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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A SALA ÂMBAR / Steve Berry
A SALA ÂMBAR / Steve Berry

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A SALA ÂMBAR

 

CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE MAUTHAUSEN, ÁUSTRIA,

10 DE ABRIL DE 1945

Os prisioneiros o chamavam de Ouvidos porque era o único russo do galpão 8 que entendia alemão. Ninguém jamais usava seu nome ver­dadeiro, Karol Borya. Yxo - Ouvidos - era seu apelido desde o dia em que entrara no campo há mais de um ano. Era um rótulo que ele con­siderava com orgulho, uma responsabilidade que levava a sério.

- O que você ouve? - sussurrou um dos prisioneiros no escuro.

Ouvidos estava encolhido perto da janela, encostado ao vidro ge­lado, com a respiração leve como um fio de teia de aranha no ar seco e taciturno.

- Eles querem mais diversão? - perguntou outro prisioneiro.

Há duas noites os guardas tinham vindo pegar um russo no galpão 8. Era um soldado de infantaria vindo de Rostov, perto do Mar Negro, relativamente novo no campo. Seus gritos foram ouvidos a noite toda, terminando apenas depois de uma rajada de tiros em staccato, e na manhã seguinte o corpo ensangüentado foi pendurado no portão prin­cipal, para todos verem.

Ele desviou rapidamente o olhar do vidro.

- Quietos. O vento torna difícil escutar.

Os catres cheios de piolhos tinham três andares, e cada prisioneiro tinha menos de um metro quadrado de espaço. Cem pares de olhos fundos o encaravam.

Todos os homens respeitavam seu comando. Nenhum se mexeu, com o medo há muito absorvido no horror de Mauthausen. De repen­te, ele deu as costas para a janela.

- Estão vindo.

Um instante depois, a porta do galpão foi aberta. A noite gelada entrou, seguindo o sargento Hunter, encarregado do galpão de prisio­neiros número 8.

- Achtung!

Claus Humer era Schutztaffel, da SS. Mais dois SS armados estavam atrás dele. Todos os guardas de Mauthausen eram da SS. Humer não carregava arma. Nunca. O corpo de 1,83 metro e membros pesados eram toda a proteção de que necessitava.

- Precisamos de voluntários - disse Humer. - Você, você, você e você.

Borya foi o último escolhido. Imaginou o que estaria acontecendo.

Poucos prisioneiros morriam à noite. A câmara da morte ficava desli­gada e o tempo era usado para expulsar o gás e lavar os ladrilhos para a chacina do dia seguinte. Os guardas tendiam a ficar em seus aloja­mentos, amontoados ao redor de fogões de ferro mantidos quentes pela lenha que os prisioneiros morriam cortando. Do mesmo modo, os médicos e seus auxiliares dormiam, preparando-se para outro dia de experiências em que os presos eram usados indiscriminadamente como animais de laboratório.

Humer olhou direto para Borya.

- Você me entende, não é?

Borya ficou quieto, encarando os olhos pretos do guarda. Um ano de terror havia lhe ensinado o valor do silêncio.

- Não tem nada a dizer? - perguntou Humer em alemão. - Ótimo. Você precisa entender... com a boca fechada.

Outro guarda passou com quatro sobretudos de lã sobre os braços estendidos.

- Agasalhos? - murmurou um dos russos.

Nenhum prisioneiro usava agasalho. Uma imunda camisa de aniagem e calças rasgadas, mais trapos do que roupas, eram recebidos ao chegar. Quando morriam, esses trajes eram despidos para ser entre­gues, fedendo e sem serem lavados, aos que chegavam. O guarda jo­gou os casacos no chão.

Humer apontou.

- Mantel anziehen.

Borya pegou um dos amontoados verdes.

- O sargento mandou vestir - explicou em russo.

Os outros três o acompanharam.

A lã arranhava sua pele, mas a sensação era boa. Fazia muito tem­po que não ficava sequer remotamente aquecido.

- Para fora - disse Humer.

Os três russos olharam para Borya e ele sinalizou em direção à por­ta. Todos saíram para a noite.

Humer guiou o grupo pelo gelo e a neve em direção ao pátio princi­pal, enquanto um vento gelado uivava entre as filas de galpões baixos, de madeira. Havia oitenta mil pessoas amontoadas nas construções ao redor, um número maior do que os moradores de toda a província natal de Borya na Bielo-Rússia. Passara a achar que jamais veria aquele local outra vez. O tempo quase se tornara irrelevante, mas, em nome da sanidade, Borya tentava manter algum sentido de sua passagem. Era o final de março. Não. Início de abril. E continuava gelado. Por que ele não podia simplesmente morrer ou ser morto? Centenas encontravam esse destino a cada dia. Será que o dele era sobreviver a este inferno?

Mas para quê?

No pátio principal, Humer virou à esquerda e marchou para uma área aberta. Havia outros galpões de prisioneiros de um dos lados. A cozinha, a cadeia e a enfermaria do campo eram do outro. Na extre­midade mais distante, ficava o rolo compressor, uma tonelada de aço que era arrastado sobre a terra congelada a cada dia. Esperou que o trabalho não envolvesse aquela tarefa desagradável.

Humer parou diante de quatro estacas altas.

Há dois dias um grupo fora levado para a floresta ao redor, e Borya também fora um dos dez prisioneiros escolhidos naquela ocasião. Tinham derrubado três faias pretas. Um prisioneiro quebrou o braço durante o serviço e foi morto a tiro no ato. Os galhos foram retirados e os troncos cortados em quatro partes, depois arrastados de volta ao campo e enfiados no chão até ficarem da altura de um homem, no pá­tio principal. Mas as estacas tinham permanecido nuas nos últimos dois dias. Agora dois guardas armados os vigiavam. Luzes de arco voltaico ardiam acima e enevoavam o ar cortante e seco.

- Esperem aqui - disse Humer.

O sargento subiu um pequeno lance de escada e entrou na cadeia. A luz vazava de um retângulo amarelo na porta. Um instante depois quatro homens nus foram trazidos para fora. As cabeças louras não estavam raspadas como as dos outros russos, poloneses e judeus que constituíam a vasta maioria dos prisioneiros do campo. Nada de mús­culos fracos ou movimentos lentos, tampouco. Nem olhares apáticos ou olhos fundos nas órbitas, ou edemas inchando nos corpos emaciados. Aqueles homens eram fortes. Soldados. Alemães. Borya tinha vis­to outros assim. Rostos de granito, sem emoção. Frios e pétreos, como a noite.

Os quatro andaram eretos e desafiadores, com os braços ao lado do corpo, nenhum evidenciando o frio insuportável que a pele leitosa de­via estar sentindo. Humer os acompanhou para fora da cadeia e sinali­zou para as estacas.

- Ali.

Os quatro alemães nus marcharam para onde foram ordenados.

Humer se aproximou e jogou quatro rolos de corda na neve.

- Amarrem-nos às estacas.

Os três companheiros de Borya o olharam. Ele se abaixou e pegou as quatro cordas, entregando-as aos outros três e dizendo o que fazer. Cada um se aproximou de um alemão nu, que estava em posição de sentido diante dos ásperos toros de faia. Que violação teria provoca­do tamanha loucura? Passou o cânhamo rústico em volta do peito do homem e amarrou o corpo à madeira.

- Apertado - gritou Humer.

Borya deu um nó e puxou a fibra áspera com força sobre o peito nu do alemão. O sujeito nem se mexeu. Humer olhou para os outros três. Borya aproveitou a oportunidade para sussurrar em alemão:

O que você fez?

Não houve resposta.

Apertou mais a corda.

Eles não fazem isso nem conosco.

É uma honra desafiar quem nos capturou - sussurrou o alemão.

Sim, pensou Borya. Era mesmo.

Humer se virou de volta. Borya apertou o último nó.

- Para lá - disse Humer.

Borya e os outros três russos caminharam sobre a neve recente, sain­do do caminho. Para manter o frio a distância, enfiou as mãos nas axi­las e ficou se mexendo sobre um pé e o outro. O sobretudo era maravi­lhoso. Era o primeiro calor que sentia desde que fora trazido ao campo. Naquele momento, sua identidade fora completamente retirada, subs­tituída por um número - 10901 - tatuado no antebraço. Um triângu­lo foi costurado no peito de sua camisa rasgada, do lado esquerdo. Um R no triângulo significava que era russo. A cor também era importante. Vermelho para prisioneiros políticos. Verde para criminosos. Estrela-de-davi amarela para os judeus. Preto e marrom para prisioneiros de guerra.

Humer pareciaaguardar alguma coisa.

Borya olhou à esquerda.

Mais luzes de arco voltaico iluminavam o pátio de desfiles até o portão principal. A estrada lá fora, em direção à pedreira, ia sumindo na escuridão. A sede do comando, logo do outro lado da cerca, não estava iluminada. Ele ficou olhando enquanto o portão principal era aberto e uma figura solitária entrava no campo. O sujeito usava um sobretudo que ia até os joelhos. Calças claras se estendiam por baixo, até as botas de cano alto. Um quepe de oficial, de cor clara, cobria a cabeça. Coxas grandes caminhavam arqueadas, com passo decidido, e a barriga proeminente do sujeito abria o caminho. As luzes revelaram um nariz afiado e olhos claros, feições não desagradáveis.

E instantaneamente reconhecíveis.

Último comandante do Esquadrão Richthofen, comandante da For­ça Aérea Alemã, porta-voz do parlamento alemão, primeiro-ministro da Prússia, presidente do conselho de estado da Prússia, Reichmaster de florestas e caça, presidente do conselho de defesa do Reich, Reichsmarschall do Grande Reich Alemão. Escolhido pelo Führer como sucessor.

Hermann Göring.

Borya tinha visto Göring uma vez. Em 1939. Roma. Göring aparece­ra usando um espalhafatoso terno cinza, o pescoço carnudo enrolado numa gravata escarlate. Rubis adornavam os dedos grossos e uma águia nazista com diamantes engastados estava presa à lapela esquer­da. Tinha feito um discurso contido defendendo o lugar da Alemanha ao sol, perguntando: Vocês preferem ter armas ou manteiga? Preferem im­portar gordura de porco ou minério de ferro? O preparo nos torna poderosos. A manteiga nos torna gordos. Göring tinha terminado o discurso com um floreio, prometendo que a Alemanha e a Itália marchariam ombro a ombro na luta vindoura. Borya se lembrou de ter ouvido com atenção e não ter se impressionado.

-Senhores, imagino que estejam confortáveis - disse Göring em voz calma aos quatro prisioneiros amarrados.

Ninguém respondeu.

O que ele disse, Yxo? - sussurrou um dos russos.

Está ridicularizando eles.

Calem a boca - murmurou Humer. - Fiquem atentos ou vão se juntar a eles.

Göring se posicionou bem na frente dos quatro homens nus.

- Pergunto de novo a cada um de vocês: têm algo a dizer? Apenas o vento respondeu.

Göring se aproximou de um dos alemães trêmulos. O que Borya havia amarrado à estaca.

Mathias, sem dúvida você não quer morrer assim, não é? Você é um soldado, um servidor leal do Führer.

O... Führer... não tem nada a ver... com isto - gaguejou o alemão, o corpo tremendo violentamente.

Mas tudo que fazemos é pela glória maior dele.

Motivo pelo qual... escolho morrer.

Göring deu de ombros. Um gesto casual, como alguém faria se de­cidisse comer mais um bolinho. Fez um gesto para Humer. O sargen­to sinalizou para dois guardas, que empurraram um grande barril na direção dos homens amarrados. Outro guarda se aproximou com qua­tro conchas e as jogou na neve. Humer olhou para os russos.

- Encham-nas com água e fiquem perto de cada um desses homens.

Borya disse aos três, o que fazer, e quatro conchas foram apanhadas e submergidas.

- Não derramem nada - alertou Humer.

Borya teve cuidado, mas o vento soprou algumas gotas para fora. Ninguém notou. Ele voltou ao alemão que havia amarrado à estaca. O que se chamava Mathias. Göring ficou no centro, retirando as luvas de couro.

- Veja bem, Mathias - disse Göring. - Estou tirando as luvas para sentir o frio, como sua pele.

Borya ficou suficientemente perto para ver o pesado anel de prata que envolvia o anular da mão direita do sujeito, no qual estava grava­do um punho de ferro. Göring enfiou a mão direita num bolso da calça e tirou uma pedra. Era dourada, como mel. Borya reconheceu aquilo. Âmbar. Göring acariciou a pedra com os dedos e disse:

- A água será derramada sobre vocês a cada cinco minutos, até que alguém me diga o que quero saber ou até que vocês morram. Qualquer das opções me é aceitável. Mas, lembrem-se, quem falar vive. Então um desses russos miseráveis ficará no seu lugar. E vocês poderão ter o casaco de volta e derramar água nele até que ele morra. Imaginem como seria divertido. Só precisam me contar o que quero ouvir. Agora, têm algo a dizer?

Silêncio.

Göring assentiu para Humer.

- Gieβe es - disse Humer. Derramem.

Borya obedeceu e os outros três o seguiram. A água encharcou a juba loura de Mathias, depois escorreu pelo rosto e o peito. Tremores acompanharam o derramamento. O alemão não emitiu qualquer som, além de bater os dentes.

- Algo a dizer? - perguntou Göring outra vez. Nada.

Cinco minutos depois, o processo foi repetido. Vinte minutos mais tarde, após serem molhados mais quatro vezes, a hipotermia começou a atuar. Göring permanecia impassível e massageava metodicamente o âmbar. Pouco antes que outros cinco minutos se expirassem, ele se aproximou de Mathias.

- Isto é ridículo. Diga onde das Bernstein-zimmer está escondida e interrompa seu sofrimento. Não vale a pena morrer por isso.

O alemão trêmulo só o encarou de volta, com um desafio admirável. Borya quase odiava ser cúmplice de Göring para matá-lo.

- Sie sind ein lügnerisch diebisch-schwein - conseguiu dizer Mathias num só fôlego. Você é um porco mentiroso e ladrão. Depois o alemão cuspiu.

Göring recuou, com uma mancha de saliva na frente do sobretudo. Abriu os botões e sacudiu a mancha, depois puxou as lapelas, reve­lando um uniforme cinza-pérola cheio de condecorações pesadas.

- Eu sou seu Reichsmarschall. Só estou abaixo do Führer. Ninguém usa este uniforme além de mim. Como ousa achar que pode sujá-lo com tanta facilidade? Você dirá o que quero saber, Mathias, caso contrá­rio vai congelar até a morte. Lentamente. Muito lentamente. Não será agradável.

O alemão cuspiu de novo. Desta vez no uniforme. Göring perma­neceu surpreendentemente calmo.

- Admirável, Mathias. Sua lealdade é notável. Mas por quanto tem­po conseguirá sustentá-la? Olhe para você. Não gostaria de estar quen­te? Com o corpo perto de uma grande lareira, a pele enrolada num aconchegante cobertor de lã? - De repente, Göring estendeu a mão e empurrou Borya para perto do alemão amarrado. A água se derramou da concha para a neve. - Este agasalho seria maravilhoso, não é, Ma­thias? Vai permitir que este cossaco miserável fique quente enquanto você congela?

O alemão ficou quieto. Apenas tremia.

Göring empurrou Borya para o lado.

- Que tal um gostinho do calor, Mathias?

O Reichsmarschall abriu a braguilha da calça. A urina quente jorrou num arco, soltando vapor e deixando riscas amarelas na pele nua, que escorreram até a neve. Göring sacudiu o membro e depois fechou a calça.

- Sente-se melhor, Mathias?

- Verrottet in der schzveinshölle.

Borya concordou. Apodreça no inferno dos porcos.

Göring se adiantou rapidamente e deu um tapa com as costas da mão no rosto do soldado, e seu anel de prata lhe rasgou a bochecha. O sangue escorreu.

- Derramem! - gritou Göring.

Borya voltou ao barril e encheu de novo sua concha.

O alemão chamado Mathias começou a gritar.

- Mein Führer. Mein Führer. Mein Führer. - Sua voz ficou mais alta. Os outros três homens amarrados se juntaram a ele.

A água escorria.

Göring ficou parado, olhando, remexendo furiosamente o pedaço de âmbar entre os dedos. Duas horas depois, Mathias morreu coberto de gelo. Dentro de mais uma hora, os outros três alemães sucumbiram. Ninguém mencionou nada sobre das Bernstein-zimmer.

A Sala de Âmbar.

 

ATLANTA, GEÓRGIA

TERÇA-FEIRA, 6 DE MAIO, TEMPO PRESENTE, 10H35

A juíza Rachel Cutler olhou por cima dos óculos de aro de tartaruga. O advogado tinha dito aquilo de novo e, desta vez, ela não deixaria o comentário passar.

Perdão, advogado?

Eu disse que o réu alegará erro de julgamento.

Não. Antes disso. O que o senhor disse?

Disse: sim, senhor.

Se não notou, eu não sou um senhor.

Correto, meritíssima. Peço desculpas.

Você fez isso quatro vezes nesta manhã. Tomei nota.

O advogado deu de ombros.

- Parece uma questão sem importância. Por que a meritíssima se daria ao trabalho de anotar meu simples lapso verbal?

O sacana impertinente chegou a sorrir. Ela ficou mais ereta na cadei­ra e o encarou, irritada. Mas percebeu imediatamente o que T. Marcus Nettles estava fazendo. Por isso permaneceu quieta.

- Meu cliente está sendo julgado por agressão com agravantes, meri­tíssima. No entanto, a corte parece mais preocupada com o modo como me dirijo à senhora do que com a questão do desvio de conduta.

Ela olhou para o júri, depois para a mesa da promotoria. O promo­tor assistente do condado de Fulton permaneceu impassível, aparente­mente satisfeito ao ver que o oponente estava cavando a própria sepul­tura. Obviamente, o jovem promotor não captava o que Nettles estava tentando. Mas ela sim.

- Está absolutamente certo, advogado. É uma questão sem impor­tância. Prossiga.

Ela se recostou na cadeira e notou o momentâneo olhar de irritação no rosto de Nettles. Uma expressão que um caçador poderia ter quan­do seu tiro não acertava o alvo.

- E quanto à minha moção de erro de julgamento? - perguntou Nettles.

- Negada. Continue. Prossiga com seu sumário.

 

Rachel ficou olhando enquanto o primeiro jurado se levantava e pronunciava o veredicto de culpado. As deliberações tinham demora­do apenas vinte minutos.

- Meritíssima - disse Nettles, levantando-se. - Peço uma investiga­ção pré-sentença.

Negada.

Peço que o anúncio da sentença seja adiado.

Negado.

Nettles pareceu sentir o erro que havia cometido antes.

Peço que o tribunal se declare impedido.

Baseado em quê?

Atitude tendenciosa.

Contra quem ou o quê?

Contra mim e meu cliente.

Explique-se.

O tribunal demonstrou preconceito.

Como?

Com aquela observação hoje cedo sobre meu uso inadvertido da palavra senhor.

Pelo que recordo, advogado, eu admiti que era uma questão sem importância.

Sim, admitiu. Mas nossa conversa ocorreu com o júri presente, e o dano foi causado.

Não me lembro de qualquer objeção ou moção de erro de julga­mento baseado naquela conversa.

Nettles ficou quieto. Ela olhou para o assistente da promotoria.

Qual é a posição do Estado?

O Estado se opõe à moção. O tribunal foi justo.

Ela quase sorriu. Pelo menos o jovem advogado sabia a resposta certa.

- Moção de impedimento negada. - Rachel olhou para o réu, um rapaz branco de cabelos arrepiados e rosto cheio de marcas de espi­nhas. - O réu deve ficar de pé. - Ele obedeceu. - Barry King, você foi considerado culpado do crime de agressão com agravantes. Portanto, este tribunal o envia ao departamento de correções por um período de vinte anos. O meirinho levará o réu sob custódia.

Ela ficou de pé e foi na direção de uma porta de carvalho que le­vava à sua sala de audiências.

- Sr. Nettles, posso falar com o senhor um momento? - O assistente da promotoria também foi em sua direção. - Sozinha.

Nettles deixou o cliente, que estava sendo algemado, e a acompa­nhou até a sala.

- Feche a porta, por favor. - Ela abriu o zíper da toga, mas não a retirou. Foi para trás da mesa. - Bela tentativa, advogado.

- Qual?

- Antes, quando achou que aquele golpe do senhor e senhora me ti­raria do sério. Você estava tremendo nas bases com aquela defesa ca­penga, por isso achou que minha perda de estribeira lhe garantiria uma moção de erro de julgamento.

Ele deu de ombros.

A gente precisa tentar tudo.

O que você precisa é demonstrar respeito pelo tribunal e não chamar uma juíza de senhor. No entanto fez isso. Deliberadamente.

- A senhora acaba de sentenciar meu cliente a vinte anos sem o benefí­cio de uma audiência pré-sentença. Se isso não é preconceito, o que é?

Ela se sentou e não convidou o advogado a fazer o mesmo.

Não preciso de audiência. Condenei King por espancamento com agravantes há dois anos. Seis meses preso e seis em condicional. Eu me lembro. Desta vez, ele pegou um bastão de beisebol e fraturou o crâ­nio de um homem. O sujeito esgotou o pouco de paciência que tenho.

A senhora deveria ter se considerado impedida. Todas essas in­formações turvaram seu julgamento.

Verdade? A investigação pré-sentença, pela qual você ficou gri­tando, revelaria tudo isso, de qualquer modo. Eu simplesmente lhe poupei o trabalho de esperar o inevitável.

Você é uma puta escrota.

Isto vai lhe custar cem dólares. Pagáveis agora. Junto com mais cem pelo que armou no tribunal.

Tenho direito a uma audiência antes que você me acuse de de­sacato.

Certo. Mas você não quer isso. Não vai servir de nada para esta imagem chauvinista que você se esforça tanto para mostrar.

Nettles ficou quieto e ela pôde sentir o fogo crescendo. Era um sujei­to pesado, com papadas e reputação de tenacidade, sem dúvida, desa­costumado a receber ordens de uma mulher.

- E a cada vez que você mostrar essa sua bunda enorme no meu tribunal, vai lhe custar cem dólares.

Ele foi em direção à mesa e pegou um maço de dinheiro, tirando duas notas de cem dólares, novas em folha, com o Benjamin Franklin inchado. Bateu as duas na mesa, depois desdobrou mais três.


-           Foda-se.

Uma nota foi largada.

-           Foda-se.

A segunda nota caiu.

-           Foda-se.

O terceiro Ben Franklin desceu flutuando.


 

Rachel tirou a toga, voltou à sala do tribunal e subiu os três degraus até o tablado de carvalho que havia ocupado nos últimos quatro anos. O relógio na parede dos fundos marcava 13h45. Imaginou por mais quanto tempo teria o privilégio de ser juíza. Este era um ano de eleição, as inscrições tinham terminado há duas semanas, e ela atraíra dois opositores para as primárias de julho. Havia boatos de que pessoas entrariam na corrida, mas ninguém apareceu até dez minutos antes das cinco da tarde na sexta-feira, para pagar os quase quatro mil dólares necessários para concorrer. O que poderia ter sido uma elei­ção fácil e sem concorrentes agora se transformara num longo verão de levantamento de verbas e discursos. Nenhuma das duas coisas era agradável.

No momento, não precisava de mais isso. Sua agenda estava lota­da, com mais processos acrescentados a cada dia. Mas o calendário de hoje fora encurtado por um veredicto rápido no caso estado da Geórgia contra Barry King. Menos de uma hora de deliberação era rápido, segun­do qualquer padrão, e o júri obviamente não tinha se impressionado com o teatro de T. Marcus Nettles.

Com a tarde livre, decidiu cuidar de vários assuntos atrasados, que não precisavam de júri. As horas de julgamento tinham sido produtivas. Quatro condenações, seis admissões de culpa e uma absolvição. Onze processos criminais fora do caminho, abrindo espaço para o novo lote que sua secretária informou que seria entregue pelo encarregado da programação de manhã.

O Fulton County Daily Report dava notas anualmente a todos os juízes do tribunal superior local. Nos últimos três anos, ela estivera perto do topo, resolvendo os processos mais rápido que a maioria de seus colegas juízes, com uma taxa de apenas dois por cento de rever­são nos tribunais de apelação. Nada mal estar certa em 98 por cento do tempo.

Acomodou-se atrás da bancada e assistiu ao início do desfile da tarde. Advogados vinham e iam, alguns trazendo clientes que precisa­vam da finalização de um divórcio ou da assinatura de um juiz, ou­tros procurando uma resolução para moções pendentes em casos cíveis que aguardavam julgamento. Umas quarenta questões diferentes no total. Quando olhou de novo para o relógio do outro lado da sala, eram 16h15 e a agenda tinha se reduzido a dois itens. Um era uma adoção, tarefa da qual realmente gostava. O menino de 7 anos lhe lembrava Brent, seu filho de mesma idade. A última questão era uma simples mudança de nome, e a pessoa não era representada por um advoga­do. Ela havia marcado o caso especificamente para o fim, esperando que o tribunal estivesse vazio.

A secretária lhe entregou a pasta de documentos.

Ela olhou para o velho, vestido com paletó de tweed bege e calça marrom, diante da mesa dos advogados.

Seu nome completo? - perguntou ela.

Karl Bates. - A voz cansada tinha sotaque da Europa Oriental.

Há quanto tempo mora no condado de Fulton?

Quarenta e seis anos.

Nasceu neste país?

Não. Vim da Bielo-Rússia.

E é cidadão americano?

Ele assentiu.

- Sou um velho. Tenho 83 anos. Passei quase metade da vida aqui.

A pergunta e a resposta não eram relevantes para a petição, mas nem a secretária nem o escrivão disseram nada. Seus rostos pareciam entender o momento.

Meus pais, irmãos, irmãs, todos foram mortos pelos nazistas. Mui­tos morreram na Bielo-Rússia. Éramos russos-brancos. Muito orgulho­sos. Depois da guerra não restaram muitos de nós quando os soviéticos anexaram nossa terra. Stalin foi pior que Hitler. Um louco. Carniceiro. Nada restou por lá quando ele terminou, por isso fui embora. Este país é a terra das oportunidades, não é?

O senhor era cidadão russo?

-Acredito que a designação correta era cidadão soviético. - Ele ba­lançou a cabeça. - Mas nunca me considerei soviético.

O senhor serviu durante a guerra?

Por necessidade. A Grande Guerra Patriótica, como dizia Stalin. Era tenente. Fui capturado e mandado a Mauthausen. Passei dezesseis meses num campo de concentração.

Qual foi sua ocupação aqui, depois de emigrar?

Joalheiro.

O senhor fez uma petição a este tribunal para mudar de nome. Por que deseja ser conhecido como Karol Borya?

É meu nome de nascimento. Meu pai me chamou de Karol. Sig­nifica obstinado. Eu era o mais novo de seis filhos e quase morri ao nascer. Quando imigrei para este país pensei que deveria proteger a identidade. Tinha trabalhado em comissões do governo enquanto esta­va na União Soviética. Odiava os comunistas. Eles arruinaram minha pátria, e eu falava disso. Stalin mandou muitos compatriotas para os campos na Sibéria. Achei que minha família sofreria. Muito poucas pessoas podiam sair de lá na época. Mas antes de morrer quero meu passado de volta.

O senhor está doente?

Não. Mas me pergunto quanto tempo este corpo cansado vai agüentar.

Ela olhou para o velho parado à frente, o corpo encolhido pela idade, mas ainda distinto. Os olhos eram inescrutáveis e fundos, o ca­belo de um branco nítido, a voz grave e enigmática.

- O senhor parece muito bem para um homem de sua idade.

Ele sorriu.

- O senhor deseja essa troca devido a uma fraude, para fugir de processos ou se esconder de um credor?

Jamais.

Então concedo a petição. O senhor será Karol Borya outra vez.

Ela assinou a ordem anexada à petição e entregou a pasta à secre­tária. Descendo da plataforma, aproximou-se do velho. Lágrimas es­corriam pelas bochechas barbadas. Os olhos dela também ficaram vermelhos. Ela o abraçou e disse baixinho:

- Te amo, papai.

 

16H50

Paul Cutler se afastou da poltrona de carvalho e se dirigiu ao tribu­nal, com a paciência de advogado se esgotando.

- Meritíssimo, o espólio não contesta os serviços do reclamante. Apenas questionamos a quantia que ele está tentando cobrar. Doze mil e trezentos dólares é muito dinheiro para pintar uma casa.

Era uma casa grande - disse o advogado do credor.

Espero que sim - acrescentou o juiz de sucessões.

A casa tem 185 metros quadrados - disse Paul. - Não há nada de incomum. O serviço de pintura era rotineiro. O reclamante não tem direito à quantia cobrada.

Juiz, o falecido contratou meu cliente para uma pintura comple­ta na casa, coisa que meu cliente fez.

O que o reclamante fez, juiz, foi se aproveitar de um velho de 73 anos. Ele não realizou serviços que valessem 12.300 dólares.

O falecido prometeu um bônus ao meu cliente, caso terminasse em uma semana, e ele terminou.

Paul não podia acreditar que o outro advogado estivesse dizendo aquilo com tamanha cara-de-pau.

Muito conveniente, considerando-se que a única pessoa capaz de Contradizer essa promessa é o falecido. O fato é que nossa empresa é testamenteira do espólio, e não podemos, em sã consciência, pagar essa conta.

- Vocês querem ir a júri? - perguntou o enrugado juiz à outra parte.

O advogado se abaixou e sussurrou com o pintor, um homem mais jovem, perceptivelmente desconfortável no terno marrom, de poliéster, e gravata.

- Não, senhor. Talvez um acordo. Sete mil e quinhentos.

Paul não se abalou sequer por um instante.

- Mil duzentos e cinqüenta. Nem um centavo a mais. Nós contra­tamos outro pintor para examinar o serviço. Pelo que ele me disse, te­mos uma boa possibilidade de processo por trabalho malfeito. Além disso, a tinta parece ter sido diluída. Por mim, podemos deixar o júri de­cidir. - Ele olhou para o outro advogado. - Eu ganho 220 dólares por hora enquanto lutamos. Portanto, demore quanto quiser, advogado.

O outro advogado nem sequer consultou o cliente.

Não possuímos recursos para litígio, por isso não temos opção a não ser aceitar a oferta do espólio.

Aposto que sim. Extorsionário desgraçado - murmurou Paul en­quanto pegava sua pasta, em volume suficiente para apenas o outro advogado escutar.

- Redija uma ordem, Sr. Cutler - disse o juiz.

Paul saiu rapidamente da sala de audiências e marchou pelos corre­dores da divisão de sucessões do condado de Fulton. Ela ficava três andares abaixo da confusão do Tribunal Superior, e a um mundo de distância. Nenhum assassinato sensacional, nenhum litígio de alto ní­vel ou divórcios contestados. Testamentos, fundos e disputas de guar­da formavam o âmbito de sua jurisdição limitada - comum, tediosa, com provas que geralmente não passavam de lembranças diluídas e histórias de alianças reais e imaginárias. Um recente estatuto que Paul ajudara a esboçar permitia julgamentos com júri em determinadas cir­cunstâncias, e ocasionalmente um litigante exigia isso. Mas, no geral, os negócios eram feitos por um grupo de juízes idosos - ex-advogados que tinham percorrido esses mesmos corredores em busca de instru­mentos de execução testamentária.

Desde que a Universidade da Geórgia o havia mandado para o mundo com um doutorado em direito, o juizado de sucessão era a es­pecialidade de Paul. Não fora direto da faculdade para a escola de di­reito, sumariamente rejeitado pelas 22 escolas às quais se candidatara. Seu pai ficou arrasado. Durante três anos trabalhou no Geórgia Citizens Bank, no departamento de sucessões e curadoria, como um escriturário melhorado, e a experiência serviu de motivação suficiente para fazer de novo a prova para a faculdade de direito. Três escolas o aceitaram, e um terceiro ano como escriturário resultou num trabalho na Pridgen & Woodworth depois da formatura. Agora, treze anos depois, era só­cio participante da empresa, com experiência suficiente no departa­mento de sucessões e curadoria para ser o próximo na fila para uma sociedade integral e as rédeas administrativas do departamento.

Virou uma esquina e passou pela porta dupla na outra extremidade.

O dia de hoje tinha sido agitado. A moção do pintor fora marcada há mais de uma semana, mas logo depois do almoço seu escritório re­cebeu um telefonema do advogado de outro credor para a audiência de uma moção arranjada às pressas. Originalmente fora marcada para as 16h30, mas o advogado da outra parte não compareceu. Por isso ele correra para uma sala de audiências adjacente e cuidado da tentativa de roubo por parte do pintor. Puxou com força a porta de madeira e caminhou pelo corredor central do tribunal deserto.

- Teve notícias do Marcus Nettles? - perguntou à secretária do tri­bunal, na outra extremidade.

Um sorriso se abriu no rosto da mulher.

- Claro.

- São quase cinco horas. Onde ele está?

- No departamento do xerife. Pelo que eu soube, puseram o sujeito numacela.

Paul colocou a pasta na mesa de carvalho.

Está brincando?

Não. Sua ex mandou prendê-lo hoje de manhã.

Rachel?

A secretária assentiu.

- Dizem que ele bancou o engraçadinho com ela na sala de audiên­cias. Pagou trezentos dólares e depois mandou ela se f... três vezes.

A porta dupla do tribunal se abriu e T. Marcus Nettles entrou bamboleando. Seu terno Neiman Marcus bege estava amarrotado, a grava­ta Gucci fora do lugar, os sapatos italianos amassados e sujos.

Já era hora, Marcus. O que aconteceu?

Aquela vaca que você já chamou de mulher me pôs na cadeia e me deixou lá desde cedo. - A voz de barítono estava tensa. - Diga, Paul, ela é realmente uma mulher ou algum híbrido com bagos entre aquelas pernas compridas?

Paul começou a dizer alguma coisa, mas decidiu deixar para lá.

Ela pegou no meu pé diante do júri só porque eu a chamei de senhor...

Quatro vezes, pelo que ouvi contar - disse a secretária.

É. Provavelmente foi. Depois de eu fazer uma moção por erro de julgamento, que ela deveria ter aceitado, a vaca deu vinte anos ao meu cliente, sem audiência pré-sentença. Depois quis me dar uma lição so­bre ética. Não preciso dessa merda. Menos ainda vinda de uma vaca metida a esperta. Agora é o seguinte: vou dar dinheiro para os dois concorrentes dela. Um monte de dinheiro. Vou me livrar desse pro­blema na segunda terça-feira de julho.

Paul já ouvira o suficiente.

- Está pronto para discutir esta moção?

Nettles pôs a pasta na mesa.

Por que não? Pensei que ia ficar na cela a noite inteira. Acho que a puta tem coração, afinal de contas.

Já chega, Marcus - disse Paul, com a voz um pouco mais firme do que pretendia.

Os olhos de Nettles se apertaram, com um olhar penetrante e feroz que parecia ler seus pensamentos.

- Não diga que você se importa, merda. Vocês estão divorciados... o quê... há três anos? Ela deve arrancar um bom naco do seu salário como pensão.

Paul ficou quieto.

Puta que o pariu - disse Nettles. - Você ainda é a fim dela, não é?

Podemos ir em frente?

Filho-da-puta. - Nettles balançou a cabeça grande.

Paul foi até a outra mesa preparar-se para a audiência. A secretária saiu de sua cadeira e voltou para chamar o juiz. Ele ficou satisfeito por ela ter saído. As fofocas de tribunal corriam de boca em boca como fogo na mata.

Nettles acomodou seu corpanzil na poltrona.

- Paul, meu garoto, aprenda com alguém que perdeu cinco vezes: quando você se livrar delas, mantenha-se assim.

 

17H45

Karol Borya pegou a entrada de veículos e estacionou o Oldsmobile. Com 83 anos, sentia-se feliz por continuar dirigindo. Sua visão era espantosamente boa, e a coordenação, ainda que lenta, parecia bas­tante adequada para que o estado renovasse sua carteira. Não dirigia muito, nem ia longe. À mercearia, ocasionalmente ao shopping center e à casa de Rachel pelo menos duas vezes por semana. Hoje ti­nha se aventurado apenas 6,5 quilômetros até a estação de trens, onde pegou um trem até o centro para a audiência de troca de nome, no tribunal.

Morava há quase quarenta anos no nordeste do condado de Fulton, muito antes da explosão de Atlanta em direção ao norte. Os morros que já haviam sido cobertos de florestas, cuja argila vermelha havia escorrido para o rio Chattahoochee ali perto, agora estavam tomados por empreendimentos comerciais, áreas residenciais de alto nível, apartamentos e ruas. Milhões de pessoas viviam e trabalhavam ao re­dor dele e, nesse meio-tempo, Atlanta havia adquirido as designações de metropolitana e "anfitriã olímpica".

Foi até a rua e verificou a caixa de correspondência na calçada. A tarde estava quente, incomum para maio, o que era bom para suas juntas artríticas, que pareciam sentir a aproximação do outono e odi­avam completamente o inverno. Virou-se para a casa e notou que as empenas de madeira precisavam de pintura.

Tinha vendido suas terras há 24 anos, recebendo o suficiente para pagar uma casa nova à vista. Na época, o local era uma das novas áreas de empreendimentos imobiliários, e agora a rua havia se trans­formado num agradável recanto sob uma cúpula de árvores com um quarto de século. Sua querida esposa, Maya, tinha morrido dois anos antes de a casa ficar pronta. O câncer a reclamou depressa. Depressa demais. Ele mal teve tempo de se despedir. Rachel estava com 14 anos e foi corajosa, Karol tinha 50 anos e morreu de medo. A perspectiva de envelhecer sozinho o havia apavorado. Mas Rachel sempre ficou por perto. Tinha sorte de ter uma filha tão boa. A úni­ca filha.

Entrou na casa e ficou ali apenas alguns minutos quando a porta dos fundos se abriu violentamente e os dois netos entraram correndo na cozinha. Eles jamais batiam, e Karol jamais fechava a porta. Brent tinha 7 anos, Maria, 6. Ambos o abraçaram. Rachel os seguia.

- Vovô, vovô, cadê a Lucy? - perguntou Marla.

- Dormindo na sala. Onde mais estaria? - O animal vadio tinha aparecido no quintal havia quatro anos e nunca mais foi embora.

As crianças correram para a parte da frente da casa. Rachel abriu a geladeira e achou uma jarra de chá.

- Você ficou um tanto emotivo no tribunal.

- Sei que falei demais. Mas pensei no meu pai. Gostaria que você o tivesse conhecido. Ele trabalhava no campo todo dia. Era czarista. Leal até o fim. Odiava os comunistas. - Karol fez uma pausa. - Eu esta­va pensando que não tenho nenhuma foto dele.

Mas tem o nome dele outra vez.

E agradeço por isso, querida. Ficou sabendo onde Paul estava?

- Minha secretária verificou. Estava preso no tribunal de sucessões e não pôde ir.

- Como ele vai?

Rachel tomou um gole de chá.

- Bem, acho.

Karol examinou a filha. Era muito parecida com a mãe. Pele branca perolada, cabelos castanho-avermelhados e ondulados, olhos casta­nhos perceptivos, que davam a aparência firme de uma mulher no controle das coisas. E inteligente. Talvez inteligente demais para seu próprio bem.

Como você está? - perguntou ele.

Eu me viro. Sempre me viro.

- Tem certeza, filha? - Karol tinha notado mudanças ultimamente. Ela estava um tanto aérea, um pouco mais distante e frágil. Uma hesi­tação com relação à vida que ele achava perturbadora.

- Não se preocupe comigo, papai. Vou ficar bem.

- Ainda não tem pretendentes? - Ele não sabia de nenhum homem nos três anos desde o divórcio.

- Como se eu tivesse tempo. Só faço trabalhar e cuidar daqueles dois ali. Para não mencionar você.

Karol precisava falar:

Eu me preocupo.

Não precisa.

Mas ela desviou o olhar enquanto respondia. Talvez não tivesse tanta certeza.

Não é bom envelhecer sozinho. Ela pareceu captar a mensagem.

O senhor não está sozinho.

Não estou falando de mim, e você sabe.

Rachel foi até a pia e lavou o copo. Karol decidiu não insistir e ligou a televisão sobre a bancada. O aparelho continuava sintonizado nas manchetes da CNN desde a manhã. Baixou o volume e sentiu que precisava falar:

- O divórcio é errado.

Ela o interrompeu com um de seus olhares.

Vai começar com o sermão?

Engula esse orgulho. Vocês deviam tentar de novo.

Paul não quer.

O olhar do velho sustentou o dela.

Vocês dois são orgulhosos demais. Pense nos meus netos.

Eu pensei, quando me divorciei. Nós só brigávamos. Você sabe.

Ele balançou a cabeça.

Teimosa como a mãe.

Ou seria como ele? Difícil dizer.

Rachel enxugou as mãos com a toalha de pratos.

- Paul vai chegar lá pelas sete, para pegar as crianças. Vai levar os dois para casa.

- Aonde você vai?

- A uma festa de levantamento de fundos para a campanha. Vai ser um verão difícil, e não estou ansiosa por isso.

Ele se concentrou na televisão e viu cordilheiras, montanhas íngre­mes e penhascos rochosos. A visão era instantaneamente familiar. Uma legenda na parte de baixo da tela dizia STOD, ALEMANHA. Aumentou o volume.

-           ...empreiteiro milionário Wayland McKoy acha que esta área na região central da Alemanha ainda pode guardar tesouros nazistas. Sua expedição começa na semana que vem, nas montanhas Harz, num lu­gar que pertencia à antiga Alemanha Oriental. Só recentemente esses locais se tornaram acessíveis, graças à queda do comunismo e à reuni­ficação das duas Alemanhas. – A imagem passou para uma visão fecha­da, de cavernas em encostas cobertas de florestas. - Acredita-se que, nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, objetos roubados pelos nazistas foram guardados às pressas dentro de centenas de túneis que atravessam essas montanhas antigas. Alguns também eram usados como depósito de munição, o que complica a busca, tornando o empreendimento ainda mais perigoso. De fato, mais de duas dúzias de pessoas já perderam a vida tentando localizar tesouros nesta área, desdea guerra.

Rachel chegou perto e lhe deu um beijo no rosto.

- Preciso ir.

Ele deu as costas para a televisão.

- Paul vai chegar às sete?

Ela assentiu e foi para a porta.

O velho voltou a atenção imediatamente para a TV.

 

CINCO

Borya aguardou até a próxima meia hora, esperando que as manchetes contivessem alguma repetição da matéria. E teve sorte. O mesmo rela­tório da busca de Wayland McKoy aos tesouros nazistas nas monta­nhas Harz apareceu no segmento das 6h30.

Continuava pensando na informação, vinte minutos depois, quan­do Paul chegou. Mas nessa hora estava na sala íntima, com um mapa rodoviário da Alemanha desdobrado na mesinha de centro. Compra­ra-o no shopping há alguns anos, substituindo o ultrapassado, da National Geographic, que usara durante décadas.

Onde estão as crianças? - perguntou Paul.

Molhando minha horta.

Tem certeza que é seguro para a horta? Ele sorriu.

Andou seca. Eles não podem fazer mal.

Paul se deixou cair numa poltrona, com a gravata frouxa e o cola­rinho desabotoado.

- Aquela sua filha contou que mandou prender um advogado hoje cedo?

Borya não ergueu o olhar do mapa.

- Ele merecia?

- Provavelmente. Mas ela está se candidatando à reeleição, e o sujeitonão é flor que se cheire. Aquele temperamento esquentado vai acabar rendendo encrenca para ela.

Borya olhou o ex-genro.

- Exatamente como a minha Maya. Num instante ficava meio louca.

E não ouve o que ninguém diz.

Herdou isso da mãe, também. Paul sorriu.

-Aposto que sim. - E sinalizou para o mapa. - O que está fazendo?

Verificando uma coisa. Vi na CNN. Um sujeito diz que ainda há obras de arte nas montanhas Harz.

Hoje de manhã saiu uma matéria no USA Today. Atraiu minha atenção. Um cara chamado McKoy, da Carolina do Norte. Eu achava que as pessoas iam parar com esse negócio de legado nazista. Cinqüenta anos é muito tempo para uma tela de trezentos anos ficar numa mina úmida. Seria um milagre se não tivesse virado uma massa de mofo.

Borya franziu a testa.

- As coisas boas já foram encontradas ou estão perdidas para sempre.

- Acho que você deve saber tudo sobre isso. Borya confirmou com a cabeça.

- Tenho alguma experiência, sim. - E tentou esconder o interesse atual, ainda que suas entranhas estivessem fervilhando. - Poderia me comprar um exemplar desse USA?

- Não preciso. O meu está no carro. Vou pegar.

Paul saiu pela porta da frente no momento em que a porta dos fun­dos se abriu e as duas crianças foram correndo até a sala íntima.

- Seu pai está aqui - disse Borya a Marla.

Paul voltou, entregou o jornal e depois disse às crianças:

- Afogaram os tomates?

A menininha riu.

- Não, papai. - Ela puxou o braço de Paul. - Vem ver as verduras do vovô.

Paul olhou para ele e sorriu.

- Já volto. A matéria está na página quatro ou cinco, acho.

Borya esperou até eles saírem pela cozinha antes de encontrar a ma­téria e ler cada palavra.

 

TESOUROS ALEMÃES À ESPERA?

Fran Downing, repórter

Cinqüenta e dois anos se passaram desde que os comboios nazistas passaram pelas montanhas Harz entrando em túneis escavados especi­ficamente para esconder obras de arte e outros objetos valiosos do Reich. Originalmente, as cavernas eram usadas como locais de fabricação de armas e depósitos de munição. Mas nos últimos dias da Segunda Guer­ra Mundial tornaram-se perfeitas para material saqueado e tesouros nacionais.

Há dois anos, Wayland McKoy liderou uma expedição às cavernas de Heimkehl perto de Uftrugen, na Alemanha, em busca de dois vagões fer­roviários enterrados sob toneladas de gipsita. McKoy encontrou os vagões, junto com várias antigas obras-primas da pintura, pelas quais os governos francês e alemão pagaram uma bela recompensa.

Desta vez, McKoy, um empreiteiro, incorporador de imóveis e caçador de tesouros da Carolina do Norte, está esperando coisa maior. Ele fez parte de quatro expedições anteriores e tem expectativa de que esta última, a ini­ciar na próxima semana, seja a mais bem-sucedida.

"Pensem bem. É 1945. Os russos estão vindo de um lado, os americanos de outro. Você é curador do museu de Berlim, cheio de obras de arte roubadas de cada país invadido. Você tem algumas horas. O que colocará no trem que sairá da cidade? Obviamente, as coisas mais valiosas."

McKoy conta a história de um desses trens, que deixou Berlim nos úl­timos dias da Segunda Guerra Mundial em direção ao sul, para a região Central da Alemanha, onde ficam as montanhas Harz. Não existem regis­tros de seu destino, e ele espera que a carga esteja em algumas cavernas Encontradas no outono passado. Entrevistas com parentes de soldados alemães que ajudaram a carregar o trem o convenceram de sua existência. No início deste ano, McKoy usou um radar de penetração no solo para examinaras novas cavernas.

"Há algo lá", diz ele. "Certamente é grande o bastante para serem vagões de carga ou caixotes de depósito."

McKoy já conseguiu uma permissão das autoridades alemãs para escavar. Está particularmente empolgado com as perspectivas de trabalhar neste novo local, já que, pelo que sabe, ninguém escavou a área. Tendo feito parte daAlemanha Oriental, a região se manteve isolada durante décadas. A lei alemãatual diz que McKoy pode ficar apenas com uma pequena parte do que não for reivindicado pelos donos legítimos. No entanto, McKoy não se abala.

"É empolgante. Diabos, talvez a Sala de Âmbar possa estar escondida debaixo de todas aquelas rochas."

As escavações serão lentas e difíceis. Retroescavadeiras e tratores podem causar danos ao tesouro. McKoy será obrigado a fazer furos nas rochas e depois parti-las quimicamente.

"É um trabalho lento e perigoso, mas vale a pena", diz ele. "Os nazis­tas obrigaram prisioneiros a escavar centenas de cavernas, onde guardavam munição a salvo dos bombardeios. Até as cavernas usadas como depósi­tos de arte sofreram a ação das minas por várias vezes. O segredo é achar a caverna certa e entrar em segurança."

O equipamento de McKoy, sete empregados e uma equipe de TV já es­tão esperando na Alemanha. Ele planeja ir para lá no fim de semana. O custo de quase um milhão de dólares está sendo pago por investidores par­ticulares que esperam lucrar com a operação.

Segundo McKoy: "Há coisas enterradas lá. Termo certeza. Alguém vai encontrar todo aquele tesouro. Por que não eu?"

 

Borya ergueu o olhar. Mãe de Deus Todo-Poderoso. Seria isso? E se fosse, o que poderia ser feito? Ele era um velho. Em termos realistas, restava pouco a fazer.

A porta dos fundos se abriu e Paul entrou na sala íntima. Borya jo­gou o jornal na mesinha de centro.

Ainda está interessado nessa coisa de arte? - perguntou Paul.

Hábito de toda a vida.

Seria empolgante escavar naquelas montanhas. Os alemães as usavam como depósito. Não dá para dizer o que ainda existe.

Esse tal de McKoy fala da Sala de Âmbar. - Borya balançou a cabeça. - Outro homem procurando os painéis desaparecidos.

Paul riu.

- A atração do tesouro. Rende ótimos especiais de TV.

Eu vi os painéis de âmbar uma vez - disse Borya, cedendo a uma ânsia de falar. - Peguei um trem de Minsk a Leningrado. Os comu­nistas tinham transformado o palácio de Catarina num museu. Vi a sala em toda a sua glória. - Ele gesticulou. - Dez metros por dez me­tros. Paredes de âmbar. Como um quebra-cabeça gigantesco. Toda a madeira entalhada maravilhosamente e folheada com ouro. Incrível.

Já li a respeito. Muita gente a considera a oitava maravilha do mundo.

Era como entrar num conto de fadas. O âmbar era duro e bri­lhante como pedra, mas não frio como o mármore. Mais parecido com madeira. Limão, castanho-uísque, cereja. Cores quentes. Era como estar ao sol. Incrível o que os antigos artistas podiam fazer. Pequenas figuras esculpidas, flores, conchas. Os acabamentos intri­cados. Toneladas de âmbar, tudo trabalhado à mão. Ninguém jamais fez isso antes.

- Os nazistas roubaram os painéis em 1941? Borya assentiu.

- Criminosos desgraçados. Deixaram a sala vazia. Nunca mais aquilo foi visto, desde 1945. Ele estava ficando furioso ao pensar naquilo, e sabia que já falara demais, por isso mudou de assunto. - Você disse que minha Rachel pôs um advogado na cadeia?

Paul se recostou na poltrona e cruzou os tornozelos sobre um pufe.

- A Rainha do Gelo ataca outra vez. É como a chamam no tribunal. Ele suspirou. - Todo mundo acha que, como nós nos divorciamos, eu não me importo.

E se importa?

Infelizmente, sim.

Você ama minha Rachel?

- E meus filhos. O apartamento fica muito silencioso. Sinto falta de todos eles, Karl. Ou será que devo dizer Karol? Vou demorar um tem­po até me acostumar.

- Nós dois.

- Desculpe não ter ido lá hoje. Minha audiência foi adiada. Era com o advogado que Rachel prendeu.

Agradeço a ajuda com a petição.

De nada.

- Você sabe que ela não teve nenhum namorado desde o divórcio - disse Borya com um brilho nos olhos. - Será por isso que anda tão irritada? - Paul se empertigou visivelmente. Borya achou que tinha captado o pensamento dele. - Diz que anda ocupada demais. Mas eu duvido.

O ex-genro não engoliu a isca e simplesmente ficou sentado em silêncio. Borya voltou a atenção ao mapa. Depois de alguns instantes, disse:

- Braves, na TBS.

Paul pegou o controle remoto e ligou a TV.

Borya não mencionou Rachel de novo, mas durante todo o tempo ficou olhando o mapa. Um verde claro delineava as montanhas Harz, rolando de norte a sul e depois virando para leste, acompanhando a antiga fronteira entre as duas Alemanhas, que havia desaparecido. As cidades eram marcadas em preto. Göttingen. Münden. Osterdode. Warthberg. Stod. As cavernas e túneis não eram marcados, mas ele sabia que estavam lá. Às centenas.

Onde estava a caverna certa?

Difícil dizer, hoje em dia.

Será que Wayland McKoy estava na trilha certa?

 

22H25

Paul segurou Maria no colo e levou-a gentilmente para dentro de casa. Brent foi atrás, bocejando. Uma sensação estranha sempre o acompa­nhava ao entrar. Ele e Rachel tinham comprado a residência colonial de dois andares logo depois do casamento, há dez anos. Quando veio o divórcio, sete anos depois, ele havia se mudado voluntariamente. A propriedade continuava no nome dos dois e, de modo interessante, Rachel insistiu que Paul ficasse com uma chave. Mas ele a usava com parcimônia, e sempre com o conhecimento prévio dela, já que o Parágrafo VII do decreto final determinava que era para uso e posse exclusivos de Rachel, e ele respeitava sua privacidade, não importan­do o quanto às vezes doesse.

Subiu a escada para o segundo andar e pôs Maria na cama. As duas crianças tinham tomado banho na casa do avô. Paul despiu-a e vestiu nela um pijama da Bela e a Fera. Tinha levado os filhos duas vezes para assistir ao filme da Disney. Deu-lhe um beijo de boa noite e acariciou seu cabelo até ela dormir profundamente. Depois de ajeitar as cober­tas de Brent, desceu.

A sala íntima e a cozinha estavam uma bagunça. Nada incomum. Uma faxineira vinha duas vezes por semana, já que Rachel não era conhecida pela arrumação. Esta era uma das diferenças entre os dois. Ele era uma pessoa perfeitamente organizada. Não compulsivo, ape­nas disciplinado. A bagunça o incomodava, não podia evitar. Rachel parecia não se incomodar com roupas no chão, brinquedos espalha­dos e uma pia cheia de pratos.

Rachel Bates tinha sido um enigma desde o começo. Inteligente, sem papas na língua, afirmativa, mas fascinante. O fato de se sentir atraída por ele foi surpreendente, já que as mulheres nunca eram o ponto forte de Paul. Tivera uns dois namoros firmes na faculdade e um relacionamento que ele achava sério, na escola de direito, mas Rachel o cativou. O motivo ele jamais entendeu. A língua afiada e os modos bruscos podiam magoar, mas noventa por cento do que ela dizia não era para valer. Pelo menos era o que ele se dizia repetidamen­te para justificar sua insensibilidade. Paul era um sujeito tranqüilo. Tranqüilo demais. Parecia muito menos problemático ignorá-la sim­plesmente do que aceitar o desafio. Mas algumas vezes sentia que ela queria ser desafiada.

Será que a desapontou, recuando? Deixando que ela tivesse as coisas ao seu modo?

Difícil dizer.

Foi até a frente da casa e tentou esvaziar a cabeça, mas cada cômo­do o assaltava com lembranças. O console de mogno com o tampo de pedra fóssil que haviam encontrado em Chattanooga num fim de se­mana procurando antigüidades. O sofá creme e areia onde os dois ti­nham se sentado muitas noites para assistir à televisão. O aparador de vidro com chalés liliputianos, algo que os dois colecionavam com zelo e que marcou os presentes mútuos em muitos natais. Até o cheiro evo­cava coisas boas. A fragrância peculiar que os lares pareciam possuir. O almíscar da vida filtrado na peneira do tempo.

Chegou ao saguão e notou o retrato dele com as crianças, ainda à mostra. Imaginou quantas divorciadas mantinham uma foto 25x30 do ex, para que todos vissem. E quantas insistiam que o ex-marido ficas­se com uma chave da casa. Os dois ainda tinham uns dois investimen­tos em conjunto, que ele administrava por ambos.

O silêncio foi rompido por uma chave na fechadura da frente.

Um segundo depois, a porta se abriu e Rachel entrou.

As crianças deram problema? - perguntou ela.

Nunca.

Paul observou o casaco-princesa apertado na cintura e a saia justa com bainha acima do joelho. Pernas compridas e esguias desciam até os escarpins de salto baixo. O cabelo castanho-avermelhado caía em camadas, mal roçando os ombros estreitos. Pedras olho-de-tigre verdes, com acabamento em prata, pendiam das orelhas, combinando com os olhos, que pareciam cansados.

- Desculpe não ter conseguido ir à troca de nomes - disse ele. - Mas seu entrevero com Marcus Nettles atrasou as coisas no tribunal de sucessões.

- Ele é um sacana machista.

- Você é juíza, Rachel, e não a salvadora do mundo. Não pode ser um pouquinho diplomática?

Ela jogou a bolsa e as chaves numa mesa de canto. Seus olhos se endureceram como bolas de gude. Paul já vira aquele olhar.

- O que você espera que eu faça? O sacana joga notas de cem dólares na minha mesa e diz para eu me foder. Ele merecia passar algumas horas na cadeia.

Você precisa se exibir constantemente?

Você não é meu guardião, Paul.

- Alguém precisa ser. Você tem uma eleição pela frente. Dois oposi­tores fortes, e só está no primeiro mandato. Nettles já fala em finan­ciar os dois. O que, por sinal, ele pode fazer. Você não precisa desse tipo de problema.

- Foda-se o Nettles.

Na última vez, Paul havia produzido os eventos para levantar fun­dos, distribuído propaganda e cortejado as pessoas necessárias para garantir apoio, atraído a imprensa e conseguido votos. Perguntou-se quem organizaria a campanha dela desta vez. Organização não era o ponto forte de Rachel. Até agora ela não tinha pedido ajuda, e Paul realmente não achava que ela fosse fazer isso.

Você pode perder, sabe?

Não preciso de um sermão político.

Do que você precisa, Rachel?

Não é da sua conta. Estamos divorciados. Lembra?

Paul se lembrou do que o pai dela tinha dito.

- E você? Nós já estamos separados há três anos. Namorou alguém durante esse tempo?

- Também não é da sua conta.

Talvez não. Mas pareço ser o único que se importa.

Ela chegou perto.

O que isso significa?

A Rainha do Gelo. É como chamam você no tribunal.

- Eu faço meu trabalho. Tive nota mais alta do que todos os juízes do condado na última vez em que o Daily Report verificou os números.

- É só isso que importa? A velocidade com que libera uma pauta?

- Juízes não podem se dar ao luxo de ter amigos. Ou você é acusado de ser tendencioso ou é odiado por não ser. Prefiro ser a Rainha do Gelo.

Era tarde, e ele não estava com vontade de discutir. Passou por ela, em direção à porta da frente.

- Um dia talvez você precise de um amigo. Se eu fosse você, não queimaria todas as pontes.

Paul abriu a porta.

- Mas você não é - disse ela.

- Graças a Deus. E ele saiu.

 

NORDESTE DA ITÁLIA

QUARTA-FEIRA, 7 DE MAIO, 1H34

O macacão cor de ferrugem, luvas de couro preto e tênis cor de carvão se fundiam à noite. Até mesmo o cabelo curto tingido de castanho, as sobrancelhas da mesma cor e a pele morena ajudavam, já que as últi­mas duas semanas percorrendo o norte da África tinham deixado um bronzeado no rosto nórdico.

Picos lúgubres se erguiam ao redor, um anfiteatro serrilhado, prati­camente indistinguível do céu de breu. Uma lua cheia pendia a leste. Um frio de primavera se prolongava no ar puro, vivo e diferente. As montanhas ecoavam um som fraco de trovões distantes.

Folhas e palha acolchoavam cada passo, o mato baixo era fino sob as árvores compridas. O luar atravessava as copas, marcando a trilha com iridescência. Ele escolhia com cuidado onde pisar, resis­tindo à vontade de usar a mini-lanterna, com os olhos afiados pron­tos e alerta.

O povoado de Pont-Saint-Martin ficava dez quilômetros ao sul. O único caminho para o norte era uma sinuosa estrada de duas pistas que, depois de mais quarenta quilômetros, levava a Innsbruck e à fron­teira com a Áustria. O BMW que ele havia alugado na véspera no aero­porto de Veneza esperava um quilômetro atrás, num pequeno bosque. Depois de terminar o serviço, planejava ir para o norte até Innsbruck, onde no dia seguinte um vôo da Austrian Airlines às 8h35 o levaria a São Petersburgo, onde mais serviços esperavam.

O silêncio o rodeava. Nenhum sino de igreja tocando nem carros passando ruidosos pela estrada. Apenas antigos bosques de carvalho, bétula e lariços cobrindo as encostas como uma colcha de retalhos. Samambaias, musgos e flores selvagens acarpetavam os vales escuros. Era fácil ver por que Da Vinci tinha incluído os Dolomitas ao fundo da Mona Lisa.

A floresta terminou. Uma campina coberta de capim e lírios-laranja se abriu adiante. O castelo se erguia na outra extremidade, tendo na frente um caminho de pedras pequenas em forma de ferradura. A cons­trução tinha dois andares, as paredes de tijolos vermelhos decoradas com losangos cinza. Ele se lembrou das pedras, de sua última visita há dois meses, sem dúvida, colocadas por pedreiros que tinham apren­dido com os pais e avós.

Nenhuma das cerca de quarenta janelas de águas-furtadas tinha luzes acesas. A porta da frente, de carvalho, também estava escura. Não havia cercas, cães ou guardas. Nem alarmes. Era apenas uma gran­de propriedade no campo, nos Alpes italianos, de um industrial reclu­so que estava semi-aposentado há quase uma década.

Ele sabia que Pietro Caproni, dono do castelo, dormia no segundo andar, numa série de aposentos que formavam a suíte principal. Ca­proni morava sozinho, a não ser por três empregados que vinham dia­riamente de Pont-Saint-Martin. Esta noite Caproni tinha visita, o Mer­cedes creme estacionado na frente ainda devia estar quente da viagem desde Veneza, mais cedo. A convidada era uma das muitas mulhe­res da vida, de alto preço. Algumas vezes vinham passar a noite ou o fim de semana, pagas em euros por um homem que podia bancar o preço do prazer. A excursão desta noite fora programada para coincidir com avisita dela, e ele esperava que a mulher representasse uma distração suficiente para encobrir uma entrada e uma saída rápidas.

As pedrinhas faziam barulho a cada passo enquanto ele atravessa­va o caminho de veículos e rodeava o canto nordeste do castelo. Um jardim elegante levava até uma varanda de pedras, nos fundos, e fer­ro fundido italiano separava mesas e cadeiras da grama. Um conjunto de portas duplas dava para a casa, e as duas maçanetas estavam tran­cadas. Ele torceu o braço direito. Um punhal saiu do anel retentor e deslizou pelo antebraço, com o cabo de jade se aninhando firmemente na mão enluvada. A bainha de couro era invenção sua, especialmente projetada para ser liberada de modo confiável.

Enfiou a lâmina no batente de madeira. Bastou uma torção e a lingüeta se soltou. Guardou o punhal de novo na manga.

Entrando num salão com teto em abóbada, fechou suavemente a porta de vidro. Gostou da decoração neoclássica ao redor. Dois bronzes etruscos adornavam a parede mais distante, sob uma pintura, Vista de Pompéia, que ele sabia ser item de colecionador. Duas bibliothèques do século XVIII abraçavam duas colunas coríntias, com as prateleiras cheias de volumes antigos. Da última visita, ele se recordava de um belo exemplar da Storia d'Italia, de Guicciardini, e dos trinta volumes do Teatro Francese. As duas obras eram de valor inestimável.

Deslizou por entre os móveis sombreados, passou entre as colunas, entrou no saguão e tentou ouvir algum som no andar de cima. Nenhum. Seguiu na ponta dos pés pelo piso de mármore com padrão em círcu­los, tendo cuidado para que as solas de borracha não guinchassem. Pinturas napolitanas adornavam os painéis de imitação de mármore. Traves de castanheira sustentavam o teto escuro, com pé direito da al­tura de dois andares.

Entrou na sala de estar.

O objeto de sua busca estava inocentemente sobre uma mesa de ébano. Uma caixinha de fósforos. De Fabergé. Prata e ouro com esmal­te translúcido vermelho-morango sobre uma base de guilhochê. O co­larinho de ouro tinha acabamento com pontas em forma de folhas. O acionador do fecho era um cabochão de safira. Tinha iniciais gravadas em cirílico, N. R. 1901. Nicolau Romanov. Nicolau II. O último czar da Rússia.

Ele tirou um saco de feltro do bolso de trás e estendeu a mão para a caixa.

Subitamente a sala foi inundada de luz. Feixes de raios incandes­centes vindos de um lustre de teto queimaram seus olhos. Ele apertou os olhos e se virou. Pietro Caproni estava parado na arcada que dava no saguão, segurando uma arma na mão direita.

Buona sera, signor Knoll. Estava me perguntando quando voltaria. Ele lutou para acostumar a vista e respondeu em italiano:

Não sabia que o senhor esperava minha visita.

Caproni entrou na sala. O italiano era um homem baixo, com peito largo, de cinqüenta e poucos anos e cabelos de um preto não natural. Usava um roupão atoalhado azul-marinho amarrado na cintura. As pernas e os pés estavam nus.

- Seu disfarce usado na última visita não bateu. Christian Knoll, historiador da arte e acadêmico. Ora veja! Uma coisa fácil de se ve­rificar.

A visão do intruso se acomodou à medida que os olhos se ajusta­vam à luz. Ele estendeu a mão para a caixa de fósforos. A arma de Ca­proni se projetou para a frente. O homem recuou e ergueu os braços, num fingimento de rendição.

- Queria apenas tocar a caixa.

- Vá em frente. Devagar.

Ele ergueu o tesouro.

- O governo russo está procurando por ela desde a guerra. Pertenceu ao próprio Nicolau. Foi roubada de Peterhof, perto de Leningrado, em algum momento de 1944, um soldado carregou no bolso um suvenir do tempo que passou no Rússia. Mas que suvenir! Inigualável. Atual­mente vale no mercado aberto cerca de quarenta mil dólares. Isso se alguém fosse idiota o bastante para pôr à venda. "Belo botim" acho que é a expressão que os russos usam para descrever coisas como esta.

- Tenho certeza de que, depois de seu trabalho de liberação nesta noite, ela teria encontrado rapidamente o caminho de volta à Rússia, não é?

Ele sorriu.

- Os russos também não são melhores do que ladrões. Querem seus tesouros de volta apenas para vendê-los. Estão sem dinheiro, pelo que eu soube. Parece que é o preço do comunismo.

- Estou curioso. O que o trouxe aqui?

Uma fotografia desta sala, na qual a caixa de fósforos estava visí­vel. Por isso vim, bancando professor de história da arte.

Você determinou a autenticidade dela naquela breve visita há dois meses?

Sou especialista nessas coisas. Particularmente em Fabergé. -Ele pousou a caixa. - O senhor deveria ter aceitado minha oferta de compra.

Era baixa demais, até mesmo para um "belo botim". Além disso, a peça tem valor sentimental. Meu pai era o soldado que enfiou a lem­brança no bolso, como você descreveu de modo tão apropriado.

E o senhor a expõe de modo tão casual?

Depois de cinqüenta anos, achei que ninguém se importasse.

O senhor deveria ter cuidado com visitantes e fotos.

Caproni deu de ombros.

Poucos vêm aqui.

Só as signorinas? Como a que está lá em cima agora?

E nenhuma delas se interessa por estas coisas.

Só por euros?

E prazer.

O intruso deu um sorriso e casualmente acariciou de novo a caixa com os dedos.

O senhor é um homem de posses, signor Caproni. Esta casa parece um museu. Aquela tapeçaria Aubusson ali na parede não tem preço. Aqueles dois capriccios romanos certamente são objetos valiosos. Hof, acredito, século XLX?

Ótimo, signor Knoll. Estou impressionado.

Sem dúvida o senhor pode abrir mão desta caixa de fósforos.

Não gosto de ladrões, signor Knoll. E, como disse durante sua úl­tima visita, a peça não está à venda. - Caproni sinalizou com a arma. - Agora deve ir embora.

Ele ficou firme.

Que dilema! O senhor certamente não pode envolver a polícia. Afinal de contas, possui uma relíquia importante que o governo rus­so gostaria muito de ver devolvido. O que mais, nesta casa, está na mesma categoria? Haveria perguntas, investigações, publicidade. Seus amigos em Roma ajudariam pouco, já que o senhor seria considerado um ladrão.

Sorte sua, signor Knoll, eu não poder envolver as autoridades.

O intruso se empertigou casualmente, depois torceu o braço direi­to. Foi um gesto imperceptível, parcialmente obscurecido pela coxa. Ficou observando enquanto o olhar de Caproni permanecia na caixa de fósforos em sua mão esquerda. O punhal saiu da bainha e desli­zou lentamente pela manga frouxa até se acomodar na palma da mão direita.

Sem reconsideração, signor Caproni?

Nenhuma. - Caproni recuou para o saguão e sinalizou de novo com a arma. - Por aqui, signor Knoll.

O intruso envolveu o cabo do punhal com força e girou o pulso para a frente. Um movimento rápido e a lâmina voou pela sala, pene­trando no peito nu de Caproni, no V peludo formado pelo roupão. O velho ofegou, olhou para o cabo e caiu para a frente, a arma fazendo barulho no piso.

O intruso colocou rapidamente a caixinha de fósforos no saco de feltro e passou por cima do corpo. Pegou o punhal e verificou a pul­sação de Caproni. Nenhuma. Surpreendente. O sujeito morreu de­pressa.

Mas a mira dele fora perfeita.

Limpou o sangue no roupão, enfiou o punhal no bolso de trás e subiu a escada até o andar de cima. Mais painéis de imitação de már­more ladeavam o corredor, periodicamente interrompidos por portas de madeira, todas fechadas. Andou rapidamente e foi para os fundos da casa. Uma porta fechada esperava no fim do corredor.

Virou a maçaneta e entrou.

Duas colunas de mármore definiam uma alcova onde ficava uma enorme cama de dossel. Um abajur com luz fraca estava aceso na mesinha-de-cabeceira, e a luz era absorvida por uma sinfonia de lambris de nogueira e couro. O quarto era definitivamente de um homem rico.

A mulher sentada na beira da cama estava nua. O cabelo compri­do, dramático e ruivo emoldurava um par de seios parecidos com pirâmides e exóticos olhos amendoados. Estava soltando baforadas num fino cigarro preto e dourado e lhe deu apenas um olhar desconcertante.

- E quem é você? - perguntou baixo em italiano.

- Amigo do signor Caproni. - Ele entrou no quarto e fechou casual­mente a porta.

Ela terminou o cigarro, levantou-se e se aproximou, com as pernas finas dando passos deliberados.

- Você está vestido de modo estranho para um amigo. Mais parece um ladrão.

- E você não parece preocupada.

Ela deu de ombros.

- Homens estranhos são o meu negócio. As necessidades deles não são diferentes das dos outros. - Examinou-o da cabeça aos pés. - Você tem um brilho maligno nos olhos. É alemão, não?

Ele ficou quieto.

A mulher massageou as mãos dele através das luvas de couro.

Poderosas. - Em seguida, passou os dedos pelo peito e pelos om­bros do intruso. - Músculos. - Agora ela estava perto, os mamilos eretos quase tocando o peito dele. - Onde está o signore?

Teve um problema. Sugeriu que talvez eu gostasse de sua com­panhia.

Ela o encarou com fome nos olhos.

- Você tem as capacidades do signore?

Monetárias ou de outro tipo?

Ela sorriu.

As duas.

O intruso pegou a prostituta nos braços.

- Veremos.

 

SÃO PETERSBURGO, RÚSSIA

10H50

O carro parou com um tranco e Knoll saiu na movimentada Nevsky Prospekt, pagando ao motorista com duas notas de vinte dólares. Ima­ginou o que teria acontecido com o rublo. Hoje em dia, não valia muito mais do que dinheiro de brinquedo. Há anos o governo russo havia proibido abertamente o uso de dólares, sob pena de prisão, mas o moto­rista de táxi parecia não se importar, exigindo e enfiando ansiosamente as notas no bolso antes de partir com o táxi a toda velocidade.

O vôo de Irvnsbruck tinha pousado no aeroporto de Pulkovo há uma hora. Ele havia despachado a caixa de fósforos de Innsbruck para a Alemanha durante a noite, com um bilhete sobre o sucesso no norte da Itália. Antes de voltar à Alemanha, havia uma última tarefa.

A prospekt estava apinhada de pessoas e carros. Ele examinou a cúpula verde da catedral de Kazan do outro lado da rua e se virou para olhar o pináculo dourado do distante Almirantado, à direita, parcial­mente obscurecido por uma névoa matinal. Imaginou o passado do bulevar, quando todo o tráfego era puxado por cavalos, e prostitutas presas durante a noite varriam as pedras do calçamento. O que Pedro, o Grande, pensaria agora de sua "janela para a Europa"? Lojas de departamentos, cinemas, restaurantes, museus, lojas, ateliês de arte e cafés ladeavam a movimentada rua de cinco quilômetros. Néon piscan­do e quiosques elaborados que vendiam de tudo, desde livros até sorvete, e alardeavam o rápido avanço do capitalismo. Como foi que Somerset Maugham havia descrito? Suja, sórdida e dilapidada.

Não mais, pensou ele.

Graças à mudança, ele podia vir a São Petersburgo. O privilégio de examinar antigos registros soviéticos fora estendido aos estrangeiros apenas recentemente. Ele fizera duas viagens anteriores, nesse ano - uma há seis meses, outra há dois - ambas ao mesmo arquivo em São Petersburgo, o prédio onde entrava agora pela terceira vez.

Tinha cinco andares, com fachada de pedra áspera, suja do escapamento dos motores. O Banco Comercial de São Petersburgo possuía uma agência movimentada numa parte do térreo, e a Aeroflot, a com­panhia aérea nacional russa, ocupava o resto. Do primeiro ao terceiro e o quinto andares eram austeros escritórios governamentais: Depar­tamento de Vistos e Registro de Cidadãos Estrangeiros, Controle de Exportações e a seção regional do Ministério da Agricultura. O quar­to andar era dedicado apenas a um arquivo de registros. Um dos muitos espalhados pelo país, um lugar onde os restos de 75 anos de comunis­mo podiam ser guardados e examinados em segurança.

Yeltsin tinha aberto os documentos ao mundo através do Comitê Arquivista Russo, um modo de os estudiosos pregarem a mensagem de anticomunismo do governante. Na verdade, foi inteligente. Não era preciso resgatar o povo, encher os gulags ou reescrever a história, como fizeram Khruschev e Brezhnev. Simplesmente deixe os historiadores descobrirem as incontáveis atrocidades, os roubos e a espionagem - segredos escondidos por décadas sob toneladas de papel apodre­cendo e tinta desbotando. Os eventuais escritos deles serviriam como propaganda mais do que suficiente para atender às necessidades do estado.

Knoll subiu os degraus de ferro preto até o quarto andar. Eram estreitos, ao estilo soviético, indicando aos que sabiam - como ele - que o prédio era pós-revolucionário. Um telefonema na véspera, da Itália, tinha informado que o arquivo estaria aberto até as 17h. Ele visitaraeste e outros quatro no sul da Rússia. Esta instalação era única, já quehavia uma copiadora disponível.

No quarto andar, uma desgastada porta de madeira se abria para Um espaço entulhado, com as paredes verde-claras descascando por falta de ventilação. Não havia teto, apenas tubos e canos cobertos de amianto se entrecruzando sob o concreto quebradiço do quinto andar. O ar era frio e úmido. Um local estranho para abrigar documentos su­postamente preciosos.

Knoll caminhou pelos ladrilhos sujos e se aproximou de uma mesa solitária. O mesmo funcionário com cabelos castanhos ralos e cara de cavalo esperava. Na última vez, ele havia concluído que o sujeito era um involuído e auto-depreciativo novo burocrata russo. Típico. Pra­ticamente sem qualquer diferença da velha versão soviética.

Dobriy den - disse ele, acrescentando um sorriso.

Bom-dia - respondeu o funcionário. Em russo, Knoll declarou:

Preciso ver os arquivos.

- Quais? - um sorriso irritante acompanhou a pergunta, a mesma expressão de que se recordava, de dois meses atrás.

- Tenho certeza que o senhor se lembra de mim.

Achei seu rosto familiar. Os registros da Comissão, correto? A tentativa de discrição do funcionário foi um fracasso.

Da. Registros da Comissão.

Gostaria que eu os pegasse?

Nyet. Sei onde estão. Mas obrigado pela gentileza.

Ele pediu licença e desapareceu entre as estantes de metal entulha­das de caixas de papelão apodrecido, o ar rançoso com um cheiro forte de poeira e mofo. Sabia que uma variedade de registros o rodeava, muitos eram do Hermitage, ali perto, mandados para cá por falta de espaço, a maioria devido a um incêndio há cinco anos na Academia de Ciências local. Ele se lembrava bem do incidente. A imprensa rotu­lara a tragédia de "Chernobyl da nossa cultura". Mas tinha se pergun­tado até que ponto teria sido não intencional. Na União Soviética, as coisas sempre tinham uma tendência conveniente a desaparecer no momento certo, e a Rússia reformada não era muito melhor.

Examinou as estantes, tentando recordar onde havia parado da úl­tima vez. Poderia levar anos para terminar a análise meticulosa de tudo. Mas lembrava-se de duas caixas em particular. Na última visita, o tempo havia acabado antes que chegasse a elas, já que o arquivo havia fechado cedo por causa do Dia Internacional da Mulher.

Encontrou as caixas e tirou as duas da prateleira, colocando-as numa das mesas de madeira. Com cerca de um metro de lado, cada caixa era pesada, talvez com 25 a 30 quilos. O funcionário continuava sentado na parte da frente do arquivo. Knoll percebeu que não demoraria muito até o idiota impertinente vir se certificar de seu último interesse.

A etiqueta em cima das caixas dizia, em cirílico: COMISSÃO EXTRA­ORDINÁRIA DE ESTADO PARA REGISTRO E INVESTIGAÇÃO DOS CRIMES DOS OCUPANTES ALEMÃES FASCISTAS E SEUS CÚM­PLICES E OS DANOS CAUSADOS POR ELES AOS CIDADÃOS, FAZENDAS COLETIVAS, ORGANIZAÇÕES PÚBLICAS, EMPREENDIMENTOS ESTATAIS E INSTITUIÇÕES DA UNIÃO DAS REPÚBLICAS SOCIALISTAS SOVIÉTICAS.

Ele conhecia bem a comissão. Criada em 1942 para resolver proble­mas relacionados à ocupação nazista, acabou fazendo de tudo, desde investigar campos de concentração libertados pelo Exército Vermelho até avaliar tesouros de arte saqueados de museus soviéticos. Em 1945, a comissão passou a ser a principal agência a enviar milhares de prisio­neiros e supostos traidores para os gulags. Foi uma das invenções de Stalin, um modo de manter o controle, e eventualmente empregava milhares de pessoas, inclusive investigadores de campo que na Europa Ocidental, no norte da África e na América do Sul procuraram obras de arte pilhadas pelos alemães.

Acomodou-se numa cadeira de metal e começou a folhear página por página da primeira caixa. O trabalho era vagaroso, graças ao volu­me e às pesadas diatribes russas, escritas em cirílico. No geral, a caixa foiuma frustração. Continha principalmente resumos de relatórios de várias investigações da comissão. Duas longas horas se passaram e ele nãoencontrou nada interessante. Começou a verificar a segunda caixa,que continha mais relatórios. Perto do meio, chegou a uma pilhade relatórios de investigadores de campo. Adquirentes, como ele próprio. Pagos por Stalin, trabalhando exclusivamente para o gover­no soviético.

Examinou os relatórios um a um.

Muitos eram narrativas sem importância sobre buscas fracassadas e viagens frustrantes. Mas havia alguns sucessos narrados em lin­guagem bombástica. Place de la Concorde, de Degas. Duas irmãs, de Gauguin. A última pintura de Van Gogh, A casa branca à noite. Ele até reconheceu os nomes dos investigadores. Sergei Telegin. Boris Zernov. Pyotr Sabsal. Maxim Voloshin. Tinha lido outros relatórios de campo escritos por eles, em outros arquivos. A caixa continha cerca de cem relatórios, todos certamente esquecidos, de pouca utilidade hoje a não ser para os poucos que ainda procuravam.

Outra hora se passou, durante a qual o funcionário se aproximou três vezes fingindo que queria ajudar. Knoll havia recusado as ofertas, ansioso para que o homenzinho irritante fosse cuidar de sua vida. Perto das cinco horas, encontrou um bilhete para Nikolai Shvernik, o impla­cável defensor de Stalin que tinha comandado a comissão extraordi­nária. Mas este memorando era diferente dos outros. Não era selado, em papel timbrado oficial da comissão. Em vez disso, era escrito à mão e pessoal, datado de 26 de novembro de 1946, com a tinta preta quase sumida do papel finíssimo.

 

Camarada Shvernik

Espero que esta mensagem o encontre com boa saúde. Visitei Donnersberg, mas não pude localizar nenhum dos manuscritos de Goethe que supostamente estariam lá. As investigações, discretas, claro, revelaram que investigadores soviéticos anteriores podem ter removido os itens em novembro de 1945. Sugiro uma nova verifi­cação dos inventários de Zagorsk. Encontrei Yxo ontem. Ele informa sobre ativida­des de Loring. Suas suspeitas parecem corretas. As minas de Harz foram visitadas repetidamente por várias equipes de trabalho, mas nenhum trabalhador local foi empregado. Todas as pessoas eram transportadas por Loring. A yantarnaya komnata pode ter sido encontrada e removida. É impossível dizer neste momento. Yxo está seguindo pistas adicionais na Boêmia e irá informá-lo diretamente durante a semana.

Danya Chapaev

 

Presas à folha de papel fino havia duas folhas mais novas, ambas fotocópias. Eram memorandos de informação da KGB datados de março, sete anos atrás. Estranho estarem ali, pensou ele, enfiados indis­criminadamente entre originais de mais de cinqüenta anos. Leu a primeira anotação datilografada em cirílico:

 

Está confirmado que Yxo é Karol Borya, que já foi empregado pela comissão entre 1946 e 1958. Emigrou para os Estados Uni­dos em 1958 com permissão do governo da época. Teve o nome tro­cado para Karl Bates. Endereço atual: Stokeswood Avenue, 959. Atlanta, Geórgia (Condado de Fulton), Estados Unidos. Contato fei­to. Nega ter qualquer informação sobre a yantarnaya komnata de­pois de 1958. Não pude localizar Danya Chapaev. Borya afirmou não saber do paradeiro de Chapaev. Peço instruções adicionais sobre como devo agir.

 

Danya Chapaev era um nome que ele reconhecia. Tinha procura­do o velho russo há cinco anos, mas não conseguiu encontrá-lo, era o único dos investigadores sobreviventes que ele não havia entrevista­do. Agora talvez houvesse outro. Karol Borya, ou Karl Bates. Estranho, o apelido. Os russos pareciam adorar codinomes. Seria por carinho ou segurança? Difícil dizer. Ele já vira referências como Lobo, Urso Preto, Águia e Olhos Penetrantes. Mas Yxo? "Ouvidos". Era diferente.

Passou para a segunda folha, outro memorando da KGB datilografado em cirílico que continha mais informações sobre Karol Borya. Agora o sujeito teria 83 anos. Joalheiro de profissão, aposentado. A esposa tinha morrido há 25 anos. Tinha uma filha, casada, que morava em Atlanta, Geórgia, e um neto. Informações de sete anos atrás, sem dúvida. Mesmo assim, era mais do que ele possuía sobre Karol Borya.

Olhou de novo o documento de 1946. Em particular, a referência a Loring. Era a segunda vez que via esse nome nos relatórios. Não pode­ria ser Ernst Loring. Jovem demais. Mais provavelmente o pai, Josef. Estava se tornando cada vez mais inevitável a conclusão de que a família Loring também estivera seguindo a pista há muito tempo. Talvez a viagem a São Petersburgo tivesse valido a pena. Duas refe­rências diretas à yantarnaya komnata, raras em documentos soviéticos, e uma informação nova.

Uma nova pista.

Ouvidos.

- O senhor vai terminar logo?

Ele ergueu os olhos. O funcionário o encarou. Knoll se perguntou há quanto tempo o sacana estaria ali.

Passa das cinco - disse o sujeito.

Não notei. Já vou terminar.

O olhar do funcionário percorreu a página na mão dele, tentando ver alguma coisa. Knoll pôs o papel na mesa, num gesto casual. O su­jeito pareceu captar a mensagem e voltou para a sua mesa.

Knoll levantou os papéis.

Interessante a KGB estar procurando, até alguns anos atrás, dois ex-membros da comissão extraordinária. Ele pensava que a busca à yantarnaya komnata havia terminado em meados dos anos 1970. Pelo menos essa era a versão oficial. Knoll havia encontrado apenas algu­mas referências isoladas, datadas dos anos 1980. Nada recente, até hoje. Os russos não desistem, isso ele precisava admitir. Mas, considerando o prêmio, dava para entender. Ele também não desistia. Tinha seguido pistas nos últimos oito anos. Entrevistado velhos com memória fraca e língua presa. Boris Zernov. Pyotr Sabsal. Maxim Voloshin. Investi­gadores, como ele, todos procurando a mesma coisa. Mas nenhum sa­bia de nada. Talvez Karol Borya fosse diferente. Talvez soubesse onde estava Danya Chapaev. Esperava que os dois ainda estivessem vivos. Certamente valeria uma viagem aos Estados Unidos para descobrir. Já estivera em Atlanta uma vez. Durante os Jogos Olímpicos. Era quente e úmida, mas impressionante.

Olhou ao redor, procurando o funcionário. O sujeito irrequieto esta­va do outro lado das estantes entulhadas, recolocando pastas no lu­gar. Rapidamente Knoll dobrou as três folhas e enfiou no bolso. Não tinha intenção de deixá-las para outra mente inquisitiva encontrar. Recolocou as duas caixas na prateleira e foi para a saída. O funcionário estava esperando com a porta aberta.

Dobriy den - disse ao funcionário.

Bom dia para o senhor.

Knoll saiu e a tranca estalou imediatamente atrás dele. Imaginou que não demoraria muito para o idiota informar a visita, sem dúvida recebendo uma gratificação dali a alguns dias, pelo trabalho diligente. Não fazia mal. Ele estava satisfeito. Em êxtase. Tinha uma nova pista. Talvez algo definitivo. O início de uma trilha. Talvez até uma aquisição.

A aquisição.

Desceu rapidamente a escada, com as palavras do documento ressoando nos ouvidos.

Yantarnaya komnata.

A Sala de Âmbar.

 

BURG HERZ, ALEMANHA

19H54

Knoll olhou pela janela. Seus aposentos ocupavam a parte mais alta da torre oeste do castelo. A cidadela pertencia a seu patrão, Franz Fellner. Era uma reprodução do século XIX, já que o original fora incen­diado e saqueado até os alicerces pelos franceses que invadiram a Alemanha em 1689.

Burg Herz, "Castelo Coração", era um nome adequado, já que a fortaleza se aninhava quase no centro de toda a Alemanha unificada. O pai de Franz, Martin, adquiriu a construção e a floresta ao redor após a Primeira Guerra Mundial, quando o dono anterior fez um julga­mento errado e apoiou o kaiser. O quarto de Knoll, seu lar durante os últimos onze anos, já servira como aposento do administrador-chefe. Era espaçoso, reservado e equipado com banheira. A vista abaixo se estendia por quilômetros e abarcava campinas, cobertas de grama, as elevações cobertas de florestas do Rothaar e o lamacento Eder fluin­do para leste até Kassel. O administrador-chefe havia cuidado de Mar­tin Fellner, pai do patrão de Knoll, todos os dias dos últimos vinte anos de sua vida e morreu apenas uma semana depois dele. Knoll ouvira as fofocas, todas atestando que os dois eram muito mais do que pa­trão e empregado, mas nunca dera muito crédito a boatos.

Estava cansado. Os últimos dois meses, sem dúvida, tinham sido exaustivos. Uma longa viagem à África, depois uma passagem pela Itália e finalmente a Rússia. Percorrera um longo caminho desde o apartamento de três quartos num prédio do governo, trinta quilôme­tros ao norte de Munique, seu lar até os 19 anos. O pai era operário de fábrica, a mãe, professora de música. As lembranças de sua mãe sempre evocavam algo bom. Era uma grega que o pai conhecera du­rante a guerra. Knoll sempre a havia chamado pelo primeiro nome, Amara, que significava "indelével", uma descrição perfeita. Dela havia herdado a testa bem definida, o nariz afilado e a curiosidade insaciável. Ela também havia lhe incutido uma paixão pelo apren­dizado e lhe dera o nome de Christian, já que era uma religiosa devota.

O pai o transformou num homem, mas o idiota amargo também instilou um sentimento de raiva. Jakob Knoll havia lutado no exérci­to de Hitler como nazista fervoroso. Apoiou o Reich até o fim. Era um homem difícil de amar, mas igualmente difícil de ignorar.

Knoll deu as costas para a janela e olhou a mesinha-de-cabeceira ao lado da cama de dossel.

Um exemplar de Os carrascos voluntários de Hitler estava em cima. O volume tinha atraído sua atenção há dois meses. Um dos vários livros publicados ultimamente falando da psique do povo alemão du­rante a guerra. Como é que tantos deixaram existir tal barbarismo vin­do de tão poucos? Seriam participantes voluntários, como o escritor sugeria? Difícil dizer sobre todo mundo. Mas seu pai definitivamente era. O ódio lhe vinha fácil. Como uma droga. Como era mesmo a citação de Hitler que ele costumava fazer? Sigo o caminho que a Providência dita, com a segurança de um sonâmbulo.

E era exatamente isso que Hitler havia feito - direto até a queda. Jakob Knoll também morreu amargo, doze anos depois de Amara ter sucumbido ao diabetes.

Knoll tinha 18 anos e estava sozinho quando seu QI de gênio lhe garantiu uma bolsa na Universidade de Munique. A área de Humanas sempre lhe interessara, e durante o último ano ganhou um bolsa de his­tória da arte na Universidade de Cambridge. Lembrava-se, com diver­são, do verão em que teve um breve contato com simpatizantes neonazis­tas. Na época, esses grupos não se pronunciavam tanto quanto hoje, já que tinham sido considerados fora-da-lei pelo governo alemão. Mas sua visão especial de mundo não lhe interessou. Nem na época nem agora. Assim como o ódio. Ambos eram pouco lucrativos e contraproducentes.

Em particular porque ele conheceu mulheres muito fascinantes de peles variadas.

Passou apenas um ano em Cambridge antes de abandonar a esco­la e ir trabalhar para a Nordstern Fine Art Insurance Limited, em Londres, como solucionador de reivindicações. Lembrava-se da rapi­dez com que fez nome depois de recuperar um quadro de um grande artista holandês supostamente perdido para sempre. Os ladrões telefo­naram, exigindo um resgate de vinte milhões de libras, caso contrário a tela seria queimada. Ainda podia ver o choque no rosto dos superio­res quando disse peremptoriamente para os ladrões queimarem. Mas eles não fizeram isso. Knoll sabia que não fariam. E um mês depois recuperou a pintura quando os bandidos, em desespero, tentaram vendê-la de volta ao antigo dono.

Outros sucessos vieram de modo igualmente fácil.

Obras antigas de grandes artistas no valor de trezentos milhões de dólares, tiradas de um museu de Boston, foram encontradas. Um Jean-Baptiste Oudry, de doze milhões de dólares, roubado no norte da Inglaterra de um colecionador particular, foi recuperado. Dois magní­ficos Turner afanados da Tate Gallery, em Londres, foram localizados num apartamento em ruínas em Paris.

Franz Fellner o conhecera há onze anos, quando a Nordstern o des­pachou para fazer um inventário de sua coleção. Como qualquer cole­cionador cuidadoso, Fellner punha no seguro suas obras de arte conhecidas, aquelas que algumas vezes apareciam em revistas especializadas européias ou americanas, já que a publicidade era um modo de fazer fama, provocando o pessoal do mercado negro a procurá-lo com tesourosrealmente valiosos. Fellner o convenceu a abandonar a Nordstern comum salário generoso, um quarto no Burg Herz e a empolgação que vinha de roubar de volta algumas das maiores criações da huma­nidade. Ele possuía talento para procurar, gostando demais do desafio de achar o que as pessoas se esforçavam tremendamente para escon­der. As mulheres que encontrava eram igualmente fascinantes. Porém, matar era particularmente empolgante. Seria esse o legado de seu pai? Difícil dizer. Será que era doente? Depravado? Será que realmente se importava? Não. A vida era boa.

Tremendamente boa.

Afastou-se da janela e entrou no banheiro. A janela circular acima do toalete estava aberta e o ar fresco da tarde tirava dos azulejos a umidade de seu banho de chuveiro mais cedo. Examinou-se ao espelho. A tinturacastanha usada nas últimas duas semanas de trabalho havia saído, e o cabelo estava louro de novo. Os disfarces não eram seu ponto forte, mas ele achara sensato mudar a aparência, nessas circunstâncias. Tinha se barbeado durante o banho, e o rosto bronzeado estava Uso e limpo. O rosto continuava com ar confiante, a imagem de um homem direto, com gostos e convicções fortes. Jogou um pouco de colônia no pescoço e enxugou a pele com uma toalha, depois vestiu o smoking.

O telefone da mesinha-de-cabeceira tocou no quarto. Ele atraves­sou o cômodo e atendeu antes do terceiro toque.

Estou esperando - disse uma voz feminina.

E a paciência não é uma das suas virtudes?

Nem um pouco.

Já estou indo.

Knoll desceu a escada em espiral. O estreito caminho de pedras se enrolava no sentido horário, copiado de um projeto medieval que obri­gava os espadachins invasores destros a lutar contra a torre, e não só contra os defensores. O complexo do castelo era gigantesco. Oito torres enormes adornadas com estruturas de enxaimel preenchidas de argamassa acomodavam mais de cem cômodos. Janelas de caixilhos e águas-furtadas animavam o exterior e proporcionavam vistas exóticas dos vales cobertos de floresta. As torres eram agrupadas num octógono ao re­dor de um espaçoso pátio interno. Quatro corredores as conectavam, e todas as construções eram cobertas por um íngreme telhado de ardósia que testemunhava a dureza dos invernos alemães.

Knoll virou na base da escada e seguiu por uma série de corredores com piso de ardósia, em direção à capela. Tetos abobadados erguiam-se acima. Machados de batalha, dardos, lanças, elmos com viseira, armaduras - peças de colecionador - ladeavam o caminho. Ele adquiri­ra pessoalmente de uma mulher em Luxemburgo a maior armadura, um cavaleiro com quase 2,40 metros. Tapeçarias flamengas adornavam as paredes, todas originais. A luz era suave e indireta, os cômodos, quentes e secos.

Uma porta em arco na extremidade mais distante se abria para um claustro. Ele saiu e seguiu por um caminho coberto até um vão adorna­do de colunas. Três rostos de pedra esculpidos na fachada do castelo observavam seus passos. Eram restos da estrutura original do século XVII, com identidades desconhecidas, mas uma lenda dizia que eram o mestre construtor do castelo e dois assistentes, que foram mortos e emparedados para jamais construir outra estrutura semelhante.

Aproximou-se da capela de São Thomas. Um nome interessante, já que não era apenas o nome de um monge agostiniano que tinha fun­dado um mosteiro ali perto há sete séculos, mas também o primeiro nome do antigo administrador-chefe do velho Martin Fellner.

Empurrou a pesada porta de carvalho.

Ela estava de pé no corredor central, logo depois de uma grade dou­rada que separava a área de entrada dos seis bancos de carvalho. Lumi­nárias incandescentes iluminavam um altar rococó em preto e ouro mais além e a deixavam na sombra. Os vitrais e as clarabóias à esquer­da e à direita estavam escuros. Os escudos de cavaleiros do castelo, também em vitral, pareciam pouco impressionantes, esperando ser reavivados pelo sol da manhã. Pouco se cultuava ali. Atualmente, a capela era uma sala de exposição para relicários dourados - a coleção de Fellner, uma das maiores do mundo, rivalizava com as da maioria das catedrais européias.

Ele sorriu para a anfitriã.

Monika Fellner tinha 34 anos e era a filha mais velha do patrão. A pele que cobria o corpo alto e esguio tinha o tom trigueiro da mãe, uma libanesa por quem o pai tinha se apaixonado há quarenta anos. Mas o velho Martin não se impressionou com a escolha do filho e even­tualmente forçou o divórcio, mandando-a de volta ao Líbano, deixan­do dois filhos. Knoll pensava freqüentemente que o ar contido e quase intocável de Monika era resultado da rejeição da mãe. Mas esta era uma coisa que ela jamais verbalizaria, e ele jamais perguntaria. Estava parada com jeito orgulhoso, como sempre, os cabelos escuros e encaracolados caindo em cachos soltos. Um leve sorriso se abriu nos lábios. Usava um casaco de brocado cinza-castanho sobre uma saia de chiffon justa, com uma fenda subindo até as coxas finas e fortes. Era a única herdeira da fortuna Fellner, graças à morte prematura do irmão mais velho há dois anos. Seu nome significava "devota a Deus". No entanto, era qualquer coisa, menos isso.

- Tranque - disse ela.

Knoll baixou a alavanca.

Ela se aproximou, os saltos fazendo barulho no antigo piso de már­more. Knoll a encontrou junto ao portão aberto na grade. Imediata­mente abaixo dela estava a sepultura de seu avô, MARTIN FELLNER 1868-1941 gravado no mármore cinza e liso. O último desejo do velho fora ser enterrado no castelo que tanto amava. Nenhuma esposa o acom­panhava na morte. O administrador-chefe do velho Fellner jazia ao lado, e mais letras gravadas na pedra marcavam a sepultura. Ela notou o olhar de Knoll indo até o chão.

- Pobre vovô. Ser tão forte nos negócios e tão fraco no espírito. Devia ser uma barra ser veado na época.

- Pode ser genético?

- Acho difícil. Mas devo dizer que algumas vezes uma mulher pode ser uma diversão interessante.

- Seu pai não gostaria de ouvir isso.

- Não acho que ele se importe. É com você que ele está perturba­do. Ele está com um exemplar do jornal de Roma. Há uma matéria de primeira página sobre a morte de Pietro Caproni.

Mas, além disso, ele tem a caixa de fósforos. Ela sorriu.

Você acha que o sucesso resolve tudo?

Descobri que é a melhor garantia de segurança no trabalho.

Você não mencionou que matou Caproni, em seu bilhete de ontem.

Pareceu um detalhe sem importância.

- Só você consideraria sem importância uma faca no peito. Papai quer falar com você. Está esperando.

Eu imaginava isso.

Você não parece preocupado.

Deveria?

Ela o encarou com intensidade.

- Você é um sacana, Christian.

Knoll sabia que ela não tinha nada do ar sofisticado do pai, mas em dois sentidos eram muito parecidos: ambos eram frios e impetuosos. Os jornais a associavam a um homem depois do outro, imaginando quem eventualmente agarraria Monika e sua fortuna resultante, mas Knoll sabia que ninguém jamais a controlaria. Fellner estivera preparando-a meticulosamente nos últimos anos para assumir seu impériode comunicações junto com sua paixão por colecionar, um dia que chegaria em breve. Tinha sido educada fora da Alemanha - na Inglaterra e nos Estados Unidos -, adotando nesse tempo uma língua ainda mais afiada e uma atitude mais impetuosa. Mas o fato de ser rica e mimada também não ajudara a formar a personalidade.

Ela estendeu a mão e bateu na manga direita de Knoll.

Sem punhal esta noite?

Preciso?

Ela chegou mais perto.

- Eu posso ser bem perigosa.

Seus braços o envolveram. As bocas se fundiram, a língua de Monika explorando, excitada. Ele gostou do sabor e desfrutou a paixão que ela oferecia livremente. Quando recuou, Monika mordeu o lábio inferior dele. Knoll sentiu gosto de sangue.

É, pode mesmo. - E limpou o ferimento com um lenço. Ela estendeu a mão e abriu seu zíper.

Achei que tivesse dito que Herr Fellner estava esperando.

- Há tempo suficiente. - Ela o empurrou no chão, bem em cima da sepultura do avô. - E não estou usando calcinha.

 

Knoll seguiu Monika pelo térreo do castelo até o salão da coleção. O espaço consumia a maior parte da torre noroeste e era dividido em sala pública, onde Fellner expunha seus itens notáveis e legais, e sala secreta, onde apenas ele, Fellner e Monika se aventuravam.

Entraram na sala pública e Monika trancou a pesada porta de ma­deira. Vitrines iluminadas se enfileiravam como soldados em posição de sentido, mostrando uma variedade de objetos preciosos. Quadros e tapeçarias cobriam as paredes. Afrescos adornavam o teto com ima­gens representando Moisés entregando as leis ao povo, a construção de Babel e a tradução da Vulgata dos Setenta.

O escritório particular de Fellner ficava do outro lado da parede norte. Os dois entraram e Monika seguiu pelo piso de parquete até uma fileira de estantes, todas de carvalho marchetado e dourado em estilo barroco. Knoll sabia que todos os volumes eram peças de colecio­nador. Fellner adorava livros. Seu Beda Venerabilis do século IX era o mais antigo e mais valioso que possuía. Knoll tivera a sorte de encon­trar alguns volumes na sacristia de uma paróquia francesa há alguns anos, e o padre se mostrou disposto a se separar deles em troca de uma modesta contribuição para a igreja e para si mesmo.

Monika tirou do casaco um controle remoto preto e apertou um bo­tão. A estante do centro girou lentamente sobre o eixo. Uma luz branca veiode uma sala do outro lado. Franz Fellner estava de pé no meio de um longo espaço sem janelas, uma galeria inteligentemente escondida entre a junção de dois grandes salões. O teto alto e agudo e a forma oblonga do castelo proporcionavam mais camuflagem arquitetônica. Todas as grossas paredes de pedra eram à prova de som, e um equipamentoespecial filtrava o ar. Havia mais vitrines em filas irregulares, cada qual iluminada por luzes halógenas muito bem situadas. Knoll abriu caminho por entre as vitrines, notando algumas das aquisições. Uma escultura de jade que ele roubara de uma coleção particular no México, o que não era problema, já que o suposto dono também a havia roubado do museu da cidade de Jalapa. Várias estatuetas africanas, esquimós e japonesas recuperadas de um apartamento na Bélgica, saque de guerra supostamente destruído há muito tempo. Sentia orgulho especial da escul­tura de Gauguin à esquerda, uma peça exótica que ele havia liberado de um ladrão em Paris.

Pinturas adornavam as paredes. Um auto-retrato de Picasso. A Sa­grada Família, de Correggio. O Retrato de uma Dama, de Botticelli. O Retrato de Maximiliano I, de Dührer. Todos originais, supostamente per­didos para sempre.

A última parede de pedra estava coberta por duas enormes tape­çarias de Gobelin, saqueadas por Hermann Göring durante a guerra, recuperadas de outro suposto dono há duas décadas e ainda procura­das arduamente pelo governo austríaco.

Fellner estava ao lado de uma vitrine contendo um mosaico do sécu­lo XIII representando o papa Alexandre IV. Knoll sabia que era uma das peças prediletas do velho. Ao lado estava a reentrância com a caixa de fósforos de Fabergé. Uma minúscula lâmpada halógena iluminava o es­malte vermelho-morango. Obviamente, Fellner havia polido a peça. Knoll sabia como o patrão gostava de preparar pessoalmente cada tesouro, mais segurança para impedir que olhos estranhos vissem suas aquisições.

Fellner era um sujeito magro como um falcão, de rosto escarpado, cor de concreto, e emoções combinando. Usava óculos com aro de me­tal que emolduravam olhos suspeitosos. Sem dúvida, pensava Knoll freqüentemente, um dia eles tiveram a aparência luminosa de um idea­lista. Agora mostravam a palidez de um homem à beira dos 80, que construíra um império com revistas, jornais, televisão e rádio, mas perdera o interesse em ganhar dinheiro depois de atravessar a marca dos muitos bilhões de dólares. Sua natureza competitiva estava total­mente canalizada para outras aventuras, mais particulares. Atividades em que homens com muito dinheiro e coragem sem limite podiam obter sucesso incrível.

Fellner pegou um exemplar do International Daily News na vitrine e o estendeu.

- Quer me dizer por que isso foi necessário? - A voz tinha a rou­quidão de um milhão de cigarros.

Knoll sabia que o jornal era uma das posses corporativas de Fellner, e que um computador no escritório do outro lado era alimentado diaria­mente com matérias de todo o mundo. A morte de um rico industrial italiano era certamente algo que atrairia o olhar do velho. No fim da primeira página, estava a matéria:

 

Pietro Caproni, 58, fundador das Indústrias Due Mori, foi encontrado ontem em sua propriedade no norte da Itália com um ferimento mortal de faca no peito. Também foi encontrada morta a facadas Carmela Terza, 27, cuja identificação no local do crime indicou que residia em Veneza. A polí­cia encontrou evidências de invasão através de uma porta no térreo, mas até agora não descobriu o desaparecimento de qualquer coisa da vila. Caproni estava aposentado do Due Mori, o conglomerado que transfor­mou num dos maiores produtores de e cerâmica da Itália. Permanecia ativo como um dos principais acionistas e consultor, e sua morte deixa um vazio na empresa.

 

Fellner interrompeu a leitura dele.

- discutimos isso antes. Você foi alertado para desfrutar de suas peculiaridades no tempo livre.

Foi necessário, Herr Fellner.

Matar nunca é necessário, se você fizer o serviço direito.

Knoll olhou para Monika, que estava observando com aparente di­versão.

- O signor Caproni apareceu no meio da minha visita. Estava esperandopor mim. Tinha suspeitado desde a viagem anterior. Que, se osenhor recorda, fiz por sua insistência.

Fellner pareceu captar a mensagem imediatamente. O rosto do velhosuavizou. Knoll conhecia bem o patrão.

O signor Caproni não queria compartilhar a caixa de fósforos sem luta. Eu simplesmente fui forçado, concluindo que o senhor desejava a peça independentemente de qualquer coisa. A única alternativa era sair sem ela e me arriscar a ser denunciado.

O signore não lhe ofereceu a oportunidade de ir embora? Afinal de contas, ele não podia telefonar para a polícia.

Knoll achou que uma mentira seria melhor do que a verdade.

O signore quis atirar em mim. Estava armado.

Os jornais não mencionam isso - disse Fellner.

- Prova da falta de confiabilidade da imprensa - disse Knoll com um sorriso.

- E a puta? - perguntou Monika. - Também estava armada? Knoll se virou para ela.

- Não fazia idéia de que você tinha tanta simpatia pelas mulheres da vida. Ela sabia dos riscos, tenho certeza, quando concordou em se envolver com um homem como Caproni.

Monika chegou mais perto.

Você trepou com ela?

Claro.

Um fogo incendiou os olhos dela. Mas não disse nada. Seu ciúme era quase tão divertido quanto surpreendente. Fellner quebrou a ten­são, conciliador como sempre.

Christian, você conseguiu a caixa. Aprecio isso. Mas matar só faz atrair a atenção. É a última coisa que desejamos. E se seu sêmen for rastreado pelo DNA?

Não havia sêmen, além do pertencente ao signore. O meu foi para o estômago dela.

E as digitais?

Usei luvas.

Sei que você é cuidadoso. E agradeço por isso. Mas sou um ve­lho que apenas quer passar à filha o que acumulou. Não desejo ver to­dos nós na cadeia. Fui claro?

Fellner parecia exasperado. Já tinham tido essa discussão antes, e Knoll genuinamente odiava desapontá-lo. O patrão era bom para ele, compartilhando com generosidade a riqueza que tinham acumulado meticulosamente. Em muitos sentidos, era mais parecido com um pai do que Jakob Knoll jamais fora. Mas Monika não era nem um pouco como uma irmã.

Knoll notou a expressão dela. A conversa sobre sexo e morte sem dúvida era excitante. Certamente ela visitaria seu quarto mais tarde.

- O que encontrou em São Petersburgo? - perguntou Fellner por fim.

Ele informou sobre as referências à yantarnya komnata, depois mostrou aos dois os papéis que tinha roubado do arquivo.

É interessante saber que os russos ainda estavam investigando sobre a Sala de Âmbar até recentemente. Esse tal de Karol Borya, Yxo, é uma pessoa nova.

Ouvidos? - Fellner falava russo perfeitamente. - Designação es­tranha.

Knoll assentiu.

- Achoque uma viagem a Atlanta pode valer a pena. Talvez Yxo aindaesteja vivo. Talvez saiba onde está Chapaev. Ele foi o único que não encontrei há cinco anos.

- Imagino que a referência a Loring também sirva como corroboração - disse Fellner. - Você encontrou o nome dele duas vezes. Aparentemente, os soviéticos estavam bem interessados no que Loring fazia.

Knollsabia da história. A família Loring dominava o mercado de aço e armas na Europa Oriental. Ernst Loring era o principal rival deFellner como colecionador. Era tcheco, filho de Josef Loring, e ti­nha um ar de superioridade alimentado desde a juventude. Como PietroCaproni, era um homem definitivamente acostumado a ter as •coisas do seu jeito.

- Josef era um homem determinado. Ernst, infelizmente, não her­dou o caráter do pai. Fico pensando nele. Uma coisa que sempre me perturbou é aquela cordialidade irritante que ele acha que eu aceito. - Fellner se virou para a filha. - O que acha, liebling? Christian deve ir aos Estados Unidos?

O rosto de Monika enrijeceu. Nesses momentos, era muito pareci­dacom o pai. Inescrutável. Resguardada. Furtiva. Nos próximos anos, certamente daria orgulho a ele.

Eu quero a Sala de Âmbar.

E eu a quero para você, liebling. Procurei durante quarenta anos. Mas nada. Absolutamente nada. Nunca entendi como toneladas de âmbar podem simplesmente desaparecer. - Fellner se virou para Knoll. - Vá a Atlanta, Christian. Encontre Karol Borya. Esse tal de Yxo. Veja o que ele sabe.

O senhor sabe que, se Borya estiver morto, estaremos sem pistas. Verifiquei os arquivos na Rússia. Apenas o de São Petersburgo tem al­guma informação digna de nota.

Fellner assentiu.

O funcionário de São Petersburgo certamente está sendo pago por alguém. De novo ele ficou atento. Por isso guardei os papéis.

O que foi inteligente. Tenho certeza de que Loring e eu não somos os únicos interessados na yantarnaya komnata. Que descoberta seria, Christian. Quase dá vontade de contar ao mundo.

Quase, mas o governo russo ia querê-la de volta e, se fosse encontrada aqui, os alemães certamente a confiscariam. Seria uma exce­lente moeda de barganha para a volta dos tesouros que os soviéticos levaram embora.

É por isso que nós precisamos encontrá-la - disse Fellner. Knoll o encarou.

Para não mencionar o bônus que o senhor prometeu.

O velho deu um risinho.

Isso mesmo, Christian. Não esqueci.

Bônus, papai?

Dez milhões de euros. Prometi há anos.

E eu honrarei a promessa - Monika deixou claro.

Sem dúvida que honraria, pensou Knoll.

Fellner se afastou da vitrine.

- Ernst Loring sem dúvida está procurando a Sala de Âmbar. Ele pode muito bem ser o benfeitor daquele tecnocrata de São Petersburgo. Nesse caso, ele sabe sobre Borya. Não vamos demorar, Christian. Você precisa ficar um passo adiante.

- É o que pretendo.

- Você pode cuidar de Suzanne? - perguntou o velho, com um sor­riso malicioso no rosto magro. - Ela será agressiva.

Knoll percebeu Monika se eriçando à menção do nome. Suzanne Danzer trabalhava para Ernst Loring. Era muito culta e possuía uma determinação que poderia ser mortal, se necessário. Há apenas dois meses tinha disputado uma corrida com ele pelo sudoeste da França, procurando um par de coroas de casamento russas, do século XIX, cravejadas de jóias. Mais um "belo botim" escondido durante décadas por ladrões. Danzer tinha vencido aquela corrida, encontrando as co­roas com uma velha nos Pireneus perto da fronteira com a Espanha. O marido da mulher as havia roubado de um colaborador dos nazistasdepois da guerra. Danzer fora implacável em conseguir o prêmio, uma característica que Knoll admirava tremendamente.

- Não espero nada menos da parte dela - disse ele.

Fellner estendeu a mão.

- Boa caçada, Christian.

Ele aceitou o gesto, depois se virou para sair, indo em direção à parede mais distante. Um retângulo surgiu na pedra quando a estante do outro lado se abriu de novo.

 

WOODSTOCK, INGLATERRA

22H45

Suzanne Danzer se ergueu do travesseiro. O rapaz de 20 anos dormia profundamente ao lado. Passou um instante examinando a nudez esguia. O jovem projetava a segurança de um cavalo de exposição. Que prazer tinha sido trepar com ele!

Levantou-se da cama e se esgueirou pelo piso de madeira de lei. O quarto escuro ficava no terceiro andar de uma mansão do século XVI, propriedade de Audrey Whiddon. A velha havia servido em três man­datos na Câmara dos Comuns, e acabou adquirindo o título de lady, com­prando a mansão durante a execução de uma hipoteca, quando o dono anterior não pôde pagá-la. A velha Whiddon ainda fazia visitas ocasio­nalmente, mas Jeremy, seu único neto, era agora o principal morador.

Como tinha sido fácil se ligar a Jeremy! Ele era volúvel e animado, mais interessado em cerveja e sexo do que em finanças e lucro. Dois anos em Oxford e já havia abandonado o curso duas vezes, por defi­ciências acadêmicas. A velha o amava demais e usava todas as influên­cias que ainda possuía para levar o garoto de volta, esperando não ter mais desapontamentos, mas Jeremy parecia incapaz de ceder a seus desejos.

Suzanne estivera procurando a última caixa de rapé durante quase dois anos. Quatro constituíam a coleção original. Havia uma caixa de ouro com um mosaico em cima. Uma oval com acabamento em frutinhas translúcidas, verdes e vermelhas. Outra feita de pedra dura com engastes em prata. E uma caixa turca, esmaltada, adornada com uma cena do Chifre de Ouro. Todas criadas no século XIX pelo mesmo mestre artesão - cuja marca estava gravada nitidamente no fundo - e saqueadas de uma coleção particular na Bélgica durante a Segunda Guerra Mundial.

Supostamente estavam perdidas, derretidas pelo valor ouro, com as jóias arrancadas, o mesmo destino de muitos objetos preciosos. Mas uma havia surgido há cinco anos num leilão em Londres. Suzanne estiveralá e a havia comprado. Seu patrão, Ernst Loring, era fascinado pelo artesanato intricado das antigas caixas de rapé e possuía uma grande coleção. Algumas legítimas, compradas no mercado aberto, mas a maioria adquirida secretamente de proprietários como Audrey Whiddon. A caixa comprada no leilão havia gerado uma batalha judicial com os herdeiros do proprietário original. Os representantes legais de Loring finalmente venceram, mas a luta foi cara e pública, e o patrão não tinha desejo de repetir aquilo. Por isso a aquisição das ultimas três fora delegada à seu trabalho sub-reptício.

Suzanne tinha encontrado a segunda na Holanda, a terceira na Finlândia e a quarta inesperadamente, quando Jeremy tentou vendê-la em outra casa de leilões, sem que a avó soubesse. O leiloeiro alerta reconheceu a peça e, sabendo que não poderia vendê-la, lucrou quan­do Suzanne lhe pagou dez mil libras para saber do paradeiro do obje­to. Ela possuía muitas fontes em casas de leilão por todo o mundo, pessoas que ficavam de olhos abertos para tesouros roubados, coisas que não podiam manusear legalmente, mas que podiam vender com facilidade.

Terminou de se vestir e penteou o cabelo.

Enganar Jeremy tinha sido fácil. Como sempre, suas feições de mo­delo, os olhos azuis redondos como pratos e o corpo em forma deram resultado. Tudo isso mascarava uma calma controlada e a fazia pare­cer algo fácil de dominar e conter. Os homens sentiam-se rapidamente confortáveis com ela, e Suzanne tinha aprendido que a beleza podia ser uma arma muito melhor do que balas ou lâminas.

Saiu do quarto na ponta dos pés e desceu uma escada de madeira, tendo o cuidado de minimizar o ruído das tábuas. Elegantes estênceis elizabetanos decoravam as paredes altas. No passado, tinha imagina­do morar numa casa parecida, com marido e filhos. Mas isso foi antes que o pai lhe ensinasse o valor da independência e o preço da dedica­ção. Ele também havia trabalhado para Ernst Loring, sonhando um dia comprar sua própria propriedade. Mas nunca realizou essa ambi­ção, morrendo num acidente aéreo há onze anos. Na época, ela esta­va com 25 anos e tinha acabado de sair da faculdade, no entanto Loring não hesitou, permitindo-lhe suceder imediatamente ao pai. Suzanne aprendeu o trabalho na prática e descobriu rapidamente que, como o pai, possuía instintivamente a capacidade para procurar; e gostava tremendamente da caçada.

Virou na base da escada, passou pelo salão de jantar e entrou na sala de música, forrada de lambris. As janelas que faziam destacar o terreno ao redor estavam escuras, o teto jacobino branco em sombras. Ela se aproximou da mesa e pegou a caixa de rapé.

Número quatro.

Era de ouro dezoito quilates, a tampa com dobradiça esmaltada en plein com Júpiter engravidando Dânae em uma chuva de mais ouro ainda. Trouxe para perto a caixa minúscula e olhou a imagem da gor­ducha Dânae. Como é que os homens haviam considerado atraente tamanha obesidade? Mas parecia que sim, já que achavam necessário fantasiar que seus deuses desejavam uma bola de banha daquelas. Virou a caixa e passou os dedos sobre as iniciais.

B. N.

O artesão.

Tiroudo bolso dos jeans um pedaço de tecido. A caixa, com menos de dez centímetros de comprimento, sumiu rapidamente nas dobras carmesins. Enfiou o embrulho no bolso e depois atravessou o térreo até a biblioteca.

Ter crescido na propriedade de Loring trazia vantagens óbvias. Uma belacasa, os melhores professores, acesso à arte e à cultura. Loring havia se certificado de que a família Danzer fosse bem cuidada. Mas o isola­mento do castelo Loukov a privara de amigos de infância. Sua mãe mor­reu quando ela estava com 3 anos e o pai viajava constantemente. Era Loring que passava tempo com ela, e os livros se tornaram seus companheiros de confiança. Certa vez, leu que os chineses consideravam os livros capazes de afastar maus espíritos. E, para ela, afastavam. As histórias se tornaram sua fuga. Em particular, a literatura inglesa. As tragédias de Marlowe sobre reis e potentados, a poesia de Dryden, os ensaios de Locke, os contos de Chaucer, a Morte d'Arthur, de Malory.

Mais cedo, quando Jeremy lhe mostrou o andar térreo, ela notara um livro específico na biblioteca. Casualmente havia tirado o volume em couro da estante e encontrado a esperada suástica espalhafatosa dentro, e a inscrição dizia: EX LIBRIS ADOLF HITLER. Dois mil livros de Hitler, todos de sua biblioteca pessoal, tinham sido retirados às pressas de Berchtesgaden e guardados numa mina de sal próxima, apenas alguns dias antes do fim da guerra. Mais tarde foram encontra­dos por soldados americanos e acabaram catalogados na Biblioteca do Congresso. Mas alguns foram roubados antes disso. Vários tinham aparecido ao longo dos anos. Loring não possuía nenhum, não desejan­do lembranças do horror do nazismo, mas conhecia outros colecio­nadores que os queriam.

Ela tirou o livro da prateleira. Loring ficaria satisfeito com esse tesouro a mais.

Virou-se para sair.

Jeremy estava nu junto à porta, no escuro.

- É o mesmo que você olhou antes? - perguntou ele. - Vovó tem tantos livros que não vai sentir falta deste.

Ela se aproximou e decidiu rapidamente usar sua melhor arma.

Gostei desta noite.

Eu também. Você não respondeu à minha pergunta.

Ela sinalizou com o livro.

É. É o mesmo.

Quer ficar com ele?

Quero.

Você vai voltar?

Uma pergunta estranha, considerando a situação, mas Suzanne percebeu o que ele realmente desejava. Por isso baixou a mão e o segu­rou onde sabia que ele não poderia resistir. O rapaz reagiu instanta­neamente às carícias.

- Talvez - disse ela.

Vi você na sala de música. Você não é apenas uma mulher que saiu de um casamento ruim, não é?

Isso importa, Jeremy? Você gostou. - Ela continuou a acariciá-lo. - E está gostando agora, não é?

Ele suspirou.

E, de qualquer modo, tudo aqui é da sua avó. Por que você se importa?

Não me importo.

Suzanne o soltou. O membro dele ficou em posição de sentido. Ela deu-lhe um beijo suave nos lábios.

- Tenho certeza de que vamos nos ver de novo.

Em seguida, passou por ele e foi para a porta da frente.

- Se eu não tivesse cedido, você teria me machucado para ficar com o livro e a caixa?

Elase virou. Interessante verque alguém tão imaturo em relação à vidapudesse ser perceptivo o bastante para entender a profundidade de seus desejos.

- O que você acha?

Ele pareceu pensar genuinamente na pergunta. Talvez com mais intensidade do que pensava em qualquer coisa há algum tempo. Acho que estou satisfeito por ter trepado com você.

 

VOLARY, REPÚBLICA TCHECA

SEXTA-FEIRA, 9 DE MAIO, 14H45

Suzanne virou o Porsche bruscamente para a direita e a suspensão de molas espirais e o controle de torque do 911 Speedster se agarraram à curva fechada. Mais cedo, tinha posto de volta o teto de fibra de vidro. Mantinha o carro estacionado no aeroporto de Ruzynè, e a viagem de 120 quilômetros de Praga até o sudoeste da Boêmia era fácil e durava uma hora. O carro fora presente de Loring, um bônus há dois anos, depois de um ano de aquisições particularmente produtivo. Cinza-ardósia-metálico, interior de couro preto, carpete de veludo fofo. Ape­nas 150 exemplares foram produzidos. O seu tinha uma insígnia de ouro no painel. Drahá. "Queridinha", apelido que Loring lhe dera na infância.

Ela ouvira as histórias e lera o material de imprensa sobre Ernst Loring. A maioria o retratava como maligno, sério e rejeitado, com energia de fanático e moral de déspota. Não estava muito longe da verdade. Mas havia outro lado. O que ela conhecia, amava e respeitava.

A propriedade de Loring ocupava um terreno de 120 hectares no sudoeste da República Tcheca, apenas a alguns quilômetros da fron­teira com a Alemanha. A família havia prosperado sob o governo comunista, e suas fábricas e minas em Chomutov, Most e Teplice eram vitais para o antigo desejo de auto-suficiência da Tchecoslováquia. Ela sempre achara engraçado que as minas de urânio da família no norte, em Jáchymov, nas quais trabalhavam presos políticos - onde a conta­gem de mortes no trabalho chegava a quase cem por cento - fossem oficialmente consideradas irrelevantes pelo novo governo. Do mesmo modo, não era importante que, depois de anos de chuva ácida, as Mon­tanhas Tristes tivessem se transformado em fantasmagóricos cemité­rios de florestas apodrecendo. Era uma mera nota de rodapé o fato de Teplice, que já fora uma próspera cidade balneário perto da fronteira polonesa, ser mais conhecida pela curta expectativa de vida dos habi­tantes do que pela revigorante água quente. Há muito tempo ela havia notado que nenhuma imagem da região saía nos elegantes livros de lotos vendidos do lado de fora do Castelo de Praga aos milhões que o visitavam todos os anos. O norte da República Tcheca era uma ruí­na. Algo para lembrar. Algo que já fora uma necessidade, e atualmente algo para ser esquecido. Mas era um local onde Ernst Loring lucrava, e o motivo pelo qual ele vivia no sul.

A Revolução de Veludo de 1989 garantiu a queda dos comunistas. Três anos depois, tchecos e eslovacos se divorciaram, rapidamente divi­dindo os espólios do país. Loring se beneficiou dos dois acontecimen­tos, rapidamente se aliando a Havei e ao novo governo da República Tcheca, nome que ele considerava digno, mas sem energia. Suzanne tinha ouvido seus pontos de vista sobre as mudanças. Como suas fábri­cas e fundições tinham mais demanda do que nunca. Apesar de poupa­do no comunismo, Loring era um capitalista verdadeiro e experiente. Seu pai, Josef, e o avô, antes disso, tinham sido capitalistas.

O que era mesmo que ele dizia o tempo todo? Todos os movimen­tos políticos precisam de aço e carvão. Loring fornecia ambos, em troca de proteção, liberdade e um lucro acima do modesto sobre os in­vestimentos.

De repente, a propriedade senhorial surgiu no horizonte. Castelo Loukov. Antigo hrad de um cavaleiro, num formidável promontório acima do rápido rio Orlík. Construído no estilo borgonho-cisterciano, foi iniciado no século XV, mas só foi terminado em meados do século XVII. Sedilhas triplas e capitéis com folhas marcavam as pare­des altíssimas. Balcões envidraçados pontilhavam as ameias cober­tas de trepadeiras. Um telhado de barro brilhava em laranja ao sol do meio-dia.

Um incêndio havia quase destruído todo o complexo durante a Se­gunda Guerra Mundial, os nazistas o confiscaram como quartel-general e os aliados finalmente o bombardearam. Mas Josef Loring conseguiu recuperar a posse aliando-se aos russos que libertaram a região a cami­nho de Berlim. Depois da guerra, ressuscitou seu império industrial e o expandiu, até deixar tudo para Ernst, o único filho sobrevivente, gesto que o governo apoiou totalmente.

Homens inteligentes e ativos sempre são necessários, dissera muitas vezes o patrão de Suzanne.

Ela reduziu a marcha do Porsche para terceira. O motor gemeu, de­pois obrigou os pneus a agarrarem o pavimento seco. Começou a subir a estrada estreita, cujo asfalto preto era rodeado por florestas densas, e diminuiu a velocidade diante do portão principal do castelo. O ca­minho que um dia acomodara carruagens puxadas a cavalo e impedira agressores fora alargado e pavimentado para aceitar a passagem de carros.

Loring estava do lado de fora, no pátio, vestido de modo casual, usando luvas de trabalho, aparentemente cuidando das flores de prima­vera. Era alto e anguloso, com peito surpreendentemente liso e físico forte para um homem de setenta e muitos anos. Na década anterior, ela havia observado o cabelo sedoso, louro cinzento, desbotar até um tom sem brilho, com o cavanhaque da mesma cor acarpetando o maxilar e o pescoço enrugados. A jardinagem sempre fora uma de suas obsessões. As estufas do lado de fora dos muros estavam cheias de plantas exóticas de todo o mundo.

- Dobriy den, minha cara - gritou Loring em tcheco.

Ela parou e saiu do Porsche, pegando a bolsa de viagem no banco do carona.

Loring bateu a terra das luvas e se aproximou.

- Boa caçada?

Suzanne pegou uma pequena caixa de papelão no banco do carona. Nem a alfândega de Londres nem a de Praga questionaram o badulaque quando ela explicou que fora comprado numa loja de lembranças da Abadia de Westminster por menos de trinta libras. Conseguiu até mostrar um recibo, já que havia parado na loja e comprado uma repro­dução barata, que jogou numa lata de lixo do aeroporto.

Loring tirou as luvas e levantou a tampa, examinando a caixa de rapé à luz da tarde que se esvaía.

- Linda - sussurrou. - Perfeita.

Ela enfiou a mão na bolsa e tirou o livro.

O que é isso? - perguntou ele.

Uma surpresa.

Loring recolocou o tesouro na caixa de papelão e segurou cautelo­samente o volume, desdobrando a capa e se maravilhando com o ex-libris.

Drahá, você me espanta. Que bônus maravilhoso!

Reconheci instantaneamente e achei que você gostaria.

- Certamente podemos vender ou trocar isto. Herr Greimel adora, e eu gostaria muito de uma pintura que ele possui.

- Tinha certeza de que você ficaria feliz.

- Isso deve fazer Christian notar, hein? Seria uma tremenda reve­lação em nosso próximo encontro.

- E Franz Fellner.

Ele balançou a cabeça.

Não mais. Acredito que agora é Monika. Ela parece estar assumin­do o controle de tudo. Devagar, mas com firmeza.

Vaca arrogante.

Certo. Mas não é idiota. Falei bastante com ela recentemente. Meio impaciente e ansiosa. Parece ter herdado o espírito do pai, se não o cérebro. Mas quem sabe? Ela é jovem, talvez aprenda. Tenho certeza de que Franz vai ensinar.

E quanto ao meu benfeitor? Algum pensamento semelhante em aposentadoria?

Loring riu.

O que eu iria fazer?

Ela indicou as flores.

Jardinagem?

- Dificilmente. O que fazemos é revigorante demais. Colecionar gera muita empolgação. Sou como uma criança abrindo presentes no Natal.

Ele aninhou os dois tesouros e levou-a para dentro de sua oficina de carpintaria, que ocupava o térreo de uma construção adjacente ao pátio.

- Recebi um telefonema de São Petersburgo. Christian esteve de novo no arquivo. Nos registros da Comissão. Fellner obviamente não vai desistir.

- Ele encontrou alguma coisa?

- Difícil dizer. O funcionário idiota já deveria ter examinado as caixas, mas duvido que tenha feito isso. Diz que vai levar anos. Parece muito mais interessado em ser pago do que em trabalhar. Mas pôde ver que Knoll descobriu uma referência a Karol Borya.

Ela percebeu o significado.

- Não entendo essa obsessão de Franz - disse Loring. - Tantas coisas esperando para serem descobertas. A Virgem e o Menino, de Bellini, per­dida desde a guerra. Que descoberta seria! A peça de altar de Van Eyck com o CordeiroMístico. Os dozemestres antigos roubados do Museu de Trevés, em 1968. E aquelas obras impressionistas roubadas em Florença. Não existem sequer fotos delas para ajudar na identificação. Qualquer um adoraria adquirir ao menos uma.

Mas a Sala de Âmbar está no topo da lista de todos os colecionadores- disse ela.

Certo, e esse parece ser o problema.

Acha que Christian tentará encontrar Borya?

- Sem dúvida. Borya e Chapaev são os únicos investigadores aindavivos. Knoll não encontrou Chapaev há cinco anos. Provavelmente esperaque Borya saiba do paradeiro de Chapaev. Fellner adoraria que aSala de Âmbar fosse a primeira revelação de Monika. Não tenho dúvida de que Franz mandará Knoll aos Estados Unidos, pelo menos para tentar encontrar Borya.

- Mas não será um beco sem saída?

- Exato. Literalmente. Mas apenas se necessário. Esperemos que Borya ainda mantenha a boca fechada. Talvez o velho tenha finalmente morrido. Deve estar com quase 90 anos. Vá à Geórgia, mas fique fora do caminho, a não ser que seja obrigada a agir.

Uma empolgação a atravessou. Seria maravilhoso batalhar contra Knolloutra vez. O último encontro dos dois na França fora revigorante. Mas perigoso. O que tornava a aventura muito mais empolgante.

- Cuidado com Christian, minha cara. Não fique perto demais. Tal­vez você tenha de fazer alguma coisa desagradável. Deixe-o para Monika. Eles se merecem.

Ela deu um beijo na bochecha do velho.

- Não se preocupe. Sua drahá não vai deixá-lo na mão.

 

ATLANTA, GEÓRGIA

SÁBADO, 10 DE MAIO, 18H50

Karol Borya se acomodou na espreguiçadeira e leu de novo o único artigo que sempre consultava quando precisava recordar detalhes. Era da International Art Review, de outubro de 1972. Ele o havia encontra­do numa de suas idas regulares ao centro da cidade, à biblioteca da Universidade Estadual da Geórgia. Fora da Alemanha e da Rússia, a mídia havia mostrado pouco interesse na Sala de Âmbar. Menos de duas dúzias de relatos em inglês tinham sido publicados desde a guer­ra, a maioria repetições de fatos históricos ou uma avaliação da últi­ma teoria sobre o que poderia ter acontecido. Ele adorava o modo como o artigo iniciava, com uma citação de Robert Browning, ainda sublinhado com tinta azul, da primeira leitura: Subitamente, como acon­tece com as coisas raras, ela desapareceu.

Essa observação era particularmente relevante para a Sala de Âm­bar. Sem ser vista desde 1945, sua história era atulhada de tumultos políticos e marcada por morte e intriga.

A idéia veio de Frederico I da Prússia, um homem complicado que trocou seu voto precioso como eleitor do Sacro Império Romano pela garantia de ter um reino hereditário próprio. Em 1701, encomendou painéis de âmbar para uma sala em seu palácio de Charlotenburgo. Frederico se divertia diariamente com peças de xadrez, castiçais e candelabros de âmbar. Tomava cerveja em canecas de âmbar e fumava cachimbos com bocais de âmbar. Por que não uma sala forrada do teto ao chão com painéis de âmbar esculpidos? Por isso encarregou o arquiteto da corte, Andreas Schülter, da tarefa de criar essa maravilha.

A encomenda original foi feita a Gottfried Wolffram, mas em 1707 ErnsSchact e Gottfried Turau substituíram o dinamarquês. Durante quatro anos, Schact e Turau trabalharam, revirando meticulosamente o litoral do Báltico em busca de âmbar de alta qualidade. Há séculos aárea vinha produzindo toneladas da substância, tanto que Frederico treinou batalhões inteiros para procurar. Por fim, cada pedaço bruto foifatiado até uma grossura de não mais de cinco milímetros, polido e aquecido para mudar de cor. Então as peças foram colocadas, como um quebra-cabeça, em painéis de mosaico com motivos florais, bustose símbolos heráldicos. Cada painel incluía um relevo do brasão da Prússia, uma águia coroada, de perfil, com fundo de prata para enfa­tizar o brilho.

Asala foi parcialmente terminada em 1712, quando Pedro, o Grande, da Rússia, fez uma visita e admirou o trabalho. Um ano depois, Fre­derico I morreu e foi sucedido pelo filho, Frederico Guilherme I. Como acontece algumas vezes com os filhos, Frederico Guilher­me odiava tudo que o pai amava. Não tendo desejo de gastar mais dinheiro da coroa com o capricho do pai, ordenou que os painéis de âmbar fossem desmontados e guardados.

Em 1716, Frederico Guilherme assinou uma aliança russo-prussiana com Pedro, o Grande, contra a Suécia. Para comemorar o tratado, os painéis de âmbar foram cerimoniosamente presenteados a Pedro e transportados a São Petersburgo no mês de janeiro seguinte. Pedro, mais preocupado em criar a marinha russa do que em colecionar arte, simplesmente os guardou. Mas, em agradecimento, retribuiu o pre­sente com 248 soldados, um torno mecânico e uma taça de vinho fei­ta por ele próprio. Dentre os soldados estavam 55 de seus guardas mais altos, em reconhecimento pela paixão do rei prussiano por guer­reiros de grande estatura.

Trinta anos se passaram até que a imperatriz Elizabeth, filha de Pedro, pediu a Rastrelli, o arquiteto da corte, para colocar os painéis numa sala no palácio de inverno de São Petersburgo. Em 1755, Elizabeth ordenou que fossem levados para o palácio de verão em Tsarskoe Selo, cinqüenta quilômetros ao sul de São Petersburgo, e instalados no que passou a ser conhecido como o Palácio de Catarina.

Foi lá que a Sala de Âmbar foi aperfeiçoada.

Nos vinte anos seguintes, 48 metros quadrados de painéis adicio­nais de âmbar, a maioria com o brasão dos Romanov e decorações elaboradas, foram acrescentados aos 36 metros quadrados originais, acréscimos necessários, já que as paredes de nove metros do Palácio de Catarina eram muito mais altas que as da sala original. O rei prus­siano chegou a colaborar com a criação, enviando outro painel, este com um baixo-relevo da águia de duas cabeças dos czares russos. Oitenta e seis metros quadrados de âmbar foram produzidos, e no fim as paredes eram salpicadas de belas estatuetas, guirlandas flo­rais, tulipas, rosas, conchas, monogramas e rocaille, tudo em tons brilhantes de castanho, vermelho, amarelo e laranja. Rastrelli emoldurou cada painel numa cártula de madeira entalhada em estilo Luís XV, separando-os verticalmente por pares de estreitas pilastras espe­lhadas adornadas com candelabros de bronze, tudo folheado a ouro para se fundir ao âmbar.

O centro de quatro painéis tinha exóticos mosaicos florentinos feitos de jásper e ágata polidos e emoldurados em bronze dourado. Um mu­ral de teto foi acrescentado, junto com um intricado piso de parquete com marchetaria em carvalho, bordo, sândalo, pau-rosa, nogueira e mogno, tão magnífico quanto as paredes ao redor.

Cinco mestres de Königsberg trabalharam até 1770, quando a sala foi declarada pronta. A imperatriz Elizabeth ficou tão deliciada que costumava usar o local para impressionar embaixadores estrangeiros. Ele também servia como kunstkammer, um gabinete de curiosidades para ela e os czares posteriores, lugar onde tesouros reais podiam ser expostos. Em 1765, setenta objetos de âmbar - baús, castiçais, caixas de rapé, pratos, facas, garfos, crucifixos e tabernáculos - enfeitavam a sala. Em 1780, uma mesa de canto de âmbar incrustado foi acrescentada. O último objeto de decoração veio em 1913, uma coroa de âmbar sobre uma almofada, peça comprada pelo czar Nicolau II.

Incrivelmente, os painéis sobreviveram intactos a 170 anos e à Revolução Bolchevique. Foram feitas restaurações em 1760, 1810, 1830, 1870, 1918, 1935 e 1938. Uma ampla restauração foi planejada nos anos 1940, mas, em 22 de junho de 1941, tropas alemãs invadiram a União Soviética. Em 14 de julho, o exército de Hitler havia tomado a Bielo-Rússia, a maior parte da Letônia, a Lituânia e a Ucrânia, chegando ao rio Liga, a menos de 160 quilômetros de Leningrado. Em 17 de setembro, soldados nazistas tomaram Tsarskoe Selo e os palácios na cidade e ao redor, inclusive o de Catarina, que havia se tornado um museu estatal durante o governo dos comunistas.

Nos dias anteriores à captura, autoridades do museu enviaram às pressas todos os pequenos objetos da Sala de Âmbar para o leste da Rússia. Mas tinha sido impossível remover os painéis. Num esforço para escondê-los, uma camada de papel de parede foi colada em cima, mas o disfarce não enganava ninguém. Hitler ordenou que Erich Koch, gauleiter da Prússia Oriental, devolvesse a Sala de Âmbar a Königsberg, que, segundo a idéia do Führer, era seu local de direito. Seis homens demoraram 36 horas para desmontar os painéis, e vinte toneladas de âmbar foram meticulosamente encaixotadas e transportadas em com­boio de caminhão e de trem para o oeste, eventualmente reinstaladas no castelo de Königsberg, junto com uma vasta coleção de arte prus­siana. Um artigo de jornal alemão, em 1942, proclamava que o even­to era uma "volta ao verdadeiro lar, o verdadeiro local de origem e o único lugar de origem do âmbar". Cartões-postais do tesouro restau­rado foram publicados. A exposição se tornou o mais popular espetáculo de museu dos nazistas.

O primeiro bombardeiro aliado contra Königsberg ocorreu em agos­to de 1944. Algumas colunas espelhadas e alguns dos painéis menores de âmbar foram danificados. O que aconteceu depois não é claro. Em algum momento entre janeiro e abril de 1945, enquanto o exército so­viético se aproximava de Königsberg, Koch ordenou que os painéis fossem encaixotados e escondidos no porão do restaurante Blutgericht. O último documento alemão que mencionava a Sala de Âmbar foi datado de 12 de janeiro de 1945, e observava que os painéis estavam sendo preparados para o transporte até a Saxônia. Num determinado ponto, Alfred Rohde, encarregado da sala, supervisionou a colocação dos caixotes num comboio de caminhões. Esses caixotes foram vistos pela última vez em 6 de abril de 1945, quando os caminhões saíram de Königsberg.

Borya pôs o artigo de lado.

Cada vez que lia as palavras, sua mente voltava à primeira frase. Subitamente, como acontece com as coisas raras, ela desapareceu. Como era verdadeiro!

Passou um tempo e folheando o dossiê aberto no colo. Continha cópias de outros artigos que havia colecionado durante os anos. Olhou casualmente alguns, a memória instigada pelos detalhes. Era bom lembrar.

Até certo ponto.

Levantou-se da espreguiçadeira e saiu do pátio para fechar a tor­neira. Sua horta de verão brilhava com uma boa encharcada. Tinha es­perado o dia inteiro para molhá-la, esperando que chovesse, mas até agora a primavera estava seca. Lucy olhava do pátio, empertigada, com os olhos felinos estudando cada movimento seu. Sabia que ela nãogostava da grama, em particular da grama molhada, cheia de cuidados com o pêlo desde que adquirira status de moradora. Pegou a pasta de arquivo.

- Venha, gatinha, para dentro.

A gata o acompanhou pela porta dos fundos e os dois entraram na cozinha. Ele jogou a pasta na bancada perto do jantar, um filé enrola­do em bacon, marinado em teriyaki. Já ia cozinhar espigas de milho quando a campainha da porta tocou.

Saiu da cozinha arrastando os pés e foi para a frente da casa. Lucy o acompanhou. Borya espiou pelo olho mágico e viu um homem vesti­do de terno escuro, camisa branca e gravata listrada. Provavelmente outra testemunha de Jeová ou um mórmon. Costumavam aparecer nessa época, e Borya gostava de conversar com eles.

Abriu a porta.

- Karl Bates? Anteriormente conhecido como Karol Borya?

A pergunta o pegou desprevenido, e seus olhos o traíram com uma reação afirmativa.

- Sou Christian Knoll - disse o homem.

Um leve sotaque alemão, que desagradou Borya instantaneamente, temperava as palavras. Um cartão de visitas reiterando o nome com letras pretas em relevo junto com as palavras PROCURADOR DE ANTIGÜIDADES PERDIDAS foi estendido, mas não oferecido. O en­dereço e o número de telefone eram de Munique, Alemanha. Borya examinou o visitante. Quarenta e poucos anos, ombros largos, cabelos louros ondulados, pele curtida de sol, cor de canela, e olhos cinzentos dominando um rosto gélido - que exigia atenção.

- O que quer de mim, Sr. Knoll?

- Posso? - O visitante indicou o desejo de entrar, enquanto guar­dava o cartão de novo.

- Depende.

- Quero falar sobre a Sala de Âmbar.

Borya pensou em protestar, mas decidiu não fazê-lo. Na verdade, esperava uma visita há anos.

Knoll o acompanhou até a sala íntima. Os dois se sentaram. Lucy rodeou, investigando, depois se empoleirou numa poltrona ad­jacente.

- O senhor trabalha para os russos? - perguntou Borya.

Knoll balançou a cabeça.

- Eu poderia mentir e dizer que sim, mas não. Sou empregado de um colecionador particular que procura a Sala de Âmbar. Recentemente descobri seu nome e endereço nos registros soviéticos. Parece que o senhor já esteve numa busca semelhante.

Borya assentiu.

- Há muito tempo.

Knoll enfiou a mão no paletó e pegou três folhas dobradas.

- Achei essas referências nos registros soviéticos. Elas se referem ao senhor como Yxo.

Borya examinou os papéis. Décadas tinham se passado desde que lera escritos em cirílico.

Era o meu nome em Mauthausen.

O senhor foi prisioneiro?

- Durante muitos meses. - Borya virou o braço direito e mostrou a tatuagem. - 10901. Tentei tirar, mas não consegui. Trabalho alemão.

Knoll indicou as folhas.

- O que sabe sobre Danya Chapaev?

Borya notou com interesse que Knoll ignorou a alfinetada étnica.

Danya era meu parceiro. Trabalhamos juntos até eu sair.

Como o senhor foi trabalhar para a comissão?

Borya encarou o visitante, pensando se deveria responder. Há dé­cadas não falava sobre aquela época. Só Maya sabia de tudo, e as in­formações tinham morrido com ela há anos. Rachel sabia o suficiente paraentender e nunca esquecer. Será que deveria falar? Por que não? Eraum velho que já passara da idade. O que importava agora?

Depois do campo de extermínio, voltei à Bielo-Rússia, mas mi­nha pátria não existia mais. Os alemães foram como gafanhotos. Minha família estava morta. A comissão parecia um bom lugar para ajudar nareconstrução.

Estudei a comissão atentamente. Organização interessante. Os nazistas fizeram seus saques, mas os soviéticos os suplantaram em muito. Os soldados pareciam satisfeitos com luxos mundanos como bicicletas e relógios. Mas os oficiais mandavam para casa vagões e aviões cheios de obras de arte, porcelana e jóias. Aparentemente, a comissão foi a maior saqueadora de todos. Milhões de itens, pelo que acredito.

Borya balançou a cabeça, em oposição.

- Não era saque. Os alemães destruíram terras, lares, fábricas, cida­des. Mataram milhões. Na época, os soviéticos pensavam nisso como reparação.

- E agora? - Knoll parecia ter sentido sua hesitação.

- Concordo. Saque. Os comunistas eram piores que os nazistas. É incrível como o tempo abre nossos olhos.

Aparentemente, Knoll ficou satisfeito com a concessão.

- A comissão se transformou em algo falso, não diria? Acabou aju­dando Stalin a mandar milhões para os gulags.

Motivo pelo qual saí.

Chapaev ainda está vivo?

A pergunta veio depressa. Inesperada. Certamente programada para induzir uma resposta igualmente rápida. Ele quase sorriu. Knoll era bom.

- Não faço idéia. Não vejo Danya desde que saí. A KGB veio aqui há anos. Um checheno grande e fedorento. Disse a mesma coisa a ele.

- Foi muita ousadia, Sr. Bates. A KGB deveria ser levada a sério.

- Os muitos anos me deixaram ousado. O que ele ia fazer? Matar um velho? Esses tempos se foram, Herr Knoll.

Sua mudança de senhor para Herr foi intencional, mas, de novo, Knoll não reagiu. Em vez disso, o alemão mudou de assunto.

Entrevistei muitos dos investigadores antigos. Telegin. Zernov. Voloshin. Nunca pude encontrar Chapaev. Nem sabia sobre o senhor até alguns dias atrás.

Os outros não mencionaram meu nome?

Se tivessem feito isso, eu teria vindo antes.

O que não era surpreendente. Como ele, todos tinham aprendido o valor de manter a boca fechada.

- Conheço a história da comissão - disse Knoll. - Ela contratou in­vestigadores para percorrer toda a Alemanha e a Europa Oriental em busca de obras de arte. Uma corrida contra o exército pelo direito de pilhagem. Mas foi muito bem-sucedida e conseguiu pegar o ouro de Tróia, o Altar de Pérgamo, a Madona Sistina, de Rafael, e toda a coleção do Museu de Dresden, creio.

Borya assentiu.

Muitas, muitas coisas.

Pelo que sei, só agora alguns desses objetos estão vendo a luz do dia. A maior parte foi escondida em castelos ou trancada em salas du­rante décadas.

Eu li as matérias. Glasnost. - Borya decidiu ir ao ponto. - O se­nhor acha que sei onde está a Sala de Âmbar?

Não. Caso contrário, o senhor já a teria encontrado.

- Talvez seja melhor continuar desaparecida. Knoll balançou a cabeça.

- Alguém com o seu passado, seu amor pela arte, certamente não ia querer que essa obra-prima fosse destruída pelo tempo e pelas forças da natureza.

- O âmbar dura para sempre.

- Mais a forma em que ele foi trabalhada, não dura. A cola do sécu­lo XVIII não pode ser tão eficaz assim.

É verdade. Se fossem encontrados hoje, aqueles painéis seriam como um quebra-cabeça.

Meu patrão está disposto a financiar a remontagem desse quebra-cabeça.

- Quem é seu patrão?

O visitante riu.

Não posso dizer. A pessoa prefere o anonimato. Como o senhor bem sabe, o mundo dos colecionadores pode ser um local traiçoeiro para os que são conhecidos.

Eles procuram um grande prêmio. A Sala de Âmbar não é vista há mais de cinqüenta anos.

Mas imagine, Herr Bates, desculpe, Sr. Bates...

É Borya.

Muito bem. Sr. Borya. Imagine a sala restaurada à sua glória an­terior. Que visão seria! Atualmente existem apenas algumas poucas fotografias coloridas, junto com algumas em preto e branco que cer­tamente não fazem justiça à beleza da sala.

Vi essas fotos quando estava pesquisando. Também vi a sala antes da guerra. Realmente magnífica. Nenhuma foto jamais poderia captu­rar. É triste, mas parece perdida para sempre.

Meu patrão se recusa a acreditar nisso.

Existem boas evidências de que os painéis foram destruídos quan­do Königsberg foi bombardeada em massa em 1944. Alguns acham que eles estão no fundo do Báltico. Eu próprio investiguei o Wilhelm Gustloff. Nove mil e quinhentos mortos quando os soviéticos afundaram o navio. Alguns dizem que a Sala de Âmbar estava no compartimento de car­ga. Teria sido levada de caminhão de Königsberg a Danzig e posta no navio para a viagem a Hamburgo.

Knoll se remexeu na cadeira.

Também estudei o Gustloff. As evidências são contraditórias, na melhor das hipóteses. Francamente, a história mais digna de crédito que pesquisei foi que os painéis teriam sido tirados de Königsberg pe­los nazistas e mandados a uma mina perto de Göttingen, junto com munição. Quando os ingleses ocuparam a área, em 1945, explodiram a mina. Mas, como em todas as outras versões, existem ambigüidades.

Alguns até mesmo juram que americanos a encontraram e trans­portaram para o outro lado do Atlântico.

Ouvi isso também. Junto com uma versão propondo que os sovié­ticos encontraram e guardaram os painéis em algum lugar desconheci­do por todos que estão no poder atualmente. Dado o simples volume do que foi saqueado, isso é totalmente possível. Mas dado o valor e o desejo de retorno do tesouro, não é provável.

O visitante parecia conhecer bem o assunto. Borya tinha relido todas essas teorias mais cedo. Olhou intensamente para o rosto de granito, mas os olhos vazios não traíam coisa alguma do que o alemão pensava. Lembrou-se do treino necessário para levantar uma barreira tão completa.

- O senhor não se preocupa com a maldição? Knoll riu.

Já ouvi falar. Mas essas coisas são para os desinformados ou os sensacionalistas.

Como fui grosseiro! - disse Borya de repente. - O senhor quer uma bebida?

- Seria bom.

- Já volto. - O velho sinalizou para a gata na poltrona. - Lucy lhe fará companhia.

Foi em direção à cozinha e lançou um último olhar ao visitante antes de passar pela porta de vaivém. Encheu dois copos com gelo e serviu um pouco de chá. Também colocou na geladeira o filé ainda mergu­lhado no tempero. Na verdade, não estava mais com fome, a mente emdisparada, como nos velhos tempos. Olhou para a pasta com artigos derevistas, ainda na bancada.

- Sr. Borya? - gritou Knoll.

A voz foi acompanhada por passos. Talvez fosse melhor que os artigos permanecessem sem ser vistos. Borya abriu rapidamente a geladeirae pôs a pasta na prateleira de cima, perto do congelador. Fechou a portano instante em que Knoll passou pela porta de vaivém e entrou na cozinha.

Sim, Herr Knoll?

Posso usar seu toalete?

No corredor. Depois da sala íntima.

Obrigado.

Nem por um instante Borya acreditou que Knoll precisasse usar o banheiro. Era mais provável que quisesse trocar a fita no gravador de bolso sem se preocupar em ser interrompido, ou usar a oportunidade paradar uma olhada na casa. Era um truque que ele utilizara muitas vozes nos velhos tempos. O alemão estava ficando irritante. Decidiu se divertir um pouco. No armário embaixo da pia, pegou um laxante que seus intestinos idosos o obrigavam a tomar pelo menos duas vezes por semana. Jogou os grânulos sem sabor num dos copos de chá e mexeu. Agora o sacana realmente precisaria ir ao banheiro.

Levou os copos gelados à sala íntima. Knoll voltou e aceitou o chá, teimando vários goles compridos.

- Excelente - disse Knoll. - Uma bebida realmente americana. Chá gelado.

Temos orgulho disso.

Temos? O senhor se considera americano?

Estou aqui há muitos anos. Agora é o meu lar.

A Bielo-Rússia não está independente de novo?

- Os líderes de lá não são melhores que os soviéticos. Suspenderam a constituição. Não passam de ditadores.

O povo não deu ao presidente da Bielo-Rússia esse nível de poder?

A Bielo-Rússia é mais como uma província da Rússia, essa não é uma independência verdadeira. A escravidão demora séculos para ser eliminada.

- O senhor parece não gostar de alemães nem de comunistas.

Borya estava cansado da conversa, lembrando-se do quanto odia­va os alemães.

- Dezesseis meses num campo de extermínio podem mudar nossa opinião.

Knoll terminou o chá. Os cubos de gelo fizeram barulho quando o copo bateu na mesa.

Borya continuou:

Os alemães e os comunistas estupraram a Bielo-Rússia e a Rússia. Os nazistas usaram o palácio de Catarina como alojamento, depois como alvo de tiros. Visitei o lugar depois da guerra. Pouco restava da beleza regia. Os alemães não tentaram destruir a cultura russa? Bom­bardearam os palácios até os alicerces para nos ensinar uma lição.

Não sou nazista, Sr. Borya, portanto não posso responder à sua pergunta.

Passou-se um momento de silêncio tenso. Então Knoll perguntou:

Por que não paramos de discutir? O senhor encontrou a Sala de Âmbar?

Como falei, a sala se perdeu para sempre.

Por que será que não acredito? Borya deu de ombros.

Sou um velho. Vou morrer logo. Não tenho motivo para mentir.

De algum modo duvido desta última observação, Sr. Borya.

Borya sustentou o olhar de Knoll.

- Vou lhe contar uma história que talvez ajude em sua busca. Meses antes de Mauthausen cair, Göring veio ao campo. Me obrigou a tortu­rar quatro alemães. Göring mandou amarrá-los a estacas num frio congelante. Derramamos água sobre eles até morrerem.

- E qual era o objetivo?

Göring queria das Bernstein-zimmer. Os quatro homens estavam entre os que tiraram os painéis de Königsberg antes da invasão dos russos. Göring queria a Sala de Âmbar, mas Hitler pegou primeiro.

Algum dos soldados revelou qualquer informação?

- Nada. Só gritaram "Mein Führer" até morrerem congelados. Al­gumas vezes ainda vejo os rostos congelados nos meus sonhos. O estranho, Sr. Knoll, é que de certo modo eu devo a vida a um alemão.

Como assim?

Se um dos quatro tivesse falado, Göring teria me amarrado à estaca eme matado utilizando o mesmo método. - Borya estava cansado delembrar. Queria o sacana fora de sua casa antes que o laxante fizesse efeito. - Odeio os alemães, Herr Knoll. Odeio os comunistas. Não disse nada à KGB. Não vou lhe dizer nada. Agora vá.

Knoll pareceu sentir que seria infrutífero perguntar mais e se le­vantou.

- Muito bem, Sr. Borya. Não se pode dizer que eu o pressionei. De­sejo-lhe boa noite.

Foram até o saguão e Borya abriu a porta. Knoll saiu, virou-se e es­tendeu a mão. Um gesto casual, aparentemente mais por educação que por dever.

- Foi um prazer, Sr. Borya.

O velho pensou de novo no soldado alemão, Mathias, nu no frio congelante, e em como ele reagira a Göring. Cuspiu na mão estendida.

Knoll não disse nada, nem se moveu durante alguns segundos. En­tão, calmamente, o alemão pegou um lenço no bolso da calça e enxu­gou o cuspe enquanto a porta era batida na sua cara.

 

21H35

Borya mais uma vez examinou a matéria da International Art Review e encontrou a parte da qual se lembrava:

 

...Alfred Rohde, o homem que supervisionou a evacuação da Sala de Âmbar de Königsberg, foi preso logo depois da guerra e levado a autoridades soviéticas. A chamada Comissão Extraordinária de Estado para Investigar os Danos Causados pelos Invasores Fascistas Alemães procurava a Sala de Âmbar e queria respostas. Mas Rohde e sua esposa foram encontrados mortos na manhã em que deveriam ser interrogados. A causa oficial, plausível, foi disenteria, já que na época as epidemias grassavam devido à água poluída, mas abundaram especulações de que tinham sido mortos para proteger a localização da Sala de Âmbar.

No mesmo dia, o Dr. Paul Erdmann, o médico que assinou os atestados de óbito dos Rohde, desapareceu.

Erich Koch, representante pessoal de Hitler na Prússia, acabou sendo preso e julgado pelos poloneses por crimes de guerra. Koch foi condenado à morte em 1946, mas sua execução foi continuamente adiada a pedido de autoridades soviéticas. Acreditava-se amplamente que Koch era o único homem vivo que sabia do paradeiro dos caixotes que saíram de Königsberg, era 1945. Paradoxalmente, a sobrevivência de Koch dependia de ele não revelar o paradeiro, já que não havia motivo para acreditar que os soviéticos interviriam a seu favor quando possuíssem de novo a Sala de Âmbar.

Em 1965, os advogados de Koch finalmente obtiveram dos soviéticos a garantia de que sua vida seria poupada quando a informação fosse revelada. Então Koch anunciou que os caixotes foram emparedados num bunker perto de Königsberg, mas afirmou que não podia lembrar o local exato, em resultado da reconstrução feita pelos soviéticos depois da guerra. Foi para a sepultura sem revelar onde os painéis estavam.

Nas décadas seguintes, três jornalistas da Alemanha Ocidental morreram misteriosamente enquanto procuravam a Sala de Âmbar. Um caiu no poço de uma mina de sal abandonada na Áustria, local supostamente usado como depósito de saques nazistas. Dois outros foram mortos atropelados. George Stein, pesquisador alemão que investigou durante muito tempo a Sala de Âmbar, supostamente cometeu suicídio. Todos esses acontecimentos alimentaram as especulações de uma maldição associada à Sala de Âmbar, tornando ainda mais intrigante a busca ao tesouro.

Borya estava no andar de cima, no quarto que fora de Rachel. Agora era um escritório onde ele mantinha seus livros e documentos. Havia uma antiga escrivaninha, um arquivo de carvalho e uma poltrona em que ele gostava de sentar e relaxar. Quatro estantes de nogueira guardavam romances, tratados históricos e literatura clássica.

Tinha subido depois do jantar, ainda pensando em Christian Knoll, e encontrou mais artigos numa das pastas. Todos eram curtos, na maioria, espalhafatosos, sem conter informações reais. O resto continuava na geladeira. Precisava pegá-los, mas não sentiu vontade de descer a escada de novo.

No geral, os relatos dos jornais e revistas sobre a Sala de Âmbar eram contraditórios. Um dizia que os painéis desapareceram em janeiro de 1945, outro em abril. Tinham saído em caminhões, de trem ou pelo mar? Diferentes escritores ofereciam diferentes pontos de vista. Um relato dizia que os soviéticos tinham torpedeado o Wilhelm Gustloff, afundando-o no Báltico com os painéis, outro mencionava que o navio fora bombardeado pelo ar. Um tinha certeza de que 72 caixotes tinham saído de Königsberg, o seguinte falava de 26, outro de 18. Vários relatos tinham certeza de que os painéis tinham sido queimados em Königsberg durante o bombardeio. Outro rastreava pistas dando a entender que tinham atravessado o Atlântico sub-repticiamente até os listados Unidos. Era difícil extrair qualquer coisa útil, e nenhum artigo jamais mencionava a fonte das informações. Poderiam ser de segunda ou terceira mão. Ou, pior ainda, pura especulação.

Apenas uma publicação obscura, O Historiador Militar, contava a história de um trem que saíra da Rússia ocupada por volta de 1º. de maio de 1945 com a Sala de Âmbar supostamente encaixotada a bordo. Relatos de testemunhas diziam que os caixotes tinham sido descarregados na minúscula cidade de Tynecnad-Sázavou, na Tchecoslováquia. Dali supostamente foram mandados de caminhão para o sul e guardados num bunker subterrâneo que abrigava o quartel-general do marechal-de-campo von Schörner, comandante dos milhões de soldados do exército alemão, ainda esperando na Tchecoslováquia. Mas a matéria dizia que uma escavação no bunker, feita pelos soviéticos em 1989, não encontrou coisa alguma.

Perto da verdade, pensou ele. Bem perto.

Há sete anos, quando lera pela primeira vez o artigo, tinha imaginado qual seria a fonte, até mesmo tentara contatar o autor, mas não teve sucesso. Agora um homem chamado Wayland McKoy estava se enfiando nas montanhas Harz, perto de Stod, Alemanha. Estaria na pista certa? A única coisa clara era que pessoas tinham morrido procurando a Sala de Âmbar. O que aconteceu com Alfred Rhode e Erich Koch era história documentada. Assim como as outras mortes e desaparecimentos. Coincidência? Talvez. Mas Borya não tinha tanta certeza. Particularmente devido ao que acontecera há nove anos. Como poderia esquecer? A lembrança o assombrava toda vez que via Paul Cutler. E muitas vezes se perguntava se dois outros nomes não deveriam ser acrescentados à lista de baixas.

Um guincho veio do corredor.

Não era um som que a casa costumava fazer quando vazia.

Ergueu os olhos, esperando ver Lucy entrar na sala, mas a gata não estava à vista. Pôs os artigos de lado e se levantou da poltrona. Foi arrastando os pés até o saguão do segundo andar e olhou para o saguão de baixo, do outro lado de uma balaustrada de carvalho. As estreitas luzes laterais que emolduravam a porta da frente estavam apagadas, o térreo iluminado por uma única lâmpada na sala íntima. O andar de cima também estava escuro, a não ser pelo abajur de pé, no escritório. Logo adiante, a porta de seu quarto estava aberta, o cômodo escuro e silencioso.

- Lucy? Lucy?

A gata não respondeu. Ele tentou ouvir. Não houve mais sons. Tudo parecia silencioso. Virou-se e começou a voltar para o escritório. De repente, alguém o atacou por trás, saindo do quarto. Antes que pudesse se virar, um braço forte envolveu seu pescoço, tirando-o do chão. O cheiro de látex exalava das mãos enluvadas.

- Können wir reden mehr, Yxo.

A voz era do visitante, Christian Knoll. Borya traduziu facilmente.

Agora falaremos mais, Ouvidos.

Knoll apertou sua garganta com força e a respiração falhou.

- Russo desgraçado. Cuspiu na minha mão. Quem você acha que é, porra? Já matei por muito menos.

Borya ficou quieto, com a experiência de toda uma vida alertando para o silêncio.

- Você vai contar o que quero saber, velho, ou eu o mato. Borya se lembrou de palavras semelhantes ditas há 52 anos. Göring informando aos soldados nus sobre seu destino antes que a água fosse derramada. O que foi mesmo que o soldado alemão, Mathias, tinha dito?

É uma honra desafiar quem nos capturou.

Verdade, ainda era.

- Você sabe onde Chapaev está, não sabe?

Borya tentou balançar a cabeça.

O aperto de Knoll ficou mais forte.

- Você sabe onde está das Bernstein-zimmer, não sabe?

Ele estava quase desmaiando. Knoll afrouxou o aperto. O ar entrou nos pulmões num jorro.

- Não sou uma pessoa a ser desconsiderada. Viajei de longe em busca de informações.

- Não digo nada.

- Tem certeza? Mais cedo, você disse que seu tempo era curto. Agora é mais curto do que você imaginava. E sua filha? Seus netos? Não gostaria de mais alguns anos com eles?

Borya gostaria, mas não o bastante para ser acovardado por um alemão.

- Vá se foder, Herr Knoll.

Seu corpo frágil foi jogado por cima da escada. Ele tentou gritar, mas antes que conseguisse juntar o fôlego, bateu a cabeça nos degraus de carvalho e rolou. Seus membros se esparramaram. Braços e pernas bateram nas hastes do corrimão enquanto a gravidade o fazia dar cambalhotas. Algo estalou. A consciência sumiu e voltou. A dor rasgou suas costas. Por fim, bateu com a coluna no ladrilho duro, uma agonia se irradiando pela parte superior do corpo. As pernas estavam entorpecidas. O teto girou. Ouviu Knoll descendo a escada, então o viu abaixar a mão e puxá-lo pelos cabelos. Irônico. Ele devia a vida a um alemão, e agora um alemão ia tirá-la.

- Dez milhões de euros é uma coisa. Mais nenhum sacana russo vai cuspir em mim.

Borya tentou juntar saliva para cuspir de novo, mas a boca estava seca, o queixo imobilizado.

O braço de Knoll envolveu seu pescoço.

 

Suzanne Danzer olhava pela janela e ouviu o estalo quando Knoll partiu o pescoço do velho. Viu o corpo se afrouxar, a cabeça deixada num ângulo não natural.

Então Knoll jogou Borya de lado e chutou o peito do velho.

Ela havia seguido o rastro de Knoll de manhã, depois de chegar a Atlanta num vôo vindo de Praga. As ações dele até então tinham sido previsíveis, e ela inicialmente o localizou enquanto percorria o bairro numa missão de batedor. Qualquer adquirente com competência sempre examinava primeiro a paisagem, certificando-se de que uma pista não fosse uma armadilha.

E, independentemente de qualquer coisa, Knoll era bom.

Tinha ficado no hotel no centro da cidade durante a maior parte do dia, e ela o havia seguido antes, quando visitou Borya pela primeira vez. Mas, em vez de voltar ao hotel, Knoll esperou num carro a três quarteirões de distância e voltou depois do escurecer. Ela havia observado ele entrar por uma porta dos fundos, que aparentemente estava destrancada, já que a maçaneta girou à primeira tentativa.

Obviamente, o velho não quis cooperar. O temperamento de Knoll era lendário. Havia lançado Borya escada abaixo com a casualidade de alguém que jogava um papel numa lixeira, depois quebrou o pescoço com um prazer visível. Ela respeitava os talentos do adversário, sabia sobre o punhal que ele usava no antebraço e a capacidade de usá-lo sem hesitação.

Mais ela própria não era desprovida de talentos.

Knoll se levantou e olhou ao redor.

O ponto de observação de Suzanne permitia ver com clareza. O macacão preto e o gorro preto que ela usava sobre o cabelo louro ajudavam a fundi-la à noite. A sala para onde a janela dava, uma sala de estar, estava com as luzes apagadas.

Será que ele sentiu sua presença?

Encolheu-se abaixo do parapeito e dos altos azevinhos que rodeavam a casa. O suor se juntava em gotas na testa, por baixo do elástico do gorro. Ergueu-se cautelosamente e viu Knoll desaparecer escada acima. Seis minutos depois, ele retornou com as mãos vazias. O paletó estava de novo ajeitado, a gravata, perfeita. Suzanne ficou olhando enquanto ele se abaixava e verificava a pulsação de Borya e depois ia para os fundos da casa. Alguns segundos depois, escutou uma porta se abrir e fechar.

Esperou dez minutos antes de se esgueirar até os fundos. Com as mãos enluvadas, virou a maçaneta e entrou. O cheiro de anti-séptico e velhice pairava no ar. Atravessou a cozinha e foi até o saguão.

Na sala de jantar, um gato atravessou seu caminho de repente. Ela parou, com o coração acelerado, e xingou a criatura.

Respirou fundo e entrou na sala íntima.

A decoração não mudara desde sua última visita, há três anos. O mesmo sofá com encosto em corcova, o relógio de parede com carrilhão e abajures Cambridge de ferro. As litografias nas paredes tinham-na intrigado desde o início. Havia imaginado se alguma poderia ser original, mas uma inspeção atenta na última vez revelou que todas eram cópias. Tinha invadido a casa numa noite depois de Borya sair, e a busca não revelou nada sobre a Sala de Âmbar além de algumas matérias de jornais e revistas. Nada de valor. Se Karol Borya sabia algo importante sobre a Sala de Âmbar, certamente não havia anotado ou não mantinha as informações nesta casa.

Passou pelo corpo no saguão e subiu a escada. Outra verificação rápida no escritório não revelou coisa alguma além de que aparentemente Borya estivera lendo alguns materiais sobre a Sala de Âmbar recentemente. Vários artigos estavam espalhados na mesma poltrona castanha da qual ela se lembrava.

Esgueirou-se de volta para o andar de baixo.

O velho estava caído com o rosto no piso. Verificou a pulsação. Nenhuma.

Ótimo.

Knoll havia lhe poupado o trabalho.

 

DOMINGO, 11 DE MAIO,

8H35

Rachel parou o carro na entrada de veículos do pai. O céu da manhã de maio era de um azul convidativo. A porta da garagem estava levantada, com o Oldsmobile descansando do lado de fora, o orvalho brilhando no exterior marrom. A visão era estranha, já que seu pai geralmente guardava o carro.

A casa tinha mudado pouco desde sua infância. Tijolos vermelhos, acabamento branco, telhado de tábuas cor de carvão. As magnólias e os cornisos na frente, plantados há vinte anos quando a família se mudara para ali, agora eram altos e fartos junto com azevinhos e juníperos que envolviam a frente e as laterais. O exterior precisava de cuidados, e ela fez uma anotação mental de falar com o pai sobre isso.

Parou e as crianças saíram correndo para a porta dos fundos.

Verificou o carro do pai. Destrancado. Balançou a cabeça. Ele simplesmente se recusava a trancar qualquer coisa. O Constitution da manhã estava caído na entrada e ela foi pegá-lo, depois seguiu pelo caminho de concreto até os fundos. Maria e Brent estavam chamando Lucy no quintal.

A porta da cozinha também estava destrancada. A luz sobre a pia estava acesa. Por mais que seu pai fosse descuidado com as fechaduras, era absolutamente neurótico com as luzes, só acendendo alguma quando era totalmente necessário. Sem dúvida a teria desligado na noite passada, antes de ir dormir. Chamou:

- Papai? Está aí? Quantas vezes tenho de dizer para não deixar a porta destrancada?

As crianças chamaram Lucy, depois passaram pela porta de vaivém em direção à sala de jantar e à sala íntima.

- Papai? - sua voz saiu mais alta.

Marla correu de volta para a cozinha.

- Vovô está dormindo no chão.

- O quê?

- Ele está dormindo no chão perto da escada.

Rachel correu da cozinha para o saguão. O ângulo estranho do pescoço do pai lhe disse instantaneamente que ele não estava dormindo.

 

- Bem-vindo ao Museu de Arte High - dizia o recepcionista a cada pessoa que passava pelas amplas portas de vidro. - Bem-vindo. Bem-vinda. - Pessoas continuavam passando pela roleta, uma a uma. Paul esperou sua vez na fila.

- Bom dia, Sr. Cutler - disse o recepcionista. - Não precisava esperar. Por que não passou na frente?

- Não seria justo, Sr. Braun.

- Os membros da diretoria devem ter algum privilégio, não é? Paul sorriu.

- Seria de se pensar. Há um repórter aí me esperando? Eu deveria encontrá-lo às dez horas.

- Sim. O sujeito está na galeria da frente desde que eu abri.

Paul se afastou, com os saltos de couro fazendo barulho no terraço brilhante. O átrio com altura de quatro andares era aberto até o teto, Com rampas semicirculares para pedestres circulando as enormes paredes em cada andar. Pessoas andavam de um lado para o outro e o rumor de conversas baixas flutuava pelo ar-condicionado.

Ele não podia pensar num modo melhor de passar uma manhã de domingo do que no museu. Nunca fora de ir à igreja. Não que não acreditasse. Só que admirar as verdadeiras realizações humanas parecia mais satisfatório do que ponderar sobre algum ser onipotente. Rachel era igual. Freqüentemente ele se perguntava se a atitude laica dos dois com relação à religião afetava Maria e Brent. Talvez as crianças precisassem ser expostas à crença, argumentou uma vez. Mas Rachel havia discordado. Deixe que eles se decidam quando quiserem. Era ferrenhamente anti-religiosa.

Apenas mais uma das discussões entre os dois. Foi até a galeria da frente, cujas telas eram uma amostra hipnotizante do que esperava no resto do prédio. O repórter, um homem magro, de aparência agitada, com barba crespa e uma bolsa de máquina fotográfica pendurada no ombro direito, estava diante de um grande óleo.

- Você é Gale Blazek?

O rapaz se virou e assentiu.

- Paul Cutler. - Os dois se cumprimentaram e ele sinalizou a pintura. - Linda, não é?

- A última de Del Sarto, acredito - respondeu o repórter.

Ele assentiu.

- Tivemos a sorte de convencer um colecionador particular a nos emprestar por um tempo, junto com várias outras ótimas telas. Estão no segundo andar, com o restante dos italianos dos séculos XIV e XVIII.

- Farei questão de vê-las antes de ir embora.

Paul notou o enorme relógio de parede. 10hl5.

- Desculpe o atraso. Por que não caminhamos um pouco e você pode fazer suas perguntas?

O sujeito sorriu e pegou um mini-gravador na bolsa a tiracolo. Os dois andaram pela ampla galeria.

- Vou direto ao ponto. Há quanto tempo o senhor faz parte da diretoria do museu? - perguntou o repórter.

- Nove anos.

- É colecionador?

Ele riu.

- De jeito nenhum. Tenho apenas alguns óleos pequenos e algumas aquarelas. Nada substancial.

- Disseram-me que seus talentos estão em organizar. A administração fala muito bem do senhor.

- Adoro o trabalho voluntário. Este lugar é especial para mim. Um ruidoso grupo de adolescentes veio do mezanino.

- O senhor tem formação em arte?

Ele balançou a cabeça.

- Na verdade, não. Tenho bacharelado em ciência política em Emory e fiz alguns cursos de história da arte. Então descobri o que os historiadores da arte fazem e fui para a escola de direito. - Paul deixou de fora a parte sobre não ter sido aceito na primeira tentativa. Não por vaidade, só que depois de treze anos isso realmente não importava mais.

Passaram perto de duas mulheres admirando uma tela de Santa Maria Madalena.

- Quantos anos o senhor tem? - perguntou o repórter.

- Quarenta e um.

- É casado?

- Divorciado.

- Eu também. Como está se virando com isso?

Ele deu de ombros. Não precisava fazer qualquer comentário sobre isso enquanto estava sendo gravado.

- Eu me viro bem.

Na verdade, o divórcio significava um frugal apartamento de dois quartos e jantares sozinho ou com colegas de trabalho, a não ser nas duas noites por semana em que comia com as crianças. Os contatos sociais se restringiam às funções da ordem dos advogados do Estado, único motivo pelo qual ele atuava em tantos comitês, algo para ocupar o tempo livre e as semanas alternadas em que não ficava com as crianças. Rachel era boa com relação às visitas. Na verdade, elas podiam acontecer a qualquer momento. Mas ele não queria interferir no relacionamento dela com as crianças e entendia o valor de uma programação e da necessidade de coerência.

- Que tal se descrever um pouco?

- Perdão?

- É algo que pergunto a todas as pessoas sobre quem escrevo. Elas podem fazer isso muito melhor que eu. Quem melhor para conhecê-lo do que o senhor mesmo?

- Quando o administrador me pediu para dar esta entrevista e mostrar o lugar, achei que a matéria era sobre o museu, e não sobre mim.

- E é. Para a revista do Constitution do domingo que vem. Mas o editor quer alguns boxes sobre pessoas fundamentais. As personalidades por trás das mostras.

- Que tal os curadores?

- O administrador disse que o senhor é uma das figuras centrais por aqui. Alguém com quem ele realmente pode contar.

Paul parou. Como poderia se descrever? Um 1,78 metro, cabelos castanhos, olhos castanho-claros. Físico de alguém que corre cinco quilômetros por dia? Não.

- Que tal rosto comum num corpo comum com personalidade comum? Confiável. O tipo de cara com quem você gostaria de estar, numa trincheira.

- O tipo de cara que se certifica de que a propriedade da gente seja bem cuidada depois de a gente ter morrido?

Ele não dissera nada sobre ser advogado de sucessões. Obviamente, o repórter tinha feito o dever de casa.

- Algo assim.

- O senhor falou de trincheiras. Prestou serviço militar?

- Minha geração é posterior à época do alistamento obrigatório. Pós-Vietnã e coisa e tal.

- Há quanto tempo exerce a advocacia?

- Já que você sabe que sou advogado de sucessões, presumo que também saiba há quanto tempo exerço a profissão.

- Na verdade, esqueci de perguntar. Resposta honesta. Bastante justa.

- Estou na Pridgen & Woodworth há treze anos.

- Seus sócios falam muito bem do senhor. Conversei com eles na sexta-feira.

Paul ergueu uma sobrancelha, perplexo.

- Ninguém mencionou nada sobre isso.

- Pedi para não mencionarem. Pelo menos até hoje. Queria que nossa conversa fosse espontânea.

Mais freqüentadores entraram. A sala estava ficando apinhada e barulhenta.

- Por que não vamos até a Galeria Edwards? Tem menos gente. Há algumas esculturas excelentes expostas.

Paul foi na frente, passando pelo mezanino. A luz do sol jorrava pelas passarelas através de altos painéis de vidro grosso, que pareciam renda numa edificação de porcelana branca. Um gigantesco desenho a tinta cor de rubi enfeitava a parede norte. O aroma de café e amêndoas vinha de uma lanchonete aberta.

Magnífico - disse o repórter olhando ao redor. - Como foi que o New York Times chamou? O melhor museu que uma cidade construiu durante uma geração?

- Ficamos satisfeitos com o entusiasmo deles. Ajudou a trazer obras para as galerias. Os doadores se sentiram imediatamente confortáveis conosco.

Adiante estava um polido monólito de granito vermelho no centro do átrio. Paul foi instintivamente na direção dele, jamais passando por ali sem parar um momento. O repórter foi atrás. Uma lista de 29 nomes estava gravada na pedra. Seus olhos sempre gravitavam até o centro:

 

YANCY CUTLER

4 DE JUNHO DE 1936 - 23 DE OUTUBRO DE 1998

ADVOGADO DEDICADO

PATRONO DAS ARTES

AMIGO DO MUSEU

 

MARLENE CUTLER

14 DE MAIO DE 1938 - 23 DE OUTUBRO DE 1998

ESPOSA DEDICADA

PATRONA DAS ARTES

AMIGA DO MUSEU

 

- Seu pai foi da diretoria, não foi? - perguntou o repórter.

- Durante trinta anos. Ajudou a levantar dinheiro para este prédio. Minha mãe também era ativa.

Ficou em silêncio. Reverente, como sempre. Aquele era o único memorial que existia para os pais. O airbus explodira sobre o mar. Vinte e nove pessoas morreram. Toda a diretoria do museu, cônjuges e vários funcionários. Nenhum corpo foi achado. Nenhuma explicação para a causa, além de uma conclusão das autoridades italianas de que terroristas separa listas tinham sido responsáveis. O Ministro de Antigüidades da Itália, a bordo, seria o alvo. Yancy e Marlene Cutler estavam simplesmente no lugar errado na hora errada.

- Eram boas pessoas - disse ele. - Todos sentimos falta.

Virou-se guiando o repórter para a Galeria Edwards. Uma curadora-assistente veio correndo pelo átrio.

- Sr. Cutler, por favor, espere. - A mulher se aproximou com uma expressão preocupada. - Acabamos de receber um telefonema para o senhor. Sinto muito. Seu ex-sogro faleceu.

 

ATLANTA, GEÓRGIA

TERÇA-FEIRA, 13 DE MAIO

Karol Borya foi enterrado às onze horas, numa manhã de primavera nublada e com um frio penetrante, o que era incomum para maio. O funeral foi concorrido. Paul fez as honras, apresentando três antigos amigos de Borya que fizeram discursos comoventes. Em seguida, também disse algumas palavras.

Rachel estava de pé na frente, com Maria e Brent ao lado. O sacerdote da igreja ortodoxa de São Methodius, usando mitra, presidiu a cerimônia, já que Karol tinha sido freqüentador da paróquia. A cerimônia aconteceu sem pressa, lacrimosa e enfatizada por um coro cantando Tchaikovsky e Rachmaninov. O enterro foi no cemitério ortodoxo adjacente à igreja, um terreno de argila vermelha e grama bermuda sombreado por sicômoros cheios de musgo. Enquanto o caixão era baixado, as últimas palavras do sacerdote soaram verdadeiras:

- Do pó vieste, ao pó retornas.

Ainda que tivesse adotado totalmente a cultura americana, Borya sempre mantivera uma conexão religiosa com sua pátria, seguindo rigidamente a doutrina ortodoxa. Paul não se lembrava do sogro como um homem explicitamente devoto, apenas alguém que acreditava solenemente e transferia essa crença para uma vida boa. O velho havia mencionado muitas vezes que gostaria de ser enterrado na Bielo-Rússia, em meio aos bosques de faias, aos pântanos e aos campos ondulados cobertos de flores azuis do linho. Seus pais e irmãos estavam em covas coletivas cuja localização exata morrera com os oficiais da SS e soldados alemães que os trucidaram. Paul pensou em falar com alguém do Departamento de Estado sobre a possibilidade de um enterro no estrangeiro, mas Rachel vetou a idéia, dizendo que queria o pai e a mãe por perto. Rachel também insistiu em que a reunião pós-enterro acontecesse em sua casa, e cerca de setenta e poucas pessoas chegaram e saíram num intervalo de duas horas. Vizinhos trouxeram comida e bebida. Ela conversou educadamente com todo mundo, aceitou os pêsames e agradeceu.

Paul a observava atentamente. Ela parecia estar agüentando bem. Por volta das duas horas, desapareceu no andar de cima. Ele a encontrou no antigo quarto dos dois, sozinha. Fazia tempo que não entrava ali.

- Você está bem? - perguntou.

Ela estava sentada na beira da cama de dossel, olhando para o tapete, os olhos inchados de chorar. Paul chegou mais perto.

- Eu tinha consciência de que esse dia chegaria - disse ela. - Agora os dois se foram. - Fez uma pausa. - Eu me lembro de quando mamãe morreu. Achei que era o fim do mundo. Não pude entender por que ela foi levada.

Paul havia se perguntado freqüentemente se essa seria a fonte das crenças anti-religiosas dela. Ressentimento contra um Deus supostamente misericordioso que podia implacavelmente privar uma menininha de sua mãe. Queria abraçá-la, reconfortá-la, dizer que a amava e sempre amaria. Mas ficou imóvel, lutando contra as lágrimas.

- Ela sempre lia para mim. Estranho, mas o que mais recordo é a voz. Tão gentil! E as histórias que ela contava. Apolo e Dafne. As batalhas de Perseu, Jasão e Medéia. Todas as outras crianças ouviam contos de fadas. - Rachel deu um sorriso débil. - Eu escutava mitologia.

O comentário foi uma das raras vezes em que ela mencionou algo específico sobre a infância. Não gostava de abordar o assunto e, no passado, tinha deixado claro que considerava qualquer pergunta uma intromissão.

- É por isso que você lê o mesmo tipo de coisa para nossos filhos?

Ela enxugou as lágrimas das bochechas e confirmou com a cabeça.

- Seu pai era um homem bom. Eu gostava demais dele.

- Mesmo a gente não tendo dado certo, ele sempre considerou você um filho. Disse que sempre consideraria. - Ela o encarou. - O maior desejo dele era que nós dois voltássemos a ficar juntos.

O de Paul também, mas ele ficou quieto.

- Parece que você e eu só fazíamos brigar - disse ela. - Duas pessoas teimosas.

Ele precisou dizer:

- Não era só isso que fazíamos.

Ela deu de ombros.

- Você sempre foi o otimista da casa.

Paul notou a foto de família, posta em ângulo em cima da cômoda. Tinham tirado um ano antes do divórcio. Ele, Rachel e as crianças. A foto de casamento também estava ali, como a do andar de baixo.

- Sinto muito sobre a noite de terça-feira - disse ela. - O que falei quando você saiu. Sabe como minha boca é, algumas vezes.

- Eu não devia ter pegado no seu pé. O que aconteceu com o Nettles não é da minha conta.

- Não, você está certo. Eu reagi exageradamente com ele. Meu temperamento me traz problemas. - Ela enxugou mais lágrimas. - Tenho coisas demais para fazer. Este verão vai ser difícil. Não estava planejando uma disputa desta vez. E agora, isso.

Paul não verbalizou o óbvio. Talvez, se ela exercesse um pouquinho de diplomacia, os advogados não se sentissem tão ameaçados.

- Olhe, Paul, você pode cuidar do espólio de papai? Simplesmente não posso lidar com isso agora.

Ele estendeu a mão e apertou de leve o ombro dela. Ela não resistiu ao gesto.

- Claro.

A mão de Rachel foi até a dele. Era a primeira vez que se tocavam em meses.

- Confio em você. Sei que vai fazer o que é certo. Ele ia querer que você cuidasse das coisas. Papai respeitava você.

Ela retirou a mão.

Ele também. Começou a pensar como advogado. Qualquer coisa que afastasse a mente da situação.

- Você sabe onde está o testamento?

- Procure pela casa. Provavelmente no escritório. Pode estar no cofre dele no banco. Não sei. Ele me deu a chave.

Rachel foi até a penteadeira. Rainha do Gelo? Não para ele. Paul se lembrou do primeiro encontro, há doze anos, numa reunião da ordem dos advogados de Atlanta. Ele era um quieto advogado em seu primeiro ano na Pridgen & Woodworth. Ela era uma agressiva promotora-assistente. Namoraram por dois anos até que ela finalmente sugeriu que se casassem. No início, foram felizes e os anos passaram depressa. O que deu errado? Por que as coisas não podiam ser boas de novo? Talvez ela estivesse certa. Talvez fossem melhores amigos do que amantes.

Ele esperava que não.

Pegou as chaves do cofre das mãos de Rachel e disse:

- Não se preocupe, Rach. Cuidarei de tudo.

 

Saiu da casa de Rachel e foi direto à de Karol Borya. Era uma viagem de menos de meia hora por uma combinação de movimentados bulevares comerciais e confusas ruas de bairro.

Parou na entrada de veículos e viu o Odsmobile de Borya aninhado na garagem. Rachel tinha lhe dado a chave da casa e ele destrancou a porta da frente. Os olhos foram imediatamente atraídos para os ladrilhos do saguão, depois para as hastes do corrimão da escada, algumas partidas ao meio, outras se projetando em ângulos estranhos. Os degraus de carvalho não tinham qualquer evidência de impacto, mas a polícia disse que o velho se chocou contra um deles e caiu para a morte, com o pescoço de 81 anos se partindo no processo. Uma autópsia confirmou os ferimentos e a causa aparente. Acidente trágico.

Parado em meio ao silêncio, uma estranha combinação de arrependimento e tristeza o fez estremecer. Sempre gostara de ir ali, falar de arte e dos Bravos. Agora o velho tinha morrido. Outro elo com Rachel se partira. Mas um amigo também se fora. Borya era como um pai para ele. Tinham se tornado especialmente ligados depois que os pais de Paul foram mortos. Borya e seu pai tinham sido bons amigos, ligados pela arte. Agora lembrou-se dos dois com uma pontada no coração.

Homens bons que se foram para sempre.

Decidiu seguir o conselho de Rachel e procurar primeiro no escritório, no andar de cima. Sabia que existia um testamento. Ele o havia redigido há alguns anos e duvidava que Borya tivesse procurado qualquer outra pessoa para modificar a redação. Certamente havia uma cópia arquivada na empresa e, se necessário, ele poderia usá-la. Mas o original passaria mais rápido pelo tribunal de sucessões.

Subiu a escada e examinou o escritório. Havia artigos de revistas espalhados na poltrona, alguns no tapete. Folheou as páginas. Eram todas sobre a Sala de Âmbar. Borya tinha abordado o assunto muitas vezes ao longo dos anos, e sua convicção eram as palavras de um russo branco que ansiava por ver o tesouro devolvido ao palácio de Catarina. Mas, afora isso, Paul não havia percebido o interesse intenso do velho, aparentemente o bastante para colecionar artigos e recortes que remontavam a trinta anos.

Examinou as gavetas da escrivaninha e os arquivos, e não encontrou nenhum testamento.

Olhou as estantes. Borya adorava ler. Homero, Hugo, Poe e Tolstoi enchiam as estantes, junto com um volume de contos de fadas russos, uma coleção das Histórias, de Churchill, e um exemplar encadernado em couro das Metamorfoses, de Ovídio. Também parecia gostar de escritores sulistas, obras de Flannery O'Connor e Katherine Anne Porter faziam parte da coleção.

Seus olhos foram atraídos para a flâmula na parede. O velho a havia comprado num quiosque no Centennial Park durante os Jogos Olímpicos. Um cavaleiro cor de prata num cavalo empinado, espada embainhada, uma cruz de ouro, de seis pontas, adornando o escudo. O fundo era vermelho-sangue, símbolo de valor e coragem, segundo Borya, com acabamento em branco para indicar liberdade e pureza. Era o emblema nacional da Bielo-Rússia, um desafiador símbolo de autodeterminação.

Muito parecido com o próprio Borya.

Borya tinha adorado os Jogos Olímpicos. Eles foram a vários eventos e estavam lá quando a Bielo-Rússia ganhou o ouro no remo feminino. O país ganhou quatorze outras medalhas - seis de prata e oito de bronze, no disco, heptatlo, ginástica e luta greco-romana - e Borya sentiu orgulho de cada uma delas. Mesmo sendo americano por osmose, no coração, o ex-sogro sem dúvida era um russo branco.

Voltou para baixo e examinou cuidadosamente as gavetas e armários, mas não encontrou nenhum testamento. O mapa da Alemanha ainda estava desdobrado na mesa. O USA Today que ele tinha dado a Borya também estava ali.

Entrou na cozinha e fez uma busca, com a hipótese remota de haver papéis importantes guardados ali. Certa vez, tinha cuidado de um caso em que uma mulher guardara o testamento no congelador. Por isso, num impulso, abriu a porta dupla da geladeira. A visão de uma pasta de arquivo em ângulo embaixo do congelador o surpreendeu. Tirou e abriu a pasta gelada.

Mais artigos sobre a Sala de Âmbar, remontando às décadas de 1940 e 1950, mas alguns recentes, de até dois anos atrás. Imaginou o que estariam fazendo na geladeira. Decidindo que, no momento, encontrar o testamento era mais importante, decidiu ficar com a pasta e ir ao banco.

A placa de rua do Geórgia Citizens Bank, no Carr Boulevard, indicava 15h23 quando Paul entrou no movimentado estacionamento. Era cliente do Geórgia Citizens há anos, desde que havia trabalhado para eles antes de cursar direito.

O gerente, um sujeito pequeno e magro com cabelos ralos, inicialmente recusou o acesso ao cofre particular de Borya. Depois de um rápido telefonema para o escritório, a secretária de Paul mandou por fax uma carta de representação que ele assinou, atestando que era advogado do espólio de Karol Borya, falecido. A carta pareceu satisfazer o gerente. Pelo menos agora havia algo arquivado para mostrar a algum herdeiro que reclamasse que o cofre estava vazio.

A lei da Geórgia continha uma provisão específica permitindo aos representantes de um espólio acesso aos cofres para procurar testamentos. Paul havia utilizado a lei muitas vezes, e a maioria dos gerentes de banco era familiarizada com essas determinações. Mas ocasionalmente podia surgir alguma dificuldade.

O sujeito o levou até a sala do cofre, onde ficavam as fileiras de caixas de aço inoxidável. A posse da chave de número 45 parecia confirmar ainda mais a autenticidade de Paul. Ele sabia que a lei exigia que o gerente permanecesse, visse o conteúdo e inventariasse exatamente o que era retirado e por quem. Destrancou a caixa e puxou o retângulo estreito para fora, com um ruído de metal contra metal.

Dentro havia um único maço de papéis presos com elástico. Um documento tinha capa azul, e ele o reconheceu imediatamente com o testamento que havia redigido há anos. Cerca de uma dúzia de envelopes brancos estavam presos a ele. Paul folheou-os. Todos vinham de um tal de Danya Chapaev e eram endereçados a Borya. Muito bem dobradas no maço havia cópias de cartas de Borya para Chapaev. Tudo escrito em inglês. O último documento era um envelope simples, lacrado, com o nome de Rachel escrito na frente, em tinta azul.

- As cartas e este envelope estão anexados ao testamento. O Sr. Borya obviamente pretendia que formassem uma unidade. Não há mais nada no cofre. Vou levar tudo.

- Em situações assim, somos instruídos a liberar apenas o testamento.

- Estava tudo preso junto. Estes envelopes podem estar relacionados ao testamento. A lei declara que posso ficar com eles.

O gerente hesitou.

- Terei de ligar para o escritório de nossa advogada-chefe, no centro, para uma autorização.

- Qual é o problema? Não há ninguém para reclamar de nada. Eu escrevi este testamento. Sei o que ele diz. O único herdeiro do Sr. Borya é a filha dele. Estou aqui em nome dela.

- Mesmo assim, preciso verificar com nossa advogada.

Paul já estava cheio.

- Faça como quiser. Diga a Cathy Holden que Paul Cutler está em seu banco sendo embromado por alguém que obviamente não conhece a lei. Diga-lhe que, se eu tiver de ir ao tribunal para pegar uma ordem me autorizando a retirar o que posso retirar de qualquer modo, o banco terá de me compensar pelos 220 dólares a hora que cobrarei pelo trabalho.

O gerente pareceu pensar nas palavras.

- O senhor conhece nossa advogada-chefe?

- Já trabalhei para ela.

O gerente pensou na situação em silêncio e, finalmente, disse:

- Pode levar. Mas assine aqui.

 

Danya,

Meu coração dói todo dia pelo que aconteceu com Yancy Cutler. Que homem excelente! E sua esposa era uma mulher tão boa! Todas as outras pessoas naquele avião também eram boas. Pessoas boas não deveriam morrer de modo tão violento ou tão súbito. Meu genro sofre muito, e me dói pensar que posso ser responsável. Yancy telefonou na véspera do acidente. Ele pôde localizar o velho que você mencionou, cujo irmão trabalhou na propriedade de Loring. Você estava certo. Eu jamais deveria ter pedido a Yancy para fazer indagações de novo enquanto estava na Itália. Não era certo envolver outras pessoas. O fardo recai sobre você e eu. Mas por que sobrevivemos? Será que eles sabem onde estamos? O que sabemos? Será que não representamos mais ameaça? Só os que fazem perguntas e chegam perto demais atraem a atenção deles. A indiferença talvez seja muito melhor do que a curiosidade. Tantos anos se passaram, e a Sala de Âmbar parece mais uma lembrança do que uma maravilha do mundo. Será que alguém ainda se importa realmente? Fique em segurança e bem, Danya. Mantenha contato.

Karol

 

 

Danya,

A KGB apareceu hoje. Um checheno gordo que fedia como um cano de esgoto. Disse que encontrou meu nome nos registros da comissão. Eu pensava que a pista era antiga demais e fria demais para ser seguida. Mas estava errado. Seja cuidadoso. Ele perguntou se você ainda está vivo. Eu contei o de sempre. Acho que somos os dois únicos da antiga que restam. Todos os amigos se foram. É triste demais. Talvez você esteja certo. Chega de cartas, só para garantir. Ainda mais agora, que eles sabem onde estou. Minha filha está para ser mãe. Meu segundo neto. Desta vez é uma menina, pelo que me disseram. Ciência moderna. Eu gostava dos velhos tempos, quando a gente ficava imaginando. Mas uma menininha seria ótimo. Meu neto é uma alegria. Espero que os seus estejam bem. Fique em segurança, velho amigo.

Karol

 

Amigo Karol

O recorte anexo é do jornal de Bonn. Yeltsin chegou à Alemanha proclamando saber onde estava localizada a Sala de Âmbar. Os jornais e revistas se empolgaram com o anúncio. Você ficou sabendo, do outro lado do oceano? Ele disse que estudiosos descobriram a informação em registros soviéticos. A Comissão Extraordinária para Examinar Crimes Contra a Rússia, foi como Yeltsin nos chamou. Ha! Tudo que o idiota fez foi extrair meio bilhão de marcos de ajuda de Bonn, depois pedir desculpa dizendo que os registros não eram sobre a Sala de Âmbar, e sim sobre outros tesouros roubados de Leningrado. Mais mentira russa. Russos, soviéticos, nazistas. Tudo igual. A conversa atual sobre a devolução dos tesouros russos é mais propaganda. O que eles fazem é vender nossos tesouros. Todo dia os jornais estão cheios de histórias sobre quadros, esculturas e jóias sendo vendidos. Uma liquidação de nossa história. Devemos manter os painéis em segurança. Chega de cartas, pelo menos por um tempo. Agradeço a foto de sua neta. Que alegria ela deve trazer a você! Boa saúde, amigo.

Danya

 

Danya,

Espero que esta carta o encontre bem de saúde. Faz muito tempo que nos correspondemos pela última vez. Achei que talvez depois de três anos possa ser seguro. Não houve mais visitas, e li poucos relatórios sobre qualquer coisa relativa aos painéis. Desde que nos comunicamos pela última vez, minha filha e o marido se divorciaram. Os dois se amam, mas simplesmente não conseguem viver juntos. Meus netos estão bem. Espero que os seus também estejam. Ficamos velhos, os dois. Seria bom se aventurar e ver se os painéis estão realmente lá. Mas nenhum de nós dois pode fazer a viagem. Além disso, ainda pode ser perigoso. Alguém estava vigiando quando Yancy Cutler fez perguntas sobre Loring. Sei, no fundo do coração, que a bomba não se destinava a um ministro italiano. Ainda sofro pelos Cutler. Tantos morreram procurando a Sala de Âmbar. Talvez ela devesse permanecer desaparecida. Não importa. Nenhum de nós pode protegê-la por muito mais tempo. Boa saúde, velho amigo.

Karol

 

Rachel

Minha querida preciosa. Minha única filha. Agora seu pai descansa em paz com sua mãe. Certamente estamos juntos, porque um Deus misericordioso não negaria a duas pessoas que se amavam a oportunidade da felicidade eterna. Escrevi este bilhete para dizer o que talvez devesse ter dito em vida. Você sempre soube de meu passado, do que fiz para os soviéticos antes de emigrar. Eu roubava arte. Não passava de um ladrão, mas era sancionado e encorajado por Stalin. Na época, racionalizava isso com meu ódio pelos nazistas, mas estava errado. Nós roubamos muito de muitas pessoas, tudo em nome de uma reparação. O que mais procurávamos era a Sala de Âmbar. Nossa por herança, roubada por invasores. As cartas que estão junto deste bilhete contam parte da história de nossa busca. Meu velho amigo Danya e eu procuramos muito. Será que encontramos? Talvez. Nenhum de nós foi realmente olhar. Naquela época, havia muitas pessoas vigiando e, quando estreitamos a busca, ambos percebemos que os soviético;. eram muito piores que os alemães. Por isso deixamos para lá. Danya e eu prometemos nunca revelar o que sabíamos, ou talvez o que simplesmente pensávamos que sabíamos. Só investiguei de novo quando Yancy se ofereceu para fazer indagações discretas, verificando informações que eu havia considerado dignas de crédito. Em sua última viagem à Itália, ele estava fazendo indagações. Jamais saberemos se a explosão no avião foi atribuível às perguntas dele ou a outra coisa. Só sei que a busca pela Sala de Âmbar se mostrou perigosa. Talvez o perigo venha do que Danya e eu suspeitamos. Talvez não. Não tenho notícias de meu velho camarada há anos. Minha última carta a ele não foi respondida. Talvez ele também esteja comigo agora. Minha preciosa Maya. Meu amigo Danya. Bons companheiros para a eternidade. Espero que se passem muitos anos antes que você se junte a nós, querida. Tenha uma vida boa. Tenha sucesso. Cuide de Maria e Brent. Eu os amo demais. Tenho muito orgulho de você. Pense em dar outra chance a Paul. Mas nunca, absolutamente nunca, se preocupe com a Sala de Âmbar. Lembre-se da história de Faetonte e das lágrimas das Helíades. Pense na ambição dele e na tristeza delas. Talvez os painéis sejam encontrados um dia. Espero que não. Os políticos não deveriam ser encarregados de tamanho tesouro. Deixe-o em sua sepultura. Diga ao Paul que sinto muito. Amo você.

 

18H45

O coração de Paul martelava quando Rachel ergueu o olhar do último bilhete do pai, as lágrimas enchendo os olhos tristes. Podia sentir a dor. Era difícil dizer onde terminava a dele e começava a dela.

- Ele escrevia com tanta elegância - disse Rachel. Paul concordou.

- Ele aprendeu bem o inglês, lia incessantemente. Sabia mais sobre gramática e sintaxe do que eu jamais absorvi. Acho que a fala hesitante era apenas um modo de se agarrar ao passado. Pobre papai.

O cabelo castanho-avermelhado dela estava preso num rabo-de-cavalo. Não usava maquiagem, vestia apenas um roupão branco atoalhado sobre uma camisola de flanela. A casa finalmente estava livre de todos os visitantes depois do enterro. As crianças tinham ido para os quartos, ainda perturbadas com o dia emotivo. Lucy circulava pela sala de jantar.

- Você leu todas essas cartas? - perguntou Rachel.

Ele confirmou com a cabeça.

- Depois de sair do banco. Voltei à casa do seu pai e peguei o resto das coisas dele.

Estavam sentados na sala de jantar de Rachel. A antiga sala de jantar dos dois. As duas pastas com os artigos de jornais e revistas sobre a Sala de Âmbar, um mapa da Alemanha, o USA Today, o testamento, todas as cartas e o bilhete para Rachel estavam abertos em leque sobre a mesa. Paul havia dito o que encontrara, e onde. Também falou sobre o artigo do USA que seu pai tinha pedido especificamente na terça-feira e suas perguntas sobre Wayland McKoy.

- Papai estava assistindo a alguma coisa na CNN sobre isso quando deixei as crianças com ele. Lembro do nome. - Seu corpo relaxou na cadeira. - O que essa pasta estava fazendo na geladeira? Isso não era do estilo dele. O que está acontecendo, Paul?

- Não sei. Mas obviamente Karol estava interessado na Sala de Âmbar. - Paul apontou para o último bilhete de Borya. - O que ele quis dizer com Faetonte e as lágrimas das Helíades?

- Outra história que mamãe costumava me contar quando eu era pequena. Faetonte, o filho imortal de Hélio, o deus sol. Eu era fascinada pela história. Papai adorava mitologia. Disse que pensar em fantasia era uma das coisas que o fizeram suportar o tempo em Mauthausen.

- Folheou os recortes e fotocópias, olhando atentamente para alguns.

- Ele se achava responsável pelo que aconteceu com seus pais e o resto das pessoas naquele avião. Não entendo.

Nem Paul. E tinha pensado praticamente apenas nisso durante as últimas duas horas.

- Seus pais não estavam na Itália a serviço do museu?

- Toda a diretoria foi. A viagem era para conseguir empréstimos de obras de museus italianos.

- Papai parecia achar que havia alguma conexão.

Paul também se lembrava de algo que Borya escreveu. Eu jamais deveria ter pedido a Yancy para fazer indagações de novo enquanto estava na Itália.

O que ele quis dizer com de novo?

- Você não quer saber o que aconteceu? - perguntou Rachel subitamente, a voz ficando mais alta.

Paul não gostava desse tom há anos, e não gostou agora.

- Nunca falei isso. Só que seis anos se passaram, e seria quase impossível descobrir. Meu Deus, Rachel, nem encontraram os corpos!

- Paul, seus pais podem ter sido assassinados e você não quer saber nada?

Impetuosa e teimosa. Como foi que Karol disse? Herdou as duas coisas da mãe. Certo.

- Também não falei isso. Simplesmente não há nada de prático que possa ser feito.

- Podemos encontrar Danya Chapaev.

- Como assim?

- Chapaev. Ele ainda pode estar vivo. - Ela olhou para os envelopes, os endereços de remetente. - Kehlheim não deve ser muito difícil de encontrar.

- Fica no sul da Alemanha. Na Baviera. Encontrei no mapa.

- Você procurou?

- Não foi difícil de achar. Karol circulou o nome.

Ela desdobrou o mapa e viu.

- Papai disse que eles sabiam algo sobre a Sala de Âmbar, mas nunca foram verificar. Talvez Chapaev possa nos dizer o que era, não?

Paul não podia acreditar no que ela estava dizendo.

- Você leu o que seu pai disse? Para deixar a Sala de Âmbar em paz. Encontrar Chapaev é a única coisa que ele não queria que você fizesse.

- Chapaev pode saber mais sobre o que aconteceu com seus pais.

- Eu sou advogado, Rachel, não um investigador internacional.

- Certo. Vamos levar isto à polícia. Eles podem dar uma olhada.

- Isso é muito mais prático do que sua primeira sugestão. Mas a pista é muito antiga.

O rosto dela endureceu.

- Espero tremendamente que Maria e Brent não herdem sua complacência. Gostaria de pensar que eles iam querer saber o que aconteceu se um avião explodisse no ar, com você e eu dentro.

Rachel sabia exatamente como tocar nos pontos fracos dele. Era uma das coisas das quais ele mais se ressentia.

- Você leu essas matérias? - perguntou Paul. - Pessoas morreram procurando a Sala de Âmbar. Talvez meus pais. Talvez não. Uma coisa é certa: seu pai não queria que você se envolvesse. E você não tem o mínimo cacife. O que sabe sobre arte poderia caber num dedal.

- Junto com sua coragem.

Paul encarou os olhos furiosos dela, mordeu a língua e tentou entender. Rachel havia enterrado o pai naquela manhã. Mesmo assim, uma palavra ficava reverberando no cérebro dele.

Vaca.

Respirou fundo antes de dizer em voz baixa:

- Sua segunda sugestão é a mais prática. Por que não deixamos a polícia cuidar disso? - Fez uma pausa. - Sei o quanto você está perturbada. Mas, Rachel, a morte de Karol foi um acidente.

- O problema, Paul, é que, se não foi, temos de acrescentar meu pai à lista de baixas, junto com os seus. - Ela lhe deu um daqueles olhares. Do tipo que ele vira tantas vezes. - Ainda quer ser prático?

 

QUARTA-FEIRA, 14 DE MAIO, 10H25

Rachel se obrigou a sair da cama e vestir as crianças. Depois deixou-as na escola e, relutante, foi para o tribunal. Não estivera em sua sala de audiências desde a sexta-feira anterior, tirando folga na segunda e na terça.

Durante toda a manhã, sua secretária facilitou as coisas, interferindo, desviando telefonemas, afastando advogados e outros juízes. Originalmente, a semana fora programada para julgamentos cíveis, mas todos foram adiados. Há uma hora, ela havia ligado para o departamento de polícia de Atlanta e pedido que alguém da divisão de homicídio fosse mandado à sua sala. Não era a juíza mais popular com a polícia. Todo mundo parecia presumir que, como ela já fora uma promotora durona, seria uma juíza pró-polícia. Mas suas decisões, se pudessem ser rotuladas, tendiam a ser orientadas para a defesa. Liberal era a palavra que a Ordem Fraterna da Polícia e a imprensa gostavam de usar. Traidora era a descrição que tinham lhe dito ser usada por muitos detetives do setor de narcóticos. Mas ela não se importava. A Constituição existia para proteger o povo. A polícia deveria trabalhar dentro de seus limites, e não fora. Seu trabalho era garantir que ela não pegasse nenhum atalho. Quantas vezes seu pai havia pregado: quando o governo vem antes da lei, a tirania está logo atrás.

E, se alguém sabia, era ele.

- Juíza Cutler - disse a secretária pelo interfone. Na maioria das vezes, elas se tratavam simplesmente como Rachel e Sami; apenas quando alguém chegava ela era chamada de juíza. - O tenente Barlow, da polícia de Atlanta, está aqui. Em resposta à seu pedido.

Rachel enxugou rapidamente os olhos com um lenço de papel. A foto de seu pai no aparador tinha provocado mais lágrimas. Levantou-se e alisou a saia e a blusa de algodão.

A porta se abriu e um homem magro, com cabelos pretos ondulados, entrou. Fechou a porta e se apresentou como Mike Barlow, da divisão de homicídios.

Ela recuperou a compostura judicial e ofereceu uma cadeira.

- Agradeço sua vinda, tenente.

- Sem problema. O departamento sempre tenta atender aos juízes.

Mas ela ficou pensando. O tom era de uma cordialidade irritante, às raias da condescendência.

- Depois de a senhora ligar, peguei o relatório sobre a morte de seu pai. Sinto muito sobre a perda. Parece ser um daqueles acidentes que às vezes acontecem.

- Meu pai era muito independente. Ainda dirigia. Não tinha problemas de saúde e subiu aquela escada durante anos sem problema.

- O que a senhora quer dizer com isso?

Rachel estava gostando ainda menos do tom dele.

- Diga o senhor.

- Juíza, entendi sua mensagem. Mas não há nada que sugira alguma ilegalidade.

- Ele sobreviveu a um campo de concentração nazista, tenente. Acho que era capaz de subir uma escada.

Barlow não pareceu convencido.

- O relatório diz que aparentemente nada sumiu. A carteira dele estava na penteadeira. Os televisores, o aparelho de som, o videocassete, tudo estava lá. As duas portas estavam destrancadas. Não havia evidências de arrombamento em lugar nenhum. Onde está o ladrão?

- Meu pai deixava as portas destrancadas o tempo todo.

- Isso não é inteligente, mas não parece ter colaborado para a morte dele. Olhe, eu concordo, o fato de não haver evidência de roubo poderia levar a uma implicação de assassinato, mas não há nada sugerindo que alguém ao menos estivesse por perto quando ele morreu.

Ela ficou curiosa.

- Vocês revistaram a casa?

- Disseram que alguém olhou. Nada elaborado. Parecia não haver necessidade. Estou curioso. Qual a senhora acha que foi o motivo para o assassinato? Seu pai tinha inimigos?

Ela não respondeu. Em vez disso, perguntou:

- O que o legista disse?

- Pescoço partido. Causado pela queda. Nenhuma outra evidência de trauma além de hematomas nos braços e pernas, causados pela queda. De novo, juíza, o que a faz pensar que a morte de seu pai não foi acidental?

Ela pensou em falar sobre a pasta na geladeira, Danya Chapaev, a Sala de Âmbar e os pais de Paul. Mas o sacana arrogante nem queria estar ali, e ela ia parecer uma louca fascinada por conspirações. Ele estava certo. Não havia prova de que seu pai fora empurrado escada abaixo. Nada que ligasse sua morte a qualquer "maldição da Sala de Âmbar", como sugeriam alguns dos artigos. E daí, se seu pai tinha interesse no assunto? Ele adorava arte. Nos velhos tempos, trabalhava com isso o dia inteiro. E daí, se ele estava lendo os artigos no escritório, se enfiou outros na geladeira, desdobrou um mapa da Alemanha na sala íntima e possuía um forte interesse por um homem que ia escavar em cavernas esquecidas na Alemanha? Daí para o assassinato era um salto gigantesco. Talvez Paul estivesse certo. Decidiu não entrar em detalhes com aquele sujeito.

- Nada, tenente. O senhor está certo. Não passa de uma queda trágica. Obrigada por ter vindo.

 

Rachel ficou sentada, carrancuda, e pensou em quando tinha 16 anos, com o pai explicando pela primeira vez sobre Mauthausen, e como os russos e holandeses trabalhavam na pedreira transportando toneladas de pedregulhos por uma série longa de degraus estreitos até o campo, onde mais prisioneiros as cinzelavam na forma de tijolos.

Mas os judeus não tinham tanta sorte. Todo dia eram jogados do penhasco da pedreira simplesmente por esporte, os gritos ecoando enquanto os corpos voavam e os guardas apostavam em quantas vezes a carne e os ossos ricocheteariam antes de serem silenciados pela morte. Por fim, explicou o pai, a SS parou com os lançamentos porque atrapalhavam o serviço.

Não porque estavam matando pessoas, lembrou-se do pai dizendo, só porque aquilo afetava o serviço.

Naquele dia, seu pai chorou, uma das poucas vezes na vida, e ela também. A mãe havia lhe contado sobre as experiências de guerra dele e sobre o que ele fizera depois, mas o pai raramente mencionava aquele tempo. Rachel sempre havia notado a tatuagem manchada, no antebraço direito, perguntando-se quando ele ia explicar.

Eles nos obrigavam a correr de encontro à cerca eletrificada. Alguns faziam isso voluntariamente, exaustos da tortura. Outros eram mortos a tiros, enforcados ou recebiam injeções no coração. O gás veio depois.

Rachel havia perguntado quantos morreram em Mauthausen. E ele disse, sem hesitar, que sessenta por cento dos duzentos mil não sobreviveram. Ele chegou em abril de 1944. Os judeus húngaros vieram pouco depois, e todos foram trucidados como ovelhas. Borya tinha ajudado a levar os corpos da câmara de gás para o forno, um ritual diário, comum, como tirar o lixo, diziam os guardas. Ela se lembrou do pai contando sobre uma noite em particular, perto do fim, quando Herman Göring entrou no campo usando um uniforme cinza-pérola. A maldade sobre duas pernas, disse ele.

Göring tinha ordenado que quatro alemães fossem assassinados, e seu pai fez parte do grupo que derramou água sobre os corpos nus até morrerem congelados. Göring ficou impassível o tempo todo, esfregando com os dedos um pedaço de âmbar, querendo saber algo sobre a Sala de Âmbar. De todo o horror que aconteceu em Mauthausen, segundo o pai, aquela noite com Göring foi o que ficou com ele.

E estabeleceu seu rumo na vida.

Depois da guerra, ele foi mandado para entrevistar Göring na prisão, durante os julgamentos de Nuremberg.

Ele se lembrou de você? - Perguntou ela.

Meu rosto em Mauthausen não significava nada para ele.

Mas Göring se lembrava da tortura, dizendo que admirava tremendamente os soldados por terem resistido. Superioridade alemã, treinamento, dissera ele. O amor de Rachel pelo pai se multiplicou por dez quando finalmente soube sobre Mauthausen. O que ele havia suportado era inimaginável, e a sua simples sobrevivência era um feito. Mas sobreviver com a sanidade intacta não era menos do que um milagre.

Sentada no silêncio da sala de audiências, chorou. Aquele homem precioso se fora. Sua voz estava silenciada para sempre, seu amor era apenas uma lembrança. Pela primeira vez na vida estava sozinha. Toda a família dos pais tinha morrido na guerra ou estava inacessível, em algum lugar da Bielo-Rússia, estranhos, ligados meramente pelos genes. Só restavam seus dois filhos. Lembrou-se de como tinham terminado aquela conversa sobre Mauthausen, há 24 anos.

Papai, você encontrou a Sala de Âmbar?

Ele a encarou com olhos pensativos. Na época, e agora, ela se perguntou se havia algo que o pai queria falar. Algo que ela precisasse saber.Ou seria melhor não ter conhecimento? Difícil dizer. E as palavras dele não ajudaram.

Jamais, querida.

Mas o tom de voz dele fazia lembrar de quando tinha explicado que Papai Noel, o Coelho da Páscoa e a Fada dos Dentes realmente existiam. Palavras vazias que simplesmente precisavam ser ditas. Agora, depois de ter lido as cartas trocadas entre o pai e Danya Chapaev e o bilhete escrito pela mão dele, Rachel se convenceu de que havia mais coisas na história. Seu pai guardara um segredo, aparentemente por muitos anos.

Mas tinha morrido.

Só restava um.

Danya Chapaev.

E ela sabia o que precisava ser feito.

 

Rachel saiu do elevador no 23° andar e seguiu até a porta em que estava escrito PRIDGEN & WOODWORTH. A empresa de advocacia ocupava o 23° e o 24° andares do prédio no centro da cidade. A divisão de sucessões ficava no 23°.

Paul fora trabalhar na empresa logo que saiu da faculdade de direito. Ela havia trabalhado primeiro na promotoria, em seguida em outra empresa de Atlanta. Os dois se conheceram onze meses depois e se casaram dois anos mais tarde. O namoro foi típico de Paul, jamais com pressa de fazer qualquer coisa. Muito cuidadoso. Deliberado. Com medo de correr riscos, aproveitar as chances, arriscar-se ao fracasso. Fora ela a sugerir o casamento, e ele concordara prontamente.

Era um homem bonito, sempre fora. Não vigoroso, nem estonteante, apenas bonito de um modo comum. E era honesto. Além de possuir uma confiabilidade fanática. Mas sua dedicação inabalável à tradição tinha lentamente se tornado irritante. Por que não variar o jantar de domingo de vez em quando? Assado, batatas, milho, ervilhas, bolinhos e chá gelado. Todo domingo, durante anos. Não que Paul exigisse, mas as mesmas coisas sempre o satisfaziam. No início, ela gostava dessa previsibilidade. Era reconfortante. Uma utilidade conhecida que estabilizava seu mundo. Perto do fim, tornou-se um tremendo pé no saco.

Mas por quê?

Rotina era uma coisa tão ruim?

Paul era um homem bom, decente, bem-sucedido. Ela sentia orgulho dele, mas raramente verbalizava isso. Ele era o próximo da fila para chefiar a divisão de sucessões. Nada mal para um sujeito de 41 anos que precisou tentar duas vezes entrar na escola de direito. Mas Paul conhecia o direito sucessório. Não estudava nada além, concentrando-se em todas as nuances, até mesmo atuando em comissões legislativas. Era um especialista reconhecido no assunto, e a Pridgen & Woodworth lhe pagava dinheiro suficiente para impedir que outra empresa o atraísse. A empresa administrava milhares de espólios, muitos eram bastante substanciais, e a maioria que ela conhecia era atribuível à reputação de Paul Cutler em todo o estado.

Empurrou a porta dupla e seguiu o labirinto de corredores até a sala de Paul. Tinha ligado antes de sair de sua sala de audiência, por isso ele a estava esperando. Rachel entrou direto, fechou a porta e anunciou:

- Vou à Alemanha.

Paul ergueu os olhos.

- Vai o quê?

- Eu não gaguejei. Vou à Alemanha.

- Procurar Chapaev? Provavelmente está morto. Nem respondeu à carta de seu pai.

- Preciso fazer alguma coisa.

Paul se levantou de trás da mesa.

- Por que você sempre tem de fazer alguma coisa?

- Papai sabia sobre a Sala de Âmbar. Eu devo a ele uma verificação.

- Deve a ele? - A voz de Paul estava subindo. - Você deve a ele respeitar seu último desejo, que foi de você ficar de fora disso tudo. No mínimo, por sinal. Droga, Rachel, você tem 40 anos. Quando vai crescer?

Ela se manteve surpreendentemente calma, considerando como se sentia com relação aos sermões dele.

- Não quero brigar, Paul. Preciso que você cuide das crianças. Você faz isso?

- É típico, Rachel. Pirar de vez. Fazer a primeira coisa que lhe vem a mente. Sem pensar. Apenas fazer.

- Você toma conta das crianças?

- Se eu dissesse que não, você ficaria?

- Eu ligaria para o seu irmão.

Paul sentou-se de novo. Seu rosto sinalizava rendição.

- Você pode ficar na casa - disse ela. - Vai ser mais fácil para as crianças. Elas ainda estão perturbadas por causa do papai.

- Elas ficariam ainda mais perturbadas se soubessem o que a mãe está fazendo. E você se esqueceu da eleição? Faltam menos de oito semanas, e você tem dois oponentes se esforçando ao máximo para vencer, principalmente agora, com o dinheiro de Marcus Nettles.

- Foda-se a eleição. Nettles pode ficar com o cargo de juiz. Isso é mais importante.

- O que é mais importante? Nós nem sabemos o que isso é. E quanto à sua pauta de trabalho? Como pode simplesmente largar tudo e ir embora?

Ela lhe concedeu dois pontos pela boa tentativa, mas isso não ia desencorajá-la.

- O juiz-chefe entendeu. Eu lhe disse que precisava de um tempo para curtir o luto. Não tiro férias há dois anos. Tenho licença garantida.

Paul balançou a cabeça.

- Você vai à Baviera numa busca inútil a um velho que provavelmente está morto, procurando algo que provavelmente se perdeu para sempre. Você não é a primeira a procurar a Sala de Âmbar. Pessoas dedicaram a vida inteira a isso e não encontraram nada.

Ela não ia ceder.

- Papai sabia de algo importante. Posso sentir. Esse tal de Chapaev talvez saiba também.

- Você está sonhando.

- E você é patético. - Ela se arrependeu imediatamente das palavras e do tom de voz. Não havia necessidade de magoá-lo.

- Vou ignorar isso porque sei que você está perturbada - disse ele devagar.

- Viajo amanhã à noite, num vôo para Munique. Preciso de uma cópia das cartas de papai e dos artigos guardados por ele.

- Deixo com você quando estiver indo para casa. - A voz dele estava cheia de total resignação.

- Eu ligo da Alemanha, avisando onde ficarei hospedada. - Rachel foi para a porta. - Pegue as crianças na creche amanhã.

- Rachel.

Rachel parou, mas não se virou.

- Tenha cuidado.

Ela abriu a porta e saiu.

 

QUINTA-FEIRA, 15 DE MAIO, 10H15

Knoll saiu do hotel e pegou um trem até o tribunal do condado de Fulton. A folha de informação da KGB que tinha afanado no arquivo de São Petersburgo indicava que Rachel Cutler era advogada, e havia o endereço do escritório. Mas uma visita à empresa de advocacia no dia anterior revelou que ela se demitira há anos, depois de ser eleita juíza do tribunal superior. A recepcionista foi extremamente solícita, dando o novo número de telefone e indicando o local do escritório no tribunal. Ele decidiu que um telefonema poderia provocar uma recusa imediata. Uma visita cara a cara, sem se anunciar, parecia a melhor abordagem.

Cinco dias tinham se passado desde que ele matara Karol Borya. Precisava se certificar do que a filha sabia sobre a Sala de Âmbar, se é que sabia de alguma coisa. Talvez o pai tivesse mencionado alguma coisa ao longo dos anos. Talvez ela soubesse sobre Chapaev. Era uma chance remota, mas ele estava ficando rapidamente sem pistas, e precisava esgotar todas as possibilidades. Uma trilha que já parecera promissora ia ficando fria.

Entrou num elevador apinhado e subiu ao sexto andar do tribunal. Os corredores eram ladeados por salas de julgamento lotadas e escritórios movimentados. Ele usava o terno cinza claro, camisa listrada e gravata de seda amarelo-clara comprada na véspera, numa loja masculina nos subúrbios. Intencionalmente mantivera as cores suaves e conservadoras.

Passou pela porta de vidro em que estava escrito SALA DE AUDIÊNCIAS DA MERITÍSSIMA RACHEL CUTLER e entrou na silenciosa ante-sala. Uma mulher negra, de cerca de 30 anos, esperava atrás de uma mesa. O crachá dizia SAMI LUFFMAN. Em seu melhor inglês ele disse:

- Bom-dia.

A mulher sorriu e devolveu o cumprimento.

- Meu nome é Christian Knoll. - Ele lhe entregou um cartão, semelhante ao usado com Pietro Caproni, só que este proclamava apenas COLECIONADOR DE ARTE, não acadêmico, e não tinha endereço. - Gostaria de saber se eu poderia falar com a meritíssima.

A mulher aceitou o cartão.

- Sinto muito. A juíza Cutler não está, hoje.

- É muito importante que eu fale com ela.

- Posso perguntar se o assunto tem a ver com algum caso pendente no nosso tribunal?

Ele balançou a cabeça, cordial e inocente.

- Absolutamente não. É um assunto pessoal.

- O pai da juíza morreu no fim de semana passado e...

- Ah, sinto muito - disse ele, fingindo emoção. - Que terrível!

- É, foi terrível. Ela ficou muito perturbada e decidiu tirar uma licença.

- É uma infelicidade para ela e para mim. Só estou na cidade até amanhã e esperava falar com a juíza Cutler antes de ir embora. Será que a senhora poderia dar um recado, e ela ligaria para o meu hotel?

A secretária pareceu pensar no pedido, e ele aproveitou o momento para estudar uma foto emoldurada, pendurada atrás dela na parede forrada de papel. Havia uma mulher de pé diante de outro homem, Com o braço rígido erguido como se fizesse um juramento. Tinha cabelos castanho-avermelhados que iam até os ombros, nariz arrebitado e olhos intensos. Usava uma toga, o que dificultava saber como era o corpo. As bochechas lisas estavam ruborizadas e o leve sorriso parecia adequado à circunstância solene. Ele indicou a foto.

- É a juíza Cutler?

- Quando fez o juramento de posse, há quatro anos.

Era o mesmo rosto que ele vira no enterro de Karol Borya na terça-feira, parada diante das pessoas enlutadas, abraçando duas crianças pequenas, um menino e uma menina.

- Eu poderia dar seu recado à juíza Cutler, mas não sei se o senhor terá notícias dela.

- Por quê?

- Ela vai sair da cidade hoje à tarde.

- Uma viagem longa?

- Para a Alemanha.

- Que lugar maravilhoso! - Ele precisava saber aonde, por isso tentou os três principais pontos de entrada. - Berlim é exótica nesta época do ano. Assim como Frankfurt e Munique.

- Ela vai a Munique.

- Ah! Cidade mágica. Talvez ajude a aliviar a tristeza.

- Espero que sim.

Ele já soubera o suficiente.

- Obrigado, Sra. Luffman. A senhora ajudou muito. Aqui está a informação sobre meu hotel. - Inventou um hotel e um número de quarto, pois já conseguira o que queria. - Por favor, informe à juíza Cutler sobre minha visita.

- Vou tentar.

Ele se virou para sair, mas olhou pela última vez a foto emoldurada na parede, gravando na mente a imagem de Rachel Cutler.

Saiu do sexto andar e desceu ao térreo. Uma fileira de telefones públicos se espalhava em uma das paredes. Foi até lá e fez uma ligação internacional para a linha particular no escritório de Franz Fellner. Eram quase cinco da tarde na Alemanha. Ele não tinha certeza de quem atenderia ou mesmo a quem tinha de prestar contas atualmente. O poder estava claramente em transição - Fellner estava se afastando enquanto Monika assumia o controle. Mas o velho não era do tipo que abria mão com facilidade, em especial quando estava em jogo algo como a Sala de Âmbar.

- Guten tag - atendeu Monika depois de dois toques.

- Você é a secretária de serviço hoje? - perguntou ele em alemão.

- Já estava na hora de você ligar. Faz uma semana. Teve alguma sorte?

- Vamos esclarecer uma coisa. Eu não presto contas como um colegial. Dê-me um serviço e me deixe em paz. Ligo quando for necessário.

- Estamos sensíveis, não?

- Não preciso ser supervisionado.

- Vou lembrá-lo disso na próxima vez em que você estiver entre as minhas pernas.

Ele sorriu. Era difícil vencê-la.

- Encontrei Borya. Ele disse que não sabia de nada.

- E você acreditou?

- Eu falei isso?

- Ele está morto, certo?

- Uma queda trágica pela escada.

- Papai não vai gostar.

- Achei que você estava no comando.

- Estou. E, francamente, isso não importa. Mas papai está certo: você corre riscos demais.

- Não corri nenhum risco desnecessário.

De fato, ele fora bastante cauteloso. Na primeira visita, teve cuidado de não tocar em nada além do copo de chá, que removeu na visita seguinte. E quando voltou pela segunda vez, estava usando luvas.

- Digamos que decidi que a ação era necessária, nas circunstâncias.

- O que ele fez, insultou seu orgulho?

Era espantoso como ela podia decifrá-lo mesmo a seis mil quilômetros de distância. Knoll nunca havia se achado tão transparente.

- Isso não é importante.

- Um dia sua sorte vai acabar, Christian.

- Você parece ansiosa por esse dia.

- Na verdade, não. Vai ser difícil substituí-lo.

- Em que sentido?

- Em todos, seu sacana.

Ele sorriu. Era bom saber que estava ligado a ela.

- Fiquei sabendo que a filha de Borya vai a Munique. Talvez esteja indo ver Chapaev.

- O que o faz pensar isso?

- O modo como Borya se desviou de mim, e algo que ele disse sobre os painéis.

Talvez seja melhor que permaneçam perdidos.

- A filha poderia simplesmente estar tirando férias.

- Duvido. É coincidência demais.

- Vai segui-la?

- Hoje à tarde. Há algo que preciso fazer antes.

 

Suzanne olhava Christian Knoll do outro lado do mezanino. Estava sentada numa apinhada sala de espera, em cuja porta de vidro estava escrito MULTAS DE TRÁFEGO — ENTRADA. Cerca de 75 pessoas esperavam a vez para se aproximar de um balcão de fórmica e apresentar as citações de multas. A cena toda era caótica, com fumaça rançosa de cigarro pairando na atmosfera apesar de vários avisos de PROIBIDO FUMAR.

Estivera seguindo Knoll desde o sábado. Na segunda, ele fora duas vezes ao Museu de Arte High e uma a um prédio de escritórios no centro de Atlanta. Na terça, havia comparecido ao enterro de Karol Borya. Ela ficou olhando o serviço junto à sepultura, do outro lado da rua. Knoll tinha feito pouca coisa na véspera, uma ida à biblioteca pública e a um shopping, mas hoje havia acordado cedo e estava em movimento.

O cabelo curto de Suzanne estava enfiado sob uma peruca castanho-avermelhada cheia de mechas. O excesso de maquiagem cobria o rosto, e os olhos estavam abrigados por óculos baratos. Usava jeans justos, uma blusa sem gola, dos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996, e tênis. Uma bolsa preta barata pendurada no ombro. Misturava-se muito bem à multidão, com uma revista People aberta no colo, os olhos constantemente indo da página para a fileira de telefones do outro lado do mezanino cheio de movimento.

Há cinco minutos, tinha seguido Knoll até o sexto andar e visto ele entrar na sala de audiência de Rachel Cutler. Reconheceu o nome e percebeu a conexão. Knoll obviamente não ia desistir, e agora provavelmente estava informando o que sabia a Monika Fellner. Aquela vaca teria definitivamente um problema. Jovem. Agressiva. Faminta. Uma digna sucessora de Franz Fellner, e um incômodo em muitos sentidos.

Knoll não tinha ficado muito tempo na sala de Rachel Cutler, certamente não o bastante para se encontrar com ela. Por isso Suzanne recuou, temendo que ele notasse sua presença, sem saber se o disfarce seria uma camuflagem suficiente. Vinha usando um conjunto diferente a cada dia, tendo o cuidado de não repetir nada que ele pudesse reconhecer. Knoll era bom. Tremendamente bom. Felizmente, ela era melhor.

Knoll desligou o telefone e foi para a rua.

Ela jogou a revista de lado e foi atrás.

 

Knoll parou um táxi e voltou ao hotel. Tinha percebido alguém na noite de sábado na casa de Borya, depois de torcer o pescoço do velho. Mas definitivamente detectou Suzanne Danzer na segunda, e em todos os dias desde então. Ela havia se disfarçado bem, mas anos demais em campo tinham aguçado as capacidades dele. Pouco lhe escapava agora. Quase estivera esperando-a. Ernst Loring, o patrão de Danzer, queria a Sala de Âmbar tanto quanto Fellner. O pai de Loring, Josef, fora obcecado por âmbar, juntando uma das maiores coleções particulares do mundo. Ernst havia herdado os objetos e o desejo do pai. Muitas vezes Knoll tinha ouvido Loring discursar sobre o assunto e visto ele trocar ou comprar peças de âmbar com outros colecionadores, inclusive Fellner. Sem dúvida Danzer fora despachada a Atlanta para ver o que ele estava fazendo.

Mas como soubera onde encontrá-lo?

Claro. O funcionário xereta em São Petersburgo. Quem mais poderia ser? O idiota deve ter dado uma olhada no papel da KGB antes de Knoll colocá-lo na mesa. O sujeito certamente estava sendo pago, tendo Loring como um dos vários benfeitores prováveis - agora o principal benfeitor, já que Danzer estava aqui.

O táxi parou junto ao Marriott e Knoll desceu. Em algum lugar atrás, Danzer certamente o estava seguindo. Provavelmente também havia se hospedado ali. Provavelmente se enfiaria num dos toaletes do térreo e modificaria o disfarce, trocando perucas e acessórios, na certa pagando a um carregador para alertá-la caso ele saísse do prédio.

Knoll foi direto ao seu quarto no 12° andar e ligou para o setor de reservas da Delta.

- Preciso de um vôo de Atlanta para Munique. Há algum partindo hoje?

Teclas de computador foram apertadas.

- Sim, senhor, temos um que sai às 14h35. Direto para Munique.

Ele precisava ter certeza de que não havia outros vôos.

- Algum mais cedo ou mais tarde?

Mais teclas foram apertadas.

- Não conosco.

- Que tal outra companhia aérea?

Mais teclas.

- Este é o único vôo direto de Atlanta para Munique hoje. Mas o senhor pode fazer conexão em dois outros.

Knoll apostou que ela iria no vôo direto e não em outro para Nova York, Paris, Amsterdã ou Frankfurt com conexão para Munique. Confirmou a reserva, depois desligou e rapidamente arrumou sua bolsa de viagem. Precisava programar com exatidão a chegada ao aeroporto. Se Rachel Cutler não estivesse no vôo que ele havia escolhido, teria de pegar a pista dela de outro modo, talvez quando ela ligasse ao escritório para dizer à secretária onde poderia ser encontrada. Ele poderia ligar de volta, dar um número de telefone correto e provocar a curiosidade da mulher até que ela retornasse o telefonema.

Desceu para pagar a conta. O saguão estava movimentado. Pessoas correndo por toda parte. Mas notou rapidamente uma morena magra, a cinqüenta metros, sentada a uma mesa numa das áreas de espera no átrio central. Como suspeitava, Danzer tinha trocado de roupa. Um macacão cor de pêssego e óculos de sol, mais estilosos e escuros do que antes, substituíam a aparência grunge.

Pagou a conta e saiu para pegar um táxi até o aeroporto.

 

Suzanne olhou a bolsa de viagem. Knoll estava indo embora? Não havia tempo para retornar a seu quarto. Teria de segui-lo e ver aonde ele ia. Era exatamente por isso que sempre carregava pouca coisa nas viagens e nunca incluía nada fundamental ou que não pudesse substituir.

Levantou-se, jogou cinco dólares na mesa para pagar uma bebida da qual só havia tomado dois goles e foi para as portas giratórias e a rua.

 

Knoll saiu do táxi no Aeroporto Internacional de Hartsfield e olhou o relógio: 13h25. Jogou três notas de dez para o motorista, pendurou a bolsa de viagem, de couro, no braço direito e marchou para dentro do terminal sul.

Estava curioso para ver o que Danzer faria, por isso ignorou o quiosque eletrônico e foi para uma das filas de check-in da Delta e ficou olhando enquanto Danzer passava pelo terminal até outra fila, não tão longa. Certamente estava imaginando aonde ele iria. Mas o dilema da mulher era complicado. Precisaria de uma passagem para segui-lo mais para dentro do terminal. Por isso provavelmente compraria qualquer coisa que pudesse, algo que lhe garantisse acesso ao interior.

Claramente fora apanhada desprevenida pela partida súbita de Knoll, já que ainda usava a mesma peruca morena, o macacão pêssego e os óculos escuros do Marriott. Meio desleixada. Deveria andar com equipamento de reserva. Algo para variar a aparência, se o disfarce fosse o único modo de camuflagem. Ele preferia a vigilância eletrônica, que permitia o luxo da distância entre caçador e caça.

Ficou parado, pacientemente e, na sua vez, conseguiu um cartão de embarque e despachou a bolsa. O punhal estava dentro, o único lugar seguro, já que a arma não teria sobrevivido aos detectores de metal. Danzer já havia saído de sua fila, agora posicionada na extremidade mais distante do movimentado posto de verificação, segurando uma passagem.

Ele quase sorriu.

Ela era tão previsível!

Depois de passar pelos detectores, Knoll desceu uma comprida escada rolante até o setor de transporte interno. Danzer o seguia, vinte metros atrás. Na base da escada, ele saiu com o resto dos viajantes da tarde em direção aos trens automáticos. Entrou no vagão da frente e notou Danzer subindo no segundo, posicionando-se perto das janelas frontais.

Ele conhecia bem o aeroporto. Os trens se movimentavam entre seis terminais, e o internacional era o mais distante. Na primeira parada, o terminal A, ele e outras cinqüenta pessoas desceram. Sem dúvida Danzer estava se perguntando o que ele fazia, certamente também familiarizada com o Hartsfield para saber que nenhum vôo internacional usava os terminais de A à D. Devia pensar que talvez ele estivesse pegando um vôo doméstico para outra cidade americana.

Ele ficou parado, como se estivesse esperando alguém. Em vez disso, contava silenciosamente os segundos. A noção de tempo era fundamental. Danzer também esperava, a quinze metros de distância, tentando parecer desinteressada, aparentemente confiando que ele não a estava notando. Knoll esperou exatamente um minuto e foi para a escada rolante.

Os degraus subiam lentamente.

Eram trinta metros até o terminal movimentado. Amplas clarabóias quatro metros acima recebiam o sol luminoso. Uma rampa de alumínio separava a escada rolante que subia da que descia, com uma planta de seda surgindo a cada seis metros. A outra escada, que voltava para a área de transporte interno, tinha poucas pessoas. Nenhuma câmera de vigilância ou guardas à vista.

Esperou o momento exato, depois segurou o corrimão de borracha o pulou por cima da rampa, pousando na escada que descia. Agora estava indo na direção oposta e, quando passou por Danzer, inclinou a cabeça numa saudação zombeteira. A expressão dela disse tudo.

Precisava se mover depressa. Não demoraria muito até que ela copiasse sua ação. Passou pelos poucos viajantes à frente e ficou repetindo:

- Segurança do aeroporto, por favor, saiam da frente.

A noção de tempo foi perfeita. Um trem rugiu entrando na estação, indo na direção certa. As portas se abriram. Uma voz robótica anunciou:

- Por favor, afastem-se das portas, ocupem o centro dos corredores.

Pessoas entraram. Knoll olhou para trás e viu Danzer pular por

cima da rampa, com um movimento não tão gracioso quanto o dele. Ela cambaleou um momento e depois recuperou o equilíbrio.

Knoll entrou no trem.

- As portas vão se fechar - anunciou a voz robótica.

Danzer correu da escada rolante para o trem, mas era tarde demais. As portas se fecharam e o trem saiu rugindo da estação.

 

Knoll saiu no terminal internacional. Danzer acabaria chegando até lá, mas o embarque no vôo para Munique certamente já estava sendo feito e, quando ela corresse pelo túnel de transporte ou esperasse o próximo trem, ele já teria ido. O terminal era gigantesco, o maior terminal internacional de vôo dos Estados Unidos. Cinco andares. Vinte e quatro portões. Demoraria uma hora somente para caminhar e verificar todos.

Ele pisou na escada rolante e começou a subir. A mesma sensação luminosa e arejada permeava o espaço. A diferença, periodicamente, eram vitrines recuadas mostrando uma variedade de arte mexicana, egípcia e fenícia. Nada extravagante ou precioso, apenas peças comuns, com placas na parte de baixo falando do museu ou colecionador de Atlanta que fizera o empréstimo.

No topo da escada rolante, acompanhou outros viajantes para a direita. O aroma de café saía de um Starbucks. Havia um grande número de pessoas na W. H. Smith’s comprando revistas e jornais. Knoll examinou as telas de partida. Nos próximos trinta minutos, cerca de uma dúzia de vôos saíam dos portões. Danzer não teria como saber qual ele ia tomar, se é que ia tomar algum.

Knoll examinou a tela do vôo para Munique, encontrou o portão e marchou pelo terminal. Quando chegou, o embarque já estava sendo feito. Entrou na fila e, quando chegou sua vez, disse:

- Vôo cheio, hoje?

O comissário se concentrou no monitor de vídeo.

- Sim, senhor. Lotado.

Agora, mesmo que Danzer o encontrasse, não haveria como segui-lo. Knoll foi para o portão, com cerca de trinta pessoas à frente. Olhou para o início da fila e notou uma mulher com cabelos castanho-avermelhados na altura do ombro, vestida com um belo terninho azul-escuro. Estava entregando o cartão à aeromoça e entrando no corredor de embarque.

O rosto era instantaneamente reconhecível.

Rachel Cutler.

Perfeito.

 

ATLANTA, GEÓRGIA

SEXTA-FEIRA, 16 DE MAIO, 9H15

Suzanne entrou na sala. Paul Cutler se levantou de trás de uma enorme mesa de nogueira e foi em sua direção.

- Agradeço por ter me recebido - disse ela.

- Sem problema, Srta. Myers.

Cutler usou o sobrenome que ela havia dado à recepcionista. Suzanne sabia que Knoll gostava de usar o próprio nome. Mais arrogância. Ela preferia o anonimato. Menos chance de deixar uma impressão duradoura.

- Por que não me chama de Jo?

Ela sentou na poltrona oferecida e examinou o advogado de meia-idade. Era alto e magro, com cabelos castanho-claros, não era careca, os pêlos estavam ficando meio ralos. Vestia a esperada camisa branca, calça escura e gravata de seda, mas os suspensórios davam um toque de maturidade. Deu um sorriso cativante, e ela gostou dos olhos castanhos e cheios de brilho. Cutler parecia acanhado e despretensioso, alguém que ela decidiu rapidamente que poderia ser conquistado com charme.

Por sorte, havia se vestido para o papel. Peruca castanha. Lentes de contato azuis cobriam os olhos. Óculos com lentes octogonais transparentes e armação de ouro ajudavam na ilusão. A saia de crepe com casaco trespassado e lapelas em ponta tinham sido comprados na véspera, na Ann Taylor, e davam um nítido toque feminino, já que a idéia era afastar a atenção para longe do rosto. Quando sentou-se, cruzou as pernas, expondo lentamente as meias pretas, e tentou sorrir um pouquinho mais do que o usual.

- A senhora é investigadora de arte? - perguntou Cutler. - Deve ser um trabalho interessante.

- Pode ser. Mas tenho certeza que seu trabalho é igualmente desafiador.

Ela captou rapidamente a decoração da sala. Uma gravura de Winslow, emoldurada, ficava acima de um sofá de couro, com uma aquarela de Kupka de cada lado. Diplomas salpicavam outra parede, junto com numerosos documentos de associações profissionais e prêmios da Ordem dos Advogados, da Sociedade dos Advogados de Sucessão e da Associação dos Advogados de Tribunais. Duas fotos coloridas tinham sido aparentemente tiradas no que parecia ser uma câmara legislativa - Cutler apertando a mão de um homem mais velho.

Suzanne apontou para as obras de arte.

- O senhor é conhecedor?

- Nem de longe. Coleciono um pouquinho. Mas participo ativamente do nosso Museu High.

- O senhor deve sentir um enorme prazer com isso.

- A arte é importante para mim.

- Foi por isso que concordou em me receber?

- Isso e simples curiosidade.

Ela decidiu ir ao ponto.

- Passei há pouco pelo tribunal do condado de Fulton. A secretária de sua ex-esposa disse que a juíza Cutler está fora da cidade. Não quis dizer aonde ela foi e sugeriu que eu viesse procurá-lo.

- Sami ligou há pouco e disso que o assunto tem a ver com meu ex-sogro, não é?

- Sim. A secretária da juíza Cutler confirmou que um homem esteve lá ontem, procurando sua ex-esposa. Um europeu alto e louro. Usou o nome de Christian Knoll. Estou seguindo Knoll há uma semana, mas perdi ontem à tarde no aeroporto. Temo que ele possa estar seguindo a juíza Cutler.

A preocupação atravessou o rosto do advogado. Excelente. Ela adivinhara.

- Por que esse tal de Knoll seguiria Rachel?

Suzanne estava jogando, ao ser franca. Talvez o medo baixasse as barreiras do advogado e ela pudesse descobrir exatamente para onde Rachel Cutler tinha ido.

- Knoll veio a Atlanta para falar com Karol Borya. - Ela decidiu omitir a referência de que Knoll falou com Borya na noite de sábado. Não precisava fazer uma conexão forte demais. - Knoll deve ter sabido que Borya morreu e procurou a filha. É a única explicação lógica para ele ter ido à sala dela.

- Como ele, e a senhora, sabem sobre Karol?

- O senhor deve saber o que o Sr. Borya fazia quando era cidadão soviético.

- Ele nos contou. Mas como a senhora sabe?

- Os registros da comissão para a qual o Sr. Borya trabalhou são públicos atualmente na Rússia. É fácil estudar a história. Knoll está procurando a Sala de Âmbar e, provavelmente, esperava que Borya soubesse algo a respeito.

- Mas como ele soube como encontrar Knoll?

- Na semana passada, Knoll examinou registros, num arquivo em São Petersburgo, que se tornaram disponíveis para inspeção apenas recentemente. Ele obteve as informações no arquivo.

- Isso não explica por que a senhora está aqui.

- Como disse, eu segui Knoll.

- Como a senhora soube que Karol morreu?

- Só soube quando cheguei à cidade, na segunda-feira.

- Srta. Myers, por que tanto interesse pela Sala de Âmbar? Estamos falando de algo que está perdido há mais de cinqüenta anos. A senhora não acha que, se ela pudesse ser encontrada, já teria sido?

- Concordo, Sr. Cutler. Mas Christian Knoll pensa de outro modo.

- A senhora disse que o perdeu no aeroporto ontem. O que a faz pensar que ele está seguindo Rachel?

- Só uma intuição. Procurei pelos terminais, mas não pude encontrá-lo. Notei vários vôos internacionais que partiam alguns minutos depois de Knoll ter se livrado de mim. Um era para Munique. Dois para Paris. Três para Frankfurt.

- Ela estava no vôo para Munique.

Paul Cutler parecia estar gostando de Suzanne. Começando a confiar. A acreditar. Ela decidiu aproveitar o momento.

- Por que a juíza Cutler foi a Munique tão pouco tempo depois da morte do pai?

- O pai deixou um bilhete sobre a Sala de Âmbar.

Agora era hora de pressionar.

- Sr. Cutler, Christian Knoll é um homem perigoso. Quando quer uma coisa, nada o impede de conseguir. Aposto que também estava naquele vôo para Munique. É importante que eu fale com sua ex-esposa. O senhor sabe onde ela está hospedada?

- Ela disse que ligaria de lá, mas ainda não tive notícias.

A preocupação temperava as palavras. A mulher olhou para o relógio.

- São quase três e meia em Munique.

- Eu estava pensando a mesma coisa, antes de a senhora chegar.

- O senhor sabe exatamente para onde ela ia?

Paul não respondeu. Suzanne pressionou mais:

- Entendo que sou uma estranha. Mas garanto que sou amiga. Preciso encontrar Christian Knoll. Não posso entrar em detalhes por uma questão de sigilo, mas acredito fortemente que ele está procurando sua ex-esposa.

- Então acho que devo contatar a polícia.

- Knoll não significa nada para a polícia local. Isso é uma questão para as autoridades internacionais.

Ele hesitou, como se pensasse nas palavras, pesando as opções. Ligar para a polícia tomaria tempo. Envolver agências européias demoraria mais ainda. Ela estava ali agora, pronta para agir. A escolha deveria ser fácil, e a mulher não ficou surpresa quando ele escolheu.

- Rachel foi à Baviera procurar um homem chamado Danya Chapaev. Ele mora em Kehlheim.

- Quem é Chapaev? - perguntou ela, fingindo inocência.

- Um amigo de Karol. Os dois trabalharam juntos para a comissão, há anos. Rachel acha que talvez Chapaev saiba algo sobre a Sala de Âmbar.

- O que a levaria a achar isso?

Paul enfiou a mão numa gaveta e tirou um maço de cartas. Entregou-as a ela.

- Veja a senhora mesma. Está tudo aí.

Suzanne demorou alguns minutos e leu todas as cartas. Não havia nada definido ou preciso, apenas sugestões do que poderia ser sabido ou suspeitado. Mas o bastante para preocupá-la. Agora não havia dúvida de que tinha de impedir Knoll de se juntar a Rachel Cutler. Era exatamente isso que o sacana planejava fazer. Não descobrira nada com o pai, por isso jogou-o escada abaixo e decidiu jogar charme para a filha e ver o que poderia descobrir. Levantou-se.

- Agradeço a informação, Sr. Cutler. Verei se sua ex-esposa pode ser localizada em Munique. Tenho contatos lá. - Ela estendeu a mão. - Muito obrigada por seu tempo.

Cutler se levantou e cumprimentou-a.

- Agradeço sua visita e o alerta, Srta. Myers, mas a senhora não disse qual é o seu interesse.

- Não tenho autorização para divulgar, basta dizer que o Sr. Knoll é procurado por sérias acusações.

- A senhora é da polícia?

- Sou investigadora particular contratada para encontrar Knoll. Trabalho em Londres.

- Estranho. Seu sotaque é mais da Europa Oriental do que inglês.

Ela sorriu.

- Exato. Nasci em Praga.

- Poderia deixar um número de telefone? Se eu tiver notícias de Rachel, talvez possa pôr as duas em contato.

- Não precisa. Ligarei de novo para o senhor mais tarde hoje ou amanhã, se não tiver problema.

Ela se virou para sair e notou a foto emoldurada de um homem e uma mulher mais velhos. Sinalizou.

- Um belo casal.

- Meus pais. A foto foi tirada três meses antes de eles morrerem.

- Sinto muito.

Ele aceitou as condolências com um ligeiro gesto de cabeça, e ela saiu sem dizer mais nada. Na última vez em que tinha visto o mesmo casal idoso, eles, e outros vinte, estavam saindo da chuva para um airbus da Alitalia, preparando-se para deixar Florença e fazer uma viagem rápida à França, por sobre o mar da Ligúria. Os explosivos que ela pagara para colocarem a bordo estavam seguros no compartimento de bagagem, com o relógio tiquetaqueando, marcado para trinta minutos depois, sobre o mar.

 

MUNIQUE, ALEMANHA

16H35

Rachel estava encantada. Nunca estivera numa cervejaria. Uma banda de música, com trompetes, percussão, acordeão e cowbells tocava de modo ensurdecedor. Compridas mesas de madeira estavam apinhadas de pessoas festejando, e o aroma de fumo, salsicha e cerveja era denso e forte. Garçons pegajosos de suor, com bermudas de couro, e mulheres com vestidos coloridos serviam canecas de um litro de cerveja escura. Maibock, como ela ouviu a bebida sendo chamada, uma cerveja servida apenas nesta época do ano, anunciando a chegada do tempo mais quente.

A maioria das cerca de duzentas pessoas ao redor parecia estar se divertindo. Ela jamais havia gostado de cerveja, sempre achara que era um gosto adquirido, por isso pediu uma Coca e um frango assado, para jantar. O recepcionista do hotel tinha sugerido a cervejaria, desencorajando-a da Hofbrauhaus ali perto, onde havia turistas demais.

Seu vôo de Atlanta havia chegado naquela manhã. Desconsiderando os conselhos que sempre ouvira, alugou um carro, hospedou-se num hotel e curtiu um longo cochilo. No dia seguinte, iria até Kehlheim, cerca de setenta quilômetros ao sul, pertinho da Áustria e dos Alpes. Se Danya Chapaev tinha esperado tanto tempo, poderia esperar mais um dia, presumindo que estivesse lá, para ser encontrado.

A mudança de cenário estava lhe fazendo bem, mas era estranho olhar em volta, ver os tetos abobadados e as roupas coloridas dos em¬pregados da cervejaria. Só tinha viajado ao estrangeiro uma vez, há três anos, a Londres para um congresso de justiça patrocinado pela Ordem dos Advogados da Geórgia. Os programas de televisão sobre a Alemanha sempre a haviam interessado, e ela sonhara em um dia poder visitar o país. Agora estava aqui.

Mastigou o pedaço de frango e desfrutou do espetáculo. Isso afastava sua mente do pai, da Sala de Âmbar e de Danya Chapaev. De Marcus Nettles e da próxima eleição. Talvez Paul estivesse certo e aquilo fosse uma completa perda de tempo. Mas ela se sentia melhor só de estar ali, e isso significava alguma coisa.

Pagou a conta com euros trocados no aeroporto e saiu. O fim de tarde estava fresco e agradável, o que, em Atlanta, seria tempo de usar suéter, com um sol de primavera pintando as pedras do calçamento, alternando entre luz e sombras. As ruas estavam apinhadas com centenas de turistas e consumidores, as construções da cidade antiga eram uma intrigante mistura de pedra, enxaimel e tijolos, uma atmosfera de povoado, de uma antigüidade elegante e medieval.

Virou para o oeste e caminhou de volta à Marienplatz. O hotel ficava do outro lado da praça. No meio havia uma feira, com barracas cheias de verduras, carne e especialidades cozidas. Uma cervejaria ao ar livre se espalhava à esquerda. Ela se lembrava de algumas coisas sobre Munique. Antiga capital da Baviera, lar do Duque e Eleitor, sede dos Wittelsbachs que governaram a região por 750 anos. Como era mesmo que Thomas Wolfe a havia chamado? Um toque do céu alemão.

Passou por vários grupos de turistas com guias falando francês, espanhol e japonês. Diante da prefeitura, encontrou um grupo inglês, com leve sotaque cockney que ela recordava da viagem anterior à Inglaterra. Ficou a trás do grupo, ouvindo a guia, olhando para a chamejante decoração gótica à frente. O grupo seguiu devagar pela praça, parando do lado mais distante, de frente para a prefeitura. Ela foi atrás e notou o guia olhando para o relógio de pulso. O mostrador do relógio lá no alto marcava 16h58.

De repente, as janelas da torre do relógio se abriram e duas fileiras de coloridas figuras de cobre esmaltado saíram dançando sobre uma plataforma giratória. A música inundou a praça. Os sinos tocaram marcando cinco horas, ecoados por outros sinos à distância.

- Este é o glockenspiel - disse a guia acima do ruído. - Ele funciona três vezes por dia. Às onze horas, ao meio-dia e agora, às cinco da tarde. As figuras em cima estão representando um torneio que acompanhava os casamentos reais na Alemanha, no século XVI. As figuras de baixo fazem a Dança dos Cobres.

As figuras coloridas giravam ao tom de uma animada música bávara. Todos na rua pararam, com o pescoço inclinado para cima. A vinheta durou dois minutos, depois parou, e a praça voltou à vida. O grupo de turistas se afastou e atravessou uma das ruas laterais. Ela se demorou alguns segundos e ficou olhando as janelas do relógio se fecharem totalmente, depois seguiu pelo cruzamento.

O som de uma buzina despedaçou a tarde.

Rachel virou bruscamente a cabeça para a esquerda.

A frente de um carro se aproximava. Quinze metros. Dez. Seis. Seus olhos se concentraram no capo e no emblema da Mercedes, depois nas luzes e nas letras que significavam táxi.

Três metros.

A buzina continuava tocando. Ela precisava se mexer, mas os pés não reagiam. Preparou-se para a dor, imaginando o que doeria mais: o impacto ou a queda nas pedras do calçamento.

Pobres Marla e Brent.

E Paul. O doce Paul.

Um braço envolveu seu pescoço e ela foi puxada para trás.

Guincho de freios. O táxi parou. O cheiro de borracha queimada subiu do pavimento.

Ela se virou para ver quem a segurava. O homem era alto e magro, com cabelos cor de milho caindo sobre a testa bronzeada. Lábios finos como fendas cortadas por uma navalha marcavam o rosto bonito, com pele de tom moreno. Vestia uma camisa de sarja cor de trigo e calça xadrez.

- Você está bem? - perguntou ele em inglês.

O auge do momento havia exaurido suas emoções. Percebeu instantaneamente como estivera perto de morrer.

- Acho que sim.

Uma multidão se juntou. O motorista tinha saído do táxi, preocupado.

- Ela está bem, pessoal - disse o salvador. Depois acrescentou algo em alemão e as pessoas começaram a se afastar. Ele falou em alemão com o motorista de táxi, que respondeu e foi embora.

- O motorista lamenta. Mas disse que você apareceu do nada.

- Achei que era uma rua de pedestres - disse ela. - Não estava preocupada com um carro.

- Os táxis não deveriam estar aqui, mas eles dão um jeito. Lembrei isso ao motorista, e ele decidiu que o melhor era ir embora.

- Deveria haver uma placa, ou algo assim.

- É dos Estados Unidos, não é? Tudo tem placa nos Estados Unidos. Aqui, não.

Ela se acalmou.

- Obrigada pelo que fez.

Duas fileiras de dentes brancos exibiram um sorriso perfeito.

- O prazer foi meu. - Ele estendeu a mão. - Sou Christian Knoll.

Ela aceitou a oferta.

- Rachel Cutler. E fico feliz de o senhor estar aqui, Sr. Knoll. Não tinha visto aquele táxi.

- Seria uma infelicidade, se eu não estivesse.

Ela riu.

- Nem me fale. - E começou a tremer incontrolavelmente, com o choque retardado do que quase havia acontecido.

Por favor, deixe-me pagar uma bebida para acalmá-la.

- Não é necessário.

- A senhora está tremendo. Um vinho seria bom.

- Agradeço, mas...

- Como recompensa pelo meu esforço.

Seria difícil recusar isso, então ela cedeu.

- Certo, talvez um pouco de vinho caia bem.

 

Acompanhou Knoll até um café a dois quarteirões dali, com as duas torres de cobre da catedral erguendo-se do outro lado da rua. Mesas cobertas com toalhas brotavam nas pedras do calçamento, cada uma com pessoas segurando canecas de cerveja escura. Knoll pediu uma cerveja para ele e uma taça de vinho do Reno. O líquido transparente era seco, amargo e bom.

Knoll estava certo. Seus nervos estavam abalados. Era o mais próximo da morte que já estivera. Seus pensamentos na hora tinham sido estranhos. Brent e Maria eram compreensíveis. Mas Paul? Ela havia claramente pensado nele, o coração doendo por um instante.

Tomou um gole de vinho e deixou o álcool e o ambiente aliviarem os nervos.

- Tenho uma confissão a fazer, Sra. Cutler - disse Knoll.

- Que tal Rachel?

- Muito bem. Rachel.

Ela tomou mais vinho.

- Que tipo de confissão?

- Eu a estava seguindo.

As palavras atraíram sua atenção. Ela pousou a taça.

- Como assim?

- Eu a estava seguindo. Venho seguindo-a desde Atlanta.

Ela se levantou da mesa.

- Acho que talvez a polícia deva ser envolvida nisto.

Knoll ficou sentado, impassível, e tomou um gole de cerveja.

- Não tenho problemas com isso, se você desejar. Só peço que me ouça até o fim antes.

Ela considerou o pedido. Estavam sentados ao ar livre. Do outro lado de um parapeito de ferro fundido, a rua estava cheia de pessoas fazendo compras. Que mal faria ouvi-lo? Sentou-se.

- Certo, Sr. Knoll. O senhor tem cinco minutos.

Knoll pôs a caneca na mesa.

- Viajei a Atlanta no início da semana para me encontrar com seu pai. Ao chegar, fiquei sabendo da morte dele. Ontem fui à sua sala no tribunal e soube de sua viagem. Cheguei a deixar meu nome e o número de telefone. Sua secretária não repassou meu recado?

- Não liguei para lá. O que o senhor queria com meu pai?

- Estou procurando a Sala de Âmbar e achei que ele poderia ajudar.

- Por que está procurando a Sala de Âmbar?

- Meu patrão a quer.

- Assim como os russos, tenho certeza.

Knoll sorriu.

- Certo. Mas, depois de cinqüenta anos, consideramos que seja do tipo "é de quem chegar primeiro", acho que é assim que os americanos dizem, não é?

- Como meu pai poderia ajudar?

- Ele procurou durante muitos anos. Encontrar a Sala de Âmbar era uma grande prioridade dos soviéticos.

- Isso foi há mais de cinqüenta anos.

- Para esse prêmio específico, a passagem do tempo não significa nada. No mínimo torna a busca mais intrigante.

- Como o senhor localizou meu pai?

Knoll enfiou a mão no bolso e lhe entregou alguns papéis dobrados.

- Descobri isto na semana passada em São Petersburgo. Estes papéis me levaram a Atlanta. Como verá, a KGB o visitou há alguns anos.

Rachel desdobrou e leu. As palavras datilografadas eram em cirílico. Havia ao lado uma tradução em inglês, em tinta azul. Ela notou instantaneamente quem havia assinado a folha de cima. Danya Chapaev. Também notou o que estava escrito sobre seu pai no papel da KGB.

 

Contato feito. Nega qualquer informação sobre a yantarnaya komnata depois de 1958. Não pude localizar Danya Chapaev. Borya afirmou não saber do paradeiro de Chapaev.

 

Mas seu pai sabia exatamente onde Chapaev morava. Tinha se correspondido com ele durante anos. Por que havia mentido? E seu pai jamais tinha mencionado nada sobre a visita da KGB. Também não tinha falado muito sobre a Sala de Âmbar. Era meio irritante pensar que a KGB sabia sobre ela, Maria e Brent. Imaginou o que mais seu pai havia escondido.

- Infelizmente não pude falar com seu pai - disse Knoll. - Cheguei tarde demais. Sinto muito, realmente, sobre a sua perda.

- Quando o senhor chegou?

- Na segunda-feira.

- E esperou até ontem para ir à minha sala no tribunal?

- Fiquei sabendo da morte de seu pai e não quis me intrometer em seu sofrimento. Meu trabalho poderia ser adiado.

A ligação com Chapaev começou a aliviar sua tensão. O sujeito podia ser digno de crédito, mas ela ficou alerta contra a complacência. Afinal, mesmo bonito e charmoso, Christian Knoll ainda era um estranho. Pior, um estranho num país estrangeiro.

- O senhor estava no mesmo vôo que eu?

Ele assentiu.

- Quase não consigo pegar o avião.

- Por que esperou até agora para se apresentar?

- Não sabia o motivo de sua visita. Se fosse pessoal, eu não queria interferir. Se tivesse a ver com a Sala de Âmbar, pretendia abordá-la.

- Não gosto de ser seguida, Sr. Knoll. Nem um pouco.

O olhar de Knoll se fixou no dela.

- Talvez tenha sido uma felicidade eu ter feito isso.

O táxi surgiu na mente de Rachel. E se ele estivesse certo?

- E pode me chamar de Christian - disse ele.

Rachel disse a si mesma para recuar. Não precisava ser tão hostil. Ele estava certo. Tinha salvado sua vida.

- Certo. Christian.

- Sua viagem tem a ver com a Sala de Âmbar?

- Não sei se devo responder a isso.

- Se eu fosse perigoso, simplesmente deixaria o táxi atropelá-la. Bom argumento, mas talvez não o bastante.

- Frau Cutler, sou um investigador treinado. A arte é a minha especialidade. Falo a língua daqui e sou familiarizado com este país. A senhora pode ser uma juíza excelente, mas presumo que seja uma investigadora novata.

Ela ficou quieta.

- Estou interessado em informações sobre a Sala de Âmbar, nada mais. Contei a você o que sei. Só peço o mesmo, em troca.

- E se eu recusar e for à polícia?

- Simplesmente desapareço, mas vou mantê-la sob vigilância para saber o que você faz. Não é nada pessoal. Você é uma pista e pretendo segui-la até o fim. Simplesmente achei que poderíamos trabalhar juntos e economizar tempo.

Havia algo áspero e perigoso em Knoll, e ela gostava disso. Suas palavras eram claras e diretas, a voz firme. Rachel examinou o rosto dele, procurando indícios, e não encontrou nenhum. Por isso tomou o tipo de decisão rápida ao qual estava acostumada no tribunal.

- Certo, Sr. Knoll. Vim procurar Danya Chapaev. Aparentemente o mesmo nome que está nesta folha. Ele mora em Kehlheim.

Knoll ergueu a caneca e tomou um gole de cerveja.

- Fica ao sul daqui, em direção aos Alpes, perto da Áustria. Conheço a cidadezinha.

- Aparentemente ele e papai estavam interessados na Sala de Âmbar. Obviamente, mais do que eu imaginava.

- Alguma idéia do que Herr Chapaev saberia?

Ela decidiu não mencionar nada sobre as cartas, por enquanto.

- Nada além de que eles já trabalharam juntos, como você já parece saber.

- Como ficou sabendo do nome?

Rachel decidiu mentir.

- Meu pai falou dele durante muitos anos. Os dois tinham sido próximos.

- Posso ser uma ajuda valiosa, Frau Cutler.

- Com toda a honestidade, Sr. Knoll, eu esperava passar algum tempo sozinha.

- Entendo completamente. Lembro-me de quando meu pai morreu. Foi muito difícil.

O sentimento parecia genuíno, e ela apreciou a preocupação. Mas ele ainda era um estranho.

- Você precisa de ajuda. Se esse tal de Chapaev possui alguma informação, eu posso ajudar a desenvolvê-la. Tenho um vasto conhecimento sobre a Sala de Âmbar. Conhecimento que pode ajudar.

Ela ficou quieta.

- Quando planeja ir para o sul? - perguntou Knoll.

- Amanhã de manhã. - Ela respondeu depressa demais.

- Deixe-me levá-la de carro.

- Eu não gostaria que meus filhos aceitassem carona de estranhos. Por que eu deveria fazer o mesmo?

Knoll sorriu.

Ela gostou disso.

- Fui aberto e franco com sua secretária sobre minha identidade e minhas intenções. Uma tremenda pista para alguém que pretendia lhe fazer mal. - Ele engoliu o resto da cerveja. - De qualquer modo, eu simplesmente a seguiria até Kehlheim.

Ela tomou outra decisão rápida. Uma decisão que a surpreendeu.

- Certo. Por que não? Vamos juntos. Estou hospedada no hotel Waldeck. Uns dois quarteirões, naquela direção.

- Eu estou hospedado do outro lado da rua, em frente ao Waldeck, no Elisabeth.

Ela balançou a cabeça e sorriu.

- Por que será que isso não me surpreende?

 

Knoll viu Rachel Cutler desaparecer na multidão.

A coisa correra bastante bem.

Jogou alguns euros na mesa e saiu do café. Virou várias esquinas e atravessou de novo a Marienplatz. Depois de passar pela feira cheia de pessoas jantando cedo e de gente simplesmente aproveitando a tarde, foi para a Maximilianstrasse, um elegante bulevar ladeado de museus, prédios governamentais e lojas. O pórtico com colunas do Teatro Nacional se erguia adiante. Na frente, uma fileira de táxis envolvia a estátua de Max Joseph, o primeiro rei da Baviera, pacientemente esperando passageiros que sairiam da primeira apresentação da noite. Knoll atravessou a rua e foi até o quarto táxi na fila. O motorista estava parado do lado de fora, braços cruzados, encostado ao Mercedes.

- Foi bom? - perguntou o motorista em alemão.

- Mais do que suficiente.

- Meu desempenho depois convenceu?

- Foi notável. - Knoll entregou um maço de euros ao sujeito.

- É sempre um prazer fazer negócio com você, Christian.

- Com você também, Erich.

Ele conhecia bem o motorista, tendo-o usado antes em Munique. O sujeito era confiável e corrupto, duas qualidades que Knoll procurava em seus auxiliares.

- Está ficando mole, Christian?

- Como assim?

- Você só queria que ela ficasse apavorada, e não que fosse morta. Não é o seu estilo.

Ele sorriu.

- Nada como um contato de perto com a morte para gerar confiança.

- Você quer comer a dona, ou algo assim?

Knoll não queria falar muito mais, mas também queria que o sujeito estivesse disponível no futuro. Assentiu e disse:

- É um bom modo de ir para a cama.

O motorista contou as notas.

- Quinhentos euros é um bocado de grana em troca de um rabo.

Mas Knoll pensou na Sala de Âmbar e nos dez milhões de euros que ela lhe traria. Depois pensou de novo em Rachel Cutler e em sua atratividade, que havia permanecido depois de ela ter ido embora.

- Na verdade, não.

 

ATLANTA, GEÓRGIA

12H35

Paul estava preocupado. Tinha deixado de almoçar e ficado no escritório, esperando que Rachel ligasse. Eram mais de 18h30 na Alemanha. Ela havia mencionado a possibilidade de ficar em Munique por uma noite, antes de ir para Kehlheim. Por isso Paul não tinha certeza se ela ligaria hoje ou no dia seguinte, depois de ter ido para o sul, ou se ao menos ligaria.

Rachel era franca, agressiva e durona. Sempre fora. Era esse espírito independente que a tornava uma boa juíza. Mas isso também a tornava difícil de ser conhecida, e ainda mais difícil de se gostar. As amizades não surgiam com facilidade. Mas no fundo era calorosa e amorosa. Ele sabia disso. Infelizmente os dois eram como água e fogo. Mas seriam mesmo? Ambos achavam que um jantar calmo em casa era melhor do que um restaurante apinhado. Alugar um vídeo era preferível ao cinema. Uma tarde com as crianças no zoológico era o paraíso, comparada a uma noite de farra na cidade. Percebeu que ela sentia falta do pai. Os dois eram íntimos, em especial depois do divórcio. Karol tinha se esforçado tremendamente para que os dois voltassem a ficar juntos.

O que era mesmo que dizia o bilhete do velho?

Pense em dar outra chance ao Paul.

Mas não adiantava. Rachel estava decidida a que vivessem separados Tinha negado cada tentativa de reconciliação que ele fizera. Talvez fosse hora de ele ceder e desistir. Mas havia alguma coisa ali. A falta de uma vida social para Rachel. E quantos homens possuíam a chave da casa da ex-mulher? Quantos ainda compartilhavam a escritura? Ou continuavam a manter uma conta de investimentos conjunta? Ela jamais insistira que a conta dos dois no Merrill Lynch fosse fechada, e ele tinha conseguido que a conta durasse três anos sem que ela questionasse seu julgamento.

Olhou para o telefone. Por que ela não havia ligado? O que estava acontecendo? Um homem, Christian Knoll, supostamente estava procurando-a. Talvez fosse perigoso. Talvez não. Toda a informação que ele possuía era a palavra de uma morena bonita com olhos azuis brilhantes e pernas em forma. Jo Myers. Ela havia se mostrado calma e contida, reagindo bem às perguntas, com respostas rápidas e objetivas. Era quase como se pudesse sentir a apreensão dele com relação a Rachel, as dúvidas dele sobre a viagem à Alemanha. Paul havia falado um pouco demais, e esse fato o incomodava. Rachel não tinha o que fazer na Alemanha. Disso ele estava certo. A Sala de Âmbar não era da conta de Rachel, e havia dúvidas de que Danya Chapaev estivesse ao menos vivo.

Estendeu a mão sobre a mesa e pegou as cartas do ex-sogro. Encontrou o bilhete para Rachel e olhou o trecho na metade da página.

 

Será que encontramos? Talvez. Nenhum de nós foi realmente olhar. Naquela época, havia muitas pessoas vigiando e, quando estreitamos a busca, ambos percebemos que os soviéticos eram muito piores que os alemães. Por isso deixamos para lá. Danya e eu prometemos nunca revelar o que sabíamos, ou talvez o que simplesmente pensávamos que sabíamos. Só investiguei de novo quando Yancy se ofereceu para fazer indagações discretas, verificando informações que eu havia considerado dignas de crédito. Em sua última viagem à Itália, ele estava fazendo indagações. Jamais saberemos se a explosão no avião foi devido às perguntas dele ou a outra coisa. Só sei que a busca pela Sala de Âmbar se mostrou perigosa.

 

Continuou lendo e encontrou o alerta:

 

Mas nunca, absolutamente nunca, se preocupe com a Sala de Âmbar. Lembre-se da história de Faetonte e das lágrimas das Helíades. Pense na ambição dele e na tristeza delas.

 

Tinha lido bastante os clássicos, mas não conseguia se lembrar da situação específica. Rachel fora evasiva há três dias, quando ele perguntou sobre a história à mesa de jantar.

Virou-se para o terminal de computador e acessou a internet. Escolheu um mecanismo de busca e digitou: "Faetonte e as Helíades". A tela indicou mais de uma centena de sites. Verificou alguns, aleatoriamente. O terceiro era o melhor, uma página intitulada "O mundo mítico de Edith Hamilton". Examinou até encontrar a história de Faetonte, e uma bibliografia observava que o relato era tirado das Metamorfoses, de Ovídio.

Leu a história. Era pitoresca e profética.

Faetonte, filho ilegítimo de Hélio, o deus sol, finalmente encontrou seu pai. Sentindo-se culpado, o deus sol concedeu um desejo ao filho, e o garoto escolheu imediatamente ocupar o lugar do pai durante um dia, pilotando a carruagem do sol pelo céu, do amanhecer ao crepúsculo. O pai percebeu a tolice do filho e tentou em vão dissuadi-lo, mas este não cedeu. Por isso Hélio concedeu o desejo, mas alertou ao garoto como era difícil controlar a carruagem. Nenhum dos alertas do deus sol pareceu significar coisa alguma. O garoto só se via de pé na carruagem maravilhosa, guiando os cavalos que o próprio Zeus não conseguia dominar.

Mas assim que decolou, Faetonte descobriu rapidamente que os alertas do pai estavam corretos, e perdeu o controle da carruagem. Os cavalos partiram para o topo do céu e depois mergulharam suficientemente perto da terra para incendiar o mundo. Não tendo opção, Zeus disparou um raio que destruiu a carruagem e matou Faetonte. O misterioso rio Eridano o recebeu e apagou as chamas que engolfaram seu corpo. As Náiades, com pena de alguém tão ousado e tão jovem, o enterraram. As irmãs de Faetonte, as Helíades, vieram à sua sepultura e choraram. Tendo pena da tristeza delas, Zeus as transformou em choupos cujas folhas murmuravam tristes à margem do Eridano.

Paul leu as últimas frases da história na tela:

 

ONDE, TRISTES, CHORAM NO RIO PARA SEMPRE.

CADA LÁGRIMA AO CAIR BRILHA NA ÁGUA

COMO UMA RELUZENTE GOTA DE ÂMBAR.

 

Lembrou-se instantaneamente do exemplar das Metamorfoses, de Ovídio, que tinha visto na estante de Borya. Karol estava tentando alertar Rachel, mas ela não quis ouvir. Como Faetonte, correu numa busca idiota, sem entender os perigos nem avaliar os riscos. Será que Christian Knoll seria seu Zeus? Aquele que lançaria um raio?

Olhou para o telefone. Toque, desgraçado!

O que deveria fazer?

Não podia fazer nada. Ficar com as crianças, cuidar delas e esperar a volta de Rachel de sua busca insensata. Poderia ligar para a polícia e talvez alertar as autoridades alemãs. Mas se Christian Knoll não passasse de um investigador curioso, Rachel sem dúvida lhe daria uma bronca. Ia chamá-lo de alarmista.

E ele não precisava disso.

Mas havia uma terceira opção. A que mais o atraía. Olhou o relógio: 13h50, 19h50 na Alemanha. Pegou o catálogo telefônico, encontrou o número e ligou para a Delta Airlines. O funcionário encarregado de reservas atendeu.

- Preciso de um vôo de Atlanta para Munique, partindo esta noite.

 

KEHLHEIM, ALEMANHA

SÁBADO, 17 DE MAIO, 8H05

Suzanne havia ganhado tempo. Tinha saído do escritório de Paul Cutler na véspera e viajado imediatamente para Nova York, onde pegou o Concorde que partia às 18h30 para Paris. Chegando pouco depois das 22h, hora local, uma ponte aérea da Air France para Munique deixou-a no solo à uma hora. Conseguiu dormir um pouco num hotel do aeroporto e depois partiu para o sul num Audi alugado, seguindo a autobahn E533, direto até Oberammergau, depois para o oeste, numa estrada sinuosa até o lago alpino chamado Förggensee, a leste de Füssen.

O povoado de Kehlheim era um amontoado irregular de casas caiadas cobertas por telhados ornamentados que se aninhava perto da margem leste do lago. Uma igreja com torre dominava o centro, com uma desconexa markplatz ao redor. Encostas cobertas de florestas envolviam as margens mais distantes. Alguns barcos com velas brancas deslizavam na água cinza-azulada como borboletas na brisa.

Ela parou ao sul da igreja. Vendedores ocupavam a praça com calçamento de pedras, preparados para a feira da manhã de sábado. O ar cheirava a carne crua, verduras úmidas e tabaco queimado. Caminhou pela confusão cheia de turistas de primavera. Crianças brincavam em grupos ruidosos. Golpes de martelo ecoavam a distância. Um homem idoso numa das barracas, com cabelos prateados e nariz torto, atraiu sua atenção. Não estava longe da idade que Danya Chapaev teria. Suzanne se aproximou e admirou suas maçãs e cerejas.

- Belas frutas - disse em alemão.

- Eu mesmo as planto - respondeu o velho.

Ela comprou três maçãs, deu um sorriso largo e se mostrou calorosa. Sua imagem era perfeita. Peruca loura-avermelhada, pele clara, olhos castanho-claros. Os seios eram aumentados em dois números por um par de enchimentos de silicone. Tinha aumentado também os quadris e as coxas, e os jeans justos eram dois números maiores que os dela, para acomodar o corpo artificial. Uma camisa de flanela xadrez e botas marrons encerravam o disfarce. Óculos de sol escondiam os olhos, escuros, mas não o bastante para atrair atenção. Mais tarde, testemunhas certamente iam descrevê-la como uma loura peituda e gorducha.

- O senhor sabe onde Danya Chapaev mora? - perguntou enfim. - É um senhor de idade. Morou aqui um tempo. Era amigo do meu avô. Vim dar um presente, mas perdi o endereço dele. Só encontrei o povoado por sorte.

O velho balançou a cabeça.

- Que descuido, Fräulein.

Ela sorriu, adorando a censura.

- Eu sei. Mas sou assim. Minha mente sempre fica a quilômetros de distância.

- Não sei onde mora nenhum Chapaev. Sou de Nesselwang, a oeste. Mas deixe-me falar com alguém daqui.

Antes que ela pudesse impedi-lo, o velho gritou para outro homem do outro lado da praça. Suzanne não queria atrair muita atenção. Os dois falaram em francês, uma língua em que ela não era totalmente fluente, mas captou uma ou outra palavra. Chapaev. Norte. Três quilômetros. Perto do lago.

- Eduard conhece Chapaev. Diz que mora ao norte da cidade. Três quilômetros. Junto à margem do lago. Aquela estrada lá. Um pequeno chalé de pedras com chaminé.

Ela sorriu e assentiu, depois escutou o homem do outro lado da praça gritar:

- Julius! Julius!

Um garoto de cerca de 12 anos correu para a barraca. Tinha cabelos castanho-claros e rosto bonito. O vendedor falou com o menino, que em seguida correu até ela. Atrás, um bando de patos voou do lago para o pálido céu da manhã.

- Está procurando Chapaev? - perguntou o garoto. - É o meu avô. Posso mostrar.

Os olhos jovens do garoto examinaram os seios dela.

- Então mostre.

Homens de todas as idades eram tão fáceis de manipular!

 

9H15

Rachel olhou para Christian Knoll, no outro banco. Iam a toda velocidade para o sul, pela autobahn E533, trinta minutos ao sul de Munique. O terreno emoldurado pelas janelas de vidro fumê do Volvo mostrava picos fantasmagóricos emergindo de uma cortina de névoa, com neve branqueando as dobras das maiores altitudes, e as encostas abaixo se vestiam de verdejantes abetos e lariços.

- É um lugar lindo - disse ela.

- A primavera é a melhor época para visitar os Alpes. É a sua primeira vez na Alemanha?

Ela assentiu.

- Vai gostar muito da região.

- Você viaja muito?

- O tempo todo.

- Mora onde?

- Tenho um apartamento em Viena, mas raramente fico lá. Meu trabalho me leva por todo o mundo.

Rachel examinou o motorista enigmático. Seus ombros eram largos e musculosos, o pescoço grosso, os braços compridos e poderosos. De novo se vestia de modo casual. Camisa de camurça xadrez, jeans, botas, e cheirava levemente a uma colônia doce. Era o primeiro europeu com quem realmente conversava por algum tempo. Talvez esse fosse o fascínio. Ele definitivamente instigara seu interesse.

- O documento da KGB dizia que você tem um filho. Tem marido? - perguntou Knoll.

- Tinha. Nós nos divorciamos. E são dois filhos.

- O divórcio é bem comum nos Estados Unidos.

- Cuido de mais de cem por semana no meu tribunal.

Knoll balançou a cabeça.

- É uma pena.

- Parece que as pessoas não conseguem viver juntas.

- Seu ex-marido é advogado?

- Um dos melhores. - Um Volvo passou a toda na pista da esquerda. - Incrível. Aquele carro deve estar a mais de 160 por hora.

- Quase 160. Nós estamos a quase 160.

- Essa é uma clara diferença com relação ao meu país.

- Ele é bom pai? - perguntou Knoll.

- Meu ex? Ah, sim. Muito bom.

- Melhor pai do que marido?

Estranhas, as perguntas. Mas ela não se incomodou, já que o anonimato de um estranho fazia diminuirá intromissão.

- Eu não diria isso. Paul é um bom homem. Qualquer mulher ficaria empolgada em tê-lo.

- Por que você não ficou?

- Não disse que não fiquei. Simplesmente disse que não conseguíamos viver juntos.

Knoll pareceu sentir a hesitação dela.

- Não quis xeretar. Só que as pessoas me interessam. Não tendo lar nem raízes permanentes, gosto de sondar os outros. Simples curiosidade. Nada mais.

- Tudo bem. Não me ofendi. - Ela ficou sentada em silêncio por alguns instantes, depois disse: - Eu deveria ter ligado e dito ao Paul onde estou. Ele ficou tomando conta das crianças.

- Você pode avisar hoje à noite.

- Ele não ficou feliz por eu ter vindo. Ele e meu pai disseram que eu deveria ficar fora disso.

- Você falou sobre o assunto com seu pai, antes de ele morrer?

- Não. Ele me deixou um bilhete junto com o testamento.

- Então por que veio aqui?

- É algo que preciso fazer.

- Entendo. A Sala de Âmbar é um tremendo prêmio. As pessoas a procuram desde a guerra.

- Foi o que me disseram. O que a torna tão especial?

- É difícil dizer. A arte tem um efeito muito variado sobre as pessoas. O interessante da Sala de Âmbar é que ela comovia todo mundo do mesmo modo. Li relatos dos séculos XIX e início do XX. Todos concordam que era magnífica. Imagine, uma sala inteira forrada de âmbar!

- Parece incrível.

- O âmbar é muito precioso. Sabe alguma coisa a respeito?

- Muito pouco.

- Não passa de resina de árvore fossilizada, com quarenta a cinqüenta milhões de anos. Seiva endurecida pelos milênios até virar pedra preciosa. Os gregos o chamavam de elektron, "substância do sol", pela cor e porque, se você esfregar um pedaço nas mãos, ele produz uma carga elétrica. Chopin costumava segurar colares de âmbar antes de tocar piano. Ele se aquece ao toque e afasta a transpiração.

- Não sabia disso.

- Os romanos acreditavam que, se você fosse de Leão, usar âmbar traria sorte. Se fosse de Touro, haveria problemas adiante.

- Talvez eu devesse arranjar algum. Sou de Leão.

Ele sorriu.

Se você acredita nesse tipo de coisa. Os médicos da Idade Média prescreviam vapor de âmbar para tratar dor de garganta. Os vapores da fervura são muito perfumados e supostamente possuíam qualidades medicinais. Os russos a chamam de "incenso do mar". Além disso... desculpe, talvez eu esteja chateando você.

- De jeito nenhum. Isso é fascinante.

- Os vapores podem amadurecer frutas. Há uma lenda árabe sobre um xá que ordenou que seu jardineiro lhe trouxesse peras frescas. O problema é que não era época de peras e as frutas só estariam maduras no mês seguinte. O xá ameaçou decapitar o jardineiro se ele não trouxesse peras maduras. Por isso o jardineiro pegou algumas peras verdes e passou a noite rezando a Alá e queimando incenso de âmbar. No dia seguinte, em resposta às suas preces, as peras estavam rosadas e doces, prontas para serem comidas. - Knoll deu de ombros. - Se é verdade ou não, quem sabe? Mas o vapor de âmbar contém etileno, que estimula o amadurecimento precoce. Também serve para amaciar couro. Os egípcios usavam o vapor no processo de mumificação.

- Meu único conhecimento é da joalheria, ou das fotos que vi com insetos e folhas dentro.

- Francis Bacon o chamava de "túmulo mais do que real". Os cientistas consideram o âmbar uma cápsula do tempo. Os artistas o consideram uma pintura. Há mais de 250 cores. Azul e verde são as mais raras. Vermelho, amarelo, marrom, preto e dourado as mais comuns. Associações inteiras surgiram na Idade Média, para controlar a distribuição. A Sala de Âmbar foi feita no século XVIII, e é a epítome do que o homem podia fazer com aquela substância.

- Você conhece bem o assunto.

- É o meu trabalho.

O carro diminuiu a velocidade.

- Nossa saída - disse Knoll enquanto deixava a aulobahn, descia uma rampa curta e freava no fim. - Daqui vamos para o oeste, pela auto-estrada. Kehlheim não fica longe. - Virou o volante para a direita e rapidamente trocou de marcha, recuperando a velocidade.

- Para quem você trabalha? - perguntou ela.

- Não posso dizer. É uma pessoa discreta.

- Mas obviamente rica.

- Como assim?

- Mandá-lo percorrer o mundo procurando obras de arte. Não é um hobby de homem pobre.

- Eu disse que trabalho para um homem?

Ela riu.

- Não, não disse.

- Bela tentativa, meritíssima.

Campinas verdes salpicadas de bosques de altos pinheiros ladeavam a estrada. Ela baixou a janela e se inundou com o ar cristalino.

- Estamos subindo, não?

- Os Alpes começam aqui e se estendem para o sul até a Itália. Vai ficar frio antes de chegarmos a Kehlheim.

Rachel havia se perguntado, antes, por que ele usava camisa de mangas compridas e calça comprida. Tinha vestido uma bermuda caqui e blusa de mangas curtas. De repente, percebeu que era a primeira vez, desde o divórcio, que viajava de carro com um homem que não era Paul. Eram sempre as crianças, seu pai ou uma amiga.

- Ontem falei sério - disse Knoll. - Sinto muito pelo que aconteceu ao seu pai.

- Ele era muito velho.

- Essa é a coisa terrível com relação aos pais. Um dia a gente os perde.

Ele parecia falar a sério. Palavras esperadas. Sem dúvida ditas por cortesia. Mas ela apreciou o sentimento. E o achou ainda mais intrigante.

 

11H45

Rachel observou o velho que abriu a porta. Era baixo, com rosto estreito coberto por cabelos prateados e desgrenhados. Pêlos grisalhos cobriam o queixo e o pescoço enrugados. O corpo era magro, a pele cor de talco e o rosto encolhido como uma noz. Tinha pelo menos 80 anos, e o primeiro pensamento dela foi no pai e em como o velho a fazia lembrar-se dele.

- Danya Chapaev? Sou Rachel Cutler. Filha de Karol Borya.

O velho a encarou atentamente.

- Vejo Karol em seu rosto e em seus olhos.

Ela sorriu.

- Ele teria orgulho disso. Podemos entrar?

- Claro.

Ela e Knoll entraram na casa minúscula. A construção de um andar era feita de madeira velha e reboco antigo. O chalé de Chapaev era o último dos vários que ladeavam uma estrada que vinha de Kehlheim em meio à floresta.

- Como encontrou minha casa? - perguntou Chapaev. Seu inglês tinha pronúncia muito melhor que o do pai dela.

- Nós perguntamos, na cidade, onde o senhor morava.

A sala era aconchegante e quente devido à um pequeno fogo que estalava numa lareira de pedras. Havia dois abajures acesos ao lado de um sofá acolchoado, onde ela e Knoll se sentaram. Chapaev ocupou uma cadeira de balanço, de madeira, diante deles. O cheiro de canela e café pairava no ar. Chapaev ofereceu algo para beber, mas eles recusaram. Rachel apresentou Knoll, depois falou a Chapaev sobre a morte do pai. O velho ficou surpreso com a notícia. Ficou sentado em silêncio por um tempo, com lágrimas surgindo nos olhos cansados.

- Ele era um bom homem. O melhor - disse Chapaev por fim.

- Estou aqui, Sr. Chapaev...

- Danya, por favor. Me chame de Danya.

- Certo. Danya. Estou aqui por causa das cartas que o senhor e meu pai trocaram falando da Sala de Âmbar. Eu as li. Papai disse algo sobre o segredo que vocês dois compartilhavam e que agora eram velhos demais para verificar. Vim descobrir o que for possível.

- Por quê, minha filha?

- Parecia importante para o meu pai.

- Alguma vez ele falou disso com você?

- Ele falava pouco sobre a guerra e o que fez em seguida.

- Talvez tivesse motivos para o silêncio.

- Tenho certeza que sim. Mas agora papai se foi.

Chapaev ficou em silêncio, parecendo contemplar o fogo. Sombras tremulavam em seu rosto idoso. Ela olhou para Knoll, que observava atentamente o anfitrião. Fora obrigada a dizer algo sobre as cartas, e Knoll tinha reagido. Não era surpresa, já que ela intencionalmente havia escondido a informação. Deduziu que mais tarde haveria perguntas.

- Talvez seja hora - disse Chapaev em voz baixa. - Eu me perguntava quando seria. Talvez agora seja o momento.

Ao lado, Knoll inspirou profundamente. Um arrepio desceu pela coluna de Rachel. Seria possível que o velho soubesse onde estava a Sala de Âmbar?

- Erich Koch era um monstro - sussurrou Chapaev.

Ela não entendeu.

- Koch?

- Um gauleiter - disse Knoll. - Um dos governadores provinciais de Hitler. Koch governou a Prússia e a Ucrânia. Seu serviço era arrancar cada tonelada de grão, cada grama de aço e cada trabalhador escravo que pudesse da região.

O velho suspirou.

- Koch dizia que, se encontrasse um ucraniano digno de se sentar à sua mesa, atiraria nele. Acho que devemos agradecer por sua brutalidade. Ele conseguiu converter quarenta milhões de ucranianos, que receberam os invasores como se os libertassem de Stalin, em guerrilheiros ferozes que odiavam os alemães. Tremendo feito.

Knoll ficou quieto.

Chapaev continuou:

- Koch brincou com os russos e os alemães depois da guerra, usando a Sala de Âmbar para ficar vivo. Karol e eu assistimos à manipulação, mas não podíamos dizer nada.

- Não entendo - disse Rachel.

Knoll respondeu:

- Koch foi julgado na Polônia depois da guerra e condenado à morte como criminoso de guerra. Mas os soviéticos adiaram repetidamente a execução. Ele afirmava saber onde a Sala de Âmbar fora enterrada. Foi Koch quem ordenou que ela fosse retirada de Leningrado e levada a Konigsberg em 1941. Também ordenou que a levassem para o oeste em 1945. Koch usou seu suposto conhecimento para ficar vivo, raciocinando que os soviéticos o matariam assim que ele revelasse o local.

Agora ela começava a se lembrar de algo que tinha lido nos artigos guardados pelo pai.

- Mas ele acabou conseguindo uma garantia de vida, não foi?

- Em meados dos anos sessenta - disse Chapaev. - Mas o idiota disse que não conseguia se lembrar do local exato. Na época, Königsberg tinha mudado o nome para Kaliningrado, e fazia parte da União Soviética. A cidade foi bombardeada até virar um monte de entulho durante a guerra, e os soviéticos passaram trator em tudo, depois reconstruíram. Nada restou da cidade anterior. Ele culpou os soviéticos por tudo. Disse que eles destruíram seus marcos. Era culpa deles não encontrar o local agora.

- Koch não sabia de nada, não é? - perguntou Knoll.

- Nada. Era um simples oportunista tentando ficar vivo.

- Então diga, velho, vocês encontraram a Sala de Âmbar? Chapaev assentiu.

- O senhor a viu? - perguntou Knoll.

- Não. Mas ela estava lá.

- Por que guardaram segredo?

- Stalin era maligno. O diabo encarnado. Ele roubou e vendeu tesouros russos para construir o Palácio dos Sovietes.

- O quê? - perguntou Rachel.

- Um gigantesco arranha-céu em Moscou - disse Chapaev. - E queria pôr em cima daquilo uma gigantesca estátua de Lenin. Dá para imaginar tal monstruosidade? Karol, eu e todos os outros estávamos recolhendo peças para o Museu de Arte Mundial, que faria parte daquele palácio. Seria o presente de Stalin ao mundo. Nada diferente do que Hitler planejou fazer na Áustria. Um gigantesco museu de arte roubada. Graças a Deus, Stalin jamais construiu seu monumento, também. Era loucura. Nem um pouco sadio. E ninguém conseguiu impedir o desgraçado. Só a morte. - O velho balançou a cabeça. - Loucura total, absoluta. Karol e eu estávamos decididos a fazer nossa parte e jamais dizer nada sobre o que achávamos ter encontrado nas montanhas. Melhor deixar enterrado do que ser uma peça de exposição para satã.

- Como encontraram a Sala de Âmbar? - perguntou ela.

Praticamente por acaso. Karol encontrou um trabalhador de ferrovia que nos indicou as cavernas. Ficavam no setor russo, o que se tornou a Alemanha Oriental. Os soviéticos roubaram até isso, mas foi um roubo com o qual concordei. Coisas medonhas acontecem sempre que os alemães se unem. Não acha, Herr Knoll?

- Não opino sobre política, camarada Chapaev. Além disso, sou austríaco, e não alemão.

- Estranho. Achei ter detectado um sotaque bávaro.

- Bons ouvidos para um homem de sua idade.

Chapaev se virou para ela.

- O apelido de seu pai era "Yxo. Ouvidos. Assim o chamavam em Mauthausen. Era o único nos alojamentos que falava alemão.

- Eu não sabia. Papai falava pouco sobre o campo.

Chapaev assentiu.

- É compreensível. Também passei os últimos meses da guerra num deles. - O velho olhou atentamente para Knoll. - Quanto ao seu sotaque, Herr Knoll, eu era bom nesse tipo de coisa. A Alemanha era minha especialidade.

- Seu inglês também é muito bom.

- Tenho talento para línguas.

- Seu antigo trabalho certamente exigia poder de observação e comunicação.

Ela ficou curiosa com o atrito que parecia existir. Dois estranhos, no entanto, agiam como se fossem conhecidos. Ou, mais precisamente, como se sentissem ódio mútuo. Mas o embate estava atrasando a missão.

- Danya, pode nos dizer onde está a Sala de Âmbar? - perguntou Rachel.

- Nas cavernas do norte. Nas montanhas Harz. Perto de Warthberg.

- O senhor está parecendo Koch - disse Knoll. - Aquelas cavernas foram totalmente examinadas.

- Essas não. Ficavam na parte leste. Os soviéticos as isolaram. Não deixavam ninguém entrar. São muitas. Levaria décadas para explorar todas, e são como labirintos de ratos. Os nazistas minaram a maioria com explosivos e guardavam munição no resto. Por esse motivo, Karol e eu nunca fomos olhar. Melhor deixar o âmbar descansar em paz do que correr o risco de explodir tudo.

Knoll pegou um caderninho e uma caneta no bolso de trás.

- Desenhe um mapa.

Chapaev fez um esboço durante alguns minutos. Rachel e Knoll ficaram sentados em silêncio. Apenas os estalos do fogo e a caneta sobre o papel quebraram a quietude. Chapaev entregou o bloco de novo a Knoll.

- A caverna certa pode ser encontrada orientando-se pelo sol - disse Chapaev. - A abertura aponta para o leste. Um amigo que visitou a área recentemente disse que agora a entrada está fechada com barras de ferro, com a designação BCR-65 do lado de fora. As autoridades alemãs ainda não fizeram uma varredura lá dentro à procura de explosivos, por isso ninguém ainda se aventurou a entrar. Pelo menos foi o que me disseram. Desenhei um mapa dos túneis do melhor modo que pude lembrar. No fim, vocês terão de cavar. Mas depois de pouco mais de um metro chegarão à porta de ferro que dá na câmara.

- O senhor manteve esse segredo por décadas - disse Knoll. - Mas agora o entrega livremente a estranhos?

- Rachel não é estranha.

- Como sabe que ela não está mentindo sobre quem é?

- Vejo o pai nela, claramente.

- Mas não sabe nada sobre mim. Nem perguntou por que estou aqui.

- Se Rachel o trouxe, isso me basta. Sou um velho, Herr Knoll. Meu tempo é curto. Alguém precisa saber o que sei. Talvez Karol e eu estivéssemos certos. Talvez não. Pode não haver nada lá. Por que não vão ver, para certeza? - Chapaev se virou para ela. - Agora, se é só isso que você queria, filha, estou cansado e gostaria de repousar.

- Certo, Danya. E obrigada. Veremos se a Sala de Âmbar está lá.

Chapaev suspirou. Faça isso, filha. Faça isso.

 

- Muito bem, camarada - disse Suzanne em russo quando Chapaev abriu a porta do quarto. Os visitantes tinham acabado de sair e ela ouviu o carro se afastando. - Já pensou em fazer carreira como ator? Christian Knoll é difícil de ser enganado. Mas você se saiu maravilhosamente bem. Eu mesma quase acreditei.

- Como sabe que Knoll vai até a caverna?

- Ele está ansioso para agradar a nova patroa. Quer tanto a Sala de Âmbar que vai se arriscar a olhar, mesmo que considere isso um beco sem saída.

- E se descobrir que é uma armadilha?

- Não há motivo para ele suspeitar de nada, graças ao seu desempenho notável.

Os olhos de Chapaev se fixaram no neto, amordaçado e amarrado numa cadeira de carvalho junto à cama.

- Seu precioso neto agradece enormemente o seu desempenho. - Ela acariciou o cabelo do menino. - Não é, Julius?

O garoto tentou se sacudir para trás, fazendo barulho por baixo da fita grudada na boca. Ela ergueu uma pistola com silenciador perto da cabeça dele. Os olhos jovens se arregalaram quando o cano encostou no crânio.

- Não há necessidade disso - disse Chapaev rapidamente. - Eu fiz o que você pediu. Desenhei o mapa exatamente. Sem truques. Mas meu coração dói pelo que pode acontecer com Rachel. Ela não merece isso.

- A pobre Rachel deveria ter pensado antes de decidir se envolver. Esta luta não é dela, não é da conta dela. Deveria ter ficado de fora.

- Podemos ir para o outro cômodo? - perguntou ele.

- Como quiser. Não creio que o querido Julius vá a lugar algum, não acha?

Foram à sala. Ele fechou a porta do quarto.

- O menino não merece morrer - disse em voz baixa.

- Você é perceptivo, camarada Chapaev.

- Não me chame assim.

- Não tem orgulho de sua herança soviética?

- Não tenho herança soviética. Eu era russo branco. Só me juntei a eles contra Hitler.

- O senhor não tinha reservas quanto a roubar tesouros para Stalin.

- Foi um erro da época. Santo Deus. Guardei o segredo por cinqüenta anos. Jamais disse uma palavra. Você não pode aceitar isso e deixar meu neto viver?

Ela ficou quieta.

- Você trabalha para Loring, não é? - perguntou ele. - Josef certamente está morto. Deve ser Ernst, o filho.

- De novo, muito perceptivo, camarada.

- Eu sempre soube que você viria. Foi o risco que assumi. Mas o garoto não faz parte disso. Deixe-o ir.

- Ele é uma ponta solta. Como você era. Li a correspondência entre você e Karol Borya. Por que não pôde deixar a coisa como estava? Deixar o assunto morrer? Com quantos mais você se correspondeu? Meu patrão não deseja se arriscar mais. Borya se foi. Os outros investigadores se foram. Só resta você.

- Você matou Karol, não foi?

- Na verdade, não. Herr Knoll foi mais rápido.

- Rachel sabe?

- Aparentemente não.

- Coitada, que perigo ela corre!

- Como eu disse, é problema dela, camarada.

Acho que você vai me matar. De certa forma, acho bom. Mas, por favor, deixe o menino vivo. Ele não pode identificá-la. Não fala russo. Não entendeu nada que nós dissemos. Certamente esta aparência não é a sua. O garoto jamais poderia ajudar a polícia.

- Você sabe que não posso fazer isso.

Chapaev tentou saltar sobre ela, mas os músculos que um dia talvez tivessem escalado penhascos e saltado de prédios tinham se atrofiado com a idade e a doença. Ela se desviou facilmente da tentativa inútil.

- Não há necessidade disso, camarada.

Ele caiu de joelhos.

- Por favor. Imploro em nome da Virgem Maria, deixe o menino viver. Ele merece. - Chapaev dobrou o corpo para a frente e grudou o rosto ao chão. - Pobre Julius - murmurou entre as lágrimas. - Pobre, pobre Julius.

Ela apontou a arma para a nuca de Chapaev e pensou no pedido dele.

- Dasvidániya, camarada.

 

- Você não pegou um pouco pesado com ele? - perguntou Rachel.

Estavam indo para o norte pela autobahn, a toda velocidade, deixando Kehlheim e Danya Chapaev uma hora ao sul. Ela estava dirigindo. Knoll dissera que logo assumiria o volante, nas estradas sinuosas que atravessavam as montanhas Harz.

Knoll ergueu o olhar do desenho de Chapaev.

- Você precisa entender, Rachel, que venho fazendo isso há muitos anos. As pessoas mentem muito mais do que dizem a verdade. Chapaev disse que a Sala de Âmbar está numa das cavernas de Harz. Essa teoria foi explorada mil vezes. Pressionei para ver se ele estava dizendo a verdade.

- Ele pareceu sincero.

- Tenho suspeitas disso. Depois de todos esses anos, o tesouro está simplesmente esperando no fim de um túnel escuro?

- Você não disse que há centenas de túneis e que a maioria não foi explorada? É perigoso demais, não é?

- Correto. Mas estou familiarizado com a área descrita por Chapaev. Eu mesmo procurei nas cavernas.

Ela lhe falou sobre Wayland McKoy e a expedição atual.

- Stod fica a apenas quarenta quilômetros de onde estaremos - disse Knoll. - Há um monte de cavernas por lá, também, supostamente cheias de riquezas. Se você acreditar no que os caçadores de tesouros dizem.

- Você não acredita?

- Aprendi que tudo que vale a pena possuir já tem dono. A verdadeira caçada é aos que possuem. Você ficaria surpresa ao saber quantos tesouros desaparecidos estão simplesmente sobre a mesa do quarto de alguém ou pendurados na parede, livres como um badulaque comprado numa loja de departamentos. As pessoas acham que o tempo as protege. Não protege. Nos anos sessenta, um turista encontrou um Monet numa casa de fazenda. O dono o havia recebido em troca de meio quilo de manteiga. Histórias como essa são intermináveis, Rachel.

- É isso que você faz? Procura essas oportunidades?

- Junto com outras buscas.

Seguiram, o terreno ficando plano e depois subindo enquanto a estrada atravessava a região central da Alemanha e ia para o norte, pelas montanhas. Depois de uma parada no acostamento, Rachel passou para o banco do carona. Knoll levou o carro de volta à estrada.

- Estas são as montanhas Harz. As que ficam mais ao norte, no centro da Alemanha.

Os picos não eram os precipícios gigantescos dos Alpes. Em vez disso, as encostas subiam em ângulos suaves, redondas no topo, cobertas de pinheiros, faias e nogueiras. Cidades e povoados se aninhavam em vales minúsculos e amplas ravinas. Ao longe, podiam ver a silhueta de picos ainda mais altos.

- Faz-me lembrar dos Apalachianos - disse ela.

- Esta é a terra dos Grimm. O reino da magia. Na Idade das Trevas, era um dos últimos locais do paganismo. Fadas, bruxas e gnomos supostamente percorriam a região. Dizem que o último urso e o último lince da Alemanha foram mortos aqui perto.

- É estupendo.

- Antigamente havia minas de prata, mas a prata acabou no século X. Depois vieram o ouro, o chumbo, o zinco e o oxido de bário. A última mina foi fechada antes da guerra, nos anos trinta. Daí veio a maioria das cavernas e dos túneis. Minas antigas que os nazistas usaram. Esconderijos perfeitos contra os bombardeiros e difíceis de serem alcançados por tropas terrestres.

Ela ficou olhando a estrada sinuosa à frente e pensou na menção de Knoll aos irmãos Grimm. Meio que esperou ver a gansa dos ovos de ouro ou as duas pedras pretas que tinham sido irmãos cruéis, ou o flautista atraindo ratos e crianças com uma canção.

Uma hora depois, entraram em Warthberg. A escura silhueta de uma muralha envolvia o povoado compacto, suavizada apenas por passagens em arco e bastiões com tetos cênicos. A diferença arquitetônica com relação ao sul era óbvia. Os telhados vermelhos e as fortificações gastas de Kehlheim eram substituídas por fachadas de enxaimel e telhados de ardósia opaca. Menos flores adornavam as janelas. Havia um nítido tom medieval, mas aparentemente temperado por um verniz de acanhamento. Não era muito diferente, concluiu ela, do contraste entre a Nova Inglaterra e o sul dos Estados Unidos.

Knoll parou diante de uma hospedaria com o interessante nome de Goldene Krone. "Coroa Dourada", disse ele, antes de desaparecer no seu interior. Ela esperou do lado de fora e examinou a rua movimentada. Um ar de comercialismo brotava das vitrines ao lado da rua calçada de pedras. Knoll retornou alguns minutos depois.

- Consegui dois quartos para a noite. São quase cinco horas, e a luz do dia vai durar mais cinco ou seis horas. Mas vamos subir a montanha de manhã. Não há pressa. A coisa já esperou cinqüenta anos.

- O dia demora tanto assim por aqui?

- Estamos quase no Círculo Ártico, e é quase verão.

Knoll pegou as bolsas dos dois no carro alugado.

- Vou acomodar você, depois há umas coisas que preciso comprar. Em seguida podemos jantar. Notei um lugar interessante enquanto vínhamos.

- Seria ótimo.

 

Knoll deixou Rachel no quarto. Tinha notado a cabine telefônica amarela enquanto dirigia, e rapidamente voltou em direção à muralha. Não gostava de usar telefones de hotéis. Eles mantinham muitos registros. O mesmo era verdade com relação aos celulares. Uma cabine telefônica obscura era sempre melhor para um rápido interurbano. Ligou para o Burg Herz.

- Já era hora. O que está acontecendo? - perguntou Monika ao atender.

- Estou tentando achar a Sala de Âmbar.

- Onde está?

- Não muito longe.

- Não estou no clima, Christian.

- Nas montanhas Harz. Warthberg. - Ele contou sobre Rachel Cutler, Danya Chapaev e a caverna.

- Já ouvimos falar disso antes. Aquelas montanhas são como formigueiros, e ninguém nunca encontrou nada.

- Eu tenho um mapa. Que mal pode fazer?

- Você quer trepar com ela, não é?

- A idéia me passou pela cabeça.

- Ela está sabendo de coisas demais, não acha?

- Nada importante. Não tive escolha além de trazê-la. Presumi que Chapaev ficaria mais à vontade com a filha de Borya do que comigo.

- E?

- Ele foi aberto. Aberto demais, se quer saber.

- Cuidado com essa tal de Cutler.

- Ela acha que estou procurando a Sala de Âmbar. Nada mais. Não há conexão entre mim e o pai dela.

- Parece que você andou desenvolvendo um coração, Christian.

- Nem de longe. - Em seguida, contou sobre Suzanne Danzer e o episódio em Atlanta.

- Loring está preocupado com o que estamos fazendo - disse Monika. - Ele e papai conversaram ontem por longo tempo, ao telefone. Loring estava definitivamente tentando captar alguma informação. O que é meio óbvio da parte dele.

- Bem-vinda ao jogo.

- Não preciso de diversão, Christian. Quero a Sala de Âmbar. E, segundo papai, esta parece ser a melhor pista de todos os tempos.

- Não tenho tanta certeza.

- Sempre tão pessimista! Por que diz isso?

- Algo me incomoda com relação a Chapaev. É difícil dizer. Só alguma coisa.

- Vá à mina, Christian, e olhe. Satisfaça seu desejo. Depois coma sua juíza e prossiga com o trabalho.

 

Rachel pegou o telefone ao lado da cama e deu a uma telefonista internacional da AT&T o número de seu cartão de crédito. Depois de oito toques, a secretária eletrônica atendeu em sua casa e sua própria voz a instruiu a deixar um recado.

- Paul, estou numa cidade chamada Warthberg, na região central da Alemanha. Este é o hotel e o número. - Ela falou sobre o Goldene Krone. - Ligo amanhã. Dê um beijo nas crianças por mim. Tchau.

Olhou o relógio: 17h. Onze da manhã em Atlanta. Talvez ele tivesse levado as crianças ao zoológico ou ao cinema. Sentia-se satisfeita por elas estarem com Paul. Era uma pena não ficarem com ele todo dia. As crianças precisam de um pai, e ele precisava delas. Era a coisa mais difícil com relação ao divórcio: saber que uma família não existia mais. Tinha ocupado a cadeira de juíza durante um ano, divorciando terceiros, antes que seu próprio casamento se desmoronasse. Muitas vezes, enquanto ouvia provas que ela realmente não precisava ouvir, imaginava por que, subitamente, casais que haviam se amado não tinham nada de bom a dizer. Seria o ódio um pré-requisito para o divórcio? Um elemento necessário? Ela e Paul não se odiavam. Tinham se sentado, dividido calmamente as posses e decidido o que era melhor para as crianças. Mas que opção havia restado a Paul? Ela deixara claro que o casamento estava acabado. O assunto não estava aberto para debate. Ele havia tentado convencê-la a não fazer isso, mas ela se mostrou decidida.

Quantas vezes tinha se feito a mesma pergunta? Teria feito a coisa certa? Quantas vezes chegara à mesma conclusão?

Quem sabe?

 

Knoll chegou ao quarto dela e Rachel o acompanhou a uma curiosa construção de pedras que, segundo ele explicou, tinha sido uma estalagem de diligências, agora transformada em restaurante.

- Como sabe disso? - perguntou ela.

- Perguntei antes, quando parei para ver até que horas ficava aberto.

O interior era uma cripta de pedras, gótica com teto em abóbadas, vitrais e luminárias de ferro fundido. Knoll pegou uma das mesas de cavalete na extremidade mais distante. Duas horas tinham se passado desde a chegada a Warthberg. Rachel havia aproveitado o tempo para tomar um banho rápido e trocar de roupa. Seu acompanhante também havia se trocado. Jeans e botas substituídos por calça de lã, um suéter colorido e sapatos de couro marrom.

- O que você fez quando saiu mais cedo? - perguntou ela quando se sentaram.

- Comprei o que vamos precisar amanhã. Lanternas, uma pá, uma torquês, dois casacos. Vai fazer frio dentro da montanha. Notei que você usou um par de botas curtas hoje. Vá com elas amanhã, vai precisar de calçados bons.

- Você parece já ter feito isso antes.

- Várias vezes. Mas é preciso ter cuidado. Ninguém deveria se aventurar nas minas sem permissão oficial. O governo controla o acesso para impedir que as pessoas morram numa explosão.

- Presumo que não estejamos preocupados com permissões, não é?

- Nem de longe. Por isso demorei tanto. Fiz compras em várias lojas. Nunca o bastante para atrair atenção.

Um garçom se aproximou e anotou os pedidos. Knoll pediu uma garrafa de vinho, um tinto vigoroso que o garçom insistiu que era do lugar.

- O que está achando da aventura até agora? - perguntou ele.

- Muito melhor que o tribunal.

Ela olhou o restaurante íntimo, ao redor. Cerca de vinte outras pessoas ocupavam mesas espalhadas. Na maioria em duplas. Numa delas havia quatro ocupantes.

- Acha que vamos encontrar o que estamos procurando?

- Muito bom - disse ele.

Ela ficou perplexa.

- O que quer dizer?

- Não mencionar nosso objetivo.

- Presumi que você não ia querer anunciar nossas intenções.

- Presumiu certo. E eu duvido.

- Ainda não confia no que ouviu hoje cedo?

- Não é que eu não confie. É que já ouvi tudo isso antes.

- Mas não do meu pai.

- Não é seu pai que está nos guiando.

- Ainda acha que Chapaev mentiu?

O garçom trouxe o vinho e a comida. A de Knoll era um pedaço de carne de porco fumegante, a dela frango assado, ambos com batatas e salada. Rachel ficou impressionada com o serviço rápido.

- Que tal eu reservar o Julgamento até de manhã? - disse Knoll. - Dar ao velho o benefício da dúvida, como vocês dizem.

Ela sorriu.

- Acho boa idéia.

Knoll sinalizou o jantar.

- Vamos comer e falar de coisas mais agradáveis?

 

Depois do jantar, Knoll a levou de volta ao Goldene Krone. Eram quase 22h, mas o céu continuava iluminado, o ar da noite parecendo o outono no norte da Geórgia.

- Tenho uma pergunta - disse ela. - Se acharmos a Sala de Âmbar, como vai impedir que o governo russo reivindique os painéis?

- Há rotas legais disponíveis. Os painéis estiveram abandonados por mais de cinqüenta anos. A posse certamente servirá para alguma coisa. Além disso, talvez os russos nem os queiram de volta. Eles recriaram a sala com âmbar novo e nova tecnologia.

- Não sabia disso.

- A sala no palácio de Catarina foi refeita. Demorou mais de duas décadas. A perda dos estados bálticos, quando a União Soviética desmoronou, significou que eles foram obrigados a comprar o âmbar no mercado aberto. Foi caro. Mas benfeitores doaram o dinheiro. Ironicamente, um conglomerado alemão fez a contribuição mais substancial.

- Mais motivo ainda para quererem os painéis de volta. Os originais seriam muito mais preciosos que as cópias.

- Não acho. O âmbar seria de cor e qualidade diferentes. Não daria certo misturar as peças.

- Então os painéis não estariam intactos, caso fossem encontrados?

Ele balançou a cabeça.

- O âmbar era originalmente colado a tábuas de carvalho sólido com uma cola de cera de abelha e seiva de árvore. O palácio de Catarina não tinha controle de temperatura, de modo que, à medida que a madeira se expandiu e se contraiu durante mais de duzentos anos, o âmbar foi caindo progressivamente. Quando os nazistas os roubaram, quase trinta por cento já haviam caído. Estima-se que outros quinze por cento foram perdidos durante o transporte até Königsberg. De modo que agora haveria apenas uma pilha de cacos.

- Então, de que adiantam?

Ele riu.

- Existem fotografias. Se você tiver os pedaços, não seria difícil montar de novo a sala inteira. Minha esperança é que os nazistas tenham embalado direito, já que a pessoa para quem trabalho não está interessada em recriações. O que importa é o original.

- Parece um homem interessante.

Ele sorriu.

- Bela tentativa... de novo. Mas eu nunca disse que é um homem.

Chegaram ao hotel. Knoll parou diante da porta do quarto dela.

- A que horas, amanhã? - perguntou Rachel.

- Vamos sair às sete e meia. O recepcionista disse que o café-da-manhã é servido depois das sete. O lugar que procuramos não fica longe, cerca de dez quilômetros.

- Agradeço por tudo que você fez. Sem mencionar que salvou minha vida.

Knoll levou os dedos à cabeça.

- O prazer foi meu.

Ela sorriu do gesto.

- Você mencionou seu marido, e mais ninguém. Há algum homem em sua vida?

A pergunta veio de repente. Um pouco depressa demais.

- Não. - Ela se arrependeu instantaneamente da honestidade.

- Seu coração ainda deseja seu ex-marido, não é?

Não era da conta daquele sujeito, mas por algum motivo ela quis responder.

- Às vezes.

- Ele sabe?

- Às vezes.

- Há quanto tempo?

- O quê?

- Você não faz amor com um homem?

O olhar dele se demorou mais do que ela esperava. Aquele sujeito era intuitivo, e isso a incomodava.

- Não o suficiente para eu pular na cama com um completo estranho.

Knoll sorriu.

- Talvez esse estranho possa ajudar seu coração a esquecer.

- Não creio que seja disso que eu precise. Mas obrigada pela oferta. - Enfiou a chave e abriu a fechadura, depois olhou para trás. - Acho que é a primeira vez que me fazem uma proposta.

- E certamente não será a última. - Ele inclinou a cabeça e sorriu. - Boa noite, Rachel. - E se afastou em direção à escada e a seu quarto.

Mas algo chamou a atenção dela. Era interessante como as censuras pareciam desafiá-lo.

 

DOMINGO, 18 DE MAIO, 7H30

Knoll saiu do hotel e estudou a manhã. Uma névoa de algodão envolvia o povoado silencioso e o vale ao redor. O céu estava um tanto escuro, com o sol de fim de primavera se esforçando para esquentar o dia. Rachel estava recostada no carro, aparentemente pronta. Ele se aproximou.

- A névoa ajudará a esconder nossa visita. O fato de ser domingo também é bom. A maioria das pessoas está na igreja.

Subiram no carro.

- Achei que você tinha dito que este era um bastião do paganismo.

- Isso é para os livros de turismo e os guias de viagem. Muitos católicos vivem nestas montanhas há séculos. São pessoas religiosas.

O Volvo rosnou ao dar a partida, e Knoll rapidamente dirigiu o carro para fora de Warthberg, com as ruas calçadas de pedras quase desertas e úmidas do orvalho matinal. A estrada que saía da cidade pelo leste subia serpenteando e depois descia num vale envolto em névoa.

- Esta área me lembra ainda mais das Great Smoky Mountains, na Carolina do Norte - disse Rachel. - São enevoadas assim também.

Knoll seguiu o mapa dado por Chapaev e se perguntou se aquela não seria uma busca inútil. Como é que toneladas de âmbar poderiam ficar escondidas por mais de meio século? Muitos haviam procurado. Alguns até morrido. Ele tinha consciência da suposta maldição da Sala de Âmbar. Mas que mal poderia haver em dar uma rápida olhada em mais uma montanha? Pelo menos a viagem seria interessante, graças à Rachel Cutler.

Passando por sobre uma crista na estrada, desceram em outro vale, com densos bosques de faias enevoadas de cada lado. Knoll chegou ao local onde a estrada do mapa de Chapaev terminava e parou em meio às árvores. Falou:

- O resto do caminho é a pé.

Desceram e ele pegou no porta-malas um kit de explorador de cavernas.

- O que há aí? - perguntou Rachel.

- Tudo que vamos precisar. - Ele pôs a mochila nas costas. - Agora somos apenas dois caminhantes dando um passeio.

Entregou um casaco a ela.

- Não perca. Vai precisar dele assim que estivermos no subterrâneo.

Knoll tinha vestido seu casaco no quarto do hotel, com o punhal escondido no braço direito, sob a manga de náilon. Foi na frente, entrando na floresta, e o terreno coberto de capim subia enquanto eles se afastavam da estrada indo em direção ao norte. Seguiam uma trilha nítida que serpenteava na base de uma cordilheira, e caminhos se desviavam subindo as encostas cobertas de árvore em direção aos cumes. Ao longe, era possível ver a entrada escura de três túneis. Um estava fechado com um portão de ferro, com uma placa - GEFAHR-ZUTRITT VERBOTEN-EXPLOSIV - presa ao granito áspero.

- O que diz? - perguntou Rachel.

- Perigo. Proibido entrar. Explosivos.

- Você não estava brincando sobre isso.

- Essas montanhas eram como cofres de banco. Os Aliados encontraram o tesouro nacional da Alemanha numa delas. Quatrocentas toneladas de obras de arte do museu Kaiser Friedrich, de Berlim, também estavam guardadas aqui. Os explosivos eram melhores que soldados e cães de guarda.

- É atrás dessa arte que Wayland McKoy está?

- Pelo que você disse, é.

- Acha que ele terá alguma sorte?

- Difícil dizer. Mas duvido seriamente que milhões de dólares em telas antigas ainda estejam esperando aqui para serem encontrados.

O cheiro de folhas úmidas era denso no ar pesado.

- Qual era o sentido? - perguntou Rachel enquanto andavam. - A guerra estava perdida. Por que esconder tudo isso?

- Você precisa pensar como um alemão em 1945. Hitler ordenou que o exército lutasse até o último homem ou seriam executados. Acreditava que, se a Alemanha se sustentasse por tempo suficiente, os Aliados acabariam se juntando a ele contra os bolcheviques. Hitler sabia o quanto Churchill odiava Stalin. Também decifrou Stalin corretamente e previu, de modo correto, o que os soviéticos tinham em mente para a Europa. Hitler achava que a Alemanha poderia permanecer intacta se suplantasse os soviéticos. Raciocinava que os alemães e os ingleses acabariam se juntando a ele contra os comunistas. Então todos esses tesouros poderiam ser salvos.

- Tolice.

- Loucura é uma descrição melhor.

O suor formava gotas na testa dele. As botas de couro estavam manchadas do orvalho. Knoll parou e examinou as várias entradas de túneis a distância, junto com o céu.

- Nenhuma aponta para o leste. Chapaev disse que a abertura era virada para o leste. E, segundo ele, deveria estar marcada com BCR-65.

Aprofundou-se mais entre as árvores. Dez minutos depois, Rachel apontou e gritou:

- Ali.

Knoll olhou adiante. Através das árvores havia outra entrada visível, a abertura fechada com ferro. Numa placa enferrujada afixada às barras estava escrito BCR-65. Ele verificou o sol. Leste.

Filho-da-puta.

Aproximaram-se e ele tirou a mochila das costas. Olhou ao redor. Não havia ninguém à vista, e nenhum som perturbava o silêncio, além dos pássaros e do farfalhar ocasional dos esquilos. Examinou as barras e o portão. Todo o ferro estava arroxeado, devido à forte oxidação. A corrente de aço e um cadeado eram definitivamente novos. Mas nada incomum. Os inspetores federais da Alemanha verificavam rotineiramente a entrada dos túneis. Knoll pegou a torquês na mochila.

- É bom ver que você está preparado - disse Rachel.

Ele cortou a corrente, que caiu tilintando. Guardou a torquês de novo na mochila e começou a abrir o portão.

As dobradiças gritaram.

Knoll parou. Não havia sentido em atrair atenção desnecessária.

Abriu o portão devagar, e o ruído de metal contra metal soou mais baixo. Adiante havia uma abertura em arco, com cerca de cinco metros de altura e quatro de largura. Liquens se grudavam à pedra enegrecida, mais além da entrada, e o ar rançoso fedia a mofo. Como uma sepultura, pensou ele.

- A abertura tem tamanho suficiente para receber um caminhão.

- Caminhão?

- Se a Sala de Âmbar está aí dentro, os caminhões também estão. Os caixotes não poderiam ter sido transportados de outro modo. Vinte toneladas de âmbar pesam. Os alemães devem ter entrado na caverna com os caminhões.

- Eles não tinham empilhadeiras?

- Dificilmente. Estamos falando do fim da guerra. Os nazistas estavam desesperados para esconder seus tesouros. Não havia tempo para delicadezas.

- Como os caminhões chegaram aqui em cima?

- Cinqüenta anos se passaram. Havia muitas estradas e menos árvores. Toda esta área era um local vital para as indústrias.

Ele pegou na mochila duas lanternas e um rolo grosso de barbante, e recolocou-a nos ombros. Fechou o portão depois de passarem e pendurou a corrente e o cadeado de novo nas barras, dando a aparência de que a abertura ainda estava trancada.

- Podemos ter companhia - disse ele. - Isso deve fazer com que as pessoas sigam até outra caverna. Muitas não estão obstruídas, são bem mais fáceis de entrar.

Entregou uma lanterna a ela. Os dois fachos estreitos rompiam apenas alguns metros adiante, na escuridão ameaçadora. Um pedaço de ferro enferrujado se projetava da pedra. Knoll amarrou a ponta do barbante e entregou o rolo a Rachel.

- Vá desenrolando enquanto entramos. Assim poderemos achar a saída se ficarmos desorientados.

Ele foi na frente, com cautela, e as lanternas revelaram uma passagem áspera que penetrava nas entranhas da montanha. Rachel o acompanhou depois de vestir o casaco.

- Tenha cuidado - disse ele. - Este túnel pode estar minado. Isso explicaria a corrente.

- E reconfortante saber.

- Nada que valha a pena possuir é fácil de alcançar.

Knoll parou e olhou de volta para a entrada, quarenta metros atrás. O ar havia se tornado fétido e frio. Pegou o desenho de Chapaev no bolso e examinou o caminho com a lanterna.

- Deveria haver uma bifurcação adiante. Vejamos se Chapaev está certo.

Um fedor sufocante permeava o ar. Podre. Nauseabundo.

- Guano de morcego - disse ele.

- Acho que vou vomitar.

- Não respire fundo. E tente ignorá-lo.

- É como tentar ignorar estéreo de vaca embaixo do seu nariz.

- Esses túneis são cheios de morcegos.

- Que maravilha!

Ele riu.

- Na China, os morcegos são reverenciados como símbolos da felicidade e da vida longa.

- A felicidade fede.

Surgiu uma bifurcação no túnel. Ele parou.

- O mapa manda ir para a direita - disse ele. Rachel foi atrás, desenrolando o barbante. - Avise se chegar ao fim do rolo. Eu tenho mais.

O odor ficou mais fraco. O novo túnel era mais apertado que o principal, mas ainda tinha largura suficiente para um caminhão, com ramificações escuras que surgiam periodicamente. O eco de morcegos piando, à espera da noite, era claro.

A montanha era certamente um labirinto. Todas eram. Trabalhadores procurando minério e sal haviam escavado durante séculos. Que maravilhoso se esse túnel fosse o que levava à Sala de Âmbar! Dez milhões de euros. Tudo dele. Para não mencionar a gratidão de Monika. Talvez então Rachel Cutler ficasse suficientemente excitada para abrir as pernas. Knoll não ficaria surpreso se o ex-marido fosse o único homem com quem ela já estivera. E esse pensamento era inebriante. Quase uma virgem. Certamente era, desde o divórcio. Que prazer seria tê-la!

O túnel começou a se estreitar e a subir.

A mente dele retornou ao momento.

Tinham entrado pelo menos cem metros no granito e no calcário. O diagrama de Chapaev mostrava outra bifurcação à frente.

- O barbante acabou - disse Rachel.

Knoll parou e lhe deu um rolo novo.

- Amarre bem as pontas:

Ele examinou o diagrama. Supostamente, o destino ficava logo à frente. Mas algo não estava certo. Agora o túnel não tinha largura suficiente para um veículo. Se a Sala de Âmbar fora escondida ali, teria sido necessário carregar os caixotes. Dezoito, se ele recordava corretamente. Tudo catalogado e indexado, os painéis envolvidos em papel de enrolar cigarro. Haveria outra câmara adiante? Não era incomum que salões fossem escavados na rocha. A natureza fazia alguns. Outros eram feitos pelo homem. Segundo Chapaev, pedaços de pedra e sedimentos bloqueavam a porta para uma câmara assim, vinte metros adiante.

Continuou andando, tendo cuidado a cada passo. Quanto mais penetravam na caverna, maior o risco de explosivos. Sua lanterna rompia a escuridão adiante e os olhos focalizaram alguma coisa.

Olhou com atenção.

Que diabo...?

 

Suzanne ergueu o binóculo e examinou a entrada da mina. A placa que havia prendido ao portão de ferro há três anos, BCR-65, continuava lá. O ardil parecia ter dado certo. Knoll estava ficando descuidado. Tinha corrido direto para a mina, rebocando Rachel Cutler. Era uma pena que as coisas tivessem chegado a esse ponto, mas restava pouca escolha. Knoll sem dúvida era interessante. Até mesmo excitante. Mas significava problema. Um grande problema. A lealdade dela a Ernst Loring era absoluta. Além de qualquer censura. Devia tudo a Loring. Ele era a família que ela jamais possuíra. Durante toda a vida o velho a tratara como filha, e o relacionamento dos dois talvez fosse mais íntimo do que o que ele possuía com os dois filhos naturais, já que o amor pela arte preciosa era a cola que os unia. Loring ficara tão empolgado ao receber a caixa de rapé e o livro! Agradá-lo dava a ela um sentimento de satisfação. Por isso uma escolha entre Christian Knoll e seu benfeitor simplesmente não era escolha.

Mesmo assim era uma pena. Knoll tinha seus pontos positivos.

Estava parada sem disfarces na encosta coberta de árvores, o cabelo louro caindo até os ombros, um suéter de gola rolê envolvendo o peito. Baixou o binóculo e pegou o detonador acionado por rádio, estendendo a antena retrátil.

Knoll obviamente não sentira sua presença, pensando ter se livrado dela no aeroporto de Atlanta.

Nem de longe, Christian.

Apertou um interruptor e o detonador foi ativado.

Olhou o relógio.

Knoll e a mocinha deviam estar bem dentro da caverna. Distância mais do que suficiente para jamais saírem. As autoridades alertavam repetidamente ao público para não explorar as cavernas. Explosivos eram comuns. Muitos haviam morrido ao longo dos anos, motivo pelo qual o governo começou a exigir licença para a exploração. Há três anos, houvera uma explosão nesse mesmo túnel, arranjado por ela quando um repórter polonês chegou perto demais. Ela o havia atraído com visões da Sala de Âmbar, e o acidente acabou sendo atribuído a outra exploração, não autorizada. O corpo jamais fora encontrado, enterrado sob o entulho que Christian Knoll devia estar examinando agora mesmo.

 

Knoll examinou a parede de rocha e areia. Tinha visto um fim de túnel antes. Esta não era uma interrupção natural. Uma explosão causara o que estava à sua frente, e não haveria como abrir caminho com a pá através do entulho que ia do teto ao chão.

E não havia porta de ferro do outro lado.

Isso ele sabia.

- O que é? - perguntou Rachel.

- Houve uma explosão aqui.

- Será que fizemos alguma volta errada?

- Impossível. Segui exatamente as instruções de Chapaev.

Algo estava definitivamente errado. A mente dele desenrolou os fatos. A informação dada por Chapaev sem qualquer resistência. A corrente e o cadeado novos no portão. As dobradiças de ferro ainda funcionando. A trilha fácil de seguir. Fácil demais.

E Suzanne Danzer? Em Atlanta? Talvez não.

O melhor a fazer era voltar à entrada, desfrutar Rachel Cutler e sair de Warthberg. Tinha planejado matá-la o tempo todo. Não precisava deixar uma fonte de informações viva, disponível para outro adquirente. Danzer já estava na trilha. Portanto, era apenas questão de tempo até rastrear Rachel e falar com ela, talvez ficar sabendo sobre Chapaev. Monika não gostaria disso. Talvez Chapaev realmente soubesse onde estava a Sala de Âmbar, mas intencionalmente os tivesse levado nesta busca errada. Por isso decidiu se livrar de Rachel Cutler aqui e agora e em seguida voltar a Kehlheim e arrancar a informação de Chapaev, de qualquer maneira.

- Vamos - falou. - Enrole o barbante de volta até a entrada. Eu vou atrás.

Começaram a voltar pelo labirinto, com Rachel na frente. A luz de Knoll revelava o traseiro firme e as coxas bem torneadas dela através dos jeans marrons. Examinou as pernas esguias e os ombros estreitos. Seu sexo começou a reagir.

A primeira bifurcação apareceu, depois a segunda.

- Espere - disse ele. - Quero ver o que há aqui.

- A saída é por aqui - disse ela, apontando na direção do barbante.

- Sei disso. Mas já que viemos, vamos dar uma olhada. Deixe o barbante. Sabemos o caminho a partir daqui.

Ela jogou no chão a bola de barbante e virou à direita, continuando à frente dele.

Knoll sacudiu o braço direito. O punhal se soltou e deslizou para baixo. Ele segurou o cabo.

Rachel parou e se virou, a lanterna momentaneamente apontada para ele.

A luz de Knoll captou o rosto chocado dela ao ver a lâmina brilhando.

 

Suzanne apontou o controlador por rádio e apertou o botão. O sinal disparou através do ar matutino até as cargas explosivas que tinha posto na pedra na noite anterior. Não era uma explosão suficiente para atrair a atenção de alguém em Warthberg, a seis quilômetros de distância, porém mais do que suficiente para desmoronar o interior da montanha. Acabando com outro problema.

 

O chão tremeu. O teto desmoronou. Knoll tentou se firmar.

Agora ele sabia. Era uma armadilha.

Virou-se e correu para a entrada. A rocha cascateava numa chuva de pedras e poeira cegante. O ar fedia. Ele segurou a lanterna numa das mãos, o punhal na outra. Rapidamente enfiou a faca no bolso e puxou a camisa, usando a parte limpa para proteger o nariz e a boca.

Mais pedras choveram.

A luz na direção da entrada ficou cheia de poeira e densa, depois se obliterou atrás de pedregulhos. Agora era impossível ir naquela direção.

Virou-se de novo e correu na direção oposta, esperando que houvesse outra saída do labirinto. Felizmente sua lanterna ainda funcionava. Rachel Cutler não estava à vista. Mas não importava. As pedras tinham poupado o trabalho.

Correu mais para dentro da montanha, seguindo pelo túnel principal, passando pelo ponto onde a vira parada pela última vez. As explosões pareciam ter ocorrido atrás dele, e as paredes e o teto adiante eram estáveis, mas agora toda a montanha vibrava.

Mais pedras despencaram atrás dele. Definitivamente havia apenas um caminho. Uma bifurcação apareceu no túnel. Ele parou e se orientou. A entrada original, atrás, era virada para o leste. De modo que o oeste ficava à frente. O ramo à esquerda parecia ir para o sul, o da direita para o norte. Mas quem sabia? Precisava ter cuidado. Não dar muitas voltas. Seria fácil se perder, e ele não queria morrer andando no subterrâneo até se acabar de fome ou desidratado.

Baixou a bainha da camisa e encheu o pulmão de ar. Tentou se lembrar do que sabia sobre as minas. Jamais havia apenas uma entrada ou saída. A simples profundidade e extensão dos túneis exigia múltiplas entradas. Mas, durante a guerra, os nazistas lacraram a maioria dos portais, tentando garantir seus esconderijos. Agora esperava que esta mina não fosse assim. O que o encorajava era o ar. Não tão rançoso como quando estavam mais lá dentro.

Levantou a mão. Uma brisa leve chegava do túnel à esquerda. Será que deveria se arriscar? Se houvesse muitas outras viradas, ele jamais encontraria o caminho de volta. A escuridão total não possuía pontos de referência, e sua posição atual só era conhecida por causa da orientação do túnel principal. Mas poderia facilmente perder essa referência com alguns poucos movimentos descuidados.

O que deveria fazer?

Foi para a esquerda.

Trinta metros adiante, o túnel se bifurcava de novo. Levantou a mão. Não havia brisa. Lembrou-se de ter lido uma vez que os mineiros projetavam todas as suas rotas de segurança na mesma direção. Uma virada à esquerda significava que todas as viradas deveriam ser à esquerda, até sair. Que escolha ele possuía? Ir para a esquerda.

Mais duas bifurcações. Mais duas à esquerda.

Um facho de luz apareceu adiante. Fraco. Mas estava lá. Seguiu rapidamente e virou a esquina.

A luz do dia surgiu a cem metros de distância.

 

KEHLHEIM, ALEMANHA

11H30

Paul olhou pelo retrovisor. Um carro se aproximava rapidamente, com as luzes piscando e a sirene uivando. O compacto verde e branco, com POLIZEI escrito nas portas em letras azuis, passou a toda no outro sentido e desapareceu numa curva.

Paul seguiu em frente, entrando em Kehlheim dez quilômetros depois.

O povoado calmo era cheio de construções coloridas que cercavam uma praça calçada de pedras. Ele não era um grande viajante. Fora uma vez a Paris há dois anos, a serviço do museu - a chance de percorrer o Louvre fora atraente demais para deixar passar. Tinha convidado Rachel para ir junto. Ela recusou. Não é uma boa idéia para uma ex-esposa, lembrou-se de ouvi-la dizendo. Paul nunca teve certeza do que isso significava, mas pensava sinceramente que ela gostaria de ter ido.

Só conseguira um vôo saindo de Atlanta na tarde do dia anterior, e de manhã tinha levado as crianças à casa do irmão. A falta de um telefonema de Rachel o preocupava. Mas não tinha verificado a secretária eletrônica desde as nove da manhã da véspera. O vôo foi atrasado por escalas em Amsterdã e em Frankfurt, o que só o deixara em Munique há duas horas. Tinha se limpado do melhor modo possível num banheiro do aeroporto, mas adoraria tomar um banho, fazer a barba e trocar de roupa.

Entrou na praça da cidade e parou diante do que parecia uma mercearia. Obviamente, a Baviera não era um lugar domingueiro. Todas as construções estavam fechadas. A única atividade acontecia ao redor da igreja, cujo pináculo era o ponto mais alto do povoado. Havia carros estacionados em fileiras sobre as pedras irregulares. Um grupo de homens mais velhos estava parado nos degraus da igreja conversando. Barbas, casacos escuros e chapéus predominavam. Ele deveria ter trazido um casaco, também, mas tinha arrumado a bagagem depressa, trazendo apenas o essencial.

Foi até lá.

- Com licença. Algum de vocês fala inglês?

Um velho, aparentemente o mais velho dos quatro, respondeu:

- Ja. Um pouco.

- Estou procurando um homem chamado Danya Chapaev. Pelo que sei, ele mora aqui.

- Não mais. Agora morto.

Paul temia isso. Chapaev devia ser velho.

- Quando ele morreu?

- Ontem à noite. Assassinado.

Será que tinha ouvido direito? Assassinado? Ontem à noite? Seu maior medo cresceu por dentro. A pergunta se formou imediatamente no pensamento.

- Mais alguém sofreu alguma coisa?

- Nein. Só Danya.

Ele se lembrou do carro da polícia.

- Onde isso aconteceu?

Saiu de Kehlheim e seguiu as orientações. A casa apareceu dez minutos depois, fácil de identificar, com quatro carros da polícia parados em diagonal na frente. Um homem uniformizado, com rosto pétreo, montava guarda diante da porta aberta. Paul se aproximou, mas foi imediatamente parado.

- Nicht eintreten. Kriminelle szene - disse o policial.

- Inglês, por favor.

- Não pode entrar. Local de crime.

- Então preciso falar com a pessoa encarregada.

- Eu sou o encarregado - disse uma voz vinda de dentro, com o inglês temperado por um gutural sotaque alemão.

O homem que se aproximou da porta da frente era de meia-idade. Tufos de cabelos pretos desgrenhados coroavam o rosto de traços rudes. Um sobretudo azul-escuro cobria o corpo magro até os joelhos, com um terno verde-oliva e gravata de tricô aparecendo por baixo.

- Sou Fritz Pannik. Inspetor da polícia federal. E o senhor?

- Paul Cutler. Advogado dos Estados Unidos.

Pannik passou pelo guarda à porta.

- O que um advogado da América está fazendo aqui numa manhã de domingo?

- Procurando minha ex-mulher. Ela veio atrás de Danya Chapaev.

Pannik olhou para o policial.

Paul notou a expressão curiosa.

- O que é?

- Uma mulher pediu informações ontem em Kehlheim sobre como chegar a esta casa. Ela é suspeita desse assassinato.

- O senhor tem a descrição?

Pannik enfiou a mão no bolso do paletó e pegou um caderninho. Abriu a capa de couro.

- Altura mediana. Cabelo louro-avermelhado. Seios grandes. Jeans. Camisa de flanela. Botas. Óculos escuros. Gorducha.

- Não é Rachel. Mas poderia ser outra pessoa.

Ele contou rapidamente a Pannik sobre Jo Myers, Karol Borya e a Sala de Âmbar, descrevendo a aparência da mulher que o visitara. Magra, seios moderados, cabelo castanho, olhos azuis, óculos octogonais com armação de ouro.

- Tive a impressão de que o cabelo não era dela. Pode chamar de intuição de advogado.

- Mas ela leu as cartas que Chapaev e esse tal de Karol Borya trocaram?

- Todas.

- O envelope tinha este local no endereço do remetente?

- Só o nome da cidade.

- Há mais alguma coisa nesta história?

Paul contou ao inspetor sobre Christian Knoll, as preocupações de Jo Myers e as dele próprio.

- E o senhor veio alertar sua ex-esposa? - perguntou Pannik.

- Principalmente ver se ela estava bem. Eu deveria ter vindo com ela.

- Mas o senhor considerava a viagem dela uma perda de tempo?

- Totalmente. O pai tinha pedido expressamente para ela não se envolver. - Atrás dos ombros de Pannik, dois policiais se moviam dentro da casa. - O que aconteceu aí?

- Se o senhor tiver estômago, eu mostro.

- Sou advogado - disse Paul, como se isso significasse alguma coisa. Não mencionou que jamais havia cuidado de um caso criminal em toda a vida e que jamais estivera numa cena de crime. Mas a curiosidade o impulsionou. Primeiro Borya morrera, agora Chapaev fora assassinado. Mas Karol tinha caído da escada.

Tinha mesmo?

Seguiu Pannik para dentro. A sala quente abrigava um odor peculiar, enjoativamente doce. Os romances policiais sempre falavam do cheiro da morte. Seria isso?

A casa era pequena. Quatro cômodos Uma sala, cozinha, quarto e banheiro. Pelo que podia ver, a mobília era velha e gasta, mas o lugar era limpo e aconchegante, a tranqüilidade despedaçada pela visão de um velho esparramado num tapete puído, com uma enorme mancha vermelha saindo de dois buracos no crânio.

- Tiros à queima-roupa - disse Pannik.

O olhar de Paul estava cravado no cadáver. A bile começou a subir pela garganta. Ele lutou contra a ânsia, mas não conseguiu. Saiu correndo da sala.

 

Estava curvado, vomitando. O pouco que havia comido no avião se empoçou na grama úmida. Respirou fundo algumas vezes e recuperou o controle.

- Terminou? - perguntou Pannik.

Paul assentiu.

- Acha que a mulher fez isso?

- Não sei. Só sei que uma mulher perguntou onde Chapaev morava, e o neto se ofereceu para mostrar o caminho. Os dois saíram da feira ontem de manhã. A filha do velho ficou preocupada ontem à noite, quando o menino não voltou para casa. Veio até aqui e encontrou o garoto amarrado no quarto. Aparentemente, a mulher tinha problema em matar crianças, mas não se importou em atirar num velho.

- O menino está bem?

- Abalado, mas bem. Ele confirmou a descrição, mas não pôde dizer muito mais. Estava no quarto. Lembra-se de ter escutado vozes. Mas não pôde entender a conversa. Então seu avô e a mulher entraram no quarto por um momento. Falaram em outra língua. Experimentei algumas palavras, e parece que estavam falando em russo. Então o velho e a mulher saíram do quarto. Ele ouviu um tiro. Depois disso, houve silêncio até que sua mãe chegou, algumas horas depois.

- Ela atirou na cabeça dele?

- E de perto. A aposta devia ser alta.

Um policial entrou.

- Nichts im haus hinsichtlich des Bernstein-zimmer.

Pannik olhou para ele.

- Mandei que eles revistassem a casa em busca de qualquer coisa sobre a Sala de Âmbar. Não há nada aí.

Um rádio estalou no quadril do alemão que montava guarda junto à porta. O sujeito tirou o transmissor da cintura e se aproximou de Pannik. Em inglês, o policial disse:

- Preciso ir. Recebemos um chamado para busca e resgate. Estou de serviço neste fim de semana.

- O que aconteceu? - perguntou Pannik.

- Explosão numa das minas perto de Warthberg. Uma americana foi retirada, mas ainda estão procurando um homem. As autoridades locais requisitaram nossa ajuda.

Pannik balançou a cabeça.

- Domingo movimentado.

- Onde fica Warthberg? - perguntou Paul imediatamente.

- Nas montanhas Harz. Quatrocentos quilômetros ao norte. Algumas vezes eles usam equipes de resgate alpinas quando há acidentes.

Wayland McKoy e o interesse de Karol pelas montanhas Harz relampejaram na mente de Paul.

- Uma mulher americana foi encontrada? Qual é o nome dela? Pannik pareceu perceber o sentido da pergunta e se virou para o policial. Trocaram algumas palavras, e o policial falou de novo ao rádio.

Dois minutos depois, as palavras chegaram pelo aparelho:

- Diefrau ist Rachel Cutler. Amerikanerin.

 

15H30

O helicóptero da polícia cortava o ar em direção ao norte na tarde de maio. Depois de passarem por Würzburg, começou a chover. Paul estava sentado ao lado de Pannik, com uma equipe de busca e resgate atrás.

- Um grupo de caminhantes ouviu as explosões e alertou as autoridades - disse Pannik acima do rugido da turbina. - Sua ex-mulher foi retirada perto da entrada de um dos túneis. Foi levada ao hospital local, mas conseguiu falar sobre um homem. O nome dele é Christian Knoll, Herr Cutler.

Paul ouvia com preocupação crescente. Mas só podia ver Rachel deitada num hospital, sangrando. O que estava acontecendo? Em quê Rachel havia se metido? Como Knoll a havia encontrado? O que aconteceu nesse meio-tempo? Será que Marla e Brent corriam algum perigo? Precisava ligar para o irmão e alertá-lo.

- Parece que Jo Myers estava certa - disse Pannik.

- Os informes falam do estado de Rachel?

Pannik balançou a cabeça.

O helicóptero foi primeiro até o local da explosão - a entrada da mina ficava dentro da floresta, na base de uma das montanhas mais altas. A clareira mais próxima se abria meio quilômetro a oeste, e o pessoal de resgate foi deixado lá, para seguir a pé. Paul e Pannik permaneceram no helicóptero e voaram para leste de Warthberg, até um hospital regional, para onde Rachel fora levada.

Chegando lá, ele foi direto para o quarto andar, onde Rachel estava. Vestia uma camisola azul. Havia um grande curativo no couro cabeludo. Ela sorriu da cama quando o viu.

- Por que será que eu sabia que você estaria aqui?

Ele se aproximou. As bochechas, o nariz e os braços dela estavam arranhados e com hematomas.

- Não tinha muita coisa para fazer neste fim de semana. Por que não uma viagem à Alemanha?

- As crianças estão bem?

- Ótimas.

- Como chegou aqui tão depressa?

- Saí de lá ontem.

- Ontem?

Antes que ele pudesse explicar, Pannik, parado em silêncio junto à porta, se aproximou.

- Frau Cutler, sou o inspetor Fritz Pannik, da polícia federal.

Paul contou a Rachel sobre Jo Myers, Christian Knoll e o que tinha acontecido a Danya Chapaev.

O choque invadiu o rosto de Rachel.

- Chapaev está morto?

- Preciso ligar para o meu irmão - disse Paul a Pannik - e mandar que ele vigie bem as crianças. Talvez até alertar a polícia de Atlanta.

- Acha que eles correm perigo? - perguntou ela.

- Não sei o que pensar, Rachel. Você se meteu numa coisa realmente ruim. Seu pai alertou para ficar de fora.

- O que quer dizer?

- Não se faça de boba. Eu consigo ler Ovídio. Seu pai queria que você ficasse fora disso. Agora Chapaev está morto.

O rosto dela enrijeceu.

- Não é justo, Paul. Eu não fiz isso. Não sabia.

- Mas talvez tenha apontado o caminho - deixou claro Pannik.

Rachel olhou o inspetor, e a percepção ficou clara em seu rosto. De repente, Paul se arrependeu de tê-la censurado. Queria ajudá-la a carregar a culpa, como sempre.

- Isso não é totalmente verdadeiro - disse ele. - Eu mostrei as cartas à mulher. Ela ficou sabendo sobre Kehlheim através de mim.

- E o senhor teria feito isso se não achasse que Frau Cutler corria perigo?

Não, não teria. Paul olhou para Rachel. Lágrimas surgiram nos olhos dela.

- Paul está certo, inspetor. A culpa é minha. Não quis deixar isso como estava. Ele e meu pai me alertaram.

- E esse tal de Christian Knoll? - perguntou Pannik. - Fale sobre ele.

Rachel informou o que sabia, o que não era muito. Depois disse:

- Ele me salvou de ser atropelada por um carro. Era charmoso e cortês. Sinceramente, achei que ele queria ajudar.

- O que aconteceu na mina? - perguntou Pannik.

- Estávamos seguindo o mapa de Chapaev. O túnel era bem amplo e, de repente, caiu como se houvesse um terremoto, e uma avalanche dividiu o caminho. Eu voltei para a entrada e comecei a correr. Só consegui chegar à metade, quando as rochas me derrubaram. Por sorte não fui soterrada. Fiquei ali até que uns caminhantes vieram e me resgataram.

- E Knoll? - perguntou Pannik.

Ela balançou a cabeça.

- Gritei por ele, depois que o desmoronamento acabou, mas não tive resposta.

- Ele provavelmente continua lá - disse Pannik.

- Foi um terremoto? - perguntou Paul.

- Não temos terremotos aqui. Provavelmente eram explosivos da época da guerra. Os túneis estão cheios deles.

- Knoll falou a mesma coisa - disse Rachel.

A porta do hospital se abriu e um policial atarracado sinalizou para Pannik. O inspetor pediu licença e saiu.

- Você está certo - disse Rachel. - Eu deveria ter ouvido.

Paul não estava interessado nas concessões dela.

- Temos de sair daqui e voltar para casa.

Rachel ficou quieta, e ele ia enfatizar o argumento quando Pannik voltou.

- O túnel foi liberado. Ninguém mais foi encontrado dentro. Havia outra entrada, sem bloqueios, num túnel distante. Como a senhora e Herr Knoll chegaram à mina?

- Fomos num carro alugado, depois caminhamos.

- Que tipo de carro?

- Um Volvo marrom.

- Nenhum carro foi encontrado na estrada - disse Pannik. - O tal Knoll fugiu.

O inspetor parecia saber mais alguma coisa. Paul perguntou:

- O que mais o policial disse?

- Aquele túnel nunca foi usado pelos nazistas. Não havia explosivos dentro. No entanto, é a segunda explosão lá em três anos.

- O que significa...

- O que significa que alguma coisa muito estranha está acontecendo.

 

Paul saiu do hospital e pegou carona num carro da polícia até Warthberg. Pannik o acompanhou. Ser inspetor federal lhe garantia certos privilégios.

- É semelhante ao seu FBI - disse Pannik. - Eu trabalho para a polícia nacional. Os agentes locais cooperam conosco o tempo todo.

Rachel disse-lhes que Knoll tinha alugado dois quartos no Goldene Krone. O distintivo de Knoll lhes garantiu acesso imediato ao quarto de Rachel, que estava arrumado, a cama feita, a mala desaparecida. O quarto de Knoll também estava vazio. Não havia nenhum Volvo marrom à vista.

- Herr Knoll saiu hoje cedo - disse o proprietário do hotel.

- A que horas?

- Por volta das dez e meia.

- O senhor não ouviu falar na explosão?

- Há muitas explosões nas minas, inspetor. Não presto muita atenção para saber quem está envolvido.

- O senhor viu Knoll retornar hoje cedo?

O sujeito negou balançando a cabeça careca. Os dois agradeceram ao proprietário e saíram.

Paul disse a Pannik:

- Knoll tem uma vantagem de cinco horas, mas talvez o carro possa ser identificado através de um boletim.

- Herr Knoll não me interessa. O máximo que ele fez até agora foi invadir a mina.

- Ele deixou Rachel lá para morrer.

- Isso também não é crime. O que procuro é a mulher. Uma assassina.

Pannik estava certo. Mas Paul percebia a dificuldade do inspetor. Não havia descrição precisa. Nem nome verdadeiro. Nem provas físicas. Nem informações sobre o passado. Nem nada.

- Alguma idéia de onde procurar? - perguntou ele.

Pannik olhou para a calma praça do povoado.

- Nein, Herr Cutler. Nenhuma.

 

CASTELO LOUKOV, REPÚBLICA TCHECA

17H10

Suzanne aceitou a taça de estanho oferecida por Ernst Loring e se acomodou confortavelmente numa poltrona Império. O patrão pareceu satisfeito com o relatório.

- Esperei meia hora no local e fui embora quando as autoridades começaram a chegar - disse ela. - Ninguém saiu do túnel da mina.

- Vou verificar com Fellner amanhã, com alguma desculpa. Talvez ele diga se algo aconteceu a Christian.

Ela tomou um gole de vinho, satisfeita com as atividades do dia. Tinha vindo de carro direto da região central da Alemanha até a República Tcheca, atravessando a fronteira e acelerando para o sul até o castelo de Loring. Os trezentos quilômetros foram uma viagem fácil, de duas horas e meia, no Porsche.

- Muito inteligente, manobrar o Christian assim - disse Loring. - Ele é um sujeito difícil de enganar.

- Estava ansioso demais. Mas devo dizer que Chapaev foi bem convincente. - Ela tomou mais vinho. A bebida antiga, frutada, era do próprio Loring. - Uma pena. O velho era dedicado. Tinha ficado quieto por muito tempo. Infelizmente não tive opção além de silenciá-lo.

- Foi bom deixar o menino incólume.

- Não mato crianças. Ele não sabia nada além do que as outras testemunhas do mercado informariam. Foi meu instrumento para que o velho fizesse o que eu queria.

O rosto de Loring tinha uma expressão pesada, cansada.

- Fico me perguntando quando isso vai terminar. A cada intervalo de alguns anos somos obrigados a cuidar desse assunto.

- Eu li as cartas. Deixar Chapaev vivo seria um risco desnecessário. Mais pontas soltas que acabariam levando a problemas.

- Lamentavelmente, drahá, você está certa.

- Conseguiu descobrir mais alguma coisa de São Petersburgo?

- Só que Christian esteve definitivamente no arquivo da comissão. Nosso homem notou o nome de papai num documento que Knoll estava lendo, mas o papel sumiu quando Knoll foi embora.

- É uma coisa boa Knoll não representar mais problema. Com Borya e Chapaev fora do caminho, as coisas devem ficar em segurança.

- Temo que não - disse Loring. - Há outro problema.

Ela pôs o vinho de lado.

- O quê?

- Uma escavação começou a ser feita perto de Stod. Um empreendedor americano procurando tesouros.

- As pessoas não desistem, não é?

- A atração é inebriante demais. É difícil dizer com certeza se esse último empreendimento é na caverna certa. Infelizmente não há como saber até que a caverna seja explorada. Só sei que ele está na área correta, em termos gerais.

- Temos uma fonte?

- Diretamente lá dentro. O sujeito me manteve informado, mas nem mesmo ele sabe com certeza. Infelizmente, papai guardou muito bem a informação exata... não confiou nem mesmo no filho.

- Quer que eu viaje até lá?

- Por favor. Fique de olho. Minha fonte é confiável, mas gananciosa. Exige demais e, como você sabe, a ganância é algo que não posso tolerar. Ele está esperando ser contatado por uma mulher. Minha secretária pessoal foi a única pessoa a falar com ele até agora, e só por telefone. A fonte não sabe nada sobre mim. Conhecerá você pelo nome de Margarethe. Se algo for descoberto, certifique-se de que a situação permaneça restrita. Sem deixar qualquer pista. Se o local não tiver relação, esqueça e, se necessário, elimine a fonte. Mas, por favor, tentemos minimizar as mortes.

Ela sabia o que ele queria dizer.

- Não tive outra opção com o Chapaev.

- Entendo, drahá, e agradeço o empenho. Esperemos que essa morte seja o fim da suposta maldição da Sala de Âmbar.

- Junto com mais duas.

O velho riu.

- Christian e Rachel Cutler?

Ela confirmou com a cabeça.

- Acredito que você esteja satisfeita com seu trabalho. Estranho, pensei ter sentido hesitação no outro dia, com relação a Christian. Talvez uma atraçãozinha?

Ela ergueu a taça num brinde ao patrão.

- Nada que me impeça de viver.

 

Knoll ia a toda a velocidade para o sul, em direção a Füssen. Havia muitos policiais em Kehlheim e ao redor do povoado para que ele passasse a noite lá. Tinha fugido de Warthberg e retornado aos Alpes, no sul, para falar com Danya Chapaev, mas ficou sabendo que o velho fora assassinado durante a noite. A polícia estava procurando uma mulher que tinha pedido informações sobre a casa na véspera e deixado a feira com o neto de Chapaev. Sua identidade era desconhecida. Mas não para ele.

Suzanne Danzer.

Quem mais seria? De algum modo ela havia descoberto a pista e encontrado Chapaev antes dele. Todas as informações dadas livremente por Chapaev vinham dela. Sem dúvida. Ele fora atraído para uma armadilha e quase morrera.

Lembrou-se do que Juvenal disse em suas Sátiras. A vingança é o deleite de um espírito mau e de uma mente mesquinha. Prova disso é que ninguém se regozija mais com a vingança do que uma mulher.

Certo. Mas ele preferia Byron. Os homens amam depressa, mas detestam devagar.

Seria um inferno quando o caminho dos dois se cruzasse de novo. Um tremendo inferno. Na próxima vez, ele teria a vantagem. Estaria preparado.

As ruas estreitas de Füssen estavam apinhadas de turistas de primavera atraídos pelo castelo de Ludovico ao sul da cidade. Era fácil se misturar ao movimento vespertino das pessoas que procuravam comida e álcool nos cafés agitados. Parou durante meia hora e comeu num dos menos cheios, ouvindo uma deliciosa música de câmara que ecoava de um concerto de primavera do outro lado da rua. Em seguida, encontrou uma cabine telefônica perto do hotel e ligou para o Burg Herz. Franz Fellner atendeu.

- Ouvi falar de uma explosão nas montanhas hoje. Uma mulher foi retirada dos escombros, e ainda estão procurando o homem.

- Não serei encontrado - disse ele. - Era uma armadilha. - Em seguida, contou a Fellner o que havia acontecido desde que saíra de Atlanta até o momento em que ficou sabendo do assassinato de Chapaev, há pouco. - Interessante saber que Rachel Cutler pode ter sobrevivido. Mas não importa. Ela certamente voltará para Atlanta.

- Tem certeza de que Suzanne está envolvida?

- De algum modo, ela se adiantou a mim.

Fellner deu um risinho.

- Será que você está ficando velho, Christian?

- Presunçoso é uma definição melhor - disse Monika, de repente. Sem dúvida estava numa extensão.

- Estava me perguntando onde você estaria.

- Sua mente provavelmente só pensava em como ia trepar com ela.

- Que sorte a minha, ter você para me lembrar de todos os meus defeitos.

Monika riu.

- Metade da diversão em tudo isso, Christian, é assistir você trabalhando.

- Parece que essa pista agora está gelada - respondeu Knoll. - Devo passar para as outras aquisições?

- Conte a ele, filha - disse Fellner.

- Um americano, Wayland McKoy, está escavando perto de Stod. Diz que vai encontrar as obras de arte do museu de Berlim, talvez a Sala de Âmbar. Já fez isso antes com algum sucesso. Verifique para ter certeza. No mínimo poderá conseguir alguma informação útil, talvez uma nova aquisição.

- Essa escavação é bem conhecida?

- Saiu nos jornais locais e a CNN internacional fez várias matérias - disse Monika.

- Sabíamos disso antes de você ir a Atlanta - disse Fellner. - Mas achamos que Borya valia uma investigação imediata.

- Loring está interessado na nova escavação?

- Parece interessado em tudo que nós fazemos - respondeu Monika.

- Você espera que Suzanne seja despachada? - perguntou Fellner.

- Mais do que espero.

- Boa caçada, Christian.

- Obrigado, senhor, e quando Loring ligar para saber se estou morto, não o desaponte.

- Precisa de um pouco de anonimato?

- Isso ajudaria.

 

WARTHBERG, ALEMANHA

20H45

Rachel entrou no restaurante e acompanhou Paul até uma mesa, saboreando o ar quente temperado com o cheiro de cravo e alho. Estava mor¬rendo de fome e se sentindo melhor. A bandagem do hospital fora substituída por gaze e esparadrapo na lateral da cabeça. Usava uma calça de algodão e blusa de manga comprida que Paul havia comprado numa loja local, já que as roupas rasgadas, da manhã, não eram mais usáveis.

Paul a havia tirado do hospital há duas horas. Ela estava bem, a não ser pelo galo na cabeça e alguns cortes e arranhões. Tinha prometido ao médico pegar leve nos próximos dias, e Paul disse a ele que os dois voltariam para Atlanta, de qualquer modo.

Um garçom se aproximou e Paul perguntou de que tipo de vinho ela gostaria.

- Um bom tinto seria ótimo. Algo local - respondeu ela, recordando-se do jantar da noite anterior com Knoll.

O garçom partiu.

- Liguei para a companhia aérea - disse Paul. - Há um vôo saindo de Frankfurt amanhã. Pannik disse que conseguiria arranjar para que fôssemos levados ao aeroporto.

- Onde está o Inspetor?

- Voltou a Kehlheim para continuar a investigação sobre Chapaev. Deixou um número de telefone.

- Não acredito que todas as minhas coisas sumiram.

- Knoll obviamente não queria deixar nada que pudesse levar a você.

- Ele parecia tão sincero! Na verdade, era charmoso.

Paul pareceu sentir a atração na voz dela.

- Você gostou dele?

- Era um sujeito interessante. Disse que era um investigador procurando a Sala de Âmbar.

- Isso atrai você?

- Ora, Paul! Você não acha que nós levamos uma vida comum demais? Trabalho e casa. Pense só. Viajar o mundo, procurando obras de arte perdidas. Isso empolgaria qualquer um.

- O sujeito deixou você lá para morrer.

O rosto dela ficou tenso. Aquele tom de voz de Paul funcionava todas as vezes.

- Mas também salvou minha vida em Munique.

- Eu deveria ter vindo com você desde o início.

- Não me lembro de tê-lo convidado. - A irritação dela estava crescendo. Por que isso acontecia tão depressa? Paul só estava querendo ajudar.

- Não, não me convidou. Mas mesmo assim eu deveria ter vindo.

Rachel ficou surpresa com a reação dele a Knoll. Difícil dizer se Paul estava com ciúme ou preocupado.

- Precisamos ir para casa - disse ele. - Não há mais nada aqui. Estou preocupado com as crianças. Ainda fico vendo o corpo de Chapaev.

- Você acredita que a mulher que foi procurá-lo matou Chapaev?

- Quem sabe? Mas ela certamente sabia onde procurar, graças a mim.

Agora parecia a hora certa.

- Vamos ficar, Paul.

- O quê?

- Vamos ficar.

- Rachel, você não aprendeu a lição? Há gente morrendo. Temos de sair daqui antes que seja a nossa vez. Você teve sorte hoje. Não force a barra. Isto não é um romance de aventuras. É de verdade. E uma idiotice. Nazistas. Russos. É tudo além de nossa capacidade.

- Paul, papai devia saber alguma coisa. Chapaev também. Nós devemos a eles a tentativa.

- Tentativa de quê?

- Resta uma pista a seguir. Lembre-se de Wayland McKoy. Knoll me disse que Stod não fica longe daqui. Ele pode estar perto de alguma coisa. Papai se interessou pelo que ele estava fazendo.

- Deixe para lá, Rachel.

- Que mal faria?

- Foi exatamente o que você disse com relação a encontrar Chapaev.

Ela empurrou a cadeira para trás e se levantou.

- Isso não é justo, e você sabe. - Sua voz ficou mais alta. - Se quer ir para casa, vá. Eu vou conversar com Wayland McKoy.

Algumas outras pessoas no restaurante começaram a notar. Rachel esperava que nenhuma falasse inglês. O rosto de Paul tinha a expressão usual de resignação. Ele realmente nunca soubera o que fazer com ela. Este era outro problema dos dois. A impetuosidade era estranha à personalidade dele. Paul era um planejador meticuloso. Nenhum detalhe era pequeno demais. Não era obsessivo. Apenas consistente. Se já fizera alguma coisa espontânea na vida? Sim. Tinha viajado para cá praticamente num impulso momentâneo. E ela esperava que isso significasse alguma coisa.

- Sente-se, Rachel - disse ele em voz baixa. - Ao menos uma vez, será que não podemos discutir algo de modo racional?

Ela se sentou. Queria que ele ficasse, mas nunca admitiria.

- Você tem uma campanha eleitoral pela frente. Por que não canaliza toda essa energia para isso?

- Eu tenho de ficar, Paul. Algo me diz para continuar.

- Rachel, nas últimas 42 horas, duas pessoas apareceram do nada, ambas procurando a mesma coisa, uma possivelmente é assassina, a outra insensível o bastante para deixar você morrer. Karol se foi. Chapaev também. Talvez seu pai tenha sido assassinado. Você tinha tremendas suspeitas disso antes de vir para cá.

- Ainda tenho, e isso faz parte da coisa. Para não mencionar seus pais. Eles também podem ter sido vítimas.

Ela quase podia ouvir a mente analítica de Paul funcionando. Examinando as opções. Tentando pensar no próximo argumento para convencê-la a irem para casa.

- Certo - disse ele. - Vamos falar com McKoy.

- Está falando sério?

- O que estou é doido. Mas não planejo deixar você sozinha aqui.

Ela estendeu a mão e apertou a dele.

- Vigie minhas costas que eu vigio as suas. Certo?

Ele riu.

- É, certo.

- Papai teria orgulho.

- Seu pai provavelmente está se revirando no túmulo. Estamos ignorando tudo que ele queria.

O garçom chegou com o vinho e serviu duas taças. Rachel ergueu a dela.

- Ao sucesso.

Ele devolveu o brinde.

- Ao sucesso.

Ela tomou um gole do vinho, satisfeita porque Paul ia ficar. Mas a visão relampejou em sua mente outra vez. O que viu quando a luz da lanterna revelou Christian Knoll no segundo antes da explosão. Uma lâmina de faca brilhando na mão dele.

No entanto, não tinha dito nada a Paul ou ao inspetor Pannik. Era fácil adivinhar a reação dos dois. Em especial a de Paul.

Olhou para o ex-marido, lembrou-se do pai e de Chapaev e pensou nas crianças.

Estaria fazendo a coisa certa?

 

STOD, ALEMANHA

SEGUNDA-FEIRA, 19 DE MAIO, 10H15

Wayland McKoy entrou na caverna. O ar frio e úmido o envolveu e a escuridão tomou conta da luz matinal. Ele se maravilhou com o túnel antigo. Ein Silberbergwerk. Uma mina de prata. Antigo "tesouro do Sacro Império Romano", agora a terra estava exaurida e abandonada, lembrança sórdida da prata mexicana barata que fechou a maioria das minas de Harz em 1900.

Toda a área era espetacular. Colinas cobertas de pinheiros, mato baixo e retorcido e campos alpinos, tudo lindo e irregular, no entanto permeado por uma atmosfera sobrenatural. Como dissera Goethe em Fausto: "Onde as bruxas faziam seu sabá".

Este já fora o canto sudoeste da Alemanha Oriental, na temida zona proibida, e arruinados postos de fronteira continuavam espalhados pela floresta. Os campos minados, armadilhas explosivas, cães de guarda e cercas de arame farpado tinham sumido. Wende, a unificação, tinha posto fim na necessidade de conter toda uma população e aberto oportunidades. Oportunidades que ele estava explorando agora.

Seguiu pelo túnel amplo. A trilha era marcada a cada trinta metros por uma lâmpada de cem watts, e um fio elétrico serpenteava um cami¬nho até o gerador, lá fora. A face da rocha era afiada, o chão coberto de entulho, trabalho de uma equipe inicial que ele mandara na semana anterior para abrir a passagem.

Essa tinha sido a parte fácil. Britadeiras e pistolas de ar. Não era preciso se preocupar com explosivos antigos dos nazistas, pois o túnel fora farejado por cães e examinado por equipes especializadas em demolição. A falta de qualquer coisa nem sequer remotamente ligada à explosivos era preocupante. Se esta fosse de fato a mina certa, a que os alemães usaram para guardar as obras de arte do museu Kaiser Friedrich, de Berlim, quase certamente teria sido minada. Mas nada fora encontrado. Só pedras, sedimentos e milhares de morcegos. Os sacaninhas malignos povoavam os afluentes do túnel principal durante o inverno e, de todas as espécies do mundo, esta tinha de estar em perigo de extinção. O que explicava por que o governo alemão havia hesitado tanto em lhe conceder uma permissão para explorar. Por sorte, os morcegos saíam da mina a cada mês de maio e só voltavam em meados de julho. Preciosos 45 dias para o trabalho. Sua permissão exigia que a mina estivesse vazia quando os bichos voltassem.

Quanto mais entrava na montanha, mais largo o túnel se tornava - o que também era perturbador. A rotina normal era os túneis se estreitarem, finalmente se tornando intransponíveis, com os mineiros escavando até ficar impossível ir em frente. Todos os túneis eram um testamento a séculos de mineração, cada geração tentando suplantar a anterior e descobrir um veio de minério não detectado anteriormente. Mas, apesar de toda a amplitude, esse túnel ainda o preocupava. Era simplesmente estreito demais para guardar qualquer coisa tão grande quanto o botim que ele procurava.

Aproximou-se de seus três empregados. Dois estavam sobre escadas de mão, outro embaixo, cada um fazendo buracos em ângulos de sessenta graus na rocha. Cabos levavam ar e eletricidade. Os geradores e compressores estavam cinqüenta metros atrás dele, do lado de fora, ao ar da manhã. Luzes ásperas, quentes, branco-azuladas, iluminavam a cena e faziam a equipe se encharcar de suor.

As máquinas pararam e os homens tiraram os protetores de ouvidos. Ele também tirou os seus.

- Alguma idéia de como estamos indo? - perguntou.

Um dos homens tirou os óculos embaçados e enxugou o suor da testa.

- Avançamos cerca de trinta centímetros hoje. Não há como saber o quanto vamos prosseguir, e estou com medo de usar a britadeira.

Outro homem pegou uma garrafa. Lentamente encheu os buracos com solvente. McKoy chegou perto da parede de rocha. O granito e o calcário porosos beberam instantaneamente o caldo marrom derramado em cada buraco, enquanto o líquido cáustico se expandia, criando fissuras na pedra. Outro homem com óculos se aproximou com uma marreta. Bastou um golpe e a pedra se despedaçou, caindo no chão. Outros centímetros tinham sido escavados.

- Está lento - disse ele.

- Mas é o único modo de fazer - alertou uma voz vinda de trás.

McKoy se virou e viu Herr Doktor Alfred Grumer parado na caverna. Era alto, com braços e pernas compridos, magro a ponto de parecer uma caricatura, com uma barba grisalha estilo Vandyke envolvendo os lábios finos como se riscados a lápis. Grumer era o especialista residente da escavação, tinha diploma da Universidade de Heidelberg em história da arte. McKoy havia se ligado a Grumer há três anos, durante seu último empreendimento nas minas de Harz. O sujeito alardeava conhecimento e cobiça, dois atributos que ele não somente admirava, mas também necessitava em seus companheiros de trabalho.

- Estamos ficando sem tempo - disse McKoy.

Grumer chegou mais perto.

- Você ainda tem permissão para mais quatro semanas. Vamos conseguir.

- Presumindo que haja algo a ser conseguido.

- A câmara está aí. O radar confirma.

- Mas a que distância, naquela rocha?

- É difícil dizer. Mas há algo lá.

- E como, diabos, a coisa entrou lá? Você disse que o radar confirmou múltiplos objetos metálicos de tamanho razoável. - Ele sinalizou para trás, além das luzes. - Este túnel mal tem tamanho para três pessoas andarem lado a lado.

Um riso fino riscou o rosto de Grumer.

- Você está presumindo que esta seja a única entrada.

- E você presume que eu tenho uma fábrica de dinheiro.

Os outros homens ajustaram as ferramentas e começaram a furar novamente. McKoy voltou pelo túnel, passando pelas luzes, até onde era mais fresco e mais silencioso. Grumer foi atrás.

- Se não fizermos algum progresso amanhã, para o diabo com essa coisa de ficar furando - disse ele. - Vamos dinamitar.

- Sua permissão proíbe que isso seja feito.

McKoy passou a mão pelo cabelo preto e úmido.

- Foda-se a permissão. Precisamos de progresso, e rápido. Tenho uma equipe de TV esperando na cidade, e isso me custa dois mil por dia. E aqueles burocratas bundões em Bonn não têm um punhado de investidores vindo para cá amanhã, esperando ver obras de arte.

- Isso não pode ser apressado - disse Grumer. - Não dá para dizer o que há atrás das pedras.

- Supostamente há uma câmara enorme.

- Há mesmo. E contém alguma coisa.

McKoy suavizou o tom de voz. Não era culpa de Grumer a escavação estar vagarosa.

- Algo provocou orgasmos múltiplos no radar, não foi?

Grumer sorriu.

- É um modo poético de dizer.

- É melhor você esperar que seja verdade, caso contrário estamos ambos fodidos.

- A palavra alemã para "caverna" é höhle - disse Grumer. – A palavra para "inferno" é hölle. Sempre achei que a semelhança tinha algum significado.

- Interessante pra caralho, Grumer. Mas não é o sentimento correto neste momento, se é que você me entende.

Grumer pareceu não se importar. Como sempre. Outra coisa que irritava McKoy tremendamente.

- Vim dizer que temos visita - disse Grumer.

- Outro repórter?

- Um advogado e uma juíza. Americanos.

- Os processos já começaram?

Grumer deu um de seus risos condescendentes. McKoy não estava no clima. Devia demitir aquele idiota irritante. Mas os contatos de Grumer no Ministério da Cultura eram valiosos demais para dispensar.

- Nada de processos, Herr McKoy. Esses dois falam sobre a Sala de Âmbar.

O rosto de McKoy se iluminou.

- Achei que você se interessaria. Eles afirmam que têm informações.

- Malucos?

- Não parecem.

- O que eles querem?

- Conversar.

McKoy olhou de volta para a parede de rocha e as furadeiras zumbindo.

- Por que não? Não está acontecendo nada aqui.

 

Paul se virou quando a porta da cabana minúscula se abriu. Viu um homem parecendo um urso pardo com pescoço de touro, peito largo e fartos cabelos pretos entrar na sala pintada de branco. O peito estufado e os braços forçavam uma camisa de algodão onde estava bordado ESCAVAÇÕES MCKOY, e os intensos olhos escuros avaliaram imediatamente a situação. Alfred Grumer - que Paul e Rachel tinham conhecido há alguns minutos - entrou atrás dele.

- Herr Cutler, Frau Cutler, este é Wayland McCoy - disse Grumer.

- Não quero ser grosseiro - disse McKoy -, mas estamos num momento crítico por aqui, e não tenho muito tempo para conversas. Então, o que posso fazer por vocês?

Paul decidiu ir direto ao ponto.

- Tivemos alguns dias interessantes...

- Por que um advogado e uma juíza da Geórgia vieram ao meio da Alemanha me incomodar?

- Estamos procurando a Sala de Âmbar.

McKoy deu um risinho.

- Quem, diabos, não está?

- O senhor deve pensar que ela está perto, talvez até mesmo onde está escavando - disse Rachel.

- Tenho certeza de que vocês, águias jurídicas, sabem que não vou discutir qualquer particularidade desta escavação. Tenho investidores que exigem sigilo.

- Não estamos pedindo que revele nada - disse Paul. - Mas talvez ache interessante o que aconteceu nos últimos dias. - Em seguida, contou a McKoy e Grumer tudo o que havia ocorrido desde a morte de Karol Borya até o momento em que Rachel foi tirada da mina.

Grumer sentou-se num dos bancos.

- Ouvimos falar da explosão. Não encontraram o homem?

- Não havia o que encontrar. Knoll tinha ido embora há muito. - Paul explicou o que ele e Pannik ficaram sabendo em Warthberg.

- Vocês ainda não disseram o que desejam - disse McKoy.

- O senhor pode começar com algumas informações. Quem é Josef Loring?

- Um industrial tcheco. Está morto há cerca de trinta anos. Dizem que ele encontrou a Sala de Âmbar logo depois da guerra, mas nada jamais foi verificado. Outro boato para os livros.

- Loring era conhecido pelas obsessões caras - disse Grumer. - Tinha uma enorme coleção de arte. Uma das maiores coleções particulares de âmbar no mundo. Pelo que sei, o filho ainda a possui. Como seu pai sabia sobre ele?

Rachel explicou sobre a comissão extraordinária e o envolvimento do pai. Também falou de Yancy e Marlene Cutler e das reservas do pai quando à morte dos dois.

- Qual é o nome do filho de Loring? - perguntou ela.

- Ernst - respondeu Grumer. - Deve ter uns oitenta anos. Ainda mora na propriedade da família no sul da República Tcheca. Não muito longe daqui.

Havia algo em Alfred Grumer que simplesmente não agradava a Paul. A testa franzida? Os olhos que pareciam pensar em outra coisa enquanto os ouvidos escutavam? Por algum motivo, o alemão o lembrava do pintor de paredes que há duas semanas tinha tentado tirar 12.300 dólares do espólio que ele representava, aceitando facilmente um acordo de 1.250. Sem escrúpulos quanto a mentir. Mais logros do que verdade em tudo que dizia. Alguém em quem não se devia confiar.

- Você está com as cartas de seu pai? - perguntou Grumer a Rachel.

Paul não queria mostrá-las a ele, mas achou que o gesto seria uma demonstração da boa-fé dos dois. Enfiou a mão no bolso de trás e pegou os papéis. Grumer e McKoy examinaram cada carta em silêncio. McKoy, particularmente, parecia fascinado. Quando terminaram, Grumer perguntou:

- Esse tal de Chapaev está morto?

Paul assentiu.

- Seu pai, Sra. Cutler... por sinal, vocês são casados? - perguntou McKoy.

- Divorciados - respondeu Rachel.

- E viajam pela Alemanha juntos?

O rosto de Rachel ficou tenso.

- Isso é relevante?

McKoy lhe deu um olhar curioso.

- Talvez não, meritíssima. Mas são vocês que estão interrompendo minha manhã com perguntas. Como eu estava dizendo, seu pai trabalhou para os soviéticos procurando a Sala de Âmbar?

- Ele ficou interessado no que o senhor fazia aqui.

- Disse alguma coisa em particular?

- Não - respondeu Paul. - Mas assistiu à matéria da CNN e quis o relato do USA Today. A próxima coisa que soubemos era que ele estava estudando um mapa da Alemanha e lendo matérias antigas sobre a Sala de Âmbar.

McKoy foi sentar-se numa cadeira giratória, de carvalho. As molas gemeram com o peso.

- Vocês acham que talvez estejamos no túnel certo?

- Karol sabia alguma coisa sobre a Sala de Âmbar - disse Paul. - Chapaev também. Meus pais talvez soubessem alguma coisa. E alguém pode ter desejado que todos eles ficassem quietos.

- Mas vocês têm alguma coisa mostrando que eles eram o alvo daquela bomba? - perguntou McKoy.

- Não - respondeu Paul. - Mas depois da morte de Chapaev, tenho de ficar pensando. Karol sentia muito remorso pelo que aconteceu com meus pais. Estou começando a acreditar que há mais nisso do que eu pensava.

- Coincidências demais, hein?

- Pode-se dizer.

- E quanto ao túnel ao qual Chapaev mandou vocês? - perguntou Grumer.

- Não havia nada - disse Rachel. - E Knoll achou que o final desmoronado do túnel se deveu a uma explosão. Pelo menos foi o que disse.

McKoy riu.

- Foi uma busca inútil?

- Provavelmente - respondeu Paul.

- Alguma explicação para Chapaev mandar vocês a um beco sem saída?

Rachel teve de admitir que não tinha.

- E quanto a esse tal de Loring? Por que meu pai estaria preocupado a ponto de mandar os Cutler investigá-lo?

- Os boatos sobre a Sala de Âmbar são disseminados. São tantos que é difícil discernir qualquer coisa. Seu pai podia estar verificando outra pista - disse Grumer.

- O senhor sabe alguma coisa sobre esse tal de Christian Knoll? -perguntou Paul a Grumer.

- Nein. Nunca ouvi o nome.

- Vocês vieram aqui atrás de aventura? - perguntou McKoy, de repente.

Paul sorriu. Meio que esperava um papo de vendedor.

- Nem de longe. Não somos caçadores de tesouros. Só apenas duas pessoas que se meteram em algo que provavelmente não é da nossa conta. Como estávamos por perto, pensamos que valeria dar uma olhada.

- Venho escavando estas montanhas há anos...

A porta da cabana se abriu de repente. Um homem sorridente, com macacão sujo, disse:

- Atravessamos!

McKoy pulou da cadeira.

- Cacete, Todo-Poderoso. Chamem a equipe de TV. Diga para virem para cá. E ninguém entra antes de mim.

O trabalhador saiu correndo.

- Vamos, Grumer.

Rachel se adiantou, bloqueando o caminho de McKoy para a porta.

- Deixe-nos ir.

- Por quê, merda?

- Pelo meu pai.

McKoy hesitou alguns instantes, depois disse:

- Por que não? Mas fiquem fora do caminho.

 

Uma sensação desconfortável dominou Rachel. O túnel era largo, porém mais apertado que o da véspera, e a entrada havia sumido atrás deles. Há vinte e quatro horas, quase fora enterrada viva. Agora estava de volta ao subsolo, seguindo uma trilha de lâmpadas expostas para dentro de outra montanha alemã. O caminho terminava numa galeria aberta com paredes de rocha branco-acinzentada rodeando-a, a parede mais distante quebrada por uma fenda escura. Um trabalhador estava brandindo uma marreta, alargando a fenda até ter tamanho para uma pessoa passar.

McKoy pegou um dos refletores e foi até a abertura.

- Alguém olhou dentro?

- Não - respondeu um trabalhador.

- Ótimo. - McKoy levantou uma haste de alumínio da areia e prendeu o refletor na ponta. Então estendeu as seções telescópicas até a lâmpada estar a uns três metros de distância. Aproximou-se da abertura e enfiou a luz na escuridão.

- Filho-da-puta - disse McKoy. - A câmara é gigantesca. Estou vendo três caminhões. Ah, merda. - Ele retirou a luz. - Corpos. Dá para ver dois.

Passos se aproximaram de trás. Rachel se virou e viu três pessoas correndo para eles, com câmeras de vídeo, luzes e baterias.

- Preparem esse material - disse McKoy. - Quero que a visão inicial seja documentada para o programa. - Em seguida, virou-se para Rachel e Paul. - Eu vendi os direitos de vídeo. Vão fazer um especial de TV. Mas eles queriam gravar tudo enquanto estivesse acontecendo.

Grumer chegou perto.

- Você disse caminhões?

- Parecem NAGs Büssing. Quatro toneladas e meia. Alemães.

- Isso não é bom.

- Como assim?

- Não haveria transporte disponível para o material do museu de Berlim. Tudo teria de ser carregado à mão.

- Que porra você está falando?

- Como eu disse, Herr McKoy, o material de Berlim foi transportado de trem e depois de caminhão até a mina. Os alemães não descartariam os veículos. Eram valiosos demais, necessários para outras tarefas.

- Não sabemos que diabo aconteceu, Grumer. Pode ser que a porra dos chucrutes tenham decidido deixar os caminhões, quem sabe?

- Como eles entraram na montanha?

McKoy se aproximou do rosto do alemão.

- Como você disse antes, poderia haver outra entrada.

Grumer se encolheu.

- Como o senhor diz, Herr McKoy.

McKoy apontou um dedo.

- Não. Como você diz. - O grandalhão voltou a atenção para a equipe de vídeo. Luzes se acenderam. Duas câmeras foram postas nos ombros. Um operador de áudio estendeu um microfone boom e ficou fora do caminho.

- Eu entro primeiro. Filmem segundo minha perspectiva.

Os homens assentiram.

E McKoy penetrou na escuridão.

Paul foi o último a entrar. Seguiu dois trabalhadores que arrastaram barras de luz para a câmara. Os raios branco-azulados fizeram evaporar a escuridão.

- Esta câmara é natural - disse Grumer, a voz ecoando.

Paul examinou a rocha que subia num arco de pelo menos dezoito metros de altura. A visão o fez se lembrar do teto de alguma catedral grandiosa, só que o teto e as paredes eram envoltos em helicites e espeleotemas que brilhavam à luz forte. O piso era macio e arenoso, como no túnel de entrada. Paul respirou fundo e não gostou particularmente do cheiro rançoso do ar. As luzes de vídeo estavam apontadas para a parede mais distante. Outra abertura, ou pelo menos o que restava de uma abertura, surgiu. Era maior do que o túnel que tinham usado, com espaço mais do que suficiente para admitir os veículos, e tinha pedras e entulho comprimidos contra a arcada.

- A outra entrada, hein? - disse McKoy.

- Ja - respondeu Grumer. - Mas é estranho. Toda a idéia de esconder era poder recuperar depois. Por que fechar isso assim?

Paul voltou a atenção aos três caminhões. Estavam parados em ângulos estranhos, todos os dezoito pneus vazios, as laterais esmagadas pelo peso. As lonas escuras sobre as carrocerias compridas continuavam no lugar, mas cheias de mofo, e os cabos de aço e a estrutura tremendamente enferrujados.

McKoy penetrou mais no salão, com um cinegrafista atrás.

- Não se preocupem com o áudio. Podemos dublar depois. Garantam as imagens.

Rachel se adiantou.

Paul chegou perto dela.

- Estranho, não é? Como andar numa sepultura.

Ela assentiu.

- Exatamente o que eu estava pensando.

- Olhem isso - disse McKoy.

As luzes revelaram dois corpos esparramados na areia, com rochas e entulho ao lado. Nada restava além de ossos, trapos de roupas e botas de couro.

- Levaram tiros na cabeça - disse McKoy.

Um trabalhador aproximou uma barra de luz.

- Tentem não tocar em nada até termos um registro fotográfico completo. O ministério vai exigir isso. - A voz de Grumer era firme.

- Há mais dois corpos ali adiante - disse um dos outros trabalhadores.

McKoy e a equipe de vídeo foram naquela direção. Grumer e os outros os seguiram, assim como Rachel. Paul se demorou perto dos dois corpos. As roupas tinham apodrecido, mas mesmo à luz fraca os restos pareciam ser de algum tipo de uniforme. Os ossos estavam acinzentados e enegrecidos, e a carne e os músculos tinham virado pó há muito. Sem dúvida havia um buraco em cada crânio. Ambos pareciam ter morrido deitados de costas, com a coluna e as costelas ainda no lugar. Uma baioneta estava ao lado, presa ao que restava de um cinto costurado. Um coldre de couro estava vazio.

O olhar de Paul foi mais para a direita.

Parcialmente coberto pela areia, nas sombras, notou algo preto e retangular. Ignorando o que Grumer dissera, abaixou-se e pegou o objeto.

Uma carteira.

Separou cuidadosamente cada dobra rachada de couro. Restos do que parecia ter sido dinheiro enchiam o compartimento de notas. Enfiou um dedo numa das abas laterais. Nada. Depois na outra. Pedaços de um cartão deslizaram para fora. As bordas estavam esgarçadas e frágeis, a maior parte da tinta se desbotara, mas parte das palavras permanecia. Esforçou-se para ler as letras.

AUSGEGEBEN 15-3-51. VERFÄLLT 15-3-55. GUSTAV MÜLLER.

Havia mais palavras, mas apenas letras esparsas tinham sobrevivido, nada legível. Aninhou a carteira na palma da mão e voltou para o grupo principal. Rodeou a parte de trás de um caminhão e, de repente, viu Grumer afastado. Já ia se aproximar e perguntar sobre a carteira quando viu que Grumer estava curvado sobre outro esqueleto. Rachel, McKoy e os outros estavam reunidos dez metros à esquerda, de costas para eles, com as câmeras ainda ligadas, McKoy falando para as lentes. Trabalhadores tinham erguido uma haste telescópica e uma barra de luz halógena no centro, gerando iluminação mais do que suficiente para que ele visse Grumer examinando a areia em volta dos ossos.

Paul recuou para as sombras atrás de um dos caminhões e continuou a vigiar. A lanterna de Grumer acompanhou os ossos meio enterrados na areia. Paul imaginou a carnificina que teria acontecido ali. A luz de Grumer terminou o exame na ponta de um braço estendido, onde os restos dos ossos dos dedos eram visíveis. Paul prestou atenção. Havia letras desenhadas na areia. Algumas sumidas devido ao tempo, mas três permaneciam, espalhadas com espaços irregulares entre elas.

O   I      C.

Grumer ficou de pé e tirou três fotos, o flash da máquina iluminando rapidamente a cena.

Depois se abaixou e apagou cuidadosamente as três letras da areia.

 

McKoy ficou impressionado. O vídeo ficaria espetacular. Três enferrujados caminhões alemães da Segunda Guerra Mundial relativamente intactos numa mina de prata abandonada. Cinco corpos, todos com tiros na cabeça. Que programa! Seu percentual sobre os direitos de exibição seria impressionante.

- Pegaram imagens suficientes do exterior? - perguntou a um dos cinegrafistas.

- Mais do que suficientes.

- Então vejamos que porra há nessas coisas. - Em seguida, pegou uma lanterna e foi na direção do veículo mais próximo. - Grumer, onde está você?

O Doktor veio de trás.

- Pronto? - perguntou McKoy.

Grumer assentiu.

Ele também estava.

A visão dentro de cada carroceria deveria ser de caixotes de madeira montados às pressas e empilhados ao acaso, muitos contendo cortinas, roupas e tapetes como enchimento. Tinha ouvido histórias de como os curadores do Hermitage usaram as roupas reais de Nicolau II e Alexandra para proteger pinturas e mais pinturas mandadas para o leste, para longe dos nazistas. Roupas inestimáveis enfiadas indiscriminadamente em caixotes baratos de madeira. Qualquer coisa para proteger as telas e as cerâmicas frágeis. Esperava que os alemães tivessem sido igualmente frívolos. Se esta fosse a câmara certa, a que continha o acervo do museu de Berlim, a descoberta seria a nata da coleção. Talvez a Rua de Delft, de Vermeer, a Cabeça de Cristo, de Da Vinci ou O Parque, de Monet. Cada peça valeria milhões no mercado aberto. Ainda que o governo alemão insistisse em manter a propriedade - o que era provável -, o pagamento para quem descobrisse seria de milhões de dólares.

Afastou cuidadosamente a lona rígida e apontou a luz para dentro.

A carroceria estava vazia. Nada além de ferrugem e areia.

Correu para o caminhão seguinte.

Vazio.

Ao terceiro.

Vazio também.

- Puta que o pariu - disse ele. - Desliguem a porra dessas câmeras.

Grumer apontou sua lanterna para dentro de cada carroceria.

- Eu tinha medo disso.

McKoy não estava no clima.

- Todos os sinais diziam que esta talvez não fosse a câmara - disse Grumer.

O alemão pretensioso quase parecia gostar da dificuldade dele.

- Então por que não me disse em janeiro?

- Na época, eu não sabia. Os sinais de radar indicavam algo grande e metálico aqui dentro. Só nos últimos dias, à medida que nos aproximávamos, comecei a suspeitar que talvez este fosse um local seco.

Paul se aproximou.

- Qual é o problema?

- O problema, Sr. Advogado, é que as merdas das carrocerias estão vazias. Porra nenhuma dentro. Simplesmente gastei um milhão de dólares para recuperar três caminhões enferrujados. Como é que vou explicar isso às pessoas que vêm para cá amanhã esperando ficar ricas com o investimento?

- Eles sabiam dos riscos quando investiram - disse Paul.

- Nenhum dos sacanas vai admitir isso.

Rachel perguntou:

- Você foi honesto com eles quanto aos riscos?

- Tão honesto quanto possível quando se está pedindo dinheiro. - Ele balançou a cabeça, revoltado. - Jesus Cristo Todo-Poderoso, cacete.

 

STOD

12H45

Knoll jogou sua bolsa de viagem na cama e examinou o apertado quarto de hotel. O Christinenhof tinha cinco andares, com o exterior de enxaimel e o interior exalando história e hospitalidade. Intencionalmente, havia escolhido um quarto no terceiro andar, virado para a rua, recusando o lado mais luxuoso e caro, do jardim. Não estava interessado em ambientação, apenas em localização, já que o Christinenhof ficava diretamente em frente ao hotel Garni, onde Wayland McKoy e seu grupo ocupavam todo o quarto andar.

Tinha se informado sobre a escavação de McKoy através de um solícito funcionário do escritório de turismo. Também tinham-lhe dito que no dia seguinte um grupo de investidores chegaria à cidade - todos os quartos no Garni haviam sido reservados, e dois outros hotéis receberiam o excesso.

- É bom para os negócios - tinha dito o funcionário. Era bom para ele, também. Nada melhor do que muita gente para causar distração.

Abriu o zíper da bolsa de couro e tirou um barbeador elétrico.

O dia anterior tinha sido difícil. Danzer o havia suplantado. Provavelmente estava contando vantagem agora mesmo para Ernst Loring sobre como o atraíra a mina. Mas por que matá-lo? Nunca antes as disputas entre os dois tinham chegado a um ponto tão definitivo. O que havia aumentado a aposta? O que era tão importante a ponto de Danya Chapaev, ele e Rachel Cutler terem de morrer? A Sala de Âmbar? Talvez. Certamente eram necessárias mais investigações, e ele pretendia fazer exatamente isso, assim que essa missão fosse realizada.

Havia se demorado na viagem de Füssen até Stod, ao norte. Não tinha pressa. Os jornais de Munique relatavam a explosão da véspera na mina de Harz, mencionando o nome de Rachel Cutler e o fato de ela ter sobrevivido. Não havia referência a ele, só que ainda estavam procurando um homem branco, não identificado, mas as equipes de resgate não tinham esperança de encontrar nada. Sem dúvida Rachel falara dele às autoridades, e a polícia ficaria sabendo que ele havia saído do Goldene Krone com suas coisas e as de Rachel. No entanto, não havia qualquer menção. Interessante. Um ardil da polícia? Possivelmente. Mas ele não se importava. Não tinha cometido nenhum crime. Por que a polícia ia querê-lo? Deviam achar que ele estava morrendo de medo e tinha decidido sair da cidade, já que ver a morte de perto bastava para amedrontar qualquer um. Rachel Cutler estava viva e certamente voltando para os Estados Unidos, e sua aventura na Alemanha não passaria de uma lembrança desagradável. De volta à vida de juíza de uma grande cidade. A busca do pai pela Sala de Âmbar morreria com ele.

Tinha tomado banho de manhã, mas não fizera a barba, por isso agora o pescoço e o queixo pareciam lixa e cocavam. Demorou-se um momento e pegou a pistola no fundo da bolsa de viagem. Massageou suavemente o polímero liso e não reflexivo, depois segurou o cabo da arma, com o dedo no gatilho. Pesava menos de um quilo, presente de Ernst Loring, uma de suas novas CZ-75B.

- Mandei expandir o pente para quinze tiros - dissera Loring quando o presenteara com a arma. - Nada de pente burocrático, de dez tiros. Portanto, é idêntica ao nosso modelo original. Lembrei-me de seu comentário de que não tinha gostado da modificação de fábrica, reduzindo para dez tiros. Também mandei montar e ajustar a trava na estrutura para que a arma possa ser carregada tanto na posição engatilhada quanto na travada, como você notou. Agora essa mudança está em todos os modelos.

As fundições de Loring na República Tcheca eram as maiores produtoras de armas de pequeno porte na Europa Oriental, e sua qualidade era lendária. Somente nos últimos dias os mercados ocidentais tinham se aberto totalmente aos seus produtos, já que as altas tarifas e as restrições de importação haviam ido pelo mesmo caminho da Cortina de Ferro. Felizmente, Fellner permitira que ele ficasse com a arma, e Knoll apreciou esse gesto.

- Também mandei rosquear a ponta do cano para colocar um silenciador - dissera Loring. - Suzanne tem uma idêntica. Achei que vocês dois gostariam da ironia. O campo de jogo nivelado, por assim dizer.

Knoll atarraxou o silenciador na ponta do cano curto e colocou um pente novo.

É. Gostava tremendamente da ironia.

Jogou a arma na cama e pegou o barbeador. No caminho para o banheiro, parou por um momento diante da única janela do quarto. A entrada principal do Garni ficava do outro lado da rua, com colunas de pedra se erguendo de cada lado de uma pesada porta de bronze, e os quartos virados para a rua iam até o sexto andar. Obviamente, Wayland McKoy gostava do bom e do melhor. Knoll também ficara sabendo, enquanto se hospedava, que o Garni possuía um grande restaurante e uma sala de reuniões, duas instalações que a expedição parecia exigir. Os funcionários do Christinenhof ficaram satisfeitos por não precisar atender às necessidades constantes de um grupo tão grande. Knoll tinha sorrido diante dessa observação. O capitalismo era muito diferente do socialismo europeu. Nos Estados Unidos, os hotéis teriam brigado por esse tipo de negócio.

Olhou através de uma grade de ferro fundido que protegia a janela. O céu da tarde estava ficando cinza e sujo, à medida que nuvens grossas rolavam do norte. Pelo que tinham lhe dito, o pessoal da expedição geralmente voltava às seis horas, todos os dias. Então ele começaria leu trabalho de campo, jantando no Garni e descobrindo o que fosse possível nas conversas às mesas.

Olhou para a rua. Primeiro numa direção, depois na outra. De repente, seu olhar se fixou numa mulher. Estava abrindo caminho pela rua de pedestres. Loura. Rosto bonito. Vestida de modo casual. Bolsa de couro pendurada no ombro direito.

Suzanne Danzer.

Sem disfarce. De cara limpa.

Fascinante.

Jogou o barbeador na cama, enfiou a arma sob o paletó, num coldre de ombro, e foi rapidamente para a porta.

 

Uma sensação estranha preenchia Suzanne. Parou e olhou para trás. A rua estava apinhada, com a multidão da hora do almoço se espalhando com força total. Stod era uma cidade movimentada. Cerca de cinqüenta mil habitantes, pelo que ficara sabendo. A parte mais antiga da cidade se espalhava em todas as direções, quarteirões cheios de construções com estrutura de enxaimel com vários andares, de pedra e tijolos. Algumas eram realmente antigas, mas a maioria era de reproduções construídas nos anos cinqüenta e sessenta, depois que os bombardeios deixaram sua marca, em 1945. Os construtores fizeram um bom trabalho, decorando tudo com belos moldes de estuque, estátuas em tamanho real e baixos-relevos, tudo criado especificamente para ser fotografado.

Lá no alto, a Abadia das Sete Aflições da Virgem dominava o céu. A estrutura monstruosa fora erguida no século XV em honra à ajuda da Virgem Maria para virar a maré de uma batalha. O prédio barroco coroava um penhasco que dava para Stod e o lamacento rio Eder, clara personificação do antigo desafio e do poder senhorial.

Olhou para cima.

O enorme edifício da abadia parecia se inclinar para a frente, curvando-se ligeiramente para dentro, com as duas torres amarelas ligadas por um balcão voltado para o oeste. Imaginou uma época em que monges e prelados examinavam seu domínio daquele alto poleiro. Lembrou-se do que proclamara um cronista medieval: "A Fortaleza de Deus". Paredes cor de âmbar e brancas se alternavam no exterior, cobertas por um teto de telhas cor de ferrugem. Que adequado! Âmbar. Talvez fosse um presságio. E, se ela acreditasse em algo além de si mesma, poderia ter notado. Mas no momento a única coisa que notava era a sensação de ser vigiada.

Certamente Wayland McKoy provocaria interesse. Talvez fosse isso. Mais alguém estava ali. Procurando. Vigiando. Mas onde? Centenas de janelas ladeavam a rua estreita, alcançando vários andares. O calçamento tinha rostos demais para digerir. Alguém poderia estar disfarçado. Ou talvez alguém estivesse a cem metros de altura, no balcão da abadia, olhando para baixo. Só conseguia discernir minúsculas silhuetas ao sol do meio-dia, turistas aparentemente desfrutando uma visão grandiosa.

Não importava.

Virou-se e entrou no hotel Garni.

Aproximou-se da recepção e disse ao funcionário, em alemão:

- Preciso deixar um recado para Alfred Grumer.

- Certamente. - O homem empurrou um bloco.

Ela escreveu: Estarei na Igreja de São Gerhard às 22h. Esteja lá. Margarethe. E dobrou o bilhete.

- Vou me certificar de que Her Doktor Grumer o receba - disse o funcionário.

Ela sorriu e lhe deu cinco euros pelo trabalho.

Knoll ficou no saguão do Christinenhof e puxou cuidadosamente o fino tecido da cortina para olhar a rua. Observou enquanto, a menos de trinta metros, Suzanne Danzer parava e olhava ao redor.

Será que o havia sentido?

Ela era boa. Tinha instintos aguçados. Ele sempre gostara das comparações de Jung dizendo que os antigos viam as mulheres como Eva, Helena, Sofia ou Maria - correspondendo a impulsiva, emotiva, intelectual e moral. Danzer certamente possuía as três primeiras características, mas nada nela era moral. Também era outra coisa: perigosa. Mas sua guarda provavelmente estava baixa, pensando que ele estava enterrado sob toneladas de rochas numa mina a quarenta quilômetros de distância. Knoll esperava que Franz Fellner tivesse informado a Ernst Loring que seu paradeiro era desconhecido, ardil que lhe garantiria o tempo necessário para deduzir o que estava acontecendo. Mais importante ainda, isso lhe garantiria tempo para decidir como resolver a pendência com sua bela colega.

O que ela estava fazendo aqui, sem disfarce, entrando no hotel Garni? Era coincidência demais que Stod fosse o quartel-general de Wayland McKoy, que aquele fosse o hotel em que McKoy e sua equipe estavam hospedados. Será que ela possuía alguma fonte de informações na escavação? Nesse caso, não seria nada incomum. Muitas vezes ele havia cultivado fontes em outras escavações, para que Fellner pudesse ter as primeiras informações sobre qualquer descoberta. Em geral, aventureiros ficavam mais do que ansiosos para vender pelo menos parte de suas descobertas no mercado negro, e ninguém saberia, já que tudo que eles encontravam tinha sido considerado perdido, de qualquer modo. Essa prática evitava incômodos desnecessários e confiscos irritantes por parte dos governos. Os alemães eram conhecidos por confiscar o melhor do que era retirado do chão. Exigências rígidas de informes e pesadas penalidades caíam sobre quem violasse. Mas sempre se podia contar com a cobiça, e ele fizera várias compras excelentes com inescrupulosos caçadores de tesouros para a coleção particular de Fellner.

Uma chuva fraca começou a cair. Guarda-chuvas brotaram. Trovões rolaram ao longe. Danzer apareceu saindo do Garni. Knoll recuou para longe da janela. Esperava que ela não atravessasse a rua e entrasse no Christinenhof. Não havia onde se esconder no saguão pequeno.

Ficou aliviado quando ela ergueu casualmente a gola do casaco e voltou pela rua. Knoll foi até a porta e olhou para fora cautelosamente. Danzer entrou em outro hotel mais adiante, o Gebler, como anunciava a placa na frente, com a fachada de traves cruzadas parecendo afundar sob o peso dos séculos. Knoll tinha passado por ele, a caminho do Christinenhof. Fazia sentido ela se hospedar lá. Era perto, conveniente. Knoll recuou para o saguão e ficou olhando pela janela, tentando não chamar atenção das poucas pessoas ao redor. Quinze minutos se passaram, e ela não reapareceu.

Ele sorriu.

Confirmação.

Suzanne estava hospedada lá.

 

13H15

Paul observou Alfred Grumer com seus olhos de advogado, examinando cada faceta do rosto, avaliando alguma reação, calculando uma resposta provável. Ele, McKoy, Grumer e Rachel estavam de volta ao barracão do lado de fora da mina. A chuva batia no teto de zinco. Quase três horas tinham se passado desde a descoberta inicial, e o humor de McKoy, como o tempo, só havia piorado.

- Que porra está acontecendo, Grumer? - perguntou McKoy.

O alemão estava empoleirado num banco.

- Há duas explicações possíveis. Uma: os caminhões estavam vazios quando foram postos na caverna. Duas: alguém chegou antes de nós.

- Como alguém poderia ter chegado antes de nós? Demoramos quatro dias para abrir caminho até aquela câmara e a outra saída está lacrada com toneladas de merda.

- A violação pode ter acontecido há muito tempo.

McKoy respirou fundo.

- Grumer, 28 pessoas chegarão aqui amanhã. Elas investiram uma porrada de dinheiro nesse buraco de rato. O que vou dizer? Que alguém chegou antes?

- Contra os fatos não há argumentos.

McKoy saltou da cadeira, com fúria nos olhos. Rachel o interrompeu:

- De que vai adiantar isso?

- Faria com que eu me sentisse muito melhor.

- Sente-se - disse Rachel.

Paul reconheceu a voz que ela usava no tribunal. Firme. Um tom que não permitia qualquer dúvida. Um tom que ela usara muitas vezes na casa dos dois.

O grandalhão recuou.

- Meu Deus. Isso é uma tremenda merda. - E sentou-se. - Parece que talvez eu precise de um advogado. A juíza aqui certamente não pode ser. Está disponível, Cutler?

Paul balançou a cabeça, negativamente.

- Eu trabalho com sucessões. Mas minha empresa tem bons litigantes e especialistas em direito contratual.

- Eles estão do outro lado da poça e você está aqui. Adivinhe quem foi eleito?

- Presumo que todos os investidores tenham assinado documentos reconhecendo o risco, não é? - perguntou Rachel.

- E isso vai adiantar muito! Essas pessoas têm dinheiro e advogados. Na semana que vem, estarei afundado até a cintura nessa porcaria jurídica. Ninguém vai acreditar que eu não sabia que esse era um buraco seco.

- Não concordo - disse Rachel. - Por que alguém presumiria que você escavaria se não houvesse o que encontrar? Parece suicídio financeiro.

- Talvez aquele pequeno pagamento de cem mil dólares que eu recebo, quer encontremos alguma coisa ou não.

Rachel se virou para Paul.

- Talvez você devesse ligar para a empresa. Esse cara realmente precisa de um advogado.

- Olhem, vamos deixar uma coisa clara - disse McKoy. - Eu tenho uma empresa para administrar. Não vivo disso aqui. É caro fazer esse tipo de merda. Na última escavação, eu cobrei o mesmo e voltei com muito mais. Os investidores tiveram um bom retorno. Ninguém reclamou.

- Desta vez, não - disse Paul. - A não ser que aqueles caminhões valham alguma coisa, o que duvido. E isso presumindo que você ao menos pudesse tirá-los de lá.

- E não pode - disse Grumer. - É impossível sair daquela outra caverna. Custaria milhões para abrir caminho.

- Foda-se, Grumer.

Paul olhou para McKoy. A expressão do sujeito enorme era familiar, uma mistura de resignação e preocupação. Muitos clientes tinham essa aparência num momento ou em outro. Mas, na verdade, ele queria ficar. Na mente, viu Grumer na caverna de novo, apagando as letras na areia.

- Certo, McKoy. Se quer minha ajuda, farei o possível.

Rachel lhe deu um olhar estranho, e os pensamentos dela eram fáceis de decifrar. Ontem ele quisera ir para casa e deixar toda a intriga para as autoridades. No entanto, aqui estava, oferecendo-se para representar Wayland McKoy, pilotando sua própria carruagem de fogo pelo céu diante de forças aleatórias que não entendia e não podia controlar.

- Ótimo - disse McKoy. - Será bom ter ajuda. Grumer, faça alguma coisa útil e arranje quartos para esses dois no Garni. Ponha-os na minha conta.

Grumer não pareceu satisfeito em receber ordens, mas não questionou e foi até o telefone.

- O que é o Garni? - perguntou Paul.

- O hotel onde estamos hospedados.

Paul sinalizou para Grumer.

- Ele também está lá?

- Onde mais estaria?

Paul ficou impressionado com Stod. Era uma cidade considerável, entrelaçada de ruas veneráveis que pareciam tiradas diretamente da Idade Média. Fileiras e mais fileiras de construções com estrutura de enxaimel ladeavam as vias calçadas de pedras, apertadas como livros numa estante. Acima de tudo, uma monstruosa abadia dominava uma montanha íngreme - as encostas cobertas de lariços e faias explodindo numa floração de primavera.

Ele e Rachel seguiram de carro atrás de Grumer e McKoy. O caminho serpenteava para dentro da cidade antiga, terminando logo à frente do hotel Garni. Um pequeno estacionamento reservado para hóspedes ficava mais adiante na rua, perto do rio, fora da área de pedestres.

No hotel, ficou sabendo que o grupo de McKoy dominava o quarto andar. Todo o terceiro andar já fora reservado para os investidores que chegariam no dia seguinte. Depois de alguma discussão da parte de McKoy e de alguns euros postos na mão, o funcionário disponibilizou um quarto no segundo andar. McKoy perguntou se eles queriam um ou dois quartos, e Rachel respondeu imediatamente:

- Um.

Lá em cima, a mala de Paul mal havia encostado na cama quando Rachel disse:

- Certo, o que está armando, Paul Cutler?

- O que você está armando? Um quarto? Achei que éramos divorciados. Você sempre me lembra disso.

- Paul, você está tramando alguma coisa, e não vou deixá-lo fora da minha vista. Ontem você estava fazendo tudo para ir embora. Agora quer representar esse cara? E se ele for trambiqueiro?

- Mais motivo ainda para precisar de advogado.

- Paul...

Ele sinalizou para a cama de casal.

- Dia e noite?

- O quê?

- Vai ficar de olho em mim dia e noite?

- Não há nada que nós não tenhamos visto antes. Fomos casados por sete anos.

Ele sorriu.

- Acho que vou gostar dessa intriga.

- Vai me dizer o que é?

Ele se sentou na beira da cama e contou o que havia acontecido na câmara subterrânea, depois mostrou a carteira, que tinha mantido durante toda a tarde no bolso de trás.

- Grumer apagou as letras de propósito. Sem dúvida. Aquele cara está armando alguma coisa.

- Por que não contou ao McKoy?

Ele deu de ombros.

- Não sei. Pensei nisso. Mas, como você disse, ele pode ser trambiqueiro.

- Tem certeza de que as letras eram O-I-C?

- Pelo que pude ver.

- Acha que tem alguma coisa a ver com papai e a Sala de Âmbar?

- Por enquanto não há conexão, só que Karol estava muito interessado no que McKoy fazia. Mas isso não significa necessariamente nada.

Rachel sentou-se ao lado dele. Paul notou os cortes e arranhões nos braços e no rosto.

- Esse tal de McKoy se ligou à gente muito rapidamente - disse ela.

- Talvez sejamos tudo o que ele tem. Ele não parece gostar muito do Grumer. Não passamos de dois estranhos que caíram de pára-quedas. Não temos interesse em nada. Nenhum objetivo oculto. Acho que fomos considerados seguros.

Rachel segurou a carteira e examinou atentamente os pedaços de papel em decomposição.

- Ausgegeben 15-3-51. Verfällt 15-3-55. Gustav Müller. Será que devemos arranjar alguém para traduzir?

- Não é uma boa idéia. Neste momento, não confio em ninguém, com exceção da companhia atual, claro. Sugiro que encontremos um dicionário alemão-inglês e vejamos por nós mesmos.

A dois quarteirões do Garni, encontraram um dicionário numa entulhada loja de presentes, um volume fino aparentemente impresso para turistas, com palavras e expressões comuns.

- Ausgegeben significa "emitida" - disse ele. - Verfällt, "expira", "termina". - Olhou para Rachel. - Os números têm de ser datas. Emitida em 15 de março de 1951. Expira em 15 de março de 1955. Gustav Müller.

- Isso é pós-guerra. Grumer estava certo. Alguém chegou antes de McKoy e pegou o que estava lá. Em algum momento depois de março de 1951.

- Mas o quê?

- Boa pergunta.

- Tinha de ser sério. Cinco corpos com buracos na cabeça?

- E importante. Os três caminhões estavam limpos. Não restava absolutamente nada para encontrar.

Ele pôs o dicionário de novo na estante.

- Grumer sabe de alguma coisa. Por que ter o trabalho de tirar fotos e depois apagar as letras? O que ele estava documentando? E para quem?

- Será que deveríamos contar a McKoy?

Ele pensou na sugestão e disse:

- Acho que não. Pelo menos por enquanto.

 

22H

Suzanne empurrou uma cortina de veludo que separava a galeria e o portal externos da nave interior. A igreja de São Gerhard estava vazia. Uma enorme placa do lado de fora proclamava que o santuário ficava aberto até as 23h, motivo principal para ela ter escolhido o lugar para o encontro. O outro era a localização: alguns quarteirões da área de hotéis, na fronteira da cidade antiga, longe da multidão.

A arquitetura do prédio era claramente românica, com muito tijolo e uma fachada alta adornada por torres gêmeas. Simetrias claras dominavam. Arcadas cegas criavam padrões alegres. Um coro lindamente adornado se estendia na extremidade mais distante. O altar alto, a sacristia e os bancos do coro estavam vazios. Algumas velas ardiam num altar lateral, com o brilho parecendo estrelas na ornamentação dourada, no alto.

Ela se adiantou e parou na base de um púlpito dourado. Figuras cinzeladas dos Quatro Evangelistas a envolviam. Olhou os degraus que subiam. Mais figuras enfeitavam os dois lados. Alegorias de valores cristãos. Fé, Esperança, Caridade, Prudência, Fortaleza, Temperança e Justiça. Reconheceu o escultor imediatamente. Riemenschneider. Século XVI. O púlpito acima estava vazio. Mas ela podia imaginar o bispo se dirigindo à congregação, exaltando as virtudes de Deus e as vantagens de acreditar.

Esgueirou-se até a extremidade mais distante da nave, com olhos e ouvidos alertas. O silêncio era irritante. A mão direita estava enfiada no bolso do casaco, os dedos sem luvas envolvendo uma Sauer .32 automática, presente de Loring há três anos, tirada de sua coleção particular. Quase havia trazido a nova CZ-75B que Loring lhe dera. Fora sugestão dela que Christian recebesse uma idêntica. Loring tinha sorrido da ironia. Uma pena Knoll não ter tido chance de usar a dele.

O canto de seu olho captou um movimento súbito. Os dedos se apertaram no cabo da arma e ela girou. Um homem alto e magro passou por uma cortina e veio em sua direção.

- Margarethe? - perguntou ele em voz baixa.

- Herr Grumer?

O sujeito assentiu e se aproximou. Cheirava a cerveja amarga e salsicha.

- Isto é perigoso - disse ele.

- Ninguém sabe de nosso relacionamento, Herr Doktor. O senhor simplesmente precisou vir à igreja falar com seu Deus.

- Precisamos manter a coisa assim.

A paranóia dele não a preocupava.

- O que descobriu?

Grumer enfiou a mão sob o paletó e pegou cinco fotografias. Ela as examinou à luz fraca. Três caminhões. Cinco corpos. Letras na areia.

- Os veículos estão vazios. Há outra entrada para a câmara, bloqueada com entulho. Os corpos são definitivamente do pós-guerra. As roupas e os equipamentos revelam isso.

Ela sinalizou para a foto que mostrava letras na areia.

- Como isso foi resolvido?

- Com um movimento da minha mão.

- Então por que fotografou?

- Para você acreditar em mim.

- E para poder elevar seu preço?

Grumer sorriu. Ela odiou a palidez da cobiça.

- Mais alguma coisa?

- Dois americanos apareceram no local.

Ela ouviu Grumer contar sobre Rachel e Paul Cutler.

- A mulher esteve envolvida na explosão perto de Warthberg. Os dois fizeram McKoy pensar na Sala de Âmbar.

O fato de Rachel Cutler ter sobrevivido era interessante.

- Ela disse alguma coisa sobre outro sobrevivente à explosão?

- Só que houve um. Um tal de Christian Knoll. Ele saiu de Warthberg depois da explosão e levou os pertences de Frau Cutler.

A guarda dela subitamente se enrijeceu. Knoll estava vivo. A situação, que até um momento atrás parecia totalmente sob controle, agora ficava amedrontadora. Mas precisava completar a missão.

- McKoy ainda ouve você?

- O quanto quiser. Ele ficou perturbado com o fato de os caminhões estarem vazios. Tem medo de que os investidores o processem. Contratou a assistência jurídica de Herr Cutler.

- Eles são estrangeiros.

- Mas acredito que McKoy confia mais neles do que em mim. Além disso, os Cutler têm cartas trocadas entre o pai de Frau Cutler e um homem chamado Danya Chapaev a respeito da Sala de Âmbar.

Notícia velha. As mesmas cartas que ela lera no escritório de Paul Cutler. Mas precisava fingir interesse.

- Você viu as cartas?

- Vi.

- Quem está com elas agora?

- Frau e Herr Cutler.

Uma ponta solta que precisava de atenção.

- A obtenção das cartas poderia aumentar consideravelmente o valor do seu trabalho.

- Foi o que pensei.

- E qual é o seu preço, Herr Grumer?

- Cinco milhões de euros.

- O que o faz valer isso?

Grumer indicou as fotos.

- Creio que elas mostram minha boa-fé. É uma evidência clara de saque pós-guerra. Não é isso que seu patrão busca?

Ela não respondeu à pergunta, meramente dizendo:

- Vou informar o preço.

- A Ernst Loring?

- Nunca falei para quem trabalho, e isso não deveria importar. Pelo que sei da situação, ninguém relatou a identidade de meu benfeitor.

- Mas o nome de Herr Loring foi mencionado pelos Cutler e pelo pai de Frau Cutler.

O sujeito estava rapidamente se tornando outra ponta solta que teria de ser amarrada. Assim como os Cutler. Quantas mais haveria?

- Não preciso dizer que as cartas são importantes - disse ela -, bem como o que McKoy está fazendo. Assim como o tempo. Quero isso resolvido depressa e estou disposta a pagar pela rapidez.

Grumer inclinou a cabeça.

- Amanhã seria suficientemente rápido para as cartas? Os Cutler estão hospedados no Garni.

- Eu gostaria de estar lá.

- Diga onde está hospedada, e eu ligo quando o caminho estiver livre.

- Estou no Gebler.

- Conheço o lugar. Terá notícias minhas por volta das oito da manhã.

A cortina na outra extremidade se abriu. Um prior com batina caminhou lentamente pelo corredor central. Ela olhou o relógio. Quase onze da noite.

- Vamos sair. Ele provavelmente veio fechar a igreja.

Knoll recuou para as sombras. Danzer e um homem saíram da igreja de São Gerhard através de portas de bronze esculpido e pararam no pórtico da frente, a menos de vinte metros de distância. A rua calçada de pedras estava escura e vazia.

- Terei uma resposta amanhã - disse Danzer. - Vamos nos encontrar aqui.

- Creio que não será possível. - O sujeito sinalizou para uma placa fixada à pedra perto do portal de bronze. - Há missas aqui às terças, às nove horas.

Danzer olhou o anúncio.

- Certo, Herr Grumer.

O sujeito sinalizou para o céu. A abadia brilhava em ouro e branco à luz dos refletores, de encontro à noite clara.

- A igreja de lá fica aberta até a meia-noite. Poucos visitam no fim do período. Que tal às dez e meia?

- Ótimo.

- E um adiantamento seria bom para mostrar a boa-fé de seu benfeitor. Que tal um milhão de euros?

Knoll não conhecia o sujeito, mas o idiota estava cometendo a burrice de pressionar Danzer. Ele respeitava a capacidade dela, e esse tal de Grumer também deveria. Obviamente era um amador que ela estava usando para descobrir o que Wayland McKoy fazia.

Ou haveria algo mais?

Um milhão de euros? Só de adiantamento?

O sujeito chamado Grumer desceu os degraus de pedra até a rua e virou para leste. Danzer foi atrás, mas virou para oeste. Knoll sabia onde ela estava hospedada - assim havia descoberto a igreja, seguindo-a a partir do Gebler. A presença de Suzanne certamente complicava as coisas, mas neste momento era o tal de Grumer que realmente o interessava.

Esperou que Suzanne Danzer desaparecesse virando a esquina e foi atrás do homem. Manteve-se recuado; foi fácil seguir o sujeito até o Garni.

Agora sabia.

E também sabia exatamente onde Suzanne Danzer estaria às dez e meia do dia seguinte.

 

Rachel apagou a luz do banheiro e foi para a cama. Paul estava deitado de barriga para cima lendo o International Herald Tribune que tinha comprado na loja de suvenires, quando haviam encontrado o dicionário alemão-inglês.

Pensou no ex-marido. Em divórcio após divórcio, via as pessoas adorando se destruir mutuamente. Cada detalhezinho da vida, que há anos eram sem importância, de repente se tornavam vitais para as afirmações de crueldade mental, de abuso ou simplesmente para provar que o casamento estava irrecuperavelmente perdido, como a lei exigia. Haveria realmente prazer naquilo? Como poderia? Felizmente, os dois não tinham feito isso. Ela e Paul resolveram as diferenças numa triste tarde de quinta-feira, sentados calmamente à mesa da sala de jantar. A mesma onde, na terça-feira anterior, Paul tinha lhe contado sobre seu pai e a Sala de Âmbar. Fora rude com ele na semana passada. Não havia necessidade de dizer que ele era covarde. Por que agia assim? Isso era muito diferente de seu comportamento no tribunal, onde cada palavra e cada ação eram calculadas.

- Sua cabeça ainda está doendo? - perguntou Paul.

Ela se sentou na cama. O colchão era firme, o edredom macio e quente.

- Um pouco.

A imagem de uma faca brilhante piscou em sua mente. Será que Knoll ia usar a lâmina contra ela? Será que estava fazendo a coisa certa não contando ao Paul?

- Temos de ligar para Pannik. Dizer o que está acontecendo e o que estamos fazendo aqui. Ele deve estar imaginando.

Paul ergueu o olhar do jornal.

- Concordo. Faremos isso amanhã. Primeiro vamos nos certificar se há alguma coisa aqui.

Ela pensou de novo em Christian Knoll. A segurança dele a havia intrigado e provocado sentimentos contidos há muito. Estava com 40 anos e tinha amado apenas o pai, tivera um romance curto na faculdade - que na época achou que fosse verdadeiro - e Paul. Não era virgem quando se casou com Paul, mas nenhum dos dois era experiente. Paul havia se mostrado um sujeito tímido, reservado, que facilmente se sentia confortável sozinho. Certamente não era nenhum Christian Knoll, mas era leal, fiel e honesto. Por que isso um dia lhe parecera tedioso? Seria sua própria imaturidade? Provavelmente. Marla e Brent adoravam o pai. E eram a prioridade dele. Difícil recriminar um homem por amar os filhos e ser fiel à mulher. Então o que aconteceu? Tinham se afastado? Era a explicação mais fácil. Mas seria verdade? Talvez fosse o preço do estresse. Deus sabia que os dois viviam sob pressão. Mas a preguiça parecia ser a explicação mais correta. Não querer simplesmente trabalhar no que ela sabia ser direito. Tinha lido a expressão - o desdém da familiaridade - que supostamente descrevia o que muitos casamentos produziam, infelizmente. Observação sensata.

- Paul, agradeço por você fazer tudo isso. Mais do que imagina.

- Eu estaria mentindo se dissesse que isso não é fascinante. Além do mais, posso conseguir um novo cliente para a empresa. Parece que Wayland McKoy vai precisar de advogado.

- Tenho a sensação de que o inferno vai correr solto aqui amanhã, quando os investidores chegarem.

Paul jogou o jornal no carpete.

- Acho que você está certa. A coisa pode ficar interessante. - Apagou a luz do abajur, deixando embaixo as cartas do pai dela e a carteira encontrada na escavação.

Rachel desligou o abajur do outro lado.

- Isso é realmente estranho - disse Paul. - Dormirmos juntos pela primeira vez em três anos.

Ela se enrolou sob o edredom, mantendo-se em seu lado da cama. Usava uma das camisas de mangas compridas dele, cheia do cheiro reconfortante que se recordava de sete anos de casamento. Paul se virou de costas para ela, aparentemente se certificando de lhe deixar espaço. Ela decidiu agir e chegou mais perto.

- Você é um homem bom, Paul Cutler.

Envolveu-o com o braço. Sentiu-o ficando tenso e se perguntou se era nervosismo ou choque.

- Você também não é nada má - respondeu ele.

 

TERÇA-FEIRA, 20 DE MAIO, 9H10

Paul seguiu Rachel pelo túnel úmido até a câmara onde estavam os três caminhões. No barracão, ficara sabendo que McKoy estava no subterrâneo desde as sete da manhã. Grumer ainda não havia aparecido no local, o que não era incomum, segundo o empregado de serviço, já que o alemão raramente chegava antes do meio-dia. Os dois entraram na câmara iluminada.

Paul se demorou um momento e examinou mais de perto os três veículos. Na empolgação da véspera, não houvera tempo para olhar detalhadamente. Todos os faróis, os retrovisores e pára-brisas estavam inteiros. As carrocerias cobertas com lonas também permaneciam relativamente intactas. Anão ser por uma pequena cobertura de ferrugem, os pneus enferrujados e a lona mofada, era como se os veículos pudessem sair agora mesmo de sua garagem rochosa.

Duas portas das cabines estavam abertas. Ele olhou dentro de uma. O banco de couro estava rasgado e quebradiço pela idade. Os mostradores do painel de instrumentos permaneciam silenciosos e imóveis. Nenhum pedaço de papel ou qualquer coisa tangível estava à vista. Ele se perguntou de onde os caminhões tinham vindo. Será que já haviam transportado tropas alemãs? Ou judeus indo para os campos de concentração? Será que tinham testemunhado o avanço russo sobre Berlim ou a chegada simultânea dos americanos vindos do ocidente? Estranha, essa visão surreal tão no fundo de uma montanha alemã.

Uma sombra surgiu de repente na parede de pedra, revelando movimento do outro lado do veículo mais distante.

- McKoy? - gritou ele.

- Aqui.

Paul e Rachel rodearam os caminhões. O grandalhão se virou para eles.

- Sem dúvida são NAG Büssing. Quatro toneladas e meia, a diesel. Seis metros de comprimento. Dois e vinte de largura. Três de altura. - McKoy se aproximou de um enferrujado painel lateral e bateu nele com o punho. Uma neve marrom-avermelhada flutuou até a areia embaixo, mas o metal ficou firme. - Aço e ferro sólidos. Essas coisas conseguem carregar quase sete toneladas. Mas são lentas como o inferno. Não fazem mais de trinta, quarenta quilômetros por hora.

- Aonde você quer chegar? - perguntou Rachel.

- Quero saber, meritíssima, se essas coisas desgraçadas foram usadas para carregar um bocado de quadros e vasos. Esses veículos eram preciosos. Serviam para o transporte de carga pesada. E os alemães certamente não os largaram simplesmente numa mina.

- O que significa que... - disse Rachel.

- Essa coisa toda não faz o mínimo sentido. - McKoy enfiou a mão no bolso e pegou um pedaço de papel dobrado e o entregou a Paul. - Preciso que você veja isso.

Paul desdobrou a folha e se aproximou de uma das barras de luz. Era um memorando. Ele e Rachel leram em silêncio.

 

CORPORAÇÃO ESCAVAÇÕES ALEMÃS

6798 Moffat Boulevard

Raleigh, Carolina do Norte 27615

 

Para: Sócios potenciais

De: Wayland McKoy, presidente

Re: Possua um pedaço da história e ganhe férias grátis na Alemanha

 

A Corporação Escavações Alemãs fica feliz em ser patrocinadora e sócia do programa detalhado a seguir, junto com as seguintes empresas colaboradoras: Chrysler Motor Company (Divisão Jeep), Coleman, Eveready, Hewlett-Packard, IBM, Saturn Marine, Boston Electric Tool Company e Olympus America, Inc.

Nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, um trem saiu de Berlim carregado com 1.200 tesouros de arte. Chegou aos arredores da cidade de Magdeburg e então foi desviado para o sul, na direção das montanhas Harz, e jamais foi visto de novo. Temos uma expedição pronta para localizar e desenterrar esse trem.

Segundo as leis alemãs, os donos legítimos têm noventa dias para reivindicar suas obras de arte. As obras não reivindicadas são então leiloadas e cinqüenta por cento dos lucros vão para o governo alemão e cinqüenta por cento para a expedição e seus sócios patrocinadores. Um inventário do que havia no trem pode ser fornecido. O valor mínimo estimado das obras de arte é de 360 milhões de dólares - cinqüenta por cento dos quais vão para o governo. A quantia de 180 milhões, reservada aos sócios será dividida segundo as cotas compradas, menos as obras de arte reivindicadas pelos donos originais, os gastos com leilões, impostos etc.

Todo o investimento dos sócios será recuperado através dos direitos de mídia, vendidos antecipadamente. Todos os sócios e cônjuges serão nossos convidados à Alemanha para a expedição. Ou seja: nós já encontramos o local correto. Já temos o contrato. Temos a pesquisa. Vendemos a mídia. Temos experiência e equipamento para fazer a escavação. A Corporação Escavações Alemãs tem permissão de 45 dias para escavar. Até agora, os direitos de 45 cotas no valor de 25.000 dólares cada, para o estágio final da expedição (Fase III) foram vendidos. Temos cerca de 10 cotas de 15.000 dólares cada. Por favor, sinta-se à vontade para ligar para mim, caso esteja interessado nesse empolgante investimento.

Atenciosamente,

Presidente

Corporação Escavações Alemãs

 

- Foi o que mandei aos investidores potenciais - disse McKoy.

- O que quer dizer com "Todo o investimento dos sócios será recuperado através dos direitos de mídia, vendidos antecipadamente"? - perguntou Paul a McKoy.

- Exatamente o que diz. Algumas empresas pagaram pelos direitos de filmar e transmitir o que encontrarmos.

- Mas isso pressupõe encontrar alguma coisa. Elas não pagaram adiantado, pagaram?

McKoy balançou a cabeça.

- Não, merda.

- O problema - disse Rachel - é que você não informou isso na carta. Os sócios poderiam pensar, com todo o direito, que você já tem o dinheiro.

Paul apontou para o segundo parágrafo.

- "Temos uma expedição pronta para localizar e desenterrar esse trem." Isso faz parecer que você já o havia encontrado.

McKoy suspirou.

- Achei que tínhamos. O radar de solo disse que havia algo grande aqui dentro. - McKoy indicou os caminhões. - E há mesmo, droga.

- Isso é verdade? As 45 cotas a 25.000 dólares cada? - perguntou Paul. - Dá um milhão e 250 mil.

- Foi o que levantei. Depois vendi as cotas para mais 150 mil. Sessenta investidores no total.

Paul indicou a carta.

- Você os chama de sócios. Isso é diferente de investidor. McKoy riu.

- Soa melhor.

- Todas essas empresas citadas também investiram? -Forneceram equipamento por doação ou a taxas reduzidas. Portanto, de certo modo, sim. Mas não esperam nada em troca.

- Você balançou diante dos olhos deles quantias como 360 milhões de dólares, talvez metade indo para os investidores, isso não pode ser verdade.

- Mas é. É como os pesquisadores avaliam o material do museu de Berlim.

- Presumindo que as obras possam ser encontradas - disse Rachel. - Seu problema, McKoy, é que a carta pode gerar equívocos. Poderia até mesmo ser considerada fraudulenta.

- Já que vamos ser tão íntimos, por que vocês dois não me chamam de Wayland? E, mocinha, eu fiz o necessário para conseguir o dinheiro. Não menti a ninguém e não estava interessado em enganar essas pes¬soas. Queria escavar, e foi o que fiz. Não peguei um tostão, a não ser o que eles ficaram sabendo que eu teria como adiantamento.

Paul esperou uma censura pelo "mocinha", mas não houve.

- Então você tem outro problema - disse Rachel. - Não há sequer uma palavra nesta carta sobre qualquer pagamento de cem mil dólares para você.

- Todos foram informados. E, por sinal, você é um verdadeiro raio de sol em meio a esta tempestade.

Rachel não recuou.

- Você precisa ouvir a verdade.

- Olhem, metade desses cem mil foram para Grumer, pelo tempo e pelo trabalho dele. Foi ele que conseguiu a permissão do governo. Sem isso não haveria escavação. Fiquei com o resto em troca do meu tempo. Esta viagem está custando uma grana. E só pego a minha parte no final. As últimas cotas pagaram a mim e a Grumer, junto com nossas despesas. Se eu não tivesse levantado isso, estava preparado para pegar emprestado, para vocês verem como eu tinha certeza desse empreendimento.

Paul quis saber:

- Quando os sócios vão chegar?

- Vinte e oito, junto com os cônjuges, chegam depois do almoço. Foram todos os que aceitaram a viagem que oferecemos.

Paul começou a pensar como advogado, estudando cada palavra da carta, analisando a redação e a sintaxe. Será que a proposta era fraudulenta? Talvez. Ambígua? Sem dúvida. Será que deveria contar a McKoy sobre Grumer e mostrar a carteira? Explicar sobre as letras na areia? McKoy ainda era uma incógnita. Um estranho. Mas a maioria dos clientes também não era? Completos estranhos num minuto e confidentes no outro. Não. Decidiu ficar quieto e esperar um pouco mais para ver o que viria.

 

Suzanne entrou no Garni e subiu uma escada de mármore até o segundo andar. Grumer tinha ligado há dez minutos para dizer que McKoy e os Cutler tinham ido para o local da escavação. Grumer esperava no fim do corredor do segundo andar.

- Ali - disse ele. - Quarto 21.

Ela parou junto à porta de carvalho escuro, o portal gasto pelo tempo e o mau uso. A fechadura fazia parte da maçaneta, uma velha peça de latão manchado que aceitava uma chave comum. Sem tranca. Arrombar fechaduras nunca fora sua especialidade, por isso ela enfiou no portal a espátula de cartas apanhada na mesa do recepcionista e remexeu a ponta, facilmente afastando a lingüeta da placa. Abriu a porta.

- Cuidado com a busca. Não vamos anunciar nossa visita.

Grumer começou com os móveis. Ela foi até a bagagem e descobriu apenas uma bolsa de viagem. Revistou as roupas - a maioria de homem - e não encontrou nenhuma carta. Verificou o banheiro. Os objetos de toalete também eram quase todos de homem. Depois procurou nos lugares mais óbvios. Embaixo do colchão e da cama, em cima do armário, embaixo das gavetas e das mesinhas-de-cabeceira.

- As cartas não estão aqui - disse Grumer.

- Procure de novo.

Procuraram. Desta vez não se importando com a arrumação. Quando terminaram, o quarto estava uma bagunça. Mas nada das cartas. Sua paciência estava se esgotando.

- Vá para o local da escavação, Herr Doktor, e encontre essas cartas, caso contrário não receberá sequer um euro. Entendido?

Grumer pareceu sentir que ela não estava de bom humor, e apenas assentiu antes de sair.

 

BURG HERZ

10H45

Knoll penetrou mais fundo o membro ereto. Monika estava de quatro, de costas para ele, a bunda firme arqueada para o alto, a cabeça enfiada num travesseiro de penas de ganso.

- Ande, Christian. Mostre o que aquela vaca da Geórgia perdeu.

Knoll se movimentou com mais força, o suor brotando na testa. Ela estendeu a mão para trás e massageou gentilmente os bagos dele. Sabia exatamente como excitá-lo. E só esse fato já o incomodava. Monika o conhecia bem demais.

Agarrou a cintura fina dela com as duas mãos e torceu o corpo para a frente. Ela aceitou o gesto e suspirou como um gato depois de uma matança satisfatória. Knoll sentiu-a gozar um instante depois, um gemido fundo confirmando o deleite. Moveu-se por mais alguns segundos e gozou também. Ela continuou a massagem nos testículos, ordenhando cada gota de seu prazer.

Nada mau, pensou ele. Nada mau mesmo.

Ela o soltou. Knoll saiu de dentro e relaxou na cama. Monika ficou deitada ao lado, de barriga para baixo. Ele recuperou o fôlego e deixou que os últimos espasmos do orgasmo o atravessassem. Manteve o corpo imóvel, não dando à vaca a satisfação de saber que ele havia gostado.

- Muitíssimo melhor do que uma advogada vagabunda, hein?

Ele deu de ombros.

- Não pude experimentar.

- E aquela puta italiana que você cortou? Era boa?

Knoll beijou o dedo indicador e o polegar dela.

- Buona. Valia bem o que quer que ela cobrasse.

- E Suzanne Danzer?

O ressentimento era claro.

- Esse ciúme não condiz com você.

- Não se sinta lisonjeado.

Monika se apoiou num dos cotovelos. Estava esperando no quarto de Knoll quando ele chegou, há uma hora. O Burg Herz ficava a apenas uma hora a oeste de Stod. Ele havia retornado à base para mais instruções, decidindo que uma conversa cara a cara com o patrão era melhor do que pelo telefone.

- Não entendo, Christian. O que você vê em Danzer? Você prefere as coisas boas da vida, e não um objeto de caridade, criado por Loring.

- Esse objeto de caridade, como você diz, formou-se com honras na Universidade de Paris. Fala uma dúzia de línguas, pelo que sei. É bem versada nas artes e sabe disparar uma pistola com precisão de especialista. Além disso, é bonita e trepa muito bem. Eu diria que Suzanne tem credenciais admiráveis.

- Como a de suplantar você?

Ele riu.

- Tenho de dar crédito ao diabo, sim. Mas a vingança será o inferno.

- Não transforme isso numa coisa pessoal, Christian. A violência atrai atenção demais. O mundo não é seu parque de diversões particular.

- Conheço bem meus deveres e meus limites.

Monika lhe deu um sorriso torto, um sorriso do qual ele jamais gostara. Parecia decidida a tornar isto o mais difícil possível. Era bem mais fácil quando Fellner comandava o show. Agora os negócios se misturavam com o prazer. Talvez não fosse uma idéia muito boa.

- Papai deve ter terminado a reunião. Ele disse para irmos ao escritório.

Knoll levantou-se.

- Então não vamos fazê-lo esperar.

 

Seguiu Monika até o escritório do pai dela. O velho estava sentado atrás de uma mesa de nogueira, do século XVIII, que havia comprado em Berlim há duas décadas. Tragava um cachimbo de marfim com biqueira de âmbar, outra rara peça de colecionador que já pertencera a Alexandre II da Rússia, liberada de outro ladrão na Romênia.

Fellner parecia cansado e Knoll esperava que o tempo que os dois ainda tinham juntos não fosse curto. Seria uma pena. Sentiria falta da conversa sobre literatura e arte clássicas, junto com os debates políticos. Tinha aprendido muito nos anos passados no Burg Herz - uma formação profissional obtida enquanto percorria o mundo procurando tesouros perdidos. Apreciava a oportunidade, grato pela vida, decidido a fazer até o fim o que o velho desejava.

- Christian. Bem-vindo. Sente-se. Conte tudo que aconteceu. - O tom de Fellner era cheio de animação, o rosto iluminado por um sorriso caloroso.

Knoll e Monika se sentaram. Ele informou o que ficara sabendo sobre Danzer e seu encontro na noite anterior com um homem chamado Grumer.

- Eu o conheço - disse Fellner. - Herr Doktor Alfred Grumer. Uma puta acadêmica. Passa de universidade a universidade. Mas tem conexões no governo alemão e vende essa influência. Não é de surpreender que um homem como McKoy se ligue a ele.

- Obviamente, Grumer é a fonte de Danzer na área de escavação - disse Monika.

- Concordo - respondeu Fellner. - E Grumer não estaria lá se não houvesse lucro. Isso pode ser mais interessante do que pensei a princípio. Ernst está bem interessado. Ele ligou de novo hoje cedo, fazendo perguntas. Aparentemente, está preocupado com sua saúde, Christian. Eu lhe disse que não tínhamos notícias suas há dias.

- Tudo isso certamente se ajusta ao quadro geral - disse Knoll.

- Que quadro? - perguntou Monika.

Fellner riu para a filha.

- Talvez seja hora, liebling, de você saber de tudo. O que acha, Christian?

Monika pareceu perturbada. Knoll adorou sua confusão óbvia. A vaca precisava perceber que não sabia de tudo.

Fellner abriu uma das gavetas e tirou uma grossa pasta de papel.

- Christian e eu seguimos isso durante anos. - Sobre a mesa, espalhou uma quantidade de recortes de jornais e revistas.

"A primeira morte de que temos notícia aconteceu em 1957. Um repórter alemão, de um dos meus jornais de Hamburgo. Ele veio aqui pedindo uma entrevista. Eu dei. O sujeito era notavelmente bem informado, e uma semana depois foi atropelado por um ônibus em Berlim. Testemunhas juraram que ele foi empurrado.

"A morte seguinte aconteceu dois anos depois. Outro repórter. Italiano. Um carro o forçou a sair de uma estrada nos Alpes. Mais duas mortes em 1960: uma overdose de drogas e um assalto que deu errado. De 1960 a 1970, houve mais uma dúzia por toda a Europa. Repórteres, investigadores de seguros, da polícia. Os falecimentos iam de supostos suicídios a três assassinatos explícitos.

"Minha cara, todas essas pessoas estavam procurando a Sala de Âmbar. Os predecessores de Christian, meus dois primeiros adquirentes, ficavam de olho na imprensa. Qualquer coisa que parecesse relacionada era investigada em detalhes. Nos anos setenta e oitenta, os incidentes diminuíram. Só soubemos de seis durante esses vinte anos. O último foi um repórter polonês morto numa explosão numa mina há três anos. - Fellner olhou para Monika. - Não tenho certeza da localização exata, mas era perto de onde aconteceu o incidente com Christian.

- Aposto que era a mesma mina - disse Knoll.

- Muito estranho, não diria? Christian encontra um nome em São Petersburgo, Karol Borya, e a próxima notícia que temos é que o sujeito está morto, assim como seu antigo colega. Liebling, Christian e eu pensamos há muito tempo que Loring sabe muito mais sobre a Sala de Âmbar do que quer admitir.

- O pai dele adorava âmbar - disse Monika. - E ele também.

- Josef era um homem cheio de segredos. Mais do que Ernst. Era difícil saber o que ele pensava. Conversamos muitas vezes sobre a Sala de Âmbar. Uma vez cheguei a oferecer um empreendimento conjunto, uma busca total aos painéis, mas ele recusou. Disse que era perda de tempo e dinheiro. Mas alguma coisa em suas negativas me incomodou. Por isso comecei a manter este dossiê, verificando tudo que pudesse. Fiquei sabendo que houve mortes demais, coincidências demais para que fosse aleatório. Agora Suzanne está tentando matar Christian. E pagando um milhão de euros por meras informações sobre uma escavação em busca de tesouros. - Fellner balançou a cabeça. - Eu diria que a pista que achávamos que estava gelada esquentou consideravelmente.

Monika sinalizou para os recortes espalhados na mesa.

- Vocês acham que todas essas pessoas foram assassinadas?

- Há alguma outra conclusão lógica? - perguntou Fellner. Monika se aproximou da mesa e folheou os artigos.

- Nós estávamos indo na direção certa, com o Borya, não estávamos?

- Eu diria que sim - disse Knoll. - De que modo, não sei. Mas foi o bastante para Suzanne matar Chapaev e tentar me eliminar.

- Aquele local de escavação pode ser importante - disse Fellner. - Acho que a hora da conversa e da brincadeira acabou. Você tem minha permissão para cuidar da situação como quiser, Christian.

Monika encarou o pai.

- Achei que eu estaria no comando.

Fellner sorriu.

- Você deve conceder ao velho esta última busca. Christian e eu trabalhamos nisso durante anos. Acho que devemos estar muito próximos de alguma coisa. Peço sua permissão, liebling, para me intrometer em seus domínios.

Monika conseguiu dar um sorriso débil, claramente insatisfeita. Mas o que ela poderia dizer, pensou Knoll? Jamais havia desafiado abertamente o pai, ainda que, em particular, muitas vezes liberasse a fúria contra a paciência perpétua dele. Fellner fora criado na velha escola, em que os homens dominavam e as mulheres davam à luz. Comandava um império financeiro que dominava o mercado de comunicações na Europa. Políticos e industriais cortejavam seus favores. Mas a esposa e o filho estavam mortos, e Monika era a única Fellner que restava. Por isso ele fora obrigado a moldar uma mulher à sua imagem do que era um homem. Por sorte, ela era forte. E inteligente.

- Claro, papai. Faça como quiser.

Fellner estendeu a mão e cobriu a da filha.

- Sei que você não entende. Mas eu a amo por sua deferência. Knoll não pôde resistir.

- Essa é uma coisa nova.

Monika lançou-lhe um olhar duro.

Fellner deu um risinho.

- Certíssimo, Christian. Você a conhece bem. Vocês dois formarão uma tremenda equipe.

Monika recuou para uma poltrona.

- Christian - disse Fellner - volte a Stod e descubra o que está acontecendo. Cuide de Suzanne como quiser. Antes de morrer, quero saber sobre a Sala de Âmbar, de um modo ou de outro. Se tiver alguma dúvida, lembre-se daquele túnel na mina e de seus dez milhões de euros.

Ele se levantou.

- Garanto que não me esquecerei de nenhuma das duas coisas.

 

STOD

13H45

O grandioso salão do Garni estava cheio. Paul se manteve de lado, perto de Rachel, assistindo ao desdobramento do drama. Certamente, se o cenário contasse, a decoração da sala ajudaria Wayland McKoy. Mapas coloridos da Alemanha, com molduras grossas, estavam pendurados nas paredes forradas de painéis de carvalho. Um lustre de latão, cadeiras antigas e polidas e um elaborado tapete oriental completavam a atmosfera.

Cinqüenta e seis pessoas ocupavam as cadeiras, com rostos que eram uma mistura de espanto e exaustão. Tinham sido trazidas de ônibus, direto de Frankfurt, depois de pousar há quatro horas. As idades variavam de trinta e poucos a sessenta e tantos anos. As raças também variavam. A maioria era de brancos, com dois casais negros, ambos idosos, e um par de japoneses. Todos pareciam ansiosos e cheios de expectativa.

McKoy e Grumer estavam de pé na frente da sala comprida, junto com cinco empregados da escavação. Havia uma televisão com um aparelho de videocassete sobre um suporte de metal. Dois homens de aparência sombria sentavam-se ao fundo, segurando cadernos, e pareciam repórteres. McKoy quis excluí-los, mas ambos mostraram identificações da ZDF, uma organização jornalística alemã que tinha comprado as opções para a matéria, e insistiram em ficar.

- Só tenha cuidado com o que diz - alertara Paul.

- Bem-vindos, sócios - disse McKoy, sorrindo como um evangelizador de TV. O murmúrio de conversas foi diminuindo.

- Temos café, suco e salgadinhos lá fora. Sei que vocês fizeram uma longa viagem e estão cansados. Jet lag é um inferno, não é? Mas tenho certeza de que todos estão ansiosos para saber como vão as coisas.

A abordagem direta fora idéia de Paul. McKoy era a favor de embromar, mas Paul tinha argumentado que isso somente levantaria suspeitas. "Mantenha a voz agradável e amena", tinha alertado. "Nada de 'porra' a cada duas palavras, como ouvi ontem, certo?" McKoy garantiu repetidamente que era bem treinado e sabia muito bem cuidar de uma platéia.

- Sei que a pergunta está na mente de todos vocês. Será que encontramos alguma coisa? Não, ainda não. Mas ontem fizemos progressos. - Ele sinalizou para Grumer. - Este é Herr Doktor Alfred Grumer, professor de antigüidades artísticas da Universidade de Mainz. Herr Doktor é nosso especialista residente na escavação. Deixarei que ele explique o que aconteceu.

Grumer se adiantou, aparentando a imagem de um professor idoso, com paletó de tweed de lã, calça de veludo cotelê e gravata de tricô. Ficou parado com a mão direita enfiada no bolso da calça, o braço esquerdo livre. Com um sorriso cativante, disse:

- Pensei em contar um pouquinho sobre como este empreendimento começou.

"Saquear tesouros de arte é uma tradição honrada pelo tempo. Os gregos e romanos sempre tiravam todos os objetos valiosos das nações derrotadas. Os cruzados, nos séculos XIV e XV, saquearam toda a Europa Oriental e o Oriente Médio. As igrejas e catedrais da Europa Ocidental ainda são adornadas com as pilhagens feitas por eles.

"No século XVII, leve início um método de roubo mais refinado. Depois de uma derrota militar, as grandes coleções reais - na época não havia museus - eram compradas, e não roubadas. Um exemplo: quando os exércitos czaristas ocuparam Berlim, em 1757, as coleções de Frederico II não foram tocadas. Mexer com elas seria considerado atitude bárbara, mesmo por parte dos russos, considerados bárbaros pelos europeus.

"Napoleão talvez tenha sido o maior saqueador de todos. Museus da Alemanha, da Espanha e da Itália foram limpos para que o Louvre pudesse ser entulhado. Depois de Waterloo, no congresso de Viena, em 1815, a França recebeu a ordem de devolver as obras de arte roubadas. Algumas foram, mas muitas permaneceram como propriedade da França e ainda podem ser vistas em Paris."

Paul ficou impressionado ao ver como Grumer se portava. Como um professor numa sala de aula. O grupo parecia fascinado com as informações.

- Durante a Guerra Civil, o presidente de vocês, Lincoln, emitiu uma ordem pedindo a proteção das obras de arte clássicas, das bibliotecas, das coleções científicas e dos monumentos preciosos do Sul. Uma conferência em Bruxelas, em 1874, endossou uma proposta semelhante. Nicolau H, o czar russo, propôs proteções ainda mais ambiciosas, que foram aprovadas em Haia, em 1907, mas esses códigos se mostraram de valor limitado durante as duas guerras mundiais que se seguiram.

"Hitler ignorou completamente a Convenção de Haia e imitou Napoleão. Os nazistas criaram todo um departamento administrativo que não fazia nada além de roubar. Hitler queria montar um super-local de exposições, o Führermuseum, para a maior coleção de arte do mundo. Pretendia situar o museu em Linz, na Áustria, seu local de nascimento. Hitler a chamava de Sonderauftrag Linz. Missão Especial Linz. Ia se tornar o coração do Terceiro Heich, projetada pelo próprio Führer.

Grumer parou um momento, aparentemente deixando que as informações fossem absorvidas.

- Mas, para Hitler, o saque servia a outro propósito. Desmoralizava o mirnigo, e isso foi especialmente verdadeiro na Rússia, onde os palácios imperiais ao redor de Leningrado foram dizimados à vista dos moradores locais. Desde os godos e os vândalos a Europa não havia testemunhado uma agressão tão odiosa contra a cultura humana. Museus de toda a Alemanha foram entulhados de arte roubada, em particular o de Berlim. Nos últimos dias da guerra, com os russos e americanos se aproximando, um trem carregado com essas obras de arte foi evacuado de Berlim em direção ao sul, até as montanhas Harz. Aqui, nesta região em que estamos agora.

A televisão foi ligada com uma imagem em panorâmica de uma cordilheira. Grumer apontou um controle remoto e pausou o vídeo numa cena de floresta.

- Os nazistas adoravam esconder as coisas no subsolo. As montanhas Harz, que agora nos rodeiam, foram amplamente usadas, já que eram os depósitos subterrâneos mais próximos de Berlim. Exemplos do que foi encontrado depois da guerra provam esse argumento. O tesouro nacional alemão estava escondido aqui, junto com mais de um milhão de livros, pinturas de todos os tipos e toneladas de esculturas. Mas talvez o lote mais estranho tenha sido encontrado não muito longe daqui. Uma equipe de soldados americanos informou ter achado uma parede de tijolos recente, com quase dois metros de espessura, quinhentos metros dentro da montanha. Ela foi removida, e uma porta de aço trancada esperava do outro lado.

Paul observou o rosto dos sócios. Estavam fascinados. Ele também.

- Ali dentro, os americanos encontraram quatro caixões enormes. Um era decorado com uma guirlanda e símbolos nazistas, tendo na lateral o nome Adolf Hitler. Bandeiras de regimentos alemães cobriam os outros três caixões. Um cetro e orbe de prata, duas coroas e espadas também foram encontrados. A coisa toda tinha uma arrumação teatral, como um templo. Imaginem o que aqueles soldados pensaram. Ali estava o túmulo de Hitler. Mas infelizmente não era. Em vez disso, os caixões continham os restos do marechal-de-campo Hindenburg, da esposa de Hindenburg, de Frederico, o Grande, e de Frederico Guilherme I.

Grumer apontou o controle remoto e liberou o vídeo. A imagem a cores passou para o interior da câmara subterrânea. McKoy tinha ido ao local mais cedo e refeito o vídeo da véspera, uma versão editada para ganhar algum tempo com os sócios. Agora Grumer usou esse vídeo para explicar a escavação, os três caminhões e os corpos. Cinqüenta e seis pares de olhos estavam grudados à tela.

- A descoberta desses caminhões é tremendamente empolgante. Sem dúvida algo de grande valor foi trazido para cá. Os caminhões eram preciosos, e deixar três deles numa montanha significava que havia muito em jogo. Os cinco corpos só fazem aumentar o mistério.

- O que o senhor encontrou dentro dos caminhões? - foi a primeira pergunta vinda da platéia.

McKoy se adiantou.

- Eles estão vazios.

- Vazios? - perguntaram várias pessoas ao mesmo tempo.

- Isso mesmo. As três carrocerias estavam vazias. - McKoy sinalizou para Grumer, que pôs outra fita de vídeo.

- Isso não é incomum - disse Grumer.

Uma imagem se rematerializou, uma área da câmara, intencionalmente não filmada na primeira fita.

- Isto mostra a outra entrada para a câmara. - Grumer apontou para a tela. - Achamos que pode haver outra câmara para além deste ponto. É onde vamos escavar agora.

- Está dizendo que os caminhões estão vazios? - perguntou um homem idoso.

Paul percebeu que essa era a parte difícil. As perguntas. A realidade. Mas tinham repassado tudo, ele e Rachel haviam preparado McKoy como uma testemunha antes de um julgamento. Paul tinha aprovado a estratégia de dizer que poderia haver outra câmara. Diabos, poderia mesmo. Quem sabe? Pelo menos isso manteria os sócios felizes por mais alguns dias, até que a equipe de McKoy pudesse escavar na outra entrada e ter certeza.

McKoy se esquivou bem dos desafios, e cada pergunta era respondida completamente e com um sorriso. O grandalhão estava certo. Ele sabia trabalhar uma platéia. Os olhos de Paul examinavam constantemente o salão espaçoso, tentando avaliar as reações individuais.

Até agora, tudo bem.

A maior parte dos sócios parecia satisfeita com as explicações.

Perto dos fundos da sala, junto à porta dupla que dava no saguão, ele notou uma mulher entrando. Era baixa, com cabelos louros de comprimento médio, e ficou na sombra, tornando difícil distinguir o rosto. Mas havia algo familiar nela.

- Paul-Cutler, que está ali, é o meu conselheiro jurídico - disse McKoy.

Ele se virou à menção de seu nome.

- O Sr. Cutler está disponível para ajudar o Herr Doktor Grumer e a mim, caso tenhamos alguma dificuldade legal na área de escavação. Não esperamos ter nenhuma, mas o Sr. Cutler, um advogado de Atlanta, ofereceu graciosamente seu tempo.

Paul sorriu para o grupo, desconfortável com as representações frouxas, mas sem poder dizer nada. Cumprimentou os presentes e se virou de novo para a porta.

A mulher havia sumido.

 

Suzanne saiu do hotel. Tinha visto e ouvido o suficiente. McKoy, Grumer e os dois Cutler estavam ali, aparentemente ocupados. Segundo sua contagem, cinco trabalhadores também se encontravam no salão. De acordo com as informações de Grumer, ainda havia mais duas pessoas na folha de pagamentos, provavelmente no local das escavações, montando guarda.

Tinha captado o olhar momentâneo de Paul, mas isso não deveria ser problema. Sua aparência física era muito diferente da semana anterior, no escritório dele em Atlanta. Por segurança, ela havia ficado nas sombras e se demorado apenas alguns instantes, o suficiente para ver o que estava acontecendo e fazer uma avaliação. Tinha se arriscado indo ao Garni, mas não confiava em Alfred Grumer. Ele era alemão demais, ganancioso demais. Um milhão de euros? O idiota devia estar sonhando. Será que achava seu benfeitor tão ingênuo assim?

Do lado de fora, voltou rapidamente ao Porsche, depois partiu para o leste, indo até a escavação, e parou no meio de um bosque denso, a cerca de meio quilômetro. Depois de uma caminhada rápida, encontrou um barracão de trabalho e a entrada da mina. Os geradores zumbiam do lado de fora. Não havia caminhões, carros ou pessoas à vista.

Entrou no túnel aberto e seguiu a trilha de lâmpadas até uma galeria semi-escurecida. Três barras de lâmpadas halógenas estavam apagadas, e a única iluminação disponível era a que escapava de uma enorme câmara mais adiante. Esgueirou-se e testou o ar acima da uma das lâmpadas. Estava quente. Olhou para baixo e descobriu que o trio de lâmpadas tinha sido desconectado da tomada.

Nas sombras do outro lado da galeria, captou o vislumbre de uma forma deitada de barriga para cima. Chegou perto. Havia um homem de macacão, caído na areia. Procurou a pulsação. Fraca, mas presente.

Olhou para a câmara através de uma abertura na rocha. Uma sombra dançava na parede mais distante. Ela se agachou e entrou. Nenhuma sombra traiu sua entrada, e a areia fina abafava cada passo. Decidiu não pegar a arma enquanto não visse quem estava ali.

Chegou ao caminhão mais próximo e se abaixou, olhando por baixo do chassi. Um par de pernas e botas estava ao lado do veículo mais distante. Os pés se moviam para a direita. Casuais, sem pressa. Sua presença obviamente não era notada. Ficou parada e decidiu permanecer anônima.

As pernas pararam perto da traseira do caminhão mais distante.

A lona estalou. Quem quer que fosse, devia estar olhando dentro da carroceria. Ela aproveitou o momento para passar pela frente do veículo mais próximo e correr até o capo do seguinte. Agora a pessoa estava parada diagonalmente a ela, do outro lado. Suzanne espiou com cuidado a figura a seis metros de distância.

Christian Knoll.

Um arrepio a atravessou.

 

Knoll verificou dentro da carroceria do último caminhão. Vazia. Os veículos tinham sido esvaziados. Não havia nada em nenhuma cabine ou carroceria. Mas quem fizera isso? McKoy? De jeito nenhum. Ele não ouvira nada na cidade sobre alguma descoberta significativa. Além disso, haveria restos. Caixotes. Material de embalagem. Mas não havia nada. E será que McKoy deixaria um local rico guardado apenas por Um homem dominado com facilidade, se tivesse encontrado uma fortuna em arte roubada? A explicação mais lógica era que os caminhões estavam vazios quando McKoy entrou na câmara. Mas como?

E os corpos. Seriam ladrões de décadas atrás? Talvez. Não havia nada incomum nisso. Muitas das câmaras de Harz tinham sido pilhadas, a maioria pelos exércitos americano e soviético que violaram a região depois da guerra, algumas mais tarde, por rapineiros e caçadores de tesouros antes que o governo passasse a controlar a área. Foi até um dos corpos e olhou para os ossos escurecidos. Todo o cenário era estranho. Por que Danzer estaria tão interessada no que obviamente não tinha importância? Interessada a ponto de cultivar uma fonte secreta que queria um milhão de euros apenas como adiantamento pelas informações.

Que tipo de informações?

Uma sensação o atravessou. Uma sensação na qual havia aprendido a confiar. Que, em Atlanta, lhe dissera que Danzer estava na sua pista. Que lhe dizia agora que havia mais alguém na câmara.

Disse a si mesmo para manter os movimentos casuais. Uma virada súbita espantaria o visitante. Em vez disso, caminhou lentamente por toda a extensão do veículo e guiou a pessoa mais para longe da entrada, colocando-se no meio do caminho. Mas o intruso evitou intencionalmente as barras de luzes, não permitindo que qualquer som¬bra traísse o movimento. Knoll parou e se agachou, olhando sob os veículos à procura de pernas e pés.

Não havia nenhum.

 

Suzanne estava de pé, rígida, ao lado de uma das rodas amassadas. Tinha seguido Knoll mais para o fundo da câmara e ouviu quando os passos dele pararam. Ele não estava se esforçando para ocultar os sons, e isso a preocupava. Será que a havia sentido? Como em Atlanta? Talvez estivesse olhando por baixo dos caminhões, como ela fizera. Nesse caso, não haveria o que ver. Mas ele não hesitaria por muito tempo. Suzanne não estava acostumada a um adversário assim. A maioria de seus opositores não tinham a esperteza de Christian Knoll. E assim que ele se certificasse de que era ela, seria o inferno. Sem dúvida ele já ficara sabendo sobre Chapaev, percebido que a mina era uma armadilha e reduzido para um a lista de possíveis suspeitos que teriam feito aquela armadilha.

O caminho de Knoll pela câmara também era motivo de preocupação.

Ele a estava guiando. O sacana sabia.

Suzanne sacou a pistola, envolvendo o dedo instantaneamente no gatilho.

 

Knoll virou o braço direito e liberou o punhal. Segurou o cabo de jade lavanda e se preparou. Olhou de novo por baixo dos caminhões. Não havia pés. Quem quer que fosse, obviamente tinha usado as rodas como proteção. Decidiu agir. Girou o corpo para longe do capo enferrujado do veículo mais próximo e pousou do outro lado.

Suzanne Danzer estava a seis metros de distância, grudada a uma das rodas traseiras. O choque tomou o rosto dela ao vê-lo. Sua arma se ergueu e mirou. Knoll saltou para a frente do veículo ao lado. Dois tiros abafados saíram do cano e as balas ricochetearam na parede de rocha.

Ele se levantou e atirou o punhal.

 

Suzanne mergulhou no chão, prevendo a faca. Era a marca registrada de Knoll, e a ponta havia brilhado à luz quando ele pousou para o primeiro ataque. Ela percebeu que seus tiros só serviriam para distraí-lo momentaneamente. Por isso, quando Knoll saltou, girou o punho e lançou a faca, ela estava preparada.

O punhal passou assobiando, cortando a lona petrificada da carroceria mais próxima. Atravessando a fina camada de tecido rígido até o cabo. Haveria apenas um segundo antes que ele atacasse. Ela disparou outro tiro na direção de Knoll. Mais uma vez, a bala só danificou a rocha.

- Desta vez, não, Suzanne - disse Knoll lentamente. - Você é minha.

- Você está desarmado.

- Tem certeza?

Ela olhou para a própria arma, imaginando quantas balas restariam no pente. Quatro? Seus olhos examinaram a caverna, a mente acelerada. Knoll estava entre ela e a única saída. Precisava de algo para imobilizar o sacana por tempo suficiente para escapar dessa ratoeira. Seus olhos examinaram as paredes de rocha, os caminhões e as luzes.

As luzes.

A escuridão seria sua aliada.

Tirou depressa o pente da pistola e substituiu pelo que estava no bolso. Agora tinha sete tiros. Apontou para a barra de luz mais próxima e disparou. As lâmpadas explodiram num chuveiro de fagulhas elétricas e fumaça. Levantou-se e correu para a abertura, disparando contra a outra barra de luz. Outra explosão ofuscante, depois a câmara foi mergulhada numa escuridão total. Ela estabeleceu o rumo no instante em que os últimos pontos de luz se apagavam e esperou correr em linha reta.

Caso contrário, uma parede de rocha estaria aguardando-a.

 

Knoll correu para o punhal quando a primeira barra de luz explodiu. Percebeu que só haveria mais alguns segundos de visão, e Danzer estava certa: sem a faca, ele estava desarmado. Uma pistola seria ótimo. Idiotamente havia deixado a CZ-75B no quarto do hotel, achando que não seria necessária para essa expedição rápida. Na verdade, preferia a furtividade de uma lâmina a uma arma de fogo, mas um pente de quinze tiros cairia bem neste momento.

Arrancou o punhal da lona e se virou. Danzer estava correndo para a abertura do túnel. Ele se preparou para outro lançamento.

Uma barra de luz explodiu num clarão ofuscante.

A câmara se congelou na escuridão.

 

Suzanne correu direto em frente e passou pela abertura que dava na galeria. Adiante, o túnel principal era cheio de lâmpadas. Ela se concentrou na claridade mais próxima e foi até lá, depois seguiu correndo pelo túnel estreito, usando a arma para estourar as lâmpadas, extinguindo a trilha.

 

Knoll foi ofuscado pelo último clarão. Fechou os olhos e disse a si mesmo para ficar parado, calmo. O quê, mesmo, Monika tinha dito sobre Danzer?

Objeto de caridade.

Nem de longe. Perigosa como o diabo era uma descrição melhor.

O cheiro acre de algo elétrico queimando encheu suas narinas. A câmara começou a esfriar com a escuridão. Abriu os olhos. O preto se dissolveu, e formas ainda mais escuras apareceram. Para além da abertura, depois da galeria que dava no túnel principal, luzes espocavam à medida que as lâmpadas explodiam.

Correu para elas.

Suzanne correu em direção à luz do dia. Passos ecoavam atrás. Knoll estava chegando, tinha de ser rápida. Saiu numa tarde obscura e correu pela floresta densa, em direção a seu carro. Esperava ter vantagem suficiente sobre Knoll para ganhar tempo. Talvez ele não soubesse em que direção ela havia ido, depois de sair do túnel.

Ziguezagueou passando por pinheiros altos, através de densas moitas de samambaias, ofegando, obrigando as pernas a continuarem se movendo.

 

Knoll saiu do túnel e rapidamente avaliou o ambiente. À direita, um lampejo de roupas surgiu brevemente através das árvores, a cinqüenta metros. Captou a forma da pessoa que corria.

Uma mulher.

Danzer.

Correu na direção dela, segurando o punhal.

 

Suzanne chegou ao Porsche e saltou dentro. Ligou o motor, colocou em primeira e pisou o acelerador até o fundo. Os pneus patinaram, depois se grudaram ao chão, e o carro saltou para a frente. Pelo retrovisor, viu Knoll sair das árvores segurando a faca.

Acelerou até a estrada e parou. Inclinou a cabeça para fora da janela e fez uma saudação, antes de partir a toda.

 

Knoll quase sorriu do gesto. A resposta à sua zombaria no aeroporto de Atlanta. Danzer provavelmente estava orgulhosa, satisfeita com a fuga, tinha-o suplantado de novo.

Olhou o relógio: 16h30.

Não importava.

Sabia exatamente onde ela estaria dentro de seis horas.

 

16H45

Paul viu o último sócio sair do salão. Wayland McKoy tinha sorrido para cada um deles, apertado suas mãos e garantido que as coisas seriam fantásticas. A reunião havia corrido bem. Durante quase duas horas tinham rechaçado as perguntas, temperando as respostas com noções românticas de nazistas cobiçosos e tesouros esquecidos, usando a história como um narcótico para embotar a curiosidade dos investidores.

McKoy se aproximou.

- O desgraçado do Grumer foi bastante bom, hein? - Agora Paul, McKoy e Rachel estavam sozinhos. Todos os sócios tinham subido, acomodando-se nos quartos. Grumer havia saído há alguns minutos.

- Grumer realmente se saiu bem - disse Paul. - Mas não me sinto confortável com essa embromação.

- Quem está embromando? Pretendo escavar aquela outra entrada, e ela pode levar a outra câmara.

Rachel franziu a testa.

- Seu radar de solo indica isso?

- Não sei de merda nenhuma, meritíssima.

Rachel recebeu a reação com um sorriso. Parecia estar gostando de McKoy, já que a atitude rude e a língua afiada não eram muito diferentes das dela.

- Vamos levar o grupo de ônibus ao local, amanhã, e deixar que eles dêem uma olhada - disse McKoy. - Isso deve nos garantir mais uns dias. Talvez tenhamos sorte com a outra entrada.

- E Papai Noel existe - disse Paul. - Você tem um problema, McKoy. Precisamos pensar em sua situação jurídica. Que tal eu contatar minha empresa e mandar um fax com aquela carta de solicitação? O departamento de litígio poderia dar uma olhada.

McKoy suspirou.

- Quanto isso vai me custar?

- Dez mil de adiantamento. Nós trabalhamos com esse dinheiro, ao valor de 250 à hora. Depois, a cobrança é por hora, pagas por mês, despesas por sua conta.

McKoy respirou fundo.

- Lá se vão meus cinqüenta mil. Ainda bem que não gastei. Paul se perguntou se seria a hora de McKoy saber sobre Grumer.

Será que deveria lhe mostrar a carteira? Falar das letras na areia? Talvez ele soubesse o tempo todo que a câmara estava vazia e simplesmente tivesse escondido a informação. O quê, mesmo, Grumer tinha dito na véspera? Algo sobre suspeitar que o local era seco. Talvez pudessem culpá-lo de tudo, um cidadão estrangeiro, e usar o argumento de confiança justificável. Se não fosse por Grumer, McKoy não teria escavado. Desse modo, os sócios seriam obrigados a processar Grumer nos tribunais alemães. Os custos iriam para as nuvens, talvez tornando o litígio economicamente inviável. Talvez um problema suficiente para fazer os lobos recuarem. Falou:

- Há outra coisa que eu preciso...

- Herr McKoy - disse Grumer, entrando rapidamente. - Houve um incidente no local da escavação.

Rachel examinou a cabeça do trabalhador. Um calombo do tamanho de um ovo de galinha brotava por trás do cabelo castanho grosso. Ela, Paul e McKoy estavam na câmara subterrânea.

- Eu estava ali parado - o homem indicou a galeria externa - e, quando dei por mim, tudo estava preto.

- Você não viu nem ouviu ninguém? - perguntou McKoy.

- Nada.

Os trabalhadores estavam ocupados substituindo as lâmpadas estouradas nas barras de luzes. Uma já estava acesa de novo. Rachel examinou o local. Lâmpadas quebradas no corredor e na câmara principal, uma lona de caminhão cortada na lateral.

- O cara deve ter me acertado por trás - disse o sujeito, esfregando a nuca.

- Como você sabe que era um cara? - perguntou McKoy.

-           Eu o vi - disse outro trabalhador. - Eu estava no barracão lá fora, estudando as rotas de túneis da área. Vi uma mulher sair correndo do túnel com uma arma na mão. Um homem saiu logo depois. Tinha uma faca. Os dois desapareceram no mato.

- Você foi atrás deles? - perguntou McKoy.

- Merda, não.

- Por que, diabos, não?

- Você me paga para escavar, não para ser herói. Eu vim para cá. O lugar estava preto que nem breu. Voltei e peguei uma lanterna. Foi quando achei Danny caído na galeria.

- Como era a mulher? - perguntou Paul.

- Loura, acho. Baixa. Rápida como uma lebre.

Paul assentiu.

- Ela esteve no hotel mais cedo.

- Quando? - perguntou McKoy.

- Enquanto você e Grumer falavam. Entrou por um minuto e depois saiu.

McKoy entendeu.

- Só ficou o tempo suficiente para ver se estávamos todos lá, porra.

- É o que parece - disse Paul. - Acho que era a mesma mulher que foi ao meu escritório. Com aparência diferente, mas havia algo familiar nela.

- É essa merda de intuição de advogado?

- Algo assim.

- Você conseguiu ver o homem? - perguntou Rachel ao trabalhador.

- Alto. Cabelo claro. Com uma faca.

- Knoll - disse ela.

Visões da lâmina da faca na mina relampejaram em sua mente.

- Eles estão aqui, Paul. Os dois estão aqui.

Rachel estava inquieta quando ela e Paul subiram a escada do Garni até o quarto no segundo andar. Seu relógio marcava 20h10. Mais cedo, Paul havia ligado para Fritz Pannik, mas só conseguiu ser atendido por uma secretária eletrônica. Deixou um recado falando de Knoll e da mulher, de suas suspeitas, e pediu ao inspetor para ligar de volta. Mas não havia recado esperando-o na recepção.

McKoy tinha insistido que jantassem com os sócios. Para ela, tudo bem: quanto mais gente, melhor. Ela, Paul, McKoy e Grumer tinham dividido o grupo entre eles, e todo o assunto era sobre a escavação e o que poderia ser encontrado. Mas seus pensamentos permaneceram em Knoll e na mulher.

- Foi difícil - disse ela. - Eu tive de prestar atenção a cada palavra, de modo que ninguém mais tarde dissesse que eu os convenci de alguma coisa. Talvez esta não tenha sido uma idéia muito boa, não é?

Paul se virou para a porta do quarto.

- Olhe só quem deixou de ser aventureira!

- Você é um advogado respeitado. Eu sou juíza. McKoy se grudou em nós como velcro. Se ele realmente fez trambique com essas pessoas, nós podemos virar cúmplices. Seu pai costumava dizer o tempo todo: "Se não puder correr com os cachorros grandes, volte para baixo da varanda." Eu estou pronta para voltar.

Ele pegou a chave do quarto no bolso.

- Não acho que McKoy tenha enganado alguém. Quanto mais estudo aquela carta, mais a percebo como ambígua, e não falsa. Também acho que McKoy está genuinamente chocado com a descoberta. Já quanto ao Grumer... não tenho tanta certeza.

Destrancou a porta e acendeu a luz do teto.

O quarto estava uma bagunça completa. Gavetas arrancadas. Aporta do armário aberta. O colchão fora da cama, os lençóis puxados. Todas as roupas espalhadas no chão.

- O serviço de arrumadeira deste lugar é uma porcaria - disse Paul.

Ela não achou engraçado.

- Isso não incomoda você? Alguém revistou este lugar. Ah, merda. As cartas do papai. E aquela carteira que você encontrou.

Paul fechou a porta. Tirou o casaco e puxou a camisa para fora da calça. Uma bolsa de dinheiro envolvia seu abdome.

- Ia ser meio difícil alguém encontrar.

- Mãe de Deus. Nunca mais vou questionar suas obsessões. Isso foi muito inteligente, Paul Cutler.

Ele baixou a camisa.

- Há cópias das cartas do seu pai no cofre do escritório, só para garantir.

- Você esperava isso?

Ele deu de ombros.

- Não sabia o que esperar. Só queria estar preparado. Com Knoll e a mulher andando por aí, qualquer coisa pode acontecer.

- Talvez a gente devesse sair daqui. Aquela campanha para o cargo de juiz que me espera não parece mais uma coisa tão ruim. Marcus Nettles é moleza comparado com isto.

Paul estava calmo.

- Acho que temos de fazer outra coisa.

Ela entendeu instantaneamente.

- Concordo. Vamos falar com o McKoy.

 

Paul ficou olhando McKoy atacar a porta. Rachel estava atrás dele. Os efeitos de três enormes canecas de cerveja apareciam na intensidade dos golpes de McKoy.

- Grumer, destranque a droga desta porta - gritou McKoy.

A porta se abriu.

Grumer ainda vestia a camisa de manga comprida e as calças usadas no jantar.

- O que é, Herr McKoy? Houve outro incidente?

McKoy entrou no quarto, empurrando Grumer de lado. Paul e Rachel entraram atrás. Dois abajures ao lado da cama lançavam uma luz suave. Grumer obviamente estivera lendo. Um exemplar em inglês de A influência holandesa na pintura renascentista alemã, de Polk, estava aberto na cama. McKoy agarrou Grumer pela camisa e o jogou com força contra a parede, fazendo chacoalhar as molduras dos quadros.

- Eu sou um caipira da Carolina do Norte. Neste momento, um caipira da Carolina do Norte meio bêbado. Talvez você não saiba o que isso significa, mas vou lhe dizer, e não é bom. Não estou com clima, Grumer. Nenhum clima, porra. Cutler me disse que você apagou letras escritas na areia. Onde estão as fotos?

- Não sei de nada disso.

McKoy soltou Grumer e lhe deu um soco na barriga. O sujeito se dobrou, tentando respirar. McKoy puxou-o para cima.

- Vamos tentar de novo. Onde estão as fotos?

Grumer lutou para respirar, tossindo bile, mas conseguiu apontar para a cama. Rachel pegou o livro. Dentro, havia um punhado de fotos coloridas mostrando o esqueleto e as letras.

McKoy largou Grumer no carpete e examinou as fotos.

- Quero saber por quê, Grumer. Por quê, diabos?

Paul imaginou se deveria alertá-lo contra a violência, mas decidiu que Grumer merecia. Além disso, McKoy provavelmente não ouviria mesmo.

Grumer finalmente respondeu:

- Dinheiro, Herr McKoy.

- Os cinco mil dólares que eu paguei não bastavam?

Grumer ficou quieto.

- A não ser que você queira começar a tossir sangue, é melhor contar tudo.

Grumer pareceu captar a mensagem.

- Há cerca de um mês, fui abordado por um homem...

- Nome.

Grumer respirou fundo.

- Ele não disse.

McKoy preparou o punho.

- Por favor... é verdade. Não deu o nome, e só falou por telefone. Tinha lido sobre meu trabalho nesta escavação e ofereceu vinte mil euros em troca de informações. Não vi mal nisso. Disse que uma mulher chamada Margarethe viria me contatar.

- E?

- Eu me encontrei com ela ontem à noite.

- Ela, ou você, revistou nosso quarto? - perguntou Rachel.

- Nós dois. Ela estava interessada nas cartas do seu pai.

- Ela disse por quê? - perguntou McKoy.

- Nein. Mas acho que sei. - Grumer estava começando a respirar normalmente outra vez, mas o braço direito abraçava o estômago. Ele se encostou na parede. - Já ouviu falar no Retter der Verlorenen Antiquitaten?

- Não - respondeu McKoy. - Esclareça-me.

- É um grupo de nove pessoas. Suas identidades não são conhecidas, mas todos são ricos amantes da arte. Eles empregam localizadores, colecionadores pessoais, chamados de adquirentes. A parte engenhosa da associação é o que o nome dá a entender. "Recuperadores de Antigüidades Perdidas". Eles só roubam o que já estava roubado. O adquirente de cada membro luta por um prêmio. É um jogo sofisticado e caro, mas é um jogo.

- Vá direto ao ponto - disse McKoy.

- Essa tal de Margarethe, pelo que suspeito, é uma adquirente. Ela não disse, nem deu a entender, mas acho que minha suposição é correta.

- E quanto a Christian Knoll? - perguntou Rachel.

- A mesma coisa. Os dois estão competindo por algo.

- Estou sentindo uma ânsia de encher você de porrada outra vez - disse McKoy. - Para quem Margarethe trabalha?

- É só uma suposição, mas eu diria que é Ernst Loring.

O nome atraiu a atenção de Paul, e ele viu que Rachel também estava ligada.

- Pelo que me disseram, os membros do clube são muito competitivos. Há milhares de objetos perdidos a recuperar. A maioria da última guerra, mas muitos foram roubados de museus e coleções particulares em todo o mundo. Na verdade, o negócio é bem inteligente. Roubar o que já é roubado. Quem vai reclamar?

McKoy foi na direção de Grumer.

- Você está esgotando minha paciência. Vá direto ao ponto, porra.

- A Sala de Âmbar - disse Grumer, ofegante.

Rachel pôs a mão no peito de McKoy.

- Deixe-o explicar.

- De novo, é somente uma conjectura da minha parte. Mas a Sala de Âmbar deixou Königsberg em algum momento entre janeiro e abril de 1945. Ninguém tem certeza. Os registros não são claros. Erich Koch, o gauleiter da Prússia, evacuou os painéis sob ordens diretas de Hitler. Mas Koch era protegido de Herman Göring, na realidade muito mais leal a Göring do que a Hitler. A rivalidade entre Hitler e Göring pela arte é bem documentada. Göring justificava sua ânsia de colecionar com o desejo de criar um museu de arte em Karinhall, sua cidade natal. Hitler deveria ter a primeira opção de qualquer espólio, mas Göring chegou mais depressa que ele a muitas das melhores peças. À medida que a guerra progredia, Hitler assumiu um controle cada vez mais pessoal da luta, o que limitou o tempo que podia dedicar a outras questões. Mas Göring permaneceu em movimento e era feroz em sua ânsia de colecionar.

- Que porra isso tem a ver com alguma coisa? - perguntou McKoy.

- Göring queria que a Sala de Âmbar fizesse parte de sua coleção em Karinhall. Alguns argumentam que foi ele, e não Hitler, que ordenou a evacuação do âmbar de Königsberg. Ele queria que Koch mantivesse os painéis de âmbar a salvo dos russos, dos americanos e de Hitler. Mas acreditava-se que Hitler descobrira o plano e confiscara o tesouro antes que Göring pudesse ficar com ele.

- Papai estava certo - disse Rachel em voz baixa.

Paul a encarou.

- Como assim?

- Uma vez ele me contou sobre a Sala de Âmbar e disse que entrevistou Göring depois da guerra. Tudo que Göring informou foi que Hitler o venceu na disputa. - Então contou sobre Mauthausen e os quatro soldados alemães congelados até a morte.

- Onde você ficou sabendo dessas informações? - perguntou Paul a Grumer. - Meu sogro tinha um monte de artigos sobre a Sala de Âmbar e nenhum deles mencionava qualquer coisa do que o senhor acaba de dizer. - Ele havia propositadamente omitido a referência de ex ao sogro, e Rachel não o corrigiu, como costumava fazer.

- Não haveria qualquer menção - disse Grumer. - A mídia ocidental raramente fala da Sala de Âmbar. Poucas pessoas sequer sabem do que se trata. Mas estudiosos alemães e russos pesquisam há muito o assunto. Ouvi essa informação específica sobre Göring repetida com freqüência, mas jamais um relato de primeira mão como o de Frau Cutler.

- Como isso se encaixa em nossa escavação? - perguntou McKoy.

- Um dos relatos diz que três caminhões foram carregados com os painéis em algum lugar a leste de Königsberg, depois de Hitler assumir o controle. Os caminhões partiram para o oeste e jamais foram vistos de novo. Deviam ser veículos de transporte pesado...

- Como os NAG Büssings - disse McKoy.

Grumer assentiu.

McKoy sentou-se na beira da cama.

- Os três caminhões que encontramos? - O tom áspero havia suavizado.

- É coincidência demais, não acha?

- Mas os caminhões estão vazios - disse Paul.

- Exato - respondeu Grumer. - Talvez os Recuperadores de Antigüidades Perdidas saibam mais ainda sobre a história. Talvez isso explique o interesse bastante intenso de dois adquirentes.

- Mas o senhor nem sabe se Knoll e essa mulher têm alguma coisa a ver com o tal grupo - disse Rachel.

- Não, Frau Cutler, não sei. Mas Margarethe não me pareceu uma colecionadora independente. A senhora conheceu Herr Knoll. Diria o mesmo sobre ele?

- Knoll se recusou a dizer para quem trabalha.

- O que o torna ainda mais suspeito - disse McKoy.

Paul tirou do paletó a carteira encontrada no local da escavação e a entregou a Grumer.

- E isto? - E explicou onde a havia encontrado.

- O senhor descobriu o que eu estava procurando - disse Grumer. - A informação exigida por Margarethe, relativa a qualquer possível datação do local depois de 1945. Revistei os cinco esqueletos, mas não encontrei nada. Isto prova que o local foi violado depois da guerra.

- Há algo escrito num pedaço de papel dentro dela. O que é? Grumer olhou de perto.

- Parece algum tipo de permissão ou licença. Emitida em 15 de março de 1951. Expira em 15 de março de 1955.

- E essa tal de Margarethe queria saber isso? - perguntou McKoy.

Grumer assentiu.

- Ela estava disposta a pagar muito bem pela informação. McKoy passou a mão pelo cabelo. O grandalhão parecia exausto.

Grumer aproveitou o momento para explicar:

- Herr McKoy, eu não fazia idéia de que o local estava seco. Fiquei tão empolgado quanto o senhor quando atravessamos a rocha. Mas os sinais estavam se tornando mais claros. Nenhum explosivo, nem mesmo restos. Uma entrada estreita. Falta de qualquer porta ou reforço de aço para o túnel ou a câmara. E os caminhões. Veículos de transporte pesados não deveriam estar ali.

- A não ser que a porcaria da Sala de Âmbar tivesse estado ali.

- Correto.

- Conte mais sobre o que aconteceu - pediu Paul a Grumer.

- Há pouco a contar. Histórias atestam que a Sala de Âmbar foi posta em caixotes, depois carregada em três caminhões. Os caminhões supostamente estavam indo para o sul, até Berchtesgaden, na segurança dos Alpes. Mas os exércitos soviético e americano estavam espalhados por toda a Alemanha. Não havia aonde ir. Supostamente, os caminhões foram escondidos. Mas não existem registros do local. Talvez o esconderijo fosse nas minas de Harz.

- Você acha que, já que essa tal de Margarethe se mostrou tão interessada nas cartas de Borya e está aqui, a Sala de Âmbar devia ter algo a ver com tudo isso? - perguntou McKoy.

- Seria uma conclusão lógica.

- Por que acha que Loring é o patrão dela? - perguntou Paul.

- É só uma suposição, baseada no que li e ouvi ao longo dos anos. A família Loring era, e é, interessada na Sala de Âmbar. Rachel tinha uma pergunta.

- Por que apagar as letras? Margarethe pagou ao senhor para isso?

- Na verdade, não. Ela só deixou claro que não deveria restar coisa alguma datando a câmara depois de 1945.

- Por que ela estava preocupada com isso? - perguntou Rachel.

- Realmente não faço idéia.

- Qual é a aparência dela? - perguntou Paul.

- É a mesma mulher que o senhor descreveu esta tarde.

- Você sabe que ela pode ter matado Chapaev e o pai de Rachel, não sabe?

- E você não disse nada? - perguntou McCoy a Grumer. - Eu deveria matá-lo de porrada. Você sabe a merda em que estou, com um local seco. Agora isso. - O grandalhão esfregou os olhos, aparentemente tentando se acalmar. Depois perguntou em voz baixa: - Quando é o próximo contato, Grumer?

- Ela deu a entender que ligaria para mim.

- Quero ser informado no segundo em que a vaca fizer isso. Já estou cheio. Ficou claro?

- Perfeitamente - respondeu Grumer.

McKoy se levantou e foi para a porta.

- É melhor cumprir com a palavra, Grumer. Informe no instante em que tiver notícias da mulher.

- Claro. Como você quiser.

 

O telefone estava tocando no quarto quando Paul abriu a porta. Rachel o seguiu, entrando enquanto ele atendia. Era Fritz Pannik. Paul contou rapidamente o que havia acontecido, dizendo ao inspetor que a mulher e Knoll estavam por perto, ou pelo menos tinham estado há algumas horas.

-Vou despachar alguém da polícia local para pegar uma declaração de todo mundo, logo de manhã cedo.

- O senhor acha que aqueles dois ainda estão aqui?

- Se o que Alfred Grumer disse é verdade, eu diria que sim. Descanse, Herr Cutler, e eu irei vê-lo amanhã.

Paul desligou e sentou-se na cama.

- O que acha? - perguntou Rachel, sentando-se ao lado.

- Você é a juíza. Grumer pareceu digno de crédito?

- Não para mim. Mas McKoy pareceu engolir o que ele estava dizendo.

- Não sei. Tenho a sensação de que McKoy também está escondendo alguma coisa. Não consigo identificar exatamente, mas há algo que ele não está dizendo. Ele prestou muita atenção ao que Grumer falou sobre a Sala de Âmbar. Mas não podemos nos preocupar com isso agora. Estou preocupado com Knoll e a mulher. Eles estão por aí, e eu não gosto disso.

Seus olhos captaram o movimento dos seios de Rachel através do suéter justo. Rainha do Gelo? Não para ele. Tinha sentido o corpo dela durante toda a noite passada, desesperado com a proximidade. Periodicamente absorvia o perfume de Rachel enquanto ela dormia. Num determinado ponto, tentou se imaginar há três anos, ainda casado com ela, ainda capaz de fazer amor com ela. Tudo era surreal. Tesouro perdido. Assassinos à solta. Sua ex-mulher na cama com ele.

- Talvez você estivesse certo, no início - disse Rachel. - Estamos metidos numa coisa grande demais e deveríamos sair daqui. Temos de pensar em Maria e Brent. - Ela o fitou. - E em nós. - Sua mão chegou junto da dele.

- O que quer dizer?

Ela lhe deu um beijo suave nos lábios. Paul ficou perfeitamente imóvel. Então Rachel o envolveu com os braços e o beijou com intensidade.

- Tem certeza disso, Rachel? - perguntou ele quando se separaram.

- Não sei por que sou tão hostil algumas vezes. Você é um bom homem, Paul. Não merece a dor que lhe causei.

- Não foi tudo sua culpa.

- Lá vai você de novo. Sempre pondo a culpa nos próprios ombros. Não pode deixar que eu fique com a culpa ao menos uma vez?

- Claro. Esteja à vontade.

- Eu quero. E quero outra coisa.

Ele viu o olhar no rosto dela, entendeu, e se levantou instantaneamente da cama.

- Isto é realmente estranho. Há três anos não ficamos juntos. Eu me acostumei. Achei que havíamos terminado... nesse sentido.

- Paul, pela primeira vez siga seus instintos. Nem tudo tem de ser planejado. O que há de errado com o velho tesão de antigamente?

Ele sustentou o olhar dela.

- Quero mais do que isso, Rachel.

- Eu também.

Ele foi em direção à janela, colocando distância entre os dois, e abriu a cortina. Qualquer coisa para ganhar um pouco de tempo. Aquilo estava acontecendo depressa demais. Olhou para a rua, pensando em quanto tempo havia sonhado em ouvir essas palavras. Não tinha ido ao tribunal para a audiência do divórcio. Horas depois, o julgamento final havia saído da máquina de fax e sua secretária o colocou sobre a mesa, sem dizer uma palavra. Ele havia se recusado a olhar o papel, jogando-o numa lata de lixo. Como é que a assinatura de um juiz poderia silenciar o que o coração sabia ser certo?

Virou-se de novo.

Rachel estava linda, mesmo com os cortes e arranhões do domingo. Realmente eram um casal estranho desde o início. Mas ele a amava e ela o amava. Juntos tinham gerado dois filhos, que ambos adoravam. Será que agora teriam uma segunda chance?

Virou-se de novo para a janela e tentou encontrar respostas na noite. Já ia voltar para a cama e se render quando notou alguém aparecendo na rua.

Alfred Grumer.

O Doktor caminhava com passo firme e decidido, aparentemente tendo acabado de sair pela porta do Garni, dois andares abaixo.

- Grumer está saindo - disse ele.

Rachel pulou e se aproximou para olhar.

- Ele não disse que ia sair.

Paul pegou o paletó e correu para a porta.

- Talvez tenha recebido o telefonema de Margarethe. Eu sabia que ele estava mentindo.

- Aonde você vai?

- Precisa perguntar?

 

Paul saiu com Rachel pela portaria e se virou na direção tomada por Grumer. O alemão estava cem metros adiante, seguindo rapidamente pela rua calçada de pedras, por entre as lojas escuras e os cafés movimentados que ainda atraíam fregueses com cerveja, comida e música. As luzes dos postes iluminavam o caminho com um brilho mostarda.

- O que estamos fazendo? - perguntou Rachel.

- Descobrindo o que ele vai fazer.

- Isso é uma boa idéia?

- Talvez não. Mas vamos fazer assim mesmo.

Ele não disse que isso também o liberava de uma decisão difícil. Imaginou se Rachel estaria apenas solitária ou amedrontada. Incomodava-o o que ela dissera em Warthberg, defendendo Knoll mesmo depois de o sacana tê-la deixado para morrer. Não gostava de ser a segunda opção.

- Paul, há uma coisa que você precisa saber.

Grumer estava adiante, ainda andando depressa. Paul não diminuiu o passo.

- O quê?

- Logo antes da explosão na mina, eu me virei e vi que Knoll tinha uma faca.

Ele parou e a encarou.

- Ele tinha uma faca na mão. Então o teto do túnel cedeu.

- E você só está me dizendo isso agora?

- Sei. Eu deveria ter dito antes. Mas fiquei com medo que você não ficasse ou que contasse a Pannik e ele interferisse.

- Rachel, você é maluca? Essa merda é séria. E você está certa, eu não deveria ter ficado, nem deixado você ficar. E não diga que pode fazer o que quiser. - Sua atenção se voltou rapidamente para a direita. Grumer desapareceu numa esquina. - Droga. Venha.

Começou a correr, com o paletó balançando atrás. Rachel o acompanhou. A rua começou a se inclinar. Ele chegou à esquina onde Grumer tinha estado e parou. Um konditorei fechado ficava à esquerda, com um toldo que rodeava a esquina. Olhou cautelosamente do outro lado. Grumer continuava andando depressa, aparentemente não se preocupando em saber se alguém o seguia. O Doktor atravessou uma pracinha em cujo centro havia uma fonte cercada de gerânios. Tudo - as ruas, as lojas e as plantas - refletia a obsessão por limpeza, parte do orgulho cívico alemão.

- Precisamos ficar recuados - disse Paul. - Mas aqui é mais escuro, e isso vai ajudar.

- Aonde vamos?

- Parece que estamos indo para a abadia. - Ele olhou o relógio: 22h25.

Adiante, Grumer desapareceu subitamente à esquerda, entrando numa fileira de cercas-vivas negras. Os dois seguiram rapidamente e viram um caminho de concreto se dissolver na escuridão. Um cartaz adiante anunciava: ABADIA DAS SETE AFLIÇÕES DA VIRGEM. A seta apontava para a frente.

- Você está certo. Ele vai para a abadia - disse Rachel. Começaram a subir o caminho de pedras, cuja largura daria para quatro pessoas lado a lado. Era íngreme e serpenteava pela noite, subindo o penhasco pedregoso. Na metade do caminho, passaram por um casal andando de mãos dadas. Paul parou. Grumer continuava adiante, ainda subindo depressa.

- Venha cá - disse a Rachel, passando o braço pelo ombro dela e puxando-a para perto. - Se ele olhar para trás, só verá dois namorados passeando. Nunca verá nosso rosto a essa distância.

Seguiram devagar.

- Você não vai escapar tão facilmente - disse Rachel.

- Como assim?

- No quarto. Você sabia aonde estávamos indo.

- Não planejo escapar.

- Você só precisava de tempo para pensar, e esse servicinho lhe garante isso.

Paul não discutiu. Ela estava certa. Ele precisava pensar, mas não agora. Grumer era a preocupação principal no momento. A subida estava tirando seu fôlego, os tornozelos e as coxas ficando rígidas. Achava que estava em forma, mas as corridas de cinco quilômetros em Atlanta geralmente eram feitas em terreno plano, nada como aquela encosta assassina.

O caminho chegou ao cume adiante e Grumer desapareceu sobre o topo.

A abadia não era mais um edifício distante. Aqui a fachada ocupava o tamanho de dois campos de futebol, erguendo-se bruscamente do penhasco, as paredes elevadas por um alicerce de pedra abobadado. Fortes lâmpadas de vapor de sódio escondidas na base coberta de árvores inundavam a pedra colorida. Fileiras de altas janelas de caixilhos brilhavam em três andares.

Uma passagem iluminada se erguia adiante, com construções dos lados e em cima. Dois bastiões flanqueavam o portal principal. Logo adiante havia um pátio semi-escurecido. Cinqüenta metros à frente, Grumer desapareceu pela passagem aberta. As luzes fortes ao redor do portão preocuparam Paul. Pombos arrulhavam em algum lugar do outro lado da claridade. Não havia mais ninguém à vista.

Guiou Rachel adiante e olhou para as esculturas dos apóstolos Pedro e Paulo repousando em pedestais de pedra escurecida. De cada um dos lados, santos e anjos competiam com peixes e sereias. Um brasão emoldurava o centro do portal, duas chaves douradas sobre um fundo azul-real. Uma cruz enorme se erguia sobre a empena, com uma inscrição nítida sob as luzes fortes. ABSIT GLORIAM NISI IN CRUCE.

- Só existe glória na cruz - murmurou ele.

- O quê?

Paul apontou para cima.

- A inscrição. Só existe glória na cruz. De Gálatas, 6:14.

Passaram pelo portal. Um cartaz identificava o local adiante como PÁTIO DO PORTEIRO. Felizmente, o pátio estava escuro. Agora Grumer estava na outra extremidade, subindo uma ampla escadaria de pedra, entrando no que parecia uma igreja.

- Não podemos ir atrás dele - disse Rachel. - Quantas pessoas podem estar lá a essa hora?

- Concordo. Vamos achar outra entrada.

Ele examinou o pátio e as construções ao redor. Estruturas de três andares se erguiam de todos os lados, fachadas barrocas e adornadas com arcos romanos, cornijas elaboradas e estátuas que acrescentavam o necessário tom religioso. A maioria das janelas estava escura. Sombras dançavam atrás de cortinas fechadas nas poucas que se encontravam acesas.

A igreja onde Grumer entrou se projetava da extremidade oposta do pátio escuro, com torres gêmeas simétricas flanqueadas por uma cúpula octogonal muito iluminada. Parecia um apêndice da construção mais distante, que na verdade devia ser a frente da abadia, o lado voltado para Stod e o rio, dando para o ponto mais alto do penhasco.

Paul apontou para o lado mais distante do pátio, mais além da igreja, onde havia uma porta dupla de carvalho.

- Talvez ela leve a outro caminho.

Seguiram rapidamente pelo pátio calçado de pedras, passando por ilhas de árvores e arbustos. Um vento frio soprava, deixando um arrepio na pele. Paul experimentou a tranca. Aberta. Empurrou para dentro a porta pesada - devagar, para minimizar os guinchos. Uma passagem parecida com um beco se abriu diante deles, com quatro fracas lâmpadas incandescentes na outra extremidade. Eles entraram. Na metade do corredor, uma escada subia com balaustradas de madeira. Pinturas a óleo, de reis e imperadores, se enfileiravam nas paredes. Para além da escada, mais adiante no corredor com cheiro de mofo, havia outra porta fechada.

- A igreja deve estar neste nível. Aquela porta deve sair lá - sussurrou.

A tranca se abriu à primeira tentativa. Paul puxou um pouquinho a porta. O ar quente inundou o corredor frio. Uma pesada cortina de veludo se estendia nas duas direções, formando uma passagem estreita para a direita e a esquerda. A luz era filtrada através de fendas periódicas na cortina e por baixo dela. Paul sinalizou pedindo silêncio e guiou Rachel para dentro da igreja.

Através de uma das fendas na cortina, espiou o interior. Focos esparsos de luz laranja iluminavam a nave gigantesca. A arquitetura explosiva, os afrescos no teto e o rico estuque colorido se combinavam numa sinfonia visual, quase avassaladora em profundidade e forma. Vermelho-amarronzado, cinza e ouro predominavam. Colunas de mármore esfriadas se erguiam até o teto em abóbada, cada qual adornada com elaborados relevos dourados que sustentavam numerosas estátuas.

O olhar dele foi para a direita.

Uma coroa dourada emoldurava o centro de um enorme altar principal. Num gigantesco medalhão estava inscrito: NON CORONABITUR, NISI LEGITIME CERTAVERIT. Sem luta justa não há vitória, traduziu em silêncio. A Bíblia de novo. Timóteo, 2:5.

Havia duas pessoas de pé, à esquerda: Grumer e a loura vista de manhã. Paul olhou por cima do ombro e sussurrou para Rachel:

- Ela está aqui. Grumer está falando com ela de novo.

- Você consegue ouvir? - murmurou Rachel em seu ouvido.

Ele balançou a cabeça e apontou para a esquerda. O estreito corredor adiante os levaria para mais perto de onde os dois estavam, e a cortina de veludo descia até o chão de pedras, o bastante para evitarem ser vistos. Uma pequena escada de madeira subia na extremidade mais distante até o que provavelmente era o coro. Concluiu que a passagem isolada pela cortina era certamente usada por acólitos que serviam durante a missa. Seguiram na ponta dos pés. Outra fenda lhe permitia enxergar. Espiou cautelosamente. Grumer e a mulher estavam perto de um altar lateral. Paul tinha lido sobre esse acréscimo feito por muitas igrejas européias. O católico barroco da Idade Média sentava-se longe do altar principal, experimentando apenas passivamente a proximidade de Deus. Os fiéis contemporâneos, graças a reformas litúrgicas, exigiam uma participação mais ativa. Por isso, altares populares foram acrescentados às igrejas antigas, com a nogueira do tablado e do altar combinando com as fileiras de bancos atrás.

Paul e Rachel estavam agora a vinte metros de Grumer e da mulher, cujos sussurros eram difíceis de ouvir no vazio silencioso.

 

Suzanne olhou irritada para Alfred Grumer, que estava com uma atitude surpreendentemente carrancuda com relação a ela.

- O que aconteceu hoje no local da escavação? - perguntou ele em inglês.

- Um dos meus colegas apareceu e ficou impaciente.

- Você está atraindo atenção demais para a situação.

Ela não gostou do tom do alemão.

- Não foi opção minha. Tive de cuidar do assunto à medida que se apresentou.

- Está com o meu dinheiro?

- Você tem minha informação?

- Herr Cutler encontrou uma carteira no local. Data de 1951. A câmara foi aberta depois da guerra. Não era isso que você queria?