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A SOMBRA DAS MOÇAS EM FLÔR / Marcel Proust
A SOMBRA DAS MOÇAS EM FLÔR / Marcel Proust

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Em Busca do Tempo Perdido

A SOMBRA DAS MOÇAS EM FLÔR

 

            Quando se cuidou de receber ao jantar, pela primeira vez, o Sr. de Norpois, tendo minha mãe lamentado que o professor Cottard estivesse viajando e que ela própria tivesse deixado completamente de freqüentar Swann, pois ambos teriam sem dúvida interessado o antigo embaixador, meu pai respondeu que um conviva eminente, um sábio ilustre, como Cottard, jamais poderia fazer má figura num jantar, ao passo que Swann, com sua ostentação, sua mania de alardear aos quatro ventos as suas relações, era um vulgar fanfarrão que o marquês de Norpois sem dúvida teria achado, conforme sua própria expressão, "nauseante". Ora, a resposta de meu pai necessita de algumas palavras de explicação, já que algumas pessoas talvez se lembrem de um Cottard bastante medíocre e de um Swann de extrema delicadeza, em matéria mundana, primor de modéstia e discrição. Mas, pelo que diz respeito a este, ocorrera que o "filho de Swann", e também o Swann do Jockey, adquirira uma personalidade nova (e que não deveria ser a última), a de marido de Odette. Afeiçoando às humildes ambições dessa mulher o instinto, o desejo e a habilidade de que sempre fora dotado, empenhara-se em construir, bem por baixo da antiga, uma posição nova e apropriada à companheira que a ocuparia com ele. Ora, mostrava-se aí um novo homem. Visto que (sempre continuando a freqüentar sozinho os amigos pessoais, aos quais não queria impor Odette quando não lhe pedissem espontaneamente para conhecê-la) era uma segunda vida que ele começava em comum com sua mulher, em meio a criaturas novas, ainda se compreenderia que, para avaliar o nível destas e, conseqüentemente, o prazer de amor-próprio que poderia sentir em recebê-las, ele se servisse, como ponto de comparação, não das pessoas mais brilhantes que formavam sua sociedade antes do casamento, mas das relações anteriores de Odette. Porém, mesmo quando se sabia que era com funcionários deselegantes, com mulheres de má fama, adorno dos bailes de ministérios, que ele desejava ligar-se, ficava-se espantado por ouvi-lo proclamar em alto e bom som (ele que outrora e, mesmo ainda hoje, dissimulava tão graciosamente um convite de Twickenham ou do Palácio de Buckingham) que a mulher de um subchefe de gabinete viera fazer uma visita à Sra. Swann.

            Dir-se-á talvez que aquilo se devia a simplicidade do Swann elegante não passara nele de uma forma mais requintada de vaidade e que, como certos judeus, o antigo amigo de meus pais pudera freqüentar, de cada vez, os estágios sucessivos por onde haviam passado os membros de sua raça, desde o mais ingênuo esnobismo e a patifaria mais grosseira, até a mais fina polidez. Mas o motivo principal, aplicável à humanidade como o era que nossas próprias virtudes não são algo livre, flutuante, de que consegue a disponibilidade permanente; elas acabam por se associar tão estreitamente à nosso espírito, às ações perante as quais nos impusemos o dever de executar que, se nos aparece uma atividade de outra ordem, esta nos pega totalmente prevenidos e sem que tenhamos sequer a idéia de que poderia nos valer praticar essas mesmas virtudes. Swann, solícito para com essas novas relações, citando-as com orgulho, era como aqueles grandes artistas modestos, ou sozinhos que, se, no fim da vida, se dedicam à culinária ou à jardinagem, exigência de ingênua satisfação com os elogios conferidos a seus pratos ou platibandas; quais não admitem a crítica que aceitam facilmente quanto a suas obras então que, ofertando de graça uma de suas telas, não podem perder quarenta sons no dominó sem mau humor.

            Quanto ao professor Cottard, voltaremos a vê-lo com a patroa, longe, bem mais distante, no castelo de Ia Raspeliere. No momento, será bastante à ele, observar primeiro o seguinte: quanto a Swann, a rigor, a mudar e surpreender, pois que já estava efetivada, sem que dela eu desconfiasse, o pai de Gilberte nos Champs-Élysées, onde, aliás, ele não me dirigia a palato podia exibir, diante de mim, suas relações políticas (é verdade que, senão feito, eu talvez não percebesse logo a sua vaidade, pois a idéia que nós faz uma pessoa conhecida há tanto tempo como que nos tapa os olhos e os da minha mãe, durante três anos, não distinguiu a pintura que uma das sob punha nos lábios, como se tivesse sido dissolvida inteira e invisivelmente líqüido; até o dia em que uma porção suplementar, ou alguma outra causa fabricou o fenômeno chamado supersaturação; toda a pintura não percebida se cristalizou e minha mãe, diante daquele súbito deboche de cores, de claridade, teriam feito em Combray, que aquilo era uma vergonha e rompeu quase total as relações com a sobrinha). Mas ao contrário, no caso de Cottard, a época - o vimos assistir aos começos de Swann em casa dos Verdurin já estava bem doente; ora, as honrarias, os títulos oficiais, chegam com os anos. Em segundos uma pessoa pode ser iletrada, fazer trocadilhos idiotas e possuir um dom que nenhuma cultura geral substitui, como o do grande estrategista ou do clínico. De fato, não era apenas como um prático obscuro, que com o tempo tornara-se uma celebridade na Europa, que seus confrades consideravam Cottard mais inteligentes dentre os jovens médicos declararam-ao menos durante anos, pois as modas mudam, tendo nascido elas próprias da necessidade conforme as danças-que, se alguma vez caíssem doentes, Cottard era o único mestre à confiarem a carcaça. É claro que preferiam a troca de idéias com certas pessoas mais cultas, mais artistas, com quem podiam falar de Nietzsche e Wagner se tocava música no salão da Sra. Cottard, nos saraus em que ela recebia os alunos do marido, com esperança de vê-lo um dia decano da faculdade, este em ouvir, preferia jogar cartas no salão vizinho. Porém gabavam-lhe a prontidão, a profundeza, a segurança de seu olho clínico, de seu diagnóstico. Em terceiro jogar, no que diz respeito ao conjunto de maneiras que o professor Cottard mostrava a um homem como meu pai, notemos que a natureza que fazemos surgir na segunda parte da nossa vida não é sempre, se o é muitas vezes, nossa natureza primária desenvolvida ou murcha, exagerada ou atenuada; trata-se às vezes de uma natureza oposta, uma verdadeira roupa às avessas. Salvo no caso dos Verdurin, que tinham se fartado dele, o aspecto hesitante de Cottard, sua timidez e amabilidade excessivas lhe tinham valido, na juventude, constantes ditos mordazes. Qual o amigo caridoso que lhe aconselhara adotasse um ar glacial? A importância da sua posição tornou-lhe mais fácil assumi-lo. Em toda parte, se não nos Verdurin aonde voltava instintivamente, ele se fez frio e, sem custo, silencioso, peremptório quando fosse necessário falar, não se esquecia de dizer coisas desagradáveis. Pôde ensaiar essa nova atitude diante de clientes que, não o tendo visto ainda, não tinham sequer como fazer comparações e ficariam bastante espantados se soubessem que ele não era homem de natureza rude. Esforçava-se sobretudo em ser impassível e, até no seu serviço do hospital, quando dizia alguns daqueles trocadilhos que faziam rir a todos, desde o chefe da clínica até o mais recente externo, fazia-o sempre sem que um só músculo se movesse no rosto, rosto aliás irreconhecível desde que rapara a barba e o bigode.

            Para terminar, digamos quem era o marquês de Norpois. Tinha sido ministro plenipotenciário antes da guerra e embaixador no 16 de Maio, e, apesar disso, para assombro de muitos, encarregado diversas vezes, desde então, de representar a França em missões extraordinárias e até mesmo como fiscal da Dívida, no Egito, onde, graças às suas grandes aptidões financeiras, prestara serviços importantes. Por gabinetes radicais que um simples burguês reacionário recusaria servir, e aos quais o passado do Sr. de Norpois, suas ligações e opiniões teriam tornado suspeito. Mas esses ministros avançados pareciam dar-se conta de que mostrariam com semelhante nomeação a sua largueza de espírito, desde que se tratasse dos interesses superiores da França; punham-se acima da política e mereciam até que mesmo o Journal des Débats os qualificasse de estadistas e se beneficiassem, por fim, do prestígio que se ajunta a um nome aristocrático e do interesse que desperta, como um lance teatral, uma escolha inesperada. E sabiam também que, tais vantagens, apenas as podiam recolher apelando ao Sr. de Norpois, sem temer da parte deste uma quebra de lealdade política, contra a qual o nascimento do marquês devia não tê-los de sobreaviso, e sim garanti-los. E nisso o governo da República não se enganava. Primeiro, porque uma certa aristocracia, educada desde a infância no sentido de considerar o próprio nome como uma vantagem interior que nada lhe tira (e cujo valor os seus pares, ou aqueles que de nascença pertencem a um nível ainda superior, conhecem perfeitamente bem), sabe que pode evitar, lhe acrescentariam nada, os esforços que fazem tantos burgueses, sem resultado ulterior, para professar unicamente opiniões da moda e só pessoas de bons sentimentos. Em compensação, preocupada em engrandecer aos olhos das famílias principescas ou ducais, abaixo das quais está imediatamente situada, essa aristocracia sabe que não pode fazê-lo a não ser aumentando o nome com aquilo que ele não contém, com aquilo que faz que, diante de igual, ele prevaleça: uma influência política, uma reputação literária ou uma grande fortuna. E os cuidados de que abre mão quanto a um inútil provinciano seqüestrado pelos burgueses e a cuja amizade sem proveito não daria o menor valor, a aristocracia há de tê-los para com os poluídos, que sejam franco-maçons, que podem lhe abrir as portas das embaixadas patrociná-la nas eleições, com os artistas ou com os sábios, cujo apoio vão "furar", no setor em que se distinguem, para todos aqueles, enfim, que condições de conferir uma nova distinção ou favorecer um casamento.

            Porém, no que dizia respeito ao Sr. de Norpois, ocorria sobremaneira numa longa prática da diplomacia, ele se havia imbuído desse espírito rotineiro, conservador, dito "espírito de governo" e que, de fato, é o dos governos e, em especial, está sob todos os governos, o espírito da chamada carreira diplomática, adquirira a aversão, o temor e o desprezo desses pensamentos, cada vez menos incorretos, que são o modo de agir das oposições e no caso de alguns iletrados do povo e da alta sociedade, para quem além de gêneros é letra morta, o que reaproxima não é a identidade de opinião; consangüinidade dos espíritos. Um acadêmico do tipo de Legouvé e adepto dos clássicos aplaudiria com a melhor boa vontade o elogio de Ti por Maxime Du Camp ou Mézieres, do que o de Boileau por Claudel. Um nacionalismo bastou para aproximar Barres de seus eleitores, que não diminuíra a diferença entre ele e o Sr. Georges Berry, porém não de seus amigos da Academia que, tendo suas mesmas opiniões políticas mas um outro tipo; preferirão até adversários como os senhores Ribot e Deschanef' por sua vez, monarquistas fiéis se sentem muito mais próximos do que de e Léon Daudet, que, no entanto, sonham também com o regresso do rei. Suas palavras não só por hábito profissional de prudência e reserva, ruas porque elas têm mais valor, oferecem mais matizes aos olhos de homens de esforços de dez anos para reaproximar dois países se resumem num discurso, num protocolo por um simples adjetivo, de aparência no qual vêem um mundo inteiro, o Sr. de Norpois passava por ser muito da Comissão, onde ocupava um cargo ao lado de meu pai, a quem todos aumentavam pela amizade que lhe dedicava o antigo embaixador. Meu primeiro espantar-se daquilo. Pois, sendo em geral pouco amável, tinha o hábito de não ser procurado fora do círculo da intimidade e o confessava com simplicidade. Era cônscio de que havia, nas aproximações do diplomata, um efeito sob este ponto de vista inteiramente individual, onde cada um se põe para decidir acerca das simpatias, e dentro do qual todas as qualidades intelectuais ou a sensibilidade de uma pessoa serão para alguém, a quem ela aborrece e irrita, uma recomendação tão boa, como a franqueza e a alegria de outra, que passaria aos olhos de muitos como vazia, frívola e nula.

            "De Norpois me convidou de novo para jantar; é extraordinário; todos ficaram estupefatos na Comissão, onde ele não tem relações íntimas com ninguém. Tenho certeza de que ele ainda vai me contar coisas palpitantes sobre a guerra de 70."

            Meu pai sabia que só talvez o Sr. de Norpois avisara o imperador do poder crescente e das intenções belicosas da Prússia, e que Bismarck estimava particularmente a sua inteligência. Ainda recentemente, na ópera, durante o baile de gala oferecido ao rei Teodósio, os jornais haviam assinalado a longa entrevista que o soberano tivera com o Sr. de Norpois.

            "Preciso saber se essa visita do rei teve real importância", disse-nos meu pai, que se interessava muito pela política estrangeira.

            "Sei muito bem que o velho Norpois é fechado como uma ostra, mas comigo ele se abre todinho."

            Quanto à minha mãe, talvez o embaixador não lhe apresentasse o tipo de inteligência que mais a atraísse. E devo dizer que a conversação do Sr. de Norpois era um repertório tão completo das formas antiquadas de linguagem particulares a uma carreira, a uma classe e a uma época, que para aquela carreira e para aquela classe, poderia muito bem não estar inteiramente abolidas - que lamento às vezes não ter guardado pura e simplesmente as frases que lhe ouvi. Teria, desse modo, obtido um efeito démodé tão bem e da mesma maneira que aquele aturdo Palais-Royal a quem indagavam onde podia encontrar seus surpreendentes chapéus e que respondia:    "Não encontro os meus chapéus. Eu os conservo."

            Numa palavra, creio que minha mãe julgava o Sr. de Norpois um tanto antiquado, o que estava longe de lhe parecer desagradável do ponto de vista de seus modos, mas a encantava menos no terreno senão das idéias, pois as do Sr. de Norpois eram bem modernas, mas das expressões. Apenas, ela sentia que seria lisonjear o marido de maneira delicada se lhe falasse com admiração do diplomata, que o tratava com tanta predileção. Fortalecendo no espírito de meu

pai a boa opinião que ele professara sobre o Sr. de Norpois, e levando-o assim a formar uma tão boa opinião sobre si mesmo, ela tinha consciência de cumprir um de seus deveres, que consistia em tornar agradável a vida do marido, como fazia quando vigiava para que a cozinha fosse bem cuidada e o serviço silencioso. E, como fosse incapaz de mentir a meu pai, ela mesma procurava admirar o embaixador para poder elogiá-lo com sinceridade, aliás, apreciava naturalmente seu ar de bondade, sua polidez um tanto desusada; tão cerimoniosa que, caminhando empertigado, ao perceber minha mãe que de carro, antes de lhe tirar o chapéu, jogava longe o charuto mal começado; sua conversa tão comedida, na qual falava de si mesmo, ao menos sempre levava em consideração o que poderia ser agradável ao interlocutor; pontualidade de tal modo surpreendente em responder a uma carta que quando acabara de lhe enviar uma, reconhecendo a escrita do Sr. Norpois de envelope, tinha a primeira impressão de que a correspondência de ambos era: poderia se dizer que, para ele, existiam no correio luxo e coletas suplementares.        Minha mãe se maravilhava de que ele fosse tão exato, embora tão ocupado era amável, conquanto tão relacionado, sem pensar que os "emboras" e os convivas são sempre "porquês" mal conhecidos, e que (assim como os velhos pela idade, os reis cheios de simplicidade e os provincianos) sabendo detalhes os próprios hábitos do Sr. de Norpois, que lhe permitiam satisfazer tantos e ser tão regular em suas respostas, agradar à sociedade e ser amável. Ademais, o erro de minha mãe, como o de todas as pessoas que são excessivamente modestas, provinha de que ela colocava as coisas que lhe diziam respeito e, conseqüentemente, fora dos outros. A resposta que a fazia atribuir tantas ao amigo de meu pai em dirigi-la a nós com rapidez, porque ele escrevia cartas por dia, ela a excetuava do grande número de cartas que, no entanto, passavam de uma; da mesma forma, ela não considerava que um jantar - e caso fosse para o Sr. de Norpois - um dos atos inumeráveis de sua vida; imaginava que o embaixador antigamente se acostumara, na diplomacia; dera os jantares citadinos como fazendo parte de suas funções e a empatia uma graça inveterada, da qual seria demais pedir-lhe que se desfizesse exclusivamente quando vinha à nossa casa.

            O primeiro jantar a que o Sr. de Norpois compareceu em nossa casa, ano em que eu ainda jogava nos Champs-Élysées, ficou na minha lembrança, que a tarde desse mesmo dia foi aquela em que eu ia enfim, ouvir a Berma na "matinê", representando a Fedra, e também porque, palestrando com o Sr. Norpois, percebi de súbito, e de uma forma nova, de que modo os sentimentos despertados em mim por tudo o que se relacionasse com Gilberte Swann os pais divergiam daqueles que essa mesma família inspirava a qualquer outra.

            Sem dúvida, foi reparando no abatimento em que me afundava na aproximação das férias de Ano-Novo, durante as quais, como ela própria me anuiu, não deveria ver Gilberte, que um dia, para me distrair, mamãe me disse:

            "Tens o mesmo desejo tão grande de ouvir a Berma, acho que teu pai permitiria que fosses e tua avó poderia te acompanhar."

            Mas porque o Sr. de Norpois lhe dissera que deveria deixar-me ver Berma, que aquilo seria, para um rapazinho, uma boa recordação a convite de meu pai, até então hostil à idéia que eu fosse perder tempo e me deixar contrair uma grave doença devido ao que chamava, para grande escola, minha avó, uma inutilidade, não estava longe de considerar aquele programa peneirado pelo embaixador, como fazendo vagamente parte de um conjunto de receitas preciosas para o bom êxito de uma brilhante carreira. Minha avó que, renunciara por mim ao benefício que, segundo ela, me daria a audição da Berma, fizera um enorme sacrifício no interesse da minha saúde, espantava-se de que tudo aquilo se tornasse desprezível a uma só palavra do Sr. de Norpois. Pondo suas esperanças invencíveis de racionalista no regime de ar livre e de deitar cedo que me haviam prescrito, deplorava como uma calamidade a infração que eu ia fazer e, num tom enervado, dizia:

            "Como você é leviano" a meu pai, ao que este, furioso, respondia:

            "Como! Agora é a senhora que não quer que ele vá? É demais, logo a senhora que repetia o tempo todo que isso lhe poderia ser útil."

            Mas o Sr. de Norpois mudara as intenções de meu pai num ponto bem mais importante para mim. Desejara sempre que eu fosse diplomata e eu não podia suportar a idéia de que, mesmo se devesse permanecer por algum tempo adido ao ministério, me arriscaria um dia a ser enviado como embaixador às capitais onde não moraria Gilberte.

            Teria preferido voltar aos projetos literários que fizera outrora, os quais abandonara no decurso de meus passeios pelos caminhos de Guermantes. Porém meu pai mantivera uma oposição constante a que eu me destinasse à carreira das letras, que julgava bastante inferior à diplomacia, rejeitando-lhe mesmo o nome de carreira, até o dia em que o Sr. de Norpois, que não gostava muito dos agentes diplomáticos das novas fornadas, lhe assegurara que era possível a alguém, enquanto escritor, atrair tanta consideração, exercer tanta ação e conservar mais independência do que nas embaixadas.

            - Quem diria! Eu não teria acreditado, o velho Norpois não é de todo contrário à idéia que te fazes da literatura - me dissera meu pai. E, como ele próprio fosse bastante influente, julgava não haver nada que não se arranjasse, que não encontrasse uma solução favorável na conversação de pessoas importantes:

            -Vou trazê-lo para jantar uma noite destas, saindo da Comissão. Vais falar um pouquinho com ele, a fim de que ele possa te avaliar. Escreve alguma coisa que possas lhe mostrar; é muito relacionado com o diretor da Revista dos Dois Mundos, conseguirá que faças parte dela, arranjará isso, é um velho esperto; e, por Deus, dá a impressão do que é a diplomacia hoje...

            A felicidade que sentia em não me ver separado de Gilberte me tornava desejoso, porém não capaz, de escrever algo bem bonito para ser mostrado ao Sr. De Norpois. Depois de algumas páginas preliminares, com o tédio me fazendo cair a pena das mãos, eu chorava de raiva pensando que jamais teria talento, que não era dotado e nem poderia sequer aproveitar a oportunidade que a próxima visita do Sr. Norpois me ofereceria de permanecer sempre em Paris.            Somente a idéia de que me deixar ouvir a Berma me aliviava o desgosto. Mas assim como só desejava contemplar tempestades nos litorais onde eram mais violentas, da mesma forma iria ouvir a grande atriz num daqueles papéis clássicos em que Swann me afirmara que ela atingia a sublimidade. Pois, quando estamos na espera de preciosa descoberta e desejamos receber certas impressões da natureza, sentimos algum escrúpulo em deixar nossa alma acolher, em vez de impressões menores, que poderiam nos enganar quanto ao exato valor de Berma em Andrômaca, nos Caprichos de Marianne, em Fedra, era uma das coisas famosas que minha imaginação tanto desejara. Teria o mesmo divertimento que no dia em que uma gôndola me conduzisse para junto do Ti Frari ou dos Carpaccio de San Giorgio del Schiavoni, se alguma vez ouvidos pela Berma os versos: ''Diz-se que uma súbita partida vos afasta de nós, Senhor,'' etc.

            Eu os reconhecia pela simples reprodução em preto-e-branco das edições impressas; mas meu coração batia quando pensava, como na real uma viagem, que por fim os veria banharem-se de fato na atmosfera o ensolaramento da voz dourada. Um Carpaccio em Veneza, a Berma obras-primas da arte pictórica ou dramática cujo prestígio que se lhes faziam, eram tão vivas em mim, isto é, tão indivisíveis, que, se eu tivesse ido ver os quadros numa sala do Louvre ou a Berma em alguma peça da qual jamais ouvira; teria experimentado o mesmo espanto delicioso de ter enfim os olhos, diante do objeto inconcebível e único de tantos milhares de sonhos meus; esperando do desempenho da Berma revelações sobre certos aspectos da dor, parecia-me que o que houvesse de grande e verdadeiro nesse, deveria sê-lo ainda mais se a atriz o super pusesse à uma obra de valor legítimo em vez de ornar; em suma, verdade e beleza sobre uma trama medíocre e valiosa.

            Por fim, se fosse ouvir a Berma numa peça nova, não me seria sua arte, sua dicção, visto que não poderia fazer distinção entre um conhecido previamente, e aquele que lhe acrescentariam entonações e me pareciam formar um só corpo com ele; ao passo que as obras antigas, sabia de cor, surgiam-se como vastos espaços reservados e prontos, onde apreciar em plena liberdade as invenções de que a Berma as cobriria, com os permanentes achados de sua inspiração. Infelizmente, há anos que ela deixara os grandes palcos e fazia a fortuna de um teatro do qual era a estrela, e já não representava os clássicos, e por mais que eu conhecesse os cartazes, eles nunca anunciavam senão peças recentes, escritas expressamente para ela pelos autores em voga; quando, certa manhã, procurando na coluna de teatros as matinês da semana do Ano-Novo, vi pela primeira vez no fim do espetáculo, depois de um erguer de pano provavelmente insignificante, pareceu opaco, pois continha todo o pormenor de uma ação que eu ignorava nos atos da Fedra com a Sra. Berma, e nas matinês seguintes: Le Demi-Monde; Os caprichos de Marianne, nomes que, como o de Fedra, eram transparentes a mim, preenchidos unicamente de claridade, de tanto que a obra me era combinada até o fundo por um sorriso de arte. Eles me pareceram acrescentar natureza à própria Sra. Berma quando li nos jornais, após o programa desses espetáculos, que fora ela quem resolvera mostrar-se novamente ao público em algumas de suas antigas criações. Portanto, a artista sabia que determinados papéis têm um interesse que sobrevive à novidade de seu aparecimento, ou ao sucesso da reprise; considerava-os, interpretados por ela, como obras-primas de museu que podia ser instrutivo repor aos olhos da geração que a havia admirado, ou daquela que não a vira. Colocando assim em cartazes, no meio de peças que só eram destinadas a fazer passar o tempo de um sarau, Fedra, cujo título não era maior que o das outras; onde se imprimia em caracteres diferentes, ela o acrescentava ali como o subentendido de uma dona de casa que, ao apresentá-lo aos convivas no momento de ir para a mesa, lhes diz, em meio aos nomes dos convidados que são apenas convidados, e no mesmo tom com que citou os outros: Sr. Anatole France.

            O médico que me tratava o que me proibira qualquer viagem desaconselhou a meus pais que me deixassem ir ao teatro; voltaria para casa doente, talvez por muito tempo, e afinal sentiria mais sofrimento do que prazer. Esse temor poderia me fazer desistir, se aquilo que esperava de uma tal representação fosse unicamente um prazer que, em suma, um sofrimento posterior pode anular. Porém-assim como no caso da viagem a Balbec e a Veneza, que desejara tanto o que eu pedia àquela manhã, era algo bem diverso de um prazer: eram verdades pertencentes a um mundo mais real que aquele em que eu vivia, e as quais, uma vez processada a aquisição, não poderiam mais ser subtraídas por incidentes insignificantes da minha vida ociosa, mesmo que fossem dolorosos ao meu corpo. Quando muito, o prazer que sentiria durante o espetáculo se me afigurava como a forma talvez necessária da percepção dessas verdades; e era o bastante para que eu desejasse que as moléstias previstas só começassem depois de finda a representação, para que esta não fosse comprometida e falseada por elas. Implorava a meus pais que, desde a visita do médico, já não queriam permitir que fosse à Fedra. Recitava pra mim mesmo, sem parar, atirada:

            Diz-se que uma súbita partida vos afasta de nós... procurando todas as nações possíveis, a fim de melhor avaliar o inesperado da que a Berma acharia. Oculta como o Santo dos Santos sob o pano, de boca que a disfarçava e por trás do coral eu lhe atribuía a cada instante um novo aspecto, segundo estas palavras decoradas na plaqueta encontrada por Gilberte que me voltavam ao espírito: 

            ''-Nobreza plástica, cilício cristão, palidez jansenista, princesa de Trézene e de Cleves, miceniano, símbolo délfico, mito solar", a divina beleza que devia me revelar o empenho da noite e do dia sobre um altar perpétuo à Berma, a mensagem ficava no fundo da minha alma, a cujo respeito meus pais severos e levianos decidiram se ela encerraria ou não, e para sempre, as perfeições da Deusa revelada no mesmo lugar onde se erguia sua forma invisível. E, com os olhos fixos na imagem inconcebível, eu lutava da manhã à noite, contra os obstáculos que a família me opunha. Porém, quando todos foram vencidos, quando ainda que aquela matinê tivesse lugar precisamente no dia da sessão, após a qual meu pai devia trazer o Sr. de Norpois para jantar ele me disse:

            "Mas não queremos te aborrecer; se achas que terás tanto prazer, então deves ir''; aquele dia de teatro, até então proibido, só dependeu de mim, então, pela primeira vez, já não tendo que me preocupar que deixasse de ser impossível, per se seria desejável, se outros motivos além da proibição de meus pais levariam a renunciar a ele. Em primeiro lugar, após ter detestado sua crueldade, o consentimento deles os tornava tão caros para mim, que a idéia de desgosto me aborrecia, e, através desse aborrecimento, a vida já não parecia como tendo por objetivo a verdade, e sim o carinho, e não me parecia melhor ou pior, senão conforme os meus pais fossem felizes ou infelizes.

            "Preferia que não fosse se isso vai afligi-lo", disse a minha mãe, a qual, ao contrário, se esforçava por me fazer ter essa idéia preconcebida de que ela pudesse se entristecer com aquilo; agora acabaria por estragar o prazer que eu teria em ouvir a Fedra, cuja concessão, ela e meu pai tinham voltado atrás em sua proibição. Aí então, aquela obrigação de sentir prazer me parecia bem pesada. Depois, se eu voltasse estaria curado suficientemente rápido para poder ir aos Champs-Élysées; durante as férias, logo que Gilberte voltasse?

            Para decidir do que devia ultrapassar todas essas razões; eu confrontava a idéia, invisível por trás de seu véu, a perfeição de Berma. Punha num dos pratos da balança "sentir mamãe triste, arrependido por não poder ir aos Champs-Élysées", no outro, "palidez jansenista, mito solar'', porém essas mesmas palavras acabavam se obscurecendo em meu espírito; não diziam mais nada, perdiam todo seu peso; pouco a pouco minhas hesitações tornavam-se tão dolorosas que, se agora optasse pelo teatro, seria apenas para cessar as dúvidas e livrar-me delas de uma vez por todas. Seria para abreviar meu sofrimento, não mais na esperança de um benefício intelectual e cedendo à atração da perfeição, que me deixaria levar não para a Sábia Deusa e, sim, para a implacável Divindade sem rosto e sem nome que a substituíra sub-repticiamente debaixo do véu. Porém bruscamente tudo se mudou, meu desejo de ir ouvir a Berma recebeu um novo impulso, que me permitiu esperar com impaciência e alegria aquela matinê; ocorreu-me quando fui fazer diante da coluna dos teatros a minha parada diária de elitista; ultimamente, vira, úmido ainda, o cartaz detalhado da Fedra que tinham acabado de colar pela primeira vez (e onde, na verdade, o resto da distribuição não tinha nenhum atrativo novo que pudesse me fazer tomar uma decisão). Mas, um dos objetivos, entre os quais oscilava a minha indecisão, uma forma mais concreta e - já que o cartaz estava datado, não do dia em que o lia; mas daquele em que ocorreria a representação, e com a própria hora em que se ergue - quase iminente, já em vias de realização, de modo que pulei de alegria, ao pensar que, naquele dia, exatamente naquela hora, estaria presente para ouvir Berma; sentado no meu lugar; e, com medo que meus pais já não tivessem reservado dois lugares para mim e minha avó; dei um pulo até em casa, como estava entusiasmado por estas palavras mágicas que haviam substituído, em meu pensamento, as expressões "palidez jansenista" e "mito solar": "As damas devem permanecer sem chapéu durante a representação, e as portas serão fechadas às duas horas em ponto.''

            Infelizmente, essa primeira representação foi grandemente um desgosto. Meu pai propôs nos levar, a minha avó e a mim, ao teatro, quando saísse da sessão da Comissão. Antes de sair de casa, disse à minha mãe:

            "Trata de fazer um bom jantar, estás lembrada que vou trazer o Sr. de Norpois?"

            Minha mãe não se lembrava. E desde a véspera, Françoise, feliz por entregar-se à arte culinária, com certeza possuía um dom, e aliás estimulada pelo anúncio de um convidado novo, no sabendo que teria de preparar, segundo os métodos só dela conhecidos: vaca na geléia, vivia na efervescência da criação; como desse extrema importância à qualidade intrínseca dos materiais que deveriam entrar no preparo, foi ela mesma ao Mercado Central Halles para obter os mais belos pedaços de alcatra, de pé e de mocotó de vitela, tal como Michelangelo quando passava oito meses nas montanhas de Carrara para escolher os blocos de mármore mais perfeitos destinados ao monumento de Júlio II. Françoise empregava tal ardor, nessas idas e vindas, que mamãe vendo o seu rosto inflamado, temia que a nossa velha criada ficasse doente de exaustão como o autor do túmulo dos Médicis nas pedras de Pietrasanta. E, desde a véspera, Françoise mandara cozer, no forno de padeiro, protegido por uma camada de miolo de pão, como um mármore cor-de-rosa; que ela denomina presunto de New York. Julgando o idioma menos rico e seus próprios ouvidos não muito confiáveis, sem dúvida na primeira vez que ouviu falar do presunto de New York pensara - achando um desperdício inacreditável o vocabulário que pudesse existir, ao mesmo tempo, York e New York – que não tinha ouvido direito e que lhe tinham querido dizer o nome que ela já conhecia. Desde então a palavra York se fazia preceder, nos seus ouvidos, ou diante de seus olhos que lesse num anúncio, de um "New", que ela pronunciava Neu. E era com a melhor boa-fé do mundo que ela dizia à criada de cozinha:

            "Vá buscar presunto a senhora me recomendou que seja de ''Neu York."

            Naquele dia, Françoise na ardente certeza dos grandes criadores, seu quinhão era a cruel pesquisadora. Sem dúvida, enquanto não ouvi a Berma senti prazer. Desfrutava do largo que precedia o teatro e cujos castanheiros desfolhados iam depois, luzir com reflexos metálicos assim que os bicos de gás acesos passassem em detalhe os seus ramos; diante dos encarregados da fiscalização dos bilhetes de entrada - cuja promoção e o destino dependiam da grande artista- pois só ela mandava nessa administração, a cuja testa diretores efêmeros e puramente na obscuridade e que pegavam nossas entradas sem nos olhar, porque tinham a preocupação de saber se todas as prescrições da Sra. Berma tinham sido transmitidas ao pessoal novo; se ficara bem claro que nunca teriam de aplaudi-la; que as janelas deviam estar abertas, enquanto ela não estivesse e a menor porta fechada depois; com um pote de água quente dissimulando dela para fazer cair a poeira do palco; de fato, dali a um instante a sua tirada por dois cavalos de longa crina ia parar diante do teatro, e ela desceria em peles, respondendo com um gesto entediado aos cumprimentos; e uma de suas acompanhantes para se informar sobre o proscénio reservado para seus amigos; sobre a temperatura da sala, o arranjo dos camarotes, a arrumadeiras, teatro e público; sendo que para ela o teatro era apenas um segundo traje, mais externo; um condutor, melhor ou pior que seu talento teria de atravessar. Senti-me feliz na própria sala; desde que soubera que - ao contrário do que me fora por um tempo representado pela minha imaginação infantil; só haveria um cenário para todo o mundo, pensava que os outros espectadores deviam impedir de ver direito, como quando estamos no meio de uma multidão - ora, percebi, ao contrário, graças a uma disposição que é como o símbolo de toda percepção que cada um se sente no centro do teatro; o que me explicou por que uma vez mandado Françoise ver um melodrama na terceira galeria, ela houvesse, ao voltar, que o seu posto era o melhor que podia haver, em vez de ser muito longe sentira-se intimidada pela viva e misteriosa proximidade das cortinas. Meu prazer aumentou ainda mais quando comecei a distinguir, atrás, abaixado, rumores confusos como os que a gente ouve sob a casca do ovo de um pinto que vai nascer, rumores que logo aumentaram e, de repente, daquele impenetrável ao nosso olhar, mas que nos via do seu, dirigiram-se indubitáveis a nós sob a forma imperiosa de três pancadas, tão emocionantes, vindos do planeta Marte. E tão logo se ergueu o pano quando, no palco apareceu uma escrivaninha e uma lareira, aliás bem ordinárias, indicaram que as personagens iam entrar seriam, não atores que tivessem vindo para recitar, como vira numa recepção, porém homens dispostos a viver um dia de suas vidas; penetrava por arrombamento sem que pudessem me ver, meu prazer duradouro; foi interrompido por uma breve inquietação; justo quando eu tinha os ouvidos em alerta, antes que a peça começasse, dois homens entraram no palco, visto que falavam com força bastante para que naquela sala, onde havia mais de mil pessoas, se entendessem todas as suas palavras, ao passo que num café a gente é obrigado a perguntar ao garçom o que dizem dois indivíduos engalfinhados; mas, no mesmo instante, espantado por ver que o público sem protestar, mergulhado como estava num silêncio unânime; breve veio sussurrar um riso aqui, um outro ali, compreendi que esses, eram atores e que a peça, chamada anteato, acabava de começar. Foi por um entreato tão longo que os espectadores, de volta a seus lugares impacientavam e batiam com os pés. Aquilo me assustou; pois, assim como no sumário de um processo, quando eu lia que um homem de coração generoso, vinha, a despeito de seus interesses, testemunhar em favor de um inocente, eu temia sempre que não fossem suficientemente amáveis com ele, que não se mostrassem bastante reconhecidos, que não o recompensassem largamente, e que, desgostoso, ele se pusesse ao lado da injustiça - da mesma forma, assimilando naquilo o gênio à virtude, temia eu que a Berma, aborrecida com os maus modos de um público tão mal-educado no qual, pelo contrário, gostaria que ela pudesse reconhecer com satisfação algumas celebridades a cuja crítica ela atribuía importância-, exprimisse o seu descontentamento e seu desdém atuando mal. E olhava com ar de súplica aqueles brutamontes turbulentos que, no seu furor, iam quebrar a preciosa e frágil impressão que eu viera buscar. Por fim, os últimos momentos de meu prazer ocorreram durante as primeiras cenas de Fedra. A personagem Fedra não aparece nesse começo do segundo ato; e, no entanto, desde que se ergueu o pano e um segundo pano, este de veludo vermelho, se afastou, aumentando o tamanho do palco em todas as peças em que atuasse a estrela, uma atriz entrou pelos fundos, com o rosto e a voz que me haviam dito serem os da Berma. Provavelmente haviam mudado a distribuição dos papéis, tornava-se inútil o cuidado que eu tivera em estudar o papel da mulher de Teseu. Mas uma outra atriz replicou à primeira. Enganara-me tomando esta pela Berma, pois a segunda se parecia ainda mais com ela e, mais que a outra, possuía a sua dicção. Além disso, ambas acrescentavam nobres gestos a seu papel-gestos que eu percebia claramente, compreendendo sua relação com o texto, enquanto elas erguiam seus belos peplos (túnica sem mangas) -, e também engenhosas entonações, ora passionais, ora irônicas, que me faziam entender o significado de um verso que havia lido em casa sem prestar muita atenção ao que dizia. Mas de súbito, na separação do pano vermelho do santuário, como num quadro, surgiu uma mulher e, a seguir, pelo medo que senti, muito mais do que o podia ser o da Berma, de que a incomodassem abrindo uma janela, de que alterassem o som de uma de suas palavras amarrotando um programa, de que a indispusessem aplaudindo suas companheiras e não a aplaudissem de forma suficiente; à minha maneira, mais absoluta ainda que a da Berma, de não considerar, desde aquele instante, sala, público, atores, peça, e meu próprio corpo, senão como um meio acústico que só tivesse importância na medida em que fosse favorável às inflexões daquela voz, compreendi que as duas atrizes que admirava há poucos minutos não tinham qualquer semelhança com a que acabava de ouvir.

            Porém, ao mesmo tempo, todo meu prazer cessara; por mais que estendesse para Berma os meus olhos, meus ouvidos, meu espírito, para não deixar escapar uma migalha dos motivos que ela me daria para admirá-la, não logrei recolher um sequer. Nem podia, como no caso de suas companheiras, distinguirem, no jogo das inflexões inteligentes, os belos gestos. Escutava-a como se, lendo a Fedra, ou como se a própria Fedra dissesse naquele momento eu a ouvia, sem que o talento da Berma parecesse lhe ter acrescentado coisa alguma. Gostaria para poder aprofundá-la, para tentar descobrir o que havia nela de belo; de parar, imobilizar cada inflexão da artista, cada expressão sua; pelo menos, à força de agilidade mental, tendo, antes de um verso, toda a atenção instalada e alerta. Tentava não me distrair em preparativos uma parte da atenção de cada palavra, de cada gesto; graças à intensidade da minha procura chegara descer tão profundamente nelas como o teria feito se tivesse longo tempo à minha disposição. Mas como era breve essa duração! Mal meus ouvidos ouviam um som, este já era substituído por outro. Numa cena em que permanece imóvel por um instante, o braço erguido à altura do rosto; numa luz esverdeada graças a um artifício de iluminação, diante da decoração que representava o mar, a sala rompeu em aplausos, mas a atriz já havia mudado; o quadro que eu desejaria estudar não mais existia.

            Disse à minha avó que não via bem, e ela me passou o binóculo. Apenas, quando se crê na realidade de usar um meio artificial para fazer com que se mostrem; não equivale inteiramente sentir-se próximo delas. Achava que já não era a Berma a quem via na imagem na lente de aumento. Deixei o binóculo; mas talvez a imagem que o olho recebia, diminuída pela distância, não fosse mais exata; qual das duas era a verdadeira? Quanto à declaração a Hipólito, eu confiara muito nesse que, a julgar pelos sentidos engenhosos que suas companheiras descobriram a todo momento nas partes menos belas, elas certamente teriam entonações muito mais surpreendentes que, em casa, lendo-o, tentara imaginar; mas ela nem sequer chegou aos acentos que Oenone ou Aricie teriam encontrado, passou pela plataforma de melopéia uniforme em todo parágrafo, onde se acham confundidos todos em uma só massa de oposição claríssima; todavia tão ressaltados, cujos efeitos uma atriz trágica mediana teria dado; ou até alunos do colégio, não deixariam de acentuar; além disso, ela o declamou tão depressa que somente quando chegou ao último verso é que minha mente se conscientizou da monotonia intencional que havia imposto aos primeiros.

            Por fim, rompeu meu primeiro sentimento de admiração: foi pelos aplausos frenéticos dos espectadores. Misturei os meus aos deles tentando prolongá-los muito para que, por reconhecimento, a Berma ela superasse a si mesma, a certeza de tê-la ouvido num de seus melhores dias. O que, de resto, é curioso que no momento em que se desencadeou esse entusiasmo do público soube depois, aquele em que a Berma teve um de seus melhores dias. Parece que certas realidades transcendentes emitem, a seu redor, radiações as quais a massa é sensível. É assim, por exemplo, quando ocorre um incidente, quando na fronteira um exército está em perigo, batido ou vitorioso, as notícias bastante obscuras que recebemos e de onde o homem culto não sabe extrair grande coisa, excitam na turbulência, uma emoção que o surpreende e na qual, uma vez que os especialistas o tenham posto ao corrente da verdadeira situação militar, reconhece a percepção, pelo povo, daquela "aura" que envolve os grandes acontecimentos e que pode ser visível a centenas de quilômetros. Tem-se notícia da vitória, ou muito mais quando a guerra acaba, ou imediatamente, pela alegria do porteiro. Descobre-se um traço genial do desempenho da Berma oito dias depois de a ter ouvido, pela crítica, ou de imediato, devido às aclamações da platéia. Porém, estando essa consciência imediata da multidão mesclada a outras cem completamente erradas, os aplausos muitas vezes soavam falso, sem contar que eram levados mecanicamente pela força dos aplausos anteriores, como numa tempestade, uma vez que o mar esteja tão revolto que continua a engrossar, mesmo que o vento não aumente. Não importa; à medida que eu aplaudia, parecia-me que a Berma representava melhor.

            - Pelo menos - dizia a meu lado uma mulher bem vulgar-, ela se consome, se bate de dar pena, corre; isto sim é que é representar!

            E feliz por encontrar estas razões da superioridade da Berma, embora duvidando que elas fossem bastante para explicá-la, como não bastava para explicar a da Gioconda ou do Perseu de Benvenuto a exclamação de um camponês:

            -É tudo muito bem-feito! Tudo em ouro, e bonito! Que trabalho! -compartilhei, ébrio, o vinho grosseiro daquele entusiasmo popular. Ao baixar o pano, fiquei meio desapontado porque o prazer que tanto desejara não fora maior, mas ao mesmo tempo sentia necessidade de prolongá-lo, de não deixar mais, ao sair da sala, essa vida do teatro que por algumas horas fora a minha, e da qual teria me arrancado como se partisse para o exílio, ao voltar diretamente para casa, se ali não alimentasse esperanças de aprender muito sobre a Berma com seu admirador, a quem devia a permissão de ter ido ver a Fedra, o Sr. de Norpois. Fui-lhe apresentado, antes do jantar, por meu pai, que me chamou para tanto ao seu gabinete. Quando entrei, o embaixador se ergueu, estendeu-me a mão, inclinou sua grande estatura, fixando em mim, atentamente, seus olhos azuis. Como os estrangeiros de passagem, que lhe eram apresentados, no tempo em que representava a França, eram mais ou menos de bom grado - até mesmo os cantores da moda- pessoas de importância e de quem sabia então que poderia dizer mais tarde, quando falassem nos seus nomes em Paris ou S. Petersburgo, lembrava-se perfeitamente da noite que passara com eles em Munique ou em Sofia; assumira o hábito de fazê-los notar pela afabilidade a satisfação que sentia ao encontrá-los; mas, além disso, persuadido de que na vida das grandes capitais, se ganha ao contacto por um tempo das individualidades interessantes que as percorrem e dos costume do povo que ali habita; adquire-se um conhecimento aprofundado, que não dão os livros de história, da geografia, dos costumes das diferentes nações, do movimento intelectual da Europa, ele exercia sobre cada recém-chegado, das faculdades de observador a fim de saber de imediato com que tipo estava tratando. Há muito tempo, o governo já não lhe confiava qualquer estrangeiro, mas logo que lhe apresentavam alguém, e que seus olhos tivessem recebido notificação de sua disponibilidade, principiavam ao aproveito, enquanto em todas suas atitudes ele procurava mostrar ao estranho não lhe era desconhecido. Assim, falando-me sempre com com o ar de importância de um homem que conhece, sua vasta esperteza cessava de me examinar com uma curiosidade sagaz e para seu próprio prazer como se eu fosse algum hábito exótico, algum monumento instrutivo, ou estrela em tournée. Desse modo dava provas, para comigo, ao mesmo tempo majestosa amabilidade do sábio Mentor e da curiosidade estudiosa de Anacársis.

            Não me ofereceu absolutamente nada para a Revista dos Dois; mas fez-me um certo número de perguntas sobre minha vida e meras especulações sobre meus gostos, dos quais ouvi falar pela primeira vez como poderia segui-los; ao passo que acreditara até então que seria um dever contando que meus gostos se inclinavam para a literatura, ele não se desviou dele ao contrário com deferência, como de uma pessoa venerável e encantada do círculo seleto, em Roma ou em Dresde, se conserva a melhor lembrança e lastima encontrar tão poucas vezes depois. Devido às circunstâncias dava aparência de invejar-me, sorrindo com um ar quase licencioso, os bons momentos de felicidade que ele, e mais livre, a literatura me faria passar. Mas os próprios textos que o Sr. De Norpois me mostrava da literatura parecia-me como bem diversa da imagem que eu formara em Combray; e, compreendi que tinha tido duplamente razão em renunciar à ela. Até aqui eu percebera apenas que não possuía o dom da escrita; agora o Sr. De Norpois me matava até o desejo de praticá-la. Quis lhe explicar o que havia sido minhas ilusões; trêmulo de emoção, tinha o maior escrúpulo em que todas as minhas palavras fossem o mais sincero equivalente possível; do que havia sentido e tentara formular; o que significava minhas palavras que careciam de claridade. Talvez por hábito profissional, talvez em virtude da tranqüilidade de homem importante; a quem se pede conselho e que, sabendo que terá direção da conversa, deixa o interlocutor se agitar, se esforçar, sofrendo; talvez também, para fazer valer os aspectos de sua cabeça (grega segundo ele, apesar das grandezas suíças), o Sr. de Norpois, enquanto eu lhe expunha, observava uma imobilidade fisionômica tão absoluta como se a gente estivesse diante de um busto antigo e surdo em uma biblioteca. De resto, como o martelo do leiloeiro, ou como um oráculo de Delfos, a voz do que nos respondia impressionava, tanto mais que nada em seu rosto suspeitara qualquer espécie de impressão que havíamos deixado nele, nem sua opinião.

            -Exatamente - disse de súbito, como se a causa estivesse julgada e após haver deixado de gaguejar diante dos olhos imóveis que não me largavam nem um só instante-, conheço o filho de um de meus amigos que, mutatis mutandis, é como você - (e, para falar de nossas inclinações comuns, assumiu o mesmo tom tranqüilizador como se se tratasse não de tendências para a literatura e sim para o reumatismo, e quisesse mostrar que a gente não morria disso). - Ele também preferiu largar o Quai d'Orsay, onde no entanto, o caminho já lhe fora aberto pelo pai e, sem se preocupar com o que diriam, pôs-se a escrever. E certamente não teve ocasião de se arrepender. Publicou há dois anos; além disso, naturalmente, ele é muito mais velho que você; uma obra relativa ao sentimento do Infinito na margem ocidental do lago Vitória-Nianza e, este ano, um opúsculo menos importante, mas traçado com pena hábil, às vezes até acertada, sobre o fuzil de repetição no exército búlgaro, que o puseram numa situação verdadeiramente única. Já percorreu um belo caminho, não é homem de parar no meio, e sei que, sem que tenha sido considerada a idéia de uma candidatura, aventaram seu nome duas ou três vezes na conversação, e de um modo que nada era desfavorável, à Academia de Ciências Morais. Em suma, sem poder dizer ainda que ele esteja no auge, o fato é que conquistou com muita luta uma posição bastante boa e o sucesso, que nem sempre acorre aos agitados e espertalhões, aos bisbilhoteiros que quase sempre são uns farsantes, o sucesso recompensou os seus esforços.

            Meu pai, já me vendo acadêmico dentro de alguns anos, respirava uma satisfação que o Sr. de Norpois levou ao máximo quando, após um momento de hesitação, durante o qual parecia calcular as conseqüências de seu ato, me disse estendendo-me seu cartão de visitas:

            -Portanto, vá vê-lo de minha parte, ele poderá lhe dar conselhos úteis. - causando-me com tais palavras uma agitação tão penosa como se tivesse anunciado que no dia seguinte eu seria embarcado como grumete a bordo de um veleiro.

            Minha tia Léonie me fizera herdeiro, ao mesmo tempo que de muitos objetos e móveis bastante incômodos, de quase toda a sua fortuna líqüida; revelando assim, após a morte, um afeto por mim que eu estava longe de suspeitar enquanto ela vivera. Meu pai, que devia gerir essa fortuna até a minha maioridade, consultou o Sr. de Norpois sobre um certo número de investimentos. Este o aconselhou a empregar o dinheiro em títulos de escasso rendimento, que julgava especificamente sólidos; notadamente os Consolidados ingleses de 4% por 100% russo.

            - Com investidores de primeiríssima qualidade - disse o Sr. de Norpois-, se o rendimento é muito elevado, pelo menos você tem segurança de nunca ver em perigo o capital.

            Quanto ao resto, meu pai lhe contou por alto o que havia comprado. O Sr. Norpois demonstrou um imperceptível sorriso de felicitações; como todos os capitalistas considerava a fortuna uma coisa invejável; porém achava mais delicado só cumprimentar por um sinal de inteligência mal-confesso à pessoa que a possuía; por outro lado, como ele próprio era fabulosamente rico, julgava de bom grado a impressão de considerar enormes os rendimentos menores de outrem; o reconhecimento alegre e confortável quanto à superioridade dos seus.,E não hesitou em cumprimentar meu pai pela "composição" de seus papéis, "de um gosto seguro, delicado e fino". Poderia se dizer que atribuía às relações dos valores aplicados na bolsa entre si; e até aos valores da Bolsa em si mesmos, tal um mérito estético. De um deles, bem novo e desconhecido, de que lhe falou meu pai, o Sr. de Norpois, semelhante a essas pessoas que leram livros os quais apenas achava conhecer, lhe disse:

            -Sim, e me diverti durante algum tempo ao seguir as cotações; era interessante - com o sorriso retrospectivamente de um assinante que leu o último romance de uma revista, aos pedaços. - Eu não o desaconselharia a subscrever a emissão que vai ser lançada novamente. É atraente, pois os títulos são oferecidos a preços tentadores. Ao contrário, para certos valores antigos, meu pai, não se recordando os nomes, fáceis de confundir com os de ações similares, abriu uma mostrou os próprios títulos ao embaixador. A vista deles me encantou; eram todos de flechas de catedrais e de figuras alegóricas, como certas publicações românticas antigas, que eu outrora folheara. Tudo aquilo que pertence a um tempo se assemelha; os artistas que ilustram os poemas de uma época; mesmos que têm trabalhos encomendados pelas Sociedades Financeiras lembrava tão bem certas brochuras da Notre Dame de Paris e das obras de Gerardo de Nerval, tais como eram penduradas na fachada do armazém de Combray, em seu enquadramento retangular, florido, que divindades fluviais suspendiam uma ação nominativa da Companhia das Águas.

            Meu pai sentia pelo meu tipo de inteligência um desprezo suficientemente temperado pela ternura para que, no total, seu sentimento sobre tudo o que fosse de uma indulgência cega. Assim, não hesitou em me mandar buscar um pequeno poema em prosa, que eu fizera antigamente em Combray, durante um passeio. Escrevera-o com uma exaltação que me parecia dever continuar aos que o lessem. Porém, a peça não conseguiu seduzir o Sr. de Norpois porque sem me dizer uma só palavra ele me restituiu.

            Minha mãe, cheia de respeito pelas ocupações de meu pai, veio perguntar timidamente se poderia mandar servir. Tinha medo de interromper uma conversa na qual não teria de tomar parte. E, de fato, a todo o instante meu pai lera ao marquês alguma medida útil que tivessem decidido sustentar na próxima sessão da Comissão, e o fazia no tom particular de dois colegas que se encontram num meio diferente - e nisso se assemelhavam a dois colegiais - cujos profissionais criam lembranças comuns onde não têm acesso os outros os quais se desculpam por se reportar em sua presença.

            Mas a perfeita independência dos músculos da face, a que atinou o Sr. De Norpois, permitia-lhe escutar sem dar impressão de ouvir. Meu pai acabava de se empalhar:

            - Tinha pensado em pedir a opinião da Comissão... - dizia ao Sr. de Norpois depois de longos preliminares. Então, do rosto do aristocrata virtuose que guardara a inércia de um instrumentista ao qual ainda não chegou o momento de executar a sua parte, saía com fluência monótona, num tom agudo e como que só para encerrar, mas desta vez confiada a um outro timbre, a frase começada: - Que, fica entendido, você não hesitará em reunir, tanto mais que conhece individualmente os membros, que podem ser facilmente substituídos. - Em si mesma não era, evidentemente, um remate muito extraordinário. Mas a imobilidade que a precedera fazia-a destacar-se com a nitidez cristalina, o imprevisto quase malicioso dessas frases pelas quais o piano, silencioso até então, replica, no momento desejado, ao violoncelo que a gente acaba de ouvir, em um concerto de Mozart.

            - Muito bem, ficaste contente com tua matinê? - perguntou meu pai enquanto íamos para a mesa, para me fazer brilhar e pensando que meu entusiasmo me faria ser bem avaliado pelo Sr. de Norpois. -Ele foi ouvir a Berma hoje cedo; lembra que tínhamos falado nisto juntos - disse, voltando-se para o diplomata com o mesmo tom de alusão retrospectiva, técnica e misteriosa como se se tratasse de uma sessão da Comissão.

            - Deve ter ficado encantado, sobretudo se era a primeira vez que a ouvia. O senhor seu pai se alarmava com as conseqüências que essa pequena saída podia ter sobre seu estado de saúde, pois você é um tanto delicado, um tanto frágil, creio. Porém, tranqüilizei-o. Os teatros já não são hoje o que eram há apenas vinte anos. Temos lugares mais ou menos confortáveis, uma atmosfera renovada, embora ainda tenhamos muito que fazer para atingir a Alemanha ou a Inglaterra, que, a esse respeito, como a muitos outros, estão bastante avançadas quanto a nós. Não vi a Sra. Berma em Fedra, mas ouvi dizer que estava admirável. E você naturalmente ficou deslumbrado?

            O Sr. de Norpois, mil vezes mais inteligente que eu, devia ter aquela verdade que eu não soubera extrair do desempenho da Berma, e ia revelá-la para mim; respondendo à sua pergunta, ia rogar-lhe que me dissesse em que consistia essa verdade; e ele justificaria assim o desejo que eu tivera de ver a atriz. Só desfrutava de um momento, era preciso aproveitá-lo e fazer encaminhar meu interrogatório sobre os pontos essenciais. Mas quais eram? Fixando toda minha atenção sobre as impressões tão confusas que tivera, e de modo algum pensando em me fazer admirar pelo Sr. de Norpois, e sim em obter dele a verdade ansiada, não buscava substituir as palavras que me faltavam por expressões feitas; balbuciei e finalmente, para tentar provocá-lo a declarar o que a Berma possuía de admirável, confessei que ficara decepcionado.

            -Mas como - exclamou meu pai, preocupado com a impressão lastimável, alegando minha incompreensão, poderia produzir sobre o Sr. de Norpois-, como dizer que não sentiste prazer? Tua avó nos contou que não perdias uma só palavra do que a Berma dizia, que teus olhos estavam fora das órbitas, não havia ninguém na sala como tu.

            - Mas sim, eu escutava com todas as forças para saber o que fazia de tão notável. É claro que ela está muito bem...

            - Se ela está muito bem, que mais te falta?

            - Uma das coisas que certamente contribuem para o sucesso Berma disse o Sr. de Norpois voltando-se com deferência para minha mãe, a fim não deixá-la fora da conversa e de cumprir conscienciosamente com sua cortesia para com uma dona-de-casa- é o gosto perfeito que ela aplica na interpretação de seus papéis e que lhe vale sempre êxito legítimo e de boa qualidade. Não faz o papel de mediocridades. Veja, ela se atirou ao papel de Fedra. Aliás, esse bom gosto ela o aplica em suas toaletes, no seu desempenho. Ainda que tenha feito proveitosas turnês na Inglaterra e na América, a vulgaridade, não diria, John Bull, o que seria injusto pelo menos para a Inglaterra da era vitoriana, Tio Sam não se abateu sobre ela. Jamais cores muito berrantes, jamais grito exagerados. E depois, aquela voz admirável que a serve tão bem e que ela emprega de maneira fascinante, seria quase tentado a dizer musical!

            Meu interesse pelo desempenho da Berma, não cessara de aumentar desde o fim da representação, porque não mais sofria a compressão dos limites da realidade; porém, eu experimentava a necessidade de lhe achar explicação disso; o interesse agira com igual intensidade, enquanto a Berma atuo tudo aquilo que ela oferecia, na indivisibilidade da vida, a meus olhos, ouvidos; não distinguira, nem havia separado nada; assim meu interesse ao descobrir um motivo racional naqueles elogios à simplicidade, ao bom artista, os atraía para si pelo seu poder de absorção, apoderava-se como o otimismo de um bêbado se apodera das ações do próximo, nas quais encontra motivo de enternecimento. "É verdade", dizia comigo, "que voz bonita, que gritos, que vestidos simples, que inteligência em ter escolhido a Fedra; fiquei decepcionado."

            Apareceu o rosbife com cenouras, deitado pelo Michelangelo de nossa cozinha, sobre enormes cristais de geléia semelhantes a blocos de quartzo transparente.

            - A senhora tem um mestre-cuca de primeira ordem, madame disse o Sr. de Norpois. - E isso não é pouco. Eu que tive de sustentar no estrangeiro padrão de vida doméstica, sei o quanto é freqüentemente difícil encontrar um perfeito mestre-cuca. A senhora nos convidou para um verdadeiro banquete.

            E, de fato, Françoise, sobre excitada pela ambição de realizar, à um convidado importante, um jantar semeado de dificuldades dignas dela, pelo esforço a que não se entregava mais quando estávamos a sós, reencontrara na forma incomparável de Combray.

            -Eis o que não se pode encontrar nos restaurantes, e digo nos melhores: um prato de carne estufada e onde a geléia não cheire a cola; em que a carne se impregne do odor das cenouras, é admirável! Permita-me repetir - acrescentou ele, fazendo sinal de que desejava mais geléia. -Teria curiosidade de julgar o seu Vatel, agora numa iguaria inteiramente diversa; gostaria, por exemplo, de encontrá-lo às voltas com a carne à Strogonoff.

            O Sr. de Norpois, para contribuir também seu lado à satisfação do repasto, contou-nos várias histórias com as quais muitas vezes brindava os colegas de carreira; ora citando um discurso ridículo pronunciado por um político useiro e vezeiro nessas coisas; que os fazia longos e cheios de imagens incoerentes; ora determinada frase lapidar de um diplomata cheio de concisão. Mas, para falar a verdade, o critério que, para ele, distinguia essas duas espécies de frase em nada se parecia com o que eu aplicava à literatura. Muitas das nuanças me escapavam; as palavras que ele recitava às gargalhadas não me pareciam muito diferentes das que eu julgava notáveis. O Sr. de Norpois pertencia ao gênero de homens que, para as obras que eu amava, teria dito:

            "Então, compreende? Quanto a mim, confesso que não compreendo, não sou um iniciado", mas eu podia retrucar na mesma moeda, pois não alcançava o espírito, ou a asneira, a eloqüência, ou o excesso, que ele encontrava numa réplica ou num discurso; a ausência de toda a razão perceptível, para que isto fosse mau, e aquilo fosse bom, fazia com que essa espécie de literatura me parecesse mais misteriosa, mais obscura que qualquer outra. Percebi apenas que repetir o que todos pensavam não era em política, um sinal de inferioridade mas de superioridade. Quando o Sr. de Norpois se utilizava de certas expressões que se encontram nos jornais, pronunciando-as com força, sentia-se que elas se transformavam em ação, pelo simples fato de que as empregara, e uma ação que suscitaria comentários.

            Minha mãe contava muito com a salada de ananás e trufas. Mas o embaixador, depois de exercer sobre as iguarias, por alguns instantes, a penetração de seu olhar de observador, comeu-as, permanecendo envolto em discrição diplomática sem nos externar seu pensamento. Minha mãe insistiu que ele repetisse, e o Sr. de Norpois concordou, dizendo apenas em vez do cumprimento que esperavam:

            -Obedeço, madame, pois vejo que se trata de um verdadeiro ucasse de sua parte.

            -Lemos nas "folhas" que o senhor conversou longamente com o rei Teodósio III. - disse meu pai.

            - De fato, o rei, que tem uma memória fisionômica rara, lembrou, ao me avistar no proscênio, que eu tivera a honra de vê-lo durante alguns dias na corte da Baviera, quando ainda nem pensava no trono oriental ( foi chamado por um congresso europeu; até hesitou muito em aceitá-lo, que essa soberania não estava à altura da sua linhagem, a mais nobre do ponto de vista da heráldica, de toda a Europa). Um ajudante de campo veio dizer-me para que fosse saudar Sua Majestade, cujas ordens, naturalmente, apressei-me em obedecer.

            - Ficou satisfeito com os resultados de sua visita?

            - Encantado! Era justo conceber algumas apreensões sobre como um monarca, tão jovem ainda, se sairia naquele passo tão difícil; em conjunturas tão delicadas. De minha parte, eu tinha plena confiança na política do soberano. Mas confesso que foram além de minhas esperanças. O brinde que ele pronunciou no Élysée. De acordo com as informações que me deram de fontes de inteira confiança, fora redigido por ele mesmo, da primeira  até a última palavra, era perfeitamente digno do interesse que despertou por todas as partes. É simplesmente um golpe de mestre; parece-me um tanto ousado; reconheço sua audácia que, afinal, os acontecimentos justificaram plenamente. As tradições diplomáticas têm de fato o seu lado bom, mas, especificamente, acabaram, tanto do seu lado quanto do nosso país, por viverem numa atmosfera abafada que já não era respirável. Muito bem, uma das formas de renovar o ar, evidentemente uma daquelas que não se pode recomendar, mas que o rei Teodósio podia se permitir, era romper os vidros. E ele o fez com um bom humor que encantou a todos; também a precisão de termos onde se reconheceu de imediato a estirpe dos príncipes, à qual ele pertence pelo lado materno. É certo que, quando falou das afinidades que unem seu país à França, a expressão, por mais desusada no vocabulário das chancelarias, era singularmente feliz. Vejam que a literatura vai mal, mesmo na diplomacia, mesmo sobre um trono - acrescentou, dirigindo-se à mim. - A situação era constatada há muito tempo, admito-o, e as relações das duas potências eram excelentes. Ainda assim, era necessário que a expressão fosse dita. A palavra era esperada, foi escolhida às maravilhas, vocês viram o resultado. De minha parte, aplaudi com entusiasmo.

            -Seu amigo, o Sr. de Vaugoubert, que preparava a aproximação há tantos anos, deve ter ficado contente.

            -Tanto mais que Sua Majestade, que tem o hábito de tais gestos fez questão de lhe preparar esta surpresa. De resto, a surpresa foi completa no mundo, a começar pelo ministro das Relações Exteriores, que, ao que diziam, não achou a seu gosto. A alguém que lhe falava, teria respondido com nitidez, em voz bastante alta para ser ouvido pelas pessoas próximas sem ser consultado nem prevenido; indicando claramente assim, que declina responsabilidade pelo ocorrido. É preciso confessar que o acontecimento causou barulho e não ousaria afirmar-acrescentou com um sorriso – que certos colegas, para quem a lei suprema parece ser a do menor valor tinham sido perturbados no seu sossego. Quanto a Vaugoubert, vocês sabem muito tem atacado por sua política de aproximação com a França; deve ter sofrido muito com isso porque é uma pessoa sensível, uma alma requintada. Tenho motivos para confirmá-lo, pois, embora seja bem mais moço que eu de carreira, somos amigos de longa data e conheço-o muito. Aliás, quem o atacaria? É uma alma de cristal. É até o único defeito que se lhe pode alegar: não é preciso que o coração de um diplomata seja tão transparente como o seu - e que se fale em enviá-lo a Roma, o que seria uma bela promoção; porém é um problema sério. Entre nós, creio que Vaugoubert, por mais que seja de ambição, ficaria bem contente e não pediria que o afastassem dele. Quiçá operasse prodígios por lá; é o candidato da Consulta e, de minha parte, imagino-o muito bem; ele que é tão artista, no ambiente do palácio Farnese e na galeria de Carraggios. Parece que pelo menos ninguém poderia odiá-lo. Porém existe em torno do rei Teodósio toda uma camarilha, mais ou menos submetida na Wilhelmstrasse, as inspirações segue docilmente e que tem procurado de todas as maneiras obstáculos. Vaugoubert não tem apenas que enfrentar as intrigas de bastidores; também as injúrias de foliculários pagos, que, mais tarde, covarde jornalista venal, são os primeiros a pedir perdão; mas, enquanto isso são os que lançam, contra o nosso representante, ineptas acusações irresponsáveis. Durante mais de um mês, os inimigos de Vaugobert dançam ao seu redor a dança do escalpo - disse o Sr. de Norpois, sublinhando a última palavra. - Mas um homem prevenido vale por dois; essas injúrias, ele rechaça com a ponta dos pés - acrescentou de forma ainda mais enérgica e com um olhar tão firme que paramos um instante de comer. - Como diz um belo provérbio árabe ''Os cães ladram e a caravana passa."

            Após ter lançado esta citação, o Sr. de Norpois parou para nos olhar e avaliar o efeito que produzira em nós. Foi grande o efeito, porque já era conhecido: substituíra naquele ano, entre os homens de grande valor, "Quem semeia ventos, colhe tempestades", o qual necessitava de repouso, pois não era tão vivaz e infatigável como: "Trabalhar para o Rei da Prússia". Pois a cultura dessas pessoas eminentes, era uma cultura alternativa e geralmente trienal. Criações desse tipo e com as quais o Sr. de Norpois se esmerava em abrir os artigos da Revista, não eram necessárias de modo algum para homens sólidos e bem informados. Mesmo desprovidos de ornamentos as emoções lhe aportavam; bastava que o Sr. de Norpois escrevesse em seu devido tempo – o que ele nunca deixava de fazer: "O gabinete de Saint-Jarnes não foi um dos últimos a sentir o perigo"; ou então "A emoção foi grande no Pont-aux-Chantres, esguia-se com inquietação a política egoísta, porém hábil, da monarquia bicéfala" - ou "Um grito de alarme partiu de Montecitório"; ou ainda "O jogo duplo que é bem próprio do Ballplatz". A tais expressões, o leitor profano reconheceria logo, e saudaria, o diplomata de carreira. Mas, o que fazia com que dissessem que ele era mais do que isso, que possuía uma cultura de emprego racional; de citações, cujo modelo perfeito ficava sendo o seguinte: ''Dê-me uma boa política e eu lhe darei boas finanças, como costumava dizer Louis." (Ainda não se havia importado do Oriente: "Entre dois adversários, a vitória será daquele, que sabe sofrer um quarto de hora a mais do que o outro.'' como dizem os japoneses.) Essa reputação de grande letrado, unida a um verdadeiro gênio de intriga, sob a máscara da indiferença, fizera com que o Sr. de Norpois entrasse para a Academia de Ciências Morais. Algumas pessoas chegaram a pensar que ficaria mal colocado na Academia Francesa, no dia em que, querendo dar a entender que só estreitando a aliança com a Rússia é que poderíamos chegar à Inglaterra, não hesitou em escrever: "Que o saibam bem na Quaid d'Orsay; que ensinem de agora em diante, em todos os livros de geografia, que são incompletos a tal respeito, que recusem implacavelmente o diploma de todo candidato que não souber dizer: Se todos os caminhos levam à Roma, em compensação o caminho que vai de Paris a Londres passa necessariamente por Petersburgo."

            - Em resumo - continuou o Sr. de Norpois dirigindo-se à meu pai - Vaugoubert aí obteve um sucesso que ultrapassa até o que ele próprio, com efeito, contava com um brinde correto (o que, depois das nuvens dos últimos anos, já era muito bom). Diversas pessoas que estavam no banquete me asseguraram que não se pode, lendo este brinde, dar-se cordas que produziu, pronunciado e detalhado às mil maravilhas pelo rei, que tem a arte de falar e que sublinhava de passagem todas as intenções, todas as expressões. A esse propósito, contaram-me um fato bem picante e que realça uma gentileza juvenil do rei Teodósio, que tantos corações cativa. Afirmaram que ao chegar nesse termo "afinidades" que, em suma, era a grande inovação do discurso, e que permanecerá por muito tempo nos comentários das chancelarias, Sua Majestade, prevendo a alegria do nosso embaixador, que ali faria o justo coroamento de seus esforços, pode-se dizer de seus sonhos, pois ia ganhar seu bastão de general; meio que se virou para Vaugoubert fixando aquele olhar tão sedutor dos Oettingen, destacou esta palavra tão bem "afinidades"; expressão que era um verdadeiro achado, num tom que todos sabiam ser empregado com conhecimento de causa. Parece que Vaugoubert, mal pôde dominar sua emoção, em certa medida, confesso que o com uma pessoa digna de todo o crédito, confiou-me até que o rei se apresentou à Vaugoubert depois do jantar, quando Sua Majestade formou círculo, e lhe disse à meia-voz: "Está contente com seu aluno, meu caro marquês?" É certo – analisou o Sr. de Norpois - que semelhante brinde fez mais do que vinte anos de espera para estreitar, entre os dois países, suas "afinidades", conforme a expressão pitoresca de  Teodósio II. Não passa de uma palavra, se quiser, mas veja que destino findou, como toda a imprensa européia a repete, o interesse que ela desperta, o quanto rendeu sua novidade. Aliás, é bem do jeito do soberano. Não chegarei a dizer que todos os dias ele acha diamantes lapidados como esse. Mas, é muito raro alguém em seus discursos estudados, melhor ainda, no primeiro impulso da conversa, deixar sua marca - quase diria a sua assinatura, por uma palavra sem rodeios. Tanto mais que sou menos suspeito de parcialidade na matéria por ser inimigo de toda inovação desse tipo. Dezenove vezes em vinte elas são perigosas.

            - Sim. - disse meu pai - pensei que o telegrama recente do imperador da Alemanha não teria sido do seu gosto.

            O Sr. de Norpois levantou os olhos para o céu como quem diz: "Ah, aquilo!" E respondeu:

            - Primeiro, é um ato de ingratidão. É mais que um crime, é um erro; de uma estupidez que eu qualificaria de colossal! Aliás, se ninguém dá o alarme, o homem que destituiu Bismarck é bem capaz de repudiar aos poucos toda a política bismarckiana, e daí seria o salto no abismo.

            - E meu marido me disse, senhor, que o senhor o levaria talvez num desses verões à Espanha. Fico encantada por ele.

            -Ah, sim, é um projeto muito atraente, do qual me alegro. Gostaria muito de fazer essa viagem com o senhor, meu caro. E a senhora, madame, já pensou em empregar suas férias?

            -Talvez vá com meu filho à Balbec, não sei.

            -Ah! Balbec é agradável. Estive lá faz alguns anos. Estão começando a construir ali umas vilas bem atraentes; acho que o local lhes agradará. Mas posso perguntar o que os fez escolher Balbec?

            - Meu filho deseja muito ver certas igrejas da região, sobretudo a de Balbec. Eu temia um pouco as canseiras da viagem e principalmente da estrada, devido a sua saúde. Mas soube que terminaram de construir um excelente hotel, que lhe permitirá viver nas condições de conforto exigidas pelo seu estado.

            - Ah, será preciso dar esta informação a uma certa pessoa minha amiga, que não é mulher de desdenhá-la.

            -A igreja de Balbec é admirável, não é mesmo, senhor?- Perguntei, superando a tristeza de ter sabido que uma das atrações de Balbec eram suas vilas mortas.

            - Não, ela não é de todo má, mas enfim não pode se comparar às verdadeiras catedrais entalhadas que são as catedrais de Reims, de Chartres e, na minha opinião, a pérola de todas, a Santa Capela de Paris.

            - Mas a igreja de Balbec é em parte romana?

            -De fato, ela é do estilo românico, que, por si mesmo, já é bastante frio e de maneira alguma deixa pressagiar a elegância, a fantasia dos arquitetos góticos que escavam a pedra como se fizessem renda. A igreja de Balbec merece uma visita quando lá nos encontramos, pois é bem curiosa; se num dia de chuva você não tiver o que fazer, poderia entrar nela, e lá veria o túmulo de Tourville.

            - Estava ontem no banquete das Relações Exteriores? Eu não pude ir - disse meu pai.

            - Não. - respondeu o Sr. de Norpois com um sorriso - renunciei à ele em favor de um sarau bem diverso. Jantei na casa de uma senhora a quem talvez já tenham ouvido falar, a bela senhora Swann.

            Minha mãe reprimiu um frêmito, pois, de uma sensibilidade a mais que a de meu pai, alarmava-se por ele com aquilo que só devia continuar um instante após. Os dessabores que a ele ocorreriam eram percebidos como as más notícias da França que são antes conhecidas no estrangeiro antes de chegar em nossa terra. Porém, curiosa de saber que tipo de pessoas os Swann receberam, ela indagou do Sr. de Norpois sobre as quais havia encontrado lá:

            - Meu Deus...é uma casa aonde me parece que vão cavalheiros sós. Havia alguns homens casados, mas suas esposas nessa noite não tinham vindo - respondeu o embaixador com uma risada de bonacheirice e lançando ao redor olhares cuja doçura e discrição vem, exagerando habilmente sua malícia.

            - Devo dizer - acrescentou - para ser perfeitamente justo, que havia mulheres, mas... pertencentes antes... como direi? ao mundo republicano que à sociedade dos Swann (ele pronunciava Svann). Quem sabe? Um dia ali pode ser um salão político ou literário. De resto, parece que estão contentes. Eu diria até que Swann o demonstra um pouquinho demais. Nomeava as pessoas da casa que ele e a mulher eram convidados para a semana seguinte, e de cuja presença, entretanto, não há motivos para se orgulhar, com uma falta de reservas, quase que de tato, que me deixou assombrado em um homem tão fino. Não fazia mais que repetir: "Não temos uma só noite livre",- como se se tratasse de uma coisa gloriosa, de um verdadeiro arrivista, o que ele todavia não é. Pois Swann tinha amigos e até amigas, e sem arriscar demais, nem querer ser indiscreto, creio que não todas, nem sequer o maior número delas, mas pelo menos uma grande dama, não seria talvez totalmente refratária à idéia de tratar com a Sra. Swann, caso em que, verossimilmente, mais de um Carneiro de Panurgo, a teria seguido. [Carneiro de Panúrgio. Alusão ao personagem Panúrgio, do romance Pantagruel, de Rabelais com Pantagruel e amigos de navio, Panúrgio lança ao mar um carneiro para provar a estupidez, em ato contínuo, o rebanho se atira ao mar atrás do primeiro. (N. do T)]. Mas parece que não houve, da parte de Swann, nenhuma insinuação nesse sentido. Como? Mais um pudim à Messelrode? A cura em Carlsbad talvez seja suficiente para me refazer de um festim de Lúculo como este. Talvez Swann se deu conta que havia resistências demais para vencer. O casamento não agradou, isto é não caiu muito bem. Falou-se da fortuna da mulher, o que é uma grande balela. Mas enfim, tudo não pareceu nada agradável. E depois Swann tem uma tia excessivamente rica e de admirável posição social, mulher de um homem que, financeiramente falando, é uma potência. E não só ela se recusou a receber a Sra. Swann, mas iniciou uma campanha em regra para que suas amigas e conhecidas fizessem outro tanto. Não quero dizer com isso que algum parisiense da boa sociedade haja faltado com o respeito à Sra. Swann. Não, cem vezes não! Aliás, o marido é pessoa de erguer a luva. Em todo caso, há uma coisa curiosa: é ver como Swann, que conhece tanta gente e da mais escolhida sociedade, mostra uma solicitude para com uma sociedade da qual o menos que se pode dizer é que é bastante mista. Eu, que o conheci outrora, confesso que senti tanta surpresa, como divertimento, ao ver um homem tão bem-educado, tão na moda nos grupos mais seletos, agradecer com efusão ao chefe de gabinete do Ministro dos Correios por ter vindo à casa deles e perguntar-lhe se a Sra. Swann poderia tomar a liberdade de ir visitar sua esposa. E contudo deve sentir-se deslocado; evidentemente, já não se trata da mesma sociedade. Entretanto, não creio que se sinta infeliz. É verdade que ocorreram, nos anos que precederam o casamento, infames manobras de chantagem por parte da mulher; ela privava Swann de ver sua filha, toda vez que ele lhe recusava algo. O pobre Swann, tão ingênuo quanto refinado, julgava sempre que o rapto da filha era uma coincidência e não queria enxergar a verdade. Além disso, ela lhe fazia cenas tão constantes que a gente pensava que, no dia em que alcançasse seus objetivos e se tornasse esposa de Swann, nada a deteria mais; e a vida de ambos seria um inferno. Pois bem, foi o contrário o que aconteceu. Graceja-se muito sobre a forma como Swann fala da mulher, chega-se a troçar abertamente dele. Certamente não pediriam que, mais ou menos consciente de o ser (vocês sabem a frase de Moliere), ele o fosse proclamar urbi et orbi; nada impede que o achem exagerado quando diz que sua mulher é uma excelente esposa. Ora, isto não é tão falso como julgam. À sua maneira, que não é aquele de todos os maridos prefeririam, mas enfim, cá entre nós, parece-me difícil que Swann, que a conhecia há muito tempo e está longe de ser um tolo, não soubesse com quem estava lidando; é inegável que ela parece sentir afeição por ele. Não digo que ela não seja volúvel e o próprio Swann não se importa em sê-lo, avaliado por boas e más línguas que seguem seu caminho, como bem podem imaginar. Mas é pelo que Swann fez por ela e, contrariamente aos temores que todos sentiam, transformou-se numa doçura de anjo. Essa mudança talvez não fosse tão extraordinária como o achava o Sr. Swann de Odette; não acreditara que Swann terminasse por desposá-la; todas as vezes que lhe anunciava, tendenciosamente, que um homem distinto acabava de se casar com sua amante, vira-o manter um silêncio glacial e, quando muito, se ela falava diretamente, perguntando:

            "Então, não achas que é muito bom, que é ótimo o que ele fez por uma mulher que lhe dedicou sua juventude?" ele contestava secamente:

            "Mas eu não digo que seja mau, cada qual age como quiser." Ela não estava longe de crer que, como lhe dizia Swann nesses momentos ele a abandonaria de uma vez por todas, pois ouvira há pouco de uma escultora:

            "Pode-se esperar tudo dos homens, eles são tão patifes!", e, assustada diante dessa máxima pessimista, que apropriara-se dela, repetia-a a qualquer um com ar desanimado que parecia dizer:

            "Afinal, não seria nada impossível, é esta minha oportunidade." E, conseqüentemente, perdera toda validade a máxima, que até então havia guiado Odette na vida:

            "Pode-se fazer tudo com os homens que amam, eles são tão imbecis", e que se expressava em seu rosto pelo movimento dos olhos que acompanhara frases tais como:

            "Não tenham receio, que ele não há de quebrar nada." Esperando, Odette sofria ao pensar o que uma de suas amigas; casada com um homem com quem estivera menos tempo do que Swann com ela mesma; que não tinha filhos, e era relativamente bem considerada agora; para os bailes do Élysée, o que poderia pensar da conduta de Swann. Um consultor mais profundo do que o era o Sr. de Norpois, sem dúvida teria podido diagnosticar, fora o sentimento de humilhação e vergonha que havia amargurado Odette; que o caráter infernal que ela exibia não lhe era inerente, não era um mal incurável; sem dúvida teria facilmente previsto o que aconteceria, a saber: que um novo regime matrimonial, faria cessar com uma rapidez quase mágica, tais incidentes cotidianos; porém, de modo algum orgânico. Quase todos se espantavam de semelhante casamento, e isto é também espantoso. Claro que poucos compreendem o caráter puramente subjetivo do fenômeno que é o amor; uma espécie de criação, que faz uma pessoa suplementar distinta da que leva o mesmo nome no mundo e que formamos com elementos tirados do próprio interior. Há também poucas pessoas que possam considerar naturais, as proporções que acaba por adquirir para nós, uma criatura que não é a mesma que elas vêem. No entanto, parece que, no que diz respeito à Odette; embora jamais tivessem compreendido inteiramente sua inteligência; pelo menos sabia os títulos e os pormenores de seu trabalho, a ponto de Vermeer lhe ser tão familiar como o nome de sua costureira. Para Swann, eram profundos aqueles traços de caráter, os quais o resto da sociedade ignora, ou ridiculariza; dos quais somente uma amante, ou uma irmã, possuem a imagem se é amada; nos afeiçoamos de tal modo à essas características, mesmo àquelas que desejaríamos corrigir, se as velhas ligações possuem algo da doçura, das afeições de família, é porque uma mulher acaba por se acostumar de forma indulgente e amigavelmente trocista, semelhante ao hábito que bem nos vêem nossos pais. Os laços que nos unem a um ser se santificam quando ele se põe no mesmo ponto de vista nosso, para julgar nossos defeitos. E entre esses traços particulares, havia também os que tocavam tanto à inteligência, como ao caráter de Swann; que todavia, em virtude das raízes que, apesar de tudo, tinham criado nele, Odette discernia com mais facilidade. Ela se queixava que, quando Swann estava escrevendo, quando publicava seus ensaios, tais traços não se reconheciam em seus escritos, tanto como nas cartas ou na conversação, onde eram abundantes. Aconselhava-o a lhes dar mais espaço em seus trabalhos. Odette os desejava, pois era o que preferia nele, mas como os preferia por serem os mais legitimamente dele, talvez não estivesse errada em desejar que os encontrassem no que ele escrevia. Talvez pensasse igualmente que mais vivas obras, trazendo-lhe por fim o sucesso, lhe permitiriam organizar o que, na casa dos Verdurin, aprendera a colocar acima de tudo: um salão.

            Dentre as pessoas que achavam ridículo aquele casamento, pessoas que perguntariam, no próprio caso: "Que pensará o Sr. de Guermantes, que dirá Bréauté, quando me casar com a Srta. de Montmorency?"; dentre as pessoas que cultivavam essa espécie de ideal social, teria figurado, vinte anos antes, o próprio Swann; aquele Swann que fizera tantos esforços para ser admitido no Jockey e contara, naquele tempo, fazer um casamento deslumbrante; que consolidando sua situação, teria feito dele um dos homens mais requisitados de Paris. Apenas, as imagens que um tal casamento por interesse representa ao interessado, como todas as imagens, precisam, para não desaparecer e se apagar de todo, ser alimentadas de fora. Digamos que o seu sonho mais ardente seja humilhar o homem que o ofendeu. Porém, se você nunca mais ouve falar nele, caso ele tenha se mudado para outras terras, seu inimigo acabará por não ter mais nenhuma importância para você. Se perdermos de vista, durante vinte anos, todas as pessoas por causa que gostaríamos de entrar para o Jockey, ou para o Instituto; a perspectiva de sermos membros de uma dessas associações já não nos tentará de modo algum. Ora, tanto como um retiro, uma doença, uma conversão religiosa, uma ligação prolongada substituem as imagens antigas por outras novas.

            Não houve, da parte de Swann, quando desposou Odette, renúncia às ambições mundanas, pois de há muito Odette o desprendera dessas ambições, no sentido espiritual da palavra. Aliás, se não fosse desse modo, maior seria o mérito. Geralmente os casamentos entre amantes são os mais estimáveis de todos (e não se pode, com efeito, chamar de infame um casamento por dinheiro, não havendo por exemplo de um casal em que a mulher, ou o marido se tenham vendido, ao qual não acabem por recepcionar, nem que seja devido à tradição e com fundamento em tantos casos semelhantes, para usar de dois pesos e duas medidas), porque implicam o sacrifício de uma ação mais ou menos elogiosa a uma doçura puramente íntima. Por outro lado, senão como artista, como corrompido. Swann teria, de qualquer modo, experimentado uma certa volúpia em ligar a si próprio, um desses cruzamentos de diferentes espécies como os praticam os seguidores de Mendel; ou como relata a mitologia, um raça diferente, arquiduquesa ou cocote, em contrair uma aliança régia; ou em fazer um mau casamento. Só havia uma pessoa na sociedade com quem preocupava cada vez que pensava no casamento possível com Odette, e era, por puro esnobismo, a duquesa de Guermantes. Odette, ao contrário, não se preocupava em ficar pensando nessas pessoas, mas naquelas situadas imediatamente em escala superior à sua, em vez de se incomodar com um tão vago empíreo. Swann, quase em todas as suas horas de devaneio, via Odette como sua esposa; imaginava invariavelmente, o momento em que a levaria, e sobretudo sua filha, à casa da princesa de Laumes, que há pouco se tornara duquesa de Guermantes pela morte de sua sogra. Não tinha desejo de apresentá-la em nenhum outro lugar, mas, se emocionava inventando; pronunciando até as palavras, tudo aquilo que a duquesa diria à Odette e esta à Sra. de Guermantes; a ternura que esta testemunharia mimando-a, fazendo-o orgulhoso da filha. Representava para si mesmo a cena de apresentação, com a mesma precisão no detalhe imaginário das pessoas calculando, caso ganhassem, um prêmio cuja cifra fixam arbitrariamente. Na medida em que uma imagem ilusória acompanha uma de nossas resoluções motivando-nos; pode-se dizer que, Swann se casou com Odette, para apresentá-la e à sua filha Gilberte, sem que houvesse obstáculos; e que ninguém jamais o soubesse, à duquesa de Guermantes. Iremos ver como esta única ambição, que havia desejado para sua esposa e para sua filha, foi justamente aquela cuja realização seria proibida; por uma negativa tão absoluta que Swann morreu sem que a duquesa alguma vez as conhecesse. Veremos também que, pelo contrário a duquesa de Guermantes se ligou a Odette e Gilberte depois da morte de Swann. Talvez teria sido mais sábio à Swann, se não tivesse atribuído tanta importância a tal fato, que valia tão pouco; não fazendo a mínima idéia que tão sombria no futuro - admitindo que a reunião sonhada poderia ocorrer quando ele já não estive presente para desfrutá-la. O trabalho de causalidade que acaba por produzir quase sempre os efeitos possíveis, e, por conseguinte, também aqueles que a gente julga viáveis; esse trabalho é às vezes moroso, e se torna ainda mais lento nosso desejo - que, buscando apressá-lo, o entrava -, devido à nossa insistência e não chega a seu termo senão quando deixamos de desejar, e às vezes; viver. Por acaso Swann não o sabia por experiência própria? Acaso não houve em sua vida - como uma prefiguração do que devia acontecer após a sua morte – uma felicidade póstuma esse casamento com aquela Odette, que ele amara tanto - embora ela não tivesse lhe agradado à primeira vista - e que ele quando já não a amava, quando já era morta a imagem daquele ser; que ele tinha daquele ser que Swann, tanto desejara e se desesperara de viver a vida toda com Odette?

            Fiquei falando no conde de Paris, perguntando se não seria amigo de Swann, pois temia que a conversa se desviasse dele.

            - Sim, de fato é – contestou o Sr. de Norpois voltando-se para mim e fixando em minha modesta pessoa, onde flutuavam, como seu elemento vital, suas grandes faculdades de trabalho, seu espírito de assimilação.- E, meu Deus - acrescentou, dirigindo-se de novo a meu pai _ não creio passar dos limites do respeito de que faço profissão pelo príncipe (sem, no entanto, manter com ele relações pessoais que fariam difícil a minha situação, por menos oficial que seja) se lhe contar um fato bem picante em que, há não mais de quatro anos, numa estaçãozinha de estrada de ferro de um dos países da Europa central, o príncipe teve oportunidade de ver a Sra. Swann. Certamente, nenhum dos íntimos de Sua Alteza se permitiu lhe indagar como a havia encontrado. Não seria oportuno. Mas quando, por acaso, a conversação tocava no nome dela, por alguns sinais, imperceptíveis se quiserem, mas que não enganam ninguém, o príncipe parecia dar a entender de bom grado que sua impressão, em suma, fora longe de ser desfavorável.

            - Mas não haveria possibilidade de apresentá-la ao conde de Paris? - perguntou meu pai.

            - Ora, não sei; com os príncipes nunca se sabe. - respondeu o Sr. de Norpois-; os mais gloriosos, os que sabem render ao máximo o que se lhes deve, são também, às vezes, os que menos se atrapalham com os decretos da opinião pública, mesmo os mais justificados, por pouco que se cuide de recompensar determinadas afeições. Ora, é certo que o conde de Paris aceitou sempre com muita benevolência o devotamento de Swann, que é, aliás, um rapaz de espírito como poucos.

            - E qual foi sua impressão pessoal, senhor embaixador? - Indagou minha mãe por polidez e curiosidade.

            Com a energia de um velho conhecedor que contrastava com a moderação habitual de suas frases:

            - Excelente! - respondeu o Sr. de Norpois.

            E, sabendo que a confissão de uma forte impressão causada por alguma mulher, desde que feita com humor, toma parte de uma certa forma bastante apreciada do espírito da conversa, ele desatou num pequeno riso que se prolongou durante alguns instantes, umedecendo os olhos azuis do velho diplomata e fazendo vibrar suas narinas, nervuradas de fibrilas rubras.

            - Ela é absolutamente encantadora!

            - Por acaso, senhor, um escritor de nome Bergotte estava presente? - argui timidamente, para tentar manter a conversa sobre o assunto dos Swann.

            -Sim, Bergotte estava lá - respondeu o Sr. de Norpois, inclinando a cabeça para o meu lado com polidez, como se, no seu desejo de ser amável com meu pai, atribuísse verdadeira importância a tudo que lhe dissesse respeito, mesmo às perguntas de um menino da minha idade e que não estava habituado a ser tratado com tanta delicadeza pelas pessoas da idade do embaixador.

            -Conhece-o? - acrescentou, fixando em mim o olhar claro cuja agudeza Bismarck admirava.

            - Meu filho não o conhece, mas o admira muito. - disse minha mãe.

            - Meu Deus! - exclamou o Sr. de Norpois (que me inspirou, à própria inteligência, dúvidas mais sérias do que as que me atormentavam, quando vi que aquele que punha milhares e milhares de vezes acima, aquele que eu julgava ser o máximo em todo o mundo, achava-se, para ele num ponto bem inferior em sua escala de admirações) - não partilho dessa opinião. Bergotte é o que chamo um tocador de flauta; de resto, deve-se reconhecer que toca de modo agradável, embora com bastante maneirismo e afetação. Não passa disto e isto, não é lá grande coisa. Em suas obras sem músculos se encontra o que se poderia denominar um plano. Nada de ação; ou til e principalmente nenhuma dimensão. Seus livros pecam pela base, ou não têm base nenhuma. Numa época feito a nossa, onde a complexidade da vida, mal deixa tempo para ler; onde o mapa da Europa sofre remanejamentos profundos e está às vésperas de sofrer talvez ainda maiores; onde tantos ameaçadores novos, se colocam em toda parte; hão de concordar que temos o direito de pedir a um escritor, para ser algo mais do que um belo espírito faça esquecer; nas discussões ociosas e bizantinas acerca dos méritos de pura forma; que podemos ser invadidos a qualquer instante por uma dupla tropa de bárbaros, os de fora e os de dentro. Sei que isto é blasfemar contra a sacro - daquilo que esses senhores denominam a Arte pela Arte, mas não existem tarefas mais urgentes do que agenciar palavras de maneira harmoniosa e a maneira de Bergotte é às vezes, bem sedutora, não nego; mas, em suma, tudo isso aí, está afetado, é muito frágil e bem pouco viril. Agora compreendo melhor, repor à sua admiração totalmente exagerada por Bergotte, as breves linhas que trouxe há pouco e sobre as quais passei os olhos por alto, já que você me disse com toda a simplicidade, que eram apenas rabiscos de criança (eu o disse, mas absolutamente não pensava assim). Misericórdia a todo pecado, aos pecados da juventude. Afinal, outros na mocidade também têm pecados na consciência, e você não é o único a se julgar poeta na sua idade. Mas, nota-se a má influência de Bergotte. Evidentemente, não lhe causarei surpresa dizendo que não havia no seu escrito, nenhuma de suas qualidades, pois é consumado na arte, aliás bastante superficial, de um certo estilo cujos valores você não poderia possuir na sua idade. Porém, os defeitos são os mesmos, já apresenta o mesmo contra-senso de alinhar umas atrás das outras palavras muito sonoras e só depois se preocupar com o sentido. É colocar o carro adiante dos bois. Até nos livros de Bergotte, chinesices de forma, essas sutilezas de mandarim decadente me parece vãs. Diante de alguns fogos de artifício, agradavelmente lançados por alguém - já gritam todos que se trata de uma obra-prima. As obras-primas não são freqüentes assim! Bergotte não tem no seu ativo, em sua bagagem, poderia se dizer, um romance de impulso um tanto mais alto, um desses livros que se destaque numa biblioteca. Não vejo um só em sua obra. O que não impede que, em seu caso, a obra seja infinitamente superior ao autor. Ah! Eis alguém que dá desafio ao homem de espírito, que achava que só se devem conhecer os escritores pelos seus livros. Impossível ter um indivíduo que corresponda menos aos seus, reais pretensiosos, mais solene, menos um sujeito de boa companhia. Vulgar em certos momentos, falando em outros como um livro, e até nem mesmo como um livro seu, mas como um livro tedioso, o que ao menos não são os de sua autoria: assim é Bergotte. É um espírito dos mais confusos, alambicado, aquilo que os nossos pais chamavam um empolado, e que torna ainda mais desagradáveis as coisas que diz, pela forma de enunciá-las. Não sei se é Loménie ou Saint-Beuve quem conta que Vigny padecia do mesmo defeito. Porém Bergotte nunca escreveu o Cinq-Mars, nem Le Cachet Rouge, onde algumas páginas são verdadeiros trechos antológicos.

            Apavorado pelo que o Sr. de Norpois acabara de dizer acerca do fragmento que lhe submetera, imaginando, por outro lado, as dificuldades que teria quando quisesse escrever um ensaio, ou simplesmente me entregar à reflexões sérias, senti mais uma vez a minha nulidade intelectual e percebi que não nascera para a literatura. Antigamente, em Combray, sem dúvida certas impressões muito humildes, ou uma leitura de Bergotte, me haviam posto num estado de devaneio que me parecera ser muito valioso. Mas, esse estado, meu poema-em-prosa o refletia; e, sem dúvida alguma, se o Sr. de Norpois não descobrira e percebera de imediato aquilo que eu julgava belo apenas devido a uma miragem totalmente enganosa, era porque não se deixava iludir. Ao contrário, acabava de me ensinar quão ínfima era minha posição (quando eu era julgado do exterior, objetivamente, pelo conhecedor mais aparelhado e esclarecido). Sentia-me consternado, diminuído; e meu espírito, como um fluido que só possui as dimensões do vaso que o contém, assim como se dilatara antigamente para preencher as imensas capacidades do gênio, agora, contraído, cabia todo na estreita mediocridade em que o Sr. de Norpois o trancara e restringira.

            -As relações entre mim e Bergotte - acrescentou, voltando-se para meu pai - não deixaram de ser espinhosas (o que, afinal de contas, é uma forma de serem também divertidas). Há alguns anos, Bergotte fez uma viagem à Viena, quando eu era embaixador ali; foi-me apresentado pela princesa de Metternich, foi inscrever-se na embaixada e mostrou vontade de ser recebido em suas festas. Ora, eu representante da França no estrangeiro, à qual em certa medida ele honra seus escritos, digamos, para sermos exatos, numa medida bastante fraca, teria que passar por alto a triste opinião que tenho sobre sua vida privada. Mas ele viajava sozinho e, além do mais, tinha a pretensão de ser convidado com sua companheira. Não creio ser mais pudico do que outro qualquer e, sendo celibatário, talvez abrir um pouco mais amplamente as portas da Embaixada do que se fosse casado e pai de família. Não obstante, confesso que há um grau ao qual não saberia me acomodar, e que se torna ainda mais repulsivo mais que moral, falemos claro, moralizador, que assume Bergotte em si, onde só se vêem análises perpétuas e, cá entre nós, um tanto frágeis; dolorosos remorsos doentios e, como simples pecados, verdadeiras gafes (sabemos por experiência própria), enquanto mostra tamanha inconseqüência de cinismo em sua vida privada. Em suma, evitei a resposta, a princesa voltou porém sem maior êxito. De modo que julgo não estar muito em valor junto a este personagem, e não sei até que ponto ele apreciou a atenção de Swann em convidá-lo ao mesmo tempo que a mim. A não ser que ele mesmo o tenha pedido, quem pode saber, pois no fundo é uma pessoa doente. Esta é mesmo sua única desculpa.

            -E a filha da Sra. Swann estava nesse jantar? - perguntei ao Sr. de Norpois, aproveitando para fazer essa pergunta num momento em que íamos para o salão, assim, podia mais facilmente dissimular minha emoção, o que não podia fazer à mesa, imóvel e em plena luz.

            O Sr. de Norpois pareceu por um momento procurar lembrar-se. 

            - Sim, uma jovenzinha de catorze ou quinze anos? De fato, lembo-me que me foi apresentada antes do jantar como a filha do nosso anfitrião. A vi pouco, pois foi se deitar cedo. Ou ia à casa de uma amiga, não me recordo exatamente. Mas vejo que está bem a par dos Swann.  -Jogo com a Srta. Swann nos Champs-Élysées; é delicioso!

            -Aí está! Aí está! Mas a mim, de fato, me pareceu encantadora. Entretanto, confesso que ela nunca chegará aos pés da sua mãe, se é que posso dizer isso sem lhe ferir um sentimento bastante vivo.

            - Prefiro a fisionomia da Srta. Swann, mas também admiro sua mãe; vou passear no Bois somente na esperança de vê-la passar.      

            -Ah, mas eu vou lhes dizer isto; vão ficar muito lisonjeadas.

            Enquanto falava assim, o Sr. de Norpois estava, por alguns momentos ainda, na situação das pessoas que, ouvindo-me falar de Swann como homem inteligente; seus pais como honrados corretores de câmbio; tal como uma bela residência, acreditavam que falaria também de outro homem tão inteligente, de outros corretores de câmbio tão honrados e outra casa tão bonita; é o momento em que um homem de espírito são; e não como um louco, ainda que não se dê conta de que está falando com um. Norpois sabia que não há nada tão natural como o prazer de observar as bonitas coisas e que é bem-educado, quando alguém nos fala com calor de uma impressão de crer que ele está apaixonado, de brincar com ele e proteger seus propósitos. Porém, dizendo que falaria de mim à Gilberte que me permitiria, como uma divindade do Olimpo que assumiu a fluidez de um sopro, ou melhor, o aspecto de um velho de quem Minerva tomou a fisionomia; penetrar eu mesmo, invisível, no salão da Sra. Swann, atrair sua atenção, ocupar seus pensamentos, excitar sua gratidão pela minha admiração; aparecer-lhe como o amigo de um homem importante, parecer-lhe no futuro digno de ser convidado por ela e de entrar na intimidade de sua família), este homem importante que ia usar em meu benefício o grande prestígio que devia ter aos olhos da Sra. Swann, inspirou-me de súbito uma ternura tão grande que mal pude me conter em não beijar suas doces mãos brancas e engelhadas, que pareciam ter ficado muito tempo dentro d'água. Quase esbocei o gesto, que imaginei ter sido o único a notar. Com efeito, é difícil a cada um de nós calcular exatamente em que escala as palavras e os movimentos aparecem aos outros; de medo de exagerarmos nossa importância e aumentando em enormes proporções o campo em que são obrigadas a se estender as lembranças dos outros no decurso de sua vida, imaginamos que as partes acessórias de nosso discurso, de nossas atitudes, mal penetram na consciência das pessoas com quem conversamos, pela mais forte razão de que não permanecem em sua memória. Aliás, é a uma suposição desse tipo que se submetem os criminosos quando retocam mais tarde uma frase que disseram, variante que, pensam, ninguém poderá confrontar com qualquer outra versão.

            Mas é bem possível que, mesmo no que concerne à vida milenária da humanidade, a filosofia do folhetinista, segundo a qual tudo está fadado ao esquecimento, seja menos verdadeira que uma filosofia contrária, que preveja a conservação de todas as coisas. No mesmo jornal em que o moralista dos editoriais nos fala de um acontecimento, de uma obra-prima, e, com maior razão, de uma cantora que teve "seu instante de celebridade": "Quem se lembrará de tudo isto dentro de dez anos?"; na terceira página, a recessão da Academia das Inscrições não fala muitas vezes de um fato por si mesmo menos importante, de um poema de pouco valor, que data da época dos faraós e que agora é conhecido integralmente? Talvez não ocorra exatamente o mesmo na curta vida humana. Entretanto, alguns anos mais tarde, numa casa em que o Sr. de Norpois, que ali se achava em visita, e onde me parecia o mais sólido apoio que poderia encontrar, porque era amigo de meu pai, indulgente, inclinado a nos querer bem a todos, e, além disso, habituado pela profissão e suas origens a ser discreto, quando, logo que o embaixador havia ido embora, contaram-me que ele fizera alusão a um sarau de antigamente, no qual tinha "visto o momento em que eu ia lhe beijar as mãos", não só enrubesci até as orelhas, como fiquei estupefato ao saber que era tão diferente do que julgara, não apenas a maneira como o Sr. de Norpois falava de mim, mas ainda a composição de suas exclamações. Tal mexerico me esclareceu quanto às proporções inesperadas de razão e de presença de espírito, de memória e de esquecimento de que é feito o rito humano; fiquei maravilhosamente surpreendido como no dia em que, na primeira vez, num livro de Maspero, que se sabia exatamente a lista dos casadores que Asurbanipal convidava para suas batidas, dez séculos antes de Jesus Cristo.

            - Oh, senhor! - disse eu ao Sr. de Norpois - quando me anunciou que transmitiria à Gilberte e à sua mãe a admiração que lhes devotava. Se falar de mim à Sra. Swann, toda minha vida não será bastante para lhe testemunhar meu reconhecimento e essa vida lhe pertenceria. Mas devo torná-lo ciente de que não conheço a Sra. Swann e nunca lhe fui apresentado.

            Acrescentara estas últimas palavras por escrúpulo e para não dar a entender estar me gabando de uma relação que não existia. Todavia, ao mesmo tempo que pronuncie tais palavras, sentia que já eram inúteis, pois desde o princípio de meu agradecimento observei um ardor refrescante, que vira passar pelo rosto do embaixador numa expressão de dúvida e descontentamento; em seus olhos um olhar vertical, estreito (como, no desenho em perspectiva de um sólido, a linha fugitiva de uma faces), olhar que se dirige a esse interlocutor invisível que temos dentro de nossa própria pessoa no momento em que nos dizem algo que o outro interlocutor, a pessoa com quem então se fala no caso, eu não deve ouvir. Logo percebi que as frases que pronunciara e que, ainda fracas diante da efusão de reconhecimento de que fui invadido, me pareceram ir tocar o Sr. de Norpois e acabar de decidi-lo a intervenção que lhe teria custado tão pouco, e a mim daria tanta alegria, (dentre todas que me quisessem fazer mal teriam ido buscar as pessoas diabolicamente) as únicas que pudessem ter como resultado fazê-lo renunciar à seu primeiro intento. De fato, ouvindo-as, assim como no momento em que um desconhecido, com quem acabamos agradavelmente de trocar impressões, achávamos semelhantes a respeito de transeuntes que concordávamos considerar vulgares, mostra-nos de repente o abismo patológico que nos separa, sempre tateando os bolsos e indiferente acrescenta: "É pena que eu não traga o meu revólver, não ficaria um só".

            O Sr. de Norpois, sabia que nada era menos precioso e mais fácil do que ser recomendado à Sra. Swann e ser introduzido em sua casa; que viu que para mim, ao contrário, aquilo representava um enorme prêmio, em conseqüência, sem dúvida uma grande dificuldade, pensou bem que o meu desejo na aparência, que eu havia expressado, devia dissimular um pensamento, um desígnio suspeito, alguma falta anterior em virtude da qual, na certeza desagradaria à Sra. Swann, ninguém até então quisera se encarregar de lhe trazer um recado de minha parte. E compreendi que esse recado ele não o daria. Jamais poderia ver a Sra. Swann cotidianamente durante anos e anos, sem por isso falar alguma vez de mim. Entretanto, dias depois, pediu-lhe uma informação que eu queria saber e encarregou meu pai de transmitir a resposta. Porém, não julgara dever dizer à ela de quem era a pergunta. Portanto, ela não sabia que eu conhecia o Sr. de Norpois e que tinha tanto desejo de ir à sua casa; e isso foi talvez uma infelicidade menor do que eu imaginava. Pois a segunda dessas novidades não teria provavelmente acrescentado eficiência da primeira, aliás incerta. Como para Odette, a idéia de sua própria vida e de sua residência não despertava nenhuma inquietação misteriosa, à uma pessoa que a conhecesse, que fosse à sua casa, não lhe parecia um ente fabuloso como o parecia a mim, que teria jogado uma pedra nas janelas dos Swann, caso pudesse escrever à ela que conhecia o Sr. de Norpois; estava convencido de que uma tal mensagem, mesmo transmitida de modo tão brutal, me teria dado muito mais prestígio aos olhos da dona da casa do que a má-vontade que pudesse ter contra mim. Mas, mesmo que eu pudesse perceber que a missão da qual não se encarregou o Sr. de Norpois fosse inútil, ou pior, que ela pudesse me trazer prejuízos aos olhos dos Swann, eu não teria coragem, se o Sr. de Norpois se mostrasse disposto a levá-la a termo, de encarregá-lo tal e renunciar à volúpia, por mais funestas que fossem as conseqüências, de que meu nome e minha pessoa se encontrassem desse modo junto de Gilberte por um momento, em sua casa e em sua vida desconhecidas.

            Quando o Sr. de Norpois partiu, meu pai deu uma olhada no jornal vespertino; eu pensava de novo na Berma. O prazer que sentira ao ouvi-la, exigia tanto mais, ser completado como estava longe de igualar àquele que eu me prometera; assim, assimilava imediatamente tudo o que fosse suscetível de nutri-la; por exemplo, os méritos que o Sr. de Norpois reconhecera na Berma e que meu espírito bebera de um só trago como um prado muito seco sobre o qual se lança água. Ora, meu pai me passou o jornal, mostrando-me uma nota concebida nestes termos:

            "A representação da Fedra, dada numa sala entusiasta onde se assinalaram as principais personalidades do mundo das artes e da crítica, foi para a Sra. Berma, que desempenhava o papel de Fedra, a ocasião de um triunfo como ela raramente conheceu de tão deslumbrante no decurso de sua prestigiosa carreira. Voltaremos mais longamente a essa representação, que constitui um verdadeiro acontecimento teatral; digamos somente que os mais abalizados juízes concordaram em declarar que uma tal representação renovava inteiramente o papel de Fedra, que é um dos mais belos e profundos de Racine, constituindo-se na mais pura e alta manifestação de arte à qual nos tenha sido dada a oportunidade de assistir em nosso tempo."

            Desde que meu espírito concebeu essa idéia nova da "mais pura e alta manifestação de arte", esta se aproximou do prazer imperfeito que eu sentira no teatro, acrescentou-lhe um pouco do que lhe faltava, e a união de ambos formou algo tão grandioso que exclamei:

            "Que grande artista!"

            Sem dúvida, pode-se achar que eu não fosse totalmente sincero. Mas imaginem o caso de tantos escritores que, descontentes com um trecho que acabam de escrever, lêem o elogio do gênio de Chateaubriand, ou comparam à um grande artista a quem desejariam igualar, cantarolando, por exemplo, "trecho de Beethoven cuja tristeza comparam à que quiseram pôr em sua prosa, absorvem de tal modo dessa idéia de gênio que a acrescentam às próprias produções ao pensar de novo nelas, não as vendo mais como lhes tinham aparecido, e dizem, arriscando-se

a uma profissão de fé quanto ao valor de sua obra: ''Que demônio, depois de tudo!", sem perceber que, no total que determina sua satisfação final, incluem a lembrança de magníficas páginas de Chateaubriand, que assimilam às quais enfim não escreveram; imaginem tantos homens que acreditam numa amante da qual só conhecem as traições; imaginem, também, todos que esperam alternativamente, seja uma vida futura incompreensível pensam, maridos inconsoláveis, numa mulher que perderam e que ainda são artistas, na glória futura da qual poderão gozar, seja num nada apaziguador e sua inteligência se reporta, ao contrário, às faltas que, sem ele, teriam após a morte; imaginem ainda os turistas que exaltam a beleza de um desfrutar em conjunto, cujo cotidiano contudo os aborrece; e veja-se na vida em comum que levam as idéias no seio do nosso espírito, existirem - dessas que nos fazem felizes, que não tenha sido antes, verdadeira para si uma idéia próxima e estranha o melhor da força que lhe faltava.

            Minha mãe não pareceu ficar satisfeita pelo fato de meu pai não pensar mais na minha "carreira". Creio que, preocupada acima de tudo em que as regras de existência disciplinassem os caprichos de meus nervos, o que ela menos queria era me ver renunciar à diplomacia do que aplicar-me à literatura. -Porém deseja-o - exclamava meu pai. -É preciso, antes de tudo, fazer as coisas que o agradam, já não é uma criança. Sabe perfeitamente bem, agora, do que gosta. É provável que mude, e é capaz de perceber o que o fará feliz na vida.

            Esperando que à liberdade que me concediam, eu fosse ou não feliz na vida, as palavras me magoaram muito naquela noite. Em todas as épocas, suas gentilezas, ao se produzirem, tinham me dado uma tal vontade de beijar acima de suas faces coradas que, se não o fazia, era só por medo de lhe desagradar, como um autor se assusta ao ver suas próprias fantasias, que lhe tem pouco valor por não conseguir separá-las de si mesmo, obrigarem a escolher um tipo de papel, empregar caracteres talvez lindos demais. Perguntava-me se meu desejo de escrever era algo suficientemente importante, que meu pai mostrasse tanta bondade por sua causa. Porém, sobretudo meus gostos que não mudariam mais, daquilo que estava destinado a minha existência, insinuava em mim duas terríveis suspeitas. A primeira, (enquanto me considerava todos os dias no limiar da minha vida ainda que só começaria na manhã do dia seguinte) minha existência já começava ainda, que o que se seguiria não seria diferente do que havia ocorrido; segunda suspeita, que, para falar a verdade, não passava de uma outra forma da primeira, era que eu não estava situado fora do Tempo; porém, achava-me submetido às suas leis, exatamente como aquelas personagens de romance que, isso, me faziam mergulharem grande tristeza quando lia as suas vidas, em minha cadeira de vime.

            Teoricamente, sabe-se que a Terra gira, mas não nos apercebemos disso, o chão sobre o qual caminhamos parece não se mover e vivemos tranqüilos. O mesmo ocorre com o Tempo na vida. E, para fazer ver a sua fuga, os romancistas são obrigados, acelerando doidamente a marcha dos ponteiros, a fazer com que o leitor ultrapasse dez, vinte, trinta anos, em dois minutos. No alto da página deixamos um amante cheio de esperanças; ao pé da página seguinte, encontramo-lo octogenário, fazendo penosamente no pátio de um asilo o seu passeio cotidiano, mal respondendo às palavras que lhe dirigem, tendo esquecido o passado. Dizendo de mim: "Não é mais uma criança, seus gostos não mudarão mais, etc.", meu pai acabava de súbito de me fazer pensar em mim mesmo no Tempo, causando-me o mesmo tipo de tristeza de como se eu fosse, não o asilado decrépito, mas aquele herói sobre quem o autor, num tom indiferente que é particularmente cruel, nos diz no final de um livro: "Cada vez menos deixa o campo. Acabou por fixar-se ali definitivamente, etc."

            Entretanto, meu pai, para antecipar-se às críticas que poderíamos fazer sobre nosso convidado, disse à mamãe:

            - Confesso que o velho Norpois foi um tanto "medalhão", como vocês dizem. Quando ele diz que teria sido "pouco oportuno" fazer uma pergunta ao conde de Paris, tive receio de que vocês desatassem a rir.

            - Mas de modo nenhum. - contestou minha mãe -, gosto muito que um homem desse valor e dessa idade tenha conservado esta espécie de inocência que só dá provas de um fundo de honestidade e de boa educação.

            - Creio que sim. Isto não impede que seja fino e inteligente; sei disso muito bem porque o vejo na Comissão bem diferente do que se mostrou aqui. - exclamou meu pai, feliz por ver que mamãe apreciava o Sr. de Norpois, querendo convencê-la de que era ainda superior ao que ela julgava, pois a cordialidade sente o mesmo prazer em exagerar os méritos que a maledicência tem em diminuí-los. - E como ele disse aquilo de que "com os príncipes nunca se sabe..."

            -É verdade, sim, exatamente como dizes. Já tinha reparado, é muito esperto. Vê-se que possui uma profunda experiência da vida.

            - É extraordinário que tenha ido jantar em casa dos Swann e que ali haja encontrado boas pessoas, afinal de contas, funcionários. Onde será que a Sra. Swann vai pescar todo esse povo?

            -Notaste com que malícia ele se referiu a: "É uma casa onde vão principalmente cavalheiros"?

            E ambos procuravam reproduzir a maneira com que Norpois dissera aquelas frases; como o teriam feito quanto à alguma entonação de Bressant, ou de Thiron em ''A Aventureira'', ou em ''O Genro do Sr. Poirier''. Porém de todos, quem mais apreciara as palavras de Norpois foi Françoise, que, muitos anos depois, não podia ficar ''em si'' quando lhe recordavam que fora tratada pelo embaixador como "mestre-cuca de primeira ordem", frase que minha mãe comunicou como um ministro da Guerra transmite às forças armadas, as felicitações de um soberano em visita. Aliás, eu havia precedido mamãe quando entrou na cozinha. Pois conseguira que Françoise, pacifista porém cruel, prometesse que não faria sofrer demais o coelho que teria que matar, e não tivera notícias dessa morte; Françoise me assegurou que passara no melhor dos mundos e bem depressa: - Nunca vi um bicho que morreu sem soltar um guincho, poderia jurar que era mudo.-Sem estar da linguagem dos animais, aleguei que o coelho talvez não gritasse como frangos.-Conte com isso - retrucou Françoise, indignada com a minha ignorância que coelhos não gritam tanto como os frangos; têm até voz mais forte e aceitou os cumprimentos do Sr. de Norpois com a soberba simplicidade alegre e - ainda que momentaneamente - inteligente de um artista quando falam de sua arte. Minha mãe a enviara antigamente a certos restaurantes famosos, para aprender como se cozinhava ali. E naquela noite, ao ouvi-la chamar de bodegas, renomados restaurantes, senti o mesmo prazer de outrora ao saber, pelos dramáticos, que a hierarquia de seus méritos não era a mesma de suas reputações.

            -O embaixador - disse-lhe minha mãe - assegura que em parte alguma se come rosbifes e suflês como os seus. Françoise, com ar modesto e como que em homenagem à verdade, concordou, aliás sem ficar impressionada com o título do embaixador; dizia do Sr. de Norpois, com a amabilidade devida à alguém que se considerava um "mestre-cuca":

            - É um bom velho, como eu. - Gostaria de ter visto o Sr. de Norpois quando este chegara; mas, sabendo que minha mãe não gostava que ficassem atrás das portas ou nas janelas a espiar, e pensando que mamãe pelos outros criados, ou pelos porteiros que estivera espreitando (pois Françoise via por toda a parte "ciúmes" e "mexericos" que, na sua imaginação, desenhavam o mesmo papel permanente e funesto das intrigas de jesuítas e de outras pessoas), contentara-se em olhar da janela da cozinha "para não haver conflito com madame", e, na visão sumária que tivera do Sr. de Norpois: "parecido com o Sr. Legrandin" por causa de sua agilidade, e embora não existisse qualquer traço em comum entre eles.

            -Mas, enfim - perguntou minha mãe – explica-me como que ninguém faz geléia tão bem como você quando quer?

            - Eu não sei como decorre isso. - respondeu Françoise, que não estabelecia uma diferença nítida entre o verbo ocorrer, ao menos em certas acepções, e o verbo decorrer; em parte dizia a verdade e não se mostrava muito mais capaz de desvelar o mistério que formava a superioridade de suas geléias, ou de seu rosbife, do que uma elegante com relação à seus vestidos, ou uma grande cantora relativamente a seu canto. Suas explicações não nos dizem grande coisas: quanto

às receitas da nossa cozinheira.

            -Eles mandam cozinhar depressa - respondeu ela falando dos grandes cozinheiros de restaurantes - e não tudo junto. É necessário que a carne de vitela fique como uma esponja, bebe o suco até o fim. Entretanto, havia um desses cafés onde conheciam bastante sobre cozinha. Não digo que fosse inteiramente conhecedores de geléia, mas era preparado devagar e os suflês tinham muito creme.

            -É? - indagou meu pai, que se juntara a nós e apreciava muito o restaurante da praça Saillon, onde fazia em datas fixas refeições comemorativas.

            - Oh, não. - respondeu Françoise com uma suavidade que ocultava um profundo desdém -, eu falava de um pequeno restaurante. Na casa desse Henry, a comida certamente é muito boa, mas não se trata de um restaurante, é mais uma... casa de pasto!

            - Weber?

            - Ah, não, senhor, eu queria dizer um bom restaurante. Weber fica na rua Royale, não é um restaurante, é uma cervejaria. Não sei nem se tem serviço. Parece que até nem tem toalha, botam as coisas de qualquer jeito na mesa, com toda a força.

            -Então é Cirro?

            Françoise sorriu:

            -Oh, lá, creio que em matéria de cozinha há principalmente damas da sociedade. ("Sociedade", para Françoise, significava "sociedade de reputação duvidosa".) Diabos, a juventude precisa disso.

            Percebíamos que, com seu ar de simplicidade, Françoise era, quanto aos cozinheiros célebres, uma "colega" mais terrível do que o pode ser a atriz mais invejosa e mais enfatuada. No entanto, verificamos que ela possuía um sentimento justo de sua arte e o respeito das tradições, pois acrescentou:

            -Não, quero dizer um restaurante onde parecia haver uma boa cozinha burguesa. É uma casa ainda considerável. Lá se trabalhava bastante. Ah, reuniam sous lá dentro! (Françoise, econômica, contava por sous e não por luíses, como os gastadores.) Madame sabe: lá embaixo, à direita, nos grandes bulevares, um pouco recuado...

            O restaurante de que falava com imparcialidade mista de orgulho e bonomia era... o Café Anglais.

            Quando chegou o dia 1° de janeiro, a princípio fiz visitas de família com minha mãe, que, para não me cansar, classificara-as antecipadamente (com a ajuda de um itinerário elaborado por meu pai) por bairro, em vez de fazê-lo por graus de parentesco. Porém, mal entramos no salão de uma prima bem afastada, aonde íamos primeiro porque sua casa ficava bem próxima da nossa, ao contrário do seu parentesco, minha mãe ficou assombrada ao ver, trazendo seus marrons-glacês ou deguisês, o melhor amigo do mais suscetível de meus tios, ao qual contaria que não tínhamos iniciado nosso giro por ele. Esse tio ficaria seriamente ofendido; acharia natural que começássemos indo da Madeleine ao Jardim das Plantas, onde morava, antes de parar em Saint-Augustin, para ter de voltar logo à rua da Faculdade de Medicina.

            Acabadas as visitas (minha avó nos dispensava que lá fôssemos, pois naquele dia jantaríamos com ela), corri aos Champs-Élysées a fim de levar à nossa vendedora, que por sua vez a entregaria à pessoa que vinha várias vezes na semana, da casa dos Swann, comprar pão de mel, a carta que, desde o dia em que minha amiga me causara tanta mágoa, decidira lhe enviar no dia de Ano-Novo, e na qual dizia que nossa amizade antiga desaparecia com o ano findo, que esquecia minhas censuras e decepções e que, a partir de 1° de janeiro, era uma nova amizade iríamos construir, tão sólida que nada a arruinaria, tão maravilhosa que esperava que Gilberte tivesse alguma faceirice em conservar toda a sua beleza se de vez em quando, como eu prometia fazer também, logo que ocorre um perigo capaz de destruí-la.

            Voltando para casa, Françoise me fez parar na rua Royale, diante de uma venda de mercadorias ao ar livre, onde escolheu de presente, fotos de Pio IX e de Raspail e onde, de minha parte, com Berma. As numerosas admirações que a artista suscitava conferiam certa beleza àquele rosto único que ela possuía para lhes retribuir, imutável e precário as roupas dessas pessoas que não têm outra para trocar, rosto em que tinha deixado sempre a mesma ruga pequena sobre o lábio superior, o soerguimento das sombrancelhas, outras peculiaridades físicas, sempre as mesmas que, em suma, mercê de queimadura ou de um choque. Além disso, esse rosto não parecido belo em si mesmo, porém dava-me a idéia e, por conseguinte, desejo de beijá-lo por causa de todos os beijos que já recebera e que, do fundo do álbum, parecia solicitar ainda com aquele olhar de terna faceirice e o sorriso mansamente ingênuo. Pois a Berma devia efetivamente sentir para como muitos, os desejos que confessava, sob a capa da personagem Fedra, e que lhe é fácil satisfazer por tudo, até pelo prestígio de seu nome que se acrescentava beleza e prorrogava-lhe a juventude. A noite caía, e parei diante de uma teatro onde estava afixado o cartaz sobre a representação que a Berma faria dia 1° de janeiro. Soprava um vento úmido e suave. Era um tempo bem conhecido, que eu tinha a sensação e o pressentimento de que o dia de Ano-Novo não era diferente dos outros, que não era o primeiro de um mundo novo em que teria podido a oportunidade ainda intacta, refazer minhas relações com Gilberte como a da Criação, como se ainda não existisse passado, como se tivessem sido criadas, juntamente com os indícios que delas se pudessem tirar para o decepções que ela me causara às vezes; um novo mundo onde não sairia nada do antigo... a não ser uma coisa: meu desejo de que Gilberte me quisesse. Compreendi que meu coração desejava tal renovação, a seu redor, de um, que não o satisfizera, porque ele, meu coração, não havia mudado, e disse mesmo que não havia motivo algum para que o de Gilberte tampouco houvesse mudado; senti que aquela nova amizade era a mesma, como não são 38 dos outros por um fosso, os anos novos que o nosso desejo, sem poder modificá-los, reveste, sem que o saibam, de um nome diferente.

            Por mais que dedicasse a Gilberte aquele ano, e da mesma forma como se superpõe uma religião às leis cegas da natureza, e tentasse imprimir ao dia do Ano-Novo a idéia que fazia dele, era tudo em vão; sentia que ele não sabia que o chamava de Ano-Novo, que terminava no crepúsculo de um modo que para mim não era novo; e vento suave que soprava ao redor da coluna de cartazes, eu reconheceria ao reaparecer a matéria eterna e comum, a umidade familiar, a ignorante dias antigos.

            Voltei para casa. Acabava de viver o 1° de janeiro dos homens velhos que diferem este dia dos jovens, não porque não lhes dêem presentes, mas porque não acreditam mais no Ano-Novo. Ganhara presentes, mas não o único que teria me alegrado, um bilhete de Gilberte. No entanto, eu ainda era jovem, pois que lhe escrevera uma carta com a qual esperava, falando-lhe dos sonhos solitários, da minha ternura, a fim de despertar-lhe sonhos idênticos. A tristeza dos homens que envelheceram é a de nem sequer pensar em escrever tais cartas, de que já conhecem a inutilidade.

            Quando me deitei, os rumores da rua, que se prolongaram até mais tarde naquele dia de festa, mantiveram-me acordado e eu pensava em todas as pessoas que acabariam a noite no meio dos prazeres, pensava no amante; no grupo de devassos, talvez, que tinham ido procurar a Berma ao fim daquela representação que eu vira anunciada para a noite. Nem sequer podia, para acalmar a agitação que essa idéia fazia nascer em mim naquela noite de insônia, dizer comigo que a Berma não pensava talvez no amor, visto que os versos que recitava, que longamente estudara, lembravam-lhe o ato do instante como era delicioso o amor, o que aliás ela bem sabia, tanto que mostrava muito em suas falas, conhecidas emoções; porém, dotadas de uma violência nova e de uma doçura insuspeitada à espectadores maravilhados, os quais, entretanto, já as haviam conhecido por si mesmos. Acendi a vela apagada para olhar ainda uma vez o seu rosto. À idéia de que ele era, naquele instante, sem dúvida, acariciado por esses homens a quem não podia impedir de dar à Berma, e dela receber, alegrias sobre-humanas e vagas, experimentei uma perturbação mais cruel, por não ser voluptuosa, uma nostalgia a que veio agravar o som da trompa, como o que se ouve na noite da Mi-Carême, e muitas vezes em outras festas e que, como então é destituído de poesia, é mais triste, saindo de uma taberna, do que "a noite no fundo das florestas". Nesse momento, talvez, um bilhete de Gilberte não seria o que mais me faltasse. Nossas aspirações vão se entrecruzando na confusão da existência, e raro que uma felicidade venha se colocar exatamente sobre o desejo que a reclamava.

            Continuei a ir aos Champs-Élysées nos dias em que fazia bom tempo. Nas ruas cujas mansões elegantes e róseas se banhavam, já que era a época da moda em voga de exposições de aquarelistas, em um céu móvel e tênue. Mentiria se dissesse que nesse tempo os palácios de Gabriel me pareceriam de maior beleza do que os palácios vizinhos; ou até mesmo de outra época. Eu julgava que com mais estilo a teria achado mais antigo, senão o palácio da Indústria, ao menos o do Trocadéro. Numa agulhada em sono agitado, minha adolescência envolvia num mesmo sonho todo o bairro por onde o levava, e eu jamais sonhara que pudesse haver um edifício do século XVIII na rua Royale; assim como teria ficado espantado se soubesse que a porta de Saint-Martin e a Porta Saint-Denis, obras-primas do tempo de Luís XIV, não eram contemporâneas dos imóveis mais recentes daqueles distritos sórdidos. Uma única vez um dos palácios de Gabriel me fez parar longamente; é que havia caído a noite e suas colunas desmaterializadas pelo luar, pareciam recortadas e lembrando-me um cenário da opereta Orfeu nos Infernos, davam-me pelo menos uma vez a impressão de beleza.

            Entretanto, Gilberte não voltava aos Champs-Élysées. E, contudo tinha necessidade de vê-la, pois nem sequer me lembrava de seu rosto. A maneira indagadora, ansiosa, exigente com que encaramos a pessoa amada, nossa espectativa da palavra que nos dará, ou matará a esperança de um encontro no dia seguinte, até que tal palavra seja dita, nossa imaginação alternativa, senão simultânea de alegria e desespero; tudo isso torna a nossa atenção, em face do ser amado trêmula demais para que possa obter dele uma imagem bem nítida. Também, essa atividade de todos os sentidos ao mesmo tempo; que tenta, somente com os olhares, aquilo que se encontra além deles; seja porque a gente se entrega com demasiada indulgência para mil formas, sabores e movimentos da pessoa viva; a todas essas coisas que de costume tornamos inerte quando não estamos enamorados. O modelo,que ao contrário, se movimenta; dele só possuímos fotografias defeituosas. Eu, na verdade, não sabia de fato como eram os traços de Gilberte, salvo nos momentos divinos em que eles se desdobravam para mim: só me recordava do seu sorriso. E, não rever aquele rosto bem-amado, a todo esforço que fizesse para me lembrar, por encontrar, desenhados em minha memória com precisão definitiva, inúteis e impressionantes do homem dos cavalos de madeira e da vendora de pirulitos; assim, aqueles que perderam um ente querido que jamais torna a rever, se desesperam de encontrar sem cessar em seus sonhos tantas pessoas insuportáveis e que já é demais terem conhecido no estado de vigília. Em sua impotência de imaginarem o objeto de sua dor, quase se acusam de não sentir bastante dor. Quanto a mim, não estava longe de crer que, não podendo me lembrar de Gilberte, esquecera ela própria, não a amava mais. Por fim, ela que eu via quase todos os dias, pondo diante de mim novas coisas a desejar, a lhe pedir para o dia seguinte e fazendo cada dia, em tal sentido, de minha ternura uma nova. Mas uma coisa veio mudar, e de modo brusco, a maneira encontrar todas as tardes, cerca das duas horas, se colocava o problema do meu amor. Será que o Sr. Swann havia surpreendido a carta que escrevera à sua filha; ou Gilberte me avisava muito depois sobre um estado de coisas já antigo, a fim de que eu fosse mais prudente? Como lhe dissesse o quanto admirava seu pai e sua mãe, assumiu este ar vago, cheio de reticências e segredo, que apresentava somente quando lhe falarem do que tinha de fazer, de seus passeios e visitas, e, de repente, acabam de falar:      "Sabe, eles acham você intragável!" e escorregadia como uma ondina, assim desatou a rir. Muitas vezes o seu riso, estava em desacordo com suas palavras e parecia, como o faz a música,

descrever em outro plano uma superfície invisível. O Sr. e a Sra. Swann não pediam a Gilberte que deixasse de jogar comigo; porém, parecia que seus pais preferiam que aquilo não tivesse começado. Não viam favoravelmente minhas relações com ela, porque não me atribuíam grande moralidade e imaginavam que eu só poderia exercer uma influência malsã sobre a filha. Esse tipo de pessoas jovens e pouco escrupulosas, às quais Swann parecia comparar-me, eu as imaginava como detestando os pais da moça a quem amava, elogiando-os em sua presença mas troçando deles com ela, impelindo-a a desobedecê-los e, quando a conquistam, impedem-na até de vê-los. A esses traços (que nunca são aqueles sob os quais se enxerga o maior miserável), com que violência meu coração opunha os sentimentos de que estava animado em relação a Swann, ao contrário, tão apaixonados que já não duvidava de que, se ele os tivesse suspeitado, se arrependesse do julgamento a meu respeito como de um erro judiciário! Tudo o que sentia por ele, ousei escrever numa longa carta que confiei à Gilberte, pedindo que a fizesse lhe chegar às mãos. Ela consentiu. Ai de mim! Ele via então na minha pessoa um impostor maior ainda do que eu imaginara; dos sentimentos que eu acreditara pintar-lhe em dezesseis páginas, com tanta verdade, ele duvidava então: a carta que lhe escrevi, tão ardente e tão sincera como as palavras que havia dito ao Sr. de Norpois, não alcançara maior êxito. Gilberte me contou no dia seguinte, depois de me levar à parte para trás de um bosquete de loureiros, numa pequena alameda, onde cada um se sentou numa cadeira, que, ao ler a carta, que ela me devolvia, seu pai dera de ombros dizendo:

            "Tudo isso não quer dizer nada, apenas mostra o quanto eu tenho razão."

            Eu que conhecia a pureza de meus sentimentos, a bondade da minha alma, estava indignado que minhas palavras nem sequer tivessem abalado o absurdo erro de Swann. Pois que se tratava de um erro, já não tinha mais dúvidas. Sentia que descrevera com tanta exatidão certas características irrecusáveis de meus sentimentos generosos que, para que Swann, por meio delas, não as tivesse logo reconstituído, não me viesse pedir perdão e confessar que se enganara, era preciso que ele jamais tivesse sentido esses nobres sentimentos, o que deveria torna-lo incapaz de compreendê-los nos outros.

            Ora, talvez Swann soubesse que a generosidade não passa, muitas vezes, do aspecto interior assumido pelos nossos sentimentos egoístas quando ainda não os denominamos e classificamos. Talvez reconhecesse, na simpatia que lhe apressava, um simples efeito - e uma confirmação entusiasta - do meu amor por Gilberte, pelo qual - e não pela minha veneração secundária por ele - seriam fatalmente dirigidos por meus atos a seguir. Não podia partilhar de suas previsões, pois não conseguira abstrair de mim mesmo o meu amor, fazê-lo pertencer à generalidade dos outros amores, calcular-lhe experimentalmente as conseqüências; estava desesperado. - Tive de deixar Gilberte por um instante; Françoise me chamava. Foi preciso acompanhá-la a um pequeno pavilhão com treliças verdes, bem parecido com os escritórios da alfândega municipal da velha Paris, e onde há pouco instalaram; o que na Inglaterra se chama lavabo e, na França, por uma anglomania mal informada, water-closet. As paredes úmidas e velhas da entrada, onde fiquei esperando Françoise, desprendiam um odor frio de coisa fechada que, dista logo das preocupações que acabavam de fazer nascerem mim as palavras contadas por Gilberte, invadiu-me de um prazer que não era o mesmo dos outros, os quais nos deixam mais instáveis, incapazes de retê-los ou possuí-los; pelo contrário, de um prazer consistente, ao qual podia me apoiar, delicioso, rico de uma verdade duradoura, certa e inexplicável. Teria querido, como antigamente em meus passeios pelos caminhos de Guermantes, tentar decifrar dessa impressão que me empolgara e ficar imóvel a interrogar aquela envelhecida que me propunha, não desfrutar o prazer que ela só me dava por acréscimo, mas a descida na realidade que ela não me revelava. Mas a encarregada pelo estabelecimento, velha senhora de faces excessivamente pintadas e de peruca castanha, pôs-se a falar comigo. Françoise achava-a "gente muito boa". Sua filha havia casado com o que Françoise denominava "rapaz de família", portanto, algum ser que ela julgava bem, mais diferente de um operário vindo de Saint-Simon o qual considerava de um homem "saído da lama do povo". Sem dúvida a zeladora, sofrera reveses da fortuna. Mas Françoise assegurava que ela era marquesa e pertencia à uma família de Saint-Ferréol. Essa marquesa me aconselhou que não ficasse ali ao ar fresco e me abriu um gabinete dizendo: "Não quer entrar? Este aqui é bem limpo e pra você será grátis." Talvez o fizesse apenas como as senhoritas do Gouache que quando íamos fazer uma encomenda, ofereciam-me um dos bombons que tinham em cima do balcão, sob uma tampa de vidro e que mamãe infelizmente me proibia, que eu aceitara também com menos inocência; como aquela velha florista que mamãe levava para nos encher as "jardineiras" e que me dava uma rosa revirando os olhos muito ternos. Em todo caso, se a "marquesa" gostava de rapazes, abrindo-lhes a porta daqueles cubos de pedra onde os homens estão acocorados como as Esfinges, e devia procurar em sua generosidade menos a esperança de corrompê-los; prazer que se experimenta em se mostrar inutilmente pródigo à pessoa querida; pois, nunca vi junto dela, outro visitante que não um velho guarda-florestal.

            Um momento depois, despedia-me da "marquesa", acompanhando Françoise, e deixava esta para voltar para junto de Gilberte. Divisei-a imponente numa cadeira, por detrás do bosquezinho de loureiros. Era para não ser vista pelas amigas: brincavam de esconde-esconde. Fui me sentar a seu lado. Usava um gorro achatado que caía sobre os olhos, dando-lhe aquele mesmo olhar sonhador e maroto que lhe vira da primeira vez em Combray. Perguntei se havia meios de que eu tivesse uma explicação verbal com seu pai. Gilberte dissera que ela mesma a propusera, mas que ele a julgara inútil.

            - Olhe - acrescentou - esqueça sua carta; preciso me reunir às outras, pois elas não me encontraram.

            Se Swann tivesse chegado então, antes mesmo que eu tivesse pegado essa carta sobre cuja sinceridade eu considerava que ele fora tão insensato, deixara persuadir, talvez tivesse visto que era ele quem estava com a razão. Pois, aproximando-me de Gilberte, que, inclinada para trás na cadeira, me dizia que pegasse a carta sem estendê-la a mim, senti-me tão atraído pelo seu corpo que lhe disse:

            -Vamos, impeça-me de pegá-la; vamos ver quem é mais forte.

            Ela escondeu a carta nas costas, passei minhas mãos pela sua nuca erguendo as tranças dos cabelos que ela usava sobre os ombros, fosse porque ainda era dessa idade, fosse porque sua mãe desejava fazê-la parecer criança por mais tempo, a fim de se rejuvenescer ela própria; lutamos, retesados. Tentava atraí-la, ela resistia; suas bochechas, inflamadas pelo esforço, estavam rubras e redondas como cerejas; ela ria como se eu lhe estivesse fazendo cócegas; mantinha-a presa entre minhas pernas como um arbusto ao qual quisesse trepar; e, no meio da ginástica que fazia, sem que ao menos aumentasse a sufocação que me dava o exercício muscular e o ardor do jogo, espalhei o meu prazer com algumas gotas de suor arrancadas pelo esforço, prazer no qual nem pude me deter o bastante para lhe sentir o gosto; e logo peguei a carta. Então, Gilberte me disse bondosamente:

            -Sabe, se quiser podemos lutar um pouco mais.

            Talvez ela tivesse obscuramente sentido que meu jogo tinha outro objetivo que não o que havia confessado, mas não soubera perceber que eu já o alcançara. Quanto a mim, que temia que ela o percebesse (um certo movimento retraído e tenso de pudor ofendido, que ela teve um momento depois, me fez pensar que não estava errado ao temê-lo), aceitei continuar lutando, com medo que ela pensasse que não me propusera outro objetivo senão aquele cuja realização não me deu mais vontade de ficar quieto a seu lado.

            Voltando para casa, percebi que recordei bruscamente a imagem, escondida até então, de que me aproximara sem me deixar vê-la, nem reconhecê-la, o frescor, quase cheirando a fuligem, do pavilhão gradeado. Essa imagem era a do pequeno aposento do tio Adolphe, em Combray, o qual de fato exalava o mesmo aroma de umidade. Mas não pude compreender, e deixei para mais tarde o indagar por que a recordação de uma imagem tão insignificante me dera tanta felicidade. À espera, me pareceu que merecia na verdade o desdém do Sr. de Norpois; até então, havia preferido a todos os escritores, logo aquele a quem de Norpois chamara de simples ''tocador de flauta", e uma verdadeira exaltação me fora comunicada não por uma idéia importante, e, sim, por um cheiro de mofo.

            Desde algum tempo, em certas famílias, o nome de Champs-Élysées, se um visitante o pronunciava, era acolhido pelas mães com o ar maldoso que reservam para um médico renomado a quem teriam visto fazer diagnósticos errados em demasia para ainda terem confiança; asseguravam que esse parque não convinha às crianças, que podiam citar mais de uma dor de garganta, mais de um caso de sarampo e numerosas febres pelas quais era responsável. Sem pôr abertamente em dúvida a ternura de mamãe, que continuava a me mandar para lá, certas amigas suas pelo menos deploravam sua cegueira.

            Os nevropatas são talvez, malgrado a expressão consagrada, os que menos "se escutam"; ouvem dentro de si tantas coisas que depois compreendem não ser motivo de alarme, que acabam por não prestar mais atenção em nenhuma. Tão insignificante que o seu sistema nervoso gritou tantas vezes: "Socorro!" como se se tratasse de uma doença grave, quando simplesmente ia nevar; ou que iriam mudar de casa, que eles assumem o hábito de já não levar em conta esses avisos, como um soldado que, no ardor da batalha, percebe-os tão pouco que, já fica moribundo de levar por alguns dias uma vida de homem saudável.

            Certas manhãs, ordenados dentro de mim os meus males de costume, de cuja circulação interna eu mantinha sempre o meu espírito desviado, bem como da circulação do sangue; eu corria alegremente para a sala de jantar onde meus pais já estavam sentados à mesa, e dizendo a mim mesmo, como de hábito, que se sentir frio pode ser que não seja necessário aquecer-se, mas, por exemplo, a gente não ter fome, pode ser que vai chover e não que não se deva comer sentando à mesa quando, no momento de engolir o primeiro bocado de costeleta apetitosa, uma náusea, uma tonteira me interromperam, em resposta do início de uma doença cujos sintomas o gelo da minha indiferença havia mascarado, retardado, mas que recusava obstinadamente o alimento que eu não estava em condições de absorver. Então, no mesmo minuto, a idéia de que não me deixariam sair se percebessem que estava doente me deu, como o instinto de conservação a um ferido, forças para me arrastar até meu quarto, onde vi que estava com febre de quarenta graus, para em seguida me preparar para ir aos Champs-Élysées. Meu corpo lânguido e permeável que o envolvia, meu pensamento sorridente, desejava o prazer tão doce de uma partida de barras com Gilberte; que mais tarde, mal me sustentando, porém feliz a seu lado, eu tinha ainda forças para desfrutá-lo.

            Na volta, Françoise declarou que eu me "achara indisposto", que eu deveria ter tido uma "constipação", e o médico, chamado em seguida, declarou que preferia "severidade" do que a "virulência" da subida da febre, que acompanhava minha constipação pulmonar não passaria de "fogo de palha", há formas mais "insidiosas e latentes''. Há muito tempo eu estava sujeito a sufocações, e o nosso médico, apesar da desaprovação de minha avó, que já me via agonizando de coma a aconselhara, além da cafeína que me era prescrita para me ajudar a respirar, cerveja, champanha ou conhaque quando sentisse se aproximar uma sufocação que assim a abortariam, dizia ele, na "euforia" causada pelo álcool. Muitas vezes eu só dissimulava meu estado, para que minha avó consentisse em que me dessem bebida, chegava quase fazer exibição de meu estado de sufocação. Além disso, ao aproximar-se uma crise, sempre incerto quanto às proporções que teria, preocupava por causa da tristeza de minha avó, que eu temia muito mais que minha doença. Mas ao mesmo tempo o meu corpo, ou por ser muito fraco para guardar sozinho o segredo da dor, ou por recear que na ignorância do mal iminente exigissem de mim um esforço que lhe fosse impossível ou perigoso, dava-me a necessidade de advertir minha avó de minhas indisposições com uma exatidão em que eu acabava colocando uma espécie de escrúpulo fisiológico. Logo, ao perceber em mim um sintoma incômodo que antes não discernira, meu corpo sentia-se aflito enquanto não o comunicava à minha avó. Se ela fingia não prestar atenção alguma, meu corpo me pedia que insistisse.

            Às vezes, eu ia longe demais; e o rosto amado, que já não era sempre senhor de suas emoções como antigamente, deixava transparecer uma expressão de piedade, uma contração dolorosa. Então meu coração se torturava à vista da mágoa que ela sentia: como se meus beijos devessem apagar essa mágoa, como se meu carinho pudesse dar à minha avó tanta alegria quanto o meu bem-estar, eu me lançava nos seus braços. E sendo os escrúpulos, por outro lado, serenados pela certeza de que ela conhecia o mal sentido, meu corpo já não fazia oposição a que a tranqüilizasse. Eu protestava que a indisposição nada tinha de penosa, que de modo algum precisava que tivessem pena de mim, que ela podia estar certa de que eu era feliz; meu corpo quisera obter exatamente aquilo que merecia de piedade e, desde que soubessem que sentia dores do lado direito, não via inconveniente em que eu declarasse que semelhante dor não era um mal e não oferecia obstáculo à felicidade, pois meu corpo não ligava para filosofia; não era sua especialidade. Quase todos os dias fui assaltado por aquelas crises de sufocação durante minha convalescença. Uma tarde em que minha avó me deixara em boas condições, voltou para o meu quarto já noite alta e, percebendo que me faltava a respiração:

            - Oh, meu Deus! Como estás sofrendo! - gritou, com as feições transtornadas. Em seguida me deixou, ouvi bater a porta da frente, e ela voltou logo depois com conhaque: fora comprá-lo, pois não havia nenhum em casa. Em breve comecei a me sentir bem. Minha avó, um tanto vermelha, mostrava-se constrangida sem seus olhos notava-se uma expressão de cansaço e desânimo.

            - Acho melhor te deixar para que possas gozar isto um pouco melhor. - disse ela saindo bruscamente. Todavia, beijei-a e senti em suas frescas faces algo molhado, que não soube se era a umidade do ar noturno que ela acabara de receber. No dia seguinte, ela só veio à tardinha ao meu quarto, pois, segundo me disseram, teve que sair. Achei que era mostrar muita indiferença por mim e contive-me para não censurá-la.

            Tendo persistido minhas sufocações, não sendo possível atribuí-las à congestão pulmonar que já acabara há muito tempo, meus pais mandaram o doutor Cottard vir para dar uma consulta. A um médico chamado em casos deste gênero, não basta que seja instruído; posto que a presença de tais sintomas podem ser de três ou quatro doenças.  Afinal é o seu faro e seu olhar clínico que decidem com que doença terá de defrontar-se, malgrado as aparências mais ou menos semelhantes. Esse é um dom misterioso que não implica superioridade em outros aspectos da inteligência, poder ser de grande vulgaridade, gostando da pior pintura, da pior música, não ter sequer curiosidade de espírito, pode perfeitamente possuí-lo. Em meu caso materialmente observável podia também ser causado por espasmos num começo de tuberculose, pela asma, por uma dispnéia tóxico-alimentar; ou insuficiência renal, pela bronquite crônica, por um estado complexo teriam vários desses fatores. Ora, os espasmos nervosos precisavam com desprezo, a tuberculose com grandes cuidados e um gênero de alimentação que teria sido ruim para um estado artrítico como a asma e pode ser perigoso em caso de dispnéia tóxico-alimentar, a qual exige um regime de compensação, seria nefasto para um tuberculoso. Mas as hesitações foram breves e suas prescrições imperiosas: ''Purgativos drásticos e leite durante vários dias, nada a não ser leite. Nada de carne, nada de álcool.'' Minha mãe, no entanto, murmurou que eu precisava me fortalecer, que já era sofrimento o meu nervoso, que aquele purgativo de cavalo e aquele regime certamente me deixaria abatido. Percebi nos olhos de Cottard, tão inquietos como se tivesse a perder o trem, que ele se indagava se não se deixara levar por sua bondade. Tratava de se lembrar se pensara em assumir a máscara de homem, procuramos um espelho para ver se não esquecemos de dar o nó na gravata. E na dúvida, e à guisa de compensação, respondeu grosseiramente: ''Não tenho o hábito de repetir duas vezes as minhas prescrições. Dêem-me uma caneta. Sobretudo não esqueçam o leite. Mais tarde, quando houvermos cortado a insônia, gostaria que lhe dessem um pouco de sopa, depois purê, mas leite, leite, o que o deleitará, visto que a Espanha está na moda. (Os alunos conheciam muito bem esse trocadilho que ele fazia no hospital, as vezes que submetia um cardíaco, ou um hepático a esse regime de leite). Façam-no voltar progressivamente à vida comum. Mas, sempre que tiver a tosse e as sufocações: purgantes, lavagens intestinais, leite, leite.'' Escutou com ar glacial, sem dar resposta, as últimas objeções de minha mãe e, sem se dignar explicar os motivos desse regime, meus pais o consideravam, em relação com o meu caso, inutilmente enfraquecedor, e não me mandaram seguir tal regime. Evidentemente, procuraram ocultar do professor a sua desobediência consegui-lo com maior êxito, evitaram todas as residências onde podiam encontrar com ele. Depois, tendo-se agravado o meu estado, decidira seguir ao pé da letra as prescrições de Cottard; ao cabo de três dias mais arquejos, nem tosse, e respirava bem. Então compreendemos, sem deixar de achar-me, como disse depois, bastante asmático e "maníaco", tinha percebido que o que, naquele

momento, predominava era a intoxicação, e que, lavando-me o fígado e os rins, desconfiava que os brônquios voltariam a funcionar normalmente, devolvendo-me a respiração, o sono e as forças. Aí compreendemos que aquele imbecil era um grande clínico. Enfim, pude me levantar. Mas falavam de não me enviar mais aos Champs-Élysées. Diziam que era devido ao ar insalubre; eu achava que aproveitavam o pretexto para que não pudesse mais ver a Srta. Swann. Obriguei-me a repetir todo o tempo o nome de Gilberte, como o idioma natal que habitantes de um país vencido se esforçam por manter para não esquecer a pátria que jamais voltarão a ver. Às vezes minha mãe passava a mão pelo meu rosto, dizendo:

            -Então, os filhinhos não contam mais para a mamãe os seus desgostos?

            Françoise se aproximava de mim todos os dias, observando:

            - O senhor está com uma cara! Não se olhou no espelho? Parece um defunto!

            É verdade que se eu tivesse uma simples gripe, Françoise teria assumido o mesmo aspecto fúnebre. Tais lamentações se originavam mais da sua "classe" do que de meu estado de saúde. Eu não distinguia, então, se esse pessimismo era, em Françoise, doloroso ou satisfeito. Provisoriamente, concluí que era social e profissional.

            Um dia, à hora do correio, minha mãe deixou uma carta na minha cama. Abri-a distraído, pois que ela não podia levar a única assinatura que me faria feliz, a de Gilberte, com quem não me relacionava fora dos Champs-Élysées. Ora, na parte de baixo do papel, timbrado com um selo de prata representando um cavaleiro armado de capacete, sob o qual se retorcia esta divisa: Per viam rectam, no fim de uma carta, escrita com letra bem grande e onde quase todas as frases pareciam sublinhadas, simplesmente porque o traço dos 'tt' eram feitos não cortando as letras, mas por cima delas, fazendo um traço debaixo da palavra correspondente da linha superior, foi justamente a assinatura de Gilberte o que vi. Mas porque sabia ser impossível numa carta endereçada a mim, o fato de vê-la sem que fosse acompanhada de fé não me causou alegria. Por um momento, ela não fez mais que ferir de irrealidade tudo o que me cercava. Com vertiginosa velocidade, tal assinatura sem verossimilhança brincava de quatro-cantos com minha cama, a lareira e a parede. Via tudo vacilar como alguém que cai do cavalo, e me perguntava se não havia uma existência totalmente diferente da que eu conhecia, em contradição com ela, é que era verdadeira e que, sendo-me mostrada de súbito, enchia-me dessa hesitação. Como os escultores, ao modelar o Juízo Final, atribuíram aos mortos ressuscitarem; que se encontram no limiar do outro mundo. "Meu caro amigo''- dizia a carta-, Soube que você tem estado muito doente e que não vem mais aos Champs-Élysées. Também já não vou muito lá porque é extremamente doentio. Mas minhas amigas vêm lanchar todas as segundas e sextas aqui em casa. Mamãe me encarregou de lhe dizer que nos daria muito prazer se viesse também logo que estiver restabelecido, e poderíamos retomar em casa as nossas boas conversas dos Champs-Élysées. Adeus, meu caro amigo, espero que seus pais lhe permitam vir muitas vezes lanchar aqui; envio-lhe toda a minha amizade. Gilberte."

            Enquanto lia estas palavras, meu sistema nervoso recebia com admirável diligência a notícia que me trazia grande felicidade. Porém minha alma, isto é, eu mesmo, e em suma o principal interessado, ainda a ignorava. A felicidade vinda de fato por meio de Gilberte, era uma coisa com que sonhara constantemente; coisa toda em pensamentos, era, como dizia Leonardo a respeito da pintura cosa mentale. Uma folha de papel coberta de caracteres, o pensamento não de imediato; porém, logo que terminei a carta, pensei nela, ela tornou-se uma fantasia, tornou-se, ela também, cosa mentale e eu já a amava tanto- que cinco minutos precisava relê-la, beijá-la. Só então conheci minha felicidade.

            A vida é semeada desses milagres que as pessoas que amam sempre esperam. É possível que este tenha sido causado artificialmente; e minha mãe vendo que desde algum tempo eu perdera todo o ânimo teria mandado pedir a Gilberte que me escrevesse, como, à época dos primeiros banhos de mar, para me dar prazer em mergulhar, coisa que detestara por me cortar a respiração, ela entregava às escondidas ao meu instrutor as maravilhosas caixas de conchinhas e ramos de coral que eu próprio julgara descobrir no fundo das águas. Aliás, com relação a todos os acontecimentos da vida e suas situações contrastantes se referem ao amor, o melhor é não tentar compreender, visto que, no que têm tanto de inexorável como de inesperado, regidos por leis antes mágicas do que racionais. Quando um multimilionário encantador, apesar de seus milhões é mandado embora pela mulher pobre e sem atrativos com a qual vivia, volta-se no seu desespero, para todas as forças do ouro e põe em jogo todas as influências da terra, sem conseguir que ela regresse, mais vale, invencível teimosia da amante, supor que o Destino deseja abatê-lo trazendo-lhe uma doença do coração, ao invés de procurar uma explicação lógica. Esses obstáculos, contra os quais os amantes têm de lutar e que sua imaginação excitada pelo sofrimento busca em vão adivinhar, residem às vezes singularidade do caráter da mulher que não conseguem trazer de volta; e sua estupidez, na influência que adquiriram sobre ela; os temores inspirados por pessoas que o amante não conhece; no gênero de prazeres, que momentaneamente pede à vida, prazeres que nem seu amante, nem a fortuna dele podem lhe oferecer. Em todo caso, o amante não está em condições de natureza dos obstáculos que a astúcia da mulher lhe oculta e que julgamento falseado pelo amor o impede de apreciar com exatidão esses tumores que o médico acaba por reduzir, mas sem lhes ter origem. Como eles, esses obstáculos permanecem misteriosos, mas não são  eternos. Unicamente, em geral duram mais que o amor. E, como este amor não é paixão desinteressada, o indivíduo amoroso que já não ama não procura motivo na mulher pobre e leviana a quem amava se recusara obstinadamente durante anos, a que ele continuasse a mantê-la.

            Ora, o mesmo mistério que disfarça muita vez aos olhos as catástrofes, quando se trata do amor, envolve freqüentemente repentinas soluções felizes (como a que me fora trazida pela carta de Gilberte). Soluções felizes ou que pelo menos parecem sê-lo, pois quase nenhuma o é de verdade quando se trata de um sentimento tal que toda satisfação que se lhe dê só serve para mudar de local o sofrimento. No entanto, às vezes propõe-se uma trégua e tem se a ilusão de que se está curado.

            No que diz respeito à essa carta, onde no final Françoise se recusou a reconhecer o nome de Gilberte, porque o G, muito enfeitado e apoiado num 'i' sem ponto, parecia um A, ao passo que a última sílaba era indefinidamente prolongada com o auxílio de um rabisco, serrilhando-se a gente procura uma explicação racional para a reviravolta que ela indicava e que me fazia tão contente, talvez possamos concluir que devia em parte a um incidente que, ao contrário, eu pensava ser de molde ameaçador perder para sempre no julgamento dos Swann. Pouco antes, Bloch tinha vindo me visitar, enquanto o professor Cottard consultava-me, o qual, desde que eu seguia seu regime, fora mandado buscar novamente, se encontrava no meu quarto. A consulta havia acabado e Cottard, ficando apenas como visita porque meus pais o haviam retido para jantar, deixou entrar Bloch. Como estávamos todos conversando, tendo Bloch contado que ouvira dizer que a Sra. Swann gostava muito de mim, por uma pessoa com quem jantara na véspera, a qual era muito ligada à Sra. Swann, tive a intenção de responder que ele certamente se enganava, e de estabelecer, com o mesmo escrúpulo que me fizera declarar ao Sr. de Norpois e de medo que a Sra. Swann me tomasse por mentiroso, que não a conhecia e nunca lhe falara. Mas não tive coragem de retificar o erro de Bloch, pois compreendi muito bem que era voluntário, e que, se ele inventava algo que a Sra. Swann não poderia de fato ter dito, era para fazer saber, o que ele achava elogioso e não seria verdadeiro, que ele havia jantado com uma das amigas dessa senhora. Ora, aconteceu que, ao passo que o Sr. de Norpois, sabendo que eu não conhecia e gostaria de conhecer a Sra. Swann, esquivou-se a lhe falar a meu respeito; Cottard, que era médico dela, tendo deduzido que ouvira de Bloch, que ela me conhecia e me apreciava muito, pensou que, quando a visse, dizer que eu era um bom menino com quem se relacionava, não poderia me ser útil em nada e seria elogioso para ele, dois motivos que o decidiram a falar de mim à Odette tão logo encontrou uma oportunidade.

            Foi então que conheci aquele apartamento, de onde se evolava até a escada o perfume de que se servia a Sra. Swann, mas que embalsamava bem mais ainda encanto particular e doloroso que emanava da vida de Gilberte. O implacável porteiro, mudado numa benevolente Eumênide, habituou-se, quando lhe perguntava se podia subir, a me indicar, erguendo o gorro com mão propícia, que fora ouvida minha prece. As janelas que, de fora, interpunham entre mim e os tesouros que não estavam destinados à um olhar brilhante, distante e superficial que me parecia o frio olhar dos Swann; aconteceu-me, quando no verão eu havia passado uma tarde toda conversando com Gilberte em seu quarto, abri-las eu mesmo para deixar entrar um pouco de ar e até a me debruçar a seu lado, se era dia de recepção de sua mãe ao ver chegar as visitas que muitas vezes, erguendo a cabeça ao descer me faziam um aceno com a mão, tomando-me por um sobrinho da Sra. Swann. Nesses momentos, as tranças de Gilberte roçavam meu rosto. Parecia a finura de sua grama a um tempo natural e sobrenatural; pela força de folhagens  artísticas, uma obra única, para a qual teriam utilizado a própria relva. A um fragmento mesmo ínfimo delas, que celeste herbário eu não teria em moldura? Porém, não esperando obter um pedaço de verdade daquelas ao menos conseguisse uma fotografia delas, quanto mais preciosa que as florzinhas desenhadas pelo Da Vinci! Para obter uma, pratiquei, junto dos Swann e até fotógrafos, baixezas que não me alcançaram o que desejava; porém, me ligaram para sempre à pessoas muito desagradáveis.

            Os pais de Gilberte, que por tanto tempo me haviam impedido agora - quando eu entrava na sombria antecâmara onde pairava permanente mais formidável e desejada que outrora, em Versalhes, o aparecimento do rei; a possibilidade de encontrá-la onde habitualmente, depois de dar um tropeção num enorme cabide de sete braços como o Candelabro da Escritura, em cumprimentos diante de um lacaio sentado, com seu longo casaco sobre a arca de madeira e que, na escuridão, eu tomara pela Sra. Swann. Gilberte, se acaso um deles passasse no momento da minha chegada, mostrarem irritados, estendiam a mão sorrindo, e me diziam:

            - Como vai você? - (Comment allez-vous, que pronunciavam 'comment' sem fazer a ligação do 't' à vogal seguinte, ligação que logo: que eu, uma vez entrado na casa, fazia um incessante e voluptuoso suprimir.) Gilberte sabe que já chegou? Então deixo-o à vontade.

            Muito mais, os próprios lanches que Gilberte oferecia à suas amigas que por tanto tempo, me haviam parecido a mais intransponível das barreiras acumuladas entre ela e mim, tornavam-se agora uma ocasião para nos reunir e me avisava por um bilhete, escrito; pois eu era uma relação ainda muito de papel de carta sempre diferente. Uma vez era enfeitado com o desenho de um cãozinho azul, em relevo, sobre uma legenda humorística escrita em inglês seguida de um ponto de exclamação; outra vez, timbrado com uma âncora; iniciais G. S., desmedidamente alongadas em um retângulo que ocupava o alto da folha, ou ainda do nome "Gilberte", ora escrito transversalmente; em caracteres dourados que imitavam a assinatura da minha amiga e um rabisco, debaixo de um guarda-chuva aberto impresso em negro, ou em um monograma em forma de chapéu chinês que continha todo nome em maiúsculas, sem que fosse possível distinguir uma só. A série de papéis para cartas que Gilberte possuía, por mais numerosa que fosse não era ilimitada, ao fim de um certo número de semanas, eu via retornar, como da primeira vez que me escrevera, a divisa: Per viam rectam, acima do cavaleiro de capacete, num distintivo de prata brunida. E cada um era escolhido num dia e não em outro, em virtude de determinados ritos, pensava eu então, porém antes, creio-o atualmente, porque ela procurava se lembrar daqueles de que se servira em outras ocasiões, de modo a nunca enviar o mesmo a um de seus correspondentes, pelo menos àqueles por quem se dignava a dar-se a esse trabalho, senão em intervalos o mais possível afastados. Como, devido à diferença das horas de suas aulas, algumas das amigas que Gilberte convidava para esses lanches eram obrigadas a ir embora quando outras acabavam de chegar, desde a escada eu ouvia escapar-se da antecâmara um murmúrio de vozes que, na emoção que me causava a cerimônia imponente à qual iria assistir, rompia bruscamente, muito antes que eu alcançasse o patamar, os laços que ainda me ligavam à vida anterior e me tirava até a lembrança de ter de despir meu cachecol, uma vez que estaria bem aquecido, e de olhar a hora para não voltar atrasado. Essa escada, aliás, toda em madeira, como se fazia então em certas casas para alugar no estilo Henrique II, que fora durante tanto tempo o ideal de Odette e do qual em breve se desligaria, e provida de um cartaz sem equivalente em nossa casa, no qual se liam estas palavras: "Proibido usar o elevador para descer", parecia-me algo de tanto prestígio que disse a meus pais que era uma escada antiga trazida de muito longe pelo Sr. Swann. Meu amor pela verdade era tão grande que não teria hesitado em lhes dar essa informação mesmo se soubesse que era falsa, pois só ela poderia lhes permitir que tivessem pela dignidade da escada dos Swann o mesmo respeito que eu tinha. É assim que, diante de um ignorante que não pode compreender em que consiste o gênio de um grande médico, acreditar-se-ia ser bom não confessar que ele não sabe curar uma gripe. Mas, como eu não tinha nenhum espírito de observação, como em geral não sabia o nome nem a espécie das coisas que se achavam sob meus olhos, e só compreendia que elas, quando estavam próximas dos Swann, deveriam ser extraordinárias, não me pareceu adequado que, advertindo meus pais acerca do valor artístico e da longínqua proveniência daquela escada, dissesse uma mentira. Aquilo não me pareceu certo; porém, deve me ter parecido provável, pois me senti ficar muito vermelho quando meu pai me interrompeu dizendo:

            -Conhece essas casas; já vi uma delas, são todas iguais; Swann simplesmente ocupa vários andares, foi Berlier quem as construiu. - Acrescentou que quisera alugar uma delas, mas desistira daquilo, não as julgando cômodas e na entrada não suficientemente claras, disse-o; mas senti instintivamente que meu espírito devia fazer "prestígio'' dos Swann e à minha felicidade os sacrifícios necessários e, num rasgo de autoridade paterna, apesar do que acabara de ouvir, afastei de mim para sempre como o olho de um devoto à Vida de Jesus de Renan, a idéia dissolvente de que o apartamento deles era um apartamento qualquer que poderíamos habitar.

            Entretanto, naquelas tardes de lanche, subindo na escada degrau a degrau já sem idéia e sem memória, não sendo mais que um brinquedo dos reflexos mais vis, chegava à região em que o perfume da Sra. Swann se fazia presente estava já vendo a majestade do bolo de chocolate, rodeado por um círculo de sequilhos e de pequenos guardanapos adamascados cinzentos, como exigidos pela etiqueta e próprios dos Swann. Mas esse conjunto imutável parecia, como o universo necessário de Kant, depender de um ato liberdade. Pois quando estávamos todos no pequeno salão de Gilberte olhando as horas, ela dizia:

            - Olhem, já faz tempo que almocei, só janto às oito horas, estou com vontade de comer alguma coisa. Que dizem?

            Ela nos fazia entrar na sala de jantar, sombria como o interior de templo asiático pintado por Rembrandt, e onde um bolo arquitetônico; tão familiar quanto imponente, parecia reinar ao acaso como num dia qualquer para o caso que desse na cabeça de Gilberte despojá-lo de suas ameias de chocolate e de abater suas muralhas de rampas fulvas e rígidas, cozidas ao forno dos bastiões do palácio de Dario. Melhor ainda: para proceder à destruição de ninívea obra de pastelaria, Gilberte não consultava apenas a sua fome; informava-se também sobre a minha, enquanto extraía para mim, do monumento desmoronado, um pedaço polido e engastado de frutos escarlates, ao gosto oriental. Perguntou a hora em que meus pais jantavam, como se eu ainda o soubesse da perturbação que me dominava se deixasse persistir a sensação de inapetência de fome, a noção do jantar ou a imagem da família, na minha memória faria o estômago paralisado. Infelizmente essa paralisia era apenas momentânea. Vendo o momento em que seria necessário digerir os doces que eu comia sem ver o que estava fazendo. Mas esse momento ainda estava longe. Enquanto isso Gilberte preparava o "meu chá". Bebia indefinidamente, ainda que uma única xícara para que me impedisse de dormir durante vinte e quatro horas. Era por isso que minha mãe começava a dizer:

            "É desagradável; este menino não pode ir à casa dos Swann doente."

            Mas, quando me achava na casa dos Swann, sabia eu pelo menos que era chá o que estava bebendo? Ainda que soubesse, o tomaria assim mesmo, admitindo que estivesse por um instante recobrado o discernimento, aquilo não teria me devolvido a lembrança do passado e a previsão do que estaria por vir. Minha imaginação não era capaz de ir até o tempo distante em que eu tivesse a idéia de me deitar e sentir sono.

            As amigas de Gilberte não estavam todas mergulhadas nessa embriaguez onde é impossível tomar uma decisão. Algumas chegavam a não tomar o chá! Então Gilberte dizia, frase muito em voga naquela época: ''- Decidiram que faço sucesso com o meu chá!'' - E, para apagar ainda mais a idéia de cerimônia, desarrumava a ordem das cadeiras ao redor da mesa:''-Parece uma festa meu Deus, como são idiotas os criados...''

            Mordiscava, sentada de lado num assento em forma de cruz e ela ficava transversalmente à mesa. E como se fosse possível ter tantos doces à sua disposição embora tendo pedido licença à mãe, até quando a Sra. Swann - cujos dias de recepção em geral coincidiam com os lanches de Gilberte -, depois de ter levado uma visita à porta, um instante após, entrava correndo na sala, às vezes, trajada de veludo azul, quase sempre com um vestido de cetim preto ornado de rendilhas brancas, dizia com ar assombrado:

            - Olha, parece bom isto que estão comendo; me dá até fome ver vocês comendo.

            - Muito bem, mamãe, está convidada. - respondia Gilberte.

            -Não, não, meu tesouro; o que diriam as minhas visitas? Ainda estou com a Sra.Trombert, a Sra. Cottard e a Sra. Bontemps; sabes que a prezada Sra. Bontemps não faz visitas muito rápidas e ela apenas acaba de chegar. Que diria toda essa boa gente se não me visse voltar? Se não vier mais ninguém, voltarei para conversar com vocês (e isso me dará muito mais prazer) logo que elas forem embora. Creio que mereço ter um pouco de sossego, tive quarenta e cinco visitas e, destas, quarenta e duas falaram do quadro de Gérôme! Mas venha qualquer dia destes - dizia-me ela - tomar o seu chá com Gilberte; ela o fará como você gosta, como está acostumado a tomar no seu pequeno studio - acrescentava, deixando-nos pelas suas visitas e como se eu tivesse vindo procurar naquele mundo misterioso algo tão conhecido como meus próprios costumes (como o hábito de tomar chá, que nunca tivera). Quanto a um studio, eu não tinha certeza de que o possuía ou não.

            - Quando voltará? Amanhã? Faremos toasts tão bons como os de Colombin. Não? Você é um malandro - dizia, pois desde que começara a ter igualmente um salão, assumia as maneiras da Sra. Verdurin, e seu tom de despotismo afetado. Os toasts, aliás, como me eram tão desconhecidos quanto Colombin, faziam com que esta última promessa não acrescentasse nada à minha tentação. Parecerá mais estranho, visto que o mundo todo fala assim e talvez hoje até em Combray, que eu não tivesse compreendido a que desejava se referir a Sra. Swann quando a ouvi fazer-me o elogio da nossa velha nurse. Eu não sabia inglês, mas compreendi logo que aquele termo designava Françoise. Eu que nos Champs-Élysées temera tanto a penosa impressão que ela deveria produzir, soube pela Sra. Swann que aquilo era tudo o que Gilberte contara a respeito de minha nurse, o que despertara em seus pais a simpatia por mim.

            - Sente-se que ela lhe é tão dedicada e tão boa! - Logo aceitei inteiramente da opinião acerca de Françoise. Por outro lado, já não me parecia tão necessário ter uma governanta dotada de impermeável e de pluma.

            Por fim, compreendi, por algumas palavras que a Sra. Swann deixou escapar acerca da Sra. Blatin, cuja benevolência reconhecia, mas de quem temia as visitas, que as relações com essa senhora não me seriam tão úteis quanto havia pensado e não haviam melhorado em nada a minha situação com os Swann.

            Se já principiara a explorar com esses sobressaltos de respeito e de alegria que, contra toda expectativa, me abrira suas avenidas até então proibidas, era apenas, no entanto, como amigo de Gilberte. O reino escolhido era ele próprio contido em um outro ainda mais misterioso, onde Swann e sua mulher levavam sua vida sobrenatural, e para o qual se dirigiam depois de apertado a mão, quando atravessavam a antecâmara ao mesmo tempo, porém em sentido inverso. Em breve, porém, penetrei igualmente no Santuário. Por exemplo, Gilberte não estava em casa, onde só se achavam o Sr. e a Sra. Swann. Tinham perguntado quem tocara e, sabendo que era eu, mandaram-me que ficasse um momento com eles, desejando que usasse em tal ou qual numa coisa ou outra, minha influência sobre a filha. Lembrei-me daquela completa, tão persuasiva, que escrevera fazia algum tempo ao Swann, àquela que sequer se dignara a responder. Admirava a incapacidade do espírito, do coração para realizar a menor conversão, resolver uma só dessas dificuldades que a seguir a vida, sem que ao menos se saiba como o conseguiu, escolhe facilmente. Minha nova situação de amigo de Gilberte, dotado de excelente influência sobre ela, fazia-me agora beneficiário do mesmo favor que, se tivesse pertencido a um colégio, onde estava sempre em primeiro lugar, o filho de um rei, e esse acaso obtivesse entradas no Palácio e audiências na sala do trono; com infinita benevolência e como se não fosse sobrecarregado de ocupar as misteriosas, me fazia entrar em sua biblioteca e aí me deixava, durante uma hora a responder com balbucios, silêncios de timidez cortados de breves impulsos de coragem, perguntas às quais a minha emoção me impedia de compreender uma só palavra; mostrava-me objetos de arte e livros que achava de me interessar e que eu previamente não duvidava ultrapassassem infinita beleza todos os do Louvre e da Biblioteca Nacional, mas que me era impossível contemplar. Nessas ocasiões, o seu mordomo me teria dado grande prazer que lhe desse meu relógio de pulso, o alfinete de gravata, minhas botinas; ou assinasse um documento em que o reconhecesse como meu herdeiro: bela expressão popular da qual, como no caso das mais célebres epopéias, conhece o autor; mas que, como elas e contrariamente à teoria de Wolf,  (um desses espíritos inventivos e modestos que se encontram anos, os quais fazem achados tais como "pôr um nome numa cara", mas dão a conhecer o seu próprio), eu não sabia mais o que estava fazendo. Muito, me espantava, ao se prolongar a visita, da nulidade de realização, de conclusão feliz, a que levavam aquelas horas vividas na residência. Porém minha decepção não decorria nem da incapacidade das obras-primas tratadas, nem da impossibilidade de deter sobre elas um olhar distraído. Pois a beleza intrínseca das coisas que fazia, para mim, ser milagroso estar no lar de Swann, era a adesão a essas coisas que podiam ter sido as mais belas do mundo do sentimento particular, triste e voluptuoso que eu localizava a tantos anos e as impregnava ainda; da mesma forma, a multidão de escovas de prata, de oratórios de Santo Antônio de Pádua pintados ou esculpidos pelos maiores artistas, seus amigos, não participavam em nada do sentimento de minha indignidade e de sua benevolência real que me eram inspirados quando a Sra. Swann me recebia por um momento em seu quarto, onde três belas e imponentes criaturas, sua primeira, segunda e terceira camareiras, preparavam sorrindo toaletes maravilhosas, e para o qual, de acordo com a ordem proferida pelo lacaio de calções curtos, de que a senhora desejava me dizer uma palavra, eu me dirigia pelo caminho sinuoso de um corredor todo embalsamado à distância pelas essências preciosas cujos eflúvios odoríferos se exalavam sem cessar do quarto de vestir.

            Depois que a Sra. Swann voltava para junto de suas visitas, nós ainda a ouvíamos falar e rir, pois, mesmo diante de duas pessoas e como se estivesse com todos os "camaradas", ela erguia a voz e dizia frases, conforme ouvira fazer tantas vezes, no pequeno clã, a "patroa", nos momentos em que esta "dirigia a conversa". As expressões que recentemente tomamos emprestadas aos outros são, ao menos por algum tempo, aquelas que mais gostamos de empregar; a Sra. Swann escolhia ora as que aprendera com pessoas distintas que seu marido não pudera evitar de lhe apresentar (foi delas que adquiriu o maneirismo que consiste em suprimir o artigo ou o pronome demonstrativo diante de um adjetivo para qualificar uma pessoa), ora as mais vulgares (por exemplo: "E um nada!", expressão favorita de uma das amigas) e procurava pô-las em todas as histórias que, segundo um hábito adquirido no "pequeno clã", gostava de contar. A seguir, agradava-lhe dizer: "Gosto muito desta história", "ah, confessem que é uma história muito bonita!"; o que vinha, pelo marido, dos Guermantes que ela não conhecia.

            A Sra. Swann deixara a sala de jantar, mas seu marido, que acabara de chegar, fazia por sua vez uma aparição junto a nós.

            -Sabes se tua mãe está sozinha, Gilberte?

            - Não, ela ainda tem visitas, papai.

            - Como, ainda? Às sete horas! É espantoso. A pobre mulher deve estar exausta. É odioso. (Em minha casa eu sempre ouvira "odioso" pronunciado com 'o' longo, mas o casal Swann o pronunciava com 'o' breve.) Imaginem, desde as duas da tarde! - continuou, voltando-se para Mim.

            -E Camille me dizia que entre quatro e cinco horas tinham vindo bem umas doze pessoas.    -Doze? Creio que me disse quatorze. Não, doze; enfim, já nem sei mais. Quando entrei, nem pensava que era o seu dia de recepção e, vendo todos esses carros diante da porta, julguei que houvesse um casamento na casa. E, desde que entrei na biblioteca, os toques de campainha não cessaram; palavra de honra, fiquei com dor de cabeça. E ainda há muita gente com ela?

            - Não, duas visitas apenas.

            - E sabes quem são?

            - A Sra. Cottard e a Sra. Bontemps.

            - Ah, a esposa do Chefe-de-gabinete do ministro das Obras Públicas.

            -Sei que o marido dela é empregado num ministério, mas não sei exatamente o que seja - respondeu Gilberte, ficando a criança.

            - Mas como, bobinha, falas como se tivesses dois anos. Que é que dizes empregado em um ministério? Ele é simplesmente chefe-de-gabinete, chefe de toda aquela coisa e muito mais... Onde estou com a cabeça? Para alguém distraído como tu, ele não é chefe-de-gabinete, é simplesmente diretor.

            - Não sei nada disso; então é muita coisa ser diretor do gabinete? replicou Gilberte, que não perdia uma ocasião para manifestar sua indiferença àquilo que envaidecia os pais (e talvez pensasse que não fazia mais que uma relação tão brilhante dando a impressão de não lhe atribuir muita importância

            - Quê! Se é muita coisa! - exclamou Swann que preferia a modéstia, que poderia me deixar em dúvida, uma linguagem mais explícita - é simplesmente o primeiro abaixo do ministro! É até mais que o ministro é quem faz tudo. Aliás, parece que se trata de um sujeito capaz, um primeira linha, um indivíduo muito distinto. É oficial da Legião de Honra - homem delicioso, e até um belo rapaz. Aliás, a mulher se casara com ele contra tudo e contra todos por "um encanto". Ele possuía, o que podia bastar para formar um conjunto delicado, uma barba loura e sedosa, belas feições, uma voz nasal e um olho de vidro. - Eu lhe direi. - acrescentou Swann dirigindo-se a mim- que bastante ao ver essa gente no governo atual, porque são os Bontemps, Bontemps-Chenut, o tipo da burguesia reacionária, clerical, de idéias estreitas que seu pobre avô conheceu muito bem, ao menos de reputação e de vista; o velho que só dava um sou de gorjeta aos cocheiros, embora fosse rico para lá do barão Bréau-Chenut. Toda a fortuna deles se desfez no crack da Union você é muito jovem para ter conhecido isso, mas que diabo! Refizeram e puderam.

            - Ele é tio de uma menina que freqüentava o meu curso, numa classe inferior à minha, a famosa "Albertine". Ela será com certeza era muito fast, mas agora é muito divertida.

            - Minha filha é assombrosa, conhece todo mundo.

            - Não a conheço; apenas a via passar, e gritavam Albertine aqui ou dali. Mas conheço a Sra. Bontemps e ela também não me agrada.

            - Enganas-te redondamente, pois ela é encantadora, bonita. Chega a ser espirituosa. Vou cumprimentá-la, perguntar se seu marido teremos guerra, e se podemos contar com o rei Teodásio. Ele deve saber é mesmo, logo ele que partilha do segredo dos deuses?

            Não era assim que Swann falava outrora; mas quem não viu princesas reais muito simples que dez anos depois se deixam raptar por uma ajuda de câmara, buscando o convívio social, percebem que os outros não as visitam e assumem espontaneamente a linguagem de velhas aborrecidas e que falam numa duquesa da moda, não as ouviu dizer: -"Ela estava ontem em casa"? e: "Vivo muito retirada"? Portanto, é inútil observar os costumes; impossível deduzi-los das leis psicológicas.

            Os Swann compartilhavam desse defeito das pessoas a cuja casa pouca gente acorre: a visita, o convite, uma simples palavra amável provinda de pessoas tanto marcantes eram para eles um acontecimento ao qual desejavam dar publicidade. Se a má sorte fazia com que os Verdurin fossem a Londres quando Odette tinha tido um jantar de algum brilho, arrumava-se um jeito para que um amigo comum enviasse um cabograma para além da Mancha com a notícia. E nem as cartas nem os telegramas elogiosos recebidos por Odette os Swann eram capazes de guardar só para si. Falavam deles aos amigos, faziam-nos passar de mão em mão. Assim, o salão dos Swann se assemelhava a esses hotéis de balneários onde se expõem ao público os despachos telegráficos.

            Além disso, as pessoas que não só haviam conhecido o antigo Swann fora da sociedade, como eu, mas na própria sociedade, naquele ambiente dos Guermantes onde, excetuando as altezas e as duquesas, todos eram de uma exigência infinita quanto ao espírito e ao encanto pessoal, de onde eram excluídos os homens eminentes considerados tediosos ou vulgares, tais pessoas se espantariam ao verificar que o antigo Swann deixara de ser não apenas discreto quando falava de suas relações, mas difícil quando se tratava de escolhê-las. Como é que a Sra. Bontemps, tão vulgar e tão maldosa, não o exasperava? Como podia declarar que ela era agradável? Parece que a recordação do ambiente dos Guermantes deveria impedi-lo de tal; na realidade, ajudava-o. Certamente, existia entre os Guermantes, ao contrário do que sucede em três quartos dos meios mundanos, um gosto até mesmo requintado, porém igualmente o esnobismo, de onde a possibilidade de uma interrupção momentânea no exercício do gosto.

            Se se tratasse de alguém que não fosse indispensável àquele grupo, de um ministro das Relações Exteriores, republicano um tanto solene, de um acadêmico tagarela, o gosto se exercia a fundo contra ele, Swann lamentava que a Sra. de Guermantes o tivesse feito jantar na companhia de semelhantes convivas numa embaixada, e mil vezes lhes preferiam um homem elegante, ou seja, um meio do ambiente dos Guermantes, inútil, mas que possuísse o espírito de Guermantes, alguém que pertencesse à mesma capelinha. Apenas, se uma grã-duquesa, uma princesa de sangue real jantava com freqüência na casa da Sra. de Guermantes, passava então a também fazer parte dessa capelinha; sem ter nenhum direito a isso, sem possuir em nada o seu espírito. Mas, com a ingenuidade das pessoas mundanas, no momento em que a recebiam, forcejavam para achá-la agradável, por não poderem afirmar que era porque a achavam agradável que a recebiam. Swann vinha em auxílio da Sra. de Guermantes e lhe dizia após uma partida da alteza:

            - No fundo é uma boa mulher, chega mesmo a ter um certo senso do cômico. Meu Deus, não creio que tenha se aprofundado em “Crítica da Razão Pura”, mas não é desagradável.

            - Sou absolutamente da sua opinião respondia a duquesa. - Ela ainda está intimidada, mas verá como pode ser encantadora. - É bem menos tediosa que a Sra. 'X' (a esposa do acadêmico tagarela, e que era uma mulher de citar vinte volumes. Mas nem há termo de comparação possível. -A dizer estas coisas, de dizê-las sinceramente, Swann a adquirira na casa e a conservara. Utilizava-se dela, agora, em relação às pessoas que conhecia. Esforçava-se por discernir e amar, nessa gente, as qualidades que todo revela se é examinado com predisposição favorável e não como de exigentes; valorizava os méritos da Sra. Bontemps como antigamente os da esposa de Parma, a qual devia ter sido excluída do meio dos Guermantes senão houvesse entrado de favor para certas altezas e se, mesmo quando se tratava dela se considerasse, na verdade, apenas o espírito e um certo encanto. Aliás, via que Swann possuía o gosto (do qual fazia agora um emprego duradouro) de trocar sua posição mundana por uma outra que, em certas circunstâncias, era-lhe mais conveniente. Só as pessoas incapazes de percepção, o que à primeira vista parece indivisível é que crêem que forma um só corpo com a pessoa. Uma mesma criatura, vista em momentos sucessivos de sua vida, banha-se em diferentes graus da escala social que não são forçosamente cada vez mais elevados; e cada vez que, no período da existência, estabelecemos ou reatamos laços com um deste meio, que aí nos sentimos cercados de atenções, começamos naturalmente ligar à ele, e a lhe criarmos raízes humanas.

            No que diz respeito à Sra. Bontemps, creio também que Swann com toda essa insistência, não se aborrecia ao pensar que meus pais iam saber que ela ia visitar sua mulher. A falar a verdade, em casa, o nome de que Sra. Swann ia aos poucos conhecendo excitava mais curiosidade do que admiração. Ao nome da Sra. Trombert, minha mãe dizia:

            -Ah, eis uma nova recruta, a qual arrastará outras.

            E, como se comparasse a maneira um tanto sumária, rápida e da vida a qual a Sra. Swann conquistava suas relações a uma guerra colonial, acrescentava:

             - Agora que os Trombert estão submetidos, às tribos vizinhas começarão a se render.

            Quando cruzava na rua com a Sra. Swann, dizia-nos ao voltar:

            - Vi a Sra. Swann em pé de guerra, devia estar indo para uma proveitosa, na casa dos massechutos, dos cingaleses ou dos Trombert. E, de todas as novas personalidades que lhe dizia ter visto naquele tempo um tanto misturado e artificial, aonde muitas vezes tinham sido levada com muita dificuldade e de mundos bastante diversos, adivinhava de imediato a origem e falava delas como o teria feito de troféus penosamente comprados. -Trazido de uma expedição à casa do Sr. Fulano.

            Quanto à Sra. Cottard, meu pai se admirava de que a Sra. Swann achar alguma vantagem em atrair essa burguesa pouco elegante, e dizia da posição social do professor, ''confesso que não entendo". Minha mãe percebia muito bem; sabia que uma boa parte dos prazeres que uma mulher acha em penetrar num ambiente diverso daquele em que vivia antes, lhe faltaria se ela pudesse informar suas antigas relações sobre aquelas, relativamente mais brilhantes, pelas quais as substituíra. Para tanto, era preciso uma testemunha que se deixasse entrar naquele mundo novo e delicioso, como em uma flor um inseto zumbidor e inconstante que, a seguir, ao sabor de suas visitas, haverá de espalhar, ao menos assim se espera, o germe secreto da inveja e da admiração. A Sra. Cottard, perfeitamente adequada para preencher este papel, entrava naquela categoria especial dos convidados que mamãe, que possuía alguns traços da feição de espírito do pai, chamava: "Estrangeiro, vá a Esparta e diga...". Aliás - além de outra razão que só vim a conhecer anos depois -, a Sra. Swann, ao convidar essa amiga benévola, discreta e modesta, não tinha a temer o fato de introduzir em sua casa, nas brilhantes recepções, uma traidora ou concorrente. Sabia do número enorme de cálices burgueses que podia visitar numa só tarde, quando estava armada de plumas e cartões de visita, essa ativa operária. Conhecia-lhe o poder de disseminação e, baseando-se no cálculo das probabilidades, era levada a pensar que, muito provavelmente, certo comensal dos Verdurin ficava sabendo, no máximo dois dias depois, que o governador de Paris deixara cartões na casa dela, ou que o próprio Sr. Verdurin ouvira dizer que o Sr. Le Hault de Pressagny, presidente do Concurso hípico, os levara, a ela e a Swann, ao baile de gala do rei Teodósio; e se supunha que os Verdurin fossem informados apenas desses dois acontecimentos elogiosos para ela, era porque as materializações particulares, sob as quais representamos e perseguimos a glória, são pouco numerosas por culpa do nosso espírito que é incapaz de imaginar, ao mesmo tempo, todas as formas que esperamos em conjunto-que a glória, simultaneamente, não deixará de revestir para nós.

            Ademais, a Sra. Swann só obtivera bons resultados naquilo que se denominava "mundo oficial". As mulheres elegantes não a visitavam. Não era a presença de celebridades republicanas que as fizera fugir. Na minha primeira infância, tudo o que pertencia à sociedade conservadora era mundano, e num salão bem situado não seria possível receber um republicano. As pessoas que viviam num meio assim imaginavam que a impossibilidade de alguma vez convidar um "oportunista", e com muito maior razão um "radical" medonho, era uma coisa que duraria para sempre, como as lâmpadas de azeite e os ônibus puxados por cavalos. Mas, da mesma forma que os caleidoscópios que giram de vez em quando, a sociedade dispõe sucessivamente de modo diverso os elementos que se julgara imutáveis e dispõe de uma outra figura. Ainda não fizera a minha primeira comunhão, quando as senhoras bem pensantes tinham o espanto de encontrar, de visita à nossa casa, uma judia elegante. Essas novas disposições do caleidoscópio são produzidas pelo que um filósofo chamaria de mudança de critério. O Caso Dreyfus provocou nova mudança, numa época um tanto posterior àquela em que principiei a freqüentar a casa da. Sra. Swann, e o caleidoscópio iria alterar mais uma vez seus pequenos losangos coloridos. Tudo o que era judeu passou para baixo, até os elegantes nacionalistas obscuros assumiram o seu lugar. O salão mais brilhante o de um príncipe austríaco e ultra-católico. Se, em vez do Caso Dreyfus tivesse ocorrido uma guerra com a Alemanha, o giro do caleidoscópio tomaria outra figura. Tendo os judeus mostrado, para espanto geral, que eram patriotas e conservado sua posição e ninguém jamais gostaria de ir, nem mesmo um dia ter ido, à casa do príncipe austríaco. Isto não impede que cada sociedade está momentaneamente imóvel, algumas pessoas que nela sem que nunca mais haverá qualquer mudança, de modo que, tenha o começo do telefone, não queiram acreditar no aeroplano.

            Entretanto, do jornalismo caluniam o período precedente, não apenas o gênero dessa época e que lhes parece a última palavra em matéria de corrupção que mesmo as obras de artistas e filósofos que, a seus olhos, não têm mais valor, se fossem ligadas indissoluvelmente às modalidades sucessivas do clã ou mundana. A única coisa que não muda é que, a cada vez, parece que a coisa foi mudada na França. À época em que eu ia à casa da Sra. Swann o Caso Dreyfus ainda não havia estourado e certos judeus importantes eram bem quistos. Nenhum o era mais que sir Rufus Israels, cuja esposa, Lady Israels e Swann. Pessoalmente, ela não tinha as amizades íntimas tão elegantes como o sobrinho, o qual, por outro lado, por não amá-la, jamais a cultivara muito devesse ser provavelmente ao seu herdeiro. Mas era o único dos parente, que teve consciência da posição social deste, tendo os demais permanecido com respeito, na mesma ignorância que fora a nossa durante muito tempo, numa família um dos membros emigra para a alta sociedade -o que lhe põe como fenômeno único, mas que, a dez anos de distância, constata ter sido rejeitado de outra forma, e por motivos diversos, por mais de um rapaz com quem se descreve a seu redor uma zona de sombra, uma terra incógnita, basta em suas menores nuanças por todos os que a habitam, mas que não sai e nada para aqueles que nela não penetram, e cuja existência bordejam conta, bem perto deles. Não tendo nenhuma Agência Havas o informador de Swann acerca das pessoas que ele freqüentava, era (bem entendido todos de seu horrível casamento) com sorrisos de condescendência que com jantares em família, que tinham "virtuosamente" empregado o domingo no "primo Charles", pois, julgando-o um pouco invejoso e parente pobre, chamando-o espirituosamente, fazendo um trocadilho com o título do romance de ''O Primo Besta''; Lady Rufus Israels sabia perfeitamente quem eram [Trocadilho de Proust, utilizando o título do romance de Balzac em francês, La Cousine bette aproveitando a semelhança fônica com a palavra bête (animal, ou imbecil). (N. do T)] e o que prodigalizavam a Swann uma amizade da qual sentia ciúmes. A família de seu marido, mais ou menos equivalente aos Rothschild, há várias gerações cuidava dos negócios dos príncipes de Orléans. Lady Israels, excessivamente rica, dispunha de grande influência e não utilizara com o objetivo de que pessoa alguma de suas relações recebesse Odette. Uma única a desobedecer, às escondidas. Era a condessa de Marsantes. Ora, quisera o azar que Odette, tendo ido fazer uma visita à Sra. de Marsantes, chegou quase ao mesmo tempo que Lady Israels. A Sra. de Marsantes estava em brasas. Com a covardia das pessoas que, no entanto, poderiam permitir-se tudo, não dirigiu uma só vez a palavra a Odette, que não se sentiu estimulada a desde então levar adiante a incursão em um mundo que, aliás, não era de modo algum aquele em que gostaria de ser recebida. No completo desinteresse pelo acesso ao bairro de Saint-Germain. Odette continuava a ser a cocote ignorante, bem diversa dos burgueses aferrados aos menores aspectos de genealogia e que iludem na leitura dos antigos memoriais a sede de relações aristocráticas que a vida real não lhes fornece. Swann, por outro lado, continuava sem dúvida a ser o amante a quem todas essas particularidades de uma antiga companheira parecem agradáveis, ou inofensivas, pois muitas vezes ouvi sua mulher proferir verdadeiras heresias mundanas sem que ele (por um resto de ternura, uma falta de estima ou pela preguiça de aperfeiçoá-la) procurasse corrigi-la. Talvez fosse também uma forma daquela simplicidade que nos enganara por tanto tempo em Combray, e que fazia com que, agora, embora continuasse a tratar, ao menos sozinho, com pessoas muito brilhantes, não se interessava em que, em conversa no salão de sua mulher, lhes atribuíssem qualquer importância. Aliás, para Swann tinham menos importância do que nunca, já que o centro de gravidade de sua vida se deslocara. Em todo caso, a ignorância de Odette em matéria mundana era tal que, se o nome da princesa de Guermantes surgisse na conversa depois do da duquesa, sua prima dizia:

            - Ora, príncipes... Então subiram de posto - dizia ela. Se alguém dizia: "o príncipe", ao falar do duque de Chartres, ela retificava: - O duque, ele é duque de Chartres e não príncipe. Quanto ao duque de Orléans, filho do conde de Paris: - É engraçado, o filho é mais que o pai - acrescentando, visto ser anglômana: - A gente se embrulha com essas provocações a uma pessoa que lhe perguntava de que província eram os Guermantes, respondeu: do Aisne.

            Ademais, Swann era cego no que dizia respeito a Odette, não só diante dessas lacunas de sua educação, mas também diante da mediocridade de sua inteligência. Ainda mais, cada vez que Odette contava uma história imbecil, Swann a escutava com uma complacência, uma alegria, quase com admiração, onde deve entrar um restinho de volúpia; ao passo que, na mesma conversa, aquilo que ele próprio poderia dizer de fino, e até de profundo, era habitualmente ouvido por Odette sem interesse, às pressas, com impaciência e às vezes desmentido com vaidade. E poder-se-á concluir que semelhante sujeição da elite à vulgaridade é de norma em muitos casais, se, por outro lado, pensamos, inversa as mulheres superiores que se deixam fascinar por um grosseirão, censor de suas mais delicadas palavras, enquanto elas se extasiam inteligência sem fim da ternura, diante das graças mais estúpidas. Parece que os motivos que, nessa época, impediram Odette de penetrar no faubourg sai é preciso dizer que o mais recente giro do caleidoscópio mundano fora por uma série de escândalos. Senhoras a cuja casa ia-se em toda semana tinham se revelado como prostitutas, espiãs inglesas. E durante algum tempo exigia das pessoas, ou pelo menos assim se julgava, serem acima desta posição social, de fortuna sólida... Odette representava exatamente outra com que se acabava de romper relações, para reatá-las a seguir; pois não mudando de um dia para o outro, buscam sob um regime novo aquele do antigo, mas buscando-o sob uma forma diferente que se permita serem enganadas e acreditarem que já não é a mesma sociedade de antes. Ora, às senhoras "queimadas" dessa sociedade Odette muito se parecia da alta-roda são muito míopes; no momento em que cortam todas as relações das damas judias que conheciam, enquanto se indagam como preencher isto, percebem, levada até ali como graças a uma noite de tempestade, uma que também é judia; porém, devido à sua novidade, ela não é associada em seu ambiente como as precedentes, ao que julgam dever detestar. Ela não pede que respeitem seu Deus. Adotam-na. Não se tratava de anti-semitismo na época em que impediam ir à casa de Odette. Mas a Sra. Swann se assemelhava àquilo de que se quer se livrar por algum tempo.

            Quanto a Swann, ia muitas vezes visitar pessoas de suas relações, como antigamente e, conseqüentemente, pertencendo todas à mais alta sociedade. Quando nos falava das pessoas que acabava de ir visitar, notava que conhecera outrora, ele fazia uma escolha guiada por aquele mesmo gosto, semi-artístico, semi-histórico, que inspirava nele o colecionador. O que lhe interessava com freqüência tal ou qual grande dama descrita, porque havia sido amante de Liszt, ou porque teve dedicado um romance de Balzac à sua avó (da mesma forma que compraria um desenho caso Chateaubriand houvesse descrito), tive a suspeita de que, em Combray, tínhamos o erro de julgarmos Swann um burguês que não freqüentava a sociedade por outro, o de considerá-lo um dos homens mais elegantes de Paris. Ser conde de Paris não significava nada. Quantos desses "amigos de príncipes" - de ser recebidos num salão um pouco fechado? Os príncipes se sabem não são esnobes e, aliás, julgam-se de tal modo acima de tudo quanto não tem o sangue que os grão-senhores e burgueses, abaixo deles, lhes parecem; do mesmo nível.

            Além disso, Swann não se contentava em buscar na sociedade que ela existia, ao ligar-se a nomes que o passado nela inscreveu, e que ainda que fosse um simples prazer de letrado e de artista, e gozava de um divertimento bastante popular, o de formar como que ramalhetes sociais, agrupando elementos heterogêneos; reunindo pessoas tomadas aqui e ali. Tais experiências de sociologia divertida (ou que pelo menos Swann assim considerava) não tinham sobre todas as amigas de sua mulher pelo menos de maneira constante uma repercussão idêntica.-Tive a intenção de convidar juntos os Cottard e a duquesa de Vendôme -dizia rindo à Sra. Bontemps, com o ar guloso de apreciador que pretendeu e quis fazer a experiência de substituir, num molho, os cravos-da-índia por pimenta-de-caiena. Ora, esse projeto que, no velho sentido da palavra, ia parecer de fato divertido aos Cottard, tinha o dom de exasperar a Sra. Bontemps. Recentemente, fora apresentada pelos Swann à duquesa de Vendôme e achara-a tão natural como agradável. E gabar-se disso diante dos Cottard, contando o fato, não fora a parte menos saborosa de seu prazer. Mas, como os novos condecorados que, desde que o foram, gostariam de ver fechar-se em seguida a torneira das cruzes, a Sra. Bontemps desejava que depois dela ninguém da sua sociedade fosse apresentado à princesa. Mal dizia interiormente o gosto depravado de Swann que, para realizar uma esquisitice estética miserável, dissipava de um golpe toda a poeira que ela havia lançado nos olhos dos Cottard ao lhes falar da duquesa de Vendôme. Como ia se atrever ela própria a anunciar ao marido que o professor Cottard e sua esposa iam por sua vez ter uma parte desse prazer que ela havia lhe gabado como único? Pelo menos se os Cottard soubessem que não eram convidados a sério e sim para diversão! É verdade que os Bontemps também o tinham sido; porém, como Swann adquirira na aristocracia o eterno dom-juanismo de fazer crer, a duas mulheres que para nada importam, que só a uma delas se ama com seriedade, falara à Sra. Bontemps da duquesa de Vendôme como de uma pessoa com quem era perfeitamente indicado que ela jantasse. -Sim, pretendemos convidar a princesa com os Cottard -disse a Sra. Swann algumas semanas depois meu marido acha que essa conjunção poderá resultar em algo divertido -, pois, se ela conservara do "pequeno núcleo" alguns costumes caros à Sra. Verdurin, como o de gritar com força para ser ouvida por todos os fiéis, em compensação, empregava certas expressões, como "conjunção", caras ao ambiente dos Guermantes, cuja influência sofria à distância e a seu pesar, como o mar sofre a influência da lua sem no entanto se aproximar sensivelmente desta.-Sim, os Cottard e a duquesa de Vendôme, não acha que será engraçado?-perguntou Swann.

            -Acho que será muito ruim e só lhe causará aborrecimento; é bom não brincar com fogo. -respondeu a Sra. Bontemps, furiosa. Ela e o marido, aliás, bem como o príncipe de Agrigento, foram convidados a esse jantar, junto a Sra. Bontemps e Cottard narraram de duas maneiras diversas, conforme as respostas a quem se dirigiam. Para uns, a Sra. Bontemps de um lado, Cottard de sua parte, diziam negligentemente ao lhes perguntarem se havia outras pessoas no jantar: ''- Só o príncipe de Agrigento, era muito íntimo". Outros, porém, arriscavam-se a ser mais bem informados (até, certa vez, alguém dissera a Cottard que Bontemps também não se achavam presentes? - Esqueci-me deles Cottard, ruborizando-se, ao desastrado, a quem classificou daí em diante como das más-línguas). Quanto a estes, os Bontemps e os Cottard adotaram consultados, uma versão cuja moldura era idêntica e onde seus respectivos eram reciprocamente mudados. Cottard dizia:

            - Muito bem, estavam os donos da casa, o duque e a duquesa de Vendôme – sorrindo- com presença do professor e a Sra. Cottard e, para o diabo se eu souber por que, pois como Pilatos no credo, os Bontemps. - A Sra. Bontemps recitava exatamente a mesma frase, e apenas os Bontemps eram nomeados com ênfase na casa entre a duquesa de Vendôme e o príncipe de Agrigento, e os Cottard, a acusava de se terem convidado a si próprios no final, eram os gatos-pingados que destoavam do conjunto.

            De suas visitas, Swann voltava muitas vezes pouco antes do jantar. Até as seis horas da tarde, em que outrora se sentia tão angustiado, indagava a si mesmo o que poderia Odette estar maquinando e pouco lhe importava que estivesse com visitas ou que tivesse saído. Às vezes lembrava muitos anos antes, tentara um dia ler através do envelope uma carta escrita por Odette à Forcheville. Porém, tal recordação não lhe era agradável; e aprofundar a vergonha que sentia, preferia fazer uma pequena careta - da boca completada com um sacudir de cabeça que significava: "Que pode me causar?" Certo, calculava agora que a hipótese, a que se entrega muitas vezes outrora e segundo a qual eram as imaginações do seu ciúme à enegrecerem a vida, na verdade inocente, de Odette, que essa hipótese (benéfica, visto que, enquanto durou sua enfermidade amorosa, amenizou seus sofrimentos fazendo-os parecerem imaginários) não era verdadeira, à quem visse seu ciúme que a considerara certa, e que, se Odette o tivesse amado mais, acreditara, também o teria traído mais. Antigamente, enquanto sofria havia jurado que, logo que não amasse mais a Odette e não temesse mais deixá-la, ou fazê-la crer que a amava bastante, ele se daria ao trabalho de elucidar por mero amor à verdade e como um ponto de história, se Forcheville estava ou não com ela no dia em que tocara a campainha e batera à porta sem que abrissem, e em que ela escrevera a Forcheville que era um tio dela que estivera lá. Mas o problema tão interessante, que ele apenas esperava o fim de seu sofrimento para tirar a limpo, quando perdera precisamente todo interesse aos olhos de Swann deixara de estar ciumento. Mas não imediatamente. Já não sentia ciúmes de Odette, como no dia em que batera em vão à porta do pequeno apartamento de La Pérouse, ciúme que a lembrança daquele dia continuava a despertar como se o ciúme, um tanto semelhante nisso a essas doenças que fixam sua sede, a sua fonte de contágio, menos em certas pessoas que em certas casas, não tinham por objeto propriamente Odette e sim aquele dia, aquela hora do passado perdido em que Swann batera em todas as entradas do apartamento de Odette. Dir-se-ia que aquele dia e aquela hora tinham, sozinhos, fixado algumas últimas parcelas da personalidade amorosa que Swann tivera outrora e que ele só as reencontrava ali. Há muito já não se preocupava que Odette o tivesse enganado e o enganasse ainda. E, no entanto, continuara durante alguns anos a procurar antigos criados de Odette, de tanto que nele persistira a dolorosa curiosidade de saber se, naquele dia, de tal modo antigo, às seis horas, Odette estava deitada com Forcheville. Depois, essa mesma curiosidade desaparecera, sem que, no entanto, suas investigações terminassem. Continuava a tentar saber o que já não lhe interessava, porque o seu ego antigo, tendo chegado à extrema decrepitude, ainda agia de modo maquinal, segundo preocupações abolidas, a tal ponto que Swann já não conseguia sequer imaginar essa angústia, tão forte noutro tempo que supunha que jamais se livraria dela, e que somente a morte da mulher a quem amava (a morte que, como o mostrará mais adiante nesta obra uma cruel contra-prova, não diminui em nada os sofrimentos do ciúme) lhe parecia capaz de liberar o caminho de sua vida, inteiramente obstruído.

            Porém, esclarecer um dia os fatos relativos à vida de Odette, aos quais devera tais sofrimentos, não fora o único anseio de Swann; reservara-se também o de se vingar deles, quando, não amando mais a Odette, não a temesse mais; ora, quanto a este segundo desejo, a ocasião favorável apresentava-se justamente agora, pois Swann amava a outra mulher, uma mulher que não lhe dava motivos de ciúme porque ele já não era capaz de renovar seu modo de amar e aquele que usara com Odette é que lhe servia ainda para outra. Para que o ciúme de Swann renascesse, não era necessário que essa mulher fosse infiel, bastava, por uma razão qualquer, que ela estivesse longe dele, num sarau, por exemplo, e parecesse divertir-se ali. Era o bastante para redespertar nele a velha angústia, lamentável e contraditória excrescência de seu amor, e que afastava Swann do que ela era, como uma necessidade de atingir o sentimento real que aquela moça lhe dedicava, o desejo escondido de seus dias, o segredo de seu coração, pois, entre Swann e aquela que o amava, essa angústia interpunha um montão refratário de suspeitas anteriores, tendo sua causa em Odette, ou em alguma outra que talvez a houvesse precedido; que só permitiam ao amante envelhecido conhecer sua amada de hoje através do fantasma antigo e coletivo da "mulher que excitava o seu ciúme", na qual encarnara, arbitrariamente, o seu novo amor. Entretanto, diversas vezes Swann acusava esse ciúme de fazê-lo crerem traições imaginárias; mas então lembrava-se que beneficiara Odette com o mesmo raciocínio erroneamente. Assim, tudo o que a moça fazia; as horas em que ele não se achava presente, deixava de lhe parecer inocente. Ao passo que, antigamente, jurara que, se alguma vez deixasse de amar aquela não adivinhava se seria um dia a sua mulher, que lhe patentearia implacavelmente toda a sua indiferença, enfim sincera, para vingar seu orgulho que fora ferido por tanto tempo, tais represálias que podia agora exercer sem qualquer risco (que lhe importava ser chamado às falas e que Odette o privasse daquela intimidade; que outrora lhe eram tão necessárias?), tais represálias não lhe interessava mais; com o desaparecimento do amor, desaparecera igualmente o desejo de demonstrar que já não sentia amor. Ele, que, quando sofria por Odette, tanto a ponto de deixar ver um dia que estava apaixonado por outra, agora, que o podia, tomava precauções para que a mulher não suspeitasse desse novo amor.

            Não só tomava agora parte naqueles lanches, devido aos quais tivesse antigamente a tristeza de ver Gilberte me deixar e voltar mais cedo para também nas saídas que ela dava com a mãe, seja para ir passear ou a um matinal, e que, impedindo-a de ir aos Chames-Élysées, me haviam privado os dias em que eu ficava sozinho ao longo do relvado ou diante dos cavalos de madeira. O Sr. e a Sra. Swann me admitiam agora nessas saídas, eu tinha lugar no seu landô e até era a mim que perguntavam se gostava mais de ir ao teatro; à uma aula de dança na casa de uma colega de Gilberte; à uma reunião mundana na casa de amigos de Swann (o que Odette denominava um "pequeno méeting) ou visitar os túmulos de Saint-Denis!

            Nesses dias em que devia sair com os Swann, ia à casa dela para o almoço, que a Sra. Swann apelidava lunch; como só era convidado para meio dia e meia e meus pais almoçavam às onze e quinze, era depois que eles saíam a hora em que eu me encaminhava para aquele bairro luxuoso, muito sozinho; mas, particularmente naquela hora, em que todo mundo se achava em casa comendo. Embora inverno e com o frio intenso, se fazia bom tempo eu passeava ao longo das avenidas esperando que fosse meio-dia e vinte e sete, ajeitando de vez em quando uma magnífica gravata da casa Charvet e examinando se minhas botas estavam envernizadas se não estavam se sujando. Via de longe, no jardinzinho dos Swann, o sol fazendo cintilar, como de geada, as árvores desnudas. É verdade que só tinha duas. A hora inusitada tornava novo o espetáculo. A esses prazeres da natureza (avivados pela supressão do hábito e até pela fome), misturava-se, a expectativa emocionante do almoço em casa da Sra. Swann, o que não diminuíra os prazeres, porém dominava-os, escravizava-os, transformava-os em acessórios mundanos; de modo que se, naquela hora em que de ordinário eu não os observasse sua existência, parecia-me descobrir o bom tempo, o frio, a luz invernal, era como um prefácio aos ovos com creme, como uma pátina, uma camada transparente e rósea aplicada ao revestimento daquela capela misteriosa que era a residência da Sra. Swann, em cujo seio se conservavam, ao contrário, tanto calor, tanto perfumes e flores.

            Ao meio-dia e meia, eu me decidia, enfim, a entrar naquela casa, como um grande sapato de Natal, parecia-me dever trazer prazeres sobrenaturais. Este nome de Natal era desconhecido da Sra. Swann e de Gilberte, que o haviam substituído pelo de Christmas, e só falavam do pudim de Christmas, e do que lhes haviam dado pelo seu Christmas, de ausentarem-se o que me deixava louco de dor pelo Christmas. Mesmo em casa, eu me julgaria desonrado se falasse do Natal e só dizia Christmas, o que meu pai achava extremamente ridículo.

            Primeiro, eu apenas encontrava um lacaio que, depois de me fazer atravessar diversos salões grandes, introduzia-me numa sala bem pequena, vazia, que já começava a sonhar com a tarde azul de suas janelas; ficava sozinho em companhia das orquídeas, das rosas e das violetas, que-semelhantes à pessoas que esperam ao nosso lado, mas não nos conhecem -mantinham um silêncio que sua individualidade de coisas vivas tornava ainda mais impressionante e recebiam, friorentamente, o calor de um fogo incandescente de carvão, sabiamente colocado detrás de uma vitrine de cristal, em uma cuba de mármore branco, onde fazia cair, de vez em quando, seus perigosos rubis.

            Estava sentado, mas erguia-me com precipitação ao escutar a porta se abrir; era apenas um segundo lacaio, depois um terceiro; o escasso resultado de suas idas e vindas inutilmente emocionantes era colocar um pouco de carvão no fogo ou de água nos jarros. Iam-se, e eu me encontrava de novo sozinho, uma vez fechada a porta que a Sra. Swann acabaria por abrir. E com certeza ficaria menos perturbado em uma caverna mágica do que naquela salinha de espera, onde o fogo me parecia proceder à transmutações, como no laboratório de Klingsor. Um novo rumor de passos ressoou; não me ergui, devia ser outro lacaio, era o Sr. Swann.

            - Como? Você está sozinho? Desculpe, minha pobre mulher nunca sabe as horas. Dez para uma. Cada dia é mais tarde. Vai ver que ela chegará sem pressa, julgando estar adiantada.-           E como sofria de neurartritismo e tornara-se um tanto ridículo, ter uma mulher tão impontual, que voltava do Bois muito tarde, que se esquecia na casa da costureira e nunca estava em casa na hora do almoço, tudo isso inquietava Swann por causa de seu estômago, mas lisonjeava-o em seu amor-próprio.

            Mostrava-me as novas aquisições que fizera, explicando o interesse que possuíam; porém, a emoção, aliada à falta de hábito de ainda estar em jejum àquela hora, sempre agitando meu espírito, causava-lhe um vazio, de modo que, sendo capaz de falar não conseguia compreender. Aliás, bastava para mim que as obras que Swann possuía estivessem localizadas em sua casa, fizessem parte da hora deliciosa que precedia o almoço. A Gioconda, mesmo que ali se encontrasse, não me teria dado maior satisfação que um chambre da Sra. Swann ou os seus frascos de sais.

            Continuava a esperar, sozinho ou com Swann e muitas vezes com Gilberte, que vinha nos fazer companhia. A chegada da Sra. Swann, preparada por tantas majestosas parecia-me ser algo de imenso. Prestava atenção em ruído. Mas a gente jamais acha tão altos quanto esperava uma catedral, uma onda na tempestade, o salto de um bailarino; depois daqueles instantes - parecidos com os figurantes cujo desfile prepara e, por isso mesmo, aparecimento final da rainha-a Sra. Swann, entrando furtivamente de casaquinho de lontra, o véu descido sobre um nariz avermelhado; e aquela entrada não sustentava as promessas prodigalizadas durante a espera à minha imaginação.

            Mas, se tivesse ficado a manhã inteira em casa, ao entrar no salão vestida com um peignoir de crepe da China, de cor clara, que me parecia mais elegante que todos os vestidos.

            Às vezes, os Swann optavam por ficar em casa a tarde toda. Tínhamos almoçado muito tarde, eu via bem depressa, no muro do jardim declinar o sol daquele dia que me parecera ser diferente dos outros; por mais que os criados trouxessem lampiões de todas as formas e tamanhos quase ardendo no altar consagrado de um consolo; de uma mesa-de-pé; uma "cantoneira", ou de uma mesinha, como para a celebração de um desconhecido culto e nada de extraordinário surgia na conversa e eu ia embora desiludido como ficamos muitas vezes na infância após a Missa do Galo.

            Mas aquele desapontamento era apenas espiritual. Eu ficava saltando de alegria naquela casa em que Gilberte, quando ainda não estava conosco, ia entrar num instante, durante horas, a sua palavra, seu olhar atento e risonho como visto pela primeira vez em Combray. Quando muito, ficava um pouco triste ao vê-la desaparecer com freqüência em grandes quartos aos quais se via uma escada interna. Obrigado a ficar no salão, como o apaixonado por uma atriz, que só tem a sua poltrona na platéia e imagina inquieto o que se passa nos bastidores, no foyer dos artistas; fiz à Swann, a respeito dessa outra parte da casa perguntas sabiamente veladas, mas com um tom no qual não pude deixar que transparecesse uma certa ansiedade. Ele me explicou que a peça para a qual Gilberte ia era a rouparia; ofereceu-se para mostrá-la e me prometeu que as vezes que Gilberte tivesse de ir para lá, a obrigaria me levar junto. Por estas palavras e a tranqüilidade que me deram, Swann suprimiu de chofre uma dessas distâncias interiores horríveis em cujo termo uma mulher a qual amamos nos parece tão longínqua. Naquele momento, senti por Swann um carinho que julguei mais profundo do que o que dedicava à Gilberte. Pois ele, dava-me o amor de sua filha, ao passo que ela se recusava às vezes, e eu não tinha diretamente sobre ela o mesmo domínio que, indiretamente, tinha através de Swann. Ademais amava-a, e não podia em conseqüência vê-la sem essa perturbação, sem esse desejo de algo superior, que retira, junto à criatura que se ama, a sensação de amar.

            Mas em geral, na maioria das vezes, não ficávamos em casa, saíamos pra passear. Às vezes, antes de ir se vestir, a Sra. Swann sentava-se ao piano. As mãos, saindo das mangas róseas ou brancas, muitas vezes de cores vivas do seu chambre de crepe da China, alongavam as falanges sobre o teclado com a mesma melancolia que estava em seus olhos, mas não no coração. Foi num desses dias que lhe ocorreu tocar para mim o trecho da Sonata de Vinteuil onde se acha a pequena frase que Swann amara tanto. Mas, as mais das vezes não se entendia nada, pois é uma música meio complicada para quem ouve pela primeira vez. Entretanto, quando mais tarde me foi tocada duas ou três vezes esta sonata, achei que a conhecia perfeitamente. Assim, não é errado dizer "ouvir pela primeira vez". Se a gente, de fato, como julga, não entendeu nada na primeira audição, a segunda e a terceira seriam outras tantas primeiras e não haveria razão para que se compreenda algo a mais na décima. Provavelmente, o que falta na primeira vez não é a compreensão, e sim a memória. Pois a nossa, relativamente à complexidade das impressões com que se defronta enquanto ouvimos, é ínfima, tão breve quanto a memória de um homem que, ao dormir, pensa mil coisas que logo esquece, ou de um homem meio reduzido à infância, que não se recorda no minuto seguinte daquilo que acabamos de lhe dizer. A memória não é capaz de nos fornecer imediatamente a lembrança dessas impressões múltiplas. Mas esta lembrança se forma pouco a pouco na memória e, no tocante às obras que ouvimos duas ou três vezes, estamos como o colegial que releu diversas vezes antes de dormir um ponto que achava não saber e o recita de cor na manhã seguinte. Apenas, eu ainda não ouvira aquela sonata até esse dia, e onde Swann e sua mulher viam uma frase distinta, esta se achava tão longe de minha percepção nítida quanto um nome que a gente procura recordar e em cujo lugar só se encontra o vazio absoluto, vazio do qual, uma hora mais tarde, sem que se pense nelas, brotam por si mesmas, de um só golpe, as sílabas antes solicitadas em vão. E não apenas a gente não retem de imediato as obras verdadeiramente raras, porém até no íntimo de cada uma delas; isto me aconteceu no caso da Sonata de Vinteuil - são as partes menos preciosas que percebemos em primeiro lugar. De modo que eu não me enganava apenas ao pensar que a obra não me reservava mais nada (o que fez com que eu ficasse muito tempo sem procurar ouvi-la) tão logo a Sra. Swann executou a frase mais famosa (eu era tão estúpido a esse respeito como aqueles que já não esperam ter surpresas diante da igreja de São Marcos, em Veneza, porque a fotografia lhes fez saber a fama de seus domos). Muito mais, porém; mesmo quando ouvi a sonata do princípio ao fim, ela me permaneceu quase totalmente invisível, como um monumento do qual a bruma ou a distância não deixam perceber senão partes diminutas. Daí a melancolia que se liga ao conhecimento de tais obras, como a tudo que se realiza no tempo. Quando o que era o mais oculto na Sonata de Vinteuil se desvelou pra mim, então, arrastado pelo hábito para fora da minha sensibilidade, começava a escapar-me, a fugir-me, o que eu distinguira e preferira da primeira vez. Por só ter podido amar em tempos sucessivos tudo aquilo que a sonata me trazia, nunca, fui à ela completamente: ela assemelhava-se à vida. Porém, menos enganosas que a estas grandes obras-primas não começam por doar o que possuem de melhor. Na Sonata de Vinteuil, as belezas que se descobrem mais rapidamente também, as que cansam mais cedo e sem dúvida pela mesma razão, elas diferem menos daquilo que já se conhece. Mas, quando estas são arejadas, resta-nos amar a tal frase, cuja ordenação, por mais nova que seja para oferecer a nosso espírito nada além de confusão, a mantivera indiscernível e conservara intacta; então, ela, diante da qual passávamos todos os dias sem o saber e sequer pelo poder de sua exclusiva beleza se tornara invisível e permanece desconhecida, ela nos chega por último. Mas também a deixaremos por último. Iremos amá-la durante muito mais tempo que às outras, pois teremos levado tempo até amar. Ademais, esse tempo de que precisa um indivíduo - como foi preciso a respeito dessa Sonata - para penetrar numa obra um pouco profunda e súmula; é como que o símbolo dos anos, por vezes dos séculos, que antes que o público possa amar uma obra-prima verdadeiramente nova. Talvez seja por isso que o homem de gênio, para evitar as incompreensões da turba; como visto faltar aos contemporâneos a necessária distância, as obras escritas para a posteridade só deveriam ser lidas por ela na posteridade, tal como certas pinturas que incorretamente são vistas muito de perto. Mas na realidade, toda precaução de evitar os falsos julgamentos é inútil, eles não podem ser evitados. O motivo de uma obra de gênio ser admirada de imediato é que aquele que escreveu é extraordinário; poucas pessoas se lhe assemelham. Sua própria obra que, fecundando os raros espíritos capazes de compreendê-la, os fará multiplicar. Foram os próprios quartetos de Beethoven (os de número XII a XV) que levaram cinqüenta anos para fazer nascer e crescer o público dito de Beethoven, realizando assim, como todas as obras-primas, um progresso senão do valor dos artistas, pelo menos na sociedade dos espíritos, hoje composta daquilo que era impensável quando a obra-prima apareceu à criaturas capazes de amá-la. O que denominamos posteridade, é a posteridade da obra. É necessário que a obra (não levando em conta, para simplificar, que na mesma época podem, paralelamente, preparar para o futuro o público do qual os outros gênios se beneficiarão) crie ela mesma a sua posteridade. Se, no entanto, a obra era mantida em segredo, e se fosse apenas conhecida na posteridade, esta, quanto a tal obra, não seria a posteridade e sim uma de contemporâneos que simplesmente tivessem vivido cinqüenta anos. Assim, é preciso que o artista - e era o que havia feito Vinteuil -, se quer que sua obra possa seguir seu caminho, lance-a, onde houver bastante profundidade, à pleno e longínquo futuro. No entanto, se não tem em conta esse tempo a vir, verdadeira perspectiva das obras-primas, se não levá-lo em conta é o erro dos maus juízes, levá-lo é por vezes o perigoso escrúpulo dos bons. Sem dúvida, é fácil imaginar-se por uma ilusão análoga à que uniformiza todas as coisas no horizonte, que todas as revoluções ocorridas até agora na pintura ou na música respeitavam todavia algumas regras; e o que está imediatamente diante de nós, impressionismo, procurada dissonância, emprego exclusivo da gama chinesa, cubismo, futurismo, difere de modo ultrajante daquilo que o precedeu. É que aquilo que o precedeu é considerado sem levar em conta que uma longa assimilação o converteu para nós numa matéria variada, sem dúvida, mas afinal de contas homogênea, onde Victor Hugo se avizinha de Moliére. Imaginemos apenas os disparates chocantes que nos apresentariam, se não levássemos em conta o tempo vindouro e as mudanças que ele acarreta, determinado horóscopo de nossa própria idade madura feito diante de nós durante a nossa adolescência. Apenas, nenhum horóscopo é verdadeiro e somos obrigados, no caso de uma obra de arte, a computar em sua beleza o fator tempo mesclado ao nosso julgamento algo tão casual e, por isso, tão desprovido de interesse verdadeiro como toda profecia cuja não-realização não implicará de forma alguma a mediocridade de espírito do profeta, pois o que chama à existência as possibilidades, ou dela as exclui, não é forçosamente da competência do gênio; pode-se ter tido gênio e não haver acreditado nas estradas de ferro; nem nos aviões, ou, sendo grande psicólogo, na falsidade de uma amante ou de um amigo, cujas traições os mais medíocres conseguiram prever.

            Se não compreendi a sonata, fiquei encantado por ouvir a Sra. Swann tocar. Seu toque me parecia, como seu peignoir, como o perfume de sua escada, como seus mantôs, como os crisântemos, fazer parte de um todo individual e misterioso, num mundo infinitamente superior àquele em que a razão pode analisar o talento. - Não é bela mesmo esta Sonata de Vinteuil?-observou Swann. - É o momento em que anoitece sobre as árvores, em que os arpejos do violino espalham o frescor. Confesse que é bem bonito; aí vemos todo o lado estático do luar, que é o lado essencial. Não é nada extraordinário que um cuidado de luz como o que segue minha mulher reaja sobre os músculos, visto que o luar impede as folhas de se mexerem. É isto que está tão bem pintado nessa pequena frase, é o Bois de Boulogne em estado de catalepsia. À beira-mar é ainda mais surpreendente, porque há fracas respostas das vagas que a gente ouve naturalmente muito bem, visto que o resto já não pode se mover. Em Paris é o contrário; quando muito, notam-se esses clarões insólitos sobre os monumentos, o céu iluminado como por um incêndio sem cores e sem perigo, esse tipo de imenso fait-divers adivinhado. Mas na pequena frase de Vinteuil e, aliás, em toda a Sonata, não se cuida disso. Tudo se passa no Sois; no grupo ouve-se distintamente a voz de alguém que diz:-"Quase se poderia ler um jornal."

            Estas palavras de Swann teriam podido falsear, para mais tarde, a minha compreensão da sonata, pois a música é bem pouco exclusiva para afastar de modo absoluto aquilo que se sugira que vejamos nela. Mas, por outras palavras de Swann, compreendi que essas folhagens noturnas eram pura e simplesmente como as árvores que combinaram sob cuja espessura, em muitas noites e em vários restaurantes das proximidade de Paris, ele ouvira a pequena frase. Em vez do sentido profundo que ele tantas vezes lhe pedira, o que ela trazia a Swann eram essas folhagens enroladas e pintadas ao redor dela (e que a frase lhe dava o desejo de reviver; parecia o seu ser interior, como uma alma), era toda uma primavera que pudera desfrutar outrora, não sendo nervoso e magoado como era naquele bem-estar suficiente para tal, e que ela lhe guardara (como se guarda do enfermo, bons pratos que ele não pôde comer). Os encantos que certas Bois lhe haviam dado e sobre os quais a Sonata de Vinteuil podia lhe informar; não poderia, a tal respeito, interrogar Odette, que no entanto o acompanhava na pequena frase. Mas Odette estava apenas a seu lado na ocasião (e não como o motivo de Vinteuil) e, portanto, nada teria visto – embora mil vezes mais compreensiva -, o que para nenhum de nós (pelo menos julguei por muito tempo; regra que não tinha exceções) se pode exteriorizar.

            - No fundo é muito bonito mesmo - disse Swann - que o som possa refletir, como a água, ou como um espelho reflete, não é verdade?

            Repare que a frase de Vinteuil só me mostrava aquilo a que eu não prestava atenção naquele tempo. De minhas preocupações, de meus amores dessa época não me recorda mais nada; fez uma troca.

            -Charles, parece-me que não é nada para mim tudo o que estás dizendo. - Nada amável! - Como não? As mulheres são tremendas! Queria dizer simplesmente a este rapaz que o que se vê na música mostra - pelo menos pra mim -, o que não significa de maneira alguma a "Vontade em si" e a "Síntese do infinito"; senão, por exemplo, o velho Verdurin de redingote no Palmariumd da Aclimação. Mil vezes sem sair deste salão, a pequena frase me levou para jantar em Armenonville. Meu Deus, sempre é menos aborrecido comparecer com a Sra. de Cambremer.

            A Sra. Swann se pôs a rir:

            -É uma senhora que passa por ter sido muito apaixonada por Charles - explicou-me, com o mesmo tom em que, pouco antes, falando de Vermeer de Delft me contestou espantando-se por não o conhecer. Respondera:

            - E lhe digo que o Sr. Swann se ocupava muito do pintor à época em que me cortejava. Não é, meu querido Charles?

            - Não fale a torto e a direito da Sra. de Cambremer - disse Swann, que no fundo se sentia lisonjeado.

            - Mas não faço mais que repetir o que me disseram. Aliás, ela é muito inteligente, não a conheço. Considero-a muito pushing, o que me espanta numa mulher inteligente. Mas todos dizem que ela foi louca por ti e não tem nada de ofensivo.

            Swann conservou um mutismo de surdo, uma espécie de confirmação e uma prova de fatuidade.

            - Já que o quer recorda o Jardim da Aclimação - continuou a Sra. Swann, fingindo-se zangada com o gracejo. - poderíamos torná-lo como objetivo do nosso passeio, se gosta disto o menino. O tempo está magnífico e você poderia reencontrar suas mais preciosas lembranças. A propósito do Jardim da Aclimação, você sabe que este rapaz, pensava que gostávamos muito de uma pessoa que, pelo contrário, evitamos cumprimentá-la sempre, é a Sra. Blatin! Acho muito humilhante para nós que ela passe por ser amiga. Imagine que o próprio Dr. Cottard, que nunca fala mal de pessoa alguma, diz que ela é infecta!

            -Que horror! Ela só tem a seu favor o fato de se parecer extraordinariamente a Savonarola. É exatamente o retrato de Savonarola por Fra Bartolomeo.

            A mania de Swann de descobrir semelhanças no terreno da pintura era defensável, pois mesmo aquilo a que chamamos expressão individual é-como percebemos com tanta tristeza quando amamos e gostaríamos de acreditar na realidade única do indivíduo-algo bem geral e que pôde encontrar-se em épocas diversas. Mas a julgar por Swann, os cortejos dos Reis Magos, já tão anacrônicos quando Benozzo Gozzoli aí introduziu os Médicis, muito mais o seriam ainda, visto conterem o retrato de uma multidão de homens contemporâneos, não de Gozzoli mas de Swann, ou seja, posteriores não mais somente de quinze séculos à Natividade, mas de quatro séculos ao próprio pintor. Nesses cortejos não havia, segundo Swann, um só parisiense importante que estivesse faltando, como naquele ato de uma peça de Sardou, no qual, por amizade ao autor e à principal intérprete, e também por moda, todas as notabilidades parisienses, médicos célebres, homens políticos, advogados, vieram, para divertir-se, cada qual numa noite, apresentar-se em cena.

            -Mas que relação tem ela com o Jardim da Aclimação?

            -Todas! - O que imagina, Odette? Acha que ela tem um traseiro azul-celeste como os macacos?

            -Charles, você é de uma inconveniência! Não, eu pensava no termo que lhe disse o cingalês. Conte-lhe, é na verdade uma palavra espirituosa.

            -É uma idiotice. Você sabe que a Sra. Blatin gosta de interpelar todo mundo com um ar que julga ser amável e sobretudo protetor.

            - O que os nossos bons vizinhos do Tâmisa denominam patronizing - interrompeu Odette. - Ela foi ultimamente ao Jardim da Aclimação onde há negros, cingaleses, creio, disse minha mulher que é muito mais forte em etnografia do que eu.

            -Ora, Charles, não caçoe.

            - Mas não estou caçoando de jeito nenhum. Afinal, ela se dirigiu a um desses negros: "Bom dia, negro!"

            - Não era nada!

            - Em todo caso, o qualificativo não agradou ao negro: "Eu negro?",- disse ele furioso à Sra. Blatin, "mas tu camelo!"

            -Acho muito engraçado! Adoro essa anedota. Não é "linda"? Parece que a gente vê a Sra. Blatin: "Eu negro, mas tu camelo!"

            Manifestei muita vontade de ir ver os cingaleses, um dos quais chamara a Sra. Blatin de camelo. Eles absolutamente não me interessavam. Mas eu pensava que, para ir ao Jardim da Aclimação e depois voltar, atravessaríamos aquela alameda das Acácias onde admirara tanto a Sra. Swann, e que talvez o mulato amigo de Coquelin, a quem jamais pudera me mostrar saudando a Sra. Swann, me visse sentado ao lado dela no fundo de uma vitória.

            Durante esses minutos em que Gilberte, tendo saído para se preparar, não estava conosco no salão, o Sr. e a Sra. Swann se agradavam em me revelar as raras virtudes da filha. E tudo o que observava parecia provar que falavam a verdade. Notei que, como sua mãe me dissera, ela tinha não só com suas amigas, mas para os criados, para os pobres, atenções delicadas, demoradamente refletidas, um desejo de agradar e um medo de descontentar, que se traduziam por pequenas coisas que muitas vezes lhe faziam muito mal. Fizera um trabalho para a nossa vendedora dos Champs-Élysées e saiu pela neve para entregá-lo sem um dia de atraso.

            -Você nem imagina o que é o seu coração, pois ela o oculta.- dizia o pai.

            Tão jovem, parecia muito mais ajuizada que os pais. Quando o Sr. Swann falava das grandes amizades da esposa, Gilberte desviava a cabeça para outro lado, sem ar de censura, pois o pai não lhe parecia poder ser objeto da mais leve crítica. Um dia em que lhe falei da Srta. Vinteuil, ela me disse:

            -Jamais a conhecerei, por um motivo: é que ela não era amável com seu pai; pelo que se diz, causava-lhe desgosto. Não poderá você compreender isto como eu, não é mesmo? Você que não poderia, sem dúvida, sobreviver, como eu ao meu, o que aliás é muito natural. Como esquecer algum dia alguém a quem se amou sempre?

            E certa vez em que se mostrou mais especialmente carinhosa e como lhe observei quando ele estava longe:

            - Sim, pobre papai, foi por estes dias o aniversário da morte do seu pai. Você pode entender o que deve estar sentindo, compreende isto, sentimos sobre essas coisas. Então procuro ser menos má que de costume.

            - Seu pai não a considera má, acha-a perfeita.

            -Pobre papai, é porque ele é muito bom.

            Seus pais não me fizeram apenas o elogio da filha esse mês; mesmo antes que a tivesse conhecido, me aparecia diante de uma igreja, numa paisagem da Ìle-de-France, e que a seguir, evocando-me não mais sonhos e sim minhas recordações, estava sempre diante da sebe de espinheiros na ladeira por onde eu ia para os lados de Méséglise. Como pergunta Swann, esforçando-me para assumir o tom indiferente de um amigo curioso das preferências de uma criança, quais eram, dentre os companheiros de Gilberte, aqueles de quem ela mais gostava, a Sra. Swann respondeu:

            -Mas você deve estar mais adiantado que eu sobre tais confidências que é o predileto, o grande crack, como dizem os ingleses.

            Sem dúvida, nessas coincidências tão perfeitas, quando a realidade a dobrar-se incide sobre o que sonhamos por muito tempo, ela nos oculta inteiramente, se confunde com ele, como duas figuras iguais e superpostas quase formando somente uma, enquanto, pelo contrário, para dar todo o seu significado de alegria, gostaríamos de manter em todos os nossos desejos, no momento em que os tocamos - e para estarmos bem certos de que são eles o prestígio de serem intangíveis. E o pensamento não pode sequer voltar ao antigo estado para confrontá-lo com o novo, pois já não dispõe de campo livre; o conhecimento que adquirimos, a lembrança dos primeiros minutos inesperados, as frases que ouvimos, são o que obstruem a entrada da nossa consciência, comandam muito mais as aberturas da nossa memória do que as da nossa imaginação, e retroagem mais sobre o nosso passado que já não somos senhores de levá-los em conta, do que sobre a forma, ainda livre, do nosso futuro. Durante muito tempo eu acreditara que ir à casa da Sra. Swann era uma vaga quimera que jamais alcançaria; depois de haver passado um quarto de hora em sua casa, foi o tempo em que não a conhecia que se tornou quimérico e vago como uma possibilidade que a realização de outra possibilidade aniquilou. Como poderia sonhar ainda com a sala de jantar como se fosse um lugar inacessível, quando não podia fazer um movimento de espírito sem dar com os raios infrangíveis que dele emitia ao infinito, até o meu passado mais distante, a lagosta americana que acabava de comer? Swann devia ter visto ocorrer algo semelhante, no que lhe dizia respeito: pois o apartamento em que me recebia podia ser considerado o lugar em que tinham ido confundir-se e coincidir, não só o apartamento ideal que minha imaginação havia engendrado, mas um outro ainda, o que o amor ciumento de Swann, tão inventivo como os meus sonhos, lhe descrevera tantas vezes; aquele apartamento comum a ele e a Odette que lhe parecera tão inacessível naquela noite em que Odette o levara com Forcheville para tomar laranjada em sua casa; e o que, para ele, viera absorver-se no plano da sala de jantar onde comíamos, era aquele paraíso inesperado onde outrora ele não podia imaginar, sem perturbar-se, que diria ao mordomo deles estas mesmas palavras:

            -"Madame está pronta?", que eu lhe ouvia pronunciar agora com leve impaciência mesclada a uma certa satisfação de amor-próprio. E, sem dúvida, não mais do que o podia Swann, eu não chegava a conhecer a minha própria felicidade, e quando Gilberte exclamou:

            - Quem diria que a menininha que você olhava sem lhe falar, que jogava barras, seria a grande amiga em cuja casa você iria todos os dias que quisesse?! - Estava falando de uma mudança que eu era obrigado a considerar de fora, mas que não possuía internamente, pois se compunha de dois estados em que não conseguia pensar ao mesmo tempo, sob pena de que cessassem de ser distintos um do outro.

            No entanto, esse apartamento, visto que fora desejado tão ardentemente por sua vontade, devia conservar para Swann uma certa doçura, se o julgasse por mim, para quem não perdera todo seu mistério. O encanto singular, no qual eu durante tanto tempo imaginara banhar-se a vida dos Swann, não o expulsara inteiramente da sua residência ao penetrar nela; fizera-o recuar, dominado que fora por esse estranho, esse pária que eu tinha sido e para o qual a Srta. Swann empurrava graciosamente, para que se sentasse, uma poltrona deliciosa, hostil e escandalizada; porém esse encanto, percebo-o ainda na minha recordação. Seria porque, nesses dias em que o Sr. e a Sra. Swann me convidavam para almoçar, e logo depois para sair com eles e Gilberte, eu imprimia com meu olhar - enquanto esperava sozinho sobre o tapete, as poltronas, os consolos, os biombos, os quadros, com a idéia, em mim gravada, de que a Sra. Swann ou o marido, ou Gilberte iam entrar? Seria porque tais coisas viveram desde então na minha memória, ao lado dos Swann acabaram por assumir alguma coisa deles? Seria porque, sabendo que eles passavam sua existência no meio delas, fazia de todas elas como que os emblemas de sua vida particular, de seus hábitos dos quais fora por tão longo tempo que me continuaram a parecer estranhos mesmo quando me fizeram misturar-me à eles? E sempre que penso nesse salão que Swann (semelhante crítica implicasse de sua parte a intenção de não contrariar em nada os de sua mulher) achava tão disparatado, pois sendo todo ele concebido ainda que do gosto meio estufa, meio ateliê, do apartamento em que conhecera entretanto começara a substituir naquela embrulhada um certo número chineses; que agora julgava um tanto "artificiais", "fora de moda", por um de pequenos móveis forrados de velhas sedas Luís XVI (sem contar as o trazidas por Swann do apartamento do cais de Orléans) -, na minha memória existe, ao contrário, naquele salão composto, uma coesão, uma unidade, um encanto individual; que nunca sequer tiveram os mais intactos conjuntos que nos legou no passado; nem ainda, os mais vivos onde se assinala a marca que somente nós podemos, pela crença de que têm uma existência própria, certas coisas que vemos uma alma, que a seguir conservam-se dentro de nós. Todas as idéias que eu formava das horas diversas que existem para os outros homens, que os Swann passavam naquele apartamento; que significava, para o tempo cotidiano de suas vidas, o que o corpo é para a alma e que devia exprimir sua singularidade, todas essas idéias estavam repartidas amalgamadas por toda a parte igualmente perturbadoras e indefiníveis nos móveis, na espessura dos tapetes, na orientação das janelas, no serviço doméstico. Quando, após o almoço, íamos tomar café ao sol, na grande janeta enquanto a Sra. Swann me perguntava qual a quantidade de açúcar que colocava no café, não era apenas o tamborete forrado de seda, que ela chegava que desprendia com o encanto doloroso que eu percebera outrora espinheiro-rosa e depois ao lado do bosque de loureiros no nome de Gilberte, a hostilidade que me haviam testemunhado seus pais e que este pequeno móvel - parecia ter sabido e partilhado tão bem, que eu não me sentia digno e um tanto desprezível de impor meus pés no seu estofamento sem defesa: uma alma pessoal ligava-o secretamente à luz das duas horas da tarde, diferente do que era por toda a parte, além, no golfo, onde fazia brincar à nossos pés suas ondas de ouro em meio às quais os canapés azulados e as vaporosas tapeçarias como ilhas encantadas; e até o quadro de Rubens, pendurado sobre a  lareira; também do mesmo gênero e quase a mesma força de encanto que as laçadas do Sr. Swann e o mantô de pelerine, que eu tanto desejara ter um igual. Agora a Sra. Swann pedia ao marido que substituísse por outro, parecia mais elegante, quando lhes dava a honra de sair com eles. Ela também ia se vestir, embora eu protestasse que nenhuma roupa de passeio nem de longe era maravilhoso como o chambre de crepe da China ou de seda, rosa murcho, Tiepolo, branco, malva, verde, vermelho, amarelo liso ou com desenho, que a Sra. Swann havia almoçado e que ia tirar. Ao dizer que ela deveria sair assim, a Sra. Swann ria, troçando da minha ignorância ou de prazer pelo meu cumprimento, desculpava-se de possuir tantos peignoirs, por achar que somente com eles é que se sentia à vontade, e nos deixou, para ir pôr um desses vestidos majestosos que se impõem a todos e entre os quais, no entanto, eu era por vezes chamado a escolher aquele que preferia que ela vestisse.

            No Jardim da Aclimação, como eu me mostrava orgulhoso ao descer do carro e poder andar ao lado da Sra. Swann! Enquanto, em seu andar despreocupado, a Sra. Swann deixava flutuar a capa, lançava-lhe olhares de admiração aos quais ela correspondia, de maneira coquete, com um largo sorriso. Agora, se encontrávamos um ou outro dos companheiros, menino ou menina, de Gilberte, que de longe nos saudava, eu era por minha vez olhado por eles como uma dessas criaturas que tanto invejara, um dos amigos de Gilberte que conheciam sua família e estavam associados à outra parte de sua vida, a que não se passava nos Champs-Élysées.

            Freqüentemente, nas alamedas do Bois ou do Jardim da Aclimação, cruzávamos e éramos saudados por esta ou aquela grande amiga de Swann, que ele não chegava a ver e que sua mulher lhe apontava:

            -"Charles, não está vendo a Sra. de Montmorency?" E Swann, com o sorriso amistoso devido a uma longa familiaridade, no entanto se descobria largamente com uma elegância própria dele. Às vezes a dama parava, feliz por fazer uma gentileza à Sra. Swann, gentileza sem maiores conseqüências e da qual sabia que a Sra. Swann não se aproveitaria a seguir, pois Swann a acostumara a tomar uma atitude de reserva. Mas Odette assumira todas as maneiras da sociedade e, por mais elegante e nobre que fosse o porte da dama, ela a igualava sempre; parada por um instante junto da amiga que o marido acabava de encontrar, apresentava-nos, a mim e a Gilberte, com tanta desenvoltura, conservava tanta liberdade e tanta calma em sua gentileza, que teria sido difícil dizer qual das duas era a dama, a esposa de Swann ou a aristocrata a passeio. No dia em que fomos ver os cingaleses, percebemos, na volta, vindo em nossa direção e seguida de duas outras que pareciam escoltá-la, uma dama idosa mas bonita ainda, envolta num mantô escuro e com uma pequena touca presa ao pescoço por duas fitas.

            - Ah, eis alguém que vai lhe interessar! - Disse-me Swann. - A velha senhora, já a poucos passos de nós, sorria com terna doçura. - Swann se descobriu, Odette se inclinou numa reverência e quis beijar a mão da dama semelhante a um quadro de Winterhalter, que a ergueu e beijou.

            -Ora, ponha o seu chapéu - disse ela a Swann; com voz grossa e um tanto zangada da amiga da família. -Vou lhe apresentar a Sua Alteza Imperial - disse-me a Sra. Swann. Swann me tomou à parte por um instante, quanto a Odette conversava com a alteza sobre o bom tempo e os novos animais chegados ao Jardim da Aclimação.

            - É a princesa Mathilde - disse-me ele – Você sabe, é a amiga de Flaubert, de Sainte-Beuve, de Dumas. Imagine, é a sobrinha de Napoleão II. Foi pedida em casamento por Napoleão III e pelo imperador da Rússia. Não é interessante? Fale um pouco com ela. Mas preferia não ficar parado aqui durante uma hora. E, dirigindo-se à velha disse:

            -Encontrei-me com Taine. Disse-me que a princesa está zangada com ele.

            -Comportou-se como um porco [em francês, cochon] - disse ela em voz áspera chiando a palavra como se se tratasse do nome do bispo contemporâneo de Joanna d'Arc [Cauchon]. - Depois do artigo que escreveu sobre o Imperador, dei-lhe cartão de despedida.

            Experimentei a mesma surpresa que se sente quando se abre a correspondência da duquesa de Orléans, nascida princesa paladina. E a princesa Mathilde, animada de sentimentos tão franceses, sentia-os expressar com rudeza honesta, como a da Alemanha de antigamente e que herdara sem dúvida de sua mãe wurtemburguesa. Sua franqueza um tanto grosseira e quase masculina, adoçada quando ela sorria, por um lango italiano. E o conjunto desta numa toalete de tal modo à maneira do Segundo Império que, embora certamente a usasse apenas para ser fiel às modas de que gostara, parecia que a intenção de não cometer um histórico erro de cor e de corresponder à expectativa dos que dela esperavam a evocação de uma outra época. Em segredo, pediu que lhe perguntasse se havia conhecido Musset.

            - Muito pouco, senhor - deu ela, fingindo-se aborrecida, e de fato era por gracejo que tratava senhor, sendo tão íntima dele.-Tive-o certa vez para jantar. Convidara-o para às sete horas. Às sete e meia, como ainda não tivesse chegado, fomos para mesa. Ele chegou às oito, cumprimentou-me, sentou-se, não abriu a boca, e foi ao jantar sem que eu tivesse ouvido o som de sua voz. Estava caindo de vergonha. Aquilo não me animou a continuar.

            Eu e Swann estávamos um tanto à parte.

            -Espero que esta pequena assembléia não se prolongue - disse-me ele -, porque as plantas dos pés vão doer. Também não sei por que minha mulher alimenta a conversa. Depois, ela é que vai se queixar de estar cansada e eu não posso mais fazer essas paradas em pé.

            Com efeito, a Sra. Swann, que obtivera a informação dos Bontemps, dizia à princesa que o governo, enfim compreendendo sua grosseria, decidira enviar-lhe um convite para que assistisse na tribuna à visita, que Nicolau devia fazer aos Inválidos, dois dias depois. Mas a princesa que, às aparências, apesar do seu séquito, composto principalmente de artistas de letras, continuara a ser no fundo, e de cada vez que precisava agir, a Napoleão:

            - Sim, madame, recebi o convite esta manhã e o mandei ao ministro, que deve tê-lo consigo agora. Disse-lhe que não precisava de convite para ir aos Inválidos. Se o governo deseja que eu vá, não estarei numa tribuna e sim, no nosso subterrâneo, onde fica o túmulo do Imperador. Não preciso de convites para tanto. Tenho minhas chaves. Entro como quiser. O governo não precisa me dizer se deseja que eu vá ou não. Mas, se eu for, será para ficar lá embaixo ou em parte alguma.

            Naquele instante fomos saudados, eu e a Sra. Swann por um rapaz que lhe deu bom-dia sem parar e que eu não sabia se ela conhecia. Contestando uma pergunta que lhe fiz, a Sra. Swann me disse que ele lhe fora apresentado pela Sra. Bontemps, e que era agregado ao gabinete do ministro, coisa que eu ignorava. De resto, não devia vê-lo com freqüência-ou então não quisera tocar no seu nome, Bloch, que devia julgar pouco chique pois disse que se chamava Sr. Moreul. Assegurei-lhe que estava confundindo, que ele se chamava Bloch. A princesa recolheu a cauda do vestido, que se desenrolava para trás e que a Sra. Swann contemplava com admiração.

            -É justamente uma pele que me enviou o imperador da Rússia - disse a princesa- e, como fui visitá-lo há pouco, coloquei-a para lhe mostrar que podia servir de mantô.

            -Parece que o príncipe Luís Napoleão se engajou no exército russo; a princesa vai ficar desolada por não tê-lo mais junto a si - disse a Sra. Swann, que não reparava nos sinais de impaciência do marido.

            - Para que precisava ele disso? É como lhe disse: "Não é motivo para fazeres semelhante coisa o fato de teres um militar na família" - respondeu a princesa, fazendo com essa brusca simplicidade uma alusão a Napoleão I.

            Swann já não se agüentava.

            - Madame, eu é quem vou bancar a Alteza e pedir permissão para nos despedirmos, porém minha esposa esteve muito doente e não quero que ela fique muito tempo imóvel.

            A Sra. Swann repetiu a reverência e a princesa teve para todos nós um sorriso divino que pareceu ter trazido do passado, dos encantos de sua juventude, dos saraus de Compiegne e que correu, intacto e doce, pelo rosto há pouco rabugento, e depois se afastou seguida das duas damas de companhia que só tinham feito, como intérpretes, como amas-secas ou enfermeiras, pontuar nossa conversação de frases insignificantes e de explicações inúteis.

            -Você deveria ir inscrever seu nome na casa dela, um dia destes -disse-me a Sra. Swann.-Não se dobra a ponta do cartão para tais royautés, como dizem os ingleses, mas ela o convidará se você se inscrever.

            Às vezes, nesses últimos dias de inverno, nós entrávamos, antes de ir passear, numa das pequenas exposições que se abriam na época e onde Swann, colecionador de marca, era saudado com especial deferência pelos negociantes de quadros em cujo estabelecimento elas ocorriam. E, nesses dias ainda frios, meus velhos anseios de partir para o Sul e para Veneza eram despertados por essas salas onde uma primavera já adiantada e um sol ardente punham reflexos violáceos nos Al Pilles rosados e davam a transparência carregada da esmeralda ao Grande Canal. Se o tempo estava feio, íamos ao concerto ou ao teatro e, a seguir, lanchar numa Casa de chá. Quando a Sra. Swann queria me dizer algo que não desejava fosse compreendido pelas pessoas das mesas vizinhas, ou até pelos garçons que nos serviam, falava-me em inglês como se se tratasse de uma língua conhecida apenas por nós dois. Ora, todo mundo sabia inglês, só eu é que ainda não o aprendera e era obrigado a dizê-lo à Sra. Swann para que ela parasse de fazer, a propósito das pessoas as que bebiam chá ou sobre as que o traziam, reflexões que eu adivinhava bem descorteses sem compreendê-las e sem que a pessoa visada perdesse a frase.

            Uma vez, a propósito de uma sessão matinal de teatro, Gilberte estava com profundo espanto. Era exatamente no dia em que me falara antes do aniversário da morte de seu avô. Eu e ela devíamos, com sua governanta, ir ouvir uma ópera e Gilberte se vestira com a intenção de ir a essa execução conservando o ar de indiferença que costumava mostrar para as coisas que íamos fazer, dizendo que podia ser qualquer coisa com tanto que me agradasse e fosse agradável a seus pais. Antes do almoço, sua mãe nos chamou à parte para falar que seu pai ficara aborrecido por nos ver ir ao concerto naquele dia. Acho muito natural. Gilberte ficou impassível, mas fez-se pálida de uma cólera que não pôde ocultar e não disse mais uma palavra. Quando o Sr. Swann voltou, levou-o para a outra extremidade do salão e segredou-lhe ao ouvido. Gilberte o levou para a peça ao lado. Ouviram-se vozes exaltadas. Por todo o barulho podia-se acreditar que Gilberte, tão submissa, tão terna, tão sensata, resistia ao pedido do pai num dia daqueles e por um motivo tão insignificante. Por fim saiu dizendo-lhe:

            - Sabes o que te disse. Agora, podes fazer o que quiseres.

            O rosto de Gilberte permaneceu contraído durante todo o almoço depois do qual fomos para o seu quarto. Depois, de repente, sem hesitação e como se tivesse tido por um só momento, gritou:

            - Duas horas! Mas você sabe que o concerto começa às duas e meia.- E disse à governanta que se apressasse.

            - Mas - disse eu - isso não aborrece o seu pai?

            - De jeito nenhum.

            - Entretanto, ele temia que isso parecesse estranho, por causa do aniversário.

            - E que me importa o que os outros pensem? Acho ridículo que se preocupe com os outros em matéria de sentimento. A gente sente para si e não para o público. Para Mademoiselle, que tem tão poucas distrações, é uma festa o concerto; não vou privá-la dele para dar satisfações ao público. E pegou o chapéu.

            - Mas Gilberte - observei, agarrando-a pelo braço - não se trata de dar satisfações ao público, é para atender a seu pai.

            - Você não vai me fazer advertências, espero - retrucou ela como que libertando-se vivamente.

            Favor ainda mais precioso que me levarem ao Jardim da Aclimação era ir ao concerto, os Swann não me excluíam sequer de sua amizade por Bergotte; estivera na origem do encanto que eu lhes achara quando, antes mesmo de conhecer Gilberte, pensava que sua intimidade com o velho divino faria dela, mais apaixonante das amigas caso o desdém que lhe inspirava não fosse barrado a esperança de que alguma vez ela me levasse a visitar as cidades que ele amava. Ora, um dia a Sra. Swann me convidou para um grande almoço. Eu não sabia quais deveriam ser os convidados. Ao chegar, fiquei desconcertado no vestíbulo por um incidente que me intimidou. Raramente a Sra. Swann deixava de adotar os costumes tidos por elegantes durante uma temporada e que, não chegando a manter-se, são logo abandonados (como, muitos anos antes, tivera o seu hansom cab, ou mandara imprimir, num convite para almoço, que era para um personagem mais ou menos importante). Muitas vezes tais costumes nada tinham de misterioso e não exigiam iniciação. Foi assim que, medíocre inovação daqueles anos, importada da Inglaterra, Odette encomendara para o marido cartões de visita em que o nome de Charles Swann era precedido de um Mr. Depois da primeira visita que lhe fizera, a Sra. Swann deixara em minha casa um desses cartões, como dizia. Jamais ninguém me mandara cartões de visita; senti tanto orgulho, tanta emoção e tanto reconhecimento que, reunindo todo o dinheiro que possuía, encomendei uma corbelha magnífica de camélias e mandei à Sra. Swann. Roguei a meu pai que mandasse um cartão à casa dela, mas antes mandando imprimir às pressas alguns em que seu nome fosse precedido de um Mr. Ele não acedeu a nenhum de meus rogos; fiquei desesperado durante alguns dias e depois me perguntei se ele não tinha tido razão. Mas o uso do Mr., apesar de inútil, era evidente. O mesmo não ocorria com outro que me foi revelado no dia daquele almoço, mas sem o seu significado. No momento em que ia passar da antecâmara para o salão, o mordomo me entregou um envelope delgado e comprido no qual estava escrito meu nome. Surpreso, agradeci, enquanto olhava o envelope. Não sabia o que fazer com ele, como um estrangeiro com um desses pequenos instrumentos que se dão aos convivas nos jantares chineses. Vi que estava fechado, receei ser indiscreto abrindo-o em seguida e o coloquei no bolso com ar entendido. A Sra. Swann me escrevera uns dias antes para que fosse almoçar "em família". No entanto estavam presentes 16 pessoas, entre as quais ignorava absolutamente que se encontrasse Bergotte. A Sra. Swann, que acabava de me "nomear", como dizia, à várias delas, de repente, logo após meu nome, da mesma forma como o acabara de falar (e como se fôssemos somente dois convidados do almoço que deviam estar mutuamente satisfeitos em se conhecer), pronunciou o nome do suave Cantor de cabelos brancos. Este nome de Bergotte me fez estremecer como o estampim de um revólver que houvessem descarregado em mim; mas instintivamente, para mostrar presença de espírito, cumprimentei-o; à minha frente, como esses Westi-digitadores que a gente percebe estarem intactos e de sobre-casaca no meio da fumaça de um tiro, de onde sai voando uma pomba, meu cumprimento era atribuído por um homem jovem, rude, pequenino, robusto e míope, de nariz vermelho em forma de concha de caramujo e de barbicha preta. Sentia-me mortalmente, pois o que acabava de ser reduzido a pó não era apenas o langoroso velho, qual nada mais restava, era igualmente a beleza de uma obra imensa que eu pudera acolher no organismo desfalecente e sagrado que, como um templo construído expressamente para ela; mas à qual nenhum espaço se via nesse corpo atarracado, cheio de vasos, de ossos, de gânglios, do homem achatado e de barbicha preta que estava diante de mim. Todo o Bergotte mesmo havia lenta e delicadamente elaborado, gota a gota, como a transparente beleza de seus livros, esse Bergotte, de um só golpe mais que qualquer utilidade, já que era preciso conservar o nariz em cara acima da barbicha preta; assim como de nada serve a solução que tínhamos encomendado um problema cujo enunciado lêramos de forma incompleta, e sem levar que o total devia dar uma certa cifra. O nariz e a barbicha eram elemento e tanto mais incômodos que, obrigando-me a reedificar inteiramente a imagem de Bergotte, pareciam ainda implicar, produzir, secretar incessantemente um tipo de espírito ativo e satisfeito consigo mesmo, o que não era corretamente o espírito de nada que tinha a ver com a espécie de inteligência espalhada naquele que eu tão bem conhecia; penetrados de uma suave e divina sabedoria deles, eu jamais teria chegado àquele nariz de caracol; mas, partindo de que não dava a impressão de se inquietar, mostrava-se altivo e caprichoso numa direção totalmente diversa da obra de Bergotte, e parece-me que uma mentalidade de engenheiro, apressado, do tipo daqueles que se bem um cumprimento, julgam ser correto dizer:

            -"Obrigado, e o senhor?" caso lhe peçam notícias e, se lhes declaram terem ficado contentes em corresponder de modo abreviado que acham elegante, inteligente e que evita perda de tempo precioso em fórmulas vãs:

            -"Igualmente".

            Indubitavelmente, são nomes de desenhistas fantasiosos que nos dão, de pessoas e países, e pouco parecidos que muitas vezes sentimos uma espécie de assombro porque temos ante nós, em vez do mundo imaginado, o mundo visível (que, a mundo verdadeiro, pois nossos sentidos já não têm muito mais que a imagem, o dom da semelhança, tanto que os desenhos por fim aproximativos; que obter da realidade são pelo menos tão diversos do mundo visto como esse mundo imaginado). Mas, para Bergotte, o incômodo do nome previamente diante do que me causava a obra conhecida, à qual via-me forçado como um balão, o homem de barbicha, sem saber se conservaria a força. Parecia, no entanto, que fora ele mesmo quem escrevera os livros que amara, pois, quando a Sra. Swann julgou falar-lhe de meu gosto por eles, não mostrou nenhum espanto que o dissessem a ele e não ao outro; não me pareceu indicar que se tratava de um equívoco; porém, estufando a que pusera em honra a todos os convidados, com um corpo ávido pelo que se aproximava, tendo sua atenção ocupada por outras realidades impossíveis apenas como a um episódio encerrado de sua vida anterior e como se aludido a uma roupa de duque de Guise que tivesse usado em certo baile a fantasia, que ele sorriu, reportando-se à idéia de seus livros, os quais logo diminuíram de valor para mim (arrastando em sua queda todo o valor do belo, do universo, da vida) até não passarem de mero divertimento do homem de barbicha. Dizia comigo que ele devia ter se aplicado a escrevê-los, mas que, se tivesse vivido em uma ilha cercada de bancos de ostras perlíferas, teria se dedicado com o mesmo sucesso ao comércio de pérolas. Sua obra já não me parecia tão inevitável. E então indaguei-me se a originalidade verdadeiramente prova que os grandes escritores sejam deuses a reinar cada qual em um reino que só a eles pertence, ou então senão existe em tudo isso um pouco de fingimento, se as diferenças entre as obras não seriam o resultado do trabalho, ao invés de uma diferença radical de essência entre as diversas personalidades.

            Nesse meio tempo passara-se à mesa. Ao lado de meu prato encontrei um cravo cujo talo estava envolto em papel prateado. Fiquei menos embaraçado que diante do envelope entregue no vestíbulo e que já esquecera de todo. O costume, entretanto tão novo para mim, me pareceu mais inteligível quando vi todos os convidados masculinos pegarem um cravo idêntico, que acompanhava os talheres, e o colocarem na botoeira da sobre-casaca. Procedi como eles com aquele ar natural de um livre-pensador na igreja, que não conhece a missa mas se ergue quando todos se levantam e põe-se de joelhos um pouco depois de todos fazerem o mesmo. Um outro costume desconhecido e menos efêmero desagradou-me um tanto mais. Ao lado do meu prato havia outro menor, cheio de uma substância escura que eu não sabia ser caviar. Ignorava o que fazer com aquilo, mas estava resolvido a não comê-lo.

            Bergotte não se sentava longe de mim; ouvia perfeitamente o que ele dizia. Compreendi então a impressão do Sr. de Norpois. Tinha, na verdade, uma voz estranha; nada altera tanto as qualidades materiais da voz como ter um conteúdo de pensamento; a sonoridade dos ditongos, a energia das labiais, tudo isto é influenciado por ele. E também a dicção. A sua parecia-me inteiramente diversa de sua forma de escrever, e até as coisas que dizia eram diferentes das que se achavam em suas obras. Porém, a voz saida de uma máscara sob a qual não é suficiente para nos fazer reconhecer um rosto que vimos primeiro a descoberto no estilo. Em certos momentos da conversa, quando Bergotte costumava falar de um modo que só parecia afetado e desagradável ao Sr. de Norpois, custou-me descobrir uma correspondência exata com as partes de seus livros em que a forma se tornava tão poética e musical. Então ele via, naquilo que falava, uma beleza plástica independente do significado das frases, e, como a palavra humana está relacionada com a alma, porém sem expressá-la como faz o estilo, Bergotte dava a impressão de falar quase a atender ao sentido, salmodiando certos termos e como se perseguisse através uma única imagem, tecendo-os sem intervalos como um mesmo som, com a mesma harmonia cansativa. De modo que um recitativo pretensioso, enfático e monótono era o sinal da qualidade estética de suas frases e o efeito, na sua conveniente mesma força que produzia em seus livros a seqüência das imagens, assim, tanto mais me custava perceber que o que ele dizia, nesses instantes parecia ser de Bergotte precisamente por ser o verdadeiro Bergotte. Era o desenvolvimento de idéias exatas, não incluídas naquele "gênero Bergotte" que todos os cronistas se haviam apropriado; e aquela dessemelhança - percebida e confusa através da conversação, como uma imagem por trás de enfumaçado - era provavelmente um outro aspecto do fato de que, lendo a página de Bergotte, ela nunca era semelhante ao que teria escrito quaisquer vulgares imitadores que, entretanto, no jornal e no livro, ornavam tantas imagens à Ia Bergotte. Tal diferença de estilo decorria de que "o Bergotte'' acima de tudo um elemento precioso e genuíno, oculto no âmago de cada um depois, extraído dele por aquele grande escritor devido a seu gênio, extravagante era o objetivo do suave Cantor e não o de "fazer Bergotte".

            Para falar a verdade o fazia malgrado seu, porque era Bergotte, e, nesse sentido, toda beleza da nova obra era a pequena quantidade de Bergotte oculta numa coisa. Mas se, devido a isso, cada uma dessas belezas era aparentada à outra reconhecível, permanecia no entanto particular, como a descoberta quando exposto à luz do dia; nova, por conseguinte diversa do que se denominou ''gênero Bergotte", que era uma vaga síntese dos Bergottes já encontrados por ele, os quais não permitiam de forma alguma que nenhum homem adivinhasse o que Bergotte descobriria em outro local. O mesmo se dá aos grandes escritores: a beleza de suas frases é imprevisível, como é mulher que ainda não se conhece; ela é criação, visto aplicar-se a um objeto no qual estão pensando e não a si mesma e que ainda não exprimi o autor de suas memórias de hoje, querendo, sem dar muito a entender, faz Saint-Simon, a rigor poderá escrever a primeira linha do retrato de Villar um homem corpulento e moreno... com uma fisionomia viva, franca, que impressionava, mas que o determinismo poderá lhe fazer encontrar a segunda linha que é verdadeiramente um tanto amalucada. A verdadeira variedade dá plenitude de elementos reais e inesperados, no ramo carregado de flores surge, contra toda expectativa, da sebe primaveril que parecia já super compasso que a imitação puramente formal da variedade (e pode-se fazer o raciocínio quanto a todas as demais qualidades do estilo) apenas fazia-me, isto é, o extremo oposto da variedade, e os imitadores só podem dar a lembrança da legítima variedade àqueles que não a souberam cometer nas obras dos mestres.

            E assim - da mesma maneira como a dicção de Bergotte teria encantado se ele próprio não passasse de um amador que recitasse - Bergotte, em vez de estar ligada ao pensamento de Bergotte em trabalhado por relações vitais que o ouvido não identificava de imediato -, assim também, porque Bergotte aplicava tal pensamento com precisão à realidade que lhe agradava, sua linguagem tinha algo de positivo, de muito substancioso, que decepcionava os que esperavam ouvi-lo falar somente da "torrente eterna das aparências" e dos "misteriosos frêmitos da beleza". Enfim, a qualidade sempre rara e nova daquilo que escrevia traduzia-se em sua conversa por uma forma tão sutil de abordar um assunto, negligenciando todos os seus aspectos já conhecidos, que dava a impressão de pegá-lo por um lado menor, estar enganado, fazer paradoxos, e assim suas idéias pareciam quase sempre confusas pois cada um considera claras as idéias que estão no mesmo grau de confusão que as próprias. Aliás, se toda novidade tem como condição a prévia eliminação do lugar-comum a que estávamos habituados e que nos parecia a realidade mesma, toda nova conversação, bem como toda pintura e toda música originais, parecerá sempre alambicada e cansativa. Baseia-se em figuras a que não estamos acostumados, o interlocutor só nos parece falar por metáforas, o que cansa e dá impressão de falta de verdade. (No fundo, as próprias formas antigas de linguagem foram outrora imagens difíceis de acompanhar quando o ouvinte não conhecia ainda o universo que pintavam. Mas há muito tempo imaginamos que era o universo real, e nos baseamos nele.) Assim, quando Bergotte, o que hoje entretanto me parece bem simples, dizia de Cottard que era um mergulhador em busca de equilíbrio, ou de Brichot, que à ele lhe dá mais trabalho fazer o penteado do que à Sra. Swann, pois, duplamente preocupado com seu perfil e sua reputação, era necessário que a todo instante o arranjo de sua cabeleira lhe desse ao mesmo tempo o aspecto de um leão e de um filósofo, as pessoas logo sentiam-se fatigadas e gostariam de assentar o pé em algo mais concreto, dizia-se, para significar mais habitual. As palavras irreconhecíveis saídas da máscara que estava à minha frente, eram mesmo do escritor que eu admirava, mas não teriam sabido inserir-se em seus livros à maneira de um puzzle que se encaixa em outros; estavam em um plano diverso e necessitavam de uma transposição mediante a qual, num dia em que repetia comigo frases que ouvira Bergotte dizer, encontrei nelas toda a estrutura de seu estilo escrito, cujas diversas peças pude reconhecer e nomear naquele discurso falado que me parecera tão diferente.

            Sob um ponto de vista mais acessório, a maneira especial, um pouco intensa e minuciosa demais, que possuía de pronunciar determinadas palavras, certos adjetivos que voltavam com freqüência em sua conversação e que não dizia sem uma certa ênfase, ressaltando todas as sílabas e fazendo cantar a última (como no caso da palavra visage, que usava sempre no lugar de figure, e à qual acrescentava um grande número de w, de ss, de gg, todos parecendo explodir de sua mão nesses momentos), correspondia exatamente ao belo local em que, na sua fala, ele punha em evidência essas palavras prediletas, precedidas de uma espéde de margem e compostas de tal ordem, no número total da frase, que era-se obrigado a conta-la em toda a sua "quantidade", sob pena de incidir na mesma medida. Entretanto, não se achava na linguagem de Bergotte certas formas que nos seus livros, como nos de outros autores, modifica muitas vezes a aparência das palavras. É que, sem dúvida, provém de grandes profundidades; conduz seus raios até nossas palavras nas horas em que, abertos à conversação, estamos até certo ponto fechados para nós mesmos. Em certo aspecto, havia mais entonações, mais acento, em seus livros que em acento independente da beleza do estilo, que o próprio autor sem dúvida percebeu, pois não é separável de sua mais íntima personalidade. Era esse nos momentos em que nos seus livros Bergotte era totalmente natural; dava ritmo às palavras muitas vezes bem insignificativas que escrevia. Fala percebida no texto, nada aí o indica e, no entanto, ele se ajunta por si frases, não é possível dizê-las de outra forma; era o que havia de mais comum, todavia, de mais profundo no escritor, e aquilo é que daria o testemunho, natureza eu diria se, apesar de todas as durezas que exprimira, ele era sua forma de todas as sensualidades, sentimental. 

            Certas particularidades de elocução, que existiam no estado vestígios na conversação de Bergotte, não lhe pertenciam como coisa pois, quando mais tarde conheci seus irmãos e irmãs, encontrei-as nele acentuadas. Era algo brusco e rouco nas últimas palavras de uma frase  enfraquecido e agonizante no final de uma sentença triste. Swann, que Mestre quando era criança, disse-me que, naquele tempo, ouvia-se e bem como na de seus irmãos e irmãs, tais inflexões de algum modo alternadamente gritos de alegria violenta, murmúrios de lenta melancolia na sala em que brincavam todos juntos, ele fazia o seu papel melhor que ninguém em seus concertos, sucessivamente ensurdecedores e desfalecentes. Por pior que seja, todo esse rumor que se evola dos seres é fugidio. Porém não ocorreu assim com a pronúncia da família Bergotte. Por ser difícil entender, mesmo nos Mestres Cantores, como pode um artista, uma música ouvindo o gorjeio dos pássaros, Bergotte, no entanto, transpunha em sua prosa esse modo de prolongar-se nas palavras que se repetem e ações de alegria ou se esgotam em suspiros indolentes. Há em seus livros noções de frases onde a acumulação de sonoridades se prolonga, como verdadeiros acordes da abertura de uma ópera que não pode acabar e repete sua cadência suprema antes que o maestro deponha a batuta, e nas quais mais tarde um equivalente musical dos metais fonéticos da família Bergotte à ele, a partir do momento em que os transportou para seus livros inconscientemente de utiliza-los em seu discurso. No dia em que havia de escrever e, com muito maior razão mais tarde, quando o conheci, desse orquestrar para sempre.

            Esses jovens Bergottes o futuro escritor e seus irmãos e irmãs sem dúvida não eram superiores, pelo contrário, aos jovens mais finos, mais espirituosos, que achavam os Bergottes muito ruidosos e até mesmo um tanto vulgares, trepidantes nos seus gracejos que caracterizavam o "gênero" meio pretensioso, meio cúpido, da casa. Mas o gênio e até o grande talento decorrem menos de elementos intelectuais e de refinamento social superiores aos de outrem, que da faculdade de transformá-los, de transpô-los. Para aquecer um líqüido com uma lâmpada elétrica, não é o caso de se ter a mais forte lâmpada possível, porém uma cuja corrente possa deixar de iluminar, ser desviada e fornecer calor em vez de luz. Para passear nos ares, não é preciso dispor do mais possante automóvel, e sim de um automóvel que, sem continuar a correr no solo e cortando com uma vertical a linha que seguia, seja capaz de converter em força ascensional a sua velocidade horizontal. Da mesma forma, aqueles que produzem obras geniais não são os que vivem no ambiente mais delicado, que têm a mais brilhante conversação, a mais extensa cultura, mas aqueles que tiveram a força de, cessando de viver bruscamente para si mesmos, tornar sua personalidade semelhante a um espelho, de tal forma que sua vida, aliás por mais medíocre que possa ser do ponto de vista mundano e até, num certo sentido, intelectualmente falando, nele se reflita, consistindo o gênio no poder refletor e não na qualidade intrínseca do espetáculo refletido.           No dia em que o jovem Bergotte pôde mostrar ao mundo de seus leitores o salão de mau gosto em que passara a infância e as conversas não muito engraçadas que mantinha com os irmãos, nesse dia ele subiu mais alto que os amigos da família, mais espirituosos e distintos: estes, em seus belos Rolls-Royce, poderiam entrar em sua casa demonstrando um certo desprezo pela vulgaridade dos Bergottes; porém, ele, no seu modesto aparelho que por fim acabava de "decolar", ele os ultrapassava.

            Não mais com os membros de sua família, mas com certos escritores de seu tempo é que ele apresentava determinados traços comuns de elocução. Os mais jovens, que principiavam a renega-lo e pretendiam não ter qualquer parente intelectual com ele, manifestavam-no sem querer empregando os mesmos advérbios, as mesmas proposições que ele repetia sem cessar, construindo as frases da mesma maneira, falando com o mesmo tom amortecido, frouxo, em reação a entrar na linguagem eloqüente e fácil da geração anterior. Talvez esses jovens - e vimos quem estava nesse caso - não tivessem conhecido Bergotte. Mas o seu modo de pensar, inoculado neles, desenvolvera essas alterações da sintaxe e do acento que estão em relação necessária com a originalidade intelectual. Relação que pede para ser interpretada. Assim Bergotte, se não devia nada a ninguém seu modo de escrever, derivava o seu modo de falar de um dos antigos companheiros conversador magnífico de quem sofrera a influência e a quem imitava sem parar na conversação, mas que, sendo menos dotado que ele, nunca escrevera verdadeiramente superior. De modo que, se a gente se restringir à originalidade do enunciado, Bergotte tem de ser rotulado de discípulo, escritor de segunda mão, ao passo que, influenciado pelo amigo no terreno da conversação, fora original e criativo como escritor. Sem dúvida, ainda para se separar da geração precedente, muito amiga de abstrações, dos grandes lugares-comuns, quando Bergotte queria falar bem de um livro, o que valorizava e citava era sempre alguma cena que formasse uma imagem, algum quadro sem significado racional.

            "Ah, sim" – dizia - "está bem! Há uma menina de xale cor de laranja, ah, está muito bem"-ou ainda: "Oh, sim, há uma passagem em que há um regimento que atravessa uma cidade, ah, sim; está muito bom!" Quanto ao estilo, não era inteiramente de sua época (aliás, era muito exclusivamente de seu país, detestava Tolstoi, George Eliot, Ibsen e Dostoievski), pois o vocábulo que empregava sempre, quando queria fazer o elogio de um estilo, era "suave": "Sim, todavia gosto mais do Chateaubriand de fala do que de René, pois este me parece mais suave." Dizia essa palavra como um médico a quem um doente assegura que o leite lhe dá dor de estômago e que responde: "No entanto é bem suave." E é certo que havia no estilo de Bergotte uma espécie de harmonia semelhante àquela pela qual os antigos davam, a alguns de seus oradores, louvores cuja natureza dificilmente podemos conceber, acostumados que estamos às nossas línguas modernas onde não se busca esse tipo de efeito. Ele dizia também, com um sorriso tímido, de páginas suas pelas quais lhe manifestavam admiração:

            -Creio que são bem verdadeiras, bem exatas, podem ser úteis mas simplesmente por modéstia, como uma mulher a quem se diz que seu vestido, ou sua filha, é deslumbrante, e que responde, quanto ao primeiro: - É cômodo - e quanto à segunda: -Tem um bom caráter.

            Mas o instinto do construtor era profundo demais em Bergotte para que ele ignorasse que a única prova que edificara de forma útil e de acordo com a verdade residia na satisfação que a obra lhe dera, a ele em primeiro lugar, e depois aos outros. Apenas muitos anos depois, quando já não tinha mais talento, todas as vezes que escrevia alguma coisa que não o satisfazia, para não a eliminar como deveria ter feito, para publicá-la, repetia consigo, desta vez para si próprio:

            "Apesar de tudo, é bem exato, não é inútil ao meu país." De forma que a frase murmurada outrora diante de seus admiradores por uma astúcia de sua modéstia, o foi, por fim, no segredo de seu coração, pelas inquietudes de seu orgulho. E as mesmas palavras que haviam servido a Bergotte como desculpa supérflua quanto ao valor de suas primeiras obras, se lhe tornaram uma espécie de consolo ineficaz pela mediocridade das últimas. Uma espécie de severidade de gosto que ele possuía, de vontade de nunca escrever senão coisas das quais pudesse dizer:

            "É suave", e que o fizera ser tido, durante tantos anos, como um artista estéril, afetado, cinzelador de nadas, era, pelo contrário, o segredo de sua força, pois o hábito modela igualmente o estilo do escritor como o caráter do homem, e o autor que muitas vezes se contentou em atingir, na expressão do pensamento, um certo grau de satisfação, restringe, assim, para sempre os limites de seu talento, bem como, cedendo muitas vezes ao prazer, à preguiça, ao medo de sofrer, a gente desenha em si mesmo, num caráter onde os retoques acabam por não ser mais possíveis, o retrato dos próprios vícios e os limites da própria virtude.

            Se, entretanto, malgrado tantas correspondências que percebi a seguir entre o escritor e o homem, não acreditara no primeiro momento, na casa da Sra. Swann, que se tratasse de Bergotte, que era o autor de tantos livros divinos que se achava à minha frente, talvez eu não estivesse de todo errado, pois ele mesmo (no verdadeiro sentido da palavra) tampouco o acreditava. Não o acreditava visto demonstrar muita solicitude quanto às pessoas da sociedade (aliás, sem ser esnobe), às pessoas do mundo das letras, aos jornalistas, que lhe eram bem inferiores. Certo, agora sabia, devido ao sufrágio dos outros, que possuía gênio, diante do que não são nada a posição social e os cargos oficiais. Soubera que possuía gênio, porém não o acreditava, já que permanecia simulando deferência para com os escritores medíocres a fim de poder entrar para a Academia, enquanto esta ou o baubourg Saint-Germain não tem a ver com a parte do Espírito eterno que é o autor dos livros de Bergotte mais do que com o princípio de causalidade ou a idéia de Deus. Isto ele também sabia, como um cleptômano sabe inutilmente que é um crime roubar. E o homem de barbicha e nariz de caracol tinha astúcias de cavalheiro ladrão de garfos, para se aproximar da poltrona acadêmica esperada, de uma tal duquesa que dispunha de vários votos nas eleições; mas aproximar-se cuidando para que nenhuma pessoa que considerasse um vício pretender semelhante objetivo pudesse ver sua manobra. Só o conseguia pela metade, ouviam-se alternar as frases do verdadeiro Bergotte com as do Bergotte egoísta, ambicioso e que só pensava em falar dessas pessoas poderosas, nobres ou ricas para se valorizar, logo ele que em seus livros, quando era verdadeiramente ele mesmo, mostrara tão bem, puro como o de uma fonte, o encanto dos pobres.

            Quanto aos outros vícios a que aludira o Sr. de Norpois, ao amor meio incestuoso que, diziam, era até complicado de indelicadeza em matéria de dinheiro, se contradiziam de forma chocante a tendência de seus últimos romances, cheios de uma preocupação tão escrupulosa, tão dolorosa, com o bem, que as menores alegrias de seus heróis eram por ela envenenadas e que, para o próprio leitor, se desprendia um sentimento de angústia através do qual a mais doce existência parecia difícil de suportar, tais vícios, entretanto, não provavam, mesmo que se os imputassem de modo justo a Bergotte, que sua literatura fosse mentirosa, e tanta sensibilidade, uma comédia.

            Do mesmo modo que, na patologia, certos estados de aparência semelhante são devidos, uns a um excesso, outros a uma insuficiência de tensão, de secreção, etc., assim pode haver vício por hipersensibilidade como há vício por falta de sensibilidade. Talvez seja apenas entre os vícios realmente viciosos que o problema moral pode se situar com toda sua força de ansiedade. E problema que o artista dá uma solução não no plano de sua vida individual, mas daquela que é para ele sua vida verdadeira, uma solução geral, literária. Como grandes doutores da Igreja começaram muitas vezes, mesmo sendo bons, e querendo livrar os pecados de todos os homens, daí tirando sua santidade pessoal, por vezes os grandes artistas, mesmo sendo malvados, servem-se de seus vício para chegar a conceber a regra moral de todos. São os vícios (ou apenas as frases dos ridículos) do ambiente em que vivem, as frases inconseqüentes, a vida chocante de sua filha, as traições de sua mulher ou suas próprias faltas, escritores vergastam com freqüência em suas diatribes sem por isso mudar sua vida doméstica ou a linguagem grosseira que reina em seu lar. Mas este chocava menos antigamente do que no tempo de Bergotte, porque, por uma medida que a sociedade se corrompia, as noções de moralidade iam se depurando e, por outro lado, o público se punha mais ao corrente da vida privada dos escritores, do que o fizera até então; e em certas noites, no teatro, mostravam o autor que tanto admirara em Combray, sentado ao fundo de um camarote cuja conversa parecia um comentário singularmente risível ou pungente, um desmentido vergonhoso da tese que ele acabara de sustentar em sua última obra. O que outros puderam me dizer não me informou muita coisa sobre a bondade ou maldade de Bergotte. Alguns de seus íntimos forneciam provas de sua bondade, certo desconhecido citava um rasgo (tocante, pois fora evidentemente destinado a permanecer oculto) de sua profunda sensibilidade. Agira cruelmente com fulano. Mas numa estalagem de aldeia, aonde fora passar a noite, ficara acordado para uma mulher pobre que tentara se afogar, e, quando tinha sido obrigado a deixar muito dinheiro com o estalajadeiro para que não expulsasse aquela infeliz, para que cuidasse dela.

            Talvez, quanto mais o grande escritor se desenvolvia em Bergotte, em detrimento do homem da barbicha, mais a sua vida individualizava nas ondas de todas as vidas que ele imaginava e não parecia obrigá-lo a deveres efetivos, que eram substituídos pelo dever de imaginar vidas. Porém, ao mesmo tempo, pois que imaginava os sentimentos dos tão bem como se fossem seus, quando era necessário dirigir-se a um pelo menos de modo passageiro, fazia-o colocando-se não no seu ponto de vista pessoal, mas no da criatura que sofria, ponto de vista de onde teria horror à linguagem dos que continuam a pensar em seus interesses mesmo que diante da dor alheia. De forma que excitou à sua volta rancores justificados e inextinguíveis. Era principalmente um homem que, no fundo, só amava de verdade imagens e (como uma miniatura no fundo de um estojo) gostava de pintá-las sob as palavras. Por um nada que lhe houvessem mandado, se este desse a ocasião de aí entrelaçar algumas, ele se mostrava pródigo na palavra e seu reconhecimento, ao passo que não testemunhava gratidão alguma por um presente rico. E, se tivesse que se defender diante de um tribunal, teria, apesar de tudo, escolhido as palavras não de acordo com o efeito que pudessem produzir sobre o juiz, mas tendo em vista as imagens que o juiz certamente não perceberia.

            Naquele primeiro dia em que o vi na casa dos pais de Gilberte, contei a Bergotte que ouvira recentemente a Berma em Fedra; disse-me que, na cena em que ela permanece com o braço erguido à altura dos ombros exatamente uma das cenas que tanto haviam aplaudido -, soubera evocar, com uma arte muito nobre, obras-primas que aliás ela talvez nunca tivesse visto, uma Hespéride que faz esse gesto sobre uma metrópole Olímpica, e também as belas virgens do antigo Erectêion.

            -Pode se tratar de uma adivinhação; entretanto, creio que ela freqüenta os museus. Seria interessante "averiguar" isto ("averiguar" era uma das expressões habituais de Bergotte e que aqueles jovens que nunca o haviam encontrado lhe assimilaram, falando como ele por uma espécie de sugestão a distância).

            - Está pensando nas cariátides? indagou Swann.

            - Não, não. - respondeu Bergotte-, a não ser na cena em que ela confessa sua paixão a Oenone e onde faz com a mão o movimento de Hegeso na estrela do Cerâmico; é uma arte bem mais antiga que ela ressuscita. Eu falava das Corés do antigo Erectêion, e reconheço que não existe nada talvez tão distanciado da arte de Racine, porém há tantas coisas na Fedra... uma a mais... Oh! E depois, sim, é tão bonita essa pequena Fedra do séc. VI, a verticalidade do braço, os cachos do cabelo "imitando mármore", sim, todavia já é demais ter achado tudo isso. Ali existe muito mais antigüidade que em muitos livros que este ano são chamados "antigos".

            Como Bergotte, num de seus livros, fizera uma célebre invocação a essas estátuas arcaicas, as palavras que dizia naquele instante eram bem claras para mim, dando-me uma nova razão para me interessar pelo desempenho da Berma. Tentava revê-la nas minhas recordações, exatamente como ela estivera naquela cena em que me lembrava que erguera o braço à altura do ombro. E dizia para comigo:

            "Eis a Hespéride de Olímpia; eis a irmã de uma dessas admiráveis orantes da Acrópole; eis o que se chama uma arte nobre." Mas, para que esses pensamentos me embelezassem o gesto da Berma, teria sido necessário que Bergotte os fornecesse a mim antes da representação. Assim, enquanto aquela atitude da atriz se desenrolava de fato à minha frente, naquele momento em que a coisa ocorrida ainda possui a plenitude da realidade, eu poderia tentar extrair dela a idéia de uma escultura arcaica. Da Berma, porém, naquela cena, o que guardei era uma lembrança que já não podia modificar, tênue como uma imagem desprovida das camadas profundas do presente que se deixam escavar e de onde se pode extrair, com veracidade, algo de uma imagem à qual não se pode impor, retroativamente, uma interpretação já mais suscetível de verificação, de sanção objetiva. Para meter-se na conversa, Swann me perguntou se Gilberte pensara em me dar o que Bergotte havia escrito acerca de Fedra.

            -Tenho uma filha tão estouvada. - acrescentou. Bergotte teve um sorriso modesto e protestou que eram páginas sem importância.

            - Oh, não, é extraordinário o opúsculo, esse pequeno tracf! - disse a Sra. Swann para se mostrar boa dona-de-casa, para fazê-lo crer que havia lido a brochura, e também porque não lhe agradava simplesmente cumprimentar Bergotte, mas fazer uma escolha entre as coisas que ele escrevia, e dirigi-lo. E, na verdade, ela o inspirou, aliás de um modo que nem pensava. Mas enfim, existem, entre o que foi a elegância do salão da Sra. Swann e toda uma parte da obra de Bergotte, relações tais que ambos podem ser, alternativamente, para os velhos de hoje, um comentário de um ao outro.

            Eu continuava contando minhas impressões. Muitas vezes Bergotte não as considerava justas, porém deixava-me falar. Disse-lhe que havia adorado aquela iluminação verde que se dá no momento em que Fedra ergue o braço.

            -Ah, daria muito prazer ao decorador, que é um grande artista; vou lhe contar isto, porque ele tem muito orgulho daquela luz. Quanto a mim, devo dizer que não gosto muito, pois banha tudo numa espécie de atmosfera glauca; a pequena Fedra lá dentro fica por demais parecida com um coral no fundo de um aquário. Você dirá que aquilo faz ressaltar o lado cósmico do drama. É verdade. Ainda assim, estaria melhor numa peça que se passasse no reino de Netuno. Sei bem que ali existe a vingança de Netuno. Meu Deus, não peço que só pensem em Port-Royal, mas, enfim, todavia, o que Racine contou não foi os amores dos ouriços-do-mar. Afinal, foi o que o meu amigo desejou e está muito bem assim, e no fundo é bem bonito. Sim, afinal você gostou, você compreendeu, não é? No fundo, pensamos da mesma maneira sobre isso; é um pouco insensato o que ele fez, não é, mas afinal é muito inteligente.

            E, quando a opinião de Bergotte era desse modo contrária à minha, ele não me reduzia de forma alguma ao silêncio, à impossibilidade de responder algo, como o teria feito a opinião do Sr. de Norpois. Isto não prova que as opiniões de Bergotte fossem menos válidas que as do embaixador; ao contrário. Uma idéia vigorosa comunica um pouco da sua força ao adversário. Participando do valor universal dos espíritos, ela se insere, se implanta no espírito daquele a quem refuta, em meio às idéias adjacentes, com ajuda das quais, retomando alguma vantagem, ele a completa e retifica; de modo que a sentença final é de alguma forma a obra de duas pessoas que discutiam. É às idéias que não são propriamente idéias, às idéias que, não levando a nada, não encontram nenhum ponto de apoio, nenhum ramo fraterno no espírito do adversário, que este, às voltas com o puro vazio, não acha nada para responder. Os argumentos do Sr. de Norpois (em matéria de arte) não admitiam réplica porque estavam fora da realidade. Visto que Bergotte não afastava as minhas objeções, confessei-lhe que tinham sido desprezadas pelo Sr. de Norpois.

            - Mas trata-se de um velho canário. - respondeu. Deu-lhe bicadas, pois julga sempre ter pela frente um pastel ou uma sílaba.

            - Como! Você conhece Norpois? perguntou-me Swann.

            - Oh, ele é tedioso como a chuva - interrompeu sua mulher, que depositava muita confiança no julgamento de Bergotte e temia, sem dúvida, que o Sr. de Norpois nos tivesse falado mal dela. -Quis conversar com ele depois do jantar; não sei se, por causa da idade ou da digestão, o fato é que o achei muito enjoado! Parece que é preciso dopá-lo.

            - Sim, de fato - disse Bergotte. - Muitas vezes é obrigado a calar-se para não esgotar, antes do fim da festa, a quantidade de asneiras que engomam o peitilho da camisa e sustentam o colete branco.

            -Acho Bergotte e minha mulher muito severos - comentou Swann, que assumira em sua casa o "papel" de homem de bom senso. - Reconheço que Norpois não pode interessá-los muito, mas sob um outro ponto de vista- (pois Swann gostava de recolher as belezas da "vida") -, trata-se de alguém bem curioso, bastante curioso mesmo, como "amante". Quando era secretário em Roma - acrescentou, depois de se certificar que Gilberte não podia ouvi-lo-, tinha em Paris uma amante pela qual estava apaixonado, e achava um meio de fazer a viagem duas vezes por semana para vê-la durante duas horas. Aliás, era uma mulher muito inteligente e deslumbrante naquela época; agora é uma senhora idosa. E ele teve muitas outras amantes nesse período. Quanto a mim, ficaria louco se fosse necessário que a mulher que eu amava morasse em Paris enquanto eu permanecesse retido em Roma. Para as pessoas nervosas, seria sempre necessário que amassem, como diz o povo, "gente de classe inferior", para que uma questão de interesse pusesse a mulher a quem amam à sua disposição.

            Nesse momento, Swann se apercebeu da aplicação que eu podia fazer dessa máxima ao caso dele e de Odette. E, como até entre as criaturas superiores, no momento em que parecem planar conosco acima das contingências da vida, o amor-próprio permanece mesquinho, Swann foi tomado de um grande mau humor contra mim. Porém, isto só se manifestou na inquietação do seu olhar. No momento, ele não me disse nada. Não devemos nos espantar muito de semelhante coisa. Quando Racine, segundo uma narrativa aliás controvertida, mas cujo assunto se repete todos os dias na vida parisiense, acusou Scarron diante de Luís XIV, o mais poderoso rei do mundo não disse nada ao poeta na mesma noite. E foi no dia seguinte que Racine caiu em desgraça. Mas, como uma teoria deseja ser expressa por inteiro, Swann, após aquele minuto de irritação e tendo enxugado a lente do monóculo, completou seu pensamento com essas palavras que, mais tarde, deviam assumir, na minha lembrança, o valor de uma advertência profética e da qual não soube me dar conta.

            - Entretanto, o perigo desse gênero de amor é que a sujeição da mulher tranqüiliza por um

instante o ciúme do homem, mas também a faz mais exigente. O homem chega a fazer a mulher viver como os prisioneiros que são iluminados dia e noite para serem mais bem vigiados. E isto, em geral, acaba em drama.

            Voltei ao Sr. de Norpois.

            - Não confie nele; ao contrário, tem muito má língua - disse a Sra. Swann com um acento que me pareceu tanto mais indicar que o Sr. de Norpois falara mal dela, porque Swann olhou a esposa com ar de repreensão e como que para impedi-la de falar mais.

            Entretanto, Gilberte, a quem já tinham dito duas vezes que fosse se preparar para sair, ficava a nos ouvir, entre a mãe e o pai, a cujo ombro se apoiava carinhosamente. A primeira vista, nada era mais contrastante com a Sra. Swann, que era morena, do que aquela mocinha de cabelo ruivo e pele dourada. Mas, ao cabo de um instante, reconheciam-se em Gilberte diversos traços. Por exemplo, o nariz talhado em brusca e infalível decisão pelo escultor invisível que trabalha com seu cinzel para várias gerações, a expressão e os movimentos da mãe. Para fazer uma comparação em outra arte, Gilberte dava a impressão de um retrato pouco parecido ainda com a Sra. Swann, a quem o pintor, por um capricho de colorista, tivesse feito posar meio disfarçada, pronta para ir, vestida de veneziana, a um jantar à fantasia. E, como não só tivesse uma peruca loura, mas também como todo átomo sombrio fora expulso de sua pele, a qual, despida de seus véus escuros, parecia mais nua, recoberta apenas dos raios expelidos por um sol interior, a caracterização não era superficial, e sim personificada; Gilberte dava a impressão de retratar algum animal fabuloso, ou de vestir uma fantasia mitológica. Aquela pele ruiva era a de seu pai, a ponto que a Natureza parecia ter precisado, quando Gilberte fora gerada, resolver o problema de refazer aos poucos a Sra. Swann, sem ter à sua disposição como matéria-prima senão a pele do Sr. Swann. E a Natureza a utilizara com perfeição, como um mestre em marcenaria que faz questão de deixar visíveis as aparas e os nós da madeira. No rosto de Gilberte, no canto do nariz de Odette perfeitamente reproduzido, a pele se erguia para conservar intactos os dois grãos de beleza do Sr. Swann. Era uma variedade nova da Sra. Swann que se obtinha ali, ao lado dela, como um lilás branco ao lado de um lilás roxo. No entanto, era desnecessário representar a linha demarcatória entre as duas semelhanças, por ser absolutamente nítida. Em certos momentos, quando Gilberte ria, percebia-se o oval da face de seu pai no rosto da mãe, como se os pusessem juntos para ver no que daria a mistura; esse oval tornava-se preciso da mesma maneira como se forma um embrião, alongava-se obliquamente, inchava-se, e desaparecia após um instante. Nos olhos de Gilberte havia o bom olhar franco do pai; era este o olhar que mostrava quando me dera a bolinha de ágata, dizendo:

            "Guarde-a como lembrança da nossa amizade."

            Mas, quando lhe faziam uma pergunta sobre o que havia feito, então viam-se nos mesmos olhos o embaraço, a incerteza, a dissimulação, a tristeza que mostrava antigamente Odette, quando Swann lhe perguntava aonde tinha ido e ela lhe dava uma daquelas respostas mentirosas que desesperavam o amante e o faziam agora mudar bruscamente de assunto, como marido prudente e sem curiosidade. Muitas vezes, nos Champs-Élysées, sentira-me inquieto ao ver esse olhar de Gilberte. Porém, na maioria das vezes sem motivo. Pois nela, a sobrevivência puramente física de sua mãe, aquele olhar pelo menos o dos Champs-Élysées; já não correspondia a coisa alguma. Quando ela ia para o curso, quando devia voltar para uma aula, é que as pupilas de Gilberte faziam esse movimento que outrora, nos olhos de Odette, era provocado pelo medo de revelar que recebera, durante o dia, um de seus amantes ou que tinha pressa em comparecer a um encontro. Assim, viam-se as duas naturezas, do Sr. e Sra. Swann, ondular, refluir, invadir sucessivamente, uma sobre a outra, o corpo daquela Melusina. É claro que se conhece bem que uma criança se parece com o pai e a mãe. Mesmo a distribuição das qualidades e dos defeitos que ela herda se faz de modo tão estranho que, de duas qualidades que parecem inseparáveis em um dos pais, só uma se encontra no filho, e esta mesma aliada a defeitos do outro pai, que parecia irreconciliável com ela. E até a encarnação de uma qualidade moral em um defeito físico incompatível é muitas vezes uma das leis da parecença filial. De duas irmãs, uma terá, com a soberba estatura do pai, o espírito mesquinho da mãe; a outra, toda repleta da inteligência paterna, haverá de apresentá-la ao mundo sob o aspecto que possui a mãe; de sua mãe, o nariz grande, o ventre nodoso, e até a voz, são o revestimento de dons que se conheciam sob uma aparência magnífica. De modo que, de cada uma das irmãs, pode-se dizer com tanto mais razão que ela é quem herdou mais dos pais. É verdade que Gilberte era filha única, mas havia no mínimo duas Gilbertes. As duas naturezas, a de seu pai e de sua mãe, não faziam mais que misturar-se nela; disputavam-na, e isto ainda seria falar de modo inexato e levaria a supor que uma terceira Gilberte sofria, naquele tempo, o ser uma presa das outras duas. Ora, Gilberte era alternadamente uma e outra, e em cada instante nada mais que uma, isto é, incapaz, quando não era tão bondosa, de suportar aquilo, não podendo então a melhor Gilberte, devido à sua momentânea ausência, constatar aquela perda. Também a menos boa das duas era livre para desfrutar prazeres pouco nobres. Quando a outra falava carinhosamente do pai, tinha vistas largas, gostaríamos de dirigir com ela um belo e benéfico empreendimento, falávamos nisso, mas, quando íamos chegar a um acordo o coração de sua mãe já retomara seu posto; e era ele quem respondia; ficávamos decepcionados e irritados - quase intrigados como diante da substituição de uma pessoa - por uma reflexão mesquinha, uma troça manhosa, em que Gilberte se comprazia, pois saíam do que ela própria era naquele instante. A separação entre as duas Gilbertes era mesmo tão grande, às vezes, que a gente se perguntava, aliás em vão, o que lhe poderiam ter feito para que ficasse tão diferente. Não só não comparecia ao encontro que nos havia proposto, sem desculpar-se depois, mas, fosse qual fosse a influência que a tivesse feito mudar de idéia, ela se mostrava tão diferente a seguir que acreditaríamos que, vítima de uma semelhança como a que está no centro dos Menecmos, não estávamos diante da pessoa que nos pedira tão gentilmente o encontro, caso não nos testemunhasse um mau humor que revelava sentir-se em falta e desejar evitar explicações.

            -Vamos, vais nos fazer esperar - disse-lhe a mãe.

            - Estou muito bem junto do papaizinho, quero ficar ainda mais um pouco respondeu Gilberte escondendo a cabeça nos braços do pai, que passou carinhosamente os dedos pela cabeleira ruiva.

            Swann era um desses homens que, tendo vivido muito tempo nas ilusões do amor, viram o bem-estar que deram a muitas mulheres aumentar a felicidade delas sem criar, de sua parte, nenhum reconhecimento, nenhuma ternura quanto a eles; mas, no filho, julgam sentir uma afeição que, encarnada em seu próprio nome, fará com que permaneçam após a morte. Quando não houvesse mais Charles Swann, haveria ainda uma Srta. Swann, ou uma Sra. X, nascida Swann, que continuaria a amar o pai desaparecido. Talvez até a amá-lo ainda mais, pensava Swann sem dúvida, pois respondeu a Gilberte:

            -És uma boa filha - com esse tom enternecido pela inquietude que nos inspira para o futuro a ternura por demais apaixonada de uma criatura destinada a nos sobreviver. Para dissimular sua emoção, ele se meteu em nossa conversa sobre a Berma. Fez-me notar, mas num tom desligado, entediado, como se quisesse permanecer de algum modo de fora daquilo que dizia, com que inteligência, com que justiça imprevista a atriz falava a Oenone:

            "Tu o sabias!" Ele tinha razão: aquela entonação, pelo menos, era de um valor verdadeiramente inteligente e, portanto, deveria satisfazer meu desejo de encontrar motivos irrefutáveis de admirar a Berma. Mas era justamente devido à própria clareza que ela não o contentava. A entonação era tão engenhosa, de uma intenção e um sentido tão específicos, que parecia existir nela mesma e que toda artista dotada de inteligência poderia adquiri-la. Era uma bela idéia; mas qualquer um que a concebesse de forma tão plena a possuiria do mesmo modo. Restava à Berma o mérito de havê-la encontrado; mas pode-se empregar o vocábulo "encontrar", quando se trata de achar alguma coisa que não seria diferente se fosse recebida, alguma coisa que não se refere essencialmente ao nosso ser visto que um outro pode reproduzi-la a seguir?

            - Meu Deus, mas como a sua presença eleva o nível da conversa! - disse-me, como para se desculpar junto a Bergotte, Swann, que adquirira no ambiente dos Guermantes o hábito de receber os grandes artistas como bons amigos, aos quais se busca apenas fazer com que comam os pratos que adoram, jogar jogos ou, no campo, entregarem-se aos esportes que lhes agradam.-Parece-me que falamos bem de arte - acrescentou.

            - Tudo bem, gosto muito disso - disse a Sra. Swann, lançando-me um olhar reconhecido, por bondade e também porque guardara suas velhas aspirações quanto a uma conversa mais intelectual. A seguir, foi com outras pessoas, particularmente com Gilberte, que Bergotte falou. Eu lhe dissera tudo o que sentia com uma liberdade que me espantara e que provinha de que tomara com ele, desde muitos anos (no decurso de tantas horas de solidão e de leitura, onde ele era para mim apenas a melhor parte de mim mesmo), o hábito da sinceridade, da franqueza, da confiança; ele me intimidava menos que uma pessoa com quem tivesse conversado pela primeira vez. E, no entanto, pela mesma razão, sentia-me bastante inquieto quanto à impressão que deveria ter produzido nele, visto não datar de hoje o desprezo que supusera que teria pelas minhas idéias, e sim de um tempo já antigo em que começara a ler seus livros em nosso jardim de Combray. No entanto, deveria ter me ocorrido que, se fui sincero, se apenas me abandonei ao meu pensamento

ao simpatizar tanto, por um lado, com a obra de Bergotte e ao sentir, por outro lado, no teatro, um desapontamento cujos motivos ignorava, esses dois movimentos instintivos que me haviam empolgado não deviam ser tão diversos um do outro, e sim obedecer às mesmas leis; e que esse espírito de Bergotte, que eu amara em seus livros, não devia ser algo inteiramente estranho e hostil à minha decepção e à incapacidade de expressá-la. Pois minha inteligência devia ser una, e talvez mesmo só exista uma única da qual todos são colocatários, uma inteligência sobre a qual cada um de nós, do fundo de seu corpo particular, lança os seus olhares, como no teatro, onde cada um tem seu lugar; em compensação, só existe um único cenário. Sem dúvida, as idéias que eu tivera o gosto de procurar desenredar não eram as que, em geral, Bergotte aprofundava em seus livros. Mas, se se trata da mesma inteligência que tanto eu como ele possuímos à nossa disposição, ele devia, ao ouvi-las expressas por mim, recorda-las, amá-las, sorrir-lhes, provavelmente conservando, apesar de minhas suposições, diante de seu olho interior, uma parte da inteligência bem diversa da outra parte que se projetara em seus livros, e segundo a qual eu havia imaginado todo o seu universo mental. Do mesmo modo que os padres, tendo a experiência mais profunda do coração, podem melhor perdoar os pecados que não cometem, assim também o gênio, tendo a maior experiência da inteligência, pode compreender melhor as idéias mais contrárias às que formam o fundo de sua própria obra. Eu deveria me ter dito tudo isso (que aliás nada tem de agradável, pois a benevolência dos grandes espíritos tem por corolário a incompreensão e a hostilidade dos medíocres; ora, somos muito menos felizes com a amabilidade de um grande escritor, que a rigor se pode encontrar em seus livros, do que sofremos com a hostilidade de uma mulher que não elegemos por sua inteligência, mas que não podemos evitar amar). Eu deveria ter dito tudo isso, mas não o dizia; estava convencido de que parecera um estúpido a Bergotte, quando Gilberte me sussurrou ao ouvido:

            - Estou louca de alegria, porque você conquistou meu grande amigo Bergotte. Ele disse a mamãe que o achou muito inteligente.

            -Aonde vamos?- perguntei a Gilberte.

            -Ora, aonde quiserem; quanto a mim, você sabe, ir para cá ou para lá...

            Porém, desde o incidente ocorrido no dia do aniversário da morte de seu avô, eu me perguntava se o caráter de Gilberte não era diferente do que havia pensado, se essa indiferença pelo que fizessem, se aquele juízo, aquela tranqüilidade, aquela doce e constante submissão, não esconderiam, ao contrário, desejos muito passionais que, por amor-próprio, ela não queria dar a perceber e que só revelava em sua súbita resistência quando por acaso eram contrariados. Como Bergotte morasse no mesmo bairro dos meus pais, saímos juntos; no carro, falou-me de minha saúde:

            - Nossos amigos me disseram que você é doente. Lamento-o bastante. E, apesar disso, não tanto assim, pois vejo que deve possuir os prazeres da inteligência e isso, provavelmente, é o que conta para você, como para todos aqueles que conhecem tais prazeres.

            Ai de mim! O que ele falava, quão pouco verdadeiro eu sentia que era para mim, a quem todo raciocínio, por elevado que fosse, deixava frio, que não era feliz senão em momentos de simples lazer, quando sentia bem-estar; percebia quanto o que desejava na vida era puramente material e com que facilidade me absteria da inteligência. Como não distinguia, entre os prazeres, aqueles que me vinham de fontes diferentes, mais ou menos profundas e duráveis, pensei, no momento de lhe responder, que teria gostado de uma existência em que estivesse ligado à duquesa de Guermantes e na qual muitas vezes teria sentido, como no antigo escritório do imposto de trânsito dos Champs-Élysées, um frescor que me recordaria Combray. Ora, nesse ideal de vida que não ousava confiar-lhe, os prazeres da inteligência não ocupariam lugar algum.

            - Não senhor, os prazeres da inteligência são muito pouco para mim; não são eles o que procuro. Nem sei mesmo se alguma vez os senti.

            - Acha isso mesmo? replicou ele. - Muito bem, escute; isto deve ser o que você prefere apesar de tudo, me parece. É o que acho.

            Certo, ele não me convencia; no entanto, eu me sentia mais feliz, menos acanhado. Devido ao que me havia dito o Sr. de Norpois, considerara meus momentos de devaneio, de entusiasmo, de confiança em mim mesmo, como puramente subjetivos e sem verdade. Ora, segundo Bergotte, que dava impressão de conhecer o meu caso, parecia que o sintoma a desprezar eram ao contrário as minhas dúvidas, o desgosto que sentia por mim mesmo. Principalmente o que dissera acerca do Sr. de Norpois tirava muito da força de uma condenação que eu julgara irremediável.

            -Você é bem cuidado? - indagou Bergotte. - Quem é que se ocupa de sua saúde?

            - Disse-lhe que era e voltaria a ser Cottard, sem dúvida.

            - Mas não é disso que você precisa! respondeu. - Não o conheço como médico. Porém, vi-o na casa da Sra. Swann. É um imbecil. Supondo que isso não o impeça de ser um bom médico, o que me custa a acreditar, isso o impede de ser um bom médico para artistas, para pessoas inteligentes. Pessoas como você têm necessidade de médicos apropriados, direi quase de regimes, de medicamentos especiais. Cottard vai aborrecê-lo e o tédio por si só impedirá que seu tratamento seja eficaz. E depois, esse tratamento não pode ser o mesmo para você e para um indivíduo qualquer. Três quartas partes dos males das pessoas inteligentes provêm de sua inteligência. Falta-lhes, pelo menos, um médico que os conheça. Como quer que Cottard possa tratá-lo? Ele previu a dificuldade de digerir molhos, a perturbação gástrica, mas não a leitura de Shakespeare... Assim, seus cálculos não são mais acertados com você, o equilíbrio está rompido, é sempre o pequeno ludião que sobe. Ele descobrirá em você uma dilatação do estômago, não tem necessidade de examiná-lo visto que já o fez previamente com o olho. Você pode vê-la, pois se reflete no seu pincenêz.

            Esta maneira de falar me cansava bastante, eu dizia comigo com a estupidez do

bom senso:

            "Não existe mais dilatação do estômago refletida no pincenêz do professor Cottard do que as tolices ocultas no colete branco do Sr. de Norpois."

            - Eu lhe aconselharia, de preferência, o doutor Boulbon - prosseguiu Bergotte. - É muito inteligente.

            - É um grande admirador de suas obras – disse-lhe. - Vi que Bergotte o sabia e concluí que os espíritos fraternais depressa se ajuntam, que a gente possui poucos "amigos desconhecidos". O que Bergotte me disse a respeito de Cottard me chocou por ser bem o oposto de tudo quanto eu acreditava. De modo algum me inquietava achar o meu médico um sujeito aborrecido; esperava dele que, graças a uma arte cujas leis me fugiam, proferisse a respeito de minha saúde um oráculo indiscutível ao consultar minhas entranhas. E pouco me importava que, com o auxílio de uma inteligência, auxílio que eu mesmo poderia lhe prestar, ele procurasse compreender a minha, que eu apenas imaginava como um meio, indiferente em si mesmo, de tentar alcançar verdades exteriores. Duvidava muito de que as pessoas inteligentes tivessem necessidade de uma higiene diversa da dos imbecis, e estava pronto a me submeter à desses últimos.

            - Se alguém precisa de um bom médico, é o nosso amigo Swann - disse Bergotte. E, como eu perguntasse se ele estava doente: - Pois bem, um homem que desposou uma mulher de vida fácil, que tem de aturar, por dia, cinqüenta desfeitas de senhoras que não querem ter relações com a sua, ou de homens que dormiram com ela. Vê-se isto, elas lhe retorcem a boca. Repare as sobrancelhas circunflexas que ele apresenta quando entra em casa, para ver quem está de visita. -A má vontade com que Bergotte falava a um estranho, sobre os amigos em cuja casa era recebido há tanto tempo, era tão nova para mim como o tom quase carinhoso com que, na casa dos Swann, ele assumia a todo instante com eles. Certamente, uma pessoa como a minha tia-avó, por exemplo, teria sido incapaz, como nenhum de nós, dessas gentilezas que ouvira Bergotte

prodigalizar a Swann. Mesmo às pessoas a quem amava, ela gostava de dizer coisas desagradáveis. Mas, na ausência delas, não teria pronunciado uma só palavra que elas não pudessem ouvir. Nada era menos parecido com a alta sociedade do que a nossa de Combray. A dos Swann já era uma tendência para a alta-roda, para suas ondas versáteis. Ainda não era o mar alto, já era a laguna.

            -Tudo isto fica entre nós - disse-me Bergotte, ao me deixar diante de minha porta. Alguns anos depois, eu lhe teria respondido:

            "Nunca repito nada".

            É a frase ritual das pessoas da alta sociedade, pela qual o maldizente é falsamente assegurado. Ela é que eu já teria dirigido a Bergotte naquele dia, pois a gente não inventa tudo o que diz, sobretudo nos momentos em que age como pessoa social. Mas não a conhecia ainda. Por outro lado, a frase de minha tia-avó numa ocasião semelhante teria sido:

            "Se não quer que isto seja repetido, por que então está me dizendo?"

            É a resposta das pessoas insaciáveis, das "cabeças-duras". Eu não o era. Inclinei-me em silêncio. Os literatos que, para mim, eram personagens notáveis intrigavam durante anos antes de travar com Bergotte relações que permaneciam sempre obscuramente literárias e não saíam de seu gabinete de trabalho, ao passo que eu acabava de me instalar entre os amigos do grande escritor logo à primeira vista e tranqüilamente, como alguém que, em vez de fazer fila como todos para arranjar um mau lugar, ganha os melhores, tendo passado por um corredor fechado aos outros. Se Swann o abrira para mim daquele modo, era sem dúvida porque, feito um rei que acha natural convidar os amigos do filho para o camarote real, para o iate real, assim também os pais de Gilberte recebiam os amigos da filha no meio das coisas preciosas que possuíam e das intimidades, mais preciosas ainda, que ali estavam guardadas. Mas àquela época imaginei, e talvez com razão, que essa amabilidade de Swann era dirigida indiretamente a meus pais. Julgara ouvir outrora, em Combray, que ele se oferecera, vendo minha admiração por Bergotte, para me levar para jantar em sua casa, e que meus pais haviam recusado, alegando que eu era muito jovem e muito nervoso para "sair". Sem dúvida, meus pais representavam para certas pessoas, exatamente aquelas que me pareciam as mais maravilhosas, algo bem diverso que para mim mesmo, de modo que, como no tempo em que a dama cor-de-rosa dirigira a meu pai elogios de que ele se mostrara tão pouco digno, eu teria desejado que eles compreendessem que inestimável presente acabara de receber e testemunhassem o seu reconhecimento a esse Swann generoso e cortês que me havia, ou lhes havia, oferecido, sem parecer dar maior importância ao seu ato do que aquele delicioso rei mago do afresco de Luini, de nariz curvo e cabelos louros, e com quem, parece, lhe haviam achado grande semelhança antigamente. Infelizmente, o favor que Swann me fizera e que, ao chegar em casa, antes mesmo de tirar o sobretudo, anunciei a meus pais na esperança de que lhes despertaria no coração um sentimento tão emocionado quanto o meu e os levasse a uma "cortesia" enorme e decisiva para com os Swann, tal favor não pareceu muito apreciado por eles.

            -Swann te apresentou a Bergotte? Belo conhecimento, encantadora relação! - exclamou ironicamente meu pai.- Não faltava mais nada!

            Ai de mim, quando acrescentei que ele não gostava de modo algum do Sr. de Norpois: -        -Naturalmente! -Tornou ele. - Isto bem prova que se trata de um espírito falso e malévolo. Meu pobre filho, já não tinhas muito senso comum; estou triste porte ver cair num ambiente que vai acabar de te desequilibrar.

            A simples freqüência à casa dos Swann já estava longe de encantar meus pais. A apresentação a Bergotte lhes pareceu uma conseqüência nefasta, mas natural, de um primeiro erro, da fraqueza que haviam tido e que meu pai chamou de "falta de circunspecção". Senti que, para completar o mau humor dos pais, bastaria dizer-lhes que aquele homem perverso me achara extremamente inteligente. De fato, quando meu pai considerava que uma pessoa, um de meus companheiros, por exemplo, estava no mau caminho - como eu naquele momento - e tinha então a aprovação de alguém de quem meu pai não gostava, este via no fato a confirmação do seu diagnóstico irritado. O mal só lhe parecia ainda maior. Já ouvia o que ele exclamaria:

            "Necessariamente, é tudo uma cambada!", termo que me espantava pela imprecisão e a imensidão das reformas cuja iminente introdução em minha doce vida parecia anunciar.

            Mesmo que não dissesse o que Bergotte falara sobre mim, já nada poderia apagar a impressão ruim de meus pais; e que fosse um pouquinho pior, isto não me importava. Aliás, pareciam-me tão injustos, de tal maneira apegados ao erro, que não só não tinha esperança mas nem sequer o desejo de conduzi-los a uma visão mais eqüitativa. Entretanto, sentindo, no momento em que minhas palavras saíam da boca, como iriam meus pais se assustar em pensar que eu havia agradado a alguém que julgava idiotas os homens inteligentes, era objeto de desprezo da parte das pessoas honestas, e cujos louvores, parecendo-me invejáveis, me impeliriam ao mal -foi com voz baixa e com um ar meio envergonhado, que, ao terminar a narração, aduzi o arremate:

            - Ele disse aos Swann que me achara muitíssimo inteligente.

            Como um cão envenenado que, no campo, se arremessa, sem o saber, precisamente sobre a erva que é o antídoto da toxina que absorveu, acabara eu de dizer a meus pais, sem ter noção de tal, a única palavra no mundo capaz de vencer, na opinião deles, o preconceito que alimentavam quanto a Bergotte, preconceito contra o qual todos os mais belos raciocínios que eu poderia ter feito, todos os louvores que fizesse, seriam em vão. No mesmo instante, a situação mudou de aspecto:

            -Ah... ele disse que te achava inteligente? - exclamou minha mãe. - Isto me agrada, pois trata-se de um homem de talento.

            -Como! Ele disse isso? - repetiu meu pai. - Não nego em nada o seu valor literário diante do qual todos se inclinam; apenas, é aborrecido que leve essa vida pouco honrosa da qual falou o velho Norpois com palavras encobertas - acrescentou, sem se aperceber de que, face à virtude soberana das palavras mágicas que eu acabara de pronunciar, já não podia lutar por muito tempo com a depravação dos costumes de Bergotte, nem a falsidade do seu julgamento.

            -Oh, meu caro - interrompeu mamãe -, nada prova que isto seja verdade. Dizem tantas coisas. Além disso, o Sr. de Norpois é o que existe de mais gentil, mas nem sempre é muito benevolente, sobretudo para com as pessoas que não são de sua opinião.

            - É verdade, eu também já havia reparado - respondeu meu pai.

            -E, além disso, pode-se perdoar muito a Bergotte, visto que achou amável o meu filhinho- replicou mamãe, acariciando meus cabelos com os dedos e depondo em mim um longo olhar sonhador.

            Aliás, minha mãe não havia esperado pelo veredito de Bergotte para dizer que eu podia convidar Gilberte para merendar quando recebesse meus amigos. Mas eu não ousava fazê-lo por dois motivos. Primeiro, porque na casa de Gilberte nunca serviam senão chá. Em minha casa, ao contrário, mamãe cuidava para que, junto com o chá, houvesse chocolate. Temia eu que Gilberte achasse aquilo vulgar e nos desprezasse. O outro motivo foi uma dificuldade de protocolo que jamais consegui revogar. Quando chegava à casa da Sra. Swann, ela me perguntava:

            - Como vai a senhora sua mãe?

            Sondara mamãe para saber se ela faria o mesmo à chegada de Gilberte, questão que me parecia mais grave que o título de "Monsenhor" na corte de Luís XIV. Porém mamãe não quis saber de nada.

            - De jeito nenhum, pois não conheço a Sra. Swann.

            - Mas ela também não te conhece.

            - Não digo que não, mas nós não somos obrigados a proceder da mesma maneira em tudo. Quanto a mim, vou fazer outras gentilezas a Gilberte, gentilezas que a Sra. Swann não tem para contigo.

            Mas não me convenci e preferi não convidar Gilberte.

            Tendo deixado meus pais, fui trocar de roupa e, esvaziando os bolsos, encontrei de repente o envelope que o mordomo da casa dos Swann me entregara antes de me introduzir no salão. Agora, estava sozinho. Abri-o; dentro havia um cartão no qual indicavam-me a dama a quem deveria oferecer o braço para ir à mesa. Foi por essa época que Bloch transtornou minha concepção do mundo, abrindo-me novas possibilidades de felicidade (que, de resto, deviam mudar-se mais tarde em possibilidades de sofrimento), ao me assegurar que, contrariamente ao que julgara no tempo de meus passeios para os lados de Méséglise, as mulheres não desejavam outra coisa senão fazer amor. Completou o serviço prestando-me um segundo que só mais tarde devia apreciar: foi ele quem me levou pela primeira vez a um bordel. Bem que me havia dito que ali havia muitas mulheres lindas que a gente podia possuir. Mas eu atribuía-lhes uma fisionomia vaga, que os bordéis me permitiriam substituir por rostos particulares. De modo que se devia a Bloch por sua "boa nova" de que a felicidade e a posse da beleza não são coisas inacessíveis e que seria inútil renunciar a elas para sempre; um obséquio do mesmo tipo do que devemos a um médico ou a um filósofo otimista que nos fazem esperar pela longevidade neste mundo, e que não estaremos totalmente separados deste quando tivermos passado a um outro, os bordéis que freqüentei alguns anos depois; ao me fornecerem amostras de felicidade, e ao me permitirem acrescentar à beleza das mulheres o elemento que não podemos inventar, que não passa do resumo das belezas antigas, o presente verdadeiramente divino, o único que não poderíamos receber de nós mesmos, diante do qual expiram todas as criações lógicas de nossa inteligência e que só podemos pedir à realidade: um encanto individual mereceram ser por mim classificados ao lado daqueles outros benfeitores de mais recente origem porém de utilidade análoga (antes dos quais imaginávamos sem calor a sedução de Mantegna, de Wagner, de Siena, através de outros pintores, outros músicos, outras cidades): as edições ilustradas de história da pintura, os concertos sinfônicos e os ensaios sobre as "Cidades de arte". Mas a casa aonde Bloch me levou e à qual não ia, aliás, há muito tempo, era de um nível bastante inferior, o pessoal era muito medíocre e bem pouco renovado para que eu pudesse satisfazer antigas curiosidades ou adquirir novas. A dona dessa casa não conhecia nenhuma das mulheres que lhe solicitavam e oferecia sempre uma que não lhe haviam pedido. Elogiou-me sobretudo uma, da qual, com um sorriso cheio de promessas (como se isso fosse uma raridade e um regalo), dizia:

            -É uma judia! Isto não lhe diz nada? - (Sem dúvida, era por isso que a chamava de Rachel.) E, com uma exaltação simplória e artificial, que esperava ser comunicativa e que acabava com um arquejo quase de gozo:

            - Pois pense, meu garoto, uma judia, parece-me que deve ser de enlouquecer!

            Ah! Essa Rachel, que examinei sem que me visse, era morena, nada bonita, mas tinha aspecto inteligente; e, não sem passar a língua pelos lábios, sorria com jeito bem impertinente para os fregueses que lhe apresentavam e que eu ouvia entabularem conversa com ela. Seu rosto comprido e magro era cercado de cabelos negros e crespos, irregulares como se traçados a nanquim numa aquarela. De cada vez eu prometia à patroa, que me propunha a moça com insistência particular, enaltecendo sua grande inteligência e instrução, que não deixaria de vir um dia expressamente para conhecer Rachel, a quem apelidei "Rachel-quando-do-Senhor". Mas, na primeira noite, ouvi-a no momento em que ia embora, dizendo à patroa:

            - Então, fica entendido; amanhã estou livre e, se tiver alguém, não se esqueça de me mandar chamar.

            E essas palavras impediram-me de ver nela uma pessoa, pois fizeram com que a classificasse logo numa categoria geral de mulheres cujo costume, comum a todas, era vir à noite para ver se não havia um ou dois luíses de ganho. Variava apenas a forma da frase, dizendo: "se tiver necessidade de mim" ou "se precisar de alguém". A patroa, que não conhecia a ópera de Halévy, ignorava por que me acostumara a chamá-la de "Rachel-quando-do-Senhor". Mas não compreender não a impedia de achar engraçada a expressão e, todas as vezes, rindo às gargalhadas, ela dizia:

            - Então, ainda não será esta noite que se juntará à "Rachel-quando-do-Senhor"? Como é que o senhor diz: "Rachel-quando-do-Senhor!" Ah, é muito bem achado. Vou fazê-lo noivo. Verá que não vai se lamentar.

            Uma vez quase me decidi, mas ela estava "em apertos"; de outra vez, entre as mãos do "cabeleireiro", um velho senhor que só tratava as mulheres fazendo derramar óleo em seus cabelos soltos para penteá-los depois. E cansei-me de esperar, embora algumas freqüentadoras muito humildes, dizendo-se operárias mas sempre sem trabalho, viessem me fazer sala, mantendo comigo uma longa conversa à qual -apesar da seriedade dos assuntos abordados -a nudez parcial ou total de minhas interlocutoras dava uma saborosa simplicidade. Aliás, deixei de ir a esse bordel porque, desejoso de testemunhar meus bons sentimentos à dona da casa, a qual necessitava de móveis, dei-lhe alguns, notadamente um grande canapé que herdara de minha tia Léonie. Não os via nunca, pois a falta de espaço impedira meus pais de acomodá-los em casa e eles achavam-se amontoados num depósito. Mas, desde que os encontrei na casa onde aquelas mulheres deles se serviam, todas as virtudes que se respiravam no quarto de minha tia em Combray, pareceram-me como que supliciadas pelo contato cruel a que os entregara sem defesa! Tivesse eu violado uma morta, não teria sofrido mais. Não voltei à casa da alcoviteira, pois eles pareciam-me viver e suplicar, como os objetos aparentemente inanimados de um conto persa, nos quais estão fechadas as almas que sofrem um martírio e imploram sua libertação. Além disso, como nossa memória em geral não nos apresenta as lembranças em ordem cronológica, e sim como um reflexo em que a ordem das partes está subvertida, só muito mais tarde é que me lembrei de que fora naquele mesmo canapé que, muitos anos antes, conhecera pela primeira vez os prazeres do amor com uma de minhas priminhas, com quem não sabia onde me meter e que me dera o conselho, bastante perigoso, de aproveitar uma hora em que a tia Leónie já se levantara. Apesar da opinião contrária de meus pais, vendi uma outra parte inteira dos móveis, e principalmente uma antiga e magnífica baixela de prata da tia Leónie, a fim de poder dispor de mais dinheiro e enviar mais flores à Sra. Swann, que me dizia, ao receber imensos buquês de orquídeas:

            "Se eu fosse o senhor seu pai, abriria um inquérito judicial".

            Como podia adivinhar que um dia ainda haveria de lamentar muito particularmente aquela prataria e colocar certos prazeres bem acima deste, que se tornaria praticamente nulo, de fazer gentilezas aos pais de Gilberte? E fora mesmo por causa de Gilberte, e, para não deixá-la, que decidira não seguir carreira diplomática. É sempre devido a um estado de espírito, que não está destinado a durar muito, que tomamos resoluções definitivas. Mal imaginava que aquela substância estranha que se encontrava em Gilberte e se irradiava em seus pais, na casa, fazendo-me indiferente a todo o resto, que tal substância pudesse ser liberada, emigrar para outra criatura. Era, na verdade, a mesma substância, mas devendo ter sobre mim efeitos bem diversos. Pois a mesma doença evolui; e, do mesmo modo, um veneno delicioso já não é tolerado, quando, com o passar dos anos, a resistência do coração diminuiu. Entretanto, meus pais teriam desejado que a inteligência que Bergotte reconhecera em mim se manifestasse por um trabalho notável. Quando não conhecia os Swann, acreditava que era impedido de trabalhar devido ao estado de agitação que provocava a impossibilidade de ver livremente Gilberte. Porém, quando sua casa me foi aberta, mal me sentava à escrivaninha e já me erguia e corria para a casa deles. E tão logo os deixava e voltava para casa, meu isolamento era só aparente, o pensamento já não podia remontar a corrente do fluxo das palavras pela qual me deixara levar maquinalmente durante horas. Sozinho, continuava a produzir as frases que poderiam ter agradado aos Swann e, para dar mais interesse ao jogo, ocupava o lugar dos comparsas ausentes, fazia a mim mesmo perguntas fictícias escolhidas de tal modo que meus brilhantes aspectos só lhes servissem de réplicas felizes. Silencioso, esse exercício era, no entanto, uma conversa e não uma meditação, e minha solidão uma vida mundana mental onde não era minha própria pessoa e sim alguns interlocutores imaginários que governavam minhas palavras e onde eu experimentava formar, em vez de pensamentos que julgava genuínos, os que me vinham sem esforço, sem regressão de fora para dentro, esse tipo de prazer todo passivo que alguém, empanzinado por má digestão, encontra em permanecer sossegado. Se estivesse menos decidido a me pôr definitivamente a trabalhar, talvez tivesse feito um esforço para começar logo. Porém, visto que minha resolução era formal e que antes de 24 horas, nos limites vazios do dia seguinte, onde tudo se colocava tão bem porque ainda não me encontrava lá, minhas boas disposições se realizariam facilmente, valia mais não escolher uma noite em que estivesse indisposto para um começo a que os dias seguintes infelizmente não deviam se mostrar mais propícios. Mas eu era razoável. Da parte de quem esperara anos e anos, seria pueril não suportar um atraso de três dias. Certo de que dois dias depois já teria escrito algumas páginas, não dizia mais uma só palavra a meus pais acerca de minha decisão; preferia pacientar algumas horas e levar à minha avó, consolada e convencida, a obra em andamento. Infelizmente, o dia seguinte não foi aquela jornada exterior e ampla que havia febrilmente aguardado. Quando acabou, minha preguiça e a luta penosa contra certos obstáculos internos tinham simplesmente durado vinte e quatro horas a mais. E, ao cabo de alguns dias, não tendo realizado meus planos, já não tinha a mesma esperança de que o fossem de imediato; portanto, até me faltava coragem para subordinar tudo o mais a essa realização. Recomeçava a passar a noite em claro, já não tendo, para me obrigar a deitar cedo uma noite, a ilusão certa de ver a obra ser iniciada na manhã seguinte. Antes de retomar o meu impulso, necessitava de alguns dias de trégua, e a única vez em que minha avó ousou, num tom suave e desencantado, formular esta censura:

            "Muito bem, já não se fala mais nesse trabalho?"

            Aborreci-me com ela, persuadido de que, não tendo sabido ver que minha decisão estava irrevogavelmente tomada, ela talvez adiasse ainda, e por muito tempo, a execução do trabalho, por causa do nervosismo que sua negação de justiça me causava e sob cujo domínio eu não desejava começar minha obra. Ela sentiu que seu ceticismo acabava de ferir às cegas uma vontade. Desculpou-se, dizendo ao me beijar:

            -Perdão, não vou dizer mais nada.

            E, para que não desanimasse, assegurou-me que, no dia em que me sentisse bem de saúde, o trabalho viria sozinho por acréscimo. Além disso, dizia comigo, passando a minha vida na casa dos Swann eu não fazia o mesmo que Bergotte? A meus pais, quase parecia que, sempre sendo preguiçoso, eu levava a vida mais favorável ao meu talento, visto que me encontrava no mesmo salão de um grande escritor. Mas que alguém se dispense de formar esse talento internamente, por si próprio, e o receba de outra pessoa, é tão impossível quanto constituir uma boa saúde (apesar de não cumprir as regras da higiene e cometer os piores excessos) apenas jantando várias vezes seguidas na cidade na companhia de um médico. Aliás, a pessoa mais inteiramente enganada com a ilusão que dominava meus pais e a mim era a Sra. Swann. Quando lhe dizia que não podia ir, que era preciso que ficasse trabalhando, ela dava a impressão de achar que me fazia de rogado e que havia algo de bobo e pretensioso em minhas palavras:

            - Mas Bergotte vem, certo? Será que você pensa que não está bem o que ele escreve? Está até melhor. - acrescentou -, pois está mais agudo, mais concentrado no jornal do que no livro, onde se dissolve um pouco. Consegui que fizesse de agora em diante o leader article no fígaro. Será bem o homem certo no lugar certo. - E acrescentava: -Venha, você dirá melhor que ninguém o que é necessário fazer.

            E era como quem convidasse um voluntário juntamente com seu coronel, era no interesse da minha carreira e, como se as obras-primas se compusessem "por relações", é que ela me dizia que não faltasse no dia seguinte ao jantar em sua casa em companhia de Bergotte. Assim, tanto da parte dos Swann como da parte de meus pais, isto é, da parte dos que, em momentos diversos, pareceram erguer obstáculos, não se fazia mais nenhuma oposição a essa doce vida em que podia ver Gilberte como quisesse, com enlevo, senão com calma. Porém calma é o que não pode haver no amor, visto que o que se obtém nunca passa de um novo ponto de partida para desejar mais. Enquanto não pudera ir à casa dela, os olhos fixos naquela ventura inacessível, não podia sequer imaginar novas causas de perturbação que ali me esperavam. Uma vez quebrada a resistência de seus pais, estando enfim resolvido o problema, este recomeçou a colocar-se, cada vez em termos diferentes. Neste sentido, a cada dia era de fato uma nova amizade que principiava. Todas as noites, voltando para casa, eu percebia que precisava dizer a Gilberte coisas capitais, das quais dependia nossa amizade, e essas coisas nunca eram as mesmas. Mas enfim sentia-me feliz, e já nenhuma ameaça se erguia contra minha felicidade. Viria uma, ai de mim, de um lado de onde jamais percebera qualquer perigo, do lado de Gilberte e de mim mesmo. No entanto, deveria estar atormentado pelo que, ao contrário, me dava segurança, pelo que julgava ser minha felicidade. Existe no amor um estado anormal, capaz de dar logo, ao acidente mais simples em aparência, e que pode sempre ocorrer, uma gravidade que, por si mesmo, tal acidente não comportaria. O que nos faz tão feliz é a presença, no coração, de alguma coisa instável que a gente procura constantemente manter em equilíbrio e que quase não percebemos enquanto não é deslocada. Na verdade, existe um sofrimento permanente no amor, que a alegria neutraliza, torna virtual, adia, mas que pode, a qualquer momento, transformar-se no que seria há muito tempo se a gente não tivesse obtido o que desejava: atroz.

            Várias vezes senti que Gilberte desejava espaçar minhas visitas. É verdade que, quando queria muito vê-la, bastava-me fazer ser convidado por seus pais, que estavam cada vez mais convencidos de minha boa influência sobre ela. Graças a eles, pensava, meu amor não corre nenhum risco; no momento em que estão a meu favor, posso ficar tranqüilo já que eles têm toda a autoridade sobre Gilberte. Infelizmente, por certos sinais de impaciência que esta deixava escapar quando seu pai me mandava buscar de algum modo contra vontade dela, eu me indagava se o que havia considerado uma proteção para a minha felicidade não seria antes o motivo secreto pelo qual não poderia durar. Da última vez que fui visitar Gilberte, estava chovendo. Ela fora convidada para uma aula de dança em casa de pessoas que mal conhecia e não podia me levar junto. Por causa da umidade, eu tomara mais cafeína que de costume. Talvez devido ao mau tempo, talvez por ter uma certa prevenção contra a casa onde aquela reunião matinal se realizaria, a Sra. Swann, no instante em que a filha ia sair, chamou-a com extrema vivacidade:

            - Gilberte! - e me apontou para indicar que eu viera para vê-la e que ela devia ficar comigo. O nome de "Gilberte" fora pronunciado, ou melhor, gritado, nas melhores intenções a meu respeito; mas, diante do erguer de ombros de Gilberte ao deixar suas coisas, compreendi que sua mãe, involuntariamente, havia acelerado a evolução, talvez até então possível de ser interrompida, que aos poucos separava de mim a minha amiga.

            -A gente não é obrigada a ir dançar todos os dias - disse Odette à filha, com uma sabedoria sem dúvida adquirida outrora com Swann. Depois, tornando a ser Odette, pôs-se a falar em inglês com a filha. E logo foi como se um muro me houvesse escondido uma parte da vida de Gilberte, como se um gênio malfazejo tivesse levado minha amiga para bem longe de mim. Em uma língua que conhecemos, substituímos a opacidade dos sons pela transparência das idéias. Mas um idioma desconhecido é um palácio trancado no qual aquela a quem amamos pode nos enganar, sem que, ficando de fora e desesperadamente crispados na nossa impotência, cheguemos a ver coisa alguma, sem poder impedir nada. Assim, aquela conversa em inglês, da qual teria apenas sorrido um mês antes, e em meio à qual alguns nomes próprios franceses não deixavam de fazer crescer e orientar minhas inquietações, tinha, sustentada a dois passos de mim por duas pessoas imóveis, a mesma crueldade de um rapto, fazendo-me sentir abandonado e só. Por fim, a Sra. Swann nos deixou. Nesse dia, talvez por ódio contra mim, causa involuntária de não ter ido se divertir, talvez também porque, adivinhando que estava zangada, mostrei-me preventivamente mais frio que de hábito, o rosto de Gilberte, despido de qualquer alegria, nu, devastado, parecia, a tarde inteira, consagrar um lamento melancólico ao pas de quatre que minha presença a impedia de ir dançar e desafiar todas as criaturas, a começar por mim, a compreenderem as razões sutis que nela determinaram uma inclinação sentimental pelo bóston. [valsa de origem americana] Limitou-se, em alguns instantes, a trocar comigo, acerca do tempo que fazia, o recrudescimento da chuva, o adiantamento do pêndulo, uma conversa pontuada de silêncios e monossílabos na qual eu próprio teimava, com uma espécie de raiva desesperada, em destruir os instantes que poderíamos ter dedicado à ventura e à amizade. E, a todas as nossas frases, uma espécie de suprema dureza era conferida pelo paroxismo de sua insignificância paradoxal, que entretanto me consolava, pois impedia Gilberte de se iludir com a banalidade de minhas reflexões e com a indiferença de meu tom. Era em vão que eu dizia:

            -Parece-me que no outro dia o pêndulo atrasava mais depressa-, pois ela traduzia evidentemente:

            "Como você é má!"

            Por mais que me obstinasse em prolongar, ao longo de todo aquele dia chuvoso, essas palavras sem aberturas, sabia que minha frieza não era algo tão definitivamente condensado como o fingia, e que Gilberte devia muito bem sentir que se, depois de já lhe ter dito três vezes, ousasse uma quarta vez repetir que os dias diminuíam, mal teria forças para evitar de me desmanchar em lágrimas. Quando ela estava assim, quando um sorriso não iluminava seus olhos e não lhe desanuviava o rosto, não se pode pintar que monotonia desoladora se imprimia em seus olhos tristes e nos traços pisados. A fisionomia, tornando-se quase feia, parecia então essas praias tediosas em que o mar, para bem longe afastado, nos cansa com um reflexo sempre igual que circunda um horizonte imutável e estreito. Por fim, não vendo ocorrer, da parte de Gilberte, a mudança feliz que esperava há muitas horas, disse-lhe que ela não era gentil:

            -Você é que não é gentil - retrucou ela-, claro que não! - Perguntei-me o que havia feito e, não descobrindo, indaguei dela mesma. -Naturalmente você se considera gentil! respondeu, rindo longamente. Então percebi o que havia de doloroso para mim em não poder atingir aquele outro plano, mais inacessível, de seu pensamento, que seu riso descrevia. Riso que parecia significar: "Não, não, não me deixo prender a nada do que você me diz; sei que está louco por mim, mas isto não me dá calor nem frio, pois você pouco me importa."

            Mas eu dizia comigo que, afinal de contas, rir não é uma linguagem muito precisa para que pudesse me assegurar compreender bem aquilo. E as palavras de Gilberte eram afetuosas.

            - Mas em que não sou gentil? - perguntei – Diga-me, farei tudo o que você quiser.

            - Não, isto não adiantaria nada, não posso explicar. -

            Por um momento tive medo que ela achasse que não a amava, e aquilo foi para mim um outro sofrimento, não menos vivo, mas que exigia uma dialética diferente.-Se soubesse o desgosto que me dá, me diria. - Mas esse desgosto, que, se tivesse duvidado de meu amor, a alegraria, ao contrário irritou-a. Então, compreendendo meu erro, decidido a não mais levar em conta suas palavras, deixando-a dizer-me sem crer nela:

            - Eu o amava de verdade, você verá isso um dia- (esse dia em que os culpados afirmam que sua inocência será reconhecida e que, por motivos misteriosos, nunca é aquele em que são interrogados), tive a coragem de subitamente tomar a resolução de não mais vê-la, e sem anunciá-lo ainda, pois ela não me acreditaria.

            Um desgosto causado por uma pessoa a quem amamos pode ser amargo, mesmo quando está metido no meio de preocupações, ocupações e alegrias que não têm essa pessoa por objeto, e das quais nossa atenção não se desvia a não ser de vez em quando para voltar a ele. Mas, quando semelhante desgosto nasce, como era o caso deste, num momento em que a felicidade de ver essa pessoa nos ocupa por inteiro, a brusca depressão que então se produz em nossa alma, até ali ensolarada, firme e tranqüila, determina em nós uma tempestade furiosa contra a qual não sabemos se seremos capazes de lutar até o fim. A tempestade que se desencadeava em meu coração era tão violenta que voltei para casa transtornado, mortificado, sentindo que só poderia recobrar fôlego arrepiando caminho, voltando sob qualquer pretexto para junto de Gilberte. Mas ela diria consigo:

            "Ele ainda! Decididamente, posso me permitir qualquer coisa, ele há de voltar todas as vezes, tanto mais dócil quanto mais infeliz sair daqui."

            Depois, era irresistivelmente arrastado para ela pelo pensamento, e essas orientações alternativas, o desvario da bússola interior, persistiram quando entrei em casa, traduzindo-se nos borrões das cartas contraditórias que escrevi a Gilberte. Ia passar por uma dessas conjunturas difíceis, diante das quais a gente se encontra, geralmente, diversas vezes na vida e que, embora não tenhamos mudado de caráter ou de natureza nossa natureza que cria, ela mesma, nossos amores e quase as mulheres que amamos, e até os seus erros-, não enfrentamos da mesma maneira a cada vez, ou seja, em todas as idades. Nesses momentos, nossa vida está dividida e como que distribuída numa balança em dois pratos opostos, onde é mantida por inteiro. Em um, existe o nosso desejo de não desagradar, de não parecer humilde demais aos olhos da criatura a quem amamos sem conseguir compreendê-la, mas que achamos mais próprio deixar um pouco de lado para que não cultive o sentimento de se julgar indispensável; no outro, há um sofrimento não um sofrimento parcial e localizado-que, ao contrário, não poderia ser apaziguado senão se, renunciando a agradar a essa mulher e fazê-la crer que podemos passar sem ela, fôssemos ao seu encontro. Se retirarmos do prato onde está o orgulho uma pequena porção de vontade que tivemos a fraqueza de deixar com a idade, e se acrescentarmos ao prato onde está o desgosto um sofrimento físico adquirido e que permitimos que se agravasse, logo, em vez da solução corajosa que teríamos vencido aos vinte anos, é a outra, muito pesada e sem base de contrapeso, que nos dobra aos cinqüenta. Tanto mais que, mesmo repetindo as situações mudam e há possibilidades de que, no meio ou no fim da vida, tenha - para conosco a funesta complacência de complicar o amor com uma partida - hábito que a adolescência desconhece, retida demais por outros deveres e livre por si mesma. 

            Acabava de escrever a Gilberte uma carta em que bradava meu furor, sem contudo lançar a lama de algumas palavras postas como que ao acaso e ordem a minha amiga poderia se firmar para obter uma reconciliação; um instante após, tendo mudado o vento, eram frases ternas que lhe dirigia, pela doçura de célebre expressões desoladas, dos "nunca mais" tão emocionantes para os que os empolgam, tão tediosos para aquela que os lerá, seja por julgá-los mentirosos e traduzir "nunca mais" por "esta noite mesmo, se você me permitir", seja por acreditá-los sinceros e que, então, lhe anunciam uma dessas separações definitivas exatamente iguais em nossa vida quando se trata de pessoas por quem não estamos apaixonados. Mas, visto que somos incapazes, enquanto amamos, de agir como dignos predecessores da próxima criatura que seremos e que não amará mais, como poderíamos inteiramente imaginar o estado de espírito de uma mulher a quem, mesmo sabendo que lhe somos indiferentes, temos emprestado perpetuamente em nós - as fantasias, para nos embalar com belo sonho, ou consolar de um grande desgosto, as mesmas frases que diria se nos amasse? Diante dos pensamentos e daria ações de uma mulher a quem amamos, ficamos tão desorientados como o poderá, estar, diante dos fenômenos da natureza, os primeiros físicos (antes que a ciência se constituísse e levasse um pouco de luz ao desconhecido). Ou, pior ainda, como uma criatura para cujo espírito o princípio de causalidade mal existia, uma criatura que não seria capaz de estabelecer um elo entre um fenômeno e outro e diante quem o espetáculo do mundo seria incerto como um sonho. Certamente, eu esforçava para sair dessa incoerência, por encontrar as causas. Procurava até "objetivo" e, para tanto, levar na devida conta a desproporção existente entre importância que tinha Gilberte para mim e, não só a que eu tinha para ela, mas a que ela própria tinha para as outras criaturas além de mim, desproporção que, se omitisse, me arriscaria a tomar uma simples amabilidade de minha amiga por um juramento apaixonado, e um passo grotesco e aviltante de minha parte pelo simples e gracioso movimento que nos dirige para uns belos olhos. Mas temia também cair no excesso oposto, onde veria na impontualidade de Gilberte um encontro, no movimento de mau humor, uma hostilidade irremediável. Procurava entre estas duas óticas igualmente deformadoras, aquela que me daria a justa vista das coisas; os cálculos que para tanto precisava fazer me distraíam de minhas mágoas; e, ou por obediência à resposta dos números, ou porque os fiz dizerem o que desejava, decidi-me, no dia seguinte, a ir à casa dos Swann, feliz, mas da mesma forma daqueles que, tendo me atormentado durante muito tempo por causa de uma viagem que não desejavam realizar, não vão muito além da estação de trem e voltam para casa a fim de desfazerem as malas. E como, enquanto a gente hesita, a única idéia de uma resolução possível (a menos que tenhamos tornado inerte essa idéia, ao decidir não tomar qualquer resolução) desenvolve, como uma semente vivaz, os delineamentos, todo o detalhe das emoções que nasciam do ato executado disse comigo que fora bastante absurdo, planejando nunca mais ver Gilberte, fazer tanto mal a mim mesmo como se houvesse realizado tal projeto e que, visto que, ao contrário, se era para acabar voltando à casa dela, bem poderia eu ter economizado tantas veleidades e aceitações dolorosas. Porém a retomada das relações de amizade só durou o tempo necessário para ir até os Swann; não porque o mordomo deles, que gostava muito de mim, me dissesse que Gilberte havia saído (de fato, soube, naquela mesma tarde, que aquilo era verdade, por intermédio de pessoas que a tinham encontrado), mas devido à maneira como me falou:

            - Senhor, a senhorita saiu, posso lhe afirmar que não estou mentindo. Se o senhor quer pedir informações, posso mandar buscar a criada de quarto. Senhor, veja bem que eu faria tudo o que estivesse a meu alcance para agradá-lo e que, se a senhorita estivesse presente, eu o levaria imediatamente para junto dela.

            Tais palavras, da única forma que são importantes, ou seja, involuntárias, dando-nos pelo menos uma radiografia sumária da realidade insuspeita de um discurso estudado, provavam que, no ambiente que cercava Gilberte, tinha-se a impressão de que eu lhe era inoportuno; assim, mal o mordomo as pronunciou, elas desencadearam em mim um ódio a que preferi, em vez de Gilberte, dar como objeto o próprio mordomo; concentraram-se sobre ele todos os sentimentos de cólera que eu poderia ter em relação à minha amiga; desembaraçado deles graças a tais palavras, só meu amor subsistiu; mas essas palavras me mostraram, igualmente, que não devia por algum tempo procurar ver Gilberte. Certamente ela iria me escrever para se desculpar. Apesar disso, eu não voltaria imediatamente para vê-la, a fim de lhe provar que podia viver sem ela. Além disso, logo que tivesse recebido a carta de Gilberte, freqüentar minha amiga seria uma coisa da qual poderia facilmente me privar durante algum tempo, pois estaria certo de encontrar-me com ela quando quisesse. Para suportar com menos tristeza a ausência voluntária, precisava sentir meu coração desimpedido da terrível incerteza de saber se estávamos brigados para sempre, se ela estava noiva, viajando, ou se fora raptada. Os dias que se seguiram assemelharam-se aos daquela antiga semana do Ano-Novo que tive de passar sem Gilberte. Acabada aquela semana, outrora, por um lado minha amiga voltaria aos Champs-Élysées, e eu voltaria a vê-la como antes, tinha certeza; e, por outro lado, sabia com não menor certeza que, enquanto durassem as férias de fim de ano valia a pena ir aos Champs-Élysées. De modo que, durante aquela tristeza sem distante, suportara a tristeza com calma, pois ela não estava mesclada nem de esperança. Ao contrário, agora, era este último sentimento que, quase como o temor, fazia intolerável o meu sofrimento. Não tendo recebido carta de Gilberte naquela mesma noite, levei em conta sua negligência, suas ocupações não duvidava de encontrar uma no correio da manhã. Esperei-o, todos os dias - palpitações no coração a que sucedia um estado de abatimento quando de que na remessa havia apenas cartas de pessoas que não eram Gilberte, ou nada, o que não era pior, pois as provas de amizade de uma outra me faziam mais cruel as de sua indiferença. Punha-me a esperar o correio da tarde. Nem as horas das coletas das cartas eu me animava a sair, pois ela poderia ter minuto de entregar em mão a sua carta. Depois, acabava por chegar o momento em que nem o carteiro nem o lacaio dos Swann já poderiam vir, era preciso deixar para o dia seguinte a esperança de ser tranqüilizado, e desse modo, por julgar que o momento não duraria muito, era obrigado, por assim dizer, a renová-la sem desgosto talvez fosse o mesmo, mas, em vez de apenas prolongar uniforme -, como outrora, uma emoção inicial, recomeçava diversas vezes por dia, principiando por uma emoção tão freqüentemente renovada que terminava em mal estar puramente físico, tão momentâneo por se estabilizar, de modo que as perturbações provocadas pela espera mal tinham tempo de se acalmar antes que fosse outro motivo para esperar, e não havia mais um só minuto no dia em que estivesse nessa angústia que, no entanto, era tão difícil de suportar durante hora. Assim, meu sofrimento era infinitamente mais cruel que no tempo antigo 1° de janeiro, pois desta vez existia em mim, em lugar da aceitação simples do sofrimento, a esperança, a cada instante, de vê-lo cessar. Acabei por chegar a esta aceitação; compreendi então que devia ser desfeito e renunciei a Gilberte para sempre, no próprio interesse do meu amor, e porque antes de tudo, que ela não guardasse de mim uma lembrança desdenhosa; desse momento, e para que ela não pudesse formar a idéia de um despeito de minha parte, mesmo quando, a seguir, ela me marcava encontros; aceitava muitas vezes e, no último instante, escrevia-lhe dizendo que não; mas afirmando que me sentia desolado, como o teria feito com qualquer um que não desejasse ver. Essas expressões de lástima, que reservamos era para as pessoas que nos são indiferentes, pareciam-me convencer melhora de minha indiferença do que o faria o tom de indiferença que se emprega diante de quem se ama. Quando, melhor que com palavras, por ações indefira repetidas vezes, eu lhe houvesse dado provas de que não sentia gosto em que ela voltasse a sentir por mim. Infelizmente, seria em vão procurar, e não mais, renovar nela o gosto de me ver, era perdê-la para sempre; primeiro quando ele principiasse a renascer, se eu quisesse que durasse, era preciso não lhe ceder tudo de imediato; além disso, as horas mais cruéis já teriam passado; nesse momento é que ela me era indispensável e eu gostaria de poder adverti-la que em breve ela só acalmaria, ao me rever, uma dor de tal modo diminuída que já não mais seria, como ainda teria sido naquele próprio momento, e para lhe pôr fim, um motivo de capitulação, de reconciliação e encontro. E mais tarde, quando enfim poderia me confessar sem perigo a Gilberte, de tal forma seu gosto por mim se teria fortalecido, o meu por ela, este não podendo resistir a uma tão longa ausência, já não existiria; Gilberte teria se tornado indiferente para mim. Eu o sabia, mas não podia lhe dizer; ela teria julgado que, se eu alegasse que deixaria de amá-la ficando muito tempo sem vê-la, era com o único objetivo de que ela me dissesse para voltar logo para junto dela. Enquanto esperava, o que me tornava mais fácil condenar-me a essa separação era que (para que ela ficasse bem ciente de que, apesar de minhas afirmações em contrário, era a minha vontade e não um impedimento, não o meu estado de saúde, o que me privava de vê-la) todas as vezes em que sabia, por antecipação, que Gilberte não estaria na casa dos pais, devia sair com uma amiga e não voltaria para jantar, ia ver a Sra. Swann (que se tornara para mim o que era no tempo em que eu via tão dificilmente sua filha, quando, nos dias em que esta não ia aos Champs-Élysées, eu passeava na avenida das Acácias). Desse modo ouviria falar de Gilberte e estava certo de que ela ia logo ouvir falar de mim, e de um modo que lhe mostraria que eu não ligava para ela. E achava, como todos os que sofrem, que minha triste situação poderia ser pior. Pois tendo entrada livre na casa em que Gilberte morava, dizia a mim mesmo que, embora decidido a não me utilizar dessa faculdade, se minha dor fosse um dia demasiado forte, poderia fazê-la cessar. Só me sentia infeliz com o passar dos dias. E é dizer muito, ainda. Quantas vezes por hora (mas agora sem a espera ansiosa das primeiras semanas após a nossa briga, antes de estar de volta à casa dos Swann) eu não recitava para mim mesmo a carta que Gilberte me mandaria um dia, e quem sabe me entregaria com suas próprias mãos! A visão constante dessa felicidade imaginária me ajudava a suportar a destruição da ventura real. Quanto às mulheres que não nos amam, como no caso dos "desaparecidos", saber que não há mais nada a esperar não nos impede de continuar a esperar. A gente vive à espreita, à escuta; mães cujos filhos partiram por mar para uma exploração perigosa imaginam, a todo instante, e mesmo depois de terem, há muito tempo, certeza de que morreram, que eles vão entrar em casa, miraculosamente salvos e bem de saúde. E essa espera, conforme o poder da lembrança e da resistência dos órgãos, ou lhes permite atravessar os anos até suportarem a idéia de que os filhos não mais existem, esquecer pouco a pouco e sobreviver, ou então as faz morrer. Por outro lado, meu desgosto era um tanto consolado pela idéia de que aproveitava ao meu amor. Toda visita que fazia à Sra. Swann sem ver Gilberte era-me cruel, mas eu sentia que melhorava muito a idéia que Gilberte formava a meu respeito. Além disso, se eu procurava sempre estar certo da ausência de antes de ir à casa da Sra. Swann, isto se devia tanto à minha resolução de nosso rompimento, quanto à esperança de reconciliação que se sobrepunha à minha vontade de renunciar (bem poucas são absolutas, ao menos de modo contínuo, nesta alma humana, na qual uma das leis, fortificada pelos afluxos inesperados de lembranças diferentes, é a da intermitência) e disfarçava o que era de mais cruel. Tal esperança, eu bem sabia o que tinha de quimérico. Eu era um pobre que mistura menos lágrimas a seu pão seco se diz a si mesmo que pouco um estranho vai lhe deixar toda sua fortuna. Para tornar a realidade suportável, somos todos obrigados a alimentar algumas pequenas loucuras dentro de si. Ora, minha esperança permanecia mais intacta -e ao mesmo tempo que a seção se realizava melhor-se não encontrava Gilberte. Se eu me encontrasse de cara com ela na casa da mãe, talvez trocássemos palavras irreparáveis que fizéssemos definitiva a nossa briga, matassem minha esperança e, por outro lado, criando nova ansiedade, despertassem e tornassem mais difícil a minha resignação. Há muito tempo, e bem antes de minha briga com sua filha, a Sra. Swann me dissera:

            "Faz muito bem em vir ver Gilberte, mas também gostaria que viesse por mim, não ao meu Choufleury, onde você se aborreceria porque há gente demais, mas nos outros dias em que há de me encontrar sempre um pouco tarde".

            Assim, ao visitá-la, parecia apenas obedecer, muito tempo depois, o desejo antigo expresso por ela. E bem tarde, já noite fechada, quase no momento em que meus pais se punham à mesa, eu ia fazer uma visita à Sra. Swann; durante a qual sabia que não veria Gilberte e em que, no entanto, só pensaria naquele bairro, então tido como afastado, de uma Paris mais sombria que hoje; onde, mesmo no centro, não havia eletricidade na via pública e bem próxima nas casas, as lâmpadas de um salão situado no andar térreo ou num sótão baixo (como era o dos apartamentos onde a Sra. Swann normalmente bastavam para iluminar a rua e para fazer erguer os olhos dos transeuntes), ligavam a sua claridade, como a sua causa aparente e velada, à presença diante da porta de alguns cupês bem atrelados. O transeunte acreditava, e não sem uma emoção, numa modificação ocorrida nessa causa misteriosa, quando via esses cupês pôr-se em movimento; mas era apenas um cocheiro que, temendo, os animais ficassem com frio, fazia-os dar algumas voltas de vez em quando, tanto mais impressionantes que as rodas forradas de borracha davam ao passar dos cavalos um fundo de silêncio sobre o qual ele se destacava mais distinto do que o "jardim de inverno" que naquele tempo o transeunte em geral observava, qualquer que fosse a rua, se o apartamento não estivesse em nível muito da calçada, só se via nas heliogravuras dos livros de P-J. Stahl dados como nos quais, em contraste com os raros ornamentos florais dos salões Luís hoje - uma rosa ou um íris do Japão num jarro de cristal de gargalo começado não podia conter uma só flor a mais -, parece, devido à profusão das plantas caseiras que então havia e da falta absoluta de estilização em seu arranjo, ter correspondido, para as donas de casa, mais a uma viva e deliciosa paixão pela botânica do que a uma fria preocupação com uma decoração sombria. Fazia pensar, em ponto maior, nos palacetes de então, nessas pequeninas estufas portáteis, colocadas na manhã de 1° de janeiro sob a lâmpada acesa, não tendo as crianças paciência para esperar que amanheça-, nomeio de outros presentes do dia de Ano Novo, e que, embora fosse dada, não às crianças e sim à Srta. Lili, heroína do livro, encantava-as a tal ponto que, sendo agora quase velhos, perguntavam-se se naqueles anos afortunados o inverno não teria sido a mais bela das estações. Afinal, no fundo desse jardim de inverno, através das arborescências de espécies variadas que faziam a janela iluminada parecer, vista da rua, a vidraça dessas estufas para crianças, desenhadas ou reais, o transeunte, pondo-se na ponta dos pés, em geral percebia um homem de sobrecasaca, com uma gardênia ou um cravo na botoeira, de pé diante de uma mulher sentada, ambos indefinidos como dois entalhes num topázio, ao fundo da atmosfera do salão, ambarizada pelo samovar de importação recente, à época-de vapores que dele se escapam talvez ainda hoje, mas em que, devido ao hábito, ninguém mais reparava. A Sra. Swann valorizava muito esse "chá"; julgava mostrar originalidade e irradiar encanto ao dizer a um homem:

            - O senhor me encontrará todos os dias um pouco tarde, venha tomar chá-, de modo que acompanhava com um sorriso fino e doce essas palavras, pronunciadas com um ligeiro acento inglês, e de que o seu interlocutor tomava nota, cumprimentando com ar grave, como se fossem algo importante e singular que impusesse a deferência e exigisse atenção. Havia um outro motivo além dos já mencionados e para o qual as flores só tinham um caráter de ornamento no salão da Sra. Swann; esse motivo não dizia respeito à época e sim, em parte, à vida que Odette levara antigamente. Uma grande cocote, como ela o fora, vive muito para seus amantes, ou seja, em casa, o que pode levá-la a viver para si mesma. As coisas que se vêem na casa de uma mulher honesta e que certamente podem também lhe parecer importantes, são as que, em todo caso, têm o maior valor para o cocote. O ponto culminante do seu dia é, não aquele em que se veste para a sociedade, mas aquele em que se despe para um homem. É necessário que seja tão elegante de chambre, de camisola, como em roupa de sair. Outras mulheres mostram suas jóias; porém, ela vive na intimidade de suas pérolas. Esse tipo de vida impõe a obrigação-e acaba por dar o gosto de um luxo secreto, isto é, bem próximo de ser desinteressado. A Sra. Swann o estendia às flores. Perto de sua poltrona havia sempre uma imensa taça de cristal, totalmente cheia de violetas de Parma ou de margaridas desfolhadas na água e que parecia testemunhar aos olhos do recém-chegado alguma ocupação predileta e interrompida, como o teria sido a taça de chá que a Sra. Swann bebera a noite para seu próprio prazer; uma ocupação até mais íntima e misteriosa, de tal modo que tinha-se vontade de pedir desculpas ao ver as flores ali expostas, o que faríamos ao olhar o título de um livro ainda aberto que tivesse revelado a recente leitura e, portanto, talvez o pensamento atual de Odette. E mais que o livro, as viviam; ficava-se constrangido, ao entrar para fazer uma visita à Sra. Swann, perceber que ela não estava sozinha ou, se se voltasse para casa com ela, por encontrar o salão vazio, de tal forma essas flores aí ocupavam um lugar exigente referindo-se às horas da vida da dona da casa que não eram conhecidas das flores, que não tinham sido preparadas para as visitas de Odette mas ali estavam como que esquecidas por ela, tinham tido e ainda teriam com ela conversas para lares que a gente receava perturbar e cujo segredo em vão tentaria ler, fixando os olhos a cor desbotada, líqüida, malva e dissolvida das violetas de Parma.

            Em fins de outubro, Odette voltava para casa o mais regularmente que podia, tomar chá, que naqueles tempos ainda era denominado ''o chá das cinco'', ouvido dizer (e gostando de repetir) que, se a Sra. Verdurin organizara um salão, porque todos estavam sempre seguros de encontrá-la em casa à mesma hora; imaginava Odette ter um, do mesmo gênero, porém mais livre, sem rigor, conforme gostava de dizer. Via-se, assim, como uma espécie de Lespinasse e julho; ter fundado um salão rival ao roubar ao pequeno grupo da Du Deffand seus agradáveis homens, especialmente Swann, que a seguira em sua separação enamorada, segundo uma versão que se compreende tenha conseguido fazer ser ágil pelos novos amigos, ignorantes do seu passado, mas não por ela própria certos papéis prediletos são desempenhados por nós tantas vezes perante a sociedade, e repassados outro tanto dentro de nós, que nos referimos mais facilmente não à seu depoimento fictício que ao de uma realidade quase inteiramente esquecida. Nos dias em que a Sra. Swann absolutamente não saía, podia ser encontrada vestindo um chambre de crepe da China, branco feito a primeira nevada, e às vezes, também um desses longos encanudados de musselina de seda semelhante uma juncada de pétalas rosas ou alvas, e que hoje seriam considerados, sem motivo, pouco apropriados para o inverno. Pois tais fazendas leves e essas cores davam à mulher no grande calor dos salões, então fechados com reposteir, sobre os quais o que os romancistas mundanos da época encontravam de mais elegante para dizer é que eram "delicadamente acolchoados" -o mesmo artifício das rosas que ali podiam ficar a seu lado, apesar do inverno, no encarnado de nudez, como na primavera. Por causa do abafamento dos sons pelos tapetes e isolamento da dona da casa em recantos do salão, esta não era avisada da entrada como hoje, e continuava a ler enquanto a gente já estava quase diante dela, o que vinha aumentar ainda essa impressão de romanesco, o encanto de uma espécie de segredo surpreendido, que hoje encontramos na lembrança daquelas roupas já então fora de moda, que a Sra. Swann era talvez a única a não ter abandonado, e que nos dão a idéia de que a mulher que as usava devia ser uma heroína de romance, porque, em sua maioria, nós as vimos apenas em certos romances de Henry Gréville. Odette agora tinha em seu salão, no começo do inverno, enormes crisântemos de uma variedade de cores como Swann não vira outrora em sua casa. Minha admiração por eles-quando fazia à Sra. Swann uma daquelas tristes visitas em que, devido ao meu desgosto, reencontrava toda a sua misteriosa poesia de mãe dessa Gilberte a quem ela diria no dia seguinte:

            "Teu amigo me fez uma visita" - provinha sem dúvida de que, cor-de-rosa pálido como a seda Luís XV de suas poltronas, de uma alvura de neve como seu chambre de crepe da China, ou de um rubro metálico feito o seu samovar, eles sobrepunham uma decoração suplementar à do salão, decoração de um colorido também rico e requintado, porém viva, e que só haveria de durar alguns dias. Mas eu me sentia tocado pelo que esses crisântemos possuíam menos de efêmero que de relativamente duradouro em relação a esses tons, tão róseos ou tão acobreados, que o sol posto exaltado de modo tão suntuoso na névoa dos fins de tarde de novembro e que, depois de os ter visto extinguindo-se no céu, antes de entrar na casa da Sra. Swann, encontrava prolongados, transpostos na palheta inflamada das flores. Como fogos arrancados por um grande colorista à instabilidade da atmosfera e do sol, a fim de que fossem ornar uma residência humana, eles me convidavam, esses crisântemos, e apesar de toda minha tristeza, a desfrutar avidamente durante aquela hora do chá os prazeres tão curtos de novembro, cujo esplendor íntimo e misterioso faziam flamejar perto de mim. Infelizmente, não era nas conversas que ouvia que eu podia alcançá-los; pareciam-se bem pouco a eles. Mesmo na companhia da Sra. Cottard e apesar do adiantado da hora, a Sra. Swann se tornava carinhosa para dizer:

            - Mas não, não é tarde, não olhe para o pêndulo, não está na hora, está parado; que tem de tão urgente para fazer? -e oferecia uma tortazinha recheada à esposa do professor, que segurava o seu porta-cartões.

            - Não se pode mais ir embora desta casa - dizia a Sra. Bontemps à Sra. Swann, ao passo que a Sra. Cottard, na surpresa de ouvir expressar sua própria opinião, exclamava:

            - É o que me digo sempre no meu juízo, no meu foro íntimo! - sendo aprovada pelos senhores do Jockey que se haviam confundido em saudações, e como que cumulados de tanta honra, quando a Sra. Swann os apresentara a essa burguesinha pouco amável, que, diante dos brilhantes amigos de Odette, mantinha-se na reserva, senão no que ela denominava "defensiva", pois sempre usava uma linguagem nobre para as coisas mais simples.

            - Quem diria? Faz três quartas-feiras que a senhora me rói a corda - dizia a Sra. Swann à Sra. Cottard.

            -É verdade, Odette, faz séculos, eternidades que não a vejo. Bem vê que me confesso culpada, mas devo dizer-lhe - acrescentava com ar recatado e vago, pois, embora mulher de médico, não ousaria falar, sem paráfrases, do reumatismo ou das cólicas dos rins - que tenho tido pequenos problemas. Cada um tem os seus. E depois, tive uma crise em minha domesticidade masculina. Sem ter maior noção da minha autoridade que qualquer outra, tive, para dar um exemplo, de mandar e meu Vatel, que aliás creio que procurava um posto mais lucrativo. Mas sua ausência arrastou a demissão de todo o ministério. Minha criada de quarto também queria ficar, houve cenas homéricas. Apesar de tudo, mantive a direção com firmeza; trata-se de uma verdadeira lição de coisas que não foi em vão. Aborreço-a com essas histórias de criados, mas você sabe tão bem que balbúrdia é ser a gente obrigada a proceder a remanejamento em nosso pessoal. E não veremos a sua deliciosa filha? perguntava.

            - Não. - respondia Swann -, minha deliciosa filha está jantando na casa de uma amiga. -E acrescentava, voltando-se para mim: -Acho que ela lhe escreveu para que viesse vê-la.

            -E seus bailes? - Indagava à esposa do professor.

            Eu respirava fundo. Essa fala da Sra. Swann, provando que poderia ver Gilberte quando quisesse, faz exatamente o bem que ali fora procurar, e que me tornavam tão necessitado de visitas à Sra. Swann àquela época.

            - Não, vou lhe escrever um bilhete. Aliás, Gilberte e eu não podemos nos ver mais-acrescentava, dando a impressão de atribuir nossa separação a uma causa misteriosa, o que me dava ainda a ilusão de amor, alimentada assim pela maneira carinhosa com que falava dela e com a qual ela falava de mim.

            -Você sabe que ela o ama infinitamente - dizia a Sra. Swann. - Não quer mesmo vir amanhã? - De súbito uma alegria me instigava: acabava de dizer a mim mesmo: "Mas, depois de tudo, por que não; viu é sua própria mãe que me faz a proposta?" Porém, logo recaía na minha consciência. Temia que, ao me ver, Gilberte pensasse que minha indiferença dos últimos dias fora simulada, e eu preferia prolongar a separação. Durante esse a parte Bontemps se queixava do aborrecimento que lhe causavam as mulheres dos médicos, pois ela afetava achar todo mundo maçante e ridículo, e de estar com a posição do marido:

            - Então a senhora pode receber sem mais nem menos cinqüenta mulheres de médicos de enfiada - dizia ela à Sra. Cottard, ao contrário, era cheia de benevolência para todos e respeitava todas as obrigações.

            -Ah, a senhora é virtuosa. Quanto a mim, no Ministério, naturalmente sou social, não é? Muito bem! É mais forte que eu, a senhora sabe, essas mulheres de funcionários, não posso deixar de lhes mostrar a língua. E minha sobrinha, como eu. Nem imagina como é atrevida essa menina. Na semana passada no meu dia tinha a visita da mulher do subsecretário de Estado das Finanças, que dizia não dar nada de cozinha. - Mas, minha senhora respondeu minha sobrinha sorriso mais gracioso -, deveria no entanto saber do que se trata, visto que era ajudante de cozinheiro.

            -Oh, gosto muito dessa história, acho-a bem divertida - dizia a Sra. Swann. - Mas, pelo menos para os dias de consulta deveria ter a sua pequena honra, com suas flores, seus livros, as coisas que gosta. - aconselhava ela à Sra. Cottard. - É como lhe digo: Pimbal! Na cara dela não anda com meias medidas. E aquela pequena mascarada não merece nada de coisa alguma; é astuta feito um macaco. A senhora tem a felicidade de saber conter-se; invejo as pessoas que sabem disfarçar seu pensamento.

            - Mas não tenho necessidade disso, senhora: não sou tão difícil - respondia com doçura a Sra. Cottard. - Primeiro, não tenho os mesmos direitos que a senhora - acrescentava com um tom de voz um pouco mais forte que assumia, a fim de as sublinhar, cada vez que insinuava na conversa algumas dessas amabilidades delicadas, desses engenhosos elogios que causavam admiração e ajudavam a carreira do marido.-E, além disso, faço com prazer tudo o que pode ser útil à carreira do professor.

            - Mas é para quem pode. Provavelmente a senhora não é nervosa. Eu, quando vejo a senhora do ministro da Guerra fazer caretas, imediatamente me ponho a imitá-la. É terrível ter um temperamento assim.

            - Ah, sim - disse a Sra. Cottard -, ouvi dizer que ela tem tiques; meu marido também conhece alguém altamente colocado e, naturalmente, quando esses senhores conversam entre si...

            - Mas olhe, senhora; há ainda o chefe do Protocolo, que é corcunda. É inevitável! Mal está cinco minutos na minha casa e já vou tocar na sua corcunda. Meu marido diz que vou fazer com que o demitam. Ora bolas, abaixo o Ministério!

            - Sim, abaixo o Ministério! Gostaria de botar isso como divisa em meu papel de cartas. Tenho certeza de que a estou escandalizando, porque é uma boa pessoa. Quanto a mim, confesso que nada me diverte tanto como as pequenas maldades. Sem isso, a vida seria bem monótona.

            E continuava a falar o tempo todo do ministério como se se tratasse do Olimpo. Para mudar de conversa, a Sra. Swann virava-se para a Sra. Cottard:

            - Mas você me parece bem bonita. Redfemfecit?

            - Não, você sabe que sou adepta fervorosa do Raudnitz. Aliás, é uma reforma.

            - Muito bem! É de um chique!

            -Quanto acha que foi? Não, mude o primeiro algarismo.

            - Como? Mas foi por nada, foi dado. Disseram-me três vezes mais.

            - Eis como se escreve a História - concluía a esposa do doutor. E mostrando à Sra. Swann uma manta com que esta a presenteara: -Olhe, Odette. Não está reconhecendo?

Na abertura de uma cortina, mostrava-se uma cabeça com cerimoniosa deferência, fingindo por gracejo estar com medo de incomodar: era Swann -Odette, o Príncipe de Agrigento, que está comigo no gabinete, pergunta se pode vir lhe prestar suas homenagens. Que devo lhe responder? - Ficaria encantada! - dizia Odette com satisfação, sem abandonar a calma, o que lhe era tanto mais fácil visto que sempre, mesmo quando era cocote, recebera homens elegantes.

            Swann saiu  a transmitir a autorização ao príncipe e, em sua companhia, voltava para junto da  mulher, a menos que, no intervalo, entrasse a Sra. Verdurin. Quando se casara com Odette, pedira-lhe que não mais freqüentasse o pequeno clã (tinha para tantos motivos e, ainda que os não tivesse, teria procedido da mesma maneira a obediência era uma lei de ingratidão que não suporta exceções e que faz ressentir a negligência ou o desinteresse de todos os intermediários). Somente permitia que Odette trocasse com a Sra. Verdurin duas visitas por ano, o que ainda era excessivo a certos fiéis, indignados com a injúria feita à Patroa, que durante anos havia tratado Odette, e mesmo Swann, como os filhos queridos da casa, se continha falsos confrades que largavam certas noites para atender a um de Odette, sem dizer uma palavra, prontos, caso fossem descobertos, para desculpar com a curiosidade de encontrar Bergotte (embora a Patroa afirmasse não freqüentava os Swann, era destituído de talento e, apesar disso, procura acordo com uma expressão que lhe era cara, atraí-lo), o pequeno clã possuía também seus "radicais". E estes, ignorando conveniências particulares que às vezes desviam as pessoas das atitudes extremadas que gostariam de vê-las dirimir para aborrecer a alguém, teriam desejado, sem consegui-lo, que a Sra. Verdurin interrompesse todas as relações com Odette, tirando-lhe, assim, a satisfação de dizer rindo:

            - Vamos tão raramente à casa da Patroa desde o Cisma. Era impossível quando meu marido era solteiro, mas, para um casal, nem sempre há para se falar a verdade, o Sr. Swann não suporta a mãe Verdurin e não gostaria que eu a freqüentasse habitualmente. E eu, esposa fiel...          Swann acompanhava a mulher aos saraus dos Verdurin, mas evitava estar presente quando a Sra. Verdurin vinha visitar Odette. Assim, se a Patroa estivesse no salão, o príncipe de entrava sozinho. Aliás, era também sozinho que era apresentado por Odette, preferia que a Sra. Verdurin não ouvisse nomes obscuros e, vendo mais ainda um desconhecido dela, pudesse julgar-se num meio de notabilidade sarcástica, cálculo que dava tão bom resultado que, à noite, a Sra. Verdurin dizia mágoa ao marido:

            - Ambiente encantador! Estava presente toda a fina flor. - Reação que Odette, em comparação com a Sra. Verdurin, vivia numa ilusão. Não que aquele salão tivesse recém começado o que o veremos tornar-se um outro salão. A Sra. Verdurin nem sequer estava no período de incubação, quando são suspensas as grandes festas em que os raros elementos brilhantes, recentemente se afogariam na turba excessiva, e quando é preferível que o poder gerador dos justos que se conseguiu atrair, tenha produzido setenta vezes dez. Como Odette demoraria em fazê-lo, a Sra. Verdurin se propunha à "alta Sociedade" como a voz; porém, suas regiões de ataque eram ainda tão limitadas e aliás, daquelas por onde Odette apresentava alguma chance de alcançar um resultado idêntico, a furar, que esta vivia na mais completa ignorância dos planos elaborados pela Patroa. E era com a melhor boa-fé do mundo que falavam a Odette da Sra. Verdurin como sendo uma esnobe, ela se punha; dizia:

            - Pelo contrário. Primeiro, ela não possui todos os elementos para falar quando não conhece ninguém. Depois, é necessário fazer-lhe justiça que é assim mesmo que lhe agrada. Não, ela gosta mesmo é das suas quartas-feiras, dos que têm conversa agradável.

            E, em segredo, invejava a Sra. Verdurin (embora não desesperasse de ter ela própria, em tão grande escola, acabado por assim içá-las) essas artes às quais a patroa dava tanta importância, de modo que apenas matizassem o inexistente, esculpissem o vácuo, e sejam, propriamente falando, as Artes do Nada: a arte (para uma dona-de-casa) de saber "reunir", "agrupar", "pôr em evidência", de se "apagar", de servir de "traço-de-união". Em todo o caso, as amigas da Sra. Swann ficavam impressionadas por verem em sua casa uma mulher que normalmente só era imaginada em seu próprio salão, cercada de um quadro inseparável de convidados, de todo um grupinho que assombrava-se ver assim evocado, resumido, apertado em um único sofá, sob as aparências da Patroa, transformada em visitante no abafamento de seu casacão forrado de plumas, tão penugento como os agasalhos de peles que revestiam o salão, em meio ao qual a própria Sra. Verdurin era um salão. As mulheres mais tímidas queriam retirar-se por discrição e, empregando o plural como quando se deseja fazer compreender aos outros que é mais sensato não cansar demais um doente que se levanta pela primeira vez, diziam:             Odette, já vamos te deixar. - Invejavam a Sra. Cottard, que a Patroa chamava pelo prenome.-Será que posso te levar? - perguntava-lhe a Sra. Verdurin, que não podia suportar a idéia de que uma fiel ficaria ali em vez de segui-la. - Mas a senhora é bastante amável para me levar. - respondia a Sra. Cottard, não desejando parecer que esquecia, em favor de uma pessoa mais célebre, ter aceito a oferta da Sra. Bontemps de levá-la no seu carro enfeitado de plumas.

            - Confesso que sou especialmente reconhecida às amigas que desejam levar-me com elas em seus carros. É na verdade uma pechincha, já que não tenho cocheiro. -Tanto mais - respondia a Patroa (sem ousar dizer mais, pois conhecia um pouco a Sra. Bontemps e acabava de convidá-la para as reuniões das quartas-feiras) que na casa da Sra. de Crécy você não está perto de sua casa. Oh, meu Deus! Nunca hei de chegar a dizer Sra. Swann.

            Era um gracejo no pequeno clã, das pessoas que não eram dotadas de muito espírito, darem a impressão de não poderem se acostumar a dizer Sra. Swann:

            -Já me habituei tanto a dizer Sra. de Crécy, que ainda costumo enganar-me. -

            Somente a Sra. Verdurin, quando falava com Odette, não caía em erro e se enganava de propósito.

            - Não tem medo, Odette, de morar neste bairro perdido? Creio que só ficaria meio sossegada ao voltar para casa à noite. Além disso, é tão úmido. Não deve ser nada bom para o eczema do seu marido. Ao menos não têm ratos?

            - Claro que não! Que horror!

            - Tanto melhor, tinham-me falado nisso. Estou muito contente em saber que não é verdade, pois tenho um medo horrível deles, e não voltaria mais aqui se tivessem. Até logo, minha querida, até breve, sabe como estou feliz por vê-la. Você não sabe arrumar os crisântemos-dizia ela ao sair, enquanto a Sra. Swann se erguia para levá-la à porta -São flores japonesas; convém dispô-las como fazem os japoneses.

            -Não na opinião da Sra. Verdurin, ainda que em todas as coisas ela seja para mim a Lei dos Profetas.

            -Não há ninguém como você, Odette, para encontrar crisântemos belos, ou antes tão belas, visto que parece ser assim que se diz hoje - declarara a Sra. Cottard, quando a Patroa fechara a porta.

            -A cara Sra. Verdurin nem sendo benevolente para com as flores alheias- respondia suavemente a Sra. Swann.

            - Quem está cultivando, Odette? - perguntava a Sra. Cottard, para não deixar que se prolongassem as críticas à Patroa...

            - Lemaitre? Confesso que na frente da casa Lemaitre havia outro grande arbusto cor-de-rosa que me fez cometer uma loucura. - Mas, por pouco recusou-se a dar informações mais precisas sobre o preço do arbusto e disse que o professor, "que no entanto não era de mau gênio", fizera um escândalo quando lhe dissera que ela não conhecia o valor do dinheiro. - Não, não, tenho melhor que Debac.

            - Eu também. - dizia a Sra. Cottard -, mas confesso que faço infidelidades com Lachaume.-   - Ah, você o engana com Lachaume; vou contar à ele. - replicava a Sra. Swann, que se esforçava por mostrar espírito e condolência na conversação em sua casa, onde se sentia mais à vontade que no pequeno salão. - Afinal, Lachaume faz-se na verdade muito caro; seus preços são excessivos; sabe; chego a considerá-los inconvenientes! -acrescentava rindo.

            Entretanto, a Sra. Bontemps, que dissera cem vezes que não desejava ir à casa dos Verdurin, encantada por ser convidada para as quartas, pusera-se no lar como poderia fazer para lá se encontrar o maior número de vezes porém ignorava que a Sra. Verdurin desejava que não lhe faltassem a uma só; por outro lado, era dessas pessoas pouco solicitadas que, quando são convidadas para "sério'' por uma dona-de-casa, não aparecem, ao contrário dos que sabem causar sempre quando têm um momento livre e vontade de sair; elas não privam de assistir, por exemplo, ao primeiro e ao terceiro saraus, pensando que sua ausência será notada, reservando-se para o segundo e o quarto; a menos que suas intuições lhes afirmem que o terceiro será especialmente brilhante, elas não usam outra ordem, alegando que "infelizmente da última vez não se achavam disponíveis". Assim, a Sra. Bontemps computava quantas quartas-feiras ainda podia antes da Páscoa e de que maneira podia fazer para ir a mais uma quarta, se no entanto parecesse estar impondo sua presença. Contava com a Sra. Cottard; quem sairia junto, para obter algumas indicações.

            -Oh, Sra. Bontemps! Vejo que está indo. Não fica bem dar o sinal de retirada. Deve-me uma compensação, por ter vindo na quinta passada... Vamos, volte a sentar-se por um momento. Assim, não vai fazer outra visita antes do jantar.

            -De fato não se deixa tentar? acrescentava a Sra. Swann, estendendo-lhe um prato com doces: - Sabe que não são nada más, essas coisinhas?

            -O aspecto não ajuda, mas prove, que vai ver...

            - Pelo contrário, isto parece delicioso - respondia a Sra. Cottard. - Em sua casa, Odette, nunca faltam iguarias. Não preciso lhe perguntar a marca da fábrica, sei que você manda vir tudo do Rebattet. Devo dizer que sou mais eclética. Para os sequilhos, para as guloseimas em geral, muitas vezes vou ao Bourbonneaux. Mas reconheço que eles não sabem o que é um sorvete.            -Para tudo quanto é sorvete, ou refresco, Rebattet é o grande artista. Como diria meu marido, é o nec plus ultra. - Mas isto é simplesmente feito aqui. Não quer mesmo?

            - Não poderia jantar - respondia a Sra. Bontemps - mas sento-me de novo por alguns instantes; sabe, adoro conversar com uma mulher inteligente como você. Você vai me julgar indiscreta, Odette, mas gostaria de saber como julga o chapéu da Sra. Trombert. Sei muito bem que é moda usar chapéus grandes. Ainda assim, não está um pouco exagerado? E, em comparação com o chapéu com que ela foi outro dia à minha casa, esse que ela usava há pouco era microscópico.

            - Mas não, eu não sou inteligente - dizia Odette, pensando que isso ficava bem. - No fundo, sou uma palerma que acredita em tudo que lhe dizem, que se incomoda por nada.-

            E insinuava que, no começo, muito sofrera por ter casado com um homem como Swann, que levava uma vida toda sua e a traía. Entretanto, o príncipe de Agrigento, tendo ouvido as palavras "não sou inteligente", achou-se no dever de protestar, mas não sabia aproveitar a ocasião própria.

            - Ora, ora - gritava a Sra. Bontemps. - Então você não é inteligente?! - De fato, eu estava dizendo para mim mesmo:

            Que ouço! - dizia o príncipe, apanhando a deixa. - Com certeza meus ouvidos me enganaram.

            - Mas não, asseguro-lhe - dizia Odette-; no fundo sou uma pequeno-burguesa que se escandaliza facilmente, cheia de preconceitos, vivendo no seu buraco, e sobretudo muito ignorante. -E para pedir notícias do barão Charles: -Tem visto o nosso caro baronete? -dizia ela.

            -Você, ignorante? -exclamava a Sra. Bontemps. - Muito bem. Que diria então do mundo oficial, todas essas mulheres de excelências, que só sabem falar de futilidades! Veja, senhora, não faz uma semana falei no Lohengrin para a ministra de Instrução Pública. Ela responde: "Lohengrin? Ah, sim, a última revista do Folies-Bergere, dizem que é hilariante." Muito bem, senhora, que quer? quando a gente ouve coisas desse tipo, chega a ferver o sangue. Tive desejos de esbofeteá-la. Pois sou lá meio geniosa, você sabe. Veja, senhor-disse, voltando-se para mim-, não tenho razão?

            -Escute -dizia a Sra. Cottard -, é desculpável responder um pouco atravessado quando se é interrogada assim à queima-roupa, sem aviso. Sei disso, pois a Sra. Verdurin também tem o hábito de nos pôr entre a faca e a parede.

            - A propósito da Sra. Verdurin perguntava a Sra. Bontemps à Sra. Cottard -, sabe o que haverá na quarta-feira na casa dela?... Ah, lembro-me agora que aceitamos um convite para a quarta seguinte. Não quer jantar conosco na quarta, às oito horas? Iríamos juntas para a casa da Sra. Verdurin. Fico intimidada de entrar sozinha, não sei porque, mulherão sempre me dá medo. -Vou lhe dizer - respondia a Sra. Cottard. O que assusta na Sra. Verdurin é o seu tom de voz. Que quer? Nem todos têm uma voz tão bonita como a da Sra. Swann. Mas é só começar a conversar, como diz e logo o gelo se quebra. Pois no fundo ela é bastante acolhedora. Mas eu compreendo muito bem a sua sensação; nunca é agradável encontrar-se pela primeira vez em região perdida.

            -Você também poderia jantar conosco - dizia a Sra. Bontemps à Swann. - Depois do jantar, iremos todos para a casa dos Verdurin, fazer visita mesmo que isso tenha como resultado fazer a Patroa me olhar com maus olhos e não me convidar mais, uma vez em sua casa ficaremos as três a conversar nós, pois sinto que isto é o que mais me agradaria. - Mas esta afirmação não pode ser muito verídica, pois a Sra. Bontemps perguntava:

            -Quem acha que estará quarta-feira, às oito? Que vai acontecer? Pelo menos, não haverá muita gente não é?

            -Certamente não irei -dizia Odette. -Só vamos aparecer rapidamente na última quarta-feira. Se não se importa de esperar até lá... -

            Mas a Sra. Bontemps parecia seduzida por essa proposta de adiamento. Conquanto os méritos espirituais de um salão, e sua elegância, é geralmente antes em relações inversas do que diretas, é preciso crer, visto que a Sra. Swann achava agradável a Sra. Bontemps, que toda degradação aceita tem conseqüência tornar as pessoas menos difíceis quanto àquelas com quem pensam conviver, menos difíceis quanto ao seu espírito como em relação a mais de uma. E, se isto é verdade, os homens devem, como os povos, ver sua cultura, a sua língua, desaparecer com a sua independência. Um dos efeitos dessa inteligência é o de agravar a tendência que, a partir de uma certa idade, as pessoas de acharem agradáveis as palavras que homenageiam nosso próprio pensar, nossas inclinações, e representem um estímulo para nos entregar à elas; é a idade em que um grande artista prefere, à companhia dos gênios ou a dos alunos que só têm em comum consigo a letra de sua doutrina e pela qualidade é ouvido e incensado, em que um homem ou uma mulher notáveis, que vivem um amor, consideram como mais inteligente, em uma reunião, uma pessoa, de nível inferior, mas que, numa frase, terá revelado que sabe compreender e levar o que é uma existência voltada à galanteria, e, assim, terá lisonjeado agilmente a tendência voluptuosa do amante ou da amante; era também a idade que Swann, na qualidade de marido de Odette, se comprazia em ouvir a Sra.Bontemps dizer que era ridículo só receber duquesas (daí concluindo, do que teria feito outrora na casa dos Verdurin, que se tratava de uma boa bastante espirituosa e nada esnobe) e a contar-lhe histórias que a faziam "Ser de riso", pois não as conhecia e de que ela, aliás, "pegava" logo o espírito, para agradar e divertir-se.

            - Então o doutor não é doido por flores como você? - perguntava a Sra. Swann à Sra. Cottard.

            - Ora, você sabe que meu marido é sábio; é moderado em todas as coisas. No entanto, sim, tem uma paixão.

            Com os olhos brilhantes de malícia, de alegria e de curiosidade, a Sra. Bontemps indagava:

            -Qual, madame?

            Com simplicidade, a Sra. Cottard respondia:

            - A leitura.

            - Oh, é uma paixão repousante para um marido! -exclamava a Sra. Bontemps, sufocando um riso satânico. - Quando o doutor está lendo um livro, já sabe! - Muito bem, madame, isso não deve espantá-la demais... - Claro que sim! Por causa da vista. Vou estar com ele outra vez, Odette, e voltarei a bater à sua porta na próxima semana. Por falar em vista, já lhe disseram que a residência que a Sra. Verdurin acaba de comprar será iluminada com eletricidade? Não o soube pela minha pequena polícia particular, e sim de outra fonte: foi o próprio eletricista, Mildé, quem me disse. Estão vendo que cito meus informantes. Até os quartos terão lâmpadas elétricas com um abajur para matizar a luz. Evidentemente, é um luxo encantador. Aliás, as mulheres de hoje querem absolutamente o que há de mais novo, como se já não houvesse bastante novidade neste mundo. A cunhada de uma de minhas amigas tem telefone instalado em casa! Pode fazer uma encomenda a um fornecedor sem sair do seu apartamento! Confesso que fiz as mais baixas maquinações para conseguir falar um dia nesse aparelho. Aquilo me seduz muito, mas antes na casa de uma amiga do que na minha. Creio que não gostaria de ter telefone em casa. Passado o primeiro momento de diversão, deve ser uma verdadeira chatice. Muito bem, Odette, já estou indo; não retenha mais a Sra. Bontemps, porque ela vai comigo. Tenho mesmo que ir; você me faz passar cada uma! Vou chegar em casa depois do meu marido!

            E eu também precisava voltar para casa, antes de haver desfrutado aqueles prazeres de inverno, dos quais os crisântemos me pareceram ser o brilhante invólucro. Tais prazeres não tinham vindo e, no entanto, a Sra. Swann não parecia esperar ainda alguma coisa. Deixava os criados levarem o chá como se tivesse anunciado:

            "Vai fechar!" E acabava de me dizer: "Então, vai embora mesmo? Muito bem, good-bye!"

            Sentia eu que poderia ter permanecido sem encontrar esses prazeres ignorados e que não era só minha tristeza que me privava deles. Não estariam, portanto, situados naquele caminho batido das horas que levam sempre tão depressa ao instante da partida, e sim em algum caminho transversal que desconhecia, e por onde seria necessário bifurcar? Pelo menos, atingira o objetivo de minha visita: Gilberte saberia que estivera na casa de seus pais em sua ausência e, como não deixava de repetir a Sra. Cottard, "conquistara logo de assalto a Sra. Verdurin", a quem, acrescentava a esposa do doutor, ela nunca vira "fazer tantas amabilidades", - Parece dissera ela

que vocês dois têm átomos enganchados. - Assim Gilberte saberia que falara dela como devia fazê-lo, com ternura, mas que já não sentia aquela incapacidade de viver sem que nos víssemos, que eu julgara ser a fonte de aborrecimento que ela sentira por mim nos últimos tempos. Dissera à Sra. Swann que não mais podia me encontrar com Gilberte. Dissera-o como se tivesse decidido para todo o sempre não mais vê-la. E a carta que iria enviar a Gilberte seria concebida dentro do mesmo espírito. Apenas, para criar coragem, propunha a mim mesmo só um supremo e breve esforço de alguns dias. Dizia comigo: "É o último encontro dela que vou recusar; aceitarei o próximo." Para que a separação fosse menos difícil de se realizar, imaginava-a como não definitiva. Mas bem sabia que iria sê-lo.

            O dia 1° de janeiro me foi especialmente doloroso naquele ano. Sem dúvida, quando somos infelizes, todos os dias de festa de aniversário o são. Mas, se o dia nos recorda apenas, por exemplo, a perda de um ente querido, o sofrimento só consiste numa comparação mais viva com o passado. No meu caso, acrescentava-se a esperança não formulada de que Gilberte, tendo querido me deixar a iniciativa dos primeiros passos e, vendo que eu não os dera, houvesse esperado o pretexto do dia de Ano-Novo para me escrever: "Enfim, o que há? Sou louca por ti; vem para que nos expliquemos com toda a franqueza; não posso viver sem ver-te." Desde os últimos dias do ano, essa carta me pareceu provável. Talvez não o fosse, mas, para acreditar nessas coisas, basta o desejo e a necessidade que temos de que sejam possíveis. O soldado está persuadido de que existe à sua frente um espaço de tempo infinitamente inadiável antes de ser morto; o ladrão, antes de ser preso; os homens em geral, antes que a morte os leve. É este o amuleto que preserva os indivíduos e às vezes os povos não do perigo, e sim do medo do perigo, na verdade da crença no perigo, o que em certos casos permite que o desafiem, sem que sejam obrigatoriamente corajosos. Uma confiança desse gênero, tão pouco fundada, é a que sustenta o apaixonado que conta com uma reconciliação, com uma carta. Para que eu deixasse de esperar a de Gilberte, bastaria que deixasse de deseja-la. Embora saiba que somos indiferentes em relação à mulher que ainda amamos, atribuímos-lhe uma série de pensamentos - mesmo que sejam de indiferença -, uma intenção de manifestá-los, uma complicação de vida interior onde somos talvez o objeto de uma antipatia, mas também de uma atenção, permanentes. Ao contrário, para imaginar o que se passava no espírito de Gilberte, seria preciso que eu simplesmente antecipasse, naquele dia de Ano-Novo, o que iria sentir num dos anos vindouros, e no qual a atenção ou o silêncio, ou o carinho, ou a frieza de Gilberte, tivessem passado quase despercebidos a meus olhos; onde não tivesse sonhado, e nem sequer pudesse sonhar, em buscar a solução dos problemas que teriam deixado de se colocar para mim. Quando a gente ama, o amor é grande demais para caber inteirinho em nós; irradia-se para a pessoa amada, encontra nela uma superfície que o faz parar, força-o a voltar ao ponto de partida e é esse choque de volta do nosso próprio carinho a que chamamos os sentimentos do outro e que nos encanta mais do que na ida, pois já não reconhecemos que procede de nós. O dia 1º de janeiro fez soar todas as suas horas sem que chegasse carta de Gilberte. E, como recebi outras congratulações tardias, ou atrasadas; pelo acúmulo de serviço no correio nessas datas, ainda esperava nos dias 3 e 4 de janeiro, entretanto cada vez menos. Chorei muito nos dias seguintes. Claro, isto porque, ao renunciar a Gilberte, fora menos sincero do que julgava, conservara a esperança de receber uma carta dela no Ano-Novo. E, vendo-o terminado antes que tivesse tomado a precaução de me servir de outra ilusão, sofria como um enfermo que esvaziou sua ampola de morfina sem ter uma outra à mão. Porém, talvez em mim essas duas explicações não se excluem, pois um só sentimento é feito às vezes de coisas contrárias; a esperança de enfim receber uma carta aproximara de mim a imagem de Gilberte; recriara as emoções que me haviam causado antigamente a espera de me encontrar junto dela, de sua vista, sua maneira de estar comigo. A possibilidade imediata de uma reconciliação suprimira essa coisa de cuja enormidade não nos damos conta: a resignação. Os neurastênicos não podem crer nas pessoas que lhes asseguram que aos poucos se acalmarão; permanecendo na cama sem receber cartas, sem ler jornais. Imaginam que tal regime só contribuirá para exasperar seu nervosismo. Da mesma forma os enamorados, como o consideram do fundo de um estado oposto, não tendo ainda começado a experimenta-lo, não podem acreditar na força benfazeja da renúncia.

            Por causa da violência das batidas do meu coração, diminuíram minha dose de cafeína, e elas cessaram. Então, perguntei-me se não era um pouco devido a ela que me sentira angustiado quando quase briguei com Gilberte, e que atribuíra, cada vez que se renovava a angústia, ao sofrimento de não mais ver a minha amiga ou de arriscar-me a vê-la apenas dominada pelo mesmo mau humor. Mas, se esse medicamento estivera na origem dos sofrimentos que minha imaginação, à época, interpretara falsamente (o que não seria nada extraordinário, pois as penas morais mais cruéis têm muitas vezes como causa, no caso dos amantes, o hábito físico da mulher com quem vivem), era à maneira do filtro que, muito tempo depois de ter sido absorvido, continua a unir Tristão a Isolda. Pois a melhora física que a diminuição da cafeína me trouxe quase imediatamente não estancou a evolução da mágoa que a absorção do tóxico tinha tornado mais aguda, se é que não havia criado.

            Unicamente, quando estava em meados de janeiro, já perdidas as esperanças de uma carta de Ano-Novo e acalmada a dor suplementar que acompanhara a decepção, foi o meu desgosto de antes das "Festas" que recomeçou. E o mais cruel de tudo, talvez, é que eu mesmo era o artesão consciente, voluntário, paciente e impiedoso desse desgosto. A única coisa que me interessava, minhas relações com Gilberte, era eu mesmo quem cuidava em torna-las impossíveis, criando pouco a pouco, pela prolongada separação de minha amiga, não a sua indiferença, mas a minha, o que afinal vinha a dar no mesmo. Encarniçava-me continuamente, com a clarividência não só do que fazia no presente, mas do que daí resultaria para o futuro, num longo e cruel suicídio do eu que dentro de mim amara Gilberte; sabia não só que dentro de algum tempo não amaria mais Gilberte, mas também que ela própria o lamentaria, e que as tentativas que então faria para me ver seriam inúteis como as de hoje, não mais porque a amasse demasiado, e sim porque certamente amaria a uma outra mulher e passaria as horas a deseja-la, a esperar sem ousar desviar uma parcela desse tempo para Gilberte, que não seria mais nada para mim. E, sem dúvida, naquele momento mesmo em que já perdera Gilberte, visto que estava resolvido a não mais vê-la, a menos que houvesse um ponto formal de explicações ou uma completa declaração de amor de sua parte, (e que certamente não tinham nenhuma chance de ocorrer) e em que a amava (sentia tudo o que ela significava para mim melhor do que no ano anterior, passando todas as tardes com ela, sempre que desejasse, achava que nada ia ameaçar nossa amizade), sem dúvida naquele momento, a idéia de que haveria de experimentar os mesmos sentimentos por uma outra era-me odioso, pois tal idéia me roubava, além de Gilberte, meu amor e meu sofrimento; sofrimento em que, chorando, eu tentava justamente descobrir o que era Gilberte; sem outro remédio senão reconhecer que esse amor e esse sofrimento não pertenciam especialmente à mim, sendo, mais cedo ou mais tarde, o quinhão desta ou daquela mulher. De modo que - pelo menos era essa a minha maneira de pensar - a gente sempre está separado das outras criaturas: quando amamos, sentimos que esse amor não conserva o nome do ser amado; poderá renascer no futuro, se tiver podido nascer, mesmo no passado, por uma outra pessoa e não por esta; durante o tempo em que não amamos, se aceitamos filosoficamente que o amor é contraditório, é que esse amor de que se fala com tanta tranqüilidade, não sentimos até então, portanto, é algo desconhecido, pois o conhecimento nessa matéria intermitente não sobrevive à presença efetiva do sentimento. Nesse futuro, em eu não mais amaria Gilberte e que meu sofrimento me ajudava a adivinhar sem imaginação; pudesse ainda figura-lo com clareza, certamente ainda restava tempo para avisar Gilberte de que ele haveria de formar-se aos poucos, sem dúvida era, senão iminente, pelo menos infalível. Se ao menos a própria Gilberte viesse em meu auxílio e destruísse no embrião a minha futura indiferença. As vezes não estive a ponto de escrever, ou de ir dizer a Gilberte: "Cuidado. Tome uma resolução; o passo que dou é um passo decisivo. Vou vê-la pela última vez. Em breve não a amarei mais." Mas para quê? Com que direito teria censurado à Gilberte uma indiferença que, sem me crer culpado por isso, manifestava a todos menos  à ela? Pela última vez! A mim aquilo parecia uma coisa imensa, pois eu amava Gilberte. A ela, sem dúvida, causaria tanta impressão como as cartas em que os amigos pedem para nos fazer uma visita antes de se expatriarem, visita que, como de mulheres tediosas que nos amam, nós recusamos receber, pois temos outros prazeres à espera. Elástico é o tempo de que dispomos todos os dias; as paixões, sentimos que o dilatam, as que inspiramos o encolhem e o hábito o preenche.

            Além disso, seria inútil falar a Gilberte, não me compreenderia. Pensamos sempre que são nossos ouvidos, nosso espírito, que escutam; as palavras só chegariam desviadas à Gilberte, como se obrigadas a atravessar a cortina móvel de uma catarata antes de atingir minha amiga; palavras irreconhecíveis, produzindo um som ridículo, não tendo mais qualquer tipo de sentido. A verdade é que aquilo que pomos nas palavras não trilha diretamente o seu caminho, não é dotada de uma evidência irresistível. É necessário que decorra muito tempo para que uma verdade da mesma espécie possa formar-se nelas. Então o adversário político que, apesar de todas as provas e arrazoados, considerava traidor o sectário da doutrina oposta, compartilha ele mesmo a convicção detestada quando já não interessa àquele que antes buscava inutilmente difundi-la.

            Então, a obra-prima que, para os admiradores que a liam em voz alta, parecia mostrar por si mesma as provas de sua excelência e só oferecia aos que a escutavam uma imagem insana e medíocre, será por estes proclamada obra-prima, tarde demais para que o autor o possa saber. Da mesma forma, no amor as barreiras que, malgrado tanto esforço, não puderem ser rompidas de fora por aquele a quem elas desesperam; e é quando ele já não se preocupa com elas que, de repente, essas barreiras, atacadas outrora sem êxito, caem sem utilidade, devido ao trabalho vindo de outro lado, cumprido no íntimo daquela mulher a quem já não ama. Se anunciasse a Gilberte a minha futura indiferença e a forma de preveni-la, ela teria inferido desse gesto que meu amor e a necessidade de estar com ela seriam ainda maiores do que julgara, e o seu tédio em me ver teria aumentado. De resto, é bem certo que era esse amor que me ajudava, pelos estados de espírito disparatados que fazia sucederem dentro de mim, a prever melhor que era o fim desse mesmo amor. Entretanto, tal advertência, talvez a tivesse endereçado a Gilberte, em carta ou de viva voz, quando já houvesse passado bastante tempo, tornando-a para mim, na verdade, menos indispensável, mas também podendo lhe provar que já podia passar sem ela. Infelizmente, certas pessoas, bem ou mal-intencionadas, falaram-lhe de mim de um modo que lhe deve ter dado idéia de que o faziam a pedido meu. Todas as vezes que tinha certeza de que o Dr. Cottard, minha própria mãe e até o Sr. de Norpois tinham, com palavras desastradas, tornado inútil todo o sacrifício que eu acabara de fazer, estragado todo o resultado de minha reserva, pois assim davam falsamente a entender que já abandonara minha atitude de discrição, sentia-me duplamente aborrecido. Primeiro, já não podia datar senão desse dia a minha penosa e frutífera abstenção que os inoportunos tinham interrompido à minha revelia e, portanto, anulado. E mais, teria tido menos prazer em ver Gilberte, que agora já não acreditava que eu estivesse dignamente resignado, e sim manobrando na sombra com vistas a um encontro que ela desdenhara marcar. Mal dizia essa tagarelice inútil de pessoas que muitas vezes, sem sequer terem a intenção de prejudicar ou de prestar um serviço, por nada, só por falar, às vezes porque não pudemos nos calar diante delas e porque são indiscretas (como nós), nos causam tantos danos num certo momento. É verdade que, no cumprimento do trabalho funesto de destruição do nosso amor, tais criaturas longe estão de desempenhar um papel igual ao de duas pessoas que têm hábito de desfazer tudo no momento em que as coisas iam se arrumar, um excesso de bondade e a outra por muita maldade. Porém não queremos mal às duas, tanto quanto aos Cottards inoportunos, pois a última é a pessoa a qual amamos e a primeira somos nós mesmos. Entretanto, como quase todas as vezes em que ia vê-la; a Sra. Swann convidava para merendar com sua filha e me dizia que respondesse diretamente à Gilberte, eu escrevia a esta muitas vezes, e nessa correspondência não escolhi frases que, segundo me parece, poderiam convencê-la, procurando apenas leito mais suave para o correr das minhas lágrimas. Pois o lamento, como não busca analisar-se e sim satisfazer-se; quando a gente começa a amar, o tempo todo não querendo saber o que é o nosso amor, mas preparando as possibilidades dos encontros do dia seguinte. Quando a ele renunciamos, procuramos sim, não distinguir bem a nossa mágoa, mas expressá-la da maneira mais caridosa possível àquela que a provocou. Dizemos as coisas que precisamos dizer e que outro não compreenderá; falamos só para nós mesmos. Eu escrevia: "Achei que não seria possível. Infelizmente, vejo que não é tão difícil." Dizia também: "Provavelmente, não voltarei a vê-la." Dizia isto, continuando a evitar uma frieza que poderia ter julgado afetada, e essas palavras faziam-me chorar ao escrevê-las, sentia que exprimiam, não aquilo em que desejava acreditar, mas o que iria acontecer. Pois, da próxima vez que me convidasse para um encontro, ainda teria, como agora, a coragem de não ceder e, de recusa em recusa, chegaria aos poucos ao instante em que, de tanto não a ter visto, não desejaria mais vê-la. Chorava e criava coragem; conhecia a doçura de sacrificar a felicidade de estar junto dessa possibilidade; de um dia lhe parecer agradável, dia infelizmente em que mesmo agradável, me seria de todo indiferente. A própria hipótese, no entanto tão verossímil, de que me amava, como ela o dera a entender durante a última visita que lhe fizera, tornava menos cruel minha resolução, embora, naquele momento tivesse tomado como tédio para com a pessoa que nos aborrece, pois que passava de suscetibilidade ciumenta, de uma fingida indiferença parecida minha. Julgava, então, que dentro de alguns anos, depois que tivéssemos esquecido um do outro, quando poderia retrospectivamente lhe dizer que a carta, que neste momento estava a ponto de lhe escrever, não

fora sincera de modo algum, ela responderia:

            "Como? Então você me amava? Se soubesse como a chegada dessa carta, na esperança de um encontro, como ela me fez chorar!"

            E que voltava da casa de sua mãe e enquanto escrevia a Gilberte, apenas a idéia talvez estivesse consumando exatamente aquele mal-entendido, tal idéia, própria da tristeza, pelo prazer de pensar que era amado por Gilberte, continuaria a escrever a carta.

            Se, no momento de deixar a Sra. Swann, quando o "chá" terminava pensando no que escreveria à sua filha, a Sra. Cottard, no entanto, pensava coisas muito diversas. Fazendo sua "inspeçãozinha", não deixava de elogiar a Sra. Swann pelos móveis novos, as recentes "aquisições que via no salão". Aliás, podia reencontrar ali, embora poucos, alguns dos objetos que Odette possuíra antigamente em seu apartamento da rua La Pérouse, especialmente seus fetiches, seus animais feitos de matéria preciosa.

            Mas tendo a Sra. Swann conhecido, por um amigo a quem venerava, o termo tocard que lhe abriu novos horizontes porque designava precisamente as coisas que alguns anos antes consideraria "chiques" todas essas coisas foram aos poucos seguindo, em sua retirada, as grades douradas que serviam de apoio aos crisântemos, as várias bomboneiras da casa Giroux e o papel de cartas com coroa (para não falar dos luíses de ouro feitos de cartolina, espalhados pelas lareiras e que, bem antes que ela conhecesse Swann, um homem de gosto a aconselhara a sacrificar). Além do mais, na desordem intencional, na confusão de ateliê artístico daquelas salas de paredes ainda pintadas de cores sombrias, que as faziam tão diversas quanto possível dos salões brancos que a Sra. Swann teve mais tarde, o Extremo Oriente recuava cada vez mais diante da invasão do século XVIII; e os almofadões que a Sra. Swann colocava e apertava às minhas costas, para que me sentisse mais "confortável", estavam semeados de buquês Luís XV, e não mais, como antigamente, de dragões chineses. No quarto onde a encontravam com mais freqüência, e do qual dizia:

            -Sim, gosto muito dele; passo ali bastante tempo; não poderia viver no meio de coisas hostis e pretensiosas; é aqui que eu trabalho - (sem, aliás, precisar se era em um quadro, talvez num livro, pois começava a criar o costume de escrever, que atinge as mulheres que gostam de fazer algo e não se sentirem inúteis); estava ali rodeada de porcelanas de Saxe (porque preferia esta espécie de porcelana, cujo nome pronunciava com um acento inglês, chegando a falar a qualquer pretexto: "É lindo, isto se parece com flores de Saxe!"; temia por elas, ainda mais que outrora para os seus vasos e estatuetas da China, o toque ignorante dos criados, aos quais castigava, pelos maus transes por que passava, com acessos de cólera a que Swann, patrão suave e polido, assistia sem se mostrar chocado. A vista lúcida de certas inferioridades; aliás não tira nada do afeto; este afeto, ao contrário, é que as torna encantadoras. Agora, era mais raramente em seus chambres japoneses que Odette recebia os íntimos, preferindo as sedas claras e espumantes dos peignoirs Watteau, dos quais fazia o gesto de acariciar sobre os seios a espuma florida, como se se banhasse naquelas sedas, embalando-se e ostentando-se nelas com tal aspecto de bem-estar, de frescura de pele, respirando tão profundamente, que parecia considerá-las não como decorativas, mas como um quadro, porém necessárias da mesma forma que o tub e o footing, para contentar as exigências de sua fisionomia e os requintes de sua higiene. Tinha o hábito de dizer que mais facilmente passaria sem pão do que sem arte e sem limpeza, que lhe valeria mais a pena ver arder A Gioconda que as "sujeiradas" de pessoas a quem conhecia.

            Teorias que pareciam paradoxais às suas amigas, mas faziam-na passar por mulher superior junto a elas, e lhe valeram a visita do ministro da Bélgica por semana, de modo que, no pequeno mundo em que ela era o sol, todos ficavam surpresos se soubessem que, em outra parte, na casa dos Verdurin, por exemplo, ela era tida por imbecil. Por causa dessa vivacidade de espírito, a Sra. Swann ria à companhia dos homens e das mulheres. Mas, quando criticava estas, falava sempre com alma de cocote, nelas assinalando os defeitos que podiam prejudica-las aos olhos dos homens: tornozelos grossos, tez ruim, pêlos nas pernas, mau cheiro, sobrancelhas postiças. Ao contrário, para que outrora se houvesse mostrado indulgente e amável, Odette era mais calada, sobretudo se se tratava de uma pessoa infeliz. Defendia-a com habilidade, ''- Isto é injusto; é uma pessoa muito bondosa, não tenha dúvidas.''

            Não era apenas o mobiliário do salão de Odette, era a própria Odette quem a Sra. Cottard e todos os que haviam convivido antigamente com a Crécy achariam difícil de reconhecer, se a tivessem deixado de ver durante tempo. Parecia ter tantos anos menos que outrora! Sem dúvida, aquilo em parte devia-se ao fato de que ela engordara, mostrando boa saúde, com um aspecto calmo, fresco, repousado, e, por outro lado, aos penteados novos, de cabelos que davam maior amplitude ao seu rosto, animado pelo pó-de-arroz cor-de-rosa; onde os olhos e o perfil, outrora tão salientes, pareciam agora ser reabsorvidos pelas faces. Mas havia um outro motivo para essa mudança, e consistia em que ao chegar à meia-idade, afinal havia descoberto, ou inventado, um traço pessoal, um "caráter" imutável, um "tipo de beleza" e, sobre seus traços os quais durante tanto tempo, entregues aos caprichos ocasionais e ímpetos da carne e que, ao menor cansaço, assumiam uma espécie de velhice pesada; carregando-se de anos, lhe haviam composto, bem ou mal, conforme o seu gesto, uma fisionomia esparsa, diária, informe e deliciosa - havia nesse tipo fixo, como se fosse de uma juventude imortal.

            No seu quarto, em vez das belas fotografias que agora se tirava de mulher, e onde a mesma expressão enigmática e vitoriosa deixava que, fossem quais fossem, o vestido e o chapéu, a sua silhueta e seu rosto triunfavam. Swann guardava um pequeno daguerreótipo antigo, muito simples, e do qual, ainda não encontradas por ela, a juventude e a beleza pareciam ausentes. Mas sem dúvida Swann, fiel ou então por ter voltado à concepção diversa da nova vida saboreava naquela jovem esbelta, de olhos e feições pisadas, a atitude suspensa entre o andar e a imobilidade, uma grande Botticellesca. De fato, gozava de ver ainda em sua esposa um Botticelli. pelo contrário procurava não ressaltar e sim compensar; dissimular mesmo que não lhe agradava, o que era talvez para um artista o seu "caráter", como mulher julgava cheio de defeitos, não queria ouvir falar desse pintor. Possuía uma maravilhosa écharpe oriental, azul e rósea, que havia comprado por ser exatamente igual a da Virgem do Magnificat. Porém a Sra. Swann não queria usa-la. Uma vez apenas deixou o marido lhe encomendar um vestido crivado de margaridas, cinerárias, miosótis e campânulas, de acordo com a primavera. Às vezes, de noite, quando Odette estava cansada, Swann me fazia ver, em voz baixa, como ela dava, sem perceber, às suas mãos pensativas, o movimento sutil, um pouco atormentado, da Virgem que mergulha sua pena no tinteiro que o anjo lhe estende, antes de escrever no livro santo onde já está traçada a palavra             "Magnificat". E acrescentava:

            -Principalmente, não lhe diga nada; basta que o note para não fazê-lo.

            A não ser nesses momentos de abandono involuntário, em que Swann tentava recuperar o melancólico ritmo botticellesco, o corpo de Odette era agora recortado em uma única silhueta, toda ela cingida por uma linha que, para seguir o contorno da mulher, abandonara os caminhos sinuosos, as falsas saliências e reentrâncias, os entrelaçamentos, a dispersão composta das modas de antigamente, mas que, mesmo assim, onde a anatomia se enganava fazendo voltas inúteis, aquém ou além do traçado ideal, sabia retificar num traço ousado os desvios da natureza, suprindo em grande parte do trajeto as deficiências da carne e do tecido. Haviam sumido as almofadas, a "armadura" do terrível colete, bem como os corpinhos com alertas que, sustidos por barbatanas, sobressaíam por cima do vestido; todas as peças que, durante muito tempo, tinham acrescentado a Odette um ventre postiço e lhe haviam dado a aparência de ser composta de peças disparatadas sem qualquer individualidade que as unisse. As linhas verticais das franjas e a curva dos franzidos tinham cedido o posto à inflexão de um corpo que fazia palpitar a seda, como a sereia faz arfar as ondas, e dava à percalina uma expressão humana, agora que se libertara, como forma organizada e viva, do longo caos do envolvimento nebuloso das modas destronadas. Porém a Sra. Swann desejara, e soubera conservar, o vestígio de algumas delas até no meio das que havia substituído. Quando à noite, sem poder trabalhar e estando seguro de que Gilberte se achava no teatro com as amigas, eu ia sem avisar à casa dos pais dela, muitas vezes encontrava a Sra. Swann vestindo um elegante déshabillé, cuja saia, de belos tons sombrios, vermelho-escuro ou alaranjado, cores que pareciam ter um sentido especial porque já não estavam na moda, era obliquamente atravessada por uma faixa ampla e perfurada, de renda negra, que lembrava os volantes de antigamente. Quando, num dia ainda frio de primavera, antes de minha briga com sua filha, ela me levara ao Jardim da Aclimação, a Sra. Swann entreabria mais ou menos a gola da jaqueta, conforme o calor que sentia enquanto andava, de forma que aparecia a gola denteada de sua blusa bem como a vislumbrada lapela de um ausente casaco sem mangas, Semelhante a um dos que usara alguns anos antes e que lhe agradava tivessem as bordas ligeiramente picotadas; e sua escocesa, pois permanecia fiel ao tipo escocês, mas suavizando de tal modo os tons (fazendo rosa o vermelho, e lilás o azul); safira, de trevos de quatro folhas de prata e medalhões de ouro, de amuletos de turquesa, contas de topázio, no próprio vestido havia um certo desenho de cores.

            Eu pensava como nos sonhos, onde alguém ama nossos desejos, como a preterimos àquela entediada, em que teríamos de encarar uma pessoa a quem já não poderíamos dizer à vontade as palavras desejadas, mas de quem sofreríamos novas friezas e inesperadas! Todos sabemos que o esquecimento e até mesmo a vaga lembrança quando já não amamos, não causam tanta dor como o amor infeliz. Eu sem confessá-lo, a doçura repousante desse esquecimento antecipado. Além disso, o que esse regime de desprendimento psíquico e delineamento pudesse ter de penoso ia aos poucos diminuindo por um outro que esse regime enfraquece a idéia fixa que forma o amor, enquanto não o completo. Meu amor ainda era bastante intenso para que continuasse até o meu prestígio aos olhos de Gilberte; prestígio que, devido à minha visita voluntária, devia, conforme achava, crescer progressivamente, de modo que os dias tranqüilos e tristes em que não a via, vindo um após outro, sem interrupção; sem prescrição (a menos que um intrometido se misturasse nos seus assuntos) eram dias ganhos e não perdidos. A resignação, modalidade do hábito, permite certas forças e indefinidamente. Aquelas, tão ínfimas, com que pudera suportar meus dias, na primeira noite de minha briga com Gilberte, desde então chegaram à ausência incalculável. Apenas, a tendência a se prolongar, que todas as coisas têm, é por vezes cortada por impulsos bruscos, aos quais cedemos, praticamente sem escrúpulos, justo por sabermos durante quantos dias e meses teriam durado; ou saberíamos ainda, resistir. E muitas vezes ocorre que esvaziamos muitas vezes a bolsa de dinheiro bem quando ia ficar cheia, sem esperar pelo resultado do tratamento quando já estávamos acostumados a segui-lo. Um dia em que repetia à Sra. Swann as palavras de costume acerca do prazer que Gilberte ao me ver sentia; como que ao alcance da mão, aquela ventura de que já roe há tanto tempo, fiquei perturbado ao verificar que ainda não me era: desfrutá-la; e custou-me esperar pelo dia seguinte; resolvera ir surpreender antes do jantar.

            O que me ajudou a ter paciência por todo o espaço de um dia; - projeto que engendrei. Desde o instante em que tudo estava esquecido, reconciliara com Gilberte, só queria vê-la como apaixonado. Todos os dias recebia de mim as mais belas flores que houvesse. Se a Sra. Swann, tivesse o direito de se mostrar mãe muito severa, não me permitisse o envio de flores, eu encontraria presentes mais preciosos e menos constantes, não me davam muito dinheiro para comprar coisas caras. Pensei nunca potiche chinês antigo que me fora deixado pela tia Léonie; todos os dias agourava que Françoise viria dizer-lhe: "Caiu..." e que dele não sobraria tais condições, não era mais prudente vendê-lo, para poder dar todo o presente que desejava à Gilberte? Achava que poderia conseguir uns mil francos; por estar embrulhado; por força do hábito, nunca havia reparado nele; se o desembrulhasse teria ao menos uma vantagem, a de conhecê-lo. Antes de ir à casa dos Swann, eu mesmo o carreguei, dando o endereço deles ao cocheiro, e avisando que fosse pelos Champs-Élysées, onde ficava a loja de um grande negociante de antigüidades chinesas conhecido de meu pai. Para minha grande surpresa, ofereceu-me logo pelo potiche não mil, mas dez mil francos. Peguei as notas, deslumbrado: durante um ano, poderia encher Gilberte de rosas e lilases. Quando voltei para o carro, deixando o negociante, o cocheiro, com toda a naturalidade, visto que os Swann moravam perto do Bois, em vez de seguir o caminho de costume, desceu a avenida dos Champs-Élysées. Já ultrapassara a esquina da rua de Berri quando, ao crepúsculo, julguei reconhecer, bem perto da casa dos Swann, mas indo em direção contrária e afastando-se, Gilberte, que caminhava devagar, embora com passo firme, ao lado de um rapaz com quem conversava e cujo rosto não pude distinguir. Ergui-me no carro, querendo parar, depois hesitei. Os dois passeantes já estavam um tanto longe, e as duas linhas suaves e paralelas que seu lento passeio traçava iam se esfumando na sombra elísia. Em breve parei diante da casa de Gilberte. Fui recebido pela Sra. Swann:

            -Oh, ela vai ficar triste - disse-me -; nem sei como é que não está presente. Saiu com muito calor de uma aula; disse que desejava tomar um pouco de ar com uma das amigas.

            - Creio tê-la visto na avenida dos Champs-Élysées.

            - Não acho que se tratasse dela. Em todo caso, não conte nada a seu pai, pois não gosta nada que ela saía a essas horas. Good evening.

            Despedi-me, disse ao cocheiro que voltasse pelo mesmo caminho, mas já não encontrei os dois passeando. Para onde teriam ido? Que diriam um ao outro, na noite, com aquele ar confidencial?

            Voltei para casa, segurando com desespero os dez mil francos repentinos que me permitiriam dar tantos pequenos prazeres à Gilberte, a qual, agora, estava decidido a nunca mais ver. É claro que a parada na loja do negociante de antigüidades chinesas me alegrara, pois dera-me a esperança de só ver a minha amiga reconhecida e contente comigo. Mas, se não tivesse parado, se o carro não tivesse ido pela avenida dos Champs-Élysées, não teria encontrado Gilberte e aquele rapaz. Desse modo, um mesmo fato compreende ramais opostos e a desgraça que engendra anula a felicidade que causara. Acontecera-me o contrário do que ocorre com tanta freqüência. Alguém deseja uma alegria e lhe faltam os meios materiais de obtê-la. "É triste-diz La Bruyere -amar sem possuir uma grande fortuna." Não há outro remédio senão tentar liquidar aos poucos o desejo de ter essa alegria. Quanto a mim, ao contrário, obtivera os meios materiais, mas, no mesmo instante, senão por um efeito lógico, ao menos por uma conseqüência fortuita desse primeiro êxito, escapou-me essa alegria. Aliás, parece que sempre deve nos escapar. É verdade que, normalmente, não costuma escapar na mesma noite em que adquirimos o que a torna possível. Em geral, continuamos a nos esforçar e a ter esperança durante algum tempo. Porém a felicidade jamais pode se realizar. Se as circunstâncias chegam a ser ultrapassadas, vencidas, a natureza transporta a luta de fora para dentro e aos poucos faz mudar bastante o nosso coração, a ponto que ele sinta outra coisa diversa da que vai possuir. E, se foi tão rápida a peripécia que o coração não teve tempo de mudar, nem por isso a natureza desesperada por dominar-nos, é verdade que de uma forma tardia, mais sutil; mas igualmente. Então, no último momento, a posse da felicidade nos é roubada, ou melhor, a mesma posse que, com argúcia diabólica, a Natureza encarrega de destruir a felicidade. Tendo fracassado em tudo que fosse do domínio dos fatos e da vida, impossibilidade última; a impossibilidade psicológica, o que a Natureza fenômeno da felicidade não se produz ou cede lugar às mais amargas realidades. Tinha os dez mil francos na mão. Mas eles já não me serviam para nada; aliás, gastei-os mais depressa ainda do que se tivesse mandado flores todos os dias à Gilberte, pois quando baixava a noite sentia-me tão infeliz que não podia ficar em casa e ia chorar nos braços de mulheres a quem não amava. Já não desejava esforços para agradar Gilberte; agora, voltar à casa de Gilberte só poderia aumentar meu sofrimento. Mesmo tornar a vê-la, o que me parecera tão delicioso na véspera, hoje não me bastaria. Pois ficaria preocupado todas as horas que estivesse longe dela. Tal é a razão por que, quando uma mulher nos causa um mágoa, muitas vezes sem sabê-lo, aumenta seu domínio sobre nós, mas igualmente nossas exigências a seu respeito. Pelo mal que nos causou, a mulher cada vez mais, duplica nossas cadeias, mas também aquelas cadeias que até nos pareciam suficientes para prendê-la de tal forma que nos sentíssemos tolos. Na véspera, se não julgasse aborrecer Gilberte, teria me contentado em conceder algumas raras entrevistas, que agora já não me satisfariam e que substituíram as condições bem diversas. Pois no amor, ao contrário do que se passa: combates, quanto mais somos vencidos mais duras condições impomos; deixar de agravá-las, se, todavia, estivermos em situação de as exigir. Não era o caso quanto a Gilberte. Assim, primeiro preferi não voltar à casa de sua mãe. Continuava a dizer para mim mesmo que Gilberte não me amava, que há muito disso, que podia revê-la se quisesse e, se não quisesse, esquecê-la com rapidez. Essas idéias porém, como um remédio que é inócuo diante de certas afecções, tinham qualquer eficácia contra aquelas duas linhas paralelas que eu revia quando, lembrava de Gilberte e do rapaz, avançando devagar pela avenida Champs-Élysées. Era um novo mal, que também acabaria por se deteriorar, imagem que um dia se apresentaria a meu espírito inteiramente depurada do que possuía de nocivo, como esses venenos mortais que a gente manuseia em perigo, como um pouco de dinamite junto à qual podemos acender o sem medo de explosão. Enquanto esperava, em mim havia uma outra pessoa que lutava poderosamente contra essa força malsã; que me representava invariado o passeio de Gilberte ao crepúsculo; para quebrar os assaltos sucessivos da memória, trabalhava com eficiência a minha imaginação, em sentido com a primeira dessas duas forças, é claro que continuava a me mostrar os dois passeantes da avenida dos Champs-Élysées, oferecendo-me outras imagens desagradáveis, extraídas do passado: por exemplo, Gilberte dando de ombros quando sua mãe lhe pedia que ficasse comigo. Porém a segunda força, operando no plano das minhas esperanças, desenhava um futuro mais aprazivelmente amplo do que aquele pobre passado em suma tão restrito. Por um minuto em que revia Gilberte de mau humor, quantos outros não existiam em que eu fantasiava os passos que ela daria para nossa reconciliação, talvez até para o nosso noivado! É verdade que semelhante força de imaginação, dirigida ao futuro, era extraída toda do passado. À medida que se apagasse todo o meu aborrecimento pelo fato de Gilberte ter dado de ombros, diminuiria também a recordação de seu encanto; recordação que me fazia desejar que ela voltasse para mim. Mas achava-me ainda muito longe dessa morte do passado. Continuava sempre a amar aquela a quem de fato julgava detestar. Cada vez que me via bem penteado, de bom aspecto, gostaria que ela estivesse presente. Sentia-me irritado com o desejo, manifestado por muitas pessoas àquela época, de me receberem e a cujas casas me recusava a ir.

            Houve uma cena em casa porque não acompanhei meu pai a um jantar oficial, onde estariam os Bontemps com sua sobrinha Albertine, mocinha que era quase uma criança ainda. Os diferentes períodos de nossa vida se sobrepõem assim uns aos outros. Recusamos desdenhosamente, por causa de quem amamos e que um dia nos será indiferente, conhecer a que hoje nos é indiferente; que amanhã haveremos de amar e que talvez pudéssemos, se tivéssemos concordado em conhecê-la, amar mais cedo, e que, assim, teria abreviado nossos atuais sofrimentos, é claro que substituindo-os por outros. Os meus iam se modificando. Espantava-me verificar, no fundo de mim mesmo, um sentimento num dia, no dia seguinte um outro, geralmente inspirados por uma esperança ou por um temor em relação a Gilberte. A Gilberte que trazia dentro de mim. Tive de concordar que a outra, a de verdade, talvez fosse bem diversa desta, ignorava todos os lamentos relativos a ela e provavelmente pensava muito menos em mim não apenas do que eu nela, mas nem mesmo como a fazia pensar em mim, quando estava a sós em conversa com minha Gilberte imaginária, querendo descobrir quais seriam seus propósitos a meu respeito, fantasiando-a desse modo, com a atenção sempre voltada para mim.

            Nesses períodos em que, sempre se enfraquecendo, a mágoa persiste, é necessário distinguir entre a que nos causa o pensamento constante na própria pessoa, e a que certas lembranças reavivam, uma frase infeliz pronunciada, um verbo empregado numa carta recebida. Reservando-nos para descrever por ocasião de um amor futuro as formas diversas do desgosto, diremos que, desses dois, o primeiro é infinitamente menos cruel que o segundo. Isto se deve a que a nossa opção da pessoa, vivendo sempre em nós, é embelezada com a auréola que não tivemos a lhe emprestar e se reveste, senão das freqüentes doçuras da esperança, ao menos da tranqüilidade de uma tristeza permanente. (Aliás, convém na imagem de uma pessoa que nos faz sofrer ter pouco espaço nessas composições que agravam um desgosto de amor, prolongando-o e atrapalhando sua cura; em certas moléstias a causa é desproporcional em relação à febre constante de lentidão da entrada em convalescença.) Mas, se a idéia da pessoa a quem recebe o reflexo de uma inteligência em geral otimista, o mesmo não está nessas lembranças especiais, essas frases infelizes, essa carta hostil (ainda tivesse recebido de Gilberte nenhuma que o fosse); dir-se-ia que a própria vive naqueles fragmentos, contudo tão restritos, e com uma força que longe de possuir na idéia habitual que formamos dela inteira. Não esquecemos a carta como a imagem do ser amado, numa nostalgia calma e melancólica, lemo-la, devoramo-la na terrível angústia com que nos comprime uma imagem inesperada. A formação desses tipos de desgostos é bem diversa; eles vieram de fora e foi pelo caminho do mais cruel de sofrimento que atingiram coração. A imagem da nossa amiga, imagem que julgamos antiga e autêntica, na realidade é refeita por nós várias vezes. A lembrança cruel não contem essa imagem restaurada, pertence a outra época, é uma das raras testemunhas de um passado monstruoso. Mas, como esse passado continua a existir, em nós mesmos, porque agradou-nos substituí-lo por uma maravilhosa felicidade; um paraíso onde todos estarão reconciliados, tais lembranças e tais cartas de advertência da realidade deveriam nos fazer sentir, pelo mal súbito, o quanto estamos dela afastados nas loucas esperanças de nossa vida cotidiana. Não é que essa realidade deva permanecer sempre a mesma, embora ocorra às vezes. Na nossa vida há muitas mulheres que nunca procuramos que responderam muito naturalmente ao nosso silêncio, de modo nenhum reducional, mas por um outro silêncio análogo. Unicamente, estas, como não as amamos não contamos os anos passados longe delas e, quando raciocinamos, eficácia do isolamento, esse exemplo, que a invalidaria, é por nós de como aqueles que acreditam em pressentimentos desdenham todos os cálculos. que estes não se confirmam. Mas enfim, o afastamento pode ser eficaz. O desejo e a apetência de novo acabam renascendo nesse coração que hoje nos despreza. Apenas é preciso dar tempo ao tempo.

            Ora, nossas exigências, no que concerne ao tempo são menos exorbitantes que as que o coração exige para mudar. Primeiramente é o que cedemos com a maior dificuldade, pois nosso sofrimento é cruel há pressa em vê-lo acabar. Depois, esse tempo, de que precisa o outro para mudar, servirá ao nosso também para mudar, de modo que quando nos propomos se tornar acessível terá deixado de ser um objetivo para disso, a mesma idéia de que será acessível, de que não haverá felicidade; e possamos atingir quando já não nos seja uma felicidade; pois comporta apenas uma parte da verdade. Alcança-nos quando já nos tornamos indiferentes. porém, justamente essa indiferença nos fez menos exigentes e nos permite acreditar, retrospectivamente, que a felicidade nos enfeitiçou numa época em que talvez se nos afigurasse muito incompleta. Não somos muito exigentes, nem bons juízes, acerca de coisas que não nos interessam. A gentileza de uma pessoa a quem já não amamos e que ainda parece excessiva à nossa indiferença, talvez estivesse bem longe de bastar ao nosso amor. Essas palavras ternas, à oferta de um encontro, pensamos no prazer que nos teriam causado e não em todas aquelas que desejaríamos ver imediatamente seguidas e cuja realização talvez tivéssemos impedido com essa avidez. De forma que não é certo que a ventura sobrevindo tarde demais, quando já não podemos gozá-la, quando já não amamos, seja exatamente a mesma ventura cuja falta outrora nos fez tão infelizes. Só uma pessoa poderia decidir a respeito, o nosso eu de antigamente; já não existe; e sem dúvida bastaria que retornasse para que, idêntica ou não, a felicidade se desvanecesse.

            Enquanto esperava essas realizações, afinal já sem motivo, de um sonho em que não mais acreditava, à força de inventar, como no tempo em que mal conhecia Gilberte; palavras, cartas em que ela implorava o meu perdão, confessava nunca haver amado alguém além de mim, e me pedia em casamento, uma série de doces imagens incessantemente recriadas acabaram por ocupar mais lugar em meu espírito que a visão de Gilberte e do rapaz, visão que não era mais alimentada por coisa alguma. E talvez desde então tivesse voltado à casa da Sra. Swann, não fosse um sonho que tive; onde um de meus amigos, entretanto para mim desconhecido, agia comigo com a maior falsidade e achava que eu fazia o mesmo com ele. Bruscamente acordado pelo sofrimento que o sonho me causava, e vendo que a dor persistia, pensei de novo nele, procurei me lembrar quem seria o amigo que vira dormindo e cujo nome espanhol já não era distinguível. Fazendo ao mesmo tempo o papel de José e do Faraó, passei a interpretar meu sonho.

            Sabia que em muitos sonhos não se deve ligar à aparência das pessoas, que podem estar disfarçadas e terem trocado seus rostos, como esses santos mutilados das catedrais que os arqueólogos ignorantes andaram refazendo, pondo sobre o corpo de um a cabeça de outro, e misturando os atributos e os nomes. Os nomes que as pessoas adotam nos sonhos podem nos levar a erros. A pessoa a quem amamos deve ser nele reconhecida apenas pela intensidade da dor que experimentamos. E a minha dor me disse que, transformada em rapaz durante o sonho, a pessoa cuja falsidade recente ainda me causava mal era Gilberte. Lembrei-me então que, da última vez que a vira, no dia em que sua mãe a impedira de ir a uma matinê dançante, Gilberte, sincera ou fingidamente, negou-se a crer na retidão de minhas intenções, rindo de forma estranha. Por associação, tal lembrança trouxe outra à memória. Muito tempo antes, foi Swann quem não quis acreditar na minha sinceridade, ou que eu fosse um digno amigo para Gilberte. Inutilmente lhe escrevera. Gilberte trouxera a carta e devolvera com o mesmo riso incompreensível. De fato, devolvera logo; lembrei-me de toda a cena por trás do bosquezinho. Fazemo-nos moralistas quando somos infelizes. A antipatia atual de Gilberte surgiu-me como um castigo infligido pela vida devido à conduta que tivera no dia. A gente crê evitar os castigos, porque evita os perigos tendo muito cuidado ao atravessar a rua. Mas há castigos internos. O acidente chega de onde nem se imagina, de dentro, do coração. As palavras de Gilberte: "Se quiser, continue a lutar" me causaram horror. E imaginava-a em situação idêntica, em sua rouparia, com o rapaz que vira em sua companhia na avenida dos Champs. Assim como fora tão insensato há tempos, ao acreditar que estava tranqüilamente instalado nos domínios da felicidade, também o era hoje, quando já desistira feliz, ao ter como seguro que pelo menos me achava tranqüilo e que assim mereceria. Pois, enquanto o nosso coração acolhe de modo permanente a imagem de outra criatura, não é apenas a nossa felicidade que pode a qualquer momento ser destruída; quando se desvanece tal felicidade, depois de muito sofrer, tão tentador e precário como o fora a própria felicidade é o sossego. Meu sossego por regressar, pois o que penetrou no nosso espírito, modificando nosso moral, nossos desejos, graças a um sonho, também pouco a pouco se dissipa das que são prometidas a permanência e a duração, nem mesmo à dor. Aliás, sofrer pelo amor são, como se poderia dizer de certos doentes, seu próprio contágio. Como só obtêm consolo do próprio ser que causa a sua dor e essa dor já é emanação dele, é nela mesma que acabam por encontrar um remédio. A criatura amada lhes revela, num dado momento, esse remédio, pois, a melhoria revolvem dentro de si mesmos, essa dor lhes mostra um outro aspecto da que perderam, ou tão odiosa que nem mesmo sentem mais desejo de vê-la, antes de gozar sua presença; seria necessário fazê-la sofrer, ou então dar-lhe a mesma doçura que a dor lhe empresta é considerada um mérito da qual se tira um motivo de esperança.

            Mas, conquanto se apaziguasse em sofrimento que voltara a despertar, não quis retornar à casa da Sra. Swann muito raramente. Primeiro porque, nas pessoas que amam e não são escondidos, o sentimento de espera - ainda que de espera inconfessa - em que transforma por si mesmo, embora de aparência idêntica, faz suceder a um um outro exatamente contrário. O primeiro era a conseqüência, o reflexo de antes dolorosos que nos tinham transtornado. A expectativa do que poder está mesclada de terror, tanto mais que desejamos nesse momento, de novo nos acontece da parte da pessoa amada, agir por conta própria e não também qual será o êxito de semelhante ato, que, uma vez cumprido, impede a ação de outro. Em breve, porém, sem que nos apercebamos de tal, nossa vida, que continua, já não é determinada, como vimos, pela recordação que sofremos mas pela esperança de um futuro imaginário. Daí então, agradável. Além disso, a primeira, durando um pouquinho, habituou-nos a viver na expectativa. O sofrimento que sentimos nos nossos últimos encontros ainda sobrevive em nós, mas já amortecido. Não temos pressa em renová-lo, tanto mais que agora já não saberíamos o que pedir. Possuir um pouco mais da mulher amada só faria tornar mais necessário aquilo que não possuímos e que, apesar de tudo, permaneceria sendo algo irredutível, visto que nossas necessidades se originam de nossas satisfações.

            Por fim, uma última razão se acrescentou posteriormente a esta para fazer com que cessasse inteiramente minhas visitas à Gilberte Swann. Essa razão, mais tardia, não era que já houvesse esquecido Gilberte, mas que tentasse esquecê-la mais depressa. É claro que, desde que minha grande mágoa acabara, as visitas à casa da Sra. Swann tinham voltado a ser, para o que me restava de tristeza, o calmante e a distração que me foram preciosos no começo. Mas o motivo da eficácia do primeiro causava também a inconveniência do segundo, isto é, a recordação de Gilberte estava intimamente associada a essas visitas. A distração só me seria útil caso tivesse sido posta em luta com um sentimento que a presença de Gilberte já não alimentava, com pensamentos, interesses e paixões com que Gilberte nada tivesse a ver. Esses estados de consciência, aos quais o ser amado permanece estranho, ocupam então no espírito um lugar que, por menor que seja a princípio, já é vedado ao amor que enchia toda a alma. É preciso tentar nutrir, fazer crescer esses pensamentos, enquanto declina o sentimento que já não passa de uma lembrança, de modo que os elementos novos introduzidos no espírito lhe contestem, lhe arranquem uma porção cada vez maior da alma, e finalmente roubem-na toda. Percebia eu que era essa a única maneira de matar um amor; era bastante jovem e corajoso para tentar fazê-lo, para assumir a mais cruel das dores, a que nasce da certeza de que, mesmo que demoremos algum tempo, chegará o dia em que atingiremos nosso objetivo. A razão que expunha agora em minhas cartas a Gilberte, acerca da recusa em vê-la, era a alusão a um misterioso mal-entendido, completamente fictício, que teria ocorrido entre mim e ela e sobre o qual primeiro havia esperado que Gilberte me desse explicações. Mas na verdade nunca, mesmo nas mais insignificantes relações da vida, são solicitados esclarecimentos por um correspondente que sabe que uma frase obscura, mentirosa, incriminadora, ali está justamente para que ele proteste, e que se dá por muito feliz em ver que, desse modo, possui e mantém a iniciativa e o domínio das operações. O mesmo ocorre nas mais carinhosas relações, onde o amor tem tanta eloqüência e a indiferença tão pouco de curiosidade. Não tendo Gilberte posto em dúvida nem procurado esclarecer o mal-entendido, ele se tornou para mim algo de real a que me referia em todas as cartas. E há nessas situações falseadas, na afetação de frieza, um sortilégio que nos faz perseverar a força de escrever: "Desde que nossos corações se desuniram"; para que Gilberte me respondesse: "Mas não estão desunidos, expliquemo-nos"; acabara por me convencer de que o estavam. Sempre repetindo: "A vida mudara para nós, mas não apagará o sentimento que tivemos", desejando ouvi-la dizer: "Mas nada mudou, esse sentimento está mais forte que nunca''; vivia com a idéia de que a vida de fato mudara, e que conservaríamos a recordação do sentimento que já não existia, como certas pessoas nervosas por terem sofrido uma enfermidade acabam por ficar sempre doentes. Agora, todas as vezes que tinha de escrever a Gilberte, reportava-me a essa mudança imaginária, cuja ausência, de agora em diante tacitamente reconhecida pelo silêncio que ela observaria a tal respeito em suas respostas, subsistiria entre nós. Depois, Gilberte deixou importar com rejeições. Ela própria adotou meu ponto de vista; e, como nos grandes oficiais em que o chefe de Estado que é recebido retoma aos poucos algumas expressões que acaba de empregar o chefe de Estado que o recebe, as vezes em que escrevia a Gilberte: "A vida pôde nos separar, a recordação em que nos conhecemos há de permanecer", ela não deixava de responder, pôde nos separar, não poderá nos fazer esquecer as boas horas que nos sempre caras" (ficaríamos muito embaraçados para dizer por que "a vida separara, qual a mudança que se produzira). Eu já não sofria muito. No entanto, o dia em que, numa carta, lhe dizia que soubera da morte da nossa velha vendedora de balas dos Champs-Élysées, ao acabar de escrever estas palavras: "Imagino que isto te causou pesar. Em mim, veio agitar muitas lembranças", não pude me desmanchar em lágrimas ao ver que falava no passado, e, como já estava morto quase esquecido, daquele amor em que, apesar de tudo, jamais, pensar como se fosse vivo, podendo ao menos renascer. Nada mais que essa correspondência entre amigos que não queriam se ver mais. As vezes Gilberte tinha a delicadeza das que eu escrevia aos indiferentes e me confessava as mesmas aparentes marcas de afeto, tão suaves para mim por virem dela. Aliás, aos poucos, toda recusa minha em vê-la me era menos como ela se me tornasse menos cara, minhas lembranças dolorosas já não tinham força bastante para destruir, no seu retorno incessante, a formação do prazer que sentia em pensar em Florença, em Veneza. Nesses momentos, lamentava ter desistido a entrar para a carreira diplomática e de ter-me construído uma sedentária, a fim de não me afastar de uma jovem que já não mais esquecera quase por completo. A gente constrói a vida para uma pessoa, enfim podemos recebê-la em nossa vida, essa pessoa não vem, depois nós acabamos vivendo prisioneiros na morada que só a ela se dedicou.

            Quando se aproximou a primavera, afastando o frio, no tempo dos santos de gelo e das chuvas de granizo da Semana Santa, como a Sra. Swann achasse que a casa estava muito gelada, aconteceu várias vezes vê-la receber as visitas envolta em peles, as mãos e os ombros friorentos desaparecendo sob o branco e brilhante tecido de um imenso regalo e de uma capa, ambos de marta-zibelina, que não retirara ao entrar e que apresentavam o aspecto das últimas nevascas de inverno, mais persistentes que as outras e que nem o calor do fogo nem o avanço da estação haviam logrado derreter. A verdade integral dessas glaciais semanas, contudo já florescentes, era-me sugerida naquele salão, aonde em breve não voltaria mais, por outras brancuras mais inebriantes, a das "bolas-de-neve", por exemplo, que reuniam no alto de seus grandes caules despidos como os arbustos lineares dos pré-rafaelitas, seus globos parcelados mas unidos, alvos como anjos anunciadores, e que eram envoltos num aroma de limão. Pois a castelã de Tansonville sabia que abril, mesmo gelado, não é destituído de flores; que o inverno, a primavera e o verão não são separados por divisões tão herméticas como é levado a crer o morador dos bulevares que, até os primeiros calores, imagina que o mundo é composto somente de casas desabrigadas sob a chuva.

            Que a Sra. Swann se contentasse com as remessas que lhe fazia o seu jardineiro de Combray, e que, por intermédio de sua florista "oficial", não preenchesse as lacunas de uma evocação insuficiente com o auxílio de empréstimos tomados à precocidade mediterrânea, longe estou de o pretender e não me preocupava com isso. Para sentir a nostalgia do campo, bastava-me que, junto com as nevadas do regalo da Sra. Swann, as bolas-de-neve (que não tinham quem sabe outro objetivo, na idéia da dona da casa, senão o de compor, aos conselhos de Bergotte, uma "sinfonia em branco maior" com suas mobílias e sua toalete) me recordassem que o encantamento da Sexta-feira Santa configura um milagre natural, a que poderíamos assistir todos os anos se fôssemos sensatos; ajudadas pelo perfume ácido e capitoso das corolas de outras espécies, cujos nomes ignorava e que tantas vezes me haviam feito parar nos meus passeios de Combray, tornassem o salão da Sra. Swann tão virginal, tão candidamente florido sem nenhuma folha, tão sobrecarregado de aromas autênticos como a pequena ladeira de Tansonville.

            Mas já era demais que aquilo me fosse lembrado. Sua recordação arriscava alimentar o pouco que subsistia do meu amor por Gilberte. Assim, embora já não sofresse absolutamente durante essas visitas à Sra. Swann, tornei-as mais raras ainda e procurei vê-la o menos possível. Quando muito, como continuasse a não deixar Paris, concedia-me alguns passeios com ela. Enfim haviam voltado os dias findos, juntamente com o calor. Como sabia que antes do almoço a Sra. Swann saía por uma hora e andava um pouco pela avenida do Bois, perto da Étoile, e do mal que então se denominava "clube dos Prontos" por causa das pessoas que ficavam a olhar os ricos a quem só conheciam de nome - obtive de meus pais que no domingo (pois não estava livre a essa hora nos dias úteis) poderia almoçar depois deles, à uma e quinze, e ir dar uma volta antes. Nunca faltei um dia naquele mês de maio, visto que Gilberte estava no campo com umas amigas. Chegava ao Arco do Triunfo por volta do meio-dia. Ficava à espreita na avenida, sem deixar de olhar a esquina da ruazinha por onde a Sra. Swann, precisava andar alguns metros, vinha de sua casa. Como já fosse hora de passeantes voltarem para almoçar, restavam poucos, em sua maioria, pessoas elegantes. De súbito, sobre a areia de uma alameda, tarda, atrasada, como a mais bela flor, e que só se abriria ao meio-dia, aparecia a Sra. Swann, desabrochando a seu redor uma toalete sempre diversa, mas que recordo principalmente cor de malva; depois alçava e desenrolava sobre um longo momento de sua mais completa irradiação, o pavilhão de seda de uma sombrinha, do mesmo matiz que o desfolhar das pétalas de seu vestido. Séquito a rodeava; Swann, quatro ou cinco homens de clube que tinham ido de manhã ou que ela havia encontrado no caminho; e a negra ou cinzenta ração obediente, executando movimentos quase mecânicos de um quadro em torno de Odette, davam a essa mulher, que só possuía intensidade no aspecto de estar olhando à sua frente, dentre todos aqueles homens, como a janela da qual se houvesse aproximado, fazendo-a surgir, frágil, sem nudez de suas cores tenras, como a aparição de um ser de uma espécie diferente, uma raça desconhecida, e de um poder quase guerreiro, graças ao que ela passava, sozinha, a sua múltipla escolta. Sorridente, feliz pelo bom tempo com o sol que ainda não incomodava, tendo o ar de segurança e calma; como aquele que rematou sua obra e não se preocupa mais com o resto, certa de que sua obra, mesmo que os transeuntes vulgares não a apreciassem era a mais bela de todas, ela a vestia para si mesma e para os amigos, com naturalidade, sem ser exagerada, mas também sem desprendimento completo, não impedindo pequenos laços de fita da blusa e da saia flutuassem de leve diante dela criaturas cuja presença não ignorava e às quais permitia, com indulgência, entregassem a seus brinquedos, conforme seu ritmo próprio, contanto que seguissem a marcha, e até sobre a sombrinha malva que muitas vezes trazia fechada ao chegar, ela deixava cair por um momento, como sobre um buquê de violetas de Parma, seu olhar feliz e tão doce que, mesmo quando não se mostrava mais a seus amigos e sim a um objeto inanimado, dava a impressão de sorrir. Assim reservava, e fazia sua toalete ocupar, aquele intervalo de elegância, espaço e necessidade os homens, a quem a Sra. Swann falava com mais intimidade, respeitavam não sem uma certa deferência de profanos, uma confissão própria ignorância e sobre o qual reconheciam à sua amiga competência e afeição, como a um doente sobre os cuidados especiais que deve tomar, ou a uma mãe sobre a educação de seus filhos. Não menos do que pela corte rodeava e não parecia ver os passantes, a Sra. Swann, devido à hora tardia em que surgira, evocava aquele apartamento onde havia passado uma manhã tão comprida e para onde precisava voltar em breve para o almoço; parecia indicar sua aproximação com a calma despreocupada de seu passeio, semelhante ao que a gente faz pelo próprio jardim; poder-se-ia dizer que, daquele apartamento, ela trazia ainda a seu redor a sombra interior e fresca. Mas, devido a tudo isto, sua vista só me fazia acentuar a sensação do ar livre e do calor. Tanto mais que, já persuadido de que, em virtude da liturgia e dos ritos em que a Sra. Swann era profundamente versada, sua toalete estava ligada à estação e à hora por um laço necessário, único, as flores de seu flexível chapéu de palha e as pequenas fitas do seu vestido me pareciam nascer do mês de maio ainda com mais naturalidade que as flores dos jardins e dos bosques; e, para conhecer o novo tumulto da estação, não precisava erguer os olhos além da sua sombrinha, aberta e estendida como um outro céu mais próximo, clemente, móvel e azul. Pois esses ritos, se eram soberanos, empregavam sua glória, e em conseqüência a Sra. Swann empregava a sua, em obedecer condescendentemente à manhã, à primavera, ao sol, os quais não me pareciam muito lisonjeados de que uma mulher tão elegante porfiasse em não ignorá-los por causa deles, escolhesse um vestido de tecido mais claro, mais leve, fazendo pensar, devido à abertura do colo e das mangas, na transpiração do pescoço e dos pulsos, que, enfim, tivesse para com eles todas as atenções de uma grande dama que, tendo-se rebaixado alegremente para ir ver no campo pessoas comuns e que todo mundo, até o vulgo, conhece, nem ao menos deixa de vestir, especialmente para esse dia, um traje campesino. Saudei a Sra. Swann à sua chegada; ela me fez parar e me disse sorrindo:

            -Good morning. - Demos alguns passos. E eu compreendia que era por si mesma que ela obedecia àqueles cânones conforme os quais se vestia, como a uma sabedoria superior da qual fosse a grã-sacerdotisa; pois se lhe ocorria, devido ao calor, entreabrir ou até mesmo tirar a sua jaqueta, dando-a a mim para que a carregasse, e que ela achara poder conservar abotoada, eu descobria na blusinha mil detalhes de execução que poderiam muito bem ter ficado despercebidos como as partes de orquestra a que os compositores deram o maior cuidado, embora jamais devam chegar aos ouvidos do público; ou nas mangas da jaqueta dobrada no meu braço eu via, observava longamente, por prazer ou amabilidade, um pormenor refinado, uma faixa de delicioso matiz, uma cetineta cor de malva normalmente oculta aos olhos de todos, mas tão delicadamente trabalhadas que as partes externas, como essas esculturas góticas de uma catedral, dissimuladas no reverso de uma balaustrada, a oitenta pés de altura, tão perfeitas como os baixos-relevos do grande pórtico mas que ninguém nunca vira antes que, ao acaso de uma um artista, para dominar toda a cidade, tivesse permissão para ir passear no céu, entre as duas torres.

            O que aumentava a impressão de que a Sra. Swann passeava pela do Bois como na alameda de um jardim que lhe pertencesse era para pessoas que ignoravam os seus hábitos de footing que tivesse vindo de carro; que a seguisse, ela que desde o mês de maio estava acostumada a passar com a atrelagem mais cuidada e a mais elegante libré de Paris, languidamente sentada como uma deusa, no morno ar livre de uma imensa de oito molas. A pé, a Sra. Swann, sobretudo com o caminhar vagaroso, dava a impressão de ter cedido a uma curiosidade, de ter cometido elegante infração às regras do protocolo, como esses soberanos que, acompanhados pela admiração um tanto escandalizada de um que não se atreve a formular uma crítica, saem do camarote durante um gala e visitam o saguão, misturando-se aos outros espectadores durante minutos. Assim, entre a Sra. Swann e a multidão, esta sentia as barreiras certo tipo de riqueza e que lhe parecem ser as mais intransponíveis de Saint-Germain também tem as suas; porém falam menos aos de imaginação dos "duros". Estes, ao lado de uma grande dama mais fácil de ser confundida com uma pequena burguesa, menos distanciada; não sentirão a sua desigualdade, quase a sua indignidade, que demonstram de uma Sra. Swann. É claro que as mulheres desse gênero não ficam, como impressionadas com o brilhante aparato que as rodeia, não lhe dão maioria mas é de tanto estarem acostumadas àquilo, ou seja, por terem acabado portanto mais natural e necessário, é que julgam os outros conforme são menos iniciados nesses hábitos de luxo; de modo que descobrem nos outros, inteiramente e fácil de verificar, demorada para adquirir, difícil de compensar, se essas colocam um transeunte no degrau mais inferior, tal ocorre da mesma forma lhe aparecem elas no mais superior, a saber, imediatamente, à primeira visão de apelação. Talvez essa classe social particular que então se compunha de como Lady Israels, mesclada às da aristocracia, e a Sra. Swann, que freqüentá-las um dia, essa classe intermediária, inferior ao Saint-Germain já que o cortejava, mas superior ao que não pertence tinha a particularidade de que, já estando afastada do mundo dos ricos a era riqueza; mas uma riqueza tornada maleável, obediente a uma destinação de pensamento artístico, ouro flexível, poeticamente cinzelado e que sabe muitas vezes essa classe, ao menos com o mesmo caráter e o mesmo fascínio. Aliás as mulheres que dela faziam parte, hoje não mais teriam aquilo como primeira condição de seu reinado, pois, com a idade, quase todas perdem beleza. Ora, tanto como do alto de sua nobre riqueza, era do auge do seu verão maduro e ainda tão saboroso que a Sra. Swann, majestosa, sorridente e boa, avançando pela avenida do Bois, via rolarem os mundos, como Hipácia, sob o vagaroso caminhar de seus pés. Os rapazes que passavam olhavam-na com ansiedade, incertos se suas vagas relações com ela (tanto mais que, tendo sido apresentados uma única vez a Swann, receavam que ele não os reconhecesse) seriam suficientes para os autorizar a cumprimentá-la. E era tremendo diante das conseqüências que se decidiam, indagando a si próprios se o seu gesto, audaciosamente provocador e sacrílego, atentando contra a inviolável supremacia de uma casta, não iria desencadear catástrofes ou fazer descer o castigo de um deus. Esse gesto acionava tão-somente, como um movimento de relojoaria, a gesticulação de pequenos personagens saldadores que não eram outros senão os da comitiva de Odette. A começar por Swann, o qual erguia sua cartola forrada de couro cru, com graça risonha, aprendida no faubourg Saint-Germain, mas à qual já não se aliava a indiferença que tivera antigamente, e que fora substituída (como se, em certa medida, ele tivesse absorvido os preconceitos de Odette) ao mesmo tempo pelo tédio de ter de retribuir à saudação de alguém tão mal-vestido e pela satisfação de que sua mulher conhecesse tanta gente; sentimento misto que traduzia dizendo aos amigos elegantes que o acompanhavam:

            - Mais um ainda! Palavra que não sei onde Odette vai descobrir toda essa gente! - Entretanto, tendo respondido com um aceno de cabeça ao passante alarmado já fora do alcance da vista, mas cujo coração ainda batia, a Sra. Swann se virava para mim:

            -Então - dizia - acabou? Você não voltará nunca mais para ver Gilberte? Estou contente por ser uma exceção e que não tenha me "cortado" sem cerimônia. Gosto muito de vê-lo, mas gostava também da influência que exercia sobre minha filha. Creio que ela também lamenta muito. Enfim, não quero importuná-lo, pois aí é que você não se aproximaria mais nem de mim! -             - Odette, Sagan está dando bom-dia! - observava Swann à mulher. E, com efeito, o príncipe fazendo, como numa apoteose de teatro, de circo, ou num quadro antigo, seu cavalo se postar de frente, dirigia a Odette uma grande saudação teatral, meio alegórica, onde se amplificava toda a cortesia cavalheiresca do grão-senhor inclinando o seu respeito diante da mulher, ainda que encarnada numa mulher que sua mãe ou irmã não poderiam freqüentar. De resto, a todo momento, reconhecida no fundo da transparência líqüida e do verniz luminoso que sobre ela derramava a sua sombrinha, a Sra. Swann era saudada pelos últimos cavaleiros atrasados, como que filmados a galope sobre o ensolaramento branco da avenida, homens de estirpe; cujos nomes, célebres para o público - Antoine de Castellane, Adalbert Montmorency, e tantos outros eram para a Sra. Swann nomes familiares de amigos. E, como a duração média da vida -a longevidade relativa- é muito maior quanto às lembranças das sensações poéticas do que relativamente aos desgostos dolorosos, tanto tempo depois de se terem apagado as mágoas que então sentia por causa de Gilberte, sobreviveu-lhes o prazer que experimento, todas as vezes que desejo ler, numa espécie de quadrante solar, os minutos que decorrem entre quinze e uma hora, no mês de maio, ao me rever conversando assim com a Sra.Swann, debaixo de sua sombrinha, como sob o reflexo de uma lua.

 

            Quando, dois anos mais tarde, chegara a uma quase total indiferença por Gilberte, parti com minha avó para Balbec. Quando experimentava o encantamento de um rosto novo, quando era com o auxílio de outra moça que esperava conhecer as catedrais góticas, os palácios e jardins da Itália, dizia comigo tristemente que o nosso amor, na medida em que significa o amor de uma determinada criatura, talvez não seja algo muito real, pois se associações de fantasias agradáveis ou dolorosas podem uni-lo por algum tempo a uma mulher até nos fazer imaginar que foi inspirado por ela de um modo necessário, em compensação, se nos libertamos voluntariamente, ou contra a

vontade, dessas associações, este amor, como se pelo contrário fosse espontâneo e surgisse apenas de nós, renascesse para se doar a outra mulher. No entanto, no momento daquela partida para Balbec e durante os primeiros tempos de minha estada, minha indiferença ainda era apenas intermitente. Muitas vezes (visto que nossa vida é muito pouco cronológica, tantos anacronismos interferindo na seqüência dos dias), eu estava vivendo naqueles dias em que amava Gilberte, anteriores à véspera ou à antevéspera. Então, não vê-la mais era-me de súbito muito doloroso, como o fora naquele tempo. O eu que a havia amado, já quase inteiramente substituído por um outro, ressurgia, e era-me restituído com mais freqüência por algo fútil do que por uma coisa importante. Por exemplo, para antecipar a minha estada na Normandia, ouvi em Balbec um desconhecido, com quem cruzara no molhe, dizer:

            -A família do diretor do ministério dos Correios...

            Ora (como não sabia então a influência que essa família iria ter na minha vida), essa frase deveria me parecer ociosa, porém me causou um vivo sofrimento, o sofrimento que em mim sentia um eu, abolido em grande parte há muito tempo, por estar separado de Gilberte. É que jamais voltara a pensar numa conversa que Gilberte tivera com o pai na minha presença, relativamente à família do "diretor do ministério dos Correios". Ora, as recordações de amor não fazem exceção às leis gerais da memória, elas próprias regidas pelas leis mais gerais do hábito. Como este enfraquece tudo, o que nos recorda melhor uma criatura é justamente o que tínhamos esquecido, porque era insignificante e assim lhe havíamos deixado toda sua força. Porque a melhor parte de nossa memória está fora de nós, numa brisa chuvosa, num cheiro de quarto fechado, ou no odor de uma primeira labareda, em toda parte encontramos de nós mesmos o que nossa inteligência rejeitara, por julgá-lo a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando todas as nossas lágrimas parecem ter secado, sabe nos fazer chorar ainda. Fora de nós? Erre para melhor dizer, mas escondida a nossos próprios olhares, num esquecimento mais ou menos prolongado. É somente graças a tal esquecimento que pode de vez em quando, reencontrar o ser que já fomos, colocar-nos face a face àquela como o era essa criatura, sofrer de novo, porque não somos mais nós mas ele, e é quem amava a pessoa que agora nos é indiferente. Em plena luz da mente habitual, as imagens do passado empalidecem aos poucos, vão se apagando, resta mais nada delas, não as encontraremos nunca mais. Ou melhor, não as traremos mais se algumas palavras (como "diretor do ministério dos Correios) não tivessem sido cuidadosamente trancadas no ouvido, assim como se na Biblioteca Nacional o exemplar de um livro que, sem isso, se arriscaria não encontrá-lo.

            Porém tal sofrimento e tal rebrotar do amor por Gilberte não foram longos que os que são sonhados, e desta vez ao contrário porque, em Balbec; hábito antigo já não estava ali para fazê-los durar. E, se tais efeitos dó parecem contraditórios, é que ele obedece a leis múltiplas. Em Paris, eu estava cada vez mais indiferente a Gilberte, graças ao hábito. A mudança de hábito, é, a

momentânea cessação do Hábito, rematou a obra do Hábito quando parti! Balbec. Ele se enfraquece mas se estabiliza, traz a desagregação porém indefinidamente. Cada dia, desde muitos anos, eu vinha decalcando, bem o meu estado de alma sobre o da véspera. Em Balbec, uma cama nova com cabeceira me traziam todas as manhãs um desjejum bem diverso do de Paris. Devia mais alimentar os pensamentos de que se havia nutrido o meu amor por Gilberte; existem casos (é verdade que muito raros) em que o sedentarismo banaliza os dias, e o melhor modo de ganhar tempo é mudar de local. Minha vida em Balbec foi como a primeira saída de um convalescente que só espera por perceber que está curado.

            Sem dúvida, esta viagem a faríamos hoje de automóvel, achando que desse modo, se tornaria mais agradável. Ver-se-á que, realizada assim, seria mais verdadeira em certo sentido, visto que seguiríamos mais de perto, numa intimidade mais estreita, as diversas gradações pelas quais se muda a superfície dá enfim o prazer específico da viagem não está em poder pôr-se a caminho é quando nos sentimos cansados; é tornar a diferença entre a partida e a chegada tão insensível mas tão profunda quanto possível, em senti-la na sua rota intacta, bem como era no nosso pensamento quando nossa imaginação do lugar em que vivíamos até o âmago do lugar desejado, num salto, parecia menos miraculoso por franquear uma distância do que por unir as dualidades distintas da terra, levando-nos de um para outro nome, e que esquece (melhor que um passeio, onde não existe mais chegada, pois a gente vai onde quiser) a misteriosa operação que se cumpria nesses lugares as estações, que, por assim dizer, não fazem parte da cidade mas contêm a essência de sua personalidade, do mesmo modo que lhe mostram o nome numa tabuleta indicadora.

            Mas o nosso tempo, em todas as coisas, tem a mania de só querer mostrar aquilo de que se cerca na realidade, e, assim, suprimir o essencial, o ato do espírito que as isolou dessa realidade. "Apresenta-se" um quadro no meio de móveis, de bibelôs, de tapeçarias da mesma época, cenário insípido que a dona-de-casa mais ignorante se esmera em armar, até à véspera, nos hotéis de hoje, passando agora seus dias nos arquivos e bibliotecas, cenário em meio ao qual a obra-prima que se contempla durante o jantar não provoca a mesma alegria embriagadora que só se lhe deve exigir numa sala de museu, a qual simboliza melhor, com sua nudez e seu despojamento de todas as particularidades, os espaços interiores em que o artista se abstraiu para criar.

            Infelizmente, esses lugares maravilhosos de onde a gente parte para um destino longínquo, são igualmente lugares trágicos, pois, se ali se cumpre o milagre em virtude do qual os lugares que ainda não tinham existência senão em nosso pensamento passarão a ser aqueles em que iremos viver, por essa mesma razão é necessário renunciar, ao deixar a sala de espera, a reencontrar logo o quarto familiar onde estávamos há pouco. É preciso perder toda a esperança de voltar a dormir em casa, uma vez que decidimos penetrar no antro emprestado por onde se tem acesso ao mistério, num desses grandes estúdios envidraçados, como o de Saint-Lazare, onde eu fui procurar o trem para Balbec, e que estendia acima da cidade desventurada um desses imensos céus crús e cheios de amontoadas ameaças de drama, semelhantes a certos céus, de uma modernidade quase parisiense, de Mantegna ou de Veronese, e sob os quais só se podia cumprir algum ato solene e terrível como uma partida em trem de ferro ou a ereção da Cruz.

Enquanto me contentara em avistar, do fundo da minha cama em Paris, a igreja persa de Balbec em meio aos flocos de neve da tempestade, meu corpo não fizera qualquer objeção a essa viagem. As objeções começaram apenas quando compreendera que estava de partida e que, na noite da chegada, me conduziriam ao "meu" quarto, que lhe seria desconhecido. Sua revolta foi tão mais profunda quando, na própria véspera da partida, eu soubera que minha mãe não nos acompanharia, pois meu pai, retido no ministério até o momento em que partiria para a Espanha com o Sr. de Norpois, tinha preferido alugar uma casa nos arredores de Paris. Aliás, a contemplação de Balbec não me parecia menos desejável por ter de comprá-la ao preço de um mal-estar; o qual, pelo contrário, me parecia representar e garantir a realidade da impressão que ia procurar, impressão que nenhum espetáculo equivalente teria substituído, nenhum "panorama" que eu pudesse ir ver sem por isso ser impedido até de voltar para dormir em minha cama. Não era a primeira vez que percebia que as pessoas que amam não são as mesmas que desfrutam dos prazeres. Julgava desejar tão profundamente Balbec que o médico espantando-se com meu ar infeliz na manhã da partida, disse:

            -Garanto-lhe que se tivesse a oportunidade de ter apenas oito dias para ir tomar ar fresco num mar, não me faria de rogado. Você há de ver as corridas, as regatas; será ótimo.

            Eu já sabia, e bem antes de ter ouvido a Berma, que, fosse qual fosse o obtido de meu amor, sempre a encontraria ao cabo de uma penosa busca, durante a qual preciso sacrificar o meu prazer a esse bem supremo, em vez de nele achar o prazer.

            Minha avó, naturalmente, concebia nossa partida de modo um tanto diverso. Sempre desejosa, como antigamente, de emprestar aos presentes algo que me dava um caráter artístico, quisera, a fim de me ofertar dessa viagem, a "sensação" um tanto antiga, que seguíssemos o caminho metade por trem e outra de carro, o trajeto que a Sra. de Sévigné percorrera de Paris a "Lorient", passava por Chaulnes e pelo "Pont-Audemer". Porém minha avó fora obrigada a renunciar esse projeto, devido à proibição de meu pai, que sabia que, quando minha avó organizava uma viagem, com o objetivo de tirar dela o maior proveito possível, era inacreditável o que se podia prever de trens perdidos, malas e das dores de garganta e infrações de regulamentos. Mas, ao menos, tinha prazer de pensar que nunca, quando estivéssemos na praia, estaríamos expostos a ser surpreendidos por quaisquer das que a sua querida Sévigné denominava "Ia de carruagem", já que não conheceríamos ninguém em Balbec, pois Legrandin não dera um cartão de visitas para a sua irmã. (Abstenção que não fora apreciada da mesma maneira por minhas tias Céline e Victoire, que tinham conhecido quando era moça, aquela a quem só chamavam até então de Renée de Camb para marcar a sua intimidade de antes, e ainda conservavam presentes seus, que ornamentam um quarto e uma conversa, mas aos quais a realidade de hoje não corresponde; julgavam se vingar da afronta que nos fizeram evitando pronunciar, na casa da Sra. Legrandin mãe, o nome da filha, e, à saída, se limita felicitar-se com frases como: "Não fiz alusões ao que sabes" e "Creio que compreenderam.")

            Portanto, partiríamos simplesmente de Paris naquele trem de uma e vinte e dois minutos, que já me parecia conhecido, de tanto o haver procurado um indicador das estradas de ferro, onde sempre me inspirava a emoção e bem-aventurada ilusão da partida. Como a determinação dos aspectos feitos em nossa imaginação, consiste antes na identidade dos desejos do que na precisão das informações que temos a seu respeito, julgava eu com todos os detalhes aquele prazer de viagem e não duvidava que experimentaria no vagão um prazer especial quando começasse a entardecer, e que contando tal efeito de luz ao se aproximar uma certa estação; de modo que revelando sempre em mim as imagens das mesmas cidades que eu desenvolvi. Daquelas horas da tarde que ele atravessa, parecia-me diferente de todos os outros trens; e eu acabava por dar, como ocorre muitas vezes quanto a uma pessoa que nunca vimos mas cuja amizade nos apraz imaginar que conquistamos, uma fisionomia particular e imutável a esse viajante artista e louro que me levaria pelo seu caminho, por acaso teria dado adeus junto à catedral de Saint-Cloud, antes que ele se afastasse na direção do ocaso.

            Como a minha avó não podia se resolvera ir assim "idiotamente" a Balbec, pararíamos por 24 horas na casa de uma de suas amigas, de onde eu voltaria a seguir viagem na mesma noite para não incomodar e também de modo a ver no dia seguinte a igreja de Balbec, pois tínhamos sabido que ficava muito longe de Balbec-Plage, e talvez não fosse possível ir até lá depois de ter principiado o meu tratamento de banhos. Talvez me fosse menos penoso sentir que o objetivo admirável de minha viagem estava situado antes da cruel primeira noite em que entraria numa nova morada e teria de me resignar a ficar ali. Mas primeiro era necessário deixar a antiga; minha mãe resolvera instalar-se naquele mesmo dia em Saint-Cloud, e tinha tomado, ou fingira que tomara, todas as disposições necessárias para ir diretamente a Saint-Cloud depois de nos haver deixado na estação, sem ter de passar de novo em casa, pois temia que eu, em vez de partir para Balbec, quisesse voltar com ela. E, pretextando ter muito que fazer na casa que acabara de alugar e de ter pouco tempo, mas na verdade para me poupar a crueldade dessa despedida, decidira não estar conosco-até a partida do trem, quando, dissimulada até então nos vaivéns e nos preparativos que a nada levam em definitivo, aparece bruscamente uma separação impossível de suportar, ainda que já não seja possível de evitar, inteiramente concentrada num imenso instante de lucidez impotente e suprema.

            Pela primeira vez sentia ser possível que minha mãe vivesse sem mim, dedicada a outra coisa, com outra vida diferente. Ia ficar com meu pai, cuja vida talvez achasse que eu complicava e entristecia com minha saúde precária e meu nervosismo. E essa separação ainda mais me desesperava porque pensava que provavelmente fosse para minha mãe o fim das sucessivas decepções que lhe causara, que ela soubera calar, e que lhe fizeram compreender a dificuldade de férias comuns; e talvez também a primeira tentativa de uma existência à qual começara a se resignar para o futuro, à medida que os anos passavam para meu pai e para ela, existência em que a veria muito menos, na qual, o que nem nos meus pesadelos me ocorria, ela seria uma pessoa um pouco estranha para mim, como uma senhora que a gente vê entrar sozinha numa casa onde eu não estaria, perguntando ao porteiro se não havia cartas minhas.

            Mal pude responder ao empregado que quis segurar minha mala. Minha mãe tentava me consolar com os meios que lhe pareciam mais eficazes. Achava que fingir não ver minha mágoa,  dela troçava com carinho:

            - Ora, vamos; que diria a igreja de Balbec se soubesse que é com aspecto de infeliz que te preparas para ir vê-la? É este o viajante extasiado de Ruskin? Aliás, hei de saber se estiveste à altura das circunstâncias; eu mesma ainda estarei com o meu filhinho. Amanhã mesmo receberás uma carta da minha filha - disse minha avó -, vejo-te como a Sra. de Sévigné: carta diante dos olhos que não nos deixando um só instante.

            Mamãe procurava distrair-me; perguntava o que iria encomendar para jantar, admirava Françoise e cumprimentava-a pelo chapéu e pela capa a qual reconhecia, embora antigamente lhe tivessem causado horror quando os vira igualzinhos, usados por minha tia-avó, o chapéu encimado por um pássaro, capa ornamentada de azeviche e desenhos horrendos. Mas como a capa bem gasta, Françoise mandara virá-la pelo avesso, ela exibia agora um tecido de bela cor. Quanto ao pássaro, havia muito tempo que se quebrara e fora posto de lado. E, do mesmo modo que às vezes é desconcertante encontrar refinamento que os artistas mais conscientes se esforçam por obter, em alguma canção pop ou na fachada de uma casa de campo, que faz desabrochar acima da porta uma flor branca ou cor de enxofre, justamente no ponto em que devia estar assim Françoise com gosto infalível e ingênuo, soubera colocar naquele chapéu, agora delicada, laçada de veludo e o laçarote de fitas que teriam encantado num quadro de Cheu ou de Whistler.

            Para remontar a um tempo mais antigo, a modéstia e a honestidade; muitas vezes conferiam nobreza ao rosto da nossa velha criada, haviam alcançado os vestidos que, como mulher reservada; mas sem baixeza, que "manter seu nível e conhecer seu lugar", ela voltara a pôr para a viagem, a fim de se manter digna de ser vista conosco sem dar a impressão de querer se colocar evidência.

            Assim, com o pano cor de cereja, mas fanado, de sua capa e os botões sem rudeza do seu casaco de pele, fazia pensar num desses retratos de Artita Bretanha pintados nos Livros de Horas por um velho mestre, e nos quais tudo põe tão bem no seu posto, o sentimento do conjunto é tão igualmente difundido em todas as partes, que a singularidade rica e desusada do vestuário expõe a mesma gravidade piedosa dos olhos, dos lábios e das mãos. Não se poderia falar de pensamento a propósito de Françoise. Ela não conhecia nada, naquele sentido total em que não saber nada equivale a nada compreender, a não ser as raras verdades que o coração é capaz de entender diretamente. O mundo imenso das idéias não existia para ela. Mas, diante da claridade do olhar, das linhas delicadas do nariz, dos lábios, diante de todos esses testemunhos ausentes em muitas dessas pessoas cultas, nas quais teriam significado a direção suprema, o nobre desinteresse de uma alma de elite, a gente se sentia desconcertado como diante do olhar inteligente e bondoso de um cão, ao qual, no entanto, sabemos serem estranhos todos os conceitos dos homens, e poder-se-ia perguntar se não há entre esses outros irmãos humildes, os camponeses, criaturas que sejam como os homens superiores da sociedade dos simples de espírito, ou melhor, os que, condenados, por um destino injusto, a viver entre esses simples de espírito, privados de luz; no entanto mais natural e essencialmente aparentados às naturezas de elite do que a maioria das pessoas instruídas, são como que membros dispersos, extraviados, privados de razão, da família sagrada, parentes, que não saíram da infância, das mais altas inteligências, e a quem faltou, para terem talento, unicamente o saber-como se percebe, sem erro, na claridade de seu olhar que, todavia, não se aplica a nada.

            Minha mãe, vendo que eu mal continha as lágrimas, dizia:

            "Régulo tinha o costume, nas grandes ocasiões... E depois, não é bonito fazer assim para a mamãe." Citemos a Sra. de Sévigné, como a tua avó: "Vou ser obrigada a empregar toda a coragem que tu não tens."

            Lembrando-se que o afeto por outrem desvia as dores egoístas, tentava me animar dizendo que sua viagem a Saint-Cloud seria tranqüila, que estava contente com o fiacre que reservara, que o cocheiro era muito bem educado e o carro confortável. Eu me esforçava por sorrir a tais pormenores e inclinava a cabeça em sinal de aquiescência e satisfação. Mas isto só servia para me representar com mais veracidade a partida de mamãe, e foi com o coração apertado que a encarei como se ela já estivesse separada de mim, sob aquele chapéu de palha redondo que comprara para usar na roça, com o vestido leve que pusera devido ao longo percurso em dia muito quente, e que a transformavam em outra, já pertencente àquela Vila de Montretout, onde não a veria.

            Para evitar as crises de sufocação que a viagem me daria, o médico recomendara que tomasse um pouco de cerveja ou de conhaque no momento de partir, a fim de me pôr nesse estado que denominava "euforia", em que o sistema nervoso fica momentaneamente menos vulnerável. Ainda não estava certo se o faria ou não, mas queria pelo menos que minha avó reconhecesse, no caso de me decidir a fazê-lo, que eu procedia com sensatez e por motivo justo. Assim, falei nisso a minha avó como se minha hesitação se limitasse ao local em que haveria de beber álcool no refeitório da estação ou no vagão-restaurante. Porém logo, diante do ar de censura da fisionomia de minha avó, do seu desejo de nem querer ouvir falar naquilo:

            -Como! -exclamei, decidindo-me de súbito a beber, coisa agora necessária para provar minha liberdade, visto que seu simples anúncio verbal não pudera passar sem protesto. - Como! Sabe muito bem que estou doente, sabe o que o médico me disse e é este o conselho que me dá!

Quando expliquei meu mal-estar à minha avó, ela assumiu um ar tão contristado, tão bondoso, ao responder:

            - Mas então vai tomar logo essa cerveja, ou o conhaque, se é que isto vai te fazer bem.- Lancei-me nos seus braços e a cobri de beijos. E, se por fim fui beber no bar do trem, era por sentir que sem aquilo teria um acesso muito forte de sufocação, o que magoaria muito mais a minha avó.

            Quando, na primeira estação, subi para o nosso compartimento, disse-lhe que estava muito feliz por ir a Balbec, que sentia que tudo correria bem, que me habituaria depressa a estar longe de mamãe, que aquele trem era agradável; que o gerente do bar e os demais empregados eram muito simpáticos, de tal modo desejaria viajar mais seguidamente para poder revê-los. Entretanto, essas notícias pareciam inspirar a minha avó o mesmo regozijo que a mim. Evitando me disse:

            -Talvez fosse melhor que cuidasses de dormir um pouco - e desviou para a janela; tínhamos baixado a cortina que no entanto, não cobria todo o vidro de forma que o sol se insinuava pela madeira envernizada da portinhola batendo sobre o estofado dos assentos a mesma luz morna e dormente que cochilava clareiras lá fora, claridade que era como um anúncio da vida em plena. Naturalmente muito mais convincente que as paisagens dos cartazes colocadas nos altos compartimentos e cujos nomes, por esse motivo, eu não conseguia ler.

            Mas, quando minha avó pensava que eu mantinha os olhos fechados a via por momentos, por baixo de seu véu de grandes pintas pretas, lançar olhar; depois afastá-lo, e depois voltar a olhar-me, como alguém que propõe esforçar por habituar-se a um exercício que lhe é penoso. Então eu lhe falava, mas isso parecia não lhe agradar muito. No entanto, minha própria voz me dava muito prazer, assim como os movimentos mais invisíveis e internos do meu corpo. Portanto, tentava fazê-los durar, deixava cada uma de minhas inflexões prolongar-se por muito tempo nas palavras, sentia que - um de meus olhares se encontrava muito bem onde quer que pousasse e aí permanecesse mais tempo que de costume.

            -Vamos, descansa - disse a minha avó. não podes dormir, lê alguma coisa. - E me passou um volume da Sra. de Sévigné que abri, enquanto ela se absorvia nas Memórias da Sra. de Beausergent. Ela viajava sem um tomo de uma ou de outra. Eram suas duas escritoras escritoras prediletas.

            Sem mexer muito a cabeça naquele instante e experimentando grande prazer em manter uma dada posição, fiquei segurando o livro da Sra. de Sévigné sem abaixar o olhar para vê-lo, pois os olhos só tinham à sua frente o azul da janela. Mas parecia-me admirável contemplar esse cortinado, e nem me incomodaria em responder a quem quisesse me tirar daquela contemplação da cor azul do cortinado, talvez não por sua beleza e sim pela vivacidade que parecia eliminar a tal ponto todas as cores que tivera diante de meus olhos; do dia em que nascera até o momento em que acabara de engolir a bebida a qual começava a fazer efeito, que, em comparação com aquele azul, todos os coloridos eram para mim tão baços, tão inúteis como o pode ser, retrospectivamente, a escuridão para os cegos de nascença que são operados tardiamente afinal as cores. Um velho empregado da estrada de ferro veio pedir nossas passagens. Os reflexos prateados dos botões de metal de sua túnica não deixaram encantar. Desejei lhe pedir que sentasse ao nosso lado, mas ele passou para outro vagão, e fiquei pensando com nostalgia na vida dos ferroviários que, passando o tempo todo nas estradas de ferro, sem dúvida não deixariam de ver um só dia aquele velho fiscal. O prazer que eu sentia em ver o cortinado azul e em perceber que minha boca estava entreaberta começou por fim a diminuir. Quis mover-me e me agitei um pouco; abri o livro que minha avó me estendera e pude fixar a atenção nas páginas escolhidas ao acaso. Enquanto lia, senti crescer minha admiração pela Sra. de Sévigné. Cumpre não nos deixarmos enganar pelas particularidades puramente formais, referentes a uma época e à vida social de então, e que levam muitas pessoas a julgar que já fizeram o seu pouco de Sévigné quando dizem:

            "Dê-me suas ordens, querida" ou "Esse conde me pareceu possuir um pouco de espírito" ou "A coisa mais bonita do mundo é pôr o feno para secar." Já a Sra. de Simiane pensava que se parecia com a avó, Sra. de Sévigné, por ter escrito: "O Sr. de Ia Boulie vai às maravilhas, senhor, e pode perfeitamente ouvir a notícia da própria morte", ou: "Oh! meu caro marquês, como me agradou a sua carta! Como farei para respondê-la", ou ainda: "Senhor, parece que me deve uma resposta e eu, caixas de tangerinas. Envio oito, outras irão depois... A terra nunca deu tanta tangerina. Aparentemente, é para lhe agradar."

            No mesmo estilo escreve cartas sobre a sangria, os limões, etc., imaginando que são cartas da Sra. de Sévigné. Porém minha avó, que chegara até estar por dentro, pelo amor aos seus, à natureza, ensinara-me a estimar suas verdadeiras belezas, que são bem diversas das outras. Deviam impressionar-me bastante, tanto mais que a Sra. de Sévigné é uma grande artista, da mesma família de um pintor que eu iria conhecer em Balbec e que teve uma influência tão profunda sobre minha visão das coisas, Elstir. Em Balbec, percebi que a Sévigné nos apresenta as coisas da mesma maneira que o pintor, ou seja, de acordo com nossas percepções, em vez de as explicar primeiro por sua causa. Mas já naquela tarde, no vagão, relendo a carta em que aparece o luar: "Não pude resistir à tentação, botei todas as minhas toucas e casacões que não eram necessários, fui para aquele passeio público onde o ar é bom como o do meu quarto; encontrei mil quimeras, monges brancos e negros; várias religiosas cinzentas e brancas; roupa branca atirada aqui e ali; homens amortalhados de pé contra árvores etc.", fiquei deslumbrado com o que teria chamado, um pouco mais tarde (pois ela não pinta as paisagens da mesma maneira que ele os caracteres?), o lado Dostoievski das Cartas da Sra. de Sévigné.

            Quando à tardinha, depois de ter levado minha avó e ficar durante algumas horas na casa de sua amiga, voltei sozinho para o trem, pelo menos não achei penosa a noite que caía; é que não tinha de passá-la na prisão de um quarto cuja própria sonolência me manteria acordado; estava rodeado pela atividade calmante de todos os movimentos do trem, que me faziam companhia, se ofereciam para conversar comigo se não tivesse sono, me acalentavam com seus rumores que eu harmonizava como o som dos sinos de Combray, ora a um ritmo, ora (ouvindo, conforme a minha fantasia, primeiro quatro duplas concheias; logo uma dupla concheia furiosamente precipitada contra uma semi-mínima); suavizavam a força centrífuga da minha insônia, sobre ela exercendo pressões com as quais me mantinham em equilíbrio e a minha imobilidade. Depois, do meu sono se sentiram sustentados com a mesma impressão de que me teria proporcionado o repouso, devido à vigilância de forças poderosas no seio da Natureza e da vida, se por um momento eu pudesse me encarnar num peixe que dorme no mar, ou pudesse passear em seu entorpecimento pelas correntes vagas, ou nalguma águia unicamente apoiada na tempestade.

            As auroras são um acompanhamento das longas viagens de trem, os ovos cozidos, os jornais ilustrados, os jogos de cartas e os rios onde se esforçam sem avançar. Num momento em que eu enumerava os pensamentos, que me haviam enchido o espírito nos minutos precedentes, para verificar se inspirava ou não (e quando a própria incerteza que me inspirava a pergunta me foi uma resposta afirmativa), no quadrado da janela, acima de um bosquezinho nuvens recortadas cuja suave penugem era de um róseo parado, morto, que - mais haveria de mudar, como aquele que tinge as penas da asa que o assimilam o pastel sobre o qual o depositou a fantasia do pintor. Mas eu sentia ao contrário, essa cor não era inércia nem capricho, e sim necessidade e vida. Em breve amontoaram, por detrás dela, reservas de luz. Ela se avivou, o céu tornou-se um encarnado que eu, colando os olhos no vidro, procurava perceber melhor, sentia-o relacionado com a profunda existência da Natureza; mas a linha férrea mudou de direção, o trem fez uma volta, o cenário matinal foi substituído no vidro da janela por uma aldeia noturna de telhados azuis de luar, com um, manchado pelo nácar opalino da noite, sob um céu ainda semeado de todas as suas estrelas, e eu me desolava por haver perdido a faixa de céu róseo que percebi de novo, porém rubra dessa vez, na janela do outro lado, que acabava a um segundo cotovelo da linha férrea; de modo que eu passava o tempo de uma janela a outra, para aproximar, enquadrar os fragmentos intermitentes de minha bela manhã escarlate e inconstante dela ter uma visão total, quadro contínuo. A paisagem se tornou acidentada, abrupta; o trem parou numa fresta entre duas montanhas. Ao fundo da garganta, à beira da corrente, só se via casa de guarda mergulhada na água que corria por baixo das janelas. E, se é possível que determinada terra produza uma criatura em que se possa desfrutar o particular encanto, mais ainda que a camponesa que eu tanto desejara que aparecesse quando vagueava sozinho para os lados de Méséglise, nos bosques Roussainville, essa devia ser aquela moça alta que vi sair da casa e dirigir-se à estação, pelo caminho estreito que o sol nascente iluminava, oblíquo, levando um jarro de leite. No vale, que as alturas das vizinhas escondiam ao resto do mundo, a moça não devia ver outras pessoas senão as que vinham nos trens, que paravam por um instante. Andou ao longo dos vagões, oferecendo café com leite a alguns viajantes acordados. Colorido pelos reflexos da manhã, seu rosto era mais róseo que o céu. Diante dela, senti esse desejo de viver que renasce em nós cada vez que tomamos consciência, de novo, da beleza e da felicidade. Sempre esquecemos que elas

são individuais e, substituindo-as em nosso espírito por um tipo convencional formado de uma espécie de média dos diversos rostos que nos agradaram, entre os prazeres que conhecemos, temos apenas imagens abstratas, vaporosas e insossas, pois lhes falta precisamente esse caráter de novidade, diverso do que já conhecemos, esse caráter que é próprio da beleza e da felicidade. Lançamos sobre a vida um julgamento pessimista que consideramos justo, pois acreditamos ter levado em conta a beleza e a felicidade, quando as omitimos, substituindo-as por sínteses onde não há sequer um átomo delas. É assim que boceja antecipadamente um literato a quem falam de

um novo "belo livro", pois imagina uma espécie de composto de todos os belos livros que já leu, ao passo que um belo livro é algo particular, imprevisível, e não se compõe da soma de todas as obras-primas precedentes e, sim, de alguma coisa que não se obtém com a perfeita assimilação de tal soma, porque está justamente fora dela. Assim que toma conhecimento dessa nova obra, o literato, até então enfastiado, sente interesse pela realidade que ela descreve. Desse modo, estranha aos modelos de beleza, que meu pensamento delineava, quando eu estava a sós, a bela moça logo me deu o gosto de uma certa felicidade (única forma, sempre particular, sob a qual podemos conhecer o gosto da felicidade), de uma felicidade que se realizaria caso vivesse junto dela. Porém ainda aqui, em grande parte agia a cessação momentânea do Hábito. Eu beneficiava a vendedora de leite com o que era o meu ser completo, à sua frente, capaz de gozar dos mais vivos prazeres. Em geral, é com o nosso ser reduzido ao mínimo que vivemos; a maioria das nossas faculdades permanecem adormecidas, pois repousam no hábito, que sabe o que tem a fazer e não precisa delas.

            Mas, naquela manhã de viagem, a interrupção da rotina da minha vida, a mudança de hora e lugar, tornaram indispensável a sua presença. Meu hábito, que era sedentário e não madrugador, fazia falta, e todas as minhas faculdades tinham acorrido para ocupar seu posto, rivalizando entre si de zelo erguendo-se todas, como as ondas, a um mesmo nível desacostumado-, da mais vil à mais nobre, da respiração, do apetite e da circulação sangüínea à sensibilidade e à imaginação; não sei se, fazendo-me crer que aquela moça não era igual às outras mulheres, o encanto selvagem daqueles lugares se acrescentava ao seu, mas a verdade é que ela o devolvia ao ambiente. A vida teria me parecido deliciosa se eu pudesse apenas, horas seguidas, passá-las em sua companhia, acompanhá-la até a torrente, até a vaca, até o trem, estar sempre a seu lado sentir-me conhecido dela, tendo meu lugar em seu pensamento. Ela teria me iniciado nos encantos da vida rústica e das primeiras horas do dia. Fiz-lhe sim, que me servisse café com leite. Precisava ser notado por ela. Não me viu, acima de seu corpo muito grande, a pele do rosto era tão dourada e rósea dava a impressão de ser vista através de um vitral iluminado. Ela voltou não podia desviar os olhos do seu rosto cada vez maior, semelhante a um sol fosse possível encarar e que se aproximaria até chegar bem junto; deixando-se observar bem de perto, ofuscando-nos de ouro e de vermelho; em mim o olhar agudo, mas, como os empregados fechavam as portinholas o trem se pôs em marcha; vi-a deixar a estação e retomar o atalho, o dia já estava claro agora: eu me afastava da aurora. Que minha exaltação tenha sido provocada por aquela moça, ou, ao contrário, se foi a principal razão do prazer que senti me achar perto dela, não sei. Em todo caso, estava tão mesclada a ela que o desejo de revê-la era antes de tudo o desejo moral de não deixar que esse estado de excitação morresse de todo, e de não me separar para sempre da criatura que dela tomara parte, mesmo sem o saber. E não era apenas porque tal fosse agradável. Era sobretudo porque (como a máxima tensão de uma corda a mais rápida vibração de um nervo produz uma sonoridade ou uma cor que dava uma outra tonalidade ao que eu via, introduzia-me, como ator, em um único desconhecido e infinitamente mais interessante; essa bela moça que ainda conseguia avistar, enquanto o trem acelerava a sua marcha, era como uma parte da vida diferente da que eu conhecia, dela separada por uma orla e onde as sensações despertadas pelos objetos já não eram as mesmas; de onde sair agora seria o morrer para mim mesmo. Para ter a doçura de me sentir ao menos ligado à vida, bastaria que morasse bem próximo à pequena estação para poder vir todos os dias pedir café com leite àquela camponesa. Mas infelizmente ela estaria ausente da outra vida para a qual eu ia cada vez mais depressa, e que só me restava aceitar, combinando os planos que me permitiriam um dia retomar esse momento no trem e de parar naquela mesma estação, projeto que também tinha de fornecer alimento à disposição interessada, ativa, prática, maquinal, prega centrífuga, que é a do nosso espírito, pois facilmente ele se desvia do necessário para aprofundar em si mesmo, de um modo geral e desinteressante uma impressão agradável que tenhamos tido. Como, por outro lado, quer continuar a pensar nessa impressão, o espírito prefere imaginá-lo no futuro, para habilmente as circunstâncias que poderão fazê-la renascer, o que não nos conta coisa alguma sobre sua essência, porém nos evita o cansaço de recriá-la, permitindo-nos esperar recebê-la novamente de fora.

            Certos nomes de cidades, Vézelay ou Chartres, Bourges ou Beau vem para designar, por abreviatura, sua igreja principal. Essa designação que o tomamos com freqüência acaba se se tratar de lugares que ainda não conhecemos-por esculpir o nome completo, que desde então, quando incluir-lhe a idéia da cidade; a cidade que nunca vimos-há de lhe impor, como um molde-a mesma cinzelagem, o mesmo estilo, transformando-a numa espécie de grande catedral. Entretanto, foi numa estação de trem, acima de um bufete, em letras brancas sobre um cartaz azul, que li o nome, quase de estilo persa, de Balbec. Atravessei com rapidez a estação e o bulevar que ali terminava, e perguntei pela praia, para só ver a igreja e o mar; não pareceram compreender o que dissera. Balbec-le-Vieux, Balbec-en-Terre, onde me encontrava, não era praia nem porto. Certamente, fora mesmo no mar que os pescadores, de acordo com a lenda, haviam encontrado o Cristo milagroso, de que um vitral daquela igreja, que se achava a alguns metros de mim, contava a descoberta; era mesmo das falésias batidas pelas ondas que fora tirada a pedra da nave e das torres. Mas esse mar, que por isso mesmo eu pensava viesse morrer ao pé do vitral, estava a mais de cinco léguas de distância, em Balbec-Plage; ao lado de sua cúpula, aquele campanário que, por haver lido que ele próprio fora uma rude falésia normanda onde se ajuntavam os grãos e revoluteavam os pássaros, sempre imaginara como recebendo em sua base a última espuma das vagas revoltas erguia-se numa praça onde ocorria o cruzamento de duas linhas de bondes, diante de um café que ostentava, em letras de ouro, a palavra "Bilhar"; destacava-se sobre um fundo de casas a cujos telhados não se misturava nenhum mastro. E a igreja entrando na minha atenção junto com o café, com o transeunte a quem tivera de perguntar o caminho, com a estação para onde eu iria voltar-formava um todo com o resto, parecia um acidente, um produto daquele fim de tarde, na qual a cúpula suave e altiva contra o céu era como um fruto cuja pele rósea, dourada e tenra fosse amadurecida pela mesma luz que banhava as chaminés das casas. Mas não quis mais pensar em nada senão no significado eterno das esculturas quando reconheci os Apóstolos cujas estátuas moldadas vira no museu do Trocadéro e que, dos dois lados da Virgem, diante da abertura profunda do pórtico, esperavam-me como para me prestar honras. O rosto benevolente e suave, o nariz achatado, o dorso curvo, pareciam avançar com um aspecto de boas-vindas, cantando a Alleluia de um belo dia. Mas a gente verificava que sua expressão era imutável como a de um morto e só se modificava se andássemos a seu redor. Dizia comigo:

            "É aqui, é esta a igreja de Balbec. Esta praça que parece conhecer a sua glória é o único lugar do mundo que possui a igreja de Balbec. O que vi até agora eram fotos dessa igreja, e destes Apóstolos, desta Virgem do pórtico, tão célebres, apenas as moldagens. Agora é a própria igreja, a própria estátua, são elas; elas, as únicas, e isto é muito mais."

            E talvez também fosse menos. Como um rapaz, num dia de exame ou de duelo, acha o fato sobre o qual o interrogaram, a bala que ele disparou, bem pouca coisa quando pensa nas reservas de ciência e de coragem que possui e das quais gostaria de dar provas, assim também o meu espírito, que elevara a Virgem do pórtico fora das reproduções que tivera diante dos olhos, inacessível às vicissitudes que poderiam ameaçar aquelas, intacta se as destruíssem, ideal, de um universal, espantava-se ao ver a estátua que mil vezes esculpira, reduzida sua própria aparência de pedra, ocupando em relação ao alcance do meu braço, posto onde tinha por rivais um cartaz eleitoral e a ponta da minha bengala, à Praça, inseparável da saída da rua principal, não podendo fugir aos olhares e do escritório de ônibus, recebendo no rosto a metade do raio do sol poente breve, dentro de algumas horas, da claridade do lampião de que o escritor do Banco de Descontos recebia a outra metade, alcançada, ao mesmo tempo que a sucursal de um estabelecimento de crédito, pelo mofo das cozinhas da palavra submetida à tirania do particular a tal ponto que, se eu quisesse traçar, assinatura naquela pedra, seria ela, a Virgem ilustre que até então havia adotado uma existência geral e de uma beleza intangível, a Virgem de Balbec, a única (infelizmente, queria dizer ela só), que, sobre seu corpo manchado da mesma imagem que a das casas vizinhas, mostraria a todos os admiradores ali chegado contemplá-la, sem poder desfazê-las, as letras do meu nome e as marcas do pedaço de giz; e era ela, enfim, a obra de arte imortal e desejada por tanto tempo, que eu encontrava transformada, bem como a própria igreja, em uma pequena igreja de pedra de que eu podia medir a altura e contar as rugas. As horas passaram era preciso voltar para a estação, onde devia esperar minha avó e Françoise para irmos juntos à praia de Balbec. Recordava o que havia lido sobre Balbec, e as falas de Swann:

            "É delicioso, tão lindo como Siena."

            E só acusando de minha descrição as contingências, a má disposição em que me encontrava, o cansaço, a incerteza de saber olhar as coisas, tentava consolar-me à idéia de que restavam outras cidades, ainda intactas para mim, e que eu talvez pudesse em breve como no meio de uma chuva de pérolas, no viçoso gorjeio das gotas W Quimperlé, atravessar o reflexo esverdeado e róseo que banhava Pont-à-Coulevre no caso de Balbec, logo que ali entrara, fora como se houvesse entreaberto o nome que era necessário manter hermeticamente fechado e onde, aproveitavam a entrada que eu lhes havia aberto com imprudência, e expulsando todas as coisas que ali viviam até então; um bonde, um café, as pessoas que passavam pela sucursal do Banco de Descontos, irresistivelmente impelidos por uma externa e uma força pneumática, tinham se engolfado no interior das síla voltando a se fechar sobre eles, deixavam-nos agora enquadrar o pórtico persa e nunca mais os deixariam de conter.

            No trenzinho local, que devia nos levar a Balbec-Plage, encontrei minha avó, mas ela estava sozinha, pois havia pensado em mandar Françoise antes para que tudo estivesse preparado quando chegássemos (deu-lhe indicações falsas, e Françoise partira em direção errada, e àquela hora correndo a toda a velocidade para Nantes e talvez acordasse em Bordéis). Sentei no compartimento, repleto da fugidia luz do crepúsculo e do calor da tarde (a primeira revelou-me, no rosto de minha avó, o quanto o segundo a fatigara), ela me perguntou:

            -E então, é Balbec? - com um sorriso tão ardentemente iluminado pela esperança do grande prazer que, na sua opinião, eu deveria ter sentido, que não me atrevi a lhe confessar de imediato a minha decepção. Além disso, a impressão que meu espírito havia procurado preocupava-me cada vez menos à medida que ia se aproximando o local a que o meu corpo teria de se acostumar. No fim do trajeto, que ainda levaria mais de uma hora, tentava imaginar o gerente do hotel de Balbec, para quem eu ainda não existia neste momento, e gostaria de me apresentar à ele numa companhia de mais prestígio do que a da minha avó, que certamente lhe pediria um abatimento. Imaginava-o cheio de arrogância, porém muito vago de contornos.

            A todo instante, o trenzinho parava numa das estações que precediam Balbec-Plage e cujos próprios nomes (Incarville, Marcouville, Doville, Pont-à-Coulevre, Arambouville, Saint-Mars-le-Vieux, Hermonville, Maineville) me pareciam estranhos, ao passo que lidos em um livro apresentariam alguma relação com os nomes de certas localidades de Combray. Mas ao ouvido de um músico dois motivos, materialmente compostos de várias notas comuns, podem não ter semelhança alguma se diferirem pelo colorido da harmonia e da orquestração. Da mesma forma, esses nomes tristes feitos de sal e areia, de espaços arejados e vazios, nomes de onde se escapava a terminação ville como o vole no jogo do pigeon-vole, não me lembravam em nada os nomes de Roussainville ou Martinville, os quais, porque os ouvira pronunciados com freqüência por minha tia-avó, quando estávamos sentados à mesa na "sala", tinham adquirido um certo encanto sombrio, onde talvez se misturassem essências do gosto de doces, do cheiro do fogo de lenha e do papel de um livro de Bergotte, da cor de argila da casa em frente, e que, ainda hoje, quando sobem como uma bolha de gás do fundo da minha memória, conservam sua virtude específica através das camadas superpostas de meios diferentes que precisam vencer até chegar à superfície.

            Dominando o mar longínquo do alto de suas dunas, ou já se acomodando para a noite ao pé das colinas de um verde cru e de formas abruptas, como o canapé de um quarto de hotel aonde a gente acaba de chegar, eram cidadezinhas compostas de algumas residências, que as quadras de tênis prolongavam, e às vezes de algum cassino, cuja bandeira se agitava ao impulso do vento fresco, ansioso e vazio, de estaçõezinhas que me mostravam pela primeira vez os seus hóspedes de costume, mas só em seu aspecto exterior; jogadores de tênis de bonés brancos; o chefe da estação que vivia ali com suas rosas e tamarindos; uma dama de chapéu de palha, que, seguindo o traçado diário de uma vida que eu jamais conheceria, chamava o seu cão lebréu que se atrasava, e voltava para seu chalé onde já estava aceso o lampião -e essas imagens, tão estranhamente comuns e desdenhosamente familiares ao meu olhar, feriam-me cruelmente a vista surpreendida e o coração saudoso. Todavia, ainda mais se agravou meu sofrimento quando descemos no hotel Grande Hotel de Balbec, diante da escadaria monumental que imitava o mar e, enquanto isso, minha avó, sem se preocupar com o aumento da hostilidade e o desprezo dos estranhos, em cujo ambiente íamos viver, discutia as condições com o gerente. Sujeito rechonchudo, com o rosto e a voz cheios de cicatriz de rosto, pelas sucessivas extirpações de numerosas verrugas, a voz devido aos mais diferentes por causa das origens longínquas e de uma infância cosmopolita; trajando smoking de mundano, com um olhar de psicólogo que em geral tomava, à chegada do ônibus, os grão-senhores por miseráveis e os do hotel por grão-senhores! Esquecendo, sem dúvida, que ele mesmo ganhava quinhentos francos por mês, desprezava profundamente às pessoas das quais recebia quinhentos francos, ou antes, como dizia, "vinte e cinco luíses", eram uma grande soma, e as considerava como fazendo parte de uma raça de párias a quem era destinado o Grande Hotel. É verdade que, naquele mesmo Palácio, havia os que não pagavam muito caro, sem deixar de ser estimados pelo gerente, desde que este estivesse certo de que, se cortavam os gastos, não fazia por falta desses e, sim, por avareza. De fato, a avareza não diminuía em nada o prestígio da pessoa, pois trata-se de um vício e, portanto, pode encontrar-se em todas as classes sociais. A posição social era a única coisa a que o gerente dava atenção; a posição social, ou antes, os sinais que lhe pareciam implicar que fosse eleitos como o não tirar o chapéu à entrada do hall, usar knickerbockers, paletó sobretudo e de tirar um charuto enfaixado em púrpura e ouro de um estojo de marrom (vantagens que, ai de mim, me faltavam todas!). Pontuava as frases com expressões escolhidas, mas sem qualquer sentido.

            Enquanto ouvia minha avó, sem se constranger que ele a escuta com chapéu na cabeça e assobiando, perguntar-lhe com uma entonação artificial ''quais são os seus preços?'', ''muito altos para o meu pequeno orçamento'' esperando numa banqueta, refugiava-me no mais íntimo de mim esforçava-me por emigrar para pensamentos eternos, não deixar nada de nada vivo, na superfície de meu corpo -, insensibilizado como o são antes que por inibição se fingem de mortos ao serem feridos – a fim de não sofrer naquele ambiente onde minha falta absoluta de hábito me tornava ainda sensível diante da vista do hábito local, que naquele momento parecia de dama elegante a quem o gerente testemunhava seu respeito tornando-se íntimo com o cãozinho que o acompanhava, e o jovem que de pluma já entrava perguntando "se havia cartas", todas essas pessoas para as quais os degraus de mármore falso era o mesmo que voltar para o seu honre. E admirando por tempo o olhar de Minos, Eaco e Radamanto, olhar no qual mergulhei despovoado, como em um lugar desconhecido onde nada mais além de um pacote foi lançado severamente por senhores que, pouco versados talvez na arte de receber; ostentavam o título de "chefes de recepção"; mais distante, por trás de uma vidraça fechada, havia pessoas sentadas num salão de leitura, para cuja descrição teria de escolher, alternadamente, em Dante, as cores que ele atribui ao Paraíso e ao Inferno, conforme pensava na ventura dos eleitos que tinham ali o direito de ler em sossego, ou no terror que teria me causado minha avó se, na sua despreocupação com esse tipo de impressões, me tivesse mandado entrar naquele recinto.

            Minha impressão de solidão cresceu ainda mais um instante após. Como houvesse confessado à minha avó que não me sentia bem, que achava que íamos ser obrigados a voltar a Paris, ela dissera, sem protestar, que sairia para fazer algumas compras úteis tanto se tivéssemos de partir como ficar (e que, a seguir, eu soube que me eram todas destinadas, pois Françoise levara consigo algumas coisas que me fariam falta); esperando-a, fora dar uma volta pelas ruas entulhadas de uma multidão que ali mantinha um calor de apartamento e onde ainda estavam abertos um salão de barbeiro e uma pastelaria, na qual os fregueses tomavam gelados diante da estátua de Duguay-Trouin. Ela me causou quase o mesmo prazer que sua imagem, no meio de uma revista ilustrada, pode trazer ao doente que a folheia na sala de espera de um cirurgião. Espantava-me que houvesse pessoas bem diferentes de mim para que, nesse passeio pela cidade, o gerente me pudesse tê-lo recomendado como distração, e também para que o local de suplício, que é uma nova morada, pudesse parecer a certas pessoas "um jardim de delícias", como dizia o prospecto do hotel, que podia estar exagerando mas se dirigia a toda uma clientela cujos gostos lisonjeava. É verdade que ele invocava, para que viessem ao Grande Hotel de Balbec, não apenas "o tratamento requintado" e o "panorama feérico dos jardins do cassino", mas ainda os "decretos de Sua Majestade a Moda, que não se pode violar impunemente sem se passar por um idiota, coisa a que nenhum homem bem-educado desejaria se expor".

            A necessidade que eu sentia de minha avó aumentara pelo receio de lhe haver causado uma desilusão. Ela devia estar desanimada, achando que, se eu não suportava esse cansaço, era de desesperar que qualquer viagem me fizesse bem. Decidi entrar para esperá-la; o gerente veio pessoalmente apertar um botão: e um personagem, ainda meu desconhecido, a quem chamavam lift (e, no ponto mais alto do hotel, lá onde ficaria o lanternim de uma igreja normanda, estava instalado como um fotógrafo por trás de seus vidros ou um organista em sua câmara), pôs-se a descer na minha direção com a agilidade de um esquilo doméstico, industrioso e cativo. Depois, deslizando de novo ao longo de uma pilastra, arrastou-me consigo para o domo da nave comercial. A cada andar, dos dois lados de pequenas escadas de comunicação, desdobravam-se

em leque escuras galerias, nas quais, carregando um travesseiro, passava uma camareira. Aplicava ao seu rosto, que o crepúsculo me tornava indeciso, a máscara de minhas fantasias mais apaixonadas; lia no seu olhar voltado para mim o horror do meu nada. Entretanto, para dissipar, no decurso da subida interminável, a angústia mortal que experimentei em atravessar em silêncio o mistério daquele claro-escuro sem poesia, iluminado apenas por uma fileira vertical de vidraças, formada pela superposição do water-closet de cada andar, dirigi a palavra ao jovem organista, artesão de viagem e companheiro de minha prisão, o qual continuava a manusear os respectivos tubos de seu instrumento. Desculpei-me por ocupar tanto espaço e lhe dar tanto trabalho, e perguntei-lhe se não o incomodava no exercício de uma arte, a respeito, para lisonjear o virtuoso, fiz mais do que manifestar a minha curiosidade confessei-lhe minha predileção. Mas ele não me respondeu, fosse por estar diante de minhas palavras, atenção ao trabalho, preocupação com a etiqueta, respeito ao lugar, receio do perigo, preguiça de inteligência ou ordem do gerente. Talvez não haja nada que nos dê mais fortemente a impressão da realidade daquilo que nos é exterior como a mudança de posição de uma pessoa em reter a nós, mesmo que seja uma pessoa insignificante, antes e depois de a ter conhecido. Eu era o mesmo homem que, no fim da tarde, tomara o trenzinho em Balbec, trazia comigo a mesma alma. Porém nessa alma, no lugar onde, àquelas horas, havia a impossibilidade de imaginar o gerente, o Palácio, o seu pessoal; vaga e temerosa espera do momento da chegada, encontravam-se agora as rugas extirpadas do rosto do gerente cosmopolita (na realidade natural e monegasco, embora fosse como dizia, pois empregava sempre expressões que julgava distintas, sem perceber que eram viciosas, de originalidade romeno gesto para chamar o lift, o próprio lift, toda uma galeria de personagens saídos daquela caixa de Pandora que era o Grande Hotel, inegáveis, irremovíveis como tudo que está realizado, esterilizantes. Mas pelo menos esta mudança da qual não tomara parte, provava-me que ocorrera algo exterior a mim desprovido de interesse que fosse em si mesmo; eu estava como o viajante tendo o sol à sua frente ao iniciar uma caminhada, percebe as horas quando o vê por detrás. Morto de cansaço, sentia febre; bem que deitaria, mas não tinha nada do que era necessário para isso. Desejaria pelo menos estender-me um momento na cama, mas para que, se não poderia encontrar descanso para esse conjunto de sensações que, para cada um de nós, é o seu consciente, senão seu corpo material, e se os objetos desconhecidos que o vêm, forçando-o a colocar suas sensações em permanente estado de latente, teriam mantido o meu olhar, meu ouvido, todos os meus sentidos, posição tão reduzida e incômoda (mesmo se tivesse esticado as pernas) de cardeal La Balue na gaiola onde não podia estar de pé nem sentado. Em atenção que põe os objetos num quarto, e o hábito que os retira, abriu para nós. Espaço era o que não havia para mim no meu quarto de Balbec, pois estava cheio de coisas que não me conheciam e viram o olhar desconfiado que lhes lancei e, sem levar em conta a minha existência, participaram que eu lhes desarrumava a sua rotina; ouvia o pêndulo, ao passo que em casa eu só ouvia por alguns segundos na semana, e apenas quando saía de uma profunda meditação-continuou sem se interromper um único instante, fazendo em língua estranha considerações que deviam ser pouco elogiosas a meu respeito, pois as grandes cortinas roxas a escutavam sem responder, mas na atitude análoga à das pessoas que dão de ombros para mostrar que a vista de um terceiro as irrita. Davam àquele quarto tão alto um caráter quase histórico que o poderia tornar apropriado ao assassinato do duque de Guise e, mais tarde, a uma visita de turistas conduzidos por um guia da agência Cookmas de modo algum ao meu sono. Sentia-me atormentado pela presença de pequenas estantes envidraçadas, ao longo das paredes, mas sobretudo por um grande espelho com pés, atravessado no meio do quarto e antes de cuja partida achava eu que para mim não haveria sossego possível. A todo instante erguia os olhos a que os objetos do meu quarto em Paris não incomodavam mais que minhas próprias pupilas, pois não eram mais que anexos de meus órgãos, uma ampliação de mim mesmo para o teto soerguido daquele belvedere situado no cimo do hotel e que minha avó escolhera para mim; e até mesmo nessa região mais íntima do que aquela que vemos e ouvimos, nessa região em que sentimos a qualidade dos odores, era quase no interior de mim mesmo que o cheiro do vetiver vinha impelir sua ofensiva até minhas últimas defesas, assédio a que eu opunha, não sem cansaço, a resposta inútil e incessante de uma fungação alarmada. Já não tendo universo nem quarto, só corpo ameaçado pelos inimigos que me cercavam, e invadido até os ossos pela febre, estava sozinho e tinha vontade de morrer. Então minha avó entrou; e, para a expansão de meu coração reprimido, abriram-se logo espaços infinitos.

            Ela vestia um chambre de tergal, que punha em casa sempre que um de nós estava doente (pois assim sentia-se mais à vontade, dizia, atribuindo sempre motivos egoístas ao que fazia), e que servia para nos cuidar, para nos velar, era o seu traje de criada e de enfermeira, seu hábito de religiosa. Mas, ao passo que os cuidados destas, a bondade que têm, o mérito que lhes reconhecem e a gratidão que lhes devem, aumentam ainda mais a impressão que a gente tem de ser, para elas, uma outra pessoa, de sentir-se só, de guardar para si o peso dos pensamentos, de seu próprio desejo de viver, eu sabia, quando estava com minha avó, que, por maior que fosse o meu desgosto, seria acolhido com piedade ainda mais ampla; que tudo o que era meu, minhas preocupações, meu desejo, seria, em minha avó, apoiado num desejo de conservação e acréscimo de minha própria vida, aliás mais forte que o que eu mesmo tinha. E meus pensamentos se prolongavam nela sem sofrer desvio porque passavam do meu espírito para o dela sem mudar de ambiente, de pessoa. Como alguém que deseja dar o nó à gravata diante de um espelho  - compreender que a ponta que vê não está colocada, em relação a ele, no lado para onde dirige a mão, ou como um cão que persegue no solo a sombra de um inseto -, enganado pela aparência do corpo como o somos no mundo que não percebemos diretamente as almas, lancei-me nos braços de minha avó! Ergui os lábios para o seu rosto, como se assim cedesse àquele imenso abraço que ela me abria. Quando estava assim, com a boca unida às suas faces, à sua havia ali algo tão benéfico, tão nutriente, que mantinha a imobilidade, a tranqüila avidez de uma criança que mama. Depois contemplava, sem cansar, seu grande rosto desenhado como bela nuvem ardente e calma, por trás do qual sentia-se irradiar a ternura. E, aquilo que ainda recebia, por mais debilmente que fosse, um pouco de suas reações, tudo o que ainda podia ser desse modo dito a ela, ficava logo tão espiritual tão santificado, que com minhas palmas eu alisava seus lindos cabelos, que se faziam grisalhos, com tanto respeito, precaução e doçura, como se neles acariciando a sua bondade. Ela sentia tanto prazer em toda mágoa que era igual a mágoa à mim; num momento de imobilidade e de calma para os membros fatigados, algo tão delicioso que, tendo visto que ela queria ajudar me deitar e tirar os sapatos, quando fiz menção de impedi-la e de começar a me deitar sozinho, ela reteve com olhar súplice as minhas mãos que tocavam os primeiros botões de minha roupa e das botinas.

            - Oh, peço-te - disse ela. - É uma alegria tão grande para tua avó; principalmente, não deixes de bater na parede se tiveres necessidade de qualquer coisa esta noite; minha cama está pegada à tua e a divisória é bem fina. No instante que estiveres deitado, bate, para ver se podemos nos ouvir.

            E, de fato, naquela noite bati três pancadas que, na semana quando estive doente, renovei por alguns dias todas as manhãs, pois queria me dar leite bem cedo. Então, quando achava que ela já acordara - para que ela não esperasse e pudesse dormir de novo logo após-, arriscava três pancadas tímidas, fracamente, apesar de tudo bem distintas, pois se temia lhe interromper o sono no caso de me haver enganado e que ela já dormisse; não gostei que ela aguardasse ainda um apelo que não teria percebido a princípio e que eu não tinha mais coragem de renovar. E, mal eu dera as minhas batidas, ouvi três outras entonações diferentes, cheias de uma calma autoridade, repetidas duas vezes para maior clareza, e que significavam: "Não te inquietes, já escutei; daqui a um minuto estarei aí"; e logo depois minha avó chegava. Dizia-lhe que temera que ela não ouvisse ou pensasse que era um vizinho quem batia; ela ria:

            - Confundir as batidas do meu queridinho com as de outros... milhões de distância a sua vovó as reconheceria! Achas então que existem outras no mundo tão bobas, tão nervosas, tão divididas entre o medo de me acordar e de não ser compreendido? Mas, mesmo que o meu ratinho se contentasse com uma parede, eu logo o reconheceria, sobretudo quando é tão querido

e coitadinho é. Já fazia um momento que eu te ouvia hesitar, remexer na cama, e fazer todas as tuas manobras.

            Ela entreabria as persianas; o sol já se instalara no anexo de hotel que formava uma saliência, como um consertador de telhados que madruga e principia o seu trabalho, cumprindo-o em silêncio para não despertar a cidade que ainda está dormindo, e cuja imobilidade ainda mais ressalta a agilidade do operário. Dizia-me as horas, o tempo que faria, que não valia a pena eu ir à janela, que havia névoa sobre o mar, se a padaria já estava aberta, qual era o carro que já se ouvia rodar: insignificante ante o ato, desprezível intróito do dia a que ninguém assiste; minúsculo pedacinho de vida que era só de nós dois, que eu logo haveria de evocar de bom grado durante o dia, diante de Françoise ou de estranhos, falando da névoa espessa das seis da manhã, com a ostentação, não de um saber adquirido, mas de um sinal de afeto recebido somente por mim; doce instante matinal que principiava como uma sinfonia pelo diálogo ritmado de minhas três pancadinhas, às quais a divisória, toda penetrada de ternura e alegria, harmoniosa, imaterial, cantando como os anjos, respondia com outras três pancadas, ardentemente aguardadas, duas vezes repetidas, e nas quais a parede sabia transportar inteira a alma de minha avó, e a promessa de sua vinda, com uma alegria de anunciação e uma fidelidade musical. Mas na primeira noite da chegada, quando minha avó me deixou, recomecei a passar mal, como já sofrera em Paris no momento de deixar a casa. Talvez esse meu medo de dormir num quarto desconhecido - medo que tantos outros também têm -, não passe da forma humílima, obscura, orgânica, quase inconsciente, da grande recusa desesperada oposta pelas coisas que constituem o melhor da nossa vida presente à possibilidade de revistarmos mentalmente com a nossa aceitação a fórmula de um futuro onde elas não mais apareçam; recusa que estava na base daquele horror que tantas vezes me inspirara a idéia de que meus pais um dia haveriam de morrer, que as necessidades da vida poderiam me obrigar a viver longe de Gilberte, ou simplesmente a me fixar em definitivo numa terra onde nunca mais veria os meus amigos; recusa que estava inclusive na base da dificuldade que sentia em pensar na minha própria morte ou numa sobrevivência como a que Bergotte prometia aos homens em seus livros, na qual não poderia carregar junto minhas próprias recordações, meus defeitos, meu caráter, que não se resignavam à idéia de não existir mais e não desejavam para mim nem o Nada, nem uma eternidade em que eles não existissem. Quando Swann me dissera em Paris, um dia em que me sentia bastante real:

            -Você deveria partir para aquelas deliciosas ilhas da Oceania; verá que não há de voltar

mais - tive vontade de responder:

            - Mas então não veria mais a sua filha e viveria em meio a coisas e pessoas que ela nunca viu. - E no entanto a razão me dizia: ''- E que importa, visto que não sofrerás mais? Quando o Sr. Swann diz que não voltarás, quer dizer que não quererias mais voltar, e, visto não quereres voltar, é porque lá te sentirias feliz."

            Pois minha razão sabia que o hábito de assumir agora a tarefa de me fazer amar aquela casa desconhecida, espelho do lugar, o colorido das cortinas e de parar o pêndulo - se encarrega também de nos tornar caros os companheiros que a princípio nos desagradava dar outro formato aos rostos, de fazer simpático o som de uma voz, de modificar inclinações do coração. É claro que essas amizades novas por lugares e pessoas são tecidas sobre o esquecimento das antigas; mas justamente a minha, pensava que eu podia encarar sem terror a perspectiva de uma vida em que ficaria para sempre separado de pessoas cuja lembrança me fugiria; e era como uma espécie de consolo que oferecia ao meu coração a promessa de um esquecimento que, pelo contrário, me deixava louco de desespero. E não é que o nosso coração não deva também experimentar, ao consumar-se a separação, os efeitos acostumados pelo hábito; mas, até que isso aconteça, continuará sofrendo. Temo no futuro em que não poderemos ver nem conversar com os entes queridos, quais hoje tiramos a nossa mais profunda alegria, esse temor, longe de diminuir, aumenta quando pensamos que, à dor de uma tal separação, se acrescentará; no momento nos parece ainda mais cruel, de não mais sentirmos como permanecermos indiferentes; pois então o nosso eu terá mudado; não ser mais o encanto de nossos pais, de nossa amante, de nossos amigos, que deixa estar à nossa volta; nossa afeição por eles terá sido tão bem extirpada do coração a qual hoje em dia se constitui parte tão importante, que poderiam alegrar com essa vida separada deles, cuja idéia hoje nos causa horror; será uma verdadeira morte de nós mesmos, é verdade que morte seguida de ressurreição, mas num eu diverso e que não pode inspirar afeto às partes antigas, condenadas a morrer. São elas até as mais débeis, como o obscuro das dimensões, à atmosfera de um quarto as que se assustam e reprovam; rebeliões em que se pode ver uma forma secreta, parcial, tangível e verdadeira resistência à morte, da longa resistência desesperada e cotidiana à morte refratária e sucessiva tal como se insere em todos os momentos da nossa vida; ficando pedaços de nós a cada instante e fazendo que sobre a carne morta se multipliquem células novas. Para um temperamento nervoso como o meu nos quais os intermediários nervos, cumpriam mal suas funções, não restando o passo, até à consciência, das queixas dos mais humildes elementos do que vai desaparecer; ao contrário deixando-as chegar claras, exaustivas, inumeráveis e dolorosas; o angustioso alarme que eu experimentava sob aquele teto desaparecido e alto demais era apenas o protesto de uma amizade que sobrevivia em por um teto baixo e familiar. Sem dúvida essa amizade desapareceria, tendo seu posto em outra parte; então a morte e, depois, uma nova vida teriam nome de Hábito, cumprindo sua dupla obra; mas até o seu aniquilamento da afeição sofreria, principalmente naquela primeira noite, colocada em piedade num futuro já realizado, onde não mais havia lugar para ela, se revoltava, torturando-me com os gritos de suas lamentações cada vez que meus olhares, não podendo se desviar daquilo que a fazia sofrer, tentavam pousar no teto inacessível.

            Mas na manhã seguinte! - Depois que um criado veio me acordar e me trouxe água quente; enquanto me aprontava e tentava em vão encontrar na sala as coisas de que necessitava, e de onde tirava, em desordem, somente as peças que para nada serviam, que alegria senti ao pensar no prazer do almoço e do passeio; ao ver pela janela, em todas as vitrinas das estantes, como pelas vigias de um camarote de navio; o mar límpido, sem sombras, embora metade de sua superfície, delimitada por linha delgada e móvel, estivesse ensombrecida; ao seguir com os olhos as ondas que se arremessavam uma após outra como saltadores num trampolim! Em todos os instantes, tendo na mão a toalha tesa e engomada, na qual estava escrito o nome do hotel e com a qual fazia inúteis esforços para me secar, voltava para junto da janela a fim de lançar ainda um olhar àquele vasto circo resplandecente e montanhoso; aos nevados cumes de suas ondas de esmeralda aqui e ali polida e translúcida; que, com plácida violência e aspecto leonino, deixavam erguer-se e cair as suas rampas, às quais o sol acrescentava um sorriso sem rosto. Janela à qual, a seguir, eu deveria me pôr todas as manhãs como à portinhola de uma diligência onde adormecesse um viajante, para ver se durante a noite se aproximou ou se afastou uma desejada cordilheira - aqui as colinas do mar que, antes de voltar em nossa direção a passo de dança, podem recuar para tão longe que muitas vezes eu só avistava ao fim de uma longa distância as suas primeiras ondulações, numa transparência longínqua, vaporosa e azulada; como as geleiras que se vêem no fundo dos quadros dos primitivos toscanos. De outras vezes, era bem perto de mim que o sol ria sobre essas ondas; de um verde tão macio como o que mantém nas campinas alpestres (nas montanhas onde o sol aparece aqui e ali como um gigante que descesse alegremente, por vertentes e saltos desiguais) mais a líqüida mobilidade da luz do que a umidade do solo. De resto, nessa brecha que a praia e as ondas abrem no meio do mundo, para que nela penetre e se acumule a luz, é sobretudo a própria luz, de acordo com a direção de onde provém e que seguimos com o olhar, que desloca e situa as ondulações do mar.

            A diversidade de iluminação também modifica a orientação de um lugar, e nos oferece novos objetivos; dando-nos o desejo de atingi-los, não menos que o faria um trajeto longa e efetivamente percorrido em viagem. Quando, pela manhã, o sol vinha por detrás do hotel, abrindo à minha frente as praias iluminadas até os primeiros contrafortes do mar, era como se me mostrasse uma outra vertente da cordilheira; convidando-me a fazer, pelo caminho turbilhonante de seus raios, uma viagem imóvel e variada pelos mais belos sítios da paisagem acidentada das horas. Desde a primeira manhã, o sol me indicava ao longe, com um dedo risonho, os cimos azulados do Mar que não têm nome em nenhuma carta geográfica, até que, extasiado com aquele sublime passeio à superfície rumorosa e caótica de suas cristas, vinha se abrigar do vento em meu quarto, refestelando-se na cama derramando suas riquezas na pia molhada, na mala aberta, onde, por seu esplendor e luxo deslocado, aumentava ainda mais a impressão de desordem. Infelizmente, uma hora depois, na grande sala de jantar, enquanto almoça; de um limão cortado, espalhávamos algumas gotas de ouro sobre dois peixes dos quais logo deixaram em nossos pratos a armação de suas espinhas; como uma pena e sonora como uma cítara pareceu cruel à minha avó que pudéssemos receber o vivificante sopro do vento marinho por causa da vidraça transparente mas fechada que, como uma vitrina, nos separava da praia, mas enquadrava tão perfeitamente o céu que o seu azul parecia as cordas e suas nuvens brancas, um defeito do vidro. Convencido de que estava "sentado no molhe" ou no interior do boudoir, de que nos fala Baudelaire, perguntava -  "sol raiando sobre o mar", do poeta, não seria aquele bem diverso do dos da tarde, simples e superficiais como setas douradas e trêmulas que naquele momento queimava o mar como um topázio, fazia-o fermentar, tornava-o louro - sol como a cerveja, espumante como o leite, enquanto, por alguns instantes, - ele passeava aqui e ali grandes sombras azuis, obra sem dúvida de um deus que parecia se divertir em deslocá-las, movimentando um espelho no céu. Infelizmente não só pelo aspecto é que a sala de jantar de Balbec diferia da de Combray, para as casas fronteiras, uma sala sem ornatos, porém repleta de sol verde água de uma piscina, onde, a poucos metros de distância, a maré cheia e a claridade do dia elevavam, como diante de uma cidade celestial, uma indestrutível muralha de ouro e esmeralda. Em Combray, como todos nos conheciam, ninguém se preocupava com ninguém. E na vida de banhos de mar ninguém conhece banhos. Eu era ainda muito jovem e sensível para ter renunciado ao prazer de agradar as pessoas e possuí-las. Não tinha essa mais nobre indiferença que sentir homem mundano em relação às pessoas que ali almoçavam, nem quanto aos rapazes e moças que passavam pelo molhe; e sofria ante a idéia de que não pudesse fazer excursões com eles; a menos que minha avó, desprezando as convenções, e só preocupada com a minha saúde, lhes fosse pedir que me aceitassem como companheiro de passeios, coisa humilhante para mim. Uns se dirigiam para o chalé desconhecido; outros saíam de raquete em punho para um campo de, outros, ainda, montavam cavalos cujos cascos me pisavam o coração. Eu os olhava com uma curiosidade apaixonada, envoltos naquela ofuscante claridade; onde se modificam todas as proporções sociais; seguia todos os seus movimentos, através da transparência daquele enorme vão envidraçado, que deixava passar a luz. Mas ela interceptava o vento, o que era um defeito na opinião de minha avó que, não podendo suportar a idéia de que eu perdesse o benefício de uma ar, abriu furtivamente uma das vidraças, fazendo ao mesmo tempo voar cardápios, os jornais, os véus e bonés das pessoas que estavam almoçando; mas ela própria, animada com aquele sopro divino, permanecia calma e sorridente como santa Blandina, no meio dos impropérios que, aumentando minha impressão de tristeza e isolamento, reuniam contra nós todos os turistas desdenhosos, despenteados, furiosos. Um certo número dos hóspedes do hotel se compunha de personalidades eminentes dos principais departamentos daquela porção da França, o que, em Balbec, dava à população, que nesse tipo de hotéis de grande luxo costuma ser banalmente rica e cosmopolita, um caráter regional bastante acentuado; eram o primeiro magistrado de Caen, o presidente da Ordem dos Advogados de Cherburgo, um respeitável tabelião de Le Mans, que, durante as férias, partindo de pontos onde haviam estado dispersos o ano inteiro como atiradores de guerrilha, ou peões do jogo de damas, vinham se concentrar neste hotel. Mandavam reservar sempre os mesmos quartos e, com as esposas que tinham pretensões aristocráticas, formavam um pequeno grupo ao qual se ajuntavam um grande advogado e um grande médico de Paris, que no dia da partida lhes diziam:

            -Ah, é verdade, vocês não tomam o mesmo trem que nós. São privilegiados, estarão de volta em casa para o almoço.

            -Como, privilegiados? Vocês que moram na capital, Paris, a grande cidade, enquanto eu resido numa cabeça de comarca de cem mil almas, na verdade cento e dois mil pelo último recenseamento; mas o que é isso diante de vocês, que contam com os dois milhões e meio de Paris, e que logo terão de volta o asfalto e todo o esplendor do mundo parisiense!

            Diziam isto com um rolar de provinciano, sem qualquer aspereza, pois todos eram notabilidades em sua província, que, como tantos outros, poderiam ter ido à Paris, ao magistrado de Caen; tinham oferecido várias vezes um cargo no Supremo Tribunal; mas haviam preferido ficar no mesmo lugar, por amor à sua cidade, ou à sua glória ou à vida obscura, ou porque eram reacionários, e pelo prazer das amizades de vizinhança nos castelos da região. Aliás, muitos não voltavam diretamente para a sua terra. Pois-visto que a baía de Balbec era um pequeno universo à parte no meio do grande, um buquê de estações onde estavam reunidos em círculo os dias variados e os meses sucessivos, de modo que, não só nos dias em que se avistava Rivebelle, o que era sinal de tempestade, sobre cujas casas o sol brilhava, ao passo que em Balbec o céu estava negro, mas também, quando os dias frios já haviam atingido Balbec, podia-se ter certeza de obter dois ou três meses suplementares de calor na margem oposta; os hóspedes habituais do Grande Hotel cujas férias começavam tarde, ou duravam mais tempo mandavam, ao principiarem as chuvas e os nevoeiros, à aproximação do outono, colocar suas malas num barco e partiam ao encontro do verão em Rivebelle ou Costedor. Aquele grupinho do hotel de Balbec olhava com ar desconfiado todos os recém-chegados; aparentando não se interessar por eles, iam todos pedir informações a seu respeito ao amigo comum; pois o mordomo era o mesmo-Aimé-que voltava todos os anos para a temporada de verão e lhes reservava as mesas; e as senhoras suas esposas, sabendo mulher de Aimé esperava um neném, trabalhavam cada uma, após o almoço, a peça do enxoval, sempre nos examinando com seus lorgnons, a minha avó e a mim, porque comíamos ovos cozidos na salada, o que era considerado vulgar; não se praticava na boa sociedade de Alençon. Afetavam uma atitude de ironia desdenhosa em relação a um francês que era chamado de Majestade e que se autoproclamara rei de uma ilhota da Oceania povoada por alguns selvagens. Estava no hotel com sua bonita amante, à cuja passagem, quando ela ia tomar banho os garotos gritavam:

            "Viva a rainha!", porque ela os cobria com uma porção de moedas de cinqüenta cêntimos. O magistrado supremo e o presidente da ordem dos Advogados nem sequer desejava parecer que a via e, se algum dos amigos a olhava, julgavam-se no dever de prevenir que se tratava de uma operária.

            - Mas tinham-me assegurado que em Ostende eles ocupavam a cabine

            - Lógico! Alugam-na por vinte francos. Você pode ocupá-la, se lhe agradar. E sei, de fonte limpa, que ele mandou pedir uma audiência ao rei, o qual lhe fez saber que não tinha por que entrar em relações com soberanos de opereta.

            -Ah, na verdade é engraçado... Há cada tipo de gente!      

            Sem dúvida, tudo aquilo era verdade; mas era igualmente pelo aspecto de se sentir que, para uma boa parte da multidão, eles não passavam de bons burgueses, que não conheciam aquele rei e aquela rainha, pródigos de seu dinheiro; o tabelião, o magistrado, o presidente, à passagem do que chamavam uma máscara; sentiam tanto mau humor e manifestavam em voz bem alta uma indignação que estava a par seu amigo, o mordomo, o qual, obrigado a fazer boa cara aos mais generosos que autênticos, entretanto, sempre atendendo às suas o dirigia de longe aos antigos clientes um significativo piscar de olhos. Talvez tivesse também um pouco desse mesmo tédio de serem tidos, erroneamente, menos "chiques" e de não poderem explicar que o eram ainda mais no fundo daquele "Moço bonito!", com que qualificavam um jovem engomado, filho de um grande industrial e que, todos os dias, com uma roupa nova, orquídea na botoeira, almoçava com champanha e ia, pálido, impassível, um sorriso de indiferença nos lábios, jogar, na mesa do cassino, somas "que ele não tem fundos para perder", dizia com ar bem-informado o tabelião do primeiro magistrado, cuja mulher "sabia de boa fonte" que aquele jovem fazia os pais morrerem de desgosto.

            Por outro lado, o presidente da Ordem dos Advogados e seus amigos, poupavam sarcasmos a propósito de uma velha dama rica e nobre, que andava levando consigo todos os criados. Todas as vezes que a mulher do tabelião e a do primeiro magistrado a viam na sala de jantar, por ocasião das refeições, examinavam-na insolentemente com suas lentes, com o mesmo ar minucioso e desafiador como se ela fosse algum prato de nome pomposo, mas de aparência suspeita, que, após o resultado desfavorável de uma observação metódica, é mandado embora com um gesto distante e uma careta de desgosto.

            Com isso, certamente queriam indicar apenas que, se havia certas coisas que lhes faltavam no caso, algumas prerrogativas da velha dama, e o fato de estarem em relações com ela -, não era porque não pudessem, mas porque não queriam tê-las. Porém, tinham acabado por se convencer elas próprias; e era a supressão de todo desejo, de toda curiosidade pelas formas da vida que não conheciam, da esperança de agradar a novas pessoas, substituídas nelas por um desdém fingido, uma alegria artificial, que apresentava o inconveniente de colocar o desprazer sob a etiqueta de contentamento e as fazia mentir perpetuamente a si mesmas, duas condições para que fossem infelizes. Mas, sem dúvida, todo mundo naquele hotel agia da mesma maneira que elas, conquanto sob formas diversas; sacrificava, senão ao amor-próprio, ao menos a certos princípios de educação, ou a alguns hábitos intelectuais, a deliciosa inquietação de misturar-se a uma vida ignorada. Sem dúvida, o microcosmo em que se isolava a velha dama não estava empeçonhado de azedumes atrozes como o grupo em que riam de raiva a mulher do tabelião e a do primeiro magistrado. Ao contrário, estava embalsamado num perfume requintado e velhusco, mas que não era menos artificial. Pois no fundo a velha dama teria provavelmente encontrado em seduzir, em atrair a misteriosa simpatia das criaturas novas (ao mesmo tempo que ela própria se renovava), um encanto despojado do prazer que há em freqüentar apenas pessoas do seu próprio mundo e em recordar que, sendo sua sociedade a melhor que existe, torna-se desprezível o desdém alheio e mal informado. Talvez sentisse que, chegando incógnita ao Grande Hotel de Balbec, teria feito sorrir, com seu vestido de lã negra e sua touca fora de moda, a algum gaiato que teria murmurado: "que múmia!", ou principalmente a um homem de talento que, tendo conservado, como o primeiro presidente, entre as suíças grisalhas, um rosto jovem e olhos espirituosos como ela os amava, e que talvez houvesse logo indicado à lente aproximadora do lorgnon conjugal o aparecimento desse fenômeno insólito; talvez fosse por inconsciente receio desse primeiro minuto, que sabemos ser breve mas que não é menos temido -como da primeira vez que a gente mergulha-, que aquela velha dama enviava previamente um criado para pôr o hotel a par de seus hábitos e, cortando as gentilezas do gerente, subia para o quarto com uma rapidez em que havia mais timidez do que orgulho, quarto onde as cortinas pessoais, substituindo as que pendiam das janelas, dos biombos e das fotografias, colocavam de tal forma entre ela e o Mundo exterior, a que devia adaptar-se, a divisão de seus hábitos, que era mais na casa que morava e na qual permanecera...

            Desde então, tendo colocado entre ela de um lado, e o pessoal dos fornecedores, do outro, os seus criados que recebiam em vez dela, o daquela nova humanidade e mantinham em torno à sua patroa a atmosfera; tendo posto os seus preconceitos entre ela e os banhistas, sem se preocupar em agradar às pessoas que seus amigos não teriam recebido; era no seu mundo que continuava a viver pela correspondência com suas amigas, pela recordação, consciência íntima que possuía de sua posição, da qualidade de seus modelos de competência de sua polidez. Todos os dias, quando ela descia para dar um passeio em sua cabeça, sua criada de quarto, que carregava seus objetos pessoais, seu lacaio, que seguia à sua frente, davam a impressão dessa sentinela às portas de uma embaixada embandeirada com as cores do país do qual dá garantia para ela, em pleno solo estrangeiro, o privilégio da extraterritorialidade. Ela não deixou o quarto antes do meio da tarde; no dia em que chegamos vimos na sala de jantar aonde o gerente, como éramos recém-chegados, nos colocou sob sua proteção, à hora do almoço, como um oficial que conduz recrutas ao alfaiate para fardá-los; mas, em compensação, vimos, logo após, um fidalgo com sua filha, de uma obscura porém antiga família da Bretanha, o Sr. e a Srta. de Stermaria; cuja mesa nos haviam dado, julgando que não voltariam naquela noite. Tinham vindo a Balbec, exclusivamente, para se encontrarem com castelães que conheciam nos arredores, e não passavam pela sala de jantar do hotel, entre os convites de fora e as visitas realizadas, senão o tempo estritamente necessário. Era a sua elegância que os preservava de toda simpatia humana, de todo interesse pelos conhecidos sentados a seu redor, e no meio dos quais a Srta. de Stermaria mantinha o ar glacial apressado, distante, rude, exigente e mal-intencionado, que se põe no carro-restaurante no meio de viajantes nunca vistos, e a quem jamais voltaremos a ver, e com quem a gente não admite outras relações senão a defesa, contra nosso frango frio e do nosso canto no vagão. Mal começávamos a almoçar, vieram nos fazer erguer da mesa por ordem do Sr. de Stermaria, que acabavam de chegar e, sem o menor gesto de desculpas para nós, pediu em voz alta ao mordomo que cuidasse para que aquele erro não mais se repetisse, pois era-lhe desagradável que "pessoas a quem não conhecia" tivessem ocupado a sua mesa.

            Com certeza, no sentimento que levava determinada atriz (aliás conhecida devido à sua elegância, seu espírito, suas lindas coleções de alemão do que por seus desempenhos no Odeon), e mais o seu amante, rapaz rico, pelo qual ela se empenhara, bem como dois homens muito em evidência da aristocracia, a levarem uma vida à parte, a só viajarem juntos, a almoçar Balbec muito tarde, quando todas as pessoas já haviam terminado, a passar o dia inteiro em seu salão jogando cartas, não entrava má vontade alguma, apenas as exigências do gosto que tributavam a certas formas de engenho na conversação, a certos refinamentos de boa comida, o que só lhes dava para viverem e comerem juntos, e lhes tornaria insuportável a vida em comum com pessoas que não fossem iniciadas em tudo aquilo. Mesmo diante de uma mesa posta ou de uma mesa de jogo, cada um deles precisava saber que no conviva ou parceiro sentado à sua frente repousavam, em suspenso e sem utilidade, certos conhecimentos que permitem reconhecer a obra de carregação de que muitas casas parisienses se enfeitam como se se tratasse de uma "Idade Média" ou de uma "Renascença" autênticas e, em todas as coisas, critérios que lhes eram comuns para distinguir o bom do mau. Sem dúvida, naqueles momentos não era mais do que por uma rara e engraçada interjeição, atirada no meio do silêncio da refeição, ou da partida, ou pelo vestido novo e encantador que a jovem atriz pusera para almoçar ou jogar pôquer, que se manifestava a existência especial em que seus amigos queriam ficar mergulhados em toda a parte. Assim, porém, envolvendo-os em hábitos que conheciam a fundo, bastava ela para protegê-los contra o mistério da vida ambiente. Durante as longas tardes, o mar só estava suspenso diante deles como uma tela de cor agradável pendurada no toucador de um rico solteirão, e somente no intervalo das cartadas é que um dos jogadores, não tendo coisa melhor, erguia os olhos para o mar, a fim de ter uma indicação acerca do tempo ou da hora, e lembrar aos outros que a merenda esperava. E de noite não jantavam no hotel, onde os focos elétricos, derramando luz na sala de jantar, transformavam-na num imenso aquário maravilhoso diante de cuja parede de vidro a população obreira de Balbec, os pescadores e também as famílias de pequenos burgueses, invisíveis na sombra, se comprimiam contra o vidro para contemplar, vagarosamente embalada em redemoinhos de ouro, a vida luxuosa daquelas pessoas, tão extraordinária para os pobres como a dos peixes e dos moluscos estranhos (uma grande questão social, saber se a parede de vidro protegerá sempre o festim dos animais maravilhosos e se as pessoas obscuras que olham avidamente dentro da noite virão colhê-los em seu aquário e devorá-los). Entretanto, talvez houvesse, no meio da multidão parada e confundida na noite, algum escritor, algum amador de ictiologia humana, que, observando as maxilas dos velhos monstros femininos se fecharem sobre um pedaço de alimento engolido, se interessasse em classificá-los por suas raças, pelos caracteres inatos e também pelos adquiridos, que fazem que uma velha dama sérvia, cujo apêndice bucal é o de um grande peixe marinho, com a salada como uma La Rochefoucauld porque desde a infância vive na água doce do faubourg Saint-Germain.

            Àquela hora, viam-se os três homens de smoking esperando a mulher que estava atrasada, a qual, em breve, depois de ter chamado o lift do seu andar, saía do elevador como de uma caixa de brinquedos, num vestido quase sempre novo e com écharpes escolhidas segundo o gosto especial do seu amante. Os quatro, que eram de opinião de que o fenômeno internacional do Palace, implantado em Balbec, fizera ali florir o luxo mas não a boa cozinha, entravam num carro e iam jantar a meia légua dali, num pequeno e bem considerado restaurante, onde; tinham intermináveis conferências como cozinheiro sobre a composição do cardápio e a confecção dos pratos. Durante esse trajeto, a estrada margeada de mansões que parte de Balbec não era para eles, - senão a distância que seria preciso um pouco distinta, na noite negra, da que separava suas residências parisienses do café Anglais ou da Tour d'Argent-antes de chegar ao pequeno e fino restaurante onde, enquanto os amigos do rapaz rico o invejavam por ter uma amante tão bem vestida, as écharpes desta se desdobravam diante do pequeno grupo como um véu macio e perfumado, mas que era o bastante para separá-los do resto do mundo.

            Infelizmente para o meu sossego, eu estava bem longe de ser e daquela gente. Alguns ali me preocupavam; gostaria de não ser ignorado homem de testa fugidia, de olhar esquivo, que vagava entre os antolhos, os preconceitos e de sua educação, o grão-senhor daquelas terras, e que não era menos que o cunhado de Legrandin, que vinha às vezes de visita a Balbec e que aos domingos, ia para o garden-party semanal que ele e a mulher ofereciam, levavam do hotel uma boa parte de seus hóspedes, porque um ou dois dentre eles eram de fato convidados para a festa, e os outros, para não darem a impressão que não o eram, escolhiam esse dia para fazer uma excursão distante. Todavia a primeira vez em que entrou no hotel foi muito mal recebido, pois o pessoal acabara de chegar da Côte d'Azur, ainda não sabia de quem se tratava, estava vestido de flanela branca, mas também, fiel aos velhos costumes franceses e ignorantes da vida dos Palaces, tirara o chapéu ao entrar no saguão por lábia às senhoras, o que fez com que o gerente nem sequer tocasse no seu chapéu para cumprimentá-lo, julgando que se tratasse de alguém de condição muito humilde, que denominava homem "saindo do ordinário". Somente a mulher dele chamou a atenção para o recém-chegado, que denotava a vulgaridade afetada das pessoas elegantes, e declarou, com base no discernimento infalível e na indiscreta autoridade de uma pessoa para quem a alta sociedade de Le Mans não tem segredos, que sentia-se diante dela a presença de um homem de grande distinção; muito bem-educado, e que se sobressaía dentre toda aquela gente que encontrava em Balbec e que ela considerava indignos de convívio enquanto freqüentasse. Esse juízo favorável que pronunciou a respeito do cunhado de Legrandin se fundava provavelmente no aspecto apagado de alguém que nada tem para se impor; talvez tivesse reconhecido nesse fidalgo do campo com sacristão, os sinais maçônicos de seu próprio clericalismo.

            Por mais que me certificasse de que aqueles rapazes que todos montavam a cavalo em frente ao hotel eram os filhos do proprietário mal reputado de um magazine de novidades e que meu pai nunca teria consentido conhecer, a vida na praia os transformava, a meus olhos, em estátuas eqüestres semideuses, e o melhor que podia esperar era que nunca deixassem de lançarem olhares sobre o pobre rapaz que eu era, que só deixava a sala de jantar do hotel para ir sentar-se na areia. Gostaria de inspirar simpatia, até mesmo ao aventureiro que fora o rei de uma ilha deserta da Oceania, e até ao jovem tuberculoso, e aprazia-me pensar que sob aquele seu exterior insolente haveria uma alma tímida e carinhosa que talvez me guardasse tesouros de afeto. Aliás (ao contrário do que se costuma dizer das amizades feitas em viagem), como o sermos vistos na companhia de determinada pessoa pode nos conferir, numa praia para onde às vezes voltaremos, um prestígio seu igual na verdadeira vida mundana, não existe nada como as amizades dos banhos de mar, as quais a gente não só não evita como cultiva cuidadosamente na vida de Paris. Preocupava-me com a opinião de todas essas notabilidades momentâneas ou locais a meu respeito, devido à minha inclinação a me colocar no lugar das pessoas e a recriar seu estado de espírito; imaginava-as situadas não no seu nível real, aquele que teriam ocupado em Paris, por exemplo, e que seria um nível bastante inferior, mas no que pensavam ter, efetivamente, possuíam em Balbec, onde a falta de uma medida comum lhes dava uma superioridade relativa, emprestando-lhes um singular interesse. E, de todas essas pessoas, nenhuma havia cujo desprezo mais me fosse penoso como o do Sr. de Stermaria. Pois reparara em sua filha desde a entrada, seu lindo rosto pálido e quase azulado, o que havia de particular no porte de sua alta estatura, no seu modo de andar, e que com boas razões me evocava sua linhagem, sua educação aristocrática, e tanto mais nitidamente porque conhecia seu nome como aqueles temas expressivos criados pelos compositores de gênio e que pintam de modo esplêndido o fulgor das chamas, os murmúrios do rio e a paz campestre, que os ouvintes de um concerto, depois de terem folheado o programa, já de imaginação avivada, reconhecem bem. Acrescentando aos encantos da Srta. de Stermaria a idéia de sua causa, a "raça" tornava-os mais

completos e inteligíveis. Fazia-os também mais desejáveis, anunciando serem pouco acessíveis, como um preço elevado aumenta a estima de um objeto que nos agradou. A estirpe hereditária dava àquela epiderme composta de sumos selecionados o sabor de um fruto exótico ou de um molho célebre.

            Ora, o acaso pôs em nossas mãos, de repente, o modo de obtermos, minha avó e eu, um prestígio imediato aos olhos de todos os hóspedes do hotel. De fato, desde aquele primeiro dia, no momento em que a velha dama descia de seu quarto, produzindo, devido ao lacaio que a precedia e à camareira que corria atrás dela com um livro e uma manta esquecidos, uma viva impressão nos espíritos e excitando em todos nós uma curiosidade e um respeito aos quais era visível que nem o Sr. de Stermaria escapava, o gerente se inclinou para minha avó e, por amabilidade (como se mostra o xá da Pérsia ou a rainha Ranavalo a uma pessoa obscura que, evidentemente, não pode ter qualquer relação com a poderosa Majestade, mas deve gostar de vê-lo a poucos passos), segredou-lhe ao ouvido:

            "A marquesa de Villeparisis"; e, no mesmo instante ao olhar para minha avó, não pôde reter um olhar de surpresa alegre. Pode-se imaginar que a súbita aparição dela, nada mais influente, causou nos traços de uma velhinha. Não me causaria alegria maior, pois, não conhecia ninguém, sem quaisquer recurso para aproximar-me da Srta. de Stermaria. Isto é, não conhecia ninguém do ponto de vista prático. Porque esteticamente falando o número de tipos humanos é bastante limitado, onde quer que vá, do prazer de encontrar pessoas conhecidas sem ter necessidade de buscá-las; como fazia Swann com os quadros dos velhos mestres. Assim passamos os primeiros dias de nossa temporada em Balbec. Numa ocasião encontramos o porteiro dos Swann e a própria Sra. Swann, convertidos em garçom de café, num estranho de passagem que não volta a ver a praia. E uma espécie de imantação que atrai e retem por maneira tão inseparável bem apertadas umas junto à outras, certas características de fisionomia e mentalidade que quando a natureza assim introduz uma pessoa em um corpo novo não muda muito. Num garçom conservava intactos sua estrutura, o perfil do nariz e parte do queixo; a Sra. Swann, em sua nova condição no sexo masculino de banho, conservara não somente sua fisionomia, mas também sua forma especial de falar. Apenas, agora, no seu cinturão vermelho, usando a bandeirola que proíbe os banhos de mar (porque os banhos de mar aos que não sabem nadar, são muito prudentes); ela em seu antigo estado feminino como no afresco da Vida de Moisés, onde Swann a reconhecia por trás das feições da filha de Jetro. Ao passo que aquela Sra. de Villeparisis era na verdade não vítima de um encantamento que a despojasse de seu poder; ao contrário capaz de colocar influência à minha disposição, centuplicando-a; graças à ela como pelas asas de um pássaro fabuloso, levando-me em suas asas para diminuir as distâncias sociais infinitas - pelo menos em Balbec, que me separavam da Srta.de Stermaria.

            Infelizmente, se havia alguém mais fechado em seu universo particular, esse alguém era minha avó. Simplesmente não me compreenderia;  e no caso de haver se inteirado do interesse que me inspiravam as opiniões das pessoas e que experimentava grande prazer; mal notava e partiria de Balbec sem confessar-lhe que essas pessoas me dariam grande satisfação, pois o prestígio da marquesa no hotel e sua amizade nos colocaria em bom lugar aos olhos de Stermaria. Não que eu imaginasse que a amiga de minha avó não fosse o protótipo da aristocracia, pois estava muito acostumado com seu nome familiar aos meus ouvidos; antes que meu espírito desde menino, ouvia-o pronunciado em casa. Seu título sobre seu nome não era mais que uma particularidade estranha; como ocorre com esses nomes de ruas, diferente do que ocorre com os nomes de ruas tão vulgares e populares. A marquesa de Villeparisis, não me trazia a visão de um mundo especial; porém minha avó achava que não se fazia amizade durante as viagens. Achando que todos partilhavam da mesma idéia, no mesmo instante, que a velha dama Villeparisis, nos olhava, minha avó não pôde reter um olhar de alegre surpresa.

            A senhora de Villeparisis comia também no restaurante do hotel,  mas  no  extremo  oposto.  Não  conhecia  nenhuma  das pessoas que viviam no hotel ou que foram ali de visita, nem sequer o senhor do Cambremer; porque vi que este cavalheiro não a saudava um dia em que foi comer com sua esposa ao hotel, convidado pelo advogado de Cherburgo, o qual, transportado por aquela honra de sentar a sua mesa ao nobre, evitava a seus amigos de todos os dias e limitava-se a lhes fazer algum piscar de olhos de longe, maneira de aludir a este  acontecimento  histórico, bastante  discreto  para que  não pudesse tomar-se como um convite para aproximar-se de sua mesa.

            - Com todo o prazer; não tínhamos coragem de propô-la ao senhor, agora é comensal de marquesas! - disse aquela noite a mulher do magistrado.

            - Ora, vamos, eles não têm nada de tão extraordinário. Vejam, tenho de jantar na casa dela. Se quiserem, podem ir no meu lugar. É um oferecimento de coração. Francamente, tanto me faz ir como ficar...

            - Não, não, eu seria exonerado como reacionário. - Exclamou o magistrado, rindo até as lágrimas da piada. - E o senhor, também é recebido em Féter. - acrescentou, voltando-se para o tabelião.

            - Sim, vou lá aos domingos; questão de entrar por uma porta e sair outra. Mas eles não almoçam na minha casa como na casa do advogado.

            O Sr. de Stermaria não estava em Balbec naquele dia, para grande pesar advogado. Mas este, insidiosamente, comentou com o mordomo:

            -Aimé, pode dizer ao Sr. de Stermaria que ele não é o único nobre que está na sala de jantar. Reparou naquele senhor que almoçou comigo esta manhã? De bigodinho, e com ar militar? Muito bem, é o marquês de Cambremer.

            -Sim? Pois não me espanta.

            - Isto lhe mostrará que não é o único aristocrata no salão. Que fique sabendo! Não é mau baixar um pouco a crista desses nobres. Aimé, não diga se não quiser, não falo por mim; aliás, ele conhece bem o marquês.

            E no dia seguinte o Sr. de Stermaria, que sabia que o advogado defendia a causa de um de seus amigos, foi em pessoa apresentar-se.

            - Nossos amigos comuns, os de Cambremer, queriam precisamente reunir, nossos dias não coincidiram, e, enfim, não sei o que houve - disse o advogado; que, como muitos mentirosos, não imaginam que um dia alguém há de pôr em pratos limpos um detalhe insignificante, e que no entanto basta (se o acaso nos coloca a par de uma humilde realidade que está em contradição com o que se disse) para denunciar um caráter e inspirar desconfiança para sempre.

            Como sempre, porém mais facilmente enquanto o pai se afastara para conversar com o advogado, eu olhava a Srta. de Stermaria. Assim como a sua autoridade ousada, sempre bela as suas atitudes, feito quando, com os cotovelos apoiados na mesa, erguia o copo acima dos antebraços; a secura do olhar esgotado; a dureza fundamental e familiar que se percebia, mal encoberta inflexões pessoais; no fundo da voz, e que havia chocado minha avó; uma estátua de cânone atávico ao qual ela voltava quando acabava de expressar seu pensamento com um olhar ou uma entonação de voz; tudo isso fazia imaginar, a que contemplava, a linhagem que lhe legara essa insuficiência de simpatia humana; lacunas de sensibilidade, uma carência de amplitude de caráter em sua forma que a todo instante fazia falta. Mas certos olhares que passavam rapidamente no fundo árido de suas pupilas e nos quais sentia-se aquela doçura quase humilde; o gosto predominante dos prazeres dos sentidos confere à mulher mais orgulhosa que algum dia acabará dando valor apenas a quem lhe proporcionar tais prazeres, seja um cômico ou um saltimbanco, pelo qual talvez um dia largará o marido; em certo matiz de pele, vivo e rosado, que se espalhava por suas faces pálidas, semelhante ao que coloria de encarnado o coração das ninféias do Vivonne, eu julgava sentir que ela facilmente me permitiria que fosse nela buscar o gosto daquela vida tão poética que levava na Bretanha, vida à qual, fosse por hábito, por distinção inata, por nojo da pobreza ou da avareza dos seus, parecia dar tão pouco valor, e que, no entanto, ela mantinha eclusa em seu corpo. Na fraca reserva de vontade que lhe fora transmitida e que dava à sua expressão algo de covarde, talvez não encontrasse a Srta. de Stermaria apoio suficiente para resistir. O chapéu de feltro cinza, encimado por uma pluma um tanto fora de moda e pretensiosa, que ela usava invariavelmente em cada refeição, fazia-a mais simpática ainda a meus olhos, não porque se harmonizasse com sua pele argêntea e rosada, e sim porque, por ele, imaginava eu que não fosse rica, aproximando-a de mim. Obrigada a uma atitude convencional devido à presença do pai, mas guiando-se já por princípios diversos dele, para olhar e classificar as pessoas que estavam à sua frente, talvez visse em mim não a linhagem insignificante, mas o sexo e a idade. Se um dia o Sr. de Stermaria saísse sem ela, principalmente se a Sra. de Villeparisis viesse sentar-se em nossa mesa e assim lhe desse a nosso respeito uma opinião que me encorajasse a me aproximar dela, talvez pudéssemos trocar algumas palavras, marcar um encontro, ligar-nos mais. Num mês em que ela ficasse sozinha sem os pais, em seu castelo romanesco, talvez passeássemos ao crepúsculo, quando suavemente reluzissem as flores róseas das sarças sobre a água ensombrecida, debaixo dos carvalhos onde vinham morrer as ondas. Juntos, percorreríamos essa ilha imaginada por mim com tanto encanto porque teria enfeixado a vida habitual da Srta. de Stermaria e que repousava na memória de seus olhos. Pois parecia-me que não a possuiria de verdade senão ali, quando tivesse atravessado aqueles lugares que a rodeavam de tantas recordações, véu que o meu desejo queria arrancar, desses que a natureza interpõe entre a mulher e algumas criaturas (com a mesma intenção com que coloca, para todos, o ato de reprodução entre os seres humanos e o mais vivo prazer, e, no caso dos insetos, entre estes e o néctar, o pólen que eles devem transportar) a fim de que, enganados pela ilusão de possuí-la, assim de modo mais completo, sejam forçados a se apoderar primeiro das paisagens em que ela vive, e que, mais úteis para sua imaginação que o prazer sensual, não teriam contudo, sem ele, força bastante para atrair os homens. Mas tive de deixar de olhar a Srta. de Stermaria, pois seu pai, considerando sem dúvida que entrar em relações com uma personalidade importante era um ato curioso e breve, que se bastava a si mesmo e que, para desenvolver todo o interesse que comportava, não exigia mais que um aperto de mão e um olhar penetrante sem conversação imediata nem relações posteriores, já se despedira do advogado e voltara a sentar-se à frente dela, esfregando as mãos como um homem que há de fazer uma preciosa aquisição. Quanto ao advogado, tão logo passara a prior emoção daquela entrevista, como nos outros dias, ouviram-no por alguns instantes dirigir-se ao mordomo:

            - Mas eu não sou rei, Aimé; vá você ver o rei... Diga, meu caro presidente, é verdade que essas trutas têm muito bom aspecto? Vamos pedi-las a Aimé. Parecem-me bem recomendáveis esses peixinhos que você tem aí; traga-nos uns tantos deles, Aimé. - Repetia o tempo todo o nome de Aimé, de modo que, quando tinha - convidado para jantar, este lhe dizia:

            "Vejo que conhece muito bem a casa", e julgava dever também pronunciar constantemente "Aimé", devido à predisposição de certas pessoas em achar espirituoso e elegante imitar literalmente aquelas a quem se encontram, atitude em que entram, ao mesmo tempo, a timidez, a vulgaridade e a idiotice. Repetia-o sem parar mas com um sorriso, pois fazia questão de ostentar, a um tempo, as boas relações com o mordomo e sua superioridade sobre ele. E o próprio mordomo, toda vez que era pronunciado o seu nome, sorria um ar de carinho e orgulho mostrando que reconhecia a honra e compreendia o gracejo.

            Eram sempre aborrecidas para mim as refeições naquele vasto restaurante do Grande Hotel, normalmente apinhado, mas tornavam-se ainda mais quando chegava, para passar alguns

dias, o proprietário (ou gerente-geral eleito por assembléia de acionistas, não sei) não só daquele hotel como de sete outros situados em todas as partes da França, e que se habituara a estar sempre numa roda-viva de hotel em hotel, uma semana em cada um. Então, quase a princípio do jantar, aparecia todas as noites, na entrada da sala de jantar, homenzinho de cabelos brancos e nariz vermelho, de impassibilidade extraordinária, e que era, ao que parece, conhecido, tanto em Londres como em Monte Cario, como um dos primeiros hoteleiros da Europa. Uma ocasião eu havia saído um instante no início do jantar, como na volta passasse por todos, saudou-me, sem dúvida para mostrar que eu estava em sua casa, mas com frieza cujo motivo não consegui saber se se tratava da reserva de alguém que não esquece do que representa, ou do desdém por um freguês sem importância daqueles que, ao contrário, tinham grande importância, o gerente-geral se via, igualmente frio, porém mais profundamente, as pálpebras abaixadas; espécie de respeito pudico, como se tivesse à sua frente, numa cerimônia o pai da morta ou o Santo Sacramento. A não ser por esses cumprimentos e raros, não fazia um só movimento, como para mostrar que seus olhos davam a impressão de lhe saltarem do rosto, viam tudo; regulavam, asseguravam no "Jantar do Grande Hotel" não só o acabamento dos detalhes, mas a harmonia do conjunto. Evidentemente, ele se sentia muito mais que um regente de orquestra; sentia-se um verdadeiro generalíssimo. Julgando que uma contemplação levada ao máximo de intensidade era o bastante para lhe assegurar que tudo estava preparado, que nenhum erro cometido poderia acarretar a desordem; para assumir enfim suas responsabilidades, abstinha-se não só de qualquer gesto, como até de mover os olhos petrificados, pela atenção que abarcava e dirigia a totalidade das operações. Eu sentia que mesmo os movimentos da minha colher não lhe escapavam e, conquanto se eclipsasse logo após tomada a sopa, a revista que acabava de fazer me tirava o apetite para o resto da refeição. Seu apetite, no entanto, era muito bom, como se podia ver quando almoçava como simples particular, à mesma hora que os demais, na sala de jantar. Sua mesa apenas tinha uma peculiaridade: é que, ao lado, enquanto ele comia, o gerente habitual permanecia de pé o tempo inteiro conversando. Pois, sendo subordinado ao gerente-geral, procurava lisonjeá-lo e tinha-lhe muito medo. Durante essas refeições, eu sentia menos medo, pois o gerente, perdido no meio dos clientes, assumia a discrição de um general sentado em um restaurante onde há também soldados, e que tem o ar de não se ocupar deles. Todavia, quando o porteiro, cercado de seus criados, me anunciava:

            "Amanhã ele vai para Biarritz e depois para Cannes" eu respirava mais livremente.

            Minha vida no hotel se tornara não só triste, porque não tinha relações, mas incômoda, porque Françoise, em compensação, fizera muitas. Pode parecer que tais relações nos teriam facilitado muita coisa. Pelo contrário. Os proletários, embora lhes fosse muito difícil serem tratados como conhecidos por Françoise e só o conseguissem à custa de certas finezas para com ela, em compensação, quando por fim lhe alcançavam as graças, eram as únicas pessoas a lhe merecerem consideração. Seu velho código lhe ensinava que nada devia aos amigos dos patrões e, se estivesse apressada, podia mandar embora uma dama que tivesse vindo visitar minha avó. Mas, no tocante às próprias relações, ou seja, com as raras pessoas do povo admitidas à sua difícil amizade, suas ações eram reguladas pelo protocolo mais sutil e absoluto. Assim Françoise, tendo travado relações com o cafeteiro do hotel e com uma criadinha de quarto que fazia vestidos para uma senhora belga, não subia mais para preparar as coisas de minha avó imediatamente após o almoço, e sim uma hora mais tarde, porque o cafeteiro queria lhe preparar café ou chá na cafeteria, e a criada de quarto lhe pedia que fosse vê-la coser, e recusar-se a tal era-lhe impossível, pois tais coisas não se fazem. Além disso, a criadinha de quarto merecia-lhe atenções especiais, pois era órfã e fora educada por uma família estranha, em cuja casa costumava passar alguns dias. Tal situação excitava a piedade de Françoise bem como o seu desdém benevolente. Ela que possuía família, uma casinha que herdara dos pais e onde o irmão criava algumas Vacas, não podia considerar sua igual uma moça sem lar nem parentes. E, como esta esperava o dia 15 de agosto para visitar os benfeitores, Françoise não podia deixar de repetir:

            -Ela me faz rir. Diz: espero ir para casa no dia 15 de agosto, casa, diz ela! E nem sequer é sua terra; trata-se de pessoas que a recolheram, e chama de sua casa como se fosse verdadeiramente sua. Pobre menina! Bastante pobrezinha para não se dar conta do que é ter uma casa.-

            Embora Françoise não se relacionasse senão com criadas de quarto trazidas pelos hóspedes, as quais jantavam com ela no "refeitório dos serviçais" e que, diante a sua touca de rendas e seu fino perfil, a tomavam por uma dama, talvez nobre, requerida pelas circunstâncias ou pelo afeto a dama de companhia de minha avó, se, palavra, Françoise só conhecesse pessoas que não trabalhavam no hotel, o mal teria sido grande; pois ela não teria podido impedi-las de nos servir para a coisa, simplesmente porque, em caso algum, e mesmo desconhecidos dela, não nos serviria de nada. Mas ela também se ligara em amizade com o copeiro, com um ajudante de cozinheiro e com uma primeira camareira. No que diz respeito à nossa vida diária, foi que Françoise, que no dia  em que ela chegou, quando ainda não conhecia ninguém, tocava a campainha por qualquer coisa em horas inoportunas, quando nem minha avó nem eu teríamos coragem de fazê-lo, e respondia, se lhe fazíamos uma ligeira observação:

            "Mas a gente paga bem caro pelo serviço" como se pagasse do próprio bolso, agora que era uma personalidade da cozinha, o que nos parecera de bom agouro para nossa comodidade. Se minha avó ou eu tínhamos frio nos pés, Françoise, na mesma hora, achando perfeitamente normal, não se atrevia a tocar; afirmava que aquilo não pegaria bem, pois obrigaria a reacenderem os fornos ou incomodaria os criados, que ficavam descontentes. E terminava com uma locução que, apesar da forma insegura que a pronunciava, não era menos clara e nos fazia perder a paciência:

            "A Vê é que...". Não insistíamos, de medo que nos saísse com uma outra, bem grave: "Seja o que for..." De modo que não mais podíamos ter água quente. Françoise se tornara amiga da pessoa a quem cabia esquentar a água. Por fim, nós também fizemos uma amizade, embora sem que minha avó quisesse, pois ela e a Sra. de Villeparisis se encontraram certa manhã em frente, passando por uma porta, e foram obrigadas a se falarem, não sem trocarem gestos de surpresa e de hesitação, e executando movimentos de recuo, de que, afinal, fazendo protestos de delicadeza e alegria, como em certas cenas de uma peça onde dois atores monologam há muito tempo, cada um de seu lado, acompanhando os passos um do outro, fazendo de conta que não se viram ainda, e de repente se reconhecem, não podem crer nos seus olhos, entrecortam suas frases e finalmente juntos - o coro vindo após o diálogo - se lançam nos braços um do outro. Ao de um instante, a Sra. de Villeparisis, por discrição, quis deixar a minha avó que ao contrário, reteve-a até o almoço, desejando saber como procedia ela para mais cedo o correio e para que lhe servissem boa carne grelhada; pois a Villeparisis, muito gulosa, gostava bem pouco da cozinha do hotel. Serviam refeições que minha avó sempre citando a Sra. de Sévigné, a "tão magníficas que nos matavam de fome". E a marquesa todos os dias aceitava sentar-se à nossa mesa, enquanto esperava que a servissem; permitia que nos levantássemos ou nos incomodássemos por sua presença e demorávamos à mesa, conversando com ela, tendo terminado naquele momento sórdido em que as facas jazem na toalha junto dos desfeitos. De minha parte, a fim de conservar, para poder gostar de que estava na extremidade da terra, esforçava-me por olhar somente o mar, procurar nele os efeitos descritos por Baudelaire e olhar cair sobre a mesa senão nos dias em que haviam servido um monstro marinho que, ao contrário das facas e dos garfos, era de conter épocas primitivas, quando a vida começava a surgir no Oceano, cujo corpo, dotado de inumeráveis vértebras, de nervos fora construído pela natureza mas segundo um plano arquitetônico de catedral polícroma dos mares. Assim como o barbeiro que, ao ver que um oficial a quem com especial consideração reconhece um freguês que acaba de entrar para conversar com ele, se regozija ao compreender que são da mesma época não pode deixar de ir sorrindo, em busca da saboneteira, pois no estabelecimento, juntam-se às tarefas ordinárias de simples salão, os prazeres sociais, e até mesmo aristocráticos. Assim Aimé, vendo que Villeparisis encontrara em nós amizades antigas, ia em busca de taça boa com o mesmo sorriso orgulhosamente modesto e sabiamente de uma dona-de-casa que sabe se retirar no momento oportuno. Dir-se-ia de um pai feliz e enternecido que vigia, sem perturbá-la, a ventura de um moço que principiou em sua mesa. De resto, bastava que pronunciassem diante de uma pessoa dotada de um título, para que Aimé parecesse feliz. Françoise, diante de quem não se podia dizer "o Sr. conde Fulano" a fisionomia ficasse sombria e suas palavras fossem secas e breves, fazia com que ela estimasse a nobreza em grau inferior a Aimé. Aliás, Françoise possuía uma qualidade que nos outros é o maior dos defeitos: era orgulhosa. Não era do tipo agradável de  Aimé, tipo que sente e manifesta um vivo prazer quando suplicante, mas inédito, que não saiu nos jornais. Françoise, ao contrário, demonstrava espanto. Se houvessem dito diante dela que o arquiduque de cuja existência jamais suspeitara, não havia morrido como ainda vivia, teria respondido "sim", como se o soubesse há muito. Françoise, mesmo de nossos lábios, lábios de quem ela chamava seus patrões; que a tínhamos quase inteiramente do mesmo modo que um parente; não podia ouvir o nome de um nobre sem ter de reprimir um movimento; da família a que pertencia, ocupasse na sua aldeia uma posição de destaque, e que só devia ser perturbada na consideração de que gozava pelos mesmos nobres em cuja casa Aimé, pelo contrário, servira como criado desde a infância, se é que não fora educado por caridade. Assim, para Françoise, a Villeparisis é que tinha de pedir perdão por ser nobre. Mas, ao menos na França precisamente o talento; a única ocupação dos grão-senhores e das grandes Françoise, obedecendo à tendência dos criados a sempre andarem recolhendo respeito de seus patrões, informações fragmentárias sobre suas relações com as outras pessoas, das quais às vezes extraem deduções errôneas - como o faz homens acerca da vida dos animais -, achava a cada instante que estava em falta conosco. Conclusão a que aliás chegava com facilidade tanto devido ao exagerado por nós quanto ao grande prazer que sentia em nos ser desagradável. Tendo porém constatado, sem erro possível, as mil atenções que a Sra. de Villeparisis, tinha para conosco e até para com ela, Françoise perdoou-lhe o fato de ser marquesa; como ao mesmo tempo, nunca havia deixado de respeitá-la por seu título, de preferi-la a todos os nossos conhecidos. A verdade é que nenhum deles se esforçava ser tão continuamente amável. Toda vez que a minha avó reparava num livro a Sra. de Villeparisis estava lendo, ou dizia ter achado muito bom. Algumas frutas lhe mandara uma amiga, uma hora após um lacaio subia para nos trazer tais frutas. E, quando a víamos depois, para responder aos nossos agradecimentos, ela se contentava em dizer, dando a impressão de procurar desculpar; com o pretexto de uma utilidade especial:

            "Não é uma obra-prima, mas já chegam tão tarde, é necessário ter algo para ler" ou "é sempre mais prudente frutas confiáveis quando se está à beira-mar."

            - Mas parece que vocês não comem ostras nunca. - disse à Villeparisis (aumentando a minha náusea daquela hora, pois a carne viva das ostras me repugnava ainda mais que a viscosidade das medusas que me incomodavam na praia de Balbec) ; aqui são excelentes! Ah, vou dizer à minha criada de que vá pegar sua correspondência ao mesmo tempo que a minha. Como? Sua filha lhe escreve todos os dias? E o que é que vocês encontram para dizer uma à outra?

            Minha avó se calou, creio que por desdém, ela que repetia para mamãe as palavras da Sra. de Sévigné:

            "Logo que recebo uma carta, já queria ter outra, antes de recebê-la. Poucas pessoas são dignas de compreender o que sinto."

            Receei que aplicasse à Sra. de Villeparisis a conclusão:

            "Procuro a minoria que me corresponde e evito os outros."

            Mas ela mudou de assunto para elogiar as frutas que Villeparisis nos mandara na véspera. Eram, de fato, tão lindas que o gerente, desgosto de ver suas compoteiras desprezadas, me dissera:

            - Sou como o senhor; tenho um fraco maior pelas frutas do que por qualquer outra. Minha avó disse a sua amiga que ainda mais lhe agradecia, pois as que serviam no hotel em geral eram detestáveis.

            - Não posso dizer como a Sra. de Sévigné.- acrescentou - que, se não quisermos ter frutas ruins, seríamos obrigadas a mandá-las vir de Paris.

            -Ah, sim, a senhora lê a Sra. de Sévigné. Vejo-a desde o primeiro dia com suas Cartas (esquecia que nunca vira a minha avó no hotel antes de reencontrá-la naquela porta). Não acha que ela é um pouco exagerada com aquela preocupação constante a respeito da filha; parece que fala demais no assunto para ser sincera. Falta-lhe naturalidade. Minha avó achou inútil a discussão e, para evitar ter de falar de coisas de que gostava diante de alguém que não podia compreendê-las, escondeu com a valise as ''Memórias da Sra. de Beausergent.''

            Quando se encontrava com Françoise, no momento que esta chamava de "meio-dia", em que, com sua bela touca e cercada da consideração geral, descia para comer "no refeitório dos criados", a Sra. de Villeparisis a detinha para pedir notícias nossas. E Françoise nos transmitia os recados da marquesa:

            - Ela disse: "Dê-lhes bom-dia de minha parte" -, imitando a voz da Sra. de Villeparisis, da qual julgava citar textualmente as palavras, não as deformando menos que Platão as de Sócrates ou São João as de Jesus.

            Naturalmente, Françoise ficava muito sensibilizada com essas atenções. Quando minha avó afirmava que a Sra. de Villeparisis fora deslumbrante na juventude, não acreditava, achando que esta mentia por interesse de classe, pois os ricos se defendem uns aos outros. É verdade que daquela beleza de outrora subsistiam bem poucos indícios, e, para reconstituir com eles a beleza perdida, seria preciso ser mais artista que Françoise. Pois, para bem compreender o quanto uma velha pode ter sido bonita, não basta olhar mas traduzir cada feição.

            -Preciso me lembrar de lhe perguntar um dia se não me engano ao achar que existe algum parentesco entre ela e os Guermantes - disse minha avó, que com isso me indignou.

            Como era possível que eu acreditasse na origem comum de dois nomes que haviam entrado em mim através de portas tão diferentes, um pela porta baixa e vergonhosa da experiência, outro pela porta de ouro da imaginação? Via-se passar por ali, já por alguns dias, com vistoso aparato, a princesa de Luxemburgo, alta, ruiva, linda, com um nariz um tanto saliente; passava algumas semanas na região. Havia parado diante do hotel, e um lacaio fora falar ao gerente, voltando a carruagem para pegar um cesto de frutas maravilhosas (que uma em uma só corbelha, como a baía, estações diferentes), com um cartão:

            "A Princesa de Luxemburgo", onde estavam escritas algumas palavras a lápis. A que viajante principesco, que permanecesse incógnito no hotel, poderiam ser destinadas aquelas glaucas ameixas, luminosas e esféricas, como a redondeza do mar naquele momento; aquelas uvas transparentes, pendentes do galho seco como um claro dia de outono; aquelas pêras de um azul celeste? Pois certamente a pessoa a quem a princesa vinha visitar não podia ser a amiga de minha avó. Entretanto, na tarde seguinte, a Sra. de Villeparisis nos mandou aquele cacho de uvas fresco e dourado além de umas ameixas e pêras que logo reconhecemos.

            Eu me indagava por que acaso, na luneta indiferente pela qual a Sra. de Villeparisis considerava de muito longe a agitação sumária, minúscula e vaga da multidão de pessoas que conhecia, se encontrava intercalado, no local onde ela via meu pai, um pedaço de vidro prodigiosamente aumentativo que a fazia ver com tanto destaque e no maior detalhe, tudo o que ele possuía de agradável, as contingências que o forçavam a voltar, seus aborrecimentos de alfândega, seu gosto por El Greco, e, mudando para ela a escala de visão, mostrava-lhe este único homem tão grande no meio dos outros, bem pequeninos, como aquele Júpiter a que Gustave Moreau conferiu, quando o pintou ao lado de um frágil mortal, uma estatura mais que humana.

            Minha avó despediu-se da Sra. de Villeparisis para que pudéssemos ficar mais um momento a respirar o ar livre diante do hotel, à espera de que nos fizessem sinal, pela vidraça, de que o nosso almoço estava servido. Ouviu-se um tumulto. Era a jovem amante do rei dos selvagens que acabara de tomar seu banho de mar e entrava para o almoço.

            - Na verdade é uma praga; é o caso da gente deixar a França! - gritou com raiva o advogado, que passava naquele instante.

            Entretanto, a esposa do tabelião arregalava os olhos para a falsa rainha.

            - Não posso lhes dizer como a Sra. Blandais me irrita reparando em pessoas desse tipo -

disse o advogado ao presidente. - Gostaria de lhe dar um tapa. É assim que se dá importância a essa gentalha que certamente não deseja outra coisa. Diga ao marido dela para avisá-la que isto é ridículo; quanto a mim, não saio mais na companhia deles se continuam a prestar atenção aos embusteiros.

            Quanto à visita da princesa de Luxemburgo, cuja carruagem e acessórios, no dia em que viera trazer as frutas, parara diante do hotel não havia escapado ao grupo da mulher do tabelião, da do advogado e do primeiro magistrado, já desde algum tempo muito agitadas para saber se se tratava de uma legítima marquesa e não de uma aventureira aquela Sra. de Villeparisis a quem mostravam tanta deferência. Todas aquelas senhoras ardiam por descobrir que a marquesa era indigna dessa consideração. Quando a Sra. de Villeparisis atravessava o hall a mulher do primeiro magistrado, que em toda parte vislumbrava irregularidades, erguia o nariz do trabalho e olhava-a de um modo que fazia as amigas morrerem de rir.

            - Oh, vocês sabem que eu - dizia ela com orgulho - começo sempre por pensar mal. Não consigo admitir que uma mulher esteja verdadeiramente casada senão depois de ver a certidão de nascimento e os registros da cerimônia de casamento. Aliás, não se incomodem que vou fazer um pequeno inquérito.

            Todos os dias aquelas senhoras vinham rindo.

            - Vimos saber das novidades.

            Mas, no dia da visita da princesa de Luxemburgo, a mulher do primeiro magistrado pôs um dedo sobre os lábios.

            -Temos novidades.

            - Oh, a senhora Poncin é extraordinária! Nunca vi ninguém assim! Mas diga... o que é que há?

            - Muito bem: uma mulher de cabelos louros, uma grossa camada de pintura no rosto, um carro que cheirava a prostitutas a uma légua de distância, e como só essas senhoritas possuem, veio há pouco para visitar a pretensa marquesa.

            -Ora, ora! Não diga! Ora vejam! mas é aquela dama que vimos, lembram? Bem que achamos que não nos enquadrava bem, mas não sabíamos que tinha vindo para ver a marquesa. Uma mulher com um negro, não?

            - Essa mesma.

            -Vejam só! E não sabe o nome dela?

            - Sim, fingi que me enganava e peguei seu cartão; tem como nome de guerra o de princesa de Luxemburgo! Bem que eu tinha razão de desconfiar. Muito agradável estarmos aqui nessa promiscuidade com esta espécie de baronesa d'Ange.

            O advogado citou Mathurin Régnier e Macette ao primeiro magistrado. Aliás, não é necessário crer que semelhante mal-entendido fosse momentâneo, como os que se formam no segundo ato de um vaudeville para se resolverem no último ato. A Sra. de Luxemburgo, sobrinha do rei da Inglaterra e do imperador da Áustria, e a Sra. de Villeparisis pareceram sempre, quando a primeira vinha buscar a segunda para passearem de carro, duas estouvadas, dessas que é bem difícil evitar nas estâncias balneárias. Três quartas partes dos homens do faubourg Saint-Germain passam aos olhos de uma boa parte da burguesia por crápulas arruinados (o que aliás são às vezes, individualmente) e que, portanto, ninguém recebe. A burguesia é por demais honesta nesse ponto, pois as suas taras não os impediriam de forma alguma de serem recebidos com o maior favor onde ela jamais o será. E, de tal maneira imaginam que a burguesia o sabe, que afetam com uma simplicidade no que lhes diz respeito, um menosprezo pelos amigos particularmente "duros", que aumenta ainda mais o mal-entendido. Se por acaso um homem da alta sociedade se relaciona com a pequena burguesia porque, sendo extremamente rico, ocorre-lhe presidir as mais importantes sociedades financeiras, a burguesia, que vê por fim um nobre digno de ser um grande burguês, juraria que ele não convive com o marquês jogador e arruinado, a quem julga tanto mais desprovido de relações quanto mais amável. E qual não é seu espanto quando o duque, presidente do conselho administrativo da colossal empresa, dá ao filho por esposa a filha do marquês; jogador, mas cujo nome é o mais antigo da França, assim como um soberano antes fará seu filho casar-se com a filha de um rei destronado que a de um presidente da república no exercício de seu mandato. Quer dizer que os dois mundos têm, um do outro, uma noção tão quimérica como os habitantes de uma praia situada numa das extremidades da baía de Balbec têm da praia localizada na outra extremidade: de Rivebelle avista-se um pouco Marcouville -l'Orgueilleuse, mas mesmo isto ilude, pois a gente julga ser avistado de Marcouville, de onde ao contrário, os esplendores de Rivebelle são em grande parte invisíveis.

            O médico de Balbec, chamado em virtude de um acesso de febre tivera, achou que eu não deveria ficar o dia inteiro à beira-mar, em pleno soalheira, e prescreveu para meu uso algumas receitas. Minha avó as tomou com um respeito aparente, onde logo reconheci sua firme decisão de não cumprir nenhuma, mas levou em consideração o conselho em matéria de higiene e aceitar o oferecimento da Sra. de Villeparisis para alguns passeios de carro. Eu ia à hora do almoço, do meu quarto ao de minha avó. Este não dava diretamente ao mar, como o meu, mas recebia luz de três lados diversos: de uma extremidade do molhe, de um pátio e do campo, e era mobiliado de modo diferente, com toalhas bordadas de filigranas metálicas e de flores róseas de onde parecia emanam suave e agradável que a gente encontrava ao entrar. E, nessa hora em que vindos das exposições e como que de horas diversas quebravam os ângulos do muro, ao lado de um reflexo da praia, punham na cômoda um repositório como as flores do caminho, suspendiam à parede as asas dobradas, têm as mornas de uma claridade em vias de retomar seu vôo, aqueciam como um retângulo de tapete provinciano diante da janela do patiozinho; que engrinaldava como a uma videira, aumentavam o encanto e a complexidade da decoração dos móveis, parecendo esfoliar a seda florida das poltronas, aquele quarto que eu atravessava um momento antes de me vestir para o passeio, dava a impressão de um prisma onde se decoram as cores da luz de fora, ou de uma colméia onde os sucos do dia que estivessem dissociados, esparsos, inebriantes e visíveis, ou de um jardim a lembrança que se dissolvesse numa palpitação de raios de prata e de pétalas. Porém, antes de tudo, eu abrira minhas cortinas na impaciência de saber onde a marquesa brincava aquela manhã na praia, como uma nereida. Pois nenhum desses mares ficava por ali mais de um dia. Na manhã seguinte haveria outra vez que se parecia com ele. Mas nunca vi duas vezes o mesmo mar. Havia uns de beleza tão rara que, ao percebê-los, o meu prazer em ser constatado ainda pela surpresa. Que privilégio teria uma manhã sobre as outras; a janela, ao entreabrir-se, desvelasse aos meus olhos maravilhados, glaucônome, cuja preguiçosa beleza e suave respirar tinham a transparência de uma vaporosa esmeralda, através da qual eu via fluírem os elementos que a coloriam? Fazia o sol brincar com um sorriso enfraquecido por mais invisível, que outra coisa não era que o espaço vazio reservado à superfície translúcida, que assim se tornava mais abrangente e sedutor que essas deusas que o escultor salienta em meio a um bloco, que nem consegue desbastar. Assim, com sua cor única, o mar nos convidava ao passeio pelos caminhos grosseiros e terrenos, de onde, instalados na carruagem da Sra. De Villeparisis contemplaríamos o dia inteiro, sem nunca o alcançar, o frescor de sua palpitação macia. A Sra. de Villeparisis mandara atrelar cedo, para que tivéssemos tempo de ir a Saint-Mars-le-Vêtu, ou aos rochedos de Quetteholme, ou até qualquer outro ponto de excursão que, para um carro muito vagaroso, seria bem distante e levava o dia inteiro. Na minha alegria pelo passeio demorado que íamos fazer, cantarolava uma canção recentemente ouvida e andava de um lado para o outro à espera de que a Sra. de Villeparisis se aprontasse. Se fosse domingo, seu carro não estaria sozinho diante do hotel; vários fiacres alugados esperavam não só as pessoas que eram convidadas para o castelo de Féterne, pela Sra. de Cambremer, mas as que, em vez de ali ficarem como crianças castigadas, declaravam que o domingo era um dia aborrecido em Balbec e iam se esconder, logo após o almoço, numa praia vizinha ou visitar algum lugar das redondezas. Muitas vezes, quando perguntavam à Sra. Blandais se fora à casa dos Cambremer, ela respondia peremptoriamente:

            - Não, estávamos na cascata do Balbec -, como se fosse esta a única razão pela qual não passara o dia todo em Féterne. E o advogado afirmava caridosamente:

            - Invejo-os. Com muito gosto teria trocado com vocês; é bem mais divertido. Junto dos carros, diante do pórtico onde eu esperava, estava plantado, como um arbusto de rara espécie, um jovem criado do hotel que chamava a atenção de todos menos pela singular harmonia dos cabelos coloridos que por sua epiderme de planta. No interior, no hall que correspondia ao nártex, ou igreja dos catecúmenos dos templos romanos, e onde tinham direito a entrar as pessoas que não residiam no hotel, os companheiros do groom "externo" não trabalhavam muito mais que ele; porém ao menos executavam alguns movimentos. É provável que de manhã ajudassem na limpeza; mas de tarde estavam ali apenas como esses membros do coro que, mesmo quando não servem para nada, permanecem em cena para aumentar o número de figurantes. O gerente-geral, o mesmo que me dava tanto medo, contava aumentar consideravelmente o seu número no próximo ano, pois ''via em ponto grande". Sua decisão muito afligia o gerente do hotel, que achava que todos aqueles meninos não passavam de uns impertinentes, querendo com isso dizer que estorvavam a passagem e eram inúteis. Mas, pelo menos no espaço entre o almoço e o jantar, entre as saídas e regressos dos hóspedes, preenchiam eles o vazio da ação, como as alunas da Sra. de Maintenon que, vestidas de jovens israelitas, dançam um intermezzo cada vez que Ester ou Joab saem de cena. Mas o groom de fora, tão rico em matizes, de talhe delgado e frágil, perto de quem eu esperava que a marquesa descesse, conservava uma imobilidade cheia de melancolia, pois seus irmãos mais velhos tinham largado o hotel por destinos mais brilhantes e ele se sentia isolado naquela terra estranha. Enfim chegou a Sra. de Villeparisis. Talvez coubesse ao groom mandar o carro se aproximar e ajudar a senhora a subir; mas, por um lado, sabia que quem traz a criadagem consigo deve servir-se deles e, em geral, dá poucas gorjetas num hotel, e que, por outro nobres do velho faubourg Saint-Germain procedem da mesma maneira. A Villeparisis pertencia ao mesmo tempo a essas duas categorias. Que arborescente concluía daí que nada havia a esperar da marquesa; deixando o mordomo e a criada de quarto desta que a instalassem no carro com seus; sonhava tristemente com a sorte invejável dos irmãos sem sair de sua imagem vegetal.

            Partíamos; algum tempo após ter contornado a estação de trem, estávamos numa estrada rústica que em breve se tornou tão familiar como Combray, desde o cotovelo que principiava a se meter por entre cercados até a outra volta, quando o abandonávamos, e que, de cada lado, terras cultivadas. No meio delas, via-se aqui e ali uma macieira, é certo que de suas flores não trazendo mais que um buquê de pistilos, mas que me encantaram porque reconhecia essas folhas inimitáveis, em cuja ampla beleza, como pelo tapete de uma festa nupcial já terminada, passara recentemente de cetim branco para de flores avermelhadas. Quantas vezes em Paris, no mês de maio do ano seguinte, ocorria comprar um ramo de macieira numa florista e passar a noite diante deste onde desabrochava aquela mesma essência cremosa a polvilhar ainda a espuma, os brotos das folhas; e parecia que entre suas brancas corolas como por generosidade comigo, por gosto inventivo e também por contraste, tinha posto como brinde, de cada lado, um botão róseo que lhe contemplava, colocava-as à luz da lâmpada, por tanto tempo que ainda assim estava ali quando a aurora lhes trazia a mesma vermelhidão; estar mostrando ao mesmo tempo sobre Balbec (eu procurava naquela estrada por meio da imaginação, multiplicá-las, e estendê-las) preparado, sobre a tela já pronta, quadro que formava como aquelas do desenho que sabia de cor e que tanto desejaria ver - e um dia haveria de conseguir o momento em que a primavera cobre as telas de suas cores com a inspiração do gênio.

            Antes de subir para o carro, já compusera o quadro marinho, na esperança de vê-lo sob o "sol radiante", que em Balbec eu só visse fragmentado entre tantas coisas vulgares e que meu sonho não admitia, cabines, iates de recreio. Mas, quando o carro da Sra. de Villeparisis chegou de uma colina, eu avistava o mar entre as folhagens; desapareciam na distância os detalhes contemporâneos que, por assim dizer, tinham da natureza e da história; eu podia, olhando as ondas, esforçar-me por que eram as mesmas que Leconte de Lisle nos pinta na Orestíada, quando os guerreiros da heróica Hélade, "feito bandos de pássaros, com cem mil vibram ao mar sonoro". Mas em compensação, já estava agora; mais o mar não se apresentava com vida e, sim, entorpecido; eu já não sentia força em suas cores estendidas, como as de uma pintura, entre as folhas das árvores; a água parecia tão inconsistente como o céu, e apenas um tanto mais escura que ele.

            Vendo que eu gostava das igrejas, a Sra. de Villeparisis prometia-me que haveríamos de visitá-las aos poucos; principalmente a de Carqueville, "toda coberta de hera antiga", disse ela, fazendo com a mão um movimento que parecia envolver com prazer a fachada ausente em uma folhagem delicada e invisível. A Sra. de Villeparisis, com freqüência, tinha desses miúdos gestos descritivos, acompanhados de uma palavra precisa para definir o encanto e a particularidade de um monumento, evitando sempre os termos técnicos, mas sem poder dissimular que sabia muito bem das coisas de que falava. À maneira de desculpa, alegava que um dos castelos de seu pai, no qual se criara, ficava num distrito em que havia igrejas de estilo semelhante às dos arredores de Balbec, e teria sido vergonhoso que ela não tomasse gosto pela arquitetura, ainda mais que aquele castelo era o mais belo exemplar dos da Renascença. Mas, como também era um verdadeiro museu, e como, por outro lado, ali haviam tocado Chopin e Liszt, e Lamartine recitado seus versos, e todos os artistas conhecidos de um século inteiro ali haviam deixado pensamentos, escrito melodias, feito desenhos no álbum da família; a Sra. de Villeparisis, fosse por gracejo, boa educação, modéstia verdadeira, ou falta de espírito filosófico, atribuía a essa origem puramente material o seu conhecimento de todas as artes; acabava considerando pintura e música, literatura e filosofia; como o privilégio de uma jovem educada da maneira mais aristocrática em um monumento ilustre e catalogado. Parecia que, para ela, não havia outros quadros senão os que se herdam. Ficou satisfeita que minha avó gostasse de um colar que estava usando e que lhe chegava à cintura. Estava no retrato de sua bisavó pintado por Ticiano e que nunca saíra da família, de modo que se podia afirmar que era um Ticiano legítimo. Ela não queria ouvir falar em quadros comprados Deus sabe como, por algum Creso; estava de antemão convencida de que eram falsos e não manifestava desejo algum de vê-los. Sabíamos que ela própria pintava aquarelas de flores e minha avó, que ouvira elogiá-las, falou-lhe delas. A Sra. de Villeparisis mudou de assunto, por modéstia, mas sem mostrar maior espanto ou prazer do que uma artista bastante conhecida, a quem os cumprimentos não trazem nada de novo. Contentou-se em dizer que era um passa-tempo encantador porque, se as flores nascidas do pincel não eram famosas, pelo menos pintá-las obrigava-nos a viver na companhia de flores naturais, cuja beleza, principalmente quando é necessário olhá-las bem de perto para as copiar, não cansa nunca. Mas em Balbec, a Sra. de Villeparisis tirava férias para descansar os olhos. Minha avó e eu ficamos muito espantados ao perceber que a marquesa era mais "liberal" até que a maior parte da burguesia. Ela se admirava que causas como é o do escândalo da expulsão dos jesuítas, dizendo que isto sempre se fizera, mesmo sob a monarquia, mesmo na Espanha. Defendia a República, cujo anti-clericalismo censurava apenas em termos medidos:

            "Acharia tão ruim que me impedissem de ir à missa como se me forçassem a ir sem ter vontade", chegando mesmo a citar certas frases, como:

            "Oh, a nobreza de hoje não vale quase nada!", ou: ''Pra mim, um homem que não trabalha não tem qualquer valor", talvez como a sentir que assumiam em sua boca um sentido picante, saboroso e memoráveis suas palavras. De tanto ouvir expressar com franqueza opiniões avançadas; mas nunca chegar ao socialismo, que era o pesadelo da Sra. de Villeparisis - exatamente por uma dessas pessoas que, por inspirarem consideração devido a seu talento, levam nossa tímida e escrupulosa imparcialidade a recusar-se a condenar dos conservadores. Minha avó e eu não estávamos longe de acreditar que, a amável companheira, se encontravam a medida e o modelo da verdade entre outras coisas. Acreditávamos nela, sob palavra, quando discorria acerca de seus Ticianos; da galeria do seu castelo, do espírito de conversação de Luís Filipe. Porém, esses eruditos que nos assombram ao falar da pintura egípcia e das inscrições etruscas, e que se expressam de modo tão banal sobre as obras modernas; a de nos fazerem desconfiar senão exageramos o interesse das ciências em que são versados, pois, ao tratarem delas, não demonstram essa mediocridade que era de se esperar e que transparece nos seus ensaios estúpidos sobre Baudelaire. A Villeparisis, interrogada por mim acerca de Chateaubriand, Balzac e Victor Hugo; todos antigamente recebidos por seus pais e conhecidos dela mesma, achou graça na minha admiração, contava deles coisas picantes como acabavam; sobre grão-senhores ou políticos, e julgava-os com severidade exatamente porque não tinham essa modéstia, esse apagamento do próprio valor, essa arte só se contenta com um só traço preciso e não insiste, e evita acima de tudo a grandiloqüência, essa oportunidade e essas qualidades de moderação e simplicidade, próprias do verdadeiro talento, conforme lhe haviam ensinado e que ela não vacilava em lhes preferir certos homens que, de fato, talvez tivesse por isso, vantagem sobre um Balzac, um Victor Hugo ou um Vigny, numa academia ou num conselho de ministros, como Molé, Fontanes, Vil Bersot, Pasquier, Lebrun, Salvandy ou Daru.

            - É como esses romances de Stendhal, por quem você parece ter admiração. Você o deixaria muito espantado se lhe falasse desse modo, que se encontrava com ele em casa do Sr. Mérimée este sim, um homem de talento-, me disse várias vezes que Beyle (era este o seu nome) era de uma vulgaridade, mas muito espirituoso num jantar e não alimentava ilusões de seus livros. Aliás, você bem sabe como respondeu, com um ar de elogios excessivos do Sr. de Balzac. Nisto, pelo menos, era homem de bom tom.

            Ela possuía autógrafos de todos esses escritores e parecia achar às relações particulares que sua família tivera com tais artistas, seu julgamento a respeito deles era muito mais justo que o de rapazinhos como eu, que não os tinham conhecido.

            - Creio que posso falar neles porque freqüentavam a casa de meu pai e, como dizia o Sr. Sainte-Beuve, que era muito espirituoso, sobre tais escritores, convém acreditar nos que os viram de perto e puderam julgar mais precisamente o quanto valiam.

            Às vezes, como o carro subisse por uma estrada entre campos cultivados, alguns camponeses hesitantes, parecidos com os de Combray, seguiam nosso carro, tornando mais reais os campos, ajuntando-lhes um sinal de autenticidade, como a preciosa florzinha com que certos mestres antigos assinavam os quadros. O andamento dos nossos cavalos em breve nos separava deles, porém pouco adiante já víamos outro que nos esperava, espetando na erva à nossa frente a sua estrela azul; vários deles se atreviam a chegar à beira da estrada, e formava-se uma nebulosa com minhas lembranças antigas e aquelas florzinhas domésticas.

            Descíamos a encosta; então cruzávamos, subindo a pé, de bicicleta, numa carroça ou num carro, com uma dessas criaturas-flores do dia claro, mas que não são como as flores dos campos, pois cada uma encerra algo que não existe nas outras, o que impede que possamos satisfazer com suas iguais o desejo que nos inspira-, uma moça de granja que guiava sua vaca, ou meio deitada numa charrete, filha de lojista a passeio, uma senhorita elegante sentada na banqueta de um landô, diante dos pais.

            Certamente Bloch me abrira uma nova era e mudara-me o valor da vida, no dia em que me ensinara que meus sonhos nos passeios solitários para os lados de Méséglise, quando desejava que passasse uma moça do campo para tomá-la nos braços, não eram uma quimera que não correspondesse a coisa alguma fora de mim, mas que toda moça que encontrasse, camponesa ou citadina, estaria em condições de satisfazer tais desejos. Conquanto agora, por estar doente e nunca sair sozinho, não pudesse fazer amor com elas, sentia-me no entanto alegre como uma criança nascida numa prisão ou num hospital e que, tendo acreditado durante muito tempo que o organismo humano só pode digerir pão seco e remédios, soube de repente que os pêssegos, abricós e uvas não são um simples ornato dos campos, mas alimentos deliciosos e assimiláveis. Mesmo que o carcereiro ou o enfermeiro não o deixe apanhar esses belos frutos, o mundo todavia lhe parece melhor e a existência mais clemente. Pois um desejo se embeleza à nossos olhos, e apoiamo-nos a ele com maior confiança quando sabemos que a realidade exterior a ele corresponde, ainda que não seja realizável ao nosso caso. Pensamos com mais alegria numa vida em que possamos imaginar saciá-lo, desde que afastemos um instante do nosso espírito o pequeno obstáculo acidental e particular que nos impede realizá-lo pessoalmente. Quanto às belas moças que passavam, desde o dia em que soubera que suas faces podiam ser beijadas, tornara-me curioso acerca de suas almas. E o universo me parecera crescer de interesse.

            O carro da Sra. de Villeparisis andava rápido. Mal me dava tempo de ver a menina que vinha em nossa direção; entretanto como a beleza das criaturas não é igual à das coisas e sentimos muito bem que pertence a uma criatura útil ciente e de vontade própria, enquanto sua individualidade, alma vaga, desconhecida de mim, se pintava numa pequena imagem prodigiosamente, mas completa, no fundo de seu olhar distraído, logo, misteriosa como os pólens bem preparados para os pistilos, sentia jorrar em mim o embrião tão minúsculo, do desejo de não deixar passar aquela menina sem que seu pensamento tomasse consciência de minha pessoa, sem impedir que seus olhos se dirigissem a outro homem, sem que me fixasse em suas fantasias e contagiar seu coração. Todavia, o nosso carro se afastava, a linda menina já estava rindo, como lhe faltassem a meu respeito sobre quaisquer noções das que constituem uma pessoa, seus olhos, que mal me haviam avistado, já me esqueciam. Julgara assim tão linda só por tê-la visto de forma tão fugaz? Talvez, a impossibilidade de ter parado junto de uma mulher, o risco de não encontrá-la em outra ocasião, davam-lhe subitamente o mesmo encanto que uma certa doença ou a pobreza que nos impedem de visitá-lo, ou, aos dias tão aborrecidos que nos restam por viver, a idéia do combate em que certamente morreria; de forma que, se não fosse o hábito, a vida deveria parecer deliciosa às pessoas que estivessem ameaçadas de morrer a todo instante ou seja, a toda humanidade. Além disso, se a imaginação é levada pelo desejo daquilo que não pode possuir, seu impulso não é limitado por uma realidade inteiramente percebida de encontros, onde o encanto da passante está em geral diretamente relacionado a rapidez da passagem. Por pouco que a noite tombava e que o carro deparava-se no campo ou na cidade, não há torso feminino, mutilado como um mármore antigo; pela velocidade que nos arrasta e pelo crepúsculo que o afoga, que não há coração, a cada volta da estrada, do fundo de cada loja, as flechas da Beleza que seria lícito perguntar se, neste mundo, ela é outra coisa além de complemento que nossa imaginação, sobre excitada pela angústia, ajusta à mulher que passa fragmentária e fugitiva. Se eu pudesse ter descido do carro e falar à moça por quem talvez ficasse decepcionado com algum defeito de sua pele, que não pudera distinguir. (Então, de súbito, todo esforço para penetrar em sua vida pareceria impossível. Pois a beleza é uma seqüência de hipóteses, e fidelidade barrando o caminho que já víamos abrir-se para o desconhecido.) Tal palavra que ela tivesse dito, um sorriso, que me houvesse fornecido; uma cifra inesperadas para ler a expressão de seu rosto e de seu porte, tornariam banais. É possível, pois jamais encontrei na vida mulheres - como naqueles dias em que estava com uma pessoa muito grave, não podia me separar não obstante os mil pretextos que inventava; em anos depois de minha primeira viagem a Balbec, dando um passeio dê um amigo de meu pai, e vendo uma mulher que caminhava depressa; pensei que não era razoável, por uma questão de conveniência, perder minha porção de felicidade na única vida que sem dúvida existe. E, saltando do carro sem pedir desculpas, parti em busca da desconhecida; perdi-a no cruzamento de duas ruas, voltei a encontrá-la numa terceira e me achei, todo resfolegante, debaixo de um lampião, diante da velha Sra. Verdurin, a quem evitava por toda a parte e que, surpresa e feliz, exclamou:

            -Oh, como foi amável em correr para me cumprimentar!

            Naquele ano em Balbec, quando tinha desses encontros, afirmava à minha avó e à Sra. de Villeparisis que, devido a uma grande dor de cabeça, era preferível que voltasse a pé para casa. Elas recusavam deixar-me descer do carro. E eu acrescentava a linda moça (bem mais difícil de reencontrar do que um monumento, pois era anônima e móvel) à coleção daquelas todas que tinha prometido a mim mesmo ver de perto. Entretanto, uma ocorreu passar de novo a meus olhos, em condições tais que julguei poder conhecê-la quando quisesse. Era uma leiteira que vinha de um sítio trazendo um suplemento de creme para o hotel. Pensei que me reconhecera e, de fato, olhava-me com uma atenção que talvez fosse causada pelo espanto que lhe dava a minha atenção. Ora, no dia seguinte, em que ficara repousando a manhã inteira, quando Françoise veio descerrar as cortinas, por volta do meio-dia, entregou-me uma carta que fora deixada para mim no hotel. Não conhecia ninguém em Balbec. Não tinha dúvidas de que a carta fosse da leiteira. Infelizmente, era apenas de Bergotte que, de passagem, tentara me ver mas, tendo sabido que eu dormia, deixara-me algumas linhas amáveis, para as quais o ascensorista fizera um envelope que eu havia julgado escrito pela leiteira. Fiquei tremendamente desapontado, e a idéia de que era bem mais difícil e lisonjeiro receber uma carta de Bergotte, não me consolou em nada o fato de não ter sido escrita pela leiteira. O caso é que não voltei mais a ver aquela moça, como acontecia com as outras que só avistava do carro da Sra. de Villeparisis. Vê-las e perdê-las todas; aumentava o estado de agitação em que vivia e reconhecia uma certa sapiência nos filósofos que nos recomendam limitar nossos desejos (se é que pretendem estar falando do desejo que nos inspiram as outras pessoas, pois é o único que pode provocar ansiedade, ao se aplicar ao desconhecido consciente. Supor que a filosofia queria falar do desejo das riquezas é absurdo demais). Entretanto, estava disposto a julgar incompleta semelhante sabedoria, pois dizia comigo que esses encontros me faziam achar ainda mais belo um mundo que assim deixava crescer em todos os caminhos do campo umas flores tão corriqueiras e raras a um tempo; tesouros fugitivos do dia, dádivas do passeio, que dão novo gosto à vida e que somente devido à circunstâncias contingentes, que talvez não se reproduzissem no futuro, me haviam impedido de desfrutar agora.Mas talvez, esperando que um dia, mais livre, eu pudesse encontrar moças idênticas em outras estradas, já começasse a falsear o elemento exclusivamente individual do desejo de viver com uma mulher que nos, pareceu bonita; pelo simples fato de admitir a possibilidade de fazê-lo nascer artificialmente, de modo implícito a sua natureza ilusória.

            No dia em que a Sra. de Villeparisis nos levou a Carqueville, àquela igreja coberta de hera de que nos havia falado e que, edificada um outeiro, que domina a aldeia, o rio que a atravessa e que manteve sua ponte da Idade Média. Minha avó, pensando que eu gostaria de permanecer sozinho parado olhando o monumento, propôs à amiga irem ambas lanchar na confeitaria; na praça via perfeitamente dali e que, com sua pátina dourada, era como uma outra um objeto bem antigo. Combinou-se que eu iria encontrá-las aí. Para uma igreja no bloco de verdura que tinha à minha frente, foi preciso um esforço que me pôs mais em contato com a noção de igreja; com efeito, do modo que esses estudantes que apreendem mais completamente se fazem uma frase quando são obrigados, por meio de um exercício de versão; ou a despojá-la das formas a que estão habituados, essa noção de igreja, de  que precisava ao me ver diante de torres que se davam a conhecer por si mesmas; agora era obrigado a chamar constantemente em meu auxílio para não me esquecer que o arco desse punhado de erva era o de uma vidraça ogival; ali, que a saliência das folhas era devida ao relevo de um capitel. Mas então soprou um ventinho, fazendo estremecer o pórtico móvel que formava redemoinhos dos trêmulos como ondas de luz; as folhas se agitavam umas contra às outras; a fachada vegetal, toda trêmula, arrastava consigo, acariciando os pilares ondulantes e fugitivos.

            Ao deixar a igreja, vi, diante da velha ponte, moças da aldeia que sem dúvida por ser domingo, estavam muito enfeitadas, interpelando os rapazes que por ali passavam. Menos bem vestida que as outras, mas parecendo ter uma certa ascendência; pois mal respondia ao que elas lhe falavam, com ar mais grave e voluntarioso; uma outra, alta, meio sentada no retiro da ponte, de pernas penduradas, tinha à sua frente um cesto cheio de peixes, provavelmente acabara de pescar. Era de pele amorenada, olhos suaves com olhar desdenhoso para tudo o que a rodeava; nariz pequeno e muito fino. Meus olhos pousaram em sua pele e, a rigor, meus lábios podiam crer que haviam seguido seus olhos. Mas não era apenas o seu corpo o que eu atingia, era igualmente a pessoa que nele vivia e com a qual estabelece uma espécie de contato quando chamamos sua atenção, e na qual como que penetramos ao lhe sugerir uma idéia. O ser interior da bela pescadora parecia ainda estar cerrado para um duvidoso que ali tivesse penetrado, mesmo depois de ter percebido minha imagem refletir-se furtivamente no espelho de seus olhos, conforme um indício de refração que me era tão desconhecido como se me houvesse colocado um visual de uma corça. Mas, da mesma forma que não me bastaria que sorvessem prazer nos seus lábios, mas que igualmente lhe dessem esse prazer; assim também desejaria que a idéia de minha imaginação entrasse naquele ser, que a ele se prendesse, não só atraísse sua atenção sobre mim, como a sua admiração, seu desejo, fazendo com que mantivesse minha lembrança até o dia em que pudesse reencontrá-la. Enquanto isso, via a alguns passos dali o lugar em que devia me esperar o carro da Sra. de Villeparisis. Só dispunha de um momento; e já sentia que as moças começavam a rir por me verem parado daquele jeito. Tinha cinco francos no bolso. Tirei-os e, antes de explicar à linda jovem o serviço de que ia encarregá-la, para ter mais chances de que reparasse em mim, ergui por um instante a moeda à altura de seus olhos.

            - Visto que parece ser daqui. - disse à pescadora - poderia ter a bondade de me fazer um favor? Chegar a uma confeitaria que dizem que há numa praça mas não sei onde, e ali deve haver um carro à minha espera. Preste atenção: para evitar confusões, pergunte se é o carro da Sra. marquesa de Villeparisis. Aliás, vai ver logo qual é; tem dois cavalos.

            Era isto o que eu queria que ela soubesse para fazer uma alta idéia de mim. Mas, quando pronunciei as palavras "marquesa" e "dois cavalos", experimentei um súbito sossego. Vi que a pescadora se lembraria de mim e que se dissipava, junto com meu medo de nunca mais vê-la, uma parte do meu desejo de reencontrá-la. Parecia-me que acabava de tocar sua pessoa com lábios invisíveis e que lhe agradara. Essa violenta conquista do seu espírito, essa posse imaterial, fizeram-na perder tanto mistério como o teria feito a posse física.

            Descemos até Hudimesnil; de súbito invadiu-me aquela profunda felicidade que quase não sentia desde o tempo de Combray, felicidade análoga à que me haviam dado, entre outros, os campanários de Martinville. Mas desta vez permaneceu incompleta. Acabava de ver, num dos lados da estrada, na encosta por onde íamos, três árvores que deviam servir de pórtico a uma alameda encoberta, formando um desenho que já não era a primeira vez que via; não podia reconhecer o local de onde pareciam ter se destacado, mas sentia que me fora familiar antigamente. De modo que, tendo meu espírito vacilado entre um ano bem remoto e o momento presente, também vacilaram os arredores de Balbec, e perguntei-me se todo aquele passeio não seria uma ficção. Balbec um lugar onde nunca estivera a não ser na imaginação, a Sra. de Villeparisis um personagem de romance e as três velhas árvores a realidade que descobrimos ao erguer os olhos do livro que estamos lendo e que descreve um meio ao qual nos pareceu que tínhamos sido de fato transportados.

            Contemplava as três árvores; via-as muito bem, mas meu espírito sentia que ocultavam algo que não conseguia apreender, como ocorre com os objetos colocados muito longe de nossos dedos, e que, mesmo que estendamos o braço, não fazemos mais que acariciar, sem poder agarrá-los. Então a gente descansa por um momento, para depois estender o braço ainda com mais força e tentar chegar mais adiante. Mas, para que meu espírito pudesse fazer o mesmo, tomar impulso era necessário que eu estivesse sozinho. Como gostaria de poder me isolar da mesma forma que o fazia em meus passeios para os lados de Guermantes, quando me separava de meus pais! Parecia-me até que deveria fazê-lo. Reconhecia o gênero de prazer que requer, na verdade, um certo esforço da mente sobressaindo de si mesma; mas muito grato em comparação com as medíocres alegrias do abandono e da renúncia. Tal prazer, cujo objeto era apenas pressentido e que eu mesmo tinha que criar, experimentava-o raras vezes apenas, mas, de cada vez, parecia-me que quaisquer coisas ocorridas no intervalo não tinham importância quase, e que era limitante em sua realidade, poderia enfim começar uma vida verdadeira. Por um momento a mão diante dos olhos para poder fechá-los sem que a Sra. de Villeparisis notasse. Permaneci sem pensar em nada e em breve, com o pensamento concentrado, impulsionado com mais força, saltei na direção daquelas três árvores, ou nessa direção interior em cuja extremidade eu as via em mim mesmo; senti por detrás delas a presença de um objeto conhecido, porém vago, o qual pude atrair até mim. Todavia, todas as três, à medida que o carro avançava, iam aproximando. Onde as teria visto já? Não havia, nos arredores de Combray nenhum lugar onde uma alameda se abrisse daquele jeito. O local que elas me davam também não se situava naquele campo alemão aonde fora certa vez numa estação de águas com minha avó. Por acaso, seria preciso crer que em prol de uns anos já bem remotos da minha vida, a tal ponto que a paisagem, rodeava já se apagara inteiramente da memória e que, como essas páginas a gente encontra, de súbito, emocionado, num livro que pensava nunca ter lido, as únicas coisas que sobre-nadavam do livro esquecido de minha primeira infância? Ou, ao contrário, não pertenceriam apenas à essas paisagens de sonho, se mesmas, ao menos para mim, a quem o seu aspecto estranho não parecia objetivação, em meu sono, do esforço que eu fazia durante a vigília, alcançar o mistério num lugar atrás de cuja aparência eu o pressentia, acontecera tantas vezes nos passeios para os lados de Guermantes, seja para reintroduzir esse mistério em um lugar que desejara conhecer e que me parecia superficial desde que o conhecera, como Balbec? Não seriam mais que uma imagem totalmente nova, destacada de um sonho da noite precedente mais apagada que me parecia vir de muito mais longe? Ou então talvez nunca tivesse visto, e ocultavam sob si mesmos, como aquelas árvores, como a verdura que eu vira no caminho de Guermantes, um sentido tão obscuro,de decifrar como um passado longínquo, de modo que, solicitado pode aprofundar um pensamento, pensava que reconhecia uma lembrança? Por acaso não continham pensamento algum e era um cansaço da minha vista que me fazia vê-los duplos no tempo como às vezes vemos duplicadamente? Não sabia. Entretanto, vinham em minha direção, talvez aparição mística ronda de bruxas, ou de normas que me propunham seus oráculos. Eu acreditei que eram fantasmas do passado, bons companheiros de minha infância; amigos desaparecidos que invocavam as nossas comuns lembranças. O mesmo que sombras, pareciam como que me pediam que as levasse comigo, que os devolvesse a vida. Em seus singelos gestos singelos e fogosos percebia eu a impotente pena de um ser amado que perdeu o uso da palavra e se dá conta de que não poderá dizer o que quer e que nós não podemos adivinhar. E numa encruzilhada o cocheiro os deixou pra trás. O cocheiro que me arrastava em direção oposta do único que eu considerava como certo; do único que me fizera feliz de verdade e parecia ser essa a minha vida.

            Vi como se distanciavam as árvores, agitando desesperadamente seus braços, como se me dissessem: ''O que você não aprender hoje de nós, nunca o poderá saber. Se nos deixar cair outra vez nesse caminho, que desde o fundo queríamos elevar à sua altura, toda uma parte de si mesmo que nós levávamos voltará para sempre a um nada.''

            Com efeito, mesmo que mais adiante encontrasse outra vez, esse nível de prazer e de inquietação que acabava de sentir, numa noite em que me entregasse à ele – não seria tarde, porém para sempre – pois, nunca soube o que queriam me trazer essas árvores, nem onde as tinha visto. E quando o cocheiro mudou de direção, dei-lhes as costas e deixei de vê-las; enquanto que a senhora de Villeparisis perguntava-me porque eu estava tão preocupado; sentia-me tão triste como se acabasse de morrer um grande amigo, de morrer eu mesmo, de renegar a um morto ou à Deus.

            Era hora de pensar na volta. A senhora Villeparisis que sentia a Natureza mais friamente do que minha avó; porém com sentido de somente apreciar museus e palácios aristocráticos, a beleza majestosa; sensível à certas coisas antigas; dizia ao cocheiro que voltasse pelo mesmo caminho que veio de Balbec; que era muito pouco freqüentado, mas que tinha árvores dos dois lados e nos pareciam admiráveis.

 

            Quando já conhecíamos bem essa estrada antiga voltávamos, para variar, se é que à ida já não passávamos por ali, por outro caminho que cruzava os bosques do Chantereine e Canteloup. A invisibilidade dos inumeráveis pássaros que se respondiam de árvore a árvore por todos lados dava a mesma impressão de descanso que quando se têm os olhos fechados. Encadeado à minha banqueta do carro como Prometeo à sua rocha, ia eu escutando àquelas  Oceánidas. E quando via por acaso a algum dos pássaros passar por detrás de umas folhas, havia tão pouca relação aparente entre ele e seus gorjeios, que eu não resistia a ver nesse pequeno corpo saltitante, assustado e cego, ser a causa dos cantos.

            Aquele caminho era igual a tantos outros que só encontramos na França. Subia uma encosta bastante inclinada e logo descia, pouco a pouco, por um trecho mais largo. Aquele momento não me parecia muito atraente; estava contente apenas por voltar. Mas, depois, tornou-se motivo de alegrias; porque me ficou na lembrança como recordação, aonde iam dar essas estradas; semelhantes por onde haveria de passar mais tarde a passeio. A viagem, sem solução de continuidade e que, graças a ela, poderia ir com com meu coração. Pois, desde que o carro ou o automóvel entravam numa estradas que desse a impressão de continuar aquela que eu percorrera com de Villeparisis, minha consciência atual se acharia de imediato apoiada, em meu passado mais recente, estando abolidos todos os anos intermediários de impressões que eu tivera naqueles fins de tarde, passeando pelas cercados de Balbec; quando as folhas cheiravam bem e se erguia a névoa, como além da próxima se vislumbrava o pôr-do-sol feito uma outra localidade distante, e que não era possível atingir na mesma tarde. Tais impressões, às quais experimentava agora, em outras regiões e estradas semelhantes, ficaram sendo todas as sensações acessórias de livre respiração, de curiosidade, de apetite e de alegria, que lhe eram comuns, excluindo todas as outras impressões se reforçavam, assumiam a consistência de uma espécie que compartilha prazer, quase de um quadro de vida que aliás muito raramente voltaria a ver; mas nos quais despertadas recordações punha em meio à realidade material percebida, uma porção bem ampla de realidade evocada, imaginada, inatingível que me dava, em meio a essas regiões que atravessava, algo mais que um momento de estética, um desejo fugaz, porém exaltado, de ali viver para sempre, quantas vezes, apenas por ter aspirado a fragrância de uma folhagem, ou estar sentado num carro defronte à Sra. de Villeparisis; de cruzarmos Luxemburgo, que lhe acenava do seu carro, e voltar para jantar no Hotel; era como que uma felicidade inefável que nem o presente nem futuro podem nos proporcionar e que só saboreamos uma vez na vida! Muitas vezes a noite já caíra antes que estivéssemos de volta; e recitava à Sra. de Villeparisis, mostrando-lhe a lua no céu, uma bela expressão de Chateaubriand, de Vigny ou de Victor Hugo: "Ela espalhava o velho segredo de melancolia" ou "Chorando como Diana junto de suas fontes" ou ainda "A era nupcial, augusta e solene".

            - E acha isso bonito? perguntava-me a marquesa. - Genial, como dizer? Pois lhe direi que sempre me espanta ver que se levam agora a sério as coisas que os amigos desses cavalheiros, mesmo fazendo inteiros a seus méritos, eram os primeiros a ridicularizar. Não se prodigalizava, o qualificativo de gênio, pois, se agora a gente diz a um escritor que ele talento, ele se sente injuriado. Você me cita uma grande frase de Chateaubriand sobre o luar. Vai ver, agora, como tenho meus motivos para ser imune às expressões do Sr. de Chateaubriand vinha seguidas vezes à casa de meu pai. De resto, agradável quando não havia gente de fora, porque então se mostrava divertido. Porém, quando havia audiência, começava a fazer pose e se tornava ridículo; diante de meu pai, afirmava que havia atirado sua demissão à cara do rei e que dirigira o conclave, esquecendo que meu pai fora por ele encarregado de suplicar ao rei que voltasse a admiti-lo e ouvira fazê-lo acerca da eleição do papa os prognósticos mais descabidos. Era necessário ouvir, sobre esse famoso conclave, o Sr. de Blacas, que era pessoa bem diferente do Sr. de Chateaubriand! Quanto às frases deste sobre o luar, simplesmente se tornaram uma instituição lá em casa. Cada vez que havia luar sobre o castelo, quando tínhamos um novo convidado, nós lhe aconselhávamos que levasse o Sr. de Chateaubriand para tomar um pouco de ar depois da refeição. Quando voltavam, meu pai não deixava de chamar à parte o convidado:

            "- O Sr. de Chateaubriand foi eloqüente?

            - Claro que sim.

            - E lhe falou do luar?

            -Sim, como sabe?

            -Espere, e não lhe disse... (e citava-lhe a frase)?

            -Sim, mas por que o mistério...?

            - E até lhe falou do luar na campanha romana.

            - Mas o senhor é feiticeiro?

            Meu pai não era feiticeiro, mas o Sr. de Chateaubrind se contentava em servir sempre o mesmo prato já preparado.

            Ao nome de Vigny, ela começou a rir:

            -Aquele que dizia: "Eu sou o conde Alfred de Vigny." A gente pode ou não ser conde, isto não tem a menor importância.

            No entanto, achava que deveria ter alguma, pois acrescentava:

            - Em primeiro lugar, não estou certa de que o fosse; e, de qualquer modo, era de pequena linhagem esse senhor que falou em seus versos de sua "viseira de nobre". Como tem bom gosto e é interessante para o leitor! É como Musset, simples burguês parisiense, que exclamava com ênfase: "O falcão de ouro que enfeita meu capacete." Um grão-senhor de verdade nunca diz dessas coisas. Pelo menos Musset possuía talento como poeta. Mas, tirando Cinq-Mars, nunca pude ler nada do Sr. de Vigny, o tédio me faz cair o livro das mãos. O Sr. Molé, dotado de todo o espírito e tato ausentes no Sr. de Vigny, empregou-os muito bem ao recebê-lo na Academia. Como? Não conhece o seu discurso? É uma obra-prima de malícia e impertinência.

            Censurava em Balzac, espantando-se que seus sobrinhos o admirassem, o ter pretendido pintar uma sociedade "em que não era recebido", e sobre a qual contou mil inverossimilhanças. Quanto a Victor Hugo, ela nos dizia que o Sr. De Bouillon, pai dela, que tinha muitos amigos entre a juventude romântica, graças a eles comparecera à estréia de Hernani, mas não pudera ficar até o fim, tão ridículos que achara os versos desse escritor talentoso porém exagerado, que só recebera o título de grande poeta em virtude de um contrato ajustado e como recompensa pela indulgência interessada que tivera para com as perigosas divagações dos socialistas.

            Já víamos o hotel e suas luzes, tão hostis na primeira noite, a da chegada; agora suaves e protetoras, anunciando o lar. E, quando o carro chegava à porta, o Porteiro, os grooms e o lift, apressados, ingênuos, vagamente inquietos com o nosso atraso, amontoados na escadaria à nossa espera, já tornados familiares, eram como essas criaturas que mudam tantas vezes no decurso de nossa vida e como nós próprios mudamos, mas nas quais encontramos o prazer de fiel e amistosamente refletidos, enquanto durar o tempo em que são o espelho de nossos hábitos. Os preferimos aos amigos que não vemos há muito tempo, porque contêm, em maior proporção que aqueles, algo do que somos na atualidade. Somente aquele que ficara exposto ao sol o dia inteiro voltara para dentro a suportar a friagem da noite, e, todo envolto em lã, com a cabeleira escorrida e a flor curiosamente rosada das faces, no meio do hall envidraçado; lembrava uma planta de estufa protegida contra o frio. Descemos do carro, ajudados por muito mais empregados do hotel do que seria necessário; mas eles a importância da cena e nela julgavam-se obrigados a representar um papel. Eu estava faminto. De modo que muitas vezes, para não atrasar o jantar, não subi ao quarto, que acabara por se tornar tão realmente meu que rever agora o cortinado violáceo e as estantes baixas era encontrar-me sozinho com esse espetáculo; se refletia nas coisas como nas pessoas e esperávamos juntos no hall; até que o mordomo viesse nos dizer que já estávamos servidos. Era a ocasião de ouvir uma vez a Sra. de Villeparisis.

            - Estamos abusando da senhora - dizia minha avó.

            - Nada disso, estou encantada, isto me agrada bastante - respondia a amiga com um sorriso carinhoso, afinando a voz num tom melodioso que contava com sua simplicidade habitual.

            É que, de fato, nesses momentos, ela não era natural; lembrava-se da educação, dos modos aristocráticos com que uma grande dama deve movimentar; os burgueses em cuja companhia se alegra de estar, que não é orgulhosa. A falta de verdadeira polidez que se podia observar nela eram os excessos da mesma polidez; pois nisso era possível reconhecer o vinco profissional da dama do faubourg de Saint-Germain, que, vendo sempre em certos burgueses descontentes que estava destinada a fazer em alguns dias, aproveitava a vida em todas as ocasiões em que lhe é possível escrever, no livro de contas de sua contabilidade para com eles, a antecipação de um tostão de crédito que lhe possa compensar no seu débito; a festa ou o jantar a que não os convidará. Assim, de sua casta social modelara a marquesa de forma definitiva, sem saber que as circunstâncias eram bem outras, as pessoas diferentes, e que em Paris poderíamos ver em sua casa seguidas vezes; de modo que esse gênio a impulsionava com ardor febril, como se o tempo que se lhe concedia para ser amável fosse muito curto, a multiplicar para nós, enquanto estávamos em Balbec; os de rosas e melões; os empréstimos de livros; os passeios de carro e verbais. Daí, seguia-se que da mesma forma que o esplendor ofuscante; o flamejar multicor e os clarões submarinos dos quartos, bem como a equitação com que os filhos de um comerciante eram deificados, como Alexandre da Macedônia - ficaram na minha memória, como características da vida dos balneários, as amabilidades diárias da Sra. de Villeparisis e também a facilidade momentânea festiva com que minha avó as aceitava.

            - Dêem-me suas capas, para que as levem para cima.

            Minha avó estendia-as ao gerente e eu, por causa de suas gentilezas para comigo, estava desolado com a falta de consideração dela, que o incomodava.

            - Creio que este senhor se aborreceu dizia a marquesa. - Provavelmente se julga fidalgo demais para pegar suas capas. Lembro-me do duque de Nemours, quando eu ainda era criancinha, entrando em casa de meu pai, que morava no último andar do palácio Bouillon, com um enorme pacote de cartas e jornais debaixo do braço. Creio ver o príncipe em seu fraque azul na soleira da porta (que, por sinal, tinha belos adornos em madeira; julgo que era trabalho de Bagard, aquelas pequenas molduras, vocês sabem, tão finas, a que o ebanista às vezes dava forma de conchas e de flores, como os laços que atam um buquê). - Olhe, Cyrus - dizia a meu pai. - Foi o porteiro quem me deu isto para você. Disse-me: "Já que o senhor vai à casa do senhor conde, não vale a pena que eu suba os andares, mas tenha cuidado para não desatar o nó." - Bem, já que se desembaraçou dos casacos, sente-se aqui - dizia a marquesa à minha avó, tomando-a pela mão.

            - Não; se não se importa, nessa poltrona não! É muito pequena para nós duas, mas grande em excesso para mim; não ficaria à vontade.

            -A senhora me faz pensar, porque era exatamente igual, numa poltrona que tive há muito tempo mas acabei por não ter como conservar, pois fora dada à minha mãe pela infeliz duquesa de Praslin. Minha mãe, que no entanto era a pessoa mais simples deste mundo, mas que ainda possuía idéias que lhe vinham de outra época e que eu já não entendia muito bem, não quisera a princípio ser apresentada à Sra. de Praslin, que era apenas uma Srta. Sebastiani, ao passo que esta, por ser duquesa, achava que não lhe cabia solicitar uma apresentação. E de fato-acrescentava a Sra. de Villeparisis, esquecendo-se que não distinguia esse tipo de nuanças - essa pretensão era insustentável, a não ser que ela fosse uma Sra. de Choiseul. Os Choiseul são o que existe de melhor, descendem de uma irmã de Luís, o Gordo, eram verdadeiros soberanos em Bassigny. Compreendo que levemos vantagens sobre eles pelas alianças e o brilho, mas a antigüidade de ambas as famílias é quase a mesma. Resultaram incidentes cômicos por causa dessa questão de precedência, como o caso de um almoço que foi servido com atraso de mais de uma hora, tempo necessário para convencer uma senhora a se deixar apresentar. Apesar de tudo, tornaram-se muito amigas, e a duquesa deu a minha mãe uma poltrona do mesmo feitio desta e na qual, como a senhora acaba de fazer, todos se recusavam a sentar. Um dia minha mãe ouve um carro no pátio do palácio. Pergunta a um criado de que "trata."

            É a Sra. duquesa de La Rochefoucauld, senhora condessa.

            - Muito bem, vou recebê-la." Ao fim de um quarto de hora, ninguém: "E então? Onde e duquesa de La Rochefoucauld?"

            - Está na escada, sem fôlego, senhora - responde o criado que chegara há pouco do campo, onde minha mãe tinha o bom costume de ir buscá-los. Muitas vezes vira-os nascer. É desse jeito, podem ter criados decentes. É o primeiro dos luxos. Com efeito, a duquesa Rochefoucauld ia subindo com dificuldade, porque era imensa, tão imensa que quando entrou, minha mãe teve um instante de preocupação, sem saber acomodá-la. Mas deu com os olhos na poltrona que fora presente.

            -Tenha a bondade de se sentar-disse ela, empurrando-lhe a poltrona.

            E a encheu-a até às bordas. Apesar de toda a sua imponência, era muito agradável.

            ''Ainda faz efeito quando entra'' - dizia um de nossos amigos.

            -Principalmente quando sai - respondia minha mãe, cujas tiradas eram mais atrevidas do que, 11% usaria. Na própria casa da duquesa, ninguém se constrangia em gracejar de suas enormes proporções diante dela, que era a primeira a achar graça.

            - O senhor está sozinho? - perguntou minha mãe um dia ao Sr. de La Rochefoucauld que fora visitar a duquesa e, à porta do salão, o duque a recebera, e minha mãe não viu sua esposa, que se achava no vão de uma janela. - Julguei que ela estivesse em casa, mas não a vejo.

            - Como a senhora é amável! - respondeu o duque, homens de menos perspicácia que já conheci, mas que às vezes tinha bom espírito.

            Depois do jantar, quando subia com minha avó, dizia-lhe que as coisas que nos encantavam na Sra. de Villeparisis, o tato, a finura, a discrição, o esquecimento de si mesma, talvez não devessem ter muito valor, pois as pessoas que os possuíram no mais alto grau não passaram de Molés e Loménies em compensação, se o fato de não tê-las pode tornar as relações cotidianas notáveis, ainda assim não impediu de chegar ao que foram Chateaubriand, Vigny, Balzac, vaidosos sem autocrítica, de quem era fácil zombar, como Bloch... nome de Bloch, minha avó protestava.

            Gabava a Sra. de Villeparisis.  Como que é o interesse da espécie que, no amor, dirige as preferências de cada pessoa e que, para que criança seja constituída da maneira mais normal, o instinto que as mulheres magras procurem os homens gordos, e as gordas assim também eram obscuramente as exigências de minha felicidade pelo nervosismo, pela minha doentia inclinação à tristeza, ao isolamento. Dizia minha avó colocar em primeiro plano as qualidades de juízo e as próprias não só da Sra. de Villeparisis; mas de uma sociedade onde eu poderia ter sossego e distração uma sociedade semelhante àquela onde se viu o talento de um Doudan, de um Sr. de Rémusat, para não falar de uma Beau de um Joubert, de uma Sévigné, talento que proporciona mais dignidade à vida que os requintes opostos, que levaram um Baudelaire, um Poe, e um Rimbaud a sofrimentos e desconsiderações que ela não desejava ao neto. Interrompi-a para beijá-la, perguntando se havia reparado em tal ou qual frase da Sra. de Villeparisis, em que se notava a mulher que preza o seu nascimento muito mais do que diz. Desse modo, submetia minha avó as minhas impressões, pois nunca sabia o grau de estima devido a alguém senão quando ela o indicasse. Todas as noites trazia-lhe as notas que tomara durante o dia sobre todos os seres inexistentes que não fossem ela. Uma vez, disse-lhe:

            - Sem ti, não poderia viver.

            - Não, isso não. - respondeu com voz perturbada. - É preciso ter um coração mais forte. Se não, o que seria de ti se eu fosse viajar? Ao contrário, espero que sejas razoável e feliz.

            -Saberei ser razoável e feliz se viajasses por alguns dias, mas ficaria contando as horas.        - Mas, se eu partisse por alguns meses... (só de pensar nisso meu coração se apertava) por muitos anos... por...

            Ficávamos calados. Não tínhamos coragem de nos olhar. No entanto, eu sofria mais pela sua angústia do que pela minha. Assim, aproximei-me da janela e lhe falei distintamente, desviando o olhar:

            -Sabes como sou um sujeito de hábitos. Nos primeiros dias, em que me vejo separado das pessoas a quem amo, sinto-me infeliz. Mas depois, sem deixar de querê-las, acabo me acostumando, minha vida se torna calma, suave; e eu suportaria uma separação de meses ou anos...

            Tive de me calar e olhar pela janela. Minha avó saiu do quarto por um instante. Mas, no dia seguinte, comecei a falar de filosofia, em tom bastante indiferente, mas fazendo com que minha avó prestasse atenção às minhas palavras; disse-lhe que era curioso verificar como, depois das últimas descobertas da ciência, o materialismo parecia arruinado, e que o mais provável era que ainda houvesse a imortalidade das almas e a sua futura reunião.

            A Sra. de Villeparisis preveniu que dentro em breve já não poderia nos ver com freqüência. Um jovem sobrinho, que se preparava para ingressar em Saumur, e estava de guarnição nas vizinhanças, em Doncieres, vinha passar com ela algumas semanas de licença, e a marquesa ficaria ocupada quase todo o tempo. Durante nossos passeios, havia elogiado sua profunda inteligência, sobretudo o seu bom coração; eu já imaginava que ele iria se tornar de simpatia por mim, que eu seria o seu amigo preferido e, quando um pouco antes de sua chegada, sua tia deu a entender a minha avó que ele infelizmente caíra nos braços de uma mulher má, por quem estava alucinado e que não o largaria nunca, eu, convencido que esse tipo de paixão redunda fatalmente na alienação mental, no crime e no suicídio; pensando no tempo tão curto reservado à nossa amizade, tão grande já em meu coração sem que o tivesse ainda visto, chorei por ela e pelas desgraças que a esperavam, como se chorasse por um ser querido do qual acabamos de saber que caiu gravemente doente e que seus dias estão contados.

            Numa tarde de muito calor, estava eu na sala de jantar do hotel, deixada na penumbra a fim de protegê-la dos raios do sol, baixando as cortinas que a luz marejava, e que pelos interstícios deixavam passar o azul do mar, quando vi, pelo passeio central que ia da praia à estrada, um rapaz alto, magro, de pescoço e cabeça orgulhosamente empinada, olhos penetrantes, de pele tão dourada, cabelos tão louros como se tivessem absorvido todos os raios de sol. Trajava uma calça de tecido muito fino, esbranquiçado, como jamais imaginei que um homem se vestiria e que, por sua leveza, evocava o calor e o bom tempo que fazia lá, menos que o frescor do refeitório; andava muito depressa. Seus olhos, dos quais a todo instante caía o monóculo, eram da cor do mar. Todos o olharam com curiosidade, pois sabiam que aquele jovem marquês de Saint-Loupen-Bray era célebre por sua elegância. Todos os jornais haviam descrito o traje que recentemente ao servir de testemunha, num duelo, a um jovem duque, que a qualidade tão peculiar de seus cabelos, de seus olhos, de sua pele e porte, que o teriam distinguido em meio de uma multidão como um ''precioso'' de opala brilhante e azulada, engastado em matéria grosseira, deveria ter uma vida diversa da dos outros homens. E, em conseqüência, quando, as relações que tanto desgostavam a Sra. de Villeparisis, as mais belas mulheres da alta sociedade o disputavam entre si, sua presença, em uma praia, por exemplo ao lado da beldade famosa a quem cortejava, não só a colocava no centro das atenções, como atraía os olhares tanto sobre ele quanto sobre ela. Devido a seu charme e a sua impertinência de jovem "leão", principalmente devido a seu grande físico, alguns lhe achavam mesmo um certo ar efeminado, mas sem censurar  pois sabiam o quanto era viril e que amava apaixonadamente as mulheres; era o sobrinho da Sra. de Villeparisis de quem nos falara. Fiquei encantado ao vê-lo, ia conhecê-lo durante algumas semanas e certo de que me daria todo o seu afeto. Atravessou rapidamente o hotel em todo o comprimento, parecendo perseguir o seu monóculo que volteava a seu redor como uma borboleta. Chegava da praia, e o mar que enchia até a metade a vidraça do hall, formava-lhe um fundo sobre o qual se destacava, como em certos retratos em que os pintores pretendem, sem trair em nada a observação mais exata da vida atual, porém escolhendo para seu modelo um quadro apropriado, campo de pólo ou de golfe, pista de corridas, convés; dar um equivalente moderno dessas telas em que os primitivos faziam a figura humana no primeiro plano de uma paisagem. Um carro tirado, cavalos, o esperava diante da entrada; e, enquanto o monóculo retomava brincalhão na estrada ensolarada, com a elegância e a maestria que um pianista consegue mostrar nos trechos mais simples, onde parecia não se superar um executante de segunda categoria, o sobrinho da Sra. de Villeparisis tomando as rédeas que o cocheiro lhe dera, sentou-se a seu lado e, ao mesmo tempo que abria uma carta que o gerente lhe entregara, fez partir os cavalos.

            Que decepção senti nos dias seguintes quando, cada vez que estava no hotel ou fora dele, com o pescoço erguido, equilibrando perpetuamente os movimentos dos membros ao redor do monóculo dançante e fugidio que passara a ser seu centro de gravidade-, percebi que ele não procurava aproximar-se de nós e que não nos cumprimentava, embora não pudesse ignorar que éramos amigos de sua tia!

            Recordando-me da amabilidade que me haviam testemunhado a Sra. de Villeparisis e, antes dela, o Sr. de Norpois, pensava que eles talvez fossem nobres de mentira, e que um artigo secreto das leis que governam a aristocracia deve permitir, quem sabe, às mulheres e a certos diplomatas que faltem, no seu convívio com os plebeus, e por um motivo que me escapava, a essa altivez que, ao contrário, um jovem marquês praticaria impiedosamente. Minha inteligência poderia me dizer o contrário. Mas a característica da idade ridícula que eu atravessava; idade nada ingrata, aliás muito fecunda -é que não se consulta a inteligência e que os menores atributos das criaturas parecem fazer parte indivisível de sua personalidade. Sempre cercados de monstros e deuses, a gente quase não conhece o sossego. E quase todos os gestos que fazemos por essa época, desejaríamos suprimi-los mais tarde. Mas, ao contrário, o que se deveria de fato lastimar seria não mais possuirmos aquela espontaneidade que nos inspirava. Depois, vêem-se as coisas de maneira mais prática, em plena concordância com o resto da sociedade, mas a adolescência é a única época da vida em que aprendemos algo.

            Aquela insolência que eu adivinhava no Sr. de Saint-Loup, e tudo o que ela implicava de dureza natural, ficou comprovada por sua atitude cada vez que passava por nós, o corpo bem empertigado, a cabeça sempre empinada, o olhar impassível, e (não será demais dizer) tão implacável, destituído desse vago respeito que se tem pelos direitos das outras criaturas, mesmo que elas não conheçam a nossa tia, e em virtude do qual minha atitude não era absolutamente a mesma diante de uma velha dama e diante de um bico de gás. Essas maneiras glaciais também estavam bem distantes das cartas encantadoras que eu, alguns dias antes, ainda imaginava que me escrevesse para me testemunhar sua simpatia, à mesma distância em que estão as ovações da Câmara da posição medíocre e obscura de um homem imaginativo que pensa ter levantado o ânimo do povo com um discurso inesquecível e que, após ter assim sonhado em voz alta, vê-se de novo um joão-ninguém, como antes, depois de cessarem as falsas aclamações.

            Quando a Sra. de Villeparisis, sem dúvida para tentar apagar a má impressão que nos causara a aparência do sobrinho, reveladora de um temperamento orgulhoso e malvado, voltou a nos falar da inesgotável bondade do seu sobrinho-neto (era filho de uma de suas sobrinhas e um pouco mais velho que eu), admirei-me como no mundo, ao desprezo de toda a verdade, atribuem-se qualidades de coração aos que o possuem tão seco, ainda que sejam amáveis com as pessoas brilhantes que fazem parte de seu ambiente social. A própria Sra. de Villeparisis acrescentou, mesmo de forma indireta, uma confirmação a esses traços essenciais do caráter de seu sobrinho, que já não me causavam dúvidas, um dia em que encontrei a ambos num caminho tão estreito que ela não teve outra alternativa senão me apresentar a ele. Pareceu não ouvir que lhe apresentavam alguém, nenhum músculo do rosto se mexeu; seus olhos; não brilhou o menor clarão de simpatia humana, mostraram simplesmente insensibilidade e inanidade do olhar, um exagero, a cuja falta nada os difere dos espelhos sem vida. Depois, fixando em mim a dureza do olhar, como para certificar-se bem de quem eu era, antes de devolver meu cumprimento; fez um movimento brusco que antes parecia efeito de um reflexo muscular do um ato voluntário, encompridou o braço em todo o seu tamanho e apresentando a mão, à distância, pondo entre ele e mim o maior intervalo possível. Quando no dia seguinte me mandou seu cartão, julguei que se tratava, no mínimo, de um duelo. Mas ele só me falou de literatura, declarando, depois de longa palestra, que muita vontade de me ver várias horas por dia. Não só dera provas, durante a conversa de um gosto muito vivo pelas coisas do espírito, como me testemunhara simpatia que combinava muito mal com a saudação da véspera. Depois, quão que saudava sempre dessa maneira quando lhe apresentavam alguém, comecei a pensar que se tratava de simples hábito mundano particular, próprio de uma parte da família, e ao qual sua mãe, que fazia questão que ele fosse admiravelmente educado, lhe acostumara o corpo; fazia tais cumprimentos sem neles pensar que em suas belas roupas, seus lindos cabelos; era algo desprovido do significado moral que eu lhe dera a princípio, uma coisa puramente aprendida, como outro hábito que tinha de fazer-se apresentar imediatamente aos pais de quem conhecia, e que se tornara tão instintivo nele que, vendo-me no dia seguinte do nosso encontro, lançou-se a mim e, sem me dar bom-dia, pediu-me que o apresentasse à minha avó que estava comigo, com a mesma rapidez febril corri para atender o pedido se devesse a um instinto defensivo, com o gesto de aparar um golpe, fechar os olhos diante de um jorro de água fervente, e que nos resguarda perigo que nos teria atingido um momento depois.

            Uma vez cumpridos os primeiros ritos de exorcismo, assim como a fada rabugenta se despoja de sua aparência inicial e se apresenta revestida de graças encantadoras, vi essa criatura desdenhosa fazer-se o mais amável e atencioso dos rapazes que já conhecera. "Bem" disse comigo, "já me equivoquei, fui vítima de uma miragem, mas só venci a primeira para cair numa outra, pois este é um grão-senhor enamorado de sua nobreza e procurando dissipar, de fato, toda a atraente educação, toda a amabilidade de Saint-Loup depois de algum tempo, deixar transparecer uma outra pessoa, mas bem daquela que eu suspeitava.

            Esse rapaz, com ares de um aristocrata e de um desportista que só estimava e se mostrava curioso pelos assuntos do espírito, sobretudo manifestações modernistas da literatura e da arte que pareciam tão ridículas para a tia; estava imbuído, por outro lado, daquilo que ela denominava declamações socialistas, e, cheio do mais profundo desprezo por sua casta, passava horas estudando Nietzsche e Proudhon. Era um desses "intelectuais", prontos para a admiração, que se encerram num livro preocupados apenas com altos pensamentos. Além disso, em Saint-Loup, a expressão dessa tendência bastante abstrata e que o afastava tanto de minhas preocupações habituais, conquanto me parecesse emocionante, aborrecia-me um pouco. Posso dizer que, logo que me inteirei bem acerca de seu pai, nos dias em que acabava a leitura de umas memórias cheias de fatos relativos a esse famoso conde de Marsantes, no qual se resume a elegância tão especial de uma época já distante, e com o espírito pleno de fantasias e desejando saber detalhes sobre a vida que levara o Sr. de Marsantes; fiquei furioso ao ver que Robert de Saint-Loup, em vez de se contentar em ser o filho de seu pai; em vez de se mostrar capaz de me guiar pelo romance antiquado que fora a sua vida, se elevara à intensa admiração de Nietzehe e de Proudhon. Seu pai não teria compartilhado os meus lamentos. Era também um homem muito inteligente, que ultrapassava os limites de sua vida de homem mundano. Mal tivera tempo de conhecer o filho, mas desejara que valesse mais que ele. Creio firmemente que, ao contrário do resto da família, teria admirado o filho, alegrando-se que este abandonasse pelas meditações austeras os motivos de diversão leviana que havia tido; e, sem dizer nada, com sua modéstia de grão-senhor talentoso, teria lido às escondidas os autores prediletos do filho para avaliar o quanto Robert lhe era superior.

            Apesar disso, ocorria algo muito triste: enquanto o Sr. de Marsantes, um espírito bem aberto, teria apreciado um filho tão diferente dele, Robert de Saint-Loup, como era dessas pessoas que julgam o mérito sempre ligado a certas formas de vida e arte, guardava uma lembrança afetuosa, mas eivada de um certo desdém, do pai, que se ocupara a vida inteira em caçar e correr, bocejara ao ouvir Wagner e adorava a música de Offenbach. Saint-Loup não era inteligente o bastante para compreender que o valor intelectual nada tem a ver com a adesão a uma determinada fórmula estética, e nutria pela "intelectualidade" do Sr. de Marsantes quase o mesmo tipo de desdém que poderiam ter tido por Boieldieu ou por Labiche um filho de Boieldieu ou de Labiche que tivessem sido adeptos da literatura mais simbolista ou da música mais complicada.- Mal conheci meu pai-dizia Robert. Parece que foi um homem refinado. Seu grande mal foi a época deplorável em que viveu. Ser nascido no faubourg Saint-Germain e ter vivido na época da Belle-Hélene é uma catástrofe para uma existência. Se fosse um pequeno burguês fanático pelo Ring, talvez tivesse dado outro rumo à vida. Disseram-me que até gostava de literatura. Mas nem sabemos se isso era verdade, pois o que entendia por literatura se compunha de obras já caducas.

            - Quanto a mim, se às vezes achava Robert um tanto sério demais, ele, em compensação, não entendia porque não tinha eu maior seriedade. Julgando todas as coisas apenas pela inteligência que possuem, não percebia os encantos da imaginação que me davam coisas que reputava frívolas, assombrava-se de que eu - a quem julgava muito superior a si próprio - me pudesse se interessar por elas.

            Desde os primeiros dias, Saint-Loup havia conquistado minha avó, pela incessante bondade que se empenhava em testemunhar-nos, mas pela e mentalidade que punha em todas as coisas. Ora, a naturalidade-sem dúvida porque se sente nela a natureza sob a arte humana-era a qualidade que minha avó punha acima de todas, tanto nos jardins, onde não gostava que houvesse, como Combray, canteiros muito regulares, quanto na cozinha, onde detestava as ''obras complexas" em que mal se reconhecem os alimentos que foram usados para compô-las, ou na interpretação pianística, que lhe desagradava quando era apurada ou lambida, a tal ponto que sentia uma complacência toda especial por notas ligadas, pelas notas falsas, de Rubinstein. Essa naturalidade, ela a saboreava até nas roupas de Saint-Loup, de uma elegância simples, sem artifícios ou engomações, sem goma nem armação. Apreciava ainda mais aquele rapaz rico pelo descuidado e livre que tinha de viver no luxo sem "cheirar a dinheiro", sem a ares de importância; e parecia-lhe até encantadora essa naturalidade quando se manifestava pela incapacidade-que Saint-Loup conservara e que desaparece com a infância com certas particularidades fisiológicas dessa idade de impedir que se refletisse uma emoção. Qualquer coisa que desejasse, por exemplo, algo com que não contara, mesmo sendo um cumprimento, determinava nele um prazer, brusco, tão ardente, tão volátil, tão expansivo, que lhe era impossível conter ou oculta-lo; uma expressão de contentamento assomava-lhe irresistivelmente; a pele muito fina das faces deixava transparecer um vivo rubor, seus olhos refletiam a alegria e o enlevo; e minha avó era infinitamente sensível a essa aparência de inocência e franqueza, que em Saint-Loup, aliás, ao menos na maneira, em que me liguei a ele, era bem sincera. Mas conheci outra criatura, e há muitas que como ela, qual a sinceridade fisiológica desse rubor passageiro não excluía de modo algum a duplicidade moral; muitas vezes, prova unicamente a vivacidade com que mostra o prazer, a ponto de se verem desarmadas diante dele e serem forçadas a confessa-lo aos outros, certas naturezas capazes das piores objeções. Mas, minha avó adorava mais a simplicidade de Saint-Loup, era no seu modo de ser sem rodeios, a simpatia que me devotava, e que expressava com palavras tais que ela mesma dizia consigo não saber achar mais justas e carinhosas, palavras dignas de levarem a assinatura de "Sévigné e Beausergent''; ele não se constrangia de gracejar dos meus defeitos - que desvelara com uma finura que encantara avó -, mas como ela própria o teria feito, com ternura; ao passo que exaltando minhas qualidades com um ardor e um abandono que não conhecia as reservas e a frieza, graças às quais os jovens de sua idade costumam achar que se dão importância. Mostrava, para prevenir-me o menor incômodo, para repor-me uma manta sobre as pernas sem que eu notasse, se o tempo esfriava, para arrumar uma sem nada me dizer, de ficar comigo mais tarde que de costume se me via indisposto, uma atenção vigilante que, do ponto de vista da minha saúde, chegava a achar quase excessiva, pois talvez fosse preferível menos mimos, mas que, por outro lado, tocavam-na profundamente como prova de afeição por ruim.

            E bem depressa ficou claro entre nós que éramos amigos íntimos para sempre, e ele dizia "nossa amizade" como se falasse de algo importante e delicioso que existisse fora de nós mesmos e que em breve denominou - sem contar o amor por sua amante - a maior alegria de sua vida. Tais palavras me deram uma espécie de tristeza e senti-me embaraçado para respondê-las, pois a verdade é que eu não experimentava, ao me encontrar ou conversar com ele - e sem dúvida me ocorreria o mesmo em relação aos outros - aquela felicidade que, pelo contrário, podia sentir quando estava a sós. Sozinho, sentia às vezes afluir do fundo de mim mesmo uma daquelas impressões que me proporcionavam um delicioso bem-estar. Mas, desde que estivesse em companhia de alguém, desde que falasse com um amigo, meu espírito dava meia-volta, era a esse interlocutor e não a mim mesmo que dirigia seus pensamentos. E, quando estes seguiam esse caminho oposto, não me davam qualquer prazer. Tão logo me separava de Saint-Loup, ia pondo em certa ordem, com o auxílio das palavras, os minutos confusos que passara com ele; dizia comigo que tinha uma boa amizade, que um bom amigo é uma coisa rara; mas, sentir-me cercado de objetos difíceis de adquirir causava-me uma sensação que era justamente o oposto do prazer que me era natural, o oposto do prazer de haver extraído de mim mesmo, e leva-lo à claridade, algo que em mim se ocultava na penumbra. Se passara duas ou três horas a conversar com Robert, ainda que ele tivesse admirado o que eu havia dito, eu sentia uma espécie de remorso, de cansaço, de pena, por não ter ficado sozinho e pronto enfim, para escrever. Então, retrucava a mim mesmo que ninguém é inteligente só para si, que os espíritos mais dotados apreciaram ser tidos em boa consideração, que eu não podia dar como perdidas as horas que passara a erguer uma alta idéia de mim no espírito de meu amigo, convencia-me facilmente que deveria estar feliz por isso, desejando com vivo ardor que semelhante felicidade jamais me fosse arrebatada porque não a sentira de fato. Teme-se acima de tudo a perda dos bens que existem fora de nós, pois nosso coração não chegou a se apoderar deles. Sentia-me capaz de exercer as virtudes da amizade melhor que muitos (porque poria sempre o bem de meus amigos acima de meus interesses pessoais, de que não prescindem jamais as outras pessoas, e que para mim não existiam), porém não de conhecer a alegria em um sentimento que, ao invés de aumentar as diferenças existentes entre minha alma e a dos outros-como as que existem entre todas as almas -contribuía para desfazê-las. Em compensação, às vezes meu pensamento distinguia em Saint-Loup um ser geral, o "nobre", e que, como um espírito interior, movia seus membros, ordenava seus gestos e suas opiniões; então, nesses instantes, embora junto dele, achava-me sozinho, como se estivesse diante de uma paisagem cuja harmonia compreendesse. Não era mais que um objeto que meu pensamento queria aprofundar. Experimentava uma alegria, da inteligência e não da amizade, ao encontrar sempre nele esse ser secular, o aristocrata que Robert justamente aspirava a não ser. Na agilidade física que conferia tanto encanto à sua amabilidade; no desembaraço com que oferecia seu carro à minha avó e a ajudava a subir; na destreza com que saía do carro quando temia que eu estivesse com frio, para lançar o seu casaco nos meus ombros; eu não sentia apenas a maleabilidade hereditária dos grandes caçadores que, desde muitas gerações, tinham sido os antepassados desse rapaz que aspirava à intelectualidade, algo mais que o desdém para com a riqueza, que, existindo nele junto com o gosto que sentia por ela, porque desse modo podia tratar seus amigos com mais capacidade e dava-lhe condições para lhes pôr à seus pés, com ar negligente, todo o seu luxo. Via eu, sobretudo, a certeza ou a ilusão que tiveram esses grão-senhores de serem "mais que os outros", graças a que legaram a Saint-Loup o desejo de mostrar que era "tanto como os outros", medo de parecer atencioso demais que, de fato, era-lhe verdadeiramente desconhecido e que desfigura com tanta mesquinhez e acanhamento a mais sincera generosidade plebéia. Censurava-me, às vezes, por ter prazer em considerar meu amigo só uma obra de arte, ou seja, encarar o maquinismo de todas as partes de sua pessoa como governado harmoniosamente por uma idéia geral a que eram afeitas, das quais ele não conhecia e, conseqüentemente, nada acrescentava às suas qualidades próprias, a esse valor pessoal de inteligência e de moralidade que ele tanto apreciava.

            No entanto, esse mérito pessoal era, em certa medida, condicionado aquela idéia. Sua atividade mental, suas aspirações socialistas, que o levavam à procurar jovens estudantes pretensiosos e mal vestidos, tinham nele algo de verdadeiramente puro e desinteressado que não se verificava naqueles rapazes, precisamente porque Robert era um aristocrata. Julgando-se herdeiro de uma casta ignorante e egoísta, Saint-Loup procurava, com sinceridade, que eles lhe perdoassem as origens aristocráticas, que, ao contrário, exerciam sobre eles uma sedução; com que o procurassem justamente por sua estirpe, sempre fingindo em sua presença, uma atitude de frieza e até de insolência. Assim, era Saint-Loup que vivia compelido a tomar a iniciativa para com pessoas que teriam deixado meus pais fiéis à sociologia de Combray, estupefatos porque achariam que era Robert quem devia se esquivar delas. Um dia estávamos, Robert e eu, sentados na areia e ouvimos sair, de uma barraca de lona a nosso lado, imprecações com fervilhamento de judeus que infestavam Balbec.

            "Não se pode dar dois passos sem encontrá-los" - dizia a voz. ''Em princípio não sou irredutivelmente hostil à raça judaica, mas assim já é demais. Só se ouve:

            "Olha, Apraão, sou eu, Chacó" e parece até estamos em Abuquir''

            O homem que esbravejava assim contra Israel saiu por fim da barraca e erguemos os olhos para aquele anti-semita. Era meu companheiro Bloch. Imediatamente, Saint-Loup me pediu que lembrasse a Bloch que ambos haviam se conhecido nos exames para o bacharelado, em que Bloch obtivera o prêmio de honra, e depois tinham se encontrado numa universidade popular.

            Às vezes eu sorria ao perceber em Robert o sinal das lições dos jesuítas, no desassossego que lhe causava o medo de ofender, sempre que um de seus amigos intelectuais cometia um erro mundano; fazia algo ridículo a que ele, Saint-Loup, não dava a menor importância, mas que teria envergonhado o outro se se apercebesse da falha cometida. Era Robert quem se ruborizava como se fosse ele o culpado; por exemplo, no dia em que Bloch prometeu ir vê-lo no hotel, dizendo:

            -Como não suporto esperar entre o falso luxo dessas grandes caravanas e os ciganos me fazem passar mal, diga ao laift que os mande ficar em silêncio e que avise a você em seguida.

            Pessoalmente, não tinha muito interesse em que Bloch fosse ao hotel. Ele estava em Balbec, infelizmente não sozinho e sim com suas irmãs, que tinham grande quantidade de parentes e amigos. Ora, essa colônia judia era mais pitoresca do que agradável. Acontecia em Balbec o que ocorre em certos países, a Rússia ou a Romênia, onde os cursos de geografia nos ensinam que a população judia não desfruta do mesmo favor, nem chegou ao mesmo grau de assimilação que em Paris, por exemplo. Andando sempre juntos, sem mistura de nenhum outro elemento, quando as primas e tios de Bloch, ou correligionários de ambos os sexos, iam para o cassino, umas para o baile e os outros se bifurcando para o bacará, formavam um cortejo homogêneo e inteiramente diverso das pessoas que os olhavam passar, gente que os via ali todos os anos sem jamais trocar um cumprimento com eles, nem o grupo dos Cambremer, nem o clã do magistrado, nem os grandes e pequenos burgueses; ou mesmo simples negociantes de cereais de Paris, cujas belas filhas orgulhosas, zombeteiras e tão francesas como as estátuas de Reims, não gostariam de se misturar a essa horda de moças mal-educadas, que levavam a preocupação com a moda dos "banhos de mar" ao ponto de parecerem ter sempre o ar de quem acaba de pescar camarões ou de estarem a fim de dançar o tango. Quanto aos homens, apesar do esplendor dos smokings e dos sapatos envernizados, o exagero de seu tipo fazia pensar nas pesquisas ditas "inteligentes" dos pintores que, tendo que ilustrar os Evangelhos, ou as Mil e Uma Noites, pensam no país onde a cena ocorre, e dão a São Pedro ou a Ali Babá precisamente a mesma cara do jogador mais gordo de Balbec. Bloch me apresentou suas irmãs, a quem tratava com extrema rispidez, cortando-lhes a palavra, e que riam às gargalhadas à menor tirada do irmão, a quem admiravam e idolatravam. De modo que é possível que o ambiente dessa família tivesse, como todas as outras, talvez mais que qualquer outra, muitos encantos, qualidades e virtudes. Mas, para senti-los, seria preciso penetrar nela. Porém esse ambiente não agradava aos demais, o que eles sentiam vendo nisso a prova de um anti-semitismo contra o qual faziam frente numa compacta e fechada, onde aliás ninguém sonhava em abrir caminho.

            Quanto ao laift, isto me surpreendia menos que alguns dias antes. BIoch me perguntara por que viera eu a Balbec (por outro lado, parecia-lhe muito natural sua presença ali) e se fora "com a intenção de fazer bons contatos"; quando soube que aquela viagem correspondia a um de meus desejos mais antigos, menos profundo do que ir a Veneza, respondeu-me:

            - Sim, naturalmente, tomar sorvetes com belas senhoras, e fingindo que lê as Stones of Venaice de Lord John Ruskin, um melancólico maçante, um dos sujeitos mais chatos que existe. Bloch julgava, portanto, que na Inglaterra não só todas as pessoas do sexo masculino são lordes, mas também que a letra “i” se pronunciava sempre “ai” em inglês. Quanto a Saint-Loup, achava que esse erro de pronúncia não era nada grave; considerava-o decorrente, antes de tudo, da ausência de uma dessas noções que a boa sociedade, que meu novo amigo desprezava tanto quanto as possuía. O medo de que Bloch um dia se certificasse que se diz Venice e que Ruskin não é lorde, e assim imaginasse, retrospectivamente, que Saint-Loup o achara ridículo diante dele fez com que este último se sentisse culpado como se não tivesse mostrado indulgência que lhe sobrava, e o rubor que um dia haveria de colorir o rosto Bloch quando descobrisse o seu erro, ele o sentiu antecipadamente, a reversibilidade, subir ao seu. Pois pensava, e com razão, que Bloch daria mais importância que ele a semelhante erro. E assim o provou Bloch, dias depois, ao me ouviu dizer lift, interrompendo-me:

            - Ah, diz-se lift. - E num tom altaneiro: -Aliás, isto não tem nenhuma importância.

            Frase análoga a um reflexo, igual em todos os homens que têm amor-próprio, tanto nas mais graves circunstâncias como nas mais ínfimas, denotando, tanto como no caso presente, que importância parece ter a coisa em questão para quem afirma que não tem importância; frase trágica, às vezes, que é a primeira a escapar e tão lancinante dos lábios de todo homem um pouco orgulhoso quando, negando-lhe um favor, acabara por lhe arrancar a última esperança a que se prendia:

            "Muito bem, isto não tem mais importância, vou me arrumar de outro modo"; e esse outro modo a que se vê compelido por algo que não tem importância, às vezes pode ser o suicídio.

            Depois, Bloch me disse coisas muito amáveis. Certamente desejava se mostrar muito atencioso comigo. No entanto, indagou:

            - É por vontade de teres à nobreza (aliás, uma nobreza meio esquecida) que freqüentas esse Saint-Loup-en-Bray? Pois és muito ingênuo. Deves estar passando por uma crise de esnobismo. És esnobe, mesmo? Sim, não é?

            Não é que seu desejo de ser amável se houvesse bruscamente mudado. Mas o que se chama em francês um tanto incorreto "a má educação" era o seu defeito; portanto, defeito em que reparava, e assim não julgava que pudesse chocar os outros. Na humanidade, a freqüência de virtudes idênticas para todos não é mais maravilhosa que a multiplicidade dos defeitos particulares de cada um. Sem dúvida, não é o senso comum a coisa mais disseminada pelo mundo, e sim a bondade. Nos pontos mais remotos e perdidos, assombramo-nos ao vê-la florescer espontânea, como num valezinho distante uma papoula igual às demais no resto do mundo, ela que nunca as viu e que jamais conheceu nada, senão o vento que às vezes faz tremular sua rubra corola solitária. Mesmo que essa bondade, paralisada pelo interesse, não chegue a se exercer, ela todavia existe, e a cada vez que não a impeça de agir um motivo egoísta, por exemplo durante a leitura de um romance ou de um jornal, ela se desabrocha, inclina-se, mesmo no coração daquele que, assassino na vida real, mantém sua ternura, enquanto leitor de folhetins, pelos fracos, pelos justos e perseguidos. Mas a variedade de defeitos não é menos admirável que a semelhança das virtudes. A pessoa mais perfeita possui um certo defeito que choca ou dá raiva. Este homem é de uma bela inteligência, enxerga tudo de um ponto de vista elevado, nunca fala mal de ninguém, mas esquece no bolso as cartas mais importantes que a gente lhe confiou porque ele mesmo se ofereceu para levá-las; e faz com que percamos um encontro importantíssimo, sem nem nos dar um sorriso de desculpas, pois timbra em nunca saber as horas. Este outro é finíssimo, gentil, de modos tão delicados, que só nos diz coisas que nos tornam felizes; mas sentimos que cala sobre outras coisas diferentes, que as esconde no coração, onde elas azedam, e o prazer que tem em nos ver é tão caro que antes nos mataria de cansaço do que nos deixaria sozinhos.

            Um terceiro é mais sincero; porém leva a sinceridade a tal extremo que, na ocasião em que nos desculpamos de não ter ido vê-lo alegando motivos de saúde, insiste em nos fazer saber que fomos vistos no teatro no mesmo dia, e de muito boa cara, ou que não lhe aproveitara muito algo que fizemos por ele, já que outros três vão lhe prestar o mesmo favor e, portanto, pouco tem a nos agradecer. Nas duas circunstâncias, o amigo anterior fingiria não saber que fôramos ao teatro e não diria que outras pessoas poderiam lhe prestar o mesmo serviço. Quanto ao último amigo, sente a necessidade de repetir ou de revelar a alguém aquilo que mais pode nos contrariar, está encantado com sua franqueza e diz firmemente:

            - Eu sou assim.

            Enquanto outros nos aborrecem com sua curiosidade exagerada, ou sua tão absoluta falta de curiosidade, tão grande que se pode falar nos mais sensacionais acontecimentos sem que saibam de que se trata; e outros, ainda, levam meses para nos responder uma carta, quando ela se refere a uma coisa que dizia respeito a nós e não a eles, ou então, se dizem que vêm nos perguntar algo, e ficamos sem ousar sair de casa com receio que venham e não nos encontrem, não aparecem e nos fazem ficar esperando semanas e semanas porque, não tendo recebido de nossa parte a resposta que sua carta de modo algum exigia, pensam que ficamos aborrecidos. Há os que, consultando seu desejo e não o nosso, falam sem nos deixar dizer uma só palavra, quando estão alegres têm vontade de nos ver, não importando o trabalho urgente que tenhamos; mas, quando se sentem enlanguescidos pelo tempo, ou de mau humor, não lhe podemos arrancar uma só palavra; opõem aos nossos esforços um langor inércia; não se dão ao trabalho de responder, mesmo por monossílabos, ao que foi dito como se não nos tivessem ouvido. Todos os nossos amigos têm defeitos, de modo que, para continuar a gostar deles, somos obrigados a nos consolar desses defeitos pensando em seu talento, sua bondade, sua afeição; ou prescindir deles, empregando nisso toda a nossa boa vontade. Infelizmente, nossa obstinação complacente em não ver o defeito de nosso amigo sempre está superada, sua obstinação em exibi-lo, ou pela própria cegueira, ou porque acha que cegos são os outros. Pois, ou ele não enxerga seu defeito, ou crê que os outros não o vêem. Como o risco de desagradar provém sobretudo da dificuldade de apreciar aquilo que passa despercebido ou não, pelo menos por prudência a gente nunca deveria falar de si mesmo, pois certamente este é um assunto em que podemos estar seguros que o nosso ponto de vista e o dos outros jamais coincidirão. Se temos a surpresa em visitar uma casa de aparência comum, cujo interior está repleto de tesouros, de gazuas e de cadáveres, quanto descobrir a verdadeira vida do próximo, o universo real sob o universo aparente, não menor a sentiremos quando, em imagem que fazíamos de nós mesmos graças ao que dizem de nós, certificamos pelo que essas mesmas pessoas dizem de nós quando estamos ausentes, da imagem inteiramente diversa que têm a nosso respeito e sobre nossa vida. De que, de cada vez que falamos de nós mesmos, podemos estar seguros de nossas prudentes e inofensivas palavras, ouvidas com aparente polidez e hipócrita aprovação, deram lugar aos comentários mais exasperados ou mais divertidos, em todo caso os menos favoráveis. Nosso menor risco será o de agastar os que nos ouvem, pela desproporção que há entre a idéia que fazemos de nós próprios e as nossas palavras, desproporção que em geral converte as frases das pessoas sobre si mesmas em algo tão risível quanto o cantarolar dos falsos amados a música que experimentam a necessidade de trautear uma música de que gostam, compensando a insuficiência de seu murmúrio inarticulado por uma mímica mágica e um ar de admiração que não se justifica de forma alguma diante dos que estão escutando. E, ao mau costume de falar de si mesmo e de seus defeitos é preciso acrescentar, como se com ele formasse um só bloco inteiriço, esse costume de denunciar nas demais pessoas defeitos precisamente iguais aos que temos. Ora, é sempre desses defeitos que falamos, como se fosse uma forma de rodeios de falar de nós mesmos e que alia ao prazer da absolvição ao da que são. Além disso, parece que nossa atenção, sempre atraída para aquilo que caracteriza, assinala-o mais que qualquer outra coisa nas demais pessoas míopes que dizem de outro:

            "Mas ele mal pode abrir os olhos"; um tísico tem dúvidas da integridade pulmonar do indivíduo mais robusto; uma pessoa pouco fala dos banhos que os outros não tomam; um mal-cheiroso pretende que os outros cheirem mal; um marido enganado vê em toda parte maridos enganados; a mulher leviana só vê mulheres levianas; o esnobe só enxerga esnobes. Além do mais, todo vício, como toda profissão, exige e desenvolve um conhecimento especial que se exibe com gosto. O invertido descobre logo os invertidos; o alfaiate, convidado a uma reunião social, ainda nem falou e já calcula a qualidade da fazenda da nossa roupa e seus dedos ardem por apalpar-lhe o tecido; e, se, após alguns momentos, pedimos a um dentista sua verdadeira opinião a nosso respeito, ele dirá a quantidade de nossos dentes cariados. Para ele, nada mais importante; para nós, que já reparamos em sua dentadura, nada mais ridículo. E não é apenas quando falamos de nós mesmos que achamos que os outros são cegos; agimos como se eles o fossem. Para cada um de nós, há um deus especial que nos oculta ou promete a invisibilidade do nosso defeito, assim como fecha os olhos e as narinas às pessoas que não se lavam, quanto ao sebo que trazem nas orelhas e ao cheiro de suor que têm nas axilas, convencendo-os de que podem exibir impunemente esses defeitos ao mundo, pois este não perceberá coisa alguma. E os que usam pérolas falsas ou as presenteiam, imaginam que as tomarão por verdadeiras. Bloch era mal-educado, neurastênico, esnobe e, pertencendo a uma família pouco estimada, suportava, como o fundo do mar, incalculáveis pressões que faziam pesar sobre ele não só os cristãos da superfície, mas as camadas superpostas das castas judias superiores à sua, cada qual oprimindo com seu desprezo a que estava imediatamente abaixo. Para atingir o ar livre, atravessando famílias e famílias judaicas, Bloch teria de levar milhares e milhares de anos. Mais valia buscar saída por outro lado. Quando Bloch me falou da crise de esnobismo que eu devia estar atravessando, pedindo-me que confessasse ser um esnobe, tive vontade de lhe responder:

            - Se fosse esnobe, não andaria com você. - Disse-lhe apenas que ele era pouco amável. Então quis se desculpar, mas de acordo com o jeito do homem mal-educado, que se sente feliz em desdizer suas palavras mas achando um meio de agravá-las.

            - Perdoe-me - dizia agora a cada vez que nos encontrávamos -, eu te desgostei, torturei, fui mau sem motivo. E, no entanto (o homem em geral, e seu amigo em particular, é um animal estranho), não podes imaginar, eu que te incomodo tão cruelmente, a afeição que sinto por ti. Tanto, que muitas vezes chego a chorar por ti.

            E deixou ouvir um soluço. O que me assombrava em Bloch, mais que os seus maus modos, era ver de que maneira a sua conversação era de qualidade desigual. Este rapaz tão difícil, que dos escritores mais em voga dizia:

            -É um lúgubre idiota, um rematado imbecil -,às vezes punha-se a contar, muito divertido, anedotas que não tinham nenhuma graça, e citava uma pessoa totalmente medíocre como sendo "alguém curiosíssimo". Essa dupla medida para avaliar o espírito, a qualidade e o interesse das criaturas, não deixava de me espantar até o dia em que conheci o Sr. Bloch pai. Achava que nunca nos seria permitido conhecê-lo, pois Bloch filho falava mal de mim a Saint-Loup e deste a mim. Especialmente dissera a Saint-Loup que eu sempre era terrivelmente esnobe.

            - Sim, sim, está encantado por conhecer Legrandin - disse. Esse modo de sublinhar um nome era, em Bloch, um sinônimo ao mesmo tempo de ironia e de literatura. Saint-Loup, que jamais ouvira o nomes Legrandin, espantou-se:

            - Quem é?

            - Oh, é alguém muito distinto. - respondeu - Bloch rindo. E punha, friorento, as mãos nos bolsos do jaquetão, convencido de que, naquele instante, estava contemplando o aspecto pitoresco de um extraordinário fidalgo provinciano, junto a quem não era nada o nome de Barbey d'Aurevilly. Consolava-se de não saber descrever o Sr. Legrandin, pronunciando-lhe o “n” com muitos LL e saboreando-o como se fosse um vinho respeitável. Mas meus gozos subjetivos ficavam desconhecidos dos outros. Se falou mal de mim à Saint-Loup, por outro lado não o fez menos de Saint-Loup para mim. Ficara sabendo dos pormenores dessas maledicências desde o dia seguinte, não que fôssemos repetir um ao outro, o que nos teria parecido incorreto, mas porque Bloch, a quem era tão natural e inevitável que assim o fizéssemos, inquieto - por certo que não ia nos dizer nada que não soubéssemos, preferiu antecipar; chamando de parte Saint-Loup, confessou-lhe que falara deliberadamente mal dele para que lhe contassem, e jurou "por Zeus, filho de Kronos, guardião dos juramentos",que o amava e daria sua vida por ele; e enxugou uma lágrima. No mesmo dia deu um jeito para estar a sós comigo, me fez sua confissão, declarou que agia por meu interesse porque julgava que certa espécie de relações sociais seriam prejudiciais e que eu "valia mais que isso". Depois, segurando minha mão com um sentimentalismo de bêbado, embora sua embriaguez fosse puramente de origem nervosa, disse: - Acredita em mim, e que a funesta Ker me agarre imediatamente e me faça entrar pelas portas de Hades, odiosas aos humanos, se não é verdade que ontem, fiquei pensando em ti, em Combray, em minha ternura infinita por ti, naquelas tardes de colégio, que nem te lembras mais, passei a noite inteira chorando. Sim, a noite inteira juro-te, e infelizmente sei, pois conheço as almas humanas, que não acreditará.

            De fato, não acreditava; e seu juramento "pela Ker" não acrescentava peso àquelas palavras, que eu percebia serem inventadas à medida que ele falava, o culto helênico era em Bloch puramente literário. Aliás, quando principiava em ser sentimental e queria enternecer os outros com alguma falsidade, dizia:

            - Eu te juro - mais pela volúpia histérica de mentir que pelo interesse em que pensassem que dizia a verdade. Não acreditei em nada do que me disse, mas não lhe guardei rancor, pois herdara de minha mãe e de minha avó a incapacidade de ser rancoroso, mesmo contra culpados bem mais graves, e de jamais condenar ninguém.

            Aliás, Bloch não era de todo um mau rapaz, podia praticar muitas bondades. E, desde que quase se extinguiu a raça de Combray, raça de onde criaturas absolutamente íntegras, como minha avó e minha mãe, e como já quase não tenho escolha senão entre brutos honrados, insensíveis e leais que, só pelo timbre da voz, mostram logo que não se preocupam de forma alguma com a nossa vida e outra espécie de pessoas que, enquanto estão conosco nos compreendem, nos estimam, se enternecem até às lágrimas e que, em compensação, horas depois fazem um cruel gracejo a nosso respeito, e no entanto voltam para nós, sempre tão compreensivos, tão encantadores, tão momentaneamente assimilados a nós mesmos; creio que é esta última espécie de homens a que prefiro, senão pelo valor moral, ao menos pelo convívio.

            - Não podes imaginar minha dor quando penso em ti - continuou Bloch. - No fundo, isto é um lado bastante judaico em mim - acrescentou ironicamente, contraindo a pupila como se cuidasse de dosar ao microscópio uma quantidade infinitesimal de "sangue judeu", e como teria podido dizê-lo (embora não o dissesse) um grão-senhor francês que entre seus ancestrais, todos cristãos, contasse entretanto com Samuel Bernard ou, mais antigamente ainda, a Virgem Maria, da qual se diz que pretendem descender os Lévys. - Fico muito satisfeito – continuou - por estabelecer deste modo em meus sentimentos a parte, aliás bem pequena, influenciada por minhas origens judaicas. - Pronunciou esta frase porque lhe pareceu a um tempo espirituoso e atrevido dizer a verdade acerca de sua raça, verdade que, da mesma forma, ele tratou de atenuar singularmente, como os avaros que decidem livrar-se das dívidas, mas só têm coragem de pagar a metade. O tipo de fraude que consiste em ter audácia de proclamar a verdade, mas misturando-a com uma boa proporção de mentiras que a falsificam, é mais espalhado do que se pensa e, até entre aqueles que habitualmente não a praticam, certas crises da vida, notadamente aquelas em que está em jogo uma relação amorosa, dão-lhes a ocasião de se entregarem a ela.

            Todas essas diatribes confidenciais de Bloch à Saint-Loup contra mim, e a mim contra Saint-Loup, acabaram num convite para jantar; não tenho certeza se antes não fez uma tentativa para ter Saint-Loup sozinho. A verossimilhança torna provável essa tentativa, mas não teve sucesso, pois um dia nos disse a ambos:

            - Caro mestre, e vós, cavaleiro amado de Ares, de Saint-Loup-en-Bray, domador de cavalos, já que os encontrei às margens de Anfitrite, a ressoar de espuma, perto das tendas dos Menier, os das naus velozes, quereis ambos vir jantar um dia desta semana em casa de meu ilustre pai de coração irrepreensível? - Dirigia-nos esse convite por desejar ligar-se mais estreitamente a Saint-Loup, que o faria, segundo esperava, penetrar nos ambientes aristocráticos. Formulada por mim, semelhante aspiração teria parecido a Bloch o sinal do mais horrível esnobismo, bem de acordo com a opinião que professava sobre uma parte de minha personalidade que, ao menos até então, considerava secundária; porém o mesmo desejo, de sua parte, parecia-lhe uma prova de bela curiosidade de sua inteligência, que ansiava por determinadas mudanças sociais que lhe fossem de utilidade literária. O Sr. Bloch pai, quando o filho lhe dissera que traria um amigo para jantar, nome e título declinou num tom de sarcástica satisfação:

            "O Marquês de Saint-Loup-en-Bray" -sentiu uma comoção violenta, e exclamou, usando a interjeição que nele era a maior prova de deferência social:

            - Caramba! O Marquês de Saint-Loup-en-Bray! - E lançou ao filho, capaz de travar semelhantes relações olhar admirativo que significava:

            "É verdadeiramente assombroso. Será que esse garoto prodígio é o meu filho?"-olhar que deu tanto prazer ao meu camarada como pai lhe houvesse aumentado a mesada em cinqüenta francos. Pois Bloch sentia muito à vontade em casa e percebia que o pai o considerava um desajustado devido à sua permanente admiração por Leconte de Lisle, Heredia e outros ''boêmios". Porém relações com Saint-Loup-en-Bray, cujo pai fora presidente da Companhia do Canal de Suez (caramba!), eram um resultado "indiscutível". Lamentava todos ter deixado em Paris o estetoscópio, com medo de estragá-lo. Somente Bloch pai tinha a arte, ou o direito, de se utilizar dele. O que, aliás, só fazia raramente, com conhecimento de causa, nos dias de baile de gala, quando tinham extras. De forma que de tais sessões de estetoscópio emanava, para quem a assistia, uma espécie de distinção, um favor de privilegiados e, para o dono da casa que as dava, um prestígio idêntico ao que o talento confere e que não poderia ter sido maior, ainda que as vistas fossem tiradas pelo próprio Sr. Bloch e o aparato fosse sua invenção.

            - Não foi ontem à casa dos Salomon? - perguntavam no âmbito familiar.

            - Não, não fui dos eleitos. Que foi que houve?

            - Um grande aparelho, estetoscópio, toda a aparelhagem.

            - Ah, o estetoscópio! Então lastimo não ter ido, pois parece que Salomon é insuperável quando o mostra.

            -Que queres? - perguntou o Sr. Bloch ao filho.-Não se deve dar tudo de uma vez; desse modo fica alguma coisa a desejar.

            Ocorrera-lhe, inspirado pela ternura paterna e pelo desejo de emocionar o filho, a idéia de mandar buscar o instrumento. Mas faltava o "tempo material", ou antes, achou que faltava; mas apressou-se o jantar porque Saint-Loup não dispunha de tempo suficiente, esperando um tio que vinha passar de visita com a Sra. de Villeparisis. Como esse tio era muito dado aos exercícios físicos, sobretudo às longas caminhadas, era em grande parte a pé que percorreria entre o castelo, onde veraneava, e Balbec, dormindo à noite nas fazendas, de que era incerto o momento em que chegaria. Sem ousar se mexer, Saint-Loup encarregou-me até de levar a Incarville, onde ficavam os escritórios do telégrafo, o despacho que enviava diariamente à sua amante. O tio que esperava chamava-se Palamede, prenome que herdara dos príncipes da Sicília, seus antepassados; mais tarde, quando encontrei nas minhas leituras históricas, pertencentes potentado ou príncipe da Igreja, esse mesmo nome, bela medalha da Renascimento - alguns dizem ser uma verdadeira antigüidade - sempre na família, tendo de descendente em descendente, desde o gabinete do Vaticano até o tio amigo, senti o prazer reservado àqueles que, não podendo por escassez de formar uma coleção de medalhas ou uma pinacoteca, procuram velhos nomes (nomes de lugares, documentais e pitorescos como um mapa antigo, uma paisagem ampla, uma insígnia ou um foro consuetudinário, nomes de batismo onde se ouve ressoar, nas belas finais francesas, o defeito de pronúncia, o sotaque de uma vulgaridade racial, a fala viciosa segundo a qual nossos antepassados impunham às palavras latinas e saxãs mutilações permanentes que mais tarde passaram a ser nobres legisladoras de gramáticas) e, em suma, graças a tais coleções de sonoridades antigas dão concertos a si mesmos, à maneira dos que adquirem violas de gamba e violas de amor para tocar música de outrora em instrumentos antigos. Saint-Loup me disse que, mesmo na mais fechada sociedade aristocrática, seu tio Palamede ainda se distinguia por ser dificilmente acessível, desdenhoso, muito aferrado à sua nobreza, formando com a cunhada e algumas pessoas escolhidas o que era conhecido como o círculo dos Fênix. Ainda aí era tão temido por suas insolências que ocorreu algumas vezes que certos aristocratas, desejosos de conhecê-lo, haviam recorrido a seu próprio irmão, que se negou a apresentá-los.

            - Não, não me peçam para apresentá-los a meu irmão Palamede. Mesmo que eu, minha mulher, nós todos nos empenhássemos, nada obteríamos. Ou o senhor se arriscaria a que ele não fosse amável, e eu não desejo isso. - No Jockey, ele e alguns amigos tinham relacionado duzentos sócios a quem jamais se deixariam apresentar. E, na casa do conde de Paris, era conhecido pelo apelido de "Príncipe", devido a sua elegância e a seu orgulho.

            Saint-Loup me falou da juventude, há muito passada, de seu tio. Todos os dias levava mulheres ao apartamento de solteiro que dividia com dois amigos, bonitos como ele, razão pela qual os chamavam as "Três Graças".

            - Um dia, um dos homens que atualmente é muito bem visto no faubourg Saint-Germain, como diria Balzac, mas que teve um primeiro período bastante tumultuado e mostrava estranhas preferências, pedira a meu tio que o deixasse ir àquele apartamento. Porém, mal chegado, declarou-se não às mulheres e sim a meu tio Palamede. Este fingiu não entender, chamou à parte os dois amigos com uma desculpa qualquer; voltaram, pegaram o culpado, despiram-no e lhe deram uma surra até que sangrasse, pondo-o depois porta afora, aos pontapés, sob um frio de dez graus abaixo de zero. O infeliz foi encontrado semimorto, a polícia instaurou inquérito, e custou muito ao desgraçado que a coisa não seguisse adiante. Hoje meu tio não daria um castigo tão cruel e você nem imagina o número de pessoas do povo a quem trata com afeto, ele tão altivo

para com as pessoas da alta roda. Protege-os, e eles lhes pagam com a ingratidão. Ora é um criado que o serviu num hotel, a quem arranja uma colocação em Paris, ora um camponês a quem custeia o aprendizado de um ofício. É até o lado bem gentil de meu tio, em contraste com o lado mundano.

            Com efeito, Saint-Loup pertencia a esse tipo de rapazes aristocratas situados a uma altura onde podem brotar essas expressões: "É o que ele tem de gentil, é o seu lado gentil", sementes preciosas que logo determina" modo de conceber as coisas, na qual não se vale nada e o "povo" vale tudo-, em outras palavras, o oposto do orgulho plebeu. - Na juventude, parece que nem pode imaginar como ele dava o tom, como ditava a lei na sociedade. De sua parte em qualquer circunstância, fazia o que lhe era mais agradável, mais cômodo, mas era logo imitado pelos esnobes. Se lhe acontecia ter sede no teatro e mandasse tirar bebidas ao camarote, era certo que, na semana seguinte, todos os salõezinhos detrás dos camarotes se encheriam de refrescos. Num verão muito chuvoso, porque ele sofreu um pouco de reumatismo, encomendou um sobretudo de vicunha fina, mas bem quente, que só se usa em cobertas de viagem, e respeitou o tecido de listras azuis e alaranjadas. Imediatamente, os grandes alfaiates receberam dos clientes encomendas de casacos listrados de azul, com franjas, de pelos compridos. Se, por um motivo qualquer, desejava tirar toda a solenidade de um jantar no castelo onde passava o dia, e, para indicar esse tom, não vestia casaco sentava-se à mesa com a jaqueta que usara de tarde, virou moda jantar no campo jaqueta. Se, ao comer um doce, se servia de um garfo em vez da colher, ou de um talher que inventara e que havia encomendado a um ourives, ou mesmo dedos, não era mais permitido fazer de outro modo. Sentira vontade de ouvir de novo certos quartetos de Beethoven (pois, com todas as suas idéias extravagantes, não é nenhum estúpido e possui talento) e encarregou alguns músicos de tocarem em sua casa aquelas peças, para ele e os amigos. A maior elegância daquele tempo era dar reuniões pouco freqüentadas, onde se ouvia música de câmara. Creio que deve ter se aborrecido nesta vida. Bonito como era, deve ter tido muitas mulheres - Apenas não poderia dizer quais, pois ele era muito discreto. Mas sei que enganou muito minha pobre tia. O que não impediu que fosse extremamente atencioso com ela, que ela o adorasse, e que tenha chorado durante anos. Quando está em Paris vai ainda ao cemitério quase todos os dias.

            Na manhã seguinte ao dia em que Robert me falara assim de seu tio, enquanto ele o esperava em vão, passava eu sozinho pela frente do cassino, vindo ao hotel, quando tive a sensação de estar sendo observado por alguém que se achava longe. Virei a cabeça e dei com um homem de uns 40 anos, muito robusto, com bigodes bem pretos e que, batendo nervosamente com a bengala nas calças, fixava em mim os olhos dilatados pela atenção. Por instantes, aqueles eram atravessados por olhares de extrema atividade, próprios apenas dos homens que estão diante de uma pessoa a quem desconhecem, pessoa que, por motivo, lhes inspira idéias que não ocorreriam a outros - por exemplo, os loucos dos espiões. Lançou-me um olhar derradeiro, a um tempo ousado e prudente; profundo, como o último golpe antes de iniciar a fuga, e, depois de olhar em redor, assumindo de repente um ar distraído e altaneiro, virou-se inteiramente para um cartaz de teatro, em cuja leitura se absorveu, cantarolando uma canção, enquanto arrumava a rosa musgosa da botoeira. Tirou uma caderneta do bolso e pareceu tomar nota do espetáculo anunciado; olhou o relógio duas ou três vezes, baixou mais sobre a testa a palheta de cor negra, prolongando-lhe a aba com a mão em viseira como para ver alguém que não chegava, fez um gesto de descontentamento como esses que a gente faz quando já está farto de esperar, mas que nunca fazemos quando esperamos de verdade; depois, empurrando o chapéu para a nuca e deixando aparecer o cabelo cortado à escovinha, mas que apresentava de cada lado grandes mechas onduladas, soltou o suspiro ruidoso não das pessoas que têm muito calor, mas das que desejam aparentar que estão com calor. Veio-me a idéia de que se tratava de um ladrão de hotel, que, já tendo reparado em mim e minha avó nos dias anteriores, e preparando um golpe, vendo que o havia surpreendido enquanto me espiava, adotara aquela nova atitude para despistar, e expressava distração e indiferença, mas com tão agressivo exagero que seu objetivo, mais que o de dissipar as suspeitas que eu porventura tivesse, parecia o de vingar uma humilhação que eu lhe houvesse infligido sem querer, dando-me a entender não tanto que não me houvesse visto, mas que eu era sem importância demais para atrair a sua atenção. Empertigava-se com ar de bravata, franzia os lábios, torcia o bigode e dava ao olhar um tom de indiferença, de dureza, quase insultante. De modo que a singularidade de sua expressão me fazia toma-lo tanto por um ladrão como por um doido. Todavia seu modo de trajar era extremamente correto, e muito mais sério e simples que o de todos os banhistas que eu via em Balbec, de forma que justificava minha jaqueta escura, tão freqüentemente humilhada pela deslumbrante alvura banal das roupas de praia. Porém minha avó vinha a meu encontro, demos uma volta juntos e, uma hora depois, esperava-a diante do hotel, onde entrara por um momento; vi então sair a Sra. de Villeparisis na companhia de Robert de Saint-Loup e do desconhecido que me olhara tão fixamente à porta do cassino. Com a rapidez do relâmpago, o seu olhar me atravessou como no momento em que o vira pela primeira vez, e, como se não me tivesse visto, voltou a pôr diante dos olhos aquele olhar embotado, neutro, que finge nada ter visto fora e não é capaz de ler coisa alguma para dentro, olhar que expressa apenas a satisfação de sentir a seu redor as pestanas que entreabre com sua beatífica redondeza, o olhar devoto e derretido de alguns hipócritas, o olhar presunçoso de certos tolos. Vi que mudara de roupa. A que usava era ainda mais sombria; e, sem dúvida, o fato é que a verdadeira elegância está menos longe da simplicidade que a falsa; mas havia outra coisa: olhando-o de bem perto, via-se que, se a cor estava quase totalmente ausente dessas roupas, não era porque as banira por lhes ser indiferente, mas antes porque as proibira por um motivo qualquer. E a sobriedade que denotavam parecia provir mais da obediência a um regime do que da falta de gulodice. Um debrum verde-escuro se harmonizava, no tecido das calças, com o desenho das meias, refinamento que provava a vivacidade de um gosto cultivado em qualquer outra parte e ao qual esta única concessão fora feita por tolerância, ao passo que uma pinta rosada na gravata era imperceptível como uma liberdade que mal ousamos tomar.

            - Como vai? Apresento-lhe o meu sobrinho, o barão de Guermantes - disse-me a Sra. de Villeparisis, enquanto o desconhecido, sem me olhar, resmungando um vago "Encantado", que fez seguir de uns grunhidos para emprestar à amabilidade um tom forçado, e dobrando o dedo mínimo, o indicador e o estendeu-me o médio e o anular, sem nenhum anel, que apertei, protegidos em, luva de couro da Suécia; depois, sem ter erguido os olhos para mim, virou-se para Sra. de Villeparisis.

            - Meu Deus, onde estou com a cabeça? - disse esta. - Já te chamei, barão de Guermantes. Apresento-lhe o barão de Charles. Afinal, o erro não é grande - acrescentou -, pois também és um Guermantes.

            Nesse meio tempo, saía a minha avó e começamos a andar todos. O tio de Saint-Loup não só não me honrou com uma palavra mas sequer com o olhar. Se encarava os desconhecidos (e nesse curto passeio lançou duas ou três vezes o seu olhar profundo e terrível como para sondar as pessoas insignificantes de condição bem modesta que passavam), em compensação não olhava posso julgar por mim, as pessoas conhecidas como um policial em missão secreta mas que mantém os amigos fora de sua vigilância profissional. Deixei minha avó, a Sra. de Villeparisis e ele conversando juntos, fiquei um pouco atrás com Robert:

            - Diga-me, escutei bem? A Sra. de Villeparisis disse a seu tio que era um Guermantes?

            - Sim, naturalmente, é: Palamede de Guermantes.

            - Mas dos mesmos Guermantes que têm um castelo perto de Combray, que pretendem descender de Genevieve de Brabante?

            - Perfeitamente. Meu tio, que é o que existe de mais heráldico, lhe responderia que o nosso grito de guerra, que mais tarde foi Passavent, em princípio era Combraysis - disse ele rindo, para não dar impressão de se envaidecia dessa prerrogativa do grito, próprio só das casas quase soberanas, dos senhores de brasões. - É irmão do atual proprietário do castelo.

            Assim, a Sra. de Villeparisis era parente, e bem próxima, dos Guermantes. Ela, que por muito tempo fora para mim a senhora que me dera uma caixa de chocolates com um pato, quando eu era pequeno, caixa então de tal modo a do lado de Guermantes como se tivesse sido preparada no lado de Méséglise; menos brilhante e menos considerada a meus olhos, que o oculista de Combray disse que sofria agora subitamente uma dessas altas fantásticas, semelhantes às baixas, menos imprevistas de outros objetos que possuímos, altas e baixas que introduzem na nossa adolescência, e nos aspectos de nossa vida onde subsistir algo de nossa adolescência, mudanças tão numerosas como as metamorfoses de Ovídio.

            - Não existem nesse castelo os bustos de todos os antigos senhores de Guermantes?

            - Sim, e são um belo espetáculo. - disse Saint-Loup com ironia. - Aqui, entre nós, acho essas coisas meio ridículas. Mas em Guermantes há coisas de maior interesse: um retrato impressionante da minha tia, pintado por Carriere. É lindo como um Whistler ou um Velásquez. -acrescentou Saint-Loup, que, no seu zelo de neófito, nem sempre conservava com exatidão a escala de valores. - Há também quadros muito curiosos de Gustave Moreau. Minha tia é sobrinha de sua amiga Sra. de Villeparisis, foi educada por ela e se casou com o primo, que também era sobrinho da tia de Villeparisis, o atual duque de Guermantes.

            - Mas então o que é o seu tio...?

            - Ele usa o título de barão de Charles. Na verdade, quando meu tio-avô morreu, o tio Palamede deveria ter tomado o título de príncipe des Laumes, que era o de seu irmão antes que se tornasse duque de Guermantes, pois na nossa família mudam de nome como quem troca de camisa. Mas meu tio tem idéias próprias sobre esse assunto. E, como acha que se abusa um pouco dos ducados italianos, grandezas espanholas, etc., embora pudesse ter escolhido entre quatro ou cinco títulos de príncipe, preferiu o de barão de Charles como forma de protesto e com uma simplicidade aparente onde há muito de orgulho. "- Hoje diz ele todo mundo é príncipe; portanto, é necessário a gente se diferenciar em alguma coisa; tomarei um título de príncipe quando quiser viajar incógnito." Segundo ele, não há título mais antigo que o de barão de Charles. Para provar que é anterior ao dos Montmorency, que falsamente se diziam os primeiros barões da França, ao passo que na verdade o eram apenas da Ilha de França, onde ficava o seu feudo, meu tio lhe dará explicações durante horas e horas, e com todo o prazer, pois que, embora seja homem de gosto e muito talento, este assunto de conversação parece lhe interessar sempre. -disse Saint-Loup com um sorriso. - Mas como não sou feito ele, não me faça falar de genealogia, pois não conheço nada tão aborrecido, tão morto, como isso; e de fato a existência é muito curta para essas coisas.

            Agora eu reconhecia, no olhar duro que me fizera desviar a cabeça há pouco, perto do cassino, o mesmo que vira fixado em mim em Tansonville, quando a Sra. Swann havia chamado Gilberte.

            - Mas dentre as numerosas amantes que me dizia que seu tio, Sr. de Charles, havia tido, não estava a Sra. Swann?

            - Oh, de jeito nenhum! Quer dizer, ele é um grande amigo de Swann e sempre o defendeu. Mas nunca se murmurou que fosse amante de sua mulher. Você provocaria um grande espanto na sociedade se desse a impressão de acreditar nisso.

            Não ousei responder-lhe que maior espanto haveria em Combray se eu afirmasse o contrário.

            Minha avó ficou encantada como Sr. de Charles. De fato, ele dava grande importância a questões relativas a linhagem e posição social, o que minha avó notara; mas sem aquela severidade onde em geral costuma haver uma inveja e a irritação de ver outra pessoa desfrutar vantagens que a gente deseja conseguir. Como, pelo contrário, minha avó, contente com sua sorte e não ficava lamentando de forma alguma o não viver numa sociedade mais brilhante, servia-se nas da inteligência para observar os caprichos do Sr. de Charles, falava dos Saint-Loup com essa benevolência desinteressada, sorridente, quase simpático, com que recompensamos o objeto de nossa observação casual pelo prazer que dá; e tanto mais que desta vez o objeto de observação era um personagem cujas pretensões ela considerava, senão legítimas, pelo menos pitorescas; o destacar-se vivamente das personalidades com que ela em geral tinha ocasião de lidar. Mas minha avó lhe perdoara facilmente o preconceito aristocrático, espertamente por causa da inteligência e da sensibilidade, que se adivinhava serem eternamente vivas no Sr. de Charles, ao contrário de tantas pessoas da alta sociedade de quem Saint-Loup escarnecia. Mas tal preconceito não fora entretanto sacrificado pelo tio, como o fizera o sobrinho, em favor de qualidades superiores. O Sr. Charles antes conseguira conciliar ambas as coisas. Descendente dos duques de Nemours e dos príncipes de Lamballe, possuía arquivos, móveis, tapeçarias, retratos dos antepassados feitos por Rafael, Velásquez e Boucher; podia dizer "visitava" um museu e uma incomparável biblioteca apenas ao percorrer as acomodações da família, e colocava, ao contrário, na posição de onde o sobrinho afirmava, descender, toda a herança da aristocracia. Talvez também, por ser menos ideólogo Saint-Loup, atentava menos nas palavras e era um observador mais realista dos homens; não queria desprezar um elemento essencial de prestígio aos olhos das pessoas em geral, e que, se dava à sua imaginação prazeres desinteressados; muitas vezes ser um auxílio extremamente eficaz para sua atividade utilitária permanece aberto o debate entre os homens desse gênero e aqueles que obedecem um ideal interior que os impele a se desfazerem dessas vantagens para tentar realizá-lo, nisto semelhantes aos pintores e escritores que renunciam à virtuosidade, aos povos artistas que se modernizam, aos povos guerreiros que tomam a iniciativa do desarmamento universal, aos governos absolutistas que tornam democráticos e revogam as leis severas, muitas vezes sem que a realidade recompense seus nobres esforços; pois uns perdem seu talento, outros a secular predominância; o pacifismo às vezes multiplica a guerra, e a indulgência leva à criminalidade. Se os esforços de sinceridade e de emancipação de Saint-Loup deviam ser considerados muito nobres, a avaliar pelo resultado exterior, seria de que o Sr. de Charles se felicitasse por não participar de tais idéias, visto mandar transportar para sua casa uma grande parte dos admiráveis entalhamentos do palácio dos Guermantes em vez de trocá-los, como fizera seu sobrinho, por mobiliário de estilo moderno, dos Lebourg e dos Guillaumin. Não é menos verdade que o ideal do Sr. de Charles era bastante artificial, se é que tal adjetivo se pode aplicar à palavra ideal, tanto no sentido social como no artístico. Em certas mulheres muito belas e de rara cultura, cujas avós, dois séculos antes, estiveram misturadas à glória e elegância do antigo regime, ele descobria uma distinção que o fazia só sentir-se a gosto em sua companhia; e, sem dúvida, era sincera a admiração que lhes votava, mas, em grande parte, contribuíam para este sentimento numerosas reminiscências de história e de arte evocadas por seus nomes, assim como as lembranças da Antigüidade são um dos motivos do prazer que um homem culto encontra na leitura de uma ode de Horácio, talvez inferior a alguns poemas de hoje que o deixariam indiferente. Cada uma dessas mulheres, na opinião do Sr. de Charles, estaria para uma linda burguesa como, para uma tela contemporânea que represente uma estrada ou um casamento, está um desses quadros antigos cuja história conhecemos perfeitamente, desde o rei ou o papa que o encomendaram, passando por determinadas personagens junto a quem sua presença, por doação, compra, roubo ou herança, nos lembra algum acontecimento, ou, pelo menos, uma aliança de interesse histórico e, por conseqüência, representa a aquisição de conhecimentos que adquirimos, dando-lhes uma nova utilidade, e aumentando o sentimento da riqueza dos recursos da nossa memória ou da nossa erudição. O Sr. de Charles se felicitava que um preconceito análogo ao seu impedisse essas grandes damas de conviverem com mulheres de sangue menos puro, pois assim se ofereciam intactas em sua nobreza inalterada, como essas fachadas do séc. XVIII sustentadas por lisas colunas de mármore róseo e que o tempo não mudou em nada.

            O Sr. de Charles celebrava a verdadeira nobreza de espírito e sentimentos dessas mulheres, fazendo assim um trocadilho com a palavra nobreza, num equívoco que a si mesmo o enganava e onde residia a falsidade desse conceito bastardo, dessa mistura ambígua de aristocracia, generosidade e arte, mas também a sua sedução, perigosa para as criaturas como a minha avó, a quem o preconceito mais grosseiro porém mais inocente de um nobre, que só vê os seus brasões e não se preocupa com o resto, teria parecido excessivamente ridículo, mas que ficaria indefesa desde que algo se lhe apresentasse sob as aparências de uma superioridade espiritual, a ponto de considerar os príncipes os mais invejáveis dos homens porque poderiam ter tido um La Bruyere ou um Fénelon como preceptores.

            Diante do Grande Hotel, os três Guermantes nos deixaram; iam almoçar na casa da princesa de Luxemburgo. No momento em que minha avó dizia adeus à Sra. de Villeparisis e Saint-Loup se despedia dela, o Sr. de Charles, que até então não me dirigira a palavra, deu alguns passos para trás até chegar a meu lado:

            -Vou tomar chá esta noite após o jantar, no apartamento de minha tia Villeparisis disse-me.

-Espero que me dê o prazer de comparecer com a senhora sua avó.- E foi reunir-se à marquesa.

            Embora fosse domingo, já não havia mais fiacres diante do hotel como no começo da temporada. A esposa do tabelião, em particular, achava ser gasto excessivo alugar todo fim de semana um carro a não ser para ir aos Cambremer; contentava-se em ficar encerrada no quarto.

            - A Sra. Blandais está doente? - perguntavam ao tabelião

            - Não vir hoje. Tem um pouco de dor de cabeça; deve ser o calor, a trovoada. Mas, uma coisinha de nada; mas creio que a verão esta noite. Aconselhei-a a que descansasse. Isto só poderá lhe fazer bem.

            Pensei que, ao convidar-nos assim para o apartamento de sua tia, sem dúvida a prevenira de nossa visita, o Sr. de Charles teria desejado reparar a descortesia com que me tratara no passeio daquela manhã. Mas, quando entramos o sobrinho estava no salão da Sra. Villeparisis; quis cumprimentá-lo, porém por mais voltas que desse a seu redor, não pude atrair o seu olhar, pois ele contava, em voz aguda, uma história bem malévola sobre um de seus parentes; quis cumprimentá-lo com voz bem forte, para adverti-lo de minha presença, mas, compreendi que havia reparado nela, pois, antes mesmo que meus lábios dissesse uma só palavra, no momento em que me inclinava, vi seus dois dedos estendidos para que os apertasse, sem que ele tivesse desviado os olhos ou interrompido a conversa. Evidentemente me vira, mas sem dá-lo a perceber, e só então verifiquei que seus olhos, que jamais se fixavam no interlocutor, passeavam permanentemente em todas as direções, como os de certos animais assustados, ou os desses vendedores ambulantes que, enquanto declamam seu palavreado e exibem mercadoria ilícita, perscrutam, sem todavia virar a cabeça, os diferentes pontos no horizonte de onde poderia vir a polícia. Com a nossa chegada, parecia surpresa por nos ver a Sra. de Villeparisis; parecia não estar prevenida; e fiquei mais assombrado ainda ao ouvir o Sr. de Charles dizer à minha avó:

            - É encantador, não é mesmo? Disse à tia. "Ah, foi uma idéia muito boa a que tiveram.'' Sem dúvida havia reparado na surpresa de sua tia; e que lhe bastaria para transformar, homem acostumado a dar o tom, como esta surpresa em alegria, indicando que também se achava surpreso e que esse calculava bem, o efeito do sentimento que a nossa chegada deveria causar. Levava em muita consideração o seu sobrinho, e a Sra. de Villeparisis, sabia quanto era difícil contentá-lo, pareceu de súbito achar novas qualidades em minha avó. Não podia compreender que o Sr. de Charles não cessou de agradá-la. Mas eu não entendia que aparentemente se esquecesse, em poucas horas, o convite tão breve que nos fez naquela manhã – denominava tão premeditado, que me parecia que fizera aquilo intencionalmente parecer a idéia de minha avó, uma idéia que era somente sua. Disse com um escrúpulo de precisão que até certa idade, foi que percebi que a gente não se certifica que se conserve verdadeiras intenções de uma pessoa pelo simples fato de lhe fazer uma pergunta e que é menor o risco de um mal entendido que certamente passará em brancas nuvens, do que insistir ingenuamente:

            - Mas, senhor - disse-lhe -, deve estar lembrado de que me pediu que viéssemos esta noite, não é? - Nenhum movimento, nenhum som revelou que o Sr. de Charles tivesse ouvido minha pergunta. De modo que a repeti, como os diplomatas ou os jovens que estão brigados e que, com inútil e incansável boa vontade, procuram obter esclarecimentos que o adversário decidiu não dar. Pareceu-me ver flutuar em seus lábios o sorriso dos que, de muito alto, julgam o caráter e a educação dos outros. Já que ele se recusava a uma explicação, tentei elaborar uma, e apenas cheguei a hesitar entre várias, nenhuma das quais podia ser a verdadeira. Talvez não se lembrasse, ou então fora eu quem não compreendera bem o que me havia dito pela manhã... Mais provavelmente por orgulho, não queria dar a impressão de ter procurado atrair pessoas que desdenhava, e preferia lançar sobre elas a iniciativa de sua vinda. Mas então, se nos desdenhava, por que fizera questão que viéssemos, ou melhor, que minha avó viesse, pois de nós dois foi somente a ela que o Sr. de Charles dirigiu a palavra naquela noite, e nem uma só vez a mim? Conversando com ela na maior animação, assim como com a Sra. de Villeparisis, de algum modo escondido atrás delas como se estivesse no fundo de um camarote, contentava-se apenas em desviar por vezes o olhar inquiridor de seus olhos penetrantes e pousá-lo em meu rosto, com a mesma seriedade e o mesmo ar de preocupação que teria se estivesse lendo um manuscrito difícil de entender. Sem dúvida, a não ser por esses olhos, o rosto do Sr. de Charles seria idêntico ao de muitos homens bonitos. E, quando Saint-Loup, falando-me de outros Guermantes, disse mais tarde:

            - "Ora, eles não têm esse ar de raça, de grão-senhor até a ponta dos dedos, como o tio Palamede", confirmando que o ar de raça e a distinção aristocrática não continham nada de novo e misterioso, mas eram constituídos de elementos que eu facilmente reconhecia sem que me causassem maior impressão. Percebi que se dissipava uma de minhas ilusões. Mas naquele rosto, que se parecia um pouco ao rosto de um ator devido à leve camada de pó-de-arroz que o recobria, por mais que o Sr. de Charles lhe fechasse hermeticamente a expressão, seus olhos eram como uma fenda, uma seteira que não pudera tapar e por onde, segundo a posição que a gente ocupava quanto a ele, saíam reflexos que bruscamente nos atravessavam, provindos de alguma arma interior que parecia assustadora até para aquele que, sem dominá-la, carregava-a dentro de si em estado de equilíbrio instável e sempre a ponto de explodir; e a expressão circunspecta e constantemente intranqüila desses olhos, com todo o cansaço que provocava no rosto, por mais composto e arrumado que estivesse, expresso nas olheiras muito caídas, fazia pensar num incógnito, num homem poderoso que corresse perigo e por isso se disfarçasse, ou pelo menos num sujeito perigoso, porém trágico. Gostaria de adivinhar que segredo era aquele que os outros homens não possuíam e que tornara tão enigmático o olhar do Sr. de Charles; quando o havia visto de manhã, perto do cassino. Mas agora, que já sabia a que família pertencia, não mais continuara crer que fosse o olhar de um ladrão, nem, já que o ouvira, o de um louco. Se se mostrava frio para comigo, enquanto era tão amável à minha avó, isto talvez não se devesse a uma antipatia pessoal, pois de um modo geral era benevolente para com as mulheres, de cujos defeitos falava habitualmente com muita indulgência; mas, quanto aos homens, principalmente os rapazes, tratava com um ódio violento que lembrava o de certos misóginos pelas mulheres, dois ou três gigolôs, que eram da família ou da intimidade de Saint-Loup, e cujos nomes este citara casualmente, disse:

            - São uns pequenos canalhas.- com a expressão quase feroz que contrastava com sua frieza costumeira. Compreendi o que censurava acima de tudo nos jovens de hoje era o serem muito efeminados.

            - São verdadeiras mulheres - dizia com desprezo. Mas qual vida não teria parecido efeminada em comparação com a que ele desejava que levasse um homem, e ainda assim lhe parecia pouco enérgica e viril? (Ele mesmo, em suas viagens, depois de horas de caminhada, todo afogueado, lançava-se em rios gelados.) Nem sequer admitia que um homem usasse anel. Porém esse preconceito da virilidade não o impedia de possuir as mais finas qualidades de homem sensível.  A Sra. de Villeparisis, que lhe pedia descrevesse para minha avó um castelo onde a marquesa da Sévigné passara um dia, acrescentando que achava um pouco literário o seu  gênero de se ver separada de uma pessoa tão aborrecida como sua filha, a Srta. Grignan, respondeu:

            - Pelo contrário, a mim me parece bastante verdadeiro. Aliás, era uma época em que esses sentimentos eram muito bem compreendidos. O habitante de Monomotapa, de La Fontaine, correndo à casa do amigo porque em sonho pareceu triste, o pombo achando que o maior dos males é a ausência de pombo, talvez lhe pareçam, minha tia, tão exagerados como a Sra. de Sévigné, não podia aguardar o momento em que estaria a sós com a filha. E é tão belo ela diz quando se separam: "Esta separação me faz doer tanto a alma que é como se fosse dor no corpo. Durante a ausência não poupamos horas. Adiava por um tempo que é a nossa aspiração."

            Minha avó ficou encantada de ouvir as cartas da Sra. de Sévigné da mesma forma como o teria feito. Assombra que um homem pudesse compreendê-las tão bem. Encontrava no Sr. de Charles delicadezas e sensibilidade femininas. Mais tarde, quando estávamos a sós, avó e eu falamos dele, concordando em que devia ter sofrido a influência de uma mulher, sua mãe, ou, mais tarde, de sua filha se tinha filhos. Quanto pensava: "Uma amante", reportando-me à influência que a de Saint-Loup pudesse ter sobre ele, o que me fazia notar até que ponto pode requintar um homem à uma mulher com quem ele convive.

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