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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A PROFECIA ROMANOV / Steve Berry
A PROFECIA ROMANOV / Steve Berry

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A PROFECIA ROMANOV

 

O advogado de Atlanta, Miles Lord, está entusiasmado por visitar Moscovo num momento de tão grande importância: depois da queda do comunismo e de uma sequência de governos fracos, o povo russo votou pelo regresso do czar, que será escolhido entre os familiares distantes de Nicolau II. Miles é contratado para levar a cabo uma investigação sobre um dos candidatos, mas esta acaba por ser a menor das suas preocupações quando homens armados numa praça da cidade quase o matam. Subitamente Miles vê-se a percorrer continentes, tendo como único guia uma declaração de Rasputine que insinua que o infame massacre da família Romanov, em 1918, não foi o último capítulo dessa história. As implicações da profecia são devastadoras - não só para o futuro do czar e da mãe Rússia, como também para o próprio Miles...

 

 

2 de Outubro de 1916

A imperatriz da Rússia levantou-se da sua vigília à cabeceira da cama quando a porta se abriu. Era a primeira vez, desde há algumas horas, que o seu olhar se desviava da pobre criança deitada.

O seu amigo entrou, apressado, no quarto e ela irrompeu em lágrimas.

— Até que enfim, padre Grigori. Graças a Deus. O Alexei precisa urgentemente de vós.

Rasputine precipitou-se para junto da cama e fez o sinal da Cruz. A camisa azul de seda e as calças de veludo tresandavam a bebida, o que atenuava o seu habitual mau cheiro, que as damas da corte descreviam como sendo igual ao de um bode. Porém, Alexandra nunca se importara com quaisquer odores, nem com os do padre Grigori.

Horas antes ordenara aos guardas que o procurassem, ciente das histórias que o reputavam como amigo dos ciganos que viviam nos arredores da capital. Muitas eram as vezes em que passava lá a noite, entre bebida e prostitutas. Um dos guardas do palácio chegara a relatar que o estimado padre se passeara por cima das mesas, com as calças caídas, exibindo o seu generoso órgão, que provocava delícias nas senhoras da corte imperial. Alexandra recusava-se a acreditar nessas histórias e, prontamente, ordenara que o guarda fosse transferido para um outro posto longe da capital.

— Ando à vossa procura desde as primeiras horas do dia — disse ela, tentando chamar-lhe a atenção.

Mas a preocupação de Rasputine centrava-se no rapaz. Ajoelhou-se junto à cama. Alexei estava desmaiado há quase uma hora. Caíra no jardim ao fim da tarde, enquanto brincava. Em duas horas as dores haviam recomeçado.

Alexandra observava enquanto Rasputine puxava o cobertor para trás e examinava a perna direita do rapaz, encolhida contra o peito, grotesca de tão inchada e negra. O sangue pulsava descontroladamente sob a pele e o hematoma tinha agora o tamanho de uma pequena bola. A face lúgubre do filho não exibia qualquer cor, com excepção das duas profundas olheiras.

Alexandra afagou gentilmente o cabelo castanho-claro da criança.

Graças a Deus os gritos haviam parado. Os espasmos chegavam de quinze em quinze minutos com uma regularidade mórbida. A febre alta já o deixara delirante, mas ele continuava num gemido constante de partir o coração.

Num momento de lucidez o rapaz implorara a Deus que tivesse piedade dele e pediu à mãe que o ajudasse. Depois perguntou-lhe:

— Se eu morrer, deixo de sentir dores? Alexandra não teve coragem de lhe responder.

O que fizera ela? Tudo aquilo era culpa sua. Era sobejamente conhecido que as mulheres transmitiam a hemofilia, não sendo no entanto afectadas. O seu tio, o irmão e os sobrinhos haviam todos morrido por causa disso. Mas ela nunca acreditara que fosse portadora da doença. As quatro filhas em nada a fizeram pensar. Só quando o ansiado filho varão nascera, doze anos antes, descobrira a dura realidade. Antes disso, nenhum médico a alertara sequer para essa possibilidade. E alguma vez ela perguntara? Ninguém parecia disposto a revelar fosse o que fosse e, a maioria das vezes, até as perguntas directas eram evitadas com respostas absurdas. Essa era a razão por que o padre Grigori era tão especial. Os starets, velhos padres profetas, nunca escondiam nada.

Rasputine fechou os olhos e aninhou-se junto ao rapaz. Migalhas de comida seca povoavam a sua áspera barba. A cruz de ouro que ela lhe oferecera pendia-lhe do pescoço e ele apertou-a com força. O quarto estava iluminado apenas por velas. Alexandra escutava-o murmurar algo, mas não entendia o que ele dizia e não se atrevia a perguntar. Embora fosse a imperatriz da Rússia, a czarina nunca afrontava o padre Grigori.

Apenas ele tinha o poder de estancar a hemorragia. Através dele, Deus protegia o seu precioso Alexei. O filho do czar. O único herdeiro do trono. O próximo czar da Rússia.

Contudo, isso apenas aconteceria se ele sobrevivesse.

O rapaz abriu os olhos.

— Não tenhas medo, Alexei, está tudo bem — sussurrou Rasputine. A sua voz era calma e melodiosa, mas determinada. Apalpou o corpo suado de Alexei da cabeça aos pés. — Afastei as dores terríveis que sentias. Nada mais te fará mal. Amanhã vais sentir-te bem e voltaremos a brincar juntos. — Rasputine continuou a acariciar-lhe o corpo. — Lembra-te do que te disse sobre a Sibéria. É uma terra de florestas e estepes imensas, tão vastas que ninguém sabe onde terminam. Tudo isso pertence ao teu pai e à tua mãe e, um dia, quando fores grande, forte e saudável, será teu. — Apertou a mão do rapaz na sua. — Um dia levar-te-ei à Sibéria para que vejas tudo isso. As pessoas de lá são muito diferentes das daqui. A majestade de tudo aquilo, Alexei, é algo que tens de ver. — A sua voz continuava calma.

Os olhos do rapaz avivaram-se. A vida retornara tão depressa quanto o havia deixado horas atrás. Alexei levantou a cabeça da almofada.

A czarina sobressaltou-se, receosa de que voltasse a magoar-se.

— Devagar, Alexei. Tens de ter cuidado.

— Deixa-me, mamã. Quero ouvir. — Voltou-se para Rasputine e pediu-lhe — Conte-me outra história, padre.

Rasputine sorriu e falou-lhe dos cavalos corcundas, do soldado sem pernas, do cavaleiro sem olhos e de uma czarina que, por ser infiel, fora transformada num pato branco. Falou-lhe das flores silvestres das vastas estepes siberianas, onde as plantas têm alma e falam umas com as outras, onde os animais também sabem falar e de como ele, em criança, aprendera a entender o que os cavalos sussurravam no estábulo.

— Vês, mamã, sempre te disse que os cavalos falavam.

As lágrimas banhavam o rosto da czarina ao presenciar aquele milagre.

— É verdade, tens razão.

— E vai contar-me tudo o que os ouviu dizer, não vai? — pediu Alexei.

Rasputine sorriu e acenou afirmativamente.

— Amanhã. Amanhã conto-te o resto. Agora deves descansar. — Afagou o rapaz até que este adormeceu. Levantou-se. — O pequeno czar vai sobreviver.

— Como podeis ter a certeza?

— Como podeis não ter?

O seu tom era de indignação e ela arrependeu-se imediatamente de ter duvidado. Muitas vezes pensara que a sua falta de fé era a causa do sofrimento de Alexei. Talvez Deus estivesse a testá-la através da hemofilia para avaliar a força da sua crença.

Rasputine contornou a cama, ajoelhou-se frente à sua cadeira e agarrou-lhe a mão.

— Mãezinha, não deveis esquecer Deus, nosso Senhor. Não duvideis do Seu poder.

Apenas os starets podiam dirigir-se a ela daquela maneira informal. Ela era a matuchka, mãezinha, e o seu marido, Nicolau II, o batiuchka, paizinho. Era assim que os camponeses os viam, como pais severos. Toda a gente em seu redor afirmava que Rasputine não passava também de um mero camponês. Talvez assim fosse, mas somente ele conseguia aliviar o sofrimento de Alexei. Aquele camponês oriundo da Sibéria com a sua barba emaranhada, corpo malcheiroso e cabelo sujo era um emissário de Deus.

— Deus recusa-se a escutar as minhas preces, padre. Abandonou-me.

Rasputine ergueu-se.

— Porque falais assim? — Agarrou-lhe a cara e virou-a na direcção da cama. — Olhai o pequeno czar. Sofre daquela maneira porque não acreditais.

Mais ninguém para além do seu marido se atreveria a tocar-lhe sem permissão. Ela não ofereceu resistência. Na verdade, ficou grata. Voltou-lhe a cabeça de novo para a frente e olhou-a fixamente nos olhos. Toda a expressão da sua personalidade parecia concentrada naquelas íris de um azul-claro. Era impossível escapar-lhes. Pareciam chamas fosforescentes que simultaneamente penetravam e acariciavam. Conseguiam ler-lhe a alma e ela nunca fora capaz de lhes resistir.

— Matuchka, não deveis falar de nosso Senhor dessa forma. O pequeno czar precisa que acrediteis. Precisa que coloqueis a vossa fé em Deus.

— A minha fé é em vós. - Ele libertou-a.

— Eu não sou nada. Apenas um mero instrumento através do qual Deus actua. — Apontou em direcção ao céu. — É Ele que faz tudo.

As lágrimas rolaram-lhe pela cara e ela afundou-se na cadeira, envergonhada. O seu cabelo estava despenteado e as feições, outrora belas, inchadas e engelhadas por anos de preocupação. Os olhos doíam-lhe de tanto chorar. Esperava que ninguém entrasse no quarto. Apenas com o starets podia falar abertamente como mãe e mulher. Irrompeu em lágrimas e enrolou os braços em torno das pernas dele, o rosto encostado às suas roupas que tresandavam a cavalos e a lama.

— Sois o único que o podeis ajudar — disse ela. Rasputine permaneceu imóvel. “Como uma árvore”, pensou

ela. As árvores conseguiam resistir aos mais árduos Invernos russos e depois florescer novamente em cada Primavera. Aquele homem santo, certamente enviado por Deus, era a sua árvore.

— Mãezinha, isso não resolve nada. Deus pede a vossa devoção, não as vossas lágrimas. Ele não se deixa impressionar por emoções.

Deus exige fé. O tipo de fé que nunca se deixa abalar pela dúvida.

Alexandra sentiu Rasputine estremecer. Soltou-o do abraço e levantou-se. O seu rosto estava pálido, e os olhos revirados. Um arrepio percorreu-lhe o corpo. As pernas fraquejaram e ele caiu no chão.

— O que se passa? — inquiriu ela. Não teve resposta. Agarrou-o pela camisa e abanou-o. — Falai comigo, starets.

Lentamente ele abriu os olhos.

— Vejo pilhas, montes de corpos, vários grão-duques e centenas de condes. O Neva ficará vermelho de tanto sangue.

— O que quereis dizer, padre?

— Uma visão, mãezinha. Voltou novamente. Entendeis que em breve morrerei numa terrível agonia?

O que queria ele dizer com aquilo?

Agarrou-lhe os braços e puxou-a para ele. O medo moldava-lhe a cara, mas ele não estava realmente a olhar para ela. Os seus olhos fixavam algo longínquo, para além dela.

— Morrerei antes do novo ano. Lembrai-vos, mãezinha, se eu for morto por assassinos comuns, o czar nada tem a recear. Permanecerá no trono e nada acontecerá aos seus filhos. Reinarão por centenas de anos. Mas se eu for assassinado por boiar-dos, mãezinha, as suas mãos ficarão sujas com o meu sangue durante vinte e cinco anos. Abandonarão a Rússia e os irmãos lutarão entre si, matando-se por ódio. Este país ficará sem nobres.

Alexandra sentia-se amedrontada.

— Padre, porque dizeis essas coisas?

Os seus olhos voltaram a concentrar-se nela.

— Se um dos parentes do czar for responsável pela minha morte, nenhum dos membros da vossa família viverá mais de dois anos. Serão todos mortos pelo povo russo. Preocupai-vos com a vossa salvação e dizei aos vossos parentes que paguei por eles com a minha própria vida.

— Padre, isso são disparates.

— É uma visão e não é a primeira vez que a tenho. Os dias serão longos com o sofrimento que se aproxima, mas eu não estarei vivo para o presenciar. A minha hora está próxima e, embora seja dolorosa, não a temo. — Rasputine começou novamente a tremer. — Oh, meu Deus. O mal será de tal forma poderoso que a Terra enfrentará a fome e a doença. A Mãe Rússia perecerá.

Ela começou de novo a abaná-lo.

— Padre, não deveis dizer essas coisas. O Alexei precisa de vós.

Uma sensação de calma apoderou-se dele.

— Nada deveis temer, mãezinha. Há uma outra visão, desta vez de salvação. É a primeira vez que a tenho. Uma profecia. Vejo-a claramente.

 

MOSCOVO, ACTUALIDADE

Terça-feira, 12 de Outubro 13.24

EM QUINZE segundos a vida de Miles Lord mudou para sempre.

Primeiro viu o carro. Uma carrinha Volvo azul-escura, uma cor tão intensa que parecia preta sob o sol brilhante do dia. Depois notou os pneus da frente a acelerar, serpenteando por entre o trânsito da movimentada Perspectiva Nikolskaia. Logo após, a janela de trás, reflectora como um espelho, abriu-se e a imagem distorcida dos edifícios circundantes foi substituída por um rectângulo negro atravessado pelo cano de uma arma.

Ouviram-se tiros.

Ele atirou-se para o chão. Em seu redor as pessoas gritavam. O passeio estava apinhado de gente que andava às compras, turistas e trabalhadores, todos precipitando-se para um lugar seguro à medida que as balas abriam um trilho na pedra gasta dos edifícios da época estalinista.

Lord rebolou e olhou para Artemi Beli, o seu companheiro de almoço, um simpático jovem russo, advogado do Ministério da Justiça, que conhecera dois dias antes. Haviam jantado juntos no dia anterior e tomado o pequeno-almoço naquela manhã, falando da nova Rússia e das grandes mudanças que se aproximavam, ambos maravilhados por fazerem parte da história. A sua boca abriu-se para gritar um aviso, mas, antes que conseguisse dizer fosse o que fosse, o peito de Beli rasgou-se, enchendo a janela mais próxima de sangue.

Os disparos automáticos eram acompanhados por um som repetido que lhe fazia lembrar velhos filmes de gângsteres. O vidro laminado cedeu, espalhando cacos por todo o passeio. O corpo de Beli caiu sobre ele. Um cheiro a cobre exalava das suas feridas. Lord empurrou o corpo do russo para o lado, evitando que a mancha de sangue lhe sujasse o fato ou lhe pingasse para as mãos. Pouco ou nada sabia de Beli. E se fosse seropositivo? Os travões do Volvo chiaram e o carro parou.

Olhou para a esquerda.

As portas do carro escancararam-se e dois homens saíram, ambos munidos com armas automáticas. Envergavam os uniformes azuis e cinzentos com lapelas vermelhas da militsia, a polícia. No entanto, nenhum deles ostentava a regulamentar boina cinzenta com rebordo vermelho. O tipo que saíra do banco da frente tinha a testa inclinada, os cabelos espessos e o nariz bolboso típicos de um homem de Cro-Magnon. O que saíra do banco traseiro era baixo e forte, com o rosto marcado pelas bexigas e o cabelo escuro penteado para trás. O seu olho direito chamou a atenção de Lord. O espaço entre a pupila e a sobrancelha era demasiado grande, criando uma visível inclinação — como se um olho estivesse fechado e o outro aberto — , e dando expressão a um rosto que, de outra forma, seria completamente desprovido de emoções.

O Vesgo disse para o Cro-Magnon em russo:

— O diabo do chornie sobreviveu.

Teria ele ouvido bem?

Chornie.

O equivalente russo para preto.

O seu era o único rosto negro que vira desde que chegara a Moscovo, há oito semanas, por isso sabia que estava em apuros. Lembrava-se de algo que lera uns meses antes num guia de viagens russo. As pessoas de compleição escura podem suscitar alguma curiosidade. Que belo eufemismo.

O Cro-Magnon concordou acenando com a cabeça. Os dois homens estavam a trinta metros dele e Lord não ia esperar para ver o que queriam. Levantou-se de um salto e desatou a correr na direcção oposta. Com um movimento rápido de cabeça viu os dois homens agacharem-se calmamente e prepararem-se para disparar. Mais à frente havia um cruzamento e ele percorreu a distância que faltava aos saltos, à medida que os tiros soavam atrás de si.

As balas metralhavam a pedra, soltando pequenas nuvens de pó para o ar frio.

As pessoas atiravam-se para o chão, fugindo aos tiros.

Saltou do passeio e deparou-se com um tolkuchki, um mercado de rua, alinhado à beira do passeio.

— Atiradores. Fujam! — gritou em russo.

Uma babuchka que vendia bonecas entendeu de imediato e correu para a entrada do edifício mais perto, tapando a cara enrugada com um lenço. Meia dúzia de crianças que apregoavam jornais e Pepsi precipitaram-se para o interior de uma mercearia. Os vendedores abandonaram os seus quiosques e dispersaram como baratas. As aparições da máfia não eram novidade. Lord sabia que uma centena ou mais de gangues operava em Moscovo. Pessoas baleadas, esfaqueadas ou desfeitas em explosões tornaram-se uma coisa tão comum quanto os engarrafamentos. Fazia parte do risco de vender nas ruas.

Correu como uma flecha em direcção à apinhada perspectiva; o trânsito avançava devagar e começava aos poucos a parar por causa da confusão. Ouviu-se o apitar de uma buzina e um táxi travou bruscamente a poucos centímetros dele. As suas mãos ensanguentadas bateram com força no capo. O condutor continuou a pressionar a buzina. Ele olhou para trás e viu os dois homens armados virar a esquina. A multidão afastou-se, o que lhes permitiu disparar à vontade. Lord escondeu-se atrás do táxi e as balas desfizeram o lado do condutor.

A buzina parou de tocar.

Levantou-se e olhou para a face ensanguentada do motorista, esmagada contra a janela lateral do passageiro, um olho escancarado, o vidro tingido de vermelho. Os homens estavam agora a cinquenta metros de distância, do outro lado da movimentada perspectiva. Observou as lojas em ambos os lados da rua e registou mentalmente uma loja de roupas de homem, uma butique com roupas de criança e várias galerias de antiguidades. Procurava um lugar onde pudesse desaparecer e escolheu o McDonald’s. Por alguma razão os arcos dourados inspiravam-lhe segurança.

Correu pelo passeio e empurrou as portas de vidro. Várias centenas de pessoas ocupavam as mesas. Outras tantas esperavam para serem atendidas. Recordou-se que em tempos aquele fora o mais movimentado restaurante do mundo.

Respirava apressadamente e em cada inspiração sentia o cheiro dos hambúrgueres, das batatas fritas e dos cigarros. As suas mãos e roupas continuavam sujas de sangue e várias mulheres gritaram-lhe que estava ferido. O pânico tomou conta dos clientes mais novos e todos se precipitaram em direcção à porta. Ele avançou aos empurrões embrenhando-se cada vez mais na multidão e rapidamente percebeu que isso seria um erro. Abriu caminho pela sala em direcção às escadas que levavam às casas de banho. Escapou-se à multidão em pânico e desceu os degraus saltando de três em três, a sua mão direita ensanguentada deslizando pelo corrimão de ferro.

— Para trás. Afastem-se. Para trás — ordenavam, em russo, vozes que vinham do andar de cima.

Ouviram-se disparos.

Depois mais gritos e passos apressados.

Lord chegou ao fundo das escadas e deparou com três portas fechadas. Uma pertencia à casa de banho das senhoras e a outra à dos homens. Abriu a terceira. À sua frente estendia-se uma ampla arrecadação com as paredes cobertas de azulejos brancos, tal como o resto do restaurante. Num dos cantos viu três pessoas em volta de uma mesa a fumarem. Reparou nas suas T-shirts estampadas com a cara de Lenine sobreposta aos arcos dourados, símbolo do McDonald’s. Os seus olhares encontraram-se.

— Homens armados. Escondam-se! — disse Lord em russo.

Sem proferirem qualquer palavra, levantaram-se da mesa e correram em direcção ao extremo mais afastado da iluminada arrecadação. O homem que seguia mais à frente escancarou uma porta e os três desapareceram por ela. Lord parou apenas para fechar e trancar pelo lado de dentro a porta pela qual entrara e depois seguiu-os.

Saiu a correr para o frio da tarde e parou num beco que ficava por trás do edifício de vários andares que albergava o restaurante. Quase esperava encontrar ali ciganos ou veteranos de guerra. Cada buraco e vão de escada de Moscovo parecia dar abrigo a uma ou a outra classe desfavorecida.

Encontrava-se rodeado por edifícios sombrios feitos de pedra talhada grosseiramente, já escurecida e marcada por décadas de poluição automóvel. Várias vezes se interrogara sobre os efeitos que aqueles fumos teriam nos pulmões. Tentou orientar-se. Estava a cerca de cem metros a norte da Praça Vermelha. Onde ficaria a estação de metro mais próxima? O metro podia ser o seu melhor meio de fuga, uma vez que existiam sempre polícias nas estações. Mas eram polícias que o perseguiam. Ou não seriam? Já lera também que a máfia por vezes usava os uniformes da polícia. Habitualmente, as ruas estavam repletas de agentes, demasiados até, exibindo cassetetes e armas automáticas. No entanto, naquele dia não vira nenhum.

Um barulho surdo ecoou do interior do edifício.

Lord olhou em todas as direcções.

A porta na extremidade da arrecadação, que dava para as casas de banho, estava a ser arrombada. Assim que desatou a correr em direcção à rua principal ouviram-se tiros vindos de dentro do edifício.

Quando chegou ao passeio, voltou à direita, correndo tão rápido quanto o fato lhe permitia. Levou as mãos ao colarinho, desabotoou o primeiro botão e alargou o nó da gravata. Ao menos agora já conseguia respirar. Não demoraria mais que uns segundos até que os seus perseguidores dobrassem a esquina.

Virou rapidamente para a direita e saltou a vedação de arame que circundava um dos incontáveis parques de estacionamento existentes no centro de Moscovo.

Abrandou a corrida e observou o espaço circundante. O parque estava cheio de Ladas, Chaikas, Volgas e alguns Fords. Viu também uns quantos automóveis alemães. Na sua maioria, eram carros sujos, com ferrugem e amolgadelas. Olhou para trás. Os dois homens já haviam virado a esquina que ficava a cem metros atrás e corriam agora na sua direcção.

Lord apressou-se rumo ao interior do parque de estacionamento. As balas faziam ricochete nos automóveis estacionados à sua direita. Procurou refúgio atrás de um Mitsubishi escuro e espreitou por detrás do pára-choques traseiro. Os dois homens encontravam-se do outro lado da vedação. O Cro-Magnon estava de pé, com a arma apontada, e o Vesgo corria ainda em direcção a ele.

O motor de um dos carros começou de súbito a trabalhar. Do tubo de escape saiu um fumo negro e as luzes de travão acenderam-se.

Era um Lada creme que se encontrava estacionado no lado oposto à faixa do centro. O automóvel recuou a toda a velocidade e Lord pressentiu medo nos olhos do condutor. Ouvira com toda a certeza os tiros e decidira desaparecer o mais depressa possível.

O Vesgo saltou a vedação.

Lord abandonou a correr o seu esconderijo e saltou para cima do capo do Lada, agarrando-se firmemente aos limpa-pára-brisas com as mãos. Sorte a sua o carro ter limpa-pára-brisas. Sabia que a maioria dos condutores os guardava no porta-luvas para que não fossem roubados. O condutor do Lada olhou para ele, assustado, mas continuou a acelerar em direcção à rua movimentada. Pelo vidro traseiro, Lord viu o Vesgo, a cerca de cinquenta metros atrás, tomar posição para disparar e o Cro-Magnon a começar a subir a vedação. Pensou no que acontecera ao condutor do táxi e decidiu que não era justo envolver aquele homem na confusão. Assim que o Lada se desviou para a avenida, rebolou do capo para o passeio.

As balas aterraram no segundo seguinte.

O Lada guinou para a esquerda e acelerou.

Lord continuou a rebolar até chegar à estrada, esperando que a ligeira depressão do passeio fosse suficiente para bloquear o ângulo de fogo do Vesgo.

A terra e o alcatrão abriam buracos quando eram atingidos pelas balas.

A fila de pessoas que esperava pelo autocarro dispersou, assustada.

Lord olhou para a esquerda. O autocarro não distava mais de quinze metros e avançava na sua direcção. Os travões foram accionados e os pneus chiaram. O cheiro a monóxido de carbono era quase sufocante. Rebolou para a estrada à medida que o autocarro travava. O veículo encontrava-se agora entre ele e os atiradores. Felizmente, não existiam carros na faixa mais à direita.

Levantou-se e atravessou a correr a avenida de seis faixas. O tráfego tinha apenas um sentido, avançando para norte. Passou-as em ziguezague, fazendo questão de se manter perpendicular ao autocarro. A meio, foi obrigado a parar e esperar que uma fila de automóveis passasse. Não tardaria muito que os atiradores contornassem o autocarro. Aproveitou uma paragem no trânsito para atravessar rapidamente as duas últimas faixas, saltando até ao passeio.

Mais à frente ficava o estaleiro de uma obra. Vigas em bruto erguiam-se à altura de quatro andares em direcção ao céu de uma tarde que rapidamente se enchia de nuvens. Ainda não vira um único polícia, para além dos dois que o perseguiam. Misturado com a azáfama do trânsito, começava a escutar-se o barulho dos guindastes e das misturadoras de cimento. Ao contrário do que acontecia na sua terra, em Atlanta, ali não existiam quaisquer barreiras a delimitar o local da obra.

Avançou pelo estaleiro e olhou para trás. Os dois atiradores tentavam agora atravessar a movimentada avenida, evitando os carros que buzinavam à sua passagem. Os trabalhadores circulavam pela obra, prestando-lhe pouca ou nenhuma atenção. Lord interrogou-se sobre quantos negros vestidos com fatos ensanguentados estariam eles habituados a ver atravessar o local todos os dias. Mas fazia tudo parte da nova Moscovo e o caminho mais seguro seria evitar confrontos a todo o custo.

Atrás de si, os dois atiradores chegavam agora ao passeio. A distância entre ele e os seus perseguidores não excedia os quarenta e cinco metros.

Mais à frente, uma misturadora de cimento vertia argamassa para um tabuleiro de ferro enquanto um trabalhador de capacete vigiava a operação. O tabuleiro estava colocado sobre uma larga plataforma de madeira acorrentada a um cabo que se estendia por quatro andares até um guindaste situado no telhado. O trabalhador afastou-se e a plataforma começou a elevar-se.

Lord decidiu que subir era tão bom caminho como qualquer outro e correu para a plataforma, dando um salto e agarrando-se a uma das extremidades. O cimento seco colado à superfície da madeira fazia com que fosse difícil manter-se ali agarrado, mas a visão do Vesgo e do seu amigo ajudavam a que os seus dedos não fraquejassem.

A plataforma continuou o seu caminho ascendente e ele balançou-se para cima.

O movimento provocou um desequilíbrio e as correntes chiaram com o peso acrescido; porém, ele conseguiu içar-se e encostar o corpo ao tabuleiro. O peso e o movimento de balanço inclinaram-no na sua direcção e alguma da argamassa entornou-se sobre ele.

Lord olhou para o lado.

Os dois atiradores haviam-no descoberto. Estava agora a quinze metros de altura e continuava a subir. Lá em baixo, o Vesgo e o Cro-Magnon faziam mira na sua direcção. Lord sentiu a argamassa seca sob o seu corpo e olhou para o tabuleiro de ferro.

Não tinha escolha.

Rebolou velozmente para dentro do contentor, espalhando argamassa húmida por todos os lados. A mistura fria envolveu-o dos pés à cabeça, fazendo arrepiar o seu já trémulo corpo.

Os tiros recomeçaram.

As balas perfuravam a plataforma de madeira e alojavam-se no tabuleiro. Ele encolheu-se dentro do cimento e escutou ô barulho das balas a embaterem no ferro.

De súbito, ouviu-se a sirene da polícia. O som foi ficando cada vez mais perto e os tiros pararam. '' Lord espreitou para a avenida e avistou três carros da polícia vindos de sul a toda a velocidade e dirigindo-se para ali. Pelos vistos, os atiradores também haviam escutado as sirenes, retirando-se apressadamente. Foi então que viu o Volvo azul-escuro que desencadeara toda aquela confusão aparecer do lado norte da avenida. Os dois atiradores recuaram em direcção ao automóvel, não sem antes dispararem uns quantos tiros de despedida.

Lord observou-os enquanto entravam no carro e o Volvo se afastava.

Só então se ergueu sobre os joelhos e soltou um suspiro de alívio.

 

Saiu do carro da polícia. Encontrava-se de novo na Perspectiva Nikolskaia, onde o tiroteio começara. No estaleiro da obra haviam-no descido e ajudado a limpar a argamassa e o sangue. O casaco do fato desaparecera, assim como a gravata. A sua camisa branca e as calças escuras estavam encharcadas e manchadas de cinzento e com o fresco da tarde mais pareciam compressas frias. Um dos trabalhadores da obra emprestara-lhe um cobertor de lã bafiento, que parecia cheirar a cavalo, para ele se embrulhar. Sentia-se calmo, o que era estranho, tendo em conta o que se passara.

A perspectiva estava apinhada de carros da polícia, ambulâncias, luzes intermitentes e uma multidão de agentes fardados. O trânsito não se mexia. A polícia fechara a rua até ao McDonald's.

Lord foi levado até junto de um homem baixo e encorpado, de pescoço curto e largo e com um par de suíças ruivas, cortadas rentes, que lhe enfeitavam as bochechas. A testa exibia rugas bem marcadas e o nariz era torto, como se devido a uma fractura que nunca tivesse sarado. A tez era de um tom pálido amarelado tão comum aos russos e vestia um fato cinzento largo e uma camisa escura sob um colete negro. Os sapatos eram de pala e estavam sujos.

— Sou o inspector Orleg. Militsia. — Estendeu a mão. Lord reparou nas manchas da pele que lhe cobriam o pulso e o antebraço. — Estava aqui quando começaram os tiros?

O inspector falava um inglês com sotaque e Lord ficou sem saber se deveria ou não responder em russo. Iria certamente facilitar a comunicação entre ambos. A maioria dos russos partia do princípio de que os Americanos eram demasiado arrogantes ou preguiçosos para aprenderem a sua língua, principalmente os americanos negros que, descobrira ele, eram vistos como uma espécie de excentricidade circense. Visitara Moscovo mais de uma dúzia de vezes nos últimos dez anos e aprendera a guardar para si mesmo o seu talento linguístico, ganhando com isso a oportunidade de escutar os comentários entre advogados e homens de negócios que se julgavam protegidos pela barreira linguística. Naquele exacto momento, Lord desconfiava de toda a gente. As suas anteriores relações com a polícia limitavam-se a algumas disputas sobre estacionamento e a um incidente em que fora obrigado a pagar cinquenta rublos para evitar uma multa de trânsito fictícia. “O que espera de alguém que ganha cem rublos por mês?”, perguntara-lhe o agente, enquanto guardava os seus cinquenta dólares.

— Os atiradores eram agentes da polícia — respondeu ele em inglês.

O russo abanou a cabeça em sinal de desaprovação.

— Vestem-se como polícias. A militsia não dispara contra pessoas.

— Estes disparavam — confirmou Lord, olhando para o corpo ensanguentado de Artemi Beli.

O jovem russo estava deitado no passeio, de barriga para cima e olhos abertos. Fios de sangue vermelho-escuro escorriam dos buracos no seu peito.

— Quantas pessoas foram atingidas?

— Piát.

— Cinco? Quantas morreram?

— Chetire.

— Quatro pessoas mortas a tiro em plena luz do dia numa via pública e, no entanto, o senhor não me parece muito preocupado.

Orleg encolheu os ombros.

— Não há muito a fazer. A cobertura é difícil de controlar.

“Cobertura” era a forma comum de designar a máfia que povoava Moscovo e grande parte das regiões ocidentais da Rússia. Desconhecia a origem do termo. Talvez estivesse ligado às razões que levavam as pessoas a pagar-lhes — para obterem protecção — , ou talvez fosse uma metáfora para o estranho pináculo a que chegara a vida na Rússia. Os automóveis mais dispendiosos, as maiores datchas e as melhores roupas pertenciam aos membros dos gangues que não faziam o mínimo esforço para esconder a sua riqueza. Muito pelo contrário, a máfia fazia questão de exibir a sua prosperidade na frente do governo e da população. Formavam uma classe social distinta, que emergira com uma rapidez assustadora. Os seus contactos dentro da comunidade empresarial consideravam os pagamentos em troca de protecção apenas uma outra faceta das despesas gerais das empresas, tão necessária à sua sobrevivência quanto uma boa força de trabalho e um inventário organizado. Vários dos seus conhecidos russos haviam-lhe dito que quando os senhores dos fatos Armani apareciam à porta dizendo, Bog zaveshchaet delifsia, “Deus ensinou-nos a partilhar”, então deveriam ser levados muito a sério.

— O que me interessa — disse Orleg — é saber por que razão estes homens o perseguiam.

— Porque não o tapa? — Lord apontou para Beli.

— Ele não se importa.

— Mas importo-me eu. Era meu conhecido.

— Como?

Procurou nos bolsos e encontrou a carteira. O cartão de identificação que lhe fora dado semanas antes sobrevivera ao banho de cimento. Estendeu-o a Orleg.

— Faz parte da Comissão do Czar?

Na pergunta parecia estar implícita a tentativa de saber o que faria um americano envolvido num assunto tão russo.

Lord começava a gostar cada vez menos do inspector. Ridicularizá-lo parecia a melhor forma de lhe mostrar o seu desprezo.

— Sim, faço parte da Comissão do Czar. — Quais as suas funções? “

— Isso é confidencial.

— Pode ser importante para o caso.

O sarcasmo parecia estar a passar despercebido.

— Vá queixar-se à comissão.

— E este? — perguntou Orleg, apontando para o corpo. Lord contou-lhe que Artemi Beli era um dos advogados do Ministério da Justiça destacados para a comissão cuja tarefa era facilitar o acesso aos arquivos soviéticos. A nível pessoal, sabia apenas que Beli era solteiro, vivia num apartamento a norte de Moscovo e teria adorado visitar Atlanta um dia.

Aproximou-se mais e observou o corpo.

Já há algum tempo que não via um cadáver mutilado. Mas testemunhara bem pior durante os seis meses de trabalho de reserva no Afeganistão, que depois se haviam transformado num ano. Fora para lá na qualidade de advogado, não como soldado, devido às suas capacidades linguísticas. Era uma espécie de adido político, ligado ao contingente do Departamento de Estado, presente no local para ajudar na transição governamental após a expulsão dos Talibãs. A empresa de advocacia para a qual trabalhava na altura achou importante ter alguém dos seus quadros envolvido no processo. Seria bom para a imagem da empresa. Bom para o seu futuro. Mas Lord não se contentou apenas com um trabalho burocrático e acabou por ajudar a enterrar os mortos. Os Afegãos haviam sofrido pesadas baixas. Mais do que aquelas que os meios de comunicação relatavam. Conseguia ainda sentir o sol abrasador e o vento impiedoso que haviam acelerado o processo de decomposição e transformado a tarefa macabra em algo ainda mais mórbido e difícil. A morte era uma coisa muito desagradável, onde quer que acontecesse.

— Pontas explosivas — explicou Orleg, que estava atrás de si. — Entram balas pequenas, e saem grandes pedaços. Apanham muita coisa pelo caminho.

Não existia qualquer compaixão no tom de voz do inspector.

Lord voltou-se e observou o seu olhar inexpressivo, os olhos remelosos. Orleg cheirava ligeiramente a álcool e a pastilhas. Não apreciara nada o comentário superficial sobre tapar os corpos e, por isso, retirou o cobertor dos seus ombros, baixou-se e cobriu Beli.

— Nós tapamos os nossos mortos — disse a Orleg.

— Há demasiados aqui para me dar a esse trabalho. Lord encarou de frente o rosto do cinismo. O inspector já

vira certamente muita coisa. Assistira à gradual perda de controlo do governo. Trabalhara, tal como a maioria dos russos, apenas com a promessa de vir a receber o ordenado ou em troca de géneros, ou por dólares americanos do mercado negro. Os mais de noventa anos de comunismo haviam deixado a sua marca no país. Os Russos chamavam-lhe bespridel. Anarquia. Indelével como uma tatuagem, mas corroía um país até à ruína.

— O Ministério da Justiça é um alvo frequente — explicou Orleg. — Envolvem-se em coisas e não se preocupam com a segurança. Já foram avisados. — Apontou para o corpo. — Não é o primeiro advogado nem o último a morrer.

Lord nada respondeu.

— Talvez o nosso novo czar resolva tudo? — observou Orleg. Ergueu-se e olhou para o inspector, os seus dedos dos pés

paralelos, os corpos muito próximos.

— Qualquer coisa é melhor que isto.

Orleg mirou-o com um olhar fixo e Lord ficou sem saber se o inspector concordava com ele ou não.

— Não respondeu. Porque o perseguiam?

Recordou-se do que o Vesgo dissera ao sair do Volvo. “O diabo do chornie sobreviveu.” Deveria mencioná-lo a Orleg? Havia algo no inspector que não lhe inspirava confiança. Mas talvez a sua paranóia fosse apenas resultado do que acontecera. O que ele precisava era de regressar ao hotel e falar sobre tudo aquilo com Taylor Hayes.

— Não faço ideia das razões, para além do facto de lhes ter visto bem a cara. Escute, inspector, já viu o meu cartão de identificação e já sabe onde me pode encontrar. Estou encharcado até aos ossos, cheio de frio e o que resta das minhas roupas está ensopado em sangue. Gostaria de mudar de roupa. Será que um dos seus homens poderia levar-me até ao Volkhov?

O inspector não respondeu logo, ficando a mirá-lo com um semblante de desprezo que Lord considerou intencional.

Orleg devolveu-lhe o cartão.

— Com certeza, Mister Advogado da Comissão. Vou pedir que o levem.

 

LORD chegou à entrada principal do Volkhov num carro da polícia. O porteiro deixou-o entrar sem proferir sequer uma palavra. Embora o seu cartão do hotel estivesse irreconhecível, não havia necessidade de o mostrar. Ele era o único negro ali instalado, o que o tornava imediatamente reconhecível, apesar de ter sido olhado de lado devido ao estado deplorável das suas roupas.

O Volkhov era um hotel em estilo pré-revolucionário construído no início do século xx. Ficava situado no centro de Moscovo, a noroeste do Kremlin e da Praça Vermelha, com o Teatro Bolshoi na diagonal, do outro lado de uma movimentada praça. Durante os tempos da União Soviética, o enorme Museu Lenine e o monumento a Karl Marx faziam parte da vista dos quartos com janela para a rua. Já nenhum dos dois existia. Graças a uma coligação entre investidores americanos e europeus, o hotel sofrera obras de restauro e recuperara a sua antiga glória. A opulência da entrada e das salas, com os seus murais e candelabros de cristal, conferiam-lhe um ambiente imperial de pompa e privilégio. No entanto, os quadros pendurados nas paredes, todos de artistas russos, reflectiam o clima que se vivia, uma vez que todos eles estavam marcados para venda. A inclusão de um moderno centro de reuniões, de um health club e de uma piscina interior projectavam ainda mais o velho edifício no modernismo do novo milénio.

Lord dirigiu-se de imediato ao balcão da recepção e perguntou se Taylor Hayes se encontrava no quarto. O empregado informou-o de que Hayes estava no centro de reuniões. Hesitou se deveria ou não trocar de roupa primeiro, mas concluiu que o assunto não podia esperar. Atravessou o salão de entrada e avistou-o através de uma parede de vidro, sentado frente a um computador.

Hayes era um dos quatro principais sócios-gerentes da Prid-gen & Woodworth. Empregava cerca de duzentos advogados, o que a tornava uma das maiores firmas do Sudoeste dos Estados Unidos. Algumas das maiores seguradoras, bancos e empresas mundiais pagavam avenças mensais. Os seus escritórios na Baixa de Atlanta ocupavam dois andares de um elegante arranha-céus.

Hayes possuía um mestrado em Gestão, uma licenciatura em Direito e a reputação de ser um profissional competente no que dizia respeito à economia global e ao direito internacional. Fora abençoado com um físico atlético e a sua maturidade reflectia-se no cabelo castanho com madeixas brancas. Era presença assídua na CNN como comentador e projectava uma imagem televisiva forte, os seus olhos azul-acinzentados transmitindo um tipo de personalidade que Lord considerava uma combinação de homem do espectáculo, fanfarrão e académico.

O seu mentor raramente aparecia em tribunal e ainda com menos frequência participava nos encontros semanais com os quarenta e oito advogados, Lord incluído, que geriam a Secção Internacional. Por diversas vezes trabalhara directamente com Hayes, acompanhando-o à Europa e ao Canadá, fazendo o trabalho de pesquisa e tomando conta das tarefas que lhe eram delegadas. Apenas nas últimas semanas haviam passado mais tempo juntos, tendo o seu relacionamento evoluído do tratamento mais formal, Mr. Hayes, para Taylor.

Hayes passava a vida na estrada, viajando pelo menos três semanas por mês, para resolver os assuntos da vasta carteira de clientes internacionais que não se importavam de pagar quatrocentos e cinquenta dólares por hora para que o seu advogado fizesse visitas ao domicílio. Doze anos antes, quando Lord fora admitido na firma, Hayes demonstrara um interesse especial por ele e soubera mais tarde que este havia especificamente pedido que Lord fosse destacado para a Secção Internacional. Sem dúvida que a sua licenciatura com distinção na Universidade de Direito da Virgínia, o mestrado em História da Europa de Leste na Universidade Emory e as suas capacidades linguísticas o qualificavam. Hayes começou a enviá-lo para a Europa, sobretudo para os países do bloco de leste. A Pridgen & Woodworth representava um vasto número de clientes sediados na República Checa, na Polónia, na Hungria, nos estados do Báltico e na Rússia. Clientes satisfeitos representavam uma subida gradual dentro da empresa até associado sénior e, em breve, esperava ele, sócio minoritário. Talvez um dia chegasse a chefiar a Secção Internacional.

Isso, claro, se conseguisse manter-se vivo.

Escancarou a porta de vidro que dava acesso ao centro de reuniões e entrou. Hayes levantou os olhos por trás do computador.

— O que diabo lhe aconteceu?

— É melhor não falarmos aqui.

Havia cerca de uma dúzia de homens na sala. Hayes entendeu de imediato e, sem dizer uma palavra, afastaram-se os dois em direcção a uma das muitas salas situadas no piso de entrada do hotel, esta decorada com um impressionante tecto em vitral e uma fonte em mármore cor-de-rosa. Ao longo das últimas semanas as suas mesas haviam-se transformado num local de encontro oficial.

Esgueiraram-se para uma mesa.

Lord chamou a atenção de um empregado e apontou para a garganta, sinal de que desejava vodca. Na verdade, precisava de uma vodca.

— Conte-me tudo, Miles — pediu Hayes. Descreveu-lhe o sucedido sem omitir nada. Incluindo o comentário que escutara a um dos atiradores e a suspeita do inspector Orleg de que os tiros se destinavam a Beli e ao Ministério da Justiça.

— Taylor — acrescentou — , eu acho que era a mim que aqueles tipos queriam.

Hayes abanou a cabeça.

— Não pode ter tanta certeza. O mais certo é eles terem decidido matá-lo porque lhes viu a cara. Por um mero acaso era o único homem negro ali.

— Havia centenas de pessoas naquela rua. Porquê eu?

— Porque estava com o Beli. O inspector da polícia está certo. O visado era o russo e deviam ter estado o dia todo a vigiar, à espera do momento certo. Pelo que me contou, acho que foi isso.

— Não podemos ter a certeza.

— Miles, conhecia o Beli há alguns dias apenas. Não sabe nada sobre ele. Neste país morrem pessoas todos os dias por várias razões muito pouco naturais.

Lord observou as manchas negras nas suas roupas e pensou novamente na sida. O empregado chegou com a sua bebida. Hayes estendeu-lhe uns quantos rublos. Lord inspirou e deu um gole prolongado, deixando que o álcool abrasador lhe acalmasse os nervos. Sempre gostara de vodca russa. Era verdadeiramente a melhor do mundo.

— Só espero que ele não fosse seropositivo. Ainda tenho o sangue dele colado a mim — disse Lord, colocando o copo sobre a mesa. — Acha que devo sair do país?

— É isso que quer?

— Nem pensar. Em breve irá aqui fazer-se história. Não quero acobardar-me e fugir. Isto é algo que um dia poderei contar aos meus netos. Eu estava lá quando o czar de toda a Rússia foi reposto no seu trono.

— Então, não vá.

Mais um trago de vodca.

— Também quero viver para poder contar tudo isto aos meus netos.

— Como conseguiu fugir?

— Corri o mais depressa que pude. Foi estranho, mas pensei no meu avô e na caça ao negro para não desistir.

Hayes mirou-o com um olhar interrogativo.

— Era o desporto preferido dos sulistas nos anos quarenta. Levavam um negro para o mato, deixavam que os cães o farejassem bem e depois davam-lhe trinta minutos de avanço. — Bebeu outro gole de vodca. — Os filhos-da-mãe nunca conseguiram apanhar o meu avô.

— Quer que lhe arranje protecção? — perguntou Hayes. — Um guarda-costas?

— Acho que seria uma excelente ideia.

— Gostaria que ficasse em Moscovo. Isto pode complicar-se e eu preciso de si.

E Lord queria ficar. Por isso, tentava convencer-se de que o Vesgo e o Cro-Magnon o tinham perseguido porque os vira matar Beli. Mera eliminação de testemunhas, nada mais. Só podia ser essa a explicação. Que outra poderia existir?

— Deixei a minha papelada toda nos arquivos. Quando saí pensei que era para um almoço rápido.

— Eu telefono para o arquivo e peço que lhos tragam.

— Não é preciso. Acho que vou tomar um duche e dou um pulo lá. De qualquer maneira, ainda tenho trabalho para fazer.

— Descobriu alguma coisa?

— Não. Preciso apenas de ordenar umas tantas coisas soltas. Eu informo-o se surgir alguma novidade. O trabalho vai ajudar-me a não pensar no sucedido.

— E amanhã? Acha-se capaz de fazer o briefing?

O empregado regressou com outro copo de vodca.

— Pode ter a certeza que sim.

Hayes sorriu.

— É assim mesmo. Eu sabia que era duro na queda.

 

14.30

HAYES furou pelo meio da multidão de passageiros que saía do metro. As plataformas que até há poucos momentos estavam desertas enchiam-se agora com milhares de moscovitas acotovelando-se em direcção às quatro escadas rolantes que se estendiam por cento e oitenta metros até ao nível da rua. Uma visão impressionante, sem dúvida, mas era o silêncio o que mais o perturbava. Sempre fora. Nenhum outro barulho para além das solas dos sapatos a bater no chão de pedra e o raspar dos casacos uns nos outros. Por vezes, escutava-se uma voz, mas, habitualmente, o cortejo dos oito milhões de pessoas que todas as manhãs e fins de tarde passava pelo mais movimentado metropolitano do mundo era melancólico.

O metro era o cartão-de-visita de Estaline. Uma tentativa de, nos anos 30, celebrar abertamente as vitórias do socialismo através do mais extenso sistema de túneis alguma vez realizados pelo homem. As estações que proliferavam por toda a cidade transformaram-se em obras de arte decoradas com estuques com motivos florais, pilares neoclássicos em mármore, lustres, ouro e vidro. Nunca ninguém alguma vez questionara o custo inicial da obra ou da sua conservação. Agora, o preço de tal loucura era um indispensável sistema de transporte que exigia milhares de milhões de rublos anualmente em manutenção, mas que rendia apenas alguns copeques por viagem.

Ieltsine e os seus sucessores haviam tentado aumentar o preço das tarifas, mas a revolta popular fora de tal ordem que todos recuaram na medida. Hayes sempre acreditara que esse havia sido o seu grande erro. Demasiado populismo para uma nação tão instável como a Rússia. Era importante tomar decisões, fossem elas certas ou erradas. A indecisão era o pior dos males. Hayes estava certo de que os Russos respeitariam mais os seus líderes se estes tivessem aumentado as tarifas do que por terem morto os que protestavam contra a medida. Essa fora uma lição que muitos czares russos e chefes de Estado comunistas não haviam aprendido, em especial Nicolau II e Mikhail Gorbatchev.

Chegou ao cimo da escada rolante e seguiu a multidão atravessando umas portas estreitas rumo a uma tarde movimentada. Encontrava-se a norte do centro de Moscovo, afastado da concorrida auto-estrada de quatro faixas que circundava a cidade e à qual, curiosamente, chamavam “Anel dos Jardins”. Aquela estação de metro em particular, de formato oval, tecto plano e decorada com azulejos e vidro e já em muito mau estado, não era das melhores obras de Estaline. Na verdade, toda aquela zona da cidade só com dificuldade faria alguma vez parte de qualquer guia turístico. A entrada da estação encontrava-se rodeada por uma multidão de homens e mulheres com ar esgazeado, pele retesada, cabelos emaranhados e roupas sujas e amarrotadas a vender tudo e mais alguma coisa, desde objectos de higiene, passando por cassetes piratas e peixe seco, na tentativa de angariar mais alguns rublos ou, melhor ainda, dólares americanos. Questionara-se frequentemente se alguém compraria as carcaças salgadas dos peixes, cujo aspecto era ainda pior do que o cheiro nauseabundo que exalavam. O local mais perto onde poderiam ter sido pescados era o rio Moscova e, daquilo que ele conhecia do sistema de esgotos russo, era impossível saber que extras serviriam de acompanhamento ao peixe. Abotoou o sobretudo e abriu caminho em direcção ao passeio, tentando passar despercebido. Despira o fato e vestira umas calças de bombazina verdes, camisa de sarja escura e uns ténis pretos. Quaisquer sinais de moda ocidental mais não seria do que abrir a porta a muitos sarilhos.

Encontrou o clube para o qual se dirigia. Ficava a meio de um quarteirão decadente, entre uma padaria, uma mercearia, uma loja de discos e uma geladaria. Não existia qualquer cartaz a anunciar a sua localização, apenas um pequeno letreiro escrito em cirílico que chamava os visitantes com a promessa de entretenimento.

O interior mais não era do que um rectângulo debilmente iluminado. A única tentativa vã de criar um ambiente agradável tinha origem no revestimento com lambris de madeira cor de noz e de uma névoa azul que serpenteava no ar quente. O centro da sala era dominado por um enorme labirinto em contraplacado. Hayes já conhecia aquela novidade. Vira-a pela primeira vez na baixa da cidade, nos pretensiosos antros dos novos-ricos. Monstruosidades em néon, moldadas em azulejo e mármore. Aquela era a versão mais pobre, talhada em placas de contraplacado e iluminada por luzes fluorescentes que projectavam raios azuis.

Uma multidão de homens rodeava aquele exemplar aparatoso. Não eram do tipo que habitualmente se congregava nos lugares mais frequentados a comer salmão, arenque e salada de beterraba, enquanto militares armados guardavam a porta principal e se jogava roleta e bacará na sala ao lado, em apostas de milhares de dólares. Entrar nesses locais podia custar duzentos rublos. Para os homens ali presentes, na sua maioria operários das fábricas e fundições das redondezas, duzentos rublos representava o ordenado de seis meses.

— Já não era sem tempo — disse Feliks Orleg em russo. Hayes não se apercebera da chegada do inspector. A sua

atenção estava virada para o labirinto. Apontou para a multidão e perguntou em russo:

— Qual é a atracção?

— Já vai ver.

Aproximou-se e reparou que aquilo que parecia um único labirinto eram na verdade três labirintos encaixados uns nos outros. De pequenas portas colocadas numa das extremidades saíam três ratos. Os roedores pareciam entender o que era esperado deles e corriam destemidos enquanto os homens gritavam.

Um dos espectadores aproximou-se com intenção de bater num dos lados do labirinto e um homem corpulento com braços de praticante de halterofilia apareceu, vindo não se sabe de onde, e agarrou-o.

— É a versão moscovita do Kentucky Derby — disse Orleg.

— Isto dura o dia inteiro?

Os ratos percorriam todas as curvas e esquinas.

— Todo o santo dia. Gastam em bebida o pouco que ganham.

Um dos ratos descobriu a saída do labirinto e parte da multidão irrompeu em gritos e aplausos. Hayes interrogou-se sobre quanto renderia o jogo, mas decidiu tratar do assunto que ali o levara.

— Quero que me explique o que se passou hoje.

— O chornie parecia um rato. Rapidamente fugiu pelas ruas.

— Não lhe deviam ter dado oportunidade de fugir.

— Aparentemente, os atiradores falharam — explicou Orleg, bebendo um gole da bebida transparente que tinha na mão.

A multidão começava a acalmar, preparando-se para a próxima corrida. Hayes levou o inspector para uma mesa vazia no canto mais afastado da sala.

— Não estou com disposição para espertezas, Orleg. O plano era matá-lo. Qual é a dificuldade?

Orleg saboreou mais um gole da bebida.

— Como lhe disse, os idiotas falharam e quando o perseguiram, o seu amigo Lord conseguiu escapar. E de forma bem engenhosa, segundo me disseram. Tive uma trabalheira enorme para limpar a zona de patrulhas da polícia durante aqueles minutos. Tiveram a tarefa facilitada, mas em vez disso mataram três cidadãos russos.

— Pensei que fossem profissionais. Orleg riu-se.

— Filhos-da-mãe do pior, isso sim. Profissionais? Não creio. Não passam de bandidos. O que estava à espera? — Orleg esvaziou o copo. — Quer que mande repetir o atentado?

— Raios, não. Na verdade, não quero que toquem num único cabelo do Lord.

Orleg não se pronunciou, mas pelo olhar deixou bem claro que não lhe agradava receber ordens de um estrangeiro.

— Esqueça o assunto. De qualquer maneira, foi uma péssima ideia. O Lord pensa que o atentado tinha o Beli como alvo. Melhor assim. Não podemos dar-nos ao luxo de chamar mais as atenções.

— Os atiradores disseram que o seu advogado se safou como um profissional.

— Ele foi atleta na faculdade. Jogava futebol e fazia atletismo. Mas as duas Kalachnicovs deviam ter resolvido o assunto.

Orleg recostou-se na cadeira.

— Talvez devesse resolver o assunto pessoalmente.

— Talvez o faça. Mas por agora certifique-se de que aqueles idiotas não voltam a aparecer. Já tiveram uma oportunidade e eu não quero outro atentado. E se eles não acatarem a minha ordem, garanta-lhes que não vão gostar das pessoas que os seus patrões enviarão para os visitar.

O inspector assentiu com a cabeça.

— Quando eu era miúdo costumávamos perseguir os ricos para depois os torturar. Agora somos pagos para os proteger. — Orleg cuspiu no chão. — Isto dá-me é vontade de vomitar.

— Quem falou em ricos?

— Pensa que eu não sei do que se trata? Hayes aproximou-se dele.

— Você não sabe merda nenhuma, Orleg. Seja esperto e não faça muitas perguntas. Limite-se a cumprir ordens e vai ver que será muito melhor para a sua saúde.

— Americanos de merda. O mundo está completamente às avessas. Ainda me lembro do tempo em que vocês tinham medo que não os deixássemos sair do país. Agora são vocês que mandam em nós.

— É a vida. Os tempos estão a mudar. Ou acompanha a mudança ou sai do caminho. Não queria fazer parte do jogo? Então, seja um dos jogadores, mas isso requer obediência.

— Não se preocupe comigo, advogado. Mas como vai resolver o problema do Lord?

— Não se rale com isso. Eu trato dele.

 

15.35

LORD estava de regresso ao arquivo russo. Um edifício sombrio de granito que outrora albergara o Instituto do Marxismo-Leninismo. Agora era o Centro para a Preservação e Estudo dos Documentos de História Contemporânea, mais um exemplo da predilecção russa por títulos supérfluos.

Surpreendera-o, na sua primeira visita ao edifício, encontrar imagens de Marx, Engels e Lenine penduradas ainda na fachada principal, juntamente com o slogan de incitamento à vitória do comunismo. Quase todos os símbolos da antiga União Soviética haviam sido retirados de cada cidade, rua e edifício do país e substituídos pela águia de duas cabeças, símbolo da dinastia Romanov durante trezentos anos. Fora-lhe dito que a estátua de granito vermelho de Lenine era uma das últimas ainda de pé em toda a Rússia.

Depois de um duche quente e alguma vodca, Lord sentia-se mais calmo. Vestira o outro único fato que trouxera de Atlanta, cinzento-escuro com riscas brancas e finas. Teria de comprar mais um nos próximos dias, uma vez que aquele não seria suficiente para as atarefadas semanas que o esperavam.

Antes da queda dos comunistas, o arquivo fora considerado demasiado herético para o público em geral, inacessível a todos, salvo os comunistas mais resolutos, e essa distinção acabou por parcialmente se manter. A razão de tal era para Lord um mistério.

As prateleiras estavam apinhadas de papéis pessoais e sem qualquer sentido — livros, cartas, diários, registos governamentais e material diverso não publicado — , escritos inócuos que não possuíam qualquer significado histórico. Para tornar as coisas ainda mais estimulantes, não existia qualquer sistema de catalogação, apenas uma organização quase ao acaso por ano, pessoa ou região, certamente elaborada mais com a intenção de confundir do que de simplificar. Como se ninguém desejasse que o passado fosse descoberto, o que seria sem dúvida o caso.

E pouca ou nenhuma ajuda existia.

Os arquivistas eram gente que ficara do regime soviético, membros da hierarquia do partido que outrora haviam desfrutado de benefícios que não estavam ao alcance do moscovita comum. Apesar do partido já não existir, permanecera um quadro de pessoal composto por mulheres já idosas, muitas das quais, Lord não tinha quaisquer dúvidas a esse respeito, desejariam o regresso ao totalitarismo. A falta de ajuda fora a razão por que requisitara o auxílio de Artemi Beli e, por isso, obtivera mais resultados nos últimos dias do que nas semanas anteriores.

Apenas alguns ociosos passeavam junto às prateleiras de metal. A maioria dos registos, em particular os referentes a Lenine, haviam estado fechados em cofres de metal escondidos em subterrâneos. Ieltsine pusera termo a essa política de sigilo e ordenara que tudo fosse trazido para o interior do edifício, abrindo-o a académicos e jornalistas.

Mas não a totalidade dos arquivos.

Uma grande parte permanecia fechada, os chamados “Documentos de Segurança”, semelhantes aos documentos secretos na América e que também não podiam ser consultados. No entanto, as credenciais da Comissão do Czar permitiam a Lord passar por cima de qualquer secretismo. O seu passe, fornecido por Hayes, representava a autorização do Estado para consultar todos os documentos que desejasse, incluindo os Documentos de Segurança.

Sentou-se numa das mesas e tentou concentrar-se nas páginas que tinha à frente. A sua tarefa era reforçar as pretensões de Stefan Baklanov ao trono da Rússia. Baklanov, descendente dos Romanov, era o candidato principal da selecção realizada pela Comissão do Czar. Estava também fortemente envolvido em negócios com o Ocidente, muitos dos quais implicavam clientes da Pridgen & Woodworth, e, por essa razão Hayes enviara Lord aos arquivos para se assegurar de que não existia nada que pudesse impugnar as pretensões de Baklanov. A última coisa que alguém desejava é que ele tivesse sido alvo de uma investigação por parte do Estado ou que existissem implicações com alemães durante a Segunda Guerra Mundial, qualquer coisa que pudesse levar o povo a duvidar das suas boas intenções para com eles e a Rússia. As pesquisas de Lord haviam-no levado até ao último Romanov a ocupar o trono, Nicolau II, e aos acontecimentos de 16 de Julho de 1918, na Sibéria. Nas últimas semanas, lera bastantes relatos públicos e vários não publicados. Todos contraditórios, à falta de uma palavra melhor. Fora necessário um estudo minucioso de cada um dos relatórios, retirando as falsidades óbvias e comparando os factos, para conseguir obter alguma informação útil. As suas anotações constituíam agora uma narrativa do que sucedera naquela noite fatídica da história russa.

Nicolau acordou de um sono profundo. Um soldado mirava-o. Poucas vezes, durante os últimos meses, conseguira dormir profundamente e a intrusão incomodava-o. Contudo, pouco ou nada podia fazer. Fora em tempos o czar de toda a Rússia, Nicolau II, a personificação de Deus na Terra. Mas, um ano antes, em Março, havia sido forçado a fazer o impensável para um monarca divino: abdicar face à violência reinante. O governo provisório que tomou o seu lugar era composto maioritariamente por liberais membros da Duma e por uma coligação de radicais socialistas. Em princípio, tratava-se apenas de um governo de transição até que pudesse ser eleita uma assembleia constituinte, mas os Alemães haviam permitido que Lenine atravessasse o seu território e voltasse a entrar na Rússia, na esperança de que isso pudesse provocar o descalabro político.

E foi o que aconteceu.

O fraco governo provisório vacilara dez meses antes naquilo a que os guardas orgulhosamente chamavam Revolução de Outubro.

Porque estaria o seu primo, o cáiser, a castigá-lo daquela maneira? Era tão grande assim o seu ódio por ele? Ganhar a guerra seria tão importante que merecia o sacrifício de uma dinastia reinante? Os factos assim o pareciam ditar.

Dois meses após tomar o poder, e para surpresa de ninguém, Lenine assinou um cessar-fogo com os Alemães e a Rússia abandonou a Grande Guerra, deixando os Aliados sem uma frente oriental para impedir o avanço das forças alemãs. A Inglaterra, a França e os Estados Unidos não ficaram propriamente felizes com a medida. Nicolau entendia o jogo perigoso que Lenine estava a arriscar. Prometia ao povo a paz, de forma a ganhar a sua confiança, mas demorava a sua implementação de modo a aplacar os Aliados, enquanto tentava não ofender o seu verdadeiro aliado, o cáiser. O Tratado de Brest-Litovsk, assinado há cinco meses, era igualmente devastador. Com ele, a Alemanha ganhava um quarto do território russo e quase um terço do seu povo. Essa medida, segundo o que escutara, havia provocado grande ressentimento popular. A conversa entre os guardas era de que todos os antibolcheviques se tinham finalmente reunido sob o símbolo da bandeira branca, escolhida propositadamente em oposição a bandeira vermelha do comunismo. Uma grande parte dos recrutas tinha já fugido para o lado dos brancos. Os camponeses eram os principais apoiantes, uma vez que a terra continuava a ser-lhes negada. Grassava agora uma guerra civil. Brancos contra Vermelhos.

E ele era apenas o cidadão Romanov, prisioneiro dos bolcheviques vermelhos.

Czar de ninguém.

Ele e a sua família haviam sido aprisionados no Palácio de Alexandre, em Czarskoie Selo, perto de Petrogrado. Levados depois para oeste, para Tobolsk, na Rússia Central, uma cidade ribeirinha decorada com igrejas de paredes brancas e cabanas de madeira. O povo da região havia mostrado abertamente a sua lealdade e respeito para com o ex-czar e a sua família. Diariamente, juntava-se um grande número de pessoas à porta da casa onde estavam confinados, retirando os seus chapéus e fazendo o sinal da Cruz. Raro era passar um dia sem que lhes fossem trazidos bolos, velas e ícones religiosos. Até os próprios guardas, membros do Regimento de Fuzileiros, se haviam mostrado simpáticos, participando em conversas e em jogos de cartas. Tinha-lhes também sido permitido receber livros, jornais e até trocar correspondência. A comida fora excelente e não lhes faltara qualquer conforto.

De uma forma geral, uma boa prisão.

Até que, setenta e oito dias antes, ocorrera uma nova mudança. Desta vez para ali, para Iekaterimburgo, na encosta oriental dos montes Urales, bem no centro do coração da Mãe Rússia, terra dominada pelos bolcheviques. Dez mil soldados do Exército Vermelho patrulhavam as ruas e a população local opunha-se ferozmente a tudo o que fosse czarista. Fora requisitada a casa de um comerciante abastado, de seu nome Ipatiev, e convertida depois numa prisão temporária. Nicolau escutara chamarem-lhe a “Casa para Fins Especiais”. Em torno da casa fora erigida uma enorme vedação de madeira, todos os vidros haviam sido cobertos com cal e as janelas trancadas com barras de ferro. Os guardas tinham autorização para matar quem tentasse abri-las. Aos quartos e às casas de banho haviam também sido removidas as portas. Nicolau fora forçado a escutar calado os insultos dirigidos à sua família e a suportar as obscenidades desenhadas nas paredes que retratavam a sua esposa e Rasputine. No dia anterior, por pouco não se envolvera numa luta física com um dos guardas. Este escrevera na parede do quarto da filha: O nosso czar Nicolau foi arrancado do trono pelo pirilau. “Já estou farto”, pensara.

— Que horas são? — perguntou por fim ao guarda debruçado sobre ele.

— Duas da manhã.

— O que se passa?

— É preciso que a sua família mude de lugar. O Exército Branco aproxima-se da cidade. Podemos ser atacados a qualquer instante. É perigoso permanecerem no andar superior se forem disparados tiros da rua.

Aquelas palavras alegraram Nicolau. Escutara os sussurros dos guardas. O Exército Branco atravessara a Sibéria, tomando cidade após cidade, conquistando território aos vermelhos. Nos últimos dias havia sido possível escutar à distância os tiros de artilharia. Esse som trouxera-lhe esperança. Talvez os seus generais estivessem finalmente a chegar e tudo voltasse a ser como era.

— Levante-se e vista-se — ordenou o guarda.

O homem saiu e Nicolau acordou a esposa. O filho, Alexei, dormia numa cama colocada no extremo oposto do modesto quarto.

Ele e Alexei vestiram silenciosamente as suas fardas, camisa, calças, botas e boné, enquanto Alexandra seguiu para o quarto das filhas. Alexei não podia andar. Uma outra hemorragia, dois dias antes, deixara-o paralisado e foi Nicolau que transportou o débil rapaz de treze anos até à sala.

As suas quatro filhas apareceram logo de seguida.

Vestiam uma simples saia preta e uma blusa branca. A mãe seguia-as, coxeando, apoiada à bengala. O seu precioso “Raio de Sol” já mal conseguia andar. A dor ciática que a atacava desde a juventude agravara-se. A preocupação constante com Alexei ajudara à deterioração da sua saúde, tornando grisalhos os seus cabelos castanhos e roubando-lhe o brilho doce do olhar que o cativara desde a primeira vez que a vira, quando ainda adolescente. Parecia respirar com dificuldade, muitas vezes num arfar doloroso, e os seus lábios ficavam ocasionalmente azuis. Também se queixava do coração e de dores nas costas, mas ele interrogava-se se tais padecimentos seriam reais ou apenas os efeitos maléficos do sofrimento profundo por que estava a passar, pensando a cada hora se aquele seria o dia em que a morte viria buscar o seu filho. >

— O que é, papá? — perguntou Olga. > Olga tinha vinte e dois anos e era a primogénita. Compreensiva e inteligente, por vezes melancólica e mal-humorada era, em muitos aspectos, parecida com a mãe.

— Talvez seja a nossa salvação — respondeu ele.

Uma expressão de felicidade invadiu o seu belo rosto. A irmã Tatiana, um ano mais nova, e Maria, dois anos mais nova, aproximaram-se, transportando almofadas. Tatiana era alta e imponente, a líder das raparigas — chamavam-lhe “governanta” — , e a preferida da mãe. Maria era uma jovem bonita, gentil, namoricadora e com olhos enormes. O seu grande desejo era casar com um soldado russo e ter vinte filhos.

As duas filhas do meio haviam escutado o que Nicolau dissera. Ele olhou-as pedindo silêncio.

Anastasia, com dezassete anos, acompanhava a mãe, trazendo ao colo King Charles, o cocker spaniel que os seus carcereiros lhe haviam permitido guardar.

Era uma jovem baixa e roliça com reputação de rebelde. As irmãs diziam que ela adorava pregar partidas, mas os seus olhos azuis eram encantadores e Nicolau nunca fora capaz de lhes resistir.

Os restantes quatro prisioneiros também rapidamente chegaram à sala. Eram eles o Dr. Botkin, o médico particular de Alexei, Trupp, o criado de Nicolau, Demidova, a dama de companhia de Alexandra, e Kharitonov, o cozinheiro. Demidova trazia também com ela uma almofada que Nicolau sabia ser especial. Lá dentro, escondida entre as penas, encontrava-se uma caixa com jóias. Alexandra e as raparigas também ocultavam tesouros. Nos seus corpetes estavam cosidas esmeraldas, rubis, diamantes e pérolas.

Alexandra aproximou-se, coxeando, e perguntou-lhe:

— Sabes o que se está a passar?

— Os brancos estão perto.

— Será verdade? — questionou ela, a sua face iluminando-se com a notícia.

— Por aqui — disse uma voz familiar vinda das escadas. Nicolau voltou-se e viu Iurovski.

O chefe da polícia chegara doze dias antes com uma brigada da polícia secreta bolchevique, substituindo o seu anterior comandante e os indisciplinados guardas, na sua maioria antigos operários fabris. No início, a mudança parecia positiva, mas Nicolau depressa entendeu que os novos homens eram profissionais. Talvez até magiares, prisioneiros de guerra do Exército austro-húngaro, contratados pelos bolcheviques para realizarem trabalhos que os russos se recusavam a fazer. Iurovski era o seu líder, um homem sinistro, de cabelo e barba negros e um modo pausado de falar e actuar. Dava ordens com muita calma e esperava que fossem cumpridas, e Nicolau depressa se apercebeu de que aquele demónio era um déspota.

— Apressem-se — disse Iurovski. — O tempo escasseia.

Nicolau fez sinal para que ninguém falasse e todos desceram uma escada de madeira até ao rés-do-chão. Alexei dormia profundamente encostado ao seu ombro. Anastasia soltou o cão, que fugiu a correr.

Foram conduzidos até uma espécie de cave, com apenas uma janela, que ficava do outro lado do pátio.

— Esperem aqui até os carros chegarem — ordenou Iurovski.

— Para onde vamos? — > questionou Nicolau.

— Embora — foi tudo o que o carcereiro respondeu.

— Não há nenhuma cadeira? — perguntou Alexandra. — Não nos podemos sentar?

Iurovski encolheu os ombros e ordenou a um dos homens que fosse buscar duas cadeiras. Alexandra sentou-se numa e Maria apressou-se a colocar uma almofada atrás das costas da mãe. Nicolau sentou Alexei na outra. Tatiana colocou a sua almofada por trás do irmão para que o rapaz ficasse confortável. Demidova permanecia abraçada à sua almofada.

A artilharia continuava a escutar-se à distância. O som reforçava a esperança de Nicolau.

— Têm de tirar uma fotografia — comunicou Iurovski. — Há pessoas que julgam que vocês já fugiram, por isso preciso que se coloquem como eu ordenar.

Iurovski posicionou toda a gente. Quando terminou, as filhas estavam de pé ao lado da mãe, Nicolau ao lado de Alexei e os restantes quatro membros que não eram da família atrás destes. Ao longo de dezasseis meses haviam sido obrigados a fazer tantas coisas estranhas que mais aquela, serem acordados a meio da noite para tirarem uma fotografia e depois levados embora, não seria excepção. Quando Iurovski saiu da sala e fechou a porta ninguém disse nada.

Momentos mais tarde, a porta voltou a abrir-se.

Todavia, não entrou nenhum fotógrafo empunhando máquina e tripé. Em vez disso, apareceram onze homens armados. Iurovskifoi o último a entrar. A mão direita do russo estava metida no bolso das calças. Na outra trazia um papel.

Começou a ler.

— Tendo em conta que os vossos parentes continuam a atacar a Rússia Soviética, o Conselho Regional do Ural decidiu executar-vos.

Nicolau estava com dificuldade em ouvir. Lá fora, o motor de um automóvel fazia grande barulho. Olhou para a família e depois para Iurovski e perguntou:

— O quê? O quê?

A expressão do russo nunca se alterou. Limitou-se a repetir a declaração no mesmo tom monocórdico. Depois, tirou a mão direita do bolso. Nicolau viu a pistola. Uma Colt. O cano aproximou-se da sua cabeça.

SEMPRE QUE LIA os relatos daquela noite, Lord sentia-se invadido por uma sensação de fraqueza. Tentava imaginar como teria sido quando os tiros começaram. O terror que deviam ter sentido. Sem lugar para fugirem, mais não poderiam ter feito do que morrer daquela forma brutal. Voltara àqueles acontecimentos por causa do que descobrira nos Documentos de Segurança. Tropeçara na nota dez dias antes, rabiscada numa frágil folha de papel a tinta preta já quase ilegível. Encontrava-se dentro de uma pasta de couro que fora cosida de modo a não ser aberta. Numa etiqueta do lado de fora lia-se:

ADQUIRIDO A 10 DE JULHO DE 1925. NÃO ABRIR ANTES DE 1 DE JANEIRO

de 1950. Era impossível determinar se as instruções haviam sido seguidas.

Procurou dentro da sua pasta e encontrou a cópia que traduzira cuidadosamente. A data no cabeçalho era de 10 de Abril de 1922:

 

A situação com Iurovski é preocupante. Não acredito que os relatórios enviados de Iekaterimburgo estivessem correctos e a informação relativa a Felix Iussupov confirma as minhas suspeitas. É de lamentar que o guarda branco que persuadiu a falar não tivesse sido mais prestativo. Talvez o uso abusivo da força acabe por ser contraproducente. A referência a Kolia Maks é de grande interesse. Já anteriormente escutara esse nome. A aldeia de Starodug foi também nomeada por dois outros guardas brancos obrigados a falar através dos mesmos métodos. Passa-se qualquer coisa, estou certo disso, mas temo já ser demasiado velho para descobrir o quê. Preocupa-me não saber qual será o futuro de todas as nossas diligências depois de eu morrer. Estaline é um homem assustador. Existe nele uma severidade que lhe suga toda e qualquer emoção ao tomar decisões. Se a liderança da nossa nova nação cai nas suas mãos, temo que seja o fim do sonho.

Interrogo-me se um ou mais membros da família imperial terão escapado de Iekaterimburgo. Tudo aponta para isso. O camarada Iussupov assim acredita. Talvez pense que poderá oferecer à próxima geração um adiamento da história. Pode ser que a czarina não fosse tão insensata como todos pensavam. Talvez as incoerências do starets tivessem mais significado do que julgávamos. Nas últimas semanas, ao pensar nos Romanov, dei por mim a recordar os versos de um antigo poema russo:

 

“São cinzas os cavaleiros,

ferrugem as espadas

e julgo-lhes entre os santos as almas afortunadas.”

 

Lord e Artemi Beli acreditavam ambos que o documento fora redigido pela mão de Lenine. Não seria nada de extraordinário. Os comunistas haviam guardado milhares dos seus escritos. Mas aquele documento em particular não fora encontrado juntamente com os outros. Na verdade, Lord descobrira-o entre papéis repatriados pelos nazis após a Segunda Guerra Mundial. Os exércitos invasores de Hitler haviam roubado não apenas objectos de arte, mas também toneladas de material de arquivo. Os depósitos de documentos de Leninegrado, Estalinegrado, Kiev e Moscovo haviam sido completamente esvaziados. Só após o fim da guerra, quando Estaline enviou a sua Comissão Extraordinária para recuperar a herança do país, é que muitos desses documentos secretos regressaram à pátria.

Existia, porém, um outro documento relevante dentro da mala de couro carmesim. Uma solitária folha de pergaminho com a margem decorada com flores e folhas. Estava escrita em inglês e a caligrafia era claramente feminina:

 

28 de Outubro, 1916.

Querida Alma da minha Alma, meu Tudo e Único, Doce Anjo, oh, eu amo-te tanto. Estamos sempre juntos, noite e dia, sinto o teu sofrimento e a dor do teu coração. Que Deus tenha piedade de ti, te dê força e sabedoria. Ele nunca te abandonará. Deus irá em teu auxílio para te recompensar pelo sofrimento insano e pôr fim à separação no momento em que precisarmos de estar juntos.

O nosso Amigo acabou de sair. Voltou a salvar o Bebé. Oh, Jesus misericordioso, graças ao Senhor que ele existe. A dor era avassaladora e o meu coração partiu-se de o ver assim, contudo o Bebé dorme agora sossegado. Por certo amanhã estará bem.

Um dia tão luminoso e sem nuvens. Isso significa confiança e esperança, porém tudo parece negro em redor, mas Deus tudo comanda. Nada sabemos dos seus desígnios. Ele escutará as nossas orações. O nosso Amigo garante-me que assim será.

Não posso esquecer-me de te dizer que, antes de sair, o nosso Amigo entrou num estranho transe. Temi que pudesse estar doente. O que seria do Bebé sem ele. Caiu no chão e balbuciou que deixaria este mundo antes do fim do ano, que via pilhas de corpos, vários grão-duques e centenas de condes e o Neva vermelho de tanto sangue. As suas palavras apavoraram-me.

Asseverou-me, olhando para o céu, que se for morto por boiardos as mãos deles ficarão manchadas com o seu sangue durante vinte e cinco anos, abandonarão a Rússia e irmão lutará contra irmão até à morte, até que não restem nobres no país. Mais assustador foi ter explicado que, se for morto por um membro da família real, ninguém da nossa família viverá mais do que dois anos. Todos seremos mortos pelo povo russo.

Pediu-me que me levantasse e tomasse nota de tudo o que me contara. Depois disse-me que nada temesse, que haveria salvação, que o mais culpado verá o erro dos seus actos e fará de modo a que o sangue dos nossos corpos volte a ressuscitar. O seu discurso raiou o absurdo e, pela primeira vez, interroguei-me se o cheiro a álcool das suas roupas não lhe teria afectado o cérebro. Repetia que apenas um corvo e uma águia serão bem-sucedidos onde todos os outros falharem e que a inocência dos animais guiará e protegerá o caminho, sendo o juiz final do sucesso. Proferiu ainda que Deus providenciará um meio de garantir a verdade. O que mais me desassossegou foi a sua afirmação de que doze deverão morrer antes que a ressurreição tenha lugar.

Tentei questioná-lo, mas ele nada respondeu, insistindo apenas para que tomasse nota da profecia e te desse conta dela. Falava como se algo nos pudesse acontecer, porém eu assegurei-lhe que o papá sabe tomar conta do país.

Não me pareceu convencido e as suas palavras apoquentaram-me toda a noite. Oh, meu querido, seguro-te entre os meus braços e não deixarei nunca que ninguém toque na tua luminosa alma. Beijo-te infinitas vezes e abençoo-te, a ti que sempre me entendes. Espero que possas regressar para mim em breve.

 

A tua esposa.

Lord sabia ser Alexandra, a última czarina da Rússia, a autora da carta. Durante décadas mantivera um diário. O mesmo fizera o seu marido, Nicolau, e posteriormente ambos os diários haviam fornecido uma visão única da corte real russa. Após a execução, foram encontradas mais de setecentas das suas cartas em Iekaterimburgo. Lord já lera outros excertos dos diários e a maioria das cartas. Vários livros recentes haviam-nas publicado palavra a palavra. Sabia que a referência ao “nosso Amigo” era a forma que haviam combinado de aludir a Rasputine, uma vez que tanto Alexandra como Nicolau desconfiavam que as suas cartas seriam lidas por terceiros. Infelizmente, a sua confiança inabalável em Rasputine não era partilhada por mais ninguém.

— Tão absorto — comentou uma voz em russo. Lord olhou para cima.

Do outro lado da mesa estava um homem idoso, de pele clara, olhos azuis, magro e com os pulsos cheios de sardas. Era meio careca e uma penugem fina e grisalha cobria-lhe a pele descolorada do pescoço de orelha a orelha. Usava uns óculos com aros de metal e uma gravata-borboleta. Lord recordou-se que já vira aquele homem a consultar os registos, um dos vários indivíduos que pareciam trabalhar de forma tão árdua como ele.

— Na verdade, por instantes recuei até mil novecentos e dezasseis. Ler este material é como viajar no tempo — explicou Lord em russo.

O homem sorriu. Mirando-o, calculou que deveria ter perto de sessenta anos ou talvez um pouco mais.

— Concordo consigo. É uma das razões por que gosto de aqui vir. Uma forma de recordar algo que já passou.

Lord levantou-se da mesa e apresentou-se.

— O meu nome é Miles Lord.

— Eu sei quem o senhor é.

Um sentimento de suspeição apoderou-se dele e, inconscientemente, o seu olhar percorreu toda a sala. O seu visitante pareceu aperceber-se do medo.

— Mister Lord, garanto-lhe que não represento qualquer ameaça. Sou apenas um historiador cansado à procura de um pouco de conversa com alguém com interesses semelhantes aos meus.

Lord acalmou-se.

— E como me conhece? O homem sorriu.

— Bem, a verdade é que não é um dos pesquisadores preferidos das senhoras que trabalham aqui no arquivo. Elas não gostam de receber ordens de um americano.

— E ainda por cima preto. Ele voltou a sorrir.

— Desgraçadamente, este país está ainda muito atrasado em questões raciais. Somos uma nação de pele branca. E as suas credenciais da comissão não passam despercebidas.

— E quem é o senhor?

— Semion Pashenko, professor de História na Universidade Estatal de Moscovo.

O homem estendeu a mão a Lord e este apertou-lha.

— E onde está o outro cavalheiro que o acompanhou nestes últimos dias? Creio tratar-se de um advogado. Falámos durante alguns momentos por entre as pilhas de papéis.

Lord considerou se deveria ou não mentir, mas decidiu que o melhor seria contar a verdade.

— Foi morto esta manhã na Perspectiva Nikolskaia. Num tiroteio.

Pashenko fez uma expressão horrorizada.

— Vi qualquer coisa sobre isso na televisão. Que horror. — Abanou a cabeça. — Este país ditará a sua própria ruína se algo não for feito com brevidade.

Lord sentou-se e ofereceu uma cadeira ao seu visitante.

— Esteve envolvido? — perguntou Pashenko, acomodando-se na cadeira.

— Estava lá — respondeu Lord.

Decidira manter para si mesmo o resto da história. Pashenko abanou a cabeça.

— Este tipo de comportamento não nos define enquanto povo e nação. Ocidentais como o senhor devem pensar que somos um país de bárbaros.

— Nada disso. Todas as nações atravessam períodos conturbados. Nós também tivemos os nossos durante a expansão para oeste e nos anos vinte e trinta.

— Contudo, acredito que a nossa situação não se limita apenas a dores de crescimento.

— Os últimos anos foram difíceis para a Rússia. Já não devia ser fácil quando havia um governo em funções. O Ieltsine e o Putin tentaram manter a ordem, mas agora, com a fraca ilusão de autoridade, pouco falta para a anarquia se instalar.

Pashenko concordou acenando afirmativamente.

— Para nossa infelicidade, esta situação não é novidade para a nossa pátria.

— O senhor é um académico?

— Sou historiador. Dediquei toda a minha vida ao estudo da nossa amada Mãe Rússia.

Lord esboçou um sorriso ao escutar o antigo termo.

— Imagino que nos últimos tempos a sua especialidade não tenha tido muita procura.

— Com muita pena minha. Os comunistas possuíam a sua própria versão da história.

Lord recordou-se de algo que lera certa vez. A Rússia é um país com um passado imprevisível.

— Era professor nessa altura?

— Já ensino há trinta anos. Passei por eles todos. Estaline, Khruchtchev, Brejnev. Cada um deles infligiu o seu dano particular. É pecaminoso o que aconteceu. Mas mesmo nos dias de hoje, não conseguimos desligar-nos do passado. As pessoas continuam a fazer fila para verem o corpo de Lenine. — Pashenko baixou o tom de voz. — Um assassino venerado como um santo. Reparou nas flores em torno da sua estátua, à entrada? — Abanou a cabeça. — Revoltante.

Lord optou por ser cuidadoso no seu discurso. Embora se vivesse em plena era pós-comunista, em breve nova era czarista, ele continuava a ser um americano a trabalhar com credenciais emitidas por um instável Governo russo.

— Algo me diz que se amanhã os carros de combate invadissem a Praça Vermelha todos aqueles que trabalham neste arquivo estariam lá para lhes dar as boas-vindas.

— Não são melhores que os pedintes que andam pelas ruas

— afirmou Pashenko. — Gozaram de privilégios. Guardavam os segredos dos líderes e em troca receberam um apartamento à escolha, uma maior quantidade de pão e mais alguns dias de férias no Verão. É preciso trabalhar para merecer o que se recebe, não é isso que a América significa?

Lord não respondeu. Em vez disso, perguntou:

— O que pensa da Comissão do Czar?

— - Votei positivamente. Como pode um czar piorar as coisas? Aquela parecia ser a opinião generalizada.

— Não é comum encontrar-se um americano que fale a nossa língua com tanta correcção.

Lord encolheu os ombros.

— Considero o vosso país um lugar fascinante.

— É um interesse antigo?

— Desde criança. Comecei por estudar Pedro, o Grande, e Ivan, o Terrível.

— E agora faz parte da nossa Comissão do Czar. Prestes a fazer história. — Pashenko apontou para as folhas sobre a mesa.

— Esses são bastante antigos. Pertenciam aos Documentos de Segurança?

— Encontrei-os há cerca de duas semanas.

— Reconheço a caligrafia. Foi a czarina Alexandra que redigiu essa carta. Ela escrevia todas as suas cartas e diários em inglês.

Os Russos odiavam-na porque nascera princesa alemã. Sempre considerei essa crítica injusta. Alexandra foi uma mulher muito incompreendida.

Lord estendeu-lhe o documento, considerando que valia a pena escutar as ideias do russo. Pashenko leu a carta e quando terminou disse:

— A prosa dela era sempre muito atrevida, mas esta é ligeira. Ela e Nicolau trocaram muitas cartas de amor.

— É triste manuseá-las assim. Sinto-me como um intruso. Estive também há pouco a ler sobre a execução. Iurovski devia ser um sádico.

— O filho de Iurovski confessou que o pai sempre se arrependera do que fizera. Mas quem sabe se é verdade? Durante vinte anos, após a morte dos Romanov, deu palestras a grupos bolcheviques sobre os assassínios, tão orgulhoso se sentia.

Estendeu a Pashenko a nota escrita por Lenine. ;

— Veja isto. : O russo leu a página lentamente e depois concluiu: :

— É sem dúvida de Lenine. Também conheço bem o seu estilo de escrita. Curioso.

— Cheguei à mesma conclusão.

Os olhos de Pashenko escancararam-se.

— Não me diga que acredita nessas histórias de que dois elementos da família real escaparam à execução em Iekaterim-burgo?

— Até à data os corpos de Alexei e Anastasia ainda não foram encontrados e agora isto — explicou Lord, encolhendo os ombros.

Pashenko esboçou um largo sorriso.

— Os Americanos adoram conspirações e vêem enredos em todo o lado.

— É esse o meu trabalho neste momento.

— Deve apoiar o Stefan Baklanov, não?

Ficou surpreendido e interrogou-se sobre tamanha transparência. Pashenko apontou para a sala.

— As mulheres, novamente, Mister Lord. Elas sabem tudo. Os pedidos de documentos ficam registados e, acredite, elas prestam atenção. Já conheceu o nosso “herdeiro legitimado”?

— Não, mas o homem para o qual trabalho já se encontrou com ele.

— O Baklanov está tão apto a governar como o Miguel Romanov o estava há quatrocentos anos atrás. Demasiado fraco. Ao contrário do pobre Miguel, que tinha o pai para tomar as decisões por ele, o Baklanov ficará entregue a si mesmo e muitos se alegrarão com o seu falhanço.

O académico russo tinha uma certa razão. De tudo o que lera sobre Baklanov, o homem parecia mais preocupado com o regresso do prestígio czarista do que em governar efectivamente a nação.

— Posso fazer uma sugestão, Mister Lord?

— Com certeza.

— Já esteve nos arquivos de Sampetersburgo?

Lord abanou a cabeça.

— Dar uma vista de olhos por lá pode ser benéfico. Guardam muitos dos escritos de Lenine e a maioria das cartas e diários do czar e da czarina também lá está. — Apontou para as folhas de papel. — Pode ajudá-lo a descobrir o significado do que encontrou.

Parecia uma excelente sugestão.

— Obrigado. Sou bem capaz de ir até lá. — Olhou para o relógio. — Agora, se me dá licença, tenho mais umas leituras para fazer antes que o arquivo feche. Foi um prazer conhecê-lo. Vou estar por aqui mais uns dias, talvez possamos voltar a conversar.

— Eu também vou andar pelo arquivo. Se não lhe causar incómodo, sou capaz de ficar aqui sentado mais um pouco. Importa-se que leia as duas páginas novamente?

— Faça favor.

Dez minutos mais tarde, quando regressou, encontrou os papéis de Alexandra e Lenine sobre a mesa, mas nem sinal de Semion Pashenko.

 

17.25

Um BMW preto veio buscar Hayes à porta do volkhov. Após uma viagem de quinze minutos

por entre o surpreendente pouco trânsito, o condutor entrou num pátio fechado. Ao fundo erguia-se uma casa de arquitectura clássica tardia, construída no início do século XIX. Tanto naquela época como agora era uma das mais belas de Moscovo. Durante o domínio comunista albergara o Centro para as Artes e Literatura do Estado, contudo, após a queda, tal como muitas outras coisas, o edifício foi sujeito a leilão e comprado por um dos novos-ricos do país.

Hayes saiu do automóvel e pediu ao motorista que esperasse.

Como habitualmente, dois homens armados com Kalachnicovs patrulhavam o pátio. A fachada azul da casa parecia cinzenta sob a fraca luz da tarde. Hayes inspirou o ar poluído pelos gases dos escapes dos automóveis e avançou decidido por um passeio de tijoleira vermelha que atravessava um deslumbrante jardim de Outono. Entrou na casa abrindo uma porta de madeira.

O interior era típico de uma habitação construída quase há duzentos anos. O chão era uma miscelânea irregular, as áreas destinadas à recepção de convidados situavam-se na parte da frente viradas para a rua e havia vários quartos na parte de trás. A decoração era de época e Hayes presumiu que fosse original, embora nunca tivesse perguntado ao dono da casa.

Percorreu um labirinto de pequenos corredores e encontrou o salão onde as reuniões decorriam habitualmente.

Quatro homens esperavam-no, cada um deles bebendo e fumando charutos.

Conhecera-os no ano anterior, e todas as suas subsequentes conversas haviam-se realizado usando nomes fictícios. Hayes era conhecido como Lincoln e os outros quatro pelos nomes que haviam escolhido: Estaline, Lenine, Kruchtchev e Brejnev. A ideia resultara de uma gravura que as lojas de recordações moscovitas vendiam. Representava vários czares, imperatrizes e chefes de Estado russos reunidos em torno de uma mesa, bebendo e fumando e tendo a pátria russa como único tema de discussão. É claro que tal reunião nunca acontecera, porém o artista fantasiara graficamente o modo como cada personalidade poderia ter reagido se tal evento tivesse ocorrido. Os quatro homens haviam escolhido os seus nomes com grande desvelo, revelando no processo que as suas reuniões não eram muito diferentes das da gravura e que o destino da nação estava agora nas suas mãos.

Os quatro cumprimentaram Hayes e Lenine serviu-lhe vodca de uma garrafa a refrescar num balde de gelo. Ofereceram-lhe salmão fumado e cogumelos marinados, mas ele recusou.

— Receio ter más notícias — disse em russo e depois contou-lhes que Miles Lord havia sobrevivido ao ataque.

— Há ainda outro problema — afirmou Brejnev. — Só hoje soubemos que esse advogado é africano.

Hayes achou a observação estranha.

— Estão enganados. Ele é americano. Mas se estão a referir-se à cor, que importa isso?

Estaline inclinou-se para a frente. Ao contrário do seu homónimo, parecia ser sempre a voz da razão.

— Os Americanos têm uma dificuldade tão grande em compreender a sensibilidade russa ao destino.

— E de que forma o destino está envolvido nisto?

— Fale-nos de Mister Lord — pediu Brejnev.

O assunto irritava Hayes. Considerara estranha a indiferença com que haviam mandado matar Lord, sem saber nada dele.

No seu último encontro, Lenine havia-lhe dado o número de telefone do inspector Orleg e dissera-lhe que tratasse do assassínio através dele. Ao princípio a ordem agastara-o, um assistente tão competente não seria fácil de substituir, mas havia demasiadas coisas em jogo para se preocupar com um advogado. Assim, fizera o que lhe fora pedido. Agora estava a ser bombardeado com mais perguntas que pouco ou nenhum sentido faziam.

— Veio trabalhar para o meu escritório assim que saiu da faculdade de Direito. Sempre se interessou pela Rússia e tirou o mestrado em estudos da Europa de Leste. É bom em línguas. É deveras difícil encontrar um advogado que saiba falar russo. Pensei que ele seria um bom trunfo e não me enganei. Muitos dos nossos clientes confiam exclusivamente nele.

— E quanto a informação pessoal? — pediu Kruchtchev.

— Nascido e criado na Carolina do Sul, a família tinha algum dinheiro. O pai era pastor. Um daqueles pregadores que andava de cidade em cidade a curar as pessoas. Pelo que o Lord me disse, ele e o pai não se davam muito bem. O Miles tem trinta e sete ou trinta e oito anos e nunca foi casado. Leva uma vida normal, de trabalho duro. É um dos nossos melhores empregados. Nunca me deu quaisquer aborrecimentos.

Lenine recostou-se na cadeira.

— E porquê o interesse pela Rússia?

— Não faço a mínima ideia. Pelas conversas que tivemos, parece de facto fascinado pelo vosso país. Desde criança. E gosta de história. O gabinete dele está cheio de livros e tratados. Chegou a proferir algumas palestras em duas universidades locais e em alguns encontros da Ordem dos Advogados. Agora deixem-me fazer uma pergunta. Por que razão é isto importante?

Estaline sentou-se.

— Tornou-se é irrelevante, tendo em conta o que sucedeu hoje. O problema de Mister Lord terá de esperar. O que nos deve preocupar neste momento são os acontecimentos de amanhã.

Hayes não estava ainda disposto a mudar de assunto.

— Para que conste, eu fui contra o assassínio do Lord e assegurei-lhes que sabia lidar com ele, fosse qual fosse a vossa preocupação.

— Como desejar — disse Brejnev. — Decidimos que Mister Lord será preocupação sua.

— Fico satisfeito. Ele não será problema. Mas ainda falta explicar de que maneira foi ele um problema.

— O seu assistente tem sido frequentador assíduo do arquivo — afirmou Kruchtchev.

— Está a fazer o trabalho que lhe pedi e de acordo com instruções vossas, se me permitem acrescentar.

A tarefa que lhe fora destinada era simples. Descobrir qualquer coisa que pudesse afectar a pretensão de Stefan Baklanov ao trono. E Lord revistara o arquivo durante quase dez horas por dia nas últimas seis semanas, fazendo relatórios de tudo o que encontrara. Hayes suspeitava agora que algum dos relatórios que passara ao grupo tivesse desencadeado a sua desconfiança.

— Não é necessário que saiba tudo. Nem eu acredito que queira na realidade saber. É suficiente dizer que acreditámos que a eliminação de Mister Lord seria a forma mais económica de tratarmos do assunto. Os nossos esforços não produziram bons resultados, por isso estamos dispostos a seguir o seu conselho. Por agora — explicou Estaline.

Um sorriso irónico fechou o discurso. Hayes não apreciava particularmente o modo condescendente com que os quatro homens o tratavam. Não era nenhum moço de recados, mas sim o quinto membro do que, a título particular, apelidara de “Chancelaria Secreta”. Porém, decidiu guardar a irritação que sentia para si próprio e mudou de assunto.

— Presumo que terão decidido que o poder do novo monarca será absoluto?

— A questão dos poderes do czar é um assunto que ainda está a ser debatido — explicou Lenine.

Hayes compreendeu que alguns aspectos daquele assunto eram apenas de índole russa e a ser decididos apenas por russos. Desde que essas decisões não pusessem em risco a enorme contribuição financeira que os seus clientes iriam fazer e a choruda comissão que ele ia receber, não estava sequer preocupado.

— Qual é o grau da nossa influência sobre a comissão?

— Temos nove membros que votarão a nosso favor, aconteça o que acontecer — respondeu Lenine. — Os outros oito estão a ser persuadidos. — As regras exigem unanimidade — afirmou Brejnev.

Lenine suspirou.

— Nem sei como deixámos passar isso.

A unanimidade havia sido uma parte integrante da resolução que criara a Comissão do Czar. O povo aprovara a ideia do czar e a da comissão, com a garantia de que todos os dezassete comissários deveriam votar “sim”. Um voto contra era o suficiente para deitar por terra qualquer pretensão.

— Os outros oito votarão “sim” quando chegar a altura — garantiu Estaline.

— Os vossos contactos já estão a tratar disso? — perguntou Hayes.

— No preciso momento em que estamos a conversar. Mas necessitamos de mais fundos, Mister Hayes. O preço destes homens é elevado — disse Estaline, dando um gole na sua bebida.

Quase todas as actividades da Chancelaria Secreta estavam a ser financiadas com moeda estrangeira e isso incomodava Hayes. Era ele que pagava todas as contas, mas detinha pouco poder.

— Quanto? — perguntou.

— Vinte milhões de dólares.

Hayes ocultou o choque que sentiu ao escutar o valor pedido. Esses vinte milhões seriam para juntar aos dez milhões fornecidos há trinta dias. Interrogou-se quanto daquele dinheiro chegava mesmo aos membros da comissão e que parte ficava com os homens ali presentes, mas não se atreveu a perguntar.

Estaline entregou-lhe dois cartões.

— Aqui estão as suas credenciais da comissão. Também lhe dão, a si e ao seu Mister Lord, acesso ao Kremlin e autorizam a entrada no Palácio de Facetas. Possui os mesmos privilégios que os membros da equipa da comissão.

Hayes estava impressionado. Não esperara estar presente durante as sessões.

Kruchtchev sorriu.

— Concordámos que seria melhor que assistisse às sessões em pessoa. Estará muita imprensa americana presente. Vai conseguir passar despercebido e manter-nos informados. Nenhum dos membros da comissão o conhece ou está a par da nossa relação. As suas observações serão muito úteis nas próximas discussões.

— Também decidimos que o seu papel neste assunto deveria ser alargado — esclareceu Estaline.

— De que forma? — questionou Hayes.

— É importante que a comissão não sofra quaisquer distracções durante a tomada de decisão. Garantiremos que a sessão seja breve, porém existe o perigo de influências externas.

Notara na última reunião que algo preocupava aqueles quatro homens. Algo que Estaline dissera há pouco quando o questionara sobre Lord. Os Americanos têm tanta dificuldade em entender a sensibilidade russa ao destino.

— E o que desejam que eu faça?

— Tudo o que for necessário. Admitindo que cada um de nós seja capaz de fazer com que as pessoas que representamos resolvam um problema, precisamos de um certo elemento de negação. Desgraçadamente, ao contrário da antiga União Soviética, a nova Rússia não sabe guardar os seus segredos. Os nossos registos são públicos, a nossa imprensa agressiva e a influência estrangeira é grande. Você, por outro lado, possui credibilidade internacional. E, para além disso, quem suspeitaria que pudesse estar envolvido em assuntos menos claros? — Estaline terminou o seu discurso com um sorriso irónico.

— E de que forma poderei eu tratar de qualquer problema que possa surgir?

Estaline levou a mão ao bolso e retirou de lá um cartão. Nele estava escrito um número de telefone.

— Do outro lado da linha estarão homens à espera de ordens. Se lhes disser que devem saltar para o rio Moscova e nunca mais voltar à superfície, eles obedecerão. Sugerimos que utilize essa lealdade com sabedoria.

 

Quarta-feira, 13 de Outubro

admirava as paredes vermelhas do Kremlin através dos vidros escurecidos do Mercedes. Os sinos no cimo da torre batiam, estridentes, as oito horas da manhã. Ele e Taylor Hayes atravessavam de carro a Praça Vermelha. O condutor era um russo de cabeleira cerrada no qual Lord nunca confiaria, não tivesse o transporte sido arranjado pelo próprio Hayes.

A Praça Vermelha estava deserta. Por respeito aos comunistas, alguns dos quais ainda subsistiam na Duma, o espaço pavimentado permanecia intransitável até à uma da tarde, hora a que o túmulo de Lenine fechava aos visitantes. Lord considerava a medida ridícula, mas parecia ser o suficiente para satisfazer o ego daqueles que outrora haviam dominado aquela nação de cento e cinquenta milhões de habitantes.

Um dos guardas de uniforme reconheceu o autocolante cor de laranja colocado no pára-brisas do carro e indicou o caminho para a Porta do Salvador. Lord sentiu-se entusiasmado por entrar no Kremlin através daquela porta. A Torre do Spass Kaia, mesmo por cima da sua cabeça, fora erigida em 1491 por Ivan III, integrada na reconstrução em grande escala do Kremlin, e vira passar todos os novos czares e czarinas em direcção ao trono. Naquele dia, fora designada a entrada oficial dos membros da Comissão do Czar e do pessoal a ela ligado.

Sentia-se ainda um pouco abalado. As lembranças da perseguição de que fora alvo no dia anterior continuavam a pairar sobre a sua cabeça. Durante o pequeno-almoço, Hayes garantira-lhe que não correria quaisquer riscos. Confiava em Hayes. Respeitava-o. Desejava desesperadamente fazer parte integrante da história que ali se escrevia, mas interrogava-se se não estaria porventura a ser tolo.

O que diria o seu pai se o pudesse ver naquele momento?

O reverendo Grover Lord não simpatizava muito com advogados. Gostava de os descrever como “gafanhotos na plantação da sociedade”. Fora certa vez visitar a Casa Branca, incluído num grupo de pastores do Sul convidado para tirar uma fotografia com o presidente, quando este assinou uma vã tentativa de reintegrar as orações nas escolas públicas. Menos de um ano mais tarde, o Supremo Tribunal considerou a lei inconstitucional. “Gafanhotos ímpios”, gritara o seu pai do púlpito.

Grover Lord não queria que o seu filho fosse advogado e demonstrava o seu descontentamento não dando nem um centavo para a faculdade de Direito, embora pudesse sem qualquer dificuldade ter pago todo o curso. Isso obrigara Lord a financiar os seus próprios estudos recorrendo a empréstimos e empregos nocturnos. Obtivera boas notas e havia-se licenciado com distinção. Conseguira um excelente emprego, subira na carreira e estava prestes a testemunhar um novo capítulo da história.

Assim sendo, o seu desejo era que Grover Lord se danasse.

O automóvel entrou no pátio do Kremlin.

Lord contemplou o que fora outrora o Presidium do Soviete Supremo, um rectângulo compacto em estilo neoclássico. A bandeira vermelha dos bolcheviques já não se agitava no mastro. Agora, este era encimado por uma águia imperial de duas cabeças que esvoaçava com a brisa da manhã. Notou também a ausência do monumento a Lenine que em tempos se situara à direita do pátio e recordou a celeuma que acompanhara a sua retirada. Sabiamente, Ieltsine ignorara o descontentamento popular e ordenara que a estátua fosse fundida.

Maravilhou-se com os edifícios que o rodeavam. O Kremlin representava o gosto russo pela imponência. Sempre se haviam deixado impressionar por praças capazes de acomodar mísseis, sinos tão descomunais que nunca caberiam nos campanários e foguetões tão potentes que eram impossíveis de controlar. Para os Russos, maior não era apenas melhor, era também sinónimo de glória.

O automóvel abrandou e virou à direita.

As catedrais do Arcanjo Miguel e da Anunciação erguiam-se à sua esquerda e à direita as catedrais da Dormição e dos Doze Apóstolos. Mais edifícios superfluamente desmedidos e todos mandados construir por Ivan III. Uma extravagância que lhe valeu o cognome de “o Grande”. Lord sabia que inúmeros capítulos da história russa haviam começado e terminado dentro daqueles antigos edifícios, cada um deles encimado por cúpulas douradas e elaboradas cruzes bizantinas. Já os visitara todos, porém nunca sequer sonhara que entraria na Praça das Catedrais numa limusine oficial, fazendo parte do esforço nacional para restaurar a monarquia russa. Nada mau para o filho de um reverendo da Carolina do Sul.

— Cada monumento! — exclamou Hayes.

— Tem razão — concordou Lord, sorrindo. O automóvel imobilizou-se.

Saíram ambos para o ar frio de uma manhã de céu azul e limpo, pouco habitual para o Outono russo. Talvez fosse um prenúncio de acontecimentos favoráveis, esperava Lord.

Nunca antes entrara no Palácio de Facetas, pois encontrava-se fechado aos turistas. Era uma das poucas estruturas dentro do Kremlin que mantivera a sua arquitectura original. Ivan, o Grande, mandara erigir o edifício em 1491, baptizando-o de acordo com o formato de diamante dos blocos de pedra calcária que cobriam o seu exterior.

Abotoou o sobretudo e seguiu Hayes pela Escadaria Vermelha. Os degraus originais haviam sido destruídos por Estaline, aqueles que pisavam eram uma reconstrução baseada em pinturas antigas.

Por aquelas escadas, czares haviam outrora prosseguido em direcção à catedral adjacente, da Dormição, para serem coroados. E fora daquele exacto local que Napoleão observara o incêndio que destruiu Moscovo em 1812.

Dirigiram-se para o Salão Principal.

Contemplara apenas fotografias daquela antiga sala e, à medida que seguia Hayes, concluiu que nenhuma das imagens lhe fazia justiça. Sabia que o salão media cento e sessenta e quatro metros quadrados, a maior divisão da Moscovo do século XV, desenhada com o único intuito de impressionar os dignitários estrangeiros. Actualmente, castiçais de ferro brilhavam no alto e iluminavam o enorme pilar central e os ricos murais em ouro cujas cenas ilustravam temas bíblicos e a sabedoria dos czares.

Lord imaginou a cena tal como deveria ter ocorrido em 1613.

A Casa de Ruirik, que governara durante setecentos anos, e cujos governantes mais famosos incluíam Ivan, o Grande, e Ivan, o Terrível, chegara ao seu fim. Três homens haviam apresentado as suas pretensões ao trono, mas nenhum tivera sucesso. Teve então início a chamada “época de turbulência”. Tumultos, doze anos de angústia, enquanto muitos tentavam estabelecer uma nova dinastia. Por fim, os boiardos, cansados do caos em que o país mergulhara, vieram até Moscovo, entrando nas muralhas que agora o rodeavam, e elegeram uma nova família reinante. Os Romanov. Contudo, Miguel, o primeiro czar Romanov, encontrou uma nação em completa desordem. Ladrões e salteadores patrulhavam as florestas. A fome e a doença grassavam por todo o lado. O comércio era quase inexistente, os impostos continuavam por cobrar e os cofres do reino estavam quase vazios.

Não muito diferente da actualidade, concluiu Lord.

Setenta anos de comunismo haviam deixado as mesmas feridas que doze anos sem czar.

Por momentos, imaginou-se um dos boiardos que participara na selecção do novo governante, ricamente vestido com veludos e brocados, envergando um chapéu de zibelina e sentado num dos bancos de carvalho alinhados junto às paredes douradas.

Deveria, sem dúvida, ter sido um momento único.

— Inacreditável — sussurrou Hayes. — Ao longo dos séculos, estes tolos não conseguiram que um campo de trigo produzisse mais que uma colheita, mas foram capazes de construir isto.

Lord concordou.

Uma fila de mesas em forma de U, cobertas com veludo vermelho, dominava uma das extremidades da sala. Contou dezassete cadeiras de encosto alto e pôs-se a observar à medida que cada uma delas ia sendo ocupada por um delegado do sexo masculino. Nenhuma mulher chegara aos dezassete principais. Não houvera eleições regionais, apenas um período de qualificação que durara trinta dias após o qual se seguiu uma votação nacional, sendo que as dezassete pessoas mais votadas formariam a comissão. No fundo, tratara-se de um gigantesco concurso de popularidade, mas fora talvez também a forma mais simples de garantir que a facção de nenhum dos candidatos dominava a votação.

Lord seguiu Hayes até uma fila de cadeiras e sentou-se com os restantes membros do pessoal e da imprensa. Haviam sido instaladas câmaras de televisão para transmitirem as sessões em directo.

A reunião foi aberta por um delegado escolhido no dia anterior para desempenhar as funções de presidente. O homem pigarreou e deu início à leitura de um documento que trazia preparado.

 

— No dia dezasseis de Julho de mil novecentos e dezoito, o nosso mui nobre czar, Nicolau II, e todos os seus herdeiros foram assassinados. O objectivo do nosso mandato é rectificar os anos subsequentes e devolver a esta nação o seu czar. O povo elegeu esta comissão para escolher a pessoa que irá governar o país. Essa atitude tem precedentes históricos. Em mil seiscentos e treze, outro grupo de homens reuniu-se nesta mesma sala e escolheu o primeiro governante da família Romanov, de seu nome Miguel. Os seus descendentes governaram esta nação até à segunda década do século vinte. Reunimo-nos aqui para corrigir o erro cometido nessa altura.

“A noite passada, rezámos ao lado de Adrian, patriarca de toda a Rússia que pediu a Deus que iluminasse a nossa missão. Declaro a todos os presentes que esta comissão irá actuar de forma clara, justa e cumpridora. O debate será encorajado, uma vez que apenas com a livre partilha de ideias se pode apurar a verdade. Agora, deixemos que todos os que connosco têm assuntos a tratar se aproximem e sejam ouvidos.

Lord assistiu, tranquilo, a toda a sessão da manhã. O tempo fora ocupado com comentários introdutórios, assuntos parlamentares e com a organização da agenda. Os delegados concordaram que no dia seguinte deveria ser apresentada uma lista inicial de candidatos, com um representante a oferecer pessoalmente o candidato a apreciação. Foi ainda aprovado um período de três dias para mais nomeações e debate. No quarto dia teria lugar uma votação para reduzir a lista a três candidatos e seguir-se-ia uma nova ronda de debate. A selecção final seria realizada dois dias mais tarde. A unanimidade só se tornaria um requisito fundamental na última votação, tal como ditara o referendo nacional. Todas as restantes votações iriam decidir-se por maiorias simples. Se após os seis dias não fosse seleccionado nenhum candidato, então o processo começaria de novo. Contudo, parecia reinar um consenso geral de que, para bem da confiança nacional, deveriam ser envidados todos os esforços no sentido de seleccionar uma pessoa aceitável logo na primeira volta.

Um pouco antes do intervalo do meio-dia, Lord e Hayes retiraram-se para o Vestíbulo Sagrado. Hayes conduziu-o até uma das portas mais afastadas onde o motorista de cabeleira cerrada esperava.

— Miles, este é Ilia Zinov. Será o seu guarda-costas quando sair do Kremlin.

Estudou a figura esfíngica do russo. Um olhar gélido completava uma face sem qualquer expressão. O pescoço do homem era tão largo como o seu queixo e Lord ficou mais descansado ao notar o seu aparente físico robusto e atlético.

— O Ilia tomará conta de si. Vem altamente recomendado. É um ex-militar e conhece bem a cidade.

—        Agradeço-lhe muito, Hayes. Agradeço mesmo.

—        Hayes sorriu e consultou o relógio.

— É quase meio-dia e precisa de chegar a horas para a reunião. Eu tomo conta das coisas por aqui. Estarei no hotel antes de você começar — disse Hayes; depois voltou-se para Zinov. — Tome conta dele, tal como combinámos.

 

12.30

LORD entrou na sala de conferências do Volkhov, um rectângulo sem janelas onde mais de trinta homens e mulheres o esperavam, todos enfiados nos seus fatos mais formais. Os empregados haviam começado a servir as bebidas. O ar quente transportava um cheiro forte a tabaco. Elia Zinov esperava lá fora, do outro lado das portas duplas que levavam à zona de entrada do hotel. Lord sentia-se mais confiante por saber que o russo estava por perto.

As caras que o receberam não escondiam a sua preocupação. Miles estava a par da situação difícil que viviam. Haviam sido encorajados por Washington a investir na Rússia e a atracção do novo mercado fora demasiado tentadora para recusarem. Porém, a quase constante instabilidade política, as ameaças diárias da máfía e os pagamentos para protecção estavam a reduzir os lucros e a transformar uma oportunidade de investimento de sonho num autêntico pesadelo. As pessoas ali presentes eram nada mais do que os principais investidores americanos na nova Rússia: empresas de transportes, construção civil, bebidas, indústria mineira, extracção de petróleo, comunicações, computadores, cadeias de comida rápida e bancos. A Pridgen & Woodworth fora contratada para tomar conta dos seus interesses colectivos, cada um deles confiando na reputação de Taylor Hayes como negociante idóneo e com os contactos certos dentro da Rússia.

Esta era a primeira reunião de Lord com o grupo, embora já conhecesse muitos dos seus membros pessoalmente.

Hayes seguiu-o para o interior da sala e deu-lhe uma leve pancadinha no ombro.

— Muito bem, Miles, faça a magia do costume. Lord entrou na sala fortemente iluminada.

— Boa tarde, meus senhores. O meu nome é Miles Lord. — Toda a sala se aquietou. — Alguns de vocês já conheço. Os que ainda não, é um prazer tê-los aqui. Mister Taylor Hayes achou que esta reunião ajudaria a esclarecer algumas das vossas dúvidas. As coisas vão começar a acontecer com alguma celeridade e temo que não tenhamos tempo para falar nos dias mais próximos.

— Garanto-lhe que temos muitas perguntas — gritou uma mulher loura e entroncada com sotaque de Nova Inglaterra.

Lord sabia que ela era a presidente das transacções com a Europa de Leste da Pepsico.

— Quero saber o que se está a passar. A minha direcção está nervosa com tudo isto.

“E é natural”, pensou Lord, mas não foi isso que disse. Ao contrário:

— Não vai sequer deixar-me começar, não é?

— Não precisamos de discursos, precisamos de informações.

— Posso dar-lhe números. A actual produção industrial nacional baixou quarenta por cento. O valor da inflação aproxima-se dos cento e cinquenta por cento. O desemprego é baixo, cerca de dois por cento, mas o verdadeiro problema é o subemprego.

— Já ouvimos isso tudo — esclareceu outro dos presentes. Lord não o conhecia.

— Os farmacêuticos transformaram-se em padeiros, os engenheiros trabalham em linhas de montagem. Os jornais de Moscovo estão cheios desse paleio.

— Mas as coisas não estão tão más que não possam ficar piores — disse Lord. — Há uma piada popular que diz:

Ieltsine e os governos que vieram depois dele conseguiram em duas décadas o que os soviéticos não foram capazes de fazer em setenta e cinco anos: levar o povo a ansiar pelo comunismo. — Escutaram-se algumas risadas. — Os comunistas ainda possuem uma organização fortemente enraizada. Em cada mês de Novembro, o Dia da Revolução é marcado por impressionantes manifestações. Eles pregam a nostalgia. Ausência de crime, pobreza mínima, garantias sociais. Essa mensagem soa bem aos ouvidos de uma nação a afundar-se em desespero. — Fez uma pausa. — Mas o aparecimento de um líder fascista e fanático, que não seja comunista, nem democrata, mas um demagogo, é a mais assustadora das hipóteses. E isso é ainda mais verdadeiro se tivermos em conta a considerável capacidade nuclear da Rússia.

Algumas cabeças acenaram em sinal de concordância. Isso significava que, ao menos, estavam atentos.

— E como aconteceu tudo isto? — perguntou um homem pequeno e soturno. Lord recordava-se vagamente que ele trabalhava em computadores.

— Nunca fui capaz de entender como chegámos a este ponto — explicou Lord, recuando em direcção à parede atrás de si. — Os Russos sempre apreciaram o conceito de um valor nacional. O carácter nacional russo jamais se baseou na individualidade ou no mercado. É algo muito mais espiritual, mais profundo.

— Seria bem mais fácil se conseguíssemos ocidentalizar o diabo do país todo — afirmou um dos homens.

Sempre se irritara com a noção de ocidentalizar a Rússia. Aquele país nunca se ligaria por completo ao Ocidente, nem exclusivamente ao Oriente. Era, como sempre havia sido, uma mistura única. Lord acreditava que o investidor inteligente seria aquele que soubesse compreender o orgulho russo. Explicou aos presentes o que pensava e voltou a responder às perguntas.

— O governo russo entendeu finalmente que necessitava de algo que estivesse acima da política. Uma ideia que mobilizasse o povo. Talvez até um conceito que pudesse servir de uma base de governação. Dezoito meses mais tarde, quando a Duma pediu ao Instituto para a Opinião Pública e Estudos de Mercado que pesquisasse uma ideia dentro desse conceito, ficou surpreendida ao ler os resultados: Deus, Czar e País. Por outras palavras, tragam de volta a monarquia. Radical? Sem dúvida. Mas quando a questão foi posta ao povo, através do voto, este respondeu em peso que sim.

— E porque pensa que isso terá acontecido? — inquiriu um dos homens.

— Bem, só lhe posso dar a minha opinião pessoal. Primeiro, existe um medo real que o comunismo ressuscite. Assistimos a isso apenas há alguns anos atrás quando Ziuganov defrontou Ieltsine e quase ganhou. Contudo, uma grande maioria dos russos não deseja o regresso ao totalitarismo e todas as sondagens comprovam isso. De qualquer maneira, isso nunca impediria um populista de pregar sobre as dificuldades do povo e chegar ao poder com falsas promessas. A segunda razão está mais enraizada. O povo simplesmente acredita que a forma de governação actual é incapaz de resolver os problemas do país. E, para ser franco, acho que têm razão. Reparem nas taxas de criminalidade. Estou certo de que cada um de vocês paga protecção a uma ou mais organizações da máfia. Não têm sequer escolha. É pagar ou regressar a casa num caixão.

Lord recordou-se mais uma vez dos acontecimentos do dia anterior, mas nada disse sobre isso. Hayes aconselhara-o a manter segredo. As pessoas presentes na reunião já aparentavam nervosismo suficiente e não precisavam de saber que os seus advogados se tinham transformado em alvos a abater.

— Subsiste a crença de que, se uma pessoa não rouba, então anda a enganar-se a si própria. Menos de vinte por cento da população se dão ao trabalho de pagar impostos. A Rússia está à beira da ruína interna. É, por isso, fácil de entender por que razão estas pessoas acreditam que tudo é melhor do que a situação em que vivem. Para além de existir também uma certa nostalgia em relação ao czar.

— São doidos! — opinou um dos homens. — A porcaria de um rei.

Lord compreendia a opinião que os Americanos tinham da autocracia. Porém, a combinação de tártaros e eslavos que dera origem à moderna Rússia parecia clamar por uma liderança autocrática e fora essa luta pela supremacia que mantivera a sociedade russa viva através dos séculos.

— A nostalgia é fácil de compreender — afirmou ele. — Apenas na década passada foi revelada toda a verdade sobre o que sucedeu a Nicolau II e à sua família. Por toda a Rússia cresce a certeza de que os acontecimentos de Julho de mil novecentos e dezoito foram um grande erro. Os Russos sentem-se enganados pela ideologia soviética que transformou o czar na personificação do mal.

— Muito bem, o czar vai regressar — começou um dos presentes.

— Não propriamente — explicou Lord. — Esse é um equívoco que os meios de comunicação não compreendem. Foi por essa razão que o Taylor achou que esta reunião seria benéfica. — Percebeu que captara a atenção de todos. — O conceito do czar está de regresso, todavia subsistem duas perguntas para as quais ainda não existem respostas. Quem será o novo czar? E qual será a amplitude dos seus poderes?

— Ou ela — acrescentou uma das mulheres. Lord abanou a cabeça.

— Não. Apenas ele. Disso temos a certeza. Desde mil setecentos e noventa e sete que a lei russa estipula que a linhagem deverá obedecer apenas à descendência masculina. Partimos do princípio de que essa lei será mantida.

— Muito bem — disse um homem. — Então, responda às duas perguntas.

— A primeira é fácil. O czar será aquele que os dezassete representantes da comissão escolherem. Os Russos gostam de comissões. No passado, a maioria limitava-se a carimbar papéis para o Comité Central, mas esta trabalhará independente do governo, o que neste momento até nem é difícil, tendo em conta que quase não existe governo. Os candidatos serão apresentados e as suas pretensões avaliadas. O concorrente mais forte nesta altura é o nosso, Stefan Baklanov. Segue uma filosofia ocidental, mas é de linhagem directa dos Romanov. Os senhores pagam-nos para se certificarem de que a sua candidatura será aquela que a comissão escolherá. O Taylor está a trabalhar arduamente para que isso aconteça. Eu passei as últimas semanas nos arquivos certificando-me de que nada pode afectar as pretensões de Baklanov.

— Extraordinário, eles deixarem-no remexer em tudo — disse uma voz.

— Não é bem assim — explicou Lord. — Não estamos de facto envolvidos na Comissão do Czar, embora tenhamos credenciais que o possam sugerir. Estamos aqui para tomar conta dos vossos interesses e para nos certificarmos de que Stefan Baklanov é seleccionado. Tal como na América, também aqui o lobbying é uma forma de arte.

Um homem na fila de trás levantou-se.

— Todos nós aqui presentes temos as carreiras em perigo! O senhor entende a gravidade disso? Estamos a falar de uma possível reversão de uma semidemocracia para uma autocracia. Sem dúvida alguma que isso terá algum impacte nos nossos investimentos.

Lord tinha a resposta preparada.

— Nesta altura não sabemos que tipo de autoridade irá ter o novo czar. Tal como não sabemos se ele irá ser apenas uma figura decorativa ou o governante de toda a Rússia.

— Acorde, Lord — ripostou um dos presentes — , estes idiotas não vão entregar o poder político nas mãos de um único homem.

— O consenso parece apontar nessa direcção.

— Isto não pode estar a acontecer — reclamou outro.

— Nem tudo é mau — apressou-se Lord a acrescentar. — A Rússia está falida e precisa de investimento estrangeiro. Concordarão que será mais fácil negociar com um autocrata do que com a máfia.

Alguns murmuraram a sua concordância, mas um homem

perguntou:

— E esse problema vai desaparecer?

— Só nos resta esperar que sim.

— O que acha, Taylor? — questionou outro dos homens do

grupo.

Hayes ergueu-se da sua cadeira na fila do fundo e avançou

até junto de Lord.

— Penso que o que foi dito pelo Miles está absolutamente

correcto. Estamos prestes a testemunhar o regresso do czar de toda a Rússia. A recriação de uma monarquia absoluta. Extraordinário, é o que eu acho.

— E assustador — observou um dos homens. Hayes sorriu.

— Não se preocupem. Pagam-nos para tomarmos conta dos

vossos interesses. A comissão já deu início aos trabalhos. Estaremos lá a fazer o que nos contrataram para fazer. Confiem em nós.

 

14.30

HAYES entrou na pequena sala de conferências no sétimo andar. O edifício de escritórios erguia-se no centro de Moscovo, um rectângulo moderno com uma fachada em vidro escuro. Sempre apreciara os locais escolhidos para as reuniões. Os seus benfeitores pareciam deliciar-se com o luxo.

Estaline estava sentado frente à mesa de conferências.

Dmitri Iakovlev era o representante da máfia na Chancelaria Secreta. Com quarenta e poucos anos, cabelo louro e pele bronzeada, o homem irradiava charme e confiança. Os cerca de trezentos gangues que ocupavam a zona ocidental da Rússia haviam concordado com um único embaixador para representar os seus interesses. Estavam demasiadas coisas em jogo para discutir questões de protocolo. A facção criminosa sabia defender a sua sobrevivência e também sabia o que um monarca absoluto com o total apoio popular poderia fazer por eles. Ou para eles.

Em muitos aspectos, Estaline era o centro de tudo. A influência dos gangues estendia-se ao governo, aos negócios e às forças armadas. Os Russos haviam-nos denominado vori v zakone, os “ladrões legais”, uma descrição que agradava a Hayes. Todavia, a sua violência era bem real, tendo em conta que um contrato para matar alguém era a forma mais barata e rápida de resolver uma contenda.

— Como foi a sessão de abertura? — perguntou Estaline num inglês perfeito.

— Os comissários organizaram-se, como era de esperar. Amanhã já começam a trabalhar a sério. O prazo para a primeira votação é de seis dias.

O russo parecia impressionado.

— Menos de uma semana, tal como previra.

— Eu disse-lhe que sabia o que estava a fazer. A transferência foi efectuada?

Hayes notou uma hesitação que significava descontentamento.

— Não estou acostumado a tanta frontalidade.

O que se subentendia era que não estava habituado a tamanha frontalidade por parte de um estrangeiro. Hayes decidiu recorrer à diplomacia embora também estivesse irritado.

— Não foi minha intenção ofendê-lo, mas a verdade é que os pagamentos não estão a ser cumpridos, como combinado, e eu não estou acostumado a que os acordos não sejam honrados.

Sobre a mesa estava uma folha de papel. Estaline fê-la deslizar até Hayes.

— Essa é a nova conta na Suíça, em Zurique, tal como pediu. O mesmo banco que anteriormente. Cinco milhões de dólares americanos foram depositados esta manhã. Todos os pagamentos em dívida, até hoje.

Hayes estava satisfeito. Durante dez anos representara a máfía nos seus investimentos pela América. Milhões de dólares haviam sido lavados através de instituições financeiras norte-americanas, a maioria do dinheiro canalizado para negócios legítimos que precisavam de capital, outro utilizado para comprar acções, valores, ouro e arte. A Pridgen & Woodworth ganhara milhões pela sua representação, tudo conseguido graças a uma combinação de leis americanas benévolas e burocratas ainda mais benévolos. Ninguém sabia qual a origem do dinheiro e, até à data, a actividade não atraíra a atenção das autoridades. Hayes usara essa representação para expandir ainda mais a sua influência dentro da firma e atrair um vasto número de clientes estrangeiros que a ele recorriam porque ele sabia como os negócios eram realizados na nova Rússia. Conhecia a forma mais vantajosa de usar o medo, a ansiedade e a incerteza e como aliviá-los. Estaline esboçou um sorriso.

— Isto está a tornar-se rentável para si, Taylor.

— Eu disse-lhe que não ia correr riscos sem contrapartidas.

— É o que estou a ver.

— E que conversa foi aquela ontem? O que queria dizer com expandir o meu papel neste assunto?

— Isso mesmo que eu disse. Podemos vir a precisar de resolver determinados assuntos e você possui uma certa “negabilidade”.

— Quero saber o que não me está a contar.

— Neste momento não é importante. Não há razão para se preocupar, estamos apenas a ser cuidadosos.

Hayes levou a mão ao bolso das calças e retirou de lá o cartão que Estaline lhe dera no dia anterior.

— Precisarei de usar este número? Estaline riu-se.

— A ideia de ter esse tipo de lealdade, de que à sua ordem homens saltarão para o rio, fascina-o?

— Quero saber por que razão posso vir a precisar deles.

— Esperemos que não precise. Agora fale-me sobre a concentração de poderes do novo czar. O que foi mencionado hoje na sessão?

Hayes decidiu esquecer o assunto.

— O czar deterá o poder; todavia, existirá também um conselho de ministros e uma duma com os quais terá de lidar.

Estaline avaliou a informação.

— Parece fazer parte da nossa natureza sermos voláteis. Monarquia, república, democracia, comunismo... nenhum deles funciona realmente. — Fez uma pausa e depois acrescentou com um sorriso: — Graças a Deus!

Hayes perguntou-lhe o que desejava na verdade saber. ;!

— E o Stefan Baklanov irá cooperar? Estaline olhou para o relógio.

— Presumo que terá a resposta daqui a pouco.

 

PROPRIEDADE GREEN GLADE

16.30

HAYES admirou a espingarda, uma Fox de canos duplos com coronha de nogueira turca, polida à mão e com acabamento brilhante. O cabo era estreito e esguio com o fuste longo e chapa de coice em borracha. Testou o mecanismo, fechado, com ejectores automáticos. Sabia que o preço oscilava entre os sete mil dólares, para um modelo básico, e os vinte e cinco mil para um topo de gama. Era uma arma verdadeiramente impressionante.

— É a sua vez de disparar — disse Lenine.

Hayes encostou a arma ao ombro e fez pontaria para o céu nublado da tarde. Estabilizou o cano da espingarda com um toque muito leve.

— Agora! — gritou ele.

O prato de barro foi lançado. Hayes seguiu o ponto negro na mira, apontou e disparou.

O alvo desintegrou-se numa chuva de cacos.

— É um bom atirador — elogiou Kruchtchev.

— A caça é a minha paixão.

Passava pelo menos nove semanas por ano a viajar pelo mundo em expedições de caça. Caribus e gansos no Canadá. Faisões e carneiros selvagens na Ásia. Raposas e veados na Europa, búfalos e antílopes em África. Não esquecendo os patos, gamos, tetrazes e perus selvagens que caçava frequentemente nas florestas do Norte da Virgínia e nas montanhas a oeste da Carolina do Norte. O seu escritório em Atlanta estava repleto de troféus. Os últimos meses haviam sido de tal modo intensos que não tivera sequer uma única oportunidade de ir caçar; por isso, estava grato por aquele passeio.

Deixara Moscovo logo após a reunião com Estaline. Um automóvel com motorista transportara-o para uma propriedade a cinquenta quilómetros a sul da cidade. A bonita casa senhorial fora construída em tijolo vermelho e as suas paredes estavam cobertas por hera. Pertencia a outro dos membros da Chancelaria Secreta, Georgi Ostanovitch, mais conhecido por Lenine.

Ostanovitch era um militar magro, com ar cadavérico e olhos cinzentos ampliados por uns óculos de lentes grossas. Era general, embora nunca usasse uniforme, um dos oficiais que comandara tropas no assalto a Grozny, no começo da guerra com a Chechénia. Durante o conflito perdera um pulmão, razão pela qual respirava com dificuldade. Após a guerra, tornara-se um crítico directo do presidente e das suas brandas políticas militares. Só a queda de Ieltsine do poder impedira que tivesse perdido o posto e a patente de oficial. As altas patentes temiam pelo seu futuro sob ordens de um czar e, assim, a presença dos militares em qualquer conspiração era considerada essencial. Ostanovitch fora escolhido como seu representante.

Lenine aproximou-se da marca no chão e preparou-se para disparar.

— Agora! — gritou o russo. E disparou um tiro certeiro.

— Excelente — elogiou Hayes. — Com o Sol cada vez mais baixo, começa a ser difícil seguir o alvo e disparar.

Stefan Baklanov, o “herdeiro legitimário”, encontrava-se logo ao lado com a espingarda aberta. Baklanov era um homem baixo, com pouco cabelo, peito pronunciado, olhos verdes e uma barba cerrada, estilo Hemingway. Devia ter perto de cinquenta anos e o seu rosto inexpressivo preocupava Hayes. No mundo da política, se um candidato sabia ou não governar era por vezes de pouca importância. A questão fulcral prendia-se com o facto de aparentar ou não ser capaz de liderar. Embora Hayes não tivesse qualquer dúvida de que todos os dezassete membros da Comissão do Czar acabariam por ser subornados, havia ainda assim que lhes apresentar um candidato apropriado para avaliação e, mais importante, o idiota escolhido teria de ser capaz de liderar ou, pelo menos, implementar eficazmente as ordens daqueles que o haviam feito chegar ao poder.

Baklanov aproximou-se da marca. Lenine e Kruchtchev recuaram.

— Estou curioso — disse Baklanov na sua voz de barítono.

— A monarquia será absoluta?

— Não funcionará de outra maneira — afirmou Lenine. Hayes abriu a espingarda e retirou o cartucho usado. Apenas

os quatro homens permaneciam no terraço de tijolo. À sua frente, o bosque de abetos e faias exibia as cores do Outono e, passando um pavilhão, mais ao longe, uma manada de bisontes pastava na planície.

— Terei o comando total das forças armadas? — perguntou Baklanov.

— Dentro de certos limites — respondeu Lenine. — Não estamos na época de Nicolau. Temos... considerações mais modernas.

— E vou poder controlar o exército?

— Quais seriam as suas medidas relativamente aos militares?

— questionou Lenine.

— Desconhecia que estava autorizado a ter as minhas próprias ideias.

O sarcasmo era óbvio e Hayes reparou que Lenine não ficou nada satisfeito. Baklanov também não se mostrou alheio a esse facto.

— Bem sei que o general considera que as forças armadas não possuem os fundos necessários e que as nossas capacidades defensivas ficaram diminuídas devido à instabilidade política. Contudo, não acredito que o nosso futuro assente numa força militar mais poderosa. O governo levou a nação à bancarrota construindo bombas enquanto as nossas estradas se degradavam e o povo passava fome. O nosso destino é suprir essas necessidades básicas. Hayes sabia bem que aquele não era o tipo de discurso que Lenine gostaria de ouvir. No final de cada mês, os oficiais russos ganhavam menos que os vendedores de rua. Os quartéis haviam-se transformado em aquartelamentos miseráveis. A manutenção das máquinas deixara de ser feita há anos e o material mais sofisticado tornara-se obsoleto.

— É claro que terão de se atribuir alguns fundos a fim de corrigir deficiências passadas. Precisamos de umas forças armadas mais fortes, por questões de defesa. — Tratava-se de um sinal claro de que Baklanov estava disposto a fazer acordos. — Mas pergunto: o património da coroa será devolvido?

Hayes por pouco não desatou a rir. O “herdeiro legitimário” parecia apreciar o estilo de vida dos seus anfitriões. A palavra czar era uma antiga distorção russa da palavra latina caesar, e Hayes considerava a analogia bem apropriada. Aquele homem era capaz de vir a ser um excelente César. Era dono de uma arrogância desenfreada que chegava a raiar a patetice. Talvez Baklanov se tivesse esquecido de que a paciência dos amigos de César, na antiga Roma, um dia chegara ao fim.

— E qual era a sua ideia? — perguntou Kruchtchev?

Kruchtchev, de seu nome verdadeiro Maxim Zubarev, era o representante do governo; um homem fanfarrão e de modos altivos. Hayes pensara muitas vezes que aquela atitude seria uma forma de compensar a cara de cavalo e os olhos castanhos enrugados, que em nada o favoreciam. Representava um número considerável de altos funcionários dos serviços centrais de Moscovo preocupados com o peso da sua influência na nova monarquia. Zubarev sabia, e já o dissera bastantes vezes, que a ordem nacional subsistia apenas porque o povo se dispusera a tolerar a autoridade do governo até que a Comissão do Czar terminasse o seu trabalho. Os ministros que pretendessem sobreviver a essa metamorfose teriam de se adaptar, e rapidamente. Era por essa razão que necessitavam de um representante naquela ilícita manipulação do sistema.

Baklanov fitou Kruchtchev.

— Gostaria de recuperar os palácios pertencentes à minha família na altura da revolução. Eram propriedade dos Romanov, usurpada por ladrões.

Lenine riu-se e depois perguntou:

— E como planeia mantê-los?

— Não pretendo. O Estado irá fazê-lo, claro. Mas talvez possamos chegar a algum tipo de acordo semelhante ao da monarquia inglesa. A maioria dos palácios permanecerá acessível ao público, e o dinheiro cobrado pelas visitas será usado na manutenção dos mesmos. Mas todos os bens e imagens da coroa pertencerão à própria coroa, divulgados por todo o mundo em troca do pagamento de direitos. A família real inglesa angaria desse modo milhões anualmente.

Lenine encolheu os ombros.

— Não vejo qualquer problema. É mais que sabido que o povo não poderá pagar essas monstruosidades.

— Sem dúvida — concordou Baklanov. — Reconverteria novamente o Palácio de Catarina, em Czarskoie Selo, em residência de Verão. E gostaria de ter o controlo exclusivo dos palácios do Kremlin. O Palácio de Facetas seria o centro da minha corte em Moscovo.

— Tem noção do custo dessa extravagância? — questionou Lenine.

Baklanov olhou-o fixamente.

— O povo não haveria de gostar que o seu czar vivesse numa barraca. O dinheiro é problema vosso, meus senhores. A pompa e a circunstância são essenciais à capacidade de governar.

Hayes admirou a coragem do russo. Fê-lo recordar Jimmy Walker, nos anos 20, a enfrentar os patrões da Tammany Hall, a máquina política do Partido Democrático em Nova Iorque. Mas esse tipo de bravura acarretava riscos. Walker acabou por se demitir do cargo de governador, os cidadãos acreditaram que ele era corrupto e a Hall abandonou-o por não cumprir ordens.

Baklanov apoiava a culatra sobre a brilhante bota do seu pé direito. Hayes observou-o admirando-lhe o guarda-roupa, fato completo Savile Row, se não estava enganado, camisa de algodão Charvet, gravata Canali e chapéu de feltro e camurça. O russo sabia vestir-se, isso era um facto.

— Os soviéticos passaram décadas a doutrinar o povo sobre os malefícios dos Romanov. Não passavam de mentiras atrás de mentiras — afirmou Baklanov. — O povo quer uma monarquia com todos os adereços que lhe são inerentes. Algo que não passe despercebido ao resto do mundo. E isso só pode obter-se com grande fausto e espectáculo. Começaremos por uma coroação bem elaborada, seguida por um gesto de lealdade do povo ao seu novo governante, digamos, por exemplo, um milhão de pessoas na Praça Vermelha. Depois disso, os palácios serão imprescindíveis.

— E a sua corte? — perguntou Lenine. — Vai escolher Sam-petersburgo como capital do país?

— Certamente. Os comunistas escolheram Moscovo. Um retorno ao passado irá simbolizar mudança.

— E seguirá também a tradição dos grão-duques e grã-duquesas? — questionou Lenine, não escondendo o seu desagrado.

— Claro. É necessário assegurar a sucessão.

— Mas não é segredo nenhum que despreza a sua família — afirmou Lenine.

— Os meus filhos serão os meus herdeiros. Fora isso, criarei uma nova classe dominante. Que melhor forma de recompensar os patriotas que tornaram tudo isto possível?

— Entre nós existe quem gostasse de ver uma classe de boiardos formada pelos novos-ricos e membros dos gangues. O povo espera que o czar acabe com a máfia, não que a recompense — disse Kruchtchev.

Hayes interrogou-se se ele seria assim tão corajoso caso Estaline estivesse presente. Brejnev e Estaline haviam sido propositadamente deixados fora do encontro. A divisão fora ideia de Hayes, uma variação do famoso jogo entre polícia bom e polícia mau.

— Concordo — admitiu Baklanov. — Uma lenta evolução será benéfica para todos os envolvidos. Mas neste momento estou mais preocupado com o facto de os meus herdeiros o serem realmente e que a dinastia Romanov continue.

Os três filhos de Baklanov, todos rapazes, tinham entre vinte cinco e trinta e três anos de idade. Odiavam o pai, mas a possibilidade de o mais velho se tornar czarévitche e os outros dois grão-duques promovera uma trégua familiar. A mulher de Baklanov era uma alcoólica inveterada. Passara os últimos trinta dias numa clínica austríaca tentando uma recuperação e assegurava a todos que estava disposta a trocar a garrafa pelo título de czari-na de toda a Rússia.

— A continuação da dinastia é algo que interessa a todos — explicou Lenine. — O seu primogénito parece um homem razoável. Garante que a sua política será continuada.

— E qual será a minha política? Hayes estava à espera daquela deixa.

— Fazer exactamente o que nós mandarmos!

Estava farto de usar de diplomacia com aquele idiota. Baklanov demonstrou abertamente a sua irritação. “Óptimo! É bom que ele se habitue”, pensou Hayes.

— Desconhecia que iria estar um americano envolvido nesta transição.

Hayes mirou-o e respondeu:

— E é este americano que patrocina o seu estilo de vida. Baklanov olhou para Lenine.

— O que ele diz é verdade?

— Não temos qualquer intenção de gastar os nossos rublos consigo. Os estrangeiros ofereceram e nós aceitámos. Eles têm muito a perder, ou a ganhar, nos anos vindouros.

— Garantiremos que será o próximo czar — continuou Hayes — , e com poderes absolutos. Existirá também uma duma, porém será tão impotente como um touro castrado. Todas as propostas de lei terão de ser aprovadas por si e pelo Conselho de Estado.

Baklanov acenou com a cabeça em sinal de concordância.

— A filosofia de Stolypin. Tornar a Duma um apêndice do Estado para aprovar a política governamental, não para a regular ou administrar. Soberania para o monarca.

Piotr Stolypin fora um dos últimos primeiros-ministros de Nicolau II. Era de tal forma um defensor violento do czarismo que a corda com que o carrasco enforcava os camponeses revoltosos foi apelidada de “gravata de Stolypin”, e os comboios que transportavam os exilados políticos para a Sibéria denominados “carruagens de Stolypin”. Apesar de tudo, o primeiro-ministro fora assassinado a tiro, na Ópera de Kiev, por um revolucionário, enquanto Nicolau II assistia.

— Talvez haja uma lição a retirar da morte de Stolypin — comentou Hayes.

Baklanov nada respondeu, mas a sua expressão demonstrava que entendera a ameaça.

— De que forma será escolhido o Conselho de Estado?

— Metade dos membros será eleita, a outra metade escolhida por si — explicou Lenine.

Hayes voltou a pegar na palavra.

— Uma tentativa de inserir um elemento de democracia no processo, por questões de relações públicas. Mas garantiremos que o conselho será controlável. Em assuntos de governação, obedecerá exclusivamente a nós. Foi uma tarefa hercúlea conseguir juntar toda a gente neste projecto. Você é a peça central. Sabemos disso. A discrição é benéfica para todos os envolvidos, por isso não terá qualquer intrusão pública da nossa parte. Todavia, a sua obediência não pode, nem deve estar em questão.

— E se eu recusar depois de subir ao trono?

— Então o seu destino será igual ao dos seus antepassados — advertiu Lenine. — Vejamos, Ivan VI passou a vida preso, Pedro II foi morto à pancada, Paulo I foi enforcado, Alexandre II foi vítima de um atentado bombista e Nicolau II foi morto a tiro. Podemos facilmente arquitectar uma morte condizente com a sua posição. Depois veremos se o próximo Romanov será mais cooperante.

Baklanov não disse nada. Virou-se para o bosque, fechou a espingarda e fez sinal para o homem que controlava a máquina dos alvos.

Um disco foi lançado ao ar.

Ele disparou e falhou.

— Parece que vamos ter de treinar a sua pontaria — observou Kruchtchev.

 

MOSCOVO

20.30

LORD estava nervoso por Hayes se ter ausentado da cidade tão de repente. A verdade é que se sentia mais seguro com o patrão por perto. Ainda não esquecera os acontecimentos do dia anterior e Ilia Zinov tinha ido dormir a casa, prometendo estar de volta ao Volkhov às sete da manhã do dia seguinte. Lord prometera não sair do quarto, mas sentia-se agitado e decidiu ir até ao bar.

Como habitualmente, havia uma mulher mais velha sentada atrás de uma espécie de secretária de madeira ao fundo do corredor do terceiro andar. Não existia maneira de entrar ou sair do elevador sem passar por ela. Era uma dezhumaia. Mais uma das relíquias da era soviética, quando cada piso de hotel era guardado por uma dessas mulheres, todas ao serviço do KGB. Um método simples de vigiar os hóspedes estrangeiros. Nos tempos actuais, mais não eram do que uma espécie de auxiliares.

— Vai sair, Mister Lord?

— Vou só até ao bar.

— Acompanhou hoje os trabalhos da comissão?

Lord não fizera segredo do seu trabalho para a comissão, saindo e chegando todos os dias com as credenciais presas ao bolso do fato.

Acenou afirmativamente.

— Vão escolher-nos um novo czar?

— É isso que espera deles?

— Sim. Este país precisa de um retorno às suas raízes. É esse o nosso problema.

Lord mostrou-se curioso.

— Somos um país grande que se esquece com facilidade do seu passado. O czar, um Romanov, irá devolver-nos as nossas raízes — explicou ela, orgulhosa.

— E se o czar escolhido não for um Romanov?

— Então vai ficar tudo na mesma — declarou. — Diga-lhes para nem sequer pensarem numa coisa dessas. O povo quer um Romanov. O mais próximo que encontrarem de Nicolau II.

Conversaram durante mais algum tempo e, antes de se dirigir para o elevador, Lord prometeu transmitir à comissão as opiniões da mulher.

Chegado ao rés-do-chão, dirigiu-se à mesma sala onde ele e Hayes haviam conversado no dia anterior, depois do tiroteio. Quando ia a passar frente a um dos restaurantes avistou uma cara conhecida. Era o russo com quem estivera no arquivo, acompanhado por três outros.

— Boa noite, professor Pashenko — cumprimentou Lord em russo. ,

— Mister Lord, que coincidência. Veio aqui jantar? >

— Estou hospedado neste hotel.

— Eu vim jantar com amigos. O restaurante é muito bom — explicou Pashenko, apresentando os seus acompanhantes.

Após uma pequena troca de palavras, Lord despediu-se.

— Foi um prazer reencontrá-lo, professor. Ia tomar uma bebida antes de me deitar.

— Posso fazer-lhe companhia? — perguntou Pashenko. — Gostei tanto de conversar consigo no outro dia.

Hesitou por uns momentos.

— Se quiser. É sempre bom ter companhia — retorquiu Lord.

Pashenko despediu-se dos amigos e seguiu Lord até à sala escurecida onde se escutavam acordes de piano.

Apenas metade das mesas estava ocupada. Sentaram-se e Lord pediu ao empregado que trouxesse uma garrafa de vodca.

— Ontem, quando dei por si, já tinha desaparecido — afirmou ele.

— Pude aperceber-me de que estava ocupado e eu já lhe tomara tempo bastante.

O empregado chegou com as bebidas e o seu convidado pagou antes que ele conseguisse sequer tocar na carteira. Recordou-se do que a mulher do corredor lhe dissera.

— Professor, posso fazer-lhe uma pergunta? ;

— Com certeza.

— Se a comissão escolher um candidato que não seja um Romanov, quais serão as consequências?

Pashenko serviu as bebidas.

— Isso seria um erro. O trono pertencia à família Romanov na altura da revolução.

— Há quem argumente que Nicolau desistiu do trono quando abdicou em Março de mil novecentos e dezassete.

Pashenko soltou uma gargalhada.

— Com uma arma apontada à cabeça! Duvido que alguém possa dizer honestamente que ele abandonou o trono e a herança do filho.

— Quem acredita que terá mais probabilidades de vir a ser escolhido?

O russo franziu o sobrolho.

— É uma pergunta difícil. Conhece a nossa lei da sucessão? Lord assentiu.

— O imperador Paulo assinou o decreto em mil setecentos e noventa e sete. Nele foram estabelecidos cinco requisitos: todos os pretendentes tinham de ser homens, enquanto existisse um homem elegível. Era também essencial que professasse a religião ortodoxa. A sua esposa e a sua mãe também teriam de ser ortodoxas. Todo e qualquer casamento devia efectuar-se com uma mulher de igual estatuto e proveniente de uma casa real. E o pretendente apenas poderia casar com autorização do czar reinante.

O incumprimento de qualquer destes requisitos era razão para ser eliminado de qualquer pretensão ao trono. Pashenko esboçou um sorriso.

— Conhece bem a nossa história. E quanto ao divórcio?

— Os russos nunca se preocuparam com isso. Era costume mulheres divorciadas casarem com membros da família real. Sempre achei isso interessante. Por um lado, uma devoção quase fanática à doutrina ortodoxa e, por outro, uma pequena fuga por questões políticas.

— Não existe nenhuma garantia de que a Comissão do Czar cumpra a lei da sucessão.

— Acredito que terão de o fazer. A lei nunca foi revogada, excepto por um manifesto comunista, mas nunca ninguém o considerou válido.

Pashenko inclinou a cabeça.

— Mas não é também verdade que os cinco critérios eliminam literalmente todos os candidatos?

Tratava-se de uma questão que ele e Hayes já haviam discutido. O professor estava certo, a lei da sucessão era um problema. E os poucos Romanov que haviam sobrevivido à revolução também não estavam a facilitar as coisas. Tinham-se dividido em cinco clãs diferentes, e apenas dois, o Mikhailovichi e o Vladimirovichi, possuíam laços genéticos suficientemente fortes para competirem pelo trono.

— É um dilema — afirmou o professor. — A verdade é que estamos perante uma situação única. Toda a família real foi morta. Não é de admirar que a sucessão se transforme num procedimento complicado. A comissão terá de deslindar este quebra-cabeças e eleger um czar adequado e que o povo aceite.

— Estou preocupado com o processo. Baklanov afirma que muitos dos Vladimirovichi não passam de traidores. Ao que sei, ele planeia apresentar provas para validar as suas acusações, se algum deles for escolhido.

— E está preocupado com Baklanov?

— Sim, muito.

— Encontrou alguma coisa que possa pôr em perigo a sua candidatura?

Lord abanou a cabeça.

— Não, nada. É um Mikhailovichi, o mais próximo em consanguinidade de Nicolau II. A sua avó era Xenia, irmã de Nicolau. A família fugiu da Rússia para a Dinamarca em mil novecentos e dezassete, assim que os bolcheviques chegaram ao poder. Os seus sete filhos cresceram no Ocidente e acabaram por se separar. Os pais de Baklanov viveram na Alemanha e em França. Ele frequentou as melhores escolas, mas só a morte prematura dos primos o deixou na linha directa para a sucessão. Actualmente, é ele o herdeiro mais velho. Até agora não encontrei nada que o possa prejudicar.

“Excepto a possibilidade de um descendente directo de Nicolau e Alexandra ainda estar vivo”, pensou Lord, mas era uma ideia demasiado fantasista para sequer a levar em consideração.

Ou, pelo menos, assim parecia até ao dia anterior.

Pashenko levou o copo de vodca até à cara enrugada.

— Conheço Baklanov. O seu único problema poderá ser a esposa. Ela é ortodoxa e tem uma pitada de sangue real, contudo não pertence a nenhuma casa real. Vendo bem, como poderia? Já existem tão poucas! Decerto que os Vladimirovichi irão apontar isso como motivo de desqualificação. Acredito que a comissão será forçada a ignorar esse requisito. Temo que nenhum dos candidatos seja capaz de o cumprir. E é óbvio que nenhum dos descendentes que sobreviveram pode pedir autorização ao czar para contrair matrimónio, uma vez que não existe nenhum há décadas.

Lord também já chegara a essa conclusão.

— Não acredito que o povo se preocupe com questões de matrimónio — continuou Pashenko. — São as acções futuras do novo czar e da czarina que importarão. Os Romanov sobreviventes podem revelar-se mesquinhos. Possuem uma longa história de lutas internas. Isso não poderá ser tolerado, principalmente em atitudes públicas frente à comissão.

Recordando-se da nota escrita por Lenine e da carta de Alexandra, decidiu tentar descobrir o que Pashenko saberia.

— Voltou a pensar nos documentos que lhe mostrei ontem no arquivo?

O russo sorriu.

— Compreendo a sua preocupação. E se existir um descendente directo de Nicolau II ainda vivo? Isso poria fim às pretensões de todos os Romanov, excepto desse. Não é possível que acredite que alguém possa ter sobrevivido ao massacre de Ieka-terimburgo?

— Não sei em que acreditar. Se os relatos do massacre forem fidedignos, então ninguém sobreviveu. Todavia, Lenine parecia duvidar dos relatórios. De qualquer maneira, também estou certo de que Iurovski nunca daria contas a Moscovo dizendo que lhe faltavam dois corpos.

— Concordo consigo. Existem provas incontestáveis de que terá sido esse o caso. As ossadas de Alexei e Anastasia não foram encontradas.

Lord evocou o ano de 1979, quando um geólogo reformado, Alexander Audonin, e um cineasta russo, Geli Riabov, encontraram o local onde Iurovski e os seus lacaios haviam assassinado a família imperial. Passaram meses a falar com familiares dos guardas e membros do Soviete do Ural e a examinar documentos e diários escondidos, um dos quais era o relato dos acontecimentos escrito pelo próprio Iurovski, que lhes fora dado pelo filho mais velho do executor, que preenchia muitas lacunas e indicava com precisão o local onde os corpos haviam sido escondidos. No entanto, o clima político da altura era de tal forma tenso que os possuidores dos registos temiam revelá-los e muito menos se atreveram a procurar os corpos. Foi apenas em 1991, após a queda do comunismo, que Audonin e Riabov seguiram as pistas e exumaram os restos mortais, identificados como pertencentes à família Romanov através de análises de ADN. Pashenko estava certo, apenas nove esqueletos haviam sido desenterrados e, embora o local tivesse sido minuciosamente analisado, os restos mortais dos dois filhos mais novos de Nicolau II nunca foram encontrados.

— Podem apenas estar enterrados noutro local — lembrou o professor.

— Mas o que queria Lenine dizer quando escreveu que os relatórios sobre o que sucedeu em Iekaterimburgo não eram totalmente fidedignos?

— É difícil adivinhar. Lenine era um homem complicado. Não restam dúvidas de que ele próprio ordenou a execução da família. Os registos mostram, sem sombra de dúvida, que as ordens partiram de Moscovo e foram pessoalmente aprovadas por ele. A última coisa que ele queria era que o Exército Branco libertasse o czar. Os brancos não eram realistas, mas o acto poderia ser o rastilho para o fim da revolução.

— A que se referia ele quando escreveu: “A informação relativa a Felix Iussupov corrobora a aparente falsidade dos relatórios de Iekaterimburgo”?

— ISSO é muito interessante. Estive a pensar nessas palavras em conjunto com o que Alexandra escreveu sobre Rasputine. Tudo isso é informação nova, Mister Lord. Considero-me uma pessoa bastante versada na história dos czares, mas nunca li nada que ligasse Iussupov à família real após mil novecentos e dezoito. — Voltou a servir-se de vodca. — Iussupov assassinou Rasputine. Muitos afirmam que esse acto acelerou a queda da monarquia. Tanto Nicolau como Alexandra odiavam-no pelo que fizera.

— Mais um elemento de mistério. Por que razão haveria a família real de estar relacionada com ele?

— Se bem me lembro, a maioria dos grão-duques e grã-duquesas apoiaram a decisão de matar o starets.

— Isso é verdade. E esse foi talvez o pior mal que Rasputine terá feito. Dividiu a família Romanov. Era Nicolau e Alexandra contra todos os outros.

— Rasputine era um autêntico enigma — observou Lord. — Um camponês oriundo da Sibéria com capacidade para influenciar directamente o czar de toda a Rússia. Um charlatão com poderes de imperador.

— Há quem argumente que ele não era nenhum charlatão. Muitas das suas profecias concretizaram-se. Afirmou que o czarévitche não morreria da hemofilia e foi verdade. Predisse que a imperatriz Alexandra veria a sua terra natal na Sibéria e aconteceu, a caminho de Tobolsk como prisioneira. Também profetizou que se fosse morto por um parente do czar, a família real não sobreviveria mais de dois anos. Iussupov casou com uma sobrinha dos Romanov, assassinou o starets em Dezembro de mil novecentos e dezasseis e a família Romanov foi executada dezanove meses depois. Nada mau para um charlatão.

Lord não se deixava impressionar por homens santos com supostas ligações com Deus. O seu pai afirmara ser um desses homens. Milhares de pessoas haviam-no escutado em reuniões religiosas gritar contra os males do mundo e curar os doentes. Claro que tudo isso era esquecido horas depois, assim que uma das senhoras do coro entrava no quarto dele. Lord lera muita coisa sobre Rasputine e sobre o modo como este seduzira as mulheres dessa mesma forma.

Afastou os pensamentos sobre o pai.

— Nunca foi provado que qualquer das profecias de Rasputine tivesse sido registada durante a sua vida — declarou. — A maioria apareceu muito mais tarde pela mão da filha, que parecia acreditar que a sua missão era recuperar a imagem do pai. Li o livro que ela escreveu.

— Isso pode ser verdade, até hoje.

— O que quer dizer?

— A carta de Alexandra fala da morte da família real no prazo de dois anos e estava datada pela sua própria mão, vinte e oito de Outubro de mil novecentos e dezasseis. Isso foi dois meses antes de Rasputine ser assassinado. Aparentemente, ele disse-lhe qualquer coisa. Uma profecia, segundo a czarina, e que ela memorizou. Assim sendo, Mister Lord, tem em sua posse um importante documento histórico.

Lord não se apercebera das verdadeiras implicações da sua descoberta, mas o professor tinha razão.

— Planeia ir a Sampetersburgo? — perguntou Paskenko.

— Não tencionava ir. Mas agora acho que sim.

— Uma excelente decisão. As suas credenciais dar-lhe-ão acesso a zonas do arquivo interditas a qualquer um de nós. Talvez lá encontre mais coisas, tendo em conta que agora sabe o que procura.

— O grande problema é esse, professor. Na verdade, não sei o que devo procurar.

O académico não parecia preocupado.

— Esteja descansado. Tenho a certeza de que vai tudo correr bem.

 

SAMPETERSBURGO Quinta-feira, 14 de Outubro

12.30

LORD entrou no arquivo situado no quarto andar de um edifício em estilo pos-revolucionário cuja rachada abria para a movimentada Perspectiva Nevski. Conseguira marcar dois lugares no avião da Aeroflot que partia de Moscovo às nove da manhã. O voo fora agradável, mas enervante. A redução de custos e a falta de pessoal com formação adequada transformara a transportadora aérea nacional russa numa confusão, mas ele estava com pressa e não tinha tempo para conduzir ou apanhar o comboio até Sampetersburgo.

Ilia Zinov chegara ao salão de entrada do Volkhov às sete da manhã, como prometido, preparado para mais um dia de acompanhamento. O russo ficara surpreendido quando Lord lhe pediu que o levasse ao aeroporto e tentara telefonar a Hayes para pedir instruções. Lord informou-o de que Hayes estava fora da cidade e não deixara nenhum número de telefone para contacto. Infelizmente, o voo de regresso, à tarde, estava cheio e vira-se obrigado a reservar dois lugares no comboio da noite que partia de Sampetersburgo em direcção a Moscovo.

Enquanto a capital projectava um ar de realidade, com ruas sujas e estruturas sem um mínimo de imaginação, Sampetersburgo era uma cidade de contos de fada, com palácios em estilo barroco, catedrais e canais. Quando o resto da nação vivia rodeada de uma cinzenta monotonia, ali as fachadas de granito cor-de-rosa e os estuques amarelos e verdes ofuscavam o olhar. Recordou-se do modo como o escritor russo Nikolai Gogol descrevera a cidade: “Tudo nela exalava falsidade.” Nos dias que corriam, tal como outrora, a cidade parecia atarefada consigo mesma. Construída por arquitectos italianos, o seu plano reflectia uma clara influência europeia. Fora a capital do império até 1917, altura em que os comunistas subiram ao poder, e falava-se que o voltaria a ser quando o novo czar iniciasse funções.

Havia pouco trânsito à saída do aeroporto para a manhã de um dia de semana numa cidade com cinco milhões de habitantes. As suas credenciais da comissão foram ao início questionadas, mas uma chamada telefónica para Moscovo havia confirmado a sua identidade e foi-lhe concedido acesso a toda a colecção do arquivo, incluindo os Documentos de Segurança.

O arquivo de Sampetersburgo, embora pequeno, continha uma enorme quantidade de papéis escritos por Nicolau, Alexandra e Lenine. E, tal como Semion Pashenko dissera, os diários e cartas trocadas entre o czar e a czarina estavam todos ali, trazidos de Czarskoie Selo e Iekaterimburgo após o assassínio da família real.

O que transparecia daquelas páginas era o retrato de duas pessoas apaixonadas. Alexandra escrevia com a alma de um poeta romântico e as suas cartas expressavam também uma forte paixão física. Lord passou duas horas a vasculhar as caixas que continham a correspondência da czarina, mais para tentar entender o modo como aquela mulher intensa e complexa organizava os seus pensamentos do que com o propósito de encontrar fosse o que fosse.

Já a tarde ia a meio quando descobriu um conjunto de diários de 1916. Os volumes estavam guardados numa caixa de cartão bafienta etiquetada N&A. Conseguia sempre espantar-se com o modo como os Russos arquivavam os seus documentos. Tão meticulosos na sua criação e, contudo, tão descuidados na sua preservação. Os diários encontravam-se empilhados por ordem cronológica e as inscrições nas capas forradas a pano de cada um dos volumes revelavam que a maioria havia sido oferta das filhas de Alexandra. Alguns tinham cruzes suásticas bordadas na capa. Era um pouco estranho ver ali aquela imagem, mas ele sabia que, antes de Hitler o adoptar, aquele era um antigo símbolo de felicidade que Alexandra usava com frequência.

Folheou vários volumes e não encontrou mais nada para além dos devaneios habituais de duas pessoas apaixonadas. Só depois deparou com dois molhos de cartas. Retirou da sua pasta a fotocópia da carta que Alexandra escrevera a Nicolau a 28 de Outubro de 1916. Comparando a cópia com os originais, descobriu que a caligrafia e as margens decoradas com flores e folhas eram idênticos.

Porque fora aquela carta secretamente guardada em Moscovo?

Presumiu que talvez fizesse parte da eliminação da história imperial por parte dos comunistas. Ou simples paranóia. Mas o que tornava aquela carta tão importante ao ponto de estar selada numa bolsa com instruções para não ser aberta durante vinte e cinco anos? Uma coisa era certa, Semion Pashenko tinha razão. Segurava nas mãos um documento histórico importante.

Passou o resto da tarde a analisar tudo o que conseguiu encontrar sobre Lenine. Já eram quase quatro horas quando viu o homem. Era baixo e magro, com um olhar ansioso e lacrimejan-te. Vestia um fato largo de cor bege e, por várias vezes, Lord achou que o seu olhar se demorava a observá-lo mais do que deveria. Mas Zinov estava sentado ali perto, de guarda, e atribuiu as suas suspeições a paranóia resultante dos acontecimentos recentes, dizendo para si próprio que devia acalmar-se.

Finalmente, perto das cinco horas encontrou qualquer coisa de interessante. De novo, uma nota escrita pelo punho de Lenine. Teria passado despercebida, não fosse o nome de Iussupov ter-lhe chamado a atenção, o seu cérebro fazendo a associação com a anotação encontrada em Moscovo.

Felix Iussupov vive na Rue Gutenburg perto do Bois de Boulogne. Confraterniza com a aristocracia russa que invadiu Paris.

Os idiotas pensam que a Revolução vai acabar e que em breve regressarão para os seus cargos e para as suas riquezas. Disseram-me que uma viúva rica mantém a mala feita, pensando que em poucos dias voltará para casa. Fui informado pelos meus agentes depois de terem lido a correspondência trocada entre Iussupov e Kolia Maks. Foram pelo menos três cartas. Isso preocupa-me. Compreendo agora que foi um erro confiar as execuções ao Soviete do Ural. Os relatórios subsequentes estão a tornar-se perturbadores. Já temos presa uma mulher que afirma ser Anastasia. Chamou-nos a atenção devido às suas constantes cartas endereçadas ao rei Jorge V, implorando que a ajudasse a fugir. O Comité do Ural informou-me que duas das filhas do czar estão escondidas numa aldeia remota. Foram identificadas como Maria e Anastasia. Enviei agentes para se assegurarem da veracidade de tais relatos. Apareceu uma outra mulher em Berlim que garante ser Anastasia. Os meus informantes dizem-me que é extraordinariamente parecida com a filha do czar.

Tudo isto é deveras preocupante. Não fosse pelas suspeitas quanto ao que possa ter acontecido em Iekaterimburgo, consideraria estes relatórios absurdos. Mas temo que não seja assim tão simples. Devíamos ter morto Iussupov juntamente com o resto dos burgueses. A sua mulher tem sangue Romanov e alguns falam na possibilidade de uma restauração da monarquia, sendo ele o czar. Não passam de sonhos idiotas de gente idiota. Para eles a pátria já não existe e deviam entender isso de uma vez por todas.

Leu o resto da página, mas não existia qualquer outra menção a Felix Iussupov. Pelos vistos, Lenine estava com receio que Iurovski, o homem responsável pela execução dos Romanov em Iekaterimburgo tivesse entregue um relatório falseado dos acontecimentos.

Haviam sido mortas onze pessoas naquela cave ou apenas nove?

Ou talvez oito?

Quem saberia?

Lord matutou sobre os pretendentes à coroa que haviam aparecido por volta de 1920. Lenine fazia referência a uma mulher em Berlim. Descobriu-se mais tarde que o seu nome era Anna Anderson e tornou-se a mais célebre de todas as pretendentes. Filmes e livros relataram a sua história e, durante décadas, gozou da fama de uma celebridade afirmando até à sua morte, em 1984, que era a filha mais nova do czar. Contudo, uma análise ao seu ADN revelou que não possuía quaisquer laços com os Romanov.

Havia ainda um relato muito convincente, que se espalhara pela Europa nos anos 20, que contava que Alexandra e as suas filhas não haviam sido assassinadas em Iekaterimburgo, mas sim resgatadas antes de Nicolau e Alexei serem mortos. As mulheres estavam supostamente em Perm, uma pequena cidade perto do local do assassínio. Lord recordou-se de um livro que lera, O Arquivo do Czar, que se perdia em detalhes tentando provar essa teoria. Mais tarde, documentos aos quais o autor não tivera acesso, para não falar na subsequente descoberta dos restos mortais da família real, provaram sem sombra de dúvida que Alexandra, e pelo menos três das suas filhas, haviam morrido em Iekaterimburgo.

Nunca antes tivera conhecimento de uma história tão confusa e que misturasse de forma tão intrincada factos e ficção. Estava cada vez mais de acordo com a definição de Churchill: “A Rússia era uma adivinha, embrulhada num mistério, dentro de um enigma.”

Do interior da sua pasta retirou outra cópia que fizera no arquivo de Moscovo. Estava apensa a uma nota escrita à mão por Lenine. Não mostrara o documento a ninguém, nem a Hayes, nem a Semion Pashenko, porque não lhe parecera importante. Até àquele dia.

Era um excerto escrito à máquina retirado de um depoimento dado por um dos guardas de Iekaterimburgo, com data de Outubro de 1918, três meses após a execução dos Romanov.

O czar já não era um homem novo e a sua barba estava a ficar grisalha. Todos os dias vestia uma camisa da farda e o cinto de oficial apertado por uma fivela. Os seus olhos eram meigos e fiquei com a impressão de que seria uma pessoa simples, franca e conversadora.

Houve alturas em que senti que ele gostaria de falar comigo. Olhava para mim como se lhe apetecesse conversar. A czarina não era nada como ele. Tinha um olhar severo, a aparência e as maneiras de uma mulher arrogante. Por vezes os guardas comentavam coisas entre si e chegámos à conclusão de que ela tinha

" exactamente o ar que uma czarina deveria ter. Parecia mais velha que o czar. Junto às têmporas, o seu cabelo estava já bem grisalho e o rosto já não era o de uma mulher jovem. Todos os meus pensamentos negativos sobre o czar desapareceram após ter passado algum tempo entre os guardas. Depois de os ter visto várias vezes, comecei a sentir pena deles, como seres humanos. Desejava que o seu sofrimento terminasse. No entanto, apercebi-me do que iria acontecer. Os comentários sobre o destino da família eram claros. Iurovski certificou-se de que todos entendíamos a tarefa de que estávamos incumbidos. Após algum tempo, comecei a dizer a mim mesmo que era preciso fazer alguma coisa para os ajudar a fugir.

O que descobrira ele? E por que razão ainda ninguém avaliara a importância daquele documento? A verdade é que não fazia ainda muitos anos que os arquivos haviam sido abertos ao público. Para somar a isso, os Documentos de Segurança continuavam vedados à maioria dos investigadores e o estado caótico dos arquivos russos faziam com que encontrar alguma coisa fosse uma questão de sorte.

Precisava de regressar a Moscovo e contar as suas descobertas a Taylor Hayes. A candidatura de Stefan Baklanov podia vir a ser questionada com a possibilidade de existir alguém ainda mais próximo de Nicolau II. O jornalismo sensacionalista e a ficção popular há muito que reclamavam a existência de um herdeiro directo. Um estúdio de cinema havia até realizado um filme de animação para crianças baseado na sobrevivência de Anastasia. Todavia, tal como com Elvis e Jimmy Hoffa, as especulações eram bem mais que as provas conclusivas.

Ou seria que não?

Hayes desligou o telefone e tentou acalmar-se. Viajara de Moscovo para Green Glade em negócios e também em lazer.

Deixara um recado para Lord no hotel informando que tivera de se ausentar da cidade, que ele deveria continuar as suas pesquisas no arquivo e prometendo telefonar-lhe a meio da tarde. Não deixara qualquer forma de contacto, mas Ilia Zinov ficara de vigiá-lo e informar Hayes sobre tudo o que se passava.

— Era o Zinov — informou. — Lord passou o dia a vasculhar papéis no arquivo de Sampetersburgo.

— Não estava ao corrente disso? — perguntou Lenine.

— Não fazia a mínima ideia. Pensei que estivesse a trabalhar em Moscovo. O Zinov informou-me de que esta manhã ele lhe pediu que o levasse ao aeroporto. Volta esta noite para Moscovo no Flecha Vermelha.

Kruchtchev estava visivelmente furioso. “Uma coisa rara”, pensou Hayes. Dos cinco homens, o representante do governo era o mais calmo, quase nunca se irritando. Era também muito cuidadoso com a quantidade de vodca que bebia, talvez pensando que a sobriedade lhe daria vantagem sobre os outros.

Stefan Baklanov já deixara Green Glade, levado no dia anterior para outra propriedade não muito longe dali onde poderia permanecer em segurança até ao momento em que tivesse de se apresentar frente à comissão, o que aconteceria dali a dois dias. Passava pouco das sete horas da tarde e Hayes já deveria ir a caminho de Moscovo. Estava mesmo a sair quando chegou o telefonema de Sampetersburgo.

— O Zinov escapou-se durante o jantar e telefonou aos patrões. Foram eles que lhe deram o contacto daqui — explicou Hayes. — Disse-me também que ontem o Lord falou com um homem chamado Semion Pashenko no arquivo de Moscovo. O porteiro do hotel contou-lhe esta manhã que o Lord tomou uma bebida na noite anterior com um homem que correspondia à mesma descrição.

— E qual era a descrição? — indagou Kruchtchev.

— Perto dos sessenta anos, magro, olhos azul-claros. Careca. Barba curta na face e no pescoço.

Hayes apercebeu-se da troca de olhares entre Lenine e Kruchtchev. Toda a semana pressentira que aqueles homens lhe escondiam alguma coisa e cada vez menos lhe agradava aquela situação.

— Quem é ele? É óbvio que sabem. '“ Lenine suspirou e depois respondeu:

— Um problema.

— Isso já eu percebi. E que tal ser mais específico?

— Já alguma vez ouviu falar no Bando Sagrado? — perguntou Kruchtchev.

Abanou a cabeça.

— No século dezanove, o irmão do czar Alexandre II fundou um grupo que ficou conhecido por esse nome. Naquele tempo, o medo das execuções era grande. Alexandre mandara libertar os servos e essa medida não o tornara muito popular. O Bando Sagrado mais parecia uma anedota. Era composto por um punhado de aristocratas que haviam jurado defender a vida do czar. A verdade é que eles mal conseguiam defender-se a eles próprios e, no fim, Alexandre acabou por morrer vítima de um atentado à bomba. O Pashenko lidera um grupo contemporâneo composto apenas por amadores. O seu Bando Sagrado foi formado por volta dos anos vinte, tanto quanto se sabe, e sobreviveu até aos dias de hoje.

— Mas isso foi depois de Nicolau II e a família terem sido mortos — declarou Hayes. — Não havia sequer um czar para protegerem.

— O problema é esse — explicou Lenine. — Durante décadas circularam rumores de que alguns descendentes de Nicolau haviam sobrevivido ao massacre.

— Tretas! — exclamou Hayes. — Já li sobre todos os pretendentes. Não passavam de doidos. Todos eles.

— É possível. Todavia o Bando Sagrado subsiste.

— Isso tem alguma coisa a ver com o que o Lord descobriu no arquivo?

— Tem tudo a ver — disse Lenine. — E agora que o Pashenko estabeleceu contacto com ele, o Lord tem de ser eliminado de imediato.

— Outro atentado?

— Sem dúvida. E ainda esta noite.

Hayes decidiu não pôr em causa o facto.

— E como vou eu fazer chegar homens a Sampetersburgo ainda antes da meia-noite?

— Disponibilizamos o transporte aéreo.

— Podem explicar-me a razão de tanta urgência?

— Para ser franco, os pormenores não são importantes — argumentou Kruchtchev. — Basta-lhe saber que o problema pode colocar em risco todo o nosso trabalho até ao momento. Segundo parece, esse Lord é um independente que você não consegue controlar. Não podemos correr mais riscos. Utilize o número de telefone que lhe demos e dê as ordens aos homens. Esse chornie não pode regressar vivo a Moscovo.

 

SAMPETERSBURGO

23.30

LORD E O seu guarda-costas chegaram à estação de comboios. As plataformas de cimento estavam apinhadas de gente que se arrastava com espessos casacos de lã, alguns decorados com golas grossas de astracã, a maioria segurando pesadas malas ou sacos de compras. Ninguém parecia sequer notar a sua presença. E, para além do homem no arquivo, que pensara estar a vigiá-lo, não pressentira qualquer outro tipo de perigo durante todo o dia.

Ele e Zinov haviam apreciado um jantar descontraído no Grand Hotel Europe e passado o resto da noite num dos salões escutando um quarteto de cordas. Lord teria preferido dar um passeio pela Perspectiva Nevski, mas o guarda-costas alertara-o para o perigo de andar pela rua à noite. Assim, haviam ficado pelo hotel e apanhado um táxi directamente para a estação.

A noite estava fria e a Praça da Revolta cheia de trânsito. Lord imaginou os sangrentos confrontos entre a polícia do czar e os manifestantes que deram início à revolução em 1917. A batalha pelo controlo da praça havia durado dois dias. A estação de comboios era outra criação estalinista e a sua grandiosa fachada verde e branca adequava-se mais a um palácio do que a um terminal ferroviário. Ao lado, prosseguia a construção de uma estação para comboios de alta velocidade com ligação a Moscovo. O projecto multimilionário fora desenhado por um ateliê de arquitectos do Illinois, a trabalhar em parceria com uma empresa de engenharia inglesa, e o arquitecto responsável estivera presente na reunião do dia anterior no Volkhov, bastante nervoso sobre o seu futuro.

Lord reservara um compartimento com duas camas em primeira classe. Já várias vezes viajara no expresso Flecha Vermelha e recordava-se do tempo em que os colchões, os lençóis e os compartimentos muito deviam à higiene. Porém, as coisas haviam mudado e a viagem agora era considerada uma das mais luxuosas da Europa.

O comboio partiu a horas. Eram 11 e 55 da noite e chegariam a Moscovo às 7 e 55 da manhã do dia seguinte. O comboio percorreria seiscentos e cinquenta quilómetros em oito horas.

— Não estou com sono — disse a Zinov. — Acho que vou até ao vagão do bar tomar uma bebida. Pode esperar aqui, se quiser.

O guarda-costas assentiu com a cabeça e disse-lhe que aproveitaria para dormir um pouco. Lord deixou o compartimento e avançou por um corredor estreito, passando por mais dois vagões-cama. O fumo de carvão oriundo dos samovares colocados na extremidade de cada carruagem deixou-lhe os olhos a arder.

O bar estava equipado com confortáveis bancos de couro e decorado com acabamentos em carvalho. Escolheu uma mesa junto à janela e ficou a ver a paisagem passar na escuridão.

Pediu uma Pepsi, o seu estômago farto de vodca, e abriu a pasta, revendo os apontamentos feitos durante a tarde sobre os papéis que encontrara no arquivo. Estava convencido de que descobrira algo e questionava-se sobre o efeito que isso teria na candidatura de Baklanov.

Havia muitas coisas em jogo, tanto para a Rússia como para as empresas que a Pridgen & Woodworth representava. Não queria tomar nenhuma atitude que pudesse colocar em perigo o futuro de ambas, ou o seu dentro da firma. Mas era impossível ignorar as dúvidas que o assolavam.

Esfregou os olhos. Sentia-se cansado. Era comum trabalhar até tarde, mas a agitação dos últimos dias começava a fazer-se notar.

Acomodou-se no banco e apreciou a bebida. Não houvera nenhuma disciplina na faculdade de Direito que o tivesse preparado para aquilo. Nem mesmo os doze anos de trabalho na empresa. Advogados como ele deviam trabalhar em escritórios, tribunais e bibliotecas, sendo o único grande problema o modo de cobrar dinheiro suficiente para tornar tudo aquilo compensador e ganhar o reconhecimento dos sócios mais importantes, como Taylor Hayes, as pessoas que, em última análise, decidiam o seu futuro. As pessoas que queria impressionar.

Como o seu pai.

Conseguia ainda ver Grover Lord deitado no caixão aberto, a boca que pregara a palavra de Deus fechada para sempre, os lábios e o rosto pálidos. Haviam-no vestido com um dos seus melhores fatos e feito o nó de gravata que o reverendo mais gostava. Os botões de punho de ouro também lá estavam, juntamente com o relógio. Lord recordava-se de ter pensado como aquelas duas peças de joalharia podiam ter ajudado a pagar uma boa parte da sua educação. Perto de mil fiéis haviam comparecido ao serviço fúnebre, pontuado por gritos, desmaios e cânticos. A mãe pedira-lhe que dissesse algumas palavras. Mas o que haveria ele de dizer? Não podia chamar-lhe charlatão, hipócrita ou um péssimo pai; por isso, recusou-se a dizer fosse o que fosse. A mãe nunca lhe perdoara. Mesmo agora o relacionamento entre ambos era frio. Ela era Mrs. Grover Lord e orgulhava-se desse nome.

Esfregou os olhos de novo e começou a sentir-se ensonado.

O seu olhar desviou-se para o interior da carruagem e para as caras dos passageiros que, como ele, apreciavam uma bebida tardia. Um dos homens chamou-lhe a atenção. Jovem, cabelos louros e entroncado. Estava sozinho, apreciando uma bebida branca e a sua presença provocou um arrepio de medo em Lord. Representaria ele uma ameaça? Mas a sua dúvida desvaneceu-se quando surgiu uma rapariga acompanhada por uma criança. Sentaram-se ambas ao lado do homem e os três começaram a conversar.

Disse a si mesmo que precisava de ter calma.

Foi então que reparou num homem de meia-idade, ao fundo da carruagem, com uma cerveja na mão, face magra, lábios finos e o mesmo olhar ansioso e lacrimejante que vira nessa tarde.

Era o homem do arquivo, ainda vestido com o mesmo fato largo e de cor bege.

Lord ficou alerta.

Era demasiada coincidência.

Precisava de regressar para junto de Zinov, mas não queria tornar óbvia a sua desconfiança. Assim, bebeu o resto da Pepsi e depois fechou lentamente a pasta. Ergueu-se do lugar e lançou alguns rublos para cima da mesa. Esperava que os seus gestos mostrassem calma, mas ao sair viu no reflexo do vidro da porta que o homem se levantara e caminhava na sua direcção.

Abriu a porta deslizante com um puxão forte e saiu a correr da carruagem, fechando a porta atrás de si. Quando se virou, viu que o homem o seguia em passos apressados.

“Merda.”

Continuou a andar e entrou na carruagem onde ficava o seu compartimento. Um olhar rápido sobre o ombro confirmou que o homem já estava na carruagem anterior, avançando sempre.

Abriu a porta do compartimento.

Zinov não estava lá.

Fechou a porta. Talvez o seu guarda-costas estivesse na casa de banho. Correu pelo corredor estreito e contornou uma pequena esquina que levava à saída da outra ponta do corredor. A porta da casa de banho estava fechada, mas o sinal de ocupado não fora accionado.

Fez deslizar a porta. .”

Ninguém.

Onde raios estaria Zinov?

Entrou na casa de banho. No entanto, antes de o fazer escancarou a porta de saída para dar a impressão de que alguém tinha passado para a carruagem seguinte. Fechou a porta dos lavabos, mas não rodou o trinco para que o sinal de ocupado não ficasse visível do lado de fora.

Permaneceu imóvel, encostado com toda a força contra a porta de aço, a sua respiração pesada e o coração a bater acelerado. Ouviu barulho de passos e preparou-se para usar a pasta como arma de defesa. Do outro lado, a porta que dava acesso à outra carruagem abriu-se com um pequeno arrastar.

Um segundo mais tarde escutou-a fechar-se.

Esperou um minuto.

Como não ouvia qualquer barulho, abriu a porta do lavabo e confirmou que não havia ninguém no corredor. Depois fechou-a e rodou o trinco. Era a segunda vez em dois dias que conseguia fugir aos seus atacantes. Colocou a pasta sobre a tampa da sanita e debruçou-se sobre o lavatório para limpar o suor do rosto. Ao lado estava uma lata de desinfectante. Usou-a para limpar o sabonete e depois lavou as mãos e a cara, tendo o cuidado de não engolir qualquer água. Uma placa em cirílico avisava que nada era potável. Uma vez que não havia toalhas de papel, teve de limpar a cara ao lenço que trazia no bolso.

Olhou para a imagem da sua cara ao espelho.

Os olhos castanhos mostravam cansaço, as linhas da face pareciam descaídas e o cabelo precisava de ser cortado. O que estava a acontecer? E onde estaria Zinov? Que maravilha de guar-da-costas! Voltou a passar a cara por água e molhou os lábios, de novo tendo o cuidado de não engolir nada. “Que ironia. O diabo de uma superpotência com capacidade para mandar ir o mundo pelos ares umas mil vezes não era capaz de ter água potável num comboio”, pensou Lord.

Tentou recuperar a compostura. A noite deslizava a correr do outro lado de uma janela oval. Um comboio passou a grande velocidade na direcção oposta e o barulho das carruagens pareceu demorar minutos.

Inspirou profundamente, pegou na pasta e abriu a porta.

O caminho estava bloqueado por um homem alto e robusto com a cara marcada pelas bexigas e o cabelo preto e brilhante apanhado atrás num rabo-de-cavalo. Lord olhou com mais atenção e reparou de imediato no espaço alargado entre a pupila direita e a sobrancelha.

 

O Vesgo.

Lord sentiu o embate de um punho no seu estômago.

Dobrou-se sobre si mesmo, mal conseguindo respirar, invadido por uma sensação de náusea. A força do golpe projectou-o para a parede atrás de si, fazendo com que a sua cabeça batesse na janela e tudo rodopiasse à sua frente.

Atordoado, sentou-se na sanita.

O Vesgo entrou no lavabo e fechou a porta.

— Agora, Mister Lord, terminamos.

Conseguira não largar a pasta e, por momentos, pensou em elevá-la com força, mas o espaço era demasiado apertado para o golpe surtir algum efeito. Aos poucos começou a respirar melhor e o choque inicial foi substituído por medo. Um medo frio, de terror.

Na mão do Vesgo abriu-se uma navalha.

Teria apenas uns segundos.

Os seus olhos fixaram-se no desinfectante. Inclinou-se para a frente, agarrou a lata e pulverizou a cara do seu atacante. A mistura ácida cobriu os olhos do russo e este gritou. Lord elevou o joelho direito e acertou-lhe no meio das pernas. O Vesgo contorceu-se, deixando cair a navalha no chão de mosaicos. Lord atingiu-o com a pasta nas costas até ele cair. Depois bateu novamente e voltou a bater.

Saltou por cima do corpo e fez deslizar a porta de metal, saindo para o corredor. Do outro lado, o Cro-Magnon esperava por ele. A mesma testa inclinada, os cabelos espessos e o nariz bolboso que vira dois dias antes.

— Está com pressa, Mister Lord?

Deu um pontapé no joelho esquerdo do russo, atirando-o ao chão. À sua direita, um samovar fumegava com água quente, ao lado de um recipiente de vidro preparado para quem desejasse café. Lord atirou o líquido a ferver para cima do Cro-Magnon, que gritou de dor.

Depois virou-se e encaminhou-se a toda a velocidade para a saída adjacente à casa de banho. Conseguiu ainda ouvir o Vesgo a levantar-se e a chamar pelo Cro-Magnon.

Passou para a carruagem seguinte e correu pelo corredor o mais depressa que o espaço apertado lhe permitia. Esperava encontrar um empregado. Alguém. Apertou a pasta com força na mão e abriu a porta que dava para a próxima carruagem. Atrás de si, ouviu a porta da outra extremidade abrir-se e pelo canto do olho distinguiu os seus dois atacantes, já no seu encalço.

Continuou a correr e depois decidiu que aquela atitude era inútil. Mais cedo ou mais tarde o comboio chegaria ao fim.

Olhou rapidamente para trás.

O ângulo da carruagem permitiu que durante um momento não fosse visto. A entrada seguinte dava para mais compartimentos-cama. Calculou que ainda estivesse nos vagões da primeira classe. A solução era entrar num dos compartimentos o tempo suficiente para deixar os seus atacantes passarem. Talvez depois pudesse voltar para trás e encontrar Zinov. ... Tentou a primeira porta.

Trancada.

A porta seguinte também estava trancada. Teria apenas mais uns segundos antes de ser visto.

Agarrou a pega de um trinco e olhou para trás. Na entrada da carruagem apareciam sombras de pessoas. Assim que o ombro de um dos homens se tornou visível, Lord fez deslizar a porta e esta abriu-se.

Esgueirou-se lá para dentro e fechou-a.

— Quem é o senhor? — perguntou, em russo, uma voz de mulher.

Virou-se.

Sentada na cama, a poucos metros dele, estava uma mulher esguia como uma patinadora e de cabelos louros até ao ombro. Observou a sua cara oval, a pele muito branca e a ponta do nariz arrebitada. Tinha um ar feminino e simultaneamente arrapazado e os seus olhos azuis não mostravam o mínimo sinal de medo.

— Não se assuste — disse ele em russo. — O meu nome é Miles Lord. Estou com um problema grave.

— Ainda assim isso não explica o ter entrado de rompante no meu compartimento.

— Andam dois homens atrás de mim. — Faz parte da máfia? — interrogou ela?

Lord acenou que não com a cabeça. *

— Mas os homens que andam atrás de mim são capazes de ser. Mataram um homem há dois dias e já tentaram também matar-me.

— Chegue-se para trás — pediu ela.

Lord recuou até à janela do compartimento. A mulher abriu

a porta, espreitou lá para fora e depois fechou-a.

— Estão três homens ao fundo da carruagem.

— Três?

— Sim. Um tem um rabo-de-cavalo, o outro é encorpado e tem um nariz grande, como um tártaro.

O Vesgo e o Cro-Magnon.

— O terceiro é musculoso, louro e não tem pescoço.

A descrição correspondia à figura de Zinov. A sua mente procurava todas as possibilidades.

— E os três homens estavam a conversar?

— Sim. E também estavam a bater à porta dos compartimentos, dirigindo-se para aqui.

O medo que o invadiu transpareceu-lhe no olhar. A mulher apontou para o espaço por cima da porta.

— Suba para ali e não se mexa.

A abertura era suficientemente ampla para acomodar duas malas grandes. Ele caberia lá à vontade na posição fetal. Subiu para um dos beliches e içou-se. Ela passou-lhe a pasta. Ainda mal se acomodara quando bateram à porta.

A mulher abriu.

— Andamos à procura de um homem negro, de fato completo, e com uma pasta. — Era a voz de Zinov.

— Não vi ninguém com essa descrição — disse ela.

— Não minta — advertiu o Cro-Magnon num tom áspero. — Não é bom enganar-nos. Viu-o?

— Não vi nenhum homem negro. Não quero problemas com vocês.

— A sua cara não me é estranha — notou o Vesgo.

— Sou Akilina Petrovna do Circo de Moscovo. Fez-se silêncio.

— É isso mesmo! Já a vi actuar.

— Que maravilha. Talvez devessem continuar a vossa busca noutro lado. Preciso de descansar. Tenho um espectáculo esta noite.

E fechou a porta do compartimento.

Lord escutou o barulho do trinco.

E, pela terceira vez em dois dias, suspirou de alívio.

Esperou um momento antes de descer. Suor frio encharcava-lhe o peito. A sua anfitriã estava sentada no beliche oposto.

— Porque andam estes homens atrás de si?

O tom da sua voz era calmo e continuava sem demonstrar o mínimo sinal de preocupação.

— Não faço ideia. Sou advogado, vim da América e estou aqui a trabalhar com a Comissão do Czar. Até há dois dias pensava que ninguém sequer sabia que eu estava vivo, para além do meu patrão.

Sentou-se no beliche em frente. A adrenalina começava a desaparecer, substituída agora por espasmos musculares e uma enorme sensação de cansaço. Contudo, tinha ainda um grande problema entre mãos.

— Um desses homens, o primeiro que falou consigo, era, em princípio, o meu guarda-costas. Pelos vistos há muita coisa sobre ele que eu não sei.

— Não o aconselho a voltar a pedir-lhe ajuda. Os três homens pareciam trabalhar juntos — explicou ela, franzindo a testa.

— Isto é uma coisa habitual na Rússia? — perguntou Lord. — Homens estranhos a entrarem no seu compartimento? Mafiosos à sua porta? Parece não ter medo nenhum.

— Deveria ter medo?

— Não estou a dizer que devia. Deus sabe que sou inofensivo. Mas na América isto constituiria uma situação perigosa.

Ela encolheu os ombros.

— Não me parece uma pessoa perigosa. Na verdade, quando o vi, lembrei-me da minha avó.

Lord ficou calado à espera da explicação.

— Ela cresceu no tempo do Kruchtchev e do Brejnev. Os Americanos costumavam enviar espiões para testar a radioactividade do solo, tentando descobrir os silos dos mísseis. Toda a gente era avisada sobre eles. Diziam que eram perigosos e que o melhor era estar atento. Uma vez, a minha avó andava pela floresta e encontrou um homem estranho a apanhar cogumelos. Estava vestido como um camponês e trazia um cesto de verga como fazem as pessoas que moram no campo. Ela não teve medo nenhum, dirigiu-se a ele e disse: “Olá, espião.” O homem olhou para ela, espantado, mas não negou a acusação. Em vez disso, perguntou-lhe: “Fui treinado pelos melhores. Aprendi tudo o que havia para saber sobre a Rússia. Como descobriu que eu era espião?” E a minha avó respondeu-lhe: “Foi fácil. Vivi aqui toda a minha vida e o senhor é o primeiro homem negro que vejo nesta floresta.” O mesmo se aplica a si, Miles Lord. É o primeiro homem negro que eu vi neste comboio.

Ele sorriu.

— A sua avó devia ser uma mulher muito prática.

— E era. Até que os comunistas a levaram um dia. Pelos vistos, aquela senhora de setenta anos representava uma ameaça para o império.

Lord lera como Estaline massacrara vinte milhões de pessoas em nome da pátria e como os secretários do partido e os presidentes soviéticos que vieram depois não haviam sido muito melhores. Como era a citação de Lenine? É melhor prender cem inocentes do que correr o risco de deixar um inimigo do regime em liberdade.

— Lamento muito — disse ele.

— Porquê?

— Não sei. É o que se costuma dizer nestas situações. Preferia que eu tivesse dito que grande azar a sua avó ter sido morta por um bando de fanáticos?

— Era isso mesmo que eles eram.

— Foi por essa razão que me escondeu?

Akilina encolheu os ombros.

— Detesto o governo e a máfia. São ambos a mesma coisa.

— Acha que aqueles homens pertenciam à máfia?

— Sem dúvida alguma.

— Tenho de encontrar um camareiro e falar com o maquinista.

Ela riu-se.

— Isso seria uma grande palermice. Neste país tudo se compra. Se aqueles homens andam à sua procura, então já devem ter comprado alguma influência neste comboio.

Estava certa. A polícia também não era muito melhor que a máfia. Recordou-se do inspector Orleg e como antipatizara desde o início com aquele russo gordo.

— E o que sugere que eu faça?

— Não tenho sugestões. O senhor é que é o advogado da Comissão do Czar. Pense numa solução.

Reparou na mala dela sobre a cama. Tinha um emblema do Circo de Moscovo bordado num dos lados.

— Disse-lhes que actuava no circo. Isso é verdade?

— Claro que sim.

— Qual é a sua arte?

— O que acha que eu sou capaz de fazer?

— A sua estatura baixa é perfeita para uma acrobata. — Olhou para os ténis escuros. — Os seus pés são pequenos e compactos. Apostaria que tem os dedos dos pés compridos. Os seus braços são curtos, mas musculados. Diria que é acrobata, talvez trabalhe na trave.

Ela esboçou um amplo sorriso.

— Muito bem. Já alguma vez me viu actuar?

— Há muitos anos que não vou ao circo.

Reflectiu sobre a idade de Akilina Petrovna. Aparentava uns

trinta anos.

— Como aprendeu a falar tão bem a nossa língua?

— Estudei-a durante muitos anos. — A sua mente desviou-se para o problema que o afligia no momento. — Preciso de sair daqui e deixá-la sossegada. Já me ajudou mais do que alguma vez lhe poderia pedir.

— E para onde irá?

— Pode ser que encontre um compartimento vago algures. E depois tento sair do comboio sem que ninguém me veja.

— Não seja tolo. Aqueles homens vão revirar o comboio durante toda a noite. O único lugar seguro é aqui.

Atirou a mala de viagem para o chão e estendeu-se no beliche. Depois esticou-se e apagou a luz por cima da almofada.

— Durma, Miles Lord. Aqui está em segurança. Eles não voltarão.

Estava demasiado cansado para argumentar e não valia a pena protestar pois ela tinha razão. Assim, alargou o nó da gravata, despiu o casaco, deitou-se no beliche e fez o que ela disse.

Lord abriu os olhos.

As rodas ainda chiavam nos carris de metal. Olhou para os ponteiros luminosos do seu relógio. Cinco e vinte da manhã. Dormira cinco horas.

Sonhara com o pai e com o “Sermão do Filho Incompreendido” que escutara tantas vezes. Grover Lord adorava misturar política e religião, sendo os comunistas e os ateus o seu alvo preferido e o seu filho mais velho o exemplo que gostava de exibir perante os fiéis. O conceito apelava às congregações sulistas e o reverendo era exímio a pregar o medo, passando o saco das contribuições e depois retirando os seus oitenta por cento antes de avançar para a cidade seguinte.

A sua mãe havia defendido o canalha até ao último dia, recusando-se a acreditar naquilo que ela própria deveria saber ser verdade. Coubera-lhe a ele, como filho mais velho, ir buscar o corpo do pai a um motel no Alabama. A mulher com quem passara a noite fora retirada à pressa, histérica, depois de ter acordado nua ao lado do cadáver do reverendo Grover Lord.

Apenas nessa altura descobrira o que desde sempre havia suspeitado: dois meios-irmãos que o bom reverendo sustentara durante anos com o dinheiro das colectas de donativos. A razão por que os cinco filhos que já tinha em casa não lhe chegavam era um mistério para o qual apenas Deus e Grover Lord deviam ter resposta. Segundo parecia, o “Sermão do Adultério e dos Perigos da Carne” passara-lhe despercebido.

Espreitou para o outro lado do compartimento escurecido. Akilina Petrovna dormia sossegada, coberta por uma manta branca. Lord mal conseguia escutar a sua respiração devido ao matraquear monótono do comboio. Envolvera-se em algo muito perigoso e, por mais importante que fosse o seu papel na história que estava prestes a escrever-se, precisava de sair da Rússia. Graças a Deus que trouxera o passaporte consigo. No dia seguinte, partiria para Atlanta no primeiro voo que houvesse. Porém, naquele momento, o balançar da carruagem e o barulho das rodas, juntamente com a escuridão que o rodeava, mergulharam-no de novo no sono.

 

Sexta-feira, 15 de Outubro

MILES Lord Abriu os olhos e descobriu Akilina Petrovna debruçada sobre o seu beliche.

— Estamos a chegar a Moscovo.

— Que horas são?

— Já passa das sete.

Empurrou o cobertor para o lado e sentou-se na cama. Akilina acomodou-se na beira do seu beliche. Lord sentia a boca pegajosa. Precisava de tomar um banho e fazer a barba, mas não tinha tempo. Também necessitava de contactar Taylor Hayes, mas existia um problema. Um grande problema. E a sua anfitriã parecia saber qual era.

— Aqueles homens estarão à sua espera na estação. Lord passou a língua pelos dentes.

— Bem sei.

— Mas há uma saída.

— Como?

— Daqui a uns minutos atravessaremos o Anel dos Jardins e o comboio terá de abrandar a marcha porque há um limite de velocidade mais à frente. Quando era criança, costumava entrar e sair assim do expresso de Sampetersburgo. Era uma forma rápida de ir à Baixa e voltar.

Não lhe agradava muito a ideia de saltar de um comboio em andamento, mas não podia arriscar outro encontro com o Vesgo e o Cro-Magnon.

O comboio começou a abrandar.

— Está a ver? — disse ela.

— Sabe onde estamos?

Akilina Petrovna espreitou pela janela.

— A cerca de vinte quilómetros da estação. Sugiro que saia rapidamente.

Lord agarrou na sua pasta e abriu os fechos. Não havia muita coisa lá dentro, apenas as cópias do que encontrara nos arquivos de Moscovo e de Sampetersburgo e outros documentos sem importância. Dobrou tudo e enfiou-os dentro do casaco. Apalpou os bolsos em busca da carteira e do passaporte. Ainda lá estavam.

— Esta pasta só me iria atrapalhar. Ela tirou-lha das mãos.

— Eu guardo-a — disse. — Se a quiser de volta, venha ao circo.

Lord sorriu.

— Obrigado. Sou bem capaz de o fazer. — “Mas noutra viagem e outro dia qualquer”, pensou ele.

Levantou-se e vestiu o casaco. Akilina deslocou-se até à porta. — Vou ver se há alguém no corredor. Lord tocou-lhe ao de leve no braço.

— Obrigado por tudo.

— Não é preciso agradecer, Miles Lord. Trouxe um bocadinho de animação ao que seria uma viagem aborrecida.

Encontravam-se perto um do outro e ele conseguia sentir o mesmo perfume a flores que notara na noite anterior. Akilina Petrovna era uma mulher atraente, embora a sua face exibisse as marcas de uma vida difícil. Em tempos, a propaganda soviética proclamara a mulher comunista como a mais livre do mundo. Nenhuma fábrica conseguia funcionar sem elas. As indústrias de serviços entrariam em colapso se não fosse pela sua contribuição.

            Contudo, o tempo nunca fora um dos seus aliados. Sempre admirara a beleza das jovens mulheres russas, mas lamentava os inevitáveis malefícios que a sociedade lhes infligiria e imaginou que aspecto teria aquela bela mulher dali a vinte anos.

Recuou para longe da entrada e ela fez deslizar a porta e saiu.

Um minuto mais tarde voltou a entrar.

— Pode vir — informou ela.

O corredor estava completamente vazio. Encontravam-se a cerca de três quartos do fim da carruagem. Para a esquerda, depois de outro samovar fumegante, ficava uma porta de saída. Através do vidro, a realidade urbana de Moscovo passava a correr. Ao contrário dos comboios americanos ou europeus, a porta não estava trancada nem tinha um alarme de segurança.

Akilina empurrou o manípulo para baixo e puxou a porta de aço para dentro. O matraquear das rodas tornou-se mais forte.

— Boa sorte, Miles Lord — desejou-lhe ela.

Olhou uma última vez para os seus olhos azuis e depois saltou. Aterrou no chão frio e rebolou para longe do comboio.

A última carruagem passou e a manhã readquiriu um estranho silêncio à medida que o comboio desaparecia em direcção a sul.

Aterrara num terreno cheio de ervas perto de sombrios blocos de apartamentos. Ainda bem que saltara naquele local ou teria sido recebido por um chão duro de cimento mais à frente. O barulho do trânsito enchia o ar da manhã e o cheiro do escape dos automóveis chegava-lhe aos pulmões.

Ergueu-se e sacudiu a roupa. Mais um fato estragado. Não tinha importância, de qualquer maneira estava quase de partida.

Precisava de fazer um telefonema. Assim, dirigiu-se a uma avenida onde lojas e vários estabelecimentos começavam a abrir as suas portas. Os autocarros despejavam os seus passageiros e depois partiam deixando para trás uma nuvem preta de combustível. Do outro lado da rua avistou dois homens da militsia com os seus uniformes azuis e cinzentos. Ao contrário do Vesgo e do Cro-Magnon, usavam a regulamentar boina cinzenta com rebordo vermelho. De qualquer maneira, achou por bem evitá-los.

Reparou numa mercearia alguns metros mais à frente e entrou. O homem que tomava conta da loja era magro e idoso.

— Tem um telefone que eu possa usar? — perguntou Lord em russo.

O homem olhou-o muito sério e não respondeu. Lord meteu a mão no bolso e tirou dez rublos. O russo aceitou o dinheiro e apontou para o balcão. Lord ligou para o Volkhov e pediu ao recepcionista que passasse a chamada para o quarto de Taylor Hayes. O telefone tocou uma dúzia de vezes e ninguém atendeu. Depois pediu-lhe que tentasse o restaurante. Dois minutos mais tarde, Hayes estava do outro lado da linha.

— Miles, onde diabo se meteu?

— Taylor, temos um problema grave.

Contou a Hayes o que se passara. Por algumas vezes, durante a conversa, observou o homem que arrumava as prateleiras, interrogando-se se ele entenderia inglês, mas o barulho do trânsito que vinha da rua também não deixava ouvir grande coisa.

— Eles andam atrás de mim, Taylor. Não era atrás do Beli ou de outra pessoa qualquer. É a mim que querem.

— Tudo bem. Tenha calma.

— Tenho calma? O guarda-costas que me arranjou também está metido nisto.

— O que quer dizer?

— Andava com os outros dois à minha procura.

— Compreendo.

— Não, não compreende, Taylor. Enquanto não tiver sido perseguido pela máfia russa, nunca poderá entender.

— Miles, escute. Entrar em pânico não o vai ajudar a sair dessa situação. Vá até à esquadra mais próxima.

— Bolas, nem pensar! Não confio em ninguém neste lugar de merda. O país todo está à venda. Tem de me ajudar, Taylor. É a única pessoa em quem confio.

— O que foi fazer a Sampetersburgo? Eu disse-lhe para permanecer em Moscovo.

Lord falou-lhe acerca de Semion Pashenko e do que este lhe dissera.

— E ele tinha razão, Taylor. Havia lá informação relevante.

— E pode afectar a candidatura do Baklanov?

— É possível.

— Está a dizer-me que o próprio Lenine acreditava que alguns dos membros da família real teriam sobrevivido ao massacre de Iekaterimburgo?

— Pelo menos estava muito interessado nesse assunto. Existem suficientes referências escritas que assim o levam a pensar.

— Meu Deus! Era mesmo o que precisávamos.

— Olhe, é possível que não seja nada. Já passaram quase cem anos desde o assassínio de Nicolau II. Certamente por esta altura já teria aparecido alguém. — Ao escutar o nome do czar, o dono da loja levantou a cabeça. Lord baixou a voz. — Mas isso agora não me preocupa muito. O que me interessa é sair daqui vivo.

— Onde estão os papéis? ;

— Tenho-os comigo.

— Muito bem. Meta-se no metro e venha até à Praça Vermelha. Encontramo-nos no túmulo de Lenine.

— E porque não no hotel?

— Pode estar a ser vigiado. É melhor ser num local público. O túmulo deve estar quase a abrir e há guardas por todo o lado. Lá estará seguro. Não acredito que estejam todos comprados.

A paranóia começava a dominar, mas Hayes tinha razão.

— Espere por mim cá fora. Daqui a pouco estarei lá com a cavalaria, entendeu?

— Venha depressa.

 

8.30

A ENTRADA DO metro ficava numa estação na zona norte da cidade. O comboio estava apinhado de passageiros e o ar irrespirável. Agarrou-se ao poste de ferro e sentiu o movimento de arranque. Ao menos ninguém parecia ameaçador. Tinham todos, tal como ele, apenas um ar cansado.

Saiu na estação do Museu Nacional de História e atravessou a movimentada rua, passando pela Porta da Ressurreição. A Praça Vermelha ficava mais à frente. Admirou a porta recentemente reconstruída, uma vez que as torres brancas do século xvii e as arcadas de tijolo haviam caído, vítimas de Estaline.

O aspecto compacto da Praça Vermelha sempre o intrigara. Os impressionantes espectáculos da propaganda comunista haviam feito com que o espaço parecesse infinito. Na verdade, era apenas um pouco mais comprido que um campo de futebol e com menos de metade da largura. As imponentes muralhas vermelhas do Kremlin estendiam-se para sudoeste e a nordeste erguiam-se os Armazéns gum, um impressionante edifício em estilo barroco que se assemelhava mais a uma estação de comboios do século XIX do que a um bastião do capitalismo. O extremo norte era dominado pelo Museu Nacional de História e pelo seu telhado de telha branca. A águia de duas cabeças, símbolo dos Romanov, decorava agora, o topo do edifício.

A estrela vermelha tivera o mesmo destino dos comunistas. Na extremidade sul, erguia-se a Catedral de São Basílio, uma explosão de coruchéus, cúpulas e empenas em forma de espadas. A sua mistura de cores, destacadas por focos de luz na escuridão da noite moscovita, era um dos símbolos mais característicos da cidade.

Barricadas de aço colocadas em cada uma das extremidades impediam que os peões entrassem na praça. Lord sabia que a zona permanecia fechada até à uma da tarde, hora a que o túmulo fechava.

E constatou que Hayes tinha razão.

Havia pelo menos cerca de trinta homens da militsia, envergando uniformes, dentro e em torno do túmulo. Uma pequena fila de visitantes havia-se já formado frente ao mausoléu de granito. O edifício situava-se no ponto mais alto da praça, abrigado junto à muralha do Kremlin e guardado por uma fila de abetos de cada lado.

Rodeou a barricada e seguiu um grupo de visitantes em direcção ao túmulo. Sentiu frio e apertou o casaco, desejando ter trazido o seu sobretudo de lã, mas ficara no Flecha Vermelha dentro do compartimento que ele e Ilia Zinov haviam partilhado por instantes. Os sinos tocaram na torre que encimava as muralhas. Turistas com casacos demasiado compridos e empunhando máquinas fotográficas passeavam por ali. As cores garridas denunciavam-nos. A maioria dos russos parecia preferir o preto, o cinzento, o castanho e o azul. As luvas eram também uma peça de roupa que identificava os estrangeiros. Os moscovitas não as usavam, nem mesmo no pino do Inverno.

Seguiu o grupo de visitantes até à entrada do mausoléu. Um dos guardas da militsia avançou lentamente na sua direcção. Era um homem ainda jovem, de face pálida, que envergava um sobretudo verde e um chapéu azul de pêlo. Lord notou que o homem não estava armado, sendo a sua função apenas cerimonial. Que pena.

— Veio visitar o túmulo? — perguntou o guarda em russo.

Embora o tivesse entendido na perfeição, decidiu simular ignorância e abanou a cabeça.

— Não falo russo. Inglês?

A expressão facial do guarda nem sequer se alterou.

— Passaporte — disse o homem em inglês.

A última coisa que Lord desejava era atrair as atenções. Olhou rapidamente em redor, procurando Taylor Hayes ou alguém que viesse na sua direcção.

— Passaporte — repetiu o guarda. ; Outro guarda avançou direito a eles.

Lord levou a mão ao bolso de trás e encontrou o passaporte.

A capa azul identificá-lo-ia de imediato como cidadão americano. Estendeu o passaporte ao guarda, mas os nervos fizeram com que o deixasse cair ao chão. Dobrou-se para o apanhar e escutou um pequeno zunido, como se algo tivesse passado a toda a velocidade junto à sua orelha direita e aterrado no peito do guarda. Olhou para cima e reparou num fio de sangue que escorria de um buraco no sobretudo verde do russo. O guarda começou a sufocar, os seus olhos reviraram-se e acabou por cair no pavimento.

Lord olhou para trás e viu um atirador a cerca de cem metros no telhado dos Armazéns gum.

O atirador encostou a arma ao ombro e apontou-a de novo.

Metendo o passaporte no bolso, Lord correu por entre a multidão e saltou as escadas de granito, empurrando as pessoas para o chão e gritando em inglês e em russo:

— Atirador. Fujam!

Os turistas dispersaram.

Lançou-se para o chão no exacto momento em que outra bala fez ricochete na pedra brilhante mesmo ao seu lado. Aterrou na labradorite negra da antecâmara do túmulo e rebolou lá para dentro quando uma terceira bala arrancou mais um pedaço de granito vermelho à porta de entrada.

Do interior do túmulo chegaram outros dois guardas a correr.

— Está um atirador lá fora — gritou em russo. — No telhado do gum.

Nenhum deles estava armado, mas um dirigiu-se a um cubículo e pegou no telefone. Lord abeirou-se da porta de entrada.

As pessoas corriam em todas as direcções. Contudo, nenhuma estava em perigo, uma vez que era ele o alvo a abater. O atirador permanecia ainda no cimo do edifício, apoiado numa fila de luzes em arco. Subitamente, uma carrinha Volvo surgiu vinda do lado sul, de uma rua paralela ao gum, mesmo em frente à Catedral de São Basílio. O automóvel parou e duas das portas abriram-se.

O Vesgo e o Cro-Magnon saíram lá de dentro e largaram a correr em direcção ao túmulo.

Lord só podia escolher um caminho e, por isso, desceu as escadas que levavam ao interior do mausoléu, saltando os degraus. Os visitantes estavam amontoados ao fundo das escadas e viu medo estampado nos seus olhos. Passou por eles, virou duas vezes e entrou na sala principal. Correu em torno da passagem que rodeava o túmulo de vidro de Lenine, olhando apenas de relance para o corpo seráfico. Do outro lado estavam mais dois guardas. Nenhum deles articulou sequer uma palavra. Lord subiu uma escadaria de mármore e saiu para a rua por uma porta lateral. Em vez de virar à direita, de volta para a Praça Vermelha, esgueirou-se para a esquerda.

Um olhar rápido confirmou que o atirador já o detectara, porém o ângulo de disparo não era o melhor. O homem no cimo do telhado precisava de mudar de lugar e Lord viu que era isso mesmo que ele se preparava para fazer.

Encontrava-se agora no espaço verde atrás do mausoléu. A sua esquerda viu uma escadaria fechada com uma corrente. Sabia que ia dar a uma plataforma de revista às tropas no telhado e ele precisava de se manter ao nível do chão.

Correu em frente, em direcção à muralha do Kremlin. Quando olhou para trás, reparou que o atirador se acomodava numa outra posição mais afastada das luzes em arco. Lord encontrava-se agora na zona atrás do túmulo. Bustos em pedra marcavam as campas de homens como Sverdlov, Brejnev, Kalinine e Estaline.

Ouviram-se dois disparos.

Ele atirou-se para o chão, usando o tronco de um dos abetos para se esconder. Uma das balas despedaçou os ramos da árvore, embatendo na muralha do Kremlin mesmo atrás de si, enquanto a outra fez ricochete num dos bustos de pedra. Não podia ir para a direita, em direcção ao Museu Nacional de História. Ficaria demasiado exposto. Se fosse pela esquerda, o mausoléu serviria de escudo. No entanto, o atirador não era um problema tão imediato quanto os dois homens que haviam saído do Volvo.

Optou pelo lado esquerdo e correu sempre em frente por um caminho estreito que atravessava as campas dos líderes do partido. Deslocava-se agachado e o mais depressa que podia, usando os troncos das árvores como protecção.

Quando apareceu do outro lado do túmulo, foi recebido com mais tiros oriundos do telhado do gum. As balas acertavam na muralha do Kremlin e lascavam a pedra. O atirador não podia ter assim tão fraca pontaria e Lord concluiu que estava a ser direccionado para um local predeterminado, um lugar onde o Vesgo e o Cro-Magnon estariam à sua espera.

Espreitou para a esquerda, para lá das fileiras de revista às tropas, em direcção à Praça Vermelha. O Vesgo e o Cro-Magnon avistaram-no e correram na sua direcção.

Três carros da polícia, com as sirenes a tocar e as luzes de emergência accionadas, entraram na praça vindos de sul. A sua presença fez abrandar o passo ao Vesgo e ao Cro-Magnon. Lord também parou, escondendo-se atrás de um monólito de pedra.

Os seus perseguidores olharam para trás, para o telhado do gum. O atirador fez-lhes sinal e depois desapareceu. Eles, pelos vistos, seguiram o seu conselho e esgueiraram-se de volta para o Volvo.

Os carros da polícia invadiram a praça, um deles derrubando uma vedação de aço. Os homens fardados da militsia saíram dos carros com as armas em punho. Lord olhou para a esquerda, para o lugar de onde tinha vindo. Pelo caminho estreito junto à muralha caminhavam já mais homens da militsia, com os sobretudos desabotoados, a respiração a condensar no ar seco e frio. E estavam armados.

Não havia por onde fugir.

Levantou os braços acima da cabeça e ergueu-se.

O primeiro polícia a chegar perto dele empurrou-o para o chão e encostou-lhe o cano da arma à nuca.

 

11.00

LORD foi algemado e metido num carro da polícia. A militsia era tudo menos simpática e ele não podia esquecer-se de que não estava nos Estados Unidos. Assim, manteve-se em silêncio e falou em inglês quando lhe pediram que confirmasse o seu nome e a sua cidadania americana. Não havia qualquer sinal de Taylor Hayes.

Do pouco da conversa que escutara, percebeu que o guarda da Praça Vermelha havia morrido, dois outros estavam feridos, um deles com gravidade. O atirador fugira do telhado e não deixara pistas. Aparentemente, nenhum dos guardas ou dos homens da militsia se apercebera do Volvo escuro ou dos seus dois ocupantes. Lord decidiu nada contar até poder falar pessoalmente com Hayes. Não restavam grandes dúvidas de que os telefones do Volkhov estavam sob escuta. De que outra forma poderia alguém saber onde ele estava? Isso implicava, talvez, o envolvimento de alguma facção do governo no que quer que estivesse a acontecer.

Todavia, o Vesgo e o Cro-Magnon haviam fugido ao avistarem os carros da polícia.

Precisava de falar com Hayes. O seu patrão saberia o que fazer. Talvez algum elemento da polícia pudesse ajudar, embora fosse pouco provável. Já não confiava em nenhum russo.

Foi levado num carro-patrulha directamente para a esquadra principal que ficava num moderno edifício de vários andares de frente para o rio Moscova e para a antiga Casa Branca russa na outra margem. Chegado ao terceiro andar, fora conduzido por um corredor sombrio, ladeado por filas de cadeiras vazias, até um gabinete onde o inspector Felix Orleg o esperava. O russo rechonchudo vestia o mesmo fato escuro com que Lord o conhecera três dias antes na Perspectiva Nikolskaia junto ao corpo ensanguentado de Artemi Beli.

— Mister Lord, entre. Sente-se — disse Orleg em inglês. O gabinete era um cubículo claustrofóbico com paredes de

estuque enegrecido, uma mesa de metal preto, um armário e duas cadeiras. O chão estava forrado com mosaicos arenosos e o tecto cheio de manchas de nicotina. Lord entendeu o porquê: Orleg era um adepto dos cigarros turcos. O fumo azulado era intenso, mas ao menos encobria o odor corporal que exalava do inspector.

Orleg deu ordens para que as algemas fossem retiradas. Depois, a porta fechou-se e ficaram sozinhos.

— Não são precisas as algemas, não é verdade, Mister Lord?

— Por que razão estou a ser tratado como um criminoso? Orleg sentou-se à secretária numa velha cadeira de carvalho

que rangia. A sua gravata pendia dos colarinhos amarelados e desapertados.

— Por duas vezes está presente no local de um crime. Desta vez o morto é um polícia.

— Não matei ninguém

— Mas a violência persegue-o. Porquê?

Naquele dia gostava ainda menos do obstinado inspector do que na tarde do seu primeiro encontro. O desprezo que sentia era óbvio e visível na sua cara e Lord perguntava a si próprio o que passaria realmente pela cabeça daquele idiota enquanto a sua expressão se mantinha séria. Não lhe agradava o estranho tremor no seu peito. Seria medo ou apreensão?

— Quero fazer um telefonema — declarou Lord. Orleg deu uma passa no cigarro e perguntou:

— Para quem?

— Não tem nada a ver com isso.

Um ligeiro esgar acompanhou um olhar vazio de expressão.

— Não estamos na América, Mister Lord. Os detidos não têm direitos.

— Quero telefonar para a Embaixada americana.

— O senhor é diplomata?

— Trabalho para a Comissão do Czar. Sabe bem disso. Orleg esboçou outro dos seus sorrisos irritantes.

— Isso dá-lhe privilégios?

— Não foi o que eu disse. Mas estou neste país com autorização do governo.

O russo soltou uma gargalhada.

— Governo, Mister Lord? Não temos governo. Aguardamos o regresso do czar.

O inspector não fez qualquer esforço para esconder o sarcasmo.

— Devo concluir que votou “não”? O russo fez uma cara séria.

— O melhor é não concluir nada — declarou. — É bem mais seguro assim.

Lord não gostou das implicações, mas, antes que pudesse responder, o telefone tocou. A campainha assustou-o. Orleg levantou o auscultador, segurando o cigarro na outra mão. Atendeu em russo e pediu à pessoa do outro lado da linha que passasse a chamada.

— Em que posso ajudá-lo? — perguntou Orleg pelo auscultador e falando ainda em russo.

Fez-se uma pausa enquanto o inspector escutava.;

— Tenho o chornie aqui — disse ele.

O interesse de Lord cresceu, mas nada fez que desse a entender ao inspector que percebia o que ele estava a dizer. Pelos vistos, o polícia sentia-se protegido pela barreira linguística.

— Um dos guardas está morto. Os homens que enviou falharam. Não foi estabelecido contacto. Eu disse-lhe que a situação podia ter sido tratada de outra forma. Concordo, sim, ele tem muita sorte.

Pelos vistos, a pessoa do outro lado da linha era a fonte de todos os seus problemas e estava certo quanto a Orleg: o filho-da-mãe não era de confiança.

— Eu mantenho-o aqui até os seus homens chegarem. Desta vez fica tudo resolvido como deve ser. Já chega de bandidos. Mato-o eu mesmo.

Lord sentiu um arrepio na espinha.

— Não se preocupe. Estou de olho nele. Está aqui, sentado mesmo à minha frente — explicou o russo, sorrindo. — Ele não percebe uma palavra do que digo.

Fez-se uma pausa e depois Orleg levantou-se da cadeira. O olhar do inspector cruzou-se com o de Lord.

— O quê? — perguntou o russo. — Ele fala...

Lord elevou as pernas e empurrou a pesada secretária contra Orleg. A cadeira virou-se prendendo o russo contra a parede. Puxou o cabo do telefone da ficha e saiu do gabinete. Fechou a porta e depois atravessou o corredor em direcção às escadas, descendo os degraus três a três e refazendo para trás o caminho até ao rés-do-chão e à rua.

Assim que sentiu o ar frio do início da tarde, misturou-se com a multidão.

 

12.30

HAYES Saiu do táxi na Colina dos Pardais e pagou ao motorista. O céu do meio-dia parecia platina polida e o sol brilhava forte, como se através de um vidro fosco, para compensar a brisa gélida. O rio Moscova serpenteava ali por baixo, formando a península onde se encontrava o estádio desportivo de Luzhniki. Ao fundo, para nordeste, as cúpulas douradas e prateadas das catedrais do Kremlin erguiam-se na fria neblina como pedras tumulares no nevoeiro. Fora naquelas colinas, que agora o rodeavam, que as tropas de Napoleão e de Hitler tinham sido contidas e que, em 1917, os grupos revolucionários haviam usado a protecção das suas árvores para organizar reuniões políticas clandestinas, longe dos olhares da polícia secreta, arquitectando um possível derrube do czar. Agora, a nova geração parecia empenhada em inverter os seus esforços.

A sua direita, a Universidade Estatal de Moscovo elevava-se por cima das árvores numa esmagadora exibição de espirais, ornamentos e rendilhados. Era mais um dos grandiosos arranha-céus em camadas que Estaline mandara erigir para impressionar o mundo. Aquele era o mais extenso e fora construído por prisioneiros de guerra alemães. Recordava-se de uma história sobre um prisioneiro que supostamente havia construído um par de asas com restos de madeira e tentado voar para casa saltando do cimo do edifício. Falhou, tal como a sua nação e o seu Fúhrer.

Felix Orleg esperava sentado num banco abrigado sob a copa das faias. Hayes estava ainda furioso pelo que acontecera duas horas antes, mas achou por bem ser cuidadoso na escolha das palavras. Afinal, aquilo não era Atlanta nem tão-pouco a América e ele era apenas um membro de uma vasta equipa. Naquele momento era o representante.

Sentou-se no banco e perguntou em russo:

— Já encontrou o Lord?

— Ainda não. Ele telefonou?

— Acha que sim? É óbvio que ele deixou de confiar em mim. Eu digo-lhe que me vou encontrar com ele para o ajudar e aparecem dois assassinos. Agora, graças a si, ele não irá confiar em mais ninguém. A ideia era eliminar o problema, agora o problema anda a vaguear por Moscovo.

— E por que razão é tão importante matar este homem? Estamos a desperdiçar energias.

— Isso não lhe cabe a si ou a mim saber, Orleg. O que nos safa é o facto de ele ter escapado aos assassinos deles, não aos meus ou aos seus.

A brisa fez agitar as folhas das árvores. Hayes vestira o seu sobretudo de lã e as luvas, mas mesmo assim sentia frio.

— Já informou sobre o sucedido? — perguntou Orleg. Entendeu o sentido da pergunta do inspector.

— Ainda não. Farei o que puder, mas eles não vão ficar satisfeitos. Foi uma parvoíce falar comigo ao telefone na frente dele.

— Como poderia eu adivinhar que ele sabia russo? Hayes tentava acalmar-se, mas aquele polícia arrogante colocara-o numa situação difícil. Olhou-o nos olhos e declarou:

— Escute bem, encontre-o. Está a entender? Descubra-o e mate-o. Rápido. Sem erros e sem desculpas. Faça-o e pronto.

A cara de Orleg mostrava descontentamento.

— Já estou farto de receber ordens suas.

Hayes levantou-se.

— O melhor é dizer isso às pessoas para as quais trabalhamos. Terei todo o prazer em enviar um representante para que possa apresentar queixa.

O inspector entendeu a mensagem. Embora estivesse a receber ordens de um americano, eram os russos que dirigiam as operações. Homens perigosos que assassinavam empresários, ministros, altas patentes militares, estrangeiros. Qualquer pessoa que se transformasse num problema.

Tais como inspectores de polícia incompetentes.

Orleg levantou-se do banco.

— Eu encontro o diabo do chornie e mato-o. Depois, sou bem capaz de o matar a si.

Hayes não ficou sequer impressionado com a ameaça do russo.

— Tire senha, Orleg. Já há muita gente na fila.

Lord refugiara-se no interior de um café. Após ter fugido da esquadra, metera-se na primeira estação de metro que lhe aparecera na frente e entrara no comboio, mudando de linha várias vezes. Uma vez à superfície, misturara-se com a multidão que enchia as ruas. Caminhara durante uma hora até se certificar de que ninguém o seguia.

O café estava cheio de jovens vestidos com calças de ganga gastas e blusões de cabedal escuro. O cheiro forte a café tornava mais suportável a densa nuvem de fumo. Lord sentou-se numa das mesas e tentou comer alguma coisa; não tomara o pequeno-almoço nem almoçara, mas o prato de estrogonofe mais não fez do que irritar o seu já revoltado estômago.

Não se enganara acerca do inspector Orleg. Fazia sentido que as autoridades estivessem de algum modo envolvidas. Com certeza que as linhas telefónicas do Volkhov se encontravam sob escuta. Mas com quem teria falado o inspector ao telefone? E estaria tudo aquilo relacionado com a Comissão do Czar? Assim parecia. Mas de que forma? Talvez o consórcio de investidores estrangeiros, que ele e Hayes representavam e que apoiava Stefan Baklanov, fosse visto como uma ameaça. Mas não devia esse patrocínio ser secreto? E não era também verdade que a grande maioria de russos reconhecia Baklanov como o mais próximo dos Romanov? Uma sondagem recente dera-lhe mais de cinquenta por cento do apoio popular e isso podia ser considerado uma ameaça. Por certo que a máfia estaria envolvida. O Vesgo e o Cro-Magnon eram sem dúvida dois dos seus lacaios. O que fora que Orleg dissera? “Já chega de bandidos. Mato-o eu mesmo.”

A máfia estava bem instalada no interior do governo. A política russa tinha tantos buracos quanto o exterior do Palácio de Facetas. As alianças mudavam a toda a hora e a única lealdade existente era para com o rublo ou, para ser mais preciso, para com o dólar. Era demasiada complicação. O melhor seria abandonar o país.

Mas como?

Felizmente, ainda trazia consigo o passaporte, os cartões de crédito e algum dinheiro. E tinha ainda a informação que trouxera dos arquivos. Contudo, não era essa a sua principal preocupação. A grande prioridade era manter-se vivo e conseguir ajuda.

Mas o que haveria de fazer?

Não podia ir à polícia.

Talvez pudesse pedir auxílio à Embaixada americana. Mas esse seria o primeiro lugar a ser vigiado. Até ao momento os filhos-da-mãe haviam aparecido no comboio de Sampetersburgo e na Praça Vermelha e em ambos os locais ninguém mais sabia que ele lá estaria.

Excepto Hayes.

E isso teria algum significado? O seu patrão estaria certamente preocupado. Talvez ele o pudesse ajudar, afinal possuía inúmeros contactos dentro do Governo russo. O problema é que não fazia ideia de que os telefones do hotel estavam sob escuta. Ou talvez a essa hora já se tivesse apercebido.

Bebeu um gole de chá quente, que lhe acalmou o estômago, e questionou-se sobre o que faria o reverendo naquela situação. Era estranho que pensasse no pai, mas Grover Lord era um mestre em sair de situações difíceis. O seu alardear inflamado sempre o deixara em maus lençóis, mas misturava uns quantos “Deus” e “Jesus” e nunca se ia abaixo. Ainda assim, falinhas mansas não o iam ajudar naquele caso.

Mas o que o poderia ajudar?

Desviou o olhar para a mesa ao lado e viu um jovem casal a ler um dos jornais do dia. Reparou que um dos artigos da primeira página era sobre a Comissão do Czar e esticou o pescoço para ler o máximo possível.

Durante o terceiro dia da sessão inicial haviam surgido cinco nomes como possíveis candidatos. Baklanov era referido como o principal, mas dois outros ramos da família Romanov argumentavam ferozmente com uma maior proximidade genética a Nicolau II. O processo formal de nomeação só começaria dali a dois dias e crescia a curiosidade sobre o tipo de debate que ocorreria entre os vários pretendentes e os seus defensores.

Nas últimas duas horas escutara as conversas das mesas circundantes sobre a selecção dos candidatos. Parecia existir um interesse genuíno nos eventos que se desenrolavam e, para sua surpresa, os jovens russos apoiavam a criação de uma monarquia moderna e liberal. Talvez tivessem escutado os seus avós falarem do czar. O cidadão russo comum parecia desejar que o seu país possuísse grandes objectivos. Mas Lord perguntava-se se as autocracias teriam ainda cabimento no século XXI. O único consolo, concluiu ele, era que a Rússia seria talvez um dos últimos locais na Terra onde uma monarquia poderia ter realmente a possibilidade de funcionar.

Todavia, o seu problema era mais urgente.

Não podia ir para um hotel. Os registos eram comunicados todas as noites por todos os estabelecimentos licenciados. Não podia apanhar um avião ou um comboio, porque os locais de desembarque estariam sem dúvida a ser vigiados. Nem tão-pouco podia alugar um carro sem uma carta de condução russa ou sequer aparecer no Volkhov. Bem vistas as coisas, estava preso e o país todo era a sua prisão. Precisava de chegar à Embaixada americana. Lá, por certo, encontraria alguém que o ajudasse. Contudo, não podia simplesmente pegar no telefone e ligar. Quem quer que estivesse a escutar as chamadas do Volkhov estaria também atento aos telefones da embaixada.

Necessitava de alguém que fizesse o contacto por ele e um local onde se esconder até isso acontecer.

Olhou de novo para o jornal e reparou no anúncio do circo. Havia espectáculos todas as tardes, às seis horas, e garantiam entretenimento para toda a família.

Olhou para o relógio. Eram cinco e um quarto.

Pensou em Akilina Petrovna, no seu cabelo louro despenteado e na sua cara de fada. Impressionara-o com a sua coragem e paciência. Devia-lhe a vida. Ela tinha ainda a sua pasta e dissera-lhe para a ir buscar quando quisesse.

Porque não?

Levantou-se da mesa para sair e foi nessa altura que lhe ocorreu a ideia: ia ter com uma mulher para o ajudar a sair de uma situação difícil, tal como o seu pai.

 

MOSTEIRO DA TRINDADE DE SÃO SÉRGIO

SERGUIEV POSSAD 27.00

HAYES encontrava-se a oitenta quilómetros de Moscovo, aproximando-se do local mais sagrado de toda a Rússia. Conhecia bem a sua história. A fortaleza de formato irregular fora erigida no século XV. Cem anos mais tarde, os tártaros haviam cercado e depois saqueado a cidadela. No século XVII, foi a vez de os polacos tentarem, sem sucesso, penetrar nas muralhas do mosteiro. Pedro, o Grande, procurara refúgio ali durante uma revolta no início do seu reinado. Agora era um local de peregrinação para milhões de russos ortodoxos, tão sagrado quanto o Vaticano para os católicos, o local onde São Sérgio repousava num sarcófago de prata. Os fiéis viajavam de todos os cantos da nação para lhe beijar o túmulo.

Chegou no momento em que o local fechava as suas portas aos visitantes. Saiu do carro, apertou o cinto do sobretudo e calçou umas luvas de couro pretas. O Sol já se escondera atrás do horizonte e a noite de Outono instalava-se aos poucos, tornando baças as brilhantes cúpulas douradas e azuis. O vento uivava com tal força que lhe parecia fogo de artilharia.

Lenine viajara com ele. Os outros três membros da Chancelaria Secreta haviam decidido unanimemente que deviam ser Hayes e Lenine a estabelecer o primeiro contacto. O patriarca iria avaliar melhor a importância do assunto se visse e ouvisse em primeira mão que um militar russo de alta patente estava disposto a arriscar a sua reputação naquela empreitada.

Observou o cadavérico Lenine enquanto este compunha o seu casaco de lã cinzento e enrolava um lenço castanho-avermelhado em volta do pescoço. Quase não haviam conversado durante a viagem, mas ambos sabiam o que era preciso fazer.

Um padre de batina preta e com uma pequena barba permanecia junto ao portão principal enquanto uma procissão de peregrinos abandonava o recinto. Conduziu-os directamente para a Catedral da Dormição. O interior encontrava-se iluminado por velas, as sombras dançavam sobre uma iconóstase dourada que se erguia atrás do altar principal e os acólitos, atarefados, fechavam o santuário.

Seguiram o padre até uma divisão subterrânea. Haviam sido informados de que o encontro teria lugar na Cripta de Todos os Santos, o local onde os patriarcas da Igreja Ortodoxa Russa eram sepultados. Era um recinto de dimensões reduzidas, com as paredes e o chão forrados com mármore cinzento-claro. Um lustre de ferro projectava raios de luz em direcção ao tecto abobado e os elaborados túmulos estavam decorados com cruzes douradas, candelabros de ferro e ícones pintados.

O homem ajoelhado frente ao túmulo mais distante tinha pelo menos setenta anos. Na sua cabeça eram visíveis tufos de cabelo grisalho, e a sua face rosada estava coberta por uma barba emaranhada e por um bigode espesso. Numa das orelhas sobressaía um aparelho auditivo, e manchas castanhas salpicavam-lhe as mãos juntas em oração. Hayes já antes vira fotografias daquele homem, mas aquela era a primeira vez que estava frente a Sua Santidade, o patriarca Adrian, chefe apostólico da Igreja Ortodoxa Russa.

O padre que os acompanhara retirou-se, os seus passos ecoando no caminho de volta à catedral.

Lá em cima uma porta fechou-se.

O patriarca benzeu-se e depois levantou-se.

— Meus senhores, é um prazer tê-los aqui. i A sua voz era profunda e grave.

Lenine apresentou-se a si e a Hayes.

— Já ouvi falar de si, general Ostanovitch. As minhas fontes dizem-me que devo escutar a vossa proposta e depois decidir das suas virtudes.

— Agradecemos a audiência — disse Lenine.

— Achei que a cripta era o local mais seguro para a nossa conversa. É absolutamente privada. A mãe natureza irá proteger-nos de quaisquer ouvidos mais curiosos e talvez as almas dos sábios aqui sepultados, os meus antecessores, me inspirem a tomar a decisão mais acertada.

Hayes não se deixou enganar pela explicação. A proposta que lhe iam fazer não era algo que um homem na posição de Adrian pudesse dar-se ao luxo de tornar pública. Uma coisa era beneficiar de uma decisão tomada, outra bem diferente era participar abertamente numa conspiração traiçoeira, em especial para um homem que devia estar acima da política.

— Pergunto-me, meus senhores, porque deverei considerar a vossa proposta. Desde o fim da Grande Interrupção que a minha igreja tem gozado de um ressurgimento sem paralelo. Sem os soviéticos, acabaram as perseguições e as restrições. Baptizamos cada vez mais membros e abrem igrejas novas todos os dias. Em breve voltaremos a ocupar o lugar que era nosso antes de os comunistas chegarem.

— Mas pode vir a ter ainda mais benefícios — explicou Lenine. Os olhos do patriarca iluminaram-se como brasas entre cinza.

— E é essa possibilidade que me intriga. Explique, por favor.

— Uma aliança connosco irá garantir-lhe um lugar junto do novo czar.

— Mas qualquer novo czar terá de trabalhar lado a lado com a Igreja. O povo assim o exigirá.

— Vivemos numa nova era, senhor patriarca. Uma campanha de relações públicas pode causar mais danos que qualquer força policial repressiva. Pense nisso. O povo passa fome; no entanto, a igreja continua a construir monumentos cheios de riquezas. O senhor passeia-se em vestes bordadas, mas lamenta-se quando os fiéis não apoiam as suas paróquias com as contribuições necessárias.

Todos os benefícios de que agora goza podem ser diminuídos por alguns escândalos bem publicitados. Alguns dos homens pertencentes à nossa associação controlam os mais influentes meios de comunicação, jornais, rádio, televisão... e muita coisa pode ser feita com esse poder.

— Estou abismado que um homem na sua posição faça esse tipo de ameaças, general.

As palavras eram duras, embora proferidas num tom calmo. Lenine não pareceu perturbado pela reprimenda.

— Os tempos são outros, senhor patriarca, e há muitas coisas em jogo. Os militares não ganham o suficiente para alimentar as suas famílias. Os veteranos de guerra inválidos e incapacitados não recebem as pensões a que têm direito. No ano passado, registámos o suicídio de quinhentos oficiais. Um exército que outrora fazia tremer o mundo encontra-se agora completamente dizimado. O nosso governo incapacitou a máquina militar. Duvido, Sua Santidade, que algum dos nossos mísseis consiga sequer sair do silo. Esta nação não tem defesas. A nossa sorte é que ainda ninguém descobriu isso.

O patriarca considerou a diatribe.

— E como poderia a minha Igreja ajudar na mudança que se aproxima?

— O czar precisará do total apoio da Igreja — afirmou Lenine.

— Já o teria de qualquer maneira.

— Por apoio total quero dizer tudo o que seja necessário para assegurar que a opinião pública é controlada. A imprensa deve ser livre, pelo menos em princípio, o povo encorajado a expressar o seu descontentamento, dentro de certos limites. A Igreja pode ser um parceiro valioso para assegurar um governo estável e duradouro.

— O que me está a dizer é que os seus outros associados não querem arriscar ter a Igreja como inimigo. Já para não falar das sanguessugas do governo que são igualmente pérfidas. O senhor, general, é uma coisa. Eles são outra bem diferente.

Hayes sabia que o patriarca estava certo. Os ministros governamentais estavam quase todos comprados, fosse pela máfia ou pelos novos-ricos. O suborno era uma forma comum de fazer negócios. Por isso, perguntou:

— Preferia os comunistas? O padre virou-se para ele.

— E o que percebe um americano deste assunto?

— Há trinta anos que tento entender este país. Represento um vasto grupo de investidores americanos, empresas com milhares de milhões de dólares em risco. Empresas essas que poderão fazer generosas contribuições para as suas paróquias.

O velho homem esboçou um sorriso irónico.

— Vocês, os Americanos, pensam que o dinheiro compra tudo.

— E não é verdade?

Adrian aproximou-se de um dos túmulos, as mãos entrelaçadas uma na outra, as costas viradas para ambos os homens.

— Uma quarta Roma.

— Não entendi — disse Lenine.

— Uma quarta Roma. É isso que me propõe. No tempo de Ivan, o Grande, Roma, morada do primeiro papa, já não existia. Depois foi a vez de Constantinopla, onde o papa ocidental se sentou, também sucumbir. Depois disso, Ivan proclamou Moscovo como a terceira Roma. O único lugar na terra onde a Igreja e o Estado se fundiram numa só entidade política, liderada por ele, claro. Ivan previu que surgiria uma quarta Roma. — O patriarca voltou-se e fitou-os. — Ivan, o Grande, casou com a última princesa bizantina e aplicou claramente a herança bizantina da princesa na sua Rússia. Após a conquista de Constantinopla pelos turcos, em mil quatrocentos e cinquenta e três, Ivan proclamou Moscovo como centro secular do mundo cristão. Inteligente, na verdade. Isso permitiu-lhe autonomear-se chefe da união eterna entre a Igreja e o Estado, atribuindo a si mesmo a majestade sagrada de um rei-padre universal, exercendo a autoridade em nome de Deus. Com Ivan, generalizou-se a ideia de que todos os czares eram nomeados por Deus e os cristãos eram obrigados a obedecer-lhes. Uma autocracia teocrática que combinava igreja e dinastia numa herança imperial. Funcionou bem durante mais de quatrocentos e cinquenta anos até Nicolau II, altura em que os comunistas assassinaram o czar e dissolveram a união entre a Igreja e o Estado. Falamos agora, talvez, de um regresso a esse tempo?

Lenine esboçou um sorriso largo.

— Mas agora a união será bem mais abrangente. Propomos uma aliança entre todas as facções, incluindo a Igreja. Um esforço conjunto de modo a garantir uma sobrevivência colectiva. Como diz, uma quarta Roma.

— Incluindo a máfia?

Lenine acenou afirmativamente com a cabeça.

— Não temos outra escolha. Possuem já demasiada influência. Quem sabe, com o tempo, possamos reabilitá-los.

— Isso é pedir demasiado. Estão a usurpar tudo ao povo. É por causa da sua ganância que nos encontramos nesta situação difícil.

— Sei disso, Sua Santidade, mas não temos alternativa. E podemos dar-nos por satisfeitos pelo facto de as várias facções da máfia estarem, por enquanto, a colaborar.

Hayes aproveitou a oportunidade e avançou:

— Podemos também ajudá-lo com o seu problema de relações públicas.

— Não sabia que a Igreja sofria desse problema — afirmou o patriarca, arqueando as sobrancelhas.

— Sejamos honestos, Sua Santidade. Se não tivesse nenhum problema não estaríamos aqui, por baixo da catedral mais sagrada da Igreja Ortodoxa, a conspirar sobre a manipulação de uma monarquia restaurada.

— Continue, Mister Hayes.

Começava a gostar do patriarca Adrian. Demonstrava ser um homem prático.

— Cada vez há menos fiéis a assistir ao culto. Poucos são os russos que querem ver os seus filhos tornarem-se clérigos e ainda menos os que continuam a fazer donativos para a Igreja. Por esta altura, os seus fundos devem ter atingido níveis críticos, o país pode estar à beira de uma guerra civil. Pelo que me disseram, uma vasta percentagem de padres e bispos é a favor de que a ortodoxia se torne a religião nacional, com exclusão de todas as outras. O Ieltsine recusou-se a aceitar tal coisa, vetando o projecto de lei que o tentou aplicar, mas assinando depois uma versão mais ligeira. Todavia, o presidente não teve escolha. Os Estados Unidos teriam embargado todos os fundos de apoio se houvesse um regresso à perseguição religiosa e a Rússia necessita da ajuda estrangeira. Sem algum tipo de consentimento governamental, a sua Igreja pode desmoronar-se.

— Não nego que cresce cada vez mais a cisão entre os ultra-tradicionalistas e os modernistas.

Hayes continuou.

— Os missionários estrangeiros começam aos poucos a corroer as bases da sua Igreja. Há padres que chegam da América na tentativa de converter os Russos. Essa diversidade religiosa cria problemas, não é verdade? É difícil manter o rebanho unido quando aparecem outros a pregar alternativas.

— Infelizmente, nós, os Russos, não lidamos bem com alternativas.

— Qual foi a primeira eleição popular democrática? — perguntou Lenine. — Deus criou Adão e Eva e depois disse para Adão: “Agora escolhe uma esposa.”

Adrian sorriu.

— O que Sua Santidade deseja é protecção estatal sem repressão estatal. Quer manter a ortodoxia, mas sem ser forçado a entregar o poder. Nós garantimos esse luxo — explicou Hayes.

— Seja mais específico, por favor.

Lenine pegou na palavra.

— O senhor, como patriarca, continuará como líder. O novo czar irá proclamar-se chefe da Igreja, mas não existirá qualquer interferência na sua-administração. Na verdade, o czar irá abertamente encorajar o povo a converter-se à ortodoxia. Os Romanov também se dedicaram a essa tarefa, em especial Nicolau II. Esta dedicação é também consistente com a filosofia nacionalista russa que o novo czar irá abraçar. Em troca, o senhor garante que a Igreja adopta uma postura pró-czarista e apoia o novo governo em tudo. Os seus padres devem ser nossos aliados. Desta forma, a Igreja e o Estado estarão unidos, embora o povo não precise de o saber. Será uma quarta Roma modificada de acordo com a nova realidade.

O patriarca permaneceu em silêncio, parecendo avaliar a proposta.

— Muito bem, senhores. A Igreja está à vossa disposição.

— Foi uma decisão rápida — notou Hayes.

— Nem por isso. Tenho meditado sobre isto desde que me contactaram. Desejava apenas discutir alguns pontos e conhecer pessoalmente os homens aos quais me vou aliar. Fiquei satisfeito.

Hayes e Lenine agradeceram o cumprimento.

— Peço-lhes, no entanto, que falem apenas comigo no que respeita a este assunto.

Lenine entendeu o que lhe era pedido e depois perguntou:

— Gostaria de escolher um representante que assistisse às nossas reuniões?

— Vou nomear um padre. Ele e eu seremos os únicos conhecedores desta aliança. Depois informo-os do nome do escolhido.

 

MOSCOVO - 17.40

PAROU de chover assim que Lord saiu da estação do metro. O Bulevar Tsventnoi estava encharcado por causa da bátega de água que caíra. Um nevoeiro gélido começava a cobrir a cidade e a tornar o ar mais frio. Continuava sem outro agasalho para além do casaco e parecia deslocado no meio da compacta multidão embrulhada em lã e peles. O cair da noite trazia-lhe algum alívio. Isso e o nevoeiro iriam ajudá-lo a passar despercebido.

Seguiu um grupo de pessoas em direcção ao teatro que ficava do outro lado da rua. Sabia que o Circo de Moscovo era uma famosa atracção turística, um dos melhores espectáculos do mundo. Há muitos anos também ele se maravilhara com os ursos dançantes e os cães amestrados.

Faltavam ainda vinte minutos para o espectáculo começar. Talvez durante o intervalo conseguisse fazer chegar uma mensagem aos bastidores, a Akilina Petrovna. Se não fosse possível, tentaria encontrá-la depois. Talvez ela conseguisse entrar no Volkhov e falar com Taylor Hayes. Por certo teria um apartamento onde ele poderia esperar em segurança.

O teatro ficava ao fundo da rua, a cerca de cinquenta metros, do outro lado do passeio. Estava prestes a atravessar a estrada e a dirigir-se à bilheteira quando uma voz atrás de si lhe gritou para parar.

Lord continuou a andar.

A voz gritou de novo:

— Stop!

Olhou por cima do ombro esquerdo e avistou um polícia. O homem avançava por entre os transeuntes, de braço no ar e olhar fixo na sua direcção. Lord acelerou o passo e atravessou a rua apinhada de gente, misturando-se por entre o aglomerado de pessoas no extremo oposto da rua. Um autocarro de turismo despejava passageiros junto ao passeio e Lord juntou-se a um grupo de japoneses que se dirigia para o teatro bem iluminado. Olhou novamente para trás, mas já não viu o polícia. Talvez fosse apenas imaginação sua.

Chegado à bilheteira, pagou os dez rublos pelo bilhete e entrou, esperando encontrar Akilina Petrovna.

Naquele momento, Akilina estava a vestir-se. O camarim comum fervilhava com a habitual agitação de artistas a entrar e a sair. A ninguém era conferido o luxo de possuir camarins privados. Isso era algo que ela apenas vira nos filmes americanos que retratavam a vida do circo de uma forma romântica.

Dormira muito pouco na noite anterior e, por isso, sentia-se cansada. A viagem de Sampetersburgo para Moscovo fora, no mínimo, interessante, e, ao longo do dia, pensara várias vezes em Miles Lord. Dissera-lhe a verdade. Ele era o primeiro homem negro que ela vira naquele comboio e não tivera medo dele. Talvez o receio que notara nos seus olhos a tivesse desarmado.

Lord não exibia nenhuma das características estereotipadas que recordava da sua juventude, quando os professores das escolas públicas pregavam o mal aberrante da raça negra. Lembrava-se ainda de alguns comentários sobre os seus cérebros inferiores, sistemas imunitários fracos e total incapacidade de se governarem. Em tempos idos, os Americanos haviam-nos escravizado, um ponto que os propagandistas sublinhavam como causador da derrota do capitalismo. Chegara a ver fotografias de linchamentos perpetrados por grupos de homens brancos envergando vestes brancas e capuzes pontiagudos.

No entanto, Miles Lord em nada se assemelhava àquelas descrições. A sua pele era da cor da ferrugem, como o rio Voina, que ela recordava das visitas à aldeia da avó. O seu cabelo castanho era curto e bem tratado. O corpo compacto e vigoroso. Aparentava um ar formal mas amigável, e a voz gutural era inesquecível. Parecera-lhe realmente surpreendido quando o convidara para passar a noite no seu compartimento, por certo pouco acostumado a esse tipo de atitude por parte das mulheres. Akilina esperava que ele fosse uma pessoa mais aberta, uma vez que o achara interessante.

Ao sair do comboio vira os três homens que o perseguiam meterem-se num Volvo azul-escuro estacionado à porta da estação. Ela escondera a pasta na sua mala de viagem e guardara-a, tal como prometera, na esperança de que ele voltasse para a buscar.

Durante todo o dia se interrogara sobre se Lord estaria bem. Nos últimos anos, os homens não haviam sido uma presença muito frequente na sua vida. O circo actuava quase todas as noites, chegando aos dois espectáculos por dia, no Verão. Quando não estava em Moscovo, a companhia viajava pelo país. Já visitara quase toda a Rússia e grande parte da Europa e até já actuara em Nova Iorque, no Madison Square Garden. Não lhe restava muito tempo para outros relacionamentos que não fosse um jantar ocasional ou uma conversa durante uma viagem de avião ou de comboio.

Estava quase a completar trinta anos e interrogava-se se algum dia chegaria a casar. O pai sempre desejara que ela assentasse, deixasse o circo e tivesse uma família sua. Mas ela viu o que acontecera às suas amigas que haviam optado por essa vida. Trabalhavam todo o dia numa fábrica ou numa loja e, quando chegavam a casa, tinham ainda que cuidar do lar, repetindo-se o processo dia após dia. Não existia qualquer tipo de igualdade entre homens e mulheres, embora os comunistas fizessem alarde das suas mulheres como as mais livres do mundo. E o casamento pouco ou nenhum conforto trazia. A maioria dos maridos e das esposas trabalhava em locais separados, gozando até férias separados, uma vez que era raro poderem ambos abandonar os seus locais de trabalho ao mesmo tempo. Não era de estranhar que um em cada três casamentos acabasse em divórcio e que cada casal tivesse apenas um filho. Não havia tempo ou dinheiro para mais. Esse tipo de vida nunca a atraíra. Tal como a sua avó costumava dizer: “Para conhecer uma pessoa é preciso comer sal com ela.”

Sentou-se frente ao espelho e pulverizou o cabelo com água, apertando as tranças molhadas num rolo. Usava pouca maquilhagem em palco, apenas o suficiente para contrabalançar o brilho forte dos projectores azuis e brancos. A sua pele era muito clara, tendo herdado a quase total falta de pigmentação, o cabelo louro e os olhos de um azul profundo da sua mãe eslava. O talento herdara-o do pai, que trabalhara durante décadas no circo como trapezista. Para sorte da família, o seu talento traduzira-se num apartamento maior, mais comida e um subsídio melhor para vestuário. Felizmente, as artes sempre haviam sido um elemento importante da propaganda comunista. Durante décadas, o circo, a ópera e o bailado foram exportados para o exterior, numa tentativa de mostrar ao mundo que Hollywood não possuía o monopólio do divertimento.

Nos dias que corriam, a companhia transformara-se numa fonte de dinheiro. O circo pertencia a uma sociedade empresarial moscovita que continuava a exibir o espectáculo por todo o mundo, existindo apenas uma diferença: agora o objectivo era o lucro e não a propaganda. Na verdade, até ganhava um bom ordenado para alguém que vivia na Rússia pós-soviética, mas, no momento em que deixasse de ser capaz de deslumbrar a audiência na trave, iria juntar-se aos milhões de desempregados. Era por essa razão que mantinha o seu corpo em excelentes condições, cuidando da sua dieta e regulando as horas de sono. A noite passada fora a primeira desde há algum tempo em que não dormira as habituais oito horas.

Pensou de novo em Miles Lord.

De manhã, quando chegara ao seu apartamento, abrira a pasta do americano. Recordava-se de o ter visto tirar de lá uns papéis, mas esperava encontrar ainda qualquer coisa que lhe desse alguma pista sobre aquele homem que a fascinara. Não vira mais nada para além de um bloco-notas em branco, três esferográficas, alguns cartões do Hotel Volkhov e um bilhete de avião da Aeroflot, de Moscovo para Sampetersburgo, com data do dia anterior.

Miles Lord, advogado americano a trabalhar para a Comissão do Czar.

Talvez voltasse a vê-lo.

Lord assistiu pacientemente à primeira metade do espectáculo. Nenhum elemento da militsia o seguira para o interior do teatro, pelo menos nenhum exibindo uniforme, e ele esperava que também não houvesse ninguém à paisana. A pista era impressionante, um anfiteatro coberto que se elevava num semicírculo em torno de um palco colorido. Bancos vermelhos acomodavam o que ele estimava serem cerca de duas mil pessoas, na sua maioria turistas e crianças, todos sentados perto uns dos outros, partilhando a emoção que irradiava dos artistas. Tudo aquilo parecia irreal, e os trampolins, os cães amestrados, os trapezistas, os palhaços e os malabaristas haviam-no feito esquecer os seus problemas durante algum tempo.

Quando chegou o intervalo, Lord decidiu permanecer no seu lugar. Quanto menos desse nas vistas, melhor. Estava apenas a algumas filas de distância do palco, em linha recta com a pista, e esperava que Akilina Petrovna conseguisse vê-lo quando entrasse.

Ouviu-se uma campainha e uma voz anunciou que o espectáculo recomeçaria dentro de cinco minutos. Lord olhou em redor da pista mais uma vez.

Os seus olhos fixaram-se numa cara.

O homem estava agachado no outro extremo da sala, vestido com um casaco de couro escuro e calças de ganga. Era o mesmo homem do fato bege largo que vira no arquivo de Sampetersburgo na véspera e no comboio, na noite anterior. Estava escondido por entre um grupo de turistas ocupados a tirar fotografias antes do início do espectáculo.

O coração de Lord disparou e o seu estômago embrulhou-se.

Foi então que viu o Vesgo.

O fílho-da-mãe aparecera pela esquerda, entre Lord e o seu outro problema. O cabelo negro brilhava devido ao gel e, como sempre, estava apanhado atrás num rabo-de-cavalo. Vestia uma camisola acastanhada e umas calças escuras.

Assim que as luzes diminuíram e a música retumbou, dando início à segunda parte, Lord levantou-se para sair. Porém, ao cimo do corredor, a não mais de quinze metros, estava o Cro-Magnon com um sorriso na cara marcada pelas bexigas.

Lord voltou a sentar-se. Não tinha por onde fugir.

O primeiro número era o de Akilina Petrovna, que apareceu em palco descalça e exibindo um maio azul com lantejoulas. Dançava ao som da música e depressa subiu para a trave, começando o seu número depois de uma salva de palmas.

Uma onda de pânico apoderou-se dele. Olhou para trás e constatou que o Cro-Magnon continuava ao cimo do corredor. Depois viu a cara disforme do Vesgo, agora sentado a meio caminho. Os seus olhos negros como carvão, olhos de cigano, tinham a expressão de quem chegara ao fim de uma caçada. A mão direita repousava no interior do casaco que ele abria com frequência para mostrar a coronha de uma arma.

Akilina Petrovna avançava pela trave numa deslumbrante exibição de elegância. A música abrandou e ela acompanhou a batida suave com movimentos ágeis. Lord olhava para ela fixamente, na esperança de que ela o visse.

E foi o que aconteceu.

Por um instante, os seus olhos encontraram-se e Lord notou que ela o reconhecera. Depois reparou noutra coisa. Seria uma expressão de medo? Teria também ela reconhecido os homens atrás de si? Ou apenas se apercebera do terror nos seus olhos? Fosse como fosse, não deixou que nada daquilo afectasse a sua concentração, continuando a impressionar a multidão com uma dança lenta e acrobática sobre uma trave estreita de madeira. Fez uma pirueta apenas com uma das mãos e depois saltou para o chão. O público aplaudiu à medida que os palhaços irrompiam pela pista em bicicletas minúsculas. Quando os ajudantes de palco entraram para levar a pesada trave, Lord decidiu que não tinha alternativa e desatou a correr em direcção à pista na precisa altura em que um dos palhaços passava de bicicleta apertando uma buzina. A multidão riu às gargalhadas, pensando que ele fazia parte do número. Lord olhou para a esquerda e viu o Vesgo e o homem de Sampetersburgo levantarem-se dos seus lugares. Passou para o lado de trás da cortina e foi direito a Akilina Petrovna.

— Tenho de sair daqui — disse-lhe em russo.

— Eu vi os homens. Parece continuar em apuros, Miles Lord.

— A quem o diz!

Cruzaram-se com outros artistas ocupados com os preparativos para os seus números. Ninguém parecia prestar-lhes muita atenção.

— Preciso de me esconder em algum lado — explicou ele — , não podemos continuar a fugir.

Ela conduziu-o por um corredor decorado com posters antigos colados numa parede suja. Um cheiro azedo a urina e a pêlo molhado impregnava o ar. O estreito corredor era ladeado por várias portas.

Akilina rodou uma das maçanetas e ordenou:

— Entre para aqui.

Era um pequeno armário com vassouras e esfregonas, mas havia espaço suficiente para ele se esconder.

— Fique aqui até eu voltar. A porta fechou-se.

Na escuridão, tentou recuperar o fôlego. Escutou passos deslocarem-se em ambas as direcções. Não queria acreditar que aquilo estava de facto a acontecer. O polícia da rua deveria ter alertado Felix Orleg. O Vesgo, o Cro-Magnon e o inspector trabalhavam juntos. Não restavam dúvidas sobre isso. O que iria ele fazer? Parte do trabalho de qualquer advogado era informar os seus clientes de que estavam a tomar as atitudes erradas. Devia começar a seguir os seus próprios conselhos. Teria de sair da Rússia urgentemente.

A porta abriu-se.

Com a luz do corredor, conseguiu distinguir três homens.

O primeiro não reconheceu, mas segurava uma faca com a lâmina encostada ao pescoço do Vesgo. O outro era o homem do arquivo de Sampetersburgo, e tinha na mão um revólver apontado na sua direcção.

Depois viu Akilina Petrovna, calmamente ao lado do homem com a arma.

 

QUEM é o senhor? — perguntou Lord.

O homem perto de Akilina respondeu:

— Não há tempo para explicações, Mister Lord. Temos de sair daqui depressa.

Não ficou convencido.

— Não sabemos quantos mais homens estarão aqui. Não somos seus inimigos, Mister Lord, mas ele é — explicou o homem, apontando para o Vesgo.

— É um pouco difícil de acreditar, tendo em conta que é o senhor quem tem uma arma apontada na minha direcção.

O homem baixou o revólver.

— Tem razão. Agora temos de ir. O meu sócio tratará deste senhor enquanto nós desaparecemos.

Lord olhou para Akilina e perguntou-lhe:

— Conhece-o?

Ela assentiu com a cabeça.

— Temos de ir, Mister Lord — avisou o homem.

A expressão de Lord parecia perguntar a Akilina: “Vamos?”

— Acho que é melhor — disse ela.

Decidiu confiar nos instintos de Akilina Petrovna. Os seus não o haviam ajudado muito nos últimos tempos.

— Está bem.

O homem voltou-se para o seu sócio e proferiu algo num dialecto que Lord não reconheceu. O Vesgo foi conduzido à força em direcção a uma porta ao fundo do corredor.

— Por aqui — indicou o homem.

— Não podemos deixá-la fora disto? — perguntou Lord, apontando para Akilina. — Ela não está envolvida.

— Recebi instruções para a levar também.

— Instruções de quem?

— Falaremos sobre isso no caminho. Agora temos de sair daqui.

Lord decidiu não argumentar mais. Seguiram o homem, parando apenas para Akilina ir buscar uns sapatos e um casaco. A porta dava para um beco situado atrás do teatro. Quando saíram, o Vesgo estava a ser enfiado no banco traseiro de um Ford preto parado ao fundo do beco. O seu anfitrião avançou até um Mercedes de cor clara, abriu a porta de trás e convidou-os a entrar. Depois sentou-se no banco da frente. Ao volante estava outro homem. Quando o automóvel arrancou, começou a cair uma chuva miudinha.

— Quem é o senhor? — inquiriu Lord novamente.

O homem não respondeu. Em vez disso, estendeu-lhe um cartão-de-visita.

Semion Pashenko

Professor de História Universidade Estatal de Moscovo.

Começava finalmente a entender.

— Quer dizer que o meu encontro com ele não foi acidental?

— De forma alguma. O professor Pashenko compreendeu o grave perigo que ambos corriam e enviou-nos para os proteger. Era isso que eu estava a fazer em Sampetersburgo. Mas, pelos vistos, não me saí muito bem.

— Pensei que estivesse com os outros. O homem abanou a cabeça.

— Compreendo, mas o professor deu-me instruções precisas para que apenas estabelecesse contacto quando obrigado a isso. Acho que o que estava prestes a acontecer no teatro justificou a minha intervenção.

O carro serpenteou por entre o trânsito da noite, os limpa-pára-brisas arrastando-se de trás para a frente, não limpando grande coisa. Dirigiam-se para sul, passando pelo Kremlin, em direcção ao Parque Gorki e ao rio. Lord reparou no interesse que o condutor demonstrava nos automóveis em seu redor e concluiu que as voltas que haviam dado destinavam-se a evitar que fossem seguidos.

— Acha que estamos em segurança? — sussurrou Akilina.

— Espero que sim.

— Conhece esse professor Pashenko?

— Conheço, mas isso não quer dizer nada. É difícil conhecer quem quer que seja aqui. — Depois acrescentou com um sorriso envergonhado. — Com excepção da senhora ao meu lado, claro.

O caminho levara-os para longe dos anónimos edifícios altos e das excentricidades neoclássicas. As centenas de blocos de apartamentos mais não eram do que trushchoba, espeluncas, e a vida dos que os ocupavam, uma correria diária, tumultuada e barulhenta. Porém, nem toda a gente vivia assim. Reparou que o automóvel se encaminhara para uma das ruas amplas e ladeadas de árvores que se ramificavam da movimentada alameda. Esta estendia-se para norte em direcção ao Kremlin, ligando duas das estradas pertencentes ao Anel dos Jardins.

O Mercedes voltou à direita para um terreno asfaltado. Numa cabine de vidro um guarda vigiava a entrada. O edifício de apartamentos que se erguia ao fundo era tudo menos comum. A sua construção em tijolos amarelados e bem assentes, e não em betão, era uma raridade para os pedreiros russos. Os poucos carros estacionados nos espaços marcados eram estrangeiros e dispendiosos. O homem sentado no lugar do passageiro pressionou um comando e a porta da garagem começou a elevar-se. O condutor levou o carro até ao interior e a porta fechou-se atrás deles.

Foram conduzidos até uma entrada espaçosa e iluminada por um lustre de cristal. Cheirava a pinho, não exalava o horrível odor a lodo e urina como a maioria das entradas dos edifícios russos. Um jornalista russo chamara-lhe “o cheiro a gatos”. Uma escadaria com os degraus protegidos por uma passadeira levava até um apartamento no terceiro andar.

Semion Pashenko abriu a porta branca depois de uma leve batida e convidou-os a entrar.

Lord não demorou a reparar no chão de madeira, nos tapetes orientais, na lareira de tijolo e na mobília escandinava. Símbolos de luxo tanto na antiga União Soviética como na nova Rússia. As paredes eram de um bege-claro e estavam decoradas com reproduções elegantemente emolduradas da vida selvagem siberiana. O apartamento cheirava a batatas e a couves cozidas.

— Vive bem, professor.

— Um presente do meu pai. Para minha infelicidade ele era um comunista devoto e adquirira os privilégios da sua posição. Herdei as comodidades e fui autorizado a comprá-las quando o governo começou a vender tudo. Felizmente, tinha dinheiro.

Lord encarou o seu anfitrião.

— Parece-me que temos de lhe agradecer. Pashenko levantou as mãos.

— De modo algum. Na verdade, somos nós que lhes devemos agradecer.

Lord ficou surpreendido com a resposta, mas nada comentou. O professor apontou para os cadeirões.

— Sentemo-nos. Estou a aquecer o jantar. Aceitam uma taça de vinho? — perguntou, olhando para Akilina. Esta abanou a cabeça.

— Não, obrigada.

Pashenko reparou no traje de Akilina e deu instruções a um dos homens para que fosse buscar um roupão. Sentaram-se frente à lareira e Lord despiu o casaco.

— Trago a lenha da minha datcha a norte de Moscovo — explicou o professor. — Não dispenso a lareira, apesar de este apartamento ter aquecimento central.

“Outra raridade na Rússia”, pensou Lord. Reparou também que o condutor do Mercedes se colocara junto a uma das janelas, espreitando de vez em quando por entre as cortinas. O homem tirou o casaco, deixando ver um revólver que trazia preso junto ao corpo.

— Quem é na verdade o senhor, professor? — perguntou Lord.

— Sou um russo feliz pelo futuro do seu país.

— Podemos, por favor, dispensar os enigmas? Estou cansado. Estes três dias foram longos.

Pashenko fez uma vénia num aparente pedido de desculpas.

— Tendo em conta os relatórios que recebi, concordo consigo. O incidente na Praça Vermelha chegou aos noticiários. Curiosamente, os relatórios oficiais não mencionavam o seu envolvimento, mas o Vitali... — Pashenko apontou para o homem de Sampetersburgo. — Ele viu tudo. A polícia chegou mesmo a tempo.

— O seu homem estava lá?

— Foi a Sampetersburgo certificar-se de que a sua viagem de comboio decorria sem percalços, mas os dois cavalheiros que insistem em persegui-lo interferiram.

— E como foi que ele me encontrou?

— Viu-o na companhia da menina Petrovna e observou quando saltou do comboio. Outro dos nossos homens seguiu os seus movimentos e encontrou-o na mercearia a telefonar.

— E o meu guarda-costas?

— Desconfiávamos que ele podia trabalhar para a máfia. Agora temos a certeza.

— E por que razão acabo eu também envolvida nisto tudo? — questionou Akilina.

Pashenko olhou-a nos olhos.

— A menina é que se envolveu.

— Isso não é verdade. Mister Lord é que entrou no meu compartimento a noite passada. Nada mais.

O professor endireitou-se no cadeirão.

— Também fiquei curioso com o seu envolvimento e tomei a liberdade de me informar sobre si. Possuímos vastos contactos dentro do governo.

— Não tem o direito de invadir a minha privacidade — protestou ela.

Pashenko soltou uma gargalhada.

— Esse é um conceito que nós, os Russos, desconhecemos, minha querida. Ora vejamos. Nasceu aqui em Moscovo e os seus pais divorciaram-se quando tinha doze anos. Uma vez que nenhum deles iria conseguir autorização para outro apartamento, foram obrigados a permanecer juntos na mesma casa. Tendo em conta que o seu pai gozava do estatuto de artista do Estado, as vossas acomodações eram melhores que as da maioria, embora não tenha sido uma situação fácil. A propósito, vi o seu pai actuar inúmeras vezes. Era um acrobata muito dotado. — Akilina agradeceu o elogio com um aceno de cabeça. — Depois envolveu-se com uma romena que também trabalhava no circo. Ela engravidou e regressou ao seu país com a criança. O seu pai tentou obter um visto de saída, mas as autoridades negaram-lho. Os comunistas não gostavam de perder os seus artistas. Quando tentou deixar o país sem autorização, foi preso e enviado para um campo de trabalho. A sua mãe voltou a casar, porém essa união rapidamente terminou em divórcio. Como não conseguiu encontrar um lugar para viver após o segundo divórcio... nesse tempo os apartamentos eram escassos, lembro-me bem... foi obrigada a ir viver de novo com o seu pai. Por essa altura, as autoridades já haviam decidido libertá-lo do campo. E foi naquele pequeno apartamento, e em quartos separados, que ambos definharam até morrerem ainda jovens. Um belo panorama da nossa “república popular”, não acha?

Akilina nada comentou, mas Lord percebeu no seu olhar a dor que sentia.

— Cresci na companhia da minha avó — explicou a Pashenko — , para não assistir ao tormento dos meus pais. Nem sequer falei com eles nos últimos três anos de vida. Morreram amargos, zangados e sozinhos.

— Estava com a sua avó quando os comunistas a levaram? — inquiriu o professor.

— Não. Por essa altura já fora colocada na escola para artistas. Disseram-me que ela tinha morrido de velhice. Só muito mais tarde descobri a verdade.

— Por tudo isso, a Akilina devia ser o agente impulsionador da mudança. Tudo é preferível ao que tínhamos antes.

Lord sentia uma profunda compaixão pela mulher sentada ao seu lado. Gostaria de lhe garantir que situações como aquela nunca mais se repetiriam, mas isso não seria verdade. Em vez disso, perguntou:

— Professor, sabe o que se está a passar?

Uma expressão de receio invadiu a face do académico.

— Sim, sei.

Esperou por uma explicação.

— Alguma vez ouviu falar da Assembleia Monárquica Russa? — inquiriu Semion Pashenko.

Lord abanou a cabeça.

— Eu já — afirmou Akilina. — O seu objectivo é devolver o poder ao czar. Eles costumavam organizar grandes festas depois da queda dos soviéticos. Li algo sobre eles num artigo de uma revista.

— Promoviam festas gigantescas com pessoas vestidas de nobres, de cossacos com chapéus altos, de soldados do Exército Branco. Tudo elaborado de forma a atrair as atenções, para manter o assunto da monarquia na lembrança e no coração do povo. Nesse tempo eram considerados fanáticos, agora já nem tanto.

— Duvido que esse grupo possa receber quaisquer créditos pelo referendo sobre a restauração — argumentou Akilina.

— Eu não teria tanta certeza. A assembleia era mais importante do que aparentava. ,

— Pode ir direito ao assunto, professor? — pediu Lord.

Pashenko estava sentado numa posição muito pouco natural,

não transmitindo qualquer tipo de emoção.

— Mister Lord, recorda-se do Bando Sagrado?

— Um grupo de nobres que havia jurado dar a vida pela segurança do czar. Um bando de cobardes ineptos. Nenhum deles estava por perto quando o czar Alexandre II foi morto num atentado bombista em mil oitocentos e oitenta e um.

— Mais tarde, apareceu outro grupo que adoptou o mesmo nome — retorquiu o professor. — Garanto-lhe que este nada tinha de inepto. Sobreviveu a Lenine, a Estaline e à Segunda Guerra Mundial. Na verdade, ainda hoje existe. A sua face pública é a Assembleia Monárquica Russa, mas existe uma face privada liderada por mim.

Lord olhou admirado para Pashenko.

— E qual é o propósito deste Bando Sagrado?

— A segurança do czar.

— Mas não houve mais nenhum czar depois de mil novecentos e dezoito.

— Está enganado.

— O que está para aí a dizer?

O professor bateu levemente com os dedos nos lábios.

— Na carta de Alexandra e na nota escrita por Lenine, o senhor encontrou o que a nós nos faltava. Devo confessar que até então, quando li aquele texto, também albergava algumas dúvidas. Todavia, agora não me resta nenhuma. Um dos herdeiros sobreviveu ao massacre de Iekaterimburgo.

Lord abanou a cabeça com ar de descrédito.

— Não pode estar a falar a sério, professor.

— Mas estou, Mister Lord. O meu grupo foi formado pouco depois de Julho de mil novecentos e dezoito. O meu tio e o meu tio-avô foram ambos membros desse Bando Sagrado. Eu fui recrutado há já algumas décadas e agora sou o seu líder. O nosso objectivo é guardar o segredo e implementar os seus termos na altura própria. Infelizmente, devido às purgas comunistas, muitos dos nossos membros morreram. De forma a garantir a segurança do processo, o “iniciador” certificou-se de que nenhum deles conhecia todos os passos do segredo. Assim, grande parte da mensagem desapareceu, incluindo o seu ponto de partida. O senhor descobriu agora esse princípio.

— O que quer dizer com isso?

— Ainda tem as cópias consigo?

Lord agarrou no casaco e passou as folhas dobradas a Pashenko que começou a ler:

— Diz aqui na nota que Lenine escreveu: “A situação com Iurovski é preocupante. Não acredito que os relatórios enviados de Iekaterimburgo estivessem correctos e a informação relativa a Felix Iussupov confirma as minhas suspeitas. É de lamentar que o guarda branco que persuadiu a falar não tivesse sido mais prestativo. Talvez o uso abusivo da força acabe por ser contraproducente. A referência a Kolia Maks é de grande interesse. Já anteriormente escutara esse nome. A aldeia de Starodug foi também nomeada por dois outros guardas brancos obrigados a falar através dos mesmos métodos.” A informação que tínhamos perdido era o nome, Kolia Maks, e a aldeia, Starodug. Esse é o ponto de partida da busca.

— Que busca? — perguntou Lord.

— Para encontrar Alexei e Anastasia.

Lord recostou-se no cadeirão. Sentia-se cansado e o que aquele homem estava a dizer deixava-o com a cabeça a andar à roda. Pashenko continuou:

— Quando os corpos dos Romanov foram finalmente exumados em mil novecentos e noventa e um e mais tarde identificados, ficámos a saber que duas pessoas podiam ter escapado ao massacre. Como sabe, os restos mortais de Alexei e Anastasia não foram encontrados até agora.

— Iurovski relatou que os queimou à parte — explicou Lord.

— O que diria o senhor se lhe tivessem ordenado que matasse a família imperial e depois lhe faltassem dois corpos? Mentiria para não ser morto por incompetência. Iurovski enviou para Moscovo as informações que eles queriam ouvir. Todavia, existem relatórios suficientes, que apareceram depois da queda dos comunistas, que levantam grandes dúvidas em relação às declarações de Iurovski.

O professor estava certo. Depoimentos escritos dados por guardas vermelhos e outros participantes no massacre atestavam que nem todos podiam ter morrido naquela noite de Julho. Os relatos variavam entre o terem morto a golpes de baionetas as grã-duquesas e o terem esfaqueado e morto a tiro as vítimas em histeria. Existiam inúmeras contradições. Mas também se recordava do fragmento que encontrara de um testemunho dado três meses depois dos assassínios por um dos guardas de Iekaterimburgo.

No entanto, apercebi-me do que iria acontecer. Os comentários sobre o destino da família eram claros. Iurovski certificou-se de que todos entendíamos a tarefa de que estávamos incumbidos. Após algum tempo, comecei a dizer a mim mesmo que era preciso fazer alguma coisa para os ajudar a fugir.

Lord apontou para os papéis.

— Há aqui outra folha, professor. É de um dos guardas. Talvez lhe interesse.

Pashenko passou as folhas e leu.

— Isto está de acordo com o outro testemunho — disse. — Desenvolveu-se uma grande simpatia pela família real. Muitos dos guardas odiavam-nos e roubaram o que puderam, outros simpatizaram com eles. O “iniciador” aproveitou essa simpatia.

— Quem é o “iniciador”? — perguntou Akilina.

— Felix Iussupov.

Lord escancarou a boca, chocado.

— O homem que assassinou Rasputine?

— Ele mesmo — confirmou o professor. — O meu pai e o meu tio contaram-me em tempos uma história. Algo que sucedera no Palácio de Alexandre, em Czarskoie Selo. Chegou aos ouvidos do Bando Sagrado contado pelo próprio iniciador. A data do acontecimento é vinte e oito de Outubro de mil novecentos e dezasseis.

Lord apontou para a carta que Pashenko tinha nas mãos.

— A mesma data da carta que Alexandra escreveu a Nicolau.

— Exactamente. Alexei havia sofrido outra crise de hemofilia. A imperatriz mandara chamar Rasputine e este acalmara o sofrimento do rapaz. Depois disso, Alexandra descontrolou-se e o starets repreendeu-a por não confiar nele nem em Deus.

Foi então que Rasputine profetizou que o mais culpado veria o erro da sua conduta e agiria de modo a assegurar que o sangue da família real voltaria a correr. Disse também que apenas um corvo e uma águia teriam sucesso onde todos os outros falhariam.

— E que a inocência dos animais vigiaria e mostraria o caminho, sendo o juiz final do sucesso — concluiu Lord.

— A carta confirma a história que me foi contada há já muitos anos. Uma carta que o senhor encontrou escondida nos arquivos estatais.

— E o que tem tudo isto a ver connosco? — inquiriu ele.

— O senhor é o corvo.

— Por ser negro?

— Em parte. O senhor é uma raridade neste país. Mas há algo mais. — Pashenko apontou para Akilina. — Esta bonita jovem. O seu nome, minha querida, significa “águia” em russo antigo.

A cara de Akilina deixou transparecer a surpresa que sentia.

— Entende agora a razão de sermos tão curiosos? Apenas um corvo e uma águia poderão ter sucesso onde todos os outros falharam. O corvo junta-se à águia. Receio, menina Petrovna, que esteja envolvida nisto, quer queira quer não. Foi por essa razão que mandei vigiar o circo. Estava certo de que vocês os dois voltariam a encontrar-se. O facto de isso ter acontecido só vem confirmar ainda mais a profecia de Rasputine.

Lord por pouco não desatou a rir às gargalhadas.

— Rasputine era um oportunista. Um camponês corrupto que manipulava a dor de uma czarina que se sentia culpada pela doença do filho. Se não fosse pela hemofilia do czarévitche, o starets nunca teria obtido um lugar no seio da família real.

— Fosse como fosse, Rasputine era o único que conseguia mitigar os ataques do rapaz.

— Sabe-se hoje que o acalmar da agitação emocional pode afectar positivamente as hemorragias. Já há algum tempo que a hipnose é usada em doentes que sofrem de hemofilia. A tensão afecta o fluxo do sangue e a resistência dos vasos sanguíneos. De tudo o que pude ler, Rasputine limitava-se a acalmar o rapaz.

Falava com ele, contava-lhe histórias sobre a Sibéria e assegurava-lhe que tudo ia correr bem. O rapaz acabava por dormitar, o que também ajudava.

— Eu também já li essas explicações. Mas não deixa de ser verdade que Rasputine tinha influência sobre o czarévitche. E, pelos vistos, terá previsto a sua própria morte semanas antes de acontecer, em conjunto com o que sucederia se fosse morto por um membro da família real. Além disso, profetizou a restauração da monarquia. Aquela que Felix Iussupov implementou. Algo que vocês os dois podem concluir.

Lord olhou para Akilina. O nome dela e a sua ligação a ele podiam ser mera coincidência. Todavia, era uma coincidência que começara várias décadas atrás. Apenas um corvo e uma águia terão sucesso onde todos os outros falharam. O que estava a acontecer?

— O tal Stefan Baklanov não tem competência para governar esta nação — comentou o professor. — Não passa de um idiota cheio de pompa e sem capacidade de liderança. Tornou-se elegível por uma questão de sorte. Será facilmente manipulável e temo que a Comissão do Czar o irá investir de plenos poderes, um presente que a Duma não terá outra solução senão aceitar. O povo anseia por um czar, não por um testa-de-ferro. — Pashenko olhou-o nos olhos. — Mister Lord, eu entendo que seja a sua missão apoiar a candidatura do Baklanov, mas acredito que existe um herdeiro directo de sangue de Nicolau II por aí. Exactamente onde, não faço ideia. Apenas o senhor e a menina Petrovna poderão descobrir.

Lord suspirou.

— Isso é demasiado, professor. Realmente demasiado. O académico esboçou um ligeiro sorriso.

— Compreendo. Mas antes de lhes contar mais detalhes, vou até à cozinha ver como está o jantar. Vocês os dois podem aproveitar e falar em privado. Têm uma decisão para tomar.

— Sobre o quê? — perguntou Akilina.

— O vosso futuro e o da Rússia.

 

20.40

HAYES colocou-se em decúbito dorsal e agarrou a barra de ferro que estava por cima da sua cabeça. Retirou o peso dos apoios e efectuou dez elevações, os seus bíceps e ombros latejando com o esforço. Agradava-lhe o facto do Volkhov estar equipado com um health club. Embora tivesse quase sessenta anos, não estava disposto a ceder à idade. Não havia nenhuma razão para não viver mais quarenta anos e ele precisava desse tempo. Após a coroação de Stefan Baklanov, poderia trabalhar apenas quando quisesse e fazer o que desejasse. Estava já de olho num bonito chalé nos Alpes austríacos, um local onde poderia apreciar a vida ao ar livre, caçar, pescar e ser dono de si próprio. Esse pensamento era incentivador o suficiente para o fazer continuar, independentemente dos riscos.

Terminou outra série de elevações dos pesos, agarrou na toalha e limpou o suor da testa. Depois saiu da sala de exercícios e dirigiu-se para os elevadores.

Onde andaria Lord? Por que razão não o havia ainda contactado? Comentara com Orleg que talvez já suspeitasse dele, mas não estava certo disso. Ou talvez pensasse que os telefones do hotel estavam sob escuta. Ele conhecia bem a paranóia russa e sabia como seria fácil para o governo ou qualquer outra organização levar a cabo essa tarefa. Isso poderia explicar porque não soubera nada dele desde a sua saída abrupta do gabinete de Felix Orleg.

Contudo, podia ter telefonado para a firma em Atlanta, e deixado uma mensagem. Mas Hayes verificara, há menos de uma hora, que não existia qualquer mensagem em Atlanta.

Que grande confusão.

Miles Lord estava a transformar-se num grande problema.

Saiu do elevador para uma sala de estar forrada a madeira, no sexto andar. Todos os andares tinham uma sala dessas, equipada com cadeirões, revistas e jornais. Em dois dos cadeirões de couro avistou Brejnev e Estaline. Combinara encontrar-se com eles e os restantes membros da Chancelaria Secreta dali a duas horas numa moradia a sul da cidade e, por isso, admirou-se por os encontrar ali.

— Meus senhores, a que devo esta honra? Estaline levantou-se.

— Temos um problema que exige a nossa imediata atenção. Precisamos de falar e não conseguimos contactá-lo por telefone.

— Como podem ver, estava a fazer um pouco de exercício.

— Podemos ir até ao seu quarto? — perguntou Brejnev. Hayes indicou o caminho, passando pela dezhumaia que nem

levantou os olhos da revista que estava a ler. Quando entraram no quarto e a porta foi fechada, Estaline declarou:

— Mister Lord foi localizado no circo. Os nossos homens tentaram interceptá-lo. Um deles foi iludido pelo Lord e o outro por homens que, pelos vistos, também andavam à sua procura. O nosso homem teve de matar o seu captor para conseguir escapar.

— Quem interferiu? — perguntou Hayes.

— É esse o problema. Chegou a altura de saber umas quantas coisas — anunciou Brejnev, sentando-se numa cadeira. — Desde sempre que se especula que alguns membros da família real poderão ter escapado à sentença de morte imposta pelos soviéticos em mil novecentos e dezoito. O seu Mister Lord descobriu alguma informação interessante por entre os Documentos de Segurança, informação essa que desconhecíamos. Ao princípio avaliámos a situação como perigosa, mas controlável.

Agora, o caso mudou de figura. O homem com o qual Mister Lord contactou aqui em Moscovo é o Semion Pashenko, professor de História na universidade, mas também o líder de um grupo dedicado à restauração czarista.

— E de que modo pode isso constituir uma ameaça para nós? — interrogou Hayes.

Brejnev recostou-se na cadeira e Hayes observou-o.

Vladimir Kulikov representava uma vasta coligação entre os novos-ricos do país, os poucos indivíduos com sorte que haviam conseguido obter lucros após a queda da União Soviética. Era um homem baixo e sério, a sua cara marcada pelo tempo, tal como um camponês, o nariz aquilino e o cabelo curto, esparso e grisalho. Exibia um ar de superioridade que frequentes vezes irritava os outros três membros da Chancelaria Secreta.

Os novos-ricos não eram particularmente admirados pelos militares ou pelo governo. A maioria pertencera ao partido e fora abençoado com uma vasta rede de contactos. Eram homens espertos que manipulavam um sistema caótico em benefício próprio. Nenhum deles trabalhava a sério e muitos eram financiados pelos empresários americanos que Hayes representava.

— Lenine sempre se interessou pelo que sucedera em Iekaterimburgo — continuou Brejnev. — Tal como ele, Estaline também se preocupou com esse assunto, ao ponto de mandar selar e fechar nos arquivos estatais todos os papéis que dissessem respeito aos Romanov. Depois ordenou a morte ou o exílio em campos de todos os que pudessem fornecer alguma informação. O seu fanatismo é uma das razões por que actualmente é tão difícil saber alguma coisa em primeira mão. Estaline preocupava-se com a eventual existência de um sobrevivente da família real, mas vinte milhões de mortes podem causar muito caos e nunca se confrontou com nenhuma oposição. O grupo do Pashenko está ligado à possibilidade de existir um ou mais sobreviventes do massacre. De que forma, não sabemos, mas durante décadas subsistiram rumores de que um Romanov fora escondido até chegar a altura certa de se revelar o seu paradeiro.

Estaline pegou na palavra.

— Sabemos agora que apenas duas das crianças poderão ter sobrevivido, Alexei e Anastasia, uma vez que os seus corpos nunca foram encontrados. É claro que mesmo que um ou ambos houvessem escapado, por esta altura já teriam morrido, o rapaz em particular, visto que era hemofílico. Por isso, estamos a falar dos seus filhos ou netos, se os tivessem. E esses, sim, seriam herdeiros directos dos Romanov. A pretensão do Stefan Baklanov deixaria de ter significado.

Hayes percebeu que Estaline estava preocupado, mas não era capaz de acreditar no que estava a ouvir.

— É impossível que algum deles tenha sobrevivido. Foram mortos por tiros disparados a pouca distância e depois perfurados por baionetas.

Estaline fez deslizar a mão pelo braço da cadeira, sentindo os entalhes na madeira.

— Disse-lhe na nossa última reunião que os Americanos têm uma enorme dificuldade em entender a sensibilidade russa ao destino. Aqui está um exemplo. Sei de documentos dos soviéticos que comprovam que o KGB levou a cabo interrogatórios sobre essa questão. Rasputine previu que o sangue dos Romanov seria ressuscitado e terá dito que uma águia e um corvo levarão a cabo essa ressurreição. O seu Mister Lord encontrou um papel que confirma esta previsão. — Inclinou-se para a frente. — Ele não se qualificaria como o corvo?

— Por ser negro?

— É uma razão tão boa como outra qualquer — argumentou Estaline, encolhendo os ombros.

Hayes não podia acreditar que um homem com a reputação de Estaline estivesse a tentar convencê-lo de que um camponês charlatão do início do século XX tinha conseguido prever o reaparecimento da dinastia Romanov. E, mais ainda, que um afro-americano, da Carolina do Sul, estaria de algum modo envolvido no processo.

— Posso não compreender a vossa sensibilidade ao destino, mas entendo perfeitamente o que é o senso comum e isto não passa de uma aldrabice.

— O Semion Pashenko não parece concordar — apressou-se Brejnev a contrapor. — Destacou homens para o circo por alguma razão, e estava certo. O Lord apareceu lá. Os nossos homens informaram que uma artista de circo seguia a bordo do comboio naquela noite. Akilina Petrovna. Eles chegaram a falar com ela e não a acharam suspeita, mas o facto é que foi vista a sair do teatro com o Lord e os homens do Pashenko. Porquê, se tudo isto não passa de ficção?

“Uma boa pergunta”, pensou Hayes. A cara de Estaline estava séria.

— Akilina significa “águia” em russo antigo. O senhor fala a nossa língua. Sabia disso?

Hayes abanou a cabeça.

— Isto é um assunto muito grave — afirmou Estaline. — Existem elementos em jogo que não entendemos muito bem. Até há alguns meses, quando o referendo foi aprovado, ninguém sequer pensava que a volta do czarismo fosse possível, muito menos de um czar que pudesse ser utilizado para benefícios políticos. Mas agora ambos são possíveis. Temos de pôr fim imediato a esta confusão antes que se transforme em algo muito pior. Use o número de telefone que lhe demos, junte os homens e encontre Mister Lord.

— Já está a ser feito.

— Faça mais.

— E porque não o fazem vocês?

— Porque o senhor goza de uma liberdade de movimentos que nenhum de nós possui. Esta tarefa compete-lhe a si. Pode até extravasar para lá das nossas fronteiras.

— O Orleg anda neste momento à procura do Lord.

— Talvez um boletim policial sobre o tiroteio na Praça Vermelha possa multiplicar o número de olhos — sugeriu Brejnev. — Afinal, foi morto um polícia. A militsia deve estar ansiosa por encontrar o atirador. Podem até resolver o nosso problema com um tiro certeiro.

 

LAMENTO O que sucedeu aos seus pais — disse Lord.

Akilina ficara sentada muito quieta, olhos pregados no chão, desde que Pashenko saíra da sala.

— O meu pai queria ver o filho crescer. Fazia tenções de casar com a mãe da criança, mas para emigrar era necessário pedir a autorização dos pais, uma absurda lei soviética que impedia qualquer pessoa de sair do país. A minha avó deu o seu consentimento, claro, mas o meu avô estava desaparecido desde a Segunda Guerra Mundial.

— E o seu pai precisava da autorização dele? Ela acenou afirmativamente com a cabeça.

— Nunca foi declarado morto. Nenhum dos desaparecidos foi. Não havia pai, não havia permissão nem visto. As repercussões foram rápidas. O meu pai foi despedido do circo e impedido de actuar em quaisquer outros lugares. O circo era tudo o que ele sabia fazer.

— E por que razão não os viu nos últimos anos de vida?

— Era impossível lidar com eles. Tudo o que a minha mãe via era outra mulher que dera à luz um filho do seu ex-marido. Tudo o que ele conseguia ver era uma mulher que o deixara por outro homem. O seu dever era aguentar a situação para o bem colectivo. — O ressentimento era claro. — Enviaram-me para casa da minha avó.

Ao princípio odiei-os por isso, mas à medida que ia crescendo foi-me sendo cada vez mais difícil suportá-los, por isso mantive-me afastada. Morreram com poucos meses de diferença um do outro. Uma gripe simples que se transformou numa pneumonia. Pergunto-me frequentemente se o meu destino será semelhante ao deles. Quando já não agradar às multidões, o que será de mim?

Lord não sabia o que dizer.

— É difícil para os Americanos entenderem o modo como as coisas se passavam — prosseguiu ela. — E como ainda são, de certa forma. Não poder viver onde queremos ou fazer o que desejamos. As escolhas eram feitas por nós ainda em tenra idade.

Lord sabia ao que ela se referia. Chamava-se raspredelenie ou distribuição. Uma decisão tomada aos dezasseis anos sobre a profissão que se iria ter para o resto da vida. Os que desfrutavam de alguma influência tinham escolha, os que não possuíam contactos escolhiam o que lhes era oferecido e os mais desfavorecidos faziam o que lhes mandavam.

— Os filhos dos membros do partido eram os privilegiados — continuou ela. — Conseguiam os melhores lugares em Moscovo. Era para lá que toda a gente queria ir.

— E a Akilina não?

— Eu odiava Moscovo. Para mim seria sinónimo de miséria, mas fui obrigada a regressar. O Estado precisava do meu talento.

— Não queria ser artista de circo?

— É possível aos dezasseis anos saber-se o que se quer ser para o resto da vida?

Lord nada disse, dando-lhe razão com o seu silêncio.

— Vários dos meus amigos escolheram o suicídio. Era bem melhor do que passar o resto da vida no Círculo Árctico ou em alguma aldeia esquecida da Sibéria a fazer algo que se despreza. Tinha uma amiga da escola que queria ser médica. Era uma excelente aluna, porém não possuía a necessária filiação partidária que lhe permitiria ser seleccionada para a universidade. Outros menos capazes foram escolhidos no lugar dela.

Acabou a trabalhar numa fábrica de brinquedos. — Encarou-o com dureza no olhar. — Tem sorte, Miles Lord. Quando for velho ou se ficar incapacitado, tem subsídios governamentais que o ajudarão. Nós não temos nada disso. Os comunistas pregaram contra o czar e as suas extravagâncias, mas eles não eram melhores.

Lord começava de dia para dia a entender melhor a preferência que os Russos tinham pelo passado distante.

— No comboio contei-lhe sobre a minha avó. Tudo aquilo foi verdade. Vieram buscá-la uma noite e nunca mais ninguém a viu. Ela trabalhou numa loja que pertencia ao Estado e durante anos viu os gerentes roubarem os artigos das prateleiras e culparem os empregados. Um dia fartou-se e escreveu uma carta para Moscovo, a queixar-se. Foi despedida, cancelaram-lhe a pensão e os seus papéis de trabalho foram marcados com o carimbo de informante. Nunca mais ninguém a contratou e ela dedicou-se a escrever poesia. Os versos foram o seu crime.

Lord inclinou a cabeça.

— Como?

— Ela gostava de escrever sobre o Inverno russo, a fome e o choro das crianças e sobre o modo como o governo era indiferente a tudo isso. O partido comunista local considerou os seus poemas uma ameaça à ordem nacional. Ela começava a chamar as atenções, a destacar-se da comunidade. Esse foi o seu crime. Podia tornar-se uma bandeira para a oposição, por isso fizeram-na desaparecer. Somos talvez o único país do mundo que executou os seus poetas.

— Akilina, eu entendo o ódio que todos vocês nutrem pelos comunistas, mas é preciso encarar a realidade. Antes de mil novecentos e dezassete o czar era um líder inepto, pouco se importando que a sua polícia matasse civis. Morreram centenas de pessoas em mil novecentos e cinco, no Domingo Sangrento, apenas por protestarem contra a sua política. Foi um regime brutal que recorria ao abuso da força para sobreviver, tal como os comunistas.

— O czar representa uma ligação às nossas origens que remontam a centenas de anos. É a personificação da Rússia.

Lord recostou-se na cadeira e respirou fundo. Olhou demoradamente a lareira e escutou o estalar da lenha ao ser consumida pelas chamas.

— Akilina, ele quer que procuremos o suposto herdeiro, que pode ou não estar vivo. E tudo porque um curandeiro idiota há quase cem anos previu que o faríamos.

— Eu quero procurá-lo. Olhou-a, espantado.

— Porquê?

— Desde que nos conhecemos que sinto como se estivéssemos ligados. Não tive sequer medo quando entrou no meu compartimento e nunca questionei a minha decisão de o deixar passar a noite no beliche ao lado. Algo dentro de mim me disse para o fazer. Também estava certa de que o voltaria a ver.

Lord não era tão místico quanto aquela bonita mulher parecia ser.

— O meu pai era reverendo. Viajava de terra em terra mentindo ao seu rebanho. Gostava de gritar a palavra de Deus, mas tudo o que fazia era aproveitar-se da pobreza dos outros e manipular os seus medos. Era o homem mais pecaminoso que conheci. Enganou a mulher, os filhos e o seu próprio Deus.

— Mas foi ele quem o gerou.

— Estava apenas presente quando a minha mãe me concebeu. Criei-me a mim próprio.

Akilina apontou para o seu peito.

— Ele continua aí dentro, querendo ou não.

Lord não queria admitir isso. Anos atrás considerara seriamente mudar de apelido. Apenas os pedidos da mãe o haviam feito retroceder.

— Sabe, Akilina, toda esta história pode não passar de uma grande invenção.

— Com que propósito? Durante dias interrogou-se sobre a razão por que haveria homens a tentar matá-lo. Este professor deu-lhe uma resposta.

— Eles que procurem o Romanov. Têm todas as informações que descobri.

— Rasputine disse que apenas nós conseguiríamos isso. Lord abanou a cabeça.

— Não acredita mesmo nisso, pois não?

— Já não sei no que devo acreditar. Quando era miúda, a minha avó disse-me que via coisas boas na minha vida. Talvez ela estivesse certa.

Não era bem a resposta que desejava ouvir, mas, tal como Akilina, havia algo dentro dele que o impelia a continuar. Se não houvesse outra razão, ao menos aquela suposta busca iria afastá-lo de Moscovo, do Vesgo e do Cro-Magnon. Pashenko tinha razão. Os últimos dias haviam sido demasiado férteis em coincidências. Nem por um minuto acreditava que Grigori Rasputine tivesse poderes para adivinhar o futuro, todavia sentia-se intrigado com o envolvimento de Felix Iussupov. O “iniciador”, como Pashenko lhe chamara quase em reverência.

Recordou a sua história. Iussupov era bissexual; assassinara Rasputine sob a falsa crença de que o destino da nação dependia desse seu acto. Sentiu um orgulho quase perverso no que fizera e, durante cinquenta anos, gabou-se da tolice que cometera. Mais não era do que um hipócrita pomposo, uma fraude perigosa e malevolente, tal como Rasputine e o seu próprio pai. Contudo, Iussupov estava aparentemente envolvido em algo que sugeria altruísmo.

— Está bem, Akilina, vamos procurar o herdeiro. Que mais tenho eu para fazer?

Olhou para a porta da cozinha no instante em que Semion Pashenko ia a entrar na sala.

— Acabei de receber uma notícia inquietante — anunciou o professor. — Um dos nossos homens, aquele que levou consigo o indivíduo do circo, não apareceu no local combinado com o prisioneiro e foi depois encontrado morto.

O Vesgo escapara. Não era um pensamento agradável.

— Lamento muito — disse Akilina. — Ele salvou-nos a vida. Pashenko parecia indiferente.

— Ele sabia os riscos que corria quando se juntou ao Bando Sagrado. Não é o primeiro a morrer por esta causa.

— O professor sentou-se num dos cadeirões; o seu olhar mostrava cansaço. — E provavelmente não será o último.

— Decidimos aceitar a missão — anunciou Lord.

— Era o que eu estava à espera. Contudo, não se esqueçam do que Rasputine disse: “Doze morrerão antes de a busca chegar ao fim.”

Lord não estava preocupado com uma profecia feita há cem anos. Os místicos nem sempre estavam certos. Por outro lado, o Vesgo e o Cro-Magnon eram bem reais e a sua ameaça imediata.

— Está consciente, Mister Lord, de que o senhor era o alvo da matança que teve lugar na Perspectiva Nikolskaia há quatro dias, e não o Artemi Beli. Há quem o queira ver morto. E suspeito que esses homens já saibam parte daquilo que nós sabemos. Farão tudo para o impedir de completar a sua missão — explicou Pashenko.

— Presumo — disse Lord — que mais ninguém saberá para onde vamos, com excepção do senhor?

— É isso mesmo. E assim será daqui para a frente. Apenas o senhor, eu e a Akilina Petrovna conhecemos os detalhes do ponto de partida.

— Não é bem verdade. O homem para quem trabalho conhece a carta de Alexandra. Mas não estou a ver de que modo ele a poderia relacionar com tudo isto e, mesmo que o fizesse, não diria a ninguém.

— Tem alguma razão para desconfiar do seu patrão?

— Mostrei-lhe a carta há cerca de duas semanas e ele nunca comentou nada sobre isso. Não creio que tenha sequer ligado ao assunto. — Mudou de posição na cadeira. — Muito bem, uma vez que aceitámos embarcar nesta busca, que tal contar-nos os detalhes a que se referiu há pouco?

Pashenko endireitou-se no cadeirão, as emoções retornando à sua face.

— O “iniciador” organizou a busca em etapas, todas independentes umas das outras. Se a pessoa certa, com as palavras certas, aparecesse em cada etapa, ser-lhe-iam dadas as informações para a seguinte. Apenas Iussupov conhecia todo o plano e, a confiar nas suas palavras, não o contou a ninguém. Sabemos que algures na aldeia de Starodug se encontra a primeira parte do plano. Fiz alguma investigação após a nossa conversa de há alguns dias e descobri que Kolia Maks era um dos guardas do palácio de Nicolau que, após a revolução, se passou para os bolcheviques. Por altura do assassínio dos Romanov ele era membro do Soviete do Ural. No início da revolução, antes de Moscovo tomar o controlo, os sovietes locais governavam as suas respectivas áreas geográficas. Assim, o Soviete do Ural controlava bem mais o destino do czar do que o Kremlin. Aquela região era fervorosamente anticzarista e desde que Nicolau chegara a Iekaterimburgo que o desejavam ver morto.

— Recordo-me disso — afirmou Lord, pensando no tratado de paz que Lenine assinara em Março de 1918 e com o qual retirava as tropas russas da Primeira Guerra Mundial. — Lenine pensava que se livrava dos Alemães. Diabos, ele quase implorou pela paz. Os termos do tratado eram de tal forma humilhantes que um dos generais russos se suicidou após a cerimónia de assinatura. Depois, o embaixador alemão foi morto em Moscovo, a seis de Julho de mil novecentos e dezoito. Lenine enfrentava agora a possibilidade de uma nova invasão alemã, por isso utilizou os Romanov como moeda de troca. Pensava ele que o cáiser se preocupava o suficiente para os aceitar, em especial Alexandra, que era uma princesa alemã.

— Mas os Alemães não queriam nenhum dos Romanov — continuou Pashenko — , e foi nessa altura que a família imperial se transformou num problema. Assim, o Soviete do Ural recebeu ordens para os matar. Kolia Maks pode ter estado envolvido. Pode até ter estado presente durante a execução.

— Professor, mas o homem já deve ter morrido. Passaram tantos anos desde esse dia — observou Akilina.

— Mas era seu dever assegurar-se de que a informação não se perdia. Temos de partir do princípio de que Maks se manteve fiel ao seu juramento.

Lord estava perplexo.

— Porque não vai o senhor procurar o homem? Bem sei que não sabia o seu nome até agora, mas por que razão temos de ser nós a fazê-lo?

— O “iniciador” certificou-se de que apenas o corvo e a águia poderiam saber os detalhes. Mesmo que eu fosse, ou outro qualquer, a informação não seria transmitida. Devemos respeitar a profecia de Rasputine. O starets disse que apenas vocês teriam sucesso onde todos os outros falhariam. Também eu devo manter-me fiel ao meu juramento e respeitar o plano do “iniciador”.

Lord tentou recordar-se de mais pormenores sobre a vida de Felix Iussupov. A sua família era uma das mais ricas da Rússia, e Felix apenas herdara a fortuna dos pais após a morte do irmão mais velho num duelo. Desde que nascera sempre fora uma desilusão para a família. A mãe desejara uma rapariga e, até aos cinco anos, vestiu-o com roupas de menina e recusava-se a cortar-lhe o cabelo.

— Não estaria Iussupov fascinado por Rasputine? — perguntou.

— É verdade. Alguns biógrafos chegaram a sugerir uma ligação homossexual, que Rasputine terá rejeitado e que poderá estar na origem do ressentimento de Iussupov. A sua esposa era a sobrinha preferida de Nicolau II, a jovem mais disputada da Rússia. Ele nutria uma profunda lealdade pelo czar e pensou que era seu dever livrar o imperador da influência maléfica de Rasputine. Era uma crença tola, encorajada por outros nobres que invejavam a posição que o starets ocupava na corte.

— Nunca considerei Iussupov um homem muito inteligente. Era bem mais um seguidor que um líder.

— Isso pode bem ter sido intencional. De facto, acreditamos ser precisamente esse o caso. — Pashenko fez uma pausa. — Agora que concordaram em aceitar a missão, posso dar-lhes conta da informação que me foi passada a mim. Tanto o meu tio-avô como o meu tio guardaram o segredo até à sua morte. Vou revelar-lhes as palavras que deverão ser proferidas ao próximo elo na cadeia, que eu agora acredito ser Kolia Maks ou o seu sucessor. Aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo. Lord pensou de imediato no seu pai.

— Do Evangelho segundo São Mateus.

à Pashenko acenou afirmativamente com a cabeça.

— Essas palavras darão acesso à segunda parte da viagem.

— Tem noção de que tudo isto pode não passar de um grande engano? — perguntou Lord.

— Não acredito nisso. Tanto Alexandra como Lenine fizeram referência à mesma informação. A czarina escreveu a carta em mil novecentos e dezasseis, descrevendo o incidente com Rasputine que o “iniciador” passou para nós. Seis anos mais tarde, Lenine tomou nota das informações que haviam sido extraídas sob tortura a um guarda branco, sublinhando o nome de Maks. Existe algo em Starodug. Algo que Lenine não foi capaz de descobrir. Após ter sofrido um acidente vascular cerebral em mil novecentos e vinte e dois, Lenine perdeu o interesse por esta história e como que se retira da vida política. Morreria em vinte e quatro. Quatro anos mais tarde, Estaline manda selar tudo, o que aconteceu até mil novecentos e noventa e um. Chamava-lhe O Assunto Romanov e proibiu toda a gente de mencionar sequer o nome da família imperial. Posto isso, ninguém seguiu o rasto de Iussupov, se é que alguma vez alguém descobriu que havia uma pista para seguir.

— Do que me lembro — disse Lord — , Lenine não considerava o czar uma figura aglutinadora da oposição. Por volta de mil novecentos e dezoito, os Romanov estavam desacreditados por completo. Chamavam-lhe até “Nicolau, o Sanguinário”. A campanha de desinformação que os comunistas lançaram contra a realeza foi bem-sucedida.

O professor assentiu.

— Algumas das cartas trocadas entre o czar e a czarina foram publicadas nessa altura. Tudo ideia de Lenine. Dessa forma o povo podia ler em primeira mão como a família real se havia tornado indiferente. Claro que o material publicado era revisto e alterado. O objectivo era também enviar uma mensagem para o exterior. Lenine esperava que o cáiser pudesse querer Alexandra de volta e que mostrar-lhe o seu destino garantiria a concordância alemã com o tratado de paz ou talvez o regresso dos prisioneiros de guerra russos. Contudo, os Alemães possuíam uma extensa rede de espiões por toda a Rússia, em especial na região do Ural, e por isso acredito que soubessem que a família real fora assassinada em Julho de mil novecentos e dezoito. Em essência, Lenine estava a usar cadáveres como moeda de troca.

— E como surgiram as histórias que davam a czarina e as suas filhas como sobreviventes?

— Isso não passou de outra campanha de desinformação levada a cabo pelos soviéticos. Lenine não estava certo do modo como o mundo encararia o assassínio de mulheres e crianças. Moscovo esforçou-se por descrever o sucedido como uma execução válida realizada de forma heróica. Assim, os comunistas inventaram uma história de como as mulheres Romanov haviam sido poupadas e morrido mais tarde durante uma batalha contra o Exército Branco. Lenine pensou que a desinformação manteria os Alemães na dúvida, mas assim que entendeu que ninguém queria saber de nenhum dos Romanov, independentemente de sexo e idade, a ideia foi abandonada.

— No entanto, a desinformação manteve-se.

Pashenko esboçou um sorriso irónico.

— O Bando Sagrado teve algum crédito nisso. Os meus antecessores fizeram um excelente trabalho a espalhar informação errada. Parte do plano do “iniciador” era deixar os soviéticos na dúvida e o mundo a querer saber mais. Embora não possa garantir, acredito que toda a história de Anna Anderson terá sido criação de Iussupov. Ele enviou-a para executar um embuste e o mundo acreditou.

— Até que os testes de ADN provaram que era uma fraude.

— Sim, mas isso aconteceu apenas recentemente. Acredito que Iussupov lhe terá ensinado tudo o que ela precisava de saber e o resto foi obra da sua magnífica representação.

— Fazia tudo parte disto?

— E há muito mais, Mister Lord. Iussupov viveu até mil novecentos e sessenta e sete e certificou-se em pessoa de que o seu plano iria funcionar. A desinformação tinha como objectivo não apenas deixar os soviéticos na dúvida como também manter os Romanov sobreviventes na linha da sucessão. Nunca ninguém teria a certeza se um herdeiro directo havia sobrevivido e assim nenhuma facção poderia alguma vez tomar o controlo total da família. Anna Anderson desempenhou tão bem o seu papel que muitos dos Romanov juraram que ela era Anastasia. Passado algum tempo, começaram a aparecer pretendentes por todo o lado. Escreveram-se livros, fizeram-se filmes. O engano ganhou vida própria.

— E tudo para guardar um segredo verdadeiro.

— Correcto. Após a morte de Iussupov, essa responsabilidade coube a outros, eu incluído, mas por causa das restrições de movimentos impostas pelos soviéticos isso nem sempre foi fácil. Talvez Deus o tenha posto no nosso caminho, Mister Lord. — Pashenko olhou-o com seriedade. — Estou muito feliz com a sua decisão. A Rússia precisa de si.

: — Não sei se conseguirei ser de grande ajuda. O professor voltou-se para Akilina.

— E de si também, minha querida — acrescentou Pashenko, recostando-se na cadeira. — E agora só mais uns detalhes. A profecia de Rasputine fala de alguns animais envolvidos, não faço ideia quais nem como. E que Deus providenciará uma forma de garantir a verdade. Isso pode ser uma referência aos testes de ADN. Podem muito bem ser utilizados para verificar a autenticidade de qualquer pessoa que venham a localizar. A ciência pode ajudar, já não vivemos no tempo de Lenine ou de Iussupov.

A serenidade do apartamento havia ajudado a acalmá-lo e Lord começava a sentir-se demasiado cansado para pensar. Além disso, o cheiro a couves e batatas começava a ser convidativo.

— Professor, estou a morrer de fome.

— Tem toda a razão. Os homens que os trouxeram estão a preparar tudo. — Pashenko virou-se para Akilina. — Enquanto jantamos, eles irão ao seu apartamento buscar o que precisar. Recomendo que guarde o seu passaporte, uma vez que não sabemos onde esta busca nos irá levar. Temos contactos dentro da organização que é dona do circo. Vou dar instruções para que a sua ausência não lhe coloque a carreira em perigo. Se esta aventura não der em nada, ao menos não perde o seu emprego.

— Obrigada.

— E os seus pertences, Mister Lord?

— Darei aos homens a chave do meu quarto de hotel. Eles podem trazer a minha mala. Também preciso de deixar uma mensagem ao meu patrão, Taylor Hayes.

— Não recomendo que o faça. A profecia fala de segredo e eu acredito que devemos respeitar os seus pressupostos.

— Mas o Taylor pode ajudar-nos.

— Não precisa de ajuda, Mister Lord.

Estava demasiado cansado para argumentar. Além disso, era provável que Pashenko tivesse razão. Quanto menos pessoas soubessem do seu paradeiro, melhor. Podia telefonar a Hayes mais tarde.

— Hoje podem dormir aqui em segurança e começar a vossa busca amanhã — disse o professor.

 

Sábado, 16 de Outubro

LORD conduzia o Lada por uma estrada com duas faixas. Pashenko fornecera o veículo com o depósito cheio e cinco mil dólares americanos. Lord pedira moeda americana uma vez que, tal como o professor dissera, ninguém sabia a que paragens a viagem os iria levar. Continuava a acreditar que toda aquela aventura era uma completa perda de tempo, mas sentia-se bem melhor agora que estava a cinco horas de Moscovo conduzindo pelo meio das florestas do Sudoeste russo.

Vestia umas calças de ganga e uma camisola. Os homens de Pashenko haviam retirado a sua mala do Volkhov sem quaisquer problemas. Tinha descansado, tomado um duche quente e feito a barba. Sentia-se bem. Akilina também parecia retemperada. As suas roupas, passaporte e visto de saída estavam agora na sua posse, graças aos homens do professor. De modo a facilitar a marcação das suas inúmeras viagens, os artistas do circo eram detentores de vistos sem data de expiração.

Permaneceu calada durante grande parte da viagem. Vestia uma camisola de gola alta verde-azeitona, calças de ganga e um casaco de camurça de uma tonalidade verde a condizer, um modelo que, segundo ela explicara, comprara em Munique no ano anterior. As cores escuras e o estilo mais conservador assentavam-lhe bem. As lapelas compridas acentuavam-lhe os ombros esguios e davam-lhe um ar de Annie Hall que Lord apreciava.

Pelo vidro do pára-brisas avistava campos e bosques. O solo era negro e em nada se assemelhava ao barro vermelho do Norte da Geórgia. As batatas davam fama à região. Recordava-se, divertido, da história de Pedro, o Grande, que decretara que a estranha planta fosse cultivada pelos camponeses da região. “Maçãs da terra”, chamava-lhes Pedro. Porém, as batatas não eram um tubérculo conhecido na Rússia e o czar esqueceu-se de dizer qual a parte da planta que devia ser colhida. Quando, em desespero, tentaram comer a rama em vez da raiz, os camponeses adoeceram. Zangados e desiludidos, queimaram toda a colheita. Foi apenas quando alguém provou a raiz queimada que a batata se implantou na região.

A estrada obrigou-os a atravessar locais lúgubres e pouco saudáveis que se dedicavam à fundição de metal e à produção de tractores. O ar estava coroado por uma névoa de carbono e ácido, e tudo em redor coberto por fuligem. Em tempos idos, aquela área fora um campo de batalha onde pagãos, cristãos, príncipes e tártaros se haviam batido pelas suas causas. Um lugar onde, como havia descrito um escritor russo, “a terra russa bebeu sangue russo”.

Starodug era uma aldeia pequena com uma atmosfera imperial emprestada pelas lojas com colunatas e pelos edifícios em madeira e tijolo. Bétulas de tronco branco ladeavam as ruas e o centro da aldeia, dominado por uma igreja com três torres encimadas por cúpulas azul-escuras com estrelas douradas que brilhavam com os últimos raios de sol. Os edifícios mal cuidados, o pavimento esburacado e os espaços verdes invadidos pelas ervas daninhas transmitiam uma opressiva sensação de decadência.

— Alguma ideia sobre como poderemos encontrar o Kolia Maks? — perguntou ele a Akilina, enquanto desciam uma das ruas em marcha lenta.

— Não creio que vá ser muito difícil — afirmou ela, apontando para a frente.

Lord chegou o nariz ao pára-brisas sujo e viu uma placa indicando o Kafe Snezhinki. As especialidades da casa eram os bolos, os pastéis de carne e os gelados, conforme anunciava o cartaz à entrada. O estabelecimento ocupava o rés-do-chão de um edifício de três andares construído em tijolo e com as molduras das janelas em madeira trabalhada. A placa dizia ainda: Proprietário: Iossif Maks.

— Que estranho — afirmou Lord.

Os Russos não tinham por hábito anunciar a propriedade dos estabelecimentos. Olhou em redor e notou que as poucas placas existentes não exibiam nomes. Recordou-se da Perspectiva Nevski em Sampetersburgo e da zona denominada Arabat de Moscovo, ambos locais de eleição, onde centenas de lojas famosas ladeavam a rua num desfile consumista. Apenas algumas dessas lojas exibiam os preços e menos ainda eram as que anunciavam o nome do proprietário.

— Talvez seja um sinal dos tempos. O capitalismo a tomar conta de nós aos poucos. Até já chegou às aldeias russas — comentou Akilina, com um sorriso brincalhão.

Estacionou o Lada e saíram ambos para o lusco-fusco da tarde. Não havia ninguém nas ruas, excepto um cão que perseguia uma pega. Poucas lojas estavam abertas. Fora das regiões metropolitanas as lojas raramente abriam as suas portas aos fins-de-semana. Lord sabia bem que essa era outra das heranças do passado bolchevique.

O café tinha um aspecto simples, com quatro filas de mesas ao centro. Redomas de vidro cobriam os pratos do dia e um aroma a café perfumava o ar. Lá dentro encontravam-se três pessoas sentadas a uma mesa e uma outra sozinha. Ninguém pareceu prestar-lhes atenção quando entraram, embora Lord se questionasse sobre quantos negros estariam eles habituados a ver por aquelas paragens.

O homem atrás do balcão era baixo e encorpado, com cabelo espesso ruivo, barba e bigode a condizer. Usava um avental manchado com uma variedade de nódoas e, quando se aproximou, a limpar as mãos a uma toalha suja, tresandava a queijo feta.

— O senhor é o Iossif Maks? — perguntou Lord em russo.

 

O homem olhou-o com estranheza. * -

— O senhor é donde? — inquiriu o russo.

Decidiu que quanto menos ele soubesse, melhor.

— Que lhe interessa isso?

— Interessa porque está na minha loja a fazer perguntas e a falar como um russo.

— Devo então concluir que o senhor é o Iossif Maks?

— Diga ao que vem.

O tom era duro e pouco amigável e Lord ficou a pensar se

a razão de tal seria preconceito ou ignorância.

— Não estamos aqui para provocar sarilhos, Mister Maks. Andamos à procura de um homem chamado Kolia Maks. O mais provável é ele já ter morrido há alguns anos, mas gostaríamos de saber se algum dos seus parentes ainda poderá aqui viver.

O russo olhou-o com ar severo.

— Quem são vocês?

— O meu nome é Miles Lord e esta senhora chama-se Akilina Petrovna. Viemos de Moscovo à procura de Kolia Maks.

O homem atirou a toalha para o lado e cruzou os braços frente ao peito.

— Vivem aqui muitos Maks, mas não conheço nenhum Kolia.

— Terá vivido aqui no tempo de Estaline. É possível que os seus filhos ou netos ainda por aqui habitem.

— Sou Maks da parte da minha mãe e nunca conheci nenhum deles.

— Então por que razão o seu apelido é Maks? — perguntou Lord.

Um olhar furioso brilhou na cara do russo.

— Não tenho tempo para conversas. Tenho clientes para atender.

Akilina aproximou-se do balcão.

— Mister Maks, isto é importante. Precisamos de encontrar os familiares de Kolia Maks. Não nos poderia dizer se vivem aqui?

 

— O que vos leva a pensar que eles moram aqui?

Lord ouviu passos atrás de si e virou-se quando um polícia, vestido com o uniforme rural da militsia e a cabeça coberta por um chapéu de pêlo em tons de azul, entrava no café. Desabotoou e despiu o sobretudo e sentou-se a uma das mesas, acenando para Iossif Maks. O russo foi preparar-lhe um café. Lord aproximou-se mais do balcão. O polícia deixava-o nervoso e manteve um tom de voz muito baixo quando falou com Maks, que estava de costas.

— “Aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.” O russo virou a cabeça.

— O que significa isso?

— Diga-me o senhor.

O dono do café abanou a cabeça.

— Americano doido. Vocês são malucos?

— Quem lhe disse que sou americano?

Maks olhou para Akilina e perguntou:

— O que faz com este chornie?.

Lord não reagiu ao comentário depreciativo. Precisavam de sair do café sem causar grandes alaridos. No entanto, havia algo nos olhos de Maks que contradizia as suas palavras. Não tinha a certeza, mas o russo podia estar a tentar dizer-lhe que aquela não era a melhor altura ou o melhor local. Decidiu arriscar.

— Pronto, Mister Maks, nós vamos embora. Pode indicar-nos um local para passarmos a noite?

O dono do estabelecimento terminou de preparar o café e dirigiu-se à mesa do polícia. Colocou-lhe a bebida à frente e voltou.

— Tentem o Hotel Okatiabrski. Virem à esquerda na próxima esquina e depois são três quarteirões em direcção ao centro.

— Obrigado — disse Lord.

Maks voltou para trás do balcão sem dizer palavra. Lord e Akilina dirigiram-se para a porta e foram obrigados a passar ao lado do polícia, que bebia o seu café fumegante. Notou que o olhar do homem se demorou mais do que seria de esperar. Virando-se para trás, Lord percebeu que Maks também reparara.

Encontraram o Hotel Okatiabrski. Um edifício de quatro andares com varandas decrépitas. A entrada tinha um aspecto sujo e cheirava a esgotos. O empregado da recepção apressou-se a dizer que o hotel não aceitava estrangeiros; Akilina tomou de imediato conta da situação e, zangada, informou-o de que Lord era seu marido e que exigia que fosse tratado com respeito. Depois de alguma discussão, foi-lhes cedido um quarto por um preço mais elevado que o habitual e subiram até ao terceiro andar.

O quarto era espaçoso, mas antiquado. A decoração lembrava algo retirado de um filme dos anos 40. A peça mais moderna era o frigorífico, que zunia intermitentemente a um canto. A casa de banho não era muito melhor. Não havia papel higiénico nem tampa na sanita e, quando Lord tentou lavar a cara, descobriu que a água quente e a água fria não corriam ao mesmo tempo.

— Imagino que não haja muitos turistas a virem tão para sul — disse ele, saindo da casa de banho a limpar a cara.

Akilina estava sentada na beira da cama.

— Esta zona encontrava-se fechada aos turistas durante o comunismo. Apenas recentemente foi autorizada a entrada a estrangeiros.

— Agradeço o que fez por mim lá em baixo, na recepção.

— Lamento o que o Maks lhe disse. Não tinha o direito.

— Não estou certo de que o tenha dito com intenção. — Depois explicou o que suspeitara. — Acho que ele estava nervoso com a presença do polícia, tal como nós.

— Porquê? Ele disse que não sabia nada do Kolia Maks.

— Penso que mentiu.

— É um corvo muito optimista — declarou ela, sorrindo.

— Isso de ser optimista não sei. Parto apenas do princípio de que há uma ponta de verdade em toda esta história.

— Espero que sim.

Lord estava curioso.

— Aquilo que afirmou ontem à noite é verdade. Os Russos insistem em lembrar-se apenas das coisas boas do governo czarista. Mas tinha razão, era uma autocracia repressiva e cruel. Ainda assim... desta vez podia ser diferente — disse ela, abrindo-se num sorriso. — O que estamos a fazer pode ser uma forma de enganar os soviéticos uma última vez. Eles achavam-se tão espertos, mas os Romanov podem ter sobrevivido. Não seria bem feito?

Seria, sim, pensou Lord.

— Tem fome? — perguntou Akilina. Se tinha.

— Acho que devíamos tentar não dar nas vistas. Vou lá abaixo e compro qualquer coisa no quiosque da entrada. O pão e o queijo tinham bom aspecto. Podemos jantar sem pressas, aqui.

Ela sorriu.

— Isso seria muito bom.

Lord dirigiu-se à senhora de idade que tomava conta do pequeno quiosque e escolheu um pedaço de pão escuro, queijo, duas salsichas e duas cervejas. Pagou com uma nota de cinco dólares, que a mulher aceitou satisfeita. Encaminhava-se para as escadas quando ouviu carros aproximarem-se. Luzes azuis e vermelhas rodopiavam na escuridão e iluminavam a entrada. Olhou lá para fora e viu três carros da polícia pararem e as portas abrirem-se.

Sabia de antemão para onde se dirigiam os homens.

Subiu as escadas a correr e entrou no quarto.

— Pegue nas suas coisas. A polícia está lá em baixo. Akilina foi rápida. Pegou na mala e vestiu o casaco. Lord fez

o mesmo.

— Não devem demorar muito a descobrir o número do quarto.

— Para onde vamos?

Ele sabia que havia apenas uma saída, o quarto andar.

— Venha.

Saíram e ele fechou a porta sem fazer barulho. Subiram os degraus de madeira mal iluminados enquanto, por baixo, se ouvia barulho de passos. Entraram no corredor do último andar em bicos de pés. Lord examinou os sete quartos à luz de uma lâmpada incandescente. Três deles davam para a rua, outros três para as traseiras do edifício e um para o fundo do corredor. Todas as portas estavam abertas, o que significava que nenhum dos quartos tinha hóspedes.

O bater de punhos na madeira ecoou, vindo do andar de baixo.

Ele fez-lhe sinal para que não fizesse barulho e apontou-lhe o último quarto, aquele que dava para as traseiras do edifício.

Akilina dirigiu-se para lá. Pelo caminho, Lord foi fechando silenciosamente as portas de todos os quartos. Depois, seguiu-a para o interior do quarto e trancou a porta.

Do terceiro andar soaram mais pancadas na porta.

O quarto estava às escuras e ele não se atrevia a acender a luz da mesa-de-cabeceira. Avançou até à janela e olhou para fora. Lá em baixo, a cerca de dez metros, ficava um beco com carros estacionados. Puxou o vidro para cima e pôs a cabeça de fora. Não havia um único polícia à vista. Talvez tivessem pensado que uma visita surpresa era o suficiente para garantir o sucesso da operação. Do lado direito da janela existia apenas uma caleira que se estendia do telhado até à rua.

— Estamos encurralados.

Akilina contornou-o e pôs a cabeça fora da janela. Ouviram passos nas escadas que se aproximavam. Por certo já teriam descoberto que o quarto do terceiro andar estava vazio. As portas fechadas iriam atrasá-los, mas não por muito tempo.

Akilina tirou a mala que trazia ao ombro e deitou-a pela janela.

— Dê-me a sua.

Ele obedeceu, mas perguntou:

— O que está a fazer?

Atirou também a dele.

— Veja o que eu faço e depois siga-me.

Balançou-se para o exterior da janela e segurou-se ao parapeito. Lord viu-a agarrar-se à caleira, equilibrar-se e encostar os pés à parede de tijolos do edifício, as mãos em volta do cano. Com destreza, foi descendo, usando as pernas como ponto de apoio. Em poucos segundos, estava lá em baixo.

Lord ouviu o abrir de portas no corredor. Não acreditava que conseguisse fazer o mesmo que ela, mas não tinha alternativa. Dali a poucos segundos o quarto seria invadido por polícias.

Balançou-se para fora da janela e agarrou-se ao cano. O metal gelou-lhe as mãos e a humidade fez com que escorregassem, mas segurou-se. Fez força com os pés contra a parede e começou a descer.

Bateram à porta do quarto.

Lord deixou-se escorregar mais depressa e passou pelas janelas do segundo andar. Pedaços de madeira voaram lá de cima quando a porta foi aberta à força. Continuou a descer, mas as mãos escorregaram-lhe ao passar por uma das braçadeiras. Desequilibrou-se e começou a cair quando uma cabeça apareceu à janela do quarto andar. Preparou-se para o impacte à medida que ia raspando pelos tijolos da parede. O seu corpo atingiu o chão de cimento, rebolou e foi de encontro ao pneu de um dos carros estacionados.

Olhando para cima, viu uma arma na mão do polícia. Ignorou a dor que sentia na coxa e levantou-se de um pulo, agarrando Akilina e empurrando-a para o lado oposto do automóvel.

Dois tiros ecoaram no silêncio da noite.

Uma das balas fez ricochete no capo e a outra estilhaçou o pára-brisas.

— Venha e mantenha a cabeça baixa — disse ele. Agarraram as malas e caminharam agachados para fora do

beco, utilizando os carros estacionados como protecção. Foram seguidos por uma chuva de balas; todavia, a janela do quarto andar não oferecia o melhor ângulo de disparo.

Os vidros despedaçavam-se e o metal chiava à medida que eram atingidos pelas balas. O fim do beco estava mesmo à sua frente e Lord interrogou-se sobre se encontrariam mais polícias.

Por fim, saíram do beco.

Lord olhou em ambas as direcções. As lojas estavam às escuras e não havia iluminação exterior. Colocou a mala ao ombro, agarrou na mão de Akilina e atravessaram a rua a correr.

À sua direita, um carro contornou a esquina e os faróis cegaram-no. O automóvel deslocava-se a toda a velocidade.

Estacaram ambos no meio da rua.

Os travões chiaram à medida que os pneus se agarravam ao pavimento húmido.

O automóvel derrapou e depois parou.

Lord reparou que o veículo não era oficial. Não tinha luzes de emergência nem letras. A cara do outro lado do pára-brisas parecia-lhe familiar.

Era Iossif Maks.

O russo pôs a cabeça fora da janela e gritou:

— Venham!

Entraram e Maks carregou no acelerador a fundo. “

— Mesmo a tempo — elogiou Lord, olhando pelo vidro traseiro.

O russo manteve os olhos na estrada, mas anunciou:

— O Kolia Maks já morreu, mas o filho recebe-os amanhã.

 

MOSCOVO

Domingo, 17 de Outubro

HAYES entrou na sala de refeições do Volkhov para tomar o pequeno-almoço. O hotel oferecia um excelente bufete matinal. Gostava especialmente dos blinis doces que o cozinheiro-chefe preparava com açúcar em pó e fruta fresca. O empregado trouxe-lhe o Izvestia, e Hayes recostou-se na cadeira a ler as notícias.

Um artigo na primeira página recapitulava as actividades da Comissão do Czar nas últimas semanas. As nomeações haviam começado um dia após a sessão de abertura, na quarta-feira. O nome de Stefan Baklanov fora o primeiro a ser mencionado, e a sua candidatura apresentada pelo popular presidente da Câmara de Moscovo, conforme combinado. A Chancelaria Secreta decidira que a utilização de alguém que o povo respeitasse daria uma maior credibilidade a Baklanov e, aparentemente, a artimanha resultara, uma vez que o repórter falava sobre o crescente apoio à escolha de Baklanov.

Dois clãs rivais pertencentes à família Romanov apressaram-se a nomear os seus membros mais velhos, reclamando laços de sangue e até materiais mais directos com Nicolau II. Três outros nomes haviam sido apresentados, mas o repórter não dava a nenhum a mínima possibilidade, sendo os três demasiado distantes dos Romanov. Uma caixa à direita do artigo salientava que existiriam muitos russos com sangue Romanov.

Laboratórios em Sampetersburgo, Novossibirsk e Moscovo estavam a oferecer-se, por cinquenta rublos, para testar o sangue de qualquer pessoa e comparar o código genético com o da família imperial. Pelos vistos, muitas pessoas haviam pago para fazer o teste.

O primeiro debate entre os membros da comissão sobre os nomeados havia sido intenso, mas Hayes sabia que tudo aquilo não passava de fachada pois, até à data, catorze dos dezassete membros já estavam comprados. O debate fora ideia sua. Era bem melhor deixar os membros aparentarem desacordo, e depois serem lentamente convencidos, do que tomarem uma decisão rápida.

O artigo finalizava com uma nota dizendo que o processo de nomeação iria terminar no dia seguinte, que na terça-feira teria lugar uma votação com o objectivo de reduzir os candidatos a três e que após outros dois dias de debate haveria uma votação final, na quinta-feira.

Na próxima sexta-feira tudo estaria resolvido.

Stefan Baklanov tornar-se-ia Stefan I, czar de toda a Rússia. Os clientes de Hayes mostrar-se-iam contentes, a Chancelaria Secreta satisfeita e ele ficaria vários milhões de dólares mais rico.

Terminou o artigo maravilhando-se com a predilecção russa por espectáculos públicos. Haviam até arranjado um nome para esse tipo de exibições: pokazukha. O melhor exemplo de que se recordava era sem dúvida a visita de Gerard Ford ao país, nos anos 70, na qual o caminho desde o aeroporto havia sido embelezado com abetos cortados de um bosque ali perto e enterrados muito direitos na neve.

O criado trouxe os blinis e o café. Hayes passou os olhos pelo resto do jornal, demorando-se numa ou noutra notícia. Houve uma em especial que lhe prendeu a atenção. Dizia Anastasia viva e a residir com o seu irmão, o czar. Escancarou os olhos em estado de choque até que leu mais umas linhas e reparou que o artigo era a crítica a uma peça que estreara recentemente num teatro em Moscovo:

"Inspirada no fraco enredo de um romance de intriga encontrado numa loja de artigos em segunda mão, a dramaturga inglesa Lorna Gant deixou-se cativar pelas histórias que relatam a alegada execução incompleta da família real. "Fiquei fascinada pelo episódio Anastasia/Anna Anderson", confessou Gant, referindo-se à famosa dupla de Anastasia.

A peça sugere que Anastasia e o seu irmão Alexei conseguiram escapar à morte em Iekaterimburgo, em 1918. Os corpos dos dois irmãos nunca foram encontrados e sempre se especulou sobre o que se terá passado nesse dia. Material suficiente para a imaginação fértil da dramaturga.

"É um misto de Elvis-não-morreu-e-vive-no-Alasca-com-Marilyn. Muito humor negro e ironia", disse Gant.”

 

Continuou a ler e entendeu que a peça se assemelhava mais a uma farsa do que a uma abordagem séria da possibilidade de existirem sobreviventes da família Romanov. O artigo chamava-lhe “Tchekov estilo Carol Burnett” e, no final, o crítico não aconselhava ninguém a ir vê-la.

O arrastar de uma cadeira interrompeu-lhe a leitura. Hayes levantou os olhos do jornal e deu de caras com Felix Orleg a sentar-se junto dele.

— O seu pequeno-almoço tem muito bom aspecto — elogiou o inspector.

— Eu pedia uma outra dose, mas este lugar é demasiado público para si — declarou, não escondendo o seu desprezo.

Orleg puxou o prato na sua direcção e alcançou o garfo. Hayes decidiu que o melhor era não se aborrecer. O inspector despejou melaço sobre os finos crepes e devorou-os avidamente.

Hayes dobrou o jornal e colocou-o sobre a mesa.

— Não quer uma chávena de café? — perguntou ao russo em tom sarcástico.

— Preferia um sumo — respondeu Orleg com a boca cheia. Hesitou, mas depois fez sinal ao empregado e pediu-lhe que

trouxesse um jarro de sumo de laranja. O inspector terminou de comer os blinis e limpou a boca ao guardanapo de pano.

— Sempre ouvi dizer que este hotel preparava pequenos-almoços divinais, mas eu não poderia pagar nem uma entrada.

— Em breve ficará melhor de vida. O russo exibiu um amplo sorriso.

— Não estou metido nisto pela simpatia dos envolvidos, garanto-lhe.

— E qual é o motivo desta agradável visita dominical?

— O boletim policial sobre o Lord resultou. Já foi localizado. — Isso, sim, era um assunto que interessava Hayes. — Em Starodug. Cinco horas a sul de Moscovo.

Recordou-se de imediato do nome da aldeia dos documentos que Lord encontrara no arquivo. Lenine fazia-lhe referência juntamente com um outro nome, Kolia Maks. Como eram as palavras do líder soviético? “A aldeia de Starodug foi também nomeada por dois outros guardas brancos obrigados a falar através dos mesmos métodos. Passa-se qualquer coisa, estou certo disso.”

Agora, também ele tinha a certeza de que qualquer coisa se passava. Eram demasiadas coincidências.

Lord estava envolvido em algo.

Na sexta-feira à noite o quarto havia sido misteriosamente esvaziado dos seus pertences. Os membros da Chancelaria Secreta não estavam nada satisfeitos e, quando eles se preocupavam, também ele se preocupava. Fora-lhe dito que tomasse conta da situação e era isso que pretendia fazer.

— E o que aconteceu?

— O Lord e uma mulher foram encontrados num hotel. Esperou por mais detalhes. Pelos vistos, Orleg estava a apreciar a sua posição de vantagem.

— O que falta à militsia local em conhecimentos é compensado com estupidez. Fizeram uma rusga ao hotel, contudo, esqueceram-se de vigiar as traseiras. O Lord e a mulher escaparam por uma janela. Tentaram abatê-lo a tiro, mas ele conseguiu fugir.

— Descobriram o que andava ele a fazer lá?

— A fazer perguntas sobre um tal Kolia Maks. Era a confirmação das suas suspeitas.

— Que ordens deu aos polícias locais?

— Disse-lhes que não fizessem nada até eu os contactar.

— Temos de partir imediatamente.

— Foi o que eu pensei. Por isso estou aqui e até já terminei o pequeno-almoço.

O empregado trouxe o sumo de laranja. Hayes levantou-se da mesa.

— Beba o sumo. Preciso de fazer um telefonema antes de irmos.

 

STARODUG - 20.00

AKILINA observou Lord enquanto este parava o carro. Uma chuva fria encharcava o pára-brisas. Na noite anterior, Iossif Maks havia-os escondido numa casa a oeste de Starodug. Pertencia a outro membro da família Maks que colocara dois colchões frente à lareira.

Maks havia regressado há cerca de duas horas e explicado que a polícia lhe batera à porta já noite cerrada e fizera perguntas sobre um homem negro e uma mulher russa que tinham estado no seu café ao fim do dia. Contou-lhes tudo o que se passara, muito do qual fora presenciado pelo agente da militsia. Aparentemente, haviam acreditado nas suas palavras, uma vez que mais nenhum voltara para interrogá-lo. Felizmente a fuga do Hotel Okatiabrski passara despercebida.

Maks também lhes deixara um automóvel, um Mercedes de cor creme, cheio de mossas, sujo de lama escura e com os estofos de couro comidos pelo sol. Fornecera-lhes ainda as indicações para chegarem até ao filho de Kolia Maks.

A casa tinha apenas um piso e fora construída com tábuas duplas calafetadas com uma camada grossa de estopa. As telhas de casca de árvore estavam escurecidas pela humidade e a chaminé de pedra deixava escapar uma espessa coluna de fumo para o ar frio da noite. Mais à frente, avistava-se um campo aberto e ferramentas de trabalho guardadas sob um alpendre.

A cena lembrava a Akilina a casa que a sua avó ocupara em tempos, com um bosque de bétulas muito parecido a crescer num dos lados. Sempre considerara o Outono uma altura triste do ano. A estação surgia sem aviso e depois evaporava-se da noite para o dia dando lugar ao Inverno. A sua chegada significava o fim das florestas verdes e dos prados cobertos de erva. Eram também lembranças da sua infância, da aldeia perto dos Urales onde fora criada e da escola onde todas as raparigas usavam roupas iguais com bibes e fitas vermelhas. No intervalo das aulas escutavam histórias sobre a opressão dos trabalhadores durante o czarismo, e de como Lenine mudara tudo isso. Ficavam a saber também porque o capitalismo é maléfico e o que o colectivismo esperava de cada um dos membros da comunidade. A fotografia de Lenine encontrava-se pendurada em todas as salas de aula e na parede de cada casa. Qualquer desafio à sua autoridade era um erro e o bem-estar provinha de saber que todos partilhavam as mesmas ideias.

O individualismo não existia.

Todavia, o seu pai fora um individualista e tudo o que desejava era juntar-se à sua nova mulher e ao seu filho na Roménia. Mas o kollektive não permitia essas coisas simples. Todos os bons pais de família deviam ser membros do partido. Tinham de o ser. Aqueles que não possuíam “ideais revolucionários” deviam ser denunciados. Contava-se uma história famosa sobre um filho que denunciara o pai por vender documentos a agricultores rebeldes. O filho testemunhara contra o pai e fora mais tarde morto pelos agricultores. Haviam-se escrito vários poemas e inúmeras canções sobre ele e todas as crianças eram ensinadas a nutrir esse tipo de dedicação à pátria.

Mas porquê?

Que havia de tão admirável em trair a própria família?

— Só por duas vezes estive nas zonas rurais da Rússia — declarou Lord, interrompendo-lhe o pensamento — , ambas em situações controladas. Mas isto é muito diferente. É outro mundo.

— Na época dos czares chamavam às aldeias mir, que significa paz. Uma boa descrição, tendo em conta que poucos eram os que deixavam as suas aldeias. Era o seu mundo, um local de paz.

Ali, a poluição das fábricas de Starodug havia desaparecido, dando lugar a árvores luxuriantes, colinas verdes e campos de feno que no Verão ela adivinhava estarem cheios de cotovias-dos-prados.

Lord parou o carro frente à cabana.

O homem que abriu a porta era baixo e entroncado, tinha cabelo castanho-avermelhado e a cara redonda e corada como uma beterraba. Akilina calculou que deveria ter perto de setenta anos, embora se deslocasse com agilidade. O homem observou-os com a mesma atenção, cuidado e demora de um guarda fronteiriço e depois convidou-os a entrar.

A cabana era espaçosa. Tinha um quarto, uma cozinha e uma sala acolhedora. A mobília era uma mistura entre o necessário e o prático. O chão era de tábuas de madeira afagadas e já quase sem verniz. Não havia luz eléctrica e todas as divisões eram iluminadas por candeeiros a petróleo e por uma lareira.

— Chamo-me Vassili Maks. Kolia era o meu pai. Estavam sentados à mesa da cozinha. No fogão a lenha havia

uma panela de lapcha, as massas caseiras que Akilina sempre adorara. Cheirava também a carne assada, borrego, se não estava enganada, e a tabaco barato. Num dos cantos da sala encontrava-se um ícone rodeado por velas. A sua avó também mantivera um altar sagrado até ao dia em que desaparecera.

— Estou a preparar o almoço — disse Maks. — Espero que estejam com fome.

— Aceitamos com agrado — respondeu Lord. — Cheira muito bem.

— Cozinhar é um dos poucos prazeres que me resta. — Maks ergueu-se e avançou para o fogão, ficando de costas voltadas para eles. Mexeu a massa. — O meu sobrinho disse que tinham algo para me dizer.

Lord entendeu a mensagem.

— “Aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.” O russo colocou a colher sobre a mesa e sentou-se.

— Nunca acreditei que um dia iria escutar essas palavras. Sempre pensei que faziam apenas parte da imaginação do meu pai.

E para mais, serem proferidas por um homem negro. — Maks virou-se para Akilina. — O teu nome significa “águia”.

— Já me disseram.

— És uma criatura linda. Ela sorriu.

— Espero que esta busca não ponha em perigo a tua beleza.

— E por que razão isso haveria de acontecer? — indagou Akilina.

O velhote esfregou o nariz bolboso.

— Quando o meu pai me deu a conhecer esta minha tarefa, avisou-me de que um dia poderia custar-me a vida. Nunca o levei muito a sério... até este momento.

— E que informações tem para nós? — perguntou Lord. Maks deixou escapar um suspiro.

— Penso muitas vezes no que sucedeu. O meu pai disse que isso iria acontecer, mas não acreditei. Quase consigo vê-los a serem acordados a meio da noite e apressados pelas escadas. Pensam que o Exército Branco está prestes a invadir a cidade e a libertá-los. Iurovski, o judeu louco, diz-lhes que é necessário serem evacuados, mas que primeiro devem tirar uma fotografia, para provar a Moscovo que estão vivos e de boa saúde. Diz a todos para se levantarem. Mas não há fotografia nenhuma; em vez disso, homens armados entram na sala e o czar é informado de que ele e a sua família serão executados. Depois, Iurovski aponta a sua arma. — Maks fez uma pausa e abanou a cabeça. — Deixem-me terminar o nosso almoço e depois contar-lhes-ei tudo o que se passou em Iekaterimburgo naquela noite de Julho.

Iurovski disparou a sua pistola Colt e a cabeça de Nicolau II, czar de toda a Rússia, explodiu numa chuva de sangue. Alexandra mal começara a fazer o sinal da Cruz quando os outros atiradores abriram fogo. As balas atravessaram a czarina e derrubaram-na da cadeira. Iurovski atribuíra especificamente uma vítima a cada atirador e dera instruções para que os disparos tivessem como alvo o coração, de modo a minimizar o derrame de sangue. Contudo, o corpo de Nicolau agitou-se numa fúria de impactes quando os outros onze executores decidiram disparar contra o seu governante, outrora considerado divino.

Os atiradores estavam dispostos em filas de três. A segunda e a terceira fila disparavam sobre os ombros da primeira e de tal modo estavam perto uns dos outros que os homens da primeira fila ficavam com queimaduras originadas pela saída das balas. Kolia Maks estava na fila da frente, o seu pescoço foi chamuscado duas vezes. Recebera instruções para disparar sobre Olga, a filha mais velha, mas não era capaz de o fazer. Fora enviado a Iekaterimburgo para arquitectar a fuga da família real; porém, os acontecimentos haviam-se precipitado.

Os guardas tinham sido chamados ao gabinete de Iurovski nesse dia. O comandante dissera-lhes:

— Hoje vamos matar toda a família, incluindo o médico e os criados que vivem com eles. Avisem o destacamento que não se assuste se ouvir tiros.

Foram seleccionados onze homens, incluindo Kolia Maks. Era uma sorte estar entre os escolhidos, mas ele viera bem recomendado pelo Soviete do Ural, elogiado como um homem ao qual podiam ser confiadas ordens e, pelos vistos, Iurovski precisava desse tipo de lealdade.

Dois letões disseram de imediato que se recusavam a matar mulheres. Maks ficara impressionado por ver que homens tão cruéis afinal tinham consciência. Iurovski não se importou com a recusa e substituiu-os por outros dois que se apressaram a voluntariar-se e afirmaram não ter quaisquer reservas. O regimento escolhido incluía seis letões e cinco russos, para além de Iurovski. Homens duros com os nomes de Nikulin, Ermakov, dois Medvedev e Pavel. Nomes que Kolia Maks nunca esqueceria.

Uma camioneta havia sido deixada no exterior com o motor a trabalhar para abafar o barulho dos tiros que saíam às rajadas. O fumo dos canos enchia a sala de um nevoeiro espesso e fantasmagórico. Começava a ser difícil ver e dizer quem disparava sobre quem. Maks calculou que várias horas de bebida haviam entorpecido os sentidos de todos os homens, com excepção dele e talvez de Iurovski. Poucos se recordariam dos detalhes, apenas que tinham disparado sobre tudo o que se mexia. Ele fora cuidadoso com a ingestão de álcool, pois precisava de estar alerta.

Viu o corpo de Olga cair ao chão após receber uma bala na cabeça. Os atiradores faziam pontaria para o coração de cada vítima, mas algo de estranho estava a acontecer. As balas faziam ricochete no peito das mulheres e espalhavam-se pela sala. Um dos letões murmurou que Deus as protegia e outro exclamou em voz alta se não estariam a cometer um erro.

Maks viu as grã-duquesas Tatiana e Maria agacharem-se a um canto, com os braços levantados tentando proteger-se. Os tiros atingiram os seus corpos jovens, uns fazendo ricochete, outros penetrando a carne. Dois dos homens saíram da formação e aproximaram-se, atingindo ambas as raparigas na cabeça.

O criado, o cozinheiro e o médico foram mortos no local onde estavam, os seus corpos caindo no chão como alvos numa galeria. A aia parecia louca, correndo de um lado para o outro aos gritos e protegendo-se com uma almofada. Vários atiradores fizeram mira e dispararam sobre a almofada, mas as balas voltavam para trás. Era assustador. Que tipo de protecção tinham aquelas pessoas? Os gritos só pararam quando uma bala lhe atingiu a cabeça.

— Parem de disparar — gritou Iurovski. O silêncio instalou-se.

— Não tarda que os tiros sejam ouvidos lá fora. Terminem o trabalho com as baionetas.

Os homens atiraram os revólveres para o lado, agarraram nas suas espingardas Winchester e voltaram para a sala.

Estranhamente, a aia parecia ter sobrevivido ao tiro na cabeça. Maks viu-a levantar-se e começar a andar por cima dos corpos ensanguentados, gemendo baixinho. Dois letões aproximaram-se dela e espetaram os punhais na almofada que ela ainda segurava. As lâminas não penetravam no tecido. Ela agarrou uma das baionetas e começou a gritar. Os homens aproximaram-se. Um deu-lhe uma coronhada na cabeça e o seu gemido lembrou o de um animal ferido. Outras coronhadas se seguiram e os gemidos pararam. Os homens começaram a espetar as baionetas no corpo da aia como se estivessem a exorcizar um demónio e foram tantas as estocadas que lhes perdeu a conta.

Maks aproximou-se do corpo do czar. As manchas de sangue espalhavam-se pela camisa e pelas calças da farda. Os outros concentravam as atenções na aia e numa das grã-duquesas, enquanto Iurovski examinava a czarina. Um fumo acre e sufocante enchia o ar.

Maks agachou-se e rebolou o corpo do czar para um dos lados. O czarévitche encontrava-se por baixo, vestido com a mesma farda, botas e chapéu que já tantas outras vezes vira o rapaz usar. Igual ao pai. Ele sabia o quanto eles gostavam de se vestir de igual.

O rapaz abriu os olhos. O seu olhar era de terror. Maks colocou-lhe de imediato a mão sobre a boca e depois encostou um dedo aos lábios.

— Não se mexa. Finja-se morto — sussurrou ao czarévitche. O rapaz fechou os olhos.

Maks ergueu-se, fez pontaria para o chão, mesmo ao lado da cabeça de Alexei, e disparou. A bala furou o chão e o rapaz estremeceu. Kolia Maks voltou a disparar, agora para o outro lado, e esperou que ninguém tivesse visto o corpo tremer, mas todos pareciam demasiado envolvidos na carnificina que se desenrolava. Onze vítimas, doze carrascos, o espaço era apertado e o tempo urgia.

— O czarévitche ainda estava vivo? — perguntou Iurovski, por entre o fumo.

— Agora já não está — declarou Maks. A resposta pareceu satisfazer o comandante.

Maks voltou a rebolar o corpo de Nicolau II sobre o do rapaz. Olhou para cima quando um dos letões se aproximava da filha mais nova do czar, Anastasia. Ela caíra com a primeira rajada de tiros e encontrava-se prostrada no chão sobre uma espessa poça de sangue. A rapariga gemia e Maks interrogou-se sobre se as balas haviam atingido o seu alvo. O letão preparava-se para a atingir com uma coronhada quando ele lhe disse:

— Deixe-me ser eu a fazer isso. Ainda não tive o prazer.

O outro homem sorriu e afastou-se. Maks olhou para a rapariga. O seu peito arqueava-se pela dificuldade em respirar e havia sangue no seu vestido, mas era difícil distinguir se era dela ou do corpo da irmã, que jazia logo ao lado.

“Que Deus me perdoe”, pensou ele e bateu com a coronha da espimgarda na cabeça da grã-duquesa. Mediu a força de impacte de modo a que o golpe a deixasse inconsciente, mas não a matasse.

— Eu acabo com ela — disse Maks, voltando a espingarda de modo a poder usar a baioneta.

Felizmente, o letão virou-se para outro corpo e não protestou.

— Parem! — gritou Iurovski.

Na sala instalou-se um silêncio fantasmagórico. Terminou o perfurar da carne com as lâminas, cessaram os tiros e os gemidos. Ficaram apenas doze homens de pé por entre um fumo espesso, a lâmpada do tecto assemelhando-se ao sol durante uma tempestade.

— Abram as portas e deixem o fumo sair — ordenou Iurovski. — Não se vê nada. Depois verifiquem se alguém tem ainda pulsação e informem-me.

Maks dirigiu-se de imediato a Anastasia. Sentiu-lhe o pulso, embora fraco.

— Grã-duquesa Anastasia, morta — gritou ele.

Os outros guardas deram conta de mais mortes. Maks avançou para o czarévitche e rebolou o corpo do czar. Apalpou o pulso do rapaz. Batia, forte. Interrogou-se sobre se ele teria sido atingido.

— Czarévitche, morto.

— Não fazem cá falta nenhuma — disse um dos letões.

— Temos de retirar os corpos daqui rapidamente. Este quarto tem de ser limpo antes do amanhecer — ordenou Iurovski. Depois pediu a um dos russos: — Vá lá acima e traga lençóis. — E voltando-se para os restantes homens: — Comecem a colocar os corpos uns ao lado dos outros.

Maks observou quando um dos letões pegou no corpo de uma das grã-duquesas, qual delas era difícil de perceber.

— Ei, vejam! — gritou o homem.

A atenção de todos fixou-se no corpo ensanguentado da rapariga. Maks aproximou-se junto com os outros homens e Iurovski. Um diamante brilhava por entre o corpete rasgado. O comandante baixou-se e retirou a pedra. Depois agarrou numa das baionetas efez uma incisão no tecido. Outras jóias caíram no chão, fazendo o sangue salpicar.

— As balas faziam ricochete nas jóias — explicou Iurovski. — As filhas-da-mãe coseram-nas nas roupas.

Alguns dos homens aperceberam-se da fortuna que jazia aos seus pés e lançaram-se em direcção às mulheres.

— Não! — gritou Iurovski. — Fazem isso mais tarde, mas deverão entregar-me tudo o que encontrarem. Pertence ao Estado. Se alguém ficar com um botão que seja, será morto. Entenderam?

Ninguém respondeu.

O russo regressou com os lençóis. Maks sabia que Iurovski estava com pressa de levar os corpos dali. Deixara isso bem claro na reunião. Faltavam poucas horas para o nascer do Sol e o Exército Branco estava na periferia da cidade, avançando rapidamente.

O corpo do czar foi o primeiro a ser enrolado e transportado para a camioneta que esperava lá fora.

Uma das grã-duquesas foi carregada numa padiola. De súbito, a rapariga sentou-se e começou a gritar. O terror apoderou-se de todos. Parecia que os céus estavam contra eles. As portas e as janelas da casa encontravam-se agora abertas e por isso não podiam usar as armas de fogo. Iurovski pegou numa das espingardas e espetou a baioneta no peito da rapariga. A lâmina mal penetrou. Num gesto rápido, virou a arma e deu-lhe com a coronha na testa. Maks ouviu o crânio rachar. Depois, Iurovski enterrou a lâmina da baioneta no pescoço da rapariga e fê-la rodar. O sangue jorrou, abundante, e todos os movimentos cessaram.

— Tirem-me estas bruxas daqui — murmurou Iurovski. — Estão todas possessas.

Maks dirigiu-se a Anastasia e embrulhou-a num dos lençóis. Do corredor veio novo alarido. Outra das grã-duquesas havia voltado à vida e ele olhou para trás quando os homens já se debruçavam sobre ela com as baionetas. Aproveitou a distracção para se aproximar do czarévitche, ainda deitado sobre o sangue dos seus pais. Ajoelhou-se perto dele.

— Pequenito?

O rapaz abriu os olhos.

— Não faça barulho. Tenho de o levar lá para fora. Compreendeu? Alexei fez um pequeno gesto afirmativo com a cabeça.

— Se fizer barulho, eles matam-no.

Enrolou o rapaz no lençol e transportou-o lá para fora, junto com Anastasia. Esperava que a grã-duquesa não acordasse do seu sono e que ninguém fosse confirmar se ela ainda estava viva. No exterior descobriu que os homens andavam mais interessados naquilo que haviam encontrado nos corpos. Relógios, anéis, pulseiras, cigarreiras e jóias.

— Volto a dizer — avisou Iurovski — , têm de devolver tudo! Mato quem se atrever a desobedecer-me. Estava um relógio lá em baixo e desapareceu.

Vou buscar o último corpo. Quando eu voltar, é bom que esteja aqui.

Todos sabiam o que aconteceria se a peça não fosse devolvida e um dos letões retirou o relógio do bolso e atirou-o para a pilha que continha o resto do saque.

Iurovski regressou com o último corpo e atirou-o para a traseira da camioneta. Trazia na mão um boné.

— Era do czar — disse, enfiando-o na cabeça de um dos atiradores. — Serve-te.

Os outros riram.

— Custaram a morrer — comentou um dos letões.

— Não é fácil matar pessoas — afirmou o comandante, olhando para a carga.

Os corpos haviam sido colocados por cima de um lençol, para ensopar o sangue e depois cobertos com uma lona. Iurovski escolheu quatro homens para acompanharem a camioneta e depois tomou o seu lugar na cabina. Maks não fora um dos seleccionados e aproximou-se da janela aberta do lugar do passageiro.

— Camarada Iurovski, posso ir também? Gostava de ajudar.

O comandante inclinou o seu pescoço curto. Parecia tão escuro no negro da noite. Barba preta, cabelo preto, blusão de cabedal preto. Tudo o que Maks conseguia distinguir era o branco dos seus olhos gélidos.

— Por que não? Junte-se aos outros lá atrás.

A camioneta pôs-se em marcha, passando os portões da Casa Ipatiev. Um dos outros homens anunciou as horas em voz alta: três da manhã. Teriam de se despachar. Duas garrafas de vodca foram passadas entre os homens que acompanhavam os corpos. Maks bebeu apenas pequenos goles.

Fora enviado para Iekaterimburgo com o objectivo de preparar uma fuga. Havia generais do antigo exército do czar que levavam a sério o seu juramento à coroa. Durante meses tinham circulado rumores que davam o destino da família real como selado, mas só no último dia Maks entendera o que isso queria dizer.

O seu olhar desviou-se para a pilha de corpos sob a lona. Colocara o rapaz e a sua irmã por cima, junto à mãe. Questionava-se se o czarévitche havia reconhecido a sua cara. Talvez tivesse sido isso que o mantivera calado e quieto.

A camioneta passou pela pista de corridas nos arrabaldes da cidade e continuou por pântanos, poços e minas abandonadas. Para lá da fábrica do Alto Isetsk e dos carris do comboio, a estrada entrava em terreno de floresta densa. Uns quantos quilómetros mais à frente e os carris voltavam a aparecer. As únicas estruturas que se avistavam eram as cabines ocupadas pelos guardas ferroviários, mas àquela hora estavam todos a dormir.

Maks deu conta quando a estrada se transformou em lama. O veículo derrapava a medida que os pneus tentavam agarrar-se à terra escorregadia. As rodas traseiras atolaram-se num lamaçal, rodando livremente, e o condutor tentou em vão libertar a camioneta. Começou a sair fumo do capo. O homem ao volante desligou o motor. Iurovski saiu da cabine, apontou para a casa do guarda ferroviário que haviam acabado de passar e ordenou:

— Vá acordar o guarda e traga água. — Depois voltou-se para os homens sentados junto aos corpos.

— Tragam alguns troncos para ajudar os pneus a sair deste atoleiro. Vou até lá à frente ver se encontro o Ermakov e os seus homens.

Dois dos homens já haviam desmaiado de bêbedos. Outros dois saltaram da camioneta e desapareceram na escuridão. Maks fingiu estar embriagado e ficou. Observou quando o condutor bateu à porta da casa do guarda. A luz do exterior acendeu-se e a porta abriu-se. Maks escutou o homem dizer ao ferroviário que precisavam de água. Houve mais alguma troca de palavras e depois ouviu os homens gritarem que tinham encontrado troncos de madeira.

Devia agir naquele momento.

Rastejou até junto da lona e lentamente puxou-a para trás. Um cheiro ácido revoltou-lhe o estômago. Rebolou o corpo embrulhado da czarina e puxou o lençol do czarévitche.

— Sou eu, pequenito. Fique quieto e não diga nada. O rapaz murmurou algo que Maks não entendeu.

Carregou o embrulho e depositou-o entre as árvores, a alguns metros da estrada.

— Não se mexa — sussurrou ele.

Voltou para trás em passo rápido e pegou no corpo embrulhado de Anastasia. Colocou-a com delicadeza no chão e puxou a lona para cima.

Depois carregou a rapariga até junto do irmão. Soltou os lençóis que os cobriam e apalpou o pulso de Anastasia. Fraco, mas o coração ainda

batia.

Alexei olhou para ele.

Eu sei que isto é horrível, mas têm de ficar aqui. Tome conta da

sua irmã. Não se mexa. Eu volto, não sei é quando. Entendeu?

  • O rapaz assentiu com a cabeça.

— Lembra-se de mim, não é verdade? Alexei anuiu de novo.

— Então confie em mim, pequenito.

O rapaz agarrou-se a ele num abraço desesperado que lhe torturou o coração.

— Agora durma. Eu volto.

Maks correu de volta para o veículo e retomou a sua posição curvada ao lado dos dois homens ainda desmaiados. Ouviu passos aproximarem-se na escuridão. Gemeu e começou a levantar-se.

— Levanta-te, Kolia. Precisamos da tua ajuda — pediu um dos homens quando se aproximou. — Encontrámos troncos.

Ele saltou da camioneta e ajudou os outros dois a colocarem os troncos sobre a lama. O condutor apareceu com água para o motor e Iurovski surgiu poucos minutos depois.

— Os homens do Ermakov estão já ali à frente.

A camioneta recomeçou a trabalhar com algum esforço e os troncos forneceram a adesão necessária. Menos de um quilómetro mais à frente encontraram um grupo de homens à espera com archotes na mão. Pela maneira como gritavam, era óbvio que a maioria estava bêbeda. Maks reconheceu Ermakov quando a sua figura foi iluminada pelos faróis da camioneta. Iurovski fora apenas encarregado de executar a sentença. O desaparecimento dos corpos era responsabilidade do camarada Ermakov, um operário da fábrica de Isetsk que gostava tanto de matar que lhe chamavam “camarada Mauser”.

Alguém gritou:

— Porque não os trouxeram vivos?

Maks adivinhava o que Ermakov provavelmente lhes havia dito: “Sejam bons soviéticos e façam o que vos mandam e eu deixo-vos divertirem-se com as mulheres enquanto o papá czar observa.”

A possibilidade de algum prazer carnal com as quatro virgens era incentivo suficiente para os fazer tomar conta dos preparativos necessários.

Uma pequena multidão aglomerou-se junto à traseira da camioneta, os archotes iluminando a noite. Um dos homens puxou a lona para trás.

— Merda, que cheiro nauseabundo! — gritou alguém.

— É o cheiro da realeza — explicou outro.

— Carreguem os corpos para as carretas — ordenou Iurovski.

Um dos homens argumentou que não queria tocar naquelas coisas fedorentas. Ermakov saltou para a camioneta e ordenou:

— Tirem a trampa dos corpos daqui. Temos apenas duas horas até o Sol nascer e ainda há muito que fazer.

Maks entendeu que Ermakov não era alguém que gostasse de ser contrariado. Os homens começaram a acarretar embrulhos ensanguentados e a colocá-los em droshkies. Havia apenas quatro carretas de madeira e ele esperava que ninguém contasse os corpos. Apenas Iurovski sabia o número exacto, mas o comandante deslocou-se com Ermakov até à parte da frente do veículo. O resto dos homens que viera da Casa Ipatiev estava demasiado alcoolizado ou cansado para se preocupar se eram nove ou onze corpos.

Os lençóis iam sendo removidos à medida que os corpos eram atirados para os droshkies. Maks viu que alguns dos homens reviravam os bolsos das roupas ensanguentadas. Um dos homens do pelotão de execução contara aos outros o que haviam descoberto nas roupas da família real.

Iurovski apareceu e disparou um tiro para o ar.

— Ninguém tira nada. Vamos despi-los no lugar onde vão ser enterrados, mas tudo o que encontrarem terá de ser entregue ou serão mortos ali mesmo.

Ninguém argumentou.

Com apenas quatro carretas, decidiu-se que a camioneta deveria avançar até o mais longe possível com os restantes corpos e que as carretas a seguiriam. Maks sentou-se na traseira e ficou a ver as carretas avançarem atrás do veículo. Sabia que a certa altura teriam de parar, sair da estrada e caminhar a pé pelo bosque. Ouvira que o local escolhido para enterrar os corpos era uma mina abandonada. Alguém chamara ao sítio “Mina dos Quatro Irmãos”.

Avançaram durante vinte minutos. As tantas, a camioneta parou e Iurovski saiu lá de dentro. Avançou em direcção a Ermakov, agarrou-o e encostou-lhe uma pistola ao pescoço.

— Isto assim é uma merda — gritou o comandante. — O condutor diz que não consegue localizar o trilho até à mina. Vocês estiveram aqui ontem, e hoje, estranhamente, esqueceram o caminho. Estão à espera que eu me canse e vos deixe com os corpos para que os possam pilhar. Isso não acontecerá. Ou encontra o trilho ou mato-o já aqui. O Comité do Ural irá apoiar-me, garanto-lhe.

Dois dos homens do pelotão de execução levantaram-se e engataram as espingardas. Maks seguiu-lhes o exemplo.

— Pronto, pronto, camarada — disse Ermakov — , não é preciso recorrer à violência. Eu próprio indicarei o caminho.

 

LORD viu as lágrimas assomarem aos olhos de Vassili Maks. Perguntou-se quantas vezes o russo revira aquela cena na sua cabeça.

— O meu pai fez parte da guarda do czar. Estava destacado em Czarskoie Selo, no Palácio de Alexandre, onde a família real vivia. As crianças conheciam-no, em especial Alexei.

— E como foi parar a Iekaterimburgo? — perguntou Akilina

— Foi abordado por Felix Iussupov. Eram precisos homens que se infiltrassem em Iekaterimburgo. Os guardas do palácio eram os preferidos dos bolcheviques. Gostavam de os utilizar na sua propaganda, mostrando como os homens nos quais o czar mais confiava o haviam traído. Muitos fizeram isso mesmo, eram almas fracas e assustadas, mas outros foram recrutados como espiões, tal como o meu pai. Ele conhecia muitos dos líderes da revolução e estes estavam satisfeitos por o terem ao seu lado. Foi pura sorte ele ter chegado a Iekaterimburgo a tempo. E mais sorte ainda Iurovski o ter escolhido para fazer parte do pelotão de execução.

Estavam os três sentados à mesa da cozinha e haviam já terminado de almoçar.

— O seu pai era um homem muito corajoso — elogiou Lord.

— Muito corajoso mesmo. Fez um juramento perante o czar e cumpriu-o até morrer.

Lord queria saber o que acontecera a Alexei e a Anastasia.

— Eles sobreviveram? — perguntou. — O que aconteceu? Vassili esboçou um sorriso.

— Aconteceu uma coisa maravilhosa, mas primeiro algo tenebroso.

O grupo avançou lentamente para o interior da floresta. A estrada mais não era do que um estreito e enlameado carreiro. Quando a camioneta ficou presa entre duas árvores, Iurovski decidiu abandonar o veículo e continuar em direcção à mina usando os droshkies. Os corpos que estavam na traseira foram carregados para padiolas feitas com a lona. A Mina dos Quatro Irmãos ficava a cerca de cem passos dali e Maks ajudou a carregar a maca que continha o corpo do czar.

— Coloquem-nos no chão — ordenou Iurovski quando chegaram à clareira.

— Pensei que era eu que mandava — comentou Ermakov.

— Era — esclareceu o comandante.

Os homens fizeram uma fogueira. Todos os corpos foram despidos e as roupas queimadas. Com cerca de trinta homens bêbedos, a cena era caótica. Todavia, Maks estava grato pela confusão, uma vez que ajudava a mascarar o desaparecimento de duas das vítimas.

— Diamantes! — gritou um dos homens. A palavra atraiu os outros.

— Kolia, venha comigo — ordenou Iurovski, avançando por entre a pequena multidão.

Os homens estavam debruçados por cima de um corpo feminino. Um dos membros do grupo de Ermakov havia descoberto outro corpete cheio de jóias. O comandante arrancou o diamante das mãos do homem, segurando na outra mão uma pistola Colt.

— As pilhagens estão proibidas. O primeiro que me desobedecer morre. Se me matarem, o comité garante retaliação. Agora façam o que vos mandei e dispam os corpos. Tudo o que encontrarem, entregam-me.

— Vai ficar com tudo? — perguntou uma voz.

— Não me pertence, nem a vocês, mas ao Estado. Pretendo entregar tudo ao Comité do Ural. Foram essas as ordens que recebi.

— Judeu de merda! — exclamou outra voz.

Na luz tremeluzente, Maks viu brilhar a raiva nos olhos de Iurovski. Conhecia o suficiente aquele homem carrancudo para saber que não gostava que o recordassem da sua origem. O seu pai era vidraceiro, a mãe, costureira, e haviam tido dez filhos. Ele levara uma vida dura e crescera no meio da pobreza, tornando-se um membro leal do partido após a revolução falhada de 1905. Fora banido para Iekaterimburgo por actividades revolucionárias, mas, após a revolta de Fevereiro do ano anterior, fora eleito para o Comité do Ural e, desde esse dia, trabalhara diligentemente para o partido. Já não era um judeu. Era um comunista leal. Um homem de confiança que cumpria as ordens do partido.

O dia começava a nascer sobre os choupos que rodeavam o local.

— Estão todos dispensados — gritou Iurovski — , com excepção dos homens que vieram comigo.

— Não pode fazer isso! — argumentou Ermakov.

— Ou se vão embora ou mato-os a todos.

Os quatro homens do pelotão de execução voltaram a pegar nas espingardas para defender o seu comandante. O outro grupo parecia saber que resistir seria uma idiotice. Talvez conseguissem subjugar aqueles quatro homens, porém o Comité do Ural não permitiria que a sua transgressão passasse sem castigo. Maks não ficou surpreendido quando viu o grupo desaparecer pelo carreiro.

Quando já nenhum se avistava, Iurovski colocou a pistola por dentro do cinto das calças e ordenou:

— Acabem de despir os corpos.

Maks e mais dois homens ocuparam-se daquela tarefa, enquanto os outros montaram guarda. Era já demasiado difícil identificar quem quer que fosse, exceptuando a czarina, cujo tamanho e idade ajudavam a distingui-la até na morte. Maks sentiu um aperto no estômago por aquelas pessoas que outrora servira.

Foram encontrados mais dois corpetes forrados com jóias. Do corpo da czarina veio a descoberta mais surpreendente, um colar de pérolas completo cosido no forro da sua roupa interior.

— Só estão aqui nove corpos — disse Iurovski de repente. — Onde está o czarévitche e a outra rapariga?

Ninguém respondeu.

— Filhos-da-mãe. Devem tê-los deixado pelo caminho pensando que teriam algo de valor escondido nas roupas. Aposto que estão agora a pilhá-los — barafustou o comandante.

Maks suspirou de alívio.

— E o que fazemos agora? — perguntou um dos guardas. Iurovski nem sequer hesitou.

— Não fazemos nada. Informamos que apenas nove corpos foram atirados para o poço da mina e que os outros dois foram queimados. Quando terminarmos tentamos encontrar os que faltam. Toda a gente entendeu?

Maks apercebeu-se de que nenhum dos homens presentes, em especial Iurovski, desejava relatar que haviam perdido dois corpos. Nenhuma explicação os iria poupar à ira do comité. O silêncio colectivo confirmou que estavam todos de acordo.

As restantes roupas ensanguentadas foram atiradas para a fogueira e os corpos nus colocados em decúbito ventral junto a um quadrado negro na terra. Kolia Maks notou que as fitas dos corpetes haviam deixado uma fila de nós na carne morta. Os amuletos que as grã-duquesas usavam em volta do pescoço, com um retrato de Rasputine e uma oração, foram também arrancados e atirados para o monte do saque. Recordou-se da beleza que cada uma daquelas mulheres irradiara em vida e entristeceu-o ver que a morte levara tudo isso.

Um dos homens agachou-se e apalpou os seios de Alexandra. Outros dois deram conta e seguiram-lhe o exemplo.

— Agora que apalpei as tetas da imperatriz já posso morrer em paz — proclamou um deles e os outros riram.

Maks virou a cara e ficou a observar a fogueira enquanto as chamas estalavam ao consumir as roupas.

— Atirem os corpos lá para baixo — ordenou o comandante.

Cada um dos homens foi pegando num corpo e atirando-o para dentro da mina. Só após alguns longos segundos se escutou o barulho dos corpos a atingir a água.

Em menos de um minuto, os nove haviam desaparecido.

Vassili Maks fez uma pausa, respirou fundo algumas vezes e depois bebeu um pouco de vodca.

— Em seguida, Iurovski encostou-se ao tronco de uma árvore e comeu os ovos cozidos que trouxera. As freiras do mosteiro haviam-nos entregue no dia anterior para serem dados ao czarévitche, e o comandante ordenara que fossem bem acondicionados num saco. Ele sabia o que iria acontecer. Após ter enchido a barriga, atirou granadas para o interior do poço para fazer desabar a mina.

— Disse que algo de maravilhoso também havia acontecido — recordou Lord.

— Pois foi — concordou o russo, bebendo mais um gole de vodca.

Eram cerca de dez horas da manhã quando Maks e os outros homens deixaram o local onde haviam enterrado os corpos. Um homem ficou junto à mina para guardar o local e Iurovski partiu para informar o Comité do Ural das actividades dessa noite. Por sorte, o comandante não ordenara que os outros dois corpos fossem procurados, informando apenas que diria ao comité que haviam sido enterrados num outro local.

As suas ordens eram regressar à cidade e não atrair atenções. Maks achou estranho, tendo em conta o número de homens envolvidos. Era impossível que o local do enterro permanecesse secreto depois de tantas altercações e do apelo das jóias. Iurovski dissera-lhes que não comentassem com ninguém o sucedido e que se apresentassem ao trabalho na Casa Ipa-tiev nessa mesma tarde.

Maks deixou que os outros partissem à frente, informando-os de que ia tomar um caminho diferente para a cidade porque precisava de arejar a cabeça. O tiro dos canhões ribombava à distância. Os seus camaradas avisaram-no de que o Exército Branco estava a poucos quilómetros de Iekaterimburgo, mas ele assegurou-lhes que nenhum branco iria querer cruzar-se com ele.

Maks deixou os seus companheiros e caminhou uma boa meia hora antes de chegar ao trilho que a camioneta percorrera na noite anterior. Com a luz do dia era possível ver o quanto a floresta era cerrada e basta em arbustos. Encontrou a cabana de vigia do comboio, mas não se aproximou. Em vez disso, tentou perceber onde estava e localizou o sítio na estrada onde haviam colocado os troncos sobre a lama.

Olhou em ambas as direcções, não viu ninguém e atravessou a correr em direcção à floresta.

— Pequenito, está aqui? — chamou em voz baixa. — Sou eu, Kolia. Voltei.

Nada.

Avançou mais para o interior, abrindo caminho por entre os arbustos.

— Alexei, voltei para os buscar. Apareça. Não temos muito tempo. Apenas os pássaros responderam.

Parou numa clareira. Os pinheiros que o rodeavam eram antigos, os seus troncos grossos com décadas de vida. Um havia sucumbido à passagem do tempo e jazia ao seu lado, as raízes expostas — uma imagem de braços e pernas nus e retorcidos que ele jamais esqueceria. Que atrocidade. Quem eram aqueles demónios que se proclamavam representantes do povo? Era aquilo que propunham para a Rússia, melhor do que o suposto mal contra o qual se haviam revoltado? E como o poderia ser, à luz daquele monstruoso começo?

Habitualmente, os bolcheviques executavam os seus prisioneiros com um tiro na nuca. Porquê tanta crueldade naquele caso? Talvez a matança indiscriminada de inocentes fosse um prenúncio do que estava para vir. E porquê tanto secretismo? Se Nicolau II era um inimigo do Estado, porque não fazer alarde da sua execução? A resposta era simples: ninguém aprovaria a matança de mulheres e crianças.

Era monstruoso.

Atrás de si algo estalou.

Maks levou a mão à pistola metida no cinto, enrolou os dedos em torno da coronha e voltou-se para trás.

Na outra ponta do cano avistou a cara angélica de Alexei Romanov.

A mãe chamava-lhe “Único” e “Raio de Sol”. Era o centro das atenções de toda a família. Um rapaz carinhoso, esperto e teimoso. Maks escutara as conversas no palácio que falavam da pouca atenção que prestava aos estudos e do seu amor pelas roupas descontraídas dos camponeses. Era um menino mimado e caprichoso, tendo certa vez ordenado a um grupo de guardas do palácio que marchassem em direcção ao mar e o seu pai gracejara muitas vezes se a Rússia sobreviveria a Alexei, o Terrível.

Agora era ele o czar. Alexei II, o sucessor divino que Maks jurara proteger.

Ao lado de Alexei estava a sua irmã que era, em muitos aspectos, parecida com ele. A sua obstinação bem conhecida, assim como a arrogância que ultrapassava os limites do tolerável. Tinha a testa coberta de sangue e o vestido todo rasgado. Através dos rasgões no vestido, vislumbrou um corpete. Ambas as crianças estavam manchadas de sangue, tinham as caras sujas e cheiravam a morte. Mas estavam vivas.

Lord não queria acreditar no que acabara de ouvir. Mas o russo falava com tamanha convicção que era impossível duvidar. Dois Romanov haviam sobrevivido ao massacre sangrento de Iekaterimburgo e tudo resultado da coragem de um homem. Muitos haviam afirmado o mesmo, baseados em poucas provas e muita especulação.

Contudo, ali estava a verdade.

— O meu pai levou-os para fora de Iekaterimburgo ao abrigo da noite. Havia outros à espera nos arrabaldes da cidade para ajudarem a transportar as crianças para leste. Quanto mais longe de Moscovo, melhor.

— E porque não foram ter com o Exército Branco? — perguntou Lord.

— Para quê? Os brancos não eram czaristas. Odiavam os Romanov tanto quanto os vermelhos. Nicolau acreditou erradamente que eles seriam a sua salvação. Todavia, o mais provável era que também eles acabassem por matá-los. Em mil novecentos e dezoito ninguém queria saber dos Romanov, para além de uns poucos homens de grande valor.

— Aqueles para quem o seu pai trabalhava?

— Esses mesmo — confirmou Maks.

— Quem eram eles?

— Não faço ideia. Essa informação nunca me foi confiada.

— O que aconteceu às crianças? — perguntou Akilina.

— O meu pai levou-as para lá dos Urales, para o interior da Sibéria, longe da guerra civil que assolou o país durante ainda mais dois anos. Era fácil fazê-los passar despercebidos. Ninguém para além dos cortesãos em Sampetersburgo vira alguma vez as suas caras e a maioria dessas pessoas estava morta. As roupas velhas e as caras sujas foram um bom disfarce — explicou Maks, dando mais um gole na sua bebida. — Viveram na Sibéria com pessoas que faziam parte do plano e, por fim, chegaram a Vladi-vostoque, no Pacífico. Uma vez lá, foram levados para outro lado. Para onde, não sei. Essa é outra parte da vossa investigação sobre a qual nada me foi dito.

— Em que estado se encontravam as crianças quando o seu pai as descobriu? — indagou Lord.

— Alexei não fora atingido por nenhuma bala. O corpo do czar protegera-o. Anastasia apresentava feridas que depois sararam. Ambos usavam corpetes com jóias. A família tinha cosido as jóias nas roupas para ficarem a salvo dos ladrões e como moeda para usarem mais tarde, quando fossem libertados. Foi uma ideia que salvou a vida das crianças.

— Juntamente com a atitude corajosa do seu pai. Maks acenou afirmativamente com a cabeça.

— Ele era um homem bom.

— O que lhe aconteceu? — perguntou Akilina.

— Voltou para aqui e aqui viveu até morrer de velhice. Foi poupado às perseguições. Morreu faz já trinta anos.

Lord pensou em Iakov Iurovski. O seu destino não havia sido pacífico. Recordava-se que o líder do pelotão de execução morrera vinte anos depois do sucedido em Iekaterimburgo, também em Julho, vítima de uma hemorragia gástrica. Antes disso, Estaline ordenara que a sua filha fosse enviada para um campo de trabalhos forçados. O antigo guerreiro do partido tentou ajudá-la, mas não conseguiu. Ninguém dava importância ao facto de ter sido ele a matar o czar. No seu leito de morte, Iurovski lamentou que o destino se tivesse voltado contra ele, porém Lord entendia a razão. De novo a Bíblia: Romanos 12.19. É a mim que compete punir, / Eu é que hei-de retribuir.

— O que fazemos agora? — interrogou Lord.

Maks encolheu os ombros.

— Essa informação só o meu pai lhes poderá dar.

— E como isso é possível?

— Encontra-se fechada numa caixa de metal. Nunca me autorizou a ver o seu conteúdo. Disse-me apenas que transmitisse esta mensagem a quem pronunciasse as palavras.

Lord sentia-se confuso.

— E onde está essa caixa?

— No dia em que morreu, vesti-o com o uniforme imperial e enterrei a caixa com ele. Está sobre o seu peito há já trinta anos.

Lord não estava a gostar das implicações.

— Sim, Corvo. O meu pai espera por si no túmulo.

 

STARODUG - 16.30

Hayes observou Felix Orleg enquanto este forçava a porta de madeira. A respiração do russo condensou-se no ar frio e seco. Uma placa por cima da porta dizia: Kafe Snezhinki — Proprietário: Iossif Maks.

A fechadura cedeu e a porta abriu com toda a força. Orleg entrou, desaparecendo lá dentro.

A rua estava deserta e todas as lojas circundantes fechadas. Estaline seguiu Hayes quando este entrou no café. A escuridão abatera-se sobre eles há já uma hora depois de uma viagem de quase cinco. A Chancelaria Secreta considerara a presença de Estaline importante uma vez que a máfia era vista como a unidade mais eficiente para lidar com aquele tipo de assuntos. Os seus representantes estavam agora autorizados a usar todos os métodos que considerassem necessários.

Haviam-se deslocado primeiro a casa de Iossif Maks nos arredores da cidade. A polícia local estava desde cedo a vigiar discretamente a situação e comunicou que ele se encontraria em casa; no entanto, a mulher de Maks informou-os de que ele fora à cidade em trabalho. Uma luz nos fundos do café confirmara a primeira informação e Estaline entrou em acção de imediato.

O Vesgo e o Cro-Magnon haviam sido enviados para as traseiras do edifício. Hayes ainda se recordava das alcunhas que Lord tinha dado aos seus dois atacantes e achou-as bastante condizentes.

Soubera do rapto do Vesgo, à mão armada, perpetrado no Circo de Moscovo e da morte do seu captor, um homem ainda por identificar e sem ligação a qualquer Bando Sagrado que Semion Pashenko poderia ou não liderar. A estranheza de tudo aquilo crescia a cada dia, mas a seriedade com que os russos encaravam a situação estava a preocupá-lo. Homens como aqueles não se irritavam com frequência.

Orleg apareceu vindo de uma porta que dava para as traseiras do edifício e contornou um conjunto de caixas. Ao seu lado, agarrado pelos colarinhos, vinha um homem com o cabelo e o bigode ruivos e desgrenhados. O Vesgo e o Cro-Magnon seguiam-nos.

— Ia a fugir pela porta das traseiras — disse o inspector. Estaline apontou para uma cadeira de madeira.

— Sente-o ali — ordenou.

Hayes notou o discreto sinal feito por Estaline ao Vesgo e ao Cro-Magnon e que ambos pareceram entender de imediato. A porta de entrada foi fechada e eles posicionaram-se junto às janelas, com as armas na mão. A polícia local fora avisada por Orleg, uma ordem de um inspector de Moscovo não era algo que a militsia local tivesse por hábito ignorar. Kruchtchev também usara as suas ligações no governo para alertar as autoridades de Starodug que teria lugar na cidade uma operação policial relacionada com o tiroteio da Praça Vermelha e que não deveria haver qualquer tipo de interferência.

— Senhor Maks — começou Estaline — , isto é um assunto sério e é preciso que entenda bem isso.

Hayes observou enquanto Maks pensava na resposta. Os seus olhos não denunciavam medo.

Estaline aproximou-se da cadeira.

— Ontem, apareceram aqui um homem e uma mulher. Lembra-se?

— Entra aqui muita gente — respondeu ele com desprezo.

— Não duvido, mas penso que não devem existir muitos chornies a frequentar o seu café.

O corajoso russo inclinou o queixo para a frente e replicou:

— Vão-se lixar!

O seu tom de voz mostrava confiança; todavia, Estaline não reagiu ao desafio, limitando-se a fazer sinal ao Vesgo e ao Cro-Magnon que avançaram ao mesmo tempo, empurrando Maks de cara contra as tábuas de madeira do chão.

— Vão buscar qualquer coisa para nos divertirmos — ordenou Estaline.

O Vesgo desapareceu na sala das traseiras enquanto o Cro-Magnon mantinha o prisioneiro seguro. Orleg estava de guarda à porta dos fundos. O inspector achara melhor não ser um participante activo e Hayes considerou isso uma atitude sensata. Poderiam vir a precisar dos contactos da militsia nas próximas semanas e Orleg era a melhor fonte que possuíam na unidade de Moscovo.

O Vesgo regressou com um rolo de fita colante e prendeu os pulsos de Maks. O Cro-Magnon levantou o russo e voltou a sentá-lo na cadeira de madeira. Depois, enrolaram-lhe mais fita em torno do peito e das pernas, segurando-o firmemente. Por fim, colaram-lhe um pedaço de fita na boca.

— Muito bem, senhor Maks — começou Estaline — , agora vou dizer-lhe aquilo que sabemos. Um americano chamado Miles Lord e uma mulher russa de seu nome Akilina Petrovna vieram ao seu café ontem. Queriam informações sobre Kolia Maks, uma pessoa que disse não conhecer. Quero saber quem é Kolia Maks e por que razão o Lord e a mulher andam à procura dele. Sabe a resposta à minha primeira pergunta e estou certo de que também tem resposta para a segunda.

Maks abanou a cabeça.

— Uma decisão muito pouco sensata, senhor Maks.

O Vesgo rasgou um pedaço da fita cinzenta e entregou-o a Estaline. Os dois pareciam já ter feito aquilo antes. Estaline afastou o cabelo da testa bronzeada e dobrou-se, colocando a tira de fita levemente sobre o nariz do prisioneiro.

— Quando eu apertar esse pedaço de fita, as suas narinas irão fechar-se. Ficará ainda com ar nos pulmões, mas não dará para muito.

Em poucos segundos sufocará. Vamos a uma demonstração?

Estaline pressionou a fita com força contra a pele.

Hayes observou o peito do homem elevar-se. Contudo, sabia que aquela fita era usada em condutas de ventilação, por ser estanque. Os olhos do russo começaram a inchar à medida que os seus glóbulos sanguíneos procuravam oxigénio. A pele foi adquirindo várias tonalidades até ficar branco-acinzentada. O pobre homem abanou-se na cadeira, tentando respirar, mas o Cro-Magnon segurou-o por trás.

Estaline deu um passo à frente e, sem qualquer emoção, arrancou a fita da boca do russo. Este inspirou de imediato rápidas golfadas de ar e as cores retornaram à sua face.

— Responda às minhas duas perguntas — pediu Estaline. Tudo o que Maks fez foi respirar.

— É sem dúvida um homem muito corajoso. Porquê, não faço ideia, mas a sua coragem é louvável. — Estaline fez uma pausa, parecendo dar tempo ao russo para recuperar. — Devo informá-lo de que, quando fomos a sua casa, a sua bela esposa nos convidou a entrar. Que mulher tão atenciosa. Foi ela que nos disse que se encontrava aqui.

Um olhar tresloucado apoderou-se de Maks. Medo, por fim.

— Não se preocupe — continuou Estaline — , ela está bem. Acredita que trabalhamos para o governo e que estamos aqui a realizar um inquérito oficial. Nada mais, mas garanto-lhe que este procedimento também funciona bem em mulheres.

— Raios partam a máfia!

— Isto nada tem a ver com a máfia. É algo bem mais importante e acredito que o senhor sabe disso.

— Vão matar-me diga eu o que disser.

— Mas dou-lhe a minha palavra de que a sua esposa não será envolvida. Basta apenas que me diga o que desejo saber.

O russo do cabelo ruivo pareceu considerar a proposta.

— Acredita no que lhe estou a dizer? — perguntou Estaline calmamente.

— Saiba que se continuar calado eu darei ordens para que tragam a sua esposa. Ela será presa a uma cadeira ao seu lado e ficará a vê-la sufocar. Depois, sou bem capaz de o deixar viver para que essa memória o persiga para o resto da vida.

Estaline falava com a mesma calma pausada de quem está a negociar um acordo financeiro. Hayes sentia-se impressionado com o à-vontade com que aquele homem bem-parecido, vestido com calças de ganga Armani e camisola de caxemira, provocava tanto medo.

— Kolia Maks está morto — disse Maks, por fim. — O seu filho, Vassili, vive a cerca de dez quilómetros a sul da cidade. Não sei por que razão o Lord o procurava. O Vassili é meu tio-avô. Os membros da minha família sempre fizeram negócios aqui na cidade com uma placa na porta anunciando o nome. Foi o que o Vassili nos pediu e eu concordei.

— Acho que está a mentir, senhor Maks. O senhor faz parte do Bando Sagrado?

Maks nada disse. Pelos vistos, a sua colaboração tinha um limite.

— Nunca o admitiria, não é? Faz parte do seu juramento ao czar.

— Pergunte a Vassili — proferiu o russo com dureza no olhar.

— Farei isso — concordou Estaline, desviando-se. O Vesgo colou mais fita na boca de Maks.

O russo balançou-se na cadeira, tentando respirar. A tentativa de se libertar atirou a cadeira ao chão.

Um minuto mais tarde, a sua luta chegara ao fim.

— Um homem decente protege sempre a sua esposa — afirmou Estaline, olhando para o corpo. — Uma pessoa admirável.

— Vai honrar a sua palavra? — perguntou Hayes. Estaline fitou-o com um olhar de genuína ofensa.

— Com certeza. Que tipo de homem pensa que sou?

 

18.40

Lord deixou o carro por entre as árvores à saída de uma estrada lamacenta. O fim de tarde frio transformara-se numa noite gélida e sem lua. Não lhe agradava particularmente a ideia de desenterrar um caixão com trinta anos, mas não tinha grande escolha. Estava agora convencido de que dois Romanov haviam escapado de Iekaterimburgo. Se tinham conseguido viver em segurança e gerado descendência isso já era outro assunto, contudo só havia uma maneira de descobrir.

Vassili Maks fornecera-lhes duas pás e uma lanterna com as pilhas quase gastas. Avisara-os de que o cemitério se situava bem no interior da floresta, a cerca de trinta quilómetros de Staro-dug, rodeado apenas por choupos e pela antiga igreja de pedra utilizada às vezes para os funerais.

— O cemitério deve ficar ali mais à frente, ao fundo do caminho — disse Lord, enquanto saíam do carro.

Continuavam a utilizar o veículo que Iossif Maks lhes emprestara. Este dissera-lhes que regressaria ao fim da tarde com o carro deles. Como não aparecera até às seis horas, Vassili aconselhara-os a irem andando, dizendo que explicaria tudo a Iossif e que ambos os esperariam quando regressassem. O russo parecia tão ansioso por saber o segredo do pai como Lord e Akilina. Também salientou que havia mais uma informação que teria de lhes dar, mas só depois de descobrirem o que o pai levara com ele para o túmulo.

Era mais um mecanismo de segurança, que ele pretendia passar ao seu sobrinho, Iossif, que andava a preparar para assumir a responsabilidade de guardião quando ele morresse.

Lord vestia um casaco e usava um par de luvas de cabedal e meias de lã grossas que trouxera de Atlanta. As calças de ganga haviam sido a única peça de roupa mais informal que colocara na mala antes de partir para a Rússia. A camisola fora comprada em Moscovo algumas semanas antes. O seu mundo estaria limitado aos fatos e às gravatas, as roupas informais seriam apenas para um passeio de domingo à tarde, mas os acontecimentos haviam tecido outras escolhas.

Maks também lhes fornecera uma arma para se protegerem, porém, apesar de bem cuidada e oleada, a espingarda mais parecia uma antiguidade. Ensinou-os a carregar a arma e a dispará-la e avisou-os sobre os ursos que vagueavam por aquelas paragens à noite, principalmente durante aquela época do ano em que se preparavam para hibernar. Lord pouco sabia de armas, tendo apenas disparado uma vez quando estivera no Afeganistão. Também não lhe agradava andar armado, mas a perspectiva de encontrar um urso esfomeado pela frente agradava-lhe ainda menos. Contudo, Akilina surpreendeu-o encostando a arma ao ombro e disparando três tiros para o tronco de uma árvore a quarenta e cinco metros de distância. Outra das lições da sua avó, explicara. Lord sentiu-se aliviado, ao menos um deles sabia o que andava a fazer.

Agarrou nas pás e na lanterna que estavam no banco traseiro. As malas com as roupas encontravam-se logo ao lado. Assim que estivessem despachados, e após uma rápida passagem por casa de Vassili Maks, pretendiam seguir viagem. Qual seria o seu destino ainda não sabiam, mas ele decidira que, se aquela busca não desse em nada, seguiria em direcção a sudoeste, até Kiev, e apanharia um avião de volta para os Estados Unidos. Uma vez em segurança no seu apartamento de Atlanta, telefonaria a Taylor Hayes.

— Vamos — disse ele. — Mais vale despachar isto já.

Em seu redor erguiam-se árvores altas e negras cujas folhas se agitavam com a brisa gélida que lhe cortava a pele. Foi acendendo a lanterna com moderação, guardando as pilhas para a escavação.

O contorno silencioso das lápides surgiu numa clareira mais à frente. Eram altas e antigas e mesmo por entre a escuridão era óbvio que há muito tempo ninguém cuidava delas. Uma camada de gelo cobria tudo e o negrume do céu deixava antever mais chuva. O cemitério não estava delimitado por nenhum muro ou vedação e não tinha sequer um portão de entrada; o caminho dissolvia-se simplesmente junto à primeira fila de lajes. Imaginou um rectângulo negro na terra e um cortejo fúnebre, encabeçado por um padre com vestes negras, avançando pelo caminho com um caixão simples de madeira.

A luz da lanterna revelou que as campas estavam quase todas cobertas por vegetação. Algumas pedras tumulares encontravam-se espalhadas pelo chão e a maioria das lápides havia sido invadida por ervas daninhas. Apontou a lanterna para as datas nas lápides. Algumas tinham cerca de duzentos anos.

— O Maks disse que a campa era das mais afastadas — explicou, conduzindo Akilina mais para o interior do cemitério.

A terra ficara esponjosa devido à chuva que caíra até meio da tarde. Assim tornava-se mais fácil escavar, pensou Lord. Por fim, encontraram a campa.

Leu as palavras esculpidas por baixo do nome Kolia Maks. Aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo. Akilina tirou a espingarda do ombro.

— Parece que estamos no sítio certo.

Lord entregou-lhe uma das pás.

— Vamos confirmar — disse.

A terra soltava-se com facilidade e libertava um odor a turfa. Vassili dissera que o caixão de carvalho estaria a pouca profundidade. Os Russos tinham tendência para enterrar os seus mortos dessa maneira e Lord esperava que o velho homem tivesse razão.

Akilina escavava junto à lápide enquanto ele trabalhava no extremo oposto. Decidiu escavar na vertical para tentar avaliar quanta terra precisariam de retirar. A cerca de noventa centímetros bateu em qualquer coisa dura. Afastou a terra molhada e viu madeira apodrecida.

— Não vamos conseguir tirar o caixão daqui — concluiu ele.

— O corpo não deve estar nas melhores condições. Continuaram a escavar, retirando camadas de lama e, após

vinte minutos de trabalho, acabaram por conseguir abrir um rectângulo negro.

Apontou a luz da lanterna para o interior da cova e, por entre rachas na madeira, avistou o corpo. Com a pá retirou as restantes tábuas e deixou Kolia Maks à vista.

O russo usava o seu uniforme da guarda real. A luz fraca da lanterna fazia sobressair alguns pedaços de cores. Vermelhos, azuis-escuros e o que fora em tempos branco, tudo estava agora cor de carvão devido à terra escura. Os botões de bronze e a fivela de ouro do cinto haviam sobrevivido, mas pouco restava das calças e do casaco, para além de farrapos e tiras de couro.

O tempo também não fora misericordioso com o corpo. A carne das faces e das mãos havia desaparecido e não eram visíveis quaisquer outras características para além das cavidades dos olhos e do nariz, dum maxilar exposto e dos dentes. Tal como o filho garantira, o pai guardava uma caixa de metal sobre o que restava do seu peito, com as costelas espetando-se em ângulos estranhos e o que ficara dos braços ainda cruzados.

Lord esperava ser invadido por um cheiro nauseabundo, mas apenas sentia o odor da terra húmida e dos líquenes. Recorreu novamente à pá para afastar o que restava dos braços e o que sobrava da manga desfez-se. Umas quantas larvas da terra atravessaram rapidamente a tampa da caixa. Akilina retirou-a do buraco e colocou-a com suavidade sobre a terra. O exterior estava sujo, mas ainda intacto. Devia ser feita de bronze, para ter sobrevivido à humidade, pensou Lord. Reparou no cadeado que fechava a tampa.

— É pesada — afirmou Akilina.

Ajoelhou-se e pegou-lhe. Ela tinha razão. Agitou-a para

a frente e para trás e sentiu que algo abanava lá dentro. Voltou a colocar a caixa no chão e pegou na pá.

— Cuidado. Afaste-se.

Bateu com a pá no cadeado. Foram necessários três golpes para o abrir. Preparava-se para espreitar o conteúdo da caixa quando um foco de luz brilhou por entre as árvores. Olhou em redor e avistou quatro pontos luminosos à distância. Eram os faróis de dois veículos que se aproximavam velozmente pelo caminho que também eles haviam percorrido. As luzes dos carros apagaram-se junto do local onde Lord deixara o carro.

— Apague a lanterna — pediu ele. — Temos de nos esconder.

Deixou as pás no chão e agarrou a caixa enquanto Akilina pegava na espingarda.

Embrenharam-se por entre as árvores e os arbustos, bem dentro da floresta para não serem vistos. As suas roupas depressa se encharcaram devido à humidade da vegetação e ele teve o máximo de cuidado para não agitar demasiado a caixa, uma vez que desconhecia a fragilidade do seu conteúdo. Passo a passo, avançou em direcção ao seu carro, serpenteando um caminho em torno do cemitério. O vento tornara-se mais frio, agitando os ramos com intensidade.

Ao longe escutou-se o acender de duas lanternas.

Agachado, avançou em direcção à clareira do cemitério, parando depois ainda entre as árvores. Quatro silhuetas negras surgiram ao fundo do caminho e entraram no cemitério. Três delas avançavam erectas e a outra parecia dobrada para a frente e movia-se devagar. O foco de luz de uma das lanternas iluminou a cara do Vesgo. A outra lanterna revelou as feições rechonchudas do inspector Orleg e, à medida que se aproximavam, conseguiu distinguir que as restantes silhuetas eram do Cro-Magnon e de Vassili Maks.

— Mister Lord — gritou o inspector em russo — , sabemos que está aí. Apareça e facilite-nos a vida.

—        Quem é aquele? — murmurou-lhe Akilina ao ouvido.

— Um problema — respondeu Lord.

— O homem com a lanterna estava no comboio — sussurrou ela.

— Estavam os dois — disse ele, olhando para a espingarda que ela trazia ao ombro. — Ao menos estamos armados.

Por entre a vegetação e os troncos negros das árvores, observou os quatro homens enquanto estes se deslocavam até à campa aberta. Duas lanternas iluminavam o caminho.

— É esta a campa do seu pai? — perguntou Orleg. Vassili Maks avançou para junto da lápide. Por momentos a

força do vento abafou as vozes e Lord não conseguiu perceber se Vassili respondera. Porém, escutou quando Orleg gritou em russo:

— Lord, se não aparecer, mato o velho. A escolha é sua.

A sua vontade era agarrar na espingarda e enfrentar os homens, mas os outros três por certo também estariam armados e sabiam usar as suas armas com destreza. Ele, entretanto, estava cheio de medo, a arriscar a vida por causa da profecia de um charlatão morto há cem anos. Contudo, antes que Lord tomasse uma decisão, Vassili Maks tomou-a por ele.

— Não se preocupe comigo, Corvo. Estou preparado. Maks começou a correr na direcção dos carros. As outras três

silhuetas mal se mexeram, mas Lord conseguiu ver o Vesgo levantar o braço e distinguiu o contorno de uma arma na sua mão.

— Se estiver a ouvir, Corvo — gritou Maks — , Colina Russa. Um tiro ecoou na noite e o russo caiu no chão.

Lord ficou em estado de choque e sentiu o corpo de Akilina estremecer. Viram claramente quando o Cro-Magnon avançou até ao corpo e o arrastou de volta para a campa, atirando-o lá para dentro.

— Temos de ir embora — sussurrou. Ela nem argumentou.

Avançaram de árvore em árvore pela floresta até ao local onde os três carros se encontravam estacionados.

Aproximavam-se passos rápidos vindos do cemitério, e de apenas uma pessoa.

Lord e Akilina agacharam-se o mais que puderam por entre a vegetação junto à estrada lamacenta.

O Vesgo apareceu empunhando uma lanterna. No silêncio da noite escutou-se o tilintar de chaves e o abrir da mala de um dos carros. Lord saiu do seu esconderijo a correr. O Vesgo pareceu escutar os passos e voltou-se para trás. Lord deu-lhe com a caixa de metal na cabeça e o russo estatelou-se no chão.

Quando olhou para baixo, satisfeito por o ter deixado inconsciente, reparou no conteúdo da mala do carro. A luz do porta-bagagem iluminava o olhar morto de Iossif Maks.

O que dissera Rasputine? Doze deverão morrer antes que a ressurreição tenha lugar. Haviam acabado de morrer mais dois.

Akilina aproximou-se e viu o corpo.

— Oh, não — murmurou. — Os dois?

— Temos de nos apressar. Entre no carro. — Entregou-lhe as chaves. — Não faça barulho com a porta e ligue o motor só quando eu disser.

Passou-lhe a caixa de metal para as mãos e pegou na espingarda.

O cemitério ficava a cerca de cinquenta metros de distância, ao fundo do caminho mole e lamacento. Não era o melhor terreno para negociar, principalmente na escuridão. O Cro-Magnon e o inspector andariam à sua procura e o Vesgo fora mandado de volta ao carro para buscar o outro corpo, uma vez que já tinham uma campa aberta. Lord fizera o favor de lá deixar duas pás. Não iria demorar muito até que dessem por falta do seu companheiro.

Empunhou a espingarda e disparou uma bala para o pneu traseiro de um dos carros. Voltou a repetir a operação e acertou no pneu dianteiro do outro carro. Depois correu para o seu automóvel e entrou.

— Vamos. Agora!

Akilina rodou a chave e engatou a primeira. Os pneus derraparam quando ela manobrou o carro de volta ao estreito caminho. Depois carregou no acelerador e desapareceram na escuridão.

Quando chegaram à estrada principal, rumaram para sul. Uma hora passou sem que nenhum deles falasse, a agitação do momento a associar-se ao choque pela morte de duas pessoas.

Começou a chover. Até o céu parecia partilhar a sua tristeza.

— Não consigo acreditar no que está a acontecer — proferiu Lord, mais para si próprio do que para a sua companheira de viagem.

— O que o professor Pashenko disse deve ser verdade. Não era o que ele desejava ouvir.

— Pare o carro. Encoste ali.

Não havia nada em redor a não ser campos de terra negra e florestas densas. Nem sequer tinham avistado uma única casa e nenhum automóvel os ultrapassara ou seguira. Apenas se haviam cruzado com três outros que seguiam na direcção oposta.

Akilina rodou o volante para a esquerda.

— O que vamos fazer?

Lord virou-se para o banco traseiro e pegou na caixa de metal.

— Vamos ver se tudo isto valeu a pena.

Colocou a caixa lamacenta sobre o colo. O fecho estava desfeito pelos golpes da pá e o fundo amachucado pela pancada dada na cabeça do Vesgo. Levantou o ferrolho, abrindo a tampa devagar, e iluminou o interior com a lanterna.

A primeira coisa que viu foi o cintilar do ouro.

Retirou lá de dentro um lingote com o tamanho de uma barra de chocolate. Trinta anos sob a terra não haviam diminuído o seu brilho. No cimo estava gravado um número e as letras NR e entre os dois distinguia-se uma águia de duas cabeças. Era a marca de Nicolau II. Lord já vira aquele símbolo várias vezes. O lingote deveria pesar cerca de dois quilos. Actualmente, o seu valor rondaria os trinta mil dólares, se ainda se recordava do preço do ouro.

— É do tesouro real — explicou ele.

— Como sabe?

— Sei.

No fundo da caixa avistou um pequeno saco de pano já deteriorado. Tocou no tecido e concluiu que em tempos deveria ter sido veludo. À luz fraca da lanterna parecia azul-escuro ou talvez roxo. Apalpou o saco. Havia qualquer coisa dura e pequena lá dentro. Passou a lanterna para Akilina e usou ambas as mãos para rasgar o tecido apodrecido. Ao fazê-lo pôs a descoberto uma folha de ouro com palavras gravadas e uma chave de bronze com a inscrição C.M.B 716. As palavras na folha de ouro estavam escritas em cirílico. Lord leu a inscrição em voz alta:

O ouro é para vosso proveito. Podem ser necessários fundos e o czar entendeu o seu dever. Esta folha deverá também ser derretida e convertida em moeda. Utilizem a chave para acederem ao próximo portal, cuja localização já deverão conhecer. Se não for esse o caso, a vossa jornada termina aqui. Apenas o Sino do Inferno pode indicar o caminho agora. Para o Corvo e para a Águia, boa sorte e boa viagem. Para qualquer intruso, que o diabo seja o seu eterno companheiro.

— Mas nós não sabemos onde é o próximo portal — disse

Akilina.

— Talvez saibamos.

Ela fitou-o com espanto

Lord conseguia ainda ouvir as palavras que Vassili Maks gritara antes de morrer.

Colina Russa.

O seu cérebro reviu rapidamente o que lera ao longo dos anos. Durante a guerra civil russa, que se estendera de 1918 a 1920, o Exército Branco recebera apoios financeiros de americanos, ingleses e japoneses. Os bolcheviques eram considerados um grande perigo, por isso, foram enviadas provisões várias, ouro e munições para a Rússia através da cidade de Vladivostoque, na costa do Pacífico. Maks havia-lhes dito que as duas crianças Romanov tinham sido levadas para leste, para escaparem ao Exército Vermelho.

O ponto mais a leste era Vladivostoque. Milhares de refugiados russos haviam escolhido esse mesmo caminho, alguns fugindo dos soviéticos, outros em busca de um novo começo. A costa oeste da América transformou-se num íman não apenas para os refugiados, como também para o financiamento do sitiado Exército Branco, que acabaria por ser derrotado por Lenine e pelo Exército Vermelho.

Escutou novamente o grito de Vassili Maks.

North Beach situava-se a leste, Nob Hill a sul. Casas bonitas e antigas, cafés e lojas decoravam o cume e a encosta. Era a zona mais moderna de uma cidade moderna. Todavia, no início de 1800, fora também o local onde um grupo de comerciantes de peles russo havia sido enterrado. Depois, a costa rochosa e o terreno íngreme foram povoados apenas por tribos Miwok e Ohlone. Passar-se-iam décadas até que o homem branco conseguisse dominar a zona. A lenda dos túmulos acabara por baptizar o local:

Russian Hill, Colina Russa.

São Francisco, Califórnia.

América.

Fora para lá que os dois Romanov haviam sido levados.

Relatou a Akilina o que discorrera.

— Faz todo o sentido. Os Estados Unidos são um país enorme. É fácil esconder dois adolescentes cuja identidade ninguém conhece. Os Americanos pouco sabiam da família imperial russa. Na verdade, ninguém sequer queria saber. Se Iussupov era tão esperto como começa a parecer, então essa seria a jogada mais aceitada. — Pegou na chave e observou as iniciais gravadas. CMB 716. — Acho que esta chave abre um cofre num banco em São Francisco. Só temos de descobrir qual, quando lá chegarmos, e esperar que ainda exista.

— E é provável que ainda exista? Lord encolheu os ombros.

— São Francisco possui uma antiga zona financeira. As probabilidades são fortes. Mesmo que o banco já não exista, é possível que os cofres tenham sido deixados com a instituição que ocupou as instalações. — Fez uma pausa. — O Vassili disse-nos que tinha outra informação para nos dar depois de regressarmos com a caixa. Acredito que São Francisco fosse a etapa seguinte da viagem.

— Mas ele afirmou não saber para onde as crianças haviam sido levadas.

— Talvez mais não fosse de que outra tentativa de nos deixar na dúvida até encontrarmos a caixa. A nossa missão agora é descobrir o Sino do Inferno, seja lá isso o que for. — Pegou no lingote de ouro. — Infelizmente, isto não tem qualquer utilidade. Nunca o conseguiríamos fazer sair do país através da alfândega. Não devem existir muitas pessoas com ouro imperial na sua posse. Acho que tem razão, Akilina. O que o professor Pas-henko disse deveria ser verdade. Nenhum camponês russo teria guardado isto durante tanto tempo sem o derreter, a menos que fosse bem mais valioso na sua forma original. O Kolia Maks levou esta história bem a sério, assim como o Vassili e o Iossif. Ambos morreram por causa disso. — Olhou para a escura paisagem através do pára-brisas e sentiu uma súbita determinação. — Sabe onde estamos?

Ela acenou afirmativamente.

— Perto da fronteira com a Ucrânia, quase a sair da Rússia. Esta estrada vai para Kiev.

— Quantos quilómetros até lá chegarmos?

— Quatrocentos, talvez menos.

Recordou-se de ter lido os relatórios do Departamento de Estado, antes de partir para Moscovo, que salientavam a falta de fiscalização fronteiriça entre a Rússia e a Ucrânia. Era demasiado dispendioso colocar guardas em cada posto e, uma vez que existiam tantos russos a viver na Ucrânia, a medida fora considerada inútil.

Lord olhou pelo vidro traseiro. Felix Orleg, o Vesgo e o Cro-Magnon estavam a uma hora de distância. Para a frente o caminho estava livre.

— Siga. Apanhamos um avião em Kiev.

 

MOSCOVO

Segunda-feira, 18 de Outubro - 2.00

HAYES estudou as cinco caras reunidas na sala. Era o mesmo recinto que haviam utilizado nas últimas sete semanas. Estaline, Lenine, Brejnev e Kruchtchev estavam presentes, juntamente com o padre que o patriarca Adrian escolhera como seu representante. Era um homem de baixa estatura, barba encaracolada, com a textura da palha-de-aço, e olhos verdes remelosos. O enviado fora inteligente em aparecer vestido de fato e gravata, não mostrando quaisquer sinais exteriores de ligação à Igreja. O homem havia sido baptizado pelos outros com a alcunha de Rasputine, nome que o padre não apreciava.

Tinham todos sido acordados do seu sono e apressados a reunirem-se dentro de uma hora. Existiam demasiadas coisas em jogo para esperarem que amanhecesse. Hayes ficou satisfeito por haver comida e bebidas. Viu travessas com fatias de peixe e salame, pedaços de caviar vermelho e preto sobre ovos cozidos, conhaque, vodca e café.

Estivera os últimos minutos a explicar o que sucedera no dia anterior em Starodug. Dois Maks mortos e nenhuma informação. Ambos haviam teimosamente recusado revelar fosse o que fosse. Iossif Maks limitara-se a indicar o caminho para Vassili e este a acompanhá-los até à campa do seu pai. Nada dissera, para além de um grito para o Corvo.

— A campa pertencia a Kolia Maks. O Vassili Maks era o seu filho — explicou Estaline. — Kolia fazia parte da guarda do palácio no tempo de Nicolau II. Passou-se para o outro lado aquando da revolução e estava em Iekaterimburgo quando ocorreram as execuções imperiais. Não consta da lista do esquadrão da morte, mas isso não quer dizer nada, se tivermos em conta a exactidão dos registos dessa época. Nunca prestou qualquer tipo de depoimento e foi enterrado com uma espécie de uniforme que não era soviético. Presumi que fosse imperial.

Brejnev mudou de posição na cadeira virando-se para Hayes.

— Pelos vistos, o seu Mister Lord necessitava de algo que estava dentro daquela campa. Algo que conseguiu retirar e agora tem em seu poder.

Hayes e Estaline haviam revistado a campa na noite anterior, depois de os homens terem regressado com as notícias do que acontecera. Não havia nada lá dentro e os dois Maks foram deixados com o seu antepassado.

— O Vassili Maks levou-nos até lá de modo a conseguir passar uma mensagem a Lord — explicou Hayes. — Só por essa razão concordou em ir.

— O que o leva a dizer isso? — perguntou Lenine.

— Ele era um homem que parecia levar as suas responsabilidades muito a sério. Nunca revelaria a localização da campa se não precisasse de dizer alguma coisa ao Lord. Sabia que ia morrer, mas queria antes completar a sua missão. — Já não estava com grande paciência para aturar os russos. — Importam-se de me dizer o que se passa aqui? Mandam-me andar às voltas pelo país a matar pessoas, todavia não me explicam a razão. O que procuram o Lord e a mulher? Existem membros da família Romanov que tenham escapado à matança de Iekaterimburgo?

— Concordo com Mister Hayes — disse Rasputine. — Quero saber o que se está a passar. Fui informado que relativamente à sucessão estava sob controlo e que não existiam quaisquer problemas. Contudo, pressinto uma certa urgência.

Brejnev pousou o copo de vodca numa pequena mesa de vidro colocada ao seu lado.

— Durante décadas circularam rumores de que alguns membros da família real haviam escapado ao massacre.

Por todo o mundo apareceram grã-duquesas e czarévitches. Após o fim da nossa guerra civil, em mil novecentos e vinte, Lenine convenceu-se de que existia um herdeiro Romanov vivo. Descobriu que Felix Iussupov poderia ter ajudado à fuga de pelo menos um Romanov, porém nunca conseguiu provar esse facto e a sua saúde deteriorou-se antes de conseguir apurar mais detalhes. Hayes continuava céptico em relação àquele assunto.

— Iussupov matou Rasputine. Nicolau e Alexandra odiavam-no por isso. Por que razão haveria ele de se envolver com a família imperial?

Kruchtchev respondeu-lhe.

— Iussupov era um homem estranho. Por vezes, acometiam-no ideia súbitas. Assassinou o starets num impulso, pensando que estava a libertar a família real das garras do diabo. Estranhamente, o seu castigo foi o mero afastamento para uma das suas propriedades na Rússia Central. E foi o que lhe salvou a vida, visto não estar por perto aquando das revoluções de Fevereiro e Outubro. Grande parte da nobreza Romanov morreu nessa altura.

Hayes era também um curioso da história da Rússia e o destino da família imperial havia sido a sua leitura durante a longa viagem de avião. Recordava-se de que o grão-duque Miguel, o irmão mais novo de Nicolau, fora morto seis dias antes dos acontecimentos de Iekaterimburgo. A irmã de Alexandra, Sérgio, o primo de Nicolau, e quatro outros grão-duques haviam sido assassinados no dia seguinte e atirados para o poço de uma mina nos Urales. Vários outros grão-duques e grã-duquesas morreram nos meses que se seguiram. Em 1919, a família Romanov estava praticamente exterminada. Somente uns poucos haviam conseguido sair do país.

Kruchtchev explicou:

— Rasputine previu que, se fosse morto por boiardos, as suas mãos ficariam para sempre manchadas de sangue. Também afirmou que se um parente da família real fosse o responsável directo pela sua morte, então os Romanov só sobreviveriam mais dois anos e depois seriam mortos pelo povo russo.

Rasputine foi assassinado em Dezembro de mil novecentos e dezasseis pelo marido de uma sobrinha de Nicolau. A família imperial foi executada em Julho de mil novecentos e dezoito. Hayes não parecia impressionado.

— Não existem provas de que essa profecia tenha sido na realidade proferida.

Brejnev fitou-o nos olhos.

— Mas nós sabemos que assim foi. A carta que o seu Mister Lord descobriu, escrita pela mão de Alexandra, confirma que Rasputine contou à czarina a sua previsão em Outubro de mil novecentos e dezasseis, dois meses antes de morrer. O grande fundador deste país... — O sarcasmo de Brejnev era óbvio. — ... o nosso amado Lenine considerou o assunto bastante sério. E Estaline ficou suficientemente assustado para mandar selar tudo e matar todos aqueles que pudessem saber de alguma coisa.

Hayes não entendera a importância da descoberta de Lord até àquele momento. Lenine continuou:

— O governo provisório ofereceu o trono a Iussupov em Março de mil novecentos e dezassete, depois de Nicolau e o seu irmão terem abdicado. A família Romanov tinha chegado ao fim e o governo pensou que a família Iussupov podia tomar o controlo. Felix era bastante respeitado por ter morto Rasputine. O povo considerava-o um herói. Todavia, ele recusou a oferta e fugiu do país assim que os soviéticos assumiram os destinos da nação.

— No fundo, Iussupov era um patriota — afirmou Kruchtchev. — Hitler ofereceu-lhe o governo da Rússia, assim que a Alemanha a conquistasse, e ele recusou. Os comunistas ofereceram-lhe emprego como curador de vários museus e ele disse sempre que não. Amava a Mãe Rússia e, pelos vistos, só demasiado tarde se apercebeu de que matar Rasputine fora um grande erro. Não era sua intenção provocar a queda e o assassínio da família real. Foi assolado por um profundo sentimento de culpa e por isso formulou um plano.

— E como sabe isso? — perguntou Hayes. Estaline sorriu.

— Os arquivos começaram a revelar os seus segredos após a queda do comunismo, tal como uma boneca matriochka. Cada boneca retirada revela a seguinte. Ninguém queria que tal acontecesse, mas todos acreditámos que este seria o momento da revelação.

— Sempre suspeitaram que existia um sobrevivente dos Romanov?

— Não suspeitávamos de nada — respondeu Brejnev. — Apenas tememos que o que quer que tivesse sido arquitectado há décadas pudesse agora ser posto em prática com o ressurgimento da lei imperial. O envolvimento de Mister Lord não estava planeado, mas talvez seja vantajoso a situação ter evoluído desta maneira.

— Os nossos arquivos nacionais — continuou Estaline — estão cheios de relatórios de pessoas que participaram nas execuções em Iekaterimburgo. Porém, Iussupov foi inteligente. Envolveu o mínimo de pessoas no seu plano. A polícia secreta de Lenine e Estaline conseguiu saber apenas pequenos pormenores. Nunca nada foi confirmado.

Hayes deu um gole no seu café e depois perguntou:

— Segundo me lembro, Iussupov viveu uma vida modesta depois de ter fugido da Rússia.

— Ele seguiu o exemplo do czar e repatriou a maioria dos seus investimentos no estrangeiro quando rebentou a Primeira Guerra Mundial — explicou Brejnev. — O que significava que o seu dinheiro e acções estavam aqui. Os bolcheviques apossaram-se de toda a propriedade russa, o que incluía as obras de arte e as jóias que a família Iussupov havia acumulado ao longo dos anos. Todavia, Felix era mais esperto do que aparentava. Havia investido na Europa, em especial na Suíça e em França. Aparentava um estilo de vida modesto, mas sempre teve dinheiro. Existem documentos que indicam que negociava em acções dos caminhos-de-ferro americanos nos anos vinte e que converteu o seu investimento em ouro antes da vossa Depressão. Os soviéticos procuraram o cofre onde o ouro havia sido depositado, mas nunca encontraram nada.

Lenine mudou de posição na cadeira e pegou na palavra.

— É também possível que ele tenha gerido os investimentos do czar que escaparam às garras dos bolcheviques. Muitos acreditavam que Nicolau II possuía milhões de rublos escondidos em bancos estrangeiros e Iussupov realizou várias viagens aos Estados Unidos até à sua morte, no final dos anos sessenta.

Hayes sentia-se cansado, mas a adrenalina que lhe corria pelas veias mantinha-o desperto.

— E o que fazemos agora?

— É imprescindível que encontremos o Lord e a mulher que o acompanha — respondeu Kruchtchev. — Fiz chegar um alerta a todos os postos fronteiriços, mas temo ser demasiado tarde. Já não temos nenhum posto de controlo na fronteira com a Ucrânia e esse era o ponto de saída mais próximo. Mister Hayes, o senhor pode viajar para qualquer lado e a qualquer momento. Precisamos que esteja a postos. O Lord irá certamente entrar em contacto consigo. Não há nenhuma razão para que desconfie de si. Quando ele o contactar, aja com rapidez. Presumo que entenda a gravidade da situação.

— Claro que sim — confirmou ele — , ficou tudo muito claro.

 

ATLANTA, JÓRGIA - 7-15

AQUILINA observou Lord a introduzir a chave na fechadura e a abrir a porta do seu apartamento, seguindo-o depois lá para dentro.

Haviam dormido no aeroporto de Kiev na noite de sábado, apanhando, no domingo de manhã, o avião da Aeroflot com destino a Frankfurt, na Alemanha. Não havia lugares nos voos da tarde e do início da noite e por isso tiveram de esperar no terminal por um voo directo para Atlanta com dois lugares vagos, que Lord pagou com metade do dinheiro que Semion Pashenko lhes dera.

O lingote de ouro ficara guardado num cacifo do aeroporto de Kiev, embora ambos se questionassem quanto ao seu grau de segurança. Akilina concordara com Lord sobre a impossibilidade de levarem o ouro com eles.

Haviam ambos dormido no avião, mas a diferença horária começava a fazer os seus efeitos. No terminal do aeroporto de Atlanta, Lord reservara dois lugares num voo que partia ao meio-dia para São Francisco. Precisavam de tomar banho e mudar de roupa, por isso apanharam um táxi e vinte minutos depois estavam em casa dele.

O apartamento impressionara Akilina. Era bem melhor que o de Semion Pashenko, mas talvez para um americano aquilo fosse comum. As carpetes eram macias e estavam limpas, a mobília era elegante e dispendiosa. Sentiu o interior da casa frio até Lord ajustar o termostato na parede e o aquecimento central começar a funcionar. Bem mais moderno que os aquecedores do seu apartamento de Moscovo, que ora funcionavam no máximo, ora nem sequer funcionavam. Reparou na organização geral e concluiu que não era nenhuma surpresa, uma vez que desde o início Miles Lord aparentara ser uma pessoa equilibrada.

— Tem toalhas na casa de banho do corredor. Esteja à vontade — disse-lhe em russo. — Pode utilizar aquele quarto para mudar de roupa.

Da parte de Akilina, o domínio da língua inglesa era limitado. Tivera dificuldades em entender as conversas no aeroporto, em especial as perguntas do agente da alfândega. Felizmente, o seu visto de artista concedia-lhe entrada em qualquer país.

— Tenho uma casa de banho no meu quarto. Já volto. Akilina demorou-se no banho, deixando que a água quente

acariciasse os seus músculos cansados. Para o seu corpo era ainda de noite. No quarto encontrou um roupão de veludo sobre a cama e enrolou-se nele. Lord havia-lhe dito que tinham apenas uma hora antes de regressarem de novo ao aeroporto. Secou o cabelo na toalha e deixou que os seus caracóis caíssem soltos sobre os ombros. O barulho de água a correr que vinha do outro quarto confirmava que Lord estava ainda a tomar banho.

Foi até à sala e demorou-se a olhar para as fotografias penduradas nas paredes e expostas sobre duas mesas de madeira. Miles Lord era descendente de uma família numerosa. Havia várias fotos dele na companhia de rapazes e raparigas mais novos em diferentes fases da vida. Ele aparentava ser o mais velho. Uma fotografia de toda a família mostrava-o no final da adolescência com quatro irmãos com pouca diferença de idade.

Duas fotografias apresentavam-no no seu equipamento desportivo, a cara escondida atrás de um capacete e de um protector facial, os ombros enchumaçados por baixo de uma camisola com um número. Havia uma imagem do pai colocada à margem das outras. Deixava ver um homem com cerca de quarenta anos, olhos castanho-escuros e sérios e cabelo curto e preto a condizer com a pele. A testa brilhava com o suor e ele estava de pé num púlpito, boca escancarada, dentes brancos como marfim e dedo indicador direito apontado para o céu. Vestia um fato que parecia assentar-lhe bem e Akilina notou o brilho do ouro no botão de punho do braço que estava esticado. No canto inferior direito havia umas palavras escritas a marcador preto. Pegou na moldura e tentou ler, mas os seus conhecimentos do alfabeto ocidental eram limitados.

— Diz: “Filho, junta-te a mim” — explicou Lord em russo. Akilina virou-se.

Lord estava à entrada da porta, enrolado num roupão castanho-avermelhado, os seus pés descalços a aparecerem por baixo. No espaço deixado à vista pelas abas do roupão, notou um peito musculado com alguns pêlos encaracolados castanho-acinzentados.

— Ele ofereceu-me essa fotografia na tentativa de me cativar para o seu ministério.

— E porque não se juntou a ele?

Aproximou-se. Cheirava a sabonete e a champô. Akilina notou que fizera a barba, deixando à vista a sua tez cor de cacau, intocada pelas marcas do tempo e da tragédia tão comuns na sua terra natal.

— O meu pai enganou a minha mãe e deixou-nos sem um cêntimo. Não senti qualquer desejo de lhe seguir as pisadas.

Ela recordou-se da amargura que ele demonstrara na sexta-feira à noite em casa de Semion Pashenko.

— E a sua mãe?

— Ela amava-o. E ainda ama. Não admite que ninguém diga mal dele. Os seus seguidores eram iguais. Grover Lord era um santo para todos eles.

— Ninguém sabia?

— Nem nunca ninguém acreditaria. Ele teria simplesmente gritado que era discriminação e pregado do púlpito como era difícil para um homem negro de sucesso sobreviver.

— Aprendemos na escola sobre o preconceito neste país. Como os negros não têm qualquer oportunidade numa sociedade de brancos. Isso é verdade?

— Já foi e há quem diga que ainda é, mas eu não acredito. Não estou a dizer que este país é perfeito, longe disso. Mas é uma terra de oportunidades e devemos aproveitá-las todas.

— Foi o que fez, Miles Lord? Ele sorriu.

— Porque faz isso?

Ela esboçou uma expressão de estranheza.

— Mencionar sempre o meu nome completo — observou.

— É um hábito. Não queria ofender.

— Chame-me Miles. E para responder à sua pergunta, gosto de pensar que aproveitei todas as oportunidades. Estudei muito e mereci tudo o que consegui obter.

— O seu interesse pela minha terra começou muito cedo? Ele apontou para uma fila de estantes na outra ponta da sala

iluminada pelo sol.

— A Rússia sempre me fascinou. A vossa história é uma leitura emocionante. Um país de extremos, no tamanho, na política, no tempo, nas atitudes.

Ela observou-o enquanto ele falava, escutando a emoção na sua voz e contemplando-lhe o olhar.

— O que aconteceu em mil novecentos e dezassete foi deveras triste. O país encontrava-se à beira de um renascimento social. Os poetas, os escritores, os pintores e os dramaturgos estavam no seu auge. A imprensa era livre. Depois, do dia para a noite, tudo isso desapareceu.

— Quer fazer parte do nosso redespertar, não é verdade? Ele sorriu.

— Quem haveria de dizer que um miúdo da Carolina do Sul poderia vir a estar nessa posição? ,.,, .,.

— Costuma ver com frequência os seus irmãos?

Lord encolheu os ombros.

— Estão todos espalhados pelo país e demasiado ocupados para visitas.

— - Tiveram sucesso na vida?

— Um é médico, dois são professores e o outro é contabilista.

— Pelos vistos, o seu pai até nem se saiu mal.

— Ele não fez nada. A minha mãe é que nos educou. Embora pouco soubesse de Grover Lord, ela julgava entender toda aquela situação.

— Talvez a vida dele fosse o exemplo que cada um de vocês precisava.

Lord soltou uma gargalhada.

— Um exemplo que eu dispensava.

— Foi por causa dele que nunca casou?

Lord deslocou-se até uma das janelas e observou a manhã soalheira.

— Não. O trabalho sempre me ocupou demasiado tempo para pensar nisso.

Ao longe escutava-se o barulho constante do trânsito.

— Eu também nunca casei. Queria actuar no circo. O casamento na Rússia nem sempre é fácil. Não somos a terra das oportunidades.

— Não houve ninguém especial na sua vida?

Por alguns instantes, admitiu falar-lhe de Tusia, mas decidiu não o fazer, afirmando apenas:

— Ninguém que fosse realmente importante.

— Acredita mesmo que a restauração do regime czarista é a solução para os problemas do seu país?

Ela ficou aliviada por ele não insistir no assunto anterior. Talvez tivesse pressentido a sua hesitação.

— Os Russos sempre foram liderados por alguém, um czar ou um presidente. Não importa muito quem lidera, desde que seja uma pessoa sábia.

— Pelos vistos, alguém quer pôr um ponto final na história em que estamos envolvidos. Talvez encarem uma monarquia restaurada como uma forma de assumir o controlo.

— Agora, estão a milhares de quilómetros de distância.

— Graças a Deus. — Depois, acrescentou: — Não consigo deixar de pensar nos Maks. O velhote e o sobrinho morreram por um ideal. Será algo tão importante?

Lord avançou até às estantes e retirou um dos volumes. Ela notou a figura de Rasputine na capa, uma fotografia ameaçadora de uma cara barbuda com um olhar penetrante.

— Este oportunista pode bem ter a solução para o futuro do seu país. Sempre o considerei uma fraude que tivera a sorte de estar no local certo à hora certa. Aquela estante está repleta de livros sobre ele. Durante anos li a sua história, e sempre achei que ele não era melhor que o meu pai.

— E agora?

Lord suspirou com demora.

— Não sei o que pensar. Toda esta história é algo de incrível. Felix Iussupov conseguiu, sabe-se lá como, enviar duas crianças Romanov para a América. — Apontou para outra estante. — Possuo várias biografias de Iussupov e o retrato que elas pintam não é o de um manipulador inteligente. É mais de um idealista que não foi sequer capaz de matar um homem como deve ser.

Ela aproximou-se e tirou-lhe o livro das mãos, olhando fixamente para os olhos de Rasputine na capa.

— Penetrantes, mesmo agora.

— O meu pai sempre apregoou que o mistério divino era impossível de decifrar. Eu sempre achei que aquilo era uma forma inteligente de manter a lealdade dos fiéis, de os fazer voltar para escutarem mais. Agora espero sinceramente que ele estivesse errado.

Os seus olhares encontraram-se.

— Não devia odiar o seu pai.

— Nunca disse que o odiava.

— Não precisava de o dizer.

— O que ele fez sempre me indignou. A confusão que deixou para trás. A hipocrisia.

— Talvez, tal como Rasputine, a herança do seu pai seja mais importante do que acha. Talvez você seja essa herança, o Corvo.

— Acredita mesmo em tudo isso, não é verdade?

No silêncio quente do apartamento ela começava a relaxar.

— Sei apenas que, a partir do momento em que entrou no meu compartimento no comboio, me senti diferente. A minha avó foi assassinada, a vida dos meus pais destruída. Durante toda a vida assisti ao sofrimento dos outros e interroguei-me sobre o que poderia fazer. Talvez agora possa ajudar a mudar tudo isso.

Lord levou a mão ao bolso e retirou de lá a chave de bronze que estava no interior da caixa de metal. As iniciais CMB 716 eram bem visíveis.

— Isso se encontrarmos o Sino do Inferno, e descobrirmos o que esta chave abre.

— Estou certa que conseguiremos. Ele abanou a cabeça.

— Ainda bem que um de nós acredita.

 

MOSCOVO - 16.20

HAYES observou Stefan Baklanov com minúcia. O “herdeiro legitimado” encontrava-se sentado frente a uma mesa coberta por uma toalha de seda, encarando os dezassete membros da Comissão do Czar. O Salão Principal do Palácio de Facetas estava repleto de espectadores e jornalistas e o ar coberto por um fumo azulado proveniente do tabaco fumado pelos comissários.

Baklanov vestia um fato escuro e parecia pouco impressionado pela quantidade ou amplitude das perguntas dos seus interlocutores. Era a sua última aparição pública antes da votação que iria escolher os três finalistas. Esta teria lugar na manhã seguinte. Haviam sido apresentados nove nomes para eleição. Três deles não tinham tido qualquer hipótese. Dois outros eram questionáveis e os restantes quatro eram fortes concorrentes, cumprindo os pressupostos da relação sanguínea e do Acto de Sucessão de 1797. A primeira parte dos debates centrara-se na questão dos casamentos desde 1918 e na diluição da linhagem ao longo dos anos. A cada um dos nove candidatos fora dado um determinado período de tempo para defender a sua candidatura perante a comissão e responder a algumas perguntas. Hayes arranjara forma de que Baklanov fosse o último.

— Não consigo deixar de pensar no meu antepassado — disse Baklanov para o microfone, a sua voz baixa, porém forte.

— Em Janeiro de mil seiscentos e treze, nesta mesma sala do Palácio de Facetas, os boiardos reuniram-se para escolher um novo czar. O país atravessava uma grave crise resultante de longos anos sem liderança. Aquele grupo estabeleceu regras precisas, tal como haveis feito agora. Após longos debates e várias rejeições, foi unanimemente escolhido um calmo rapaz de dezasseis anos de idade, de seu nome Miguel Romanov. Não deixa de ser interessante o facto de ele ter sido descoberto no Mosteiro de Ipatiev, o lugar onde teve início o domínio dos Romanov e onde, trezentos anos mais tarde, noutra casa dos Ipatiev, a Casa para Fins Especiais, esse mesmo domínio terminou. — Baklanov fez uma pausa. — Pelo menos durante algum tempo.

— Mas não foi Miguel escolhido — interrompeu um dos comissários — por ter concordado aconselhar-se primeiro com os boiardos antes de tomar qualquer decisão? Ou seja, tornar a Duma uma assembleia nacional? É esse também o seu plano?

Baklanov mudou de posição na cadeira, mas a sua expressão manteve-se serena e amigável.

— Essa não foi a única razão que levou à escolha do meu antepassado. Antes de votar, a assembleia auscultou a opinião popular e notou que existia um forte apoio à escolha de Miguel Romanov. O mesmo se passa hoje, senhor comissário. Todas as sondagens nacionais indicam que o povo apoia a minha eleição. Todavia, para responder à sua questão, devo dizer-lhe que o tempo em que viveu Miguel Romanov era bem diferente. A Rússia tentou a democracia e podemos ver os resultados a cada dia. Não somos uma nação habituada a desconfiar do seu governo. A democracia gera desafios constantes e a nossa história não nos preparou para isso. Aqui, o povo espera que o governo se envolva nas suas vidas; as sociedades ocidentais pregam o contrário. Desde mil novecentos e dezassete que este país deixou de ter a grandeza que outrora exibia. O nosso império foi em tempos o maior de todos e agora a nossa existência depende da generosidade das nações estrangeiras. Esta situação revolta-me. Passámos quase oitenta anos a construir bombas e a equipar as forças armadas enquanto o país se desmoronava. Chegou a altura de mudar tudo isso.

Hayes sabia que Baklanov estava a exibir-se para as câmaras de televisão. As sessões eram transmitidas em directo para todo o país e a CNN, a CNBC, a BBC e a Fox garantiam as transmissões internacionais. A resposta fora quase perfeita. Baklanov havia evitado a verdadeira pergunta, mas aproveitara a oportunidade para abordar uma questão global. Aquele homem poderia não saber governar, porém era um excelente orador.

Outro dos comissários perguntou:

— O pai de Miguel, Filarei, se ainda me recordo da nossa história, governou o país durante grande parte do reinado do filho, que mais não era do que um fantoche. Essa é uma preocupação que o povo deve ter em relação a si? Haverá outros a controlar as suas decisões?

Baklanov abanou a cabeça.

— Garanto-lhe, senhor comissário, que não preciso que ninguém tome as decisões por mim. Todavia, isso não significa que não recorra ao meu Conselho de Estado por uma questão de sensatez. Estou bem ciente de que um autocrata necessita do apoio do seu governo e do seu povo para sobreviver.

Outra resposta excelente, pensou Hayes.

— E os seus filhos? Estão preparados para a responsabilidade? — indagou o mesmo comissário.

O homem estava a pressioná-lo. Era um dos três que não fora ainda totalmente comprado, estando ainda a discutir-se o preço da sua lealdade. Contudo, havia-lhe sido assegurado que até ao dia seguinte a unanimidade estaria garantida.

— Os meus filhos estão preparados. O mais velho compreende a responsabilidade que carrega sobre os ombros e está apto a tornar-se czarévitche. Desde pequeno que o talhei para essa possibilidade.

— Tinha a certeza de que haveria uma restauração?

— O meu coração sempre me disse que, um dia, o povo russo haveria de querer o seu czar de volta. Afinal, ele foi-lhes arrancado à força, o seu trono roubado sob coacção. Uma má acção não pode gerar honra e o bem nunca nasceu do mal. Esta nação partiu em busca do passado e podemos apenas rezar para que os erros de outrora nos tenham ensinado alguma coisa. Nenhum de nós nasce para si mesmo. Isto é especialmente verdade para os abençoados com raízes imperiais. O trono desta nação pertence aos Romanov e eu sou o descendente masculino mais directo de Nicolau II. Todas as grandes honras acarretam pesadas responsabilidades e eu estou preparado para as enfrentar em nome do meu povo.

Baklanov fez uma pausa e bebeu um gole de água do copo que estava à sua frente. Nenhum dos comissários interrompeu o momento. Depois, pousou o copo e continuou:

— Talvez em mil seiscentos e treze Miguel Romanov fosse um czar relutante, mas eu não escondo o facto de desejar governar este país. A Rússia é a minha mãe-pátria. Acredito que todas as pátrias têm um género e a nossa é sem dúvida alguma feminina. E é essa forte raiz feminina que explica a nossa fertilidade. Um dos biógrafos de Fabergé, embora inglês, foi quem melhor o descreveu: “Ofereçam-lhe um começo, uma semente, e ela irá perfilhá-lo à sua maneira e obterá resultados surpreendentes.” É o meu destino ver esses resultados amadurecerem. Todas as sementes conhecem o seu tempo. Eu conheço o meu. Podemos fazer o povo temer-nos, porém não podemos forçá-lo a amar-nos. Compreendo isso. Não pretendo que a Rússia tenha medo de mim. Não desejo qualquer conquista imperial, nem tão-pouco dominar o mundo. Nos tempos futuros, a nossa grandeza virá de oferecermos ao povo um estilo de vida que lhe garanta saúde e prosperidade. Não importa que possuamos capacidade para aniquilar o mundo um milhão de vezes. O que é realmente importante é que tenhamos capacidade para alimentar o nosso povo, curar as suas doenças, garantir o seu conforto e assegurar uma nação próspera para as gerações seguintes.

As palavras foram proferidas com um tipo de emoção que funcionava tanto para a televisão como para a rádio. Hayes estava ainda mais impressionado.

— Não quero com isto dizer que Nicolau II não tinha defeitos. Na verdade, era um autocrata teimoso que perdeu de vista os seus ideais. Sabemos agora que a sua mulher não era uma boa influência e que a doença do filho os deixou a ambos muito vulneráveis. Em muitos aspectos, Alexandra era uma mulher abençoada, porém era também muito tola, deixando-se influenciar por Rasputine, um homem que quase todos classificavam de oportunista. A história é uma boa professora e eu não repetirei esses erros. Esta nação precisa de líderes fortes. As nossas ruas devem ser seguras e as nossas instituições legais e governamentais repletas de verdade e confiança. Só dessa forma este país poderá avançar.

— Parece-me que o senhor já se proclamou czar — afirmou o comissário provocador.

— O meu nascimento fez essa escolha por mim, comissário. Não tive qualquer decisão sobre essa matéria. O trono da Rússia é um trono Romanov e isso é um facto incontornável.

— Mas não é verdade que Nicolau II abdicou do trono por ele e pelo filho? — perguntou alguém entre os espectadores.

— Abdicou por si. Não creio que algum estudioso legal da matéria possa concluir que ele tinha o direito de renunciar por Alexei. Nicolau II abdicou em Março de mil novecentos e dezassete e o seu filho tornou-se Alexei II. O pai não tinha o direito de retirar o trono ao filho. O trono pertence aos Romanov da linhagem de Nicolau II e eu sou o herdeiro masculino mais próximo.

Hayes estava satisfeito com a actuação. Baklanov sabia exactamente o que dizer e quando o dizer. E proferia o seu discurso com suficiente segurança e sem ofender ninguém.

Stefan I daria um excelente czar. Desde que obedecesse tão bem às ordens quanto gostava de as dar.

 

13.10

LORD olhou para Akilina. Estavam ambos sentados num avião liou da United Airlines, a doze mil metros de altitude sobre o deserto do Arizona. Haviam partido de Atlanta passavam cinco minutos do meio-dia e, graças a um voo de cinco horas e a uma diferença horária de três, chegariam a São Francisco um pouco depois das duas da tarde. Nas últimas vinte e quatro horas, Lord percorrera três quartos de uma volta ao globo, porém sentia-se satisfeito por estar de novo nos Estados Unidos, ou sobre eles, ainda que não tivesse a certeza do que iam fazer à Califórnia.

— Costuma estar sempre tão inquieto? — perguntou Akilina em russo.

— Normalmente, não. Mas esta não é uma situação normal.

— Quero dizer-lhe uma coisa.

Lord pressentiu o nervosismo na sua voz.

— Não fui honesta consigo esta manhã... no apartamento. Não estava a perceber.

— Perguntou-me se tinha existido alguém especial na minha vida e eu disse que não. Na verdade, existiu.

A expressão na sua cara era de apreensão e Lord apressou-se a esclarecer:

— Não tem que me explicar nada.

— Mas gostaria de o fazer.

Ele recostou-se no assento.

— Chamava-se Tusia. Conheci-o na escola para artistas para a qual me enviaram após ter terminado os estudos secundários. Nunca pensaram em me mandar para a universidade. O meu pai era artista de circo e eu devia seguir as suas pisadas. Tusia era acrobata. Era bom, mas não o suficiente. Nunca foi muito para além da escola, ainda assim era seu desejo que casássemos.

— O que aconteceu?

— A família dele era do Norte, das planícies geladas. Uma vez que ele não era de Moscovo, seríamos forçados a viver com os meus pais até obtermos permissão para um apartamento nosso. Isso significava conseguir a sua autorização para o casamento e para o Tusia viver em Moscovo. A minha mãe recusou.

Lord ficou surpreendido.

— Porquê?

— Nessa altura ela já era uma mulher amarga. O meu pai continuava no campo de trabalho e ela odiava-o por isso e pelo facto de ele desejar sair do país. Viu felicidade nos meus olhos e reprimiu-a para satisfazer a sua própria dor.

— E não podiam viver noutro sítio qualquer? — interrogou.

— O Tusia não queria. O seu desejo era ser moscovita. Era o que toda a gente queria, na altura. Sem sequer me consultar, alistou-se no exército. Era isso ou ser enviado para uma fábrica algures. Disse-me que regressaria assim que ganhasse o direito a viver onde desejava.

— E o que lhe aconteceu?

Ela hesitou antes de contar o resto da história.

— Morreu na Chechénia. E para nada, visto que tudo ficou na mesma. Nunca perdoei à minha mãe pelo que ela fez.

Lord notou a amargura na sua voz.

— Amava-o?

— Tanto quanto uma jovem rapariga podia amar. Mas o que é o amor? Para mim foi um esquecimento temporário da realidade. Perguntou-me no outro dia se eu achava que com um czar as coisas seriam diferentes. Poderiam ser piores?

Lord nem sequer argumentou.

— Somos diferentes — disse Akilina. Ele não percebeu.

— Em vários aspectos, eu e o meu pai somos muito parecidos. A ambos a dureza da nossa pátria recusou a possibilidade de amar. Por outro lado, o Miles odeia o seu pai e, no entanto, soube tirar proveito das oportunidades que o seu país lhe ofereceu. Interessante a forma como a vida cria tais extremos.

Que grande verdade, pensou ele.

O Aeroporto Internacional de São Francisco estava apinhado de gente. Viajavam ambos com pouca bagagem, carregando apenas as mochilas que Semion Pashenko lhes fornecera. Se após alguns dias as buscas se revelassem infrutíferas, Lord planeava contactar Taylor Hayes; Rasputine e Pashenko que se lixassem. Quase telefonara para o escritório antes de saírem da Jórgia, mas acabara por decidir o contrário. Pretendia respeitar os desejos do professor enquanto fosse possível, dando ao menos alguma credibilidade a uma profecia que antes considerava uma idiotice completa.

Passaram pelo tapete de recolha da bagagem, rodeado de gente, e dirigiram-se para a saída. Do outro lado da parede de vidro a tarde da costa oeste brilhava clara num dia de céu limpo.

— E agora o que fazemos? — perguntou Akilina.

Lord não respondeu. A sua atenção estava fixada em algo do outro lado do terminal.

— Vamos — anunciou ele, agarrando Akilina pela mão e conduzindo-a através do amontoado de pessoas.

Numa parede da área de recolha de bagagem da American Airlines via-se um painel iluminado, um dos muitos que enchiam as paredes do terminal. Os coloridos anúncios publicitavam tudo e mais alguma coisa, desde apartamentos a planos tarifários para chamadas de longa distância. Lord olhava especado para as palavras que encimavam um edifício em forma de templo:

 

CREDIT & MERCANTILE BANK DE SÃO FRANCISCO

UMA TRADIÇÃO LOCAL DESDE 1884

— O que diz? — inquiriu Akilina em russo.

Explicou-lhe e depois retirou a chave do bolso, olhando para as iniciais gravadas no bronze, cmb.

— Acho que temos em nosso poder a chave de um cofre deste banco, o Credit & Mercantile. Existiu aqui na cidade durante o reinado de Nicolau II.

— E como pode ter a certeza de que este é o local certo?

— Não posso ter.

— E como descobrimos?

— Boa pergunta. Precisamos de uma história convincente. Não acredito que o banco nos deixe entrar por ali com uma chave tão antiga e nos abra o cofre. Irão certamente fazer perguntas. — A sua mente de advogado começou a funcionar de novo. — Mas eu acho que conheço uma maneira de contornar isso.

A viagem de táxi do aeroporto até à Baixa da cidade demorou trinta minutos. Ele escolhera um Hotel Marriott perto da zona financeira. O gigantesco edifício envidraçado mais parecia uma jukebox, mas estava bem localizado e possuía um excelente centro de negócios.

Depois de terem deixado as malas no quarto, Akilina acompanhou-o até uma sala com computadores. Lord digitou as palavras tribunal das sucessões de fulton county. Fora secretário do departamento de sucessões de uma firma durante o último ano da universidade de Direito e conhecia bem as cartas testamentárias, a ordem formal emitida por um tribunal das sucessões que autorizava um indivíduo a agir em nome de um familiar falecido. Escrevera várias dessas cartas, mas, para ter a certeza, acedeu à Internet. A rede possuía inúmeras moradas legais que ofereciam tudo, desde as últimas opiniões de apelação a documentos padrão que podiam ser utilizados para escrever os mais obscuros documentos. Havia uma página, responsabilidade da Universidade Emory em Atlanta, à qual ele recorria com alguma frequência. Lá encontrou a linguagem apropriada a partir da qual poderia escrever uma carta testamentária falsa. Imprimiu e mostrou a Akilina.

— Você é a filha de Zaneta Ludmilla. A sua mãe morreu recentemente e deixou-lhe a chave do seu cofre. O tribunal das sucessões de Fulton County, na Jórgia, nomeou-a sua representante pessoal e eu sou o seu advogado. Visto que quase não fala inglês, eu estou aqui para tratar de tudo por si. Como representante pessoal, deverá realizar um inventário de tudo o que a sua mãe possuía, incluindo o que estiver dentro do cofre.

Ela sorriu.

— Tal como na Rússia. Documentos falsos. A única maneira de se conseguir alguma coisa.

Ao contrário do que fizera prever o anúncio no aeroporto, o Credit & Mercantile Bank não se situava num edifício de granito em estilo neoclássico, mas no interior de uma das novas estruturas de aço bem no coração da zona financeira. Lord sabia os nomes dos edifícios que o rodeavam. O Centro Embarcadero, o Edifício Russ e a famosa Torre Transamerica. Também conhecia a história da zona. Os bancos e as companhias de seguros predominavam, razão por que a área era conhecida como a “Wall Street do Oeste”. Contudo, as companhias petrolíferas, os gigantes das comunicações, as empresas de engenharia e as firmas de pronto-a-vestir estavam também fortemente representados. O ouro proveniente da Califórnia havia impulsionado a criação da zona, mas a prata do Nevada assegurara-lhe um lugar no mundo financeiro da América.

O interior do Credit & Mercantile Bank era uma combinação de madeira laminada, vidro e terrazzo. Os cofres ficavam no terceiro piso, onde uma mulher de cabelo amarelo estava sentada atrás de uma secretária. Lord mostrou-lhe a chave, as cartas falsas e o seu cartão da Ordem dos Advogados da Jórgia. Sorriu e foi gentil na esperança de que ela não fizesse muitas perguntas.

Todavia, o olhar de estranheza na cara da mulher não era muito encorajador.

— Não temos nenhum cofre com esse número — informou ela num tom impessoal e frio.

Lord apontou para a chave que ela segurava.

— CMB. É o vosso banco, não é verdade?

— São as nossas iniciais.

Era tudo o que ela estava disposta a revelar. Decidiu recorrer a um tom mais firme.

— Minha senhora, Miss Ludmilla deseja resolver os assuntos da mãe o mais depressa possível. A sua morte foi bastante penosa para ela. Acreditamos que este cofre seja já bastante antigo. O banco não mantém os cofres durante longos períodos de tempo? De acordo com o vosso anúncio, esta instituição existe desde mil oitocentos e oitenta e quatro.

— Mister Lord, talvez se eu falar mais devagar o senhor me entenda. — Ele estava a gostar cada vez menos do tom que ela usava. — Este banco não possui cofres com o número setecentos e dezasseis. O nosso sistema de numeração é diferente. Usamos uma combinação de letras e números. Sempre usámos.

Ele virou-se para Akilina e falou em russo:

— Ela não nos vai dizer nada. Afirma que não possuem nenhum cofre com este número.

— O que está a dizer? — perguntou a mulher. Lord voltou-se para ela.

— Estou a dizer-lhe que terá de controlar a sua dor um pouco mais, porque aqui não encontrará nenhuma resposta.

Olhou de novo para Akilina.

— Mostre-lhe um olhar triste e algumas lágrimas, se conseguir.

— Sou acrobata, não actriz.

Pegou-lhe na mão com gentileza e olhou-a com uma expressão de compreensão. Depois pediu em russo:

— Tente. Pode ser que ajude.

Akilina fitou por momentos a mulher mostrando um olhar de preocupação.

— Olhe — começou a mulher, devolvendo-lhes a chave — , porque não tentam o Commerce & Merchants Bank? Fica ao fundo da rua, a cerca de três quarteirões daqui.

— Resultou? — inquiriu Akilina.

— O que está ela a dizer? — perguntou a mulher.

— Quer que eu lhe explique o que a senhora disse. — Voltou-se para Akilina e falou em russo: — Pelos vistos esta idiota tem coração. — Mudou de novo para inglês e perguntou à mulher: — Sabe em que ano esse banco abriu?

— São como nós, velhos como o pó. Acho que por volta de mil oitocentos e noventa.

O Commerce & Merchants Bank era um monólito largo com uma base em granito, exterior de mármore e fachada decorada com colunas coríntias. Contrastava fortemente com o Credit & Mercantile e com os restantes arranha-céus que o rodeavam e cujos painéis em vidro e estruturas geométricas em metal indicavam uma era mais recente.

Quando entrou, Lord ficou impressionado. O ambiente e a decoração pertenciam ainda a um banco de outros tempos. Colunas a imitar mármore, chão de pedra embutida e balcões rodeados por barras de ferro, tudo restos de uma era em que as barras de ferro decorativas faziam o mesmo trabalho executado agora por câmaras de vigilância.

Foram conduzidos a um gabinete que controlava o acesso ao cofre da caixa-forte situado na cave, tal como um guarda fardado os havia informado.

Dentro do gabinete encontrava-se um homem negro de meia-idade com o cabelo grisalho. Usava gravata e colete e, na frente da barriga, balançava a corrente de ouro de um relógio de bolso. Apresentou-se como Randall Maddox James e parecia orgulhoso pelo facto de o seu nome ser composto por três palavras.

Lord mostrou-lhe as cartas testamentárias e a chave. O funcionário não fez quaisquer comentários negativos nem perguntas para além das esperadas e conduziu-os pelo corredor principal até uma cave bem organizada. Os cofres da caixa-forte ocupavam várias salas espaçosas, cada uma contendo filas atrás de filas compostas por portas rectangulares em aço inoxidável. O funcionário levou-os até uma fila com cofres antigos, os exteriores já sem brilho e as fechaduras meros pontos negros.

— Estes são os mais antigos que o banco conserva — explicou James. — Já aqui estavam aquando do terramoto de mil novecentos e seis. Não sobram muitos destes dinossauros. Por vezes questionamo-nos se alguma vez os conteúdos serão reclamados.

— Não verificam após algum tempo? — perguntou Lord.

— A lei não o permite, desde que a renda seja paga todos os anos.

— Está a dizer que o aluguer deste cofre tem sido pago desde os anos vinte? — inquiriu ele, mostrando a chave.

— Isso mesmo. Caso contrário, teria sido declarado inactivo e a fechadura aberta. Por certo o vosso antepassado tratou de tudo a fim de que a renda fosse sempre paga.

— Claro. Não poderia ser mais ninguém — confirmou Lord apressadamente.

James apontou para o cofre marcado com o número 716 que ficava a meio da parede.

— Se precisar de alguma coisa, Mister Lord, estarei no meu gabinete.

Lord esperou até escutar a porta gradeada fechar-se, sinal de que estariam sozinhos. Depois, introduziu a chave na fechadura.

Abriu a porta e avistou outro pequeno contentor de metal. Puxou o rectângulo para fora, notando o peso do que estava lá dentro, e colocou o interior da caixa sobre uma mesa de madeira que se encontrava logo ali ao lado.

Dentro do cofre estavam três sacos de veludo vermelho, todos em melhores condições do que aquele que Kolia Maks guardara consigo no túmulo, e um jornal dobrado, de Berna, na Suíça, datado de 25 de Setembro de 1920. O papel, apesar de quebradiço, mantinha-se intacto. Passou a mão pelo saco maior e sentiu contornos óbvios. Abriu o saco e retirou lá de dentro duas barras de ouro, idênticas à que haviam deixado no aeroporto de Kiev, com a inscrição NR e uma águia com duas cabeças gravada no topo. Depois alcançou o outro saco, mais cheio e quase redondo, e desapertou os atilhos de couro.

O que retirou lá de dentro fê-lo estremecer.

O ovo era em ouro esmaltado rosa translúcido sobre um campo ornamentado com guilochês e suportado por quatro pernas verdes recurvas que, quando olhadas em pormenor, eram na verdade folhas sobrepostas decoradas com o que pareciam ser linhas de diamantes rosados. No topo estava uma minúscula coroa imperial com dois arcos, decorada com mais diamantes rosados e um extraordinário rubi. O ovo era dividido por quatro linhas de diamantes e lírios-do-vale em pérolas e diamantes e decorado com mais folhas esmaltadas em verde translúcido sobre ouro. Media cerca de quinze centímetros desde as pernas até à coroa.

Lord já uma vez vira aquele ovo.

— É um ovo de Fabergé — disse ele. — É um ovo de Páscoa imperial.

— Eu sei — afirmou Akilina — Já os vi no Museu da Armaria do Kremlin

— Este era conhecido como o ovo “Lírios-do-Vale”. Foi oferecido por Nicolau II à sua mãe, a czarina viúva Maria Feodorovna, em mil oitocentos e noventa e oito. Só há um pequeno problema; este ovo pertencia a uma colecção particular. Malcolm Forbes, um milionário americano, comprou doze dos cinquenta e seis ovos que devem ter existido. A sua colecção era maior que a do Museu do Kremlin. Eu vi este mesmo ovo exposto em Nova Iorque.

O metal rangeu avisando que a porta de ferro no outro extremo da sala estava a ser aberta. Lord olhou para trás e viu que James avançava na sua direcção. Rapidamente, voltou a colocar o ovo dentro do saco e puxou os atilhos de couro. As barras de ouro continuavam guardadas no outro saco.

— Está tudo bem? — perguntou o funcionário à medida que se aproximava.

— Tudo em ordem — respondeu ele. — Não nos arranjava uma caixa de cartão ou um saco onde pudéssemos transportar estas coisas?

O homem lançou um olhar rápido para a mesa.

— Com certeza, Mister Lord. O banco está à sua disposição.

Lord queria examinar o resto do conteúdo do cofre, mas pensou que seria mais sensato fazê-lo fora do banco. Randall Maddox James era demasiado curioso para a sua actual personalidade paranóica. Todavia, era uma paranóia compreensível, repetia para si próprio, tendo em conta os acontecimentos dos últimos dias.

Transportou os seus novos pertences num saco de papel com pegas de corda do Commerce & Merchants Bank e conduziu Akilina para o exterior do banco onde apanharam um táxi para a biblioteca pública. Lord já uma vez estivera naquele edifício sumptuoso dos finais do século XIX que havia sobrevivido aos terramotos de 1906 e 1989. Ao lado, erguia-se agora uma estrutura mais moderna para onde uma funcionária no balcão de informações os enviou. Antes de voltar a concentrar toda a sua atenção nos objectos trazidos do cofre, Lord foi buscar alguns livros sobre Fabergé, incluindo um que catalogava todos os ovos de Páscoa imperiais conhecidos.

Numa sala de estudo com a porta fechada, espalhou o conteúdo do cofre sobre uma mesa. Depois abriu um dos livros e descobriu que haviam sido produzidos cinquenta e seis ovos, o primeiro em 1885 quando o czar Alexandre III pediu a Carl Fabergé que criasse um presente de Páscoa para a sua mulher, a czarina Maria. Esse dia santo era a mais importante festa do calendário da Igreja Ortodoxa Russa, tradicionalmente celebrado com a troca de ovos e três beijos. A jóia foi de tal modo bem recebida que o czar passou a encomendar uma em cada Páscoa. Nicolau II, filho de Alexandre, que subiu ao trono em 1894, continuou a tradição, mas passou a encomendar dois ovos: um para a sua mulher, Alexandra, e outro para a mãe.

Cada uma daquelas criações únicas, todas em ouro esmaltado e com pedras preciosas, continha uma surpresa no interior: a carruagem da coroação, uma réplica do iate real, um comboio, animais ou algum intrincado mecanismo em miniatura. Quarenta e sete dos originais cinquenta e seis ovos haviam sido catalogados e conhecia-se a sua localização. Os restante nove nunca haviam sido descobertos após a revolução bolchevique.

Lord encontrou uma foto de página inteira do chamado ovo “Lírios-do-Vale”. A legenda dizia:

O artesão Michael Perchin da oficina de Fabergé criou esta maravilha. A surpresa inclui três retratos em miniatura do czar e das grã-duquesas Olga e Tatiana, as filhas mais velhas do casal imperial. Este ovo pertence a um coleccionador particular de Nova Iorque.

O livro mostrava uma imagem a cores do ovo quase no seu tamanho natural. Um trio de retratos erguia-se no topo, com a coroa de diamantes por cima. Cada uma das fotografias estava circundada por uma moldura em ouro e diamantes rosados. A foto central era de Nicolau II, em uniforme militar, a sua face barbuda, os ombros e o peito claramente visíveis. A sua esquerda aparecia Olga, a primogénita, com três anos, a sua cara angélica emoldurada pelo cabelo louro e encaracolado. Do lado direito estava Tatiana, que ainda não deveria ter um ano de idade. Nas costas de cada foto aparecia gravado: 5 de Abril de 1898.

Pegou no ovo que estava dentro do saco e colocou-o ao lado da foto do livro.

— Estes dois são idênticos.

— Mas o nosso não tem fotografias — acrescentou Akilina. Lord olhou de novo para o livro e leu um excerto do texto,

ficando a saber que existia um mecanismo no interior do ovo que fazia com que as fotos se levantassem. Era um botão de pérola num dos lados que, quando rodado, activava o sistema.

Observou o ovo com atenção e descobriu o botão de pérola. Depois, colocou-o sobre a mesa e, segurando-lhe as pernas, rodou a pequena pérola. Devagar, começou a aparecer uma foto de Nicolau II, idêntica à da imagem do ovo no livro. Logo de seguida, surgiram mais duas pequenas fotos ovais, a do lado esquerdo mostrando uma face masculina e a da direita uma cara feminina.

Como o botão já não girava mais, parou.

Olhou para as fotografias e reconheceu ambas as caras. Uma era a de Alexei e a outra de Anastasia. Alcançou um dos livros e passou as folhas até encontrar uma foto das crianças Romanov em 1916, antes do seu cativeiro. Estava certo quanto à sua identidade, porém as caras colocadas na moldura do ovo eram mais velhas, ambas vestidas com roupas claramente ocidentais. O czarévitche no que aparentava ser uma camisa de flanela e Anastasia com uma blusa de cores claras. Por trás de cada moldura de ouro e diamantes estava a inscrição: 5 de Abril de 1920.

— Estão mais velhos! — exclamou. — Sobreviveram.

Pegou no jornal e desdobrou as folhas amareladas. Sabia ler o suíço alemão com alguma facilidade e viu uma história na última dobra, pelos vistos a razão pela qual o jornal tinha sido incluído no cofre. No cabeçalho estava escrito: Morreu o joalheiro Fabergé. O texto referia-se à morte de Carl Fabergé no dia anterior, no Hotel Bellevue em Lausana. Havia chegado recentemente à Suíça, vindo da Alemanha, para onde fugira após a revolta bolchevique em Outubro de 1917. A história continuava assinalando que a Casa Fabergé, que Carl Fabergé dirigira durante quarenta e sete anos, tinha terminado com a queda da família Romanov. Os soviéticos haviam confiscado tudo e fechado a oficina, embora se tenha feito uma tentativa vã de manter a empresa a funcionar sob o nome politicamente correcto de “Comité dos Empregados da Empresa Fabergé”. O repórter salientava que a falta de patrocínio imperial não era a única razão que levara ao declínio do negócio. A Primeira Guerra Mundial havia cortado os recursos da maioria da clientela rica de Fabergé.

O artigo terminava comentando que a camada mais privilegiada da sociedade russa parecia ter desaparecido para sempre. A fotografia que acompanhava o artigo mostrava Fabergé como um homem falido.

— Este jornal está aqui como prova de autenticidade — explicou ele.

Virou o ovo e descobriu a marca do joalheiro que o havia talhado: HW. Folheou um dos volumes e descobriu uma secção que falava dos vários artesãos que tinham trabalhado para Fabergé. Lord sabia que o próprio Fabergé na realidade não desenhava e não esculpia nada. Ele era o génio que presidia a um conjunto de artesãos que, no seu momento alto, haviam produzido grande parte da joalharia mais bela e delicada alguma vez feita. Todavia, eram os artesãos que na realidade concebiam e montavam tudo. O livro salientava que Michael Perchin, o artesão-chefe que criara o ovo “Lírios-do-Vale”, morrera em 1903, mas que Henrik Wigstrõm tomara conta da parte administrativa até ao encerramento da Casa Fabergé, morrendo em 1923, um ano antes de Fabergé. O livro exibia também uma imagem com a marca de Wigstrõm — HW — e Lord comparou a fotografia com as iniciais gravadas no fundo do ovo.

Eram idênticas.

Reparou que Akilina tinha nas mãos o conteúdo do terceiro saco de veludo, outra folha de ouro com um texto gravado em cirílico. Aproximou-se e traduziu, com alguma dificuldade:

Para o Corvo e para a Águia: este país provou ser o paraíso que apregoava. O sangue da família imperial está a salvo, esperando a vossa chegada. O czar reina, mas não governa. Devereis remediar isso. Os verdadeiros herdeiros permanecerão para sempre em silêncio até que vós acordeis o seu espírito. Aquilo que eu desejo para os déspotas que destruíram a nossa nação, Radichtchev disse-o há mais de cem anos: “Não, vós não sereis esquecidos. Amaldiçoados para todo o sempre. Sangue no vosso berço, marchas e o rugido da batalha. Ah, ensopados em sangue tombais para o vosso túmulo.” Tratai para que assim seja.

F.I.

 

— Só isto? — admirou-se ele. — Não acrescenta nenhuma informação. E o Sino do Inferno? A outra folha de ouro dizia que apenas o Sino do Inferno poderia indicar-nos o caminho para o próximo portal. Não há aqui nenhuma referência a isso. — Pegou no ovo e agitou-o. Era sólido. Não provinha qualquer barulho do seu interior. Observou com atenção o exterior e não notou linhas ou aberturas. — É óbvio que a esta altura deveríamos saber mais do que sabemos. Pashenko referiu que algumas partes do segredo se haviam perdido com o tempo. Talvez exista outra etapa que não apanhámos, uma que nos explicaria o que é o Sino do Inferno. — Pegou no ovo e examinou as três pequenas fotografias. — Alexei e Anastasia sobreviveram. Estiveram neste país. Já terão ambos morrido, mas talvez os seus descendentes não. Estamos tão perto de os encontrar, porém tudo o que temos é algum ouro e um ovo que vale uma fortuna. — Abanou a cabeça. — Iussupov deu-se a grandes trabalhos. Até envolveu Fabergé ou, pelo menos, o seu artesão, para criar isto.

— O que fazemos agora? — perguntou Akilina.

Ele recostou-se na cadeira e reflectiu sobre a pergunta. Gostaria de lhe dar alguma esperança, uma resposta, mas acabou por dizer a verdade.

— Não faço a mínima ideia.

 

MOSCOVO

Terça-feira, 19 de Outubro

HAYES estugou o passo em direcção ao telefone que tocava ao lado da sua cama. Acabara de tomar banho e de fazer a barba, preparando-se para mais um dia atarefado com todos os procedimentos da comissão, um dia crucial em que se chegaria a uma decisão sobre os três candidatos a considerar na votação final. Não restavam dúvidas de que Bakla-nov seria incluído. A sua selecção estava agora assegurada, já que a Chancelaria Secreta confirmara na noite anterior que os dezassete membros da comissão estavam comprados. Até o indivíduo provocador que atormentara Baklanov durante a sua última sessão estabelecera o seu preço.

Atendeu o telefone ao quarto toque e reconheceu de imediato a voz de Kruchtchev.

— Recebemos há coisa de meia hora uma chamada do Consulado russo em São Francisco, na Califórnia. O seu Mister Lord está lá com a menina Petrovna.

Hayes ficou surpreendido.

— Que está ele a fazer lá?

— Apareceu num banco local com uma chave de um cofre. Ao que parece terá sido isso que ele tirou da sepultura de Kolia Maks. O Commerce & Merchants Bank é uma das várias instituições por todo o mundo que os soviéticos controlaram ao longo dos anos. O KGB vivia obcecado com a ideia de encontrar a fortuna czarista.

Estavam convencidos de que havia barras de ouro em cofres bancários, escondidas antes de a revolução eclodir. Na verdade, não estavam muito longe da verdade, pois foram encontrados milhões em contas bancárias depois de mil novecentos e dezassete.

— Está a dizer-me que a sua gente ainda controla bancos na esperança de encontrar dinheiro que tem quase cem anos? Não admira que o vosso governo esteja na bancarrota. Precisam mesmo de olhar em frente e avançar.

— Acha mesmo? Repare no que está a acontecer. Talvez não sejamos tão disparatados como pensa. Contudo, não deixa de ter razão em alguns pontos. Depois da queda do comunismo, empreendimentos como este foram considerados demasiado dispendiosos. Mas eu fui previdente o suficiente e voltei a cultivar contactos passados quando a nossa associação secreta se formou. O nosso consulado em São Francisco tem mantido durante décadas um relacionamento discreto com dois bancos locais. Foram ambos depositários usados antes da revolução por agentes czaristas. Felizmente, uma das nossas fontes comunicou o acesso a um cofre que suspeitávamos ter uma ligação imperial.

— Que aconteceu?

— O Lord e a Petrovna apareceram por lá com uma história qualquer sobre serem os representantes dos bens de uma pessoa falecida. O funcionário não estranhou nada até eles apresentarem uma chave de um dos cofres mais antigos que o banco ainda mantém. É um dos cofres que temos vigiado. O Lord abandonou o banco com três sacos de veludo, cujo conteúdo desconhecemos.

— E sabemos onde estão agora?

— Mister Lord assinou o registo para ter acesso aos cofres e deixou o endereço de um hotel da zona. Já confirmámos que tanto ele como a Akilina Petrovna se encontram hospedados lá. Aparentemente, ele sente-se seguro por estar de volta aos Estados Unidos.

Pensou durante uns segundos e depois olhou para o relógio. Pouco depois das sete da manhã de terça-feira em Moscovo significava que eram ainda oito da noite de segunda-feira na Califórnia. Dali a doze horas, Lord iniciaria um outro dia.

— Tenho uma ideia — disse a Kruchtchev.

— Era o que eu esperava.

 

Lord e Akilina saíram do elevador no vestíbulo do Marriott, deixando o conteúdo dos sacos de veludo no cofre do piso do quarto. A Biblioteca Pública de São Francisco abria às nove da manhã e ele queria chegar bem cedo para fazer mais pesquisas e tentar descobrir o que lhes estava a escapar ou, pelo menos, estabelecer um caminho através do qual pudessem seguir em busca de respostas.

Essa busca, que a princípio lhe parecera apenas uma forma de sair de Moscovo, acabara por revelar-se interessante. Inicialmente, planeara ver o que havia em Starodug e depois apanhar o primeiro avião de regresso a Jórgia. Contudo, depois do que acontecera aos Maks e do que descobrira em Starodug e no banco, apercebeu-se de que havia muito mais do que a princípio supusera. Estava agora determinado a levar o assunto até ao fim. Quais seriam as consequências, não fazia a mínima ideia. Porém, a demanda tornava-se ainda mais interessante devido ao que estava a acontecer entre ele e Akilina.

Reservara apenas um quarto no Marriott. Não dormiram juntos, mas as conversas da noite anterior revelaram uma intimidade que ele há muito tempo não sentia. Viram um filme, uma comédia romântica, e ele traduzira todos os diálogos. Com os comentários dele, ela gostara do filme e ele apreciara partilhá-lo com ela.

Existira apenas um grande romance sério na vida dele: uma colega do curso de Direito da Universidade da Virgínia, que, mais tarde descobriu, estava mais interessada em promover a sua carreira do que em desenvolver um relacionamento. Deixara-o abruptamente após o final do curso, aceitando a proposta de uma firma de advogados da cidade de Washington, onde, quem sabe, estaria ainda a subir na hierarquia no sentido de se tornar sócia de plenos direitos. Ele mudara-se para a Jórgia e fora contratado pela Pridgen & Woodworth. Namorara com algumas raparigas, mas nada a sério e nenhuma se revelara tão interessante como Akilina Petrovna. Nunca acreditara no destino — o conceito sempre lhe parecera mais apropriado para os crentes que veneravam o seu pai — , mas o que estava a acontecer não podia ser negado, tanto a busca que haviam aceite como a atracção que partilhavam.

— Mister Lord.

O som do seu nome, pronunciado em voz alta da outra ponta do átrio do hotel, apanhou-o de surpresa. Ninguém em São Francisco deveria saber quem ele era.

Tanto ele como Akilina estacaram e voltaram-se.

Um homem de aspecto jovial, mas que mais se assemelhava a um gnomo, de cabelo preto e bigode, aproximou-se. Vestia um casaco de lapelas largas com um corte europeu. Deslocava-se com um andar ritmado, auxiliado por uma bengala, e não acelerou o passo ao aproximar-se.

— O meu nome é Filip Vitenko, do Consulado russo — disse em inglês.

Lord estremeceu.

— Como sabia onde encontrar-me?

— Não poderíamos sentar-nos algures? Tenho uma coisa para discutir com vocês.

Lord não tencionava aventurar-se muito longe com aquele homem, por isso apontou para um conjunto de sofás ali perto. Ao sentarem-se, Vitenko observou de imediato:

— Estou ao corrente do incidente na Praça Vermelha na sexta-feira passada...

— Não se importava de falar em russo para que Miss Petrovna o possa entender? O inglês dela não é nem de longe tão bom como o seu.

— Com certeza — respondeu Vitenko em russo, lançando um sorriso a Akilina. — Como estava a dizer, estou ao corrente do que aconteceu na Praça Vermelha na sexta-feira passada.

Um agente da polícia foi morto. A polícia de Moscovo emitiu um boletim para a vossa detenção. Afirma que são procurados para interrogatório. — Lord mostrava-se agora preocupado. — Também sei que contactou um tal inspector Felix Orleg. Sei que não está envolvido no incidente da Praça Vermelha, Mister Lord. Aliás, quem está sob suspeita é o inspector Orleg. Fui instruído para estabelecer contacto com vocês e assegurar a vossa cooperação.

Lord não estava convencido.

— Ainda não referiu como nos localizou.

— O nosso consulado tem mantido, ao longo de vários anos, duas instituições financeiras desta cidade sob vigilância. Ambas existiam já na época czarista e eram usadas por agentes imperiais. Diz-se até que Nicolau II fez sair ouro do país antes da revolução. Quando vocês apareceram ontem, em ambas as instituições, e requereram acesso a um dos cofres que há muito suspeitávamos ter uma ligação imperial, fomos notificados.

— Isso parece-me ilegal — comentou Lord. — Não estamos na Rússia. Neste país existe uma coisa chamada sigilo bancário.

O enviado nem pestanejou.

— Conheço as vossas leis. Presumo que também cobrirão o uso de documentos judiciais falsos para aceder a um cofre bancário na posse de terceiros.

Lord percebeu o que ele queria dizer.

— O que pretende?

— O inspector Orleg tem estado sob investigação há algum tempo. Está relacionado com uma espécie de organização cujo objectivo é influenciar o resultado da Comissão do Czar. Artemi Beli, o jovem advogado que foi abatido a tiro, morreu porque andava a fazer perguntas sobre Orleg e a sua organização. Você, infelizmente, estava presente. As pessoas que assassinaram Beli pensaram que talvez ele lhe tivesse confidenciado alguma coisa, o que explica o interesse deles em si. Também estou informado das perseguições em Moscovo e na Praça Vermelha...

— E também num comboio oriundo de Sampetersburgo.

— Isso desconhecia.

— Que tipo de organização está a tentar influenciar a comissão?

— Isso é o que esperamos que nos diga. O meu governo apenas tem conhecimento de que certas pessoas estão a trabalhar em conjunto e que grandes somas de dinheiro trocaram de mãos. O Orleg está relacionado com elas. O objectivo parece ser assegurar que Stefan Baklanov seja escolhido como czar.

As palavras do enviado faziam sentido, mas Lord queria saber mais.

— Suspeitam que algum empresário americano esteja envolvido? A minha firma representa um grande número deles.

— Suspeitamos que sim. Na verdade, parece ser essa a origem do dinheiro. Esperávamos que também nos pudesse ajudar nesse aspecto.

— Falaram com o meu chefe, Taylor Hayes? Vitenko abanou a cabeça.

— O meu governo tem tentado limitar as investigações o mais possível para que não haja fuga de informação. Em breve decorrerão detenções, mas foi-me pedido que o contactasse no sentido de sondar se estaria disposto a colaborar connosco. Além disso, um representante de Moscovo gostaria de falar consigo, se possível.

Lord estava agora extremamente preocupado. Não gostava nem um pouco da ideia de que alguém de Moscovo pudesse conhecer o seu paradeiro.

A sua apreensão deve ter-se reflectido na sua cara. Vitenko afirmou:

— Não tem nada a recear, Mister Lord. A vossa conversa decorrerá pelo telefone. Garanto-lhe que estou aqui em representação de um governo que está interessado em tudo o que aconteceu nos últimos dias. Precisamos da sua ajuda. A comissão organizará uma votação final daqui a dois dias. Se o processo sofreu algum tipo de corrupção, é imperativo que o saibamos. — Lord não se pronunciou. — Não podemos dar início a uma nova Rússia com vestígios da antiga. Se membros da comissão foram subornados, talvez o próprio Stefan Baklanov tenha sido comprometido. Não podemos permiti-lo.

Olhou de relance para Akilina, que indiciou a sua preocupação com um olhar fixo e prolongado.

Já que o enviado avançava pormenores sem restrições, Lord aproveitou para sondá-lo mais um pouco.

— Por que razão o seu governo continua a preocupar-se com a riqueza imperial? Parece um pouco ridículo. Já passou tanto tempo.

Vitenko recostou-se no sofá.

— Nicolau II escondeu milhões em ouro imperial antes de mil novecentos e dezassete. Os soviéticos acharam que a sua obrigação era encontrar cada cêntimo dessa riqueza. São Francisco tornou-se o ponto central de todo o apoio aliado ao Exército Branco. Muito do ouro czarista foi aqui depositado para os bancos de Londres e Nova Iorque, que financiavam a compra de armamento e munições. Emigrantes russos seguiram esse ouro até São Francisco. Muitos eram apenas refugiados, mas outros vieram com um objectivo definido. — O enviado endireitou-se no sofá, costas muito rectas. — O cônsul-geral russo aqui destacado na altura declarou-se antibolchevique e esteve envolvido de forma directa na intervenção americana na guerra civil russa. Esse homem beneficiou pessoalmente dos inúmeros acordos ouro por armas que decorriam nos bancos locais. Os soviéticos ficaram convencidos de que grandes quantidades do que encaravam como o seu ouro estavam ainda aqui. E depois há a questão do coronel Nicholas F. Romanov.

O volume e o tom da voz do enviado indiciaram algo de importante. Vitenko levou uma das mãos ao bolso do casaco e retirou uma cópia de um recorte de um artigo do San Francisco Examiner, datado de 16 de Outubro de 1919. Relatava a história da chegada de um coronel russo com o mesmo apelido da deposta família imperial. Em princípio, estava a caminho de Washington para assegurar a ajuda americana para os esforços do Exército Branco.

— A chegada do coronel causou grande sensação. O consulado vigiou as suas actividades. Na verdade, ainda temos os ficheiros do caso. Se este homem era um Romanov ou não ninguém sabe. O mais provável era que não fosse. O nome devia ser apenas uma forma de despertar o interesse das pessoas. Conseguiu ludibriar a vigilância da qual era alvo e não temos a mínima ideia do que fez enquanto cá esteve ou para onde desapareceu. Sabemos que várias contas foram abertas nessa altura, uma delas no Commerce & Merchants Bank, bem como quatro cofres, sendo que um deles era o número setecentos e dezasseis, o mesmo a que teve acesso ontem.

Começou então a perceber o objectivo do enviado. Demasiadas coincidências para que os acontecimentos fossem fortuitos.

— Não quer dizer-me o que estava no cofre, Mister Lord? Não confiava nele ao ponto de partilhar essa informação.

— Para já, não.

— Talvez possa dizê-lo ao representante de Moscovo? Também não tinha a certeza disso, portanto não respondeu.

Vitenko pareceu pressentir uma vez mais a sua hesitação

— Mister Lord, fui sincero consigo. Não há motivos para duvidar das minhas intenções. Por certo que compreende o interesse do meu governo em tudo o que aconteceu.

— E o senhor entenderá porque estou a ser cauteloso. Nos últimos dias, a única coisa que tenho feito é tentar salvar a minha vida. E a propósito, não chegou a dizer como conseguiu localizar-nos.

— Colocou a morada deste hotel nos impressos do banco. Boa resposta, pensou.

Vitenko levou a mão ao bolso e extraiu de lá um cartão-de-visita.

— Eu entendo a sua relutância, Mister Lord. Aqui tem o meu contacto. Qualquer motorista de táxi o poderá levar ao consulado russo. O representante de Moscovo irá telefonar às duas e meia da tarde de hoje, hora local. Se quiser falar com ele, esteja por favor no meu gabinete a essa hora. Se não, não o incomodaremos mais.

Lord aceitou o cartão e olhou fixamente para o rosto do enviado, sem saber o que havia de fazer.

Akilina ficou a observar Lord que andava de um lado para o outro do quarto. Haviam passado a manhã na biblioteca pública a ler jornais antigos. Tinham encontrado uns quantos artigos sobre a visita do coronel Nicholas F. Romanov a São Francisco no Outono de 1919. Não havia grande coisa de interesse. Eram mais mexericos sobre relações sociais que outra coisa, e ela percebia que Lord começava a ficar frustrado. Tinham também confirmado que o “Ovo dos Lírios-do-Vale” continuava a fazer parte de uma colecção privada, o que não explicava em nada como poderiam eles ter em sua posse uma réplica, em tudo igual ao original à excepção das fotografias.

No final de um almoço ligeiro num dos cafés da rua, regressaram ao hotel. Lord não comentara ainda nada sobre Filip Vitenko e a sua proposta de comparecer no consulado russo nessa tarde. Ela observara o enviado com atenção, enquanto este falava com Lord, tentando avaliar por si mesma a sinceridade dele, mas era difícil formar uma opinião.

Olhou para Lord. Era um homem bonito. O facto de ser “de cor”, como fora ensinada a pensar, não tinha qualquer significado para si. Parecia-lhe uma pessoa autêntica, sincera, empurrada para algo extraordinário. Até agora haviam passado cinco noites juntos e nem uma vez ele sugerira qualquer coisa de mais íntimo. Era algo invulgar para ela, visto que os homens do circo, e os poucos com quem se dava fora do trabalho, pareciam não pensar noutra coisa senão em sexo.

— Akilina. — Ela olhou para Lord. — Onde andas tu? — inquiriu ele.

Não queria dizer-lhe o que estava realmente a pensar, por isso apenas comentou:

— O Filip Vitenko pareceu sincero.

— Também acho. Mas isso não quer dizer nada.

Lord sentou-se na beira da cama. Segurava nas mãos o ovo de Fabergé.

— Deve estar a escapar-nos alguma coisa. Uma parte do segredo perdeu-se. Estamos num beco sem saída. >

Ela sabia o que ele queria dizer com aquilo. :;,

— Vais ao consulado?

Ele olhou para ela.

— Parece-me que não tenho escolha. Se alguém está a tentar manipular a comissão, tenho de ajudar no que puder.

— Mas tu não sabes de nada.

— Estou curioso em ver o que o representante de Moscovo tem para me dizer. A informação pode ser útil para o Hayes. Não te esqueças de que o meu objectivo inicial era assegurar a eleição de Stefan Baklanov. Tenho de executar a minha tarefa.

— Então, vamos os dois.

— Não. Posso estar a correr um risco, mas não vou ser insensato. Quero que pegues em tudo e vás para outro hotel. Sai pela garagem. Não uses a entrada da frente ou o vestíbulo. O hotel pode estar a ser vigiado, nunca se sabe. Podes ser seguida, por isso faz vários desvios antes de chegares ao novo hotel. Usa o metropolitano, um autocarro, talvez até um táxi. Demora umas duas horas às voltas. Às duas e meia vou ao consulado. Telefona às três e meia. Usa uma cabine pública. Se eu não atender ou te disserem que não estou disponível ou que já saí do consulado, esconde-te. Não dês nas vistas.

— Não gosto disto.

Lord levantou-se e caminhou até à mesa junto à parede, onde se encontrava o saco de veludo. Fez deslizar o ovo para o seu interior.

— Eu também não, Akilina. Mas não temos alternativa. Se existem herdeiros directos dos Romanov ainda vivos, o Governo russo precisa de saber disso. Não podemos orientar as nossas vidas com base no que Rasputine disse há décadas atrás.

— Mas não fazemos ideia de onde procurar.

— Alguma publicidade poderá trazer algum descendente de Alexei e Anastasia à luz do dia. Exames de ADN diferenciarão facilmente os verdadeiros das fraudes.

— Fomos instruídos para avançar sozinhos.

— Somos a águia e o corvo, não é? Portanto, podemos estabelecer as regras.

— Não me parece que possamos. Acho que temos de encontrar os herdeiros como o starets profetizou.

Lord encostou-se à mesa.

— O povo russo precisa da verdade. Porque será que a franqueza e a honestidade são conceitos tão estranhos para vocês? Eu acho que devíamos deixar o teu governo e o Departamento de Estado dos Estados Unidos tratar disso. Vou contar tudo ao tipo de Moscovo.

Akilina não estava certa quanto ao rumo que Lord se encontrava prestes a tomar. Preferia o anonimato, a protecção que uma cidade de centenas de milhares de pessoas podia conferir. Porém, talvez ele tivesse razão. Talvez as autoridades competentes devessem ser alertadas e algo pudesse ser feito antes que a Comissão do Czar escolhesse Stefan Baklanov, ou qualquer outra pessoa, como o próximo “czar de toda a Rússia”.

— A minha função era encontrar qualquer coisa que pudesse afectar as pretensões de Baklanov. Parece-me que isto se insere na descrição das minhas funções. A pessoa para quem trabalho precisa de saber o que nós sabemos. Há aqui muita coisa em jogo, Akilina.

— Talvez a tua carreira?

Lord permaneceu em silêncio por um momento.

— Talvez.

Ela queria fazer mais perguntas, mas decidiu não fazer. Era óbvio que ele já estava decidido e não parecia que fosse mudar de opinião. Só lhe restava acreditar que ele sabia o que estava a fazer.

— Como me encontrarás depois de saíres do consulado? — perguntou Akilina.

Ele pegou numa das brochuras que se encontravam num pequeno monte. Era um panfleto colorido com imagens de uma zebra e de um tigre na frente.

— O jardim zoológico está aberto até às sete da tarde. Encontro-me lá contigo. Ao pé dos leões. O teu inglês é bom o suficiente para chegares até lá. Se eu não aparecer até às seis, vai à polícia e conta-lhes tudo. Pede para telefonarem a um representante do Departamento de Estado. O homem para quem trabalho chama-se Taylor Hayes e está em Moscovo com a comissão. Os representantes americanos que entrem em contacto com ele. Explica-lhes tudo. Quando telefonares para o consulado às três e meia, a menos que eu atenda pessoalmente e fale contigo, não acredites numa só palavra do que te disserem. Supõe o pior e faz como te disse. Está bem?

Akilina não gostava nem um pouco do que estava a ouvir e disse-lho.

— Eu compreendo — argumentou Lord. — O Vitenko pareceu honesto e estamos em São Francisco, não em Moscovo. Mas temos de ser realistas. Se isto for mais do que estamos a pensar, duvido que nos voltemos a ver.

 

14.30

O CONSULADO russo situava-se numa moderna rua a oeste da zona

financeira, perto de Chinatown e da opulência de Nob Hill. O edifício de arenito vermelho-acastanhado de dois andares com um torreão no cimo ficava na esquina de um movimentado cruzamento. O andar superior era adornado por varandas decoradas com balaustradas em ferro ricamente trabalhado e o telhado terminava num cume em ferro fundido.

Um táxi deixou Lord à porta do consulado. O nevoeiro frio que se espalhava vindo do mar provocou-lhe um arrepio na espinha. Pagou ao condutor e depois seguiu um caminho de tijolo até um terraço de entrada em granito. Dois leões de mármore guardavam a porta. Numa placa de bronze presa na parede podia ler-se: consulado da federação russa.

Entrou para um salão decorado com painéis de madeira dourada, estatuária rica e chão de mosaicos. Um guarda de uniforme conduziu-o até ao segundo andar, onde Filip Vitenko o esperava.

Vitenko cumprimentou-o com um aperto de mão e indicou-lhe um dos cadeirões.

— Estou muito contente por ter resolvido cooperar connosco, Mister Lord. O meu governo ficará satisfeito.

— Devo dizer-lhe, Mister Vitenko, que não me sinto muito à vontade aqui. Contudo, pensei que deveria ajudar no que pudesse.

— Eu mencionei a sua relutância aos meus superiores em Moscovo, mas eles garantiram-me que nunca o pressionariam a vir aqui dar o seu testemunho. Compreendem o quanto os acontecimentos recentes o devem ter traumatizado e lamentam o sucedido durante a sua estada na Rússia.

Vitenko esticou a mão para um maço de cigarros, seguramente o porquê daquele odor ácido que impregnava a sala. Ofereceu um a Lord, mas este recusou.

— Eu também gostava de não apreciar tanto este hábito — confessou Vitenko, segurando a parte do filtro e acendendo a outra ponta. Um fumo espesso libertou-se em caracol.

— Com quem irei falar? — perguntou Lord.

— Com um representante do governo no Ministério da Justiça. Ele conhecia o Artemi Beli. Estão a ser preparados mandados de captura em nome de Felix Orleg e dos outros. É este homem que está a tratar de tudo. Todavia, se nos fornecesse mais informações seria mais fácil acelerar o processo contra estes criminosos.

— A Comissão do Czar foi avisada?

— O presidente está a par do que se passa, mas não será feito nenhum anúncio público, como poderá entender. Isso não traria qualquer vantagem e poderia colocar em risco o processo de investigação. A nossa situação política é deveras frágil e as deliberações da comissão atingiram já uma fase crítica.

Começava a relaxar. A situação não aparentava ser ameaçadora e nada nas palavras de Vitenko ou nas suas acções lhe haviam causado qualquer tipo de alarme.

O telefone sobre a secretária tocou, estridente. Vitenko atendeu em russo e pediu que a chamada fosse passada. Pousou o auscultador e pressionou um botão no aparelho de telefone. Ouviu-se uma voz.

— Mister Lord, o meu nome é Maxim Zubarev. Trabalho para o Ministério da Justiça em Moscovo. Espero que tenha tido um bom dia.

Interrogou-se como saberia o russo que ele entendia a língua, mas partiu do princípio de que Vitenko lhe havia dado essa informação.

— Até agora, sim, Mister Zubarev. Trabalha até tarde. Uma risada ecoou vinda do outro lado da linha.

— A noite já vai longa aqui em Moscovo, mas este é um assunto importante. Quando o senhor apareceu em São Francisco, todos suspirámos de alívio. Temíamos que os homens que o perseguiam o tivessem conseguido apanhar.

— Pelo que sei, eles andavam mesmo era atrás do Artemi.

— O Artemi estava a trabalhar para mim, fazendo algumas investigações. Sinto-me um pouco responsável pelo que lhe aconteceu, mas ele queria ajudar. Não me apercebi do poder dos homens envolvidos nesta traição e sinto a consciência pesada por este falhanço.

Lord decidiu tentar obter o máximo de informações possíveis.

— A comissão foi comprometida?

— A esta altura não temos ainda a certeza. Porém, suspeitamos que assim seja. Esperamos que a corrupção ainda não se tenha espalhado muito e possa ser travada a tempo. A ideia original era de que a unanimidade iria evitar este tipo de abuso, mas temo que esse requisito apenas tenha aumentado a extensão de qualquer suborno que possa ter acontecido.

— Trabalho para Taylor Hayes, um advogado americano com vastas ligações a investidores estrangeiros na Rússia.

— Já ouvi falar de Mister Hayes.

— Poderia contactá-lo e informá-lo sobre o meu paradeiro?

— Com certeza. Mas poderia dizer-me a razão da sua ida a São Francisco e porque pediu acesso a um cofre do Commerce & Merchants Bank?

Encostou-se na cadeira. . — Se lhe contar, não sei se irá acreditar.

— Deixe-me ser eu a julgar a sua sanidade mental.

— Ando à procura de Alexei e Anastasia Romanov.

Do outro lado da linha houve uma longa pausa. Vitenko fitou-o com um olhar surpreso.

— Pode explicar melhor isso, Mister Lord? — pediu a voz ao telefone.

— Parece que duas crianças Romanov conseguiram escapar ao massacre de Iekaterimburgo e foram trazidas para este país por Felix Iussupov. Ele estava a cumprir uma profecia ditada por Rasputine em mil novecentos e dezasseis. Encontrei provas escritas de tudo isso nos arquivos de Moscovo.

— E que provas tem que possam confirmar as suas alegações?

Antes de começar a responder, o grito de uma sirene ecoou no interior da sala vinda de um veículo de emergência que passava na rua. Não era algo a que ele costumasse prestar muita atenção, não se desse o facto de essa mesma sirene se ouvir do outro lado do telefone.

As conclusões foram rápidas.

Levantou-se da cadeira e dirigiu-se a correr para a porta.

Vitenko gritou o seu nome.

Lord abriu a porta e do outro lado esperava-o a cara sorridente do Vesgo. Atrás dele estava Felix Orleg. O Vesgo deu-lhe um murro na cara e ele cambaleou para trás em direcção à mesa de Vitenko. Das suas narinas escorreu sangue e a sala começou a rodopiar.

Orleg avançou e esmurrou-o novamente.

Lord estatelou-se no chão de parquê. Alguém disse algo, mas ele já não conseguiu fixar as palavras.

Tentou lutar contra a sensação de desmaio, mas a escuridão acabou por o envolver.

 

Lord acordou. Estava amarrado ao mesmo cadeirão onde se sentara durante a conversa com Vitenko. Os seus braços e pernas estavam presos com fita colante e outro pedaço cobria-lhe a boca. O nariz doía-lhe e o sangue sujara-lhe a camisola e as calças de ganga. Conseguia ver, embora tivesse o olho direito inchado e a imagem dos três homens à sua frente parecesse nublada.

— Acorde, Mister Lord.

Tentou focar o mais possível a imagem do homem que proferira aquelas palavras. Era Felix Orleg e falava em russo.

— Tenho a certeza de que me entende. Sugiro-lhe que faça sinal se me está a ouvir ou não.

Lord respondeu com um ligeiro aceno de cabeça.

— Muito bem. É um prazer voltar a vê-lo, aqui, na América. A terra das oportunidades. Um país maravilhoso, não é?

O Vesgo aproximou-se e aplicou um soco no meio das pernas de Lord. A dor percorreu-lhe a espinha como um choque eléctrico e trouxe-lhe lágrimas aos olhos. A fita colada na boca abafou-lhe o grito. A sua respiração era difícil e ruidosa devido às suas tentativas desesperadas de inspirar ar através das narinas doridas.

— Chornie filho-da-mãe — insultou o Vesgo.

Fechou o punho para voltar a atacar, mas Orleg agarrou-lhe a mão.

— Já chega ou ele não nos servirá para nada. — O inspector empurrou o Vesgo até à secretária e depois aproximou-se. — Mister Lord, este senhor não gosta nada de si. No comboio pulverizou-lhe os olhos com um aerossol, depois, na floresta, bateu-lhe na cabeça. Ele gostaria muito de o matar e, por mim, até podia, no entanto, as pessoas para quem trabalho desejam algumas informações. Autorizaram-me a dizer-lhe que se colaborar a sua vida será poupada.

Lord não acreditava numa palavra e, aparentemente, os seus olhos denunciaram essa desconfiança.

— Não acredita? Excelente. É mentira. Vai morrer, disso temos a certeza. Digo-lhe é que pode influenciar o modo como irá ser morto. — Orleg estava próximo e ele conseguia sentir o cheiro a vodca barato misturado com o odor do seu próprio sangue. — Tem duas opções. Uma bala na cabeça, que é uma forma rápida e indolor de morrer, ou isto. — O inspector mostrou-lhe um pedaço de fita colante que balançava na ponta do seu dedo indicador e que depois arrancou e colocou sobre o nariz partido de Lord.

A dor trouxe-lhe de novo lágrimas aos olhos, mas a súbita ausência de ar deixou-o alerta. Com a boca e o nariz tapados, os pulmões esgotaram num ápice o pequeno armazenamento de oxigénio que possuíam. Não só estava impossibilitado de inspirar como de expirar e os níveis crescentes de dióxido de carbono faziam com que fosse difícil manter-se consciente. Parecia que os olhos iam explodir das órbitas. No exacto momento em que a escuridão queria engoli-lo, Orleg arrancou-lhe a fita do nariz.

Lord inspirou grandes golfadas de ar e a cada respiração sentia sangue a escorrer-lhe pela garganta. Como não o podia cuspir, engoliu-o. Continuou a respirar pelo nariz, saboreando aquilo que até àquele dia tomara como garantido.

— A opção número dois não é muito agradável, pois não? — perguntou o inspector.

Se pudesse, teria morto Felix Orleg com as suas próprias mãos. Não haveria sequer um momento de hesitação, nem o mais leve sentimento de culpa. De novo, os seus olhos traíram-lhe os pensamentos.

— Tanto ódio. Gostava de me matar, não é verdade? Pena que nunca terá essa oportunidade. Como lhe disse, vai morrer. A única questão é saber se será uma morte rápida ou lenta. E se a Akilina Petrovna se juntará a si.

Ao escutar o nome de Akilina, fitou Orleg com um olhar ameaçador.

— Eu sabia que isto iria acordá-lo.

Filip Vitenko aproximou-se das costas de Orleg e perguntou:

— Isto não está já a ir demasiado longe? Ninguém falou em assassínio quando transmiti esta informação para Moscovo.

O inspector voltou-se para o funcionário do consulado e gritou:

— Sente-se e fique calado!

— Com quem pensa que está a falar? — argumentou Vitenko. — Sou o cônsul-geral. Nenhuma militsia de Moscovo me dá ordens.

— Isso é o que pensa! — Orleg fez sinal ao Vesgo. — Tira este idiota da minha vista.

Vitenko foi empurrado para trás. O cônsul rapidamente se livrou das mãos do Vesgo e recuou na sala dizendo:

— Vou ligar para Moscovo. Não acho que isto seja necessário. Há aqui qualquer coisa que não bate certo.

A porta que dava para o gabinete abriu-se e um homem mais velho, com uma cara comprida pouco cuidada e olhos engelhados entrou na sala. Vestia um fato escuro.

— Cônsul Vitenko, não haverá qualquer chamada para Moscovo. Fui claro?

Vitenko hesitou por momentos, avaliando as palavras. Lord reconheceu a voz, era o homem que estava do outro lado do telefone. O cônsul encostou-se ao canto da sala.

O homem avançou até ao cadeirão.

— O meu nome é Maxim Zubarev. Já falámos ao telefone. Pelos vistos, o nosso pequeno ardil não funcionou.

Orleg recuou. O homem mais velho era quem mandava.

— O inspector estava certo quando lhe garantiu que iria morrer. É lamentável, mas não tenho escolha. O que lhe posso prometer é que Akilina Petrovna será poupada. Não temos razões para a envolver, isto se ela não souber nada de relevante ou possuir alguma informação. É claro que ainda não nos disse aquilo que sabe. Vou pedir ao inspector Orleg que lhe retire a fita da boca. — O homem mais velho fez sinal ao Vesgo, que prontamente fechou a porta do gabinete. — Escusa de gastar a voz a gritar porque esta sala é à prova de som. Quem sabe se o senhor e eu podemos ter uma conversa inteligente. Se me convencer que está a ser honesto, a menina Petrovna será deixada em paz.

Zubarev deu um passo atrás e o inspector arrancou a fita da boca de Lord. Este movimentou o maxilar, aliviando a rigidez imposta pela fita.

— Sente-se melhor, Mister Lord? Ele manteve-se em silêncio.

Zubarev puxou uma cadeira e sentou-se de frente para Lord.

— Diga-me então o que começou a contar-me ao telefone. Que provas possui que confirmem que Alexei e Anastasia sobreviveram aos bolcheviques?

— Vocês compraram Baklanov, não é verdade?

O homem mais velho deixou escapar um suspiro.

— Não entendo qual a relevância disso, mas responder-lhe-ei na esperança de que colabore. Sim, é verdade. A única coisa que pode impedir a sua ascensão ao trono é o aparecimento de algum parente directo de Nicolau II.

— E qual é o objectivo de tudo isso? Zubarev soltou uma gargalhada.

— O objectivo, Mister Lord, é a estabilidade. A restauração de um czar pode afectar não apenas os meus interesses como os de outros. Não era por isso que estava em Moscovo?

— Não fazia ideia de que o Baklanov era um fantoche.

— É um fantoche voluntário. E nós somos manipuladores inteligentes. A Rússia irá prosperar durante o seu reinado e ele também.

— Zubarev examinou despreocupado as unhas da mão direita e depois olhou para Lord. — Sabemos que a menina Petrovna está aqui em São Francisco. Não se encontra no hotel, mas já tenho homens à sua procura. Se a encontrar antes de o senhor me dizer o que desejo saber, não terei compaixão. Deixarei que os homens se divirtam com ela como quiserem.

— Não estamos na Rússia.

— Verdade que não. Mas é lá que ela estará quando tudo isso acontecer. Está um avião no aeroporto à espera de a levar de volta. Ela é procurada para interrogatório e já tratámos de tudo com as autoridades alfandegárias americanas. O vosso FBI até se ofereceu para ajudar a localizar os dois. A cooperação internacional é uma coisa fantástica, não concorda?

Ele sabia o que tinha de fazer. Esperava apenas que depois de faltar ao encontro no jardim zoológico, Akilina saísse da cidade. Sentia-se triste por saber que nunca mais a veria.

— Não lhe vou dizer absolutamente nada.

— A escolha é sua — afirmou Zubarev, erguendo-se da cadeira.

Quando o homem mais velho saiu da sala, Orleg colocou-lhe outro pedaço de fita na boca.

O Vesgo aproximou-se e sorriu.

Lord esperava que o fim fosse rápido, mas sabia que não seria assim.

Hayes tirou os olhos do altifalante quando Maxim Zubarev entrou na sala.

Ele, Kruchtchev, o Vesgo e Orleg haviam deixado a Rússia na noite anterior, poucas horas após a chamada que confirmava o paradeiro de Lord. A diferença horária de onze horas havia-lhes permitido percorrer catorze mil quilómetros e chegar a São Francisco à hora do almoço. Graças às ligações de Zubarev com o governo, foram prontamente emitidos vistos de saída para o inspector e o Vesgo. O que Kruchtchev acabara de revelar a Lord era verdade. Havia sido feita uma chamada que garantia a ajuda do FBI e da alfândega local na localização de ambos, mas Hayes declinara a intervenção americana na esperança de manter a situação o mais secreta possível. Também conseguira uma saída rápida do país para Lord e Akilina Petrovna através do Departamento de Estado. O mandado russo por assassínio garantia a ajuda americana e, por isso, o departamento de imigração no aeroporto de São Francisco iria fazer poucas perguntas. A ideia era impedir a revelação da história que Lord estava tão apostado em descobrir. O problema é que ainda não sabiam que história era essa, para além da incrível afirmação de que algures nos Estados Unidos estava um descendente directo de Nicolau II.

— O seu Mister Lord é um homem desafiador — afirmou Kruchtchev ao fechar a porta.

— Mas qual a razão?

Kruchtchev sentou-se.

— Essa é a pergunta do momento. Quando saí da sala, o Orleg estava a descarnar dois fios do candeeiro. Um pouco de electricidade a percorrer-lhe o corpo é capaz de lhe fazer soltar a língua antes de o matarmos.

Através do altifalante Hayes conseguiu ouvir a voz do Vesgo quando este disse ao inspector que podia voltar a ligar a ficha à tomada. Um grito amplificado ecoou pela sala durante quinze segundos.

— Talvez reconsidere e nos diga o que queremos saber — advertiu a voz do inspector.

Não houve resposta.

Outro grito. Desta vez mais longo.

Kruchtchev esticou a mão para um prato com doces e tirou uma bola de chocolate. Retirou o papel dourado que a embrulhava e meteu o chocolate na boca.

— Vão aumentar a duração dos choques eléctricos até o coração parar. Será uma morte bem dolorosa.

O tom da explicação era frio, porém Hayes também já sentia pouca simpatia por Lord. O idiota colocara-o numa situação difícil e as suas atitudes irreflectidas iam arruinando planos elaborados e desbaratando milhões de dólares. Agora estava tão ansioso por saber tudo como aqueles russos.

Pelo altifalante escutou-se outro grito.

O telefone sobre a secretária apitou e ele atendeu. Uma voz do outro lado informava-o de que chegara uma chamada para Miles Lord. A recepcionista pensara ser importante e decidira ver se Mr. Lord podia atender.

— Não — respondeu Hayes — , Mister Lord está em reunião. Passe a chamada para aqui. — Colocou a mão sobre o bocal do telefone. — Desligue o altifalante.

Depois de um clique, uma voz feminina perguntou:

— Miles, está tudo bem? — perguntou ela em russo.

— Mister Lord neste momento está ocupado. Ele pediu-me que atendesse a sua chamada — respondeu Hayes.

— Onde está o Miles? Quem é o senhor?

— A menina deve ser Akilina Petrovna.

— Como sabe o meu nome?

— Menina Petrovna, é importante que falemos.

— Não tenho nada para lhe dizer.

Hayes voltou a ligar o sistema do altifalante. Um grito lancinante ressoou.

— Ouviu isto, menina Petrovna? Era o Miles Lord. Está neste momento a ser interrogado por um certo militsia de Moscovo. Pode pôr fim ao sofrimento dele bastando para tal que nos diga onde se encontra e esperar aí por nós.

Do outro lado apenas silêncio. Outro grito.

— Aquilo é a electricidade a percorrer-lhe o corpo. Duvido que o coração dele aguente muito mais.

Hayes escutou o clique do telefone a ser desligado. Olhou para o altifalante. Os gritos pararam.

— A cabra desligou — afirmou Hayes, encarando Kruchtchev. — Muito determinados, não acha?

— Demasiado. Temos de descobrir tudo o que sabem. A sua ideia de enganar o Lord foi boa, mas falhou.

— Aposto que estes dois estão mais organizados do que pensamos. O Lord foi esperto ao escondê-la, mas eles devem ter arquitectado uma maneira de voltarem a encontrar-se, se isto não era uma armadilha.

Zubarev suspirou.

— Temo não haver agora maneira de a encontrar. Hayes sorriu.

— Eu não diria isso.

 

16.30

AQUILINA tentava conter as lágrimas. Encontrava-se junto a uma cabine telefónica no meio de um passeio cheio de gente. Ainda conseguia escutar o grito de Lord. O que iria ela agora fazer? Miles havia-a expressamente proibido de telefonar à polícia e de se dirigir ao consulado russo. Em vez disso, deveria encontrar um outro hotel, reservar um quarto e depois ir ter ao jardim zoológico às seis da tarde. Apenas se ele não aparecesse no local combinado deveria ela pedir ajuda às autoridades americanas, de preferência a alguém ligado ao Departamento de Estado.

Sentia o coração a despedaçar-se. O que dissera o homem ao telefone? Aquilo é a electricidade a percorrer-lhe o corpo. Duvido que o coração dele aguente muito mais. As palavras haviam sido proferidas com uma tal indiferença como se matar fosse para ele algo de fácil e normal. O homem expressava-se bem em russo, mas ela detectara um ligeiro sotaque americano, o que não deixava de ser estranho. Estariam as autoridades americanas também envolvidas? Trabalhariam em conjunto com os mesmos russos que pareciam tão determinados em descobrir o que ela e Lord sabiam?

Continuava a segurar o telefone, os olhos fixos no chão, e não deu conta da pessoa que se aproximou até que uma mão lhe tocou no ombro direito. Akilina virou-se e uma mulher idosa disse-lhe algo. As únicas palavras que entendeu foi senhora e usar.

As lágrimas corriam-lhe agora em catadupa pela face. A mulher apercebeu-se e a sua expressão mudou. Akilina limpou rapidamente as lágrimas e proferiu um spasibo, esperando que a mulher entendesse a palavra russa para “obrigada”.

Afastou-se do telefone e misturou-se com os transeuntes. Já se instalara noutro hotel, usando o dinheiro que Lord lhe dera. Ao contrário do que lhe tinha recomendado, não escondeu o ovo, nem as barras de ouro ou o jornal no cofre do hotel. Trazia tudo com ela numa das malas onde Lord guardava a sua roupa e os artigos de higiene. Não tinha qualquer vontade de confiar a segurança daqueles objectos a nada nem a ninguém.

Caminhara sem rumo durante as últimas duas horas, entrando e saindo de cafés e lojas para se assegurar de que não estava a ser seguida. Tinha quase a certeza de que isso não acontecera, mas em que parte da cidade estaria? Por certo a oeste do Commerce & Merchants Bank, bem para lá da zona financeira. As ruas eram ladeadas por lojas de antiguidades, galerias de arte, joalharias, livrarias e restaurantes. O seu caminhar vagaroso não a levara a destino algum. A única coisa que lhe importava era achar o caminho de regresso ao hotel, mas trouxera consigo uma das brochuras e podia sempre mostrá-la ao motorista de táxi.

O que a atraíra àquele local fora o campanário que vira a alguns quarteirões de distância. A arquitectura era russa, com cruzes douradas e uma cúpula bem visível. Aquele edifício era uma visão da sua pátria; porém, reflectia também algumas influências estrangeiras visíveis na porta de entrada com frontal, nas superfícies de aspecto rústico e numa balaustrada que nunca antes vira em nenhuma igreja ortodoxa. Conseguiu ler a placa na porta, graças a uma tradução em cirílico por baixo do inglês — catedral da santíssima trindade — e concluiu que aquela era uma igreja ortodoxa russa local. O edifício era sinónimo de segurança. Akilina atravessou a rua e entrou.

O interior da igreja seguia os moldes tradicionais, a planta em forma de cruz e o altar virado para leste. Os seus olhos foram atraídos para cima em direcção à cúpula e ao enorme candelabro de bronze pendurado no centro. Um odor característico a cera exalava dos braços de bronze que seguravam grossas velas cuja chama tremeluzia na quase escuridão da igreja. Esse aroma misturava-se com o do incenso, tornando-o mais doce. Havia imagens religiosas por toda a parte, nas paredes, nos vitrais e na iconóstase que separava o altar da congregação. Na igreja que frequentara durante a sua infância, essa barreira costumava estar mais aberta, oferecendo uma visão mais ampla dos sacerdotes. Ali a divisão era feita por uma parede sólida decorada com imagens carmesim e douradas de Cristo e da Virgem Maria e apenas pelas portas abertas se vislumbrava o que estava para lá. Não havia bancos. Pelos vistos, ali, como na Rússia, as pessoas assistiam à missa de pé.

Dirigiu-se a um dos altares laterais na esperança de que Deus a pudesse ajudar a resolver o dilema. As lágrimas escorriam-lhe pela face. Nunca fora uma mulher muito emotiva, mas era demasiado doloroso pensar que Miles Lord estava a ser torturado, quem sabe até à morte. Precisava de ir à polícia, mas algo lhe dizia que aquela não seria a atitude mais correcta. O governo não era necessariamente a salvação e essa fora uma lição que aprendera com a avó.

Fez o sinal da cruz e começou a rezar, murmurando frases que aprendera em criança.

— Sente-se bem, minha filha? — perguntou, em russo, uma voz masculina.

Atrás de si encontrava-se um padre de meia-idade com as vestes negras típicas da Igreja Ortodoxa. Não usava o toucado comum ao clero russo, mas uma cruz de prata balançava-lhe do pescoço, um acessório que ela recordava da sua infância. Akilina limpou as lágrimas e tentou recompor-se.

— Fala russo — notou ela.

— Nasci lá. Ouvi-a rezar. Não é comum escutarmos aqui alguém falar a nossa língua tão bem. Está de visita?

Ela assentiu.

— E que problema a deixa assim tão triste?

A voz calma do padre era apaziguadora.

— Tenho um amigo numa situação difícil.

— Pode ajudá-lo?

— Não sei como.

— Veio ao lugar certo em busca de orientação. — O padre apontou para a parede com os ícones. — Deus é o melhor dos conselheiros.

A avó fora uma fiel devota da Igreja Ortodoxa e tentara ensinar-lhe a confiar no Senhor. Todavia, nunca até àquele momento precisara realmente de Deus. Sabia que o padre jamais iria entender o que se estava a passar e também não tinha qualquer desejo de lhe contar muito mais, por isso perguntou:

— Tem seguido os últimos acontecimentos na Rússia?

— Com muito interesse. Teria votado “sim” na restauração. É o melhor para a Rússia.

— O que o leva a dizer isso?

— Durante décadas assistiu-se a uma profunda destruição de almas na nossa mãe-pátria. A igreja quase desapareceu. Talvez agora os Russos possam retornar ao seio da Igreja. Os soviéticos tinham um medo terrível de Deus.

Era uma observação estranha, mas ela concordou. Tudo quanto pudesse unir a oposição era visto como uma ameaça. Deus. A poesia. Uma mulher idosa.

O padre continuou:

— Já vivo aqui há muitos anos. Este país não é o lugar horrível que nos diziam ser. Os Americanos elegem o seu presidente de quatro em quatro anos e com grande pompa. Todavia, ao mesmo tempo mostram-lhe que é um ser humano e que poderá tomar decisões erradas. Aprendi que quanto menos um governo se deificar, mais deve ser respeitado. O nosso czar devia seguir esse exemplo.

Ela acenou afirmativamente. Seria aquilo uma mensagem?

— Gosta desse seu amigo que está numa situação difícil? — indagou o padre.

A pergunta fê-la regressar de novo à realidade e ela respondeu honestamente:

— É boa pessoa.

O padre apontou para a mala que ela trazia ao ombro.

— Vai para algum lado? Talvez fugir?

Akilina compreendeu que aquele homem santo não estava a entender o que se passava, nem nunca iria entender. Lord pedira-lhe que não falasse com ninguém até às seis da tarde e ela estava determinada a respeitar o seu desejo.

— Não tenho para onde fugir, padre. Os meus problemas estão aqui.

— Receio não entender a sua situação. E as palavras sagradas dizem que, se um cego conduzir outro, ambos cairão no abismo.

Ela sorriu.

— Eu própria não a entendo, mas tenho uma obrigação a cumprir e é ela que neste momento me atormenta.

— E envolve esse homem pelo qual pode ou não estar apaixonada?

— Sim.

— Gostaria que rezássemos ambos por ele?

Que mal poderia fazer?, pensou ela.

— Era capaz de ajudar, padre. Depois poderia indicar-me o caminho para o jardim zoológico?

 

LORD abriu os olhos esperando outro choque eléctrico ou mais um pedaço de fita na boca ou no nariz. Já não sabia qual dos dois era pior. No entanto, apercebeu-se de que já não estava amarrado à cadeira, mas sim deitado no duro chão de madeira. As fitas que o seguravam pendiam dos braços e das pernas da cadeira. Nenhum dos seus torturadores se encontrava na sala iluminada por três candeeiros e pelos raios de luz que atravessavam os estores das janelas.

A dor provocada pelas descargas eléctricas havia sido insuportável. Orleg deliciara-se a variar os pontos de contacto, começando na testa, passando depois para o peito e por fim para o meio das pernas. Agora, os seus genitais doíam não apenas por causa do murro dado pelo Vesgo, mas também devido aos choques eléctricos. Era como água gelada deitada sobre um dente furado, mas suficientemente doloroso para o fazer desmaiar. Lord tentara aguentar, manter-se consciente e ficar alerta. Não queria, num momento de fraqueza, revelar o paradeiro de Akilina. Uma coisa era um possível herdeiro dos Romanov, outra bem diferente era ela.

Tentou levantar-se do chão, mas a perna direita estava dormente e ele mal conseguiu erguer-se. Os números do mostrador do relógio estavam desfocados, mas acabou por discernir que passavam quinze minutos das cinco da tarde. Faltavam apenas quarenta e cinco minutos para o seu encontro com Akilina.

Esperava que não a tivessem encontrado. Talvez o facto de ele ainda estar vivo fosse a confirmação disso mesmo. Por certo havia seguido as suas instruções quando ele não atendera a sua chamada às três e meia.

Fora um idiota por ter confiado em Filip Vitenko, pensando que milhares de quilómetros de distância eram garantia de segurança. Evidentemente, quem quer que estivesse por trás de tudo aquilo possuía influência suficiente para transcender as fronteiras internacionais, o que significava envolvimento governamental ao mais alto nível e Lord estava determinado a não voltar a cometer o mesmo erro. A partir daquele momento não confiaria em ninguém, excepto em Akilina e em Taylor Hayes. O seu patrão detinha conhecimentos que talvez lhe pudessem ser úteis.

Mas primeiro precisava de sair do consulado.

Orleg e o Vesgo deveriam estar próximos, quem sabe se não logo do outro lado da porta. Tentou lembrar-se do que acontecera antes de desmaiar. Tudo o que conseguia recordar era a electricidade a atravessar-lhe o corpo, de tal forma que as suas batidas cardíacas se haviam tornado irregulares. Fitara os olhos frios do inspector e vira prazer. A última coisa de que se recordava antes de desmaiar era do Vesgo a dizer a Orleg que era a sua vez.

Tentou de novo levantar-se do chão, mas uma vertigem deixou-lhe a cabeça a andar à roda.

A porta do gabinete abriu-se e Orleg e o Vesgo entraram.

— Muito bem, Mister Lord, já acordou — disse o inspector em russo.

Os dois russos puxaram-no do chão. De imediato a sala começou a rodopiar e uma sensação de náusea embrulhou-lhe o estômago. Os seus olhos rolaram em direcção ao tecto e pensou que ia desmaiar novamente quando uma súbita pancada de água fria lhe encharcou a cara. O efeito inicial foi semelhante ao da electricidade, mas, enquanto a voltagem queimava, a água parecia acalmar e as tonturas começaram a desaparecer.

Centrou a sua atenção nos dois homens.

O Vesgo encontrava-se atrás de si, tentando segurá-lo direito, e Orleg à sua frente com um jarro vazio na mão.

— Ainda tem sede? — perguntou o inspector com sarcasmo.

— Vá-se lixar! — respondeu Lord.

Orleg esbofeteou-o com as costas da mão. A dor provocada pela pancada acordou-lhe os sentidos. Do canto da boca veio-lhe o sabor a sangue e a sua vontade era libertar-se e matar aquele filho-da-mãe.

— Infelizmente — começou Orleg — , o cônsul-geral está preocupado com a possibilidade de se cometer um assassínio aqui. Assim, organizámos uma pequena viagem para si. Ouvi dizer que aqui perto existe um deserto, será um óptimo local para enterrar um corpo. Eu sempre vivi no frio, um pouco de calor só me irá fazer bem. — O inspector aproximou-se. — Temos um automóvel à espera nas traseiras do edifício. Vai sair muito devagar. Não há ninguém no edifício que escute os seus gritos de ajuda, mas, se fizer algum barulho lá fora, eu corto-lhe a garganta. Adoraria fazê-lo já agora, mas as ordens são para se cumprirem, não concorda?

Uma lâmina longa, curva e brilhante apareceu na mão de Orleg. O inspector entregou-a ao Vesgo que a encostou ao pescoço de Lord.

— Sugiro-lhe que caminhe devagar e direito — aconselhou o polícia.

O aviso pouco importava a Lord. Estava ainda demasiado tonto por causa dos choques eléctricos e mal conseguia manter-se de pé. No entanto, lutava para conseguir reunir suficiente energia que lhe permitisse fugir à primeira oportunidade.

O Vesgo empurrou-o para fora do gabinete e para uma zona de secretariado sem ninguém. Depois de descerem umas escadas, dirigiram-se para as traseiras do rés-do-chão, passando por gabinetes às escuras e vazios. O que conseguiu ver pelas janelas mostrava que o dia começava a escurecer.

Orleg passou para a frente, indicando o caminho, e parou junto a uma porta de madeira com uma moldura trabalhada. Destrancou a porta e abriu-a. Do outro lado, vinha o ruído do motor de um carro e Lord viu a porta de trás aberta. O inspector fez sinal ao Vesgo para que trouxesse o carro para junto da porta.

— Stoi — gritou uma voz atrás deles. — Parem! Filip Vitenko passou por eles em direcção a Orleg.

— Inspector, já lhe disse que não haverá mais nenhum acto de violência contra este homem.

— E eu já lhe disse que este assunto não lhe diz respeito.

— Mister Zubarev desapareceu e agora a autoridade máxima aqui sou eu. Telefonei para Moscovo e de lá disseram-me que agisse conforme achasse mais conveniente.

Orleg agarrou o diplomata pela gola do casaco e empurrou-o contra a parede.

— Xaver! — gritou Vitenko.

Lord escutou os passos de alguém a correr pelo corredor e depois viu um homem robusto avançar em direcção ao inspector. Aproveitou o momento de distracção para dar uma cotovelada no estômago do Vesgo. Os seus músculos abdominais eram duros, mas ele conseguira atingir um ponto entre as costelas.

A dor fez o russo contorcer-se e Lord empurrou-lhe a mão que segurava a faca. O homem que dominava Orleg deu conta do golpe e virou a sua atenção para o Vesgo, saltando para cima dele.

Lord correu para a porta de saída. Vitenko agarrara por momentos o inspector, o que lhe permitiu sair e aproximar-se de um automóvel. Reparou que não havia ninguém lá dentro e saltou para o banco da frente. Engrenou a mudança e acelerou a fundo. Os pneus agarraram-se ao pavimento e o carro saiu a toda a velocidade, fazendo bater a porta traseira.

O portão de ferro, mais à frente, estava aberto. Atravessou-o sem olhar para trás e ao chegar à estrada virou à direita.

— Já chega — gritou Hayes.

O Vesgo, o inspector, Vitenko e o ajudante pararam de imediato a sua luta.

Maxim Zubarev estava no corredor ao lado de Hayes.

— Bom espectáculo, meus senhores.

— Agora — explicou Hayes — , vamos lá seguir aquele filho-da-mãe e descobrir o que se passa.

 

LORD virou na esquina seguinte e depois diminuiu a velocidade. Pelo espelho retrovisor viu que não estava a ser seguido e a última coisa que queria era atrair as atenções da polícia. O relógio do painel de instrumentos indicava cinco e meia. Tinha ainda meia hora para chegar ao local onde haviam combinado encontrar-se. Tentou relembrar-se da geografia da zona. O jardim zoológico ficava para sul do centro da cidade, contíguo ao oceano, perto da Universidade Estatal de São Francisco. O lago Merced situava-se ali perto. Numa viagem anterior, estivera lá a pescar trutas.

Pareceu-lhe que fora há uma eternidade, numa altura em que era apenas um associado de uma firma de advogados, sem ninguém para além da secretária e um advogado mais graduado a supervisionar o que ele fazia. Era difícil acreditar que tudo aquilo começara há apenas uma semana com um simples almoço num restaurante de Moscovo. Artemi Beli insistira em pagar a conta, afirmando que a próxima refeição ficaria por conta de Lord. Aceitara a cortesia, embora soubesse que o advogado russo ganhava menos num ano do que ele em três meses. Simpatizara com Beli, um jovem aparentemente inteligente e simpático. Porém, tudo o que agora recordava era a imagem de um cadáver crivado de balas, estatelado no passeio, e Orleg a dizer-lhe que havia demasiados mortos para se darem ao trabalho de os tapar.

O grande canalha.

Virou no cruzamento seguinte e encaminhou-se para sul, na direcção contrária à Ponte Golden Gate, rumo à parte da península que dava para o oceano. A sua vida ficou mais facilitada quando começou a aparecer sinalização que indicava o jardim zoológico. Seguiu os sinais, acompanhando o trânsito de fim de tarde. Em breve trocou o congestionamento das artérias mais centrais pelas calmas colinas e árvores de St. Francis Wood, as vivendas recuadas em relação à estrada, a maioria das quais com portões de ferro e fontes.

Sentia-se espantado por ser capaz de conduzir, mas uma descarga de adrenalina animara-lhe os sentidos. Os seus músculos estavam ainda doridos da electricidade e custava-lhe respirar devido aos repetidos estrangulamentos, porém começava a sentir-se novamente vivo.

— Deus queira que a Akilina lá esteja à minha espera — murmurou.

Encontrou o jardim zoológico e estacionou num parque iluminado. Deixou as chaves na ignição e encaminhou-se para a entrada, onde comprou um bilhete e o funcionário o avisou de que o jardim fecharia dentro de uma hora.

A parte da frente da sua camisola estava molhada da água que Orleg lhe atirara e, com o ar frio do fim da tarde, o tecido verde ensanguentado parecia-lhe uma toalha molhada contra o peito. Tinha o rosto magoado das pancadas que sofrera e sem dúvida que o inchaço distorcera as suas feições. Era seguramente uma bonita visão.

Avançou pelo caminho cimentado e iluminado por luzes cor de âmbar. Alguns visitantes avançavam a passo acelerado e outros, em muito maior número, deambulavam na direcção oposta, a caminho da saída. Passou a área dos primatas e a dos elefantes e seguiu as placas que indicavam as jaulas dos felinos.

O seu relógio marcava seis da tarde.

A escuridão começava a conquistar o céu. Só os barulhos dos animais, abafados por paredes espessas, perturbava um ambiente que, de outro modo, seria idílico. O ar cheirava a pêlo e a comida. Entrou no recinto dos felinos através de umas portas de vidro. Akilina encontrava-se diante de um tigre que caminhava de um lado para o outro. Sentia alguma empatia por aquele animal encurralado numa jaula — exactamente onde estivera toda a tarde. O rosto dela espelhava alívio e alegria. Correu para ele e abraçaram-se. Ela apertou-o com todas as suas forças e Lord sentiu o corpo dela a tremer.

— Estava quase para me ir embora — confessou ela. Com a mão seguiu suavemente os contornos do seu queixo e do olho inchados. — Que aconteceu?

— O Orleg e um dos homens que têm andado atrás de mim estão aqui.

— Ouvi os teus gritos pelo telefone. — Contou-lhe o telefonema para o consulado e sobre o homem com quem falara.

— O russo que comandou tudo chamava-se Zubarev. Deve haver outras pessoas no consulado a colaborarem com eles, para além do Vitenko. Mas não me parece que o Vitenko seja um deles. Se não fosse ele, não estava aqui. — Descreveu-lhe tudo o que acontecera. — Vim o caminho todo a olhar pelo espelho, e ninguém me seguiu. — Reparou no saco de viagem pendurado no ombro dela. — O que é isso?

— Não me senti segura em deixar isto confiado ao hotel. Achei melhor trazer tudo comigo.

Lord decidiu não discutir a sua imprudência.

— Vamos sair daqui. Assim que estivermos em segurança, vou telefonar ao Taylor Hayes e pedir ajuda. Isto já está completamente fora do nosso controlo.

— Fico contente que estejas bem.

Ele apercebeu-se de repente de que ainda estavam abraçados e deu um passo atrás para olhar para ela.

— Sim, podes — disse ela com ternura.

— Como?

— Podes beijar-me.

— Como sabes que quero beijar-te?

— Sei.

Aproximou os lábios dos dela e depois afastou a cabeça.

— Isto é mesmo estranho. — Um dos felinos rugiu de repente. — Achas que eles aprovam? — perguntou com um sorriso nos lábios.

— Tu, não? — inquiriu ela.

— Totalmente. Mas precisamos de sair daqui. Utilizei um dos carros deles para chegar até cá. Talvez não seja boa ideia usá-lo outra vez. Podem ter ido à polícia apresentar queixa de furto. Apanhamos um táxi. Quando cheguei reparei que havia alguns estacionados na entrada. Regressamos ao hotel que escolheste e pela manhã alugamos um carro. Penso que não vamos precisar de usar o aeroporto ou terminais de autocarros.

Tirou-lhe o saco dos ombros e colocou-o no seu, sentindo o peso das duas barras de ouro. Pegou-lhe no braço e saíram dali, passando por um grupo de adolescentes que entrara para uma última visita.

Cerca de cem metros mais à frente, sob uma das lâmpadas que iluminava o caminho, vislumbrou Orleg e o Vesgo a correrem na sua direcção.

Meu Deus. Como é que o tinham encontrado? Agarrou Akilina e fugiram na direcção oposta, passando de novo pelos tigres, rumo a um edifício iluminado, cuja placa dizia ser o centro de estudos de primatas. Os macacos guincharam das suas árvores. Seguiram o caminho pavimentado, embrenhando-se ainda mais no edifício, e depois viraram subitamente à esquerda. Perante ambos surgiu um cenário natural com árvores e rochas. Um fosso profundo separava uma parede de betão de um recinto aberto. Os gorilas passeavam-se num habitat que imitava uma floresta. Dois adultos e três crias.

Sem parar de correr, Lord apercebeu-se de imediato da bifurcação do caminho mais à frente e do facto de este aparentemente rodear o habitat, descrevendo uma espécie de lágrima, que começava e terminava na bifurcação. Uma vedação alta percorria todo o comprimento do recinto à sua esquerda, e para a direita havia uma área aberta designada como Recinto dos Bois-Almiscarados. Cerca de dez pessoas observavam atentamente os gorilas a alimentarem-se de uma enorme pilha de fruta no meio do seu habitat.

— Não há saída — concluiu, desesperado. Precisava de fazer alguma coisa.

Então, na rocha mais afastada do recinto dos gorilas vislumbrou um portão de ferro aberto. Observou os animais e o portão. Talvez fosse o local onde os gorilas se recolhiam para passar a noite. Talvez ele e Akilina conseguissem lá chegar e fechar o portão antes que os gorilas se apercebessem do que se estava a passar.

Tudo era preferível à alternativa. Orleg e o Vesgo corriam em direcção a eles. Sabia do que aqueles dois sádicos eram capazes e decidiu arriscar a sua sorte com os gorilas. Através do portão na rocha apercebeu-se de uma porta e de luzes. Havia movimento no interior. Talvez um funcionário.

E, quem sabe, uma saída.

Lançou o saco pelo ar para dentro do recinto dos gorilas. Aterrou pesadamente perto de um monte de fruta. Os gorilas reagiram ao intruso com um sobressalto vocalizado, e avançaram para investigar.

— Anda!

Saltou para o muro. Os outros visitantes olharam-no, perplexos. Akilina seguiu-o. O fosso deveria ter aproximadamente três metros de largura. O muro, cerca de trinta centímetros. Com uma curta corrida de impulso, saltou para a frente, impelindo o corpo pelo ar e rezando para que caísse em terra firme.

Conseguiu, aterrando de pés e sentindo uma dor lancinante a subir-lhe pelas pernas e coxas doridas. Rebolou uma vez e olhou para trás no preciso momento em que Akilina aterrou.

O Vesgo e Orleg surgiram do outro lado do muro.

Lord contava que eles não os seguissem ou usassem armas com pessoas em redor. Vários dos visitantes gritaram e um chegou mesmo a chamar pela polícia.

O Vesgo trepou para cima do muro. Preparava-se para saltar quando um dos gorilas adultos correu até à beira do fosso. O animal levantou-se sobre as patas traseiras e bramiu. O Vesgo recuou.

Lord pôs-se de pé e disse a Akilina que corresse para o portão. O outro gorila adulto arrastou-se na sua direcção. O enorme animal bamboleou-se sobre as quatro patas, com as plantas dos pés e os nós dos dedos batendo contra o chão duro. Pelo tamanho e atitude, Lord concluiu que fosse um macho. O pêlo era de um cinzento-acastanhado lustroso, acentuado pela pele negra no peito, nas palmas e na cara. O dorso era prateado. O animal pôs-se de pé, de narinas abertas, peito inchado, agitando os enormes braços. Soltou um bramido e Lord ficou completamente imóvel.

O gorila mais pequeno, castanho-avermelhado, aparentemente uma fêmea, avançou para Akilina e estava agora a desafiá-la. Lord queria ajudar, mas tinha também um problema entre mãos. Fez figas para que tudo o que vira no canal Discovery sobre gorilas fosse verdade. Em princípio, estes animais “ladravam mais do que mordiam”, e as exibições de força eram uma tentativa de desencadear algum tipo de reacção do seu oponente, talvez o suficiente para o assustar ou, pelo menos, para o distrair. Pelo canto do olho reparou que Orleg e o Vesgo os observavam e depois viu-os afastarem-se. Talvez a situação estivesse a atrair demasiadas atenções.

Lord não só não queria outro encontro com os seus perseguidores russos como também não desejava ter de explicar nada daquilo à polícia local, por enquanto... e era mais do que certo que a polícia já fora notificada do sucedido.

Precisava de chegar ao portão, mas o macho de pé à sua frente começava agora a bater no peito.

A fêmea que fazia frente a Akilina começou a recuar, e ela aproveitou para dar um passo em direcção a Lord. De repente, a fêmea investiu contra Akilina e esta reagiu, pulando para o ramo de um dos álamos que compunha o recinto.

Num abrir e fechar de olhos trepou para o ramo. A sua agilidade acrobática tornou-se óbvia quando saltou para um ramo mais alto. A gorila fêmea pareceu quase espantada com semelhante manobra e começou também a trepar. Lord reparou que as feições da fêmea pareciam ter-se suavizado. Era quase como se achasse que tudo aquilo era um jogo. As copas das árvores do recinto estavam bastante entrelaçadas, seguramente uma tentativa de proporcionar aos animais um habitat mais natural. Porém, agora permitiam a Akilina evitar a sua perseguidora.

O macho estacado à frente de Lord parou de bater com os punhos no peito e colocou-se de novo com as quatro patas no chão.

De algures de trás de si uma voz feminina sussurrou:

— Sou a tratadora destes animais. Sugiro-lhe que não se mexa de onde está.

— Posso assegurar-lhe que não mexo nem um músculo — disse Lord, em voz baixa. O gorila continuou a olhá-lo nos olhos, a cabeça inclinada num ângulo curioso.

— Estou no interior da parede de rocha. Atrás do portão aberto — revelou a voz. — Os gorilas passam a noite aqui dentro, mas não entrarão até que devorem toda a comida. À sua frente está o Rei Artur. Ele não é muito amistoso. Vou tentar distraí-lo enquanto você se escapa aqui para dentro.

— Ali a minha amiga também está em apuros — argumentou ele.

— Eu sei, mas um de cada vez.

O Rei Artur afastou-se lentamente em direcção ao saco de viagem. Lord não podia sair dali sem o saco. Deslizou para ele. O gorila precipitou-se para a frente e guinchou, como se lhe ordenasse que ficasse quieto.

Lord obedeceu.

— Não o provoque — suplicou a voz.

O gorila exibiu os seus caninos. Lord não tinha qualquer desejo de sentir os seus efeitos. Observou Akilina e a fêmea entreolharem-se por entre os ramos. Akilina parecia não correr qualquer perigo, permanecendo fora do alcance do animal, descendo para um ramo mais grosso e aterrando de pés no chão. A fêmea tentou imitá-la, mas o seu enorme porte empurrou-a para baixo e fê-la estatelar-se no chão. Akilina aproveitou o momento e correu para o portão. Agora era a vez dele.

O Rei Artur sacudiu o saco de viagem e apertou-o de um lado e de outro numa tentativa de ver o seu interior. Lord avançou, na esperança de ser rápido o suficiente para lhe retirar o saco e correr para o portão. No entanto, o Rei Artur também sabia ser rápido. O gorila esticou o braço e com a mão agarrou a camisola de Lord. Estava agora nas mãos do animal. Tentou recuar, fazendo força com os pés. Porém, o gorila não fazia tenções de o largar e a camisola começou a rasgar-se lentamente no peito. O animal ficou com o saco de viagem numa das mãos e a camisola na outra.

Lord não se mexeu.

O gorila lançou a camisola para o lado e voltou a sua atenção de novo para o saco.

— Dirija-se para o portão — aconselhou a mulher.

— Não sem antes ter o saco.

O gorila puxou por uma ponta e por outra, cravando várias vezes os seus compridos dentes no tecido. O rígido tecido verde não cedeu e, numa atitude de óbvia frustração, o animal lançou o saco com força contra a rocha. Agarrando de novo no saco, atirou-o outra vez contra a rocha. Lord estremeceu.

O ovo Fabergé não aguentaria um tal tratamento. Sem pensar, mergulhou para a frente ao mesmo tempo que o saco atingia o chão no seguimento de um terceiro lançamento. O gorila atirou-se também ao que agora considerava seu, mas Lord chegou ao saco primeiro e arrebatou-o. A fêmea avançou a correr e colocou-se entre ele e o macho, esticando o braço para o saco, mas o macho agarrou-a pelo pêlo do pescoço, extraindo-lhe um grunhido. O Rei Artur empurrou-a para longe e Lord aproveitou para correr para o portão.

No entanto, o gorila interceptou-o.

Estava a um metro dele. O seu odor corporal era forte. Um olhar fixo e intenso acompanhou um pequeno ronco. O lábio superior do gorila enrolou-se, revelando incisivos do comprimento dos dedos de Lord. Esticou lentamente o braço e passou os dedos pelo saco, acariciando o tecido.

Lord manteve-se imóvel.

O gorila esticou o indicador direito e bateu com a ponta do dedo no peito de Lord. A força usada pelo animal não se destinava a magoá-lo, mas apenas a testar a pele por baixo da sua camisa. Foi quase um gesto humano e, por um momento, os receios de Lord diminuíram. Fitou o gorila nos olhos e pressentiu que não corria perigo.

O Rei Artur encolheu o dedo e recuou. A fêmea também se retirara depois da reprimenda.

O enorme macho continuou a afastar-se até que o caminho para o portão ficou livre. Lord avançou e o portão de ferro fechou-se atrás de si.

— Nunca vi o Rei Artur reagir daquela maneira — comentou a mulher, trancando o portão. — É um animal agressivo.

Por entre as barras, Lord fitou o gorila, que continuava a olhar para ele, com a camisola novamente na mão. Por fim, o animal perdeu o interesse e encaminhou-se para o monte de comida.

— Pode dizer-me agora o que estavam ali a fazer? — perguntou a mulher.

— Isto tem alguma saída?

— Nem pensar. Vamos esperar pela polícia.

Lord não podia permitir que tal acontecesse. Era impossível prever até onde chegava a influência daqueles que o perseguiam. Através de um vidro reforç