro, à minha presença, sofria esse contato sem dar a impressão de percebê-lo, com uma passividade talvez clandestinamente voluptuosa.

            E, antes que ela se recobrasse e me falasse, havia um segundo durante o qual Albertine não se movia, sorrindo no vazio, com o mesmo ar de natureza fingido e de prazer dissimulado que teria se lhe fossem tirar o retrato; ou até para escolher diante da objetiva uma pose mais picante-aquela mesma que assumira em Doncieres quando passeávamos com Saint-Loup: rindo e passando a língua nos lábios, fingia que estava irritando um cão. Decerto, nesses momentos não era de modo algum a mesma que se interessava pelas garotas que passavam. Ao contrário, neste último caso o seu olhar estreito e aveludado se fixava, colocava-se na passante, tão aderente, tão corrosivo, que parecia que, ao retirar-se, levaria consigo a pele. Mas nesse momento aquele olhar, que pelo menos lhe dava um quê de seriedade, fazendo-a até parecer doente, era-me suave em comparação com o seu olhar inerte e feliz junto das duas moças, e eu teria preferido a sombria expressão do desejo que ela talvez sentia às vezes, à expressão risonha causada pelo desejo que ela inspirava. Por mais que tentasse disfarçar a consciência que tinha disso, esta a banhava e envolvia, vaporosa, voluptuosa, fazia surgir todo corado o seu rosto. Mas tudo o que Albertine deixava em suspenso nesses instantes dentro de si mesma, e que irradiava à sua volta e me fazia sofrer tanto, quem sabe se na minha ausência ela continuaria a manter em silêncio, se aos avanços das duas moças, agora que eu já não estava ali, ela não corresponderia com audácia? É claro que tais lembranças me causavam grande mágoa. Eram como uma confissão total dos gostos de Albertine, uma confissão geral de sua infidelidade, contra o que não poderiam prevalecer suas juras particulares, nas quais eu gostaria de crer, os resultados negativos de minhas incompletas indagações, as garantias de Andrée, talvez forjadas em conivência com Albertine. Esta podia negar suas traições particulares; com palavras que lhe escapavam, mais fortes que as declarações contrárias, ou por simples olhares, ela confessara o que desejava ocultar, muito mais do que fatos particulares: aquilo que preferia matar-se a dar a conhecer, o seu vício. Pois nenhuma criatura deseja entregar a sua alma. Apesar da mágoa que tais lembranças me causavam, poderia eu negar que era o programa da vesperal do Trocadero que despertara a minha necessidade de Albertine? Ela era dessas mulheres em quem as culpas poderiam, se preciso fosse, substituir os encantos e, tanto quanto as culpas, a bondade que lhes sucede e nos devolve aquela doçura que com elas, como um enfermo que nunca se sente bem dois dias seguidos, sempre somos obrigados a reconquistar. Aliás, mais até do que as culpas do tempo em que as amamos, existem as culpas de antes que as conhecêssemos, e a primeira de todas: a sua natureza. De fato, o que torna dolorosos tais amores é que preexiste a eles uma espécie de pecado original da mulher, um pecado que faz com que a amemos, de modo que, quando o esquecemos, temos menos necessidade dela e, para recomeçar a amar, é necessário recomeçar a sofrer. Neste momento, que ela não se encontrasse com as duas moças e saber se ela conhecia ou não conhecia Léa era o que mais me preocupava, embora a gente não devesse interessar-se por fatos particulares a não ser devido à seu significado geral, e apesar da puerilidade que existe, tão grande como a da viagem ou do desejo de conhecer mulheres, em fragmentar a curiosidade sobre aquilo que, da torrente invisível das realidades cruéis que nos ficarão sempre desconhecidas, casualmente se cristalizou em nosso espírito. Além disso, mesmo que chegássemos a destruir tal cristalização, ela seria logo substituída por outra. Ontem, eu temia que Albertine fosse à casa dos Verdurin. Hoje só estava preocupado com Léa. O ciúme, que traz uma venda nos olhos, não é só impotente para descobrir alguma coisa nas trevas que o cercam; é também um dos suplícios em que a tarefa é recomeçar sem descanso, como a das Danaides, como a de Íxion. Mesmo se as duas moças lá não estivessem, qual a impressão que poderia causar sobre ela a atriz Léa, embelezada pela caracterização, glorificada pelo sucesso, quantas fantasias deixaria ela para Albertine, quais os desejos que, mesmo refreados em minha casa, lhe dariam o desgosto de uma vida em que não poderia satisfazê-los? Aliás, quem sabe se ela não conhecia Léa e não iria vê-la em seu camarim, e até que Léa não a conhecesse: quem me asseguraria que, tendo-a de qualquer modo avistado em Balbec, não a reconheceria e não lhe faria um sinal desde o palco, o que autorizaria Albertine a mandar abrir a porta dos bastidores? Um perigo parece muito evitável quando é conjurado. Este não o era ainda, eu receava que não fosse possível evita-lo, e por isso ele me parecia tanto mais terrível. E no entanto esse amor por Albertine, que eu sentia quase desvanecer-se quando tentava realiza-lo, parecia de algum modo provado pela violência da minha dor nesse momento. Eu não me preocupava com outra coisa e só pensava nas maneiras de impedir Albertine de ficar no Trocadero, teria oferecido qualquer quantia a Léa para que lá não comparecesse. Se se demonstra a preferência de alguém pela ação que pratica mais do que pelas idéias que defende, então eu estava amando Albertine.

            Mas essa retomada do sofrimento não dava maior consistência à imagem de Albertine dentro de mim. Provocava os meus males como uma divindade que permanece invisível.

            Fazendo mil conjecturas, eu procurava remediar meu sofrimento sem por isso realizar o meu amor.

            Primeiro, era necessário ter certeza de que Léa iria de fato ao Trocadero. Depois de ter mandado embora a garota da leiteria, dando-lhe cinco francos, telefonei para Bloch, também ligado a Léa, para tomar informações. Não sabia de nada e pareceu espantado que aquilo pudesse interessar-me. Pensei que era preciso apressar-me, que Françoise já estava pronta e eu não; e, enquanto me levantava, mandei-a tomar um automóvel;18 ela devia ir ao Trocadero, comprar uma entrada, procurar Albertine por todo o salão e lhe entregar um bilhete meu. Nesse bilhete eu dizia que estava transtornado por uma carta recebida há pouco da mesma senhora por quem ela sabia que me sentira tão infeliz certa noite em Balbec. Lembrava-lhe que no dia seguinte ela me censurara por não ter mandado chamá-la. Assim, dizia eu, permitia-me pedir que sacrificasse a sua vesperal e viesse buscar-me para tomarmos juntos um pouco de ar, a fim de tentar que eu melhorasse. Mas, como eu levaria muito tempo para me vestir e me aprontar, ela me daria grande prazer aproveitando a presença de Françoise para ir comprar nos Trois Quartiers (sendo menor, esta loja me inquietava menos que o Bon Marché) o lenço de tule branca de que necessitava.

            Meu bilhete provavelmente não era inútil. Para falar a verdade, eu nada sabia do que havia feito Albertine desde que a conhecia, nem mesmo antes. Mas em sua conversação (Albertine poderia dizer, se lhe tivesse falado nisso, que eu compreendera mal) havia certas contradições, certos retoques que me pareciam tão decisivos como um flagrante delito, porém menos utilizáveis contra Albertine que, muitas vezes, surpreendida em fraude como uma criança, de cada vez, graças a súbitas retificações estratégicas, tornara baldados meus cruéis ataques e restabelecera a situação. Cruéis para mim. Ela empregava, não por refinamento de estilo, mas para reparar suas imprudências, esses saltos bruscos de sintaxe um tanto semelhantes ao que os gramáticos denominam anacoluto ou seja lá o que for. Deixando escapar, ao falar de mulheres, estas palavras:

            - Lembro-me que ultimamente, eu -, bruscamente, depois de uma "pausa de semicolcheia", "eu" se transformava em "ela", era uma coisa que ela tinha avistado num passeio inocente, e não realizada. Não era ela o sujeito da ação. Gostaria eu de me lembrar exatamente do começo da frase para concluí-la por mim mesmo, já que ela se interrompera, qual teria sido o final. Mas, como havia esperado esse final, mal me recordava do princípio, pois talvez o meu ar interessado a tivesse feito desviar-se, e eu ficava ansiando pelo seu pensamento verdadeiro, pela sua recordação verídica. Infelizmente, com os começos de uma mentira de nossa amante ocorre o mesmo que com os começos do nosso próprio amor, ou com os começos de uma vocação. Eles se formam, conglomeram-se e passam despercebidos de nossa própria atenção. Quando queremos nos lembrar de que modo começamos a amar uma mulher, já estamos amando; dos devaneios de antes, não dizíamos: é o prelúdio de um amor, estejamos atentos; e eles avançavam de surpresa, mal notados por nós. Da mesma forma, a não ser em casos relativamente escassos, foi quase por comodidade da narrativa que muitas vezes opus aqui um dito mentiroso de Albertine com (sobre o mesmo assunto) a sua afirmação primitiva. Essa afirmação primitiva, muitas vezes, não lendo no futuro e não adivinhando qual afirmação contraditória lhe corresponderia mais tarde, deslizara despercebida, com certeza escutada por meus ouvidos, mas sem que eu a isolasse da continuidade das palavras de Albertine. Posteriormente, gostaria de me lembrar; era em vão; minha memória não fora prevenida a tempo; havia julgado inútil guardar uma cópia.

            Recomendei a Françoise que, quando tivesse feito Albertine sair do salão, avisasse-me por telefone e a trouxesse de volta, contente ou não.

            - Não faltava mais nada que ela não ficasse contente de vir para a companhia do senhor.

            - Mas não sei se ela gosta tanto assim de estar comigo.

            - Seria preciso que ela fosse bem ingrata - replicou Françoise, em quem Albertine renovava, depois de tantos anos, o mesmo suplício da inveja que outrora lhe causara Eulalie junto de minha tia. Ignorando que a situação de Albertine junto a mim não fora procurada por ela mas por mim desejada (o que por amor-próprio e para enraivecer Françoise eu punha tanto empenho em lhe ocultar), ela admirava e execrava a sua habilidade e chamava-a, quando falava dela aos demais criados, de "comediante", de "impostora", que fazia de mim o que queria. Não ousava ainda entrar em guerra aberta contra Albertine, fazia-lhe boa cara, e valorizava-me os serviços que prestava em suas relações comigo, pensando ser inútil dizer-me qualquer coisa e que não conseguiria nada, mas aguardando uma ocasião; e, se alguma vez descobrisse uma fissura na situação de Albertine, prometia a si mesma alargá-la e separar-nos completamente.

            - Muito ingrata? Mas não, Françoise, eu é que me considero ingrato, você não sabe como ela é boa para mim. (Era-me tão doce parecer ser amado!) Vá depressa.

            - Vou chispando.

            A influência de sua filha começava a alterar um pouco o vocabulário de Françoise. Assim todas as línguas perdem a sua pureza por anexar novos termos. Aliás, eu era indiretamente responsável por essa decadência do modo de falar de Françoise, que conhecera em sua bela época. A filha de Françoise não teria feito com que degenerasse ao mais baixo calão a linguagem clássica da mãe, se se tivesse contentado em falar o patoá com ela. Nunca se privara disso, e, quando as duas estavam juntas comigo, se tinham coisas secretas a se dizer, em vez de irem fechar-se na cozinha, elas se faziam, bem no meio do meu quarto, uma proteção mais intransponível que a porta mais bem trancada, falando o patoá. Eu apenas supunha que mãe e filha não viviam sempre em boa harmonia, a julgar pela freqüência com que se repetia o único vocábulo que eu podia distinguir: m'esasperate (a menos que o objeto dessa exasperação fosse eu). Infelizmente, acabamos por aprender a língua mais desconhecida, desde que a ouçamos falar sempre. Lamentei que fosse o patoá, pois cheguei a conhecê-lo e não teria aprendido menos bem se Françoise tivesse o hábito de se exprimir em persa. Françoise, quando percebeu meu progresso, tratou de falar o mais depressa possível, e a filha também, mas nada adiantou. A mãe ficou desolada quando soube que eu compreendia o patoá, e depois contente ao me ouvir falá-lo. Na verdade, esse contentamento era o da zombaria, pois, embora eu acabasse por pronunciá-lo mais ou menos como ela, Françoise achava entre nossas pronúncias abismos que a encantavam, e punha-se a lastimar não ver mais pessoas da sua terra, nas quais há muitos anos que não pensava, e que, ao que parece, se torceriam de um riso que ela desejaria ouvir, ao me escutarem falar tão mal o patoá. Bastava essa idéia para enchê-la de alegria e de mágoa de não vê-la realizada, e nomeava este ou aquele camponês que chegaria às lágrimas de tanto rir. Em todo caso, nenhuma alegria se misturou à tristeza de que, mesmo o pronunciando mal, eu o compreendesse bem. As chaves tornavam-se inúteis quando aquele a quem desejamos impedir de entrar pode se servir de uma gazua ou de uma chave-mestra. Reduzindo-se o patoá a uma defesa sem valor, Françoise pôs-se a falar com a filha um francês que bem depressa se tornou o das épocas mais baixas.

            Eu já estava pronto. Françoise ainda não havia telefonado; seria preciso sair sem esperar? Mas quem sabe se ela encontraria Albertine? E se esta não se encontrasse nos bastidores? E se até, descoberta por Françoise, não se deixasse levar embora? Meia hora depois, ressoou o toque do telefone e no meu coração bateram tumultuosamente o receio e a esperança. Era um esquadrão volante de sons que, sob as ordens de um funcionário da companhia telefônica, com uma velocidade instantânea, me trazia as palavras do telefonista, não as de Françoise, a quem uma timidez e uma melancolia ancestrais, aplicadas a um objeto desconhecido de seus pais, a impediam de se aproximar de um receptor, mas que, no entanto, não temia visitar doentes contagiosos. Havia encontrado Albertine sozinha no corredor, e esta, tendo ido apenas avisar Andrée que não ficaria, logo se reunira a Françoise.

            - Ela não estava zangada? Ah, perdão. Pergunte a esta senhora se a senhorita não estava zangada.

            - Esta senhora me diz para lhe dizer que não, absolutamente não, muito pelo contrário; em todo caso, se ela não está contente isto não se percebe. Agora elas vão aos Trois Quartiers e estarão de volta às duas horas. -

            Compreendi que duas horas queria dizer três horas, pois já passava das duas. Mas era, em Françoise, um dos defeitos particulares, permanentes e incuráveis, a que chamamos doentios, o de nunca poder olhar nem dizer exatamente a hora. Jamais pude compreender o que se passava na sua cabeça quando Françoise, tendo olhado o relógio, caso fossem duas horas dizia: é uma hora, ou são três horas; jamais pude compreender se o fenômeno que ocorria então tinha por ser do olhar de Françoise, o seu cérebro, ou a sua linguagem; o certo é que tal fenômeno ocorria sempre. A humanidade é muito velha. A hereditariedade e os cruzamentos deram uma força invencível a maus hábitos, a reflexos viciosos. Algumas pessoas espirram e respiram com dificuldade porque passam perto de um arbusto, outras têm erupções devido ao odor da tinta fresca; muitas têm cólicas se é preciso viajar, e netos de ladrões que agora são milionários generosos não resistem à tentação de nos roubar cinqüenta francos. Quanto a saber em que consistia a impossibilidade em que se achava Françoise de dizer a hora exata, não foi dela que pude extrair qualquer esclarecimento a respeito. Pois, apesar da cólera que me davam habitualmente suas respostas inexatas, Françoise não procurava desculpar-se pelo erro, nem explicá-lo. Permanecia muda, dava a impressão de não me ouvir, o que acabava de me exasperar. Gostaria eu de ouvir uma palavra de justificação, ainda que fosse apenas para rebatê-la, mas nada; um silêncio indiferente. Em todo caso, quanto a hoje, nenhuma dúvida: Albertine ia voltar com Françoise às três horas, Albertine não veria Léa nem suas amigas. Assim, estando conjurado o perigo que ela renovasse suas relações com tais pessoas, esse perigo logo perdeu importância a meus olhos, e me espantei, ao ver a facilidade com que fora evitado, de ter pensado que não conseguiria que o fosse. Senti um vivo movimento de gratidão por Albertine, a qual, via bem, não fora ao Trocadero por causa das amigas de Léa, e que me mostrava, deixando a vesperal e voltando para casa a um sinal meu, que ela me pertencia para o futuro até mais do que eu imaginava. Maior ainda foi tal sentimento quando um ciclista me trouxe um bilhete dela para que eu tivesse paciência, bilhete em que havia amabilidades que lhe eram comuns: "Meu querido, meu caro Marcel, chego menos depressa que este ciclista, de cuja bicicleta gostaria de utilizar-me para estar mais cedo com você. Como pode imaginar que eu possa ficar aborrecida e que algo possa me agradar mais do que estar junto de você? Seria ótimo sairmos os dois juntos e melhor ainda seria nunca sairmos senão juntos. Que idéia são as suas, então? Esse Marcel! Toda sua, Albertine."

            Até os vestidos que lhe comprava, o iate de que lhe falara, os peignoirs de Fortuny, tudo isso, tendo nesta submissão de Albertine não a sua compensação, mas o seu complemento, surgia-me como outros tantos privilégios que eu exercia; pois os deveres e os encargos de um senhor fazem parte de sua dominação e a definem e provam, tanto quanto os seus direitos. E esses direitos que ela me reconhecia dava precisamente à meus encargos o seu verdadeiro caráter: eu tinha uma mulher à minha disposição, a qual, ao primeiro recado que lhe enviasse de improviso, mandava-me telefonar, com deferência, que voltava, que se deixava reconduzir logo. Eu era mais senhor do que julgava. Mais senhor, isto é, mais escravo. Eu já não tinha nenhuma impaciência de ver Albertine. A certeza de que ela estava fazendo compras com Françoise, que regressaria com ela num momento próximo que eu de bom grado prorrogaria, iluminava como um astro radioso e pacífico um tempo que agora eu gostaria muito mais de passar sozinho. O amor por Albertine fizera erguer-me e me preparar para sair, mas me impediria de desfrutar a minha saída. Imaginava que, nesse domingo, operariazinhas, midinettes e cocotes iam passear no Bois. E com essas palavras, "midinettes", "operariazinhas" (como já me ocorrera muitas vezes com um nome próprio, um nome de moça lido no noticiário de um baile), com a imagem de um corpete branco, de uma saia curta, pois atrás disso eu punha uma criatura desconhecida e que poderia me amar, eu criava sozinho mulheres desejáveis, e dizia comigo: "Como devem ser gostosas!" Mas de que me serviriam que o fossem, visto que eu não saía só?

            Aproveitando o fato de que ainda estava sozinho, e entrecerrando as cortinas para que o sol não me impedisse de ler as notas, sentei-me ao piano e abri ao acaso a Sonata de Vinteuil que ali estava posta, e comecei a tocar porque, estando ainda meio distante a chegada de Albertine, mas em compensação sendo segura, eu dispunha de tempo e de paz de espírito. Banhado na espera, cheio de segurança pelo seu retorno na companhia de Françoise e de confiança em sua docilidade, como na beatitude de uma luz interior tão reaquecedora como a de fora, eu podia dispor do meu pensamento, desprendê-lo de Albertine, aplicá-lo à Sonata. Mesmo nesta, não me empenhei em reparar o quanto a combinação do motivo voluptuoso e do motivo ansioso respondia agora mais ao meu amor por Albertine, do qual o ciúme estivera por tão longo tempo ausente que eu havia podido confessar a Swann a minha ignorância de tal sentimento. Não, tomando a Sonata de um outro ponto de vista, encarando-a em si mesma como sendo a obra de um grande artista, eu era conduzido pelo fluxo sonoro em direção aos dias de Combray. Não quero dizer de Montjouvain e do lado de Méséglise, mas dos passeios pelos lados de Guermantes -quando eu próprio desejara ser artista. Abandonando de fato tal ambição, renunciara eu a alguma coisa real? Poderia a vida consolar-me da arte, haveria na arte uma realidade mais profunda em que nossa personalidade verdadeira encontrasse uma expressão que não lhe conferem as ações da vida? Todo grande artista parece de fato de tal modo diverso dos outros, e tanto nos dá aquela sensação de individualidade que em vão buscamos na existência cotidiana! No momento em que eu pensava nisto, um compasso da Sonata me impressionou, compasso que aliás eu conhecia bem; mas às vezes a atenção ilumina diversamente coisas já conhecidas no entanto há muito, e nas quais assinalamos o que nunca tínhamos percebido nelas. Tocando esse compasso, e conquanto Vinteuil estivesse exprimindo ali um sonho que deveria permanecer de todo estranho a Wagner, não pude evitar murmurar: "Tristão!"-com o sorriso que tem um amigo da família ao encontrar algo do avô numa entonação, num gesto do neto que não o conheceu. E como então se olha uma fotografia que permite precisar a semelhança, instalei na estante, por sobre a Sonata de Vinteuil, a partitura de Tristão, do qual tocavam, justamente naquela tarde, alguns trechos no Concert Lamoureux. Na minha admiração pelo mestre de Bayreuth, eu não tinha nenhum dos escrúpulos daqueles, como Nietzsche, a quem o dever lhes dita que fujam, na arte como na vida, da beleza que os provoca, repudiando Tristão como renegam Parsifal e, por ascetismo espiritual, de mortificação em mortificação, chegam, seguindo o mais sangrento dos caminhos da cruz, a elevar-se ao puro conhecimento e à adoração perfeita do Postilhão de Longjumeau. [Ópera-cômica de Adolphe Adam (1803-1856). (N. do T)]. Eu percebia tudo o que a obra de Wagner tem de real, revendo esses temas insistentes e fugazes que visitam um ato, afastando-se apenas para retornar, e às vezes distantes, entorpecidos, quase desligados, são, em outros momentos, mesmo sempre continuando vagos, tão próximos e prementes, tão internos, tão orgânicos, tão viscerais, que se diria serem a retomada menos de um motivo que de uma nevralgia.

            A música, bem diferente nisto da companhia de Albertine, ajudava-me a descer ao fundo de mim mesmo, e a descobrir aí coisas novas: a variedade que eu em vão buscara na vida, na viagem, cuja nostalgia no entanto me era dada por esse fluxo sonoro que fazia morrer a meu lado suas ondas ensolaradas. Dupla diversidade. Como o espectro exterioriza para nós a composição da luz, do mesmo modo a harmonia de um Wagner e a cor de um Elstir nos permitem conhecer aquela essência qualitativa das sensações de outrem, onde o amor por outra criatura não nos faz penetrar. Além disso, diversidade no seio da própria obra, pelo único meio que há de ser realmente diverso: reunir várias individualidades. Onde um músico qualquer julgaria estar pintando um escudeiro, ou um cavaleiro, ainda quando os fizesse cantar a mesma música, Wagner, ao contrário, coloca, sob cada denominação, uma realidade diferente e, cada vez que seu escudeiro aparece, trata-se de uma figura particular, a um tempo simplista e complicada, que, com um entrechoque de linhas radiante e feudal, inscreve-se na imensidade sonora. Decorre daí a plenitude de uma música de fato repleta de tantas músicas, cada uma das quais é um ser. Um ser ou a impressão que nos dá um aspecto momentâneo da natureza. Mesmo aquilo que é mais independente do sentimento que ela nos faz experimentar, conserva sua realidade exterior e inteiramente definida, o canto de um pássaro, o som da trompa de um caçador, a canção tocada por um pastor na sua flauta de cana, recortam no horizonte a sua silhueta sonora. Por certo Wagner ia fazê-la mais próxima, aproveitar-se dela, colocá-la numa orquestra, submetê-las às mais altas idéias musicais, todavia respeitando sua originalidade primitiva como um fabricante de arcas respeita as fibras, a essência particular da madeira que esculpe.

            Mas apesar da riqueza dessas obras em que a contemplação da natureza tem seu lugar ao lado da ação, ao lado de indivíduos que não são mais que nomes de personagens, mesmo assim eu imaginava o quanto essa obras participam do caráter de ser - ainda que maravilhosamente - sempre incompletas, que é o caráter de todas as grandes obras do século XIX, cujos maiores escritores deixaram em seus livros a marca de sua personalidade, mas, observando-se enquanto trabalhavam, como se fossem a um tempo o operário e o juiz, extraíram dessa autocontemplação uma beleza nova, exterior e superior à obra, impondo-lhe retroativamente uma unidade, uma grandeza que ela não possui. Sem nos determos naquele que viu em seus romances, depois de concluídos, uma Comédia Humana, nem naqueles que a poemas ou ensaios inconjuntos denominaram A Lenda dos Séculos e A Bíblia da Humanidade, não podemos, no entanto, dizer que este último encarna tão bem o século XIX, que as maiores belezas de Michelet devemos procurá-las menos na sua própria obra que nas atitudes que ele assume em face da mesma, não na sua História da França ou na sua História da Revolução, mas em seus prefácios a esses dois livros? Prefácios, ou seja, páginas escritas depois dos livros, onde ele os examina, e às quais convém acrescentar, aqui e ali, algumas frases, começando de hábito por um "Devo dizê-lo?" que não é uma cautela de sábio, mas uma cadência de músico. O outro músico, o que me deslumbrava no momento, Wagner, tirando de suas gavetas um trecho delicioso para fazê-lo entrar como tema retrospectivamente necessário em uma obra na qual não pensava no momento em que a compusera e, depois, tendo composto uma primeira ópera mitológica, depois uma segunda, depois ainda outras, e de súbito percebendo que acabava de fazer uma Tetralogia, deve ter sentido um pouco da mesma embriaguez de Balzac, quando este, lançando às suas obras um olhar a um tempo de um estranho e de um pai, achando neste romance a pureza de Rafael, neste outro a simplicidade do Evangelho, reparou bruscamente, ao lançar sobre eles uma iluminação retrospectiva, que ficariam mais belos reunidos num ciclo em que as mesmas personagens reaparecessem e acrescentou à sua obra, nesse ajustamento, uma pincelada, a derradeira e a mais sublime. Unidade ulterior, não artificial.

            Senão seria reduzida a pó como tantas sistematizações de escritores medíocres que, com grande reforço de títulos e subtítulos, desejam parecer que se deram ao esforço de perseguir um só e transcendente desígnio. Não fictícia, talvez mais real até por ser ulterior, por ter nascido de um momento de entusiasmo em que é descoberta entre pedaços que só precisam se unir, unidade que se ignorava, portanto vital e não lógica, que não proscreveu a variedade nem ressecou a execução. Ela é (mas aplicando-se desta vez ao conjunto) como determinado trecho composto à parte, nasceu de uma inspiração, não exigida pelo desenvolvimento artificial de uma tese, e que vem integrar-se a resto. Antes do grande movimento de orquestra que precede a volta de Isolda, foi à própria obra que atraiu para si a ária meio esquecida da flauta de um pastor.

            E, sem dúvida, assim como a progressão da orquestra, ao aproximar-se da nave, apodera-se dessas notas da flauta, transforma-as, associa-as à sua embriaguez, quebra o seu ritmo, aclara-lhes a tonalidade, acelera-lhes o movimento, multiplica-lhes a instrumentação, assim o próprio Wagner, sem dúvida, alegrou-se ao descobrir em sua memória a ária do pastor, agregou-a à sua obra, deu-lhe todo seu significado. De resto, semelhante alegria não o abandona jamais. Seja qual for a tristeza do poeta, ela é consolada nele, superada - quer dizer, infelizmente um pouco destruída pela alegria do fabricante. Mas então, tanto quanto pela identidade que eu havia notado há pouco entre a frase de Vinteuil e a de Wagner, sentia-me perturbado por essa habilidade vulcânica. Seria essa habilidade que confere, nos grandes artistas, a ilusão de uma originalidade intrínseca, irredutível, aparentemente um reflexo dê uma realidade mais que humana, e de fato o produto de um labor industrioso?

            Se a arte não passa disto, não é mais real do que a vida, e eu não tinha que lastimar o fato de não ser artista. Continuava a tocar Tristão. Separado de Wagner pelo tabique sonoro, ouvia-o exultar, convidar-me a partilhar da sua alegria, ouvia redobrar o riso imortalmente jovem e as marteladas de Siegfried, em quem, aliás, mais maravilhosamente marcadas eram tais frases, a habilidade técnica do operário só servindo para fazê-las mais livremente deixar a terra, pássaros idênticos não ao cisne de Lohengrin, mas àquele aeroplano que eu vira, em Balbec, mudar sua energia em elevação, planar acima das ondas e perder-se no céu. Talvez, como as aves que mais alto sobem, que voam mais depressa, têm uma asa mais possante, fossem necessários aparelhos realmente materiais para explorar o infinito, desses cento e vinte cavalos marca Mistério, nos quais entretanto, por mais alto que se voe, é-se um tanto impedido de desfrutar o silêncio dos espaços devido ao potente ronco do motor!

            Não sei por que o curso de meus devaneios, que até aqui havia seguido as recordações da música, desviou-se para aqueles que foram, em nossa época, os melhores executantes, e entre os quais, superestimando-o um pouco, eu situava Morel. E logo o meu pensamento fez um brusco desvio e foi sobre o caráter de Morel, e certas singularidades desse caráter, que me pus a devanear. Aliás, isto podia acrescentar-se mas não se confundir com a neurastenia que o atormentava-, Morel tinha o hábito de falar de sua vida, mas dando um retrato tão sombrio dela que era difícil distinguir alguma coisa. Por exemplo, colocava-se à inteira disposição do Sr. de Charlus, com a condição de ter as noites livres, pois desejava poder seguir o curso de álgebra depois do jantar. O Sr. de Charlus dava licença, mas pedia para vê-lo depois.

            - lmpossível, é uma velha pintura italiana-(este gracejo não faz qualquer sentido transcrito assim; mas o Sr. de Charlus fizera Morel ler A Educação Sentimental, em cujo penúltimo capítulo Fréderic Moreau diz esta frase; e, assim, Morel, de brincadeira, nunca dizia a palavra "impossível" sem fazê-la seguir por estas: "é uma velha pintura italiana") -, o curso dura muitas vezes até bem tarde e já é um grande incômodo para o professor, que naturalmente ficaria melindrado...

            - Mas não há necessidade de curso, álgebra não é como a natação, nem mesmo como o inglês, isto se aprende muito bem num livro - replicava o Sr. de Charlus, tendo logo adivinhado nesse curso de álgebra uma dessas imagens em que não se podia destrinçar nada. Talvez se tratasse da cópula com uma mulher, ou, se Morel procurava ganhar dinheiro por meios suspeitos e estivesse de combinação com a polícia secreta, de uma operação com agentes de segurança, ou, quem sabe, pior ainda, a espera de um gigolô de quem se poderá precisar num bordel.

            - Bem mais facilmente até pelos livros - respondia Morel ao Sr. de Charlus-, pois não se compreende nada num curso de álgebra.

            - Então por que não a estudas de preferência lá em casa, onde tens de fato todo o conforto? -poderia ter respondido o Sr. de Charlus; evitou, porém, dizê-lo, sabendo que, imediatamente, conservando apenas o mesmo caráter de necessidade para reservar as horas da noite, o curso de álgebra se mudaria numa aula obrigatória de dança ou de desenho. No que o Sr. de Charlus pôde perceber que se enganava, ao menos em parte: Morel, muitas vezes, na casa do barão, ocupava-se em resolver equações. O Sr. de Charlus objetava que a álgebra não podia servir em nada a um violinista. Morel retrucava que era uma distração para passar o tempo e combater a neurastenia. É claro que o Sr. de Charlus poderia procurar saber o que eram na verdade aquelas misteriosas e fatais aulas de álgebra, só ministradas à noite. Mas o Sr. de Charlus estava envolvido demais nas obrigações da sociedade para se ocupar em deslindar o emaranhado das ocupações de Morel.

            As visitas feitas ou recebidas, o tempo passado no círculo, os jantares na cidade e as noites no teatro impediam-no de pensar nisso, bem como naquela malvadez, a um tempo violenta e sorrateira, que Morel, dizia-se, fazia ao mesmo tempo brilhar e dissimular nos ambientes sucessivos, nas diferentes cidades por onde passara, e onde só falavam dele com um arrepio, baixando a voz, e sem coragem de contar coisa alguma. Infelizmente, foi a uma dessas explosões de nervosismo maldoso que tive ocasião de assistir naquele dia, quando, tendo deixado o piano, desci ao pátio para ir ao encontro de Albertine que ainda não tinha chegado. Passando em frente à loja de Jupien, onde Morel e aquela que eu julgava vir a ser em breve sua mulher estavam sozinhos, ouvi Morel gritando com toda a força, o que fazia sair dele uma entonação que não lhe conhecia, rude, habitualmente recalcada, e estranhíssima. As palavras não o eram menos, erradas do ponto de vista da língua francesa, mas ele conhecia tudo imperfeitamente.     - Saia já daqui; sua grandessíssima puta, grandessíssima puta, grandessíssima puta- repetia ele à pobre moça, que certamente no começo não entendera o que ele queria dizer; e depois, trêmula e digna, permanecia imóvel diante dele. - Já lhe disse para sumir daqui, grandessíssima puta, grandessíssima puta, vá procurar o seu tio para que eu lhe diga o que você é, sua puta. -

            Justo naquele momento a voz de Jupien; que regressava conversando com um amigo, fez-se ouvir no pátio, e, como eu sabia que Morel era um tremendo poltrão, achei inútil juntar minhas forças à de Jupien e seu amigo, que num instante estariam dentro da loja, e voltei a subir, para evitar Morel, que, embora tivesse tanto desejado que chamassem Jupien (provavelmente para aterrorizar e dominar a moça com uma chantagem sem qualquer fundamento), apressou-se a sair logo que ouviu sua voz no pátio. As palavras reproduzidas não são nada, nem explicariam o bater do coração com que subi.

            Tais cenas a que assistimos na vida encontram um elemento de força incalculável no que os militares denominam, em matéria de ofensiva, a vantagem da surpresa, e, por maior que fosse a minha sensação de suave tranqüilidade por saber que Albertine, em vez de ficar no Trocadero, ia voltar para junto de mim, nem por isso ressoava menos nos ouvidos o acento daquelas palavras dez vezes repetidas: "grandessíssima puta, grandessíssima puta", que tinham me perturbado tanto.

            Pouco a pouco minha agitação se acalmou. Albertine ia chegar. Eu a ouviria bater à porta dentro de um instante. Sentia que minha vida não era mais a mesma como poderia ter sido; e que ter assim uma mulher com a qual muito naturalmente, quando estivesse de volta, deveria sair, para cujo embelezamento iam ser cada vez mais desviadas as forças e a atividade do meu ser, fazia de mim como que uma haste acrescida, mas vergada ao peso do fruto opulento pelo qual passam todas as suas reservas. Contrastando com a ansiedade que eu experimentara uma hora antes, o sossego que me causava o regresso de Albertine era mais vasto do que o que eu sentira de manhã, antes de sua partida. Antecipando o futuro, de que a docilidade de minha amiga me tornava mais ou menos senhor, mais resistente, como que repleto e estabilizado pela presença iminente, importuna, inevitável e doce, era o sossego (dispensando-nos de buscar a felicidade em nós mesmos) que nasce de um sentimento familiar e de uma ventura doméstica: foi isso ainda, não menos que o sentimento que me trouxera tanta paz enquanto eu esperava Albertine, o que experimentei a seguir, passeando com ela. Ela tirou a luva por um momento, fosse para tocar a minha mão, fosse para me deslumbrar, deixando-me ver no seu dedo mindinho, ao lado daquele que recebera da Sra. Bontemps, um anel onde se estendia a larga e líqüida toalha de uma clara folha de rubis:

            - Um novo anel, Albertine? Sua tia é tão generosa!

            - Não, este não veio da minha tia - disse ela, rindo. - Eu mesma é que o comprei, visto que, graças a você, posso fazer grandes economias. Nem mesmo sei a quem pertenceu. Um viajante que não tinha dinheiro o deixou para o dono de um hotel onde estive em Mans. O homem não sabia o que fazer dele e o teria vendido bem abaixo do seu valor. Mas ainda assim era muito caro. Agora que, graças a você, eu me torno uma dama elegante, mandei lhe perguntar se ele o possuía ainda. E aí está.

            - Tanto anel, Albertine. Onde vai pôr o que lhe vou dar? Em todo caso, este é muito bonito; não consigo distinguir os lavores em torno aos rubis, dir-se-ia uma cabeça humana fazendo caretas. Mas não tenho boa vista.

            - Mesmo que a tivesse, não adiantaria muito. Eu também não distingo nada.

            Antigamente, muitas vezes me ocorrera, ao ler um volume de memórias ou um romance, em que um homem sempre sai com uma mulher, merendam juntos, desejar poder fazer o mesmo. Às vezes julgara consegui-lo, por exemplo, levando comigo a amante de Saint-Loup, indo jantar com ela. Mas debalde eu invocava a idéia de que, naquele momento, representava bem a personagem que havia invejado no romance, essa idéia me convencia de que eu devia ter satisfação ao lado de Rachel e, todavia, não me proporcionava.

            É que, de cada vez que desejamos imitar alguma coisa, esquecemos que essa coisa foi produzida não pela vontade de imitar, mas por uma força inconsciente, também real. Mas essa impressão particular que não pudera me dar todo o meu desejo de sentir um prazer delicado ao passear com Rachel, eis que agora o sentia sem o ter procurado de forma alguma, mas por motivos completamente diversos, sinceros, profundos para citar um exemplo - porque meu ciúme impedia-me de estar longe de Albertine e, no momento em que eu podia sair, de deixá-la passear sem mim. Só o sentia agora porque o conhecimento é, não das coisas exteriores que desejamos observar, mas das sensações involuntárias; porque outrora uma mulher, por mais tempo que estivesse no mesmo carro que eu, não estava na realidade junto a mim, enquanto não a recriasse ali, a todo instante, uma necessidade dela como eu a tinha de Albertine, enquanto a carícia constante do meu olhar não lhe devolvesse permanentemente as cores que exigem ser perpetuamente refrescadas, enquanto os sentidos, mesmo apaziguados, mas que se recordam, não pusessem sob aquelas cores o sabor e a consistência, enquanto, unido aos sentidos e à imaginação que os exalta, o ciúme não mantivesse tal mulher em equilíbrio junto a mim por uma atração compensada, tão poderosa como a lei da gravidade.

            Nosso carro descia depressa pelos bulevares, pelas avenidas, cujos palacetes enfileirados, rósea congelação de sol e de frio, recordavam-me as visitas à casa da Sra. Swann, docemente iluminadas pelos crisântemos a esperada hora dos lampiões. Eu mal tinha tempo de avistar, tão separado delas atrás do vidro do automóvel como o teria estado atrás da janela do meu quarto, uma jovem caixeira da casa de frutas, uma moça da leiteria de pé diante da porta, iluminada pelo lindo dia como uma heroína que meu desejo bastava para empenhar em peripécias deliciosas, no limiar de um romance que eu nunca haveria de conhecer. Pois eu não podia pedir a Albertine que parássemos, e já não eram mais visíveis as moças, de quem meus olhos mal distinguiram as feições e mal puderam acariciar a frescura no louro vapor em que elas se banhavam. A emoção de que me sentia possuído ao avistar a filha de um comerciante de vinhos ou uma lavadeira conversando na rua era a emoção que se tem ao reconhecer as Deusas. Desde que o Olimpo já não existe, seus habitantes vivem na terra. E, quando, ao compor um quadro mitológico, os pintores fizeram posar, como Vênus ou Ceres, moças do povo que exerciam os ofícios mais vulgares, bem longe de cometer um sacrilégio, não fizeram mais que acrescentar-lhes, restituir-lhes a qualidade e os atributos divinos de que se achavam despojadas.

            - Como lhe pareceu o Trocadero, louquinha?

            - Estou muito contente de o ter deixado para passear com você. É de Davioud, creio.

            - Mas como a minha pequena Albertine é instruída! De fato, é de Davioud, mas eu o tinha esquecido.

            - Enquanto você dormia li seus livros, grande preguiçoso. Como monumento, é bem feio, não acha?

            - Menina, você está mudando com tamanha rapidez e se torna de tal modo inteligente (é verdade, mas, além disso, gostava que ela tivesse a satisfação, à falta de outras, de pensar que pelo menos o tempo que passava em minha casa não era totalmente perdido), que lhe diria, quando necessário, algumas coisas que em geral seriam consideradas falsas e que correspondem a uma verdade que estou procurando. - Você sabe o que é o impressionismo?

            - Sei.

            - Pois bem, veja o que pretendo dizer: lembra-se da igreja de Marcouville I'Orgueilleuse, que Elstir não apreciava porque era nova? Será que ele não está um tanto em contradição com o seu próprio impressionismo, quando retira assim esses monumentos da impressão global em que estão situados, leva-os para fora da luz onde estão dissolvidos e examina o seu valor intrínseco feito um arqueólogo? Quando pinta, por acaso um hospital, uma escola ou um cartaz numa parede não têm o mesmo valor que uma catedral inestimável que está perto, numa imagem indivisível? Lembre-se de como a fachada estava queimada pelo sol, como o relevo daqueles santos de Marcouville sobrenadavam na luz. Que importa que um monumento seja novo, se parece velho? E mesmo que não pareça! O que os velhos bairros têm de poético foi extraído até a última gota, porém certas casas recentemente construídas para pequenos burgueses endinheirados, nos bairros novos, onde a pedra muito branca mostra ter sido preparada há pouco, não rompem elas o ar tórrido do meio-dia em julho, à hora em que os comerciantes voltam para o almoço no subúrbio, com um grito tão ácido como o odor das cerejas, antes que a refeição seja servida na sala de jantar penumbrosa, onde os prismas de vidro para descanso das facas projetam focos multicores tão belos como os vitrais de Chartres?

            - Como você é delicioso de ouvir! Se algum dia eu me tornar inteligente, será graças a você.

            - Por que, num dia bonito, desviar os olhos do Trocadero cujas torres em forma de pescoço de girafa fazem pensar na cartuxa de Pavia?

            - Ele me lembrou também, dominando da mesma forma do alto da colina, uma reprodução de Mantegna que você possui, creio que é São Sebastião, onde existe ao fundo uma cidade em anfiteatro e onde se poderia jurar que fica o Trocadero.

            - Você observa bem! Mas como é que viu a reprodução de Mantegna? Você é surpreendente.

            Tínhamos chegado aos bairros mais populares, e a ereção de uma Vênus ancilar atrás de cada balcão fazia dele uma espécie de altar suburbano ao pé do qual eu gostaria de passar a minha vida. Como se faz às vésperas de uma morte prematura, eu recapitulava os prazeres de que me privava o ponto final que Albertine punha na minha liberdade. Em Passy, foi no próprio leito da rua, por causa do tráfego congestionado, que as moças, abraçadas pela cintura, deslumbraram-me com seu sorriso. Não tive tempo de o perceber muito bem, mas era pouco provável que o superestimasse; de fato, em qualquer multidão, em qualquer multidão de gente jovem, não é raro que se encontre a efígie de um nobre perfil. De modo que essas balbúrdias populares dos dias de festa são para o indivíduo voluptuoso tão preciosas como, para o arqueólogo, a desordem de uma terra onde uma escavação faz surgir medalhas antigas. Chegamos ao Bois. Eu pensava que, se Albertine não tivesse vindo comigo, poderia naquele instante, no Circo do Champs-Élysées, ouvir a tempestade wagneriana fazer gemer todos os instrumentos de corda da orquestra, atrair para si como leve espuma a ária da flauta que eu havia tocado há pouco, fazê-la voar, petrificá-la, deformá-la, dividi-la, arrastá-la num turbilhão crescente. Pelo menos, desejei que o nosso passeio fosse curto e que voltássemos cedo, pois, sem nada falar a Albertine, eu decidira ir à noite à casa dos Verdurin. Tinham-me ultimamente enviado um convite que eu jogara na cesta, como a todos os anteriores. Mas resolvera reconsiderar aquela noite, pois queria tentar saber que tipo de pessoas Albertine poderia esperar encontrar de tarde na casa deles. Para falar a verdade, eu chegara com Albertine àquele momento em que (se tudo continua como está, se as coisas se passam normalmente) uma mulher só serve para nós como transição para outra mulher. Ela ainda nos fala ao coração, mas muito pouco; temos pressa de ir encontrar desconhecidas todas as noites, e sobretudo desconhecidas que ela conhece, e que poderão nos contar a vida dela. Com efeito, já possuímos e esgotamos tudo o que ela consentiu em nos entregar de si mesma. Sua vida é ainda ela mesma, mas justamente a parte que não conhecemos, as coisas sobre as quais interrogamos em vão e que poderemos ouvir de lábios novos.

            Se minha vida com Albertine devia impedir-me de ir a Veneza, de viajar, pelo menos eu teria podido, há pouco, se estivesse sozinho, conhecer as jovens midinettes espalhadas ao sol daquele belo domingo e em cuja beleza eu colocava uma grande parte da vida desconhecida que as animava. Os olhos que vemos não estão inteiramente penetrados por um olhar cujas imagens, lembranças, expectativas, desdéns não conhecemos e dos quais não os podemos separar? Essa existência, que é a da criatura que passa, não haverá de dar, conforme ela seja, um valor variável ao franzir das sobrancelhas, à dilatação das narinas? A presença de Albertine me impedia de ir ter com elas e talvez, desse modo, de cessar de desejá-las. Aquele que quer manter em si mesmo o desejo de continuar a viver e a crença em algo mais delicioso que as coisas costumeiras, deve passear; pois as ruas e as avenidas estão cheias de Deusas. Mas as Deusas não permitem que nos aproximemos delas. Aqui e ali, entre as árvores, à entrada de qualquer botequim, uma criada velava como uma ninfa à entrada de um bosque sagrado, enquanto que ao fundo três moças estavam sentadas junto ao imenso arco de suas bicicletas colocadas a seu lado, como três imortais debruçadas da nuvem ou do fabuloso corcel sobre o qual realizavam suas viagens mitológicas. Reparei que de cada vez que Albertine encarava aquelas moças por um instante, com profunda atenção, logo se voltava para mim. Mas eu não me atormentava muito nem com a intensidade dessa contemplação, nem com a brevidade que a intensidade compensava; de fato, quanto a esta última; ocorria muitas vezes que Albertine, fosse por cansaço, fosse por maneira de olhar própria de pessoa atenta, considerava assim, numa espécie de meditação, seja meu pai ou seja Françoise; e, quanto à sua rapidez em voltar-se para mim, podia ser motivada pelo fato de que Albertine, conhecendo minhas suspeitas, podia querer, mesmo não sendo justificadas, evitar provocá-las. Aliás, essa atenção, que teria me parecido culposa da parte de Albertine (e tanto quanto o seria se tivesse por objeto os rapazes), eu a dava, sem me sentir absolutamente culpado - e achando que Albertine o era por me impedir, com sua presença, de parar e descer-, a toda às midinettes. A gente acha inocente desejar e atroz que o outro deseje. E esse contraste entre o que diz respeito, ou a nós ou então àquela a quem amamos, não se refere unicamente ao desejo, mas também à mentira. Haverá coisa mais usual que ela, quer se trate, por exemplo, de encobrir as fraquezas diárias de uma saúde que se deseja impingir como boa, quer se trate de dissimular um vício, ou de ir, sem causar mágoa a outrem, à coisa que se prefere? A mentira é o instrumento mais necessário de conservação, e o mais utilizado. Ora, justo ela que temos a pretensão de banir da vida daquela a quem amamos, é ela que espionamos, é ela que farejamos, que detestamos por todo canto. Ela nos perturba, é bastante para provocar um rompimento, parece esconder as maiores faltas, a menos que não as esconda tão bem que não as suspeitemos. Estranho estado esse em que ficamos de tal modo sensíveis a um agente patogênico que a sua difusão universal torna inofensivo para os outros e tão grave para o infeliz que acaba por não ter mais imunidade contra ele! A vida dessas lindas jovens (devido a meus longos períodos de reclusão, eu as encontrava tão raramente) me parecia, como se dá com todos aqueles a quem a facilidade de realizações não amorteceu a potência de conceber, algo tão diverso do que eu conhecia, tão desejável, como as mais maravilhosas cidades que a viagem promete. A decepção causada pelas mulheres que eu conhecera, nas cidades aonde fora, não me impedia de me deixar levar pela atração de outras e de crer na sua realidade.

            Assim, da mesma forma que ver Veneza - Veneza, de quem eu sentia também a nostalgia naqueles dias primaveris e que o casamento com Albertine me impediria de conhecer-ver Veneza num panorama que Ski talvez tivesse declarado ser mais belo de tonalidade que a cidade real, em nada me teria substituído a viagem a Veneza, viagem cuja distância, determinada sem minha participação, parecia-me indispensável transpor da mesma forma, por mais bonita que fosse a midinette que uma alcoviteira me obtivesse artificialmente, não poderia em nada substituir, para mim, aquela que, rebolando os quadris, passava naquele instante sob as árvores, rindo com uma amiga. A que eu pudesse ter encontrado num bordel, ainda que fosse mais bonita, não seria a mesma coisa, pois não olhamos para os olhos de uma garota que não conhecemos como o faríamos para uma plaqueta de opala ou de ágata. Sabemos que o pequeno raio de luz que os irisa ou os grãos de brilhante que os fazem cintilar são tudo o que podemos ver de um pensamento, de uma vontade, de uma memória, onde residem a casa de família que não conhecemos, os amigos queridos que invejamos. Chegara apossar-nos de tudo isso, que é tão difícil, tão arisco, é o que dá ao olhar o seu valor, muito mais do que a simples beleza material (pelo que se pode explicar que um rapaz desperte todo um romance na imaginação de uma mulher que ouviu dizer que ele era o príncipe de Gales, e que não lhe dê mais atenção ao saber que se enganou); encontrar a midinette no bordel é encontrá-la vazia dessa vida ignorada que a penetra, e que aspiramos possuir com ela, é nos aproximarmos de olhos que de fato se tornaram simples pedras preciosas, de um nariz cujo franzir é tão destituído de significado como o de uma flor. Não, essa midinette desconhecida que ali passava, e da qual me parecia tão indispensável, se eu quisesse continuar a crer na sua realidade, experimentar-lhe as resistências adaptando-lhes o meu procedimento, arriscando-me a ouvir desaforos, voltando à carga, obtendo um encontro, esperando-a à saída do emprego, conhecendo episódio por episódio tudo o que compunha a vida dessa garota, atravessando aquilo de que se formava para ela o prazer que eu procurava e a distância que seus hábitos diversos e sua vida especial colocavam entre mim e a atenção, o favor que eu queria atingir e captar quanto fazer uma longa viagem de trem se eu quisesse acreditar na realidade de Pisa, que eu veria e que não seria apenas um espetáculo de exposição universal. Mas as próprias semelhanças que existem entre o desejo e a viagem fizeram com que eu prometesse a mim mesmo penetrar um pouco mais fundo na natureza dessa força invisível mas tão poderosa como as crenças, ou como, no mundo físico, a pressão atmosférica, que erguia tão alto as cidades, as mulheres, enquanto eu não as conhecia, e que se ocultava debaixo delas logo que eu me aproximava, fazendo-as desabar repentinamente no terra-a-terra da mais trivial realidade. Mais adiante, uma outra mocinha estava de joelhos junto a sua bicicleta, consertando-a. Uma vez terminados os reparos, a jovem ciclista montou na bicicleta, mas sem cavalgá-la como o teria feito um homem. Por um momento a bicicleta balançou, e o jovem corpo parecia ter adquirido um véu, uma asa imensa, e logo vimos afastar-se a toda velocidade a jovem criatura meio humana, meio alada, anjo ou perl prosseguindo a sua viagem.

            Eis do que exatamente me privava a presença de Albertine, a minha vida com Albertine. Do que me privava? Não deveria eu pensar do que, ao contrário, ela me gratificava?

            Se Albertine não vivesse comigo, se ela fosse livre, eu teria imaginado, e com razão, todas essas mulheres como objetos possíveis e prováveis do seu desejo, do seu prazer. Elas me apareceriam todas como essas dançarinas que, num balé diabólico, representando as Tentações para uma pessoa, atiram suas flechas no coração de outra. As midinettes, as moças, as atrizes, como as teria odiado! Objeto de horror, seriam excluídas por mim da beleza do universo. O cativeiro de Albertine, permitindo-me não mais sofrer por causa delas, restituía-as à beleza do mundo.

            Inofensivas, tendo perdido o aguilhão que enfia no coração o ciúme; era-me permitido admirá-las, afagá-las com o olhar, talvez mais intimamente em outro dia. Encerrando Albertine, eu ao mesmo tempo devolvera ao universo todas aquelas asas reluzentes que sussurravam nas avenidas, nos bailes, nos teatros, e que se tornavam tentadoras para mim porque ela já não podia sucumbir à sua tentação: Elas compunham a beleza do mundo. Tinham feito antigamente a de Albertine. Porque a vira como um pássaro misterioso, depois como uma grande atriz da praia, desejada, talvez conquistada, é que eu a achara maravilhosa. Uma vez cativo em minha casa o pássaro que eu tinha visto uma tarde caminhar a passos vagarosos sobre o molhe, cercado da congregação das outras jovens semelhantes à gaivotas vindas não se sabe de onde, Albertine perdera todas as suas cores, com todas as chances que os outros tinham de a possuir. Aos poucos perdera a sua beleza. Eram necessários passeios como este, em que eu a imaginava sem mim, abordada por tal mulher ou tal rapaz, para que eu a revisse no esplendor da praia, ainda que o meu ciúme estivesse num plano diverso do que o declínio dos prazeres de minha imaginação. Mas, apesar desses bruscos sobressaltos em que, desejada por outros, ela se me tornava bela outra vez, eu bem podia dividir sua temporada em minha casa em dois períodos: o primeiro, em que ela era ainda, embora menos a cada dia, a reluzente atriz da praia; e o segundo, em que, transformada na sombria prisioneira, reduzida a seu eu amortecido, eram-lhe precisos esses clarões, em que eu me recordava do passado, para lhe restituir as cores.

            Às vezes, nas horas em que ela me era mais indiferente, voltava-me a lembrança de um momento longínquo em que, na praia, quando ainda não a conhecia, não longe de certa senhora com quem eu estava em muito maus termos e com a qual agora estava quase seguro de que ela tivera relações, Albertine desatava a rir, olhando-me de modo insolente. O mar, brunido e azul, sussurrava em torno; ao sol da praia, Albertine, no meio de suas amigas, era a mais bela, era uma garota magnífica, que, no quadro habitual de águas imensas, infligira-me aquela afronta, preciosa para a dama que a admirava. Tal afronta era definitiva, pois a dama talvez voltasse a Balbec, talvez constatasse a ausência de Albertine na praia luminosa e sussurrante. Ignorava, porém, que a moça vivia em minha casa, só para mim. As águas imensas e azuis, o esquecimento das preferências que tinha por esta moça e que se dirigiam a outras, haviam recaído sobre a afronta que me fizera Albertine, prendendo-a num deslumbrante e infrangível escrínio. Então o ódio por aquela mulher me mordia o coração; também por Albertine, mas um ódio mesclado de admiração pela bela jovem adulada, de maravilhosa cabeleira, e cujo estalar de riso na praia era uma afronta. A vergonha, o ciúme, a recordação dos primeiros desejos e do quadro cintilante haviam devolvido a Albertine a sua beleza, o seu valor de outrora. E assim alternava, com o tédio um tanto pesado que eu sentia junto dela, um desejo fremente, cheio de imagens magníficas e saudades, conforme ela estivesse a meu lado no quarto, ou eu lhe restituísse a liberdade em minha memória, no molhe, em seus alegres trajes de praia, ao sabor dos instrumentos de música do mar. Albertine, ora saída desse ambiente, possuída e sem grande valor, ora mergulhada nele, escapando-me num passado que eu não poderia conhecer, ofendendo-me junto àquela senhora, junto da amiga, tanto quanto o salpico das ondas ou a ofuscação do sol, Albertine recolocada na praia ou reposta no meu quarto, numa espécie de amor anfíbio.

            Além, um grupo numeroso jogava bola. Todas essas meninas tinham querido aproveitar o sol, pois esses dias de fevereiro, mesmo quando são tão brilhantes, não duram até tarde, e o esplendor de sua luz não atrasa a vinda de seu declínio. Antes que este chegasse, tivemos um pouco de penumbra, porque, depois de descer até o Sena, onde Albertine admirou -e com sua presença me impediu de admirar os reflexos de velas vermelhas sobre a água azul e invernal, uma casa de telhas acocorada ao longe como uma única papoula no claro horizonte de que Saint-Coud parecia, mais longe ainda, a petrificação fragmentária, friável e cheia de pregas, saltamos do carro e caminhamos por muito tempo. Durante alguns momentos eu até lhe dava o braço, e parecia-me que o anel que o seu braço fazia sob o meu unia numa só criatura nossas pessoas e ligava nossos destinos um ao outro. A nossos pés, nossas sombras paralelas, mais juntas e aproximadas, formavam um desenho encantador. Sem dúvida já me parecia maravilhoso em casa que Albertine morasse comigo, que fosse ela quem se estendesse em minha cama.            Mas era como a exportação para fora, em plena natureza, que diante daquele lago de Bois, de que eu tanto gostava, ao pé das árvores, que fosse justamente a sua sombra, a sombra pura e simplificada de sua perna, de seu busto, que o sol tivesse de pintar numa aquarela, ao lado da minha, sobre a areia da alameda. E eu achava um encanto, mais imaterial sem dúvida, porém não menos íntimo, na aproximação, na fusão de nossas sombras do que na de nossos corpos. Depois voltamos para o carro. E este tomou por pequenas alamedas sinuosas onde as árvores de inverno, vestidas de heras e de sarças, como ruínas, pareciam levar à casa de um mágico. Mal saímos de sua cobertura ensolarada, encontramos, para deixar o Bois; o dia claro, tão claro ainda que eu julgava ter tempo de fazer tudo o que desejava antes de jantar, quando, só alguns instantes depois, no momento em que nosso carro se aproximava do Arco do Triunfo, foi com um brusco movimento de surpresa e pavor que avistei, sobre Paris, a lua cheia e prematura, como o mostrador de um relógio parado que nos faz pensar que estamos atrasados. Tínhamos dito ao cocheiro que voltasse para casa. Para Albertine, era também voltar para a minha casa. A presença das mulheres que precisam nos deixar para regressar a casa, por mais amadas que sejam, não nos dá essa paz que eu desfrutava na presença de Albertine, sentada no fundo do carro a meu lado, presença que nos encaminhava; não ao vazio das horas em que se fica separado, mas à reunião mais estável ainda e melhor definida dentro do meu lar, que também era o seu símbolo material do meu poder sobre ela. É claro que, para possuir, é preciso ter desejado. Não passamos uma linha, uma superfície, um volume, sem que nosso amor o ocupe. Mas Albertine não fora para mim, durante nosso passeio, como Rachel o fora antigamente, uma poeira vã de carne e tecidos. A imaginação de meus olhos, de meus lábios, de minhas mãos, tinha, em Balbec, tão solidamente construído e tão ternamente cinzelado o seu corpo, que agora naquele carro, para tocar esse corpo, por contê-lo, eu não tinha necessidade de me apertar contra Albertine, nem mesmo vê-la, bastava-me ouvi-la, e, se ela se calava, sabê-la junto a mim; meus sentimentos retrançados envolviam-na inteirinha e, quando, chegando em frente da casa, ela desceu com toda a naturalidade, eu parei um instante para dizer ao chofer que voltasse para me buscar, mas meus olhares ainda a envolviam, enquanto ela desaparecia sob o arco, e era sempre essa mesma calma inerte e doméstica o que eu desfrutava ao vê-la assim pesada, purpúrea, opulenta e cativa, entrar naturalmente em casa comigo, como uma mulher que fosse minha, e, protegida pelos muros, desaparecerem nossa casa.

            Infelizmente, ela parecia sentir-se prisioneira e ser da opinião daquela Sra. de La Rochefoucauld, que, como lhe perguntassem se não estava contente por viver numa residência tão bonita como Liancourt, respondeu que "não existe uma bela prisão", a julgar pelo ar tristonho e cansado que exibiu aquela noite durante o jantar, nós dois sozinhos no seu quarto. A princípio não reparei nisso; e eu é que fiquei desolado ao pensar que, se não fosse Albertine (pois com ela eu teria de morrer de ciúmes num hotel onde ela ficaria o dia todo em contato com tantas pessoas), poderia naquele instante estar jantando em Veneza, numa daquelas pequenas salas de jantar de teto rebaixado como um porão de navio, e de onde se vê o Grande Canal através de janelinhas arqueadas em molduras mouriscas.

            Devo acrescentar que Albertine admirava muito, em nossa casa, um grande bronze de Barbedienne, que com muita razão Bloch achava extremamente feio. Tinha-a menos talvez de se admirar que eu o conservasse. Eu jamais buscara, como ele, fazer um conjunto de mobílias artísticas, compor peças, era preguiçoso demais para isso, muito indiferente ao que estivesse habituado a ter diante dos olhos. Já que o meu gosto não se preocupava, eu tinha o direito de não matizar os interiores. Apesar disso, poderia talvez me desfazer do bronze. Mas as coisas feias e extravagantes são utilíssimas, pois têm, junto às pessoas que não nos compreendem, que não têm o nosso gosto, e das quais podemos estar enamorados, um prestígio que não teria uma peça ilustre que não revela a sua beleza. Ora, as pessoas que não nos compreendem são justamente as únicas junto às quais pode nos ser útil usar de um prestígio diante de criaturas superiores apenas por sermos inteligentes. Por mais que Albertine principiasse a ter um certo gosto, ela ainda mostrava algum respeito por aquele bronze; e esse respeito se refletia sobre mim numa consideração que, vindo dela, importava-me infinitamente mais do que conservar um bronze um tanto desonroso, visto que amava Albertine.

            Mas a idéia da minha escravidão cessou de repente de me pesar, e eu aspirava a prolongá-la ainda mais, pois parecia-me perceber que Albertine sentia cruelmente a sua. Sem dúvida, cada vez que eu lhe perguntava se não se aborrecia em minha casa, dizia-me sempre que não sabia onde poderia ser mais feliz. Muitas vezes, porém, tais palavras eram desmentidas por um ar de nostalgia, de nervosismo.

            Certamente, se ela tivesse os gostos que eu julgara que possuísse, esse impedimento de jamais satisfazê-los deveria ser tão irritante para ela como tranqüilizador para mim; tranqüilizador a ponto de que a hipótese de que a acusara injustamente teria me parecido a mais verossímil, se nela não encontrasse muita dificuldade em explicar aquele cuidado extraordinário que Albertine punha em nunca estar sozinha, nunca estar livre, em nunca parar um momento diante da porta ao entrar, em se fazer acompanhar ostensivamente, cada vez que ia telefonar, por alguém que pudesse me repetir as suas palavras, por Françoise, por Andrée, em me deixar sempre sozinho com esta última, sem dar a impressão que fosse de propósito quando tinham saído juntas, para que eu pudesse obter um relatório minucioso de sua saída. Com essa maravilhosa docilidade, contrastavam certos movimentos de impaciência, logo reprimidos, que me fizeram especular se Albertine não teria formado o projeto de romper as cadeias. Alguns fatos acessórios apoiavam minha suposição. Assim, um dia em que eu saíra sozinho, tendo encontrado Gisele perto de Passy, conversamos de uma coisa ou outra.

            Em pouco, muito feliz de poder informá-la, disse-lhe que via Albertine constantemente. Gisele me perguntou onde poderia encontrá-la, pois tinha justamente uma coisa a lhe dizer.

            - O que é?

            - Coisas das amiguinhas dela.

            - Que amiguinhas? Eu podia talvez lhe informar, o que não impediria que você a procurasse depois.

            - Oh, amigas de antigamente; não me recordo os seus nomes - respondeu Gisele com um ar vago, batendo em retirada.

            Deixou-me, julgando ter falado com tanta prudência que tudo só me poderia parecer bem claro. Mas a mentira é tão pouco exigente, necessita de tão pouco para se manifestar! Se se tratasse de amiguinhas de antigamente, de quem ela nem mesmo recordava os nomes, por que precisaria justamente falar delas a Albertine? Este advérbio, bem parecido a uma expressão cara à Sra. Cottard: "isso vem a calhar" - só podia aplicar-se a uma coisa especial, oportuna, talvez urgente, referindo-se a pessoas determinadas. Aliás, nada como a forma de abrir a boca, como quando se vai bocejar, com um ar vago ao me dizer (e quase recuando com o corpo, desde que dava marcha a ré a partir daquele momento na nossa conversa):

            - Ah, não sei, não me lembro dos seus nomes - para fazer de seu rosto e, combinado com ele, da sua voz, um rosto de mentira, da mesma forma que o ar bem diverso, conciso, animado, indiscreto do "tinha justamente", significava uma verdade. Nada mais perguntei a Gisele. De que adiantaria? Certo, ela não mentia da mesma maneira que Albertine.

            E evidentemente as mentiras desta me doíam mais. Porém havia entre elas um ponto comum, o próprio fato da mentira que, em certos casos, é uma evidência. Não da realidade que se oculta sob essa mentira. Sabemos que, embora cada assassino em particular pense ter, realizado tão bem o seu trabalho que nunca será descoberto, ele é quase sempre é capturado. Contrariamente, os mentirosos raramente são apanhados e, entre eles; mais especialmente as mulheres que amamos. Ignoramos aonde ela foi, o quê andou fazendo lá, mas, no momento mesmo em que ela fala, quando fala de outra coisa sob a qual está o que ela não diz, a mentira é logo descoberta. E o nosso ciúmes redobra, pois percebemos a mentira e não chegamos a conhecer a verdade. Em Albertine, a sensação da mentira era dada por diversas particularidades que já vimos no decorrer desta narrativa, mas principalmente pelo fato de que, ao mentir, o seu relato pecava ou por insuficiência, omissão, inverossimilhança, ou, ao contrário, por excesso de pequenos fatos destinados a torná-lo verossímil. O verossímil, apesar do que o mentiroso imagina, não é de modo algum a verdade. Quando, ao se ouvir alguma coisa verdadeira, escuta-se algo que é apenas verossímil, que o é talvez mais que a verdade, que o é talvez demais, o ouvido um tanto musical sente que não é exatamente aquilo, como se dá com um verso errado, ou uma palavra lida em voz alta por outra pessoa. O ouvido o sente e, se amamos, o coração se alarma. Por que não considerarmos então, quando mudamos toda a nossa vida por não sabermos se uma mulher passou pela rua de Berri ou pela rua Washington, por que não considerarmos que esses poucos metros de diferença, e a própria mulher, serão reduzidos a um centésimo milionésimo de seu tamanho (isto é, a uma grandeza que não podemos distinguir), para isso bastando-nos ter a prudência de ficar alguns anos sem ver tal mulher, e o que era um Gulliver, em bem maiores proporções, se tornará uma liliputiana que nenhum microscópio-ao menos o do coração, pois o da memória indiferente é mais poderoso e menos frágil-terá condições de perceber. Seja como for, se havia um ponto em comum -a própria mentira-entre as de Albertine e de Gisele, esta, contudo, não mentia da mesma forma que Albertine, tampouco da mesma maneira que Andrée, mas suas respectivas mentiras se encaixavam tão bem umas nas outras, apresentando sempre grande variedade, que o pequeno grupo exibia a solidez impenetrável de certas firmas comerciais, de livraria ou de imprensa por exemplo, onde o infeliz autor jamais há de chegar a saber, a despeito da diversidade das personalidades componentes, se está sendo logrado ou não. O diretor do jornal ou da revista mente com uma atitude de sinceridade tanto mais solene quanto precisa dissimular em várias ocasiões que faz exatamente a mesma coisa, e se entrega às mesmas práticas mercantis que condena em outros diretores de jornal ou de teatro, em outros editores, quando tomou partido, erguendo contra eles o estandarte da Sinceridade. O fato de ter proclamado (como chefe de um partido político, como qualquer coisa) ser atroz mentir, obriga na maioria das vezes a mentir mais que os outros, sem por isso abandonar a máscara solene, nem depor a tiara augusta da sinceridade. O sócio do "homem sincero" mente de outra forma e de modo mais ingênuo. Engana o autor como engana a mulher, com truques de vaudeville. O secretário da redação, homem honesto e grosseiro, mente com simplicidade, como o arquiteto que nos promete que nossa casa ficará pronta numa ocasião em que ela nem sequer estará começada. O redator-chefe, alma angélica, rodopia entre outros três, e, sem saber de que se trata, leva-lhes, por escrúpulo fraterno e carinhosa solidariedade, o auxílio precioso de uma palavra insuspeita.

            Estes quatro personagens vivem em constantes dissensões que a chegada do autor faz cessar. Acima das rixas particulares, cada qual se lembra do grande dever militar devida em ajuda ao "corpo" ameaçado. Sem o perceber, eu há muito vinha exercendo o papel desse autor diante do "pequeno grupo". Se Gisele havia pensado, ao dizer "justamente", em determinada amiguinha de Albertine disposta a viajar com ela desde que minha amiga, sob qualquer pretexto, deixasse-me, e em avisar Albertine de que era chegada a hora, ou que em breve chegaria, teria preferido deixar-se fazer em pedaços a dizê-lo. Então, era de todo inútil fazer-lhe perguntas.

            Encontros como os de Gisele não eram os únicos a acentuar as minhas dúvidas. Por exemplo, eu admirava as pinturas de Albertine. E estas, distrações comoventes da cativa, impressionaram-me tanto que lhe dei meus parabéns.

            - Não, são muito ruins, e eu nunca tive uma aula sequer de desenho.

            - Mas certa noite, em Balbec, você me disse que tinha ficado para ter uma aula de desenho.

            Lembrei-lhe o dia e falei que entendera logo que não se davam lições de desenho àquela hora.             Albertine enrubesceu.

            - É verdade -disse -, eu não tomava lições de desenho, menti muito para você a princípio, isto eu reconheço. Mas não minto mais.-

            Eu tanto quisera saber quais eram as numerosas mentiras do princípio! Mas de antemão sabia que suas confissões seriam novas mentiras. Assim, limitei-me a beijá-la. Perguntei-lhe apenas qual era uma dessas mentiras. Respondeu:

            - Por exemplo: sim, que o ar marinho me fazia mal.-

            Deixei de insistir diante daquela má vontade.

            Toda criatura amada, e até, em certa medida, qualquer criatura, é para nós como o deus Jano, apresentando-nos a fronte que nos agrada, se essa criatura nos abandona, e a fronte sombria se a temos à nossa disposição permanente. Quanto a Albertine, a convivência duradoura com ela apresentava algo penoso de outra forma que não posso contar nesta narrativa. É terrível ter a vida de outra pessoa ligada à nossa como uma bomba que não podemos largar sem cometer um crime. Mas tomem-se como comparação os altos e baixos, os perigos, a inquietude, o medo de ver acreditadas mais tarde coisas falsas e verossímeis que já não será possível explicar, sentimentos por que se passa quando se tem na intimidade um louco. Por exemplo, eu sentia pena de que o Sr. de Charlus vivesse com Morel (logo a lembrança da cena da tarde me fez sentir o lado esquerdo do peito bem mais pesado que o outro); deixando de lado as relações que pudessem ter ou não juntos o Sr. de Charlus, no princípio, deveria ignorar que Morel era louco. A beleza desta; sua chatice e arrogância, deveriam ter desviado o barão de ir procurar tão longe, até aos dias de melancolia em que Morel acusava o Sr. de Charlus por sua tristeza, sem poder dar explicações, insultava-o por sua desconfiança com o auxílio de arrazos dos falsos, porém extremamente sutis, ameaçava-o com resoluções desesperadas - no meio das quais persistia a mais velhaca intenção do interesse mais imediato. Tudo isto é apenas comparação. Albertine não era louca.

            Para lhe fazer parecer menos penoso o seu jugo, o mais hábil se me afigurou fazê-la crer que eu próprio ia rompê-lo. Em todo caso, não podia confiar-lhe naquele momento semelhante projeto mentiroso, quando voltara tão amável do Trocadero, agora há pouco; o que eu podia fazer, muito longe de afligi-la com a ameaça de um rompimento, era quando muito calar os sonhos de perpétua vida comum que meu coração reconhecido formava. Olhando-a, esforçava-me por evitar desabafá-los, e talvez ela o percebesse.

            Infelizmente, a expressão deles não é contagiosa. O caso de um velho amaneirado como o Sr. de Charlus, que, à força de só ver, na imaginação, um rapaz simpático, julga tornar-se ele próprio um rapaz simpático e tanto mais quanto mais se torna amaneirado e ridículo, é o caso mais geral. E que desgraça para um amante apaixonado não perceber que, ao passo que vê um belo rosto à sua frente, sua amante está vendo o dele, que, ao contrário, não fica mais belo quando se deforma pelo prazer que nele faz surgir a vista da beldade. E o amor nem mesmo esgota toda a generalidade desse caso; não vemos o nosso corpo, que os outros vêem, e "seguimos" o nosso pensamento, objeto invisível aos outros que está à nossa frente. Tal objeto, por vezes o artista o expõe em sua obra. Daí decorre que os admiradores desta sentem-se desiludidos pelo autor, em cujo rosto essa beleza interior imperfeitamente se refletiu.

            Guardando de meu sonho de Veneza apenas o que podia referir-se a Albertine e suavizar o tempo que ela passava em minha casa, falei-lhe de um vestido de Fortuny que era necessário que encomendássemos por aqueles dias. Eu procurava saber com que novos prazeres poderia distraí-la. Gostaria de poder fazer-lhe a surpresa de lhe dar, se fosse possível achá-las, peças de velha prataria francesa. De fato, quando tínhamos feito o projeto de possuir um iate, projeto julgado irrealizável por Albertine-e por mim mesmo, cada vez que pensava que ela fosse virtuosa e a vida com ela principiava logo a parecer-me tão ruinosa quanto impossível o nosso casamento-, tínhamos pedido conselhos a Elstir, sem que ela no entanto acreditasse que eu compraria um.

            Soube que naquele dia ocorrera um falecimento que me deu muita pena, o de Bergotte. Era sabido que sua enfermidade vinha de muito tempo. Evidentemente, não a que o afligira no começo, e que era natural. A natureza parece quase incapaz de produzir doenças que não sejam muito curtas. Mas a medicina acrescenta-lhes a arte de prolongá-las. Os remédios, a remissão que oferecem, o mal-estar que

sua interrupção faz renascer, compõem um simulacro de doença que o hábito do paciente acaba por estabilizar, por estilizar, assim como as crianças tossem regularmente por muito tempo depois de estarem curadas da coqueluche. E depois os remédios agem menos, e aumentam-lhes sua dose, eles não fazem mais nenhum bem, mas começaram a fazer mal graças a essa indisposição duradoura. A natureza não lhes teria oferecido uma tão longa duração. É uma maravilha que a medicina, quase igualando a natureza, possa forçar o doente a ficar de cama, a continuar tomando, sob pena de morte, o uso de um medicamento. Desde então, a doença superficialmente fitada cria raízes, torna-se mal-estar secundário; porém verdadeira, com a diferença de que as doenças naturais se curam, mas nunca as que a medicina acredita, pois ela ignora o segredo da cura. Havia anos em que Bergotte já não saía de sua casa.  Aliás, ele jamais gostara da sociedade. Fazia estar nela apenas um dia, para despreza-la como tudo o mais a sociedade que era a sua; não desprezar porque não podia obter, mas logo depois, por obtê-la. Vivia de modo tão simples que não se suspeitava quão era rico; logo depois que alguém o soubesse, estaria enganado julgando-o avaro; quando na verdade ninguém fora tão generoso. Era-o sobretudo com mulheres, com as meninas, que ficavam envergonhadas, pois sabiam que nunca poderiam receber tanto por tão pouco. Desculpava-se aos próprios olhos porque sabia que nunca podia produzir tão bem mesmo na atmosfera de se sentir enamorado. O amor, melhor dizendo, o prazer tanto entranhado na carne, auxilia no trabalho das letras; porque anula outros prazeres, por exemplo os prazeres da sociedade, que são os que aniquilam o mundo. E, mesmo se esse amor traz desilusões, ao menos também agita a superfície da alma, que sem isso se arriscaria a ficar estagnado. Desse modo o desejo não é inútil para o escritor, pois primeiro o afasta dos outros homens e de adaptar-se a eles; e em seguida restitui algum movimento a uma máquina espiritual que depois de certa idade, tende a se imobilizar. Não se chega ser feliz, entretanto conhece-se as razões que impedem de sê-lo e que sem as fendas bruscamente abertas pela decepção permaneceriam invisíveis. Os sonhos, não são realizáveis, bem sabemos; não os conceberíamos talvez sem o desejo, para os ver fracassarem e para que seu fracasso nos sirva de consolo útil. Assim Bergotte dizia consigo: "Gasto com essas meninas mais que os multimilionários. Mas, assim, os prazeres ou as decepções que me causam me fazem escrever livros e me dá dinheiro.” Do ponto de vista econômico, tal raciocínio absurdo certamente encontrava Bergotte algum contentamento em transmutar assim o ouro em carícias e as carícias em ouro. E depois, como antes da morte da minha avó, sua velhice fatigada amava o repouso. E no mundo não existe mais que a conversação. Ali ela é estúpida, mas tem o poder de suprimir as mulheres na sociedade; que se reduzem a perguntas e respostas. Fora da sociedade, as mulheres voltam a ser de novo o que é tão repousante para o velho cansado: um objeto de contemplação. Em todo caso agora já não se tratava de nada disso. Disse que Bergotte não saía mais; quando se levantava por uma hora em seu quarto, ficava envolto em mantas, tudo aquilo que serve para cobrir no momento em que está fazendo frio; ou ao subir para o vagão de um trem. Desculpava-se com um sorriso expor-se; mostrando suas cobertas aos raros amigos que ainda permitia que o visitassem e, dizia jovialmente: - Que se há de fazer, meu caro? Anaxágoras disse: a vida é uma viagem. -

            Assim, ele ia se resfriando progressivamente, pequeno planeta que oferecia uma imagem antecipada dos últimos dias do grande, quando aos poucos se há de retirar da Terra o calor e depois a vida. Então a ressurreição terá chegado ao fim, pois, por mais que brilhem as obras dos homens nas gerações futuras, é necessário que os homens ainda existam. Se algumas espécies de animais resistem por mais tempo ao frio invasor, quando não houver mais homens e supondo que a glória de Bergotte dure até lá, vai extinguir-se bruscamente para sempre. Não serão os últimos animais que irão lê-lo, pois é pouco provável que, como os apóstolos no Pentecostes, eles possam compreender a linguagem dos diversos povos humanos sem a ter aprendido.

            Nos meses que precederam a sua morte, Bergotte sofria de insônias e, o que é pior, de pesadelos assim que adormecia, pesadelos que, se acordava, faziam com que evitasse voltar a dormir. Por muito tempo gostara dos sonhos, mesmo os maus sonhos, pois graças a eles, graças à contradição que apresentam com a realidade que temos diante de nós no estado de vigília, nos dão, o mais tardar logo que despertamos, a sensação profunda de que dormimos. Mas os pesadelos de Bergotte não eram assim. Quando ele falava de pesadelos, antigamente entendia por isso coisas desagradáveis que se passavam no seu cérebro. Agora, era como vindas de fora que sentia uma mão munida de um esfregão molhado que, passado em seu rosto por uma mulher malvada, esforçava-se por acordá-lo, intoleráveis cócegas nos quadris, a raiva porque Bergotte havia murmurado do sono que ele conduzia mal de um cocheiro louco furioso, que se atirava sobre o escritor e lhe mordia os dedos, e os serrava. Enfim, logo que no seu sono a escuridão era suficiente, a natureza se encarregava de uma espécie de ensaio, sem vestimenta, do ataque de apoplexia que o haveria de matar: Bergotte entrava num carro sob o pórtico do novo palacete dos Swann, queria descer. Uma vertigem fulminante pregava-o no banco, o porteiro tentava ajudá-lo a descer, ele ficava sentado sem poder se levantar e se firmar nas pernas. Procurava arrimar-se ao pilar de pedra que estava à sua frente, mas não achava apoio bastante para se pôr de pé. Consultou os médicos que, lisonjeados por terem sido chamados por ele, viram em suas virtudes de grande trabalhador (há vinte anos que ele já não fazia nada), no cansaço excessivo, a causa de seu mal-estar. Aconselharam-no que não lesse contos de terror (ele não lia nada), a desfrutar mais do sol, "indispensável à vida" (devia ao fato de viver enclausurado alguns anos de relativa melhora), a se alimentar mais (o que o fez emagrecer e alimentou sobretudo os pesadelos). Sendo dotado do espírito de contrariar e irritar o próximo, um dos médicos, quando Bergotte o recebia na ausência dos outros e, para não constrangê-lo, submetia-lhe como idéias próprias o que os demais lhe haviam aconselhado, o contradizia, achando que Bergotte procurava que lhe receitassem alguma coisa que lhe agradava, e logo lhe proibia, muitas vezes com razões fabricadas tão depressa para as necessidades da causa que, diante da evidência das objeções materiais opostas por Bergotte, o médico que o contradizia era forçado a contradizer a si próprio na mesma frase, mas, por razões novas reforçava a mesma proibição. Bergotte retornava a um dos primeiros médicos, homem metido a espirituoso, sobretudo diante de um dos mestres da pena, e que; se Bergotte insinuava:

            - Parece-me no entanto que o doutor X me havia dito (antigamente, é claro) que isto poderia congestionar-me o rim e o cérebro...- sorria, malicioso, erguia o dedo e pronunciava:

            - Eu disse usar, e não abusar. Fica entendido que todo remédio, se a gente exagera, torna-se uma faca de dois gumes.-

            Existe no nosso corpo um certo instinto daquilo que nos seja saudável, como no coração o do dever moral, e que nenhuma autorização de um doutor em medicina ou em teologia pode substituir. Sabemos que os banhos frios nos fazem mal; gostamos deles, achamos sempre um médico que os aconselhe, e não para impedir que eles nos façam mal. De cada um desses médicos Bergotte obteve licença para aquilo que, por cautela, abstivera-se durante anos. Ao fim de algumas semanas, os acidentes de outrora haviam reaparecido, e os mais recentes tinham se agravado. Atormentado por um sofrimento de todos os minutos, ao qual se acrescentava a insônia cortada de breves pesadelos, Bergotte não mais chamou nenhum médico e tentou com êxito, mas com excesso, diversos narcóticos, lendo confiantemente a bula que acompanhava cada um deles, bula que proclamava a necessidade do sono mas insinuava que todos os produtos que o provocam (salvo o contido no frasco que ela envolvia e que jamais causava intoxicação) eram tóxicos e por esse motivo faziam o remédio ficar pior que o mal. Bergotte experimentou todos. Alguns são de família diversa daqueles a que estamos habituados, derivados por exemplo da amila e do etilo. Não absorvemos o novo produto, de composição inteiramente diversa, senão com a deliciosa expectativa da ignorância. O coração bate como num primeiro encontro. Para que gêneros desconhecidos de sono, de sonhos, a recém-chegado vai nos levar? Está em nós agora, possui a direção do nosso pensamento. De que maneira vamos adormecer? E, uma vez que estivermos dormindo, por quais caminhos estranhos, sobre quais cimos, em que abismos inexplorados o mestre todo-poderoso vai nos comandar? Que novo grupamento de sensações vamos conhecer nessa viagem? Vai levar-nos ao mal-estar? À beatitude? À morte? A morte de Bergotte sobreveio na véspera daquele dia, quando ele se confiara assim a um desses amigos (amigo? inimigo?) excessivamente poderoso.

            Morreu nas seguintes circunstâncias: uma crise de uremia bem leve fora motivo para que lhe prescrevessem o repouso. Mas, tendo um crítico escrito que na Vísta de Delft, de Vermeer (emprestado pelo museu de Haia para uma exposição holandesa), quadro que ele adorava e julgava conhecer muito bem, havia um pequeno lanço de muro amarelo (de que não se lembrava) tão bem pintado que era, se lhe fixassem o olhar, como uma preciosa obra de arte chinesa, de uma beleza que não bastava em si mesma - Bergotte comeu algumas batatas, saiu da casa e foi à exposição. Logo aos primeiros degraus que teve de subir, sentiu tonteiras. Passou diante de vários quadros e teve a impressão de secura e da inutilidade de uma arte tão artificial, e que não valia as correntes de ar e os raios de sol de um palácio de Veneza, ou de uma simples casa à beira-mar. Por fim chegou diante do Vermeer que ele recordava ser mais cintilante, mais diverso de tudo o que conhecia, mas onde, graças ao artigo do crítico, reparou pela primeira vez em pequenos personagens em azul, e que a areia era rósea, e, afinal, a preciosa matéria do pedacinho bem pequeno de muro amarelo. Suas tonteiras aumentavam; não tirava os olhos do precioso pedacinho de muro amarelo, como procede a criança com uma borboleta amarela a que pretende agarrar.

            - Assim é que eu deveria ter escrito – dizia.- Meus últimos livros são muito secos, seria preciso passar-lhes diversas camadas de cor, tornar a minha frase preciosa em si mesma, como este pedacinho de muro amarelo. - Entretanto, a gravidade de suas tonteiras não lhe escapava. Numa celeste balança lhe aparecia, deposta num dos pratos, sua própria vida, ao passo que o outro continha o pedacinho de muro tão bem pintado em amarelo. Sentia Bergotte haver dado imprudentemente a primeira pelo segundo.- No entanto não gostaria - disse consigo - de ser para os jornais vespertinos a nota sensacional desta exposição. - Repetia para si mesmo: "Pedacinho de muro amarelo com uma varanda, pedacinho de muro amarelo." Nisso deixou-se cair num canapé circular; e subitamente parou de pensar que a vida estava em jogo e, voltando ao otimismo, disse consigo: "É uma simples indigestão causada por aquelas batatas mal cozidas, não é nada." Uma nova crise o derrubou, fazendo-o rolar do canapé para o chão; acorreram todos os visitantes e guardas. Estava morto. Morto para sempre? Quem o pode afirmar? Certo, as experiências espíritas, não mais que os dogmas religiosos, não provam que a alma subsiste. O que se pode afirmar é que tudo se passa na nossa vida como se nela entrássemos com o fardo de obrigações contraídas numa vida anterior; nas nossas condições de vida neste mundo, não há motivo algum para que nos julguemos obrigados a praticar o bem, a ser delicados, ou mesmo corteses, e tampouco para que o artista ateu se julgue obrigado a recomeçar vinte vezes um trabalho, cuja admiração que suscitará pouco há de importar a seu corpo devorado pelos vermes, como o pedacinho de muro amarelo que com tanta ciência e requinte pintou um artista desconhecido para sempre, mal identificado pelo nome de Vermeer. Todas estas obrigações, que não têm sanção na vida presente, parecem pertencer a um outro mundo, fundado na bondade, no escrúpulo, no sacrifício, um mundo inteiramente diverso deste, e do qual saímos para nascer nesta terra, antes talvez de voltar a viver nele sob o império dessas leis desconhecidas, às quais temos obedecido porque trazíamos em nós o seu ensinamento, sem saber quem as fizera, essas leis das quais nos aproximam todo trabalho profundo de inteligência e que apenas são invisíveis -e ainda para os tolos. De modo que a idéia de que Bergotte não haja morrido para sempre não é inverossímil.

            Enterraram-no, mas durante toda a noite fúnebre, nas vitrinas iluminadas, seus livros, dispostos de três em três, velavam como anjos de asas abertas e pareciam, para aquele que não existia mais, o símbolo de sua ressurreição.

            Como disse, soube naquele dia que Bergotte morrera. E me espantei com a falta de exatidão dos jornais que reproduzindo uns e outros a mesma nota diziam que ele havia morrido na véspera. Ora, na véspera Albertine se encontrara com ele, conforme contou-me na mesma noite, o que até a atrasou um pouco, pois ele havia conversado com ela por muito tempo. Sem dúvida fora com ela que Bergotte havia tido a última conversa. Albertine o conhecia através de mim, que não o via há muito mais tempo, mas como tivera a curiosidade de lhe ser apresentada, eu escrevera um ano antes ao velho mestre pedindo-lhe autorização para levá-la à sua presença. Ele concordara com o pedido, embora um tanto magoado, acho, por eu só ir revê-lo para agradar a outra pessoa, o que confirmava a minha indiferença por ele. Esses casos são freqüentes; por vezes, aquele ou aquela que imploramos não pelo prazer de conversar de novo com eles, mas por um terceiro, recusa de tal maneira obstinada que o nosso protegido julga que nos vangloriamos de um falso poder; mais comumente, o gênio ou a beldade célebre consentem, mas, humilhados em sua glória, feridos no seu afeto, só conservam por nós um sentimento diminuído, doloroso, um pouco depreciativo. Adivinhei, muito depois, que acusara falsamente os jornais de inexatidão, pois naquele dia Albertine de forma alguma se encontrara com Bergotte; porém no momento não suspeitara de nada, porque ela me havia contado aquilo de modo tão natural, e só mais tarde percebi

a arte encantadora que ela possuía de mentir com simplicidade. O que ela dizia, o que confessava, possuía de tal forma as mesmas características das coisas evidentes-do que vemos, do que aprendemos de maneira irrefutável que ela semeava assim nos intervalos da vida os episódios de uma outra vida de cuja falsidade então eu ainda não desconfiava. Aliás, haveria muito a discutir sobre essa palavra falsidade. O universo é real para nós todos e dissemelhante para cada um. O testemunho dos meus sentidos, se eu estivesse fora naquele momento, talvez me dissesse que uma certa senhora não dera alguns passos em companhia de Albertine. Mas, se eu fosse informado do contrário, seria por um desses encadeamentos de raciocínio (onde as palavras daqueles em que depositamos confiança inserem fortes malhas) e não pelo testemunho dos sentidos. Para invocar tal testemunho, seria necessário que eu tivesse estado precisamente lá fora, o que não ocorrera. No entanto, pode-se imaginar que uma tal hipótese não é inverossímil. E então eu teria sabido que Albertine mentira. Mesmo assim, seria verdade? O testemunho dos sentidos é igualmente uma operação do espírito onde a convicção cria a evidência. Vimos muitas vezes o sentido da audição levar a Françoise não a palavra pronunciada, mas a que ela julgava ser a verdadeira, o que bastava para que não ouvisse a retificação implícita de uma pronúncia melhor. Nosso mordomo era feito da mesma massa. O Sr. de Charlus usava por essa época pois mudava muito calças demasiado claras e que seriam reconhecidas entre mil. Ora, o nosso mordomo, que julgava que a palavra pissotierez (palavra que designa o que o Sr. de Rambuteau ficara indignado por ouvir o duque de Guermantes denominar um "urinol Rambuteau") era pistiere, nunca ouviu em toda a vida uma só pessoa dizer pissotiere, embora muitas vezes assim a pronunciassem diante dele. Mas o erro é mais obstinado que a fé e não examina as próprias crenças. Constantemente o mordomo dizia:

[pistieere: mictório. N do T]

            - Com certeza o Sr. barão de Charlus pegou uma doença para ficar assim tanto tempo numa pistiere. Eis o que acontece com quem anda sempre atrás de mulheres. Acaba metido nessas calças. Hoje de manhã, a patroa me mandou fazer compras em Neuilly. Na pistiere da rua de Bourgogne, vi entrar o Sr. barão de Charlus. Voltando de Neuilly, uma boa hora mais tarde, vi suas calças amarelas na mesma pistiere, no mesmo lugar, no meio, onde ele se põe sempre para que não o vejam. -

            Eu não conhecia nada mais lindo, mais nobre nem mais jovem que uma certa sobrinha da Sra. de Guermantes. Mas ouvi o porteiro de um restaurante aonde ia às vezes dizer à sua passagem:

            - Olhem essa velha bruaca, que tipo! E tem pelo menos oitenta anos. -

            Quanto à idade, parecia-me difícil que acreditasse no que dizia. Mas os criados que se agrupavam em torno dele e que troçavam cada vez que ela passava diante do hotel para visitar tão longe dali as duas tias-avós encantadoras, Sras. de Fezensac e de Balleroy, viram na fisionomia dessa jovem beleza os oitenta anos que, gracejando ou não, atribuíra o porteiro à "velha bruaca". Haveriam de se torcer de riso se lhes dissessem que a moça era mais distinta que uma das duas caixeiras do hotel e que, embora roída de eczemas, de uma gordura ridícula, parecia-lhes uma bela mulher. Talvez somente o desejo sexual teria sido capaz de impedi-los de caírem no seu erro, caso ele houvesse agido à passagem da pretensa "velha bruaca", e se aqueles criados tivessem de súbito cobiçado a jovem deusa.

            Mas, por motivos ignorados e que provavelmente deviam ser de ordem social, tal desejo não se manifestara.

            Mas afinal eu poderia ter saído e ter passado na rua à hora em que Albertine me dissera, naquela noite (sem me ter visto), que dera alguns passos em companhia da tal senhora. Uma obscuridade sagrada se apoderou de meu espírito, eu teria posto em dúvida que a vira sozinha, mal teria procurado compreender por que ilusão de ótica não havia percebido a senhora e não ficaria mais espantado por me haver iludido, pois o mundo dos astros é menos difícil de conhecer do que as ações reais dos seres, sobretudo nos seres a que amamos, fortificados que são contra nossa dúvida por fábulas destinadas a protegê-los. Durante quantos anos podem eles deixar que o nosso apático amor acredite que a mulher amada tem no estrangeiro uma irmã, um irmão, uma cunhada que jamais existiram! De resto, se não fôssemos obrigados, para a boa ordem da narrativa, a nos limitar a razões frívolas, quantas outras mais sérias nos permitiriam mostrara insignificância mentirosa do princípio deste volume, onde, do meu leito, ouço o despertar do mundo, ora num dia ensolarado, ora num dia chuvoso. Sim, fui obrigado a adelgaçar a coisa e a ser mentiroso, mas não é só um universo, são milhões de universos que despertam todas as manhãs, quase tão numerosos quantas são as pupilas e inteligências humanas.

            Para voltar a Albertine, jamais conheci mulheres mais dotadas do que ela da engenhosa aptidão para a mentira animada, colorida com os próprios matizes da vida, a não ser uma de suas amigas uma das minhas moças em flor também, rósea como Albertine, mas cujo perfil irregular, reentrante aqui, além proeminente, depois de novo reentrante, parecia-se exatamente a certos cachos de flores róseas de cujo nome não me recordo e que têm, da mesma forma, longas e sinuosas reentrâncias. Esta moça era, do ponto de vista da fabulação, superior a Albertine pois, naquilo que contava, não misturava nenhum dos momentos dolorosos e subentendidos coléricos que eram freqüentes na minha amiga. No entanto, falei que era encantadora quando inventava um relato que não deixava lugar a dúvidas, pois então víamos à nossa frente a coisa - todavia imaginada - que ela dizia, servindo de vista a sua palavra. Era a minha verdadeira percepção. Acrescentei: "o que ela confessava", e eis o motivo: às vezes certas aproximações singulares me despertavam suspeitas ciumentas em que, ao lado delas figurava no passado ou, ai de mim, no futuro, uma outra pessoa. Para ter certeza do que imaginava, dizia o nome e Albertine falava:

            - Sim, encontrei-a há oito dias a poucos passos da casa. Por delicadeza, respondi ao seu cumprimento. Dei alguns passos com ela. Mas nunca houve nada entre nós e jamais haverá.-

            Ora, Albertine nem sequer se encontrara com essa pessoa, pela boa razão de que esta não vinha à Paris há dez meses. Mas minha amiga achava que negar completamente era pouco verossímil. De onde esse curto encontro fictício, narrado com tanta simplicidade que eu via a senhora, para dar-lhe bom-dia, caminhar um pouco na sua companhia. Somente a verossimilhança havia inspirado Albertine, de modo algum o desejo de provocar ciúmes. Pois Albertine, talvez sem interesse, gostava que lhe fizessem gentilezas. Ora, se no decorrer desta narrativa já tive e ainda terei muitas oportunidades de mostrar como o ciúme reduplica o amor, foi no ponto de vista do amante que me coloquei. Porém, por menos brio que este possua, mesmo que deva morrer após a separação, não responderá a uma traição suposta com uma gentileza; ou se afastará ou, sem afastar-se, resolverá fingir indiferença. Portanto, é em pura perda para si mesma que a amante o faz sofrer tanto. Ao contrário, se dissipar com uma palavra adequada e suaves carinhos as suspeitas que o torturavam, embora bancasse o indiferente, sem dúvida o amante sentirá aquele aumento desesperado do amor a que o eleva o ciúme, porém, deixando bruscamente de sofrer, feliz, enternecido, acalmado como se é depois de uma tempestade, quando a chuva caiu e mal se percebe ainda, sob os grandes castanheiros, pingarem a longos intervalos as gotas suspensas, coloridas pelo sol que já reapareceu, não sabe ele como exprimir o seu reconhecimento àquela que o fez curar-se. Albertine sabia que eu gostava de recompensá-la por suas gentilezas, e isso talvez explicava que ela inventasse, para se inocentar, confissões naturais como essas histórias que eu não punha em dúvida, e uma das quais fora o seu encontro com Bergotte quando ele já estava morto. Até então, das mentiras de Albertine eu só conhecia aquelas que, por exemplo, contara-me Françoise em Balbec, a que não me referi apesar de me terem feito muito mal.

            "Como não queria vir, ela me disse: Será que não podia dizer a ele que não me encontrou, que eu tinha saído?"

            Mas os "inferiores" que nos amam, como Françoise me amava, têm prazer em ferir o nosso amor-próprio.

            Depois do jantar, disse a Albertine que desejava aproveitar o fato de haver deixado a cama para visitar alguns amigos, a Sra. de Villeparisis, a Sra. de Guermantes, os Cambremer, não sabia quantos, mas aqueles que encontrasse em casa. Silenciei apenas os nomes a cuja residência pretendia ir, os Verdurin. Perguntei a Albertine se não queria ir comigo. Alegou que não tinha vestido.

            - E além disso, estou tão mal penteada. Você faz questão que eu continue a usar este penteado?             E, para se despedir, estendeu-me a mão com aquele modo brusco, de braço esticado, aprumando os ombros, que tivera outrora na praia de Balbec, e que nunca mais mostrara. Este movimento esquecido refez do corpo animado por ele o daquela Albertine que mal me conhecia ainda. Devolveu a Albertine, cerimoniosa sob a capa da brusquidão, a sua novidade primeira, o seu mistério, e até o seu ambiente. Enxerguei o mar por detrás daquela moça a quem jamais vira cumprimentar-me daquele modo desde que eu voltara de Balbec.

            - Minha tia acha que isso me envelhece - acrescentou com ar de tédio. -

            "Tomara que esteja certa", pensei. "Tudo o que a Sra. Bontemps deseja é que Albertine, parecendo uma menina, a faça parecer mais jovem; e mais, que Albertine não lhe custe nada até o dia em que, casando comigo, lhe traga vantagens." Mas que Albertine parecesse menos jovem, menos bonita, fizesse voltarem-se menos na rua para vê-la, eis o que eu, pelo contrário, desejava. Pois a velhice de uma aia não é tranqüilizadora para um amante ciumento como a velhice do rosto daquela a quem ama. Só me incomodava que o penteado que lhe pedira que adotasse pudesse parecer a Albertine uma reclusão a mais. E ainda foi este sentimento doméstico novo que não cessou de me ligar a Albertine, mesmo longe dela.

            Depois de dizer a Albertine, pouco disposta, segundo me confessara, a me acompanhar à casa dos Guermantes ou dos Cambremer, que não sabia aonde iria, para a casa dos Verdurin. No momento em que saía e que a idéia do concerto me recordou a cena da tarde: "grandessíssima puta, grandessíssima que iria ouvir lá  por despeitado, talvez do amor ciumento, mas desse modo tão bestial como a que excetuadas as palavras, poderia fazer a uma mulher um orangotango enamorado dela. No momento em que na rua ia chamar um fiacre, ouvi de um homem que estava sentado num frade-de-pedra; soluços reprimidos, com o rosto nas mãos, parecia jovem e fiquei surpreendido à elegância; que parecia, pela brancura que saía da capa, que estava vestindo. Ao ouvir-me, descobriu o rosto inundado em lágrimas, havia me reconhecido e desviou a cara. Era Morel. Compreendeu que eu o reconhecia logo, tentando estancar as lágrimas, disse que havia parado um momento porque estava desesperado.

            - Hoje mesmo insultei grosseiramente - disse ele - uma pessoa que nutro sentimentos elevados. Foi covardia, pois ela me ama.

            - Talvez esqueça com o tempo - respondi, sem pensar, falando dessa maneira dava a entender que ouvira a cena da tarde. Mas ele estava tão absorto em suas preocupações que nem lhe ocorreu que eu pudesse saber de alguma coisa.

            - Talvez mágoas que possa esquecer - Eu e que não poderei esquecer. Tenho e noção da minha vergonha. Mas enfim está dito, nada pode fazer que não tenha sido dito. Quando tenho raiva, não sei mais o que faço. E isso é tão ruim para mim. Quando sinto os nervos transtornados preocupo-me.

            Pois Morel como todo neurastênico preocupava-se grandemente com a saúde.

            Se, de tarde, eu vira um animal furioso cólera amor, agora, à noitinha, em poucas horas havia um sentimento novo, um sentimento de vergonha, arrependimento; decorridos, todos entrecruzados uns pelos outros pois, como todos mostrava que uma grande etapa fora vencida na evolução da besta a se transformar em ser humano. Apesar de tudo, eu ouvia sempre besta desistir à "grandessíssima puta" e temia uma recorrência próxima ao estado selvagem. Aliás, mal sabia o que se havia passado, e isto era tanto mais natural quanto compreender; pois o Sr. de Charlus ignorava inteiramente que, desde alguns dias em particular naquele dia vergonhoso, não se referia diretamente ao próprio, com o violinista. Morel tivera nova crise de neurastenia. De fato, mesmo antes Morel havia apressado o quanto pudera, para o mês anterior a sedução da sobrinha de Jupien, com que na qualidade de noivo, desejara que saísse a seu gosto. Porém logo que fora um pouco longe demais em suas tentativas encontrara uma resistência que o tinha exasperado; e sobretudo quando falara à noiva que se unisse a outras moças que o proporcionariam. Fosse por que ela se mostrasse excessivamente casta, ou pelo contrário, se tivesse cedido; seu desejo passou podia sair muito mais lentamente. Resolvera romper, receou que ela o pusesse no olho do barão quando soubesse do rompimento. Pois o barão era mais moral, conquanto vicioso, e talvez rompesse com ele. Assim, decidira há cerca de quinze dias não voltar a ver a noiva. De repente sentindo que era melhor deixar que o Sr. de Charlus e Jupien se arranjassem e, antes de anunciar a ruptura, resolvera sair pela rua sem destino. Fora sem dizer para onde.

            O Amor, cujo desenlace o deixava um pouco triste; de modo que, embora a conduta que tivera com a sobrinha de Jupien pudesse perfeitamente superpor-se, nos menores detalhes, àquela sobre a qual teorizara diante do barão enquanto jantavam em Saint-Mars-le-Vêtu, é bem provável que fossem muito diferentes e que sentimentos menos atrozes, e que não previra em sua conduta teórica, haviam embelezado e tornado sentimental sua conduta verdadeira. O único ponto em que, ao contrário, a realidade era pior que o projeto, é que no projeto não lhe parecia possível permanecer em Paris depois de tamanha traição. Agora, "dar o fora" lhe parecia demais por uma coisa tão simples. Seria deixar o barão, que certamente ficaria furioso, e sacrificar sua situação. Perderia todo o dinheiro que lhe dava o Sr. de Charlus. A idéia de que isso era inevitável causava-lhe crises de nervos. Ficava chorando horas a fio, e, para não pensar naquilo, tomava morfina com prudência.

            Depois, de súbito, vinha-lhe ao espírito uma idéia que sem dúvida estava tomando vida e forma fazia algum tempo; tal idéia era que a alternativa, a escolha entre o rompimento com a moça e a briga total com o Sr. de Charlus talvez não fosse forçosa. Perder todo o dinheiro do barão era muito. Morel, indeciso, mergulhou durante alguns dias em idéias negras, como as que lhe causavam a vista de Bloch. Depois decidiu que Jupien e a sobrinha haviam tentado fazê-lo cair numa armadilha e deviam considerar-se muito felizes por ter a coisa acabado assim. Em suma, achava que a moça era culpada por ter sido tão desajeitada, por não ter sabido prendê-lo pelos sentidos. Não só lhe parecia absurdo o sacrifício de sua situação junto ao Sr. de Charlus, como lamentava até os jantares dispendiosos que oferecera à moça desde que estavam noivos, e cujo custo poderia saber, como filho que era de um criado de quarto que ia todos os meses levar o seu "livro" a meu tio. Pois livro, no singular, que significa obra impressa para o comum dos mortais, perde esse sentido para as Altezas e os criados de quarto. Para estes, significa o livro de contas; para os primeiros, o registro em que as visitas inscrevem seu nome. (Em Balbec, num dia em que a princesa de Luxemburgo me dissera estar sem livro, eu ia lhe emprestar o Pescador da Islândia e Tartarin de Tarascon, quando compreendi o que ela queria dizer: não que passaria menos agradavelmente o tempo, mas que eu teria mais dificuldade em deixar o meu nome ao visitá-la).

            Apesar da mudança do ponto de vista de Morel quanto às conseqüências de sua conduta, embora esta lhe tenha parecido abominável dois meses antes, quando amava apaixonadamente a sobrinha de Jupien, enquanto que de uns quinze dias para cá não cessava de repetir a si mesmo que essa conduta era natural e louvável, cada vez mais se lhe agravava o estado de nervosismo em que há pouco anunciara o rompimento. E estava pronto a "descarregar a cólera", senão (a não ser num acesso momentâneo) na moça para com quem conservava aquele resto de receio, derradeiro vestígio do amor, pelo menos no barão. Contudo, evitou falar-lhe sobre isso antes do jantar. Pois, colocando acima de mais nada o seu próprio virtuosismo profissional, quando tinha que tocar peças difíceis como naquela noite em casa dos Verdurin; evitava (tanto quanto possível, e já era demasiada a cena da tarde), tudo o que podia alterar sua execução. Assim como um cirurgião apaixonado por automobilismo, deixa de dirigir quando tem que operar. Assim, Morel, em quanto falava comigo, movia os dedos um após o outro para ver se haviam readquirido sua flexibilidade. Se sentia uma certa dureza explicava que ainda permanecia um pouco de nervosismo. Porém, Morel, distendia o rosto; sua fisionomia, o franzir de sobrancelhas que parecia significar não aumentar, o rosto como alguém que procurasse não enervar-se com a insônia, ou facilmente por uma mulher, com receio de que ainda retardasse o instante do sono ou do prazer. Assim, desejando recuperar a serenidade como de costume. Gostaria de ter ido embora, entretanto era inútil a partida pois, indo na direção quase da mesma casa, que a poucos minutos tendo ainda viva na lembrança não podia deixar de sentir certo nojo em ter Morel por companhia. É bem possível que depois do amor, a indiferença ou o ódio pela sobrinha de Jupien foram sinceros. Infelizmente não era a primeira vez que procedia assim, e não seria a última; que ele "dava o fora" na moça a que tinha jurado amor eterno chegando até lhe mostrar um revólver carregado e lhe dizer que daria um tiro se era o bastante covarde para abandoná-la. Nem por isso deixava de abandoná-la em seguida e de sentir, em vez de remorso, uma espécie de rancor. Não era a primeira vez que obrava assim nem ia ser a última, de sorte que muitas cabeças de moças - menos esquecidas dele que delas mesmas sofreram -como sofreu muito tempo ainda a sobrinha do Jupien, que continuou amando Morel sem deixar de lhe desprezar-,dispostas a estalar sob o arrebatamento de uma dor interna, porque cada uma delas parecia no cérebro, como um fragmento de uma escultura grega, um aspecto do rosto do Morel, duro como o mármore e belo como a antigüidade, com seus cabelos em flor, seus olhos penetrantes, seu nariz reto -formando protuberância em um crânio não destinado a recebê-la, e que não se podia operar-. Mas, à larga, estes fragmentos tão duros acabam por cair num lugar onde não causam muitos estragos, de onde já não se movem; já não se nota sua presença: é o esquecimento, ou o futuro indiferente.

            Eu levava em mim dois produtos de minha jornada. Por uma parte, graças à calma produzida pela docilidade de Albertina, a possibilidade e, em conseqüência, a resolução de romper com ela. Por outra parte, resultado de minhas reflexões durante o tempo que passei esperando-a sentado ante o piano, a idéia de que a arte, ao que procuraria dedicar; me esforçaria por consagrar a liberdade reconquistada, não era algo que valesse a pena um sacrifício, algo exterior à vida, não participando de sua vaidade e de seu vazio, pois a aparência de individualidade real obtida nas obras era devida apenas a uma ilusão produzida pela habilidade técnica. Se a minha tarde deixara em mim outros resíduos, talvez mais profundos, só deveriam subir bem depois à minha consciência. Quanto aos dois que eu nitidamente sopesava, não iriam ser duradouros; pois, desde aquela mesma noite, minhas idéias sobre arte iam se recompor da diminuição que tinham experimentado à tarde, mas em compensação, o sossego, e por conseguinte, a liberdade que me permitiria dedicar-me a ela, ser-me-ia novamente retirado.

            Como o meu carro, rodando ao longo do cais, se aproximasse da casa dos Verdurin, fi-lo parar. Com efeito, acabava de ver Brichot descer do bonde na esquina da rua Bonaparte, limpar os sapatos com um jornal velho e calçar luvas cor de pérola. Caminhei até ele. Fazia algum tempo que, tendo piorado sua doença de olhos, fora dotado-tão suntuosamente como um laboratório-de novas lentes, as quais, potentes e complicadas como instrumentos astronômicos, pareciam aparafusadas a seus olhos. Assestou

em mim aquelas luzes excessivas e me reconheceu. As lentes estavam em situação primorosa. Mas, por detrás delas, percebi, minúsculo, pálido, convulsivo, expirante, um olhar longínquo colocado sob aquele potente aparelho, como, nos laboratórios por demais subvencionados para os trabalhos que neles se executam, se põe um mísero bichinho agonizante sob os aparelhos mais aperfeiçoados. Ofereci o braço ao semicego para lhe amparar os passos.

            - Desta vez não é perto da grande Cherburgo que nós nos encontramos disse ele-, mas ao lado do Petit Dunkerque. [Dunkerque pequena loja de novidades em Paris, no começo do século (N .do T)]- frase que me pareceu muito aborrecida, pois não entendi o que queria dizer; todavia não ousei fazer perguntas a Brichot, por temer ainda mais o seu desprezo do que suas explicações. Respondi que estava bastante curioso por ver o salão em que Swann outrora se encontrava todas as noites com Odette.

            - Como, o senhor conhece estas velhas histórias? - exclamou ele. -

            A morte de Swann me deixara transtornado na ocasião. A morte de Swann! Swann não desempenha nesta frase o papel de um simples genitivo. Entendo por isso a morte particular, a morte enviada pelo destino ao serviço de Swann. Pois dizemos a morte, para simplificar, mas são tantas as mortes quantas as pessoas. Não possuímos sentidos que nos permitam ver, correndo a toda velocidade e em todas as direções, as mortes, as mortes ativas dirigidas pelo destino para este ou aquele. Muitas vezes são mortes que só serão liberadas inteiramente de sua tarefa dois ou três anos após. Correm depressa para pôr um câncer nos flancos de um Swann, e depois saem para outras tarefas, só regressando no momento em que; tendo sido a operação dos cirurgiões, é preciso recolocar o câncer. Depois tendo o momento em que se lê no Le Gaulois que a saúde de Swann inspirou chega o ponto em que sua indisposição está em franco processo de cura. Então, minutos antes do último suspiro, a morte, como uma religiosa que nos tivesse assistido momentos antes; o destruir, chega para acompanhar nossos últimos instantes, e coroa com uma auréola suprema a criatura para sempre enregelada cujo coração cessou um dia de bater. Como uma dessas multiplicidade de mortes, o mistério de seus circuitos, a cor de sua écharpe; e que conferem algo de tão impressionante às linhas dos jornais: "Acabamos de saber com vivo pesar que o Sr. Charles Swann sucumbiu ontem em seu palacete, vítima de pertinaz moléstia. Parisiense, cujo espírito era apreciado por todos, bem como a firmeza de suas relações escolhidas, porém fiéis. Paris, em fremente lamenta a sua falta, tanto nos meios artísticos e literários, pela

esclarecida do seu bom gosto fazia com que se sentisse bem e fosso onde fosse, afinal por todos era admirado, como no Jockey-Club, do qual era um dos membros mais influentes. Pertencia também ao Círculo da União e ao Clube Agrícola onde era um dos mais antigos e apresentara a sua demissão ao círculo da rua Royale. Sua fisionomia especial como sua notável notoriedade não deixavam de excitar a curiosidade do público em todo great event da música e da pintura, notadamente nas vernissages era habitué fiel até seus últimos anos, quando só raramente saía de casa. Terão lugar os funerais, etc.''

            Neste ponto de vista, se não somos "alguém", a ausência de título é mais rápida ainda a decomposição da morte. Sem dúvida é de tal modo conhecido a distinção de individualidade, que se é anônimo o duque de Uzes  . Mas a coroa ducal por algum tempo os elementos como os daqueles espelho  mantêm unidos e mal desenhadas, apreciados por Albertine. Ao passo que os nomes de forma ultramundanos, logo que eles morrem, desagregam-se, os moldes derretem-se. Vimos a Sra. de Guermantes falar de Cartier como sendo burguês, sendo o melhor amigo do duque de La Trémoïlle, um homem bastante solicitado nos meios aristocráticos. Na geração seguinte, Cartier se tornou algo tão        infortunado; ou melhor engrandecessem aparentando-o com o joalheiro Cartier, e no entanto nos meios o pudessem ter confundido com o outro. Swann que talvez, ao contrário, era uma notável personalidade intelectual e artística; não teria "produzido" nada, teve a oportunidade de durar um pouco mais Swann, não Charles Swann, que conheci tão pouco quando ainda era tão jovem, embora perto do túmulo, é justamente porque este, a quem você devia considerar todavia, um imbecil, fez de você o herói de um de seus romances; e que por isso talvez você continue vivendo. Se a respeito do quadro um Tissot representa a sacada do círculo da rua Royale, onde você está entre Gallifet, Edmond de Polignac e Saint-Maurice, fala-se tanto de você, é porque vêem que existem alguns traços seus na personagem de Swann. [O quadro em questão representa, entre as pessoas mencionadas, a figura de Charles Haas (1832-1902), O principal modelo de Charles Swann. (N. do T)]

            Para retornar às realidades mais genéricas, foi dessa morte prevista e contudo inesperada de Swann que ouvira o próprio Brichot falar à duquesa de Guermantes, na noite da festa na casa da prima desta. Era a mesma morte cuja estranheza específica e impressionante me afastara na noite em que eu folheara o jornal e a notícia me fizera estacar de súbito, como se traçada em misteriosas linhas inoportunamente intercaladas. Haviam bastado para fazer de um vivo alguém que já não pode responder ao que lhe dizem, um nome, um nome escrito, repentinamente passado do mundo real para o reino do silêncio. Eram elas que me davam ainda neste momento o desejo de conhecer melhor a residência onde outrora haviam morado os Verdurin e onde Swann, que então não era apenas algumas letras impressas no jornal, jantara tantas vezes com Odette. É preciso acrescentar igualmente (e isto me tornou, por muito tempo ainda, mais dolorosa do que qualquer outra a morte de Swann, embora esses motivos não se relacionassem com a estranheza individual de sua morte) que eu não fora visitar Gilberte como lhe havia prometido na casa da princesa de Guermantes; que ele, Swann, não me havia exposto aquela "outra razão" a que aludira nessa noite, para a qual me escolhera como confidente de sua conversa com o príncipe, que mil perguntas me vinham à cabeça (como bolhas que sobem do fundo da água) e que eu desejaria fazer-lhe a respeito dos mais diversos assuntos: sobre Vermeer, sobre o Sr. de Mouchy, sobre ele mesmo, sobre uma tapeçaria de Boucher, sobre Combray, perguntas - é claro de pouca urgência, visto que as adiara dia após dia, mas que me pareciam capitais desde que, estando selados os seus lábios, a resposta já não viria.

            A morte dos outros é como uma viagem que nós próprios faríamos e durante a qual recordamos, a cem quilômetros de Paris, ter esquecido de duas dúzias de lenços, de deixar uma chave para a cozinheira, de nos despedirmos do tio, de perguntar o nome da cidade onde se acha a fonte antiga que desejamos ver. Enquanto estes esquecimentos que nos acossam e que narramos em voz alta, por pura formalidade, ao amigo que viaja conosco, têm por única resposta o começo da aceitação do banco estofado, o nome da estação gritado pelo chefe do trem só faz afastar-nos ainda mais das realizações dali em diante impossíveis, de maneira que, desistindo de pensar nas coisas irremediavelmente olvidadas, desfazemos o embrulho das comidas e permutamos jornais e revistas.

            - Mas não - replicou Brichot-, não era aqui que Swann se encontrava com sua futura mulher; ou, pelo menos, só foi aqui nos últimos tempos, depois do sinistro que destruiu parcialmente a primeira residência da Sra. Verdurin.

            Infelizmente, com receio de ostentar aos olhos de Brichot um luxo que me parecia deslocado, visto que o universitário não tomava parte nele, eu havia descido com muita precipitação do carro, e o cocheiro não compreendera o que lhe recomendara às pressas para ter tempo de me afastar antes que Brichot me avistasse. O resultado foi que o cocheiro veio ao nosso encontro e perguntou se devia voltar para me apanhar; disse-lhe rapidamente que sim e redobrei de respeito para com o universitário, que chegara de ônibus.

            - Ah, o senhor está de carro - disse-me ele em tom grave. - Meu Deus, pelo maior dos acasos; isto não acontece nunca, sempre ando de ônibus ou a pé. Porém, desse modo talvez tenha a grande honra de levá-lo até em casa esta noite, se o senhor consentir em me acompanhar nesse calhambeque; ficaremos um pouco apertados. Mas o senhor é tão bondoso comigo. -

            Ai de mim; propondo-lhe aquilo não me privo de nada, pensei, visto que serei obrigado da mesma forma a regressar por causa de Albertine. Sua presença em minha casa, numa hora em que ninguém podia visitá-la, permitia-me dispor tão livremente de meu tempo como de tarde, quando sabia que ela ia voltar do Trocadero e eu não tinha pressa em revê-la. Mas afinal, também como de tarde, sentia eu que tinha uma mulher e que, voltando para casa, não conheceria a exaltação revigorante da solidão.

            - Aceito de coração - respondeu Brichot. - Na época a que o senhor alude,aos nossos amigos moravam na rua Montalivet, num magnífico andar térreo com água furtada dando para um jardim, menos suntuoso, é claro, e que no entanto prefiro ao palacete da Embaixada de Veneza. -

            Brichot contou-me que naquela noite havia o "cais Conti" (era assim que os fiéis denominavam o salão Verdurin desde que, se mudara para lá), um grande "tra-la-lá" musical, organizado pelo Sr. de Charly, - Acrescentou que, no tempo antigo de que eu falava, o pequeno núcleo era outro; o tom bem diferente, não só porque os fiéis eram muito jovens. Contou-me as farsas de Elstir (o que denominava "puras patacoadas"), como num dia em que este, tendo fingido que roera a corda, viera disfarçado de mordomo extra e, enquanto passava os pratos, dissera graçolas ao ouvido da muito pudica baronesa Putbus vermelha de espanto e raiva; depois, desaparecendo antes do fim do jantar, mandara trazer ao salão uma banheira cheia d'água, de onde, quando saíam todos da mesa, emergira completamente nu soltando palavrões; e também das ceias onde todos apareciam em roupas de papel, desenhadas, cortadas e pintadas por Elstir que eram obras-primas, tendo Brichot certa ocasião vestido a de um grande fidalgo da corte de Carlos VII, com sapatos de bico revirado, e, de outra vez, a de Napoleão, para a qual Elstir havia feito a grande insígnia da Legião de Honra com lacre. Em suma, recordando Brichot o salão de outrora, com seus janelões, seus canteiros baixos comidos pelo sol do meio-dia e que fora preciso substituir, declarava preferi-lo ao de hoje. Por certo, eu bem compreendia que, por "salão", Brichot queria dizer-como o vocábulo "igreja" não indica apenas o edifício religioso mas a comunidade de fiéis não apenas a água-furtada, mas as pessoas que a freqüentavam em busca de prazeres especiais que vinham procurar ali e aos quais, em sua memória, tinham dado sua forma aqueles canapés, em que, quando vinham visitar a Sra. Verdurin de tarde, esperavam que ela se aprontasse, enquanto as flores róseas dos castanheiros, lá fora, e os cravos nos vasos sobre a lareira pareciam, num pensamento de graciosa simpatia pelo visitante, traduzido nas risonhas boas-vindas de suas cores rosadas, mirar fixamente a chegada tardia da dona da casa. Mas se este "salão" lhe parecia superior ao atual, era talvez porque o nosso espírito é o velho Proteu, não pode permanecer escravo de nenhuma forma e, mesmo no terreno mundano, desprende-se subitamente de um salão, que chegou lenta e dificilmente a seu ponto de perfeição, para preferir um salão menos brilhante, assim como as fotografias "retocadas" que Odette mandara fazer no fotógrafo Otto, nas quais estava elegantíssima em seu rico vestido de princesa e ondulada por Lenthéric, não agradavam tanto a Swann quanto um cartãozinho postal de Nice, onde, numa capelinha de pano modesto, os cabelos mal toucados saindo para fora de um chapéu de palha bordado de amores-perfeitos e com um laço de veludo negro (pois as mulheres em geral parecem mais velhas quanto mais antigas forem as fotografias), vinte anos mais moça em elegância, parecia uma criadinha vinte anos mais velha. Talvez Brichot também tivesse a satisfação de me gabar aquilo que eu não havia conhecido, em mostrar-me que desfrutara de prazeres que eu não poderia ter. Conseguia-o, aliás, pois, citando apenas os nomes de duas ou três pessoas que já não existiam e a cujo encanto atribuía algo de misterioso por sua maneira de falar delas e dessas intimidades deliciosas, eu indagava a mim mesmo sobre o que ele poderia ter sido, sentia que tudo aquilo que me haviam contado acerca dos Verdurin era excessivamente grosseiro; e até Swann, que eu conhecera, censurava-me por não ter prestado atenção nele, de não lhe ter prestado atenção com suficiente desinteresse, de não o ter escutado bem quando, à espera de que sua mulher regressasse para o almoço, ele me recebia e me mostrava belas coisas, agora que eu sabia que ele era comparável aos melhores conversadores de antigamente.

            No momento de chegar à casa da Sra. Verdurin, avistei o Sr. de Charlus que vinha navegando em direção a nós com seu corpo enorme, arrastando atrás, sem querer, um desses apaches ou mendigos que agora a sua passagem fazia infalivelmente surgir até mesmo dos cantos aparentemente mais desertos, e dos quais aquele monstro poderoso era escoltado bem contra sua vontade, embora a certa distância, como o tubarão pelo peixe piloto, afinal, contrastando de tal modo com o forasteiro altivo do primeiro ano em Balbec, de aspecto severo e com sua afetação de virilidade, que me pareceu descobrir, acompanhado de seu satélite, um astro num período totalmente diverso de sua revolução e que agora se começa a ver em sua fase cheia; ou um enfermo invadido agora pelo mal que, anos antes, não passava de uma leve borbulha que ele facilmente dissimulava e de cuja gravidade ninguém suspeitava. Embora uma operação que Brichot sofrera lhe houvesse restituído um pouquinho da visão que para sempre tinha perdido, não sei se perceberei, o vagabundo que seguia o barão. Aliás, pouco importava, pois desde La Raspelier e apesar da amizade que o universitário tinha por ele, a presença do Sr. de Charlus lhe dava um certo mal-estar. Sem dúvida para cada homem a vida de outrem prolonga na escuridão caminhos de que não se tem qualquer idéia. A mentira, contudo; tantas vezes enganadora, e pasto de todas as conversas, esconde menos perfeitamente um sentimento de inimizade ou de interesse, ou uma visita que desejamos, dar a impressão que não foi feita, ou uma escapada com uma amante de um dia queremos ocultar à nossa mulher-do que uma boa reputação o segredo dos maus costumes de que ninguém desconfia. Esses maus costumes podem ficar ignorados a vida inteira; revela-os o súbito acaso de um encontro à noite, num cais; mas esse acaso é muitas vezes mal compreendido e é preciso que um terceiro, já, conhecedor do segredo, forneça-nos o seu sentido oculto, que todos ignoram. Porém uma vez conhecidos, eles impressionam, pois percebemos que raiam pela loucura muito mais do que por serem imorais. A Sra. de Surgis não possuía um sentimento moral muito desenvolvido e teria admitido qualquer comportamento; de seus filhos desde que aviltado e explicado pelo interesse, o que é compreensível em todos os homens. Mas proibiu-lhes que continuassem a freqüentar o Sr. de Charlus quando soube que, por uma espécie de relógio de repetição, o barão era fatalmente levado, em cada visita, a beliscar-lhes o queixo e a fazer com que ambos, se beliscassem um ao outro. Experimentou aquela sensação de inquietude do mistério físico, que faz com que nos indaguemos se o vizinho, com quem tem boas relações, não estará atacado de antropofagia; e às repetidas perguntas ao barão:

            - Quando é que verei de novo os rapazes? - respondeu, sabendo os furores que acumularia contra a sua pessoa, que eles estavam ocupados com os estudos, os preparativos de uma viagem, etc. A irresponsabilidade agrava as culpas e até os crimes, digam o que disserem. Landru (supondo que ele tenha de fato matado as mulheres), se o fez por interesse, coisa a que se pode resistir, pode ser perdoado; mas não se o fez por um sadismo irresistível.

[Henri Désiré Landru (1869-1922) foi preso e acusado da morte de dez mulheres, a quem teria proposto casamento, e que nunca mais foram vistas. Condenado, sofreu pena de morte na guilhotina sem jamais ter confessado os crimes (1920). Dos episódios da vida real mencionados na Em Busca do Tempo Perdido, este é o de data recente. (N. do T)]

            Os pesados gracejos de Brichot, no começo de sua amizade com o barão, tinham dado lugar, quando já não se tratava de dizer lugares-comuns mas de compreender, a um sentimento desagradável que encobria o contentamento. Ele sossegava recitando páginas de Platão, versos de Virgílio, porque, igualmente cego de espírito, não compreendia que então amar um rapaz era como hoje (os gracejos de Sócrates revelam-no melhor do que as teriam de Platão) sustentar uma dançarina e depois arranjar um bom casamento. O próprio Sr. de Charlus mal o teria entendido, ele que confundia a sua mania com a amizade, que não se lhe parece a coisa alguma, e os atletas de Praxíteles com dóceis pugilistas. Não queria ver que há mil e novecentos anos ("um cortesão devoto sob um príncipe devoto teria sido ateu sob um príncipe ateu", disse La Bruyere) todo o homossexualismo de costume e dos rapazes de Platão como o dos pastores de Virgílio desaparecera, que sobrenada e se multiplica apenas o involuntário, o nervoso, o que se oculta aos outros e se disfarça aos próprios olhos. E o Sr. de Charlus teria errado em não renegar francamente a genealogia pagã. Em troca de um pouco de beleza plástica, quanta superioridade moral! O pastor de Teócrito que suspira por um rapaz, mais tarde não terá motivo algum para ser menos duro de coração e mais fino de espírito que o outro pastor, cuja flauta ressoa por Amarílis. Pois o primeiro não é atacado por um mal, apenas obedece à moda de seu tempo. É o homossexualismo sobrevivente, apesar dos obstáculos, vergonhoso, desonrado, o único verdadeiro, o único a poder corresponder, num mesmo indivíduo, um refinamento das qualidades morais. Assusta-nos a relação que o físico possa ter com estas quando se pensa na pequena aberração de gosto puramente físico, na ligeira tara de um sentido, que explicam por que o universo dos poetas e dos músicos, tão fechado ao duque de Guermantes, entreabre-se para o Sr. de Charlus.

            Que este demonstre gosto no arranjo de sua residência, como uma dona de casa colecionadora de bibelôs, não é coisa que surpreenda; mas a estreita fenda que abre para Beethoven e Veronese! Nem por isso, no entanto, as pessoas sãs de espírito deixam de ter medo quando um louco, que fez um poema sublime, depois de lhes explicar pelos motivos mais justos que está internado por engano, pela maldade de sua mulher, pede que intervenham junto ao diretor do asilo, queixando-se das promiscuidades que lhe impõem, concluindo assim:

            - Olhem, este que virá falar-me no pátio, cujo contato sou obrigado a suportar, acredita ser Jesus Cristo. Ora, isto é o bastante para me provar com que espécie de alienados me prendem; ele não pode ser Jesus Cristo, pois Jesus Cristo sou eu! -

            Um momento antes, estavam prontos para denunciar o erro ao médico alienista. Diante dessas últimas palavras, e mesmo levando em conta o admirável poema em que esse homem trabalha todos os dias, as pessoas se afastam, como os filhos da Sra. de Surgis se afastavam do Sr. de Charlus, não que este lhes tenha feito algum mal, mas devido ao luxo de convites dos quais a finalidade era lhes beliscar os queixos. É de lamentar que o poeta, que não dispõe de nenhum Virgílio para guiá-lo, precise atravessar os círculos de um inferno de pez e de enxofre, de se lançar a um fogo que desce do céu, para dali trazer alguns habitantes de Sodoma. Nenhum encanto em sua obra; a mesma severidade na sua vida que na daqueles que seguem a regra do mais casto celibato para que não possam atribuir o terem largado a batina a outra coisa que não a perda da fé. Todavia, não ocorre sempre do mesmo modo com esses escritores. Qual o médico de loucos que não terá tido, à força de assisti-los, sua crise de loucura? Feliz ainda se pode afirmar que não se trata de uma loucura anterior e latente que o tivesse feito dedicar-se a eles. O objeto de seus estudos, um psiquiatra, muitas vezes age de novo sobre ele. Mas antes disso, esse objeta, que obscura inclinação, que terror fascinante o fizera escolhê-lo?

            Fingindo não ver o indivíduo suspeito que ajustava seus passos pelos dele (quando o barão se aventurava pelos bulevares ou atravessava a sala de espera da estação de Saint-Lazare, semelhantes seguidores se contavam por dúzias que, na esperança de ganhar dinheiro, não o largavam) e com receio de que, o outro se animasse a dirigir-lhe a palavra, o barão baixava em devotamento os cílios enegrecidos que, contrastando com as faces cobertas de pó-de-arroz, faziam-no parecer-se a um grande inquisidor pintado por El Greco. Mas tal padre causava medo e se assemelhava a um padre suspenso das ordens, pois os diversos expedientes a que tivera de recorrer por necessidade, a fim de satisfazer o seu vício e proteger seu segredo, tinham tido por efeito trazer à superfície do rosto precisamente aquilo que o barão tentava ocultar, uma vida crapulosa atestada pela decadência moral. De fato, seja qual for a sua causa, facilmente se lê, pois não demora a materializar-se, a proliferar sobre um rosto, especialmente nas faces e ao redor dos olhos, tão fisicamente quanto o amarelo ocre numa pessoa que sofre do fígado ou os vermelhos repugnantes de uma doença de pele. Aliás, não era apenas nas faces, ou melhor nas bochechas desse rosto pintado, no peito de mamas salientes, nas nádegas proeminentes desse corpo entregue à indolência e invadido pela gordura, que sobrenadava agora, espalhado como óleo, o vício outrora tão intimamente resguardado pelo Sr. de Charlus no ponto mais secreto de si mesmo. Transbordava agora de suas frases.      

            - Quer dizer, Brichot, que você anda passeando à noite com um belo rapaz? - disse aos abordar-nos, enquanto que o tal tipo, desapontado, afastava-se - Muito bonito. Vou dizer aos seus alunozinhos da Sorbonne que você não é tão sério assim. Aliás, a companhia da juventude lhe faz bem, senhor professor, deixa-o fresco feito uma rosinha. E você, meu caro, como vai?- disse-me ele, abandonando seu tom de gracejo. - Não é visto muitas vezes no cais Conti, bela juventude. Pois bem, e sua prima, como está? Não veio com você. Lamentamos, pois é encantadora. Poderemos vê-la esta noite? Oh, ela é bem bonita. E o seria mais ainda se cultivasse amiúde a arte, tão rara, que possui naturalmente, de bem vestir-se. -

            Aqui devo dizer que o Sr. de Charlus "possuía", o que o tornava o exato oposto, o antípoda de mim, o dom de observar minuciosamente, de distinguir os detalhes tanto de vestido como de uma tela. Quanto aos vestidos e chapéus, certas más línguas determinados teóricos radicais dirão que, num homem, a inclinação pelos atrativos masculinos tem por compensação o gosto inato, o estudo e a ciência da total feminina. E com efeito, isso ocorre às vezes, como se os homens, tendo açambarcado todo o desejo físico, toda a profunda ternura de um Charlus, o outro sexo em troca se achasse gratificado com tudo o que fosse gosto "platônico" (adjetivo bastante impróprio), ou tout court, de tudo que fosse gosto, com os mais sábios e seguros requintes. Sob tal aspecto, o Sr. de Charlus teria merecido a alcunha que lhe deram mais tarde, "a Costureira". Mas seu gosto e espírito de observação se estendiam a muitas outras coisas. Na noite em que fui vê-lo depois de um jantar na casa da duquesa de Guermantes, vimos que eu só percebera as obras-primas que ele possuía em casa à medida que ele as ia mostrando a mim. Reconhecia de imediato aquilo a que pessoa alguma jamais prestara atenção, e isso tanto nas obras de arte como nas iguarias de um jantar (e da pintura à cozinha todo o meio-termo ficava compreendido).

            Sempre lamentei que o Sr. de Charlus, em vez de limitar seus dons artísticos à pintura de um leque oferecido de presente à cunhada (vimos a duquesa de Guermantes segurando-o na mão e abrindo-o, menos para se abanar do que para gabar-se, fazendo ostentação da amizade de Palamede) e ao aperfeiçoamento de sua execução pianística a fim de acompanhar sem erros o desempenho do violino de Morel, repito, sempre lamentei, e lamento ainda, que o Sr. de Charlus nunca tenha escrito coisa alguma.

            É claro que não posso extrair da eloqüência de sua conversação e até de sua correspondência a conclusão de que ele teria sido um escritor de talento. Esses méritos não cabem no mesmo plano. Temos visto obras primas escritas por enfadonhos alinhadores de banalidades, e reis da conversação mostrarem-se inferiores ao mais medíocre quando tentam escrever. Apesar disso, creio que o Sr. de Charlus teria experimentado a prosa, e, para começar com aqueles temas artísticos que ele conhecia bem, o fogo teria irrompido, o clarão brilharia, e o homem mundano se tornaria um senhor escritor. Disse-lhe isto várias vezes, e ele jamais quis tentar, talvez apenas por preguiça ou devido ao tempo ocupado com festas brilhantes e divertimentos sórdidos, ou uma necessidade própria de Guermantes de prolongar indefinidamente os falatórios. Tanto mais o lamento porque, em sua mais brilhante conversa, o espírito nunca se separava do temperamento, os achados de um da insolência do outro. Se tivesse escrito livros, em vez de detestá-lo mesmo admirando-o como se fazia num salão onde, em seus mais curiosos instantes de inteligência, ele ao mesmo tempo espezinhava as fábulas, vingava-se de quem não o insultara, procurava de maneira vil fazer que amigos brigassem se tivesse escrito livros, teriam todos avaliado isoladamente o seu valor espiritual, decantado do mal; nada teria perturbado a admiração e muitos aspectos despertariam a amizade.

            Em todo caso, mesmo que eu me engane sobre o que ele teria podido realizar na menor página, teria ele prestado um raro serviço escrevendo, pois, se distinguia tudo, de tudo o que ele distinguia conhecia o nome. Certamente, conversando com ele, se não aprendi a ver (meu espírito e meu sentimento tinham tendência a estar alhures), pelo menos vi coisas que, sem ele, teriam-me ficado despercebidas, porém o nome delas, que me teria auxiliado a reencontrar o seu desenho, suas cores, esse nome eu sempre esqueci bem depressa. Se tivesse escrito livros ainda que ruins; e não creio que o fossem-, que delicioso dicionário, que repertório inesgotável! Afinal de contas, quem sabe? Em vez de pôr no livro todo o conhecimento e seu gosto, talvez devido a esse demônio que muitas vezes contraria o nosso destino, ele houvesse escrito folhetins desenxabidos, inúteis narrativas de viagens e de aventuras.

            - Sim, ela sabe se vestir ou, mas exatamente, enfeitar-se - continuou o Sr. de Charlus a propósito de Albertine. - Minha única dúvida é se ela se arruma em conformidade com sua beleza particular, e eu talvez seja um tanto responsável por isso, por causa dos conselhos não muito ponderados que lhe dei. O que muitas vezes lhe disse ao ir à Raspeliere e que era antes ditado talvez - e disso me arrependo pela natureza da região e pela proximidade das praias do que pelo caráter individual de tipo da sua prima, fê-la acentuar um pouco demais o gênero leve. Reconheço que a vi usar lindas tarlatanas, encantadoras écharpes de gaze, uma determinada touca cor-de-rosa onde uma pequena pluma rósea não fazia má figura. Mas acho que sua beleza, que é real e maciça, exige mais do que belos enfeites. Conviria a touca a essa cabeleira enorme que um kakochnyk (penteado em diadema das mulheres russas) não faria mais que ressaltar? Há poucas mulheres a quem convenham os vestidos antigos que dão um aspecto de fantasia de teatro. Mas a beleza dessa moça, já mulher, abre uma exceção e mereceria um vestido antigo de veludo de Gênova (logo pensei em Elstir - e nos vestidos de Fortuny) que eu não recearia tornar mais pesado ainda com incrustações ou pingentes de maravilhosas pedras desusadas (é o mais belo elogio que se pode fazer a tal respeito) como a olivina, a marcassita e a incomparável labradorita. Aliás, ela mesma parece possuir o instinto do contrapeso, que exige uma beleza um tanto pesada. Lembre-se, para ir jantar na Raspeliere, de todo esse acompanhamento de belos estojos, de bolsas pesadas, nos quais, quando se caso ela poderá colocar mais do que a brancura do pó-de-arroz ou o carmim da pintura do rosto, mas num cofrezinho de lápis-lazúli não muito cor de anil; também pérolas e rubis não reconstituídos, creio, pois ela pode fazer um casamento rico.

            - Ora, ora, barão - interrompeu Brichot, temendo que eu me aborrecesse com essas últimas palavras, pois tinha dúvidas sobre a pureza de minhas relações e a autenticidade do parentesco de Albertine comigo -, aí está como você se ocupa com as senhoritas!

            - Faça o favor de se calar diante deste menino, língua viperina - troçou o Sr. de Charlus abaixando, num gesto para impor silêncio a Brichot, a mão que não deixou de apoiar em meu ombro.- Incomodei-os; vocês pareciam divertir-se como duas louquinhas e não precisavam de uma velha vovó desmancha-prazeres como eu. Não irei confessar-me por causa disso, pois vocês já estavam quase chegando. -

            O barão estava de muito bom humor, tanto mais que ignorava completamente a cena da tarde, pois Jupien julgara mais útil proteger a sobrinha contra nova ofensiva de Morel do que ir prevenir o Sr. de Charlus. Assim, este sempre acreditava no casamento e se regozijava com isso. Dir-se-ia que é um consolo, para esses grandes solitários, conferir a seu trágico celibato o alívio de uma paternidade fictícia.             - Mas palavra de honra, Brichot - acrescentou ele, voltando-se a rir para nós -, que tenho escrúpulos em vê-lo em tão galante companhia. Vocês pareciam dois namorados. De braços dados, que liberdades são essas, hem Brichot? -

            Seria preciso atribuir, como causa de tais palavras, o envelhecimento do intelecto, menos senhor de seus reflexos que outrora e que em momentos de automatismo deixa escapar um segredo tão cuidadosamente escondido durante quarenta anos? Ou então o desdém pela opinião dos plebeus que no fundo anima todos os Guermantes e do qual o irmão do Sr. de Charlus, o duque, apresentava uma forma diversa quando, pouco se importando que minha mãe pudesse vê-lo, fazia a barba à janela, de camisola aberta? Teria o Sr. de Charlus contraído, nos trajetos sufocantes de Doncieres a Douville, o perigoso hábito de se pôr à vontade e assim, como então colocava o chapéu de palha no alto da cabeça para refrescar a testa enorme, de afrouxar, a princípio apenas por alguns instantes, a máscara havia tanto tempo rigorosamente pregada a seu rosto verdadeiro? As atitudes conjugais do barão para com Morel teriam com razão espantado a quem soubesse que o Sr. de Charlus já não o amava. Mas ocorrera com o barão que a monotonia dos prazeres que seu vício lhe oferece acabara por fatigá-lo. Instintivamente, ele havia procurado novas performances e, depois de se cansar dos desconhecidos que encontrava, passara ao pólo oposto, àquilo que julgara que detestaria sempre: a imitação de uma "vida conjugal" ou de uma "paternidade". Por vezes, nem isto o satisfazia mais, precisava de novidade, ia passar a noite com uma mulher da mesma forma que um homem normal pode, uma vez na vida, ter desejado procurar um rapaz, por uma curiosidade semelhante e inversa, e, em ambos os casos, igualmente malsã. A existência de "fiel" do barão, não vivendo, por causa de Charlie, senão no "pequeno clã", tivera, para quebrar os esforços que ele vinha fazendo há muito a fim de manter as aparências enganosas, a mesma influência de uma viagem de exploração ou de uma temporada nas colônias sobre certos europeus que perdem lá os princípios norteadores que os dirigiram na França. E no entanto, a revolução interna de um espírito, ignorando a princípio a anomalia que carregava consigo, depois horrorizado diante dela ao reconhecê-la e, por fim, familiarizando-se com ela a ponto de já não perceber que não podia sem perigo confessar aos outros aquilo que se acabou por confessar a si mesmo sem pudor, fora mais eficiente ainda para libertar o Sr. de Charlus dos últimos constrangimentos sociais do que o tempo passado na casa dos Verdurin. De fato, não há exílio no pólo Sul ou no cimo do Monte Branco que nos afaste tanto dos outros como uma estadia prolongada no seio de um vício interior, ou seja, de um pensamento diferente do deles. Vício (assim o Sr. de Charlus o qualificava antigamente) ao qual o barão atribuía agora a figura complacente de um simples defeito, muito espalhado, simpático e quase divertido, como a preguiça, a distração ou a gulodice. Percebendo a curiosidade que as peculiaridades de sua pessoa excitavam, o Sr. de Charlus sentia um certo prazer em satisfazê-la, em atiçá-la, entretê-la. Da mesma forma que um certo publicista judeu faz-se todos os dias o campeão do catolicismo, provavelmente não na esperança de ser levado a sério, mas para não frustrar a expectativa dos leitores zombeteiros, o Sr. de Charlus castigava com espírito os maus com o mesmo pequeno clã, como teria arremedado os ingleses ou imitado Mounet-Saint sem esperar que lhe pedissem, e para contribuir com sua parte de bom grado exercendo na sociedade um talento de amador; de modo que o Sr. de Charlus ameaçava denunciar Brichot à Sorbonne, dizendo que agora ele passeava na companhia de rapazes, da mesma forma que o cronista circunciso alude, a propósito de tudo, à "filha mais velha da Igreja" e ao "sagrado coração de Jesus", isto é, sombra de hipocrisia, mas com uma ponta de cabotinismo. Não era apenas da mudança das próprias palavras, tão diversas das que ele se permitia usar antigamente, que seria curioso procurar a explicação, mas também da que sobreveio entonações e nos gestos, estes e aquelas agora singularmente semelhantes ao Sr. de Charlus vergastava com toda a aspereza outrora; agora, soltando involuntariamente quase os mesmos gritinhos tão involuntários quanto profundos que, voluntariamente, soltam os invertidos que se tratam por "minha querida"; como se esse fricote intencional, a que o Sr. de Charlus sempre se mostrara tão avesso, não passasse na realidade de uma genial e fiel imitação das maneiras que acabam por adquirir, queiram ou não, os Charlus ao atingirem determinada fase de seu mal, como os doentes de paralisia geral ou de ataxia acabam fatalmente por apresentar certos sintomas. Na verdade é o que todo aquele fricote revelava não haveria entre o severo Charlus, todo vestido de preto, de cabelo escovinha, que eu conhecera, e os rapazes arrebicados, cobertos de jóias; aquela diferença puramente superficial que há entre uma pessoa agitada, que depressa e se remexe o tempo todo, e um neuropata que fala devagar, com uma fleuma permanente, mas está atacado da mesma neurastenia aos olhos clínico que sabe que este, como o outro, é devorado pelas mesmas angústias, marcado pelas mesmas taras. Aliás, via-se que o Sr. de Charlus envelhecera; sinais bem diferentes, como a extraordinária extensão que haviam tomado em conversa algumas expressões que tinham proliferado e agora voltavam a instante (por exemplo: "o encadeamento das circunstâncias") e às quais o barão se apoiava de frase em frase como a um tutor necessário.

            - Será, Charlie já chegou? - perguntou Brichot ao Sr. de Charlus quando avistamos chamar-lhe à porta do hotel.

            - Ah, não sei - disse o barão, erguendo os braços e semicerrando os olhos com o ar de pessoa que não deseja ser acusada de indiscrição, tanto mais que provavelmente recebera censuras de Morel por algo que havia dito, e que este, tão covarde quanto vaidoso, renegando o Sr. de Charlus com a mesma facilidade com que dele se orgulhava, havia julgado graves embora fossem insignificantes. - Você sabe que não tenho a mínima idéia do que ele anda fazendo. Não sei com quem está me enganando, e quase não o vejo. - Se a conversa entre duas pessoas que têm uma ligação está cheia de mentiras, nascem estas não menos naturalmente nas conversas que um terceiro tem com um amante acerca da pessoa amada por este último, seja qual for o sexo dessa pessoa.

            - Faz muito que o senhor não o vê? - perguntei ao Sr. de Charlus, para parecer não recear falar-lhe de Morel e, ao mesmo tempo, fazer crer que ignorava completamente que vivessem juntos.

            - Hoje de manhã ele apareceu casualmente durante cinco minutos, enquanto eu ainda estava meio adormecido, sentando-se na beira da cama como se quisesse me violar. -

            Tive logo a idéia de que o Sr. de Charlus estivera com Charlie uma hora antes, pois, quando perguntamos a uma mulher quando viu ela certo homem que sabemos - ela imagina talvez que desconfiamos ser seu amante, e se almoçou com ele, ela responde:

            - Vi-o por um momento, antes do almoço.-

            Entre esses dois fatos, a única diferença é que um é falso e o outro verdadeiro, mas um é tão inocente, ou, se preferimos, tão culpado quanto o outro. Assim, não se compreenderia por que motivo a amante (e aqui o Sr. de Charlus) escolhe sempre o fato mentiroso, se não se soubesse que tais respostas são determinadas, à revelia da pessoa que as dá, por uma enormidade de fatores aparentemente em tamanha desproporção com a insignificância do fato que seria inútil enumerá-los. Mas, para um físico, o lugar que ocupa a menor bolinha do sabugueiro é explicado pela ação, conflito ou equilíbrio das leis de atração e repulsão que governam mundos bem maiores. Mencionemos aqui, só para lembrar, o desejo de parecer natural e animoso, o gesto instintivo de ocultar um encontro secreto, uma mescla de pudor e ostentação, a necessidade de confessar o que é tão agradável e de mostrar que se é amado, uma penetração daquilo que o interlocutor sabe ou supõe, mas não diz, penetração que, indo além ou aquém da sua, faz com que esta seja ora sobre ora subestimada, o desejo involuntário de brincar com fogo e a vontade de fazer parte do fogo. Outras tantas leis diferentes, agindo em sentido oposto, ditam as respostas mais gerais relativas à inocência, ao "platonismo", ou, pelo contrário, à realidade carnal das relações que se têm com a pessoa que afirmamos ter visto pela manhã quando a vimos à noite. Todavia de um modo geral, digamos que o Sr. de Charlus, apesar do agravamento de seu mal, e que o levava permanentemente a revelar, a insinuar, às vezes simplesmente a inventar detalhes comprometedores, procurava, nesse período de sua vida, afirmar que Charlie não era o mesmo tipo de homem que ele, Charlus, e que entre os dois só existia amizade. Isto não impedia (mesmo que talvez fosse verdade) que se contradissesse às vezes (como quanto à hora em que o vira pela última vez), ou porque então dissesse a verdade por esquecimento, ou porque mentisse, para se gabar ou por sentimentalismo, ou por achar espirituoso confundir o interlocutor.

            - Você sabe que ele é para mim um bom rapazinho, pelo qual tenho o maior afeto, como tenho certeza (duvidava, por acaso, para sentir essa necessidade de afirmar que tinha certeza?) que o tem por mim, mas entre nós não existe outra coisa, nada disso, compreende. - Nada disso afirmou o barão de modo tão natural como se falasse de uma dama. - Sim, ele veio esta manhã quando eu ainda estava na cama. E no entanto ele sabe que eu detesto que me veja deitado. Você não? Oh, é um horror! Isso incomoda, como somos feios nesse momento! Sei muito bem que já não tenho vinte e cinco anos, não quero bancar a donzela, mas cada um tem a sua vaidade mesmo assim.

            É possível que o barão falasse com sinceridade quando se referia a Morel como um bom rapazinho e que talvez dissesse a verdade julgando mentir, ao afirmar:

            - Não sei o que ele anda fazendo, não conheço a sua vida. -

            De fato, digamos (para adiantar algumas semanas a narrativa, que retomaremos logo após esse parêntese aberto; enquanto o Sr. de Charlus, Brichot e eu nos dirigimos para a casa da Sra. Verdurin), digamos que, pouco tempo depois dessa reunião noturna, o barão mergulhou na dor e na estupefação causadas por uma carta que abriu descuidado e que era endereçada a Morel. Essa carta, que por outro lado me dá desgostos cruéis, era escrita pela atriz Léa, célebre pelo gosto exclusivo que possuía por mulheres. Ora, sua carta a Morel (que o Sr. de Charlus nem sequer suspeitava que a conhecesse) era redigida no tom mais apaixonado. Sua baixeza impede que a reproduzamos aqui, mas podemos adiantar que Léa só o tratava no feminino dizendo-lhe: "Sua grande porcalhona", "Minha queridinha, você pelo menos é", etc. E nessa carta havia referência à várias outras mulheres que não pareciam ser mais amigas de Morel que de Léa. Por outra parte, a zombaria de Morel em relação ao de Charlus e a de Léa quanto ao oficial que a sustentava e de quem ela dizia: "Em suas cartas, ele me suplica que eu tenha juízo! Puxa! Meu queridinho"-não revelavam ao Sr. de Charlus uma realidade menos insuspeitada dele do que o eram as relações tão particulares de Morel com Léa. O barão ficou perturbado sobretudo pela expressão "é". Depois de tê-la ignorado a princípio, ficara sabendo, após um tempo, que ele mesmo "era". Eis que a noção adquirida se achava de novo a questão. Quando descobrira que "era", julgava entender por aquilo que o seu gosto, como diz Saint-Simon, não se dirigia às mulheres. Ora, eis que, para Morel, a expressão "era" adquiria uma extensão que o Sr. de Charlus não conhecera, visto que Morel provara, por essa carta, que também "era", tendo os mesmos gostos que algumas mulheres sentem por outras mulheres. Desde então, o ciúme do Sr. de Charlus já não tinha motivo para se limitar aos homens que Morel conhecia, em estender-se às próprias mulheres. Assim, os seres que "eram" não seriam só aqueles que ele julgara, mas toda uma enorme parcela do planeta, tanto composta de mulheres como de homens, de homens que amavam não apenas os homens mas as mulheres. E o barão, diante do significado novo de um termo que lhe era tão familiar, sentia-se torturado por uma inquietação da inteligência tanto como do coração, em face desse duplo mistério onde, a um tempo, existiam o aumento de seu ciúme e a súbita insuficiência de uma definição.

            O Sr. de Charlus nunca passara de um amador na vida. Quer dizer, incidentes desse gênero não lhe podiam ser de nenhuma utilidade. Descarregava a impressão penosa que lhe causassem, em cenas violentas onde sabia ser eloqüente, ou em intrigas sorrateiras. Mas para uma criatura do valor de Bergotte, por exemplo, tais incidentes poderiam ser preciosos. E talvez seja isto mesmo que explique em parte (pois agimos às cegas, mas escolhendo como os animais a planta que nos é favorável) que criaturas como Bergotte vivam em geral na companhia de pessoas medíocres, falsas e malvadas. A beleza destas é bastante para a imaginação do escritor, exalta a sua bondade, mas não transforma em nada a natureza de sua companheira, cuja vida, situada milhares de metros abaixo, as relações inverossímeis, as mentiras impelidas adiante e sobretudo numa direção diversa da que se poderia acreditar, aparecem de relance de quando em vez. A mentira, a mentira perfeita, sobre as pessoas que conhecemos, as relações que tivemos com elas, nosso móbil em determinada ação que formulamos de modo inteiramente diverso, a mentira sobre o que somos, sobre o que amamos, sobre o que sentimos em relação à criatura que nos ama e que julga ter-nos modelado à sua semelhança porque nos beija o dia inteiro-essa mentira é uma das únicas coisas neste mundo que pode nos abrir perspectivas para o novo, para o desconhecido, que pode abrir nossos sentidos adormecidos para a contemplação de universos que jamais teríamos conhecido. No que concerne ao Sr. de Charlus, é preciso dizer que, se ficou estupefato ao conhecer acerca de Morel um certo número de coisas que este cuidadosamente lhe ocultara, errou em concluir daí que é um engano ter uma relação com gente do povo e que revelações tão penosas (a mais penosa para ele fora a de uma viagem que Morel fizera com Léa, ao passo que ele havia assegurado ao Sr. de Charlus que, naquela ocasião, estava estudando música na Alemanha. Para arquitetar sua mentira, Morel se havia servido de pessoas benévolas, que moravam na Alemanha, às quais mandara suas cartas, que eram reexpedidas para o Sr. de Charlus; este, aliás, estava de tal maneira convencido de que Morel se achava na Alemanha que nem mesmo observara o carimbo do correio.) Com efeito, veremos, no último volume desta obra, o Sr. de Charlus ocupado em fazer coisas que teriam deixado os amigos e parentes ainda mais estupefatos do que ele o ficara com a vida revelada por Léa.

            Mas é tempo de alcançar o barão, que se adianta, comigo e com Brichot para a porta dos Verdurin.

            - E que fim levou - acrescentou ele voltando-se para Morel - o seu jovem amigo hebreu que víamos em Douville? Tinha pensado que, se lhe agrada, poderíamos convidá-lo uma noite dessas. -

            De fato, o Sr. de Charlus, tentando mandar espionar sem pudor o comportamento de Morel por uma agência de detetives, exatamente como um marido ou um amante, não deixava de prestar atenção aos outros rapazes. A vigilância que ele encarregava um velho criado de mandar exercer por uma agência sobre Morel era tão pouco discreta, que os lacaios se julgavam perseguidos e uma arrumadeira já não vivia direito, não ousava sair à rua, acreditando ter sempre um policial no seu encalço. E o velho criado:

            - Ela pode fazer o que quiser! Vejam só se a gente ia perder tempo e dinheiro em vigiá-la! Como se o seu comportamento nos interessasse! - exclamava com ironia, pois era tão apaixonadamente dedicado ao patrão que, embora de modo algum compartilhasse de seus gostos, acabava, de tanto ardor caloroso que punha em servi-los, por falar deles como se fossem os seus.

            - É a melhor das pessoas - dizia desse velho criado o Sr. de Charlus, pois a ninguém apreciamos tanto como as criaturas que juntam às grandes virtudes essa de as pôr incondicionalmente) disposição de nossos vícios. Aliás, era apenas dos homens que o Sr. de Charlus) podia sentir ciúme no que se referia a Morel. As mulheres não lhe inspiravam nenhum. De resto, essa é a regra geral quanto aos Charlus.

            O amor do homem a quem amam por uma mulher é algo totalmente diverso, passado em uma outra espécie animal (o leão deixa os tigres sossegados), não os incomoda e até tranqüiliza. É verdade que às vezes, entre os que fazem da inversão um sacerdócio, esse amor os desgosta. Então, querem mal a seu amigo por ter se entregado ao amor, não como uma traição, mas como uma degradação. Outro Charlus, que o barão ficaria indignado ao saber que Morel tinha relações sexuais com uma mulher, como teria ficado se lesse num cartaz que ele, intérprete de Bach e Haend iria tocar Puccini. É por isso, aliás, que os rapazes, que por interesse em condescender com o amor dos Charlus, afirmam que as mulheres só lhes causam nojo, da mesma forma que diriam aos médicos que jamais bebem álcool e só apreciam a água da fonte. Mas, sob esse aspecto, o Sr. de Charlus se afastava um pouco do habitual. Admirando tudo em Morel, os êxitos femininos deste não o inquietavam, davam-lhe a mesma alegria que seus êxitos no concerto ou no jogo. “Mas, meu caro, sabe ele anda com mulheres dizia em tom de revelação'' escândalo, talvez de inveja, e sobretudo de admiração. - Ele é extraordinário - acrescentava. - Em toda a parte, as prostitutas mais procuradas só têm olhos nele. Chama a atenção em qualquer lugar, tanto no metrô como no teatro. O negócio chega a ser enjoado! Não posso ir com ele ao restaurante sem que o garçom traga recadinhos de pelo menos três mulheres. E sempre das mais bonitas. Ali não é de estranhar. Eu o contemplava ontem, compreendendo-as, ele se tornou uma beleza tal, parece uma figura de Bronzino. É verdadeiramente admirável.-

            Mas o Sr. de Charlus gostava de mostrar que amava Morel, de persuadir os outros, talvez de persuadir a si mesmo, de que era amado por ele. Punha em retê-lo junto a si o tempo todo, apesar do prejuízo que aquele rapazinho podia acarretar à sua posição mundana, uma espécie de amor-próprio. Pois (e o caso é freqüente entre os homens esnobes e bem situados, que, por vaidade, rompem todas as relações para serem vistos em toda parte com uma amante de má fama ou uma senhora desacreditada, que ninguém recebe, e à qual entretanto lhe parece ser lisonjeiro estar ligado) havia chegado àquele ponto em que o amor-próprio põe todo o seu empenho em destruir os objetivos que atingiu, seja porque, sob a influência do amor, descobrimos um prestígio, que somos os únicos a perceber, em relações ostentatórias com quem amamos, seja porque, pelo enfraquecimento das ambições mundanas alcançadas, e a maré montante das curiosidades servis, tanto mais absorventes quanto mais platônicas, tenham estas não só atingindo como ultrapassado o nível onde a custo as outras se mantinham.

            Quanto aos outros rapazes, o Sr. de Charlus achava que ao seu gosto por eles a existência de Morel não era um obstáculo e que até a sua brilhante reputação de violinista ou sua fama nascente de compositor e jornalista poderiam em certos casos lhe ser um atrativo. Se apresentavam ao barão um jovem compositor de aparência agradável, era nos talentos de Morel que ele buscava a oportunidade para fazer uma cortesia ao recém-conhecido.

            - O senhor deveria - dizia-lhe - trazer-me suas composições para que Morel possa tocá-las no concerto ou numa turnê. Existe tão pouca música agradável escrita para violino! É uma fortuna encontrar uma nova composição. E os estrangeiros apreciam muito uma coisa dessas. Mesmo na província há pequenos círculos musicais onde ama-se a música com um fervor e uma inteligência admiráveis. -Sem mais sinceridade (pois tudo aquilo só servia de engodo e era raro que Morel se prestasse a realizações), como Bloch lhe havia dito que era um tanto poeta, "quando lhe dava na telha", acrescentara com o riso sarcástico que, de costume, fazia acompanhar uma banalidade quando não podia achar uma expressão original, o Sr. de Charlus me disse: - Diga então àquele jovem israelita, visto que ele faz versos, que deveria me trazer alguns para que os leve a Morel. Para um compositor, é sempre um problema encontrar

uma coisa bonita para musicar. Poderíamos até pensar num libreto. Não seria desinteressante e chegaria a ter uma certa importância devido aos méritos do poeta, de minha proteção, de todo um encadeamento de circunstâncias auxiliares, entre as quais o talento de Morel ocupa o primeiro lugar. Pois ele está compondo muito atualmente, e escreve também e de modo lindo, vou conversar com você sobre isso. Quanto ao seu talento de executante (você sabe que ele já é um mestre completo), irá ver esta noite como esse menino toca bem a música de Vinteuil. Fico impressionado: na sua idade, ter tamanha compreensão e permanecer tão infantil, tão colegial! Oh, esta noite é um pequeno ensaio. O grande recital vai ocorrer dentro de alguns dias. Mas será muito mais elegante que hoje. Assim, ficamos encantados de que você tenha vindo - disse ele, empregando esse plural "ficamos", sem dúvida porque o rei diz "queremos". - Por causa do magnífico programa, aconselhei a Sra. Verdurin dar duas festas. Uma daqui a alguns dias, na qual estarão presentes todas as suas relações. Outra esta noite, em que a Patroa ficará, como se diz no jargão judicial desapropriada. Fui eu que fiz os convites e convoquei algumas pessoas agradáveis de outro ambiente, que podem ser úteis a Charlie e que os Verdurin terão prazer em conhecer. Sim, pois está muito bem que sejam ouvidas as mais lindas obras executadas pelos maiores artistas, mas a manifestação fica abafada como em algodão. O público é composto pela merceeira da casa defronte e pelo comerciante da esquina. Sabe o que penso do nível intelectual das pessoas da sociedade, mas elas podem desempenhar certos papéis muito importantes; entre eles, o papel que cabe à imprensa nos acontecimentos públicos, e que é o de ser um órgão de divulgação. Compreende o que quero dizer; por exemplo, convidei minha cunhada Oriane; não é certo que ela compareça, mas, em compensação, é certo que, se comparecer, não compreenderá absolutamente nada. Mas ninguém lhe pede que compreenda, o que está acima de seus meios, mas que fale, o que lhe fica admiravelmente apropriado, e ela nunca deixa de fazer. Conseqüência: a partir de amanhã, em vez do silêncio da merceeira e do comerciante, uma conversa animada na casa dos Mortemart, onde Oriane conta que ouviu coisas maravilhosas, que um certo Morel etc. A raiva indescritível das pessoas não convidadas, que dirão: "Sem dúvida Palamede julgou que éramos indignos; além disso, quem é essa gente em cuja casa se realizou tal coisa", reverso tão útil como os louvores de Oriane, pois o nome de Morel retorna o tempo todo e acaba por gravar-se na memória como uma lição que se lê dez vezes seguidas. Tudo isto forma um encadeamento de circunstâncias que pode ter o seu lucro para o artista, para a dona da casa, e, de algum modo, servir de megafone a uma manifestação que, assim, virá a ser ouvida por um público longínquo. Na verdade, vale a pena. Você verá o progresso que ele fez. Além do mais, descobriram-lhe um novo talento, meu caro, ele escreve como um anjo. Como um anjo, repito."Você que conhece Bergotte, pensei que talvez pudesse, talvez refrescando-lhe a memória sobre a literatura desse adolescente, em suma, colaborar em ajudar-me a criar um encadeamento de circunstâncias capazes de favorecer o duplo talento de músico e de escritor que um dia pode adquirir o prestígio de Berlioz". Veja o que conviria dizer à Bergotte. Você sabe, as pessoas ilustres muitas vezes têm mais o que pensar, são aduladas, só se interessam por elas mesmas. Porém Bergotte, que é verdadeiramente simples e serviçal, deve mandar publicar no Gaulois, ou não sei mais onde, essas croniquetas, meio de humorista e meio de músico, que são de fato muito bonitas, e eu ficaria na verdade bem contente que Charlie acrescente ao violino essa peninha de Ingres. Sei muito bem que exagero facilmente quando se trata dele, como todas as velhas mamães-corujas do Conservatório. Como, meu caro, não o sabia? Mas é que não conhece o meu lado palerma. Canso-me de esperar de pé, durante horas, o resultado dos exames. Divirto-me demais. E, quanto a Bergotte, ele me garantiu que a prosa de Charlie era de fato muito boa."

            O Sr. de Charlus, que o conhecia há muito por intermédio de Swann, de fato o fora visitar e pedir-lhe que conseguisse que Morel fosse escrever no jornal algumas crônicas meio humorísticas sobre a música. Ao visitá-lo, o Sr. de Charlus sentira um pouco de remorso, pois, grande admirador de Bergotte, percebia que jamais ia visitá-lo por ele mesmo, mas para, graças à consideração meio intelectual, meio social, que Bergotte lhe tributava, poder fazer um grande obséquio a Morel, à Sra. Molé e a muitos outros. Que já não se servisse da sociedade senão para isso não repugnava ao Sr. de Charlus, mas que agisse desse modo com Bergotte não lhe parecia bem, pois sentia que Bergotte não era utilitário como as pessoas da sociedade e merecia mais. Apenas, levava uma vida muito ocupada e não dispunha de tempo senão quando desejava muito uma coisa, por exemplo, algo que se relacionasse a Morel. Além disso, muito inteligente, a conversa de um homem inteligente era-lhe bem indiferente, sobretudo a de Bergotte, que era por demais homem de letras para seu gosto, e de outro clã, não se colocando no ponto de vista dele, Charlus. Quanto a Bergotte, percebia perfeitamente o utilitarismo das visitas de Charlus, mas não lhe queria mal por isso; pois era incapaz de uma bondade continuada, mas desejoso de dar uma alegria, compreensivo, indiferente ao prazer de dar uma lição. Quanto ao vício do Sr. de Charlus, não partilhava dele em nenhum grau, achando-lhe antes um elemento de cor no personagem, o fes et netas para um artista, consistindo não nos exemplos morais mas nas recordações de Platão ou do Sodoma.

[Fes et netas (latim): O lícito e o ilícito. Sodoma: nome pelo qual é conhecido o pintor italiano Giovanni Antonio (c.1477-1549). (N. do T)]

            O Sr. de Charlus não se lembrava de dizer que desde algum tempo, como aqueles grandes senhores do século XVII, que desdenhavam assinar e até escrever os seus libelos, mandava Morel redigir pequenos tópicos baixamente difamantes e dirigidos contra a condessa Molé. Parecendo já insolentes aos que os liam, quanto mais cruéis não o seriam para a jovem senhora, que neles achava, tão habilmente encaixados que ninguém senão ela percebia coisa alguma, passagens de carinho dela, textualmente citadas porém tomadas num sentido em que podiam transtorna-la como a mais feroz vingança. A jovem senhora acabou morrendo de desgosto. Mas, diria Balzac, é que se faz todos os dias em Paris uma espécie de jornal falado mais terrível que o outro. Veremos depois que essa imprensa verbal reduziu a nada o poder de um Charlus fora de moda e erigiu bem acima dele um Morel que não valia a milionésima parte de seu antigo protetor. Será pelo menos ingênua essa moda intelectual e de boa-fé acreditará na insignificância de um genial Charlus, autoridade incontestável de um estúpido Morel? O barão era menos inocente e suas vinganças implacáveis. Daí sem dúvida esse amargo veneno na boca, veneno cuja invasão parecia conferir-lhe às faces um tom amarelo quando ele se encolerizava,

            - Gostaria muito que ele comparecesse esta noite, pois poderia ouvir as coisas que ele na verdade toca melhor. Mas parece que ele não sai de casa, nem quer que o aborreçam, e tem razão. Mas você, bela juventude, ninguém o vê qual no cais Conti! Não abuse! - Informei que saía principalmente com minha prima. Vejam só! Saindo com a prima, que pureza! - disse o Sr. de Charlus para Brichot -dirigindo-se de novo a mim: - Mas não estamos lhe pedindo contas do que anda fazendo, meu filho. Você é livre para fazer tudo o que lhe agradar. Apenas lamentamos não compartilhar de seus prazeres. De resto, você tem muito bom gosto, sua prima é encantadora, pergunte a Brichot, ele não pensava noutra coisa em Douville. Sentiremos a sua falta esta noite. Mas você talvez tenha agido bem em não trazê-la - É admirável a música de Vinteuil. Mas soube por Charlie, esta manhã, que devem estar presentes a filha do compositor e sua amiga, que são pessoas de reputação terrível. Sempre seria constrangedor para uma moça. Até eu me sinto meio incomodado por causa dos convivas. Mas, como têm quase todos a idade canônica, não terá o fato conseqüências para eles. Elas estarão lá, a menos que essas duas senhoritas não tenham podido vir, pois deveriam sem falta estar presentes a tarde inteira num ensaio de estudos que a Sra. Verdurin realizava hoje e para o qual só convida os importunos, a família, as pessoas que não deviam vir à noite. Ora, há pouco antes do jantar, Charlie me disse que o que chamamos as duas senhoritas Vinteuil, eram esperadas com toda a certeza, não tinham vindo. - Apesar da horrível dor que sentia em aproximar subitamente do efeito, só este conhecido a princípio, a causar por fim descoberta, do desejo que Albertine manifestara de vir, ou seja, a presença anunciada (mas que eu ignorava) da Srta. Vinteuil e de sua amiga, conservei em liberdade de espírito de reparar que o Sr. de Charlus, que nos dissera há pouco, ter visto Charlie desde a manhã, confessava irrefletidamente tê-lo visto antes do jantar. Mas o meu sofrimento era visível.-Que está sentindo?-indagou o barão. Você está verde; venha, entremos, você vai ficar resfriado, está muito abatido.-

            Não era a primeira dúvida acerca da virtude de Albertine que as palavras do Sr. de Charlus acabavam de despertar em mim. Muitas outras já me haviam assaltado; a nova dúvida a gente acha que a medida está repleta, que não poderemos suportá-la, e depois lhe descobrimos um lugar de alguma forma. E, uma vez que ela é introduzida em nosso meio vital, entra em concorrência com tantos desejos de acreditar, com tantos motivos para esquecer, que bem depressa a ela nos acomodamos e acabamos por não mais lhe prestar atenção. E permanece apenas como uma dor mal curada, uma simples ameaça de sofrimento e que, sendo o avesso do desejo mas da mesma ordem que ele, e tornando-se como ele o centro de nossos pensamentos, irradia neles, a distâncias infinitas, tristezas sutis, como prazeres de origem irreconhecível, por toda parte onde alguma coisa pode se associar à idéia daquela a quem amamos. Mas a dor desperta quando uma nova dúvida, inteira, penetra em nós; por mais que nos digamos logo em seguida: "Vou me arranjar, haverá um sistema para não sofrer, isso não deve ser verdade", houve todavia um primeiro instante em que sofremos como se acreditássemos naquilo. Se possuíssemos apenas membros, como as pernas e os braços, a vida seria suportável. Infelizmente trazemos em nós esse pequeno órgão a que chamamos coração, o qual está sujeito a certas enfermidades em cujo decorrer ele se torna infinitamente impressionável a tudo que se refere à vida de uma certa pessoa, e assim uma mentira-essa coisa tão inofensiva e no meio da qual vivemos tão alegremente, quer seja dita por nós ou pelos outros-vinda dessa pessoa, dá a esse coraçãozinho, que deveria poder ser extraído cirurgicamente, crises intoleráveis. Nem falemos do cérebro, pois nosso pensamento, por mais que raciocinemos sem parar no decurso dessas crises, não as modifica em nada, assim como a nossa atenção não alivia uma dor de dentes. É certo que tal pessoa é culpada de nos haver mentido, pois tinha jurado dizer-nos sempre a verdade. Mas sabemos por nós próprios, pelos outros, o que valem tais juramentos. E desejáramos crer neles quando provinham dela, que tinha justamente todo o interesse em nos mentir, e, por outro lado, não fora por nós escolhida por suas virtudes. É verdade que posteriormente ela quase já não teria necessidade de nos mentir justamente quando o coração se tornasse indiferente à mentira porque não nos interessaremos mais pela sua vida. Sabemos disto e contudo sacrificamos de bom grado a nossa, ou porque nos matamos por essa pessoa, ou porque nos fazemos condenar à morte ao assassiná-la, ou simplesmente porque gastamos em poucos anos toda a nossa fortuna com ela, o que em seguida nos obriga ao suicídio, pois não temos mais nada. Aliás, por mais tranqüilos que nos julguemos ao amar, sempre trazemos o amor no coração em estado de equilíbrio instável. Uma coisinha de nada basta para colocá-lo em posição de felicidade, ficamos radiantes, cobrimos de carinho não aquela a quem amamos, mas todos aqueles que nos fizeram valer a seus olhos, que a resguardaram contra qualquer tentação moral; julgamo-nos tranqüilos e basta uma frase: "Gilberte não virá", "A Vinteuil está convidada", para que se aniquile toda a felicidade preparada a que nos lançávamos, para que o sol se esconda, para que gire a rosa-dos-ventos e se desencadeie a tempestade interior a que um dia já não seremos capazes de resistir. Nesse dia, o dia em que o coração se tornou tão frágil, amigos que nos admirara suportam que tais aniquilamentos, que certas criaturas possam nos fazer é provocar a nossa morte. Mas o que podem fazer? Se um poeta está agonizando com uma pneumonia infecciosa, será possível imaginar que seus amigos expliquem o pneumococo que esse poeta tem talento e que ele deveria deixá-lo curar-se? A dúvida no que se refere à Srta. Vinteuil não era absolutamente nova. Mas, mesmo sob esse aspecto, o meu ciúme da tarde, excitado por Léa e seus amigos, a tinha abolido. Uma vez afastado esse perigo do Trocadero, eu sentira, julgara ter reconquistado para sempre uma paz completa. Mas o que principalmente era novo para mim, era um certo passeio de que Andrée me havia dito:

            - Fomos a esse e àquele lugar, não encontramos ninguém -, e onde, ao contrário, a Srta. Vinteuil evidentemente marcara um encontro com Albertine na casa da Sra. Verdurin. Agora, eu de bom grado deixaria Albertine sair sozinha, fosse aonde quisesse ir, contanto que pudesse prender em algum lugar a Srta. Vinteuil e sua amiga e ter certeza de que Albertine não as veria. É que o ciúme geralmente é parcial, com localizações intermitentes, seja por tratar-se do doloroso prolongamento de uma ansiedade causada ora por uma pessoa, ora por outra, que nossa amiga poderia amar, seja pela exigüidade do nosso pensamento que só percebe aquilo que imagina, deixando o resto num território vago de que relativamente não podemos sofrer.

            No momento em que íamos entrar no pátio da casa, fomos alcançado por Saniette, que não nos reconhecera de imediato.

            - Eu já os olhava entretanto faz algum tempo - disse-nos com voz ofegante. - Não é curioso que tenha hesitado? Est-cepas curieux - foi o que ele disse, pois N'est-il pas curieux lhe teria parecido um erro, e ele tomava com as antigas formas de linguagem uma familiaridade exagerada. - No entanto vocês são pessoas que se pode ter por amigos. - Seu rosto sombrio parecia iluminado pelo reflexo plúmbeo de uma tempestade. Seu ofegar que até o verão anterior só ocorria quando o Sr. Verdurin o "espinafrava", era agora constante. - Sei que uma obra inédita de Vinteuil vai ser executada por artistas excelentes, e singularmente por Morel.

            - Por que singularmente?- indagou o barão, que viu nesse advérbio uma crítica. -

            - Nosso amigo Saniette - se apressou a explicar Brichot, que fez o papel de intérprete - prefere falar, como excelente letrado que é, a linguagem de um tempo em que "singularmente" equivalia ao nosso "muito particularmente".

            Quando entrávamos na ante-sala da Sra. Verdurin, o Sr. de Charlus me perguntou se eu trabalhava, e, como lhe dissesse que não, mas que me interessava muito, naquele momento, pelas velhas baixelas de prata e de porcelana, ele falou que eu não poderia encontrar mais belas do que na casa dos Verdurin, que além disso, eu poderia vê-las na Raspeliere, visto que, a pretexto de que os objetos também são nossos amigos, eles cometiam a loucura de levar tudo consigo; seria menos cômodo tirar tudo dos armários num dia de recepção, mas que todavia ele, Charlus, pediria que me mostrassem o que eu quisesse. Roguei-lhe que não pedisse nada. O Sr. de Charlus desabotoou o sobretudo, tirou o chapéu; vi que principiava, aqui e ali, a fazer-se prateado o alto de sua cabeça. Mas, assim como um arbusto precioso que não só o outono colore, mas do qual se protegem certas folhas com envoltórios de algodão em rama ou mediante aplicações de gesso, o Sr. de Charlus só recebia desses poucos cabelos brancos, dispostos no alto do crânio, uns tons de pintura a mais, que se ajuntavam ao arrebique do rosto. E todavia, mesmo sob as camadas de expressões diversas, de cosméticos e de hipocrisia que tão mal o maquiavam, o rosto do Sr. de Charlus continuava a calar a quase todo mundo o segredo que ele me parecia gritar. Sentia-me quase constrangido pelos seus olhos, onde eu receava que me surpreendesse a lê-lo como a um livro aberto, por sua voz, que me parecia repetir tal segredo em todos os tons, com uma incansável indecência. Mas os segredos são bem ocultos pelas criaturas, pois todos os que delas se aproximam são feito cegos e surdos. As pessoas que sabiam da verdade por tê-la ouvido de um ou de outro, pelos Verdurin por exemplo, acreditavam nela, mas somente enquanto não conheciam o Sr. de Charlus. Sua fisionomia, longe de espalhar, dissipava os rumores maldosos. Pois, sobre certas entidades, fazemos uma idéia tão alta que não poderíamos identificá-la com os traços familiares de uma pessoa de nosso conhecimento. E dificilmente acreditamos nos vícios, assim como jamais acreditaríamos no gênio de uma pessoa com quem tivéssemos ido à ópera na véspera.

            O Sr. de Charlus estava entregando o seu sobretudo com as recomendações de conviva habitual. Mas o lacaio a quem o entregava era um empregado novo, muito jovem. Ora, o Sr. de Charlus muitas vezes agora perdia as estribeiras e já não percebia o que se faz e o que não se faz. O desejo louvável, que possuía em Balbec, de mostrar que certos indivíduos não o assustavam, de não ter medo de declarar, a propósito de alguém: "É um belo rapaz", em uma palavra, de dizer as mesmas coisas que poderiam ser ditas por alguém que não fosse como ele, ocorria-lhe agora traduzir esse desejo dizendo, pelo contrário, coisas que jamais teria podido dizer alguém que não fosse como ele, coisas para as quais seu espírito se voltava tão constantemente que chegava a esquecer-se de que não faziam parte da preocupação habitual de todas as pessoas. Assim, encarando o novo lacaio, ergueu o indicador ameaçadamente e, pensando fazer um excelente gracejo:

            - Proíbo-lhe piscar-me o olho desse modo - disse o barão e, voltando-se para Brichot: - Este menino tem uma cara divertida, um nariz engraçado - e, completando a pilhéria, ou cedendo a um desejo, abaixou o indicador horizontalmente, hesitou por um instante e depois, sem mais poder conter-se, impeliu-o irresistivelmente para o criado, tocando-lhe a ponta do nariz dizendo: - Pif! e logo a seguir, acompanhado de Brichot e de mim, e de Saniette, que nos informou que a princesa Sherbatoff havia morrido às seis horas, entrou no salão.

            - Que sujeito esquisito! - disse consigo o lacaio, que perguntou aos companheiros se o barão era farsante ou maluco.

            - São as maneiras dele - respondeu o mordomo, que achava o barão meio "tantã", meio "gira"-, mas trata-se de um dos amigos de Madame, que sempre apreciei; tem bom coração.

            Nesse momento o Sr. Verdurin veio ao nosso encontro; só Saniette, não sem temer resfriar-se, pois a porta exterior se abria constantemente, esperava resignado que lhe pegassem os agasalhos.

            - Que é que faz aí nessa pose de cachorro perdigueiro? - perguntou-lhe o Sr. Verdurin.-Espero que uma dessas pessoas que tomam conta das roupas possa pegar o meu sobretudo e me dar um número. - Quis! e que está dizendo? - perguntou o Sr. Verdurin em tom severo:- "Qui surveillentaafx vêtements." Será que está ficando caduco? A gente diz: "surveillerles vêtements"' Será que é preciso que lhe ensinem de novo o francês, como se faz com as pessoas que sofreram um derrame?

            - Surveillerà quelque chose é a forma correta - murmurou Saniette com voz entrecortada - o abade Le Batteux...

            - O senhor me irrita - exclamou o Sr. Verdurin com voz terrível. - Como está resfolegando! Por acaso acaba de subir seis andares? -

            A grosseria do Sr. Verdurin teve como resultado que os homens do vestiário fizessem passar outras pessoas antes de Saniette e, quando este quis estender seus agasalhos, responderam:

            - Cada um por sua vez, senhor não seja tão apressado.

            - Aí estão homens que apreciam a ordem, aí estão as competências; muito bem, meus rapazes-disse o Sr. Verdurin com um sorriso de simpatia, a fim de animá-los em sua disposição de fazer passar Saniette depois de todo mundo. -Venham - disse -, este animal quer nos matar na corrente de ar em que se diverte. Vamos nos aquecer um pouco no salão. Surveilleraux vêtements - repetiu, quando entramos no salão.

[Saniette diz "tomam conta das roupas'', surveifier aux vêtements, em vez de surveiller les ve (N. do T)]

            - Que imbecil!

            - Ele se deixa levar pelo imprevisto, mas não é má pessoa - disse Brichot.

            - Não disse que era má pessoa e sim que era um imbecil - replicou o Sr. Verdurin com azedume.

            - O senhor volta este ano a Incarville? - perguntou-me Brichot.

            - Creio a nossa Patroa tornou a alugar La Raspeliere, embora tenha estado brigando com os proprietários. Mas tudo isso não é nada, são nuvens que se dissipam - acrescentou no mesmo tom otimista dos jornais que dizem: "Houve erros, é claro, mas quem não os comete?" Ora, eu me lembrava em que estado de sofrimento tinha deixado Balbec e não desejava de modo algum voltar lá. Adiava sempre para o dia seguinte os meus projetos com Albertine. - Mas é evidente que ele há de voltar, nós o queremos, ele nos é indispensável - declarou o Sr. de Charlus com o egoísmo autoritário e incompreensivo da amabilidade.

            O Sr. Verdurin, a quem apresentamos nossas condolências pela princesa Sherbatoff, observou:

            - Sim, sei que ela está muito mal.

            - Mas não, ela morreu às seis horas - exclamou Saniette.

            - O senhor exagera sempre - retrucou brutalmente o Sr. Verdurin, que, já que a reunião noturna não fora cancelada, preferia a hipótese da doença.

            Entretanto a Sra. Verdurin estava em grande conferência com Cottard e Ski. Morel acabava de recusar, porque o Sr. de Charlus não poderia comparecer, um convite para a casa de amigos aos quais ela todavia prometera o concurso do violinista. O motivo da recusa de Morel em tocar na reunião dos amigos dos Verdurin, motivo ao qual vamos ver em breve somarem-se outros mais graves, pudera ganhar forças devido a um hábito próprio em geral aos ambientes ociosos, mas particularmente ao pequeno núcleo.

            Certo, se a Sra. Verdurin surpreendia entre um novato e um fiel uma palavra dita a meia voz e que podia dar a entender que eles já se conheciam, ou tivessem vontade de estreitar relações ("Então, na sexta, na casa de Fulano" ou: "Vá ao ateliê quando quiser, estou lá sempre até às cinco horas, o prazer será todo meu"), agitada, supondo que o novato dispunha de uma "situação" que podia transformá-lo numa aquisição brilhante para o pequeno núcleo, a Patroa, parecendo sempre não ter ouvido coisa alguma, e conservando em seu lindo olhar, onde o hábito de Debussy punha mais olheiras que a cocaína, o aspecto extenuado que lhe davam apenas as puras delícias da música, revolvia, sob a bela fronte arqueada por tantos quatuors e enxaquecas consecutivas, pensamentos que não eram exclusivamente polifônicos; e, não agüentando mais, não podendo esperar um segundo sequer a sua picada, atirava-se aos dois conversadores, arrastava os à parte, e dizia ao novato designando o fiel:

            - Não quer vir jantar com ele, sábado, por exemplo, ou até no dia que lhe aprouver, com pessoas amáveis? Não fale muito alto, pois não vou convidar toda essa turba - termo que por cinco minutos designava o pequeno clã, momentaneamente desdenhado em favor do novato no qual se fundavam tantas esperanças.

            Porém essa necessidade de se entusiasmar por certas pessoas, de também fazer aproximações entre outras, tinha a sua contrapartida. A assiduidade às quartas fazia nascer nos Verdurin uma disposição contrária. Era o desejo de causar brigas, de promover afastamentos. Desejo que se fortalecera, tornara-se quase furioso durante os meses passados em La Raspeliere, onde as pessoas se viam da manhã à noite. O Sr. Verdurin se empenhava em surpreender alguém em falta, em estender teias por onde pudesse passar à aranha sua companheira alguma mosca inocente. À falta de agravos, inventava ridículos. Quando um fiel saía por meia hora, troçavam dele diante dos outros, fingindo surpresa de que nunca tivessem reparado que apresentava sempre dentes sujos, ou, pelo contrário, que os escovava de modo maníaco vinte vezes por dia. Se alguém se permitia abrir a janela, essa falta de educação fazia com que o Patrão e a Patroa trocassem um olhar de revolta. Ao cabo de um instante a Sra. Verdurin pedia um xale, o que dava pretexto ao Sr. Verdurin dizer com ar furioso:

            - Não, eu vou fechar a janela, e me pergunto quem foi que teve a desfaçatez de abri-la - diante do culpado, que enrubescia até as orelhas. Indiretamente censuravam a quantidade de vinho bebido. - Por acaso não lhe faz mal? É bom para um operário. - Os passeios a sós de dois fiéis que previamente não, tinham pedido licença à Patroa, davam como resultado comentários infinitos, por mais inocentes que fossem tais passeios. Os do Sr. de Charlus e de Morel não o eram. Apenas o fato de que o barão não morava na Raspeliere (por causa da vida de caserna do violinista) retardou o momento da saciedade, dos nojos, dos vômitos. Mas tal momento, todavia, estava prestes a chegar.

            A Sra. Verdurin estava furiosa e decidida a "esclarecer" Morel acerca do papel odioso e ridículo que o Sr. de Charlus o fazia viver.

            - Acrescento -continuou ela (que, aliás, mesmo quando se sentia no dever de tributar a alguém uma gratidão que ia lhe pesar e não podia matá-lo para se livrar dela, procurava descobrir-lhe um, defeito grave que a dispensasse honestamente de testemunhá-la) -acrescento que ele assume, em minha casa, uns ares que não me agradam. -

            É que, na verdade, Sra. Verdurin tinha ainda uma razão mais grave para querer mal ao Sr. de Charlus do que a recusa de Morel em tocar na casa dos amigos dela. O barão, convencido da honra que dava à Patroa ao trazer ao cais Conti pessoas que, de fato, não compareceriam por causa dela, tinha, desde os primeiros nomes propostos pela Sra. Verdurin, como os de pessoas que valeria a pena convidar, pronunciado o veto mais categórico, num tom peremptório em que se misturava, ao orgulho rancoroso do grão senhor rabugento, o dogmatismo do artista versado em matéria de festas e que retiraria a sua peça e recusaria o seu concurso antes de condescender em fazer concessões que, segundo ele, comprometem o resultado do conjunto. O Sr. de Charlus só dera a sua permissão, embora com reservas, a Saintine, com quem, para se livrar da sua mulher, a Sra. de Guermantes havia passado de uma intimidade cotidiana a uma completa cessação de relações; mas o Sr. de Charlus, achando-o inteligente, continuava a freqüentá-lo.

            Certo, foi num ambiente burguês matizado da pequena nobreza, onde todos são muito ricos e aparentados a aristocratas que a alta aristocracia não conhece, que Saintine, outrora a flor do meio Guermantes fora buscar fortuna e, ao que pensava, obter um ponto de apoio. Mas a Sra. Verdurin sabendo das pretensões nobiliárquicas do ambiente da mulher e não percebendo a situação do marido, pois é quem está logo acima de nós que nos dá a impressão da altura e não aquele que nos é quase invisível de tanto que se perde nos céus, julgou dever justificar um convite para Saintine encarecendo o fato de que este conhecia muita gente da sociedade, "pois se casara com a Srta.***".

            A ignorância que a Sra. Verdurin revelava com essa afirmativa, exatamente o oposto da realidade, fez abrirem-se os lábios pintados do barão num sorriso de indulgente desprezo e de incompreensão. Desdenhou responder diretamente, mas como, em matéria mundana, apreciava construir teorias onde a gente encontrava a fertilidade de sua inteligência e a altivez de seu orgulho, mesclada à frivolidade hereditária de suas preocupações, disse:

            - Saintine deveria ter me consultado antes de se casar; existe uma eugenia social, assim como existe uma eugenia fisiológica, e eu talvez seja o seu único médico. O caso de Saintine não levantava nenhuma discussão, pois era evidente que, fazendo o casamento que fizera, ele amarrara a si próprio um peso morto e tapava o sol com a peneira. Sua vida social estava acabada. Eu lhe teria explicado isso, e ele o teria compreendido, pois é inteligente. Inversamente, sei de uma pessoa que possuía tudo o que fosse necessário para ter uma posição elevada, dominante, universal; apenas um cabo terrível a prendia à terra. Ajudei-a, meio por pressão, meio por força, a romper a amarra, e agora ela conquistou, com uma alegria triunfal, a liberdade, o poder absoluto que me deve; foi preciso talvez um pouco de força de vontade, mas que recompensa obteve! Quem sabe me ouvir é desse modo o próprio parteiro de seu destino.

            Era bem claro que o Sr. de Charlus não soubera agir sobre o seu; agir é coisa diversa de falar, mesmo com eloqüência, e pensar, mesmo com engenhosidade.

            - Mas, no que me concerne, sou um filósofo que assiste com curiosidade às reações sociais que previ, mas que não ajudo. Assim, continuei a freqüentar Saintine, que sempre me demonstrou a calorosa deferência que convinha. Cheguei até a jantar na sua nova residência, onde a gente se aborrece tanto, no meio do maior luxo, como se divertia antigamente quando, comendo o pão que o diabo amassou, ele parecia a melhor companhia numa pequena água-furtada. Portanto, pode convidá-lo, tem a minha autorização. Porém mantenho o meu veto sobre todos os demais nomes que me propôs. E a senhora me agradecerá por isso, pois se de fato sou entendido em matéria de casamentos, não o sou menos em matéria de festas. Sei quais são as personalidades ascendentes que realçam uma reunião; e sei igualmente o nome que a joga por terra, que a faz aplastar-se de todo. -

            Essas exclusões do Sr. de Charlus nem sempre eram baseadas em ressentimentos de maníaco ou em requintes de artista, mas em habilidades de ator. Quando ele lançava sobre alguém, ou alguma coisa, uma tirada bem bolada, desejava que o maior número possível de pessoas a ouvisse, mas não admitindo na segunda fornada convidados da primeira que pudessem constatar que o dito não mudara. Renovava a sala, justamente porque não renovava o cartaz e, quando alcançava sucesso na conversação, teria organizado turnês, caso necessário, e dado representações na província. Quaisquer que fossem os variados motivos dessas exclusões, elas não só melindravam a Sra. Verdurin, que se sentia atingida em sua autoridade de Patroa, como também lhe causavam prejuízo mundano, e isso por duas razões. A primeira era que o Sr. de Charlus, ainda mais suscetível que Jupien, brigava, sem que nem mesmo soubessem por quê, com as pessoas mais bem apropriadas para serem de sua amizade. Naturalmente, uma das primeiras punições que se podia infligir-lhes era a de não deixar que fossem convidadas a uma festa que ele dava na casa dos Verdurin. Ora, esses párias eram muitas vezes pessoas de alta cotação, mas que, para o Sr. de Charlus, tinham deixado de sê-lo até o momento em que rompera com elas. Pois sua imaginação era tão engenhosa em inventar agravos das pessoas para romper com elas, quanto em retirar-lhes a importância desde que já não eram suas amigas. Se, por exemplo, o culpado pertencia a uma família bem antiga, mas cujo ducado só datasse do século XIX, Montesquiou por exemplo, no dia seguinte o que contava para o Sr. de Charlus em a antigüidade do ducado, a família não valia mais nada.

            - Eles nem sequer são duques - exclamava. - Foi o título do abade de Montesquiou que passou indevidamente a um parente, há menos de oitenta anos. O duque atual, se existe um duque, é o terceiro. Falem-me de pessoas como os Uzes, os La Tremoille, Luynes, que são o 104, o 144 duques, como meu irmão que é o 124 duque Guermantes, e o 174 príncipe de Condom. Os Montesquiou descendem de uma família antiga, e o que é que isso prova, mesmo se ficasse provado? São tão descendentes que estão no décimo quarto andar abaixo do solo. -

            Se, ao contrário estivesse brigado com um cavalheiro possuidor de um ducado antigo, tendo mais magníficas alianças, aparentado às famílias soberanas, mas a quem o grande brilho tivesse vindo com muita rapidez, sem que sua família remontasse muito longe, um Luynes, por exemplo, tudo mudava de figura, só a família é que contava.

            - Veja bem, o Sr. Alberti só tirou o pé da lama no tempo de Luís XIIII. Que nos importa que os favores da corte lhe tenham permitido acumular ducados os quais não tinha o menor direito? -

            Além do mais, no Sr. de Charlus a queda seguia bem de perto o favor por causa dessa disposição, própria dos Guermantes, de exigirem da conversação e da amizade o que elas não podiam dar, e mais o temor sintomático de serem objeto de maledicências. E a queda era tanto mais profunda quanto maior tinha sido o favor. Ora, ninguém gozara junto ao barão de favor ao que ele ostensivamente mostrara ter a condessa Molé. Por que sinal de indiferença evidenciara ela um dia ser indigna dele? A própria condessa declarou sempre que jamais pudera descobri-lo. Sempre é certo que bastava seu nome para excitar, no barão as mais violentas cóleras, as filípicas mais terríveis e eloqüentes. A Sra. Verdurin, para quem a Sra. Molé fora muito gentil e que, como veremos, alimentara grandes esperanças nela, e antecipadamente se regozijara com a idéia de queda; a condessa veria em sua casa as pessoas mais nobres, como a Patroa dizia, França e de Navarra, propôs logo convidar a "Sra. de Molé".

            - Ah, meu Deus, os gostos existem na natureza - respondera o Sr. de Charlus - e, se a senhora gosta da conversa com a Sra. Pipelet, a Sra. Gibout e a Sra. Joseph Prudhom; não peço nada melhor; mas então que seja numa noite em que eu esteja ausente. Desde as primeiras palavras, percebo que não falamos a mesma língua, visto eu falava de nomes da aristocracia, e a senhora me cita o mais obscuro dos nomes de pessoas da magistratura, de plebeus velhacos, maldizentes, prejudiciais, pobres damas que se imaginavam protetoras das artes porque reproduzem, oitava abaixo, os modos de minha cunhada Guermantes, assim como o gaio julga imitar o pavão. Acrescento que seria uma espécie de indecência introduzir numa festa, que pretendo dar na casa da Sra. Verdurin, uma pessoa que, por motivos muito sérios, excluí das minhas relações, uma estúpida mal nascida, desleal, sem espírito, que tem a loucura de acreditar ser capaz de imitar as duquesas e princesas de Guermantes, acumulação que em si mesma é uma tolice, pois não há nada mais oposto que a duquesa e a princesa de Guermantes. É como se uma pessoa pretendesse a um tempo ser Reichenberg e Sarah Bernhardt. Em todo caso, mesmo se não fosse contraditório, seria profundamente ridículo. Que eu possa sorrir às vezes dos exageros de uma e me entristecer com as limitações da outra, é direito meu. Mas essa rãzinha burguesa querendo inchar-se para se igualar à essas duas grandes damas que, de qualquer modo, sempre deixam transparecer a incomparável distinção da raça é, como se diz, de fazer rir as galinhas. A Molé! Eis um nome que não deve mais ser pronunciado, senão retiro-me - acrescentou com um sorriso, no tom de um médico que, desejando o bem do seu doente contra a vontade deste, entende que não deve aceitar a colaboração de um homeopata.

            Por outro lado, certas pessoas, julgadas desprezíveis pelo Sr. de Charlus, podiam de fato sê-lo para ele mas não para a Sra. Verdurin. O Sr. de Charlus, do alto de seu nascimento, podia passar sem as criaturas mais elegantes, cuja freqüência teria feito do salão da Sra. Verdurin um dos primeiros de Paris. Ora, esta começava a achar que já perdera muitas oportunidades, sem contar o enorme atraso que o erro mundano do caso Dreyfus lhe infligira. Todavia, não sem lhe prestar algum serviço. Não sei se lhe disse o quanto a duquesa de Guermantes tinha visto com desagrado pessoas do seu meio que, subordinando tudo ao Caso Dreyfus, excluíam as mulheres elegantes e recebiam outras que não o eram, por causa do revisionismo ou do anti-revisionismo, depois de, por sua vez, ser tachada por essas mesmas damas de tíbia, mal pensante, de subordinar as etiquetas mundanas os interesses da pátria; poderia eu perguntar ao leitor, como a um amigo a quem já não somos lembrados, após tantas conversas, se tivemos a idéia ou a ocasião de pô-lo a par de uma certa coisa. Que eu o tenha feito ou não, a atitude da duquesa de Guermantes naquele momento pode facilmente ser imaginada e até se em seguida nos reportarmos a um período ulterior, parecer, do ponto de vista mundano, perfeitamente justa. O Sr. de Cambremer considerava o Caso Dreyfus como uma trama estrangeira destinada a destruir o Serviço de Informações, a quebrar a disciplina, enfraquecer o exército, dividir os franceses, preparar a invasão. Sendo a literatura, afora algumas fábulas de La Fontaine, estranha ao marquês, ele deixava à esposa o cuidado de estabelecer que a literatura cruelmente observadora, criando o desrespeito, procedera a uma devastação paralela.

            - Os senhores Reinach e Hervieu são "da panelinha" - dizia ela. Não poderá acusar o Caso Dreyfus de haver premeditado tão negros desígnios contra a Sociedade. Mas certamente nesse ponto excedeu os limites.

            Os mundanos que não querem deixar que a política se introduza na sociedade são tão previdente como os militares que não querem deixar que a política penetre no exército. Ocorre com a sociedade o mesmo que se dá com o apetite sexual, que não se sabe a que perversões pode chegar uma vez que se deixa as razões estéticas ditarem as escolhas. O Faubourg Saint-Germain adquiriu o hábito de receber damas de outra sociedade por serem nacionalistas; o motivo desapareceu com o nacionalismo, por, o hábito subsistiu. A Sra. Verdurin, graças ao dreyfusismo, atraíra a sua casa escritores de valor que, momentaneamente, não lhe foram de nenhuma utilidade mundana, pois eram dreyfusistas. Mas as paixões políticas são como as outras, não duram muito. Chegam novas gerações que já não as compreendem; até mesmo geração que as sentiu mudar, experimenta paixões políticas que, não sendo exatamente calcadas sobre as anteriores, reabilitam uma parte dos excluídos, por haver mudado a causa do exclusivismo. Os monarquistas não se preocupam mais, durante o Caso Dreyfus, se alguém fosse republicano, ou mesmo radical, ou anticlerical, desde que fosse anti-semita e nacionalista. Se alguma vez rebentar uma guerra, o patriotismo assumiria uma outra forma e ninguém cuidaria se um escritor chauvinista fora ou não partidário de Dreyfus. Fora assim que, a crise política, a cada renovação artística, a Sra. Verdurin arrancara aos poucos como o pássaro faz seu ninho, fragmentos sucessivos, provisoriamente inutilizáveis do que um dia seria o seu salão. O Caso Dreyfus já passara, restava-lhe Anat France. A força da Sra. Verdurin era o seu sincero amor pela arte, o trabalho que tomava com os fiéis, os magníficos jantares que preparava só para eles, sem que tivessem presentes pessoas da sociedade. Cada um deles era tratado em sua casa, como Bergotte o fora na casa da Sra. Swann. Quando um familiar dessa ordem torna-se um belo dia um homem ilustre, e a sociedade quer vir vê-lo, sua presença na casa da Sra. Verdurin nada possui desse lado artificial, adulterado, de um banquete oficial ou de Saint-Charlemagne feita por Potel e Chabot, mas um trivial delicioso que teriam achado tão perfeito até num dia em que não houvesse visitas. Na casa da Sra. Verdurin o grupo era perfeito, bem ensaiado, o repertório de primeira ordem, só faltava o público. E, quando o gosto deste começava a afastar da arte racional e francesa de um Bergotte e se apaixonava principalmente pelas músicas exóticas, a Sra. Verdurin, espécie de correspondente oficial em de todos os artistas estrangeiros, ia em breve, ao lado da deslumbrante princesa Yourbeletieff, servir de velha fada Carabosse, mas todo-poderosa, aos bailarinos russos. Essa invasão encantadora, contra cujas seduções só protestaram os desprovidos de gosto, levou a Paris, como se sabe, uma febre de curiosidade menos áspera, mais puramente estética, mas talvez tão viva como o Caso Dreyfus. Mesmo aí a Sra. Verdurin iria figurar na primeira linha, mas para um resultado mundano inteiramente diverso. Bem como a tinham visto ao lado da Sra. Zola no tribunal, nas sessões do júri, assim também, quando a nova humanidade, aclamados balés russos, comprimiu-se na ópera, ornada de aigrettes desconhecidas, sempre viam num primeiro camarote a Sra. Verdurin ao lado da princesa Yourbeletieff. E, como após as emoções do Palácio da Justiça ia-se à noite à casa da Sra. Verdurin para ver de perto Picquart ou Labori, e sobretudo para saber das últimas notícias, tomar conhecimento do que se podia esperar de Zurlinden, de Loubet, do coronel Jouaust, do Regulamento, da mesma forma, com pouca disposição para ir dormir depois do entusiasmo desencadeado por Sherazade ou pelas danças do Príncipe Igor, ia-se à casa da Sra. Verdurin, onde, presididas por ela e pela princesa Yourbeletieff, as ceias requintadas reuniam todas as noites os dançarinos, que não tinham jantado para estarem mais ágeis, o diretor do espetáculo, os decoradores, os grandes compositores Igor Stravinski e Richard Strauss, pequeno núcleo imutável em torno ao qual, como nas ceias do Sr. e da Sra. Helvétius, as mais ilustres damas de Paris e as Altezas estrangeiras não desdenhavam misturar-se. Mesmo os da alta sociedade que julgavam possuir bom gosto e faziam distinções ociosas entre os balés russos, achando a apresentação das Sílfides um pouco mais “fina" que a de Sherazade, em que não estavam longe de notar influências da arte negra, ficavam encantados de verde perto aqueles grandes renovadores do gosto, do estilo teatral, que, numa arte talvez um tanto mais artificial que a pintura, fizeram uma revolução tão profunda quanto o Impressionismo.

            Voltando ao Sr. de Charlus, a Sra. Verdurin não teria ficado tão aborrecida se ele se tivesse limitado a pôr no índex a Sra. Bontemps, que ela havia notado na casa de Odette por seu amor às artes e que, durante o Caso Dreyfus, tinha vindo algumas vezes jantar na companhia do marido, a quem a Sra. Verdurin chamava de água-morna porque não punha o processo em revisão, mas que, muito inteligente e querendo relacionar-se com todos os partidos, estava encantado por mostrar a sua independência ao jantar com Labori, que o escutava sem dizer nada de comprometedor, mas inserindo na ocasião própria uma homenagem à lealdade de Jaures, reconhecida em todos os partidos. Mas o barão igualmente proscrevera certas damas da aristocracia com as quais a Sra. Verdurin entrara recentemente em relações, por ocasião de solenidades musicais, de coleções e de caridade, e que, fosse qual fosse o juízo que o Sr. de Charlus tivesse acerca delas, teriam sido, muito mais que ele próprio, elementos essenciais para formar, na casa da Sra. Verdurin, um novo núcleo, este aristocrático. A Sra. Verdurin havia justamente contado para essa festa, à qual o Sr. de Charlus lhe traria senhoras da mesma sociedade, para lhes acrescentar suas novas amigas, e gozara de antemão a surpresa que elas teriam em encontrar no cais Conti as amigas ou parentas convidadas pelo barão. Estava decepcionada e furiosa com a proibição delas. Restava saber se a reunião noturna, nessas condições, se traduziria, quanto a ela, por um ganho ou uma perda. Esta não seria muito grave se pelo menos as convidadas do Sr. de Charlus viessem com disposições tão calorosas para com a Sra. Verdurin, que se lhe tornassem as amigas do futuro. Nesse caso só haveria meio prejuízo e, num dia próximo, essas duas metades da alta sociedade, que o barão quisera manter isoladas, seriam reunidas; conquanto sem a presença dele naquela noite. A Sra. Verdurin, portanto, esperava as convidadas do Sr. de Charlus com certa emoção. Não ia demorar a conhecer, estado de espírito com que vinham e as relações que poderia esperar ter com elas. Enquanto esperava, a Sra. Verdurin se aconselhava com os fiéis; porém, vendo Charlus entrar com Brichot e comigo, interrompeu-se de súbito. Para nosso grande espanto, quando Brichot lhe falou de sua tristeza saber que a grande amiga dela passava tão mal, a Sra. Verdurin respondeu:

            - Escute, sou obrigada a confessar que não sinto tristeza nenhuma. É inútil fingir sentimentos que não temos... - Sem dúvida falava assim por falta de energia, pois sentia-se cansada à idéia de fazer cara triste durante toda a recepção; por orgulho para não dar a impressão de estar procurando desculpas por não ter cancelada a reunião; mas também por respeito humano e habilidade, pois a falta de pesar que demonstrava era mais honrosa se devesse ser atribuída a uma antipatia especial, do súbito revelada, quanto à princesa, do que a uma insensibilidade universal, e porque não se podia evitar de ficar desarmado por uma sinceridade que não cabia suposta em dúvida: se a Sra. Verdurin não tinha sido de fato indiferente à morte da princesa, iria, para explicar porque recebia, acusar-se de uma falta bem mais grave? Esqueciam que a Sra. Verdurin confessara, ao mesmo tempo que o pesar, a falta de coragem de renunciar a um prazer; ora, a dureza da amiga era algo mais chocante mais imoral, porém menos humilhante e, assim, mais fácil de confessar, que a frivolidade da dona da casa. Em matéria de crime, onde há perigo para o culpado o interesse que dita as confissões. Para as culpas sem sanção, é o amor-próprio. Além disso, achando muito batido, sem dúvida, o pretexto das pessoas, que não se deixarem interromper pelos pesares em sua vida de prazeres, repetem que lhe parece inútil pôr exteriormente um luto que têm no coração, a Sra. Verdurin preferia imitar esses culpados inteligentes a quem repugnam os clichês da inocência e cuja defesa- que é meia-confissão, sem que o percebam -consiste em dizem que não teriam visto nenhum mal em cometer o que lhes é censurado, o que por acaso, aliás, não tiveram ocasião de fazer; fosse porque, tendo adotado, para explicar sua conduta, a tese da indiferença, achasse, uma vez lançada na vertente do mau sentimento, que havia nele uma certa originalidade em experimentá-lo, rara perspicácia em ter sabido desvendá-lo, e um tal ou qual desplante em proclama-lo dessa forma, a Sra. Verdurin fez questão de insistirem sua falta de pesar, não uma certa satisfação orgulhosa de psicólogo paradoxal e de audacioso drama.

            - Sim, é engraçado - disse ela -, mas não senti quase nada. Meu Deus, não posso dizer que não teria preferido que ela vivesse, não era má pessoa.

            - Era, sim - interrompeu o Sr. Verdurin.

            - Ah, ele não gosta dela porque achava que era prejudicial para mim o fato de recebê-la, mas deixa-se cegar por isso.

            - Faça-me a justiça - disse o Sr. Verdurin - de reconhecer que nunca aprovei essas relações. Sempre te disse que ela era de má reputação.

            - Mas eu nunca ouvi nada a esse respeito - protestou Saniette.

            - Mas como? - exclamou a Sra. Verdurin - Era uma coisa universalmente conhecida. Era má, e também de fama vergonhosa, infame. Mas não é por causa disso. Eu mesma não saberia explicar meu sentimento; não a detestava, mas ela me era de tal modo indiferente que, quando soubemos que estava muito mal, até meu marido ficou surpreso e me disse: "Parece que pouco te importas com isso". Mas vejam, hoje ele me propôs adiar a festa e eu, pelo contrário, fiz questão de mantê-la, pois teria achado uma comédia manifestar um desgosto que não sinto. -

            Dizia aquilo porque achava ser curiosamente "teatro livre", e também por ser bastante cômodo; pois a insensibilidade ou a imoralidade confessa simplifica tanto a vida como a moral fácil; faz das ações censuráveis, e para as quais então não precisamos procurar desculpas, um dever de sinceridade. E os fiéis ouviam as palavras da Sra. Verdurin com aquela mistura de admiração e mal-estar que certas peças cruamente realistas e de observação penosa causavam antigamente; e maravilhando-se de ver a cara Patroa exibir uma nova forma de sua retidão e sua independência, mais de um deles, dizendo consigo que afinal de contas não seria a mesma coisa, pensava na própria morte e se perguntava se, no dia em que ela ocorresse, chorariam ou dariam uma festa no cais Conti.

            - Estou muito contente de que a festa de hoje não tenha sido adiada, por causa dos meus convidados - disse o Sr. de Charlus, que não percebeu que, expressando-se desse modo, ofendia a Sra. Verdurin.

            Entretanto eu estava impressionado, como qualquer pessoa que nessa noite se aproximasse da Sra. Verdurin, com um cheiro bem desagradável de rinogomenol. Eis aqui o motivo. Sabe-se que a Sra. Verdurin jamais expressava suas emoções artísticas de maneira moral, porém física, para que parecessem mais inevitáveis e profundas.

            Ora, se lhe falassem da música de Vinteuil, sua predileta, ela permanecia indiferente, como se não esperasse dela nenhuma emoção. Mas, após alguns minutos de olhar imóvel, quase distraído, ela nos respondia num tom preciso, prático, quase descortês, como se nos houvesse dito: "pouco me importa que o senhor fume, mas é por causa do tapete, ele é muito bonito, o que também pouco me importaria, mas é muito inflamável, tenho muito medo do fogo e não gostaria de que todos se queimassem por causa de uma ponta de cigarro mal apagada que deixasse cair no chão." O mesmo quando a Vinteuil. Se falassem dele, ela não demonstrava nenhuma admiração, mas, ao cabo de um instante, expressava com frieza a pena de que não o tocassem naquela noite: - Não tenho nada contra Vinteuil; no meu entender, é o maior compositor do século, apenas não posso ouvir essas coisas sem parar de chorar um só instante (ela de modo algum dizia "chorar" com jeito patético, teria dito "dormir" com o mesmo tom natural; certas más línguas pretendiam até que esse último verbo teria sido mais verdadeiro, o que ninguém aliás poderia decidir, pois ela escutava aquela música com a cabeça entre as mãos, e certos ruídos de ronco afinal poderiam ser soluços). Chorar não me faz mal posso chorar à vontade; apenas, é que as lágrimas me causam corizas de arrebentar. Isso me congestiona a mucosa e, quarenta e oito horas depois, fico parecendo uma velha bêbada e, para que funcionem as minhas cordas vocais, sou obrigada a passar dias fazendo inalações. Enfim um aluno de Cottard...-Oh! Mas a propósito não lhes dei os meus pêsames; morreu bem depressa o pobre professor! Para bem, sim, que é que desejam, ele está morto, como todo mundo, tinha matado muita gente e agora chegou a sua vez de desferir golpes contra si próprio. Pois então eu lhes dizia que um de seus alunos, delicioso mestre, cuidara de mim. E professava um axioma bastante original: "Mais vale prevenir que remediar." E passando-me uma pomada no nariz antes do início da música. É radical. Posso chorar como não sei quantas mães que tivessem perdido seus filhos e sem a menor coriza. Às vezes um pouquinho de conjuntivite, e é só. A eficácia é total. Sem isso, não poderia ter continuado a escutar Vinteuil. Eu não fazia mais do que passar de uma bronquite a outra.

            Não pude evitar de falar na Srta. Vinteuil.

            - Não veio a filha dele, nem uma de suas amigas? - perguntei à Sra. Verdurin.

            - Não, acabo justamente de receber um telegrama - disse a Sra. Verdurin de modo evasivo. - Elas foram obrigadas a ficar no carro. - E por um instante assaltou-me a esperança de que talvez nunca  cuidara de que elas viessem, e que a Sra. Verdurin somente anunciara aqueles representantes do compositor para impressionar favoravelmente os intérpretes e o público.

            - Como, quer dizer então que elas nem vieram ao ensaio da tarde? -indagou o barão com falsa curiosidade, pois quis dar a entender não ter estado com Charlie. Este veio cumprimentar-me. Perguntei-lhe ao ouvido acerca da desculpa da Srta. Vinteuil. Parecia estar mal informado sobre o assunto. Fiz-lhe sinal para que não falasse alto, e o avisei de que voltaríamos a tratar daquilo. Inclinou-se e prometeu que ficaria muito feliz por estar inteiramente à minha disposição. Reparei que comportava-se de maneira muito mais cortês e muito mais respeitosa que antes. - elogio dele - dele, que poderia talvez ajudar a esclarecer minhas suspeitas em parte o Sr. de Charlus, que respondeu:

            - Não faz mais do que deve, pois não valeria a pena viver entre pessoas bem-educadas se não aprendesse a ter boas maneiras. -E segundo o Sr. de Charlus, eram as velhas maneiras francesas, sem sombra de rigidez britânica. Assim, quando Charlie, regressando de uma turnê na província pelo estrangeiro, chegava em roupa de viagem à casa do barão, este, se não havia muitas visitas, beijava-o sem cerimônia em ambas as faces, talvez um pouco para, com tal ostentação, tirar à sua ternura toda idéia de culpa, talvez para não furtar-se a um prazer, mas sem dúvida, principalmente por literatura, para manter e ilustrar antigas maneiras da França, e como teria protestado contra o estilo muniquense ou o estilo art nouveau conservando velhas poltronas de sua bisavó, opondo à fleuma britânica a ternura de um pai sensível do século XVIII, que não dissimula sua alegria de rever um filho. Enfim, haveria uma ponta de incesto nessa afeição paternal? É mais provável que a maneira como o Sr. de Charlus satisfazia habitualmente seu vício, e sobre a qual mais tarde receberemos alguns esclarecimentos, não bastasse para suas necessidades afetivas, que permaneciam em branco desde a morte da esposa; tanto é assim que, depois de ter pensado várias vezes em casar de novo, era perseguido agora por um desejo maníaco de adoção, e algumas pessoas de sua intimidade julgavam que tal desejo ia exercer-se em proveito de Charlie. O caso não é extraordinário. O invertido que só pôde nutrir sua paixão com uma literatura escrita para os homens que gostam de mulheres, que pensava nos homens ao ler As Noites de Musset, sente também necessidade de exercer todas as funções sociais do homem que não é invertido, de sustentar dançarinas como o amante, e, como velho freqüentador da ópera, de ter uma vida regrada, de casar ou de se juntar a um homem, de ser pai.

            Ele se afastou com Morel, ao pretexto de que este lhe explicasse o que iam tocar, sentindo principalmente uma grande ternura, enquanto Charlie lhe mostrava sua música, em exibir assim publicamente a intimidade secreta que havia entre ambos. Enquanto isso, eu me sentia encantado. Pois, embora o pequeno clã comportasse poucas moças, em compensação muitas eram convidadas nos dias das festas de gala. Havia grande número delas que eu conhecia, todas muito bonitas. De longe, mandavam-me um sorriso de boas-vindas. Desse modo, a atmosfera se ornava a cada instante de um belo sorriso de moça. É o ornamento múltiplo e esparso das noites como dos dias. A gente se lembra de uma atmosfera porque havia moças sorridentes.

            Aliás, causariam espanto, se tivessem sido notadas, as palavras furtivas que o Sr. de Charlus trocara com diversos homens importantes daquela reunião. Tais homens eram dois duques, um eminente general, um grande escritor, um grande médico e um grande advogado. Ora, as palavras tinham sido estas:

            - A Propósito, souberam se o lacaio... não, falo do rapaz que vai na boléia... E na casa da sua prima Guermantes não há nada de novo?

            - Atualmente não.

            - Então diga, diante da porta da entrada, perto dos carros, havia uma pessoa jovem, loura, de calças curtas, que me pareceu bastante simpática. Chamou muito graciosamente o meu carro, e de bom grado eu teria estendido a conversa.

            - Sim, mas julgo-a extremamente hostil, e além disso, faz tantos luxos; você, que gosta de obter as coisas logo de saída, ficaria aborrecido. Aliás, sei que não há nada a fazer, um de meus amigos já tentou.            - É uma pena, pois achei o perfil muito fino e os cabelos magníficos.

            - Acha-a na verdade tão linda assim? Creio que, se a tivesse visto pouquinho mais, teria ficado desiludido. Não, no bufê é que há uns dois meses atrás teria visto uma verdadeira maravilha, um rapagão de dois metros, um ideal, e além disso gostando da coisa. Mas foi-se embora para a Polônia.

            - Ah, é pouco longe.

            - Quem sabe? Talvez volte. A gente sempre torna a se encontrar vida.-Não existe grande sarau mundano, se lhe fazemos um corte em profundidade bastante, que não seja igual a essas reuniões a que os médicos convidam seus enfermos, os quais conversam com muito juízo, exibem excelentes modos; se mostrariam doidos se não segredassem ao nosso ouvido, apontando um velha que passa: - É Joana d'Arc.

            - Acho que é do nosso dever esclarecê-lo - disse a Sra. Verdurin a Brichot - O que faço não é contra Charlus, pelo contrário. Ele é agradável, e quanto a reputação, direi que é de um tipo que não pode me dar prejuízo! Eu, que reuno nosso pequeno clã, para os nossos jantares de conversação, detesto os namoricos; os homens dizendo asneiras à uma mulher num canto da sala, em vez de falar coisas interessantes, com Charlus não preciso temer o que me aconteceu com Swann, com Elstir, com tantos outros. Com Charlus eu me sentia sossegada, até a chegava para os meus jantares, podiam estar presentes todas as mulheres da sociedade, mas eu tinha a certeza de que a conversa geral não seria perturbada por namoros e cochichos. Charlus é um ser à parte, a gente com ele se tranqüiliza, é como se fosse um padre. Apenas, é preciso que ele não se ponha a querer mandar nos rapazes que vêm aqui e lançar a discórdia no nosso grupinho, senão será prior ainda que um sujeito mulherengo. - E a Sra. Verdurin era sincera ao proclamar desse modo a sua indulgência em relação ao Charlismo. Como todo poder eclesiástico, ela julgava as fraquezas humanas menos graves do que aquilo que pode enfraquecer a autoridade do príncipe, prejudicar a ortodoxia, modificar o antigo em sua igrejinha. - Sem isso, ele vai se haver comigo. Imaginem que impedir Charlie de comparecer a um ensaio porque não fora convidado. Mas, dar-lhe uma advertência grave, espero que seja bastante, senão vai ter que sumir daqui. Ele seqüestra o rapaz, palavra! - E, empregando exatamente as mesmas expressões que quase todo mundo teria usado, pois que há algumas, pouco habituais, que determinado assunto particular, certa circunstância especial, fazem quase obrigatoriamente à memória de quem está falando, e que pensa expressar livremente suas idéias e não faz mais que repetir maquinalmente a lição universal ela acrescentou: - Não se pode mais ver Morel sem que esteja escoltado por estar enfermo, por essa espécie de guarda-costas.

            O Sr. Verdurin propôs afastar ele próprio com Charlie por um instante para falar-lhe, sob o pretexto de lhe perguntar alguma coisa. A Sra. Verdurin, porém, receou que o violinista ficasse perturbado e tocasse mal.

            - Era preferível atrasar essa execução até depois dos trechos da música. E quem sabe até adiar para outro dia. - Pois a Sra. Verdurin, por mais que desejasse a deliciosa emoção que experimentaria quando soubesse que o marido estava esclarecendo Charlie na sala vizinha, tinha medo, se o golpe falhasse, que ele se zangasse e não comparecesse no dia 16.

            O que perdeu o Sr. de Charlus naquela noite foi a má-educação tão freqüente neste mundo das pessoas que ele havia convidado e principiavam a chegar. Vindas a um tempo por amizade ao Sr. de Charlus e com a curiosidade de penetrarem semelhante reduto, cada duquesa ia direto ao barão como se fosse ele quem estivesse recebendo e dizia, a dois passos da Sra. Verdurin, que a tudo ouvia:

            - Diga-me onde está a tia Verdurin, acha ser indispensável que eu me apresente? Ao menos, espero que ela não mande pôr o meu nome nos jornais amanhã, seria motivo de briga com toda a minha gente. Como, é essa mulher de cabelos brancos? Mas ela não é tão feia assim.

            Ouvindo falar da Srta. Vinteuil, aliás ausente, mais de uma dizia:

            - Ah, a filha da Sonata? Mostrem-na e, encontrando muitas amigas, faziam grupo à parte, observavam, faiscando de curiosidade irônica, a entrada dos fiéis e o máximo que achavam para apontar com o dedo era o penteado um tanto singular de uma pessoa que alguns anos depois iria pô-lo na moda na mais alta sociedade, e, em suma, lamentavam não achar aquele salão muito diferente dos que já conheciam, do que tinham esperado, sentindo o desapontamento das pessoas da alta sociedade que, tendo ido à boate de Bruant na esperança de levar descompostura do cançonetista, são acolhidas à entrada com um cumprimento correto, em vez do refrão esperado: -Ah, que focinho ela tem! Que tipo! Olhem só que bocarra!

            O Sr. de Charlus, em Balbec, havia criticado finamente, na minha presença, a Sra. de Vaugoubert, que, apesar de muito inteligente, provocara, depois da fortuna inesperada, a irremediável desgraça do marido. Os soberanos em cuja corte o Sr. de Vaugoubert estava credenciado, o rei Teodósio e a rainha Eudóxia, tinham voltado a Paris, mas desta vez para uma temporada de maior duração; organizaram-se festas diárias em homenagem a eles, durante as quais a rainha, relacionada havia dez anos com a Sra. de Vaugoubert, a quem via sempre na sua capital, e não conhecendo nem a esposa do Presidente da República nem as mulheres dos ministros, afastara-se destas para formar um grupo à parte com a embaixatriz. Esta, julgando estar sua posição a salvo de todo risco pois o Sr. de Vaugoubert fora o autor da aliança entre o rei Teodósio e a França-, sentira, com a preferência que lhe mostrava a rainha, uma grande satisfação de orgulho, mas nenhuma inquietude pelo perigo que a ameaçava e que se realizou meses depois com o acontecimento, que o casal, confiante em excesso, julgara erradamente impossível, da brutal aposentadoria do Sr. de Vaugoubert.

            O Sr. de Charlus, comentando no trenzinho de Balbec a queda do seu amigo de infância, assombrava-se de que uma mulher inteligente não usasse, em semelhante circunstância, de toda a sua influência sobre os soberanos para deles obter que ela parecesse não ter nenhuma e fazê-la transferir para a esposa do presidente da república e dos ministros uma amabilidade pela qual se sentiriam elas tanto mais lisonjeadas, isto é, pela qual ficariam mais perto, em seu contentamento, de ser gratas aos Vaugoubert, quanto havíamos de pensar que essa amabilidade era espontânea e não ditada por eles. Mas quem o erro dos outros, por pouco que o tonteiem as circunstâncias, muitas vezes nos incide. E o Sr. de Charlus, enquanto seus convidados abriam caminho para felicita-lo, agradecer-lhe como se ele fosse o dono da casa, não pensou em pedir-lhes que trocassem algumas palavras com a Sra. Verdurin. Unicamente a rainha de Nápoles em cujas veias corria o mesmo sangue nobre de suas irmãs, a imperatriz Élise a duquesa d'Alençon, pôs-se a conversar com a Sra. Verdurin como se tivesse vindo para o prazer de vê-la mais do que pela música e em atenção ao Sr. de Charlus fez-lhe mil declarações, não escondeu o antigo desejo que tinha de conhecê-la elogiou-lhe a casa e lhe falou dos assuntos mais variados, como se estivesse em visita. Disse-lhe também que gostaria muito de ter trazido a sobrinha Élisabeth que deveria em breve casar-se com o príncipe Alberto, da Bélgica, que sentia muita pena de não ter vindo.

            Calou-se ao ver os músicos instalarem-se e pediu que lhe mostrassem Morel. Não devia ter muitas ilusões acerca dos que levavam o Sr. de Charlus a querer que cercassem o jovem virtuoso de tal glória. Mas sua velha sabedoria de soberana em quem corria um dos mais nobres sangues da História, mais ricos de experiência, de ceticismo e de orgulho, em considerar as taras inevitáveis das pessoas de quem gostava, como seu primo Charlus (filho como ela de uma duquesa da Baviera), como infortúnios que faziam mais precioso o apoio que podiam encontrar nela e, conseqüentemente, faziam com que ela tivesse mais prazer ainda em lhe dar. Sabia que o Sr. de Charlus ficaria duplamente agradecido por ela ter tomado o incômodo de vir em semelhante ocasião. Mas, tão bondosa como antes se mostrara cheia de coragem, heróica mulher que, rainha-soldado, dera tiros pessoalmente nas muralhas de Gâ sempre disposta a colocar-se cavalheirescamente do lado dos fracos, vendo a Verdurin só e abandonada, a qual de resto ignorava que não deveria largar a rainha, buscara fingir que para ela, rainha de Nápoles, o centro daquela reunião, o atrativo que a fizera vir era a Sra. Verdurin. Não cessou de desculpar-se por poder ficar até o fim, devendo, ela que nunca saía, comparecer a uma outra recepção, e pedindo sobretudo que, quando ela fosse embora, não se incomodando por ela, desse modo dispensando a Sra. Verdurin das honrarias que esta ignorava que lhe devia.

            Contudo, é preciso fazer esta justiça ao Sr. de Charlus, ou seja, que, se esqueceu completamente da Sra. Verdurin e deixou que a esquecessem, e dolosamente, as pessoas "de seu meio" que ele havia convidado, em compensação compreendeu que não devia permitir que elas mantivessem, diante da própria “manifestação musical", os maus modos que exibiam face à dona da casa. Morel já subira no estrado, os artistas se agrupavam, e ainda ouvia-se o rumor das conversas, e até risadas, frases como "é preciso ser iniciado para compreender". E logo o Sr. de Charlus, empertigando para trás o busto, como se tivesse entrado em outro corpo diferente daquele que eu tinha visto, havia pouco, chegar arrastando-se à casa da Sra. Verdurin, assumiu uma expressão de profeta e olhou a assembléia com uma seriedade que significava que aquele não era o momento de rir, e com isso fazendo corar bruscamente o rosto de mais de um convidado surpreendido em falta como um aluno pelo professor em plena sala de aula. Para mim, a atitude, aliás tão nobre, do Sr. de Charlus tinha algo de cômico; pois ora ele fulminava seus convidados com olhares chamejantes, ora, a fim de lhes indicar como num vademecum o silêncio religioso que era conveniente observar, a renúncia a toda preocupação mundana, ele próprio exibia, erguendo as mãos enluvadas à bela testa, um modelo (ao qual deviam todos se assemelhar) de gravidade, quase de êxtase até, sem corresponder aos cumprimentos dos retardatários, por demais indecentes para não compreenderem que agora o momento era dedicado à grande Arte. Ficaram todos hipnotizados, ninguém mais teve coragem de proferir um som, de mexer uma cadeira; o respeito pela música-de par com o prestígio de Palamede -fora de súbito inculcado a uma multidão tão mal-educada quanto elegante.

            Vendo enfileirar-se no pequeno estrado não só Morel e um pianista, mas também outros instrumentistas, julguei que iriam começar pelas obras de outros compositores que não Vinteuil. Pois pensava que não tinham dele mais que a sonata para piano e violino.

            A Sra. Verdurin sentou-se à parte, magnificamente abaulados os hemisférios de sua testa branca e ligeiramente rosada, os cabelos penteados para trás, um pouco para imitar um retrato do século XVIII, um pouco exigido pela necessidade de frescor de uma criatura febril a quem o pudor impede de manifestar seu estado, isolada, divindade que presidia às solenidade musicais, deusa do wagnerismo e da enxaqueca, espécie de Nomas quase trágica, evocada pelo gênio no meio daquelas pessoas aborrecidas, diante das quais, mais ainda que de costume, desdenharia exprimir suas impressões ao ouvir uma música que conhecia melhor que eles.

[Nomas eram divindades do destino nas mitologias nórdica e germânica. Correspondem às Moiras gregas, às Parcas romanas. (N. do T)]

            O concerto começou, eu não conhecia o que se tocava; encontrava-me em região desconhecida. Onde situá-la? Na obra de que autor eu me encontrava? Bem que desejaria sabê-lo e, não tendo junto a mim pessoa alguma a quem perguntar, gostaria de ser um personagem daquelas Mil e Uma Noites que eu relia sem cessar e onde, nos momentos de incerteza, surge de repente um gênio ou uma adolescente de beleza encantadora, invisível para os outros, mas não para o herói embaraçado a quem ela revela exatamente o que ele deseja saber. Ora, nesse momento: precisamente favorecido por semelhante aparição mágica. Assim como, num que julgamos não conhecer e a que na verdade chegamos por um lado; nem quando, após uma volta do caminho, sucede-nos desembocar de súbito em outro cujos menores recantos nos são familiares, mas aonde não tínhamos a intenção de chegar por ali, dizemos de repente:

            - Mas é o caminho que leva à pequena porta do jardim dos meus amigos***; estou a dois minutos da casa deles-; de fato ali está a filha, que veio nos dar bom-dia de passagem; assim também, repentinamente, eu me reconheci no meio daquela música nova para mim, em plena sonata de Vinteuil; e mais maravilhosa que uma adolescente, a pequena fraca envolta, coberta de prata, toda recamada de sonoridades brilhantes, leves e suaves como écharpes, veio até mim, reconhecível sob esses novos enfeites. Minha alegria por tê-la reencontrado era aumentada pela entonação tão carinhosamente conhecida que ela assumia para dirigir-se a mim, tão persuasiva, tão simples; todavia sem deixar esplender aquela beleza deslumbrante que a animava. Aliás, significava desta vez apenas mostrar-me o caminho, o qual não era o da sonata, pois tratava-se de uma obra inédita de Vinteuil, onde ele se divertira, por alusão que, nesse ponto, era justificada por umas palavras do programa, que o ouvinte precisaria ter ao mesmo tempo diante dos olhos, em fazer surgir por um instante a pequena frase. Mal recordada desse modo, ela desapareceu e encontrei-me num mundo desconhecido; mas agora sabia, e tudo não cessou de me encantar, que esse mundo era um daqueles que eu nem sequer pudera imaginar Vinteuil houvesse criado; pois quando, fatigado da sonata que era um universo esgotado para mim, tentava idear outros tão belos, porém diversos, fazia apenas como esses poetas que preenchem o seu pretenso Paraíso de campinas, defloram de regatos que são simples repetições dos que vemos na Terra. O que estava à minha frente fazia-me sentir tanta alegria, quanto me teria dado a sonata se eu a conhecesse, pois, sendo assim tão belo, era diferente. Ao passo que a sonata abria para uma aurora de lírios, campesina, dividindo sua leve candura, mas se alçar ao emaranhamento leve e todavia consistente de uma latada rústica madressilvas sobre gerânios brancos, era sobre superfícies unidas e planas como do mar que, numa manhã de temporal, começava no meio de um acre num vazio infinito, a nova obra, e era num róseo de aurora que, para se constar progressivamente diante de mim, esse universo desconhecido era extraído do silêncio e da noite. Aquele rubro tão novo, tão ausente da terna, campestre e cândida sonata, tingia todo o céu, como o arrebol, de uma esperança misteriosa. E um e que já cortava o ar, canto de sete notas, porém o mais desconhecido, o mais diverso tudo o que eu já tivesse imaginado,

a um tempo inefável e penetrante, não arrulho de pomba como na sonata, mas rasgando o ar, tão vivo como a nua escarlate em que estava imerso o princípio, algo feito um canto místico do galo, um apelo inefável mas super agudo da eterna manhã. A atmosfera fria, lavada de chuva, elétrica de uma qualidade tão diversa, sujeita a pressões tão diferentes, num mundo tão afastado do outro, virginal e guarnecido de vegetais, da sonata mudava a todo instante, apagando a promessa purpurina da Aurora. No entanto ao meio dia, num ensolarado ardente e passageiro, ela parecia cumprir-se numa felicidade pesada, aldeã e quase rústica, onde a vacilação dos sinos retumbantes e desencadeados (semelhantes aos que incendiavam de calor a praça da igreja em Combray, e que Vinteuil, que os devia ter ouvido muitas vezes, talvez tivesse encontrado naquele momento na memória, como uma cor que se tem ao alcance da mão numa palheta) parecia materializar a mais espessa alegria. A falar a verdade, esteticamente esse motivo de alegria não me agradava; achava-o quase feio, o ritmo ali se arrastava tão penosamente pelo chão que seria possível imitar quase toda a sua essência apenas com os ruídos, batendo de certo modo com as baquetas numa mesa. Parecia-me que, nesse ponto, Vinteuil carecera de inspiração e, em conseqüência, faltou-me também um pouco de atenção ali.

            Olhei a Patroa, cuja feroz imobilidade parecia protestar contra a marcação de compasso feita pelas cabeças ignorantes das damas do Faubourg. A Sra. Verdurin não dizia:

            "Vocês compreendem que eu conheço um pouco esta música, um pouco apenas! Se precisasse exprimir tudo o que sinto, vocês teriam muito que ouvir!"

            Não o dizia. Mas seu talhe ereto e imóvel, seus olhos sem expressão, as madeixas em desalinho, falavam por ela. Falavam também da sua coragem, diziam que os músicos podiam continuar, sem poupar-lhe os nervos, que ela não fraquejaria no andante, que não gritaria no alegro.

            Olhei os músicos. O violoncelista dominava o instrumento, que apertava entre os joelhos, inclinando a cabeça, à qual os traços vulgares davam, nos instantes de maneirismo, uma expressão de desgosto; ele se inclinava sobre seu rabecão, apalpava-o com a mesma paciência doméstica com que teria colhido couves, enquanto a seu lado a harpista (menina ainda), de saia curta, atravessada de todos os lados pelos raios horizontais do quadrilátero de ouro semelhantes àqueles que, na câmara mágica de uma sibila, representariam arbitrariamente o éter segundo as formas consagradas, parecia procurar nele, aqui e ali, no ponto exato, um som delicioso, da mesma forma que, pequena deusa alegórica, de pé junto à latada de ouro da abóbada celeste, estivesse colhendo estrelas uma a uma.

            Quanto a Morel, uma mecha até então invisível e confundida na sua cabeleira vinha destacar-se e fazer um anel na sua testa. Imperceptivelmente, virei a cabeça para o público a fim de verificar o que o Sr. de Charlus parecia pensar daquela mecha. Mas meus olhos somente encontraram o rosto, ou melhor, as mãos da Sra. Verdurin, pois estas cobriam inteiramente aquele. Desejaria a Patroa, com essa atitude de recolhimento, mostrar que se contentava, como estando na igreja e que não achava aquela música diferente da mais sublime das orações? Desejaria ela, como certas pessoas na igreja, subtrair olhares indiscretos, fosse por pudor, o fervor suposto, fosse por respeito humano, a distração culposa ou um sono invencível? Esta última hipótese, julguei-a por momento ser a verdadeira, devido a um rumor que não era musical, mas percebi que era produzido pelos roncos, não da Sra. Verdurin mas de sua cadeira.

            Mas bem depressa, tendo sido expulso, disperso por outros sons triunfantes dos sinos, de novo fui arrebatado por aquela música; e percebia que ao longo desse septeto, elementos diversos se expunham sucessivamente para combinar no fim, da mesma forma a sonata de Vinteuil e, como soube mais tarde todas as suas demais obras, não tinham sido, em relação ao septeto, mais que tímidos esboços, deliciosos, porém frágeis, junto da obra-prima triunfal e completa que naquele instante me era revelada. E eu não podia deixar de me lembrar, comparação, que, da mesma forma, eu pensara nos outros mundos que Vinteuil podia ter criado como em universos fechados, como fora cada um dos meus amores; mas na realidade, eu devia forçosamente confessar que, como neste último amor por Albertine; minhas primeiras veleidades de a amar (em Balbec, logo no começo, a seguir após o jogo do anel, depois na noite em que ela dormira no hotel, depois no domingo de nevoeiro em Paris, depois na festa em casa dos Guermantes; depois de novo em Balbec, e afinal em Paris, onde minha vida estava estreitamente ligada à sua), os meus outros amores, se eu considerava agora não mais o amor por Albertine, mas toda a minha vida, não tinham sido mais que frágeis tímidos ensaios, apelos que preparavam, que reclamavam este mais vasto am amor por Albertine. E deixei de seguir a música para de novo indagar a mim mesmo, se Albertine havia visto ou não a Srta. Vinteuil por aqueles dias, como quando interrogamos uma dor interna que a distração nos faz esquecer por um momento; pois era em mim que aconteciam os possíveis atos de Albertine. De todas as criaturas que conhecemos nós possuímos um duplo. Porém, habitualmente situado no horizonte de nossa imaginação, de nossa memória, ele permanece relativamente exterior a nós, e o que fez ou pudera fazer não comporta para nós elementos dolorosos do que um objeto colocado a certa distância e que só causa as sensações indolores da vista. O que afeta essas criaturas nós o podemos de modo contemplativo; podemos deplorá-lo em termos apropriados que aos outros a idéia do nosso bom coração, mas de fato não o sentimos. Porém a partir do golpe de Balbec, era no meu coração, e a uma grande profundidade de extrair, que se achava o duplo de Albertine. O que eu enxergava dela me fazia como a um enfermo cujos sentidos estivessem tão lastimosamente transvertidos que a vista de uma cor seria interiormente por ele sentida como uma incisão em plena carne. Por sorte eu não cedera à tentação de romper com Albertine; aquele enfado de ter de encontrá-la dali a pouco ao voltar, como a uma mulher de bem era quase nada perto da angústia que eu sentiria caso a separação se efetuasse naquele momento, quando eu alimentava uma dúvida a seu respeito, antes que ela tivesse tido tempo de se tornar indiferente. E, no momento em que a imaginava assim a esperar-me em casa, achando vagaroso o tempo, tendo talvez cochilado um instante no quarto, fui afagado de passagem por uma terna frase familiar e doméstica do septeto. Quem sabe-de tanto que todas as coisas se entrecruzam e superpõem na nossa vida interior-tivesse ela sido inspirada a Vinteuil pelo sono de sua filha-sua filha, hoje fonte de todas as minhas perturbações-quando tal sono envolvia em sua doçura, nas tardes pacíficas, o trabalho do músico, essa frase que me acalmou tanto, pelo mesmo macio fundo de silêncio que pacifica certas rêveries de Schumann, durante as quais, ainda quando "o poeta fala", adivinhamos que "a criança dorme". Adormecida, desperta, eu a encontraria àquela noite, quando me aprouvesse voltar para casa, Albertine, minha filhinha. E no entanto, disse comigo, algo mais misterioso que o amor de Albertine parecia prometido no começo daquela obra, naqueles primeiros gritos de aurora. Eu tentava afastar o pensamento da minha amiga para só pensar no músico. E assim tive bem a impressão de sua presença ali. Dir-se-ia que, reencarnado, o autor vivia para sempre em sua música; sentia-se a satisfação com que ele escolhia a cor de um dado timbre, adaptando-o a outros. Pois a dons mais profundos Vinteuil juntava igualmente este, que poucos músicos, e até poucos pintores, possuíram: o de utilizar cores não só tão estáveis, mas tão pessoais que, não apenas o tempo não lhes altera o frescor, senão também que os discípulos que imitam aquele que os descobriu e os próprios mestres que o ultrapassam não conseguem empalidecer sua originalidade. A revolução que o seu aparecimento causou não vê seus resultados assimilarem-se anonimamente às gerações seguintes; ela se desencadeia, estala de novo, mas só quando voltam a executar as obras do inovador para todo o sempre. Cada timbre acentuava-se de uma cor que todas as normas do mundo, aprendidas pelos mais sábios compositores, não poderiam imitar, de modo que Vinteuil, conquanto vindo em seu tempo e fixado em seu lugar na evolução musical, o deixaria sempre para se postar na dianteira toda vez que se tocasse uma de suas produções, que deveria a esse caráter, em aparência contraditório e de fato enganador, de duradoura novidade, a impressão de parecer posterior à obra de músicos mais recentes. Uma página sinfônica de Vinteuil, já conhecida ao piano e que era ouvida em orquestra, como um raio de sol de verão que o prisma da janela decompõe antes de sua entrada numa sala de jantar escura, desvelava, como um tesouro inesperado e multicor, todas as pedrarias das Mil e Uma Noites. Mas como comparar a esse deslumbramento imóvel da luz aquilo que era vida, movimento perpétuo e feliz? Aquele Vinteuil que eu conhecera tão tímido e tristonho, quando se tratava de escolher um timbre, uni-lo a outro, possuía audácias e, em todo o sentido da palavra, uma felicidade sobre a qual a audição de uma obra sua não permitia qualquer dúvida. A alegria que haviam causado tais sonoridades, as forças multiplicadas que essa alegria lhe dera para descobrir outras, levavam ainda o ouvinte de achado em achado melhor, era o próprio criador que o conduzia, bebendo nas cores que acabavam de achar uma alegria desvairada, que lhe dava o poder de descobrir, de lançar-se elas pareciam chamar, extasiado, estremecendo como ao choque de uma cena quando o sublime nascia por si mesmo do encontro dos cobres, ofegante, e gado, louco, vertiginoso, enquanto ele pintava seu grande afresco musical, Michelangelo amarrado à sua escada e lançando, de cabeça para baixo, tumultuosas pinceladas no teto da Capela Sistina. Vinteuil morrera havia muitos anos, porém, no meio desses instrumentos que ele havia amado, fora-lhe concedido prosseguir, por um tempo sem limites, ao menos uma parte de sua vida. De sua vida de homem, apenas? Se a arte não fosse de fato mais que um prolongamento, valeria a pena sacrificar-lhe alguma coisa, não seria ela tão irreal como a própria vida? Para escutar melhor aquele septeto, eu não podia pensar assim. Sem o ruborejante septeto diferia singularmente da branca sonata; a tímida interrompida à qual respondia a pequena frase, da súplica ofegante por achar o cumprimento estranha promessa, que, tão aguda, tão sobrenatural, tão breve, fazendo um rubor ainda inerte do céu matinal, retinira sobre o mar. Entretanto essas frases diversas eram compostas dos mesmos elementos, pois assim como havia certo universo, perceptível para nós em parcelas dispersas aqui e ali, em tais museus, e que era o universo de Elstir, o que ele via, aquele em que vivia; da mesma forma a música de Vinteuil desdobrava, nota por nota, pincelada por pincelada, as colorações desconhecidas, inestimáveis, de um universo insuspeitado, fragmentado pelas lacunas que entre si deixavam as audições de sua obra; duas interrogações tão dissemelhantes que comandavam o movimento tão somente da sonata e do septeto, uma quebrando em curtos apelos uma linha contínua pura, o outro consolidando os fragmentos esparsos em uma armadura individual uma tão calma e tímida, quase desligada e como que filosófica, o outro tão interessado, ansioso, suplicante, era todavia uma mesma prece, brotada diante de nós, nascerem de sol interiores e só refratada através dos meios diferentes dos pensamentos, de pesquisas de arte em progresso no decurso de anos em que desejara criar algo de novo. Prece, esperança que no fundo era a mesma, reconhecível sob seus disfarces nas várias obras de Vinteuil, e que, por outro lado se encontravam. Tais frases, os musicógrafos bem poderiam achar o seu palco, sua genealogia, nas obras de outros grandes compositores, mas unira por motivos acessórios, por semelhanças externas, analogias antes engenhosamente descobertas pelo raciocínio do que sentidas pela impressão direta. Assim, são dadas por essas frases de Vinteuil era diferente de qualquer outra, como despeito das conclusões que parecem desprender-se da ciência, existisse o dual. E era justamente quando este procurava poderosamente ser novo, conheciam, sob as aparentes diferenças, as similitudes profundas; e as peças intencionais que havia no seio de uma obra, quando Vinteuil retomava uma mesma frase em diversas passagens, diversificava-a, divertia-se em mudar-lhe o ritmo, em fazê-la reaparecer sob sua forma primeira, tais semelhanças intencionais, fruto da inteligência, forçosamente superficiais, nunca chegavam a ser tão impressionantes como essas semelhanças dissimuladas e involuntárias, que estalavam sob cores diversas entre duas obras-primas distintas; pois então Vinteuil, buscando poderosamente ser novo, interrogava a si mesmo com toda a pujança de seu esforço criador, atingindo sua própria essência em profundezas nas quais, seja qual for a pergunta que se lhe faça, é com o mesmo acento, o seu próprio, que ele responde. Um acento, esse acento de Vinteuil, separado dos acentos de outros compositores por uma diferença bem maior que a que percebemos entre a voz de duas pessoas, até mesmo entre o bramido e o grito de duas espécies animais; uma diferença verdadeira, a que havia entre o pensamento de um determinado músico e as eternas investigações de Vinteuil, a pergunta que ele se fazia sob tantas formas, sua especulação habitual, mas tão livre das maneiras analíticas do raciocínio como se se exercesse no mundo dos anjos, de modo que podemos medir-lhe a profundidade, porém não mais traduzi-las em linguagem humana, como ocorre com os espíritos desencarnados quando, evocados por um médium, este os interroga sobre os segredos da morte; pois, mesmo levando em conta essa originalidade adquirida que me impressionara de tarde, esse parentesco que os musicógrafos poderiam descobrir entre compositores, é de fato uma entonação única a que se elevam, a que regressam malgrado seu esses grandes cantores que são os músicos originais, e que é uma prova da existência irresistivelmente individual da alma. Embora Vinteuil tentasse compor música mais solene, mais grandiosa, ou de fazê-la viva e alegre, fazer aquilo que via refletindo-se de modo favorável no espírito do público, Vinteuil, malgrado seu, submergia tudo isso numa onda vinda do fundo de si mesmo que torna o seu canto eterno e logo reconhecível. Esse canto, diferente

do canto dos outros e semelhante a todos os seus, onde o aprendera, onde o ouvira Vinteuil? Assim, todo artista parece o cidadão de uma pátria ignorada, esquecida dele próprio, diversa daquela de onde virá outro grande artista em direção à terra. Quando muito, em suas últimas obras, Vinteuil parecia ter se aproximado dessa pátria. A atmosfera nelas já não era a mesma que na sonata, as frases interrogativas faziam-se mais insistentes, mais inquietas, as respostas mais misteriosas; o ar desbotado da manhã e da noitinha parecia influenciar até as cordas dos instrumentos.

            Por melhor que Morel tocasse, os sons emitidos pelo seu violino me pareceram singularmente rudes, quase gritantes. Essa atitude agradava e, como em certas vozes, sentia-se nela uma espécie de qualidade moral e de superioridade intelectual. Mas isso podia chocar. Quando a visão do universo se modifica, depura-se, torna-se mais adequada à lembrança da pátria interior, é perfeitamente natural que isso se traduza por uma alteração geral de sonoridades no músico, como de cores no pintor. Aliás, o público mais inteligente não se engana nesse ponto, visto que tarde as últimas obras de Vinteuil foram consideradas as mais profundas, nenhum programa, nenhum assunto trazia um elemento intelectual de juízo. Adivinhava-se, portanto, tratar-se de uma transposição, na ordem sonora, da profundidade. Essa pátria perdida não é recordada por nenhum músico, mas todos permanecem inconscientemente afinados num certo uníssono com ela; cada um delira de júbilo quando canta conforme sua pátria, traindo-a às vezes por amor, glória, mas então, buscando a glória, afasta-se dela e é só ao desdenhá-la que encontra, e quando o músico, seja qual for o assunto de que trata, entoa esse canto singular cuja monotonia, qualquer que seja o assunto tratado, o artista permanece idêntico a si mesmo prova nele a fixidez dos elementos constitutivos sua alma. Mas nesse caso, não é certo que esses elementos, todo esse resíduo que somos obrigados a conservar para nós próprios, que a conversa não transmitir mesmo do amigo para o amigo, do professor ao aluno, de um amante outro, esse inefável que diferencia qualitativamente o que cada um sentiu e que é forçado a abandonar no limiar das frases, onde só pode comunicar-se com outro limitando-se a pontos exteriores comuns a todos e sem interesse, não é certo que a arte, a arte de um Vinteuil, como a de um Elstir, fá-lo surgir para nós, exteriorizando nas cores do espectro a composição íntima desses mundos a que chamam indivíduos, e que sem a arte jamais conheceríamos?

            Asas, um outro aparelho preparatório, e que nos permitissem atravessar a imensidão, não nos serviriam de nada, pois, se fôssemos a Marte e a Vênus conservando os mesmos sentidos, eles reverteriam do mesmo aspecto que as coisas da Terra tudo aquilo que pudéssemos ver. A única viagem verdadeira, o único banho de Juvência, seria, não partir em busca de novas paragens, mas ter outros olhos, ver o universo com os olhos de outra pessoa, de cem outras, ver os cem universos que cada uma delas vê, e isso podemos consegui-lo com um Elstir, com um Vinteuil; com seus pares verdadeiramente voamos de estrela em estrela.

            O andante acabava de terminar numa frase repleta de uma ternura à qual eu, todo inteiro, me entregava; então houve, antes do movimento seguinte, um instante de repouso em que os executantes depuseram os instrumentos e os ouvintes trocaram algumas impressões. Um duque, para mostrar que entendia assunto, declarou:

            - É muito difícil de se tocar bem. -

            Pessoas mais agradáveis conversaram comigo por um instante. Mas o que eram suas palavras que, com toda palavra humana exterior, deixavam-me tão indiferente, ao lado da celeste frase musical com a qual eu acabava de conviver? Eu era de fato como um anjo expulso das delícias do Paraíso, cai na mais insignificante realidade. E, assim como certas criaturas são as últimas testemunhas de uma forma de vida que a Natureza abandonou, eu me indagava se a música não seria o exemplo único do que pode ter sido - caso não tivesse havido a invenção da linguagem, a formação de palavras - se das idéias-a comunicação das almas. É como uma possibilidade de não seguimentos; a humanidade enveredou por outros caminhos, o da linguagem fadada e escrita. Porém esse retorno ao não-analisado era tão embriagador que, ao sair desse paraíso, o contato dos seres mais ou menos inteligentes me parecia de extraordinária insignificância.

            Durante a execução da música eu pudera lembrar-me dos seres, associá-los a ela; ou melhor, quase que só associara à música a lembrança de uma única pessoa, a de Albertine. E a frase que encerrava o andante me parecia tão sublime que eu me dizia ser uma pena que Albertine não soubesse -e se o tivesse sabido não compreendesse a honra que era para ela estar associada a essa coisa tão grandiosa que nos reunia e da qual parecia que ela tomara emprestado a voz patética. Mas tão logo interrompida a música, as pessoas que ali se achavam pareciam demasiadamente insossas. Ofereceram-se alguns refrescos. O Sr. de Charlus, de vez em quando, interpelava um criado:

            - Como vai? Recebeu meu recado? Poderá vir?-

            Sem dúvida havia nessas interpelações a liberdade do grão senhor que crê lisonjear e ser mais povo que o burguês, mas também a velhacaria do culpado que julga que tudo o que se ostenta por isso mesmo é considerado inocente. E acrescentava, no tom Guermantes da Sra. de Villeparisis:

            - É um bom rapaz, bom caráter, emprego-o muitas vezes em casa. -

            Mas essas atitudes voltavam-se contra o barão, pois achavam incríveis as suas amabilidades tão íntimas e seus bilhetes aos lacaios. Estes, aliás, ficavam menos lisonjeados que constrangidos diante dos companheiros.

            Entretanto o septeto, que havia recomeçado, caminhava para o fim; em diversas retomadas uma ou outra frase de sonata regressava, mas mudada a cada vez, num ritmo e num acompanhamento diferentes, sendo a mesma e no entanto outra, como regressam as coisas na vida; e era uma dessas frases que, sem que se possa compreender que afinidade lhes atribui como única e necessária morada o passado de um certo compositor, encontram-se apenas em sua obra, na qual aparecem constantemente e da qual são as fadas, as dríades, as divindades familiares. A princípio eu havia discernido no septeto duas ou três frases que me lembravam a sonata. Em breve banhada no nevoeiro violáceo que se elevava sobretudo do último período da obra de Vinteuil, de modo que, mesmo quando ele introduzia uma dança a certa altura, tal dança ficava presa numa opala; percebi uma outra frase da sonata, mas permanecendo tão distante ainda que eu mal a reconhecia; hesitante, ela se aproximou, desapareceu como que assustada, tornou a voltar, enlaçou-se a outras, provindas, como soube mais tarde, de outras obras, chamou ainda outras que por sua vez se fizeram atraentes e persuasivas logo depois de domesticadas, e entravam na ronda, na ronda divina, porém invisível para a maioria dos ouvintes, que, não tendo diante deles senão um véu confuso através do qual nada viam, pontuavam arbitrariamente de exclamações admirativas um tédio contínuo de que pensavam morrer. Depois, elas se afastaram, salvo uma que vi tornar a passar umas cinco ou seis vezes sem que pudesse distinguir o seu rosto, mas cariciosa, tão diferente -como sem dúvida a pequena frase da sonata - do que uma mulher alguma vez me tivesse feito desejar, que essa frase, que oferecia com voz tão suave uma ventura que verdadeiramente teria valido a obter, é talvez-essa criatura invisível cuja linguagem eu não conhecia e que compreendia tão bem a única desconhecida que jamais me tenha sido dado encontrar. Depois essa frase se desfez, transformou-se, como acontecia com a pequena frase da sonata, e tornou-se o misterioso apelo do começo. Uma frase de cantar doloroso a ela se opôs, mas tão profunda, tão vaga, tão interna, quase tão orgânica e visceral, que já não se sabia, a cada uma de suas repetições, se eram as do tema ou de uma nevralgia. E logo os dois motivos lutaram juntos num cor corpo onde às vezes um desaparecia completamente, em que a seguir só se percebia um trecho do outro. Corpo-a-corpo de energias somente, na verdade; pois, tais criaturas se enfrentavam, eram destituídas de seu corpo físico, de sua aparência, de seu nome, e encontravam em mim um espectador interior igualmente despreocupado de nomes e do particular-que se interessava pelo seu como imaterial e dinâmico e seguia-lhe com paixão as peripécias sonoras. Afinal o motivo jubiloso triunfou; já não era um apelo quase inquieto lançado detrás de um vazio, era uma alegria inefável que parecia provir do Paraíso; uma alegria tão diferente da alegria da sonata quanto, de um anjo doce e grave de Bellini, tocando tiorba; poderia ser, vestido de escarlate, um arcanjo de Mantegna soprando uma trombeta.

[Tiorba: espécie de alaúde grande, de cordas dedilhadas e provido de dois braços, um comprido. Foi muito usado nos séculos XVI e XVII. (N. do T)]

            Eu sabia que esse novo matiz da alegria, esse apelo a uma alegria supra-terrestre não o esqueceria jamais. Seria, porém, alguma vez realizável para mim? Essa pergunta me parecia tanto mais importante quanto aquela frase era o que poderia caracterizar como contraste com o resto da minha vida, com o mundo invisível -essas impressões que a intervalos afastados eu encontrava em minha vida como os pontos de referência, os estímulos para a construção de uma vida verdadeira: a impressão sentida ante os campanários de Martinville, ante uma fileira árvores perto de Balbec. Em todo caso, para retornar ao acento particular de frase, como era singular que o pressentimento mais diferente do que se contém vida terra-a-terra, que a mais audaciosa aproximação das alegrias do além se materializasse justamente no triste pequeno burguês bem-comportado que encontramos no mês de Maria em Combray! Mas, acima de tudo, como acontecia que a revelação, a mais estranha que já ouvira, de um gênero desconhecido de alegria, a pudesse ter recebido dele, já que, dizia-se, ao morrer não deixara mais que Sonata, que o restante permanecia inexistente em anotações indecifráveis. Indecifráveis, mas que todavia, à força de paciência, de inteligência e de respeito acabaram por ser decifrados pela única pessoa que convivera o bastante com Vinteuil para conhecer muito bem o seu modo de trabalhar, para adivinhar as suas indicações de orquestra: a amiga da Srta. Vinteuil. Já em vida do grande compositor, ela havia aprendido com a filha deste o culto que nutria pelo pai. Por causa desse culto foi que, em momentos como aqueles nos quais procedemos contrariamente às nossas verdadeiras inclinações, as duas moças tinham conseguido achar um prazer demente nas profanações que já narramos. A adoração ao pai era a condição mesma do sacrilégio da filha. E sem dúvida elas deveriam se recusar à volúpia desse sacrilégio, mas tal volúpia não as exprimia por inteiro. E além do mais, aquelas profanações foram rareando até desaparecerem de todo, à medida que essas relações carnais e doentias, o turvo e enfumaçado incêndio da paixão, cedera lugar à chama de uma amizade alta e pura.

            Às vezes, a amiga da Srta. Vinteuil era assaltada pela idéia importuna de que talvez tivesse precipitado a morte de Vinteuil. Pelo menos, passando anos a decifrar o quebra-cabeças deixado por Vinteuil, estabelecendo a leitura correta daqueles hieróglifos desconhecidos, a amiga da Srta. Vinteuil teve o consolo de assegurar ao músico, de quem ensombrecera os últimos anos de vida, uma glória imortal e compensadora. De relações que não são consagradas pelas leis decorrem laços de parentesco tão múltiplos tão complexos, mais sólidos entretanto do que os que nascem do casamento. Sem mesmo nos deter em relações de natureza tão particular, não vemos todos os dias que o adultério, quando está fundado no amor verdadeiro, não abala os sentimentos de família, os deveres e parentesco e, ao contrário, os revivifica? Portanto, o adultério introduz o espírito na letra que muitas vezes o casamento deixou morta. Uma boa menina que por simples conveniência há de pôr luto pelo segundo marido da mãe, não terá lágrimas suficientes para chorar o homem que sua mãe entre todos escolhera como amante. De resto, a Srta. Vinteuil só agira por sadismo, o que não a desculpava, porém mais tarde achei um certo alívio em pensar desse modo. Ela deveria perceber muito bem, pensava eu, no momento em que profanava com a amiga a fotografia do pai, que tudo aquilo era apenas doentio, loucura, e não a verdadeira e alegre maldade que ela teria desejado. Essa idéia de que se tratava apenas de uma simulação de maldade estragava o seu prazer. Mas, se tal idéia lhe pôde retornar posteriormente, assim como lhe estragara o prazer, deve ter minorado seu sofrimento. "Não era eu," devia ter pensado consigo, "eu estava alucinada. Posso ainda rezar por meu pai, não desesperar da sua bondade." Unicamente, é possível que essa idéia, que com certeza se lhe apresentou ao espírito durante o prazer, não se apresentasse a ela no sofrimento. Gostaria eu de incuti-la em seu espírito. Tenho certeza de que lhe teria feito bem, de que poderia ter restabelecido entre ela e a lembrança do pai uma comunicação bastante confortadora.

            Como nos cadernos ilegíveis onde um químico de gênio, que ignora estar morte tão próxima, anotou descobertas que talvez permaneçam desconhecidas para sempre, a amiga da Srta. Vinteuil havia desentranhado, de papéis mais ilegíveis que papiros marcados de escrita cuneiforme, a fórmula eternamente verdadeira, para sempre fecunda, dessa alegria desconhecida, a esperança mística do escarlate da manhã. E eu, para quem, talvez menos no entanto que para Vinteuil; também fora causa e acabava de sê-lo naquela mesma noite, despertando novo em mim o ciúme por Albertine, e haveria de ser no futuro-de tantos sofrimentos, graças a ela, por compensação, tivera acesso ao estranho apelo que jamais cessaria de ouvir, como a promessa de que existia outra coisa, sem dúvida realidade pela arte, além do nada que eu havia encontrado em todos os prazeres e no amor, e que, se minha vida me parecia tão vã, pelo menos ainda não tinha realizado tudo.

            O que essa moça permitira, graças a seu trabalho, que se conhecesse Vinteuil, era na verdade toda a obra do compositor. Além dessa peça para instrumentos, certas frases da sonata, únicos trechos conhecidos pelo público pareciam de tal modo banais que não era possível entender como tinham ganhado tanta admiração. Assim é que ficamos surpresos que durante anos peças insignificantes como o Romance da Estrela e a Prece de Elisabeth tenham podido levantar no concerto amadores fanáticos que se cansavam de aplaudir e de pedir bis quando mal se encerrava o que no entanto não passa de pobreza insossa nós que conhecemos Tristão, O Ouro do Reno, Os Mestres Cantores. É para supor, entretanto, que essas melodias sem caráter continham já, em quantidade infinitesimais, e talvez por isso mesmo mais assimiláveis, alguma coisa da originalidade das obras-primas que retrospectivamente são as únicas importantes pra nós, mas cuja própria perfeição teria acaso impedido que fossem compreendidas puderam elas abrir-lhes o caminho nos corações. Sempre é verdade que, se dá um pressentimento confuso de belezas futuras, deixavam estas em ignorância completa. Acontecia o mesmo no caso de Vinteuil; se ao morrer ele não tivesse deixado-excetuando certas partes da sonata-senão o que pudera terminar, se teria conhecido dele valeria tão pouco diante de sua verdadeira grandeza, para Victor Hugo, por exemplo, se tivesse morrido depois de "O torneio do João", "A Noiva do Timbaleiro" e "Sara, a banhista", sem ter escrito nada da  des Siecles e das Contemplations: o que é para nós a sua verdadeira obra ter ficado puramente virtual, tão ignorada como esses universos que a percepção não consegue atingir, sobre os quais nunca poderemos formar idéia.

            De resto, esse contraste aparente, essa união profunda entre o gênio, o talento, e até mesmo a virtude; e a gama de vícios onde, como ocorrera com Vinteuil, está ele tão freqüentemente contido, conservado, eram legíveis, como uma alegoria vulgar, na própria reunião dos convidados, em meio aos quais me encontrei quando a música terminou. Essa reunião, embora desta vez limitada ao salão da Sra. Verdurin, assemelhava-se a muitas outras cujos ingredientes são ignorados do grande público, e que os jornalistas filósofos, que são um pouco informados, denominam parisienses, ou panamistas, [eletivo derivado de Panamá e relativo ao, escândalo financeiro francês naquela então colônia da Colômbia 1887. (N. do T)] ou dreyfusistas, sem desconfiar que elas se podem ver também em São Petersburgo, em Berlim, em Madri e em todos os tempos; se de fato o subsecretário de Estado das Belas-Artes, homem verdadeiramente artista, bem-educado e esnobe, algumas duquesas e três embaixadores com suas mulheres se achavam naquela noite em casa da Sra. Verdurin, o motivo próximo, imediato, dessa presença residia nas relações existentes entre o Sr. de Charlus e Morel, relações que faziam o barão desejar o maior arruído possível em torno aos sucessos artísticos de seu jovem ídolo e garantir para ele a cruz da Legião de Honra; a causa mais remota que tornara possível aquela reunião era que uma moça, mantendo com a Srta. Vinteuil relações semelhantes às de Charlie e do barão, dera a lume toda uma série de obras geniais e que foram uma tal revelação que não tardaria a abrir-se uma subscrição, sob o patrocínio do ministro da Instrução Pública, com o fim de erguer uma estátua a Vinteuil. Aliás, a essas obras, tanto quanto às relações da Srta. Vinteuil com sua amiga, úteis haviam sido as do barão com Charlie, espécie de atalho graças ao qual o mundo iria conhecer essas obras sem o atraso, senão de uma incompreensão que persistiria por muito tempo, ao menos de uma ignorância total que poderia se estender durante anos. Toda vez que se produz um acontecimento acessível à vulgaridade de espírito do jornalista filósofo, isto é, em geral um acontecimento político, tais jornalistas filósofos são persuadidos de que existe algo que mudou na França, que não mais serão vistos certos saraus, que Ibsen, Renan, Dostoievski, d'Annunzio, Tolstoi, Wagner e Strauss serão mais admirados. Pois os jornalistas filósofos fundam seus argumentos no que há de equívoco nessas manifestações oficiais, para daí encontrar algo de decadente na arte que tais manifestações glorificam e que muitas vezes é o que há de mais austero. Pois não existe nome, entre os mais respeitados do jornalismo filósofo, que não tenha muito naturalmente dado lugar a tais festas estranhas, conquanto a estranheza nesses casos fosse menos flagrante e mais bem escondida. Para essa festa, os elementos impuros que aí se conjugavam me impressionavam sob outro ponto de vista; certo, eu estava mais preparado que ninguém a dissociá-los, já que aprendera a conhecê-los separadamente; ocorria, porém, que uns, que se relacionavam à Srta. Vinteuil e sua amiga, falando-me de Combray, também me falavam de Albertine, quer dizer, de Balbec, visto que porque antigamente eu conhecera a Srta. Vinteuil em Montjouvain e que sou da intimidade da amiga desta com Albertine, é que iria dali a pouco, ao voltar casa, encontrar, em vez da solidão, Albertine que me esperava; e outros, que referiam a Morel e ao Sr. de Charlus, falando-me de Balbec, onde eu vira, em Doncieres, iniciarem-se as suas relações, falavam-me de Combray e de seus lados, pois o Sr. de Charlus era um desses Guermantes, condes de Combray, moravam em Combray sem aí ter o seu domicílio, entre o céu e a terra, corte de Gilberto, o Mau, em seu vitral, e Morel era o filho daquele velho lacaio que me fizera conhecer a dama cor-de-rosa e permitira, tantos anos depois, nela reconhecer a Sra. Swann.

            - Está bem executado, hein? - perguntou o Sr. Verdurin a Saniette.

            - Receio apenas - respondeu este gaguejando - que o próprio virtuosismo de Morel ofusque tanto

o seu sentimento geral da obra.

            - Ofuscar? Que quer dizer com isso? - uivou o Sr. Verdurin, enquanto alguns convidados se aprestavam para devorar, como leões, o homem apavorado.

            - Oh, eu não me refiro somente a ele...ele nem sabe mais o que diz.

            - Referir-se a quê?

            - Seria... preciso que... eu ouça ainda outra vez para fazer um juízo rigoroso.

            - Rigoroso? Ele está louco! - exclamou o Sr. Verdurin segurando a cabeça com as mãos.

            - Deviam acompanhá-lo. lsso quer dizer: com exatidão, o senhor... diz bbbem... com exatidão rigorosa. Digo que não posso julgar rigorosamente.

            - E eu, eu lhe digo que vá embora! - gritou Verdurin, fora de si pela própria cólera, mostrando-lhe a porta com o dedo, o rosto chamejante. - Não tolero que falem desse jeito na minha casa. -

            Saniette se descrevendo círculos como um homem embriagado. Algumas pessoas pensavam que ele não fora convidado, visto que o punham assim para fora. E uma senhora muito amiga dele até então, a quem na véspera ele havia emprestado um precioso, devolveu-o no dia seguinte sem uma palavra, unicamente embrulhou num papel no qual mandou pôr pelo mordomo, secamente, o endereço de Saniette não queria "dever nada" a alguém que, visivelmente, estava longe de desfrutar boas graças do pequeno clã. Aliás, Saniette ignorou sempre essa impertinência; pois cinco minutos não eram decorridos desde o ataque do Sr. Verdurin, quando um lacaio veio avisar ao Patrão que o Sr. Saniette sofrera um ataque no pátio do palacete. Mas a reunião não havia terminado.

            - Mandem levá-lo em casa, não há de ser nada - disse o Patrão, cujo prédio "particular", como teria dito o gerente do de Balbec, foi desse modo assimilado aos grandes hotéis em que se apressam em esconder os mortos súbitos para não assustar os fregueses, e onde guardam provisoriamente o defunto na despensa até o momento em que, ainda que foi quando vivo, o mais brilhante e generoso dos homens, o façam sair clandestinamente pela porta reservada aos "mergulhadores" (lava-pratos) e aos cozinheiros. Aliás, morto Saniette não estava. Viveu ainda algumas semanas, mas só ligeiramente recobrou a consciência.

            O Sr. de Charlus recomeçou, no momento em que a música terminava e os convidados se despediam dele, os mesmos erros que praticara ao chegar. Não lhes pediu que se dirigissem à Patroa, que a associassem, e a seu marido, aos agradecimentos que lhe manifestavam. Foi um longo desfile, mas um desfile apenas diante do barão, e não sem que ele o percebesse, pois falou deste modo minutos após:

            - A própria forma da manifestação artística se revestiu a seguir de um lado "sacristia" muito divertido. -Chegavam a prolongar os agradecimentos com palestras diferentes, que permitiam que se ficasse um instante a mais junto do barão, enquanto os que ainda não o haviam cumprimentado pelo êxito da sua festa estagnavam, mexiam os pés.

            Mais de um marido desejava ir logo embora; mas a esposa, esnobe ainda que duquesa, protestava:

            - Não, não, mesmo que a gente precise esperar uma hora, não podemos sair sem agradecer à Palamede, que teve tanto trabalho. Só mesmo ele para dar nos dias de hoje semelhantes festas. -             Ninguém mais pensou em fazer-se apresentar à Sra. Verdurin assim como ninguém pede para ser apresentado a uma empregada de teatro ao qual uma grande dama convidou por uma noite a aristocracia inteira.

            - Você esteve ontem na casa de Éliane de Montmorency, meu primo?- perguntava a Sra. de Mortemart, desejando prolongar a conversa.

            - Meu Deus, claro que não! Gosto muito de Éliane, mas não entendo o sentido dos seus convites. Sem dúvida, sou meio burro - acrescentava o barão com um vasto sorriso derramado, enquanto a Sra. de Mortemart sentia que ia ter os prelúdios de "alguma" de Palamede, como os tivera muitas vezes de Oriane. - Há cerca de quinze dias recebi um cartão da agradável Éliane. Acima do nome contestado de Montmorency, estava escrito este amável convite: Meu primo, dê-me a graça de pensarem mim na Sexta-feira próxima, às nove e meia. Logo abaixo estavam escritas estas duas palavras menos graciosas: Quarteto tcheco. Tais palavras pareceram-me ininteligíveis e, de qualquer modo, sem mais nenhuma relação com a frase anterior do que essas cartas em cujo reverso a gente vê que o missivista havia começado uma outra com as palavras: Caro amigo, faltando o restante, e não pegou outra folha, fosse por distração ou por economia de papel. Gosto muito de Éliane: assim, não lhe quis mal por isso, e me limitei a não levar em conta as palavras estranhas e deslocadas de quarteto tcheco; e, como sou um homem organizado, coloquei em cima da minha lareira o convite para pensar na Sra. de Montmorency na sexta às nove horas e meia. Embora conhecido por minha natureza obediente, pontual e suave, como Buffon diz do camelo e o riso se espalha mais largamente em torno do Sr. de Charlus, que sabia que, ao contrário, todos tinham pelo homem da mais difícil convivência-, atrasei-me por alguns minutos, tempo necessário para tirar a roupa com que chegara da rua - e, sem muito repor à isso, pensando que nove e meia representavam de fato dez horas; e ao bater dez, num belo chambre, os pés calçados em espessos chinelos de lã, coloquei no canto da lareira a pensar em Éliane como ela me havia pedido, e com uma intensidade que só começou a diminuir às dez e meia. Diga-lhe por obséquio, obedeci estreitamente ao seu audacioso pedido. Penso que ela ficará contente.

            A Sra. de Mortemart morreu de rir; e o Sr. de Charlus a acompanhou.

            - Amanhã - acrescentou ela, sem pensar que havia excedido em muito o tempo se lhe podia conceder - irá à casa dos nossos primos, os La Rochefoucauld?

            - Isso é impossível, eles me convidaram, a mim como a você, vejo agora, para a mais incrível de conceber e de realizar, e que se denomina, a crer no cartão, convite: Chá dançante. Eu passava por ser muito ágil quando moço, mas duvidava que pudesse, sem faltar ao decoro, tomar chá enquanto dançava. Ora, eu não apreciei comer, nem beber, sem asseio. Você dirá que hoje não preciso mais, porém, mesmo confortavelmente sentado a beber chá de cuja finalidade aí estou desconfiado, visto que se intitula dançante-, eu receava que os convidados mais jovens que eu, e talvez menos ágeis do que eu era na idade deles, derrama, na minha roupa a sua chávena, o que me interromperia o prazer de esvaziar a minha - E o Sr. de Charlus nem sequer se contentava em omitir na conversa a Sra. Verdurin e de falar dos mais variados assuntos (que parecia ter gosto em desenvolver pra variar, pelo cruel prazer que sempre tivera de deixar indefinidamente "fazendo os amigos que esperavam com inesgotável paciência a chegada de sua vez). Contava até toda a parte da reunião que era da responsabilidade da Sra. Verdurin a propósito de chávena, que estranhas meias-tigelas eram as que se pareciam aquelas em que, quando eu era rapaz, mandavam vir sorvetes da casa Poiré Blanc. Alguém há pouco me disse que eram para o "café gelado". Mas em matéria de gelado, não vi nem café nem gelo. Que coisinhas curiosas, de emprego maldoso! - Para dizer isso, o Sr. de Charlus colocara verticalmente sobre a boca as enluvadas de branco, e circunvagara cautelosamente o olhar indicador, como se temesse ser ouvido e até visto pelos donos da casa. Mas aquilo não passava de fingimento, pois dali a pouco ia externar as mesmas críticas à própria Sra. Verdurin e, mais tarde, intimá-la com insolência: - E principalmente, nada de taças de gelado! Dê-as a uma de suas amigas cuja casa a senhora queira enfear. Mas, tudo, que ela não as ponha na sala de visitas, porque a gente poderia achar que se enganou de quarto, pois parecem direitinho uns urinóis.

            - Mas, meu primo - dizia a convidada, também baixando a voz e olhando o Sr. de Charlus com ar interrogativo, não por medo de aborrecer a Sra. Verdurin, mas de aborrecê-lo. -Talvez ela ainda não saiba de tudo... -Nós lhe ensinaremos. - Ah! - ria a convidada - ela não pode achar melhor professor! Que boa sorte! Com você pode-se ter a certeza de que jamais haverá uma nota em falso. - Em todo caso, não as houve na música. - Oh, estava sublime! São alegrias que nunca se esquecem. A propósito desse violinista de gênio - continuava ela, julgando em sua ingenuidade que o Sr. de Charlus se interessava pelo violino "em si" -, conhece acaso um que ouvi outro dia tocar maravilhosamente uma sonata de Fauré, chama-se Frank

            - Ouvi. sim, é horrível - respondia o Sr. de Charlus, sem se incomodar pela grosseria de um desmentido que implicava ser sua prima destituída de gosto. - Em matéria de violinista, aconselho-a a limitar-se ao meu. -

            Os olhares iam recomeçar a trocar-se entre o Sr. de Charlus e a prima, a um tempo abaixados e espreitadores, pois, enrubescendo e buscando zelosamente reparar a gafe, a Sra. de Mortemart ia propor ao Sr. de Charlus que desse uma reunião noturna para que ouvissem Morel. Ora, para ela essa reunião não tinha por finalidade colocar em evidência um talento, finalidade que todavia ela iria pretender ser a sua, e que de fato era do Sr. de Charlus. Ela só via naquilo uma oportunidade de dar uma reunião particularmente elegante, e já calculava quem haveria de convidar e quem deixaria de lado. Essa triagem, preocupação dominante das pessoas que dão festas (essas mesmas que os jornais mundanos têm o topete ou a estupidez de chamar "a elite"), altera logo o olhar, e escrita - mais profundamente do que o faria a sugestão de um hipnotizador. Antes mesmo de ter pensado no que Morel haveria de tocar (preocupação tida como secundária, e com razão, pois mesmo que todo mundo, por causa do Sr. de Charlus, tivesse a conveniência de ficar em silêncio durante a execução da música, em compensação ninguém teria tido a idéia de escutá-la), a Sra. de Mortemart, tendo decidido que a Sra. de Valcourt não seria das "eleitas", tomara por esse mesmo fato o ar de conspiração, de complô, que tanto rebaixa as próprias senhoras da alta sociedade em melhores condições de não se importar com a opinião pública.

            - Não haveria um meio de eu dar uma reunião noturna para ouvirmos o seu amigo?- disse em voz baixa a Sra. de Mortemart, que, dirigindo-se apenas ao Sr. de Charlus, não pôde evitar, como que fascinada, lançar um olhar à Sra. de Valcourt (a excluída) a fim de se assegurar que ela estava a uma distância suficiente para não ouvir suas palavras. "Não, ela não pode perceber o que eu digo", concluiu mentalmente a Sra. de Mortemart, tranqüilizada pelo próprio olhar, o qual, por sua vez, tivera sobre a Sra. de Valcourt um efeito bem diverso do que visava: "Ah," disse consigo a Sra. de Valcourt ao ver esse olhar, "Marfe-Thérese prepara com Palamede alguma coisa de que não devo tomar parte".

            - Você quer dizer o meu protegido - retificou o Sr. de Charlus, que não tinha mais piedade pelos conhecimentos gramaticais do que pelos dotes musicais da prima. Depois, sem se importar com as súplicas mudas desta, que se desculpava sorrindo: - Pois não... - disse ele com voz forte e capaz de ser ouvida pelo salão inteiro - se bem que sempre haja perigo nesse tipo de exportação de uma personalidade fascinante para um ambiente que forçosamente a sofrer uma diminuição de seu poder transcendental e que, em todo caso, precisa ser convenientemente apropriado.  -

            A Sra. de Mortemart disse consigo que a voz, o pianíssimo de sua pergunta tinha sido pura perda após o "vozeirão'", que fora dada a resposta. Enganava-se.

            A Sra. de Valcourt nada ouviu, pela simples razão de não ter entendido uma só palavra. Suas inquietações diminuíram e teriam sido rapidamente extintas se a Sra. de Mortemart, receando ver descoberta a intenção, e ser obrigada a convidar a Sra. de Valcourt, a quem era muito ligada deixá-la de fora se a outra soubesse "antes", não tivesse novamente erguido as pálpebras na direção de Édith, como para não perder de vista um perigo de ameaça, não sem tornar a abaixá-las vivamente de modo a não se comprometer em demasia. Contava escrever-lhe no dia seguinte uma dessas cartas, complementares ao olhar revelador, cartas que são consideradas hábeis mas que não passam de confissão sem reticências e assinada. Por exemplo: "Cara Édith, tenho saudades suas, mas não contava muito com você ontem à noite (como contaria, como pensaria Édith, visto que não me convidara?), pois sei que detesta esse tipo, reuniões que mais parecem aborrecê-la. Nem por isso ficaríamos menos honrados em tê-la conosco (a Sra. de Mortemart jamais empregava o termo "honrados", a não ser nas cartas, onde procurava dar a uma mentira a aparência de verdade). Aí você sabe que está sempre em casa na nossa casa. Além disso, fez bem em não vir, pois a reunião foi um fracasso completo, como todas as coisas improvisadas duas horas", etc. Porém já o novo olhar furtivo lançado sobre ela fizera Édith compreender tudo o que ocultava a linguagem complicada do Sr. de Charlus. Esse foi mesmo tão forte que, depois de ter atingido a Sra. de Valcourt, olvidado segredo e a intenção de mistério que ele continha ricochetearam sobre um peruano que a Sra. de Mortemart, ao contrário, pretendia convidar. Mas desconhecendo, vendo até à evidência os mistérios que faziam, sem se dar conta de que eram para ele, sentiu logo um ódio atroz pela Sra. de Mortemart e jurou pregar mil partidas, como enviar cinqüenta cafés gelados para a casa dela num dia em ela não estivesse recebendo, de mandar inserir, no dia em que ela recebesse, nota nos jornais dizendo que a reunião fora adiada, e de publicar notícias mensais das seguintes, nas quais figurariam, como tendo estado presentes, os nobres de todos conhecidos, de pessoas que, por motivos diversos, ninguém pensa receber ou nem mesmo deixar-se apresentar.

            A Sra. de Mortemart errava em preocupar-se com a Sra. de Valcourt. O Sr. de Charlus ia encarregar-se de desnaturar, muito mais do que o teria feito a pressa dessa festa projetada.

            - Mas meu primo - disse ela em resposta à frase "ambiente que precisaria ser convenientemente apropriado", cujo sentido, o estado momentâneo de hiperestesia lhe permitira adivinhar - nós lhe pouparemos todo trabalho. Encarrego-me de pedir à Gilberto que se ocupe de tudo.

            - Não, principalmente porque ele não será convidado. Nada se fará sem mim. Acima de tudo, trata-se de excluir as pessoas que têm ouvidos para não ouvir. -

            A prima de Charlus, que havia contado com o atrativo de Morel para dar uma festa em que ela pudesse dizer que, à diferença de tantos parentes, "tivera o apoio de Palamede", transportou bruscamente o seu pensamento do prestígio do Sr. de Charlus para as numerosas pessoas com as quais ele iria indispô-la se se metesse a excluir e a convidar. A idéia de que o príncipe de Guermantes (por causa de quem ela em parte desejava excluir a Sra. de Valcourt, que ele não recebia) não seria convidado, a aterrorizava. Seus olhos tomaram uma expressão inquieta.

            - Será que esta luz um pouco forte lhe faz mal? - indagou o Sr. de Charlus com seriedade aparente cujo fundo irônico não foi entendido.

            - Não, absolutamente; eu pensava na dificuldade, não por minha causa naturalmente, mas pelos meus, que isso poderá criar se Gilberto souber que dei uma festa sem convidá-lo, ele que nunca recebe quatro gatos pingados sem...

            - Mas justamente, pode-se começar por suprimir os quatro gatos pingados, que só poderiam miar; creio que o rumor das conversas impediu-a de compreender que se tratava não de fazer gentilezas graças a uma reunião noturna, mas de proceder aos ritos habituais a toda verdadeira celebração. - Depois, julgando, não que a pessoa seguinte tivesse esperado demais, mas que não lhe seria conveniente exagerar os favores feitos àquela que tivera em vista muito menos Morel do que suas próprias "listas" de convidados, o Sr. de Charlus, como um médico que termina a consulta quando acha ter ficado tempo suficiente, deu a entender à prima que se retirasse, não dizendo-lhe adeus, mas voltando-se para a pessoa que vinha imediatamente após. - Boa-noite, senhora de Montesquiou; estava maravilhoso, pois não? Não vi Hélene; diga-lhe que toda abstenção geral, mesmo a mais nobre, o que significa a dela, comporta exceções, se são deslumbrantes, como era o caso esta noite. Mostrar-se rara está bem, mas fazer passar antes o raro, que só é negativo, o precioso, é melhor ainda. Quanto à sua irmã, de quem aprecio mais que ninguém a sistemática ausência nos lugares onde quem a espera não tem o seu valor, ao contrário, a presença dela numa manifestação memorável como esta, teria sido uma preeminência e teria dado à sua irmã, já tão prestigiosa, um prestígio suplementar. - Depois, passou a uma terceira pessoa.

            Fiquei muito espantado ao ver ali, tão amável e lisonjeiro com o Sr. de Charlus quanto fora seco outrora para com ele, fazendo-se apresentar a Charlie e dizendo a este que esperaria a sua visita, o Sr. d'Argencourt, aquele homem tão terrível para o gênero de homens como o Sr. de Charlus. Pois agora vivia rodeado deles. Certo, não é que tivesse se tornado um semelhante ao Sr. de Charlus sob tal aspecto. Mas fazia algum tempo que mais ou menos abandonara a mulher por uma jovem senhora da sociedade, a quem adorava. Inteligente, ela o fazia compartilhar de seu gosto pelas pessoas inteligentes e desejava muito que o Sr. de Charlus fosse à sua casa. Mas sobretudo, o Sr. d'Argencourt, muito enciumado e um tanto impotente, sentindo que satisfazia mal a sua conquista, e desejando a um tempo presta-Ia e distraí-la, só podia fazê-lo sem perigo rodeando-a de homens inofensivos quem, assim, atribuía o papel de guardiões do serralho. Estes achavam que ele se tornara muito amável, e o declaravam muito mais inteligente do que o haviam julgado, coisa com que ele e a amante se mostravam encantados.

            As convidadas do Sr. de Charlus foram embora bem depressa. Muitas diziam:

            - Preferia não ir à sacristia (o pequeno salão onde o Sr. de Charlus, tinha Morel a seu lado, recebia as congratulações), mas convém que Palamede me veja para que saiba que fiquei até o fim.-

            Nenhuma se ocupava da Sra. Verdurin. Nervosas fingiram não reconhecê-la e despedir-se por engano da Sra. Cottard, falando da esposa do médico:

            - Esta é mesmo a Sra Verdurin, não?

            A Sra. d'Arpajon, perguntou, na cara da dona da casa:

            - Será que um dia existiu mesmo um Verdurin?-

            As duquesas que se atrasavam, não encontrando as extravagâncias esperavam naquela casa que imaginavam ser diferente do que conheciam, desta espantavam-se, à falta de coisa melhor, estourando em risos doidos ante os quadros Elstir; quanto ao resto, que elas achavam mais conforme do que haviam pensado ao que já conheciam, atribuíam tudo ao Sr. de Charlus, dizendo:

            - Como Palamede sabe arrumar bem as coisas! Se ele montasse uma féerie numa cocheira ou um toalete, o espetáculo não ficaria menos encantador.

            As mais nobres eram as que com mais fervor felicitavam o Sr. de Charlus pelo sucesso de uma reunião de cujos motivos secretos algumas estavam a par, de resto sem se preocupar com isso, pois essa sociedade - talvez pela recordação de certas épocas da História em que as famílias tinham já alcançado um grau idêntico de impudor plenamente consciente - leva o desprezo dos escrúpulos quase tão longe quanto o respeito à etiqueta. Várias delas ali mesmo convidaram Charlie para reuniões em que ele iria tocar septeto de Vinteuil, mas nenhuma teve sequer a idéia de convidar a Sra. Verdurin. Esta estava no auge da raiva quando o Sr. de Charlus, que, sentindo-se nas nuvens não podia percebê-lo, quis por amabilidade convidar a Patroa a partilhar sua alegria. E talvez fosse mais para se entregar a seu gosto pela literatura do que por transporte de orgulho, que esse doutrinador de festas artísticas disse à Sra. Verdurin.

            - Muito bem, está contente? Creio que qualquer um o estaria por muito menos. A senhora vê que, quando me meto a dar uma festa, o sucesso é completo; não sei as suas noções de heráldica lhe permitem avaliar exatamente a importância da manifestação, o peso que soergui, o volume de ar que desloquei pela senhora. A senhora teve aqui a rainha de Nápoles, o irmão do rei da Baviera, os três Al antigos pares de França. Se Vinteuil é Maomé, podemos dizer que deslocamos a causa dele às mais amovíveis das montanhas. Imagine que, para assistir à festa, a rainha de Nápoles veio de Neuilly, o que para ela é muito mais difícil do deixar as Duas Sicílias - disse ele com intenção de perfídia, apesar de sua adoração pela rainha. - É um acontecimento histórico. Pense que ela talvez jamais teria saído desde a tomada de Gaeta. É provável que nos dicionários ponham como datas culminantes o dia da tomada de Gaeta e o da reunião noturna dos Verdurin. O leque que ela deixou para melhor aplaudir Vinteuil merece ficar mais célebre que o que a Sra. Metternich quebrou porque assobiavam uma ária de Wagner.

            - Ela até esqueceu o leque - disse a Sra. Verdurin, momentaneamente apaziguada pela lembrança da simpatia que lhe testemunhara a rainha; e mostrou a Charlus o leque sobre uma poltrona.

            - Oh, como é emocionante! - exclamou o Sr. de Charlus, aproximando-se com veneração da relíquia.-Tanto mais tocante por ser muito feio; a violetinha é inacreditável! - Espasmos de emoção e de ironia percorriam-no alternativamente. - Meu Deus, não sei se a senhora sente essas coisas como eu. Swann ficaria simplesmente morto de convulsões caso visse isto. Bem sei que, por qualquer preço que seja lançado, arrematarei este leque no leilão da rainha. Pois terá de ir a leilão, já que está sem vintém -acrescentou com maledicência cruel, que no barão jamais deixava de misturar-se à mais sincera veneração, embora elas partissem de duas natureza opostas, porém nele reunidas. Tais naturezas podiam até se alternar sobre um mesmo fato. Pois o Sr. de Charlus, que no fundo de seu bem-estar de homem rico, troçava da pobreza da rainha, era a mesma pessoa que com freqüência exaltava essa pobreza e que, quando se falava da princesa Murat, rainha das Duas Sicílias, respondia:

            - Não sei de quem estão falando. Só existe uma rainha de Nápoles, que é sublime, e não tem carro. Mas do alto do ônibus ela aniquila todas as carruagens, e todos se poriam de joelhos na poeira ao vê-la passar. - Eu o legarei a um museu. Enquanto isso, é necessário mandar levar-lhe, para que ela não tenha de pagar um fiacre para mandar buscá-lo. O mais inteligente, dado o interesse histórico de semelhante objeto, seria roubar este leque. Mas isto iria deixá-la em apuros, pois é provável que ela não possua outro - acrescentou, desatando a rir. - Enfim, a senhora viu que por minha causa ela veio. E este não é o único milagre que eu haja feito. Não creio que ninguém, atualmente, tenha o poder de mobilizar as pessoas que trouxe aqui. Aliás, é preciso dar a cada um a sua parte: Charlie e os músicos tocaram como deuses. E, minha querida Patroa - acrescentou com condescendência-, a senhora também teve o seu papel nessa festa. Seu nome nunca será esquecido. A História reteve o nome do pajem que armou Joana d'Arc quando ela partiu em combate; em suma, a senhora serviu de traço de união permitindo a fusão entre a música de Vinteuil e seu genial executante; a senhora teve a inteligência de compreender a

importância capital de todo o encadeamento de circunstâncias que faria o executante beneficiar-se de todo o peso de uma personalidade considerável -se não se tratasse de mim, eu diria providencial -, a quem teve a boa idéia de pedir que assegurasse o prestígio da reunião, e que pusesse diante do violino de Morel os ouvidos diretamente ligados às línguas mais escutadas; não, não, não é nada. Não existe nada que não tenha a sua importância numa realização tão completa. Tudo concorre para ela. A Duras estava esplêndida, tudo; foi por isso -concluiu- pois gostava de repreender que me opus a que senhora convidasse essas pessoas-divisores, que, diante das criaturas preponderantes que lhe trouxe, teriam feito o papel de vírgulas numa cifra, as outras se reduzidas a não mais que simples décimos. Tenho o senso exato dessas coisas. A senhora compreende, é preciso evitar as gafes quando damos uma festa que ser digna de Vinteuil, de seu genial intérprete, da senhora e, ouso dizer, de melhor. A senhora teria convidado a Molé, e tudo estaria prejudicado. Seria a pequena contrária, neutralizadora, que tira a eficiência de uma poção. Teria faltado a eletricidade, os bolinhos não chegariam a tempo, a laranjada teria dado cólicas em todo mundo. Era a pessoa que não convinha. Seu nome bastaria para que, como num féerie, nenhum som saísse dos cobres; a flauta e o oboé perderiam a voz subitamente. O próprio Morel, mesmo que conseguisse tirar alguns sons, não obedeceria ao compasso e, em vez do septeto de Vinteuil, a senhora teria ouvido a paródia - por Beckmesser, terminando sob vaias. Eu, que acredito muito na influência das pessoas, senti perfeitamente, no desenvolvimento de um certo largo que se abriu, até o fundo como uma flor, no aumento de satisfação do final, que não era apenas allegro mas incomparavelmente alegre, que a ausência da Molé inspirava os músicos, dilatando de alegria até os próprios instrumentos. Aliás, no dia em que, recebem todos os soberanos, não se convida a porteira. -Chamando-a de "a Mo (como dizia, aliás simpaticamente, "a Duras"), o Sr. de Charlus lhe fazia justiça. Porque todas essas mulheres eram atrizes da sociedade, e é certo que mesmo considerada sob esse ponto de vista -a condessa Molé não estava à altura da extraordinária reputação de inteligência que lhe atribuíam, o que fazia pensar nesses atores romancistas medíocres que em certas épocas desfrutam de uma reputação; gênios, seja devido à mediocridade dos confrades, entre os quais nenhum ar superior é capaz de mostrar o que é o talento verdadeiro, seja pela mediocridade do público, o qual, caso existisse uma extraordinária individualidade, seria incapaz compreendê-la. No caso da Sra. Molé, é preferível, se não inteiramente exato, nos detenhamos na primeira explicação. Sendo a sociedade mundana o reduto nada, não há entre os méritos das diversas mulheres que a freqüentam senão grãs insignificantes, que só podem majorar doidamente os rancores ou a imaginação do Sr. de Charlus. E certamente se ele falava, como acabava de fazer, nessa linguagem que era uma mistura afetada de coisas da arte e da sociedade, era porque as cóleras de mulher velha e sua cultura de mundano não forneciam à verdadeira eloqüência, que era a sua, mais que temas insignificantes. Não existindo à superfície da terra, entre todos os países que a nossa percepção uniformiza, o mundo de diferenças, com mais forte razão também não existe no mundo elegante. Existe aliás em alguma parte? O septeto de Vinteuil parecera me dizer que sim. Mas como o Sr. de Charlus gostasse de repetir a um tempo o que ouvira de o intrigar, dividir para reinar, acrescentou:

            - Não a convidando, a senhora tirou à Molé a oportunidade de dizer: "Não sei por que essa tal de Sra. Verdurin me convidou. Não sei quem é essa gente, não os conheço." Ela já disse, no ano passado, que a senhora a importunava com seus convites. É uma tola, não a convide mais. Afinal, não é uma pessoa tão extraordinária assim. Pode muito bem ir à sua casa sem luxos, pois eu também vou. Em suma -concluiu -, parece-me que a senhora pode me agradecer, pois as coisas correram muito bem, tudo esteve perfeito. A duquesa de Guermantes não veio, mas nunca se sabe, talvez tenha sido melhor assim. Não a levaremos a mal e lembrar-nos-emos dela para uma outra vez; aliás, é difícil esquecê-Ia, seus próprios olhos nos dizem: "Não se esqueçam de mim", já que são dois miosótis. - (E eu pensava comigo quanto era necessário que o espírito de Guermantes-a decisão de ir a um lugar e não a outro-fosse forte para ter vencido, na duquesa, o temor a Palamede.) - Diante de um êxito de tal forma completo, somos tentados, como Bernadin de Saint-Pierre, a ver em toda parte a mão da Providência. A duquesa de Duras estava encantada. Ela própria me encarregou de dizer-lhe - acrescentou o Sr, de Charlus, acentuando as palavras como se a Sra. Verdurin devesse considerar aquilo como honra suficiente. Suficiente e até quase inacreditável, pois ele achou necessário dizer, para ser acreditado: - É verdade! levado pela demência daqueles que Júpiter deseja perder. - Ela convidou Morel para tocar na sua casa, onde vão repetir o mesmo programa, e estou até pensando em pedir um convite para o Sr. Verdurin. -

            Essa cortesia, feita unicamente ao marido, era, sem que o Sr. de Charlus o percebesse, o mais sangrento ultraje à esposa, que, julgando-se em relação ao executante, devido a uma espécie de decreto de Moscou em vigor no pequeno clã, no direito de lhe proibir que tocasse em outro salão sem sua autorização expressa, estava bem decidida a proibir sua participação no sarau da Sra. de Duras.

            Só pelo fato de falar com aquela verbosidade, o Sr. de Charlus irritava a Sra. Verdurin, que não gostava que fizessem grupo à parte no pequeno clã. Quantas vezes, e já na Raspeliere, ouvindo o barão falar incessantemente a Charlie em vez de se contentar em desempenhar a sua parte no conjunto concertante do clã, ela havia exclamado, apontando o barão:

            - Que língua que ele tem! Que língua! Ah, para um Pederasta, é uma língua formidável! [Trocadilho com dois sentidos da palavra francesa tapette: "língua" e "pederasta", ambos de gíria (N do T)

            Mas desta vez era bem pior. Embriagado pelas próprias palavras, o Sr. de Charlus não compreendia que, diminuindo o papel da Sra. Verdurin e impondo-lhe estreitos limites, estava desencadeando aquele sentimento odioso que nela não passava de uma forma particular, uma forma social de inveja. A Sra. Verdurin amava intensamente os habitués, os fiéis do pequeno clã, queria que pertencessem inteiramente à sua Patroa. Contemporizando, como os ciumentos que aceitam ser traídos desde que sob seu teto e até às suas vistas, ou seja, que não os traiam, ela permitia que os homens tivessem uma amante, ou um amante, sem nenhuma conseqüência - com a condição de que tudo isso não tivesse uma amante social fora de sua casa, nascesse e se perpetuasse ao abrigo das quartas-feiras.

Em outro tempo qualquer riso furtivo de Odette junto de Swann lhe roía o coração; fazia algum tempo que sentia o mesmo diante de toda conversa particular entre Morel e o barão; achava apenas um consolo: matar a felicidade alheia. Não havia consolo para seus desgostos, o de desmanchar ou suportar por muito tempo a risada do barão. Eis que esse imprudente precipitava em seu próprio grupinho. Ele trazia seu papel parecendo querer restringir o lugar da Patroa. Via Morel freqüentando a sociedade sem ela, protegido pelo barão. Só havia um remédio: fazer Morel escolher entre ela e o barão; e, valendo-se da ascendência que possuía sobre o violinista; por mostrar-se à seus olhos uma clarividência extraordinária; por mentiras que inventava; e de que graças às informações que lhe davam, a perspicácia; enchia os ouvidos como prova de que ele já estava inclinado a crer, e do que os ingênuos graças às armadilhas que ela preparava e onde caiam; à evidência dessa ascendência, fazer com que ele a escolhesse e não ao barão. Quanto às mulheres da sociedade que assistiram à sua cerimônia e que nem mesmo se apresentaram; logo que lhes compreendera as hesitações havia dito: “percebo o que são, umas velhas prostitutas que não nos conhecem. - Ah, estão visitando este salão pela última vez.” - Pois preferia morrer a confessar, tinham sido menos amáveis com ela do que esperara.

            - Meu caro general! - exclamou bruscamente o Sr. de Charlus deixando a Sra. Verdurin, porque avistava o general Deltour, secretário da presidência condecoração da República, o qual podia ter grande importância depois de se aconselhar com Cottard, eclipsava rapidamente: - Boa-noite  meu querido e encantado amigo. Pois então vai saindo sem se despedir de mim? - disse o barão com pouco caso de bonomia e suficiência, pois bem sabia que todos sorriam e se mostravam contentes em lhe falar um momento a mais. E como no estado de exaltação em que se achava, fazia ele mesmo, em tom super-agudo, as perguntas e as respostas:

            - É certo que estava muito bonito, está satisfeito? Não ouvindo as respostas: - Muito bem, andante? É que jamais escreveram nada tão comovente. Eu o desafio a escutá-lo até o fim sem lágrimas nos olhos. É encantador que tenha vindo. Diga-me, de manhã recebi um belo telegrama de Froberville que me anunciava que dificuldades estão aplanadas, como se diz na Chancelaria.

            O Sr. de Charlus continuava a elevar-se, tão aguda, tão diversa de sua voz habitual, como a de sua influência ordinária, dando ênfase a uma causa, como um advogado quando em amplificação vocal por superexcitação e euforia nervosa análogo ao que, um diapasão tão alto não só a voz fazia elevar-se.             Nos jantares que ela dava, o olhar da duquesa de Guermantes.

            - Eu contava lhe mandar, amanhã de manhã, por um guarda, um bilhete a fim de exprimir o meu entusiasmo, pensava em falar de viva voz, mas você estava tão rodeado! O apoio de Froberville não será de desprezar, mas, de minha parte, tenho a promessa do Ministro - disse o general.

            - Ah, perfeito. Aliás, você viu que um talento igual bem o merece. Hoyos mostrava-se encantado, não pude ver a embaixatriz; estava contente? Quem não estaria, a não ser aqueles que têm ouvidos para não ouvir, o que não importa, desde que tenham língua para falar?

            Aproveitando que o barão se afastara para falar ao general, a Sra. Verdurin fez sinal a Brichot. Este, que não sabia o que a Sra. Verdurin ia dizer-lhe, quis diverti-la e, sem desconfiar o quanto fazia sofrer, disse à Patroa:

            - O Sr. de Charlus está encantado pelo fato de a Srta. Vinteuil e sua amiga não terem vindo. Elas o escandalizam demais. Declarou que seus costumes eram de meter medo. A senhora não imagina como o barão é pudico e severo no terreno dos costumes. -

            Ao contrário do que Brichot esperava, a Sra. Verdurin não se divertiu:

            - Ele é imundo - respondeu. - Proponha-lhe fumar um cigarro em sua companhia, para que meu marido possa levar sua dulcinéia sem que Charlus perceba, e esclarecer o rapaz acerca do abismo em que está caindo. - Brichot parecia hesitar. - Digo-lhe - prosseguiu a Sra. Verdurin para vencer os últimos escrúpulos de Brichot - que não me sinto segura com esse sujeito em minha casa. Sei que já se meteu em sujeiras e que a polícia está de olho nele. - E como possuía um certo pendor para a improvisação, quando a maledicência a inspirava, a Sra. Verdurin não ficou por aí: - Parece que já foi preso. Sim, sim, pessoas muito bem informadas é que me disseram. Aliás, sei, por alguém que mora na sua rua, que não se tem idéia dos bandidos que ele recebe em casa. - E como Brichot, que ia muitas vezes à casa do barão, protestasse, a Sra. Verdurin, inflamando-se, gritou: - Mas dou-lhe certeza! Sou eu que estou dizendo! - expressão com que, habitualmente, buscava amparar uma assertiva lançada um tanto ao acaso. - Ele há de morrer assassinado um dia ou outro, aliás como todos os de sua igualha. Talvez nem chegue a isso, pois está nas garras desse Jupien, que ele teve o topete de me mandar e que é um antigo forçado, como você e eu sabemos de modo positivo. Charlus está nas mãos dele por causa de umas cartas que são terríveis, ao que parece. Sei disso por alguém que as viu, e me disse: 'Você se sentiria mal se as lesse." É assim que esse tal de Jupien o comanda à vontade e o faz espirrar todo o dinheiro que deseja. Prefiro mil vezes a morte a viver no terror em que vive Charlus. Em todo caso, se a família de Morel não se decide a apresentar queixa contra o barão, não quero ser acusada de cumplicidade. Se ele continuar, será por sua conta e risco, mas eu terei feito o meu dever. Que posso fazer? Isso não é brincadeira. - E já agradavelmente animada pela expectativa da conversa que o marido ia ter com o violinista, a Sra. Verdurin me disse: - Pergunte à Brichot se não sou uma amiga corajosa, e se não sei devotar-me para salvar os camaradas. - Ela se referia às circunstâncias em que o fizera brigar com a lavadeira, primeiro, em seguida com a Sra. de Cambremer, brigas após as quais Brichot se tornara quase completamente cego e morfinômano.

            - Uma amiga incomparável, perspicaz e valente - respondeu o universitário com ingênua emoção.- A Sra. Verdurin impediu-me que eu fizesse uma grande asneira - disse Brichot, depois que ela se afastou dele - Ela não vacila em cortar o mal pela raiz. É intervencionista, como diria o grande amigo Cottard. No entanto, confesso que a idéia de que o pobre ignora ainda o golpe que vai sofrer me causa uma grande pena. Ele está completamente louco pelo rapaz. Se a Sra. Verdurin conseguir o seu intento, o barão ficara muito infeliz. Além disso, não é certo que ela não fracasse. Receio que não mais que semear discórdias entre eles, que finalmente, sem separá-los, farão que rompam com ela.-

            Isso ocorrera diversas vezes à Sra. Verdurin com seus fiéis. Mas era visível que, nela, a necessidade de conservar a amizade deles era cada vez mais subordinada à de que essa amizade nunca fosse posta em xeque pela qual poderiam ter uns pelos outros. O homossexualismo não lhe desagradava, que não tocasse na ortodoxia, mas, como a Igreja, ela preferia todos os sacrifícios a uma concessão quanto à ortodoxia. Comecei a temer que sua irritação a mim não se originasse do fato de ela ter sabido que eu impedira Albertine de ir à casa de tarde, e que não empreendesse junto a ela, se é que já não havia iniciado o mesmo trabalho para separá-la de mim que seu marido iria, quanto a Charlus elaborar junto ao violinista.

            - Vamos, vá procurar Charlus, arranje um pretexto já é tempo - disse a Sra. Verdurin -; sobretudo dê um jeito de não o deixar sem um aviso meu. Ah, que sarau! - acrescentou ela, que assim desvende o verdadeiro motivo de sua raiva. -Ter feito executar essas obras-primas para minhas idiotas! Não digo a rainha de Nápoles, ela é inteligente, uma mulher agradável (leia-se: ela foi muito gentil comigo). Mas as outras! Ah, é de enfurecer a gente! Que quer, já não tenho mais vinte anos. Quando eu era moça, diziam-me para saber enfadar-se, eu me forçava. Mas agora! Ah, não! É mais forte que eu, já tenho idade para fazer o que bem entendo, a vida é bem curta; aborrecer-me, freqüentemente os imbecis, fingir, dar a entender que os considero inteligentes, ah não! Não! Vamos, Brichot, não há tempo a perder.

            - Já vou, Madame, já vou - acabou por responder Brichot no momento em que o general Deltour se afastava. Mas primeiro o universitário me chamou à parte por um instante:

            - O dever moral - disse ele – é-me claramente imperativo do que o ensinam as nossas éticas. Que os cafés e as cervejarias kantianas se conformem; o fato é que ignoramos deploravelmente a natureza do Bem. Eu mesmo, que sem qualquer presunção comentei para alunos, com toda a inocência, a filosofia do sobredito Emmanuel Kant, não nenhuma indicação precisa para o caso de casuística mundana diante de que estou posto, nessa Crítica da Razão Prática onde o grande renegado do proselitismo platonizou, à maneira da Germânia, para uma Alemanha pré-histórica, áulica e sentimental, objetivando todos os fins úteis de um misticismo. É ainda O Banquete, mas dessa vez dado em Konigsberg, à moda de lá, indigno, temperado, com chucrute e sem gigolôs. É evidente, por um lado, que não, recusar à nossa excelente anfitriã o pequeno obséquio que ela me pede, em conformidade plenamente ortodoxa com a Moral tradicional. Antes de mais nada, é preciso evitar, pois não são muitas as que nos façam dizer mais tolices, que nos logrem com palavras. Mas enfim, não hesitemos em confessar que, se as mães de família tivessem direito a voto, o barão corria o risco de ser lamentavelmente vetado como professor de virtude. Infelizmente, é com o temperamento de um libertino que ele segue sua vocação de pedagogo; repare que não estou falando mal do barão; este homem gentil, que sabe como ninguém trinchar um assado, possui, juntamente com o gênio do anátema, tesouros de bondade. Pode ser divertido como um palhaço de categoria, ao passo que com determinado confrade meu, acadêmico, eu me aborreço, como diria Xenofonte, a cem dracmas a hora. Porém receio que ele não esteja gastando com Morel um pouco mais do que recomenda a sã moral, e, sem saber até que ponto o jovem penitente se mostra dócil ou rebelde aos exercícios especiais que seu catequista lhe impõe em matéria de mortificação, não é preciso ser um grande erudito para ter certeza de que pecaríamos, como diz o outro, por mansuetude para com esse rosa-cruz, que nos parece vir de Petrônio depois de ter passado por Saint-Simon, se lhe concedêssemos de olhos fechados, em boa e devida forma, licença de satanizar. E no entanto, ocupando esse homem enquanto a Sra. Verdurin, para o bem do pecador e muito justamente tentada por essa cura, vai ao falar sem rodeios ao jovem estouvado privar esse velho de tudo o que ele ama, dar-lhe talvez um golpe fatal, não posso dizer que fui solícito, parece-me que o estou atraindo para uma cilada, e vacilo como diante de uma forma de indignidade. - Dito isto, não vacilou em cometê-la e, pegando-me do braço:

            - Vamos, barão, e se fôssemos fumar um cigarro? Este rapaz ainda não conhece todas as maravilhas da casa. - Desculpei-me, dizendo que era obrigado a ir embora. - Espere ainda um pouco -disse Brichot. -Você sabe que tem de me levar de volta e não esqueço a sua promessa. - Não quer mesmo que lhe mande mostrar a prataria?

            - Nada seria mais simples - me disse o Sr. de Charlus. - Como você me prometeu, não diga palavra alguma acerca da condecoração à Morel. Pretendo fazer a surpresa de dizer-lhe daqui a pouco, quando estivermos de partida. Embora lhe diga que isso não é importante para um artista, mas que seu tio o deseja (enrubesci, pois, pelo meu avô, os Verdurin sabiam quem era o tio de Morel). Então, não quer mesmo que lhe mande mostrar as peças mais bonitas? - indagou o Sr. de Charlus. - Contudo, já as conhece, viu-as dezenas de vezes na Raspeliere. - Não tive coragem de lhe dizer que o que poderia me interessar não eram os medíocres talheres de uma prataria burguesa, ainda a mais rica, mas algum espécime, mesmo que fosse apenas uma bela gravura, da Sra. Du Barry. Estava em demasia preocupado, e sempre como não estaria depois daquela revelação sobre a vinda da Srta. Vinteuil? -, em sociedade, muito distraído e agitado para deter minha atenção sobre objetos mais ou menos bonitos. Minha atenção só poderia fixar-se diante do apelo de alguma realidade que se dirigisse à minha imaginação, como o teria podido fazer, naquela noite, uma visita de Veneza em que eu tanto havia pensado de tarde, ou algum elemento comum à diversas aparências e mais verdadeiro que elas, que por si mesmo despertava em mim um espírito interior e habitualmente sonolento, mas subida à superfície da minha consciência dava-me uma grande alegria. Ora, quando saísse do salão, chamado sala de teatro, e atravessasse os outros salões, Brichot e o Sr. de Charlus, deparei-me com certos móveis, no meio de outros, como vira em La Raspeliere e aos quais não prestara atenção alguma, e percebi entre a casa e o castelo um certo ar de família, uma identidade permanente, e compreendi Brichot quando ele me disse sorrindo:

            - Escute, veja este fundo de salão, isto ao menos pode a rigor lhe dar a idéia da rua Montalivet, há vinte e cinco a grande mortalís aeví spatíum. ["Uma grande parte da vida de um mortal." Citação latina: frase tirada à Vida de Agrícola, de Tácito, e em "quinze anos" e não em vinte e cinco. (N. do T)]

            Ao seu sorriso, dedicado ao salão defunto que estava revivendo, compreendi o que Brichot, talvez sem o perceber, preferia o antigo salão; mais do que os janelões, mais do que a alegre juventude dos donos da casa e de seus fiéis, era essa parte irreal (que eu mesmo deduzia de algumas semelhanças entre La Raspeliere e o cais Conti) da qual num salão, como em todas as coisas, a parte externa atual, que todos podem verificar, não passa do prolongamento, era aquela parte que se tornou puramente moral, de um colorido que existia para o meu velho interlocutor, e que ele não podia fazer que eu visse; a parte que se destacou do mundo exterior para se refugiar na nossa alma, a quem confere uma mais-valia, onde ela se assimilou à sua substância habitual, transmudando-se ali: casas destruídas, pessoas de outrora, compoteiras de frutas das ceias de que nos lembramos - nesse translúcido alabastro de nossas lembranças, do qual somos incapazes de mostrar a cor que somente nós é que vemos que nos permite dizer veridicamente aos outros, quanto à essas coisas passadas eles não podem fazer idéia daquilo, que elas não se assemelham em nada ao que viram, e que não podemos considerá-las em nós mesmos sem uma certeza; imaginando que é da existência do nosso pensamento que depende a sobrevivência delas por algum tempo, o reflexo das lâmpadas que se apagaram e o aroma das alamedas ensombradas de árvores que não mais hão de florescer. E sem dúvida, por esse motivo, o salão da rua Montalivet desmerecia, para Brichot, a casa dos Verdurin. Mas, por outro lado, acrescentava à esta, para os olhos do professor uma beleza que ela não podia ter para as amizades recentes. Alguns dos móveis que tinham sido recolocados aqui, na mesma disposição às vezes, que eu próprio já reconhecia da Raspeliere, integravam no salão atual do antigo, que, por momentos, evocavam-no até à alucinação e a seguir pareciam quase irreais por evocar, no seio da realidade ambiente, fragmentos de um mundo destruído que pensávamos ver alhures. Um canapé surgido do sonho por entre as poltronas novas e bem reais, cadeirinhas revestidas de seda rósea, um tecido de brocado para mesa de jogo, elevado à dignidade de pessoa, desde que, feito uma pessoa, tinha um passado e uma memória, conservando na sombra fria do salão do cais Conti o halo de ensolaramento pelas janelas da rua Montalivet (do qual conhecia tão bem a hora como a própria Sra. Verdurin) e pelos vãos das portas envidraçadas de Douville, aonde o tinham levado e onde ele contemplava o dia inteiro, para além do jardim florido, o vale profundo de ***, esperando a hora em que Cottard e o violinista jogariam a sua partida; um ramalhete de violetas e amores-perfeitos, pastel presenteado por um grande artista, já falecido, único fragmento sobrevivido de uma vida que desapareceu sem deixar traços, resumindo um grande talento e uma longa amizade. Relembrando seu olhar atento e suave, sua bela mão gorda e triste enquanto pintava; alegre e desordenado estorvo dos presentes de fiéis, que por toda parte acompanharam a dona da casa e acabaram por assumir o cunho e a fixidez de um traço de caráter, de uma linha do destino; profusão de buquês de flores, de caixas de chocolate que sistematizava, aqui como lá, o seu desabrochar seguindo um modo idêntico de floração: curiosa interpolação de objetos singulares e supérfluos que ainda parecem estar saindo da caixa em que foram oferecidos e que permanecem a vida inteira o que foram no começo, presentes de Ano-Novo; todos esses objetos que não saberíamos isolar dos outros, mas que para Brichot, velho freqüentador das festas dos Verdurin, possuíam aquela pátina, aquele tom aveludado das coisas às quais, dando-lhes uma espécie de profundidade, vem ajuntar-se o seu "duplo" espiritual; tudo isso, disseminado, fazia cantar diante dele, como outras tantas teclas sonoras que despertavam em seu coração semelhanças amadas, reminiscências confusas e que, como no salão inteiramente atual que elas marchetavam aqui e ali, recortavam, delimitavam, como faz num lindo dia um quadro de sol seccionando a atmosfera, os móveis e os tapetes; e, prosseguindo de uma almofada a um jarro, de um tamborete ao relento de um perfume, de um modo de iluminação a uma predominância de cores, esculpiam, evocavam, espiritualizavam, faziam viver uma forma que era como a figura ideal, imanente a seus vários domicílios, do salão dos Verdurin.

            - Vamos tentar - disse-me Brichot ao ouvido - levar o barão a conversar sobre seu assunto predileto. Nisso ele é prodigioso. -

            Por um lado, eu desejava tentar obter do Sr. de Charlus as informações relativas à vinda da Srta. Vinteuil e de sua amiga, informações pelas quais decidira-me a abandonar Albertine. Por outro lado, não queria deixar Albertine sozinha por muito tempo, não que ela pudesse (na incerteza do instante do meu regresso e, além do mais, a uma hora em que, se recebesse uma visita ou se saísse, daria muito na vista) fazer mau uso da minha ausência, mas para que não a achasse prolongada demais. Assim, disse a Brichot e ao Sr. de Charlus que só ia com eles por pouco tempo.

            - Venha assim mesmo - disse o barão, cuja excitação mundana principiava a decair, mas que sentia a necessidade de prolongar, de fazer durarem as conversas, coisa que eu já havia notado na casa da duquesa de Guermantes tanto como na sua, e que, muito própria daquela família, estende-se mais geralmente a todos os que, não oferecendo à sua inteligência outra realização do que a conversa, quer dizer, uma realização imperfeita, permanecem insatisfeitos mesmo depois das horas passadas em conjunto e se agarram cada vez mais avidamente ao interlocutor esgotado, do qual exigem, erradamente, uma saciedade que os prazeres sociais são impotentes de fornecer.

            - Venha - continuou este - é mesmo o momento agradável das festas, o momento em que todos os convidados já saíram, a hora de Dona Sol; esperemos que esta acabe de modo menos triste. Infelizmente você está com pressa, com pressa provavelmente para fazer coisas que faria melhor se não fizesse. Todo mundo sempre está apressado, e sai no momento em que deveria chegar. Estamos aqui como os filósofos de Couture, seria este o momento de recapitular o sarau, de fazer o que se chama, em estilo militar, a crítica das operações. Pedir-se-ia à Sra. Verdurin que nos mandasse trazer uma ceiazinha a que teríamos o cuidado de não convidá-la e pediríamos a Charlie - sempre Hernani - que tocasse de novo, só para nós, o sublime adágio. É excelente, esse adágio! Mas onde está o jovem violinista? Eu queria felicitá-lo, é o momento dos carinhos e abraços. Confesse, Brichot, que eles tocaram como deuses, especialmente Morel. Repararam na ocasião em que a mecha de cabelos cai? Ah, então, meu caro, você não viu nada. Tivemos um fá sustenido de fazer morrer de inveja Enesco, Capet e Thibaud; apesar de toda a minha calma, confesso que diante daquela sonoridade, sentia o coração de tal modo apertado que me custava conter os soluços. A sala arquejava; Brichot, meu caro! - exclamou o barão, sacudindo violentamente o universitário pelo braço era sublime. Somente o jovem Charlie mantinha uma imobilidade de pedra, não o viam sequer respirar. Dava a impressão de ser como essas coisas do mundo inanimado de que fala Theodore Rousseau, que fazem pensar mas não pensam. E então, de repente gritou o Sr. de Charlus com ênfase e imitando um lance teatral - então... a Mecha! Enquanto isso, pequena contradança graciosa do allegro vivace. Sabe, aquela mecha foi o sinal da revelação, mesmo para os mais tapados. A princesa de Taormina, até então surda, pois não há pior surdo que aquele que tem orelhas para não ouvir, a princesa de Taormina, diante da evidência da mecha miraculosa, compreendeu que se tratava de música e que não se jogaria pôquer. Ah! Foi um momento bem solene!

[Aqui como pouco antes na referência à Dona Sol, Proust alude ao drama Hernani, de Victor Hugo. Convém notar a relação onomástica entre Charlie e o personagem Dom Carlos do Hernani. (N. do T)]

            - Perdoe-me, senhor, por interrompê-lo - disse eu ao Sr. de Charlus para conduzi-lo ao assunto que me interessava-, o senhor me dizia que a filha do autor devia comparecer. Isto muito me interessaria. Tem certeza de que contavam com ela?

            - Ah, não sei. -

            Assim, o Sr. de Charlus obedecia, talvez sem o querer, àquela senha universal de não fornecer informações aos ciumentos, seja para se mostrar absurdamente "camarada" por questão de honra, mesmo que a detestasse, em relação à pessoa que é objeto do ciúme, seja por maldade para com ela, prevendo que o ciúme não faria mais que redobrar o amor; seja pela necessidade de ser desagradável aos outros, que consiste em dizer a verdade à maioria dos homens mas escondê-la aos ciumentos, visto que a ignorância lhes aumenta o sofrer, pelo menos é o que se imagina; e para magoar os outros, guiamo-nos pelo que nós mesmos pensamos, talvez erradamente, ser mais doloroso.

            - Você sabe - continuou ele -, isto aqui é um tanto a casa dos exageros, são pessoas encantadoras, mas enfim gostam muito de anunciar celebridades de um ou outro gênero. Mas parece que você não está passando bem e vai pegar um resfriado nesta peça tão úmida - disse ele, empurrando uma cadeira para junto de mim. - Já que está doente, é preciso tomar cuidado, vou buscar seu agasalho. Não, não vá você mesmo, seria perigoso, vai se resfriar. É assim que se fazem imprudências, afinal você não é nenhuma criança, será que precisaria de uma velha ama como eu para cuidar de você?

            - Não se incomode, barão, eu vou - disse Brichot, que se afastou logo. Não se dando talvez bem conta da amizade muito verdadeira que o Sr. de Charlus sentia por mim e das remissões encantadoras de simplicidade e devotamento que comportavam suas crises delirantes de grandeza e perseguição, havia receado que o barão, que a Sra. Verdurin confiara à sua vigilância como um prisioneiro, estivesse procurando, a pretexto de ir buscar meu sobretudo, juntar-se à Morel e, assim, fazer fracassar o plano da Patroa.

            Nesse meio tempo Ski sentara-se ao piano, sem que ninguém lhe pedisse, e, compondo com um franzir risonho de sobrancelhas, um olhar distante e um leve esgar da boca o que julgava ser um ar de artista, insistia com Morel para que tocasse alguma coisa de Bizet.

            - Como, não gosta daquele lado garoto da música de Bizet? Mas meu caro - disse ele carregando os rr à sua maneira particular -, é encantador. -

            Morel, que não apreciava Bizet, declarou-o com exagero, e Ski (que passava por espirituoso no pequeno clã, o que era verdadeiramente inacreditável), fingindo tomar as diatribes do violinista por paradoxos, pôs-se a rir. Seu riso não era, como o do Sr. Verdurin, a sufocação de um fumante. Primeiro, Ski assumiu um ar finório; depois deixava escapar, como que sem querer, um único som de riso, como um primeiro toque de sinos, seguido de um silêncio em que o olhar sabido parecia examinar, com conhecimento de causa, a graça do que fora dito; depois vinha um novo toque de sinos e em breve era tudo um risonho ângelus.

            Externei ao Sr. de Charlus a pena de que o Sr. Brichot se incomodasse por minha causa.

            - Nada disso, ele está bem contente, gosta muito de você, todo mundo gosta. Diziam outro dia: mas a gente não o vê mais, ele se isola! Aliás o Brichot é uma ótima pessoa - continuou o Sr. de Charlus, com ar atarefado: - Siga-me, barão, encontrará seu lugar e depois, sem mais ocupar dele, para fazer a sua entrada, alegremente avançava sozinho pelo corredor. De cada lado cumprimentava-o uma dupla fila de professores; Brichot, desejoso não parecer posudo para aqueles rapazes a cujos olhos sabia que era um grau pontífice, dirigia-lhes mil piscadelas, mil inclinações de cabeça, sinais aos quais o seu cuidado de permanecer marcial e bom francês, dava o ar de espécie de encorajamento cordial de sursum corda [Sursum corda (latim): "Corações ao alto" (N. do T)]; de um velho soldado que - Com os diabos, saberemos combater. - Depois, estrugiam os aplausos. Por vezes, Brichot extraía dessa presença do Sr. de Charlus a oportunidade proporcionar um prazer, quase para retribuir amabilidades. Dizia a algum parente ou a algum de seus amigos burgueses:

            - Se isso puder divertir sua mulher ou filha, aviso-lhe que o barão de Charlus, príncipe de Agrigento, descendente Condé, assistirá à minha aula. Para uma criança, é uma recordação a aguardar o visto um dos últimos descendentes da nossa aristocracia dotados de personalidade. Se vierem, reconhecê-lo-ão, pois estará ao lado da minha cátedra. Além disso, será o único, um homem corpulento, de cabelos brancos, bigode preto e medalha militar.

            - Ah, agradeço-lhe - dizia o pai.

            E, embora a mulher tivesse que fazer, para não ser indelicado com Brichot, ele a obrigava a ir àquela aula, ao passo que a filhinha, incomodada pelo calor e pela multidão, todavia de ver curiosamente com os olhos o descendente de Condé, espantando-se de que; não usasse gola pregueada e se assemelhasse aos homens dos nossos dias. No entanto, não olhava para ela, porém mais de um estudante, que não sabia de quem se tratava, admirava-se com sua amabilidade, tornava-se importante e o barão saía cheio de sonhos e melancolia.

            - Perdoe-me por voltar à fala - disse eu rapidamente ao Sr. de Charlus, ao ouvir os passos de Brichot -, o senhor poderia me avisar por um telegrama, se soubesse que a Srta. Vinteuil ou sua amiga devessem vir à Paris, dizendo-me exatamente a duração de sua estadia e sem dizer a pessoa alguma que eu lhe pedi isto? -

            Eu já não acreditava que ela devia vir, mas desse modo queria garantir-me para o futuro.

            - Sim, farei isto. Primeiro, porque devo-lhe um grande reconhecimento. E, não aceitando outro que eu lhe propusera, o senhor, sem querer, prestou-me um imenso serviço, deu-me a minha liberdade. É certo que abdiquei dela por outra forma - acrescentou num tom melancólico onde transparecia o desejo de fazer confidências -; há nisso o que eu considero sempre o fato maior, toda uma reunião de circunstâncias que deixou de utilizar em seu proveito, talvez porque o destino lhe tenha advertido naquele preciso momento, para não contrariar o meu caminho. É sempre "O homem se agita e Deus o conduz". Quem sabe se, no dia em que saímos juntos da casa da Sra. de Villeparisis, você tivesse aceito, talvez muitas coisas que se passaram desde então não houvessem ocorrido.- Embaraçado, fiz a conversa desviar-se apoderando-me do nome da Sra. de Villeparisis, confessando a tristeza que me causara a sua morte. - Ah, sim - murmurou secamente o Sr. de Charlus com a mais insolente entonação, recebendo minhas condolências sem por um segundo parecer acreditar na sinceridade delas. Vendo que, em todo caso, o assunto Sra. de Villeparisis não lhe era doloroso, quis saber dele, tão qualificado a todos os respeitos, por que motivo a Sra. de Villeparisis fora tão rejeitada pelo mundo aristocrático. Não apenas ele não me deu a solução desse probleminha mundano, mas nem sequer pareceu conhecê-lo. Compreendi então que a posição da Sra. de Villeparisis, se mais tarde devia parecer grande à posteridade, e mesmo quando vivia a marquesa, à plebe ignorante, não parecera menor à outra extremidade da escala social, a que se ligava a Sra. de Villeparisis, aos Guermantes. Ela era tia deles, e eles valorizavam sobretudo o seu nascimento, as alianças conjugais, a importância conservada na família pela ascendência sobre esta ou aquela cunhada. Valorizavam isto menos pelo seu lado mundano que pelo lado da família. Ora, esta era mais brilhante para a Sra. de Villeparisis do que eu havia julgado. Ficara impressionado ao saber que o nome de Villeparisis era falso. Porém há outros exemplos de grandes damas que fizeram um casamento desigual e mantiveram uma situação preponderante. O Sr. de Charlus começou por me informar que a Sra. de Villeparisis era sobrinha da famosa duquesa de ***, a mais célebre mulher da alta aristocracia durante a monarquia de Julho, mas que não quisera freqüentar o Rei-Cidadão e sua família. Eu desejara tanto conhecer histórias sobre essa duquesa! E a Sra. de Villeparisis; a boa Sra. de Villeparisis, de faces que se me afiguravam faces de burguesa; a Sra. de Villeparisis que me mandava tantos presentes e que eu facilmente poderia ter visto todos os dias; a Sra. de Villeparisis era a sua sobrinha, educada por ela, em sua casa, no palácio de ***.

            - Ela perguntava ao duque de Doudeauville - disse-me o Sr. de Charlus, falando das três irmãs: - Qual das três lhe agrada mais? E, tendo Doudeauville respondido: - Sra. de Villeparisis -, a duquesa de *** retrucou: - Porco! pois a duquesa era muito espirituosa - disse o Sr. de Charlus, dando à palavra a importância e a pronúncia de costume entre os Guermantes. Aliás, eu não me espantava que ele achasse tão espirituosa a palavra, já que havia reparado em muitas outras ocasiões na tendência centrífuga, objetiva, dos homens, que os impele a abdicar, quando apreciam o espírito dos outros, das severidades que para com o próprio; e a observar, a registrar cuidadosamente o que desdenhariam criar.

            - Mas o que há? É o meu sobretudo que ele está trazendo - disse vendo que Brichot se demorara tanto tempo para acabar se enganando – era preferível que eu mesmo o tivesse ido buscar. Afinal, você vai pô-lo sobre os ombros. Sabe que isso é bastante comprometedor, meu caro? É como beber no mesmo copo, saberei os seus pensamentos. Mas não, não é assim, olhe, deixe ponha em você - e, ao enfiar-me o sobretudo, assentava-o nos meus ombros; ajeitava-o no pescoço, erguia a gola e com a mão esfregava-me o queixo, desculpando-se: - Na sua idade não se sabe pôr um agasalho, é preciso mimá-lo segui a minha vocação, Brichot, nasci para babá de crianças.-

            Eu queria ir embora mas, tendo o Sr. de Charlus manifestado a intenção de ir procurar Morel, Brichot nos reteve a ambos. Além disso, a certeza de que em casa reencontraria Albertine; certeza igual à da tarde, quando sabia que Albertine voltaria do Trocadero. Naquele momento tão pouca impaciência de vê-la como tivera nesse mesmo, enquanto estava sentado ao piano, depois que Françoise me telefonara. E foi tranqüilidade que me permitiu, cada vez que, no decurso daquela conversa, desejei levantar-me, obedecer à injunção de Brichot, que temia que minha saída impedisse Charlus de ficar até o momento em que a Sra. Verdurin viesse.

            - Olhe - disse ele ao barão-, fique um pouco em nossa companhia, em breve poderá lhe dar a accolade - acrescentou Brichot fixando em mim o seu olho morto, ao qual as numerosas operações que sofrera tinham feito recobrar um pouco de vida, mas que, no entanto, já não possuía a mobilidade necessária, à pressão oblíqua da malignidade.

            - A accolade, como é tolo! - exclamou o barão num tom agudo e deliciado. - Meu caro, ele se julga estar sempre numa direção de prêmios, sonha com seus alunozinhos. Pergunto-me se não dorme com eles.

            - Você deseja ver a Srta. Vinteuil - disse-me Brichot, que ouvira o final da conversa. - Prometo-lhe que o avisarei se ela vier, saberei pela Sra. Verdurin - ele sem dúvida previa que o barão estava na iminência de ser excluído do pequeno clã.

            - Pois bem, acha que está em melhores relações do que eu com a Sra. Verdurin - disse o Sr. de Charlus - para ser informado sobre a vinda dessas pessoas de terrível fama? Você sabe que é coisa super conhecida. A Sra. Verdurin errou em deixar que elas viessem, é gente que só se admite em ambientes suspeitos. Elas são de toda uma turma horrível, que deve reunir-se em lugares pavorosos. -

            A cada uma dessas palavras meu sofrimento se acrescia de um sofrimento novo, mudando de forma. De súbito, lembrando-me de certos movimentos de impaciência de Albertine, que de resto ela reprimia logo, tive medo de que formasse o projeto de me deixar. Tal suspeita me tornava mais necessário fazer durar nossa vida em comum; chegar uma época em que eu tivesse recobrado o meu sossego. E para Albertine, se é que ela a possuía, a idéia de antecipar-se ao meu projeto de rompimento, para lhe fazer parecer mais leve os seus grilhões; até o momento em pudesse provocar o rompimento sem mágoas, o mais hábil (talvez eu contagiado pela presença do Sr. de Charlus, pela inconsciente lembrança das comédias que ele gostava de interpretar), o mais hábil pareceu-me fazer Albertine acreditar que eu próprio tinha intenção de deixá-la e, tão logo voltasse para casa, ia simular despedidas, fingir um rompimento.

            - É claro que não me julgo em melhores relações que o senhor com a Sra. Verdurin - declarou Brichot acentuando as palavras, pois receava ter despertado as suspeitas do barão. E, como visse que eu queria despedir-me, desejando me reter com a isca do divertimento prometido: - Há uma coisa em que o barão parece não ter pensado quando fala da reputação dessas duas senhoras, é que uma reputação pode ser ao mesmo tempo péssima e imerecida. Assim, por exemplo, na série mais notória, que eu chamarei paralela, é certo que os erros judiciários são numerosos e que a História registrou sentenças de condenação por sodomia que desonraram homens ilustres inteiramente inocentes. A recente descoberta de um grande amor de Michelangelo por uma mulher é um fato novo que merecia ao amigo de Leão X o benefício de uma instância de revisão póstuma. O caso Michelangelo parece-me perfeitamente indicado para apaixonar os esnobes e mobilizar La Vilette, quando outro caso que conheço, em que a anarquia foi bem recebida e tornou-se o pecado da moda de nossos bons diletantes, mas cujo nome não é permitido pronunciar por temor a provocar brigas, estiver enfim enterrado. -

            Desde que Brichot começara a falar das reputações masculinas, o Sr. de Charlus havia traído em todo o rosto o gênero especial de impaciência que se nota num perito médico ou militar quando pessoas da sociedade, que não conhecem nada, metem-se a dizer tolices sobre pontos de terapêutica ou de estratégia.

            - Não sabe coisa nenhuma do que está falando - acabou ele por dizer a Brichot. - Cite-me uma só reputação imerecida. Diga os nomes. Sim, eu conheço tudo - retrucou violentamente o Sr. de Charlus a uma tímida interrupção de Brichot-, as pessoas que fizeram isso outrora por curiosidade, ou por afeição única por um amigo morto, e aquele que, receando ter-se adiantado demais, se lhe falam da beleza de um homem, responde que isso para ele é chinês, que já não sabe distinguir um homem bonito de um feio, assim como entre dois motores de automóvel, visto que a mecânica não é o seu forte. Tudo isso não passa de mentiras. Meu Deus, veja bem; não quero dizer que uma reputação má (ou o que se convencionou chamar assim) e injustificada seja algo absolutamente impossível. É de tal modo excepcional, de tal modo rara, que praticamente não existe. Todavia, eu, que sou um curioso, um bisbilhoteiro, cheguei a saber da existência de casos assim, e que não eram mitos. Sim, no decurso da minha vida tenho constatado (constatado cientificamente, pois não me contento com palavras) duas reputações imerecidas. De hábito, elas se estabelecem graças a uma semelhança de nomes ou, então, de acordo com certos sinais exteriores, o excesso de anéis por exemplo, que as pessoas incompetentes julgam ser características daquilo que está dizendo, assim como acreditam que um camponês não diz duas palavras sem acrescentar jamig ou em inglês, goddam. Faz parte da convenção para o teatro dos bulevares: entre os invertidos.

            Sr. de Charlus me impressionou bastante ao citar, “amigo da atriz" que eu vira em Balbec e que era o chefe da pequena sociedade de quatro amigos.

            - Mas então essa atriz? - Ela lhe serve de biombo, e aliás eles têm relações sexuais com ela, mais talvez do que com os homens, com quem não se relaciona quase. - E tem relações com os outros três? - De jeito nenhum! Amigos mas não para isso! Dois deles só querem saber de mulheres. Um é invertido, do caso eles se ocultam. Mas não é certo que seu amigo o seja, e em que os deixará assombrados é que essas reputações injustificadas outras mais sólidas aos olhos do público. Você mesmo, Brichot, que põe a mão a virtude desse ou daquele homem que vem aqui e que as pessoas bem informam que conhecem como o lobo com pele de carneiro, você, como todo mundo, deve ditar no que dizem de certo homem em evidência, quando a verdade é que, se lhes pudessem diriam que jamais pecou por apenas dois tostões. Digo dois tostões porque, na mão vinte e cinco luíses, veríamos o número de santinhos diminuir até mesmo a taxa dos santos, se você vê santidade nisso costuma em regra como por três ou quatro em dez.

            Se Brichot havia transposto para o sexo masculino a questão das más reputações, de minha parte, inversamente, era ao sexo feminino as palavras do Sr. de Charlus. Eu pensando em Albertine que relacionava as partes, estava impressionado com a sua estatística, mesmo levando em conta que ele devia impor, ou gerar as cifras ao sabor do que desejava, e também conforme os relatos de maldizentes, talvez mentirosas, em todo caso enganadas pelo próprio desejo; os cálculos do Sr. de Charlus, falseava sem dúvida.

            - Três em dez! - exclamou Brichot. - Invertendo a proporção, eu ainda podia multiplicar por cem o número de culpados. Se isto é o que o senhor diz, barão - não está enganado, então confessemos que o senhor é um desses raros videntes de uma verdade que fez, assim que ninguém desconfiava em torno deles. Assim foi sobre a corrupção parlamentar, descobertas que foram comprovadas as pessoas; como a existência do planeta de Leverrier. A Sra. Verdurin citaria certos homens que acho melhor não nomear e que descobriram no Serviço de Informações do Estado-Maior atividades, inspiradas, segundo creio, por um patético que afinal eu não imaginava! Três em dez! - repetiu Brichot estupefato.-      

            Convém dizer que o Sr. de Charlus considerava os invertidos a maior parte de seus contemporâneos, excetuando contudo os homens com quem tivera relações e cujo caso, por pouco que a elas se mesclasse um tanto de romanesco, parecia-lhe mais complexo. É assim que certos homens devassos, não acreditando na honra das mulheres, só atribuem alguma virtude àquela que foi sua amante e a respeito de quem protestam sinceramente e com ar misterioso:

            - Mas não, o senhor está enganado, ela não é uma mulher à-toa. - Essa inesperada estima lhes é ditada em parte pelo amor-próprio, porque é mais lisonjeiro que tais favores tenham sido reservados exclusivamente para eles, em parte por sua ingenuidade, que aceita facilmente tudo o que sua amante quis impingir-lhes, e em parte por aquele sentimento da vida que faz com que, desde que nos aproximamos das criaturas, das existências, as etiquetas e compartimentos previamente preparados pareçam simples demais. -Três em dez! Tome cuidado, barão; menos feliz que esses historiadores que o futuro há de ratificar, se o senhor quiser apresentar à posteridade o quadro que está pintando, ela poderá achar ruim o negócio. Ela só julga baseada em documentos e desejaria tomar conhecimento do seu dossiê. Ora, se nenhum documento vier autenticar esse gênero de fenômenos coletivos, já que as únicas pessoas informadas a respeito têm grande interesse em mantê-los na sombra, haveria muita indignação entre as almas caridosas, e o senhor passaria simplesmente por um caluniador ou um louco. Depois de ter obtido o máximo e o principado, no concurso de elegância deste mundo, o senhor conheceria as tristezas de uma rejeição póstuma. Não vale a pena, como diz, Deus me perdoe, o nosso Bossuet.

            - Não trabalho para a História - respondeu o Sr. de Charlus-, basta-me a vida, ela é muito interessante, como dizia o pobre Swann.

            - Como? O senhor conheceu Swann, barão? Não sabia. Ele também era dado a esses vícios? -indagou Brichot com ar inquieto. 

            - Que grosseirão que você é! Então acha que só conheço pessoas assim? Não, não creio - disse Charlus de olhos baixos e procurando pesar os prós e os contras. E, pensando que, visto que se tratava de Swann, cujas tendências tão contrárias sempre foram muito conhecidas, uma meia confissão só podia ser inofensiva para aquele a quem ela visava e lisonjeira para quem a deixava escapar numa insinuação:-Não digo que outrora no colégio, uma vez casualmente - disse o barão, como que involuntariamente e como se estivesse pensando em voz alta, e logo se corrigindo: - Mas isto já faz duzentos anos, como quer que me lembre? O senhor me aborrece - concluiu, rindo.

            - Em todo caso, ele não era lá muito bonito - disse Brichot, que, sendo horroroso, achava-se razoável e sem dificuldade julgava os outros feios.

            - Cale-se disse o barão -, não sabe o que está dizendo; naquele tempo Swann tinha uma pele de pêssego - e acrescentou, pronunciando cada sílaba num tom diverso - era belo como os amores. Aliás, sempre se manteve tentador. Foi amado loucamente pelas mulheres.

            - Mas o senhor conheceu a mulher dele?       

            - Ora se não! Foi por meu intermédio que ele a conheceu. Achei-a encantadora em seu meio travesti, numa noite em que representava o papel de Miss Sacripanta eu estava com alguns companheiros de clube, tínhamos voltado para casa com uma mulher, e, conquanto eu só tivesse vontade do que as más línguas afirmaram, pois é terrível como o mundo é maldoso, com Odette. Apenas, ela se aproveitou disso para vir me aborrecer, e eu tive de livrar dessa amolação apresentando-a à Swann. A partir desse dia ela não mais veio me importunar, pois não sabia uma só palavra de ortografia, e era eu encarregado de passear com que escrevia as cartas dela. E depois, eu é que fui encarregado o que significa ter uma boa reputação. De resto, só está, meu menino, pela metade. Ela me obrigava a arrumar tremendas farras com cinco ou seis pessoas. - E os amantes que Odette havia tido sucessivamente -andara encoberto pelo pobre Swann - e nenhum desses casos foi descoberto. Depois com aquele, cego pelo ciúme e pelo amor, computando as probabilidades e acreditando nas afirmativas do que uma contradição que escapa à culpada, contra juras, bem mais difícil de perceber e no entanto bem mais significativa, e da qual o poder prevalecer-se, mais logicamente, do que de informações que        pretende ter obtido, para inquietar a sua amante; esses amantes; falsamente, se o Sr. de Charlus enumera-los com tamanha certeza como se recitasse a lista dos contemporâneos perto do ciumento está, como os reis da França. E, de fato, ele não sabe nada, e é para os estranhos que a crônica dos adultérios passa à decisão da História e se alonga em listas, aliás indiferentes, tristes para um outro ciumento, como eu era, que não pode evitar comparar; e não existe uma lista tão real de que ouve falar e que se pergunta

caso àquele, quanto aquela para a mulher de quem duvida. Mas ele não pode saber nada; uma brincadeira cruel de que isso, é como que uma conspiração universal, isso, enquanto sua amiga passa de um para outro, em que consiste, os olhos do iludido com uma venda que ele se esforça permanentemente os bons resultados para arrancar sem consegui-lo, pois todos mantêm cego o infeliz. Prazer das pessoas de mau; as criaturas grosseiras, pelo preço dos maus por malvadez, os bem-educados por polidez e boa educação, e todos por uma dessas como soube que o senhor requer que se denominam princípios.

            - Odette quando ela não queria ver Charles. Isso me aborrecia tanto ainda mais que eu tenho um parente próximo chamado Crécy, sem ter naturalmente direito a isso, mas a quem afinal a coisa não agradava. Pois ela se fazia chamar Odette de Crécy, e o podia perfeitamente, estando apenas separada de um Crécy de quem era a mulher, este bem autêntico, um cavalheiro muito distinto a quem ela arruinara até o último centavo. Mas para que me fazer falar desse Crécy, eu o vi conversando com ele no trenzinho de Balbec, e lá você lhe oferecia jantares. O pobre andava precisado disso: vivia de uma pensãozinha que lhe dava Swann e imagino que desde a morte do meu amigo ela não lhe tenha mais sido paga. O que não entendo - disse-me o Sr. de Charlus - é que você, que tantas vezes esteve na casa de Charles, não tenha querido há pouco que eu o apresentasse à rainha de Nápoles. Em suma, vejo que você não se interessa pelas pessoas como curiosidades, e isto sempre me surpreende da parte de alguém que conheceu Swann, em quem esse tipo de interesse era tão aprofundado que não se pode dizer qual de nós iniciou o outro no assunto. Surpreende-me tanto como ver alguém que conheceu Whistler e não sabe o que é bom gosto. Mas era principalmente a Morel que importava conhecê-la. Ele o desejava, aliás, de todo o coração, pois Morel é o que há de mais inteligente. É uma pena que ela tenha ido embora. Mas, enfim, hei de promover o encontro dos dois um dia desses. É indispensável que ele a conheça. O único obstáculo possível seria ela morrer amanhã. Ora, é de esperar que ela não chegue a tanto. -

            De súbito, como ficara paralisado pela proporção de "três em dez" que lhe revelara o Sr. de Charlus, Brichot, que não deixara de insistir na sua idéia, com uma rudeza que lembrava a de um juiz que quer obrigar um acusado à confissão, mas que na realidade era o resultado do desejo que tinha o professor de parecer perspicaz, e da perturbação que sentia ao lançar uma acusação tão grave:

            - Será que Ski é desse tipo?-perguntou ao Sr. de Charlus com ar sombrio. Para fazer admirar seus pretensos dotes de intuição, havia escolhido Ski, pessoa que lhe parecia um tanto esquisita, sofria de insônia, perfumava-se, enfim, estava fora do normal.

            - De jeito nenhum - gritou o barão com amarga ironia, dogmática e exasperada. - O que você diz é tão falso, tão absurdo e despropositado! Ski é justamente isso para as pessoas que não entendem do assunto. Se o fosse, não pareceria tanto sê-lo, digo-o sem qualquer intenção de crítica, pois ele possui um certo encanto, e eu acho-lhe até algo de muito cativante. -

            - Vivas, diga então alguns nomes - insistiu Brichot.

            O Sr. de Charlus empertigou-se e respondeu com ar arrogante:

            - Ah, meu caro, por mim, você sabe; vivo no abstrato, tudo isso me interessa apenas de um ponto de vista transcendental -,demonstrando a suscetibilidade desconfiada, própria dos de sua laia, e a afetação de grandiloqüência que caracterizava a sua conversa. - Para mim, você compreende,existem só as generalidades que me interessam, eu lhe falo disso como da lei da faravidade.

            Naqueles momentos de reação irritada, em que o barão cuidava de admirar sua vida eram bem poucos diante das horas de progressão contínua em que a deixava adivinhar-se, e exibia com uma complacência irritada; visto que nele a necessidade de confidência era mais forte que o receio da divulgação.

            - O que eu queria dizer – continuou - é que, para uma má reputação injustificada existem centenas de boas reputações que não são menos imerecidas. Evidentemente, o número dos que não as merecem varia segundo você se baseie nas palavras dos que são como eles ou nas de outros. E é certo que, se a maldade destes últimos está limitada pela excessiva dificuldade, que teriam em acreditar num vício tão horrível para eles, quanto o roubo ou o assassinato praticado por pessoas de quem conhecem a delicadeza e o bom coração, a maldade dos primeiros é exageradamente estimulada pelo desejo de acreditar serem, como direi - acessíveis, pessoas que lhes agradam, por informações que lhes deram os outros enganados por igual desejo. Enfim devido à distância em que geralmente são mantidos. Já vi um homem, bem malvisto por causa desse vício, dizer que supunha que certo homem da sociedade também era viciado. E o único motivo de sua desconfiança era o fato de que esse homem fora gentil com ele! São outras tantas razões otimistas - disse ingenuamente o barão no cálculo da quantidade. Mas o verdadeiro motivo da enorme diferença entre o número calculado pelos profanos e calculado pelos iniciados provém do mistério de que estes envolvem seus atos a fim de escondê-los dos outros, que, desprovidos de quaisquer meios de informação, ficariam literalmente estupefatos se soubessem apenas um quarto da ver dade.

             -Então, na nossa época, é como no tempo dos gregos - disse Brichot.

            - Mas como no tempo dos gregos? Acha que isso não continuou desde então? Olhe, no reinado de Luís XIV, havia Monsieur, o pequeno Vermandois, Moliere, o príncipe Louis Baden, Brunswick, Charolais, Boufflers, o grande Condé, o duque de Brisse -

            - Espere um momento, eu sabia de Monsieur, sabia de Brissac por Saint-Simon! Vendôme naturalmente e aliás de muitos outros, mas essa velha peste de Sau Simon fala muitas vezes do Grande Condé e do príncipe Louis de Baden e jamais faz menção ao fato.

            - É mesmo deplorável que eu tenha de ensinar História à um professor da Sorbonne. Mas, meu caro mestre, você é ignorante como uma tora.

            - O senhor é duro, barão, mas justo. E olhe, vou lhe dar um prazer. Estava lembrando agora de uma canção da época, que fizeram em latim macarri sobre certa tempestade que surpreendeu o Grande Condé enquanto descia o R em companhia de seu amigo, o marquês de La Moussaye. Condé diz:

            Carus Amicus Mussaeus,

            Ah! Deus bonus! quod tempos! Landerirette,

            Imbre Sumus perituri.

            E La Moussaye o tranqüiliza, respondendo:

            Securae Bunt nostrae vitae, Sumus enfim Sodomitae, igne tantum perituri, Landeriri.

[“Caro amigo, La Moussaye, Ah! meu Deus, que tempo! / Landerirette, / Nesta chuva morreremos. / - Estão  - nossas vidas, / ambos somos sodomitas / Só pelo fogo morreremos, Landeriri." - era a esposa de Monsieur, o irmão do rei Luís XIV. (N. do T)]

            - Retiro o que disse - observou Charlus com voz aguda e afetada-, você é um poço de ciência; vai escrever isso para mim, não é? Desejo guardar essa canção nos meus arquivos de família, pois minha bisavó em terceiro grau era irmã do Senhor príncipe.

            - Sim, mas, barão, acerca do príncipe Louis de Baden não li nada. De resto, creio que em geral a arte militar...

            - Que bobagem! Naquele tempo, Vendôme, Villars, o príncipe Eugênio, o príncipe de Conti, e se lhe citasse todos os heróis de Tonquim, do Marrocos; mas falo apenas dos verdadeiramente sublimes e piedosos e "nova geração" -, eu o deixaria muito espantado. Ah, eu teria muito que ensinar às pessoas que fazem pesquisas sobre a nova geração que rejeitou as vãs complicações de seus antepassados, diz o Sr. Bourget! Tenho um amiguinho nessa geração, de que falam muito, que realizou coisas admiráveis; mas enfim, não quero ser maldoso, voltemos ao século XVII; sabe que Saint-Simon diz do marechal d'Huxelles - entre muitos outros: "... voluptuoso em devassidões gregas que não cuidava de esconder, atraía jovens oficiais a quem submetia, além de jovens criados de muito boa aparência, e isto sem disfarce, no exército e em Estrasburgo." Você provavelmente leu as cartas de Madame, só o chamavam de Putana. Ela fala disso bem claramente. - E tinha no marido uma boa fonte de informações. - Que personagem interessante era Madame - disse o Sr. de Charlus. - Poderia servir de modelo para uma síntese lírica da "Mulher de um Veado". Em primeiro lugar, era machona; geralmente a mulher de um Veado é um homem, é o que lhes torna tão fácil fazer filhos. Além disso, Madame não fala dos vícios de Monsieur, mas alude sem cessar a esse mesmo vício nos outros, como pessoa informada e por esse hábito que temos de gostar de encontrar nas famílias dos outros as mesmas taras - que sofremos na nossa, para provar a nós próprios que isso nada tem de excepcional ou desonroso. Eu lhe dizia que isto foi sempre assim. Entretanto, o nosso povo distingue-se particularmente sob tal aspecto. E, apesar dos exemplos que tirei do século XVII, se o meu grande antepassado François de La Rochefoucauld vivesse atualmente, poderia dizer deste século, e com maior razão ainda; vamos, Brichot, ajude-me: "Os vícios são de todos os tempos; mas, se certas famas que todo mundo conhece tivessem vivido nos primeiros séculos, será que hoje se falaria das prostituições de Heliogábalo?" Este que todo mundo comenta, agrada muito. Vejo que o meu sagaz parente conhecia "os podres" de seus célebres contemporâneos, assim como eu conheço os dos meus. Mas homem dessa espécie, não só aumentaram em número hoje, como também possuem de particular. -

            Vi que o Sr. de Charlus ia nos dizer de que maneira esse gênero de costumes havia evoluído. E nem por um instante, enquanto ele falava, ou enquanto Brichot falava, a imagem mais ou menos consciente da minha casa, onde esperava Albertine, esteve, associada ao motivo meigo e íntimo de Vinteuil, ai de mim. Eu retornava sem cessar à Albertine, assim como seria preciso voltar para junto dela dali a pouco, feito uma grilheta à qual estivesse preso de um jeito ou outro, e que me impedisse de deixar Paris e que, naquele momento - quanto que do salão Verdurin eu evocava minha casa, fazia-me sentir, não com espaço vazio, exaltante para a personalidade e um tanto triste, mas repleto semelhante nisso ao hotel de Balbec numa certa noite-dessa presa que dali não se movia, que permanecia ali para mim, e que, quando eu queria estaria seguro de encontrar. A insistência com que o Sr. de Charlus voltava-se ao assunto para o qual ademais a sua inteligência, orientada sempre no mesmo sentido, possuía uma certa penetração mostrava algo de muito complexo, penoso. Ele era enfadonho como um sábio que não enxerga nada além da especialidade, irritante feito uma pessoa bem informada que se envaidece dos segredos que detém e arde por divulgar, antipático como os que, quando dos próprios defeitos, desabafam sem perceber que estão desagradando, ou de como um maníaco e irresistivelmente imprudente como um culpado. Tais características, que em certos momentos se tornavam tão surpreendentes como distinguem um louco ou um criminoso, traziam-me aliás algum sossego submetendo-as à transposição necessária para delas poder tirar deduções reais de Albertine e lembrando-me da atitude desta para com Saint-Loup e como concluía, por mais penosa me fosse uma dessas lembranças, e melancolia outra, concluía que elas pareciam excluir o tipo de deformação tão acusada especialização forçosamente exclusiva, ao que parecia, que se destacava com força da conversação e da pessoa do Sr. de Charlus. Mas, infelizmente, apressou em arruinar esses motivos de esperança, da mesma forma como havia fornecido, isto é, sem o saber.

            - Sim - disse ele -, não tenho mais vinte anos e já vi muita coisa mudar a meu redor; não reconheço mais nem a sociedade onde as barreiras foram rompidas, onde uma chusma sem elegância nem se dança o tango até na minha família, nem as modas, nem a política, nem a religião, nem nada. Confesso, porém, que o que mais mudou foi o que os alemães chamam de homossexualidade. Deus meu, no meu tempo, de um lado os homens que detestavam mulheres e os que, gostando só delas, outra coisa apenas por interesse, os homossexuais eram bons pais de família que possuíam amantes para disfarçar. Se eu tivesse uma filha para casar, seria no meio deles que iria procurar um genro, se quisesse estar seguro de que ela não seria infeliz. Ai de mim! Tudo está mudado. Agora, eles também se recrutam entre os homens mais loucos por mulheres. Eu imaginava ter um certo faro, e, quando dizia comigo: "este

certamente não", julgava não poder enganar-me. Pois bem, hoje desisto de acertar. Um de meus amigos, muito conhecido como tal, tinha um cocheiro que minha cunhada Oriane lhe arrumara, um rapaz de Combray que trabalhara um pouco em todos os ofícios, mas sobretudo no de fornicar com mulheres, e que eu teria jurado ser o mais hostil possível a esses hábitos. Ele fazia a desgraça da amante, enganando-a com duas mulheres a quem adorava, sem contar as outras, uma atriz e uma caixeira de cervejaria. Meu primo, o príncipe de Guermantes, que tem precisamente a inteligência irritante das pessoas que acreditam em tudo com muita facilidade, disse-me um dia: "Mas por que será que X não se deita com seu cocheiro? Quem sabe isto não daria prazer a Théodore" (é o nome do cocheiro) "e se este não está mesmo bastante aborrecido por ver que o patrão não tenta dar os primeiros passos nesse sentido?" Não pude deixar de impor silêncio a Gilbert; sentia-me, a um tempo, enervado diante daquela pretensa perspicácia, que, quando se exerce indistintamente, é uma falta de perspicácia, mas também pela malícia manifestado meu primo, que desejaria que o nosso amigo X tentasse arriscar-se e, caso o negócio fosse viável, entrar ele por sua vez no jogo.

            - Quer dizer que o príncipe de Guermantes também se entrega a esse vício? - indagou Brichot com um misto de assombro e mal-estar.

            - Meu Deus - exclamou o Sr. de Charlus encantado-, é coisa tão conhecida que não creio cometer

uma indiscrição dizendo-lhe que sim. Pois bem, no ano seguinte fui a Balbec, onde soube por um marinheiro que às vezes me levava para pescar, que o meu Théodore (que, entre parênteses, tem como irmã a camareira de uma amiga da Sra. Verdurin, a baronesa Putbus) costuma ir ao cais para buscar ora um ora outro marinheiro, com um topete diabólico, a fim de dar uma volta de barco e "outras coisinhas mais". - Foi a minha vez de perguntar se o patrão de Théodore, em quem eu reconhecera o senhor que jogava cartas o dia inteiro com a amante, era como o príncipe de Guermantes. - Mas ora, todo mundo sabe disso, ele não esconde de ninguém.

            - Mas ele estava com a amante...

            - E daí? Esses meninos são tão ingênuos! - retrucou o Sr. de Charlus com ar paternal, sem desconfiar do sofrimento que eu tirava de suas palavras pensando em Albertine. - É encantadora a sua amante.

            - Mas então os seus três amigos serão como ele?

            - De jeito nenhum! - exclamou o Sr. de Charlus, tapando os ouvidos como se tocando um instrumento, eu tivesse dado uma nota em falso. - Aí está ele. Ora no extremo oposto. Então não se tem mais o direito de ter amigos? Ah, a juventude. Ela confunde tudo. Precisa refazer toda a sua educação, meu jovem. Ora, confesso que nesse caso, conheço muitos outros, por mais que ore manter o meu espírito aberto a todas as audácias, sinto-me embaraçado. Sou bem antiquado, mas não compreendo -disse no tom de um velho falando de certas formas de ultramontanismo, ou de um realista liberal que contasse a Ação Francesa, ou de um discípulo de Claude Monet falando dos cubos - Não censuro esses inovadores, ou melhor, invejo-os, procuro entendê-los; não consigo. Se gostam tanto da mulher, por que motivo, e principalmente o mundo operário onde se é tão malvisto, onde se ocultam por amor-próprio, eles necessidade do que denominam um mome (garoto)? É que isso representa para eles outra coisa.

            - O quê? - "Que outra coisa a mulher pode representar Albertine'' pensei, e esse era de fato o motivo do meu sofrimento.

            - Decidido, barão - disse Brichot -, se alguma vez o Conselho das faculdades propuserem a criação de uma cátedra de Homossexualismo, irei indicá-lo em primeiro lugar antes, um Instituto de Psicofisiologia especial lhe seria mais adequado. E sobretudo nomeado para uma cátedra do College de France, o que lhe permite entregar-se à estudos pessoais, cujos resultados revelaria, como faz o professor tâmul ou de sânscrito, diante de um número bem pequeno de pessoas que se interessam por isso. O senhor teria dois ouvintes, além do bedel, diga-se nenhuma intenção de lançar a menor dúvida quanto ao nosso corpo de bedéia - julgo acima de qualquer suspeita.

            - O senhor não sabe nada - replicou o barão tom duro e cortante. - Além disso, engana-se ao crer que isso interessa a tão pouca gente. É exatamente o contrário o que ocorre - e, sem se dar conta da existente entre a direção que sua conversa invariavelmente tomava e a censura que ia endereçar aos outros: - Pelo contrário, é impressionante - disse ele ao Brichot com ar escandalizado e contrito-, não se fala noutra coisa. É uma vergonha, como lhe digo, meu caro! Parece que anteontem, na casa da duquesa d'Ayen; não falaram noutra coisa durante duas horas. Imaginem se agora as mulheres tem a falar nisso, será um verdadeiro escândalo! O que há de mais ignóbil é que são informadas - ajuntou com um ardor e uma energia extraordinários - por pestes, uns sujos como o pequeno Châtellerault, de quem há mais o que dizer que de qualquer outro, e que lhes contam as histórias alheias. Já me avisaram ele diz cobras e lagartos de mim, mas não ligo; acho que a lama e as imundícies atiradas por um indivíduo que escapou de ser expulso do Jockey por ter trapaçado num jogo de cartas, só podem recair sobre ele. Sei perfeitamente fosse Jane d'Ayen, respeitaria bastante o meu salão para não permitir que se discutissem tais assuntos, nem que emporcalhassem na minha casa os próprios parentes. Mas já não existe sociedade, não existem regras convenientes tanto para a conversação como para a forma de trajar. Ah, meu caro! É o mundo. Toda gente se tornou tão maldosa. Cada um que diga é mais maldoso. É um horror!

            Covarde como já era na minha infância em Combray, quando fugia para não ver oferecerem conhaque à meu avô, e os vãos esforços de minha avó para suplicar-lhe que não bebesse, eu só tinha uma idéia: sair da casa dos Verdurin antes que ocorresse a "execução" de Charlus.

            - É absolutamente necessário que eu parta - disse a Brichot.

            - Vou com você - respondeu ele -, mas não podemos sair à inglesa. Vamos nos despedir da Sra. Verdurin - concluiu o professor, dirigindo-se para o salão com o ar de quem, nos jogos de sociedade, vai ver "se já pode voltar".

            Enquanto conversávamos, o Sr. Verdurin, a um sinal da mulher, afastara-se com Morel. Aliás, mesmo que a Sra. Verdurin, depois de muito refletir, concluísse que seria mais sábio adiar as revelações a Morel, não mais teria podido fazê-lo. Há certos desejos que, às vezes circunscritos à boca, uma vez que os deixamos tomar corpo, exigem ser saciados sejam quais forem as conseqüências; não se pode mais resistir à tentação de beijar um ombro decotado que se observa desde há muito e sobre o qual os lábios caem como sobre o pássaro a serpente, de comer um doce com os dentes que a fome fascina, de se recusar ao espanto, à perturbação, à dor ou à alegria que se vai desencadear numa alma com palavras imprevistas. Assim, ébria de melodrama, a Sra. Verdurin havia imposto ao marido que chamasse Morel à parte e falasse ao violinista, custasse o que custasse. Este começara por deplorar que a rainha de Nápoles tivesse ido embora sem que ele lhe pudesse ter sido apresentado. O Sr. de Charlus tanto lhe repetira que ela era irmã da imperatriz Élisabeth e da duquesa d'Alençon, que a soberana assumira aos olhos de Morel uma importância extraordinária. Mas o Patrão lhe explicara que não estavam ali para falar da rainha de Nápoles, e fora direto ao assunto.

            - Veja bem - concluíra após algum tempo -, veja bem; se quiser, vamos consultar minha mulher. Palavra de honra que não disse coisa alguma a ela. Vamos ver o que ela acha. Minha opinião talvez não seja a boa, mas você sabe como é seguro o juízo dela; e depois, ela sente uma enorme estima por você, vamos submeter-lhe a causa. -

            E, enquanto a Sra. Verdurin esperava com impaciência as emoções que ia saborear falando ao virtuoso, e logo que este saísse, ao receber um sumário exato do diálogo trocado entre ele e seu marido, não deixava de repetir:

            - Mas o que é que eles podem fazer? Pelo menos, espero que Gustave, durante esse tempo todo, tenha sabido industriá-lo. O Sr. Verdurin voltara com Morel, que parecia grandemente emocionado. [Adiante o Sr. Verdurin,será chamado de "Gustave". (N. do T)]

            - Ele gostaria de te pedir um conselho - disse o Sr. Verdurin à mulher, com o ar de alguém que não sabe se seu pedido será aceito. Em vez de responder ao Sr. Verdurin, afogueada pela paixão, foi a Morel que a Sra. Verdurin se dirigiu:

            - Sou absolutamente da mesma opinião que meu marido, acho que você não pode tolerar isso por mais tempo! - gritou ela com violência e esquecendo, como ficção fútil, que fora combinado com o marido que ela fingiria ignorar o que o Sr. Verdurin dissera ao violinista.

            - Como? Tolerar o quê? - balbuciou o Sr. Verdurin, que tentava aparentar assombro e procurava, com uma falta de jeito que sua perturbação explicava, fender sua mentira.

            - Adivinhei o que lhe disseste - respondeu a Sra. Verdurin, sem se incomodar com a maior ou menor verossimilhança da explicação, e pouco para que o violinista pudesse pensar da veracidade da sua Patroa, recordasse aquela cena. - Não - continuou a Sra. Verdurin -, acho que você deve suportar mais essa promiscuidade vergonhosa com uma pessoa imoral da que já não é recebida em parte alguma-acrescentou, não se importando que aquilo não fosse verdade e esquecendo que ela o recebia quase diariamente, - é o alvo da troça de todo o Conservatório - acrescentou, sentindo que esse argumento era de maior efeito -; mais um mês dessa vida e seu futuro artístico liqüidado, ao passo que sem o Charlus você ganharia mais de cem mil francos anuais.

            - Mais eu nunca ouvi dizer coisa nenhuma, estou impressionado, sou todo grato à vocês -murmurou Morel com lágrimas nos olhos. - Mas, obrigado! - a tempo de fingir assombro e dissimular a vergonha, estava mais rubro e suava do que se tivesse tocado todas as sonatas de Beethoven uma após outra. À seus olhos subiam prantos que o mestre de Bonn certamente não lhe teria arrancado do escultor, interessado nessas lágrimas, sorriu e me assinalou Charlie com o canto do olho.

            - Se não ouviu nada, é o único. Pois ele tem uma péssima reputação e diz coisas horríveis a seu respeito. Sei que a polícia está de olho nele e, aliás, é o que pode acontecer de mais feliz, para não acabar como todos os de sua igualha, assassinado por apaches - acrescentou a Sra. Verdurin, pois, ao pensar em Charlus, voltava-lhe a lembrança da Sra. de Duras e, no ódio de que se embriagava, fazia agravar ainda mais os golpes que desferia no desgraçado do Charlie e se vingando que ela própria recebera naquela noite. - Além disso, mesmo do ponto de vista material, ele não lhe pode servir para nada: está inteiramente arruinado, desde que é vítima de pessoas que o exploram e já não poderão aproveitar-se dele, e menos você, pois tudo o que ele possui está hipotecado; casa, castelo, etc.

            Facilmente acreditou nessa mentira, tanto mais que o Sr. de Charlus gostava de tomá-lo por confidente de suas relações com os apaches, raça pela qual o filho de um lacaio, por mais crapuloso que seja, professa um horror igual ao seu apego às idéias bonapartistas. No espírito ardiloso de Morel já havia germinado uma combinação ao que se denominou, no século XVIII, uma inversão de alianças. Decidido mais falar ao Sr. de Charlus, faria as pazes na noite seguinte com a sobrinha de Jupien, encarregando-se de ajeitar tudo. Infelizmente para ele, tal projeto fracassara, pois, nessa mesma noite, teve o Sr. de Charlus um encontro ao qual o antigo coleteiro não ousou faltar, apesar do que acontecera. Como pessoas, como veremos, se precipitassem a favor de Morel, quando Jupien, rindo, contou as suas desditas ao barão, este, não menos infeliz, declarou-lhe que adotava a pequena abandonada, que a ela daria um dos títulos de que dispunha provavelmente o de Srta. D' Oloron, que lhe proporcionaria um perfeito complemento de instrução e lhe arranjaria um belo casamento. Promessas que alegraram profundamente Jupien e deixaram indiferente a sua sobrinha, pois ela continuava a amar Morel, o qual, por cinismo ou estupidez, entrou gracejando na loja quando Jupien estava ausente.

            - Que significam essas olheiras? -perguntou rindo. - Desgostos amorosos? Diabo, os anos se sucedem e não se parecem. Afinal, somos livres para experimentar um sapato, e com maior razão uma mulher, e se não nos serve... -

            Só se aborreceu uma vez, porque ela chorou, o que ele achou uma covardia, um procedimento indigno. Nem sempre suportamos bem as lágrimas que fazemos correr.

            Porém antecipamos demais, pois tudo isto só se passou depois da reunião dos Verdurin, que interrompemos e que é preciso retomar no ponto em que a deixamos.

            - Eu jamais teria desconfiado - suspirou Morel, em resposta à Sra. Verdurin.

            - Naturalmente não lhe dizem nada na cara, o que não impede que você se torne motivo de troça no Conservatório - repetiu maldosamente a Sra. Verdurin, querendo mostrar à Morel que não se tratava unicamente do Sr. de Charlus, mas também dele. - Acredito que você não saiba de coisa alguma; todos, no entanto, comentam sem a menor cerimônia. Pergunte à Ski o que estavam dizendo outro dia no concerto de Chevillard, a dois passos de nós, quando você entrou no meu camarote. Quer dizer, você já é apontado com o dedo. Direi que, por mim, isto pouco me importa, mas acho que tal situação torna um homem terrivelmente ridículo e fá-lo ser riso de todos para o resto da vida.

            - Não sei como lhe agradecer. - disse Charlie, no tom que o dizemos a um dentista que acaba de nos fazer sofrer horrivelmente sem que lhe tivéssemos dado a perceber, ou a uma testemunha excessivamente sangüinária que nos forçou a um duelo devido a uma insignificância, pretextando: - Você não pode engolir isto.

            - Acho que você tem caráter, que é um homem - respondeu a Sra. Verdurin - e que saberá falar alto e bom som, embora ele diga a todo mundo que você não se atreveria, que o tem em suas mãos.

            Charlie, buscando uma dignidade de empréstimo para encobrir a sua em farrapos, encontrou na memória, por a ter lido ou ouvido dizer, e logo proclamou:

            - Não fui educado para agüentar isto. Hoje mesmo, romperei com o Sr. de Charlus. A rainha de Nápoles foi mesmo embora, não é? Senão, antes de romper com ele, eu lhe teria pedido...

            - Não é necessário romper de todo com ele - disse a Sra. Verdurin, empenhada em não desorganizar o seu pequeno clã. - Não há inconveniente em que o veja aqui no nosso grupinho, onde você é apreciado, onde ninguém falará mal de você. Mas exija a sua liberdade e, além disso, não se deixe arrastar por ele à casa de todas essas espevitadas que só são amáveis na sua frente; gostaria que ouviste o que elas dizem de você pelas costas. Aliás, não se lastime; não só não o de nada e tira de si uma mancha que lhe ficaria por toda a vida, como, do ponto artístico, mesmo se não houvesse esta vergonhosa apresentação por Charlus, eu diria que o fato de você estar se desclassificando desse jeito nesse ambiente de mundanismo falso lhe daria um ar que não é sério, uma reputação de musicozinho de salão, que é terrível na sua idade. Compreendo que, para essas damas elegantes, é bem cômodo retribuir gentilezas das amigas convidando você para tocar de graça, porém à custa de seu futuro de artista. Não digo que vá à casa de uma ou duas. Você falava da rainha de Nápoles que realmente foi embora, pois tinha outra recepção-, ela é uma excelente mulher, e eu lhe diria acho que pouco se importa com Charlus. Direi que foi sobretudo por minha pessoa que ela veio. É claro, sei que ela tinha vontade de nos conhecer, ao Sr. Verdurin e a mim. Está certo que vá tocar na casa dela. E depois, direi que, levado por mim, os artistas conhecem, você sabe, com quem sempre foram muito amáveis, a quem consideram um pouco como um dos seus, como a sua Patrona, é bom dizer. Mas sobretudo, evite a casa da Sra. de Duras como se fosse fogo em brasa! Não caia nessa! Sei de artistas que vieram fazer-me confidências sobre ela. Sabem podem confiar em mim - disse ela num tom meigo e simples que sabia assumir repente,

dando à suas feições um ar de modéstia, e aos olhos um sortilégio próprio - Eles vêm muito naturalmente contar-me seus pequenos casos; ainda os passam por ser os mais silenciosos, às vezes conversam horas a fio comigo, e nem imagina como são interessantes. O pobre Chabrier sempre dizia: "Não como a Sra. Verdurin para fazê-los falar." Pois bem, sabe de uma coisa? Todos, todos sem exceção, já os vi chorar por terem tocado na casa da Sra. de Duras; se tratava apenas das humilhações que recebiam dos criados por ordem e divertimento dela; mas depois eles não conseguiam obter contrato em parte alguma. Os diretores diziam: "Ah, sim! É um que toca na casa da Sra. de Duras." E acabado. Não há nada como isso para liquidar o futuro de um artista. Veja, gente da sociedade não dá seriedade às pessoas; você pode possuir todo o talento do mundo e basta uma Sra. de Duras, é triste dizê-lo, para lhe dar a reputação amador. E para os artistas, você compreende que os conheço bem, há anos que os freqüento, que os lanço, que me interesso por eles; pois bem! eles, quando dizem de alguém que é "um amador", tudo está dito. E, no fundo, que já se começava a dizer de você. Quantas vezes fui obrigada a me assegurar que você não haveria de tocar num dado salão ridículo! Sabe o quê respondiam? "Mas ele será forçado, Charlus nem sequer o consultará, ele não pede sua opinião." Alguém achou que daria prazer no barão dizendo-lhe: "Admiramos muito o seu amigo Morel." Sabe o que ele respondeu, com aquele ar insosso que você lhe conhece? "Amigo? Mas como quer que ele seja meu amigo, se nem mesmo pertencemos à mesma classe. Diga que ele é minha criatura, meu produto."

            Nesse momento agitava-se, sob a fronte arqueada da deusa musicista, a única coisa que certas pessoas não podem guardar para si mesmas, uma palavra que só é abjeta, mas imprudente de repetir. Mas a necessidade de repeti-la é mais que a honra, que a prudência. Foi para satisfazer essa necessidade que, após alguns leves movimentos convulsivos da fronte esférica e desgostosa, a Patroa cedeu:

            - Até repetiram ao meu marido que ele havia dito: "meu criado", mas isso eu não posso afirmar-acrescentou.

            Foi uma necessidade igual que levara o Sr. de Charlus, pouco depois de ter jurado à Morel que ninguém jamais saberia do meio em que este saíra, a dizer à Sra. Verdurin:

            - É filho de um lacaio. -

            Uma necessidade parecida, agora que a palavra fora pronunciada, iria fazê-la circular de pessoa em pessoa, que a divulgariam pedindo segredo, que seria jurado mas não cumprido, como elas próprias o haviam feito. Essas palavras, como no jogo do anel, acabariam por retornar à Sra. Verdurin, fazendo-a brigar com o interessado, que afinal soubera de onde vinha a indiscrição. Ela o sabia, mas não podia reter a palavra que lhe queimava língua. "Criado", aliás, não podia deixar de ofender Morel. No entanto ela disse "criado" e, se acrescentou que não podia afirmar, foi, a um tempo, para parecer estar certa do resto, graças a essa restrição, e para mostrar-se imparcial. A imparcialidade que exibia, tocava-a de tal modo que ela principiou a falar carinhosamente com Charlie:

            - Pois veja só - disse -, não censuro o barão; se ele o arrasta para um abismo, não é culpa dele, pois é o abismo em que ele próprio se precipita; ele próprio se precipita-repetiu com força, maravilhada pela exatidão da imagem, que lhe saíra tão rapidamente que só agora a atenção a alcançava e cuidava realçá-la. - Não, o que lhe censuro - disse num tom carinhoso, como uma mulher ébria do seu êxito - é a indelicadeza para com você. Há coisas que não se dizem a toda a gente. Assim, ainda há pouco, ele apostou que ia fazê-lo enrubescer de alegria, ao anunciar-lhe (por pilhéria, é claro, pois a recomendação dele bastava para impedir você de obtê-la) que você conseguiria a cruz da Legião de Honra. Isso ainda passa - continuou ela com ar digno e delicado -, embora eu nunca tenha gostado que os amigos sejam enganados, mas você sabe, há ninharias que nos magoam. É o caso, por exemplo, quando ele nos conta,

torcendo-se de riso, que, se você deseja a Legião de Honra, é por causa do seu tio e que seu tio era um lacaio.

            - Ele lhe disse isto? - gritou Charlie, acreditando, graças a essas palavras habilmente citadas, na verdade de tudo quanto a Sra. Verdurin dissera. Esta sentiu-se inundada por uma alegria parecida à de uma velha amante que, a ponto de ser abandonada pelo amante jovem, consegue acabar com o casamento deste. E talvez ela mesma não tivesse calculado a mentira e nem sequer havia mentido conscientemente. Uma espécie de lógica sentimental, talvez ainda mais elementar, uma espécie de reflexo nervoso, que a impelia, para contentar sua vida e preservar sua felicidade, a semear a discórdia no pequeno clã, fazia-lhe subir impulsivamente aos lábios, sem que ela tivesse tempo de lhes verificar a verdade, essas asserções diabolicamente úteis, senão rigorosamente exatas.

            - Se ele tivesse falado nisso apenas para nós dois - continuou a Patroa-, não teria importância; sabemos qual o desconto que se deve dar a tudo o que ele nos diz, e depois, não há profissões ridículas, você tem o seu valor pessoal, você é o que você vale; mas que ele tenha feito a Sra. de Portefin dar risada (a Sra. Verdurin citou-a expressamente, pois sabia que Charlie gostava da Sra. Portefin), isso é o que nos entristece. Meu marido me dizia, ao ouvi-lo: "Eu preferia ter levado uma bofetada." Pois Gustave gosta tanto de você como eu, sabe? (Sabe-se desse modo que o Sr. Verdurin se chamava Gustave.)" No fundo, é um sensível.

            - Mas eu nunca te disse que gostava dele - murmurou o Sr. Verdurin fingindo uma brusquidão amistosa. - Charlus é quem gosta.

            - Ah, não; agora é que percebo a diferença, estava sendo traído por um miserável, ao passo que o senhor é bom - exclamou Charlie com sinceridade.

            - Não, não - murmurou a Sra. Verdurin para manter sua vitória (pois sentia que as quartas-feiras estavam garantidas) dela abusar-, miserável é demais; ele pratica o mal, muito até, inconscientemente. Você sabe, essa história de Legião de Honra não durou muito. E me seria desagradável repetir-lhe tudo o que afirmou sobre sua família - disse a Sra. Verdurin, que ficaria bastante embaraçada caso tivesse de fazê-lo.

            - Oh! Mesmo que durasse apenas um instante, prova a traição dele! - exclamou Morel.

            Foi nesse momento que regressamos à sala.

            - Ah! - exclamou o Sr. Charlus ao ver que Morel ali se achava; e caminhando para o músico com aquela satisfação dos homens que organizaram cuidadosamente toda a sua recepção noturna com vistas a um encontro com uma mulher e que, ébrios de paixão, suspeitam que eles próprios andaram armando a citada onde os asseclas vão agarrá-los e espancá-los diante de todos: - Até que enfim, e não é tempo; então, está contente, jovem celebridade e dentro em pouco jovem cavaleiro da Legião de Honra? Pois em breve poderá mostrar sua condecoração - disse o Sr. de Charlus com ar afetuoso e triunfal, mas ratificando com aquelas mesmas palavras de condecoração as mentiras da Sra. Verdurin, que assim se afigurara à Morel como uma verdade indiscutível.

            - Deixe-me, proíbo-o de se aproximar mim! - gritou Morel ao barão. - Não deve ser a primeira vez que procede desse modo, não sou o primeiro a quem tentou perverter! -

            Meu único alívio era pensar que veria Morel e os Verdurin reduzidos a pó pelo Sr. de Charlus. Por mil vezes menos do que isso eu havia incorrido em suas cóleras de louco, ninguém estava salvo delas, um rei não o teria intimidado. Ora, deu-se esta coisa extraordinária. O Sr. de Charlus mudo, estupefato, avaliando a sua desgraça sem compreender-lhe o motivo, nem achando uma palavra, erguendo os olhos sucessivamente para todas as pessoas presentes, com ar interrogador, indignado, suplicante, e queria perguntar-lhes ao menos o que se passara do que o que deveria responder. Tal o que o tornasse mudo fosse vendo que o casal Verdurin desviava os olhos e ninguém lhe acudia ao sofrimento presente e sobretudo o terror dos sofrimentos vindouros; ou então, porque, não tendo previamente pela imaginação esquentado a cabeça e forjado uma cólera, e nem tendo uma raiva pronta nas mãos (pois, sensitivo, nervoso, histérico, era um verdadeiro impulsivo, mas um falso bravo, e até, como eu sempre o acreditara, e o que o fazia simpático a meus olhos, um falso mau, e não possuía as reações normais do homem de honra ultrajado), fora surpreendido e agredido bruscamente no momento em que se achava inerme; ou ainda porque, num ambiente que não era o seu, sentia-se menos à vontade e menos corajoso do que no Faubourg. O fato é que neste salão, por ele desdenhado, esse grão-senhor (a que não era mais essencialmente inerente a superioridade sobre os plebeus do que a de seus ancestrais angustiados diante do Tribunal revolucionário) não soube, numa paralisia de todos os membros e da língua, senão lançar para todos os lados olhares de pavor, indignados pela violência que praticavam contra ele, tão suplicantes quanto indagadores. No entanto, o Sr. de Charlus possuía todos os recursos não só da eloqüência mas da audácia, quando, tomado de uma raiva há muito fervilhante contra alguém, fazia-o calar-se de desespero com as palavras mais atrozes diante das pessoas mundanas, escandalizadas, e que jamais haviam pensado que se pudesse ir tão longe. Nesses casos, o Sr. de Charlus se inflamava, agitava-se em verdadeiros ataques de nervos, que faziam tremer todo o mundo. Mas é que em tais casos o barão tinha a iniciativa, atacava, dizia o que queria (como Bloch sabia gracejar dos judeus, mas enrubescia quando lhes pronunciavam os nomes diante dele). Essas pessoas a quem odiava, odiava-as por julgar-se desprezado por elas. Fossem amáveis com ele e, em vez de avermelhar de cólera, ele as teria beijado. Numa circunstância tão cruelmente imprevista, esse grande argumentador não soube mais que balbuciar:

            - Que significa isto? O que é que há?-

            Nem sequer o ouviam. E a eterna pantomima do terror pânico mudou tão pouco, que este velho senhor, a quem acontecia uma aventura desagradável num salão parisiense, repetia, malgrado seu, as atitudes esquemáticas nas quais a escultura grega dos primeiros tempos estilizava o terror das ninfas perseguidas pelo deus Pã. O embaixador caído em desgraça, o chefe de repartição aposentado inesperadamente, o mundano que é tratado com frieza e o amante despedido examinam às vezes durante meses a fio o acontecimento que lhes destruiu as esperanças; viram-no, reviram-no como a um projétil atirado não se sabe de onde e nem por quem, um pouco feito um aerólito. Bem que gostariam de conhecer os elementos constitutivos daquele estranho engenho desabado sobre eles, saber que vontades malignas pode haver nisso. Os químicos ao menos dispõem da análise; os doentes que sofrem de um mal cuja origem lhes é desconhecida podem mandar vir um médico. E os casos criminais são mais ou menos solucionados pelo juiz de ins