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A Quarta Praga / Edgar Wallace
A Quarta Praga / Edgar Wallace

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Quarta Praga

 

                  

A umas sessenta milhas ao sul da cidade de Florença e à distância tríplice, ao oeste de Roma, descansando sobre três for­mosas colinas, acha-se situada Siena, talvez a mais - soberba das cidades da Toscana.

Sobre o Terzo de la Cità, encontra-se o Palácio Festini.

O edifício ergue-se solitário, em sua sombria e arruinada magnificência. Contemplando-o do Batístério de San Giovani, que fica adjacente, tem-se a impressão de que um fragmento se des­prendeu e desgarrou do sacro edifício e transitou da cólera súbita para decair no abandono atual.

No Palácio, em sua penosa grandeza, viviam os Festini, que pretendiam descender nada mais nada menos do que de Guido Novelio, de quem o arqueologista Compagni escrevera certa vez: «Il conte Guido non aspetto il fine, ma zanza dare colpto di spadna al parti.»

Os Festini eram uma família cujo nome, ao ser simplesmente enunciado, tornava imóvel a face da aobreza italiana. Se um se punha a elogiá-los, aceitava-se cortêsmente o elogio. Se alguém censurava-os escutava-se a acusação em silêncio. Se alguém, entre­tanto, atrevia-se a interrogar a respeito de sua hierarquia, podia-se ter a certeza de que a pergunta, desde Milão até Roma, provocaria imediatamente uma mudança de assunto da conversação.

Qualquer que tivesse sido o vínculo de parentesco dos Festini com: Guido, o Covarde, podia-se assegurar que seus herdeiros alar­deavam o mesmo método de ação dos Polomei, dos Salvani, dos Ponzi, dos Piccolomini e dos Forteguerri.

«O Conde Guido não esperou seu fim e partiu sem haver dado uma só cutilada com sua espada».

As «vendettas» da Idade Média voltavam a sei revividas e sustentadas por êstes produtos da civilização do século XIX e o velho Salvani Festini ultrapassara (e isso era notoriamente eviden­te) o raio dos próprios rancores de família, para aliar-se ativa ou simpaticamente a cada uma das sociedades que ameaçavam a todos os bons governos da Itália.

Era uma tarde bastante quente dos últimos dias do mis de junho do ano de 1899, quando um homem e dóis jovens estavam sentados diante da mesa de refeições, na sombria sala de jantar do Palácio.

O homem, sentado à cabeceira da mesa, tinha, apesar dos anos, os ombros bem largos e tdda a aparência de uma criatura de vigo­rosa vitalidade.

A cabeça leonina, coroada de grande massa de cabelos grisalhos, destacava-lhe a personalidade, mesmo que não possuísse a farta barba, que lhe caia por sobre o casaco de veludo negro.

Apesar de tdda a sua aparência patriarcal, havia no rosto pálido, na fineza dos olhos, que olhavam por baixo de farta sobran­celha, algo de sinistro e ameaçador.

Comia em silêncio, não se perturbando sequer em responder as perguntas que lhe eram propostas.

O moço, sentado à sua direita, era um formoso jovem de dezessete anos e tinha essa compleição marfínea e essa perfeita e defi­nida feição patrícia, que caracterizam a nobreza italiana. Seus olhos, castanhos e brilhantes, a delicadeza da boca, seu quase efeminado queixo evidenciavam, claramente, a raça de onde provinha.

Já o outro jovem, sentado do lado oposto, era quatro anos mais velho. Achava-se na idade em que a mocidade caminha para o pleno desenvolvimento e tinha, marcadas em seu contorno facial, tddas as particularidades próprias de sua condição. Era de aspecto débil, de queixo estreito e somente a severa fixidez dos olhos graves salvava-o de uma fealdade positiva.

Mas, pai perguntou o mais jovem dos dois, que o leva a pensar que o Governo suspeita de que o senhor esteja informado a respeito da «Mão Vermelha»?

O mais velho dos dois jovens nada disse, mas seus olhos inquisitores fixaram-se em seu pai.

Salvani Festini pareceu voltar o pensamento ao momento premente e sentiu uma espécie de estremecimento.          

—    Que disse? — perguntou.

Sua voz era grossa, mas não desagradável, quando se dirigiu ao jovem. E o brilho de um orgulho inconsciente, que se refletiu em seus olhos ao fitar o rapaz suavizou, em parte, a severa expressão de sua fisionomia.

—    Estou muito bem informado, meu filho, — disse em brando resmungo. — Bem sabe que disponho de excelentes informantes. Os carabineiros estão dando prosseguimento às suas investigações e esse infernal amigo seu, — disse, voltando-se para o mais velho dos dois jovens, — está à frente das investigações.

O jovem, a quem ele se dirigiu, esboçou um sorriso.

—    Quem é? — perguntou incertamente.

O ancião olhou para o filho com suspeita.

—    Tillizini, — respondeu de maneira breve. — O velho louco... porque não poderá ficar tranqüilo com seus livros e com suas conferências...?

—    Foi muito bondoso para comigo, — disse o mais velho dos dois. Falava com reflexão, muito pensativamente. — Sinto muito que o aborreça pai, mas esta é precisamente sua fraqueza...  a in­vestigação de crimes...

—    Crime! — protestou o ancião. — Como pode atrever-se, meu filho, sentado à minha própria mesa, a qualificar como crime as ações da «Mão Vermelha»?

Seu rosto tornou-se rubro de raiva e olhou para seu rebento com tanta maldade, que essa centelha de furor teria feito estreme­cer a outro homem mais susceptível.

Antonio Festini, porém, possuía muitas qualidades que não são muito comuns a seus compatriotas. A fleuma e a atitude mental de impassibilidade eram-lhe inatas. Não se sentiu nem inquieto, nem embaraçado diante desta nova expressão de desagrado do pai. Conhecia bem e desculpava o favoritismo que seu pai demonstra­va para com seu irmão mais jovem, Simone. E isto não o levava a gostar menos do irmão e não provocava tampouco nele nenhum sentimento de rancor para com o pai. Continuou, pois, tranqüilo. Algum remoto antepassado, imperturbável e frio, talvez carregando nas veias uma dose de sangue ainda mais frio, devia ter trans­mitido a esse jovem impassível, alguma coisa do seu poder de auto-domínio.

Bem sabia que seu pai odiava o velho professor de Antropologia de Florença, porque os Festini, até os dias atuais, mantinham o mesmo espírito da antagonismo, que os sienenses de quinhentos anos atrás, demonstravam sempre contra os florentinos.

Em Siena, havia escolas suficientes. A cidade contava com um estabelecimento famoso por seus advogados e doutores.

Simone cursava suas aulas e o que era bom para ele devia ser bom também para Antônio.

O filho mais velho, porém, escolhera Florença, com essa deliberação própria, tão peculiar nele, desde os dias desua infância e, apesar de toda a oposição de seus antepassados, desrespeitou a tradição dos Festini e foi a Florença a fim de aperfeiçoar seus es­tudos.

Tillizini, o notável homem de ciência, concebeu uma profunda amizade pelo rapaz. Tomou-o sob sua proteção, formando-o pela sua escola, tão tortuosa, tão irregular e tão pouco conseqüente.

Tillizini era um mestre no estudo do crime e possuía um conhecimento enciclopédico dos homens.

Estava à disposição das polícias secretas de um a outro extremo da Itália e, segundo os rumôres circulantes, eram enormes as somas de dinheiro que recebia dos governos de outras nações.

Foi o próprio Tillizini que se dedicou voluntariamente, a dar com a pista da «Mão Vermelha», que durante tantos anos aterrori­zara o Sul da Itália e que acabava de estender suas operações à região sententrional.

E era lamentável o fato de que suas atividades estivessem coroadas de êxito. Suas investigações levaram-no a dar com a pista de nada menos que a pessoa do considerado Mateo degli Orsini, o advogado romano, que durante tantos anos dirigira as operações de uma das mais poderosas ramificações da «Mão Vermelha».

Havia uma sensação de temor no peito do ancião, mas ele era também um Festini de primeira água e não poderia demonstrar temor, embora fôsse o medo que lhe aumentava a fúria.

Ainda ouvirá uma história diferente a respeito deste Tillizini, murmurou, não se esqueça disto, Antônio. Algum dia, encontrá-lo-ão morto: uma faca no coração, ou com a garganta cortada ou com uma ferida de bala, no meio da cabeça... quem, sabe...? «A Mão Vermelha» não é uma organização com a qual se possa brincar.

Olhou longa e insistentemente pata seu filho.

Simone inclinou-se para a frente, os cotovelos sobre a mesa, o queixo nas mãos e fitou o irmão com interesse desapaixonado.

—    O que Tilizini sabe sobre mim? — perguntou o ancião de improviso. — Que foi que você lhe disse?

Antônio sorriu.

—    Essa é uma pergunta abusda, pai, — disse-lhe. — Chegou a pensar que eu falaria a seu respeito com o senhor Tillizini?

—    Por que não? — disse o outro, como se protestasse. — Oh! Sei como você é. Você herdou alguma coisa de sua mãe. Esses Bonnichi seriam capazes de vender tuas esposas a troco de uma centena de liras!

Nem mesmo essa referência à sua própria mãe conseguiu modificar a serenidade do jovem.

Continuou sentado com as mãos metidas nos bolsos, a cabeça um pouco inclinada para a frente, olhando para seu pai, friamente, com especulativa curiosidade.

Durante minutos, permaneceram, assim, entreolhando-se mutua­mente e o mais jovem, sentado do outro lado, olhava também do pai para o irmão, deste para aquele, alternativamente, com vivo interesse.

Finalmente, o ancião retirou o olhar com um gesto de enfado.

Antônio inclinou-se sobre a mesa, servindo-se de um cacho de uvas de uma grande travessa, com a mão e nem o gesto de fastio, nem o temor tizeram-no perder a serenidade. O velho voltara a falar com seu filho favorito.

—    De hoje até amanhã, você pode esperar a visita do «birri», — disse. — Virão procurar pelos papéis. Uma récua de sujos na­politanos entrará nesta casa, para dar busca. Suponho que você esteja desejando que eu convide seu amigo Tillizini para jantar? — perguntou, olhando para o outro com um trejeito de desdém.

—    Quanto a isto, faça o que melhor lhe agradar, pai, muito me agradaria que o convidasse...

—    Se lhe agradaria! — disse o ancião. — Se eu tivesse a certeza de que esse velho cachorro se afogaria, não vacilaria um minuto em fazê-lo. Conheço seu Tillizini, — acrescentou desagradavelmente. — Paulo Tillizini... — E deu um sorriso, mas não havia nenhuma nota alegre em sua fisionomia.


Antônio levantou-se da mesa, dobrou o guardanapo em um quadrado e deixou-o descuidosamente entre os copos venezianos, que estavam à sua frente.

Tenho sua licença para me retirar? perguntou, com cerimoniosa inclinação de cabeça.

Fazendo outra inclinação, diante de seu irmão, o jovem retirou-se da sala de jantar.

Atravessou o sombrio e imponente vestíbulo e encaminhou-se para a pesada porta do Palácio.

Um criado de libré abriu-a para ele e o jovem saiu à plena luz do dia.

A emanação do calor da rua chegava até ele, como se fosse o de uma fornalha acesa.

Não tinha plano definido para passar a tarde, mas, achava-se ansioso para evitar novos conflitos com seu pai e ainda que não aprovasse a associação que sua casa formara com tantas quadrilhas de bandidos e culpados, que tiranizavam toda a Itália, sentia-se an­sioso por encontrar um modo pelo qual pudesse evitar a terrível desgraça que ameaçava cair sobre todos.

No que a ele se referia, não entrava em linha de consideração o seu sentimentalismo. Chegara a um ponto desde o qual podia considerar, não só a seu pai, como também a seu irmão mais moço (tão ansioso estava por ajudá-los e tão desejoso, ao mesmo tempo de que chegasse o dia em que pudesse tomar parte ativa nas ope­rações da Liga), como se fossem pessoas afastadas de todos os seus afetos.

Era muito natural que seus passos o conduzissem até a Piazza del Campo.

Siena inteira encaminhava-se para este lugar histórico, com seus pavimentos de coloração vermelha e a inevitável associação que recordava seus triunfos e processos famosos.

Deteve-se junto ao pavimento central que marca a trajetória, do Pallio, completamente absorto em seus pensamentos, sem notar os olhares curiosos que se fixavam em sua direção.

Porque, apesar do calor reinante, toda Siena parecia estar narua.

Se, contudo, estivesse menos absorvido, em seus pensamentos e apreensões, parecer-lhe-ia curioso que os sienenses, que sempre dedicavam estas horas ao repouso da sesta, se agrupassem na praçae nas ruas, numa tarde tão quente como aquela, do mês de junho.

Enquanto se encontrava parado ali, abstraído e meditativo, ou­viu que o chamavam suavemente, às suas costas.

Tirou o leve chapéu de feltro que usava e, sorrindo, estendeu a mão.

—    Não esperava ter o prazer de vê-lo, senhor Tillizini, — disse.

O prazer do encontro, não obstante, ficou estragado pouco depois, ao certificar-se, com alguma contrariedade, de que a visita do professor estava sombriamente relacionada com as atividades de sua casa.

Nessa época, o professor Tillizini andava beirando a casa dos oitenta anos.

Alto como um álamo, seu rosto ascético e alongado, via-se iluminado por dois olhos de mirar muito vivo, que eram um per­feito reflexo de sua alma.

Deu o braço a seu pupilo e a passo lento e vagaroso, conduziu-o através da praça.

— Meu caro Antônio, — disse-lhe com grave afeição, — vim vê-lo, porque o governo deseja certas informações... Apesar de ainda não lhe haver dito, você sabe que estamos fazendo investi­gações sobre certa organização.

Pousou sua fraca e branca mão no ombro do jovem e deteve- se para fitá-lo bem no rosto, com intensa atenção.

—    Antônio, — prosseguiu lentamente, — essa investigação conduz diretamente a seu pai e às atividades que ele vem desen­volvendo.

O outro fez um sinal de assentimento.

—    Já sei, — disse simplesmente.

—    Agrada-me que já o saiba, — disse Tillizini, com um suspiro de alívio. — Isso preocupou-me sobremaneira. Há muito tempo desejava dizer-lhe que seria inevitável uma investigação se­melhante, mas pensei que não cumpriria meu dever para com o Estado, se lhe falasse disto.

Antônio sorriu um pouco tristemente.

—    Não tem importância, — disse. — Na realidade, meu pai já o sabe e já está esperando pela visita do senhor.

Tillizini concordou com um movimento de cabeça.

—    Isso era o que eu desejava também, afirmou, ou, para ser ainda mais franco, confiava em que seria assim, porque um policial esperado é um policial derrotado, acrescentou com um sorriso.

Continuaram caminhando em silêncio e de repente...

—    O senhor está mentalmente satisfeito por saber que meu pai acha-se complicado nessas coisas? perguntou Antônio.

O ancião olhou para êle um tanto severamente.

—    Você por acaso não o está também? — perguntou-lhe.

O herdeiro dos Festini não respondeu. E como se fosse por mútuo acordo, ambos mudaram o tema da conversa e falaram de outros assuntos.

O velho aristocrata estava aguardando a chegada dos funcionários da Polícia, isso era o que Antônio estava supondo.

Falaram do Colégio de Florença e de amizades mútuas. Em seguida, por etapas sucessivas, o professor desviou a conversação para seu tema favorito, o tópico do trabalho de tôda sua exis­tência.

—    Não é verdadeiramente lamentável, disse, que tenho chegado a esta idade, Deus não me dê outros cem anos de vida?

Sorriu e encolheu os ombros.

—    No fim de cujo prazo, eu havia de requerer outros cem a mais, acrescentou filosoficamente. Émuito certo que não po­demos realizar nossos desejos. A mim, me satisfaria, continuou dizendo, possuir um filho que desse prosseguimento à minha tarefa. Nesse particular, tampouco pude ver satisfeitos os meus desejos, é certo, devo admiti-lo, disse com aquela ingenuidade que era seu encanto, que não me preocupei, no devido tempo, em arranjar uma esposa. E isso foi um descuido pelo qual me vejo duramente castigado!

Deteve-se, no momento em que um alto oficial, que usava uniforme dos carabineiros, atravessava a Piazza del Campo e An­tônio Festini separou-se, instintivamente, do lado de seu mestre.

Os dois conversaram e, pouco depois, fazendo ao jovem uma ligeira inclinação de cabeça, vendo passar uma sombra por seus olhos, Tillizini acompanhou o oficial em direção ao Palácio Fes­tini.

Antônio ficou observando-o, até perdê-lo de vista. Em seguida, reiniciou seu passeio pelos arredores da praça, as mãos nas costas, a cabeça caída sobre o peito.

Tillizini acompanhou o alto funcionário policial até à residência dos Festini.

Bateu a aldraba que se colocava ao lado da porta e, segundos depois, eram introduzidos no vestíbulo.

Foi admitido com toda a cerimônia, que sua hierarquia tinha direito — porque, não era um oficial de carabineiros quem o acom­panhava e esse oficial não o tratava com toda deferência? Fizeram-nos passar para o grande salão dos Festini.

O aposento estava desprovido de móveis. Os antigos esplendores das pinturas do teto apareciam apagadas e difusos. O ou­trora formoso chão de mármore estava quebrado em muitos lu­gares, não tendo sido feita nenhuma tentativa para consertá-lo. As poucas e velhas cadeiras e a mesa francesa, que haviam sido en­costadas â parede, pareciam perdidas nessa solidão de mármores gelados.

Poucos instantes depois, apareceu o Conde Festini. Continuava vestido com o paletó e o colete de veludo. Usava culote de montar, que tanto ele como seu filho costumavam vestir, invariavelmente, porque ambos eram ótimos cavaleiros e só tinham esse gosto em comum.

Cumprimentou Tillizini, com uma inclinação de cabeça, que o professor prontamente correspondeu.

—    Estou à disposição de sua excelência, — disse formalmente e ficou esperando.

—    Conde Festini, — falou Tillizini, — vim cumprir missão bem desagradável.

—    É lamentável, — respondeu o Conde Festini, secamente.

—    É de meu dever cientificá-lo de que me foi recomendado que procedesse a um exame de seus documentos, pessoalmente.

—    Isto não só é lamentável, como ultrajante, — disse Festini, mas não com os sinais de irritação que o oficial de carabineiros, cujos dedos brincavam nervosamente com o apito para chamar seus companheiros, esperara.

—    Não desejo, — continuou Tillizini, — que esta revista se torne mais desagradável a sua excelência do que o estritamente necessário e, por isso, peço-lhe que me considere mais como um amigo que deseja limpar seu nome das acusações que...

—    Será melhor que poupe suas palavras, disse secamente o Conde Festini. Eu conheço-o, Paulo Tillizini. Pensei que fôsse um cavalheiro e por isso confiei-lhe a educação de meu fi­lho. Vejo, entretanto, que não passa de um esbirro! Nestes dias, disse com um encolher de ombros, a nobreza italiana, e se não estou enganado, você provém da casa de um dos Buonsignori...

Tillizini fêz um gesto de assentimento.

—    ...nestes dias, prosseguiu dizendo Festini, é necessário, segundo entendo, que nossa decaída nobreza encontre meios para prover suas filhas casadoiras do necessário.

—    Em meu caso, disse Tillizini, isso não é necessário.

Falou suavemente e com calma. Cada uma das palavras queo Conde Festini pronunciava era, pelo código de honra dos dois homens, um insulto mortal.

Tillizini manteve, entretanto, a mesma tranqüilidade de aparência que Festini vira tão lamentavelmente reproduzido em seu filho.

—    Só posso acrescentar isso, seguiu dizendo o ancião, quaisquer que sejam os abismos a que possa haver descido um membro da nobreza, para ajudar o Estado a fazer justiça com os homens que desafiaram abertamente as leis do país, é possível, senhor, que um homem caia ainda mais baixo e se converta num desses bandidos que praticam atos abomináveis e cruéis, obrigando a que comece a se mover a máquina da lei?

Falou com aquele tom desapaixonado que lhe era peculiar e no rosto do Conde apareceu um enrubescimento pronunciado.

—    Pode revistar como quiser, — disse-lhe. — Minha casa está à sua disposição. Aqui estão as chaves.

Tirou do bôlso uma argola de aço, com uma dúzia de chaves.

Tillizini não fêz nenhum gesto para tomar as chaves.

—    Se tiver a bondade de me conduzir a seu dormitório, não o incomodarei com maiores buscas.

O Conde Festini vacilou durante um segundo. Uma rápida nuvem de temor passou-lhe pelo rosto.

Em seguida, com uma inclinação de cabeça, estendeu a mão para a porta.

Acompanhou-os até ao vestíbulo e começou a subir as escadas. Seu quarto era amplo e dava para a rua. Estava tão po­bremente mobiliado, como o resto da casa.

Tillizini fechou a porta, ao passar e o oficial ficou parado junto dela, como para impedir a saída de alguém.

— Aqui estão minhas chaves.

—    Muito obrigado, não tenho necessidade delas, — disse Tillizini. Colocou-se diante do Conde com toda sua estatura e prosseguiu com delicadeza: — Creio que será melhor informá-lo do que sei. Há quatro dias, foi preso um homem, no momento em que colocava uma bomba sobre a linha férrea, que vai de Roma a Florença. Aparentemente, tratava-se de um novo recruta. Mas, depois de preso, soube-se que era um homem que ocupava lugar de destaque nos concílios do ramo florentino de sua excelente sociedade.

Festini nada disse. Escutava cheio de interesse.

—    De certo modo, — continuou falando Tillizini, — este homem descobrira muitos segredos que, estou convencido, a «Mão Vermelha» não tinha nenhuma intenção de revelar. Tive ocasião de atuar como secretário de um dos chefes de sua Ordem. De todo modo, sabia que certos documentos, que o incriminavam e a uma quantidade de pessoas influentes da Itália, achavam-se es­condidos nesta casa.

—    Realmente? — perguntou Festini, com frieza. — Em verdade, o senhor dispõe das chaves e poderá verificar por si mesmo, a realidade da declaração de seu informante.

De novo, Tillizini não fez nenhuma tentativa para tomar as chaves que o outro lhe oferecia.

—    Sabia ao certo o que informava, — disse lentamente. — Indicou-me um lugar oculto, que suponho que seja só de seu conhecimento e dos chefes da quadrilha.

Caminhou até um canto do aposento, aonde havia quatro basculantes que iluminavam o interior. Entre a segunda e a ter­ceira janelas pendia um quadro, rodeado por grande moldura dourada. Passou suavemente uma das mãos pelo canto do quadro.

Encontrou o que procurava e fez pressão.

Imediatamente, abriu-se o fundo da valiosa moldura, como se fosse um estreito caixão.

Festini ficou observando-o, sem fazer movimento algum, enquanto se apoderava de um rolo de documentos que estavam es­condidos ali.

Tillizini examinou-os ràpidamente, à luz da janela e guardou- os com todo cuidado no bolso interior de seu casaco.

Olhou para Festini detidamente, mas, antes que pudesse di­zer qualquer coisa, abriu-se a porta e Simone entrou no aposento.

Caminhou diretamente para o lado de seu pai.

—    Que é que aconteceu? — perguntou, pondo os olhos angustiados em seu pai.

—    Não houve nada, meu filho, — disse o Conde Festini.

Colocou a mão sobre a cabeça do filho e sorriu.

—    Será melhor descer e esperar lá, até que termine meus negócios com sua excelência.

O jovem vacilou.

—    Por que deverei sair? — perguntou.

Pressentia o perigo e custava a se mover. Olhou de um para outro dos presentes, com aparente calma. Mas, estava alerta e sua atitude era a de um verdadeiro felino.

—    Se me acontecer alguma coisa, Simone, — disse o Conde Festini Suavemente, — quero que saiba que provi amplamente suas necessidades e que há uma provisão que é a maior de todas que lhe posso oferecer: a proteção e a amizade e, como espero, mais tarde, a direção dos camaradas que saberão servi-lo muito bem. E, agora, desça.

Inclinou-se e beijou o filho na face.

Simone retirou-se. Seus olhos estavam secos, mas cheios de compreensão.

Em baixo, no vestíbulo, encontrou-se com o irmão, que acabava de regressar da praça.

—    Venha para cá, Antônio, — disse o mais jovem, severamente .

Dirigiu-se para a sala, onde, uma hora antes, os três haviam almoçado.

—    Nosso pai foi preso, segundo creio, — disse friamente, como se estivesse fazendo o relato de um acontecimento trivial. — Penso também que sei o que acontecerá, depois. Agora, desejo perguntar-lhe uma coisa: qual será sua atitude, no caso de que eu venha a continuar a tarefa de meu pai?

Seus olhos estavam brilhantes e excitados. Parecia que, de repente, se transformara num homem, ao ter certeza das respon­sabilidades que o esperavam.

Antônio olhou-o tristemente.

—    Seguirei o caminho reto, Simone, — disse-lhe com toda calma. — O caminho que seja honesto e decentse, será o que se­guirei .

—    Buono! — disse o outro. — Então, a menos que Deus opere um milagre, nos separaremos aqui, você para seu destino e eu, para o meu!

Deteve-se. De repente, empalideceu e ao olhar para ele, Antônio acreditou ver gotas de suor em sua fronte.

—    Que está sentindo? — perguntou e deu um passo em sua direção, mas o irmão obrigou-o a retroceder.

—    Não é nada, — disse, — não é nada!

Mantinha-se ereto, rígido, com o formoso rosto erguido, com os olhos fixos nas decorações descoradas do teto.

Porque, naquele instante, ouvira o estampido de revólver, abafado pelas pesadas janelas e grossas paredes e que claramente lhe dizia qual tinha sido o fim do Conde Festini.

Tillizini, que descera apressadamente para lhe dar a infausta notícia, encontrou-o totalmente preparado para recebê-la.

—    Agradeço a sua excelência, — disse o rapaz. — Já o sa­bia. Sua excelência não viverá para ver a resultado de seu trabalho, porque já é um homem idoso. Mas, se ainda tiver muitos anos para viver, conhecerá a vingança que tomarei por esse assassinato. Porque, sou ainda muito jovem e pelo favor de Deus, restam-me muitos anos de vida!

Tillizini nada disse e quando regressou a Florença era um homem abatido pela tristeza.

Três meses mais tarde, visitou novamente Siena e na Via Cavour, em plena luz do dia, foi baleado por dois mascarados, que conseguiram fugir.

E sua cátedra, no Colégio de Antropologia de Florença, passou, em seu devido tempo, para o jovem Tillizini.

 

SIR RALPH PROFERE UMA SENTENÇA

Era absurdo chamar o assunto de «O Processo da Mão Vermelha», porque a Mão Vermelha não tivera nenhuma participação no feito, pelo menos, no que se referia ao roubo.

Havia sido um roubo vulgar, em que interviera um conhecido e humilde membro da localidade de Burboro, agora no banco dos réus. Fôra encontrado dentro da casa, às primeiras horas da ma­nhã. Dera uma explicação incoerente ao vigilante mordomo que o encontrara e além de uma confusa história, segundo a qual al­guns italianos misteriosos o haviam encarregado de certa missão, não se pôde encontrar nenhum sinal da extraordinária associação, que estava agitando as pessoas que respeitavam a lei na Grã-Bre­tanha.

Era igualmente absurdo e grosseiro acusar de injustificável sensacionalismo os jornais que qualificavam a ocorrência como o «Caso da Mão Vermelha».

Além de tudo, aparecia um italiano mencionado nos termos da acusação, o que, nestes dias de pânico, bastava para justificar a referência.

A sessão do Tribunal foi muito concorrida, porque o assunto despertou, logo, algo mais que o interesse habitual. Todo mundo estava presente. Lady Morte-Mannery ocupava a cadeira no es­trado, como lhe correspondia por direito. A maior parte dos convidados, procedentes de East Mannery, chegara também e achava-se sentada em lugares privilegiados, para não pouco incômodo dos membros do foro e representantes da imprensa.

Estes últimos, indignados, protestavam amargamente ao serem desalojados de seus já restritos domínios, para cumprimento de suas funções.

Mas, Sir Ralph Mannery, presidente da sessão, tinha certa maneira de proceder com a imprensa e professava ainda que nem sempre agisse de acordo com sua teoria a idéia de que não se devia tomar conhecimento dela, convencido de que ela, a imprensa, não tinha nenhuma importância.

Os jornalistas que assistiam às sessões do Tribunal em Burboro sentiam, constantemente, esse misterioso procedimento que é conhecido como «cada um em seu lugar». E desejavam, muito ardentemente, por certo, que o princípio fosse aplicado às pre­sentes circunstâncias, ao ver, como estavam vendo, que seus lu­gares achavam-se, agora, ocupados pelos convidados do presidente do Tribunal.

Hilary George, pertencente à ordem dos «Cavalheiros de Colombo», estava sentado juntamente com seus colegas, advoga­dos, embora só na qualidade de expectador, pois não exercia ne­nhuma função na sessão que se realizava.

Sentia curiosidade de ver como era o procedimento da justiça, tal como Sir Ralph a concebia.

As sentenças de Sir Ralph eram notórias. Seus julgamentos haviam sido revistos em mais de uma ocasião.

Era, talvez, um dos homens mais odiados do país.

As mãos amedrontavam os rebentos desobedientes, mencionan­do o nome de Sir Ralph. Era o pesadelo dos moradores, um tor­mento moral para os vagabundos, para os que dormiam ao re­lento e para toda a classe de pessoas desafortunadas e delin­qüentes.

De pequena estatura, magro e ossudo, parecia que suas rou­pas, muito folgadas, caíam-lhe do corpo como de um cabide. O rosto, branco e alongado, possuía certo ar de solenidade. Seus lábios eram caídos nos cantos da boca, num gesto de desdém. Um par de óculos com aro de ouro assentava-se em ângulo inclinado sobre seu nariz, como para sugerir que assim o colocara para não obstruir o campo de sua visão.

O cabelo era ralo e encanecido. Usava costeletas um pouco grandes e colarinho à moda de Gladstone.

Quando falava, sua voz era queixosa e pouco segura, dando a impressão de que sentia um ressentimento pessoal contra o des­graçado réu que estava sentado diante da Justiça, no banco dos réus, impaciente por tê-lo obrigado a abandonar a comodidade de sua biblioteca e ser constrangido a respirar o ar tão rarefeito da sala de julgamento.

Sir Ralph estava perto dos sessenta anos. Sua esposa, que parecia extremamente adorável com seu vestido de veludo negro, o enorme chapéu também preto, com penas coloridas, tinha uns trinta anos menos.

Era uma formosa mulher, sob muitos aspectos. Beleza como a de Juno, imperial, impressionante. Seus lábios, quando em repouso, eram finos e retos e, para dizer a verdade, um tanto repe­lentes. Algumas pessoas assim os qualificavam. Hilary George, o temerário caçador, confessava que jamais vira aqueles lábios bem fechados e que, pelo contrário, muitas vêzes parecera-lhe sair deles uma palavra de advertência ao perigo: Cuidado! Cuidado!

Era uma formosa mulher, mas dessas beldades que desagradam. Casara-se com Sir Ralph Morte-Mannery, cinco anos antes, na absoluta certeza de que conseguiria sair para sempre da at­mosfera de penúria que a acompanhara durante toda a adoles­cência .

Com o casamento dissera «adeus» às preocupações e aperturas com que a mãe, ansiosa por ter projeção social e com uma renda anual de cento e cinqüenta libras, a rodeara sempre.

Muito cedo, Vera Forsyth compreendeu que havia saído de uma atmosfera de penúria forçada pelas circunstâncias, para pas­sar para outra igualmente mesquinha, mas desta vez praticada por amor à própria mesquinhez. Sir Ralph era um homem mesquinho e miserável. Podia-se quase qualificá-lo de avaro e abrigava a profunda convicção, quando administrava seus centavos, de que, por direito divino, fora eleito, para ser o natural herdeiro de mui­tas centenas.

No primeiro ano de casada, Vera acreditou que jamais po­deria escapar ao eterno livro de contas. Sir Ralph era um homem que acreditava na felicidade do lar, baseada no controle dos cen­tavos. Ele sabia muito melhor do que ela, qual era o preço das batatas e assinalava com lápis vermelho, qualquer aumento na conta do armazém, dedicando-se trabalhosamente a conferir a causa de qualquer aumento nas contas domésticas.

Nesse momento, ela observava a sala do Tribunal e depois de correr os olhos pelo recinto, fitou curiosamente o marido.

O ambiente que a rodeava era uma fonte de interesse que a ajudava a entreter-se, sem desfalecimentos, nas suas relações diá­rias com esse homem.     

Sir Ralph procedia, às vezes, com parcialidade egoísta. Apesar de já ter tido duas ou três anulações de sentença pela Corte Criminal de Apelação, não iria recuar em seus propósitos de limpar o país desses indivíduos e malfeitores, que demonstravam má inclinação e não queriam distinguir entre o «meum» e o «teum».

Toda pessoa, que conhecia tais circunstâncias, inteirava-se de que a forma por que ele havia encarado o processo presente de­notava o pior critério.

O jovem de rosto pálido, que estava sentado no banco dos réus, com as mãos batendo nervosamente nas grades que tinha diante de si, estava sendo processado por roubo e o roubo ocor­rera na própria residência de Sir Ralph.

— Ele declarou, senhores jurados, — continuou dizendo Sir Ralph em seu discurso, — que um italiano misterioso pediu-lhe para se introduzir na casa, em cujo interior, alguém o estaria esperando, para entregar-lhe um pacote, igualmente misterioso. De­clarou que não tinha intenção de roubar. Estava cumprindo as instruções desse misterioso, talvez, não devesse dizer, mas desse «mítico» — falou Sir Ralph ao se recordar dos comentários do presidente do Supremo Tribunal, ante seu pronunciamento similar em outro processo, — mas que pode aparecer, ante os senhores jurados, como uma personagem mítica.

Correu os olhos pela sala.

—    Declarou mais que foi induzido pela pobreza em que está vivendo a se dirigir à meia-noite a Highlaw e introduzir-se na cozinha, devendo esperar ali uma pessoa mascarada, que lhe daria um embrulho, para conduzir para fora da casa. Disse que não tinha a mínima intenção de roubar-me, que era somente um cúm­plice de uma pessoa da casa.

Sir Ralph inclinou-se para trás, sorrindo desdenhosamente.

—    Bem, senhores jurados, — disse estendendo as mãos, num gesto de falsa condescendência, — se acreditam nisso, deverão declarar que o homem é acusado de cumplicidade. Como sabem, há em minha casa, uma valiosa coleção de jóias do Renascimento. E, quando o Fiscal da Coroa assegura, como já o fez; que a inferência a ser tirada da presença do homem na cozinha, aonde o mordomo o surpreendeu, é a de que ele pretendia roubar as jóias, os senhores, talvez, estarão perfeitamente justificados se acreditarem nesta sugestão, como estariam, se acreditarem no de­fensor do réu, quando sustenta que ele estava meramente agindo como um cúmplice neste caso.

Acrescentou mais algumas palavras alusivas às provas que ainda não pudera ver e instou com os jurados que deliberassem, adotando o ar de benevolência com que habitualmente rodeava a peroração de seus discursos mais malévolos.

Os jurados retiraram-se da sala e no recinto ouviu-se o murmúrio das conversações.

O prisioneiro aproximou-se um pouco mais da grade. Fitou o delicado rosto de sua esposa, uma bela moça de dezessete anos, que durante todo o processo ficara olhando-o, escutando com an­siedade .

—    Isto não nos pode servir de ajuda, querida! disse.

Era um homem da classe operária, mas sua voz denotava uma cultura imprópria de seu aspecto.

A jovem olhava-o cheia de piedade, seus lábios tremiam e não pode responder-lhe nada. Estava convencida de que seu esposo dizia a verdade. A pobreza levara-o ao desespero e fosse qual fôsse a finalidade de suas aventuras, jamais a miséria poderia convertê-lo num ladrão.

Os jurados voltaram cinco minutos depois. Assentaram-se em seus lugares e foram respondendo ao ser chamado cada nome. Todos os olhos estavam voltados para o acusado. O oficial de justiça formulou as perguntas de rigor.

—    Julgaram o acusado «culpado» ou «não culpado» do delito de roubo?

—    Culpado! disse o primeiro jurado, com voz insegura.

Sir Ralph moveu a cabeça, em sinal de assentimento.

Voltou-se para o réu, no momento em que o oficial perguntava:

—    Tem alguma coisa a manifestar, antes que se passe a sentença?

O prisioneiro olhou penalizado para o lugar em que se encontrava sua esposa. A pobre mulher acabava de desmaiar e um solícito policial estava levando-a para fora da sala.

—    O que eu disse, falou com clareza e sem vacilação alguma, foi a verdade. Não tive a menor intenção de roubar, Sir Ralph. Fui lá unicamente porque acreditei que estava agindo como agente de alguém, que estava executando certa espécie de... vacilou, — custa-me dizê-lo... certa espécie de intriga, — continuou (alando apressadamente, — e não desejava que a ocor­rência transpirasse...

Seus olhos percorreram os membros do júri e seu olhar deteve-se ao encontrar-se com o de Lady Morte-Mannery.

Ambos entreolharam-se; ela, com toda calma, sem curiosidade; ele, cheio de esperança, com um cintilar de assombro.

—    Este foi meu primeiro delito, — prosseguiu. — Jamais estive em semelhante situação e ainda que o júri tenha declarado que eu sou culpado, excelência, espero que saberá considerar mi­nha falta com clemência, não só pelo meu próprio bem, como tam­bém por minha esposa e pelo menino que está por nascer.

Sua voz tremeu um pouco, enquanto implorava clemência. Foi esse o único sinal de emoção que demonstrou.

Sir Ralph tornou a fazer um movimento afirmativo de ca­beça. O prisioneiro interrompera-lhe a palavra.

O presidente do Tribunal acomodou os óculos sobre o nariz e meneou a cabeça, da esquerda para a direita, consultando os co­legas.

—    Seu delito, George Mansingham, — disse, — peculiarmente é para comigo. Não considero o fato de que a casa onde entrou seja a minha própria. Afortunadamente, não sou uma pessoa a quem afetem as considerações pessoais e o fato de que eu me encontrasse ausente de minha residência, esta noite, habilita-me a julgar o caso com o espírito desprovido de todo preconceito.

Olhou os papéis que estavam sobre a mesa e em seguida levantou a cabeça com um gesto violento.

—    Sofrerá a pena de sete anos de presídio, — disse.

Algo como um zunzum correu pela sala.

Hilary George, com o monóculo na mão, começou a levantar- se, mas tornou a se sentar.

O homem, sentado no banco dos réus, ficara com a boca aberta.

—    Sete anos! — repetiu e moveu a cabeça, como se não entendesse o que acabara de ouvir.

Em seguida, abandonou seu lugar e, levado por um guarda, começou a descer as escadas que conduziam para as celas, lá em baixo.

Hilary George era um homem forte: possuía um rosto corado e seus olhos revelavam enorme vitalidade física e alegria de viver. Ao vê-lo, tomá-lo-iam, infalivelmente, por um rapagão cres­cido e o monóculo, tal como notara um amigo, parecia deslocado num homem como ele. Tinha uma grande prática do júri, era um hábil advogado e brilhante argumentador.

Alguém poderia julgar que ele fosse fácil de ser dominado, ao ver seus lábios separados que mostravam duas fileiras de dentes brancos e notar esse olhar de deleite que brilhava em seus olhos. Nenhum homem tivera êxito, entretanto, ao procurar persuadir Hilary George contra sua vontade e não se soube de ninguém que procurasse repetir a tentativa.

Pouco depois, parado sôbre os degraus da escada do Tribu­nal, tinha o aspecto de uma figura imaculada.

Não sorria e olhava com toda a gravidade que lhe permitia sua configuração facial. Muito lenta e deliberadamente, começou a abotoar suas luvas brancas. Olhou para o relógio. Nesse momento saíam do Tribunal os convidados de East Mannery e Lady Morte-Mannery vinha um pouco à frente, seguida de Sir Ralph e de três ou quatro convidados mais.

—    Quer ir em nosso carro ou prefere tomar o ônibus? — perguntou Sir Ralph com complacência.

Sentia certo receio do advogado, tanto quanto pudesse temer a alguém e invariavelmente escondia a inquietação sob as maneiras afetadas, que poderiam parecer fruto de seu bom-humor.

Não, muito obrigado, Ralph, disse Hilary George com tranqüilidade.

O presidente do Tribunal levantou as sobrancelhas.

—    Não vem? — repetiu. O que quer dizer com isto?

—    Vou regressar à cidade, disse Hilary tão lentamente quanto antes.

—    Mas, por quê? Que aconteceu? Pensei que também nos acompanharia à caçada.

—    Prefiro não dizer o motivo, falou. Se fizesse a gentileza de avisar meu criado para levar minha bagagem à estação... ainda ficarei uma hora, aqui, em Burboro.

—    Mas, qual o motivo de sua partida tão repentina? in­sistiu Sir Ralph. Recebeu más notícias? Tem necessidade imperiosa de regressar à cidade?

Hilary cofiou a barba e ficou pensando.

—    Dir-lhe-ei, — falou e fitou diretamente o rosto de seu interlocutor. — Acaba de sentenciar a sete anos de prisão a um homem.

—    Sim, — concordou Sir Ralph com ar surpreso.

—    Pois foi uma sentença absurda, disse o «Cavalheiro de Colombo» e cada uma de suas palavras parecia cortante como uma faca.

—    Uma sentença perfeitamente maligna, vingativa, injusta, — repetiu, — e eu não poderia permanecer nem mais uma hora na casa do homem que a proferiu!

Não deu tempo, a que seu interlocutor desse a resposta que começou a balbuciar.

—    Além disso, — disse, com uma repentina entonação de rudeza e bondade, ao mesmo tempo, se é que se possa compre­ender o paradoxo, quase paralisando seu interlocutor, — não des­cansarei, enquanto esta sentença não for anulada. Meus procura­dores levarão o assunto à Corte de Apelação.

—    Você... vo... como se atreve!... — murmurou Sir Ralph.

—    Uma sentença torpe, injusta, — repetiu o outro, com deliberação. — Não me fale, Sir Ralph, não sou um qualquer. Sou um advogado do foro. Conheço melhor do que você o mecanismo da lei. Sei perfeitamente qual era a sentença que devia ter pro­nunciado. Sei perfeitamente como sua prevenção pessoal influiu para condenar esse homem, esse rapaz que cometeu uma falta pela primeira vez... a um inferno de vida!

Ao falar, fê-lo com veemência: seu rosto ia enrubescendo cada vez mais, à medida que a raiva aumentava.

—    Jamais me esquecerei, Hilary, — gritou Sir Ralph estremecendo de indignação. — Acaba de ferir-me mortalmente. Sabe perfeitamente que acredito nas condenações longas.

—    Não me importo com o que você creia ou não, — disse o outro com calma enfática de linguagem. — Desejo-lhe bom dia!

Dirigiu-se para onde Lady Morte-Mannery continuava esperando .

—    Sinto muito, Lady Morte-Mannery, — disse o advogado, — por não poder regressar à sua casa. Um compromisso importante obriga-me a voltar para Londres.

Ela mussitou seu pesar muito convencionalmente, ainda que náo deixasse de ver com desagrado o afastamento de um homem que desde o princípio havia considerado fácil de influenciar.

Suas visitas, deve ser anotado de passagem, eram muito peculiares.

—    Por que se vai? — perguntou ao esposo, enquanto o carro corria pela estrada principal em direção a Burboro.

Sir Ralph, que ainda tremia de raiva, murmurou uma contestação.

—    Como posso sabê-lo? Para que me faz perguntas ridículas? Vai porque é um idiota, acrescentou com enfado. Porque é um homem mau. Acaba de insultar-me grosseiramente e não poderei perdoá-lo nunca!

Empalideceu de emoção e durante o resto do dia falou da afronta que Hilary lhe infligira.

Vera fez uma ou duas tentativas para acalmá-lo, sem resultado. Estava demasiadamente interessada em vê-lo calmo. Tinha um ou dois pedidos a fazer e nesse estado de espírito tinha a certeza de que suas pretensões seriam recusadas. Continuou es­forçando-se para acalmá-lo.

—    Gostaria de que não me aborrecesse, murmurou, quando ela entrou na biblioteca, com o pretexto de arrumar uns livros, ali deixados pelos convidados.

—    Oh, venha cá! disse êle, quando a espôsa já se retirava do aposento. Está aqui uma conta de Burt. Quantas caixas de aveia preparada recebemos na última semana?

—    Esqueci-me, querido, disse ela.

—    Seis! murmurou. Não sabe que nunca compramos antes mais de quatro?

—    Mr. George gostava muito de aveia no almoço, respondeu ela.

—    Mr. George! quase gritou o esposo. Não me fale nesse homem. Por que Bulgered cobra um xelim e meio pela libra de carne? É monstruosa essa conta do açougueiro! Mude de açougue. Gostaria de que prestasse mais um pouco de atenção na direção da casa, Vera.             

Fitou a esposa por sob a farta sobrancelha.

—    Você procede como se eu tivesse uma fábrica de dinheiro. Precisa de fazer um pouco de economia. Antes do casamento, querida, você costumava contar centavo por centavo. Imagine que estes aqui são também de sua mãe e conte também, os meus!

Ela movimentou os ombros com enfado e se retirou do aposento.

Seu esposo era intolerável quando ficava assim. Passou para a sala, perguntando a si mesma como poderia conduzir o marido para o assunto que tanto a interessava. Junto à janela, uma jo­vem estava lendo. Quando Vera entrou, ela levantou os olhos e fitou-a, sorrindo.

—    Não é um aborrecimento? — comentou. — Disseram-me, agora, que George regressou à cidade. E ele jogava tão bem o piquete. Por que se foi?

Levantou-se preguiçosamente, deixando o livro de lado.

Era uma jovem alta, formosa, desse colorido delicado que constitui o principal dote das moças inglesas. A cabeça bem pos­ta, coroada de formosos cabelos ruivos. Suas sobrancelhas, duas delicadas linhas de veludo, adornavam o melhor e mais adorável par de olhos que um homem poderia desejar. Pelo menos, assim pensavam todos que a viam. E o próprio Sir Ralph, tão vaidoso e depreciativo como era, dissera que a beleza havia sido pródiga com essa jovem.

Um nariz reto, um queixo firme e rebelde, uma moça completamente calma, completavam sua descrição.

Ao andar, demonstrava a graça de sua silhueta harmoniosa. Cada movimento sugeria a vida ao ar livre, vida de campo e de rua, de forma tão eloqüente como demonstrava sua cútis, repleta das suavidades próprias de sua nativa Irlanda.

—    A coisa mais terrível de ser uma parente pobre, — disse, enquanto colocava a mão no ombro da outra, — consiste em não poder dispor das amizades de seus parentes ricos. Eu teria dito a Hilary George: «Não poderá regressar a Londres, por mais im­portantes que sejam seus negócios, porque minha sobrinha, Marjorie, deseja que alguém jogue o piquete com ela!»

Vera, com um ligeiro e imperceptível movimento, retirou a mão da outra, que se apoiava em seu ombro.

—    Não seja tola, Marjorie! — disse-lhe. — Ralph está muito aborrecido. Hilary foi muito grosseiro com seu tio.

A jovem levantou as sobrancelhas.

—    Grosseiro? repetiu. Por quê? Eu sempre pensei que êles eram muito bons amigos...

—    Foi muito grosseiro, disse ela novamente. E a propósito, perguntou, seu pretendente não vem hoje, não é?

A face da jovem enrubesceu e ela empertigou-se um pouco mais.

—    Desejaria que não me falasse dessa espécie de coisas, Vera, — disse-lhe. — Eu procuro tratá-la com bondade e não perde oportunidade para me aborrecer com essas tolices.

Vera riu e dirigiu-se para o piano.

—    Não sabia que era uma tolice, disse, enquanto se sen­tava e procurava algumas peças musicais.

A jovem aproximou-se com as mãos nas costas e ficou pa­rada atrás dela.

—    Você gosta de mim, Vera? — perguntou-lhe.

Vera voltou-se e olhou-a fixamente.

- Mas, criança querida, — disse-lhe, — não seja tola. Você não me desagrada.

Aproximou uma cadeira ao lado do piano e sentou-se.

—    Não toque, disse, falemos de coisas mais íntimas.

—    Essa é justamente a espécie de conversa que me desagra­da. Acabo de ter uma conversa íntima sobre aveia, disse a outra. Mas esse jovem... como se chama?

—    Gallingford. Frank Gallingford, disse Marjorie brevemente.

—    É você que está apaixonada ou é ele falou com senso de humor, esquecendo-se do ressentimento de antes.

—    Penso que é ele que está apaixonado.

—    Qual é sua profissão... um engenheiro ou o quê? perguntou Vera, tocando as teclas do piano, com suavidade.

—    Algo pelo estilo... — E Marjorie mudou o tema da conversa. — Será que o tio... será que o tio, pareceu vaci­lar um instante, tal como diria Mr. George, «descarregou toda sua força» contra aquele desgraçado homem?

—    Você refere-se ao ladrão?                                                       

Morjorie concordou com um movimento de cabeça.

—    Não penso que tenha recebido mais do que merecia, disse Vera.

—    Pensa, realmente, que veio roubar as jóias do tio?

—    Por que não? — perguntou Vera, sem olhá-la. — E uma coleção de muito valor. Há medalhões que valem de trezentos a quatrocentas libras cada uma. .. há um que vale, pelo menos, um milhão, — acrescentou rapidamente. — Assim acredito.

—    Mas, de que serviriam para o ladrão? — insistiu a jovem.

—    Bem... — Vera encolheu os ombros. — Você está que­rendo que eu faça um estudo da psicologia da mente do ladrão e eu não estou preparada para isto.

Marjorie voltou para junto da janela e contemplou a paisagem. Fazia mais de uma hora que estava chovendo e as ár­vores tinham um mísero aspecto, envoltas numa espécie de ne­blina que se levantava desde Medway Valley.

—    Aconselho-a a não discutir esse assunto da sentença com seu tio, — falou Vera, por cima do ombro, — Está muito contrariado: penso que foi por causa da discussão com Hilary George.

A jovem permaneceu calada. Não podia compreender Vera. Sempre fora um enigma para ela. Que era uma mulher desapontada, Majorie sabia. Esperara encontrar uma vida de luxo e negligência e, em vez disso, converteu-se meramente numa go­vernanta, ocupando o lugar da outra que Sir Ralph despedira, e despedira justamente na época do casamento.

Vera era mulher ambiciosa. Não havia fixado limites para suas possibilidades.

Viera, como pensava, para um mundo mais amplo, para uma vida melhor, na ânsia de exercer sua arte e gênio e, em vez dis­so, viu-se reduzida aos prosaicos deveres domésticos, sob a di­reção de um homem velho, mesquinho e avaro.

O sonho de Marjorie foi interrompido pelo cessar repentino da música. Houve uma pequena pausa e logo ouviu-se a voz de Vera, que lhe perguntava:

—    De onde poderei tirar quinhentas libras esterlinas?

 

A VISITA DE TILLIZINI

Marjorie voltou-se com um sobressalto.

—    Quinhentas libras? repetiu.

Vera confirmou com a cabeça.

—    Necessito desta soma, disse, para determinado fim. Compreende que o que lhe digo é absolutamente confidencial, pois não?

—    Oh, certamente! asseverou Marjorie. Mas é uma quantia muito grande de dinheiro. Não poderá obtê-la diretamente com o tio Ralph?

—    Com o tio Ralph! exclamou a outra com desdém. Seria incapaz de dar quinhentas batatas! Um pedido de quinhen­tas libras bastaria para nos separar pelo resto da vida!

Ela riu amarguradamente.

Marjorie cerrou as sobrancelhas de maneira pensativa.

—    Não posso pensar em ninguém, disse de modo vaga­roso.

—    Então, não sei, falou Vera bruscamente, não sei exatamente por que lhe perguntei.

Não puderam prosseguir com o objeto de sua discussão, porque Sir Ralph entrou naquele preciso instante.

Evidentemente, já se esquecera de que suas relações com a espôsa tinham estado tensas, em conseqüência justamente da pro­visão de aveia e carnes.

—    Vera, disse, aproximando-se dela, — lembra-se daquele homem que estava no Tribunal, um tipo característico de estran­geiro?

Ela ficou pensando.

—    Sim, havia uma pessoa sentada perto... quase disse «Hilary George», mas achou mais prudente interromper-se e men­cionar o nome de outro advogado, interessado no caso.

—    Que impressão lhe causou? — perguntou-lhe.

—    Quase lhe diria que nenhuma impressão me causou, respondeu, sorrindo. Sentia-se ansiosa por fazê-lo voltar a seu bom-humor. Mas, desgraçadamente, não prestei muita atenção nele. Era um homem de aspecto distinto, bem barbeado, com uma fisionomia pensativa.

Sir Ralph fez um gesto de assentimento.

—    É ele mesmo. Acabo de receber um bilhete seu. Não sabia que estava em Burboro. E Tillizini.

Disse isto muito preocupadamente. Naquela ocasião o nome de Tillizini andava na boca da metade da população da Inglaterra.

—    Tillizini? — repetiu Vera, semi cerrando os olhos.

Ele concordou com um assentimento de cabeça.

—    Nem mais, nem menos, — disse. — Recebi uma carta de um dos subsecretários do Ministério do Interior, anunciando-me sua vinda para cá. Não posso compreender como nosso pequeno roubo tenha podido despertar sua atenção, mas, "de toda maneira deve ter muito interesse, desde que nos visita e não regressou até hoje. Mandou avisar-me de que se hospeda no «George» e escrevi-lhe convidando-o para jantar, esta noite.

Ela fez um trejeito..

—    Não é um detetive ou algo parecido? — perguntou.

Sir Ralph era muito susceptível de se mostrar irritado, quando alguém não estava de acordo com suas idéias. Era sempre melhor acatá-las em excesso do que menosprezá-las, de qualquer modo.

—    É claro! Não tem lido os jornais? — prosseguiu falando com ar magistral. — é impossível que não tenha visto seu nome, nestes dias. E o homem que o governo da Inglaterra tem como uma espécie de consultor e ao qual encarregou de deslindar tudo que se relacione com a onda de crimes que avassala o país.

—    Já ouvi alguma coisa a respeito disto, — disse descuidadamente sua esposa. — A «Mão Negra» ou a «Mão Vermelha»... esqueci-me da cor exata..."

Sir Ralph franziu a testa.

—    Você não deve tratar estas questões tão frivolamente, Vera, — disse friamente. — A «Mão Vermelha» é uma organização miste­riosa, que está assestando golpes sobre golpes em nossa tranqüi­lidade doméstica. Todo homem e, poderia acrescentar, toda mu­lher, deveriam mostrar-se devidamente agradecidos para com aqueles que, mercê de seus dotes de adivinhação, procuram resguardar as vítimas inocentes dos ataques de uma quadrilha de criminosos organizada.

Vera odiava o esposo, quando lhe fazia discursos. Ela sabia muito mais da «Mão Vermelha» do que estava disposta a discutir com Sir Ralph.

Era essa uma pose sua, como da maior parte de certas pes­soas de sua classe: fingir uma completa ignorância sobre assuntos que chamavam a atenção dos leitores de jornais.

A atitude de ignorância é muito comum entre pessoas da classe endinheirada. Popular, porque sugere uma superioridade acima das influências que as rodeiam. Porque significa também uma independência para com os fatos da crônica e também por­que é a mais fácil de tôdas as poses a assumir e a sustentar.

Vera compreendeu que esta atitude lhe convinha muito a suas maneiras. Dava-lhe algo da poderosa ingenuidade que tinha um efeito paralisante sôbre os demais membros melhor informados, mas socialmente inferiores da comunidade. Assim, evi­tava ser aborrecida com o longo detalhe de notícias que já lera nos jornais da manhã, em forma bem mais concisa e mais acurada.

Seu interesse pelo grande detetive italiano era, no momento, muito convencional, exclusivamente doméstico, tanto que se le­vantou da cadeira junto ao piano.

—    Terei que avisar a Parker para pôr mais outro talher na mesa, disse.

—    Se ele aceitar, — interrompeu-a Marjorie.

—    Não seja absurda, Marjorie, é claro que aceitará o con­vite. Como deveremos chamá-lo... inspetor, sargento ou como? indagou de Sir Ralph.

Ela trazia dentro de si mesmo o espírito de rebelião e sé permitia essas liberdades de atitudes que, em circunstâncias nor­mais, teria evitado assumir.

Nem por um momento pensara que seu espôso lhe adianta­ria o dinheiro de que necessitava. Mas, talvez pudesse dar-lhe uma parte, desde que ela soubesse encontrar uma desculpa sufi­cientemente plausível. A verdade não poderia ser dita, estava fora de cogitação. Sorriu ao pensar na situação. Era mulher de imaginação, mas não de tanta que pudesse conceber Sir Ralph em semelhante conjuntura. Precisava dêste dinheiro com tanta urgência como jamais necessitara em outras ocasiões. Não era para ela própria. Suas próprias necessidades eram poucas e seus gostos muito simples. Talvez, pudesse induzir o esposo a dar-lhe uma centena de libras, se conseguisse encontrar um bom pretexto e era mister ter um superlativamente bom para levar Sir Ralph a se desprender de seu dinheiro.

O descontentamento pela vida que levava, o aborrecimento por uma situação que não desejava pareceu pesar sobre ela e tudo isso levou-a a tratar do assunto presente numa forma que, bem sabia, o esposo não poderia aprovar.

—    Pode chamá-lo de Dr. Tillizini, — disse Sir Ralph severamente. — É professor de Antropologia na Escola de Medicina de Florença. É um cavalheiro, Vera, e espero que você o trate como tal.

Marjorie, que fora uma expectadora da conversa entre Sir Ralph e a esposa, pôs-se de pé, retirando-se discretamente com seu livro, da cadeira em que se achava para a janela próxima. Quando Sir Ralph voltou-se para sair, ela voltou-se.

—    É certo tio, que esse homem virá? — perguntou. — Será divertido!

Sir Ralph fez um gesto de assentimento.

—    Assim o espero. Não posso deixar de convidá-lo, mas, como é um homem muito ocupado, é possível que tenha que regressar à cidade, imediatamente. De qualquer maneira, tenho a certeza, — disse com afetada gravidade, — de que aprovará a forma pela qual tratei, hoje, o delinqüente. Penso que foi mons­truosidade a forma por que Hilary George...

Sentia-se ainda magoado com a forma por que o tratara o amigo e pôs-se a dar à jovem uma quantidade de desculpas e justificativas, relatando-lhe, brevemente, o ocorrido fora do Tri­bunal, cena em que ele tivera uma atitude digna e correta, ao passo que Hilary perdera a serenidade, ao grau máximo.

Sir Ralph justificava-se com exagerada veemência.

— Hilary George arrepender-se-á disso, — disse.

Falou num tom de convicção de alguém que já tivesse arranjado com a Providência para que as coisas sucedessem de acordo com seu desejo.

Marjorie ia caminhando atrás de seu tio, quando um olhar de Vera fê-la retroceder. A mulher mais velha esperou até que a porta fosse fechada atrás de seu esposo.

—    Marjorie, — disse-lhe com o mais suave e o mais melífluo de seus tons caseiros. Quero que faça um favor por mim.

—    Com todo o prazer, querida, contestou a jovem calmamente.

Lady Morte-Mannery brincou descuidadamente com uns pequenos ornamentos de prata, que estavam sobre uma das mesas e que havia ali em profusão, na sala, colocando-os como se fossem peças de um novo jogo que ela estivesse jogando. Parecia concentrar toda sua atenção em alguma coisa, enquanto estava falando.

—    Quero que me faça um favor especial, repetiu. Além do mais, sei que posso confiar em você, a respeito do dinheiro, que já lhe disse e agora desejo que me ajude num pequeno estratagema. Esse homem que virá, hoje, disse, este italia­no, não é, em realidade, a pessoa, a espécie de homem que eu desejaria encontrar. Odeio os detetives e toda essa gente mais ou menos melodramática. Falam de crimes e coisas deste estilo e, ademais, pareceu vacilar, penso que poderei confiar em você, não é assim?

Olhou-a fixamente.

—    Sim, respondeu a jovem com tôda a gravidade, perguntando-se qual seria o serviço e o que é que estaria por vir.

—    Bem, você sabe, querida, disse Vera lentamente, enquanto continuava brincando com as caixas de confeitos e os ob­jetos de prata, eu pertenço a um clube. É. um clube de se­nhoras. Você não encontrará o nome dele no guia Whitaker, porque é lógico que não desejamos e nem nos agradará revelar sua existência para todo mundo, se bem que esteja devidamente registrado. Pois bem, há dois ou três meses, tivemos ali um con­flito inesperado. Nós outras... nós outras... Porque haveria eu de enganá-la? disse, num repente de confiança e com um sor­riso raro. Houve uma batida no clube! Você compreende Uma batida policial! Jogava-se, ali, querida, muito fortemente. Não nos contentávamos com o bridge. Uma mulher, esqueci-me de seu nome, iniciou o jogo de bacará e tínhamos também uma roleta, você sabe...

Ela encolheu os ombros.

—    Era uma coisa muito fascinadora. Enquanto umas perdiam, outras ganhavam somas consideráveis. Então, houve uma briga e, à noitinha, a polícia chegou, inesperadamente. Seu querido tio Ralph estava na cidade, ocupado em suas reuniões e comícios e felizmente eu pude dispor de todo o tempo, à minha vontade. Foi uma sorte ter conseguido escapar das conseqüências de minha loucura. Dei um nome falso e na manhã seguinte fui levada com as outras mulheres a Bow Street. Você deve lembrar-se disto. O caso causou sensação. Ali, interrogaram-me e ficharam-me com o nome falso. Ninguém me reconheceu e nin­guém veio a saber de nada, a não ser você, agora, mas você é muito discreta.

Deteve-se outra vez e olhou rapidamente, de soslaio, para a jovem.

—    Oh! não há necessidade de se sentir chocada, — disse com certa acritude. — Conduzi-me muito bem, mas o caso é que Tillizini estava no Tribunal, nesse dia e temo que me venha a re­conhecer .

—    Que desgraça! — disse Marjorie. — Realmente, Vera, não senti um choque, mas seu relato, impressionou-me profundamente. Não sou chamada, entretanto, para fazer o julgamento de suas ações. Que deseja que eu faça por você?

—    Quero que me ajude a convencer a Sir Ralph que estou muito indisposta e não posso receber o convidado. Irei agora mesmo diretamente para a cama e quero que você, como um anjo tutelar, faça as honras da casa ao detetive.

—    Com todo o prazer, — disse Marjorie, com um sorriso.

—    De todo modo, — disse Vera, um tanto asperamente, — Ralph não a repreenderá diante das visitas, nem fará qualquer menção ao gosto exagerado pelas batatas. Ralph é um tanto fa­nático em tudo que se refere a matéria de comidas, — disse. — Há um padrão pelo qual julga tddas as fases da economia do­méstica.

Marjorie sentia uma infinita piedade de Vera. Não era mais nova do que a outra senão uns sete ou oito anos e, portanto, Vera era muito jovem ainda e poderia encontrar, na vida, toda a alegria, a cor e o movimento.

— Farei o que me pede, — disse-lhe.

Pela segunda, vez, nesse dia, colocou sua mão no ombro da outra.

—    Não me encoste, querida, disse Vera com repentina aspereza e o cálido e generoso coração da jovem sentiu-se gelado, de repente.

Vera deu-se conta disso e tratou de reparar seu erro.

—    Peço-lhe o favor de não se inquiçtar por minha causa, querida, disse num tom mais suave. — Sinto-me deveras in­comodada, muito preocupada em saber como enfrentar tudo isto.

Neste instante, abriu-se a porta da sala e William, o mordomo, entrou, cheio de importância.

Ficou parado junto à porta.

—    O professor Tillizini! anunciou.

 

UM CAÇADOR DE HOMENS

Pareceu a Marjorie que Vera retrocedia, ao ouvir pronunciar seu nome.

A jovem esperou que ela se adiantasse, para cumprimentar o recém-chegado, mas vendo que a outra não fazia nenhum mo­vimento, Marjorie compreendeu que devia agir e dispôs-se a cum­prir com seus deveres de dona de casa.

O homem, que apareceu no umbral da porta, era de alta estatura. Talvez, parecesse mais alto, em conseqüência de sua ma­greza. Estava todo vestido de preto, da cabeça aos pés e a larga gravata, que adornava seu colarinho, era também de um tom de negra severidade. Levava na mão um chapéu de suave feltro preto, que o mordomo não havia podido tomar, apesar das reite­radas tentativas.

Seu rosto era magro e comprido, abatido e cheio de viços. Os olhos grandes eram cinzentos e de olhar penetrante. Eram terrivelmente vivos e expressivos, pareceu a Marjorie. Davam a impressão de que em suas profundezas ficava contido todo o decurso de sua vida. O cabelo era preto e aparecia ligeiramente penteado, atrás das orelhas.

Não se podia chamá-lo de feio, nem tampouco de formoso Devido a seu caráter e fortaleza, podia dizer-se que seu rosto era atraente e fora do comum. A boca era grande e sensitiva. As mãos, sem luvas, compridas e branca e tão delicadas quanto as de um cirurgião.

Olhou com rapidez de uma para outra das mulheres.

—    Sinto muito ter vindo aqui incomodá-las, — disse. Em sua voz não se notaya o menor sotaque estrangeiro. — Pensei encontrar Sir Ralph aqui. — Saiu, pois não?

Tinha um modo rápido e insinuante de falar. Parecia como se estivesse ávido de antecipar-se à resposta. Antes que a jovem pudesse contestar, ele havia falado novamente.

—    Convidou-me, gentilmente para jantar em sua casa e sinto muito não poder contentá-lo. Devo regressar a Londres dentro de poucas horas. Tenho que realizar duas entrevistas importantes.

Seu sorriso era difícil de interpretar; iluminou todo seu rosto e mudou-lhe q aspecto severo, moroso e funéreo, no de um ser novo e radiante.

Marjorie percebeu que havia nele algo de formoso em seu divertimento. O sorriso aparecia e desaparecia, como um raio de sol num céu de nuvens.

A senhorita é Marjorie Meagh, — disse, — e a senhora, — acrescentou com ligeira inclinação de cabeça, — é Lady Morte-Mannery.

Fez um gesto interrogativo com a cabeça. Esse gesto e a inclinação que fez foram os únicos indícios que traíram sua ori­gem continental.

Vera fez o impossível para sorrir. Adiantou-se um pouco embaraçada. Esperara poder escapar a essa apresentação, pretex­tando uma dor de cabeça para sair do aposento.

—    Eu a vi no Tribunal, — disse Tillizini, com rapidez. — Foi um caso interessante, não é verdade ? Aquele pobre homem...

Estendeu a mão num gesto de piedade.

—    Não compreendo por que possa simpatizar com ele, — disse Vera.

—    Sete anos! — Tillizini moveu a cabeça de um lado para outro. — É uma condenação muito longa, senhora, para um ho­mem inocente.

Novamente notou-se um ligeiro estremecimento nele. O homem caminhou, nervosamente, pela sala.

—    Ouviram sua declaração, não? Disse que havia entrado nesta casa para esperar um homem que devia dar-lhe um embru­lho.

—    Sim! Mas, não creio que o senhor possa dar crédito a isso, não é certo? — disse Vera com tom de desdém.

—    Sim, é claro que acredito, — falou Tillizini com toda calma e gravidade. — Por que não acreditaria? Toda a atitude do homem, cada uma de suas palavras mostraram de forma indubitável e eloqüente que ele não disse nada mais do que a ver­dade.

—    O senhor acredita, então, na existência deste italiano misterioso? — perguntou Vera com ansiedade.

—    Oh, Vera! Não se lembra? — interveio, de repente, Marjorie, com alguma excitação. — Havia um italiano na localidade! Nós o vimos um dia antes do roubo. Não se recorda? — per­guntou novamente. — Um homem baixo, que usava uma capa grande, que o cobria todo, chegando até os calcanhares. Passamos diante dele, quando íamos por Breckley Road e lembro-me de haver dito que parecia um espanhol ou italiano, pela maneira peculiar com que segurava seu cigarro.

—    Ah, sim!

Foi Tillizini, pletórico de vitalidade, que se estremeceu, como se movido por algum toque mágico, como se suas cordas vitais tivessem sido tocadas pela mão de algum músico invisível.

—    Era baixo e de compleição forte e estava vestido de preto, — disse a jovem.

—    Com bigode... não? — perguntou Tillizini.

A jovem moveu negativamente a cabeça.

—    Estava muito bem barbeado.

—    Vocês seguiam na mesma direção que ele, pois não?

A jovem confirmou, novamente, respondendo com um sorriso a pergunta do homem.

—    Voltou o rosto para vocês ou deixou de olhá-las?

Outra vez Marjorie assentiu.

Não queria, talvez, que lhe vissem o rosto? E o próprio Tillizini sacudia a cabeça, dando ênfase à per­gunta e como que respondendo a si mesmo.

—    Que tolice, Marjorie! — exclamou Vera, com petulân­cia. — Não me lembro de nada disto. Vêem-se, sempre, pelas ruas tocadores de realejo com mulas e outras coisas, através do povoado e vendedores de gelados, que vêm do lado de Chatham. Você está deixando-se levar pela imaginação!

Marjorie ficou surpreendida. Recordava-se, claramente, do incidente. Nesta mesma noite, falara a Vera sobre isso, na hora do jantar. E era estranho que ela viesse esquecer-se de tudo isto, ali, naquele instante.

—    Mas, você deve lembrar-se, — disse.

—    Não me lembro de nada, — contestou a outra, seca­mente. — Além disso, engana-se ao dar ao senhor Tillizini uma pista falsa. Não resta a menor dúvida de que esse homem, Mansingham, penetrou na casa com o propósito de roubar a coleção de jóias de Sir Ralph.

—    Instigado pelo italiano, — disse Tillizini. — Oh, vocês ingleses! — exclamou com um gesto de desgosto. — Sinto-me desolado, quando falo com vocês! Têm tal temor ao melodrama! São tão insistentes sobre os fatos que só explicam com facili­dade as coisas evidentes.

Meneou a cabeça, novamente, com ar resignado.

Na boca de outro homem, estas palavras teriam sido de impertinência imperdoável. Mas, Tillizini tinha o extraordinário dom de criar a seu redor uma atmosfera de amizade antiga. Até a própria Vera, francamente antagonista como era, tinha uma vaga sensação de haver discutido a questão, anteriormente, com o homem que falava de seus compatriotas de maneira tão des­denhosa .

Ele olhava para o relógio.

—    Antes de me retirar, queria ver Sir Ralph. Onde poderei encontrá-lo?

Vera tinha uma vaga suspeita de que nesse momento seu esposo estava discutindo acaloradamente com o açougueiro, que havia cobrado meio centavo a mais no preço da carne, mas pensou que não seria digno de sua posição dar-lhe esse detalhe a conhecer.

—    Estará aqui dentro de breves instantes, disse.

Tillizini olhou-a fixamente e ela não pôde suspeitar dacausa. Em seu tom, não houvera nada que justificasse o olhar de intenso interesse que apareceu, subitamente, no rosto dele.

—    Já a vi em outra parte, Lady Morte-Mannery, disse rapidamente, e é estranho que nesse momento não consiga me lembrar em que circunstâncias.

—    Realmente? disse Vera, num tom que denotava não ter nenhum interesse no assunto. Às vezes, temos umas curiosas impressões... queira desculpar-me um momento, doutor? disse. Sinto uma dor de cabeça muito forte e creio que seria melhor deitar-me. Miss Meagh lhe fará companhia, até à volta de Sir Ralph.

file caminhou até à porta com presteza, abrindo-a e quando ela passou, saudou-a com uma graciosa inclinação de cabeça.

Em seguida, fechou a porta e voltou lentamente para junto de Marjorie.

—    Onde, onde, onde? perguntou, batendo nervosamente no rosto, sem deixar de olhar para a jovem.

Ela riu.

—    Bem sabe, doutor, que é a si mesmo que poderia fazer tal pergunta, disse Marjorie. Não deve confundir-me com o Oráculo.

Novamente, viu-se o formoso sorriso que iluminava o rosto do homem.

—    Eu estava perguntando ao Oráculo, disse êle, tocando no peito. E agora já me lembro. Foi quando houve uma visita policial, numa casa de jogo. A casa era administrada por um de meus compatriotas. Eu compareci ao Tribunal.

—    Espero que saberá esquecer-se disto, doutor Tillizini, falou Marjorie com toda a calma. Lady Morte-Mannery foi muito descuidada, em ter se deixado apanhar num lugar assim e não seria muito amável recordar...

Deteve-se, de repente, ao ver o olhar de assombro no rosto do outro.

—    Minha estimada senhorita, disse, com o rosto ilumi­nado por um sorriso só seu, não quer dizer que Lady Morte- Mannery estivesse, de certo modo, complicada neste assunto, não é? Seria absurdo, doloroso e quase uma vilania, disse comextravagância, — associar semelhante dama com um assunto tão pouco limpo. Esse foi um erro muito comum, — prosseguiu. — A maior parte das pessoas ali presentes eram italianos da mais baixa origem e minha intervenção no assunto, deveu-se unicamente à esperança de identificar alguns dos participantes, como pessoas que para mim tinham outro interesse. Lady Morte-Mannery esteve no Tribunal, não posso negá-lo, mas, achava-se ali, como con­vidada do Magistrado da polícia metropolitana, Mr. Curtain, que, segundo suponho, é amigo intimo de Sir Ralph.

Isto, certamente, tinha acontecido assim e Marjorie sabia também da amizade alegada entre Sir Ralph e Mr. Curtain. Então, por que Vera lhe mentira? Deu-se conta da rapidez com que ela preparou o relato. Mas, por que apresentava o acontecimento como uma desculpa para evitar um encontro com Tillizini?

— Sir Ralph vem aí, — disse, de repente.

Havia visto passar o carro, diante da janela.

— Poderá ficar só, um instante, enquanto vou anunciar-lhe sua visita?

Ele abriu a porta, fazendo uma reverência.

Marjorie encontrou Sir Ralph no vestíbulo e disse-lhe que seu convidado o esperava.

—    Onde está Vera? — perguntou.

—    Foi para o quarto deitar-se, — disse Marjorie. — Estava - queixando-se de forte dor de cabeça.

Ouviu-se Sir Ralph praguejar baixinho.

Essas dores de cabeça, pensava, constituíam a principal arma de defesa de sua mulher. Um método muito conveniente, mas muito inconveniente para ele, de evitar as responsabilidades do­mésticas. Sentia-se mais aborrecido, porque ela não só havia deixado de fazer as honras da casa a um homem, por cuja posição ele tinha grande respeito, mas também porque sua atitude era de completo descuido.

Havia descoberto que só poderia atribuir à sua esposa o meio centavo cobrado a mais na conta do açougueiro. Ela aceitara a imposição numa carta que o fornecedor mostrara triunfalmente, para justificar sua atitude.

E foi assim que se encontrou na posição desvantajosa em que todo homem pode sentir-se, quando sua mente está ocupada

com alguma dificuldade privada. Nesse estado de espírito, foi ao encontro de Tillizini.

Os dois homens passaram à biblioteca, permanecendo ali pelo espaço de um quarto de hora.

Findo esse tempo, voltaram ao salão. Tillizini, para despedir- se da jovem, Sir Ralph para acompanhá-lo até ao automóvel que o esperava.

Marjorie notou que seu tio parecia consideràvelmente excitado. Seu rosto estava vermelho, incendiado, os cabelos grisalhos em desordem. Além disso, pareceu-lhe notar que tratava um pouco secamente a seu hóspede.

Quanto a Tillizini, era o mesmo homem imperturbável e frio de antes. Era um homem notável. Sim, essa era a palavra que Marjorie acreditava que melhor o definia. O homem era um artista, elevado a um grau que ela não podia conceber.

—    Algum dia voltarei a vê-la, disse Tillizini, enquanto tomava a mão da jovem entre a sua e ela ficou surpreendida com a força de seu aperto. Não me retiraria tão cedo, mas Sit Ralph deu-me permissão para ver Mansingham, o homem que foi condenado hoje.

—    Creio que suas suspeitas são completamente infundadas, professor, — disse-lhe Sir Ralph. Não acredito que possa saber alguma coisa da bdea desse homem, a não ser um amontoado de mentiras.

—    Oh, nada mais do que mentiras! — disse Tillizini, com um gesto especial. São às vezes interessantes, Sir Ralph, muito mais interessantes do que a verdade corrente e vulgar e, portanto, muito mais informativas.

O velho cavalheiro que se orgulhava de ser completamente simples em suas palavras, não podia pensar em paradoxos. Mur­murou um protesto, ao ouvir as palavras de Tillizini.

—    O senhor é um italiano, — disse-lhe. — E suponho que essas coisas o divirtam. Mas, aqui na Inglaterra, considera­mos como coisas inúteis. Não lhes dando muita atenção, evitam-se muitos aborrecimentos e aproxima-se muito mais da verdade. O senhor sabe, disse, com aprumo, que tddas essas histórias sobre as organizações misteriosas ficara muito bem em novelas. Admito que em seu pais, vocês contam com a Camorra e a posse desse fator contribui em muito para modificar seu julgamento,

mas posso assegurar-lhe, — disse, pondo suas mãos com paternal solicitude sobre as costas do visitante, — que nada dessa espécie...

Estavam parados junto à janela. A tarde começava a cair e as luzes ainda não tinham sido acesas.

De repente, um dos vidros da janela, justamente na altura da cabeça de Tillizini, saltou com estrépito.

Pareceu repercutir três vezes, em rápida sucessão e simultaneamente, desde o interior, ouviu-se o impacto: Craque! craque! craque!

 

A «MÃO VERMELHA» ERRA O GOLPE

Sir Ralph sentiu o assobio das balas passando diante dele e ouviu o ruído que fizeram ao se chocar contra um quadro que estava dependurado na parede oposta. Deu um salto para trás, ficando branco e trêmulo. Tillizini estendeu a mão e empurrou a jovem, obrigando-a a retroceder, refugiando-se num canto.

Imediatamente, ajoelhou-se e caminhou, assim agachado até junto da janela. Agarrou o caixilho e ficou, repentinamente, de pé. Por um instante permaneceu quieto, imóvel e, em seguida, viu-se partir de sua direção o fogo de uma Browning, que entrava em ação.

O ruído foi ensurdecedor. Tornou a atirar e esperou.

Voltou-se e dirigiu-se para onde estavam Sir Ralph e a jovem. Em seu rosto, surpreendeu-se um sorriso de beatitude.

—    O senhor estava dizendo, — falou com toda calma, — que essas coisas não acontecem na Inglaterra!

Sua voz estava tranqüila como sempre. A mão que tirou o lenço do bolso para limpar um filete de sangue, que corria de sua fronte, não tremia nem um pouco.

—    Que aconteceu? — perguntou Sir Ralph, todo agitado. — Deve ter sido algum vagabundo ou ladrão ou algo semelhante. Esses mendigos odeiam-me.

—    Os vagabundos não usam revólver Mauser, — disse tranqüilamente Tillizini. — Se se der ao trabalho de extrair as balas que estão metidas na parede, que penso devem ter causado algum dano, verá que esses projetis não têm a menor semelhança com os cartuchos que seus amigos usam.

E depois de uma pausa, concluiu:

—    Não, estes tiros não lhe estavam destinados, Sir Ralph. Posso assegurar-lhe que eram para mim, — e sorriu.

Depois, olhou para fora escrutadoramente, através da janela.

Sinto não o haver alcançado, — disse. — Cheguei ainda a ver claramente o atacante, quando fugia correndo por entre as árvores.

—    Quem era? — perguntou Sir Ralph, com ansiedade.

Tillizini fixou-o com certa malicia.

—    Quem foi o atacante? — repetiu deliberadamente a pergunta. — Creio que deve ter sido o italiano que mandou William Mansingham a esta casa, para receber o embrulho.

—    Mas, de quem? — perguntou Sir Ralph.

—    Isso é o que chegaremos a saber um dia, — respondeu o outro evasivamente.

Mais tarde, Sir Ralph dirigiu-se até à estação ferroviária, consumido pela curiosidade por encontrar Tillizini e saber do resul­tado da entrevista que ele permitira ao detetive realizar com Mansingham.

Se tinha ou não o direito de ordenar aos guardas da prisão local, que deixassem Tillizini entrevistar-se com o preso, era coisa que não poderia assegurar. Mas, como o italiano gozava de plenos poderes, conferidos pelo Ministério do Interior, era provável que a entrevista se realizasse, mesmo sem o seu consentimento.

O Presidente do Tribunal havia insinuado que seria preferível que a entrevista se realizasse em sua presença, mas o italiano soubera deixar de lado a sugestão, de maneira muito delicada.

Cinco minutos antes da hora do trem partir, Tillizini desceu do automóvel que o deixou à porta da estação.

Fumava um charuto fino e comprido e, segundo Sir Ralph pôde julgar, sentia-se sumamente satisfeito consigo mesmo, porque entre os dentes apertados, assobiava uma ária conhecida, enquanto caminhava pela plataforma.

—    E então? — perguntou curiosamente Sir Ralph, — que lhe disse nosso amigo?

—    Nada que o senhor não saiba, — replicou o outro secamente. — Tornou a repetir a história relatada no Tribunal sobre meu misterioso compatriota. Deu-me um ou dois detalhes que serão de muito maior interesse para mim do que para o senhor. ..

—    Tais como...? — sugeriu Sir Ralph.

—    Bem... — Tillizini vacilou. — Disse-me que o man­dante informou-o de que o embrulho que receberia, seria muito pequeno e que poderia carregá-lo no bolsinho de seu colete.

Sir Ralph sorriu sarcàsticamente.

—    Em minha coleção, há vários objetos que podem ser carregados no bolsinho do paletó. Não! — pareceu corrigir-se a si mesmo, — há, pelo menos, cinqüenta. E a propósito, — disse de repente, o senhor jamais teve oportunidade de ver minha coleção.

Tillizini sacudiu a cabeça decididamente com um divertimento passando-lhe pelos olhos.

—    Isso não é necessário, — disse. — Conheço cada um dos objetos que o senhor possui, Sir Ralph. O tamanho, origem e quase a quantia exata que pagou, peça por peça.

Sir Ralph voltou-se para ele com assombro.

—    Mas, como? — perguntou admirado. — Só tenho um catálogo particular e fora de casa não existe nenhuma cópia.

—    Está muito bem, — ponderou Tillizini. — Permita-me que os enumere, — e começou a contar nos dedos, pausadamente, — número um, um medalhão egípcio, da coleção Calliciti, em ouro salpicado de rubis, sem lapidar, no valor de quatrocentas e vinte libras. Número dois, uma placa de Tanagra, um verdadeiro exem­plar, muito raro, com moldura de ouro suave, com inscrições sírias. Número três, um medalhão de cristal, tomado em Nápoles por Na­poleão, em cujo reverso pode ser visto um busto de Beatriz de Este e do outro, «Il Moro», o duque de Milão, no valor de... a propósito, não lhe dei prèviamente seu valor, porque havia me esquecido, cerca de seiscentas libras. Número quatro, um objeto veneziano, em forma de harpa...

—    Mas, — murmurou Sir Ralph, — esses dados sobre minha coleção somente são conhecidos por mim.

—    Também eu os conheço, disse o outro.

Enquanto conversavam, o trem chegou e Tillizini dirigiu-se para um vagão vazio, ocupando um compartimento livre. Em seguida, fechou a porta e chegou-se à janela.

—    Há muita coisa que lhe falta conhecer, disse, e esta não será certamente a última. Entre o homem com o segredo e o homem que conhece esse segredo, há um intermediário, que sur­preendeu o primeiro e informou o segundo.

Sir Ralph ficou preocupado, ante tais revelações e enquanto o trem partia da estação, ficou parado, até que as luzes traseiras desaparecessem, à distância, entre as colinas de Burboro.

Ao encontrar-se a sós no vagão, Tillizini fechou as duas portas com a chave e abaixou as cortinas. Não tinha a menor dúvida sôbre as sinistras intenções do homem ou homens que o haviam seguido, com tanta tenacidade, acompanhando todos os seus passos, desde o instante em que saíra de Londres. Se devia ser assassinado decidiu que não seria morto por um tiro disparado por qualquer homem que se postasse no estribo do vagão.

Esse trem era o expresso de Burboro a Londres e a primeira parada seria na Tôrre de Londres.

Ocupou o assento central do carro, colocou os pés sôbre os almofadões à sua frente, deixou o revólver Browning descansando ao lado e dispôs-se a ler. Levava consigo, na pasta, uma boa quan­tidade de jornais londrinos, que o acompanhavam inseparavelmente.

Já lera um deles na viagem de vinda. Agora, dedicou-se a ler o outro.

Seu interesse parecia concentrar-se na página dos anúncios. Não se preocupou com nenhuma outra espécie de informações. Um a um, foi percorrendo os anúncios que apareciam sobre a clas­sificação «Pedidos de Serviço Doméstico».

Chegou ao final, sem descobrir nada de interessante. Deixou o diário e pegou outro.

Encontrava-se na metade de uma coluna, quando seus olhos se detiveram ante um anúncio. Para o leitor comum, não passava do. pedido usual de alguma dona de casa. O anúncio dizia:

“Cozinheiro-chefe, de preferência italiano. Para família de cincopessoas. Quinta-feira, não quarta, como se anunciou primeiramente. Informe que retribuição dará.» Trazia o endereço de uma agência de publicidade de Londres Tornou a lê-lo e, em seguida, retirou um pequeno canivete do bolso de seu colete e com todo o cuidado recortou o anúncio.

Parecia tratar-se de um anúncio um tanto especial. Acreditou ver alguma coisa oculta neste detalhe de quinta-feira e não quarta, como se anunciou, primeiramente. Era uma redação muito pouco usual, nesta espécie de anúncio. Quem poderia se preocupar que a noite «livre» fosse a de quarta-feira e não de quinta, que antes se anunciara?

Mas, o erro flagrante do anúncio estava evidentemente no último parágrafo. Geralmente, a maioria dos anunciantes mostrava interesse em conhecer que salário o pretendente desejava. Logicamente, jamais sugeriria que o «cozinheiro-chefe», cujos serviços se solicitavam, contribuísse, além de seu próprio trabalho, com alguma coisa que significasse pagamento por semelhante privilégio.

Tillizini olhou para cima e ficou pensando.

Ainda era segunda-feira. Alguma coisa fora preparada para a quarta-feira e isso fora transferida para o dia seguinte. Por isso, deveria pagar um preço. Possivelmente, pedia-se uma antecipação, do preço original, já combinado. O anunciante devia ter feito algum arranjo prévio sobre o pagamento.

De forma alguma, associava o anúncio com os recentes acontecimentos de Highlaw. Estes eram uma parte do plano que desen­volvia. Os emissários daquela terrível sociedade, cujas maquinações ela estava disposto a frustrar, quase poderia assegurá-lo viajavam no mesmo trem.

Achava-se tão acostumado a essa espécie de espionagem, que passava por cima dela, sem contudo se esquecer completamente de seus riscos, por completo. Estava sempre preparado para qual­quer movimento, por inevitável que pudesse ser e que fosse inten­tado contra sua vida ou contra sua segurança.

Era esperar demais, pretender que a «Mão Vermelha» lhe perdoasse as atividades que havia desenvolvido na América do Norte. Seus serviços serviram para limpar os Estados Unidos dessa peste de criminosos e terroristas tão temíveis. Não era sua culpa que eles tivessem se aproveitado das leis de emigração da Inglaterra, para assentar seus arraiais na metrópole.

Tornou a colocar os jornais na pasta e pouco antes do trem entrar na Torre de Londres, levantou as cortinas das janelas do com­partimento.

Escurecera completamente e a atmosfera estava úmida.

Não fez o menor movimento para descer na estação. Não era, como o sabia por experiência própria, um lugar muito seguro para que, um homem ameaçado como ele, desse por terminada sua viagem.

Havia ali túneis escuros que conduziam à entrada da estação. Túneis que um homem não poderia percorrer, sem arriscar a vida, se por acaso, fôsse o único transeunte ocasional e seria conve­niente dilatar a descida por mais uns cinco minutos, dando tempo a que os assassinos profissionais escapassem.

Um pouco além de Waterloo, desceu novamente as cortinas. Seus movimentos eram automáticos, desprovidos de temor.

Tomava as mesmas precauções que um pedestre apressado, ao atravessar um cruzamento de ruas de muito trânsito. Olhava da esquerda para a direita, antes de atravessar essa zona perigosa de seu caminho.

Ao longo da ponte ferroviária, que atravessa o rio até à esta­ção de Charing Cross, existe um caminho para pedestres, conhecido pelo nome de ponte Old Hungerford.

Nesse caminho, postavam-se três homens, a curta distância um do outro e que pareciam estar aguardando a chegada do trem, procedente de Burboro.

Podiam ver chegar o comboio das duas direções, estando em condições de, no preciso momento, abrir fogo contra o vagão que desejassem.

Tillizini não sabia disto, mas podia pressupô-lo. Não se tra­tava de uma contingência improvável.

Na apinhada estação de Charing Cross, podia sentir-se seguro. Por outro lado, encontravam-se ali dois homens que haviam passado toda a tarde, sem chamar a atenção, andando de um lado para outro e que se puseram à sua disposição, tão logo atravessou a grade da estação.

Fez um sinal convencionado a um deles, tão dissimuladamente, que nem o mais sagaz observador poderia perceber.

Os dois agentes de Scotland-Yard, cuja tarefa era seguir-lhe os passos, em Londres, começaram a andar atrás dele e ficaram pa­rados, na calçada, até vê-lo subir tranqüilamente no táxi, que o esperava.

 

A HISTÓRIA DA «MÃO VERMELHA»

Em torno do nome do Professor Antônio Tillizini centralizaram-se interessantes e movimentadas controvérsias. Nenhum homem de ciência poderá ter se esquecido do extraordinário do­cumento que ele leu, perante a Royai Society, em Sheffield.

Qualificou-o prosaicamente com o título de «Algumas Re­flexões sobre as Impropriedades do Código Criminal» e, do ponto de vista do leigo, considerava-se que o professor admitira, tran­qüilamente, no transcurso de sua conferência, que nos dez anos de sua carreira, vira-se obrigado a matar dez criminosos.

Fora suficientemente discreto, não oferecendo maiores deta­lhes, nesse particular e ainda que seus inimigos, valendo-se de suas próprias palavras, tivessem tentado inculpar-lhe um só desses crimes, não tiveram resultados em suas tentativas.

O mais significativo no julgamento da opinião pública era que Tillizini não se viu privado de sua cátedra de Antropologia na Universidade de Florença, nem muito menos que a sociedade de Londres tivesse fechado suas portas ao estrangeiro, que se confes­sava matador de homens.

Por outro lado, sabia-se que, ao preparar seu projeto de re­forma da lei criminal, o governo solicitara o conselho deste homem extraordinário. E havia se verificado, em conexão com o repentino aparecimento da onda de criminosos de caráter muito especial, precisamente a notoriedade deste homem, destacando-se aos olhos do público, ele que passava seis meses do ano na Inglaterra e os outros seis restantes, na sua adobada Itália e de quem tantas coisas se diziam e que vivia pensando em inglês e agindo como italiano.

Dizia-se dele que conhecia todos os segredos dos Bórgias. Murmurava-se alguma coisa sobre superstições e micromancia e esta reputação, sustentada entre a colônia italiana de Londres, servira- lhe em boa hora, quando chegou o dia em que resolveu dedicar-se à caça e a dar fim à «Mão Vermelha».

A organização conhecida como a «Mão Vermelha» foi varrida da América, graças ao heroísmo de Tillizini e ao concurso do habilíssimo Teurn, destacado detetive de Cincinati.

Haviam implantado leis severas e temíveis, até à brutalidade. O sistema de investigações, conhecido como «Terceiro Grau» fora elaborado de tal forma, que pouco faltava para igualar-se com os métodos da Inquisição espanhola e tinha sido necessário proceder assim, para acabar com a onda de chantagens e de crimes, em que se especializava a «Mão Vermelha».

Depois da eletrocução de sete homens, em Pittsburg, notou-se uma diminuição da onda criminosa, mas o silêncio da «Mão Ver­melha» não se prolongaria por muito tempo.

Foi no mês de dezembro de 19..., quando Carlo Gattini, opulento italiano que residia em Cromwell Square Gardens, recebeu um bilhete, escrito à máquina, em que se lhe exigia que colocasse a soma de mil libras esterlinas, em espécie, em determinado sítio do Hyde Park. Na missiva, mencionava-se a hora e a data. A carta estava assinada com uma pequena mão vermelha, impressa, evidentemente, com um carimbo de borracha.

Mister Gattini sorriu ao recebê-la e não demorou a passá-la às mãos da polícia.

Por indicação da polícia, respondeu por intermédio do «Times», concordando com o que pediam. Fez um embrulho e foi levá-lo ao lugar indicado e quatro homens da Scotland Yard ficaram de guarda, durante toda a noite, esperando a chegada do mensageiro da «Mão Vermelha».

O mensageiro não apareceu. Ou suspeitaram da trama ou estavam informados. Para o código da polícia, sempre desprovido de romantismo, o assunto podia dar-se por encerrado nesta altura.

Na manhã seguinte, porém, o rico súdito italiano recebeu uma nova comunicação que dizia assim:

«Oferecemos-lhe outra oportunidade. Se for à polícia, pode dar-se por morto. Coloque duas mil libras em notas, dentro de um envelope e deixe-o junto ao primeiro arbusto de seu jardim.

Gattini sentiu-se alarmado e foi notificar a polícia. Esta instou com ele para que não se intimidasse. Vários agentes, ves­tidos à paisana, ocultaram-se na sua residência e se distribuíram pelo jardim. Outros homens, do serviço secreto, instalaram-se na casa vizinha, mas novamente o mensageiro não apareceu e o ita­liano não recebeu mais comunicação.

Nas vésperas do Natal, Mister Gattini regressava da cidade, depois de um dia atarefado. Era viúvo e vivia em companhia de quatro criados: uma mulher de idade, que servia de cozinheira, uma arrumadeira e dois homens.

Às sete e meia, o camareiro dirigiu-se a seu aposento, para avisá-lo de que o jantar estava servido. A porta do quarto de Gattini estava fechada.

O criado chamou, mas não obteve resposta. Tornou a bater, sem resultado.

Voltou à dependência dos criados e contou o que estava acontecendo. Acompanhado do chofer, saiu para o jardim e os dois observaram a frente da casa, olhando até à janela do quarto de seu patrão.

Estava completamente escura.

Providencialmente, nesse momento, chegou um homem da Scotland Yard, que vinha por causa das cartas e os criados confia­ram-lhe seus temores.

Os três subiram até chegar à porta do quarto de Mr. Gattini e bateram com força. Não obtendo resposta, apoiaram os ombros contra a porta e abriram-na com estrépito.

A princípio, nada viram. O quarto estava aparente e completamente vazio.

Um deles apressou-se a acender a luz e, então, puderam ver.

O desgraçado homem fora atacado, enquanto se encontrava junto à sua mesa de toalete. A faca que o vitimara não aparecia em nenhum lugar e era evidente que a vítima sucumbira sem soltar um grito, um «ai» sequer.

Esse foi o primeiro assassinato... e outros mais haveriam de seguir.

Sir Cristóforo Angeli, rico banqueiro italiano, que se naturalizara súdito inglês, recebeu ameaça idêntica à de Gattini. Também não deu atenção ao pedido de dinheiro, que lhe era feito. Foi morto por uma bala, enquanto se achava recostado na janela de sua casa, numa bela tarde de primavera e nenhum ser vivo pôde dar notícia a respeito do homicida.

Houve um novo período de calmaria, mas era evidente para a polícia, que procurava uma pista por toda a Europa, que esta aparente inatividade não significava, absolutamente, uma cessação das atividades por parte da quadrilha, mas, ao contrário, uma prova cabal do êxito de suas operações e um novo recrudescimento. Muitos homens, que temiam por suas vidas, pagavam as somas que lhes eram exigidas, e tratavam de ocultar toda e qualquer infor­mação à polícia.

O reinado do terror ia crescendo e, quando não havia mais nenhum membro rico da colônia italiana para extorquir, voltaram seus olhos para outras fontes propícias e promissoras de copiosos resultados.

Henry S. Grein, abastado corretor da bolsa de Chicago, conhecido também em tôda a Europa, por suas valiosas coleções de objetos de arte, recebeu um pedido de dinheiro, escrito à máquina.

Telefonou para a polícia e a Scotland Yard mandou o me­lhor investigador para entrevistar o milionário no Fitz Hotel, onde estava hospedado.

—    Não pagarei nem um centavo, disse o milionário.

Era um homem de elevada estatura, rosto severo, com uma boca no feitio de armadilha de ratos e o agente de serviço secreto, inteirou-se de que nesse caso, a «Mão Vermelha» havia tropeçado com um candidato um pouco difícil.

—    Compete-lhe, — disse ao policial, evitar que me matem. Pode fazer os arranjos que desejar e estou disposto a oferecer uma recompensa de vinte mil dólares pela prisão da quadrilha ou sim­plesmente de seu chefe.

Foi, então, que começou uma luta extraordinária, que abriu pela primeira vez os olhos do público, em geral, para um fato que vinha ocorrendo há muito tempo.                

A história da luta de Grein com seus assassinos, no andai mais elevado do Fitz Hotel, o tiro certeiro que matara Antônio Ferrino, que conseguira penetrar em seu dormitório, o fracasso da tentativa de fazer voar o edifício do hotel por meio de dinamite — todos esses fatos já são do domínio histórico.

Foi na manhã em que o corpo de Henry S. Grein foi encontrado boiando sobre as águas do Tâmisa, em frente a Cleopatra's L’eedle, que o governo voltou sua atenção para Tillizini.

Na noite de seu regresso de Burboro, Tillizini achava-ee sentado em sua ampla mesa de trabalho, dedicando-se a solucionar um problema.

O reflexo vermelho da lâmpada que tinha a seu lado, dava- lhe ao rosto um aspecto sinistro, que comumente não possuía. Seu rosto fino era sulcado de profundos vincos — o nariz comprido, as sobrancelhas negras e arqueadas, mas qualquer que fosse a desa­gradável impressão que esses traços mefistofélicos pudesse dar, essa impressão desfazia-se ao observar-se o brilho agradável que iluminava os olhos de Tillizini.

Italiano como era, em cada um de seus traços, os olhos eram quase irlandeses, pela suavidade de sua cor cinzenta, grandes, claros e luminosos. Os longos cílios negros que os sombreavam, aumen­tavam a beleza do olhar.

A mão esquerda apoiava-se sobre o livro, para mantê-lo aberto no lugar desejado. Estendeu o braço, por cima da mesa, para pegar a cigarreira de ouro que ali se achava. Tirou um cigarro e acendeu-o na pequena lâmpada, que descansava ao lado de seu cotovelo.

O aposento, aonde se encontrava, era amplo e espaçoso. O teto e a lareira tinham sido artisticamente decorados pela arte mágica de Adam. As paredes possuíam painéis de carvalho escuro, que chegavam até à metade de sua altura e, a não ser por uma aquarela que representava uma paisagem, e que estava dependurada ao lado esquerdo da lareira, não se via nelas nenhum quadro.

Numa das paredes, achava-se uma estante de livros, que corria desde a parede exterior até uma porta, situada perto da janela, ocupando toda a sua extensão.

As janelas eram compridas e estreitas e estavam adornadas com pesadas cortinas vermelhas.

O ambiente denotava comodidade e severo luxo.

Tillizini continuava lendo, enquanto as nuvens de fumaça de seu cigarro subiam lentamente para o teto. De repente, fechou o livro, com um golpe e levantou-se, sem fazer barulho. Olhou para o relógio. Era um olhar inútil, porque ele tinha o senti­mento inconsciente das horas, fosse durante o dia ou durante a noite.

Aproximou-se de uma das janelas e olhou para fora at£ o Embankment.

Viu a crescente fileira de luzes que se estreitava na direção de Blackfrials, interceptadas, de certo modo, pela mole de Waterloo Bridge. Do outfo lado do rio, via-se um anúncio iluminado pela mole, que sugeria ao transeunte beber, à sua própria custa, determinada marca de vinho. Mais além, abaixo, uma alta torre iluminada por luzes que se apagavam e acendiam anunciava a marca do único uísque que valia a pena.

O professor observou tudo aquilo muito seriamente.

De súbito, viu-se um clarão de luz, que se extinguiu quase imediatamente. A luz tornou a acender-se logo. Era uma luz branca, brilhante, que voltou a se apagar.

Tillizini volveu com rapidez. De uma ornada mísula, tirou uma lâmpada de curioso aspecto e uma bobina de arame. Rapidamente fixou o fio da lâmpada num interruptor de uma tomada elétrica da parede. Apagou todas as luzes do aposento e ficou esperando. Novamente, viu-se brilhar a luz, na margem oposta do rio.

O professor ligou uma chave, na base da lâmpada e de seu aparelho de forma cônica partiu um raio de luz azulada.  Repetiu a operação por duas vezes, quando a luz na outra margem começou a brilhar furiosamente, em precipitadas marchas, com interrupções sumamente rápidas. Um pestanejar longo, um curto, um longo, outro curto. Parecia que não desejava perder um instante na transmissão de sua mensagem.

À medida que a luz «falava», Tillizini respondia de maneira idêntica. Leu a mensagem com tanta facilidade, como se se tra­tasse de um livro impresso, porque conhecia o inglês tão bem quanto sua língua materna e, além do mais, era um perito nas questões semafóricas.

A luz do outro lado da margem deixou de falar e Tillizini cerrou a janela, aonde estivera. Tornou a colocar o projetor na mísula, encostada contra a parede. Desceu em seguida a cortina e acendeu a luz do escritório.

Aproximou-se de sua escrivaninha e escreveu rapidamente o significado da mensagem que acabara de receber. Escreveu em caracteres diminutos, que poderiam passar por escrita cifrada e cujo significado só ele mesmo conhecia.

Apenas acabara de escrever, quando soou o timbre musical da campainha elétrica, que chegou suavemente a seus ouvidos. Apertou um botão, colocado ao pé da mesa, enfiou com rapidez o livro de notas na gaveta da mesa e voltou-se, no mesmo momento, para a porta que se abria.

O criado, impecavelmente vestido, apareceu com um visitante.

—    O inspetor Crocks, senhor, — anunciou.

Crocks era um homem baixo, forte e de aspecto jovial. Sua cabeça era tão calva como uma bola de bilhar. A barba, em ponta, já estava salpicada de cabelos brancos. Era o mais burguês dos burgueses.

Malgrado a tranqüilidade de sua aparência, Tillizini não tinha muitas ilusões sobre a visita do policial que acabava de chegar.

—    Sente-se, inspetor, — disse-lhe, indicando uma das cadeiras. — Aceita um cigarro?

O inspetor sorriu.

—    São muito fracos para mim, — disse, — prefiro meu cachimbo.

—    Pois encha-o, — disse o professor, com um sorriso.

Não quis oferecer-lhe fumo, porque sabia que essa era uma atenção que aborrecia aos fumantes de cachimbo, deixando a ini­ciativa à sua própria vontade.

—    E, bem? — perguntou, quando o outro começou a encher o brilhante cachimbo.

—    Se me perguntar, — começou o inspetor, — dir-lhe-ei que seus compatriotas não são muito serviçais, são um pouco... hum...

—    Um pouco mentirosos, — falou o professor com toda calma. — Todos os homens são mentirosos, quando têm medo e posso assegurar-lhe que essa gente está com medo de alguma coisa, que não posso entender. Não temem por eles mesmos, mas por seus filhos, suas esposas, por suas velhas mães e por seus velhos pais...

Levantou-se da mesa e pôs-se a caminhar, lentamente, de um lado para outro do escritório.

—    Estes homens a quem se refere são sem piedade... O se­nhor não sabe o que quero dizer, quando falo sem piedade. É uma palavra que talvez para o senhor signifique uma atitude injusta, talvez um pouco cruel. Mas, meu amigo... crueldade! — Pôs-se a rir amargamente. Não sabe o que é crueldade, essa espécie de crueldade que se conhece sôbre as margens do Adriático. Não lhe direi nada sôbre isto, pois que lhe tiraria o sono.

O detetive sorriu.

—    Eu conheço... um pouco disto, falou, com calma, enquanto observava uma nuvem de fumaça de seu cachimbo, que se desfazia no ar.

—    A sua idéia, — continuou dizendo o professor, de agarrá-los, parece-me muito boa. E quando tenha conseguido alguma prova contra eles... isso estará muito bem, disse secamente, uma coisa é tão fácil quanto a outra. E agora, meu ponto de vista é que êsses tipos estão cheios de veneno, são ratos sociais que devem ser exterminados, sem processos e sem remorsos!

Falava com tranqüilidade. Em sua voz ou em seu gesto não se podia notar nenhum sinal de emoção. A mão que estendeu até a cigarreira, para retirar um cigarro, estava firme. Mas, Crocks, que nada tinha de sentimental, não pôde, ainda assim, evitar um estremecimento de temor.

—    Sei que essa é sua maneira de pensar, replicou com um sorriso forçado, mas, não é uma opinião que encontre apoio em seu país. É uma opinião perigosa, que talvez possa en­volvê-lo em sérias dificuldades com as autoridades e também conduzi-lo até ao estrado de Old Bailey, debaixo de acusação capital...

O professor riu... seu riso era musical, baixo. Passou os dedos pelos cabelos encanecidos, fazendo um gesto que lhe era característico, e, em seguida, recostou-se no encosto almofadado de sua cadeira.

—    Bem, disse vivamente, que foi que descobriu?

O detetive meneou a cabeça negativamente.

—    Nada, respondeu, ou melhor, nada que valha a pena. A quadrilha é inacessível... quem pode dar alguma informação, mostra-se obstinado e nada quer dizer. Ou estão temerosos, ou quem sabe, ligados à própria «Mão Vermelha»? Procurei ameaçá- los, tentei suborná-los, mas em nenhum caso obtive resultado.

Tillizini sorriu suavemente.

—    E a «Mão Vermelha»... já fez algum outro movimento?

A mão do detetive penetrou num de seus bolsos. Tirou um

punhado de papéis, presos por uma borracha elástica. Dentre eles, separou uma carta.

—    Esta foi dirigida ao embaixador de San Remo — disse. — Não o aborrecerei, lendo-a. É igual a todas as demais. Mas, neste caso, a ameaça é contra uma criança, um menino.

—    Um menino!

As negras sobrancelhas de Tillizini juntaram-se num gesto de fealdade e repulsão.

—    Esta é a sua principal carta, — disse lentamente. Eu estava admirado deles demorarem tanto tempo a começar a ameaçar as crianças. O que pretende nosso desconhecido ameaçante?

—    Primeiro, o rapto... o crime depois, na hipótese de que o rapto não produza os resultados que esperam...

Tillizini tomou a carta das mãos do outro e leu-a cuidadosamente. Aproximou o papel da luz.

—    Esta é uma quadrilha americana... pensei que tivéssemos acabado com ela, mas, evidentemente, era uma organização maior do que havíamos suposto.

Ouviu-se, novamente, soar a campainha elétrica.

Tillizini alçou os olhos e ficou escutando.

Depois de um breve intervalo, a campainha soou novamente.

O professor fez um movimento com a cabeça. Numa ponta da mesa, estava uma grande caixa preta... abriu-a, enquanto o de­tetive observava-o curiosamente. Ao dar volta à chave e levantar a tampa, descobriu uma tríplice fileira de pequenas ampolas de vidro.

Tillizini tomou uma da frente, colocou-a no bolso e agachando-se, tocou o botão da campainha, que ficava a um lado da mesa.

A porta abriu-se, dando passagem ao criado, que vinha acompanhado de um jovem de muito bom aspecto e que parecia, evi­dentemente, um operário.

Crocks olhou-o, percebendo que se tratava de um inglês e per­guntou de que forma esses dois homens haviam chegado a se co­nhecer. O jovem aceitou o convite de Tillizini e sentou-se.

—    Bem, meu amigo, — disse o professor agradavelmente, — quer prosseguir com nosso assunto?

—    Sim, senhor, respondeu o outro com firmeza.

Tilliziniofêz um movimento afirmativo com a cabeça.

—    Recebi sua mensagem, falou e fitou o detetive, explicando, este homem chama-se Carter, disse brevemente. E um ferreiro, especializado em trabalhos de chumbo. Está sem trabalho, é solteiro, não tem família e está disposto a correr alguns riscos. Já esteve no exército, pois não? — perguntou-lhe.

O recém-chegado concordou com um movimento de cabeça. Achava-se sentado inquietamente, numa ponta da cadeira, como o fazem as pessoas que não estão muito acostumadas a lidar na alta sociedade e "se encontram embaraçadas.

—    Publiquei um anúncio num jornal, prosseguiu Tillizini,

—    solicitando os serviços de um homem que desejasse arriscar a vida. Ofereci duzentas libras em pagamento e esse homem se propôs ganhá-las.

Crocks parecia mistificado.

—    Mas, que é exatamente o que ele faz? perguntou.

—    Isso, disse Tillizini, com um sorriso, nem ele exatamente sabe.

Voltou-se para o homem que piscava continuadamente.

—    Cumpro com as atribuições que me são atribuídas e já ganhei cem libras.

—    Parece-me muito bem, Mr. Crocks: este homem não faz outra coisa senão viver em Soho, caminhar por uma e outra margem do cais, e apontou para fora da janela. Dali, deve transmitir-me, toda tarde a esta hora, um sinal impossível de ser compreendido por qualquer outra pessoa e, em seguida, pôr-se a caminhar pela ponte de Westminster até ao Embankment, depois até Willers Street e, em seguida, chegar até minha casa.

Passeou pelo aposento com largos e vacilantes passos.

—    Ele carrega a própria vida nas mãos e está informado disto,

—    explicou. Eu o avisei de que provavelmente seria assassinado, mas isso não pareceu inquietá-lo.

—    Nestes tempos difíceis, disse o operário, a pessoa não deve preocupar-se com uma coisa assim. É muito melhor ser assassinado do que morrer de fome e quando Mr. Tillizini me deu este trabalho, já fazia dois meses que eu estava desempregado.

—    O pagamento de duzentas libras, prosseguiu Tillizini, — recebe-o por contrato. Já lhe paguei cem libras e esta noite farei a entrega do restante e a importância de seus gastos. Provavelmente, — disse, com um sorriso, — poderá escapar a todo dano, hipótese em que, muito me alegrarei.

Olhou fixamente para o jovem.

—    Agora, deixe-me ver esses papéis que traz no bolso. Ponha-os sobre a mesa.

O homem procurou nos bolsos e tirou pedaços de papéis, cadernetinhas, apontamentos esparsos.

Tillizini, por sua vez, tirou do bolso a ampola que retirara do armariozinho medicinal de sua mesa. Abriu a tampa do frasco e logo se percebeu, no aposento, um perfume penetrante.

Com a ponta umedecida da tampa, tocou um dos objetos, que o jovem deixara sobre a mesa.

—    Logo se acostumará com esse cheiro, — disse sorrindo, — depois de um instante já não o perceberá.

—    De que se trata? — perguntou Crocks curiosamente.

—    Ficará surpreendido, quando lhe disser o nome da substância. É uma dupla destilação de rosas e a ampola que tenho entre as mãos, vale comercialmente perto de vinte e quatro libras.

A um sinal de Tillizini, Carter recolheu os papéis e tornou a guardá-los no bolso.

—    Tem um revólver? — perguntou-lhe o professor.

—    Sim, senhor, — confirmou o outro. — Já estou me acostumando a carregá-lo. Não entendo bem desses revólveres automá­ticos, mas estive outro dia em Wembley e pratiquei um pouco.

—    Espero que não tenha ocasião de usá-lo diretamente, — disse Tillizini secamente.

Apertou o botão da campainha e quase em seguida o criado atendeu.

Dê comida a Mr. Cárter, — ordenou-lhe e inclinou a cabeça, enquanto o homem se retirava.

—    Qual o significado disto? — perguntou Crocks.

—    Verá depois, disse o outro.

—    Mas, não estou entendendo nada, — asseverou o espan­tado detetive. — Por que razão daria uma soma tão grande de dinheiro a um homem que não faz outra coisa, além de enviar-lhe sinais elétricos todas as tardes?

Tillizini estava sentado junto à sua mesa.

—    Mr. Crocks, — disse-lhe, — seria uma falsa modéstia de minha parte se pretendesse que meus movimentos escapassem aos olhos da «Mão Vermelha». Tenho plena certeza de que não entro nem saio desta casa, sem que a quadrilha se inteire de meus movimentos. Cada um de meus passos é vigiado; cada uma das minhas ações considerada como uma possível ameaça para a mesma quadrilha. Esta sociedade sabe que todas as noites dedico- me a trocar mensagens com um homem, que se encontra na outra margem do Tâmisa. O mistério desses sinais surpreende natu­ralmente o temperamento latino e seu significado aparece engran­decido ante eles. Na segunda noite, pode estar certo de que Carter foi visto e localizado por eles. Pode também ter certeza de que o seguiram do cais até à entrada desta casa.

Uma suspeita começou a surgir na mente do detetive.

—    Então, Carter é uma farsa?

—    Uma farsa que me custa duzentas libras, — disse o outro gravemente. — Ele sabe o risco que corre e por isto estou lhe pagando uma grande quantia. Afortunadamente, conhece alguma coisa sobre sinais e, de certo modo, pode avisar-me, graças a um código próprio, o que está acontecendo do outro lado do rio.

E, concluiu com um sorriso:

—    Até agora, nada ocorreu, que seja digno de se mencionar. Vejamos daqui para frente.

—    Matá-lo-ão, — disse Crocks.

—    Procurarão fazê-lo, — disse Tillizini, — com toda a calma,

—    mas, penso que ele é um homem muito esperto. Confio em que nada de grave venha a lhe acontecer e que eles só procurarão resolver o mistério que o rodeia. Olá!

A porta abriu-se, de repente, e o criado entrou de maneira precipitada.

—    Sinto muito, senhor... — disse, detendo-se, imediatamente.

—    Que aconteceu? — perguntou Tillizini, pondo-se de pé.

—    Houve alguma coisa com Carter?

—    Não, senhor... ele está na cozinha. Ouvi tocar a cam­painha e a jovem... — prosseguiu com voz entrecortada, — ... uma jovem caiu dentro da casa... na hora que atendi. Que devo fazer, senhor?

—    Caiu dentro da casa? — perguntou Tillizini, adiantando- se e caminhando em direção ao vestíbulo, descendo as escadas de dois em dois degraus.

O criado tivera suficiente presença de espírito, fechando a porta depois da chegada da estranha visitante.

Estendida sobre o tapete do vestíbulo inferior, achava-se o corpo de uma jovem. Tillizini, que estava alerta ante cada um dos movimentos da quadrilha que vinha combatendo, avançou cautelo­samente.

A mulher estava de costas e caíra justamente debaixo de uma das lâmpadas e ele pôde ver-lhe o rosto. Levantou-a nos braços e encaminhou-se com sua carga, em direção à escada.

Crocks estava parado no umbral da porta.

—    Que aconteceu? — perguntou.

Tillizini não lhe deu resposta. Carregou a desfalecida figura até depositá-la sobre o sofá, que estava junto da parede.

—    O que ocorreu? — perguntou ao criado, incisivamente.

—    Ouvi soar a campainha, senhor, — disse o excitado ser­viçal, — e desci até à porta, pensando que era...

—    Não interessa o que pensou... seja breve, — cortou Tillizini.

—    Bem, abri a porta, senhor, e a mulher deve ter desmaiado pouco antes e devia estar encostada junto à porta. Cheguei a tempo de segurá-la, carregando-a até ao meio do vestíbulo, antes que desfalecesse de todo.

—    Viu alguém na parte de fora?

— Não, senhor, — respondeu o homem.

—    Fechou a porta atrás de si, segundo pude ver, — falou Tillizini aprovativamente. — Realmente, penso que aproveitarei alguma coisa de bom que você ainda possui, Thomas.

De sua farmácia caseira, tirou uma pequena ampola, removeu a tampa, umedeceu a ponta do dedo no conteúdo, passando, em seguida, o dedo sobre os lábios da jovem inconsciente.

—    É apenas um desmaio, — disse, — enquanto com a mão experiente tomava o pulso da enferma e seus dedos sensitivos apertavam-lhe suavemente o pescoço.

A droga teve um efeito rápido e surpreendente. Ela abriu os olhos, quase imediatamente e olhou a seu redor.

No mesmo instante, seu olhar caiu sôbre o rosto de Tillizini.

—    Não procure falar, — disse-lhe com doçura. Espere um momento. Vou dar-lhe um pouco de vinho, ainda que não acredite que lhe faça muita falta.

A jovem procurou sentar-se, mas uma firme pressão em sua mão, conteve-a em seu movimento.

—    Fique quieta por um momento, disse. Esse cava­lheiro i um detetive da Scotland Yard. Não precisa de ter medo...

—    É o senhor Tillizini? perguntou.

Ele confirmou com um movimento de cabeça.

—    Viu meu esposo? murmurou a jovem.

Tillizini meneou novamente a cabeça.

—    Sim, sim. É o homem que foi condenado no Tribunal de Burboro.

Viu passar uma sombra de dor pelo rosto pálido da moça.

—    Sim, foi condenado, disse debilmente. Era inocente, mas condenaram-no.

As lágrimas velaram seus olhos.

Tillizini tinha ainda o frasquinho azul de remédio na mão. Tornou a destampá-lo e passou a ponta do dedo novamente nos lábios da jovem.

Ela franziu as sobrancelhas.

—    O que é isto? perguntou. E alguma coisa muito doce.

O professor sorriu.

—    Sim, é muito doce, minha pobre jovem, — disse-lhe, — mas lhe fará muito bem.

Sua predição foi logo confirmada, porque instantes depois, pôde sentar-se... tranqüila e reposta.

—    Soube que o senhor esteve com meu esposo, disse. Desejava falar-lhe, mas, quando cheguei, o senhor já partira. Pensei escrever-lhe e estava começando a carta, quando um cava­lheiro veio...

—    Que cavalheiro? perguntou Tillizini.

—    O cavalheiro italiano, replicou, o mesmo que pediu a meu esposo para ir a Highlaw. Oh, eu bem sabia que não era verdade que ele pretendesse roubar a casa de Sir Ralph! Pobres como somos, jamais cometeríamos semelhante ação.

Tillizini assentiu com a cabeça e levantou a mão num gesto de simpatia.         

—    Sim, o italiano esteve lá e o que queria?

Ela já estava completamente tranqüila.

—    Deu-me algum dinheiro, — disse a moça, — e disse-me que faria o possível para que meu esposo fosse libertado. Fiquei muito contente, porque tive a certeza de que ele iria procurar Sir Ralph e supus que George seria logo posto em liberdade.

Era pouco mais alta que uma menina e os homens que a escutavam, sentiam-se cheios de piedade, ao pensar na ingenui­dade de sua crença no poder imenso de Sir Ralph.

—    E, então, — prosseguiu, — pediu-me algo horrível!

Sentiu um leve estremecimento ao se recordar.

—    Pediu-me que fizesse a mesma coisa, pela qual meu marido foi condenado.

—    Ir à casa?

—    Sim, — respondeu.

—    E pegar o embrulho?

Novamente respondeu que sim.

—    Devia fazê-lo na noite de quarta-feira?

Os olhos dele denotaram excitação.

—    Sim, — disse ela, — como o sabe?

Pelo rosto dela, passou uma expressão de temor.

Essa moça simples do campo estava alheia às profundas maquinações dos jovens e havia chegado ao casamento numa idade em que a maioria das jovens ainda freqüentam as escolas.

—    Eu sei, — disse enigmaticamente Tillizini.

Pôs-se a caminhar de um lado para outro. Estava com as mãos nos bolsos e a cabeça baixa.

—    Agora não o poderá fazer. Viram-na dirigir-se para aqui. Suponho que foi para isso que veio...

—    Sim, — disse ela. — Tenho muito medo dessa gente Nós somos pessoas tranqüilas. Nunca estivemos complicados em coisas assim.

Tillizini ficou pensando um momento. Em seguida, aproximou-se do telefone e tomando o receptor, pediu um número Falou brevemente em italiano com alguém e tinha um ar autori­tário. Desligou o aparelho.

—    Chamei uma dama aqui para levá-la para a casa dela, disse. Não acredito que essa gente possa molestá-la, já que não sabe de nada que possa comprometê-los. Suponho, acres­centou, olhando para Crocks, que poderá me enviar um par de homens para acompanhar essa jovem até chegar à casa, para onde a enviarei...

Crocks concordou com um movimento de cabeça.

—    Eu mesmo a levarei, disse com jovialidade. Eu valho por dois homens.

Tillizini sorriu.

Às vezes penso que você vale por três, disse, o que é, o que pode ser e o que jamais parece ser.

Crocks soltou uma gargalhada.

 

OS TRÊS

Quem caminha de London Bridge, ao longo de Tooly Street, cruzando por Rotherhithe, chega a alcançar Lower Deptford. Cruzando por essa zona, chega-se a Deptford propriamente dito e, virando para a esquerda, encontrará um caminho comprido e reto, que atravessa Ravesbourne e faz conexão com Greenwich o único rincão de Londres que se obstina em não se moder­nizar completamente com sua vizinhança de gente trabalhadora e atarefada.

O caminho serviu, em outros tempos, como distração da classe média de Deptford, naqueles dias em que o próprio Pedro o Grande trabalhava num estaleiro e vivia de maneira deplorá­vel, em Evelyn House.

As casas são estreitas na frente e estão edificadas em uma série padronizada e em cada uma de suas portas vêem-se enfeites de madeira pendurados. Nalgumas, podem encontrar-se ainda mar­cas de painéis de carvalho, mas, de um modo geral, os habitantes atuais utilizaram-se de toda a madeira que puderam tirar das portas, para o muito prosaico serviço de seus fogões. O que em outros tempos foi a glória de Deptford, hoje não é mais do que a miséria de Deptford.

As grandes casas vibram com a gritaria das inumeráveis crianças. Andares sobre andares foram transformados em casas de cômodos e, em alguns lugares, uma dezena de famílias ocupam o reduzido espaço que em tempos passados serviram escassamente para hospedar a prole de um só abastado provedor marítimo.

Quando Mill Lane foi um tanto modernizada, seus tugúrios, seus porões infectos e a inumerável quantidade de moradias der­rubadas por um arquiteto modernista, a colônia italiana, que fi­xara residência nessa vizinhança suja e pobre, mudou-se para o Norte, distribuindo-se ao largo do caminho de antigo renome.

De um modo geral, o italiano constitui uma boa vizinhança. É tranqüilo, quieto, inofensivo. Seus realejos, amontoados num canto do pátio posterior da casa, talvez tornem-se incômodos para as pessoas que gostam de dormir até mais tarde, mas, afora isto, não aborrecem em mais nada.

Numa dessas casas, num dos andares superiores, três homens estavam sentados em volta de grande mesa.

Um grande fiasco de Chianti ocupava o lugar de honra sobre a mesa e viam-se os copos que indiscutivelmente foram colocados pelo hospedeiro.

As janelas estavam com os postigos fechados e eram cobertas por espessas cortinas. Até a porta do aposento tinha sido recoberta com feltro em todas as suas gretas e para maior precaução contra interrupções estranhas, dois degraus abaixo das escadas, podia-se ver um homem sentado, cuja tarefa era evitar que a entre­vista fosse interrompida.

O hospedeiro era um homem alto, imensamente forte. Sua negra cabeleira era bem cortada. O rosto enrugado e severo estava semi-oculto por uma barba espessa.

Pela camisa entreaberta, podia-se ver um pouco de seu peito peludo e os braços potentes que apareciam das mangas arregaça­das mostravam, claramente, uma força muito pouco comum. E eles explicavam eloqüentemente porque Tommasino Patti tinha em seu. próprio país o apelido de «Il Bue», que significa «O Boi».

E era com «O Boi» que seus companheiros conversavam, ainda que não se pudesse notar nada de bovino em seu rosto diabólico e inteligente.

O homem, sentado à sua esquerda, era baixo, mas forte. Estava barbeado, com exceção do bigode, que era cuidadosamente retorcido em suas pontas. Falava como alguém que estivesse ata­cado de asma, com um tom dificultoso e profundo.

Defronte do «Boi», encontrava-se um homem que formava um contraste marcante com seus companheiros. Porque, enquanto o gigante vestia-se descuidadamente e o homem baixo estava um pouco mais bem vestido, o terceiro usava roupas de muito apura­do gosto.

Tratava-se de um magro e gracioso jovem, de estatura mediana. Formoso, com uma pele azeitonada, possuía bela fronte e usava um bigode escuro, que apenas despontava.

Vestia um traje simples, que lhe caía perfeitamente.

A gravata era de seda preta e sobre ela estava a fina jóia que usava, uma bela pérola negra e uma fina corrente de ouro cruzava de um para outro dos bolsinhos do colete.

Esse homem não podia negar que recebera os atenciosos cuida­dos de um camareiro e, tanto pelas polainas claras, como pelas unhas bem manicuradas, via-se que era a correção personificada.

O paletó forrado de seda pendia do encosto de uma poltrona. O chapéu de feltro negro descansava sobre o sobretudo. Estava sentado, comodamente, na única das cadeiras confortáveis do apo­sento e, por baixo de sua calça, aparecia parte das meias de seda cinzentas. Parecia não ter muito mais de vinte anos, ainda que na realidade tivesse mais.

Sua atitude para com os companheiros era de divertida curiosidade. De tempos em tempos, examinava as unhas polidas, com solicitude, como se as achasse mais interessantes do que a con­versa que mantinha com seus interlocutores. E a conversação era, não obstante, de suma importância.

O homem baixo acabara de contar a história de sua aventura.

E, senhores, disse em tom convincente, eu mesmo poderia apoderar-me dessa jóia, se não fossem as restrições que vossas excelências me impuseram.

Falava, dirigindo-se, alternadamente, a «O Boi» e ao homem elegante.

—    Por quê? — perguntou, cheio de extravagante desespero, -por que era preciso recorrer a uma terceira pessoa, a alguém sem finura, como esse Mansingham, que entra na casa, acorda os criados e é preso, em seguida? Isso foi tentar a Providência, senhores. Teria sido a mesma coisa, que se utilizar da jovem...

O mais jovem sorriu.

—    Você é um idiota! — disse.

Falavam em italiano e o tom de voz do jovem era doce e melodioso.

—    Será que, por acaso, já não temos outro exemplo de seu modo idiota de agir?

Levantou as sobrancelhas e por um momento pôde ser visto um brilho em seus olhos, mudando-lhe a expressão fisionômica.

—    Ouçam, meus amiguinhos. — Bateu sobre a mesa e falou com certa ênfase. — O que para vocês poderá parecer muito sim­ples, não o é para nós outros. E uma regra estabelecida por «Nossos Amigos» que cada vez que se fizer um raide, a pessoa que opera e a pessoa que recebe imediatamente o produto da subtração não devem ser conhecidas, uma da outra. Além disto, - prosseguiu, escolhendo as palavras cuidadosamente, — é ne­cessário, desde que ocorreu certo fato de que vocês devem se recor­dar, que o medalhão, se for medalhão mesmo, deva ser recebido por dois de nossos irmãos e não por um só.

Sorriu.

—    Repito, — disse, — e não por um só!

Fitou o «Boi» sorrindo ainda e, em seguida, o homem forte.

—    Há cerca de um ano, — disse, — anotamos algo que nos fazia falta. Era um medalhão. Um desses medalhões, posso dizê-lo, contém um segredo que nos enriquecerá. Encarregamos um irmão muito hábil e esperto de que se apoderasse da jóia. Mas, parece, querido Pietro, que o mesmo cérebro de um homem, que pode ma­nejar com toda a perícia as ferramentas necessária para remover fechaduras ou para forçar vidros, pode tornar-se completamente ineficaz ou inadequado, quando se trata da remoção ou salvaguar­da de um tesouro. No roubo, como nas demais artes, o especia­lista tem suas vantagens. Nós instruímos um especialista, para que retirasse o medalhão do estojo, ou de onde quer que ele estivesse, empregamos outros dois para receber a jóia e levá-la a um lugar seguro, vigiando-se a um e a outro. Compreendeu?

O homem baixo assentiu com um protesto e o outro continuou falando.

—    O cavalheiro, prosseguiu com certo tom de humorismo,

—    que recebeu essa preciosa relíquia, da qual a sociedade muito necessita, conseguiu desaparecer com ela. Jurou falso, faltou à sua promessa, demonstrou a falsidade do provérbio inglês de que existe honra, mesmo entre os ladrões, e que na realidade não é. Quando, eventualmente, o encontramos, não pudemos encontrar a jóia.

Tirou do bolso uma cigarreira achatada, de ouro, e tomando um cigarro, acendeu-o.

—    Não teríamos nenhum proveito, matando esse errante irmão. Foi uma sorte que nos evitasse o incômodo, suprimindo-se a si mesmo.

E como os outros não dissessem nada, concluiu:

—    Não pudemos encontrar a jóia. Seguramente, num momento de pânico, entregou o tão cobiçado objeto a outra pessoa. E já sabemos quem é essa pessoa.

Trocou um rápido olhar com o «Boi» e o homem grande fez um movimento de ênfase afirmativa com a cabeça.

—    Resta saber se conseguiremos encontrar a jóia, continuou o delicado jovem, enquatito fumava àvidamente o cigarro.

—    De todo modo, salta à vista, a necessidade de tomar precauções no assunto relacionado com a recepção dêsses artigos, que nos são tão preciosos e que conseguimos localizar com tanto trabalho.

Olhou para o relógio.

—    Agora, resta-me muito pouco tempo para perder. Vejamos o que precisa de ser feito.

O homem grande levantou-se e encaminhou-se pesadamente para o outro lado do aposento. Pôs a mão debaixo do travesseiro de uma pequena cama, sem arrumar, que havia num dos cantos do quarto e tirou uma caixa comprida e achatada. Levou-a até onde o outro se encontrava e abriu-a com uma chave, que pendia junto com um crucifixo de uma corrente que trazia ao pescojo.

Os olhos do jovem contemplaram uma bela coleção de jóias. A caixa estava quase cheia de medalhões dos mais diversos aspectos e formas.

Havia medalhões de prata, de ouro, esculpidos com cristais e incrustações de pedras, que impossibilitavam saber quais os me­tais subsidiários que serviam para sua fabricação.

Alguns possuíam miniaturas pintadas e outros brilhavam com seus esmaltes.

O jovem tocou-os com mão rápida e experiente. Retirou um. por um da caixa, colocou-os sobre a palma da mão e foi examinando-os. Acabado o exame, punha-os de lado.

Finalmente terminou a tarefa.

—    São muito valiosos, — disse, — mas, não do valor que eu esperava. Temos que continuar procurando. Penso, todavia, que o verdadeiro medalhão acha-se em poder desse idiota de Morte- Mannery. Não devemos perder mais tempo, nem evitar-nos o menor aborrecimento para consegui-lo.

Do bolso interior de seu casaco, retirou um pequeno livro de notas. Abriu-o e arrancou uma folha de papel". Via-se um dese­nho feito a lápis.

— É assim, — afirmou, — se é que não estou enganado.

Passou o desenho para o homem baixo.

—    Vê estes curiosos arabescos, esse Cupido, esse diabinho tão bem detalhados? £ um trabalho do próprio mestre.

Falava com entusiasmo. Por um momento, o sinistro objetivo de suas perseguições perdeu-se ante a apreciação artística do de­senho.

—    No mundo, existem dois medalhões iguais a este.

Falava agora com maior rapidez e de maneira um tanto brusca.

— Um deles devemos conseguir esta noite. O outro, na quarta-feira. Ê mister que façamos uma combinação. Se for ne­cessário, irei pessoalmente receber o medalhão. Neste desenho, — disse, indicando o papel, — quase me enganei. Podemos sus­pender nossos esforços de procurá-lo em outras partes e concen­trar nossas atenções unicamente em Burboro. E a propósito, de quanto dinheiro precisaremos?

—    Um milhão de libras inglesas, — declarou o homem baixo, quase sem respirar.

O jovem sorriu.

—    £ absurdo pedir um milhão de libras por algo que talvez não tenha nenhum valor. Pode prometer à jovem e, a propósito, aonde se encontra?

—    Esta noite estará na cidade, senhor, afirmou Pietro.

O jovem fêz um movimento afirmativo com a cabeça.

—    Ela sente-se muito confiada e entusiasmada, ajuntou, pondo-se de pé. Mulher curiosa, nossa Lisa.

O «Boi» também levantou-se e passou a ajudá-lo a vestir o paletó.

—    Acredito que, provàvelmente comprovaremos esta noite se é mulher útil.

—    Porque não lhe confia a tarefa de tirar a jóia da casa desse cachorro maldito? perguntou o homem alto com um esgar.

O jovem da fala suave sorriu.

—    Meu pobre amigo, disse, se não confio num irmão, como haveria de confiar...? Não, prosseguiu um tanto nervo­samente, enquanto parava junto à porta, abotoando o sobretudo.

—    Não vou mais correr riscos! Meu pai advertiu-me contra seme­lhante loucura e descuidei-me de seus conselhos. Tenho que pagar o preço do meu descuido. Quem está aí fora? perguntou, de repente.

—    Beppo, disse o «Boi». Tive que recorrer a alguém que fôsse de confiança. Beppo gosta da obscuridade.

—    É uma besta completa, afirmou rapidamente o jovem.

—    Seria capaz de nos cortar a garganta a troco de moeda de uma lira...

É possível, confirmou o outro, com um resmungo, mas, um homem cuja cabeça está a prêmio e cuja vida depende da forma como se conduza conosco, é o único em que podemos confiar.

Abriram a porta e o dono da casa avançou levando uma lanterna na mão. Sobre o segundo degrau, achava-se agachada uma figura humana, com os joelhos encolhidos e a cabeça baixa.

—    Uma linda sentinela! Está dormindo! disse o jovem.

O «Boi» abaixou-se e pegou o homem pelo pescoço.

—    Desperta, pedaço de cão, — ordenou-lhe. — É dessa forma...?

Imediatamente ficou sem poder pronunciar uma só palavra, porque a cabeça da sentinela pendeu pesadamente para trás e o cabo de um punhal, que aparecia na altura do coração, bastava, por si só, para explicar o silêncio do desgraçado!

Sim! Ali estava o homem que faltara ao próprio juramento, conseguindo escapar ao patíbulo em dois países, esse chacal de uma confederação de vilões e os três homens olharam-no com assombro e cheios de horror.

O que se repôs mais rapidamente foi o mais jovem dos três, que, sem nenhum outro sinal de emoção, continuou abotoando as luvas.

— Só existe um homem que poderia ter feito isso, — afirmou, pensativamente. — E esse homem é Antônio Tillizini!

 

O EXCELENTE ANTONIO

— Signor... pelo amor de Deus!

O Strand estava apinhado da multidão matinal e os passeios, superlotados com os pedestres desocupados, que percorriam o fa­moso bairro, na véspera das festas da Páscoa.

Para o homem com pressa, o nome dos passeantes ociosos, em busca de prazer, significava um anátema. Frank Gallingford estava apressado, porque o expresso das seis e meia para Burboro não espera por ninguém. E, apesar de Charing Cross estar à vista, só lhe restavam dois minutos para se livrar da multidão e chegar à estação e encontrar-se tranqüilamente na plataforma.

Protestou contra os ociosos passeantes matinais e fazendo não pequenos esforços, conseguiu abrir caminho.

Sair do passeio era um grande perigo, porque a rua estava atravancada com o movimento do tráfego e além do mais, uma autoridade inteligente determinara a ocupação da metade de seu espaço livre, para proceder a consertos.

Frank Gallingford fez a curva, descendo da calçada, para voltar novamente ao meio fio, desviando-se dos transeuntes. Consegui­ra escapar das rodas de um automóvel e caiu em cima de um homem baixo e desocupado e de um "grupo de cavalheiros, no seu esforço para alcançar a estação a tempo.

Parecia, contudo, achar-se tão longe de conseguir seu objetivo quanto antes.

Repentinamente, sentiu que lhe agarravam a manga do e ouviu uma voz estranha.

—    Signor, pelo nome de Maria! disse alguém.

As palavras foram antes arranhadas que pronunciadas e o idioma empregado era o italiano.       

Frank deteve-se e olhou à sua volta, com uma fisionomia de espanto. Quem poderia falar-lhe em italiano, nesse trecho tão inglês do Strand?... E quem poderia saber que ele compreendia italiano?

O homem, que estava a seu lado, era inquestionavelmente italiano.

Tinha a face cadavérica, coberta com a barba de uma semana Gesticulava convulsivamente em sua agitação. Os grandes olhos negros, que o fitavam por baixo de espessa sobrancelha, despediam centelhas, como só podem fazê-lo os olhos de ura meridional.

Num instante, o inglês esqueceu-se da ansiedade que tinha por alcançar o trem.

Os suaves acentos que tanto conhecia e de que tanto gostava chegaram a seus ouvidos, como a primeira sensação da brisa, que sopra sobre o Adriático, nas noites de verão. Trouxeram-lhe re­cordações de horas felizes, vividas na campina italiana e trazendo visões de palácios de mármore da antiga nobreza veneziana.

—    Que deseja meu amigo? perguntou suavemente.

—    Não posso falar-lhe aqui, disse o homem, abaixando a voz e falando com rapidez. — Lembra-se de mim, Signor? Sou Romano... fui seu capataz, nos trabalhos do porto de Cattaro.

Frank recordou-se imediatamente e sua mão pousou com carinho sobre o ombro do italiano.      

—    Já me lembro, Miguelo mio! — disse-lhe rindo. Como poderia esquecê-lo! Não foi o homem que nadou para me socorrer, quando tive uma câimbra, salvando assim minha vida?

Um débil sorriso debuxou-se-lhe nos lábios e os olhos do italiano voltaram a fitá-lo com ansiedade.

—    Siga-me, — disse-lhe. — Trata-se de algo muito urgente. Não pode sabê-lo, nem entendê-lo.

Sem pronunciar outra palavra, misturou-se com a multidão e Frank Gallingford seguiu-o, sem perdê-lo de vista. Romano virou ao chegar à primeira esquina. Era uma rua que levava ao Adelphi.

Nessa parte, cessava um tanto, o movimento do trânsito. Nela só se viam os transeuntes experimentados, que conheciam esse atalho para atingir a estação ferroviária e os dois homens puderam encontrar-se mais à vontade.

Depois de caminharem umas cinqüenta jardas, o italiano parou e Frank observou que ele escolhera um lugar situado entre dois postes de iluminação, de modo que a luz chegava até eles ura tanto difusamente.

—    Signor, — disse-lhe, falando ràpidamente, quase de maneira incoerente. — Conhece-me um pouco. Sou um pedreiro e vim para Londres trabalhar num restaurante italiano do Regent Street. Não tenho amigos aqui, nem sei de ninguém a quem possa recorrer... estou desesperado, — disse, apertando fortemente as mãos e abaixando a voz, num esforço para mantê-la assim, a des­peito de sua intensa emoção. — E, ao ver seu rosto sereno e vi­goroso àe inglês, pareceu-me um encontro angelical, signor... como de um santo...

Frank estava demasiadamente acostumado às extravagâncias dos cumprimentos italianos, para se sentir embaraçado. Não pôde sobrepor-se, entretanto, a essa sensação que o mais fleumático anglo-saxão sente, ao ouvir um elogio caloroso.

—    Não tenho riada de angélico, Miguelo, — disse-lhe com um sorriso, enquanto se lembrava do trem que perdera.

—    Ouça-me, Signor, — prosseguiu o homem. — Há alguns anos, quando era mais moço, estive em New York e, a título de brincadeira, creia-me, Signor, alistei-me nas fileiras de uma socie­dade secreta. Prestei um juramento e não lhe dei a menor im­portância. Tempos depois, regressei à minha pátria, mais tarde estive em Monte-Carlo e novamente voltei à minha terra. Agora, encontro-me em Londres. E veja, Signor, eles encontraram-me... as pessoas da minha sociedade secreta. Disseram-me coisas tremendas e querem que eu faça coisas impossíveis... muito horrí­veis, Signor...

Cobriu o rosto com as duas mãos e pareceu soluçar.

Frank ficou perplexo. Sabia da existência de tais sociedades secretas e estava a par de seus modos de proceder.

Tivera de suportar mais de uma greve, movida por esses elementos, mas nunca havia lançado um olhar à tragédia, no terror escondido das ditas associações misteriosas. Pousou suavemente as mãos no braço do italiano.

—    Meu amigo, — falou-lhe com certo afeto, — não deve inquietar-se... está na Inglaterra. Estas coisas não acontecem aqui. Se foi ameaçado, não tem mais do que procurar pela polícia...

—    Não, não, não! protestou o homem, cheio de terror. O senhor não me entendeu. Minha única esperança é poder fugir... poder chegar à Argentina. Venha, venha!

Levou o outro até debaixo da luz do poste mais próximo e enfiou a mão no bolso, procurando por alguma coisa.

—    Procuram-me por muitas razões, disse, e especialmente por isso...

Seu paletó era do tipo muito usado pelos operários italianos, com as bordas dos bolsos debruadas com triângulos de veludo negro. De dentro de um desses bolsos, tirou um pequeno estojo. Parecia um estojo de jóias e o inglês notou que era novo.

A mão de Romano tremia ao abrir o fecho. Por fim, con­seguiu achá-lo e abriu a tampa. Sobre o forro de veludo azul, aparecia um medalhão.

—    San Antônio. exclamou o italiano, com voz cheia de ansiedade.

Era uma bela peça artística. A parte do fundo estava salpicada de diamantezinhos, e a efígie do santo com o menino aparecia em relevo de ouro. Não se tratava de um trabalho simples, mas, pelo contrário, indicava a mão hábil de artista, de um ourives da anti­guidade.

—    Signor, disse Miguelo, há um mês, um homem, que era meu amigo, entregou-me isto e não tenho idéia de como che­gou a seu poder. Pediu-me que o retivesse comigo, em meu poder, até que pudesse, e estas são suas próprias palavras Signor entregá-lo a...

Um automóvel passou pela rua e o italiano voltou-se para olhá-lo aterrorizado. — Tome-o!

Dizendo isto, colocou o estojo nas mãos de Gallingford, fechando a tampa ao fazê-lo. — Mas... — Tome-o... oh...!

O carro parou junto deles e quando a porta se abriu, Romano deu um passo para trás, violentamente.

Desceram dois homens. Eram seguidos por uma jovem. A mulher era esbelta, alta e graciosa. Frank não pôde ver-lhe o rosto, porque estava coberto com um véu, mas sua voz era suave e doce.

— É este o homem, — disse, — assinalando o italiano.

Os dois homens atiraram-se sobre ele, pegando-o pelos braços. Ouviu-se o ruído de uma algema, que se fechava

 — Que significa isto? — perguntou Gallingford, ainda que pudesse supor qual seria a resposta.

— Este homem roubou-me uma jóia, — respondeu a dama.

—    O que ela está dizendo? O que está dizendo? — interrogou o italiano.       

Conversaram em inglês. Frank traduziu-lhe as palavras.

— É tudo mentira, mentira! — gritou Romano, lutando desesperadamente, enquanto os desconhecidos levaram-no em direção ao carro. — Salve-me, Signor, pelo amor de Deus, não me abandone!

O inglês vacilou. Sentia toda a repugnância, própria de sua raça, por semelhantes cenas. Sabia que o italiano estaria de todo modo mais seguro no distrito policial e, se em realidade fosse culpado, não necessitaria de nenhuma proteção.

—    Para onde o conduzem? — perguntou.

—    A Marlborough Street, — respondeu um dos homens,

—    Vai tranqüilo, Miguelo, — disse Frank, voltando-se para o italiano. — Eu o seguirei.

O prisioneiro, porém, não o ouviu. Havia desmaiado.

Carregaram-no até colocá-lo dentro do carro e os homens entraram atrás, em seguida. A mulher aguardou um momento. Logo depois, Frank viu que chegava outro carro. No momento em que o primeiro fazia manobra para dar a volta, ouviu vozes, como se discutissem.

Miguel voltara a si. Ouviu-se um ruído e a cabeça do ita­liano apareceu na janela.

—    Signor! Em sua voz havia um intenso tom de agonia. Diga ao senhor Tillizini...

A mão de um homem apertou-lhe a boca e foi arrastado para traz, no instante em que o carro começava a rodar.

Frank esperou. Ficara na expectativa de que a mulher dis­sesse alguma coisa. Em seguida, ocorreu-lhe o pensamento de que talvez ela estivesse julgando-o cúmplice do italiano, ou, quando menos, amigo do prisioneiro e pôs-se vermelho de vergonha.

Ela avançou tranqüilamente na direção do segundo automóvel. O carro não seguira a mesma direção do anterior.

Estava a ponto de se movimentar, quando se lembrou de que não era o ladrão, mas que poderia ser tomado por um receptador involuntário. A jóia ainda se encontrava em seus bolsos.

O carro começou a se mover, quando se deu conta de sua situação e atirou-se, por assim dizer, contra a porta.

—    Senhora, disse, uma palavra... tenho algo a dizer- lhe... tenho...

Pela janela do carro, viu que a mulher inclinava-se para traz.

Quero que... começou a dizer e deu um salto para traz, ao ver um punhal de aço na mão da desconhecida.

Seu movimento foi oportuno.

O estilete, cuja folha lhe estava destinada, golpeou a borda da janela e Frank, um tanto abalado, pela violência do movimento executado, para evitar o golpe, caiu sobre o calçamento, enquanto o auto arrancava em toda velocidade, dando volta na esquina de Adams Street.

Conseguiu, todavia, ver a mão muito branca, que empunhava o mortífero punhal e num dedo distinguiu uma opala quadrada de cor negra.

Pôs-se, lentamente, de pé, meio tonto. Estava indignado. Ela confundira-o evidentemente com um ladrão. Limpou o barro dos joelhos com um lenço e pôs-se a ordenar seus pensamentos, pra­guejando entre dentes.

Ali estava ele, um prosaico engenheiro a caminho da estação, para que o trem o levasse à localidade em que morava sua noiva,Burboro, mesclado numa aventura que tinha três partes de melodrama e de uma comédia.

— Isto me acontece por prestar atenção a certos italianos, disse com enfado.

Dirigiu-se para o Strand e chamou um taxi.

—    Para o distrito policial de Marlboroug Street, — disse ao chofer.

Livrar-se-ia dessa jóia infernal e aclararia sua situação, perante as autoridades policiais.

O sargento, que o recebeu, olhou-o com alguma suspeita, pois tinha diante de si um homem meio sujo de lodo da rua.

—    Romano, — disse. — Não, aqui não temos nenhum Romano preso.

—    Faz um momento que foi preso, por dois homens, — afirmou Frank.

—    Não foi dada nenhuma ordem de detenção para uma pes­soa desse nome, — disse o sargento, movendo a cabeça de um lado para outro. — Espere um minuto, enquanto pergunto ao distrito policial de Bow Street.

Passou ao aposento contíguo e Frank pôde ouvir o ruído do telefone.

Pouco depois o sargento tornava a aparecer na sala.  

— Nem em Bow Street, nem em Vine Street há qualquer preso com este nome, — declarou.

O jovem engenheiro relatou, brevemente, a história do incidente a respeito da prisão, omitindo unicamente que a jóia estava em seu bolso. Não tinha o menor desejo de ser detido. Com a presença de Miguel para confirmar sua história e também da acusa­dora para identificar a jóia, a coisa seria diferente. E além disto, tinha um enorme desejo de explicar a essa dama criminosa quais haviam sido suas boas intenções.

—    Não, senhor — prosseguiu o sargento, — não temos nenhum italiano... já prendemos muitos, desde que a «Mão Verme­lha» iniciou suas atividades, na Inglaterra. Mas, desde que o senhor Tillizini começou a trabalhar no assunto com a Scotland Yard, já não estamos tão atarefados.

— Tillizini? — exclamou Frank, com assombro.

O sargento concordou com a cabeça.

—    É êsse o cavalheiro, disse complacentemente. Se deseja saber alguma coisa acerca dos criminosos italianos, será melhor que o procure pessoalmente... De todo modo, será melhor voltar aqui novamente.

Frank encaminhou-se para a rua e esteve dando voltas pelas proximidades da estação, até às dez horas da noite. Enviou um telegrama à sua noiva e jantou num restaurante de Picadilly.

O relógio estava dando a hora, quando tornou a subir os degraus da escada do posto policial de Marlborough Street.

O sargento não estava só. Três homens, vestidos de sobre­tudo estavam conversando, a um canto do escritório.

—    Está aqui, disse o sargento, e os três homens voltaram- se de repente, observando gravemente o engenheiro, que acabara de entrar.

—    Qual era o nome do italiano, por quem o senhor veio perguntar? — interrogou-o o sargento.

—    Migguelo della Romano, replicou Frank. Encontraram-no?

O oficial fez um movimento de cabeça.

—    Foi recolhido, há uma hora antes, de Embankment Gardens, disse.

—    E aonde está? perguntou Frank.

—    Numa sala do necrotério, respondeu o sargento, com vinte e cinco feridas de arma branca no corpo.

 

A COLEÇÃO RARA

Marjorie Meagh estava almoçando em companhia de seu tio.

Sir Ralph estava de um mau humor fora do comunp. O almoço jamais fora um momento de muito agrado seu e sempre tinha pretextos para reclamar contra a negligente administração com que sua espôsa geria a casa.

Nesses momentos, seus protestos abrangiam um raio muito mais extenso. Deixou, repentinamente, o jornal que lia e teve um gesto de enfado.

—    Queira Deus que Vera não tenha saído para a cidade, como o faz constantemente, — disse.

Ainda que fosse uma espécie de tirano doméstico do tipo corrente, sentia certa classe de temores com respeito à esposa. Em três oportunidades, durante sua vida em comum, ela o havia sur­preendido pela veemência de suas rebeliões e, em cada uma de suas explosões, ele se sentira menos confiante e satisfeito, ao notar sua insuficiente capacidade para dominar a situação.

Marjorie levantou a vista das cartas que estava lendo.

—    Vera está fazendo um estudo aplicado da arte dramática, — disse. — Deve recordar-se, tio, de que se por qualquer motivo chegar a ter êxito, como escritora, isso significará uma renda con­siderável para ela.

A jovem possuía muito tato. Sabia que os assuntos monetá­rios influenciavam seu tio. Era essa a carreira que Vera desco­brira há dois anos, quando uma peça teatral que escrevera para uma festa de beneficência fora recebida com aplausos pela crítica.

Ainda que tivesse surpreendido agradavelmente ao marido, a possibilidade de que sua esposa chegasse a sustentar-se sozinha, isto lhe proporcionava, ao mesmo tempo, uma fonte constante de irritações.

Seu gosto pelo teatro significava gastos, visitas constantes à metrópole, o preço das entradas do teatro, ainda que essas últimas, segundo pudera saber, não lhe custavam grande coisa, desde que um de seus amigos, que tinha ligação com os jornais, fornecia-lhe entradas em profusão.

Essas atividades, porém, implicavam na abertura do aparta, mento que possuíam na cidade, outra vez. Significava a obriga­ção de ter de tirar um criado do serviço da casa, aonde os arran­jos domésticos, planejados por Sir Ralph, eram tão engenhosos, que cada pessoa tinha seu tempo total e devidamente tornado.

Sir Ralph tornou a pegar o jornal para deixá-lo novamente em seu lugar.

—    O vagabundo do Mansingham apelou, — disse. — Isto é monstruoso.

A instituição da Corte Criminal de Apelação era para Sir Ralph uma fonte constante de aborrecimentos. Acreditava que tinha sido instituída expressamente com a finalidade de molestá-lo.

Escrevera cartas ao «Times» a respeito. Em todas as opor tunidades públicas que se lhe ofereciam, manifestava-se em têrmos severos. Era estranho, pensava, que nas circunstâncias atuais, o tribunal continuasse funcionando.

—    É monstruoso, disse novamente, uma zombaria para os homens que se acham comprometidos na tarefa de fazer cumprir as leis criminais.

Suas ânsias manifestavam-se em espasmos. A cada movimento, tinha um novo motivo de protesto. Voltou a tomar o jornal, deixando-o, em seguida.

—    Esse jovem Galligford não veio ontem à noite, Marjorie,

—    disse severamente. Parece que os jovens de hoje carecem das mais elementares noções das boas maneiras.

—    Mas, se me telegrafou, tio! protestou a moça. Disse que se via obrigado a ficar na cidade.

—    Bolas! respondeu o tio, isso não é uma desculpa satisfatória. Sou um homem do mundo, Marjorie. Essas desculpas ridículas não me satisfazem. E advirto-a, se é que deseja viver feliz, e a única maneira de ser feliz, disse com tôda ênfase, é não ter ilusões e que sempre considere estas desculpas com sus­peita. É um homem jovem, prosseguiu, chegado, recente­mente à Inglaterra, depois de uma grande ausência, em que esteve em países semibárbaros...

—    Na Itália, tio, murmurou, não creio que ali sejam bárbaros, não ?

—    Bárbaros? disse com raiva. Mas, se aqui tivemos dois italianos assassinados num só dia!

Levantou o jornal, como em apoio de suas palavras.

—    É claro que é um país de bárbaros! E volta para a civilização, depois de longa ausência, ao lado de uma formosa jovem e devo admitir que você é bela, Marjorie; disse com agrado, com um ar de quem fosse responsável, em parte, por sua beleza, - e em vez de correr a seu encontro, como devia é fazê-lo como em meus dias fazíamos os jovens, quando se tratava da noiva, quebra o compromisso e permanece na cidade. Isso é completa­mente indesculpável!

Ela não defendeu mais o noivo. Sabiam quão inúteis resultam seus argumentos. O homem era um homem sem nenhuma nação para a razão... pelo menos, na hora do almoço... Durante todo o resto da refeição, continuou lendo e protestando contra os periódicos.

Fazia a jovem pensar num cachorro que estivesse roendo um osso. De tempos em tempos, pronunciava frases curtas, frases que não tinham princípio nem fim e que de modo geral estavam Associadas com a. escassez das rendas do governo.

De repente, ela ouviu o ruído das rodas de um automóvel que se aproximava pelo caminho e levantou-se da mesa, olhou pela janela e sem dizer uma palavra ao tio, retirou-se da sala. Ele acompanhou-a com o olhar, irritado. Marjorie voltou poucos instantes depois, com um tom mais posado nas faces e um sorriso nos olhos, acompanhada de um jovem alto, de ombros largos, rosto queimado pelo sol e cuja expressão geral era de embaraço, porquanto não contemplava com muita tranqüilidade a entrevista que o esperava.

—    Este é Mr. Gallingford, tio — disse a jovem. — Ainda se conhecem, pois não?

Sir Ralph não só nunca o havia visto, como também não desejava vê-lo, nesse momento. Não se encontrava em estado de ânimo para que lhe apresentassem gente nova. Por outro lado, existia certa animosidade contra o jovem que tão pouco zeloso se mostrara de sua hospitalidade. Cumprimentou Frank Gallingford secamente, como se quisesse demonstrar-lhe ser essa a retribuição que merecia, por ter chegado com tanto atraso em sua primeira visita.

— Agrada-me muito conhecê-lo, senhor, — disse Frank. Estendeu a mão, sincera e forte e apertou a de Sir Ralph.

—    Devo-lhe uma excusa por não haver comparecido, ontem, à noite.

Sir Ralph inclinou a cabeça. Não restava a menor dúvida de que lhe devia explicações.

—    Tive uma pequena aventura, — prosseguiu Frank, relatando os principais pormenores do acontecimento anterior.

Apesar do propósito que Sir Ralph tivera de não aceitar como verdadeiras as explicações do pretendente, não perdeu uma palavra do relato do jovem.

O rosto da moça também denotava enorme interesse.

—    Oh, Frank! exclamou com voz trêmula, — que coisa terrível! Mataram-no?

Frank assentiu com um movimento de cabeça.

—    Tive uma entrevista com o famoso detetive... como se chama?

—    Tillizini? perguntou Sir Ralph.

—    Sim, afirmou Frank, é esse seu nome. Um homem notável! Entreguei-lhe o medalhão e Tillizini o tem, agora, em seu poder.

—    É muito extraordinário, disse Sir Ralph, com um gesto de desagrado. A descrição que faz dessa jóia. assemelha-se muito a um medalhão que possuo em minha coleção.

Um repentino pânico colheu-o. E se fosse o seu famoso medalhão? E se o tivessem roubado, sem que ele suspeitasse?

—    Desculpem-me, — rogou-lhes.

Na metade do caminho, antes de alcançar a porta, voltou-se.

—    Quer vir comigo?... Talvez sua descrição da jóia seja de utilidade. Tenho certo temor de que...

Fez um movimento com a cabeça.

—    Pensa que possa ser o seu? perguntou o jovem.

—    Não sei, respondeu Sir Ralph.

Achava-se sumamente agitado.

Os dois jovens acompanharam-no até ao vestíbulo, uma formosa combinação de escritório e biblioteca.

De uma caixa de aço do escritório, retirou uma chave, tornando a subir ao andar superior.

Sir Ralph era mais do que um colecionador amador. Quaisquer que fossem suas opiniões sobre a justiça e os tribunais, exis­tiam muito poucas pessoas que pudessem disputar-lhe o conheci­mento sôbre a qualidade dos artigos preciosos, que com tanto esmêro soube colecionar.

A coleção Morte-Mannery era famosa, apesar do reduzido de suas proporções. E para Sir Ralph era um verdadeiro prazer mos­trar, de vez em quando, sua valiosa coleção aos entendidos de toda a Europa.

A satisfação de possuir alguma coisa que ninguém tinha, ou se tinha era muito inferior e de valor muito menor; o poder ter em sua casa as maravilhosas peças saídas das mãos de artistas já "falecidos, que eram cobiçados por pessoas de grande fortuna, o 'que constitui orgulho para todo colecionador, — essa era a grande paixão da vida de Sir Ralph Morte-Mannery.

Dedicara quarenta anos de sua existência à obtenção dos 'cento e cinqüenta medalhões que formavam sua coleção.

O aposento, em que encontravam, fora construído especialmente para guardá-la e, portanto, era feito à prova de fogo e pro­tegido contra os ladrões.

Era um segredo conhecido que, ao reedificar a residência de Highlaw, depois de havê-la adquirido, toda a obra concentrara-se em torno do aposento destinado a conservar o tesouro.

Parecia mais uma prisão que um museu, pensava Frank, enquanto acompanhava o dono da casa pela estreita entrada, defen­dida por portas de aço e tendo uma outra ornamental, com painéis de pau rosa.

O recinto estava iluminado por uma janela, guarnecida de fortes barras de ferro e os vidros da mesma eram colocados com grades de aço. As campainhas de alarme, dispostas de modo engenhoso, tornavam impossível que a entrada de qualquer pessoa ali ficasse inadvertida.

O chão, as paredes e o teto eram de concreto reforçado. Uma grande caixa-vitrine estendia-se em todo o comprimento do apo­sento. Dos dois lados, foram colocados tapetes para passagem. As caixas eram cobertas por pesadas tampas, que Sir Ralph come­çou a abrir.

A visão das jóias era algo impressionante para o homem que não estava acostumado a tantas riquezas.

Fileiras de medalhões de ouro, prata, esmalte das mais variadas espécies, apareciam perfeitamente selecionadas.

Ali não havia nada que pudesse despertar o entusiasmo de alguém que não fosse um verdadeiro apreciador do assunto.

Com toda rapidez, Sir Ralph foi abrindo cada um dos estojos, enquanto seus olhos ansiosos observavam detidamente as jóias;

— Não, — disse depois de um rápido exame, — aqui não falta nada. Pela descrição que me fez, pensei que meu Leonardo...

Viu-se em seus olhos uma centelha de entusiasmo. Com as mãos trêmulas, abriu outro estojo e tirou de dentro dele um belo medalhão de ouro,

—    Mas! exclamou Frank, assombrado, enquanto o tomava em suas mãos. Mas, êste é o medalhão que o homem me entregou!

Sir Ralph sorriu.

—    Isso é impossível! Só existem dois medalhões semelhantes e um perdeu-se para sempre. Segurava a pequena jóia com mão trêmula. Este e seu companheiro foram feitos pelo maior artista que o mundo já conheceu: Leonardo da Vinci. Data provàvel- mente do ano de 1387 e o desenho é do próprio Leonardo. No trabalho está em relêvo alguma coisa do gênio do mestre. Como sabe, Leonardo foi um homem que não se satisfez só com a pin­tura de quadros. Não houve nenhum ramo da arte, desde a escultura até a pintura, que não fizesse com perfeição. Foi um médico e um químico de não poucas qualidades e foi depois da grande praga que assolou Milão em 1386 que fêz os dois meda­lhões, dos quais êste é o único existente.

Tomou a jóia em suas próprias mãos e continuou:

—    Um deles, ofereceu-o a seu patrão, O Mouro, o usurpador do ducado e o outro deu-o, um ano ou dois depois, a César Bórgia. Fez os medalhões em recordação da escapada milagrosa de seu amo da terrível peste. Poderá ver isto tudo simbolizado no reverso, e virou suavemente a jóia, que tem uma alegoria. Vê a pintura dêsse pequeno diabinho? perguntou, apontando com o dedo. — Isto representa a enfermidade, que assolou a Itália.

—    E o anjo?

—    Bem, deve representar os amos que não foram atacados pela praga. O que significam os outros signos? perguntou como para si mesmo, num sorriso. São coisas incompreensíveis para mim. Provavelmente, Leonardo era um futurista.

Começou a rir, ante suas próprias palavras e a jovem contemplou-o com assombro, porque, nessa atmosfera, seu tio parecia- lhe um homem diferente. Jamais o vira nesse estado: humano, terno e expansivo.

—    O outro medalhão, prosseguiu Sir Ralph, foi rou­bado do museu de Dublin. Puderam dar com a pista do, ladrão, depois de muito trabalho e souberam que tomara um barco, que atravessava o Canal, indo de Harwich até Hook, na Holanda. É possível que algum de seus cúmplices se encontrasse a bordo,que, durante a noite ouviu-se um grito numa das cabines e a pessoa que o vigiava, viu-o correndo pela coberta, perseguido por dois homens. Antes que pudesse prender os que o perse­guiam ou capturar o ladrão, o homem saltou pela borda e possi­velmente perdeu-se o segundo medalhão, com ele, no mar.

— Que significado tinha tudo isto? — perguntou Frank.

Sir Ralph moveu negativamente a cabeça. — Não o sabemos. Supôs-se então, que o homem estaria para entregar a jóia a um de seus cúmplices e que foi descoberto nesse momento. Os homens que o perseguiam, à noite, no barco, ex­plicaram plausivelmente sua atitude, dizendo que pensaram que se tratava de um louco que ia suicidar e fizeram o possível para salvá-lo.

Virou a jóia novamente, olhando-a com todo carinho, antes dc tornar a depositá-la no estojo.

—    Qualquer que fosse o medalhão que o infortunado italiano teve em mãos, — disse, — não podia ser o companheiro deste.

Ao sair do aposento, voltou a ser o mesmo homem de antes: frio, calculista, vulgar. Mas, esse aspecto de seu verdadeiro caráter revelou muitas coisas a Marjorie.

Agora compreendia a ferocidade da sentença que Sir Ralph ditara contra Mansingham. Para ele, sua coleção significava muito mais do que um filho ou a esposa, muito mais preciosa que qual­quer outra coisa no mundo!

Sua paixão era bastante forte para sobrepor-se a todo senti­mentalismo.

Olhou o relógio e fez um trejeito. Recordava-se, neste momento, de fatos desagradáveis de sua vida.

—    Vera ainda não regressou. Pensei que viesse no mesmo trem que você tomou.

—    Fui o único passageiro para Burboro, segundo me pareceu, — disse Frank.

Sir Ralph tornou a consultar o relógio.

—    Deve chegar outro trem, agora, — disse, — não tardará muito mais.

Apenas terminara de pronunciar estas palavras, quando se ouviu a voz de Vera no vestíbulo inferior, fazendo perguntas aos criados.

—    Oh, vocês estão aí? — gritou.

Olhou para cima, vendo o grupo que descia a escada que dava para o vestíbulo. Por um instante seus olhos mostraram sobressalto, ao notar a presença de Frank.

—    Não conhece ainda Mr. Gallingford? — perguntou-lhe Marjorie, enquanto fazia as apresentações.

—    Tenho muito prazer em conhecê-lo, — disse Vera com afabilidade.

Sentia-se feliz de que seu esposo tivesse algum outro interesse, para se esquecer dos protestos e censuras de sempre. Era essa a atmosfera que a esperava a cada um de seus regressos da cidade.

Ele olhou novamente para o relógio e, em seguida, fitou-a e Vera entendeu o significado do exame.

—    Sinto muito, — disse com o maior cuidado. — Perdi o rápido e vi-me obrigada a tomar um outro trem, que parava em todas as localidades e andava vagarosamente. Foi uma viagem muito aborrecida. Acho que meu relógio estava atrasado.

Vera possuía uma voz muito bonita, cheia de belas entonações.

—    Esteve vendo nossa bela coleção? — perguntou.

Sir Ralph murmurou algo. Odiava toda pretensão de sociedade com respeito a seus medalhões e Vera sabia disto. Era essa sua resposta indireta ao ataque não formulado em palavras.

—    Não viu a melhor de todas, devia ver a dos cintos, — disse.

—    Esta coleção não está completa, — interrompeu-a Sir Ralph, com enfado, — para ser examinada.

Em realidade, Vera desejava que ele não fizesse tantas referências.

Saiu da biblioteca, deixando-os a sós.

Ela sorriu suavemente.

—    As vezes, torna-se impossível, — disse ela, como para si mesma.

Em seguida, voltou-se para Marjorie e a jovem pôde compreender, com certo prazer, que a depressão do dia anterior havia desaparecido de seu rosto. Nesse momento, Vera parecia-se mais cheia de vida, mais contente e mais sorridente.

Logo, pôs-se a conversar com Frank Gallingford, sobre a Itália, como se já o conhecesse durante toda a sua vida.

—    Deve ser um belo país, — disse. — Agrada-me sobremaneira a campina e eu mesmo tenho algo de italiana.

—    E tem realmente?

Foi Marjorie quem fez a pergunta.

—    Oh, que romântico! Alguma vez pretendeu matar o tio com algum estilete ou algo parecido?

Ela sorriu. O rosto de Frank tinha um trejeito que mais se assemelhava a um esgar. Guardava uma recordação muito recente de alguém que pretendera golpeá-lo com uma arma semelhante, para que a pergunta pudesse agradá-lo.

Essa parte da história, ele não contara, por não julgar necessário.

—    Oh, não! — exclamou Vera. — Nunca senti sede de sangue!

De repente, o rosto de Frank empalideceu e o jovem retrocedeu um passo, deixando escapar um grito.

—    Que lhe aconteceu? — perguntou Marjorie alarmada,

Ele passou as mãos pelos olhos.

—    Mas, diga francamente... está doente?

Frank meneou negativamente a cabeça.

—    Não, foi um enjôo passageiro, — murmurou.

Estava ansioso por retirar-se dali.

—    Tinha me esquecido, — disse a jovem, — de que' você passou uma noite cheia de sobressaltos. Vou ver se seu quarto está pronto. Seria melhor que se deitasse um pouco e logo se sentirá melhor.

Ele concordou com um movimento de cabeça e levantando a vista, seus olhos encontram-se com os de Vera.

—    Se me desculpa a impertinência, — disse-lhe, — seu anel é muito curioso!

Ela empalideceu por sua vez e apressadamente escondeu as mãos atrás das costas.. Mas, o movimento fora feito demasiado tarde... ele havia visto a opala quadrada, pela segunda vez em vinte e quatro horas!

 

O CONDE FESTINI

—    Que delicioso prazer de vê-la, miss Meagh!

Marjorie voltou-se com um sobressalto. Saía, nesse momento, de Vitoria Station e parara num quiosque para comprar umas revistas.

Tinha ido visitar Ida Mansingham, a esposa do condenado, que se encontrava em uma casa de saúde. A mulher sofrera uma crise de nervos e, graças à generosidade de Hilary George e de Tillizini, pôde ser enviada a uma clínica de repouso.

Um homem, bastante jovem ainda, achava-se parado diante dela e seus dentes, muito brancos, apareciam num sorriso de prazer.

—    Que casualidade! Há dois meses que não a vejo! Onde esteve escondida?

Ela estendeu a mão um pouco embaraçada. Sua última despedida do Conde Festini havia sido de tal maneira, que lhe parecera que jamais se encontrariam como amigos. Sua apaixo­nada declaração ainda lhe repercutia nos ouvidos. Ele tinha ido à Irlanda para uma caçada e ficara, segundo declarou, desesperada­mente apaixonado por ela e lhe declarara seu amor.

Quando ela gentilmente o recusou, sentiu-se enraivecido e atormentado. Esse homem bem nascido e de boas maneiras, con- duzia-se mais como um louco que como um produto da civilização do século XX.

E estava a seu lado, como se nada houvesse acontecido.

—    Procurei saber onde se encontrava, — disse-lhe.

Seus olhos tinham a doçura das pessoas do sul. A voz não acusava nenhum sotaque estrangeiro. Como sempre, estava impecavelmente vestido, sem nenhuma dessas ostentações ou erros que, tão a miúdo cometem os que viajam, apesar dos esforços dos me­lhores alfaiates.

—    Estive no campo, disse ela com certa pressa.

Marjorie estava na estação, à espera de Frank. Ele podiachegar de um momento para outro e perguntava a si mesma que efeito causaria nesse homem vulcânico a apresentação do jovem inglês, de que era noiva.

—    E eu estive preso na cidade, — disse. — Oh, que lugar deplorável é Londres, para quem se vê obrigado a permanecer aqui, por causa dos negócios! A cidade é deliciosa para o visitante, para o que viaja, mas não para o infortunado morador por obrigação. E terrível!

Estendeu a mão num gesto de desespero.

—    Londres é um mau costume, — prosseguiu, — mas é também um ideal, porque é um mau costume de que se pode livrar, quando desejamos.

—    São poucos os maus hábitos como este, — disse ela, com um sorriso.

Aparentemente, ele recobrara-se de seus modos enfatuados e estava sendo mais comedido, até ao ponto da correção.

Ela recordou-se de alguma coisa e não pôde evitar um sorriso.

—    Diverte-lhe, por acaso, minha situação? — perguntou com um pestanejar dos olhos negros.

—    Estava pensando, — falou, — que é muito curioso que nos últimos dias só encontrei italianos ou pessoas que estiveram vivendo na atmosfera do Renascimento.

Os olhos dele fizeram-se mais graves.

—    É muito curioso, — disse com tranqüilidade, depois de um momento. — Quase poderia dizer a mesma coisa. E quais são os italianos que foram favorecidos com a convivência da mais graciosa das damas da Inglaterra?

Ela levantou a mão.

—    Faça o favor, — disse com suavidade, — esqueçamo-nos disso.

—    Não poderia olvidá-lo, — respondeu.

Falou com bastante calma para que ela não se sentisse aborrecida.

—    Mas é que já fiz o possível para esquecê-lo. O certo é que, — prosseguiu com um imperceptível movimento de ombros, — que não se pode ter neste mundo tudo que se deseja? Consegui a maioria de meus desejos. O que mais desejava, contudo, não pude alcançar. Esse é o meu castigo!

Voltou a sorrir de novo.

—    Mas, não me respondeu,

Ela vacilou. Não desejava falar de Tillizini. Era um dos mais misteriosos indivíduos, interessado em assunto de tal natu­reza que tôda referência sôbre êle seria trair-se. Viu o absurdo de seu raciocínio quase no mesmo instante.

—    Um dêles, disse, foi o professor Tillizini.

Ele levava um cigarro à bôca e parou o gesto em meio do caminho. E ao ouvir tal nome, sentiu um estremecimento pela fração de um segundo.

—    O Signor Tillizini? repetiu. Que interessante! Que foi que o grande Antônio lhe disse? Quis conhecer suas impressões digitais, fazer uma análise de sangue ou expressou o desejo de medir as proporções de sua cabeça?

—    Oh, não! respondeu sorrindo.-Não fez nada disso. Conhece-o?

—    Ligeiramente, assentiu o outro descuidadamente. Todo mundo na Itália conhece Tillizini e poderia imaginar que tôda a Inglaterra parece, agora, inteirada de sua existência. Quan­do conheceu esse grande homem? acrescentou.

—    Em Burboro. Esteve ali visitando meu tio.

—    Em Burboro?

—    Marjorie notou novamente uma ligeira ênfase em suas palavras.

Olhava-a fixamente. Compreendeu, de repente, que sua atitude era algo mais do que desinteressada e não pôde reprimir um sorriso.

—    Pensa que me tornei um tanto curioso, não é assim? — disse-lhe. — Mas, não sabe que tudo que se relaciona com você, interessa-me sobremaneira. Veja, disse, como se estivesse des­culpando, não conheço seu tio. Nem sabia que tivesse um parente deste grau. Consegui, entretanto, saber onde éstá mo­rando, disse com um sorriso meio ameaçador. Só terei que encontrar seu tio e o resto ser-me-á muito fácil. Irei a Burboro, prosseguiu "levantando um dedo, em sinal de advertência, e perguntarei a quantas pessoas encontrar lá: “Alguém viu o tio de Miss Marjorie?» Isso despertará sensação, não é verdade?

—    Evitar-lhe-ei este trabalho, disse, sorrindo. Meu tio é Sir Ralph Morte-Mannery.

—    Ah, certamente! continuou, meneando a cabeça. Pensei mesmo que fosse ele,

—    Por quê?

—    É simples. Bem sabe que se trata de um grande homem. Ouve-se falar dele, constantemente. É um juiz e possui também a mania de colecionador. Não é exato?

Ela acabara de avistar um homem alto que vinha na direção deles e enrubesceu.

—    Vou apresentar-lhe meu noivo: Frank Gallingfotd, Conde Festini.

Desviou o olhar do rosto dele e não pôde ver, então, o repentino movimento de seus lábios, nem o curioso pestanejar de seus olhos.

—    Este é o Conde Festini, Frank.

O inglês de alta estatura estendeu a mão e estreitou com força a do aristocrata italiano. Era quase uma cabeça mais alto do que o conde, mas, para surpresa de Frank, não foi um aperto débil nem efeminado o que lhe devolveu o seu. Tinha um modo de apertar a mão que lhe recordava Tillizini.

Frank era nitidamente inglês, alto, espadaúdo, de rosto, comprido; os olhos cinzentos, honestos, brilhavam cheios de prazer por conhecer um amigo de sua adorada.

—    Desejaria que nos trouxesse um pouco do brilho do sol da Itália, senhor conde, — disse-lhe, — a esta cidade de nevoeiro, de prisões, de investigações...

—    Investigações? — interrompeu Marjorie.

Frank assentiu com um movimento de cabeça.

—    Sim, a respeito do desgraçado que assassinaram outro dia. Hoje, tenho que responder a um interrogatório.

—    De que homem se trata? — perguntou o conde com algum interesse.

—    Do homem que encontraram nos jardins do Embankment.

—    Oh!

Foi só uma exclamação, mas Frank ao notá-lo, olhou-o surpreso.

— Conhecia-o? — perguntou.

—    Só sei o que li nos jornais, — confirmou o outro com calma. — Posso perguntar-lhe, Mr. Gallingford, qual a parte que teve na tragédia?

—    Era o homem que estava com ele, quando o raptaram, — disse. — Desde então, fiquei muito impressionado. Se o tivesse retido ao meu lado, talvez ter-lhe-ia salvo a vida...

—    Ou talvez perdido a sua! — disse o conde. — Essa gente não parece preocupar-se muito com uma ou duas vidas a mais. Viveu bastante tempo em minha pátria, para se dar conta de que nós não damos o mesmo apreço à vida humana que os habi­tantes dos países do norte.

—    Não podem deixar de dar um valor exagerado à vida humana, — disse Frank gravemente. — É a coisa mais preciosa do mundo.

O conde encolheu os ombros.

—    Esse é um ponto de vista. Não é assim que penso. De minha parte, considero a vida como a menos valiosa de nossas posses. É um grande disco de gramofone no qual se gravaram todos os sons estridentes e ingratos da vida, ao mesmo tempo. Afinal de contas, — acrescentou, — estamos em completo desacordo. A música da vida fica diminuída, sobrepujada, acalmada pelas notas mais agudas das lutas e ambições. No que se refere a mim, — disse sorrindo, — penso que a gravação mais clara e desprovida de sons é a melhor.

—    Qual é a gravação mais clara? — perguntou Frank.

—    Dormir, — respondeu o outro com certa amargura, — ou morrer. É mais ou menos a mesma coisa.

Estendeu a mão, sorrindo calmamente.

—    Estou estorvando-os, — disse. — Onde poderei ter o prazer de vê-la novamente, Miss Meagh?

—    Ficarei na casa de meu tio mais um mês.

Fez uma inclinação de cabeça a Frank e, dando meia volta, co­meçou a andar na direção oposta.. Parou um momento ao chegar ao quiosque de cigarros, observando o par com o canto dos olhos. Viu que caminhavam lentamente para fora da estação. Voltou-se, quando os viu desaparecer por uma das saídas.

Sua fisionomia mudou. Seus olhos olhavam fixamente e desprendiam chispas. Ficou contemplando a porta de saída, por onde os vira passar e, em seguida, entrou numa cabine telefônica.

Saiu cinco minutos depois, com um semblante mais agradá­vel e tranqüilo.

Era quarta-feira, uma noite antes do ataque que estava planejado. Se o medalhão não fosse roubado, pensou que já tinha em Suas mãos o meio de consegui-lo... e tratava-se de um meio que muito lhe agradava. O único temor que tinha era saber se ela resistiria à tentação que lhe proporcionaria a experiência. Se sua ambição por dinheiro seria superior à paixão crescente que pa­recia começar a arder no peito por essa fria e formosa mulher inglesa.

Inteirara-se já do suficiente para saber que o segundo medalhão achava-se em poder de Tillizini. E a casa dele poderia ser muito facilmente assaltada, a qualquer momento, mas agora o problema mudava de aspecto. Tratava-se do próprio Tillizini e o seu nome inspirava temor entre os delinqüentes que trabalhavam para obter benefícios ilegais.

Até esse momento, só à vista do rosto comprido e refinado do professor, havia detido e paralisado o golpe da espada assassina que iria pôr fim a seus dias. A menção de Tillizini era sufi­ciente para provocar a intranqüilidade edesassossego entre os Vilões, em cujo peito estavam mortos todos os sentimentos de piedade e compaixão.

Mas, sobre o Conde Festini, este nome não produzia o menor efeito. Estava num plano superior, acima de qualquer temor a respeito de qualquer homem. Procedia de uma linhagem que du­rante centenas de anos havia dominado uma ou outra sociedade secreta. Os Festini remontavam aos antigos e nefastos dias da his­tória italiana, quando o crime era método fácil e rápido de eli­minar pessoas que incomodavam sua família.

Isto estava em seu sangue. Fazia parte de sua composição. Jovem como era, tornara-se já a força diretriz da terrível associação que trabalhara em algumas regiões dos Estados Unidos, causando pavor e preocupando as autoridades.

Mas, Tillizini, com a segurança e astúcia de seu trabalho, com ã prudência de seu julgamento, conseguira enfraquecer a orga­nização .

Festini não era tolo. Reconhecera que na América já não havia mais nada a fazer. Era inútil continuar batendo com a cabeça contra uma parede de concreto. Tinha previsto a possibilidade de ser preciso transportar o poderio de seu comando para a Ingla­terra. Tratava-se de um pais em que o povo era mais calmo, acos­tumado a certa espécie de crime, geralmente sem violência. Essa seria a última etapa da «Mão Vermelha». Seus membros haviam sido expulsos de todos os países da Europa. E era somente uma questão de tempo e a adormecida Inglaterra despertaria para fazer funcionar todos os seus recursos e pôr fim às atividades da or­ganização.

Nesse breve espaço de tempo, entretanto, Festini preparava o golpe... o maior e mais terrível de todos os seus temerários planos! Não agiria contra determinadas pessoas, porque isto era demasiado perigoso, mas haveria de burlar a Nação e antes de mais nada era mister que estivesse de posse dos medalhões.

Ao sair da estação, tomou um táxi e fez-se conduzir a uma pequena ruela de Soho. Sabia que haveria de encontrar o «Boi» num restaurante de baixa categoria, ali existente. Não tinha muito tempo a perder.

O homem que procurava, entretanto, não havia chegado ainda e o conde sentou-se para esperá-lo, pedindo ao obsequioso garção que lhe servisse um prato de sopa.

Poucos minutos depois, o homem grande chegou.

—    Fale o mais que lhe seja possível em inglês, — disse-lhe Festini.

—    O homem é um irmão, — replicou o outro.

—    Isso não importa, — insistiu o conde. — Fale em inglês, por favor. Mandou seus homens a Burboro?

O outro assentiu com um movimento de cabeça.

—    Seguiu minhas instruções?

—    Sim, padrone. Os homens que mandei tinham o aspecto de verdadeiros ingleses. Foram os melhores que pude conseguir.

—    São de confiança?

O outro tornou a fazer um sinal de assentimento e sorriu com certa malícia.

—    Tão de confiança como homens que estão cuidando por suas próprias vidas... — disse, enquanto fazia um gesto significativo.

Festini sorriu.

—    Não creio que vamos ter dificuldades, — disse. — Quan­do conseguir o medalhão, traga-o imediatamente. Ficará na estação para esperar sua gente. Receba-o de suas mãos. Não saia da estação até que o tenha em seu poder. Esperá-lo-ei em Deptford. E, agora, o que há com Tillizini?

Um olhar de temor apareceu nos olhos do homem grande.

—    Tillizini? — perguntou com dificuldade.

—    Sim, — disse o outro com impaciência, — que é que teme? E somente um homem, Touro. Um dos medalhões está em seu poder. Acha-se naquele aposento grande que dá para o Tâmisa, do Embankment. Será que poderemos nos apoderar desse objeto?

O italiano grande moveu vigorosamente a cabeça de um lado para outro.

—    Signor, — disse com certa ansiedade, — isto não poderá ser feito. Não contamos com nenhum homem que se atreva a fazê-lo... Bem sabe que ele não é um homem, é um demônio! Tillizini é um diabo completo. Lembre-se de Beppo Ferosti! Na noite passada foi morto em nossas próprias barbas, por um homem que ouviu tudo quanto dizíamos. Não creio, Signor, que possamos enganar esse homem. Já o intentamos em vão!

Moveu-se incomodamente na cadeira, antes de prosseguir, no seu tom lastimoso.

—    Já não tentamos a mesma coisa em New York? — perguntou com veemência. Subornamos o moço de seu hotel, entra­mos em seu quarto, durante a noite, depois de narcotizá-lo o en­volvemos num lençol. Atiramos com ele pela abertura do ele­vador. Caiu do oitavo andar, Signor, — disse com um acentuado estremecimento de terror, — e, quando pouco depois, fomos vê-lo no fundo do poço, o homem não estava lá mais! Em seu lugar, jazia o pobre Antônio Barrici, o encarregado de todos os prepa­rativos e o mesmo que havia planejado sua morte. Não pudemos ver-lhe o rosto na obscuridade, porque não nos atrevíamos a levar nenhuma luz! Simplesmente tiramos o narcotizado da cama e o levamos até ao elevador!

E fez-se silêncio profundo, durante alguns momentos.

—    Lembra-se de que mandamos um homem de Florença para matá-lo? Nunca mais tornamos a vê-lo, — a voz do homenzarrão tremia um pouco, porque o homem que viera de Florença era seu irmão. — Tillizini enviou-me sua mão decepada, como encomenda postal. Nada mais que a mão do homem que viera da Itália, tendo no dedo o anel da fraternidade. Não havia nenhum nome que identificasse o remetente e a encomenda levava a etiqueta postal de Paris. Não será possível fazê-lo, Signor. Esse homem não é um ser humano!

Festini escutava-o com um sorriso divertido.

—    É suficientemente humano, meu amigo, — disse-lhe sua. vemente. O que há é que é um pouco mais astuto que os homens postos a trabalhar contra ele. Agora, propus-me eu mesmo a agir e acertar as contas com o Signor Tillizini! Tentei utilizar cada um de nossos agentes e todos fracassaram. Também devo ter minha parte na tarefa. Trata-se de um inimigo perigoso que po­derá arruinar nossos planos. Esta noite, enquanto nossos amigos andarem reconhecendo o terreno em Burboro, agirei independen­temente.

—    Devo ir também? perguntou o outro com veemência, Sabe, Signor, que daria minha vida pela sua?

Falava com sinceridade. Não era para se pôr dúvida a fidelidade deste homenzarrão, como não se duvida da fidelidade de um cão.

O Conde Festini sorriu novamente.

—    Trabalharei sozinho, meu amigo, — disse-lhe dando um tapinha de confiança no ombro. Estas coisas devem ser feitas com sutileza, se quisermos lograr êxito.

Deixou cair a cabeça entre as mãos por um momento e ficou pensativo. O outro esperou pacientemente, os olhos profundos cheios de amor e admiração pelo amo.

—    Há um homem, disse Festini de improviso, que é uma espécie de agente de Tillizini. Você irá buscá-lo, agora, para matá-lo.

Falava como se se tratasse de uma transação torrente que o outro deveria realizar.

O «Boi» assentiu com a cabeça.

—    Será muito simples, disse. Poderei fazê-lo esta mesma noite.

Festini continuava pensando.

—    Não, disse, depois de um instante. Não deve matá-lo, agora. Leve-o para a casa junto ao rio. Sabe aonde e a que lugar me refiro?

O outro fez um sinal afirmativo.

—    Quando conseguir aprisioná-lo e o tiver bem guardado, mande uma carta a Tillizini, dizendo-lhe que o tem em seu poder e exija um resgate de quinhentas libras. O resto corre por minha conta.

O homenzarrão pôs-se de pé.

— Vou cumprir suas instruções, imediatamente, Signor, e que Deus o proteja!

E com essas palavras, retirou-se do restaurante.

 

OS PROCEDIMENTOS DE TILLIZINI

Tillizini achava-se sentado em seu escritório, examinando um grande número de fotografias que recebera de Florença, nesta mesma manhã, quando chegou a comunicação.

Abriu-a e pôs-se a lê-la.

Era breve e concisa.

«Já prendemos seu espião. Pedimos quinhentas libras pelo resgate. Ao recebê-las, dar-lhe-emos liberdade.

Por ordem da

«Mão Vermelha».»

Dobrou-a cuidadosamente.

—    O mensageiro está esperando? — perguntou ao criado.

—    Não, senhor, — respondeu o outro. — Foi um rapazinho que a trouxe.

Tillizini tornou a examinar o bilhete e sorriu.

Levantou-se e acercou-se do telefone que descansava em um suporte, próximo da janela. Deu um número que não figurava na lista telefônica e que somente poderia ser encontrado num pequeno volume que se edita para os ministros do gabinete e de­terminados funcionários públicos de certa categoria.

Poucos minutos depois, estava em comunicação com o inspetor Crocks.

—    Agarraram o meu agente, — disse, — pelo menos dizem que o fizeram e suponho que seja verdade. Exigem quinhentas libras para sua libertação.

—    Que pretende fazer? perguntou o inspetor.

—    Vou libertá-lo, respondeu Tillizini, ainda que tenha minhas dúvidas de que possam desejar o dinheiro solicitado. Minutos depois, iam ambos em direção à morada de Smith.

A dona da casa deu-lhe tôdas as informações solicitadas e depois de uma hora de buscas, deram com o lugar onde haviam capturado o homem. Tal como pensava, o rapto ocorrera no cais, precisamente aonde o homem fazia os sinais com a lanterna.

Notavam-se marcas de luta. Alguns meninos que brincavam num beco escuro, próximo dali e por onde se chegava ao cais, haviam visto quatro homens que lhes pareceram bêbados e que iam com passos vacilantes para um táxi que os esperava.

No Soho há um pequeno clube, onde os homens que têm certas pretensões políticas podem ser encontrados, entre as onze da noite e as cinco da manhã.

As doze menos um quarto, o vigoroso Pietro, que formara o terceto na conferência de Deptford, penetrou no clube e depois de uma procura inútil, tornou a sair.

Caminhou pelas ruas de Soho, atravessou Oxford Street e perdeu-se nos miseráveis bairros que abundam nas proximidades de Tottenhan Court Road. Valendo-se de uma chave, abriu a porta de uma casa e entrou.

Sua moradia ficava no andar inferior. Correu o fecho da porta, penetrou no interior e tornou a fechar, retirando a chave, antes de acender um fósforo.

Suas mãos ainda manejavam a caixa de fósforo, quando percebeu um rápido clarão e encontrou-se paralisado no meio de um círculo de luz, que partia de uma lanterna elétrica.

—    Não se mova, disse uma voz, ou o matarei imediatamente.

O intruso falava em italiano.

—    Pode acender o gás, disse o desconhecido.

O circulo de luz seguiu o braço do homem assustado, enquanto se locomovia pelo centro do aposento. Levantou-se a acen­deu a lâmpada.

—    Tillizini! — exclamou.

—    Sim, em pessoa, replicou o outro, com toda calma.

As portas estão fechadas, as janelas com os postigos e as cortinas descidas, não é verdade? Sente-se!

Estremecendo dos pés à cabeça, o homem obedeceu. O revólver que o professor tinha nas mãos era um argumento exce­lente para a obediência.

—    Onde esteve esta noite?

—    Isso não lhe interessa, — murmurou o outro. — Não tem nenhum direito de vir a meus aposentos. Que foi que roubei?

—    Não seja tolo, — disse-lhe Tillizini com calma. — Fique parado e levante as mãos acima da cabeça. Obrigado, senhor.

Seus dedos introduziram-se habilmente nos bolsos do outro, tiraram a arma que levava na calça e um punhal do cinturão de couro. Deixou as armas sobre a mesa, abrindo primeiro o carre­gador do revólver cientificamente. Ouviu-se o ruído das balas que caíam no chão.

—    Agora, dê-me sua mão, — disse Tillizini. — Estenda-as.

Com alguma vacilação, o outro obedeceu, os olhos temerosos

fixos sobre o imutável rosto do professor.

Tillizini inclinou-se um pouco e levou a mão do outro à altura de seu rosto. Suas narinas sensíveis dilataram-se. Não teve dificuldade em reconhecer o perfume de rosas velhas com que estavam impregnados os papéis de seu espião e que ele tivera a precaução de perfumar na tarde anterior.

—    Sim, — disse, — você é o homem que eu procurava.

O temor acentuou-se no rosto do homem.

—    Que quer dizer com isto? — murmurou.

Tinha um temor supersticioso desse homem impossível de se vencer! Com a ignorância das pessoas de sua classe, havia-se do­tado de poderes quase sobrenaturais.

—    Preciso agora do homem a quem ajudou, esta noite, na realização do rapto, ou que o ajudou na busca, — disse afavelmente o italiano.

—    Isso é mentira, — falou o outro. — Não sei nada sobre nenhum homem raptado...

—    O homem que capturaram esta noite, — continuou Tillizini imutável, — cujos bolsos revistou e cujos papéis vocês examina­ram. Onde está este homem?

O temor acentuava-se cada vez mais nos olhos do homem.

—    Como o sabe? — murmurou.

—    Eu sei, — disse Tillizini, — é o suficiente.

Esperou que o homem falasse, mas qualquer que fôsse o medo que sentia do detetive, era muito maior o terror das represálias de seus camaradas.

—    Não posso falar... nada... — murmurou.

—    Então, terá que fazer uma viagenzinha comigo, disse Tillizini. Se não o aborrece, deixaremos a luz acesa. Levante-se. Vamos.

Aproximou-se da porta, ficando de costas para ela e abriu-a.

—    Saia você primeiro, disse.

A rua estava completamente deserta, com exceção de uma apressada mulher que por ali transitava.

—    Para a direita, ordenou laconicamente Tillizini.

O homem obedeceu.

No outro lado da rua, estava parado um carro, puxado por um par de cavalos. Pietro ficou parado perto do veículo, esperando até que Tillizini ordenou:

—    Entre.

O homem obedeceu novamente e Tillizini entrou atrás. Fechou a porta e o prisioneiro percebeu que êle não havia dado instruções ao condutor. Evidentemente, tudo havia sido plane­jado de antemão. Seu assombro foi dissipando-se, quando viu que o carro arrancava em direção ao Embankment, readquirindo então, a perdida serenidade. Estavam dirigindo-se para a casa de Tillizini e ali ele não poderia torturá-lo, no coração de Londres, sendo como era, funcionário do governo.

O carro deteve-se junto a Adelph Terrace, diante da casa do detetive.

Desça!

O homem seguiu as instruções. O chamado de Tillizini foi respondido imediatamente pelo criado. Os dois recém-chegados penetraram no vestíbulo.

—    Alguém esteve aqui? perguntou o detetive, em inglês.

—    Não, senhor, a não ser um homem que veio trazer uma encomenda.

—    Uma encomenda? Tillizini ficou pensando. Uma encomenda grande? perguntou.

—    Não, senhor. Uma encomenda pequena, respondeu o criado. Não quis deixá-la, enquanto não assinei o recibo.

—    Já percebi, disse o detetive. — Deixou-o na porta do vestíbulo, enquanto procurava por um lápis?

O criado sorriu.

—    Não, senhor, recebi logo a encomenda... está ali sobre a mesa. Não me retirei da porta.

Os lábios de Tillizini moveram-se. Nos momentos mais trágicos de sua vida sabia encontrar motivos de diversão. Olhou apenas superficialmente para a encomenda. Em vez dela, porém, seus olhos revistaram imediatamente o pavimento.

Abriu a porta e examinou a fechadura. Era uma fechadura especial com fecho-patenteado. Tirou dois fios delgados do buraco em que a lingüeta devia encaixar. Examinou-os brevemente e reteve-os entre os dedos. Durante todo este tempo, continuou com o revólver na mão, de um modo que o criado não se apercebesse.

—    Muito bem, Thomas, — disse-lhe, enquanto fechava novamente a porta, — pode retirar-se. Adiante, meu amigo.

Estas últimas palavras foram dirigidas ao prisioneiro. Pietro obedeceu. Subiu a ampla escada, até chegar ao corredor superior e Tillizini aproximou-se mais do prisioneiro.

—    Atravesse a porta, — ordenou.

Pietro assim o fez.

Abriu a porta, vacilou por um momento e avançou.

Quando a mão do italiano estava no trinco da porta, Tillizini falou. Parecia que falava com uma pessoa que se achasse em baixo.

—    Está bem, Thomas, — disse em voz alta, — pode trazer-me essa encomenda.

Em seguida, empurrou Pietro para dentro do aposento. Tal como estava esperando, o quarto estava às escuras. O prisioneiro ficou vacilante, junto à entrada, por uma fração de segundos.

Tillizini estava por trás dele, em atitude de expectativa. Teve que esperar também só por uma fração de segundos.

Da obscuridade do quarto, partiram quatro disparos, em rápida sucessão e Pietro caiu de bruços, atingido pelas balas.

Tillizini afastava-se ligeiramente para um lado, resguardando- se atrás da folha da porta. Não oferecia nenhuma visão a seu oculto inimigo.

Ouviu os passos rápidos de Thomas. vestíbulo de baixo, havia uma chave elétrica, que permitia iluminar qualquer apo­sento que se desejasse.

A uma ordem rápida de Tillizini, as luzes acendeiam-se ao escritório.

Deitou-se sôbre o homem que jazia no chão.

O aposento estava vazio, não oferecia esconderijo para ninguém que pretendesse ocultar-se ali. Não havia necessidade de procurar além da janela aberta. O homem que havia estado na peça, esperando, já saltara, certamente e fugira.

Tillizini deu volta à chave de luz e o quarto ficou nova­mente às escuras. Correu para a janela. Uma corda havia sido presa num dos pés da escrivaninha. Estendia-se através do apo­sento e balançava de um lado para outro, do lado de fora.

A rua estava deserta. Não valia a pena perder tempo com uma busca. Fechou a janela e telefonou para a polícia.

O homem que estava estendido no assoalho não necessitava de ajuda. Quando Tillizini chegou junto dele, já estava agonizando. Com a ajuda do criado e de um policial, cujos serviços requisitara logo após, foi colocado numa poltrona, onde poucas noites atrás uma vítima inocente da «Mão Vermelha» estivera for­mulando seus planos.

As mãos afanosas de Tillizini buscaram todos os frascos de sua farmácia de emergência... o homem reviveu um pouco, mas era evidente que não passaria muito tempo, até que chegasse a morte.

Olhou para Tillizini com um débil sorriso.

—    Signor, disse em italiano, devia ter adivinhado... foi assim que enganou os outros. Tenho algum dinheiro no banco, deu o nome do estabelecimento, e desejo que esse dinheiro seja enviado à minha irmã, que é uma viúva e mora em Sezzori.

—    Enviá-lo-ei, Pietro.

—    Sabe meu nome? perguntou o moribundo.

—    Conheço-o muito bem, respondeu Tillizini.

O homem olhou-o sem compreender.

—    Algum dia, disse por último, com voz que ia tornan­do-se cada vez mais fraca, êles lhe darão caça, nossa brava «Mão Vermelha», Signor, e então a matança será enorme!

Conteve-se e olhou à sua volta, até ao policial, que não entendia suas palavras e para o criado inglês, que parecia agitado pelo caráter extraordinário do acontecimento.

—    Há algo que quero dizer-lhe, Signor, balbuciou.

Sua voz estava muito difícil de ser ouvida. Tillizini abaixou a cabeça para apreender bem as palavras e, nesse momento, o mo­ribundo fez um esforço para despender a última reserva de energia que lhe restava.

Com um resto de vontade maligna, chamou em seu próprio auxílio todas as forças vitais que lhe restavam e quando a cabeça de Tillizini ia abaixando mais e mais, a mão de Pietro encrespou-se a seu lado.

—    Signor! — disse-lhe, tome isto!

Mas, pôr mais rápido que fosse seu movimento, Tillizini foi um pouco mais. Voltando-se, sua mão de ferro apertou em volta do pulso do homem e a folha de aço que brilhava nela, caiu com estrépito sobre o chão polido.

Então, empurrou com um esforço a mão do moribundo, que caiu pesadamente sobre a poltrona em que ele estava deitado.

—    Não podia negar que era um réptil, Pietro! Um asque­roso réptil!

E o moribundo, sem se arrepender de suas muitas vilanias, nem pelas tristezas e desgraças que acarretara a tanta gente, olhou com a nebulosidade da morte e conseguiu ver os olhos de Tillizini e os lábios do detetive que mostravam um sorriso de desdém e de desprezo.

Uma hora mais tarde, Tillizini achava-se sentado no escri­tório particular do Inspetor Crocks, em Scotland Yard.

—    Foi uma boa escapada a sua, — disse o inspetor, com admiração.

—    Houve duas, — disse Tillizini secamente. — A qual delas se refere?

—    Creio que a mais perigosa foi a primeira, — respondeu o policial .

—- É estranho que diga isto, — disse Tillizini. — Creio que a segunda foi a pior, porque o punhal estava envenenado. Verifiquei logo depois.

—    Envenenado?

—    Sim, com um veneno que não é muito agradável... tétano!..— disse.

—    Bom Deus! — exclamou o inspetor, deveras surpreendido.

—    O germen da paralisia, não é?

Tillizini assentiu com a cabeça.

—    Com efeito, acrescentou concordantemente, Um fim muito desagradável e especialmente preparado para mim. Posso dizer-lhe que essa gente è científica à sua maneira. Eu já sabia que devia estar alguém esperando em cima. É um velho método. Provavelmente você mesmo já o terá posto em prática, em muitas ocasiões.

O inspetor confirmou com um olhar.

—    Quando o atento Thomas fechou a porta, o amigo que levou a encomenda tratou de tirar rapidamente um molde, com um pedaço de fazenda preta. O trinco ficou calçado com o pedaço de pano. Quando pensou que a costa estava livre e calculou que Thomas não andaria por ali, pôs-se a puxar a ponta da sêda, que sobressaía do outro lado...

—    Conheço o truque, afirmou o inspetor. — Já o vi ser feito um punhado de vêzes.

—    Suspeitei de algo semelhante, asseverou Tillizini, mas, suspeitei muito mais da encomenda. Pensei também que o rapto de Smith era um truque, para me fazer sair, de modo que no meu regresso me esperasse aqui uma bela recepção!...

—    Encontrou o homem?

—    Será encontrado, disse Tillizini. Amanhã pela manhã...

—    Designei vários agentes para procurá-lo, — esclareceu Crocks. É uma tarefa difícil, Tillizini, ter que disputar com essa gente.

Tillizini sorriu.

—    Diferenciam-se um pouco dos criminosos comuns da Inglaterra, disse. Um desses dias, quando for a Florença, inspetor, terá oportunidade de passar por meu museu e lhe mos­trarei os crânios típicos dos criminosos de todos os países. Explicar-Ihe-ei, então, porque nossos homens do meio-dia são mais perigosos de ser manejados. E se tiver um pouco de paciência, inclinou ligeiramente a cabeça, dar-lhe-ei, ainda que resumi­damente, as bases sôbre as quais poderá julgar, antecipadamente, os atos desses homens.

—    Em outras palavras, disse jovialmente o inspetor, — dar-me-á lições elementares de nigromancia.

—    Algo parecido com isto, respondeu Tillizini.

Havia passado meia hora em companhia de Crocks e do Comissário Chefe. Outro crime fora acrescentado aos muitos co­metidos relacionados com a «Mão Vermelha». Era um aborreci­mento a mais para a Polícia inglesa, apesar de toda a satisfação que pudesse causar a Tillizini.

Levantou-se da cadeira e consultou o relógio, Eram quase doze horas. O inspetor seguiu-lhe o exemplo.

—    Onde vai agora?

—    Voltarei para minha casa. Quer vir comigo?

—    Tenho uma hora livre, — disse o outro, — e como me agrada o seu escritório, irei descansar um pouco ali. De passagem, poderei recolher algumas impressões, diretamente.

—    Então venha, — convidou Tillizini.

Passaram pelos amplos corredores de Scotland Yard. Desceram as escadas e saíram por baixo do grande arco de entrada. O policial, que estava de guarda, cumprimentou-o respeitosa­mente.

Seguiram juntos até à residência de Adelph Terrace. Tillizini tocou a campainha. Era um ato de preguiça de sua parte não re­tirar as chaves do bolso para abrir a porta.

Não obteve resposta e tornou a chamar. Então, ele mesmo abriu a porta e entrou. As duas lâmpadas do vestíbulo estavam apagadas, mas não se via sinal de Thomas.

Tillizini fechou a porta atrás de si. Poderia talvez encontrar Thomas no subsolo. Caminhou pelo corredor e chamou-o, deitando-se sobre o corrimão da escada, sem obter, também, nenhuma resposta. Ostensivamente dobrado, atrás de um vaso de cristal, achava-se um bilhete.

Tillizini retirou-o e pôs-se a lê-lo. O bilhete explicava a ausência de Thomas. Era dirigido ao criado.

«Fui preso pelo crime de hoje, faça-me o favor de trazer meu agasalho a Bow Street».

A nota estava assinada:

Antônio Tillizini.

Sem dizer uma palavra, passou o papel ao detetive inglês.

—    Agora, iremos revistar a casa. Talvez, descubramos alguma coisa, — disse e começou a subir a escada.

Não se preocupou em armar-se, porque conhecia a maneira de agir da «Mão Vermelha», demasiadamente bem, para acreditar que algum membro da organização se encontrasse ali.

Provavelmente tiveram mais de meia hora depois da saída apressada de Thomas, levando seu agasalho. Dez minutos era tempo de sobra para fazer o que pretendiam.

Abriu a porta do quarto e entrou, sem revelar o mínimo temor. Acendeu a luz. O aposento estava em completa desordem. Fôra efetuada ali uma completa e minuciosa busca. As gavetas da escrivaninha tinham sido arrombadas, com violência e o chio estava cheio de papéis e lascas de madeira do móvel. Nem as ca­deiras, nem a poltrona escaparam da revista. A tapeçaria havia sido cortada e tudo anunciava que a busca tinha sido feita apres­sadamente.

Os pés das cadeiras pareciam cortados por um machado. E era estranho que a caixa com a farmácia de emergência, portátil, que estava sobre a escrivaninha, houvesse sido poupada.

A «Mão Vermelha» respeitava demasiadamente os conhecimentos químicos de Tillizini. E tantas foram as lições convincen­tes que tiveram de seu saber sobre altos explosivos que essa caixa foi deixada em seu lugar, sem ser tocada. Mas, era evidente que cada uma das pequenas ampolas havia sido tirada cuidadosa­mente de seu lugar e detidamente examinada.

Com um rápido olhar ao dano sofrido, o italiano avançou em largas passadas pelo aposento, levantou uma ponta do tapête e suspendeu uma tábua estreita do assoalho, Quem estivesse na ignorância do segrêdo, jamais poderia saber da existência dêsse receptáculo, que servia de esconderijo. Enfiou a mão lá dentro e por um instante Tillizini permaneceu em expectativa, mas logo começou a retirá-la lentamente. O detetive observou que o com­panheiro retinha um papel entre as mãos.

E pôde ler o que dizia o bilhete:

«MUITO AGRADECIDO PELO MEDALHÃO. E AGORA OUVIRÁ FALAR DE NÓS. TILLIZINI!»

O italiano permaneceu calado. Parou no centro do quarto, as mãos no peito, absorto em seus pensamentos.            

Levaram o medalhão, disse o inspetor Crocks, com espanto.

Tillizini não deu resposta.

Ouviu-se uma batida na porta e Thomas entrou, tendo ainda no braço o casaco de seu patrão.

—    Sinto muito, senhor, será que... — começou a dizer.

Tillizini levantou a cabeça.

—    Thomas, já lhe disse que sob nenhum pretexto devia sair de casa. Sua desobediência às minhas recomendações de­correu, em parte, de culpa própria minha. Amanhã, mostrar-lhe-ei uma pequena indicação que só verá nas cartas e papéis que eu mesmo escrever, de meu próprio punho.

—    Sinto muito, senhor, — desculpou-se Thomas.

Tillizini pediu-lhe que parasse de se desculpar.

—    Não foi nada, — sorriu. — Devo-lhe, também, uma pequena desculpa. Você tem um filhinho, não ê certo?

—    Sim, senhor, — afirmou Thomas.

—    Trás seu retrato num medalhão, não é verdade?

—    Sim, senhor, — respondeu Thomas. — Porque o pergunta, se o senhor mesmo sabe, senhor? Trouxe outro dia o medalhão para o senhor ver.

—    Sinto dizer-lhe, Thomas, que o perdi... e espero encon­trá-lo. Posso assegurar-lhe que o coloquei num lugar seguro.

—    Oh, não é nada, senhor! — disse Thomas. — Posso conseguir outro. Não valia nem meia coroa.

—    Uma recordação do amor paterno é muito valiosa, — disse Tillizini.

Extraiu o revólver da capa, apertou a mola de segurança, perto do gatilho e viu-se aparecer uma pequena abertura na culatra. Sacudiu a arma e alguma coisa que estava embrulhada num pedaço de papel prateado caiu em suas mãos.

Desembrulhou e entregou o conteúdo a Crocks.

—    Estou inclinado a pedir-lhe que leve isto para Scotland Yard, — disse-lhe. — Acho, entretanto, que não voltarão a assal­tar minha casa.

Era o medalhão!

—    Quanto ao que roubaram, — afirmou Tillizini, — é lamentável. Penso que nunca me perdoarei por haver perdido essa sua recordação, Thomas!

Sua voz tinha um tom zombeteiro e o criado fez um gesto, traduzindo que a perda não representava grande coisa para ele.

—    Não me aborrece absolutamente, senhor, — disse.

O que éra verdade para Thomas não o era, igualmente, para os líderes da «Mão Vermelha» que, nesse momento, achavam-se sentados num pequeno quarto, em Deptford, examinando conster­nados e pesarosos os traços um tanto apagados da fotografia de um saudável menino de dois anos!

 

LADY MORTE-MANNERY AJUDA UM AMIGO

Sir Ralph Morte-Mannery estava de gênio amável. Acabara de ler uma referência muito agradável à sua própria pessoa, sobre sua perspicácia e seu talento, num jornal francês, dedicado unica­mente aos interesses dos colecionadores.

Sua alegria comunicara-se às demais pessoas que compareceram ao jantar e de certo modo havia servido a referência para diminuir as preocupações devidas à libertação de George Mansingham.

O infortunado não havia sido libertado, porque os juízes da Côrte de Apelação acreditaram que a sentença fora excessiva, mas porque, ao rever as peças do processo, Sir Ralph havia ultrajado a maioria dos cânones do bom-gosto que um juiz pudesse ultrajar.

Ao pronunciar a sentença, os juízes haviam dito muitas coisas amargas sobre Sir Ralph.

A dizer a verdade, tão pouco amáveis haviam sido em seus comentários, que Hilary George, ao ouvi-los com esse ar deliciado de assombro, que sempre adotava em tôdas as suas manifestações na vida, sentira um sobressalto no próprio coração, ante o pen­samento da humilhação que devido a seus esforços, causara ao amigo de outros tempos.

Hilary era um homem demasiadamente bom e um cavalheiro no sentido da palavra, para se vangloriar de sua vitória. Era, além disto, um homem forte. E nenhuma outra pessoa que não fosse corajosa, tomaria o primeiro trem para Burboro, a fim de levar a notícia do resultado do processo a um homem que se podia considerar com pleno direito de assassinar o mensageiro.

A entrevista na biblioteca fora um tanto violenta. Pouco depois, porém, houve a reconciliação. Hilary, em termos que só poderia permitir-lhe a velha amizade, cientificou-o do resultado de suas investigações, suavizando as mais vigorosas manifestações dos juízes da Corte, ainda que temendo que o «Times» haveria de reproduzir, em suas páginas, os pormenores mais detalhados do processo.

Sir Ralph estava preparado para semelhante emergência. Era um bom advogado, para quem os prejulgamentos não afetavam as opiniões. O advogado que existia dentro dele dizia-lhe que a sentença havia sido excessiva, enquanto que o colecionador pedia com toda ênfase, que o acusado fosse levado à forca.

Mas, Hilary, com seu rosto infantil e aspecto jovial, sua prontidão para rir até das brincadeiras que lhe eram adversas, havia logrado quebrar a reserva do homem mais velho, que o convi­dara, enfim, para ficar em casa.

A hora do jantar, Sir Ralph mostrou-se satisfeito.

O estado de ânimo do dono da casa não era a melhor de suas qualidades, mas era suficiente, como ocorre com todas as pessoas pouco expansivas e um tanto alheias, para manter um clima tolerável a seus hóspedes.

Insistiu em referir-se a Hilary como o «inimigo» ou «meu opressor» e deu a ele muitos motivos de divertimento ao fazê-lo.

—    Agora, Hilary, — disse-lhe com jovialidade, — terá que nos dar todas as notícias dos melhores criminosos. Que estão fazendo os membros da «Mão Vermelha»? Estão matando tanta gente quanto os caminhões e ônibus?

—    As pessoas que estão melhor informadas, — disse Hilary gravemente, — consideram com algum receio e apreensão o atual silêncio da «Mão Vermelha». Pude saber que os membros do governo mostram-se preocupados ante tal situação. Esses homens estão brilhantemente organizados e não se detêm diante de nada.

—    Alguém conseguiu descobrir porque estão saqueando as coleções? — perguntou Marjorie. — Outro dia vi um artigo no «Post Herald» a este respeito.

Hilary meneou negativamente a cabeça.

—    Não, não posso compreender, — disse, — mas penso que há alguma coisa escondida atrás disso. Não desejo aborrecê-lo,

Ralph, — prosseguiu, — mas, não lhe parece, como advogado e também como homem de fina percepção, que tenha havido real­mente intervenção da «Mão Vermelha» nesse roubo realizado em sua casa?

Sir Ralph moveu negativamente a cabeça.

—    Não posso supor coisa semelhante. E possível que tenha havido, — disse, posto que em seu íntimo estivesse satisfeito de que as coisas não tivessem ocorrido assim.

—    Sua última façanha foi raptar um dos agentes de Tillizinl. O homem ficou preso durante uma noite e foi libertado, sem nenhum dano, na manhã seguinte. Por alguma razão, ordenaram sua libertação, desde que, segundo penso, estavam sob a impres­são de que poderiam matar o próprio Tillizini, e, portanto, não havia nenhuma razão para deter seu agente. Este, muito pouco ou quase nada pôde dizer sobre o que lhe aconteceu, salvo que havia ficado muito tonto ao ingerir a droga que o forçaram a beber e que, de certo modo, entorpeceu seus poderes de recordação. Não pôde ajudar a Polícia a encontrar a casa para onde foi levado. Encontraram-no num estado lastimável, sentado sobre um dos bancos do London Bridge, nas primeiras horas da ma­nhã e desde este momento tem permanecido semi-inconsciente.

—    Isto é muito interessante, — disse Frank, que se achava sentado ao lado de Marjorie. — Na Itália, vi homens nestas con­dições. E uma espécie de preparado à base de ópio que alguns camponeses tomam, O termo de gíria italiana que se emprega para dar nome a esta droga é algo parecido com uma abreviação: non mi ricordo.

—    Esse homem não se lembra de nada, disse Hilary, — exceto que... — Deteve-se.

—    Exceto que? — perguntou Vera.

Durante toda a conversação, ela permanecera calada. Esta noite, estava mais bonita do que nunca, pensava Hilary. Vestia um traje de chiffon cinza de veludo e sobre o corpete trazia uma rosa vermelha.

—    Esqueci-me, agora, — disse Hilary.

Lembrava-se em realidade de que recebera a informação confidencialmente e que poderia, mais tarde, ser envolvido no assunto.

—    A propósito, — prosseguiu, — outro dia via-a na cidade.

Vera ergueu suas delicadas sobrancelhas.

—    Realmente? — perguntou. — Não se pode ocultar-lhe nada. Onde me encontrava?

—    Estava em Oxford Street, num curioso automóvel. Era o de Festini?

Ela encarou-o fixamente.

—    Festini? — repetiu.

—    Pareceu-me vê-la com Festini, — concordou com precipitação.

Para um homem que possuía tantos conhecimentos sobre as pessoas humanas e que, por outro lado, era tão versado em regras da sociedade, parecia que estava cometendo uma quantidade de gafes.

—    Não conheço Festini, — disse, — se é que se refere ao Conde Festini, cujo nome aparece tão seguidamente nos jornais. Também não estive em nenhum automóvel, em Oxford Street, desde que, no Natal, saímos com Sir Ralph, para ir à casa de Buzzard.

—    Sinto muito, — murmurou o advogado.

Vera mudou de conversa com toda facilidade.

Era a perfeita dona de casa, ainda que nesse momento tivesse que recorrer a todo seu autodomínio, para não denotar a raiva de que estava possuída.

—    Prossiga contando-nos algo sobre a «Mão Vermelha», — pediu Sir Ralph. — Qual é o golpe tremendo de que tem ouvido falar? Gostaria de saber.

—    Parece que ninguém tem informações a respeito, — afirmou, — nem o próprio Tillizini.

—    Nem Tillizini? — repetiu Marjorie com certa surpresa.

—    Nem o próprio Tillizini, — disse por sua vez Hilary. — Parece que está às escuras, como todo o mundo.

—    O povo começa a pensar demais sobre isto, — afirmou Sir Ralph, quando, a um sinal de Vera, as duas mulheres levantaram-se da mesa.

—    No jornal desta manhã, vi outro artigo. Bem sei que os jornalistas, que de um modo geral sempre estão metidos nisto, esperam sempre que ocorra alguma coisa de grandioso. A Polícia está vigiando os edifícios públicos, e cada um dos ministros do Ga­binete anda seguido de uma guarda especial, como se a «Mão Vermelha» fosse uma organização de sufragistas...

Os convidados riram-se polidamente da saída de Sir Ralph.

—    Posso confirmar isto, disse Frank, enquanto escolhia um charuto da caixa que Marjorie lhe passara, momentos antes.

—    As diversas corporações responsáveis pela segurança pública pediram a vários engenheiros que efetuassem uma inspeção nas pontes.

—    Das que atravessam o Tâmisa?

Frank fez um movimento afirmativo com a cabeça.

—    Todas as noites é feito um serviço especial de vigilância, -disse. Todos os sinais e movimentos inspiram desconfiança.

Sir Ralph e o advogado Hilary puseram-se a andar. Ambos achavam-se interessados na coleção e Vera reuniu-se aos outros dois.

—    Não ficarei muito tempo com vocês, disse com um sorriso. Portanto, não se alarme, Mr. Gallingford.

Era muito sincero o seu desejo de despertar as simpatias do jovem engenheiro. Sua atitude para com ela era um tanto estra­nha e severa. Se Vera conhecia a razão, não o demonstrava. De certo modo, ele a divertia. Era tão franco e tão inglês em suas atitudes. O sangue dos antepassados, que corria em suas veias, fazia-a sentir certo ressentimento ao notar a evidente honestidade do jovem.

A atitude dele para com Vera era, ao mesmo tempo, cortês e antagônica. A jovem já o notara. Orgulhosa do noivo, desejava que ele se achasse à vontade com os demais e que lhes inspirasse a mesma admiração que ela sentia por ele.

A tentativa de conciliação por parte de Vera não foi coroada de maior êxito, que em oportunidades anteriores. Depois de um instante, ela bocejou ligeiramente, tapando a boca com a mão. Desculpou-se toda risonha.

—    Não pensem que me aborrecem, disse, mas estas últimas noites não descansei devidamente. Onde vão? perguntou.

—    Irei ao bilhar, ganhar uma partida de Marjorie no mínimo de cem carambolas de diferença, disse Frank, fazendo um heróico esforço para parecer alegre.

Vera assentiu com um movimento de cabeça.

—    E eu tenho que pôr em dia minha contabilidade.

E fez uma feia careta.                                                                 

—    Tenham pena de mim, solicitou com um gracioso sorriso.

—    Posso ajudá-la, querida? perguntou Marjorie.

Veta meneou a cabeça negativamente.

— As contas, — disse secamente, — são mistérios que desejo que seu futuro esposo jamais a faça conhecer.

E com um movimento de cabeça, retirou-se do aposento.

Voltou, dentro de poucos minutos, como se tivesse es­quecido de alguma coisa e encontrou a peça vazia. Dirigiu-se ao salão de bilhar. A partida estava começando. Teriam jogo para meia hora, pelo menos. Olhou para seu relógio de pulso. Espe­rava que faltassem cinco minutos para às dez. Voltou ao vestíbulo e começou a subir, lentamente, as escadas, andando bem de leve, quando passou em frente do museu.

A porta de aço estava fechada, mas acontraportade madeira estava entreaberta.       

Ralph discutia sobre os valores dos artistas do Renascimento e esse tema iria ocupá-los por uma hora.

Apressou os passos. No outro extremo do corredor, ficava situado seu quarto. Highlaw fora reconstruída para melhor conve­niência de Sir Ralph.

De certo modo, também lhe convinha, porque Vera escolhera um pequeno aposento na ala do edifício que não era ocupada, a menos que na casa estivessem muitos hóspedes.

Fechou a porta com a chave ao passar. Era um belo apo­sento, mobilhado com todo gosto, ainda que na mobília, assim como nos adornos, nada houvesse que pudesse ser considerado de valor. Sir Ralph possuía suas próprias opiniões sobre os luxos da época e a sua simplicidade, para não dizer mesquinhês, dos arran­jos domésticos, era uma expressão concreta do desagrado com que via as modernas tendências para o luxo.

O quarto possuía amplas janelas francesas, que davam para um balcão, —, coisa muito pouco usual nas casas de campo inglesas.

Ela olhou novamente para o relógio e fechou a pesada cortina da porta. A iluminação era um pouco difusa. O aposento poderia passar por uma saleta, se não fosse o amplo leito que se via num dos cantos, rodeado por espessas cortinas de seda escura.

Não se preocupou em iluminar melhor o recinto. Relanceou o olhar, duvidosa e logo dirigiu-se para a janela. Olhou, novamente, com vacilação e, retrocedendo, apagou completamente a luz. Abriu a porta e saiu para o balcão.

A noite estava agradável e o ar temperado.

A lua aparecia oculta atrás de alta montanha de nuvens, mas havia bastante claridade para se distinguir os objetos mais proeminentes do jardim, que se estendia à frente.

Ela olhou para ambos os lados, mas não pôde ver nada. Vol­tou ao aposento, fazendo um movimento de ombros e ficou em atitude de quem espera.

O relógio da igreja do povoado batia a última badalada das dez, em tom lúgubre, quando ouviu um ligeiro ruído que partia do jardim, em baixo.

Caminhou ràpidamente para o interior de seu quarto e do armário retirou uma escada de seda. Era uma corda que tinha um gancho erg., uma das extremidades e ela prendeu-o, com os dedos trêmulo numa argola do balcão, colocada ali, para segu­rar o toldo, quando fosse necessário cobrir a varanda.

Deixou cair a escada.

Da obscuridade, surgiu uma sombra. Começou a trepar com precaução.

O homem saltou a balaustrada pouco depois e deteve-se um instante, para recolher a escada, deixando-a no chão do balcão.

Ela tomou-o pela mão e conduziu-o para o interior do aposento. Fechou as janelas, prendeu os postigos e, em seguida, cerrou a pesada cortina. Logo depois, acendeu a luz e voltou-se para o recém-chegado. Colocou as duas mãos sobre seus ombros e fitou-o avidamente.

Formosa como era, o amor que brilhava em seus olhos transfigurava-lhe o rosto e intensificava sua atração.

—    É você, murmurou-lhe. Oh, agradecida por ter vindo pessoalmente! Temia que enviasse um desses malditos homens que trabalham com você!

Festini sorriu. Beijou-a carinhosamente na face.

—    Tinha que vir, disse, ainda que não faça muito tempo que a tenha visto.

—    Dois dias, ela afirmou com reprovação.

Ele assentiu com um movimento de cabeça.

—    Justamente, disse com um sorriso. Recebeu minha carta?

Por toda resposta, ela tirou do peito um envelope amarrotado.

—    Devia ter queimado isso, falou seriamente. É peri­goso guardar certas cartas, ainda que na aparência sejam inocentes

—    Veio sozinho? — perguntou-lhe.

Ele inclinou a cabeça. A mão que descansava na sua estava trêmula, mas não era de temor.

—    Estou achando você muito esquisito. Odeio esse lugar, — disse com veemência. — Para mim é uma verdadeira prisão. A vida que vivo aqui rói-me as entranhas. Olhe, Festini, — disse- lhe, colocando as mãos outra vez em seus ombros, o rosto pro­curando o dele, — não pode imaginar minha existência aqui!...

—    Será por muito pouco tempo mais, querida, — respondeu-

-lhe.

Ela era mais velha do que ele, mas seus modos paternais eram perfeitos.

—    Depois, iremos para longe e abandonaremos para sempre este país tão triste. Deixaremos este céu cinzento e iremos viver sob o céu azul de nossa Itália. Trocaremos estas paisagens mo­nótonas pelas campinas banhadas pelo sol do meio-dia.

Beijou-a outra vez. Ele estava ansioso por falar de negócios.

Ninguém conhecia as relações que ambos mantinham, porque Festini sabia guardar muito bem seus segredos. Nem mesmo nos círculos mais privados de seus conselhos deixou de falar nela como se fosse a mais perfeita desconhecida.

—    Desejo ir para algum lugar, — manifestou,, — sair de uma vez por todas de tudo isto. Havia planejado vê-lo o ano passado na Irlanda, mas, no último momento, Sir Ralph não quis deixar-me partir.

De repente, voltou-se para olhá-lo.

—    Deve de ter visto Marjorie, lá!

—    Marjorie? — perguntou com toda inocência. - íamos juntas, — prosseguiu, — e quando soube que só ela o havia feito, depois de todos os meus projetos...

Ela meneou a cabeça e sorriu com tristeza.

—    Não me atrevi a mandar-lhe uma carta por seu inter­médio, nem queria dar-lhe ocasião para enamorar-se dela, — dis­se-lhe.

—    Não posso recordar-me dela. Qual é o seu tipo? — perguntou Festini, com toda calma.

—    Ela lembrou-se de você!, — disse-lhe Vera. — Dava-me uma raiva ouvi-la falar de você! Mas, sinto-me feliz por saber que não lhe agradava.

Festini sorriu.

—    Acontece o mesmo com muita gente, — disse.

Tirou o agasalho que vestia.

—    Aqui estamos livres de qualquer interrupção? perguntou.

Ela inclinou a cabeça.

—    Não existe nenhuma espécie de perigo?

—    Por agora não!

—    Então, disse ele bruscamente, falemos durante cinco minutos de nossos negócios, querida.

Sentaram-se, um em frente do outro e puseram-se a conversar. Os cinco minutos transformaram-se em dez. O homem falava ràpidamente, com veemência e ela respondia com monossílabos.

Não tinha muita importância que ele lhe pedisse tanto. Ela sacrificaria muito mais que as posses do esposo, com o objetivo de contentá-lo.

As leis do mundo, com exceção da de gravidade, dependem do amor da mulher. A fé, a honra, todos os princípios conheci­dos vão por água abaixo e de nada valem. Ela não tem a noção do certo e do errado, quando é dêle de que se trata. Só tem o desejo de servi-lo.

—    Seria melhor que fizesse isto entre as três e as quatro ho­ras, — disse-lhe. — Ficarei esperando no jardim. Tenho uma bicicleta escondida perto daqui e no caminho um automóvel me esperará, para me conduzir a Londres.

—    Quisera dizer-lhe algo, falou bruscamente. Repugna-me admitir um fracasso e olhe, querido, que tudo fiz para conseguir...

Com sua rápida intuição, adivinhou imediatamente o significado daquelas palavras.

—    Oh, o dinheiro! disse ele. Não deixe que isto a inquiete. Dei meus próprios passos e consegui algum. Ultimamente, andamos com pouca sorte. Esse infernal Tillizini dificultou todos nossos recursos habituais. A semana passada, tivemos um contratempo, mas, dentro de um mês, disse e ela pôde ver como se apagava a luz de seus olhos e como a bôca ficava mais grave, dentro de um mês, repetiu, seremos muito ricos. E a Inglaterra irá sofrer muito!

Acalmou-se e voltou a ser o mesmo de antes.                          

—    Não deixe que o assunto do dinheiro a aborreça. Por ago­ra, temos o bastante. Imaginava mesmo que lhe seria muito difícil conseguir, assim, de repente, essas q'uinhentas libras.

Levantou-se e ela ajudou-o a vestir o abrigo.

—    A propósito, — disse, — essa sua sobrinha, como se cha­ma?

—    Marjorie.

—    É esse mesmo o nome, — assentiu. — Parece-me que me lembro dela. Aonde está agora?

Fez a pergunta com tom de despreocupação.

—    Aqui em casa, — disse Vera.

—    Que coincidência curiosa, — exclamou ele com um sor­riso. — Suponho que não fale de mim, não é certo? — per­guntou .

Vera moveu negativamente a cabeça. Ocorrera a ele que talvez a jovem tivesse feito alguma alusão ao encontro da Esta­ção Vitória.

—    Que estupidez a minha! — acrescentou de pronto. — Vi-a outro dia... numa estação... agora me recordo. Moça alta, de aspecto saudável, um tanto robusta...

A descrição não era muito lisonjeira para Marjorie, mas de­via ter agradado a mulher que a ouvira, que sentia ciúmes de qualquer outro interesse que ele pudesse ter na vida.

—    Não é esse o seu tipo, — disse sorrindo, — mas, penso que a descreveu mais ou menos.

— Lembro-me de que estava com um homem alto.

—    Ele também está aqui! — afirmou.

Ele olhou-a pensativamente.

—    Também está aqui? — repetiu e sua voz tornou-se mais grave.

Ela supôs que Festini estivesse cansado e adiantou-se até à janela. Sua mão estava sobre a cortina. Havia ficado esperando ali, quando, deixando escapar um suspiro, aproximou-se outra vez dele.

—    Amo-o tanto! — murmurou. — Deus meu, como o adoro! Não sabe o que quero dizer... o que significam minhas palavras... o que sinto!...

Ele riu com tolerância.

Estendeu os braços e, por um momento, ela recostou-se em seu peito, o coração batendo violentamente... sentindo-se perfei­tamente feliz,

Agora devo ir... — disse suavemente. Temo que nos possam surpreender aqui!

Com algum enfado, ela abriu a janela.

Ele ficou um instante no balcão, reconhecendo o terreno.

A costa estava livre. Em um segundo, esteve sobre a balaustrada e pouco depois descia até ao jardim, sem fazer o menor rumor.

 

O SEGUNDO MEDALHÃO

Ela esperou até que êle desaparecesse entre as sombras. Em seguida, recolheu a escada e colocou-a na gaveta do armário, de onde tirara e tornou a fechar as janelas.

Ele havia deixado as instruções muito precisas e ela foi repassando-as na mente, para estar mais segura.

Conhecia o medalhão. Havia preparado um desenho especial, feito por êsse homem, cuja influência era o guia e a parte dominante de sua vida.

Olhou cuidadosamente à sua volta, para apagar todo o sinal de visita do amante. Em seguida, tirou o ferrolho da porta e saiu.

Ao passar diante do pequeno museu, Sir Ralph e o convi­dado saíam do interior. Olhou-a com surpresa.

—    Olá, Vera, — disse-lhe, — pensei que estivesse em baixo com os outros.

—    Estava fazendo minhas contas, respondeu com um ligeiro trejeito.

Sir Ralph começou a rir. Quando se encontrava de bom humor, considerava sempre, com certa zombaria, a questão de suas próprias economias.

Estava fechando a porta do museu, quando Vera interveio.

—    Queria ver novamente seus medalhões, — disse-lhe.

Sir Ralph sentiu-se lisonjeado. Vera mostrava tão pouco interesse pela coleção, que seu pedido agradava-o muitíssima. Era uma de suas preocupações saber que a esposa jamais desejara entrar no recinto que ele chama de «a maior parte de sua vida».

—    Vamos, vamos, — disse, — não procure provocar uma discussão com Hilary, sobre arte, porque ele é um tanto filisteu.

E tornou a rir.

O museu era a única dependência da casa iluminada por eletricidade. Nesse cômodo, Sir Ralph havia denotado uma extra­vagância que era completamente alheia à sua natureza.

Havia instalado uma bateria especial para a iluminação da dependência em que guardava sgus tesouros.

A jovem examinou os medalhões com um interesse maior do que o habitual. Já os havia visto antes e muito recentemente, ainda que Sir Ralph não o soubesse.

Ao pedir-lhe que lhe permitisse essa inspeção, moviam-na dois objetivos. Seu esposo começara a ficar nervoso, por causa das atividades da «Mão Vermelha» e manifestara a intenção de trocar todas as fechaduras e cadeados. Desejava certificar-se de que ele não realizara seus planos.

O primeiro olhar tranqüilizou-a. Ainda estavam as mesmas fechaduras e os medalhões não tinham sido tirados de seus lugares.

—    São muito formosos, — disse ela.

Na realidade, pensava que não tinham o menor interesse, mas não era de sua política dar a conhecer suas impressões.

—    Parece-me que ficou impressionada, não? — disse Sir Ralph, com todo entusiasmo. — Algum dia, chegará também a ser uma entendida, Vera!

Ela desceu as escadas na frente dos dois homens. Estava pensativa.

Já passava da meia-noite, quando o grupo de convidados despediu-se para dirigir-se a seus respectivos dormitórios.

Frank foi um dos últimos que subiu ao andar superior. Pas­sou pelo salão e encontrou-se com Vera, arranjando as peças de xadrez, com que Sir Ralph e Hilary estiveram jogando.

Teria prosseguido, mas algo induziu-o a deter-se.

—    Boa-noite, Lady Morte-Mannery, — cumprimentou-a.

Estava inclinada sôbre a mesa e não se deu ao trabalho de levantar a cabeça.

—    Boa-noite, Mr. Gallingford, respondeu.

Ele continuou esperando.

—    Penso que devo explicar-lhe alguma coisa que tinha em mente, — disse-lhe, com alguma perturbação.

Não possuía grande facilidade de expressão e sentia-se de certo modo perturbado.

—    Se fosse você, não falaria, — disse-lhe tranqüilamente. — Deixe as coisas que sigam como estão e seja um pouco caridoso.

Essa noite ela parecia mais meiga do que nunca.

Por alguma razão que não podia explicar a si mesma, sentia um desejo de estar bem com todo o mundo e especialmente com essa parte do mundo que esse inglês de tão agradável presença re­presentava.

—    Existe uma palavra chave, disse, que explica as situações mais contraditórias... as mais incríveis loucuras. Deve co­nhecer esça palavra.

—    Só conheço uma, afirmou gentilmente, e essa é «amor»!

Vera olhou-o com um sorriso. Era um sorriso atrevido, muito

humano, que revelava numa centelha as profundidades de sua na­tureza .

—    E essa a palavra, afirmou, enquanto continuava arranjando as coisas.

Ele permaneceu aí durante uns momentos mais e, em seguida, com outro boa-noite, retirou-se, deixando-a inquieta e um tanto envergonhada de sua própria atitude.

Ao chegar ao andar superior, Marjorie esperava-a para desejar-lhe boa-noite e nesse instante apagou-se em sua imaginação toda a imagem da mulher que ele havia deixado no salão, assim comoas palavras que trocara com ela.

 

Vera ficou lendo junto à lareira acesa de seu dormitório. Toda a noite esteve lendo e pensando. A leitura processava-se mecanicamente. Não podia recordar-se de uma só frase, de uma só passagem da emocionante novela, que tinha ao colo.

Olhou para o relógio sobre a lareira. Os ponteiros marcavam um quarto para as quatro horas.

Levantou-se e tirando do cabide uma capa impermeável, vestiu-a sobre o roupão e abotoou-a cuidadosamente, para não atra­palhar seus movimentos.

Pegou a chave e abrindo uma gaveta de sua escrivaninha tirou um estojo de marroquim.

Debaixo de seu travesseiro estava uma penca de chaves que ela retirou e com uma delas abriu o estojo. Estava aparentemente vazio, mas apertou a mola e o fundo levantou-se.

Três belas chaves adornadas estavam sobre o acolchoado de veludo do fundo falso. Tomou-as em suas mãos, fechou o estojo e apagou a luz.

Ficou parada junto à porta, em atitude de quem escuta. Logo, abriu-a e saiu para o corredor escuro.

Devia caminhar de vinte a trinta jardas e seus pés calçados de chinelos de feltro não faziam o menor ruído ao pisar no espêsso tapete. A casa estava em completo silêncio, entregue ao repouso. Tão silenciosa, nesse momento, como a própria morte.

Não se ouvia nada, com exceção do caminhar de algum rato, que andasse pelo telhado.

Avançou com cuidado até chegar diante da porta do museu. Tornou a parar e ficou escutando novamente.

Sir Ralph dormia num aposento situado do outro extremo e, por sorte, tinha o sono muito pesado. O quarto de Hilary ficava do outro lado.

Introduziu a chave, abriu a primeira porta, de madeira, tomou a outra chave e fez girar a fechadura da porta de aço.

Sem fazer ruído, a fechadura lubrificada funcionou no mesmo instante. Empurrou uma das folhas e penetrou no interior, fechan­do ambas as portas, atrás de si. Não poderia cerrá-las a chave pelo lado de dentro, mas também não podia temer que alguém passas­se por ali casualmente, a uma hora tão intempestiva, mesmo que houvesse alguém vagando pela casa.

Tirou do bolso da capa impermeável uma diminuta lanterna elétrica e fez correr um facho de luz por cima das caixas com os objetos valiosos. Encontrou o que procurava, abriu a tampa da caixa-vitrina com tôda precaução, moveu o vidro da parte interna e retirou o medalhão.

Examinou-o com rapidez para se assegurar de que era a peça que procurava.

Sem fazer o menor ruído, cruzou novamente a porta, trancou-a à chave, ao passar e prendeu com rapidez a folha de madeira.

Imediatamente, dispôs-se a voltar sôbre seus próprios passos, em direção ao dormitório.

Deu um salto e deteve-se, como pregada ao solo, cheia de temor e desalento, porque, diante dela, aparecia uma sombra es­praiada. Não havia suficiente luz para poder ver-Ihe o rosto, mas sabia que se tratava de Hilary George.

—    Quem está aí? perguntou em voz baixa.

Ela estava paralisada de terror. Não conseguia articular as palavras, sua garganta estava seca.

—    Quem é? perguntou novamente, levantando a voz.

Fazendo um esforço sobre-humano, Vera conseguiu acalmar-se.

Se ela falasse mais alto, despertaria Sir Ralph e isso signifi­caria o final de tudo.

—    Sou eu, disse, falaindo no mesmo tom.

—    Lady Morte-Mannery? Sinto muito, murmurou. Pensei que ouvia alguém andar lá fora e fiquei escutando, mas, não percebi mais nada e me tranqüilizei.

—    Está bem, disse ela, no mesmo tom de antes. Estive no quarto de Sir Ralph, para buscar um pouco de Veronal. Não consigo dormir.

Com uma desculpa, Hilary voltou a seu dormitório.

Encontrava-se do lado oposto do museu e ela perguntava a si mesma se não haveria feito algum barulho, embora caminhasse furtivamente e com todo cuidado. Será que Hilary a teria visto, ao sair da peça? Suas palavras seguintes, contudo, tiraram-lhe o peso do coração.

—    Não podia ver de onde vinha, — disse-lhe — nem de quem se tratava. Espero que não tenha se assustado.

—    Oh, não! disse com suavidade.

Desculpando-se, novamente, encaminhou-se para o quarto e com todo o cuidado fechou a porta atrás de si.

Ela caminhou, apressadamente, ao longo do corredor. O coração batia violentamente. Uma vez em seu quarto, trancou a porta e correu a cortina. Acendeu a luz do gás, com a mão trêmula. Logrou ver seu rosto refletido no espelho e sobressaltou-se diante do aspecto que apresentava.

Restava-lhe ainda alguma coisa a fazer.

Hilary ouvira alguém que andava no jardim. Deveria ser Festini. Assegurou-se de que levava a jóia, apagou a luz, abriu os postigos e saiu para o balcão.

Na sombra de alguns arbustos, percebeu uma silhueta. O homem adiantou-se ao vê-la aparecer.

—    Tome! — disse-lhe suavemente.

O homem, lá em baixo, estendeu a mão, quando ela fiz o gesto.

Pegou sem dificuldade o medalhão e guardou-o no bolso. Em seguida, sem pronunciar uma só palavra, perdeu-se entre os ar­bustos.

Ela permaneceu imóvel ali mesmo, durante uns momentos... sentindo certo desalento no coração. Depois de tudo quanto arris­cara, de tudo que intentara com temeridade, esperava, pelo menos, uma palavra de agradecimento.

Estava voltando para entrar no quarto, quando uma voz sibilante a deteve.

Seu coração deu um salto. Ele havia voltado. Olhou nova. mente a escura silhueta que aparecia em baixo.

—    Conseguiu-o? — perguntou ele em tom muito baixo.

—    Se consegui o medalhão? — repetiu com assombro. — Acabo de atirá-lo para você!

—    Atirá-lo para mim? — A voz dele era cruel. — Não me atirou coisa alguma. Há meia hora que estou esperando.

Ela apoiou-se contra a balaustrada, sentindo-se desfalecer de terror.

—    Diga-me, diga-me, — pediu impacientemente a voz que vinha lá de baixo, subindo de tom. — A quem o entregou?

— Atirei-o para um homem, — exclamou debilmente.

—    Que caminho ele tomou?

— Correu por entre os arbustos, — respondeu.

Sem dizer mais nada, ele começou a correr na direção que o outro homem devia ter seguido.

Ela teve tempo para voltar ao quarto, fechar os postigos e correr as cortinas, antes de cair, quase desfalecida, sobre o assoalho.

Festini era rápido de movimentos e como se fosse um gato podia correr com segurança, por entre as sombras. Não havia avan­çado ainda vinte jardas, quando conseguiu ver o outro homem, que lhe levava dianteira.

Não era ocasião para que se empregassem gentilezas. Afortunadamente para ele, Festini tinha mudado seus planos. Desis­tira da idéia de seguir de bicicleta e o carro encontrava-se num pequeno beco, que ficava perto da casa.

Ao ver o homem que ia na frente, tirou a automática do bolso e acionou duas vezes o gatilho.

Sem um só lamento, o homem caiu ao solo.

Festini não podia perder tempo em examinar sua vítima. Sabia que ela estava viva e agachando-se sobre o corpo, pôs-se a examinar-lhe os bolsos.

Pensou que a jóia se encontrava ali, mas não estava.

Achava-se na mão apertada e contraída do homem caído.

Festini teve ciência disso, forçou os dedos que se abriram e entrou na posse do cobiçado medalhão.

—    E agora, façam o que quiserem! murmurou, enquanto voltando-se, levantava o punho ameaçador, como se o mundo ti­vesse se voltado contra êle. Façam o que quiserem!

O ruído das detonações despertou o pessoal da casa. Em dois ou três aposentos, apareceram luzes.

Vera, caída no chão, voltou a si, ouvindo que batiam na porta.

Levaintou-se lentamente. A cabeça rodava-lhe e pôs-se a cami­nhar vacilante.

—    Quem é? perguntou.

—    Sou eu, respondeu a voz de seu esposo. Abre a porta. Está ferida?

Enfiou a mão num jarro de água, que estava no lavatório e passou-a no rosto. O contato da água fria pareceu reavivar-lhe as forças. Enxugou o rosto com uma toalha e abriu a porta.

—    Que aconteceu? perguntou.                                             

Estava calma. Ouvira os disparos e estava preparada paratudo.

Sir Ralph estava vestido de roupão.

—    De onde veio o barulho dos tiros? — perguntou.

— Não ouvi nenhum tiro! — disse ela com firmeza.

—    Alguém atirou no jardim, — afirmou Sir Ralph.

Ela ouviu a voz de Hilary no corredor.

—    Sente-se bem, Lady Morte-Manney? — perguntou o advogado.

—    Estou muito bem, — respondeu — Que aconteceu?

A voz tremia um pouco e o tom era alto. De certo modo, sua agitação era desculpável. Tinham feito disparos no jardim e al­guém devia estar ferido... mas, quem?

Neste momento, começou a sentir um princípio de pânico.

—    Alguém foi ferido? — perguntou com ansiedade. — A quem feriram?

—    No jardim havia um homem que procurava entrar dentro da casa, — disse a voz de Hilary. — Possivelmente foi visto.

Sir Ralph atravessou o aposento e abrindo os postigos saiu para o balcão. Em baixo, viam-se dois homens.

—    Encontraram alguma coisa? — perguntou.

Dirigia-se aos criados que, despertados repentinamente pelas detonações, revistavam o jardim.

Vera escutava. Seu coração quase deixara de bater, ouvindo novamente a voz do criado.

—    Há um homem ferido entre os arbustos, Sir Ralph, — respondeu um dos criados. — Parece um estrangeiro.

Ela apertou as mãos e esperou... rígida... sem fazer o me­nor movimento.

—    Que espécie de homem? — perguntou Sir Ralph.

—    Que quer dizer precisamente com esse «estrangeiro», Philip? — voltou a insistir o dono da casa.

—    Bem, é um cavalheiro bem barbeado, — respondeu o criado. — Não creio que esteja muito ferido. E um homem alto.

Uma grande alegria apoderou-se da mulher. Não era ele. Qualquer que fosse o ferido, vivesse ou morresse, não era Festini.

Continuou escutando. Ouviu de novo a voz.

—    Está bem, Sir Ralph, — disse.

Reconheceu quem falava e apertou os dentes. Parte do que falavam chegava, entrecortadamente, a seus ouvidos.

—    Não foi mais do que um arranhão da balai, perto da fronte... é a segunda vez que erram o tiro... temo que o senhor acaba de perder alguma coisa...

Era a voz de Tillizini.

Todos reuniram-se no corredor. Suas vestimentas apresentavam o mais curioso aspecto.

A ferida de Tillizini era superficial. A bala atingira-o detrás da orelha, resvalando pelo parietal. Sentia-se muito satisfeito.

—    Cheguei de automóvel, disse, porque recebi certas informações que me fizeram suspeitar de que esta noite haveria um roubo nesta casa. Agora estou pronto.

Pôs-se de pé.

—    Desejo examinar o museu e descobrir o que lhe roubaram.

—    Oh, não posso ter perdido nada de lá! disse Sir Ralph, cheio de confiança. Em todas as janelas existem campainhas de alarme e aquilo tudo está muito bem guardado.

—    Existe também alarme na porta? perguntou Tillizini.

Sir Ralph olhou-o surpreso.

—    Não é necessário, disse.

Começou a caminhar, seguido pelos outros.

Abriu o recinto, onde guardava seus tesouros e todos penetraram no aposento atrás dêle. Ia um pouco adiante de Tillizini e no umbral parou para acender a chave de luz.

Foi nesse preciso instante que Vera viu a evidência de sua loucura criminosa. Sobre a tampa de uma das caixas fechadas, achava-se a lanterna elétrica que Sir Ralph lhe dera de presente, num momento de generosidade.

Tillizini também viu-a. Foi tão rápido quanto ela e o seu movimento mais rápido ainda. Com um passo, ficou entre a lâm­pada e os olhos dos curiosos que estavam junto à porta. Estendeu a mão e escondeu o objeto.           

Quando Sir Ralph voltou, a lanterna havia desaparecido.

Efetuou-se uma rápida inspeção.

—    Foi-se! — gritou o cavalheiro. — Levaram o meu medalhão de Leonardo!

—    Pensei que era isto mesmo o que acontecera, disse Tillizini, com toda a calma, e pensei também que poderei recupe­rá-lo, mas, no momento, esse prazer me foi roubado!

—    Mas, será possível? exclamou Sir Ralph, completamente atônito. — Ninguém poderia entrar aqui, sem que eu o soubesse!

Estava a ponto de chorar. Seu pesar era imenso.

—    Era valiosíssimo, — disse. — Não poderá ser substituído. E o único de sua espécie que existe no mundo. O que significa isso, Tillizini? Tem de dizer-me tudo quanto sabe! Insisto em que devo saber de tudo! Não poderá deixar-me nas trevas!

Protestou e gritou ante Tillizini, como se e detetive fosse o responsável pelo roubo. Passou-se um longo momento, antes que se acalmasse e, então, o italiano mostrou-se um pouco mais infor­mativo.

Vera, que continuava calada, observava-o e aguardava. Fosse o que fosse que acontecesse, Festini achava-se a salvo. Talvez, nesse momento, estivesse muito longe, a caminho de Londres. Le­vava a preciosa jóia e isso era o suficiente. Ela havia-o servido e nada mais desejava.

Desde o instante em que Tillizini estendera a mão para dissimular a lanterna elétrica, escondendo-a, percebera que o italiano conhecia seu segredo.

Iria atraiçoá-la?

Para sua surpresa e tranqüilidade, ele não fez nenhuma referência ao que havia visto ou sabia. Mostrava-se, contudo, preo­cupado, — percebeu, mas isto devia-se ao fato do perigo que o roubo representava para o mundo civilizado.

Ele andou de um lado para outro, no vestíbulo.

Era uma figura destacada, com a venda branca que lhe rodeava a cabeça, as mãos enfiadas nos bolsos, a barba por fazer, os olhos cansados, com todos os sinais de um infinito esgotamento.

Não se preocupou em discutir inutilmente, como o ladrão poderia ter entrado. Sobre o particular, já possuía toda a informa­ção de que necessitava.

Parou de andar e tirou do bolso um objeto brilhante, que segurou entre as mãos, examinando detidamente.

Sir Ralph, atraído pelo brilho do ouro, que o homem mostrava na mão, adiantou-se um pouco e deixou escapar um grito!

—    Mas, este é o medalhão! — exclamou.

Tillizini meneou a cabeça.

—    É muito parecido com o outro, — disse, — mas não é o mesmo. Este é o famoso medalhão que foi roubado da coleção de Dublin e que atualmente acreditava-se achar no fundo do mar. Foi entregue a um passageiro de um barco, para que o guardasse e entregasse a mim. Lembra-se que fui encarregado da investigação do caso?

Caminhou até à estufa.

Havia ali dois braços de luz que forneciam boa iluminação.

Tinha o medalhão em ambas as mãos e fazendo uma ligeira pressão, abriu-o pela metade.

Sir Ralph deixou escapar uma exclamação.

—    Não sabia que se abriam pela metade! — disse com sincera admiração.

—    Pois eu desejaria que não se abrissem! argumentou Tillizini com tristeza.

Introduziu o dedo e extraiu do interior do medalhão algo parecido com quatro discos de papel, que eram isto mesmo em realidade. Estavam cobertos por uma letra muito pequena, tão pequena que era difícil, quase impossível de ler, sem o auxílio de uma lente de aumento.

—    Entende italiano? perguntou Tillizini.

—    Um pouco, afirmou Sir Ralph, mas não o bastante para compreender isto.

—    Olhe-o bem, disse o outro, procede da mão do maior gênio, desde que Jerusalém estava sob o domínio de Roma!

Falava com respeito... quase com adoração... do seu famoso compatriota.

Essa era a mão de Leonardo da Vinci, disse.

—    E o que diz isto? perguntou Frank. Não está escrito também no reverso?

Ele estivera examinando os discos com seus bons olhos.

Tillizini sorriu.

—    O mestre escrevia sempre com a mão esquerda. Isto aju­dá-lo-á

Tirou do bolso uma diminuta lente.

—    Leia, ordenou Tillizini.

Frank levou o disco para mais perto da luz e aproximou-o mais dos olhos. Marjorie, que o observava, viu que seus lábios se" mo­viam, enquanto lia o italiano. Notou a contração das sobrance­lhas e logo viu-o levantar os olhos.

—    Mas, disse, tudo isto refere-se a uma praga.

Tullizini fez um movimento afirmativo de cabeça.

—    A GRANDE PRAGA, como os homens modernos chamariam, a Quarta Praga que assolou simultaneamente a Itália e a Ir­landa, no mesmo ano. Foi uma praga que nossos doutores mo­dernos não podem entender, nem explicar! Na realidade, o único homem que a entendeu foi Leonardo da Vinci. Ele foi, como o senhor bem sabe, Sir Ralph, algo mais que um pintor. Possuía mente científica, perfeitamente desenvolvida. Foi o primeiro a prever o reinado do aeroplano e do encouraçado. Foi engenheiro, escultor, químico e...

Estendeu as mãos.

—    Que adianta falar? — Não poderia enumerar todas as suas qualidades, — disse. — Achava-se tão acima de seus contemporâ­neos que não puderam perceber a espécie de gênio que vivia en­tre eles. Nem mesmo a posteridade tem podido fazer-lhe justiça. Só ele compreendeu a Quarta Praga, seu significado e suas causas.

—    Essa praga chegou a existir, devido à cultura de um ger­men, ainda que ele não soubesse de tudo isto, porque no seu tem­po não existia microscópio. Mas, imaginava-o, com a intuição quase divina que possuía, — disse Tillizini, com o rosto resplan­decendo de entusiasmo e de orgulho.

—    As condições sob as quais entrou em atividade a praga, condições que não podiam ser compreendidas nem pelas próprias pessoas que a tinham diante dos olhos, foram reveladas a Leonardo da Vinci. Ordinariamente, — prosseguiu, — poderiam ser produ­zidas neste ano em que estamos.

—    O que quer dizer com isto? — perguntou Sir Ralph.

—    Segundo o sistema moderno, — disse Tillizini, — essa praga jamais poderia aparecer. Mas, na farmacopéia britânica existem seis drogas, — prosseguiu, — que se uma pessoa pudesse misturá-las, produziriam um gás...

Falava sem afetação, com a segurança de um completo homem de ciência.

—    Este gás, passado através de um filtro de matérias vegetais, produziria condições tais que tornaria possível a repetição da praga de 1.500!

—    Deus nosso! — exclamou Frank. — Quer dizer que seria possível produzir de forma sintética uma praga?

Tillizini assentiu com a cabeça.

—    Foi isso o que Leonardo da Vinci descobriu.

Manteve os discos de papel entre as mãos.

—    Não existe a menor dúvida de que Leonardo pôde produ­zir sinteticamente a praga, dois anos depois. De qualquer maneira, produziu-se uma epidemia semelhante na cidade onde estava situa­do seu laboratório. Acredita-se que, como resultado dessa praga, perdeu a vida Mona Lisa, «La Gioconda».

—    Oh, essa é a mulher do quadro! — exclamou Marjorie.

—    Sim, é essa a mulher do quadro famoso, — repetiu Tillizini, — a única mulher no mundo que Leonardo amou. A única influência benéfica que teve em toda sua vida. Suas investigações sobre a causa da praga ficaram concretizadas nesses filamentos. Foi ele mesmo que projetou os medalhões. Um, como o senhor sabe...

—    Já conheço a história, — afirmou Sir Ralph. — Outro dia contei-a a Mr. Gallingford. Como é extraordinário que volte - a reviver a história antiga!

—    Mas, porque os da «Mão Vermelha» querem a posse desses medalhões?

—    Só desejam possuir um. Um só bastará! — disse Tillizini. — Ainda não perceberam? Amanhã, com a ajuda de um homem que possua a mais elementar noção de química, poderão devastar Londres, e não somente Londres, como toda a Inglaterra e se lhes ocorresse, a Europa inteira, trabalhando de pontos diferentes!

Enquanto os ouvintes ficavam silenciosos, todos sentindo o horror da situação, Tillizini soltou um suspiro.

Vera adiantara-se nervosamente e dobrando as pernas, teria caído ao solo, se não fosse Frank, cujos braços estenderam-se a tempo, para ampará-la.

 

O RAPTO DE MARJORIE

Uma semana depois do roubo em Highlaw, um homem perfei­tamente feliz ia para o trabalho, assobiando cheio de satisfação.

Caminhava com passo rápido. No lenço, de cores vivas, tra­zia enrolado uma lata, com boa provisão de chá para sua primeira refeição matinal. George Mansingham levantou os olhos para os céus que se tornavam nublados e agradeceu sua liberdade.

Por intermédio de Hilary George encontrara trabalho numa pequena granja, situada um pouco afastada da cidade. Ele e sua esposa tinham ido morar numa cabanazinha de propriedade de Sir Ralph. Para fazer justiça a Sir Ralph, deve ser dito, que ele ad­mitira a injustiça da sentença, coisa que significava bastante e não foi necessário que Hilary insistisse muito para induzi-lo a deixar o homem, a quem tanto prejudicara, habitar a desocupada cabana.

Apesar de ser ainda muito cedo, encontrou o patrão e o filho já de pé. Há muito trabalho para ser feito, em determinadas partes do mundo. Os cavalos devem ser alimentados e cuidados. As ovelhas e o gado requerem atenção. As vacas devem ser orde­nhadas e há latões de leite para entregar.

O céu ficou mais claro, o sol saiu e pareceu a George que o tempo corria velozmente.

As oito e meia sentiu fome e buscou a refeição. Sentou-se para comer a frugal merenda, suspendendo suas tarefas no cul­tivo dos dez acres de terreno de Farmer Wensell. Logo que terminou a leve refeição, tirou do bolso um volumoso livro e pôs-se a ler. Tinha enorme paixão pela leitura, e esse livro, Forerunner, que Marjorie lhe havia emprestado, estava desper­tando grande interesse em toda a Inglaterra. Achava-se tão exta­siado nas páginas do livro, que não percebeu a jovem, que atra­vessava os campos com passos apressados.

Ouviu que chamavam seu nome e levantou os olhos. Em seguida, ficou de pé e tirou o chapéu.

— Parece muito absorvido na leitura, Mansingham, — disse- lhe Marjorie sorridente.

—    Sim, senhorita, respondeu o outro, é um livro maravilhoso e o homem admirável. Não me surpreende, pois, que todo o mundo o leia com tanto interesse.

—    Não é devido a seu gênio que estão falando dele, disse a jovem gravemente.

Ela trazia um jornal debaixo do braço e, a dizer verdade, havia ido à estação de Burboro, para consegui-lo.

—    E terrível o que aconteceu, senhorita, afirmou o ho­mem. Deixou o livro de lado. Não parece possível que, numa cidade civilizada, façam tais coisas, sobretudo, na Inglaterra. Os jornais dizem algo de novo?

Ela moveu gravemente a cabeça.

—    A «Mão Vermelha» dirigiu-se ao Primeiro Ministro, disse, e pediu dez milhões de libras esterlinas, uma lei de imu­nidades da Câmara dos Comuns e permissão para se retirar livre­mente do país.

O homem fitou-a incrédulo.

—    Mas, eles jamais obterão o que pedem, não é certo, senhorita? perguntou. Semelhante solicitação é contrária à razão! Suponha que não seja verdade que tenham descoberto essa praga...

Ela meneou negativamente a cabeça.

—    Não há nenhuma dúvida sôbre isto, Mansingham, disse. Mr. Gallingford sabe que é verdade. Esteve investigando, re­vendo documentos antigos, relacionados com a praga do ano de 1.500. Esses homens têm em suas mãos o modo de dizimar tôda a Inglaterra.

O tema, que eles discutiam, prendia, neste momento, o pensamento e a atenção dos homens da Grã-Bretanha, quase, poder-se-ia dizer, de toda a Europa. Onde quer que se aglomerassem homens civilizados, o telefone e o telégrafo levavam a notícia da ameaça que pairava sobre o país.

Era essa a última exigência da «Mão Vermelha», uma exigência que, a princípio, pareceu absurda e que, pouco depois, ha­via sido discutida pelos membros do gabinete, desejosos de en­contrar uma solução rápida.

A «Mão Vermelha» agia suavemente. Três dias antes do desaparecimento do medalhão da localidade de Burboro, uma pro­clamação temerária da «Mão Vermelha», impressa em caracteres vermelhos, em grandes cartazes, havia sido espalhada por Londres inteira!

Foi, então, que, pela primeira vez, a Inglaterra despertou diante do terrível perigo que a ameaçava, Era algo incompreen­sível, alguma coisa em que não se poderia acreditar. Algo quase fantástico. Os homens, que liam a proclamação, sorriam muito a contragosto, ainda que estivessem lendo algo que se achava muito além de sua compreensão.

A proclamação dizia assim:

«AO POVO DE LONDRES»

Nós, os dirigentes da «MÂO VERMELHA» pedimos ao governo da Grã-Bretanha, o seguinte:

  1.           — A soma de dez milhões de libras esterlinas.
  2.          — Uma lei de garantias pela qual serão libertados todos os homens da Fraternidade, que estejam presos, eximindo-os de toda culpa, por qualquer delito anteriormente cometido;
  3.           — Um salvo-conduto para cada um dos membros da «Mão Vermelha» e as facilidades necessárias para poderem sair do país.

Em caso de negativa do Governo, depois de transcorridos dez dias, nós, os diretores da «Mão Vermelha», espalharemos pela ci­dade o gérmen daquilo que se conhece pelo nome de Quarta Pra­ga e que no ano de 1500 destruiu seiscentas mil pessoas. O bacilo dessa praga acha-se em nosso poder e foi cientificamente preparado e provado.

Cidadãos!

Façam pressão sobre seu governo para que concorde com nosso pedido e nos livre da necessidade de infligir tamanho mal sobre todos!

A proclamação não trazia assinatura, nem selo. Naturalmen­te, isto era algo absurdo. Os jornais da tarde, que dispuseram de pouco tempo para analisar os fatos, encaravam-nos de maneira diferente e jocosa.

Mas uma noticia diversa apareceu nos jornais matutinos. Todos os homens de ciência conhecidos, todos os médicos de maior notoriedade, que puderam entrevistar, convinham em que nesse assunto, existia algo mais que mera ameaça.

Os diários qualificavam-na com o nome de «O Terror», a «AMEAÇA DA MÃO VERMELHA» ou «Uma Chantagem sôbre Londres» e suas colunas estavam repletas de tôdas as informações referentes à terrível praga que havia assolado a Itália e também a Irlanda, naquele ano de desolação de 1.500.

É um assunto muito terrível, disse novamente Mansingham. Temo que exista alguma verdade em tudo isto.

A jovem assentiu com a cabeça.

Com uma cortesia pouco usual em homens de sua classe, ele acompanhou-a até ao limite do campo e ajudou-a a passar para o outro lado do caminho, despedindo-se.

Ela havia desviado um pouco do caminho da estação, para falar com Mansingham. A moça sentia muito interesse por ele, e, entre o advogado e ela, haviam combinado que saberiam vigiar amistosamente seu protegido.

A manhã tornara-se deliciosa. O mundo estava cheio de fragrâncias, nessa manhã primaveril. As árvores ofereciam o melhor de seus aspectos; as flores silvestres perfumavam o ambiente. Pro­curou deixar de lado as preocupações e as tristezas que lhe pro­vocavam a terrível ameaça e começou a andar com mais vivaci­dade, cantando um estribilho conhecido, em voz baixa.

Na metade do caminho de regresso, Mansingham deu meia volta, recolheu os jornais que ela trouxera e deixara cair e come­çou a correr para alcançá-la.

Ela devia demorar uns vinte minutos a chegar a Highlaw, que distava um quarto de milha do limite da cidade, mas estava numa idade em que a manhã agradável não oferecia nenhuma di­ficuldade ao caminhar e ela parecia ser ligeira de pés, que cor­riam sem nenhum esforço.

Ouviu um ruído de automóvel, que vinha atrás dela e aproximou-se da margem do caminho, para deixá-lo passar. Sem se dar conta, voltou-se para ver quem era o ocupante do carro.

Nesse momento, o auto pôs-se de um lado e parou justa­mente a poucos metros dela. Um homem jovem, vestido dos pés à cabeça com um guarda-pó branco, saltou.

— O Conde Festini! — gritou com assombro. — O Conde Festini, — repetiu ele com um sorriso. — Desejava vê-la. Não quer entrar no carro? Vou até sua casa, — disse-lhe.

Ela vacilou. Gostaria mais de continuar andando, nessa formosa manhã. Mas, seria um ato de desatenção recusar o gentil convite que lhe era feito. Além disso, pensou que estava um pouco atrasada para a refeição e lembrou-se de que Sir Ralph sempre se aborrecia, quando alguém chegava atrasado.

Entrou no carro e nesse instante apareceu Mansingham, quase sem fôlego, a poucos passos do veículo. — Que curioso! — disse Marjorie, enquanto Festini sentava-se a seu lado.

— Que é curioso? — perguntou.

— Um carro fechado como este, num dia assim, — disse. — E vocês os italianos que adoram o sol!

—    Nós adoramos o sol, — respondeu, — mas, sem os incômodos ventos que sopram aqui na Inglaterra.

Inclinou-se para a frente e abaixou uma pequena cortina vermelha que ocultava a vista do chofer e a visão do caminho à frente.

Ela observava-o sem poder dar-se conta da necessidade dessa atitude. Logo, com um movimento rápido, desceu também as cortinas laterais do carro.

O automóvel corria a grande velocidade. Continuando nessa marcha, chegariam muito depressa a Highlaw. Na realidade, já tinham passado pela casa, enquanto o embaraçado Mansingham, agarrado à parte traseira e esperando que a marcha do carro diminuísse, para fazer entrega dos jornais à jovem, não compreendia , o que estava acontecendo.

—    Por que faz isso? — perguntou a jovem friamente. — Faça o favor, Conde Festini, de levantar as cortinas, sim?

—    Dentro de um momento, — respondeu.

—    Insisto, — disse ela, batendo com os pés. — Não tem o direito de fazer semelhante coisa.

Ficou enrubescida e com raiva ao ver a ofensa que lhe infligiam.

—    Dentro de um momento, — repetiu, — por agora, continuaremos com as cortinas descidas, se assim me permitir.

Olhou-o cheia de assombro.

—    Ficou louco? perguntou Marjorie ,com raiva.

—    Você fica mais bonita quando se zanga, — disse-lhe com um sorriso.

A insolente segurança do tom fê-la estremecer. Já deviam ter passado de Highlaw.

—    Faça o carro parar, ordenou.

—    O carro somente parará mais tarde, disse Festini. Enquanto isto, — pegou-lhe na mão, no momento em que ela pro­curava suspender a cortina, enquanto isto, repetiu, prendendo-lhe com força o pulso, — considere-se minha prisioneira!

—    Sua prisioneira! exclamou apavorada. Seu rosto empalideceu.

—    Minha prisioneira, disse Festini, com toda calma. Tenho um grande desejo de retê-la para pedir um resgate. Não percebe? Seus olhos despediam chispas, não percebe? gritou, o que você significa para mim? Eu sim, percebo cla­ramente. Nesses últimos dias, prosseguiu rapidamente, vi todo o paraíso que um homem poderia desejar. Mas, isto não tem valor para mim! Sabe por quê? Porque existe somente uma coisa no mundo que desejo acima de tudo e essa coisa é você!

Segurava-a com as mãos e ela não pôde mover-se. Estava aterrorizada de tal modo, com sua atitude e com o aperto de seus poderosos braços, que não pôde mover-se.

—    Desejo-a, — disse-lhe. A voz parecia tremer-lhe na garganta. A você mais do que a qualquer outra coisa, no mundo, Marjorie. Você é inacessível de um modo, devo, então, obtê-la por outros meios!

A jovem caiu para trás, num dos cantos do carro, contemplando fascinada seu raptor. Procurou gritar, mas de sua boca, por mais esforços que fizesse, não pôde sair nenhum som.

Festini observava-a. Os olhos despediam chispas apaixona­das. Sua mão cálida, achava-se apertada convulsivamente sobre a dela.

—    Não sabe o que estou fazendo? disse, falando rápidamente. Não sabe a que estou me arriscando por sua causa? Não percebe que estou metendo-me num novo perigo, tanto para mim, como para minha organização? Mas, é que a desejo, desejo-a mais do que qualquer outra coisa no mundo, — disse-lhe apaixo­nadamente.

Ela conseguiu falar.

—    Está louco, — exclamou, — completamente louco!

Ele sacudiu a cabeça.

—    O que está dizendo é a verdade, — contestou, — mas, nem minha loucura estou obedecendo às próprias leis que governam a humanidade. Algo aqui, — disse, tocando-se no peito, — me diz que você é a mulher que me é destinada. Obedeço a esse instinto. Isso é loucura? Então, estamos todos loucos, toda a criação animada está louca!

A terrível alegria da posse dominava-o e ela lutou e gritou, -mas o ruído do motor abafou seus gritos.

Num instante, estava entre seus braços, apertada violentamente contra ele, seus lábios ardentes beijando-lhe as faces. Ele devia ter visto em suas pupilas um lampejo de raiva e uma ex­pressão de horror no rosto, porque, de repente, libertou-a e ela caiu para trás, toda trêmula, pálida e emocionada.

—    Sinto muito, — apressou-se em se desculpar, — mas você disse que eu estava louco... no entanto, é você quem enlouqueceu...

Seus modos mudaram bruscamente e tornaram-se suaves como os céus de abril. Agora, estava implorando. Disse-lhe todos os argumentos que lhe vieram à mente. Pareceu amável, por um momento, jurou que ia libertá-la, levou a mão para fora, a fim de chamar a atenção do chofer, mas logo arrependeu-se de sua generosidade.

De repente, falou-lhe rápida e brutalmente do destino que a esperava no caso de lhe resistir.

Era a lembrança do belo noivo dela que o fazia enfurecer-se mais. Sentia-se tão exausto quanto ela, quando o carro se afastou da estrada principal. Depois de uma corrida louca, de dez minutos, o carro diminuiu a marcha e, em seguida, parava.

Ele saltou, abrindo a porta para que ela descesse e voltou-se para ajudá-la. Uma brisa fresca e suave chegou-lhe ao rosto, um vento carregado de perfume dos prados.

Permaneceu olhando a seu redor. A menos de cem jardas, via-se o mar, com sua solene grandiosidade. Não havia nenhuma habitação à vista, a não ser uma pequena casa de campo.

 

Perto da casa, viam-se três homens. Com um grito de agradecimento, ela começou a correr nessa direção, quando uma gar­galhada de Festini fê-la deter-se extenuada.

—    Apresentá-la-ei a essas pessoas, — disse-lhe sarcasticamente.

Ela voltou-se para correr em direção ao mar, mas, em duas passadas ele estava a seu lado e segurou-a pelo braço. Imediata­mente uma poderosa mão pegou-o pelo pescoço e com um vio­lento empurrão fê-lo voltar-se.

Os olhos dele deitavam fogo. Fitou o assaltante George Mansingham, alto e rijo de costas, sujo com o pó do caminho. Estava assim, porque durante toda a viagem viera recebendo a poeira da estrada.

Mansingham defrontou o olhar vicioso de Festini e com um movimento rápido e poderoso de seu braço descarregou um golpe no rosto do italiano, que caiu ao solo.

A jovem ficou aturdida, ante o aparecimento repentino de seu salvador, até que Mansingham fê-la voltar à realidade das coisas.

—    Por aqui, senhorita, — disse-lhe.

Tomou-a, sem maior cerimônia, pela cintura, levantando-a como se fosse uma criança e pulou por cima de um rego, que servia para irrigar esta parte da campina.

—    Corra, — disse-lhe.

Ele também tinha visto os homens e supôs que fossem as­seclas do italiano. A jovem apelou para todas as suas reservas de energia e correu como o vento. Mansingham seguia-a.

O vento trazia-lhes a voz de seus perseguidores.

Ouviu-se um estampido. A bala passou assobiando junto deles, mas uma ordem deve ter sido dada, para que não atirassem porque não se ouviram novos disparos. Verdadeiramente, isso resultava muito mais perigoso para os perseguidores que para os perseguidos.

À meia milha de distância, existia uma estação de vigilância costeira e ainda que nem a jovem, nem Mansingnam soubessem disso, sentiram, por instinto, que a costa era o lugar que melhor refúgio e possibilidades de fuga lhes oferecia.

De repente, Marjorie tropeçou e caiu ao solo. Mansingham deteve-se, imediatamente e tornou a segurá-la. Enquanto se le­vantava, deixou escapar uma exclamação de impotência.

Diante dele, encontravam-se dois homens, indubitavelmente italianos, com os revólveres apontados.

Na fuga, haviam chegado a um posto avançado da «Mão Vermelha».

Tudo passou-se em menos de dez minutos. Os perseguidores entraram em ação e a jovem foi arrebatada de seus braços. Ele lutou valentemente. Homem após homem foi caindo sob a po­tência de seus golpes vigorosos. Logo, viu-se um punhal ondear no ar, golpeando-o no meio da testa e ele caiu como se fora um touro.

Festini, com a respiração agitada, o rosto completamente vermelho pela violência da luta e sentindo também a pancada que o derrubara momentos antes, era quem dirigia as operações.

—    Sem fazer o menor rumor, — disse, — se não podem despertar a atenção de alguém que os possa ver, e recairá sobre vocês a morte dessa pessoa e possivelmente teremos que matá-los também!

Falava cortesmente, de forma impessoal, como se ela fosse Mansingham.

—    Não o maltratem, — pediu a jovem.

Referia-se ao homem prostrado, que parecia começar a voltar

a si.

Festini não disse uma palavra. Pertencia a uma raça que não sabia se esquecer com facilidade de uma ofensa e muito menos uma pancada.

—    Levem-na daqui, — ordenou.

Ele ficou para trás, com seus auxiliares

—    Penso que vamos cortar-lhe a garganta, Signor, — disse o «Boi», — e assim acabaremos de uma vez com ele.

—    E acabaremos também conosco, — disse Festini. — Esta costa é patrulhada. Encontrariam o homem, far-se-ia uma com­pleta busca, até chegar aos autores da morte.

Caminhou uma dúzia de passos, até à borda de um promontório e olhou para baixo. O declive tinha uns duzentos metros e a maré começava a subir.

—    Aqui deve haver pelo menos vinte pés de água, — insi­nuou significativamente.

Levaram o homem, já mais reposto, pegando-o pela cabeça e outro pelos pés, até à borda do barranco. Balançaram-no por duas vezes e logo. atiraram-no ao mar. O homem foi caindo, dando cambalhotas.

Festini e seus companheiros observaram a cena. Em seguida, a água abriu-se para dar-lhe passagem e a figura humana desapareceu na profundeza do oceano.

Esperaram um momento, não o viram voltar à superfície e Festini e seus auxiliares dirigiram-se para a casa de campo.

 

TILLIZINI DEIXA UM SINAL

O prazo do ultimatum estava por vencer. Durante quatro dias, a Inglaterra teria a oportunidade de concordar com as condições estipuladas pela «Mão Vermelha». Na ampla biblioteca de Dowing Street, ocupando a poltrona que homens eminentes e famosos ocuparam em épocas já remotas, achava-se sentado o Primeiro Ministro, grave e preocupado, enquanto conferenciava com Tillizini.

O italiano estava loquaz, essa manhã. Vestia-se com sumo cuidado, sinal evidente de que estava disposto a jogar uma de suas mais terríveis cartadas contra a organização, cujo extermí­nio se havia proposto.

Porque essa era uma das suas excentricidades e já se convertera em lenda entre os criminosos da Itália, segundo a qual «um Tillizini bem vestido, era um Tillizini perigoso».

Em Florença há um ditado que diz: «Tillizini tem um traje novo... a quem mandará para a prisão perpétua?»

O Primeiro Ministro estava brincando distraidamente com sua lapiseira, fazendo desenhos impossíveis sôbre o mata-borrão.

—    Então associa o desaparecimento de miss Marjorie Meagh com as atividades da «Mão Vermelha»?

—    Sim, Excelência, disse o outro.

—    E o que aconteceu com Mansingham?

— Isso também, — afirmou Tillizini, — deve-se a eles. Assim foram vistos juntos no campo, onde Mansingham trabalhava,

livro e seu paletó foram encontrados tal como os deixara, os dois estiveram caminhando juntos pelas proximidades. Foi visto por outro jornaleiro, quando voltava ao campo, para deter­-se de improviso e levantar alguma coisa do solo, provavelmente o lenço da jovem. Viram-no, também, quando começava a correr apressadamente, possivelmente em perseguição da moça. Desde esse momento, ninguém mais soube dar qualquer informação sobre ambos. A mulher que interroguei na cabana, situada de um lado da estrada, lembra-se de ter visto um grande automóvel que passava, no momento. Reúno essas três circunstâncias e considero-as ligadas entre si.

—    Mas, é claro, — disse o Primeiro Ministro, — que não se atreveriam a levar também o homem. Que objetivo teriam para fazê-lo? Que intenção teriam também, ao levar a jovem?

Tillizini olhou pela janela. Do lugar de onde estava sen­tado, avistava-se Green Park. Era uma bela paisagem. A guarda acabava de ser substituída pela Horse Guards e os soldados mar­chavam pelo lugar destinado aos desfiles. As couraças brilha­ram ao sol, os capacetes brilhantes também, refletindo em mil aspectos as luzes da manhã. Todas as armas da Inglaterra, todo seu poderio militar e naval, todas as suas leis e esplêndidas ins­tituições não poderiam salvá-la da traição da «Mão Vermelha».

Voltou-se com um sobressalto para olhar para o Primeiro Ministro e viu que era examinado com curiosidade.

—    De certa maneira, — disse, — esse rapto não me preo­cupa, desde que nenhuma das pessoas seja maltratada. Não posso compreender porque se incomodaram em fazê-lo. Mas, são essas vinganças particulares que sempre levam as grandes organizações ao descalabro.

— Seriamente, professor Tillizini, — disse o Primeiro Ministro, — acredita que esses homens cumprirão suas ameaças?

— Com toda a sinceridade, acredito, — afirmou Tillizini.

— Seus peritos riram-se ante a idéia de que a «Mão Vermelha» seja capaz de cultivar esse germen especial. A resposta da «Mão Vermelha» vai surpreendê-los muito, — disse, enquanto sorria. — Se não estou enganado, enviaram uma cultura ao laboratório bacteriológico do Governo. Os animais que foram inoculados com a cultura morreram com todos os sintomas que foram des­critos pelos escritores do século XV.

O Primeiro Ministro moveu afirmativamente a cabeça.

—    Não podemos dar-lhes o dinheiro que pedem. Isso é impossível. Não é verdade que também o senhor o reconhece, professor?

Tillizini assentiu com a cabeça.

—    Isso significará a negação da lei. Criaria um precedente que poria termo a toda autoridade da civilização. Seria melhor que a Inglaterra fosse assolada pela epidemia, antes que um centavo saísse dos cofres fiscais. Éesse o meu ponto de vista. Es­tou preparado, disse com alguma pressa, para aceitar não só a responsabilidade dessa atitude, como também a sofrer as primeiras conseqüências das maquinações desses homens. Já man­dei sugerir isto pelas colunas dos jornais. A única esperança que temos é que possamos nos apoderar das culturas e não só obtê-las, como também encontrar o laboratório, aonde estão sendo feitas. Éuma esperança, disse com um movimento de ombros Bem sei que está fazendo todo o possível, Tillizini, e que a Scotland Yard...

—    A Scotland Yard está trabalhando esplendidamente, afirmou Tillizini. —. A organização dessa Polícia é maravilhosa.

Pôs-se de pé.

Quatro dias, acrescentou em seguida, é um prazo bastante longo.

—    Tomará as medidas que creia necessárias para a segu­rança pública ?

—    Pode estar completamente certo disso, respondeu Tillizini.

O Primeiro Ministro dobrou o mata-borrão, num gesto despreocupado.

—    Dizem, professor, acrescentou com deliberação, que não vacilaria em cometer o que aos olhos do mundo respeitador da lei, poderia ser considerado como um ato criminoso, no sentido de ajudar a ação da justiça.

—    Jamais vacilaria em fazê-lo, senhor, disse Tillizini, se quer dizer com isso...

—    Não me refiro a coisa alguma em particular, esclare­ceu o funcionário oficial. Só queria dizer-lhe que, se consi­derasse necessário afastar-se da lei para administrar um castigo preventivo, eu poderia assegurar-lhe completa imunidade por par­te do Parlamento.

Tillizini inclinou a cabeça.

—    Agradeço a Vossa Excelência por esta atenção, — disse, e pode estar seguro de que não abusarei de tal poder e que nenhum dos crimes que possa cometer necessitará de imunidade.

O Primeiro Ministro olhou-o com assombro.

—    Por quê?

—    Porque, — afirmou Tillizini, com a voz mais suave, — porque meus crimes jamais me podem ser imputados.

Com outra reverência retirou-se do gabinete oficial.

O inspetor Crocks esperava-o do lado de fora da casa de Downing Street.

—    Trago-lhe alguns telegramas, — disse-lhe. — Estou convertendo-me em seu secretário particular.

Tillizini sorriu. Um sentimento afetuoso crescera entre estes dois homens de constituição e temperamento tão diversos. Quan­do Crocks foi designado para prestar ajuda a Tillizini em seus trabalhos, não faltaram pessoas descrentes que sorriram, porque não poderia ser encontrada uma pessoa mais afastada do dete­tive das novelas do que o próprio inspetor de Polícia. Não era porque lhe faltassem qualidades. Nada disso. Era astuto, vivo, sutil até chegar ao brilhantismo. Era um rápido e eficiente or­ganizador, com um conhecimento do baixo mundo criminal que muito poucos homens possuíam.

Tillizini abriu os telegramas. Leu-os duas vêzes e dobrando- os, enfiou-os no bolso. Depois de lançar uma vista de olhos nas cartas, nas direções e indicações postais, colocou-as, sem abrir, no bolso interior do paletó.

—    Não lhe mostrei os telegramas, porque são em código.

Em poucas palavras comunicou-lhe o conteúdo dos mesmos.

O livro de código de Tillizini estava em sua cabeça.

—    Agora vou ver meu «laço»...

—    Ainda está viva? — perguntou o inspetor com simulada surpresa.

—    Até há poucos minutos, estava, — disse Tillizini.

Por esta vez, não tratou superficialmente do assunto e o inspetor sabia que a pergunta que lhe formulara com toda boa in­tenção tinha um significado um pouco mais sério.

—    Consegui-lhe um emprêgo, — disse Tillizini, de repente.

—    É carregador de bagagens na Victoria Station. Isso permitir- lhe-á entrar em contato com muitas espécies de pessoas.

—    E, ao mesmo tempo, poderá dar-lhe algumas informações,

—    acrescentou Crodes. Penso que a idéia não é má. Não parece muito esperto e não creio que tenha alguma coisa de ex­traordinário, mas dispõe do poder que desgraçadamente não pos­suem muitos oficiais de Polícia. No momento em que o. homem começa a parecer importante, todo o seu valor decresce.

Tillizini riu.

—    Oh, homem sem importância! disse.

Poucos minutos depois, separaram-se. O detetive voltou a Scotland Yard e Tillizini chamou um táxi, fazendo-se conduzir em direção à parte sul de Londres.

Nesse dia, às doze e meia, o rápido de Burboro para Victoria. Station vinha entrando lentamente na grande terminal.

Vera Morte-Mannery foi uma das primeiras pessoas que desceram do trem. Seu pé tocou o chão, quase no mesmo instante que o comboio detinha sua marcha.

Caminhava com rapidez até à grade e saiu para o amplo espaço que existe ao fim da estação. Olhou em torno com ansie­dade e, em seguida, consultou o relógio.

O homem que ela procurava não se encontrava por ali. Andou de um lado para outro da estação e voltava para a banca de revistas, quando Festini veio em sua direção, dando grandes passadas.

Fitou-o nos olhos e êle conteve-se e voltou-se descuidadamente para o outro lado. Dirigiu-se à parte externa da estação e ela seguiu-o.

Ao levantar um dedo, um carro saiu da fila e parou junto ao passeio.

Sem pronunciar uma só palavra, ela entrou no carro, segui­da de Festini.

Ambos seguiram em silêncio, até que o veículo dobrou por Hyde Park e foi diminuindo a marcha de acordo com os regula­mentos do trânsito.

Nesse instante, ela voltou-se repentinamente para seu com­panheiro e com voz emocionada perguntou-lhe:

—    Onde está Marjorie Meagh?

Ele levantou as sobráncelhas.

—    Marjorie Meagh? — perguntou por sua vez. — Não que­rerá me fazer crer que me fez vir a Londres para me perguntar onde se encontra Marjorie Meagh? — perguntou outra vez.

— Onde está Marjorie Meagh? — tornou a perguntar.

—    Como poderia sabê-lo?

—    Festini, — disse-lhe suplicante, — sejamos francos mu­tuamente. Marjorie foi raptada pela «Mão Vermelha» e a «Mão Vermelha» é você.

—    Psiu, psiu! — murmurou selvagemente. - Não grite, as pessoas poderiam ouvir da rua!

As maneiras dele mudaram imediatamente. Mostrava-se um pouco frio, um tanto impaciente, talvez um pouco mais que in­tolerante. Percebera a mudança desde o momento em que se en­contraram.

Vera apertou os lábios com força e ficou calada, durante um bom momento.

—    Qual foi seu objetivo ao raptá-la? — perguntou-lhe.

—    Não lhe posso dizer. Não confia em mim?

—    Confiar em você! — disse, rindo-se com amargura. Já não confiei em você até o máximo que seja possível? Quem deveria formular esta pergunta era eu. Não confia em mim, Fes­tini, não é verdade?

Era mais que uma declaração, uma verdadeira súplica. Desejava que não negasse, mas não ouviu nenhuma negativa.

—    Existem certas coisas que eu não tenho o direito de lhe dizer.

—    Por quê? — perguntou. — Existe por acaso algum segredo da «Mão Vermelha» que eu desconheça?

Ele sorriu com dificuldade.

—    Nada sabe sobre a Quarta Praga, — disse-lhe suavemente.

—    Não me queixo disso, — afirmou, — era algo muito grandioso para que você confiasse a um homem ou a uma mulher. Mas, não vejo nada de sutil no rapto de Marjorie Meagh.

Ele estendeu a mão num gesto de desamparo.

—    Não lhe posso dizer. Existe algo atrás de tudo isso que você não pode saber.

—    Há' algo que posso supor! — protestou com firmeza. — Ama Marjorie Meagh... roubou-a para tê-la a seu lado, porque a adora. Não negue. Posso vê-lo em seu rosto. Oh, pedaço de mentiroso! Você é um mentiroso!

Jamais a vira nesse estado. Era uma nova fôrça que ela começava a lhe opor, algo que a principio lhe agradou, mas que não deixava de incomodá-lo.

Fora sempre toda suavidade, tôda complacência para com ele, uma conquista fácil para êsse belo homem de voz doce e olhar eloqüente.

Em sua ansiedade de mulher, aparecia-lhe um tanto terrível, mas não poderia aterrorizá-la. Estava habituado à oposição e sa­bia acabar muito rapidamente com ela. Existia nele muita coisa de feminino, para poder apreciar os sentimentos dela.

E autocrata como era, aborrecia-se com sua rebelião e em seu ressentimento chegou a falar mais do que em tais circunstâncias valia a pena dizer.

—    Sim, é verdade, disse friamente. — Amo-a. Por que haveria de negá-lo? Pelo fato de amá-la, não deixo de gostar de você. Ela está num plano diferente do nosso.

Vera respirava com rapidez, seu peito arfava com a intensidade da raiva.

Não falou durante um minuto. Sentia um desejo de atirar-se do carro, de sair correndo para qualquer parte, de desaparecer de sua vista, desde que já sabia que não tinha mais o afeto de seu coração.

O fogo do ciúme, da humilhação devorava-a de forma intensa, para que pudesse encontrar palavras para se expressar.

Diversas vezes, esforçou-se para conter a torrente de pala­vras selvagens que pugnavam por sair de sua boca.

Então era esse o final! O fim de seus sonhos, a recompensa de todo seu trabalho, de todas as traições impostas às pessoas que a estimavam, o último trecho do caminho feliz que ingenuamente acreditara levá-la-ia à eternidade!

De tempos em tempos, ele olhava-a com o rabo dos olhos.

—    Compreendo, disse finalmente, falando com certa compostura, seu grande plano vai começar a dar frutos. Não precisa mais de mim, não é verdade?

—    Não diga. isso, Vera, — rogou-lhe.                                          

Sentia-se imensamente aliviado ao verificar o modo pelo qual

ela recebera a notícia, que, apesar de todo o seu sangue frio, não tinha o menor desejo de lhe dar

—    Você é indispensável, — avisou-a. Procurou pegar-lhe a mão, mas ela retirou-a. — Foram as exigências do projeto que estamos em vésperas de realizar que me impediram de confiar mais amplamente em você. No que se refere a Marjorie, desejo que seja generosa, — disse-lhe, — quero que perceba...

—    Oh, já entendi! — respondeu com ansiedade. — Será que alguma vez você foi sincero, Festini? Algum dia você me foi fiel?

Olhou-o indagadoramente.

—    Juro... — começou a dizer.

—    Não jure, — disse-lhe. — Penso que compreendo.

Pôs-se a rir com atrevimento.

—    Vou descer aqui. Desejo andar um pouco. Esse não é, em realidade, o resultado da reunião matinal que eu esperava, — prosseguiu. — Ainda quando me sentia enciumada, jamais acre­ditei que minhas suspeitas fossem verdadeiras.

Procurou persuadi-la em vão, para que ficasse no carro, mas ela mostrou-se inflexível.

Bateu na janela e o carro parou. Ele ajudou-a descer do carro e prendeu-lhe a mão.

—    Adeus, Festini, — disse-lhe.

Os olhos dele entrecerraram-se.

—    Deve ver-me outra vez. Comigo, não existem adeuses, — disse-lhe bruscamente. — Já lhe disse que você é indispensável... e é verdade.

Ela não respondeu uma só palavra. Desprendeu suavemente a mão que retinha a sua e deixou cair o braço.

Em seguida, deu uma volta e começou a andar, afastando-se dali.

Ele permaneceu olhando-a até perdê-la de vista. Poderia confiar nesta mulher? Possuía grande conhecimento dos homens e talvez um pouco maior ainda das mulheres. Pesara todas as pos­sibilidades. Ela não o trairia, ficou pensando. Esses ingleses, di­zia-se, gostam de amar e sofrer em silêncio, escondendo seus se­gredos no fundo do coração.

Sorriu, encolhendo os ombros e soltou uma gargalhada. Voltou-se para o chofer e ordenou-lhe que o levasse a um restaurante da moda. Porque os homens, ainda que sejam conspi­radores, também têm apetite.

Fez o carro parar em Oxford Street, para comprar um jor­nal da tarde. As colunas estavam cheias, iguais aos jornais da manhã, com comentários sobre a Quarta Praga. Chegaria a «Mão Vermelha» a cumprir suas ameaças? Um jornal entrevistara um cientista, que havia descoberto um específico contra a praga.

Outro oferecia um retrato a bico de pena do próprio Tillizini.

Os mais caprichosos rumores adquiririam contornos consideráveis e encontravam ambiente no público, mas em todas essas informações e comentários não havia nada que valesse realmente a pena.

Estava dobrando o jornal, quando um parágrafo, que evidentemente havia sido publicado para encher um espaço em branco, chamou sua atenção.

Estava no final da página.

«O desgraçado Mansingham, que acrescentara à tragédia de vida o fato de se achar associado com o desaparecimento de Miss Marjorie Meagh, era um hábil nadador e na reunião anual dn Clube Aquático de Burboro, comentava-se ontem à noite, com pesar e simpatia o desaparecimento do infortunado».

Festini franziu o cenho. Um bom nadador? Isso era um absurdo. Evidentemente, tinha havido um grande perigo ao atirá;lo na água. Já tinham transcorrido três dias e não se tivera notícia sobre seu desaparecimento.

Sabia, mercê de prolixas investigações, que não fôra reco­lhido nenhum cadáver, na costa, ainda que, às vezes se passim semanas inteiras antes que o mar entregue seus despojos. Era um absurdo, preocupar-se com esse homem. Durante todo o al­moço, entretanto, notou que esse pensamento o incomodava de­masiadamente. E se o homem tivesse conseguido sair com vida da água? Teria sido muito melhor seguir a sugestão de «O Boi» e matá-lo ali no ato.

O garção levou-lhe a conta. Pagou-a e deu uma gorjeta.

Levantou-se e chegou ao vestíbulo, passando pelo grande corredor do restaurante. Escolheu um cigarro na vitrina e saiu, tomando a direção de Ficadilly.

Seu automóvel, que era guiado por um homem de confian­ça da «Mão Vermelha», seguiu-o, ao longo do grande passeio que, a essa hora, era muito concorrido.

Ao chegar à esquina de Picadilly Circus, encontrou-se frente a frente com Frank Gallingford.

O inglês parecia doente. A angústia dos últimos dias reve­lava-se claramente em seu rosto.

A perda da noiva desesperara-o. Não conseguia dormir. Seus detetives estavam revistando o país de um extremo a outro. Fundara, por sua conta, uma pequena organização policial, por­que Frank Gallingford era um homem muito rico.

Os homens pararam, fitando-se por uma fração de segundos. Em seguida, Festini estendeu a mão, com um suave sorriso.

—    Como vai, Mr. Gallingford? — disse.

Frank não se achava com disposição para conversar ou re­ceber solidariedade. Respondeu apenas com umas poucas pala­vras convencionais, devolveu o aperto de mão de Festini e afas­tou-se apressadamente, deixando que o conde prosseguisse em sua caminhada.

Frank não tinha dado uns vinte passos, quando alguém tocou- lhe suavemente o braço. Olhou a seu redor. A princípio, não o reconheceu, porque usava uma roupa de operário, mas quando o ouviu falar, reconheceu-o imediatamente.

—    Siga atrás de Festini, — pediu Tillizini rapidamente. — Diga-lhe qualquer coisa e retenha-o por alguns minutos, — disse, enquanto ambos começaram a andar um pequeno trecho, — e, quando chegarem a St. James Street, faça-o virar para a direita e então procure convencê-lo a ir até ao outro extremo da rua.

—    Mas, por quê?

—    Não me pergunte o porquê, — disse Tillizini. — E fez um de seus raros gestos de impaciência. — Faça como lhe indiquei .

Frank assentiu com a cabeça. Ainda que não se sentisse com ânimo para fazer o que lhe pedia o detetive, apressou os passos e chegou novamente ao lado de Festini.

Tillizini observava-os de longe. Viu-os prosseguir andando distraidamente e virar a rua que lhe indicara. O automóvel que esperava do outro lado dobrou também essa rua e ficou espe­rando .

O passeio estava sofrendo reparos e por ali não havia lugar para o carro estacionar.

O chofer olhou para todos os lados, procurando um lugar conveniente. Tinha que retroceder e dar uma volta, seguindo o mesmo caminho que tomara anteriormente.

Chegando a Regent Street e em seguida a Picadilly teria somente uma alternativa, que era esperar.

Olhou indeciso. Um policial veio tirá-lo do aperto, orde­nando que retrocedesse até à rua principal.

Com toda lentidão, o carro começou a retroceder.

Passaram-se alguns minutos, antes que o grande carro Napier pudesse chegar ao meio da corrente de trânsito, que se movia rumo a Piccadilly Circus. Havia ali uma esquina e nesse momen­to produziu-se uma parada.

Tillizini colocou-se num lugar de onde poderia observar to­dos os movimentos.

Notou um olhar de ansiedade no rosto do chofer. A oportunidade que estivera esperando há dois dias acabava de se apre­sentar .

Avançou através do trânsito e aproximou-se do automóvel. Tirou algo do bolso e agachando-se junto da roda traseira, aper­tou com a mão com muita força sobre o pneu. Era uma pedaço de borracha, com um gancho de ferro em cada ponta.

Com todo cuidado, prendeu-o na roda. No centro, projetava- se a cabeça de uma flecha.

O dispositivo havia sido cuidadosamente preparado e só um perito em acessórios de automóveis poderia notar esse pedaço de borracha e que era algo pouco usual.

Com um olhar para ver se seu trabalho estava bem feito, voltou a misturar-se com o trânsito e cruzou a rua, em direção ao passeio oposto. Caminhou mais um trecho por Regent Street e daí viu os dois homens que continuavam conversando.

Festini voltava para trás. Notara a ausência do automóvel e compreendera precisamente porque o chofer não pudera segui-lo.

Tillizini viu quando se despedia apressadamente de Frank e começava a andar pela rua. O professor sorriu. Interessava-lhe esse espetáculo de Festini brincando de esconde-esconde com o seu automóvel.

Não voltou para o lado de Frank. Em vez disso, chamou um táxi, que parou com alguns protestos por parte do chofer, porque esse homem com traje de operário, que o chamava, não parecia inspirar-lhe confiança. Tillizini fez-se conduzir diretamente para Scotland Yard.

Essa noite, cada um dos departamentos policiais recebeu um aviso e, imediatamente, policiais a pé, em motocicletas e a cavalo, percorriam as estradas, procurando rastro de um automó­vel, cuja roda deixava no chão, de trecho em trecho, a marca de uma flecha.

 

A CASA PERTO DO RIO

Pela janela, Marjorie podia ver a margem e a amplidão do rio. Quando o nevoeiro não encobria os objetos, conseguia ver os barcos, que cruzavam as águas, de vez em quando. Eram rebocadores que arrastavam filas de chatas, barcos de cor escura, que se dirigiam preguiçosamente para o mar. Do lado da outra margem, viam-se terras sem cultura, de aspecto mais ou menos pantanoso.

Esse rio de águas um tanto turvas e de margens afastadas era o Tâmisa. Os terrenos pantanosos do outro lado, formavam uma faixa que se estende para o lado norte, entre Southend e Barking.

Aproximando o rosto do vidro da janela, ela podia ver um pequeno edifício de teto baixo e dele viam-se sair, a todo momento, homens que vestiam pesados sobretudos.

A casa em que se encontrava era de construção velha, de ladrilhos, os aposentos eram frios e um tanto úmidos.

Na peça que fora destinada a seu uso, o papel há muito se desprendera da parede, em grandes pedaços e nem a própria la­reira, que a mulher italiana que lhe servia de criada se preocupa­va em encher de lenha constantemente, chegava para proporcionar um pouco de calor ao aposento.

Da casa junto ao promontório, levaram-na para ali, durante a noite. Deitara-se depois do jantar, na prisão de Kent para acordar e ver que se encontrava no quarto em que estava nesse momento.

A certeza de que lhe deviam ter dado algum narcótico no alimento enchera-a de terror.

No dia seguinte ao de sua chegada, negou-se a beber e a comer e só quando a mulher italiana comeu e bebeu do alimento, diante de seus olhos, a jovem consentiu em tocar na comida.

Afortunadamente, possuía algum conhecimento do idioma ita­liano. Ultimamente, estava aperfeiçoando-se nesta língua. Como o trabalho de seu noivo se radicasse na Itália, ambos haviam visto a necessidade de ela aprender o mais depressa possível essa língua, para não se ver em nenhuma dificuldade, desde o primeiro dia em que pisasse o solo italiano.

Mas, apesar de suas perguntas, não obteve a menor resposta por parte da mulher.

Não viu Festini desde o dia em que estiveram no promontório, ainda que acreditasse ter ouvido sua voz, em diversas oca­siões.

Supôs que a casa de teto baixo, que se erguia nas proximi­dades fosse o lugar onde estariam preparando a terrível cultura que deveria obrigar a Inglaterra a se pôr submissa, de joelhos, em poder dos bandidos.

Evidentemente, tudo aquilo que Festini teria acreditado necessário fazer para diminuir a monotonia de seus dias, fôra feito.

Tinha à sua disposição uma grande quantidade de livros e jornais e para o serviço de sua mesa, soubera obter a colabo­ração de uma excelente cozinheira italiana.

O único homem com quem falava era um sujeito de alta estatura, que também viera na companhia de Festini, no dia do rapto, junto ao promontório. Ele respondia-lhe as perguntas com monossílabos, protestando sempre e mostrando mau-humor ao ser interrogado.

Só havia chegado ao quarto, segundo imaginava, para se certificar da segurança dos barrotes que ficavam do lado de fora da janela. Marjorie sentia enorme ansiedade. Não se atrevia a deixar que sua imaginação começasse a trabalhar.

Era cm Fiank que pensava, em Frank que certamente estaria cheio de pesar. Durante a noite, chorava e rezava, alternadamente, pedindo forças para resistir à situação em que se encontrava.

Estava no terceiro dia de sua captura. Encontrava-se sentada, junto à janela, com um livro na mão, quando o ruído da fecha­dura, que se abria, fê-la levantar-se imediatamente.

Ouviu-se a voz de Festini, do lado de fora e pouco depois ele apareceu no quarto, fechando a porta ao entrar.

Ambos ficaram entreolhando-se. Ela caminhou em seguida, com suavidade, até ao centro da peça e foi colocar-se do outro lado da mesa.

—    Tudo bem ? — perguntou-lhe com- um sorriso de surpresa.

—    Espero que tenha tudo de que necessite.

Ela não respondeu logo.

—    Desejo minha liberdade, — disse.

—    Isso, — retorquiu, com uma inclinação de cabeça, — sinto muito não poder conceder-lhe. É necessário, para meu bem e minha segurança, que você permaneça aqui um pouco mais. Mais adiante, espero poder convertê-la na esposa de um homem dos mais ricos de toda a Europa.

— Isso não acontecerá jamais, — respondeu com firmeza.

—    Prefiro ser a primeira vítima da Praga com que ameaça a Inglaterra a suportar semelhante humilhação.

Ele pestanejou ao ouvir suas palavras.

—    Não se trata de nenhuma humilhação, — esclareceu. — É uma honra para qualquer mulher ser escolhida para esposa de um Festini. Pelas minhas veias, corre o melhor sangue da Itália.

Ela sentiu-se sobressaltada ante a inesperada vaidade do homem.

Jamais o considerara, nem no melhor período de suas relações, como algo mais que um bom e bem educado moço da classe média. Que ele considerasse seu nascimento como base su­ficiente para se acreditar superior a toda crítica, era o que ela não podia compreender.

Olhou-o com curiosidade, a contragosto.

—    Peço-lhe que concorde em ser minha esposa, — disse-lhe Festini.

Reforçou as palavras:

—    Deve perceber que, além de lhe fazer uma honra, estou agindo com grande magnanimidade. Encontra-se sozinha aqui, — disse, completa e totalmente à minha mercê. Está rodeada de homens e mulheres que não atreveriam a se opor a nenhum ato meu, por bárbaro e monstruoso que pudesse lhes parecer. Enten­deu agora?

Ela compreendia perfeitamente bem.

Estaria em segurança, enquanto o fizesse acreditar que estava disposta a se sujeitar à sua vontade. Precisava de contemporizar.

Ele deve ter suspeitado o que lhe passava pela cabeça.

—    Compreenda, — disse-lhe, — que não há escapatória possível daqui, a não ser como minha esposa. Serei paciente. Conti­nuarei sendo, acrescentou. Amanhã virá um sacerdote para nos casar, de acordo com o ritual da igreja, que professo.

—    Amanhã! exclamou horrorizada.

—    Amanhã, afirmou ele, com ar de mofa. — Parece-lhe muito cedo, por acaso? E, além disso, você não tem enxoval!

Ela passou por alto a observação.

—    Esse é um assunto que pode ser arranjado ou deixado de lado.

Não fez a menor tentativa de se aproximar para tocá-la.

—    Posso sentar-me? — perguntou.

Assentiu com a cabeça e ele colocou a cadeira junto à mesa e sentou-se.

—    Creio que devo fazê-la participar de certas confidências disse, com a maneira suave que sabia tão bem adotar, em certas circunstâncias. E preciso apressar as coisas. Seu amigo (como é que se pronuncia seu nome... Mansingham?) foi apanhado por uma rede de pescadores. Penso que foi nadando para o mar largo e assim foi salvo, mas isso não importa! Está vivo e tenho mi­nhas razões para supor que o homem falou o que não me convém.

Viu o brilho de esperança que se refletiu no rosto da jovem e sorriu.

—    O fato de que me possa identificar com este rapto, prosseguiu, — aborrece-me sumamente, mas, afortunadamente, nosso plano encontra-se tão adiantado que já não tenho necessidade de disfarçar nem dissimular minha associação com a «Mão Vermelha». O único fato que me aborrece um pouco, é que devo permanecer neste lugar desagradável, por mais uns dias. Todo o trabalho que ainda deve ser feito, meus agentes poderão fazer. Se não fosse sua presença aqui, a situação seria impossível! Nem por todo o ouro da terra aceitaria viver aqui sozinho, nas margens do Tâmisa!

Seu sorriso atrevido atemorizou a jovem. Tinha um modo de discutir os assuntos mais ultrajantes com um ar de convencimento e seriedade. Era todo superficial, mas também essa super­ficialidade tinha nele uma profundidade maior que nos demais homens.

Bem sabia que era um homem de sangue frio e sem remorso algum, incapaz de se deter ante qualquer coisa, desde que logras­se seus propósitos. O verniz de educação cobria-o mais intensa­mente, escondendo a maldade de sua alma, impedindo que ela viesse constantemente à tona, o que o distinguia de seus com­panheiros.

Mas, a sua crueldade estava latente e demonstrava-a.

—    A propósito, — disse. — Outro dia vi Mr. Gallingford e dei-lhe meus pêsames pelo seu desaparecimento.

—    Pedaço de bruto! — exclamou furiosa. — Como se atreve a zombar de mim.

—    Agrada-me vê-la zangada! — disse-lhe com admiração sincera. — Estou tentado a prosseguir, contando-lhe o aspecto de- solado que tinha aquele homem.

Começou a rir, mas em seu gesto não havia nenhum sinal de divertimento ou alegria.

—    Um homem de cabeça absolutamente sem qualquer compreensão! Se fosse um italiano, perceberia logo pelo. meu rosto, pela mudança de meus olhos, cada vez que se pronunciou seu no­me, que era eu, — indicou-se a si mesmo, — quem lhe roubara a presa. Mas, estes ingleses são tão fleumáticos! Esquecem-se muito rapidamente. Não deve preocupar-se muito com o pobre Frank — disse-lhe, enquanto se levantava para se retirar. — Den­tro de um ou dois anos casar-se-á com alguma inglesa de posi­ção, levando a vida a caçar faisões e discutindo sobre sistema de irrigação.

Ela sentiu-se incapaz de lhe contestar.

Ele saiu do quarto e fechou a porta com chave.

Ela ficou com a cabeça entre os braços. Suas lágrimas eram impotentes!

Festini encontrou o «Boi» no aposento de baixo, juntamente com dois homens que haviam chegado do laboratório, que íôra montado na coberta de madeira.

—    E então? perguntou, enquanto se sentava na cadeira, à cabeceira da mesa. Quais as novidades?

—    Signor, disse um dos homens, tudo está pronto. Obtivemos culturas perfeitas, ainda mais perfeitas do que as que mandamos para o Instituto de Bacteriologia.

Festini meneou a cabeça em sinal de assentimento.

—    Amanhã receberei a resposta do Governo. Pedi que avisassem pelos jornais.

—    E qual será a resposta? perguntou o «Boi», com os olhos fixos no rosto de Festini.

Festini encolheu os ombros.

—    Ninguém poderá sabê-lo! exclamou. Creio que no último instante, aceitarão as condições.

Um dos ajudantes, que estava de avental branco, era um homem forte e de rosto pouco agradável.

Não tomou parte nas discussões sôbre os métodos a adotar para a distribuição da Praga.

Festini havia feito preparativos cuidadosos e já estava pronta a literatura descritiva, que se repartiria entre os membros da «Mão Vermelha».

Era sincero em seu desejo de que os integrantes da organização pudessem escapar às conseqüências de sua própria vilania.

Uma vez terminada a discussão, o homem de aspecto pouco agradável, moveu a cabeça e fitou Festini.

Achava-se sentado à sua direita, os cotovelos apoiados sobre a mesa, as grandes mãos carnosas apertadas, fortemente.

—    E que faremos com esta mulher, Signor Festini? perguntou.

O jovem fitou-o fixamente.

—    Esta mulher? repetiu com suavidade. Não sei o que quer dizer.

O homem levantou a cabeça, indicando a peça de cima.

Era da espécie de homens que são expressivos em suas manifestações.

—    A que está no andar superior, disse.

Festini levantou-se vagarosamente da mesa.

—    Compreenderá, Gregório, — respondeu-lhe num tom muito suave, — que jamais poderá referir-se em tais termos a uma dama. Na realidade, — disse-lhe com mais cuidado, — jamais deverá referir-se a ela.

— Entre os irmãos da Fraternidade não pode haver segredos, — murmurou o homem. — Nós todos desejamos saber quais são os planos referentes a ela.

Sem dizer uma palavra, Festini deu um salto.

Seus dedos rápidos e potentes agarraram o outro pela garganta. Com um movimento para um lado, forçou o homem a abaixar a cabeça sobre a mesa.

Festini era um homem forte, apesar da fragilidade de seu físico.

—    Seu cachorro! — disse-lhe aproximando o rosto do outro. — Por acaso, devo dar-lhe conta de tudo que faço?

O homem lutou para recuperar o equilíbrio, mas diante de seus olhos viu brilhar a folha de um punhal.

Festini vacilou. Em seguida, afrouxou a pressão de suas mãos e o homem endireitou-se.

—    Lembre-se disto, — indicou o conde. — Recorde-se por toda sua vida, Gregório. Algum dia essa recordação ser-lhe-á útil!

O homem estava lívido, tremia.

—    Sinto muito, Signor! — disse humildemente. — Não fiz de propósito. Não pensei em ofender a V. Excia.

Com um sinal, Festini ordenou que ele se retirasse.

—    E não se esqueça, — disse-lhe, — de que não permitirei que nenhum homem se expresse com o menor sinal de irreverên­cia a respeito da dama que irá ser a Condessa Festini. Esse é meu plano, se querem sabê-lo. Isso é bastante e talvez já falei até demasiadamente. Dei-lhes o melhor de minha experiência e de­vem fé e obediência. É tudo quanto lhes peço.

Não se achava em disposição de espírito para tolerar nada mais.

George Mansingham chegara à Inglaterra. Estava em terra firme e por isso Tillizini já sabia de tudo quanto supusera anteriormente. Londres era um lugar sem segurança para Festini e ele se opunha a qualquer disfarce.

Devia ficar esperando a hora no lugar escolhido para seu refúgio: o cumprimento de seus planos assim o exigia.

Permaneceu na casa somente o tempo necessário para vestir o avental branco que usavam seus companheiros e passou ao gal­pão de madeira. O «Boi» e os dois homens reuniram-se a ele, na porta da cabana.

A única luz existente provinha de uma enorme clarabóia. A casa e a coberta ou galpão tinham pertencido, noutros tempos, a um estabelecimento de construções navais, desaparecendo depois de uma bancarrota e estavam em completo abandono. Convinham admiravelmente a seus planos. Achavam-se bastante afastados da estrada principal e ofereciam um refúgio cômodo e eficaz.

Tinha uma desculpa aceitável para justificar a presença de seus homens.

A construção era de propriedade de uma pequena companhia que se formara, algum tempo atrás, para a fabricação de borracha sintética.

Existe alguma coisa sobre borracha sintética e seus fabricantes que basta para afastar os curiosos.

O galpão dividia-se em duas partes. Na primeira encontravam-se uma coleção de tubos de ensaios, retortas e aparelhos cien­tíficos colocados sôbre uma comprida mesa.

A entrada para o segundo compartimento era feita por uma porta pesada, presa com duas fechaduras.

O homem grande começou a abri-las. Antes de mover as folhas, colocou no rosto a máscara antiséptica e prendeu-a com um elástico, na gola de seu traje branco.

Os demais seguiram seu exemplo.

Os três pegaram umas luvas de borracha, que se viam numa estante e colocaram-nas, em seguida. O «Boi» abriu a porta e chegou-lhes ao nariz um perfume de essência muito suave.

No meio do compartimento central, via-se estreita mesa, sobre a qual se achavam quatro grandes pratos de porcelana, cober­tos com campânulas de vidro.

Aparentemente, não eram senão estreitas travessas de vidro, cobertas com uma capa gelatinosa, mas cada uma continha ele­mentos suficientes para semear a morte abundantemente.

Festini observou-os com curiosidade. Era quase inacreditável que essas travessas tão inocentes de vidro pudessem ter uma ação tão mortífera.

—    Isso é tudo? — perguntou, como se. falasse consigo mes­mo.

—    Isso é tudo, Signor, — disse o «Boi».

Seu rosto enorme fez um trejeito significativo.

—    Parece uma coisa muito simples, — afirmou com altivez. — Poderia anular seus efeitos com um tapa de minha mão.

O homem de cara desagradável olhou-o de cima para baixo.

—    Morreria quase imediatamente, — disse.

Era o químico do grupo. Um homem brilhante que havia entrado para a Fraternidade da «Mão Vermelha» e encontrado ali uma forma de se dedicar às suas nefastas atividades.

Festini encaminhou-se para a porta. Esperou que o «Boi» a fechasse com a chave e, em seguida, saiu do galpão retirando a máscara.

O ar fresco chegou-lhe num odor tonificante. Parecia-lhe que estivera provando a atmosfera da morte nessa pequena seção do telheiro, que seguramente já estava saturado com a Praga que muito breve iria ser espalhada.

Não fez nenhuma outra tentativa para ver a jovem. Estava satisfeito com a recente entrevista.

Permaneceu em seu quarto, lendo à luz de uma lâmpada poderosa, alguns comentários dos jornais sobre a «Mão Vermelha», que seus agentes haviam conseguido obter.

Às dez horas da noite, chegaram mais duas pessoas.

Numa delas, Festini estava sumamente interessado. Era o sacerdote que fora contratado para realizar a cerimônia do casa­mento.

Os psicólogos tinham procurado interpretar o estado da mente de Festini; analisar, por meio de alguma fórmula conhe­cida, suas exatas proporções. Era um vilão inteiramente? Estes gestos fantásticos de cavalheirismo, tão inusitados como eram, recordando-se das circunstâncias em que se realizaram, não eram indicações positivas de uma natureza melhor?

Tillizini, numa análise meticulosa do caráter do homem, havia atribuído a tais atos, como o do casamento, uma simples evidên­cia ou influência do costume.

A grande convivência de Festini com homens e mulheres, de sua própria classe ensinara-o a manter o respeito habitual por certas convenções sociais.

Era essa a opinião de Tillizini e possivelmente a mais acertada de todas, porque Tillizini conhecia os homens é especialmente Festini.

O sacerdote escolhido, foi trazido a tôda pressa da Itália e a viagem tinha sido feita de dia e de noite.

Era conhecido e qualificado pela associação como homem de «confiança». Era suspeito de cumplicidade em certos delitos que tinham abalado a Itália, no ano anterior ao processo.

Estivera junto com outros sessenta presos, em presença do Tribunal, mas, graças à sua habilidade, conseguira escapar ao castigo.

Festini cumprimentou-o cordialmente, com o grave respeito de um verdadeiro filho da Igreja e quer demonstrar sua piedade para com o superior espiritual e com essa espécie de proteção que o intelecto superior adota instintivamente para com o inferior.

Deu ordens para preparar o alojamento do sacerdote e depois de breve conversação, ficou outra vez só.

Era quase meia-noite, quando Festini estendeu-se na cama pa­ra descansar algumas horas.

Nas primeiras horas do dia, seus espiões levar-lhe-iam notícias da resposta do Primeiro Ministro. Caiu num sono intranqüilo, com pesadelos, coisa que muito poucas vezes lhe acontecia.

Ouviu chamar suavemente na porta e levantou-se para abri- la. O «Boi» estava esperando do lado de fora.

—    Que aconteceu? perguntou Festini.

—    Acaba de chegar um dos irmãos, disse o homem que parecia evidentemente perturbado. Veio de bicicleta, do lugar em que estava vigiando a estrada e diz que alguns soldados estão vindo do lado de Londres.

Festini teve um gesto de impaciência.

—    Despertou-me para me dizer tal coisa? perguntou com irritação. Não está há bastante tempo na Inglaterra, meu ami­go, para saber que os soldados nada têm com as tarefas da Po­lícia? Aqui não é a Itália. Estamos na Inglaterra. Volte e diga a seu espia que regresse a seu posto, que deve vigiar a chegada de Tillizini e seus amigos e não os movimentos do exército!

Regressou ao quarto e novamente deitou-se na cama, cobrindo-se com um cobertor de pêlo de camelo. Virou de um lado para outro, mas não conseguiu conciliar o sono.

Levantou-se depois de um instante e saiu.

Diante da porta, achava-se um homem de guarda.

—    Diga a Catrin», — ordenou-lhe, — para me preparar um pouco de chocolate.

—    Sim, padrone.

Minutos mais tarde, a mulher levou-lhe uma taça fervendo, deixando-a sobre a mesa e ele correspondeu sua gentileza com' »ma breve palavra de agradecimento. Depois voltou-se, de re­pente, para ela.

—    Catrina, — perguntou-lhe, — a senhora está bem?

—    Sim, padrone — ela respondeu. — Eu a vi há duas horas mais ou menos, antes que ela fosse dormir.

Festini fez um movimento de assentimento.

—    Veja-a de novo, agora, — disse-lhe. — Eu subirei com você.

Tomando a lâmpada que se achava sobre o aparador, no meio do corredor, a mulher caminhou na frente e começou a su­bir, lentamente, as escadas, acompanhada de perto por Festini.

Ele esperou no corredor, enquanto a mulher tirava a chave e entrava.

Ouviu-se imediatamente uma exclamação.

—    Padrone! — gritou a mulher ansiosamente, — Padrone!

Ele atirou-se para dentro do quarto.

A cama, que ficava num canto do aposento, estava vazia. A janela estava aberta e faltavam três barrotes.

Marjorie Meagh conseguira fugir!

 

TILLIZINI DEPÕE PERANTE O PARLAMENTO

Apesar de já passar de meia-noite, as ruas de Londres esta­vam cheias de gente. O comércio estava aberto, as luzes brilha­vam por toda parte, até em lugares que em outras ocasiões fica­vam costumeiramente às escuras.

Os serviços de ônibus e automóveis que levam o londrino de casa e para a casa continuavam funcionando ainda. As edições especiais dos jornais da noite estavam sendo vendidas nas ruas e nos arredores da Câmara dos Comuns, aonde a multidão era inusi­tada e os compradores disputavam a posse dos exemplares.

Entre Whitehall e Victoria Street aglomeravam-se perto de trinta mil pessoas e a Polícia não tinha dificuldades para controlar a multidão, porque o trânsito de veículos que ia até à Câmara era constante.

O caráter da multidão era interessante. Não se tratava de massa de espectadores curiosos ou simplesmente ociosos, atraídos pela possibilidade de alguma excitação sensacional.

Eram pessoas elegantes da classe média londrina, de chapéu copado, bons agasalhos, óculos, que esperavam impacientemente pelas notícias que significariam a vida ou a morte de todos.

Porque, pela primeira vez, em toda sua história os membros da Câmara dos Comuns achavam-se reunidos em sessão secreta.

Essa noite, pelas onze horas, as galerias haviam sido evacuadas, por ordem do Líder e os estranhos haviam sido excluídos não só dos corredores, como também de todas as dependências da casa. O Parlamento resolvera converter-se em Júri Nacional.

Cinco minutos depois das doze horas, viu-se chegar do lado de Whitehall um grande automóvel, coberto de pó. Levava três luzes sobre o radiador, dispostas em forma de triângulo. O veí­culo passou sem dificuldade.

Atravessou Bridge Street e seguiu por Palace Yard. Perto da entrada do edifício, havia uma guarda policial, mas os agentes deram imediatamente passagem para que o homem de alta estatura, que era passageiro, descesse comodamente do carro. Dois homens esperavam o recém-chegado, que vestia uma capa im­permeável, cinza, de viagem. Eram eles: Hilary George, Membro do Parlamento e o Inspetor Crocks.

Os três penetraram na Câmara e caminharam até uma sala de reuniões que havia sido preparada para eles.

— E então? — perguntou Crocks.

Seu rosto estava mais pálido que de costume e falava com a irritação peculiar do homem que está sofrendo uma forte tensão nervosa.

Tillizini tirou o abrigo, colocou sobre uma poltrona e aproximou-se do fogo. Permaneceu um momento esquentando as mãos nas brasas e em seguida falou.

—    Localizei-os finalmente de modo definitivo!

—    Graças a Deus! — exclamou Crocks.

—    Não tem qualquer dúvida? — perguntou Hilary.

Tillizini moveu negativamente a cabeça.

Tirou do bolso interior do paletó uma caderneta de apontamentos, abriu-a e retirou três pedacinhos de papel. Eram avisos recortados da página de um diário da semana anterior.

—    Não sei se vocês chegaram a ver isto? — perguntou.

Os outros inclinaram-se sobre a mesa e puseram-se a ler os anúncios.

—    Não possa cOmpreendê-lo, — falou Hilary. — É um anúncio oferecendo bons preços por pombos. — Examinou o outro.

—   Este diz a mesma coisa, — acrescentou.

—    São todos iguais, — afirmou tranqüilamente Tillizini. — Perceberam que pedem pombos velhos?

Hilary assentiu com um movimento de cabeça.

—    O endereço é um determinado sítio de Londres. O homem que publicou os anúncios recebeu milhares de respostas e também efetuou muitíssimas compras. Durante a semana anterior, chega­ram-lhe cestas cheias de pombos. Os despachos vinham pelas es­tações terminais da cidade. Os animais foram recolhidos por agentes da «Mão Vermelha» e enviados, em seguida, a Festini.

—    Mas, para quê? — perguntou Crocks, sem compreender.

—    Não creio que o homem vá começar, agora, a praticar o tiro aos pombos!

Tillizini riu. Voltara para junto do togo e suas mãos tocavam as chamas.

—    Se me acreditam, — manifestou, — eu de há muito já estava esperando semelhante anúncio. — Endireitou-se um pouco, ficando de costas para o fogo, com as mãos para trás.

Em seguida, dirigiu-se aos interlocutores.

—    Como é que a «Mão Vermelha» iria espalhar o gérmen com as sementes da Praga? — perguntou. — Chegaram a pensar alguma vez no método que seria empregado? Como poderiam, sem perigo para si mesmos, espalhar os germens, com as sementes da Peste Negra?

—    Deus nos acuda! — disse Hilary, porque começava a compreender, agora, em que é que os pombos seriam utilizados.

—    Amanhã, pela manhã, prosseguiu Tillizini, se a resposta do Primeiro Ministro fôr desfavorável, essa gente libertará êsses milhares de pombos e eles serão deixados em liberdade, no meio de grande quantidade de bactérias, em cultura, capazes de espalhar a morte em qualquer localidade onde os pombos voarem, levando consigo os germens da Praga. Como se trata de animais velhos, voarão, sem dúvida, em direção às casas aonde foram cria­dos. O método é muito engenhoso. Poderiam fazer a mesma com pelo correio, mas isso significaria expor-se a correr muitos riscos. O método atual é o que mais conveniente pareceu a Festini. Prendi esta tarde o homem que estava procurando os pombos ve­lhos. Não resta dúvida, pertence à quadrilha da «Mão Vermelha», ainda que tenha protestado ante semelhante imputação.

—    Que devemos fazer? perguntou Hilary. Será melhor entrevistar-se imediatamente com o Primeiro Ministro.

Neste momento, abriu-se a porta e apareceu um jovem muito apressado.

—    O professor Tillizini encontra-se aqui? perguntou,

Hilary indicou o detetive italiano.

—    Quer entrar em seguida, professor? O Primeiro Ministro deseja que o senhor compareça ao recinto da Câmara, para explicar aos digníssimos membros da casa qual é a situação real e exata.

Tillizini fez um movimento de aquiescência.

Seguiu o jovem, ao largo do amplo corredor, através do vestíbulo, que atravessaram, passando por diversas salas.

De repente, Tillizini encontrou-se em pleno recinto da Câmara. Deu-lhe a impressão de que ali se encontrava em plena luz do dia.

De cada lado, viam-se os rostos dos assistentes, sentados escalonadamente em suas cômodas cadeiras. No extremo oposto, atrás de uma grande mesa, coberta por uma toalha vermelha e dourada, estava sentado um homem de aspecto imponente.

Perto da mesa, à sua esquerda, um homem pôs-se de pé e falou com o Líder.

Tillizini não pôde ouvir as palavras que êle pronunciou. Um momento depois, a pessoa que ocupava a cadeira de honra convi­dou-o a se adiantar.

Tillizini conhecia alguma coisa sôbre o augusto caráter da assembléia. Sabia, pois era de seu dever sabê-lo, com que zêlo eram guardadas suas portas, contra o estranho curioso, sem pri­vilégios e experimentou uma sensação de irrealidade, enquanto caminhava sobre o piso atapetado da sala e atendendo ao convite do Primeiro Ministro, foi ocupar um lugar no estrado da frente.

A Câmara estava em silêncio. Um débil murmúrio fora ouvido, saudando-o, para ficar novamente em completo silêncio.

Sua figura era estranha e curiosa em semelhante ambiente. Trazia ainda na roupa o pó da longa viagem que acabara de realizar.

Sentou-se na cômoda poltrona que lhe foi indicada, ao lado do Primeiro Ministro e olhou curiosamente para a Mãe de todos os Parlamentos!

Em meio a um silêncio de morte, o Primeiro Ministro levan­tou-se e dirigiu-se ao Líder.

—    Senhor Líder, — disse. Está dentro de minhas atribuições pedir a V. Excia, que deixe a presidência esta noite com o objetivo de que a Câmara, em funcionamento, se converta num comitê. Em tais circunstâncias, contaremos com poderes ilimitados e dessa forma, assiste-nos o direito de chamar à nossa presença qualquer pessoa que nos possa administrar soluções. Mas, o tempo é muito curto e o assunto que nos reúne, muito sério. Por causa disso, pedi que se permitisse ao professor Tillizini talar perante a Câmara e deste próprio lugar.

O Primeiro Ministro tornou a sentar-se e o homem da peruca branca, sentado na tribuna de honra, olhou para Tillizini e fiz ura movimento de assentimento, novamente, com a cabeça.

Durante um momento, o professor não entendeu seu significado. Uma palavra do Primeiro Ministro, que estava a seu lado, fê-lo levantar-se, um pouco embaraçado e com certa intranqüili­dade .

Falou com vacilação, detendo-se de vez em quando, para procurar a palavra adequada. Agradeceu à Câmara a indulgência e o privilégio extraordinário que significava sua atitude para com ele.

—    O Primeiro Ministro, — prosseguiu, — pediu-me para fazer um breve resumo da história da «Mão Vermelha». Acredita, e estou de acordo com sua opinião, que Vossas Excelências devem ser informados, de modo mais completo, a respeito de um fato monstruoso que a «Mão Vermelha» está a ponto de levar a "cabo.

Por espaço de cinco minutos, relatou a história da organização; do seu crescimento, desde a «Sociedade dos Três Dedos da Sicília». Falou brevemente de seus crimes, tanto no Continente, como nos Estados Unidos da América, porque sabia de todos os detalhes na ponta da língua e ele próprio havia estado encarregado de desvendar muitos mistérios que rodearam a tarefa de tais homens.

—    Não sei, disse, — quais são os planos que o Parlamento traçou para varrer do país esta fôrça tão temível, quanto perigo­sa. Nenhum plano, prosseguiu com toda ênfase, acentuando cada uma de suas palavras com gestos expressivos, que possa ter traçado surtirá o menor efeito, a menos que signifique uma espécie de exterminação física. É possível que não me expresse com clareza, — apressou-se a dizer, ainda que esteja muito ao corrente do idioma inglês.

Sublinhou este ponto, com um dedo sobre a palma da mão.

—    Os bandidos estão prontos a destruir, senhores, tôdas as suas famílias e todo o país. Creiam-me, não terão o menor escrúpulo em fazê-lo! A Praga espalhar-se-á por toda a Inglaterra, a menos que Vossas Excelências adotem as medidas mais enérgicas, dentro de poucas horas. Não existe nenhuma lei nos livros escri­tos que enquadre exatamente em semelhante situação. Devem criar um novo método que se refira ao crime e. Senhor Líder, qualquer que seja a forma de castigo que o Conselho possa encontrar, nunca será tão drástico, nem severo, para dar punição ao tipo de orga­nização criminosa que a «Mão Vermelha» representa. Eu posso, se assim o desejar, disse, com um sorriso, prender cinqüenta membros dessa quadrilha esta noite. E, talvez, com um pouco de sorte, poderia assassinar o próprio Festini.

Falava com o tom de um homem convencido, como se o assassinato fosse o pão de cada dia e notou-se por toda a Câmara o sussurro de conversações.

—    Talvez minhas palavras não agradem a Vossas Excelências, disse com um sorriso. A mim, também, tampouco agradam. Empreguei a palavra «crime», porque sinto que é a única que está mais de acordo com os feitos, desde o próprio ponto de vista de Vossas Excelências. Para mim, algumas emoções são jus­tificadas: diria também, necessárias. Deve-se opor a inteligência à inteligência, o crime ao crime. A lei não trata todos os crimesdo mesmo modo. A ciência produziu um novo tipo de criminoso. Os parlamentos do mundo inteiro, entretanto, ainda não conseguiram encontrar um novo tipo de castigo. O Código Criminal requer severas revisões, tão severas quanto aquelas que recebera e quando apagou de duas disposições os castigos repugnantes e vingativos que eram aplicados aos antigos ladrões.

Prosseguiu falando de suas últimas descobertas e relatou os fatos que poderiam melhor esclarecer à Câmara. Jamais se esquecia de suas suspeitas com respeito às multidões. A Câmara dos Comuns, com sua quantidade tão diversa de membros, era para ele uma multidão, multidão simpática, intelectual, muito diferente das outras, talvez, houvesse algum homem capaz de trair seus planos e revelá-los ao inimigo.

— Compreendo, — disse, — que tenham uma lei em estudo. Os termos dessa lei foram-me comunicados resumidamente e posso dizer, Senhor Líder, como aos demais membros dessa Câmara, que nesta medida, não vi nenhuma cláusula que não fosse justificada pelas circunstâncias. Dentro de sete dias. — disse solenemente, este país será assolado pela mais mortífera de todas as epidemias que já se viu na história moderna. Os horrores da Grande Praga de Londres multiplicar-se-ão. Os portos de todos os países do mundo serão fechados ao seu comércio e o país se encontrará numa situação desesperadora! Devem afrontar cara a cara, não somente a morte, na mais terrível de suas formas, como também lutar contra a fome, a anarquia, talvez a guerra civil. Sabendo de tudo isto, contudo, posso dizer que faltariam às suas velhas tradições, se pagassem um só centavo a essa infame confederação de criminosos.

Sentou-se, em meio a um estrondo de aplausos. Em poucos minutos, havia saído por trás da cadeira do Líder e encontrava-se na saleta do Primeiro Ministro, que chegou pouco depois.

— A lei será sancionada esta noite, — disse. — A Câmara dos Lordes está em sessão também e espero obter o «cumpra-se», amanhã pela manhã. Poderá descansar esta noite, professor?

Tillizini moveu a cabeça.

—-Esta noite não posso descansar, — respondeu.

Olhou para o relógio. Os ponteiros marcavam doze horas e


um quarto. Um servente aproximou-se com uma bandeja de café. Depois que se retirou, o Primeiro Ministro perguntou:

—    Está satisfeito com as providências que tomamos?

Tillizini fez um sinal de assentimento.

—    Sim, penso que o número será suficiente.

—    Enviamos quatro brigadas de infantaria, que já segui­ram esta noite, explicou o Ministro. A cavalaria e a arti­lharia vêm de Golchester.

—    E os destróieres? — perguntou Tillizini.

—    Saíram esta tarde de Chatham com ordens de avançar lentamente pelo rio.

Tillizini voltou a concordar com a cabeça.

—    Estará um esperando-o em Tilbury, disse o Primeiro Ministro. — Isto foi estabelecido de acordo com seu desejo.

Minutos depois, Tillizini voltava a ocupar o automóvel e, envolto em seu abrigo, deixou-se cair no assento do carro.

O poderoso Mercedes começou a andar, através dos grandes portões, passou entre a multidão agrupada em Whitehall, chegou a Trafalgar Square e dobrando à direita, chegou ao Strand.

Diminuiu a velocidade para dar passagem a um caminhão de verduras, que surgira de uma rua que conduzia a Waterloo Bridge. Ao fazê-lo, um homem avançou rapidamente pela rua e trepou no estribo do automóvel.

Era de meia-idade, pobremente vestido e parecia Italiano, por­que foi nesse idioma que falou.

—    Signor Tillizini?

—    Sim, respondeu Tillizini no mesmo idioma.

O homem não deu resposta. Sua mão levantou-se com a velocidade de um raio. Mas, antes que seus dedos tivessem apertado o gatilho, a poderosa mão do detetive agarrara o revólver, perto do cabo.

Levantou-se um pouco e, com um movimento brusco, atraiu o homem para junto de si e atirou-o violentamente para dentro do veículo.

Tudo passou-se num segundo. Antes que os pedestres e curiosos, que andavam pela rua, pudessem perceber o fato que acabara de ocorrer, o homem já estava firmemente preso no interior do carro. Seu revólver descansava no bolso de Tillizini e o pé do detetive italiano, suavemente, oprimia a garganta do atacante, mas sem pressão bastante sugestiva.  — Fique quieto, — ordenou Tillizini, agachando-se. — Le­vante as mãos, assim!

O homem obedeceu com uma feia careta de dor. Algo frio e duro apertou-se em seus pulsos.

Ao alcançar East Dock Road, Tillizini fez o carro parar junto ao distrito policial e entregou o prisioneiro ao inspetor. O agente policial sentia-se inclinado a desconfiar de um cavalheiro, com aspecto de estrangeiro, que fazia entrega de um preso algemado. Mas, uma palavra de Tillizini fê-lo mudar imediata­mente de opinião.

—    Revistem-no, — disse Tillizini.

Abriu as algemas e os dois agentes, com a inimitável habilidade nascida de sua experiência, efetuaram um rápido e cuidadoso exame de tudo que o sujeito levava consigo.

Parecia achar-se bem provido de dinheiro, segundo Tillizini pôde constatar. Não carregava papéis de espécie alguma. Um lápis, duas estampilhas e várias fórmulas telegráficas, sem endereço, constituíam todos os seus pertences.

Tillizini levou as fórmulas telegráficas ao escritório do inspetor e examinou-as detidamente.

Não estavam escritas, nem tinham endereços, mas pôde perceber impressões, que demonstraram que outro telegrama havia sido escrito com lápis, em cima dessas fórmulas.

Examinou mais de perto, mas não pôde identificar nenhuma escrita. Retirou do bolso um lápis e com toda suavidade começou a passá-lo pelo papel. Pouco a pouco, as palavras foram se tor­nando visíveis.

O endereço era ininteligível. Evidentemente havia sido escrito sobre uma substância mais dura.

Havia duas palavras em italiano e Tillizini não teve dificuldade para decifrá-las.

—    Lisa vai, — leu.

Olhou o homem.

—    Quem é Lisa? — perguntou-lhe.

E antes que o prisioneiro pudesse mover a cabeça, alegando ignorância, Tillizini soube e procurou abafar uma exclamação que acudiu a seus lábios.

Vera havia saído ao encontro do amante de outros tempos Essa era, na realidade, uma nova complicação.

 

MARJORIE ATRAVESSA O PÂNTANO

Marjorie tinha ido descansar mais ou menos às otize horas.

Abandonara a tentativa de entrincheirar a porta do quarto contra qualquer intruso, porque seus esforços para reforçá-la ti­nham sido impedidos pela mulher e, por outro lado, foram tão inúteis que converteram a tentativa numa sensível perda de tempo e de energias.

A casa possuía dois andares. Seu quarto achava-se pri­meiro, na parte de trás. Haviam-no escolhido, em parte por ser o mais confortável dos aposentos de que podiam dispor, como também porque, dessa posição, ela não poderia ver nada ou muito pouco dos movimentos dos membros da «Mão Vermelha», que es­tavam ocupados no preparo das culturas.

A noite está extremamente clara. Depois de meia hora de insônia levantou-se para fugir aos tumultuados pensamentos que a as­saltavam, seus passos levaram-na, instintivamente, até ao único mi­rante, que o aposento oferecia.

Estendeu o braço até ao parapeito da velha janela e ticou olhando as luzes que brilhavam do outro lado do rio.

Nenhum som perturbava a calma da noite. A casa estava envolta em silêncio. De vez em quando, chegava a seus ouvidos um ruído distante de uma sirene muito além, ao longo do rio.

Ficou, assim, de pé, por muito tempo e, de repente, fora um tremor, sentiu que a noite não estava de nenhum modo quente.

Festini e a mulher haviam fornecido a ela um grande manto negro. Retirou-o do cabide e envolveu-se nele.

Seus dedos estavam afanosamente abotoando-o, em volta do pescoço, quando ouviu, sob a janela, do lado de fora, um ruído metálico, que a fez sobressaltar-se.

Esperou um pouco mais e ouviu um chamado proferido em voz muito baixa e abafada: inclinou-se para trás. Não sabia por que, mais lhe pareceu que o desconhecido pretendia adverti-la de alguma coisa.

No mesmo instante, um objeto caiu a seus pés.

Agachou-se e passou a mão pelo assoalho. Encontrou o que procurava. Era um calhau, atado num fio muito fino de cânhamo puxando-o para cima, conseguiu fazer chegar até ela um rolo de corda mais grosso.

Agora entendia seu significado. Prosseguiu puxando rapidamente. Na ponta, havia um objeto mais pesado e pouco depois sentiu deslizar por suas mãos um rolo de corda trançada. Era a última série.

Alguém, que se encontrava em baixo, sustinha, a corda com relativa firmeza...

As mãos tremiam-lhe de excitação.

Prendeu uma das pontas da corda num dos batentes da janela e sentiu que o homem, lá em baixo, experimentava a resistência da corda. Pouco a pouco, começou a puxar, enquanto ela contemplava os nós que a corda possuía, de trecho em trecho.

Parecia que a corda era resistente. Viu-a estirar-se novamente. Não ouviu nenhum ruído e, pouco depois, com extrema rapidez, viu aparecer a cabeça descoberta de um homem na borda da ja­nela.

O desconhecido estendeu a mão e agarrou-se num barrote e ficou descansando, bem na ponta da abertura.

— Não faça nenhum barulho! — disse-lhe baixinho.

O homem começou a trabalhar metodicamente. Os barrotes achavam-se presos num travessão de madeira qua­drada, encravada na própria alvenaria.

Ela não podia ver o rosto do homem e o desconhecido falava tão baixo que ela não pôde reconhecer-lhe a voz. Só poderia ser Tillizini, entretanto e nem poderia supor de outro modo. Ele não perdeu tempo e a luz da lanterna elétrica mostrou como ele tra­balhava com toda rapidez. Em dez minutos, conseguira retirar dois barrotes do lugar.

Ao tirá-los, passou-os para as mãos da jovem, que os colocou, com todo o cuidado, sem barulho, sobre o leito.

Ele penetrou cautelosamente no interior do quarto e prendeu a corda num outro barrote, que restava na janela, atou uma ponta na cintura dela e ajudou-a a sair pela abertura.

—    Fique aí em baixo, até que eu desça, ordenou.

Ela não precisou de esperar muito tempo. Enquanto seus dedos ainda desatavam o nó da cintura, Tillizini descia lentamente.

—    Espere, — disse-lhe.

Desapareceu, em seguida, nas sombras, na direção do telheiro.

Num dos lados da parede, viam-se empilhados numerosos cistos. Tillizini caminhou com precaução e abriu, sem ruído, a tampa de um por um.

Logo, começaria a amanhecer e, ao primeiro indício da luz do dia, os pombos levantariam vôo, em busca de seus ninhos edemarcando os lugares aonde foram criados. Os cestos estavam cheios de pombos.

Em seguida, Tillizini voltou para junto da jovem.

—    Caminhe de mansinho e siga-me sem fazer barulho mur­murou.

Foram avançando agachados e quase de gatinhas, pelo grande pátio aberto, cujos limites não conseguiam ver. Chegaram pouco depois ao terreno pantanoso, que ficava entre eles e a margem do rio.

Tillizini não deu sinal de abandonar as precauções e a jovem que se sentia toda dolorida, pela violência dos movimentos, com os quais não estava acostumada e que acabava de realizar, pergun­tava a si mesma, porque continuavam a se movimentar, assim, arrastando-se, quando todo perigo parecia ter desaparecido.

O terreno sob seus pés era pantanoso: a cada passo, parecia que seu tornozelo aprofundava mais e mais no lodo. Ela respirava com dificuldade. As costas doíam-Ihe com uma pontada importuna e intolerável. Sentiu que não poderia avançar mais. Parecia-lhe que ela estivera caminhando, durante horas, através de milhas e milhas de terra, posto que, em verdade, não havia andado mais do que duzentas jardas da casa, quando Tillizini parou e a ad­vertiu.

—    Fique aqui! — disse-lhe.

Ainda que o terreno fosse nivelado, existiam algumas elevações e depressões, em intervalos irregulares e foi na direção de uma dessas elevações que ele se dirigiu resolutamente.

Pareceu a Marjorie ter visto a negra silhueta de um homem, num pedaço seco de terreno, mas talvez fosse sua imaginação que a fazia ver coisas nas trevas.

O coração, por outro lado, batera-lhe descompassadamente, muitas vezes, durante a fuga do cativeiro, enquanto pensava nos perigos a que estava exposta.

Mas o homem que se encontrava sentado sobre uma elevação do terreno não era produto de sua imaginação. Estava sentado como os alfaiates, com as pernas cruzadas, um manto sobre os ombros e um revólver de cano largo sobre os joelhos.

A «Mão Vermelha» havia estabelecido um sistema de sentinelas, para evitar qualquer surpresa e de onde estava sentado, Gregório poderia fiscalizar muito bem as proximidades do rio. Achava-se sentado e alerta, os dedos no gatilho da arma. E tudo isso, Tillizini percebeu imediatamente. Sabia que qualquer movimento, qualquer ato de violência, a menos que fosse inesperado e mortal, serviria, apenas, para dar o alarme. O único meio possível era o direto e sem mais delongas. Endireitou-se e avançou diretamente para a sentinela. Gregório ouviu-o e pôs-se de pé. — Quem vem lá? — perguntou suavemente.

—    É um irmão, — respondeu Tillizini em Italiano. O outro resmungou alguma coisa.

— Alguma coisa esta atrapalhada? — perguntou Gregório, Olhando através das sombras para ver se conseguia distinguir melhor o homem que se aproximava.

A resposta de Tillizini foi um bocejo pronunciado e prodigiosamente simulado, como de uma pessoa que tivesse sido despertada recentemente de profundo sono e sentia-se renitente a obe­decer ao chamado que era feito.

O bocejo prolongou-se por quase uma dúzia de passos que o separavam da sentinela.

Gregório não desconfiou de coisa alguma. Seu dedo, mecanicamente, afrouxou a pressão que exercia sobre o gatilho da arma e o braço caiu-lhe frouxamente ao longo do corpo.

—    Que... ? — começou a dizer a sentinela.

Então, como se fosse uma catapulta, o punho de Tillizini caiu com toda força no rosto do italiano. Um segundo depois, tinha-o agarrado pela garganta. Com a mão esquerda, apoderou-se do re­vólver que a sentinela tinha em suas mãos e arrancou-o com um golpe violento. Os dois homens caíram por terra.

O grito da sentinela, pedindo ajuda ficou abafado em sua garganta.

Marjorie, que se encontrava a uma dezena de passos, ajoelhada sobre o chão lamacento, ouviu o ruído da luta e também um grito abafado e, em seguida, reinou novamente o silêncio.

Instantes depois, Tillizini encontrava-se a seu lado.

Pode levantar-se, — disse-lhe, — já não existe mais necessidade de nos ocultar.

Deu-lhe o braço, prestando-lhe, assim, ajuda pelo resto do caminho.

Ao chegar àbeira da água, achou a canoa canadense que o trouxera pelo rio e ajudou Marjorie a subir na embarcação.

Seguiu-a imediatamente e apoderando-se dos remos, começou a remar, vigorosamente, até chegar na metade do rio.

 

A MULHER

Festini ficou de boca aberta junto à janela. Viu a corda, que pendia, balançando, atada num barrote e percebeu imediatamente o perigo, de sua situação.

A jovem havia sido resgatada com o auxílio vindo do exte­rior. Viu os barrotes abandonados sobre a cama e o rolo de corda atado a um cabo mais fino. Tudo isso revelou-lhe a própria história da fuga.                              

Com um juramento de raiva saiu do aposento.

Num instante, todos os moradores da casa já se encontravam de pé.

Nos aposentos inferiores, dormia uma dúzia de homens de confiança da «Mão Vermelha». Outros doze vigiavam os caminhos.

—    Não podem ainda estar muito longe, — disse Festini. — Por suas próprias vidas, tratem de lhes dar caça!

Ele próprio seguiu com um homem, em direção ao rio, certamente o caminho mais provável da fuga.

Conhecia cada um dos postos que seus vigias ocupavam e, meio andando, meio correndo, chegou ao lugar que tocava a Gregório, que era o homem de mais confiança de todos quanto se encarre­garam dos postos de vigia.

Atingiu o pé da pequena elevação e chamou em voz baixa.

Gregório não deu nenhuma resposta.

Festini subiu a pequena ladeira. Iluminou o caminho e os arredores com sua lanterna e viu o corpo da sentinela ali caído.

—    Virem-no, — disse com calma.

Olhou para baixo e observou o rosto do homem morto e uma sensação de temor pareceu correr-lhe por todo o corpo.

Sem pronunciar uma só palavra, deu meia volta e começou a caminhar lentamente, pelo trilho de volta à casa, A cada passo que dava, murmurava: Tillizini! Tillizini! Tillizini!

Isso era o fim, bem o sabia. Sua mente estava menos ocupada como os pensamentos de sua fuga, do que com a quantidade de projetos para torná-la memorável!

O Primeiro Ministro negara a petição.

Não era necessário esperar a chegada do mensageiro para lhe dar a notícia.

Tillizini havia localizado o laboratório: a conclusão era evidente. De que modo conseguira realizar a façanha. Festini não o poderia adivinhar, mas o último trunfo da «Mão Vermelha» ainda não fora jogado. Ele dispunha ainda dos germens da terrível Pra­ga. Eles, ali mesmo, poderiam ser as primeiras vítimas e deixar atrás deles os rastos de uma herança pavorosa para o resto da humanidade.

Admirou-se de não ter sido, logo, atacado pelo professor. Seguramente, na hora precisa, teria ele sentido pena? Festini aban­donou a hipótese com um sorriso. Ele conhecia muito bem a têm­pera de que era feito o antropologista, para imaginar que ele pu­desse deixar se dominar pela piedade ou por qualquer outro sen­timento de compaixão.

Foi, então, que se lembrou da jovem. A presença dela explicava tudo. O primeiro cuidado de Tillizini fôra conduzi-la para um lugar seguro. E por isso não tivera tempo de mais nada.

Ordenou que a guarda se postasse mais perto dela. Pene­trou em seu aposento, revistou os bolsos e retirou as cartas que desejava destruir, a fim de que não caíssem nas mãos do inimigo. Queimou-as, sentou-se à mesa e começou a escrever. Estava ainda na metade de sua tarefa, quando surgiu o «Boi».

—    Nossos homens encontraram uma mulher, avisou.

—    Uma mulher! Festini levantou-se com um pulo e seus olhos brilhavam.

—    Não se trata de sua dama, Signor disse o homem e o coração do outro sofreu um abalo completo.

—    Onde a encontraram ? Que estava fazendo?

—    Andava procurando o caminho para esta casa, — disse o «Boi».

—    Tragam-na aqui!

Em poucos minutos, o homem voltou à peça, introduzindo a mulher.

Festini, que ainda trazia em suas roupas os vestígios da umidade do pântano, tinha ido postar-se do outro lado da mesa.

A pequena lâmpada elétrica era a única iluminação do quarto. A mulher quê estava parada no umbral da porta percebeu imedia­tamente a pobreza da casa e caminhou, lentamente, até Festini, com os olhos fixos em seu rosto.

—    Vera! murmurou e ficou perplexo.

Ela fez um movimento de concordância com a cabeça e adian­tou-se mais.

Observou que o aposento era mal mobilhado. O fogo quase apagara na esquecida lareira. O forro de papel das paredes estava estragado e roto em muitos lugares. Havia uma atmosfera de ruína e decadência no quarto.

—    Mande sair o homem, — disse-lhe.

A um sinal de Festini, o homenzarrão retirou-se, fechando a porta.  

—    Para que veio? Como conseguiu chegar até aqui? Como sabia que me encontrava neste lugar?

Foram essas as suas perguntas, cheias de ansiedade.

Permaneceu calada e começou a tirar o casaco que vestia, com toda a deliberação. — Vim, — disse finalmente, — para estar a seu lado, no grande momento, no fim! As sobrancelhas dele contraíram-se.

— Que quer dizer? — perguntou-lhe.

— Você foi derrotado, Festini! Ontem, à noite, pude descobrir. Sir Ralph recebeu informações confidenciais do Governo, ordenando-lhe que se apresente para assistir ao fim. — Ao fim? — repetiu ele. — Não entendo. Quando deverá haver o fim?

— Hoje, — respondeu com firmeza.

—    Mas, você... você, — perguntou-lhe, — por que veio...?

Ela não falou, logo. Seus olhos continavam fixos nos dele.

—    Servi-o bem. — disse lentamente. — Deixe-me, então, servi-lo até o fim.

—    Mas, é que haverá muitos perigos para você!

—    Já sei que haverá perigo, — respondeu tranqüilamente.

—    Não posso permitir isso. Volte para junto dos seus ami­gos. Deixe-me lutar sozinho pela minha causa.

Ela moveu negativamente a cabeça e sorriu.

—    Nós combatemos juntos, Festini. Vim para ficar. Já conhecem seu esconderijo.

—    Tillizini? — perguntou sem ressentimentos.

Ela concordou com a cabeça.

—    Viu seu automóvel na cidade e suspeitou de você. Ajustou um pedaço de borracha numa das rodas. Essa adaptação possuía um sinal particular; Soube-o, ontem, à noite. A Polícia de todo o país esteve examinando as "estradas, para encontrar os vestígios de seu carro. Tillizini fez o resto.

—    Já compreendi. Que ira acontecer?

—    O lugar está cercado, — disse-lhe.

—    Cercado? — Ele não levantou a voz.

Aparentemente, não parecia alarmado. Fez a pergunta com ansiedade e pareceu-lhe que o interesse dele em conhecer o método empregado para capturá-lo era muito maior do que o das pos­síveis conseqüências.

—    Que quer dizer?                                                                             

Ela conduziu-o até à janela.

Estavam no lado oposto do aposento em que Marjorie estivera encerrada e dali dominava-se uma vista sem interrupção do campo, num espaço de seis a sete milhas.

A neblina noturna já descera e a noite estava clara e tran­qüila. As colinas baixas podiam ser distinguidas com clareza.

Ele viu as luzes que piscavam e que não lhe eram desconhecidas. Pertenciam a uma cabana situada a duas milhas de distân­cia e pôde orientar-se até onde ficava a estrada.

Ambos ficaram observando em silêncio. De repente, viram uma nova luz. Era mais potente do que as outras. Brilhou três vezes seguidas e logo desapareceu. Voltou a iluminar em intervalos re­gulares e manteve-se, assim, como se fôsse uma vela, cuja chama era movimentada pelo vento.

—    Agora compreendo, disse. É um sinal luminoso. Viu algum soldado?

Ela assentiu com um movimento de cabeça.

—    Deste lado do campo, há perto de uma dúzia de regimentos.

—    De infantaria? perguntou.

—    Sim, respondeu Vera, e também soldados a cavalo. Vi algumas metralhadoras e canhões, pelo lado de Witham.

—    E pelo lado do rio? interrompeu Festini.

—    Creio que estão alguns torpedeiros. Ontem, à noite, saíram de Chatham.

Ele dirigiu-se para o outro lado da casa, mas não pôde ver nada. Voltou ao quarto e conseguindo um par de binóculos de campanha, pôs-se a olhar o rio, perscrutando o panorama, deti­damente.

Conseguiu distinguir as chaminés baixas dos destróieres ancorados no meio do rio, com as luzes apagadas, sem dar sinal de vida.

Meneou lentamente a cabeça.

—    Compreendo agora, disse pela segunda vez. Venha comigo.

Colocou afetuosamente a mão no ombro de Vera e ela estremeceu a seu contato.        

Nada perguntara sobre Marjorie e nesse instante pensou nela. Parece que ele adivinhou seu pensamento, sem que ela o exter­nasse.

— A jovem fugiu, — disse. — Tillizini libertou-a, há menos de uma hora. Soltou também algumas pombas, — explicou com um sorriso.

Contou-lhe, então, tudo o que ocorrera ali.

— Penso que é o melhor, — disse Vera gravemente.

Não tinha nenhum ressentimento no coração contra essa traição, nem ele acreditou que fosse necessário explicar sua conduta, nem expressar seu remorso.

Esses dois seres possuíam muita coisa em comum, como ele sempre havia observado. Sabiam considerar as coisas debaixo de um mesmo ponto de vista.

—    Suponho, — falou, depois de se sentar junto "da mesa, com a cabeça entre as mãos, — que não há nenhuma possibilidade de rendição?

Ela meneou a cabeça.

—    Não aceitarão nenhuma rendição, — afirmou. — Vêm para exterminá-lo. Não se atrevem a prendê-lo, com medo de dissemi­nar a Praga.

—    São muito prudentes, — disse, — mas, contudo, eu creio...

Mordeu os lábios e ficou pensando.

—    Talvez... — começou de novo, mas sacudiu os ombros.

Caminhou com passo firme até à porta e chamou pelo «Boi».

Em poucas palavras, explicou-lhe a verdadeira situação.

—    Retire os rifles do depósito, — disse, — e forneça munição aos homens. Iremos abrir fogo, mas afirmo-lhes que não há ne­nhuma possibilidade de escapar. A última coisa que poderemos fazer é deixar atrás de nós uma pequena lembrança de nossas ati­vidades e de nossa bona fides!

Quando o homem saiu, voltou-se para Vera.

—    Querida, — disse gentilmente, — você deve voltar.

—    Vim para ficar, — disse ela. — Não desejo fim melhor do que este.

Ele olhou-a pensativamente, ternamente. Então, tomou sua face com as duas mãos e beijou-a longamente nos lábios.

—    Seja feita sua vontade! — disse. — Você me dará coragem, como nada me poderia dar, estando assim a meu lado!

Beijou-a de novo e sua cabeça repousou em seus ombros e seus braços rodearam-lhe o pescoço.

Ela estava feliz. Nenhuma alegria que ela pudera ter na vida fora tão grande como a presente.

Uma hora antes de romper o dia, Festini afastou-se da mulher que tanto se arriscara por ele e saiu para fazer uma inspeção.

Uma nova sentinela fora colocada no lugar de Gregório, Festini estava regressando e atravessou o aposento que lhe servia de dormitório comum e escritório para os da quadrilha, quando um tilintar de campainha fê-lo parar, de improviso. Voltou-se.

A casa possuía ligação telefônica e uma hora antes da che­gada de TillizinI, ainda que ele não o soubesse, os fios haviam sido desligados.

Adiantou-se para o aparelho e tomou o receptor.

Seria possível, por algum feliz acaso, que tivessem restau­rado os fios e que ele pudesse comunicar-se com alguns agentes da «Mão Vermelha», em Londres? O pensamento não lhe havia ocorrido antes, mas, à primeira palavra que ouviu, seus lábios entreabriram-se num sorriso irônico.

—    É você, Festini? — perguntou a voz.

—    Sim, — respondeu o conde, — creio que você é meu amigo Tillizini, não?

—    Sim, sou eu, — respondeu o outro com calma. — Não tem nada para me dizer?

Festini abaixou a cabeça. Durante um grande momento ficou em silêncio.

—    Nada tenho para dizer, — afirmou. — Você ganhou e eu perdi! Isso é tão evidente, que não precisa de explicação.

—    Nada mais? — interrogou outra vez.

Festini acreditou perceber uma nota de amargura.

—    Nada mais, — replicou firmemente. — Que poderia dizer- lhe? A não ser que perco com bom coração. Depois de tudo, tantas vezes deixei de lado meu credo, com respeito à vida e à morte, que ainda agora, frente à crise suprema de minha vida, não posso achar nenhum pensamento mais reconfortante que o do credo dos outros.

Ouviu a voz de Tillizini que estalava numa gargalhada. Um riso baixo, divertido, mas com certo tom de desespero.

— Como isto é próprio de você, Festini! — disse-lhe, — como isto é próprio de você!

— Que mais? — perguntou-lhe o conde. — Não esperaria que me arrependesse, nem oferecesse condições, não é? Desprezar-me-ia, se assim o fizesse, tal como aconteceria comigo, se me oferecesse um modo de fugir! Suponho, — perguntou-lhe, — que está falando de algum lugar seguro, não?

— Estou falando de um dos destróieres, — respondeu o outro. — Interceptamos seu telefone.

— Que está cortado, — disse Festini friamente.

—    Que está cortado, — repetiu o outro. — E Vera? — perguntou Tillizini, de repente.

— Gostaria de não falar desse assunto, — disse Festini.

—    Está com você?

— Sim, está aqui, — replicou Festini, depois de vacilar um momento. — Em justiça para comigo mesmo, procurei persuadi-la a voltar para junto dos seus. Poderia tirá-la daqui, sem nenhuma dificuldade.

— E ela recusou-se?

—    Sim, recusou-se, — afirmou Festini. — Penso que será melhor assim.

Ele estava de pé, com um dos cotovelos apoiados contra a parede. Quem não tivesse conhecimento das circunstâncias, poderia ser levado a pensar que ele desenvolvia uma conversação trivial e corrente, de pensamentos ordinários e sem conseqüências de importância.

Houve um grande silêncio e foi Festini quem tornou a falar.

—    Em toda sua filosofia, Tillizini, disse-lhe, — e admito que possua um vasto e amplo conhecimento dos assuntos humanos,

- Alguma vez, ocorreu-lhe pensar nessa coisa maravilhosa que é a vida? Afaste do pensamento as paixões e loucuras de uma vida e considere o essencial e a parte útil da existência. Existe algo tão devotado, tão especial, tão puramente nobre? E eu creio. — Tillizini ouviu-o rir, — eu creio que todos os aborrecimentos e dificuldades da minha vida, todos, os crimes, como você os chama, todos os meus afãs e aventuras, valeram esta recompensa que tenho. Tenho aqui o prêmio, provavelmente, muito mais valioso e belo que os dez milhões de libras que havíamos pedido ao Governo. E a propósito, suponho que iá o adotaram como cidadão,acrescentou lentamente.

—    Isso vale muito mais! afirmou Tillizini.

—    Isso vale tudo, disse Festini e sua voz vibrou. Sem isto, a filosofia seria coisa fútil, a vida não valeria a pena!

Sobreveio uma nova e grande pausa.

—    Não tem mais nada a me dizer? perguntou Tillizini.

—    Nada, respondeu Festini. Nada mais do que já dis­se. Acaso, não é o bastante? perguntou. Que deseja, Tillizini? Um arrependimento...? Que glutão você se tornou! Um arrependimento lacrimoso? Que aceite e confesse meus pecados e maldades? Que implore clemência? Tornou a rir. Não acre­dito que tenha esperado isso de mim, não é. verdade, meu amigo?

—    Não sei exatamente o que esperava! Creio que isso é tudo, -disse a voz de Tillizini.

—    Então, dir-lhe-ei «au revoir»! — exclamou Festini.

—    Adeus! respondeu logo a voz do outro.

Houve um silêncio tão grande que Festini pensou que o outro houvesse desligado o receptor.

Estava a ponto de desligar também, quando ouviu novamente a voz de Tillizini.

—    E «bom voyage»! disse.

Festini sorriu e os receptores telefônicos soaram ao mesmo tempo.

 

A EXECUÇÃO DA LEI

A aurora começava a espairar-se com um tom cinzento sobre o Essex.         

Sir Ralph Morte-Mannery, envolto em peles, dormitando em seu automóvel, foi despertado com a chegada de alguém, que tra­zia uma chícara de café.

Um jovem oficial, com a gola do casaco levantada até as orelhas, tinha aberto a porta do carro e com um sorriso oferecia- lhe a bebida.

—    Temo que não seja muito, Sir Ralph, — disse, — mas é tudo que lhe podemos oferecer.

—    Está na hora? — perguntou Sir Ralph.

— Quase, — respondeu o outro.

Sir Ralph bebeu o café e, devolvendo a xícara ao homem que a tomou, desceu do carro para a estrada.

A esquerda e à direita, viam-se tropas acampadas. Eram as forças da infantaria, alinhadas em filas sucessivas aqui e ali. Um pouco mais atrás, sobre uma lombada, os cavalos de uma bateria de campanha estavam sendo presos às peças de artilharia.

No centro do rio, os destróieres levantavam as âncoras e, a Um cabo de distância um do outro, iam avançando lentamente pelo rio.

No centro de uma planície verdejante, elevava-se uma casa.  Uma coberta de teto grande e baixo aparecia muito perto do edi­fício. Não se notava sinal de vida, com exceção de uma débil co­luna, de fumaça, que subia de uma das chaminés da rasa.

Dois oficiais a cavalo, chegaram a galope ao lugar onde es­cava o cavalheiro. Um deles cumprimentou-o.

—    Bom dia, Sir Ralph. Os juízes esperam-no. Desmontou do animal e entregou o cavalo a um soldado que esperava. Os dois homens começaram a andar ao largo do caminho.

Chegaram à fileira de soldados, que se achava mais próxima da casa.

Uma grande mesa havia sido colocada no meio do caminho e estava coberta com um pano cinza, rodeada de uma coleção de cadeiras diferentes umas das outras, trazidas da localidade mais próxima.

Um homem de chapéu copado e com abrigo de peles caminhava de um lado para outro, quando Sir Ralph chegou. Voltou-se e cumprimentou-o, tirando o chapéu.

—    Sir Ralph Morte-Mannery, — disse formalmente, — estou comissionado pelo Governo de Sua Majestade para entregar-lhe uma cópia da Lei que foi aprovada, ontem, à noite, pela Câmara dos Comuns e que recebeu a aprovação nas primeiras horas desta manhã.

Entregou o documento a Sir Ralph, que o tomou, fazendo uma ligeira inclinação de cabeça.

O senhor mesmo encontrar-se-á especificado neste documen­to como o Comissário, encarregado de dar cumprimento às dispo­sições desta Lei.

Sir Ralph abriu o envelope e extraiu folhas de papel escritas à máquina.

Leu o preâmbulo. Era uma lei que fora posta em vigor, ante o perigo que ameaçava a Inglaterra. Chegou na parte que determinava os deveres do Comissário e pôs-se a ler o parágrafo deti­damente.

Logo, aproximou-se da mesa e quatro homens foram instalar- se a seu lado, ficando dois à direita e dois à esquerda.

Sir Ralph tirou o chapéu e sua voz foi um pouco estridente e trêmula.

Frank Gallingford, que se achava parado àcurta distância com Tillizini, observava a cena extraordinária, com enorme interesse. O sentido da tragédia desse momento parecia oprimi-lo.

Ouviu a voz do cavalheiro, entrecortada, enquanto lia essa curta sentença:

... Por tudo o que, eu Ralph Morte-Mannery, Comissário de Sua Majestade, segundo o designa esta Lei, declaro que todas as pessoas que nesse momento habitem ou se encontrem no lugar conhecido como Falle’s Wharf, no condado de Essex, são pessoas sem nenhuma proteção da Lei e, portanto, declaro que são cul­padas de crime, que por esta Lei assim ficam especificados e são merecedoras do castigo de morte, e eu, em virtude do poder e autoridades que me foram conferidos, imponho a todos eles, con­junta ou separadamente, a sentença que a Lei ordena, que se faça fogo contra eles até que morram e que seus corpos sejam logo queimados...  

Sua voz vacilou, um pouco. Quando terminou a leitura os demais presentes viram que seus lábios se moviam, como se fizes­se uma prece.

Então, da casa, partiu o primeiro desafio da «Mão Vermelha»...

Ouviu-se uma descarga distante e Sir Ralph caiu de bruços na mesa... Estava morto.

Festini tinha visto a cerimônia, de longe e fez logo a exata posição de seu significado. Era um exímio atirador... A batalha prosseguiu durante vinte e cinco minutos. A infantaria avançava e, aproveitando-se das ondulações do terreno, que pudessem oferecer amparo, começou a fazer descargas cerradas, contra a casa e contra a coberta.

Três minutos depois de começado o ataque da infantaria, entrou em ação a bateria do 73º de Artilharia de Campanha. E simultaneamente os destróieres começaram a atirar tuas granadas em cima da vivenda.

Mas, a «Mão Vermelha» morria lutando. Tiro sobre tiro continuava partindo de seu interior. A cabana estava em chamas... parte da casa havia voado, expondo à vista a nudez de seu in­ferior.

Foi, então, que Frank pegou Tillizini pelo braço.

— Deus do céu! — disse. — Olhe!

No alto do teto, acabava de surgir duas figuras humanas: um homem e uma mulher!

O homem olhava com toda calma a avalanche destruidora, que avançava contra eles.

A mulher — Frank pôde vê-la com os binóculos de campanha, tinha a mão colocada no ombro dele. Frank deu um passo atrás: — É Vera! — murmurou.

Tillizini fez um sinal afirmativo com a cabeça.

Assim parece, — disse. — A mulher é mais alta do que eu imaginava.

Foi esse o seu único comentário.

Lá estavam os dois, oferecendo um alvo para os atiradores, mas, a presença da mulher fez desviar a mira dos fuzis dos soldados. Continuaram lá, sem sofrer dano. Viram quando a mão de Festini se levantou, num gesto de desafio. Em seguida, viram-no vacilar e cair.

A mulher ajoelhou-se a seu lado e tomou-o nos braços, prendendo-o com firmeza, junto do peito.

O que era fácil de ver para os homens da infantaria, ficava oculto às pessoas de bordo.

De repente, diretamente acima de suas cabeças, viu-se estalar uma granada e as duas figuras humanas, apertadas uma nos braços da outra, perderam-se de vista, no momento em que o teto voou pelos ares...

Frank voltou-se para olhar Tillizini. O rosto do italiano es­tava mais branco que nunca e os seus olhos, desmesuradamente abertos.

O inglês não podia falar. Passou o lenço pela fronte, coberta de suor e tinha as mãos trêmulas.

—    A Inglaterra deve-lhe algo, professor Tillizini, disse Frank, fitando com assombro seu companheiro silencioso.

Tillizini não deu nenhuma resposta.

Quando, um pouco mais tarde, cheio de cansaço e de tristeza, apresentou-se diante do Primeiro Ministro e recebeu as congratu­lações que o dignitário de Estado entendeu que lhe eram devidas, sentiu-se mais inclinado a julgar o papel decisivo que havia de­sempenhado em todo o assunto.

—    A detenção dessa quadrilha, disse o Primeiro Ministro, com entusiasmo, e a destruição do homem mais perigoso da Europa, são coisas que se devem unicamente ao senhor, professor Tillizini. Soube frustrar cada um de seus golpes. Quase poderia parecer, disse com um sorriso, que o senhor estava dentro de sua mente e que sabia qual iria ser seu próximo movimento.

—    Isso é muito provável, disse Tillizini. Eu conhecia muito bem a Festini e também os métodos que empregava. Sabia muita coisa de sua infância, de seus pais e das condições de sua vida.

Ficou pensativo, por um momento, como se estivesse extraindo as recordações do fundo de sua mente.

—    O ancião, Conde Festini, tinha dois filhos. O mais velho, a quem odiava, por alguma razão ignorada, e o caçula, a quem adorava e assim o pôs a perder! O Conde Festini foi sempre um líder destas espécies de organizações. Dizia que perseguia uma «vendetta», que datava de duzentos anos atrás! O ancião conseguiu levá-la a cabo, ao destruir o último dos fatores que se lhe opunham.             

E concluiu tristemente:

—    Não foi culpa do homem morto, hoje, acrescentou, que as coisas se encaminhassem para esse destino e tivessem tal desfecho. Foi educado e adestrado neste trabalho... foi um ele­mento esperto e voluntarioso para a «Mão Vermelha», até que por seu próprio gênio, chegou a se converter em seu diretor.

—    E que aconteceu ao Irmão mais velho? — perguntou o Primeiro Ministro com curiosidade.

—    Eu sou o irmão mais velho! — disse Tillizini e seu sorriso tinha alguma coisa de malignidade.

 

                                                                                            Edgar Wallace

 

 

                      

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