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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A SORTE SOPRA A FAVOR / Heinz G. Konsalik
A SORTE SOPRA A FAVOR / Heinz G. Konsalik

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A SORTE SOPRA A FAVOR

 

Embora Theodor Berger seja um popular dono de restaurante no norte da cidade de Gelsenkirchen e um feliz pai de família... na verdade o futebol ocupa o primeiro lugar em seu coração, melhor dito, seu clube, o Schalke 04, é tudo para ele. Berger está disposto a viver e a literalmente morrer pelo seu clube de futebol, isto é, a morrer de desgosto quando o Schalke perde um jogo!

Berger, portanto, faria qualquer coisa pelo Schalke 04 — até que um dia se veria diante de uma situação das mais difíceis: o Schalke quer comprar um "cobra" sensacional, um certo Wilhelm Thuernagel, que por seu lado não simpatiza muito com Gelsenkirchen, ou seja, a cidade-sede do Schalke. Estava nas mãos de Berger a possibilidade de mudar essa opinião de Thuernagel, uma vez que o craque da pelota gostaria de casar-se com a bela filha de Berger.

É fácil imaginar que qualquer torcedor fanático como Berger adoraria ter como genro um artilheiro do calibre de Thuernagel. Apenas o verdadeiro talento de Thuernagel ainda não havia sido descoberto, uma vez que ele mesmo não passava de um sujeito que não tinha onde cair morto — não passava de um joãoo-ninguém. O que fazer diante de problema de tal magnitude?

Chegara a hora de Theodor percorrer o caminho da humilhação, sacrificando de uma certa maneira sua filha no altar do futebol...

Konsalik, que em A Foto Indecorosa revelara uma nova faceta do seu talento, ao produzir um livro do mais fino humor, repete a fórmula, talvez em dose ainda maior, neste delicioso A Sorte Sopra a Favor, romance cuja história oferece um atrativo extra para o leitor brasileiro — seu forte ângulo sobre o futebol.

Heinz G. Konsalik é alemão da cidade de Colônia, onde nasceu em 1921. Seus primeiros interesses foram o teatro e a filologia alemã, que estudou a fundo, tornando-se um versado germanista. Lutou na II Guerra Mundial, tendo sido ferido em combate na frente russa. Com o término do conflito mundial, e já fisicamente recuperado, Konsalik trabalhou como dramaturgo e redator, mas desde 1951 vive exclusivamente da literatura, atividade em que se destacou com o maior brilho, tornando-se o mais lido dos escritores europeus contemporâneos.

 

 

— Quase um milhão — disse Theodor Berger espantado, colocando com um suspiro o jornal em cima da mesa redonda.

— Quase não dá para imaginar.

O charuto estava se apagando, a garrafa de Doppelkorn em cima da mesa a sua frente já não mais o atraía. Com um ar interrogativo, olhou o ambiente a sua volta.

O dia chegava ao fim. Um pálido crepúsculo anunciava a noite. A meia luz dominava a sala de estar de tamanho médio da família Berger, levando o dono da casa a levantar-se para acender o abajur de pé. Em seguida, ele correu o cortinado das duas janelas e tornou a sentar-se. Mas por ora, não mais voltou a tocar o jornal.

Sentada junto a uma das janelas, tricotando, estava a senhora Sabine Berger, uma mulher mais para pequena do que alta, bem nutrida, com um imenso coque grisalho na nuca. Ela contemplava o infatigável movimento dos próprios dedos. Marianne Berger, a bela e travessa filha de olhos castanhos, de vinte anos de idade, estava recostada em um canto do sofá defronte à segunda janela, lendo um romance sobre o difícil amor entre um jovem barão em pessoa e uma moça do povo. Marianne gostava muito de ler romances de amor de qualquer tipo. E, desse modo, ela ampliava os conhecimentos teóricos em um campo que lhe era totalmente desconhecido na prática. Em outras palavras: Marianne ainda era uma moça intocada — e isso aos vinte anos de idade! Por conseguinte, podia-se dizer com a consciência mais tranqüila que não havia uma segunda Marianne em nenhum lugar do planeta.

Certamente que nada faltava à moça em termos de temperamento, o que já muitas vezes representara perigo para sua virgindade. Mas estava decidida, como ela mesma dizia, a ”dar-se ao homem certo”. Acrescente-se a isto o fato de que ela gostava muito de seus pais, lhes sendo obediente; e os pais estão sempre empenhados, especialmente em se tratando de filhas, em retardar o mais tempo possível as práticas do amor. Com respeito a isso, o progenitor Berger mostrava-se como o mais ativo dos guardiães e, como já foi dito, a filha Marianne era uma moça que não se insurgira contra esse estado de coisas, pelo contrário, submetera-se — até um certo dia que ainda estava por vir.

Theodor Berger era estalajadeiro e proprietário do restaurante Girassol. Mesmo com o local estando situado ao norte de Gelsenkirchen e, no decorrer do ano, com o sol deixando poucas vezes que seus raios se perdessem nas flores das janelas, mesmo assim o nome do restaurante já bastava para provar o aprumado otimismo de Berger e a sua concepção do mundo e das coisas.

Os donos de restaurante têm o direito de serem gordos. Um estalajadeiro magro estorva, pode-se dizer, o próprio negócio, desalentando a freguesia. Mas quando um corpo abastado aproxima-se de você, a sua atitude é a de sentar-se imediatamente, ansioso, pois a melhor propaganda para um restaurante é a barriga de seu proprietário.

Visto dessa maneira, Theodor Berger era um gastrônomo nato. Sentia-se como um peixe na água, quando estava atrás do balcão com suas torneiras reluzentes, mexendo nos copos, empurrando para um lado as tulipas de chope, ou então quando nas noites de sábado participava como presidente da mesa reservada, chamada de ”Ao robusto Theodor”, dos olímpicos jogos de buraco ou biriba.

Quando Theodor Berger era jovem e ainda estava em plena forma, causara furor como participante do Clube de Futebol Trimmstadt 09. Esse clube era um dos incontáveis pequenos clubes, dos quais os grandes se alimentavam, cujas vitórias deixavam as massas em verdadeiro êxtase e cujas derrotas faziam com que os torcedores mergulhassem no humor do fim dos tempos. O jovem Theodor Berger defendera as cores do clube do subúrbio em que vivia, como goleiro, mais para ruim do que para bom. No entanto, se se acreditasse em seus relatos de todos aqueles anos, ele só fora impedido de seguir uma grande carreira como goleiro, por causa da morte muito prematura de seu pai, vendo-se, desse modo, obrigado a assumir a direção do restaurante da família, ao invés de tornar-se apoio do famoso FC Schalke 04.

E é óbvio que não há necessidade de nenhum esclarecimento mais profundo para explicar por que a profissão de dono de restaurante não se adequa à de um futebolista na esfera do rendimento físico.

Não se precisa dizer a nenhum jovem ou adulto alemão o que é o FC Schalke 04. Esse clube, apesar de todos os assaltos já cometidos contra ele e apesar dos suculentos escândalos em que seu nome andou metido, faz parte da galeria dos mais famosos que existem. Pode-se dizer que o FC Schalke 04 é Gelsenkirchen e Gelsenkirchen é o FC Schalke 04. Só se consegue perceber o verdadeiro significado de um nome como esse, quando se chega a Gelsenkirchen e se instala em algum balcão de bar.

Como já se disse, Theodor Berger era natural de Gelsenkirchen e ainda por cima proprietário de um restaurante, e é quase impossível se descrever o efeito que isto tinha em suas relações internas e externas com o FC Schalke 04.

Reinava o mais absoluto silêncio na sala de estar situada atrás do restaurante. Nesse dia a loja tinha o seu ”dia de folga”. Somente as agulhas de tricô da mulher tilintavam levemente.

Depois o ruído de papel. Theodor Berger tornara a pegar o jornal.

— Quase um milhão — voltou a dizer. — Puxa, mas que loucura!

Nenhuma resposta. A mãe Sabine contemplava os próprios dedos enquanto pensava no cardápio que seria oferecido no dia seguinte aos fregueses do restaurante, pelo qual ela era a responsável; a filha Marianne ”devorava” a parte do romance, na qual o jovem barão proclamava ao velho que estava disposto a renunciar ao dinheiro, às propriedades e ao título, caso não cessasse a resistência paterna à ligação com a filha do arrendatário do bosque.

— Ei, vocês não ouviram? — perguntou Theodor Berger com um tom de voz um pouco elevado.

As duas mulheres levantaram os olhos.

— Ora, ouviram o quê? — perguntou a mãe Sabine.

— Que isso é uma loucura — respondeu o pai Theodor.

— O que que é loucura? — perguntou a filha Marianne.

O tom de voz de Theodor levantou-se ainda um pouco mais.

— Um prêmio de loto de um milhão. Mãe e filha entreolharam-se.

Theodor balançou a cabeça e, com o dedo indicador, deu umas batidinhas em um ponto determinado do jornal.

— Está aqui.

Sabine balançou a cabeça também, como se não estivesse querendo negar o fato, contudo voltou a pregar os olhos nas agulhas que pusera em movimento. E Marianne novamente fincou o nariz no romance que estava lendo. Portanto, o interesse das duas mulheres pela informação de Theodor parecia manter-se dentro de um determinado limite. Mesmo assim ele continuou.

— Um mineiro de Saarbrúcken foi o felizardo. O nome dele não está escrito. Eles sempre fazem assim, pois caso contrário um ganhador não conseguiria se livrar das pessoas que gostariam de ganhar alguma coisa dele.

Theodor calou-se, deu uma olhada no jornal e leu a notícia inteira. O que estava escrito ali, era de deixar qualquer um boquiaberto.

— Inacreditável! — pronunciou ele. — Não dá pra entender. Por um triz que esse cartão da loto fica mais uma vez sem ser feito!

Mas para sua surpresa, ele só ouviu ironia.

— Ah, não me diga — troçou sua mulher.

— De novo — foi o que disse a filha com o mesmo tom de gozação.

— Já estou vendo — disse então Theodor — terei de ler tudo para vocês, para que saibam do que se trata. Escutem só...

E dessa maneira, Marianne e Sabine ficaram sabendo, narrado com toda a autenticidade, o aperto passado pelo mineiro. Sua mulher quase fora culpada de uma catástrofe inimaginável, pois por pouco ela já ia deixando de cumprir, por negligência, com sua obrigação semanal de ir levar para a loja lotérica o cartão preenchido por seu marido. A única pessoa que a lembrou no último momento, foi o filho pequeno de seis anos de idade, ele também já um torcedor do Saarbriicken Primeiro FC. Em resposta ao repórter que perguntara se a mulher dele deveria contar com represálias, caso não tivesse ocorrido a intervenção do garoto, o ganhador do prêmio dissera textualmente que ”não, a saúde da minha família, contando também a de minha mulher, é muito mais importante para mim que qualquer outra coisa”. E acrescentou que, no entanto, o filho ganhara um velocípede novo. Ele mesmo estava querendo desistir da viagem ao redor do mundo, como era de praxe, e continuar exercendo sua profissão. E aconselhava aos futuros ganhadores da loto que fizessem o mesmo.

Theodor Berger deixou o jornal cair de suas mãos, enxugou o suor que lhe escorria pela testa e disse:

— Só tem uma coisa que eu não acredito nesse sujeito...

— Em que que você não acredita? — perguntou-lhe Sabine.

— Que ele não teria espancado sua velha, se por culpa dela os milhões tivessem escapado por entre seus dedos.

— É mesmo? — perguntou Sabine. A pergunta soou mordaz.

— Mas papai — Marianne advertiu seu genitor — claro que você não acredita no que está dizendo.

— Claro que esse aí acredita — disse Sabine tão mordaz quanto antes. E com isso ela estava querendo dizer que o seu marido era o tipo de pessoa que tirava conclusões sobre outros, baseando-se em si mesmo.

Naquele momento, Theodor não tinha ouvidos para escutar a onomatopéia de sua mulher. Ele estava possuído pela impressão de um milhão.

— Puxa vida! Não dá nem pra imaginar — disse ele, divagando. — Um cara está sentado diante da televisão... vão aparecendo os números da loto... ele acredita que acertou as cinco dezenas, dá um salto, pula de alegria, abraça a mulher... até que esta lhe confessa que não fez o cartão da loto...

Theodor calou-se, levantou os olhos, fitou a esposa e a filha, balançou a cabeça e concluiu:

— Numa hora dessas, qualquer um perde a cabeça.

— Ah, você está vendo?! — disse Sabine sarcástica para Marianne. — Você está vendo o perigo que corro constantemente?

— Mas mamãe, claro que não é com você!

— Como não? Eu também sou uma dessas que precisam ir correndo todas as semanas para a loja lotérica. — Sabine levantou os olhos para o céu. — Deus me livre de esquecer um dia de fazê-lo.

— Mas é claro que o papai não iria tocar em nenhum fio de seu cabelo — Marianne, que obviamente não parecia muito convicta do que dissera, pois falara sem muita firmeza, virou-se para seu progenitor e, de certa maneira, espetou-lhe a faca no peito: — Ou tocaria?

Theodor Berger achou que poderia desvencilhar-se do problema, dizendo:

— Vocês estão conversando sobre um ovo que a galinha ainda não pôs.

— Como assim?

— Em primeiro lugar a gente teria de fazer todos os pontos no cartão. — Theodor abriu bem os braços e, do fundo de seu peito, saiu um suspiro. — E quando é que isso acontece?!

— Pois bem, vamos supor que você tenha tido tal sorte — Marianne não desistiu da investida. — E daí?

Ela sentiu que começara a explorar abismos da alma em lugares que nunca antes supusera que existissem. Resignado, Theodor fez um aceno com a mão.

— Ora bolas!

Nas garras da desesperança, ele mostrava-se incapaz de conceber alguma ideia otimista.

— Pai! — disse Marianne com um ar severo no rosto. Ele fitou-a deprimido.

— O quê?

— Estamos esperando uma resposta clara de sua parte. Será que você não percebe que mamãe tem direito a isso?

Em situações como esta o que acontece é que as pessoas que se sentem muito pressionadas, acabam refugiando-se na hilaridade.

— Isso me faz rir — explicou Theodor, fazendo com que a este anúncio se seguisse a ação de expelir alguns sons característicos e sacudidelas, com os quais estava querendo externar uma alegria interna. E com isso, Theodor esperava que sua família seguisse o exemplo que estava dando, ou seja, que caísse na gargalhada. Enganou-se profundamente. Como antes, viu-se cercado de olhares de repreensão. Paralisaram-se em seu rosto os músculos do riso.

— Puxa, mas, afinal, o que é que vocês têm? — perguntou ele.

Nenhuma resposta.

— Acho bom vocês pararem com isso — ele partiu para o ataque. — Ou então serei obrigado a achar que vocês não estão muito bem.

Mais uma vez não obteve nenhuma resposta. Portanto, o ataque fora mal empregado.

— Bina — falou ele, dirigindo-se a sua cara-metade — sei muito bem o quanto necessito de você. Um proprietário de restaurante que não tenha uma mulher na cozinha, está completamente perdido. Que seria de mim se não fosse você? Ora, eu não vou cavar minha própria infelicidade. Será que vocês não percebem que isso é óbvio?

— Um homem em uma situação como essa não ficaria pensando em tudo isso — opinou Sabine amarga.

— Em qual situação?

— Quando ele acabou de perder um milhão.

Pois é justamente quando ele pensaria em tudo isso, a resposta chegou até a pontinha da língua de Theodor, simplesmente porque ele precisaria ter em vista que não iria poder contratar uma cozinheira. Mas afogando no peito esses pensamentos, ele replicou:

— Melhor deixarmos esse milhão fora do fogo... ou por outra, não — ele mesmo interrompeu-se — vamos supor que eu tivesse ganho um milhão. Você sabe qual a primeira coisa que iria fazer com o dinheiro?

Vez por outra, Theodor Berger transformava-se num grande malandro. Era uma de suas especialidades, que já lhe havia proporcionado muito sucesso, inclusive no casamento.

— Você iria demolir essa nossa velha caixinha e em seu lugar construir um hotel novo — replicou Sabine. E acrescentou mal-humorada: — Só para me dar mais trabalho.

— Não, não iria fazer isso não.

— Não? Mas não é o que você vive dizendo?

— Bem, isso seria a segunda coisa que iria fazer.

— E a primeira, qual seria?

— Comprar para você o casaco de pele mais bonito que encontrasse em Essen ou Díisseldorf. Juro a você!

Aconteceu um milagre. Os olhos de Sabine irradiaram o mais profundo amor.

— Theo! — gritou ela feliz. E uma segunda voz misturou-se à voz dela.

— E eu? O que eu ganharia?

— Você receberia o segundo casaco mais lindo — disse Theodor para a filha.

A paz voltou a reinar na sala de estar da família Berger. O momento em que ele havia sido colocado à prova, chegou ao fim.

Theodor voltou a acender o charuto já apagado havia muito tempo e, depois de uma série de enormes nuvens de fumaça que subiram em direção ao teto, ele tornou a sentir vontade de deliciar-se com mais um Doppelkorn. Depois de realizar essa vontade, arrotando confortavelmente, mas mantendo o volume do arroto dentro de certo limite que fez com que Sabine e Marianne o aceitassem caladas. Theodor Berger voltou a olhar o jornal. E como seria de se esperar, ele recomeçou a leitura no mesmo ponto em que parara.

Reinava o silêncio. Marianne refugiara-se novamente no mundo da aristocracia, mundo que não se mantinha alheio aos conflitos trazidos de fora; Sabine tricotava, pensando em peles de marta e persas.

De repente, o silêncio foi cortado por um soco que Theodor deu em cima da mesa. Sabine e Marianne estremeceram assustadas.

Com os olhos arregalados para o jornal, Theodor gritou:

— Tem mais um aqui!

— Quem? — perguntou Sabine, achando a voz mais rapidamente do que a filha.

— Um policial bávaro.

— Ele também ganhou?

— Ele ganhou também.

Theodor Berger precisou de muito esforço para pronunciar as palavras. Havia duas espécies de razão para esse seu comportamento. Aquele desconhecido funcionário da lei na Baviera mexera com os nervos de Theodor. É bem verdade que Theodor não tinha nada contra funcionários em geral; esse tipo de gente também freqüentava o seu restaurante e bebia a sua cerveja e comia sua pata de porco em salmoura e pagava tudo o que havia consumido. Contudo, Theodor não gostava muito de funcionários públicos que ganhavam na loteria esportiva ou na loto. E Theodor não gostava nem um pouco que tais prêmios alcançassem pessoas que já estavam com a subsistência para lá de garantida com salários pagos pelo Estado, e gostava menos ainda quando se tratava de funcionários da polícia. Theodor sentia uma aversão a policiais por razões profissionais, pois estes passavam constantemente pelo seu restaurante para controlar a hora de fechamento. Qual o proprietário de restaurante que não teria a mesma aversão de Theodor?

— São sempre as pessoas erradas, Bina — explicou ele com uma voz cheia de censura. — A fortuna cai sempre em mãos erradas.

E Sabine, que também achava inoportuno a esposa de um funcionário da polícia vestida com pele de marta, concordou:

— Realmente, é incontestável.

— Justamente um sujeito desses — prosseguiu Theodor, sempre xingando. — Em compensação o mundo está cheio de desempregados ou de pais com muitos filhos.

— Talvez esse aí tenha uns cinco filhos — opinou Marianne, que tinha a mania de considerar todas as possibilidades.

Theodor estava muito seguro.

— Não esse sujeito aqui! — disse ele com desdém.

— Mas papai, você não pode ter certeza disso.

— Não tenho não?! Isso é o que você pensa!

— Como assim?

Cheio de raiva como estava, Theodor atreveu-se a uma afirmação temerária. — Porque os policiais nunca estão em condições disso!

Marianne e Sabine riram. Coisa que não agradou muito Theodor.

— Não riam — ordenou. — Realmente esses caras não valem o capim que comem. A polícia inteira não vale o capim que come.

— Papai, você sabe muito bem que o mundo não poderia existir sem a polícia.

— Eu poderia viver sem ela.

Naturalmente que esta foi uma afirmação que Theodor, se pensasse um pouco, teria de concordar que não era sustentável. Mas naquele momento, não se poderia esperar isso dele. Os prêmios da loto estreitavam a sua racionalidade.

— Os policiais — explicou ele — são todos para mim um bando de imbecis, e isso basta! E com isso não estou dizendo nenhuma novidade para vocês.

— Mas papai, existem também aqueles que são corretos. Aqui seria o caso de se perguntar o que significava um policial ”correto” e o que seria um ”incorreto”. Um imenso campo. Depende do ponto de vista de quem vê a coisa. Quando um ladrão acha que um policial é ”incorreto”, essa sentença geralmente está longe de ser a de um cidadão honesto... e vice-versa.

— Ah, eu só acredito quando você me mostrar um que o seja — disse Theodor.

— Você mesmo conheceu dois na sexta-feira passada.

— Aqueles dois garotos?

— Isso mesmo.

Marianne lhe havia recordado um primeiro-sargento e seu colega que, muito tempo depois da hora de fechar, encontraram o restaurante aberto, mas fizeram vista grossa.

— Diga-me uma coisa, por acaso você está querendo afirmar que os caras eram boa gente? — perguntou Theodor.

— E por acaso não eram?

— Puxa, mas será que serei obrigado a lhe confessar qual a razão de eles terem feito vista grossa?

— Qual?

— O seu traseiro.

Isso provocou uma reação espontânea em Sabine, que achou seu dever adiantar-se à filha, e gritar:

— Quer fazer o favor de parar com isso, Theo!

Sem se deixar influenciar por ela, Theodor renunciou à convicção de que se deveria atribuir ao traseiro de Marianne o vantajoso efeito, levado ao debate naquele momento.

— Ou será que vocês acham que foi talvez pelo meu? — perguntou ele.

No decorrer da discussão que se seguiu, Theodor Berger demonstrou de maneira bem clara a fraqueza demonstrada pelos funcionários da polícia mais jovens por nádegas de filhas de proprietários de restaurantes como sendo um fator que afastava a ameaça de multas por transgressão do horário de fechamento. Theodor chegara mesmo a afirmar que aliás se poderia abdicar da limitação ”funcionários da polícia mais jovens”. O mesmo ocorria em se tratando dos mais velhos. E uma exata demonstração disso ocorrera de modo bem claro, exemplarmente, em um sábado do mês passado, quando aquele touro uniformizado primeiro fizera terrorismo, para depois, repentinamente, voltar atrás, assim que Marianne deu o ar de sua graça.

Marianne quis relativizar o caso.

— Mas eu só dei uma chegadinha — disse ela.

— E isso bastou — explicou o pai Theodor.

Mais uma vez a mãe Sabine intrometeu-se. O que o pai dissera soara como uma recriminação e, virando-se para a filha, ela prosseguiu com as seguintes palavras:

— No futuro fique de fora, Marianne. Você mesma ouviu o que o seu pai acha disso. Ao invés de lhe ser agradecido, ele lhe obriga a ficar escutando esse tipo de coisa.

— Você tem razão, mãe — Marianne balançou a cabeça, sentindo-se insultada, punindo o pai com o desvio do olhar.

Theodor considerou isso como um ato de insubordinação contra ele. Decidiu-se então a colocar tudo em pratos limpos imediatamente e o fez, dizendo:

— Existem também outros casos.

Como o tom de sua voz soara insinuante, Sabine perguntou:

— Quais? Afinal o que é que você está querendo dizer? O pai Theodor apontou em direção à Marianne.

— Pergunte a ela, com quem ela tem sentado à mesa constantemente nos últimos tempos. Na cozinha você não percebe nem toma conhecimento.

E agora seria a vez de Marianne reagir, mas ela não o fez. Com os pensamentos aparentemente bem longe dali, ela ocupou-se com o livro e recomeçou a lê-lo.

— Eu pergunto é a você — disse Sabine. — Com quem? - Ele encolheu os ombros.

— Eu não o conheço. Ele ainda não foi apresentado a mim. Faz poucas semanas que ele vem aqui no nosso restaurante e conversa muito pouco. Um cara alto e louro.

Portanto, as informações necessárias deveriam ser buscadas com a própria Marianne.

— Marianne! — disse a mãe Sabine. Marianne levantou os olhos.

— O quê?

— Você ouviu o que o pai disse?

— Não — mentiu Marianne.

— Quem é esse com quem você tem sentado à mesa constantemente nos últimos tempos?

— Eu?

— É.

— Não tenho a menor ideia. Não sei de quem ele está falando.

Marianne começara a ficar ruborizada. Coisa que era um indício alarmante. A coisa tinha de ser examinada, foi o que acharam tanto a mãe quanto o pai Berger.

— Um cara alto, louro — disse Sabine. — E ele também não é muito falador.

— Ele quase não gasta nada — Theodor Berger acrescentou mais uma característica importante, a qual não dava uma boa imagem do rapaz.

A resposta de Marianne continuou deixando tudo em aberto. Ela disse:

— Olha aqui, às vezes eu me sento à mesa das pessoas.

— Mas não durante horas e horas! — Theodor Berger caracterizou o caso.

E como naquele momento a única coisa que Marianne fez foi dar de ombros, ele lhe disse direto no rosto:

— Você sabe muito bem de quem estou falando. Finalmente ela desistiu da resistência. Suspirou.

— Está bem — disse ela. — Com Wilhelm Thúrnagel. Theodor parecia estar se deliciando. Com um sorriso malicioso nos lábios, ele perguntou:

— Wilhelm... o que mesmo?

— Thiirnagel.

— Que nome mais gozado — ele sorriu ironicamente. Marianne fitou-o com uns olhos que não demonstravam a menor suspeita.

— Você acha?

— Acho.

— Eu não.

Marianne falou com um tom de voz novo, desconhecido — um pouco rebelde. O pai Theodor não estava acostumado a isso da parte dela. Não pôde deixar de se admirar de sua filha, que sempre fora tão dócil, mas nada disse.

A mãe Sabine perguntou a Marianne:

— O que é que ele faz?

— Quem?

— Esse jovem.

— Profissionalmente?

- É.

— Não sei não, mãe.

Sabine Berger estava surpreendida. Claro que a primeira coisa que se deveria procurar saber, seria o que um rapaz faz.

— Mas como é que você não sabe?

— Porque eu ainda não o interroguei sobre isso.

— E ele? Será que ele mesmo ainda não falou?

— Não.

— Acho isso muito esquisito. Afinal de contas, sobre o que vocês conversam?

— Sobre o tempo — respondeu Marianne irónica. E com isso a mãe Sabine também chegou ao limite da paciência, achando que tinha motivo para espantar-se com sua filha.

Contudo, a ironia de Marianne, ao que parecia, tinha um efeito contagiante, pois Theodor Berger disse para sua mulher:

— Talvez ele seja do BND, Bina.

— BND? Que é isso?

— O serviço secreto. Eles não têm permissão para falar sobre isso.

— Eles ganham bem?

— Os peixes pequenos não, os grandes sim. Como em toda parte. Talvez ele seja um peixe grande, Bina.

A mãe Berger, não muito segura sobre o que deveria achar da coisa toda, disse:

— Theo, você está me gozando?

— Não, Bina.

— Claro que está, mãe — disse Marianne. — Será que você não percebe?

Theodor Berger gargalhou de maneira rude. Via de regra, a delicadeza não faz parte da personalidade de um proprietário de restaurante.

— Wilhelm Thurnagel — prosseguiu Marianne — não precisa esconder nada sobre si. Só que ele quase não fala sobre as coisas que não têm a ver particularmente com ele.

— Na realidade ele fala muito pouco sobre qualquer coisa — tornou a dizer o pai Theodor. — Será que se tem de arrancar da língua dele cada palavra?

Marianne balançou a cabeça afirmativamente.

— É, ele prefere deixar que outros falem e fica só escutando. E isso também tem a sua razão.

— Qual?

— Ele quer aprender.

— Aprender o quê?

— O nosso idioma.

Theodor Berger arregalou os olhos.

— Nosso idioma? Mas ele não sabe?

— Ainda não corretamente — respondeu Marianne. — Mas tem feito progressos bem rápidos.

— Ele é estrangeiro?

— Não.

— É, eu teria ficado muito assombrado, puxa, um cara com esse nome... Thiirnagel... Wilhelm Thúrnagel. Bem, nesse caso, no máximo, ele deve ser um austríaco.

Sabine perguntou a Marianne, com uma expressão grave no rosto:

— Ele é austríaco, minha filha?

— Não, mãe, eu já disse que ele não é nenhum estrangeiro.

— Então eu não entendo mais nada...

A solução do mistério era simples: Wilhelm Thiirnagel era um alemão nascido no exterior, nascido na Rússia, e só havia dois meses que chegara a Gelsenkirchen. Quando Marianne explicou isso, Theodor Berger proferiu um significativo:

— Pelo amor de Deus!

A mãe Berger não disse nada.

Depois de alguns segundos em que reinara o mais completo silêncio, Theodor acrescentou com o maior descaramento:

— Mais um desses que só chegam para nos pesar nos ombros.

— Como assim, pai? — perguntou Marianne. Mais uma vez ela parecia não concordar com o progenitor.

— Porque essa cambada acaba metendo a mão no nosso bolso.

— Ora, que é isso?

— Mas é claro que eles fazem isso! — exaltou-se Theodor. — Procure se informar com o seu Thúrnagel quem é que está bancando a estadia dele. Pergunte-lhe onde ele vive. Quem paga o seu aluguel? O que é que ele come? E também quem custeia essa comida? O que ele bebe, mesmo que não seja muito? O que é que ele veste? Os cigarros dele? E assim por diante!

Um pouco fora de si, a única coisa que Marianne encontrou para dizer, foi:

— Ele não fuma.

— Muito bem, ele não fuma — a voz de Theodor saiu cheia de escárnio. — Mas comer, beber, morar e se vestir, bem tudo isso ele faz, ou não? Será que isso não é mais do que suficiente? Quem é que paga? Pergunte-lhe, pergunte ao seu Thúrnagel.

Dessa vez a resposta de Marianne careceu de solidez:

— Ele não é o meu Thúrnagel. Pairava no ar a ameaça de briga.

— Por favor, não vão começar a brigar — agora foi a vez da mãe Sabine advertir os dois.

Theodor pôs o ponto final.

— Todos esses caras consomem o dinheiro dos nossos impostos — explicou ele. — Esses caras chegam aqui, sem ser nada, sem ter nada, sem saber fazer nada, sem nem saber o alemão; precisando de casa, comida, roupas, tratamento de dentes, curso de alemão, curso de readaptação profissional e, se depois de três anos a gente dá uma olhada, eles ainda não estão incorporados. Hoje em dia as pessoas chamam isso de ”integrados”. Será que eu preciso dizer a vocês por que é que eles não se integram?

Não parecia necessário nem para Marianne nem para Sabine. Elas calaram-se.

Theodor olhou para as duas.

— É, parece que não mesmo — constatou ele satisfeito. Vencera a parada.

O jornal voltou a ocupar o posto principal, mas não por muito tempo, e Theodor deixou que ele caísse definitivamente. Anunciou, levantando-se:

— Vou dar um pulinho na casa do Pit.

Pit tinha o sobrenome de Schmitz, portanto pertencia à aristocracia local renana, coisa que ele acentuava frequentemente, para gáudio de seus amigos. Era um colega de Theodor. Com o seu estabelecimento À Fonte ele explorava também algumas ruas do norte de Gelsenkirchen. Theodor entendia-se bem com ele. Entre ambos não havia o menor indício de concorrência. Quando Theodor folgava, comparecia como freguês ao restaurante de Pit e vice-versa.

— Mãe, você é da mesma opinião do pai? — perguntou Marianne, depois que a porta fechou-se atrás de Theodor.

Sabine Berger encolheu os ombros. Portanto, a opinião dela e a do marido não deveriam estar tão distantes assim.

— Vocês dois são injustos — disse então Marianne.

— Como assim? Por acaso não é verdade que esses sujeitos demoram o maior tempo possível para começarem a trabalhar?

— Nem todos, mãe.

— Mas a maioria sim.

— Não, eu afirmo que não é a maioria.

— É mesmo, quer dizer que você afirma isso? Desde quando? Desde que você e esse Thiirnagel... Diga-me uma coisa — interrompeu-se a mãe Berger — isso significa alguma coisa?

— Isso o quê?

— Essa história de você defendê-lo com tanto ardor.

— Eu não o estou defendendo — replicou Marianne mal-humorada. — Só estou sendo objetiva com relação a ele.

Sabine Berger era uma mulher experiente. Ela sabia que tais escrúpulos eram oportunos, quando uma moça explicava que não estava defendendo um jovem, senão que estava sendo objetiva com relação a ele. Mas Sabine sabia também, que em situações como aquela, era errado tentar oferecer qualquer resistência.

— Você também não vai poder me negar objetividade — foi a única coisa que disse.

Marianne ficou calada. Contudo, a expressão de seu rosto estava moldada pelo desespero, tanto que sua mãe não pôde deixar de acrescentar:

— Ou será que você pretende afirmar outra coisa?

— Sabe, mãe, muitas vezes eu tenho vontade disso.

A coisa ficava cada vez mais preta. Sabine deixou que seu tricô caísse.

— Escute aqui, você não pode dizer isso — disse ela ofendida. — Quando foi que você não contou com minha total compreensão?

— Agora, por exemplo — replicou Marianne.

— Mas agora não se trata de você, mas sim desse pseudoalemão.

— Certo — Marianne balançou a cabeça. — E eu não gosto da maneira como vocês os vêem.

— Bem, que você os veja de uma outra maneira... melhor ainda... Você está convencida disso?

— Estou.

— E como foi que você chegou a essa conclusão?

— Simplesmente porque me ocupei do problema. Coisa que vocês não fazem. Vocês são preconceituosos com relação a eles. Todos aqui o são. Vocês se escandalizam com o fato de eles não saberem bem o alemão. E é justamente por isso que eles devem ser cautelosos aqui. Como os antepassados deles migraram para o Volga, há dois ou três séculos, claro que eles, os descendentes, não poderiam saber mais nenhuma palavra em alemão. E temos o exemplo disso, aliás dezenas de milhares de exemplos, aqui mesmo na região do Reno. Você sabe muito bem do que estou falando.

Naturalmente que Sabine Berger sabia, já que havia nascido em Gelsenkirchen mesmo; mesmo assim ela disse:

— Não exagere.

Não dava mais para frear Marianne. Naquele momento ela já estava bem exaltada.

— Não estou exagerando — replicou ela. — Ou então vá perguntar a todos os Kasperskis, Abramczyks, Tibulskis, Kuzorras, por que é que eles não sabem falar polonês.

— Olha aqui, a gente não pode comparar uma coisa com a outra.

— Por que não?

— Porque... porque não se pode, ora. — E nada mais ocorreu a Sabine para dizer.

Para Marianne isso foi a oportunidade para demonstrar toda a sua erudição. Afinal de contas, ela não consumia somente romances de amor.

— Mãe — disse ela irónica — você me faz lembrar de Christian Morgenstern. Ele escreveu em um de seus poemas: ”... porque, não pode ser o que não deve ser”.

— Olha, não me venha com essas histórias — Sabine pôs-se na defensiva. — Eu também gostaria de ler mais, mas eu fico o dia inteiro na cozinha e não tenho tempo para isso.

Marianne arrependeu-se de ter despertado em sua mãe tal complexo de inferioridade e quis remediar a coisa. Contudo, antes que pudesse dizer algo, soou o telefone que ficava em cima da mesa, no vestíbulo ao lado. A mãe Sabine saiu da sala de estar para ir atender à chamada. Mas momentos depois regressou, com uma expressão estranha no rosto.

— É para você — disse ela para Marianne. Sua voz saíra um pouco ríspida.

Marianne foi pega de surpresa. Quase nunca telefonavam para ela à noite.

— Quem é, hein? — perguntou já levantando-se.

— O senhor Thúrnagel.

Ao escutar a resposta, a surpresa de Marianne cresceu mais ainda. Mas não disse nada, caminhou para fora da sala e fechou a porta que Sabine deixara aberta. Sabine apurou os ouvidos, tentando escutar a conversa, mas não teve sucesso.

Marianne falou muito baixo, apesar de não haver motivo nenhum para estar escondendo algo.

A coisa era bem inocente. Wilhelm Thíirnagel tivera a súbita ideia de telefonar para Marianne para perguntar-lhe se ela não estava com vontade de se encontrar com ele, dentro de meia hora, para irem ao cinema. E Marianne estava com vontade.

Quando ela retornou à sala de estar, deu de cara com a pergunta da mãe:

— Que é que ele queria?

— Convidar-me para o cinema.

— E então? Você recusou?

— Não.

Sabine ficou calada.

— Mãe, que devo vestir?

— Mas é tão difícil assim? Ele é muito exigente? — replicou Sabine mordaz.

— O problema é que ele vai passar aqui para me apanhar dentro de meia hora. Isso quer dizer que não tenho muito tempo.

— Ah, se não fosse isso, você iria sair em traje de gala, não?

Marianne fitou a mãe, depois balançou a cabeça e disse:

— Olha, você devia escutar o que diz, para perceber corretamente essa sua tão apregoada objetividade.

— O que acontece é que estou irritada, talvez você entenda isso.

— E por que você se irrita?

— Porque terei de ficar aqui sentada a noite inteira sozinha.

— Veja só — Marianne riu sem querer — é justamente isso que ele não quer para si próprio.

— Mas ele tinha de se lembrar justamente de você? Será que ele não tem nenhuma outra pessoa?

— Ao que parece, não.

— ”Ao que parece”, é o que você diz. Quer dizer que você não sabe?

— O que é que eu não sei?

— Se ele por exemplo não tem uma namorada.

— Não — esquivou-se Marianne depois de poucos momentos de hesitação. — Sei lá.

— E como é a coisa em relação aos seus outros familiares? Você também não sabe nada sobre isso?

— Que outros familiares?

— Ora, os parentes: irmãos? pais?

— Bem, irmãos ele não tem nenhum — respondeu Marianne; e uma sombra cobriu seu rosto quando ela prosseguiu: — E seus pais estão mortos. É uma história bem trágica. Imagine que, poucos dias antes de saírem da Rússia eles morreram, vítimas de um acidente de ônibus. O motorista estava bêbado e não prestou atenção ao sinal que advertia quanto à aproximação de um trem, em uma dessas passagens de nível de estrada. E dezoito seres humanos acabaram pagando com a vida esta imprudência. O motorista mesmo escapou com alguns ferimentos leves.

O comentário que a senhora Berger fez, foi o seguinte:

— É, aqui a gente lê todos os dias que lá na Rússia as pessoas bebem como esponjas.

— Mas, também não mais do que as pessoas aqui — disse Marianne.

Depois disso, olhou para o relógio e deu um salto do recosto da cadeira em que se sentara.

— Já está na hora! — gritou ela. Em seguida dirigiu-se para a porta e correu para cima.

Sabine seguiu-a com os olhos. Depois, desviou o seu interesse para a televisão, única coisa com a qual ela contaria pelo resto da noite. Que será que passarão hoje?, perguntou-se ela, folheando a revistinha com a programação semanal da televisão, e constatando: ”Programa de orientação profissional”. Aí está, pensou ela, uma transmissão que o senhor Thúrnagel deveria assistir. Talvez apareça algo que o interesse.

Theodor Berger e Pií Schmitz estavam tendo uma briga no restaurante à Fonte. Bem, pelo menos era o que parecia. Pit estava atrás do balcão, Theodor do lado de fora, os dois de rostos avermelhados e trocando grosserias.

Pit Schmitz, assim como Theodor Berger, também uma montanha de carne e ossos, não nascera na região das minas de potássio, mas em Colónia. Seu grande desgosto era ter sido remetido para Gelsenkirchen pela força do destino e, com isso, ter perdido as torres da catedral de Colónia como campo de visão cotidiano. Essa cicatriz em sua alma nunca pararia de supurar. E para sará-la, pelo menos na sepultura, Pit Schmitz assentara em seu testamento que, após sua morte, ele deveria ser transferido para Colónia.

Com Pit confirmava-se o velho ditado de que os colonianos só podiam ser felizes sob as sombras de torres das catedrais. Quando Wilhelm Ostermanns Evergreen entoava as notas de ”Saudades de Colónia”, cantando a estrofe ”eu gostaria de ir a pé para Colonha”, nesses momentos o gigante Pit Schmitz acocorava-se com toda sua imensa massa e cobria o rosto com as mãos, para que ninguém visse as lágrimas a lhe escorrerem pelas faces. Para ele a humanidade inteira estava dividida em dois grupos: os colonianos e os outros. As cinco seguintes palavras faziam parte constante de suas conversas: ”que são vocês, pobres coitados!”. E com isso ele queria dizer todos aqueles que não haviam nascido em Colónia.

E quando se falava na palavra ”carnaval”, estava tudo acabado. Nessas ocasiões Pit Schmitz declarava o resto do globo terrestre, com exceção de Colónia, como sendo uma zona do nada, do vazio absoluto, da mais completa falta de animação.

Pit levou para Gelsenkirchen — junto com muitas outras maneiras de ver o mundo — sua paixão pelo FC Colónia, cujas qualidades superavam e distanciavam-no do FC Schalke 04, como o vinho da água. Era mais do que óbvio que isso o levasse às constantes brigas com Theodor Berger — e não somente com ele.

- Pit, você é um idiota — começara mais uma vez a coisa.

— E você não é não, Theo?

— Não, eu não sou.

— Você está dizendo isso só porque conseguiu impor-se desde o último jogo, não é mesmo?

— Olha aqui. não foi somente a partir do último jogo.

— Ora, pare com isso. — Pit soltou uma risadinha sarcástica. — Só por causa desse resultado ridículo. — Pit riu com desprezo. — Contra o último colocado na tabela. — Pit riu com o mais absoluto sarcasmo. — E ainda por cima com um gol contra deles.

— Pit, partida ganha é partida ganha. Além disso não foi só um gol contra, mas nós ainda fizemos mais dois, se é que você não se esqueceu.

— Mas o gol contra foi decisivo. Tudo começou com ele. Aí os nervos ficaram em frangalhos, você sabe muito bem como é a coisa... depois foi uma tarefa de crianças, para esses seus pernas-de-pau do Schalke 04 levarem a vitória para casa. Em compensação, um bom time teria ganho tranqüilamente de 10 a 0, dá para você entender?

— Sabe de uma coisa, para nós basta um 3 a 0. — Theo Berger puxou o riso do fundo do peito.

Pit Schmitz não disse nada. Ele agarrou um trapo para dar polimento às torneiras.

— E um 3 a 0 é uma coisa bem diferente de um O a 3 — fez-se ouvir Theo, enquanto bebia sua cerveja e limpava a espuma na boca com as costas da mão, e com a outra mão passava o copo vazio por cima do balcão para que Pit voltasse a enchê-lo.

Calado, Pit livrou-se do trapo, abriu a torneira e deixou que a cerveja espumasse copo adentro.

— Ou você pensa diferente por acaso? — Theo perguntou diretamente a ele, com o objetivo precípuo de quebrar-lhe as defesas.

E o conseguiu, desmedidamente, pois Pit grunhiu:

— Vai tomar no cu.

— Por que, Pit?, por favor. Que culpa tenho eu por vocês terem perdido de 3 a O em Hamburgo?

— Olha aqui, o seu time teria perdido esse jogo e pior ainda... com aquele árbitro safado!

— Ah, quer dizer que a culpa é dele? — o rosto de Theo tornou a se iluminar com o escárnio. — Será que daria para você me explicar o porquê?

O copo estava cheio. Pit empurrou-o para Theo, enquanto perguntava:

— Você assistiu o ”Programa de Esportes”?

— Assisti.

— Bem, então você não pode ter deixado de perceber o que eles insinuaram.

Theo deu de ombros.

— Pit, sinto muito, mas não percebi nada de negativo.

— Será que você é cego, Theo?

— Por que é que você não me pergunta se eu não estava mais uma vez bêbado diante da televisão? — ironizou Theo Berger que, por causa da vitória do Schalke, não conseguia abandonar a teimosia. — Afinal de contas, é o que você vive fazendo, não?

— E olha que com razão, Theo; você deixa escapar coisas como esta em Hamburgo. Se você fosse objetivo, me daria razão.

— Pit, talvez quem estivesse bêbado fosse ele, não?

— Ele quem? O árbitro?

— É.

— Não, não, isso não teria bastado — disse Pit com ênfase. — O cara devia estar algo muito pior do que bêbado.

— Ora, o quê?

— Subornado.

— Pit, vamos colocar um ponto final nisso.

— Não estou pensando nisso, Theo. Inclusive tenho certeza de que em seu íntimo você sabe muito bem que tenho razão. Olha, a Alemanha inteira viu quando, bem no início do jogo, o goleiro do Hamburgo tirou a bola de trás da linha do gol, e tem mais, não foram alguns poucos milímetros, não, foi a meio metro. Afirmo isso com toda segurança. Por acaso você sabe o que é meio metro?

— Bem, é o fim, Pit.

— Você está vendo?, é você mesmo quem o diz. E agora você vem aqui querendo me fazer crer que não viu nada? Você mesmo não acredita, no fundo, no que está dizendo. Mas há muito tempo que conheço suas razões, você só quer me enrolar, só isso.

— Pit — disse Theo — os jogadores do Colónia não protestaram nenhuma vez contra essa decisão do árbitro. Como é que você me explica esse fato?

Pit Schmitz não respondeu imediatamente, mas o que fez foi balançar a cabeça algumas vezes. Depois ele disse, com a voz alterada:

— Pois é, é assim mesmo que eles são! Garotos formidáveis! Esportistas exemplares! Em compensação, quando me lembro das coisas que já vi aqui no estádio de vocês, em situações como essa... pelo amor de Deus!

Ele juntou as mãos, levantou os olhos para o céu, balançou a cabeça, depois voltou a tranqüilizar-se um pouco e disse para Theo:

— Mas isso ou se tem ou não se tem, se é que você está entendendo o que quero dizer.

— Estou, estou sim, Pit... nós não temos. É o que você está querendo dizer de novo, não?

— Theo, seja honesto, não é assim mesmo?

Theodor Berger riu com sarcasmo. Afinal, podia dar-se ao luxo, tendo um 3 a O nas costas. Em compensação, Pit Schmitz tinha de suportar o peso de uma derrota de O a 3, fato que enfraquecia notavelmente a sua capacidade de gozação.

Mas, pouco a pouco foi-se aproximando o momento em que ambos perceberam que seria de bom alvitre voltar a trocar palavras amáveis um com o outro. E então, enterraram entre eles as lanças de guerra. Afinal de contas, eles eram amigos.

— Que está fazendo sua Bina? — perguntou Pit.

— Está tricotando.

— E Marianne?

— Lendo.

Theodor sorveu um longo gole e depois perguntou:

— E sua Ingrid, como vai?

Ingrid era a mulher de Pit. Estava hospitalizada. O útero teria de ser extraído. Pit conhecera Ingrid em Gelsenkirchen, na época em que era soldado, e foi assim que ficara por lá. O restaurante que Pit administrava fora herdado por Ingrid, que era descendente de uma antiga família de proprietários de restaurante em Gelsenkirchen. Havia alguns meses que ela começara a queixar-se de dores no baixo ventre.

— Na semana que vem ela volta pra casa — respondeu Pit.

— Ela está contente por isso?

— Está — respondeu Pit hesitante — mas...

— Mas o quê?

— O negócio é que ela está bem acabada... espiritualmente, não é? Mais espiritualmente do que fisicamente.

— Pit, você deve dizer-lhe que ela não deve esquentar muito a cabeça com isso.

— E o que é que você acha que faço o tempo todo? É o que vivo dizendo pra ela, todas as vezes em que trocamos algumas palavras.

— E isso não tem adiantado?

— Não.

— Mas a operação correu bem, foi o que você nos disse.

— Segundo informações do médico, correu sim. — Pit encolheu os ombros ceticamente. — Mas como você mesmo sabe, esses caras vivem contando histórias.

— Pit, não vá recomeçar — retorquiu Theodor com um tom de voz que deveria ter saído cheio de otimismo. — Hoje em dia não é mais como antigamente, quando se era completamente impotente contra uma inflamação de apêndice. Hoje em dia esses caras sabem fazer as coisas, acredite-me.

— Mas não em se tratando de câncer.

— Claro que sim, mesmo sendo câncer.

Pit Schmitz calou-se. Sentiu vontade de tomar uma aguardente e, excepcionalmente, serviu-se de uma.

Theodor quebrava a cabeça para saber como poderia encorajar o outro. Aquele era o momento de entrar com consolos.

— Pit — disse ele — já lhe contei sobre a minha irmã em Mainz...

— A que é casada com o tal representante de vinhos?

— Essa mesma.

— Ela continua com saudades de Gelsenkirchen?

— Continua. E você sabe como é que ela tem vivido há oito anos? Você não sabe!

— O quê?

— Ela tem um único seio.

Silêncio. Pit olhou compungido para o outro. Depois disse:

— Merda!

— Naturalmente que ela não gosta que se fale sobre isso — prosseguiu Theo. — Mas como ela não conhece vocês, posso fazer uma exceção para você. Você sabe por que faço isso?

— Por quê?

— Por duas razões. Primeiro porque, depois de oito anos, ela é uma prova inconteste de que hoje em dia os médicos já sabem como lidar com o câncer. Em segundo lugar, porque eu tenho certeza de que ela teria o maior prazer de trocar de lugar com qualquer pessoa que tivesse perdido o útero, mas que em compensação tivesse os dois seios. É nisso que a sua Ingrid deve pensar.

Pit manteve-se calado.

— A propósito, você também — acrescentou Theo.

— Olha aqui, será que não lhe ocorre outra coisa para pensar que não seja esse câncer de merda? — perguntou Pit.

— Claro — Theo mudou prontamente o tema da conversa. — No sábado que vem o Frankfurt vai tomar um banho.

— O União?

— É esse mesmo.

— Cara, a gente nunca pode dizer isso em se tratando dele. É o time mais esquisito da Liga Alemã. De vez em quando eles jogam como verdadeiros perebas, depois voltam a jogar como campeões mundiais, aniquilando com qualquer adversário.

— Pit, isso não vai acontecer no sábado que vem. Portanto, os dois haviam retornado à conversa sobre o futebol. Pois se havia algum tema que fosse adequado para desviar as atenções de Pit, este tema era o futebol. Theo conhecia as fraquezas do outro. Naturalmente que Pit as de Theo.

— Diga-me uma coisa, por que você está tão seguro assim, Theo?

— Porque sei contra quem eles terão de jogar.

Pit olhou para Theo interrogativamente. Não estava a par das notícias. O hospital e as agitações que tivera com o caso da mulher desviaram-lhe as atenções do programa da Liga Alemã para os próximos dias. Ainda não se havia ocupado com isso.

— Pit, você também está sabendo — disse Theo. — Não fique aí com essa cara de boi sonso.

— Honestamente, Theo. não sei não. Nos últimos dois ou três dias não tive cabeça para me informar. Eles vão jogar fora?

— Vão.

— Onde? Será em Munique, contra o Bayern?

— Não — replicou Theo, com um riso irónico começando a esboçar-se em sua boca.

— Onde então?

— Em Colónia?

Theo riu. Pit riu também e disse:

— Ah, seu patife!

— Pit — Theo retomou a palavra — pode acreditar em mim, estou plenamente convencido de que o Colónia vencerá.

— Então o Schalke também ganha — Pit deu o troco.

— Mais ou menos.

— A propósito, Theo, não estou sabendo com quem ele joga nessa rodada.

— Contra o Bayern.

— Onde? Em casa ou em Munique?

— Em Munique.

Houve um silêncio que foi sentido como opressão. Depois de algum tempo, Pit Schmitz disse:

— Theodor.

Não ocorria com muita freqüência que Pit chamasse seu amigo de Theodor. Sempre que o fazia, era como prenúncio de uma situação séria. E o mesmo ocorria com Berger, sempre que saía de sua boca um ”Peter” em lugar de ”Pit”.

— Sim? — respondeu Theo.

— Olha aqui, infelizmente preciso corrigir o que disse, Theodor.

— Como assim, Peter?

— Vocês não vão poder ganhar esse jogo. Se fosse qualquer outro, tudo bem, mas não esse jogo.

— Você está falando do Colónia?

— Não. do Schalke, sinto muito, Theodor.

— Olha aqui, Peter, eu também sinto muito por você. Não vai me dizer que pensou que eu não achasse que o Frankfurt não era mais forte do que o seu Colónia?

— E agora você volta a mostrar a sua verdadeira face.

— Assim como você a sua.

E assim foi a coisa, embate após embate e, nessa noite, ainda levou algum tempo até que Theo Berger achasse que já era hora de voltar para casa. Quando isso finalmente ocorreu e ele mandou que chamassem um táxi, estava — para se usar uma bela expressão — ”de cara cheia”. Mas em se tratando de Theodor Berger, isso não significava que ele não pudesse ir andando e que só por isso mandara chamar um táxi, de maneira alguma. Não era o caso dele. Mesmo com um tonel de álcool circulando no sangue, ele sempre se sentia bem, pelo menos fisicamente. Espiritualmente, nem tanto.

No balcão do próprio restaurante, Theodor jamais se embriagava — quer dizer, raramente. E era nos domínios de Pit que ele encontrava o equilíbrio para a coisa. E vice-versa em se tratando de Pit Schmitz. Dessa maneira, estava assegurado que os restaurantes que ambos dirigiam, fossem manejados de modo irrepreensível.

Sentado no táxi, Theodor Berger ainda não tinha a sensação de estar com os pés na terra. Tomara assento ao lado do motorista, tendo constantes acessos de soluços, que prejudicavam sua capacidade de conversar sobre o tráfico moderno de escravos. Conversa esta que ele começara da seguinte maneira:

— Os caras compram... e vendem a gente como... como se nós fôssemos mercadoria morta.

— É — disse o motorista, que tinha a característica de concordar com qualquer passageiro bêbado, mesmo sem ter certeza do que o outro estava querendo dizer.

— E é isso que eu chamo de de trá... tráfico moderno de escravos.

— É.

— Ou será que o senhor conhece uma expressão melhor do que esta que usei?

— Não.

— Então quer dizer que o senhor me dá razão? Quer dizer que eles também são se... seres humanos?

— Eles quem? — perguntou por fim o motorista, para que o assunto da conversa ganhasse contornos mais nítidos.

— Os jogadores de futebol — respondeu Theo.

— Ah, sim, eles.

— E olha que em comparação com a Itália ou a Espanha, nós ainda somos muito melhores.

E nesse momento o motorista viu-se obrigado a fazer uma confissão. E no momento em que. como já foi dito antes, Theodor Berger ainda não se sentia com os pés na terra. O motorista explicou que não entendia nada de futebol. E ainda por cima deu o motivo para tal desconhecimento, acrescentando:

— Sabe, eu não me interesso por esse esporte.

Theo teve de digerir primeiro essa afirmação. Durou algum tempinho antes de ele perguntar com uma expressão incrédula:

— O senhor não se interessa por quê?

— Por futebol.

Pela resposta que Theodor deu, ficou demonstrado o quão profundamente essa afirmação atingiu sua alma:

— Bem, nesse caso eu gostaria de saber que tipo de pessoa... o senhor é.

— Espero que eu seja um tipo bem normal — riu o motorista.

— Mas o se... o senhor não é de Gelsenkirchen, não é mesmo?

— Claro que sou, nasci aqui mesmo.

O rosto de Theo mostrou maior incredulidade ainda.

— Nascido aqui?

— Claro.

— E o Schalke? Como fica?

— Como fica como?

— Será que isso não significa nada para o senhor?

— Não.

Theo calou-se. Já não sabia mais o que dizer. Sim, se pelo menos ele estivesse lidando com uma motorista de táxi... bem, pelo menos as mulheres têm o direito de serem imbecis em muitos campos da atividade humana. Contudo, que um natural de Gelsenkirchen não se interessasse nem por futebol nem pelo Schalke, era de deixar qualquer um de queixo caído. E isso ele ainda não havia conseguido engolir direito. Desapareceram-lhe até mesmo os soluços.

Finalmente, Theo disse que não podia acreditar naquilo. Ou por acaso o motorista estava querendo lhe gozar?

— De jeito nenhum — assegurou-lhe o chofer. — Como é que eu seria capaz de uma coisa dessas?

Pouco depois ele parou o carro. Haviam chegado ao local que Theodor dissera logo que entrara no carro. Mas Theodor não desceu logo. Aquela conversa parecia ter alguns pontos que precisavam ser elucidados com perguntas.

— O senhor é casado? — foi a primeira.

— Sou.

— No duro, no duro?

— Como assim?

— Nada, é somente porque estou achando que a sua mulher tem alguma coisa a ver com isso. Diga-me uma coisa, é ela quem determina os programas de televisão que devem ser vistos?

O motorista estava deliciando-se com o interrogatório. Ele sorriu ironicamente.

— Como assim? — tornou a perguntar.

— Porque eu conheço o caso de um sujeito, cuja mulher não permite que ele assista aos programas de esporte.

— Olha, a minha não tem nada contra isso.

— E mesmo assim o senhor não se interessa por futebol? Mesmo assim o senhor não se importa nem um pouco se o Schalke ganha ou perde?

— Isso mesmo.

— Não consigo entender — disse Theodor com um balançar de cabeça. — Quando o Schalke perde, não sinto mais o gosto da comida ou da bebida.

— Mas eu sim. Sempre. Theo começou a irritar-se.

— Sabe o que o senhor me faz lembrar?

— O quê?

— Uma piada que escutei uma vez em Munique. Dois caras estavam em uma estalagem, um deles natural da cidade e o outro um chinês, que sabia falar corretamente o alemão, sabe-se lá por que motivo. O muniquense comeu três vezes e bebeu dez canecas de cerveja, uma após a outra. O chinês comeu uma vez, bebeu uma caneca e depois olhou desconcertado para o muniquense, até que não agüentou mais e perguntou: ”Puxa, mas o senhor consegue comer e beber tanto assim? Para o senhor nada consegue fazer com que a comida perca o sabor, não é mesmo? Nós os chineses temos uma outra mentalidade. Precisamos estar dispostos a comer. E paramos de comer quando saciamos a fome, e de beber, quando matamos a sede”. E o muniquense respondeu-lhe em seguida: ”Igualzinho aos animais”.

O motorista de táxi deu uma estrepitosa gargalhada, dando palmadas nas coxas.

— O senhor está rindo de quem? — perguntou-lhe Theo sem mover nenhum músculo do rosto. — O senhor está rindo do muniquense ou do chinês?

— Mas é claro que é do chinês.

— Engano! Não é ele que merece o escárnio. Pense bem no caso!

Theo tirou do bolso a carteira de dinheiro.

— Quanto lhe devo?

— Nove marcos.

Quantia esta que ultrapassava em 3,80 marcos o que estava marcado, e que correspondia à má fé do motorista do táxi, na mesma porcentagem que este a achava de acordo com a bebedeira do passageiro. Freqüentemente ele sugava mais fundo ainda as veias dos torcedores do Schalke.

O Girassol estava mergulhado na mais profunda escuridão, não havia luz em nenhuma janela. Portanto, todos já estavam dormindo e Theodor, regressando tarde da noite à casa, esforçou-se por evitar barulhos desnecessários, quando se dirigia para o quarto conjugal. Todos os homens esforçam-se na tentativa de obter o silêncio completo, em situações como aquela... e todos fracassam. Como não acendem luz alguma, acabam chocando-se com cadeiras, tropeçando em escadas e terminam atirados em tapetes.

E Sabine também estava acostumada a ser tirada do sono.

— Acende a luz — disse ela com a voz clara, assim que ouviu os ruídos de Theodor na penumbra.

— Não.

— Por que não?

— Não quero que você acorde.

— Já estou acordada.

— Pombas, quem foi que te acordou?

Responder a uma pergunta como esta, não teria levado a nada, por isso Sabine disse:

— Hoje vocês me deixaram sozinha a noite inteira. Theodor apalpou o interruptor e o quarto iluminou-se.

Momentaneamente ofuscada, Sabine fechou os olhos.

Theodor sentou-se na cama e começou a tirar os sapatos, tomando todo cuidado para não ser projetado para a frente. E mesmo esforçando-se para não cair, manteve a conversa com a mulher. Claro que sua voz saía um pouco abafada, pois enquanto falava, sua cabeça estava geralmente abaixo da borda da cama.

— Você já viu alguma vez um cara como esse? — perguntou ele.

— Que cara? — respondeu Sabine sem demonstrar nenhum interesse especial.

— Um motorista de táxi que não pode ir a um estádio de futebol.

— Não pode ir, como assim?

— Ora, porque a velha dele o proíbe. — Theo soltou um gemido, em parte por indignação contra aquele modelo de mulher, desconhecido para ele, em parte porque estava tendo dificuldades em tirar os sapatos. Depois prosseguiu: — É bem verdade que ele negou o fato, mas todos os almofadinhas fazem o mesmo, porque sentem vergonha. E tem mais, a mulher também não permite que ele veja televisão.

Deixou os sapatos, endireitou-se na cama, virou-se e disse diretamente para Sabine:

— Você não poderia fazer isso comigo.

Sabine abriu os olhos... cedo demais como logo ficou demonstrado. Voltou a sentir-se ofuscada pela luz, e foi obrigada a fechar os olhos rapidamente.

— Trate de vir para a cama — disse.

Theo tornou a ocupar-se com os sapatos. Até que finalmente, sempre gemendo, conseguiu arrancá-los dos pés. Não teve tanto trabalho assim para livrar-se do resto da roupa, que despejou, parte em cima de uma cadeira, parte pelo chão espalhada, e enfiou-se num pijama.

Nesse meio tempo, Sabine fizera uma outra tentativa de abrir os olhos e, dessa vez, pôde mantê-los abertos.

— Quando foi que você voltou a beber? — perguntou ela.

Uma pergunta como esta, na boca da mulher de um proprietário de restaurante, parece deslocada de lugar. Theodor Berger não lhe deu atenção, sentindo-se com todos os direitos para isso.

— A mulher do Pit vai receber alta do hospital — disse ele, enquanto acendia o abajur da mesinha-de-cabeceira e apagava a luz do quarto. Depois meteu-se cerimonioso na cama.

— Ela deve estar contente — opinou Sabine.

— Necas — disse Theo.

— O que quer dizer com necas?

— Que ela não está nem um pouco contente, foi o que Pit me contou.

— Não me venha com essa, qualquer pessoa fica contente quando recebe alta de um hospital.

Finalmente Theodor conseguiu meter-se na cama da maneira que lhe pareceu a mais confortável. Respirou fundo algumas vezes, puxando e soltando o ar com uma sensação de bem-estar invadindo-lhe o espírito, alisou com as mãos a coberta sobre seu corpo e esticou-se na cama. Em seguida disse:

— Ela já está sabendo porque não se sente bem... câncer. Só a palavra bastava para Sabine estremecer.

— Que terrível! — sussurrou ela.

— Ela não está tendo nenhuma ilusão — disse Theo, apagando o abajur da mesinha-de-cabeceira. — E se você pensar bem, ela está certa. Tem tanta gente por aí que, depois de uma operação de câncer em que, aparentemente, tudo correu bem, acaba mesmo assim dando com os costados numa sepultura. E Pit também acha a mesma coisa.

— Theo, espero que você não tenha fortalecido essa opinião dele, não é?

— Claro que não, Bina. Mas ele não se deixa enganar. Eu também não seria embromado numa situação como essa.

Ouviu-se um ruído do lado da cama de Theodor, que soou abafado.

— Theo!

— O quê?

— Puxa, a gente nem devia pensar nisso.

— Em quê?

— Que pudéssemos acabar em uma situação como essa.

— Claro que não. Quem foi que disse isso?

— Você.

— Eu? Quando?

— Agorinha mesmo.

Theo refletiu, tentando reconstruir o que acabara de dizer e, pouco a pouco, começou a compreender que o espanto de Sabine tinha sua razão de ser.

— Mas Bina, isso é uma imbecilidade — disse ele. — Lá está você mais uma vez vendo fantasmas, só porque bota a carapuça de tudo que digo. Claro que eu só falei assim, por falar, em geral, sem ter em mente nenhum caso concreto. Pelo menos sem pensar na gente.

Sabine manteve-se calada durante algum tempo, depois soltou um suspiro e disse:

— Nós nunca podemos saber as coisas que estão escondidas dentro de nós.

— O quê?

— Ora, o câncer, por exemplo.

— Argh, puxa, pare com isso, Bina — disse ele irritado.

— Claro que você está saudável como um cavalo, e eu também.

— A mesma coisa me disse a mulher de Pit quando, há seis meses, me encontrei com ela e perguntei como ela ia.

Ninguém pôde ver Theodor dando de ombros na penumbra do quarto, antes de dizer:

— Bem, ela teve azar.

— E quem é que nos pode garantir que nós também não teremos azar um dia desses, Theo?

Nesse momento ele foi enérgico.

— Vamos parar com isso, para o diabo com essa maldita boca. Vocês, mulheres, são terríveis com essas histórias de câncer. Puxa, vocês não têm nenhum outro assunto pra conversar. Basta começar com esse papo, já não param mais. E não vá contar essa fofoca para nossa filha.

Pôde-se ouvir como ele se virou para o outro lado e disse:

— Deixe-me dormir. Boa-noite.

Mas sua vontade ainda não seria feita dessa vez.

— Já que você falou em nossa filha — disse Sabine — não a vi mais hoje. Fiquei sentada sozinha na frente da televisão, a noite inteira.

Theo grunhiu algo incompreensível.

— Assim que você saiu, houve um telefonema e ela saiu para ir ao cinema — prosseguiu Sabine.

Theo não respondeu.

— Mas não fique pensando que ela foi com alguma amiga — continuou Sabine.

Silêncio. Theo já estaria dormindo?

— Não foi esse o caso, é bom que saiba -- concluiu Sabine. — Ela foi com esse tal de Thiirnagel.

Houve um movimento no lado da cama de Theo. Ele se arrastou para o lado de Sabine.

— Como é que ele se chega assim? — perguntou Theo.

— Eu também gostaria de saber.

Theo precisava de pequenos intervalos na conversa que ressurgira, pequenas pausas que lhe dessem oportunidade para refletir. E ele não conseguia pensar rapidamente. A névoa alcoólica em seu cérebro agia como freio sobre as pequenas células cinzentas.

— Você disse que ele telefonou? — prosseguiu ele.

— Sim.

— E como é que ele tem o número?

— Que pergunta mais idiota — respondeu Sabine. — Ou através do catálogo ou pela própria Marianne.

Silêncio.

— Eles foram a que cinema?

— Não tenho ideia.

— Pombas, mas você voltou a falar com ela, ou não?

— Quando?

— Quando ela voltou.

— Não voltei a vê-la antes de dormir. Uma pausa maior.

E em seguida:

— Quando foi que você veio para a cama?

— As onze.

— E ela ainda não havia chegado?

— Não.

Theo voltou a virar-se para o outro lado. Logo depois, Sabine teve de fechar os olhos ofuscados pela luz. O quarto estava iluminado. Theo acendera o abajur da mesinha-de-cabeceira. Jogou a coberta para um lado e pôs as pernas para fora da cama.

— Aonde vai você? — perguntou Sabine.

— Vou dar uma olhada.

— Em Marianne?

— Claro.

— Mas não agora. Já passou da meia-noite. Deixe que ela durma.

— Quer dizer que você acha que ela já está em casa?

— A essas horas? Claro!

— Muito bem, quero certificar-me — disse Theo, arrastando os pés em direção à porta.

— Não faça barulho, não vá despertá-la! — Sabine gritou para ele, contendo a altura da voz. — A menina precisa dormir!

Theodor fez que sim com a cabeça, sem virar-se para ela e saiu do quarto, caminhando na pontinha dos pés. O quarto de Marianne ficava no outro fim do corredor. Depois disso, Sabine nada ouviu durante um bom tempo. Estava cansada, seus olhos queriam fechar-se mais uma vez. Mas nesse momento, Theodor Berger retornava... não mais silencioso, mas sim agitado e fazendo o maior escarcéu. Já não havia nenhuma necessidade de evitar barulho. Com isso ficou claro para Sabine que tipo de notícias ele estaria trazendo.

— Que foi? — perguntou ela mesmo assim, como se ainda tivesse dúvidas.

Ele parou na soleira da porta, enfurecido por ter-se obrigado a andar na pontinha dos pés, como um idiota, apesar de não haver o menor motivo para tal procedimento. Queria desforrar-se do papelão. Acenou para Sabine com o dedo indicador.

— Vem — disse com a voz contida — não perca a oportunidade de ver como ela dorme, doce como um anjo. Você precisa ver isso. Mas por favor, não faça barulho.

Sabine saiu da cama hesitante.

— Não faça barulho — tornou a dizer. Sabine calçou os chinelos, endireitou-se e caminhou em direção a Theodor.

— Você não vai querer me dizer — disse enquanto caminhava — que ela ainda não chegou.

Ele tomou-a pela mão e levou-a pelo corredor..Todas as vezes em que ela quis dizer algo, ele reprimia as tentativas, colocando o indicador na boca e sussurrando-lhe nos ouvidos um ”psiu”.

A porta do quarto de Marianne no fim do corredor estava aberta, mas só se conseguia ver sua cama do lado direito do quarto, quando se ultrapassava o umbral da porta. Estava intacta.

— Mas não é possível — disse Sabine com os olhos arregalados para a cama vazia.

— É o que eu também acho — opinou Theo sombriamente.

Quando foi buscar Marianne, Wilhelm Thúrnagel não entrou no Girassol. Ele bateu à porta e Marianne saiu, vestida com sua melhor roupa. Estava encantadora. Era uma noite de primavera, uma noite morna que permitia que se usasse uma roupa leve de linho. A silhueta dela era esplêndida, coisa que se tornara um mistério para todos os conhecidos, mistério porque, de nenhuma maneira, Marianne poderia ter herdado os traços de seu corpo dos pais. A massa corpórea de Theodor e a redondez de Sabine deveriam ter gerado uma outra mistura. Visto dessa maneira, o aspecto de Marianne era o melhor material ilustrativo de que, muitas vezes, a mãe natureza não se mantém dentro dos limites de suas próprias regras.

Na cabeça de Marianne foi colocada uma destemida boina basca, que não conseguiu esconder os cachos castanhos da moça. Os olhos escuros e a boca carnuda da moça sorriam, mostrando dentes brancos que reluziam. Ela estava contente quando Thúrnagel a cumprimentou, e não fez nenhuma questão de dissimulá-lo. O círculo de jovens que freqüentavam o restaurante Girassol fez circular a seguinte frase sobre as pernas de Marianne: ”Que bela deve ser a estação, se os trilhos já são tão lindos!”

Wilhelm Thúrnagel pareceu inibido quando Marianne deu-lhe a mão. Ele era bem alto, ultrapassando a altura de Marianne em mais de uma cabeça. Repartira, num gesto de violência, sua basta cabeleira, e não havia a menor dúvida que isso era para comemorar a noite, pois normalmente Wilhelm dava liberdade total a sua juba, e Marianne sentiu num relance que o melhor para aquele novo penteado seria desfazê-lo imediatamente. É preciso que se trate disso, pensou ela.

— Espero que você não estar zangada comigo — disse Wilhelm.

— Zangada? Por quê?

— Por telefonar para você.

— Olha aqui, estou muito zangada por causa disso — disse ela levantando o dedo indicador como quem chama a atenção de uma criança, mas sua expressão de contentamento traía sua mentira.

— Eu ficar uma meia hora sem ter coragem, até que embrulhar toda que poder...

— Tomar.

— O quê?... tomar? — perguntou Wilhelm inseguro.

— Diz-se ”tomar coragem” — explicou-lhe Marianne sem nenhum escárnio.

— Obrigado. Você a melhor professora que tenho — disse ele em um alemão sem nenhum erro. Dava para se perceber que ele havia decorado a frase.

— Nós teríamos descoberto isso, não?

— Com toda certeza — ele sorriu irónico.

— Aonde nós vamos?

— Ao cinema.

— Isso eu já sei. Mas qual?

— Não sei.

Marianne espantou-se, depois riu.

— Mas foi você quem me convidou, não? Então você tem de saber aonde nós vamos.

— Você decidir para onde.

— Por que não você?

— Porque pra mim dar no mesmo, onde quer que eu estar. Não vou olhar para filme, vou olhar para você. Dever agradar o filme para você, não pra mim. Por isso você dever decidir.

Eles já se haviam afastado um bom pedaço do Girassol. E agora foi a vez de Marianne deter-se.

— Olha, você não vai conseguir ficar noventa minutos de olhos arregalados para o meu perfil, Wilhelm.

— Arregalados? Que ser isso?

— Abrir os olhos... ficar olhando.

— Claro que poder.

— No escuro, Wilhelm, pense bem.

— Claro que eu poder.

— Não, eu não vou querer isso — disse Marianne, batendo com os pés, mas seus olhos riram mais uma vez. — Sou obrigada a proibi-lo.

— Marianne, não ter sentido.

— Então não irei ao cinema com você.

— Claro.

— Não.

— Você me chantagear?

— Sim — disse Marianne satisfeita.

Wilhelm agarrou a mão dela e pôs-se em movimento, arrastando-a consigo.

— Vem. Eu com você ir na polícia e apresentar uma denúncia.

No primeiro cinema por que passaram, estava levando um filme de terror com Frankenstein. Não era o adequado. No segundo estava passando um filme de guerra americano. Também foi preterido. No terceiro passavam uma fita francesa.

— Bom — opinou Wilhelm.

— Por quê? — perguntou Marianne.

— Porque francês — Wilhelm arreganhou os dentes, fechando os olhos e acrescentando, enquanto os mantinha fechados: — amor.

A palavra pareceu desfazer-se em sua boca.

— Wilhelm!

Ele voltou a abrir os olhos.

— Sim?

Marianne acenou-lhe com o dedo indicador, pôs-se na ponta dos pés e cheirou-lhe o hálito.

— Que foi que você bebeu?

— Eu?

— Sim, você mesmo! E não me venha com mentiras! Wilhelm ruborizou-se rapidamente.

— Um conhaque.

— Um?

— Três.

Marianne balançou a cabeça.

— Mas você me disse que nunca tomava bebidas alcoólicas.

— Hoje ser necessário.

— Por quê?

— Porque eu sem a coragem não ter de para você telefonar.

Seria esta a única possibilidade?, pensou Marianne. Se eu contasse isso para uma das minhas amigas, ela se mijaria de tanto rir. Mas não tenha medo, ela mesma assegurou-se, não vou contar para ninguém. Vai ficar como segredo meu; meu...

e seu.

— Vamos entrar — disse ela apontando para a entrada do cinema.

Na bilheteria havia uma pequena multidão de jovens, cujas namoradas amontoavam-se na entrada, esperando que os namorados chegassem com os bilhetes. Marianne fez a mesma coisa, indo postar-se em um canto, enquanto Wilhelm colocava-se na fila em frente da bilheteria. Coisa que foi um erro de Marianne. Ela devia ter ficado com Wilhelm.

Quando chegou à janelinha da bilheteria, Wilhelm disse:

— Duas entradas, por favor.

A mulherzinha sentada do outro lado da janelinha era casada e seu marido a traía constantemente. Ela o sabia e por isso mesmo vivia com um humor desses de dar vontade de explodir o globo terrestre. Psicólogos haviam afirmado que ela tinha tendência a agressões, apesar de suas atividades domésticas não permitirem que ela concretizasse essa inclinação. Contudo, infelizmente, ela esquecia-se com muita freqüência de sua condição de dona-de-casa.

Em um primeiro instante ela não teve nenhuma reação, quando Wilhelm manifestou seu desejo, tanto que ele viu-se obrigado a repeti-lo, só que em um tom de voz mais alto, pois pensou que a bilheteira não escutara o que ele dissera.

— Duas entradas, por favor. Mas a mulher o havia entendido perfeitamente.

— Que entradas?

— Duas boas.

— Que boas? - Pela primeira vez apareceu uma sombra de súplica no olhar de Wilhelm. Ainda havia tanta coisa naquele país que lhe parecia estranha.

— Boas — repetiu ele, encolhendo os ombros.

— Que boas?... Primeira fila?... Plateia?... Balcão? Wilhelm hesitou. Aumentou sua insegurança. Nervoso, acabou dizendo:

— A senhora poder adivinhar?

Foi a gota dágua que faltava para a bilheteira.

— Escute aqui, isso é alguma piada? — ela começou a berrar. — Será que sou obrigada a adivinhar que tipo de desejo é o seu? E me diga uma coisa, quanto tempo o senhor acha que tenho para isso? Pergunte às pessoas que estão atrás do senhor na fila.

Wilhelm acabara de fazer uma ”pequenina” troca de palavras. Na verdade ele quis dizer: ”A senhora não poderia aconselhar-me?”.

Claro que era uma bela diferença, mas agora não havia mais como dar jeito na incompreensão que surgira entre Wilhelm e a vendedora, e as outras pessoas começaram a participar da confusão.

— Pó. comoé que é, essa fila anda ou não? — disse um dos que estavam na fila atrás dele.

Um segundo acrescentou com o mesmo mau humor:

— Olha o papo aí na frente.

Mas quem jogou lenha na fogueira mesmo, foi um terceiro com a pergunta sardónica:

— Tinha que ser um estrangeiro, não?

Todos já sabiam, havia bastante tempo, que o homem que estava criando problema na fila não era um igual a eles. E nesse momento a vendedora percebeu que pusera uma pedra em movimento, que poderia tornar-se perigosa.

— Por favor, seja razoável — disse para Wilhelm — deixe que os outros passem, enquanto o senhor reflete sobre que entrada vai querer. Quando o senhor tiver se decidido, aí então entre na fila de novo. Há tempo de sobra. A sessão só começará dentro de vinte minutos.

Wilhelm fitou-a sem nenhuma expressão no rosto, balançou a cabeça e em seguida disse:

— Bem.

Marianne estava distraída contemplando as fotos de atores bonitos, penduradas nas paredes. Não havia tomado conhecimento do que se passara na bilheteria. Mas quando Wilhelm foi até ela e confessou-lhe a pane que tivera, encheu-se de indignação e disse:

— Venha comigo, esses aí têm de nos respeitar, vamos a outro lugar.

— Por quê? — perguntou Wilhelm, tranqüilo.

— Para que ela aprenda a ser simpática com os fregueses da casa — respondeu Marianne.

Claro que essa mulher está pouco se importando com isso, pensou ela enquanto falava, mas a gente precisa mostrar alguma reação.

Já que não havia escolha, Wilhelm seguiu Marianne, quando ela fez menção de se afastar da entrada do cinema. Mas a meio caminho, ele estacou como se tivesse sido cravado no lugar. Um sujeito da fila, pelo qual passaram, disse clara e inequivocamente:

— Puta de estrangeiros!

Não havia a menor dúvida a quem ele se referia. Contudo, Marianne pareceu não ter escutado nada. Por uma diminuta fração de segundo ela deu a impressão de que iria parar, mas logo depois prosseguiu seu caminho.

— Um momento! — Wilhelm gritou para ela.

— Acompanhe-me — foi a resposta que ela deu.

— Já ir.

A fila era composta de sete homens. Wilhelm examinou-os e perguntou:

— Quem?

Os sujeitos se entreolharam, sorrindo. Um deles pergum tou para os outros:

— Que é que esse cara está querendo?

— Quem? — repetiu Wilhelm com uma voz mais dura.

— Como quem? — perguntou-lhe o mesmo sujeito.

— Quem a dama insultar comigo? Você?

— Não, mas poderia ser qualquer um de nós.

— Wilhelm! — gritou-lhe Marianne parada na porta de olhos arregalados para ele.

— Já ir, Marianne.

— Venha, eu não me senti insultada.

— Mas eu sim. Eu saber que a palavra ”estrangeiro” aqui ser um xingamento.

Marianne percebeu a confusão que estava se armando e gritou cheia de medo:

— Mas você não é estrangeiro!

O sujeito postado à frente de Wilhelm era tão alto e largo como um guarda-roupa. Estava mascando um chiclete, sorrindo com superioridade. Tinha a mesma expressão que vira tantas vezes em filmes de mocinho. E também o tom de voz era ensaiado.

— Ora, então que tipo de cara é você? — perguntou ele lentamente.

— Alemão.

— Nem sua mãe acreditaria nisso. De onde?

— Da Rússia.

— Ah, sim, da Rússia — escarneceu o outro, enquanto se virava de novo para as outras pessoas da fila. — A gente já deveria ter imaginado ser esta a solução do mistério... da Rússia. Esses caras estão vindo em massa de lá, só para ficarem aqui de papo pró ar. E ainda por cima eles nos surrupiam as garotas. Ei. pessoal, que é que vocês acham disso? Mas isso só dá certo porque eles acham mulheres que se prestam a esse tipo de coisas.

— Ei! — gritou Wilhelm de modo cortante. — Olhar para mim!

O sujeito virou-se:

— Para você? Por quê?

— Para que você dizer não que eu bater em você pelas costas.

— Wilhelm, por favor! — gritou Marianne.

O adversário de Wilhelm levantou os punhos. Achava que seria uma parada fácil e iniciou o ataque com um berro:

— O quê? Seu verme, você está querendo...

E de repente aconteceu, só que de uma maneira completamente diferente da que os presentes esperavam, com exceção, é claro, de Wilhelm Thiirnagel. O gigante caiu inerte. Havia sido atingido por dois poderosos e rápidos golpes, que lhe deixaram inconsciente, um no queixo e o outro na boca do estômago. Wilhelm olhou para ele estendido no chão, depois para os outros que emudeceram por completo. Reinou o silêncio. Somente o homem caído emitia grunhidos ininteligíveis.

— Quem? — tornou a perguntar Wilhelm, tão cortante como no início. E já era a terceira ou quarta vez que ele repetia a pergunta.

Nenhuma resposta.

— Qual o covarde que ”puta de estrangeiros” falar? Mais uma vez nada. Mas devia-se contar com que os outros seis restantes se juntassem em uma união de forças. Ao que parecia, Wilhelm era o único a não perceber esse perigo. Ele ouviu um passo atrás dele. Virou-se. mas era Marianne que estava ali.

— Wilhelm, vamos embora agora?

— Daqui a pouco.

— Daqui a pouco não... agora.

— Mas eu ainda precisar...

— Olha, se você não vier agora mesmo, vou embora sozinha.

A luta que Wilhelm teve consigo mesmo, foi dura, mas curta. Repugnado, ele deixou o local acompanhando os passos de Marianne. E se não o tivesse feito, Marianne o teria abandonado de fato. Mas ao chegar à porta, parou e cuspiu com desdém aos pés dos sujeitos que o seguiam com os olhos arregalados.

Chegando à rua, Marianne adiantou o passo e cobriu-o de repreensões.

— Puxa, mas você é terrível!

Percebendo como ela estava zangada, ele não disse nada e baixou a cabeça.

— Se eu soubesse disso, não teria saído com você.

E como falava sem olhar para o caminho, mas sim para Wilhelm, acabou tropeçando.

— Você quase matou o outro de pancada. Quem sabe se ele não terá de ser hospitalizado ou até mesmo morra?

Wilhelm olhou para trás, seus passos diminuíram o ritmo. Marianne agarrou-o pelo braço.

— Vamos embora, talvez eles chamem a polícia, aí você estará frito, seu brigão, seu...

Foi demais para ele.

— Não ser nenhum brigão — disse ele com a voz bem clara e sem nenhum erro gramatical. Ficou-se sem saber se aquela falta de erro foi por acaso ou não; de qualquer maneira fez efeito em Marianne. Ela parou de brigar.

— Confesso — disse ela — que você praticamente foi obrigado a ter esse comportamento.

— Praticamente? Que quer dizer isso?

— Bem, quase.

— Então — replicou ele — não ser correto o que você dizer.

— Por que não?

— Porque eu não quase obrigado ao meu comportamento, mas sim totalmente. Você entender? Não quase, mas sim por completo. Totalmente. Não ter outra saída. Você entender?

— Certo, ele insultou você brutalmente, mas...

— Não a mim — interrompeu-a Wilhelm.

— Como assim?

— Não insultar a mim ele. Tais tipos de homens não poder me insultar.

Marianne deteve-se.

— Mas foi você mesmo que disse, não?

— Sim. ter eu que dizer mas não ser verdade. A verdade ter ele que insultar você. — Wilhelm levantou o dedo indicador para Marianne. — Você! — tornou a dizer com insistência.

E de novo Marianne ficou furiosa. Ela disse cortante:

— Você é surdo?

— Surdo? Que ser isso?

— Se você não ouve bem?

— Claro, por quê?

— Porque eu fiquei lá gritando para você, dizendo que não tinha me sentido insultada.

Wilhelm deu uma risadinha curta.

— Eu ouvir, mas não acreditar.

Marianne esqueceu-se que era uma senhorita educada e começou a praguejar.

— Por que não, merda?

— Porque não acreditar — repetiu Wilhelm. Marianne bateu o pé no chão.

— Mas é verdade!

— Não.

— Não? Então você pensa que eu sou uma mentirosa?

-— Todas mulheres ser um pouco.

— Mas não eu!

— Claro que sim, todas.

Marianne voltou a bater o pé.

— Wilhelm, você é maluco?

— Não, eu saber isso por meu pai e por meu avô. Os dois ser...

— Deixe em paz o seu pai e seu avô!

Os olhos de Marianne despejavam relâmpagos. Mas alguma coisa restou neles, que tirava a cintilação de ódio.

— Além disso — disse Wilhelm — existir um bom provérbio do parte asiático da Rússia. Marianne, você saber a Ásia muito sábia.

— Qual é o provérbio asiático? — replicou Marianne, não querendo perder a oportunidade de ampliar sua cultura.

— Não — a resposta de Wilhelm espantou-a — isso eu não poder dizer.

— Por que não?

— Sabe, porque ser não... — ele procurou a melhor palavra para expressar o que queria dizer — elegante.

— Não é elegante? Você está querendo dizer que é imoral, não é mesmo?

— Sim — Wilhelm balançou a cabeça satisfeito por ter aprendido mais uma palavra em alemão, cujo sentido ele entendia perfeitamente.

E com isso, Marianne desinteressou-se pelo caso. Ela não podia nem queria aprender nenhum provérbio que fosse indecoroso.

E nesse momento começou a andar, e Wilhelm, contente por ter passado a tempestade, colou-se ao seu lado, oferecendo-lhe paternalmente o braço. O hábito ocidental de andar de mãos dadas, que ele já conhecia, lhe agradava bastante, só que ainda não tinha coragem de fazer o mesmo.

Marianne só conhecia o hábito de andar de braço dado, de ouvir dizer. Por isso mesmo, a princípio não soube imitá-lo de maneira correta, e o percebeu ao tentar acompanhar o balanço de Wilhelm. Mas em situações semelhantes, as moças aprendem bem rápido. Em uma fração de segundo, lá estava Marianne adaptando-se tão naturalmente ao braço de Wilhelm, que a impressão que se tinha, era que ela o fizera a vida inteira.

E que estaria ela achando da coisa? É, realmente não é tão ruim assim, pensou surpresa. Estava sentindo no braço o calor do corpo de Wilhelm. E esta era uma sensação agradável.

Wilhelm sabia dar seguimento à corrente de seus pensamentos. O que era também uma atitude sábia, pois eles antecipavam-se muito às sensações de Marianne.

Ambos esqueceram-se da briga no cinema.

— Gostoso — disse Wilhelm.

— O que é gostoso? — perguntou Marianne.

— Andar assim com você.

Marianne apertou o braço dele. Todavia, bem de leve, para não deixar que surgissem nele desejos que não pudessem ser realizados. Wilhelm não ousou fazer nenhuma pressão contrária. Espantada, Marianne constatou o fato. Em um certo sentido, pensou ela, está certo o que sempre ouvimos dizer deles; eles são bem diferentes das pessoas daqui... muito mais moderados.

Dois rapazes caminhavam em direção a eles, com um sorriso irónico esboçado. Assim que passaram, um deles disse:

— Você viu essa cena?

— Como a vovó e o vovô.

Os dois nem sequer suspeitaram que deveriam agradecer aos céus pelo fato de Wilhelm não ter escutado a gracinha.

— Wilhelm — disse Marianne.

— Sim?

— Diga-me uma coisa, esse provérbio asiático... ele é muito imoral assim?

— Sim.

— Qual é a sua definição de ”muito”? - Ele encarou-a inseguro.

— Muito ser muito — disse depois.

Marianne ficou calada até a esquina seguinte. Lá chegando, teriam de atravessar a rua. Pararam por causa do sinal vermelho e, enquanto esperavam pelo ”verde”, Marianne perguntou:

— Wilhelm, você sabe o que quer dizer a palavra ”ordinário”?

— Sim, ser russa também.

— Mas ela vem do francês.

— Sim — disse ele. — Por que você me perguntar? Você achar que ser ordinário?

— Mas claro que não! — contestou ela rapidamente, apertando sem querer o braço dele. — Eu só estava querendo saber se esse tal provérbio é ordinário.

Ele refletiu algum tempo.

— Não, não.

E nisto Marianne teve o saque decisivo.

— Nesse caso você pode me contar, Wilhelm.

O sinal abriu para eles. Eles atravessaram para a outra calçada. Lá chegando, viraram para a direita. Quem definia o caminho era Marianne, que afinal era a conhecedora da cidade.

— Você ser muito coriosa — disse Wilhelm, logo se corrigindo: — curiosa.

— Eu? Não.

— Não? — ele balançou a cabeça satisfeito. — Nesse caso eu precisar não dizer para você o provérbio.

— Claro que sim.

— Claro que sim? — ele balançou a cabeça espantado. — Bem. então eu ter de dizer para você provérbio. Mas eu lhe previnir de imoral. Não você poder ficar zangada comigo.

— Não.

Marianne já estava louca de curiosidade quando finalmente ele abriu o jogo:

— Provérbio ser assim: ”As mulheres gostar de ir para a cama com os homens, mas não com a verdade”. Você entender? Significa: mulheres amar os homens, elas não amar a verdade. — Ele pigarreou. — Naturalmente que ser um exagero, como todos os provérbios. Melhor se ser: ”... não amar sempre a verdade”. Aí eu acreditar que verdadeiro. Você compreender?

Marianne não disse nada. Meu Deus, pensou ela, então isso é tudo? E é isso que ele chama de imoral? Puxa vida, esses caras são realmente diferentes. Ou será que ele só está fingindo? Ao que parece, sim. E se não estiver, terá de se acostumar com muitas coisas daqui.

— Mas claro que agora você zangada comigo — disse ele.

— Não, como assim?

— Porque você nada dizer.

— Oh, Wilhelm, peço-lhe perdão. Eu estava refletindo.

— Sobre onde?

— Que você disse?

— Sobre onde você estar refletindo?

O riso de Marianne não foi sarcástico em nada, no momento em que respondeu:

— Olha, Wilhelm, a pergunta certa é ”sobre o quê”.

— Obrigado, Marianne.

— Você prefere que eu não lhe corrija mais?

— Não, não, eu precisar aprender o idioma de vocês — disse Wilhelm.

Marianne deteve-se.

— De vocês? — ela balançou a cabeça. — O nosso idioma, Wilhelm.

— Nosso — consentiu ele com um sorriso nos lábios. Mais uma vez seguiram adiante, calados. Viraram à esquerda em uma travessa.

— Você estar refletir de novo, Marianne — disse Wilhelm sorrindo. — Sobre o quê?

— Diga-me uma coisa, para onde mesmo nós estamos indo? — replicou Marianne.

— Eu pensar pra o cinema — disse Wilhelm. O passo de Marianne diminuiu a velocidade.

— Então não deveríamos ter virado.

Mais uns dois ou três passos hesitantes e ela parou. Wilhelm desvencilhou-se de seu braço, quando eles se viraram sorrindo. Uma lufada de vento ondulou os cachos de Marianne. Wilhelm não conseguiu se conter.

— Maravilhoso — disse ele encantado.

Ela percebera o olhar dele. Desejava aquele galanteio.

— O que que é maravilhoso? — perguntou ela como se não tivesse a menor ideia.

— Cabelos de você.

— Ah, não diga isso. Há muito tempo que eu estou para ir ao cabeleireiro.

— Mesmo assim, maravilhoso.

Marianne agarrou-se de unhas e dentes à oportunidade. Ela levantou o olhar para os cabelos de almofadinha que ele estava usando e disse:

— Mas os seus não estão maravilhosos.

— Eu saber — consentiu ele, esboçando uma careta. — Os meus ser louros, horríveis, também não me agradar. Me agradar mesmo é de cabelos castanhos como os seus. Mas, você achar que eu dever tingir? Poder fazer isso um homem no ocidente?

— Você ficou maluco? — gritou Marianne espantada. — Você não imagina como eu gostaria de trocar os meus pelos seus cabelos louros. O erro é outro bem diferente.

— Qual?

— Esse repartido. -

— Repartido? Que ser isso?

— É a maneira como você penteou os cabelos. Essa linha retinha — ela balançou a cabeça. — Horrível.

Ao ouvir isso, Wilhelm escancarou o maior dos sorrisos.

— Só hoje — disse ele. — Eu perder meia hora pra preparar. Você não gostar?

— Não.

— Então não mais.

E com gestos enérgicos, ele embaraçou os cabelos, tornando a dar aquele ar caótico à sua cabeleira. Em seguida, perguntou à Marianne:

— Bom?

— Está bom — consentiu ela. satisfeita. — E agora, para onde vamos?

— Não no cinema?

Marianne olhando rapidamente para o relógio, deu de ombros e disse:

— Não vamos conseguir. Wilhelm apenas sorriu.

— Você ficou muito desapontado? — perguntou Marianne.

— Enganado?

— Oh, Wilhelm, pelo amor de Deus, eu não enganei você, por favor, não vá pensar uma coisa dessas de mim. Eu estou perguntando se você ficou desapontado, Wilhelm, desapontado e não enganado. Há uma bela diferença entre as duas palavras. Olha, vou tentar lhe explicar. Escute só, diz-se...

— Eu poder imaginar a diferença — Wilhelm interrompeu-a. — Eu compreender. Eu — ele acrescentou — não ter ser enganado.

— Mas era você quem queria ir ao cinema. Estava todo contente.

— Por causa do seu perfil — sorriu ele.

— Não, por causa do filme.

— Eu ficar contente com qualquer coisa com você-junto.

— Vamos ficar passeando mais?

— Você ficar, eu ficar também.

E foi assim que aconteceu. Mas passeio estava condicionado a um problema bem definido, que logo foi percebido por Wilhelm, tanto que ele disse, depois de pouco tempo decorrido:

— Se ficar tarde, você sentir frio. Você não ter casaco.

— Não mesmo — lamentou-se Marianne.

— Que fazer então? Marianne deu de ombros.

— Não sei. Talvez pudéssemos nos sentar em algum bar. Ou então ir para casa.

Wilhelm replicou:

— Tudo não bom Todos os dias nós sentar no restaurante Girassol. Ou quando ir para casa, hoje já? Já às dez horas, só porque fazer frio? Também ruim.

— Olha, não nos restam outras alternativas — opinou Marianne, sem conseguir reprimir um suspiro.

Talvez tenha sido aquele suspiro que deu coragem a Wilhelm para perguntar:

— Por acaso não ser possível que você ir comigo para o meu quarto uma ou duas horas?

— Não — cortou Marianne sem hesitação. — Não é possível.

Estava desapontada. Então eles também são assim, pensou ela.

— Já pensar nisso — disse Wilhelm e, para si mesmo, acrescentou: — Pena.

Gelsenkirchen é uma cidade, contra a qual não se comete nenhuma injustiça quando se diz que não tem nenhuma beleza a ser enaltecida. Gelsenkirchen é uma cidade de trabalho e este título ela carrega com todo seu brilho acima de outras cidades, muitas outras — Las Vegas, por exemplo, ou então Reno. Mas passear em Gelsenkirchen também pode ser interessante, isso só depende de quem o faz, e a que os seus olhos estão dirigidos; contudo eles não deverão estar à procura de testemunhos de belas e grandes obras arquitetônicas.

Claro que Marianne e Wilhelm não estavam empenhados nessa procura. O que eles realmente procuravam, sem que necessariamente tivessem plena consciência disso, nada tinha a ver com a matéria, mas sim com a alma, o espírito. Deliciavam-se com a lua no céu, que naquele dia não se deixou abater pela fumaça das chaminés da cidade, mesmo com sua face apenas delineada sob um véu de névoa. Contudo as muitas pequenas e fracas estrelas continuavam encobertas.

— Que bonito — disse Marianne. — O céu está claro.

O que se exigia em Gelsenkirchen em termos de firmamento, era bem diferente do que se tinha como critério em Berchtesgaden. Em compensação, os mineiros de Gelsenkirchen, saturados de carvão, estavam livres das avalanches de neve. Pode-se dizer que essa seria uma das vantagens da cidade.

— Você conhece Matthias Claudius? — perguntou Marianne. — O maravilhoso poema que ele fez sobre a lua?

— Não — respondeu Wilhelm — não ser conhecido na Rússia. Mas você dever não acreditar que na Rússia as pessoas ler não versos.

— Sei que lá as pessoas lêem muito.

— Como você saber?

— Bem, é que os jornais daqui sempre noticiam.

— Você me mostrar um dia... como chamar?... Matthias...

— Claudius.

— Sim, Claudius. Você um dia me mostrar poema dele?

— Claro, com muito prazer.

— Obrigado.

Aproximaram-se de uma parada de ônibus coberta e com um banquinho que os atraiu de forma irresistível. Marianne não resistiu. Seus pés já estavam doendo um pouco. Ela havia calçado umas sandálias italianas, bem leves, não muito apropriadas a caminhadas. Por conseguinte, Marianne propôs que se sentassem um pouco. A ideia que tivera de descansar um pouco combinava com o fato de o banquinho estar vago.

Ela sentou-se primeiro. Wilhelm seguiu seu exemplo e. quando se sentou, Marianne viu que ficara um espaço vazio entre eles, pelo menos dois palmos entre os dois. Marianne constatou-o como um elogio ao outro. Depois ficou esperando para ver se não se processava nenhuma transformação naquele espaço.

Nada aconteceu. A distância não se tornou menor.

Marianne cruzou os braços, colocando as mãos no ombro e esfregando-os. Sentia calafrios percorrerem-lhe o corpo.

Wilhelm assustou-se.

— Você já estar com frio.

— Um pouquinho.

Ele levantou-se prontamente.

— Então nós precisar ir pra casa.

— Não, dá pra agüentar.

Wilhelm quase sem hesitação tirou sua jaqueta.

— Que está fazendo? — perguntou-lhe Marianne.

— Dá-la a você para esquentar.

— Bem, mas aí quem vai sentir frio será você.

Ele riu enquanto colocava a jaqueta em torno dos ombros de Marianne, ignorando a resistência que ela tentou opor.

— Você conhecer não o meu costume ao frio de Rússia — disse ele, sentando-se outra vez no banco.

E exatamente no seu lugar. Com os mesmos precisos centímetros de distância em relação a Marianne.

— Pode chegar mais perto — disse Marianne.

— Ainda frio? — perguntou ele.

— Eu não, mas você sim.

— Eu não, mas fazer de bom grado que você diz.

— Olha, eu não gostaria que fosse apanhar uma inflamação na pleura.

E então quando se sentaram juntinhos, corpo contra corpo, fez-se silêncio entre eles. Cada um perguntava-se em pensamento o que estaria pensando o outro.

Depois de algum tempo, alguma coisa se mexeu. Eles ficaram escutando. Parecia ser algum animal e, realmente, apareceu um cãozinho balançando o rabo para eles. Uma criaturinha amigável que se meteu entre as pernas dos dois. Um desses vira-latas, como se podia ver pelas manchas.

— De onde você vem? — Marianne perguntou ao cão.

— Acho que o velho ou a velha dever estar nas proximidades — disse Wilhelm.

De longe alguém gritou:

— Tosca, onde está você?

A cadela — era este o nome do animal — não fez caso do chamado.

— Tosca? — disse Wilhelm desviando o olhar da cadelinha para Marianne. — Uma ópera italiana ser Tosca. Música bonita. Ou eu ser equivocado?

— Não — Marianne sorriu. — Mas aqui, Tosca também é um perfume muito conhecido...

— Perfume?

— Perfume?

A circunstância permitiu que Marianne passasse para uma informativa aula audiovisual. Ela curvou a.cabeça em direção a Wilhelm, quase encostando-lhe o ouvido e o pescoço e disse:

— Vamos, sinta o cheiro... isso é Tosca.

— Booom — foi o que saiu da boca de Wilhelm. Repetiu-se o chamado angustiado:

— Tosca, vem! Onde está você?

Era uma voz feminina. Tosca parecia ser um animal amigável, mas não obediente. A cadela havia começado a examinar a parte interna do abrigo da parada de ônibus e por isso mantinha-se imperturbável.

— Tosca!

— Tosca estar aqui! — Wilhelm respondeu ao chamado. Depois disso, reinou o silêncio. Nada mais se mexeu.

Wilhelm levantou-se e olhou para fora do abrigo. A uns dez metros de distância havia uma velha senhora, imóvel ao luar. O terror parecia haver paralisado a mulher. Wilhelm deu um passo em sua direção para mostrar-se a ela. E com isso a anciã deu sinal de vida, mas não o tipo de vida que Wilhelm estava esperando.

— Por favor, não me faça nada — a voz saiu suplicante de seu peito — eu sou uma velha, não tenho nada aqui comigo.

Wilhelm deteve-se calado. Marianne apareceu do lado de fora do abrigo. Havia escutado o que a velha dissera.

— Não tenha medo — falou — claro que nós não vamos lhe fazer nada. Vem aqui, seu cão está aqui dentro. — Ela apontou com o polegar por cima do ombro, indicando o abrigo.

Como a dona de Tosca vira que Marianne era uma moça, tomou um pouco mais de coragem. Contudo ainda não se sentia segura de todo.

— Sabe, eu não queria incomodar os senhores, acreditem-me — disse a mulher. — Mas Tosca precisa sair à noite para dar um passeio; que posso fazer?

— Mas claro que Tosca precisa sair à noite — aprovou Marianne.

Wilhelm manteve-se calado.

Hesitante, a velha senhora chegou para mais perto e disse:

— E aí ela desaparece freqüentemente e fica fingindo que não me escuta quando chamo.

— Acho que a senhora devia mantê-la sempre presa na coleira — sugeriu Marianne.

— Ela não gosta disso.

— Ah, então... — Marianne disse-o divertindo-se. Wilhelm pigarreou.

— E por isso, de vez em quando tomo esses sustos, como agora há pouco — prosseguiu a velha. Até que finalmente ela ousou olhar diretamente não só para Marianne, mas para Wilhelm também. — Já faz três anos que o meu marido morreu, sabe? Antigamente era ele que saía com Tosca à noite.

— Por que medo ter a senhora? — finalmente Wilhelm perguntou.

— Por quê? — a anciã encarou-o como se ele tivesse contado uma péssima piada. — Mas é claro que se deve ter medo hoje em dia.

Tosca apareceu. Já não se sentia tão bem assim. Ao que parecia, a caminhada noturna a fatigara. Queria voltar para casa.

E Wilhelm, não mais com um tom divertido e sim bem sério, disse para a dona de Tosca:

— Eu saber como a senhora poder resolver problema do seu medo.

Ela encarou-o com um ar interrogativo, sem nada dizer.

— Um cachorro grande — aconselhou ele — ele proteger a senhora.

Ela balançou a cabeça.

— E quem vai pagar a comida para mim? Não posso fazê-lo com a pensão que recebo. E a minha pequena cachorrinha já come o bastante para me deixar pobre.

A esta altura para a independente Tosca a ordem era: ”direto pra casa”. Já se havia distanciado mais do que sua proprietária gostaria.

— Muito obrigada — disse a velha. — Desculpem-me por ter ficado assustada. Acho que os senhores entendem o porquê... não é mesmo? Boa-noite.

Em seguida apressou-se, afastando-se dali com suas pernas inseguras, tentando seguir sua cadela, único consolo em sua velhice. Calados, Marianne e Wilhelm fitaram-se, ouvindo a voz da velha senhora perder-se na noite:

— Tosca, não vá tão depressa, Tosca... Tosca... Quem primeiro disse alguma coisa, foi Marianne: ”

— Mal isso.

— Ser mesmo — concordou Wilhelm.

— Não deviam existir aposentadorias tão baixas assim.

— E o medo também não — disse Wilhelm. — Também o medo não ser muito bom.

— Eu acho que a pior coisa é estar sozinho. Wilhelm calou-se.

— Ou você é de opinião diferente? — perguntou Marianne.

— Não. — E Wilhelm não disse mais nada.

Não voltaram mais para o abrigo da parada de ônibus. Perderam a vontade de ficar ali. Além do que a noite tornava-se pouco a pouco mais fria. Wilhelm não fazia a menor ideia de que parte da cidade eles se encontravam, mas podia-se dizer que Marianne conhecia cada casa. Depois de alguns passos tornaram a parar e Marianne, virando as costas para Wilhelm, disse:

— Sua jaqueta, tome.

Naturalmente que ele não estava pensando nisso. Travou-se uma pequena luta, a qual, como era de se esperar, foi perdida por Marianne. Wilhelm explicou que não queria gastar mais nenhuma palavra sobre aquele assunto ridículo até chegarem à porta de Marianne.

Marianne fez uma proposta sem muita convicção:

— Olha, podemos tomar um ônibus também.

— Se você preferir, tudo bem.

— Olha, eu preferiria andar mais um pouco — disse ela sentindo os pés doerem.

— Eu também — iluminou-se ele.

Na metade do caminho, a visão da lua fê-los lembrar o acordo celebrado.

— Você não esquecer o poema? — disse Wilhelm.

— Oh, não — reiterou Marianne — pode ficar tranqüilo que eu o trago pra você.

— Quando?

— Assim que achar um livro que tenha o poema.

— Bom — ele assentiu satisfeito. — Você saber onde ter; você logo o livro achar. Isso diz nós nos encontrando cedo.

— Logo.

— Como?

— Logo, foi o que eu disse. Nós voltaremos a nos ver logo. ”Cedo” significaria uma outra coisa bem diferente.

— Muito obrigado.

— Você gosta de ler, Wilhelm?

— Tão.

Isso precisava de mais uma explicação. ”Tão” era algo bem diferente de ”muito”.

— Quando alguém ser sozinho — prosseguiu Wilhelm — então se ler tão. Sentado no quarto e ler, mesmo que não com muito gosto. Que se poder fazer? — ele encolheu os ombros. — Ou cachorro ter.

Marianne olhou-o de soslaio. Ele estava com um sorriso meio amargo na boca.

— Por isso eu saber — disse ele — o que ser ser sozinho. Ninguém precisa me ensinar o que é isso.

— Mas, Wilhelm! — balbuciou Marianne, sentindo-se agredida. — Você pode ir a hora que quiser nos visitar no Girassol. Você sabe muito bem disso, além do que — acrescentou ela — eu teria muito prazer em ser convidada para o cinema outra vez.

O amargo sorriso de Wilhelm transformou-se em um arreganhar de dentes divertido.

— Assim como hoje, Marianne? Os dois riram.

Aproximava-se o momento da separação. Não estavam muito longe da casa dos pais de Marianne. E ao chegarem no cruzamento das ruas Bahnhofstrasse e Weststrasse, onde ainda havia algum movimento, Wilhelm disse:

— Mas da próxima vez, não esquecer casaco, por favor. Aí nosso passeio poder durar mais tempo.

Marianne olhou para o relógio.

— Mamãe já deve estar à minha espera — disse ela.

— Todas as mães ser iguais — opinou Wilhelm com um suspiro.

— Wilhelm, como é que você mora exatamente?

— Não muito longe da estação.

— Isso eu já sei. Eu perguntei como e não onde.

— Como assim?

— Ora, se mora bem ou mora mal? Wilhelm balançou a cabeça.

— Bem e mal.

— Que quer dizer com isso?

— Bem significar o quarto limpo, a senhora Krupinsky dar um bom café da manhã e que eu poder a hora que quiser na cozinha pegar água quente. A senhora Krupinsky não ter nada em contra quando estar em casa; ela ser boa gente.

— E que significa morar mal? — perguntou Marianne.

— Mal significar que a janela dar para a estação... e por isso o quarto barulhento; e que a senhora Krupinsky não acreditar em mim alemão.

— Como disse? — respondeu Marianne. — Ela não acredita que você seja alemão?

-— Não.

— Você deve dizer isso a ela.

— Mais de cem vezes.

— E?

— Ela não acreditar.

Ela mim ouvir falar alemão e dizer isso ser uma prova.

— Que mulher mais idiota! — Marianne irritou-se. Wilhelm deu a entender que sim.

— Ela ser como muitos.

— Quanto ela cobra de aluguel?

— Trezentos e vinte marcos.

— O quêêêê? — gritou Marianne. — Com ou sem o café da manhã?

— Sem.

— Que loucura! Em Gelsenkirchen! E você ainda chama essa agiota de boa gente?

— Claro — replicou Wilhelm plenamente convencido. — Dever dizer o porquê?

— Deve, eu gostaria muito de saber.

— Porque ela acreditar eu ser estrangeiro, mas mesmo assim ela me dar o quarto por trezentos e vinte marcos. Normalmente os estrangeiros ter de pagar muito mais.

Marianne calou-se. Ela encarou Wilhelm com um olhar interrogativo, como resposta ao olhar dele e na expressão de Wilhelm não havia nenhuma emoção visível. Justamente por isso, Marianne gostaria de saber o que se passava em sua cabeça. Mas não era fácil para ela demonstrar a mesma serenidade.

Um pequeno grupo de bêbados atravessou a rua sem dar a menor importância ao sinal vermelho. Automóveis tiveram de frear abruptamente; suas buzinas estridentes só conseguiram divertir os bêbados que cantavam abraçados. Ninguém se agitou com o espetáculo. E então, quando Marianne e Wilhelm — com o sinal verde — atravessaram a rua, um homem, também não muito seguro em cima das pernas, veio até eles para pedir fogo.

— Vocês têm fósforo aí? — perguntou ele. Wilhelm não fumava.

— Não — disse ele.

— Sua velha aí também não?

Marianne, que durante todo o caminho manteve-se aferrada a Wilhelm, sentiu os músculos de seu braço retesarem-se.

— Vamos — disse ela decididamente.

E com isso evitou-se a explosão. Marianne e Wilhelm seguiram seu caminho e não viram quando o homem atiroulhes o cigarro que mantivera entre os dedos à espera de fogo.

— Muito bem — disse Marianne, apertando o braço de Wilhelm.

Wilhelm calou-se. Marianne sentiu que aquele era um silêncio obstinado.

— Deixe que eles falem assim — prosseguiu ela. — Você não deve se preocupar com esse tipo de coisa.

— Eu não poder suportar insulto contra dama — disse ele — se ela estar sob minha proteção.

Marianne pendurou-se mais firmemente em seu braço, chegando a pousar a cabeça no ombro dele enquanto caminhavam.

— Sei disso, sei que você quer me defender — disse ela. — E isso me basta.

— Mas a mim mesmo não para mim. Eu ter a sensação que não ser homem de verdade quando suportar. Compreender?

— Ah, Wilhelm, não diga besteiras.

— Claro, Marianne! Mas não por isso eu ser um brigão como você dito de mim hoje. Em mim as pessoas poder dizer tudo, ou quase tudo, e para mim ser tanto faz, eu não sentir nenhum insulto. Mas ser bem diferente quando o insulto ser contra você. Aí então, eu ficar dentro de mim uma coisa, mas uma coisa...

Ele procurou pela palavra exata.

— Terrível — ajudou-lhe Marianne.

— É — concordou ele.

— Mas você não devia sentir isso.

— Eu precisar. Eu não poder ser diferente.

— Mesmo se eu disser que nesses momentos eu também tenho medo de você?

Foi um tremendo golpe para Wilhelm, golpe que elê não soube compreender.

— Você... med... ter medo de mim?

— Nessas horas, sim — prosseguiu ela virando-se para ele.

— Mas ser grande loucura sua.

— Mesmo assim. Eu também não sei ser de outra maneira, Wilhelm. Igual a você.

Ele foi obrigado a engolir a afirmação de Marianne. Ela deu-lhe tempo para que ele a digerisse. Durante alguns momentos ela caminhou calada ao lado dele antes de dizer:

— Mas não consigo imaginar que nosso relacionamento se acabasse por causa disso.

Essa frase empolada não se adequava a ela e ao mundo dela. Era originária do romance sobre a aristocracia que ela estava lendo quando Wilhelm a interrompeu com o telefonema.

Wilhelm antecipou sua resposta com um profundo suspiro. Depois disse algo que soou engraçado:

— Você me castrar, Marianne.

Sabe Deus como e onde ele pescou essa expressão que usava, buscando mais o sentido psíquico do que o físico e, claro, erradamente.

Marianne viu-se em uma situação bem delicada. Involuntariamente, teve que rir, mas deveria explicar-lhe por que estava rindo? Se o quisesse fazer, teria de se incumbir da tarefa de esclarecer-lhe textualmente o conceito de ”castração” e, claro, que uma moça educada como ela não se permitiria esse tipo de coisa. Por sorte o próprio Wilhelm salvou-a do dilema, prosseguindo impassível, ao invés de esperar uma resposta:

— Você colar no meu dedo como cera na mão. Afirmação esta que também careceria de uma explicação lingüística, contudo Marianne evitou-a, alegrando-se:

— Quer dizer que nós nos entendemos?

— Sim.

— Ótimo.

Ele foi premiado com um agarrar de braço bem apertado. E pela primeira vez ele se permitiu responder ao aperto.

— Wilhelm — disse então Marianne.

— Sim?

— Olha, não consigo tirar da cabeça o seu aluguel. Diga-me uma coisa, quem o paga?

Wilhelm pareceu não entender a pergunta.

— Meu aluguel? — replicou ele.

— É.

— Quem pagar ele?

— É.

— Eu, ora. Quem ser?

Já que Marianne havia abordado o assunto, tratou de prosseguir:

— E onde você obtém o dinheiro? Aumentou a surpresa de Wilhelm.

— Puxa, de onde ter dinheiro? Do trabalho.

— Você trabalha?

— Naturalmente.

Marianne respirou fundo. E apertou-se tanto a ele que Wilhelm, como não estava preparado para isso, foi obrigado a desviar-se um pouco.

— Ah, Wilhelm! — exclamou ela feliz.

Puxa, eu deveria ter sabido disso com um dia de antecedência, para me preparar, pensou ela. Teria bastado que o soubesse com meio dia de antecedência.

— O que ter? — perguntou Wilhelm.

— Nada.

— Claro — replicou ele. — Eu pensar.

— O quê?

— Que você se alegrar.

— Sim.

— Porque você pensar no provérbio que: Não se «dever atirar tudo em um cesto.

— Panela.

— Como disse?

— Panela e não cesto, Wilhelm.

— Obrigado.

— Mas com exceção desse pequeno erro — disse Marianne sorrindo para ele — você acertou em cheio.

A alegria dela era tanta que perdeu a cabeça — e que mais se pode perder numa situação dessas — e acrescentou:

— Ainda não estou a fim de ir pra casa. Gostaria de tomar uma xícara de café com você.

— Onde? — naturalmente que Wilhelm concordou de imediato. — No saguão da estação? Ser próximo.

— Não, em seu quarto.

— Quê?

Wilhelm deteve-se como que parado por um raio.

— Ou não? — perguntou-lhe Marianne impelindo-o para a frente.

— Claro, claro. — E mais não lhe foi permitido dizer pelo turbilhão que alvoroçou seu cérebro.

Marianne não quis deixar-se intimidar pela própria coragem.

— Vejo que você se surpreendeu — disse ela.

— Você querer beber café — retrucou Wilhelm que ainda não se dominara para dizer algo melhor. — Isso não ser possível em minha casa.

— Por que não? Foi você mesmo quem disse que essa sua famosa senhora Krupinsky tem sempre água quente a oferecer, ou não? Afinal de que mais precisaríamos? Leite. Açúcar. Você não tem isso em casa?

— Não, mas café.

Mas antes que esse fato fizesse fracassar por completo a grandiosa ideia de Marianne, Wilhelm, recuperando rapidamente a presença de espírito, acrescentou:

— Mas eu ter chá. Chá preto e bom. Da Rússia. Para samovar. Também bom sem samovar.

E agora só restava um último impedimento em potencial: a senhora Krupinsky. Como se comportaria ela com uma visita feminina depois das dez da noite? Será que ela se oporia? Seria possível que isso acontecesse nos dias de hoje?

Essa pergunta permaneceu sem resposta, provisoriamente pelo menos, pois a senhora Krupinsky não deu o ar de sua graça. Estaria dormindo ou então não teria escutado nada. Ou talvez não estivesse em casa. Ou então teria percebido o que estava acontecendo e, simplesmente, não tinha nada contra o fato. Em todo caso Wilhelm a teria persuadido. Ou então ela teria travado conhecimento com um outro sublocatário que não o bem-humorado, simpático e sempre afável jovem com quem ela andara nos últimos tempos.

— Por favor, não ser assustar — disse Wilhelm para Marianne, assim que abriu a porta deixando à mostra a entrada do quarto. — Você ver por toda parte indícios de solteiro.

E era verdade. É bem verdade que o quarto era limpo — nesse ponto podia-se notar a mão semanal da proprietária — mas sentia-se a falta da ordem necessária. Havia peças de roupa, que deveriam estar arrumadas no armário, espalhadas por toda parte. Jornais e revistas amontoavam-se em cima da mesa, envelhecendo por lá. Marianne viu alguns livros colocados entre dois vasos de flores na janela e apressou-se em direção a eles. Mas não se tratava daquilo que ela esperava ver, ou seja, literatura amena, mas sim material de ensino — o Duden, um dicionário de alemão, uma gramática. O dicionário era o mais manuseado de todos, indicando a prioridade que Wilhelm lhe dava, já que ele achava que o principal seria adquirir um bom vocabulário o mais rapidamente possível. Depois que ele estivesse dominando um bom vocabulário, a ortografia e a gramática viriam em seguida. Essa opinião ficava claramente demonstrada para qualquer pessoa que estivesse conversando com Wilhelm. As falhas em seu vocabulário diminuíam dia após dia, mas os outros pontos do idioma iam de mal a pior.

— Nos últimos tempos — disse ele apontando para os livros — com eles eu relaxar.

E estava querendo dizer: descuidar.

— Eu não estudar — prosseguiu com um sorriso nos lábios. — Só sentar ali no Girassol.

— É verdade — disse Marianne alegre também.

— Eu ter má consciência e prometer para mim mesmo, cada semana, ir recuperar os estudos quando o Girassol folgar.

— Como hoje, por exemplo — assentiu Marianne mordendo o sorriso nos lábios.

— É, como hoje.

— É preciso inverter a coisa.

— É.

— E como?

Wilhelm abriu os braços, suspirando. Depois encolheu os ombros.

— Eu não saber.

— Você tem que sair dessa casa. Ele abriu os braços mais ainda.

— Não poder.

— Bem, nesse caso, a única coisa que vai adiantar, será uma proibição de freqüência.

— Proibição de freqüência? Que ser isso?

— É quando se impede alguém de freqüentar um determinado local. Por exemplo, o proprietário de um restaurante pode requerer isso na polícia.

— Mas então dever haver razões, ou não?

— Certo.

— Quais?

— Na maioria das vezes, trata-se de alguém que se embriaga constantemente. Ou que faz bagunça. Ou que incomoda outros fregueses.

— Isso não passar comigo — disse Wilhelm triunfante. — Isso quer dizer que a polícia não poder me apalpar.

— Tocar.

— Como disse?

— Você quis dizer ”tocar”, Wilhelm.

— Não ser igual ”tocar” e ”apalpar”?

— Não.

— Por que não?

Não era tarefa muito fácil explicar a diferença, mas Marianne era uma moça inteligente, que fizera o clássico e que sempre fora uma boa aluna de alemão.

— Wilhelm — disse ela — você entende bem a diferença entre ”tocar” e ”tatear”?

Ele refletiu. Mas não tardou muito para que respondesse:

— Sim.

Para estar certa, Marianne disse:

— Que faz um cego quando está procurando a maçaneta da porta? Ele apalpa a porta. E o que é que as pessoas que trabalham com alimentos não podem fazer? Tocar na mercadoria.

— Sim — assentiu Wilhelm. — Eu entender.

— Muito bem, isso quer dizer que não apalpar — prosseguiu Marianne — significa não poder tatear uma coisa que não existe. Por exemplo, é intocável uma coisa que não se pode tocar, por motivos higiénicos ou porque essa coisa é sagrada. Está claro?

Wilhelm expressou a resposta com uma única palavra internacional, conseguindo clareza absoluta:

— Tabu.

— Isso mesmo — alegrou-se Marianne. — Pelo que vejo, você captou bem o espírito da coisa.

— Eu ser tabu para a polícia. Proibição de freqüência não possível. E daí?

Rindo, Marianne deu de ombros.

— Eu também não sei — disse ela e depois acrescentou: — Cheguei ao fim do meu latim.

Sendo mais uma vez inevitável que Wilhelm perguntasse:

— Que significar isso, por favor?

— O quê?

— Que você chegar ao fim do latim.

Depois que Marianne explicou-lhe o sentido dessa expressão, ele disse meio divertido e meio acanhado:

— Eu também chegar ao fim do meu latim.

— Como assim?

— Se nós beber chá, eu apenas ter uma xícara para você.

— Ora e daí? — disse Marianne, sem perceber que estava sendo vítima de um pequeno problema de sentido. — Uma só me basta, não vou precisar de uma segunda.

— Sim — concordou Wilhelm — uma bastar para você mas bastar mais para mim. Você compreender?

— Claro — replicou Marianne. — Mas isso não é problema. Faça-o mais fraco e então o chá dará para você também. De qualquer maneira não gostodele muito forte.

Com uma expressão levemente desesperada, Wilhelm disse:

— Você me não compreender. Você estar achando que eu falar do chá, do pouco haver. Eu mas falar de louça quando dizer que só ter uma xícara. Eu chá ter muito.

— Ah, então é isso! — disse Marianne começando a rir. — Wilhelm, por aí você pode ver como sou pateta. Lerda para compreender até não poder mais.

Wilhelm não a seguiu no riso, mas disse com uma expressão bem séria:

— Pateta ser você de jeito nenhum. Eu que ser idiota, porque poder me exprimir melhor e disso ser culpado do engano. É isso mesmo!

Marianne parou de rir.

— Não, Wilhelm — explicou ela sem a menor sombra de menosprezo — você só seria um idiota se acreditasse mesmo no que acabou de dizer. Imagine só se a situação fosse ao contrário, quer dizer, se eu estivesse no seu lugar é tivesse que aprender o russo. — Ela pôs as mãos na cabeça. — Meu Deus, se ao menos eu pudesse falar como você fala!

O barulho de um trem chegando à estação próxima penetrou pela janela. Wilhelm esperou que se fizesse silêncio outra vez e disse:

— Bem agora eu finalmente fazer o chá.

Marianne acompanhou-o até a cozinha. E ela tomou emprestada a segunda xícara que Wilhelm estava precisando, pegando-a no armário de cozinha da senhora Krupinsky.

E depois o quarto de Wilhelm ficou em silêncio — claro que pelo fato de os dois nada falarem. Havia muito mais barulho de outro tipo... vindo da estação.

Naturalmente que havia uma tensão erótica no ar, cuja explosão parecia inevitável. Mas isso foi só no início.

Que faço eu, perguntou-se Marianne, quando ele esvaziar sua xícara e eu a minha também, e a situação tornar-se perigosa? Claro que ela deve tornar-se perigosa. Será que eu pensei nisso antes?

Wilhelm lembrava casualmente de Natascha, na longínqua Rússia, a quem ele prometera jamais esquecer. Se ela estivesse ali no quarto, naquele momento, com Wilhelm, que diria ela? Não sei, pensou Wilhelm... não, claro que sei! Exatamente!

”Beba mais rápido, Wilhelm, já acabei, vem cá...”

E eu não deixava que me chamasse uma segunda vez, pensou ele esvaziando sua xícara. Viu que Marianne seguia seu exemplo e perguntou-lhe:

— Basta? Ou mais?

— Não, obrigada.

— Eu também suficiente.

Que faço eu, pensou Marianne, se agora ele... Estavam sentados à mesa, frente a frente. Wilhelm levantou-se.

Rapidamente Marianne perguntou-lhe:

— O que você vai fazer? ”

— Levar as xícaras para a cozinha.

Um adiamento, portanto.

No entanto, Marianne tinha plena consciência de que precisava decidir-se pelo tipo de comportamento que deveria ter, caso sua virgindade fosse colocada à prova quando do regresso de Wilhelm.

O tempo foi curto. Um minuto depois Wilhelm apareceu. Não bastou para que Marianne se esclarecesse sobre pergunta tão difícil. Mas pelo menos ela tivera tempo bastante para trocar a cadeira dura por um lugar mais macio, bem mais macio, a poltrona. Contudo, ao mesmo tempo em que o fez, pensou: espero que ele não me interprete mal.

Wilhelm achou que seria mais urgente comunicar-lhe, em primeiro lugar, que havia recolocado no armário da cozinha a xícara da senhora Krupinsky. Em seguida sentou-se e, para cúmulo dos cúmulos, mais uma vez em sua cadeira.

— Wilhelm — disse Marianne — você faria alguma coisa para me fazer feliz, não?

Ele concordou sem dizer palavra alguma, mas o fez tão solenemente, que soou mais expressivo do que se tivesse feito qualquer promessa.

— Então — prosseguiu Marianne — você vai me permitir uma coisa.

— O quê?

— Que eu aumente um pouquinho o seu estoque de utensílios domésticos.

— Utensílios domésticos?

— É, louças, talheres e assim por diante. Nós temos lá no restaurante um excesso dessas coisas.

— Não.

— Como não? O rosto de Wilhelm ficou sombrio de repente.-

— Você não falar isso!

— Mas, Wilhelm...

— Não! Não gastar palavras com isso.

— Wilhelm — tentou Marianne mais uma vez. - Aclaro que você pode entender que...

— Não, dizer eu!

— Por quê?

— Eu precisar não explicar isso. Isso você mesma saber.

— Olha aqui, eu não sei de nada! — Marianne irritou-se, mas logo em seguida diminuiu o tom de voz. — Isso quer dizer que você está me apresentando a palavra ”orgulho”. Realmente, eu não poderia imaginar tal coisa de você.

— Poderia.

— Poderia? — ela balançou a cabeça. — Bem, nesse caso, preciso corrigir-me. Você não é tão inteligente assim como pensei.

— Para mim igual.

— Ah, é?

— O orgulho é mais importante para um homem do que a inteligência.

Marianne percebeu que estava dando murro em ponta de faca e então calou-se. Mas não seria uma mulher se não tivesse pensado: ainda vou te apanhar, dê tempo ao tempo; quero ser mico de circo se não conseguir.

E nesse momento, parecia que a conversa entre os dois havia chegado ao fim. Uma conseqüência da briga? Certamente que não. Quantas vezes ocorre de as altas horas da noite passarem-se em silêncio — excetuando-se os barulhos vindos da estação de trem — e no entanto serem belas?

Mas como não surgisse nenhum indício, indício que teria alimentado os temores de Marianne, de que a situação pudesse mudar, ela começou a duvidar; duvidar não de Wilhelm, mas de si mesma.

O que estará acontecendo? Há algo de errado comigo? Será que eu não o excito? Normalmente eu teria que estar usando toda minha força para manter as mãos afastadas de meu corpo. Claro que fico contente em constatar que não é esse o caso. E isso depõe a favor dele... mas será que depõe a meu favor também?

Ele retornou da cozinha e me contou que lavara a xícara e a colocara no armário, ao invés de me dizer outro tipo de coisa; ao invés de tentar me beijar... pelo menos isso. E normalmente isso só teria ocorrido se eu lhe tivesse dito: pare por aí, meu querido, comigo não, não tão rápido assim, não sou dessas que você está pensando.

Marianne suspirou, por certo que só intimamente, de modo que não pudesse ser ouvida. O problema é que além de eu não ser nenhuma dessas, eu não sou nenhuma no fundo. Não sou mulher. Por um lado isso lhe deu satisfação, por outro lado ela o sentiu como um fardo. O que tem mais importância? Ela não poderia dizê-lo. Eu não sei o que quero, foi obrigada a confessar pesarosa.

Wilhelm sonhava de olhos abertos. E com o que sonhava ele? Não era algo vago e impreciso. Era algo que tinha contornos bem definidos. Wilhelm sabia exatamente do que gostaria — se fosse esse o caso. Para ele Marianne era algo bem diferente de Natascha. Era quase que o contrário. Pátria e gente, existência e perspectiva, presente e futuro.

— Wilhelm — disse Marianne.

— Sim?

— Por que está tão calado?

— O mesmo eu poder lhe perguntar.

— Eu estava refletindo.

— Eu também.

— Sobre o quê?

Como ele não poderia contar-lhe a verdade, lançou mão de uma mentira, respondendo:

— Que dizer a mãe de você quando você chegar tão tarde assim em casa.

— Ela já deve estar dormindo.

— Eu não acreditar nisso — Wilhelm exprimiu sua dúvida. — Numa situação como essa as mães dormir raramente. Você dizer a ela que estar aqui comigo no quarto?

Marianne hesitou um pouco. ”

— Por que você me pergunta isso?

— Porque talvez a mãe, ou o pai, querer conversar comigo para saber tudo. Compreende?

— Compreendo — assentiu Marianne divertida. — Você não deseja cair em contradição.

— Cair em contradição?

— Você não gostaria de contar algo diferente do que contarei.

— Claro que não.

Marianne fez como se precisasse refletir. Durante alguns momentos foi tentada pelo demónio. Claro que nem as moças mais honradas são imunes a isto.

— Qual é a sua opinião? — perguntou a Wilhelm. — Você acha que devo dizer ou não?

— É, isso não ser simples — reconheceu ele.

— Em si mesma a coisa não é difícil, Wilhelm. Afinal não aconteceu absolutamente nada aqui... nada de mal, é o que quero dizer. Por isso mesmo não há nenhuma razão para fazer segredo.

— Correto.

— Mas — disse Marianne que ainda não havia acabado — será que eles acreditarão, Wilhelm? Que acha?

Ao que parecia, ele não tinha nenhuma resposta para a pergunta, pois manteve-se calado.

— Dá para acreditar nisso, Wilhelm?

Wilhelm continuou mudo. Contudo, o olhar inquisidor de Marianne se manteve dirigido a ele, tanto que não havia outra saída a não ser responder:

— Talvez mãe já estar dormindo.

— Mas há um minuto atrás você ainda tinha sérias dúvidas a esse respeito.

Wilhelm refugiou-se novamente no mutismo, até que Marianne deu de ombros e disse:

— É, parece que estarei metida em apuros, Wilhelm. Como já foi dito, ela estava sendo tentada pelo demónio e deliciava-se com isso.

— Então você precisar mentir por necessário, porque não haver nenhum outro modo — explicou Wilhelm finalmente. - Ou não mentir. Só estar calada, não dizer que nós fomos aqui no meu quarto.

Ele queria dizer: ficar calada.

— Não gosto de mentir — disse Marianne.

— Não mentir, Marianne. Só estar calada.

— E qual é a diferença? Pouco a pouco Wilhelm submergia no desespero.

— Olha, eu me criticar — disse ele — Porque isso acontecer.

— O quê?

— Que eu você arrastar para o meu quarto.

— Mas é claro que você não fez isso — replicou Marianne. — Fui eu que tive essa ideia.

— Mesmo assim eu ter responsabilidade.

— Ora, como assim?

— Porque agora haver dificuldades e dificuldades fazidas para os homens e não para moças.

Depois que Wilhelm falou — e falou com a maior seriedade — Marianne percebeu que não seria oportuno de sua parte continuar divertindo-se com um assunto que tanto o afligia.

— Wilhelm — começou ela — sabe, isso não tem tanto perigo assim. Você quer saber o que farei?

— O quê?

— Não direi nada.

— Absolutamente nada?

— Direi que já estou crescida e que não sou mais obrigada a estar prestando contas de cada passo que dou. Não direi coisa nenhuma a eles, isso é o que vou fazer, caso eles me apertem muito.

— Ser isso possível? — perguntou Wilhelm bastante cético.

— Por que não?

— Você alguma vez já tentou isso?

— Não, será a primeira vez.

— Então eu ver a coisa preta.

— Mas eu não, Wilhelm. É preciso se começar um dia, é sempre assim. Você verá como isso dá certo.

— E se o seu pai ou sua mãe me perguntar? Marianne respondeu com segurança:

— Tratarei de que isso também não aconteça.

Depois disso Wilhelm levou-a para casa. Em seu íntimo a coisa parecia bem diferente do que com Marianne, pois ele ainda não havia conseguido aprovar totalmente a estratégia dela. Querendo manter a paz na família de Marianne, ele disse, ao se despedir dela na porta de casa:

— Eu achar sempre melhor você mentir um pouco, por necessário.

Marianne balançou a cabeça.

— Boa-noite — disse ela.

— Boa-noite, Marianne.

— Durma bem.

— Você também — disse ele. — Mas eu não poder.

— O quê?

— Dormir.

— Por que não?

— Estou pensando em você — disse ele em voz baixa, querendo largar a mão dela, virar-se e ir embora dali. Mas não pôde fazê-lo, pois Marianne segurou-lhe a mão firme.

— Um momento... — disse ela puxando-o para junto de seu corpo. Depois colocou-se na ponta dos pés e deu-lhe um rápido beijo na boca. Não foi um verdadeiro beijo, foi um desses beijos de boca fechada que não chegam a durar um segundo. Mesmo assim, quando acabou, Wilhelm ficou plantado como se tivesse sido atingido por um raio. Involuntariamente ele fechou os olhos, como se diante de algo incompreensível, e tornou a abri-los para convencer-se de que não estava sonhando.

Quis dizer alguma coisa, só que não sabia èxatamente o quê. E quando achou que o sabia, já era tarde demais. A porta da casa estava fechada. Marianne havia desaparecido.

A lua olhou para Wilhelm com desprezo, dando-lhe a impressão de que ele era a única pessoa, naquela hora, partícipe da luz celestial e que por isso se destacava de todos os outros.

Na manhã seguinte, o pai foi o primeiro a chegar à mesa para o café da manhã da família Berger. A mãe Sabine só apareceu quinze minutos depois. Este não era o hábito da casa. Normalmente todos tomavam o desjejum juntos na casa dos Berger.

— Onde você esteve esse tempo todo? — o pai Theodor recebeu a mulher com esta repreensão.

E não foi de todo afável que ela respondeu:

— Claro que um dia ou outro eu posso aparecer depois de você.

— Como é, a nossa filha já se mexeu? — perguntou Theodor.

Normalmente Theodor Berger não dizia ”nossa filha”. Quando o fazia, era demonstrando uma certa distância interna, que nesses momentos o separava da carne de sua carne.

— Não, ainda não estive com ela — replicou Sabine.

— E ontem à noite?

— Ontem à noite tampouco a ouvi quando ela chegou em casa, se é isso que você quer saber.

— Claro que é isso que quero saber — irritou-se Theodor. — E você permita que me espante com isso. Quando se trata de mim, você está sempre ouvindo, não é mesmo?

Ele não poderia ter dito algo melhor.

— O que acontece é que em se tratando de você, é impossível deixar de ouvi-lo quando chega em casa — disse Sabine mordaz.

Como tal debate não lhe prometia muita coisa, Theodor desistiu de dar prosseguimento a ele, desviando a conversa:

— Quer dizer que nós não sabemos a que horas isso aconteceu?

— Não — disse Sabine.

A pergunta ainda pairava no ar, quando quinze minutos depois apareceu Marianne, completando o círculo familiar em volta da mesa com um animado:

— Bom-dia para todos!

Nesse meio tempo a cabeça de Theodor já estava mergulhada no jornal havia muito tempo.

O eco que Marianne encontrou com seu cumprimento foi o mais áspero possível. A mãe Sabine só fez balançar a cabeça, calada. O pai Theodor grunhiu um bom-dia. Contudo não se podia ver seu rosto, já que estava escondido pelo jornal.

— Puxa, vocês já acabaram — constatou Marianne, assim que sentou-se e olhou à sua volta. Em seguida ela prosseguiu, de uma certa maneira tentando agarrar o touro pelos chifres: — Desculpem-me, dormi demais, fui dormir muito tarde ontem.

— A que horas? — perguntou Theodor, sempre por trás de seu cortinado de papel.

— As duas e dez.

Theodor deixou cair o jornal, mas não olhou para Marianne e sim para sua mulher, perguntando-lhe:

— Você ouviu isso?

— Sim — disse Sabine abalada.

Em seguida, Theodor e Sabine calaram-se para dar oportunidade a que a filha se justificasse. Talvez ela tivesse sido impedida por algum elevador enguiçado. Mas qual o cinema que tinha elevador?

— Mãe — disse Marianne — que houve de bom ontem na televisão para você?

— Um programa de aconselhamento profissional — respondeu Sabine tomada de surpresa.

— E que houve de bom com você, papai, lá no Pit Schmitz? Vocês dois voltaram a se encrespar da maneira tão reconfortante como costumam?

A resposta de Theodor foi rude.

— Como foi o seu filme?

— Filme? Como assim?

— Ora, você esteve no cinema, ou não? Pelo menos foi o que sua mãe me disse.

Marianne deu uma mordida no pãozinho com manteiga, mastigou-o, engoliu.

— Não, não fui não — respondeu depois.

O olhar de Theodor desviou-se para sua mulher, perguntando-lhe mudamente, sem nenhuma palavra, mas de maneira que não deixava nenhuma possibilidade de engano, qual a besteira que ela lhe havia contado.

O olhar mensageiro prosseguiu, desviando-se de Sabine até encontrar Marianne.

— Você não foi ao cinema?

— Não, mãe.

— Mas você me disse que ia, não?

— Disse sim e era o que estava planejado.

— E? Onde esteve então?

— Nós fomos dar um passeio.

— Até às duas da madrugada?

— Não.

Houve uma pausa que pareceu afetar especialmente os nervos de Theodor, que interrompeu o silêncio, introduzindo a pergunta:

— Bem e daí? Será que você não percebe que não pode nos despachar dessa maneira?

— Claro que posso.

— Como?

Marianne fitou o pai, depois a mãe e disse:

— Está acontecendo aqui um interrogatório, paizinhos queridos. Eu já contava com isso porque conheço o estabelecimento aqui. Contudo me dou o direito de não me colocar à disposição para tal coisa. Já sou bem crescida, queridos pais, se é que vocês entendem o que quero dizer com isso.

Silêncio. O silêncio que precede um bombardeio.

Característico foi o que Theodor disse para Marianne depois de alguns instantes que mais se pareceram uma eternidade.

— Você ficou maluca?

— Não.

— Nesse caso prefiro achar que não escutei essa besteira.

— Não se trata de uma besteira, pai, resigne-se com isso. Olha, ontem à noite eu já estava preparada pra dizer isso a vocês, pois eu achava que vocês estavam esperando por mim, pelo menos você, mamãe.

— Olha aqui, eu fiquei muito tempo acordada — respondeu Sabine. Ela empalidecera, possuída pela sensação de que uma transformação decisiva estava em andamento. Para ela os alicerces da família Berger pareciam abalados.

Com toda tranqüilidade, Marianne passava manteiga em um segundo pãozinho, depois de haver comido o primeiro.

O pai Theodor levantou-se e ficou caminhando de um lado para o outro da sala. Depois deteve-se diante da filha.

— Que foi que deu em você de repente?

— Nada.

— Nós não conhecíamos essas suas maneiras.

— É mesmo.

— Até hoje esteve tudo em ordem, não? E agora você começa a nos criar problemas, sabe-se lá por quê.

— Pai, qual é o problema? Não existe nenhum problema aqui.

— Ah, não? Que é então?

— Coisas naturais sobre as quais há muito tempo que eu já deveria ter refletido.

— Eu gostaria de saber quem foi que andou soprando essas coisas em seu ouvido.

— Ninguém.

Theodor balançou a cabeça, tornou a andar de um lado para o outro na sala e, novamente, parou diante de Marianne.

— Escute aqui — começou com a velha ladainha — nós só estamos querendo o seu bem. Nem eu nem a sua mãe pensamos em tutelar você, você tem de acreditar em nós...

— Ora, mas isso é muito bom.

—...mas por outro lado somos obrigados a uma fiscalização mínima. Olha, nenhum de nós teria objeção alguma ao fato de você ir ao cinema...

Ele virou-se para a mulher. — Não é mesmo, Bina?

— Objeção nenhuma, Theo.

— Marianne, você pode ficar fora de casa até mais tempo do que ficou. A única coisa que é importante, que é decisiva

— Theodor aproximava-se do ponto central da conversa — é a pessoa com quem você está.

— Pai, compartilho plenamente da mesma opinião.

— Mas ao que parece, nem sempre.

— Como assim?

— Ora, então com quem foi que você saiu ontem à noite? — Theodor perguntou como se ainda não o soubesse. -,

— Com Wilhelm.

— Que Wilhelm?

— Com Wilhelm Thurnagel.

Theodor franziu o canto da boca, assim que ouviu aquele nome; uma demonstração de seu menosprezo, que mais se acentuou quando Marianne acrescentou:

— Um sujeito bem-educado.

— Aquele?

— É, aquele mesmo. Não conheço ninguém por aqui que pudesse dizer ”isto” dele.

— Você pode dizer o que quiser — explicou Theodor querendo encurtar a conversa — mas esse cara não é ninguém que possa se relacionar com você.

Marianne colocou em cima da mesa a metade do pãozinho que ainda não comera.

— E continuará sendo — continuou Theodor. Marianne puxou a cadeira para trás e levantou-se:

— Que é? Aonde você vai? — perguntou-lhe o pai.

— Para o meu quarto.

— Mas você nem ao menos acabou de tomar seu café da manhã.

— Claro que sim.

Assim que a porta se fechou atrás de Marianne, Theodor e Sabine continuaram olhando na direção tomada pela filha, como se estivessem esperando que aquilo não passasse de um engano e que a filha retornasse logo. Só algum tempo depois, foi que Theodor balbuciou:

— Eu não permitirei isso.

— Que é que você não permitirá? — perguntou Sabine.

— Esse tipo de comportamento.

Sabine era o tipo de mulher que, espantosamente, via as coisas de uma maneira bem realista.

— O comportamento — disse ela — é secundário. O principal é o sujeito que não sai da cabeça dela.

— Pode ficar sossegada que vou fazer com que ela se esqueça dele.

Sabine manifestou dúvidas a esse respeito, dizendo:

— Não sei não, Theo. Tenho a sensação de que não será tão fácil assim.

— Você verá.

— Que vai fazer você se isso se repetir?

— Se isso se repetir?

— É, que ela se levante e saia da sala.

Uma perspectiva dessas era capaz de tirar a serenidade do autoritário Theodor.

— Dou-lhe umas palmadas na bunda — informou ele.

— Ora essa — replicou Sabine. — Não se esqueça que ela já está crescida. Você sabe o que conseguirá com isso?

— Que ela sinta!

— Não, que ela vá embora de casa e que nós não a vejamos tão cedo. É isso que está acontecendo nos dias de hoje em todos os cantos do país.

Theodor recuou um pouco. Em um tom mais moderado ele perguntou:

— E para onde ela iria?

— Para ele. Hoje em dia as pessoas vivem mesmo juntas.

— Ora essa, esse cara ainda deve estar vivendo no acampamento para refugiados, com toda certeza.

— Bem, nesse caso ela iria para qualquer outro lugar. O pior seria se fosse viver em uma comunidade.

Esse medo abalou todos os nervos de Theodor.

— Uma comunidade?! Você ficou maluca? Claro que nossa Marianne não faria uma coisa dessas.

— Se ela não vir nenhum outro caminho...

— Olha aqui, em Gelsenkirchen não existe nenhuma comunidade.

— Mas nas redondezas sim: em Dortmund, em Essen, em Bochum...

— É, em qualquer parte onde vivam esses malditos estudantes — interrompeu Theodor irritado.

— Não só nesses lugares — ela foi obrigada a informá-lo. — Será que você só lê a coluna dos ganhadores da loteria esportiva e da loto? Eles já fundaram uma em Castrop-Rauxel.

Tudo que Theodor pôde dizer, foi:

— Pobre Alemanha!

Em seguida, manteve-se calado durante alguns instantes, refletindo sobre os destinos não só de sua filha, mas também da nação inteira. Acabou chegando a um resultado positivo. Enquanto isso Sabine pensava noutra coisa. Suas reflexões haviam sido menos abrangentes.

— Você tem que dar um outro jeito nisso — disse ela.

— Como?

— Não com ela — prosseguiu Sabine. — Com ele.

— E você acha que tem algum sentido?

— Olha, o que você precisa fazer, é conversar abertamente com ele. Quem é ele? O que é que ele pensa? Se ele não percebe a sua situação... e a da nossa filha? Se ele tem ou não caráter? E se ele tiver, as repreensões que você lhe fizer, farão com que ele se afaste dela, compreende? E assim o problema estaria solucionado.

— Mas e se não houver problema nenhum? E se Marianne não tiver nenhum interesse especial por ele? E se nós dois só estivermos vendo fantasmas onde não há? E daí? Nós estaremos sendo ridículos. Bina.

Contudo, Sabine Berger, sentindo-se segura sobre o assunto, balançou a cabeça.

— Nada disso, Theo, não estamos não. Ela está caída por ele e talvez até mesmo mais do que ela mesma, possa imaginar. Como mãe, minha capacidade de sentir isso é infalível.

E é por isso mesmo que a situação é realmente perigosa, Theo, pode confiar em mim.

— Muito bem — disse ele decidido — nesse caso vou cuidar deste assunto. Também acho que você tem razão.

Sabine achava ainda que tinha uma boa ideia.

— Talvez nós devamos mandar tua filha para Mainz por algumas semanas.

— E você conseguirá passar tanto tempo sem ela?

— Se for preciso, sim.

— Mas algumas semanas serão demais para aqueles lá. Principalmente para o meu cunhado, você conhece ele muito bem, não? Ele está sempre querendo viver em paz.

— Bem, então só uns catorze dias. Afinal poderíamos deixá-la com minha mãe, mesmo que ela já seja velha demais para esse tipo de coisa.

— Nós não sabemos se ela estaria em condições.

— Está, falei com ela anteontem pelo telefone.

— Mas você não me havia falado disso ainda.

— Porque normalmente isso não lhe interessa.

— Como vai ela?

— No momento, muito bem. Ela estava pensando em nos visitar.

— É mesmo? — murmurou ele quase entre dentes.

— Mas não tenha medo, Theo, fiz com que ela mudasse de ideia. Talvez ela viaje até Hagen, para ver Use, foi o que ela disse.

Use, que vivia em Hagen, era a irmã mais nova de Sabine, que era casada lá.

— Mas agora você terá de convencê-la disso também — disse Theodor. — Ligue para ela enquanto ainda é tempo.

— Estou esperando o momento oportuno. Deixa Marianne dar uma saída.

— Está bem — assentiu Theodor. — Mas não vá se esquecer.

— Não, eu...

Viu-se obrigada a interromper o que iria dizer. Ouviram-se passos vindos do corredor. Só poderiam ser de Marianne e, realmente, a porta abriu-se e Marianne apareceu. No entanto, ela não entrou na sala, ficou parada no umbral. Com a mão segurando a maçaneta, ela disse:

— Esqueci-me de pedir-lhes mais uma coisinha, paisinhos queridos. Sejam bonzinhos e deixem o senhor Thiirnagel em paz. Eu lhe disse que vocês não iriam conversar com ele sobre nossa saída de ontem, Por favor, respeitem isso.

Theodor olhou, para Sabine e esta para Theodor. Talvez isto tenha demorado demais para Marianne, desse modo não ficou esclarecido se ela esperara por uma resposta ou não, pois ela tornou a fechar a porta por fora no momento em que o pai e a mãe desvencilharam-se do olhar que trocavam, para dirigirem-se a ela.

Mais uma vez, houve um espaço de alguns segundos, antes que Theodor vociferasse:

— Quem ela pensa que é?

Sabine manteve-se calada. Começou a sentir medo. Talvez o que ela pensasse não fosse o correto. Talvez a coisa fosse muito pior do que imaginava.

— Será que ela está achando que eu vou concordar com isso? — interrogou-se Theodor.

De repente, desmoronava-se por completo o ponto de vista de Sabine. Ela só conseguiu dizer:

— Tenha cuidado com ela, Theo, por favor, tenha o máximo de cuidado!

Sábado à tarde no Girassol. O restaurante estava apinhado de gente. Era sempre assim quando o Schalke F.C. jogava fora de casa. A freguesia habitual de Theodor Berger compunha-se em sua grande maioria de torcedores de futebol, para os quais era um costume antigo freqüentar o restaurante de Theo, quando permaneciam fechados os portões do mais famoso campo de futebol da região do rio Ruhr, o estádio Gliickauf. O balcão de Theodor ficava sempre apertado, ocupado quase até a compressão pelos amigos especiais dele, tanto que os dois garçons que corriam pelo estabelecimento, sempre tinham o maior trabalho do mundo para cavar um caminho até o centro, até o local das serpentinas, para gritar os pedidos a Theo.

Entre os amigos especiais de Theodor, havia ainda um ”círculo íntimo”. Eram quatro homens que, já há algumas décadas, tomando o Girassol como restaurante-sede, dedicavam sangue e suor ao Schalke F.C. e que só não conseguiam entender uma coisa em Theodor: a amizade antinatural nutrida para com Pit Schmitz que, como era sabido e notório, era um fanático torcedor do l? Colónia F.C. Contudo, com o decorrer do tempo, os quatro se haviam resignado com essa perversão de Theodor, assim que perceberam que este não se livraria dela e que, mesmo assim, mesmo com ela, sua alma não seria danificada a ponto de fazer com que ele virasse a casaca e passasse a torcer para o l? Colónia F.C.

Os quatro eram: Johann Schuhmacher (sapateiro), que coincidentemente exercia a profissão de sapateiro, além de possuir um pequeno e bem lucrativo negócio de calçados ortopédicos; Joseph (Jupp) Maslowski, um funcionário da fiscalização da mina, aposentado; Fred Szykowiak, mestre em uma empresa de médio porte do setor de construção de máquinas; Karl Jaworowski, um representante de detergentes, que vivia viajando, mas que já estava se aproximando da idade de se aposentar.

— Estive dois dias em Munique — comunicou ele aos outros. — Em um congresso.

— Mas como é que vocês foram a Munique? — perguntou Szykowiak. — Vocês pertencem a Dússeldorf.

— Diisseldorf — sorriu Jaworowski — nós já estamos cheios de Dússeldorf. Foi o que dissemos aos caras lá da fábrica e então eles tiveram a ideia de Munique. Foi jóia.

Ele esticou a mão para pegar o caneco de cerveja que Theodor lhe oferecia.

— O que é que foi jóia? — perguntou Theo, que só escutara a última frase da conversa.

— Munique — disse Karl Jaworowski.

— Munique, como assim?

— Tivemos um congresso por lá. Continua sendo uma cidade muito bonita. Só uma coisa lá que me deixou tão chateado como aqui.

— O quê? — Theodor caiu na armadilha.

Karl levantou o copo para que todos pudessem ver.

— Não enchem o caneco de chope até a boca. Sonoras gargalhadas em volta da mesa. Theodor afastou-se. Um garçom o chamara.

— Vocês estiveram na Hofbráuhaus, Karl? — o aposentado Maslowski fez a pergunta obrigatória.

— Claro, Jupp. Eu já a conhecia, mas sempre vale a pena retornar ao lugar. E dessa vez nós tivemos muita sorte. Algumas pessoas da cidade sentaram-se à nossa mesa, coisa que nunca ocorrera antes.

— E vocês se divertiram?

— Muito, apesar de que no início só tivéssemos xingado o pessoal de Bonn e Flensburg. Mas depois eles me perguntaram de onde eu era e, assim que eu lhes disse, um deles estendeu-me a mão espontaneamente e disse: ”meus pêsames”. Os outros seguiram-lhe o exemplo. E vocês querem saber por quê?

— Por quê? — perguntaram dois ou três em coro.

— Por causa do jogo no Estádio Olímpico entre o Bayern e o Schalke.

E nesse momento, nem mesmo Johann Schuhmacher conseguiu manter-se calado por muito tempo.

— Esses filhos da puta — disse ele — eles vão ver com quantos paus se faz uma canoa.

Como se obedecessem a um comando invisível, todos olharam para o grande relógio na parede atrás do balcão.

Passavam das três horas da tarde. Dali a meia hora seria dado o pontapé inicial. Haveria jogo não somente no Estádio Olímpico de Munique, mas também em todos os campos da Liga Alemã.

Viam-se rádios portáteis em muitas mesas ocupadas por jovens. Estavam prontos para serem usados assim que fossem iniciadas as transmissões dos jogos.

— Vocês jogaram na esportiva? — perguntou Schuhmacher aos amigos.

Todos responderam afirmativamente. Mas Schuhmacher não se deu por satisfeito. Queria saber — justo em um dia como aquele — exatamente qual fora o palpite de cada um.

— Deixem-me ver — prosseguiu ele, enquanto apresentava à apreciação dos outros o seu prognóstico, colocando o cartão sobre a mesa.

Desse modo, todos puderam convencer-se de que Schuhmacher colocara uma cruz dando a vitória ao Schalke no jogo de Munique.

Jupp Maslowski, o fiscal de minas aposentado, colocou seu cartão ao lado do outro. A mesma coisa.

Nesse instante, teve-se a impressão de que se daria início a um funeral. Karl Jaworowski só apresentou seu cartão depois de momentos de hesitação; Fred Szykowiak, o mestre da construção de máquinas, nem chegou a mostrar o seu. Com o representante de produtos de limpeza Jaworowski constatou-se que ele não somente pusera uma cruz dando a vitória ao seu Schalke contra o Bayern F.C., como também marcara o empate e até mesmo a derrota. Ao que parecia, o pessoal do Hofbrãuhaus conseguira desmoralizá-lo.

Johann Schuhmacher mediu-o com um olhar aniquilador.

— Triste — foi a única coisa que disse. Em seguida, virou-se para Szykowiak.

— g você, hein, Fred?

Fred notificou-o que não poderia mostrar-lhe. O cartão não estava em seu poder, ele sentia muito.

O cartão estava em um outro paletó.

Mais uma vez a reação de Schuhmacher foi lacónica.

— Ah.

Geralmente as pessoas sempre se sentem constrangidas com um ”ah” como aquele.

— Olha aqui, você pode guardar para si mesmo esse estúpido ”ah”, Karl.

— Claro, Fred — disse Schuhmacher, agora também retribuindo com um sorriso irónico e provocador.

— Não apostei nada diferente de você.

— Estou convencido disso.

— Não fique aí com esse risinho idiota.

— Perdoe-me, ele nasceu comigo, a culpa não é minha.

— Olha, se não fosse tão estúpida a coisa, eu iria até a minha casa buscar o meu cartão, só para esfregá-lo no seu nariz.

— Mas aí você o estragaria, Fred, e não poderia mais ir buscar o seu prêmio.

— Só para você ficar sabendo, há muito tempo que queria lhe dizer que nós vivemos em uma democracia, caso você ainda não o saiba. Cada um pode apostar como bem entender. E você não tem nada a ver com isso.

— Você quer dizer que não tenho merda nenhuma a ver com o caso?

— Meus senhores — nesse momento Theodor Berger fez sua aparição — por favor, não briguem. Pensem nos nossos garotos lá no vestiário em Munique, que dentro de poucos minutos terão de entrar em campo.

Theo era um dono de restaurante, que tinha a peculiaridade de intervir no exato momento para sufocar no embrião a discórdia entre os seus fregueses. E isso também era necessário, pois a freguesia de Theo, como já foi dito antes, era composta em sua grande maioria de torcedores de futebol e ninguém mais para gostar tanto e tão veementemente de uma briga quanto os torcedores deste esporte, mesmo em se tratando de ótimos amigos.

Maslowski tinha esvaziado seu copo. Recebeu um novo. Queria uma aguardente para acompanhamento. Também a recebeu.

— Obrigado, Theo — disse ele. — Afinal o que é que você está achando do jogo em Dortmund? Na sua opinião os Borussen já ganharam, ou será que os Stuttgarter estão frustrando seus planos?

— Oxalá eles tomem um banho, só para não terem a possibilidade de ficarem na frente do Schalke na tabela. Os mineiros não agüentariam isto, Jupp.

— Sou da mesmíssima opinião, mas dá no mesmo, não importa como o jogo termine, de qualquer maneira o resultado acabará afetando um dos meus dois filhos. — Jupp suspirou e virou-se para todos. — Claro que vocês já sabem como é a situação na minha família.

Os filhos de Jupp eram casados, o mais velho com uma moça de Stuttgart, o mais jovem com uma de Dortmund. Portanto, o suspiro de Jupp estava entendido.

— Você deveria ter impedido esses casamentos, Jupp — disse Theo, sob as gargalhadas de todos.

— E como poderia, Theo? Os jovens já não nos escutam mais. Espere só até que sua filha tenha crescido o bastante, então você também terá suas experiências.

Theo calou-se, coisa que surpreendeu um pouco os outros. Normalmente, Theodor Berger era o tipo de pessoa que gostava de dizer a última palavra em tais debates.

— Afinal, onde está ela? — perguntou Jaworowski — Ainda não a vi hoje.

Marianne estava ajudando a mãe na cozinha. E como era sempre assim nos dias em que o restaurante tinha um bom movimento, Jaworowski bem que poderia ter engolido sua pergunta.

Às três e meia em ponto, um jovem vestido com roupas de couro berrou para todo o restaurante:

— Calem o bico!

Os rádios transistores foram ligados, mas por enquanto ainda transmitiam música. Ainda não chegara a vez dos acontecimentos futebolísticos. Somente pouco a pouco foram começando as transmissões esportivas, passando de estádio para estádio, voltando a apresentar música nesse meio tempo, até entrarem de cheio, sem nenhuma pausa, no segundo tempo dos jogos.

A primeira informação do Estádio Olímpico de Munique foi uma má notícia. O Bayern F.C. estava ganhando de 2 a 0, e isso com doze minutos de jogo.

O Girassol, onde antes quase não se conseguia entender a própria voz, transformou-se imediatamente numa igreja, tanto e tamanho era o silêncio que reinava no ambiente. Só se ouvia a voz do radialista.

Voz esta que falava de uma ”saída relâmpago dos donos da casa”, de sua ”superioridade arrasadora”, de ”gols desfechados como balas de canhão.” Se continuasse desse jeito, anunciou o locutor, devia-se contar com uma catástrofe para a equipe visitante. Logo em seguida a rádio voltou a transmitir dos estúdios.

Um pouco de música...

No balcão também reinava o silêncio, que redundou em vantagem para os dois garçons, que já não mais tinham necessidade de estar gritando três vezes os pedidos para o dono, antes de serem compreendidos.

O primeiro, que voltou a dizer alguma coisa, foi Maslowski, o fiscal de minas.

— Theo, mais uma aguardente; dupla.

Isto foi interpretado como um aviso. Um coro completo ecoou pelo balcão:

— Para nós também, Theo.

Depois do reforço geral, Johann Schuhmacher retirou do bolso seu cartão, sem dizer palavra nenhuma, acendeu um fósforo, colocou fogo por baixo dele e deixou que as cinzas caíssem no tampo do balcão. Munido com um trapo, Theo limpou a sujeira. Depois fitou Maslowski, de quem se sabia que marcara a favor do Schalke.

— Você também, Jupp? — perguntou ele, ainda com o trapo na mão.

Ninguém riu. A tragédia, que estava ocorrendo na longínqua praia de Isar, era grande demais para que alguém pudesse rir.

— Se vocês me perguntarem — explicou então Schuhmacher — responderei que a coisa só será diferente quando esse filho da puta não mais estiver na lista de pagamento.

Não havia a menor dúvida que ele estava se referindo ao treinador do Schalke.

Neste meio tempo, o rádio estava transmitindo uma reportagem do estádio de Dortmund, o Rote Erde, onde o jogo ainda estava empatado em O a 0. No estádio de Múngesdorfer, o l? Colónia F.C. estava ganhando de 1 a 0 a equipe visitante de Frankfurt. A União Esportiva de Hamburg ganhava em Kaiserslautern de 1 a 0. Borussia Moenchen Gladbach, a última das grandes equipes, parecia estar despachando rapidamente o VfL Bochum no estádio da casa, o Bbkelberg;o Borussia Gladbach, assim como o Bayern em Munique, já estava com dois gois à frente do adversário. Todos esses resultados não foram modificados até o apito do final do primeiro tempo.

As expressões no Girassol já não eram tão sombrias. Um dos fregueses manifestou a opinião de muitos, ao dizer:

— Dois a zero ainda está bom. Pelo menos isso não é nenhuma vergonha.

Cauteloso, um outro acrescentou:

— Isso se continuar assim.

Durante todo este tempo, a única mesa que permanecera vazia, foi a última do canto do fundo. Mas, naquele momento, já estava ocupada por um freguês, que entrara no local sem ser notado, sentara-se sem ser notado e, sem ser notado olhava para a porta que dava para a cozinha. E vejam só, nem bem decorreram dois minutos... e quem apareceu? Marianne.

Radiante, mas sem prestar atenção aos gritos de aclamação dos rapazes das outras mesas, abriu caminho até o freguês do canto do fundo e cumprimentou:

— Wilhelm, que bom que você veio. Eu já não me lembrava mais da hora que havíamos marcado... se seria quatro e meia ou cinco...

— Quatro e meia — disse Wilhelm Thiirnagel não menos radiante.

— De qualquer maneira eu dei uma olhadinha agora... e como se pode verificar, em tempo — riu Marianne sentando-se rapidamente.

Ele teria preferido chegar antes, explicou Wilhelm em seu alemão capenga, mas não faria nenhum sentido.

— Realmente não faria sentido — assentiu Marianne. — Até agora não pude dar nenhum passo para fora da cozinha. Hoje a coisa está bem quente por aqui. Esses aí — com um movimento circular de mão ela apontou para todos os fregueses do restaurante — não foram ao estádio, como você bem sabe. Mas daqui a pouco vai ficar mais fácil, então mamãe não vai precisar mais de mim. Espero que seja dentro de uma meia hora. Mas antes disso eu ainda trago uma cerveja para você.

Ela levantou-se, de novo tão rapidamente quanto se sentara. Seu pai, a quem não passara despercebido o novo freguês e o cumprimento de Marianne, mostrou-se espantado quando viu a filha atuando como serviçal.

— Para você? — perguntou ele, assim que a filha lhe pediu uma cerveja.

— Não, para o senhor Thúrnagel.

— Será que não dá para o cara esperar pelo garçom? Marianne ruborizou-se. Os homens sentados junto ao balcão aguçaram o ouvido.

— Claro que ele podia — replicou ela. — Mas agora eu já prometi a ele que eu mesma levaria a cerveja.

— É mesmo? — retorquiu Theodor. — Olha aqui, isso não vai virar regra aqui, não.

Na cozinha, Marianne desabafou. Indignada, relatou o acontecimento à mãe e concluiu:

— Se papai fizer isto mais uma vez, vai se admirar do que acontecerá.

— E o que é que vai acontecer? — perguntou Sabine.

— Farei com que Wilhelm não venha mais aqui.

Com muito esforço, Sabine conseguiu reprimir um sorriso de satisfação, ao responder:

— Talvez isso não fosse tão mal assim.

— Mamãe, é bom que fique claro para vocês que nem por isso eu deixaria de encontrar-me com ele... mas é claro que não seria mais aqui.

No rádio começara o segundo tempo. O rapaz vestido com roupa de couro, que no início do primeiro tempo exortara a que todos ficassem de bico calado, não conseguiu mais demonstrar nenhum interesse pela transmissão, desde que tomara conhecimento do resultado do jogo em Munique. Ele olhava em direção à mesa de Wilhelm. Não gostara nada da preferência que Marianne demonstrara por Wilhelm.

— Vocês conhecem esse cara? — perguntou aos dois amigos que vieram com ele ao restaurante.

Ambos negaram.

— Quer dizer — corrigiu-se um deles — eu o vi por aqui uma ou duas vezes. Parece que vem aqui freqüentemente. E o motivo é óbvio. Só porque tem sua chance aqui. Mesmo assim, não sei quem é ele. Ele não fala com ninguém, está sempre destacado.

— Ele se isola?

— Sim.

Isso tão pouco agradou ao rapaz de roupa de couro. Pouco depois houve um gol em Munique, desta vez obtido pelo Schalke. Como um coro, um grito ecoou pelo Girassol. Recriaram-se as esperanças, também no rapaz de roupa de couro. Seus amigos chamavam-no de Ted. Wilhelm já não mais o interessava. Naquele momento, o Schalke se aproximava do empate, e talvez até da vitória.

Mas não foi o que aconteceu. Ao invés do Schalke, quem acabou vencendo mais uma vez foi o Bayern F.C. que, no fim do jogo, ganhava por um sensacional Sal. Ted sentiu-se tão aborrecido que já não agüentava mais. E, nesse momento, tornou a reparar no solitário do canto.

No balcão, o humor, provavelmente, não era dos melhores.

— Enquanto esses imbecis não acabarem com aquele idiota — explicou Schuhmacher — enquanto não derem um pontapé no cu desse sujeito, não vão conseguir nada, olhem bem o que estou dizendo.

— Theo, mais um duplo — disseram tanto Jupp Maslowski quanto Fred Szykowiak.

Maslowski ainda podia contar com um pobre consolo no resultado de Dortmund. Lá o resultado permanecera 0 a 0 até o último minuto. Portanto nem o Dortmund ganhara nem o Stuttgart.

O l? Colónia F.C. permanecera vitorioso sobre o Frankfurter Eintracht com um 2 a 1, o Borussia Moenchen Gladbach em cima do VfL Bochum com um resultado de 3 a 0. A União Esportiva de Hamburg ganhara de 2 a 3 em Kaiserslautern. Estes eram os resultados das equipes que encimavam a tabela. Todos os outros sucumbiram, ou como disse o locutor de esportes, ”foram despachados”. Só voltaria a ser interessante quando, lá para o final da temporada, fosse travado o combate pelo rebaixamento de divisão. Mas ainda não se havia chegado a este ponto.

O telefone soou. Theo levantou o fone do gancho, ficou sem nada dizer durante alguns momentos e depois soltou:

— Sabe o que você pode fazer por mim? E faça-o de quatro, está bem? — em seguida desligou.

— Vocês devem saber quem era — disse para o quarteto de amigos que o fitavam ansiosos. — Pit Schmitz.

Pouco a pouco o restaurante foi-se esvaziando. Muitos dos que moravam nas proximidades, pagaram e se foram. Queriam estar em casa antes das 18 horas, para não perderem o programa de esportes da televisão com o resumo dos jogos. Todos os que sucumbiram a esta necessidade foram tachados naquele dia de ”masoquistas” pelo representante de produtos de limpeza Karl Jaworowski. Ao que parecia, Ted, o rapaz com roupas de couro, e seus dois amigos não deviam ser masoquistas; eles continuaram no restaurante.

Wilhelm Thúrnagel ainda estava sentado na frente de seu primeiro copo de cerveja, mas mesmo assim sentiu vontade de ir ao banheiro. Ted, que o observava seguiu-o.

Colocou-se ao lado de Wilhelm na retrete, deixou que a urina corresse com uns grunhidos de prazer e disse:

— Você sabe como isto é conhecido, não?

Depois que Wilhelm o fitou, amigavelmente é verdade, mas sem dar nenhuma resposta, ele mesmo completou:

— Como uma meia trepada.

Wilhelm continuou calado. Havia se adiantado um pouco ao outro em seu negócio e, por conseguinte, terminara antes dele. Fechou o zíper da calça, virou-se e saiu andando. Dois passos adiante foi alcançado pelo grito de Ted:

— Espere! - Wilhelm deteve-se e ficou esperando.

Ted retardou-se tanto que Wilhelm pôs-se mais uma vez em movimento em direção à porta. Ao percebê-lo, Ted apressou-se repentinamente. Sem fechar sua calça, fez a volta, aproximou-se insinuante de Wilhelm, ultrapassou-o e parou de repente entre a porta e Wilhelm, bloqueando-lhe o caminho. Com uma expressão zangada no rosto, desfechou:

— Você está me ouvindo?

Mais uma vez Wilhelm permaneceu imperturbável. Sereno, olhou para o rapaz, mas nada disse. Ted continuou:

— O que é, hein? Você perdeu a língua? Eu lhe perguntei uma coisa, seu isolacionista!

A expressão preocupou Wilhelm. Demonstrou-o a resposta emitida por ele:

— Que ser isso: segregador?

A surpresa que ele causou em Ted no primeiro momento foi grande. Mas rapidamente ela deu lugar a uma expressão de satisfação no rosto de Ted, como se de repente lhe fosse confirmado algo que, no fundo, ele suspeitasse desde o início.

— Ora vejam só, um estrangeiro — disse. Esmurrar o focinho de um estrangeiro, aumentaria de maneira decisiva o prazer que ele já estava convencido de que desfrutaria. Mas antes ele queria provocar no outro um medo verdadeiro, queria fustigá-lo; isto também aumentaria o prazer que ele teria.

— Quer saber de uma coisa? — perguntou ele.

— Não — replicou Wilhelm.

— Eu não consigo suportar caras como você.

— Por que não?

— Não sei porquê. É um negócio que já nasceu comigo. Por isso mesmo vou lhe dar umas porradas e enfiar sua cabeça no mijadouro. Alguma vez na vida já lhe fizeram isso?

— Não.

— Então chegou o grande momento. E depois disso, você não irá mais sentar-se na mesa e sim sairá imediatamente do restaurante, está ouvindo? Você sabe por quê?

— Não.

A tranqüilidade de Wilhelm era francamente sobrenatural. Era como se ele fosse muito ingénuo e não conseguisse perceber o que estava sendo preparado para ele; ou como se pensasse que o outro só estava brincando.

— Neste caso, vou lhe dizer — prosseguiu Ted. — Porque o sangue vai ficar escorrendo em sua cara e os outros fregueses terão nojo. E porque você ficará cheirando a mijo e com isso os outros fregueses terão mais nojo ainda. Entendido?

— Não.

Se Ted tivesse prestado atenção, não lhe teria passado despercebido que aquele ”não” fora a primeira réplica dura, emitida por Wilhelm. Somente então aconteceu o que iria decidir tudo, que mudaria tudo. Ted disse:

— E em terceiro lugar, porque numa situação destas você já não terá nenhum tesão por essa fêmea que você estava querendo ganhar aqui.

Ted estava completamente cego pela raiva, não via que ele mesmo se colocava em uma nova situação que, caso as coisas continuassem naquele pé, poderia provocar sua própria morte.

Os olhos de Wilhelm eram dois traços fechados no rosto. Em voz baixa, mas com um tom metálico, disse:

— Você retirar isso!

— Quem? — replicou Ted divertido. — Eu?

— Sim, você! Porque senão você experimentar tudo o que dizer.

Mas para Ted as coisas já haviam ido longe demais. Esticou as mãos para agarrar Wilhelm. A única coisa que alcançou foi o ar. Wilhelm já estava em outro lugar. No momento seguinte, Ted sentiu-se alçado, puxado para cima, virado no ar e então torcido para baixo, com a cabeça na direção do mijadouro, ao qual ele se referira com tanta ênfase. A viagem aérea de Ted terminou ali, podendo-se dizer que ali ele aterrissou. Ficou estendido no chão, sem se mexer e sem soltar nenhum som. Ainda não sabia se estava ferido. Mas aquilo que lhe havia acontecido, poderia ter quebrado seu pescoço, disso ele já tinha plena consciência. Por isso mesmo não se mexeu mais, para não tornar a provocar o terrível adversário que o olhava do alto com olhos faiscantes.

Transcorreu-se uma eternidade, pelo menos foi o que pareceu a Ted. Então Wilhelm disse:

— Levantar, seu porco!

Dócil, Ted endireitou-se. Mas ao fazê-lo, algumas partes de seu corpo doeram miseravelmente, ainda que nada estivesse quebrado. Os olhos de Ted só exprimiam medo. Fazia parte da postura de humildade que ele assumiu ao ”estar frente a frente com Wilhelm. Assemelhava-se a um cachorro espancado.

— Eu desistir do sangue de sua cara — disse Wilhelm. — Mas não desistir do cuspe na sua cara.

Ao anúncio, seguiu-se o fato. E como antes, de parte de Ted não foi esboçada nenhuma reação de defesa. Só fechou os olhos para que eles não fossem atingidos. No lugar onde Wilhelm acertou, ficou patenteado que ele não poupara saliva. A face de Ted reluziu úmida. O mesmo ocorria nos cabelos da nuca de Ted, onde no entanto não era saliva que se acumulava, mas sim urina e restos de guimbas de cigarros. O fim de um grande valentão...

Wilhelm não disse mais nada. Faltavam-lhe as expressões para demonstrar todo o desprezo que sentia por covardes como aquele. Saiu. Adentrou o salão do restaurante da mesma maneira como o havia abandonado: calmo, discreto, limpo. Não lhe faltava nenhum botão, nenhum pedaço da roupa estava sujo, nenhum arranhão na pele. Os dois amigos de Ted admiraram-se. Entreolharam-se. Esperavam por algo diferente. Em seguida, cravaram os olhos na porta que dava para o banheiro. Onde estaria Ted?

Ted ainda tinha muito que fazer. Estava absorvido nos trabalhos de limpeza do próprio corpo. Teria de lavar a cabeça e as mãos e limpar bem a roupa. E lhe veio o calhar que-as mesmas fossem de couro preto que suportava a água. O ódio, que sentia naquele momento, era inominável.

Wilhelm encomendou uma segunda cerveja ao garçom. Perguntava-se se deveria dizer ou não algo sobre o que ocorrera no banheiro. Não, decidiu-se ele, ela não iria compreender. Na opinião dela, ele deveria ter escapulido.

Um dos amigos de Ted levantou-se para ir dar uma olhada. Quando retornou, tinha perdido um pouco de sua fé nas leis da natureza. Não, não se podia dizer isto, pois teríamos de partir do pressuposto que ele soubesse que havia algo denominado leis da natureza. Sussurrando, comunicou ao amigo a monstruosidade com que topara. O outro tampouco quis acreditar no que ouvira e também dirigiu-se ao banheiro. Ficou ausente um pouco mais de tempo e, quando retornou ao salão, apareceu com Ted.

Os covardes sempre se sentem mais fortes em grupo. Agora Ted não estava mais sozinho e isso deu-lhe um novo impulso. Recuperou-se de todo com mais algumas cervejas que foram rapidamente despejadas goela abaixo. E também os outros dois, percebendo que Ted contava com eles, seguiram-lhe o exemplo. Com isto o garçom foi colocado em pleno movimento. Os olhares, que Ted mandava em direção a Wilhelm, voltaram a ser destemidos; elevou-se o tom de sua voz.

Quando se afiguram situações como aquela, os garçons sempre têm uma espécie de sexto sentido.

— Chefe — disse para Theodor que servia as mesas perto da de Ted — a coisa lá atrás está fedendo.

— Onde?

— Na mesa dezesseis. O senhor está vendo os três?

— Sim.

— Eles estão com o da treze na mira.

— Por quê?

O garçon encolheu os ombros.

— Isto eu não sei.

— Mas você tem certeza?

— Absoluta.

Infelizmente, tais situações são costumeiras em restaurantes onde não se pode reclamar do movimento. Mas freqüentemente as tempestades anunciadas recuam sem que haja nenhuma explosão. Por conseguinte, os donos sempre preferem esperar.

— Fique de olho — disse Theodor para o garçom. — Preste atenção nos sujeitos. Vamos ver o que acontece.

— Pode deixar — assentiu o garçom. — Mas o senhor quer saber o que seria melhor?

— O quê?

— Se o sujeito da treze desaparecesse.

Quanta verdade! O garçom via a coisa da seguinte maneira: na mesa dezesseis surgia uma conta astronómica; na treze, nada.

Depois de mais uma cerveja, Ted começou a esboçar o plano de ataque.

— O importante é — comunicou a seus companheiros — que seja ele quem comece. Então todos aqui acharão que foi uma necessidade.

Um deles rebateu:

— E se esse merda se acovardar? Afinal ele já está vendo que será um contra três.

— Acovardar-se? — duvidou Ted, cujas recordações do que havia vivido no banheiro ainda não se haviam dissipado. — Não acredito nisso.

— E como é que você vai conseguir fustigá-lo tanto a ponto dele começar?

— Isto quem fará, será você — propôs Ted. — Não há nada mais fácil. A única coisa que você tem a fazer, é deixar escapar uma observação maliciosa sobre ele e a fêmea dele; isto vai bastar, você verá.

Portanto, tudo estava claro e cristalino. Antes, porém, o trio encomendou mais uma rodada de cerveja.

— Chefe — disse o garçom, que, como muitos garçons, era de uma natureza cínica, ao trazer-lhe as garrafas vazias — o senhor agora encontra-se numa encruzilhada. Ou o senhor lhes concede mais estas cervejas e depois será dado início ao combate, com lesões corporais; ou o senhor lhes nega a cerveja e quem sofrerá com isto será o restaurante, com os estragos materiais. É o senhor quem escolhe.

Theo não se esquecera da terceira possibilidade.

— Diga-lhes — disse rapidamente — que terão de ter um pouco de paciência, que o barril está vazio. Nesse meio tempo conversarei com minha filha.

Coisa que farei com muito prazer nesta oportunidade, pensou ele, enquanto se apressava em direção à cozinha para procurar Marianne. Mas não a encontrou por lá; seus olhos caíram sobre Sabine e as duas moças que trabalhavam como ajudantes.

— Onde está ela? — perguntou apressado.

— Quem? — perguntou Sabine.

— Marianne.

— No quarto dela.

— Que é que ela está fazendo lá?

— Está mudando de roupa. Já acabou aqui. Theo praguejou baixo.

— Mudando de roupa? Como assim? — e então praguejou sonora e claramente: — Eu preciso dela, com os diabos!

— Para quê?

— Para que ela me livre desse merda do Thúrnagel. Surpreendida, Sabine respondeu:

— É justamente por causa dele que ela está trocando de roupa. E por causa dele — acrescentou Sabine — ainda terá uma palavrinha com você.

— Mas primeiro eu terei com ela! — vociferou Theo, saindo apressado da cozinha, subindo a escada em desabalada carreira e, sem bater na porta, entrou no quarto de Marianne.

Dois minutos antes ele a teria encontrado completamente nua. Naquele momento, pelo menos, ela estava de calcinha e sutiã. Mas, só pelo fato de ser pai, Theo não teve olhos para a [1]cena. Além disso, a situação que imperava no salão do restaurante não lhe teria dado tempo para contemplações que lhe tomassem tempo.

— Vamos! — vociferou ele. — Apresse-se. Você tem de ir lá embaixo no salão.

Claro que Marianne espantou-se.

— Eu estava indo mesmo, de qualquer modo.

— Mas agora apresse-se, porque senão vai correr sangue. Marianne não se assustou. Como filha de um dono de restaurante, para ela não era novidade nenhuma que o sangue corresse. Dando de ombros, disse:

— E por que você me diz isso? Chame a polícia.

— Até que ela chegasse aqui os caras já teriam matado de pancadas o outro.

— Quem?

— O teu Thúrnagel.

Durante alguns instantes, Marianne ficou como que entorpecida, depois reavivou-se. Antes ela não sabia por qual roupa se decidir, mas agora ela arrancou a melhorzinha que encontrou no armário e enfiou-se nela. Isto durou frações de segundos. Com a mesma rapidez ela calçou os sapatos. Enquanto ela descia a escada acompanhando o pai, este comunicou-lhe:

— Ele tem que desaparecer antes que a coisa aconteça. Só assim a paz estará assegurada.

Marianne tinha as pernas mais jovens, chegou ao andar térreo mais rapidamente e foi a primeira a empurrar a porta que dava para o salão. Não acontecia nada fora do comum. Isso surpreendeu-a, já estava esperando ver cadeiras voando e vidros se espatifando. Seu olhar desviou-se para o lugar onde sabia que Wilhelm estava sentado. Naquele exato momento ele folheava uma revista. Ninguém parecia estar querendo voarlhe na garganta. Não lhe faltava nenhum pedaço, ele ainda estava inteiro. Abrandou-se o medo de Marianne. Só então ela começou a refletir sobre o que o pai lhe comunicara e o porquê do pânico que ele lhe causara. Ao que parecia, o alarme era falso, pensou ela, perguntando-se o que havia por trás daquilo tudo.

No entanto, o alarme não havia sido falso. Pelo contrário, justamente com a entrada de Marianne no salão, o nível de perigo chegara ao grau máximo. Ou, dito com outras palavras, começara a contagem regressiva.

— Lá está ela — Ted chamou a atenção de seus companheiros para Marianne. — Se ela for sentar-se à mesa do cara, será a sua vez de entrar em ação, Robert.

Robert era aquele que tinha a incumbência de deixar escapar dos lábios a observação obscena. O outro chamava-se Mike. Robert ainda precisava fazer por merecer a crista. Só então ele passaria a ser chamado de ”Bob”.

— Olha, mas antes eu ainda gostaria de beber a nossa cerveja — disse Mike.

Em seguida, procurando o garçom com os olhos, Ted disse:

— Puxa, quanto tempo isso vai demorar? Onde é que está o merda do garçom.

O comunicado do garçom de que o novo barril ainda estava causando alguns problemas, foi respondido com a seguinte observação de Robert:

— Se vocês não sabem lidar com ele, é melhor que no futuro vocês só encomendem garrafas da cervejaria.

Nesse meio tempo, Marianne arrastara seu pai para a cozinha. Lá chegando, disse para ele:

— Pombas, por que essa agitação toda? Afinal de contas, está tudo em ordem, ou não?

— Em ordem? Você viu os sujeitos da mesa dezesseis?

— Os três? Sim.

— Estão loucos para fazer a maior bagunça.

— Quem foi que disse isso?

— Heinrich.

Heinrich, o garçom, era uma raposa velha, cujo sexto sentido não era menosprezado nem por Marianne.

— Pergunte a ele — disse Theo. Depois disso, Heinrich foi chamado à cozinha.

Ele confirmou o que havia sido dito por Theo. E não deixou que pairasse nenhuma dúvida sobre quem o trio de brigões iria cair: no jovem sentado à mesa treze.

Os olhos de Marianne reviram rapidamente os acontecimentos na bilheteria do cinema.

— E ele deu algum motivo aos outros para uma briga? — perguntou ela ao garçom.

— Nenhum — foi a resposta de Heinrich. — Acho mesmo que ele ainda não suspeita da tramóia que os outros estão planejando para ele.

Marianne sentiu-se aliviada. Olhou para o pai. — Parece que você não sabia que Wilhelm era inocente.

— Mas isso não tem a menor importância.

— Ah, mas claro que tem!

— Por quê?

E então aconteceu uma transformação em Marianne. Mais uma vez ela deixou de ser a criança obediente de antes e tornou-se a moça rebelde, à qual Theodor Berger não conseguia se habituar de maneira alguma.

— Porque senão — replicou ela — você não teria tido essa ideia de afastá-lo do restaurante, mas sim os outros.

— Claro — Theo empreendeu a fuga — fui eu que tive esta ideia... e não fui somente eu! Heinrich também a teve, se é que isso a tranqüiliza; ele...

— Isso não me tranqüiliza coisa nenhuma — ela interrompeu-o, lançando um olhar de ódio para o garçom. — Só posso esperar que isso não seja verdade.

— Eu... bem, eu só estava pensando no negócio e no movimento — balbuciou Heinrich encabulado. Em seguida, tomou a decisão de retirar-se da cozinha para evitar novos ataques de Marianne. Para ele ficara claro e cristalino que aquela filha do chefe não estava para brincadeiras.

Pela primeira vez, a mãe Sabine tentou intrometer-se. Até aquele momento ela permanecera calada e a única coisa que fizera foi espantar da cozinha as duas moças, assim que o confronto se iniciara.

— Afinal de contas, o que está acontecendo? — perguntou ela.

Marianne e Theo começaram então a disputar, cada um a sua maneira, o direito de informá-la. Ao fazê-lo, atropelavam-se mutuamente. Por fim, foi Marianne quem falou:

— E o mais bonito é que ele me escolheu para ajudar nessa patifaria.

Sabine tomou a decisão de tentar um xeque-mate.

— E por que não? — replicou ela. — Claro que este seria o melhor caminho e o mais discreto. Para ele também. Ou por acaso você prefere que ele seja espancado? Certamente que não. Por isso mesmo você deve conversar com ele. Ele lhe dará ouvidos? Ou não?

Durante um longo tempo, Marianne ficou olhando para sua mãe. Silêncio total na cozinha. Só se ouvia o zumbido da chaleira de água quente, na qual se esquentava a salsicha. Depois, Marianne disse bem devagar:

— Claro, ele me ouve, realmente ele me dá ouvidos. Mas — prosseguiu ela, imprimindo maior velocidade às palavras — prefiro abdicar disto. Tenho uma outra ideia, aliás a solução correta...

E dizendo-o, virou-se em direção à porta.

— O que você vai fazer? — gritou-lhe Theo. — Vai telefonar para a polícia?

— Não.

— Que fará então?

— Venha ver.

Marianne deixou a cozinha rapidamente, entrou no salão do restaurante e foi para a mesa dezesseis. Seu pai não acreditava no que estava vendo, ele deslizara para trás do balcão. Sabia de cor o número do telefone da delegacia de polícia do bairro. Compunha-se de seis algarismos. Ele tirou o fone do gancho e discou os primeiros cinco números. Deteve-se antes do sexto e último, colocou o fone ao lado do aparelho e ficou esperando. Caso fosse necessário, a ligação com a polícia seria completada numa f fração de segundos.

Wilhelm já se havia desfeito da revista. Por isso, pôde avistar Marianne assim que ela saiu da cozinha e entrou no salão para, como ele acreditou, dirigir-se a ele. Seu rosto iluminou-se. Logo depois ele surpreendeu-se. Enganara-se. Marianne não lhe respondera ao sorriso, como era de costume, nem se dirigira a ele. Ela desviara-se para a mesa dezesseis. Conheceria ela aqueles sujeitos? Wilhelm foi tomado por uma sensação desagradável.

O tampo daquela mesa estava vazio. O garçom ainda não levara a nova rodada de chope.

Irritados, Ted, Robert e Mike fitaram Marianne quando esta apareceu na frente deles. Não fazia parte da mentalidade dos três que a moça iniciasse a conversa — ou seja lá o que for - com eles.

Marianne não perdeu muito tempo.

— Vocês vão pagar agora — disse ela. ”

— O quê? — retorquiu Ted sem compreender.

— E depois sumam daqui.

Ted olhou para Mike, Mike para Robert, Robert para Ted.

— Vocês ouviram? — perguntou Ted.

— Nós devemos pagar — disse Mike.

— E depois desaparecer — disse Robert.

Depois de um ou dois segundos de silêncio, o trio caiu na gargalhada. Ted ria tanto que chegava a dar uns tapas nas coxas. Parecia ter recuperado sua velha forma.

Mas a gargalhada de Ted não era sincera. Repentinamente, ele interrompeu-a e virou-se para Marianne:

— Como é, é só isso que você está querendo?

Ele falou tão alto que Wilhelm o pôde ouvir e compreender. Foi um erro de Ted. Wilhelm levantou-se. Contudo, assim que o fez, já lhe aparecia o dedo indicador de Marianne a quatro ou cinco metros de distância, que separavam a mesa treze da dezesseis, espetando-o de volta.

— O senhor deve continuar sentado!

Relutante, ele tornou a afundar em sua cadeira. Mas a partir daquele momento, os instintos de Ted aguçaram-se e disseram-lhe do que dependia seu destino: do frágil dedo indicador de uma moça. Caso esse dedo desaparecesse, a coisa ficaria preta para seu lado.

Marianne acenou para o garçom.

— Os senhores aqui estão querendo pagar.

— Quem foi que disse isto pra você?

Na agitação, Heinrich acabara deixando o bloco de anotações em cima do balcão e teve de voltar mais uma vez para apanhá-lo.

— Nós ainda vamos tomar uma outra rodada. Ela já foi pedida — Mike informou à Marianne com um tom de voz ameaçador.

— Vocês não vão tomar mais coisíssima nenhuma!

— Por que não? — perguntou Ted, paralisado de surpresa.

De repente, foi como se o ar em volta dele tivesse acabado. Isto poderia contagiar também seus companheiros. Mas por enquanto eles eram imunes a qualquer infecção. Não sabiam o que os ameaçava se Marianne deixasse que a coisa seguisse seu curso natural.

— Porque vocês já beberam demais — disse ela — e só continuam aqui para provocar baderna.

— Quem disse isso? — abalofou-se Mike, depois apontou para Wilhelm. — Foi aquele bosta ali?

Mais uma vez, o grito ”fique sentado” chegou aos lábios de Marianne, mas ela pôde poupá-lo, pois Wilhelm não se mexeu na cadeira. Deste modo, ficou evidente para Marianne que os insultos a ele dirigidos e que não ultrapassavam um determinado limite, deixavam-no frio; entravam por um ouvido e saíam pelo outro.

O garçom aproximou-se com seu bloco e quis começar a contar o que se bebera. Imediatamente, Robert atropelou suas palavras, gritando:

— Desapareça, seu filho da puta!

Como já foi dito antes, Robert era o sujeito ao qual ainda lhe faltava a crista. Ao que tudo indicava, estava querendo merecê-la ali, justamente ali. Por isso mesmo, era o que mais ia fundo. Caso não lhes fossem servidas agora mesmo as cervejas atrasadas, disse ele para o garçom, ele se veria forçado, e o caso seria bem pessoal da parte dele, a agarrá-lo pelo colarinho.

Pouco a pouco, Marianne compreendeu que se havia excedido. Um primeiro olhar de desamparo foi lançado em direção a Wilhelm.

O garçom Heinrich fervia internamente, mas sentia-se também fraco demais para se permitir qualquer manifestação externa de sua revolta interior, manifestação esta que, naquela situação, parecia-lhe bastante oportuna. Já não estava mais interessado na conta alta. Aquele fedelho que o afrontava, pela idade, poderia ser seu filho, assim como os outros dois tambem.

Alguém lhes devia tapar a boca, desejou Heinrich... mas quem?

É bem verdade que o salão ainda estava meio cheio, mas o garçom não acreditava que lhe surgisse alguma ajuda dos presentes. Aquela situação não era nova para ele. Algumas pessoas agiam como se ainda não tivessem percebido o que estava acontecendo; outras seguiam o acontecimento com bastante interesse, mas infelizmente de uma forma passiva, ou dito com outras palavras: mantinham-se de fora. Já havia muito tempo que esse fenómeno se propagara, não somente em restaurantes, mas também nas ruas e praças das cidades, nos parques, nos transportes públicos. Especialmente quando os transviados estavam metidos em alguma cena, aí mesmo é que não se tentava opor nenhuma resistência. O respeito fatal tributado a eles tornara-se bem comum.

— E você — disse Robert para Marianne — também está com o tempo contado, igualzinho a este velho filho da puta, a quem eu ainda dou um minuto de prazo. Se depois de um minuto nossa cerveja não estiver em cima da mesa, vocês terão de chamar um médico de urgência para ele. Diga-lhe isso, sua marafona.

A bofetada que ele recebeu de Marianne, foi fulgurante e bem aplicada. Surpreendeu Robert. Uma bofetada aplicada por uma moça, isto era novidade para ele. Não havia isto em seu círculo. O que sempre acontecera, era o avô espancando a avó, o pai a mãe, o irmão a irmã. E Robert não estava querendo ver abalados os alicerces destas relações intersexuais. Ele deu um salto, levantou o braço...

— Wilhelm! — gritou Marianne.

Postado atrás do balcão, Theodor discou o último algarismo do telefone da polícia.

O grito de Marianne teria chegado tarde demais se Wilhelm já não tivesse reagido com antecipação. O traseiro de Robert nem chegara a se mover na cadeira, um centímetro que fosse, quando Marianne já podia sentir-se segura do auxílio instantâneo. O levantar de braço de Robert sofreu uma demolição repentina. Agarrado pelo braço, Robert sentiu-se puxado. E então iniciaram-se oito ou dez malignos segundos para ele. Normalmente, oito ou dez segundos são um prazo bem curto; contudo podem tornar-se infinitos para qualquer pessoa. Robert entrou para o rol das pessoas dessa segunda categoria. Quando esse prazo findou-se, Robert jazia no meio da rua, com uma falha na arcada dentária, com o olho direito fechado pelo método mais rápido, com um ouvido surdo, três costelas quebradas e com um braço que lhe dava a sensação de que nunca mais poderia ser movido.

Pouco tempo depois, Mike também pôde lançar um olhar retrospectivo a resultados bem semelhantes a estes. Quando a fatalidade abateu-se sobre seu amigo Robert, Mike tentou lançar-se sobre Wilhelm. Este esforço terminou com Wilhelm desfechando um rápido e violento pontapé nos testículos de Mike. De uma certa maneira, o pontapé foi um subproduto de Wilhelm para Mike, já que naquele exato momento ele ainda tinha como ocupação principal Robert. Até o instante em que Wilhelm lançou Robert no meio da rua, a sensação tida por Mike de haver sido atropelado por um cavalo diminuíra ao ponto de ele acreditar que podia desprezar a muda oferta de Wilhelm. Este apontara para a porta com o polegar. Gesto este que significava: Fora! Trate de desaparecer!

Ao invés de aceitar a chance, Mike tomou posição de briga com as pernas abertas e gritou:

— Vem cá, seu cachorro!

Falando honestamente foi mais um gemido do que um grito, gemido este ainda modulado pelos testículos. Para Wilhelm o jogo seria fácil com um Mike como aquele. Acabou demolindo-o na metade do tempo que precisara para Robert, espatifando mais alguns lugares da parte superior do corpo, para finalmente despachá-lo para o ar fresco. Depois disso, retornou ao restaurante, objetivando com o afastamento de Ted a desova final.

Mas Ted já não mais estava lá. Wilhelm olhou para a cadeira vazia de Ted, olhou em volta procurando, lançou um olhar em baixo da mesa, até que, não encontrando Ted em parte alguma, perguntou à Marianne:

— Onde?

— No banheiro — quem respondeu não foi Marianne, mas sim o garçom Heinrich, que desejava que ninguém escapasse do castigo merecido.

— Deixe-o — disse Marianne para Wilhelm. E ele, olhando-a obediente, assentiu e sentou-se.

Quando finalmente dois homens, com a valentia fomentada pela atuação de Wilhelm, quiseram dar uma olhada em Ted no banheiro, a única coisa que descobriram foi uma janela aberta, através da qual evadira-se o medo de um bairro inteiro.

As pessoas no salão do restaurante alegraram-se pelo fato. E por último apareceu a força policial, que fora chamada por Theodor. A sirene ligada ao longe pôs de pé novamente Mike e Robert. Safaram-se, coisa que está no sangue de sujeitos como aqueles. Não sabiam o que acontecera com Ted; e naquele momento pouco se importavam.

— Foda-se ele — disse Mike, enquanto arrastavam-se ao longo da calçada. Robert lamentava-se das dores que sentia no braço. Mike, que era o mais durão deles, cortou-lhe a palavra:

— Pare com essa história desse seu braço idiota. Eu teria o maior prazer em trocá-lo.

— Trocá-lo por quê? — perguntou Robert.

— Pelos meus ovos.

Quando os uivos da sirene silenciaram-se na porta do Girassol, os policiais, que saltaram do carro, estavam preparados para entrarem em uma ação pesada. Por isso mesmo espantaram-se com o quadro de paz com que foram recebidos no restaurante. Nenhuma briga, nenhuma baderna, nenhum grito, assim como tampouco alguma surda ameaça de balbúrdia, nem ao menos uma cerveja derramada. Assim como também não havia nenhum indício que demonstrasse já ter ocorrido uma briga. As poucas cadeiras que voaram pelo local, quando Robert e Mike receberam a surra, há haviam sido recolocadas nos respectivos lugares.

A força policial era comandada por um tenente, que não pôde suportar o fato de ter sido chamado ao local sem nenhuma razão.

— Não somos bonecos — ele tratou de dizer.

E recomeçou, mais uma vez bastante aborrecido:

— Muito bem, quem aqui achou que não poderia escapar sem a ajuda da querida polícia? Quem telefonou?

— Claro que fui eu — confessou Theodor Berger, o dono do restaurante.

— E por qual motivo?

— Porque havia ameaça de morte e homicídio. O tenente da polícia assentiu.

— Havia ameaça — disse ele, deixando que as palavras ecoassem pelo local; depois levantou os olhos, examinou a sua volta, balançou a cabeça e perguntou: — e onde estão os mortos?

Como Theodor hesitasse em responder, o tenente de polícia acrescentou:

— Ou pelo menos os feridos?

O tenente gostava de dar espetáculos como aquele. Era a única coisa que apreciava nas entradas em ação, onde não havia nenhum motivo para que a polícia fosse chamada.

— Será que alguém aqui sabe — começou ele um pequeno discurso para todos os presentes — quanto custa para os que pagam impostos uma única ronda infundada? Ou será que alguém sabe o que nos é exigido com isto, a nós, policiais? Ao que parece, ninguém sabe. Ora, a gente pode fazer isto com eles, afinal não passam de bonecos. Mas — e neste momento ele aumentou o tom de voz — nós não somos bonecos não! Nós...

Ele foi interrompido. Alguém gritara do fundo:

— Mas eles já foram embora!

— Quem foi embora? — perguntou irritado o tenente de polícia.

— Os feridos — respondeu a mesma voz.

O tenente de polícia Polansky não deu atenção ao sujeito. O que fez foi falar com o homem competente, o dono do restaurante.

— Que feridos?

— Puxa, mas o senhor não os viu? — replicou Theodor com uma contrapergunta.

— Onde?

— Aí na frente. Quando os senhores chegaram.

— Não havia ninguém lá fora.

— Bem, então eles sumiram do mapa — Theo virou-se para todos. — É o que eu sempre digo, a utilização da sirene tem dois lados. Por uma parte é boa, por outra é ruim.

O tenente de polícia disse para um de seus subordinados:

— Vá dar uma olhada.

Naturalmente que o subordinado não conseguiu pegar nem sombra de Robert e Mike que, como era de se esperar, já haviam fugido, havia muito tempo, mas ele descobriu algo diferente... sangue.

— Sangue? — reagiu interessado o tenente de polícia. Depois de deixar que lhe mostrassem a mancha vermelha

na parede de fora da casa, ele voltou a dirigir-se ao dono do restaurante, dizendo com um ar de repreensão:

— Mas é claro que houve luta aqui!

A partir daquele instante, Theodor esforçou-se em abrandar a situação, tendo em vista o fato de que uma briga — não importando suas conseqüências e proporções — nunca dá uma boa imagem a um restaurante. «

— Coisa bem secundária, senhor tenente.

— Quantas pessoas participaram?

— Só umas poucas.

— Quantas?

— Quatro.

— Muito bem, então foram duas contra duas, imagino.

— Não, uma contra três.

— Uma contra três?

— Sim.

Não era à toa que o tenente era um policial. Ele raciocinava.

— Neste caso, suponho — disse ele — que o sangue encontrado lá fora seja deste um.

— Não.

— Não? — proferiu surpreso o tenente de polícia. ”

— Não, é dos outros, dos que desapareceram.

E mais uma vez o tenente de polícia imergiu em reflexões. Não pôde deixar de fazê-lo.

— Quer dizer que o sangue pertence àqueles que foram embora? — perguntou vigilante.

— Sim.

— E não foram todos que desapareceram?

— Não, só os três transviados foram embora. A coisa foi muito rápida.

— E o quarto, onde está ele? Ainda está por aqui?

— Sim.

— Onde?

E foi dessa maneira que o tenente de polícia Polansky deu com Wilhelm Thurnagel. Ninguém esperava que o encontro tivesse conseqüências ruins.

— Como se chama? — perguntou Polansky.

— Wilhelm Thurnagel.

— O senhor teve este confronto aqui?

— Sim.

— Um contra três?

— Sim.

O tenente de polícia examinou detalhadamente Wilhelm.

— Tudo começou — intrometeu-se Marianne — porque fui agredida e pedi socorro ao senhor Thurnagel.

— Socorro? — perguntou Polansky sem parar de examinar Wilhelm de alto a baixo.

— Sim — disse Marianne com ênfase. — O restaurante inteiro poderá confirmá-lo para o senhor.

Ouviram-se exclamações de comprovação. Uma de um bavierense que disse textualmente:

— Barbaridade, senão a mocinha teria sido espancada até à morte como um terneiro de corte!

Sabe lá o diabo como o dono desta voz dera com os costados no Girassol de Gelsenkirchen, em um momento como aquele.

Polansky perguntou a Wilhelm:

— Diga-me uma coisa, o senhor por acaso andou trocando de roupa neste meio tempo?

— O senhor não está ferido?

— Não.

— Nem internamente?

— Também não.

— Como se explica isto?

— O quê? — perguntou Wilhelm ingenuamente.

— O fato de suas roupas estarem intactas e de o senhor não estar ferido. Como se explica?

A resposta de Wilhelm compôs-se de um simples encolher de ombros.

— Cara — gritou alegremente para o tenente de polícia um freguês, cuja conta alegraria o garçom Heinrich — você devia ter visto como ele os agarrou pelo pescoço, então você saberia porque ele está assim todo enxuto diante de vocês.

Alguma coisa remexia os miolos de Polansky... o que, nem ele mesmo sabia.

— O senhor é boxeador? — perguntou ele a Wilhelm.

— Não.

— Luta livre?

— Não.

— Luta judô ou karaté?

— Não.

Alguém grita:

— Mas que imbecilidade é essa?

Polansky não se deixou desconcertar e prosseguiu:

— Qual é o esporte que o senhor pratica?

— Futebol. — E pela primeira vez durante todo o interrogatório — e ninguém mais poderia duvidar que se tratava de um — Wilhelm acrescentou uma frase completa em seu alemão capenga: — Mas só quando eu ter oportunidade; antes; hoje em dia não mais.

E com isso ele próprio condenou-se ao cadafalso.

— De onde vem o senhor? — perguntou Polansky. Wilhelm hesitou durante uma fração de segundo.

— Da... da Rússia.

— Ah, o senhor é russo?

— Não, alemão.

Um murmúrio espalhou-se pelo restaurante. Simpatias sucumbiram, antipatias aumentaram. Marianne mordeu o lábio inferior.

Polansky disparou o tiro de misericórdia.

— Posso dar uma olhada em seus documentos? Finalmente Wilhelm também encheu-se.

— Por quê?

— Porque existe motivo para uma inspeção.

— Em mim?

— Sim.

— Como assim? — intrometeu-se Marianne. Polansky não lhe dirigiu o olhar, mas sim a Wilhelm, enquanto respondia:

— Existe uma denúncia.

— Denúncia de quê? — perguntou Marianne.

— De graves ferimentos corporais — disse o tenente de polícia Polansky para Wilhelm.

— Aqui? — gritou Marianne. — Mas isso não pode terse passado assim tão rápido.

— Não aqui — disse Polansky para Wilhelm. — No cinema Alhambra.

E a última pergunta que o tenente de polícia fez para Wilhelm, foi:

— O senhor está pronto para nos acompanhar?

Wilhelm ficou detido durante algumas horas na delegacia de polícia, até que tivessem concluído toda parafernália adequada a casos como aquele. Encheram-se páginas e mais páginas de protocolos, distribuíram-se impressões digitais, assinaturas foram tomadas. Inicialmente, tentou-se entrar em contato com um tradutor, mas os telefonemas, que foram dados com esse objetivo, acabaram resultando na certeza de que seria impossível encontrar algum em um sábado à tarde. Wilhelm aceitou tudo com uma serenidade que deu aos funcionários a impressão de não natural, apesar de que estes soubessem, baseados nos fatos imputados ao delinqüente, que ele era um vulcão humano incontrolável com erupções devastadoras. Mas não suspeitavam a envergadura de uma alma como aquela. Mas como foi mesmo a sentença que o tenente de polícia Polansky apresentou aos seus colegas?

— Isto não tem mais nada a ver com germanismo! Antes que finalmente Wilhelm pudesse ir embora, o delegado de polícia ainda disse a ele:

— Isto aqui só foi a história do Alhambra. Mas o senhor pode ir tratando de contar com que apareça também o caso do Girassol. Com relação a este, falta-nos no momento a denúncia.

— Mas quem começar com guerra lá? Não eu — objetou Wilhelm.

— Isso ainda será comprovado. Suponho que o senhor queira safar-se com legítima defesa, não? Mas note que também existe o fato legal da ”legítima defesa exagerada”.

Wilhelm suspirou.

— Eu não compreender.

— Não se preocupe, seu advogado ainda irá explicar-lhe isto.

— Advogado? Eu não ter nenhum.

— Neste caso o senhor terá de conseguir um. Pode ter. certeza de que precisará de um a partir de hoje. Pode ir tratando de acostumar-se com essa ideia.

Quando Wilhelm voltou para casa, a noite já havia substituído a tarde. Ele resistiu à tentação de ainda dar uma chegada no Girassol para conversar com Marianne. Havia muita coisa martelando em sua cabeça e que exigia uma explicação. Talvez Marianne não quisesse mais falar com ele, com um homem que não tinha mais uma ficha limpa na polícia.

A luz estava acesa na cozinha. Dava para se ver através do vidro opaco da porta. Wilhelm quis verificar se a senhora Krupinsky havia esquecido de apagar a luz. Isso já acontecera antes. Contudo, a Sra. Krupinsky estava sentada à mesa da cozinha, com o resto de uma janta já fria e uma garrafa de licor diante de si. Surpreso, Wilhelm a cumprimentou e acrescentou:

— Eu pedir desculpas por incómodo. Eu pensar que talvez ninguém estar na cozinha.

A senhora Krupinsky fitou-o com olhos que já não se apresentavam claros e depois disse apontando para uma segunda cadeira junto à mesa:

— Sente-se.

Enquanto Wilhelm tomou assento hesitante, ela levantou-se, buscou uma segunda garrafa de licor no armário da cozinha e serviu uma dose para Wilhelm.

— A sua saúde — disse ela depois, levantando seu próprio copo.

Wilhelm perguntou se era o aniversário dela.

— Se ser — disse ele — então eu dar os parabéns.

Não era o aniversário da senhora Krupinsky, ela balançou a cabeça. Não havia nenhum alegre motivo para que ela se lançasse a esvaziar goela abaixo as garrafas de licor.

— Eu tinha de pensar em meu Hennes — confessou ela. Hennes era o homem que havia vinte anos lhe dera o sobrenome e que havia oito sucumbira, vítima de um acidente na mina. Neste meio tempo, sua viúva alcançara o quadragésimo primeiro ano de vida. Ela sempre se ocupava com a recordação dele, principalmente nas horas em que ele lhe fazia mais falta. Freqüentemente, tratava-se de sábados ou domingos, quer dizer, nos dias em que as pessoas que trabalham, como a experiência ensina, sentem um aumento da necessidade de amor carnal.

E aquele era um sábado. Wilhelm não suspeitava as complicações que adviriam deste fato. Mas ele acabaria verificando.

— O meu Hennes — disse a senhora Krupinsky — foi o melhor homem que se possa imaginar. Ele teria agora quarenta e seis anos. É bem verdade que com quarenta e seis anos muitos já estão liquidados, principalmente os que trabalham nas minas, mas não todos. Não muito longe daqui, um homem de quarenta e cinco anos teve gémeos, você entende? E a coisa não seria muito diferente com o meu Hennes se ele ainda fosse vivo. Tenho certeza do que estou dizendo... Afinal ele nunca, ou por outra, ele raramente bebia, para poder fazer aquilo que está na Bíblia, que se deve fazer com uma mulher. Você entende? E o álcool só acarreta danos neste setor, posso garantirlhe de experiência própria, porque muitas vezes a mulher do melhor amigo de Hennes queixou-se comigo, sempre que escutava o contrário de minha parte. Na certa você deve estar querendo perguntar-me por que é que eu e o meu Hennes não tivemos nenhum filho em tais circunstâncias. Olha, freqüentemente a culpa é da mulher e não do homem, você sabe? Geralmente o problema é do útero. Pelo menos era assim antigamente. Não era por causa da pílula, como hoje. Estas de hoje nem imaginam a facilidade com que contam.

A senhora Krupinsky calou-se e pareceu imergir em recordações. Depois de um bom tempo de silêncio, Wilhelm pigarreou:

— Senhora Krupinsky... - Ela estremeceu.

— Ah — disse ela — esteve uma moça aqui querendo falar com você, acabo de lembrar-me. O pacote está em sua cama.

— Que pacote?

— Dela. Bem, eu não sei o que há dentro. Ele está amarrado.

Marianne, pensou ele. Marianne... A senhora Krupinsky perguntou:

— Diga-me uma coisa, quando é que as pessoas da Rússia esperam que a pílula chegue por lá?

— Bastante tempo.

— O que é que tem bastante tempo?

— Bastante tempo ter lá também.

— A pílula?

— Sim.

A senhora Krupinsky fitou-o cética.

— Não acredito.

— Por que não acreditar a senhora?

— Ah, os caras lá ainda não chegaram a este ponto. Todos os dias Wilhelm topava com a convicção expressa nessas palavras. Não tinha sentido replicá-las. Portanto, a única coisa que ele fez foi encolher os ombros. Estava querendo perguntar algo à proprietária. Por isso retornou.

— Senhora Krupinsky, a senhora me emprestar seu procurador?

— O quê?

— A senhora me emprestar seu procurador?

— Não estou entendendo. Você quer dizer advogado?

— Bem, se procurador e advogado ser a mesma coisa, então sim. Preciso dele para a polícia. A senhora me emprestar ele?

A senhora Krupinsky precisou de um pouco de tempo antes de mostrar-se pronta para responder:

— Não tenho nenhum.

Foi grande o desapontamento de Wilhelm.

— A senhora não ter?

— Não. Muitas pessoas não têm. Afinal de contas, para quê?

— E eu que pensava que todos aqui tivessem.

— Por que você pensava isso?

— Porque o policial falar de meu advogado.

Durante um longo tempo a senhora Krupinsky olhou interrogativamente para Wilhelm, depois tomou um pequeno gole, repetiu o olhar e quis mais detalhes. Tinha direito a isso, foi o que ela disse. E depois que Wilhelm esforçou-se ao máximo para informá-la sobre tudo que havia ocorrido, ela pousou as mãos sobre a direita dele e disse:

— Veja só, eu sempre gostei que o meu Hennes ficasse em casa. Comigo, nunca poderia acontecer-lhe algo assim. Pense nisso no futuro. Sempre se pode tomar uns tragos em casa.

Wilhelm retirou a mão, levantou-se e disse que não queria incomodá-la mais tempo. E quando a senhora Krupinsky respondeu que ele não incomodava de maneira alguma, ele disse:

— Claro que sim, claro que sim. Boa-noite.

E saiu da cozinha. Contudo não conseguiu ganhar nada com isso, pois a proprietária do quarto seguiu-o pouco tempo depois. Ele ainda não havia aberto o pacote em cima de sua mesa, quando bateram na porta e a senhora Krupinsky entrou sem esperar pelo convite de entrar. Trazia consigo a garrafa de licor, os dois copos e uma tesoura.

— Olha, você não tem nenhuma tesoura — disse ela — para abrir o pacote.

Quando os barbantes foram cortados e o conteúdo do pacote apareceu, Wilhelm balbuciou:

— Eu não aceitar isso!

Marianne levara para ele belas louças e talheres para duas pessoas. Além disso havia uma folha de papel branco,, dobrada dentro do pacote. Quando Wilhelm desdobrou-a, contando em dar de cara com algumas linhas de Marianne dirigidas a ele, topou com algo bem diferente, ou seja:

Boa lua, tu vais tão tranqüila através das nuvens noturnas. Estás tão calma e eu sinto que não fui deixado...

O bem conhecido poema de Mathias Claudius. Marianne copiara-o de um livro que tivera em suas mãos.

— Isso eu aceitar — disse Wilhelm, mais para si mesmo do que para a senhora Krupinsky que, naturalmente, não estava nem um pouco interessada em iniciar nada com aquele ”não aceitar” e menos ainda com o ”aceitar”. Ela perseguia outros interesses e nesse meio tempo já se encontrava sentada no divã. Somente depois de tê-lo feito, foi que perguntou:

— Posso?

— O quê? — perguntou Wilhelm.

— Sentar-me aqui. -

— O divã ser seu.

Ela balançou a cabeça.

— Mas não estou pensando nisto agora, Wilhelm.

“Wilhelm”, ela já havia dito seu primeiro nome algumas vezes desde que ele passara a morar em sua casa, mas até aquele momento isto não era a regra.

De algum lugar surgiram os acordes do coro dos peregrinos do Thannhauser, que levaram o dono de um rádio a elevar ao máximo o volume do aparelho.

— Bela música — opinou Wilhelm.

— Sirva-nos um trago — disse a proprietária do quarto — e venha sentar-se também.

Wilhelm encheu os copos e quis puxar uma cadeira da mesa.

— Não — deteve-o a senhora Krupinsky. — Aqui. — E dizendo-o deu umas palmadinhas ao seu lado no divã.

Para eludir a situação, nem bem se sentara e Wilhelm já voltava ao assunto advogado, dizendo:

— Ele poder me explicar que negócio ser ”legítima defesa exagerada”, senhora Krupinsky.

— Por favor, pense em outra coisa — exortou ela. — Por exemplo em como me chamo. Você por acaso sabe?

— Claro.

— Então, como?

— Krupinsky.

— Não este — disse ela um pouco rude, irritada com a falta de compreensão do outro. — Eu quis dizer o primeiro nome.

— Não, não saber — retorquiu Wilhelm, enganando-se com a salvação de uma mentira. — Não ter nenhuma ideia.

— Wanda — disse ela.

Wilhelm já havia lido aquele nome centenas de vezes em envelopes ou encomendas postais que ficavam jogadas pela casa.

— Bonito — disse ele.

— Foi o que pensei, Wilhelm, que você iria gostar dele — assentiu ela. — Meus antepassados são originários da região de Lemberg, sabe? Hoje em dia também pertence à Rússia.

— Sim, senhora Krupinsky.

Ela fitou-o. Em parte com calor, em parte com recriminação.

— Wilhelm — disse ela — diga-me uma coisa, com que intenção você acha que lhe confessei meu nome?

Ele hesitou.

— E com que intenção — prosseguiu ela — você acha que há tempos que lhe venho chamando de ”Wilhelm” e não de ”senhor Thúrnagel”?

— Para que, senhora Krupinsky?

— Pra que você também não me chame mais de ”senhora Krupinsky”. Não quero mais ouvir isso.

— Bem, se a senhora não querer mais ouvir isso, então eu dizer ”Wanda”.

Portanto, ao que tudo indicava, Wilhelm resignava-se pouco a pouco. Teria ele já se rendido ao destino?

— Estou com sede — disse Wanda. Wilhelm pescou a garrafa de licor.

— Não disso aí — disse Wanda acelerando as palavras.

— Não? — perguntou Wilhelm, arregalando os olhos o mais estupidamente que pôde. — Querer a senhora que eu buscar na restaurante da estação vinho ou cerveja?

— Não, seu idiota! — Isto deveria ter soado amoroso, mas foi dito com um tom de voz que acabou exprimindo a verdadeira convicção de Wanda.

— Ou fazer chá na cozinha?

E desta maneira pode-se dizer que Wilhelm cortou a dela. Wanda Krupinsky percebeu que não conseguiria alcançar seu objetivo somente com palavras. As palavras tinham de ser acompanhadas de fatos. Por isso ela tomou a mão de Wilhelm, pousou-a em seu seio esquerdo, apertou-a contra o peito e disse:

— Você está sentindo como meu coração bate?

Houve um pequeno movimento. Wilhelm tentou retomar o domínio da própria mão, contudo Wanda opôs resistência a seus esforços, tanto que ao fim da rápida disputa a mão de Wilhelm aquietou-se e ficou parada no lugar em que Wanda a pousara. Wanda estava vestida com uma roupa fina e, ao que tudo indicava, também com um sutiã fino, pois Wilhelm pôde sentir algo em sua mão, algo que não lhe deixou frio de todo. O biquinho do seio de Wanda encrespara-se e endurecera. Wilhelm registrava a mesma ocorrência em uma parte do seu corpo — é bem verdade que não em seus biquinhos do peito — querendo ele ou não. Quando tal ocorre com um homem, pode-se vê-lo, caso a observadora saiba para onde dirigir o olhar e não se sinta tolhida em dar livre curso ao olhar. E não pode surpreender ninguém que este seja o caso de Wanda Krupinsky, uma viúva de quarenta e um anos, em plena forma. Seus olhos cravaram-se na braguilha da calça de Wilhelm, assim que esta começou a ficar intumescida, prova evidente de que naquela calça a vida manifestava-se em sua forma mais bela, pelo menos na concepção de uma viúva do tope de Wanda.

Com uma das mãos, Wanda continuou segurando a mão direita de Wilhelm; mas a outra ela a tinha livre e a utilizou para acariciar delicadamente o pênis de Wilhelm por cima do tecido de seujeans. Com isso a respiração dela assumiu um ritmo de estertor. Sua voz soou empastada, quando disse:

— Você sabe agora de que estou com sede?

Como não poderia mais responder com uma negação àquela pergunta, Wilhelm retorquiu:

— Sim.

Aquilo que estava em andamento, chama-se normalmente de ”prólogo”. Todavia aquele era um muito especial, pois faltavam-lhe os beijos. E isto tinha sua razão.

A iniciativa fora tomada por completo por Wanda e para ela, já no casamento com Hennes, os beijos haviam sido suprimidos inteiramente. E, afinal, por quê? Simplesmente porque ambos sofriam de mau hálito, tendo, assim, que abdicar dos beijos em sua vida amorosa. Ósculos haviam sido cortados do repertório tanto de Wanda quanto de Hennes e, oito anos depois, Wanda ainda estava acostumada ao fato.

Wilhelm sentia-se muito mal. Em primeiro lugar, por aquilo que estava acontecendo, já que Wanda era uma mulher muito velha, uma ”coroa”, e um jovem jamais deve fazer o amor com uma coroa, porque isto não é natural e nem apetitoso. E em segundo lugar, porque encarava tudo aquilo como um ato de infidelidade para com Marianne, que ele amava, embora nada tivesse ocorrido entre eles que, de alguma maneira, o obrigasse a ser fiel à moça. Mesmo assim ele sentia-se, como já foi dito antes, muito mal. Contudo, de que adiantava sentir-se assim? Seu espírito mostrava-se fraco, mais fraco do que sua carne. Durante meses ele não tivera nenhuma mulher... e aquilo ali era uma oferta!

— Vem — disse Wanda conduzindo-o para o seu quarto. Ela havia aberto a calça dele e prosseguia com as carícias — apesar de que não tão suavemente como antes — sem a obstrução do tecido de um pedaço de roupa para diminuir o efeito daquela atividade. Mesmo durante o tempo em que Wanda conduziu Wilhelm pelo corredor em direção ao quarto, isto ocorreu, com ela mantendo sua mão firme, puxando Wilhelm pelo pênis.

A cama de casal não havia sido desmontada depois da morte de Hennes, pois Wanda não abandonara a esperança de que, assim como depois da tempestade vem a bonança, a alegria se seguiria ao luto. Desta maneira, Wilhelm foi recepcionado por uma disposição mobiliária tida como natural para uma aproximação.

Quando Wanda, ato contínuo, passou a despi-lo — isto seria para ela um prazer especial, foi o que disse — o desejo dele aumentou de tal maneira, que não haveria possibilidade de volta atrás para Wilhelm, mesmo que Wanda tivesse dez anos mais. As vestes de Wilhelm iam sendo tiradas com a luz acesa, este era o desejo de Wanda. Em seguida, quando chegou a vez dela de ser despida por ele, este desejo de Wanda experimentaria uma transformação repentina e isto ocorreu, para sermos mais precisos, no momento em que ela só estava vestida de calcinha e sutiã. Em respeito à seqüência correta, Wilhelm deveria atacar em primeiro lugar o sutiã, mas Wanda opôs-se. Ela agarrou a mão de Wilhelm e levou-a a sua calcinha. Wilhelm foi pego de surpresa, mas conseguiu superar rapidamente seu espanto. Ora, pois bem, pensou ele, se essas mulheres aqui do Ocidente seguem uma seqüência diferente, e daí, por que não? No entanto, parece-me mais lógica a seqüência que conhecia até hoje.

Wanda ainda era senhora de uma bem conservada silhueta, apesar de dificilmente deixar passar um pedaço de bolo que lhe caísse sob os olhos. Ela adorava doces e, com uma freqüência inaudita, vivia entupindo-se com eles, entretanto fazia parte desse contingente de felizardos que se podem dar esse luxo, os chamados aproveitadores deficientes de alimentos.

Wilhelm tirou-lhe a calcinha, coisa que fez com que sua ereção experimentasse mais um incremento, claro que dentro do âmbito do possível, Wanda respirava com dificuldade, olhando fascinada para aquele pênis, do qual ela jamais poderia dizer que lhe provocava recordações. Não, eram sensações completamente novas para ela. E cada vez mais ela se admirava.

— Como você é forte! — murmurou ela.

Mais uma vez Wilhelm levou a mão ao fecho do sutiã, mas ela desvencilhou-se.

— Não — disse ela.

— Por quê?

— Primeiro apague a luz.

— Melhor deixar acesa.

— Tudo bem... mas então eu continuo com o sutiã.

E finalmente Wilhelm compreendeu o problema de uma mulher de quarenta e um anos e decidiu-se pela penumbra. E continuaram sem se beijar, nenhum beijo sequer, e isso tampouco ocorreu quando Wanda levantou um pouco as pernas, abriu-as bem e disse:

— Vem! Vem logo!

Ele a possuiu com uma força que a fez estremecer. Ela jamais havia experimentado aquele tipo de coisa. Por um lado ela teve medo da dor que, inevitavelmente, estava contida naquela penetração; por outro lado, foi arrebatada e não hesitou em participar do ritmo dos movimentos que ele iniciou de imediato. E mexendo, gemia baixinho.

— Machucar você? — perguntou ele sem parar com os movimentos.

Ela replicou, intermitente, quase soletrando:

— Pé... lo con... trário.

Como ambos careciam de um orgasmo havia muito tempo, tiveram-no rapidamente... portanto, um orgasmo muito distante do que seria um completo. Naturalmente que não haviam passado sem o gozo da masturbação. Pelo contrário, serviam-se dele regularmente, como qualquer pessoa numa situação como a deles, mas todos sabem que com esse expediente nunca se consegue ultrapassar a categoria da solução de emergência.

Os sentimentos de prazer de Wanda eram indescritíveis; ela gemia, bufava, chiava, enquanto se aproximava do ponto culminante e, quando este chegou, ela gritou.

Isto tudo, pensou ela, seria somente o começo.

Com relação a Wilhelm ocorria a mesma coisa. Mas com relação ao fato de que aquilo seria somente o começo, bem, não era exatamente o que ele pensava. Depois do orgasmo o que Wilhelm sentiu mesmo foi uma repentina saturação de Wanda. Ele sentia-se pior ainda do que antes.

Em contrapartida, Wanda ansiava, depois daquele primeiro orgasmo, por um segundo, um terceiro, um centésimo, um milésimo. Isso significava que ela estava pensando em uma longa relação de cama com seu inquilino. Por isso, ficou muito espantada ao perceber que Wilhelm não partilhava de maneira nenhuma a mesma opinião. E do espanto nasceu a raiva, ou por outra, algo superior à raiva... o ódio.

A coisa não havia ainda acabado.

— Wilhelm — disse ela, tomando o rumo do segundo orgasmo — você foi tão forte quanto parecia. — Ela deu uma gargalhada. — Será que você também é duradouro?

— Não.

— Claro que é — disse ela, tentando acrescentar a necessária convicção àquela esperança fugaz, agarrando o pênis de Wilhelm por baixo da coberta. Era aguardada por um desapontamento, desapontamento este que arrancou-lhe o gemido:

— Nossa!

Mas novamente o otimismo fez-se sentir nela. Ela logo, logo conseguiria, disse.

— Não — disse Wilhelm afastando-lhe a mão de seu corpo.

Durante uma fração de segundo Wanda ficou sem saber o que dizer. Em seguida tentou repetir a investida sobre o pênis de Wilhelm, obtendo com isto a mesma rejeição de antes.

— Que é que você tem? — perguntou ela.

— Para mim ser bastante — foi a resposta lacónica de Wilhelm.

— Basta uma para você?

— Sim.

Wanda calou-se. Pombas, como a gente se engana, pensou ela. Esse sujeito derruba um verdadeiro batalhão de transviados, mas na cama seu desempenho é o mínimo possível. Quando me lembro do meu querido Hennes...

Mas Hennes era os dois pássaros voando, enquanto que Wilhelm era o pardal na mão.

— Tesouro — disse Wanda — olha, você não deve ficar com uma impressão errada de mim. Pode ter certeza que estou de pleno acordo com você. Só que pensei que você estava querendo outra coisa e quis lhe fazer a vontade. Mas tanto melhor que isto não seja necessário.

Wilhelm não disse uma palavra. Estava refletindo sobre a maneira como poderia escafeder-se daquela situação em que se metera.

— Mas — prosseguiu Wanda — de qualquer maneira é melhor que você mude para o meu quarto, aí então poderemos chegar a um acordo em cada caso e coordenar nossos desejos.

Sabe lá o diabo de onde Wanda arrancou essa expressão que demonstrava um certo grau de instrução, que não era bem o seu.

Wilhelm continuou calado, matutando. Não queria investir com todas as forças contra Wanda. Mas para ele era ponto pacífico, fora de discussão, que queria dar um fim àquele caso com ela, antes mesmo que se iniciasse... quer dizer, imediatamente, naquele exato momento. Talvez a decisão tenha sido tomada, porque Wilhelm percebera o mau hálito de Wanda no momento em que, em pleno delírio de paixão, ele a beijara. Este tipo de coisa faz com que, quando acaba o êxtase e são despertados outros sentimentos que não só os sexuais, se tenha um efeito de choque.

— Isto não ter nenhum sentido — disse então Wilhelm.

— Que é que não tem sentido? — perguntou Wanda.

— Que eu me mudar para o seu quarto.

— Por que não? Puxa, você vai querer ficar andando daqui para o seu quarto e de lá para cá, todas as vezes?

— Não.

— E então?

— Eu querer ficar bem no meu; sem exceção. Passaram-se alguns segundos, e depois Wanda disse:

— E isso significa que você não vai querer mais saber de mim?

Wilhelm apressou-se em retorquir:

— Claro que ir querer saber de você, mas fora da cama. Você entender? Eu querer saber de você como aconteceu até hoje. Quer dizer, não na cama. E no fundo isso não ser correto de nós dois. Eu ser jovem e você ser...

— Velha? — gritou Wanda Krupinsky, possuída por um ódio inflamante, herança do seu sangue polonês.

— Não, não tão jovem — Wilhelm tentou salvar o que ainda podia ser salvo e pareceu haver obtido um relativo sucesso, pois Wanda disse, novamente calma:

— Por que é que só agora ocorreu-lhe isso? Será que isso não deveria já estar claro para você?

— Claro, você ter razão. Eu pedir desculpas.

Wilhelm achou que havia alcançado seu objetivo. Entretanto o resultado foi mais desastroso do que ele imaginava. Ele sentou-se para apanhar apressado suas coisas e sair do quarto de Wanda. No entanto, provisoriamente, tudo isso lhe ficaria vedado.

— Um momento — disse Wanda, enquanto se sentava a seu lado. — Gostaria de lhe dizer uma coisa...

— Sim?

— Estive tão mal assim?

— Não — Wilhelm fez jus à verdade. — Você melhor do que todas que eu conhecer até agora neste terreno.

Dissipou-se a fúria de Wanda. Agora tudo clarificava-se para ela. Aquele jovem imbecil não se sentia bem na cama de Hennes, seguramente por piedade ou por uma questão de gosto. E no fundo, havia lá suas razões. Mas isto podia ser levado em conta.

— Olha, eu tenho uma proposta para lhe fazer — disse Wanda — você continua dormindo no divã como fez até hoje e eu vou até lá visitá-lo, tantas vezes quantas nós queiramos.

Bem, isso deve nos bastar por enquanto, pensou ela, e com o tempo, ele se tornará razoável, e esquecerá essas razões de piedade ou gosto, o idiota.

— Não — disse Wilhelm.

— Não o quê?

— Eu também não querer isso. Eu já dizer que não querer mais saber de dormir com você. Eu também já dizer o porquê. Mas eu dar mais um motivo, o maior de todos.

— Qual? — encurralou Wanda, novamente possuída pela raiva.

— Eu amar outras moça.

— Outras?! — Wanda começou a gritar, sucumbindo a um mal-entendido provocado pelo péssimo alemão de Wilhelm. — Afinal de contas, quantas, seu garanhão?

— Uma.

Bem, no fundo, no fundo, para Wanda dava no mesmo o fato de Wilhelm amar uma moça ou um regimento inteiro.

— Você também devia ter pensado nisto antes — vociferou ela e, colocando as coisas em seus lugares, prosseguiu: — se eu tivesse suspeitado disto, você não teria se aproximado de mim, é o que lhe digo. Sujeitos como você não prestam. E não fique pensando que eu estava com tesão em você. Afinal quem foi que ficou com a calça quase estourando de tesão? Você! E agora você fica aí com essa pose, se apresentando como se fosse a pessoa que bate em retirada...

Cada vez mais Wanda se descontrolava. Sua raiva transformou-se em ódio incontrolável.

— Não, não senhor — prosseguiu ela — seu cigano vagabundo, comigo não, violão! Como foi que você apareceu aqui, hein? Cigano vagabundo, é o que lhe digo, sim senhor.

E afinal quem é você? De onde vem você? Você já se esqueceu disto? E quando uma senhora decente lhe oferece um teto, um quartinho simpático, a utilização da cozinha e tudo isso por um aluguel que não chega nem a cobrir os custos, você, um sujeito da sua laia, lhe agradece abusando dela, assim que ela bebe alguns copinhos e perde a cabeça, tem o desplante de se aproveitar da situação, manchando-lhe a honra, e ainda tem a desfaçatez de chegar ao cúmulo de achar que pode dispensá-la assim, sem mais nem menos. Você ficou maluco?

Sem dar atenção ao fato de estar sem sutiã, Wanda Krupinsky acendeu o abajur da mesinha-de-cabeceira, pulou para fora da cama, juntou rapidamente as roupas de Wilhelm espalhadas pelo chão, largadas nos lugares onde ela mesma atirara, correu até a porta, abriu-a violentamente, jogou-as no corredor, postou-se junto à porta aberta, levantou o dedo indicador, apontando para fora do quarto, virou-se para Wilhelm e gritou:

— Fora daqui você! E já!

Wilhelm escutara tudo em silêncio, só havia mudado um pouco de cor, estando vermelho no rosto, não de vergonha, mas igualmente de ódio. Mas conseguiu dominar-se até o último momento. Saiu da cama sem dizer uma palavra e, nu como estava, tomou o rumo da porta, sem dirigir a Wanda um olhar que fosse. Quando ele passou por ela, Wanda coroou o cântico de ódio:

— O senhor está despejado do quarto, senhor Thurnagel! Sem prazo nenhum. Amanhã mesmo irá embora! E se está achando que poderá opor-se, pode ter certeza que denunciarei às autoridades a razão do seu despejo. O senhor me perseguiu, o senhor introduziu-se furtivamente em meu quarto. Entendeu, senhor Thurnagel? Eles acreditarão em mim e não no senhor, um estrangeiro ou, como o senhor prefere, um meio russo. De qualquer maneira a polícia já está no seu pé.

As palavras de Wanda ressoaram através da casa inteira. O ridículo delas era a forma — de repente Wanda recomeçara a tratar Wilhelm de senhor. Contudo, o conteúdo dessas palavras nada tinha de ridículo. Wilhelm estava no olho da rua. Ele tinha plena consciência disso.

Um péssimo balanço do dia para Wilhelm. Primeiro a briga no Girassol, depois a polícia, em seguida Wanda Krupinsky. E tudo isso, como já foi dito, em um único dia.

Marianne tampouco podia estar satisfeita com o decorrer daquele sábado. Quando a patrulha levou Wilhelm para a delegacia, ela sentiu-se responsável. Fui eu, pensou ela, que dei início a toda essa confusão. Eu fui até a mesa dos três transviados. Fui eu que comecei a discussão com aqueles sujeitos. Fui eu que soltei a mão. Eu gritei por socorro a Wilhelm. Eu sou culpada de tudo.

Todo esse sentimento de culpa, que lhe pesava nos ombros, ela contou para sua mãe na cozinha, depois que o tenente de polícia Polansky acompanhado de sua tropa e de Wilhelm Thúrnagel saiu do restaurante Girassol.

A reação de Sabine deveria acalmar Marianne.

— Não fique assim, filha. — disse ela.

Mas de nada serviu. Marianne continuou recriminando-se. Se não fosse ela, disse, Wilhelm ainda estaria sentado pacificamente diante de sua cerveja e nada teria ocorrido. Nenhuma briga, nada de baderna, tampouco a polícia.

— Mas aqueles três sujeitos já o tinham na mira antes de você aparecer — disse a mãe Sabine. — Afinal este foi o motivo da sua intervenção.

— Então eu deveria intervir de outra maneira.

— Ora, como?

— Devia ter saído para passear com ele — replicou Marianne. — De qualquer modo, devia ter saído daqui com ele.

Sabine assentiu.

— E era esta a ideia do pai, não?

Como se tivesse escutado que falavam dele, Theodor Berger apareceu na cozinha. O movimento no balcão já não estava tão grande assim. Antes, o bando de fregueses apinhados não permitia que Theo tivesse nenhuma pausa em seu trabalho nas torneiras de chope. Ao chegar, ele ainda apanhou o que Sabine havia dito por último.

— Que é que era minha ideia? — perguntou ele. Sabine explicou-lhe.

— Isso mesmo — confirmou ele. Depois dirigiu-se a Marianne. — E mais uma vez, você sabia muito mais do que eu.

— Confesso que cometi um erro — replicou Marianne. — Mas o pior de tudo em toda esta história foi a polícia. E não fui eu quem a chamou.

— Ah — fez Theodor sarcástico — quer dizer que quando o caldo entorna, o culpado sou eu?! Mas por quê, pergunto eu, é a polícia a pior coisa nessa história? Dessa vez eles foram bem mais hábeis e elegantes do que costumam ser normalmente. Em geral eles fedem muito mais em casos como este.

— Bem, o fedor não tem tanta importância — disse Marianne.

Theo perguntou irónico:

— E o que é que tem importância, segundo você? Marianne calou-se. Olhou para o pai com um ar de máxima recriminação. Mas quem deu a resposta foi Sabine:

— Que eles tenham levado o senhor Thúrnagel.

— Bem, eu não tenho nada a ver com isso — explicou Theo com um pouco de desdém.

— Papai! — gritou Marianne. Sua paciência chegara ao fim. — Você não tem nada a ver com isto?! Ele livrou você de três transviados! Foi ele também quem salvou o nosso garçom de ser espancado! Foi ele quem cuidou de manter a salvo o seu restaurante! Nem um copo sequer foi quebrado! Foi por iniciativa dele que você não foi obrigado a abandonar a proteção do seu balcão! E você ainda vem me dizer que não tem nada a ver com isto?! Ele vai pagar por tudo isto e...

— Um momento aí — interrompeu Theodor. — Não por isto.

— Como assim?

— Não será por isto que ele vai pagar.

— Ué, vai pagar por que então?

— Pelo que andou fazendo no cinema Alhambra — disse Theo com o dedo indicador levantado. — Não se esqueça disto.

— Mas foi a mesma coisa!

— Graves ferimentos corporais, sim senhor. Ao que parece, é a especialidade dele.

— Não! Ele se defendeu ao ser agredido! Ou por outra, ele me protegeu, como aqui!

— Ora, mas não fique falando só daqui, pense no cinema Alhambra. Foi por isto que eles o levaram. Quantas vezes eu terei de repeti-lo para você?

— E quantas vezes terei de dizer para você que foi a mesma coisa?

— Como é que você sabe disso?

— Simplesmente porque eu estava presente.

Silêncio.

Depois de algum tempo, Sabine disse:

— Pelo amor de Deus, minha filha, a coisa está cada vez mais preta. Onde foi que você esteve presente?

— Eu também gostaria de saber — atreveu-se Theo.

Marianne contou aos dois. Como resultado, viu-se lançada à recriminação de sua mãe por não ter dito nada antes. Enquanto Sabine lamentava-se, Theo deu duas voltas em torno do grande fogão, que formava o centro da cozinha. Enquanto andava, praguejava contidamente.

Parando diante de Marianne, ele disse:

— Você sabe o que isto significa?

— O quê?

— Que você terá de comparecer ao tribunal.

— Ao tribunal? — espantou-se Sabine.

— Como testemunha — disse Theo.

— Assim espero — assentiu Marianne.

— E você ainda espera por isso? — vociferou Theo.

— Sim, senhor — explicou Marianne com ênfase. — A fim de que eu possa contar para eles lá, como foi a coisa. Caso eles não me enviem nenhuma citação, eu mesma me apresentarei como testemunha, tomem nota disto!

— Você ficou maluca? — gritaram Theo e Sabine a uma só voz.

— Não! — Marianne gritou ainda mais alto, correndo de repente para a porta que dava para a escadaria e lançando-se para fora.

Consternados, Sabine e Theo seguiram-na com os olhos. Somente depois de alguns segundos de silêncio, foi que Theo disse com um tom de voz irritado:

— Isto não pode continuar dessa maneira com essa aí! — isso dizendo, cerrou o punho para socar a chapa do fogão, mas desistiu, ao ocorrer-lhe que o fogão estava aceso.

Marianne correu para seu quarto, postou-se pouco tempo diante do espelho, enfiou-se num casaquinho leve de verão e saiu da casa. Seu objetivo era a delegacia de polícia, cujo endereço lhe era naturalmente conhecido. Chegou lá a pé.

Contudo, ela poderia ter-se poupado o caminho. Queria intervir de alguma maneira em favor de Wilhelm, mas, como lhe foi dito, não havia nenhuma necessidade disso na delegacia, pelo menos não naquele dia. Cada coisa em sua hora, foi o que disseram. Não foram indelicados, mas absolutamente improdutivos. Ela nem chegou a ver seu protegido. Este estava sendo tratado em um outro lugar.

No caminho de volta para o Girassol, foi acompanhada por uma amiga de escola, a quem ela não via havia alguns anos. Uma grande alegria de ambas as partes. A amiga — chamava-se Anita — vivia agora em Bremen. Fora para lá seguindo um jovem, que ela conhecera em uma viagem a Amsterdã.

— Vocês estão casados? — perguntou Marianne.

— Está brincando? — foi a resposta. — Afinal de contas, quem é que ainda casa hoje em dia... com exceção dos sacerdotes? Nós vivemos juntos.

Eles viviam juntos, como todo mundo nos tempos atuais.

— E você, que está fazendo? — prosseguiu Anita.

— Ainda estou vivendo com meus pais. Anita riu.

— Eu acredito! Marianne, a criança-modelo! Sempre foi!

— Qual o quê.

— Claro, claro.

— Quanto tempo você vai ficar?

— Em Gelsenkirchen?

— Sim.

— Até amanhã. Mais uma vez minha mãe está se desfazendo em lágrimas. Não posso lhe dizer como isto afeta meus nervos. Ela acha que eu devia abandonar esta vida de vagabundagem. Gerd, o meu caso em Bremen, vai morrer de rir quando eu repetir isto para ele: vida de vagabundagem.

— Tudo de bom, Anita. Foi legal ter encontrado você. Preciso ir.

— Já? Eu estava pensando que nós ainda poderíamos tomar uma xícara de café juntas.

— Não, não dá.

— Puxa, aonde é que você tem de ir?

— Encontrar o meu namorado.

Imediatamente despertou a curiosidade de Amita. Marianne tinha um namorado.

— Ele está esperando você?

— Não.

— Mas mesmo assim você vai encontrarse com ele?

— Tenho de ir a sua casa.

— E ele, onde está?

— No momento?

— Sim. Está viajando? Olha, só estou lhe perguntando, porque depois nós ainda poderíamos tomar uma xícara de café juntas.

— Não, ele não está viajando.

— Então, onde está?

— Na polícia — disse Marianne que, ao que parecia, estava sendo tentada pelo demónio.

— Ah! — opinou Anita, um pouco indignada, pois naturalmente ela seguia a mesma tendência dos jovens de sentir antipatia pela polícia. — Ele está de plantão?

— Não. Ele não pertence à polícia. O negócio é que ele foi pego pela polícia. Está sendo interrogado.

A atitude de Anita mudou num piscar de olhos.

— O quê? — disse ela respeitosamente. — Ele é da esquerda? Participou de alguma passeata?

— Não.

— O que, então?

— Foi uma briga.

— Com um tira?

— Não, com um freqüentador de cinema.

— Um freqüentador de cinema? Só isso? Ora, então por que isto?

— Porque o cara me insultou.

Anita arregalou os olhos e abriu a boca.

— Porque o cara insultou você? Foi este o motivo?

Marianne assentiu.

— Puxa vida — admirou-se Anita — tenho de contar isto para Gerd. Ele não será capaz de entender... bater em um sujeito por causa disto. Claro que se se tratasse de um tira, então sim. Mas isto?

— O seu Gerd pensa diferente, não?

— Sim, bem diferente.

— E o que é que ele faz?

— Profissionalmente?

— Sim.

— Ele ainda está estudando. No décimo quarto semestre. Política e Sociologia. E o seu? Ele ainda está estudando?

— Não.

— Já acabou?

— Ele nunca foi à universidade.

— Ah, sim. E o que é que ele faz?

Nesse momento Marianne hesitou em responder, coisa que no fundo era inevitável.

— Isso... bem, isso eu não sei.

Anita perguntou-se se aquilo devia ser uma piada ou não. Se fosse, era muito da sem graça. Ela fitou Marianne desconfiada, que além do mais afirmava:

— Realmente, eu não sei, Anita. Ele ainda não me contou.

— Puxa, afinal vocês se conhecem a quanto tempo?

— Algumas semanas.

— Pensei que fosse há uma hora. — De repente, Anita ficou carrancuda. — Ora, se você estava querendo me fazer de palhaça, pode ter certeza de que conseguiu. Na verdade, eu nem sei porque, mas por favor, tenha a bondade... — Ela olhou para seu relógio de pulso. — Deus do céu, eu me havia esquecido por completo, mas ainda estava querendo ir à estação para comprar a passagem para Bremen. Marianne — ela estendeu a mão — cumprimente por mim os seus pais.

— E você, por mim, os seus. Boa viagem, Anita.

— Obrigada. Até à vista.

— Até à vista.

Afastaram-se, tomando direções diferentes. Trinta ou quarenta metros adiante, Marianne virou-se mais uma vez, descobrindo que Anita fazia o mesmo. Ao invés de se acenarem mutuamente, cada uma sentiu-se surpreendida e seguiram rapidamente adiante. E cada uma deu de ombros, em seu íntimo, para a outra.

Ela com o seu xeque, pensou Marianne.

Ela com o seu desqualificado, pensou Anita.

Apesar disto, em uma coisa ela tem razão, Marianne pensou consigo mesma. Ele terá de dizer-me finalmente o que é que faz.

Antes de dirigir-se para a residência de Wilhelm, retornou ao seu quarto mais uma vez, sem ser notada pelos pais, para ir buscar o pacote que, havia dias, ela preparara para Wilhelm. Quando finalmente a senhora Krupinsky lhe abriu a porta, não lhe passou despercebido um leve hálito de licor, exalado pela proprietária da casa. Apesar de Marianne saber que Wilhelm não poderia estar em casa, ela perguntou:

— Posso falar com o senhor Thúrnagel?

Como era de se esperar, Wanda Krupinsky respondera que não.

— Não seria então possível — prosseguiu Marianne — entregar-lhe o pacote?

— Naturalmente — disse a senhora Krupinsky solícita. — O que tem aí dentro?

— Olha, eu não sei — mentiu Marianne, fazendo com que Wanda Krupinsky a tomasse por uma mensageira. Este pensamento foi mais agradável para Wanda do que a suspeita que, em um primeiro momento, lhe veio à mente, suspeita esta de que a malditamente bela e malditamente jovem moça poderia ter mais coisas a ver com o seu inquilino, do que ela poderia admitir. Ela recebeu o pacote, dizendo:

— Vou colocar em cima da mesa para ele. Marianne agradeceu, cumprimentou e saiu.

Duas horas depois, Wilhelm chegava em casa, descobrindo que a luz ainda estava acesa na cozinha e encontrando a proprietária do seu quarto na mesa da cozinha, o resto de uma janta que havia tempo esfriara e uma garrafa de licor na sua frente...

Na manhã seguinte, assim que despertou depois de uma noite maldormida, Wilhelm viu-se frente a frente com a questão sobre o que deveria fazer primeiro — dito de uma maneira melhor: o que afinal ele podia fazer. Era domingo e os domingos não haviam sido criados para situações do tipo com o qual ele lidava naquele momento.

Ele precisava de um abrigo. No entanto, todos os lugares estavam fechados. Nenhuma repartição estava aberta, nenhum posto da assistência social, nenhuma agência de aluguel de quartos, nenhum lugar onde, em desespero, pudesse perguntar. Também a firma, na qual Wilhelm trabalhava, ficava às moscas nos fins de semana. Se não fosse isso, talvez ele pudesse solicitar a ajuda de seu chefe, que o tinha na mais alta conta, ou de seus colegas de trabalho, que neste meio tempo já haviam aprendido a estimá-lo.

Que fazer? Não havia nenhuma resposta razoável para esta pergunta — pelo menos não para Wilhelm. Quando lhe passava pela cabeça o pensamento ”Mariane”. ele imediatamente tratava de suprimi-lo. Era orgulhoso demais para pedir ajuda a ela.

Naturalmente que ele andou pelas ruas... sem planos, sem objetivo, sem rumo. Só o fazia para não estar ao lado de Wanda Krupinsky depois de tudo o que ela lhe dissera. Muitas horas depois, ele aproveitou a única possibilidade que lhe era oferecida em um domingo — foi a uma pensão. As poucas coisas que possuía foram rapidamente tiradas da residência de Wanda. Do total do pagamento adiantado pelo aluguel, a proprietária do quarto teria de lhe devolver 75 marcos. Contudo, Wilhelm renunciou a eles. Viu nisto uma oportunidade para a primeira e última palavra daquele dia, que ele dirigiu furioso à Wanda:

— Senhora Krupinsky, este ser o pagamento por dormir no seu quarto.

Ela respirou com dificuldade.

— Seu... seu...

A porta fechou-se, impedindo a comunicação entre Wanda e Wilhelm. Tudo que Wanda, mesmo atrasada, pôde lembrar para xingá-lo, já não mais alcançou Wilhelm.

Então, depois que foi tirado de Wilhelm o estigma de desabrigado com a mudança para a pensão, pôde espalhar-se em sua cabeça, novamente, a imagem de Marianne. Não havia mais nenhum empecilho ao desejo de revê-la. Wilhelm partiu para o Girassol.

Como quase sempre ocorria nos domingos à tarde, o restaurante estava pouco cheio. Não havia nem dez pessoas. Deles podia-se supor que nem eram casados, nem noivos e nem ao menos namoravam uma garota, pois caso contrário não lhes seria permitido instalar-se em uma mesa de taberna àquela hora do dia. Aos domingos, a mulher alemã tem o direito de dispor sobre seu marido.

Wilhelm tornou a sentar-se em ”sua” mesa. Foi atendido pelo garçom Heinrich. Somente ele o conhecia. Todos os outros presentes não se encontravam no dia anterior no Girassol, portanto nada sabiam do que por lá ocorrera e das pessoas que tomaram parte na ocorrência. O balcão também estava vazio. A pouca cerveja que era pedida, o próprio Heinrich podia tirar na serpentina. Não havia necessidade da presença do proprietário.

Depois do cumprimento, Heinrich dirigiu a Wilhelm a pergunta:

— Onde esteve você esse tempo todo? Wilhelm sorriu ironicamente.

— Você sentir minha falta? — balançou a cabeça. — Isto ser desnecessário. Eu não bom freguês.

— Não se trata de mim — respondeu Heinrich com um piscar de olhos.

Wilhelm ruborizou-se.

— O que desejaria beber? — prosseguiu Heinrich. — Suponho que deva ser uma cerveja.

— Por favor — disse Wilhelm.

O garçom foi até o balcão, voltou trazendo a cerveja e colocou-a na mesa de Wilhelm. Em o fazendo, disse:

— Esta é por minha conta.

— Por quê? — perguntou Wilhelm surpreso. — Eu não aceitar.

— Não lhe resta outra coisa a fazer — Heinrich sorriu com ironia — simplesmente porque não vou computar este copo. E tampouco algumas tulipas mais. E o que é que você vai querer fazer contra isto? — e sem deixar que Wilhelm tomasse a palavra, prosseguiu: — E então, devo agora informar a senhorita Berger que você está aqui, ou não? A propósito, foi ela mesma quem me encarregou disto.

— Sim — respondeu Wilhelm radiante.

Também Marianne a primeira coisa que fez, foi externar a mesma recriminação de Heinrich, perguntando-lhe onde estivera todo aquele tempo. Ela já estava pensando que ele havia sido preso. No entanto, um telefonema para a delegacia policial dissipou o receio. Mesmo assim...

— Você telefonar para a polícia? — interrompeu-a Wilhelm amavelmente.

— Sim.

— Você preocupada em mim?

— Comigo.

— O quê?

— Comigo, é assim que se diz.

— Obrigado — disse Wilhelm. — Mas isto dar no mesmo, tanto fazer em mim como comigo. De qualquer maneira você se preocupar, isto ser o decisivo. — E, cheio de felicidade, ele acrescentou: — Eu deixar me prender mais uma vez.

— Você ficou maluco?

— Não, feliz.

Via-se nele o quanto aquilo era verdade naquele momento. No entanto, Marianne ainda tinha algumas contas a acertar com ele.

— Quer dizer que você foi liberado ainda ontem, não é mesmo? — disse ela.

— Sim.

— Por que você não veio aqui de novo? Eu estava esperando que você agisse assim.

— Porque eu não saber se você ainda querer me ver mais uma vez ou falar... ou melhor que nunca mais.

— Como? — replicou Marianne. — Não estou entendendo. O que é que você quer dizer?

— De repente eu ser um criminoso, com o qual a polícia se ocupar publicamente.

Marianne não pôde mais se conter e gritou:

— Seu idiota!

— Sim — assentiu Wilhelm feliz.

— Como pôde você pensar tal coisa?

— Então depois eu ver rapidamente que eu ser um estúpido. Ver pelo pacote que você levar para minha casa enquanto eu estava na polícia. — De repente, a expressão de felicidade de Wilhelm tornou-se séria, quando ele prosseguiu: — Mas eu não aceitar com exceção da folha de papel com a poesia.

— Wilhelm! — disse Marianne interrompendo-o.

— Sim?

Ele a fitou, preparado para ser esquartejado por ela. Com a mordacidade de seu tom de voz, Marianne involuntariamente apresentou uma prova de aptidão para o casamento.

— Você está querendo me insultar de novo?

— Marianne, eu não querer isso nunca — protestou ele, colocando a mão sobre o coração.

— No entanto, você o vem fazendo ininterruptamente... ontem, com o que você me julgou capaz de fazer e hoje com o pacote que você me joga na cara.

Wilhelm assustou-se:

— Marianne, claro que eu não o jogar na sua cara.

— Mas é assim que eu considero isso.

— Você me chantagear.

— Mais uma vez, outro insulto.

— Por favor, não.

— Então, faça o favor de parar com isso.

— Sim — disse Wilhelm suspirando.

Depois que o caso foi concluído desta maneira, Marianne abrandou o grau de sua severidade, sorriu de leve e perguntou:

— Onde é que você esteve hoje o tempo todo?

— Hoje?

— Sim. A senhora Krupinsky não sabia.

— A senhora Krupinsky? Você falar com ela? — foi com muito esforço que Wilhelm conseguiu proferir a frase.

— Sim. Hoje à tarde. Eu estava querendo ver você. Ela não lhe disse?

— Não.

— É, ela também foi bem lacónica comigo.

Wilhelm tornou a sentir-se aliviado.

— Ela não falar muito para você?

— Somente algumas palavras inamistosas. Praticamente, ela bateu a porta na minha cara. Uma pessoa bem descortês.

— Muito descortês.

— E onde esteve você?

— Eu precisar procurar quarto para mim.

— O quêêêê? Como assim? Mas se você tem um, não?

— Não mais. A pessoa descortês me despejar. Sem aviso prévio. Ontem.

Marianne achou de imediato que sabia a razão.

— Essa mulher idiota! Por causa da polícia, não?

— Sim — assentiu Wilhelm.

— Mas por que você lhe contou?

— Ela me perguntar de onde eu vir.

— Puxa, mas você devia ter-lhe dito alguma outra coisa. Wilhelm deu de ombros sem dizer nenhuma palavra. O que aconteceu, aconteceu, é o que se diz, não se pode mudar mais.

Também Marianne não se deteve por mais tempo a pensar no que ocorrera, mas sim no que era necessário agora. Com isto, como logo ficou demonstrado, ela viu a coisa de maneira bem clara.

— Naturalmente, você não encontrou nada, assim tão rapidamente — disse ela.

— O domingo ser dia difícil para esse tipo de coisas — respondeu ele. — Mas amanhã já ficar melhor de novo.

— E até amanhã, onde é que você vai ficar?

— Em uma pensão. Já está acertado.

— Quanto custa?

— Quarenta e cinco marcos.

— Com café da manhã?

— Sem.

— Mas esses caras são uns malucos. — Ela pôs o polegar na boca e, em seguida, mordeu-o. Sempre o fizera quando pequena, quando alguma decisão estava sendo amadurecida.

— Você já pensou que isto pode durar duas, três semanas, até que encontre de novo um quarto?

Wilhelm assustou-se visivelmente.

— Eu não acreditar nisso — ele mesmo encorajou-se.

— Pode sim, claro que pode... até mesmo mais tempo, é o que temo — Marianne não o poupou.

— Por que você temer?

Nesse momento, ela hesitou um pouco, antes de dizer:

— Wilhelm, você... veja você... eu acho, claro que por toda parte vai ser, como você imagina, a impressão que você desperta... a falsa impressão que desperta de que você é estrangeiro.

Wilhelm calou-se.

— E você sabe muito bem como é isto por aqui — prosseguiu Marianne.

Wilhelm assentiu com uma expressão sombria.

— Sim — foi a única coisa que disse, para depois tornar a calar.

— Mas eu já sei o que faremos — explicou Marianne, com um sorriso nos lábios.

Ele olhou através dela. De repente ele parecia estar bem distante com seus pensamentos, tanto que Marianne perguntou-lhe:

— Por que você não diz nada? Ele replicou lentamente:

— Eu refletir se não ser melhor não sair embora da Rússia.

— Não — retorquiu Marianne espontaneamente — claro que não teria sido melhor.

- Sim.

— Não.

Bem sério, ele disse:

— Se contar tudo, então talvez só existir uma razão para ficar na Rússia não ser melhor.

— Qual?

— Porque lá eu não encontrar você.

O rosto de Marianne se abriu como uma aurora.

— E eu não encontraria você — disse ela.

Isto o fez estremecer. Ele perguntou com o mais profundo interesse:

— Eu ouvir direito?

— O quê?

— Você dizer ”você”?

— Eu disse isso? — replicou Marianne, presumivelmente espantada.

— Sim.

Ela suspirou.

— Bem, então deve ter sido mesmo.

— Mas você querer retirar o que dizer — receou ele.

— Não. ”

— Não?

Existem limites para a paciência do amor, limites que se rompem. Como aquele que se rompeu naquele momento.

— Não, seu cabeça-oca — disse Marianne, acrescentando rapidamente: — meu querido.

Reinou o silêncio e, no fundo, até que era bem natural. Marianne dissera no momento tudo que achava que devia dizer... E Wilhelm não pôde dizer nada. Era incapaz de expressar os sentimentos que dele se apossaram. Mas os olhos com que fitou Marianne falaram muito claramente. Assemelhavam-se a oceanos de felicidade.

Os outros fregueses não perceberam o que estava acontecendo à sua volta. Somente o garçom Heinrich, que não se esquecera de manter os olhos na filha de seu chefe, foi surpreendido por um certo pressentimento, ao ver que Marianne deixava-se acariciar a mão que tinha em cima da mesa pelo conhecido. É bem verdade que isto ocorreu bem tímida e rapidamente, mas mesmo assim, Marianne permitira. Em se tratando dela, isto era algo completamente novo. Com isto — e não somente com isto — haviam sonhado muitos jovens fregueses do Girassol, mas a nenhum deles isto fora concedido.

— Wilhelm — disse por fim Marianne — você vai buscar então as suas coisas.

— Que coisas? — perguntou ele, despertando de seu sonho de felicidade.

— As que você deixou na pensão.

Ele fitou-a sem nada entender.

— Que dizer você?

— Você se muda para cá.

Ele perdeu a fala.

— Para... para você?

Ela foi obrigada a rir da cara dele, enquanto respondia:

— Não, não, meu querido. Para nossa casa. Claro que nós não somos um hotel, mas alguns quartos nós temos. Você vai receber um deles.

Wilhelm refletiu durante pouco tempo.

— Não.

Marianne não se mostrou surpreendida com o fato, parecia até mesmo ter contado com isto; pelo contrário, teria se espantado se Wilhelm não se opusesse.

— Já vai começar de novo — disse ela, revirando os olhos. — Por que é que você não quer?

— Porque eu não ter necessidade disto.

— Pombas, mas é claro que você não vai ganhar de presente.

Ele cedeu um pouco.

— Não de presente? Eu pagar?

— É, seu pateta. Você é um freguês bem normal. Não se preocupe que o meu pai vai te cobrar, conheço ele neste terreno. A única coisa que eu não desejaria, é que você pague quarenta e cinco marcos por dia, basta a metade disto e, a bem da verdade, com café da manhã. Entendido? E, ao mesmo tempo, você pode procurar um quarto com calma. Eu também vou procurar. Talvez o meu pai, como já lhe disse, eu o conheço nesse terreno, espere um pagamento antecipado. Você está em situação disto?

— Naturalmente.

— Olha aqui, a coisa não me parece ser tão natural assim não. — O momento é agora, pensou ela. — Você ganha tão bem assim?

— Sim. Com horas extras. E eu poupar.

— Que faz você afinal?

— Elétrico.

— Elétrico o quê?

— Eu ser eletricista — replicou ele. — Lá na Storm. Elektro-Storm era a maior firma nesse ramo em Gelsen- kirchen.

A alegria de Marianne estampou-se em seu rosto. Mas ela aborreceu-se também um pouco e por isso perguntou-lhe:

— Diga-me uma coisa, por que foi que você só me disse isso agora?

— O quê?

— A sua profissão.

— Porque só agora você me perguntar. Marianne não conseguiu conter um suspiro.

— Sim — disse ela — é verdade.

E em seguida, Wilhelm quis saber mais alguma coisa dela.

— Que ser isso, pateta?

— Pateta? — ela espantou-se consigo mesma•-! Wilhelm, eu não estava querendo insultá-lo.

— Insultar? Mas eu saber nem o que isto ser.

— Neste caso, vou lhe dizer — retorquiu Marianne com um sorriso nos lábios. — Isto pode ser uma pessoa bem estúpida, que deixa a gente perder a paciência, que se tem vontade de mandar para a lua, mas pode ser também uma outra coisa muito, muito querida, uma criatura, você entende?, que a gente gosta muito, que se... puxa, como posso dizer... depende da maneira como se diz ”pateta”, ”seu pateta”... carinhosamente ou com raiva, você entende? Isto é que decide.

— Eu entender — Wilhelm fez que sim com a cabeça.

— Sim?

— Eu agora saber muito bem, quem ser pateta.

— Ora, quem? - Wilhelm irradiou-se.

— Você.

Tais problemas de sentido entre Wilhelm e Marianne ainda perdurariam um pouco no futuro.

O garçom Heinrich chegou à mesa, para lembrar que estava à disposição a qualquer momento. Marianne pediu que lhe trouxesse uma xícara de café da máquina do balcão.

— Mas assim que eu terminar com ela — disse para Wilhelm — você vai se pôr a caminho de sua pensão. — Contudo, antes ela deixou que ele fizesse um relatório sobre o que era mais importante: o interrogatório policial.

— Afinal, de quem foi a denúncia? — perguntou ela.

— Do ferido.

— Ah, aquele porco! Foi ele mesmo que quis pular em seu pescoço!

Isto só correspondia à meia-verdade, mas não era nenhum milagre que Marianne visse a coisa daquela maneira. Na denúncia constava, informou Wilhelm, que ele havia sido o agressor.

— Espero que você tenha corrigido isto — disse Marianne.

Tudo havia demorado muito tempo, explicou Wilhelm. A causa: seu péssimo alemão. Muitas frases tiveram de ser mudadas três vezes, antes de estarem em condições de serem anotadas no protocolo.

— Estou lhe perguntando se você corrigiu isso — repetiu Marianne.

— O quê?

— Que você seria o agressor. Wilhelm assentiu solícito.

— Eu dizer para eles, o que o cara disse antes para você.

- E daí?

Wilhelm fitou-a sem dizer palavra alguma. A expressão de seu rosto era um imenso sinal de interrogação, como se ele estivesse querendo dizer: como assim, e daí?

— Você contestou o mais importante? Para você estava claro o que tinha importância, ou não?

— Certo.

— O que então?

— Para mim o que importar, era o que o cara dizer antes para você. O resto não ter importância.

Marianne desistiu.

— Para você sim — suspirou ela. — Mas não para a polícia, para o tribunal. Desse jeito você vai acabar parando na cadeia.

Dando de ombros, Wilhelm replicou:

— Se para a polícia e o tribunal a honra de uma mulher não ter valia, então eu suportar ir para a cadeia. Ir para qualquer lugar por sua causa, Marianne.

Em se tratando de qualquer outro, Marianne teria caído na gargalhada se lhe dissessem isso... em se tratando de Wilhelm, não. Wilhelm fazia-a sentir a mais profunda seriedade escondida atrás destas palavras.

— Nós precisamos de um bom advogado — reconheceu Marianne.

Bem, que ele precisava de um advogado, já lhe haviam dito, inclusive na polícia e agora ela lhe comunicava. Saberia ela de algum?

Era uma questão de dinheiro, replicou ela.

Neste caso, explicou Wilhelm, ele preferia ir para a cadeia.

E desta maneira chegou-se mais uma vez a um ponto, onde novamente descarregou-se o temperamento de Marianne. Sentada, ela bateu com os pés no chão e disse que se ele não parasse naquele momento com aquela loucura, iria acabar deixando-a maluca. Poderia ele ter uma ideia do que significava para alguém, o fato de ter passado pela cadeia? Se ele quisesse casar-se com ela...

— Ou será que você não quer casar-se comigo? — ela mesma interrompeu-se.

Frase esta que pareceu ter-lhe roubado a respiração, e depois de ter ficado durante segundos com os olhos arregalados para ela, ele só disse uma coisa:

— Marianne...

Esta foi portanto a cena em que Wilhelm e Marianne — surpreendendo-se a si mesmos — ficaram noivos; surpreendendo no sentido em que tudo isto chegara tão rapidamente e tão cedo. Por assim dizer, caindo como um raio.

A questão era: o que diriam os outros a esse respeito.

Theodor Berger e sua mulher Sabine haviam aproveitado a tranqüila tarde de domingo para irem ao cemitério colocar em ordem as sepulturas de seus pais. Esta tarefa era empreendida por eles em espaços de tempo irregulares, de acordo com o clima reinante. Caso chovesse muito, as ervas daninhas deviam ser retiradas com mais freqüência. As duas sepulturas, que eles tinham sob sua guarda, não estavam distantes uma da outra. Começavam pela sepultura dos pais de Theodor, depois seguia-se a outra. Theodor era um homem que queria saber de tudo muito bem-arranjado. Por isso, também já estava decidida a questão de onde ele e Sabine deviam repousar um dia. O acordo, ao que haviam chegado, era: aquele que morresse primeiro, iria para a sepultura de seus pais; o outro seguiria depois para lá.

Neste dia, Theodor sugeriu, quando deixaram o cemitério depois do trabalho feito, que dessem uma passada na casa de sua irmã Grete. Ela era uns doze anos mais velha do que ele e vivia em um asilo de velhos. Sabine concordou com a proposta de Theodor, que como de hábito mais se assemelhava a uma ordem. E desta maneira, Grete Berger, que permanecera solteira a vida inteira, teve o inesperado prazer de poder contar mais uma vez para seu único irmão, os problemas que ele tivera na escola. E assim ela conseguiu, contrariada, amargar a visita que Theo lhe fazia, tanto que quando ele deixou o asilo de velhos acompanhado de Sabine, dirigiu a esta a pergunta sobre de quem teria dado a ideia daquela visita. Na certa, dela!

Em casa, ele disse para sua filha:

— Marianne, estivemos com sua tia Grete. O que é que ela conta pra você, nas vezes em que você a visita?

— Ora, tudo que é possível — replicou Marianne. — Na maioria das vezes, tudo o que o médico constatou no último exame. E fala também que não devo cometer nenhum erro com os homens.

— Nada mais?

— Quase nada.

Theodor balançou a cabeça satisfeito e depois perguntou:

— Esteve tudo em ordem por aqui durante a nossa ausência?

— Sim — disse Marianne. — Consegui alugar um dos três quartos do segundo andar.

E com isto, Sabine sentiu-se solicitada. Explicou que a cama ainda tinha de ser trocada.

— Isto já estava arranjado — disse Marianne.

— E vocês sabem — prosseguiu ela — para quem eu aluguei o quarto?

— Deixe-me adivinhar — disse Theodor irónico. — Para Anastásia, a filha do Czar.

— Para Wilhelm Thiirnagel.

Theodor e Sabine fitaram-se mutuamente. Em seguida, Theodor pigarreou e perguntou à Marianne:

— Como foi isso?

— Ele precisava de um lugar para ficar. A proprietária de seu quarto o despejou.

— Assim, da noite para o dia?

— Sim, sem aviso prévio.

— E por quê?

— Por causa de suas dificuldades com a polícia.

— Compreensível — assentiu Theo. — As pessoas não gostam de locatários assim.

Marianne manteve-se calada. Não tinha a menor vontade de entrar naquele assunto.

— A única coisa que não estou entendendo — prosseguiu Theo — é o que ele está querendo aqui agora.

— Morar.

— Como inquilino?

— Não, como cliente de uma hospedaria.

Theodor sentiu necessidade de acender um cigarro. Coisa que demorou algum tempo. Então, depois de lançar em direção ao teto duas, três baforadas, disse, mexendo o cigarro entre os dedos e encarando-a:

— Como você vê, minha filha, é exatamente isto que nós não somos. Isso aqui não é nenhuma hospedaria, mas sim um mero restaurante, portanto nenhum hotel ou algo parecido. Os poucos quartos que nós temos, funcionam como tal provisoriamente. Em resumo, nós não temos para oferecer aquilo que o senhor Thiirnagel está procurando.

— É, por um longo tempo, não — confessou Marianne.

— E tampouco por pouco tempo.

— Como não?

O tom de voz de Theo tornava-se, de resposta em resposta, cada vez mais duro. Seu olhar não se desviava do cigarro.

— Ele está nos confundindo com um asilo para flagelados.

— Não, ele não está não — disse Marianne bem tranqüila, mas decidida.

— Ele sabe quanto custa o quarto?

— Sabe.

— Bem, mas isto não basta. Eu teria que estar correndo atrás do meu dinheiro. E eu me recuso a isto.

E aquilo que fazia com que Theodor falasse mais alto, tornava a voz de Marianne mais baixa. Mas isto não tinha nada a ver com o fato de que ela estivesse recuando diante dele. Pelo contrário. Marianne era a típica filha de Theodor para se deixar intimidar.

— Ele pagará adiantado — replicou ela.

— Ele disse isso?

— Disse.

— E ele está em condições disso?

— Está.

— De onde vem o dinheiro? — Uma terrível suspeita assomou à mente de Theodor. — De você?

— Não — disse Marianne e a resposta bastou para ela. — Mas se fosse assim... e daí?

Foi a abertura de seu contra-ataque. Seu olhar penetrou fundo o olhar de seu pai.

— E daí? — repetiu ela, com Theodor não sabendo o que devia responder naquele momento.

— Neste caso você devia ganhar umas boas palmadas.

— Ou, então, você simplesmente meteria a mão na minha conta bancária, não?

— Certo.

— Ora, como?

— O que... o que significa este ”ora, como”? — perguntou Theodor hesitante.

— Isto significa que você não teria nenhum pretexto para o fazer, e você sabe disso.

Assim, Theodor sentiu-se, como se diz de maneira tão bela, crucificado, e procurou auxílio em Sabine que, segundo um velho costume, havia tirado para fora seu tricô e já trabalhava com suas agulhas.

— Diga alguma coisa você também! — exortou-a. As agulhas pararam.

— Ora, o que é que devo dizer?

— Você não estava escutando?

— Claro.

Com o dedo indicador bem esticado, ele apontou para Marianne.

— Essa aí ficou maluca!

— Theo, não grite assim.

— Por acaso eu devia cochichar?

— Com berros não vai conseguir nada melhor.

O sangue subiu à cabeça de Theodor, ele explodiu:

— Vocês sabem o que podem fazer? Eu não sou o idiota de vocês! Façam o que quiserem! Vocês já vão ver onde vão parar!

E com isso, caminhou até a porta, abriu-a, saiu, bateu-a atrás de si, deixando claro onde deviam procurá-lo o resto da tarde, caso quisessem encontrá-lo: atrás de seu balcão.

Sabine, surpreendida pelo mesmo destino de muitas mães, o de ser lançada entre dois fogos, lançou um olhar de recriminação para sua filha, suspirou e disse:

— Filha, você não pode afligir seu pai tanto assim. Você não viu como ele começou a tremer imediatamente?

— Não, eu não vi não — respondeu Marianne.

— Bem, pelo menos ele esteve a ponto de tremer, eu o conheço melhor do que você. Ele não é tão estável assim, como parece. Estas cenas prejudicam a saúde dele. Infelizmente, nos últimos tempos elas têm sido bem freqüentes. E não havia isso antes.

— Só porque eu vivia dizendo sim e amém para tudo.

— Nenhum de nós exigiu isto de você antes e nenhum de nós está exigindo agora.

— Mãe — disse Marianne — vamos deixar disso. Eu sei muito bem o que foi que mudou a atmosfera da nossa família. Mas papai engana-se, e você também se engana, mãe, se vocês dois pensam que o velho estado de coisas poderá ser restabelecido.

Sabine lançou um olhar desamparado à sua volta e, mais uma vez, suspirou.

— E tudo isto por causa desse homem — disse ela. — E olha que você nem ao menos sabe o que ele faz.

— Engano seu, agora eu sei.

— Sim? E o que é?

— Ele trabalha na Storm.

— Na Elektro-Storm?

— Sim.

— Como quê?

— Como eletricista naturalmente.

— Olha aqui, tão natural assim isto não é. Afinal eles têm também auxiliares e motoristas de caminhão e pessoas assim.

Mais uma vez, Marianne ficou com o pêlo todo eriçado.

— E naturalmente que você aposta como ele é auxiliar. Para Sabine, seria aconselhável que tivesse cuidado, no entanto ela replicou:

— Sabe de uma coisa, eletricista não é algo assim tão magnífico.

— Mas dono de restaurante sim! — foi o que saiu da boca de Marianne, soando como um estampido.

O silêncio espalhou-se pela sala, até que novamente a mãe Sabine pôs-se a tricotar e o leve ruído das agulhas tornou-se perceptível. Meu Deus, pensou ela, se o pai dela tivesse escutado isto! Que foi que aconteceu com esta criança!

Em pouco tempo, Wilhelm Thurnagel notou o que os pais de Marianne, sobretudo o pai, esperavam dele: ele deveria desaparecer o mais rápido possível dali. É bem verdade que isto não lhe foi dito abertamente, mas seria preciso que ele tivesse a pele de um elefante, para não sentir o quanto era rejeitado. Significativo foi o seguinte acontecimento:

— Senhor Thurnagel — disse Theo já no segundo dia para ele — o senhor faz questão do café da manhã?

— Fazer questão? — respondeu Wilhelm confuso. — Não.

— Ótimo. Isto só seria um peso para minha mulher. Deste modo, haverá uma redução correspondente no preço do quarto.

Mas que disse Marianne sobre isto? Ora, durante dois dias não soube nada a respeito da coisa, pois os pais nada lhe disseram e Wilhelm, por sua vez, manteve-se calado. No entanto, ela mesma descobriu tudo facilmente, porque foi colocar um buquê de flores no quarto de Wilhelm e viu as compras para o café da manhã do dia seguinte. À noite, quando ele chegou do trabalho, ela perguntou-lhe que significava aquilo. Por bem ou por mal, ele teria de dizer-lhe naquele momento. Marianne empalideceu, depois ruborizou-se. Ao vê-lo, Wilhelm disse rapidamente:

— Você não se agitar. Para mim isso não ter a menor importância.

— Mas para mim tem!

— Eu poder comprar para mim salsicha e queijo ou geléia, segundo minha própria escolha.

— E como consegue você pôr alguma coisa quente no estômago? Como consegue café ou chá?

— Não precisar.

Isto não interessava a Marianne.

— Qualquer pessoa precisa de algo quente — disse ela. — Além do que, isto não representa nenhuma carga adicional para minha mãe.

— Claro que sim, eu acreditar nisso.

— Um disparate! Afinal de contas você não é o único freguês no café da manhã.

— Mas sou aquele que acordar mais cedo do que os outros.

A propósito, isso era verdade. Wilhelm não trabalhava oito, mas sim dez horas por dia e, por este motivo, saía de casa bem cedo pela manhã. Marianne sabia muito bem que somente isto não seria motivo para que o serviço fosse limitado para Wilhelm, mas de qualquer maneira servia como pretexto. Rapidamente decidida, ela disse:

— Está bem, então eu o farei.

— O quê?

— Seu café.

Em consequência, Wilhelm reiterou, somente então com razão, que não precisava de café nenhum. O café chegava até mesmo a prejudicar seu estômago, que com ele não estava acostumado. Ela devia saber a raridade que era o café em grãos na Rússia.

— Neste caso, você vai tomar chá — disse Marianne.

— O mesmo valer para o chá.

— É mesmo? — disse Marianne, quase sendo obrigada a rir. — E o que foi que nós bebemos aquela noite em seu quarto? Quem foi que me contou sobre o que tinha trazido às toneladas da Rússia? Quem foi que se lastimou por não ter trazido o samovar? Diga-me, quem foi?

Portanto, a partir daquele momento, Wilhelm seria servido por Marianne no que fosse necessário pelas manhãs. Quando a mãe Sabine viu que ela — assim como também seu marido — haviam chegado a este ponto, teria girado para trás a roda dos acontecimentos com o maior prazer, mas agora foi a vez disto ser recusado por Marianne.

— Pode deixar, mãe — disse ela — agora as coisas andam direito desse modo. Eu também não poderia imaginar seu café ou chá sendo aceitado por Wilhelm.

— Ele disse isso?

— Não.

— Ora, e então?

— Mas ele pensa assim. Qualquer outra coisa não seria normal. E se você me pergunta, acho isso absolutamente correto da parte dele.

— Marianne, eu...

— Você está sob a pressão de papai, eu sei. Mas você não pode mentir sobre o seu envolvimento nisso. Mas vocês dois podem ficar descansados que o quarto de Wilhelm ficará livre o mais rápido possível. Ele mesmo tem muito pouco tempo para sair em busca de uma casa, mas eu vou ajudá-lo. Aliás, já o estou fazendo.

— Você?

— Sim. E não descansarei enquanto não for bem-sucedida. Para uma pessoa como ele, isso não é tão fácil assim. Mas então — disse Marianne — vocês vão ficar sabendo que, para vocês também, teria sido melhor se ele tivesse continuado morando aqui.

— Como assim?

— Porque eu ficarei muito tempo ao lado dele, mais do que com vocês.

Isto atingiu Sabine no meio do coração. As lágrimas rolaram de seus olhos.

— Marianne — disse ela — com que então você se esquece de que nós somos seus pais?

Theodor expressou-se de forma bem parecida, quando à noite Sabine informou-o na cama do aviso de Marianne.

— Ela não pensa mais em nós — opinou ele — porque senão ela não seria capaz de dizer uma coisa destas para você.

— Theo, que devemos fazer?

— Uma coisa é certa: se nós não a impedirmos, ela correrá em direção à própria infelicidade.

— Eu acho que não conseguirei suportar isso. Afinal ela é nossa filha única.

Durante algum tempo, Theodor não disse nada. Em seguida, ele projetou a coisa toda em um quadro global, proferindo com um vociferar:

— Esses políticos de merda!

E como Sabine não percebeu a inter-relação, ele prosseguiu:

— É a eles que nós devemos agradecer todos esses expatriados.

Nove dias mais tarde, Wilhelm mudou-se do Girassol e, a bem da verdade, precipitadamente. Theodor lançara mão do último meio.

Este meio consistiu no fato de cuidar que a mulher e a filha novamente fossem fazer compras em Essen. Isso significava que elas estariam fora de casa. Dessa maneira, Theodor proporcionou-se a oportunidade de conversar com Wilhelm sem ser molestado ou, melhor dizendo, de ”repreendê-lo”. Para isto, foi procurá-lo em seu quarto e não perdeu muito tempo, mandando ao surpreso e também transtornado Wilhelm que se sentasse, dizendo:

— Trata-se de Marianne...

Confuso como estava, Wilhelm não soube o que dizer de imediato. Procurou uma resposta. Coisa que para Theodor demorou demais.

— Eu não permitirei que o senhor faça a infelicidade dela — prosseguiu ele — e que assim o senhor leve minha mulher pra sepultura. E foi ela mesma quem já me avisou disso.

Subitamente, Wilhelm perdeu toda a cor.

— Senhor Berger... eu... eu — balbuciou ele — preferir eu mesmo morrer do que... do que querer isso.

— Neste caso, tire as mãos da nossa filha.

— Tirar as mãos? — de repente, brilhou uma perigosa luz nos olhos de Wilhelm. — Eu não gostar de escutar tais palavras em se tratando desse assunto, também não do senhor, senhor Berger. Minhas mãos ainda não estiveram em sua filha.

— O senhor está entendendo errado — disse imediatamente Theodor que, com a rapidez de um raio, teve consciência de que não poderia irritar um tigre. — No alemão, esta expressão idiomática não tem o sentido que o senhor lhe deu nesse momento.

— Que sentido então?

— Que o senhor terá de tirar Marianne de sua cabeça.

— Esquecer?

— Sim, no melhor dos casos.

— Isto ser impossível.

— Como assim?

— Porque eu a amar — disse Wilhelm sorrindo. Novamente, ele havia se tranqüilizado.

— Se isto for verdade — explicou Theo, que fora até o quarto com uma firme decisão e que não tinha nenhuma vontade de se deixar dissuadir por nada— a primeira obrigação que o senhor tem, é a de não fazer Marianne infeliz.

— Eu não entender o que o senhor dizer. O senhor poder falar?

Theo pigarreou antes de começar a pôr os pingos nos ”is” para Wilhelm.

— Veja só, senhor Thúrnagel, não daria certo você com Marianne. Não vou querer ocultar o fato de que, hoje, Marianne está completamente convencida do contrário... e o senhor, pelo que me diz, também. Mas que resultaria disto, se vocês dois não pararem de andar um atrás do outro? Um casamento, é o que o senhor deve estar pensando, na certa. Mas que tipo de casamento! Um que deverá fracassar depois de muito pouco tempo. E por quê? Simplesmente, porque vocês dois não foram feitos um para o outro. É muito grande a diferença entre vocês, sob todos os aspectos. Eu espero que o senhor entenda o que estou dizendo, para que me seja poupado feri-lo. O senhor mesmo terá de examinar-se criticamente, sem nenhuma ilusão, e depois então fazer uma comparação com a nossa filha, se...

— Eu saber o que o senhor querer dizer — interrompeu Wilhelm. — Marianne ser rica, eu pobre.

— Sim — opinou Theodor secamente.

É bem verdade que Marianne não era, de maneira alguma, rica, só o era em relação a Wilhelm e nada mais, disse também Theodor.

— Eu já pensar muito a esse respeito — confessou Wilhelm.

— Sobre o quê?

— Que eu ser pobre e Marianne não.

Theo continuou escutando. Se esse cara aí já andou refletindo, disse para si mesmo, então só este fato já é um avanço. Talvez eu esteja arrombando uma porta que já está aberta nele.

— Em um casamento — opinou ele — que deve durar, o homem precisa poder satisfazer as reivindicações e desejos, com os quais a mulher esteja acostumada. Acredito que não esteja lhe dizendo nada de novo.

— Não.

— Na verdade, Marianne não é nenhuma filha de milionário, mas ela tem as suas roupas, suas jóias e, no próximo aniversário, ela vai receber de nós o pequeno carro com que sonha, desde que possa tirar sua carteira de habilitação. Mas não lhe diga isto, pois deve ser uma surpresa para ela. Dessa maneira o senhor vê quais são os hábitos de vida de nossa filha. Nosso restaurante rende isto; ele anda bem, como o senhor mesmo já deve ter observado. Marianne é nossa filha única. No fundo, eu e minha mulher trabalhamos a vida inteira só para ela. Caso ela sofresse algum naufrágio, isto seria a morte para minha mulher, como eu já lhe disse. E o senhor deve levar isto a sério. Portanto, agora o senhor já está avisado.

Theodor esperou uma resposta, possuído da mais extrema ansiedade. Naquele momento, ficaria decidido se ele estava arrombando portas já abertas ou não. Wilhelm ficou sentado, olhando fixo para a frente. Com uma voz sem nenhuma entonação, ele repetiu por fim:

— Eu já pensar muito a esse respeito. E depois de uma pausa, acrescentou:

— E também já refletir sobre outros pontos.

— Sobre quais? — perguntou Theodor.

— Que as pessoas pensar talvez que eu ser um caçador de dotes.

— É, ainda por cima tem isso — opinou Theodor Berger, assentindo solícito.

Quando então ele deixou o quarto, podia nutrir uma boa esperança. O quão boa, ficou demonstrado já meia hora mais tarde. Wilhelm desceu a escada, trazendo consigo toda sua bagagem. Afinal, não era tanta assim que ele não pudesse arrastar. Suas posses principais eram bem uns quatro mil marcos, que ele colocara de lado, desde que começara a trabalhar. Estavam em uma conta da Caixa Económica Municipal.

— Senhor Berger — disse ele — eu deixar o livre caminho para a felicidade de sua filha.

Theodor estava radiante em seu íntimo.

— O senhor está se mudando?

— Sim.

— Já agora?

— Sim.

Isto superava as expectativas mais ousadas de Theodor. Mais ou menos com boas maneiras, perguntou:

— O senhor sabe para onde?

— Na pensão.

— O senhor receberá de volta alguma coisa de seu pagamento antecipado — disse Theodor rapidamente, para impedir que Wilhelm pudesse refletir mais uma vez sobre sua decisão. E fez com que ao aviso sucedesse de imediato o fato, retirando da carteira a soma excedente. — Devo chamar um táxi?

— Sim, por favor.

Enquanto Theo esteve ocupado com o telefone, Wilhelm sentou-se em uma cadeira. Suas feições estavam como que petrificadas, seus olhos apagados.

— Mais uma aguardente? — perguntou-lhe Theo.

— Não, obrigado.

— Por minha conta, naturalmente.

— Não.

— Tampouco uma cerveja?

— Não.

Quando o táxi buzinou do lado de fora, Theodor Berger dirigiu uma última pergunta a Wilhelm Thiirnagel, que no fundo era inevitável:

— Que devo dizer para Marianne?

Infinitamente alheio, Wilhelm fitou-o:

— O correto que o senhor achar — replicou ele cansado e Saiu.

— Passe bem! — gritou-lhe Theodor.

Não houve eco. Ao entrar no táxi, Wilhelm não lançou nenhum olhar para o Girassol.

Bem, depois de constatado o pleno sucesso de Theodor, era de se esperar que a alegria se espalhasse no coração do galhardo lutador pelo interesse de sua filha. No entanto, tal não se deu. Somente durante alguns minutos, Theodor achou-se com boa disposição, depois ocorreu-lhe que ele se defrontaria com as perguntas de Marianne, coisa que provocou rugas de preocupação em sua testa. Diante de seus olhos espirituais surgiu um quadro de ”batata quente”, que ele ainda teria de segurar e esta expectativa cumpriu-se por completo pouco depois.

A primeira pergunta de Sabine quando de seu regresso referiu-se à cozinha. Se as moças arranjaram-se de maneira satisfatória.

— Completamente — explicou Theodor. — E vocês, como foram? Encontraram tudo que procuraram?

Marianne já estava abrindo os pacotes. A primeira bolsa de plástico que ela esvaziou continha dois pulôveres leves. Enquanto os tirava da bolsa e os colocava em cima da mesa, Marianne disse:

— Olha, veja, nós também pensamos em você, papai.

— É, eu posso precisar disto — assentiu Theodor, segurando um dos pulôveres. — Puxa, mas por que logo dois?

— Não, não — corrigiu-o Marianne — só um deles, pertence a você, este que você tem nas mãos. O outro ficaria muito apertado em você, dê uma olhada nele. O seu quem pagou foi mamãe.

— E o outro?

— Eu.

— Para você?

— Não, para Wilhelm — replicou Marianne sem hesitação. E riu. — Só você ou um cego não veria que este também é um pulôver para homem.

Agarrando o touro pelos chifres, Theodor disse:

— Oxalá você se tenha preparado para poder trocá-lo.

— Como assim? Sei muito bem que o tamanho está certo.

— Mas não se encontra mais aqui quem o iria receber.

— O quê? — balbuciou Marianne, olhando para seu pai como se este tivesse dito algo em chinês, algo do qual não dava para se compreender nenhuma palavra.

— Ele se mudou — disse Theodor.

— Mudou?

— Sim.

— Como assim? Para onde?

Theodor não respondeu nenhuma dessas duas perguntas, mas sim o que fez, foi dizer:

— Olha aqui, só para que você tome conhecimento... não fui eu que o desalojou.

A mãe Sabine deixou-se cair na cadeira mais próxima. Tinha medo do que estava por vir. Como medida de precaução, ela propôs:

— Não seria melhor eu fazer uma boa xícara de café para nós? Devo dizer que já no trem eu me alegrava, pensando em um bom café.

Marianne não lhe deu a menor atenção, de olhos fixos só em seu pai. — Se você não o desalojou, que foi então que você fez? — ela perguntou-lhe.

— Veja você — Theodor virou-se para Sabine — ela já começa de novo. Não acredita que esta foi uma decisão livre dele. E eu juro que ela não poderia sentir-se mais surpresa do que eu, quando ele desceu as escadas com todos os seus trastes nas costas.

Marianne caminhou até a porta.

— Onde vai você? — perguntou-lhe Theodor.

— Até o quarto dele. Não posso acreditar nisto.

— Bem, então convença-se você mesma.

A única coisa que Marianne ainda encontrou de Wilhelm, foi a louça e os talheres para duas pessoas que ela o havia presenteado. Tudo estava — sem nenhuma linha de explicação — em cima da mesa.

Marianne tornou a descer ao encontro dos pais, para dar seguimento à conversa com seu pai. Neste meio tempo, Theodor havia dado a Sabine um esboço rudimentar sobre o quadro do que acontecera.

— Pai — disse Marianne — me dê a carta.

— Que carta?

— A que Wilhelm deixou para mim. Não há nenhuma no quarto, portanto ele deve ter entregue uma a você.

— Você está enganada, ele não me deu nenhuma.

A expressão de Marianne tornava-se cada vez mais desconcertada.

— Impossível!

— Olha aqui, você acha que eu ocultaria algo de você?

— Não, isso não — hesitou Marianne — mas... Calou-se e seus olhos umedeceram-se. Ao vê-los, sua mãe ficou de coração partido e, apesar de que o seu interesse coadunava-se com o de seu marido, ela perguntou-lhe:

— Ele não teria deixado algo verbalmente para ela?

— Não — replicou Theodor — apesar de que eu tenha perguntado o que deveria dizer para Marianne.

— Você lhe perguntou?

— E até mesmo de maneira formal.

E olhando de um lado para o outro, entre Sabine e Marianne, Theodor disse:

— Vou contar para vocês bem direitinho. Ele me pediu que chamasse um táxi. Enquanto eu telefonava, ele ficou sentado em uma cadeira. Depois nós ficamos esperando. Eu lhe ofereci uma aguardente. ”Obrigado, não”, disse ele. Depois disso, uma cerveja. E também: ”Obrigado, não”. Quando o táxi buzinou lá fora, eu lhe perguntei: ”Que devo dizer para Marianne?” A resposta dele foi: ”O que o senhor achar que forcorreto”. Textualmente. Para mim isso significava: ”Estou cagando e andando”. — Theodor levantou os braços. — Ou por um acaso vocês entenderiam de maneira diferente?

— Não — opinou a mãe Sabine com a voz insegura, insegura porque para ela estava claro e límpido como água que daquele jeito colaborava para a dor e o desapontamento de sua filha.

Naquela noite, Marianne encharcou de lágrimas o seu travesseiro. Contudo, até a manhã ela já havia chorado tudo o que tinha direito e, quando chegou o momento de levantar, uma outra Marianne saiu da cama, diferente daquela que na noite anterior entrara rastejando no quarto. Tornara-se mais dura. Tinha atrás de si o primeiro grande desapontamento de sua vida. O homem, que ela amava, fugira dela. Ela acreditara que ele também a amava, mas claro que isto havia sido um engano, pois caso contrário ele não teria se aproveitado da primeira oportunidade surgida para colocá-la diante de um fato consumado. Aqueles olhos irradiantes, com os quais ele sempre a olhara antes, toda a aparência que ele apresentara outrora, tudo aquilo não devia ter passado de encenação. Mas por que isso? Por que as brigas por minha causa?, perguntou-se Marianne. Provavelmente, nem ele mesmo o saberia. Provavelmente ele é o tipo de gente, ela meteu na própria cabeça, que simplesmente sente prazer em ser violento e brutal. Ou não seria assim? Será que alguém não deveria ao menos perguntar-lhe? Mas quem? Eu mesma, obviamente.

Marianne chamou-se à razão: eu?! Serei eu que devo sair correndo atrás dele para pedir-lhe que se explique?!... Eu não!!!

Era orgulhosa demais para tanto. Era preferível forçar-se a destruir o resto de sua vida.

O mesmo valia para Wilhelm Thurnagel. Para ele também, não mais havia como voltar atrás. Ele também era um escravo de seu orgulho. Afinal, poderiam toma-lo por um caçador de dotes...

Passaram-se semanas; semanas durante as quais, usando-se um linguajar que não deixa margem a dúvidas, tudo provocava ânsias de vómito nos dois. Sentiam-se mortos de infelicidade, apesar de que para Wilhelm, como se pode dizer, as coisas não tenham andado tão mal assim. Ele achou rapidamente um quarto. Seu chefe providenciou para ele. Desta maneira, deixaram de existir novamente os custos exagerados da pensão. E depois, começou-se a pensar na firma em uma promoção para Wilhelm. Um indício seguro disto foi o fato de terem contratado uma tropa de eletricistas. Em princípio, por um período de teste, disseram, mas este esquema já era bastante conhecido; a regra era: a um ”período de experiência”, seguia-se a correspondente ”efetivação”. O aumento de responsabilidade significava para Wilhelm, como era natural, também um incremento notável de seu ordenado. Ele comprou uma motocicleta, a qual ele quase só utilizava para ir ao trabalho. Raramente, também a utilizava para passear um pouco pela região aos domingos. Em seu tempo livre, ele preferia aprender o alemão. Fazia-o encarniçadamente e, por incrível que pareça, teve rápidos progressos. Ele se colocara um grande objetivo como meta, objetivo este sobre o qual ele todavia não falava com ninguém. Para alcançá-lo, ele teria de fazer o que se chama de ”formação superior”. A formação superior consiste de cursos e escolas. A primeira condição prévia, para se atender a tais exigências, era o conhecimento perfeito do idioma. Wilhelm sabia disto e por isso ”metia a cara” nos estudos quase todas as noites, freqüentemente entrando madrugada adentro, para aprender a gramática alemã. Em termos de vocabulário, aliás, já nada lhe faltava. Seu objetivo era tornar-se engenheiro eletrônico. Todos que o conheciam, que tivessem tomado conhecimento do fato, não teriam duvidado em momento algum que ele o conseguiria. No entanto, tudo saiu de maneira tão, mas tão diferente...

E Marianne? Bem, ela não se colocara nenhum objetivo. Quando ela mesma se perguntava o que deveria acontecer com ela ou o que seria dela, a resposta que ela mesma se dava, era: acabaria como velha solteirona. Já não mais nutria nenhum interesse que pudesse evitar este perigo. Para ela, a humanidade parecia composta de um único sexo... o próprio. Somente de noite, quando dormia, a coisa era diferente. Então, segundo seus sentimentos, ela era ”perseguida” por sonhos, sobre os quais não tinha nenhum poder e que ostentavam todos o mesmo nome... Wilhelm.

Marianne era a moça mais infeliz que já pisou na terra, no entanto ela teria preferido morrer do que dar um único passo no sentido de se afastar de sua miséria interior.

Por conseguinte, os fronts entre Marianne e Wilhelm estavam, de uma certa maneira, completamente imobilizados e endurecidos. Mas em uma tarde de sexta-feira, foram colocados novamente em movimento. É bem verdade que nem Marianne e nem Wilhelm de nada suspeitavam. Somente semanas mais tarde isto se tornou evidente — com um olhar retrospectivo.

Como já foi dito, era uma tarde de sexta-feira...

Wilhelm e seu grupo terminavam o dia de trabalho. Enquanto os homens empacotavam os aparelhos, dois deles conversavam sobre um acontecimento importante que estava prestes a ocorrer: um jogo de futebol da equipe da firma. Ambos faziam parte do time, que figurava na divisão de equipes de firmas de Gelsenkirchen, porém até aquele momento só havia obtido resultados modestos. O próximo jogo — naquela noite mesma — ocorreria contra os onze de uma fábrica de pães. Esta firma dispunha de um pessoal em número bem maior do que a Elektro-Storm e portanto contava com uma reserva em termos de pessoal que era muito superior à dos ”Stormer”. Logo, as chances para esses últimos pareciam muito turvas. Só se podia alcançar, esperava-se, um ”honroso sair-se bem”.

Um dos dois integrantes do grupo de trabalho de Wilhelm disse:

— Bernd, quando penso em hoje à noite, tenho uma péssima sensação.

O outro replicou:

— Você acha, Friedrich? Eu não.

— Espero que nós não levemos um banho — disse Friedrich.

— Nós temos que nos posicionar todos lá atrás e defender, para que não sejamos abatidos por uma catástrofe — opinou Bernd.

— Justamente hoje vai nos faltar Karl-Heinz, o homem mais importante.

— Como assim, o que há com ele? — perguntou um terceiro, de nome Stummel, que estava prestando atenção à conversa dos dois. Stummel era seu apelido. Era assim chamado por ser muito baixo.

— Ele teve que ir até Augsburg — respondeu Bernd.

— Que foi fazer lá?

— Seu pai será enterrado amanhã.

— Merda! E quem vai ser seu substituto como líbero? Bernd deu de ombros.

— Eu não sei. Provavelmente o Kurt. Mas quem tem de ”fundir a cuca” com isso é o Udo.

Udo Holtkamp era o capitão do time. Jogava no gol. Kurt Brungs tanto podia ser aproveitado como atacante, quanto como jogador de defesa. Infelizmente, em ambas as posições ele era a própria mediocridade.

Stummel fez uma careta cética.

— É, a coisa está bem preta pró lado de vocês — opinou ele, dando seu resumo do que havia ouvido. — Na minha opinião, na situação de emergência em que estão, vocês deviam procurar um homem completamente novo.

— E onde conseguiríamos um, ou por outra, onde roubaríamos um? — suspirou Friedrich, e Bernd aprovou-o com um expressivo balançar de cabeça.

— E que tal Wilhelm? — perguntou Stummel. Wilhelm Thiirnagel encontrava-se a uma distância que não dava para escutar. Precisara aproveitar a oportunidade para telefonar para o escritório da firma e, naquele momento, estava em uma longa conversa ao telefone.

— Wilhelm? — responderam Friedrich e Bernd como de uma só boca.

— Sim — assentiu Stummel.

— Puxa, mas como você pensou nesse cara? — perguntou Bernd.

— É, uma vez ele deixou escapar que havia sido jogador na Rússia.

— Jogador?

— Pergunte você mesmo a ele. Afinal, vocês já sabem como ele é. A gente tem de arrancar as coisas de suas tripas.

Bem, pelo menos comigo ele deixou escapar a coisa, e quando eu quis aprofundar, ele fez sinal que não. Aquilo já tinha passado, segundo ele.

Bernd fitou Friedrich.

— Que acha você?

— Stummel tem razão — disse Friedrich. — Afinal não custa nada perguntar a ele.

E então, a coisa aconteceu da seguinte maneira:

— Wilhelm — disse Friedrich, quando o telefonema chegou ao fim — nós ouvimos que você já jogou futebol em seu país.

— Quem diz isso? — replicou Wilhelm.

— O Stummel.

Wilhelm parecia não estar muito entusiasmado com a conversa.

— O Stummel fala demais.

As pessoas dotadas pela natureza de uma estatura muito baixa são freqüentemente mais sensíveis do que os gigantes. Há razões de caráter psicológico. De imediato, Stummel se agitou:

— O quê?! Você está achando que eu sou alguma lavadeira?!

Wilhelm fez um gesto para acalmar o outro.

— Puxa, não precisa ficar logo insultado, eu não quis dizer isto.

No entanto, Stummel não deixou que ele escapasse assim tão facilmente.

— Você disse isso para mim ou não?

— O quê?

— Que você foi jogador em sua terra.

— Sim — respondeu Wilhelm contrafeito, acrescentando: — Mas eu também falei para você que isto tinha acabado. Você entende? Esse cadáver já está enterrado, portanto fim com esta história!

Stummel virou-se para Bernd e Friedrich.

— Vocês ouviram?

— Sim — disseram ambos, contemplando Wilhelm durante um longo tempo, até que o olhar tornou-se incômodo e ele perguntou:

— Que é? Que querem vocês?

— Nós estamos precisando de um líbero — replicou Friedrich.

— Bem, então por que não vão procurar um?

— Nós já o achamos — disse Bernd.

— Quem? — Wilhelm colocou a mão no peito. — Eu, por acaso?

— É — os dois assentiram.

— Vocês são malucos. E vocês querem saber por quê?

— Por quê? — perguntou Bernd.

— Por muitas razões. Em primeiro lugar porque eu nunca joguei na posição de líbero.

— Onde é que você jogava?

— No ataque.

— Também está bem — disse Friedrich. — De qualquer maneira podemos ter muito mais necessidade de você por lá.

— E em segundo lugar porque eu não tenho equipamento, não tenho chuteiras e tudo o mais.

— Você vai ganhar. Pelo tamanho, tudo de Karl-Heinz deve servir em você.

— De qual Karl-Heinz?

— Karl-Heinz Groth. Um motorista da firma. O que normalmente é o nosso líbero. Talvez você não o conheça. Teve de ir a um enterro. E foi por causa disso que surgiu esse problema hoje.

— E em terceiro lugar — disse Wilhelm — porque desde que estou aqui, não tive nenhum treino. E vocês devem saber muito bem o que significa isso. Não estou com o menor fôlego. Por acaso vou usar também o de Karl-Heinz? — acrescentou ele em um tom irónico.

Aí estava um problema real. Friedrich calou-se e também Bernd pareceu estar resignado. Foi então que Stummel apresentou uma proposta que fazia sentido.

— E como seria a coisa com um meio tempo, Wilhelm? Claro que daria para você agüentar de qualquer maneira.

— Não! — Wilhelm foi categórico. — De uma vez por todas, não!

— Quer dizer que você vai nos deixar na mão?

Stummel tinha um talento natural para a psicologia. Conhecia muito bem os seus ”recrutas”. Quando viu a reação indignada de Wilhelm, intimamente já começou a esfregar as mãos.

— Que história é esta de deixar na mão! — protestou Wilhelm. — Não deixo ninguém na mão! O negócio aqui é bem diferente!

— Olha aqui, não é não — Stummel deu mais um passo à frente — mas talvez você não esteja tão interessado assim nisso que para eles, ou para mim, parece importante.

— Que quer dizer com isso? O que é tão importante para vocês?

— Jogar futebol.

— E para mim?

— A sua vontade de fazer fortuna.

Duas horas e meia mais tarde, o árbitro deu o apito inicial do encontro entre as equipes do pessoal que trabalhava na Elektro-Storm e o da Brot-Marten e nas fileiras do ”Stormer” encontrava-se Wilhelm Thúrnagel, esforçando-se em dar o melhor de si para dificultar a vitória do adversário.

E aquele ”melhor de si” tornou-se a sensação do dia...

No início, Stummel, que em todos os jogos como espectador quase que se empenhava mais do que os próprios jogadores, não se sentiu muito à vontade, pois ele era responsável por Wilhelm Thíirnagel, a mais completa das incógnitas, ter sido aceito na equipe. Caso ficasse constatado que aquela medida havia sido um fiasco, Stummel podia preparar-se para muitas coisas. Por isso mesmo, Stummel ficou andando de cima para baixo à margem do modesto campo de futebol colocado à disposição das equipes das firmas, constantemente acompanhado por um grupo de colegas de trabalho, que só estavam esperando para poder cair em cima dele, assim que chegasse o momento.

— Stummel — disse um deles — eu tenho a impressão de que isso vai lhe custar algumas rodadas de cerveja.

— Ou então a vocês — o próprio Stummel procurava dar-se coragem.

— Olha aqui, basta uma coisa para que a gente veja tudo preto — opinou um outro — o simples fato de que esse cara nem ao menos vai conseguir entender-se direito com seus companheiros de time, por causa do alemão que fala.

— Pois bem, quanto a isso — disse Stummel — você está redondamente enganado. Quando foi a última vez que você falou com ele?

— É bem verdade que já faz um tempão. Faço parte de um outro grupo de trabalho.

— Neste caso, vou informar a você que não o reconheceria mais. O cara está falando mais perfeitamente o alemão académico do que Adolf Tegtmeier o seu dialeto de mineiro.

— De minha parte, ele pode até publicar um livro, Stummel — um terceiro fez-se ouvir. — Mas pra mim, hoje seria mais importante que ele achasse a bola quando ela caísse na frente dos seus pés.

E todos eram da mesma opinião e até mesmo Stummel não foi capaz de contradizê-la.

Logo no início do jogo, apresentou-se um revés para o time dos eletricistas. Os padeiros atacavam; a bola foi chutada de seu campo para a frente; o número onze recebeu-a, correu ao longo da linha lateral esquerda e, na altura da zona da grande área, correu para o centro. Somente nesse momento, um defensor do time dos eletricistas precipitou-se em sua direção. Porém, antes que este pudesse alcançá-lo, o padeiro desviou rapidamente o jogo, mais uma vez, para a esquerda, para onde, neste ínterim, havia corrido um jogador de meio de campo do próprio time. Foi deste que partiu o ataque decisivo, depois de uns três ou quatro passos. Sem ser molestada pelos eletricistas, a bola voou em direção à sua grande área, indo cair exatamente na marca de pênalti. Lá, deveria estar postado Kurt, o líbero reserva dos ”Stormer”, pronto para entrar em ação. Mas ele não estava lá, mas sim perdido completamente em um outro ponto qualquer do campo. Foi desse modo que aconteceu que o número nove dos padeiros recebeu a bola com a maior tranqüilidade, controlou-a e pôde encaixá-la na meta de Udo. Para Udo, o capitão dos eletricistas, não havia a menor chance de evitar a fatalidade.

No entanto, isto não parou por aí. Não se haviam passado nem seis minutos e o mesmo se deu, quase exatamente da mesma maneira. A única diferença foi que agora o ataque partira da direita. Mais uma vez, o ponto fraco decisivo foi o líbero, que simplesmente estava completamente cego para o que ocorria em campo: o que lhe faltava por completo, era o que os experts chamam de ”posicionamento em campo”. Um líbero sem boa colocação é como um pescador sem rede de pesca. Quase não existe uma outra posição em que a colocação em campo seja tão importante quanto a de líbero.

Pois bem, a partida agora estava 2 a O para os padeiros e eram decorridos somente nove minutos de jogo. Os restantes 81 minutos só podiam tornar-se ”divertidos”... para os eletricistas.

Wilhelm Thúrnagel ainda não havia recebido nem uma única bola. Afinal, ele fora escalado para o ataque, estava sozinho lá na frente, esperando que lhe passassem a bola, coisa que não acontecia e sendo obrigado a assistir às ondas de ataque adversário armadas em cima da própria defesa.

O 3 a 0 esteve por um fio; mas um dos padeiros foi capaz da proeza de, a uma distância de quatro metros, chutar para fora do gol de Udo. Não pode continuar assim, pensou Wilhelm consigo mesmo, tomando a iniciativa de mudar sua tarefa em campo, passando de atacante desocupado para defensor sobrecarregado de trabalho. E foi desta maneira que assistiu-se à mencionada sensação.

Na primeira cabeçada, com a qual Wilhelm buscou a bola na altura da linha do gol, depois de Udo já haver sido batido, o público ainda estava inclinado a acreditar na famosa ”pontaria” que até mesmo uma galinha cega seria capaz de ter. Somente uma pessoa abriu as comportas para o entusiasmo, declarando:

— Vocês viram isso?

Essa única pessoa foi Stummel.

O segundo grande feito de Wilhelm não se fez esperar muito tempo. Com uma cabeçada oblíqua através da pequena área, ele inutilizou um perigoso chute em diagonal do adversário. Naquele momento já era certo que o jogo viveria, não uma virada, mas uma mudança. As ondas de ataque dos padeiros começaram de repente a chocar-se com os chamados rochedos da rebentação.

O resultado não voltou a mudar até o fim do primeiro tempo, apesar de que, como antes, os acontecimentos do jogo tenham-se dado sempre no campo dos eletricistas, portanto com os padeiros pressionando sozinhos. Durante o intervalo, as conversas de todos, tanto nos vestiários das equipes, quanto entre o público situado em volta do campo, giraram exclusivamente em torno de Wilhelm Thúrnagel.

— Me diga uma coisa — perguntou o capitão dos padeiros para seus companheiros de time — algum de vocês conhece o cara com o número nove do lado deles? Ou será que eles o compraram para hoje? Ele está jogando ilegalmente?

O capitão ficou sem resposta. Todos ali balançaram a cabeça ou deram de ombros.

— Afinal nós poderíamos protestar contra isso — disse o capitão.

No vestiário da equipe da Elektro-Storm, Udo expressava a opinião de todos, dizendo:

— Cara, você é o maior! Você já jogou na seleção da Rússia?

E Wilhelm respondeu com a respiração entrecortada:

— Agora eu estou liquidado, é o que lhes digo. Isto significa que só estou podendo jogar meio tempo. Vocês me permitem que eu os lembre disso?

Na confusão de vozes dirigidas em sua direção, sobressaiu-se uma que gritou:

— Você quer parar?

— Eu preciso.

O mesmo homem perguntou a todos:

— Alguém aí tem uma injeção para ele? Houve uma gargalhada geral.

Em seguida Udo disse:

— Seriamente, Wilhelm, nós precisamos de você. Sem você lá atrás, nós teríamos sido completamente triturados, foi o que ficou patente.

Wilhelm balançou a cabeça. Então Udo proferiu a palavra decisiva:

— Você não pode nos deixar na mão agora.

Wilhelm fitou-o com uma expressão de censura no rosto, olhou para o círculo de pessoas, observou os olhares de todos a ele dirigidos, deixou-se escorregar do banco em que estava sentado, caiu no chão, fechou os olhos e ficou deitado inerte, reunindo novas forças.

Do lado de fora, era Stummel o grande orador do dia. Um grupo, que se multiplicara por cinco, cercava-o. Não havia ali ninguém que pelo menos não o ultrapassasse em duas1 cabeças.

— E então, seus bananas — disse ele — espero que vocês já tenham contado direitinho o dinheiro de vocês. Ou será que algum de vocês ainda vai ter o desplante de afirmar que sou eu quem deve bancar uma rodada de cerveja?

Foi respondido por gritos de reconhecimento. Mas no fim lhe disseram que ele teria cometido um erro.

— Qual? — ele quis saber.

Depois de haver tomado conhecimento das qualidades futebolísticas de Wilhelm, ele deveria ter tomado a precaução de que, desde o primeiro minuto, a posição de líbero fosse dada àquele homem. Pois neste caso, a partida agora não estaria 2 a 0 para os padeiros, mas sim permaneceria 0 a 0.

— E por acaso eu sou algum Jupp Derwall? — respondeu Stummel. — Não vou me meter naquilo que é da competência de Udo.

As equipes voltaram ao campo. Surpreendentemente, os ”Stormer” foram cumprimentados com calorosos aplausos de parte de seus torcedores. Os torcedores dos padeiros pensaram que não havia nenhuma necessidade especial de animar os seus garotos. A partida já estava no papo.

E nada mudou nesta impressão, depois que o árbitro deu o apito iniciando o segundo tempo. Mais uma vez, reiniciaram-se os ataques dos jogadores da fábrica de pão, novamente os eletricistas viram-se na contingência de defenderem a própria pele. Na área de Udo a coisa estava pegando fogo, no entanto, sempre aparecia em primeiro plano o grande bombeiro, que lá estava para apagar o incêndio.

Pouco a pouco os padeiros foram se cansando. Reduziram a pressão que vinham fazendo, perderam o ímpeto. Cada vez mais, espalhou-se entre os seus atacantes, que deveriam estar empenhados em aumentar a quota de gols, o tipo de ânimo expresso por seu primeiro artilheiro, o homem do centro do ataque, quando este disse para um de seus companheiros de equipe:

— Pombas, não tem o menor sentido contra esse sujeito.

— Você quer saber de uma coisa? — replicou o outro. — Só o jogo duro vai ajudar a quebrar os brios dele. Aí sim, ele vai recuar. De outra maneira não dá.

E logo espalhou-se a solução nas fileiras dos padeiros:

— Vamos baixar o pau nele!

No entanto, rapidamente ficou demonstrado que este tiro sairia pela culatra. Depois que ”partiram” duas vezes consecutivas para cima dele, ultrapassando a fronteira do permitido, Wilhelm ficou sabendo o tipo de tática, pela qual o adversário havia optado e tratou de dar a resposta correspondente. A partir daquele momento, não houve mais nenhuma luta corpo a corpo com ele, da qual o respectivo oponente, de quem teria partido a iniciativa, não se desse por feliz de seu esqueleto não ter-se despedaçado completamente.

— Puxa, cara — queixou-se para o centroavante o mesmo jogador dos padeiros que havia sugerido o jogo duro — alguma vez na sua vida, você já tentou chutar um hidrante? Agora já sei como é isto.

— É — replicou o centroavante — eu também. Logo depois de você, quando você ainda estava vendo estrelas, fiz a mesmíssima coisa. Portanto, você não tem nada pra me contar.

— Cara — suspirou o outro mais uma vez. E enquanto falava, apalpava-se as costelas, o peito e os quadris, enfim toda a parte superior do corpo.

Rapidamente, os padeiros retornaram a um tipo de jogo que Stummel, o porta-voz dos espectadores, caracterizou como ”urbano”. Contudo, logo em seguida ficou evidente que a equipe havia sofrido um duro golpe. Sua força ofensiva fora definitivamente brecada. Fato este que tinha suas conseqüências.

Os eletricistas sentiram que aquele não era mais somente um jogo do seu adversário, mas sim deles também. Primeiro imperceptivelmente, depois de maneira bem clara, começou a soprar um outro vento, um vento que inflava as velas dos eletricistas. Isto ficou patente quando pela primeira vez ouviu-se uma gargalhada do público dirigida à equipe dos padeiros. E quem motivou o público para a risada foi Wilhelm. Cercado por quatro jogadores adversários, ele foi o mais rápido a chegar na bola, driblou todos os quatro em um espaço apertado, degradou-os à categoria de pernas-de-pau, desequilibrou-os com gingas de corpo e com uma brilhante técnica de controle de bola, mandou-os cada um para uma direção diferente, livrou-se dos quatro e carimbou-os, como Stummel comentou em voz alta, com a marca de ”beques-de-roça”. Mas aquilo não havia sido tudo. Como conseqüência direta desta jogada, ele iniciou o primeiro ataque perigoso de sua equipe durante todo o jogo até aquele momento. Saiu com a bola nos pés, partindo da própria intermediária, da qual ele ainda não havia saído nenhuma vez antes, desde o momento em que recuara do ataque para assumir a posição de líbero. Isto tampouco teria sido possível, por causa da ofensiva duradoura do ataque dos padeiros. No entanto, naquele instante parecia que os ventos mudavam de direção. E aquele que, por assim dizer, mantinha o dedo molhado no vento, era mais uma vez o indestrutível Stummel. Ele declarou:

— Meus senhores, os fritadores de pão estão começando a ser submetidos à alta-tensão.

A primeira investida de Wilhelm contra o campo adversário só não deu em nada, porque Wilhelm só pudera contar consigo mesmo. Nenhum companheiro de equipe acompanhou-o para apoiá-lo. Todos estavam muito surpresos com aquela novidade em jogo, no entanto já se haviam acostumado a fixarem-se somente na defesa. Desse modo, ficaram parados lá atrás, assistindo como Wilhelm terminava o seu solo, com dois padeiros agarrando-o pelos braços e camisa, antes da grande área, para finalmente um terceiro ainda ”lhe tirar a perna de apoio”, como se diz em linguagem especializada. O árbitro da partida mostrou três cartões amarelos para uma única e mesma falta — isto também uma novidade — e enquanto o fazia, teve de reprimir o riso por causa da camisa rasgada de Wilhelm. A respectiva cobrança de falta foi feita pelo próprio Wilhelm, que atirou a bola um pouco acima do travessão.

Isto ocorreu aos 27 minutos do segundo tempo. Sete minutos mais tarde, os eletricistas obtiveram o tiro decisivo. Sob o comando de Wilhelm, eles haviam despertado e passado à ofensiva. Aquele gol obtido representou o sangue que neles precisava ser injetado para, no final da partida, evitar a derrota. Apostando tudo numa única carta, os dez jogadores avançaram — somente Udo permaneceu debaixo de seu travessão — impingindo aos padeiros uma luta defensiva, a qual não se comparava à própria que haviam sido obrigados a travar no primeiro tempo. Aos 44 minutos ocorreu o empate.

Ambos os gols creditados à conta de Wilhelm. O primeiro foi de uma cabeçada dele depois de um córner. O segundo nasceu de uma violenta bomba, dada por ele a 25 metros de distância. Seus companheiros de equipe formaram uma montanha de corpos, sob a qual ele estava enterrado, recebendo os cumprimentos. Ele só não morreu sufocado por um verdadeiro milagre.

Stummel vangloriou-se:

— Esse aí fui eu que descobri! Anunciou ele, exultando de satisfação. Todos caíram na gargalhada. Não teria sido muito diferente da situação de um pónei querendo carregar nas costas um puro-sangue árabe. Teria sido melhor que Stummel ficasse somente nesta exortação, quando poucos minutos depois o árbitro deu por encerrada a partida. No entanto, depois do jogo, ele foi o primeiro a correr para dentro do campo, para formar a escolta de Wilhelm até a porta do vestiário, sempre tentando dar palmadinhas no ombro do outro, coisa que, em virtude da grande diferença de altura entre os dois, era bastante difícil. Além disso, constantemente ele tinha de lutar para não ser empurrado para o lado por outros, que também sentiam necessidade de entrar em contato com Wilhelm.

No meio da multidão de admiradores que cercava Wilhelm, um deles gritou:

— Este cara é digno do Schalke!

A frase acabou sumindo na vertigem do entusiasmo geral, no entanto merecia ter sido levada a sério.

Debaixo do chuveiro, Wilhelm manteve os olhos fechados e somente os abriu, quando notou que o homem ao seu lado lhe havia dirigido a palavra e estava esperando a resposta. Reconheceu Udo, o capitão da equipe, submerso no vapor da água quente.

— Que foi que você disse? — perguntou ao outro. Precisou gritar para sobrepor sua voz ao ruído da água que caía de numerosos chuveiros em volta deles.

— Onde é que você prefere sentar no ônibus, na frente ou atrás?

— Em que ônibus?

— No nosso. A firma o alugou. Amanhã nós vamos viajar até Ríidesheim. Já foi combinado há muito tempo.

— E o que é que vou fazer lá?

Udo não mais estava querendo berrar como um animal, por isso desligou o jato de seu chuveiro.

— Escute aqui — disse depois disso — agora você faz parte da equipe. Dá pra você entender? Nós vamos fazer essa viagem e quem paga é a firma, para as mulheres e namoradas inclusive.

— Um gesto simpático da firma — opinou Wilhelm, fechando neste momento o seu chuveiro. — Mas isto não me diz respeito.

— Por que não?

— Justamente porque não faço parte da equipe. Para mim, este jogo de hoje foi o primeiro e único. Vocês estavam precisando de um cara para substituto e este cara fui eu... e isto basta!

Udo arregalou os olhos, encarou Wilhelm como se este fosse um desequilibrado mental, enquanto, concomitantemente, lhe fazia a pergunta que combinava com seu olhar:

— Você ficou maluco?

— Como assim?

Udo dirigiu-se a todos. E, para ser entendido por todos, foi obrigado a gritar.

— Prestem atenção. Este cara aqui está querendo ficar fora do jogo de amanhã. Acabou de me informar que não pertence à equipe. Que é que vocês têm a dizer?

Os eletricistas em geral são rapazes espertos. Este é um ofício que requer inteligência. No entanto, eles nada entendem de Homero. Isso não significa porém que eles não pudessem dar uma homérica gargalhada... como a que deram naquele momento.

Wilhelm deixou que eles rissem e começou a enxugar-se demoradamente. E depois que a calma voltou a reinar no ambiente, Udo perguntou-lhe:

— Como é, será que isso lhe basta como resposta?

A única coisa que Wilhelm fez, foi dar de ombros sem nada dizer. Isto significando, sem possibilidade de engano: não percam tempo.

— Udo — alguém gritou — você também disse para ele que passaremos a noite em Ríidesheim? E que ele poderá levar a namorada dele? É a firma que paga tudo.

Novamente, um coro de gargalhadas. A suspeita foi expressa em voz alta:

— Talvez ele não tenha nenhuma à mão.

— Não — confirmou Wilhelm sem nenhuma mostra de embaraço — não tenho nenhuma à mão.

Depois disso, disseram-lhe que Rúdesheim era mundialmente famosa pelo fato de que ninguém sucumbia ali por um problema como aquele. As moças de Riidesheim sempre foram muito versadas no trato com homens solitários.

— Sinto muito — Wilhelm pôs fim à discussão, caminhando em direção à grande porta do chuveiro comum — não estou interessado. Vocês vão ter de se divertir sem mim. E isto não é válido somente para amanhã. No futuro vocês contarão com o líbero habitual.

E desta maneira, ele considerou o caso como liquidado. Entretanto, estava enganado.

É bem verdade que a equipe viajou para Rúdesheim sem a sua presença e, sem ele, empanturraram-se. Coube às moças que participaram do evento, sem a presença dele, o duvidoso prazer da noitada em comum, sempre dois a dois. Mas na segunda-feira, quando começou a nova semana de trabalho, Wilhelm ficou sabendo que não era tão fácil assim opôr-se ao interesse da equipe. O chefe da firma mandou chamá-lo.

Peter Storm, a quem pertencia por inteiro a central em Gelsenkirchen, nove filiais espalhadas pela metade da região do rio Rúhr e uma em Colónia, era um desses fanáticos por futebol. Seu interesse fervoroso por futebol não se esgotava somente nos acontecimentos da Liga Alemã, mas sim estendia-se também pela divisão a que pertencia a equipe de sua firma, equipe esta que ele, praticamente, considerava como propriedade sua. Normalmente, não perdia nenhum jogo de seus rapazes. No entanto, ele não pôde assistir à partida contra o time dos padeiros, por ter estado ocupado em uma viagem de negócios à Holanda. Mas já na segunda-feira de manhã, ele foi informado por U do Holtkamp sobre o encontro. E a conseqüência disto, como já dissemos, foi Wilhelm Thúrnagel ter sido chamado pelo chefe.

Havia já algum tempo que Peter Storm notava Wilhelm — não por causa de suas qualidades futebolísticas, mas pelas profissionais. Afinal de contas, as primeiras lhe eram totalmente desconhecidas.

— Sente-se, senhor Thúrnagel — disse ele. — Como foi em Rudesheim? Disse-o, apesar de que já soubesse a resposta àquela pergunta, por intermédio de Udo Holtkamp.

— Bem, sobre isso não posso lhe dizer nada — replicou Wilhelm.

— Como assim? O senhor não estava lá?

— Não.

— Mas o senhor jogou na sexta-feira, ou não?

— Joguei.

— E como jogou!

Wilhelm aceitou o elogio, calado. Suspeitava do que estava por vir, já que lhe haviam contado coisas a respeito do entusiasmo que o chefe nutria pelo futebol.

— Então, por que é que o senhor não participou do passeio? — prosseguiu Storm.

— Não participei por duas razões, senhor Storm: em primeiro lugar, porque não faço parte da equipe; a única coisa que fiz foi substituir por um dia...

— Idiotice!

—... e em segundo lugar, porque eu não tinha tempo.

— Não tinha tempo? Pombas, mas o passeio foi no fim de semana. Que é que o senhor fez então?

— Estudei.

— O quê?

— Alemão e... — Wilhelm começou a dizer, mas parou.

— E? — Storm não desistiu.

— Eletrotécnica — completou Wilhelm.

— Eletrotécnica? Para quê? Conosco o senhor sempre se saiu bem em tudo aquilo que lhe foi exigido.

— Mas isto não me basta, senhor Storm.

— Isto não lhe basta? — Storm fitou Wilhelm, com curiosidade. — Não estou lhe entendendo direito. Me diga uma coisa, que é que lhe bastaria então?

— O cargo de engenheiro eletrônico.

Bem, a partir daquele momento, tudo estava claro e o empresário Storm ordenava rapidamente suas ideias em função de um novo quadro onde haveria de situar seu empregado Thiirnagel, cujo interesse ditava que se mantivesse firmemente ligado à empresa. Peter Storm acendeu um cigarro. Enquanto o fazia, refletia sobre a situação. Em seguida, disse:

— Meus respeitos, senhor Thúrnagel, pessoas como o senhor foram feitas de encomenda para minha empresa. Ouça...

E então, o astuto empresário desenvolveu num piscar de olhos um conceito pronto para o surpreso, espantado e desconcertado Wilhelm, que poderia, disse Storm, contar com todo o apoio da firma. Wilhelm estava precisando sobretudo de todo o tempo livre para seus estudos. Ele poderia grudar-se nos livros, não somente à noite. Ou nos fins de semana. Ele também necessitava de horas para o descanso. Mas isto somente seria possível se a jornada de trabalho de Wilhelm na firma fosse encurtada... sem nenhuma perda salarial, naturalmente.

— Sem perda salarial? — perguntou Wilhelm espantado.

— Sem perda de salário, senhor Thúrnagel.

— Mas nenhum ser humano poderia exigir tal coisa do senhor.

Peter Storm sorriu. Foi o sorriso de um empresário vitorioso... em parte, simpático; em parte, frio. Pessoas que não vivem de negócios, simplesmente são incapazes de dar um sorriso como aquele.

— Claro que também esperarei algo do senhor em troca disto — disse ele.

— Ora, o quê?

— Que o senhor não vire as costas para minha firma, quando for um engenheiro.

— Claro que não.

— Muito bem, então está tudo certo — assentiu Storm. — Sei muito bem que podemos confiar em sua palavra. Mesmo assim, tenho certeza de que o senhor nada terá contra a que, como é normal nos negócios, firmemos um pequeno acordo por escrito sobre tudo isso... para efeito de organização.

Wilheln sentia-se bastante perturbado com a história toda.

— Como o senhor queira, senhor Storm.

— Ótimo, neste caso mandarei que o preparem — disse o chefe atirando o cigarro em um cinzeiro, cheio de água até a borda, de modo que se pôde ouvir um leve chiado. — Bem, isso era tudo. O senhor pode voltar ao trabalho.

Enquanto Wilhelm levantava-se, disse:

— Olha, não dá para acreditar nesta história. Será que eu realmente não estou sonhando?

— Não.

— O senhor fará isso, apesar de eu me negar a jogar na equipe da sua firma?

— O senhor continua se negando?

E, já meio a contragosto, Wilhelm replicou:

— Sim.

E naquele momento, ficou lá parado, esperando que seu chefe replicasse. Tal não ocorreu. Wilhelm estava enganado. Mas ele deveria saber que seu chefe já o havia dominado. O pouco de psicologia necessário para isto, um homem como Storm, como se diz vulgarmente, esbanjava por todos os poros.

— Bem, neste caso, terei de me conformar com sua negativa — disse Storm dando de ombros. — No entanto, isto em nada modifica o acordo sobre o qual acabamos de falar. Todo ser humano é soberano sobre sua vontade.

— Isto não vai mudar em nada o acordo? — perguntou Wilhelm incrédulo.

— Não.

Wilhelm ruborizou-se. Começou a envergonhar-se.

— Olha aqui, senhor Storm — disse ele — o negócio é que no fundo eu nada teria a dar à equipe...

— Senhor Thúrnagel, o senhor deve saber o que faz.

— Sabe, eu não tenho o menor preparo físico e só conseguiria recuperá-lo através de treinamentos constantes. Mas eu não tenho nenhum tempo para fazê-lo.

— Como assim, nenhum tempo? — perguntou Storm.

— Porque preciso estudar, estudar, estudar e mais estudar.

— Compreendo — disse Storm com um sorriso para si mesmo. — Mas nós não acabamos de regulamentar a maneira como esse tempo será conseguido para o senhor, senhor Thúrnagel?

Wilhelm sentiu as algemas lhe sendo colocadas... isto é, algemavam-no com o coração.

Em uma última resistência, queixou-se:

— O senhor não me está deixando nenhuma saída, senhor Storm.

Storm balançou a cabeça.

— Bem, se o senhor vê a coisa dessa maneira, senhor Thurnagel, o melhor que fazemos é não gastar mais nenhuma palavra sobre este assunto...

E agora quem balançou a cabeça foi Wilhelm.

— Não, assim não dá.

— Por que não?

— Porque o senhor iria me tomar por mal-agradecido. Peter Storm percebeu que estava bem perto da vitória.

— Não — disse ele — eu não faria isso, senhor Thurnagel. Com relação a isto o senhor não precisa se preocupar.

— Mas isto não é normal.

— Como não?

— Simplesmente pelo fato de que qualquer outra pessoa me enxergaria por este prisma.

— Mas não eu.

Wilhelm ficou calado durante um pequeno espaço de tempo, baixou a cabeça, suspirou e depois pronunciou a palavra decisiva:

— Neste caso, não tenho outra alternativa... eu vou jogar.

Storm conseguiu manter sob controle a expressão de seu rosto. Os empresários precisam sempre estar em condições de fazê-lo. Um de seus expedientes mímicos, quando acabam de crucificar um sócio, consiste em não deixar que uma expressão muito nítida de triunfo seja reconhecida em seu rosto.

Por conseguinte, Storm esticou sua mão direita, e Wilhelm também. Ambas as mãos se encontraram, apertando-se uma na outra. Deste forte aperto de mão, formou-se e confirmou-se a nova aliança entre a firma Elektro-Storm e seu empregado Wilhelm Thurnagel.

Nas semanas seguintes, consolidou-se um novo favorito nos encontros entre as equipes de empresas de Gelsenkirchen: o time da Elektro-Storm. Tendo antes simplesmente desempenhado um papel subordinado, agora, de vitória em vitória, a equipe subia, forçando o caminho em direção ao cume.

Qualquer um poderia ver que isto devia-se somente a um homem... a Wilhelm Thurnagel. Em uma cidade maluca por futebol como Gelsenkirchen, o nome deste homem não faltou e não podia faltar nas conversas, primeiro em círculos restritos, mais tarde em ambientes mais amplos.

Naturalmente que os ”Stormer” também tinham seu local favorito, onde se sentavam juntos depois dos jogos. Antes as derrotas eram ”engolidas”; a partir daquele momento eram as vitórias que eram ”saboreadas”. De qualquer maneira, sempre quem levava a vantagem era o dono do restaurante. O local chamava-se À Fonte, o dono era Pit Schmitz, o velho amigo de Theodor Berger.

É bem verdade que Wilhelm Thúrnagel era o homem dos ”Stormer” em torno do qual tudo girava dentro do campo, mas que nas comemorações quase sempre deixava um imenso vazio nas fileiras de seus companheiros de equipe. Havia deixado de freqüentar restaurantes, desde o instante que perdera o hábito de ir ao Girassol.

Portanto, Pit Schmitz ouviu durante semanas e mais semanas muitas coisas sobre Wilhelm Thíirnagel, quando este era exaltado em seu restaurante, mas ainda não havia tido a oportunidade de conhecê-lo. Até que finalmente ele ficou curioso por travar conhecimento com aquele ”garoto maravilha” e tomou a decisão de ir assistir a um jogo dos ”Stormer”. A partir daquele mesmo instante, passou a fazer parte dos fãs de Wilhelm. E desta maneira, a roda começou a girar, antes mesmo de ser posta em movimento. Mas ninguém suspeitou de nada antes, pelo menos o principal implicado no assunto... Wilhelm Thiirnagel.

Novamente o Girassol estava em pleno vapor. Tarde de sábado. O Schalke F.C. tinha um jogo fora de casa. Como sempre, mais uma vez encontravam-se no balcão de Theo os quatro amigos Johann Schuhmacher, Jupp Maslowski, Fred Szykowiak e Karl Jaworowski. Quem aparecera por primeiro, como era de hábito aliás, foi Maslowski e, por último, Jaworowski. Esta era a ordem natural. Maslowski, o mineiro aposentado, dispunha de tempo de sobra; Jaworowski, que ainda trabalhava como representante de produtos de limpeza, precisava agitar-se de um lado para o outro até o último momento, antes de poder ter a tarde livre.

— Puxa, onde esteve você esse tempo todo? — foi assim recebido por Maslowski.

— Ah, pra você, falar é fácil — respondeu ele. — Mas os habitantes desta região aqui não saem correndo atrás de mim, sou eu que tenho de estar nos calcanhares deles. Agorinha mesmo, fui retido no telefone por dois clientes que, justamente hoje, tiveram a brilhante ideia de quererem ser atendidos. Vou lhes dizer uma coisa: esse negócio de Papai Noel existe! Theo, rapidinho, uma cerveja, senão vou morrer de sede. Como anda a coisa em Braunschweig? Já sabe algum resultado?

O Schalke estava jogando em Braunschweig. Ainda não se conhecia nenhum resultado.

— E de resto, que novidades temos, meus senhores? — Jaworowski perguntou a todo o círculo de amigos.

— O Johann — disse Szykowiak, apontando para Schuhmacher — hoje é a vez dele bancar uma rodada.

— Magnífico! E por quê?

— Porque na semana passada ele se tornou vovô. E olha que pela primeira vez!

Jaworowski sorriu para Schuhmacher e disse:

— Meus parabéns, Johann! E o que sua mulher tem a dizer sobre isso? A alegria foi imensa, não?

— Da minha mulher?

— Sim.

— Pelo contrário — Schuhmacher arreganhou um sorriso irónico — ela esteve a ponto de me arrancar os olhos.

— Como assim? Não entendo. Schuhmacher reforçou o sorriso irónico.

— Porque simplesmente eu disse pra ela: Anna, a partir de agora, ninguém vai poder exigir de mim que eu vá pra cama com uma vovó.

A piada não era nem um pouco nova, mesmo assim a gargalhada foi estridente. E alguém gritou:

— Booom! Vou me lembrar disto quando chegar a minha vez.

Jaworowski continuou colhendo informações. Afinal, representante que era, passava viajando a semana inteira, tanto que no sábado, quando se encontrava com os amigos, perguntava-os à vontade sobre tudo que ocorrera durante sua ausência... caso algo tivesse ocorrido.

Theo Berger foi a próxima pessoa a quem ele se dirigiu.

— E como vai você? Tudo em ordem?

— Nada — grunhiu Theo.

— Não? Alguém doente?

— Não, mas até que se poderia ter essa impressão.

— Ora, como assim?

— Minha cara-metade só vive falando de câncer, desde que a mulher de Pit Schmitz, você sabe quem é, o meu amigo de Colónia, bem, desde que ela saiu do hospital depois de uma operação. E também não sei o que está acontecendo com minha filha.

— Com Marianne?

— Sim, ela se arrasta pela casa como se fosse um fantasma — exagerou Theo. — De vez em quando, ela fica dias e mais dias sem falar nada.

— Ora, mas onde já se viu uma coisa desta.

Theo curvou-se sobre o balcão e sussurrou no ouvido de Jaworowski:

— Quer saber de uma coisa? Quer saber o que já andei pensando milhares de vezes?

— O quê?

— É como se ela quisesse entrar para um convento. Jaworowski fez uma careta.

— Pelo amor de Deus! Ridículo! A Marianne não, Theo!

— Claro, claro, ela mesma, Karl. É exatamente esta a impressão que ela dá.

— Desde quando? Theo deu de ombros e tratou de mentir:

— Eu não sei. Veja só, este tipo de comportamento é tão esquisito que, no início a gente nem presta atenção; até que, em algum momento, começa a dar na vista... mas aí, só Deus sabe, há quanto tempo a coisa já estava amadurecendo. Você está entendendo o que quero dizer?

— Claro, Theo. Mas então, alguma coisa de muito extraordinário deve ter acontecido nos últimos tempos.

— Na vida de Marianne?

— Sim.

— Mas é justamente isto que eu não sei — Theodor tornou a mentir. — Eu...

O garçom Heinrich forçou a passagem entre os dois, carregando uma bandeja vazia, e Theodor viu-se obrigado a voltar à sua ocupação habitual. Jaworowski bebeu rapidamente, esvaziando seu copo de cerveja e colocando-o na bandeja para receber o segundo. Depois, viu que Szykowiak dirigia-se a uma mesa ocupada por jovens, que haviam ocupado a mesa com um radinho de pilha. Estavam com a cabeça curvada em cima do radinho. Coisa que pressupunha que a transmissão esportiva havia começado. Szykowiak postou-se a um meio metro de distância e, depois de algum tempo, retornou ao balcão. Da expressão de seu rosto, não dava para se concluir nada de positivo, nem nada de negativo.

— E então? — perguntou-lhe Jaworowski, falando também em nome dos outros.

— Zero a zero — foi a resposta que todos esperavam. — Afinal o jogo não começou há muito tempo.

Naturalmente que se falava do jogo do Schalke em Braunschweig. É bem verdade que todos os outros encontros também eram de interesse, mas só em segundo plano.

A partir daquele instante, não mais se interrompeu a ligação entre o balcão e a mesa dos jovens com o radinho de pilha. Szykowiak, Jaworowski, Schuhmacher e Maslowski revezavam-se na tarefa de manter aquela ligação. Cada vez ia um dos quatro em direção à mesa e retornava ao balcão com a respectiva situação atual dos jogos que se travavam nos estádios da Liga Alemã.

Até o último momento ainda não havia saído nenhum gol em Braunschweig. E isto, mais uma vez, gerou o desapontamento na maioria das pessoas presentes no Girassol, já que todos contavam com uma vitória do Schalke. No entanto, visto objetivamente, este resultado já seria um sucesso para a equipe.

— Já estou vendo — disse Karl Jaworowski — vou ter de jogar fora mais uma vez o meu cartão da loteria esportiva. E vocês?

Com os outros acontecia o mesmo. Somente um deles não podia dizer o mesmo... Theodor Berger. Mas a única causa disso era que ele, naquele momento, não dispunha de tempo algum para dar uma olhadela em seu cartão. Já havia algum tempo que o balcão estava bastante movimentado e quando houve um momento de desafogo, o próprio Theo já não se lembrava mais do cartão. Somente dois dias mais tarde, na segunda-feira de manhã, Theo voltou a lembrar-se dele, constatando à mesa do café da manhã, tendo o jornal nas mãos, que havia acertado todos os jogos e que portanto cabia a ele o prêmio.

Deus do céu!, pensou Theo, forçando-se a permanecer o mais calmo que pudesse. Ainda estava sentado sozinho à mesa. Como de hábito, a mulher e a filha estavam atrasadas.

Theo verificou o cartão uma segunda prova. Comparou-o cuidadosamente com os respectivos resultados publicados no jornal. Era verdade... fizera os treze pontos!

E a soma que lhe seria dada, que também estava publicada no jornal, importava em 189.972,00 marcos.

Deus do céu!, tornou a pensar Theo. Será que isso ainda pode mudar? Será que ainda poderão declarar que foi um engano? Por acaso já ocorreu alguma vez que os jornais precisassem ser corrigidos? Não, até hoje isto nunca ocorreu.

Naquele momento ele teve certeza: eu ganhei!

Para quem vou dizer? Será que devo dizer isso a alguém? Não, a ninguém. Somente quando o dinheiro estiver depositado em minha conta, então talvez...

Sabine apareceu.

— Bom-dia, Theo — disse ela.

— Bom-dia, Bina.

— Mas você ainda nem começou a tomar seu café.

— É, o café ainda estava muito quente para mim. Sabine serviu-o e a ela também, para cada um uma xícara cheia. Com um gesto precipitado, Theo puxou para junto de si o jornal aberto ao lado de sua xícara. O movimento brusco e inesperado assustou Sabine.

— Nossa, que tem você? — perguntou ela.

— É que você estava derramando café em cima do meu jornal.

— Meu Deus! — ironizou Sabine. — Logo em cima dessa peça valiosa, mas isto seria terrível.

— Se eu lhe dissesse, você iria rir — contra-atacou Theo — mas acontece que essa aqui é uma peça valiosa, sim senhora. — Mas nada mais direi — advertiu ele.

— Ora, por quê? — perguntou Sabine com um leve sarcasmo. — Que é que tem aí dentro? Por acaso os impostos vão baixar?

— Não, pelo contrário, eles estão querendo aumentar mais ainda os impostos, esses facínoras.

— Foi feita a paz entre Israel e os árabes?

— Há cem anos que ainda não.

— O Rummenig vai ser transferido para o Schalke?

— É, esta seria uma boa! — gritou Theo com uma voz de entusiasmo.

— Mas então você me deixa cada vez mais curiosa — disse Sabine. — Vamos lá, solte logo, que está acontecendo?

— Bina, você não será capaz de adivinhar.

— Um novo recorde na loteria esportiva?

— Está ficando quente! — berrou Theodor involuntariamente.

— Quanto?

Theo percebeu que tinha de pôr um freio na conversa.

— Ora, ora — disse ele — não é nenhum recorde, mas trata-se de algo que não se deve desprezar.

Bem, mas agora não direi nada mais, disse ele para si mesmo.

— Tem a ver com a loteria? — perguntou Sabine.

— Sim.

— Quem ganhou foi alguém muito necessitado?

Theo não conseguiu conter um sorriso irónico, ainda que quisesse.

— Sim — assentiu ele.

— Um desempregado com uma grande família?

— Não.

— Um aleijado?

— Não.

— Então quem foi?

— Um dono de restaurante.

Sabine fitou-o perplexa. Cresceu sua suspeita de estar sendo gozada. Mesmo assim, ela replicou:

— Um dono de restaurante?

— É, um dono de restaurante necessitado, Bina.

Theo não conseguia resistir à tentação de dar continuidade àquele joguinho.

— Olha aqui, eu só espero que você não me venha dizer — acrescentou ele — que esse tipo de dono de restaurante não existe.

— Mas claro, óbvio que sim — aprovou Sabine — existem até mesmo muitos. Eles têm de pelejar duro.

— Correto, até aqui em Gelsenkirchen.

— Em Gelsenkirchen? — Sabine balançou a cabeça. — Pra seu governo, eu não conheço nenhum aqui em Gelsenkirchen. Os nossos bravos mineiros cuidam disso.

— Nenhum dono de restaurante necessitado?

— Não.

— Que tivesse necessidade de um prêmio da loteria esportiva?

— Não, Theo, olha, honestamente, existem pessoas mais necessitadas.

— Neste caso, dê uma olhada em mim.

Neste momento, Sabine percebeu aonde Theo estava querendo chegar, ou seja, em uma piada, piada esta que no fundo não passava de um gracejo, incapaz de arrancar alguém da cadeira. Mas como, desde os primórdios da humanidade, sempre foi aconselhável às esposas o consentimento às brincadeiras, mesmo as mais sem graça, Sabine forçou-se um leve sorriso e disse:

— Tem razão, está cem por cento correto. Um dia você teria de ser amparado, para não continuar sendo uma carga para o Instituto do Bem-estar Social.

— Bina, há muito tempo que tenho esta opinião. Mais uma vez, Sabine deu seu sorriso obrigatório.

— Infelizmente, a deusa da sorte não tem a menor pena de você — opinou ela logo em seguida.

— Mas claro que ela tem.

— Que é que você está dizendo?

Theo empurrou para o lado de Sabine o jornal aberto, colocando junto seu cartão de loteria esportiva. Depois, disse:

— Dê só uma olhada.

— Que devo olhar?

— O meu prêmio.

Sabine não olhou para o jornal nem para o cartão da loteca, o que fez foi olhar fixamente nos olhos de Theo. Em seguida, compreendeu. Pôde-se ouvir um grito estridente.

— Theo!

A cara de lua de Theo iluminou-se:

— Theo, é verdade?

— Verifique você mesma.

No entanto, esta intimação foi desprezada mais uma vez por Sabine. O que ela estava querendo saber antes de qualquer outra coisa, era somente:

— Quanto?

Acentuando cada uma das sílabas, Theodor respondeu:

— Cen-to e no-ven-ta mil.

— Cen-to... — e Sabine não conseguiu dizer mais nada. Sua voz desapareceu na garganta.

De repente, ela se assustou. E se tudo aquilo não passasse de um sonho? E naquele instante sim, ela quis convencer-se de que era verdade. Puxou o jornal para seu lado e cravou os olhos nele.

— Onde está, Theo?

Ele mostrou a ela. Sabine leu em voz alta:

— Cento e oitenta e nove mil novecentos e setenta e dois.

— E repetiu: — Cento e oitenta e nove mil novecentos e setenta e dois.

Tornou a dirigir o olhar para Theodor.

— Realmente — disse ela. — São quase cento e noventa mil.

O jornal escapou de seus dedos, indo pousar sobre sua xícara cheia de café. Rapidamente, Theo puxou-o para o seu lado, para defendê-lo do dano que tanto temia.

— Vou mandar emoldurá-lo — anunciou ele, enquanto o puxava com rapidez. — Bina, está dando agora para você entender o meu medo?

Sabine assentiu, olhando para o lado desconcertada, sem saber onde meter as mãos, já que lhe faltava o tricô; inconscientemente, sorveu um longo gole de café, longo demais por sinal, pois de repente engasgou, tossiu, e finalmente explicou que continuava sem poder compreender.

Theodor arrumou o cartão da loteria esportiva em sua carteira de dinheiro.

— É preciso ter sorte — disse ele.

Em seguida, com uma expressão de muita severidade no rosto, ordenou a Sabine que não deixasse escapar a menor palavra sobre aquele prêmio. O melhor seria, opinou ele, que não se dissesse nada à Marianne àquele respeito.

— Afinal de contas, onde está ela? — perguntou ele. — Todos os dias ela desce atrasada.

— Provavelmente ela passou a metade da noite lendo — respondeu Sabine. — Sabe de uma coisa, acho que você deveria dizer a ela que tudo isso é uma loucura.

— Eu? Ué e por que não você?

— Porque a palavra de um pai sempre tem mais peso. Depois de um curto e amargo sorriso, Theo disse cheio de sarcasmo:

— É, antigamente era assim em nossa família. Mas hoje em dia, aquela menina não esboça mais a menor reação quando eu me dirijo a ela. É como se ela não me escutasse. Por acaso você não vê isto? Quer saber de uma coisa, eu bem que gostaria de saber, pelo menos uma vez, por onde estão os pensamentos dessa garota.

Você sabe muito bem por onde, pensou Sabine, e eu ”também... mas ela disse:

— Você exagera.

— De maneira alguma.

— Pois bem, em todo caso eu não partilho de sua opinião de que nós devamos esconder dela este prêmio da loteria esportiva, Theo.

— Por que não?

— Porque esse tipo de coisa é sempre motivo de alegria para a família inteira e também porque isto poderia ter um efeito positivo sobre Marianne.

— É verdade — concordou Theo. — É bem possível. Diga-lhe você mesma, ou devo eu dizer?

— Você! Afinal, você é o ganhador. Mas, por favor, não a torture tanto com o suspense como você fez comigo.

— Puxa, e eu lá... Theo interrompeu-se e ficou à espreita.

— Ela está vindo — disse ele.

O cumprimento com o qual Marianne transpôs o umbral da porta foi o de costume:

— Bom-dia.

— Bom-dia, minha filha — disse Sabine.

E Theo:

— Bom-dia, Marianne.

— Sinto muito — desculpou-se Marianne, tomando assento — acabei dormindo demais. Só espero que vocês dois não tenham ficado à minha espera.

A mãe Sabine já estava lhe servindo café.

— Você fica lendo muito tempo na cama — disse ela com um tom de suave repreensão. — Seu pai estava pensando em lhe dizer que isso é uma loucura.

— E por que é que ele mesmo não me diz? — perguntou Marianne, cheia de ironia.

Theo pensou na tortura, à qual ele não devia mais submeter ninguém, enquanto anunciava:

— Porque hoje eu estou querendo lhe contar algo bem diferente.

— Ora, o quê? — perguntou Marianne com a mais absoluta indiferença.

— Nós ganhamos na loteca — disse Theodor com total premeditação do ”nós”.

A reação de Marianne foi a mais concisa que se possa pensar.

— É mesmo?

Ela viu que Sabine estava querendo passar manteiga em seu pão e recusou:

— Não, mãe, por favor, não.

— Por que não?

— Não estou com o menor apetite.

— Mas você deve comer algo.

— Não gosto de nada.

— Não gosto de nada, não gosto de nada — Sabine alterou-se. — A gente não escuta outra coisa de você. Olha aqui, você está consciente de onde isto vai lhe levar?

— Mãe, eu não posso me forçar a engolir esta coisa — respondeu Marianne. E assim, resignada, Sabine pôs de lado tanto a faca quanto o pão.

Neste momento, Theo tornou a lembrar o que havia anunciado momentos antes:

— Marianne, nós ganhamos.

— É, você já disse.

— E até que foi um prêmio bem alto.

— Meus parabéns. Você deve estar contente.

— E você, não?

E como ela tinha consciência total do que era esperado de sua parte, replicou:

— Claro, eu também.

— Mas parece que você não está lá muito interessada na quantia, não é mesmo?

— Estou.

— Então por que você não pergunta?

— Bem, neste caso eu pergunto: o prêmio é de quanto? O olhar de Theodor transferiu-se de sua filha para a mulher.

— Diga-lhe, Bina.

— Você nem adivinha, Marianne — anunciou Sabine.

— Não, mãe.

— Cento e noventa mil marcos.

— Só?

Sabine abriu a boca para dizer algo, mas depois daquele ”só?”, tornou a fechá-la. Fitou Theo, e Theo a ela. ”Só?”, foi o que Marianne disse. Que esperava ela? Theo dirigiu-lhe esta pergunta.

— Ora, quanto é que você pensava?

— Olha, bem mais.

— Como assim?

— Nos últimos tempos, você andou lendo para nós várias vezes sobre um milhão.

Theo sentiu-se bastante desapontado. Entendeu a falta de entusiasmo de Marianne como uma espécie de ”falta de gratidão”, como falta de gratidão para com ele, que, seja lá como for, acabara de ganhar uma quantia no valor de quase duzentos mil marcos.

— Escute aqui — queixou-se ele — você está agindo como se duzentos mil marcos não fossem absolutamente nada. Talvez eu devesse pedir desculpas por não ter sido mais.

— Não, pai, você não precisa pedir desculpas.

— Muitíssimo obrigado — disse Theo irónico. — Você devia olhar-se no espelho. Está escrito em seu rosto o que você está achando desse dinheiro.

— Ora bolas! — proferiu Marianne. Aquela discussão a repugnava. Tudo a repugnava, havia muito tempo.

— Pombas, mas você está pouco se importando com a quantia — disse Theo, apesar de que ele mesmo não acreditasse que aquilo pudesse ser verdade. E por isso mesmo, mais espantado ficou, e pode-se dizer que caiu de quatro no chão, quando Marianne respondeu-lhe subitamente:

— Bem, digamos que a quantia me é indiferente.

Esta resposta tirou a fala de Theo. No entanto, quem gritou em seu lugar, foi Sabine:

— Filha, você ficou maluca. Dá no mesmo o que acontecerá provisoriamente com o dinheiro e a maneira como nós o aplicaremos, no fim, é claro que nós o deixaremos pra você. Tudo isso vai acabar fazendo parte do seu dote.

— Do meu dote?

— Sim, claro. Marianne balançou a cabeça.

— Mãe, eu não preciso de nenhum dote.

— Não fale uma besteira dessa. Todas as moças precisam de um dote.

Bem, com relação a isto, deve-se dizer que, nesta terra abençoada por Deus, sempre houve moças que não precisavam de nenhum dote e sempre continuará havendo. No entanto, naquele instante de agitação, Sabine não conseguiu pensar tão alto.

— Mas não eu — foi a resposta lacónica de Marianne.

Estava claro o que aquilo significava.

— Por que não? — perguntou Sabine apesar de tudo.

Marianne calou-se. Até que. de repente, as lágrimas rolaram de seus olhos, ela levantou-se e saiu da sala. Sua xícara de café ficou intacta, cheia até a borda; Marianne não chegara a tocar nela.

Sabine e Theo perceberam que não mais veriam sua filha durante meio dia — e talvez até mais tempo — a não ser que eles não tivessem vergonha de entrarem à força em seu quarto.

Depois de um longo e opressivo silêncio, Sabine disse para seu marido:

— Talvez aquilo que você fez com o Thúrnagel tenha sido um tremendo erro.

— Não! — disse Theo duramente.

— Muitas vezes eu acho que sim.

— Essa menina vai ter de superar isto, Sabine.

Sempre que Theo incorria na palavra ”Sabine”, era necessário ter cuidado. Por isso mesmo, sua mulher desistiu de dar seguimento à discussão.

Dois ou três meses mais tarde, em uma quarta ou quinta-feira, Marianne foi chamada pelo pai ao telefone.

— Para você — disse ele, passando-lhe o fone.

— Quem é? — perguntou ela em voz baixa.

Theo deu de ombros e respondeu também em voz baixa:

— Um doutor não sei o quê. Não entendi o nome direito.

— Alô — atendeu Marianne. Uma voz sonora disse:

— Aqui quem fala é o Doutor Bernin. Estou falando com a senhorita Marianne Berger?

— Sim.

— Bom-dia. Eu sou advogado...

E como a voz fizesse uma pausa, provavelmente querendo obter algum efeito, Marianne disse:

— Sim?

— Talvez o meu telefonema não seja nenhuma surpresa para a senhorita, não?

— Claro que é.

— Eu represento o senhor Thiirnagel... Wilhelm Thúrnagel...

A voz concedeu-se uma outra pausa e, como Marianne nada dissesse, um bom tempo do telefonema consistiu em silêncios. Marianne estava tentando dominar-se. O nome de Wilhelm provocou em seu íntimo uma verdadeira erupção vulcânica.

— A senhorita já deveestar sabendo que existe uma queixa contra o senhor Thiirnagel — finalmente o advogado fez ouvir sua voz.

— Sim — disse Marianne com a boca seca.

— A audiência se dará na semana que vem.

— Uma audiência? — pronunciou Marianne assustada. — Mas eu pensei que isto já estivesse liquidado.

— Ora, como? Através do arquivamento do processo? — replicou o Dr. Bernin. — Infelizmente não. O que se quer imputar ao senhor Thurnagel, é pesado demais para que tal pudesse ocorrer.

Marianne ficou calada. O advogado pigarreou.

— Senhorita Berger, não estou querendo conversar com muitos rodeios — disse ele então. — A verdade é que as coisas não estão muito boas para o lado do senhor Thurnagel. Estou, como advogado de defesa, de mãos vazias contra o promotor público. Não tenho nenhuma testemunha que possa servir de contrapeso. A única que teria algo a ver com isto seria você, senhorita Berger, mas o senhor Thurnagel não deseja incomodá-la. Como ele mesmo diz, ele não admite que a senhora seja metida nesse assunto. Quando eu lhe expliquei que, se não o fizéssemos, ele poderia ir parar imediatamente na cadeia, ele replicou: ”Por mim, tudo bem”. Pois bem, senhorita Berger, eu lhe pergunto se você é da mesma opinião e...

— Não! — gritou Marianne.

— Muito bem, era o que eu esperava — disse o Dr. Bernin satisfeito. —- Por isso telefonei. Contava com seu sentimento de justiça, não importando o que tenha ocorrido entre a senhorita e o meu cliente. Portanto, a senhorita está de acordo em ser chamada por mim como testemunha de defesa?

— Sim.

— Caso seja necessário, mesmo contra a vontade do senhor Thurnagel?

— Puxa, mas ele não pode ser tão cabeçudo assim! — depois de um longo, muito longo tempo, mais uma vez Marianne dava vazão a seu temperamento.

— Claro, ele pode sim — opinou o Dr. Bernin. — Várias vezes estive bastante inclinado a renunciar a este caso. No entanto sou o advogado da firma dele, a senhorita compreende? cujo proprietário forçou-me, de uma maneira ou de outra, a aceitar o caso.

— E que acontecerá se ele realmente não desistir da resistência à minha aparição como testemunha? Por acaso ele está sabendo alguma coisa deste seu telefonema para mim?

— Neste caso, dependeria da senhorita; dependeria da senhorita importar-se ou não. Eu já lhe disse o que é que está em jogo para ele. Wilhelm nada sabe do meu telefonema.

Marianne hesitou durante um curto lapso de tempo, em seguida disse:

— O senhor pode dispor de mim, senhor advogado.

— Muito obrigado, senhorita Berger. Quando é que lhe seria possível dar uma passada por aqui, para que possamos falar sobre o que é preciso? De preferência, o mais rápido, por favor. A audiência está praticamente às nossas portas.

— Sim — disse Marianne. — Então seria melhor que fosse hoje mesmo, não?

— Magnífico! Que tal lhe seria lá pelas quinze horas? Está bem assim?... Sim?... Obrigado. O endereço do meu escritório é o seguinte...

Depois que Marianne desligou, seu pai ficou esperando explicações de sua parte. Durante o telefonema, ele não achou que fosse necessário manter discrição. Contudo, Marianne nada mais disse além de:

— Vou ter que dar uma saída hoje à tarde.

Mas isto não bastou para Theo.

— Aonde você vai? — perguntou ele.

Marianne apontou para o telefone.

— Nesse sujeito aí.

— Um advogado? — foi o que Theo pudera deduzir da parte da conversa de Marianne ao telefone, portanto era fácil de se compreender que isto lhe servisse como ponto de partida para suposições subseqüentes.

— Sim — assentiu Marianne.

— Que é que ele quer com você?

— Precisa de mim, como testemunha.

— Ah! — aquele ”ah!” dizia mais do que tomos e mais tomos de livros. Theo prosseguiu: — Mas ele não teve a brilhante ideia de falar comigo também, não?

— Como assim, falar com você também? — replicou Marianne friamente.

— Porque sou seu pai.

— E como seria com mamãe? Por acaso ele deveria ter falado com ela também?

Theo trincou os dentes. Esta menina, pensou ele, deveria ter-me dado uma resposta destas há muito tempo atrás. Então eu não sei o que teria acontecido. Mas hoje...

— Quer dizer que você vai lá? — disse ele.

— Claro.

— Mesmo depois de ter pensado seriamente?

— Sim.

— Está claro para você que isto é um erro de sua parte?

— Pode ser — explicou ela, acrescentando como consolo, que no fundo não era consolo algum: — mas se ficar constatado que era de fato um erro, eu te prometo que vou ajeitar tudo isso por minha conta. Não vou sobrecarregar vocês com nada.

Mais uma vez, aproximava-se para o Girassol um, assim chamado, dia de descanso. Theodor Berger já se alegrava pelo habitual encontro com Pit Schmitz, até que no último momento ocorreu algo. Os Berger receberam uma visita inesperada de um parente muito afastado, da Alemanha Oriental, com quem Theo não estava querendo abandonar sua mulher. Praguejando em pensamento, Theo quis avisar seu amigo pelo telefone, mas neste momento constatou que havia um defeito qualquer no aparelho. Depois de várias tentativas que redundaram em fracasso, Theo telefonou para o garçom Heinrich, que, ele sabia, morava nas proximidades do restaurante A Fonte, conseguindo encontrá-lo em casa. Pediu então a Heinrich que andasse os poucos passos que o separavam do restaurante de Schmitz para dizer-lhe o que ocorrera. Schmitz e Heinrich também eram dois velhos conhecidos. Chegavam a tratar-se com intimidade e era justamente esta a razão pela qual Heinrich preferiu exercer sua profissão em um outro restaurante. Ele preferia que houvesse uma certa distância entre ele e seu chefe.

Assim que entrou no À Fonte, já havia tomado a decisão de lá ficar uma meia horinha para dar-se ao prazer de tomar um trago. No entanto, ele sequer suspeitava que aquela meia horinha estender-se-ia, tornando-se uma fase muito importante na vida de um habitante de Gelsenkirchen.

O salão do restaurante não estava tão lotado assim, mas o barulho que vinha do salão contíguo, testemunhava que por lá havia grande movimento. Um segundo indício que servia para reforçar essa suposição, era o fato de que o garçom, a quem cabia a região do salão contíguo, estava correndo de um lado para o outro, entre o balcão e o citado salão.

Heinrich bebeu sua cerveja no balcão. O mesmo fazia um homem notavelmente baixo, que voluntária e solicitamente se chegara um pouco para o lado, assim que Heinrich chegou ao balcão. Depois do primeiro gole refrescante, Heinrich apontou para a porta do salão contíguo, enquanto depositava o copo, e disse para o dono do restaurante que, como era de costume, encontrava-se atrás da serpentina de chope:

— Tremendo movimento.

— Festa de aniversário — disse Pit Schmitz.

— Aposto como daqui a pouco eles vão cantar.

— Músicas sobre futebol — intrometeu-se com um sorriso irónico o homem baixo.

— Músicas de futebol?

Pit Schmitz, a quem Heinrich fitava com um ar interrogativo, forneceu os esclarecimentos necessários. Seus fregueses no salão ao lado, disse ele, compunham um time de futebol inteiro. Freqüentavam o lugar regularmente. Rapazes simpáticos. De uma firma. Portanto, a equipe de uma firma. Hoje, o próprio chefe estava presente, para honrar aquele que estava aniversariando. Este era a estrela máxima da equipe.

— Isto não deve lhes dizer muito... estrela de um time de futebol de empresa, não? — intrometeu-se mais uma vez o sujeito estranhamente baixo.

— O senhor também é um deles? — replicou Heinrich. O homem baixo balançou a cabeça.

— Não diretamente.

— Claro que sim — disse-lhe Pit Schmitz — você também faz parte deles, por completo, todo mundo sabe disso.

Portanto, os dois conheciam-se já havia bastante tempo.

— Diga-me, com que freqüência esses caras jogam? — perguntou Heinrich.

— Com que freqüência? Que diz você? — Pit Schmitz passou a perguntar para o sujeito baixinho. — Afinal você conhece muito bem as rodadas, Stummel.

— Todas as semanas. Eles não podem mais recusar os convites. Todo mundo está querendo ver a grande estrela.

Puxa, mas vê se dá uma parada nessa história de grande estrela, pensou Heinrich. Afinal de contas o que é que pode ser a estrela de um time de empresa?

Mesmo assim, para não desapontar os dois, ele disse:

— Mas vocês deixam qualquer um curioso por conhecer esse sujeito.

De repente, a expressão de Stummel assemelhou-se em sua lividez à de um acompanhante de féretro, enquanto ele dizia:

— Infelizmente, logo ele nos escapará por entre os dedos.

— Como assim?

— Porque a Liga Alemã vai nos surrupiar esse cara. Isto é inevitável. Só me admiro que não tenha acontecido há muito tempo. Mas no dia em que o primeiro treinador o vir jogando, bem então terá chegado a hora.

A Liga Alemã? Imbecilidade total! Heinrich teve de se controlar bastante para não soltar uma estrondosa gargalhada e não bater com o indicador na testa. Mas logo desapareceu esse impulso quando ele ouviu o homem baixinho, que Pit Schmitz chamara de Stummel, prosseguir:

— Sabe de uma coisa?, esse sujeito estava a caminho da seleção nacional de juniores na Rússia. Há seis meses atrás ele veio pra cá, morar em Gelsenkirchen. É o tipo de sujeito que a gente tem de arrancar as coisas com alicate. Qualquer outro em seu lugar, estaria contando as maiores vantagens da paróquia... mas ele até bem pouco tempo atrás escondeu de nós o que havia com ele... do outro lado da cortina de ferro. Somente o nosso chefe foi bastante inteligente para meter-lhe alguma coisa na cabeça, então ele viu-se na contingência de reconhecer algo. Mas só o mais necessário. Tenho certeza absoluta que ele ainda não nos contou tudo. O senhor sabe, ele é um cara muito esquisitão. Vive sozinho lá com ele mesmo, na maioria das vezes. Constantemente, fica sentado em seu quarto, metendo a cara nos estudos. Dizem que ele quer continuar os estudos. Sabe?, o fato de ele estar participando disso hoje, é uma tremenda exceção. Mas não havia outro jeito, porque não dava pra ele mandar um representante pra comemorar o próprio aniversário. No entanto, sei que ele teria preferido fazer isso. — Stummel virou-se para o dono do restaurante. — É verdade ou não é, Pit?

— Verdade verdadeira — assentiu Schmitz.

Com uma expressão de ceticismo, Heinrich disse para Stummel:

— Um ”cobra” como ele, já seria conhecido pelo nome quando chegou da Rússia. Afinal, pelo que o senhor me disse, ele era jogador da seleção nacional.

— Não — se contradisse Stummel — eu disse que ele estava a caminho da seleção nacional de juniores. Mas ao mesmo tempo, quando sua grande carreira ia começar, fazendo com que seu nome fosse levado além das fronteiras da Rússia, ela chegou ao fim. Naquela época, seus pais, que eram originários da Alemanha, apresentaram o primeiro requerimento para que a família retornasse à República Federal. E com isto as coisas chegaram ao fim. Esse tipo de atitude, como todos sabem, leva, nos países comunistas, à miséria repentina. Da noite para o dia se perde o emprego e, muitas vezes, até mesmo a casa e, quando se é desportista, sai-se voando de qualquer seleção nacional, é claro. Tenho certeza de que o senhor também já andou lendo o mesmo nos jornais.

— Sim — confessou Heinrich.

Stummel ergueu seu copo para umedecer a garganta que se ressecara com a longa conversa. Pouco tempo depois, um dos que estavam no salão contíguo saiu para ir ao banheiro. Ele descobriu Stummel.

— Stummel! — gritou o outro. — Puxa, há quanto tempo você está aqui? Nós já estávamos sentindo a sua falta. Normalmente você é sempre o primeiro. Que é que você está fazendo aqui fora. Vamos lá pra dentro.

— Udo, Pit e eu estávamos trocando algumas ideias — respondeu Stummel agarrando seu copo, acenando para Heinrich e obedecendo à intimação de Udo. Assim que entrou no salão ao lado, ouviu-se um grito geral que ecoou pelas paredes. Era o coro de saudação a Stummel.

Pit Schmitz e Heinrich seguiram-no com a vista. Assim que ele desapareceu, o dono do restaurante disse:

— Você não acreditou muito nessa história, não?

— Não — confessou Heinrich. — Por acaso você acreditou?

— Eu, sim.

— Realmente?

— Olha, eu já vi o sujeito jogando... e você não! O cara realmente merece a Liga Alemã.

— Pombas, não me venha você falar em Liga Alemã!

— Claro que vou falar, meu jovem. — Pit curvou-se por cima do balcão e abafou a voz. — E tem mais uma coisa que vou dizer a você, mas que isto fique entre nós, está ouvindo? Trata-se de uma situação fora do comum, que um homem como ele esteja perdendo o tempo em joguinhos ridículos de empresas. Se ninguém aqui em Gelsenkirchen ainda o notou, então a gente deve botar uma pulguinha atrás da orelha do pessoal de Colónia. Dá pra você entender o que estou querendo dizer? Eu escrevi para o l? Colónia F.C. e contei a situação, e espero que eles mandem um observador pra cá. E você quer saber o que foi que aconteceu?

— Nada.

— Corta essa! — disse Pit com um amplo sorriso irónico nos lábios. — Está vindo um pra cá.

— Está vindo um pra cá?

— Ele já se anunciou.

— Quando?

— Isso depende de mim. Devo avisá-los por telefone, assim que acontecer um jogo adequado. — O sorriso irónico de Pit tornou-se mais amplo ainda. — Meu caro, os caras de lá têm uma certa consideração por mim.

— É, pouco a pouco, eu também começo a ter — Heinrich viu-se obrigado a admitir.

— Estou lhe dizendo...

Heinrich apontou com o polegar para a porta do salão ao lado.

— Esses caras aí suspeitam de alguma coisa?

— Você está maluco? — retorquiu Pit. — Eles me linchariam! Logo eu, o dono do restaurante que eles freqüentam! Você entende? Esse traidor! E assim por diante! Por isso mesmo é que torno a lhe pedir para que você não diga nenhuma palavra a esse respeito, com ninguém, em Gelsenkirchen inteira! Eu confio em você.

— Você pode confiar, Pit.

— Caso contrário, não teria lhe confiado o segredo sobre esse negócio.

— Não se preocupe.

Heinrich estava sentado meio de costas para o salão contíguo, quando a porta se abriu, porque mais uma vez alguém estava querendo ir ao banheiro.

— Lá está ele — disse Pit com a voz abafada para Heinrich.

— Quem?

— O cara sobre quem nós estivemos falando o tempo todo.

Henrrich virou-se de lado.

— Não! — gritou, tomado pela surpresa.

No mesmo momento, Wilhelm Thurnagel descobriu-o, sentindo-se não menos surpreso do que ele. O cumprimento que ambos trocaram foi o mais afetuoso possível. Mas ainda havia uma terceira pessoa, cujo espanto talvez fosse maior... Pit Schmitz.

— Vocês se conhecem? — perguntou ele perplexo, no momento em que Heinrich e Thurnagel se apertavam as mãos. E depois que ficou sabendo de onde ambos se conheciam, não soube se aquilo era motivo para reflexões ou não.

A partir do primeiro momento em que Wilhelm viu Heinrich, seu íntimo viu-se todo tomado por um único nome... Marianne! Mesmo assim, ele jamais tomaria a iniciativa de dizer nada sobre ela. Quem o fez, foi Heinrich. Como garçom que era, não teve a menor dificuldade para, sabiamente, rebocar Wilhelm para uma mesa que fosse o bastante afastada do balcão, para ter plena certeza de que Pit não ouviria nenhuma palavra do que fosse dito. Pit não precisava saber daquilo, pensou Heinrich.

Heinrich já era um ardoroso fã de Wilhelm desde aquele instante em que este ensinara aos três transviados no Girassol com quantos paus se faz uma canoa. Heinrich também não fazia parte daqueles muitos que suprimiram a simpatia que sentiam por Wilhelm, assim que ficou divulgado que este não era um alemão. Heinrich lamentara profundamente o repentino desaparecimento de Wilhelm de seu campo de visão. No entanto, os garçons vivem tendo esse tipo de experiência, faz parte da profissão.

— Puxa, senhor Thurnagel, está fazendo belas coisas por aí — começou ele a conversa.

— Eu?

— Sim.

— Como?

— Ué, como jogador de futebol, quero dizer. Já me contaram tintim por tintim.

— Ah, besteira! — disse Wilhelm com desdém. — Eu só estou dando uns chutinhos aí, num time de empresa... não vale nem a pena conversar sobre isto.

— Olha que isto ainda pode mudar.

— Só poderia mudar se eu fosse colocado fora de combate por algum ferimento, aí então também se poria um fim nesta besteira toda. Isto só me toma tempo.

— Você mete muito a cara nos estudos — disse Heinrich. — Também já me contaram sobre isso.

— Quem foi que lhe contou?

— O dono do restaurante aqui e seu amigo Stummel.

— Stummel? O senhor já o conheceu também?

— Ele é um grande admirador seu.

— Ele é um idiota — riu Wilhelm. — Mas um idiota simpático.

— Também tive esta impressão — assentiu Heinrich. Depois perguntou: — Que é que o senhor está estudando?

Rapidamente ficou claro que Wilhelm não gostava lá muito de falar sobre isso, pois ele respondeu com uma resistência visível:

— Ah, eu gostaria de subir mais, profissionalmente. Talvez eu consiga.

Mesmo assim, Heinrich prosseguiu:

— Estou convencido que conseguirá. Só em ouvir o quanto o senhor melhorou o seu alemão nesse período... fantástico! O senhor teria algo contra a que eu contasse isso para a senhorita Berger?

Wilhelm ficou sentado como se tivesse sido atingido por um raio.

— A quem? — balbuciou ele.

— A senhorita Berger. Nenhuma outra pessoa no mundo estaria mais interessada nisto do que ela.

— Eu... eu não acredito — respondeu Wilhelm com a voz mais rouca que de hábito.

— Como, o senhor não acredita? Olha, em seu lugar eu pensaria diferente, talvez então pudesse acreditar — disse Heinrich.

É bem verdade que uma resposta chegou aos lábios de Wilhelm, mas como se manteve calado, o garçom prosseguiu:

— O tempo inteiro eu vejo o que está acontecendo com aquela moça, desde que vocês brigaram. E agora eu posso ver também o que está acontecendo com o senhor. Eu...

— Sabe, nós não brigamos — interrompeu Wilhelm.

— Pombas, que foi então?

— O senhor Berger... — mais uma vez chegou aos seus lábios, mas Wilhelm calou-se de novo, cravando os olhos fixos em um ponto à sua frente, para depois dizer: — Olha, dá no mesmo. Afinal foi o procedimento mais correto.

Brilhou uma luz na mente do garçom? Ao que tudo indicava, sim, pois ele disse então com um olhar pensativo:

— Ora, ora, o senhor Berger...

Deixou que as palavras ecoassem, acendeu um cigarro, deu uma longa tragada, soprou a fumaça para o alto, para finalmente prosseguir:

— Neste caso já dá pra imaginar muita coisa. Uma segunda tragada. Logo a seguir:

— O senhor não precisa me contar mais nada, senhor Thúrnagel.

— Olha aqui, eu não lhe contei nada mesmo — opinou Wilhelm.

— Claro que sim.

Wilhelm levantou-se. O seu íntimo estava, por assim dizer, tomado por uma avalanche de sentimentos, que só lhe tinham serventia como tortura. Enquanto ele continuasse ali, conversando com Heinrich, aquilo não teria nenhuma melhora. Por isso, ele pôs um fim ao assunto.

— Olha, eu tenho de entrar para me juntar aos outros — disse ele. — Foi muito bom tê-lo encontrado. O senhor costuma vir aqui?

— Vivo nas proximidades.

— Talvez nos encontremos de novo. — Oxalá, não, foi o que pensou, enquanto estendia a mão. — Tchau!

Ora, até aquela forma de cumprimentar, típica do alemão moderno, ele já estava dominando.

— Tchau! — disse também Heinrich, apertando a mão de Wilhelm. — Não devo cumprimentar ninguém?

Wilhelm só precisou de uma diminuta fração de segundos para refletir.

— Não! — disse duramente, virando-se.

Heinrich seguiu-o com a vista, balançando a cabeça. Havia uma discordância naquele balançar de cabeça, que no entanto não carecia de decisão.

O telefone soou na sede do Schalke 04 F.C. Presente estava Alfred Borm, o representante comercial, 52 anos de idade, calvo, afeiçoado à boa comida e à boa bebida, que só era capaz de perder a calma com uma derrota do Schalke. Presente estava também Walter Tyk, o roupeiro do clube. Tyk viera à sede comercial, para informar que se devia encomendar uma nova remessa de bolas de futebol e que isto fosse feito o mais rápido possível.

— Está bem — disse Borm. — E que seria este ”o mais rápido possível”?

— Bem, digamos que no decorrer dos próximos dois meses — replicou Tyk.

- Ou...

 

Como já foi dito, neste momento soou o telefone. Borm tirou o fone do gancho. No aparelho estava um dos inúmeros gozadores, com os quais os clubes de futebol sempre estão lidando. Essa gente está sempre pensando ter descoberto a pedra filosofal do futebol. Todos têm a característica específica de pensar que são mais inteligentes do que cada treinador, com quem nunca estão de acordo a respeito das escalações. Escrevem cartas para as redações dos jornais. Chegam até mesmo a invadir as sedes dos clubes da Liga Alemã. E o mínimo que fazem é molestar os funcionários das sedes com cartas e chamadas telefónicas. Alfred Borm teria de agüentar mais uma vez uma dessas investidas.

Deixou que o sujeito falasse, cobriu o fone com a mão e, revirando os olhos, disse para Tyk:

— Mais um cara do outro mundo. Sabe quem?

— Quem?

— Sepp Herberger. Tyk riu.

— Que nos aconselha ele?

— Que nós devemos cravar as unhas em um jogador que vai colocar no bolso todos os outros jogadores que existiram até hoje. Diz que nós o temos debaixo do nariz. Só precisamos agarrá-lo.

O representante comercial parou de conversar com o roupeiro, tirou a mão do fone e disse:

— Claro, pode ficar sossegado, nós vamos dar uma olhada no sujeito, senhor... como é mesmo seu nome?... Heinrich?... Muito obrigado. Pode ficar sossegado, eu mesmo falarei com o treinador... sim, sim... claro... absolutamente certo, senhor Heinrich...

Mais uma vez, Borm tapou o fone, tornou a revirar os olhos e disse para Tyk:

— Agora ele está me contando onde é que esta preciosidade desperdiça suas flores. Você sabe onde?

— Onde?

— Em um time de empresa.

E Tyk não conseguiu rir de novo.

— Desliga esta porcaria — disse ele.

Mas esse tipo de atitude não fazia parte do comportamento do representante comercial Borm, que não gostava de enxovalhar nem mesmo um gozador, pois ele sabia que justamente os f as mais malucos eram também os mais fiéis. Por conseguinte, ele prosseguiu escutando o homem no telefone, deixando que este terminasse de despejar o resto de suas besteiras. No entanto, viu-se obrigado a fechar os olhos e abaixar a cabeça para, com esta posição característica, poder suportar mais facilmente.

O roupeiro Tyk refletiu se devia ou não ir embora e voltar mais tarde.

De repente, Borm abriu os olhos, ao mesmo tempo em que levantava a cabeça.

— Que está dizendo! — berrou ele no fone.

Tyk viu o rosto de Borm assumindo uma expressão de surpresa. E isto fez com que ele tornasse a sentar-se na cadeira, da qual já estava se levantando. Além disso, Borm, com o aparelho colado à orelha, lhe acenava para que não se fosse.

As declarações do gozador pareceram tão importantes agora para o representante comercial, que ele trocou o fone do ouvido direito para o esquerdo para poder anotar algo. Terminando, ele falou:

— Muitíssimo obrigado, senhor Heinrich. O senhor pode ficar despreocupado que nós vamos tomar uma atitude. Talvez o senhor tenha prestado um grande serviço a nosso clube.

Quando o fone foi depositado no gancho, o roupeiro Tyk perguntou:

— Puxa, que foi isso assim de repente?

Borm quis fazer um pouco de mistério. Ele olhou para o papel onde havia feito anotações, sublinhou algo, pôs a caneta de lado e deixou que a bomba explodisse finalmente:

— O l? Colónia F.C. já está atrás desse cara.

— Pombas, não me venha com essa.

— Foi o mesmo que senti quando escutei a história.

— Num time de firma?

— Isso mesmo — assentiu Borm. — Mas parece que o sujeito já foi da seleção de juniores da Rússia.

— E esse cara está perdido por aqui.

— Sim. senhor... e tem mais, a gente pode comprá-lo por uma maçã e um ovo.

Tyk balançou a cabeça.

— Isto não pode ser verdade...

— Foi o que eu também pensei, Walter... até o momento em que o sujeito falou do l? Colónia F.C. Isto me tomou de assalto. Imagine só se esses caras chegam na nossa frente e Gelsenkirchen fica sabendo. Os torcedores nos expulsariam da cidade.

— De fato.

— Você gostaria de correr este risco?

— Não.

O representante comercial pegou a anotação, com a qual brincara durante a conversa com o roupeiro, empurrando-a de um lado para o outro da escrivaninha e disse:

— Bem, então, mãos à obra...

E veio a citação no tribunal do júri da comarca de Gelsenkirchen da ação criminal movida contra Wilhelm Thiirnagel por ferimentos físicos. Eram 8:45 h da manhã. O início da audiência estava marcado para as 9 h. Pouco a pouco, foram aparecendo no corredor do tribunal todos os implicados. A maioria já estava lá. De um lado agrupavam-se os citados pelo promotor público: o ferido, de nome Georg Kozurka; dois amigos dele, que à época do incidente estavam com ele, querendo entrar no cinema; a dama da bilheteria; e, surpreendentemente, também a senhora Krupinsky, a antiga proprietária do quarto em que Wilhelm morou.

Do outro lado do corredor estavam o advogado Dr. Bernin e seu cliente Thiirnagel, conversando em voz baixa. Peter Storm, o chefe de Wilhelm, juntara-se aos dois, fumando um cigarro depois do outro; um sinal claro de seu nervosismo. Ainda faltava a presença de Marianne.

Stummel representava um corpo estranho entre todos os presentes no corredor. Nada tinha a ver diretamente com a audiência, não era vítima nem testemunha de acusação, tampouco testemunha de defesa. Mas mesmo assim, ele fazia parte de tudo aquilo... como? Isto ainda seria demonstrado.

— Portanto — sussurrou o Dr. Bernin — tome a peito o que eu lhe disse, senhor Thúrnagel. Não vá o senhor mesmo se incriminar. Como acusado, o senhor não está obrigado a isto.

— Não — disse Wilhelm com um ar francamente fatalista. Parecia faltar-lhe empenho. Tinha-se a impressão de que ele via aquilo tudo como uma peça de teatro incompreensível.

Stummel insinuou-se no grupo de pessoas que representava os conclamados pelo promotor público.

Marianne apareceu na escada. Vestida com uma roupa escura, estava pálida, visivelmente magra, mas mesmo assim, mais esplêndida ainda. Wilhelm notou-a imediatamente. Ao contrário dela, seu rosto foi tomado por uma coloração avermelhada. O Dr. Bernin apresentou-a a Storm. Somente depois desta apresentação, chegou a vez de Wilhelm ser apresentado a ela. Ela deu-lhe a mão, esboçando um pequeno sorriso e disse:

— Bom-dia, Wilhelm.

— Que está fazendo aqui? Logo você? — a frase escapou de sua boca com um tom rude.

— Vou depor.

— Você não vai não!

— Vou.

Naturalmente que Wilhelm adivinhou de imediato quem seria o culpado daquilo e virou-se para o suspeito. Com um olhar de causar medo a qualquer um, ele perguntou:

— Senhor advogado, eu lhe disse claramente que não queria isto!

Antes que o Dr. Bernin pudesse externar uma palavra de justificativa, Marianne disse calma:

— Wilhelm, não tem a menor importância o que você disse ou deixou de dizer, para quem quer que seja, com relação a minha presença. Será que você entende que sou eu que quero estar aqui?

Wilhelm ruborizou-se mais ainda, Marianne ficou mais pálida. Contudo, a palidez dela não era nenhum sinal de fraqueza.

— Trata-se de minha e só minha vontade! — ele ainda acrescentou.

— E trata-se da minha audiência!

Esta ridícula reivindicação de propriedade, levantada por Wilhelm, no fundo, deveria ter provocado uma reação de divertimento, o que não ocorreu, pois a situação era séria demais. Pensando na audiência que já estava prestes a acontecer, o Dr. Bernin disse para Peter Storm:

— Isso aqui ainda pode ficar mais quente.

Em conseqüência disto, Storm achava que, como chefe de Wilhelm, poderia conseguir algo:

— Pombas, mas que droga, Thúrnagel — xingou ele — não fique bancando o maluco aqui, porque senão todos nós iremos para casa e vamos deixar que você descasque sozinho essa banana.

— Sabe de uma coisa, eu preferia que fosse assim!

E era esta a atitude com a qual Wilhelm comparecera à audiência. E assim ficou, pois pouco depois foi aberta a porta da sala e o oficial de justiça ordenou a entrada de todos.

Uma audiência começa em geral com a instrução das testemunhas, durante a qual tanto as testemunhas de acusação quanto as de defesa são instruídas pelo presidente do tribunal, sob a ameaça de punição severa, de que devem dizer a verdade e nada mais que a verdade. Em seguida, todos são mandados para fora da sala, para esperarem lá fora a respectiva chamada. Somente o acusado permanece na sala. Dá-se início então à leitura da acusação. Quando esta termina, inicia-se o interrogatório do acusado.

— Senhor Thiirnagel — disse o juiz — o senhor acaba de ouvir as acusações feitas contra o senhor. O senhor entendeu tudo?

— Sim.

— Não precisamos de um intérprete?

— Não.

— Olha, pode ser — disse o juiz com uma expressão indulgente — que os seus conhecimentos do alemão não sejam suficientes. É melhor que o senhor nos diga logo, a fim de que depois não surjam apelações baseadas em problemas de entendimento.

O Dr. Bernin adiantou-se à resposta de Wilhelm.

— Senhor presidente — disse ele para o juiz — os conhecimentos do idioma alemão do meu cliente são suficientes. O tribunal poderá convencer-se disto.

— Mas não é isto que se depreende do protocolo do interrogatório policial.

— Isto foi há meses atrás.

— O senhor está querendo dizer que neste meio tempo o seu cliente aprendeu o idioma?

— Sim.

O presidente não pareceu estar muito convencido, mas disse:

— Está bem, neste caso já podemos começar.

Como é fácil de se entender, aquele intermezzo entre o presidente do tribunal e a defesa foi humilhante para Wilhelm. Causou danos em sua autoconfiança e, por conseguinte, aumentou sua antipatia por aquela audiência.

— Portanto, senhor Thiirnagel — começou mais uma vez o presidente do tribunal — o senhor acabou de ouvir as acusações que lhe são imputadas pela promotoria pública...

— Sim.

— Qual a sua posição a este respeito? Que tem o senhor a nos dizer? Provavelmente o senhor vai querer contestar tudo, não?

— Não.

Os olhos de todos os que ali no tribunal estavam — não somente os do presidente — dirigiram-se surpresos para Wilhelm.

— O senhor não nega estes fatos?

— Não — repetiu Wilhelm.

— Então, que quer o senhor?

— Dizer a verdade.

— Muito bem! — assentiu o presidente, cumprimentando os jurados à sua esquerda, depois os da direita, para enfim, fixando o olhar em Wilhelm, dizer: — Até que enfim uma novidade. Isto encurtará em muito todo o processo. Portanto, podemos supor que o que está escrito no laudo acusatório, é verdade?

— Sim.

O advogado de defesa levantou-se de um salto.

— Senhor presidente...

— Fique sentado — informou-lhe o presidente do tribunal — daqui a pouco chegará sua vez. No momento só estou falando com o acusado. Quando chegar sua vez, passarei a palavra para o senhor.

— Eu só gostaria...

— Mais tarde, senhor advogado.

O Dr. Bernin tornou a sentar-se, com um olhar de resignação.

— Senhor Thiirnagel — prosseguiu o juiz — o senhor confessa o delito de ferimentos corporais que lhe é imputado?

— Sim.

— O senhor não alega legítima defesa?

— Não.

— Bem, neste caso o senhor terá de nos dizer porque bateu no outro.

— Porque a dama que estava em minha companhia foi insultada.

— Em que consistiu este insulto?

— Ela foi chamada de puta de estrangeiros.

— Nada mais?

O olhar de Wilhelm ardeu.

— Isto bastou!

— Eu achava — disse o juiz, tentando dar um jeito no erro que, sem dúvida, havia cometido — que poderia ter ocorrido mais alguma coisa; que, por exemplo, ele tivesse cuspido. Diga-me, foi este o caso, ou algo parecido?

— Não.

— Portanto, foi somente o xingamento que provocou seu ato passional?

— Sim.

— O senhor não seria capaz de imaginar uma outra reação que não esta?

— Ora, qual? — perguntou Wilhelm com uma brusquidão, que não podia ser concedida a um acusado.

— Uma queixa por insulto.

— Bem, para isto eu seria obrigado a saber o nome do implicado.

— Mas é claro.

— O senhor acha que eu deveria ter perguntado a ele? O juiz percebeu que havia sido confundido e esforçou-se para tirar o corpo fora, pelo menos parcialmente, dizendo:

— Bem, pelo menos o senhor poderia ter tentado. Pôde-se ouvir um leve riso no público presente à audiência.

— Neste caso, nós teríamos chegado aonde chegamos — replicou Wilhelm secamente.— Só que aí, quem teria apanhado seria eu, caso não tivesse me antecipado a ele.

— Pois neste caso não seria o senhor a sentar-se no banco de acusado, mas sim ele.

Wilhelm deu de ombros.

— Meus senhores — disse depois disso o juiz para os jurados, para o promotor público e também para o advogado de defesa — acho que podemos nos poupar algo em termos de interrogatório de testemunhas, já que o acusado confessou...

Todos acenaram com a cabeça concordando, até mesmo o advogado de defesa, que em seu íntimo já se havia abandonado à decisão de entregar um cliente como aquele ao seu próprio destino.

O presidente do tribunal olhou em sua ata, folheou-a, encontrou o que parecia estar procurando e disse:

— Bem, neste caso, gostaria de ouvir somente a testemunha Marianne Berger, por causa do insulto, e naturalmente o agredido. Mas em primeiro lugar, a senhorita Berger, o que deve ser rápido...

No entanto, o interrogatório com a moça não transcorreu tão rapidamente assim.

— Senhorita Berger — começou o presidente, depois que o oficial a chamara e após a verificação de seus documentos — para sua informação: o acusado se declarou culpado confesso. O que o tribunal está querendo saber da senhorita é a resposta a uma única pergunta: a senhorita sentiu-se insultada com a expressão usada no momento em que ocorreu o delito?

— Naturalmente — replicou Marianne.

— Muito?

— Insultada como nunca fui em minha vida.

— Mas a senhorita não influiu sobre o acusado para que este usasse a violência, não?

— Claro que sim. - Houve um momento de silêncio.

Depois, Wilhelm gritou do banco de acusado:

— Marianne!

Marianne virou-se em sua direção.

— Claro que sim? — perguntou o juiz tomado pela surpresa.

— Sim — assentiu Marianne. — Normalmente não teria acontecido absolutamente nada. Infelizmente, naquele instante eu não o quis compreender. De qualquer maneira, o senhor Thurnagel não teria tomado a iniciativa de usar de violência.

— No entanto ele usou da violência!

— Simplesmente porque eu esperava isto dele. Eu quis que ele tomasse a minha defesa.

Mais uma vez, Wilhelm fez-se ouvir.

— Marianne, que besteira é esta que você está dizendo? Que significa isto? Não vale a pena falar sobre o caso.

Ela não lhe deu ouvidos.

— Caso ele — disse ela para o juiz — não tivesse reagido da maneira como eu esperava, estaria tudo liquidado para mim.

— Então, a senhorita disse algo para ele, a senhorita gritou algo para o acusado?

— Não, isso eu não fiz — replicou ela sem a menor hesitação. — Mas tampouco era preciso. Nestes momentos, basta um olhar, e naquele dia o meu foi bem significativo.

— Ela está mentindo! — gritou Wilhelm com uma voz de raiva inconfundível.

Neste momento, Marianne virou-se para ele.

— Eu não estou mentindo. Estou dizendo a verdade.

— Está mentindo sim, e como! Será que você não percebe o que vai acontecer com você, por causa de tudo que está contando aqui? A verdade é que você nada tem a ver com isso, droga! Eu sou o único que tenho! Pelo contrário, você até que ficou muito zangada comigo, me enchendo o saco com recriminações... ou será que isto não é verdade?

— Não — disse Marianne decidida.

Depois disso, Wilhelm agarrou os cabelos e balbuciou:

— Estou ficando doido!

— O que o senhor deve fazer é ficar quieto — disse-lhe o juiz com um ar severo e, como não obteve resultado positivo, ameaçou com a imposição de uma pena disciplinar.

Em seguida, continuou com Marianne. E agora era o promotor público que desconfiava dela.

— A senhorita sabe — disse ele — que eu poderia pensar que seu depoimento em favor do acusado está sendo influenciado por um eventual relacionamento entre a senhorita e ele. Nós estamos sempre presenciando este tipo de coisas por aqui.

— Mas não hoje — replicou Marianne prontamente.

— Não?

— Não! Relacionamento, como o senhor disse, houve de fato um dia entre o senhor Thirnagel e eu, mas isto foi durante muito pouco tempo. Há muito tempo que esse relacionamento foi rompido. Nunca mais nos vimos.

E assim, o promotor público foi ”jantado” também. A testemunha Marianne Berger foi dispensada pelo tribunal; ela podia ir embora. E para finalizar, o presidente anunciou uma pausa de dez minutos, apesar de que a audiência não tenha demorado tanto tempo assim. A causa do intervalo nada tinha a ver com o procedimento processual, mas sim no fato de ser o presidente um fumante inveterado, que por isso mesmo, via-se constantemente forçado a interrupções em suas audiências.

Jurados, presidente e promotor público desapareceram na sala do conselho, todos os outros dirigiram-se para o corredor, para esticar um pouco as pernas ou também para darem suas baforadas.

No corredor, podia-se ver como Stummel conversava com o trio eleito pelo promotor público para quebrar o pescoço do acusado. O trio era composto das seguintes pessoas: Georg Kozurka, o agredido e seus dois amigos. Surpreendentemente, Stummel parecia ter conseguido criar um bom relacionamento com os três. Brincava com eles, dava-lhes cutucadas nas costelas, chamando-os ora de ”colegas”, ora de ”camaradas”. Era o caso de se perguntar aonde aquilo chegaria.

Pois bem, como já foi dito antes, Stummel insinuara-se no trio momentos antes do início da audiência. Depois, tivera lugar a instrução das testemunhas e, quando os três retornaram ao corredor, Stummel segurou-os imediatamente pelo braço, anunciando:

— Preciso falar com vocês.

— Que é que o senhor quer? — perguntou Kozurka rude.

— Pó, corta essa, você pode me tratar por você — respondeu Stummel. — Eu também sou um assalariado como vocês. E tem mais uma coisa que sou, como vocês também, só para vocês não me confundirem.

— O quê?

— Torcedor do Schalke.

Como que impelidos por uma voz de comando, Kozurka e seus dois compadres arreganharam os dentes na mesma hora.

— Cara — disse Kozurka muito mais amigável — pô, então você vai ter que se esforçar se quiser ser comparado a nós nesse terreno.

Stummel olhou fixamente nos olhos do outro durante alguns segundos e depois disse:

— Olha, eu andei sabendo por aí que você é o tal do agredido, não é?

— Sim — assentiu Kozurka, prosseguindo depois com uma cara mal-humorada — quer saber de uma coisa, essa merda toda que está acontecendo aqui, não me agrada. Pombas, quando as pessoas se pegam, o problema é delas, nenhum tribunal devia se intrometer.

— Mas então você não devia ter feito queixa nenhuma.

— Olha, eu quase que fui forçado a isso.

— Por quem?

— Pela Caixa de Seguros.

— Neste caso, vou lhe dizer qual vai ser o resultado disso: o Schalke 04 F.C. não vai receber um novo grande jogador.

— O quê? — perguntou Kozurka sem entender nada. Seus dois companheiros olharam com o mesmo ar de estupidez.

— Escutem... — Stummel começou a contar aos três a história verdadeira de Wilhelm Thíirnagel. E quando Stummel fazia um quadro de Wilhelm Thúrnagel, era o mesmo que se estar falando de Franz Beckenbauer. A única diferença era que ainda estava por ocorrer a descoberta de Thíirnagel. No entanto, esta descoberta estava prestes a ocorrer, informou Stummel. Ou Thúrnagel acabaria caindo nos campos do l? Colónia F.C., que já estava no encalço dele, ou então no Schalke F.C., que já lhe havia apresentado uma proposta concreta, depois que seu treinador o andou observando. E era óbvio que se podia imaginar de quem dependia, a partir daquele momento, por qual clube ele iria decidir-se.

— Ou seja, unicamente de você! — concluiu Stummel, batendo com o dedo indicador no peito de Kozurka.

— De mim, como assim, cara?

— Porque está em tuas mãos se ele será ou não condenado hoje. Se o for, então ele ficará enojado de Gelsenkirchen e se mandará daqui.

Georg Kozurka olhou para seus dois companheiros, estes para ele. Ninguém disse nada.

— Olha, ele mesmo já me comunicou a decisão, há muito tempo — Stummel não teve dificuldades em mentir — de que então ele assinaria com o Colónia F.C.

De repente, Stummel meteu a mão no bolso, tirou a carteira de dinheiro. E naquele exato momento, ele terminou sua obra-prima. Retirou uma nota de cem marcos da carteira e estendeu-a para Kozurka, dizendo:

— Está aqui, tome, afinal você poderia pensar que eu não passo de um grande vigarista e que só estou contando uma mentirinha pra vocês porque quero salvar o meu amigo. Por isso eu lhe proponho que agarre essa nota, vá procurar a cabine telefónica mais próxima, telefone para o Schalke F.C. e lhes fale sobre o que está acontecendo aqui no tribunal. Você vai ver que os caras vão ficar fora de si, vão perguntar se você ficou maluco, se você não tem nenhuma consideração pelo clube. Se você está tencionando fazer com que o próximo campeonato vá para Colónia. É, são essas coisas que eles vão perguntar a você! Mas se isso não acontecer, se você constatar que eu só estava aqui mentindo, então você virá me dizer e poderá ficar com essa nota pra você. Tudo bem? Mas só se for mentira! Se você ficar sabendo que eu disse a verdade, então eu recebo a nota de volta. Entendido?

Stummel ganhou.

Depois que Kozurka e seus dois amigos tornaram a trocar olhares, apareceu a decisão. Kozurka disse para Stummel:

— Cara, você me convenceu, pode guardar sua nota. Sabe de uma coisa, não estou disposto a aumentar sem necessidade o lucro da companhia telefónica.

Pouco depois, a porta da sala de audiência foi aberta e Marianne saiu para o corredor, depois de haver sido dispensada pelo tribunal como testemunha. Já havia cumprido a tarefa à qual se dispôs e se apressava em direção à escada para deixar o prédio do tribunal o mais rápido possível, de volta à casa. Mas Wanda Krupinsky correu atrás dela, alcançando-a na escada chamando-a para uma conversa, na qual ela daria vazão ao ódio cego que nutria por Wilhelm.

— Desculpe-me — começou ela — mas eu gostaria de perguntar-lhe algo...

— Sim? — disse Marianne.

— Olha, é algo muito franco. A senhorita me permite?

— Por favor.

— Que é que a senhorita tem a ver com o senhor Thúrnagel?

Óbvio que Marianne imediatamente colocou-se em posição de defesa. E o que é que você tem a ver com isso?, pensou.

— Nada — foi sua resposta lacónica.

; — A senhorita não é a namorada dele?

Se Wanda tivesse assistido à audiência, onde praticamente a mesma pergunta foi colocada à testemunha Berger pelo promotor público, ela poderia ter-se poupado esta indiscrição. Mas Wanda se entediara no corredor, esperando por sua chamada como testemunha... como era o procedimento normal nestes casos.

— Não! — disse Marianne secamente.

E assim deixou de existir a razão pela qual Wanda deveria falar com Marianne. Mas seu ódio por Wilhelm era tamanho que ela, mesmo assim, não quis guardar para si mesma tudo que podia descarregar nas costas do outro.

— Você é que tem sorte — disse ela — porque senão eu seria obrigada a advertir-lhe sobre ele.

— Advertir?

: — Ele me violentou.

Marianne recuou espantada.

— Violentou?

— É, pode-se dizer que violentou, sim. Como a senhorita sabe, ele morou na minha casa...

— Eu sei — disse Marianne com os joelhos fraquejando. — Eu mesma já estive em sua casa, com um pacote para ele...

— Ah, é isso mesmo, foi a senhorita. Pois é, eu já estava pensando cá comigo que lhe conhecia de algum lugar. Agora posso me lembrar perfeitamente. Tudo aconteceu na mesma noite deste dia. Quando mais tarde a polícia foi até a minha casa para interrogar-me sobre ele, eu ainda fiquei calada sobre esse capítulo... sabe, a gente sendo mulher, sempre se envergonha; pois bem, eu só disse a eles que achava que ele seria capaz de cometer alguma violência sim. Por isso fui citada hoje. Naturalmente que, no tribunal, não poderei continuar com o silêncio que mantive até hoje, caso eles me perguntem algo. O cúmulo dos cúmulos desse sujeito foi o fato de ele ter jogado dinheiro aos meus pés. Imagine só, a senhorita. Não é o cúmulo do cinismo? Mas as mulheres são sempre indefesas contra tudo.

Marianne estava tão confusa que nem ao menos tomou consciência da descarada contradição entre ”violentação” e ”jogar dinheiro aos pés”. Somente mais tarde foi que ela começou a pensar a este respeito. Porém, naquele momento, não estava em condições de fazê-lo. Quase não conseguia falar. Seus lábios tremiam. Nesse momento, a porta da sala tornou a abrir-se e os outros saíram, já que, como foi dito, o presidente ordenara a tal pausa para se fumar um cigarro. Wilhelm descobriu Marianne, viu-a junto com a senhora Krupinsky, conversando na escada e, rapidamente, caminhou para elas. Wanda, que estava com a consciência pesada, assustou-se, saindo esbaforida, dizendo:

— Tenho o maior medo deste sujeito — e foi para o banheiro, distante poucos passos dali.

— Marianne — disse Wilhelm agitado, assim que a alcançou — você seria capaz de me explicar essa loucura toda que andou aprontando lá na sala de audiência e...

Interrompeu-se abruptamente, ao notar a aparência dela. Terrível! Era como se ela estivesse prestes a perder os sentidos. O sangue parecia ter-lhe fugido inclusive dos lábios.

— Que é que você tem? — balbuciou ele.

— Deixe-me — foi a única coisa que ela disse.

— Não, eu não vou lhe deixar. Diga-me o que está acontecendo. Gostaria de lhe ajudar.

— Você, me ajudar? — Marianne balançou a cabeça. — Você nem ao menos consegue ajudar a si mesmo.

— Quê?

— Você já verá o que eles farão com você aqui hoje.

— Eles, aqui?

— Sim.

— Estou pouco me importando.

Marianne fitou-o, depois inclinou a cabeça, entristecida.

— Sim, Wilhelm, é esta a impressão que tenho de você, que você não se importa com nada. Faça você o que fizer, parece que você pouco liga para as coisas.

— De que é que você está falando?

Depois de alguns momentos de hesitação, Marianne disse:

— Faço-lhe uma proposta. Deixe esta pergunta para depois de sua audiência aqui. Aí então ela já será desnecessária, porque você já saberá a resposta.

— Mas...

— Adeus, Wilhelm — interrompeu-o Marianne, virando-se e descendo a escada.

E lá ficou ele, seguindo-a com a vista. E mesmo depois de ela haver desaparecido, ele ficou com o olhar cravado na direção que ela tomara.

No corredor, podia-se ver Stummel brincando com Kozurka e seus companheiros. Até que, finalmente, ele desvencilhou-se deles e caminhou em direção a Peter Storm, o chefe de sua firma. A expressão do rosto de Storm era de ira.

— E então? — perguntou Stummel.

— Uma merda — vociferou Storm. — O imbecil parece que está doido para ser condenado. Nem mesmo sei porque me presto a participar desta audiência. Teria tanta coisa que fazer na firma. E a besta do advogado também só fica lá sentado, deixando-se dobrar pelo juiz. Pombas, pra que que eu pago este sujeito?

Stummel sorriu.

— Esqueça-se dele, senhor Storm.

— De quem?

— Do advogado.

— Como assim? Não estou entendendo. -

— Deixe ele pra lá, tranqüilo — disse Stummel. —Acho que já não faz diferença.

— O quê? Que está querendo dizer com isso?

— Conversei com Kozurka.

— Quem é Kozurka?

— O pseudo-agredido.

— E o que tem ele? Droga, não vai querer que eu lhe arranque tintim por tintim pelo nariz!

— Olha, eu acredito que o pronunciamento dele fará com que o advogado seja dispensável.

— Muito bem — perguntou Storm — e você acha que conseguiu isso?

— Sim. - Storm respirou fundo.

— Pois bem — disse ele sublinhando as sílabas — se isso acontecer, vou procurar uma outra colocação para você na firma, porque aí então você terá dado mostras de aptidões especiais. Mas eu ainda não consigo imaginar que seja verdade isto que você disse.

— O senhor verá — disse Stummel, com uma enorme autoconfiança.

E não somente Storm, mas sim todos o viram.

— Senhor Kozurka — disse o juiz, ao serem reiniciados os trabalhos na audiência — nós sabemos que o senhor esteve de cama por causa dos ferimentos que o acusado provocou no senhor. Quanto tempo?

— De cama?

— Sim, quanto tempo?

— Não, eu não fiquei de cama.

— Não? — surpreso, o juiz enfiou a cabeça em sua ata e folheou-a. — Mas é verdade que o senhor esteve dispensado do trabalho por doença, ou não?

— É, mas isso não quer dizer que eu estive ”de cama”. Faltou muita coisa para me deixar de cama.

O juiz tirou os olhos da ata, apesar de não haver encontrado o atestado médico que estava procurando, olhou para Kozurka e disse:

— Bem, pelo que parece, o senhor está querendo dizernos que seu estado físico na ocasião não era tão lamentável assim, é isso?

— O quê? — disse Kozurka, já que o que o juiz dissera, lhe havia sido por demais académico. Quem quisesse se fazer entender por ele, teria de se expressar de uma maneira bem mais simples. Neste momento o juiz o entendeu.

— Bem, pelo que parece — repetiu ele — os seus ferimentos não foram tão graves.

— Correto — assentiu Kozurka.

— Correto? — gritou o juiz, já que estava esperando não uma resposta como aquela, mas sim uma absolutamente contrária. — Ora, em algum lugar aqui na ata está escrito que o senhor esteve meio morto.

— Ridículo.

Foi neste momento que o promotor público, que não estava querendo perder a própria pele, intrometeu-se, dizendo:

— Senhor Kozurka, parece-me que o senhor está querendo fazer o papel do homem forte. Mas tal não ocorrerá, pelo contrário, o tribunal quer esclarecer o delito do acusado e para isto é necessário que o senhor descreva o que ele lhe infligiu, é bem verdade que sem exagero, mas também sem nenhuma dissimulação. O senhor entende?

— Sim — respondeu Kozurka. — O meu erro foi que eu subestimei o cara.

Em conseqüência disto, o promotor disse:

— Ao que parece, o senhor não me entendeu. Claro que o senhor não tinha a intenção de fazer a mesma coisa que o acusado fez... ou seja bater, não é mesmo?

— Claro que tinha.

Aquele ”claro que tinha” deu uma nova direção à audiência. Naturalmente que o promotor público esperava que aquilo não passasse de um equívoco de sua testemunha mais importante, contudo foi obrigado a enterrar sua esperança, pois Georg Kozurka não somente não mais mudou de opinião, senão que chegou a reforçá-la, explicando:

— Meus dois amigos vão confirmá-lo para o senhor, mesmo que seja preciso fazê-lo sob juramento. Portanto, não faria o menor sentido se eu o negasse.

Neste momento, o advogado de defesa despertou. Ele perguntou a Kozurka se teria o direito de interpretar a ocorrência como antecipação por parte do acusado de uma atitude que ele, Kozurka, tomaria.

— Exatamente — assentiu Kozurka solícito.

Sem hesitar, o Dr. Bernin continuou malhando o ferro enquanto ele estava quente.

— Eu poderia — prosseguiu ele — relatar a situação como a vejo. O senhor Thiirnagel foi em sua direção, afinal a dama que o acompanhava havia sido insultada, e o senhor olhou para ele. Que foi que o senhor pensou nesse exato momento?

— Puxa, mas eu tenho de dizer?

— Não, ter o senhor não tem, mas... — o Dr. Bernin deixou o resto da frase no ar.

— Vem cá, seu estrangeiro de merda. O público riu.

Mas o Dr. Bernin não tinha nenhuma expressão no rosto.

— Portanto, este foi seu pensamento?

— Sim.

— Donde se depreende que o senhor já estava decidido a bater?

— Ora, que é que eu iria fazer?

— Apesar de o senhor não saber quais seriam as intenções do seu adversário?

— Bem, não tinha a menor importância o que ele tencionasse fazer ou não.

— Muito bem, que teria o senhor feito, caso ficasse demonstrado que suas expectativas não se cumpririam? Caso, por exemplo, o senhor Thúrnagel só lhe perguntasse pelo seu nome, da maneira mais pacífica possível?

— Pelo meu nome?

— Exato, pelo seu nome, para apresentar uma queixa por insulto. O senhor lhe teria dado seu nome?

Havia muito tempo que Kozurka não escutava uma imbecilidade como aquela. Precisou lutar consigo mesmo durante alguns segundos para não cair numa estrepitosa gargalhada.

— Não — replicou em seguida.

— Que é que o senhor lhe teria dado então?

— Puxa, tenho de dizer?

— Ter o senhor não tem, mas...

— Um pontapé na bunda.

Enquanto o público caía na gargalhada, o Dr. Bernin resumia:

— O fato é que o senhor Thúrnagel só se adiantou ao senhor. Caso não tivesse obtido um bom resultado, ele acabaria levando a pior.

— Mas é claro.

— Portanto, sob nenhuma circunstância ele seria poupado.

— Não.

— Existe algum caso mais clássico que este de legítima defesa?

Esta pergunta, o Dr. Bernin não dirigiu a Kozurka, mas sim ao tribunal. Então, o promotor público, movido pelo impulso de tentar se salvar naquilo que ainda poderia ser salvo, disse:

— O senhor está querendo dizer um caso clássico, mas de outro tipo, ou seja, mais uma vez quem tem a culpa é o assassinado e não o assassino, não, senhor advogado?

A ironia não deu em nada.

Já batido, o promotor público perguntou à sua principal testemunha, que o havia crucificado tão indignamente:

— Diga-me uma coisa, por que é que o senhor apresentou queixa? O senhor seria capaz de me dizer?

Primeiro, Kozurka deu de ombros, depois, mais uma vez, imputou a responsabilidade à Caixa de Seguros que, disse ele, de uma maneira ou de outra, o forçara, contra sua vontade.

A audiência estava praticamente no fim. Não havia mais nenhuma dúvida acerca da decisão do tribunal. Desistiu-se de ouvir as testemunhas restantes. Quando finalmente o presidente anunciou a sentença, ou seja, a ”sentença absolutória do acusado”, a única que discordou foi Wanda Krupinsky que, mais uma vez, viu confirmada sua convicção de que já não mais havia justiça no mundo.

A primeira coisa que Wilhelm fez depois da audiência foi sair correndo para uma cabine telefónica. Telefonou para Marianne. O acaso fez com que a própria Marianne atendesse. Ainda não havia superado o tumulto em seu íntimo.

— Marianne — começou Wilhelm — acabou a audiência e eu ainda nada sei sobre o que você estava falando. Portanto, sobre o quê?

A resposta de Marianne foi:

— Você foi condenado a quê?

— A nada. Fui inocentado.

Coisa que Marianne achou impossível.

— Por que é que você não me diz a verdade? — perguntou ela.

— Mas é esta a verdade! Olha, confesso que eu mesmo me espantei. A decisão partiu do depoimento de Kozurka. Como você sabe, Kozurka era a principal testemunha de acusação, o cara com quem eu briguei. Sabe, ele não carregou em cima de mim, pelo contrário, descarregou.

Pela primeira vez, Marianne tomou consciência do perfeito alemão que Wilhelm estava falando. Agitada como estava no prédio do tribunal, nem chegara a notar a mudança. E como ela teria se entusiasmado com isto! No entanto, agora não, naquele momento este tipo de coisa já não tinha importância.

— E como foi o -depoimento da dona do seu antigo quarto? — perguntou Marianne.

— Não houve. Desistiram de ouvi-la. Aliás, é uma coisa que eu me perguntava: o que é que aquela mulher tinha a ver com a audiência? Que poderia ter ela contado? Não sei.

— É mesmo?

A perguntinha caiu como um raio na cabeça de Wilhelm. Repentinamente, surgiu-lhe diante dos olhos a cena de Marianne e Wanda, conversando na escada, e mais uma vez surgiu-lhe a cena de Wanda desaparecendo rapidamente no banheiro. Deus do céu, pensou ele, e eu que nem pensei nisso!

— Alô, Marianne, você ainda está aí?

Transcorreu uma pequena eternidade, com Wilhelm plantado ali, sozinho.

— Sim — respondeu ela.

— O que foi — ele tentou agarrar o touro à unha — o que aquela mulher andou contando para você?

— Tudo.

— Tudo, que tudo?

— Que você a violentou.

— Violen... — só saiu a metade da palavra. Ele emudeceu. Cresceu nele um ódio indescritível contra Wanda Krupinsky. Se ela estivesse ali presente, nada seria capaz de impedir que ele quebrasse o pescoço dela. Mas tão rápido quanto aparecera, dissipou-se o ódio, deixando em seu lugar uma tristeza infinita no coração de Wilhelm. Ele sabia que o que iria dizer, seria algo definitivo.

E com uma voz que a ele mesmo pareceu estranha, sussurrou no aparelho:

— E você acreditou nisso?

Sem hesitar, desligou.

Estava tudo acabado entre Wilhelm Thíirnagel e Marianne Berger, de uma vez por todas.

Logo a seguir, precipitaram-se os acontecimentos. Wilhelm quis ir embora de Gelsenkirchen. Comunicou a decisão ao seu chefe, que, naturalmente, perguntou-lhe pelo motivo.

— Porque aqui nesta cidade existe uma pessoa — respondeu Wilhelm francamente — com quem eu não gostaria de me encontrar nunca mais. Se não, não seria capaz de recuperar minha calma.

— Uma moça?

— Sim.

— Mas este tipo de coisa passa.

— Não, nunca.

Peter Storm percebeu que nada mais havia a fazer. Wilhelm e o time da empresa... o sonho acabara. No entanto, para não perder Wilhelm de todo, Storm disse:

— Eu posso transferi-lo para uma de nossas filiais em outra cidade. Para qual você gostaria de mudar?

— Para a mais longe daqui.

— Então, seria para Colónia.

— Está bem.

— E quando? Suponho que o mais rápido possível. ”

— Sim.

— Estamos combinados. Mas antes o senhor terá de ensinar o serviço para seu sucessor.

— Naturalmente.

Stummel estava no balcão de Pit Schmitz. Tinha uma cara de poucos amigos, com uma expressão de dia de chuva, sem nada dizer. Pit observou-o durante algum tempo, depois disse:

— Jovem, que tem você? Está irreconhecível. O que foi, teve pouca sorte no amor?

— Estou cagando e andando para o amor! — respondeu Stummel irado. — Wilhelm está indo embora.

— Wilhelm Thurnagel?

— Sim.

— E por quê?

Stummel contou o que sabia. Não era lá muita coisa. Nem algo muito preciso. Havia rumores na firma, disse ele. Falavam de uma mulher. No entanto, ninguém se atrevia a falar com Wilhelm. Mas se sabia para onde ele ia.

— Para onde? — perguntou Pit.

— Para Colónia.

Pit tomou nota da informação, sem fazer nenhum comentário. E assim ele dava provas de, sempre que necessário, ser um homem que sabia controlar-se.

Stummel esvaziou o copo, olhou irresoluto para o copo vazio e depois afastou-o.

— Mais um? — perguntou-lhe Pit.

— Não — replicou Stummel. — Vou pagar.

— Pagar? Puxa mas você só tomou dois.

— É, hoje eu estou sem a menor vontade de beber. — Stummel já estava com a carteira na mão. — Quanto é?

Pit fez sinal que não.

— Deixa pra lá, hoje é por minha conta.

— Ora, por quê?

— Pela sua volta — disse Pit, mas em seu íntimo ele pensou: por seu futuro.

Não havia bem cinco minutos que Stummel se fora, quando a porta se abriu, deixando entrar o garçom Heinrich de bochecha inchada. Pediu uma aguardente contra a dor de dente que impedira que ele fosse trabalhar no Girassol.

— Puxa, mas hoje todos vocês estão com problemas — disse Pit Schmitz.

— Ué, quem mais está com problema?

— Stummel.

— Stummel?

— Você o conhece. Aquele baixinho que há algum tempo atrás esteve com você aqui no balcão. Saiu daqui agora mesmo.

— Ah, sim, ele. E o que é que ele tem?

— Não está com nenhuma dor de dente, é verdade, mas sim com uma tremenda dor de cabeça. Desgosto. Talvez você também já saiba: o teu amigo Wilhelm Thurnagel está indo embora.

— Não sabia não — balbuciou Heinrich. — Está indo embora? E para onde?

— Para Colónia — disse Pit, arreganhando os dentes em um sorriso irónico e significativo.

— Então o que você quer está acontecendo — opinou Heinrich, mas sem sorrir. — Ele já assinou com o Colónia?

Pit deu de ombros.

— Não sei. Se ainda não, logo assinará, naturalmente. Stummel falou que uma mulher estaria metida nisso. — Pit já havia elaborado uma teoria, a qual não hesitou em revelar. — Bem possível isto, não? Mas bem pode ser que ele tenha conhecido uma coloniana dessas gostosíssimas, que ele queira ir atrás. As moças de Colónia — ele beliscou a pontinha da orelha — são um verdadeiro açúcar.

Heinrich ficou calado. Sua teoria era bem diferente e sabia muito bem qual das duas era a verdadeira... a sua ou a de Pit? A sua!

— Mais uma aguardente? — perguntou Pit. Heinrich declinou o convite. Ele também perdera a vontade de beber.

Sabine Berger e sua filha Marianne estavam sentadas na sala de estar. Sabine folheava uma revista, a cabeça de Marianne, como sempre, estava enfiada em um livro. Mas era apenas aparência. Na realidade, Marianne não estava lendo, havia horas que, na mesma página, olhava para o vazio. Seus pensamentos estavam bem longe dali.

O silêncio da sala foi rompido por Sabine que vociferou:

— Terrível!

Marianne assustou-se.

Sabine dera com os olhos em um artigo sobre um guru na índia, cuja missão era aproximar de Deus moças europeias que haviam deixado a pátria e para lá se mudado. Para isto era necessário que elas se desnudassem, enquanto ele meditava, que se reunissem nuas em volta dele, para, por intermédio dele, experimentarem corporalmente o amor de Deus. As fotografias publicadas pela revista davam uma impressão bem viva do ritual. O texto falava sobre pais desesperados, cujos apelos às moças para que retornassem, ficaram sem resposta.

— Veja só você — disse a mãe Sabine para Marianne, enquanto empurrava a revista em sua direção. — Hoje em dia ainda se admite uma loucura destas.

Marianne contemplou as fotos, leu os textos e nada disse.

— E a polícia, onde está a polícia? — prosseguiu Sabine. A próxima pergunta, ela dirigiu a si mesma e a toda nação alemã:

— Será que nós somos malucos? É para isto que nós despejamos rios de dinheiro na ajuda aos países em desenvolvimento?

Marianne continuou calada. Mas não pôde continuar muda, quando Sabine disse indignada:

— E será que essas moças não se envergonham?

— Talvez elas sejam felizes, mãe. Sabine não acreditou no que ouvira.

— O que foi que você disse?

— Olha, mãe, dá muito bem pra pensar que o sejam.

— Você ficou maluca?

Marianne falou mais para si mesma, quando respondeu:

— Sabe... estar bem longe daqui... esquecer tudo... estar bem longe... em um outro mundo... ficar lá... nunca mais voltar...

Calou-se, olhou fixamente para as fotos. E Sabine cravou os olhos em sua filha. Foi tomada pelo mais absoluto espanto.

— Marianne — gritou ela, apontando para o artigo da revista — você não está querendo dizer que isto aí serviria pra você.

Marianne não disse sim. Mas tampouco disse não. Contudo, no olhar que lançou à sua mãe, havia mais Sim do que Não.

Repentinamente, Sabine tomou consciência de que era chegado o momento de impedir algo inimaginável.

— Se você não o fizer — à noite, na cama, ela disse para o marido — então, eu o farei! Porque senão, você sabe onde é que daqui a pouco terá de procurar sua filha?

— Onde?

— Na índia.

Os quatro amigos de Theodor — Johann Schuhmacher, Jupp Maslowski, Fred Szykowiak, Karl Jaworowski — estavam sentados com ele no salão contíguo que não estava em funcionamento.

Haviam pedido para ter com ele uma ”conversa em particular”.

— É, vocês me deixaram bem curioso para saber o que estão querendo — disse ele, depois que todos tomaram assento.

— Heinrich andou conversando conosco — começou Jaworowski.

— Heinrich? Pombas, o quê?

— Ele encontrou aquele jovem que andou vivendo aqui, há algum tempo atrás...

Jaworowski fez uma pausa significativa.

—... e que depois você botou no olho da rua — intrometeu-se Maslowski.

— Olha aqui, eu não o botei no olho da rua não — disse Theodor — ele foi de livre e espontânea vontade.

— Heinrich andou contando algo bem diferente.

— Olha aqui, meu chapa — agitou-se Theodor — que é que esse cara tem para contar? Ele não tem porcaria nenhuma a ver com isso!

— Ele percebeu — agora era Szykowiak quem falava, tão pouco impressionado quanto os outros três — que aquele jovem. Wilhelm Thiirnagel, é assim que ele se chama, não? Pois bem, ele ama sua filha. E pode-se dizer que, neste caso, existe reciprocidade.

A agitação de Theodor aumentou rapidamente, transformando-se em cólera.

— Vou botar esse cara pra fora! — Vociferou com o rosto avermelhado. — Que petulância a dele fazer isto comigo! Será que ele está querendo defender os interesses desse alemão de merda? Vou expulsar esse imbecil! E de vocês — voltou contra os quatro amigos — eu esperava outra coisa do que ficarem conversando com o meu garçom sobre minha vida privada.

— Não perca a calma, Theo — disse Schuhmacher — Heinrich mandou dizer que, caso você o tencione fazer, não precisa botá-lo no olho da rua. Ele vai embora por si mesmo e começa a trabalhar com Pit Schmitz.

— Com quem?

— Com o teu amigo Pit Schmitz. Aliás, o que ele acha é que dentro de pouco tempo não haverá muito o que ganhar aqui na sua loja.

— O quê?

— Ele acha que todos os torcedores do Schalke vão deixar de freqüentar seu restaurante.

Poucas conjunturas são tão oscilantes como a de um dono de restaurante. Por isso mesmo, eles vivem tomados pelo medo de que o negócio possa esmorecer de repente.

— E por que é que os torcedores do Schalke me abandonariam? — respondeu Theodor que, num piscar de olhos, passara a usar um tom de voz mais moderado.

— Sabe, isso tem a ver com esse alemão de merda, como você mesmo o chamou — disse Schuhmacher.

— Como assim?

Para se responder a esta pergunta, era necessário um certo tempo, já que a resposta devia ser abrangente, plausível e convincente, pois tratava-se de transmitir a Theo a sensação de que ele negara a consideração a um novo Pelé ou Franz Beckenbauer e que, portanto, era responsável pelo sujeito estar querendo dar as costas para a cidade de Gelsenkirchen... e, conseqúentemente, para o Schalke.

Karl Jaworowski, que como representante era o mais falador de todos, não poupou Theodor. Contou tudo em seus mínimos detalhes obtendo o grande efeito, ao comunicar que Thíirnagel seria ”comprado” pelo l Colónia F.C. Depois fez a pergunta:

— E você sabe quem foi que manobrou tudo isso?

— Quem?

— Teu amigo Pit Schmitz.

Tudo podia acontecer... menos aquilo!

— Pombas, que devo fazer? — balbuciou Theodor desamparado. — Afinal eu não tinha como suspeitar disso tudo.

— O que você tem a fazer, é a coisa mais simples deste mundo — disse Jaworowski. — Você deve aceitá-lo como seu genro.

Theo estremeceu.

— Isto fará com que ele fique ligado à nossa cidade — reforçou Schuhmacher.

— Não — opôs-se mais uma vez Theodor — vocês não podem exigir isto de mim. Minha filha tem direito a um bom partido... mas não um cara como esse! Minha filha está levando um quarto de milhão para o seu casamento!

Não poderia ter dito de maneira melhor.

— Bem, vocês podem ver — disse Schuhmacher para os outros — o quanto esse aí já meteu a mão nos nossos bolsos.

— Espere aí — retorquiu Theodor com um sorriso escancarado nos lábios — meti a mão no bolso de vocês, não. Meti a mão foi na loteca.

— Na loteca? Quando?

— Há pouco tempo.

— Quanto foi?

— Cento e noventa mil marcos.

— O queeeeê? — gritaram em coro Johann, Jupp, Ffed e Karl.

— É, é preciso ter sorte — sorriu Theo.

— E você só nos diz agora? — repreendeu-o Szykowiak.

— Podem ficar sossegados que vocês terão sua festa, eu só estou dando um tempo. — Theo retornou ao tema anterior da conversa. — Mas agora vocês podem compreender que eu possa querer uma coisa diferente para minha filha, e não um desses meio alemães.

Mais uma vez, foi Jaworowski que disse a coisa adequada ao momento.

— Um meio alemão? — repetiu ele irónico. — Um alemão de merda? — olhou para Theo, balançando a cabeça. — Diga-me uma coisa, por acaso você é algum débil mental? Quanto tempo nós vamos ter de ficar repetindo que dentro em breve esse sujeito estará ganhando seu dinheiro na Liga Alemã? E olha aqui, em um ano ele ganhará o dobro deste seu ridículo prêmio da loteria esportiva! Você não pode continuar ignorando esse cara!

Era preciso que Theodor Berger não fosse Theodor Berger para que aqueles argumentos não quebrassem sua resistência.

Pombas, pensou ele, há quinze minutos eu poderia ter chegado à mesma conclusão. É, mas é sempre assim, quando a gente se mete em uma coisa, onde não se pensa em nada das doze ao meio-dia.

Mas ele ainda fez uma última pergunta.

— E quem é que me garante que ele não acabará tendo uma contusão, que o deixe inválido para a prática do futebol?

Bem, ninguém podia livrá-lo desse risco.

Bem, a famosa marcha para Canossa, de um imperador alemão na Idade Média, ao encontro de um papa, acabou entrando para a história. A expressão acabou tornando-se sinónimo de humilhação.

Theodor Berger não era nenhum imperador, Wilhelm Thúrnagel não era papa, no entanto aquilo que Theodor Berger enfrentou foi um caso típico de marcha para Canossa até Wilhelm Thiirnagel.

Pelo telefone, Theo ficou sabendo na firma Elektro-Storm o endereço particular de Wilhelm. Deram-no sem muitos problemas, porque Theo disse que precisava mandar-lhe uma correspondência pelo correio.

Era um fim de tarde. Wilhelm estava mergulhado em seus livros, quando, com a permissão da proprietária do quarto, Theodor apareceu. Theo tomara coragem com umas três ou quatro aguardentes. Somente assim, pareceu-lhe possível levar a cabo sua empreitada.

— O senhor deve estar surpreso em me ver, senhor Thiirnagel — começou ele.

Esta suposição estava certa.

— Sim — disse Wilhelm.

— Eu estou... eu estou vindo... — ao que parecia, Theo deveria ter tomado mais umas duas ou três branquinhas. — Desculpe-me — interrompeu-se ele — você não teria aí uma cachacinha pra mim? Sabe, estou com dor de estômago — justificou ele seu desejo.

— Rum — disse Wilhelm. Nos últimos tempos ele vinha acrescentando rum ao seu chá.

— Olha, pode deixar — prometeu Theodor — que quando você aparecer de novo no meu restaurante, vou lhe dar a desforra.

Wilhelm encarou-o sem nenhuma expressão no rosto.

— Senhor Berger, nunca mais aparecerei em seu restaurante — disse ele.

— Vai sim. — Theo bebera duas doses de rum, unma logo depois da outra.

— Não.

— E onde é que você se encontraria com sua futura mulher a não ser lá?

Neste momento, Theo sentiu orgulho de si mesmo. Pombas, como foi que consegui dar esta virada? Foi este o autoelogio que disse para si mesmo. Magnífico!

Portanto, mais consternado sentiu-se, quando Wilhelm replicou:

— Minha futura mulher? Senhor Berger, não acredito muito que eu me case um dia.

Theo meteu goela abaixo o terceiro rum.

— Nem mesmo com Marianne?

— Não.

— Puxa vida, escute aqui, o senhor parece não estar entendendo o motivo de minha vinda. Mudei meu ponto de vista. Sabe, não sou mais contra este namoro.

Talvez ele não tenha entendido e eu tenha de me expressar de uma outra maneira, pensou Theo ao ver que Wilhelm mantinha-se calado. Por isso, disse:

— Não tenho mais nada contra que você seja meu genro.

— Ora, por que não? — neste momento Wilhelm respondeu.

Theo estava preparado para a pergunta. Para ele estava claro como água, desde o início, que teria de defrontar-se com ela.

— Porque eu me lembrei do que aconteceu comigo — disse ele. — Eu também não possuía nada, ou por outra, só um velho restaurante, e a minha mulher era dos dois a que tinha algo em termos de capital. Portanto, o pai dela também poderia ter dito para mim: tire as mãos de cima dela. Mas não o fez.

— Então é assim que o senhor vê a coisa agora?

— Sim — confirmou Theo. — Digo-lhe com a maior franqueza, eu devia estar doido. Posso servir-me mais uma dose?

— O senhor pode até levar a garrafa. Uma piada sem graça.

— Levar a garrafa? — Theo riu. — Em casa eu tenho mais do que preciso.

— Para tomar no caminho.

Bem, não era nenhuma piada. Era a sério. Wilhelm colocou a rolha na garrafa e estendeu-a para Theo. Theo estava tão surpreso que, sem querer, agarrou-a. Em seguida, Wilhelm levantou-se e disse:

— Acompanho-o até lá fora.

— Mas... mas — balbuciou Theo — nós ainda precisamos... ainda precisamos conversar sobre muitas coisas.

— Não.

— Por exemplo, sobre o dote... Um quarto de milhão.

— Tenho certeza que seu futuro genro deverá ficar muito contente com ele.

Theodor Berger estava prestes a cair de quatro.

— Pombas, mas meu genro é você! — gritou ele.

— Engano, senhor Berger.

— Por que não?

— Pergunte a sua filha.

Wilhelm abriu a porta. Completava-se a queda de quatro de Theo. Já na escada, começou a beber pelo gargalo.

E assim que ele adentrou por seus domínios, achava-se em um estado tal, que inspirou sua mulher à pergunta:

— Mas olha como você está! Onde é que você esteve? Theo escondera da mulher a intenção de ir até à casa de Wilhelm. Simplesmente desaparecera.

— Estive com aquele filho da puta — disse irado.

— Com qual... — o resto da frase ela engoliu em seco.

— Com o Thurnagel.

Sabine não quis acreditar no que ouvia.

— Mas você nem sabe onde ele vive — disse ela.

Theo provou-lhe o contrário, dizendo-lhe o endereço de Wilhelm. No entanto, isto deixava em aberto a pergunta: por que ele se decidira tão repentinamente a ir até ele?

Sabine foi informada sobre o que acontecera.

— Todos vocês viviam me apertando — replicou ele. — Ou será que você se esqueceu da pressão que fez sobre mim?

Subitamente, Sabine teve esperanças.

— E? Vocês chegaram a um acordo?

— Acordo? Puxa, mas que ideia a sua!

— Dá pra ver que vocês andaram bebendo juntos.

— Ele não, Bina.

— Só você? Theo assentiu.

— Pelo amor de Deus! — Sabine agitou-se. - Que foi que você andou aprontando? Mas isso é terrível! Que foi que você disse pra ele?

Ao recordar-se, a ira tornou a tomar conta de Theo.

— O melhor teria sido — explicou ele — se eu tivesse mandado ele ir tomar no cu.

— Theo!

— Mas ao invés disso, eu me arrastei diante dele, me humilhei e também a nossa filha; ofereci-lhe nossa filha como quem oferece cerveja choca, emoldurada em um dote de um quarto de milhão... e qual foi a conseqüência? Devo enfiar no cu tanto o dote quanto a nossa filha, foi o que ele disse.

— Ele disse isso?

— Dizer, não disse, mas pensou.

Sabine estava tão alvoroçada, a ponto de livrar-se de seu tricô, empurrando-o para o lado.

— Não posso crer — disse ela. — Imagino que você estragou tudo.

— Não estraguei porcaria nenhuma! — replicou ele. — Não havia nada para ser estragado, desde o início que não havia.

— Você disse para ele que Marianne o ama? Que sem ele, ela está sucumbindo?

— Não, graças a Deus, não. Porque senão a humilhação teria sido bem pior.

Sabine olhou para o homem a quem estava unida até que a morte os separasse. Encrespar-se com ele, era algo extraordinário. No entanto, naquele momento, aconteceu.

— Você sabe o que você é? — disse-lhe ela. Depois de uma pausa de alguns segundos, tempo por ela concedido para que ele se preparasse para o que estava por vir, prosseguiu: — Um idiota completo! — e para que não restasse nenhuma dúvida, acrescentou: — O mais completo idiota da face da terra!

Ela levantou-se, caminhou para a porta.

— Aonde é que você vai?

— Até ele.

— Mas que bicho lhe mordeu? Você vai acabar obtendo o mesmo pontapé nos traseiros que eu tive.

— Mas quero ver com meus próprios olhos — explicou Sabine. — E se isto se der, pelo menos cumpri o meu papel de mãe de tentar proteger a felicidade de minha filha.

— Você vai ficar é aqui! Estou ordenando!

— Theo — disse ela, uma Sabine completamente nova — você pode ordenar o que quiser, e sempre que quiser, a mim não interessa mais este tipo de ordem, entende?

E assim desapareceu da sala e Theo não teve o élan de sair atrás dela, cortando-lhe o caminho. Ele perguntava a si mesmo que tipo de coisas ainda seria obrigado a viver naquele dia. Depois, sentou-se diante da televisão. Wim Thoelke estava perguntando por que Napoleão admirava-se, perante Goethe, de que seus generais não fizessem história. O candidato respondeu: muito simples o motivo por que o corso baixinho se admirou, simplesmente porque...

Neste momento, o volume da televisão baixou e Theo esforçou-se desesperadamente para ler a parte decisiva da resposta nos lábios do candidato. Mas não o conseguiu. Quando o som aumentou de novo, Wim Thoelke estava fazendo a pergunta: que tem o oitavo mandamento a ver com a nona sinfonia de Beethoven? Esta pergunta não impressionou muito Theodor Berger. Afinal, ele se interessava mais por história e literatura do que por religião e música. Acabou adormecendo.

Tornou a despertar quando ouviu Sabine murmurando algo no corredor. Dava para se perceber que ela não havia tido sucesso, pelo menos não o sucesso que desejava.

— Onde está Marianne? — perguntou ela. — Continua no quarto?

— Ainda não a vi — respondeu Theo.

— Venha, nós precisamos conversar com ela.

— Como foi com ele?

— Venha.

Marianne estava sentada em sua pequena escrivaninha, que servia de decoração para seu belo quarto, de olhos cravados em um globo que recebera de presente de natal.

Sabine disse assim que chegou:

— Filha, largue esta coisa!

Como Marianne não esboçasse nenhuma reação, a própria Sabine agarrou o globo e colocou-o no armário. Em seguida, sentou-se. Theo seguiu seu exemplo. E então Sabine disse:

— Estive com Wilhelm Thúrnagel.

Marianne não disse nada. Só os olhos que encararam Sabine tornaram-se grandes e interrogativos.

— Teu pai também — prosseguiu Sabine.

Em seguida, Marianne encarou o pai com a mesma expressão no olhar.

— Não estou entendendo — disse ela por fim.

— E agora é você que deve ir até ele — explicou Sabine.

— Eu? — balbuciou Marianne.

— Sim.

— Nunca! Jamais! Prefiro morrer!

Podia-se ver que a respiração ameaçava abandonar Sabine. Sua voz começou a tremer, mas rapidamente passou. Sabine tinha consciência de que precisava dominar-se naquele momento.

— Sim, eu acho que sim — disse ela. — Você prefere morrer; e você já está a caminho disto, há muito tempo e ao que parece você não está ligando a mínima para o que possa acontecer com você. Mas se você não pensa em si mesma, pelo menos devia pensar um pouco em nós... em mim, em seu pai... e nele.