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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A Rosa Negra / Nora Roberts
A Rosa Negra / Nora Roberts

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Rosa Negra

 

Memphis, Tennessee Dezembro de 1892

Ela vestiu-se cuidadosamente, preocupando-se com os pormenores do seu aspecto como havia meses que não fazia. A criada de quarto fora-se embora há algumas semanas e não tivera nem a coragem nem a vontade de contratar outra. Assim, passou uma hora com os ferros de frisar, como costumava fazer nos anos antes de lhe ser proporcionada uma vida tão sumptuosa, encaracolando e penteando meticulosamente o cabelo acabado de lavar.

Perdera o brilho dourado e luminoso durante o longo e sombrio Outono, mas sabia quais as loções e poções que lhe restituiriam o brilho, quais os frascos de maquilhagem a escolher para dar uma falsa cor às faces e aos lábios.

Conhecia todos os truques do ofício. De que outra forma poderia ter chamado a atenção de um homem como Reginald Harper? De que outra forma poderia tê-lo seduzido e ter-se tornado sua amante?

Voltaria a usá-los de novo, a todos eles, pensou Amélia, a fim de o seduzir outra vez e levá-lo a fazer tudo o que tinha de ser feito.

Ele não viera, durante todo aquele tempo, durante todos aqueles meses, ele não viera ter com ela. Por isso, fora obrigada a enviar bilhetes para os seus estabelecimentos comerciais, implorando-lhe que viesse, tendo sido ignorada.

Ignorada depois de tudo o que fizera, de tudo o que fora, de tudo o que perdera.

Que escolha tinha ela a não ser enviar mais bilhetes para casa dele? Para a imponente Harper House, onde a sua pálida esposa reinava. Onde uma amante jamais poderia entrar.

Não lhe dera tudo o que ele poderia pedir, tudo o que poderia desejar? Trocara o seu corpo pelo conforto daquela casa, pela comodidade dos criados, pelas ninharias, como as pérolas que agora pendiam das suas orelhas.

Bagatelas para um homem da sua posição e riqueza, e, outrora, tinham sido esses os limites da sua ambição. Apenas um homem e aquilo que este lhe pudesse oferecer. Mas ele dera-lhe mais do que ambos tinham combinado e agora não conseguia suportar a perda.

Por que razão não viera consolá-la? Sofrer com ela?

Alguma vez se queixara? Alguma vez o expulsara da sua cama? Ou sequer mencionara a outra mulher que ele mantinha?

Dera-lhe a sua juventude e beleza. E, ao que parecia, a sua saúde.

E agora abandonava-a? Agora rejeitava-a?

Disseram-lhe que o bebé nascera morto. Um nado-morto, chamaram-lhe. Uma menina nada-morta que perecera dentro de si.

Mas... mas...

Ela não a sentira mexer-se? A dar pontapés e a crescer cheia de energia sob o seu coração? Dentro do seu coração. A criança que não desejara e que se transformara no seu mundo. Na sua vida. O filho que crescera dentro de si.

O filho, o filho, pensava ela agora, enquanto os seus dedos puxavam os botões do roupão e os lábios pintados formavam as palavras uma e outra vez.

Ouvira-o chorar. Sim, sim, tinha a certeza disso. Por vezes, ainda o ouvia chorar, durante a noite, a chorar para que fosse para junto dele e o acalmasse.

Mas, quando ia ao quarto do bebé e olhava para dentro do berço, este estava vazio. Como o seu ventre estava vazio.

Diziam que estava louca. Ouvia os criados que lhe restavam a segredar, via a forma como a olhavam. Mas não estava louca.

”Não estou louca, não estou louca”, disse para consigo, enquanto andava pelo quarto que outrora tratara como um palácio de sensualidade.

Agora a roupa da cama raramente era mudada e os cortinados estavam sempre bem fechados, de forma a esconder a cidade lá fora. E as coisas estavam sempre a desaparecer. Os criados eram ladrões. Sabia que eram uns ladrões e uns patifes. E espiões.

Observavam-na e segredavam.

Qualquer dia, matavam-na enquanto dormia. Qualquer dia.

Não conseguia dormir com medo de que tal acontecesse. Não conseguia dormir por causa dos gritos do filho dentro da sua cabeça. A chamá-la. A chamá-la.

Mas tinha ido ver a rainha vodu, recordou. Pedira-lhe que a protegesse e que lhe desse informações. Pagara por ambas as coisas com a pulseira de rubis que Reginald lhe oferecera. As pedras tinham a forma de corações a sangrar contra o brilho gelado dos diamantes.

Pagara pelos amuletos que guardava debaixo da almofada e dentro de um saquinho de seda, por cima do coração. Pagara, e bem, pelo feitiço de ressurreição. Um feitiço que falhara.

Porque o filho estava vivo. Fora essa a informação que a rainha vodu lhe dera e que valia mais do que dez mil rubis.

O seu filho estava vivo, estava vivo, e agora tinha de o encontrar. Tinha de o trazer para junto de si, onde era o seu lugar.

Reginald tinha de o encontrar, tinha de pagar o que fosse preciso.

”Tem cuidado, tem cuidado”, alertou-se a si própria ao sentir o grito preso na sua garganta. Ele só acreditaria nela se permanecesse calma. Só lhe prestaria atenção se estivesse linda.

A beleza seduzia os homens. Com beleza e encanto, uma mulher podia ter tudo o que desejasse.

Virou-se para o espelho e viu o que precisava ver. Beleza, encanto, graça. Não viu que o vestido vermelho caía sobre os seios, estava largo nas ancas e dava à sua tez pálida um tom amarelo e lívido. O espelho reflectiu o emaranhado desordenado de caracóis, os olhos excessivamente brilhantes e as faces demasiado vermelhas. Mas os seus olhos, os olhos de Amélia, viram o que ela fora antigamente.

Jovem e bela, desejável e maliciosa.

Assim, desceu as escadas a fim de esperar pelo amante, cantando baixinho.

”Lavender’s blue, dilly, dilly. Lavender’s green.””

Na sala de estar, o fogo ardia e o candeeiro a gás estava aceso. Assim os criados também seriam cuidadosos, pensou, com um sorriso tenso. Sabia que o senhor da casa estava prestes a chegar e era ele quem lhes pagava.

Fosse como fosse, iria dizer a Reginald que tinham de ser dispensados todos eles, e substituídos.

E queria que ele contratasse uma ama para o seu filho, para James quando este lhe fosse devolvido. ”Uma rapariga irlandesa”, pensou. Tinha a ideia de que eram alegres para os bebés. Queria um quarto alegre para o seu James.

Embora tivesse visto o whisky em cima do aparador, serviu-se de um copo de vinho e sentou-se à espera.

À medida que o tempo passava, começou a ficar com os nervos em franja. Bebeu um segundo copo de vinho e depois um terceiro. E, ao ver através da janela a carruagem dele a parar, esqueceu-se de ser cuidadosa e permanecer calma e voou para a porta.

Verso de uma canção de embalar, intitulada ”Lavender’s Blue”. (N. do T.)

- Reginald. Reginald.

A dor e o desespero jorraram como serpentes, a silvar e a contorcer-se. Atirou-se para os braços dele.

- Controla-te, Amélia. - As mãos dele agarraram os ombros magros da mulher e empurraram-na para trás. - O que dirão os vizinhos?

Fechou a porta rapidamente e, com um olhar duro, fez com que um criado se apressasse a recolher o seu chapéu e a bengala.

- Não me interessa! Oh, porque não vieste antes? Precisei tanto de ti. Recebeste as minhas cartas? Os criados, os criados mentem. Não as enviaram. Não passo de uma prisioneira.

- Não sejas ridícula. - Uma expressão breve de repugnância ensombrou-lhe o rosto, enquanto fugia a mais uma tentativa por parte dela de o abraçar. - Acordámos que nunca tentarias contactar-me em casa, Amélia.

- Tu não vieste. Tenho estado sozinha. Eu...

- Tenho andado ocupado. Agora vem. Senta-te. Acalma-te.

Ainda assim, ela agarrou-se ao seu braço enquanto ele a conduzia até à sala de estar.

- Reginald. O bebé. O bebé.

- Sim, sim. - Libertou-se da mão dela e empurrou-a levemente para uma cadeira. - É uma pena - comentou, dirigindo-se ao aparador, onde se serviu de um whisky. - O médico disse que não havia nada a fazer e que precisavas de descansar e de sossego. Ouvi dizer que não tens andado a sentir-te bem.

- Mentiras. É tudo mentira.

Virou-se para a encarar, analisando o seu rosto e o vestido que não lhe assentava bem.

- Posso ver que não estás bem, Amélia. Talvez o ar do mar te ajude.

- Encostou-se ao rebordo da lareira com um sorriso frio nos lábios. - Gostavas de atravessar o oceano? Acho que seria o ideal para te acalmares e recuperares a saúde.

- Quero o meu filho. Ele é tudo o que eu preciso.

- O teu filho morreu.

- Não, não, não. - Pôs-se de pé de um salto, com o intuito de o agarrar novamente. - Eles roubaram-no. Ele está vivo, Reginald. O nosso filho está vivo. O médico, a parteira, foram eles. Agora sei de tudo, compreendo tudo. Tens de ir à polícia, Reginald. Eles vão dar-te ouvidos. Tens de pagar seja qual for o resgate exigido.

- Isso é uma loucura, Amélia. - Forçou-a a largar-lhe a lapela e depois alisou as marcas deixadas no tecido. - É claro que não vou à polícia.

- Então vou eu. Amanhã, vou falar com as autoridades.

O sorriso frio dele foi desaparecendo até o seu rosto adquirir uma expressão dura como pedra.

- Não vais fazer nada disso. Vais embarcar num cruzeiro para a Europa, com dez mil dólares para te ajudar a estabeleceres-te em Inglaterra. Serão os meus presentes de despedida.

- Despedida? - Tacteou em busca do braço de uma cadeira e deixou-se cair nela à medida que sentia as pernas a ceder. -Tu... tu eras capaz de me deixar agora?

- Não pode haver mais nada entre nós. Vou garantir que fiques bem instalada e acredito que recuperarás a saúde com uma viagem por mar. Em Londres, certamente encontrarás outro protector.

- Como posso eu ir para Londres quando o meu filho...

- Vais - atalhou ele, dando depois um pequeno gole na sua bebida.

- Ou não te darei coisa alguma. Não tens filho. Não tens nada além daquilo que estou a pensar dar-te. Esta casa e tudo o que se encontra dentro dela, as roupas que vestes, as jóias que usas, são minhas. Seria sensato que te lembrasses de como seria fácil tirar-te tudo isso.

- Tira-mas - murmurou ela. Algo no rosto dele, alguma coisa na mente fracturada dela fez com que percebesse a verdade. - Queres ver-te livre de mim porque... tu sabes. Foste tu que levaste o bebé.

Ele terminou a bebida, estudando-a. Depois pousou o copo vazio em cima do rebordo da lareira.

- Achas que ia permitir que uma criatura como tu educasse o meu filho?

- Meu filho!

Ergueu-se mais uma vez de um salto, torcendo as mãos como se fossem garras. A bofetada deteve-a. Nos dois anos em que fora seu protector, nunca levantara a mão para ela.

- Agora ouve-me com atenção. Não vou deixar que o meu filho seja um bastardo, dado à luz por uma rameira. Será educado na Harper House, como meu legítimo herdeiro.

-A tua mulher...

- Faz o que lhe mando. Tal como tu, Amélia.

- Vou à polícia.

- E vais dizer-lhes o quê? O médico e a parteira que te assistiram irão atestar que deste à luz uma menina nada-morta, enquanto outros irão declarar que a minha mulher deu à luz um rapaz saudável. A tua credibilidade, Amélia, é nula em face da minha e da deles. Os teus próprios criados irão jurar que foi o que aconteceu, bem como que tens estado doente e a comportar-te de forma estranha.

- Como és capaz de fazer isto?

- Preciso de um filho. Achas que te escolhi por afecto? És jovem, saudável... ou eras. Foste paga e bem paga pelos teus serviços. Serás recompensada por este.

- Não podes mantê-lo afastado de mim. Ele é meu.

- Só é teu aquilo que eu permito que seja. Ter-te-ias visto livre dele, caso te tivesse sido dada essa oportunidade. Não te aproximarás dele nem agora nem nunca. Irás fazer a travessia daqui a três semanas. Será feito um depósito de dez mil dólares na tua conta. Até lá, continuarei a pagar as tuas contas. É tudo o que terás.

- Mato-te! - gritou ela, quando ele se dirigiu à porta.

Pela primeira vez desde que chegara, ele pareceu divertido.

- És patética. Normalmente, as rameiras são-no. Fica certa de uma coisa, se te aproximares de mim ou dos meus, Amélia, faço com que te prendam e te internem no asilo para os loucos criminosos. - Fez sinal ao criado para que lhe trouxesse o chapéu e a bengala. - Não te agradaria.

Ela gritou, puxando os cabelos e o vestido. Gritou até o sangue lhe correr da carne, lacerada pelas próprias unhas.

Quando a mente dela cedeu, subiu as escadas com o seu vestido feito em farrapos, trauteando uma canção de embalar.

 

Harper House Dezembro de 2004

A madrugada, com a sua promessa de renascimento, era a altura do dia em que mais gostava de correr. A corrida em si era algo que tinha de fazer, três dias por semana, tal como qualquer outra tarefa ou responsabilidade. Rosalind Harper fazia o que tinha de ser feito.

Corria porque fazia bem à saúde. Uma mulher que acabara de fazer (dificilmente poderia dizer ”celebrar” naquela etapa da vida) o seu quadragésimo sétimo aniversário tinha de ter cuidado com a saúde. Corria para se manter forte, pois desejava e precisava de força. E corria por vaidade. O seu corpo jamais voltaria a ser o que fora aos vinte, ou até mesmo aos trinta, mas, por Deus, teria o melhor corpo que conseguisse aos quarenta e sete anos de idade.

Não tinha marido, nem amante, mas havia uma imagem a manter. Era uma Harper e os Harper tinham o seu orgulho.

Mas, por todos os santos, a manutenção era um caso sério.

Com uma camisola a protegê-la do frio da madrugada, saiu do quarto pela porta do terraço. Todos dormiam ainda. A sua casa, que estivera demasiado vazia, encontrava-se agora ocupada novamente e era raro estar completamente silenciosa.

Havia David, o seu filho substituto, que mantinha a casa em ordem, que a divertia quando precisava que a divertissem e que a deixava sozinha quando necessitava de solidão.

Ninguém conhecia tão bem os seus estados de espírito como David.

E havia Stella e os seus dois filhos maravilhosos. Fora um dia de sorte aquele em que contratara Stella Rothchild para gerir o viveiro, pensou Roz enquanto fazia os exercícios de aquecimento no terraço.

Claro que Stella em breve partiria, levando com ela aqueles rapazinhos amorosos. Ainda assim, logo que se casasse com Logan (e era uma bela união), iriam viver a poucos quilómetros de distância.

Hayley permaneceria ali, inundando a casa com toda aquela juventude e energia. Fora outro golpe de sorte e um laço familiar vago e distante que fizera com que Hayley, na altura grávida de seis meses, aterrasse à sua porta. Em Hayley tinha a filha que desejara em segredo e o bónus de uma neta honorária com a querida e pequena Lily.

Não se tinha apercebido de como estivera sozinha, pensou Roz, até aquelas raparigas terem vindo preencher esse vazio. Depois de dois dos três filhos terem saído de casa, esta tornara-se demasiado grande, demasiado silenciosa. E uma parte de si receava o dia em que Harper, o seu primogénito, o seu porto seguro, abandonaria a casa de hóspedes que ficava a curta distância da casa principal.

Mas a vida era assim. Ninguém melhor do que uma florista para saber que a vida nunca era estática. Os ciclos eram necessários, pois sem eles nada floria.

Desceu as escadas numa corrida fácil e apreciou a forma como a névoa matinal envolvia os jardins de Inverno. Como estava bonita a orelha-de-cabra com a sua folhagem prateada coberta de orvalho. E os pássaros ainda não se tinham dedicado aos frutos brilhantes da aronia.

Dirigiu-se à frente da casa. Andava para que os músculos aquecessem e para apreciar os jardins. Aumentou o ritmo para passo de corrida ligeira enquanto percorria o caminho de acesso para carros. Era uma mulher alta e esbelta, de cabelo preto curto e desalinhado. Os olhos, de um castanho cor de mel, perscrutavam o terreno: as magnólias imponentes, os cornisos delicados, a disposição dos arbustos ornamentais, a imensidão de amores-perfeitos que plantara semanas antes e os canteiros que só teriam flor dali a algum tempo.

Para ela, não havia terreno no Oeste do Tennessee que pudesse competir com a Harper House, tal como não havia casa que se equiparasse à sua imponente elegância.

Por hábito, parou no fim do caminho de acesso e deixou-se ficar a correr no mesmo lugar, observando a casa por entre a névoa cor de pérola.

Pareceu-lhe grandiosa, com a sua mistura de estilos revivalista grego e gótico, a pedra amarela quente destacando-se contra os remates brancos. A escadaria dupla subia até à varanda que envolvia o primeiro andar, coroando o átrio coberto no rés-do-chão.

Adorava as janelas altas, a madeira trabalhada no parapeito do segundo andar, o amplo espaço e a herança que lhe estava subjacente.

Estimava-a e cuidava dela desde que lhe chegara às mãos, após a morte dos pais. Criara aí os filhos e, quando perdera o marido, chorara aí.

Um dia, deixá-la-ia a Harper, tal como lhe fora deixada a si. Agradecia a Deus por ter a certeza de que a estimaria da mesma forma que ela.

O que lhe custara não se comparava ao que a casa lhe dava, mesmo naquele preciso momento, ao fundo do caminho de acesso, enquanto olhava por entre a névoa matinal.

Mas ficar ali não a ia fazer percorrer os cinco quilómetros. Dirigiu-se para oeste, mantendo-se junto ao passeio, embora houvesse pouco trânsito àquela hora da manhã.

Para afastar a mente do aborrecimento que era o exercício, começou a rever mentalmente a lista das coisas que teria de fazer naquele dia.

Havia algumas plantas anuais que semeara, cujas folhas embrionárias deviam ser removidas. Tinha de confirmar se essas plantas não estariam a murchar devido ao excesso de humidade. Talvez estivesse na altura de transplantar algumas das mais antigas.

Recordou também que Stella lhe pedira mais amarílis, mais bolbos forçados, mais coroas e estrelas-de-natal para as vendas natalícias. Hayley podia tratar das coroas. A jovem tinha mão para esse tipo de coisas.

Também era preciso tratar das árvores de Natal e do azevinho que tinham sido cultivados no campo. Graças a Deus, podia deixar isso com Logan.

Tinha de falar com Harper para saber se já tinha prontos mais alguns dos cactos-de-natal que ele enxertara. Queria ficar com uns quantos.

Ia revendo os assuntos relacionados com a empresa de jardinagem quando passou pelas suas instalações. Era sempre tentador sair da estrada para aquela entrada de pedra britada e oferecer a si própria uma visita àquilo que construíra com as suas mãos.

Roz notou com prazer que Stella se preparara para a quadra, tendo agrupado estrelas-de-natal verdes, rosas, brancas e vermelhas numa marcha de cor festiva à frente da casa baixa que servia de entrada para o espaço de venda ao público. Tinha pendurado mais uma coroa à porta, com luzes brancas minúsculas à volta, e o pequeno pinheiro que trouxera do campo estava decorado no alpendre.

Amores-perfeitos brancos, azevinho brilhante e salva resistente proporcionavam um interesse adicional e serviriam para aumentar as vendas.

Roz resistiu à tentação e prosseguiu estrada abaixo.

Tinha de desencantar mais tempo para terminar as compras de Natal se não naquele dia, mais para o fim da semana. Pelo menos teria de adiantar essas compras. Teria de comparecer em algumas festas e havia ainda aquela que decidira fazer. Há já algum tempo que não abria as portas da sua casa para uma grande recepção.

Tinha de admitir que o divórcio fora, pelo menos em parte, responsável por isso. Não tivera grande vontade de organizar festas, numa altura em que se sentira estúpida, magoada e bastante humilhada pela união disparatada, mas felizmente breve, com um mentiroso e vigarista.

Mas era altura de pôr tudo isso para trás das costas, decidiu, tal como fizera com ele. O facto de Bryce Clerk ter regressado a Memphis fazia com que fosse ainda mais importante viver a sua vida tal como desejava, quer em público quer em privado.

Ao fim de dois quilómetros e meio, um ponto que tinha como marca uma nogueira antiga que fora atingida por um relâmpago, deu meia-volta. O nevoeiro pouco espesso humedecera-lhe o cabelo e a camisola, mas sentia os músculos quentes e descontraídos. Que treta, pensou, que tudo o que era dito sobre o exercício fosse verdade.

Avistou um veado na estrada, com a pelagem mais espessa devido ao Inverno e os olhos alerta pela intrusão de um humano.

”És lindo”, pensou Roz, um pouco ofegante no último quilómetro. Mas afasta-te dos meus jardins. Arquivou mentalmente mais uma nota para tratar os jardins com outra dose de repelente, antes que o veado e os amigos decidissem invadi-los para um lanche.

Roz estava a entrar no carreiro de acesso à casa quando ouviu passos abafados e viu o vulto que se aproximava. Mesmo no nevoeiro, não teve dificuldade em identificar o outro madrugador.

Pararam os dois, correndo sem sair do lugar, e ela sorriu para o filho.

- Levantaste-te com as galinhas.

- Pensei em acordar cedo para te encontrar. - O jovem passou a mão pelo cabelo escuro. - Com a celebração do Dia de Acção de Graças e depois os teus anos, achei que devia eliminar o excesso antes do Natal.

- Nunca ganhas um quilo que seja. É irritante.

- Sinto-me mole. - Fez um movimento de rotação com os ombros e depois revirou os olhos, do mesmo tom de castanho dos da mãe, e riu-se.

- Além disso, tenho de estar à altura da minha mamã.

Eram parecidos. Não havia dúvida de que as feições dele eram decalcadas das dela. Mas, quando se ria, Roz via o pai do jovem.

- Isso é que era bom, meu rapaz. Até onde é que vais?

- Até onde é que foste?

- Cinco quilómetros. O jovem sorriu.

- Nesse caso, vou fazer seis.

Afagou a face da mãe ao de leve ao passar por ela.

- Devia ter-lhe dito oito, só para o irritar. - Abafou uma gargalhada e, abrandando para um passo rápido, percorreu o caminho de acesso.

A casa cintilava por entre a névoa. Pensou: ”Graças a Deus que por hoje já acabou.” Contornou o edifício, para entrar por onde saíra.

A casa continuava sossegada e adorável. E assombrada.

Tomou um duche e vestiu-se para o trabalho. Começara a descer a escada central que cruzava as alas quando ouviu os primeiros sons.

Os filhos de Stella preparavam-se para a escola e Lily brincava com o seu pequeno-almoço. Eram sons agradáveis, pensou Roz. Sons familiares das rotinas diárias de que sentira a falta.

Claro que tivera a casa cheia duas semanas antes, com todos os filhos ali reunidos para o Dia de Acção de Graças e para o seu aniversário. Austin e Mason regressariam pelo Natal. Uma mãe de filhos crescidos não podia esperar mais.

Sabe Deus quantas vezes ela desejara um pouco de sossego quando eles estavam a crescer. Apenas uma hora de paz absoluta em que não tivesse nada de mais excitante para fazer do que tomar um banho quente.

Depois, ficara com demasiado tempo livre, não fora? Demasiado sossego, demasiado espaço vazio. Por isso, acabara por se casar com um sacana manhoso que se aproveitara do seu dinheiro para impressionar as bimbas com quem a traía.

”Leite derramado”, recordou-se Roz, e não servia de nada chorar sobre ele.

Entrou na cozinha, onde David batia qualquer coisa numa taça, e o cheiro sedutor do café fresco pairava no ar.

- Bom dia, linda. Como vai a minha menina predilecta?

- Acho que ainda aí para as curvas. - Dirigiu-se ao armário, de onde tirou uma caneca. - Como foi o teu encontro ontem à noite?

- Prometedor. Ele gosta de martini com Crey Coose e de filmes do John Waters. Vamos repetir a dose este fim-de-semana. Senta-te. Estou a fazer fatias douradas.

- Fatias douradas? - Era uma fraqueza pessoal. - Raios te partam, David. Acabei de correr cinco quilómetros para que o meu rabo não chegue aos joelhos e depois vens tu com fatias douradas.

- Tens um rabo muito bonito que não está nem perto dos joelhos.

- Ainda - resmungou Roz, mas sentou-se. - Passei pelo Harper que vinha a chegar. Se ele descobre a ementa, não tarda nada está aí a cheirar.

- Vou fazer bastantes.

Roz deu um gole no café enquanto David aquecia a frigideira.

Era bonito como uma estrela de cinema, apenas um ano mais velho de que o seu Harper e uma das maravilhas da sua vida. Em criança fora dócil e agora praticamente geria a casa.

- David... esta manhã dei comigo a pensar no Bryce por duas vezes O que achas que isso pode querer dizer?

- Quer dizer que precisas desta fatia dourada - replicou, enquanto ensopava fatias grossas de pão no seu polme mágico. - E provavelmente andas com a nostalgia da quadra.

- Pu-lo a andar mesmo antes do Natal. Deve ser isso.

- E que Natal feliz que foi, com aquele sacana ao frio. Gostava que tivesse estado frio - acrescentou. - A chover gelo, rãs e pestilência.

- Vou perguntar-te uma coisa que nunca perguntei enquanto a relação durou. Porque é que nunca me disseste que antipatizavas com ele?

-Talvez pela mesma razão por que nunca me disseste que antipatizavas com aquele actor desempregado com falso sotaque britânico por quem julgava estar doidinho aqui há uns anos. Adoro-te.

- É uma boa razão.

David acendera o lume na pequena lareira da cozinha, e Roz virou-se para ele, bebeu mais um gole de café e sentiu-se segura e confiante.

- Sabes, se pudesses envelhecer vinte anos e começasses a gostar de mulheres, podíamos viver juntos em pecado. Acho que seria muito bom.

- Querida. - Colocou o pão na frigideira. - És a única rapariga no mundo que poderia tentar-me.

Roz sorriu. Apoiou o cotovelo na mesa e pousou o queixo na mão.

- O Sol está a aparecer - declarou. - O dia vai estar bonito.

Um dia bonito no início de Dezembro significava um dia atarefado no centro de jardinagem. Roz esteve tão ocupada que ficou grata por não ter resistido ao pequeno-almoço com que David a enchera. Não almoçou.

Na estufa, tinha uma mesa cheia de tabuleiros semeados. Já separara os espécimes demasiado jovens para serem transplantados e começava agora a mudar os que julgava prontos para isso.

Alinhou as floreiras, os contentores individuais de plástico e turfa prensada e os vasos. Colocar as plantas jovens e fortes na casa que ocupariam até serem plantadas na terra era uma das suas tarefas preferidas, ainda mais do que semear.

Até à altura da plantação, eram todas suas.

E, nesse ano, ia experimentar a sua própria terra para vasos. Há mais de dois anos que testava várias misturas e acreditava ter encontrado uma vencedora, quer para uso no interior ou ao ar livre. A mistura para o exterior deveria servir na perfeição para a estufa.

Encheu os recipientes com a terra que misturara cuidadosamente, testou a humidade, à qual deu o seu aval. Ergueu com cuidado as plantas jovens, segurando-as pelas folhas embrionárias. Ao transplantá-las, teve o cuidado de manter o solo à mesma altura do caule, após o que compactou a terra à volta das raízes com os dedos experientes.

Encheu vaso atrás de vaso e etiquetou-os, enquanto trauteava a música de Enya que tocava baixinho no leitor de CDs portátil, um equipamento que considerava essencial numa estufa.

Regou as plantas com uma solução fertilizante fraca.

Satisfeita com o trabalho, dirigiu-se à zona das perenes. Deu uma vista de olhos à secção: plantas que tinham sido recentemente enraizadas em estaca, outras enraizadas havia mais de um ano e que, dali a poucos meses, estariam prontas a ser vendidas. Regou-as e podou-as, dirigindo-se então às plantas-mãe para retirar mais estacas. Começara um tabuleiro de anémonas quando Stella apareceu.

- Tens andado ocupada. - Stella, com o cabelo ruivo encaracolado apanhado num rabo-de-cavalo, perscrutou as mesas. - Muito ocupada.

- E optimista. Tivemos muito sucesso na última quadra festiva e espero repetir a proeza. Se a Natureza não nos tramar.

- Imaginei que quisesses dar uma vista de olhos à nova remessa de coroas. A Hayley passou a manhã toda a trabalhar nelas. Acho que desta vez se excedeu.

- Vejo-as antes de sair.

- Deixei-a sair mais cedo, espero que não te importes. Ainda não se habituou a deixar a Lily com uma ama, mesmo sendo ela uma cliente e estando apenas a quinhentos metros daqui.

- Não há problema. - Dirigiu-se às margaridas. - Sabes que não tens de confirmar todos os pormenores comigo, Stella. Já há quase um ano que estás ao leme deste barco.

- Era uma desculpa para vir até aqui.

Roz fez uma pausa, com a faca suspensa por cima das raízes da planta, preparada para começar a cortar.

- Passa-se alguma coisa?

- Não. Tenho andado para perguntar, e sei que esse é o teu terreno, mas será que, quando as coisas acalmarem um pouco depois do Natal, posso passar algum tempo com a propagação? Já tenho saudades.

- Está bem.

Os olhos azuis de Stella cintilaram quando se riu.

- Sei que não gostarias que eu alterasse a tua rotina e organizasse as coisas à minha maneira. Prometo que não o vou fazer. E não vou estorvar-te.

- Experimenta e ponho-te a andar.

- Entendido.

- Entretanto, queria falar contigo. Preciso que me descubras um fornecedor de sacos para terra, que sejam bons e baratos. Para começar, de meio quilo, dois, cinco e dez quilos.

- Para? - perguntou Stella, retirando um bloco de notas do bolso de trás.

- Vou começar a produzir e a vender a minha própria terra para vasos. Tenho uma mistura para interiores ou exteriores de que gosto e quero comercializá-la.

- É uma óptima ideia. Dá bastante lucro. Além de que os clientes vão gostar de ter os segredos de jardinagem da Rosalind Harper. Mas é preciso pensar em algumas coisas.

- Já pensei. Não vou ficar entusiasmada logo à partida. Vamos manter as coisas discretas. - Ainda com terra nas mãos, pegou numa garrafa de água que estava na prateleira. Depois, limpando distraidamente a mão na camisola, rodou a tampa. - Quero que os empregados aprendam a ensacar, mas a mistura é um segredo meu. Vou dar a ti e ao Harper os componentes e as quantidades, mas não quero que os outros fiquem a saber. Por agora, vamos fazer tudo na arrecadação principal. Se as coisas forem para a frente, construímos um barracão próprio.

-A lei diz...

-Já a estudei. Não vamos usar pesticidas e vou manter o nível de nutrientes abaixo dos limites legais. - Ao reparar que Stella continuava a escrevinhar no bloco, Roz bebeu um grande gole. -Já pedi a licença para produzir e vender.

- Não me disseste nada.

- Não fiques magoada. - Roz pousou a garrafa e meteu uma estaca na terra. - Não tinha a certeza de ir em frente com isto, mas queria tratar da burocracia. É um projecto pessoal em que tenho vindo a trabalhar há já algum tempo. Mas já plantei alguns espécimes nessa mistura e, até agora, tenho gostado dos resultados. Tenho outras plantas a crescer e, se continuar a gostar dos resultados, avançamos. Por isso, quero ter uma ideia de quanto nos vão custar os sacos e a impressão. Quero uma coisa elegante. Pensei que pudesses esboçar alguns logotipos. És boa nisso. A No Jardim precisa de destaque.

- Sem dúvida.

- E sabes do que eu gostava mesmo? - Fez uma curta pausa, visualizando a sua ideia. - Sacos castanhos. Qualquer coisa parecida com serapilheira. Antiquados, se é que me entendes. Assim estamos a dizer: isto é terra da boa, à moda antiga. E acho que quero flores silvestres no saco. Flores simples.

- Como que a dizer: é fácil de usar e vai fazer com que o seu jardim seja fácil de cultivar. Vou tratar disso.

- Posso contar contigo para tratar dos custos, dos lucros e da questão de marckting, não posso?

- Estou à tua disposição.

- Eu sei que estás. Vou acabar estas estacas e depois, se não houver mais nada, também vou sair mais cedo. Quero ver se faço algumas compras.

- Roz, já são quase cinco horas.

- Cinco? Não pode ser. - Ergueu o braço, rodou o pulso e franziu as sobrancelhas para o relógio. - Ora bolas. O tempo voltou a fugir-me. Fazemos assim: amanhã saio ao meio-dia. Se não sair, vem ter comigo e põe-me na rua.

- Não te preocupes. É melhor voltar lá para a frente. Vemo-nos em casa.

Quando chegou a casa, encontrou luzes de Natal a piscar nas caleiras, coroas a cintilar nas portas e velas a tremeluzir nas janelas. A entrada estava ladeada por dois pinheiros em miniatura, envoltos em luzes brancas minúsculas.

Só teve de entrar para ser cercada pelo espírito da quadra natalícia.

No átrio, fitas vermelhas e luzes cintilantes decoravam o corrimão, com estrelas-de-natal brancas em vasos vermelhos debaixo dos pilares da escada em caracol.

A taça de prata da bisavó tinha sido polida e cheia com maçãs vermelhas reluzentes.

Na sala de estar, um abeto, decerto vindo do seu terreno, dominava as janelas da frente. O rebordo da lareira exibia os Pais Natais de madeira que coleccionava desde que estivera grávida de Harper, com arranjos de folhas verdes pendurados nas extremidades.

Os dois filhos de Stella estavam sentados de pernas cruzadas à frente da árvore, fitando-a com os olhos arregalados.

- Não é uma maravilha? - Hayley equilibrava a morena Lily na anca.

- Não é espantoso?

- O David deve ter trabalhado que nem um mouro.

- Nós ajudámos! - intervieram os rapazes.

- Depois das aulas ajudámos com as luzes e com o resto - disse-lhe Luke, o mais novo. - E não tarda nada vamos ajudar a fazer bolinhos e a decorá-los e tudo.

- Até temos uma árvore lá em cima. - Gavin olhou para o abeto. - Não é tão grande como esta, pois é lá para cima. Ajudámos o David a levá-la e vamos ser nós a decorá-la. - Sabendo quem era a dona da casa, Gavin olhou-a, à espera do seu assentimento. - Foi o que ele disse.

- Então deve ser verdade.

- Ele está na cozinha, a fazer qualquer coisa para comermos enquanto decoramos a árvore. - Stella foi ver a árvore da perspectiva de Roz. - Pelos vistos, vamos ter uma festa. Já deu ordens ao Logan e ao Harper para estarem em casa às sete.

- Nesse caso, é melhor vestir-me para a festa. Mas primeiro dá-me cá esse bebé. - Estendeu as mãos, pegou em Lily ao colo e aconchegou-a a si.

- Com uma árvore deste tamanho, vamos ser todos precisos para a decorar. O que achas da tua primeira árvore de Natal, pequenina?

-Já tentou gatinhar até lá quando a pousei no chão. Mal posso esperar para ver o que vai fazer quando estiver enfeitada.

- Então é melhor despachar-me. - Roz deu um beijo a Lily e devolveu-a a Hayley. - Ainda não está frio, mas acho que devíamos acender a lareira. E digam ao David para pôr champanhe no gelo. Eu não me demoro.

Já passara demasiado tempo desde que houvera crianças naquela casa pelo Natal, pensou Roz, enquanto subia apressadamente as escadas. Tê-las ali fazia com que ela própria se sentisse uma criança.

 

Roz levou o espírito natalício às compras. O viveiro bem podia passar meio dia sem ela. Na verdade, com a gestão de Stella, o viveiro podia bem passar uma semana sem ela. Se tivesse vontade, poderia oferecer a si própria as primeiras férias em... quanto tempo? Três anos.

Mas não tinha vontade.

Era em casa que se sentia mais feliz. Assim sendo, para quê dar-se ao trabalho de fazer as malas e aturar o stresse da viagem só para ir para outro lado?

Enquanto os rapazes cresciam, levara-os de férias todos os anos. Disneylândia, o Grande Canyon, Washington, D. C., Bar Harbor, e por aí fora. Pequenos vislumbres do país, às vezes escolhidos ao acaso, outras vezes planeados com todo o cuidado.

Depois tinham passado três semanas de férias na Europa. Tinham sido uns belos dias.

Fora difícil, por vezes desesperante, outras vezes de gritos, viajar com três rapazes activos, mas, ah, valera a pena!

Lembrava-se de que Austin adorara o cruzeiro para ver as baleias no Maine, que Mason insistira em pedir caracóis em Paris e que Harper conseguira perder-se na Terra da Aventura.

Não trocaria essas recordações por nada. Além disso, ela própria vira uma bela parcela do mundo.

Em vez das férias, concentrar-se-ia noutras coisas. Talvez fosse altura de começar a pensar em acrescentar uma pequena florista ao viveiro. Flores frescas e arranjos. Entregas na região. Claro que isso implicaria outro edifício, mais mercadoria, mais empregados. Mas seria algo a ter em consideração dali a uns dois anos.

Teria de fazer contas, ver se o negócio podia cobrir as despesas.

Investira bastante do seu próprio bolso no viveiro para arrancar com o negócio, mas estivera disposta a arriscar. As suas prioridades tinham sido sempre a segurança e o sustento dos filhos. E que a Harper House estivesse cuidada, protegida e na família.

Conseguira tudo isso, embora tivesse havido alturas em que fora necessário algum malabarismo e uma ocasional noite em branco. Talvez para ela o dinheiro não tivesse sido o problema terrível que costuma ser para os pais solteiros, mas não deixara de ser um problema.

A No Jardim não fora apenas um capricho, como havia quem pensasse. Precisara de uma nova fonte de rendimentos e correra riscos, regateara e trabalhara para o conseguir.

Não interessava a Roz que as pessoas julgassem que era rica como Creso ou pobre como um rato de igreja. A verdade é que não era nem uma coisa nem outra, mas conseguira uma boa vida para si própria e para os filhos com os recursos disponíveis.

Agora, se quisesse perder a cabeça a fazer de Pai Natal, bem o tinha merecido.

Deu a volta ao centro comercial, permitindo-se fazer compras a ponto de ter de empreender duas viagens até ao carro com os sacos. Sem grande razão para parar por ali, dirigiu-se ao Wal-Mart, onde pretendia vasculhar a secção de brinquedos.

Como de costume, assim que entrou lembrou-se de uma dúzia de outras coisas de que talvez precisasse. Tinha o carrinho meio cheio e parara para cumprimentar quatro pessoas conhecidas antes de chegar à zona dos brinquedos.

Cinco minutos depois, começava a interrogar-se se precisaria de um segundo carrinho. Virou num dos corredores enquanto se esforçava por equilibrar duas caixas enormes em cima do monte de outras compras.

Foi então que bateu de frente noutro carrinho.

- Sinto muito. Parece que não consigo... Oh! Olá.

Há semanas que não via o dr. Mitchell Carnegie, o genealogista que contratara... mais ou menos. Tinha havido algumas breves conversas telefónicas, uns quantos e-mails profissionais, mas poucos contactos pessoais desde a noite em que lá fora jantar. E em que acabara por ver o fantasma da Noiva Harper.

Roz considerava-o um homem interessante e subira na sua consideração por não ter desaparecido depois da experiência que todos tinham partilhado na Primavera anterior.

Na sua opinião, tinha as referências necessárias, a par de coragem e abertura de espírito. Melhor que tudo, ainda não a tinha aborrecido com discussões sobre a linhagem da família e os passos necessários para identificar uma mulher morta.

Naquele preciso momento, parecia que não se barbeava há alguns dias, pelo que uma sombra lhe endurecia o rosto. Os olhos verde-escuros pareciam ao mesmo tempo cansados e perturbados. O cabelo precisava bastante de um corte.

Estava vestido de forma bastante semelhante à da primeira vez que o vira, com calças de ganga puídas e mangas de camisa arregaçadas. Ao contrário dela, tinha o carrinho vazio.

- Ajude-me - disse-lhe com o tom de voz de um homem pendurado na beira de um precipício e agarrado a um ramo instável.

- Desculpe?

- Menina de seis anos. Aniversário. Desespero.

- Oh! - Constatando que gostava daquela voz rouca, mesmo com o pânico a aguçá-la, Roz franziu os lábios. - Qual é a ligação?

- Sobrinha. Filha tardia da irmã. Teve a decência de ter dois rapazes primeiro. Com rapazes até me safo.

- Bem, é uma menina feminina?

Ele fez um som como se o ramo tivesse começado a partir-se.

- Está bem, está bem. - Roz fez um gesto tranquilizador com a mão e, deixando para trás o seu próprio carrinho, percorreu o corredor. - Podia ter evitado o stresse se tivesse perguntado à mãe.

-A minha irmã está zangada porque me esqueci do aniversário dela no mês passado.

- Estou a ver.

- Olhe, no mês passado esqueci-me de tudo, incluindo do meu nome por algumas vezes. Eu disse-lhe que estava a acabar a revisão do meu livro. Tinha o prazo a terminar. Pelo amor de Deus, ela tem quarenta e três. E um. Ou talvez dois. - Obviamente atrapalhado, esfregou o rosto com as mãos.

- Vocês não deixam de fazer anos aos quarenta?

- Podemos deixar de contar, dr. Carnegie, mas isso não significa que não esperemos uma prenda adequada na data.

- Entendido - replicou, observando-a a vasculhar as prateleiras. - E, uma vez que voltou a tratar-me por dr. Carnegie, imagino que esteja do lado dela. Enviei flores - acrescentou, num tom ofendido que a fez comprimir os lábios. - Está bem, foi com atraso, mas enviei-as. Duas dúzias de rosas, mas será que isso ajudou? - Enfiou as mãos nos bolsos de trás e lançou um olhar carrancudo à Barbie Malibu. - Não consegui ir a Charlotte para a Acção de Graças. Será que isso me transforma num demónio dos infernos?

- Parece que a sua irmã gosta muito de si.

- Vai mandar-me executar se não comprar esta prenda hoje e a enviar por correio expresso amanhã.

Roz pegou numa boneca e voltou a pousá-la.

- Nesse caso, presumo que o aniversário da sua sobrinha é amanhã, e o senhor esperou até ao último momento para tentar encontrar alguma coisa.

Por um momento ele não respondeu, após o que levou a mão ao ombro de Roz, o que a fez olhar para ele.

- Rosalind, quer que eu morra?

- Acho que não me sentiria responsável. Mas vamos encontrar alguma coisa e depois pode mandar embrulhá-la e enviá-la.

- Embrulhar. Meu Deus, tem de ser embrulhada?

- É claro que tem de ser embrulhada. E tem de comprar um postal, qualquer coisa bonita e adequada para a idade. - Hum. Gosto disto.

Apontou uma caixa enorme.

- O que é?

- É um brinquedo de construção de casas. Está a ver, tem estas peças em módulos, para que se possa construir a sua própria casa de bonecas. Traz bonecas e um cãozinho. É divertido e educativo. Acerta em dois níveis diferentes.

- Óptimo. Maravilhoso. Devo-lhe a vida.

- Não está um pouco longe do seu território? - perguntou Roz, quando ele tirou a caixa da prateleira. - Mora na cidade. Há por lá muitas lojas.

- O problema é esse. São demasiadas. E os centros comerciais? São como um labirinto infernal de vendas a retalho. Tenho fobia a centros comerciais. Por isso pensei, ei, o Wal-Mart. Pelo menos está tudo no mesmo sítio. Posso tratar da miúda e comprar... o que era? Detergente para a roupa. Pois, preciso de detergente e de outra coisa que apontei... - Enfiou a mão no bolso, de onde retirou um PDA. - Cá está.

- Bem, vou deixá-lo tratar do resto. Não se esqueça do papel de embrulho, da fita, de um laço grande e de um postal bonito.

- Espere aí, espere aí. - Acrescentou os restantes artigos com o estilete do PDA. - Laço. Podemos comprá-los já feitos e colá-los, certo?

- Sim, isso serve. Boa sorte.

- Não. Espere, espere. - Voltou a enfiar o PDA no bolso e mudou a caixa para a outra mão. Os olhos verdes pareciam mais calmos e concentrados nela. - Ia mesmo contactá-la. Já acabou o que veio fazer?

- Ainda não.

- Óptimo. Deixe-me ir buscar o que me falta e encontramo-nos na caixa. Ajudo-a a levar as suas coisas para o carro e depois levo-a a almoçar.

- São quase quatro horas. É um pouco tarde para almoçar.

- Oh. - Olhou distraidamente para o relógio, para confirmar as horas.

- Acho que o tempo fica distorcido nestes sítios. Éramos capazes de passar o resto da vida aqui perdidos sem darmos por isso. Bom, nesse caso convido-a para uma bebida. Gostaria muito de falar sobre o projecto.

- Está bem. Há um lugar chamado Rosas do outro lado da estrada. Encontramo-nos lá daqui a meia hora.

Mas ele estava à espera na caixa, ao que parece com toda a paciência. Depois insistiu em ajudá-la a levar os sacos para o carro. Viu o que já tinha guardado na mala do Durango e exclamou:

- Santa Mãe de Deus!

- Não costumo ir às compras com frequência, por isso, quando vou, é a sério.

- Bem pode dizê-lo.

- Faltam menos de três semanas para o Natal.

- Vou ter de lhe pedir que se cale. - Colocou o último saco dentro do automóvel. - O meu carro está daquele lado. - Gesticulou vagamente para a esquerda. - Já nos encontramos.

- Certo. Obrigada pela ajuda.

A forma como ele se afastou fê-la pensar que não teria a certeza do local onde estacionara. Pensou que ele deveria ter registado a localização na geringonça de dados que tinha no bolso. A ideia deixou-a a rir-se enquanto conduzia até ao restaurante.

Roz não se importava com um pouco de distracção. Para ela, isso significava apenas que a pessoa devia ter muito em que pensar, necessitando de mais algum tempo para encontrar aquilo de que precisava. Afinal de contas, não o contratara por dá cá aquela palha. Investigara Mitchell Carnegie e lera alguns dos seus livros, ou pelo menos dera-lhes uma vista de olhos. Era bom no que fazia, era das redondezas e, embora fosse caro, não vacilara muito perante a perspectiva de pesquisar e identificar um fantasma.

Estacionou e dirigiu-se à zona do bar. A sua primeira ideia fora pedir um chá gelado ou um café, mas decidiu que merecia um bom copo de vinho depois de uma expedição tão bem sucedida de compras.

Enquanto aguardava por Mitch, ligou do telemóvel para o viveiro, para lhes dizer que não voltaria naquele dia a menos que precisassem dela.

- Por aqui está tudo bem - garantiu-lhe Hayley. - Deves andar a comprar as lojas.

-Já comprei. Depois encontrei o dr. Carnegie no Wal-Mart...

- O Doutor Brasa? Porque é que nunca encontro borrachos no Wal-Mart?

- Tenho a certeza de que qualquer dia vai ser a tua vez. Seja como for, vamos tomar uma bebida e imagino que discutir o nosso pequeno projecto.

- Boa. Tens de aproveitar o jantar, Roz.

- Não é um encontro. - Mas Roz tirou o batom e aplicou um pouco de cor nos lábios. - É uma reunião improvisada. Se precisares, podes ligar-me. Mas devo voltar a casa no máximo dentro de uma hora.

- Não te preocupes com nada. Além disso, vocês eventualmente têm de comer, seja onde for, portanto bem podem...

- Ele vem aí, por isso vamos começar. Depois conto-te os pormenores. Até logo.

Mitch sentou-se à frente de Roz.

- O nosso encontro veio mesmo a calhar, não acha? O que vai tomar? Roz pediu um copo de vinho e ele um café simples. Depois abriu a ementa e juntou aperitivos ao pedido.

- Temos de nos retemperar, depois de uma aventura daquelas. Como tem andado?

- Muito bem, obrigada. E o Mitchell?

- Agora que tratei do livro, ando bem.

- Nunca lhe cheguei a perguntar sobre o que era.

- Uma história e um estudo sobre Charles-Pierre Baudelaire. - Aguardou um instante e reparou no arquear interrogativo das sobrancelhas de Roz. - Foi um poeta do século xix. Um rebelde parisiense - drogado, muito controverso, com uma vida cheia de drama. Foi considerado culpado de blasfémia e obscenidade, esbanjou a sua herança, traduziu Poe, compôs poemas sombrios e intensos e, muito depois de ter morrido devido a uma doença sexualmente transmitida, é visto por muitos como o poeta da civilização moderna... e por outros como um sacana doentio.

Roz sorriu.

- De que lado está o Mitchell?

- Era brilhante e alucinado. Acredite, tenho a certeza de que não vai querer que eu comece a falar, por isso vou só dizer-lhe que foi um tema fascinante e frustrante.

- Está satisfeito com o resultado final?

- Sim. E ainda mais feliz por não estar a viver dia e noite com Baudelaire

- acrescentou enquanto lhes serviam as bebidas.

- É como se estivesse a viver com um fantasma, não é?

- Bem apanhado. - Fez-lhe um brinde com o café. - Mas, primeiro, deixe-me que lhe diga que agradeço a sua paciência. Esperava ter concluído o livro há semanas, mas uma coisa levou a outra.

- Logo à partida avisou-me de que não estaria disponível por algum tempo.

- Nunca pensei que viesse a ser tanto. E pensei muito na sua situação. Era difícil não pensar, depois de uma experiência como a da Primavera.

- Foi uma apresentação mais directa à Noiva Harper do que eu esperava.

- Disse-me que ela tem andado... controlada - decidiu-se - desde essa altura.

- Ainda canta aos rapazes e à Lily, mas, desde essa noite, nunca mais ninguém a viu. Para ser sincera, não foi paciência, eu própria tenho andado atarefada. O trabalho, a casa, um casamento próximo, um bebé novo lá em casa. E, depois daquela noite, imaginei que todos nós precisássemos de uma pausa.

- Se for conveniente para si, gostava de começar a sério.

- Imagino que tenha sido o destino que nos levou a esbarrarmos um no outro, pois tenho andado a pensar no mesmo. Diga-me aquilo de que vai precisar.

- De tudo o que tiver. Dados concretos, registos, diários, cartas, histórias de família. Nada de especial. Agradeço as cópias das fotografias de família que me deu. Digamos que ter fotos, cartas ou diários escritos pelas pessoas que estou a investigar me ajuda a mergulhar no assunto.

- Tudo bem, não me importo de lhe dar mais material.

- Parte do que consegui fazer até agora, entre injecções de Baudelaire, foi aquilo a que podemos chamar trabalho lógico. Começar a esquematizar a árvore genealógica, habituar-me às pessoas e à linhagem. Esses são os primeiros passos.

- É algo que vou gostar de ter ao fim do dia.

- Será que em sua casa existe um lugar onde eu possa trabalhar? Vou fazer o grosso do trabalho no meu apartamento, mas talvez ajude ter um espaço no local. A casa é parte essencial da pesquisa, e os resultados.

- Isso não é problema.

- Gostaria de uma lista de nomes para a parte do projecto relacionada com Amélia. Vou precisar de entrevistar qualquer pessoa que tenha tido algum tipo de contacto com ela.

- Está bem.

- E a permissão escrita de que já falámos, para que eu possa aceder aos registos de família, de nascimento, de casamento, certidões de óbito, esse tipo de coisas.

- Vai tê-la.

- E autorização para utilizar a pesquisa e tudo o que daí venha a resultar num livro.

Roz aquiesceu.

- Quero ter a última palavra sobre o manuscrito. Mitchell dirigiu-lhe um sorriso encantador.

- Não vai tê-la.

- Bem, eu acho...

- Se e quando o escrever, não me importo de lhe dar uma cópia, mas não vai ter poder de decisão. - Pegou numa fatia grossa de pão de um recipiente de vidro que estava em cima da mesa e ofereceu-lho. - Aquilo que eu encontrar, encontrei. O que escrever, escrevi. E se escrever um livro e o vender, não me deve nada pelo trabalho.

Roz recostou-se e respirou fundo. A beleza discreta, o cabelo castanho desgrenhado, o sorriso encantador, os ténis antigos, tudo isso ocultava um homem inteligente e obstinado.


Era uma pena, pensou, que respeitasse homens obstinados e inteligentes.

- E se isso não acontecer...

- Voltamos aos termos iniciais que discutimos na primeira reunião. As trinta horas iniciais são grátis e, depois, são cinquenta por hora mais despesas. Podemos redigir um contrato, deixando tudo bem claro.

-Julgo que seria sensato.

Quando serviram os aperitivos, Roz declinou um segundo copo de vinho e tirou distraidamente uma azeitona do prato. - Se decidir publicar, não vai precisar de autorização das pessoas que forem entrevistadas?

- Eu trato disso. Uma coisa que lhe quero perguntar é por que motivo ainda não tinha feito isto? Morou naquela casa a vida inteira e nunca tentou identificar um fantasma que lá vive consigo. E, deixe-me que lhe diga, mesmo depois da experiência que tive, é difícil de acreditar que acabei de dizer isto.

- Não sei ao certo. Talvez tenha andado demasiado ocupada ou então habituei-me a ela. Mas comecei a interrogar-me se não estaria, bem, vacinada contra isso. A família nunca se preocupou com ela. Posso dar-lhe pormenores sobre os meus antepassados, pequenas histórias de família, factos curiosos, mas, no que diz respeito a ela, parece que nunca houve quem soubesse alguma coisa, nem quem estivesse interessado em descobrir. Eu própria incluída.

- Mas agora quer descobrir.

- Quanto mais pensava sobre o que não sabia, mais queria descobrir, sim. E depois de a ter visto com os meus próprios olhos naquela noite em Junho, senti a necessidade de descobrir.

- Viu-a quando era pequena - comentou Mitchell.

- Sim. Ela entrava no meu quarto e cantava a sua canção de embalar. Nunca tive medo dela. Depois, aos doze anos, deixei de a ver, tal como acontece com todas as crianças que vivem na Harper House.

- Mas voltou a vê-la.

Algo nos olhos de Mitchell a fez pensar que o homem desejava ter ali o seu bloco de notas ou um gravador. Uma intensidade tal, uma concentração absoluta que Roz julgou inesperadamente sensual.

- Sim. Regressou quando estive grávida de cada um dos meus filhos. Mas era mais uma sensação, como se ela estivesse por perto, como se soubesse que ia haver mais uma criança na casa. Houve mais alturas, é claro, mas julgo que gostaria de falar sobre o assunto num ambiente mais formal.

- Não necessariamente formal, mas gostaria de registar as conversas que temos sobre ela. Vou começar com algum trabalho básico. Amélia foi o nome que a Stella disse ter visto escrito na vidraça. Vou procurar alguém de nome Amélia nos registos da família.

- Já fiz isso. - Encolheu os ombros. - Afinal de contas, pensei em despachar o assunto, caso fosse assim tão simples. Não encontrei ninguém com esse nome... nem registos de nascimento, nem de casamento, nem certidões de óbito, pelo menos nos registos que eu tenho.

- Se não se importar, vou fazer uma nova pesquisa.

- Esteja à vontade. Imagino que seja minucioso.

- Depois de começar, Rosalind, sou pior do que um cão de caça. Quando isto acabar, vai estar farta de mim.

- E eu sou uma mulher difícil e de neuras. Por isso, digo-lhe o mesmo. Mitchell sorriu-lhe.

- Tinha-me esquecido de como era bonita.

- A sério?

Ele deu uma gargalhada. O tom de Roz fora extremamente educado.

- Por aí já vê o que o Baudelaire me fez. Não costumo esquecer-me dessas coisas. Bem, mas o Baudelaire não dizia coisas muito abonatórias sobre a beleza.

- Não? O que dizia ele?

- ”Neve como carne, gelo como coração, Pairo no alto, uma esfinge indecifrada Conjurando actos que alteram formas; Nunca rio, nunca choro.”

- Deve ter sido um homem muito triste.

- Complicado - disse Mitch - e profundamente egoísta. Seja como for, a Roz não tem nada de gelado.

- É óbvio que nunca falou com alguns dos meus fornecedores. - ”Nem com o meu ex-marido”, pensou. - Vou tratar do contrato e obter-lhe as autorizações escritas. Quanto ao espaço de trabalho, acho que o melhor será a biblioteca. Sempre que precisar, pode contactar-me através de um dos números que lhe dei. Juro que hoje em dia devemos ter mais de cem números de telefone diferentes. Em último caso, pode falar com o Harper ou com o David, ou mesmo com a Stella ou a Hayley.

- Gostava de começar nos próximos dias.

- Estaremos prontos. Tenho de voltar para casa. Obrigada pela bebida.

- O prazer foi meu. Ainda estou em dívida pela ajuda com a minha sobrinha.

- Acho que vai ser visto como um herói.

Mitch deixou algumas notas em cima da mesa. Depois levantou-se e segurou-lhe a mão, antes que ela se pusesse de pé sozinha.

- Tem alguém em casa que a ajude com as compras?

- Já carreguei mais do que aquilo sozinha, mas sim, o David está em casa.

Mitch soltou-lhe a mão, mas acompanhou-a ao carro.

- Darei notícias em breve - garantiu-lhe, ao abrir-lhe a porta do automóvel.

- Fico à espera. Não se esqueça de me dizer o que comprou à sua irmã para o Natal.

O rosto de Mitchell foi coberto por uma máscara de dor.

- Que diabo, tinha de estragar tudo?

Roz fechou a porta a rir-se e baixou o vidro da janela.

- Na Dillard’s têm umas camisolas de caxemira muito bonitas. Qualquer irmão que apareça com uma peça dessas pelo Natal apaga completamente um aniversário esquecido.

- E isso é garantido? Como se fosse uma lei feminina?

- Vindo de um marido ou de um amante, é melhor que brilhe, mas de um irmão a caxemira serve perfeitamente. Prometo.

- Dillard’s.

- Dillard’s - repetiu e ligou o motor. - Adeus.

- Adeus.

Arrancou. À medida que se afastava, olhou pelo espelho retrovisor e viu-o ali de pé, a balançar-se sobre os calcanhares com as mãos nos bolsos. Hayley tinha razão. Ele era uma brasa.

Quando chegou a casa, tirou da mala do carro o primeiro carregamento, levou-o para dentro e subiu directamente para a sua ala. Após um breve debate interno, empilhou os sacos na sala de estar e foi buscar mais.

Ouvia os filhos de Stella na cozinha a regalar David com os pormenores do seu dia. Era melhor que levasse tudo sozinha, escondendo as compras no andar de cima antes que alguém desse pela sua presença.

Quando terminou, deixou-se ficar no meio da sala a olhar.

Era óbvio que enlouquecera. Agora que via tudo empilhado, percebia o motivo da surpresa de Mitch. Com o que comprara numa única tarde de insanidade, poderia abrir a sua própria loja.

Como diabo ia embrulhar tudo aquilo?

”Mais tarde”, decidiu passando as mãos pelos cabelos. Iria preocupar-se com esse importante pormenor mais tarde. Agora ia telefonar ao advogado, para casa dele, uma das vantagens de o conhecer desde os tempos da escola secundária, a fim de preparar o contrato.

Uma vez que tinham andado juntos na escola, a conversa demorou o dobro do tempo que devia. Quando desligou, pôs um pouco de ordem na sala de estar e desceu. A casa voltara a ficar sossegada.

Hayley estaria no andar de cima com Lily. Stella deveria estar com os filhos. Graças a um recado deixado na bancada da cozinha, descobriu que David fora até ao ginásio.

Mordiscou a tarte vegetariana que ele lhe deixara e depois foi dar um passeio pelos jardins. Na casa de Harper, as luzes estavam acesas. David ter-lhe-ia ligado a informar que fizera aquela tarte, um dos pratos favoritos de Harper. Se o rapaz quisesse um pouco, sabia onde encontrá-la.

Voltou a entrar em casa e serviu-se de mais um copo de vinho, com o objectivo de o saborear num banho quente e demorado.

Mas, quando voltou ao andar de cima, reparou em alguém na sua sala de estar. O seu corpo ficou tenso enquanto se dirigia à porta, descontraindo-se quando viu Stella.

- Assustaste-me - disse Roz.

Foi Stella que se sobressaltou e deu um salto, levando a mão ao peito.

- Ai, meu Deus! Já era altura de nos termos deixado de sustos. Pensei que estavas aqui. Vim perguntar se querias dar uma vista de olhos ao relatório semanal e vi isto. - Fez um gesto com a mão que abarcou os sacos e as caixas que se alinhavam contra a parede. - Roz, por acaso compraste o centro comercial inteiro?

- Não exactamente, mas andei lá perto. E, por causa disso, não estou com grande vontade de analisar o relatório semanal. Só quero este vinho e um bom banho.

- Parece-me que foi bem merecido. Podemos ver o relatório amanhã. Ah, se precisares de ajuda a embrulhar alguma coisa...

- Está combinado.

- Tratamos do assunto uma noite em que os miúdos já tenham ido para a cama. É verdade, a Hayley comentou que tinhas ido tomar uma bebida com o Mitch Carnegie.

- Sim. Encontrámo-nos no Wal-Mart, como parece que acontece a toda a gente do Tennessee. Acabou o livro e parece interessado em continuar o nosso projecto. Vai querer entrevistar-te e à Hayley, entre outras pessoas. Não te importas, pois não?

- Não. Também estou entusiasmada. Vou deixar-te com o teu banho. Até amanhã.

- Boa noite.

Roz dirigiu-se ao quarto e fechou a porta. Na casa de banho adjacente, pôs água a correr, adicionou sais e espuma, e depois acendeu velas. Desta vez não utilizaria o tempo livre para ficar de molho e ler sobre jardinagem ou negócios. Iria simplesmente recostar-se e vegetar.

Depois pensou em fazer uma limpeza de pele.

Entrou na água perfumada à luz suave e tremeluzente e deixou escapar um suspiro profundo. Bebeu um gole de vinho, pousou o copo na borda e recostou-se na água quase até ao queixo.

Porque seria que não fazia aquilo mais vezes, pensou.

Ergueu a mão acima da espuma e observou-a: comprida, estreita e áspera como um tijolo. Olhou para as unhas. Curtas, sem verniz. Para quê pintá-las, se passava o dia a mexer na terra?

Eram mãos boas, fortes e competentes, que não escondiam esse facto. Não se importava com isso, nem de não usar anéis nos dedos, que os realçassem.

Sorriu quando ergueu o pé. As unhas dos pés, essas eram a sua perdição. Nessa semana pintara-as de um púrpura metálico. Regra geral, mantinha-as soterradas debaixo de meias grossas e botas, mas sabia que os dedos dos seus pés eram sensuais. Era uma daquelas coisas tolas que a ajudavam a recordar-se de que era mulher.

Os seios já não eram tão arrebitados como em tempos. Sentia-se grata por serem pequenos, o que fazia com que não parecessem muito descaídos. Ainda.

Mesmo não se preocupando demasiado com o estado das mãos, pois afinal de contas não passavam de ferramentas, tinha cuidado com a pele. Não podia evitar as rugas, mas mimava-se sempre que tinha oportunidade.

Não queria que o cabelo ostentasse o branco, por isso também cuidava dele. Lá porque se aproximava dos cinquenta anos, isso não significava que não faria por minimizar os danos que o tempo insistia em provocar.

Em tempos fora bela, uma noiva jovem, fresca e inocente, irradiando felicidade. Ao olhar para essas fotografias, parecia-lhe estar a ver uma estranha.

Quem tinha sido aquela jovem meiga?

”Quase trinta anos”, pensou. Passados num abrir e fechar de olhos.

Quando fora a última vez que um homem olhara para ela e lhe dissera que era bonita? Bryce tinha-o feito, é claro, mas ele contara-lhe toda a espécie de mentiras.

Mas Mitch dissera-o espontaneamente, de forma casual. Era mais fácil de acreditar que falava a sério.

E porque haveria ela de se importar com isso?

Homens. Abanou a cabeça e bebeu mais um gole de vinho. Porque estaria a pensar em homens?

Porque, apercebeu-se esboçando um sorriso, não tinha ninguém com quem partilhar aqueles pés sensuais. Ninguém que a tocasse como ela gostava, que a excitasse. Que a abraçasse à noite.

Passava sem essas coisas e sentia-se satisfeita. Mas, de vez em quando, sentia a falta de alguém. E talvez naquele momento estivesse a sentir essa falta, admitiu, pois passara uma hora a falar com um homem atraente.

Quando a água ficou tépida, saiu. Cantarolou enquanto se secava, aplicava creme na pele e executava o ritual nocturno com o leite hidratante. Dirigiu-se ao quarto envolta no roupão.

Sentiu o frio antes mesmo de ver o vulto de pé, à frente das portas da varanda.

Desta vez não era Stella. A Noiva Harper envergava a sua túnica cinzenta simples, e tinha o cabelo brilhante numa coroa de caracóis.

Roz teve de engolir em seco, após o que falou sem dificuldades.

- Há muito tempo que não me visitavas. Sei que não estou grávida, portanto o motivo não é esse. Amélia? É esse o teu nome?

Não houve resposta, nem tão-pouco a esperava. Mas a Noiva sorriu, um breve esboço de sorriso, após o que desapareceu.

- Bem... - Ali de pé, Roz esfregou os braços para aquecê-los. - Imagino que seja a tua forma de me dizeres que aprovas o facto de voltarmos ao trabalho.

Regressou à sala e tirou da secretária um calendário que iniciara no Inverno anterior. Registou a aparição no dia correspondente.

Imaginou que o dr. Carnegie ficasse satisfeito por ela manter um registo.

Capítulo 3

 

Ele nunca fora grande jardineiro. Afinal de contas, passara a maior parte da vida em apartamentos. Mesmo assim, gostava de ver plantas e flores e admirava quem sabia o que fazer com elas.

Era óbvio que Rosalind Harper sabia o que fazer com elas.

Em Junho vira alguns dos jardins da sua propriedade, mas até mesmo essa beleza empalidecera quando comparada com o encontro com a Noiva Harper. Sempre acreditara no espírito de uma pessoa. Por que outro motivo se sentiria tão atraído pelas histórias, pelas genealogias, pelas raízes e ramificações das árvores genealógicas? Acreditava que o espírito podia ter, e tinha de facto, influência e impacto ao longo de gerações, talvez mesmo ao longo de séculos.

Mas nunca acreditara na tangibilidade, na presença física desse espírito.

Agora tinha uma opinião diferente.

Era difícil para alguém com o pendor académico de Mitch racionalizar e depois interiorizar algo tão rebuscado como um fantasma.

Mas ele sentira e vira. Vivera a experiência e não havia como negar um facto.

Agora, admitia que estava obcecado. Com o livro finalmente fora de caminho, podia dedicar a sua energia e tempo à identificação do espírito que, supostamente, vagueava pela Harper House havia mais de um século.

Depois de tratar de algumas questões legais, poderia mergulhar no assunto.

Virou para o parque de estacionamento da No Jardim.

Era interessante, pensou, que um lugar que com toda a certeza estaria no seu auge na Primavera e no Verão pudesse ser tão atraente, tão acolhedor, à medida que Dezembro ia avançando.

O céu estava carregado de nuvens que decerto trariam uma chuva fria e desagradável antes do fim do dia. Ainda assim, havia coisas a crescer. Não fazia ideia do que eram, mas chamavam a atenção. Arbustos vermelho-ferrugem, sempre-verdes viçosas com grandes bagas, folhas de um verde-prateado, amores-perfeitos de tons garridos. Pelo menos conseguia reconhecer um amor-perfeito.

Havia pilhas de materiais que imaginava serem necessários para jardinagem ou para paisagismo. Mesas compridas albergavam plantas que deveriam suportar o frio, uma pequena floresta de árvores e arbustos.

O edifício baixo tinha um alpendre à frente. Viu estrelas-de-natal e um pequeno abeto decorado e coberto de luzes.

Havia outros carros estacionados. Viu dois homens carregarem uma árvore com uma enorme bola envolta em serapilheira nas traseiras de uma carrinha. Uma mulher saiu com um carrinho vermelho repleto de estrelas-de-natal e sacos de compras.

Subiu a rampa, atravessou o alpendre e entrou.

Reparou que havia muitos artigos, mais do que esperava. Vasos, estacas decorativas, árvores de mesa já decoradas, livros, sementes, ferramentas. Alguns dos objectos estavam reunidos em cestos de oferta. Boa ideia.

Começou a vaguear por ali, esquecendo a sua intenção de procurar Roz de imediato. Quando uma das empregadas lhe perguntou se precisava de ajuda, limitou-se a sorrir e a abanar a cabeça, e continuou a deambular pela loja.

Era preciso muito esforço para criar um sítio daqueles, pensou Mitch, enquanto observava prateleiras de aditivos para a terra, pastilhas de fertilizantes, repelentes de parasitas. ”Tempo, esforço, conhecimento e coragem”, pensou.

Não se tratava de um passatempo, nem de um capricho de aristocrata sulista. Mais uma camada a acrescentar àquela mulher, pensou, e ainda nem sequer se aproximara do seu âmago.

A bela e enigmática Rosalind Harper. Qual o homem que não gostaria de ter a oportunidade de retirar essas camadas e descobrir quem ela era, na verdade?

Devia um grande agradecimento à irmã e à sobrinha por o terem feito ir a correr às compras. Deparar-se com Roz, vê-la com o carrinho de compras e passar uma hora com ela fora a actividade mais interessante que tivera nos últimos meses.

Não era de surpreender que esperasse por mais e que tivesse feito aquela visita ao centro de jardinagem sobretudo para observar mais uma faceta daquela mulher.

Ultrapassou amplas portas de vidro e encontrou um aglomerado exótico de plantas de interior. Havia também fontes de mesa e de jardim, e cestos de coisas que pareciam fetos e folhas de videira pendurados em ganchos ou em cima de pedestais.

Para lá de mais umas portas ficava uma espécie de estufa, com dezenas de mesas compridas de madeira. Reconheceu os amores-perfeitos, mas as outras flores não. Reparou, no entanto, que estavam etiquetadas e com uma garantia de serem resistentes ao Inverno.

Ponderava se devia continuar ou voltar para trás e perguntar por Roz, quando o filho Harper entrou, vindo da rua.

- Olá. Precisa de ajuda? - Ao dirigir-se a Mitch, reconheceu-o. - Oh, como está, d r. Carnegie?

- Trate-me por Mitch. É um prazer voltar a vê-lo, Harper - disse, enquanto apertavam as mãos.

- A si também. Belo jogo contra Little Rock na semana passada.

- É verdade. Esteve lá?

- Perdi a primeira parte, mas a segunda metade foi demais. O Josh esteve muito bem. - O orgulho pelo filho era notório. - Fez um bom jogo. Esta semana é no Missouri. Tenho de ver o jogo pela ESPN.

- Eu também. Se falar com o seu filho, diga-lhe que aqueles três pontos nos últimos cinco minutos foram uma beleza.

- Eu digo-lhe.

- Está à procura de alguma coisa ou de alguém?

- De alguém. Por acaso, da sua mãe. - ”Tens os olhos dela”, pensou. ”A boca, o tom de pele.” - Estava a dar uma vista de olhos antes de ir à procura dela. - Mitch enfiou as mãos nos bolsos, enquanto olhava em seu redor. - Belo sítio que vocês aqui têm.

- Dá-nos trabalho. Deixei-a na estufa de reprodução. Eu levo-o lá.

- Obrigado. Acho que não imaginava que este tipo de negócio tivesse tanto movimento nesta altura do ano.

- Há sempre qualquer coisa, quando se lida com jardinagem e paisagismo.

- Harper olhou à sua volta, espelhando a atitude de Mitch. - O que vende mais nesta altura são as coisas da quadra e estamos a preparar as plantas para Março.

Quando saíram, Mitch deteve-se e firmou os polegares nos bolsos do blusão. Estufas baixas e compridas perdiam-se de vista, separadas em duas áreas por um espaço amplo, onde se encontravam mais mesas debaixo de um abrigo. Pôde ver um campo onde alguém operava uma máquina para desenterrar um pinheiro... ou um abeto ou um espruce. Será que alguém conseguia distingui-los?

Avistou um pequeno lago e um ribeiro e, mais além, o bosque que separava o negócio da casa principal e a casa principal do negócio.

- Deixe-me que o felicite. Não estava à espera de nada assim tão grande.

- A minha mãe não deixa nada pela metade. Começámos um pouco mais pequenos, acrescentámos uma ou duas estufas e um espaço adicional na zona de venda há dois anos.

Mitch percebeu que era mais do que um negócio. Era uma vida.

- Deve exigir muito trabalho.

- É verdade. É preciso gostar muito disto.

- E o Harper gosta?

- Sim. Ali está o meu castelo. - Harper apontou. - A casa dos enxertos. Trato principalmente dos enxertos e da reprodução. Mas de vez em quando sou arrastado para outras coisas, como a parte das árvores de Natal nesta altura do ano. Por acaso, ia descansar dez minutos antes de ir para o campo, quando o encontrei. - A chuva começou a cair e Harper acenou com a cabeça na direcção de uma das estufas. - Aquela é a zona de reprodução. Como temos a Stella, a mãe passa ali a maior parte do tempo.

- Nesse caso, já me consigo orientar sozinho. Porque é que não vai aproveitar o que lhe sobra da folga?

- É melhor ir já para o campo. - A chuva engrossou e Harper puxou a pala do boné mais para baixo. - Vou buscar as árvores antes que a chuva afugente os clientes. Pode entrar. Até logo.

Harper afastou-se a correr e acabara de virar para o campo quando Hayley se aproximou dele, vinda do outro lado.

- Espera! Harper, espera aí.

O jovem parou, erguendo a pala a fim de a ver melhor. Hayley vestia um blusão de ganga curto e calças de ganga, e usava um dos bonés da No Jardim que Stella encomendara para os empregados.

- Santo Deus, Hayley, entra. Não tarda nada a chuva vai cair com força.

- Era o dr. Carnegie?

- Sim. Estava à procura da patroa.

- Levaste-o à estufa de reprodução? - Ergueu o tom de voz acima do tamborilar cada vez mais forte da chuva. - Será que és estúpido?

- O que foi? Ele está à procura da mamã e ela está na estufa de reprodução. Estive com ela há menos de cinco minutos.

- E por isso levaste-o até lá e disseste-lhe para entrar? - Gesticulava furiosamente com ambas as mãos. - Sem a avisares?

- Avisar do quê?

- Que ele aqui está, pelo amor de Deus. E agora ele vai entrar, e ela está toda suja e transpirada, sem maquilhagem e com as roupas mais esfarrapadas. Não podias tê-lo empatado por cinco minutos para a avisares?

- Do quê? Ela está como está sempre. Qual é a diferença?

- Se não sabes, então és burro. E agora já é demasiado tarde. Um dia destes, Harper Ashby, vais passar a usar o tal neurónio que se diz que os homens têm.

- Mas que raios! - resmungou Harper, depois de ela lhe ter dado um murro no braço e regressado para o interior.

Mitch entrou na estufa de reprodução, fugindo à chuva. Se pensara que a secção de plantas de interior parecia exótica, o que via agora não se lhe comparava. O lugar parecia vivo, com plantas em várias fases de crescimento. O calor húmido era quase tropical e, com o tamborilar da chuva, era como se tivesse entrado numa qualquer caverna de fantasia.

No ar sentia-se um cheiro pungente que evocava verde e castanho: plantas e terra. Nos odores entrelaçava-se música. Reparou que não era clássica, nem exactamente new age. Era algo Intermédio, estranho e cativante.

Viu mesas e ferramentas, baldes e sacos. Tabuleiros pretos e rasos com coisas delicadas a crescer.

E viu Roz ao fundo, de um dos lados. Trabalhava de costas viradas para ele.

Tinha um pescoço encantador. Era um pensamento estranho e, foi obrigado a admitir, talvez um pouco disparatado. Mas não se podia escamotear um facto. Roz tinha o cabelo curto e liso e, a seu ver, esse estilo servia na perfeição para exibir o seu pescoço bem lançado e maravilhoso.

Mas, bem vistas as coisas, toda ela era bem lançada e maravilhosa. Os braços, as pernas, o tronco. Naquele momento, esse corpo intrigante encontrava-se camuflado por calças largas e uma camisola informe com as mangas arregaçadas. No entanto, lembrava-se muito bem daquela figura esbelta.

Tal como se lembrava de que os olhos eram rasgados, mesmo antes de ela o ouvir e virar-se. Longas pestanas e um tom fascinante e profundo de âmbar.

- Peço desculpa, vim interrompê-la.

- Não faz mal. Não estava à sua espera.

- Recebi a papelada e resolvi vir dizer-lhe que já foi enviada ao seu advogado. Além disso, assim posso conhecer a sua loja. Estou impressionado. Mesmo sem perceber nada de jardinagem, estou impressionado. Muito impressionado.

- Obrigada.

Mitch olhou para a bancada de trabalho, sobre a qual havia vasos, alguns vazios, outros cheios de terra e de pequenas folhas verdes.

- O que se passa aqui?

- Estou a envasar algumas plantas jovens. Celosia... crista-de-galo.

- Não faço ideia do que seja.

- De certeza que já as viu. - Passou a mão distraidamente pelo rosto, onde deixou uma mancha de terra. - Quando florirem, parecerão pequenos espanadores de cores vistosas. A vermelha é a mais popular.

- Certo. E planta-as nestes vasinhos porque...?

- Porque não gostam de que lhes toquem nas raízes depois de estarem na terra. Envaso-as em jovens e vão florir para os clientes da Primavera. Só têm de suportar mais esse transplante. Imagino que não esteja muito interessado.

- Não pensei que estivesse, mas este é um mundo novo para mim. O que é isto?

Roz ergueu as sobrancelhas.

- Está bem. Isso é matiola, também chamada goivo ou goiveiro. É muito aromática. Aquelas ali de folhas verde-amareladas? Vão ser flores de pétalas dobradas. Vão florir na Primavera. Os clientes preferem comprar flores abertas, por isso planeio a reprodução a fim de lhes dar muita escolha. Esta secção é para as anuais. As perenes são feitas lá atrás.

- É um dom ou são anos de estudo? Como é que sabe o que há-de fazer, como é que nesta fase distingue... a crista-de-galo do goivo?

- Um pouco de ambos e uma paixão, a par de bastante experiência. Faço jardinagem desde criança. Lembro-me da minha avó, do lado dos Harpers, a colocar a mão dela por cima da minha, para me mostrar como pressionar a terra à volta de uma planta. A recordação mais forte que tenho dela é no jardim da Harper House.

- Elizabeth McKinnon Harper, esposa de Reginald Harper Jr.

- Tem boa memória.

- Dei uma vista de olhos a algumas das listas. Como era ela? A pergunta fê-la sentir-se sentimental.

- Bondosa e paciente, a não ser que a irritassem. Nessas alturas era formidável. Chamavam-lhe Lizzie ou Lizzibeth. Vestia sempre calças de homem, uma camisa azul velha e um chapéu de palha estranho. As mulheres sulistas de uma certa idade usam sempre um chapéu de palha para fazer jardinagem. É uma espécie de regra. Cheirava ao eucalipto e ao poejo que usava para fazer repelente. Ainda uso a receita dela. - Pegou em mais um vaso. - Ainda tenho saudades dela, e já morreu há quase trinta anos. Adormeceu na cadeira de baloiço num dia quente de Julho. Tinha andado a podar o jardim e sentou-se para descansar. Nunca mais acordou. Acho que é uma maneira agradável de morrer.

- Que idade tinha?

- Bem, ela dizia ter setenta e seis, mas, na verdade, segundo os registos, tinha oitenta e quatro. Teve o meu pai muito tarde, tal como ele me teve a mim. Quebrei essa tradição da família Harper quando tive os meus filhos muito nova.

- Ela alguma vez lhe falou da Noiva Harper?

- Sim. - Roz continuava a envasar enquanto falava. - Claro está que, sendo uma McKinnon, não foi criada na casa. Mas dizia ter visto a Noiva quando veio para cá morar, na altura em que o meu bisavô morreu. O meu avô Harper cresceu na Harper House, é claro, e, se estivermos correctos na idade de Amélia, seria um bebé quando ela morreu. Mas o meu avô morreu quando eu tinha oito anos e não me lembro de ele a ter mencionado.

- E quanto aos seus pais ou outros familiares?

- O tempo está a contar, doutor?

- Sinto muito.

- Não faz mal. - Etiquetou a planta que acabara de envasar e pegou noutro vaso. - Agora que fala nisso, o meu pai nunca disse grande coisa. Talvez tenha a ver com os homens da família Harper ou com os homens em geral. A minha mãe era uma mulher dramática, que gostava da ilusão de uma vida tumultuosa. Afirmava com frequência ter visto a Noiva e com grande ênfase. Mas a mamã era sempre muito enfática em relação a tudo.

- Será que ela ou a sua avó mantinham algum tipo de diário?

- Sim, ambas tinham diários. Outra tradição antiga com a qual rompi. A minha avó mudou-se para o quarto de hóspedes quando o meu pai se casou e trouxe a noiva para casa. Depois de ela morrer, o meu pai tratou dos seus pertences. Lembro-me de lhe ter perguntado pelos diários, mas ele disse-me que já lá não estavam. Não sei o que foi feito deles. Quanto aos da minha mãe, sou eu que os tenho. Se quiser, pode lê-los, mas duvido que encontre alguma coisa relevante.

- Mesmo assim. Tias, tios, primos?

- Oh, imensos. A irmã da minha mãe, que se casou com um nobre inglês em terceiras núpcias há alguns anos. Vive no Sussex e não nos vemos com frequência. Tem filhos dos dois primeiros casamentos e eles próprios têm filhos. O meu pai era filho único. Mas o pai dele tinha quatro irmãs mais velhas... as filhas de Reginald.

- Sim, tenho os nomes delas na minha lista.

- Não me lembro delas, de todo. Todas tiveram filhos. Deixe-me ver, serão os meus primos Frank e Esther, que já morreram há muito, e os filhos deles, é claro. Ah, Lucerne, Bobby e Miranda. O Bobby foi morto na Segunda Guerra Mundial. A Lucerne e a Miranda também já morreram. Mas todos tiveram filhos, alguns dos quais, por sua vez, também já foram pais. Depois há o Owen, o Yancy, ah... a Marylou. A Marylou ainda está viva. Mora em Biloxi, sofre de demência e os filhos tratam dela o melhor que podem. Não faço ideia do Yancy. Juntou-se a um circo há anos e nunca mais ninguém soube nada dele. Pelo que ouvi dizer, o Owen é um sacerdote que defende o castigo divino em Macon, na Geórgia. Nunca falaria consigo sobre fantasmas, isso lhe garanto.

- Nunca se sabe.

Roz produziu um som evasivo, continuando a trabalhar.

- E a minha prima Clarise, que nunca chegou a casar-se. Conseguiu viver até uma idade bastante provecta. É demasiado azeda para morrer. Vive num lar, no outro lado da cidade. Não fala comigo.

- Porque não?

- O Mitch faz muitas perguntas.

- Faz parte do processo.

- Não tenho a certeza do motivo exacto por que deixámos de falar. Lembro-me de que ela não gostou que os meus avós tivessem deixado tudo ao meu pai e a mim. Mas, afinal de contas, eram meus avós. Pais do meu pai, enquanto ela não passava de uma sobrinha. Chegou a visitar-nos quando os rapazes eram pequenos. Creio que foi nessa altura que cortou relações comigo ou que cortámos relações uma com a outra, para ser mais exacta. Não gostava da forma como eu educava os meus filhos e eu não gostava das críticas que ela lhes fazia, e a mim.

- Lembra-se se ela alguma vez lhe falou da Noiva, antes do corte?

- Não, não me lembro. Regra geral, as conversas da prima Rissy não passavam de queixas ou de observações irritantes. E sei muito bem que ela roubava coisas da casa. Pequenos nadas. Não posso dizer que lamente termos deixado de falar uma com a outra.

- Será que ela aceita falar comigo?

Roz virou-se para ele, pensativa, e observou-lhe o rosto.

- Talvez, especialmente se julgar que eu não quero que o faça. Se decidir ir visitar aquele morcego velho, leve-lhe flores e chocolates. Se lhe levar chocolates Godiva, ela ficará muito impressionada consigo. Depois sirva-se do seu encanto. Não se esqueça de a tratar por sr.a Harper até que ela lhe diga para a tratar de outra forma. Ela usa o apelido da família e é muito formal em relação a tudo. Vai fazer-lhe perguntas sobre os seus familiares. Se por acaso tiver algum antepassado que tenha combatido na guerra entre os estados, refira-o. Deserde todos os ianques da sua árvore genealógica.

Mitch não pôde deixar de se rir. -Já percebi o estilo. Tenho uma tia-avó igualzinha. Roz tirou duas garrafas de água fresca de uma mala térmica por debaixo da bancada de trabalho.

- Parece que está com calor. Estou tão habituada que já nem dou por nada.

- Trabalhar nesta humidade o dia inteiro deve ser o que dá esse aspecto de rosa inglesa à sua pele. - Distraidamente, estendeu a mão e passou-lhe com o dedo pela face. Quando as sobrancelhas de Roz voltaram a erguer-se, Mitch recuou, apenas um passo. - Sinto muito. Tinha um bocadinho de terra...

- Outra coisa à qual estou habituada.

- Bem... - Forçou-se a manter as mãos ocupadas. - Pelo que vi no outro dia, imagino que esteja pronta para o Natal.

- Quase. E o Mitch?

- Nem de perto, embora lhe esteja muito grato pelo presente para a minha irmã.

- Sempre se decidiu pela caxemira?

- Uma coisa que a rapariga da loja chamou twinset. Disse que nunca eram demais para uma mulher.

- Grande verdade.

- Certo. Por isso, vou esforçar-me durante os próximos dias. Vou tirar a árvore e debater-me com as luzes.

- Tirá-la? - Roz fez um ar que podia ser de piedade ou de menosprezo.

- Imagino que isso queira dizer que é artificial.

Mitch enfiou as mãos nos bolsos e um sorriso espalhou-se lentamente no seu rosto.

- É mais simples, com a vida de apartamento.

- E, a julgar pelo estado daquela diefembáquia, talvez seja melhor assim.

- Estado do quê?

- Da planta que andava a matar aos poucos. Aquela que eu trouxe, quando fui à sua casa pela primeira vez.

- Ah! Ah, sim! - Quando ela envergava aquele fato tão feminino, pensou, e os saltos altos que lhe davam três metros às pernas. - Como vai ela?

- Agora está bem e julgo que não vou devolvê-la.

- Talvez possa visitá-la de vez em quando.

- Podemos chegar a um acordo. Vamos dar uma festa de Natal lá em casa, de sábado a oito dias. Às nove. Se quiser, pode vir. E traga companhia, é claro.

- Gostava muito. Importa-se que vá a sua casa agora para ver a biblioteca? Começar a tratar das coisas?

- Não, esteja à vontade. Vou telefonar ao David a dizer que vai lá.

- Óptimo. Nesse caso, não a incomodo mais. Obrigado pelo seu tempo.

- Tenho muito. Mitch não via como.

- Depois falo consigo. Tem aqui um belo sítio, Rosalind.

- Sim, é verdade.

Quando Mitch saiu, Roz pousou as ferramentas e bebeu um grande gole da garrafa de água. Não era uma rapariguinha tola que ficasse nervosa e agitada com o toque da mão de um homem na sua pele. Mas o roçar dos dedos dele na sua face fora estranho e curiosamente meigo, o mesmo se podendo dizer da expressão nos olhos dele quando lhe tocou.

Uma rosa inglesa, pensou, e riu-se. Há muito tempo, talvez parecesse assim tão frágil e fresca. Virou-se o observou uma das plantas-mãe saudáveis. Agora era muito mais parecida com elas, robusta e forte.

E isso, pensou, ao voltar ao trabalho, não a incomodava nada.

Apesar da chuva constante, Mitch passeou em redor dos edifícios, sentindo cada vez mais respeito por Roz e por aquilo que construíra. ”E quase sozinha”, pensou. O dinheiro dos Harpers teria sido uma grande ajuda, imaginou, mas era preciso mais do que fundos para criar tudo aquilo.

Era preciso coragem, visão e muito trabalho.

Fizera mesmo aquele comentário lamechas e batido sobre a pele dela? Uma rosa inglesa, pensava agora, e abanou a cabeça. Como se Roz nunca o tivesse ouvido.

Ainda por cima, nem era exactamente apropriado. Ela não era uma rosa inglesa delicada. Era mais uma rosa negra, admitiu, alta, esguia e exótica. Um pouco altiva e muito sensual.

Ficara a saber bastante sobre a vida de Roz e sobre ela graças àquela conversa. Perdera alguém que amara muito, a avó, ainda nova. Não fora muito chegada aos pais. E também os perdera. Os familiares estavam longe e não parecia manter relações próximas com nenhum.

À excepção dos filhos, não tinha ninguém.

E, após a morte do marido, apenas pôde contar consigo própria, sem ter mais ninguém para quem se virar enquanto educava três rapazes.

Mas não encontrava nela qualquer vestígio de comiseração e muito menos fraqueza.

Independente, directa e forte. Mas havia sentido de humor e um bom coração. Não o ajudara quando procurava um brinquedo para uma menina? E não ficara divertida com o dilema?

Agora que começava a percebê-la, só queria descobrir mais.

Por exemplo, o que se passara com o segundo marido e com o divórcio? Não tinha nada que ver com isso, é claro, mas podia justificar a curiosidade. Quanto mais soubesse, melhor. E não seria complicado descobrir. As pessoas adoravam falar.

Bastava fazer perguntas.

Agindo por impulso, regressou ao centro de jardinagem. Havia poucos clientes à volta das estrelas-de-natal e de uma planta semelhante a um cacto carregada de botões cor-de-rosa. Mitch ainda mal passara a mão pelo cabelo molhado quando Hayley se dirigiu a ele.

- Dr. Carnegie! Mas que surpresa.

- Mitch. Como está, Hayley, e o bebé?

- Não podíamos estar melhor. Mas olhe só para si, está encharcado! Vou buscar-lhe uma toalha.

- Não, estou bem. Não pude resistir a dar uma volta por aí para ver o lugar. -Ah! - Hayley estava radiante, toda ela era inocência. - Estava à procura da Roz?

- Encontrei-a. Vou agora à casa para ver o lugar onde vou trabalhar. Mas pensei em levar uma daquelas árvores de mesa. Daquelas que já estão decoradas.

- Não são uma ternura? Uma maravilha para espaços pequenos ou para um escritório.

- Muito mais bonitas do que a artificial que me esforço por montar todos os anos.

- E cheiram a Natal. - Acompanhou-o. - Vê alguma de que goste? -Ah... pode ser esta.

- Adoro os laços vermelhos e os Pais Natais pequeninos. Vou buscar uma caixa.

- Obrigado. O que é aquilo?

- São cactos-de-natal. Não são lindos? É o Harper que os enxerta. Um dia destes vai mostrar-me como é que se faz. Devia ter um, sabia? Fazem parte da quadra. E dão flor no Natal e na Páscoa.

- Não tenho jeito para plantas.

- Não precisa de fazer grande coisa. - Pousou os enormes olhos azuis em Mitch. - Mora num apartamento, não é? Se levar a árvore, um cacto-de-natal e duas estrelas-de-natal, fica com a casa decorada para a quadra Já pode receber visitas à vontade.

- Não sei se o Josh vai prestar grande atenção a um cacto. Hayley sorriu.

- Talvez não, mas imagino que o dr. Carnegie leve uma amiga lá a casa para tomar qualquer coisa, não?

- Ah... tenho andado muito ocupado com o livro.

- Um homem atraente como o senhor deve ser obrigado a enxotar as mulheres.

- Ultimamente nem por isso. Ah...

- Também devia levar uma coroa para a porta.

- Uma coroa.

Ele começou a sentir-se um tanto ou quanto desesperado quando Hayley lhe deu o braço.

- Deixe-me mostrar-lhe aquilo que temos. Algumas delas fui eu própria que fiz. Está a ver esta? Sinta só o cheiro a pinheiro. Não se pode ter um Natal sem uma coroa na porta.

Mitch sabia quando se dar por vencido.

- É muito boa nisto, não é?

- Pode crer - replicou com uma gargalhada, escolhendo uma coroa.

- Esta fica muito bem com a sua árvore.

Convenceu-o a levar a coroa, três estrelas-de-natal para o peitoril da janela e o cacto. Mitch parecia estupefacto e um pouco desorientado quando Hayley registou tudo e colocou as compras dentro de uma caixa.

Quando ele saiu, Hayley conseguira as informações que queria.

Correu para o gabinete de Stella.

- O Mitch Carnegie não anda com ninguém.

- Ficou repentinamente paralisado?

- Tu sabes a que me refiro, Stella. Não tem namorada. - Tirou o boné e passou os dedos pelo cabelo castanho suficientemente comprido para usar preso num rabo-de-cavalo. - E passou uma boa meia hora na estufa de propagação com a Roz, antes de ter ido comprar uma árvore de mesa.

O Harper mandou-o entrar sem a avisar. Assim, sem mais nem menos, com ela a trabalhar e sem tempo de pôr um bocadinho de batom.

- O Harper mandou-o entrar sem avisar a mãe? Mas será que ele é estúpido?

- Foi exactamente o que lhe perguntei. Ao Harper, claro está. Seja como for, depois ele, o Mitch, entrou todo molhado, pois tinha andado por aqui a ver as instalações. Agora vai passar lá por casa.

- Hayley! - Stella desviou a atenção do computador. - Que andas tu a tramar?

- Ando só a ver, mais nada. Ele não anda com ninguém, ela não anda com ninguém. - Ergueu as mãos, com os indicadores espetados, e depois aproximou-os um do outro. - E agora vão andar muito tempo um com o outro. E, além de ser uma brasa, ele é tão querido. Para além da árvore, convenci-o a comprar uma coroa, três estrelas-de-natal e um cacto-de-natal.

- Boa, Hayley.

- Ele não é capaz de dizer não, e essa é a parte querida. Se a Roz não o aproveitar, talvez eu própria arrisque. Está bem, não vou fazer nada disso. Riu-se da expressão de Stella. - Ele tem idade para ser meu pai e blá, blá, blá, mas é perfeito para a Roz. A sério, eu percebo destas coisas. Não tive razão em relação a ti e ao Logan?

Stella suspirou ao olhar para a água-marinha que Logan lhe dera como anel de noivado.

- Isso não posso negar. E, mesmo que vá dizer, com toda a firmeza, que devemos limitar-nos a ver, não digo que não seja divertido.

 

Regra geral, quando trabalhava, Mitch lembrava-se de limpar o apartamento quando ficava sem espaço para se sentar ou já não tinha canecas lavadas para o café. Entre projectos, era um pouco melhor a deitar coisas fora ou pelo menos a reorganizar a confusão.

Contratava empresas de limpeza. Na verdade, contratava-as com frequência. Nunca duravam muito tempo e estava disposto a admitir que a culpa, em grande medida, era sua.

Esquecia-se do dia marcado e escolhia sempre essa data para tratar de alguma coisa, para fazer pesquisa ou para um jogo de basquetebol com o


filho. Talvez houvesse algo freudiano nisso, mas não queria debruçar-se muito sobre o assunto.

Outras vezes lembrava-se, a equipa de limpeza chegava e arregalava os olhos, surpreendida com o trabalho que a esperava. E nunca mais a via.

Mas um homem tinha de, ou pelo menos devia, fazer um esforço nas quadras festivas. Passou um dia inteiro a arrastar tralha, a esfregar e a varrer, após o que teve de admitir que, se lhe pagassem para o fazer, também desistiria.

Mesmo assim, era bom ter um pouco de ordem no apartamento, poder ver a superfície das mesas e o assento das cadeiras. Embora não tivesse grande esperança de as manter vivas a longo prazo, as plantas que Hayley o convencera a trazer davam um toque festivo agradável.

E a árvore pequena, bem, era bastante engenhoso. Agora, em vez de arrastar a caixa da despensa, de se debater com as partes da árvore e de amaldiçoar o emaranhado de luzes, apenas para vir a descobrir que metade não funcionava, só tinha de colocar a árvore vistosa em cima da coluna de estilo Hepplewhite que tinha ao lado da janela da sala de estar e ligar as luzes.

Pendurou a coroa na porta de entrada, colocou o cacto em flor na mesa de apoio e as três pequenas estrelas-de-natal em cima do reservatório de autoclismo. Parecia-lhe muito bem.

Quando acabou de tomar duche e de vestir as calças de ganga e a camisa, a pessoa com quem ia jantar bateu à porta.

Descalço e com o cabelo ainda molhado, Mitch atravessou a sala de estar para abrir a porta. E sorriu à única pessoa que amava sem qualquer reserva.

- Esqueceste-te da chave?

- Queria ter a certeza de que estava no sítio certo. - Joshua Carnegi tocou com o dedo na verdura. - Tens uma coroa na porta.

- É Natal.

- Pois, já tinha ouvido dizer. -

Entrou e arregalou os olhos, do mesmo tom verde dos do pai. Tinha uns bons dois dedos a mais de altura do que o pai, assente na mesma estrutura magra. Tinha o cabelo escuro e desgrenhado, não por se esquecer de o cortar, como o pai, mas por opção. Vestia uma camisola cinzenta com capuz e calças de ganga largas.

- Uau! Encontraste uma empresa de limpeza nova? Recebem subsídio de risco?

- Não, não tive oportunidade. Além disso, acho que já corri todas as empresas de limpeza do Tennessee ocidental.

- Foste tu que limpaste? - Com os lábios franzidos, Josh passeou rapidamente pela sala. - Tens uma planta... com flores.

- Vais levá-la contigo. -Vou?

- Eu mato-a. Já a ouvi arquejar. Não quero ser o responsável.

- Claro. - Josh puxou distraidamente a orelha. - Vai alegrar o ambiente. Ei! Tens uma arvorezinha. E velas.

- É Natal - repetiu Mitch, enquanto Josh se baixava para cheirar a grande vela vermelha.

- Velas de cheiro. E, se não estou em erro, andaste a aspirar. - Com os olhos semicerrados, virou-se para olhar o pai. - Tens uma mulher.

- Não, por acaso não tenho. Tanto pior. Queres uma Coca-Cola?

- Sim. - Josh dirigiu-se à casa de banho a abanar a cabeça. - Tenho de ir à retrete. Vamos comer piza?

- Tu é que escolhes.

- Piza - gritou Josh. - Pimentos e salsicha. Com queijo extra.

- Tenho as artérias a entupir só de te ouvir dizer isso - respondeu Mitch, enquanto retirava duas latas de Coca-Cola do frigorífico. Por experiência, sabia que o filho era capaz de devorar um empadão inteiro e continuar magro como um galgo.

Ah, voltar a ter vinte anos.

Telefonou para a pizaria local e encomendou uma grande para Josh e uma média vegetariana para si.

Quando se virou, avistou Josh encostado à ombreira da porta; os pés calçados com ténis Nike Zoom cruzados. - Tens flores na retrete.

- Estrelas-de-natal. Quadra festiva. Pechincha.

- Tens uma mulher. Se não a tens, andas com alguma debaixo de olho. Por isso, desembucha.

- Não há mulher nenhuma. - Passou uma das latas a Josh. - É só um apartamento limpo com um toque festivo.

- Temos maneiras de te pôr a falar. Onde é que a conheceste? É bonita?

- Não vou dizer nada. Rindo-se, Mitch abriu a lata.

- Eu arranco-te a informação.

- Não há nada para saber. - Mitch passou por ele em direcção à sala. -Ainda.

- Ah, ah! - Josh seguiu-o, deixou-se cair no sofá e colocou os pés em cima da mesa de apoio.

- Repito: não vou dizer nada. E esse ah, ah é prematuro. Sinto-me com vontade de celebrar a ocasião. Acabei o livro, o que significa que devo ter um cheque a aparecer no correio muito em breve. Vou começar um projecto novo muito interessante... - Já? Sem descomprimir?

- Tenho isto em vista há já algum tempo e quero atirar-me de cabeça. É melhor do que pensar nas compras de Natal.

- Porque é que tens de pensar nelas? Ainda faltam duas semanas.

- Pois, és mesmo meu filho. - Mitch ergueu a Coca-Cola num brinde.

- Como vão a tua mãe e o Keith?

- Bem. Estão óptimos. - Josh bebeu um grande gole da lata. - Anda toda excitada com o Natal. Sabes como é.

- Pois sei. - Deu uma palmada carinhosa no joelho do filho. - Não te preocupes, Josh. A tua mãe quer que passes o Natal em casa. E é assim que deve ser.

- Podias vir. Sabes que podias vir.

- Eu sei e agradeço. Mas é melhor ficar por aqui. Fazemos a nossa comemoração de Natal antes de te ires embora. É importante para a tua mãe que estejas lá. Ela tem direito a isso. E também é importante para ti.

- Não gosto de pensar que ficas sozinho.

- Só eu e o meu prato. - Ainda lhe doía, doía sempre. Mas fora algo merecido.

- Podias ir a casa da avó.

- Por favor. - Uma expressão exagerada de dor cobriu o rosto de Mitch e soou na sua voz. - Como é que podes desejar-me isso?

Josh exibiu um sorriso trocista.

- Podias vestir aquela camisola da rena que ela te deu há uns anos.

- Sinto muito, mas há um sem-abrigo muito simpático que a vai usar este Natal. Quando é que te vais embora?

-A vinte e três.

- Podíamos juntar-nos a vinte e dois, se te der jeito.

- Claro. Só tenho de falar com a Julie. Ela vai para o Ohio ter com a mãe ou para LA ter com o pai. As coisas andam muito complicadas. Estão os dois a relatar-lhe toda a cena do tribunal, a expor a treta das culpas e das obrigações, e ela passa a vida a dizer: ”Não quero falar com nenhum deles.” Está sempre a chorar, ou irritada, ou as duas coisas.

- Às vezes os pais conseguem lixar os filhos.

- Vocês não. - Deu mais um gole na bebida e depois fez rodar a lata nas mãos. - Não me quero armar em programa da manhã lamechas, mas gostava de dizer que vocês nunca me usaram como arma na vossa guerra pessoal. Tenho andado a pensar nisso, agora que a Julie está a atravessar esta fase. Tu e a mãe nunca me fizeram isso. Nunca me obrigaram a escolher, nem se atacaram um ao outro ao pé de mim. É uma treta, quando essas coisas acontecem. Uma grande treta.

- É verdade.

- Eu lembro-me, sabes, de como era antes de vocês se separarem. As coisas entre vocês andavam feias. Mas nem mesmo nessa altura me usaram para agredir o outro. É o que está a acontecer com a Julie, e agora percebo que tive muita sorte. Era só isso que eu queria dizer.

- É... é bom ouvir isso.

- Bem, agora que tivemos este momento de ternura, vou buscar outra Coca-Cola. O jogo deve estar quase a começar.

- Já lá estou. - Mitch agarrou no comando da televisão. Agradecia a sorte de ter um filho como aquele.

- Olha só! Batatas fritas com sal e vinagre!

Ao ouvir o saco a ser aberto e alguém a bater à porta, Mitch sorriu e levantou-se, tirando a carteira para pagar a piza.

- Não entendo, Stella. Não consigo perceber. - Hayley percorria o quarto de Stella, enquanto os miúdos chapinhavam na casa de banho adjacente.

- Os sapatos pretos sensuais que me vão dar cabo dos pés ou as sabrinas mais elegantes?

Quando Stella se levantou, com um sapato de cada par num dos pés, Hayley parou de andar o tempo suficiente para os avaliar.

- Os sensuais.

- Receava que fosses dizer isso. Seja.

Stella descalçou os sapatos e arrumou o par rejeitado no armário. A roupa para o serão estava sobre a cama, as jóias que já seleccionara numa salva em cima da cómoda.

Agora só tinha de deitar os filhos, vestir-se, arranjar o cabelo, maquilhar-se. Verificar se os rapazes estavam bem, verificar monitores. E... O caminhar e o resmungar de Hayley distraiu-a o suficiente para a fazer virar-se.

- O que foi? Porque estás tão nervosa? Tens companhia de que eu não ouvi falar para a festa de logo à noite?

- Não. Mas estou a falar de encontros. Porque haveria a Roz de dizer ao Mitch para trazer companhia? Agora, o mais certo é que ele traga, pois julga que se não trouxer vai parecer um falhado. E vão os dois perder uma grande oportunidade.

- Houve alguma coisa que me escapou. - Colocou os brincos e observou o resultado final. - Como é que sabes que a Roz lhe disse para trazer companhia? Como é que descobres essas coisas?

- É um dom que eu tenho. Mas, afinal de contas, o que é que se passa com ela? Ora aqui está um homem deslumbrante e disponível, e ela convida-o para hoje à noite... aí, ganha pontos. Mas a seguir diz-lhe que pode trazer alguém. Ora bolas.

- Se calhar pensou que era o mais educado a fazer.

- Valha-me Deus, não se pode ser educado na guerra sentimental.

- Com um suspiro zangado, Hayley sentou-se aos pés da cama e levantou as pernas, a fim de observar os sapatos que tinha calçado. - Sabes, encontro vem do latim... ou talvez venha do inglês antigo. Seja como for, vem de data, que é uma palavra feminina. Feminina, Stella. Somos nós que devemos assumir o controlo.

Uma vez que ainda não começara a aplicar a maquilhagem, Stella pôde levar os dedos aos olhos.

- Como? Como é que sabes essas coisas? Ninguém sabe esse tipo de coisas.

- Fui livreira durante anos, lembras-te? Leio muito. Não sei porque é que fixo as coisas estranhas. Mas estamos a falar de uma festa de Natal na casa dela. E sabes que vai estar maravilhosa. E agora ele vai aparecer com uma mulher qualquer e estragar tudo.

-Julgo que neste momento não há nada para estragar. Frustrada, Hayley deu um puxão no cabelo.

- Mas pode haver. Sei que pode. Presta-lhes atenção esta noite e vais ver se não sentes alguma coisa.

- Está bem, eu presto. Mas agora tenho de tirar os miúdos da banheira e metê-los na cama. Depois tenho de me vestir e calçar os meus sapatos sensuais, tendo como único objectivo deixar o Logan louco.

- Queres uma mãozinha? Com os miúdos, não a deixar o Logan louco. A Lily já está a dormir.

- Não. Ainda ficas molhada ou amarrotada, e estás fantástica. Quem me dera poder usar esse tom de vermelho. Isso é que é sensual.

Hayley baixou o olhar para o vestido justo de um sedutor vermelho.

- Não achas que é demasiado...

- Não, acho que é perfeito.

- Bem, vou descer, ver se posso dar uma mão ao David com a comida. Depois peço-lhe a opinião sobre a roupa. Ele é perito em moda.

Roz já estava lá em baixo, a rever os pormenores e a tecer críticas a si própria. Talvez devesse ter aberto o salão de baile do segundo andar e organizado aí a festa. Era um espaço encantador, muito elegante e gracioso. Mas o rés-do-chão, com o seu emaranhado de salas mais pequenas e as lareiras, era de certa forma mais confortável e caloroso.

Convenceu-se de que o espaço não era problema, enquanto confirmava a disposição das mesas, das cadeiras, das velas, dos candeeiros. E gostava de abrir daquela forma as divisões, pois sabia que as pessoas iriam vaguear de sala em sala, a admirar a casa de que tanto gostava.

A noite estava limpa, o que faria com que pudessem também sair para as varandas. Havia aquecedores, caso o tempo refrescasse, e mais mesas, mais lugares, mais velas e todas aquelas luzes festivas nas árvores, bem como luminárias ao longo dos carreiros por entre os jardins.

Deus nos livre, no entanto, de pensar que era a primeira festa que dava na vida.

Mas há já muito tempo que não fazia algo tão grande. Por esse motivo, poucas tinham sido as desistências da sua lista de convidados. Ia ter a casa cheia.

Evitou os fornecedores e os empregados adicionais que se atarefavam pela casa e saiu. Sim, as luzes eram deveras bonitas de se ver. E gostava da árvore de estrelas-de-natal que criara com dezenas de pequenas plantas brancas.

Fez por se recordar que a Harper House fora concebida para oferecer entretenimento. Andara a esquivar-se ao seu dever, ao mesmo tempo que se negava o prazer de confraternizar com pessoas de quem gostava.

Virou-se quando ouviu a porta a abrir-se. David apareceu com duas taças de champanhe.

- Olá, beleza. Posso convidar-te para uma taça de champanhe?

- Podes, sim. Embora eu devesse estar lá dentro a ajudar na loucura geral.

- Está tudo sob controlo. - Tocou na taça dela com a sua. - Mais vinte minutos e vai estar tudo perfeito. E olha só para nós! Não estamos lindos?

Roz riu-se e deu-lhe a mão.

- Tu estás sempre.

- E tu, minha jóia. - David recuou, sem lhe largar a mão. - Estás radiante. Roz escolhera um vestido de tom prata baço, justo, com um decote que lhe deixava os ombros a descoberto, ideal para exibir os rubis da bisavó.

Passou os dedos pelo colar de platina com os espectaculares pingentes de rubi.

- Não tenho grandes oportunidades de usar os rubis Harper. Esta noite pareceu-me adequada.

- São um regalo para os olhos e ainda por cima fazem maravilhas pelo teu colo. Mas estava a falar de ti, minha beleza incandescente. Porque é que não fugimos para Belize?

David e champanhe, a combinação perfeita para a deixar animada e descontraída.

- Pensei que íamos para o Rio.

- Só no Carnaval. Vai ser uma festa maravilhosa, Roz. Esquece tudo o resto.

- Conheces-me muito bem, não é? - Abanou a cabeça e olhou os jardins, enquanto bebericava champanhe. - Da última vez que dei uma festa destas, fui lá acima mudar de pulseira porque o fecho estava solto e dei com o meu marido às dentadinhas a uma das convidadas, em vez de nos aperitivos. - Bebeu devagar, absorta. - Um momento particularmente humilhante da minha vida.

- Que se lixe isso. Lidaste bem com o caso, não foi? Continuo sem saber como conseguiste sair de lá e deixá-los sozinhos, aguentaste a festa até ao fim e só depois de toda a gente se ter ido embora é que puseste o sacana na rua. - A voz subiu-lhe de tom enquanto falava, e a indignação pela amiga acendia-lhe chispas no olhar. - Tens um belo par de tomates, Roz. E digo isto no melhor dos sentidos.

- Foi um acto puramente egoísta, não foi corajoso nem coisa que o valha.

- Encolheu os ombros, tentando minimizar o acontecimento. - Fazer uma cena com a casa cheia de convidados teria sido ainda mais humilhante.

- No teu lugar, tinha-lhes arrancado os olhos à unhada e tinha-os posto a andar com um dos mosquetes do teu bi... tri... de um dos teus avós mais antigos.

Roz suspirou e deu mais um gole na bebida.

- De certeza que me tinha ficado a sentir bem. Quem me dera ter-me lembrado do mosquete depois de os convidados terem saído. Bem, não o deixámos estragar esse serão e também não vai estragar este. - Acabou o champanhe e virou-se para David com a expressão determinada de uma mulher pronta para o combate. - Vamos acender o resto das velas e pôr a música a tocar. Estou pronta para uma festa.

Sim, era agradável abrir as portas da casa outra vez. Haver vinho e música, boa comida, bons amigos. Andou de grupo em grupo, de sala em sala, enquanto escutava retalhos de coscuvilhice, debates políticos, discussões sobre desporto e arte.

Deu o braço ao velho amigo Will Dooley, que era também pai de Stella, e ao futuro genro dele, Logan Kitridge, seu paisagista.

- Ainda não te tinha visto.

- Acabei de chegar. - Tocou-lhe ao de leve na face com os lábios. - A Jo nunca mais escolhia os sapatos. Foi lá acima com a Hayley. Disse que tinha de ir espreitar o bebé.

- Eu encontro-a. Perdeste a noiva, Logan?

- Ela está em todo o lado. - Encolheu os ombros e bebeu um gole de cerveja. - Aquela mulher não descansa enquanto não confirma todos os pormenores. Bela festa, Roz.

- Ora, tu detestas festas.

Agora era Logan que sorria, o que dava algum encanto aos seus traços duros.

- É muita gente. Mas a comida é óptima, a cerveja está fresca e o meu par é a mulher mais bonita do mundo. É difícil queixar-me. Não digas nada ao pai dela, mas daqui a pouco estou a pensar em levá-la até ao jardim para trocarmos uns beijos. - Piscou o olho a Will, ao que desviou o olhar.

- O teu dr. Carnegie acabou de chegar. Parece que anda à tua procura... ou de alguém.

- Ah, sim? - Roz olhou para trás e as sobrancelhas expressivas ergueram-se. Mitch. Vestia um fato cinzento-pedra, que lhe acentuava a constituição elegante. Reparou que ele cortara o cabelo desde a última vez que o vira e tinha um ar mais CQ do que erudito.

Fosse como fosse, tinha de admitir, pelo menos para si própria, que era muito agradável observá-lo.

Mesmo assim, parecia um pouco confuso na multidão e abanou a cabeça quando um dos eficientes empregados lhe ofereceu uma taça de champanhe.

- Desculpem-me um momento - disse a Will e Logan.

Começou a dirigir-se a ele por entre as pessoas e abrandou quando foi avistada.

Sentia um ligeiro aperto no coração e o pulso acelerado, algo que considerava simultaneamente estranho e embaraçoso.

”Ele atrai-me”, pensou. Aqueles olhos fixaram-na de imediato, por isso sentiu-se, como qualquer pessoa se sentiria, única naquela sala. Uma grande proeza num espaço apinhado de gente e barulhento, o que resultava um tanto ou quanto desconcertante.

Mas, ao aproximar-se de Mitch, Roz arvorou uma expressão descontraída e amável.

- Ainda bem que pôde vir.

- A Roz, quando faz uma festa, esmera-se. Ainda vinha a um quilómetro daqui e já via as luzes. Não conhece estas pessoas todas, pois não?

- Nunca as tinha visto. O que bebe?

- Uma água com gás e limão.

- Há um bar ali à frente. - Pousou-lhe a mão no braço a fim de o guiar. -Vamos tratar de si.

- Obrigado. Escute, tenho uma coisa para si. Uma prenda.

Enfiou a mão no bolso enquanto se dirigiam ao bar e ofereceu-lhe uma pequena caixa embrulhada.

- Isso é completamente desnecessário e muito gentil de sua parte.

- É apenas uma forma de agradecer por me ter ajudado com a prenda para a minha sobrinha. - Pediu a bebida. - A Roz está... espantosa é o termo que me vem à mente, com espectacular logo a seguir.

- Obrigada.

- Desde a cabeça - continuou, percorrendo-a com o olhar até às sandálias de salto prateado... às unhas pintadas de vermelho - à ponta dos pés.

- A minha mãe sempre me disse que uma mulher não estava apresentável a menos que tivesse as unhas dos pés pintadas. É um dos poucos conselhos que me deu com que concordo. Devo abri-la agora?

Mitch mal olhara para os rubis, embora o antiquário amador em si os avaliasse como verdadeiros. Mas aqueles dedos dos pés. Os dedos eram espantosos.

- O quê?

- A prenda. - Roz sorriu. Era difícil não se sentir encantada e um pouco convencida quando um homem se extasiava com os seus pés. - Abro-a agora?

- Não, preferia que não abrisse. Se o fizer mais tarde e não gostar, fica com tempo para preparar uma mentira cortês.

- Não seja tonto. Vou abri-la agora.

Puxou o laço e abriu a tampa. Lá dentro estava um relógio em miniatura em filigrana de prata.

- É lindo. É mesmo lindo.

- As antiguidades são um dos meus passatempos. O que até faz sentido. Imaginei que gostasse de coisas antigas, a julgar por esta casa. Há uma inscrição nas costas que me cativou.

Roz virou o relógio e leu.

”L, Conta as horas. N”

- É lindo e romântico. É maravilhoso, Mitch, e mais do que eu mereço por tê-lo ajudado a escolher um brinquedo.

- Fez-me pensar em si. - Quando Roz ergueu a cabeça, Mitch abanou a dele. - O que eu disse deixou-a com um ar incrédulo, mas um facto é um facto. Quando o vi, pensei em si.

- Isso acontece-lhe com frequência?

- Pensar em si?

- Não, pensar em alguém e comprar-lhe um presente encantador.

- De vez em quando. Mas, verdade seja dita, há algum tempo que não acontecia. E consigo, acontece com frequência?

Roz esboçou um sorriso.

-Já há algum tempo que não. Muito obrigada. Quero pô-lo lá em cima. Deixe-me apresentá-lo a... ah, lá vem a Stella. Não há ninguém melhor do que a nossa Stella para o guiar pela festa.

- Mitch. - Stella estendeu-lhe a mão. - É um prazer voltar a vê-lo.

- A si também. Está encantadora - disse-lhe. - Deve ser amor.

- Posso confirmar que sim.

- E como vão os seus filhos?

- Muito bem, obrigada. Estão a dormir, lá em cima e... Oh. - Interrompeu-se quando viu o pequeno relógio. - Não é adorável? Tão romântico e feminino.

- É um amor, - não é? - asseverou Roz. - Foi uma prenda por um favor mínimo.

- Se tivesse ouvido o telefonema que recebi da minha irmã e da minha sobrinha, não diria que foi mínimo - garantiu-lhe Mitch. - Não só fui oficialmente perdoado, como agora gozo do estatuto de tio preferido.

- Ora, muito bem, nesse caso mereço a prenda. Stella, dá uma volta com o Mitch, sim? Quero pôr isto lá em cima.

- Claro. - E Stella reparou na forma como o olhar de Mitch seguiu Roz até que esta deixou a sala.

- Só uma pergunta antes de começarmos. Ela anda com alguém?

- Não, não anda.

Mitch sorriu ao dar o braço a Stella.

- Quem diria?

Roz dirigiu-se ao salão de entrada e subiu as escadas. Recordou outra festa em que subira aquelas mesmas escadas, com as vozes e a música atrás dela, a caminho do fim de uma relação.

Não era ingénua. Sabia muito bem que Mitch lhe estava a perguntar se estaria interessada em começar uma relação, estabelecendo as bases para que estivesse. O mais estranho era que a resposta não era um não declarado. O estranho, pensou Roz, enquanto se dirigia ao quarto, era não saber a resposta.

Entrou no quarto, a fim de colocar o romântico relógiu em cima da cómoda. Não pôde evitar o sorriso ao tocar no mostrador. Uma prenda bastante atenciosa, pensou, e sim, o seu lado cínico dizia que era uma prenda muito inteligente. No entanto, uma mulher com dois casamentos às costas teria necessariamente de possuir uma boa dose de cinismo.

Uma relação com ele talvez viesse a ser interessante, até mesmo divertida, e Deus sabia que precisava de alguma paixão na vida. Mas também seria complicado, possivelmente demasiado emotivo. E, devido ao trabalho que o contratara para fazer, potencialmente doloroso.

Ia deixar que aquele homem escrevesse um livro que envolvia a história da sua família e de certeza que a envolveria a ela até certo ponto. Queria mesmo tornar-se íntima de alguém que, se as coisas corressem mal, poderia crucificá-la, a ela e à sua família, por escrito?

A experiência com Bryce alertara-a para o facto de as coisas terem tendência a piorar.

Era muito em que pensar, meditou. Depois ergueu o olhar para o espelho.

Viu-se a si própria, a pele afogueada, os olhos brilhantes com as suas reflexões, mas também viu a figura pálida que estava atrás de si.

Susteve a respiração, mas não se deixou abalar. Não deu meia-volta. Deixou-se ficar como estava, os olhos fitos nos de Amélia no espelho.

- Duas vezes depois de semanas sem apareceres - disse calmamente. Imagino que sejas da opinião de que devo afastá-lo. Não gostas muito de homens, pois não, Amélia? De rapazes, sim, de crianças, mas os homens são diferentes. Só um homem pode deixar uma mulher com tanta raiva. Eu sei. Foi alguém do meu sangue que te deixou assim?

Não houve resposta, nem tão-pouco esperava que houvesse.

- Deixa-me acabar este monólogo dizendo que tenho de pensar por mim, tenho de decidir sozinha, tal como sempre fiz. Se deixar o Mitchell entrar na minha vida, na minha cama, as consequências, e o prazer, serão meus.

Respirou fundo, lentamente.

- Mas uma coisa te prometo. Faça o que fizer, ou não, agora que começámos, não deixaremos de procurar as tuas respostas.

Quando a imagem começou a desvanecer-se, Roz sentiu algo a roçar-lhe o cabelo, como uma carícia de dedos, ao mesmo tempo calorosos e gelados.

Teve de se agarrar ao tampo da cómoda para se recompor. Depois retocou o batom e perfumou-se. E regressou à festa.

Imaginava que uma carícia fantasmagórica seria choque suficiente para uma noite, mas teve um choque ainda mais forte quando chegou ao fundo das escadas.

Bryce cLlerk estava na entrada.

Foi invadida por uma raiva intensa e terrível e imaginou-se a saltar dos degraus e a descarregar a sua fúria batendo-lhe e insultando-o, após o que o atiraria porta fora.

Por um momento, a visão foi tão nítida que o resto, a realidade à sua volta, tornou-se indistinto e desapareceu. Ouvia apenas o coração a martelar-lhe nos ouvidos.

Olhou-a, felicíssimo, enquanto ajudava uma mulher, que ela conhecia do clube de jardinagem, a tirar o casaco. Roz agarrou-se ao pilar da escada até sentir que recuperava o controlo e ter o mínimo de certeza de que não iria agredi-lo.

Deu o último passo.

- Mandy - disse.

- Oh, Roz! - Amanda Overfield riu-se e beijou as faces de Roz. Tinha a idade de Harper, sendo uma jovem tola, inofensiva e rica. Acabara de se divorciar e regressara a Memphis no Verão anterior. - A sua casa é linda. Sei que estamos extremamente atrasados, mas ficámos... - Voltou a rir-se, o que fez Roz cerrar os dentes. - Não interessa. Fico tão contente por me ter convidado. Estava mortinha por conhecer a sua casa. Ai, mas que falta de maneiras. Deixe-me apresentar-lhe o meu par. Rosalind Harper, apresento-lhe Bryce Clerk.

- Já nos conhecemos.

- Roz. Estás maravilhosa como sempre.

Começou a inclinar-se, fazendo menção de a beijar. Roz sabia que as conversas à volta deles se tinham interrompido e que as pessoas estavam suspensas, esperando.

Roz falou com um tom muito baixo.

- Se me tocas, enfio-te os tomates na garganta.

- Fui convidado para tua casa. - A voz de Bryce era afável, o tom suficientemente alto para chegar a quem estivesse interessado. Roz observou-o a arvorar uma expressão de choque. - Essa falta de educação não te fica bem.

- Não percebo. - Mandy olhava de um para o outro, apertando as mãos. - Não percebo.

- Imagino que não. Mandy, porque não vem com o seu par até ali fora? Ouviu uma praga atrás dela e esforçou-se por não perder a calma.

Virou-se e manteve a voz baixa.

- Harper. Não. Por favor.

Quando se deslocou para bloquear o filho, o olhar de Harper saltou de Bryce para a mãe.

- De uma vez por todas.

- Eu trato disto. Deixa-me tratar disto. - Esfregou-lhe o braço e sentiu os músculos do rapaz tensos. - Por favor.

- Sozinha, não.

- Dois minutos. - Beijou-lhe a face e murmurou-lhe ao ouvido. - Ele quer uma cena. Não lha vamos dar. De nós não vai conseguir nada. Dois minutos, querido. - Virou-se. - Mandy? Vamos apanhar um pouco de ar, está bem? - Deu o braço à mulher.

Bryce não saiu de onde estava.

- Isto é muito indelicado de tua parte, Rosalind. Estás a envergonhar-te a ti e aos teus convidados. Esperava que pelo menos conseguisses mostrar alguma civilidade.

- Imagino que a tua esperança tenha saído frustrada.

Viu a mudança na sua expressão quando ele olhou por cima do seu ombro. Seguiu-lhe o olhar e viu Mitch ao lado de Harper, e Logan e David a dirigir-se para a entrada. Reparou que a expressão no rosto dos homens era bastante menos civilizada do que a dela.

- Quem é o idiota?

A pergunta de Mitch não passava de um murmúrio, mas Roz ouviu-a, bem como à resposta de Harper.

- Bryce Clerk. O monte de esterco que ela pôs a andar há meia dúzia de anos,

Roz levou Mandy para a rua. Bryce era um idiota, pensou, e talvez não se importasse de ter uma altercação pública com Harper. Mas não enfrentaria vários homens fortes e zangados, nem mesmo pelo prazer de a humilhar na sua própria casa.

Percebeu que tinha razão quando ele as seguiu com um passo rígido. Roz fechou a porta.

- Mandy, este é o meu ex-marido. Aquele que encontrei lá em cima, durante uma festa semelhante, com as mãos nos seios nus de uma conhecida nossa.

- Isso não passa de uma mentira. Não houve nada... A cabeça de Roz virou-se com brusquidão.

- Podes contar a tua versão da história quando já não estiveres à minha porta. Não és bem-vindo. Nunca vais ser bem-vindo. Se voltares às minhas terras, chamo a polícia e mando-te prender por invasão de propriedade. E podes ter a certeza de que te levanto um processo. Agora tens um minuto, nada mais do que isso, para te enfiares no carro e saíres daqui. -Virou-se e sorriu para a chocada Mandy. - Mandy, sabes que podes entrar e ficar. Se quiseres, eu arranjo maneira de te levarem a casa mais logo.

-Julgo que devia... eu, ah, acho que é melhor ir.

- Então está bem. Vemo-nos no mês que vem, na reunião. Feliz Natal. Roz deu um passo atrás, mas não abriu a porta.

- Acho que já só tens mais uns quarenta segundos antes de eu entrar e chamar a polícia.

- Toda a gente que ali está sabe o que tu és agora - cuspiu-lhe Bryce, enquanto arrastava Mandy para o carro.

-Acredito que sim.

Esperou até que ele ligasse o motor e se afastasse. Só então levou a mão ao estômago revolto e cerrou os olhos até conseguir reprimir a vergonha e a raiva.

Respirou fundo por duas vezes, ergueu a cabeça e regressou à casa. Ostentou um sorriso fantástico e estendeu a mão a Harper.

- Bem - disse ela, apertando a mão do filho e olhando os rostos curiosos -, uma bebida vinha mesmo a calhar.

 

Quando a festa acabou e os convidados já iam a caminho de casa, Roz percebeu que não era capaz de se acalmar. Sabia que não podia ir para o quarto, onde se limitaria a andar de um lado para o outro, revendo e remoendo aquela humilhação pessoal.

Sendo assim, preparou uma caneca grande de café e levou-a para o pátio, a fim de apreciar a frescura da noite e a solidão. Os aquecedores ainda gemiam e as luzes ainda piscavam. Roz sentou-se e bebericou o café, para apreciar aqueles momentos e talvez matutar um pouco.

Sabia que Harper estava zangado consigo, por ela o ter impedido de atirar Bryce para fora de casa. Era suficientemente jovem e, abençoado fosse, ainda por cima másculo quanto bastasse, para acreditar que a força bruta podia resolver aquele problema específico. E gostava dela o suficiente para se refrear quando ela lho pediu.

Pelo menos dessa vez conseguira refrear-se.

Da outra única vez que Bryce tentara entrar na Harper House sem convite, ficara demasiado chocada para deter Harper. E, já que se falava nisso, para deter David. Bryce fora posto fora e ela fora egoísta a ponto de se sentir satisfeita pela forma como o filho o expulsara. Mas o que se ganhara com isso?

Nessa altura, Bryce conseguira o mesmo que naquela noite, deixara-a perturbada.

Quanto tempo mais, interrogou-se, por quanto tempo mais deveria continuar a pagar por um único erro estúpido e irreflectido?

Quando ouviu a porta a abrir-se atrás de si, Roz ficou tensa. Não queria rever o incidente com David, nem com Harper, não queria que um homem lhe passasse a mão pela cabeça e lhe dissesse que não se preocupasse.

Queria ficar a cismar sozinha.

- Quanto a ti, não sei, mas a mim sabia-me bem uns chocolates. Surpreendida, Roz observou Stella a colocar uma travessa em cima da mesa.

- Pensei que tivesses ido para a cama.

- Gosto sempre de descomprimir um pouco depois de uma bela festa. E ainda por cima havia estas trufas de chocolate, ali sozinhas na cozinha, a chamar por mim.

Roz reparou que ela fizera chá e recordou que Stella não apreciava café ao fim da noite. E dispusera as trufas que tinham sobrado numa bonita travessa.

- A Hayley também era para descer, mas a Lily acordou. Deve ter um dente a nascer, pois anda muito inquieta. Isto é lindo. Estamos a meio de Dezembro e é tão bonito. O ar ainda nem está muito frio.

- Andaste a treinar a conversa fiada e decidiste que ias começar por falar do tempo?

Noutros tempos, aquele tom distante teria feito Stella recuar. Mas isso pertencia ao passado.

- Sempre achei que falar do tempo era uma boa maneira de começar, especialmente para duas jardineiras. A seguir ia comentar que este ano as estrelas-de-natal estão espectaculares, mas acho que podemos saltar essa parte. - Escolheu uma trufa e deu-lhe uma dentada. - Mas o chocolate foi espontâneo. Meu Deus, quem inventou isto devia ser canonizado.

- Pergunta à Hayley. Se não souber quem fez a primeira trufa de chocolate, ela descobre. - Uma vez que o chocolate ali estava, Roz não tinha desculpa para não o comer.

- Já cá estou há quase um ano - começou Stella a dizer.

- É a tua maneira de pedir um aumento?

- Não, mas é uma boa ideia. Trabalho contigo há quase um ano e moro na mesma casa. A segunda parte está a ser mais demorada do que eu imaginava.

- Não vale a pena ires para outro lado qualquer, só para voltares a mudar depois de casares com o Logan.

- É verdade e sinto-me grata por o compreenderes, e por ajudares a manter os miúdos estáveis. O problema é que, mesmo mal podendo esperar por casar-me e por mudar para a casa do Logan, especialmente agora que já comecei a fazer alterações a meu gosto, vou ter saudades de morar aqui. Os rapazes também.

- É bom ouvir isso.

- Mesmo com tudo o que aconteceu na Primavera passada, talvez mesmo por causa disso, fiquei ligada a esta casa. E a ti.

- Também é bom ouvir isso. Tens um bom coração a juntar a essa tua cabeça organizada, Stella.

- Obrigada. - Recostou-se na cadeira, segurando na chávena com ambas as mãos. Os olhos azuis estavam fitos nos de Roz. - Depois de morar e de trabalhar contigo durante quase um ano, conheço-te bem. Pelo menos, na medida do possível. Uma das coisas que eu sei é que, apesar da tua hospitalidade e da tua generosidade, és uma mulher bastante reservada. E sei que estou a invadir essa área privada quando digo que lamento o que aconteceu esta noite. Lamento e deixa-me zangada e, em parte, espantada, que um idiota tenha entrado na tua casa, sem convite e de forma desagradável, com o objectivo de te envergonhar. -Ao não obter resposta, Stella respirou fundo. - Por isso, se estiveres com vontade de comer trufas e desancar o sacana, sou toda ouvidos. Se preferires ficar sozinha a remoer, eu levo o meu chá e metade destes chocolates para o quarto.

Por um momento, Roz deixou-se ficar ali sentada, a bebericar o café. Depois pensou, que se lixe, e comeu outro chocolate.

- Sabes, como desde sempre vivi aqui, tenho uma série de amigos e um bando de, por assim dizer, conhecidos. Mas não tenho aquilo a que podemos chamar amigas chegadas e importantes. Há uma razão para isso... Ergueu o dedo e agitou-o antes que Stella pudesse falar. - Essa razão foi escolha minha, até certo ponto, e tem a ver com o facto de ter enviuvado cedo. Por isso, muitas das mulheres do meu círculo social ficaram um pouco desconfiadas. Cá estava eu, jovem, atraente, relativamente abastada... e disponível. Ou, pelo menos, elas assim julgavam. Do outro lado estavam aquelas que, por natureza, estavam ansiosas por me juntarem a um homem. Um amigo, um irmão, um primo, fosse o que fosse. Para mim, ambas as situações eram irritantes. Como resultado, desabituei-me de ter amigas chegadas. Por isso estou um pouco enferrujada. Considero-te uma amiga, a melhor que tenho do género feminino.

- Uma vez que sinto o mesmo por ti, gostava que me deixasses ajudar-te. Mesmo que seja apenas para dizer mal daquele merdas do Bryce Clerk e para te trazer chocolates.

- Oh, Stella. - O tom da voz de Roz era tão doce como as trufas. - Acho que é a primeira vez durante este ano que te ouço dizer merda.

Stella corou um pouco; a maldição das ruivas.

- Guardo a palavra para ocasiões especiais.

- O que é o caso. - Roz reclinou a cabeça e olhou para as estrelas. - Ele não o fez só para me envergonhar. Isso foi um bónus acrescido.

- Então porquê? Será que pensava, seria estúpido a ponto de pensar que ias deixá-lo entrar para passar um bom bocado?

- Pode ter pensado que a minha necessidade de manter uma certa imagem lhe teria aberto as portas e que, se o tivesse feito, isso seria mais uma ajudinha ao esquema que tivesse em marcha para arranjar dinheiro.

- Se assim foi, não deve conhecer-te muito bem para te subestimar dessa maneira.

- Sabe o suficiente para ter conseguido exactamente aquilo que queria esta noite. A jovem que estava com ele é muito rica e muito tola. O mais certo é que tenha sentido pena, ou até se tenha sentido um pouco ofendida por ele.

- Então é mais do que tola. É completamente burra.

- Talvez, mas ele é um mentiroso muito convincente e matreiro que nem uma raposa. Não sou tola nem burra, e caí na conversa dele.

- Estavas apaixonada por ele, por isso...

- Oh, querida, eu não estava apaixonada, graças a Deus. - Arrepiou-se ao pensar no assunto. - Gostava da atenção, da adulação e, pelo menos de início, do romance e do sexo. Se a isso juntarmos um caso forte de síndroma de ninho vazio, estava no ponto para ser enganada. A culpa foi minha se me casei em vez de dormir com ele até me fartar ou ver o que estava debaixo daquele exterior bonito.

- Não sei se isso faz com que as coisas sejam melhores ou piores - disse Stella, após um instante.

- Eu também não, mas as coisas são como são. Seja como for, ele quis recordar-me de que ainda existe, de que frequenta o mesmo nível social que eu. Acima de tudo, quis deixar-me perturbada e que pensasse nele. Missão cumprida. Ele tem necessidade de atenção, de ser o centro de tudo... para o bem e para o mal. O pior castigo que lhe podem dar é ignorá-lo, que foi o que eu fiz com um sucesso relativo desde que ele regressou a Memphis. O que fez esta noite foi uma maneira muito inteligente de esfregar a sua presença na minha cara, na minha própria casa, à frente dos meus convidados.

- Gostava de ter chegado mais depressa. Estava quase na outra ponta da casa quando ouvi a confusão. Mas não sei como é que alguém pode tirar partido de ter sido posto a andar, como tu lhe fizeste.


- Não conheces o Bryce. Vai aproveitar-se do incidente durante semanas. Vai ser o centro das atenções e ter as portas todas abertas. - Tamborilou na chávena com as unhas curtas sem verniz. - Não tarda nada vai ser a vítima. Ele só estava a tentar fazer as pazes, veio desejar-me felicidades, ainda por cima com o Natal à porta. E eu desprezei-o e humilhei o par dele, uma jovem que eu tinha convidado. - Deteve-se por um momento, para engolir o acesso de fúria. - As pessoas vão dizer: ”Meu Deus, tão fria, tão dura. Foi mesmo mal-educada.”

- Nesse caso, as pessoas são idiotas.

- Sim, é verdade que são. Razão por que raramente confraternizo com elas. E o motivo por que sou tão esquisita com os meus amigos. E é por isso que me sinto grata por ter uma amiga que se senta comigo a esta hora da noite a comer trufas de chocolate enquanto me lamento. - Suspirou profundamente. - E raios me partam se não me sinto melhor. Vamos subir e dormir um pouco. Amanhã vamos ter um dia atarefado, com calhandras misturadas com os clientes normais.

Havia quem lhe chamasse enterrar-se no trabalho. Roz chamava-lhe fazer aquilo que era preciso e apreciar cada momento. Adorava as tarefas de Inverno, fechar-se durante horas, até mesmo dias, numa estufa e criar vida nova, acompanhando-a. As plantas semeadas, as estacas, as plantas reproduzidas através de folhas cortadas. Adorava o cheiro do composto e da humidade, e de observar as várias fases da evolução.

Tal como na vida, era preciso lidar com pragas e com problemas. Sempre que via sinais de míldio ou de ferrugem, cortava as folhas infectadas e tratava as plantas. Verificava a circulação do ar e ajustava a temperatura.

Quaisquer estacas que apresentassem sinais de decomposição ou de vírus eram removidas e eliminadas. Não permitiria ”infecções ali, tal como não as permitia na sua vida.

Lembrar-se disso era um alívio, tal como o era trabalhar. Podara Bryce e eliminara-o, livrara-se dessa infecção. Talvez não o tivesse feito atempadamente, talvez não estivesse alerta o suficiente, sendo agora obrigada a manter-se de guarda.

Mas ela era forte e a vida que construíra aguentava bem essas pequenas invasões irritantes.

Com isso em mente, terminou a lista de tarefas para o dia e foi à procura de Harper.

Entrou na estufa de enxertia. Sabia que o filho não a ouviria de imediato, com Beethoven a tocar para as plantas e outra música qualquer em altos berros nos auscultadores que tinha nos ouvidos.

Perdeu um momento a vê-lo trabalhar, um instante que a encheu de ternura. Uma camisola velha, calças de ganga ainda mais velhas e botas imundas, pois teria passado o dia de um lado para o outro no campo.

Cortara o cabelo recentemente, o que fazia com que a juba negra brilhante caísse de uma forma mais ordeira. Interrogou-se sobre quanto tempo aquilo duraria. Se bem conhecia o filho, e conhecia-o bem, iria esquecer-se de o cortar durante semanas, até que voltasse a atar o cabelo com uma tira de ráfia enquanto trabalhava.

Era tão competente, tão criativo. Cada um dos filhos tinha o seu próprio talento, seguira o seu próprio caminho, algo que ela sempre incentivara, mas apenas Harper herdara o seu amor incondicional pela jardinagem.

Percorreu as mesas repletas de plantas, de ferramentas e de recipientes, para o observar a enxertar uma rosa em miniatura com mãos experientes.

Quando terminou e pegou na lata de Coca-Cola que estava sempre por perto, Roz colocou-se no seu campo de visão.

Viu-o a olhá-la enquanto bebia um gole de refrigerante.

- Belo trabalho - elogiou-o. - Não costumas tratar de rosas.

- Estou a fazer uma experiência com estas. Pensei que talvez pudéssemos ter uma secção com miniaturas em vaso. Estou a desenvolver uma trepadeira mini e alguns espécimes rasteiros. Queres uma Coca-Cola?

- Não, obrigada. - Era tão parecido com ela, pensou. Quantas vezes não ouvira já aquele tom educado e frio vindo da sua própria boca quando estava irritada? - Sei que estás zangado comigo, Harper.

- Não vale a pena estar zangado.

- O que está em causa não é se vale a pena. - Queria acariciar-lhe os ombros, encostar a face à dele. Mas ele iria retrair-se, tal como ela fazia quando alguém a tocava antes de se sentir preparada para isso. - Estás zangado pela forma como eu lidei com o assunto ontem à noite.

- A escolha era tua. - Encolheu os ombros. - E não estou zangado contigo. Estou desapontado, nada mais.

Roz ter-se-ia sentido menos magoada, menos chocada, se ele tivesse empunhado a faca de enxertar e a trespassasse.

- Harper.

- Tinhas de ser assim tão educada? Não lhe podias ter dado ali mesmo o que ele merecia, em vez de me afastares e de o levares lá para fora?

- De que adiantaria...

- Estou a borrifar-me para o que adiantaria, mamã. - O terrível feitio Harper brilhava-lhe nos olhos. - Devia ter levado um enxerto, logo ali onde estava. Devias ter-me deixado defender-te. Mas tinha de ser à tua maneira, comigo lá ao pé sem fazer nada, portanto, o que é que está em causa?

Roz queria sair dali, aproveitar para se recompor, mas ele merecia algo mais. Merecia uma conversa franca.

- Não há ninguém que consiga magoar-me como tu.

- Não estou a tentar magoar-te.

- Pois não. Não o farias. É por isso que sei o quanto estás zangado. E é por isso que percebo de onde vem essa raiva. Talvez estivesse errada. Ergueu as mãos para esfregar a face. - Não sei, mas é a única maneira que tenho de fazer as coisas. Tinha de o tirar da casa. Estou a pedir-te que entendas que eu tinha de o tirar da nossa casa, rapidamente e antes que ele voltasse a maculá-la. - Baixou as mãos e o rosto reflectia remorso. - Eu trouxe-o para a nossa casa, Harper. Fui eu, não foste tu.

- O que não significa que sejas culpada, pelo amor de Deus, ou que tenhas de lidar com isso sozinha. Se não puderes contar comigo para te ajudar, para te defender...

- Bolas, Harper. Aqui estás tu, a pensar que não preciso de ti, quando a maior parte das vezes preciso tanto de ti que nem sabes. Não sei o que faria sem ti, Deus sabe que é verdade. Não quero discutir contigo por causa disto. - Pressionava agora os olhos com os dedos. - Ele não passa de um rufião.

- E eu já não sou um menino que tenhas de proteger dos rufiões, mamã. Sou um homem e o meu dever é proteger-te. Quer queiras quer não. E quer precises quer não.

Roz baixou as mãos e quase foi capaz de esboçar um sorriso.

- Isso é que é marcar uma posição.

- Se ele voltar a aparecer à nossa porta, não vais conseguir deter-me. Roz respirou fundo e levou as mãos ao rosto do filho.

- Sei que és um homem. Às vezes custa-me, mas sei que és um homem com vida própria e com uma maneira de ser própria. Sei que és um homem, Harper, e que vais ficar ao meu lado quando to pedir, mesmo que preferisses ficar à minha frente e travar as minhas batalhas. - Embora soubesse que ainda não estava perdoada, deu-lhe um beijo na testa. - Vou para casa trabalhar no jardim. Não fiques muito tempo zangado comigo.

- Não devo ficar.

- Ainda há pernil que sobrou da festa. Também há muito acompanhamento, se quiseres passar por lá e servir-te para o jantar.

- Talvez.

- Então está bem. Sabes onde encontrar-me.

Com um jardim tão vasto como o dela, havia sempre alguma coisa à espera de ser feita. Como queria trabalhar, Roz acartou e verificou o adubo, e trabalhou com as estacas e as mudas que cultivava para uso pessoal na pequena estufa que tinha em casa.

Depois, pegou nas luvas e na tesoura de podar e saiu para terminar os desbastes de fim de ano.

Quando Mitch a encontrou, estava a enfiar ramos pequenos na trituradora, que chocalhava enquanto os ia desfazendo. Pelo vermelho gasto da máquina, esta já devia ter trabalhado muito.

O mesmo ar de Roz, pensou Mitch, com o seu blusão castanho puído, o chapéu preto, as luvas grossas e as botas muito usadas. Os olhos estavam resguardados por óculos escuros, e ele interrogou-se se estariam a ser usados contra o brilho do sol ou como protecção contra as lascas de madeira que saltavam pelo ar.

Sabia que ela não o ouviria com o barulho da máquina, por isso aproveitou um momento para a observar e comparar a mulher resplandecente que usava rubis com a jardineira atarefada de calças de ganga desbotadas.

Havia ainda a mulher pragmática de saia e casaco que fora ao seu apartamento. A Roz da estufa tropical com o rosto sujo de terra. E a Roz informal e afável que dispusera do seu tempo para o ajudar a escolher um brinquedo para uma criança.

Tinha muitas facetas, pensou, e provavelmente ainda mais do que aquelas que já vira. Por estranho que parecesse, sentia-se atraído por todas elas.

Com os polegares nos bolsos da frente, deixou-se ver. Roz ergueu o olhar por baixo da pala do boné e desligou a máquina.

- Não pare por minha causa - disse-lhe Mitch. - Tirando no Fargo”, nunca tinha visto uma coisa destas em acção.

- Esta não seria capaz de destruir um corpo, mas é bastante eficaz em trabalhos de jardinagem.

Ela conhecia o Fargo, pensou Mitch, com uma satisfação ridícula. Era sinal de que tinham algo em comum.

- Hum... - Espreitou para onde entrara um ramo quase inteiro. - Quer dizer que se enfiam as coisas por aqui e nhoca, nhoca, nhoca.

- Mais ou menos.

- E depois o que faz com o que sobra?

- Com ramos e folhas suficientes, ficamos com um belo saco de adubo.

- Muito prático. Bem, não queria interrompê-la, mas o David disse-me que estava aqui fora. Pensei em passar por cá e fazer alguma pesquisa.

- Com certeza. Pensei que não tivesse muito tempo livre antes do fim do Natal.

Fargo, filme de 1996 galardoado com dois Oscars, realizado por Joel Coen. (N. do T.)

- Tenho tempo. Tenho andado a obter cópias de registos oficiais e preciso de tirar algumas notas da vossa Bíblia de família, esse tipo de coisas. É preciso estabelecer um pouco de ordem antes de começar a escavar. - Retirou-lhe do ombro uma lasca de madeira de tamanho considerável e desejou que ela tirasse os óculos de sol. Os olhos deixavam-no doido. - E gostava de marcar as entrevistas para depois do Natal.

- Está bem.

Mitch estava de pé, com as mãos nos bolsos do blusão de cabedal. Sabia que estava a protelar, mas ela cheirava tão bem. Apenas um leve traço feminino sob o odor a madeira.

- É engraçado. Pensei que não houvesse grande coisa que fazer num jardim nesta altura do ano.

- Há sempre trabalho durante o ano inteiro.

- E eu para aqui a empatá-la. Queria ver se estava bem.

- Estou bem, muito bem.

- Seria idiota da minha parte fingir que não ouvi comentários sobre os motivos daquela cena de ontem. Ou o que teria sido uma cena, se não tivesse lidado com a situação de forma tão hábil.

- Sempre que possível, é assim que gosto de tratar das coisas.

- E se vai levantar as defesas sempre que uma conversa entre nós raiar o pessoal, vai ser difícil investigar a história da sua família.

Como estava a observá-la cuidadosamente, como estava a aprender a ler-lhe a expressão, Mitch viu o lampejo de irritação que atravessou o rosto de Roz antes de esta se recompor.

- O que aconteceu ontem à noite não tem nada que ver com a história da minha família.

- Não concordo. Envolve-a a si e o que... o que se passou na sua casa também a envolve.

Poderia expulsá-lo de sua casa de forma tão... hábil como fizera a Bryce Clerk, mas, se o fizesse, seria apenas por Mitch ser sincero e directo.

- Vou andar a bisbilhotar, Roz. Foi para isso que me contratou e nem sempre sou muito discreto. Se quer que vá para a frente com isto, terá de se habituar.

- Não estou a ver como o meu lamentável e, graças a Deus, breve segundo casamento pode ter alguma coisa a ver com a Noiva Harper.

Mitch não precisava de lhe ver os olhos para saber que estes tinham gelado. Ouviu-o na voz de Roz.

- Noiva. É sempre chamada assim ao longo das narrativas da sua família, quer tenha sido uma ou não. Quando ela... se manifestou - foi a palavra escolhida -, por inúmeras vezes na Primavera passada, disse-me que ela nunca se preocupou consigo quando saiu com homens ou quando casou. Ao contrário do que se passou com a Stella.

- A Stella tem filhos pequenos. Os meus filhos já são crescidos.

- Não deixam de ser seus filhos.

Roz descontraiu os ombros, baixou-se para apanhar alguns galhos mais pequenos e deitou-os para a boca da trituradora. - Não. É claro que não.

- Nesse caso, podemos aventar a teoria de que ela não se sentiu ameaçada pelo Bryce... afinal de contas, que raio de nome é esse? Estúpido. Ou que viu os seus deveres maternos como concluídos e não se importou com a sua vida sexual. Ou que, a uma dada altura, ela deixou de se mostrar a quem quer que estivesse nesta casa.

- Não pode ser a hipótese número três, pois vi-a recentemente.

- Desde Junho?

- Há poucos dias e outra vez ontem há noite.

- Interessante. O que estava a Roz a fazer. O que estava ela a fazer? Devia ter o meu bloco comigo.

- Não aconteceu nada. Num momento estava ali, no seguinte já não estava. Não espero que descubra o motivo por que ela surge ou a quem. Quero que descubra quem era.

- Um enigma está ligado ao outro. Gostava de ter mais tempo para falar consigo. É óbvio que agora não é o momento. Talvez possamos jantar na próxima noite que tiver disponível.

- Não é preciso pagar-me um jantar para me fazer uma entrevista.

- Pode ser agradável pagar-lhe um jantar. Se não está disposta a misturar negócios com prazer, vou ter pena de ser obrigado a esperar até terminar o projecto para voltar a convidá-la.

-Já não saio com homens, Mitch. Abdiquei disso.

- O termo sair faz-me sentir outra vez na faculdade. Ou pior, no secundário. - Arriscou e estendeu a mão para lhe baixar os óculos de sol. Olhou-a directamente nos olhos. - Digamos que estou interessado em passar algum tempo consigo a nível social.

- Isso para mim é sair. - Mas sorriu antes de voltar a colocar os óculos no sítio. - Mas agradeço-lhe o convite.

- Por agora ficamos por uma entrevista. Vou andar por aqui nas próximas semanas, por isso pode dizer-me quando estiver disponível para se sentar durante um período considerável de tempo. Caso contrário, pode ligar-me para casa e marcamos.

- Está bem.

- Vou entrar e trabalhar um pouco. Vou deixá-la fazer o mesmo. Quando ele se ia afastar, Roz levou a mão ao interruptor da trituradora.

- Roz? Se por acaso mudar de ideias em relação ao jantar, diga-me.

- Não se preocupe.

Ligou a máquina e empurrou o ramo.

Trabalhou até ter luz e depois guardou as ferramentas, antes de subir os degraus até ao terraço do primeiro andar e à sua porta exterior.

Queria um duche quente interminável, roupas confortáveis e depois um copo de vinho fresco. ”Não”, pensou. ”Um martini.” Um dos espantosos martinis gelados de David, com uma daquelas azeitonas especiais que ele tem escondidas. Depois faria uma sanduíche com o pernil fabuloso que sobrara. Talvez passasse o serão a rever esboços e ideias para o alargamento da florista. Havia também as amostras de sacos que Stella lhe arranjara para a terra de interior.

”Encontros”, pensou, enquanto se despia e abria a torneira do duche. Naquela fase da sua vida, não tinha tempo e muito menos vontade para sair com um homem. Mesmo que o convite tivesse partido de um homem bastante inteligente, atraente e intrigante.

Um homem que a convidara quando ela estava coberta de lascas de madeira.

Porque não se limitavam a sexo para desanuviar?

Porque ela não era assim, admitiu. E não era uma pena? Tinha de haver algo mais... qualquer coisa antes de se despir, literal e figurativamente, para um homem.

Gostava dele o suficiente, pensou, enquanto reclinava a cabeça e deixava que a água quente lhe batesse no rosto, nos ombros. Gostava da forma como ele reagira na Primavera anterior, quando houvera problemas. Agora que se distanciara, admirava a forma como ele se envolvera sem hesitar, sem qualquer interesse.

Homens havia que teriam virado as costas, descartando a ideia de trabalhar para ela numa casa assombrada por aquilo que sabiam poder ser um espírito perigoso.

E ficara encantada com a forma como ele se desorientara quando precisara de comprar uma prenda para uma criança. O quanto queria encontrar a prenda certa. Era um ponto a favor dele.

Isso, se ela estivesse a fazer algum registo.

Se por acaso quisesse voltar a mergulhar a ponta do pé na piscina dos encontros, provavelmente seria com alguém como ele. Alguém com quem pudesse conversar, alguém que a atraía e a interessava.

E não fazia mal nenhum que fosse aquilo que Hayley designava de brasa.

Mas era preciso não esquecer o que acontecera da última vez.

Só uma mulher burra iria utilizar alguém como Bryce como padrão. Sabia disso, portanto, porque não era capaz de parar? O facto de o estar a fazer era uma espécie de vitória para Bryce, não era? Se não conseguisse fazer mais nada, pelo menos tentaria afastá-lo do pensamento.

”Idiota.”

”Está bem”, pensou, enquanto fechava a torneira e agarrava na toalha. Talvez considerasse a hipótese, nada mais do que isso, de jantar com Mitch. Só para provar a si própria que não iria deixar que Bryce lhe afectasse a vida.

Jantar fora, um pouco de conversa, uma mistura de negócios e prazer. Não seria mau, quando conseguisse a energia necessária. Não se importava de se encontrar com ele a nível pessoal. Na verdade, ficar a conhecê-lo melhor talvez fosse benéfico.

Iria pensar no caso.

Depois de enrolar a toalha à volta do corpo, estendeu a mão num gesto automático à procura do creme hidratante. E a mão deteve-se a centímetros do frasco.

No espelho embaciado da casa de banho, estavam escritas três palavras:

”Os Homens Mentem!”

 

Roz ignorou os homens, os fantasmas da família e as mensagens escritas no espelho embaciado. Tinha os filhos em casa.

A casa estava cheia com eles, com as suas vozes, a sua energia, os restos da sua passagem. Em tempos, o monte de sapatos, os bonés, as coisas que eles deixavam espalhadas por todo o lado, quase tinham dado com ela em louca. Agora, adorava ver os vestígios da sua presença. Em tempos, desejara uma casa sossegada e arrumada, agora deleitava-se com o barulho e com a confusão.

Partiriam em breve, de volta às vidas que estavam a construir. Por isso, iria aproveitar cada momento dos dois dias em que teria a família debaixo do mesmo tecto.

E que maravilha era ver os filhos com os rapazes de Stella, ou apreciar Harper a pegar na inquieta Lily e a aninhá-la nos braços. Compensava ver-se à frente daquele comboio de gerações.

- Quero agradecer-te por deixares que o Logan passe cá a noite. Stella acomodou-se no sofá, ao lado de Roz.

- É véspera de Natal. Normalmente temos lugar na pensão.

- Sabes o que quero dizer. Eu sei que é idiota e picuinhas, mas quero que o nosso primeiro Natal na casa dele, na nossa casa, seja quando já formos um casal oficial.

- Acho que é muito bonito e sentimental, e pode ser egoísta, mas fico contente por ter cá toda a gente. - Viu Hayley pegar em Lily, quando a bebé começou a gatinhar na direcção da árvore. - É bom ter crianças em casa. Austin! - gritou quando o filho do meio começou a fazer malabarismo com três maçãs que retirara de uma fruteira. - Não faças isso no salão.

- Conheço tão bem essa ladainha que até posso juntar-lhe uma melodia. - Era um homem alto, de ancas estreitas, com o cabelo louro ondulado do pai. Piscou o olho a Gavin, enquanto dava mais uma volta às maçãs. Não faças isso no salão, Austin, não faças isso no salão - cantarolou, o que fez os filhos de Stella rirem-se à gargalhada. Atirou uma maçã a cada um deles e deu uma dentada na terceira.

- Toma, mamã, bebe um copo de vinho.

Mason, o mais novo, sentou-se no braço do sofá e ofereceu-lhe um copo. Tinha um brilho maroto nos olhos, que alertou Roz para a proximidade de sarilhos.

- Austin, sabes que o salão é terreno sagrado. Não podes andar a fazer malabarismo aqui. Especialmente com, sei lá, sapatos.

- Consegues fazer malabarismo com sapatos! Espantado, Luke fitava Austin de olhos arregalados.

- Consigo fazer malabarismo com tudo. Tenho muito talento e destreza.

- Infelizmente, não fui capaz de convencê-lo a fugir para o circo aos oito anos.

Harper pegou em Lily quando a bebé se afastou de Hayley e lhe estendeu os braços rechonchudos.

- Podes fazer com os meus? - perguntou Luke.

- Dá cá um.

- Austin. - Resignada, Roz suspirou e bebeu um gole de vinho. - Se partires alguma coisa, ficas de castigo.

- Ora bem, mais uma cantiga familiar. Vamos lá a ver, preciso de um desafio. Logan, esse sapato parece-me suficientemente grande para albergar uma família de quatro elementos. Passa-o para cá.

- Se te der o meu sapato, ficas de castigo e eu sou despedido. Chama-me cobarde, mas não tarda nada vou ter de dar de comer a dois miúdos que estão a crescer. - Estendeu a mão e bateu com a ponta do dedo nas costelas de Gavin. - Ainda por cima comem que nem porcos.

- Oinc. - Gavin tirou uma bolacha de uma travessa e enfiou-a inteira na boca. - Oinc.

- Pronto, Logan, vá lá. - Roz acenou com a mão. - Ele não descansa enquanto não lho deres.

-Ora bem, mais um.-Vagueou o olhar por todos e deteve-o em Hayley. -Vejam-me só estes pezinhos bonitos e delicados. Que tal, minha querida?

- São tão delicados como traineiras - riu-se Hayley, mas descalçou o sapato.

- Harper, leva o Baccarat da tua avó para um lugar seguro - ordenou Roz -, para que o teu irmão se possa exibir.

- Prefiro o termo actuar.

- Lembro-me de uma actuação que custou um candeeiro à mamã comentou Harper, enquanto desviava as heranças. - E a nós três, e a ti também, David, se a memória não me falha, custou-nos trabalho na cozinha.

- Isso foi nos meus anos de juventude - vangloriou-se Austin. Depois de uns quantos lançamentos experimentais de calçado variado, começou a fazer malabarismo. - Como podem ver, desde esse lamentável incidente, aperfeiçoei a minha técnica.

- É bom ter uma carreira alternativa - disse-lhe Mason. - Podes levar o número para Beale Street.

Os sapatos rodopiantes deixaram Lily a rir-se e a saltar no colo de Harper. Roz, por seu lado, limitou-se a suster a respiração até que Austin agradeceu os aplausos.

Atirou um sapato de volta a um Luke deliciado.

- Podes ensinar-me?

- A mim também! - implorou Gavin.

- Ela vai dizer ”não faças isso no salão” - declarou Austin no momento em que Roz abriu a boca. - Amanhã temos uma aula lá fora. Assim escapamos à fúria da mamã.

- Ela é que é a patroa - declarou Luke com solenidade.

- És um miúdo perspicaz. Bom, como parece que ninguém me vai dar uns trocos, contento-me com uma cerveja.

Entregou o sapato a Logan e dirigiu-se a Hayley.

Beale Street é uma rua de Memphis onde se concentram inúmeros clubes, salas de entretenimento e espectáculos de rua. É uma das maiores atracções turísticas do estado do Tennessee. (N. do T.)

- Muito bem, Cinderela, vamos lá a ver se te serve. - Calçou-lhe o sapato com aparato e depois sorriu a Harper sobre a cabeça de Hayley.

- O sapato serve. - Pegou-lhe na mão e beijou-a. - Parece que vamos ter de nos casar quando voltar da cozinha.

- Isso é o que todos dizem. - Mas seguiu-o com um olhar que denotava um certo interesse.

-Já que estás com a mão na massa, porque é que não me trazes uma cerveja? - pediu Mason.

- Parece-me que está na hora dos pedidos. Mais alguém quer alguma coisa?

Após uma série de pedidos, Austin voltou a olhar para Harper.

- Dás-me uma ajuda com as bebidas?

- Claro. Devolveu Lily a Hayley e seguiu o irmão.

- Não quero perder isto - sussurrou Mason à mãe, ao que acompanhou os dois jovens.

- A nossa prima Hayley é bonita, não acham? - comentou Austin.

- Sempre tiveste olho para o óbvio.

- Então ninguém estranha se disser que julgo que tem um fraco por mim.

- E também nunca soubeste avaliar as mulheres.

- Esperem aí- disse-lhes Mason. - Tenho de ir buscar papel para apontar os resultados da contenda.

- Tem uma boca linda. Não que tenhas notado, mano, pois não está a sair de um vaso. - Serviu-se de uma cerveja e deu um gole pela garrafa, enquanto Harper retirava algumas pilsners.

- É a única maneira de alguma vez levares os teus lábios gordos aos dela é se tiver um ataque e precisar de respiração boca a boca.

- Ele remata e golo. Já agora, aqui o médico sou eu - recordou-os Mason. - Se ela precisar de respiração boca a boca, estou primeiro. Há para aqui Fritos, ou qualquer coisa do género?

- Aposto dez dólares em como não é assim. - Austin sentou-se na bancada, um antigo hábito seu. - Talvez possas servir de ama para eu ver se a beleza cá da casa quer dar um passeio pelo jardim. Ao que me parece, não tens direitos exclusivos.

- Ela não é a última fatia de bolo, sabem. - De uma forma um pouco brusca, Harper retirou a cerveja ao irmão e bebeu um grande gole. - Que raio se passa convosco para estarem a falar dela nesses termos? Deviam ter mais respeito. Se não conseguem encontrá-lo sozinhos, podemos ir dar um passeio pelo jardim que eu ajudo-os.

Com um sorriso rasgado, Austin apontou o dedo na direcção de Mason.

- Eu disse-te. Tinha ou não tinha razão?

- Pois, ele está apanhadinho. Mas que cozinha é esta que não tem Fritos?

- Na despensa, prateleira de cima - indicou Roz da entrada. - Fico espantada por pensarem que me esquecia do vosso vício por tiras de milho. Austin, já acabaste de te meter com o teu irmão?

- Por acaso estava mesmo a começar.

- Vais ter de adiar essa parte do teu divertimento de férias. - Desviou o olhar e foi obrigada a sorrir quando ouviu Mason a celebrar a descoberta do pacote de aperitivos. - Temos convidados e era bom que fossem capazes de fingir que eduquei três jovens maduros e respeitáveis.

- Essa ilusão foi-se, pois ele já fez malabarismo - resmungou Harper.

- Bem visto. - Aproximou-se e afagou o rosto de Harper, depois o de Austin e, por fim, voltou-se para Mason. - Podem não ser respeitáveis e maduros, mas, louvado seja Deus, vocês três são muito bem-parecidos. Não me saí nada mal. Agora, pega nas bebidas, Harper, e leva-as aos nossos convidados. Austin, tira o rabo da minha bancada. Isto é uma casa, não é a tasca do bairro. Mason, serve os aperitivos numa taça e pára de espalhar migalhas pelo chão.

- Sim, senhora - disseram em uníssono, o que arrancou uma gargalhada a Roz.

O dia de Natal passou num abrir e fechar de olhos. Roz tentou gravar momentos específicos na mente: a satisfação de Mason com a mala de médico antiga que ela encontrara, Harper e Austin debruçados sobre uma mesa de matraquilhos. Como seria de esperar, Lily estava mais fascinada com as caixas e com os papéis de embrulho do que com os brinquedos, e Hayley exibia um par de brincos novos.

Adorou ver Logan sentado no chão, de pernas cruzadas, a mostrar aos filhos de Stella, que agora eram também seus filhos, as ferramentas à escala infantil dentro das caixas de ferramentas que lhes fizera.

Queria interromper a passagem do tempo, só naquele dia, naquele único dia. Mas o tempo teimava em fugir, desde a alvorada e a excitação das prendas a serem abertas, à luz das velas, até a refeição opulenta que David preparou e serviu no melhor serviço de porcelana.

Quando deu por isso, a casa voltara a ficar sossegada.

Desceu as escadas para olhar uma última vez para a árvore, para se sentar sozinha na sala de estar com o seu café e as recordações do dia e de todos os Natais anteriores.

Ficou surpreendida quando ouviu passos. Olhou para trás e viu os filhos.

- Pensei que tivessem ido a casa do Harper.

- Estávamos à espera de que descesses - explicou-lhe Harper.

- Que descesse?

- Vens sempre à sala de estar na noite de Natal, depois de todos se deitarem.

Ergueu as sobrancelhas na direcção de Mason.

- Não tenho segredos nesta casa.

- Tens muitos - discordou o jovem. - Este é que não.

Austin acercou-se da mãe, tirou-lhe o café da mão e substituiu-o por uma taça de champanhe.

- O que se passa?

- Um pequeno brinde em família - explicou-lhe. - Mas isso é depois do último presente que temos para ti.

- Outro? Vou ter de acrescentar mais uma divisão à casa para guardar tudo o que me deram esta manhã.

- Este é especial. Já tens lugar para ele. Ou pelo menos tinhas, a dada altura.

- Bem, não me deixem ansiosa. O que andaram vocês a tramar? Harper regressou ao salão e trouxe uma caixa grande embrulhada com papel dourado. Colocou-a aos pés da mãe.

- Abre e vê.

Curiosa, pousou a taça e começou a tratar do embrulho.

- Não digam à Stella que o estou a rasgar. Ela ficaria horrorizada. Quanto a mim, fico espantada por terem chegado a acordo sobre alguma coisa e ainda por cima guardado segredo até esta noite. O Mason dá sempre com a língua nos dentes.

- Ei, quando é preciso, sou capaz de guardar um segredo. Não sabes o que aconteceu quando o Austin te levou o carro e...

- Cala-te. - Austin deu um murro no ombro do irmão. - Esse tipo de crime não prescreve. - Retribuiu o olhar penetrante de Roz com um sorriso terno. - Aquilo que não sabes não prejudica este idiota, mamã.

- Pelos vistos. - Mas continuou a matutar no caso, enquanto abria o embrulho. Quase sentiu o coração a parar quando viu o espelho de toucador antigo.

- Foi o mais parecido que conseguimos encontrar com aquele que partimos. O padrão é quase o mesmo e a forma também - fez notar Harper.

- Queen Anne - acrescentou Austin -, cerca de 1700, com o laçado em dourado e verde na gaveta. Segundo as nossas recordações, é o mais aproximado daquele que o Mason partiu.

- Ei! O Harper é que teve a ideia de o usarmos como arca do tesouro. Não tenho culpa de o ter deixado cair da árvore. Eu era o mais novo.

- Ai, meu Deus. Ai, meu Deus, fiquei tão zangada, tão zangada, que quase vos esfolei vivos.

- Essas recordações são bem dolorosas - garantiu-lhe Austin.

- Era da família do vosso pai. - Com a voz embargada e a garganta apertada, passou com os dedos pela madeira laçada. - Deu-mo no dia do nosso casamento.

- Devíamos ter sido esfolados. - Harper sentou-se ao lado da mãe e acariciou-lhe o braço. - Sabemos que não é o mesmo, mas...

- Não, não, não. - Dominada pela emoção, virou o rosto e encostou-o ao braço do filho durante alguns momentos. - É melhor. Terem-se lembrado disto, pensado nisto. Feito isto.

- Fizemos-te chorar - murmurou Mason, que se baixou para encostar a face ao cabelo da mãe. - Foi a primeira vez que te vi chorar. Nunca nos esquecemos, Mamã.

Roz esforçava-se por conter as lágrimas, enquanto abraçava cada um dos filhos.

- Foi o mais belo presente que alguma vez recebi e vou estimá-lo mais do que qualquer outra coisa. Sempre que olhar para ele vou lembrar-me de como vocês eram, de como são. Tenho tanto orgulho nos meus meninos. Sempre tive. Mesmo quando vos quis esfolar.

Austin pegou na taça da mãe, entregou-lha e depois distribuiu as restantes três flútes. - O Harper é o mais velho, por isso a honra cabe a ele. Mas quero que se saiba que a ideia foi minha.

- A ideia foi de todos nós - contrapôs Mason.

- Fui eu que pensei em quase tudo. Continua, Harper.

- Faço questão disso, se vocês se calarem por cinco segundos. - Ergueu a taça. - À nossa mamã, por tudo o que representou para nós, por tudo o que sempre fez por nós.

- Pronto. Essa foi a gota de água. - As lágrimas subiram-lhe pela garganta e escorreram-lhe dos olhos. - Agora é que foi.

- Chora à vontade. - Mason aproximou-se e beijou-lhe a face húmida.

- Ficamos um belo quarteto.

Regressar ao trabalho habitual ajudou a preencher o vazio que Roz sentiu no coração ao despedir-se de dois dos seus filhos.

A semana ia ser fraca, algo normal naquele período festivo, por isso decidiu aliviar Stella e juntou-se à organização. Limpou ferramentas, esfregou bancadas de trabalho, ajudou com o inventário e, por fim, escolheu o tipo de saco para a terra e o logotipo.

Tendo ficado com algum tempo livre, ajudou Hayley a fazer novos contentores e canteiros de cimento.

- Nem acredito que o Natal já chegou ao fim. - Acocorada, Hayley ia girando o molde, à medida que Roz despejava a mistura. - Tanta expectativa e preparativos e acaba tudo num abrir e fechar de olhos. No ano passado, o meu primeiro Natal depois de o meu pai ter morrido, foi terrível. As férias nunca mais acabavam.

- Não sei porquê, mas a dor costuma prolongar o tempo e a alegria encolhe-o.

- Lembro-me de querer que tudo aquilo acabasse, para deixar de ouvir o ”Jingle Bells” sempre que ia trabalhar, sabes? Estava grávida, sentia-me sozinha, tinha a casa à venda. Passei a maior parte do Natal a empacotar coisas, a pensar no que havia de vender para poder sair de Little Rock. Apoiou os calcanhares no chão para suspirar de felicidade. - E aqui estou, apenas um ano depois, a sentir-me tão bem e feliz. Sei que a Lily não teve noção do que se estava a passar, mas foi muito divertido vê-la entretida com os brinquedos, ou melhor, com as caixas.

- Não há nada como uma caixa de cartão para manter um bebé ocupado. Tê-la aqui e poder partilhar este primeiro Natal com ela foi muito especial para mim, para todos nós.

Quando o molde ficou cheio, Hayley alisou os bordos com uma colher de pedreiro.

- Sei que gostas da Lily, Roz, mas não me parece bem que fiques em casa na passagem de ano a tomar conta dela enquanto eu vou a uma festa.

- Prefiro ficar em casa. A Lily é a desculpa perfeita. Além disso, mal posso esperar para a ter só para mim.

- Deves ter sido convidada para meia dúzia de festas.

- Mais. - Roz endireitou-se e pressionou os rins. - Não estou interessada. Fazes bem em sair com o David e festejar com outros jovens. Usa os teus brincos novos e vai dançar. A Lily e eu ficamos muito bem juntas a receber o novo ano.

- O David diz que nunca te convenceu a ir a esta festa, mesmo sendo tradição de há muitos anos. - Pegou numa garrafa de água e bebeu alguns goles. - Disse que o Harper é capaz de passar por lá.

- Imagino que o faça. Eles têm vários amigos em comum. - Divertida, deu uma palmadinha no ombro de Hayley. - Vamos despachar mais um e dar o dia por terminado.

Quando chegou a casa, estava cansada mas satisfeita por saber que tinha riscado uma série de tarefas da lista. Quando reparou no carro de Mitch à porta de casa, ficou surpreendida por ter vontade de mudar de roupa antes de ir ter com ele à biblioteca.

É claro, pensou, que isso seria uma perda de tempo e nada o seu estilo. Assim sendo, quando entrou na biblioteca continuava com a roupa de trabalho.

- Tem tudo aquilo de que precisa?

Mitch desviou a atenção do monte de livros e de papéis que tinha em cima da mesa e fitou-a através das lentes dos óculos de leitura.

- Desculpe?

- Acabei de chegar e vim saber se precisa de mais alguma coisa.

- Duas dúzias de anos para organizar isto tudo, um par de olhos novos... - Ergueu a cafeteira que tinha sobre a mesa. - Mais café.

- Posso ajudar com essa última parte.

Atravessou a sala e subiu os degraus para o segundo nível.

- Não, não é preciso. Neste momento já devo ter noventa por cento de cafeína no sangue. Que horas são?

Reparou no relógio no pulso de Mitch e olhou para o seu.

- Cinco e dez.

- Da manhã ou da tarde?

- Já está a trabalhar assim há tanto tempo?

- O suficiente para perder a noção das horas, como de costume. - Esfregou um ombro e rodou o pescoço. -Tem uns parentes fascinantes, Rosalind. Já tenho recortes de jornais sobre os Harpers, desde meados do século xix, que chegam para encher o cofre de um banco. Por exemplo, sabia que teve um antepassado que trabalhou no Pony Express, em 1860, e que na década de 1880 acompanhou o Wild West Show de Buffalo Bill?

- O meu tio-bisavô Jeremiah, que parece que fugiu de casa para se juntar ao Pony Express. Lutou contra os índios, foi batedor do exército e teve uma esposa comanche e outra em Kansas City mais ou menos em simultâneo. Fazia habilidades a cavalo no Wild West Show e nesse tempo foi considerado a ovelha negra da família pelos membros mais conservadores.

- Então e a Lucybelle? -Ah...

- Apanhei-a. Casou com Daniel C. Harper, em 1858, e abandonou-o dois anos depois. - A cadeira rangeu quando Mitch se recostou. - Voltou a aparecer em São Francisco, em 1862, onde abriu o seu próprio saloon e bordel.

- Dessa não sabia.

- Bem, o Daniel C. dizia que a tinha enviado para uma clínica em Nova Iorque, por questões de saúde, e que morreu aí de tuberculose. Imagino que fosse a história em que queria acreditar. Mas, com um pouco de trabalho e alguns passes de mágica, consegui encontrar a nossa Lucybelle a divertir as classes mais rudes da Califórnia, onde parece que gozou de boa saúde durante mais vinte e três anos.

- Gosta mesmo deste tipo de coisas.

- É verdade. Imagine o Jeremiah, com quinze anos, a galopar ao longo da pradaria para entregar o correio. Jovem, corajoso, magro. Eles procuravam rapazes magros para não atrasarem os cavalos com o peso.

- A sério?

Apoiou-se a um canto da secretária.

- Debruçado sobre a montada, cavalgando a toda a brida, fugindo a bandos de índios, coberto de pó e de suor, ou gelado, no Inverno.

- E, segundo o tom da sua voz, a divertir-se à grande.

- Era preciso trabalhar, não é? E depois temos a Lucybelle, antiga dama da sociedade de Memphis, de vestido vermelho, com um revólver na liga...

- Mas que romântico.

- Era preciso uma arma na liga para tomar conta do bar ou para enganar os mineiros às cartas, noite após noite.

- Será que alguma vez se cruzaram?

- Ora aí está - retorquiu Mitch, satisfeito. - É assim que nos deixamos levar por isto. É bem possível. O Jeremiah pode ter entrado nesse saloon e tomado um uísque no bar.

- E saboreado os outros pratos da ementa, enquanto os membros mais austeros da família se abanavam nos alpendres e se queixavam da guerra.

- Há muitos elementos austeros e muitas ovelhas negras na família. Havia dinheiro e prestígio. - Mitch remexeu em alguns papéis e encontrou outro recorte. - E também havia muito encanto.

Roz olhou para a sua fotografia na festa de noivado, uma jovem fresca e vibrante de dezassete anos.

- Ainda nem tinha acabado o liceu. Era inexperiente e teimosa que nem uma mula. Ninguém foi capaz de me convencer a não casar com o John Ashby, em Junho, pouco depois de esta fotografia ter sido tirada. Ai, meu Deus, não acha que parecia pronta para enfrentar o mundo?

- Tenho por aqui recortes dos seus pais. Não se parece com nenhum.

- Pois não. Sempre me disseram que era parecida com o meu avô Harper. Morreu quando eu era pequena, mas, a julgar pelas fotografias que vi, saio a ele.

- Pois é, já vi algumas e é verdade. Reginald Edward Harper Jr., nascido em... 1892, filho mais novo e o único rapaz de Reginald e Beatrice Harper.

- Leu os apontamentos. - Casado, ah...

- Com Elizabeth McKinnon. Lembro-me bem dela. Foi ela que me legou o amor pela jardinagem e me ensinou tudo sobre plantas. O meu pai dizia que eu era a preferida, por ser parecida com o meu avô. E se fosse buscar-lhe um pouco de chá ou uma infusão de ervas para contrabalançar o café?

- Obrigado, mas não é preciso. Não posso ficar mais tempo. Tenho um encontro.

- Nesse caso, não o prendo mais.

- Com o meu filho - acrescentou. - Piza e um jogo na televisão. Tentamos juntar-nos uma vez por semana.

- Isso é muito bom. Para os dois.

- É verdade. Escute, tenho outros assuntos para tratar e algumas voltas a dar, mas volto na quinta-feira à tarde e passo o serão a trabalhar, caso não se importe.

- Na quinta-feira é véspera de Ano Novo.

- A sério? - Olhou para o relógio de pulso, como se estivesse confuso.

- Fico sempre com os dias do avesso durante estas quadras. Imagino que vá receber amigos.

- Por acaso, não.

- Nesse caso, se vai sair, talvez não se importe que eu venha trabalhar.

- Não vou sair. Fico a tomar conta da bebé da Hayley, a Lily. Enxotei-a para uma festa, e a Stella e os filhos vão celebrar em família na casa do Logan.

- Se não tiver sido convidada para uma dúzia de festas e se não tiver o dobro desse número de homens a convidá-la para passar o ano, engulo estes recortes de jornal.

- Esse número talvez seja um pouco exagerado, mas o que interessa é que recusei os convites para festas e para encontros. Gosto de ficar em casa.

- Será que a incomodo, se ficar aqui a trabalhar? Roz abanou a cabeça.

- Imagino que também tenha sido convidado para uma série de festas e que tenha bastantes mulheres ansiosas por tê-lo como par.

- Costumo passar o Ano Novo em casa. É uma tradição que tenho.

- Nesse caso, não vai incomodar-me. Se o bebé estiver sossegado, podemos aproveitar parte do serão para começar a entrevista.

- Perfeito.


- Então, está combinado. Tenho andado ocupada - comentou após um instante. - A casa esteve cheia no Natal, pois tive cá os meus filhos. E essa é apenas parte da razão para ainda não ter falado nisto.

- Falado no quê?

- Há duas semanas, a Amélia deixou-me uma mensagem.

- Há duas semanas?

- Eu disse-lhe que tenho andado ocupada. - A sua voz denotou uma certa irritação. - Além disso, não quis pensar no caso durante a quadra natalícia. É raro estar com os meus filhos e tinha muitas coisas para fazer antes de eles chegarem.

Mitch não comentou. Limitou-se a pegar no gravador, aproximou-o de Roz e ligou-o.

- Conte-me tudo.

A irritação de Roz aumentou, criando uma ruga entre as sobrancelhas escuras e expressivas.

- Ela disse: ”Os homens mentem.”

- Só isso?

- Sim, só isso. Escreveu-o no espelho.

- Que espelho? Tirou uma fotografia?

- Não, não tirei uma fotografia. - Mais tarde, em privado, poderia flagelar-se por isso. - Não estou a ver que faça uma grande diferença em que espelho foi. O espelho da casa de banho. Tinha acabado de sair do chuveiro, de um duche quente. O vidro estava embaciado e a mensagem foi escrita no vapor.

- Foi escrita ou surgiu impressa?

- Ah, surgiu impressa, com um ponto de exclamação no fim. Assim. Agarrou numa das canetas de Mitch e exemplificou. - Como não era ameaçador, nem uma informação devastadora, imaginei que pudesse esperar.

- Para a próxima, não faça isso... imaginar que pode esperar. O que estava a fazer antes de... - ”Não a imagines nua no duche”, ordenou a si próprio. - Antes de ir tomar duche?

- Por acaso, tinha estado a falar consigo no jardim.

- Comigo.

- Sim, no dia em que passou por cá e eu estava a triturar ramos.

- Logo a seguir à sua festa de Natal - recordou, enquanto tirava apontamentos. - Convidei-a para jantar.

- Comentou qualquer coisa sobre...

- Não, não, foi um convite pessoal. - No seu entusiasmo, contornou a secretária e sentou-se no tampo, o que os deixou com os olhos ao mesmo nível. - Logo a seguir ela diz-lhe que os homens mentem. Fascinante. Estava a avisá-la para se afastar de mim.

- Uma vez que não me estou a aproximar, não há razão para que me queira afastar.

- O facto de eu estar aqui a trabalhar não parece incomodá-la. - Tirou os óculos e lançou-os sobre a secretária. - Tenho andado à espera, a desejar que acontecesse algum tipo de aparição ou confronto, qualquer coisa. Mas, até agora, não se preocupou comigo. Depois tento uma abordagem pessoal e ela deixa-lhe uma mensagem. Alguma vez o tinha feito?

- Não.

- Hum. - Apercebeu-se de algo na expressão de Roz. - O que foi? Lembrou-se de alguma coisa?

- Estou a pensar que é um pouco estranho. Ainda há pouco tempo a vi, logo depois de ter tomado um banho quente. Banho, duche. Estranho.

”Não a imagines nua, na banheira.”

- O que tinha estado a fazer antes do banho?

- Nada. Trabalhei um pouco, só isso.

- Muito bem. Em que pensou quando estava dentro da banheira?

- Não percebo o que isso tem a ver com o assunto. Foi na noite daquela incursão de Natal pelas lojas. Estava a descontrair.

- Nesse dia também esteve comigo.

- Tem um ego muito grande, Mitch. Será que precisa de ajuda profissional?

- São factos. Seja como for, ela pode ter ficado interessada ou perturbada com aquilo em que estava a pensar. Se conseguiu entrar nos sonhos da Stella - insistiu, quando Roz começou a descartar a teoria -, porque não seria capaz de entrar nos seus pensamentos?

- Não gosto dessa possibilidade. Não gosto mesmo nada.

- Eu também não gostaria, mas é preciso tê-la presente. Estou a encarar este projecto a partir de dois pontos de vista, Roz. O que está a acontecer agora, e porquê, e o que aconteceu na altura, e porquê. Quem, o quê e porquê. Está tudo ligado. E foi para isso que me contratou. Tem de me informar sempre que acontecer alguma coisa e não duas semanas depois do ocorrido.

- Está bem. Da próxima vez que ela me acordar às três da manhã, eu telefono-lhe.

Mitch sorriu.

- Não gosta de receber ordens, pois não? Está demasiado habituada a ser a Roz a dá-las. Não faz mal. Não a censuro, por isso vou pedir-lhe educadamente que me deixe dar uma vista de olhos à sua casa de banho.

- Neste momento, isso parece-me disparatado. Além disso, não tem de ir ter com o seu filho?

- O Josh? Porquê? Bolas, já me esquecia! Tenho de me ir embora.

- Lançou um olhar à secretária. - Vou deixar isto assim. Faça-me um favor, não arrume.

- Não sou obcecada pela limpeza.

- Graças a Deus. - Pegou no casaco e lembrou-se dos óculos de leitura.

- Volto na quinta-feira. Se acontecer alguma coisa antes disso, avise-me.

Correu para a porta, onde parou e se virou.

- Rosalind, deixe-me que lhe diga, era um botão adorável com dezassete anos. Mas agora que desabrochou? É espectacular.

Roz soltou uma gargalhada breve e, quando ficou sozinha, recostou-se à secretária. Olhou distraidamente para as botas velhas, depois para as calças de trabalho largas, sujas de terra e de cimento seco. Imaginou que a camisa de flanela deveria ter idade suficiente para tirar a carta de condução.

”Os homens mentem”, pensou, ”mas, por vezes, sabe bem ouvir essas mentiras.”

 

Com o viveiro a fechar mais cedo na véspera de Ano Novo, Roz reservou esse tempo livre para tratar das plantas que tinha em casa. Várias tinham de ser mudadas de vaso ou transplantadas, e queria reproduzir algumas para oferecer.

O tempo lá fora estava limpo e frio, por isso acomodou-se no calor húmido da sua estufa privada. Trabalhou uma das suas plantas favoritas, uma violeta africana enorme, originária de uma planta que a avó lhe dera há mais de trinta anos. Mergulhada nos blues de Norah Jones, seleccionou com cuidado meia dúzia de folhas novas e retirou-as com os caules. Por agora, utilizava um simples vaso, onde colocava os explantes. Dali a um mês teriam raízes, dando origem a novas plantas. Poderia então plantá-las individualmente nos vasos de um verde-pálido que reservara.

Seriam uma prenda para Stella, para a sua nova casa, a sua nova vida.

Gostava de poder legar aquela sua herança sentimental a uma mulher que a compreenderia, a alguém que Roz aprendera a amar.

Um dia, quando os filhos se casassem, faria o mesmo por eles; dar-lhes-ia uma parcela viva da sua herança. Amaria as mulheres que escolhessem, por eles o terem feito. Se tivesse sorte, gostaria das mulheres com quem casariam.

”Noras”, pensou. ”E netos.” Quase não era possível que esse acontecimento estivesse tão perto. Ainda mais estranho era ter começado a ansiar por tal momento. Concluiu que isso tinha a ver com o facto de ter Stella, Hayley e as crianças em sua casa.

Mas iria esperar. Aceitava a mudança, mas isso não queria dizer que tivesse pressa.

Naquele momento, tinha a vida bastante ordenada. O negócio ia de vento em popa, algo que era não apenas um triunfo pessoal, mas também um grande alívio.

Arriscara muito ao começar a No Jardim. Fora, contudo, um risco que tivera de correr por ela e pela sua herança.

A Harper House, da qual nunca abdicaria, implicava uma grande despesa. Tinha noção de que havia pessoas que julgavam que tinha dinheiro para esbanjar. No entanto, mesmo não tendo de contar os tostões, não era rica.

Criara três filhos, vestira-os e alimentara-os, educara-os. A herança permitira-lhe ficar em casa com eles, sem ter de procurar emprego, e a sua veia para os investimentos acrescentara mais alguma segurança.

Contudo, o colégio particular para os três e a faculdade de medicina de Mason não tinham sido baratos. Além disso, quando a casa exigia canalização nova, pintura nova, um telhado novo, era obrigada a providenciar tais necessidades.

Tal era essa necessidade que, ao longo dos anos, se vira obrigada a vender discretamente algumas coisas. É verdade que se tratara de quadros e de jóias de que não gostava, mas, mesmo assim, sentira uma pontada de remorso por ter de vender aquilo que lhe fora dado.

Sacrificar partes para preservar o todo.

Chegara uma altura em que acreditara que o futuro dos filhos estava garantido e que a casa estava segura, mas o dinheiro continuava a fazer falta. Por breves momentos, até pensara em procurar um emprego.

Mitch tinha razão, não gostava de receber ordens. Mas não havia dúvida de que adorava dá-las. ”Afinal de contas, uma pessoa tem de fazer uso das suas qualidades”, pensou, com o esboço de um sorriso. Fora isso que fizera.

Tudo se resumira a escolher entre juntar coragem para começar um negócio próprio ou engolir o orgulho e trabalhar para outra pessoa.

Para Roz, a escolha fora simples.

Arriscara bastante do seu próprio dinheiro e os primeiros dois anos tinham sido críticos, mas o negócio crescera. Ela e Harper tinham-no feito crescer.

O divórcio fora um golpe. Um erro estúpido. Mesmo tendo Bryce ficado com muito pouco, e apenas com aquilo que Roz lhe concedera, custara-lhe bastante em orgulho e em dinheiro para que o pudesse esquecer.

Mas tinham-no ultrapassado. Os filhos, o lar, o negócio, todos eles floriam. Por isso, podia dar-se ao luxo de pensar em algumas mudanças. De se expandir tanto a nível profissional como pessoal. Da mesma forma que podia apreciar o sucesso do presente.

Passou das violetas africanas às bromélias e, quando acabou de as dividir, decidiu que Stella também receberia uma. Satisfeita, trabalhou por mais uma hora e depois foi verificar os bolbos de Primavera que estava a forçar. Dali a uma semana teria narcisos a nascer.

Quando ficou satisfeita, levou para dentro de casa tudo o que queria, onde dispôs uma floresta de plantas no solário e outros vasos pela casa.

Por fim, levou para a cozinha um trio de bolbos em garrafas de forçagem.

- O que é que me trouxeste? - perguntou David.

- David, fico desesperada por nunca conseguir ensinar-te alguma coisa sobre horticultura. Vê-se bem que são túlipas. - Dispô-las no parapeito da janela. - Vão dar flor daqui a poucas semanas.

- Fico desesperado por não conseguir ensinar-te nada sobre roupa com estilo para a jardinagem. Há quanto tempo tens essa camisa?

- Não faço ideia. O que estás aqui a fazer? - Abriu o frigorífico e tirou o jarro de chá gelado que costumava estar ali. - Não devias estar a começar a tua maratona de embelezamento para a festa de logo à noite?

- Estou a preparar-te uma travessa de carnes frias e de acompanhamentos, já que te recusaste a vir brincar connosco esta noite. Como já me ofereci algumas horas no centro de beleza enquanto andavas a remexer na terra, o meu embelezamento já começou.

- Não te preocupes com travessas, David. Sou capaz de fazer uma sanduíche sozinha.

- Assim é mais bonito, especialmente quando se tem companhia.

- Riu-se. - O professor está na biblioteca e deixei duas garrafas de champanhe a refrescar, para que vocês possam, digamos, fazer saltar a rolha.

- David. - Roz deu-lhe uma ligeira palmada na cabeça antes de se servir do chá. - Não vou fazer saltar nada com ninguém. Vou tomar conta do bebé.

- Os bebés dormem. Roz, meu tesouro, ele é encantador, com um estilo académico e descuidado muito sensual. Ataca-o. Mas, por amor de Deus, primeiro troca de roupa. Separei-te a camisola de caxemira branca e as calças pretas que te convenci a comprar, aquelas cheias de licra, e os teus fabulosos sapatos Jimmy Choo.

- Podes ter a certeza de que não vou vestir caxemira branca e calças justas, que nunca teria comprado caso não me tivesses hipnotizado ou coisa do género, nem sapatos de salto agulha para tomar conta de um bebé de sete meses. Nem sequer é um encontro.

- Não adoras aqueles óculos? O que será que torna especial um homem com óculos?

Roz tirou uma azeitona da taça que David enchera.

- Estás muito agitado, esta noite.

David cobriu com película plástica as taças e a travessa que preparara.

- Pronto. Vais fazer o favor de fazer um piquenique de Ano Novo agradável com o borracho de óculos.

- David, onde é que foste buscar essa ideia de que preciso de um homem?

- Minha querida Roz, todos nós precisamos de um homem.

Roz mudou de roupa, mas rejeitou radicalmente a escolha de David, optando por uma camisa simples de algodão com calças de ganga e as suas meias de lã preferidas em vez de sapatos. Mesmo assim, teve vaidade suficiente para se maquilhar.

No quarto do bebé, ouviu pacientemente todas as instruções maternais de uma nervosa Hayley, deu garantias atrás de garantias, jurou chamá-la se houvesse qualquer problema. Por fim, acabou por mandar a jovem embora.

Aguardou à janela, de onde viu o carro afastar-se. Depois, a sorrir, virou-se para a espreguiçadeira onde Lily pairava.

- Agora és toda minha. Anda cá à tia Roz, para eu te comer como se fosses feita de açúcar.

Na biblioteca, Mitch fingia ler, esboçava apontamentos e escutava o monitor do bebé que estava sobre uma mesa no nível inferior.

Todas as divisões tinham um monitor, pelo menos aquelas onde entrara, pensou. Desde a experiência vivida na Primavera anterior, acreditava que era uma precaução sensata e elementar.

Mas naquele momento não estava a pensar em segurança ou precauções. Limitava-se a sentir-se encantado e divertido, enquanto ouvia primeiro a partida ansiosa de Hayley e agora o romance verbal com o bebé.

Nunca ouvira aquele tom na voz dela, não a sabia capaz de ser tão suave, como cera aromática em lume brando. Nem esperara que ela perdesse a cabeça com um bebé, como obviamente era o caso.

Dizia disparates, arrulhava, ria-se, fazia os barulhos tolos que os adultos costumam fazer para os bebés e, pelos sons da resposta de Lily, deixava o bebé tão feliz como a ama estava.

Era mais uma faceta de uma mulher que já vira como formidável, confiante, um pouco altiva e invulgarmente directa. Todas essas características já se tinham combinado para criar uma mulher que considerava bastante sensual. Agora esta... doçura, assim o considerava, era uma cereja surpreendente sobre um bolo já por si apetitoso.

Ouviu-a rir-se, uma gargalhada longa e adorável, e até desistiu de fingir que trabalhava.

Ouviu a música e o entrechocar de brinquedos, as gargalhadas e os gorjeios da criança e o puro prazer na voz da mulher. Mais tarde, escutou Roz a cantar enquanto embalava o bebé.

Pouco depois, ouviu-lhe as palavras murmuradas e o suspiro leve, ao que o monitor ficou em silêncio.

Suspirou também, triste por o interlúdio ter chegado ao fim. Depois, pegou na cafeteira e encontrou-a vazia. Outra vez.

Levou-a até à cozinha para fazer mais café e estava a medir a quantidade de pó quando Roz entrou.

- Olá - cumprimentou Mitch. - Saio já do seu caminho. O David disse-me para estar à vontade quando precisasse de café.

- É claro. Se quiser comer alguma coisa, ia mesmo servir-me das carnes frias que ele deixou preparadas.

- Aceito, obrigado. Quando ele me mostrou onde estava tudo para o café, comentou que havia comida preparada. E... - Arregalou os olhos quando Roz tirou a travessa e as taças. - Estou a ver que falava a sério.

- Ele tem medo de que eu morra à fome, caso não me deixe comida para seis pessoas. - Olhou para Mitch. - E?

- Desculpe?

- Tinha começado a dizer alguma coisa? Em relação ao David?

- Pois, ia dizer que tinha ficado com a impressão de que ele estava a atirar-se a mim.

Roz tirou pãezinhos frescos da gaveta do pão.

- Nada de muito descarado, espero.

- Não, nada descarado. Apenas... por acaso foi encantador.

- Espero que não tenha ficado ofendido.

- Não, fiquei... bem, na verdade senti-me lisonjeado. Tendo em conta a diferença de idades.

- Ele gosta de o ver de óculos.

- Gosta... do quê?

- As armações. Ao que parece, deixam-no derretido. Quer que ponha um pouco de tudo ou prefere escolher?

- Pode pôr de tudo. Fico-lhe muito agradecido.

- Não custa nada, já que estou a preparar para mim também. Ergueu a cabeça com brusquidão quando uma voz, Amélia a cantar,

começou a fazer-se ouvir através do monitor.

- Causa sempre arrepios, não acha? - comentou Mitch.

- Ela não entra no quarto da Lily todas as noites, como costumava fazer com os meninos. Prefere rapazes. Imagino que saiba que a Hayley saiu e quer...

Interrompeu-se. Tinha os dedos a atrapalharem-se com as sanduíches, algo que raramente acontecia, quando se lembrou do monitor na biblioteca. E dos momentos que passara com Lily.

- Nem sequer pensei no monitor no seu local de trabalho. Deve tê-lo incomodado.

- Ele não... a Roz não incomodou... a sério.

- Seja como for, sinta-se à vontade para o desligar sempre que lá esteja. Sabe Deus que os temos por todo o lado. A Hayley chegou a comprar um com vídeo para o quarto dela. É espantoso o que fazem hoje em dia para facilitar a vida das mães.

- A Roz deve ter sido muito boa mãe. Deu para perceber - acrescentou -, quando estava lá em cima com ela.

- Fui. Sou. É o meu trabalho mais importante. - Mas o tempo que passara com Lily fora privado ou pelo menos assim o pensara. Quantas vezes tinha cantado a música do Simão da Rua Sésamo?

Era melhor não pensar no assunto.

- Quer levar isto para comer enquanto trabalha ou prefere fazer um intervalo e comer aqui?

- Aqui, se não se importar.

- Com certeza. - Hesitou e voltou a abrir o frigorífico, de onde tirou a garrafa de champanhe. - Já que é véspera de Ano Novo, vou abrir isto. Podemos beber algo um pouco mais festivo do que café.

- Obrigado, mas não bebo. Não posso.

- Oh. - Roz sentiu-se estúpida. Não tinha já reparado que ele nunca tocava em álcool? Será que não poderia ter raciocinado antes de embaraçar um convidado? - Seja café, então.

- Por favor. - Mitch acercou-se e levou-lhe a mão ao braço antes que Roz tivesse oportunidade de voltar a guardar a garrafa. - Abra-a e saboreie-a. Não me incomoda que as outras pessoas bebam. Na verdade, é importante que se sintam à vontade. Que se sinta à vontade. Deixe-me abri-la. Pegou na garrafa. - Não se preocupe, abrir uma garrafa de champanhe não é um retrocesso.

- Acredite que não o queria deixar a si desconfortável. Devia ter percebido.

- Porquê? Já não tenho uma placa a dizer Alcoólico em Recuperação ao pescoço, pois não?

Roz esboçou um sorriso e dirigiu-se à cristaleira para ir buscar uma taça.

-Não.

Mitch tirou a rolha com um pop breve, à laia de celebração.

- Comecei a beber com quinze anos. Bebia uma cerveja às escondidas de vez em quando, como é habitual entre os rapazes. Nada de grave. Adorava uma cerveja gelada. - Pousou os pratos na mesa e depois serviu-se de café, enquanto Roz terminava de dispor em cima da mesa a refeição frugal.

- Atravessei a fase de loucura alcoólica durante a faculdade, mas também aí há muitos que fazem o mesmo. Nunca faltei a uma aula por causa disso, nunca tive problemas. Continuei com boas notas, o suficiente para me formar com distinção entre os primeiros cinco por cento da turma. Gostei quase tanto da faculdade como gostava de uma cerveja gelada. Acha que a vou aborrecer?

- Não - garantiu Roz, com os olhos fitos nos dele. - Não vai.

- Muito bem. - Deu a primeira dentada na sanduíche e aquiesceu.

- Senhora Harper, faz uma sanduíche mista dos diabos.

- Pois faço.

- Continuei a estudar e fiz o mestrado. Dei aulas, casei-me, trabalhei no doutoramento. Tive um filho maravilhoso. E continuei a beber. Era... um bêbado amistoso, se é que me entende. Nunca entrava em conflitos, nunca era violento... fisicamente, quero eu dizer, nunca briguei. Mas não posso dizer que quando o Josh nasceu tenha ficado completamente sóbrio... para dizer a verdade, já não era capaz de estar sóbrio até que pousei a garrafa de vez. - Provou a salada de batata de David. - Trabalhei... dei aulas, escrevi, providenciei uma vida desafogada à minha família. A bebida nunca me custou um único dia de trabalho, tal como nunca me custara uma aula. Mas custou-me a mulher e o filho.

- Lamento, Mitch.

- Não é preciso. A Sara, a minha ex, fez tudo o que pôde. Ela amava-me e queria a vida que eu lhe prometera. Aturou-me mais tempo do que muitas outras teriam feito. Implorou-me que deixasse a bebida e eu fazia-lhe promessas, ou descansava-a, ou enxotava-a. As contas eram pagas, não é verdade? Tínhamos uma boa casa e nunca falhámos uma única prestação da hipoteca. Pelo amor de Deus, eu não era um bêbado caído na sarjeta, pois não? Limitava-me a beber uns copos para me descontrair. Claro que começava a descontrair-me às dez da manhã, mas tinha direito a isso. - Fez uma pausa e abanou a cabeça. - Quando passamos a maior parte do tempo embriagados, é fácil iludir-nos. É fácil ignorar que todos os dias estamos a desapontar a nossa mulher e o nosso filho. Esquecia-me das festas e dos aniversários e saía da cama, onde de qualquer forma já não fazia falta, para beber só mais um copo, adormecia quando devia estar a tomar conta do bebé. Não estava presente, nunca estava completamente presente.

- Imagino que seja difícil para todos os que estão envolvidos.

- É mais difícil para aqueles que se afundam connosco, acredite. Nunca fui a sessões de aconselhamento com ela, recusei-me a ir a reuniões, a falar fosse com quem fosse sobre aquilo que ela dizia ser o meu problema. Mesmo quando me disse que se ia embora, quando fez as malas dela e as do Josh e partiu. Mal notei que se tinham ido embora.

- Foi muito corajoso da parte dela.

- É verdade. - Endureceu o olhar fixo no rosto de Roz. - É verdade, e imagino que uma mulher como a Roz perceba até que ponto ela foi corajosa. Precisei de mais um ano para chegar ao fundo, para olhar para a minha vida e não ver nada. Para me aperceber de que tinha perdido o que me era mais caro e que nunca o recuperaria. Comecei a frequentar reuniões.

- Isso também exige coragem.

- A minha primeira reunião? - Deu mais uma dentada na sanduíche.

- Estava em pânico. Sentei-me ao fundo da sala, na cave de uma igreja minúscula, a tremer que nem varas verdes.

- Muita coragem.

- Fiquei sóbrio durante três meses, dez dias e cinco horas até voltar a pegar na garrafa. Esforcei-me por largá-la outra vez e a sobriedade durou onze meses, dois dias e quinze horas. Ela não voltava para mim, sabe. Tinha conhecido outra pessoa e não confiava em mim. Servi-me disso como desculpa para beber e foi o que fiz nos meses seguintes até conseguir arrastar-me para fora do buraco. - Ergueu o café. - Faz catorze anos em Março. Dia 5 de Março. A Sara perdoou-me. Além de ser corajosa, é uma mulher generosa, que merecia mais do que aquilo que eu lhe dei. O Josh perdoou-me e, durante os últimos catorze anos, tenho sido um bom pai. O melhor que sei.

- Acho que é preciso ser-se um homem corajoso e forte para enfrentar os demónios interiores e derrotá-los, continuando a enfrentá-los todos os dias. E generoso e inteligente para arcar com a culpa em vez de a descarregar em alguém, mesmo que parcialmente.

- Não beber não faz com que eu seja um herói, Roz. Faz com que esteja sóbrio. Agora só me falta conseguir largar o vício do café.

- Já somos dois.

- Agora que já a aborreci, vou pedir-lhe que me retribua o favor e que me conceda a primeira entrevista quando acabarmos de comer.

- Está bem. Vou falar para o gravador?

- Acima de tudo, sim, embora eu também vá tirar alguns apontamentos.

- Nesse caso, talvez pudéssemos falar no salão, que é um pouco mais confortável.

- Parece-me uma boa ideia.

Antes de começarem, Roz foi ver Lily e atendeu o primeiro telefonema de Hayley. Enquanto Mitch reunia aquilo de que precisava da biblioteca, Roz foi buscar a travessa de fruta (David nunca falhava uma), o brie, o cheddar e as bolachas que o jovem deixara preparado.

Quando Roz estava a levar tudo para o salão num carrinho, Mitch apareceu.

- Deixe-me ajudá-la.

- Não é preciso. Mas pode acender a lareira, isso seria agradável. A noite está fria mas limpa, graças a Deus. Não me apetecia preocupar-me com os meus filhotes a regressarem ao ninho com a estrada molhada.

- Pensei o mesmo em relação ao meu antes de sair de casa. Nunca passa, não é?

- Pois não.

Serviu a comida e o café. Sentou-se no sofá e, por instinto, apoiou os pés na mesa. Surpreendida, fitou-os. Sabia que era uma questão de hábito, mas nunca o fazia quando recebia convidados. Olhou para as costas de Mitch, que estava acocorado a acender a lareira.

Sentia-se à vontade com ele, o que não fazia mal. Sempre era melhor do que considerá-lo um convidado, pois ia confiar-lhe os segredos de família.

- Tem razão, o lume é agradável.

Mitch regressou e preparou o gravador e o bloco de apontamentos, após o que se sentou na outra extremidade do sofá, com o corpo inclinado na direcção de Roz.

- Poderíamos começar consigo a falar-me sobre a primeira recordação que tem de ver a Amélia.

”Direito ao assunto”, pensou Roz.

- Não me lembro de uma primeira vez concreta. Devia ser muito nova. Lembro-me da voz, das canções e de uma presença reconfortante. Pensei que era a minha mãe. Mas a minha mãe não costumava ir ao meu quarto durante a noite e não me lembro de ela me cantar. Não era do seu feitio. Lembro-me de ela, a Amélia, estar presente algumas vezes quando eu estava doente com uma constipação ou uma febre. Tenho mais a ideia da sua presença quase constante do que de uma primeira vez assustadora.

- Quem lhe falou sobre ela?

- O meu pai e a minha avó. Mais a minha avó, julgo eu. A família comentava-a ocasionalmente, em termos muito vagos. Era ao mesmo tempo motivo de orgulho termos um fantasma e um tanto ou quanto embaraçoso. Dependia de quem estivesse a falar. O meu pai acreditava que era uma das Noivas Harper, enquanto a minha avó defendia que era uma criada ou uma hóspede, alguém que de alguma forma teria sido maltratado. Alguém que tivesse morrido aqui, mas que não era da família.

- O seu pai, a sua avó ou a sua mãe alguma vez lhe falaram sobre experiências que tivessem vivido com ela?

- A minha mãe ficava com palpitações sempre que se mencionava o assunto. A minha mãe gostava muito das suas palpitações.

Mitch sorriu ante o tom seco e observou-a a barrar o pão com brie.

- Tive uma tia-avó assim. Tinha achaques. O seu dia não estava completo sem um achaque.

- Não entendo por que motivo certas pessoas gostam de se passar por doentes. A minha mãe falou-me dela em determinada ocasião, de um modo fatalista, que era mais uma coisa de que gostava. Avisou-me de que um dia iria herdar este fardo e que, para meu bem, esperava que isso não me afectasse a saúde como acontecera com ela.

- Quer dizer que tinha medo da Amélia.

- Não, não. - Roz descartou a ideia com um gesto e mordiscou uma bolacha. - Ela gostava de sofrer e de ser uma espécie de mártir. Algo que parece muito indelicado de se dizer vindo da filha única.

- Vamos chamar-lhe honestidade.

- Vai dar ao mesmo. Seja como for, outras vezes dizia que fora a gravidez e o parto que lhe tinham arruinado a saúde. Outras ainda, que era frágil desde que tivera uma pneumonia em criança. Mas isso não interessa.

- Na verdade, é bastante útil. Fragmentos de informação, comentários pessoais e recordações ajudam muito, são um ponto de partida para o resto. E quanto ao seu pai?

- Regra geral, achava divertida a ideia de um fantasma e tinha recordações agradáveis da infância. Mas ficava irritado ou embaraçado quando ela fazia uma aparição e assustava um convidado. O meu pai era extremamente hospitaleiro e sentia-se humilhado a nível pessoal se um hóspede da sua casa fosse incomodado.

- Que tipo de recordações tinha ele?

- As mesmas que já lhe contei. Quase nunca varia. Cantava-lhe, visitava-o no quarto, foi uma presença maternal até aos doze anos.

- Nenhum incómodo?

- Que me tenha contado, não, mas a minha avó disse-me que, em criança, ele por vezes tinha pesadelos. Apenas um ou dois por ano em que dizia ver uma mulher de branco, com os olhos arregalados, e que a ouvia gritar na cabeça dele. Às vezes ela estava no quarto, outras vezes lá fora, e o mesmo se passava com ele... no sonho.

- Então os sonhos são mais um ponto em comum. Teve algum?

- Não, apenas...

- Diga.

- Sempre pensei que fossem os nervos. Nas semanas anteriores ao meu casamento com o John, tive sonhos. Sonhei com tempestades. Céus negros e trovões, ventos frios. Um buraco no jardim, como se fosse um túmulo, com flores mortas lá dentro. - Sentiu um arrepio. - Horrível. Mas desapareceram quando me casei. Ignorei-os.

- E desde então?

- Não. Nunca. A minha avó viu-a mais vezes do que qualquer outra pessoa, pelo menos mais do que alguém quis admitir. Na casa, no jardim, no quarto do meu pai quando ele era pequeno. Nunca me contou nada de assustador, mas talvez não o quisesse fazer. Que me lembre, de toda a família, ela foi a mais compreensiva em relação a Amélia. Mas, para ser sincera, não era um assunto de primeira importância cá em casa. Limitava-se a ser aceite ou ignorado.

- Falemos então sobre essa familiar. - Tirou os óculos do bolso da camisa e leu os apontamentos. - As aparições mais antigas de que tem conhecimento remontam à sua avó, Elizabeth McKinnon Harper.

- Isso não é exactamente correcto. Ela contou-me que o meu avô, o marido dela, vira a Noiva em criança.

- Mas isso seria ela a relatar aquilo que lhe tinham contado, não o que disse ter visto e sentido em pessoa. Mas, já que falamos nisso, lembra-se de lhe terem falado de alguma experiência na geração anterior à dos seus avós?

-Ah... Ela contou-me que a sogra, que seria a minha bisavó Harper, se recusava a entrar em certas divisões da casa.

- Que divisões?

-Ai, meu Deus, deixe-me pensar. O quarto do bebé, que na altura era no segundo andar. O quarto principal. Imagino que ela tenha acabado por sair de lá. A cozinha. E não metia os pés na cocheira. Segundo a descrição da minha avó, ela não era uma mulher assustadiça. Sempre se pensou que tivesse visto a Noiva. Não sei se houve alguém que a tenha visto antes disso. Mas não deve ter havido. Remontamos a sua origem à década de 1890.

- É uma data com base no vestido que usava e no penteado - comentou Mitch, enquanto ia tirando apontamentos. - Não são dados suficientes.

- Mas parece-me bastante lógico.

Com um sorriso, Mitch ergueu o olhar pensativo por trás dos óculos.

- Pode ser. Talvez tenha razão, mas gostaria de ter mais dados antes de rotular alguma coisa de facto. E quanto às suas tias-avós? As irmãs mais velhas de Reginald Jr.?

- Não lhe sei dizer. Não cheguei a conhecer nenhuma ou pelo menos não me lembro. E não eram muito chegadas ao meu avô nem ao meu pai. Houve uma tentativa por parte da minha avó de fortalecer as relações familiares entre os filhos delas e o meu pai, enquanto primos. Ainda me mantenho em contacto com alguns dos descendentes.

- Será que estariam dispostos a falar comigo?

- Alguns sim, outros não. Alguns já morreram. Eu dou-lhe os nomes e os números de telefone.

- De todos - pediu Mitch. - Excepto dos que já faleceram. Consigo ser bastante persuasivo. Outra vez - murmurou, quando ouviram cantar através do monitor que se encontrava do outro lado do salão.

- Outra vez. Quero ir ver como está a Lily.

- Importa-se que vá consigo?

- Não, venha. - Subiram juntos as escadas. - O mais certo é parar antes de lá chegarmos. Costuma ser assim.

- Entre 1890 e 1895 houve duas amas, três preceptoras, uma governanta, uma subgovernanta, um total de doze criadas, uma criada de quarto e três empregadas de cozinha. Encontrei alguns dos nomes, mas, como as idades não são referidas, tenho de investigar muitos registos para localizar as pessoas certas. Quando as encontrar e se as encontrar, começarei a procurar certidões de óbito e a localizar os possíveis descendentes.

- Vai estar muito ocupado.

- É preciso gostar do que se faz. Tem razão. Parou.

Mas prosseguiram ao longo do corredor até ao quarto do bebé.

- Ainda está frio - comentou Roz. - Mas não dura muito. - Aproximou-se do berço e aconchegou com o cobertor o bebé adormecido. - É uma menina tão boa - disse, em voz baixa. - Dorme quase sempre a noite toda. Os meus nunca fizeram isso com esta idade. Ela está bem. Vamos deixá-la sossegada.

Saiu e deixou a porta aberta. Estavam no cimo das escadas quando o relógio começou a bater as horas.

- Meia-noite? - Roz confirmou no relógio de pulso. - Nem me apercebi de que já era tão tarde. Bem, feliz Ano Novo.

- Feliz Ano Novo. - Mitch pegou-lhe na mão antes que Roz começasse a descer as escadas e, com a outra mão no rosto dela, perguntou: - Importa-se?

- Não, não me importo.

Os lábios tocaram-se, ao de leve, num gesto civilizado e educado de comemoração do ano que entrava. Nesse momento, algures na ala oriental, a zona de Roz, uma porta fechou-se com estrondo, como um tiro.

Embora tivesse sentido o coração a dar um salto, Roz conseguiu manter um tom calmo.

- Parece-me que ela não está de acordo.

- A mim parece-me que está fula da vida. E, se vai ficar zangada, mais vale dar-lhe um bom motivo.

Dessa vez não lhe pediu, limitou-se a deslizar a mão que tinha no rosto de Roz até à nuca. E dessa vez a boca não foi educada, leve ou civilizada. Quando os lábios dele esmagaram os dela, quando o corpo dele se pressionou contra o seu, Roz sentiu uma onda de calor na barriga. Sentiu o sangue ferver, a pulsação rápida e descontrolada, e deixou-se levar por um momento.

A porta na ala oriental continuou a bater e o relógio continuou a soar, furiosamente, bem para lá das doze badaladas.

Ele imaginara aquele sabor, maduro e poderoso. Mais forte do que doce. Quisera sentir aqueles lábios contra os seus, saber como o corpo esguio se encaixaria no seu. Agora que o descobrira, ela instalou-se dentro de si e deixou-o a querer mais.

Mas Roz afastou-se com um olhar franco e directo.

- Por agora, chega.

- É um começo.

- Julgo que é melhor deixar tudo... calmo por esta noite. Tenho de arrumar o salão e instalar-me aqui com a Lily.

- Está bem. Vou buscar os meus apontamentos e vou para casa.

Já no salão, Roz juntou as travessas enquanto Mitch reunia as suas coisas.

- A Rosalind é uma mulher difícil de perceber.

- Acredito que seja verdade.

- Sabe que quero ficar, sabe que quero levá-la para a cama.

- Sim, eu sei. - Olhou-o. - Não quero amantes... Ia dizer isso mesmo. Que não quero amantes. Mas, em vez disso, vou dizer que não os quero sem pensar. Por isso, se decidir aceitá-lo como amante ou se deixar que me aceite, vai ser sério, Mitchell. Muito sério. É algo em que ambos teremos de pensar.

- Alguma vez saltou de olhos fechados, Roz?

- Já o fiz. Mas, salvo uma rara e lamentável ocasião, gosto de ter a certeza de que vou cair de pé. Se não estivesse interessada, dizia-lho directamente. Não faço esse tipo de jogos. Em vez disso, vou dizer-lhe que estou interessada quanto baste para pensar no caso. O suficiente para ter alguma pena de já não ser jovem e tola para agir sem pensar. - O telefone fez-se ouvir. - Deve ser outra vez a Hayley. Tenho de atender ou ela entra em pânico. Tenha cuidado na estrada.

Deixou o salão para atender o telefone e, enquanto garantia a Hayley que o bebé estava bem, que dormia que nem um anjo, ouviu a porta da entrada a fechar-se.

Capítulo 8

 

Mitch decidiu que seria conveniente manter uma certa distância. Aquela mulher era um paradoxo e, como os paradoxos eram insolúveis, melhor seria que fosse aceite tal como era, em vez de o tentar resolver e ficar desesperado.

Por isso, sempre que fosse capaz de dirigir as suas energias para outros enigmas que não a misteriosa Rosalind Harper, iria procurar manter-se afastado.

Tinha muito terreno a palmilhar, ou melhor, muito tempo a passar sentado. Algumas horas ao computador e teria uma perspectiva geral dos nascimentos, óbitos e casamentos registados na bíblia da família Harper. Já criara uma tabela genealógica da família a partir das informações que obtivera no cartório e on-line.

Os clientes adoravam tabelas. Eram também ferramentas, tal como as cópias dos retratos de família e as cartas. Afixava tudo num quadro enorme. Neste caso, dois. Um na sala de trabalho do seu apartamento e outro na biblioteca da Harper House.

Retratos, fotografias e cartas antigas, diários, receitas de família anotadas, tudo isso contribuía para dar vida às pessoas. Quando adquiriam uma personalidade, quando ele começava a visualizar as rotinas diárias, os hábitos, os defeitos e as mágoas, assumiam uma importância que ultrapassava em muito qualquer trabalho ou projecto.

Era capaz de perder horas a folhear os apontamentos de Elizabeth Harper sobre jardinagem ou o livro de bebé que fizera sobre o pai de Roz. De que outra forma teria descoberto que ele sofrera de doença celíaca aos três meses de vida ou que dera os primeiros passos dez meses depois?

Eram os pormenores, as ninharias, que tornavam o passado rico e acessível.

E, na fotografia de casamento de Elizabeth e Reginald Jr., conseguia ver Rosalind no avô. O cabelo escuro, os olhos rasgados, a estrutura facial bem marcada.

O que mais teria passado a ela aquele homem de que Roz mal se lembrava e, através dela, aos seus filhos?

Para começar, perspicácia para os negócios, constatou Mitch. A partir de outros pormenores, as tais ninharias encontradas em recortes e em registos domésticos, formou a imagem de um homem com uma grande habilidade para fazer dinheiro e que evitara o destino de muitos dos seus contemporâneos durante a queda da bolsa. Um homem cuidadoso, alguém que preservara a casa e os bens da família.

Mas não haveria uma certa frieza no indivíduo, pensou Mitch enquanto observava as fotografias no quadro. Um distanciamento patente nos olhos, algo mais do que o estilo fotográfico da época.

Talvez estivesse relacionado com o facto de ter nascido rico, o filho único em cujos ombros assentavam as responsabilidades.

- O que sabias acerca da Amélia? - interrogou-se Mitch em voz alta.

- Será que a conheceste? Ou estaria já morta, seria já um espírito naquela casa quando nasceste?

Alguém a conhecera, pensou. Alguém falara com ela, lhe tocara, conhecera a sua voz e rosto.

E fora alguém que vivera ou trabalhara na Harper House.

Mitch dedicou-se à investigação dos criados cujo nome completo conhecia.

Demorou bastante e não incluiu uma série de outras possibilidades: Amélia como hóspede, como criada cujo nome não fora incluído ou fora extirpado dos registos da família, como parente de um familiar, como amiga da família.

É claro que poderia especular que, caso uma hóspede, uma amiga, uma parente distante tivesse morrido na casa, essa informação teria sido passada e a sua identidade conhecida.

Mais uma vez, tratava-se apenas de especulação e não abrangia a possibilidade de um escândalo nem a tendência para abafar tais assuntos.

Ou o facto de ela não ser alguém importante para os Harper, ter morrido durante o sono e ninguém julgar que valeria a pena comentar o assunto.

Ao recostar-se, afastando-se do trabalho, imaginou que o facto de ele, um homem racional e bastante lógico, despender uma quantidade de tempo e esforço considerável na pesquisa e identificação de um fantasma era mais um paradoxo.

O truque era não pensar nela nesses termos, mas vê-la como uma mulher que vivera e respirara, alguém que nascera, tivera uma vida, vestira-se, comera, rira-se, chorara, andara e falara.

Existira. Tinha um nome. O seu trabalho era descobrir quem, o quê, quando. O porquê seria um extra.

Retirou o esboço do arquivo e observou a imagem que Roz criara de uma mulher jovem e magra, de caracóis abundantes e olhos repletos de tristeza. E fora assim que lhe tinham atribuído uma data, pensou, enquanto abanava a cabeça. Através de um vestido e de um penteado.

Não que fosse um mau esboço. Apenas vira Amélia uma vez e, nessa altura, não lhe parecera calma e triste como no desenho, mas sim desvairada.

O vestido podia ter dez, até mesmo vinte anos. Ou poderia ser novo. O penteado talvez fosse uma opção pessoal ou a moda corrente. Era impossível estabelecer uma data precisa com informações tão... bem, tão esboçadas.

Mesmo assim, a pesquisa que já realizara levava-o a pensar que talvez não estivessem muito longe da verdade.

A menção a sonhos, os fragmentos de informação, a própria lenda parecia ter origem no reinado de Reginald Harper.

”Reginald Harper”, pensou, enquanto se reclinava na cadeira para fitar o tecto. Reginald Edward Harper, nascido em 1851, o mais novo de quatro filhos nascidos da união entre Charles Daniel Harper e Christabel Westley Harper. Segundo rapaz e o único a sobreviver. Nathanial, o irmão mais velho, morrera em Julho de 1864, com dezoito anos, durante a Batalha de Bloody Bridge, em Charlestown.

-Casou com Beatrice... - Voltou a consultar os apontamentos. Sim, ali estava. Cinco filhos. Charlotte, nascida em 1881, Edith Anne, 1883, Katherine,

1885, Victoria, 1886, e Reginald Jr., 1892.

Tendo em conta o padrão anterior, havia um grande hiato entre os dois últimos filhos, pensou, e anotou a possibilidade de abortos e/ou de nados-mortos.

Eram hipóteses bastante plausíveis, tendo em consideração os métodos anticoncepcionais pouco fiáveis e a presunção natural de que Reginald quereria um filho para dar continuidade ao nome da família.

Perscrutou a árvore genealógica que criara para Beatrice. Uma irmã, um irmão, uma cunhada. Mas nenhuma familiar morrera até bem depois dos primeiros relatos de aparições e de sonhos, o que fazia delas candidatas improváveis. Além disso, nenhuma delas se chamava Amélia.

É claro que também não encontrara uma criada com esse nome. Ainda.

Por enquanto, regressava a Reginald Harper, chefe da família durante a época mais provável.

Quem foste tu, Harper? Rico, próspero. Herdaste a casa e os bens porque o irmão mais velho fugiu para se tornar soldado e morreu a lutar pela causa. O benjamim da família à frente de tudo.

Um bom casamento, que te trouxe ainda mais riqueza. Segundo os apontamentos de Roz, expandiste e modernizaste a casa. Casaste bem, viveste bem e não tinhas medo de gastar dinheiro. No entanto, durante os anos em que tinha tido as rédeas da casa, houvera uma troca constante de criadas e de outras serviçais.

Talvez Reginald gostasse de brincar com as empregadas. Ou a esposa fosse uma tirana.

Teria a longa espera por um filho sido frustrante e irritante ou estaria satisfeito com as filhas? Seria interessante descobrir.

Não havia ninguém vivo para o contar.

Mitch regressou ao computador e, de momento, contentou-se com os factos.

Uma vez que ficara com muitas plantas depois da divisão que fizera, Roz levou algumas para a loja e aceitou a sugestão de Stella para trabalhar com ela e usar mais algumas dessas plantas para fazer arranjos florais.

Gostava de trabalhar com Stella, embora fosse raro. Acima de tudo, quando envasava ou se dedicava à propagação, Roz preferia ficar apenas na companhia das suas plantas e da sua música.

- Sabe bem mexer na terra - comentou Stella,.enquanto seleccionava espada-de-são-jorge para o seu arranjo.

- Imagino que em breve possas fazer a vontade ao dedo, quando começares a tratar do teu próprio jardim.

- Mal posso esperar. Sei que estou a dar com o Logan em doido, por estar sempre a mudar, a redefinir e a melhorar o plano. - Com um sopro, afastou do rosto uma madeixa que se soltara e olhou para Roz. - Claro que aquilo que ele andava a fazer com a paisagem não seguia exactamente um plano. Era mais um conceito.

- O qual estás a aprimorar.

-Acho que, se lhe mostrar mais um esboço, ele vai fazer-me engoli-lo. Esta coleos está linda.

- Concentrares-te no jardim ajuda a acalmar os nervos por causa do casamento.

Ainda com as mãos na terra, Stella fez uma pausa.

- Na mosca. Quem poderia imaginar que iria ficar nervosa? Já não é a minha primeira vez e vamos fazer uma cerimónia pequena e simples. Tive meses para planear tudo, coisa que também não o deixou muito contente. Mas tínhamos, pelo menos, de pintar e de mobilar a sala e o quarto dos miúdos. Nem vais acreditar nas peças maravilhosas que a mãe lhe deu e que ele guardou numa arrecadação.

- Este dragoeiro deve ficar bem aqui. Acho que o nervosismo é normal. Seja a primeira vez ou não, uma noiva não deixa de ser uma noiva.

- Estavas nervosa da segunda vez? Sei que as coisas acabaram por correr mal, mas...

- Não, não estava. - O tom da sua voz era seco. Não parecia amargo, apenas vazio. - Devia ter considerado isso um aviso. Ficamos nervosas porque estamos entusiasmadas e felizes e porque somos o tipo de pessoa que se preocupa com todos os pormenores. Preocupamo-nos ainda mais quando é importante.

- Só quero que tudo seja especial. Perfeito. Devia estar maluca quando decidi fazer a cerimónia no quintal sem que o jardim estivesse pronto. Agora já só temos até Abril para terminar.

- E vão conseguir. Tu e o Logan sabem o que estão a fazer com as plantas, um com o outro e com tudo o que interessa.

- Vai-me lembrando disso, está bem?

- Com muito gosto. Ficaram muito bonitos. - Recuou e apoiou as mãos nas ancas. - Já pensaste nos preços?

- Trinta e quatro e meio. Quarenta e cinco e noventa e cinco pelo grande.

- Parece-me bem. Como as plantas são quase todas provenientes de divisões, é uma boa margem de lucro.

- E é um bom negócio para os nossos clientes, pois não vão encontrar arranjos tão exuberantes em mais lado nenhum. Ajudo-te a levar alguns lá para dentro e depois vou inserir estes no inventário.

Encheram um carrinho e levaram-no até ao edifício principal. Quando Stella começou a desviar outros vasos para reorganizar o espaço, Roz afastou-a.

- Vai, vai tratar da papelada. Se começas a mexer na exposição, nunca mais sais daqui. De qualquer forma, quando me for embora, vens alterar tudo na mesma.

- Estava a pensar que se juntássemos ali alguns dos mais pequenos e se usássemos duas daquelas mesas de tampo de azulejo...

- Eu trato disso. Podes vir depois e... aperfeiçoar.

- Se colocares um dos maiores maqueta mesa de jardim de ferro forjado e uma lanterna de latão ao lado, mais um vaso de barro de quarenta centímetros com uma estrelícia, ficas com um conjunto muito apelativo. E vou-me embora.

Divertida, Roz desviou os vasos mais antigos e dispôs os novos. Uma vez que tinha de admitir que Stella, como de costume, tinha razão, montou o arranjo como sugerido.

- Rosalind Harper!

Como estava de costas, Roz permitiu-se um breve esgar, antes de dar um ar mais amigável ao rosto.

- Olá, Cissy.

Submeteu-se ao cumprimento típico, um beijo ruidoso que parou a um par de centímetros da face, e, resignada, perdeu um quarto de hora em conversa fiada.

- Mas que elegante - ofereceu Roz. - É um fato novo?

- Isto? - Cissy acenou com a mão com manicura francesa perfeita, num gesto que minimizava o fato vermelho. - Fui buscá-lo ao closet hoje de manhã. A sério, Roz, será que alguma vez engordas? Sempre que te vejo, sinto-me obrigada a suar mais vinte minutos na passadeira.

- Estás maravilhosa, Cissy. - O que era sempre verdade. Cecilia Pratt era perita em manter-se fantástica. O cabelo às madeixas louras tinha sido penteado a régua e esquadro, de forma a favorecer-lhe o rosto arredondado e juvenil, de covinhas marcadas e olhos cor de avelã.

Pela roupa que vestia, Roz imaginou que tivesse acabado de chegar de um qualquer almoço feminino ou de uma reunião do clube, tendo passado por ali para semear e colher mexericos.

Cissy também era perita em mexericos.

-Ai, isso é completamente impossível, estou completamente esgotada. Este ano o Natal deixou-me completamente de rastos. Para onde quer que me virasse, mais uma festa. Acho que ainda não recuperei o fôlego desde o Dia de Acção de Graças. Não tarda nada chega o Baile de Primavera, no clube. Oh Roz, este ano tens de ir. Sem ti, perde completamente a graça.

- Ainda não pensei nisso.

- Então pensa. Senta-te aqui um pouquinho e vamos pôr a conversa em dia. Juro que não aguento nem mais um minuto de pé. - Como prova, sentou-se no banco ao lado da mesa onde Roz terminara o arranjo. - Não é tão agradável? É como se estivéssemos sentadas num jardim tropical. Na semana que vem, o Hank e eu vamos apanhar um pouquinho de sol às Caimãs. Estou mesmo a precisar de uma pausa.

- Mas que maravilha. - Encurralada pela cortesia, Roz juntou-se a Cissy no banco.

- Querida, devias tirar umas férias tropicais. - Cissy deu uma palmadinha na mão de Roz. - Sol, água azul, homens meio despidos encantadores. Uma maravilha. Sabes que tenho medo de que este negócio te esteja a prender? Mas agora tens aquela rapariga lá do Norte a gerir as coisas. Já agora, como vão as coisas entre vocês?

- Ela chama-se Stella, Cissy, e já trabalha comigo há um ano. Deve ser um bom indicador de que está tudo a correr bem.

- Que maravilha. Devias aproveitar e fugir daqui um pouquinho.

- Não há nenhum sítio para onde queira ir.

- Pois olha, vou trazer-te umas brochuras. Eu cá não era capaz de aguentar nem mais um dia, se não soubesse que não tarda nada vamos estar sentados na praia a beber martinis. Fizeste muito bem em não ir à maior parte das festas, mas tive pena de não te ter visto na passagem de ano em casa da Jan e do Quill. Foi uma reunião adorável, mas nem se aproximou da tua. As flores eram pobrezinhas e a comida não passava de medíocre. Não que eu dissesse isso à Jan. Sabias que para a semana ela vai fazer uma lipoaspiração?

- Não, não sabia.

- Pois, é um daqueles segredos mal guardados. - Cissy inclinou-se para Roz, com as covinhas das faces a acentuarem-se à laia de conspiração. Ouvi dizer que vai tratar do rabo e das coxas. Estivemos mesmo agora a almoçar e ela diz que vai passar uma semana a uma estância na Florida, mas toda a gente sabe que vai fazer a aspiração e depois vai fechar-se em casa até poder ser vista. Ai, meu Deus, como o rabo dela tem espaço para uma mesa de família de quatro pessoas, de certeza que precisa de mais de uma semana para voltar a andar como deve ser.

Roz não foi capaz de evitar uma gargalhada.

- Pelo amor de Deus, Cissy, o rabo dela parece-me normal.

- Comparado com o da nova assistente administrativa, que dizem que o Quill tem debaixo de olho, não é. Tem vinte e oito anos e nela pode-se pôr a mesa mais alta, isso se não nos importarmos de comer em cima de silicone.

- Espero que essa história sobre o Quill não seja verdadeira. Sempre pensei que ele e a Jan fossem felizes.

- Há homens que perdem a cabeça com um grande par de mamas, não interessa se foram feitas por Deus ou pelo homem. O que me leva ao assunto que vim tratar contigo. Não sei é como dizer.

- Tenho a certeza de que vais descobrir uma maneira.

- Acho que é uma coisa que tenho de dizer, sinto-me obrigada... Há quanto tempo somos amigas, Rosalind?

- Não faço ideia. - ”Pois conhecer alguém desde o tempo de liceu não as torna amigas”, pensou.

- Com a nossa idade, o melhor é nem contar os anos. Bem, mas como nos conhecemos há mais tempo do que estamos dispostas a admitir, sinto que tenho obrigação de te informar sobre o que se está a passar. Mas como ainda não falámos desde o... o incidente, quero dizer-te que nunca tinha ficado tão chocada ou tão pasmada como quando aquele horrível Bryce Clerk entrou na tua casa na noite da festa. Até parece que tinha o direito de o fazer.

- Não faz mal, Cissy. Ele voltou logo a sair.

- E ainda bem, porque não sei se me tinha conseguido aguentar. Não sei mesmo. Não acredito naquela Mandy. É claro que aquela rapariga não tem o tino todo, mas isso não é desculpa para não ter procurado saber quem era aquele homem antes de se pendurar no braço dele e entrar pela tua casa dentro. - Acenou com a mão. - Nem consigo falar nisso.

- Então, não falemos. Tenho mesmo de voltar ao trabalho.

- Mas ainda não te contei. A minha língua perde-se completamente quando fico perturbada. Ele esteve lá com aquela rapariga desmiolada. Esteve lá, Roz, na festa da Jan e do Quill, todo inchado, como se fosse o dono do mundo. A beber champanhe e a dançar, a fumar charutos na varanda. A falar da sua empresa de consultoria. Deu-me completamente a volta ao estômago. - Levou a mão à barriga, como se esta ameaçasse revoltar-se. - Sei que a Jan disse que tu lhe tinhas apresentado desculpas por não poderes ir, mas eu estava completamente aterrada que pudesses mudar de ideias e entrar por ali a qualquer momento. E não era só eu.

- Acredito. - Imaginava que tivesse havido muitos murmúrios ansiosos e olhares esperançosos para a porta. - A Jan tem o direito de receber quem quiser em sua casa.

- Pois eu discordo completamente. É uma questão de lealdade e até de bom gosto. Fui almoçar com ela para lhe dizer isso mesmo. - Enquanto falava, abriu a mala e tirou um estojo de maquilhagem para retocar o nariz.

- Parece que o Quill lhe abriu as portas. Juntaram-se num negócio qualquer, não que a Jan faça alguma ideia do que se trata. Aquela mulher não percebe nada de assuntos financeiros. Não é como a Roz e eu.

- Hum - foi a resposta mais educada em que Roz conseguiu pensar, pois Cissy nunca trabalhara na vida.

- Verdade seja dita que ela ficou arrasada quando falámos sobre isso hoje ao almoço. Arrasada. - Pegou no batom e voltou a pintar os lábios a condizer com o vestido. - Mas há pessoas, e admito que ouvi dizer isto na festa e também aqui e ali, há pessoas que sentem um pouquinho de pena do homem. Que acreditam que ele foi muito maltratado, o que para mim bate tudo. O pior é a versão que diz que a Roz o agrediu fisicamente na noite da festa, que o expulsou quando ele tentou pôr uma pedra em cima do assunto, por assim dizer. Que o ameaçou e àquela rapariguinha tonta quando já estavam a sair. É claro que, sempre que ouço essa história, faço o que posso por corrigi-la. Afinal de contas, eu estava lá.

Roz identificou o tom ávido. Dá-me lenha para esta fogueira. Mas, por mais zangada, por mais difamada que estivesse a ser, isso era algo que não faria.

- As pessoas dizem ou pensam aquilo que quiserem dizer ou pensar. Não vale a pena preocupar-me com isso.

- Bem, há quem diga e pense que não foste à festa da Jan, nem a mais nenhuma, porque julgavas que ele ia lá estar acompanhado por uma mulher com quase metade da tua idade.

- Surpreende-me que alguém perca tanto tempo a tecer especulações sobre a minha reacção para com um indivíduo que já não faz parte da minha realidade. Se vires a Jan, diz-lhe que não tem de se preocupar comigo. - Roz ergueu-se. - Gostei de te ver, mas tenho mesmo de voltar ao trabalho.

- Quero que saibas que vou estar a pensar em ti. - Cissy levantou-se e deu a Roz mais um beijo aéreo. - Um dia destes, temos de almoçar as duas, pago eu.

- Diverte-te com o Hank nas Caimãs.

- Obrigada. Depois envio-te as brochuras - disse sobre o ombro, enquanto se afastava.

- Pois, envia - resmungou Roz.

Dirigiu-se para o lado oposto, furiosa consigo por ter sido magoada e insultada. Sabia que não valia a pena, mas o golpe infligido no seu orgulho continuava a doer-lhe.

Fez menção de se dirigir à zona de propagação, mas acabou por desviar-se. Naquele estado, só iria fazer asneiras. Em vez disso, contornou o edifício e encaminhou-se para o bosque que separava a casa e o viveiro e tomou o caminho mais longo até casa.

Não queria ver ninguém, falar com ninguém, mas David estava no jardim a brincar com os filhos de Stella e o respectivo cão.

O animal foi o primeiro a vê-la e, com alguns latidos de boas-vindas, correu para ela, saltando e arranhando-lhe os joelhos.

- Agora não, Parker. - Inclinou-se para lhe coçar as orelhas. - Não é uma boa altura.

- Andamos à caça do tesouro. - Luke acercou-se a correr. Tinha uma barba postiça pendurada das orelhas que lhe ocultava metade do rosto sardento. - Até temos um mapa.

- Um tesouro?

- Pois. Sou o pirata Barba Negra, e o Gavin é o Long John Silver. O David é o capitão Morgan. Ele diz que o capitão Morgan é um raio de luz num dia negro. Mas eu não percebi.

Roz sorriu e desgrenhou o cabelo do rapaz, tal como fizera ao pêlo do cão. Ela própria não se importava de tomar um capitão Morgan. Duplo.

- Qual é o tesouro?

- É surpresa, mas o David... o capitão Morgan diz que, se não o encontrarmos, vamos ter de andar na prancha.

Roz olhou para Gavin, que coxeava por ali com um pau de vassoura amarrado à perna, e para David, com uma pala no olho e um chapéu com uma pluma enorme, que o jovem deveria ter desencantado no seu baú de disfarces.

- Nesse caso, é melhor irem à procura.

- Não queres brincar?

- Agora não, querido.

- Acho bem que encontrem os meus dobrões - avisou David, aproximando-se -, ou penduro-vos do mastro mais alto.

Com um grito pouco típico na boca de um pirata, Luke foi a correr contar mais passos com o irmão.

- O que se passa, querida?

- Nada. - Roz abanou a cabeça. - Dói-me a cabeça e vim para casa mais cedo. Deus te livre de teres enterrado mesmo alguma coisa. Não queria ter de te despedir.

- Um jogo novo para a PlayStation na curva do ramo mais baixo daquele sicómoro.

- És um verdadeiro tesouro, capitão Morgan.

- Único. Conheço essa expressão. - Levou-lhe a mão ao rosto. - Passava despercebida a quase toda a gente, mas não a mim. O que é que te perturbou e por que raio vieste para casa sem casaco?

- Esqueci-me dele e dói-me mesmo a cabeça, uma enxaqueca trazida por uma parvoíce que a Cissy Pratt se viu na obrigação de me relatar.

Captam Morgan é o nome de uma marca de rum. Por outro lado, a capitã Morgan é a personagem interpretada por Geena Davis no filme de piratas A Ilha das Cabeças Cortadas, realizado por Renny Harlin em 1995. (N. do T.)

- Um dia destes aquela língua dela ainda a vai enforcar. - Ergueu a pala do olho. - E quando for o velório, visto-a com uma roupa fora de moda do supermercado. De poliéster.

O comentário levou-a a esboçar um sorriso.

- Isso é cruel.

-Vamos entrar. Preparo-nos um dos meus martinis infames. Podes contar-me tudo e depois falamos mal da cabra.

- Por mais divertido que me pareça, acho que só preciso de um par de aspirinas e de vinte minutos de sesta. E ambos sabemos que não podes desapontar aqueles meninos. Vai-te embora, capitão. - Deu-lhe um beijo na face. - Vai partir uns quantos raios.

Roz entrou em casa e subiu directamente para o quarto. Tomou a aspirina que receitara a si própria e depois estendeu-se em cima da cama.

Até quando, interrogou-se, até quando é que o gato preto daquele casamento fajuto ia ficar-lhe pendurado ao pescoço? Quantas vezes mais ia arranhá-la?

Lá se fora a sua esperança supersticiosa de que fechar os olhos aos quinze mil dólares que ele desviara da sua conta saldaria as contas, equilibrando a balança do seu erro.

Bem, o dinheiro desaparecera e lamentar essa decisão idiota não serviria de nada. O casamento tivera lugar e não valia a pena censurar-se a si própria.

Mais tarde ou mais cedo, ele voltaria a cometer um erro, iria meter-se com a mulher errada, intrujar o homem errado, e então fugiria de Memphis, para longe do seu círculo.

Eventualmente, as pessoas descobririam outro assunto sobre o qual falar. Era sempre assim.

Imagine-se só ele ter convencido alguém de que ela o atacara, ainda por cima em sua casa. Mas ele saía-se bem a armar-se em vítima e era o mentiroso mais convincente que já vira.

Não podia defender-se fosse de que maneira fosse e não o faria, caso contrário estaria a lançar achas para a fogueira. Faria o que sempre fizera: afastar-se, a nível físico e emocional, do centro da conversa.

Ia permitir-se o breve mau humor em que caíra. Afinal de contas, não era perfeita. Depois regressaria à sua vida para a viver como sempre fizera.

Exactamente como quisesse.

Fechou os olhos. Não contava adormecer, mas mergulhou naquele estado intermédio que regra geral considerava mais reconfortante.

Enquanto vogava nesse estado, viu-se sentada num banco do seu jardim, a apanhar sol na brisa vespertina, a deleitar-se com os aromas que o ar lhe trazia.

Via a casa e os vasos coloridos que plantara e dispusera nos terraços. E a cocheira, com uma profusão de lírios prestes a florir.

Sentiu o aroma das rosas que subiam pelo caramanchão, acompanhando um raio dourado de sol. As rosas brancas que plantara em homenagem a John.

Raramente ia ao túmulo do marido, mas visitava com frequência o caramanchão.

Olhou para lá do jardim das rosas, do jardim das flores de corte, dos carreiros que serpenteavam por entre as flores, os arbustos e as árvores, para o local onde Bryce quisera fazer uma piscina.

Tinham discutido por causa disso, chegando mesmo a brigar quando ela barrou o acesso ao empreiteiro que ele contratara sem sua autorização.

Lembrava-se de que dissera ao homem, de um modo bastante directo, que, se ele se atrevesse sequer a enfiar uma pá no chão, ela iria chamar a polícia para recolher o que sobrasse dele.

Fora ainda menos paciente com Bryce, quando o recordara de que a casa e os terrenos eram dela e que as decisões com eles relacionados eram única e exclusivamente dela.

Bryce saíra furioso de casa, depois de ter sido interpelado daquela maneira. Mas regressara poucas horas depois, meloso e a pedir desculpa, com um ramo minúsculo de violetas bravas na mão.

Fora um erro ter aceitado o pedido de desculpas e as flores.

- É melhor estar sozinha. Arrepiou-se, ali sentada à sombra.

- Talvez seja, talvez não.

- Construíste isto sozinha. Tudo isto. Cometeste um erro em tempos e vê o que te custou. O que te continua a custar. Não cometas outro.

- Não vou cometer outro. Faça o que fizer, não será um erro.

- É melhor estar sozinha. - A voz tornara-se mais insistente, o frio mais intenso. - Eu estou sozinha.

Por um momento, apenas um instante, Roz pensou ver uma mulher com um vestido branco enlameado, deitada numa cova aberta. E nesse momento, apenas nesse instante, sentiu o cheiro da morte sob as rosas.

Depois a mulher abriu os olhos e fitou os dela com uma espécie de avidez alienada.


 

Roz entrou em casa fugindo de uma chuva irritante e gelada. Despiu o blusão e depois sentou-se no banco do vestíbulo para descalçar as botas. David apareceu, sentou-se ao seu lado e entregou-lhe a chávena de café que trouxera da cozinha.

- O Doutor Delícia está na biblioteca.

- Sim, eu vi o carro. - Bebeu um gole de café, segurando a chávena com ambas as mãos para as aquecer.

- Está com o Harper. Levou-nos o nosso menino para uma entrevista. A minha foi mais cedo e foi acompanhada com café com leite e bolo de maçã.

- Bolo de maçã.

- Guardei-te uma fatia grande. Sei bem quais são os teus pontos fracos. Dizem que é capaz de nevar.

- Ouvi dizer.

- A Stella e os rapazes estão na casa do Logan. Ela vai fazer o jantar e os rapazes estão a rezar para que neve e possam lá passar a noite.

- Mas que bom. Preciso de um duche. Quente. David aceitou a chávena que Roz lhe devolveu.

- Pensei que quisesses convidar o nosso belo professor para jantar. Estou a fazer frango e sonhos para afastar o frio.

- Parece-me bem, o frango, e o Mitch é bem-vindo para ficar, se quiser e não tiver nada combinado.

- Não tem - garantiu David, confiante. - Já lhe perguntei.

Roz soltou uma gargalhada perante o sorriso rasgado do jovem.

- A quem é que queres juntar o Mitch, David? A ti ou a mim?

- Bom, sendo uma pessoa altruísta e já que o doutor é, infeliz e totalmente, hetero, acho que é a ti.

- És um romântico incurável, não és?

Roz começou a subir as escadas e só revirou os olhos quando ele lhe gritou:

- Veste alguma coisa sensual.

Na biblioteca, Harper agarrava na sua cerveja pós-laboral. Não se lembrava de mais nada que pudesse contar a Mitch, mas respondera às perguntas e preenchera certas lacunas nos relatos da mãe e de David.

- Já tenho a versão do David sobre a noite em que a viram lá fora, no jardim, quando eram pequenos.

- A noite em que estávamos a acampar, eu, o David e os meus irmãos.

- Harper acenou com a cabeça, recordando-se. - Foi uma noite e pêras.

- Segundo o David, o Harper foi o primeiro a vê-la e foi acordá-lo.

- Vi, ouvi, senti. - Harper encolheu os ombros. - Não é fácil dizer com exactidão, mas sim, fui acordá-lo. Não sei que horas eram. Tarde. Tínhamos ficado acordados a comer até enjoar e a assustar-nos uns aos outros com histórias de fantasmas. Depois acho que a ouvi. Não sei exactamente como, mas soube que era ela. Mas não foi como das outras vezes.

- Qual foi a diferença?

- Não estava a cantar. Parecia mais... a gemer, acho, ou a produzir sons ininteligíveis. Aquilo que um miúdo espera de um fantasma numa noite quente de luar. Por isso, espreitei e lá estava ela. Mas estava diferente.

”Miúdo corajoso”, pensou Mitch, ”a espreitar, em vez de tapar a cabeça com o saco-cama.”

- Como?

- Usava uma espécie de camisa de dormir branca. Como na Primavera passada, lá em cima. O cabelo estava solto, emaranhado e sujo. E o luar passava por ela. Atravessava-a. Cristo. - Bebeu um grande gole de cerveja.

- Por isso acordei o David, e o Austin e o Mason também acordaram. Queria que o Austin ficasse com o Mason, mas é claro que nunca iriam ficar para trás, por isso fomos todos atrás dela.

Mitch conseguia imaginá-lo perfeitamente. Um grupo de miúdos, luar, insectos e um calor intenso. E uma imagem fantasmagórica a atravessar o jardim.

- Passou pelas prímuias da mamã, atravessou as malvas-rosas. Atravessou-as. Estava demasiado excitado para ter medo. Ela ia fazendo um barulho, uma espécie de sussurro ou de lamento, acho que podemos chamar-lhe isso. Julgo que havia palavras lá pelo meio, mas não conseguia percebê-las. Dirigia-se para a cocheira. Pelo menos parecia-me que era para lá que ia. Depois, virou-se e olhou para trás. E o rosto dela...

- O que tinha?

- Estava como na Primavera passada - explicou, soltando um curto suspiro. - Parecia desvairada. Como nos filmes de terror. Alucinada. Estava a sorrir, mas era horrível. Por momentos, quando olhou para mim e eu olhei para ela, ficou tanto frio que se via a minha respiração. Depois virou-se, continuou a andar e eu segui-a.

- Seguiu-a? Foi atrás de um fantasma alucinado? Devia ter ficado com medo.

- Não fiquei, pelo menos que tivesse dado conta. Acho que estava entusiasmado. Fascinado. Tinha de saber. Mas o Mason começou a gritar. Foi aí que fiquei sem pinta de sangue. Pensei que ela o tivesse apanhado, o que era um disparate, pois ela estava à minha frente e ele atrás de mim. Estavam todos mais atrás do que eu tinha imaginado. Por isso voltei a correr e o Mason estava caído, com o pé a sangrar. E o Austin estava a correr para a tenda, à procura de uma camisola ou de qualquer outra coisa para o enfaixar, pois só tínhamos as cuecas vestidas. Eu e o David estávamos a tentar levá-lo quando a mamã saiu de casa a correr, como se o mundo estivesse a acabar. - Riu-se, com os olhos cintilantes. - Devia tê-la visto. Tinha vestidos uns calções brancos de algodão e uma T-shirt minúscula. Na altura tinha o cabelo mais comprido, a esvoaçar enquanto corria. E depois vi... os outros não, mas eu vi que ela tinha a pistola do meu avô. Acredite, se tivéssemos um fantasma atrás de nós ou qualquer outra coisa, ela afugentava-o. Mas quando se apercebeu do que se passava, enfiou a pistola no elástico dos calções, na parte de trás. Pegou no Mason ao colo e disse-nos que nos fôssemos vestir. E entrámos todos para o carro para levar o Mason às urgências, onde levou uns quantos pontos. Roz entrou na biblioteca.

- Nunca disseste que tinhas visto a pistola.

- Pensei que não quisesses que os outros soubessem. Dirigiu-se ao filho, inclinou-se e beijou-lhe a cabeça.

- Também não queria que tu soubesses. Sempre viste mais do que devias. - Virou o rosto e manteve-o apoiado na cabeça do filho, enquanto olhava para Mitch. - Estou a interromper?

- Não. Se tiver algum tempo, pode sentar-se. Já ouvi esta história de duas fontes e não me importava de ter a sua versão.

- Não há muito mais que possa dizer. Os miúdos queriam dormir fora. Vá-se lá saber porquê. Estava um calor dos diabos e havia insectos por todo o lado. Mas os rapazes gostam de armar tendas. Como queria manter as coisas debaixo de olho e ouvi-los, fechei a porta do meu quarto e desliguei o ar-condicionado para poder ter as janelas abertas para o exterior.

- Estávamos no quintal - argumentou Harper. - O que poderia acontecer-nos de mal?

- Muita coisa, e os acontecimentos provaram que fiz bem em passar a noite a suar. Quando eles se acalmaram, também eu adormeci. Acordei com os gritos do Mason. Agarrei na pistola do meu pai, que naqueles dias guardava na gaveta de cima do roupeiro. Tirei as balas da caixa de jóias e carreguei a arma à pressa. Quando lá cheguei, o Harper e o David carregavam o Mason, que tinha o pezinho a sangrar. Tive de mandá-los calar, porque estavam todos a falar ao mesmo tempo. Levei o bebé para dentro de casa, limpei-lhe o pé e vi que ia precisar de pontos. Fiquei a saber da história a caminho do hospital.

Mitch aquiesceu e ergueu o olhar dos apontamentos.

- Quando é que foi à cocheira? Roz sorriu.

- Assim que amanheceu. Demorei esse tempo todo a regressar e a pô-los a dormir.

- Levou a arma consigo?

- Sim, para o caso de eles terem visto algo mais corpóreo do que pensavam.

- Eu tinha idade suficiente para ir contigo - contrapôs Harper. - Não devias ter ido sozinha.

Roz abanou a cabeça.

- Acho que era eu que mandava, na altura. Seja como for, não houve nada para ver, e também não sei dizer se senti alguma coisa, genuinamente, ou se estava tão excitada que pensei sentir.

- O que lhe pareceu?

- Que estava frio e não devia estar. E senti... parece melodramático, mas senti morte à minha volta. Inspeccionei a cocheira de cima a baixo, mas não encontrei nada.

- Quando é que a cocheira foi convertida?

- Oh... hum. - Fechou os olhos, a pensar. - Por volta do início do século XX. O Reginald Harper era conhecido por querer as últimas novidades, e os automóveis enquadravam-se nessa categoria. Guardou o carro na cocheira durante algum tempo, depois passou a usar os estábulos e a cocheira transformou-se numa espécie de arrecadação, com o jardineiro a morar no primeiro andar. Mas só mais tarde, por volta dos anos 20, creio, é que o meu avô a transformou numa casa de hóspedes.

- Por isso é pouco provável que ela lá tenha ficado hospedada ou tenha ido visitar o jardineiro, pois essas datas são posteriores às primeiras aparições. O que pode lá ter sido guardado enquanto foi uma verdadeira cocheira?

- Charretes, alimento para os cavalos, talvez. Ferramentas?

- Um lugar estranho aonde ela ir.

- Sempre me interroguei se teria morrido ali - comentou Harper - e pensei que mo dissesse depois de me ter mudado.

Mitch dirigiu a atenção para ele.

- Teve alguma experiência?

- Não. Ela não liga muito a rapazes quando passam de uma certa idade. Ei, está a nevar. - Levantou-se de um salto e dirigiu-se para a janela. Talvez não pare. Ainda precisa de mim? - perguntou a Mitch.

- Por agora não. Obrigado pelo seu tempo.

- Disponha. Até logo.

Roz abanou a cabeça quando o filho saiu.

- Ele vai já lá para fora tentar apanhar neve suficiente para fazer uma bola que possa atirar à cabeça do David. Há coisas que nunca mudam. Por falar no David, se quiser jantar connosco e esperar que a neve pare de cair, ele está a fazer frango com sonhos.

- Apenas um tolo recusa frango com sonhos. Durante a última semana fiz alguns progressos, caso a eliminação seja um progresso. Estou a ficar sem candidatas para o lugar da Amélia, pelo menos documentadas.

Roz acercou-se da secretária onde Mitch trabalhava e observou as fotografias, as tabelas, os apontamentos.

- E quando ficar sem candidatas documentadas?

- Começo a procurar fora do cesto. Por falar nisso, mas sem ter nada que ver com o assunto, o que pensa sobre o basquetebol?

- Em que sentido?

- No sentido de ir a um jogo. Ganhei um bilhete adicional para o jogo do meu filho amanhã à noite. Vão jogar contra os Ole Miss. Esperava ser capaz de a convencer a ir comigo.

- A um jogo de basquetebol?

- Uma coisa informal, muitas pessoas, um tipo específico de entretenimento. - Sorriu-lhe quando ela se virou. - Parece um bom sítio para começar. E talvez se sinta mais inclinada para esse género de confraternização do que para um jantar sossegado a dois. Mas se preferir a segunda opção, estou livre na noite seguinte.

- Um jogo de basquetebol talvez seja interessante.

Lily estava sentada no tapete persa no quarto de Roz, a bater com um cão de plástico nos botões de um telefone de brincar. A mãe de Lily tinha a cabeça enfiada no roupeiro.

- Experimenta a sombra para os olhos, Roz. - A voz de Hayley soava abafada, à medida que revirava as roupas. - Sabia que o tom não combinava comigo, mas não me contive. Vai ficar-te muito bem, não vai, Stella?

- Vai, pois.

- Já tenho maquilhagem que chegue para três mulheres - argumentou Roz, e tentou concentrar-se na aplicação da sombra. Não sabia como o seu espaço privado acabara por ser invadido por mulheres. Não estava habituada a mulheres.

- Ai, meu Deus! Tens de usar estas!

Hayley tirou as calças que David convencera Roz a comprar e que, até à data, nunca mais tinham voltado ao seu corpo.

- Nem penses.

- Só podes estar a brincar, Roz. - Mostrou-as a Stella. - Olha só. Stella assim fez.

- Nem à força era capaz de lhes enfiar as minhas ancas.

- Claro que eras. Elas esticam. - Hayley exemplificou. - Além disso, como tens peito, as tuas ancas são perfeitas. Mas estas calças são muito compridas para ti. Lembras-te daquela camisola vermelha que o David me deu pelo Natal? Ia ficar a matar com estas calças.

- Então, leva-as - sugeriu Roz.

- Não, és tu quem as vai usar. Olha pelo bebé um bocadinho, está bem? Vou buscar a camisola num instante.

- Não vou vestir a tua camisola. Tenho que cheguem. Pelo amor de Deus, é só um jogo de basquetebol.

- Isso não é razão para não ires sensual.

- Vou levar calças de ganga.

Derrotada, Hayley sentou-se na cama ao lado de Stella.

- É tão teimosa.

- Olha, vou usar a tua sombra. É um acordo a que chegamos.

- Posso escolher-te os brincos?

Os olhos de Roz percorreram o espelho até se cruzarem com os de Hayley.

- Deixas de me chatear?

- Combinado. - Hayley levantou-se e, ainda em movimento, agarrou em Lily quando a bebé lhe estendeu os braços. Apoiou a filha na anca e começou a revirar com uma mão a caixa de jóias para todos os dias de Roz.

- O que vais levar para cima?

- Não sei. Uma camisola qualquer.

- A de caxemira verde - sugeriu-lhe Stella. - Averde-escura de meia gola e aquele casaco de cabedal fantástico? O que dá pelos joelhos.

Roz pensou no conjunto enquanto pintava os olhos.

- Está bem. Pode ser.

- Muito bem... estes. - Hayley ergueu um par de espirais de prata compridas. - Sapatos? - perguntou, virando-se para Stella.

- As botas de cano curto de pele preta, com o salto largo.

- Vai buscá-las, eu vou buscar a camisola e...

- Meninas - interrompeu Roz. - Toquem a andar. Eu trato do resto sozinha. - Mas inclinou-se para beijar Lily. - Agora vão brincar para outro lado.

- Anda, Hayley, antes que ela decida usar uma camisola e botas de jardinagem só para nos contrariar. Ela tinha razão acerca da sombra - acrescentou Stella, enquanto arrastava Hayley para fora do quarto.

”Decididamente”, pensou Roz. Era um tom muito interessante de castanho, com um laivo de dourado para lhe dar vida. Sabia como utilizá-la em seu benefício. Sabia Deus que tinha prática em aperaltar-se e tinha vaidade suficiente para se pôr maravilhosa quando era necessário.

Ao mesmo tempo, imaginava que ter outras mulheres, mulheres mais jovens, na casa era uma vantagem e aproveitaria os seus conselhos sobre moda.

Excepto no que dizia respeito às calças.

Dirigiu-se à cómoda e abriu a gaveta do meio, onde guardava as camisolas boas. Adorava os materiais macios, pensou, enquanto mexia nas peças de roupa dobradas. A caxemira e o algodão, as sedas.

Tirou a verde-escura e desdobrou-a.

O frio atingiu-a com um choque, um breve estalo punitivo, que a fez recuar. Depois imobilizou-se, quando a camisola lhe foi arrancada das mãos. Não acreditando no que via, observou-a a bater na parede do outro lado do quarto, após o que caiu no chão.

Os joelhos queriam ceder, mas manteve-se de pé e atravessou lentamente o quarto para apanhar a roupa.

A parte da frente tinha rasgões, como se unhadas furiosas tivessem rompido o tecido. Enquanto se debatia para ficar calma, Roz viu a sua respiração formar pequenas nuvens.

- Isso foi imaturo e desagradável da tua parte. Mau e mesquinho. Eu gostava desta camisola. Gostava muito. Mas não vai fazer diferença nenhuma.

Furiosa, girou sobre os calcanhares, à espera, desejosa de ver qualquer coisa, alguém, com quem confrontar-se.

- Tenho mais, e se estás a pensar repetir a gracinha com o resto da minha roupa, ficas avisada que prefiro ir nua a ceder a este tipo de chantagem. Por isso, é bom que vás ter ataques de raiva para outro lado.

Roz atirou a camisola para cima da cama e regressou à cómoda. Agarrou numa camisola ao acaso e vestiu-a. Quando vestiu as calças de ganga, os dedos tremiam-lhe, tanto de raiva como de aflição.

- Sou eu quem toma as minhas decisões - explodiu -, sempre fui. Continua assim, repete isto e durmo com ele só para te irritar.

Acabou de se vestir, enfiou os pés nas botas, agarrou no casaco de cabedal e depois obrigou-se a não bater com a porta.

Quando a fechou, encostou-se e respirou fundo até se acalmar. Uma coisa era certa, pensou, ela e Mitch não teriam falta de assunto durante a viagem até ao jogo.

Mesmo assim, esperou até que estivessem a caminho, com as luzes da Harper House pelas costas.

- Tenho de lhe contar umas coisas e depois acho que seria melhor que esquecêssemos as questões profissionais durante algumas horas.

- Aconteceu alguma coisa?

- Sim. Primeiro, há poucos dias tive um encontro irritante no trabalho com uma conhecida que é campeã de mexericos há vinte anos.

- Um belo recorde.

- E ela orgulha-se disso. Teve a ver com o meu ex-marido. A questão em si não é importante, mas incomodou-me um pouco e deixou-me com aquilo a que chamo uma dor de cabeça de mau humor. Por isso, fui para casa, tomei uma aspirina e deitei-me por alguns minutos. Não estava a dormir, pairava apenas naquele estado intermédio e agradável, e na minha cabeça encontrei-me no jardim, sentada num banco à sombra, em finais da Primavera.

- Como sabe que era Primavera?

- Finais de Primavera, início de Junho. Via-o pelas plantas, pelos botões a desabrochar. Depois arrefeceu.

Contou-lhe o resto, dando atenção aos pormenores.

- É a primeira vez que fala de um sonho.

- Não foi um sonho. Não estava a dormir. - Acenou de forma impaciente com a mão. - Sei que as pessoas estão sempre a dizer o mesmo, quando pensam que estão acordadas. Eu estava acordada.

- Está bem. A Roz é que deve saber.

- Levou-me em espírito. Senti o frio, cheirei as flores, as rosas brancas no caramanchão, senti o ar na pele. Entretanto, outra parte de mim tinha consciência de que me encontrava na cama, no meu quarto, com a cabeça a latejar.

- Desconcertante.

- O Mitch é muito subtil - retorquiu. - Sim, foi desconcertante. E perturbador. Não gosto de ter ninguém a dirigir-me os pensamentos. E quando olhou para mim, quando abriu os olhos na cova, foi com uma espécie terrível de... amor. Nunca me magoou e sempre pensei que ela não seria capaz de o fazer. Até esta noite.

Mitch saiu da estrada, travou a fundo e depois virou-se para Roz. A calma que ela habitualmente via, que costumava sentir nele, tinha sido substituída por uma raiva profunda.

- O que quer dizer com isso? Ela atacou-a? Pelo amor de Deus...

- Não me atacou a mim, mas sim a uma camisola de caxemira muito bonita. Foi uma prenda de aniversário, por isso só a tinha desde Novembro e estou zangada por ela a ter estragado.

- Conte-me tudo o que aconteceu.

Quando ela terminou, Mitch recostou-se e tamborilou com os dedos no volante.

- Não queria que saísse comigo.

- Pelos vistos, não, mas o problema é dela. Cá estou eu. Voltou a olhá-la.

- Porquê?

- Disse que o faria e faço aquilo que digo. A isso podemos juntar o facto de ela me ter deixado furiosa, e também não recuo. Por fim, queria saber se vou gostar da sua companhia a nível social.

- Nunca vi uma pessoa tão directa.

- É verdade. É uma característica que irrita muita gente.

- Não estou incluído nesse grupo. Sinto muito pela camisola.

- Eu também.

- Poderíamos especular...

- Poderíamos - atalhou Roz. - Mas preferia que não fosse já. Ela não conseguiu impedir o serão, portanto também não devia conduzi-lo. Porque não falamos de outra coisa até sermos obrigados a voltar ao assunto?

- Claro. Sobre o que é que gostaria de falar?

- Talvez começasse por me interrogar em voz alta sobre quanto tempo pretende ficar aqui na berma da estrada e até que ponto vamos chegar atrasados ao jogo do seu filho por causa disso.

- Oh. Certo. - Voltou à estrada. - E se eu desse início à conversa dizendo-lhe que tenho uma empregada de limpeza nova?

- A sério?

- É amiga de um amigo de um amigo. Mais ou menos. É muito virada para o feng shui, por isso está a reorganizar tudo lá em casa... áreas de carreira e áreas de saúde, nem sei. E faz-me listas de coisas que tenho de comprar, como por exemplo um sapo do dinheiro para o meu canto da prosperidade... ou uma coisa do género. E umas moedas chinesas. E diz que tenho de ter uma planta verde. Creio que é para a área da saúde, não sei ao certo, e tenho medo de lhe perguntar. Por isso, estava a pensar se poderia devolver-me a planta que me levou na Primavera passada.

- Aquela que estava a assassinar?

- Não sabia que estava a assassiná-la. Nem sabia que ela lá estava.

- Negligência por desconhecimento não deixa de ser negligência.

- A Roz é mesmo difícil. E se eu assinar um acordo em como me comprometo a tratar melhor dela? O que interessa é que vai ser ela a tomar conta da planta, pelo menos de quinze em quinze dias. E pode visitá-la.

- Vou pensar no caso.

Quando chegaram, o anfiteatro já estava cheio, fremente com o entusiasmo pré-jogo. Percorreram apressadamente a fila por entre o barulho, as cores e a excitação, até aos seus lugares, enquanto as equipas iam praticando lançamentos no campo.

- Aquele é o Josh, o número oito.

Roz observou o rapaz alto de camisola branca debruada a azul saltar e empurrar a bola da tabela para o cesto.

- Mas que bela forma.

- Foi a décima escolha da NBA. Vai jogar para os Celtics no ano que vem. Ainda nem acredito. Não vou passar a noite a gabar-me, mas tinha de o dizer.

- Vai passar a profissional? Vai para os Celtics? Gabe-se à vontade. Eu gabar-me-ia.

- Vou conter-me tanto quanto puder. Seja como for, o Josh é extremo-base, que é a posição que distribui o ataque da equipa a partir do extremo.

Enquanto bebericava o refresco que Mitch lhe comprara, Roz ouviu-o debitar um curso intensivo de termos e explicações sobre basquetebol.

Com o início do jogo, Roz observou a acção, apreciou os movimentos rápidos como relâmpagos, o eco das vozes, o estrondo da bola no soalho.

Durante a primeira parte, Mitch aproximava-se de vez em quando e explicava uma decisão, uma estratégia, ou uma jogada.

Até que Roz se levantou com o resto do público de Memphis, para reclamar de uma decisão errada por parte do árbitro.

- Será que precisam de ser operados aos olhos? Já tínhamos entrado... será que ele precisa de três pés no chão? Isso foi carregar. Só lhe faltava o empilhador!

Quando ela voltou a sentar-se, a soprar de raiva, Mitch coçou o queixo.

- Certo, ou sou um professor excepcional ou a Roz percebe de basquetebol.

- Tenho três filhos. Percebo de basquetebol. Percebo de futebol e de basebol e, a dada altura, percebia mais do que queria sobre wrestling profissional. Mas em grande medida ultrapassaram essa fase. - Desviou o suficiente o olhar do jogo para lhe sorrir. - Mas estava a divertir-se tanto a ensinar uma mulher que não quis estragar-lhe o prazer.

- Obrigado. É servida de uns naclios?

- Não me importava.

Apreciou o jogo e ficou divertida quando, no intervalo, Josh localizou o pai no meio do público e sorriu. Sentiu-se ainda mais divertida quando o rapaz olhou para ela, depois outra vez para o pai e ergueu o polegar com entusiasmo.

E quando, no fim do jogo, os Memphis Tigers acabaram por vencer os Ole Misss Rebels por três pontos, admitiu que a experiência quase compensava a perda de uma camisola de caxemira.

- Quer esperar e felicitar o seu filho?

- Hoje não. Vai precisar de mais de uma hora para sair dos balneários e passar pelas fãs. Mas gostava que um dia o conhecesse.

- Com muito gosto. É um prazer vê-lo jogar, não só pelo estilo e pela técnica, pois tem bastante dos dois, mas pelo entusiasmo. Percebe-se bem que ele adora este jogo.

- Desde pequeno. - Mitch passou o braço pela cintura de Roz para que fosse mais fácil atravessarem a multidão que saía.

- Vai ser duro para si, quando ele se mudar para Boston.

- É uma coisa que ele sempre quis. Parte de mim quer ir com ele, mas, mais tarde ou mais cedo, temos de os deixar partir.

- Quase morri quando os meus dois filhos mais novos saíram de casa. Ainda ontem tinham cinco anos.

Mitch retirou o braço e depois segurou-lhe a mão enquanto atravessavam o parque de estacionamento.

- Estaria interessada em comer alguma coisa depois deste jogo?

- Hoje não. Tenho de me levantar cedo. Mas obrigada à mesma.

- Jantar, amanhã. Roz olhou-o.

- Olhe que para me tirar de casa duas noites seguidas é preciso um batalhão. E amanhã tenho uma reunião do clube de jardinagem à qual, por razões pessoais, não posso faltar.

- Na noite a seguir.

- Pressinto uma campanha.

- Como está a correr até agora?

- Nada mal. - ”Nada mal de todo”, pensou, apreciando o ar fresco e o calor da mão dele na sua. - Fazemos assim, pode ir lá a casa jantar depois de amanhã. Mas desde já vou avisá-lo: sou eu que cozinho. É a noite de folga do David.

- A Roz sabe cozinhar?

- É claro que sei cozinhar. Não que o possa fazer quando o David está em casa, mas por acaso sou muito boa cozinheira.

- A que horas é o jantar? Ela riu-se.

- Vamos combinar às sete.

- Lá estarei.

Quando chegaram ao carro, Mitch acompanhou-a ao lado do passageiro, virou-a, envolveu-a com os braços e puxou-a para si. Encostou a boca à dela num beijo suave e demorado.

Roz recurvou as mãos nos braços dele, agarrou-se a eles, a ele, e deixou-se levar pela sensação, pelo calor do corpo dele, pela frescura do ar, pela necessidade contida sob a suavidade do beijo.

Depois Mitch recuou, com os olhos fitos nos de Roz, e abriu-lhe a porta.

- Fiz isto agora porque imaginei que se o deixasse para quando a acompanhasse à porta, estaria à espera. Pretendo surpreendê-la, pelo menos de vez em quando. Acho que não vai ser muito fácil.

- Até agora, já conseguiu algumas vezes.

Quando Roz entrou no carro, Mitch fechou a porta. E pensou que talvez ainda tivesse mais umas quantas surpresas na manga.

 

Harper conseguia passar, e passava efectivamente, horas sozinho todos os dias na estufa de enxertos, sem se sentir aborrecido e sem precisar da companhia de outras pessoas. As plantas com que trabalhava eram uma fonte de fascínio e satisfação sem fim. Quer estivesse a criar uma planta nova ou a fazer experiências com um híbrido, era o trabalho que adorava.

Também gostava do trabalho no exterior, os enxertos e a propagação das plantas do campo. Já seleccionara as árvores que pretendia enxertar e teria de passar parte da semana a recolher rebentos e a podar as árvores que enxertara no ano anterior.

A mãe deixava esse tipo de decisões nas suas mãos. O quê, quando e como. Sabia que era preciso muita confiança da parte dela para recuar e deixá-lo gerir essa parte do negócio.

Era preciso notar, contudo, que ela não só lhe ensinara tudo sobre aquele trabalho, como também lhe instilara o amor por tudo o que criava.

Tinham passado horas intermináveis no jardim e na estufa enquanto ele crescia. Os irmãos também tinham aprendido, mas o interesse deles divergira, ao passo que o de Harper se centrara. Na Harper House, no jardim, no trabalho.

Os anos de estudo apenas tinham feito com que tivesse a certeza do que seria o trabalho da sua vida.

A responsabilidade que sentia em relação a eles - a casa, o jardim, o trabalho e a mulher que o ensinara - era absoluta.

Acreditava ser uma dádiva que o amor e a obrigação se unissem de forma tão perfeita.

Tchaikovsky era a música que tocava para as plantas, enquanto nos seus auscultadores a opção de clássicos recaía sobre os Barenaked Ladies. Verificou os vasos e fez anotações nos vários registos.

Sentia-se particularmente satisfeito com as dálias que enxertara na Primavera anterior a pedido de Logan. Dali a duas semanas, faria crescer os tubérculos guardados e na Primavera iria colhê-las. A No Jardim teria de apresentar um bom suprimento de Sonho de Stella, a dália de um azul intenso que ele criara.

Era interessante o modo como os acontecimentos se desenrolavam, pensou. Tudo porque Logan e a organizada Stella se tinham apaixonado, e Logan revelara o seu lado sentimental pela dália azul com que Stella sonhara. E o sonho, pensou Harper, devera-se à Noiva Harper.

Tudo acabava por descrever um círculo que regressava à casa, ao que ali crescia.

Não haveria Sonho de Stella sem a Noiva. E sem a Harper House não haveria Noiva. E imaginava que nada disso existiria sem a determinação férrea da mãe em manter a casa e fundar o negócio.

Como estava virado para a porta, viu quando esta se abriu. E observou Hayley a entrar.

Sem a sua mãe, também ela não estaria ali. Não teria havido uma bela mulher grávida a bater à porta da Harper House no Inverno anterior, à procura de trabalho e de um sítio onde morar.

Quando ela sorria, o seu coração dava um salto breve e automático, após o que regressava ao normal. Hayley bateu-lhe com o dedo no ouvido e Harper retirou os auscultadores.

- Desculpa estar a interromper. A Roz disse que tinhas vasos que já podiam ser levados para a loja. A Stella quer fazer uma venda de Inverno.

- Claro. Queres que os vá buscar?

- Não é preciso. Tenho caixas e uma carreta baixa ali fora.

- Primeiro, deixa-me verificar o inventário e actualizá-lo. - Dirigiu-se ao computador. - Queres uma Coca-Cola?

- Gostava muito, mas ainda tenho de ter cuidado com a cafeína.

- É verdade. - Hayley continuava a amamentar Lily, o que ele achava encantador. - Ah, também há água na mala térmica.

- Isso sabia-me bem. Quando tiveres tempo, podes mostrar-me como fazer enxertos? A Stella disse-me que és tu quem os faz quase todos, pelo menos no campo nesta altura do ano. Gostava muito de aprender.

- Claro, se quiseres. - Ofereceu-lhe uma garrafa de água. - Podes experimentar com um salgueiro. Foi a primeira enxertia que a minha mãe me ensinou a fazer. São os melhores para praticar.

- Seria óptimo. Pensei que um dia, quando encontrar uma casa para mim e para a Lily, talvez pudesse plantar qualquer coisa que eu tivesse criado.

Harper sentou-se, dizendo a si próprio para se concentrar no inventário. O aroma dela, algo de essencialmente feminino, condizia na perfeição com o cheiro da terra e das plantas.

- Vocês têm muito espaço lá em casa.

- Espaço a mais. - Riu-se e tentou ler por cima do ombro do rapaz. -Já lá estamos há um ano e ainda não me habituei àquele espaço todo. Adoro lá morar, a sério, e para a Lily é uma maravilha ter tanta gente à volta. E não há ninguém mais fantástico do que a tua mãe. É a pessoa mais maravilhosa que já conheci. Mas, mais cedo ou mais tarde, tenho de encontrar um, digamos, um canteiro só para mim e para a Lily.

- Sabes que a mamã adora ter-vos lá em casa, caso contrário já vos tinha posto a andar.

- É bem verdade. Ela tem mesmo jeito para estruturar as coisas, não é? Faz com que seja tudo à maneira dela. Digo isto no bom sentido. É uma pessoa forte e inteligente, parece que nunca tem medo de nada nem de ninguém. Admiro-a muito.

- Também me pareces bastante corajosa e inteligente.

- Coragem, talvez, mas comecei a perceber que grande parte dela veio do facto de não ter tido grande juízo. - Pegou, distraidamente, num pedaço de ráfia e enrolou-o no dedo. - Agora, quando olho para trás, nem sei como pude sair de casa grávida de seis meses. Pelo menos agora, quando olho para a Lily e percebo... bem... tudo. Vou ficar em dívida para com a Roz pelo resto da vida.

- Ela não ia querer isso.

- Mas pelo menos sobre isso não vai ter voto na matéria. A minha filha tem um bom lar, cheio de amor. Tenho um emprego do qual gosto mais a cada dia que passa. Temos amigos e família. Teríamos ficado bem, eu ia garantir que assim fosse. Mas, sem a Roz, a Lily e eu não estaríamos como estamos agora.

- É engraçado. Estava a pensar que a maior parte das coisas, a casa, o negócio, até mesmo o Logan e a Stella, giram à volta da minha mãe. Talvez até mesmo da Noiva.

- Porquê da Noiva?

- Se a mamã tivesse vendido a casa, e de certeza que houve alturas em que teria sido mais fácil se o tivesse feito, talvez a Noiva já lá não estivesse. Talvez seja preciso um Harper lá em casa. Não sei. - Encolheu os ombros e levantou-se para seleccionar as plantas de que dera baixa no inventário.

- É algo em que penso de vez em quando.

- Talvez seja verdade. Quando chegar a tua altura não vais vender, pois não?

- Não. O que se passa é que, sempre que penso que talvez devesse sair da casa de hóspedes, encontrar uma casa própria, não consigo. Para começar, é lá que eu quero estar. Por outro lado, por mais inteligente ou forte que a minha mãe seja, julgo que é melhor eu estar por perto. Acredito que ela ficará triste e um pouco solitária, se tu e a Lily se mudarem, especialmente por a Stella e os miúdos irem para casa do Logan daqui a uns meses.

- Talvez, e não estou a pensar fazer nada a curto prazo. Mas, com ela e o Mitch a andarem juntos, pode ser que tenha a companhia de que precisa.

- O quê? - Estacou, com uma fícus jovem e saudável nos braços.

- Andar? Que queres dizer? Eles não andam juntos.

- Quando duas pessoas saem duas ou três vezes, vão a jogos de basquetebol, jantam e sei lá que mais, quando ela cozinha o jantar dele, costumo dizer que andam juntas.

- Eles estão a trabalhar no tal projecto. É como se fossem... reuniões. Hayley dirigiu-lhe um sorriso feminino que Harper reconheceu, o sorriso que o considerava um homem a leste do que se passava.

- Regra geral, não damos uma reunião por encerrada com um beijo demorado... pelo menos nos últimos tempos não tive a sorte de participar numa reunião dessas.

- Beijo? O que...

- Não andei a espiar nem nada do género - apressou-se Hayley a garantir. - Por acaso estava levantada com a Lily na outra noite e espreitei pela janela quando o Mitch trouxe a Roz a casa. Está bem, olhei de propósito quando ouvi o carro, só para ver o que se passava. E se aquilo que vi for representativo de alguma coisa, então andam mesmo juntos.

Harper voltou a pousar o vaso com uma pancada seca.

- Pelo amor de Deus. Hayley pestanejou.

- Harper, é uma tolice teres algum problema com o facto de a Roz estar a sair com um homem.

- Da última vez que ela saiu com um homem, acabou casada com o sacana.

- Cometeu um erro - admitiu Hayley, começando a irritar-se. - E o Mitch não tem nada a ver com o sacana-do Bryce Clerk.

- E como é que sabemos isso?

- Sabendo.

- Não chega.

- Ao que parece, para ela chega.

- Não foi isso que eu disse. Eu disse...

- Lá porque ele não é rico nem tem o precioso sangue dos Harper nas veias, isso não quer dizer que comeces a inventar histórias sobre ele. Espetou o dedo na direcção do peito de Harper. - Devias ter vergonha de falar como um snobe.

- Não sejas parva, não disse nada disso.

- Não me chames parva.

- Não te chamei parva. Cristo.

- Nem sequer quero falar contigo agora. - Virou-lhe as costas e saiu.

- Óptimo. Eu também não quero falar contigo - ripostou Harper. Ficou a cismar e a enervar-se com a situação enquanto carregava e transportava ele próprio as plantas.

Preparado para o combate, foi à procura da mãe.

Roz estava no campo, a verificar os canteiros dos viveiros e as rosas que ele enxertara no início da época.

Vestia uma camisola com capuz, luvas sem dedos e um par de botas tão velhas e surradas que se tornava impossível distinguir uma cor. Harper apercebeu-se de que ela parecia mais ter a sua idade do que ser sua mãe.

- A Hayley encontrou-te? - perguntou-lhe Roz.

- Sim, já está tratado.

- Sabes, estou a pensar em acrescentar uma estufa de propagação mista e em criar mais palmeiras. Estou entusiasmada com estas árvores múltiplas que tu criaste. Os nossos clientes vão adorar. Acho que vou ficar com uma que dá nectarinas e pêssegos. -Observou uma das árvores jovens que Harper enxertara e depois dividira em estacas. - É um trabalho maravilhoso, Harper, e aquela pereira-chorão ali...

- Mamã, andas a dormir com o Mitch Carnegie?

- O quê? - Virou-se para o olhar de frente. O sorriso de satisfação e o orgulho que lhe cintilava nos olhos desapareceram completamente. - O que me perguntaste?

- Tu ouviste a pergunta. Gostava de uma resposta.

- E porque haveria de responder a uma coisa que não te diz respeito?

- Quero saber até que ponto estás envolvida com ele. Tenho o direito de saber.

- Ah, de certeza que não tens.

- Não abri a boca em relação ao Clerk. Foi um erro que não vou repetir.

Vou proteger-te, quer queiras quer não. Por isso, se não me disseres, vou perguntar-lhe a ele.

- Não vais fazer nada disso, Harper. - Afastou-se, virando as costas ao filho. Harper sabia que Roz estava a reprimir uma onda de mau humor. Ambos tinham um feitio perigoso e ambos eram muito cuidadosos com ele.

- Quando foi a última vez que te interroguei sobre as pessoas com quem saías ou com quem mantinhas relações íntimas?

- Quando foi a última vez que casei com uma caçadora de dotes? Roz deu meia-volta e o seu mau humor encontrava-se agora tão próximo da superfície que Harper o via a sair-lhe como chispas dos olhos.

- Não gosto que me atires com isso à cara.

- Não gosto de o fazer. Não me interessa que fiques zangada, ninguém vai magoar-te outra vez enquanto eu andar por aqui. O que sabemos acerca dele? Para mim, já foi demasiado longe ao meter-se com alguém para quem trabalha.

- És tão zeloso com cada coisa! Como é que consegui fazer isso? Suspirou profundamente. - Deixa-me fazer-te uma pergunta. Alguma vez

cometi o mesmo erro duas vezes?

- Até agora, não.

- A confiança que tens em mim deixa-me arrasada. - Descalçou uma das luvas e bateu com ela na coxa. - Vou dizer-te uma coisa. Ele é um homem interessante e atraente, com quem gostei de sair algumas vezes. Tem uma relação muito forte e carinhosa com o filho e, como me orgulho do mesmo, são pontos ganhos. É divorciado e mantém uma relação cordial com a mãe do filho e com o segundo marido dela. Isso nem sempre é fácil. Não fez nada de menos próprio, mesmo segundo os teus elevados padrões.

i - Só são elevados em relação a ti.

- Oh, Harper, eu não sou um exemplo de virtude.

- Ninguém quer que sejas. Só quero que estejas bem e que sejas feliz.

- Meu querido. - Aproximou-se do filho, levou as mãos ao rosto dele e abanou-o ligeiramente. - Essa devia ser a minha deixa. Se te prometer, se te jurar, que aprendi a minha lição com o Bryce, acalmas-te?

- Só se prometeres contar-me se ele for demasiado longe.

- Se pudesses ouvir o que estás a dizer... Está bem, prometo. Anda, vamos ver o resto das coisas antes de entrarmos.

A conversa deu a Roz muito em que pensar. Como seria possível conhecer tão bem o seu primogénito e, ao mesmo tempo, ter ficado tão surpreendida com a altercação nessa tarde?

Por outro lado, será que havia mãe que concebesse que os filhos se preocupavam com ela? Não havia espaço na sua mente nem no seu coração para essa possibilidade, pois ambos estavam tão cheios de preocupação pelos filhos.

A juntar a isso, compreendera pela primeira vez na totalidade o quanto o desapontara com Bryce. Magoara Harper tanto, ou talvez ainda mais, do que a si própria.

Seria possível compensar aqueles que se amava ou era algo que necessitava de tempo para sarar, como uma ferida?

Como queria um pouco de sossego, dirigiu-se ao seu quarto pela entrada exterior e despiu a roupa de trabalho.

Foi até à sala de estar, tencionando ouvir um pouco de música e passar algum tempo a desenhar para se descontrair, mas viu as pilhas ordenadas de correio que tinha em cima da secretária. Tal como era seu hábito, David separara a correspondência profissional, as contas e as cartas pessoais, as quais eram cada vez menos, pois ela e quase todos os seus conhecidos tinham aderido ao e-mail.

Como gostava de tratar das más notícias primeiro, sentou-se e começou a abrir as contas. As despesas da casa provocaram um breve esgar, mas era esse o preço a pagar por ter tanto espaço e tanta gente a usufruir dele.

Pegou no livro de cheques e prometeu a si própria que em breve, antes do mês seguinte, começaria a pagar as contas através da Internet. É claro que prometia o mesmo todos os meses, mas desta vez era a sério. Assim que possível, pediria a Stella que lhe mostrasse o que tinha de fazer.

Passou os cheques para a conta da electricidade, do gás, do telefone e de um cartão de crédito. Depois franziu o sobrolho para um envelope de outro cartão de crédito. Quase o deitou fora, partindo do princípio de que seria uma apresentação de serviços, mas depois abriu-o, só para confirmar.

Arregalou os olhos quando viu as despesas, o total. Mais de oito mil dólares. Oito m;7? Era ridículo, absurdo.

Não tinha cartão de crédito daquela empresa e de certeza que não tinha feito despesas no valor de oito mil dólares. Restaurantes, aparelhos electrónicos, a secção de moda masculina da Dillard’s.

Confusa, pegou no telefone para denunciar o erro e passou a meia hora seguinte a abrir caminho por entre uma burocracia intricada.

De seguida, telefonou ao advogado.

Quando o processo foi posto em marcha, recostou-se, com uma sensação de peso no estômago a deixá-la inquieta. O cartão fora emitido em seu nome, com todos os seus dados pessoais, a morada, o número da Segurança Social, até mesmo o nome de solteira da mãe. dava pelo nome de Ashby Harper.

”Inteligente”, pensou. ”Muito inteligente.”

Não utilizara o nome verdadeiro, nem acumulara despesas nos locais que visitava com mais frequência. Não duvidava de que, por aquela altura, o cartão já teria sido destruído. A última despesa fora realizada três dias antes do final do ciclo de cobrança.

Cobrira todas as eventualidades, como já era seu hábito. O sacana do Bryce.

O dinheiro não teria sido o principal motivo, pensava Roz agora. Não que ele não apreciasse os benefícios de oito mil dólares e uns trocos. Contudo, o seu objectivo era levantar-lhe problemas, irritá-la e, acima de tudo, recordar-lhe que ainda andava por ali. E, quanto a isso, pouco havia que ela pudesse fazer.

Duvidava que, se conseguisse chegar a ele através das despesas, fosse possível provar que defraudara a empresa do cartão de crédito. Seria ela a ter de destrinçar aquela teia, tendo para isso de gastar tempo, esforço e a verba necessária para as despesas legais.

Fora uma atitude vil e mesquinha, algo que combinava com ele na perfeição.

E Harper, o pobre Harper, preocupado com a eventualidade de ela voltar a cometer o mesmo erro. Nunca na vida.

Para ter um pouco mais de tempo para se acalmar, Roz não foi jantar e, antes de falar com Harper, escreveu mensagens longas e pormenorizadas aos dois filhos mais novos.

Assim que teve a certeza de que as crianças estavam na cama, pediu a Harper e a David, bem como a Hayley e a Stella, que se juntassem a ela no salão.

- Sinto muito - começou por dizer. - Sei que alguns de vocês devem ter planos para esta noite. Creio que não vai demorar muito.

- Não faz mal - garantiu Stella. - Passa-se alguma coisa. Diz-nos o que é.

- Já tomei medidas para tratar do assunto, mas é provável que lhes peçam a todos para responder a algumas perguntas. Esta noite, ao verificar as minhas contas, encontrei uma conta de cartão de crédito, de um cartão que não tenho e de despesas que não fiz. Contudo, foi requisitado e emitido graças a uma série considerável de informações pessoais. É claro que a empresa detentora do cartão vai investigar o caso. Mas quero que saibam que fui obrigada a referir todos os que vivem nesta casa. Não tenho dúvidas de que o cartão foi requisitado pelo Bryce. Ele teria conhecimento dos dados e é uma atitude muito ao seu estilo.

- Não és obrigada a pagar - comentou Hayley rapidamente. - Esse tipo de coisa chegou a acontecer na livraria onde trabalhei. Não és obrigada a pagar.

- Não, não vou pagar. Mas vai custar-me tempo e energia, e a situação incomoda-me. Acho que o objectivo foi esse. Perturba igualmente todos os que vivem nesta casa, algo que julgo também ser do seu agrado. Lamento muito por isso. - Olhou para Harper. - Lamento.

- Não voltes a dizer isso. - O tom de voz de Harper era gentil. - Não quero voltar a ouvir-te dizer que lamentas, mamã. Então e a polícia?

- É provável que venham a estar envolvidos. Mas vou dizer-lhes o que o meu advogado me explicou. Embora a empresa detentora do cartão vá seguir o caso até ao fim, será muito difícil provar que foi ele quem usou o cartão. Não utilizou o nome verdadeiro e não fez despesas de vulto que pudessem levantar suspeitas. Ninguém se vai lembrar de que ele entrou na Dillard’s e comprou umas camisas ou um par de sapatos. É o tipo de coisa que sabe fazer muito bem. - Tinha de se levantar, de se mexer, por isso foi pôr mais lenha na lareira. - O melhor que temos a fazer é afastar-nos o mais possível e deixar que as coisas sigam o seu curso. Mais cedo ou mais tarde, e acredito que assim seja, ele vai fazer uma de entre três coisas. Vai aborrecer-se, vai encontrar outra pessoa para incomodar ou vai dar um passo mais comprido do que as pernas e tramar-se.

- Escolho a opção número três - propôs David.

- Que Deus te ouça - replicou Roz, obrigando-se a sentar-se. - Já escrevi ao Austin e ao Mason, pois quero que eles, e todos vocês, fiquem alerta. É possível que ele pense em divertir-se à vossa custa e faça alguma coisa parecida com um de vocês, ou com mais.

Ao imaginar essa possibilidade, a tensão que sentia nos ombros intensificou-se, até que os músculos lhe pareceram barras de ferro por debaixo da pele.

- Stella, tu e eu temos de ter uma atenção redobrada no que diz respeito a despesas em nome da loja.

- Não te preocupes, ele por nós não passa. Roz, sinto muito que tenhas de passar por isto. Há alguma coisa que eu possa fazer... que algum de nós possa fazer?

- Se houver, eu digo, prometo. Muito bem. - Roz levantou-se. - Acho que é tudo. Vou subir e tratar de umas coisas que adiei.

- Ainda não jantaste - recordou-a David. - Queres que te leve alguma coisa?

- Agora não. Mais tarde eu como. David ficou de pé, enquanto a via a sair.

- Filho-da-mãe - resmungou, quando Roz deixou de o poder ouvir.

- É um maldito sacana, viscoso e com fatos Ferragamo fora de moda.

- Porque não lhe fazemos uma visita? - Harper continuou sentado. A sua voz mantinha-se baixa, mas agora tinha um timbre ameaçador.

- Olha que é uma bela ideia. - Hayley pôs-se de pé, com os punhos cerrados ao lado do corpo. - Vamos todos fazer-lhe uma visita. Já.

- Senta-te, Xena. - David afagou-lhe o ombro. - Mesmo que não me lembre de nada mais divertido do que partir-lhe uma rótula ou duas, essa não é a reacção correcta.

- Dois e dois costuma ser quatro - disse Harper. - Eu acho que é a reacção correcta.

- O David tem razão - frisou Stella. - Só ia deixar a Roz ainda mais embaraçada e irritada do que já está.

- Nesse caso, não lhe contamos. - Hayley abriu os braços. - Não podemos ficar aqui sentados.

- Eu não fico - corrigiu Harper. - Tu é que ficas.

- Espera aí um bocadinho...

- Acalmem-se. - Como se fosse um árbitro, David colocou-se entre os dois. - Esquece o teu mau humor e pensa, Harper. Vamos dar umas pauladas merecidas ao Clerk e as nódoas negras desaparecem num instante. E fica com a satisfação de saber que a atingiu, que a incomodou. Isso é a última coisa que ela quer, sabes disso tão bem como eu. A arma mais importante que tem contra ele é a indiferença. Vai perdê-la quando tiver de te tirar da prisão por agressão.

- E não é só isso. - Stella continuou sentada, apertando as mãos com força no colo. - Quanto mais importância dermos ao caso, mais ela vai ficar incomodada. O melhor que temos a fazer é seguir-lhe o exemplo. Lidar com o assunto friamente, como se fossem negócios. E temos de nos lembrar que, se para nós isso é difícil, para ela ainda é mais.

- Detesto isto - disse Hayley, com um tom irado. - Detesto que tenhas razão e gostava que tivesses razão depois de lhe termos dado cabo do canastro. Querer defendê-la mostra que tens carácter, Harper. E acho que também é uma prova de carácter saber que não é assim que se resolvem as coisas.

Talvez não, mas Harper não conseguia apagar a imagem que tinha de Bryce aos seus pés, transformado em papa. Talvez não fizesse mal não saber ao certo onde encontrar o canalha. Seria capaz de o descobrir. Meia dúzia de telefonemas resolveriam o caso. Mas esses telefonemas iam afugentar a presa antes de ele lá chegar.

E, no fundo, sabia que David tinha razão.

Mas não era capaz de ficar em casa a ferver. Havia mais um assunto que tinha de resolver e pouco lhe interessava que a mãe não gostasse.

Continuava ansioso por um confronto quando bateu à porta do apartamento de Mitch.

Tinha uma vaga esperança de o encontrar com outra mulher. Assim, poderia dar-lhe um soco e libertar a fúria que o consumia.

No entanto, quando Mitch abriu a porta, parecia estar sozinho. Isso, caso não se contasse com o ruído que Harper reconheceu como sendo a emissão televisiva de um jogo de basquetebol.

- Olá. Como vai isso? Entre.

- Quero falar consigo.

- Claro. Espere só um pouco. - A atenção de Mitch já regressara ao enorme ecrã de televisão que dominava uma das paredes. - Falta menos de um minuto para o intervalo. Estamos a perder por dois pontos. Raios partam! Caramba, perde a bola.

Harper não conseguiu evitar deixar-se levar pela acção e gritou quando o número oito recuperou a bola, girou com uma espécie de graciosidade mágica e a lançou pelos ares.

- Três pontos! São três pontos. - Mitch deu um murro amigável no braço de Harper. - E chegámos ao intervalo. Quer beber alguma coisa?

- Uma cerveja caía bem.

- Sinto muito, não tenho. Coca-Cola?

- Pode ser, obrigado. - Enfiou as mãos nos bolsos quando Mitch se afastou. Sozinho, perscrutou a sala, franzindo as sobrancelhas quando viu algumas moedas penduradas de fitas vermelhas. - Que bela televisão comentou, quando Mitch voltou com uma lata.

- É o meu orgulho, logo a seguir ao meu filho. Sente-se.

- Vou direito ao assunto. O que é que se passa entre o Mitch e a minha mãe?

Mitch sentou-se e observou Harper enquanto erguia a lata.

- Não lhe sei dizer, pois depende muito dela e do que ela quiser. Como não sou cego ou surdo, nem estou morto, é óbvio que a considero muito atraente. Admiro o que ela conseguiu na vida e gosto muito da sua companhia.

- Se alguma dessa atracção tiver a ver com o dinheiro ou com a posição, mais vale afastar-se já.

Com uma calma aparente, Mitch agarrou no comando da televisão, carregou no Mute e voltou a pousá-lo.

- O que o Harper disse é uma coisa horrível de se dizer.

- Ela passou por uma fase horrível ainda há pouco tempo.

- Razão por que não o ponho já a andar da minha casa. - Esforçou-se por ignorar o insulto e manteve a paciência a custo. - A sua mãe não precisa de dinheiro nem de posição social para ser atraente. É uma das mulheres mais bonitas e fascinantes que já conheci. Gosto dela e acredito que ela sente alguma coisa por mim. Espero que possamos explorar esses sentimentos.

- O seu primeiro casamento não resultou.

- O culpado disso fui eu. - Rodou a lata de Coca-Cola nas mãos. - Não tenho cerveja no frigorífico porque há catorze anos que não bebo. Sou um alcoólico e destruí o meu primeiro casamento. Já contei isso tudo à sua mãe, com mais pormenores do que aqueles que estou disposto a partilhar consigo. Fi-lo, pois julguei que ela merecia saber a história antes de darmos os passos iniciais em direcção ao que espero que venha a ser uma relação.

- Sinto muito por o ter embaraçado.

- Não embaraçou. Irritou-me um bocado.

- Isso não lamento. É minha mãe, e o Mitch não viu o que ela passou. Não sabe o que ainda está a passar.

- O que quer dizer com ”ainda”?

- Esta noite descobriu que o Bryce requisitou um cartão de crédito em nome dela. Não pode prová-lo, pelo menos por enquanto, mas de certeza que foi ele. Houve despesas que foram feitas, por isso ela teve de se dar ao trabalho de o anular, de tratar das questões legais... e de nos contar o que se passou.

Mitch pousou a bebida e levantou-se da cadeira passeando pela sala. Foi a raiva que dele emanava que acalmou Harper.

- Pensei em procurá-lo e dar-lhe uma tareia.

- Eu seguro no seu casaco e depois pode segurar no meu.

As palavras soltaram mais um nó no estômago de Harper. Era o tipo de sentimento que respeitava.

- O David convenceu-me a não o fazer. Na verdade, o David e a Stella. A mamã não ia gostar. É uma das coisas que ela considera... imprópria. Depois iam começar os mexericos. Por isso vim até aqui dar-lhe uns murros. Para descarregar um pouco da fúria.

- Cumpriu a missão?

- Parece que sim.

- Já não é mau. - Mitch passou as mãos pelo cabelo. - Ela está bem? Como está a lidar com a situação?

- Da mesma forma que lida com tudo o resto. De frente. Faz o que é preciso. Mas está irritada. Tem medo de que possa acontecer o mesmo comigo ou com os meus irmãos. Também está embaraçada - acrescentou.

- É o tipo de situação que a embaraça.

A expressão de Mitch tornou-se carregada.

- É o que ele quer, não é? É o que ele ganha com o assunto, mais ainda do que as despesas que fez com o cartão falso.

- É isso mesmo. Quero que saiba que se a magoar, seja de que maneira for, vai pagar-mas. Parece-me justo dizê-lo directamente.

- Está bem. - Mitch regressou à cadeira e sentou-se. - Deixe-me pôr as cartas na mesa, para que a gente se entenda. Tenho quarenta e oito anos. Ganho bem. Nada de espectacular, mas também não é nada mau. Gosto do meu trabalho e tenho a sorte de este pagar as minhas contas e permitir-me uma vida confortável. - Mitch lembrou-se de oferecer a Harper batatas fritas do pacote aberto que estava em cima da mesa. -A minha ex-mulher e o marido são boas pessoas e, entre nós, embora sem grande ajuda minha durante os primeiros seis anos, conseguimos educar um jovem espantoso, do qual sinto muito orgulho. Tive duas relações mais sérias desde que me divorciei e algumas menos sérias. Gosto da sua mãe, respeito aquilo que ela conseguiu e não faço tenção de a magoar, nem de a fazer infeliz. Se o fizer, julgo que ela vai vingar-se antes que o Harper consiga sair da casa de partida. - Fez uma pausa e bebeu um gole do refresco. - Quer saber mais alguma coisa?

- Por agora, só mais uma. - Harper pegou no saco das batatas e serviu-se. - Posso ficar mais um bocado e ver o resto do jogo?

 

Com as mãos nas ancas, Roz observou a nova álea de preparação de mistura para vasos. Tinham sido precisos dois dias inteiros para a preparar, tempo esse dividido com outras tarefas e em que contou com a mente analítica de Stella.

Segundo a estimativa de Roz, sozinha teria precisado de metade desse tempo, mas o espaço de trabalho não teria ficado tão prático. Havia contentores de terra já misturada por si, bancadas de trabalho, uma zona para armazenamento de sacos, uma balança, pás e colheres, vedante de sacos, bancos.

Tudo estava disposto com a eficiência de uma linha de montagem.

As despesas tinham sido mínimas, algo que agradara a Stella, que tinha olho para o lucro, bem como para a exactidão. Com o desenho simples dos sacos, alguma publicidade inteligente e o que sabia ser um produto excelente, Roz acreditava que iriam sair-se bem. Mesmo muito bem.

Quando se virou para receber Harper, que acabava de entrar, estava de bom humor.

- O que achas do nosso empreendimento novo?

Abriu os braços. Com uma gargalhada, agarrou um saco de dois quilos e meio que já enchera e selara e lançou-o ao filho.

- Parece-me bem - admitiu, revirando o saco. - Directo. Mostra que é terra a sério. Parece um daqueles produtos que encontramos nas floristas sofisticadas.

- Exactamente. De início, vamos manter os preços baixos, para lhe dar saída. Estou a encher os sacos com umas cinquenta gramas a mais, para ter margem de manobra. Pensei em deixar a Ruby a tratar disto, pelo menos para começar. Talvez pergunte ao Steve se quer fazer um part-time. Não lhe vai dar muito trabalho nem roubar-lhe muito tempo.

- É bem pensado, mamã. - Pousou o saco. - Tens jeito para o negócio.

- Gosto de pensar que sim. Ainda estamos zangados um com o outro?

- Não, mas podemos ficar outra vez quando te disser que fui a Memphis falar com o Mitch Carnegie.

O rosto de Roz ficou inexpressivo e a voz gelou-se-lhe.

- Porque fizeste isso, Harper?

- Em primeiro lugar, estava furioso. Em segundo, o David e a Stella convenceram-me a não ir dar cabo do Clerk. Terceiro, queria saber em primeira mão as intenções do Mitch em relação a ti.

- Compreendo bem o primeiro ponto. Entendo o segundo, a vários níveis. Mas não percebo o que te poderia levar a interrogar um homem com quem ando. Foi muito mal-educado e intrusivo. Não ando por aí a espiolhar as mulheres com quem sais.

- Não andei a espiolhar e nunca andei com uma mulher que me roubasse nem que interferisse na minha vida ou manchasse a minha reputação.

- Ainda és novo. - As palavras eram geladas. - Achas que sou a única mulher que se deixou levar por um energúmeno?

- Não, não acho. Mas não me interessam as outras mulheres. És a única mãe que tenho.

- Isso não te dá o direito de...

- Eu amo-te.

- Não uses esse trunfo.

- Não posso evitar. É o único que tenho.

Roz levou os dedos ao centro da testa, que esfregou com força.

- Ajudava que juntasses um pouco de confiança e de respeito a esse amor, Harper.

- Tenho todo o respeito e confiança do mundo por ti, mamã. Já não tenho tanta certeza quanto aos homens. Mas, se te ajuda, ontem à noite adquiri muita confiança e respeito pelo Mitch. Pode ser que quase mereça cortejar a minha mamã.

- Pelo amor de Deus, ele não me anda a cortejar. Onde é que vais buscar essas... Fomos a um jogo de basquetebol universitário e jantámos juntos.

- Acho que ele está apaixonado por ti.

Roz fitou-o e, desta vez, levou as duas mãos à cabeça.

- Estou a ficar tonta.

Harper aproximou-se da mãe, envolveu-a com os braços e chegou-a a si.

- Não suportava ver-te outra vez magoada.

- O Bryce só feriu o meu orgulho.

- Para nós, Harpers, esse é um ferimento mortal. E fez mais do que isso. Não creio que o Mitch vá fazer o mesmo, pelo menos de propósito.

- Quer dizer que o aprovas.

Exibiu um sorriso rasgado quando a mãe inclinou a cabeça para o olhar.

- Essa pergunta é uma rasteira, e os filhos da minha mamã não são tolos. Se disser que sim, vais dar-me cabo do juízo a dizer que não precisas do meu consentimento para nada. Por isso, vou apenas dizer que gosto dele. Gosto muito dele.

- És mais fino do que os ratos, Harper Ashby. Vamos fazer o seguinte. Deu-lhe uma palmadinha nas costas e afastou-se. - Podes dar-me uma ajuda por aqui. Quero encher vinte sacos de cada peso.

- Pensei que quisesses que fosse a Ruby a fazer isso.

- Mudei de ideias. Um pouco de trabalho simples e monótono talvez te ajude a pensar no erro das tuas acções.

- Quem é que é fino?

- No dia em que me conseguires dar a volta, meu querido, reservo um quarto no lar de terceira idade. Vamos lá a trabalhar.

Depois do trabalho, foi direita a casa e ao seu quarto para se lavar. Agora desconfiada, verificou a correspondência que tinha em cima da secretária e deu uma vista de olhos às contas. Não ficou aliviada por não ter encontrado nada. Era como estar à espera da última badalada.

Logo a seguir ao divórcio, houvera incómodos semelhantes, após o que se seguira um período agradável de paz. Imaginava que nessa altura estivesse demasiado ocupado a explorar outra pessoa para desperdiçar tempo a implicar com uma ex-mulher.

Lidara com o assunto na altura e faria o mesmo agora.

O telefone tocou enquanto se vestia. Ao terceiro toque, pensou que David estivesse ocupado e atendeu.

- Boa noite. Poderia falar com Rosalind Harper?

- É a própria.

- Sr.a Harper, fala o Derek da Carrington Gallery, de Nova Iorque. Queria apenas informá-la de que o Vergano será enviado amanhã.

- Acho que isso não é uma boa ideia, Derek, não é? Não encomendei nada à vossa galeria.

- O Cristina Vergano, sr.a Harper. Ainda na semana passada o seu representante falou pessoalmente comigo.

- Não tenho representante.

- Estou muito confuso, sr.a Harper. O valor já foi debitado na sua conta. O seu representante disse-me que a senhora tinha ficado entusiasmada com o quadro e que desejava que fosse expedido assim que a exposição terminasse. Tivemos muitos interessados na obra, mas como já estava vendida...

Roz esfregou com força a nuca, onde a tensão se instalara.

- Parece que temos um problema, Derek. Deixe-me dar-lhe algumas más notícias. - Explicou brevemente e deu consigo a andar pelo quarto, à medida que uma dor de cabeça se instalava. Anotou o nome da empresa detentora do cartão de crédito e o respectivo contacto.

- É uma situação muito incómoda.

- Pode ter a certeza - concordou. - Sinto muito pelo transtorno causado à vossa galeria. Só por curiosidade, importa-se de me dizer o nome do quadro?

- Vergano é uma artista muito poderosa e dinâmica. Este óleo sobre linho, com uma moldura única da autoria da artista, faz parte da colecção das Cabras. Chama-se A Cabra Espantosa.

- Pois claro - replicou Roz.

Seguiu o procedimento usual e ligou à empresa do cartão de crédito e ao advogado, após o que escreveu a ambos a relatar o incidente.

Tomou uma aspirina antes de descer até à cozinha, onde se serviu de um copo de vinho.

O recado de David estava em cima da bancada.

”Encontro escaldante. Lasanha maravilhosa no forno. A Hayley e o bebé foram com a Stella e os miúdos a casa do Logan. Vão fazer uma festa de pinturas. Lasanha mais do que suficiente para dois. O belo professor está na biblioteca. Aquece o pão, mexe a salada - está no frigorífico - e estás pronta. Buono appetito!

David

PS: CDs adequados já estão no leitor. Agora, por favor, sobe e vai calçar os jimmy Choo.”

”Bem.” Reparou que David preparara o recanto da cozinha com pratos festivos, velas grossas, uma garrafa de San Pellegrino e copos de um verde-pálido. Isso explicava a garrafa de vinho italiano a respirar em cima da bancada.

- A lasanha, tudo bem - disse, em voz alta. - Mas não vou calçar aqueles sapatos para a comer.

Satisfeita e confortável com as peúgas cinzentas grossas que usava habitualmente em casa, dirigiu-se à biblioteca.

Mitch estava sentado à secretária, com os óculos postos e uma camisola dos Memphis Tigers. Os dedos passeavam com agilidade pelo teclado do computador portátil. Sobre a mesa estava uma garrafa grande de água. Obra de David, de certeza, que teria massacrado Mitch para fazer uma pausa para o café habitual com um pouco de água.

Ele tinha um aspecto... sensual e um ar estudioso, constatou, com os óculos intelectuais e a juba de cabelos espessos e desgrenhados de um castanho rico, com laivos de avelã.

Os olhos por detrás dos óculos eram agradáveis, pensou. Não só pela cor, profunda e única, mas também bondosos e directos. Eram intensos e perturbadores, e tinha de admitir que isso a excitava.

Enquanto o observava, Mitch parou de escrever e passou os dedos pelo cabelo. E resmungou sozinho.

Era interessante ouvi-lo a resmungar com os seus botões, pois Roz dava frequentemente por si a fazer o mesmo.

Também era interessante sentir aquele aperto na barriga e o desejo que lhe percorria a espinha. Era bom saber que esse instinto ainda estava vivo. E será que não se sentia curiosa para ver o que acontecia caso aproveitasse e acendesse o rastilho?

Ainda estava imersa nestes pensamentos quando começaram a voar livros das prateleiras, com volumes a baterem uns nos outros, depois nas paredes e no chão. Na lareira, altearam-se labaredas de um vermelho intenso, ao mesmo tempo que o ar gelava.

- Deus do céu!

Mitch afastou-se tão depressa da secretária que a cadeira caíu. Cunseguiu esquivar-se a um livro e travou outro. Quando Roz correu para a frente, tudo parou.

- Viu aquilo? Viu aquilo? - Mitch baixou-se, apanhou um livro e pô-lo em cima da mesa. O seu tom de voz lento e arrastado não denotava medo, mas fascínio.

- Parece gelo.

- Birras. - Roz também pegou num livro e o frio quase lhe adormeceu os dedos.

- Impressionantes. Tenho estado aqui a trabalhar desde as três. - Com o sorriso franco de uma criança, olhou para o relógio. - Foram quase quatro horas. A biblioteca esteve sempre tão sossegada como, perdoe-me a expressão, um cemitério. Até agora.

- Devo tê-la desinquietado, pois ia perguntar-lhe se quer jantar. O David deixou uma refeição pronta.

Juntos, começaram a apanhar os restantes livros.

- Não há dúvida de que ela não gosta de nos ver juntos.

- Pelos vistos, não.

Mitch arrumou o último livro na estante.

- Então... o que é o jantar?

Roz olhou-o e sorriu. Nesse momento, percebeu que, desejo à parte, não havia nada naquele homem de que ela não gostasse.

- Lasanha, que o David diz estar fantástica. Já a provei noutras ocasiões e posso garantir-lhe que a lasanha dele é excelente.

- Parece-me bem. Meu Deus, a Roz cheira tão bem. Desculpe - acrescentou, quando viu as suas sobrancelhas a erguerem-se. - Estava a pensar em voz alta. Olhe, consegui eliminar mais nomes e tenho andado a transcrever as entrevistas que fizemos até agora. Tenho aqui um ficheiro para si.

- Está bem.

- Vou começar a tentar localizar alguns dos descendentes dos empregados e dos que vamos chamar os ramos exteriores da árvore genealógica. Parece-me que a parente mais velha ainda viva é a sua prima Clarise e, felizmente, ela é da zona. Gostaria de falar com ela.

- Boa sorte.

- Ela continua por cá, no...

- Riverbank Center. Sim, eu sei.

- Ela vai deixar-me uma geração mais próximo da Amélia. Julgo que a abordagem seria mais simples se a Roz falasse com ela primeiro.

- Pois, mas a prima Clarise e eu estamos de relações cortadas.

- Eu sei que me disse que havia um fosso entre vocês, mas será que ela não estaria interessada no que estou a fazer pela família?

- É possível. Mas garanto-lhe que ela não vai atender qualquer telefonema que eu lhe faça.

- Olhe, eu compreendo os atritos familiares, mas neste caso...

- O Mitch não compreende a Clarise Harper. Ela cortou o apelido há anos e optou legalmente pelo primeiro e segundo nomes. É essa a importância que dá ao nome dos Harpers. Nunca se casou. Quanto a mim, nunca encontrou ninguém suficientemente mole ou estúpido para a aguentar.

Com um franzir de sobrolho, Mitch encostou-se à mesa.

- Essa é a sua maneira de me dizer que não quer que entre em contacto com ela porque...

- Contratei-o para fazer um trabalho e não pretendo dizer-lhe como fazê-lo, por isso não fique abespinhado. Estou apenas a informá-lo de que ela decidiu excluir-me e aos meus filhos do seu plano de existência, o que para mim tanto se me dá. O único comentário positivo que posso fazer sobre ela é que, quando mete uma coisa na cabeça, vai até ao fim.

- Mas não se opõe a que eu fale com ela, que a envolva.

- Absolutamente. O melhor que tem a fazer é escrever-lhe, com um tom muito formal, e apresentar-se. Não se esqueça de utilizar a parte do doutor e outras credenciais impressionantes que por acaso tenha à mão. Se lhe disser que pretende escrever a história da família Harper e mostrar que fica muito honrado em entrevistá-la, e por aí fora, talvez o receba.

- Foi ela que a Roz expulsou de casa, não é verdade?

- Por assim dizer. Não me lembro de ter comentado esse assunto consigo.

- Eu falo com as pessoas. Ela não foi a única a ser perseguida com uma roçadora.

Um breve clarão de divertimento surgiu na expressão de Roz.

- Anda mesmo a falar com as pessoas.

- Faz parte do trabalho.

- Imagino. Não, não a persegui com uma roçadora. Isso aconteceu com os jardineiros. E também não foi uma roçadora. Foi com uma vassoura metálica regulável, o que não faria grandes estragos. Se não estivesse tão zangada e tivesse a cabeça mais fria, tinha ido buscar a podadeira que os idiotas usaram nas minhas mimosas. Pelo menos com isso poderia ter-lhes estraçalhado o rabo.

- Podadeira. Isso é... - Imitou uma tesoura com os braços.

- Exactamente.

- Ai. De volta à sua prima. Porque a expulsou?

- Porque quando a convidei, para meu desgosto, para um churrasco de família aqui há uns anos, ela, que nunca foi mãe, chamou aos meus filhos pirralhos malcriados e declarou que, se eu fosse uma mãe decente, dava-lhes uns açoites de vez em quando. Depois chamou mentiroso ao Harper, quando ele estava a divertir alguns dos primos mais novos com histórias sobre a Noiva, e mandou-o calar. Mitch meneou a cabeça.

- E continua viva.

A cólera afogueara-lhe o rosto, mas o comentário curvou-lhe os lábios num sorriso.

- Já há algum tempo que se andava a arriscar, pois criticava habitualmente a forma de eu educar os meus filhos, o modo como geria a casa, o meu estilo de vida e, por vezes, a minha moral. Mas ninguém ataca os meus filhos na minha casa. Cheguei a pensar em matá-la, mas, conhecendo a minha opositora, imaginei que ser expulsa da Harper House era um castigo mais doloroso.

- Acho que já lhe disse que a Roz é dura. Gosto disso.

- Ainda bem, pois já não tenho idade para mudar. Concluindo, ela amaldiçoou-me a mim e à hora em que a Harper House tinha ficado nas minhas mãos incompetentes.

- Parece ser uma delícia de senhora. Vou escrever-lhe já amanhã.

- Não lhe diga que está a trabalhar para mim.

- Não vai ser difícil de descobrir.

- É verdade, mas, quanto menos me referir, melhor. Tem mais alguma dúvida?

- Tirando gostar de saber como consegue passar o dia a trabalhar e continuar com esse aspecto fantástico à noite, não. Pelo menos que me lembre.

Roz aguardou mais um instante, após o que aquiesceu.

- Não vai falar nisso.

- E isso seria o quê?

- A visita que o meu filho lhe fez ontem à noite.

- Ah. - Como estava virada para Mitch, Roz avistou o clarão de surpresa que lhe atravessou o rosto antes de tirar os óculos e começar a limpar as lentes com a camisola. - Ele contou-lhe?

- Sim. Estava zangado, por isso agiu sem pensar.

- Foi como agarrar numa vassoura em vez de uma podadeira. A gargalhada saiu-lhe,

- Foi parecido. Ambos temos um mau feitio terrível. É por isso que nos esforçamos por contê-lo. Nem sempre resulta. Gostaria de lhe pedir desculpa pelo comportamento dele.

- Não posso aceitar.

Os olhos de Roz deixaram transparecer aflição, algo que Mitch raramente vira nela.

- Mitch, eu sei que o Harper foi longe demais, mas ele é novo e...

- Não está a perceber. Não posso aceitar um pedido de desculpa, pois não há razão para tal. Seja de quem for. Ele estava preocupado consigo.

- Não preciso, nem quero, que se preocupem comigo.

- Talvez não, mas isso não vai impedir uma pessoa que gosta de si de tentar. Falámos, acabámos por nos entender um ao outro e o assunto ficou por aí.

- E não vai falar mais sobre o caso.

- Foi entre nós dois.

- Vocês homens lá têm os vossos códigos de honra.

- A Roz não ia comentar este último incómodo.

Por um momento, Roz pensou no telefonema, mas voltou a ignorá-lo.

- Não há nada para comentar. Estou a tratar do assunto.

- O que aconteceu desde ontem à noite? A Roz sabe disfarçar muito bem, por isso devo tê-la apanhado desprevenida. Aconteceu mais alguma coisa?

- Só uma pequena irritação, mas já tratei disso. Não é importante. Ou melhor, não vou permitir que se torne importante. Se o fizer, vou transformar-me em vítima e ele ganha. Não vou ser vítima dele. Isso é algo que nunca permiti e não vou começar agora.

- Falar comigo, desabafar um pouco, também não a transforma em vítima.

- Não estou habituada a falar dos meus problemas. Não me sinto confortável. Mas agradeço a oferta.

Mitch pegou-lhe na mão.

- A oferta mantém-se. Agora, a minha oferta seguinte. Na semana que vem, o Chicago estreia no Orpheum. Venha comigo e depois podemos jantar.

- Talvez aceite. Está a atirar-se a mim, Mitchell? O polegar afagou-lhe a mão.

- Prefiro dizer que estou a cortejá-la, Rosalind.

- Cortejar é uma palavra bonita. Tem tido cuidado para não me pressionar a levar esse cortejo para a intimidade.

- Se a pressionasse, não seria corte nem intimidade. Além disso, imagino que a porta se fechasse no meu rabo logo depois de me ter expulsado.

O divertimento dançou-lhe no rosto.

- É muito astuto. Acho que o Mitch é um homem inteligente.

- Sei que estou inebriado.

- Outra palavra bonita.

- Tenho de passar a ter cuidado com elas. É o tipo de coisa de que desconfia.

- Sim, é um homem inteligente. - Ela tinha escolha e decidiu-se. - Vem lá acima.

Pela segunda vez nessa noite, viu a surpresa no rosto dele. Depois Mitch levou-lhe a mão aos lábios. - Vai ser uma coisa séria?

- Sim. Muito séria.

- Nesse caso, será um prazer.

Saíram da biblioteca e percorreram o corredor.

- A casa ficou vazia, por isso somos só nós dois. Bem, três. - Olhou-o enquanto subiam as escadas. - Vais sentir-te incomodado?

- Pelo facto de ela poder estar a observar-nos? - Respirou fundo.

- Acho que vamos ter de descobrir. Por acaso a Roz... - Interrompeu-se e abanou a cabeça.

- O quê?

- Não, fica para depois.

- Está bem. Espero que não te importes de adiar o jantar.

À laia de resposta, Mitch virou-se para ela e encostou-a à parede. Depois encostou os lábios aos dela.

Começou por ser suave e caloroso, mas tornou-se quente e exigente. Ela estremeceu, uma única vez, um arrepio de excitação que se espalhou pelo corpo e recordou-a da sensação de iminência.

Mitch ergueu a cabeça.

- Estavas a dizer?

A pergunta fê-la rir-se e descontrair-se. Pegou-lhe na mão e levou-o para o quarto. Fechou a porta.

Mitch perdeu um instante a perscrutar o quarto, com uma cama de dossel encantadora e janelas altas de cortinados abertos para deixar entrar a noite.

- É parecido contigo. O quarto - explicou, observando as paredes de um verde-prateado, as antiguidades, as linhas puras e os pormenores elegantes. - Belo e sofisticado, com uma elegância simples que reflecte uma graciosidade e um sentido de estilo inatos.

- Fico com vontade de ter perdido algum tempo a embelezar-me. Olhou então para ela, de camisola informal e calças confortáveis.

- Estás perfeita.

- Perfeita ou não, sou quem sou. Acho que ia saber bem acendermos a lareira. - Acercou-se desta, mas Mitch levou a mão ao seu braço.

- Eu acendo. Da varanda, deves ter uma bela vista do jardim - disse, enquanto se acocorava à frente da lareira.

As portas do terraço abriram-se de par em par com uma rajada de vento gelado.

- Tenho, sim. - Roz dirigiu-se às portas e esforçou-se por fechá-las.

- Certas manhãs, quando tenho tempo, gosto de tomar café no terraço.

Mitch acendeu o lume e o tom das palavras foi tão descontraído como o dela.

- É difícil imaginar uma forma melhor de começar o dia. Roz foi até à cama para afastar o edredão.

- Ou de terminar. Muitas vezes, tomo um último copo de vinho ou uma chávena de café lá fora, antes de me deitar. Ajuda a eliminar por completo as tensões do dia. - Estendeu o braço e apagou o candeeiro.

- Porque não o deixas aceso? Roz abanou a cabeça.

- Da primeira vez, a lareira chega. Favorece-me e tenho vaidade que chegue para o preferir.

Deixou-se ficar onde estava, à espera que ele se aproximasse. Quando o abraçou, a porta do quarto abriu-se e fechou-se com violência.

- Imagino que vá haver mais coisas destas - comentou Roz.

- Não me importo. - Levou as mãos ao rosto dela. - Não me importo repetiu, tomando a sua boca na dele.

Ela sentiu o coração disparar, num sobressalto excitante. O tipo de sensação que despertava todo o seu corpo ao mesmo tempo, que lhe dava uma vida palpitante. Em resposta, ergueu os braços para lhe envolver o pescoço e mudou o ângulo do beijo para o aprofundar.

Ouviram-se relógios a bater como loucos. Em desafio e por necessidade, ela aproximou o corpo do dele.

- Quero que me toques - murmurou junto dos seus lábios. - Quero ser tocada. Por ti. As tuas mãos em mim.

Deitou-a na cama e afundou-se com ela. O seu peso fê-la suspirar, o peso de um homem e o que isso significava. Depois, ele tocou-a e ela gemeu.

Sentiu o calor que emanava dela. Soubera sempre que estava ali, por debaixo daquela fascinante e fria máscara. A pele era como veludo, veludo aquecido, nos flancos, no torso, na delicada curva dos seios.

O corpo, elegante mas não delicado, era firme e disciplinado. Tal como a sua mente, pensou ele. E igualmente atraente.

Ela sabia a fruta madura e proibida e cheirava a jardins nocturnos.

As mãos dela subiram por debaixo da sua camisa, pelas suas costas. Mãos ásperas e fortes, um contraste excitante com o corpo delgado e a pele aveludada.

Passou-lhe a camisa por cima da cabeça e ergueu-se o suficiente para lhe cravar os dentes no ombro nu. O choque chegou-lhe às virilhas.

A porta voltou a abrir-se e o vento entrou em rajadas e gelou-o. Ele limitou-se a cobrir-se com o edredão. E escondeu-se com ela lá debaixo.

Ela riu-se e encontrou a boca dele no escuro.

Enquanto a saboreava, se regalava com ela, despiu-lhe a camisola.

- Diz-me se tiveres frio.

- Não tenho. É impossível.

Sentia-se a arder por dentro e queria mais. Mais das suas mãos, da sua boca. Arqueou o corpo contra o dele, exigindo, excitando-se quando as mãos, a boca, lhe reclamaram o peito. A excitação atravessou-a, a alegria de estar a entregar o corpo, de este estar a ser usado.

Rolaram juntos, libertando-se mutuamente das roupas, juntando a pele nua quando esta começou a reluzir com o calor e a paixão.

Os cobertores caíram e a luz da lareira tremeluziu nos seus corpos. E, mesmo tendo ouvido alguém a chorar algures num canto recôndito da sua mente, ela apenas conseguia sentir a excitação crescente. Apenas conseguia vê-lo à luz do fogo a erguer-se sobre si.

Juntou-se a ele e abriu-se para o receber. E suspirou, suspirou quando o sentiu entrar no seu corpo.

Observaram-se, o olhar e o corpo unidos. Depois o movimento lento tornou-se claro, à medida que a respiração abrandava e se entrecortava, à medida que um prazer imenso a subjugava.

Viu-a erguer-se, o pescoço arqueado, os olhos desfocados, sentiu-a voar enquanto o apertava. Esforçou-se por se conter durante mais um instante, só mais um pouco, à medida que ela estremecia, o fôlego suspenso, que libertou com um gemido longo e grave. E o corpo perdeu as forças quando se rendeu.

Beijou-a, um último beijo desesperado, antes de mergulhar e se esvaziar.

As portas estavam fechadas, como deviam estar. O lume crepitava e consumia-se lentamente. E a casa estava sossegada e quente.

Roz estava aninhada em Mitch no meio da cama e deixava-se gozar a felicidade e a plenitude. Não seria preciso muito esforço para adormecer.

- Parece-me que ela desistiu - comentou Mitch.

- Sim, pelo menos por enquanto.

- Tinhas razão quanto ao lume, é muito agradável. - Depois rolou, voltando a deixá-la debaixo de si. Pôde olhá-la no rosto. - Estar contigo - começou a dizer. Depois abanou a cabeça e levou os lábios aos dela. - Estar contigo.

- Sim. - Com um sorriso, passou os dedos pelo cabelo dele. - Isso também é agradável. Há muito tempo que não tinha vontade de estar com ninguém. Sabes, para estudioso, tens uns belos braços. - Apertou-lhe os bíceps. - Gosto de braços assim. Não gosto de pensar que sou fútil, mas é um prazer estar nua com um homem que se mantém em forma.

- Digo o mesmo, de uma mulher. Da primeira vez que te vi, deixei-me ficar a apreciar-te enquanto te afastavas. Tem um belo rabo, sr.a Harper.

- Por acaso, tenho. - Com uma gargalhada, deu-lhe uma palmada no dele. - É melhor vestirmo-nos e descermos antes que todos comecem a chegar a casa.

- Só mais um pouco. Foram os teus olhos que me fascinaram.

- Os meus olhos?

- Exactamente. Pensei que talvez fosse pela cor, a mesma de um bom uísque velho... e eu adorava um bom uísque. Mas não foi isso. É a maneira como eles me encaram. Directos. Corajosos e um pouco nobres.

- Por favor...

- Ah, pois, neles consegue ver-se a senhora da casa e não faço ideia por que motivo isso é tão sensual. Deviam ser irritantes ou pelo menos intimidantes. Mas, para mim, são apenas... estimulantes.

- Se assim é, vou ter de começar a usar óculos escuros para não te deixar excitado em alturas impróprias.

- Não vai fazer diferença. - Beijou-a brevemente e depois afastou-se. Deu-lhe a mão. - Mas isto fez diferença. Foi importante. Não há mais ninguém.

O coração de Roz acelerou um pouco e sentiu-se jovem e um pouco tola.

- Sim, isto fez diferença. Foi importante. Não há mais ninguém.

- Uma coisa séria - comentou ele e levou a sua mão aos lábios. - Não tarda nada vou querer-te outra vez.

Roz apertou-lhe a mão.

- Temos de ver o que podemos fazer quanto a isso.

 

Roz seguiu até à cozinha o aroma do café e o barulho. A chuva triste que caía obrigara-a a cancelar a corrida matinal, por isso canalizara a energia para cinco quilómetros na passadeira. Era uma alternativa que, regra geral, a enfadava profundamente, mas nesse dia deu consigo a cantar o refrão dos anúncios no intervalo do programa Today.

Na cozinha, a bebé batia na cadeirinha de comer com o entusiasmo de um baterista de heavy metal e os filhos de Stella protestavam ao mesmo tempo que comiam os cereais.

- Sim - anunciou Stella com um tom de frustração materna na voz -, têm de levar as gabardinas porque sou má e mandona e quero que se sintam infelizes.

- Nós detestamos as gabardinas - informou-a Gavin.

- A sério? Não foi isso que disseram quando me imploraram que as comprasse.

- Isso foi antes.

Talvez por solidariedade, talvez por simples prazer, Lily deixou de bater com a roca e atirou-a pelos ares juntamente com uma bolacha mordida. O atento Parker apanhou a bolacha antes de esta cair ao chão e a roca aterrou ruidosamente no prato de cereais de Luke.

O leite saltou e transbordou do prato, fazendo com que Lily gritasse de alegria. Numa reacção em cadeia, Parker deu uma série de latidos ensurdecedores e saltou, enquanto Gavin se ria às gargalhadas.

Stella era rápida, mas, desta vez, Luke foi ainda mais rápido e tirou a roca do prato, atirando-a a pingar para o colo do irmão.

- Pelo amor de Deus. - Stella agarrou num guardanapo com uma mão e levantou a outra para impedir a retaliação de Gavin. - Nem penses nisso.

- Desculpa. Desculpa. - Hayley levantou o prato e trouxe mais guardanapos, enquanto os rapazes se empurravam um ao outro.

David, uma acalmia no meio da tempestade, aproximou-se com um pano húmido.

- Já limpamos a desgraça. Arruaceira - disse a Lily, que lhe respondeu com um sorriso rasgado e enfeitado com migalhas.

Roz apreciou o caos e pareceu radiante.

- Bom dia - cumprimentou, entrando na cozinha. As cabeças viraram-se na sua direcção.

- Roz? - Stella fitou-a. - O que estás a fazer aqui?

- Já que vivo nesta casa, pensei em vir buscar uma chávena de café. Baixou-se para beijar a cabeça de Lily. - Olá, meninos. Este bebé tem uma pontaria fabulosa, não tem? Foram dois pontos bem metidos.

A noção era tão interessante que os rapazes deixaram de brigar.

- Faz outra vez, Lily! - Luke puxou a manga da mãe. - Dá-lhe outra vez, mãe, para ela repetir.

- Agora, não. Têm de acabar de se preparar, senão chegam atrasados à escola. - Viu as horas e, com efeito, passavam alguns minutos das oito, quase uma hora depois do horário normal de Roz.

- Agora os meus cereais têm baba de bebé - queixou-se Luke.

- Podes comer um queque.

- Então eu também quero um queque. - Gavin afastou o prato de cereais. - Se ele pode comer um queque, eu também quero.

- Está bem, está bem.

- Eu vou buscá-los. - Com um gesto, Hayley indicou a Stella que se deixasse estar. - É o mínimo que posso fazer.

- Hum, cheiram tão bem. - Roz cheirou a travessa cheia de queques de maçã fresquinhos. Serviu-se de um e encostou-se à bancada, com o café numa mão e o queque na outra. - Não há melhor maneira de começar o dia. E olhem só para aquela chuva. Não há nada melhor do que um aguaceiro durante todo o dia.

Depois de ter distribuído queques por todos, disse ao ouvido de Stella.

- Houve alguém que carregou as baterias. Stella esforçou-se por engolir uma gargalhada.

- Não tarda nada, já saímos do teu caminho.

- Não há pressa. - Roz deu uma dentada no queque.

- Normalmente, antes da invasão ou já saíste, ou estás a acabar de te arranjar.

- Hoje dormi um pouco mais.

- Então é por isso que o calendário diz que hoje é dia de São Nunca. David nem se preocupou em ocultar o sorriso que tinha estampado no rosto quando se aproximou com a cafeteira para voltar a encher a caneca de Roz.

- Hoje estás cheio de graça.

- Não sou o único a estar cheio de alguma coisa. Como correu... a lasanha?

- Muito bem. - Olhou-o por cima da chávena., enquanto pensava se teria algum sinal a dizer: Queca Recente.

- Devias comer disso mais vezes. Ficas mais corada.

- A ver se não me esqueço.

- Eu também não me importava de um bom prato de lasanha quente comentou Hayley. - Anda, meu amor, vamos limpar-te. - Tirou Lily da cadeirinha.

- Vocês vão buscar as vossas coisas... incluindo as gabardinas - ordenou Stella. - Está quase na hora. - Mas deixou-se ficar para trás. - Posso dar-te boleia? - perguntou a Roz.

-Acho que sim.

Stella esperou até saírem de casa. Pelos seus cálculos, um desvio de cerca de um quilómetro para deixar Lily na ama devia chegar.

- Ontem à noite avançámos muito na pintura. Vai ser bom ter a sala de jantar terminada e montada antes do casamento. Gostava de fazer um jantar assim que nos instalarmos. O David e todos nós, o Harper, os meus pais. Ah, e o Mitch, é claro.

- Seria muito agradável.

- Ultimamente, tem estado muitas vezes lá em casa. O Mitch, claro. É como se já fizesse parte da mobília. - Ao ouvir o hum descomprometido de Roz, Stella olhou pelo retrovisor e viu Hayley a revirar os olhos e a fazer-lhe sinais com as mãos para que fosse direita ao assunto. - Então... ah, ontem à noite tu e o Mitch trabalharam no projecto ou aproveitaram a casa vazia e descontraíram-se?

- Stella, porque não me perguntas logo se fui para a cama com ele em vez de andares às voltas? Detesto ver pessoas a ficarem tontas como moscas por andarem às voltas.

- Estava a ser subtil - retorquiu Stella.

- Não, não estavas.

- Eu disse-lhe que não era preciso fazer introduções a tudo - defendeu-se Hayley no banco de trás. - Além disso, nós sabemos que fizeste sexo. Tens aquele ar de quem foi polida há pouco tempo.

- Meu Deus.

- É claro que não temos nada que ver com isso - acrescentou Stella, lançando pelo espelho um olhar furioso a Hayley.

- É claro que não - concordou Roz de imediato.

- Mas só queríamos dizer-te que ficamos felizes se tu estiveres feliz. Que achamos o Mitch um homem espantoso e que estamos aqui para te apoiar...

- Bolas! - Hayley aproximou-se da frente o mais que o cinto de segurança lhe permitia. - O que ela está a tentar dizer à boa e velha maneira da Stella é: vai-te a ele!

- Não é. Exactamente. Estou a tentar dizer, com alguma delicadeza...

- Que se lixe a delicadeza. Olha, só porque as pessoas são um pouco mais velhas, isso não quer dizer que não queiram ou que não mereçam ser tocadas da mesma maneira que outra pessoa qualquer.

- Oh - exclamou Roz. - Volto a dizer, meu Deus.

- És linda e sensual - continuou Hayley. - Ele é muito atraente e sensual. Assim sendo, parece-me que o sexo é... Ela não percebe mesmo nada disto, pois não? - Mordeu o lábio e olhou para Lily, que estava ocupada a brincar com os dedos. - Li uma teoria que diz que os bebés absorvem todos os estímulos que têm à volta deles, incluindo vozes e palavras, e guardam-nos, e bolas, já chegámos.

Pegou no saco das fraldas e saiu debaixo de chuva. Depois de dar a volta a correr ao carro, abriu a porta, tirou a cadeirinha de Lily e pôs-lhe um cobertor na cabeça.

- Não digam nada de interessante enquanto eu aqui não estiver. Estou a falar a sério.

Quando Hayley se afastou a correr, Roz suspirou profundamente.

- De vez em quando, aquela rapariga faz-me sentir velha e gasta, e de outras vezes fico a pensar que sou uma miúda ingénua de dezoito anos.

- Percebo exactamente o que queres dizer. E sei que parece que estamos a intrometer-nos na tua vida privada, mas é só porque, bem, é porque gostamos de ti, mais nada. Além disso, tínhamos andado a pensar quando é que tu e o Mitch iam passar ao nível seguinte.

- Com que então andavam a pensar? Stella fez uma careta.

- O assunto pode ter vindo à baila no meio de uma conversa. Por uma ou duas vezes.

- Então e se fosse eu a dizer quando e se me apetece ter uma conversa sobre o assunto?

- Claro. Com certeza.

Quando Hayley regressou esbaforida e abriu a porta do carro, Stella tossiu ruidosamente e abanou ligeiramente a cabeça. Enquanto Hayley suspirava, contrariada, Stella arrancou e disse alegremente.

- Sabes, tenho andado a pensar em maneiras de apresentar a mistura para vasos.

Roz fez por se recordar de que a vida não mudara só porque tinha ido para a cama com um homem que considerava atraente e interessante. A vida prosseguia com os seus deveres e obrigações, a par das suas irritações e prazeres.

Ao dirigir-se para o encontro mensal do clube de jardinagem, interrogava-se em qual das categorias o seu destino se enquadrava.

Desde o tempo da sua avó que havia um Harper como membro do clube. Na verdade, a avó ajudara a criá-lo, em 1928, e a Harper House fora escolhida para muitas das primeiras reuniões.

Como proprietária de um centro de jardinagem, sentia-se duplamente obrigada a apoiar o grupo e a continuar como membro activo. Claro que o clube tinha alguns aspectos positivos. Gostava de falar sobre jardinagem com pessoas de gostos semelhantes aos seus e sentia que o clube se esforçara por angariar fundos para projectos de embelezamento.

Mas havia bastantes membros que apenas queriam passear os vestidos, almoçar e trocar mexericos.

Entrou na sala de conferências do countryclub e mergulhou no chinfrim de vozes femininas. Vasos quadrados esmaltados, dispostos festivamente sobre mesas cobertas com toalhas de linho de um verde primaveril, ostentavam uma explosão de narcisos forçados. Na frente da sala encontrava-se um estrado para as presidentes das várias comissões, que aí apresentariam os seus relatórios ou fariam os seus discursos.

Dava graças a Deus por não presidir a nada naquele momento.

Quando avançou para o centro da sala, os olhares colaram-se a ela de todos os lados e o zumbido das vozes abrandou. E cessou de vez.

Recomeçou quase de imediato, um pouco alto demais, um pouco alegre demais. Deixou que um escudo de frieza deslizasse sobre si e continuou a andar em direcção a uma mesa.

- Estas flores são adoráveis. - Olhou directamente para Jan Forrester, como se não ouvisse os murmúrios por debaixo das conversas forçadas. - É bom para recordar que a Primavera está quase aí. Como estás, Jan?

- Ah, muito bem, Roz. Estou muito bem. E tu?

- Não podia estar melhor. Como vai o Quill? Jan corou violentamente.

- Oh, sabes como é o Quill.

- Pois sei. Dá-lhe cumprimentos de minha parte, sim?

Foi o orgulho que a fez suportar aquela provação, misturar-se com a turba, falar com mais de uma dúzia de pessoas, antes de se dirigir aos bules de café e de chá. Optou por chá frio em vez do café habitual.

Sentia a garganta a ferver.

- Roz, minha querida, estás fabulosa. - Cissy aproximou-se furtivamente, a cheirar a Obsession e a sorrir como um gato esfaimado. - Juro, ninguém tem roupa como a tua. De que cor é esse fato?

Roz baixou o olhar para o casaco e para as calças elegantes.

- Não faço ideia.

- Alperce. É isso mesmo que parece, um belo alperce maduro. Aquela cabeça de atum da Mandy tem andado a dar à língua o mais depressa que pode - comentou, em voz baixa. - Nós duas temos de ter um tête-à-tête.

- Não faz mal, já percebi. Com licença. - Aproximou-se deliberadamente de Mandy e teve o breve prazer de ver o rosto da mulher ficar lívido, ao mesmo tempo que se calava a meio de uma frase.

- Mandy, como estás? Não te vejo desde antes do Natal. Não vieste à reunião do mês passado.

- Estive ocupada.

Roz bebeu lentamente um gole de chá.

- A vida é um circo, não é?

- Tu também tens andado ocupada. Mandy espetou o queixo.

- Nunca temos só uma coisa para fazer.

- Se passasses mais tempo a cuidar dos teus negócios, talvez não andasses a fazer telefonemas indiscretos nem a dizer mentiras.

As simulações de conversa pararam, como se alguém tivesse accionado um interruptor.

- Não me conheces muito bem - avisou Roz, no mesmo tom casual -, caso contrário saberias que não faço telefonemas desnecessários. Não gosto de perder tempo ao telefone. E não minto. Acredito que não há necessidade disso, pois normalmente a verdade é melhor.

Mandy cruzou os braços e assumiu uma posição agressiva.

- Todos sabem o que andas a tramar, mas têm medo de o dizer na tua cara.

- Mas tu não... bom para ti. Estás à vontade para dizer o que te vai na alma. Ou será mais confortável ter esta conversa em particular?

- É o que querias, não é?

- Não, tal como também não me agrada tê-la em público.

- Lá porque a tua família está em Shelby County desde os tempos da fundação, isso não te dá o direito de mandar em toda a gente. A minha família é tão importante como a tua e eu tenho tanto dinheiro e prestígio como tu.

- O dinheiro e o prestígio não compram a educação. Neste momento, estás a mostrar uma total falta dela.

- Tens cá uma lata. Vens falar de educação e andas a fazer tudo o que podes para arruinar a reputação do Bryce e a minha.

-A reputação do Bryce é obra dele. Quanto à tua, minha querida, nunca sequer dei por ti. Pareces-me uma boa miúda. Não tenho nada contra ti.

- Tens andado a dizer às pessoas que sou uma pega reles, que usa o dinheiro do papá para tentar comprar alguma classe.

- Quem te disse uma coisa dessas? O Bryce, imagino.

- Não foi só ele. - De queixo ainda espetado e o rosto corado, Mandy olhou para Jan.

- A Jan? - Quando viu a mulher corar, a surpresa suavizou a voz de Roz e o pesar instalou-se-lhe no coração. - Devias ter vergonha.

- Foi uma coisa que ouvi de uma fonte fidedigna - justificou-se Jan, encolhendo os ombros.

- Uma fonte fidedigna? - Roz não tentou ocultar o desprezo na sua voz.

- De repente passaste a ser uma jornalista de investigação à caça de fontes? Podias ter falado comigo. Seria a atitude mais decente a ter, antes de espalhares ainda mais esse disparate.

- Toda a gente sabe que ficaste possessa quando o Bryce apareceu na tua casa com a Mandy. Não estamos no lugar adequado para discutir este assunto.

- Pois não, não estamos, mas já é um pouco tarde. Pelo menos esta miúda teve a coragem de me dizer na cara o que lhe ia na cabeça, algo que não se pode dizer de ti.

Roz ignorou Jan e dirigiu-se mais uma vez à jovem.

- Mandy, pareci-te zangada quando chegaste à minha festa com o Bryce?

- É claro que estavas zangada. Expulsaste-nos, não é verdade, e ele só queria fazer as pazes contigo.

- Talvez não estejamos de acordo em relação àquilo que ele pretendia fazer. Como viste que estava zangada? Gritei convosco?

- Não, mas...

- Tratei-os mal ou expulsei-os fisicamente porta fora?

- Não, porque és fria, tal como ele diz. Tal como muita gente diz, quando não os podes ouvir. Esperaste que nos fôssemos embora para dizer coisas horríveis a nosso respeito.

- A sério? - Virou-se, decidida a terminar o assunto de uma vez por todas. - Quase todas vocês estiveram lá. Talvez alguém me possa refrescar a memória, pois não me lembro de ter dito coisas horríveis.

- Não fizeste nada disso. - A sr.a Haggerty, uma das mais antigas clientes de Roz e um pilar da comunidade de jardinagem, abriu caminho por entre os mirones. - Gosto muito de uma boa coscuvilhice e não me importo de ouvir uns acrescentos às histórias, mas isso são mentiras descaradas. A Rosalind comportou-se com muito decoro, dadas as circunstâncias difíceis que viveu. E, minha menina, foi muito gentil contigo, isso vi eu com os meus olhos. E, quando voltou a entrar, não disse nada sobre ti, nem sobre aquele infeliz que andas a defender. Se alguém tiver alguma coisa diferente a dizer, vamos ouvir.

- Ela não disse uma única palavra contra ti - acrescentou Cissy, com um sorriso malicioso. - Nem mesmo quando eu o fiz.

- Ele disse que a Roz ia tentar virar as pessoas contra mim.

- E porque haveria eu de o fazer? - perguntou Roz com um tom saturado.

- Mas tu acreditas no que tens de acreditar. Pessoalmente, já não quero falar mais sobre o assunto, nem contigo.

- Tenho tanto direito de aqui estar como tu.

- Tens, sim senhor. - À laia de conclusão, Roz virou-se, dirigiu-se a uma mesa do outro lado do salão e sentou-se a acabar o chá.

Seguiram-se dez segundos de silêncio ensurdecedor, até que Mandy se desfez em lágrimas e saiu a correr da sala. Algumas mulheres foram atrás dela, depois de lançarem olhares a Roz.

- Cristo - disse Roz, quando a sr.a Haggerty se foi sentar ao seu lado -, ela é tão novinha, não é?

- A juventude não é desculpa para a estupidez. E ainda por cima foi malcriada. - Ergueu o olhar e aquiesceu quando Cissy se juntou a elas. Fiquei surpreendida contigo.

- Comigo? Porquê?

- Por teres sido sincera, para variar. Cissy encolheu os ombros e sentou-se.

- Não vou negar que gosto de uma cena. É bom para agitar os dias mais aborrecidos. Mas não gosto do Bryce Clerk. Além disso, às vezes a verdade torna as coisas mais interessantes. Teria sido ainda melhor ver a Roz a dar um estalo àquela cabeça oca da Mandy. Mas esse não é o seu estilo declarou a Roz. Depois, tocou-lhe ao de leve na mão. - Se quiseres ir embora, eu vou contigo.

- Não, mas obrigada na mesma. Vou ficar por aqui.

Roz ficou na reunião até ao fim. Era uma questão de honra e de dever. Quando chegou a casa, mudou de roupa, saiu pelas traseiras e sentou-se no seu banco a apanhar ar fresco e a observar os sinais da Primavera que se aproximava.

Os bolbos estavam a germinar, os narcisos e os jacintos iriam florir dali a pouco tempo. Os açafrões já estavam em flor. Chegavam tão cedo, pensou, e desapareciam tão depressa.

Podia ver os botões fechados das azáleas e o leve brilho da forsítia.

Ali sentada, o controlo que a sustentava cedeu e, por fim, permitiu-se sentir-se abalada. Pela raiva, pela ofensa, pelo mau humor, pela mágoa. Ali sentada, sozinha no sossego que a rodeava, ofereceu-se a dádiva de mergulhar num oceano de emoções negativas.

Ali sentada, a fúria explodiu e depois desvaneceu-se, até que finalmente conseguiu voltar a respirar.

Decidiu que tomara a atitude correcta. Enfrentara a situação, embora detestasse fazê-lo em público. Mesmo assim, era sempre melhor enfrentar uma discussão do que fugir.

Interrogou-se se ele julgara que o faria. Teria pensado que ela cederia em público, fugindo depois, humilhada, para lamber as feridas?

Imaginou que sim. Bryce nunca a percebera.

John entendera-a, pensou, olhando para o caramanchão onde as rosas dele dariam flor da Primavera ao Verão e durante uma boa parte do Outono. Compreendera-a e amara-a. Ou pelo menos compreendera e amara a jovem que fora.

Teria amado a mulher em que se transformara? Uma coisa estranha em que pensar, concluiu, recostando a cabeça e fechando os olhos. Talvez não fosse a mulher que era se ele estivesse vivo.

- Ele tinha-te deixado. É o que todos fazem. Tinha-te mentido, enganado e magoado. Estaria com prostitutas, enquanto tu estarias à espera. É o que todos fazem. Eu bem sei.

”Não, o John não”, pensou, cerrando ainda mais os olhos, ”enquanto ouvia a voz a sibilar na sua mente.”

- Melhor para ti que ele tenha morrido, em vez de ter vivido o suficiente para te arruinar. Como o outro. Como aquele que agora estás a meter na tua cama.

- És mesmo mesquinha por tentares macular a memória e a honra de um homem bom - murmurou Roz.

- Roz. - A mão que sentiu no ombro fê-la dar um salto. - Desculpa disse Mitch. - Estavas a falar a dormir?

- Não. - Será que ele não sentia o frio ou estaria apenas dentro de si? No seu interior, a par do nó no estômago. - Não estava a dormir. Estava só a pensar. Como sabias que estava aqui?

- O David disse que te viu pela janela e que vinhas para aqui. Está frio para ficar ao ar livre muito tempo. - Pegou-lhe na mão e, sentando-se, esfregou-a entre as suas. - Tens as mãos frias.

- Elas estão bem.

- Mas tu não estás. Pareces triste.

Pensou um pouco e depois fez por se recordar de que certas coisas não podiam ser pessoais. Ele trabalhava para si.

- Sim, acho que estou um pouco triste. Ela estava a falar comigo. Na minha cabeça.

- Agora? - As suas mãos apertaram as dela.

- Hum. Interrompeste a nossa conversa, embora da parte dela fosse a mesma história de ”os homens serem traiçoeiros”.

Mitch perscrutou o jardim.

- Duvido que Shakespeare fosse capaz de inventar um fantasma mais determinado do que a tua Amélia. Estava à espera de que fosses à biblioteca, por várias razões. Esta é uma delas. - Virou-lhe o rosto para si e beijou-lhe os lábios. - Passa-se alguma coisa - declarou. - Há mais qualquer coisa.

Como poderia lê-la tão bem? Como conseguiria ver o que ela fora capaz de esconder da maior parte das pessoas?

- Não, é só mau humor. - Mas retirou a mão das dele. - Houve um pouco de histerismo feminino esta noite. Os homens são muito menos propensos ao drama, não são?

- Porque não me contas o que se passou?

- Não vale a pena.

Mitch fez menção de voltar a falar e Roz sentiu-o controlar a vontade de a pressionar. Em vez disso, apontou o seu ombro. - Queres deitar aqui a cabeça?

-O quê?

- Aqui. - Para garantir que ela o fazia, envolveu-lhe a cintura com o braço e aproximou-a de si. - Que tal?

Roz deixou-se ficar e esboçou um sorriso.

- Não é mau.

- E o mundo não parou por te teres apoiado em alguém por um momento.

- Pois não. Obrigada.

- Não tens de quê. Bem, outros motivos para querer que fosses ter comigo enquanto estava a trabalhar: queria dizer-te que escrevi à tua prima Clarise Harper. Se não tiver notícias dela durante a semana, volto a escrever-lhe. E tenho várias árvores genealógicas pormenorizadas para ti: dos Harpers, da família da tua mãe, da família do teu primeiro marido. Por acaso, encontrei uma Amélia Ashby. Não, deixa a cabeça onde está insistiu, retendo-a quando Roz tentou endireitar-se. - Na minha opinião, não está relacionada, pois viveu e morreu no Louisiana e é demasiado contemporânea. Passei algum tempo a investigar os ascendentes, para ver se a conseguia ligar à tua Amélia, por causa da questão do nome, mas não deu em nada. Troquei alguns e-mails com a bisneta da governanta que trabalhou na Harper House entre 1887 e 1912. É advogada em Chicago e considera a história da família suficientemente interessante para fazer alguma investigação. Pode vir a ser uma boa fonte, pelo menos quanto a esse ramo.

Acariciou-lhe o braço com gentileza, descontraindo-a.

- Tens andado ocupado.

- Em boa parte, são procedimentos habituais. Mas tenho andado a pensar nas partes menos usuais do nosso projecto. Quando fizemos amor...

- Isso insere-se em que parte do nosso projecto?

Mitch riu-se do tom seco e esfregou a face no cabelo dela.

- Estou a incluí-lo numa coluna extremamente pessoal e espero juntar muitas páginas ao ficheiro. Mas vais ver que está relacionado. Ela manifestou-se... o termo será esse, certo?

- Não me lembro de palavra melhor.

- Escancarou portas, fechou-as, fez os relógios bater as horas, e por aí fora. Não há dúvida de que deixou bem patente o que sentia em relação

ao que se estava a passar entre nós e ao que se passou desde que iniciámos o ficheiro pessoal.

- E daí?

- Não fui o primeiro homem com quem mantiveste uma relação pessoal naquela casa.

- Não, não foste.

- Mas nunca referiste tempestades semelhantes por causa do John Ashby ou do Bryce Clerk... ou de alguém com quem possas ter tido uma relação.

- Porque nunca tinha acontecido.

- Está bem, está bem. - Levantou-se e andou de um lado para o outro enquanto falava. - Moravas nesta casa quando namoraste com o John Ashby e quando ficaram noivos.

- É claro, esta foi sempre a minha casa.

- Ficaram aqui muitas vezes depois de casarem e mudaram-se para cá quando os teus pais faleceram.

Roz podia ver que ele estava a organizar um raciocínio. Corrigiu-se. Já estava organizado. Limitava-se a explicar-lhe os passos para a deixar a par de tudo.

- Passávamos cá muito tempo. A minha mãe não estava bem e muitas vezes o meu pai não era capaz de lidar com a situação. Quando ele morreu, viemos para cá a título informal. Quando ela morreu, mudámos de vez.

- E durante esse tempo a Amélia nunca se opôs a ele? Ao John?

- Não. Deixei de a ver quando fiz, hum, onze anos, por aí, e só voltei a vê-la depois de estar casada. Tínhamos casado havia pouco tempo, mas já estávamos a tentar ter filhos. Pensei que pudesse estar grávida e não conseguia dormir. Vim cá fora, sentei-me no jardim e vi-a. Quando a vi, tive a certeza de que estava grávida. Vi-a de cada vez que fiquei grávida. Vi-a e ouvi-a, é claro, quando os miúdos eram pequenos.

- O teu marido alguma vez a viu?

- Não. - Franziu a testa. - Não, não a viu. Ouviu-a, mas nunca a viu. Eu vi-a na noite em que ele morreu.

- Não me tinhas contado.

- Não te disse todas as vezes em que eu... - Interrompeu-se e abanou a cabeça. - Não, desculpa, não te contei. Nunca falei com ninguém sobre o assunto. É muito pessoal e ainda é muito doloroso.

- Não sei como é amar e perder alguém, como perdeste o teu John. Sei que parece que estou a bisbilhotar, o que até é verdade. Mas está tudo ligado, Roz. Para fazer o meu trabalho, tenho de saber esse tipo de coisas.

- Quando te contratei não imaginei que o fizesses. Que tivesses de ficar a saber de coisas pessoais. Espera. - Ergueu a mão antes que ele pudesse

falar. -Já compreendo melhor. O teu método de trabalho, como tentas ver as coisas. As pessoas. O quadro na biblioteca, as fotografias, para que possas ver quem eram. Todos os pormenores que juntas. É mais do que eu esperava. Acho que estou a dizê-lo no bom sentido.

- Tenho de me envolver.

- Como se fosses um poeta brilhante e torturado - disse ela, aquiescendo. - Também acredito que tenhas de saber e que vou ser capaz de te contar estas coisas, devido ao que nos estamos a tornar um para o outro. Ao mesmo tempo, talvez seja por isso que me custa falar contigo. Não é fácil aproximar-me de alguém, de um homem. Confiar e desejar.

- Queres simplificar? Roz abanou a cabeça.

- Como podes conhecer-me já tão bem? Não, não quero simplificar. Desconfio das coisas simples. Tu ocupas os meus pensamentos, Mitchell. É um elogio.

- Digo o mesmo.

Observou-o ali de pé, forte e vivo, com o caramanchão e as rosas adormecidas atrás dele. Com o calor e com o sol, as rosas despertariam. Mas John, o seu John, desaparecera.

- O John tinha ficado até mais tarde no escritório, em Memphis, por causa de uma reunião. O piso estava escorregadio. Tinha chovido, a estrada estava molhada e havia nevoeiro. - Sentiu um aperto no coração, tal como acontecia sempre que se recordava. - Houve um acidente. Alguém que vinha com muita velocidade galgou o separador central. Eu estava acordada, à espera e a tratar dos miúdos. O Harper tinha tido um pesadelo e o Austin e o Mason estavam engripados. Tinha acabado de os deitar e ia para a cama, um pouco irritada com o John por ele ainda não ter chegado a casa. E lá estava ela, de pé no meu quarto. - Soltou uma gargalhada breve e passou a mão pelo rosto. - Fiquei aterrada a pensar, oh, que raio, será que estou grávida? Acredita, naquele momento, depois de lidar com três crianças rabugentas, não estava com grande disposição. Mas havia qualquer coisa nos olhos dela que não batia certo. Estavam demasiado brilhantes e, talvez, perversos. Assustou-me um bocadinho. Depois chegou a polícia e, bem, já não estava a pensar nela.

A voz permanecera firme durante o relato, mas os olhos, os belos e profundos olhos, reflectiam a dor.

- Deve ter sido muito, muito difícil. Nem sequer consigo imaginar quanto.

- A tua vida pára nesse momento. Pura e simplesmente, pára. E quando recomeça, é diferente. Não volta a ser como era até àquele instante. Nunca mais.

Mitch não lhe tocou, não a reconfortou, não a apoiou. Naquele momento, o que lhe ia no coração, ali no jardim invernal, era de outra pessoa.

- Não tinhas ninguém. Nem mãe, nem pai, nem irmãos.

- Tinha os meus filhos. Tinha esta casa. Tinha-me a mim. - Desviou o olhar e Mitch pôde vê-la a regressar, a fechar a porta do passado. - Estou a ver onde queres chegar, e não a entendo. Ela nunca se deu ao trabalho de protestar, nem por causa do John, nem de ninguém com quem tenha estado depois, nem por causa do Bryce. Ocasionalmente, demonstrava o seu desagrado... já te falei sobre isso. Mas nada à escala do que fez recentemente. Porque será?

- Tenho andado a tentar percebê-lo. Já tenho algumas teorias. Mas antes de te falar nelas, vamos entrar. A luz está a desaparecer e tu vais ficar gelada. Não tens muita carne nos teus ossos. Não estou a queixar-me acrescentou, quando ela semicerrou os olhos.

Roz acentuou de propósito o sotaque sulista.

- Venho de uma linhagem de mulheres com constituições delicadas.

- Tu não tens nada de delicado - corrigiu-a, dando-lhe a mão quando se dirigiram para a casa. - Tu és uma rosa selvagem... uma rosa negra com muitos espinhos.

- As rosas negras não são selvagens. Têm de ser cultivadas. E nunca houve quem conseguisse uma rosa completamente negra.

- Uma rosa negra - repetiu, e levou as mãos unidas aos lábios. - Rara e bela.

- Se continuas a falar assim, vou ter de te convidar para os meus aposentos privados.

- Estava a ver que nunca mais dizias nada.

 

- Acho que te devia contar - começou Roz a dizer enquanto se dirigiam para a casa - que o meu... agregado familiar está muito interessado na minha relação mais pessoal contigo.

- Não faz mal, eu também estou. Interessado na minha relação pessoal contigo.

Roz olhou para as suas mãos dadas e pensou na concepção maravilhosa destas que fazia com que os dedos se encaixassem tão bem.

- A tua mão é bastante maior do que a minha. Tens a palma mais larga e os dedos mais compridos. E vês como os teus dedos são direitos nas pontas, ao passo que os meus afunilam ligeiramente? - Ergueu o braço, o que deixou as mãos ao nível dos olhos. - Mas combinam muito bem.

Com uma gargalhada breve, Mitch pronunciou o nome dela. Disse-o com ternura. Rosalind. Depois, fez uma pausa e inclinou a cabeça para que os lábios se tocassem.

- Isto também.

- Estava a pensar o mesmo. Mas prefiro manter esses pensamentos e esse interesse pessoal entre nós dois.

- Não é fácil, pois temos outras pessoas nas nossas vidas. O meu filho quis saber onde tinha desencantado aquela linda morena com quem eu estava no jogo com os Ole Miss.

- E contaste-lhe?

- Disse-lhe que finalmente tinha conseguido fazer com que a Rosalind Harper reparasse em mim.

- Reparei em ti muitas vezes - retorquiu Roz. Quando começaram a subir a escadaria que levava ao terraço, lançou-lhe mais um olhar. - Mas habituei-me a ser egoísta em relação à minha vida privada. Não vejo porque não havemos de nos apreciar um ao outro sem termos de fazer relatórios acerca da nossa vida sexual.

Estendeu a mão para a porta do terraço, que se escancarou, falhando-lhe o rosto por pouco. Uma rajada de vento gelado saiu do quarto, obrigando-a a recuar um passo antes que Mitch a conseguisse agarrar, protegendo-lhe o corpo com o seu.

- Boa sorte! - gritou, acima do uivo do ar.

- Não vou tolerar isto. - Furiosa, empurrou-o e esforçou-se por entrar.

- Não vou tolerar este tipo de coisas na minha casa!

As fotografias saltaram das mesas como mísseis, enquanto os candeeiros acendiam e apagavam. Uma cadeira atravessou o quarto, indo chocar contra uma cómoda, com uma violência que fez com que o vaso de orquídeas da estufa começasse a rodopiar. Quando viu escorregar o espelho que os filhos lhe tinham dado, correu para o agarrar.

- Pára já com esta estupidez. Não vou aturar isto.

Fizeram-se ouvir estrondos, monstruosos punhos irados a bater nas paredes, dentro das paredes, e o chão tremeu-lhe debaixo dos pés. Um grande frasco de perfume explodiu, uma bomba de cristal que lançou pedaços de vidro como fragmentos de uma granada.

Roz estava de pé no meio da tempestade, agarrada ao espelho, e o seu grito, que se fez ouvir acima das explosões de vidro estilhaçado, dos fortes estrondos, foi frio como o gelo. - Vou parar com todas as tentativas de descobrir quem és, de corrigir o mal que te foi feito. Vou fazer tudo o que for preciso para te expulsar desta casa. Vais deixar de ser bem-vinda. Esta casa é minha - bradou, quando irromperam chamas da lareira e o castiçal em cima desta começou a subir em círculos. - E garanto-te que te vou arrancar daqui. Juro por Deus que te expulso desta casa.

O ar sossegou de imediato e tudo o que estivera a voar caiu no chão, com baques secos ou sons de coisas a partirem-se.

A porta abriu-se naquele instante. David, Logan e Stella entraram no momento em que Harper chegava pelo terraço.

- Mamã. - Harper ergueu-a do chão, com os braços à volta dela. - Estás bem?

- Estou bem. Estou óptima.

- Não conseguíamos entrar. - Stella tocou nas costas de Roz com a mão trémula. - Não éramos capazes de abrir a porta.

- Já está tudo bem. Onde estão as crianças?

- Com a Hayley. A Hayley está com elas lá em baixo. Quando ouvimos... meu Deus, Roz, parecia uma guerra.

- Vai dizer-lhe que está tudo bem. - Encostou o rosto ao de Harper antes de se afastar. - Vai.

- O que aconteceu aqui? - interrogou David. - Roz, mas que raio aconteceu aqui?

- Estávamos a entrar e ela opôs-se... com veemência.

- A tua mãe deu-lhe uma lição - explicou Mitch a Harper. - Mostrou-lhe quem manda nesta casa.

- Estás a sangrar - notou Harper.

- Ai, meu Deus. - Roz deixou o espelho nas mãos de Harper e correu para Mitch, tocando-lhe no golpe que tinha na face.

- Um bocado de vidro a voar. Nada de grave.

- Também tens golpes nas mãos. - Roz baixou as suas antes que começassem a tremer. - Bem, vamos limpá-las.

- Eu arrumo a confusão - ofereceu-se Stella.

- Não, deixa estar. Vai lá para baixo e confirma que a Hayley e os miúdos estão bem. Logan, devias levá-los para tua casa.

- Não te vou deixar sozinha. - Stella estava irredutível e abanou a cabeça. - E não há discussão.

- Eu fico por cá. - Logan passou o braço pelos ombros de Stella. - Se não te importares, é claro.

- Está bem. - Roz suspirou e pegou no espelho que Harper tinha nas mãos. - Se o tivesse partido, não era só um sermão que eu lhe dava. Voltou a colocá-lo no sítio e depois virou-se. Apertou a mão do filho. - Vai ficar tudo bem, meu querido. Prometo.

- Se ela te magoar, arranjo maneira de a expulsar.

- Tal mãe, tal filho. - Sorriu-lhe. - Disse-lhe o mesmo e, como parou o que estava a fazer, deve saber que eu estava a falar a sério. Vá, desçam. A Hayley não pode deixar os miúdos e já deve estar em pânico. Mitch, vem à casa de banho. Vou desinfectar esses golpes.

- Não quero que ela fique aqui sozinha - disse Harper, quando a mãe saiu do quarto.

- Não fica - assegurou-lhe Mitch.

Quando entrou na casa de banho, Roz já estava a humedecer um pano com água oxigenada.

- São só arranhões.

- O que não significa que não tenham de ser tratados. Como nunca fiz um curativo a ferimentos provocados pela raiva de um fantasma, vou tratar-te da maneira habitual. Senta-te.

- Sim, senhora. - Sentou-se e observou-lhe o rosto. - Nem sequer tens um arranhão.

- Hum? - Confusa, olhou para as mãos e depois para o rosto no espelho sobre o lavatório. - Acho que tens razão.

- Julgo que ela não te queria magoar. Não quer dizer que não o faça, directa ou inadvertidamente, visto ser demente. Mas foi um aviso. É interessante.

- Admiro um homem que é cortado por um fantasma que é uma cabra e que considera o caso interessante.

- Admiro uma mulher que discute com um fantasma que é uma cabra e sai vencedora.

- A casa é minha. - Suavizou o tom de voz quando lhe ergueu o queixo. - Pronto, isto não vai doer.

- É o que todos dizem.

Mas Roz limpou os golpes com mão firme e hábil, enquanto Mitch lhe ia fitando o rosto.

- Estás à procura de alguma coisa? - perguntou-lhe Roz.

- Estou a pensar se já te encontrei.

- Este falhou-te o olho por pouco. - Mais abalada do que queria admitir, baixou-se e passou com os lábios pelos ferimentos. - Pronto. - Recuou.

- Deves sobreviver.

- Obrigado. - Pegou-lhe nas mãos, os olhos verdes argutos sem deixar os dela. - Tenho algumas teorias.

- E eu estou ansiosa por as ouvir. Mas primeiro quero limpar aquela confusão e depois quero um copo de vinho. Um copo de vinho muito grande.

- Eu ajudo-te.

- Não, prefiro ser eu a fazê-lo. Na verdade, acho que tenho de o fazer.

- Assim é difícil. Estás sempre a pedir-me que me afaste.

- Pois é. - Passou-lhe a mão pelo cabelo. - Talvez ajude se te disser que me sinto reconfortada por saber que tens confiança suficiente em ti próprio para te afastares quando preciso que o faças.

- Talvez isso seja outra coisa em que encaixamos bem.

- Acredito que sim. Gostava que fosses lá abaixo ter com os outros. Dá-me meia hora para arrumar tudo. Assim, posso acalmar-me.

- Está bem. - Levantou-se. - Vou cá passar a noite. Vou aproveitar a deixa da Stella e dizer-te que não tens direito a argumentar. Mas podes usar essa meia hora para decidires se vou ficar aqui contigo ou se fico num quarto de hóspedes.

Deixou-a a franzir a testa.

Encontrou toda a gente na cozinha. ”Como se fosse uma família,” pensou, reunida no centro da casa com algo a ferver ao lume, um bebé a gatinhar no chão e dois rapazes a vestir os blusões, enquanto o seu cãozinho saltava, excitado.

Todos os olhares se dirigiram a Mitch e, após um instante de silêncio, Stella começou a falar alegremente com os filhos.

- Vá, deixem-no correr, mas afastem-se dos canteiros. Não tarda nada

vamos comer.

Seguiu-se uma certa agitação, latidos, um grito de alegria de Lily, e o cão e os rapazes saíram pela porta das traseiras, que deixaram bater. A mão de Stella deslizou para a de Logan.

- Como está ela?

- Firme, como é habitual. Quis meia hora. - Mitch olhou para Harper.

- Vou cá passar a noite.

- Óptimo. Acho que isso é bom - replicou Hayley. - Quantos mais, melhor. Acabamos por nos habituar a ter um fantasma em casa, mas o caso muda de figura quando ele começa a atirar-nos coisas.

- E, ao que parece, especificamente a ti - acrescentou Logan.

- Reparaste? - Mitch esfregou distraidamente a face cortada. - Interessante, não é? Houve muita fúria naquele quarto, mas nada, pelo menos nada tangível, foi dirigido à Rosalind. Diria que houve um certo cuidado para não a magoar fisicamente.

- Se não tivesse havido esse cuidado, ela já estava na rua. - Harper pegou em Lily quando esta tentou subir-lhe pela perna. - E não estou a falar da minha mãe.

- Não. - Mitch aquiesceu. - A Roz disse a mesma coisa.

- E está sozinha lá em cima - acrescentou David, ao que desviou o olhar do seu trabalho no fogão para o tecto. - Porque está a falar a sério. Toda a gente nesta casa, morta ou viva, sabe que ela está a falar a sério.

- E estamos todos cá em baixo, a deixá-la em paz, porque é ela que manda. - Logan encostou-se à bancada.

- Pode ser, mas, depois disto, ela vai ter de se habituar a largar as rédeas de vez em quando. Esse café é fresco? - perguntou Mitch, apontando para a cafeteira.

No andar de cima, Roz apanhou os restos dos tesouros pessoais que guardara no quarto. Pequenas recordações, pequenas memórias, todas desfeitas.

O pior fora ter sido uma destruição propositada, pensou. A destruição do que lhe era precioso devido a um temperamento egoísta.

- Como se fosse uma criança mimada - resmungou, enquanto dava outra vez um pouco de ordem ao quarto. - Não admiti esse comportamento nos meus filhos e não vou admiti-lo em ti. Sejas lá quem fores. - Endireitou a mobília e depois foi até à cama para a fazer outra vez. - É melhor que tenhas isso presente, Amélia. Lembra-te de quem é a senhora da Harper House.

Sentia-se melhor, muito melhor, por estar em acção, a arrumar o quarto, a dizer o que pensava, mesmo que fosse para um quarto vazio.

Mais calma, dirigiu-se à casa de banho. O cabelo, mesmo curto, estava espetado por causa do vento que assolara o quarto. Decidiu que não lhe dava bom aspecto. Penteou-se e retocou a maquilhagem. E pensou em Mitch.

Que homem fascinante. Não se lembrava do último homem que a fascinara. Era interessante e revelador que tivesse anunciado que ia passar a noite lá em casa. Não fora um pedido educado, apenas uma simples declaração. Deixara nas mãos dela a decisão sobre o quarto em que dormiria.

Sim, era um homem fascinante que conseguia ser ao mesmo tempo dominador e agradável numa única frase.

E ela queria-o. Era maravilhoso querer, precisar, sentir aquele desejo saudável a ferver dentro de si. Por certo, já ultrapassara a fase em que tinha de se negar um amante, e era inteligente quanto baste para reconhecer que esse amante era um homem que podia respeitar. Até mesmo confiar.

A confiança era um pouco mais difícil de conseguir do que o respeito e muito mais difícil do que o desejo.

Começariam, então, com o que tinham, decidiu, e logo veriam onde iriam parar.

Quando saiu, ouviu música, blues de Memphis a tocar baixinho, vinda da sua sala de estar. Voltara a franzir a testa quando se aproximou da porta.

A mesa de abas móveis tinha sido posta com jantar para dois: fatias do frango assado de David, puré de batata, espargos, biscoitos dourados.

Não fazia ideia como o jovem conseguira juntar os seus alimentos reconfortantes preferidos, mas o seu David era assim.

E lá estava Mitch, de pé à luz das velas, a servir-lhe um copo de vinho.

Sentiu o coração e o estômago darem um salto. Era uma sensação inesperada, pensou, ao mesmo tempo dura e chocante. Mais do que desejo, quando era apenas isso que queria. Mas ali de pé estava esse mais, com golpes nas mãos e no rosto, quer ela quisesse quer não.

Depois ele viu-a e sorriu-lhe.

”Ora bolas!” foi tudo o que conseguiu pensar.

- Imaginámos que preferisses um jantar sossegado - disse-lhe. - Uma acalmia no meio da tempestade. E, como queria falar contigo, não argumentei com os teus soldados.

- Soldados. Ora aí está um termo interessante.

- E apropriado quanto baste. O Harper era capaz de pegar na espada para te defender, sem pensar duas vezes... e imagino que com os teus outros filhos seja a mesma coisa.

- Gosto de acreditar que sou capaz de travar as minhas próprias batalhas.

- Mais uma razão para te defenderem. E depois temos o David. - Acercou-se dela e ofereceu-lhe o vinho. - O teu quarto filho, diria eu, em tudo menos em sangue. Ele adora-te.

- O sentimento é mútuo.

- E ainda temos o Logan. Não sei se ele iria gostar da imagem, mas vejo-o como um cavaleiro a defender a sua rainha.

Roz bebeu um gole de vinho.

- Também não sei se gosto da imagem.

- Mas aí fica.

Ergueu o copo de água e fez-lhe um brinde.

- Não és apenas a patroa dele, tal como não o és para a Stella e para a Hayley. E os miúdos? Passaste a fazer parte integrante da vida deles. Quando entrei na cozinha, vi uma família. És o centro dessa família. Construíste essa família.

Fitou-o e suspirou.

- Bem, não sei o que diga.

- Devias estar orgulhosa. Lá na cozinha tens um grupo de boas pessoas. Já agora, o Harper sabe que está apaixonado pela Hayley?

Quando voltou a fitá-lo, sentou-se.

- Tens mais intuição e és mais observador do que eu pensava, e olha que já te tinha em muito boa conta. Não, acho que ele não sabe... pelo menos não completamente. O que talvez explique o motivo por que ela não faz ideia desses sentimentos. Sabe que ele adora a Lily. Imagino que, neste momento, seja tudo o que ela vê.

- O que sentes quanto a isso?

- Quero que o Harper seja feliz e que consiga o que quer na vida. É melhor comermos antes que arrefeça.

Era uma forma educada, pensou Mitch, de lhe dizer que já falara o suficiente sobre as questões íntimas da família. Aquela mulher tinha regras, regras muito bem definidas. Seria um desafio bem interessante escolher quais as que iria quebrar, quando e como fazê-lo.

- Como te sentes?

- Estou bem. A sério. Só precisava de me acalmar um pouco.

- Pareces mais do que bem. Como consegues ser tão linda, Rosalind?

- A luz das velas favorece as mulheres. Se pudéssemos escolher, o Edison nunca teria inventado a maldita lâmpada.

- Não precisas de luz de velas. Roz ergueu as sobrancelhas.

- Se julgas que tens de me seduzir ao jantar para não te expulsar para um quarto de hóspedes, não precisas de te preocupar. Quero-te na minha cama.

- Mesmo assim, vou seduzir-te. Estava só a relatar factos. Mudando de assunto, este frango está uma delícia.

- Gosto de ti. Acho que é melhor dizê-lo de uma vez. Gosto de como tu és. Julgo que não andas a fingir, que és tu próprio. Nesse campo, é uma diferença agradável.

- Não minto. Já desisti disso há muito tempo, a par da bebida. É só o que posso prometer-te, Roz. Não te vou mentir.

- No que diz respeito a promessas, é aquela a que dou mais valor.

- Continuando, então, com esse tema, queria perguntar-te uma coisa. O que aconteceu há pouco, aquela... revolução, digamos assim. Foi uma novidade.

- Sim, e espero que tenha sido a primeira e última do género.

- Ela nunca se opôs ao teu noivado, nem ao casamento, com o John Ashby.

- Não, tal como já te tinha dito.

- Nem a qualquer relação posterior ou ao Clerk. Roz encolheu brevemente os ombros.

- Alguma irritação, digamos assim, intermitente. Desaprovação, incómodo, mas não fúria, nunca.

- Nesse caso, tenho uma teoria... algo que podes não gostar de ouvir. Mas, tal como não te vou mentir, também vou ser sincero, e espero que faças o mesmo.

- Deve ser interessante.

- Ela precisa de crianças. É isso que a reconforta ou que lhe dá alguma gratificação. Tu e o John trariam crianças para esta casa, por isso nunca se opôs. Ele era um meio para um fim.

- É uma teoria um pouco fria.

- Pois é, e ainda vai arrefecer mais. Assim que tiveram filhos, ele já não fazia falta, por isso a sua morte, na minha opinião, foi algo que ela julgou correcto, talvez mesmo justo.

Roz ficou sem pinga de sangue, o que lhe deixou o rosto pálido e horrorizado.

- Se estás a sugerir que ela possa ter causado...

- Não. - Estendeu as mãos e segurou as dela. - Não. Ela está limitada a esta casa, ao terreno. Não sou perito em paranormal, mas será assim que funciona. É o que faz sentido. Seja ela o que for, ou seja lá o que tenha, está centrado aqui.

- Sim. - Voltando a descontrair-se, aquiesceu. - Nunca tive nem ouvi dizer de ninguém que tivesse tido alguma experiência com ela para lá dos limites dos meus terrenos. Se tivesse acontecido alguma coisa, teria ficado a saber, tenho a certeza.

- Ela está limitada a este lugar e talvez a esta família. Mas duvido que a dor que tu e os teus filhos sentiram quando o John morreu a tenha afectado. E ela pode ser afectada. Vimos isso na Primavera passada, quando a Stella comunicou com ela, enquanto mãe. Vimo-lo hoje, quando a ameaçaste.

- Tens razão. - Aquiesceu e pegou no vinho. - Tens razão, estou a perceber, até agora.

- Quando voltaste a sair com homens, a ter amantes, ela ficou apenas levemente incomodada. Desaprovava, tal como disseste, e isso porque eles não te interessavam, pelo menos a um nível profundo. Não iam fazer parte da tua vida, desta casa, pelo menos a longo prazo.

- Estás a querer dizer que ela sabia?

- Ela está ligada a ti, Roz. Sabe o que se passa dentro de ti, pelo menos o suficiente para compreender o que sentes e pensas, coisas que podes não exprimir.

- Ela entra na minha cabeça - confirmou em voz baixa. -Já o senti. Não gosto disso. Mas então o que acontece à tua teoria se a ela juntarmos o Bryce? Casei-me com ele. E, embora por vezes ela tenha reagido, nunca foi nada forte, nada de violento.

- Não o amavas.

- Casei-me com ele.

- E divorciaste-te. Ele não era uma ameaça. Parece que ela o percebeu antes de ti. Pelo menos antes de teres consciência disso. Ele era... supérfluo, digamos assim, para a Amélia. Talvez fosse fraco, mas, qualquer que tenha sido a razão, não era uma ameaça do ponto de vista dela.

- Mas tu és.

- Claramente. Poderíamos dizer que tem a ver com o meu trabalho, mas isso não teria lógica. Ela quer que descubramos quem era, o que foi. Quer que trabalhemos nesse sentido.

- Em tão pouco tempo, pareces ter ficado a conhecê-la muito bem.

- É um conhecimento recente, mas intenso - frisou. - E entender os mortos faz parte do meu trabalho. Essa personalização acaba por ser o que mais me cativa. Ela ficou zangada por me teres deixado entrar na tua vida, na tua cama.

- Por não seres fraco.

- É verdade, não sou - concordou. - E também porque sou importante para ti ou virei a ser. Vou fazer de tudo para que assim seja. Nós dois estamos a caminho de algo importante.

- Mitch, estamos a ter um caso e, mesmo que não o encare de forma leviana...

- Rosalind. - Pegou-lhe nas mãos e fitou-a. - Sabes muito bem que estou a apaixonar-me por ti. Estou a apaixonar-me desde que abri a porta do meu apartamento e te vi. Deixa-me aterrado, mas isso não muda nada.

- Não sabia. - Recostou-se, a sua mão pressionou o coração, levou-a ao pescoço e voltou ao peito. - A sério, o que me torna tão desatenta como a Hayley. Julguei que partilhássemos uma grande atracção e respeito mútuo... Estás a rir de quê?

- Estás nervosa. Nunca te vi nervosa. E esta?

- Não estou nervosa. - Apunhalou o último pedaço de frango. - Estou surpreendida, só isso.

- Estás é com medo.

- Podes ter a certeza de que não estou. - Afastou-se da mesa com uma certa violência. - Podes ter a certeza de que não estou. Pronto, estou. Levantou-se quando Mitch se riu. - Pois, imagino que fiques satisfeito. Os homens adoram deixar as mulheres embaraçadas.

- Isso é um disparate.

Mesmo através do humor, Roz podia sentir uma certa dureza. Intrigada por ambos, voltou a aproximar-se.

- És um indivíduo com uma confiança em si próprio espantosa.

- Da primeira vez que o disseste, foi um elogio. Agora queres dizer que sou arrogante, o que agradeço e retribuo.

Teve de se rir com as palavras. Depois levou os dedos aos olhos.

-Ai, meu Deus. Meu Deus, Mitchell, não sei se consigo atravessar outra relação importante. Dão tanto trabalho. O amor é, tem de ser, tão envolvente, tão exigente. Não sei se tenho energia para isso, ou coragem, ou generosidade.

- Não duvido de que tenhas bastante dessas três características, mas vamos ver como as coisas correm. - Levantou-se. - Não vou dizer que me importo de te deixar um pouco nervosa - admitiu, aproximando-se. - Não há grande coisa que te abale, pelo menos que se veja.

- Não fazes ideia.

- Hum, acho que faço. - Envolveu-a com os braços e começaram a dançar, deslizando ao som da música. - Uma das coisas mais sensuais em ti é essa tua firmeza inabalável.

- Sou firme. - Ergueu a cabeça. - Quero que o meu contabilista seja firme, mas não quero ir com ele para a cama.

- Acho que isso é extraordinariamente sensual.

- A sedução faz parte do programa da noite?

- Estou só a começar. Importas-te?

Roz percebeu que ele a considerava firme e isso atraía-a. Fazia-a derreter e sentir-se querida.

- Fizeste-me a mesma pergunta da primeira vez que me beijaste. Na altura também não me importei.

- Adoro o facto de seres bela. É muito fútil de minha parte, mas tenho de o admitir. Um homem tem direito aos seus defeitos.

Divertida, passou com a ponta do dedo pela nuca dele.

- A perfeição é uma chatice... mas não contes à Stella que eu o disse.

- Nesse caso, nunca te irei chatear.

Tocou-lhe os lábios com os seus, uma, duas vezes, e depois, lentamente, mergulhou no beijo.

O calor atravessou-a, a vida, a emoção e o poder. Acompanhou o movimento daquela dança sensual, do beijo sensual, e deixou-se deslizar como uma mulher que se desloca sobre pétalas perfumadas. Sobre o luar. E entregou-se ao amor.

Ouviu uma porta a fechar-se devagar. Abriu os olhos e viu que tinha sido levada para o quarto.

- É um bailarino muito hábil, dr. Carnegie. - Depois riu-se quando ele a fez rodopiar. - Muito hábil.

Voltou a beijá-la e rodaram até que as costas de Roz ficaram encostadas à porta, até que o beijo se tornou mais forte. Depois as mãos percorreram-lhe os braços e Mitch afastou-se.

- Acende as velas - sugeriu. - Vou acender a lareira.

Abalada da cabeça aos pés, Roz apoiou-se à porta. Sentia o coração pleno e terno e cada batida era uma dor no peito. Quando se mexeu, fê-lo com cuidado, como uma mulher a deslizar pelas brumas de um sonho. E viu os dedos a tremer quando levou a chama ao pavio.

- Quero-te. - A sua voz era firme, pelo que ficou grata. - Um desejo mais forte e diferente de tudo o que já senti. Talvez seja porque...

- Não penses nisso. Pelo menos hoje.

- Está bem. - Viraram-se e fitaram-se. - Basta dizer que te quero, muito. Que isso me pressiona, o que não é exactamente confortável.

Aproximou-se dela à luz dourada e pegou-lhe nas mãos.

- Deixa-me mostrar-te o que sinto.

Ergueu-lhe as mãos e beijou-lhe uma palma, depois a outra. Tomou-lhe o rosto nas mãos e acariciou-lhe a face com os polegares, enquanto os dedos se aventuravam no cabelo.

- Deixa-me possuir-te - pediu, com a boca a roçar a dela. - Deixa-me possuir-te esta noite.

Estava a pedir-lhe que se rendesse, o que era algo muito forte. Mas entregou-lhe a boca e depois o corpo, à medida que as mãos dele passeavam por ela. E voltaram a dançar, rodando e rodopiando, com o prazer que lhe era oferecido a ser tragado como se de um bom vinho tinto se tratasse.

Ele despiu-lhe a camisa e murmurou-lhe ao ouvido, palavras sobre a sua pele, o seu perfume. E na dança pareciam flutuar.

Estava a dar-lhe o que ele pedira. Entrega. Mesmo lentamente, pouco a pouco sentia a maravilhosa rendição do seu ser. Despiu-a enquanto dançavam, com um cuidado extremo, com um prazer quase doloroso ao remover cada barreira que separava as suas mãos da pele dela.

Dançar à luz das velas, ao brilho da lareira, era profundamente erótico, o seu corpo nu contra o dele, ainda vestido. Ver a sua silhueta esguia ao espelho, a forma como a luz brincava sobre a pele, senti-la estremecer sob as suas mãos. Sentir o bater do coração sob a sua boca.

Quando a sua mão deslizou entre as coxas dela, sentiu o espasmo do corpo, ouviu a respiração suspensa.

Ela estava quente, já estava quente e húmida. E cravou-lhe as unhas nos ombros quando ele começou a tocar-lhe. Gestos breves que lhe entrecortavam a respiração e deixavam o coração dele aos saltos.

O corpo dela arqueou-se e depois fundiu-se no dele quando se veio. Tombou a cabeça para trás ao senti-lo continuar a estimulá-la; tinha os olhos vítreos e fixos.

Estava tão mole que ele quase a poderia despejar sobre a cama. Entreolharam-se com ele de pé, a despir-se.

Depois percorreu-lhe a perna com o dedo, ergueu-a, aproximou-se e beijou-a.

- Ainda há tanto que quero de ti.

”Sim”, pensou ela. Tanto. E, ao entregar-se, deu-lhe tudo o que ele queria.

As bocas encontraram-se e voltou a despertá-la, deixando-a sem fôlego, até que foi obrigada a agarrar-se à cama para não voar em pedaços.

Ele explorou-a e saboreou-a, deixando o ar denso e doce como mel e fazendo-a sentir o mais profundo e obscuro dos prazeres.

Ela ouvia-se a implorá-lo quando ele a penetrou. O ritmo lânguido nunca se alterou, levando-a a um desejo mais extremo com uma paciência quase brutal, uma fricção deliciosa e inebriante. Não tinha alternativa, perdera todo e qualquer controlo, apenas podia estremecer, apenas podia sentir o prazer, à medida que ele a levava gradualmente ao limite.

E, quando cedeu aquela última vez, foi como se voasse.

Continuava a tremer. Era ridículo, pensou. Era tolo, mas não conseguia parar. Sentia-se quente, demasiado, e só então percebeu que estavam ambos cobertos de suor.

Fora completamente seduzida e profundamente usada. Nenhuma das situações lhe desagradava.

- Estou a tentar pensar em qualquer coisa adequada para dizer. Mitch passou os lábios pelo seu pescoço.

- Que tal ”uau”?

Conseguiu mover os braços o suficiente para lhe passar a mão pelo cabelo.

- Talvez diga tudo. Vim-me três vezes.

- Quatro.

- Quatro? - Tinha a voz tão enevoada como a visão. - Devo ter perdido a conta.

- Eu não. - E o tom das suas palavras denotava uma satisfação atrevida, algo que lhe viu reflectido no rosto quando ele se deitou de costas.

- Uma vez que me sinto num estado tal de idílio, vou confessar que foi a primeira vez que me vim quatro vezes.

Mitch estendeu o braço, encontrou-lhe a mão e entrelaçaram os dedos.

- Miúda, fica comigo e não vai ser a última.

Ela soltou uma gargalhada provocante e apoiou-se no peito dele.

- És muito convencido.

- Podes crer.

- Eu também. - Deitou a cabeça no peito dele e fechou os olhos. - Vou correr por volta das seis.

- Da manhã?

- Sim. Se quiseres acompanhar-me, o Harper tem roupa no quarto aqui ao lado.

- Tá bem.

Ela deixou-se ir, como um gato aninhado para uma sesta.

- Ela deixou-nos em paz.

- Eu sei.

 

Vestindo fato e gravata e armado com uma dúzia de rosas amarelas e uma caixa de chocolates GodiVa, Mitch subiu de elevador até ao apartamento de Clarise Harper, no segundo andar do empreendimento para reformados. Tinha na pasta a carta que recebera, e o tom formal de dama sulista mostrara-lhe que se tratava de uma mulher que esperaria um fato e uma oferta floral, tal como Roz indicara.

Não estava a aceder a uma entrevista, pensou, mas era óbvio que lhe concedia uma audiência.

Na correspondência trocada, não houvera menção a Rosalind nem a qualquer residente da Harper House.

Tocou à campainha e preparou-se para ser encantador e persuasivo.

A mulher que abriu a porta era jovem, não teria mais de vinte anos, e vestia uma saia preta simples e conservadora, uma blusa branca e sapatos práticos rasos. O cabelo castanho estava apanhado na nuca, num penteado que não favorecia em nada o rosto jovem e magro.

A primeira impressão de Mitch foi de que se tratava de um cachorrinho calmo e bem comportado, que iria buscar chinelos sem deixar uma marca de dentes que fosse.

- Dr. Carnegie. Entre, por favor, a sr.a Harper está à sua espera. A voz calma e educada combinava com o resto.

- Obrigado. - Entrou directamente para a sala, equipada com uma mistura de antiguidades. Entre os vários estilos e eras, o seu olho de coleccionador avistou uma secretária Jorge III e uma estante Luís XVI.

As cadeiras de apoio deviam ser italianas e o sota vitoriano, todos prenunciavam um desconforto total.

Havia muita estatuária, cujos temas se cingiam quase em exclusivo às pastoras, aos gatos e aos cisnes, e vasos decorados quase na totalidade da sua área. Todos os objectos de porcelana e de cristal assentavam em napperons engomados.

As paredes eram de um rosa-claro e a carpete que ia de parede a parede estava quase oculta por vários tapetes com motivos florais.

O ar cheirava ao interior de uma arca de cedro que tivesse sido perfumada com alfazema.

Estava tudo cintilante. Imaginou que se um grão de poeira errante se atrevesse a invadir tal grandiosidade, o cachorrinho sossegado iria persegui-lo e bani-lo de imediato.

- Sente-se, por favor. Vou informar a sr.a Harper de que chegou.

- Obrigado, sr.a...

- Paulson. Jane Paulson.

- Paulson? - Percorreu mentalmente a árvore genealógica. - Então pertence à família do lado do pai da sr.a Harper.

Um breve vislumbre de cor assomou-lhe às faces.

- Sim. Sou sobrinha-neta da sr.a Harper. Com licença.

”Pobre jovem”, pensou, quando ela saiu. Ziguezagueou por entre a mobília e resignou-se a uma das cadeiras de apoio.

Momentos depois, ouviu um clique e passos, e a senhora apareceu.

Embora fosse magra como um espeto, não diria que parecesse frágil, apesar da idade. Era antes uma forma rija e resumida ao essencial, pensou à primeira vista. Usava um vestido roxo e apoiava-se numa bengala de ébano com cabo de marfim.

O cabelo era um capacete de um branco imaculado e o rosto, tão magro como o corpo, um mapa de rugas coberto por uma camada de pó-de-arroz e rouge. Os lábios finos eram de um vermelho intenso.

Tinha pérolas nas orelhas e no pescoço, e os dedos estavam cobertos de anéis que cintilavam como maçanetas de latão.

O cachorrinho seguia-lhe os passos.

Mitch sabia bem qual era o seu papel e levantou-se, chegando mesmo a fazer uma pequena vénia.

- Sr.a Harper, é uma honra conhecê-la. - Aceitou a mão que ela lhe estendeu e levou-a a um par de centímetros dos lábios. - Fico muito grato por ter conseguido uns minutos para me receber. - Ofereceu-lhe as rosas e os chocolates. - Um pequeno sinal do meu apreço.

A idosa senhora aquiesceu, num gesto que poderia ser de aprovação.

- Obrigada. Jane, vai pôr estas rosas adoráveis na jarra Minton. Sente-se, por favor, dr. Carnegie. Fiquei muito intrigada com a sua carta - continuou, enquanto se acomodava no sofá e apoiava a bengala no braço.

- Não é natural da zona de Memphis.

- Não. Sou de Charlotte, onde os meus pais e a minha irmã ainda vivem. O meu filho frequenta aqui a universidade e eu mudei-me para estar próximo dele.

- Divorciou-se da mãe dele, não foi?

Ela informara-se bem, pensou Mitch. Muito bem, ele também o fizera.

- Foi, sim.

- Não aprovo o divórcio. O casamento não deve ser uma decisão tomada de ânimo leve.

- É claro que não. Confesso que a culpa das nossas dificuldades maritais recai totalmente sobre os meus ombros. - Manteve os olhos fitos nos dela, penetrantes. - Sou alcoólico e, embora esteja em recuperação há muitos anos, causei muitos problemas à minha ex-esposa durante o nosso casamento. Satisfaz-me poder dizer que ela voltou a casar com um bom homem e que mantemos uma relação cordial.

Clarise contraiu os lábios de um vermelho brilhante e aquiesceu.

- Respeito um homem que assume a responsabilidade dos seus erros. Se um homem não consegue controlar a bebida, não deve beber. Não há alternativa.

Raio da velha.

- Sou a prova viva dessa máxima.

Permaneceu sentada e, apesar de quase oito décadas de desgaste, as costas continuavam direitas que nem um fuso.

- É professor?

-Já fui. De momento, trabalho a tempo inteiro com a pesquisa e redacção de histórias e biografias de famílias. O nosso passado é a nossa base.

- Certamente. - Desviou o olhar quando Jane entrou com as flores. Não, aí não - disse, com rispidez. - Ali, e tem cuidado. Vai buscar os refrescos. O nosso hóspede não pode ficar aqui sentado sem receber o mínimo de hospitalidade. - Voltou a dirigir a atenção para Mitch. - Está interessado na família Harper.

- Muito.

- Nesse caso, terá noção de que os Harpers não são apenas a minha base, mas uma parte fundamental da base de Shelby County e, na verdade, do estado do Tennessee.

- Sim, estou ciente disso e espero fazer justiça às suas contribuições. Razão pela qual a procurei em busca da sua ajuda, das suas recordações.

E na esperança de que me confiasse quaisquer cartas ou livros, quaisquer documentos escritos que me ajudem a escrever um relato fiel e pormenorizado da história da família Harper. - Ergueu o olhar quando Jane entrou, com um bule de chá e chávenas sobre um tabuleiro grande. - Deixe-me ajudá-la.

Quando se dirigiu à jovem, viu que os seus olhos saltavam para a tia. Obviamente nervosa, deixou-o levar o tabuleiro.

- Obrigada.

- Serve o chá, rapariga.

- A menina Paulson será sua sobrinha-neta por parte do seu pai - comentou Mitch, e voltou a sentar-se. - Deve ser reconfortante ter alguém da família junto de si.

Clarise meneou a cabeça, com um gesto nobre.

- O dever para com a família é essencial. Imagino, então, que já tenha feito bastante pesquisa.

- É verdade. Se me permite. - Abriu a pasta e retirou o dossier que preparara para ela. - Imaginei que pudesse gostar de ficar com isto. É a genealogia, uma árvore genealógica, que elaborei.

Aceitou o ficheiro e abanou os dedos no ar. Jane apresentou-lhe um par de óculos de leitura presos a uma corrente de ouro. Enquanto ela lia os papéis, Mitch esforçou-se por engolir o fraco chá de ervas.

- Quanto é que cobra?

- É uma oferta, sr.a Harper, pois não requisitou os meus serviços. Sou eu que lhe solicito a sua ajuda para um projecto que desejo explorar.

- Que fique bem claro, dr. Carnegie, que não irei tolerar que me peçam fundos mais tarde.

- Perfeitamente claro.

- Estou a ver que recuou até ao século xvII, quando os primeiros elementos da minha família imigraram da Irlanda. Pretende recuar ainda mais?

- Sim, embora o meu plano seja centrar-me mais na família do Tennessee, aquilo que construíram depois de terem vindo para a América. A indústria, a cultura, o seu papel de liderança nesses dois campos, bem como na sociedade. E, o mais importante para os meus objectivos, a própria família. Os casamentos, os nascimentos, as mortes.

Os olhos por detrás das lentes dos óculos de leitura eram como os de um falcão. Predatórios.

- Porque incluiu os empregados?

Hesitou sobre o que responder, mas seguiu o seu instinto.

- Simplesmente por fazerem parte da casa, parte da estrutura. Na verdade, mantenho-me em contacto com a descendente de uma das governantas da Harper House do tempo da infância da sua mãe,. Victoria Harper. A vida quotidiana dos Harpers, bem como as festas por que são famosos, são elementos fundamentais do meu livro.

- E a roupa suja? - Fungou com nobreza. - Aquela conhecida dos criados?

- Garanto-lhe que não pretendo escrever uma obra ficcional, mas sim uma história da família pormenorizada, factual e exaustiva. Uma família como a sua - disse, apontando para o dossier - teve, por certo, os seus triunfos e as suas tragédias, as suas virtudes e os seus escândalos. Não posso, nem vou, excluir nada que a minha pesquisa revele. Mas acredito que a história da sua família, e o seu legado, manter-se-á acima de qualquer das suas falhas humanas.

- E as falhas e os escândalos dão-lhe um certo picante... o picante vende.

- Não vou negá-lo. Mas, com as suas informações, o livro terá um peso muito mais forte do lado positivo, por assim dizer.

- Digamos que sim. - Pousou o dossier e deu um gole no chá. - Imagino que já tenha entrado em contacto com Rosalind Harper.

- Sim.

- E... ela está a colaborar?

- A sr.a Harper tem sido de uma grande ajuda. Passei algum tempo na Harper House. É fabulosa. Um tributo a tudo o que a sua família construiu desde que veio para Shelby County. Um tributo ao encanto e à graciosidade, bem como à continuidade.

- Foi o meu trisavô que construiu a Harper House e foi o filho que a preservou durante a Guerra da Agressão Nortista. Foi o meu avô que alargou e modernizou a casa, ao mesmo tempo que manteve a sua história e as suas tradições.

Mitch aguardou um momento, esperando que ela continuasse, que referisse a contribuição do tio para o património. Mas quando ela se deteve, Mitch limitou-se a aquiescer.

- A Harper House é um testemunho da sua família e um tesouro de Shelby County.

- É a casa mais antiga do país onde sempre viveu a mesma família. O que é facto é que não há termo de comparação, nem no Tennessee nem em qualquer outro lado. É uma pena que o meu primo não tenha conseguido ter um filho para preservar o nome da família.

- A sr.a Harper usa o nome da família.

- E tem uma florista na propriedade. - Demonstrou o seu desprezo com mais uma fungadela e um acenar dos dedos carregados de anéis.

- Espera-se que o seu filho mais velho, quando a herdar, tenha mais siso e

dignidade, embora não veja sinais disso.

- A sua família esteve sempre ligada ao comércio, à indústria e aos

negócios.

- Nunca em casa. Poderei decidir conceder-lhe a minha colaboração,

dr. Carnegie, pois a minha prima Rosalind não é, de todo, a melhor fonte

para a história da nossa família. Poderá inferir que estamos de relações

cortadas.

- Lamento sabê-lo.

- Nem poderia ser de outra forma. Ouvi dizer que até tem estranhos a

morar lá em casa, e uma dessas pessoas é uma ianque.

Mitch aguardou um momento e percebeu que teria de o confirmar.

- Creio que são hóspedes, e uma delas é um parente distante por parte

do primeiro marido da sr.a Harper.

- Com um filho fora do casamento. - Os lábios fortemente pintados

comprimiram-se. - Uma vergonha.

- É uma... situação delicada, mas que acontece com frequência em

qualquer família. Por acaso, uma das lendas que ouvi sobre a casa, sobre a

família, tem a ver com o fantasma de uma jovem que poderá ter estado nessa mesma situação delicada.

- Disparates.

Mitch quase pestanejou. Não se lembrava de alguma vez ter ouvido

esse termo utilizado em discurso verbal.

- Fantasmas. Seria de esperar que um homem com a sua educação

fosse mais razoável.

- Tal como os escândalos, sr.a Harper, os fantasmas dão cor a uma narrativa. E a lenda da Noiva Harper é bastante conhecida na zona. Por certo

terá de ser mencionada em qualquer história pormenorizada sobre a família. Seria surpreendente se uma casa tão antiga e rica em história como a Harper House não fosse tida como assombrada. Deve ter crescido a ouvir contar a história.

- Conheço a história e, mesmo em criança, tinha juízo suficiente para não acreditar em tais disparates. Há quem o considere romântico. Eu não.

- Se fizer um bom trabalho, vai descobrir que não houve naquela casa uma

noiva Harper que tivesse morrido jovem. É isso que dizem do fantasma.

Pelo menos desde que a história começou a circular.

- E quando terá tido início?

- Segundo se diz, no tempo do meu avô. Até os seus papéis - indicou, batendo com o dedo no dossier - refutam esses disparates. A minha avó viveu até uma idade provecta, tal como a minha mãe. As minhas tias não eram jovens quando faleceram. A minha bisavó e todas as suas filhas que sobreviveram à infância morreram com mais de quarenta anos.

- Ouvi teorias que dizem que este fantasma é um parente ainda mais distante, talvez mesmo uma hóspede ou uma criada.

- Todas elas são um absurdo.

Mitch exibiu um sorriso agradável e aquiesceu, como se concordasse.

- Mesmo assim, é bom para o mito. Portanto, que saiba, ninguém da sua família chegou a ver essa noiva lendária?

- Claro que não.

- É pena, teria sido um capítulo interessante para o livro. Esperava encontrar alguém com uma história para contar ou que a tivesse registado num diário. Em relação aos diários, num sentido mais prosaico, gostaria de incluir alguns na minha pesquisa, de utilizá-los para personalizar a história da família. Tem algum que tenha sido escrito pela sua mãe ou pelo seu pai, ou por algum antepassado? Talvez da sua avó ou das avós da sua mãe, tias ou primas?

-Não.

Pelo canto do olho, viu Jane abrir a boca, como se fosse dizer alguma coisa, e voltar a fechá-la rapidamente.

- Espero que me permita voltar a entrevistá-la com mais profundidade sobre pormenores ou relatos que esteja disposta a partilhar. E também que não se importe de partilhar fotografias, talvez fornecer-me cópias, por minha conta, que possam ser incluídas no livro.

- Vou pensar seriamente no assunto e entrarei em contacto consigo assim que tomar uma decisão.

- Obrigado. Agradeço-lhe o tempo que disponibilizou. - Levantou-se e estendeu-lhe a mão. - A sua família interessa-me bastante e foi um prazer falar consigo.

- Adeus, dr. Carnegie. Jane, acompanha o senhor.

À porta, estendeu a mão a Jane e sorriu-lhe, fitando-a directamente nos olhos.

- Foi um prazer conhecê-la, menina Paulson. Dirigiu-se ao elevador e esperou que as portas se abrissem.

A velha sabia qualquer coisa, algo que não queria partilhar. E o cachorrinho sossegado também sabia.

Roz atravessou o seu bosque até casa na melhor das disposições. A venda de Primavera estava quase a chegar. A estação iria começar em grande e o trabalho seria muito, duro e físico. Ia adorar cada momento.

A terra nova já começara a ser vendida e, assim que a estação tivesse início, os sacos de doze quilos iam vender como pão quente.

Sentia-o.

Tinha de admitir que, na verdade, sentia tudo. O cheiro a Primavera no ar, os raios de sol que passavam pelos ramos, o movimento solto e fluido dos seus músculos.

Não admirava que assim estivessem depois da noite anterior, pensou.

Pelo amor de Deus, quatro orgasmos. E Mitch era um homem de palavra,

”Fica comigo”, dissera, ”e não vai ser a última vez”.

Provara-o a meio da noite.

Fizera sexo duas vezes naquela noite, o que merecia ser registado no

calendário.

Com John... eram jovens e não se fartavam um do outro. Mesmo depois dos filhos, a vertente sexual do casamento fora essencial.

Depois passara muito, muito tempo até que permitisse que outro homem lhe tocasse. Para dizer a verdade, nenhum o fizera. Pelo menos para além do nível físico.

Bryce não o fizera. Mas, pelo menos durante algum tempo, ela pensara que a culpa fosse sua, da sua natureza. Não o amara, pelo menos a um nível mais profundo. Mas gostara dele, apreciara-o e, definitivamente, sentira-se atraída por ele.

Fora uma estupidez, mas isso não vinha ao caso. O sexo tinha sido adequado, quando muito, e adequado chegava-lhe. Ela queria e precisava de companheirismo.

Desde o divórcio, para dizer a verdade, desde bastante tempo antes disso, fora celibatária. Tinha sido uma escolha pessoal e, para si, a correcta. Até Mitch chegar.

Agora, ele virara-a do avesso e, céus, como era gratificante. E era um alívio, caso fosse necessário, saber que o seu impulso sexual continuava vivo.

Ele dissera que estava a apaixonar-se por ela, o que lhe provocava um nó no estômago. O amor tinha ainda um significado específico. Casamento e família. Algo demasiado grandioso para ser encarado de forma leviana.

Não voltara a olhar para o casamento levianamente, por isso também não podia ver o amor, aquilo que considerava o seu precursor, como algo banal.

Mas podia apreciá-lo e ao que sentira naquela noite espectacular, e era isso que faria.

Atravessou o relvado e viu que os primeiros narcisos a florir eram de um amarelo cor de manteiga. Talvez fosse buscar a tesoura e cortasse alguns para o quarto.

Quando se aproximou da casa, viu Stella e Hayley na varanda e acenou-lhes.


- Cheira-me a Primavera - disse-lhes. - Temos de começar... - Calou-se quando viu as suas expressões. - Vocês estão com um ar muito solene. Há problemas?

- Não exactamente. A sr.a Haggerty esteve hoje na loja - explicou Stella.

- Passa-se alguma coisa com ela?

- Com ela, não. Mas queria saber como tu estavas, se estavas bem.

- Porque não havia de estar?

- Estava preocupada com a cena no clube de jardinagem, com medo de que te tivesse deixado perturbada.

- Ah. - Roz encolheu os ombros. - Ela já devia saber que isso não me perturba.

- Porque não nos contaste? - protestou Stella.

- Desculpa?

- Ela disse que aquela cabra, aquela Barbie ambulante, te insultou à frente de todos - atalhou Hayley. - Que andava a espalhar mentiras e boatos e que te acusou de molestar aquele idiota com quem anda.

- Parece que já estão na posse da maior parte dos factos. Devia ter acrescentado, caso não o tenha feito, que a Mandy saiu de lá ridicularizada e que de certeza ficou mais embaraçada com a situação do que eu.

- Não nos contaste - repetiu Stella.

- Porque havia de contar? - O seu tom era altivo.

- Porque, quer ela tenha ou não ficado mais embaraçada, de certeza que te perturbou. E mesmo que sejas a patroa e blá, blá, blá...

- Blá, blá, blá?

- E que metas um bocadinho de medo - acrescentou Stella.

- Um bocadinho?

- O factor receio diminuiu bastante ao longo do último ano.

- Não tenho medo de ti - declarou Hayley. Depois, quando Roz a fitou com um olhar frio, baixou os ombros. - Muito.

- Mesmo que sejamos tuas empregadas, somos tuas amigas. Ou pensávamos que éramos.

- Pelo amor de Deus. As raparigas são tão mais complicadas do que os rapazes. - Com um suspiro profundo, Roz deixou-se cair no banco de baloiço do alpendre. - É claro que somos amigas.

- Bem, se somos amigas, especialmente por sermos raparigas - prosseguiu Hayley, sentando-se ao lado de Roz -, devias contar-nos quando uma cabra magricela fala mal de ti. Se não for assim, como é que ficamos a saber que lhe tens um pó de morte? Como é que ficamos a saber que temos de pensar em coisas maldosas para dizer sobre ela? Por exemplo, cá está uma. Sabias que setenta e três por cento das mulheres cujo nome termina com o som Y, são cabeças-de-vento?

Roz ficou em silêncio por um instante.

- Esse é um daqueles teus factos ou acabaste de o inventar?

- Está bem, fui eu que o inventei, mas aposto que é verdade se fizerem

a pinta do Y com um coraçãozinho... depois dos doze anos. E aposto que

ela faz isso. Portanto, cabeça-de-vento.

- É uma tola que acredita num mentiroso muito convincente.

- Continuo a defender a opção da cabeça-de-vento.

- Ela não tinha o direito de dizer aquelas coisas, quer fosse à tua frente,

quer fosse nas tuas costas.

Stella sentou-se do outro lado de Roz.

- Pois não, não tinha, e o mal foi para ela. E sim, está bem, na altura fiquei um pouco perturbada. Não gosto que a minha vida privada seja discutida em público.

- Pois, nós não somos público - declarou Hayley com firmeza.

Roz não disse nada por momentos e tocou brevemente na perna de

cada uma delas.

- Tal como disse, as mulheres são mais complicadas do que os homens

e, mesmo sendo mulher, acho que percebo melhor os homens. Não queria magoá-las ao guardar este assunto para mim.

- Só queremos que saibas que estamos aqui para o que precisares, para os bons e para os maus momentos.

As palavras de Hayley tocaram-na.

- Nesse caso, é bom que saibam que já esqueci a Mandy há muito tempo, tal como costumo fazer com as pessoas que são irrelevantes. E estou demasiado bem-disposta para me preocupar com ela agora. Quando uma mulher, especialmente à beira dos cinquenta, encontra um amante que tem um belo desempenho duplo numa noite, tão bom que ela precisa dos dedos de ambas as mãos para contar o número de orgasmos sentidos, a última coisa em que ela pensa é numa rapariga tonta sem educação. -

Deu-lhes mais uma palmadinha na perna e depois levantou-se. - Pronto, aí

está uma coisa boa - disse, entrando em casa.

- Uau! - exclamou Hayley, quando conseguiu fechar a boca que escancarara. - A sério, mega uau. Quantas vezes é que achas que ele a fez vir-se? Pelo menos seis, certo?

- Sabes o que pensei quando vi a Roz pela primeira vez?

- Não.

- Que quando crescesse queria ser como ela. Podes crer que quero.

Roz foi direita à cozinha e ao bule do café. Depois de se servir de uma chávena, aproximou-se e beijou David, que estava ao fogão a preparar o seu famoso chocolate quente.

- Os miúdos estão lá fora?

- Andam a gastar energias com o Parker e a fazer crescer a fome para o chocolate quente. Como podes ver, a minha outra convidada deixou-me ficar mal.

Roz sorriu na direcção da cadeirinha de bebé, onde Lily dormia no assento reclinado.

- É um bebé tão fofo e tu és um querido por tomares conta de três crianças para que aquelas jovens me pudessem pegar de surpresa.

- Cada um faz o que pode. E devias ter-nos contado o que aquela cabrazinha te fez.

- Lembras-te de alguma vez em que não tivesse conseguido tratar de uma cabra tola?

- Não me lembro de alguma vez não teres conseguido tratar fosse do que fosse, mas devias ter-nos contado. Assim, como hei-de saber o que fazer à boneca de vodu?

- Não te preocupes, o Bryce vai espetar-lhe alfinetes suficientes antes de a largar.

- Não fiques à espera de que tenha pena dela.

- O problema é dela.

- O jantar está pronto daqui a uma hora - avisou ele ao deixar a cozinha. - E tens algumas mensagens no telefone. Foram directamente para a tua linha, por isso não sei de quem são.

- Ouço-as lá em cima.

Levou o café consigo e descalçou-se quando entrou no seu quarto. Depois carregou no botão do gravador de chamadas.

- Roz, não quis incomodar-te no trabalho.

- Que bela voz o senhor tem, dr. Carnegie - meditou em voz alta, e sentou-se à beira da cama para a apreciar.

- Esqueci-me de te dizer que hoje é a noite da piza com o Josh. Gosto de imaginar que vais ter saudades minhas e que posso compensar-te amanhã, levando-te a jantar. Onde quiseres, basta dizeres. Hoje fiz algum trabalho e amanhã gostaria de falar contigo sobre isso. Devo estar aí por volta do meio-dia. Se não te vir, podes contactar-me através do telemóvel. Fico a pensar em ti.

- É bom saber disso. É muito bom saber disso.

Ainda sonhava acordada quando a mensagem seguinte se fez ouvir.

- Sr.a Harper, fala William Rolls, do Riverbend Country Club. Recebi a sua carta esta manhã e lamento muito saber que não está satisfeita com os nossos serviços e que anulou a sua inscrição como membro. Tenho de admitir que estou surpreendido, até mesmo espantado, com a sua lista de queixas, e gostaria que tivesse falado comigo pessoalmente. Há muitos anos que estimamos a sua associação com Riverbend e lamentamos a sua decisão de a rescindir. Se quiser discutir o assunto, esteja à vontade para me contactar em qualquer altura através de um dos seguintes números. Mais uma vez, lamento profundamente as circunstâncias.

Deixou-se ficar muito quieta até ao fim da mensagem. Depois, fechou os olhos.

- Vai à merda, Bryce.

Uma hora depois, não só já tinha falado com William Rolls, garantido que não estava insatisfeita, não tinha queixas nem tinha escrito qualquer carta, como também tinha na sua posse uma cópia enviada por fax da missiva em questão.

E uma fúria que ameaçava rebentar a qualquer instante.

Estava a calçar de novo os sapatos quando Hayley entrou com o bebé ao colo.

- O David diz que o jantar... então, o que foi?

- O que foi? Queres saber o que foi? Eu digo-te o que foi. - Foi buscar a carta ao canto da cama para onde a atirara. - Foi isto. Aquele frouxo como uma espinha de cobra abusou da minha paciência pela última vez.

- ”A admissão de indivíduos com ascendentes inferiores e de etnia mista” - leu Hayley, segurando a folha fora do alcance de Lily. - ”Funcionários de carácter dúbio. Uma intimidade revoltante entre funcionários e membros do clube, um serviço abaixo dos níveis.” - Tinha os olhos arregalados quando voltou a encarar Roz. - Não escreveste isto.

- É claro que não. E vou pegar nesta carta, encontrar o Bryce Clerk e fazer o mentiroso engoli-la.

- Não. - Hayley deu um salto para bloquear a porta, movendo-se tão depressa que Lily ficou a rir-se e aos saltos, à espera de mais uma volta.

- Não? O que queres dizer com não? Estou farta disto. Acabou-se. E ele vai percebê-lo quando acabar com ele.

- Não podes. Estás demasiado zangada para ires seja onde for. - O facto era que nunca tinha visto Roz tão zangada e o termo que Stella usava, ”um bocadinho assustadora”, subira muitos níveis. - Não tenho experiência deste tipo de coisa, mas aposto um mês de ordenado em como é exactamente isso que ele está à espera de que faças. Tens de te sentar.

- Tenho de lhe meter as partes baixas para dentro.

- Pois é, ia ser óptimo. O problema é que ele já deve estar a contar com isso e provavelmente já planeou tudo para te prender por agressão. Ele está a manipular-te, Roz.

- Achas que eu não sei? - Abriu os braços enquanto se virava, à procura de alguma coisa para pontapear, algo para atirar pelos ares ou esmurrar.

- Achas que não sei o que esse sacana está a fazer? Não vou ficar aqui e aguentar mais isto.

O grito, a fúria nele contida, fez Lily contrair o rosto, a boquinha a tremer num prenúncio de choro.

- Ai, meu Deus, agora estou a assustar bebés. Desculpa. Desculpa. Dá-ma cá. - Lily continuou a soluçar quando Roz a aninhou nos seus braços.

- Pronto, querida, não estou zangada contigo, não estou zangada com a tua mamã. Desculpa, bebé. - Falou-lhe e afagou-a, com Lily sempre agarrada a si. - Estou zangada com este sacana, reles e brochista que faz tudo o que pode para me complicar a vida.

- Disseste brochista - murmurou Hayley, espantada.

- Desculpa. Ela não sabe o que estou a dizer, por isso não faz mal. - As lágrimas de Lily tinham diminuído e começara a puxar as pontas dos cabelos de Roz. - Não devia ter gritado desta maneira à frente dela. Foi o tom que a assustou e não as palavras.

- Mas tu disseste brochista. Desta vez, Roz teve de se rir.

- Estou tão zangada - admitiu, enquanto andava com o bebé ao colo, o que servia para acalmar as duas. - Tão zangada. E tu tens razão, o que é irritante. Não posso sair daqui a correr para ir atrás dele. É disso que ele está à espera. Está tudo bem, vai ficar tudo bem. Ele não pode fazer nada que não possa ser remediado.

- Sinto muito, Roz. Gostava de lhe poder meter as partes baixas para dentro por ti.

- Obrigada, querida, isso é uma coisa muito bonita de se dizer. Agora vamos jantar. - Ergueu a bebé nos braços e soprou-lhe na barriga para a fazer rir. - Vamos jantar e esquecer o sacana, não é bebé?

- Tens a certeza?

- Absoluta.

- Está bem. Sabes, acho que as cobras não têm espinha. Roz pestanejou e fitou-a.

- O quê?

- Há bocado falaste na espinha das cobras... quando estavas a maldizer o Bryce. Acho que elas não têm espinha a sério. Talvez uma espécie de cartilagem. Mas posso estar enganada. Não gosto muito de cobras, por isso nunca lhes prestei muita atenção.

- Hayley, nunca deixas de me surpreender.

 

Roz manteve Mitch afastado por um dia e depois por dois. Queria clareza de espírito e calma, o que tardava a chegar. Precisava de marcar uma reunião com o advogado e sentia-se na obrigação de se encontrar no clube com William Rolls.

Detestava ser afastada do trabalho, especialmente logo no início da época alta. Podia dar graças a Deus por Stella, por Harper, como sempre, e também por Hayley. Ficava descansada por o negócio estar em boas mãos.

Mas essas mãos não seriam as suas, pelo menos enquanto andasse às voltas a esclarecer a confusão que Bryce criara.

Terminadas as odiosas incumbências, enfrentou a chuva copiosa até à estufa de propagação. Durante pelo menos uma hora ou duas poderia embrenhar-se nos últimos preparativos para a venda de Primavera. E podia também levar a dor de cabeça que a atormentava para um lugar privado e deixar que o trabalho fizesse a sua magia.

No fim do dia, pensou, iria à procura de Mitch. Se não o encontrasse a trabalhar na biblioteca, ia telefonar-lhe. Queria a companhia dele, ou pelo menos esperava querê-la, ao serão.

Sentia vontade de conversar sobre qualquer outra coisa que não os seus problemas. E seria bom descontrair-se com ele, talvez na sua sala de estar, junto à lareira, especialmente se continuasse a chover, e deliciar-se com a forma como ele a olhava.

Era fácil para uma mulher habituar-se a ter um homem a olhar para ela como se fosse bela e desejável e como se fosse a única mulher no mundo.

Se se habituasse o suficiente, talvez chegasse mesmo a acreditar. Roz apercebeu-se de que gostaria de acreditar. Que bom seria, para variar, sentir-se atraída por um homem em quem confiava.

Abriu a porta da estufa de propagação.

E entrou no seu quarto.

A lareira estava acesa. Era a única luz no quarto e lançava centelhas de dourado e sugestões de vermelho para as sombras. Primeiro ouviu-os, a respiração acelerada, os risos abafados, o restolhar da roupa.

Depois viu-os à luz do lume, Bryce, o marido, e a mulher que convidara para sua casa. Abraçavam-se. Não, mais... agarravam-se, ansiosos por se tocarem, por se saborearem. Conseguia sentir a excitação que emanava deles, a energia do prazer ilícito. E percebeu, mesmo naqueles breves segundos de choque, que não era a primeira vez. Não era de todo a primeira vez.

Deixou-se ficar de pé, com os sons da festa atrás de si, e assimilou a traição, a humilhação a ela subjacente.

Tal como da outra vez, começou a recuar, tencionando deixá-los, mas ele virou a cabeça na direcção dela, ao mesmo tempo que agarrava os seios da outra mulher.

E sorriu-lhe, um sorriso alegre, encantador e velhaco. Riu-se, com uma gargalhada rouca e satisfeita.

- Sua estúpida, nunca te fui fiel. Não há homem que o seja. Enquanto falava, as feições alteraram-se, com os jogos de luz e de sombras a transformarem o seu rosto no de Mitch.

- E porque haveríamos de ser? As mulheres foram feitas para serem usadas. Acreditas mesmo que alguma nos interesse mais do que outra? - A voz adorável transbordava de menosprezo, à medida que acariciava a mulher que tinha nos braços. - Todos mentimos, só porque o podemos fazer.

As sombras bailaram e transformaram o rosto no de John. O seu marido, o seu amor. O pai dos seus filhos.

- Achas que fui sincero, sua tola?

- John. - A dor quase a fez cair de joelhos. ”Tão jovem”, pensou. ”Tão vivo.” - Oh, meu Deus, John.

- Oh, meu Deus, John - imitou, ao mesmo tempo que fazia gemer a mulher que abraçava. - Eu precisava de filhos, não era? Foste apenas uma parideira. Se eu tivesse tido um pouco mais de sorte, teria vivido para te deixar. Levaria o que me interessasse, levaria os meus filhos e deixar-te-ia.

- Isso é mentira.

- Todos nós mentimos.

Quando ele se riu, Roz viu-se obrigada a tapar os ouvidos. Quando ele se riu, foi como se punhos lhe golpeassem o corpo, o coração, até que se deixou cair de joelhos.

Ouviu-se a chorar, entre soluços amargos e profundos.

Não ouviu a porta a abrir-se atrás de si, nem a exclamação assustada. Foi envolvida por braços, fortes e seguros. E sentiu o cheiro do filho.

- Mamã, o que se passa? Sentes-te mal? Mamã.

- Não. Não. - Agarrou-se a ele, encostou o rosto contra o ombro dele e esforçou-se por reprimir as lágrimas. - Estou bem. Não te preocupes. Foi só...

- Não estás bem e não me digas para não me preocupar. Conta-me o que foi. Diz-me o que aconteceu.

- Espera um pouco. Espera só um pouco. - Encostou-se a ele, deixou que a embalasse ali no chão, até que o calor do filho lhe chegou aos ossos gelados. - Oh, Harper, quando é que ficaste tão grande e tão forte? Meu bebé.

- Estás a tremer. Não estás doente, estás assustada.

- Não estou assustada. - Respirou fundo. - Talvez um pouco traumatizada.

- Vou levar-te a casa. Lá, poderás contar-me o que se passou.

- Eu... sim, é melhor. - Recuou um pouco e limpou as faces. - Não quero ver mais ninguém. Podes ter a certeza de que não quero que ninguém me veja. Sinto-me de rastos, Harper, e imagino que a aparência ainda seja pior.

- Não te preocupes. Queres que te leve?

- Oh. - As lágrimas voltaram a assomar-lhe aos olhos, mas desta vez eram quentes. - Meu querido. Não, eu sou capaz de andar. Mas primeiro diz-me uma coisa. Está tudo normal aqui dentro? Está tudo no seu lugar?

Sentindo a tensão na voz da mãe, Harper olhou em seu redor.

- Está tudo em ordem.

- Está bem. Está bem. Vamos para casa.

Deixou que a guiasse pela chuva, à volta dos edifícios, e suspirou de alívio quando entrou no carro.

- Descontrai-te - ordenou-lhe o filho, inclinando-se para lhe apertar o cinto de segurança. - Não tarda nada estamos em casa. Tens de te aquecer.

- Vais ser um bom pai.

- O quê?

- És bom a cuidar... talvez por seres jardineiro, mas não só sabes o que fazer para cuidar, como ages nesse sentido. Ai, meu Deus, estes últimos dias têm sido miseráveis.

- Discutiste com o Mitch?

- Não. - Manteve os olhos fechados enquanto o filho conduzia, mas os lábios curvaram-se um pouco. - Não fico histérica com um arrufo. Deus queira que seja preciso mais do que isso para me deitar abaixo.

- Desde que o papá morreu que não te via a chorar daquela maneira.

- Acho que não chorei. - Sentiu o carro a fazer uma curva e abriu os olhos para ver a Harper House agigantar-se à sua frente. - Alguma vez quiseste que me desfizesse deste sítio?

- Não. - Quando a olhou, exibia uma expressão chocada. - É claro que não.

- Ainda bem. É bom sabê-lo. Não sei se seria capaz de o fazer, mesmo por ti.

- É nossa e vai ser sempre. - Estacionou e, antes que a mãe conseguisse sair, estava ao seu lado para a ajudar.

- Estou apenas abalada, Harper, não estou mortalmente ferida.

- Vais já lá para cima vestir roupa seca. Eu levo-te um pouco de brandy.

- Harper, isto vai parecer-te idiota, mas não me sinto preparada para ir lá para cima.

- Eu vou buscar-te roupa seca. Podes vestir-te no quarto do David.

- Obrigada.

”Nem sequer me questionou. Não hesitou. Que homem tinha criado.”

- Vai ter com o David - ordenou-lhe. - Diz-lhe da minha parte que tens de tomar um brandy e um chá quente.

- Sim, senhor.

Antes que ela chegasse a dirigir-se às escadas, Mitch saiu da biblioteca e encaminhou-se para o átrio.

- Bem me parecia que tinha ouvido a porta. Tenho estado atento a... Interrompeu-se quando se acercou e depois estugou o passo para chegar a Roz. - O que foi? Estás doente, ferida?

- Não. Pareço-te doente?

- Estás branca como a cal e estiveste a chorar. O que foi? - Fitou Harper.

- O que aconteceu?

- Ela não quer falar com ninguém - começou Harper a dizer.

- Não faz mal. - Apertou a mão de Harper. - É verdade que disse isso explicou a Mitch -, mas, agora que já me recompus um pouco, preferia contar-lhes aos dois... aos três, pois imagino que o David esteja na cozinha... ao mesmo tempo.

- Ela precisa de roupa seca - declarou Harper. - Se a levares ao David e lhe deres um brandy, eu vou buscar a roupa.

- Pelo amor de Deus, isto é o que dá ser a única mulher numa casa cheia de homens grandes e fortes. Não preciso que me levem a lado nenhum e posso ir buscar um brandy sozinha.

- Está a voltar a si. - Harper fez sinal a Mitch. - Toma conta dela. Não demoro nada.

- Agora deixei-o preocupado - disse Roz, vendo Harper subir as escadas a correr. - Detesto preocupá-lo.

- Bom, eu também fiquei preocupado.

- Pelos vistos, não pude evitá-lo. Mas não me importava de tomar o tal brandy.

Assim que entraram na cozinha, David avançou para eles, e o seu rosto era uma máscara de preocupação. Roz limitou-se a erguer a mão.

- Não estou ferida. Não estou doente e não é preciso armar confusão. Só quero um cálice de brandy e a roupa seca que o Harper foi buscar. Importas-te que me vista no teu quarto?

- Não. Senta-te. - Puxou do pano da louça que tinha na cintura das calças de ganga e limpou a farinha das mãos, enquanto se dirigia a um armário. - Quem a fez chorar?

Uma vez que a pergunta mais se assemelhava a uma acusação lançada a Mitch, este levantou as mãos em sinal de rendição.

- Eu não saí daqui, lembra-se? O Harper acabou de a trazer neste estado.

- Gostava de vos lembrar de que estou mesmo aqui sentada. Assim sendo, posso falar por mim. Obrigada, querido. - Ergueu o copo de brandy e deu um grande gole. - Sempre detestei isto, mas vai direito ao assunto.

Esboçou um sorriso quando Harper entrou com uma camisola, calças de ganga e peúgas grossas.

- Meu herói. Só preciso de uns minutos e depois tento explicar-lhes tudo.

Harper esperou que a mãe entrasse nos aposentos de David e fechasse a porta.

- Encontrei-a a chorar, sentada no chão da estufa de propagação. Estava... a soluçar. Quase nunca chora. Fica com os olhos húmidos quando alguma coisa a deixa feliz ou sentimental, mas quando está triste ou magoada... não o mostra.

- O que tem andado a acontecer nos últimos dias? - exigiu Mitch saber, e viu David e Harper trocarem olhares. - Sei que houve qualquer coisa. Ela tem andado a evitar-me.

- É melhor que seja ela a contar-te. David, era capaz de lhe fazer bem um pouco de chá, não achas?

- Vou tratar disso. Vai buscar a caixa de Nirvana ao frigorífico. O chocolate vai fazer com que ela se sinta melhor. Mitch, porque não acende o lume? Hoje nem me preocupei com isso.

Quando Roz voltou, David fazia chá, Harper punha chocolates apetitosos em cima da mesa e Mitch tratava do lume na lareira da cozinha.

- Assim fico a pensar que me devia ter dado um ataque há muito tempo, para ter três homens tão bem-parecidos a servirem-me. Antes de nos sentarmos, Mitch, já devia ter-te dito. Creio que vais precisar do gravador.

- Vou buscá-lo.

Ficou assim com mais algum tempo, tendo conseguido voltar quase ao normal quando todos se sentaram. Contou-lhes o sucedido, agora num tom casual. Embora as mãos tivessem voltado a arrefecer, limitou-se a aquecê-las na chávena de chá e terminou a descrição da experiência vivida na estufa.

- Sempre tive um fraquinho pela Noiva - confessou David -, mas agora acho que é uma cabra.

- Não há grandes dúvidas quanto a isso. - Roz escolheu um chocolate.

- Mas quer-me parecer que ela acredita sinceramente nisso. Os homens são mentirosos, vigaristas e sacanas. Quer que também eu acredite, para não voltar a ser usada e magoada.

- Mamã. - Harper fitou a sua chávena. - Acreditas que o papá te enganou?

- Não acredito em tal coisa. Mais do que isso, querido, não tenho dúvidas de que ele era fiel.

- Ela fez-te vê-lo dessa forma.

- Ela fez-me vê-lo - repetiu Roz. - E isso destroçou-me. Vê-lo tal como era. Tão jovem, vivo e real. Fora do meu alcance. Sem que lhe conseguisse tocar, com tudo o que senti por ele outra vez tão claro e forte no meu coração. Sempre tive noção de que o que estava a acontecer não passava de uma mentira. E as palavras cruéis que ela lhe colocou nos lábios nunca foram dele. Ele nunca foi cruel.

- Ela utilizou a tua experiência com o Bryce, um incidente doloroso raciocinou Mitch. - E transferiu-a para o homem que veio antes dele, o John. Para o homem que veio depois dele, eu. Ela prefere magoar-te, está determinada a magoar-te, para evitar que te envolvas comigo.

-Já é um pouco tarde para isso.

- Será?

- Julgas que sou assim tão débil, tão fraca, que me deixe influenciar pelos truques dela?

- Acho que és determinada, quase obstinada. Só não sei até que ponto discordas dela.

- Estou a ver. Bom. Acho que já vos contei tudo o que podia. Vou subir e pôr alguma papelada em ordem. Harper, ficava mais descansada se voltasses ao viveiro, para garantir que está tudo sob controlo. David, o chá estava óptimo, obrigada.

Levantou-se e saiu da cozinha sem olhar para eles.

- Bem, irritá-la deu-lhe um bocadinho de cor ao rosto - comentou David.

- Nesse caso, quando eu terminar vai ficar com um rubor saudável permanente. Com licença.

- Que homem tão corajoso - elogiou David quando Mitch saiu.

- Ou burro como uma porta - opinou Harper. - Seja como for, julgo que está apaixonado por ela. Se for burro, ela dá cabo dele. Se for corajoso, pode ser que se saia bem. Espero que consiga.

Roz acabara de chegar ao quarto quando Mitch a alcançou, entrando logo de seguida. Ela virou-se, lenta e determinada.

- Não me lembro de te ter convidado a entrar.

- Não me lembro de te ter pedido. - Com a mesma lentidão e determinação, fechou a porta. Para choque de Roz, trancou-a.

- É melhor que abras a porta e saias, caso contrário a fúria do fantasma psicótico não vai ser nada quando comparada com a minha.

- Se queres brigar comigo, estás à vontade. Mas primeiro quero saber porquê.

- Acabei de te dizer. Não gosto que invadas a minha privacidade desta maneira e imaginando...

- E isso são tretas. O que aconteceu? Há dias que andas a evitar-me. A última vez que estivemos juntos foi naquela cama, Rosalind. Quero saber o que mudou.

- Nada. Tenho a minha própria vida, tal como tu tens a tua. - De forma propositada e, era obrigada a admitir, mesquinha, dirigiu-se às portas do terraço e abriu-as. - Tive muito que fazer.

Mitch limitou-se a fechar as portas e a trancá-las. Roz sentia-se quase incapaz de falar, tal era a fúria que lhe ardia na garganta.

- Se estás a pensar que vou tolerar que...

- Cala-te um bocadinho. - As palavras foram bruscas e Roz viu-se forçada a vê-lo a uma nova luz, pesasse embora a raiva que fervia dentro de si.

- Pensando melhor - continuou Mitch, antes que ela fosse capaz de articular uma réplica -, responde-me a uma coisa. Disse-te que me estava a apaixonar por ti. Terá sido um erro?

- Dizer-me? Não. Apaixonares-te, talvez. Sou uma mulher difícil.

- Isso não é novidade.

-Mitchell, estou cansada, estou zangada, estou emocionalmente... não faço ideia de como estou, mas não quero discutir contigo, pois vou ser má e depois arrependo-me. Não quero falar contigo. Não quero estar contigo.

- Não vou sair daqui porque estás cansada, zangada e emocionalmente debilitada. Se não queres falar nem discutir, muito bem. Deita-te, dorme uma sesta. Eu espero até te sentires melhor.

- Ai, meu Deus. Raios partam. - Dirigiu-se furiosa às portas do terraço e, destrancando-as, abriu-as à chuva. - Preciso de ar. Porra, tenho de respirar um bocado.

- Está bem. Inspira tudo o que quiseres. Mas desta vez, Rosalind, vais falar comigo.

- Estás à espera de que te diga o quê? O que queres ouvir?

- Pode ser a verdade.

- Que seja a verdade. Ela magoou-me. - A emoção embargou-lhe a voz e Roz levou o punho cerrado ao peito. - Ela despedaçou-me. Ver o John daquela maneira. Não consigo explicar, não tenho palavras para explicar o que ela me fez. - Virou-se para Mitch, que viu que os olhos dela estavam molhados. As lágrimas não escorriam e nem imaginava a força que as retinha. Mas o castanho-dourado nadava em lágrimas. - Ela derrubou-me e não houve nada que eu pudesse fazer. Como posso combater isso? Como posso lutar contra uma coisa que não existe? Mesmo sabendo o motivo que a levou a fazê-lo, o meu coração continua esmagado. - Com um gesto impaciente, levou os pulsos aos olhos para eliminar alguma lágrima que lhe tivesse escapado. - Ele não merecia ser tratado daquela maneira. Não percebes? Não merecia. Ele era um bom homem, Mitchell. Bom homem, bom marido, bom pai. Apaixonei-me por ele com catorze anos. Consegues imaginar, catorze anos? Fez de mim uma mulher, uma mãe e uma viúva. Amei-o profundamente.

- Ela não pode alterar o que sentes por ele. Nada que ela faça pode alterá-lo. Não o conheci, mas estou a olhar para ti, Rosalind, e consigo ver isso. Consigo vê-lo.

Roz suspirou, um suspiro entrecortado e doloroso.

- Tens razão. Tens razão. - Encostou-se à ombreira da porta e contemplou a chuva fria. - Também não merecias ter sido usado. Não mereces o que ela tentou fazer de ti. Não acreditei nisso em relação ao John, nem acreditei em relação a ti. Mas doeu, mesmo assim doeu. - Respirou fundo.

- Não te comparo ao Bryce. Espero que o saibas.

- Preferia saber aquilo que sentes. Porque não quiseste ver-me, Roz?

- Não foi por ti, foi por mim. Não detestas que as pessoas digam isto?

- A ponto de ter de me conter para não te arrancar o resto à força. Não és a única a sentir uma boa dose de raiva.

- Pois, imagino que tenha visto a ponta do icebergue. Uma das coisas de que gosto em ti é do teu autocontrolo. Tenho tão mau feitio, nem fazes ideia. Por isso, sei tudo sobre controlo.

- Que maduros que nós somos.

- Continuas zangado comigo. - Riu-se e tentou dar-lhe o que lhe pedira: a verdade. - Sabes, a última noite que passámos juntos? - Virou-se e fitou-o, ficando com as portas abertas pelas costas. - Foi lindo e representou muito, de muitas formas. No dia seguinte pensei em ti e, quando regressei do trabalho, ia telefonar-te. Tinha uma mensagem tua no gravador.

- Roz, tenho uma data habitual para me encontrar com o Josh. O meu filho...

- Eu sei. Não foi isso. Não comeces a pensar que sou uma daquelas mulheres desesperadas que querem a atenção do homem durante vinte e quatro horas por dia. Foi a mensagem a seguir à tua que me incomodou.

Tinha a ver com a minha inscrição no country club, com a forma como a cancelara e com uma carta que enviara, cheia de queixas e de comentários grosseiros. Coisa, claro está, que não fiz.

- O Clerk.

- Sem dúvida. Por acaso foi simples de resolver... Não. - Abanou a cabeça. - A verdade. Foi incómodo e embaraçoso de resolver. Seja como for, perturbou-me. Estava prestes a sair do quarto, a ver tudo vermelho, pronta para o caçar como a um cão vadio, quando a Hayley e a bebé se atravessaram no meu caminho. Ela impediu-me, algo por que lhe fiquei grata. Nem sei o que poderia ter feito naquele estado.

- Aposto que valia a pena pagar bilhete para ver.

- No mínimo, era capaz de ir parar à cadeia por agressão. Estava tão furiosa que assustei a menina, fi-la chorar. E disse um palavrão especialmente feio à frente dela, que tinha a ver com a actividade sexual do Bryce, caso ele estivesse inclinado para indivíduos do mesmo sexo.

- Como a Lily ainda nem sequer tem um ano, duvido que tenha causado grande estrago.

- Mesmo assim, eu estava de cabeça perdida e consegui controlar-me, mas continuava a ferver. Precisava de me acalmar completamente. E tinha de me encontrar com o meu advogado e de ir pessoalmente ao clube. Tinha de acalmar os ânimos de toda a gente.

- Talvez da próxima vez te lembres de que gostaria de poder acalmar-te a ti.

- Fico má quando estou zangada. -Aposto que sim.

Roz sentou-se numa cadeira.

- Devias ir à polícia.

- E fui. Mais um embaraço. E não precisas de dizer que não é preciso ter vergonha. Tenho vergonha e acabou-se. Não há grande coisa que possam fazer, mas deixei registado tudo aquilo de que me lembro. Se e quando se conseguir provar que ele está por detrás disto, é um caso de fraude e pode ser considerado assédio. Se tiver oportunidade de o tramar, Mitch, bem podes apostar que o faço.

Mitch aproximou-se e agachou-se à frente dela.

- Gostava de te ajudar a tramá-lo. Roz acariciou-lhe a face.

- Não andava a evitar-te. Estava a pensar em ti, estava a pensar em procurar-te e perguntar-te se querias passar o serão comigo. Logo a seguir entrei naquele pesadelo acordado.


- Por coincidência, estava a pensar em ti, se querias passar o serão comigo. Queres sair desta casa por algumas horas?

- Não. A sério.

- Nesse caso, ficamos.

- Queria convidar-te para uma coisa.

- Convida.

- Vai ter lugar um acontecimento importante no clube. Um baile formal, o habitual baile da Primavera. O David ia acompanhar-me. Mesmo com o que se está a passar entre nós, tinha pensado em seguir o que estava planeado, pois não ia gostar das conversas e dos comentários quando aparecesse contigo. Mas que se lixe isso tudo. Gostava que fosses comigo.

- Esse formal significa smoking?

- Receio que sim.

- Eu cá me arranjo. Nós dois estamos bem?

- Parece-me que sim, não estamos?

- Queres descansar?

- Não, não quero. - Contente, ela inclinou-se e beijou-lhe as faces.

- O que eu quero é um banho quente e demorado. E gostava muito de ter companhia na banheira.

- É um convite e pêras. - Levantou-se e ajudou-a a erguer-se. - Aceito. Pode ser o lugar ideal para te contar acerca da minha visita a Clarise Harper.

- A prima Rissy? Essa, eu tenho de ouvir.

Foi uma sensação maravilhosa, luxuriante e simplesmente perfeita, estar de molho no banho de espuma, na antiga banheira funda, com as costas de encontro ao peito de Mitch.

Ainda nem chegara ao fim do dia de trabalho e ali estava ela, a tomar um banho sensual com um homem, com música e velas.

- A Clarise vai ficando mais seca e má a cada ano que passa - comentou Roz. -Juro, se ela alguma vez morrer, pois não sei se ela vai aceitar essa eventualidade, nem sequer precisam de um caixão. Basta que a partam ao meio, como se fosse um ramo, e já está.

- Deu para perceber que ela te tem na mesma elevada consideração.

- Ela despreza-me por inúmeras razões, mas a principal é que eu herdei esta casa e ela não.

- Diria que sim, é uma das razões mais importantes.

- Está a mentir quando diz que nunca viu nem sentiu a Amélia. Ouvi a minha avó falar sobre isso. A memória da Clarise só funciona quando ela bem entende. Não tolera disparates, sabes, e os fantasmas enquadram-se nessa categoria.

- Ela chamou-lhe ”dislate”.

Roz recostou a cabeça e riu-se às gargalhadas.

- É mesmo dela. Até a consigo ouvir. Bem, pode usar a expressão que quiser, mas está a mentir. E sei muito bem que deve ter cartas, talvez até mesmo diários e bastantes fotografias. Ela tirou certas coisas desta casa quando o meu pai morreu. Vai negá-lo, mas sei que se foi servindo daqui e dali. Tivemos uma das nossas famosas discussões quando a apanhei a tirar um par de castiçais do salão, ainda o meu pai estava a ser velado. Fuinha de uma figa.

- Imagino que ela não tenha saído daqui com eles.

- Não, pelo menos dessa vez. Os castiçais não me interessavam, eram umas coisas feias, mas o meu pai ainda nem sequer tinha sido enterrado. É algo que ainda me deixa a ferver. Ela disse que os tinha dado ao meu pai, o que de certeza não é verdade, e que os queria por razões sentimentais. O que é uma treta pegada, pois aquele corpo não tem um único osso sentimental.

Mitch esfregou-lhe o cabelo com a face, como que para a acalmar, mas Roz sentiu-lhe o corpo estremecer de riso.

- Estás à vontade para rir. Eu sei que isto não soa bem.

- Adoro a maneira como soa, mas voltemos ao assunto. Ela pode ter tirado outras coisas, algo que não tenhas visto nas mãos dela.

- Eu sei que tirou, aquela sanguessuga. Havia uma fotografia do meu avô em jovem numa moldura de prata, eduardiana, uma taça Waterford, duas pastoras de Dresden, e outras coisas que desapareciam sempre que ela fazia uma visita.

- Hum. - Mitch apoiou o queixo na cabeça dela e ensaboou-lhe lentamente o braço. - O que sabes sobre uma tal Jane Paulson?

- Pouca coisa. Encontrei-a em vários casamentos e funerais, esse tipo de acontecimentos, mas quase nem tenho ideia dela. Só me lembro de uma menina de feições doces. Se as contas não me falham, tem quase menos vinte e cinco anos do que eu.

- Faz-me lembrar um cachorrinho que levou pontapés suficientes para ficar com o rabo entre as pernas.

- Se está a morar com a prima Rissy, calculo que assim seja.

- Mas ela sabe qualquer coisa.

Curiosa, Roz virou a cabeça para olhar para Mitch.

- Porque dizes isso?

- As feições dela alteraram-se quando a Clarise me disse que não tinha diários. Como se quisesse ser prestável e dizer ”Oh, não se lembra do...”, fosse o que fosse. Depois recompôs-se e calou-se. Se fosse jogador, apostava que a pudica da Rissy sabe qualquer coisa que nos seria útil.

- E se não quiser partilhar essa informação, mais depressa a queimava do que ta dava. Ela é má a esse ponto.

- Não o vai fazer, caso não imagine que eu sei que a tem... nem se conseguirmos convencer a Jane a ajudar-nos.

- O que vais fazer, seduzir a pobre da moça?

- Não. - Baixou-se para beijar o ombro molhado de Roz. - Tu é que vais. Estava a pensar que a miúda talvez precise de uma amiga... talvez a perspectiva de outro emprego. Se a conseguisses contactar sem que a Clarise soubesse, oferecer-lhe algumas opções...

- E tentar recrutá-la. - Roz contraiu os lábios e pensou no assunto.

- É traiçoeiro e dissimulado. E gosto muito da ideia.

Mitch elevou as mãos e cobriu-lhe os seios com elas e com espuma.

- Estava à espera de que gostasses.

- Não me importo de fazer jogo sujo. - Com um brilho malicioso nos olhos, contorceu-se até ficar virada para Mitch. - Vamos praticar - sugeriu.

E mergulharam.

 

O caos da Primavera é acompanhado por uma espécie de tensão para o cultivador, especialmente se por acaso também for o proprietário. Teria preparado rebentos suficientes, estaria a oferecer o número e o tipo correcto de perenes?

Será que as flores eram suficientemente grandes e vistosas para atrair os clientes? Seriam as plantas fortes e saudáveis quanto bastasse para manter a reputação de qualidade que ela granjeara?

Teriam feito cestos e vasos suficientes... ou em demasia?

E quanto aos arbustos e às árvores? Será que esses produtos iriam complementar as plantas mais pequenas ou roubariam parte dessa venda?

Teriam sido os corantes para adubo um erro ou gostariam os clientes habituais da variedade?

Deixou muitas dessas questões nas mãos de Stella. Fora essa a razão que a levara a contratar uma gerente. Roz queria compartimentar muitos desses pormenores... no compartimento de outra pessoa. A No Jardim continuava a ser o seu bebé e sentia o mesmo grau de orgulho e de preocupação de uma mãe por um filho a crescer.

Apreciava o grande número de pessoas e a confusão, os clientes com os carrinhos à volta das mesas, por cima do saibro e do cimento, a escolher as plantas certas para os seus jardins ou para os vasos dos quintais. Chegava a apreciar as perguntas que lhe faziam e as sugestões que dava, usando esses momentos para contrabalançar a pequena dor que sentia no início de cada estação, quando via as plantas que acarinhara partirem para novos lares.

Nessas alturas do ano, costumava admoestar-se por ser sentimental em relação ao que cultivara. No entanto, para ela não eram, nem nunca seriam, meros produtos. As semanas, os meses, com frequência os anos, que passava a cuidar dos espécimes faziam com que criasse uma ligação muito pessoal.

Passava os primeiros dias de cada venda de Primavera a lamentar a separação. Depois, voltava a deitar mãos à obra.

Estava na estufa de propagação a fazer uma pausa e a calcular quais as plantas que deveria levar de seguida para a zona de venda, quando Cissy entrou de rompante.

- Roz, estou desesperada.

Roz contraiu os lábios. A Cissy habitualmente aprumada tinha mais do que um cabelo fora do sítio e um brilho de pânico nos olhos.

- Estou a ver que sim. O teu cabeleireiro aposentou-se? A tua massagista fugiu com um músico?

- Não brinques. Estou a falar a sério. - Quase correu até às mesas onde Roz estava a trabalhar. - Os meus sogros vêm de visita.

-Oh.

- Acabaram de largar a bomba esta manhã. E chegam daqui a dois dias. Odeio que as pessoas presumam que são bem-vindas.

- Fazem parte da família.

- O que piora tudo. Sabes que ela está sempre a implicar comigo. Há vinte e seis anos que implica comigo. Se não se tivessem mudado para Tampa, ou já tinham dado comigo em louca ou eu já estava presa. Preciso que me ajudes, Roz.

- Não vou matar a tua sogra, Cissy. A amizade tem limites.

- Calculo que conseguisses. - Semicerrou os olhos e perscrutou o que a rodeava. - Oh, Roz, aposto que tens aqui venenos muito interessantes que eu podia deitar-lhe no martini, acabando com o meu inferno. Vou lembrar-me disso para qualquer eventualidade. Sabes o que me disse ela?

- Não, mas imagino que vá saber não tarda nada.

- Disse que eu ainda não devia ter mudado a carpete da sala e que adorava sair enquanto cá estivesse para irmos comprar uma nova. Para eu não me preocupar com o tempo que demorasse, pois, agora que ela e o Don se reformaram, tem muito tempo livre. E que eu não tardaria nada a saber como era, pois estava a chegar àquela idade. Estou a chegar àquela idade. Imaginas?

- Uma vez que somos mais ou menos da mesma idade, acho que consigo encontrar algum veneno por aqui.

- Ah, e não foi só isso. Se começasse a contar-te, ficava aqui o dia todo, mas não posso porque estou sob grande pressão. Começou a massacrar-me com o jardim e com o relvado, e que não sabia porque é que eu não fazia mais alguma coisa com o meu, porque é que não tinha mais orgulho na casa que o filho dela me tinha comprado.

- Tens um quintal muito bonito. - Não que utilizasse todo o seu potencial, mas, na opinião de Roz, era agradável e bem cuidado.

- Ela provocou-me, como faz sempre, e acabei por me gabar de que tinha andado a trabalhar como uma escrava, e que tinha posto canteiros novos, e mais não sei o quê. Abusei, Roz, e agora, a menos que me ajudes, ela vai ficar a saber que estive a mentir com quantos dentes tinha na boca.

- Se precisas do Logan, podemos perguntar à Stella o horário dele, mas...

-Já perguntei. Ele está inteiramente ocupado, inteiramente, durante as próximas duas semanas. -Juntou as mãos como se estivesse a rezar. - Estou a implorar-te, Roz. A implorar-te. Tira-o de um lado qualquer e dá-mo. Só por dois dias.

- Não posso ir buscá-lo a outro trabalho... mas espera - cedeu, quando viu as lágrimas aflorarem aos olhos de Cissy. - Nós resolvemos isso. Dois dias. - Roz suspirou. - Vai sair-te caro.

- Não importa. O dinheiro é o menos. É a minha vida que está em jogo. Se não me ajudares, vou ter de embarcar num avião até Tampa às escondidas e assassiná-la esta noite.

- Então vamos tratar de salvar a tua vida e a dela.

Tinha uma ideia e dizimou o viveiro enquanto a desenvolvia. Cissy nem sequer pestanejou quando Roz acumulou plantas, arbustos, árvores ornamentais e vasos.

- Harper, preciso que vás lá a casa e me tragas a carrinha. Vamos carregar isto tudo e vou roubar-te por algumas horas. Stella, diz ao Logan que passe por aqui quando acabar os trabalhos que tem agendados. Vai fazer horas extraordinárias. Ele que leve a esta morada o que eu deixar marcado.

- Rabiscou a morada de Cissy num pedaço de papel. - Vem com ele. Vou precisar das tuas mãos e do teu olho clínico.

- Achas mesmo que consegues fazer isto em menos de dois dias? perguntou Stella.

- Vou fazê-lo em menos de dois dias porque é esse o tempo de que disponho.

Roz adorava um desafio. E nada melhor do que mexer na terra para a fazer esquecer os problemas.

Mediu, marcou, lavrou, despejou turfa e revirou.

- Normalmente, gosto de preparar o solo com mais tempo. Começar um canteiro novo é uma coisa importante.

Cissy mordiscou o lábio e retorceu com os dedos a fiada de pérolas que usava.

- Mas tu consegues.

- Não há grande coisa que não consiga fazer com terra e plantas. É o meu dom. - Acenou para onde Harper estava a montar uma latada decorativa de metal. - E o dele. E hoje vais aprender alguma coisa. Calça estas luvas, Cissy. Vais trabalhar para aprenderes a não mentir.

- Pouco me importa a mentira. - Mas calçou as luvas.

Roz explicou em termos muito simples que ia fazer um jardim perene para as quatro estações. Um jardim que seria impressionante qualquer que fosse a altura em que os sogros viessem de visita, íris e cravinas, campânulas. Dicentra e columbina para flores imediatas. Com bolbos de Primavera, anuais colocadas em locais estratégicos e a folhagem das flores que rebentariam mais tarde a preencher o espaço.

Assim que os grandes vasos que escolhera estivessem arranjados e ostentassem uma explosão de flores, o canteiro seria uma visão que até uma sogra exigente iria adorar.

Deixou Cissy a plantar cristas-de-galo e cinerarias e foi reorganizar e melhorar os canteiros já existentes.

Ao fim de mais uma hora, apercebeu-se de que iriam utilizar tudo o que trouxera e mais que houvesse.

- Harper? - Limpou a testa suada com as costas da mão. - Tens o teu telemóvel?

Ele largou por um instante as trepadeiras que entrelaçava na latada e sentiu os bolsos.

- Algures. Talvez na carrinha?

”Tal mãe, tal filho”, pensou Roz. Acenou-lhe e dirigiu-se à frente da casa, à procura do aparelho. Ligou a Stella e debitou mais uma lista de coisas a trazer, sabendo que a gerente iria registá-las, debitá-las, dar baixa no inventário e entregá-las.

Plantou canas-de-jardim na vedação das traseiras, juntamente com salva azul e malmequeres-africanos. Endireitou-se quando Cissy se dirigiu a ela com um copo alto.

- Fiz limonada, da verdadeira. Para me redimir. As minhas unhas ficaram uma lástima - comentou, ao entregar o copo a Roz. - E já sinto dores em zonas do corpo que nem sabia que tinha. Não sei como é que consegues.

- Não sei como é que tu consegues jogar bridge todas as semanas.

- Bem, acho que cada um é como é. Fico a dever-te muito mais do que o cheque que te passei.

- Vais passar mais uns quantos antes de terminarmos. Cissy fechou os olhos.

- O Hank vai matar-me. Vai pegar no ferro número nove e espancar-me até à morte.

- Não me parece. - Roz levantou-se, devolveu-lhe o copo vazio e depois distendeu as costas. - Acho que vai ficar satisfeito e orgulhoso. Vai ficar tocado por te teres dado a este trabalho, ainda por cima estragando as unhas, para tornares a casa mais bonita para a visita da mãe dele. Para lhe mostrares que dás valor à casa que ele te comprou.

- Oh. - Um sorriso começou a esboçar-se no seu rosto lentamente. - És muito esperta, Rosalind.

- Lá por não ter marido, não quer dizer que não saiba como eles pensam. Deixa-me avisar-te. Se não cuidares deste jardim, sou eu que venho cá dar cabo de ti com o ferro do Hank.

Cissy olhou à sua volta, para a terra, os canteiros meio plantados, as pás, os ancinhos e os sacos de mistura e de aditivos.

- Quando estiver acabado, vai ficar muito bonito. Certo?

- Confia em mim.

- Eu confio. Completamente. E talvez não seja a melhor altura para te dizer que o teu filho é um demónio bem atraente. A sério, o meu coração deu um salto quando lhe entreguei a limonada e ele me dirigiu aquele sorriso. Ai, meu Deus, ele deve ter as miúdas todas a cair-lhe aos pés.

- Acho que nunca teve problemas em encontrar namorada. Mas não aguenta muito tempo com uma.

- Ainda é novo.

Já escurecera quando chegou a casa. Suja e um pouco dorida, espreitou para a biblioteca antes de subir. Vira o carro de Mitch à porta de casa.

- A fazer serão? - perguntou-lhe.

- Sim. Tu também?

- Tive um dia espectacular, diverti-me imenso. Vou arrancar do corpo umas quantas camadas desse dia e depois vou comer como uma alarve.

- Queres companhia? Precisava de falar contigo sobre umas coisas.

- Claro, vem comigo.

- Andaste a brincar na terra?

- Grande parte do dia. Uma emergência de jardinagem. - Dirigiu-lhe um sorriso por cima do ombro enquanto subia as escadas. - Uma amiga, uma visita inesperada por parte dos sogros, tendências passivo-agressivas e um desejo de se afirmar. O resultado foi um belo lucro para o meu negócio e um dia espantoso para mim.

Entrou directamente na casa de banho e despiu a camisa.

- Há muito tempo que não me envolvia tão a fundo com a concepção e criação de paisagens. Já quase me esquecera do quanto gosto de mexer na terra de alguém e criar alguma coisa.

Despiu-se enquanto falava, muito naturalmente, pondo a roupa no cesto, inclinando-se para abrir o chuveiro e sentir a temperatura da água, com Mitch à porta, a ouvir.

- Grande parte do terreno era virgem, com muito potencial. Devia sentir-me culpada por lhe ter cobrado o que para mim foi um prazer, mas não sinto. Nós merecemos.

-Nós?

- Tive de chamar as tropas. - Entrou para a cabine do chuveiro. - Levei o Harper comigo e, ao fim do dia, o Logan e a Stella entraram como reforços. Fiz um jardim perene lindo para as quatro estações. Agora já está bonito; daqui a algumas semanas abrem os primeiros lírios-de-um-dia, depois a baptísia e, em seguida, as filipêndulas, as campainhas, a salva e a dedaleira. O Harper entrelaçou uma clematite roxa maravilhosa numa latada de cobre e acrescentou um trio de hortênsias. Depois, quando o Logan lá chegou... - Interrompeu-se e espreitou, com o cabelo a pingar. - Estou a aborrecer-te.

- De todo. Posso não saber do que estás a falar, mas não estou aborrecido. Pareces entusiasmada.

- E estou. Amanhã de manhã, vou dar os últimos retoques e apresentar-lhe a conta final. Ela pode desmaiar, mas vai impressionar os sogros.

- Ainda não me respondeste quanto à planta para o meu apartamento. Sabes, por causa do feng shui.

- Pois não.

Aguardou cinco segundos e só ouviu a água a correr. Riu-se.

- Acho que é resposta suficiente. Sabes, acho que sou inteligente e responsável quanto baste. Podia aprender a tratar de uma planta.

- É possível, mas o teu cadastro é péssimo, Mitch. Péssimo. Talvez possamos falar sobre um período experimental. Ameacei fisicamente a Cissy caso ela não preserve o que lá fiz. Ouvi-a a falar com o Logan, sobre contratá-lo para fazer a manutenção duas vezes por mês. É justo. Todos nós devíamos ter consciência das nossas limitações.

- Rega-se. Põe-se ao sol. Eu posso fazer isso.

- Como se não houvesse mais nada. Dás-me a toalha? - Fechou a torneira, agarrou na toalha e começou a secar-se. - Estivemos tão embrenhados no trabalho que mal consegui pensar fosse no que fosse. O casamento da Stella também está quase aí. E sei que o nosso projecto também precisa da minha atenção.

Mitch viu-a aplicar o creme, sentiu o aroma deste a misturar-se com o perfume do gel de duche.

- Nós desenrascamo-nos.

- Agora que tenho o negócio, os Invernos passam a correr. As pessoas não têm noção do trabalho que há para fazer durante o Inverno. E cá estamos nós, mais uma Primavera. Nem acredito que...

As sobrancelhas de Roz uniram-se, com a habitual ruga vertical entre elas. Ficou em silêncio e tapou cuidadosamente a embalagem de creme.

- Apercebeste-te agora, não foi? - perguntou-lhe Mitch.

- Apercebi-me de quê?

- Nós dois, neste momento. - Ficou onde estava, enquanto Roz se deslocava pelo quarto e abria uma gaveta para tirar roupa limpa. - Fim do dia de trabalho, a conversar no duche. É uma sensação de casamento, não é?

Roz vestiu umas calças de fato de treino cinzentas e uma T-shirt.

- Como te sentes em relação a isso?

- Não tenho a certeza. Um bocadinho nervoso, talvez. Mas no fundo estou muito calmo. E tu?

Ela esfregou o cabelo com a toalha enquanto lhe estudava o rosto.

- Voltar a casar-me não estava nos meus planos, era uma das principais coisas a evitar. Estava ao nível das cobras venenosas, de uma chuva de sapos, de uma epidemia do vírus Ébola, coisas assim.

Mitch sorriu e encostou-se à ombreira da porta.

- Ouvi aí um verbo no passado.

- Tens bom ouvido. Quando era muito jovem, apaixonei-me. Quando me apaixonei, casei-me. Foi muito bom e vou amar o John Ashby para o resto da vida. Vejo-o nos filhos que tivemos juntos e sei que não os teria se não nos tivéssemos amado tanto.

- As pessoas que amaram assim têm muita sorte.

- Pois temos. A dada altura, senti-me solitária. Os meus filhos estavam a seguir o seu caminho e a casa parecia muito vazia, muito silenciosa. Fiquei triste. Por detrás do orgulho que sentia ao ver os homens que tinha ajudado a criar, estava muito triste.

Regressou à casa de banho para pendurar a toalha molhada e depois abriu o frasco de creme hidratante diário, que aplicou no rosto.

- Precisava de alguma coisa que me animasse, ou pelo menos assim julgava. Queria alguém com quem passar o resto da vida. Escolhi um homem que, à superfície, parecia ideal. Foi um erro que me custou muito, tanto a nível emocional como financeiro.

- E por causa disso vais ter muito cuidado no que diz respeito a outro casamento.

- Vou. Mas estou apaixonada por ti, Mitchell. - Viu a emoção invadir-lhe os olhos, e que gratificante foi percebê-la, saber que ali estava por sua causa.

Viu-o começar a avançar. E parar, por saber que ela queria que aguardasse. ”Mais uma vez é gratificante”, pensou, ”ser tão bem entendida.”

- Nunca esperei vir a amar outra vez, pelo menos de todo o coração. Foi esse o erro que cometi com o Bryce, sabes. Foi um erro crasso casar com alguém que não amava de todo o coração. Mesmo assim, o casamento é um passo enorme. Espero que não te importes que te diga quando e se estou pronta a dá-lo.

- Não me vai fazer diferença, porque te amo, Rosalind. Os erros que cometi no passado magoaram as pessoas de quem gostava. Não voltarei a cometê-los.

Dirigiu-se a ele.

- De certeza que vamos cometer erros novos. Mitch baixou-se e beijou-lhe os lábios.

- Não faz mal.

- Sim, acho que não vai fazer mal. E se descêssemos para ver o que o David cozinhou? Depois, podes dizer-me como foi o teu dia em vez de me ouvires a divagar sobre o meu.

Como era tarde, as crianças já tinham jantado e os respectivos pais atarefavam-se com o ritual da hora de dormir.

- Às vezes conseguimos esquecer-nos de que esta casa está cheia de gente. - Roz atacou o esparguete e as almôndegas. - Outras vezes, parece que estamos na aldeia dos macacos no jardim zoológico.

- E gostas das duas situações.

- Gosto. Sou uma pessoa contraditória. Preciso da minha solidão, caso contrário fico mazinha. Se fico demasiado solitária, acabo melancólica. Sou uma pessoa difícil de aturar, talvez queiras juntar esse factor à equação.

- Já o fiz.

Roz fez uma pausa, com o garfo a meio caminho da boca. Depois pousou-o, ao mesmo tempo que soltava uma gargalhada.

- Por mim, tudo bem.

- Sou desorganizado e muitas vezes desleixo pormenores que não me interessem naquele preciso momento. E não faço tenção de me reformar. Também podes contar com estes factores.

- Já está. Agora, sobre o que querias falar comigo?

- Nunca me faltam coisas para falar contigo.

- Nas primeiras semanas de um novo amor, os homens falam mais do que virão a fazer nos vinte anos seguintes.

- Estás a ver? - Gesticulou com o garfo, após o que enrolou alguma massa. - Mais uma vantagem de nos termos encontrado numa fase mais tardia da vida. Ambos sabemos como as coisas funcionam. Mas, acima de tudo, queria falar sobre a Clarise Harper.

- Vais fazer-me perder o apetite ao falares nela, e eu adoro almôndegas com esparguete.

- Esta manhã fiz-lhe mais uma visita, enquanto tu, imagino, andavas a cavar jardins.

- Achas que fizeste uma visita ao terceiro ou ao quarto nível do Inferno?

- Não foi assim tão mau. Ela gosta de mim, até certo ponto. Pelo menos considera-me interessante, e julgo que esteja a divertir-se a contar-me o que lhe interessa e a ocultar aquilo que não quer que eu saiba.

Comeu uma garfada de massa e depois partiu um pedaço de pão de alho ao meio para dividir com Roz.

- Se estiveres interessada, fiz uma gravação. Contou uma história engraçada. Diz que foi a mãe que lhe contou. É uma história sobre o teu avô ainda jovem. Adormeceu dentro de um armário com um cachorrinho que trouxera de uma ninhada que havia nos estábulos. Queria ficar com ele, mas a mãe tinha-o proibido. Nada de cães dentro de casa, acho eu. Por isso, escondeu-o no quarto durante uma semana ou duas, guardado no armário, e ia surripiando comida da cozinha.

- Que idade tinha?

- Ela julga que cerca de dez anos. Pelo menos segundo o que a mãe lhe contou. Foi descoberto quando um dia foi para dentro do armário com o cão e adormeceu. Ninguém sabia dele e viraram a casa do avesso. Depois, uma das criadas ouviu-o a gemer e encontraram-nos no fundo do armário do quarto.

- Acabou por ficar com o cão?

- Sim. O pai desautorizou a mãe e deixou-o ficar com ele. Mas parece que era um rafeiro e nunca aprendeu nada. Teve-o durante quase dezoito anos, por isso ela lembra-se vagamente do animal. Foi enterrado atrás do estábulo e foi plantada uma árvore em cima da campa.

- O Spot. A minha avó mostrou-me a campa. Até tem uma pequena lápide. Disse-me que ele tinha enterrado ali o cãozinho adorado, mas não devia saber como ficou com ele. Se soubesse, tinha-me contado.

- A impressão com que fiquei é que a Clarise me contou a história para mostrar que o irmão mais novo da mãe tinha sido estragado com mimos pelo pai.

- Seria de esperar da parte dela.

- Também fiquei a saber outra coisa. A Jane tem folga de quinze em quinze dias, à quarta-feira. Ou à quarta-feira à tarde. Gosta de ir ao Davis-Kidd almoçar no restaurante que lá têm e depois dar uma vista de olhos às prateleiras.

- Não me digas.

- Quem quisesse uma conversa em privado poderia esbarrar com ela por lá. Por sinal, amanhã é a sua tarde de quarta-feira de folga.

- Há já algum tempo que não vou à livraria.

- Então julgo que chegou a altura.

Sem a descrição de Mitch, Roz duvidava que tivesse conseguido reconhecer Jane Paulson. Viu a jovem de cabelo de tom pardo, roupa pesada e expressão solene entrar no restaurante e dirigir-se de imediato ao balcão.

Fez o pedido rapidamente, como alguém cujos hábitos pouco variam, e depois sentou-se a uma mesa num canto. Tirou um livro de bolso da mala.

Roz esperou sessenta segundos e depois aproximou-se.

- Jane? Jane Paulson? - Disse-o com um tom leve, com um laivo de espanto, e viu Jane dar um salto antes de erguer o olhar. - Ora vejam só.

Sem esperar por convite, Roz ocupou a segunda cadeira da mesa. -Já passou... nem sei quanto tempo. Sou a prima Rosalind, Rosalind Harper.

- Sim, eu... eu sei. Olá.

- Olá. - Roz deu-lhe uma palmadinha na mão e recostou-se para dar um gole no café. - Como vais, há quanto tempo estás cá na cidade? Conta-me tudo.

- Eu... estou bem. Estou cá a morar.

- Não me digas! Aqui em Memphis? Mas que maravilha. A tua família vai bem, espero.

- Está tudo bem. Sim, está tudo bem.

- Óptimo. Dá os meus cumprimentos aos teus pais quando os vires. O que estás a fazer aqui em Memphis?

- Eu, ah... - Interrompeu-se quando lhe serviram o prato de sopa e a meia sanduíche. - Obrigada. Ah, prima Rosalind, quer alguma coisa?

- Não, é mesmo só o café. - E não foi capaz. Não conseguiu olhar para o rosto triste e perturbado e continuar a mentir. - Jane, vou ser sincera contigo. Vim à tua procura.

- Não percebo.

- Sei que estás a morar com a prima Rissy, a trabalhar para ela.

- Sim. Sim, eu... e acabei de me lembrar. Tenho de fazer uns recados para ela. Nem sei como pude esquecer-me. Tenho mesmo de me ir embora e...

- Querida. - Roz segurou-lhe a mão, para a imobilizar e, se possível, para a reconfortar. - Sei muito bem o que ela pensa de mim, por isso não te preocupes. Não lhe vou dizer que estivemos a falar. Não quero fazer nada que te traga problemas com ela. Garanto-te.

- O que quer?

- Primeiro, quero que saibas que ela não vai ficar a saber de nada que me digas. Sabes que ela me detesta e o sentimento é mútuo. A Clarise e eu não vamos falar sobre a nossa conversa. Por isso, em primeiro lugar, quero perguntar-te se te sentes feliz com ela.

- Eu precisava de trabalho. Ela deu-me trabalho. A sério que devia...

- Hum. E se eu te encontrasse outro trabalho?

- Eu... neste momento não posso pagar uma casa para mim. - Jane fitou a sopa como se contivesse o mundo e este não fosse um lugar agradável. - E não tenho habilitações profissionais.

- Acho difícil que assim seja, mas isso pode esperar. Se te ajudasse a encontrar um trabalho de que gostasses e um apartamento que pudesses pagar, será que o preferias a ter de trabalhar e morar com a Clarise?

Quando a jovem ergueu a cabeça, tinha o rosto muito pálido.

- Porque havia a prima Rosalind de fazer isso?

- Em parte, para a contrariar, em parte porque não gosto de ver os membros da família tristes, quando a solução é simples. Ainda mais parcialmente, esperava que me ajudasses.

- O que é que poderia fazer por si?

- Ela tem coisas que pertencem à minha casa, à Harper House. - Roz aquiesceu quando viu o medo e a compreensão cruzarem o rosto de Jane.

- Ambas sabemos que é verdade. Não me interessam as estatuetas, ou pelo menos decidi não me interessar por esses objectos, digamos assim. Mas quero os documentos. Os livros, as cartas, os diários. Muito sinceramente, Jane, tinha pensado em subornar-te para que mos trouxesses. Em troca, ajudava-te a encontrar trabalho e uma casa, e dava-te algum dinheiro para começares, caso fosse preciso. Mas vou ajudar-te, seja como for.

- Porquê?

Roz aproximou-se.

- Se pudesse, ela tinha-me espezinhado. Ia manipular-me, dirigir-me a vida e vergar-me o espírito. Se ela pudesse. Não a deixei. Não vejo porque havia de deixar que o faça a ti.

- Não foi ela que o fez. Fui eu que o fiz a mim própria. Não posso falar sobre isso.

- Então não falamos. Não te vou forçar. - Embora soubesse que seria muito fácil, razão por que não seria capaz de o fazer. - Vou dar-te os meus números de telefone. Este é o de casa, o do telemóvel e o do trabalho. Guarda-os onde ela não os encontre. Deves saber que ela te revista as coisas quando lá não estás.

Jane anuiu.

- Não faz mal. Não tenho nada.

- Se continuares com essa atitude, nunca vais ter nada. Pensa naquilo que queres e se queres que te ajude a conquistá-lo. Depois telefona-me.

- Ajudava-me mesmo que eu não a ajudasse a si?

- Sim. E posso desenvencilhar-me se e quando quiser. Ela tem coisas que me pertencem e quero-as de volta. Vou consegui-las. Queres fugir dela e eu ajudo-te. Sem condições.

Jane abriu a boca, voltou a fechá-la e levantou-se.

- Prima Rosalind. Podemos... podemos ir para outro lado? Ela sabe que venho aqui e pode...

- Ficar a saber? Pois, é provável. Está bem, vamos para outro lado. Tenho o carro ali fora.

Foram a um pequeno restaurante, longe do centro, onde era pouco provável encontrarem alguém que as conhecesse ou a Clarise. Cheirava a churrasco e a um bom café forte.

Foi o que Roz pediu, para que Jane tivesse oportunidade de se acalmar,

- Tinhas emprego antes de te mudares para cá?

- Eu, ah, fazia trabalho de secretariado na empresa do meu pai. Ele tem uma empresa de pavimentação.

- Gostas de secretariado?

- Não, não gosto, e acho que não sou muito boa nisso.

- De que é que gostas?

- Acho que gostaria de trabalhar numa livraria ou numa galeria. Gosto de livros e de arte. Até sei um pouco sobre isso.

- É um bom começo. - Para encorajar a jovem a comer, em vez de depenicar com dedos inquietos as sementes de sésamo do pão, Roz pegou em metade da enorme sanduíche que já cortara ao meio e deu-lhe uma dentada. - Tens algum dinheiro?

-Juntei cerca de dois mil dólares.

- Mais um bon começo.

- Fiquei grávida - exclamou Jane de repente.

- Oh, querida. - Roz pousou a sanduíche e agarrou na mão de Jane. Estás grávida.

- Já não estou. - As lágrimas começaram a rolar-lhe pelas faces. - No ano passado. Foi no ano passado. Eu... ele era casado. Disse que me amava e que ia deixar a mulher. Sou tão estúpida. Sou tão idiota.

- Pára com isso - interrompeu-a Roz com um tom animador e dando-lhe um guardanapo de papel. - Não és nada disso.

- Ele era casado e eu sabia. Deixei-me levar. Era maravilhoso ter alguém que me queria e era excitante manter segredo. Acreditei em tudo o que ele me disse, prima Rosalind.

- É só Roz. É claro que acreditaste. Estavas apaixonada por ele.

- Mas ele não me amava. -Abanou a cabeça e começou a rasgar o guardanapo em tiras. - Descobri que estava grávida e contei-lhe. Foi tão frio, tão... bem, não ficou exactamente zangado, apenas irritado. Como se fosse, sei lá, uma inconveniência. Queria que eu abortasse. Fiquei chocada. Ele tinha dito que um dia nos casaríamos e agora queria que eu fizesse um aborto.

- É muito difícil, Jane. Sinto muito.

- Eu disse-lhe que sim. Fiquei horrivelmente triste, mas concordei. Não sabia o que mais podia fazer. Mas tinha medo, por isso fui adiando. Um dia, estava com a minha mãe e comecei a sangrar e a ter contracções no restaurante onde estávamos a jantar.

As lágrimas continuaram a correr-lhe pelas faces. Roz tirou mais um guardanapo e ofereceu-lho.

- Tive um aborto espontâneo. Não lhe tinha contado que estava grávida e abortei praticamente à frente dela. Ela e o papá ficaram tão perturbados. Estava tão atordoada e sentia-me tão estranha que lhes disse quem era o pai. Era um dos parceiros de golfe do meu pai.

Desta vez escondeu o rosto no guardanapo e soluçou. Quando a empregada de mesa fez menção de se aproximar, Roz fez-lhe um sinal com a cabeça, levantou-se e sentou-se ao lado de Jane, passando-lhe o braço por cima do ombro.

- Desculpe.

- Não tens de pedir desculpa. Chora à vontade.

- Foi uma cena horrível, um período da minha vida horrível. Envergonhei-os e desapontei-os.

- Dadas as circunstâncias, era de esperar que estivessem totalmente do teu lado.

- Envergonhei-os. - Soluçou e limpou as lágrimas. - E tudo por causa de um homem que nunca me amou. Perdi o bebé, talvez porque pedi que ele não existisse. Desejei que desaparecesse e foi o que aconteceu.

- Um bebé não desaparece só porque o desejamos, querida. Podes culpar-te por teres engravidado, pois são precisos dois. Mas não te podes culpar por o teres perdido.

- Em toda a minha vida, sempre fiz o que me disseram para fazer. Mas fiz isto, e foi este o resultado.

- Lamento que tenha acontecido. Todos cometemos erros, Jane, e às vezes o preço a pagar é muito alto. Mas não és obrigada a continuar a sofrer por isso.

Abraçou Jane de novo e regressou ao seu lugar, para que ficassem frente a frente.

- Olha para mim. Ouve-me. Esse homem que te usou já saiu da tua vida?

Anuiu e limpou os olhos.

- Óptimo. Agora podes começar a decidir o que queres fazer. Construir uma vida nova ou andar sempre à volta da desgraça que foi a antiga.

- Ajuda-me mesmo a encontrar emprego?

- Ajudo-te a encontrá-lo. Mantê-lo já vai ser contigo.

- Ela... ela tem muitos diários. Guarda-os no quarto, numa gaveta trancada. Mas eu sei onde tem a chave.

Roz sorriu e recostou-se.

- És uma maravilha.

 

- Clarise não é má, pois não? - Hayley mudou o peso de Lily na anca e observou Harper a calcar a terra à volta da portulaca no canteiro das traseiras do seu anexo. - Quer dizer, é desagradável e mesquinha, mas não é má.

- É óbvio que nunca ouviste a mamã a descrever a prima Rissy como a Cabra-Mor do Inferno.

- Se é mesmo má, então talvez tenha algo a ver com a Amélia. Talvez tenha sido ela quem a matou.

- Ainda não tinha nascido, ou sido desovada como a mamã diria, quando a Amélia morreu.

- Ah, pois. - Mas enrugou a testa. - Claro que também é preciso termos razão quanto às datas. Se estivermos errados, pode ter sido ela.

- Isso, partindo do princípio de que a Amélia foi assassinada.

- Pois, está bem, partindo do princípio de que o foi. Ela tem de ter alguma razão para ter roubado os diários e para os ter guardado. Não achas?

- Outra razão que não o facto de ser uma velha coscuvilheira egoísta?

- Sim, outra razão. Está bem, querida. - Sentindo Lily agitar-se, Hayley pousou-a e começou a andar com ela pela mão ao longo do pátio de Harper.

- Pode haver nos diários coisas que a comprometam.

- Nesse caso, porque é que não os queimou?

- Não sei - retorquiu, com brusquidão. - É só uma teoria. Temos de ter uma teoria e uma hipótese para conseguirmos encontrar a solução, não é?

- Se o dizes. Mas a minha solução é que a prima Rissy não passa de uma bruxa desonesta e sem coração. Olha aqui, fofinha. - Apanhou uma flor e segurou-a à altura de Lily. - É bonita, não é? Queres?

A rir-se, a bebé largou a mão da mãe e estendeu a sua.

- Não, se queres, vem buscá-la - incentivou-a Harper.

E quando a segurou quase junto aos seus dedos, Lily deu três passos cambaleantes.

- Ai, meu Deus. Ai, meu Deus! Viste? Ela andou. Viste?

- Claro que vi. - Harper equilibrou Lily quando o bebé fechou a mão em redor da flor. - Olha só para ti. Quem é a mais linda?

- Ela deu os primeiros passos. - Hayley fungou e limpou uma lágrima. Ela foi ter contigo.

Sempre pouco à vontade com as lágrimas, Harper olhou para cima.

- Desculpa. Devia ter-te dado a flor.

- Não, não é isso. Ela deu os primeiros passos, Harper. A minha menina. Vi-a a dar os primeiros passos. Ai, quero mostrar a toda a gente. Ensaiou uma dança breve e depois pegou em Lily, fazendo a bebé rir ao rodar com ela ao colo. - Temos de mostrar a toda a gente como tu és esperta.

Em seguida, parou e suspirou. Baixou-se e beijou a face de Harper.

- Foi ter contigo - repetiu. Depois, correu para a casa principal com a bebé apoiada na anca.

Roz adorava tomar café no pátio, com os jardins que despertavam à sua volta. Ouvia os filhos de Stella a brincar com o cão e os sons levavam-na ao passado, ao período em que os gritos eram dos seus filhos.

Era agradável estar ali sentada, no final da tarde, com a luz azul e suave e o cheiro de tudo o que crescia a pairar no ar. Também era agradável por lhe apetecer ter companhia. Bebeu o café enquanto Logan e Stella, Mitch e David falavam à sua volta.

Também gostaria de ter ali Harper e Hayley. Mas Harper não atendia o telefone, o que já se tornara um hábito, e não encontrara Hayley nem o bebé em lado nenhum.

- Ela disse que ele gostou tanto do aspecto de tudo que a levou a comprar mobília nova para o jardim. - Stella terminou o copo de chá gelado. Raramente vi uma cliente tão satisfeita. Ou um jardim concebido e executado tão depressa. É melhor o Logan ter cuidado contigo, Roz.

- Já conhecia o jardim e a dona o suficiente para saber que a Cissy ia gostar das alterações. E para contratar o Logan para que tudo continue com bom aspecto.

- Detestava sentir-me assim tão infeliz e intimidada pela minha sogra. Stella sorriu a Logan. - Vou ter uma jóia.

- Ela pensa o mesmo, o que vai tornar a minha vida muito mais simples.

- Levantou a garrafa de cerveja na direcção de Stella. - Tens os dias contados, ruiva.

- Duas semanas e o relógio não pára. Ainda há tanto para fazer. Sempre que julgo que está tudo sob controlo, lembro-me de mais uma coisa. Planear um casamento pequeno e simples é um mar de complicações.

- É só dizer ”aceito” e comer bolo - gracejou Logan, o que lhe mereceu um olhar gelado por parte da noiva.

- A Jolene tem sido uma grande ajuda - prosseguiu Stella. - E a mãe e a irmã do Logan também, mesmo à distância. E nem sei o que faria sem ti, David.

- Atira-me o ramo e ficamos quites.

- Por falar na tua madrasta - interveio Roz -, hoje falei com a Jolene. -A sério?

- Não há ninguém que conheça mais gente em Shelby County do que a Jolene Dooley. E lembrei-me de que ela tinha uma amiga que dirige uma galeria muito agradável com loja de recordações, na baixa. A Jane tem uma entrevista de emprego na próxima quarta-feira à tarde.

- Trabalhas depressa - comentou Mitch.

- Aquela rapariga precisava de uma oportunidade. Agora vamos ver o que faz com ela. A Jolene tem outra amiga cuja irmã trabalha numa empresa de alugueres. Há um apartamento TO na baixa, a cerca de seis quarteirões da galeria. Os actuais inquilinos vão sair daqui a duas semanas e as pessoas que o iam alugar não cumpriram o contrato.

- Afinal devia ter dito que fazes milagres.

- Não, só os solicito.

- Será que ela vai aproveitar? - interrogou-se Logan. - Será que vai sair de onde está e trazer-te os diários? Pela tua descrição, parece faltar-lhe um bocado de garra.

- Há quem não a tenha. Há quem venha a descobrir que a tem, mas que tem sido mal dirigida. Ela é jovem e não tem aquilo a que poderíamos chamar entusiasmo. E mesmo que lhe tenha dito que não havia condições, tenho quase a certeza de que se vai sentir obrigada caso aceite o emprego e o apartamento. Agora, se terá a coragem de o fazer, isso já é outra história.

- E se não tiver? - perguntou Mitch.

- Nesse caso, imagino que a prima Rissy e eu tenhamos de ter uma conversinha. Tenho alguns trunfos na manga e vou usá-los, se a isso for obrigada.

David inclinou-se para ela com os olhos a cintilar.

- Roupa suja? Como por exemplo?

- Pecadilhos de família que ela não gostaria que viessem a lume. Vou garantir-lhe que vou fazê-los subir como balões, a menos que devolva o que pertence à Harper House. - Deu uma palmadinha no queixo de David.

- Mas, por agora, são os meus segredinhos.

- Desmancha-prazeres.

Roz virou-se, tal como todos os outros, quando Hayley gritou. Com um ar radiante, correu até à mesa, onde chegou quase sem fôlego.

- Ela andou. Ela andou até ao Harper. Três passos!

Nada seria melhor do que ver Lily a demonstrar mais uma vez a sua nova competência. Mas ela limitou-se a apoiar-se nos joelhos sempre que Hayley a incitava a dar um passo e preferiu gatinhar pelo pátio e tentar trepar para a cadeira de Roz.

-Juro que ela andou. Podem perguntar ao Harper.

- Eu acredito. - Roz içou Lily para a mimar. - Andas a brincar com a mamã, não é? - Chegou a cadeira para trás e levantou-se com Lily nos braços. Depois pegou numa bolacha e estendeu-a a Hayley. - Mais vale começares a usar uma das primeiras ferramentas parentais. O suborno. Baixa-te e estende a bolacha.

Hayley obedeceu e Roz agachou-se e equilibrou Lily de pé.

- O Harper ofereceu-lhe uma flor.

-Aquele rapaz sabe mesmo como encantar uma rapariga. Anda, bebé. Vai buscá-la.

Lily exibiu-se perante os aplausos entusiásticos. Depois caiu de rabo e comeu a bolacha.

Quando os outros entraram em casa, Roz ficou com Mitch ao lusco-fusco.

- Ficavas ofendida se te dissesse que dás uma avó honorária maravilhosa?

- O termo avó ainda é um bocado chocante. Mas, como gosto tanto daquele bebé como se fosse do meu sangue, não, não fico ofendida. Deu os primeiros passos para o meu filho. Para o Harper. É difícil não ver um significado nesse acontecimento.

- A Hayley não anda com ninguém?

- Neste momento, a vida dela está centrada na Lily. Mas é jovem e cheia de vida. Vai aparecer alguém, mais cedo ou mais tarde. Quanto ao Harper, não consigo estar a par das raparigas que vão e vêm, mas ele não as traz cá a casa para as apresentar. Isso também quer dizer alguma coisa.

- Bem, por falar em filhos, o meu anda a sair com uma nova jovem. Uma rapariga daqui. E acontece que os pais dela são membros do teu clube. Ele vai estar no baile amanhã à noite. Mal posso esperar para que vocês se conheçam.

- Adorava conhecê-lo. Quem é a rapariga?

- Chama-se Shelby, em honra do condado, suponho eu. Shelby Forrester.

- Este mundo é muito pequeno, de facto. Sim, conheço a Jan e o Quill, os pais da Shelby. Também a conheço a ela, e é uma rapariga encantadora. Os pais dela e eu temos actualmente uma... relação frágil. O Quill está a fazer um negócio qualquer com o Bryce e isso torna as coisas um pouco difíceis entre nós. Mas é algo que não irá afectar mais ninguém.

- Ninguém estabelece ligações complexas e relações frágeis como aqui no Sul.

- Provavelmente não. Só falo nisso para que, caso sintas algum constrangimento no ar, saibas qual a razão. Mas estou preparada para ser bastante bem-educada, por isso não tens de te preocupar.

- Não estou preocupado, quer decidas ser educada quer não. Porque não vamos dar um passeio? Assim posso dar-te a mão e encontrar algum canto escuro e perfumado no jardim para te beijar.

- Parece-me uma óptima ideia.

- Estás a fazer uma coisa muito boa pela Jane Paulson.

- Talvez, mas os meus motivos são escusos. Ele riu-se e levou a mão dela aos lábios.

- Se os teus motivos fossem sempre puros, duvido que te considerasse tão fascinante.

- Adoro elogios subtis. Vamos contornar os estábulos. Vou mostrar-te a lápide do Spot.

- Gostaria de a ver. Poderá ser um bom sítio para eu te falar sobre uma nova teoria em que ando a matutar há já algum tempo.

Ao percorrerem o trilho, ela avaliou o desenvolvimento das flores e perscrutou a terra com olhos de águia em busca de ervas daninhas.

- Preferia que desembuchasses do que ficasses a matutar nela.

- Não sei ao certo como irás reagir a esta. Ando a estudar as datas, os acontecimentos, os momentos-chave e as pessoas-chave, numa tentativa de os conseguir ligar à Amélia.

- Hum, hum. Sempre gostei de ter aqui estes estábulos, de os deixar ficar. Como uma espécie de ruína. - Com a cabeça inclinada e de mãos nas ancas, ela observou as pedras caídas e a madeira castigada pelo tempo. Acho que podia mandar restaurá-los. Talvez o faça se tiver netos e eles se interessarem por cavalos. Nenhum dos meus filhos gostava de cavalos. Acho que são as raparigas que atravessam esse período de adoração equina.

Observou o edifício à luz do lusco-fusco, o telhado meio a cair e a pintura desbotada, as trepadeiras e as ervas ornamentais que ela plantara em seu redor para lhe dar um aspecto selvagem.

- Parece algo saído de um filme ou, mais provavelmente, de um livro de contos.

- É disso que gosto nele. Foi o meu pai que o deixou ao abandono, ou nunca fez nada para preservar o edifício. Lembro-me de o ouvir falar em demoli-lo, mas a minha avó pediu-lhe que não o fizesse. Disse que fazia parte deste lugar e que gostava dele. A sepultura está nas traseiras - indicou. - Desculpa, Mitch, interrompi-te. O meu pensamento está a vaguear. Fala-me da tua teoria.

- Não sei o que vais achar dela.

- Hera venenosa - alertou, empurrando-o antes que ele roçasse numa trepadeira. - Vou ter de me livrar dela. Cá estamos nós. - Baixou-se e, com as mãos sem luvas, arrancou as ervas daninhas e afastou a terra até revelar a lápide com o nome gravado à mão na pedra.

- É querido, não é, ele ter enterrado aqui o seu velho cão e gravado esta placa? Acho que deve ter sido um homem meigo. A minha avó não o teria amado tanto se não fosse.

- E amava-o - concordou Mitch. - Pode ver-se o quanto ela o amava nas fotografias em que estão juntos.

- Ele parece um tanto ou quanto frio na maior parte das fotografias que temos dele. Mas não era. Uma vez, perguntei à minha avó e ela disse que ele detestava tirar fotografias. Era tímido. É estranho pensar no meu avô como um homem tímido que adorava o seu cão.

- Ela era mais extrovertida? - aventou Mike.

- Oh, muito. Gostava de conviver, quase tanto como gostava de jardinagem. Acima de tudo, adorava dar almoços e chás sumptuosos. Aperaltava-se toda para eles: chapéu, luvas, vestidos vaporosos.

- Já vi fotografias dela. Era elegante.

- Contudo, era capaz de enfiar umas calças velhas e cavar a terra durante horas.

- Como outra pessoa que conhecemos. - Passou-lhe a mão pelo cabelo.

- O teu avô nasceu vários anos depois da mais nova das irmãs.

- Hum. Houve outras gravidezes, penso eu. A minha avó abortou duas vezes e lembro-me vagamente de ela ter mencionado que à sogra acontecera o mesmo. Talvez também um nado-morto.

- E depois um filho, nascido na mesma altura em que teorizámos que Amélia teria vivido e morrido. Amélia, que assombra a casa, mas que não conseguimos precisar se viveu cá, certamente não enquanto parente. Que canta para as crianças, tem todo o aspecto de ser dedicada a crianças e de desconfiar dos homens, até mesmo de os desprezar.

Roz meneou a cabeça. O crepúsculo estava a dar lugar à escuridão muito depressa e, com ela, veio um ar gelado.

- Sim, e...?

- E se a criança que nasceu em 1892 fosse filho dela? Filho dela, Roz. Filho de Amélia e não de Beatrice Harper.

- Essa é uma teoria muito radical, Mitchell.

- Será? Talvez. De qualquer forma, é só uma teoria e parcialmente baseada em especulação algo livre. Mas não seria o primeiro caso.

- Eu teria ouvido falar nisso. Certamente, teria havido alguma referência ou um qualquer boato transmitido de geração em geração.

- Como? Porquê? Se os intervenientes originais tivessem o cuidado de guardar segredo, um homem abastado e influente que ansiava por um filho e que pagou para ter um. Raios, ainda acontece!

- Mas... - Roz pôs-se de pé. - Como se poderia esconder esse tipo de fraude? Não estás a falar de uma adopção legal.

- Não, não estou. Segue o meu raciocínio. E se o Reginald tivesse contratado uma jovem, provavelmente alguém com alguma educação, alguma inteligência, que estivesse em apuros? Ele paga as contas, dá-lhe um porto seguro e tira-lhe a criança se for um rapaz.

- E, se for uma menina, terá perdido o seu tempo e o seu dinheiro?

- Uma aposta. Outra hipótese é ter sido ele próprio a engravidá-la.

- E a mulher dele simplesmente aceitou o bastardo como sendo seu, como o herdeiro?

- Era ele que controlava os cordões da bolsa, não era? Roz estava imóvel, a esfregar os braços.

- Essa é uma teoria muito fria.

- É verdade. Talvez ele estivesse apaixonado por Amélia e tencionasse divorciar-se da mulher e casar com ela. Ela pode ter morrido durante o parto. Ou talvez se tenha tratado de um acordo de negócios directo. Ou de outra coisa qualquer. Mas se essa criança, se Reginald Harper Jr. fosse filho de Amélia, isso explicaria algumas coisas.

- Tais como?

- Ela nunca te fez mal algum nem a ninguém da tua família. Isso não se deverá ao facto de seres do sangue dela? De seres sua descendente? Sua bisneta?

Roz afastou-se da pequena campa.

- Então porque está ela dentro de casa, na propriedade? Pensas que ela deu o bebé à luz aqui? Na Harper House?

- Possivelmente. Ou que visitou a casa, passou algum tempo nela. Talvez como ama do bebé, o que também não seria o primeiro caso. Que, de uma forma ou de outra, ela morreu aqui.

- De uma forma ou...

A sepultura não era pequena e não tinha qualquer lápide. Estava aberta, era escura e profunda.

Encontrava-se sobre ela, sobre aquela boca escancarada na terra. Olhava para baixo, para a morte. O corpo dentro do vestido esfarrapado e imundo, a carne que se desprendia dos ossos. O cheiro da morte rodeou-a como abelhas gordas a zumbir, picando-lhe os olhos, a garganta, a barriga.

O chão debaixo dos seus pés estava húmido e escorregadio. Acima dele, estendia-se um nevoeiro ténue e fétido, manchando a terra escura e a erva molhada com línguas sujas de cinzento.

Enterrou a pá na terra e na erva através daquele nevoeiro e encheu-a. Depois atirou a terra para dentro da sepultura.

Os olhos da morta abriram-se, brilhantes de loucura e maldade. Erguendo uma mão, com os ossos a furarem horrivelmente a carne apodrecida, começou a trepar para fora da terra.

Roz deu um salto e bateu nas mãos que a seguravam.

- Calma, calma. Respira. Devagarinho.

- O que aconteceu? - Empurrou novamente a mão de Mitch quando percebeu que estava no chão, aninhada no colo dele.

- Desmaiaste.

- Não desmaiei nada. Nunca desmaiei na minha vida.

- Considera esta a tua primeira vez. Ficaste branca como a cal e reviraste os olhos. Agarrei-te quando começaste a desfalecer. Só estiveste inconsciente durante cerca de um minuto. - Ele próprio um pouco trémulo, encostou a testa à dela. - O minuto mais longo da minha vida, até agora. - Respirou fundo uma vez e depois outra. - Se estás bem, importas-te que eu me sente aqui um minuto até me acalmar?

- Ora, mas que raio de coisa.

- Não quis perturbar-te. Vamos só fazer uma lista das teorias. É melhor irmos para dentro.

- Não achas que desmaiei porque me puseste a pensar que o meu avô pode ter sido um filho ilegítimo, pois não? Deus do céu. Por quem me tomas? Eu não sou uma mulher qualquer, tonta e fraca, que questiona a sua própria identidade por causa das acções dos antepassados. Sei bem quem sou.

A cor voltara-lhe ao rosto e os olhos debruados com longas pestanas brilhavam de irritação.

- Então porque é que tu... - Agora era a vez de ele ficar pálido como um fantasma. - Meu Deus, Roz, estás grávida?

- Controla-te. Há uns minutos estavas a chamar-me avó e agora estás em estado de choque a pensar que eu posso estar grávida. Não vou presentear nenhum de nós com um bebé na meia-idade, por isso descontrai-te. Parece que fui enfeitiçada ou algo do género.

- Importas-te de explicar?

- Num segundo estávamos a conversar e no seguinte estava de pé, não sei onde, mas estava de pé junto de uma sepultura aberta. Ela estava lá dentro, a Amélia, e não tinha muito bom aspecto. - Não conseguiu deixar de estremecer e encostou a cabeça ao ombro seguro e forte. - Mais do que morta, estava em decomposição. Vi, cheirei. Acho que foi isso que me abalou. Foi, no mínimo, muito desagradável. Acho que estava a enterrá-la. Depois ela abriu os olhos e começou a trepar cá para fora.

- Se te serve de consolo, se isso me acontecesse a mim, eu também teria desmaiado.

- Não sei se era aqui, neste local específico. Não me pareceu, mas não tenho a certeza. Já estive aqui vezes sem conta. Plantei aquela paquisandra e aquelas oliveiras, e nunca senti nada de estranho.

- Para arriscar outra teoria, nunca estiveste tão perto de descobrir quem ela era.

- Acho que não. Vamos ter de cavar. - Pôs-se de pé. - Vamos ter de cavar e descobrir se ela está aqui.

Montaram luzes e cavaram até depois da meia-noite. Os homens e Roz, enquanto Stella e Hayley trabalhavam por turnos, uma delas permanecendo dentro de casa para vigiar as crianças que dormiam.

Não encontraram nada a não ser os ossos de um cão outrora amado.

- Podia ter sido metafórico.

Roz olhou para Harper quando, no dia seguinte, atravessavam o bosque em direcção a casa. Sabia muito bem por que motivo o filho estava com ela, o braço casualmente sobre os seus ombros: Mitch contara-lhe que ela tinha desmaiado.

Mal tivera cinco minutos sozinha desde que acontecera. Isso ia mudar, pensou, mas iria dar-lhe, bem como ao resto da sua família honorária, um dia antes de os enxotar.

- O que é que podia ter sido metafórico?

- Aquilo, tu sabes, a visão que tiveste. De pé, junto à sepultura dela, a atirar-lhe terra para cima. -Arrepiou-se. - Não quero assustar-te.

- Não estás a fazê-lo. Quem é que costumava ter pesadelos depois de ver o programa que dava ao sábado de manhã? Como é que se chamava, land of the Lost?

- Meu Deus! Os Sleestak. - Estremeceu e apenas parte do movimento foi brincadeira. - Ainda tenho pesadelos. Mas seja como for, o que quero dizer é que nunca estiveste junto da sepultura dela, nunca a enterraste. Ela morreu há muito tempo. Mas, se formos pela tal ideia da metáfora, podíamos dizer que estavas a tentar abrir a sepultura, mas, não encontrando coisa alguma, o que quer que seja, estavas a enterrá-la.

- Então passou-se tudo na minha cabeça.

- Talvez ela esteja a colocar as coisas lá. Não sei, mamã. Roz ficou pensativa durante alguns instantes.

- O Mitch tem uma teoria. Estávamos a falar sobre ela antes de eu desmaiar.

Contou tudo ao filho, colocando o braço em volta da cintura dele. Juntos, pararam na orla do bosque, observando a casa.

- Bem vistas as coisas, não me parece muito improvável - admitiu Harper.

- Sempre pareceu que ela era uma de nós.

- A mim parece-me que apenas abre mais uma caixa de perguntas e, na verdade, não faz com que estejamos mais próximos de descobrir quem ela era. Mas de uma coisa tenho a certeza. Quero aqueles diários mais do que nunca. Se a Jane voltar atrás, vou enfrentar a Clarise.

- Queres que eu faça de árbitro?

- Talvez queira. Se a Amélia faz parte da família, merece o que é seu de direito. O mesmo não sinto em relação a Clarise. Na minha opinião, ela sempre quis mais do que aquilo que é seu. Não sei o que é que isso faz de mim, o facto de sentir mais compaixão por uma mulher morta, que pode ou não ser nossa parente, do que sinto por uma viva que, sem dúvida, faz parte da família.

- Uma vez ela deu-me uma bofetada. Roz ficou subitamente hirta.

- Ela fez o quê?

- Um dia deu-me uma estalada bem dada, quando nos veio visitar e me apanhou a subir para o balcão da cozinha para ir buscar o frasco das bolachas. Acho que devia ter uns seis anos. Deu-me uma bofetada, puxou-me para baixo e disse-me que eu era um fedelho guloso e mal-educado.

- Porque não me contaste? Ela não tinha o direito de te tocar. Eu tinha-a esfolado.

- E depois esfolavas-me a mim - declarou. - Tinhas-me dito para nunca trepar para o balcão e tirar bolachas sem pedir primeiro. Por isso, paguei pelo meu pecado e fiquei bem caladinho.

- Se alguém te fizesse pagar, esse alguém seria eu. Ninguém põe as mãos nos meus filhos, e no meu tribunal os crimes não prescrevem. Aquela cabra.

- Pronto, pronto. - Abraçou-a com mais força. - Não te sentes melhor?

- Acho que antes de isto acabar vou fazer com que ela se arrependa. Caminhou com ele em direcção à casa. - E tu sabias bem que não podias ir buscar o frasco das bolachas, Harper Jonathan Ashby.

- Sim, senhora.

Ela deu-lhe uma ligeira cotovelada.

- E não te rias.

- Não me estou a rir. Só estava a pensar que se calhar deve haver bolachas lá dentro.

- Imagino que sim.

- Bolachas e leite parecem-me uma boa ideia.

- Pois é. Vamos chatear o David até ele nos dar algumas. Mas tem de ser já. Tenho que me preparar para um encontro.

Roz sabia que os estilos e as cores não só a favoreciam, como também eram a sua cara. Escolhera o Dior clássico devido ao seu corte simples e solto e à sua bonita cor dourada. O corpete direito, as alças finas e o drapeado atrás deixavam nus os ombros e as costas.

As costas, os braços e os ombros eram firmes. Fazia por isso. Assim, não via qualquer motivo para não os revelar. Colocou os diamantes da avó: os brincos em forma de lágrima e o colar de várias fiadas que herdara.

Sabendo que ia arrepender-se, enfiou as sandálias de salto alto e fino que deixavam ver as unhas dos pés, as quais pintara do mesmo dourado delicado do vestido.

Virou-se, a fim de se ver de costas ao espelho, e, ao ouvir bater à porta, gritou um distraído ”entre”.

- Roz, só queria... - Stella estacou. - Virgem Santíssima. Estás espectacular.

Com um aceno de cabeça para o espelho, Roz virou-se novamente.

- Estou mesmo. Às vezes temos vontade de os arrasar, sabes o que quero dizer? Esta noite, apetece-me mesmo fazer isso.

- Fica... fica aí. - Saiu a correr e Roz ouviu-a chamar por Hayley. Divertida, pegou na mala (o que lhe teria passado pela cabeça para dar tanto dinheiro por uma coisita de nada daquelas?) e começou a enfiar lá dentro o que considerava necessário para aquela noite.

- Tens de ver isto - dizia Stella, puxando Hayley para dentro do quarto. Hayley pestanejou e depois semicerrou os olhos.

- Tens de dar uma voltinha. Vá, rodopia.

Disposta a fazer-lhes a vontade, Roz rodou e Hayley cruzou os braços e baixou a cabeça.

- Não somos dignas. Esses diamantes são verdadeiros? Sei que parece mal perguntar, mas não consigo evitar. São tão... cintilantes.

- Eram da minha avó e são particularmente especiais para mim. O que me faz lembrar de uma coisa. Tenho algo que julguei poderes querer usar no teu casamento, Stella. Abrange toda aquela história de uma coisa velha, emprestada e azul.

Já retirara a caixa do cofre e estendia-a a Stella.

- Oh, meu Deus.

- Foi o John que me ofereceu quando fiz vinte e um anos. - Sorriu para os brincos de safira. - Pensei que pudessem condizer com o vestido que escolheste, mas, caso não fiquem bem, não ficarei ofendida.

- Não há nada com que eles não fiquem bem. - Com delicadeza, Stella retirou da caixa uma das safiras em forma de coração. - São sublimes. E mais, estou tão... - Calou-se, abanando a mão em frente do rosto enquanto se sentava na cama. - Desculpa. É que estou tão... por me emprestares.

- Se tivesse uma irmã, acho que ela gostaria de usar algo meu no dia do casamento.

- Sinto-me tão emocionada, tão honrada. Tão... Vou ter de ficar aqui sentada e chorar durante alguns minutos.

- Tudo bem, estás à vontade.

- Sabes, a coisa velha nessa tradição é um símbolo da ligação da noiva à sua família - fungou Hayley.

Roz deu-lhe uma palmadinha na face.

- Imaginei que soubesses. Vocês podem ficar aqui sentadas e terem uma bela sessão de choro juntas.

- O quê? Onde vais? - quis saber Hayley.

- Lá para baixo. O Mitch deve estar a chegar.

- Mas não podes ir. - Mordendo o lábio e obviamente dividida entre ficar ali sentada com Stella e evitar uma catástrofe, agitava os braços como uma mulher a tentar fazer parar um comboio. - Tens de esperar que ele chegue e depois tens de deslizar escadas abaixo. Aquela escadaria é feita para uma mulher deslizar. Tens de fazer uma entrada em grande estilo.

- Não, não tenho, e tu pareces a minha mãe que me obrigou a fazer precisamente o mesmo com o meu par para o baile de debutantes a que me forçou a ir. Graças a Deus que era o John, por isso depois pudemos rir-nos do assunto. Acreditem, o mundo não vai acabar se eu lhe for abrir a porta. - Fechou a mala e deu mais uma olhadela rápida ao espelho. -Além disso, há outra tradição que eu tenho de seguir. Se eu não descer e pedir a opinião do David sobre o meu vestido, vou magoá-lo. Há lenços de papel na gaveta ao lado da cama - gritou.

Mal acabara de desfilar para David, tendo este aprovado, quando Mitch chegou.

Ao abrir a porta, teve o prazer de ver os seus olhos abrirem-se e de o ouvir assobiar baixinho.

- Como é que eu tive tanta sorte? - perguntou-lhe. Ela riu-se e estendeu-lhe o casaco.

- Da maneira como fica de smoking, doutor, talvez venha a ter muito mais sorte antes de a noite acabar.

 

- Estava a tentar lembrar-me da última vez que vesti um smoking. - Mitch sentou-se ao volante, deliciando-se a olhar demoradamente para Roz mais uma vez enquanto punha o cinto de segurança. - Quase de certeza que foi no casamento de um amigo. O filho mais velho dele termina o liceu este ano.

- Ora, mas isso é uma pena, uma vez que te fica tão bem.

- Chega-te aqui só um bocadinho. - Quando ela acedeu, Mitch beijou-lhe os lábios. - Pois é, sabem tão bem como parece.

- Sem dúvida.

Mitch ligou a ignição e arrancou.

- Podíamos esquecer a festa, fugir e casar. Estamos vestidos para a ocasião.

Roz lançou-lhe um olhar de esguelha, enquanto Mitch entrava na estrada principal.

- Cuidado com a forma como anda para aí a fazer essas propostas de casamento, dr. Carnegie. Olhe que no meu tempo já aceitei duas.

- Diz-me se quiseres experimentar a terceira.

Era uma sensação extraordinária, pensou, estar vestida esmeradamente e a namoriscar com um homem atraente.

- Estás a ficar com intenções sérias em relação a mim?

- Parece-me que sim. Tens de ter em conta que sou o tipo de homem que aluga smokings, mas compro um quando decidires dar o passo. É o mínimo que posso fazer.

- Claro, esse é um factor decisivo. Pousou a mão brevemente sobre a dela.

- Tenho um bom ordenado e, de uma forma ou de outra, o teu dinheiro não é problema para mim. Não tenho nada que me prenda. Durante muitos anos, o meu filho tem sido o único elemento essencial na minha vida. Ele já é um homem e, embora vá ser sempre o meu grande amor, estou pronto para outros amores, outras prioridades.

- E quando ele se mudar para Boston?

- Vou ficar de rastos.

Desta vez foi ela que pousou a mão na dele.

- Sei bem como é.

- Não os podemos seguir para todo o lado. Além disso, estive a pensar... é fácil ir até Boston de vez em quando ou fazer uma viagem quando ele tiver um jogo num sítio interessante.

- Estou ansiosa por conhecê-lo.

- Eu também mal posso esperar que o conheças. Espero que não te sintas pouco à vontade devido à tal fricção entre tí e os pais da namorada dele.

- Eu não, mas a Jan sim. É uma mulher fraca que decidiu sentir vergonha de ser minha amiga. É uma palermice, mas ela é uma palerma. Eu, por outro lado, vou gostar de a fazer sentir-se pouco à vontade. - Recostou-se no banco e falou com satisfação. - Mas, afinal, eu tenho um lado mau.

- Sempre gostei disso em ti.

- Ainda bem - respondeu, enquanto viravam em direcção ao clube. Pois é provável que ele apareça esta noite.

Para Mitch, era fascinante ver como aquelas pessoas funcionavam. A roupa elegante e os modos afectados eram uma espécie de verniz brilhante por cima daquilo que ele considerava ser uma síndrome básica de grupo de liceu. As pessoas formavam pequenos grupos, à mesa, nos cantos ou em locais estratégicos de onde podiam observar os outros grupos. Havia algumas borboletas que voavam de grupo em grupo, batendo as suas asas, mergulhando em algum do néctar dos mexericos e depois esvoaçando para o seguinte.

A moda era um dos temas quentes. Perdeu a conta à quantidade de vezes em que ouviu uma variação murmurada de ”coitada, devia ter estado a beber quando comprou aquele vestido”.

Já saboreara um pouco daquilo na festa de Natal de Roz, mas desta vez era seu acompanhante e notou que isso alterara a dinâmica de forma considerável.

Além disso, era o miúdo novo na turma.

Foi examinado de alto a baixo vezes sem conta, perguntaram-lhe quem ele era, o que fazia, quem era a sua família. Embora a forma de interrogatório fosse sempre educada, começou a ter a sensação de que devia ter dactilografado um currículo, pronto a ser distribuído.

As idades variavam entre aqueles que certamente tinham dançado ao som da música swing que a banda estava a tocar, quando esta era novidade, até àqueles que decerto consideravam a música revivalista e na moda.

Bem vistas as coisas, concluiu (enquanto evitava, de forma discreta, discutir os pormenores mais notáveis do seu trabalho sobre a família Harper com um casal cujos nomes eram, achava ele, Bing e Babs), era uma mudança de ritmo interessante para alguém que usava um smoking alugado.

Ao ver Josh, aproveitou o filho como desculpa para fugir ao interrogatório.

- Desculpem, o meu filho acabou de chegar. Tenho de ir falar com ele.

- Mitch cortou a direito por entre smokings e vestidos de noite. - Estás muito elegante. - Pôs um braço por cima dos ombros de Josh e depois sorriu para a rapariga morena. - Deve ser a Shelby.

- Sim, e o senhor de certeza que é o pai do Josh. Ele é muito parecido consigo.

- Isso resolve as apresentações. Uau! -Josh observou a sala. - Que bela tasca.

O salão de baile estava enfeitado com luzes cintilantes e flores primaveris. Os empregados serviam a um dos três bares ou deambulavam pela sala com tabuleiros de bebidas e canapés. Diamantes brilhavam, esmeraldas cintilavam, enquanto alguns casais começavam a dançar ao som de uma interpretação quente de ”Sing, sing, sing” de Goodman.

- Pois, um pouco de Casamento Escandaloso.

- O quê?

Mitch lançou a Josh um olhar compadecido.

- Fizeram-se filmes antes do Exterminador Implacável.

- Se o dizes, pai. Onde está o teu par? - perguntou Josh.

- Foi levada. Eu estive... ah, aqui vem ela.

- Desculpem, fui encurralada. Olá, Shelby. Estás muito bonita.

- Obrigado, sr.a Harper. O seu vestido é fantástico. O Josh disse-me que vinha com o pai dele.

- É um prazer conhecê-lo finalmente, Josh. O seu pai está farto de falar de si.

- O mesmo em relação a si. Vamos ter de encontrar um cantinho sossegado e comparar notas.

- Eu adoraria.

- Estou a ver ali os meus pais. - Shelby acenou com a cabeça em direcção a uma mesa. - Gostaria de te apresentar a ti e ao teu pai, Josh. Assim cumpro o meu dever e depois podes dançar comigo.

- Parece-me um bom plano. O meu pai disse-me que trabalha com plantas, sr.a Harper.

- Roz, e sim, trabalho.

- Ele mata-as, sabe - acrescentou enquanto atravessavam a sala. -Já vi que sim.

- A maior parte das vezes, quando o vêem, limitam-se a suicidar-se e acabam com o assunto.

- Cala-te, Josh.

- Só não quero que a enganes. - Dirigiu ao pai um breve sorriso.

- A Shelby diz que vive naquela casa fantástica pela qual passámos a caminho daqui.

- Sim, está na minha família há muito tempo.

- É enorme e parece estupenda. - Inclinou a cabeça o suficiente para lançar ao pai um olhar irónico, rápido e pouco discreto. - O pai tem passado lá muito tempo.

- A trabalhar. - Anos de prática fizeram Mitch dar ao filho uma discreta cotovelada.

- Espero que em breve o Josh também vá até lá passar alguns dias. Roz parou junto da mesa onde Jan e Quill estavam sentados, a conversar com outros amigos.

- Olá a todos. - Tal como Roz previra, Jan ficou rígida e empalideceu um pouco. De forma deliberada, Roz inclinou-se e fingiu dar um beijo na face de Jan. - Realmente, vocês estão todos maravilhosos.

- Mamã, papá. - Shelby começou a fazer as apresentações. - Este é Joshua Carnegie e o seu pai, o dr. Mitchell Carnegie. Os meus pais, Jan e Quill Forrester, e o sr. e a sr.a Renthow.

Quill, um homem bem constituído, de mão estendida e o cabelo bem penteado sobre a calva, levantou-se para cumprimentar vigorosamente Mitch e depois Josh, inclinando de seguida a cabeça para Roz.

- Rosalind, como tens passado?

- Muito bem, Quill. Como estão a correr os negócios? Ficou hirto, mas acenou com a cabeça.

-Vão bem.

- É bom saber disso. Jan, palavra de honra, a Shelby é uma beleza. Deves estar muito orgulhosa.

- Claro. Não percebi se conhece o par da Shelby.

- O pai dele e eu somos grandes amigos. - Com um sorriso radiante, enfiou o braço no de Mitch. - Na verdade, o Mitch está a investigar a história da família Harper. Anda a descobrir todo o tipo de segredos e escândalos. - Exagerando, sacudiu ligeiramente a cabeça e soltou um risinho.

- Nós simplesmente adoramos os nossos escândalos aqui em Shelby County, não é verdade?

- É daí que eu conheço o nome - interrompeu Renthow. - Li um dos seus livros. Eu próprio sou uma espécie de genealogista amador. Um tema fascinante.

- Também acho. De qualquer forma, os antepassados Harper levaram-me até à Roz. - Com um movimento suave, Mitch levantou-lhe a mão e beijou-a. - Serei para sempre grato.

- Sabe - insistiu Renthow -, investiguei a minha ascendência até aos Fife, na Escócia.

- A sério? - Mitch animou-se. - Uma ligação a Duncan Phyfe, antes de ele ter alterado a ortografia?

- Sim, exactamente. - Com uma satisfação óbvia, Renthow mudou de posição na cadeira para se virar para Mitch. - Gostaria de recolher mais alguns pormenores. Talvez me possa dar algumas dicas.

- Com prazer.

- Porque não nos sentamos todos durante alguns minutos? - sugeriu Shelby. - Assim todos podem ficar a conhecer-se, enquanto...

- Estamos à espera de amigos - interrompeu Jan. - A nossa mesa está cheia. Tenho a certeza de que a Rosalind e o dr. Carnegie conseguem encontrar outra mesa, e todos ficaremos mais confortáveis.

- Mamã - a palavra foi um sussurro chocado que Roz ignorou com um sorriso tranquilo.

- Já temos uma, obrigada. Na verdade, vamos roubar aqui este lindo e jovem casal. Shelby, vou mostrar-te onde estamos sentados enquanto o Josh e o Mitch nos vão buscar uma bebida.

Enlaçando o braço no da rapariga, Roz conduziu-a para longe dali.

- Sr.a Harper, eu... eu lamento, sr.a Harper, não sei o que se passa.

- Não te preocupes. Olha, cá está a nossa mesa. Vamos sentar-nos e podes contar-me como conheceste aquele jovem deslumbrante antes que eles voltem. E chama-me Roz. Afinal, este é praticamente um encontro duplo.

Pôs a rapariga à vontade e as duas tagarelaram até que os respectivos pares regressaram com as bebidas e com os canapés. Só quando Josh levou Shelby para dançar é que Roz disparou.

- Ela não tinha de envergonhar a miúda da maneira como o fez. Se tivesse um cérebro dentro daquela cabeça maldosa, saberia que eu nunca me sentaria ao pé deles. A rapariga é uma querida, pelo que só posso concluir que não sai à mãe.

- Compuseste as coisas. Uma das razões que me levaram a sair da academia foi para me livrar destes casalinhos mal-humorados e destes rancores mesquinhos. Mas, onde quer que estejamos, a vida está repleta deles, não é?

- Acho que sim. A maior parte das vezes também me mantenho fora desta arena. Não tenho paciência. Mas sinto-me obrigada a aparecer de vez em quando.

- Não és a única - comentou ele, entrelaçando os dedos nos dela em cima da mesa. - O quanto é que te vai arreliar saber que o Bryce Clerk acabou de entrar, acompanhado da mesma loura com quem estava quando tentou ir à tua festa?

A mão dela ficou tensa na dele e depois descontraiu lentamente.

- Algo me dizia que ele ia aparecer. Bem, não faz mal. Vou num instante à casa de banho para ter uma conversinha comigo própria e refrescar-me. Não tenciono arranjar mais uma cena em público, garanto-te.

- Não me iria incomodar.

- É bom saber isso, para o caso de a conversinha não funcionar. Levantou-se, saiu da sala e dirigiu-se para as casas de banho.

Uma vez lá dentro, retocou o batom e começou a dar um sermão a si própria sobre a compostura apropriada.

Não vais descer ao nível dele, seja qual for a provocação.

Não vais permitir que aquela rapariga tola te arraste para uma luta de galinhas, embora a deixasses a sangrar no meio do chão sem lascar uma unha sequer.

Não vais...

Roz interrompeu o auto-sermão quando Cissy entrou.

- Tive de usar uma motosserra para me separar da Justine Lukes. Deus lhe valha, a mulher é capaz de falar até uma pessoa ficar surda, muda e cega sem que lhe saia da boca uma única coisa interessante. Queria ir à tua mesa cumprimentar-te. Realmente, Roz, não podias estar mais encantadora!

- Acho que não consigo ir mais longe. Como correu a visita dos teus sogros?

- Se lhe tivesse batido na cabeça com uma caçarola de ferro, ela não teria ficado mais atordoada. Digo-te, querida, nem ela conseguiu encontrar nada com que implicar, embora eu tivesse sido obrigada a entornar vinho em cima da minha camisa nova para a distrair quando ela me perguntou por um dos arbustos. Aquele com os ramos arqueados e todas aquelas flores brancas? Cheira divinamente.

- A Leucothoe fontanesiana.

- Pois, deve ser. Seja como for, fico a dever-te a vida. Não estás com a filha da Jan? - Cissy dirigiu-se ao espelho para dar um jeito ao cabelo.

- Sim, por acaso ela está com o filho do meu par.

- E eu estou morta por conhecê-los a ambos. Adoro aumentar a minha lista de homens atraentes. Imagino que tenhas visto o Bryce a entrar.

- Desviou o olhar do próprio rosto reflectido no espelho para o de Roz. Afastei-me da Justine para não ter de fingir ser educada com ele. Não sei se já ouviu a última, mas...

Calou-se e ficou em silêncio quando Jan entrou acompanhada por Mandy.

As duas mulheres pararam, mas, enquanto Jan parecia querer passar por elas rapidamente, Mandy aproximou-se de Roz e apontou-lhe um dedo.

- Se não pára com a perseguição, vou pedir uma ordem ao tribunal e mandá-la prender.

Divertida, Roz retirou da mala o pó compacto.

- Não creio que frequentar a mesma festa do country club possa ser considerado perseguição, mas vou pedir ao meu advogado que analise o caso amanhã de manhã.

- Sabe muito bem do que estou a falar. Telefonou para o meu spa fingindo ser eu e cancelou todos os meus tratamentos. Anda a telefonar-me de dia e de noite e desliga quando eu atendo.

Roz aplicou casualmente o pó no nariz.

- Porque haveria eu de fazer qualquer uma dessas coisas?

- Não suporta a ideia de eu ir casar com o Bryce.

- Já chegou a esse ponto? - Roz fechou a caixa do pó compacto. Parte dela, o lado mau, dançou de alegria. Se Bryce tinha apanhado uma rica, teria de a deixar, a ela e à sua família, em paz. - Bem, apesar do seu comportamento indelicado, tem toda a minha solidariedade.

- Também sei o que tem andado a fazer ao Bryce e à Jan, por ela ser minha amiga.

- Eu não fiz nada a nenhum de vocês. - Olhou para Jan. - E não podia estar menos interessada.

- Alguém telefonou a um dos melhores clientes do Quill, fingindo ser eu - acusou Jan, com rigidez. - Um telefonema de um bêbado perverso que custou ao Quill um negócio importante.

- Lamento ouvir isso, Jan. Se realmente acreditas que eu faria uma coisa dessas, não vou gastar o meu tempo, nem o teu, a dizer-te o contrário. Se me dão licença.

Enquanto a porta se fechava atrás de si, ouviu uma Cissy exasperada dizer:

- Jan, como podes ser tão tapada?

Percorreu o corredor, só abrandando o passo quando viu Bryce encostado à parede. Na esperança de evitar uma cena, deu meia-volta e começou a andar na direcção oposta.

- A bater em retirada? - Havia sarcasmo na voz dele quando se aproximou.

- Surpreendes-me.

Roz parou. Não terminara a tal conversinha, pensou. Com a sua disposição actual, teria sido uma perda de tempo. -Tu nunca me surpreendes.

- Oh, acho que sim, e voltarei a fazê-lo. Não sabia se estarias aqui esta noite. - Assumiu uma expressão maliciosa e presunçosa. - Ouvi dizer que tinhas deixado de ser membro do clube.

- É o mal dos boatos: muitas vezes são mentira. Diz-me uma coisa, Bryce, o que pensas conseguir com todo esse trabalho? A escrever cartas, a fazer telefonemas, a arriscar queixas-crime por falsificação de cartões de crédito.

- Não sei do que estás a falar.

- Não está aqui mais ninguém a não ser tu e eu. - Indicou com um gesto ambos os lados do corredor. - Por isso, vamos directos ao assunto. O que queres?

- Tudo o que possa conseguir. Nunca vais provar que fiz quaisquer telefonemas, que escrevi carta alguma, que usei quaisquer cartões de crédito. Sou muito cuidadoso e muito esperto.

- Durante quanto tempo achas que vais conseguir fazê-lo?

- Até me aborrecer. Investi muito tempo e esforço em ti, Roz, e tu puseste-me a andar. Agora estou de volta e não vais passar um dia que seja sem te lembrares disso. Claro que se quiseres fazer-me uma oferta monetária privada...

- Isso nunca vai acontecer.

- A escolha é tua. - Encolheu os ombros. - Há coisas que posso fazer para continuar a incomodar-te. Acho que vais mudar de ideias. Sei o quanto consideras importante a tua reputação, a tua posição em Shelby County.

- Não me parece que saibas. - Manteve os olhos fixos nos dele mesmo quando a porta da casa de banho se abriu vários metros atrás. - Também não me podes tocar onde interessa, independentemente de quantas mentiras espalhares, de quantas pessoas convenceres a acreditar nelas. O Quill não é um idiota chapado e não vai demorar muito a perceber que o estás a enganar e que esse engano lhe vai sair caro.

- Estás a julgá-lo demasiado bem. Ele é ganancioso, é isso que ele é. Sei como jogar com a ganância.

- Seria de esperar, uma vez que tens tanta. Diz-me, quanto é que já roubaste à coitada da Mandy até agora?

- Nada que ela não possa dar-se ao luxo de perder. Nunca te tirei nada que te fizesse falta, Roz. - Passou-lhe os dedos pela face e ela deixou.

- E dei-te muito pelo teu dinheiro. Se não fosses tão tacanha, ainda estaríamos juntos.

- Se não me tivesses roubado, enganado com outra mulher na minha própria casa, talvez... Por isso, tenho de te agradecer. Diz-me, Bryce, o que é que te atrai na Mandy?

- É rica, mas tu também eras. Sem ser isso, ela é jovem e tu não, e ela é extraordinariamente burra. Tu também não o eras. Um pouco lenta, mas burra nunca.

- Vais mesmo casar com ela?

- Ela acha que sim. - Pegou num isqueiro de ouro, abrindo e fechando a tampa com indolência. - E quem sabe? Dinheiro, juventude, maleabilidade. Talvez ela seja a esposa perfeita.

- Parece-me mesquinho da tua parte andares por aí a fazer telefonemas, a complicar a vida dela... ah, e a lixares o Quill e a Jan, a fazer com que o Quill perca clientes. Acho que precisas de um trabalho mais construtivo.

- Dois coelhos, um machado. Mantém-nos solidários comigo e afastados de ti.

- E o que achas que vai acontecer quando descobrirem a verdade?

- Não vão descobrir. Tal como já disse, sou cuidadoso. Nunca conseguirás prová-lo.

- Não me parece que tenha de o fazer. Sempre gostaste de te gabar, Bryce. - Desta vez foi ela quem lhe deu uma palmadinha na face, pensando nesse gesto como o seu golpe fatal. - Apenas um dos teus muitos defeitos.

- Apontou para trás dele onde estavam Jan e Mandy, o choque estampado no rosto, imóveis como estátuas.

Atrás delas, Cissy começou a aplaudir lentamente. Roz fez uma pequena vénia e afastou-se.

Foi a vez de ela ficar surpreendida ao ver Mitch no fim do corredor.

- Apanhei o espectáculo - disse ele casualmente, pegando-lhe na mão.

- Achei a actriz principal extraordinária.

- Obrigada.

- Estás bem?

- Provavelmente, mas não me importava nada de apanhar um pouco de ar.

Levou-a até à varanda.

- Muito engenhoso - elogiou.

- Muito improvisado - corrigiu ela. Agora, depois de tudo terminado, sentia o estômago começar a revoltar-se. - Mas ele estava ali, morto por me irritar e a dar-se grandes ares, e elas estavam ali, aquelas mulheres deploráveis e irritantes. A vantagem adicional foi a presença da Cissy. Aquela pequena encenação vai ser falada por todo o lado, palavra por palavra, à velocidade de um relâmpago.

Nesse instante, de dentro do salão de baile, ouviu-se o som de vozes femininas a falar alto, um ruído abrupto de coisas a partir-se, soluços histéricos.

- Queres assistir ao segundo acto?

- Não, não quero. Acho que me deves convidar para dançar aqui mesmo.

- Então é isso mesmo que vou fazer. - Colocou os braços à volta dela.

- Está uma noite linda - disse, enquanto uma cena se desenrolava através das portas abertas atrás deles.

- Está mesmo. - Com um longo suspiro, encostou a cabeça ao ombro dele e sentiu-se descontrair. - Cheira só aquela glicínia. Quero agradecer-te por não teres ido em meu auxílio ali dentro.

- Quase o fiz. - Roçou os lábios no cabelo dela. - Mas depois achei que tinhas a situação completamente controlada. Além disso, estava a apreciar a cena na primeira fila.

- Meu Deus, como aquela mulher chora. Será que não tem orgulho? Que burra, valha-a Deus. Não vê nadinha, como se estivesse numa gruta subterrânea ou numa noite sem luar.

- Pai! - Josh apareceu a correr. - Tens de vir ver isto.

Mitch continuou a fazer Roz rodopiar na varanda, embora a música há muito tivesse cessado, dando lugar a gritos e ao som de pés a arrastar-se.

- Estou ocupado - respondeu.

- Mas o pai da Shelby desancou um tipo. Deu-lhe um murro. E outra mulher arranhou-o todo... ao outro tipo, não ao pai da Shelby. É só dentes e unhas. Estás a perder a cena.

- Volta lá para dentro, mais tarde podes dar-nos os pormenores. Vou ficar ocupado aqui durante algum tempo a beijar a Roz.

- Tenho de vir mais vezes a country clubs. - Com estas palavras, Josh voltou a correr lá para dentro.

E Mitch colou os lábios aos de Roz.

Precisava de se descontrair. Saíra-se bem, pensou Roz, enquanto guardava as jóias no estojo, e acreditava que aquilo que fizera a libertara finalmente de um ex-marido vingativo.

Mas o preço fora mais uma cena pública.

Estava cansada delas, cansada de ter a roupa suja exposta aos olhos de todos. E teria de o ultrapassar.

Despiu-se e envergou o confortável roupão de flanela.

Sentia-se contente por terem saído mais cedo do clube. Não havia grande razão para ficar mais tempo, pensou, com um sorriso amargo. O salão transformara-se numa confusão de mesas viradas, comida e bebidas entornadas, convidados horrorizados e seguranças desconcertados.

E seria motivo de conversa durante semanas, tal como também ela o seria.

Tudo bem, seria de esperar, pensou, enquanto abria a torneira para tomar um banho quente. Iria sobreviver e as coisas acabariam por voltar ao normal.

Juntou à água mais sais de banho, uma pequena concessão àquela sessão nocturna. Quando terminasse, descontraída, rosada e perfumada, talvez fosse à biblioteca chamar Mitch.

Abençoado fosse por compreender que ela precisava de algum tempo sozinha. Com um suspiro, mergulhou até ao queixo na banheira. Era raro encontrar-se um homem que reconhecesse os humores de uma mulher e os aceitasse.

John fora um deles, recordou-se. A maior parte das vezes. Tinham estado tão maravilhosamente em sintonia, trabalhando em conjunto para construir uma família, apreciando o dia-a-dia e planeando o futuro. Perdê-lo fora como perder um braço.

Ainda assim, superara bastante bem a situação, pensou, sem falsas modéstias. Criara filhos de que ela e John podiam orgulhar-se, mantivera um lar seguro, honrara as suas tradições, montara o seu próprio negócio. Nada mau para uma mulher viúva.

Podia rir-se disso, mas a tensão acumulou-se na sua nuca ao avançar para a fase seguinte. Bryce. Um erro estúpido e impulsivo. Não que tivesse grande importância, toda a gente tinha direito a cometer alguns. Mas este tinha feito tantos estragos, causado demasiada agitação. Além da especulação pública e dos mexericos, o que, de certa forma, era uma ofensa maior ao seu orgulho.

Fizera-a duvidar tantas vezes de si própria durante o casamento, quando ela sempre fora tão confiante, tão segura. Mas ele tinha uma forma tortuosa e dissimulada de minar a sua confiança, com todas aquelas pequenas críticas permanentes.

Era algo humilhante admitir que fizera papel de imbecil... por causa de um homem.

Mas esta noite mostrara-lhe como era e isso compensava muita da irritação, vergonha e dor. Ele servira-se a si próprio numa bandeja, pensou, e ela espetara-lhe o garfo. Estava acabado.

Bom para ela. Hurra!

Agora talvez fosse altura para uma nova fase na vida de Rosalind. Estaria pronta para isso? Pronta para dar aquele grande e assustador passo na direcção de um homem que a amava tal como era? Tinha quase cinquenta anos e estava a pensar em amor e em casamento... pela terceira vez. Seria loucura?

Com indolência, brincou com os dedos dos pés sob o fio de água que deixara a correr para manter quente a água da banheira.

Ou seria como um presente, já embrulhado em papel bonito, com um grande laço, que lhe tivesse sido atirado para o colo?

Estava apaixonada, pensou, sorrindo à medida que libertava a tensão e fechava os olhos. Apaixonada por um homem interessante, atraente e atencioso. Um bom homem. Com defeitos e manias suficientes para impedir que fosse monótono.

Suspirou, deixando-se invadir pela satisfação. E uma névoa cinzenta arrastou-se pelos mosaicos do soalho.

E o sexo? Oh, louvado fosse Deus pelo sexo, pensou, com uma espreguiçadela e um gemido na garganta. Quente e doce, terno e excitante. Estimulante. Cristo, aquele homem era estimulante. Sentia mais uma vez o corpo fremente.

Talvez, quem sabe, pudessem fazer uma vida em conjunto. Talvez o amor não tivesse de surgir nas alturas mais convenientes e indicadas. E talvez à terceira fosse de vez. Valia a pena pensar seriamente no assunto.

Casamento. Divagou, sonolenta, passando com os dedos pela espuma, enquanto a névoa se adensava, erguendo-se do chão como uma enxurrada.

No fundo, tratava-se de estabelecer um compromisso com alguém que não só amava, mas também em quem confiava. Confiava em Mitch. Podia acreditar nele.

Será que os filhos iriam pensar que perdera o juízo? Talvez, mas, afinal de contas, a vida era dela.

Ia gostar de estar casada... provavelmente. Ter a roupa de outra pessoa no roupeiro, os livros na estante. Não era um homem que se pudesse chamar de organizado, mas seria capaz de viver com isso, caso...

A água coberta de espuma ficou gelada. Roz arquejou e sentou-se de imediato, cruzando os braços por instinto. Ficou de olhos arregalados quando viu que a casa de banho estava imersa em nevoeiro, tão denso que não conseguia distinguir as paredes nem a porta.

Apercebeu-se de que não era vapor, mas uma horrível névoa cinzenta, tão gelada como a água e espessa como sopa fria.

Quando tentou levantar-se, sair da banheira, foi puxada para baixo.

Com um nó no estômago, a primeira coisa que sentiu, mesmo antes do medo, foi o choque. O choque da água gélida, a sensação de ser puxada, submersa, imobilizou-a antes de conseguir debater-se. A sufocar e a espernear, tentou vir à superfície, à medida que o frio lhe endurecia os membros. Sentiu mãos a agarrar-lhe a cabeça e depois unhas a cravar-se nos seus ombros, mas, através da película de água, não viu nada além das bolhas e da névoa a rodopiar.

”Para!” Foi a mente que o gritou. Com toda a sua força, firmou as mãos e os pés e empurrou para cima com um ímpeto desesperado. A cabeça veio à superfície, emergindo para o nevoeiro gelado. Inspirou uma golfada desesperada antes de a pressão férrea nos seus ombros voltar a submergi-la.

A água transbordava da banheira à medida que Roz se debatia, com os olhos e a garganta a arder. Conseguia ouvir os seus gritos abafados, enquanto lutava com o que lhe era invisível. Bateu com o cotovelo na parede da banheira, sentindo uma dor lancinante por entre o pânico.

- É pelo teu bem. É pelo teu bem. Tens de aprender

A voz era como um silvo nos seus ouvidos, um silvo que se elevava acima do bater frenético do seu coração. Conseguiu avistá-lo, o rosto que pairava sobre si, sobre a água revolta, os lábios arrepanhados num esgar de fúria. Viu a loucura nos olhos de Amélia.

- Ele não é diferente. Todos eles mentem! Eu não te disse? Porque não me ouviste? Faço-te ouvir, faço-te parar. Sangue maculado. O sangue dele está em ti. Veio arruinar-te.

Estava a morrer. Com os pulmões a latejar, o coração desenfreado, procurou agarrar-se, atingir o ar. Qualquer coisa ia rebentar dentro de si e morreria na água fria e perfumada. Mas não ia entregar-se de bom grado. Debateu-se, com as mãos, com os pés. E com a mente.

”Larga-me. Larga-me! Se morrer, não posso ouvir-te. Estás a matar-me. Se morrer, continuas perdida. Se morrer, continuas presa. Assassina. Presa no inferno!”

Recompôs-se, alimentou os músculos tensos com a força da sobrevivência e ergueu-se de repente.

A água atravessou a névoa, chegando às paredes e ao chão como uma onda pequena mas violenta. Agarrada à borda da banheira, inclinou-se para fora, engasgada, e cuspiu o que tinha engolido. Sentiu o estômago a revirar-se, mas fincou-se no rebordo. Não voltaria a ser arrastada para a água.

- Larga-me, sua cabra!

Ofegante, saiu da banheira e deixou-se cair no tapete ensopado. Quando foi acometida por arrepios, enrolou-se até conseguir recuperar o fôlego. Tinha os ouvidos a zunir e o coração batia de forma tão brutal que se interrogou se teria alguma costela lesionada, a juntar a tudo o resto.

Ouviu chorar.

- Neste preciso momento, as tuas lágrimas não me comovem. - Sabendo que não ia conseguir manter-se de pé, arrastou-se pelo chão até agarrar uma toalha com a mão trémula. Enrolou-se, tentando aquecer-se.

- Vivi contigo durante a vida inteira. Procurei ajudar-te. E tentas afogar-me? Na minha banheira? Avisei-te que ia encontrar maneira de te expulsar desta casa.

As palavras não tinham a força nem a raiva que pretendia. Era difícil parecer controlada com os dentes a bater, tanto de medo como de frio.

Sobressaltou-se quando o roupão que pendurara atrás da porta flutuou e veio pousar-lhe sobre os ombros.

- Muito obrigada - disse Roz, com um acentuado tom sarcástico. - Mas que atenciosa. Primeiro tentas matar-me e agora queres ver se não me constipo. Para mim, chega.

Enfiou os braços no roupão e fechou-o, enquanto se levantava a custo.

Depois, entre a névoa que se dissipava, viu Amélia. Não a louca de olhos desvairados e cabelo revolto que a olhara enquanto se debatia, mas uma mulher destroçada, de lágrimas nas faces e as mãos enclavinhadas, como que em oração.

À medida que ela se desvanecia, ao mesmo tempo que a névoa se dissipava, surgiu uma nova mensagem no espelho. Dizia simplesmente:

”Perdoa-me.”

- Podias ter morrido.

Mitch dava voltas ao quarto, com a fúria quase a chispar-lhe dos dedos.

Roz descera para preparar café quente e para lhe pedir que subisse. Queria ter a certeza de que ninguém a ouviria quando lhe relatasse o sucedido.

- Mas não morri. Felizmente. - O café estava a ajudar, mas continuava gelada e desejosa de se enfiar debaixo de um cobertor quente.

- Podias ter morrido enquanto eu estava lá em baixo, a remexer em livros e em ficheiros. Estavas cá em cima, a lutar pela vida, e eu...

- Pára. - Mas as palavras foram ditas com gentileza. Uma mulher que vivera com homens, que criara filhos, entendia o ego. - O que aconteceu, o que podia ter acontecido, não chegou a acontecer... Nada disso foi culpa tua. Ou minha. A culpa pertence a um fantasma emocionalmente perturbado. E pouco me importa que isso pareça ridículo.

- Rosalind. - Parou à frente dela, ajoelhou-se e esfregou-lhe as mãos. Roz sentiu-as fortes e quentes. Sólidas. - Sei o que sentes em relação a esta casa, mas...

- Vais dizer que me devia mudar temporariamente. O que dizes faz sentido, Mitch. Mas não vou sair. Podes dizer que é por ser teimosa, por ser demasiado casmurra.

- E digo.

- Mas - contrapôs Roz -, além disso e do facto de não me conseguirem afastar do que é meu, o problema não se resolve saindo. O meu filho vive nesta propriedade, tal como outras pessoas de quem gosto muito. O meu negócio fica nesta propriedade. Digo a toda a gente que procure outra casa? Encerro o negócio e arrisco-me a perder tudo? Ou resisto e tento encontrar uma solução?

- Ela está a tornar-se violenta. Roz, durante anos, ela pouco mais fez do que cantar para as crianças. Era estranho, mas tinha um certo encanto. Uma partida de vez em quando, mas nada de perigoso. Durante este último ano, tem vindo a tornar-se cada vez mais instável, cada vez mais violenta.

- Sim, é verdade. - Entrelaçou os dedos nos dele e apertou-os. - E sabes o que isso me diz? Diz-me que devemos estar a aproximar-nos de alguma coisa. Que por esse motivo ela está a ficar mais impaciente, mais errática. Menos controlada. Aquilo que estamos a fazer interessa-lhe, do mesmo modo que aquilo que penso e sinto lhe interessa, quer aprove quer não.

- O que queres dizer com isso?

Talvez ele não o vá aceitar bem, pensou Roz. Mas tinha de ser dito. Prometera-lhe sinceridade e levava as promessas muito a sério.

- Estava a pensar em ti. Em nós. Quando deixei de remoer naquilo que aconteceu hoje e comecei a descontrair-me, pensei no que sinto por ti e naquilo que tu sentes por mim. Ela tentou matar-me porque nos amamos.

O rosto de Mitch estava duro como pedra quando ele a puxou para si.

- Eu é que tenho de sair daqui. Tenho de me afastar desta casa, e de ti, até resolvermos a situação.

- É assim que lidas com os teus inimigos? Dás-lhes rédea solta? Mitch voltara a andar pelo quarto, mas virou-se de repente, com a fúria a brilhar-lhe nos olhos.

- Não estamos a falar de um idiota que tenta roubar o dinheiro do almoço no recreio da escola. Estamos a falar da tua segurança. Da porra da tua vida!

- Não vou ceder. É assim que vou sobreviver. É assim que vou manter o controlo. Julgas que não estou furiosa, que não estou assustada? Estás enganado.

- Reparei que a fúria vem primeiro.

- Porque é um sentimento positivo. Pelo menos sempre acreditei que uma boa loucura saudável é mais construtiva do que o medo. Foi isso que vi nela, Mitch, quando tudo acabou.

Roz afastou a coberta e levantou-se, dirigindo-se para ele.

- Ela estava assustada, chocada, com medo e com remorsos... uma lástima. Em tempos disseste que ela não me queria magoar, e acredito que seja verdade.

- Também disse que o poderia vir a fazer, e ainda não houve nada que provasse o contrário. - Tomou-lhe a face nas mãos e depois baixou-as até aos ombros. - Não sei como proteger-te. Mas sei que não posso perder-te.

- Fico com menos medo se estiveres comigo. Mitch meneou a cabeça e quase esboçou um sorriso.

- Isso é um golpe baixo.

- É, não é? - Abraçou-o e aninhou-se quando ele pôs os braços à volta dela. - Por acaso também é verdade. Ela pediu-me desculpa. Não sei se consigo ou se quero desculpá-la, mas preciso das respostas. Preciso que me ajudes a encontrá-las. E bolas, Mitch, preciso de ti... e isso não é fácil de dizer.

- Espero que se torne mais simples, pois gosto de o ouvir. Por enquanto, vamos manter as coisas tal como estão.

- Obrigada. Quando saí de lá... - Olhou para a casa de banho. - Quando saí e me recompus o suficiente para pensar, fiquei aliviada por estares lá em baixo. Por poder contar-te. Por não ter de ficar sozinha esta noite.

- Essa opção nem se coloca. E agora... - Pegou-lhe ao colo. - Vais para a cama.

- E tu vais...

- Dar uma vista de olhos à cena do crime antes de a limpar.

- Eu posso tratar disso, da limpeza.

- Não. - Aconchegou-a com firmeza. - De vez em quando é preciso ceder, Roz. Faz o que te dizem e fica sossegada na cama. Tiveste um dia muito comprido e interessante.

- Foi, não foi? - E era maravilhoso poder enroscar-se na cama, sabendo que havia alguém para tratar de certos pormenores. - Não sei no que terei de ceder, mas vou pedir-te mais uma coisa.

- Queres um pouco de sopa? Qualquer coisa quente? Chá? Um chá era melhor do que café.

”Olha só para ti”, pensou, ”com a gravata desapertada e as mangas da camisa do smoking arregaçadas até aos cotovelos, a ofereceres-te para fazer sopa.” Deu-lhe a mão quando ele se sentou na beira da cama.

- Não, mas obrigada na mesma. Ia pedir-te para manteres entre nós tudo o que aconteceu.

- Roz, como é que funciona essa tua mente tortuosa? - A frustração era tão patente na sua voz, na sua expressão, que ela quase sorriu. - Praticamente foste afogada na banheira pelo nosso fantasma residente e não queres que se saiba?

- Não é isso. Falamos do caso mais tarde, documentamo-lo, entramos em pormenores, se for necessário. Mas quero esperar até depois do casamento da Stella. Quero um pouco de calma. Quando o Harper souber do que aconteceu... Bom, não vai reagir bem.

- A isso te respondo com um enfático: a sério? Roz soltou uma gargalhada.

- Toda a gente vai ficar perturbada, zangada, preocupada, o que não vai ajudar. Aconteceu e acabou. Há tantas coisas que nos preocupam neste momento. Vou ter de lidar com o falatório do que aconteceu no clube. Garanto-te que se vai falar do caso e que amanhã vai ser tópico de conversa durante o nosso pequeno-almoço.

- E isso incomoda-te.

- Na verdade, acho que até vou gostar. Sou mesquinha quanto baste para chafurdar um bocado. Portanto, vamos manter o que aconteceu ali entre nós, até que a Stella esteja casada. Depois, contamos a toda a gente e lidamos com as consequências. Mas, por enquanto, não nos fazia mal um bocadinho de felicidade pura.

- Está bem. Mal não vai fazer.

- Agradeço. Já não estou tão zangada nem tão assustada - acrescentou, deixando-se escorregar na almofada. - Consegui pará-la, consegui livrar-me dela. Posso voltar a fazê-lo. De certeza que isso conta para alguma coisa.

Mitch baixou-se para a beijar.

- Para mim conta muito.

 

Na manhã seguinte, Hayley entrou de rompante na cozinha com o bebé apoiado na anca. Tinha o cabelo apanhado num pequeno rabo-de-cavalo, os olhos arregalados e abotoara mal a camisa do pijama.

- Acabei de falar com a baby-sitter da Lily - disparou para o ar - e a tia dela pertence ao country club. Ela diz que a Roz esteve envolvida numa briga ontem à noite.

- Não estive nada.

A vida podia ser agradavelmente previsível, pensou Roz, continuando a barrar um triângulo de pão torrado com um pouco de compota.

- Que tipo de briga? - quis saber Gavin. - Aos murros?

- Eu não andei aos murros. - Roz passou-lhe a torrada. - As pessoas exageram as coisas, homenzinho. O mundo é assim.

- Deste um pontapé na cara de alguém?

Roz ergueu as sobrancelhas e olhou para Luke.

- Claro que não. Pode dizer-se, metaforicamente falando, que dei um pontapé no rabo de alguém.

- O que é met...

- Uma metáfora é uma forma airosa de dizer que uma coisa é outra coisa qualquer. Eu podia dizer que esta manhã sou uma gata que comeu um canário. - Piscou o olho a Luke. - E isso significaria que estou muito satisfeita e bem-disposta. Mas nunca lhe pus as mãos em cima.

- A quem? - exigiu saber Stella.

- Bryce Clerk - respondeu David, servindo-se de mais café. - Os meus serviços de informação são imensos e mais rápidos do que a velocidade da luz. Ouvi falar nisso ontem à noite, antes das onze horas, hora central.

- E não disseste a ninguém? - Hayley fitou-o com um ar zangado, enquanto prendia Lily na cadeira de comer.

- Na verdade, estava à espera de que todos estivessem presentes antes de tocar no assunto. Ah, lá vem o Harper. Eu disse-lhe que esta manhã a sua presença era necessária durante o pequeno-almoço.

- Francamente, David, não aconteceu nada de especial e eu preciso de me arranjar para ir trabalhar.

- Mas aconteceu. - Segurando a caneca de café, Mitch percorreu com os olhos todos os que se encontravam sentados em redor da mesa. - Foi extraordinário. Esta mulher - declarou com um longo olhar para Roz - é extraordinária.

Debaixo da mesa, ela pegou-lhe na mão e apertou-a com ternura. Um agradecimento silencioso por deixar que aquilo se desenrolasse sem que o horror da noite anterior estragasse o ambiente.

- O que se passa? - quis saber Harper. - Há omeletas? Porque é que há omeletas?

- Porque a tua mãe gosta e ela precisa de recarregar as baterias depois de ter gasto as energias todas ontem à noite.

- Não sejas ridículo - escusou-se Roz, embora sentisse um risinho a formigar na garganta.

- O que é que aconteceu ontem à noite? Que energias?

- Estás a ver o que perdes por não ires ao clube? - respondeu-lhe David.

- Se alguém não me diz o que se passa, vou dar em maluca. - Hayley deu a Lily um copo com sumo e sentou-se. - Toma, bebe tudo.

- Não há assim tanto para contar - começou Roz.

- Eu conto. - Mitch olhou ternamente para Roz. - Ela vai omitir coisas. Bem, há partes que lhe arranquei, pois não estava presente na altura, e outras que o meu filho me contou. Mas vou contar a história toda de seguida... causa mais impacto.

Começou com a paragem breve junto à mesa dos Forrester, depois narrou a cena da casa de banho e em seguida dramatizou a altercação entre Roz e Bryce fora do salão.

- Oh, meu Deus, elas apareceram enquanto estavas a falar com aquele... - Hayley aclarou a garganta e reformulou o primeiro pensamento ao lembrar-se das crianças. - Homem.

- Ele estava de costas para elas - explicou Mitch. - Foi tudo perfeitamente encenado.

Hayley deu a Lily pedacinhos de ovo e olhou embasbacada para Roz.

- Que incisivo. Como, sei lá, uma ferroada.

- O momento foi excelente - concordou Mitch. - Devias ter visto a tua mãe, Harper, fria e escorregadia como um icebergue, e tão perigosa como um.

- Esta manhã a cozinha está cheia de metáforas - comentou Roz. Ninguém vai trabalhar?

- Já a vi assim. - Harper picou a omeleta. - É assustador.

- Acontece que eu estava em posição de ver a reacção das senhoras atrás deles - asseverou Mitch -, e foi magnífico. Ele a gabar-se de dar umas voltas com esta e com aquela, a falar dos telefonemas, dos cartões de crédito e por aí fora, e como ninguém o podia apanhar. Começou a insultar o Quill e a chamar estúpida à Mandy. Incrivelmente cheio de si. A Roz limitou-se a ficar ali, de pé, e ele nem sequer sonhou que ela acabara de lhe dar a machadada final. Ela nem sequer pestanejava, só o encorajava a falar cada vez mais, até que o filho-da... - lembrou-se dos miúdos... - mãe se enterrou nas próprias palavras. E depois, depois, quando acabou, ela limitou-se a fazer um gesto com a mão. Ele virou-se, viu que elas estavam atrás dele e a Roz vai-se embora. Foi lindo.

- Espero que elas tenham caído em cima dele como lobas - declarou Stella, baixinho.

- Quase. Parece que ele tentou escapar-se, convencendo-as de que tudo não passava de um equívoco, mas a loura estava histérica: gritava, chorava, esbofeteava-o. A outra vai directamente ter com o marido, conta-lhe tudo e ele fica a saber que foi o espírito vingativo de Bryce que o fez perder um dos seus melhores clientes. Segundo o meu filho, o homem passou-se, dirigiu-se a Bryce e deu-lhe um murro. As pessoas começaram a levantar-se, os copos a partir-se e a loura saltou para cima do Clerk e começou a mordê-lo e a arranhá-lo.

- Boa - murmurou Gavin, espantado.

-Tiveram de arrastá-la dali para fora e, enquanto isso, o Quill agrediu-o outra vez e tiveram de o arrastar dali para fora.

- Quem me dera ter visto. - Harper levantou-se para ir buscar a sua dose de cafeína matinal e regressou à mesa com uma lata de Coca-Cola. - A sério.

- As pessoas corriam para se porem a salvo ou empurravam-se para verem melhor o que se passava - continuou Mitch. - Escorregavam nas azeitonas dos martinis, deslizavam sobre a mousse de salmão ou qualquer outra coisa, caíam por cima das mesas. Estavam prestes a chamar a polícia quando a segurança interna acalmou as coisas.

- Onde é que o Mitch estava? - perguntou Hayley.

- Estava na varanda, a namorar com a Roz. A dançar com a Roz corrigiu, com uma piscadela. - Conseguíamos ver bem através das portas e das janelas.

- Vai ser o tema de conversa da cidade durante algum tempo - concluiu Roz. - Na minha opinião, todos eles tiveram o que mereciam. Uma barrigada de vergonha. Bom, vocês não sei, mas eu tenho de ir trabalhar.

- Espera, espera, e o Bryce? - Hayley levou uma garfada de ovo à boca.

- Não nos podes deixar na dúvida.

- Não sei ao certo, mas desconfio que vai pôr-se a andar de Shelby County com o rabo entre as pernas. Não me parece que vá ficar por cá.

- É só isso? - quis saber Hayley. - Não vais... - Calou-se e limpou o rosto de Lily. - Isso é bom. É bom que ele se tenha ido embora.

Roz passou a mão pelo cabelo dos dois rapazes e depois levantou-se para depositar um beijo na cabeça de Lily.

- Esta tarde, vou prestar declarações à polícia, no que diz respeito a possíveis acusações de fraude, tal como o Mitch, que ouviu tudo o que o Bryce disse. Suponho que irão falar com os outros que o ouviram a gabar-se. Depois, logo veremos o que acontece.

- Ainda melhor - disse Hayley com um sorriso. - Muito melhor.

- Eu não dou murros e pontapés às pessoas que estão no chão, pelo menos até agora. Mas também não deixo que façam de mim gato-sapato durante muito tempo.

Saiu da cozinha satisfeita, até mesmo reconfortada, por o dia ter começado com risos e não com preocupações.

Roz estava na pequena encosta na orla do seu bosque e analisou a disposição e a forma da No Jardim. Viam-se maravilhosos aglomerados de cor, suaves verdes primaveris, rosas arrojados, azuis exóticos, amarelos alegres e vermelhos cálidos.

As velhas mesas de um castanho gasto pelo tempo encontravam-se repletas daquelas cores, exibindo plantas em tabuleiros e vasos. O próprio chão transbordava delas, florindo numa celebração entusiástica da estação. Os edifícios pareciam frescos e acolhedores e as estufas fervilhavam de actividade. Viam-se floreiras a explodir de cores e de formas, cestos pendurados e garridos.

Do local onde se encontrava, podia ver parte da plantação de arbustos e de árvores ornamentais, bem como os campos de cultivo, com os sulcos que pareciam ter sido desenhados com uma régua e as potentes máquinas. Para onde quer que olhasse via pessoas, clientes e empregados, numa grande azáfama ou apenas a ver. Carrinhos vermelhos moviam-se como pequenos comboios a transportar a sua carga promissora. Empilhadoras passavam por cima dos carreiros de gravilha, dirigindo-se à zona de estacionamento, onde a carga era transferida para carros e camiões.

Podia ver as montanhas de mistura vegetal, alguma em sacos, outra não, as torres de lajes para o chão, as cercas de madeira tratada.

Muito, muito movimentado, pensou, mas com o encanto simples que ela sempre imaginara. O caramanchão já coberto de ipomeias, o banco curvo estrategicamente colocado junto de uma fonte de jardim rumorejante, o vermelho-vivo de um comedouro para colibris a baloiçar num ramo, a música de um espanta-espíritos a voltear suavemente na brisa.

Claro que ela deveria estar lá em baixo, a trabalhar, a cuidar das suas plantas, a calcular o inventário. O facto de ter uma gerente, mesmo alguém excepcional como Stella, não significava que não devesse estar a par de tudo o que se passava.

Mas desejara aspirar o ar, o seu movimento em volta dela depois de horas na humidade densa da estufa de propagação. Além disso, sentira vontade de ver aquilo que construíra, aquilo para que trabalhara, em que apostara.

Naquele dia, sob um céu de tal forma azul que poderia ter sido pintado sobre vidro, era maravilhoso. E cada hora que ela passara durante todos aqueles anos a suar, a preocupar-se, a fazer contas, a lutar, valera a pena.

Era algo sólido e bem-sucedido, muito semelhante ao jardim desordenado que desejara criar. Um negócio, sim, antes de mais um negócio, mas adorável. Um negócio que reflectia o seu estilo, a sua visão, o seu legado.

Se algumas pessoas insistiam em encará-lo como sendo o seu passatempo, deixá-las. Se outras, talvez a maioria, a vissem como a mulher que deslizara pelo country club num vestido dourado e com diamantes, tudo bem. Ela não se importava de ceder ao glamour de vez em quando. Na verdade, até podia gostar.

Mas a sua verdade, o seu âmago, estava ali, usando calças de ganga velhas e uma camisola desbotada, um boné na cabeça e botas gastas nos pés.

A verdade é que era uma mulher trabalhadora com contas para pagar, um negócio para gerir e uma casa para sustentar. Era dessa mulher que ela se orgulhava quando tinha tempo para isso. A Rosalind Harper do country club e da alta sociedade era um dever inerente ao nome. Isto, tudo o resto, era a vida.

Respirou fundo, recompôs-se e, de forma deliberada, impeliu o seu pensamento numa direcção específica. Descobriria o que tinha acontecido e como ela e Amélia poderiam lidar com a situação.

Assim sendo, pensou: se aquilo era a vida, a vida dela, por que razão não podia arriscar-se novamente? Alargar essa vida, tornando parte dela, plenamente, o homem que a excitava e reconfortava, que a intrigava e divertia?

O homem que, de alguma forma, atravessara o labirinto que a dor e o trabalho, o dever e o orgulho, tinham construído em redor do seu coração.

O homem que amava.

Podia atravessar a vida sozinha se tivesse de ser, mas o que provaria isso? Que era auto-suficiente, independente, forte e capaz. Ela sabia tudo isso, fora tudo isso... sê-lo-ia sempre.

Mas também podia ser corajosa.

Não requeria coragem, não era mais difícil unir uma vida a outra, partilhar e adaptar-se, comprometer-se em vez de viver essa vida sozinha? Dava trabalho viver com um homem, acordar todos os dias preparada para enfrentar a rotina e estar aberta a surpresas.

Nunca fugira ao trabalho.

O casamento naquela fase da vida era outra questão. Não haveria bebés seus. Mas, um dia, poderiam partilhar netos. Não iriam crescer juntos, mas poderiam envelhecer juntos.

Podiam ser felizes.

- Eles mentem sempre. Eles nunca são sinceros.

Roz continuava no mesmo sítio, numa suave elevação na orla do bosque. Mas a No Jardim desaparecera. Havia campos, invernalmente despidos, árvores estéreis, e sentia-se uma frialdade extrema no ar.

- Nem todos os homens - disse Roz, em voz baixa. - Nem sempre.

- Conheci mais do que tu.

Caminhou através dos campos, insubstancial como a névoa que começara a espalhar-se, um mar de pouca profundidade, sobre o solo nu e negro. O vestido branco estava imundo, como o estavam os pés nus. O cabelo era um emaranhado de um dourado oleoso em redor de um rosto iluminado pela loucura.

O medo soprou através de Roz como uma tempestade súbita e perversa, mas ela fincou os pés na terra. Sobreviveria.

A luz abandonara o dia. Nuvens pesadas rolavam pelo céu, cobrindo totalmente o azul de negro, um negro tingido de um verde violento.

- Vivi mais do que tu - disse Roz. Embora não conseguisse evitar o arrepio quando Amélia se aproximou, manteve-se firme.

- E aprendeste tão pouco. Tens tudo aquilo de que precisas. Uma casa, filhos, um trabalho que te realiza. Porque precisas de um homem?

- O amor tem importância.

Ouviu-se um riso, uma gargalhada lenta que ecoou nos nervos de Roz.

- O amor é a maior das mentiras. Ele vai fornicar-te e usar-te, vai enganar-te e mentir-te. Vai infligir-te dor até ficares oca e vazia, até ficares seca e feia. E morta.

Sob o medo, a sua compaixão despertou.

- Quem te traiu? Quem te levou a isto?

- Todos. São todos iguais. São eles as prostitutas, embora nos rotulem assim. Não vinham eles ter comigo, enterrar em mim o seu pénis, enquanto as esposas dormiam sozinhas nas suas camas santificadas?

- Forçaram-te? Eles...

- Depois levam o que é teu. O que foi meu

Bateu com os punhos cerrados na barriga e a força da cólera, do sofrimento e da fúria obrigou Roz a recuar.

Ali estava a tempestade a ser cuspida do céu, a irromper do solo, a rodopiar através da névoa e a misturar-se com o ar imundo. Obstruía os pulmões de Roz, como se respirasse lama.

Ouviu os gritos alucinados através da névoa.

- Matem-nos a todos! Matem-nos a todos enquanto dormem. Cortem-nos aos bocados, tomem banho no seu sangue. Recuperem o que é meu. Malditos sejam, que ardam todos no inferno!

- Já desapareceram. São pó - tentou gritar Roz, mas mal conseguia articular as palavras. - Sou eu aquilo que resta?

A tempestade cessou tão abruptamente como começou e a Amélia que se encontrava naquela calmaria trauteava canções de embalar a crianças. Triste e pálida no seu vestido cinzento.

- És minha. Do meu sangue. - Estendeu a mão, e da palma brotava vermelho. - Da minha carne. Saíste do meu ventre, saíste do meu coração. Roubada, arrancada de mim. Encontra-me. Estou tão perdida.

Depois Roz ficou sozinha, de pé sobre a relva primaveril na orla do bosque, com aquilo que construíra estendido aos seus pés.

Regressou ao trabalho, pois este acalmava-a. A única forma que ela encontrou de a sua mente se fixar no que acontecera na orla do bosque foi fazer algo familiar, algo que mantivesse as suas mãos ocupadas enquanto o cérebro tentava compreender aquele fenómeno.

Manteve-se só, pois a solidão acalmava-a.

Ao longo da tarde, dividiu mais plantas-mãe e plantou estacas. Regou, adubou, rotulou.

Quando terminou, dirigiu-se a casa atravessando o bosque e atacou a sua estufa privada. Plantou canas-de-jardim num local que queria realçar, espoeiras e prímulas onde desejava um efeito mais calmo. Na sombra, acrescentou algumas campainhas e gerânios para um resultado mais sereno.

A sua serenidade, pensou, podia sempre ser encontrada ali, nos jardins, no solo, na sombra da Harper House. Sob aquele puro céu azul, ajoelhou-se no chão e contemplou o que era seu.

Tão encantadora com as suas pedras de um amarelo-suave, o vidro cintilante, os frontões pintados de um branco nupcial.

Que segredos estariam encerrados naqueles quartos, naquelas paredes? O que estaria oculto naquele solo que ela trabalhava, estação após estação, com as suas próprias mãos?

Crescera ali, tal como o pai, e o pai dele, e todos os outros que tinham vivido antes. Geração após geração de história e sangue partilhados. Educara ali os filhos e trabalhara para preservar aquele legado, para que os filhos dos seus filhos considerassem aquela casa o seu lar.

Teria de saber o que acontecera para que tudo aquilo passasse para si. Para depois aceitar.

Novamente calma, arrumou as ferramentas e entrou em casa para tomar um duche.

Encontrou Mitch a trabalhar na biblioteca.

- Desculpa interromper. Preciso de conversar contigo sobre uma coisa.

- Óptimo. Também tenho de falar contigo. - Fez deslizar a cadeira para longe do computador portátil e foi buscar uma pasta ao monte que estava sobre a secretária.

- Diz tu primeiro - pediu.

- Hum? Oh, está bem. - Passou a mão pelo cabelo e tirou os óculos, gestos que ela sabia significarem que estava a organizar os pensamentos.

- Já fiz tudo o que podia aqui - começou. - Podia passar muitos meses a trabalhar na história da tua família, a colectar pormenores, a recuar a gerações anteriores. Na verdade, tenciono fazê-lo. No entanto, no que diz respeito ao motivo por que me contrataste, estou num impasse. Ela não era da tua família, Roz. Não era uma Harper - corrigiu. - Não por nascimento, nem por casamento. Nenhum dos dados que recolhi, nomes, datas, nascimentos, casamentos, mortes, nada daquilo que tenho indica que uma mulher chamada Amélia tenha vivido nesta casa ou pertencido à família Harper. Nenhuma mulher de idade aproximada à dela morreu nesta casa durante o período de tempo que demarcámos.

- Estou a perceber. - Sentou-se, desejando vagamente ter ido buscar um café.

- Mas se a Stella estiver enganada em relação ao nome...

- Não está. - Roz abanou a cabeça. - É Amélia.

- Concordo. Mas não existe nenhuma Amélia Harper, por nascimento ou casamento, em qualquer registo. Por estranho que pareça, tendo em conta os anos desta casa, não existe registo de qualquer mulher que tenha morrido aqui com vinte ou trinta anos. Dentro de casa. Mais velhas ou mais novas sim, algumas. - Depositou o dossier em cima de um monte. - Ah, uma das mortes mais curiosas que aqui ocorreu teve lugar em 1859: a de um dos teus antepassados masculinos, um tal Beauregard Harper, que partiu o pescoço e vários outros ossos ao cair da varanda do primeiro andar. Pelas cartas que li que descreviam o acontecimento, Beau estava lá em cima com uma mulher que não era a sua, envolvido num jogo sexual que acabou por se tornar um pouco entusiástico demais. Caiu por cima do parapeito e levou a parceira com ele. Estava morto quando as pessoas que aqui viviam chegaram junto dele, mas, sendo um sujeito corpulento, aparou a queda da convidada, que aterrou em cima dele e sofreu apenas uma fractura numa perna.

- É uma vergonha extrema, imagino.

- É provável. Tenho uma lista com os nomes das mulheres Harper que morreram aqui. Tenho também alguns registos das criadas que morreram nesta casa, mas nenhuma corresponde aos parâmetros. Tenho algumas informações da advogada de Chicago de que te falei. - Procurou outra pasta.

- A descendente da governanta durante a época de Reginald Harper. Ela descobriu que três dos seus antepassados trabalharam aqui: a governanta, o tio da governanta, que tratava dos terrenos em redor da casa, e uma jovem prima que era criada de cozinha. A partir desta informação, consegui obter também uma história pormenorizada dessa família. Embora nada do que descobri seja relevante, pensei que gostarias de ficar com ela.

- Sim, gostaria.

- A advogada vai continuar à procura de informações quando tiver tempo, pois agora está cheia de trabalho. Talvez tenhamos sorte.

- Fizeste um trabalho notável.

- Poderás olhar para os diagramas e localizar o segundo primo do teu tio-trisavô da parte da tua mãe e ter uma boa perspectiva da sua vida. Mas isso não te ajuda.

- Estás enganado. - Fitou a pilha de dossiers e o quadro atrás de Mitch, atulhado de papéis, fotografias e notas escritas à mão. - Ajuda-me. Era algo que eu já devia ter sabido há muito tempo. Já devia conhecer a história do infeliz e adúltero Beau e da Lucybelle, dona de um saloon, e de todos os outros que tu trouxeste à vida para mim.

Levantou-se para ir até ao quadro e observar os rostos, os nomes. Alguns eram-lhe tão familiares como o seu, outros eram-lhe totalmente estranhos.

- Agora percebo que o meu pai estivesse mais interessado no presente do que no passado. E o meu avô morreu quando eu era muito pequena, por isso não me lembro de ele me contar histórias de família. A maior parte daquilo que sabia foi-me contado pela minha avó, que não era uma Harper por nascimento, ou por primos mais velhos. De vez em quando, remexia nos papéis velhos, sempre com a intenção de lhes dedicar mais tempo, de ler mais. Mas não o fiz. - Recuou. - História da família, todos os que viveram antes interessam e, até há pouco tempo, não os respeitei o suficiente.

- Concordo com a primeira parte, mas não com a segunda. Esta casa mostra o imenso respeito que tens pela tua família. Essencialmente, o que te estou a dizer é que não consigo encontrá-la. Por aquilo que observei, por aquilo que sinto, acredito que a Amélia é tua antepassada. Mas não é da tua família. Não vou encontrar o nome dela em documentos de família. E não acredito que tenha sido uma criada.

- Não acreditas.

- Pensa na altura, na época, nos códigos sociais. Enquanto criada, é certamente possível que um membro da família a tenha engravidado, mas é de duvidar que lhe fosse permitido continuar a pertencer ao pessoal, ficar na casa durante a gravidez. Teria sido mandada embora e talvez lhe tivesse sido dada alguma compensação monetária. Mas não me parece.

Após um último olhar para o quadro, Roz voltou para junto da cadeira e sentou-se.

- Porque não?

- Reginald era o chefe da casa. Toda a informação que tenho sobre ele indica que era extremamente orgulhoso, muito consciente daquilo que podemos dizer ter sido a sua elevada posição nesta comunidade. Política, negócios, sociedade. Para ser franco, Roz, não o estou a ver a ir para a cama com a criada. Teria sido mais selectivo. Claro que alguém como um parente, um tio, um cunhado, um primo, o poderia ter feito. Mas o meu instinto diz-me que a ligação com a Amélia é mais forte que isso.

- E o que resta?

- Uma amante. Uma mulher que não era a esposa, mas que satisfazia as suas necessidades. Uma concubina.

Roz ficou em silêncio durante algum tempo.

- Sabes o que eu acho interessante, Mitchell? O facto de termos chegado, partindo de direcções diferentes, ao mesmo ponto. Consultaste tantas resmas de documentos que fico com dores de cabeça só de pensar neles. Telefonemas, pesquisas no computador, pesquisas no tribunal. Gráficos e diagramas e sabe Deus o que mais. E, ao fazeres tudo isso, deste-me a conhecer não só uma imagem da minha família que eu nunca tinha visto, como também pessoas cujos nomes não sabia, mas que são, num sentido muito real, responsáveis pela minha vida. Eliminaste também dezenas de possibilidades sobre quem possa ter sido esta pobre mulher, para que possamos chegar à resposta certa. Achas que, quando isso acontecer, ela terá paz?

- Não sei a resposta a essa pergunta. Porque estás tão triste? Ver-te assim dá cabo de mim.

- Não sei ao certo. Hoje aconteceu uma coisa - explicou, relatando-lhe o que tinha acontecido. - Tive tanto medo. - Respirou fundo. - Tive medo na noite em que ela nos trancou do lado de fora do quarto das crianças, quando tu e eu entrámos em casa pela varanda e ela teve aquele ataque de fúria, a atirar com as coisas. Tive medo naquela noite na banheira, em que ela me segurou debaixo de água. Pensei que nunca mais voltaria a sentir tanto medo. Mas hoje, hoje, enquanto estava ali de pé, a vê-la caminhar pelo campo na minha direcção, por entre o nevoeiro, fiquei petrificada. Vi o rosto dela, a loucura que havia nele, uma espécie de objectivo insano. Do tipo, concluo agora, que ultrapassa até mesmo a morte. - Estremeceu.

- Eu sei o que isto parece, mas acho que, de alguma forma, foi isso que ela fez. Ela suplantou a morte com a loucura e não consegue libertar-se.

- Desta vez não te tocou. Não te magoou? Roz abanou a cabeça.

- Nem mesmo no auge da sua raiva. Não conseguia respirar, era como se estivesse a respirar terra, mas isso pode ter sido causado em parte pelo pânico em que me encontrava. Ela falou em matar, num banho de sangue. Nunca se ouviu falar de assassínio nesta casa, mas será... Oh, meu Deus, será que a mataram? Alguém da minha família?

- Foi ela que falou em assassinar - recordou-a ele -, e não em ter sido assassinada.

- É verdade, mas não se pode crer que uma mulher louca relate os factos correctamente. Ela disse que eu era do sangue dela. Seja verdade ou não, ela acredita nisso. - Respirou fundo. - E tu também.

Mitch levantou-se e aproximou-se dela. Pegando-lhe nas mãos, puxou-a para si e envolveu-a num abraço.

- Em que é que tu acreditas?

”Conforto”, pensou ela, ao apoiar a cabeça no ombro dele. Um homem podia dar-nos tanto conforto se nos permitíssemos aceitá-lo.

- Ela tem os olhos do meu pai. Vi isso hoje, no fim. Nunca o tinha visto antes ou talvez nunca me tenha permitido tal coisa. Será que ele lhe tirou o filho, Mitch, o meu bisavô? Poderia ele ter sido tão frio?

- Se tudo isto for verdade, ela pode ter abdicado do bebé. Talvez tenha existido um acordo e ela acabasse por se arrepender. Ainda existem muitas possibilidades.

- Agora quero saber a verdade. Tenho de saber, custe o que custar. Recuou e conseguiu esboçar um sorriso. - Como diabo é que vamos descobrir uma mulher que pode ter sido amante do meu bisavô?

- Temos o primeiro nome, uma idade aproximada, e partimos do princípio de que viveu na área de Memphis. Começamos por aí.

- Isso é optimismo natural ou estás a tentar animar-me?

- Um pouco das duas coisas.

- Então está bem. Vou beber um copo de vinho. Queres alguma coisa?

- Dava-me jeito cerca de cinco litros de água para compensar os vinte litros de café que bebi hoje. Vou contigo.

Passou o braço à volta dos ombros dela enquanto se dirigiam à cozinha.

- Se calhar vou ter de pôr isto de lado até depois do casamento da Stella e do Logan. Apanhou-me de surpresa. Acho que, por mais exigentes que os mortos possam ser, os vivos devem ter prioridade. - Pegou num copo de água e num limão fresco. - Não acredito que aqueles miúdos vão deixar de fazer parte da casa dentro de alguns dias.

Deitou a água para o copo, cortou uma rodela de limão e estendeu-lhe o copo.

- Obrigado. Acho que eles vão andar o suficiente por aqui para teres a sensação de que ainda fazem.

- Gosto de pensar que vai ser assim. - Serviu-se de vinho, mas o telefone tocou antes de poder dar o primeiro gole. - Onde está o David? - perguntou, atendendo o telefone.

Escutou durante alguns instantes e depois sorriu lentamente para Mitch.

- Olá, Jane - cumprimentou, erguendo o copo num brinde.

- Isto é tão emocionante. É como um thriller de espionagem ou coisa assim. - Hayley saltava de excitação, enquanto ela, Roz e Stella subiam de elevador até ao apartamento de Clarise Harper. - Quero dizer, passámos a manhã à procura de manicuras e pedicuras e a tarde à caça de documentos secretos. É absolutamente fantástico.

- Diz isso depois, se formos presas e passarmos a noite na cadeia opinou Stella. - Se o Logan tiver de casar comigo tendo as barras da cela de permeio, vou ficar extremamente irritada.

- Eu disse-te para não vires - lembrou-a Roz.

- E perder isto? - Stella respirou fundo e saiu do elevador. - Posso estar nervosa, mas não sou cobarde. Além disso, a Hayley tem razão. É emocionante.

- Entrar no apartamento demasiado mobilado de uma velhota rezingona e roubar aquilo que é meu por direito, acompanhada por um coelhinho assustado, não me parece nada emocionante. A própria Jane podia tê-los levado e ter-nos poupado a viagem. Já temos muito que fazer com o casamento de amanhã.

- Eu sei e agradeço-te muito por nos teres dado o dia de folga para nos podermos aperaltar. - Impulsivamente, Stella deu um beijo na face de Roz.

- Vamos trabalhar o dobro depois do casamento para te compensar.

- Talvez tenham mesmo de o fazer. Agora rezem para que a horrorosa da velha tenha saído para ir fazer a permanente ao cabelo, como nos foi dito, senão isto vai ser feio.

- Não esperas que seja? - começou Hayley, mas a porta abriu-se com um rangido. Jane espreitou pela abertura.

- Eu... eu não estava à espera de mais ninguém a não ser a prima Rosalind. Não sei se devemos...

- Elas trabalham para mim. São amigas. - Sem paciência para hesitações ou problemas, Roz abriu a porta e entrou. -Jane, estas são a Stella e a Hayley. Jane, emalaste as tuas coisas?

- Sim, não são muitas. Mas estive a pensar... ela vai ficar tão chateada quando chegar a casa e vir que me fui embora. Não sei se devo...

- Este lugar está tão horrível como sempre foi - observou Roz. - Tresanda a alfazema. Como é que ela aguenta? Ali está uma das nossas pastoras de Dresden e aquele gato em porcelana Meissen e... que se lixe. Onde estão os diários?

- Não os tirei. Achei que não tinha o direito de...

- Tudo bem. Dá-me a chave, mostra-me onde estão e eu vou buscá-los. Não vamos perder tempo, Jane - acrescentou Roz, vendo que a rapariga não se mexia e mordia o lábio inferior. - Tens um apartamento à tua espera e um novo emprego para começar logo na segunda-feira de manhã. É pegar ou largar, a escolha é tua. Mas eu não me vou embora deste apartamento com fedor a alfazema sem aquilo que é meu por direito. Por isso, ou me dás a chave ou vou começar a remexer nas coisas até encontrar o que procuro.

- Oh, meu Deus, não me estou a sentir bem. - Jane meteu a mão no bolso e tirou de lá uma requintada chave de latão. - A secretária no quarto dela, gaveta de cima. - Branca como a cal, fez um gesto débil. - Estou tonta.

- Pára com isso - sugeriu Roz. - Stella, porque não ajudas a Jane a ir buscar as coisas dela?

- Claro, vamos Jane.

Confiando em Stella para lidar com a situação, Roz virou-se para Hayley.

- Vigia a porta - ordenou.

- Oh, bolas, raios partam! Sou a sentinela.

Contra a sua vontade, Roz foi a rir-se até chegar ao quarto de Clarise. Ali havia mais alfazema com um travo a violetas. A cama tinha uma cabeceira almofadada de seda dourada com uma colcha antiga, que Roz sabia muito bem ter saído da Harper House. Tal como a mesa junto à janela e o candeeiro art noveau.

- A velha ladra - resmungou Roz, dirigindo-se directamente à secretária. Girou a chave e quase não conseguiu conter um grito ao ver as pilhas de diários encadernados a couro.

- Este vai ser um belo pontapé em cheio no teu traseiro ossudo - declarou e, abrindo a mochila que tinha ao ombro, fez deslizar, com cuidado, os livros para o seu interior.

Para ter a certeza de que não faltava nenhum, abriu o resto das gavetas e revistou sem qualquer escrúpulo as mesas-de-cabeceira, a escrivaninha e a cómoda.

Embora se sentisse idiota ao fazê-lo, limpou tudo aquilo em que tocou. Não se admirava que Clarise chamasse a polícia e dissesse que tinha sido assaltada. Depois deixou a chave bem à vista em cima da secretária.

- A Stella levou-a para baixo - anunciou Hayley, quando Roz chegou junto dela. - Tremia tanto que podia ter um ataque se não saísse daqui. Roz, a coitadinha só tinha uma mala. Meteu tudo o que tinha dentro de uma só mala.

- Ainda é nova. Terá tempo de sobra para arranjar mais. Tocaste em alguma coisa?

- Não. Pensei nas impressões digitais.

- Rapariga esperta. Vamos embora.

- Já os tens?

Roz deu uma palmadinha na mochila.

- Foi tão fácil como roubar um doce a um bebé, coisa que se sabe que a Clarise faz.

Só depois de terem instalado Jane no apartamento e estarem já a caminho de casa é que Roz reparou que Hayley estava estranhamente silenciosa.

- Não me digas que estás com dúvidas, remorsos, seja o que for.

- O quê? Oh, não. Não. Esses diários são teus. Se fosse comigo, teria trazido as outras coisas que também pertenciam à Harper House. Estava a pensar na Jane. Sei que ela é mais nova que eu, mas não muito. Parece tão, sei lá, frágil e assustada com tudo. Mesmo assim, teve uma atitude corajosa, acho eu.

- Ela não teve o que tu tiveste - respondeu Roz. - Por um lado, a tua audácia, e muita dela é apenas o resultado do acaso. Mas ela não teve um pai como o teu, um pai que a amasse, que a ensinasse e lhe desse um lar seguro e feliz. Ela não se sente forte, nem atraente, e tu sabes que o és.

- Ela precisa de um bom corte de cabelo e de roupas melhores. Stella, não seria divertido transformá-la?

- Calma, rapariga.

- Não, a sério. Mais tarde, quando tivermos tempo. Mas também estava a pensar na cara dela quando entrou naquele pequeno apartamento. Como ficou grata e surpreendida por teres enviado para lá algumas coisas, Roz. Só coisas básicas, como um sofá, uma cama e comida para a cozinha. Acho que nunca ninguém fez nada por ela. Senti tanta pena e, ao mesmo tempo, senti-me feliz pela forma como ela olhou em volta, tão deslumbrada e chorosa.

- Vamos ver o que ela faz a partir de agora.

- Deste-lhe a oportunidade de fazer alguma coisa. Tal como fizeste comigo e com a Stella também.

- Oh, não comeces.

- Começo sim. Todas nós chegámos à mesma esquina e foste tu que nos ajudaste a contorná-la e a caminhar estrada abaixo. Agora a Jane tem uma casa só dela e um emprego novo. Eu tenho uma bebé linda e uma casa maravilhosa para ela. E a Stella vai casar-se amanhã.

Começou a fungar e Roz olhou para o espelho retrovisor.

- Eu estou a falar a sério: não comeces.

- Não consigo evitar. Estou tão feliz. A Stella vai casar-se amanhã e todos vocês são os melhores amigos do mundo inteiro.

Stella passou os lenços de papel para o banco de trás e ficou com um para si.

Havia dezasseis diários ao todo, cinco da sua avó Elizabeth Harper e nove escritos pela sua bisavó Beatrice. Cada um deles estava totalmente escrito, da primeira à última página.

Ao folheá-los rapidamente, Roz reparou que existiam também alguns esboços: obra da sua avó. Sentiu-se interiormente quente ao olhar para eles.

Contudo, não precisava que Mitch lhe dissesse que, embora tivessem os diários, a tarefa de os ler e de encontrar algo relativo a Amélia era assustadora.

- Não têm data. - Esfregando os olhos, Stella encostou-se no sofá. - Por aquilo que pude perceber com uma vista de olhos rápida, a Beatrice Harper não utilizava um diário por ano. Limitava-se a preencher cada um deles, independentemente do tempo que fosse passando, e depois passava ao seguinte.

- Então vamos organizá-los o melhor que conseguirmos - sugeriu Mitch -, vamos dividi-los e ler cada um deles do princípio ao fim.

- Espero que me calhe um interessante.

Dadas as circunstâncias, David servira um chá bastante elaborado e agora servia-se de um scone.

- Quero que nunca percam os diários de vista. Mas amanhã temos um casamento. Stella, não quero que exageres. Não vou ser responsável por ires casar-te cheia de olheiras. Quem será? - perguntou Roz, quando a campainha tocou. - Estamos todos aqui. Não, senta-te, David. Eu vou abrir.

Saiu da sala com Parker a saltitar atrás dela e a ladrar, como que para lhe dizer que estava a cumprir o seu dever. Ao abrir a porta, Roz ergueu as sobrancelhas. E o seu sorriso foi tão cortante como uma espada.

- Ora vejam só, a prima Rissy. Que surpresa desagradável.

- Onde é que está aquela rapariga inútil e aquilo que é meu?

- Não faço a mais pálida ideia do que está a falar e tenho raiva de quem sabe. - Reparou que a tia alugara um carro e um motorista para a viagem desde a cidade. - Creio que as boas maneiras obrigam a que a convide a entrar, mas aviso-a desde já que não me custa nada revistá-la antes de sair, o que seria algo traumático para ambos os lados, por isso nem sequer pense em roubar seja o que for.

- Tu és e sempre foste uma criatura malcriada e desagradável.

- Que engraçado! - Roz recuou para que Clarise pudesse entrar no átrio com a sua bengala. - Estava a pensar a mesma coisa sobre si. Estamos na sala a beber um chá. - Roz dirigiu-se à porta. - A prima Rissy veio visitar-nos. Não é lamentável? Talvez se lembre do meu filho, Harper. Sempre gostou de se queixar dele constantemente, durante as suas outras visitas. E David, o amigo de infância do Harper que cuida da Harper House e já contou as pratas.

- A tua insolência é dispensável.

- Pouco mais tenho para lhe oferecer. Creio que também já conhece o dr. Carnegie.

- Sim e falarei dele ao meu advogado. Mitch exibiu um sorriso rasgado.

- O meu nome é Mitchell Carnegie. Com dois Is.

- Este é o Logan Kitridge, vizinho, empregado e noivo de Stella Rothchild, que gere o meu centro de jardinagem.

- Não tenho qualquer interesse no teu grupo heterogéneo de empregados, nem no teu hábito duvidoso de os reunir dentro da Harper House.

- Estes são os filhos dela, Gavin e Luke, e o cão deles, o Parker - continuou Roz, como se Clarise não tivesse dito nada. - E uma jovem prima minha, do lado dos Ashby, e também minha empregada, Hayley Phillips, e a sua filha linda, Lily. Acho que já apresentei toda a gente. David, acho que é melhor servires uma chávena de chá à Clarise.

- Eu não quero chá, sobretudo um preparado e servido por um homossexual.

- Não é contagioso - retorquiu David, imperturbável.

- A sério, David? És homossexual? - Roz fingiu ficar surpreendida. - Que espantoso.

- Tento ser discreto.

- Onde está a Jane? - exigiu Clarise. - Insisto em falar com ela imediatamente.

Roz pegou numa bolacha minúscula e ofereceu-a a uma Lily deliciada.

- E quem é a Jane?

- Sabes muito bem. Jane Paulson.

- Ah, claro, a prima Jane. Lamento, mas ela não se encontra aqui.

- Não vou tolerar as tuas mentiras. - Ao ouvir o tom de voz de Clarise, Parker emitiu um rosnido de aviso. - E mantém aquele cãozinho horroroso longe de mim.

- Ele não é horroroso. - Gavin pôs-se de pé de um pulo e a mãe agarrou-o de imediato. - A senhora é que é horrorosa.

- E se for má - anunciou Luke -, ele morde-a, porque é um cão bom.

- Gavin, tu e o Luke levem o Parker lá para fora. Vão, está bem? - Stella apertou Gavin levemente.

- Vão buscar o frisbee - sugeriu Logan, piscando o olho aos rapazes.

- Vou ter convosco daqui a instantes.

Gavin pegou no cão, saindo da sala de sobrolho carregado, e Luke parou junto à porta.

- Não gostamos de si - declarou, seguindo depois o irmão com as suas perninhas robustas.

- Vejo que os teus empregados não são mais capazes de educar crianças do que tu, Rosalind.

- Parece que não. Sinto-me tão orgulhosa. Bem, uma vez que não deseja tomar um chá e eu não a posso ajudar no que diz respeito à Jane, suponho que esteja de saída.

- Onde estão os diários?

- Diários? Está a referir-se aos diários escritos pela minha avó e pela minha bisavó que foram levados desta casa sem a minha autorização?

- A tua autorização não era necessária. Eu sou a Harper mais velha e esses diários são meus por direito.

- Não há dúvida de que discordamos quanto a isso, mas posso ajudá-la em relação ao sítio onde se encontram. Regressaram ao lugar a que pertencem: moral, legal e eticamente.

- Vou fazer com que te prendam.

- Oh, por favor, experimente. Vai ser divertido, não acha? - O perigoso icebergue estava de volta no momento em que se sentou no braço de uma cadeira, cruzando casualmente as pernas. - De certeza que iria adorar ter o seu nome, o nome da família Harper, espalhado por toda a imprensa, falado por todo o condado! - Os olhos dela faiscavam, em contraste com o gelo na sua voz. - Porque farei com que assim seja. Aproveitarei todas as oportunidades para dar entrevistas e falar sobre toda esta confusão indecente nas festas a que for. Essas coisas não me preocupam.

Calou-se, baixando-se para aceitar a bolacha que Lily lhe oferecia.

- Ora, obrigada, minha doçura. E a senhora? - disse para Clarise. - Não me parece que gostasse de ser o tema de mexericos, insinuações e piadas. Sobretudo porque não iria dar em nada. Tenho na minha posse aquilo que é legalmente meu.

Pegou em Lily ao colo, sentou-a sobre um joelho e devolveu-lhe a bolacha, enquanto a sala continuava em silêncio, salvo pelos arquejos de indignação de Clarise. Roz constatou que era um daqueles raros momentos em que podia, de facto e com exactidão, descrever uma cena com a expressão: ”e ela de peito arfante...”

Era glorioso.

- Se quiser que a polícia me pergunte como é que eles voltaram à minha posse, contarei tudo de bom grado. E espero que fique