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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A TERRA DAS AMEIXAS VERDES / Herta Muller
A TERRA DAS AMEIXAS VERDES / Herta Muller

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A TERRA DAS AMEIXAS VERDES

 

A Terra das Ameixas Verdes é uma obra sublime, um relato contido e agudo de existências em perigo sob a ditadura de Ceausescu. Romance político? Também. Mas é sobretudo um poderoso libelo contra a desumanidade tortuosa dos sistemas de governo cuja legitimidade deriva da imposição do silêncio e do medo. Um romance polifónico e anónimo: da maior parte das personagens conhecemos apenas o primeiro nome; da narradora, nem sequer isso...

Partindo do (aparente) suicídio de Lola, uma jovem — a narradora anónima — encontra apoio num grupo de três rapazes que, com ela, se interrogam e procuram entender tanto a morte de Lola como a sua própria impotência perante um regime que não se abstém de humilhar e silenciar todos aqueles que ousam desafiá-lo. Os quatro irão enfrentar os meandros de um poder corrosivo que visa diminuí-los e isolá-los, aniquilando-lhes a vontade e a capacidade de ter esperança. Romance de resistência. Resistência ao silêncio asfixiante, porque cúmplice e perpetuador de despotismos, A Terra das Ameixas Verdes é um texto de «palavra difícil» porque as palavras apodrecem verdes na boca, trivializando experiências de terrível indizibilidade. Como dizer o medo da experiência? Como descrever a vontade de morrer? E no entanto, há o imperativo de dizê-lo. Entre o silêncio impossível e a palavra estrangulada, esta é uma história de feridas jamais fechadas e do despudor impenitente de uma ditadura insidiosa que, obrigando à interiorização, sobreviveu nas marcas inapagáveis que deixou nos corpos e nas almas.

 

                       

Emudecemos e tornamo-nos desagradáveis, disse Edgar, falamos e tornamo-nos ridículos.

Já estávamos há tempo de mais sentados no chão diante das fotografias. Tinha as pernas dormentes de estar sentada.

Espezinhamos tanto com as palavras na boca como com os pés na erva. Mas com o silêncio também.

Edgar calou-se.

Ainda hoje não consigo imaginar uma sepultura. Só um cinto, uma janela, uma noz e uma corda. Cada morte é para mim como um saco.

Se alguém te ouve, disse Edgar, julga que és maluca.

E, ao pensar nisso, é como se cada morto deixasse para trás um saco com palavras. Lembro-me sempre do barbeiro e da tesoura das unhas, porque os mortos já não precisam deles. E que os mortos nunca mais vão perder um botão.

Talvez eles sentissem de modo diferente do nosso que o Ditador é um erro, disse Edgar.

Tinham a prova, porque também nós éramos um erro para nós próprios. Porque tínhamos de andar, comer, dormir e amar alguém neste país, até voltarmos a precisar do barbeiro e da tesoura das unhas.

Quando alguém, só porque anda, come, dorme e ama, faz cemitérios, disse Edgar, então é um erro maior do que nós.

Um erro para todos, um erro dominante.

            A erva anda alta na cabeça. Falamos e é cortada. Mas também se nos calamos. E a segunda, a terceira erva volta a crescer, a seu bel-prazer. E contudo temos sorte.

            Lola era do Sul do país e via-se-lhe no rosto uma terra que permanecera pobre. Não sei onde, talvez nos ossos da face ou em redor da boca ou mesmo no meio dos olhos. E difícil precisar uma coisa destas, quer se trate de uma terra ou de um rosto. Todas as regiões do país tinham permanecido pobres, também em todos os rostos. Porém, a terra de Lola, e isso era visível nos ossos da face ou em redor da boca ou mesmo no meio dos olhos, era talvez mais pobre. Mais terra que paisagem.

            A aridez devora tudo, escreve Lola, menos os carneiros, os melões e as amoreiras.

            Mas não foi a terra árida que empurrou Lola para a cidade. O que aprendo não importa à aridez, escreve Lola no seu caderno. A aridez não se apercebe de quanto sei. Só do que sou, portanto, quem. Vir a ser alguém na cidade, escreve Lola, e quatro anos depois voltar à aldeia. Mas não pelo caminho poeirento lá em baixo, mas por cima, pelos ramos das amoreiras.

            Também na cidade havia amoreiras. Mas não lá fora, na rua. Havia-as nos pátios interiores. E não em muitos. Só as havia nos pátios de pessoas velhas. E à sombra das árvores havia uma cadeira de quarto. O assento era almofadado, de veludo. Mas o veludo estava manchado e rasgado. E o buraco fora enchido por baixo com um feixe de feno. O feno fora achatado pelo sentar. Pendia do assento como uma trança.

            Quando nos aproximávamos da cadeira de quarto assim reformada, reconhecia-se na trança cada uma das espigas.

E que já tinham sido verdes.

Nos pátios com amoreiras a sombra caía como tranquilidade sobre um velho rosto sentado na cadeira. Como tranquilidade, porque me surpreendia a mim própria nestes pátios, a que só raramente regressava. Nestas ocasiões raras, um fio de luz, que caía a pique do cume da árvore sobre o rosto velho, mostrava uma terra longínqua. Observava este fio de alto a baixo. Sentia arrepios na espinha, porque esta tranquilidade não vinha dos ramos das amoreiras, mas da solidão dos olhos no rosto. Não queria que ninguém me visse nestes pátios. Que ninguém me perguntasse que fazia eu aqui. Não fazia nada além do que observava. Observava as amoreiras demoradamente. E depois, antes de me vir embora, mais uma vez o rosto sentado na cadeira. No rosto havia uma terra. Via um homem jovem ou uma mulher jovem deixar esta terra, levando um saco com uma amoreira. Via as muitas amoreiras transplantadas para os pátios da cidade.

Mais tarde, li no caderno de Lola: o que se leva da terra, leva-se no rosto.

Lola queria estudar Russo quatro anos. O exame de admissão tinha sido fácil, porque havia lugares de sobra, tantos na universidade como nas escolas do país. E Russo era desejo de poucos. Os desejos são difíceis, escreve Lola, os objectivos são mais fáceis. Um homem que estuda qualquer coisa, escreve Lola, traz as unhas limpas. Daqui a quatro anos virá comigo, pois um homem assim sabe que na aldeia é um senhor. Que o barbeiro vem a sua casa e descalça os sapatos à porta. Basta de carneiros, escreve Lola, basta de melões, ficam as amoreiras, pois folhas temos todos nós.

Um pequeno cubículo como quarto, uma janela, seis raparigas, seis camas, debaixo de cada uma mala. Junto à porta um armário metido na parede, no tecto por cima da porta, um altifalante. Os coros de trabalhadores cantavam do tecto para a parede, da parede para as camas, até anoitecer. Depois calavam-se como a rua em frente da janela e, lá fora, o parque desgrenhado, que já ninguém atravessava. Havia quarenta vezes o mesmo cubículo em cada residência.

Alguém disse, os altifalantes vêem e ouvem tudo o que fazemos.

Os vestidos das seis raparigas estavam pendurados bem apertados no armário. Lola era a que tinha menos vestidos. Andava com os vestidos de todas as raparigas. As meias das raparigas jaziam debaixo das camas, nas malas.

            Alguém cantava:

 

         A minha mãe diz

         que me dá quando eu casar

         vinte almofadões cheios de mosquitos

         vinte almofadinhas

         cheias de formiguinhas

         vinte almofadas macias cheias de folhas podres

 

e Lola, sentada no chão junto à cama, abriu a mala. Revolveu as meias e puxou à altura do rosto um monte de pernas e dedos e calcanhares emaranhados. Deixou cair as meias no chão. As mãos de Lola tremiam e tinha mais que dois olhos no rosto. Tinha as mãos vazias e mais que duas no ar. Tinha quase tantas mãos no ar como no chão havia meias.

            Olhos, mãos e meias não cabiam numa canção que estava a ser cantada a duas camas de distância. Cantada de pé por uma cabecinha que baloiçava com uma ruga de preocupação na testa. Uma canção de que quase logo desaparecera a ruga.

            Debaixo de cada cama havia uma mala com meias de algodão dobradas. Eram conhecidas em todo o país como meias caneladas. Meias caneladas para raparigas que queriam meias de vidro, tão delicadas e finas como bafam. E laca para o cabelo, era isso que as raparigas queriam, rimmel e verniz para as unhas.

            Por debaixo das almofadas da cama havia seis caixas de rimmel. Seis raparigas cuspiam para dentro das caixas e remexiam a fuligem com palitos até a massa negra ganhar consistência. Depois abriam muito os olhos. O palito riscava a pálpebra, as pestanas ficavam pretas e espessas. Mas uma hora depois abatiam-se sobre as pestanas lacunas cinzentas. O cuspo tinha secado e a fuligem caía-lhes nas faces.

            As raparigas queriam fuligem nas faces, fuligem para pestanas no rosto, mas fuligem de fábricas, nunca mais. Queriam era muitas meias de vidro finíssimas, porque era tão fácil aparecerem malhas, e as raparigas tinham de apanhá-las no tornozelo e na perna. Apanhá-las e colá-las com verniz das unhas.

            Será difícil manter as camisas de um senhor brancas. Esse será o meu amor se, passados quatro anos, vier comigo para a aridez. Se na aldeia ele conseguir encandear os transeuntes com as suas camisas brancas, esse será o meu amor. E se for um senhor, a casa de quem o barbeiro vai e descalça os sapatos à entrada. Será difícil manter as camisas brancas com toda a porcaria em que os piolhos pousam, escreve Lola.

            Lola disse: piolhos há até nas cascas das árvores. Alguém disse: não são piolhos, são pulgas, pulgões. Lola escreve no seu caderno: os pulgões são ainda piores. Alguém disse: eles não atacam pessoas, porque as pessoas não têm folhas. Lola escreve: atacam tudo, até o vento, quando o sol queima. E folhas temos todos nós. As folhas caem quando se deixa de crescer, porque a infância passou. E as folhas voltam quando se começa a encarquilhar, porque o amor passou. As folhas crescem a seu bel-prazer, escreve Lola, como a erva alta.

Há duas, três crianças na aldeia que não têm folhas, têm uma infância grande. São filhos únicos, porque têm pais e mães que são pessoas instruídas. Os pulgões transformam as crianças mais velhas em crianças mais novas, uma de quatro anos numa de três, uma de três anos numa de um. E ainda numa de meio ano, escreve Lola, e ainda numa recém-nascida. E, quanto mais irmãos os pulgões fazem, mais pequena é a infância.

            Há um avô que diz: A minha tesoura da poda. Estou a ficar mais velho e cada dia mais curto e delgado. Mas as unhas crescem-me mais depressa e mais rijas. Ele cortava as unhas com a tesoura da poda.

            Uma criança não deixa que lhe cortem as unhas. Isso dói, diz a criança. A mãe amarra a criança à cadeira com os cintos dos seus vestidos. A criança tem olhos turvos e grita. A tesoura das unhas está sempre a cair das mãos da mãe. Por cada dedo a tesoura cai no chão, pensa a criança.

            O sangue pinga sobre um dos cintos, o verde-erva. A criança sabe: quando se sangra, morre-se. Os olhos da criança estão molhados e vêem a mãe tremida. A mãe ama a criança. Ama-a como um vício e não consegue controlar-se, porque tem o entendimento amarrado ao amor da mesma forma que a criança à cadeira. A criança sabe: com o seu amor amarrado, a mãe tem de cortar as mãos. Vai meter os dedos cortados nos bolsos da bata de andar por casa e dirigir-se ao pátio, como se os dedos fossem para deitar fora. No pátio onde já ninguém a vê, ela vai comer os dedos da criança.

            A criança intui que à noite a mãe irá mentir e acenar com a cabeça quando o avô lhe perguntar: Deitaste os dedos fora.

            E o que ela própria irá fazer à noite, a criança intui. Que, ela tem os dedos, dirá e descreverá tudo:

            Ela levou os dedos lá para fora, para a rua. Esteve na erva. Também esteve no jardim, no caminho e no canteiro.

Andou rente à parede e por detrás da parede. Esteve a mexer no armário das ferramentas com os parafusos. Esteve a mexer no guarda-fatos. Chorou dentro do armário. Limpou as faces com uma mão. E ao mesmo tempo tirava a outra mão do bolso da bata de andar por casa e metia-a na boca. Vezes sem conta.

            O avô leva uma mão à boca. Talvez ele queira mostrar aqui no quarto como se comem dedos lá fora, no pátio, pensa a criança. Mas a mão do avô não se mexe.

            A criança continua a falar. Quando se fala, fica sempre qualquer coisa esquecida na língua. A criança pensa: só pode ser a verdade que se deita na língua como um caroço de cereja que não quer cair na garganta. Enquanto, ao falar, a voz sobe ao ouvido, ela espera pela verdade. Mas logo depois do silêncio, pensa a criança, é tudo mentira, porque a verdade caiu na garganta. Porque a boca não disse a palavra comeu.

            A palavra não passa dos lábios da criança. Só:

            Ela esteve junto à ameixoeira. No atalho do jardim, não esmagou a lagarta, o sapato dela desviou-se.

            O avô baixa os olhos.

            A mãe cria uma distracção e tira agora agulha e linha do armário. Senta-se na cadeira e alisa a bata de trazer por casa até se ver o bolso. Dá um nó na linha. A mãe está a fingir, pensa a criança.

            A mãe cose um botão. A linha recém-cosida cobre a linha antiga. Há alguma coisa de verdade no fingimento da mãe, porque o botão da bata de trazer por casa está quase a cair. O botão é cosido com a linha mais grossa. Até a luz da lâmpada tem fios como a linha.

            Depois a criança fecha os olhos com força. Por detrás dos olhos fechados dela, a mãe e o avô pendem de uma corda de luz e linha sobre a mesa.

            O botão com a linha mais grossa resistirá mais tempo. A mãe nunca o perderá, pensa a criança, mais facilmente ele se partirá.

A mãe atira a tesoura para o armário da roupa branca.

No dia seguinte e todas as quartas-feiras desde então, o barbeiro do avô vem ao quarto.

O avô diz: O meu barbeiro.

O barbeiro diz: A minha tesoura.

Durante a Grande Guerra começou a cair-me o cabelo, diz o avô. Um dia fiquei com a cabeça totalmente calva, o barbeiro da companhia esfregou-me o couro cabeludo com seiva de folhas. O cabelo voltou-me a crescer. Mais forte que nunca, disse-me o barbeiro da companhia. Ele gostava de jogar xadrez. O barbeiro da companhia lembrou-se da seiva, porque eu trouxera comigo ramos cheios de folhas, com que andava a esculpir um jogo de xadrez. Os ramos da mesma árvore apresentavam folhas cínzeas e vermelhas. Tal como as folhas, a madeira apresentava também grandes diferenças. Esculpia a metade escura e a clara das figuras de xadrez. As folhas claras só se tornavam escuras no final do Outono. As árvores tinham estas duas cores, porque todos os anos os ramos cínzeos cresciam com grande atraso. As duas cores eram boas para as minhas figuras de xadrez, dizia o avô.

Primeiro, o barbeiro corta o cabelo ao avô. O avô está sentado na cadeira sem mexer a cabeça. O barbeiro diz: Se não cortarmos o cabelo, a cabeça torna-se um matagal. Durante este processo, a mãe amarra a criança à cadeira com os cintos dos seus vestidos. O barbeiro diz: Se não cortarmos as unhas, os dedos tornam-se pás. Isso só é permitido aos mortos.

Desamarrar, desamarrar.

            Das seis raparigas do cubículo, Lola era a que tinha menos meias de vidro finíssimas. E as poucas que tinham apresentavam marcas de verniz nos tornozelos e nas coxas. E mesmo na barriga das pernas. As malhas corriam-lhe pelas pernas mesmo quando Lola as não podia apanhar, porque ia ela própria a correr na rua, num passeio ou pelo parque desgrenhado.

Lola tinha, a um tempo, de correr no encalço do seu desejo de camisas brancas e fugir a correr com ele.

Mesmo na melhor das hipóteses, este permanecia tão pobre como a terra no rosto dela.

            Às vezes Lola não podia apanhar as malhas, porque estava numa aula. De um professor catedrático, dizia Lola sem saber o quanto esta designação lhe agradava.

            À noite, Lola pendurava as meias de vidro com os pés para fora da janela. Não pingavam, porque nunca eram lavadas. As meias de vidro pendiam da janela como se tivessem os pés e as pernas de Lola lá dentro, os dedos dos pés e os calcanhares rijos, as barrigas das pernas e os joelhos amolgados. Elas teriam podido ir sem Lola pelo parque desgrenhado em direcção à cidade escura.

            No cubículo, alguém perguntava, onde está a minha tesoura das unhas. Lola dizia, no bolso do sobretudo. Alguém perguntava, em qual, no teu, por que diabo voltaste a levá-la contigo ontem. Lola dizia, no eléctrico, e punha a tesoura das unhas em cima da cama.

            Lola costumava cortar as unhas no eléctrico. Andava muitas vezes sem destino. Cortava-as e limava-as com o carro em andamento, empurrando a pele das unhas para trás com os dentes, até que em cada unha o semicírculo branco fosse tão grande como um feijão branco.

            Nas paragens, Lola guardava a tesoura no bolso, a tesoura das unhas, e olhava para a porta caso alguém tivesse entrado. Porque durante o dia há sempre alguém que entra no eléctrico como se nos conhecêssemos, escreve Lola no seu caderno. Mas à noite, a mesma pessoa entra como se andasse à minha procura.

            À noite, quando lá fora já ninguém andava no caminho ou pelo parque desgrenhado, quando se ouvia o vento e o céu não era mais que o seu rumorejar, Lola calçava as meias de vidro finíssimas. E, ao de fechar a porta do lado de fora, via-se à luz do cubículo que Lola tinha pés duplos. Alguém perguntava, aonde vais. Mas os passos de Lola já estavam a matraquear o corredor longo e vazio.

Talvez nos primeiros três anos neste cubículo eu me chamasse alguém. Porque naquele tempo todas à excepção de Lola podiam chamar-se alguém. Pois alguém no cubículo claro não gostava de Lola. E esse alguém éramos todas.

            Alguém foi até à janela e não viu lá em baixo nem a rua nem Lola a passar. Só um pontozinho a saltitar.

            Lola ia apanhar o eléctrico. Se alguém entrasse na paragem seguinte, ela abria muito os olhos.

            À meia-noite só entravam os homens que iam para casa depois do último turno na fábrica de detergente e no matadouro. Entram para a luz do carro vindos da noite, escreve Lola, e vejo um homem tão cansado do dia que só traz sombra na roupa. E há muito que não traz amor na cabeça nem dinheiro no bolso. Só detergente roubado ou as miudezas dos animais abatidos: línguas de vaca, rins de porco ou o fígado de uma vitela.

            Os homens de Lola sentavam-se no primeiro banco. Adormeciam à luz, deixavam cair a cabeça e estremeciam com o guinchar dos carris. Há sempre um momento em que puxam as lancheiras para si, escreve Lola, e eu vejo as suas mãos sujas. Por causa das pastas olham brevemente para o meu rosto.

            Com este breve olhar, Lola ateava fogo numa cabeça fatigada. Depois já não fecham os olhos, escreve Lola.

            Na paragem a seguir, um homem descia atrás de Lola. Nos olhos trazia a escuridão da cidade. E a sofreguidão de um cão esfomeado, escreve Lola. Lola não olhava para trás, apressava o passo. Abandonando a estrada, atraía os homens ao tomar o caminho mais curto para o parque desgrenhado. Sem uma palavra, escreve Lola, deito-me na relva, e ele põe a lancheira debaixo do ramo mais comprido e mais baixo. Não há nada para dizer.

            O vento perseguia a noite, e Lola atirava a cabeça para um lado e para outro, e a barriga. As folhas sussurravam-lhe ao rosto, tal como outrora, anos atrás, a um bebé de seis meses, sexto filho, que ninguém a não ser a pobreza desejava.

E tal como outrora Lola tinha as pernas arranhadas dos ramos. Mas o rosto, jamais.

            Havia já uns meses que Lola mudava, todas as semanas, o jornal de parede na vitrina da residência de estudantes. Colocava-se junto à porta de entrada e mexia as ancas dentro da vitrina. Soprava as moscas mortas para fora da vitrina e limpava o vidro com duas meias caneladas que tirava da sua mala. Com uma das meias humedecia o vidro, com a outra secava-o. Depois mudava os recortes de jornal, amarfanhava numa bola o penúltimo discurso do Ditador e em seu lugar colava o último discurso. Quando terminava, Lola atirava fora a meia.

            No dia em que Lola já utilizara na vitrina quase todas as meias caneladas que tinha na mala, começou a tirar meias de outras malas. Alguém disse: Essas meias não são tuas. Lola disse: Já nenhuma de vós as calça.

            Há um pai que cava o Verão no jardim. Uma criança está ao pé do canteiro e pensa: O pai percebe da vida. Pois o pai enfia a consciência pesada nas plantas mais estúpidas e arranca-as. Pouco antes a criança desejara que as plantas mais estúpidas conseguissem fugir da enxada e sobreviver ao Verão. Contudo, elas não podem fugir, porque só ganham penas brancas no Outono. Só então aprendem a fugir.

            O pai nunca teve de fugir. Cantando, marchara pelo mundo fora. Fizera cemitérios no mundo e deixara rapidamente os lugares. Uma guerra perdida, um soldado das SS regressado a casa, uma camisa de Verão acabada de engomar no armário, e na cabeça do pai ainda não havia um cabelo branco.

            O pai levantava-se de manhã bem cedo, gostava de se deitar na erva. Deitado, observava as nuvens avermelhadas que traziam o dia. E porque a manhã ainda estava tão fria como a noite, as nuvens avermelhadas tinham de rasgar o céu.

Lá bem alto, o dia invadia o céu, em baixo na erva a solidão invadia a cabeça do pai. Ela empurrava velozmente o pai para a pele quente de uma mulher. Ele aquecia-se. Ele fizera cemitérios e fazia rapidamente uma criança a uma mulher.

            O pai mantém os cemitérios bem no fundo da garganta, lá onde fica a laringe, entre o colarinho da camisa e o queixo. A laringe é pontiaguda e está aferrolhada. Daí que os cemitérios nunca possam transbordar-lhe dos lábios. A boca dele bebe aguardente feito das ameixas mais escuras, e as canções que dedica ao Fûhrer são pesadas e bêbedas.

            A enxada tem uma sombra no canteiro que não ajuda a cavar, a sombra não se mexe e fica só a olhar para o caminho do jardim. Anda por ali uma criança a encher os bolsos de ameixas verdes.

            Por entre as plantas mais estúpidas que arrancou, o pai diz: As ameixas verdes fazem mal, o caroço ainda está mole e trinca-se a própria morte. Ninguém nos pode valer, morremos mesmo. Com as febres claras, o coração queima-se-te por dentro.

            Os olhos do pai estão nublados e a criança vê que o amor que o pai lhe tem é como um vício. Que ele não consegue controlar o seu amor. Que ele, que fez cemitérios, deseja a morte à criança.

            Daí que mais tarde a criança coma bolsos inteiros de ameixas. Todos os dias, quando o pai não está a ver, a criança esconde metades de árvores na barriga. A criança come e pensa, isto é para morrer.

            Porém, como o pai não vê, a criança não tem de morrer.

            As plantas mais estúpidas eram os cardos-do-coalho. O pai sabia alguma coisa da vida. Assim como todos os que falam da morte sabem como é que a vida continua.

            Eu, às vezes, via Lola nos duches, à tarde, quando já tinha passado a hora do banho matinal e era demasiado cedo para o duche da noite.

Nas costas de Lola, eu via um fio escarificado e, sobre a ruga no traseiro, um círculo escarificado. O fio e o círculo lembravam um pêndulo.

            Lola virava rapidamente as costas, e eu via o pêndulo no espelho. Deveria ter dado horas, porque Lola se assustara quando entrei nos duches.

            Eu pensava, Lola traz a pele esfolada, mas nunca um amor. Apenas golpes na barriga sobre o chão do parque. E em cima dela os olhos de cão dos homens que todo o dia só ouviam o detergente a cair no tubo grosso e o estertorar dos animais. E estes olhos ardiam sobre Lola porque passavam o dia inteiro apagados.

            Todas as raparigas que viviam porta com porta nos pequenos cubículos do mesmo andar do lar guardavam a comida num frigorífico que havia na sala de jantar. Queijo de ovelha e chouriços de casa, ovos e mostarda.

            Quando eu abria o frigorífico, havia sempre uma língua ou um rim no fundo da gaveta. Com o frio a língua secava e o rim rebentava em tons de castanho. Três dias depois, o fundo da gaveta voltava a ficar vazio.

            Via no rosto de Lola a terra que permanecera pobre. Se comia as línguas e os rins ou os deitava fora, isso não conseguia eu ver-lhe nem nos ossos da face nem em redor da boca nem mesmo no meio dos olhos.

            Nem na cantina nem no ginásio eu percebia se Lola comia as miudezas dos animais esquartejados ou as deitava fora. Eu queria percebê-lo. Ardia em curiosidade, para ofender Lola. Olhava até cegar. Mas podia olhar para Lola durante muito ou pouco tempo que via tão-só a terra no seu rosto. Só apanhava Lola quando ela estrelava ovos no ferro quente e os raspava com uma faca e comia. Lola oferecia-me a ponta da faca para eu provar. Está muito bom, dizia Lola, porque não ficam tão gordurosos como na frigideira. Quando Lola acabava de comer, punha o ferro de engomar no canto.

            Alguém dizia: Limpa o ferro depois de comeres. E Lola dizia: Quem é que ainda consegue passar a ferro com aquilo.

            Esta cegueira atormentava-me. Quando, na cantina, eu estava com Lola na fila para o almoço e quando depois me sentava com ela à mesa, pensava, esta cegueira resulta de só nos darem colheres para comermos. Nunca um garfo ou uma faca. De termos de agarrar a carne no prato apenas com uma colher e depois despedaçá-la com os dentes e parti-la em pedaços. Esta cegueira resulta, pensava eu, de não podermos cortar com a faca nem espetar com o garfo. De comermos como animais.

            Toda a gente tem fome na cantina, escreve Lola no seu caderno, é uma chusma de mastigadores furiosos. E cada um, visto por si, é um carneiro obstinado. Todos juntos são uma matilha de cães esganados de fome.

            No ginásio eu pensava, sofro desta cegueira, porque Lola não consegue saltar ao eixo, porque dobra os cotovelos debaixo da barriga em vez de os esticar resolutamente, porque levanta os joelhos com cuidado em vez de abrir as pernas como uma tesoura. Lola ficava pendurada, deslizando depois com o traseiro pelo aparelho. Nunca voava. Caía de cara no colchão, nunca de pé. Ficava deitada no colchão até o professor de ginástica gritar.

            Lola sabia que o professor a levantaria pelos ombros, pelo traseiro, pelas ancas. Que ele, uma vez findo o ataque de raiva, a agarrava onde calhasse. E Lola fazia-se pesada, para que ele tivesse de agarrá-la com mais força.

            Todas as raparigas ficavam especadas atrás do aparelho, ninguém podia saltar e ninguém podia voar, porque Lola bebia um copo de água fria das mãos do professor. Ele ia buscá-lo do vestiário e dava-lho à boca. Lola sabia que ele lhe seguraria a cabeça mais tempo se ela bebesse a água devagar.

            Depois da aula de ginástica, as raparigas dirigiam-se aos armários estreitos do vestiário e voltavam a vestir-se.

Alguém dizia, vestiste a minha blusa. Lola dizia, eu não a como, só preciso dela hoje, vou sair.

            Todos os dias havia alguém no cubículo que dizia, os vestidos não são teus, percebes. Porém, Lola vestia-os e ia à cidade. Todos os dias era certo e sabido que Lola punha os vestidos. Eles regressavam amachucados e molhados de suor ou de chuva e de neve. Lola voltava a pendurá-los apertados no meio dos outros no armário.

            No armário havia pulgas porque havia pulgas nas camas. E nas malas com as meias caneladas e no longo corredor. Até na sala de jantar e nos duches e na cantina havia pulgas. No eléctrico, nas lojas e no cinema.

            Todos se coçam enquanto rezam, escreve Lola no seu caderno. Ela ia todos os domingos de manhã à igreja. Até o padre tem de se coçar. Pai-nosso que estais no céu, escreve Lola, e por toda a cidade estão as pulgas.

            Era noite no pequeno cubículo, mas ainda não era tarde. O altifalante entoava uma canção proletária, lá fora na rua ainda se ouviam sapatos, ainda havia vozes no parque desgrenhado, a folhagem ainda era cinzenta e não negra.

            Lola estava deitada na cama, não tinha nada vestido além de umas meias grossas. Ao anoitecer o meu irmão leva os carneiros para casa, escreve Lola, tem de atravessar um campo de melões. Atrasou-se a deixar a pastagem, está a escurecer e os carneiros pisam os melões com as suas pernas finas e rebentam-nos. O meu irmão dorme no estábulo e os carneiros ficam toda a noite com pés vermelhos.

            Lola enfiou uma garrafa vazia entre as pernas e atirava a cabeça de um lado para o outro, e a barriga. Todas as raparigas se puseram à volta da cama dela. Alguém lhe puxou os cabelos. Alguém se riu alto. Alguém meteu o punho na boca e ficou a olhar. Alguém começou a chorar. Já não sei qual delas era eu.

Mas ainda sei que me senti tonta nesse princípio de noite ao olhar longamente a janela. No vidro, o quarto oscilava. Vi-nos a todas muito pequenas em redor da cama de Lola. E, para lá das nossas cabeças, vi Lola muito grande a dirigir-se pelo ar e pela janela fechada para o parque desgrenhado. Vi os homens de Lola na paragem, à espera. Um eléctrico sibilou nas minhas têmporas. Andava como uma caixa de fósforos. Até a luz no carro ardia tão trémula como uma chama que, exposta ao vento lá fora, se protege com a mão. Os homens de Lola apressavam-se e empurravam-se. Das suas lancheiras caíam para junto dos carris detergente em pó e miudezas dos animais esquartejados. Depois alguém apagou a luz, e a imagem no vidro desapareceu, só os candeeiros amarelos pendiam ainda do outro lado da rua, uns a seguir aos outros. Depois lá estava eu outra vez entre as raparigas em redor da cama de Lola. Ouvi por debaixo das costas de Lola na cama um ruído que jamais esquecerei e que jamais confundirei com qualquer outro ruído neste mundo. Ouvi Lola a ceifar o amor que nunca crescera, uma por uma todas as longas espigas no seu lençol branco-sujo.

            O pêndulo escarificado deu horas enquanto Lola arfava e não estava em si, na minha cabeça.

            Eu só não vira um dos homens de Lola na imagem espelhada do vidro da janela.

            Lola ia cada vez mais falar com o catedrático, e a palavra continuava a agradar-lhe de sobremaneira. Dizia-a cada vez mais e continuava a não saber o quanto a palavra lhe agradava. Falava cada vez mais sobre consciência e convergência entre cidade e aldeia. Lola era desde há uma semana membro do Partido e exibia a sua caderneta vermelha. Na primeira página via-se a fotografia de Lola. A caderneta do Partido andou de mão em mão no grupo de raparigas. E na fotografia eu vi ainda melhor a terra que permanecera pobre no rosto de Lola, porque o papel brilhava tanto. Alguém disse, mas tu vais à igreja.

E Lola disse, os outros também. Não se pode é mostrar que se conhecem os outros. Alguém disse. Deus olha por ti lá em cima e o Partido olha por ti cá em baixo.

            Junto à cama de Lola, amontoavam-se os folhetos do Partido. Alguém murmurava no pequeno cubículo e alguém emudecia. As raparigas murmuravam e voltavam a emudecer muito antes de Lola chegar ao cubículo.

            Lola escreve no seu caderno: A mãe vai comigo à igreja. Está frio, porém o incenso do padre faz com que pareça estar calor. Todos tiram as luvas e guardam-nas nas mãos postas. Eu estou sentada no banco das crianças. Sentei-me mesmo à ponta, para poder ver a mãe.

            Já desde que Lola começara a limpar a vitrina que as raparigas faziam sinais umas às outras com os olhos e as mãos quando não queriam dizer alguma coisa à frente de Lola.

            A mãe diz que reza também por mim, escreve Lola. A minha luva tem um buraco na ponta do polegar, o buraco tem uma coroa de malhas espetadas. Para mim, é uma coroa de espinhos.

            Lola estava sentada na cama e lia um folheto sobre o aperfeiçoamento do trabalho ideológico do Partido.

            Eu puxo o fio, escreve Lola, a coroa de espinhos vira-se para baixo. A mãe canta. Deus tende piedade de nós, e eu puxo para abrir o polegar da luva.

            Lola sublinhava tantas frases nos folhetos delgados como se a mão lhe tirasse a perspectiva de conjunto. O monte de folhetos de Lola crescia junto à cama qual mesinha-de-cabeceira torta. Ao sublinhar, Lola reflectia longamente entre uma frase e a outra.

            Não deito a lã fora, escreve Lola, mesmo que esteja emaranhada.

Lola punha parênteses à volta das frases dos folhetos. Lola desenhava junto a cada parêntese uma cruz grossa na margem.

A mãe está a tricotar-me o polegar, escreve Lola, e utiliza lã nova para fazer a ponta do polegar.

            Uma tarde, andava Lola no quarto ano, quando todos os vestidos das raparigas apareceram em cima das camas. A mala de Lola estava escancarada debaixo da janela aberta, e os seus poucos vestidos e folhetos estava dentro da mala.

            Nessa tarde dei-me conta da razão por que, naquela altura, não conseguira ver um dos homens de Lola no espelho da janela. Ele era diferente dos homens de todas as meias-noites e turnos nocturnos. Ele comia na escola superior do Partido, não entrava para eléctrico algum, jamais seguia Lola em direcção ao parque desgrenhado, tinha carro e um condutor.

            Lola escreve no seu caderno: Ele é o primeiro de camisa branca.

            Foi então numa tarde pouco antes das três horas, quando Lola já estava no quarto ano e já era quase alguém: Os vestidos das raparigas jaziam nas camas separados dos vestidos de Lola. O sol caía quente no cubículo, e o pó cobria o oleado como uma pele cinzenta. E junto à cama de Lola, no sítio onde faltavam os folhetos, havia uma mancha pelada, escura. E Lola pendia do meu cinto no armário.

            E vieram três homens. Fotografaram Lola no armário. Depois desamarraram o cinto e meteram-no num saco de plástico transparente. Este era finíssimo como as meias das raparigas. Os homens tiraram três caixinhas dos bolsos dos casacos. Fecharam a mala de Lola e abriram as caixas. Em cada caixa havia um pó de um verde forte. Espalharam-no sobre a mala e depois na porta do armário. Era tão seco como a fuligem das pestanas sem cuspo. Observei-os, tal como as demais raparigas. Admirei-me que também houvesse fuligem verde-forte.

            Os homens não nos fizeram perguntas. Eles conheciam o motivo.

            Cinco raparigas agrupavam-se junto à entrada da residência de estudantes. Na vitrina via-se a fotografia de Lola, a mesma que constava da caderneta do Partido.

Havia uma folha debaixo da fotografia. Alguém leu alto:

            Esta estudante suicidou-se. Reputamos o seu acto de abominável e desprezamo-la. É uma vergonha para o nosso país.

            No fim da tarde fui dar com o caderno de Lola na minha mala. Ela escondera-o debaixo das minhas meias, antes de tirar o cinto.

            Meti o caderno na mala de mão e fui para a paragem. Entrei no eléctrico e li. Comecei na última página. Lola escreve: O professor de ginástica chamou-me à noite ao ginásio e fechou-me lá dentro. As únicas testemunhas foram as bolas gordas de couro. Uma vez ter-lhe-ia bastado. Mas eu fui secretamente atrás dele e descobri onde morava. Será impossível manter as camisas dele brancas. Ele denunciou-me ao catedrático. Jamais me livrarei da aridez. O que tenho de fazer Deus não me perdoará. Mas nunca um filho meu guardará carneiros com pés vermelhos.

            Á noite, sem ninguém ver, voltei a pôr o caderno de Lola debaixo das meias. Fechei a mala e pus a chave debaixo da minha almofada. De manhã levei a chave comigo. Prendi-a no elástico dos calções, pois de manhã, às oito, tínhamos aula de ginástica. Por causa da chave cheguei um bocadinho atrasada.

            As raparigas de calções negros e camisolas de ginástica brancas já estavam alinhadas à cabeça da caixa de areia. Duas raparigas estavam aos pés a segurar a fita métrica. O vento perpassava a folhagem densa das árvores. O professor de ginástica levantou o braço, estalou dois dedos, e todas as raparigas voaram atrás dos seus pés pelo ar.

            A areia na caixa estava seca. Só se apresentava húmida nos sítios em que os dedos dos pés se fincavam. Sentia-a tão fresca nos meus dedos como a chave na minha barriga.

Levantei os olhos para as árvores antes de tomar balanço. Voei atrás dos meus pés, os meus pés não voaram muito. Enquanto voava, pensava na chave da mala. As duas raparigas mediram a distância e disseram o número. O professor de ginástica assentou o salto no seu bloco, como se tratasse de uma hora. Reparei no lápis acabado de afiar na mão dele e pensei, vai bem com ele, aos pés só se pode medir a morte.

            E quando voei pela segunda vez, a chave tornara-se tão quente como a minha pele. Já não me incomodava. Mal os meus dedos se fincaram na areia húmida, levantei-me, para que o professor de ginástica não me tocasse.

            Dois dias depois, às quatro da tarde, Lola, a enforcada, foi expulsa do Partido e excluída da escola superior no anfiteatro grande. Houve centenas a assistir.

            Alguém se colocou atrás da tribuna e disse: Ela enganou-nos a todos, ela não merece ser estudante no nosso país e membro do nosso Partido. Todos aplaudiram.

            À noite no cubículo alguém disse: Todos aplaudiram muito, porque tinham vontade de chorar. Ninguém ousou ser o primeiro a parar. Todos observavam as mãos dos outros enquanto aplaudiam. Alguns que tinham parado brevemente assustaram-se e voltaram a aplaudir. Depois a maioria teria desejado parar, podia ouvir-se como os aplausos na sala perdiam ritmo, mas, porque aqueles poucos tinham recomeçado a aplaudir com um ritmo seguro, também a maioria continuou a aplaudir. Só quando um ritmo único se elevou por todo o anfiteatro como um sapato enorme a subir pela parede é que o orador fez sinal com a mão para se parar.

            A fotografia de Lola esteve duas semanas na vitrina. Mas dois dias depois já o caderno de Lola desaparecera da minha mala fechada à chave.

            Os homens da fuligem verde forte deitaram Lola na cama, levando-a depois para fora do cubículo. Por que seria que fizeram sair primeiro os pés da cama. A mala com os vestidos e o saco com o meu cinto, levou-os um que saiu atrás da cabeceira. Levava a mala e o cinto na mão direita. Por que será que não fechou a porta atrás de si, se tinha a mão esquerda livre.

            Ficaram cinco raparigas no cubículo, cinco camas, cinco malas. Quando a cama de Lola já tinha saído, alguém fechou a porta. A cada movimento no quarto, os fios de pó enredavam--se no ar quente e claro. Junto à parede, alguém se penteava. Alguém fechava a janela. Alguém enfiava o atacador do sapato de maneira diferente.

            Nenhum movimento neste quarto tinha qualquer sentido. Todas as raparigas estavam mudas e faziam qualquer coisa com as mãos, porque ninguém se atrevia a pegar nos vestidos que estavam em cima da sua cama e a pendurá-los de novo no armário.

            A mãe diz: Sempre que a vida te parecer insuportável, arruma o teu armário. Assim as preocupações saem-te pelas mãos, e a cabeça desempoeira-se.

Mas mãe bem pode falar. Tem cinco armários e cinco arcas em casa. E, mesmo quando a mãe passa três dias seguidos a arrumar armários, isso não deixa de parecer trabalho.

            Fui ao parque desgrenhado e deixei cair a chave no matagal. Não havia chave que protegesse a mala contra mãos estranhas quando não houvesse raparigas no quarto. Se calhar também não havia chave contra mãos conhecidas que, no cubículo, mexiam fuligem para as pestanas com um palito, acendiam ou apagavam a luz, ou depois da morte de Lola limpavam o ferro de engomar.

Talvez ninguém tivesse precisado de murmurar ou emudecer quando Lola estava no quarto.

Talvez alguém tivesse podido dizer tudo a Lola. Talvez fosse Lola a única a quem eu tivesse podido dizer tudo. A fechadura da mala tinha-se tornado ela própria numa mentira. Havia no país tantas fechaduras iguais como coros do proletariado. Cada chave era uma mentira.

            Quando regressei do parque, havia alguém a cantar no cubículo pela primeira vez desde a morte de Lola:

 

         Ontem à noite o vento empurrou-me

         para os braços do meu amado

         tivesse ele mais empurrado

         e eu teria sucumbido no braço

         que sorte ter o vento parado.

 

            Alguém cantava uma canção romena. Na canção, vi carneiros com pés vermelhos a atravessar a noite. Escutei o vento a parar nesta canção.

            Uma criança está deitada na cama e diz: Não apagues a luz, para as árvores negras não entrarem pelo quarto adentro. Uma avó tapa a criança. Adormece depressa, diz ela, pois, quando todos dormem, o vento vai deitar-se nas árvores.

            O vento não podia estar de pé. Deitava-se sempre, nesta linguagem de ó-ó infantil.

            Depois de o aplauso no Anfiteatro Grande ter sido interrompido pela mão do reitor, o professor de ginástica dirigiu-se à tribuna. Envergava uma camisa branca. Votou-se a expulsão de Lola do Partido e a sua exclusão da escola superior.

            O professor de ginástica foi o primeiro a levantar a mão. E todas as mãos se apressaram a segui-lo. Por cada braço levantado havia um olhar para os braços levantados dos outros. Quando o próprio braço ainda não estava tão levantado no ar como os outros, havia quem esticasse ainda mais o cotovelo.

Erguiam as mãos no ar até os dedos cansados tombarem para a frente e os cotovelos pesados puxarem para baixo. Olhavam em redor e voltavam — uma vez que ainda ninguém baixara o braço — a endireitar os dedos e a levantar os cotovelos. Podiam ver-se as manchas de suor debaixo dos braços, as bainhas das camisas e das blusas saíam do lugar. Os pescoços estavam esticados, as orelhas, vermelhas, os lábios, semiabertos. As cabeças não se mexiam, mas os olhos deslizavam de um lado para o outro.

            Havia um tal silêncio entre as mãos, disse alguém no cubículo, que podia ouvir-se a respiração subir e descer na madeira dos bancos. E o silêncio permaneceu até o professor de ginástica baixar o braço sobre a tribuna, dizendo: Não é necessário contar, é evidente que somos todos a favor.

            Os que vêm por esta rua, pensei eu no dia seguinte na cidade, todos eles teriam no Anfiteatro Grande, seguindo o braço do professor de ginástica, saltado ao eixo. Todos eles teriam endireitado os dedos, esticado os cotovelos e, no silêncio, virado os olhos nesta e naquela direcção. Contei todos os rostos que passaram por mim neste sol abrasador. Contei até novecentos e noventa e nove. Depois como me ardia a planta do pé, sentei-me num banco, encolhi os dedos dos pés e encostei-me. Levei o indicador à face e incluí-me. Mil, disse para mim e engoli o número.

            E uma pomba passou a correr pelo banco, e eu segui-a com o olhar. Cambaleava, arrastando as asas. Tinha o bico entreaberto por causa do ar quente. Ao debicar, produzia um barulho como se o bico fosse de chapa. Comeu uma pedra. E, quando a pomba engoliu a pedra, eu pensei: Até Lola teria levantado o braço. Mas isso já não contava.

            Segui com os olhos os homens de Lola, que ao meio-dia saíam das fábricas uma vez acabado o turno da manhã. Eram camponeses transplantados da aldeia. Basta de carneiros, tinham também eles dito, basta de melões.

Quais loucos, tinham avançado rumo à fuligem das cidades e aos tubos grossos que se arrastavam pelos campos até à orla de cada aldeia.

            Os homens sabiam que o ferro deles, a madeira deles, o detergente deles não serviam para nada. Por isso, as mãos permaneciam-lhes grosseiras, fabricavam cepos e grumos em vez de indústria. Tudo o que deveria ser grande e esquinado se transformava nas suas mãos em carneiro de chapa. O que deveria ser pequeno e redondo transformava-se nas suas mãos em melão de madeira.

 

            Findo o turno, o proletariado dos carneiros de chapa e dos melões de madeira enfiava-se na primeira tasca que encontrava. Sempre em manadas, dirigiam-se para o terraço de uma tasca. Enquanto os corpos pesados se deixavam cair nas cadeiras, o empregado sacudia a toalha vermelha. Rolhas, crostas de pão e ossos caíam no chão junto às tinas de flores. A vegetação estava seca, a terra remexida por cigarros pisados à pressa. Da cerca da tasca pendiam vasos de sardinheiras com caules despidos. Nas pontas havia três ou quatro folhas novas a querer despontar.

            Nas mesas, a forragem fumegava. Viam-se ali mãos e colheres, nunca facas e garfos. Despedaçar e cortar com os dentes -era assim que todos comiam quando as miudezas dos animais esquartejados jaziam nos pratos.

            Até a tasca era uma mentira: as toalhas de mesa e plantas, as garrafas e os uniformes cor de vinho dos empregados. Aqui ninguém era freguês habitual, mas eram todos arribados da tarde absurda.

            Os homens cambaleavam e gritavam antes de partirem garrafas vazias nas cabeças uns dos outros. Sangravam. Quando um dente caía ao chão, riam-se como se alguém tivesse perdido um botão. Um deles dobrava-se, apanhava o dente e atirava-o para dentro do seu copo. Porque dava sorte, o dente andava de copo em copo. Todos o queriam.

            A dada altura o dente desaparecia, como as línguas e os rins de Lola se tinham sumido do frigorífico da sala de jantar. A dada altura um deles engolira o dente. Não sabiam quem. Então arrancavam as últimas folhas novas aos caules das sardinheiras e mascavam cheios de desconfiança. Inspeccionavam todos os copos e berravam com a boca cheia de folhas verdes: Devias comer era ameixas e não dentes.

            Apontavam para um deles, todos apontavam para o da camisa verde-clara. E ele negava. Metia o dedo à boca. Vomitava e dizia: Ora procurem lá, aqui têm as folhas de sardinheira, a carne, pão e cerveja, mas nenhum dente. Os empregados mostravam-lhe a serventia da porta, os outros aplaudiam.

            Depois dizia o da camisa aos quadrados: Fui eu. E, no meio do riso, começava a chorar. Ficavam todos calados de olhos postos na mesa. Aqui ninguém era freguês habitual.

            Camponeses, pensava eu, só eles é que passam do riso ao choro, dos berros ao silêncio. Perdiam a cabeça, inconscientemente alegres e impenetravelmente furiosos. Na sua ânsia de vida, cada instante era capaz com um só golpe de extinguir essa mesma vida. Na escuridão, todos eles teriam seguido Lola até ao parque desgrenhado, com os mesmos olhos de cão.

            Caso permanecessem sóbrios no dia seguinte, atravessariam sozinhos o parque, para se recomporem. Tinham os lábios gretados e esbranquiçados da bebedeira. Pisavam cuidadosamente a erva e no cérebro remoíam cada uma das palavras que tinham berrado na bebedeira. Ficavam, quais crianças, sentados nas lacunas de memória do dia anterior. Temiam que na tasca tivessem berrado qualquer coisa política. Sabiam que os empregados relatavam tudo.

            Mas a bebedeira protege o crânio de tudo o que não é permitido e a forragem protege a boca. Ainda que a língua já só consiga balbuciar, o hábito do medo não abandona a voz.

            Sentiam-se em casa no medo. A fábrica, a tasca, lojas e bairros, os átrios das estações de caminhos-de-ferro e as viagens de comboio com os campos de trigo, girassóis e milho vigiavam.

Os eléctricos, hospitais, cemitérios. As paredes e tectos e o céu aberto. E, embora acontecesse muitas vezes a bebedeira desleixar-se em lugares de mentira, isso era mais um erro das paredes e tectos ou do céu aberto do que intenção no cérebro de uma pessoa.

            E enquanto a mãe amarra a criança à cadeira com os cintos dos vestidos, enquanto o barbeiro corta o cabelo ao avô, enquanto o pai diz à criança, as ameixas verdes fazem mal, durante todos estes anos há uma avó ao canto do quarto. Ela observa tão abstraidamente as idas e as conversas na casa como se já de manhã o vento se tivesse deitado lá fora, como se o dia tivesse adormecido no céu. A avó trauteia durante todos estes anos uma canção na cabeça.

            A criança tem duas avós. Uma vem à noite com o seu amor à cama, e a criança olha para o tecto branco do quarto, porque sabe que ela irá começar a rezar. A outra vem à noite com o seu amor à cama, e a criança olha-a nos olhos escuros, porque sabe que ela irá começar a cantar.

            Quando já não aguenta ver o tecto do quarto e os olhos escuros, a criança finge que dorme. Uma das avós não reza até ao fim. Levanta-se no meio da oração e vai-se embora. A outra avó canta a canção até ao fim, tem o rosto inclinado, porque gosta tanto de cantar.

            Porque a canção chegou ao fim, ela julga que a criança dorme a sono solto. Diz: Sossega o teu bicho-coração, tu hoje brincaste tanto.

            A avó-cantadeira sobrevive nove anos à avó-rezadeira. E a avó-cantadeira sobrevive seis anos ao seu entendimento. Já não reconhece ninguém em casa. Só conhece as suas canções.

Certa noite vai do canto do quarto até à mesa e diz à luz da lâmpada: Estou tão contente que estejais todos comigo no céu. Já não se apercebe de que vive e tem de matar-se a cantar. Não há doença que entre com ela e a ajude a morrer.

            Depois da morte de Lola, não pus cinto nos vestidos durante dois anos. Os ruídos mais barulhentos na cidade mal se ouviam no interior da minha cabeça. Quando um camião ou um eléctrico se aproximavam e se agigantavam cada vez mais, o seu matraquear fazia-me bem à testa. Debaixo dos pés o chão tremia. Queria envolver-me com as rodas e lançava-me pouco antes delas ao caminho. Deixava ao acaso saber se alcançaria o outro lado. Deixava as rodas decidirem por mim. A poeira engolia-me durante alguns instantes, os meus cabelos esvoaçavam entre a sorte e a morte. Alcançava o outro lado da rua, ria-me, tinha ganho. Mas ouvia-me rir de fora, ao longe.

            Ia muitas vezes à loja que tinha na montra taças de alumínio cheias de línguas, fígados e rins. A loja nunca ficava em caminho, metia-me no eléctrico para lá ir. Era ali na loja que as regiões nos rostos das pessoas se revelavam maiores. Homens e mulheres tinham nas mãos sacos cheios de pepinos e cebolas. Mas eu via-os a transplantar as amoreiras da terra para dentro do rosto. Escolhia alguém que não fosse mais velho que eu e seguia-o. Ia dar sempre aos blocos de habitação na zona nova, atravessando extensões de cardos altos até uma aldeia. Por entre os cardos havia manchas de tomates de um vermelho berrante e nabos brancos. Cada mancha correspondia a um pedaço de campo frustrado. As beringelas, só as via quando o sapato já estava quase em cima delas. Brilhavam como duas mãos cheias de amoras negras.

            O mundo não esperou por ninguém, pensava eu. Eu não tinha de andar, comer, dormir e amar alguém a medo. Não precisava nem de barbeiro nem de tesoura de unhas e não perdi nenhum botão antes de existir. O pai ainda estava metido na guerra, vivia de cantar e disparar na erva. Não tinha de amar. A erva deveria ter ficado com ele. Pois, quando em casa viu o céu da aldeia, voltou a crescer na camisa dele um camponês que recomeçou o seu artesanato. O regressado fizera cemitérios e teve de me procriar.

Tornei-me filha dele e tive de crescer contra a morte. Falavam comigo em tom sibilante. Batiam-me nas mãos e olhavam--me para o rosto com a rapidez de um raio. Mas jamais alguém perguntou em que casa, em que sítio, em que mesa, em que cama e terra eu preferiria andar, comer, dormir ou amar alguém a medo.

 

            Só existia amarrar, porque desamarrar levou muito tempo até se tornar uma palavra. Queria falar sobre Lola, e as raparigas no cubículo mandavam-me parar com essa história. Tinham compreendido que sem Lola a cabeça ficava mais leve. No lugar da cama de Lola havia agora, no cubículo, uma mesa e uma cadeira. E em cima da mesa, um grande frasco de conserva com longos ramos apanhados do parque desgrenhado, rosas anãs brancas, com folhas delicadamente recortadas. Os ramos criavam raízes brancas na água. As raparigas podiam andar e comer e dormir no cubículo. Nem sequer tinham medo de cantar na presença das folhas de Lola.

            Eu queria guardar o caderno de Lola na memória.

            Edgar, Kurt e Georg procuravam alguém que tivesse estado no quarto de Lola. E porque sozinha não conseguia guardar o caderno de Lola na memória, encontrava-me todos os dias com eles desde que me tinham interpelado na cantina. Eles duvidavam de que a morte de Lola tivesse sido suicídio.

            Eu falei-lhes dos piolhões, dos carneiros de pés vermelhos, das amoreiras e da terra no rosto de Lola. Sempre que, sozinha, pensava em Lola, muitas eram as coisas de que já não me recordava. Quando eles escutavam, voltava a lembrar-me. Diante do seu olhar fixo, tinha aprendido a ler o que me ia na cabeça. Descobria no estalar do meu crânio cada uma das frases desaparecidas do caderno de Lola. Dizia-as alto. E Edgar escrevia muitas das frases no seu caderno. Eu dizia: O teu caderno também não tardará a desaparecer, porque Edgar, Kurt e Georg também viviam numa residência de estudantes do outro lado do parque desgrenhado, numa residência para rapazes.

Edgar, contudo, dizia: Conhecemos um lugar seguro na cidade, uma casa de campo com um jardim emaranhado.

            Pomos o caderno, dizia Kurt, num saco de linho e penduramo-lo na parte de baixo da tampa do poço. Riam e diziam sempre: Nós. Georg dizia: Num gancho interior. O poço fica no quarto, a casa de campo e o jardim emaranhado pertencem a um homem que não dá nas vistas. É ali que também estão os livros.

            Os livros da casa de campo vinham de longe, contudo, sabiam de todas as regiões trazidas nos rostos desta cidade, de todos os carneiros de chapa, de todos os melões de madeira. De todas as bebedeiras, de todos os risos na tasca.

            Quem é o homem da casa de campo, perguntei e no mesmo instante pensei: não quero saber. Edgar, Kurt e Georg não abriram a boca. Os olhos enviesaram-se-lhes e, nos ângulos brancos, para onde as veias confluíam, brilhava desassossegado o silêncio. Comecei rapidamente a falar. Contei-lhes do anfiteatro grande, da cadência de um sapato grande que, enquanto as mãos aplaudiam, subia pela parede. E do bafo que se esgueirou pela madeira dos bancos, quando, por altura da votação, os braços se ergueram.

            E, ao falar, sentia que alguma coisa me ficava na língua, como um caroço de cereja. A verdade aguardava as pessoas contadas e o dedo na minha própria face. Contudo, a palavra mil não me passou dos lábios. E também nada disse acerca do bico de chapa da pomba que depenicava pedras. Continuei a falar do eixo e da caixa de areia, de ser agarrada e de beber água, da chave da mala no elástico dos calções. Edgar escutava-me com a caneta na mão e não escrevia nada no seu caderno. E eu pensava: Está à espera da verdade, pressente que, enquanto estou a falar, me calo. E depois eu dizia: Agora é o primeiro de camisa branca. E Edgar escrevia. E depois eu dizia: Folhas temos todos nós. E Georg dizia: Isso não entra na cabeça de ninguém.

            As frases de Lola deixavam-se dizer na boca. Não se deixavam era escrever. Pelo menos, não por mim.

Eram como os sonhos que se ajustam à boca mas não ao papel. Quando tentava escrevê-las, as frases de Lola apagavam-se na minha mão.

            Nos livros da casa de campo havia mais do que eu estava habituada a pensar. Pegava neles, dirigia-me ao cemitério e sentava-me num banco. Apareciam pessoas idosas, encaminhavam-se sempre sós para uma sepultura que, em breve, seria também sua. Não traziam flores, as sepulturas estavam cheias delas. Não choravam, olhavam para o vazio. Às vezes, procuravam o lenço, dobravam-se e limpavam a poeira dos sapatos e apertavam mais os atacadores e voltavam a guardar o lenço. Não choravam, porque não queriam dar trabalho às faces. Porque tinham já os rostos na pedra tumular, a face colada à face do morto, na fotografia oval. Tinham-se mandado ir à frente e aguardavam, quem sabe desde quando, que o encontro na pedra tumular se tornasse válido. Tinham mandado inscrever os seus nomes e as datas de nascimento. Um espaço em branco aguardava o dia da sua morte. Não ficavam muito tempo ao pé da sepultura.

            Quando percorriam o caminho estreito por entre as flores do cemitério, as pedras tumulares e eu seguíamo-las com o olhar. Quando deixavam o cemitério, os muitos espaços em branco agarravam-se a este dia de Verão, que de tantas colinas de flores ficava pesado e indolente. O Verão crescia aqui de modo diferente do que na cidade. O vento quente não apetecia ao Verão de cemitério. Ele dobrava o céu tranquilamente para cima e ficava de olho nos casos de morte. Na cidade dizia-se: o princípio do ano e o Outono são perigosos para as pessoas idosas. Os primeiros sintomas de calor e de frio levam os velhos com eles. Mas aqui percebia-se que era o Verão que melhor conseguia colocar a armadilha. Que sabia todos os dias como de pessoas idosas se fazem flores.

            As folhas voltam a nascer quando o corpo diminui, porque o amor passou, escreve Lola no seu caderno.

Eu respirava lentamente, com as frases de Lola na cabeça, para que as frases dos livros não tropeçassem por estarem atrás das folhas de Lola.

            Eu aprendera a vaguear, lançava-me às estradas que tinha por baixo dos pés. Conheci os mendigos, as vozes lamurientas, os sinais da cruz e as maldições, o deus nu e o diabo esfarrapado, as mãos aleijadas e as metades de pernas.

            Conheci os enlouquecidos de todas as zonas da cidade:

            O homem com o laço preto à volta do pescoço, na mão um ramo de flores ressequidas, que era sempre o mesmo. Estava desde há anos em pé junto à fonte seca e olhava a rua que subia até à prisão. Quando lhe dirigia a palavra, ele dizia: Agora não posso falar, ela deve estar mesmo a chegar, talvez já não me reconheça.

            Deve estar mesmo a chegar, dizia ele há anos. E, enquanto falava, chegava, vindo de cima, ora um polícia, ora um soldado. E a mulher dele, toda a cidade o sabia, já há muito que saíra da prisão. Jazia no cemitério, na sepultura.

            Uma coluna de carrinhas com cortinas cinzentas e corridas descia a rua todas as manhãs, às sete horas. E, à tardinha, às sete horas, voltava a subir a rua. A rua não chegava bem a subir, o seu extremo não era mais elevado do que a praça com a fonte. Mas era assim que era vista. Ou talvez se dissesse que ela subia, porque era ali a prisão, e só polícias ou soldados é que lá iam.

            Quando as carrinhas passavam pela fonte, viam-se pelas frinchas das cortinas os dedos dos presos. Durante o andamento, não se ouviam nem motor, nem solavancos ou zunidos, nem travões, nem rodas. Só o ladrar dos cães. E era tão intenso como se duas vezes por dia passassem pela ponte cães sobre rodas.

            Aos cavalos de saltos altos juntavam-se os cães sobre rodas.

            Uma vez por semana há uma mãe que apanha o comboio para cidade. Uma criança acompanha a mãe duas vezes por ano. Uma vez no início do Verão e outra no início do Inverno. A criança sente-se feia na cidade, porque está enchouriçada em muita roupa grossa. Às quatro horas da manhã a mãe dirige-se com a criança para a estação. Faz frio, mesmo no princípio do Verão ainda está frio às quatro da manhã. A mãe quer estar às oito da manhã na cidade, porque as lojas abrem.

            Entre uma loja e outra, a criança despe alguma roupa e leva-a na mão. É por isso que a criança perde sempre roupa na cidade. É também por isso que a mãe não gosta de levar a criança consigo à cidade. Mas há ainda outra razão pior: A criança vê os cavalos correr sobre o asfalto. A criança pára e quer que a mãe também pare e espere que os cavalos voltem. A mãe não tem tempo para esperar e não pode avançar sozinha. Não quer perder a criança na cidade. Tem de puxar a criança. A criança faz-se pesada e diz: Não ouves os cascos a fazerem um ruído diferente do de casa.

            Entre uma loja e outra, na viagem de regresso de comboio e nos dias seguintes, a criança pergunta: Por que andam os cavalos na cidade de saltos altos.

            Eu conheci a anã da Trajanplatz. Ela tinha mais couro cabeludo que cabelo, era surda-muda e tinha uma trança de erva como as cadeiras reformadas à sombra das amoreiras das pessoas idosas. Alimentava-se do lixo da frutaria. Todos os anos ficava grávida dos homens de Lola, que à meia-noite acabavam o turno da noite. A praça ficava escura A anã não conseguia fugir a tempo, porque não podia ouvir ninguém a aproximar-se. E não podia gritar.

Pelas bandas da estação de caminhos-de-ferro, vagueava o Filósofo. Confundia os postes dos telefones e os troncos de árvore com pessoas.

Falava ao ferro e à madeira de Kant e do cosmos de carneiros devoradores. Nas tascas, ia de mesa em mesa, bebia os restos e limpava os copos com a sua barba longa e branca.

            Em frente ao mercado, encontrava-se uma velha sentada com o chapéu feito de alfinetes e papel de jornal. Há anos que, Verão ou Inverno, arrastava pelas ruas um trenó cheio de sacos. Todos os dias a velha fazia um chapéu novo. Num saco tinha jornais dobrados. Num outro saco estavam depositados os chapéus usados.

            Os enlouquecidos seriam os únicos que não teriam levantado o braço no anfiteatro grande. Tinham trocado o medo pela loucura.

            Eu, porém, podia continuar a contar pessoas nas ruas, incluir-me também na conta, como se me cruzasse comigo por acaso. Podia dizer-me: Eia lá, tu. Alguém. Ou: Eia lá, tu. Milhar. Só louca é que não conseguia ficar. Ainda tinha os cinco alqueires.

            Contra a fome, comprava qualquer coisa que se pudesse comer à mão enquanto andava. Preferia cortar a carne com os dentes na rua do que na cantina, à mesa. Nunca mais fui à cantina. Vendi as senhas de refeição e comprei três pares de meias de vidro finíssimas.

Só ia ao cubículo das raparigas para dormir, mas não dormia. Mal a deitava na almofada, a cabeça tornava-se-me transparente de encontro ao escuro do quarto. A janela era iluminada pelos candeeiros de rua. Via a minha cabeça no vidro, as raízes do cabelo plantadas quais cebolinhas no couro cabeludo. Se me virar, pensava, cair-me-ão os cabelos. Tinha de virar-me, para deixar de ver a janela.

Então via a porta. Mesmo que, na altura, o homem da mala de Lola e do meu cinto no saco de plástico transparente tivesse fechado a porta atrás de si, a morte teria permanecido.

A porta fechada era à noite, no brilho da luz da rua, a cama de Lola.

            Todas dormiam profundamente. Entre a minha cabeça e a almofada, ouvia o restolhar dos objectos ressequidos dos loucos: o ramo de flores seco do aguardador, a trança de ervas da anã, o chapéu de jornal da velha do trenó, a barba branca do Filósofo.

            Ao almoço, o avô larga o garfo logo após a última garfada. Levanta-se da mesa e diz: Cem passos. Vai e conta os passos. Vai da mesa à porta, passa a ombreira no pátio, avança para o empedrado, para a erva. Agora vai deixar-nos, pensa a criança, agora vai para a floresta.

            Depois os cem passos chegam ao fim. O avô regressa, sem contar, da erva ao empedrado, à ombreira, à mesa. Senta-se e coloca as figuras de xadrez sobre a mesa, as duas rainhas no fim. Joga xadrez. Estende o braço em cima da mesa, arrepela os cabelos, marca com as pernas um compasso apressado debaixo da mesa, passa a língua de uma bochecha para outra, puxa o braço para si. O avô torna-se obstinado e solitário. A sala desaparece, pois o avô joga contra ele próprio, tanto com as peças claras como com as escuras. Quanto mais o almoço se lhe afasta da boca e desce para o intestino, mais enrugado se lhe torna o rosto. Tão solitário que o avô tem de acalmar todas as memórias da Grande Guerra com as rainhas clara e escura.

            O avô regressara da Primeira Guerra Mundial como dos seus cem passos. Em Itália, as cobras são tão grossas como o meu braço, dizia ele. Enrolam-se todas como rodas de carroça. Colocam-se em cima de pedras entre as aldeias e dormem. Sentei-me numa dessas rodas de carro de bois, e o barbeiro da companhia esfregou-me as partes calvas na cabeça com seiva de folhas.

            As figuras de xadrez do avô não eram maiores que os polegares dele. Só as rainhas é que eram tão grandes como o dedo do meio. Tinham uma pedrinha negra sob o ombro esquerdo. Perguntei: Por que é que elas só têm um peito. O avô disse: As pedrinhas são o coração delas. Deixei as rainhas para o fim, disse o avô, só as esculpi mesmo no fim. Levei muito tempo a fazê-las. O barbeiro da companhia disse-me: Não há folha neste mundo que possa salvar-te os cabelos que ainda tens. São uma causa perdida e têm de deixar a cabeça. Só posso fazer alguma coisa em relação às partes calvas, só aí é que a seiva das folhas obriga a cabeça a crescer cabelo novo.

            Quando as rainhas ficaram prontas, tinha-me caído o cabelo todo, dizia o avô.

            Quando víamos o proletariado dos carneiros de chapa e dos melões de madeira a ir e vir dos turnos, Edgar, Kurt e Georg e eu contávamos como tínhamos saído de casa. Edgar e eu éramos de aldeias e Kurt e Georg, de pequenas cidades.

            Falava-lhes dos sacos com as amoreiras trazidas da terra, dos pátios de pessoas idosas e do caderno de Lola: da terra para fora e para dentro do rosto. Edgar acenava e Georg dizia: Todos aqui permanecem aldeões. Na nossa cabeça saímos de casa, mas os pés, esses temo-los nós assentes numa outra aldeia. Numa ditadura não pode haver cidades, porque tudo é pequeno quando vigiado.

            Vais de uma cidade para outra, dizia Georg, e o aldeão que és transforma-se noutro aldeão. Podes mesmo deixar-te completamente de lado, dizia Kurt, apanhas o comboio, e é apenas uma aldeia que vai para outra aldeia.

            Quando me vim embora, dizia Edgar, o campo, arrancando-se ao solo, rolou desde a aldeia até à cidade. O milho ainda estava verde e ondulava. Pensei, a horta alonga-se e corre atrás do comboio. O comboio avançava lentamente.

A mim, a viagem pareceu-me longa e a distância imensa, dizia eu.

Os girassóis já não tinham folhas, e os seus caules negros marcavam uma separação segura. Tinham sementes tão negras que as pessoas no compartimento ficaram cansadas de tanto olhar. Todos os que viajavam no meu compartimento foram assaltados pelo sono. Uma mulher trazia um ganso cinzento ao colo. A mulher adormeceu e o ganso grasnou ainda um bom bocado no colo dela. Depois deitou o pescoço na asa e também ele adormeceu.

            A floresta teimava em cobrir o vidro, dizia Kurt, e quando, de repente, vi uma nesga de céu, pensei, olha, um rio lá em cima. A floresta apagara toda a região. O que condizia com a cabeça do meu pai. Quando nos despedimos, estava tão bêbado que julgava que o filho ia para a guerra. Riu-se e, dando uma palmadinha no ombro da minha mãe, disse: Agora lá vai o nosso Kurt para a guerra. A minha mãe soltou um grito quando ele disse isto. No meio do grito, começou a chorar. Como é que se pode estar tão bêbado, gritava ela. Mas chorou à mesma, porque acreditava no que ele dizia.

            O meu pai meteu a bicicleta entre nós, disse Georg. Eu levava a mala na mão. Quando o comboio saiu da estação, vi o meu pai regressar à cidade ao lado da bicicleta. Um traço longo e outro breve.

            O meu pai é supersticioso, a minha mãe faz-lhe sempre casacos verdes. Quem evita o verde é engolido pela floresta, diz ele. A camuflagem não lhe ficou de nenhum animal, dizia Kurt, ficou-lhe da guerra.

            O meu pai, dizia Georg, levou a bicicleta para a estação, para não ter de caminhar tão junto a mim no percurso até lá e para, no caminho de volta, não sentir nas mãos que vai sozinho para casa.

            As mães de Edgar, Kurt e Georg eram modistas. Passavam a vida entre entretela, forro, tesouras, linha, alfinetes, botões e ferros de engomar. Sempre que Edgar, Kurt e Georg falavam das doenças das mães, eu tinha a impressão de que, de tanto vapor dos ferros, alguma coisa tinha amolecido em todas as modistas.

Estavam doentes por dentro: na mãe de Edgar fora a vesícula; na mãe de Kurt, o estômago; e na mãe de Georg, o baço.

            Só a minha mãe que era camponesa herdara do campo uma certa rijeza. Estava doente por fora, no caso dela eram as cruzes.

Quando, fartos dos nossos pais que tinham estado nas SS, falávamos das nossas mães, pasmávamos que estas mães, que nunca se tinham visto na vida, nos mandassem as mesmas cartas com as suas doenças.

            Nos comboios, que já não apanhávamos, mandavam-nos a dor da sua vesícula, do seu estômago, do seu baço, das suas cruzes. Estas doenças tiradas do corpo das mães cabiam nas cartas como as miudezas roubadas dos animais esquartejados na gaveta do frigorífico.

            As doenças, pensavam as mães, são um nó corredio para os filhos, permanecendo estes amarrados à distância. Desejavam um filho que procurasse o comboio para casa, que viajasse através dos girassóis ou da floresta e se deixasse ver.

            Ver um rosto, pensavam as mães, no qual o amor amarrado fosse uma face ou uma testa. E ver aqui e além as primeiras rugas que lhes dizem que a vida nos corre pior do que na infância.

            Mas do que elas se esqueciam é que já não lhes era permitido fazer festas ou bater neste rosto. Que já não lhes era possível tocá-lo.

            As doenças das mães intuíam que desamarrar era para nós uma palavra bonita.

            Incluíamo-nos completamente no grupo dos que traziam amoreiras da terra, mas só em parte é que, nas nossas conversas, o admitíamos. Procurávamos diferenças porque líamos livros. E, enquanto descobríamos diferenças minúsculas, colocávamos os sacos trazidos da terra, como todos os outros, atrás das nossas portas.

Mas nos livros podia ler-se que estas portas não constituíam esconderijo. Tudo o que podíamos entreabrir, escancarar ou fechar com estrondo era a testa.

Lá por detrás éramos nós mesmos com mães que nos mandavam as suas doenças em cartas e pais que metiam a sua consciência pesada nas plantas mais estúpidas.

            Os livros da casa de campo tinham sido contrabandeados para dentro do país. Estavam escritos na língua materna em que o vento se deitava. E não na língua estatal, como aqui no país. Mas também não era a língua do ó-ó infantil das aldeias. Nos livros havia a língua materna, mas o silêncio de aldeia que proíbe o pensar, esse não constava dos livros. Lá, de onde os livros vinham, todos pensam, pensávamos nós. Cheirávamos as folhas e dávamos connosco a ganhar o hábito de cheirar as nossas mãos. Pasmávamos, as mãos não ficavam negras ao lermos como do negro da impressão de jornais e livros do país.

            Todos os que percorriam a cidade com a terra às costas cheiravam as mãos. Não era que conhecessem os livros da casa de campo. Mas queriam ir para lá. Lá, de onde estes livros vinham, havia calças de ganga e laranjas, brinquedos fofos para as crianças e televisões portáteis para os pais e meias de vidro finíssimas e rimmel a sério para as mães.

            Todos viviam de pensamentos de fuga Todos queriam atravessar o Danúbio a nado, até a água se tornar estrangeira. Perseguir o milho, até o solo se tornar estrangeiro. Via-se-lhes nos olhos: em breve irão, em troca de todo o dinheiro que têm, adquirir cartas topográficas a geodetas. Anseiam por dias de nevoeiro sobre o campo e rio, para escapar às balas e aos cães dos guardas, para correr e nadar para bem longe. Via-se-lhes nas mãos: em breve construirão balões, pássaros frágeis de lençóis e árvores jovens. Anseiam por que o vento não pare, para voar para bem longe. Via-se-lhes nos lábios: em breve sussurrarão ao ouvido de um chefe de estação em troca de todo o dinheiro que têm. Apanharão comboios de mercadorias, para ir para bem longe.

            Só o Ditador e os seus guardas é que não queriam fugir. Via-se-lhes nos olhos, mãos, lábios: ainda hoje e amanhã voltarão a fazer cemitérios com cães e balas. Mas também com o cinto, com a noz, com a janela e com a corda.

Sentia-se que o Ditador e os seus guardas pairavam sobre todos os segredos e planos de fuga, sentia-se que estavam à espreita e a repartir o medo.

            Ao anoitecer, a última luz rodopiava sobre si própria no fim de todas as ruas. Esta luz era insistente. Era um aviso ao espaço circundante, antes de cair a noite. As casas tornavam-se mais pequenas que as pessoas que por elas passavam. As pontes, mais pequenas que os eléctricos que as atravessavam. E as árvores, mais pequenas que os rostos que, solitários, lhes passavam por baixo.

            Por todo lado havia um caminho para casa e pressa irreflectida. Os poucos rostos na rua não tinham contornos. E eu via neles um pedaço de nuvem pendurada quando vinham na minha direcção. E, quando já estavam quase à minha frente, minguavam no passo seguinte. Apenas as pedras da calçada permaneciam grandes. E, no passo depois do seguinte, pendiam de uma testa, em vez da nuvem, duas pupilas brancas. E, no passo depois desse, pouco antes de os rostos passarem por mim, as duas pupilas brancas convergiam.

            Eu agarrava-me bem aos fins de rua, ali havia mais luz. As nuvens, nada mais que amontoados de roupas amachucadas. De bom grado teria ficado um pouco mais, pois só no cubículo, junto às raparigas, é que havia uma cama para mim. De bom grado teria esperado que as raparigas adormecessem no cubículo. Porém, havia que andar nesta luz intransigente, e eu andava cada vez mais depressa. As ruas laterais não esperavam pela noite. Já estavam a fazer as malas.

            Edgar e Georg escreviam poemas e escondiam-nos na casa de campo. Kurt escondia-se atrás de esquinas e arbustos e fotografava as colunas de carrinhas com as cortinas cinzentas fechadas. Todas as manhãs e fins de tarde transportavam os presos da prisão para os locais em construção atrás dos campos. É tão medonho, dizia Kurt, acreditar que mesmo nas fotografias se ouvirá os cães ladrar. Se os cães ladrassem nas fotografias, dizia Edgar, não poderíamos esconder as fotos na casa de campo.

            E eu pensava que tudo o que prejudica aqueles que fazem cemitérios é útil. Que Edgar, Kurt e Georg, porque escrevem poemas, fazem fotografias e aqui e ali trauteiam uma canção, ateiam o ódio naqueles que fazem cemitérios. Que este ódio prejudica os guardas. Que, a pouco e pouco, todos os guardas e por fim até mesmo o Ditador perderão a cabeça neste ódio.

            O que eu na altura ainda não sabia era que os guardas precisavam deste ódio para a exactidão quotidiana de um trabalho sangrento. Que precisavam dele, para proferir sentenças em troca do seu salário. Passar sentenças, isso só podiam fazê-lo aos inimigos. Os guardas provavam a sua fiabilidade pelo número de inimigos.

            Edgar dizia, a polícia política espalha por toda a parte rumores sobre a doença do Ditador, para levar as pessoas à fuga e poder apanhá-las. Para levar as pessoas a murmurar e poder apanhá-las. Não lhes chega apanhar as pessoas a roubar carne ou fósforos, milho ou detergente, velas ou parafusos, ganchos de cabelo ou pregos ou tábuas.

            Ao vaguear, não via apenas os loucos e os seus objectos ressequidos. Nas ruas, via também os guardas a andar para cima e para baixo. Jovens de dentes amarelecidos montavam guarda à entrada dos grandes edifícios, nas praças, à entrada das lojas, nas paragens, no parque desgrenhado, à porta das residências de estudantes, nas tascas, à entrada da estação de comboios. Os fatos não lhes serviam, ora muito pingões, ora justíssimos.

Conheciam em cada zona que vigiavam os lugares onde havia ameixoeiras. Faziam até desvios, para passarem pelas ameixoeiras. Os ramos pendiam baixos. Os guardas enchiam os bolsos de ameixas verdes. Colhiam-nas depressa, inchando os bolsos de ameixas. Queriam colhê-las de uma só vez e comê-las durante muito tempo. Quando tinham os bolsos dos casacos cheios, afastavam-se rapidamente destas árvores. Porque chupa-ameixas era um insulto. Novos-ricos, marias-cartuxas, inconscienciosos saídos do nada e pisa-cadáveres, era assim que eram conhecidos. O próprio Ditador era conhecido por chupa-ameixas.

            Os jovens andavam para cima e para baixo, metendo a mão nos bolsos dos casacos. Agarravam numa mão-cheia de ameixas de cada vez, para evitar que o gesto desse nas vistas. Só conseguiam fechar a mão quando tinham a boca cheia.

            Porque pegavam em tantas ameixas ao mesmo tempo, havia sempre uma ou duas que rolavam pelo chão, caindo-lhes algumas para dentro das mangas do casaco. Os guardas afastavam as ameixas do chão como se fossem pequenas bolas, atirando-as com a ponta do sapato para a erva. As ameixas das mangas, pescavam-nas da curva do braço e enfiavam-nas nas bochechas j á cheias.

            Eu via-lhes a espuma nos dentes e pensava: ameixas verdes fazem mal, o caroço ainda está mole, e trinca-se a própria morte.

            Os chupa-ameixas eram camponeses. As ameixas verdes emparveciam-nos. Chupando, afastavam-se do dever. Deixavam-se escorregar para a infância e seus pequenos roubos debaixo das árvores da aldeia. Não comiam por fome, ansiavam apenas pelo sabor acre da pobreza, em que, há apenas um ano, tal como diante da mão do pai, baixavam os olhos e encolhiam a cabeça.

            Devoravam até os bolsos ficarem vazios, alisavam-nos e carregavam as ameixas no estômago. Não havia febre que entrasse com eles. Eram crianças ampliadas. Longe de casa, o calor interior gastava-se ao serviço do dever.

            Gritavam com qualquer um, porque o sol ardia, porque o vento soprava, ou porque chovia. Arrojavam-se a um outro e deixavam-no ir. Batiam num terceiro. Por vezes, o calor das ameixas permanecia-lhes muito sossegado no crânio, levavam um quarto, decididos e sem raiva. Um quarto de hora mais tarde, já andavam de novo na zona.

            Quando passavam mulheres jovens, fixavam-se pensativos nas pernas delas. Deixar passar ou atacar, essa era uma decisão de último momento. Havia que deixar claro que tais pernas dispensavam quaisquer razões, era só uma questão de desejo.

            Os transeuntes passavam por eles depressa e de mansinho. Reconheciam-se de antes. Era isso que tomava os passos dos homens e das mulheres tão silenciosos. Os relógios batiam das torres de igreja, dividindo os dias de sol ou chuva em manhã e tarde. O céu mudava de luz, o asfalto, de cor, o vento, de direcção, as árvores, de ramalhada.

            Também Edgar, Kurt e Georg tinham comido ameixas verdes na infância. Não lhes tinha ficado nenhuma imagem de ameixa na cabeça, porque nenhum pai os incomodara enquanto comiam. Riam-se de mim quando eu dizia: Morre-se e ninguém pode ajudar, a febre clara queima-te o coração por dentro. Abanavam a cabeça quando eu dizia: Só não tive de trincar a morte, porque o meu pai não me via a comer. Os guardas devoram em público, dizia eu. Eles não trincam a morte, porque os transeuntes conhecem o estalar dos ramos aquando da colheita e o arroto acre da pobreza.

                                                          

            Edgar, Kurt e Georg viviam na mesma residência, em quartos diferentes. Edgar, no quarto; Kurt, no segundo; Georg, no terceiro andar. Em cada quarto havia cinco rapazes, cinco camas, cinco malas debaixo delas. Uma janela, um altifalante sobre a porta, um armário metido na parede.

Em cada mala havia peúgas e, debaixo das peúgas, creme de barbear e uma navalha.

            Um dia Edgar entrou no quarto e alguém lhe atirou os sapatos pela janela e gritou: Por que não saltas atrás deles e os calças a voar. No segundo andar, alguém empurrou Kurt de encontro à porta do armário e gritou: Leva a tua tralha para o diabo que te carregue. No terceiro andar, um prospecto atingiu Georg no rosto, e alguém gritou: Se fazes merda, tens de comê-la.

            Os rapazes ameaçaram bater em Edgar, Kurt e Georg. Três homens tinham acabado de sair. Tinham revistado o quarto e dito aos rapazes: Se esta visita não vos agrada, falem com aquele que cá não está. Falem, tinham dito os homens e mostrado o punho cerrado.

            Nesse dia, quando Edgar, Kurt e Georg entraram no cubículo, a raiva encomendada abateu-se. Edgar riu-se e atirou uma mala pela janela. Kurt disse: Põe-te a pau, seu grandíssimo verme. Georg disse: Quem és tu para falar de merda quando tens os dentes a apodrecerem-te na boca.

            Em cada quarto, só um dos quatro rapazes é que se enfureceu, disseram Edgar, Kurt e Georg. A cólera não deu em nada, pois os outros três tinham proposto fazer o mesmo mas, quando Edgar, Kurt e Georg tinham entrado, tinham deixado o furioso em cheque. Ficaram para ali, como se extintos.

            O colérico do quarto de Edgar bateu com a porta. Correu até lá abaixo e voltou com a sua mala. Trouxe também os sapatos de Edgar.

            Não havia muito que revistar no pequeno cubículo. Edgar disse: Não encontraram nada. E Georg disse: Espantaram as pulgas, os lençóis estão cheios de pintas pretas. Os rapazes dormem em sobressalto e andam à noite pelo quarto.

            Onde havia muito que revistar era na casa dos pais de Edgar, Kurt e Georg. A mãe de Georg mandou uma carta com as dores de baço, que, com o medo, tinham aumentado.

A mãe de Kurt mandou uma carta com as dores do estômago que clamavam. Pela primeira vez, os pais escreviam algumas palavras nas margens destas cartas: Não voltes a fazer isto à tua mãe.

            O pai de Edgar apanhou o comboio para a cidade, entrou no eléctrico. Do eléctrico dirigiu-se à residência de estudantes por um atalho, evitando o parque desgrenhado. Pediu a um rapaz que dissesse a Edgar para chegar à entrada.

            Ao descer as escadas, observei o meu pai de cima e vi um rapazinho junto à vitrina a ler os cartazes, disse Edgar. Há alguma coisa que valha a pena ler, perguntei, e ele deu-me um pacote com avelãs de casa, acabadinhas de apanhar Tirou a carta da minha mãe do bolso interior e disse: O parque está abandonado, não é agradável atravessá-lo. Edgar acenou e leu na carta que as dores de vesícula são insuportáveis.

            Edgar foi com o pai pelo parque até à tasca atrás da paragem.

            Três homens num carro, disse o pai de Edgar. Um ficou lá fora, na rua. Sentou-se na ponte do canal e ficou à espera, era apenas o motorista. Os outros dois entraram. O mais jovem era careca, o velho já tinha cabelo grisalho. A mãe de Edgar queria levantar as persianas do quarto, mas o da careca disse: Deixa-as estar, acende mas é a luz. O velho desfez a cama, revistando as almofadas e os cobertores, o colchão. Pediu uma chave de parafusos. O da careca desaparafusou a armação da cama.

            Edgar andava devagar, e o pai coxeava ao lado dele, no caminho do parque. À medida que ia falando, olhava para os arbustos, como se tivesse de contar as folhas. Edgar perguntou-lhe: Que procuras. O pai disse: Tiraram a carpete e despejaram os armários, não estou à procura de nada, não perdi nada, pois não.

Edgar apontou para o casaco do pai. Ao casaco faltava, já quando o pai tirara a carta do bolso interior, um botão.

Edgar riu-se: Talvez estejas à procura do teu botão. O pai disse: Esse ficou de certeza no comboio.

            Não conseguiram ler as cartas dos dois tios de Edgar que viviam na Áustria e no Brasil, disse o pai de Edgar, porque estavam escritas em alemão. Levaram as cartas com eles. Mais as fotografias que havia nas cartas. Nas fotografias viam-se as casas dos dois tios, os parentes e as casas destes. As casas eram iguais. Quantas divisões têm eles na Áustria, perguntou o velho. E o da careca perguntou: Que árvores são estas. Apontava para uma fotografia do Brasil. O pai de Edgar encolheu os ombros. Onde estão as cartas para o teu filho, perguntou o velho, as da prima. Ela nunca escreveu, disse a mãe de Edgar. Ele perguntou: Tens a certeza. A mãe de Edgar disse: Não, talvez ela escreva e ele não receba as cartas.

            O velho despejou para cima da mesa caixas com botões e fechos de correr. O da careca misturava tecidos, entretela, forros. O pai de Edgar disse: A tua mãe já não sabe a que cliente é que as coisas pertencem. Quem é que vos deu a revista de moda, perguntaram. A mãe de Edgar apontou para as pastas deles, que tinham as cartas e fotografias: Foi o meu irmão que está na Áustria. Sabem, como se usam as riscas, disse o velho, não tarda muito e vocês só andarão de fatinho às riscas.

            Na tasca, o pai de Edgar baixou-se com tanto cuidado na cadeira como se já lá estivesse alguém sentado. No quarto de Edgar, o da careca abriu a bainha do cortinado, arremessou os livros velhos para fora da estante e abanou-os de folhas para baixo. O pai de Edgar fincava as mãos abertas na mesa, para que não tremessem. Disse: Que queriam eles que houvesse nos livros velhos. Só havia pó. Ao engolir, entornou algumas gotas de aguardente do copo.

            Arrancaram as flores dos vasos que estavam no parapeito da janela e remexeram a terra com as mãos, disse o pai de Edgar. A terra caiu em cima da mesa da cozinha, e as pequenas raízes pendiam-lhes por entre os dedos. O da careca soletrava a partir do livro de culinária: Fígado à brasileira, passar o fígado de galinha pela farinha.

A mãe de Edgar teve de traduzir. Terão de sorver sopa, disse ele, em que nadam dois olhos de boi. O velho foi para o pátio e continuou ali a busca. Depois, no jardim.

            Edgar voltou a servir aguardente ao pai e disse: Tem calma, não bebas tão depressa. O motorista levantou-se e mijou no canal, disse o pai de Edgar. Poisou o copo vazio na mesa, que queres dizer com calma, disse, não estou com pressa nenhuma. O condutor mijou, disse o pai de Edgar, e os patos vieram até ele e observaram-no. Julgavam que era a água fresca que, todas as tardes, lhes deitamos. O condutor riu-se, abotoou as calças e partiu um pedaço de madeira podre do parapeito da ponte. Desfê-lo na mão e atirou-o para a erva. Os patos pensaram que era o trigo que todas as tardes lhes atiramos e devoraram a madeira em pó.

            Na mesinha-de-cabeceira, junto à cama, faltava desde a busca o homenzinho de madeira que o tio de Edgar que vivia no Brasil talhara em criança.

            Os tios de Edgar eram soldados das SS que tinham ficado longe. A guerra perdida levou-os em direcções diferentes. Enquanto membros dos grémios de morte, tinham feito cemitérios e separaram-se depois da guerra. Carregavam no crânio a mesma carga. Nunca mais se procuraram. Pegaram numa mulher da terra e construíram com ela, na Áustria e no Brasil, um telhado pontiagudo, um tímpano pontiagudo, quatro janelas com caixilhos verde-erva, uma cerca de ripas verde-erva. Chegaram a duas terras estranhas e construíram duas casas suábias. Tão suábias como os seus crânios, em dois lugares estranhos onde tudo era diferente. E, quando as casas ficaram prontas, fizeram duas crianças suábias às mulheres.

            Só as árvores à frente da casa, que eles todos os anos podavam como tinham feito em casa antes da guerra, cresciam extravasando o modelo suábio, de acordo com o outro céu, solo e tempo.

            Estávamos sentados no parque desgrenhado a comer as avelãs de Edgar. Edgar disse: Sabem a vesícula. Tinha descalçado o sapato e martelava a casca com o salto. Colocava as avelãs em cima de um jornal. Não comia nenhumas. Georg entregou-me uma chave e mandou-me pela primeira vez à casa de campo.

            Tirei a chave do sapato. Abri a porta, não acendi a luz, acendi um fósforo. A bomba lá estava, grande e delgada como um homem só com um braço. Do tubo pendia um casaco velho, em baixo um regador enferrujado. Encostados à parede, viam-se enxadas, pás, ancinhos, uma tesoura de poda, uma vassoura. Tinham terra agarrada. Levantei a tampa do poço, o saco de linho oscilou sobre o buraco fundo. Tirei-o do gancho, meti os livros lá dentro e voltei a pendurá-lo. Fechei a porta atrás de mim.

            Atravessei a erva, seguindo aos ziguezagues o caminho que abrira à vinda. Malvas, feitas de pequenos dedais lilases, e candelárias agarravam o ar. As campainhas-do-monte lançavam ao anoitecer um odor doce, ou seria o meu medo. Cada folha de erva picava-me a barriga das pernas. Depois uma galinhita que se perdera cacarejou no caminho, abandonando-o assim que os meus sapatos se aproximaram. A erva era três vezes mais alta do que o seu corpo e fechou-se sobre ele. Ouviam-se os seus queixumes neste matagal em flor e, como não conseguia sair, corria para salvar a vida. Os grilos chilreavam, mas os gritos da galinhita sobrepunham-se. Ela trair-me-á no seu medo, pensava eu. Cada uma das plantas seguia-me com os olhos. A minha pele palpitava desde a testa até à barriga.

            Não havia ninguém na casa de campo, disse eu no dia seguinte. Estávamos sentados no terraço da tasca. A cerveja era verde, porque as garrafas eram verdes.

Edgar, Kurt e Georg tinham limpado o pó da mesa com o braço despido. Via-se no tampo da mesa por onde tinham passado os braços deles. Por detrás das suas cabeças pendiam as folhas verdes do castanheiro. As amarelas ainda estavam escondidas. Brindámos e ficámos calados.

            Numa testa, numa têmpora, junto a uma bochecha que pertencia a Edgar, Kurt e Georg, os cabelos tornavam-se transparentes, porque o sol se abatia sobre eles. Ou porque a cerveja gorgolejava quando ora um, ora outro poisava a garrafa na mesa. De vez em quando, uma folha amarela caía da árvore. Levantávamos os olhos à vez, como se quiséssemos ver a folha cair de novo. Não esperávamos, porém, pela próxima que não tardava a cair. Faltava paciência aos nossos olhos. Não nos travávamos de razões com folhas. Só com as manchas amarelas e esvoaçantes que nos distraíam dos rostos uns dos outros.

            O tampo da mesa escaldava como um ferro de engomar. A pele estalava nos rostos. Todo o peso do meio-dia desabava sobre nós, a tasca estava deserta. Os operários ainda estavam a produzir carneiros de chapa e melões de madeira na fábrica. Mandamos vir mais uma rodada de cerveja, para que ainda haja garrafas ali, entre os nossos braços.

            E Georg deixou cair a cabeça e tinha, sob o queixo, um queixo duplo. Cantou baixinho com a própria boca:

 

         Canariozinho amarelo

         amarelo como a gema de ovo

         de penas macias

         e olhos ausentes.

 

            Era uma canção muito conhecida no país. Mas há dois meses que os cantores tinham fugido pela fronteira, e era proibido cantar a canção. Georg engoliu a canção com cerveja.

            O empregado de mesa encostou-se a um tronco de árvore, ouviu e bocejou. Não éramos aqui bem-vindos, olhámos o casaco sujo do empregado, e Edgar disse; Quando se trata dos filhos, os pais entendem tudo.

O meu pai entende que foram os tipos que levaram o homenzinho de madeira. O meu pai diz: Eles também têm filhos que gostam de brincar.

            Nós não queríamos sair do país. Nem pelo Danúbio, nem pelo ar, nem em comboios de mercadorias. Dirigíamo-nos para o parque desgrenhado. Edgar disse: Se ao menos a pessoa certa fosse obrigada a sair, todos os outros poderiam ficar no país. Ele próprio não acreditava nisso. Ninguém acreditava que a pessoa certa fosse obrigada a sair. Todos os dias se ouviam boatos sobre as velhas e novas doenças do Ditador. Também ninguém acreditava nelas. E, contudo, todos murmuravam ao ouvido do lado. Também nós espalhávamos os boatos, como se o vírus insidioso da morte que, por fim, haveria de atingir o Ditador se pudesse transmitir: cancro no pulmão, cancro na faringe, murmurávamos, cancro no intestino, atrofia cerebral, paralisia, leucemia.

            Ele teve de voltar a sair, murmuravam as pessoas: França ou China, Bélgica, Inglaterra ou Coreia, Líbia ou Síria, Alemanha ou Cuba. Cada uma das suas viagens era emparelhada, nos murmúrios, com o desejo de fuga de cada um.

            Cada fuga era um desafio à morte. Era por isso que o murmurar tinha esta vertigem. Uma em cada duas fugas gorava-se nos cães e balas dos guardas.

            A água que corria, os comboios de mercadorias que andavam, os campos que permaneciam eram corredores de morte. Pela altura das colheitas, os camponeses encontravam, nos campos de milho, cadáveres ressequidos ou inchados, completamente debicados pelas gralhas. Os camponeses cortavam o milho e deixavam ficar os cadáveres, porque era melhor não os ter visto. No final do Outono, os tractores aravam a terra.

            O medo da fuga fazia de cada viagem do Ditador uma viagem de urgência ao médico: o ar do Extremo Oriente contra o cancro no pulmão, raízes selvagens contra o cancro na garganta, baterias de aquecimento contra o cancro nos intestinos, acupunctura contra a atrofia cerebral, banhos contra a paralisia.

Há apenas uma doença, dizia-se, que não o obriga a viajar: a leucemia, porque sangue de crianças para o tratamento, arranja-o ele no país. Nas maternidades tiram-no da cabeça dos recém-nascidos com seringas de sucção japonesas.

            Os boatos sobre as doenças do Ditador assemelhavam-se às cartas que Edgar, Kurt e Georg e eu recebíamos das mães. O murmurar mandava que esperássemos com a fuga. Todos se empolgavam de alegria com a desgraça, sem que a desgraça alguma vez se concretizasse. O cadáver do Ditador esgueirava--se pela testa de cada um de nós como a própria vida arruinada. Todos lhe queriam sobreviver.

            Fui ao refeitório e escancarei o frigorífico. A luz acendeu-se como se eu a tivesse feito incidir do exterior.

Desde a morte de Lola que já não havia línguas nem rins no frigorífico. Mas eu via-os e cheirava-os. Imaginava um homem transparente em frente do frigorífico aberto. O homem transparente estava doente e, para viver mais tempo, roubara as miudezas de animais saudáveis.

            Vi o seu bicho-coração. Pendia enclausurado na lâmpada. Estava enroscado e cansado. Fechei o frigorífico, porque o bicho-coração não fora roubado. Só podia ser o dele próprio, era mais feio que as miudezas de qualquer animal à face da Terra.

            As raparigas andavam pelo cubículo, riam-se e comiam uvas e pão sem acender a luz, embora já estivesse escuro. Depois alguém acendia a luz, para ir para a cama. Todas se deitavam. Eu apagava a luz. A respiração das raparigas depressa derrapava para o sono. Eu tinha a impressão de poder vê-la. Como se esta respiração é que fosse negra, tranquila e quente, e não a noite.

            Ficava ali tapada a olhar para os lençóis brancos nas camas. Como teríamos nós de viver, pensava eu, de modo a nos adequarmos ao que pensamos em cada momento.

Como fazem os objectos que estão caídos na rua e nem reparamos quando passamos por eles, embora alguém os tenha perdido.

            Depois o pai morreu. De tanto emborcar, tinha o fígado tão grande como um ganso na engorda, dissera o médico. Havia, junto ao rosto dele, pinças e tesouras no armário de vidro. Eu disse: O fígado era tão grande como as canções que dedicava ao Fuhrer. O médico levou o indicador à boca. Pensou em canções dedicadas ao Ditador, mas eu referia-me ao Fuhrer. Com o dedo na boca, ele disse: Um caso perdido. Referia-se ao pai, mas eu pensei no Ditador.

            No hospital, deram alta ao pai para morrer. Sorria com o rosto mais estreito que alguma vez tivera. Era tão estúpido que ficara feliz. O médico não presta, disse ele, o quarto é mau, a cama é dura, as almofadas são feitas de farrapos e não de penas. Por isso é que me sinto cada vez pior, dizia o pai. A presilha do relógio escorregava-lhe pelo pulso. As gengivas tinham encolhido. Deixara a dentadura no bolso do casaco, porque ela já não lhe cabia na boca.

            O pai estava ressequido como um pau de virar tripas. Só o fígado é que lhe crescera, mais os olhos e o nariz. E o nariz do pai era um bico, como o dos gansos.

            Vamos a outro hospital, disse o pai. Eu levava a sua malinha. Onde os médicos sejam bons, disse o pai.

            Na esquina da rua, o vento deixou-nos despenteados e olhámos um para o outro. O pai aproveitou a oportunidade e disse: Ainda tenho de ir ao barbeiro.

            Era tão estúpido que três dias antes de morrer ainda pensava no barbeiro. Éramos os dois tão estúpidos que ele viu as horas no relógio escorregadio, e eu assenti. Que, alguns minutos depois, ele estivesse sentado quieto e eu estivesse em pé, quieta, no barbeiro. Estávamos tão desamarrados um do outro que, três dias antes de ele morrer, pudemos os dois assistir ao barbeiro de bata branca a agarrar-lhe o cabelo com a tesoura.

            Levei a malinha do pai para a cidade. Lá dentro havia uma presilha de relógio, uma dentadura e pantufas aos quadrados brancos e castanhos. O cangalheiro calçara os sapatos de sair ao pai. Tudo o que pertence ao pai deveria ir no caixão, pensei.

            As pantufas aos quadrados brancos e castanhos têm um colarinho castanho à volta dos tornozelos. No sítio em que as metades do colarinho se encontram há duas borlas de lã mesclada, a branco e castanho. O pai tem estas pantufas desde que a criança existe. Quando mete os pés lá dentro, fica com os tornozelos mais finos que descalço. Antes de ir dormir, o pai deixa a criança fazer festas às borlas. Pisá-las é que não lhe é permitido, nem mesmo quando está descalça.

            O pai está sentado à beira da cama, a criança, no chão. A criança escuta o pêndulo do relógio de parede e faz festas às borlas, acompanhando o ritmo do relógio. A mãe já dorme. A criança diz ao mesmo tempo que faz festas: Tiquetaque, tiquetaque. O pai põe a pantufa direita em cima da esquerda. No meio fica a mão da criança. Dói. A criança retém a respiração e não diz nada.

            Quando o pai levanta o sapato, a mão está esmagada. O pai diz: Deixa-me em paz, senão... Depois toma nas suas mãos a mão esmagada e diz: Senão nada.

            Diz-se que só neva quando morrem pessoas boas. Isso não é verdade.

            Começou a nevar no momento em que eu regressei à cidade com a malinha, após a morte do pai. Os flocos cambaleavam no ar como farrapos. A neve não permanecia nas pedras, nos arabescos de ferro dos gradeamentos, nos puxadores dos portões de jardim nem nas tampas das caixas do correio. Só no cabelo dos homens e mulheres é que ela se mantinha branca. Em vez de se preocupar com a morte, pensei eu, o pai tinha-se metido a fazer sabe-se-lá-o-quê com o barbeiro.

Tinha-se metido a fazer sabe-se-lá-que-estupidez com o primeiro barbeiro que encontrara na primeira rua, tal como se tinha metido a fazer sabe-se-lá-que-estupidez com a morte. Não falou ao barbeiro da morte. Embora pressentisse a morte, o pai estava a contar com a vida.

            Fui tão estúpida que, só porque caíam farrapos de neve que se mantinham brancos apenas no cabelo dos homens e das mulheres, tive de me meter a fazer o que estava certo para mim. Um dia antes do enterro do pai tive de ir com a malinha ao meu cabeleireiro e dizer-lhe qualquer coisa sobre a morte.

            Demorei-me o mais possível no cabeleireiro e contei-lhe tudo o que sabia sobre a vida do pai.

            Ao narrar a morte, a vida do pai começava numa altura, sobre a qual grande parte do que eu sabia provinha dos livros de Edgar, Kurt e Georg e a menor do próprio pai: Um soldado das SS regressado a casa, que fez cemitérios e abandonou rapidamente os lugares, disse eu ao cabeleireiro. Alguém que fez um filho e nunca perdia as pantufas de vista. Enquanto falava das suas plantas mais estúpidas, das suas ameixas mais escuras, das suas canções bêbedas pelo Fuhrer e do seu fígado demasiado grande, o cabeleireiro fez-me uma permanente para o enterro.

            Quando ia a sair, o cabeleireiro disse-me: O meu pai esteve em Estalinegrado.

            Apanhei o comboio e fui ao enterro do pai e às dores de cruzes da mãe. O campo estava mesclado de branco e castanho.

            Fiquei ao pé do caixão. A avó-cantadeira entrou no quarto com um cobertor. Andou a rondar o caixão e por fim pôs o cobertor sobre a mortalha. O nariz dela assemelhava-se ao bico dele. Ele está a aproveitar-se, pensei eu, de ela estar a cuidar dele. Os lábios dela eram um pífaro rouco, solitário que não parava de cantarolar, sem entendimento.

Há anos que a avó-cantadeira não reconhecia ninguém na casa. Agora voltava a reconhecer o pai, porque estava louca e ele, morto. Agora o bicho-coração dele habitava nela.

            Ela disse à mãe: Deixa estar o cobertor sobre o caixão, vem aí o ganso da neve. A mãe levou uma mão à dor nas cruzes e com a outra arrancou o cobertor de cima da mortalha.

 

            Desde as buscas que Edgar, Kurt e Georg andavam com a escova de dentes e uma toalhinha de rosto no bolso do casaco. Julgavam que iam ser presos.

            Para verificar se alguém andava a vasculhar nas coisas deles, deixavam todas as manhãs dois cabelos nas malas. A noite, os cabelos tinham desaparecido.

            Kurt dizia: Todas as noites quando me deito, parece-me que tenho umas mãos frias debaixo das costas. Viro-me para o lado e puxo as pernas para a barriga. O ter de dormir enche--me de horror. Adormeço tão rapidamente como uma pedra cai à água.

            Sonhei, dizia Edgar, que queria ir ao cinema. Tinha voltado a fazer a barba, porque, na vitrina à entrada, havia uma lei que dizia que só se podia deixar a residência de estudantes depois de barbeado. Fui apanhar o eléctrico. Havia em todos os bancos do carro eléctrico um papel com os dias da semana. Li: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, todos os dias até domingo. Virei-me para o guarda-freio e disse: Assim temos de ir todos em pé. Ao que o guarda-freio respondeu: Assim têm de ir todos em pé. As pessoas acotovelavam-se junto à porta de trás. Todas elas traziam uma criança ao colo. As crianças cantavam em coro. Cantavam harmoniosamente, embora não se vissem umas às outras no meio dos adultos.

            Os cubículos de Edgar, Kurt e Georg e as casas dos pais deles foram revistados mais três vezes.

Depois de cada uma das buscas, as mães mandavam cartas com as suas doenças. O pai de Edgar não voltou à cidade, a carta da mãe chegou pelo correio. O pai de Edgar escrevera na margem: Estás a matar a tua mãe de desgosto.

            O meu quarto também foi revistado. As raparigas estavam a arrumar o cubículo quando eu cheguei. A minha roupa de cama, o meu colchão e a minha fuligem para as pestanas estavam espalhados pelo chão. A minha mala estava aberta debaixo da janela, com as meias grossas ao de cima. Sobre as meias, havia uma carta da minha mãe.

            Alguém gritou: Levaste Lola à morte. Rasguei o sobrescrito e fechei a mala com o pé e disse: Devem estar a confundir-me com o professor de ginástica. Alguém disse muito baixinho: Isso é que não. Lola enforcou-se com o teu cinto. Apanhei do chão a minha fuligem para os olhos e atirei-a pelo quarto. Bateu no frasco de conserva com os ramos de abeto, que estava em cima da mesa. As pontas dos galhos encostaram-se à parede.

            Li a carta. A seguir às dores nas cruzes de minha mãe podia ler-se:

            Estiveram cá três senhores, vieram de carro. Dois deles revolveram a casa de alto a baixo. O terceiro era apenas o motorista. Ficou a falar com a avó, para que ela deixasse os outros dois em paz. O motorista fala alemão, não apenas alemão-padrão, mas suábio. É de uma aldeia vizinha, não quis dizer de qual. A avó confundiu-o com o teu pai, quis penteá-lo. Ele tirou-lhe o pente e ela começou a cantar. Ficou pasmado por ela cantar tão bem. Chegou mesmo a cantar uma canção com ela:

 

         Ó meninos, vinde depressa para o lar

         Que a luz a mãe já está a apagar.

 

            Ele disse que a conhecia com uma melodia um poucachinho diferente. Ele cantou a canção tal qual a avó, só que desafinou.

            Desde que os homens partiram que o avô nunca mais teve sossego. A rainha clara desapareceu.

Ele já a procurou por todo o lado e nada. Ela faz-lhe muita falta. Não pode jogar xadrez enquanto não der com ela. E logo ele que cuidava tão bem das figuras. Sobreviveram à guerra e à prisão. E não é que agora desapareceu uma rainha de nossa casa.

            O avô pediu-me que te escrevesse a dizer que há pessoas que aplaudem e ganham dinheiro. Não deves voltar a fazer isso ao teu avô.

            Nevava. O que nos caía no rosto ainda neve transformava-se em água no asfalto. Tínhamos os pés frios. O anoitecer levara o brilho da rua para as árvores. Por entre os ramos nus, os candeeiros queriam perder-se uns nos outros.

            Junto à fonte, o homem do laço negro no pescoço repetia-se na imagem reflectida aos seus pés. Subia com o olhar a rua da prisão. A neve demorava-se-lhe tanto no ramo de flores ressequidas como no cabelo. Era tarde, as carrinhas com os prisioneiros já há muito que tinham regressado à prisão.

            O vento espalhava-nos a neve pelo rosto, ainda que Edgar, Kurt, Georg e eu fôssemos de costas para a neve. Ansiávamos por calor. Mas a tasca estava cheia de berraria. Fomos ao cinema, era a última sessão do dia. O filme já tinha começado.

            Na tela, zunia uma oficina fabril. Quando nos habituámos ao escuro, Edgar começou a contar as sombras nas cadeiras. Além de nós, havia nove pessoas na sala. Sentámo-nos na última fila. Kurt disse: Aqui pode falar-se.

            A fábrica na tela era escura, não nos víamos. Edgar riu-se e disse: Já conhecemos o nosso aspecto à luz do dia. Georg disse: Há quem não possa dizer o mesmo. Tirou do bolso do casaco a escova de dentes e meteu-a na boca. Na tela, o proletariado atravessava a oficina com barras de ferro. Um alto-forno foi aceso. O ferro líquido atirou luz para a sala. Olhámos para os rostos uns dos outros e rimo-nos. Kurt disse: Tira lá a escova da boca. Georg meteu-a no bolso. És um cara de cu suábio, disse ele.

Kurt disse: Sonhei que fui ao nosso barbeiro. Só havia lá mulheres, a tricotar. Perguntei: Que fazem elas aqui. O barbeiro respondeu: Estão à espera dos maridos. Estendeu-me a mão e disse: Não vos conheço. Pensei que ele se referia às mulheres. Disse: Claro que me conhece. As mulheres deram uma risadinha. Sou o estudante, disse eu. Que eu me lembre, não, disse o barbeiro, estava agora mesmo a pensar. Conheço alguém como vós, mas V. Ex.ª não.

Os espectadores assobiavam e gritavam na sala: Vá, Lupu, fode-a, Lupule, fode-a lá. Um operário e uma operária estavam a beijar-se numa noite ventosa, junto ao portão da fábrica. No instante seguinte já era dia em frente do portão da fábrica, e a operária beijada tinha um filho.

Quando me quis sentar na cadeira em frente do espelho, disse Kurt, o barbeiro abanou a cabeça: Não pode ser. Perguntei: Como não. Ele bateu com o dedo no espelho. Olhei para a minha imagem reflectida, tinha o rosto cheio de pêlos púbicos.

Georg puxou-me pelo braço e pôs-me a chave da casa de campo na mão. Onde queres tu que a meta, perguntei.

Na tela, crianças saíam a correr dos portões da escola. A criança da operária beijada tinha o pai Lupu à espera, à saída da escola. Este beijou a criança na testa e levou-lhe na mochila.

Georg disse: Eu tinha más notas na escola. O meu pai disse: Já está na hora de costurar alguma coisa para o director, de preferência, umas calças. No dia seguinte, a minha mãe comprou tecido cinzento, fita de nastro e forro para os bolsos e botões, também para a braguilha, pois na loja só havia fechos de correr vermelhos. O meu pai foi à escola e chamou o director para tirar as medidas. Ele já esperava esta oferta há muito, veio logo.

O director pôs-se junto à máquina de costura. A minha mãe começou a medi-lo dos sapatos para cima. Descontraia as pernas, Senhor Director, disse ela. Ela perguntou: De que comprimento, um pouco mais compridas. De que largura, um pouco mais justas. Quer bainhas viradas. Senhor Director. Ela dirigia as perguntas ao topo das calças que ele trazia vestidas:

E bolsos, Senhor Director. Quando chegou à braguilha, ela respirou fundo e perguntou: De que lado é que traz o material. Senhor Director. Ele respondeu: Sempre do direito. E na abertura para as necessidades, perguntou ela, quer botões ou fecho de correr. Que é que a senhora acha, perguntou o director. O fecho de correr é prático, mas os botões dão mais personalidade, disse o meu pai. O director disse: Botões.

            Depois do cinema, fui à modista. Os filhos dela já estavam a dormir. Ficámos na cozinha. Era a primeira vez que eu vinha a casa dela tão tarde. Ela não se admirou. Comemos maçãs assadas. Fumou, chupou as maçãs do rosto e ficou com um rosto parecido com o das rainhas de xadrez do avô. O patife está no Canadá, disse ela, encontrei hoje a irmã dele. O marido da modista fugira pelo Danúbio, sem lhe dizer palavra. Eu tinha falado à modista das rainhas escura e clara e do barbeiro da companhia do avô, e também da avó-rezadeira e avó-cantadeira. E das plantas mais estúpidas do pai, das dores nas cruzes da mãe.

            As tuas duas avós lembram-me as duas rainhas do teu avô, tinha ela dito. A rezadeira assemelha-se à escura e a cantadeira, à rainha clara. Rezar é sempre uma coisa escura.

Não a contrariei, mas para mim era ao contrário.

            A avó-cantadeira é a escura. Sabe que todos temos um bicho-coração. Rouba o marido a outra mulher. Este homem ama a outra mulher, não ama a avó-cantadeira. Mas é ela que fica com ele, porque o quer. Não a ele, mas ao campo dele. E conserva-o. Ele não a ama, mas ela consegue dominá-lo, dizendo-lhe: O teu bicho-coração é um rato.

            Depois foi tudo em vão, porque, no pós-guerra, o campo é-lhe expropriado pelo Estado.

            Com o desgosto, a avó começou a cantar.

            A modista não se apercebia do pouco que sabia de mim. Parecia chegar-lhe saber que era estudante e não usava cintos.

            Pus a chave da casa de campo no parapeito da janela da modista e esqueci-me dela ali. Pensei, ninguém deita fora uma chave.

            Edgar, Kurt e Georg não tinham confiança na modista. Eu disse-lhes: Estão desconfiados, porque as vossas mães são modistas. Tive de prometer que não envolveria a modista em nada que nos dissesse respeito. Edgar, Kurt e Georg não teriam admitido que a chave permanecesse ali, no parapeito da janela. Teriam, como era frequente quando estavam desconfiados, recitado o poema:

Todos tínhamos um amigo em cada pedacinho de nuvem

é o que acontece com os amigos onde o mundo é cheio

de medos

até a minha mãe dizia que era normalíssimo

os amigos estão fora de questão

pensa em coisas mais sérias

            Já era noite dentro quando regressei a pé à residência de estudantes. No caminho encontrei três guardas, não quiseram nada de mim. Estavam muito ocupados consigo próprios, comiam ameixas verdes como de dia.

            A cidade era dominada por um silêncio tal que conseguia ouvi-los mastigar. Avancei discretamente, para não os perturbar enquanto comiam. De preferência teria prosseguido em bicos de pés, mas isso ter-lhes-ia parecido estranho. Fiz-me tão leve ao andar como uma sombra, ninguém teria sido sequer capaz de me agarrar. Não andei demasiado devagar nem demasiado depressa. As ameixas verdes nas mãos dos guardas eram escuras como o céu.

            Duas semanas depois, fui à modista ao princípio da tarde. Ela disse logo: Esqueceste-te da chave, dei com ela no dia seguinte. Andei o dia inteiro a pensar que era noite e não conseguirias entrar na residência.

A fita métrica pendia do pescoço da modista. A chave não é a da residência, é a de casa, disse eu. E pensei: Ela traz a fita métrica como um cinto ao pescoço.

Depois o chá começou a ferver na chaleira. Ela disse: Vejo os meus filhos a crescer e só espero que, mais tarde, eles façam mais uso da chave de casa que tu. Entornou o açúcar ao pé da minha chávena. Será que consegues perceber, perguntou. Acenei.

Porque tínhamos medo, Edgar, Kurt, Georg e eu andávamos juntos todos os dias. Sentávamo-nos juntos à mesa, mas o medo permanecia tão isolado em cada cabeça como o trazíamos antes de nos encontrarmos. Ríamo-nos muito, para escondê-lo dos outros. O medo, porém, escapa-se-nos. Quando dominamos o rosto, esgueira-se pela voz. Quando se consegue conservar o rosto e a voz como um ramo morto, sai até pelos dedos. Deita-se fora da pele. Anda por ali à vontade, reconhecemo-lo nos objectos que estão próximos.

            Sabíamos em que lugar estava o medo de quem, porque já nos conhecíamos há muito tempo. Muitas vezes não nos podíamos aturar, porque estávamos dependentes uns dos outros. Tínhamos de nos ofender.

            Tu mais a tua cabeça-de-alho-chocho suábia. Tu mais a tua pressa ou molenguice suábia. Mais a tua mania suábia de contar os tostões. Mais a tua lorpice suábia. Tu mais os teus soluços ou espirros suábios, mais as tuas peúgas ou camisas suábias, dizíamos.

Seu peida-de-bombo-da-festa suábia, seu cabeça-de-vento suábio, seu kampelsackel suábio.

A fúria era tanta que nos servíamos de palavras longas que nos separavam. Inventávamo-las como pragas para ganhar distância em relação uns aos outros. O riso era duro, perfurávamos a dor. Era rápido, porque nos conhecíamos por dentro. Sabíamos exactamente o que magoava o outro. Agradava-nos vê-lo sofrer. Queríamos que sucumbisse sob o peso do amor agreste e que sentisse a rapidez da sua derrota. Cada injúria arrastava a seguinte até que o visado se calava. E ainda um pedaço depois. Durante um pedaço ainda, as palavras caíam-lhe no rosto mudo como gafanhotos num campo devastado.

            Imersos no medo, tínhamos olhado mais fundo uns nos outros do que era permitido. A longa confiança obrigava-nos a uma inversão que acontecia inesperadamente. O ódio podia aparecer e destruir. Na grande proximidade uns dos outros, ceifar o amor, porque ele voltava a crescer como a erva alta. As desculpas retiravam a ofensa tão rapidamente como se consegue reter a respiração.

            A procura do conflito era sempre intencional, as consequências dele é que permaneciam um descuido. Passada a fúria, o amor era pronunciado sem inventar palavras. Estava sempre lá. Mas no conflito o amor tinha garras.

            Edgar dissera uma vez quando me dera a chave da casa de campo: Tu mais o teu sorrisinho suábio. Pressenti as garras e não sei como é que, na altura, não me caiu a boca ao chão. Na contabilização dos dias todos, senti-me tão abandonada que não me ocorreu palavra alguma de contestação. Talvez a minha boca se tivesse tornado uma vagem de ervilhas maduras. Tão ressequidos e estreitos me pareciam os meus lábios, lábios que eu não queria ter. Um sorriso suábio era como o pai que não pudera escolher. Como a mãe que não queria ter.

            Também nessa altura estávamos sentados no cinema, na última fila. Também nessa altura podia ver-se uma oficina fabril na tela. Uma operária estava a meter fio de lã numa máquina de tricotar. Uma outra operária aproximou-se dela com uma maçã vermelha na mão e ficou a observá-la.

A operária alisou O fio na máquina de tricotar e disse: Acho que me apaixonei. Tirou a maçã da mão da outra e deu-lhe uma trincadela.

            Durante o filme, Kurt pousou a mão no meu braço. Também nessa altura nos contou um sonho. Neste sonho, havia homens no barbeiro. Na parede, estava pendurada bem alto uma ardósia, era um jogo de palavras cruzadas. Todos os homens apontavam com cabides para os espaços ainda vazios e diziam letras. O barbeiro estava em cima de um escadote e ia escrevendo as letras. Os homens diziam: Antes de isto estar solucionado, não há cortes de cabelo para ninguém. Nós chegámos primeiro. Quando Kurt se levantou para sair, o barbeiro gritou-lhe: Amanhã é favor trazer a navalha de casa.

            Por que andarei sempre a sonhar com esta navalha, perguntou Kurt ao meu ouvido, embora soubesse porquê. Edgar, Georg e Kurt já não tinham navalhas de barbear. Tinham-lhes desaparecido das malas.

            Fiquei demasiado tempo junto ao rio com Edgar, Kurt e Georg. Vamos só estender as pernas mais um bocadinho, disseram eles, como se nós pudéssemos passear despreocupados ao longo do rio. Andar devagar e depressa, esgueirar-se ou perseguir eram coisas de que ainda éramos capazes. Agora estender as pernas, isso já tínhamos desaprendido.

            A mãe quer apanhar as últimas ameixas do jardim. Porém, a escada tem um degrau solto. O avô vai comprar pregos. A mãe fica à espera debaixo da árvore. Tem posto o avental dos bolsos grandes. Escurece.

            Quando o avô tira as figuras de xadrez do bolso do casaco e as coloca em cima da mesa, a avó-cantadeira diz-lhe: Tens as ameixas à espera e vais jogar xadrez com o barbeiro. O avô diz: O barbeiro não estava em casa, o que me levou a dar uma volta pelo campo. Compro os pregos amanhã cedo, hoje fui strabanzen.

            Kurt meteu, ao andar, os sapatos para dentro, atirou um pau à água e disse:

 

Todos tínhamos um amigo em cada pedacinho de nuvem

é o que acontece com os amigos onde o mundo é cheio de medos

até a minha mãe dizia que era normalíssimo

os amigos estão fora de questão

pensa em coisas mais sérias

 

            Edgar, Kurt e Georg estavam sempre a recitar este poema. Na tasca, no parque desgrenhado, no eléctrico ou no cinema. Mesmo a caminho do barbeiro.

            Edgar, Kurt e Georg iam muitas vezes juntos ao barbeiro. Quando passavam a porta, o barbeiro dizia: Atenção à ordem, dois ruços e um moreno'. Kurt e Georg eram sempre atendidos antes de Edgar.

            O poema constava de um dos livros da casa de campo. Também eu sabia o poema de cor. Mas só em pensamento, para ter qualquer coisa a que me agarrar quando tinha de estar com as raparigas no cubículo. Já à frente de Edgar. Kurt e Georg tinham vergonha de recitá-lo.

            Uma vez no parque desgrenhado tentei e, depois do segundo verso, bloqueei. Edgar gaguejou o resto e eu apanhei uma minhoca do chão molhado, puxei-lhe o colarinho do pescoço e atirei-lhe a minhoca vermelha e fria pela camisa abaixo.

            Um pedacinho de nuvem era o que não faltava na cidade, nem um céu vazio. E cartas da minha, da tua, da mãe dele, que nada tinham para dizer. O poema escondia a sua frieza risonha. Esta adequava-se à voz de Edgar, Kurt e Georg.

 

Trocadilho político baseado na cor de cabelo das personagens. Os ruivos («rothaarig», literalmente «de cabelo vermelho») passam à frente do de cabelo escuro. Optou-se por «ruço» pela semelhança com «russo». (N. da T.)

Era fácil declamá-la. Mas aguentar diariamente esta frieza risonha, isso era muito difícil. Talvez por isso é que o poema tivesse de ser dito tantas vezes.

            Não confies em amabilidades falsas, avisavam-me Edgar, Kurt e Georg. As raparigas do quarto tentam tudo, diziam, tal como os rapazes do quarto. Quando perguntam quando regressas querem é saber: Quanto tempo ficas fora.

            O Capitão Pjele, que tinha um cão com o mesmo nome, interrogou Edgar, Kurt e Georg pela primeira vez por causa deste poema.

            O Capitão Pjele tinha o poema numa folha. Amachucou a folha, o cão Pjele ladrou. Kurt teve de abrir a boca, e o Capitão Pjele enfiou-lhe a folha pela garganta abaixo. Kurt teve de comer o poema. Ao fazê-lo, ia sufocando. O cão Pjele saltou--lhe duas vezes para cima. Rasgou-lhe as calças e arranhou-lhe as pernas. Ao terceiro salto, o cão Pjele teria certamente mordido, afirmou Kurt. Mas o Capitão Pjele disse em voz cansada e tranquila: Pjele, já chega. O Capitão Pjele queixou-se de dores de rins e disse: Tens muita sorte em ter dado comigo.

            Edgar teve de estar uma hora a um canto, sem se mexer. O cão Pjele sentou-se à sua frente e não lhe tirou os olhos de cima. Tinha a língua de fora. Pensei para comigo, dou-te cá um destes pontapés nas trombas que cais redondo no chão, disse Edgar. O cão pressentiu o que eu estava a pensar. Quando, na mão de Edgar, se mexia um só dedo, quando respirava um pouco mais fundo pela boca, de modo que os pés não se mexessem, o cão Pjele rosnava. Ele teria saltado ao mais pequeno movimento, disse Edgar. Eu não teria sobrevivido, não teria conseguido dominar-me. Teria sido uma carnificina.

Antes de Edgar poder ir-se embora, o Capitão Pjele queixou-se de dores nos rins, e o cão Pjele lambeu os sapatos de Edgar. O Capitão Pjele disse: Tens muita sorte em ter dado comigo.

Georg teve de se deitar de barriga para baixo e cruzar os braços atrás das costas.

O cão Pjele andou a farejar-lhe as têmporas e o pescoço. Depois lambeu-lhe as mãos. Georg não sabia quanto tempo isto durara. Na mesa do Capitão Pjele havia um vaso de ciclame, disse Georg. Quando entrara, o ciclame tinha apenas uma flor aberta. Quando pôde sair, havia duas flores abertas. O Capitão Pjele queixou-se de dores de rins e disse: Tens muita sorte em ter dado comigo.

            Que o poema convida à fuga, disse o Capitão Pjele a Edgar, Kurt e Georg. Eles disseram: É uma velha canção popular. O Capitão Pjele disse: Antes tivesse sido escrita por um de vós. Isso já seria bastante mau, mas assim ainda é pior. Talvez antigamente estas cantigas fossem canções populares, eram outros tempos. Há muito que o regime latifundiário-burguês foi ultrapassado. Hoje o nosso povo canta canções diferentes.

            Edgar, Kurt e eu seguíamos as árvores na margem do rio, e a conversa. Edgar devolvera a chave da casa de campo ao homem que não dá nas vistas. Tínhamos dividido os livros, as fotos e os cadernos por todos nós.

            A respiração rastejava das nossas bocas para o ar frio. À frente dos nossos rostos avançava uma matilha de animais voadores. Eu disse a Georg: Olha, o teu bicho-coração está a emigrar.

            Georg levantou-me o queixo com o polegar: Tu e o teu bicho-coração suábio, disse ele a rir-se. Gotinhas da saliva salpicaram-me o rosto. Baixei os olhos e vi os dedos de Georg debaixo do meu queixo. As articulações dos dedos estavam brancas e os dedos, azuis de frio. Limpei as gotinhas de saliva das faces. Lola costumava chamar banha de maçado ao cuspo na fuligem das pestanas. Repliquei em minha defesa: És um madeiro.

            Os nossos bichos-corações fugiam como ratos. Atiravam o pêlo para trás das costas e desapareciam rumo ao Nada. Sempre que, ao falar, nos atropelávamos uns aos outros, eles ficavam mais tempo no ar.

Sempre que nos escrevermos não nos podemos esquecer de pôr a data e um cabelo na carta, disse Edgar.

Se alguma carta não contiver um cabelo, saberemos que foi aberta.

            Cabelos, pensei, em comboios atravessando sozinhos o país. Um cabelo escuro de Edgar, um claro meu. Um ruivo de Kurt e Georg. Ambos eram conhecidos pelos estudantes como os caracóis d'oiro. Uma frase com tesoura das unhas para interrogatório, disse Kurt, para busca, uma frase com sapatos, para ser seguido, uma com constipado. Depois da saudação, sempre um ponto de exclamação, aquando de ameaças de morte, só uma vírgula.

            Na margem, as árvores tombavam para a água. Eram salgueiros-chorões e salgueiros-frágeis. Quando eu era criança, os nomes das árvores sabiam a razão daquilo que eu fazia. Estas árvores não sabiam por que Edgar, Kurt, Georg e eu percorríamos a margem do rio. Tudo à nossa volta cheirava a despedida. Nenhum de nós disse a palavra.

            Uma criança tem medo de morrer e come ainda mais ameixas verdes e não sabe porquê. A criança está no jardim e procura nas plantas a razão para isso. Mas as plantas, caules e folhas, também não entendem por que é que a criança utiliza, comendo, as mãos e a boca contra a sua vida. Só os nomes das plantas é que sabem porquê: trevo-d’água, linho-de-cuco, cardo-de-coalho, ranúnculo-mata-boi, cinco-em-ramo, saudades-perpétuas, cachapeiro, sanguinho, figueira-do-diabo, mata-cão.

            Fui a última a deixar o cubículo na residência de estudantes. Quando voltei do rio, as camas das raparigas já estavam despidas. As malas delas tinham desaparecido, no armário já só estavam penduradas as minhas roupas. O altifalante emudecera. Tirei a roupa da cama. Sem a almofada, a fronha era um saco para a cabeça. Dobrei-a. Meti o pacote com a fuligem para as pestanas no bolso do casaco comprido.

Sem o edredão, a capa era um saco de cadáver, dobrei-o.

            Quando levantei o edredão para retirar o lençol, vi no meio deste uma orelha de porco. Era o adeus das raparigas. Sacudi o lençol, a orelha permaneceu agarrada, estava cosida no meio, como um botão. Podiam ver-se os sítios em que a agulha perfurara a cartilagem azulada, e a linha preta. Não estava em condições de me enojar. Mais que a orelha de porco, eu temia o armário. Tirei a roupa toda de uma vez e atirei-a para a mala. Sombra para os olhos, lápis, rouge e batom, estava tudo na mala.

            Não sabia o que são quatro anos. Se os tinha pendurados em mim ou na roupa. O último ano estava pendurado no armário. Tinha-me maquilhado todas as manhãs do último ano. Maquilhado tanto mais quanto menos queria viver.

            Dobrei o lençol, com orelha e tudo.

            No fim do corredor erguia-se uma montanha de roupa de cama. À sua frente uma mulher com uma bata azul-clara. Contava as fronhas. Quando lhe entreguei a roupa de cama, interrompeu a contagem. Coçou-se com um lápis, eu disse o meu nome. Tirou do bolso da bata uma lista, procurou e fez uma cruz, dizendo: És a penúltima. A última, disse eu, a penúltima está morta.

            Neste dia, Lola teria podido entrar no comboio com meias de vidro finíssimas. E, no dia seguinte, haveria alguém que, ao trazer os carneiros de volta a casa pelos campos de neve, teria julgado ver a irmã descalça a descer do comboio.

            No cubículo, devo ter ficado mais uma vez parada em frente do armário vazio, antes de sair com a mala. Um pouco antes, tinha aberto mais uma vez a janela. No céu, as nuvens pareciam manchas de neve num campo lavrado. O sol de Inverno tinha dentes. Observei o meu rosto no vidro e esperei que o sol, porque lá em cima já havia neve e terra que bastassem, atirasse a cidade para fora da sua luz.

            Ao percorrer a rua com a mala, senti que deveria voltar atrás para fechar a porta do armário. A janela tinha ficado aberta. O armário talvez fechado.

            Apanhei um transporte para a estação de caminho-de-ferro e meti-me no comboio em que chegavam as cartas da minha mãe. Quatro horas depois estava em casa. O relógio de pêndulo estava parado, o despertador estava parado. A mãe tinha vestido a roupa de domingo, ou, pelo menos, foi o que me pareceu porque não a via há muito tempo. Esticou o indicador para o passar pelas minhas meias de vidro finíssimas. Não o fez. Disse: Tenho umas mãos tão ásperas e tu agora és tradutora. No pulso tinha o relógio do pai. O relógio estava parado.

            Desde a morte do pai que era a mãe que dava corda aos relógios da casa, mas fazia-o sem tacto. As cordas tinham-se partido. Quando lhes dou corda tenho a sensação, disse ela, de que agora deveria parar, mas depois não paro.

            O avô dispôs as figuras de xadrez no tabuleiro. Tenho de imaginar as rainhas, disse ele. Já te disse que devias esculpir outras, disse a mãe. Madeira é o que não nos falta. O avô disse: Não quero.

A avó-cantadeira andava à volta da minha mala. Olhou-me nos olhos e perguntou: Quem é que chegou. A mãe disse: Mas se estás a olhar para ela. A avó-cantadeira perguntou: Onde está o teu homem. Eu disse: Não tenho homem. A avó-cantadeira perguntou: Ele usa chapéu.

            Edgar mudara-se para longe, para a sujidade de uma cidade industrial. Toda a gente nesta cidade fabricava carneiros de chapa e chamava-lhe metalurgia.

            Fui visitar Edgar no final do Verão. E vi as chaminés grossas, a fumarada vermelha e as palavras de ordem. A tasca mais a aguardente turva de amoras e os cambaleios de regresso às casas dos despidos bairros de apartamentos. Ali os velhos coxeavam pela erva. As mais pequenas das crianças esfarrapadas comiam sementes de malva à beira do caminho — os braços delas ainda não chegavam aos ramos das amoreiras.

Os velhos chamavam pão de Deus Nosso Senhor às sementes de malva. Diziam que faziam crescer o entendimento. Nada distraía os cães e gatos esmaecidos da vigilância e dos saltos atrás de insectos e ratos.

            Quando, no pino do Verão, o sol queima, disse Edgar, os cães e gatos deitam-se todos a dormir debaixo das amoreiras. Quando o sol lhes aquece o pêlo, ficam tão moles que são incapazes de calar a fome. Os porcos nas pastagens de erva ressequida devoram as amoras fermentadas e perdem o equilíbrio. Ficam bêbedos como as pessoas.

            Quando chegava o Inverno, os porcos eram esquartejados entre os blocos de apartamentos. Nos anos em que neva pouco, a erva fica ensanguentada o Inverno inteiro, disse Edgar.

            Edgar e eu caminhávamos em direcção à escola delapidada. O sol pestanejava e, onde ele aparecia, havia moscas. Eram pequenas mas não indefesas ou de um cinzento desmaiado, como as moscas nascidas demasiado tarde. Brilhavam verdes e zumbiam quando me poisavam no cabelo. Deixavam-se transportar durante alguns passos e depois voltavam a zumbir pelo ar fora.

            No Verão poisam nos animais adormecidos, disse Edgar. E deixam-se levantar e baixar uniformemente pela respiração sob o pêlo.

            Edgar era professor nesta cidade. Quatrocentos alunos, os mais pequenos têm seis, os maiores, dez anos, disse Edgar. Comem amoras, para terem boa voz para as canções do partido, e pão de Deus Nosso Senhor, para o entendimento necessário ao um-vezes-um. Jogam futebol para a musculatura das pernas e praticam caligrafia como exercício de destreza. De dentro vem a diarreia, de fora, a sarna e os piolhos.

            As carroças deslocavam-se pelas ruas mais depressa que os autocarros. As rodas das carroças matraqueavam, os cascos produziam um som surdo. Os cavalos não andavam aqui de sapatos de salto alto, mas de borlas de lã verdes e vermelhas nos olhos.

As mesmas borlas pendiam dos chicotes. Batem nos cavalos com tanta força, disse Edgar, até eles reconhecerem as borlas do chicote. Depois penduram-lhes as mesmas borlas nos olhos. Os cavalos têm medo e desatam a correr.

            Nos autocarros, disse Edgar, as pessoas vão sentadas de cabeça baixa. Parecem dormir. Nos primeiros dias perguntei a mim próprio como é que conseguiam acordar a tempo de sair na paragem certa. Quando se anda de autocarro, também se baixa a cabeça como elas. O chão está em mau estado. Vê-se a estrada pelos buracos.

            Eu via esta cidade espelhada no rosto de Edgar, no meio dos seus olhos, no contorno das suas faces e em redor da sua boca. Tinha o cabelo comprido e o rosto no meio dele parecia uma praça erma que evita a luz. Nas suas têmporas podiam ver-se as veias, os olhos tremiam-lhe sem razão, baixavam as pálpebras, como se um peixe desaparecesse. Estes olhos afastavam o olhar, se, por acaso, nos fixávamos um pouco neles.

            Edgar dividia uma casa com um professor de ginástica, dois quartos, uma cozinha e uma casa de banho. As janelas davam para amoreiras e altíssimos arbustos de carrapicho. Uma ratazana subia todos os dias pelo escoadouro da banheira. Há anos que o professor de ginástica a tem em casa, disse Edgar, deixa-lhe toucinho na banheira e tudo. Chama-se Emil. Também devora amoras e carrapichos verdes.

            Eu via a terra de Lola no rosto de Edgar. Queria livrar-me do meu medo por Edgar. O medo imaginava ser impossível permanecer aqui, onde Edgar vivia, três anos. Contudo, Edgar tinha de permanecer aqui três anos. Como professor que era, fora para aqui mandado pelo Estado. Por isso, eu nada disse sobre o lugar. Mas Edgar disse já pela noite dentro, quando observávamos a meia-lua da sua janela: Aqui, para onde quer que olhes, dás com o caderno de Lola. É tão grande como o céu.

            O armário no quarto de Edgar estava vazio.

Tinha a roupa na mala, como se pudesse abandonar o lugar a qualquer momento, sem ter de emalar nada. Recuso-me a instalar-me aqui, disse Edgar. Vi dois cabelos em cruz sobre a mala. Edgar disse: O professor de ginástica vem meter o nariz no meu quarto.

            No percurso até à escola delapidada, quis colher caules de carrapicho, porque Edgar tinha uma jarra vazia, e porque os rebentos tardios ainda estavam em flor. Verguei-os e puxei-os. Não consegui parti-los. Deixei-os, vergados como estavam, na beira do caminho. Tinham fibras naqueles caules que mais pareciam arame. Os carrapichos espinhosos e murchos que não queria colher agarravam-se-me ao casaco.

            Os rapazes fazem dragonas de carrapicho, disse Edgar. Querem ser polícias e militares. Estas chaminés levam-nos de enxurrada para a fábrica. Só alguns, os mais resistentes de entre eles, é que se agarram já à vida com unhas e dentes. Tal como os carrapichos no teu casaco, saltarão para comboios, disse Edgar, e, dispostos a tudo, tornar-se-ão guardas, ficando à beira de um qualquer caminho, algures por esse país.

            Georg fora mandado por três anos para uma cidade industrial em que toda a gente fabricava melões de madeira. Aos melões de madeira chamava-se indústria transformadora da madeira.

            Edgar visitara Georg. A cidade ficava no meio de florestas. Não havia comboios nem autocarros para lá. Só camiões com motoristas monossilábicos, a quem faltavam alguns dedos nas mãos, dissera Edgar. Os camiões vêm vazios e regressam carregados de troncos de árvore.

            Os operários roubam os restos de madeira e fazem com eles pavimentos de parque, dissera Georg a Edgar. Quem não rouba não é levado a sério na fábrica. Daí que eles não possam, mesmo quando já têm o andar inteiro forrado a parque, parar de roubar e de colocar parque. Por isso colocam-no nas paredes até ao tecto.

            No centro da cidade, havia duas serrarias a silvar.

Nos extremos das ruas ouvem-se os machados a cortar lenha na floresta. E, de tempos em tempos, ouvia-se, algures nas costas da cidade, o som de uma árvore pesada a cair ao chão. A todos os homens nas ruas faltavam dedos nas mãos, dissera Edgar, até às crianças.

            Quando recebi a primeira carta de Georg, ela vinha datada de há duas semanas atrás. Tão antiga como a data na carta de Edgar que chegara três dias antes.

            Abri a carta de Georg devagar, como a de Edgar três dias antes. Na dobra do papel de carta havia um cabelo ruivo. Três dias antes, houvera um cabelo preto na de Edgar. A seguir à saudação havia um ponto de exclamação. Engoli em seco enquanto lia, ajudei a leitura com os lábios, para que não aparecessem, na folha, frases com constipado, tesoura de unhas ou sapatos. Engoli em vão. As frases não tardaram. Aquando da leitura da carta de Edgar elas também não tinham tardado.

            Aqui as pessoas têm serradura no cabelo e nas sobrancelhas, escrevia Georg.

            Espezinhamos tanto com as palavras na boca como com os pés na erva, pensei para comigo. Pensei no último passeio com Edgar, Kurt e Georg ao longo do rio. Nas gotas de saliva de Georg nas minhas faces, nos seus dedos debaixo do meu queixo. Ouvi-me dizer a Georg: És um madeiro.

            A frase não era minha. A frase não tinha nada que ver com madeira. Naquela altura. Eu tinha-a ouvido a outros vezes sem conta, sempre que alguém se mostrara grosseiro para com eles. Também não era deles. Quando alguém era grosseiro para com eles, a frase ocorria-lhes, porque a tinham ouvido a outros vezes sem conta, para com os quais alguém tinha sido grosseiro. Se a frase alguma vez tivesse tido alguma coisa que ver com madeira, seria importante saber de quem ela era. Mas tinha que ver com grosseria. Quando a grosseria passava, a frase também passava.

            Tinham passado meses e a frase não tinha passado. Era como se tivesse dito a Georg: Vais tornar-te um madeiro.

            O meu cabelo não dá nas vistas, porque é ruivo mesmo sem a serradura, podia ler-se na carta. Ando sem norte pela cidade. E à minha frente vai alguém sem norte. Quando o percurso conjunto é mais longo, os nossos passos ajustam-se. E costume aqui manter-se uma distância de quatro passos grandes para não incomodar o outro. Eles à frente cuidam que os meus passos não se aproximem demasiado deles. Eu atrás cuido que as costas deles não se aproximem demasiado de mim.

            Mas já duas vezes aconteceu outra coisa: O que ia à minha frente enfiou subitamente as duas mãos nos bolsos das calças. Parou, virou os bolsos do avesso e sacudiu a serradura que neles havia. Deu palmadinhas nos bolsos para o pó sair e eu ultrapassei-o. Pouco depois, ouvi-o a mais de quatro passos de mim, depois a quatro passos. E depois mesmo em cima de mim. Ultrapassou-me e começou a correr. Uma vez esvaziada a serradura dos bolsos, parecia ter ganho um destino.

            Os velhos cortavam ramos novos, partiam-nos aos bocados e abriam-lhe um rego e buracos. Aplainavam a extremidade anterior: tomava-se uma boquilha. Todos os ramos em que tocam, escrevia Georg, se tomam pífaros.

            Há pífaros tão pequenos como um dedo de criança, dissera Edgar, e há outros tão compridos como uma pessoa adulta.

            Os velhos tocavam pífaro nos bosques e punham os pássaros malucos. Os pássaros enganavam-se nas árvores e nos ninhos. E, quando voavam para fora da floresta, confundiam a água das poças com nuvens. Atiravam-se de cabeça para a morte.

            Aqui só um pássaro é que tem vida própria, escrevia Georg, o brita-ossos. A voz dele distingue-se de todos os pífaros. Ele põe os velhos malucos. Estes arranjam ramos de espinheiro-cerval e agarram-se-lhe com tanta força que as mãos sangram dos espinhos. Com a madeira constroem pífaros pequenos como dedos e grandes como crianças, mas o brita-ossos não enlouquece.

            Edgar dissera que o brita-ossos, apesar de satisfeito, continua a caçar.

Os anciãos esgueiram-se à volta do espinheiro-cerval e apitam. O pássaro voa sobre as cabeças deles até aos arbustos e poisa. Nada o perturba. Espeta calmamente a presa nos espinhos para a fome do dia seguinte.

            Era assim que deveríamos ser, escrevia Georg. Eu sou assim, comprei dois pares de sapatos na mesma semana.

            Na carta de Edgar, eu tinha lido três dias antes: Esta semana já são duas vezes que não consigo encontrar os meus sapatos.

            Quando passava por sapatarias, lembrava-me das buscas. Apressava-me. A modista disse: Os sapatos de criança são muito caros. Como ela falava de sapatos e só de sapatos, deixei-me rir. Ela disse: Tu não tens filhos. Estava a pensar noutra coisa, disse eu.

            Kurt vinha todas as semanas à cidade. Era engenheiro num matadouro. Este ficava na orla de uma aldeia, não muito longe da cidade. A cidade fica demasiado próxima, para eu morar na aldeia, dizia Kurt. Os autocarros andam ao contrário. De manhã, quando tenho de ir trabalhar para a aldeia, há um autocarro que vai da aldeia para a cidade. A tarde, depois do trabalho, há um autocarro que vai da cidade para a aldeia. Isto tem a sua razão de ser, eles não querem pessoas a trabalhar no matadouro, que possam ir diariamente à cidade. Só querem aldeões que raramente saiam da aldeia. A gente nova toma-se rapidamente cúmplice. Precisam apenas de alguns dias para, como os demais, emudecerem e tragarem sangue.

            Kurt tinha a seu cargo doze operários. A sua tarefa era colocar tubos de aquecimento no recinto do matadouro. Kurt andava há três semanas constipado. Todas as semanas dizia--lhe: Tens de ficar de cama. Os operários andam tão ranhosos como eu e não ficam de cama, dizia ele. Se eu faltar, eles não fazem nada e roubam tudo.

            Não utilizávamos a palavra constipada, pois ela podia ler-se nas cartas.

Kurt bebia três chávenas de chá em meia hora, eu bebia uma. Eu olhava para as chávenas e pensava: Ele bebe três vezes mais e sorve. Depois ele dizia: As crianças da escola de Georg não querem saber da fábrica e do parque dos pais e dos pífaros dos avós para nada. Fazem pistolas e armas com tábuas. Querem ser polícias e militares.

            De manhã, quando vou para o matadouro, as crianças da aldeia vão para a escola, dizia Kurt. Não levam nem cadernos nem livros, só um pedaço de giz. Enchem as paredes e as cercas de corações desenhados. São corações todos entrelaçados uns nos outros. Corações de bovinos e suínos, que mais havia de ser. Estas crianças já são cúmplices. Quando à noite as beijam, ela reconhecem pelo cheiro que os pais tragam sangue no matadouro e querem para lá ir.

            Eu escrevera a Edgar: Há uma semana que estou constipada e não encontro a minha tesoura das unhas.

            A Georg escrevera: Há uma semana que estou constipada e a minha tesoura das unhas não corta.

            Talvez não devesse ter escrito numa só frase constipada e tesoura das unhas, talvez devesse ter repartido constipada e tesoura das unhas pela carta. Talvez devesse ter escrito primeiro tesoura das unhas e depois constipada. Mas constipada e tesoura das unhas acabaram por ser tão-só um latejar, maior que a minha cabeça, depois de ter passado uma tarde inteira a dizer frases com constipado e tesoura das unhas em voz alta, a fim de descobrir a certa.

            Constipada e tesoura das unhas tinham-me atirado para fora do sentido que era delas e nosso por convenção. Já nada descobria nelas e pu-las numa frase que talvez fosse boa e que de certeza era má. Riscar constipada ou tesoura das unhas nesta frase em concreto e voltar a incluí-las umas frases mais adiante teria sido ainda pior. Nesse caso, poderia ter riscado, em qualquer das cartas, uma em cada duas frases.

Riscar apenas constipada ou tesoura das unhas teria sido um sinal, e muito mais estúpido que uma frase má.

            Tive de pôr dois cabelos nas cartas. Diante do espelho, o meu cabelo estava muito longe de mim e à mão de semear, como o pêlo de um animal que o caçador vê com binóculos.

            Tive de arrancar dois cabelos que não se perdessem, dois cabelos de carta. Onde cresciam eles, sobre a testa, na têmpora esquerda ou na direita, ou no alto da cabeça.

            Penteei-me, ficaram cabelos no pente. Meti um na carta de Edgar e outro, na carta de Georg. Caso o pente se tivesse enganado, não seriam cabelos de carta.

            Na estação de correios, lambi os selos. Junto à entrada havia um homem a telefonar, um homem que todos os dias me seguia. Andava com uma sacola de linho branco e trazia um cão pela trela. A sacola era leve, embora estivesse meia cheia. Ele andava com ela pois não sabia aonde me levava o caminho.

            Entrei na loja. Ele pôs-se na bicha um pouco depois — teve de amarrar o cão. Entre mim e ele havia quatro mulheres. Quando saí da loja para fora, logo o vi atrás de mim com o cão. A sacola de linho que tinha na mão não estava mais cheia que antes.

            Enquanto telefonava, tinha a trela e o auscultador numa mão. A sacola de linho, na outra. Falava e observava a minha língua a lamber o selo. Colei o selo, embora as pontas ainda não estivessem húmidas. Deitei as cartas no marco do correio mesmo nas barbas dele, como se ali estivessem ao abrigo das suas mãos.

            O homem não era o Capitão Pjele. O cão talvez fosse o Pjele. Mas o Capitão Pjele não era o único que tinha um lobecão.

            Eu tinha sido interrogada pelo Capitão Pjele sem cão. Talvez o cão Pjele estivesse a fazer um intervalo para comer ou dormir. Talvez o cão Pjele estivesse a ser amestrado numa qualquer sala deste edifício labiríntico e a aprender coisas novas ou a treinar o que já sabia, enquanto o Capitão Pjele me interrogava. Talvez o cão Pjele andasse na rua com o homem e a sacola de linho atrás de outro alguém. Talvez com um outro homem sem sacola de linho. Talvez o cão Pjele andasse atrás de Kurt, quando o Capitão Pjele me interrogou. Quantos homens havia, quantos cães. Tantos quantos os pêlos num cão.

            Em cima da mesa havia uma folha. O Capitão Pjele disse: Ler. Na folha havia um poema. Ler alto, para ambos nos deliciarmos, disse o Capitão Pjele. Li alto:

 

Todos tínhamos um amigo em cada pedacinho de nuvem

é o que acontece com os amigos onde o mundo é cheio de medos

até a minha mãe dizia que era normalíssimo

os amigos estão fora de questão

pensa em coisas mais sérias

 

            O Capitão Pjele perguntou: Quem escreveu isso. Eu disse: Ninguém, é uma canção popular. Então é propriedade colectiva, disse o Capitão Pjele, por isso o povo pode continuar o poema. Sim, disse eu. Ora então verseja lá, disse o Capitão Pjele. Não tenho jeito para versejar, disse eu. Mas tenho eu, disse o Capitão Pjele. Eu versejo e tu escreves o que eu versejar, para ambos nos deliciarmos:

 

Eu tinha três amigos em cada pedacinho de nuvem

é o que acontece com as putas onde o mundo é cheio de nuvens

até a minha mãe dizia que era normalíssimo

três amigos estão fora de questão

pensa em coisas mais sérias

 

            Tive de cantar o que o Capitão Pjele versejara. Cantei sem ouvir a minha voz. Do medo caí para um medo mais seguro. Este era capaz de cantar como a água canta. Talvez a melodia viesse da loucura da minha avó-cantadeira. Talvez eu conhecesse canções que a razão dela esquecera. Talvez o que na cabeça dela jazia em pousio tivesse de transbordar-me dos lábios.

            O barbeiro do avô é tão velho como o avô. Há já anos e anos que é viúvo, embora a sua Anna fosse tão nova como a minha mãe. Passou-se muito tempo antes que ele conseguisse aceitar a morte da sua Anna.

            Quando Anna ainda era viva, a minha mãe dizia: Aquela não é de meias-palavras. Quando expropriaram o campo ao avô, Anna dissera à avó-cantadeira: Cá se fazem, cá se pagam.

            No tempo em que a bandeira com a cruz suástica esvoaçara sobre o campo de desporto da aldeia, a avó-cantadeira denunciara o noivo de Anna ao Gruppenfuhrer local. Dissera: O noivo de Anna não comparece ao içar da bandeira, porque é contra o Fuhrer.

            Dois dias mais tarde, chegara um carro da cidade que tinha levado o noivo de Anna. Desde então ninguém mais o vira.

            Já a guerra tinha acabado há muito tempo, disse a minha mãe, quando o barbeiro se viu com a jovem Anna. O barbeiro ainda hoje agradece à avó ter conseguido uma mulher tão formosa. Sempre que corta o cabelo ao avô ou que joga xadrez com ele, diz: As mulheres formosas não se fazem velhas, morrem antes de ficarem feias.

            Mas não há motivo para gratidões, dizia a mãe. A avó não desejava nem mal a Anna, nem bem ao barbeiro. Denunciou-o porque há muito que tinha o filho na guerra e o noivo de Anna não queria alistar-se.

            O Capitão Pjele pegou na folha e disse: Que bem que tu versejaste, os teus amigos vão ficar contentes. Eu disse: Quem versejou foi o senhor. Ora, ora, disse o Capitão Pjele, mas se é a tua letra.

            Quando me foi permitido vir-me embora, o Capitão Pjele queixou-se das suas dores nos rins e disse: Tens muita sorte em ter dado comigo.

            No interrogatório seguinte, o Capitão Pjele disse: Hoje vamos cantar sem folha. Cantei, o medo mais seguro voltou a recordar-se da melodia. Nunca mais a esqueci.

            O Capitão Pjele perguntou: Que faz uma mulher com três homens na cama. Calei-me. Deve ser uma confusão, a fazer lembrar o acasalamento dos cães, disse o Capitão Pjele. Mas casar, isso não querem vocês, para casar é preciso ser um casal e não uma matilha. Qual deles vais escolher para pai do teu filho.

            Eu disse: Não se engravida a falar. Ora, ora, disse o Capitão Pjele, uns caracóis d'oiro aparecem num abrir e fechar de olhos.

            Antes de me ser permitido vir-me embora, o Capitão Pjele disse: Sois sementes ruins. A ti, atiramos-te à água.

            Sementes ruins, pensei para comigo, era o que o pai via quando lançava a enxada sobre os cardos-do-coalho. Escrevi duas cartas com uma vírgula depois da saudação:

            Querido Edgar,

            Querido Georg,

            A vírgula deveria emudecer quando o Capitão Pjele lesse as cartas, para que as voltasse a fechar e as enviasse para o seu destino. Mas, quando Edgar e Georg abrissem as cartas, a vírgula haveria de gritar.

            Uma vírgula que emudecesse e gritasse era coisa que não existia. A vírgula a seguir à saudação revelou-se demasiado inchada.

            Não podia manter no escritório, atrás dos dossiers o embrulho atado com cordel que continha os livros e as cartas. Levei-o comigo para casa da modista, para me esquecer dele ali, até ter encontrado um local seguro na fábrica.

            A modista estava a passar a ferro. A fita métrica jazia enrolada em cima da mesa. O relógio tiquetaqueava no quarto. Em cima da cama jazia um vestido com grandes ramagens. Na cadeira, estava sentada uma jovem mulher. A modista disse: Tereza. Eu conheço-a da fábrica, disse eu, ela andou muito tempo com um braço engessado. Só quando Tereza se riu é que olhei para ela. Agora tenho o braço direito queimado do sol e o esquerdo branquíssimo, disse Tereza. O relógio tiquetaqueava no quarto. Tereza despiu-se e enfiou-se com o braço queimado no vestido de ramagens. Praguejou, porque não conseguiu encontrar logo as aberturas. A modista disse: O buraco para a cabeça não se transforma em manga só porque tu praguejas.

            Uma vez posto o vestido, Tereza disse: Há um ano dei por mim a imaginar cada uma das pragas que ouvia. Os colegas lá no escritório repararam nisso — sempre que alguém praguejava eu fechava os olhos. Eles diziam: É para veres melhor a praga. Eu fechava-os para deixar de vê-la. De manhã, quando chegava ao trabalho, havia folhas na minha secretária. Continham desenhos de pragas, ascensões de conas e pixas. Sempre que alguém praguejava, eu punha-me a imaginar as ascensões nas folhas e não conseguia deixar de rir. Eles diziam que mesmo a rir eu fechava os olhos. Depois comecei a praguejar. Ao princípio, só na fábrica.

            O relógio tiquetaqueava no quarto. Já não tiro o vestido, disse Tereza, é quentinho. A modista disse: Porque estás a praguejar. Porque é grosso, disse Tereza. Tecidos às ramagens são sempre tecidos de Verão, disse a modista, eu cá não o vestiria no Inverno. Agora praguejo em todo o lado, disse Tereza. E tirou o vestido.

            O relógio tiquetaqueava até no espelho.

O pescoço de Tereza era demasiado comprido, os olhos, demasiado pequenos, as omoplatas, demasiado salientes, os dedos, demasiado grossos, o traseiro, demasiado chato, as pernas, demasiado tortas. Tudo o que eu via em Tereza devolvia-me hediondamente o olhar no tiquetaque do relógio. Desde que me fora proibido afagar as borlas das pantufas do pai que nenhum outro relógio tiquetaqueara assim tão alto.

            Porias este vestido no Inverno, perguntou Tereza. O vestido não tinha cinto. Eu disse, sim, e vi que Tereza era feia, porque o tiquetaque do relógio a despedaçava. Logo depois, sem espelho, a feiura vulgar de Tereza tornou-se invulgar. Mais bela que em mulheres que eram imediatamente belas.

            A modista perguntou: Como vai a tua avó. Eu disse: Lá vai cantando.

            A mãe está em frente do espelho a pentear-se. A avó-cantadeira põe-se ao lado da mãe. Com uma mão, a avó-cantadeira agarra a trança negra da mãe e com a outra, a sua trança grisalha. Diz: Agora tenho dois filhos, e nenhum é meu. Enganastes-me, os dois, pensava que éreis louros. Tira o pente à mãe, bate com a porta e vai, com o pente, para o jardim.

            Quando Tereza tirou as cartas do toucador, descobri por que tiquetaqueava o relógio tão alto no quarto. Todas nós neste quarto estávamos à espera. Mas não do mesmo. A modista e a Tereza queriam que eu me fosse embora antes de lançarem as cartas. Eu queria que elas lançassem as cartas antes de eu me ir embora. Só quando a modista lesse a Tereza a sorte nas cartas é que eu poderia esquecer-me do pacote da casa de campo, sem chamar a atenção.

            A modista era mais conhecida por ler cartas que por fazer vestidos. A maioria das clientes não lhe confessava ao que vinha.

Mas a modista via-lhes no rosto que precisavam de sorte para a fuga.

            Tenho pena de muitas delas, dizia a modista, pagam bom dinheiro, mas não posso mudar o destino. A modista encheu um copo de água e bebeu um gole. Sinto quem é que acredita nas suas cartas, dizia ela, poisando o copo na mesa. Tu acreditas nas tuas cartas, mas receias que eu consiga terminar a paciência. A modista observou-me a orelha. Senti-me transpirar. Tu não conheces as tuas cartas, disse ela, mas tens de viver com elas. Antecipo a infelicidade e, às vezes, não tenho de engoli-la.

            A modista levantou o copo. O círculo de água na mesa não estava no sítio em que o copo estivera mas à frente da minha mão. Senti-me gelar. Fiquei calada, a modista bebeu um gole de água.

            O rio e as pedras no rio. A carreira inferior, onde o caminho termina. Ali havia que retroceder, caso quiséssemos voltar connosco próprios para a cidade. Habitualmente todos retrocediam ali, porque não queriam sentir as pedras aguçadas através da sola dos sapatos.

            Aqui e ali havia alguém que não retrocedia, porque queria continuar até à água. A razão para tal, diziam as pessoas, não era o do, este era igual para todos. A razão, diziam as pessoas, era esse alguém que não queria retroceder. Era ele a excepção.

            Porque já não queria retroceder, lancei-me para o meio das pedras aguçadas. Era um destino. Não um que, como Georg tinha escrito, viesse de bolsos vazios. Enchi os bolsos com duas pedras pesadas. O meu destino era o oposto.

            No dia anterior, entrara num bloco de apartamentos desconhecido, para olhar, da janela do corredor do quinto andar, para o chão. Não havia ninguém, era suficientemente alto, poderia ter saltado. Porém, sobre a cabeça, o céu estava demasiado próximo. Tal como depois, no rio, a água estava demasiado próxima.

Tal como os pássaros dos velhos, eu tinha ficado maluca com o assobio. A mim assobiava-me a morte. Porque não consegui saltar, voltei no dia seguinte ao rio. E no dia a seguir ao seguinte.

            Encarreiradas, como os dias em que fui ao rio, havia três conjuntos de pedras na margem. De cada uma das vezes, eu pegara em duas pedras diferentes. Não tive de procurar muito, o peso não era dificuldade, havia muitas que se queriam afundar comigo. Mas não eram as certas. Dos bolsos do casaco voltavam outra vez para o solo. E eu voltava outra vez para a cidade.

            Um dos livros da casa de campo chamava-se: Como Acabar com a Vida. Ali podia ler-se: cada cabeça, sua morte. Mas eu andava, num círculo gélido, da janela para o rio e de volta para a janela. A morte assobiava-me de longe e eu tinha de tomar balanço para ir até ela. Eu tinha-me quase sob controlo, apenas uma parte minúscula se recusava a alinhar. Talvez fosse o bicho-coração.

            Depois da morte de Lola Edgar dissera: Foi um movimento seguro. Comparada com Lola, eu era ridícula. Voltei mais uma vez ao rio para misturar com as outras as pedras emparelhadas na margem. Lola soube imediatamente amarrar o saco com o cinto. Caso tivesse querido o saco com o rio, Lola teria sabido emparelhar pedras. Uma coisa destas não constava de nenhum livro. Na altura pensei ao ler: Se alguma vez precisar da morte, saberei fazê-lo.

            No livro as frases estavam tão próximas como se, mais tarde, pudessem fazer o necessário. Mas quando as puxei sobre a minha pele, rasgaram-se e deixaram-me pendurada. Ri-me alto quando, na margem, separei umas das outras as pedras emparelhadas. Eu não tinha sabido meter-me com a morte.

            Era tão estúpida que afastei o riso com o choro. Tão teimosa que pensei para comigo: O rio não é o meu saco.

O Capitão Pjele não terá sorte nenhuma com o seu a ti, atiramos-te à água.

            Edgar e Georg só vieram no Verão, por altura das férias grandes. Nem eles nem Kurt souberam que a morte me tinha assobiado.

            Todas as semanas Kurt falava do matadouro. Enquanto esquartejavam os animais, os operários tragavam sangue quente. Roubavam miudezas e mioleira. Ao anoitecer, atiravam pernas de vaca e de porco para lá da cerca. Os irmãos ou os cunhados deles estavam à espera no carro e recolhiam-nas. Metiam as caudas de vaca em ganchos e deixavam-nas a secar. Havia caudas que ficavam duras de tanto secar, outras, não, permaneciam maleáveis.

            As mulheres e os filhos deles são cúmplices, dizia Kurt. As caudas de vaca duras são utilizadas pelas mulheres como escovas para lavar garrafas, as maleáveis, pelas crianças como brinquedo.

            Que eu tivesse de cantar para o Capitão Pjele não assustou Kurt. Ele disse: Eu já quase que me esqueci desse belo poema. Revejo-me no frigorífico com as línguas e os rins de Lola. Mas lá onde estou qualquer um é o frigorífico de Lola. Ali a sala de jantar é tão grande como a aldeia.

            Tentei dizer semente ruim e acasalamento de cães com a voz do Capitão Pjele. Kurt conseguia imitar o Capitão Pjele melhor que eu. Desatava a rir, a rir tão alto que a garganta cheia de muco estertorava. De repente, Kurt engoliu em seco e perguntou: Onde estava o cão, por que é que o cão não estava lá.

            O saco com o rio não me pertencia. Não pertencia a nenhum de nós.

            O saco com a janela não me pertencia. Mais tarde viria a pertencer a Georg.

            O saco com a corda veio a pertencer ainda mais tarde a Kurt.

            Edgar, Kurt, Georg e eu ainda não o sabíamos naquela altura. Deveria poder dizer-se: Ninguém o sabia naquela altura. Mas o Capitão Pjele não era ninguém. Talvez o Capitão Pjele tivesse já naquela altura pensado nos dois sacos: Primeiro o saco para Georg. Depois o saco para Kurt.

            Talvez o Capitão Pjele ainda não tivesse naquela altura pensado no primeiro saco e muito menos no segundo. Ou o Capitão Pjele tinha pensado neles e repartiu-os pelos anos.

            Não éramos capazes de imaginar os pensamentos do Capitão Pjele. Quanto mais pensávamos nisso, menos entendíamos.

            Tal como eu tive de aprender a repartir constipada e tesoura das unhas ao longo de uma carta, o Capitão Pjele teve de aprender a repartir a morte de Georg e Kurt pelos anos. Talvez.

            Nunca soube o que haveria a dizer a respeito do Capitão Pjele, o que era certo. E o que haveria a dizer a meu respeito também só sabia numa sequência, muita coisa só depois de três vezes. Mas depois estava sempre errado.

            Entre o Inverno e o início do ano soube de cinco cadáveres do rio, cadáveres que tinham ficado presos na vegetação fluvial na orla da cidade. Não se ouvia falar de outra coisa, o burburinho só era igualado pelos boatos sobre as doenças do Ditador. As pessoas abanavam a cabeça e arrepiavam-se. Até Kurt.

            Kurt vira um homem no matagal, junto ao matadouro. Os operários estavam no intervalo e acorriam ao edifício principal para se aquecerem. Kurt não os acompanhou, porque não queria vê-los a tragar sangue. Pôs-se a andar de um lado para o outro no pátio, a observar o céu. Quando se virou, ouviu uma voz. A voz pedia roupa. Quando a voz emudeceu, Kurt viu um homem no matagal, de cabeça rapada. Só tinha umas ceroulas vestidas.

            SÓ depois do intervalo, numa altura em que os operários já estavam metidos até ao pescoço numa vala, é que Kurt voltou ao matagal. Mijou e deixou lá umas calças e um casaco. O homem da cabeça rapada desaparecera.

            Quando, ao anoitecer, Kurt voltou a passar pelos arbustos, a roupa sumira. Polícia e exército passaram revista ao local. Na manhã seguinte, foi a vez da aldeia. Os operários do matadouro diziam, foi encontrado um barrete de prisioneiro no nabal atrás do matadouro.

            O homem provavelmente ainda estava no rio nessa noite, disse Kurt. Só espero que ele não seja o que encontraram, ele tem a minha roupa.

Eu tinha um gosto amargo na boca. Andara a apanhar as pedras para três dos cadáveres do rio. Talvez também para ele. Não há-de ser ele, disse eu.

            Na fábrica, eu traduzia instruções para equipamento hidráulico. As máquinas eram, para mim, um dicionário grossíssimo. Passava o dia sentada à secretária. Raramente ia às oficinas. O ferro das máquinas e o dicionário não tinham nada que ver um com o outro. As ilustrações técnicas pareciam-me acordos entre os carneiros de chapa e os operários por turnos: operários do turno diurno, operários do turno nocturno, capatazes, operários-modelo, operários-auxiliares. As coisas com que as mãos deles se entretinham não precisavam de nome na cabeça. Assim iam envelhecendo, quando não fugiam ou caíam para o lado ou morriam antes.

            Entre a capa e a contracapa do dicionário constavam todas as máquinas desta fábrica. Rodinhas e parafusos excluíam-me.

            O despertador parou pouco depois da meia-noite. A mãe acordará por volta do meio-dia. Dá corda ao relógio e ele não tiquetaqueia.

A mãe diz: Sem despertador a manhã não vem. A mãe embrulha o despertador num jornal. Manda a criança com o despertador ao Relojoeirotoni. O Relojoeirotoni pergunta: Quando precisais do relógio de volta. A criança diz: Sem despertador a manhã não vem.

            Depois volta a ser manhã. Por volta do meio-dia a mãe acorda e manda a criança buscar o despertador. O Relojoeirotoni atira duas mãos-cheias de despertador para um alguidar e diz: Esta máquina deu o berro.

            No caminho de regresso a casa, a criança agarra no alguidar e engole a rodinha mais pequena, o pino mais curto, o parafuso mais fino. A segunda rodinha mais pequena...

            Desde que Tereza tinha o vestido às ramagens que vinha todos os dias ter comigo ao escritório. Ela não queria entrar para o partido. Não tenho a consciência suficientemente desenvolvida, dissera numa reunião, e além disso passo a vida a praguejar. Todos se desataram a rir, disse Tereza. Posso recusar-me, porque o meu pai foi um manda-chuva aqui na fábrica. Foi ele que fez todos os monumentos da cidade. Agora está velho.

            Vi uma terra estéril no rosto de Tereza, nos ossos das faces ou no meio dos olhos, ou em tomo da boca. Uma filha da cidade, que ainda conseguia juntar palavras e mãos enquanto falava.

            Onde em mim havia o vazio, Tereza jamais ousaria ir dentro dela própria. Talvez só uma vez, numa altura em que lhe agradei sem razão. Talvez porque eu estava fora dos gestos das minhas mãos. E de muitas das palavras. E não era só daquelas que Edgar, Kurt, Georg e eu combináramos. No dicionário, havia outras à espera, que operários e carneiros de chapa tinham combinado entre si. Escrevi-as a Edgar e Georg: porca de parafuso, bicheiro, rabo-de-andorinha.

            Tereza falava com candura. Conversava muito e reflectia pouco. Sapatos, dizia, e eram só sapatos. Quando o vento fazia a porta fechar-se com estrondo, praguejava durante tanto tempo como quando alguém morria ao fugir.

            Almoçávamos juntas, e Tereza mostrava-me a ascensão das pragas no papel. Tereza ria tanto que os olhos pequeninos se lhe humedeciam. Queria arrastar-me para o seu riso e fixava-me. Eu via nas folhas miudezas dos animais esquartejados. Não conseguia continuar a comer. Precisava de falar de Lola,

            Tereza rasgou as ascensões. Eu também estive no Anfiteatro Grande, disse Tereza, fomos todos obrigados a ir.

            Almoçávamos todos os dias juntas, e Tereza envergava todos os dias um vestido diferente. Tereza só pôs o vestido às ramagens uma vez. Tinha vestidos vindos da Grécia e de França Pulôveres de Inglaterra e calças de ganga da América. Tinha pó-de-arroz, batons e rimmel de França, jóias da Turquia. E meias de vidro finíssimas da Alemanha. As mulheres do escritório não gostavam de Tereza. Via-se em que pensavam quando viam Tereza. Pensavam: Tudo o que ela traz em cima vale uma fuga. Ficavam invejosas e tristes. Cantavam com os pescoços torcidos:

 

         Que Deus castigue

         Quem ama e parte

         Que Deus o castigue

         Com o passo do escaravelho

         O zumbido do vento

         O pó da terra.

 

            Cantavam a melodia por si e pela sua fuga. Mas a maldição da cantiga era dirigida a Tereza.

            As pessoas da fábrica comiam toucinho amarelo e pão duro.

            Tereza punha em cima da minha secretária com os seus dedos grossos fatias finíssimas de presunto, queijo, legumes e pão. Dizia: Faço-te uns soldadinhos para comeres alguma coisa de jeito. Erguia, a partir da mesa, torrezinhas entre o polegar e o indicador, virava-as e enfiava-as na boca.

            Eu perguntava: Porquê soldadinhos. Tereza dizia: Chamam-se assim.

            A comida de Tereza tinha que ver com ela. Tinha um travo ao pai dela. Era ele que a encomendava na cantina do partido. Levam-lha todas as semanas de carro até à porta de casa, dizia Tereza. O meu pai não precisa de ir às compras, vai ver os seus monumentos e anda pela cidade de cesto de compras na mão sem razão alguma.

            Eu perguntei: Ele tem um cão.

            Os filhos da modista diziam: A nossa mãe foi a uma cliente. Olhei pela primeira vez para as crianças. Não me deixavam curiosa. Perguntaram: Quem és tu. Eu disse: Uma amiga. Estremeci por momentos, porque senti que não era verdade.

            As crianças tinham lábios e dedos azuis-escuros. Quando a caneta seca, disseram, escreve cinzento. Com cuspo escreve azul como a noite.

            Pensei para comigo: As crianças estão cá pela primeira vez, porque pela primeira vez vim cá sem segundas intenções, porque não quero cá esquecer nada.

            Havia, contudo, uma coisa de que me queria esquecer: da morte do louco da fonte.

            O homem do laço preto jazia morto no asfalto onde passara anos. As pessoas acotovelavam-se à volta dele. O ramo de flores ressequidas fora pisado.

            Kurt dissera, os loucos da cidade nunca morrem.

Mal caem para o lado, logo brota do asfalto, no mesmo sítio onde estavam, outro igual. O homem do laço preto caíra para o lado. Do asfalto tinham brotado outros dois, um polícia e um guarda.

            O polícia enxotou dali os curiosos. Os olhos faiscavam-lhe, tinha a boca molhada dos gritos. Tinha trazido consigo o guarda que estava habituado a puxar pessoas e sová-las.

            O guarda colocou-se à frente das solas dos sapatos do morto e meteu as mãos nos bolsos do sobretudo. O sobretudo cheirava a novo, a sal e a óleo como os tecidos impermeáveis nas lojas. Tinha, como acontecia com os tamanhos únicos para os guardas, mangas demasiado curtas. O sobretudo do guarda estava presente. E o boné novo do guarda também. Só os olhos por baixo do boné é que estavam ausentes.

            Talvez o que paralisasse o guarda diante deste morto fosse o rasto da infância. Talvez tivesse uma aldeia na mente. Talvez lhe ocorresse o pai que há muito não via. Ou o avô que já morrera. Talvez uma carta com a doença da mãe. Ou um irmão que, desde que o guarda saíra de casa, tinha de apascentar carneiros com pés vermelhos.

            A boca do guarda era demasiado grande para esta estação do ano. Tinha-a escancarada, uma vez que, no Inverno, não havia ameixas verdes para a encher.

            Junto ao morto, que em breve voltaria, passados tantos anos, a ver a mulher debaixo da terra, o guarda não conseguia espancar ninguém.

            Os filhos da modista escreviam pela enésima vez na folha os nomes num azul meia-noite. Brigavam pelo espaço no papel. A briga não era ruidosa: Cheiras a cebola. Tens pés chatos. Tu mais os teus dentes tortos. Tens lombrigas no cu.

            Debaixo da mesa, os pés das crianças não chegavam ao chão. Em cima da mesa, as mãos infantis espetavam-se com os lápis. Nos seus rostos, a cólera era obstinada e adulta. Dei comigo a pensar: Enquanto a mãe se atrasa, eles crescem.

O que acontecerá se eles cresceram num quarto de hora, afastarem as cadeiras da mesa com os traseiros e se forem embora. Como hei-de eu dizer à modista, quando ela regressar e poisar a chave, que os filhos já não precisam dessa chave.

            Quando não estava a olhar para as crianças, não conseguia distinguir-lhes as vozes. No espelho havia a minha cara e os olhos grandes de uma maria-ninguém. Não tinham razão para estarem a fixar-me.

            A modista chegou e pôs a chave no toucador, as cartas e a fita métrica enrolada, deixou-as em cima da mesa. Disse: A minha cliente tem um amigo que esguicha até ao tecto do quarto. O marido dela não sabe que as manchas em cima da cama são manchas de esperma. Parecem manchas de água. Ontem voltou do turno da noite com o primo. Com este tempo húmido subiram ao telhado e procuraram a telha partida. Havia duas telhas partidas, mas não por cima da cama. O primo disse: Quando o vento sopra na diagonal, a chuva também cai na diagonal. O marido da minha cliente quer pintar o tecto amanhã. Convenci-o a esperar até ao princípio do ano, disse a modista. Sabe muito bem, disse-lhe eu, que, mal chova outra vez, volta tudo ao mesmo.

            A modista fez uma festa no cabelo de um dos filhos. O outro encostou a cabeça ao braço dela, também queria uma festa. Porém, a mãe foi ã cozinha e voltou com um copo de água. Suas toupeiras, disse ela, põem as canetas venenosas na boca, metam-nas em água. Quando ela pegou numa folha em branco, a criança da festa no cabelo estendeu a mão. Mas ela pôs a folha em cima da mesa.

            O amigo carrega meio balde de água naquela pixa, disse a modista, ele mostrou-mo uma vez. Eu avisei a cliente. O amigo é do Sul, de Scornicesti. É o mais novo de onze filhos. Seis ainda são vivos. Um homem destes não traz sorte a ninguém. Também predisse o braço de gesso de Tereza.

Vocês as duas são tão diferentes, disse a modista, mas isso às vezes é bom. Todos aqueles que me conhecem acreditam em mim.

            Um homem, vindo de uma casa corcovada, saiu para a rua com um balde. Deixou o portão aberto. No pátio havia um sol pálido. A água no balde estava gelada. Ao aproximar-se da depressão no terreno, o homem virou o balde e bateu-lhe com o sapato. Quando levantou o balde, havia no chão uma ratazana congelada dentro de um cone de gelo. Tereza disse: Mal o gelo derreter, ela foge.

            Sem dizer palavra, o homem desaparecera no interior da casa corcovada. O portão rangera e o sol pálido voltou a ficar fechado no pátio. Quando Tereza terminou de praguejar, perguntei: O rio ainda está assim tão gelado.

            Havia muitas perguntas a que Tereza não respondia. Havia algumas perguntas que eu fazia mais do que uma vez. Outras não voltava a fazer porque eu própria as esquecia. Também existiam coisas que eu não esquecia e pelas quais eu não voltava a perguntar, porque não queria que Tereza soubesse que eram importantes para mim. Ficava à espera de uma boa oportunidade. Quando a oportunidade surgia, eu ficava na dúvida se a oportunidade era realmente boa. Deixava passar tanto tempo que Tereza se virava para outras coisas. Depois lá se ia qualquer oportunidade, e não apenas a boa. Tinha de voltar a ficar à espera de uma boa oportunidade.

            Havia perguntas a que Tereza não respondia, porque falava de mais. Tanta conversa não lhe deixava tempo para reflectir.

            Tereza não conseguia dizer: Não sei. Nos casos em que teria de dizê-lo, abria os lábios e dizia uma coisa completamente diferente. Por isso, quando, no início do ano, o Capitão Pjele me ligou para o escritório e me intimou a comparecer a um interrogatório, eu ainda não descobrira se o pai de Tereza ia ver os seus monumentos acompanhado de um cão.

            Tinha medo de que o Capitão Pjele viesse à fábrica. Mal desliguei, levei os livros da casa de campo para a secção de Tereza. Ela continuou a falar e a rir com um colega enquanto punha o embrulho ali ao lado, no seu armário. Não perguntou o que estava dentro do embrulho.

            Tereza recebeu o embrulho de boa fé e eu não tinha nenhuma em relação a ela.

            Na rua com as casas corcovadas deparava-se com as primeiras moscas nas paredes. A erva nova era tão verde que a cor agredia os olhos. Via-se-a a crescer. Todos os dias quando Tereza e eu saíamos da fábrica, ela estava um palmo mais alta. Dei comigo a pensar: A erva na rua cresce mais depressa que o segundo rebento do ciclame no gabinete do Capitão Pjele durante o interrogatório a Georg. E, por entre as casas, havia árvores tão nuas à espera que cada passo hesitava no chão perante a sombra dos seus ramos. As sombras apareciam ali como cornaduras.

            O dia de trabalho chegara ao fim. Os nossos olhos ainda não estavam habituados ao sol penetrante. Nos ramos não havia pontinha de folha. O céu inteiro abria-se sobre as nossas cabeças, a de Tereza e a minha. A cabeça de Tereza tomava-se leviana e louca.

            Debaixo de uma árvore, Tereza levantou e baixou a cabeça durante tanto tempo que, no chão, a sombra da cabeça dela tocou a cornadura. No chão havia um animal.

Tereza atirou as costas de encontro ao magro tronco de árvore. A cornadura abanou, deixou o seu animal e reencontrou-o.

            Tereza abanava a cabeça, o animal deixava a cornadura e voltava.

Quando o Inverno terminou, disse Tereza, muita gente foi até à cidade passear, aproveitando o primeiro sol. Andavam assim a passear, quando viram um estranho animal aproximar-se lentamente da cidade. Avançou até ao rio, embora pudesse ter voado.

Tereza levantou o casaco comprido aberto com as mãos nos bolsos, a fazer de asas. Quando chegou à praça grande no centro da cidade, o estranho animal bateu com as asas, disse Tereza. As pessoas começaram a gritar e com o medo fugiram para casas estranhas. Só duas pessoas permaneceram na rua. Não se conheciam. A cornadura voou da cabeça do estranho animal e assentou na balaustrada de uma varanda. Lá em cima, ao sol claro, a cornadura brilhava como as linhas de uma mão. Os dois viram nas linhas toda a sua vida. Quando o estranho animal voltou a bater com as asas, a cornadura abandonou a varanda e foi assentar novamente na cabeça do animal. O estranho animal saiu lentamente da cidade pelas ruas claras, vazias. Quando se foi embora da cidade, as pessoas voltaram à rua vindas das casas estranhas. Retomaram as suas vidas. O medo ficou-lhes nos rostos. Confundia-lhes os rostos. Aquela gente nunca mais tomou a ser feliz.

            Mas os dois retomaram as suas vidas e escaparam à infelicidade.

            Quem eram os dois, perguntei. Não queria resposta alguma. Tinha medo de que Tereza dissesse: Tu e eu. Mostrei-lhe rapidamente o dente-de-leão murcho junto ao sapato dela. Mas, como eu, Tereza pressentia que nós só caberíamos juntas ali onde não houvesse mistério. Que não cabíamos em palavras tão pequenas como tu e eu. Tereza revirou os olhos pequeninos e disse:

 

         Quem eram os dois

         Fica para depois.

 

Tereza curvou-se e soprou o dente-de-leão murcho. Eu não sabia em que pensava ela enquanto as penas da esfera branca esvoaçavam pelo ar. Abotoou o casaco comprido, queria deixar para trás o seu estranho animal. Sem dizer palavra, começou a andar. E eu achei que deveria ainda ficar e dizer a Tereza que não tinha confiança nela.

            Um pouco mais à frente, Tereza virou a cabeça para trás, à minha procura, riu-se e acenou.

            Uma rua depois, já andávamos à procura de um trevo de quatro folhas. Este ainda estava muito mole para ser prensado. As suas folhas, porém, já tinham um anel branco. Não quero prensá-lo, disse Tereza, só preciso que me dê sorte.

            Tereza precisava de um pé de trevo da sorte e eu do nome da planta: trevo-d’água. Procurámos com as mãos num molho de trevos. Mas o caule que tinha quatro folhas em vez de três fui eu que o achei. Porque não preciso de sorte, disse eu a Tereza. Pensei em mãos com seis dedos.

            Quando a mãe amarra a criança com os cintos dos vestidos à cadeira, aparece em frente da janela uma criança-demónio. Tem em cada mão dois polegares um ao lado do outro. Os polegares exteriores são mais pequenos que os interiores.

            Na escola, a criança-demónio não consegue escrever. O professor corta-lhe os polegares exteriores e mete-os num frasco de conserva cheio álcool. Numa das classes não há crianças, só bichos-da-seda. O professor põe o frasco de conserva ao pé dos bichos-da-seda. Todos os dias as crianças têm de apanhar folhas das árvores da aldeia para alimentar os bichos-da-seda. Eles só comem folhas de amoreira.

            Os bichos-de-seda devoram folhas de amoreira e crescem, e as crianças olham para os polegares no álcool e deixam de crescer. Todas as crianças da aldeia são mais pequenas que as crianças da aldeia vizinha. Por isso o professor diz: O lugar dos polegares é no cemitério. Depois da escola, a criança-demónio tem de ir com o professor ao cemitério enterrar os seus polegares.

            As mãos da criança-demónio ficam morenas de tanto apanhar folhas ao sol. Só nas tenares é que permanecem duas cicatrizes brancas que lembram esqueletos de peixe.

            Tereza ficou de mãos vazias ao sol. Eu dei-lhe o trevo da sorte. Ela disse: Não me serve de nada, porque tu é que o achaste. A sorte é tua. Não acredito nisso, disse eu, por isso só serve para ti. Ela pegou no pé.

            Fui um passo atrás de Tereza e disse a palavra trevo d'água tantas vezes ao ritmo de matraca dos nossos passos até ela ficar tão cansada como eu. Até perder o sentido.

            Tereza e eu já estávamos na estrada grande onde havia asfalto. Aqui e ali, um talo frágil brotava das fendas. O eléctrico ia chiando lentamente, os camiões passavam a grande velocidade, as rodas a girar como poeira vazia.

            Um guarda tirou o boné da cabeça, encheu as bochechas de ar, expeliu-o pela boca, como se os lábios lhe fossem rebentar. O boné deixara-lhe vergões molhados, vermelhos na testa. Seguiu as nossas pernas com os olhos e deu estalos com a língua.

            Tereza meteu-se com ele e pôs-se a andar como o guarda estava parado. Como se não estivesse a andar sobre o chão, mas sobre o mundo. Eu tinha um bocadinho de frio e só conseguia andar como neste país. Senti a diferença entre o país e o mundo. Ela era maior que a entre mim e Tereza. Eu era o país, mas ela não era o mundo. Ela era só o que neste país se pensava ser o mundo quando se queria fugir.

            Naquela altura eu ainda pensava que, num mundo sem guardas, se andaria de forma diferente do que neste país. Onde se pode pensar e escrever de modo diferente, pensava eu, também se pode andar de maneira diferente.

Ali na esquina fica o meu cabeleireiro, disse Tereza. O calor não tarda aí, anda, vamos pintar o cabelo.

 

            Perguntei: Como.

            Ela disse: De vermelho.

            Perguntei: Hoje.

            Ela disse: Agora.

            Eu disse: Não, hoje não.

 

            Tinha o rosto a arder. Queria ter cabelo vermelho. Nas cartas, pensei, utilizar cabelos da modista.

Eram tão claros como os meus, só que mais compridos. Um cabelo chegaria para duas cartas, poderia cortá-los ao meio. Mas tirar cabelos à cabeça da modista sem que ela desse por isso, seria mais difícil que esquecer alguma coisa em casa dela.

            Às vezes, havia cabelos na casa de banho da modista. Desde que metia cabelos nas cartas, reparava nestas coisas. Havia mais pêlos públicos que cabelos na casa de banho da modista.

            Eu era hóspede de uma velha senhora. Chamava-se Margit e era uma húngara de Peste. A guerra tinha-a trazido e à irmã para esta cidade. A irmã tinha morrido e jazia no cemitério onde eu vira os rostos dos vivos nas fotografias das sepulturas.

            Depois da guerra, a Senhora Margit ficara sem dinheiro para regressar a Peste. Posteriormente, a fronteira fora encerrada. Teria chamado as atenções se, naquela altura, tivesse querido voltar a Peste, dizia a Senhora Margit. O Padre Lukas disse-me naquela altura, também Jesus não está em casa. A Senhora Margit tentava sorrir, mas os olhos não lhe obedeciam, quando dizia: Sinto-me bem aqui, em Peste não tenho ninguém à minha espera.

            A Senhora Margit falava alemão com vogais abertas. Às vezes eu pensava, na palavra seguinte vai começar a cantar. Porém, tinha uns olhos frios de mais para isso.

            A Senhora Margit nunca contava por que razão ela e a irmã tinham vindo para esta cidade. Agora como os mojics, os soldados russos, tinham chegado a esta cidade, como foram de casa em casa e levaram de toda a parte relógios de pulso, isso contava ela vezes sem conta. Os mojics levavam o braço ao ouvido, escutavam os relógios e riam-se. Não sabiam ver as horas. Não sabiam que se tem de dar corda aos relógios quando eles deixam de tiquetaquear. Quando os relógios paravam, os russos diziam gospodin e atiravam-nos fora. Os mojics eram loucos por relógios, andavam com dez em cada braço, uns em cima dos outros, dizia a Senhora Margit.

            E, dia sim, dia não, um deles enfiava a cabeça no buraco da retrete, dizia ela, e outro puxava o autoclismo. Era assim que lavavam a cabeça. Já os soldados alemães eram catitas. O rosto da Senhora Margit suavizava-se de tal modo que um brilho de beleza juvenil recuperada lhe iluminava as faces.

            A Senhora Margit ia todos os dias à igreja. Antes das refeições virava-se para a parede, erguia o rosto e fazia um biquinho. Murmurava em húngaro e beijava o Jesus de ferro na cruz. A boca dela não lhe chegava ao rosto. Ela beijava-o em húngaro no sítio da barriga em que Jesus usava o pano. No sítio em que o pano dava um nó, e o nó, que ficava por cima desse sítio, sobressaía de tal modo da cruz que o nariz da Senhora Margit não tocava na parede ao beijar Jesus.

            Só quando, numa fúria, a Senhora Margit ia ao caixote e atirava as batatas que mais tarde descascava é que se esquecia do seu Jesus e praguejava em húngaro. Quando as batatas cozidas estavam em cima da mesa, ela voltava a afastar todas as pragas com um beijo no sítio em que Jesus usava o pano.

            Às segundas-feiras, o acólito dava três toques breves à porta dela. Dava-lhe através da frincha da porta um saquinho de farinha, um pano branco, no centro do qual estava bordado a fio de oiro e prata um cálice, e um tabuleiro grande. Quando o acólito ficava com as mãos livres, fazia uma vénia, e a Senhora Margit fechava a porta.

            A Senhora Margit fazia com farinha e água a massa das hóstias e espalhava-a tão fina como as meias de vidro por toda a mesa. Depois com um anel de chapa recortava as hóstias. Punha as sobras de massa num jornal. Quando as hóstias na mesa e os restos de massa no jornal secavam, a Senhora Margit dispunha as hóstias em camadas sobre o tabuleiro. Colocava-lhes o pano branco por cima de modo que o cálice ficasse no meio. O tabuleiro ficava em cima da mesa como um caixão de criança. Com a mão, a Senhora Margit empurrava os restos de massa seca para uma velha caixa de bolachas.

            Depois a Senhora Margit ia à igreja levar o tabuleiro mais O pano branco ao Padre Lukas.

Antes de poder sair à rua com as hóstias, tinha de encontrar o lenço preto. Pergunto-me onde a fene pode estar aquele trapo, dizia a Senhora Margit.

            Todas as semanas, o Padre Lukas lhe dava dinheiro pelas hóstias e, aqui e além, um pulôver preto que ele já não vestia. E, aqui e além, um vestido ou um lenço de cabeça que a cozinheira dele já não usava. Era disto que a Senhora Margit vivia, e do dinheiro que eu pagava pelo quarto.

            Enquanto lia o jornal da Senhora Grauberg ou o livrinho de orações, a Senhora Margit colocava a lata de bolachas junto à sua mão esquerda. Tirava-as da lata sem levantar os olhos e comia.

            Sempre que a Senhora Margit tinha ou lido demasiado ou comido muito restos de hóstia, ficava com o estômago tão santificado que, ao descascar batatas, tinha de arrotar e praguejar ainda mais. Desde que conhecia a Senhora Margit que para mim santificado remetia para um ramalhar branco, seco na boca, que provocava arrotos e pragas.

            O seu Jesus fora comprado à pressa de um saco de crucifixos com Jesus, entre o autocarro e as escadas do santuário, numa peregrinação de Agosto. O Jesus que ela beijava não era mais que os restos de um carneio de chapa da fábrica, o regateio aldeão de qualquer operário de dia ou de noite, entre turnos. A única coisa justa neste Jesus da parede era o facto de ter sido roubado e enganar o Estado.

            Como os demais Jesus do saco, também este significara dinheiro para a pinga à mesa da tasca, no dia a seguir à peregrinação.

            A janela do quarto da Senhora Margit dava para o pátio interior. Ali havia três grandes tílias e, à sombra delas, tão grande como um quarto, um jardim abandonado com um buxo quebrado e erva alta. No rés-do-chão da casa viviam a Senhora Grauberg e o neto e o Senhor Feyerabend, um homem velho de bigode negro. Era frequente vê-lo sentado num banco à porta de casa a ler a Bíblia.

O neto da Senhora Grauberg brincava no buxo, e a Senhora Grauberg gritava, de tantas em tantas horas, a mesma frase para o pátio: Anda comer. Em resposta, o neto gritava-lhe sempre a mesma frase: O que é o comer. A Senhora Grauberg levantava o braço e sacudia a mão a ameaçar palmadas e depois gritava: Espera que eu já te vou mostrar. A Senhora Grauberg tinha-se mudado da Mondgasse para aqui, com o neto. Não suportava continuar a viver na casa da cidade fabril, porque a mãe do neto tinha morrido de cesariana na Mondgasse. Pai não havia. Já não se reconhece a cidade fabril na Senhora Grauberg, dizia a Senhora Margit, a Senhora Grauberg arranja-se sempre de modo inteligente para ir à cidade.

            A Senhora Margit dizia ainda: Os Judeus ou são muito espertos ou muito estúpidos. Esperteza e estupidez não têm nada que ver com saber muito ou pouco, dizia ela. Há alguns que sabem muito, mas não se pode dizer que sejam espertos, outros sabem pouco, mas não se pode dizer que sejam estúpidos. Saber e estupidez só têm a ver com Deus. O Senhor Feyerabend é de certeza muito esperto, mas tresanda a suor. Isso já não tem nada que ver com Deus.

            A janela do meu quarto dava para a rua. Eu tinha de passar pelo quarto da Senhora Margit para ir para o meu. Estavam-me proibidas visitas de qualquer espécie.

            Porque Kurt me visitava todas as semanas, a Senhora Margit rabujava durante quatro dias. Não me dava os bons-dias nem dizia palavra. Quando voltava a dar-me os bons-dias e a falar comigo, já só faltavam dois dias para Kurt voltar.

            A primeira frase que a Senhora Margit dizia depois da rabugice era invariavelmente: Não quero kurvákat cá em casa. A Senhora Margit repetia as palavras do Capitão Pjele: Quando uma mulher e um homem têm algo para dar um ao outro, metem-se na cama. Se tu não te metes na cama com esse teu Kurt, então isso é só um ide-oda. Não tendes nada para dar um ao outro e não precisais de fazer partilhas se nunca mais vos virdes. Arranja outro, dizia a Senhora Margit, só os gazember é que têm cabelo vermelho.

Este teu Kurt parece um Halodri, não é um cavalheiro.

            Kurt não tinha Tereza em grande conta, não se pode confiar nela, disse ele e bateu com a mão ligada na esquina da mesa. Rebentara-lhe o polegar, uma vara de ferro caíra-lhe em cima da mão. Um operário deixou-a cair em cima da minha mão, disse Kurt. Foi de propósito. Sangrou. Lambi o sangue com a língua, para que não escorresse pela manga abaixo.

            Kurt já tinha esvaziado meia chávena. Eu tinha queimado a língua e aguardava um pouco. És demasiado sensível, disse Kurt. Deixaram-me sozinho com a ferida, foram para ao pé da vala e ficaram a ver-me a sangrar. Tinham olhos que pareciam ladrões. Tive medo, eles já não estão a raciocinar. Vêem sangue e avançam, avançam e sugam-me até ao tutano. E depois não foi ninguém. Calam-se como a terra em que firmam os pés. Daí que me tenha apressado a lamber o sangue e a engolir e engolir. Não me atrevi a cuspi-lo. Depois deu-me uma veneta e desatei a gritar. Quase que rasgava a boca de tanto gritar. Que todos eles mereciam ser levados a tribunal, gritava eu, que já há muito tempo não sabiam o que era ser humano, que lhes tinha horror por serem tragadores de sangue. Que a aldeia inteira é um eu de vaca em que se enfiam todas as noites e de que voltam a sair de manhã para tragar sangue. Que atraem os filhos ao matadouro com caudas de vaca secas e os entontecem com beijos que sabem a sangue. Que o céu haveria de lhes cair em cima da cabeça e abatê-los. Desviaram os rostos sedentos de mim. Permaneceram mudos como um rebanho na culpabilidade nojenta. Atravessei o recinto em busca de gaze para ligar o dedo. Na caixinha dos Primeiros Socorros só havia uns óculos velhos, cigarros, fósforos e uma gravata. Encontrei no bolso do meu casaco um lenço de assoar, enrolei-o à volta do polegar e amarrei-o bem com a gravata.

Depois o rebanho foi entrando lentamente no recinto, disse Kurt, uns atrás dos outros, como se não tivessem pés mas apenas olhos gordos. Os magarefes estavam a beber sangue e chamavam-nos. Eles abanaram as cabeças. Num dia abanavam as cabeças, disse Kurt, e no outro já tinham esquecido a minha gritaria. O hábito voltava a fazer deles aquilo que eram.

            Quando Kurt se calou, ouvimos um sussurrar atrás da porta. Kurt olhou para a mão ligada e pôs-se à escuta. Eu disse, a Senhora Margit come restos de hóstias. Não se pode confiar nela, disse Kurt, ela bisbilhota quando tu sais. Acenei, as cartas de Edgar e Georg estão na fábrica, disse eu, juntamente com os livros. Que os livros estavam na posse de Tereza, isso não disse. A mão ligada de Kurt parecia um montão de massa de hóstia.

            A mãe estende sobre a mesa a massa para o strudel'. Os dedos dela são ágeis. Agarram e puxam, como se a contar dinheiro. Em cima da mesa, a massa vai-se transformando num lenço fino. Qualquer coisa brilha na mesa através da massa; a imagem do pai e do avô, ambos igualmente jovens. A imagem da mãe e da avó-rezadeira, a mãe muito mais nova.

A avó-cantadeira diz: O barbeiro está aqui em baixo, mas não tivemos em tempos uma menininha cá em casa. A mãe aponta para mim e diz: É ela, cresceu foi um pedacinho.

            Tinha-me sentado ali, cansada, os olhos ardiam-me. Kurt repousou a cabeça na mão que não estava ligada. Com a mão entortava a boca. Kurt concentra todo o seu peso até aos pés no canto da boca.

            Olhei para o quadro na parede: Uma mulher sempre à janela. Tinha um vestido de roda até aos joelhos e uma sombrinha. O rosto e as pernas eram esverdeados como se vê nos recém-falecidos.

 

Bolo de massa folhada e maçã, muito comum na Europa Central. (N. da T.)

            Quando Kurt veio pela primeira vez visitar-me e viu o quadro, eu disse: A pele da mulher do quadro lembra-me os lóbulos das orelhas de Lola, também estavam assim esverdeados quando tiraram Lola do armário.

            No Verão, eu conseguia esquecer-me do quadro da recém--falecida. A intensa folhagem que havia do lado de fora da janela coloria a luz do quarto e anulava a cor da morte recente. Quando as árvores ficavam despidas, não conseguia suportar o que, na mulher, havia de morte recente. Não permitia às minhas mãos que tirassem o quadro da parede, porque esta cor, devia-a eu a Lola.

            Acabou-se, vou tirar o quadro da parede, disse Kurt, e eu empurrei-o para trás na cadeira. Não, disse eu, aquela não é Lola. É um alívio que não seja Jesus. Mordi os lábios, Kurt observou o quadro. Ficámos à escuta. Para lá da porta, a Senhora Margit falava alto consigo própria. Kurt perguntou: Que está ela a dizer. Encolhi os ombros. Ou está a rezar ou a praguejar, disse eu.

            Traguei sangue como os do matadouro, disse Kurt. Pôs-se a olhar para a rua: Tornei-me um cúmplice.

            Um cão corria do outro lado da ma. Não tarda nada vem aí o homem do chapéu, disse Kurt, ele segue-me sempre que estou na cidade. E veio. Não era o mesmo que me seguia. Talvez eu conheça o cão, disse eu, mas daqui não se consegue ver.

            Queria que Kurt me mostrasse a ferida. Tu e essa tua compaixão suábia de chá de camomila, disse ele. Tu e o teu medo de engraxador de aldeia, disse eu.

            Surpreendíamo-nos por ainda conseguirmos inventar expressões más, longas. Mas faltava às palavras o ódio, não conseguiam magoar. Na boca só tínhamos uma compaixão pestanejante. E, em vez da ira, a felicidade embaraçada de que o intelecto tivesse sido bem-sucedido depois de tanto tempo. Sem dizer palavra, não podíamos deixar de nos perguntar se Edgar e Georg, quando voltassem à cidade, ainda estariam suficientemente vivos para magoar.

            Kurt e eu rimo-nos pelo quarto dentro, como se tivéssemos de agarrar-nos um ao outro antes de os nossos rostos desatarem, de repente, a tremer como queriam. Antes de qualquer um de nós se preocupar com o controlo do canto da sua boca. Ao rir, olhávamos para a boca do outro. Sabíamos que no momento seguinte ficaríamos tão sós diante dos lábios controlados do outro como quando começassem a tremer.

            Depois chegou esse momento: fechei-me no bater do meu coração e tornei-me inalcançável para Kurt. A minha frialdade não se deixava entusiasmar por qualquer palavra má, não conseguia inventar mais nada. Nos meus dedos esta frialdade era capaz de passar à violência. Por baixo da janela passou um chapéu.

            Creio que tu gostarias de ser cúmplice, disse eu, mas és só um fanfarrão. Tu lambes os teus polegares e eles bebem sangue de porco.

            E depois, disse Kurt.

            A saudação vinha seguida de um ponto de exclamação. Procurei o cabelo na folha de carta e depois no sobrescrito. Nada. Só quando uma segunda onda de horror me começou a invadir é que me ocorreu que a carta era da minha mãe.

            A seguir às dores nas cruzes da mãe podia ler-se: A avó não dorme nada durante a noite. Só de dia. Confunde-os. O avô não consegue sossegar. Ela não o deixa pregar olho, e ele não se acostuma a dormir de dia. Ela acende a luz durante a noite e abre a janela. Ele apaga a luz e fecha a janela e volta a deitar--se. E andam nisto até lá fora clarear. A janela está partida. Foi o vento, diz ela, mas quem é que acredita. Passa o tempo a sair e a entrar do quarto. Deixa a porta aberta. Quando o avô não lhe liga e não se mexe, ela vai ter com ele à cama. Agarra-lhe as mãos e diz: Não podes dormir, o teu bicho-coração ainda não está em casa.

            O avô anda tresnoitado e já não tem idade para aguentar coisas destas. E eu sonho como uma tresloucada.

Quero apanhar no jardim uma crista-de-galo vermelha. É tão grande como uma vassoura. Não consigo partir o caule, puxo e arrepelo. As sementes caem como sal preto. Olho para o chão, formigas por todo o lado. Costuma dizer-se que sonhar com formigas significa um rosário.

            No Verão a avó-cantadeira fugiu de casa. Andou pelas ruas, gritando em frente de cada casa. Com voz alta. O que gritava ninguém percebia. Quando alguém aparecia no pátio, porque ela tinha gritado, ia-se embora. A mãe procurou-a na aldeia e não a encontrou. O avô estava doente, e a mãe teve de voltar a correr para casa.

            Quando, fazia já noite escura, a avó-cantadeira voltou ao seu quarto, a mãe perguntou: Onde estiveste. A avó-cantadeira disse: Em casa. Estiveste na aldeia, disse a mãe, em casa é aqui. Empurrou a avó-cantadeira para que se sentasse: Quem procuras na aldeia. A avó-cantadeira disse: A minha mãe. Não vês que sou eu, disse a mãe. A avó-cantadeira disse: Tu nunca me penteaste.

            A avó-cantadeira esqueceu toda a sua vida. Voltara a escorregar para os seus dias de criança. As faces tinham oitenta e oito anos. Porém, a sua memória só tinha já uma via, a de uma menina de três anos que mordiscava a ponta do avental da mãe. Quando regressou da aldeia, vinha suja como uma criança. Metia tudo na boca desde que deixara de cantar. A sua cantoria transformou-se em caminhada. Ninguém a conseguia parar, tal era o seu desassossego.

            Quando o avô morreu, ela não estava em casa. Quando o enterro teve lugar, o barbeiro ficou a tomar conta dela no quarto. Ela só atrapalharia o funeral, disse a mãe.

            Já que eu não podia estar presente, pelo menos queria estar a jogar xadrez quando o caixão descesse à terra, disse o barbeiro. Mas ela queria fugir. De nada valia conversar, por isso penteei-a. O pente correu-lhe pelo cabelo, e ela sentou-se e ficou a ouvir os sinos a tocar.

Quando o avô desceu à terra, já floriam na sepultura do pai as coroas imperiais.

            Encontrei na descrição de uma máquina hidráulica a palavra transfinito. Não existia no dicionário. Intuía o que transfinito podia significar para as pessoas, mas não para as máquinas. Perguntei aos engenheiros, perguntei aos operários. Tinham na mão carneiros de chapa, pequenos e grandes, e comprimiram os lábios.

            Depois chegou Tereza, vi ao longe o seu cabelo vermelho.

            Perguntei: Transfinito.

            Ela disse: Finito.

            Eu disse: Transfinito.

            Ela perguntou: Como queres eu saiba.

            Tereza andava com quatro anéis. Dois deles tinham pedras vermelhas, como se lhe tivessem caído do cabelo. Abriu um jornal em cima da mesa e disse: Transfinito, talvez me ocorra alguma coisa enquanto comemos, hoje tenho peru.

            Desembrulhei o toucinho amarelado e o pão. Tereza cortou o toucinho aos quadrados e fez dois soldados. Comemos, ela torceu o nariz. Sabe a ranço, disse ela, vou dá-lo ao cão.

            Perguntei: A qual.

            Desembrulhou os tomates e um fiambre de peru. Come daqui, disse ela e fez dois soldadinhos. Ainda estava eu a mastigar, já ela engolia. Separava a carne toda dos ossos.

            Tereza enfiou-me um soldadinho na boca e disse: Pergunta à modista, isso do transfinito.

            A desconfiança fazia com que tudo aquilo de que me cercava escorregasse para longe de mim. Observava os meus dedos em cada gesto, mas não conhecia a verdade da minha própria mão melhor que os dedos da minha mãe ou os dedos de Tereza.

Sabia tão pouco sobre ela como sobre o Ditador e as suas doenças, ou sobre os guardas e transeuntes, ou sobre o Capitão Pjele e o cão Pjele. Também já nada sabia sobre carneiros de chapa e operários ou sobre a modista e as paciências para ler a vida. E tão-pouco sobre fuga e sorte.

            Na fábrica, mesmo junto à empena, que, no seu ponto mais alto, olhava para o céu e, no mais baixo, para o pátio, havia uma palavra de ordem:

            Proletários de todo o mundo, uni-vos.

            E cá em baixo, no chão, andavam os sapatos que só poderiam sair do país se fugissem. Os sapatos escorregadios, empoeirados, ressoantes ou silenciosos calcorreavam o empedrado. Intuía que eles tinham outros caminhos, que, como tantos outros sapatos, um dia eles deixariam de passar por baixo desta palavra de ordem.

            Os sapatos de Paul já não andavam por aqui. Desde anteontem que faltava ao trabalho. O seu desaparecimento transformava o segredo dele em coscuvilhice. Todos afirmavam conhecer a sua morte. Viam na fuga frustrada um desejo comum que atirava ora uma pessoa, ora outra para a morte. Não abriam mão deste desejo. Quando diziam, ele nunca mais voltará, referiam--se já a si próprios ao mesmo tempo que a Paul. Era como quando a Senhora Margit dizia: Em Peste, já não há ninguém ã minha espera. Mas, logo a seguir à fuga, talvez tivesse havido alguém à sua espera, em Peste.

            Aqui na fábrica ninguém tinha esperado por Paul, nem sequer uma hora. Não teve sorte, diziam, depois de ele não comparecer ao trabalho, como tantos outros antes dele. Faziam bicha como na loja. Quando a morte era servida a alguém, avançavam um lugar. Que sabiam disso o leite do nevoeiro, os círculos de ar, ou a curvatura dos carris. Uma morte tão barata como um buraco no bolso: metia-se a mão lá dentro, e o corpo todo era sugado. A obsessão assaltava-os com mais força quanto mais pessoas morriam.

            Murmurava-se de modo diverso sobre os mortos das fugas que sobre as doenças do ditador.

Este aparecia ainda no mesmo dia na televisão e afastava a proximidade da morte com a resistência dos discursos mais longos. Enquanto discursava, descobria-se uma nova doença, para o empurrar para a morte. Incerto permanecia na fábrica apenas o local da morte: Fora milho, céu, água ou um comboio de mercadorias a última coisa que Paul vira deste mundo.

            Georg escreveu: As crianças não dizem uma frase sem: Ter de. Eu tenho de, tu tens de, nós temos de. Até quando se sentem orgulhosas dizem: A minha mãe teve de comprar-me uns sapatos novos. E é verdade. A mim também me acontece o mesmo: Todas as noites tenho de perguntar-me se o dia chegará.

            O cabelo de Georg caiu-me da mão. No tapete só encontrei cabelos meus e da Senhora Margit. Contei os cabelos brancos, como se assim ficasse a saber quantas vezes a Senhora Margit estivera no quarto. No tapete não havia um único cabelo de Kurt, embora ele me visitasse todas as semanas. Não se podia fazer fé nos cabelos, e eu contava-os todavia. E pela janela passou um chapéu. Corri até lá e debrucei-me para fora.

            Era o Senhor Feyerabend. Arrastava os pés e tirava um lenço branco do bolso. Meti-me para dentro, como se o lenço branco pudesse pressentir que alguém como eu andava a espiar um judeu.

            O Senhor Feyerabend só tinha a sua Elsa, dizia a Senhora Margit.

            Eu contara-lhe, um dia em que o encontrara sentado ao sol sem a Bíblia, que o meu pai era um soldado sobrevivente das SS e que arrancava as suas plantas mais estúpidas que eram cardos-de-coalho. Que até morrer o meu pai dedicara canções ao Fuhrer.

            No pátio, as tílias estavam em flor. O Senhor Feyerabend examinou as pontas dos sapatos, levantou-se e olhou para as árvores. Quando elas dão flor, começa-se a matutar, disse ele. Todos os cardos têm uma espécie de coalho, comi muitos, mais que chá de tília.

            A Senhora Grauberg abriu a porta. O neto ia para a rua de meias brancas até ao joelho e, antes de sair pelo portão, voltou uma vez mais a cabeça para ela, depois para nós dois e disse: Tchau. E eu disse: Tchau.

            Quando tanto a Senhora Grauberg como o Senhor Feyerabend e eu deixámos de seguir com os olhos mais as meias brancas até ao joelho do que o miúdo, a porta da Senhora Grauberg fechou-se. O Senhor Feyerabend disse: Como está a ver, as crianças saúdam como faziam sob Hitler. Também o Senhor Feyerabend atentava nas palavras. Tchau era para ele a primeira sílaba de Ceausescu.

            A Senhora Grauberg é judia, disse ele, mas diz ser alemã. E você tem medo e devolve a saudação.

            Não voltou a sentar-se. Agarrou no puxador da porta, a porta escancarou-se. Uma gata esticou a cabeça branca para fora do quarto fresco. Ele pegou nela ao colo. Vi uma mesa, em cima da qual estava o chapéu dele, o relógio tiquetaqueava. A gata queria saltar para o chão. Ele disse: Elsa, vamos para casa. Antes de fechar a porta, disse: Pois é, os cardos.

            Contei a Tereza o que é um interrogatório. Comecei a falar sem motivo, como se estivesse a conversar com os meus botões. Tereza agarrava-se com dois dedos ao seu fio de ouro. Não se mexia para não borrar a exactidão negra.

 

            1 Casaco, 1 blusa, 1 calças, 1 meias, 1 cuecas, 1 par de sapatos, 1 par de brincos, 1 relógio de pulso. Fiquei completamente nua, disse eu.

            1 Livro de endereços, 1 flor de tília seca, 1 folha de trevo seca, 1 caneta esferográfica, 1 lenço de assoar, 1 rimmel, 1 batom, 1 pó-de-arroz, 1 pente, 4 chaves, 2 selos, 5 bilhetes de eléctrico.

            1 Mala de mão.

 

            Ficou tudo assente em colunas numa folha.

            O Capitão Pjele só não me assentou a mim. Vai prender-me. Não constará de nenhuma lista que quando aqui cheguei eu tinha 1 testa, 2 olhos, 2 ouvidos, 1 nariz, 2 lábios, 1 pescoço.

Sei por Edgar, Kurt e Georg, disse eu, que as celas são lá em baixo, na cave. Na minha cabeça queria fazer a lista do meu corpo contra a lista dele. Só cheguei ao pescoço. O Capitão Pjele reparará que me faltam cabelos. Perguntará onde estão os cabelos.

            Assustei-me porque agora Tereza teria de perguntar que queria eu dizer com isso dos cabelos. Mas não podia deixar nada de fora. Quando calamos tanto tempo como eu perante Tereza, depois contamos tudo. Tereza não perguntou pelos cabelos.

            Fiquei completamente nua no canto, disse eu. Tive de cantar a canção. Cantei como a água, já nada me magoava, ganhara de repente uma pele grossa como dedos.

            Tereza perguntou: Que canção. Contei-lhe dos livros da casa de campo, de Edgar, Kurt e Georg. E que nos conhecíamos desde a morte de Lola. Por que é que tínhamos de dizer ao Capitão Pjele que o poema era uma canção popular.

            Vestir, disse o Capitão Pjele.

            A mim pareceu-me que vestia as palavras escritas, como se a folha ficasse nua quando eu tivesse vestido tudo. Tirei o relógio da mesa, depois os brincos. Consegui apertar as presilhas do relógio à primeira e encontrei os buracos das orelhas sem espelho. O Capitão Pjele andava para trás e para diante em frente da janela. Queria ficar nua um pouco mais. Julgo que ele não olhou para mim. Olhava para a ma. No céu, por entre as árvores, conseguia imaginar melhor o meu aspecto depois de morta.

            Enquanto me vestia, o Capitão Pjele meteu o meu livro de endereços na gaveta. Agora ele também tem a tua morada, disse eu a Tereza.

            Estava curvada a apertar os sapatos quando o Capitão Pjele disse: Uma coisa é certa, quem é asseado no vestir, não chegará sujo ao céu.

            O Capitão Pjele tirou o trevo de quatro folhas de cima da mesa. Pegou nele cuidadosamente. Acreditas agora que tens sorte comigo, perguntou ele. Deito sorte pelos olhos, disse eu. O Capitão Pjele sorriu: A sorte não tem culpa.

            Não falei sobre o cão Pjele a Tereza, porque me lembrei do pai dela. Que, depois do interrogatório, o dia lá fora ainda estava soalheiro, isso não disse a Tereza. E calei também isto: Que eu não entendia o que leva as pessoas a bambolearem-se e a gingar tanto ao andarem quando podem ir parar ao céu enquanto o diabo esfrega um olho. Que as árvores encostem a sombra às casas. Que se chame a esta hora anoitecer. Que a avó-cantadeira cantasse na minha cabeça.

 

         Sabes tu quantas nuvens andam

         Por esse mundo fora

         O Senhor Deus contou uma por uma

         Para que não Lhe falte nenhuma

 

            Que as nuvens estavam penduradas no céu como roupa clara sobre a cidade. Que as rodas do eléctrico levantavam poeira e os carros se deixavam arrastar e todos seguiam o mesmo caminho que eu. Que os passageiros, mal entravam, logo se sentavam à janela, como se estivessem em casa.

            Tereza largou o fio de ouro. Que quer ele de vós, perguntou Tereza.

            Medo, disse eu.

            Tereza disse: Este fio de ouro é um filho. A modista esteve três dias na Hungria, em excursão, disse Tereza, quarenta pessoas num autocarro. O guia turístico vai lá todas as semanas. Tem os seus locais, não precisa de regatear na rua, levava a bagagem mais pesada.

            Quando se conhece mal a cidade, precisa-se de dois dias para vender e um dia para comprar. A modista tinha duas malas cheias de cuecas de algodão. Não são pesadas, disse Tereza, não se fica marreco a carregar com elas. Vendem-se bem, mas muito barato. Junta-se alguma coisa, mas não muito. Há que levar pelo menos uma mala com serviços de cristal, o vidro é mais caro.

Na rua, a polícia anda constantemente a rondar. O negócio faz-se melhor em cabeleireiros, a polícia não se lembra de lá ir. As mulheres no secador têm sempre algum dinheirinho e nada que fazer até terem o cabelo seco. Mostra-se-lhes uma mão-cheia de cuecas e uma mão-cheia de copos. Elas acabam sempre por comprar qualquer coisa. A modista fez um monte de dinheiro. No último dia, compra-se. De preferência, ouro. É fácil de esconder e é fácil de vender em casa.

            As mulheres são melhores a regatear que os homens, disse Tereza, no autocarro dois terços eram mulheres. Na viagem de regresso, todas traziam um saquinho de plástico com ouro na passarinha. Os homens da alfândega sabem-no, mas que hão-de fazer.

            Deixei o fio uma noite inteira num alguidar com água, disse Tereza. Deitei-lhe muito detergente. Eu não compraria ouro da passarinha de uma estranha. Tereza praguejou e riu-se. Tenho a impressão de que o fio ainda tresanda, vou voltar a lavá-lo. Eu tinha encomendado, para além do fio, uma folha de trevo. A modista só trouxe dois corações para os filhos. Mas no Outono, antes de vir o frio, ela volta lá.

            Por que não vais tu, disse eu.

            Para ter de carregar com malas e meter ouro na cona, nem pensar, disse Tereza. A viagem para casa era feita de noite. A modista tinha conhecido um empregado da alfândega. Ele disse-lhe quando é que estaria de serviço no Outono. A modista anda com alguma na manga.

            Passada a alfândega, o medo desapareceu, disse Tereza. Todos adormeceram com o ouro entre pernas. Só a modista é que não conseguiu dormir, doía-lhe a passarinha, e precisava de ir à casa de banho. O motorista disse: É um tormento transportar mulheres, porque têm de mijar por tudo e por nada.

            No dia seguinte, os filhos da modista estavam sentados à mesa, com os corações ao pescoço.

            As gargantilhas não são coisas para miúdos, disse a modista. Não os deixo levarem o ouro para a rua. Comprei-o para mais tarde. Quando forem grandes, não se esquecem de mim. A cliente das manchas de esperma no tecto foi à Hungria com o amigo. Logo na viagem para lá meteu-se com o húngaro da alfândega, por motivos comerciais, disse a modista. O amigo pagou-lhe depois na mesma moeda, quis um quarto só para ele no hotel. Não havia nenhum, ele estava com ela na lista. Instalou-se no meu quarto. Não foi por minha vontade, mas que havia eu de fazer, disse a modista. Aconteceu o que tinha de acontecer, dormi com ele. O tecto do quarto do hotel é que me deixou preocupada. As mulheres da limpeza passam revista aos quartos antes de sairmos. A cliente não sabe de nada. Na viagem para casa ele voltou a sentar-se ao lado dela. Afagava-lhe o cabelo e olhava para trás, para mim. Não o quero um dia a bater-me à porta, não quero perder a cliente, já a conheço há tanto tempo. Quando, na alfândega, descemos do autocarro, ele beliscou-me o braço. Para me livrar dele, meti-me com o empregado de alfândega. Mas também só por motivos comerciais, disse a modista. Quando voltar lá no Outono, posso trazer umas quantas varinhas mágicas. Vendem-se bem.

            A modista pediu-me para não contar a Tereza a história do hotel. Beliscou a bochecha e disse: Tereza não voltaria a usar o fio, assim como assim ela já diz que o fio é um filho.

            É o que acontece, disse a modista, quando andamos todo o dia a regatear e não nos podemos dar ao luxo de comprar nada para nós. Sentimo-nos miseráveis e queremos saber se ainda valemos alguma coisa. Em casa não dormiria com ele. Mas lá ganhei esse direito por ter andado todo o dia a trabalhar. E ele também.

            A cliente veio cá ontem, disse a modista, tive de ler-lhe as cartas. Tenho um ataque de coração de cada vez que ela olha para mim, e as cartas já não dizem nada. Não consegui fazer a paciência, não levei dinheiro à cliente. Ela insistiu comigo. Há coisas que não se vêem logo, disse a modista, vêm como fumo e entram de mansinho.

Tens de esperar uns diazinhos, disse eu à minha cliente. Mas quem tem de esperar sou eu. A modista parece-me adulta, descansada e distante.

            As duas crianças andavam a correr pelo quarto com os corações de ouro. Os cabelos esvoaçavam-lhes. Vi dois cães jovens que, quando crescerem, se vão perder no mundo com guizinhos silenciosos ao pescoço.

            A modista ainda tinha um fio de ouro para vender. Não lho comprei. Comprei um pacote de celofane às riscas vermelhas, brancas e verdes. Lá dentro havia rebuçados húngaros.

            Ofereci o saquinho à Senhora Margit, pensei que ela iria ficar contente. Que Kurt viria no dia seguinte — nisso também pensei. Queria regatear-lhe a ira antes de ele chegar.

            A Senhora Margit leu cada palavrinha escrita no pacote e disse: Édes draga istenem. Vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Eram de alegria, mas de uma alegria que a assustava, que mostrava uma vida arruinada e que era tarde de mais para o regresso a Peste.

            A Senhora Margit via a sua vida como punição que era justa. O Jesus dela sabia porquê, mas não o dizia. A Senhora Margit sofria e amava cada dia mais o seu Jesus por isso. O pacotinho húngaro ficou ao pé da cama da Senhora Margit. Ela nunca o abriu. Lia a escrita familiar constante do pacotinho sempre como uma vida perdida. Nunca comeu os rebuçados, porque eles teriam desaparecido na boca.

            Há dois anos e meio que a mãe andava de preto. Ainda ela chorava a morte do pai e já tinha de chorar a do avô. Veio à cidade e comprou uma pequena enxada. Para o cemitério, e para os canteiros cheios do jardim, disse ela. Com a enxada grande é fácil magoarem-se as plantas.

            Pareceu-me leviano que ela utilizasse a mesma enxada para vegetais e sepulturas.

A sede é igual, disse ela, este ano as ervas daninhas nasceram cedo e já estão a largar sementes. Os cardos prosperam.

            O luto fazia-a velha. Estava sentada ao sol, ao meu lado, como mulher de sombra. Tinha a enxada encostada ao banco. Todos os dias chegam comboios e tu não vens para casa, disse ela. Tirou da mala toucinho, pão e uma faca. Não tenho fome, disse ela, é só para entreter o estômago. Cortou o toucinho e o pão em quadrados. Até as noites a avó passa no campo, disse ela, como os gatos selvagens. Uma vez tivemos um que passava o Verão a caçar e que só voltou a casa em Novembro quando caiu a primeira neve. A mãe não mastigava bem, engolia depressa. Tudo o que cresce pode-se comer, caso contrário a avó já teria morrido, disse ela. Já não vou à procura dela ao anoitecer. Há tantos atalhos que sinto medo nos campos. Mas não me sinto muito melhor sozinha na casa enorme. Bem sei que não se pode falar com ela, mas, se voltasse à noite, sempre era mais um par de pés na casa. A mãe não largava a faca enquanto comia, embora tudo tivesse sido cortado antes de ir à boca. Precisava da faca para falar. As papoilas murcham, disse ela, o milho não medra, as ameixas já há muito que secaram. Sempre que passo o dia na cidade e à noite me dispo, tenho manchas negras no corpo. Dou com os ossos em todo o lado. Sempre que ando de um lado para o outro, em vez de estar a trabalhar, parece que tudo se atravessa no meu caminho. E, no entanto, a cidade é maior que a aldeia.

            Depois a mãe meteu-se no comboio. Este, quando apitou, estava rouco. O fiscal só saltou lá para dentro quando as rodas começaram a girar e a sombra das carruagens a arrastar-se pela terra. Ficou ainda muito tempo com a perna a balouçar no ar.

            Debaixo da amoreira havia a cadeira de quarto reformada. Do assento pendia uma trança seca de erva.

Girassóis espreitavam por cima da cerca, sem coroa nem sementes negras. Estavam cheios como borlas. O meu pai enxertou-os, disse Tereza. Na parede da varanda havia três armações de veado.

            Sopa de couve-flor é coisa que não suporto, disse Tereza, a cozinha fica a feder. A avó levou o prato para o fogão e voltou a deitar a sopa de Tereza na panela. A colher matraqueou como se ela tivesse loiça na barriga.

            Comi a sopa até ao fim. Julgo que a sopa estava boa. Caso tivesse pensado em comida enquanto engolia a sopa, ela ter-me-ia sabido bem. Mas eu não me sentia bem a comer aqui.

            A avó de Tereza tinha posto o prato à minha frente, dizendo: Se comeres, Tereza também come. Tu não és decerto tão malcriada como ela. Para Tereza, tudo fede. A couve-flor fede, as ervilhas e feijões, o fígado de galinha, borrego e coelho, tudo fede. Eu digo muitas vezes, o teu eu é que fede. O meu filho não gosta que eu diga isto. Não quer que eu diga isto quando temos visitas.

            Tereza não me apresentara. O meu nome não fazia falta à avó, deu-me sopa porque eu tinha uma boca no rosto. O pai de Tereza ficou de pé, de costas para a mesa, comeu a sopa em pé, da panela. Provavelmente sabia quem eu era, por isso não se virou quando cheguei. Olhou para Tereza por cima do ombro: Voltaste a praguejar, disse ele. O director não quis repetir a tua praga, era demasiado ordinária para ele. Se calhar julgas que as tuas pragas não fedem.

            Cada vez que vejo a fábrica era capaz de praguejar, disse Tereza. Meteu a mão numa tigela de framboesas, ficou com os dedos vermelhos. O pai dela sorvia a sopa. Todos os dias me fazes uma desfeita, disse ele.

            As pernas tortas, o traseiro chato e os olhos pequeninos de Tereza eram dele. Era alto e ossudo, tinha a cabeça meia calva. Quando vai ver os seus monumentos, pensei para mim, as pombas bem que poderiam poisar nos seus ombros em vez de no ferro. Quando sorvia, as bochechas ficavam ocas, as maçãs do rosto elevavam-se por debaixo dos seus olhos pequeninos.

            Será que ele se assemelhava mesmo aos seus monumentos, ou era apenas porque eu sabia que ele os tinha feito. Ora eram a sua nuca e os seus ombros, ora o seu polegar e as suas orelhas de ferro. Da boca caiu-lhe um pedaço de couve-flor. Ficou-lhe pequeno e branco como um dente colado ao casaco.

            Este indivíduo poderia ser pequeno e gordo, pensei para mim, e, apesar disso, só poderia ter feito monumentos, com este queixo.

            Tereza deixou pender a anca e meteu a tigela de framboesas debaixo do braço. Fomos para o quarto dela.

            Na parede do quarto, havia um cartaz a tapar uma porta estreita. Uma floresta outonal com bétulas e água. Uma das bétulas tinha um puxador de porta no tronco. A água não era funda, via-se o solo através dela. A única pedra que havia, por entre os troncos, na floresta era maior que duas pedras no rio. Nada de céu, nada de sol, só ar claro e folhas amarelas.

            Eu nunca tinha visto um cartaz assim. É da Alemanha, disse Tereza. Tinha a boca a sangrar das framboesas. A tigela em cima da mesa também. Ao lado encontrava-se uma mão esticada de porcelana. Em cada dedo tinha um anel de Tereza. Sobre as costas da mão e da palma pendiam os fios de Tereza, incluindo os da modista.

            Sem as jóias, a mão estaria em cima da mesa como uma árvore aleijada. Nas jóias, porém, brilhava um desespero que jamais poderia crescer das árvores, nem na madeira nem na folhagem.

            Percorri com a ponta do dedo o tronco da árvore com o puxador, empurrei o puxador e continuei por ali abaixo. Queria alcançar discretamente o solo da floresta, até chegar à pedra. Perguntei: Onde é que se vai dar quando se abre a bétula com o puxador. Tereza disse: Atrás do guarda-roupa da minha avó. Anda, vem comer, disse Tereza, senão devoro as framboesas sozinha.

            Que idade tem a tua avó, perguntei. A minha avó é de uma aldeia do Sul, disse Tereza. Engravidou enquanto apanhava melões e não sabia de quem.

Foi a chacota da aldeia. Por isso meteu-se no comboio. Tinha dores de dentes. Aqui, na estação de caminhos-de-ferro, os carris chegaram ao fim. Desceu. Foi ao primeiro dentista que encontrou e nunca mais o largou.

            Ele era mais velho que ela e estava só, disse Tereza. Ele tinha meios de subsistência, ela nada tinha além do seu segredo. Não lhe disse que ia ter um filho. Pensou, ele julgará que é prematuro. E não é que o meu pai depois nasceu mesmo prematuro. O dentista foi visitá-la à maternidade. Levou-lhe flores.

            No dia em que lhe deram alta, ele não apareceu. Ela levou o filho para casa de táxi. Ele não a deixou entrar em casa. Deu-lhe o endereço de um militar. Ela fez-se criada.

O militar veio, anos a fio, ao quarto dela à noite. O meu pai fingia dormir. Percebeu que era só por isso que tinha o que os filhos do militar tinham. Deram-lhe autorização para chamar pai ao militar quando ninguém estava a ouvir. Deram-lhe também autorização para comer à mesma mesa. Um dia, quando a mulher do militar estava a gritar com a minha avó porque os copos não estavam bem lavados, o meu pai disse: Pai, dá-me água. A mulher do militar olhou para a criança, depois para o militar. São iguaizinhos, disse ela.

            Arrancou a faca da mão da minha avó e cortou ela mesma o coelho.

            Continuaram todos a comer, a minha avó fez as malas. De mala na mão tirou o filho que tinha a boca cheia de carne da cadeira. Os filhos do militar queriam ir à porta, mas a mulher do militar não os deixou levantarem-se da mesa. Acenaram com os guardanapos brancos. O militar não ousou erguer os olhos para a porta.

            O dentista teve mais duas mulheres, disse Tereza. Tanto uma como outra o abandonaram, porque queriam filhos. Ele não podia procriar. Com a minha avó ter-lhe-ia saído a sorte grande, caso tivesse querido fechar um pouquinho os olhos. Quando morreu, o meu pai herdou a casa.

            Queres filhos, perguntou Tereza nessa altura. Não, disse eu. Imagina só, comes framboesas, patos e pão, comes maçãs e ameixas, praguejas e carregas peças de máquinas para cá e para lá, andas de eléctrico e penteias-te. E tudo isso se transforma num filho.

            Ainda sei que olhei para o puxador da bétula. E que, ainda invisível de fora, a noz debaixo do braço de Tereza tinha lá estado sempre. Deu tempo ao tempo e foi crescendo.

            A noz cresceu contra a gente. Contra todo o amor. Estava pronta para a traição, imune à culpa. Devorou a nossa amizade antes de Tereza morrer por causa dela.

            O namorado de Tereza era quatro anos mais velho que ela. Era estudante na capital. Queria ser médico.

            Quando os médicos ainda não sabiam que a noz se encasulara no peito e nos pulmões de Tereza, mas já sabiam que Tereza não podia ter filhos, o estudante terminou os estudos de medicina. Queria filhos, disse-lhe. O que era apenas o canto mais recôndito da verdade. Abandonou Tereza, para que ela não lhe morresse na sua vida. Aprendera o suficiente sobre a morte.

            Eu já não estava no país. Estava na Alemanha e recebia, vindas de longe, ameaças de morte do Capitão Pjele, sob forma de telefonemas e cartas. Os cabeçalhos destas apresentavam dois machados em cruz. Em todas as cartas havia um cabelo preto. De quem.

            Examinava cuidadosamente as cartas, como se o assassino que o Capitão Pjele iria mandar estivesse sentado nas entrelinhas e me olhasse nos olhos.

            O telefone tocou, e eu levantei o auscultador. Era Tereza.

            Manda-me dinheiro, quero ir visitar-te.

            Deixam-te viajar.

            Acho que sim.

            A conversa não passou disto.

            Depois Tereza veio visitar-me. Fui buscá-la à estação. Ela tinha o rosto quente e eu, os olhos húmidos. Na plataforma, eu teria querido tocar em Tereza toda, ao mesmo tempo. As minhas mãos pareceram-me demasiado pequenas, vi o tecto sobre o cabelo de Tereza e senti que quase me elevava até ele. A mala de Tereza alongava-me o braço, mas carreguei-a como ar. Só no autocarro é que reparei que tinha estrias vermelhas na mão da asa da mala. Agarrei o arrimo no sítio onde Tereza se segurava. Senti os anéis na mão de Tereza. Tereza não olhava pela janela para a cidade, olhava-me no rosto. Rimo-nos, como se o vento desse risadinhas pelo vidro aberto.

            Na cozinha, Tereza disse: Sabes quem me mandou. Pjele. De outro modo não poderia viajar. Ela bebeu um copo de água.

            Por que vieste.

            Queria ver-te.

            Que lhe prometeste.

            Nada.

            Por que estás aqui.

            Queria ver-te. Bebeu outro copo de água.

            Eu disse: Teria todo o direito de deixar de te falar.

Cantar à frente do Capitão Pjele não foi nada comparado com isto, disse eu. Despir-me diante dele não me deixou tão nua como tu.

            Não pode ser assim tão mau, disse Tereza, que eu queira ver-te. Contarei umas balelas quaisquer a Pjele, coisas que não lhe sirvam para nada. Podemos combinar o quê, tu e eu.

            Tu e eu. Tereza não percebia que tu e eu tinha sido aniquilado. Que o tu e o eu já não cabiam numa frase. Que eu não podia fechar a boca, porque o coração me batia lá dentro.

            Bebemos café. Ela bebia-o como água, não largava a chávena da mão. Talvez a viagem lhe tivesse feito sede, pensei para mim. Talvez ela tivesse sempre sede desde que eu estava na Alemanha. Vi a asa branca na mão dela, a borda branca da chávena na boca dela. Ela bebia tão depressa como se quisesse ir-se embora por vontade própria quando a chávena estivesse vazia. Correr com ela, pensei para mim, mas enquanto ela estava aqui sentada e levava a mão ao rosto. Como é que se corre com alguém quando esse alguém acaba de se instalar.

            Senti-me como à frente do espelho da modista. Vi Tereza dividida: dois olhos pequeninos, um pescoço comprido, dedos grossos. A tempo parara, Tereza deveria partir, mas deixar aqui o rosto, porque ele me tinha feito tanta falta. Ela mostrou-me a cicatriz debaixo do braço, a noz fora cortada. Eu queria tomar a cicatriz na mão sem afagar Tereza. Queria arrancar de mim o meu amor, atirá-lo para o chão e espezinhá-lo. Queria deitar-me depressa onde ela estava, para que ela voltasse a esgueirarar-se pelos meus dois olhos para dentro da minha cabeça. Queria despir Tereza da culpa, como se tratasse de um vestido mal feito.

            A sede dela tinha-se extinguido, ela bebeu uma segunda chávena de café, mais devagar que a primeira. Queria ficar um mês. Perguntei por Kurt. Ele só pensa no matadouro, disse Tereza, só fala de tragar sangue. Acho que não pode comigo.

            Tereza vestia as minhas blusas, os meus vestidos e saias. Andava na cidade com a minha roupa e não comigo. Na primeira noite dei-lhe a chave e dinheiro. Disse: Não tenho tempo. Ela tinha uma carapaça tão dura que não se importou com esta desculpa. Percorria a cidade sozinha e voltava com sacos enormes.

            À noite metia-se na casa de banho e queria lavar-me a roupa. Eu disse: Podes ficar com ela.

            Mal Tereza saía de casa, eu ia também para a rua.

Levava a garganta apertada, tudo mais estava dormente. Nunca saía das ruas mais próximas. Não entrava em lojas, para não encontrar Tereza. Não ficava muito tempo fora, chegava primeiro que ela.

            A mala de Tereza estava fechada. Descobri a chave debaixo do tapete. No bolso interior da mala descobri um número de telefone e uma outra chave. Fui até à porta da rua, a chave entrava. Telefonei para o número. Embaixada da Roménia, disse uma voz. Fechei a mala e voltei a pôr a chave debaixo do tapete. Pus a chave do apartamento e o número de telefone na minha gaveta.

            Ouvi a chave entrar na porta, os passos de Tereza no corredor, a porta do quarto. Ouvi o amarfanhar dos sacos, a porta do quarto, a porta da cozinha, a porta do frigorífico. Ouvi garfos e facas tilintar, a torneira tossicar, a porta do frigorífico bater, a porta da cozinha, a porta do quarto. A cada ruído eu engolia em seco. Sentia mãos pelo corpo todo, cada ruído tocava-me.

            Depois abriu-se a minha porta. Tereza apareceu na ombreira com uma maçã mordiscada e disse: Andaste a mexer na minha mala.

            Tirei a chave da gaveta. Toma as tuas balelas que não servem de nada a Pjele, disse eu. Estiveste no serralheiro. O teu comboio parte esta noite.

            Tinha a língua mais pesada que eu. Tereza deixou ficar a maçã mordiscada. Fez a mala.

            Fomos para a paragem de autocarro. Lá encontrámos uma mulher idosa com a malinha quadrada e o bilhete na mão.

            Andava para cima e para baixo a dizer: Já está na hora de ele vir. Depois vi um táxi e fiz-lhe sinal, para que já não viesse nenhum autocarro, para que eu não tivesse de me sentar ou ficar em pé ao lado de Tereza.

            Sentei-me ao lado do motorista.

            Estávamos na plataforma, ela que queria ficar mais três semanas e eu que tinha de querer que ela desaparecesse imediatamente. Não houve despedidas. Depois o comboio partiu e lá dentro como cá fora não houve mãos para acenar.

            Os carris estavam vazios, as minhas pernas mais fracas que dois fios. Andei metade da noite a percorrer o caminho da estação para casa. Não queria chegar jamais. Nunca mais consegui adormecer de noite.

            Queria que o amor voltasse a crescer como a erva cortada. Que ele cresça de modo diverso, como os dentes nas crianças, como o cabelo, como as unhas. Que ele cresça como queira. Assustava-me a frialdade do lençol e depois o calor que aparecia quando eu estava deitada.

            Quando, meio ano depois do seu regresso, Tereza morreu, eu quis desfazer-me da minha memória, mas dá-la a quem. A última carta de Tereza chegou depois da sua morte:

            Já só consigo respirar como os vegetais no quintal. Tenho uma saudade física de ti.

            O amor por Tereza voltou a crescer. Obriguei-o a isso e tive de precaver-me. Precaver-me de Tereza e de mim, como eu nos conhecia antes da visita. Tive de amarrar as mãos a mim própria. Elas queriam escrever a Tereza, dizer-lhe que eu ainda nos conhecia. Que a frialdade que tenho em mim revolve um amor contra a razão.

            Após a partida de Tereza falei com Edgar. Ele disse: Não deves escrever-lhe. Tu mostraste-lhe os limites. Se lhe escreveres a contar como te atormentas, começará tudo de novo. Depois ela volta. Acho que Tereza conhece Pjele há tanto tempo como te conhece a ti. Ou há mais tempo.

            Porquê e quando e como é que o amor amarrado se mistura com o esquadrões de assassínio. Queria gritar todas as pragas que não domino.

 

         Que Deus castigue

         Quem ama e parte

         Que Deus o castigue

         Com o passo do escaravelho

         O zumbido do vento

         O pó da terra.

 

            Gritar pragas, mas a que ouvido.

            Hoje é a erva que me escuta quando falo de amor. A mim parece-me que esta palavra não é honesta consigo mesma.

            Mas naquela altura, quando a bétula com o puxador da porta estava muito longe da pedra no chão da floresta, Tereza abriu o armário e mostrou-me o embrulho da casa de campo. Aqui está melhor que na fábrica, disse Tereza. Se tiveres mais alguma coisa, trá-la para cá. Edgar, Kurt e Georg também, é claro, disse ela. Tenho muito espaço, disse Tereza, quando andávamos no quintal a apanhar framboesas.

            A avó dela estava sentada debaixo da amoreira. Havia muitos caracóis nas framboeseiras. As casas deles eram às riscas pretas e brancas. Tereza agarrava muitas framboesas com demasiada força e esmagava-as. Há países em que se comem caracóis, disse Tereza. Chupam-nos da casa. O pai de Tereza saiu de casa com uma sacola de linho branco.

            Tereza voltou a confundir Roma com Atenas e Varsóvia com Praga. Desta vez, não me calei: Tu fixas os países por causa da roupa. Mas atiras as cidades de um lado para o outro, como te apetece. Por que não consultas o Atlas. Tereza lambeu as framboesas esmagadas dos anéis: O que é que a ti te serve saberes, disse ela.

            A avó estava sentada à sombra da amoreira. Escutava e chupava um rebuçado. Quando Tereza passou por ela com um alguidar cheio, o rebuçado parou de andar para cá e para lá nas bochechas dela. Tinha adormecido e não fechara bem os olhos. O rebuçado ficara esquecido na bochecha direita, como se ela tivesse dores de dentes. Como se sonhasse que os carris tinham chegado ao fim, como outrora o comboio. E, no sonho à sombra da amoreira, a vida dela começasse do princípio.

            Tereza cortara cinco girassóis para me dar. Por causa das cidades trocadas, ficaram tão desiguais como os dedos da mão. Queria dar os girassóis à Senhora Margit, porque ia chegar tarde a casa. Mas também porque Edgar, Kurt e Georg vinham daí a uma semana.

O pacote húngaro estava ao lado da cama da Senhora Margit. Jesus olhava da parede escura para o rosto iluminado dela. A Senhora Margit não aceitou as flores. Nem szép, disse ela, não têm nem coração nem rosto.

            Em cima da mesa havia uma carta. A seguir às dores nas cruzes da mãe, podia ler-se:

            Segunda-feira de manhã deixei roupa lavada para a tua avó. Ela vestiu-a antes de ir para o campo. Pus a suja de molho. Num dos bolsos havia bagas de roseira brava. Mas no outro, duas asas de andorinha. Meu Deus, se calhar ela comeu a andorinha. É uma desgraça quando se chega a este extremo. Talvez tu consigas falar com ela. Talvez ela te reconheça, uma vez que já não canta. Ela sempre te amou, só não sabia era quem tu eras. Talvez ela já o saiba outra vez. Ela nunca pôde comigo. Vem para casa, julgo que ela não aguenta muito mais.

            Edgar, Kurt, Georg e eu estávamos sentados no jardim do buxo no pátio. As tílias agitavam-se ao vento.

O Senhor Feyerabend estava sentado à frente da sua porta com a Bíblia. A Senhora Margit tinha praguejado antes de eu ter ido com Edgar, Kurt e Georg para o pátio. Tanto me fazia.

            Georg ofereceu-me uma tábua verde, redonda com uma pega. Na tábua havia sete galinhas amarelas, vermelhas e brancas. Os pescoços e as barrigas delas eram atravessadas por fios. Estes uniam-se numa bola de madeira debaixo da tábua. A bola baloiçava quando se tinha a tábua na mão. Os fios esticavam-se como as varas de um chapéu-de-chuva. Eu abanei a tábua na mão, e as galinhas baixaram as cabeças e voltaram a levantá-las. Ouvi os bicos matraquear na tábua verde. Nas costas da tábua Georg escrevera:

 

Instruções: Quando as preocupações apertam, abane a tábua na minha direcção

Atentamente, Brita-ossos

 

            O verde é erva, disse Georg, os pontos amarelos são os grãos de milho. Edgar tirou-me a tábua da mão, leu e abanou a tábua. Vi a bola voar. As galinhas enlouqueceram. Os bicos batiam num frenesi. Mal conseguíamos manter os olhos abertos e ríamo-nos.

            Queria abanar as galinhas, e os outros que olhassem. A tábua era minha.

            A criança sai da casa onde só há adultos. Vai ter com as outras crianças e leva brinquedos nas mãos, nos bolsos, tantos quantos consegue carregar. Até nas cuecas e debaixo do vestido. Larga os brinquedos, esvazia as cuecas e o vestido. Quando a brincadeira começa, a criança não suporta que outra criança mexa nas suas coisas.

            A criança transforma-se com inveja de que os outros saibam brincar melhor que ela. Com mesquinhez de que os outros mexam no que só a ela pertence.

Mas também com medo de ficar sozinha. A criança não quer ser invejosa, não quer ser mesquinha, não quer ser medrosa e é-o cada vez mais. A criança tem de morder e arranhar. Uma besta teimosa que afasta as crianças, que destrói as brincadeiras com que se alegrou.

            Depois fica só. A criança é feia e tão abandonada como nada mais no mundo. Precisa das duas mãos para tapar os olhos. A criança quer desfazer-se de todos os seus brinquedos, dá-los a todos. Espera que alguém mexa nos seus brinquedos. Ou que lhe tire as mãos dos olhos, que lhe devolva a mordidela ou a arradanhura. O avô disse: Retribuir não é pecado. Mas as crianças não mordem nem arranham. Gritam: Mete-os no cu, não preciso disso para nada.

            Nestes dias a criança espera que a mãe lhe bata. A criança anda depressa, quer chegar a casa enquanto a culpa ainda está fresca.

            A mãe sabe por que razão a criança vem outra vez tão depressa para casa. Não toca na criança. Da distância infinita entre a porta e a cadeira, diz: Não te ligaram meia, de que te valem agora os brinquedos. És muito estúpida para brincar.

            E agora puxo outra vez pelo braço de Edgar: Não tarda nada que os fios se partam, dá cá o atormenta-galinhas. Todos gritaram: Atormenta-galinhas. Georg disse: Sua atormenta-galinhas suábia. Eu gritei pela tábua, não tarda nada que os fios se partam. Eu era velha de mais para esta mesquinhez infantil, mas a besta teimosa tinha-me de novo nas suas garras.

            O Senhor Feyerabend levantou-se da cadeira e foi para o quarto.

            Edgar ergueu a mão acima da minha cabeça. Vi a bola voar debaixo das galinhas. Elas afocinham a varejar, exclamou Edgar. Elas afocinham varejeiras, disse Kurt. Elas varejam com o focinho, exclamou Georg. Estavam ensandecidos, com a razão a voar, como a bola nos fios, pelas suas cabeças.

Como eu gostaria de sair de mim e juntar-me a eles. Nada de estragar a brincadeira, nada de roubar a loucura. Eles sabem bem, pensei para comigo, que em breve não nos restará mais nada além de quem somos e onde estamos. Nesse momento já tinha o pulso de Edgar entre os dentes, já lhe arrancara o atormenta--galinhas da mão e já lhe arranhara o braço.

            Edgar lambeu o bocadinho de sangue com a língua, e Kurt olhou para mim.

            A Senhora Grauberg gritou para o pátio: Vem comer. O neto, sentado no cimo da tília, berrou: O que é o comer. A Senhora Grauberg levantou o braço: Espera que eu já te vou mostrar. Debaixo da tília havia uma foice. No ramo mais baixo estava pendurado um ancinho.

            Quando o neto desceu da árvore e se postou na erva junto à foice, o ancinho ainda oscilava no ramo. Mostra-me o atormenta-galinhas, disse a criança, e Georg disse: Não é coisa para crianças. O neto fez uma boquinha de coelho e pôs as mãos entre as coxas: Estão a nascer-me pêlos aqui. Eu disse: Isso é normal. A minha avó acha que estou a tornar--me homem depressa de mais. A criança foi-se embora a correr.

            A criança tem de desaparecer, disse Edgar, que quer ela de nós. Que dirão eles, pensei para mim, se Tereza por acaso aparecer. Era o que tinha combinado com ela.

            Kurt tirou duas garrafas de aguardente da sua enorme mala de viagem e, do bolso interior, um saca-rolhas. A Senhora Margit não me dispensará copos, disse eu. Bebemos da garrafa.

            Kurt mostrou fotografias do matadouro. Numa havia ganchos dos quais pendiam caudas de vaca a secar. Aquelas são as duras, as que, em casa, se tornam escovas para garrafas, estas, as moles com que as crianças brincam, disse Kurt. Numa outra fotografia via-se um vitelo deitado. Três homens estavam sentados em cima dele. Um mesmo à frente, junto ao pescoço. Envergava um avental de borracha e tinha uma faca na mão. Atrás dele, de pé, um outro empunhava um martelo pesado.

Os restantes homens, curvados, formavam um semicírculo. Tinham canecas de café na mão. Na fotografia seguinte, os que estavam sentados seguravam bem o vitelo pelas orelhas e patas. Na seguinte, a faca abria-lhe a garganta, e os homens punham as canecas de café debaixo da golfada de sangue. Na fotografia seguinte, bebiam. Depois o vitelo ficou só no recinto. Atrás dele as canecas alinhavam-se no parapeito da janela.

            Numa fotografia via-se terra escavada, picaretas, pás, barras de ferro. Atrás, um arbusto. Foi aqui que vi o homem de cabeça rapada em roupa interior, disse Kurt.

            Kurt mostrou-nos fotografias dos seus operários. De início, disse ele, não sabia por que razão toda a gente atravessava o recinto a correr. O meu gabinete fica no outro lado do edifício, a janela deita para o campo: céu, árvores, arbusto, canavial, era isto que queria que eu visse durante o intervalo. Não queriam deixar-me entrar no recinto. Em todos os outros, sim, mas neste não. Agora já não se importam que eu assista. Georg abriu a segunda garrafa. Edgar pôs as fotografias por ordem na erva. Estavam numeradas na parte de trás.

            Ficámos sentados diante das fotografias como os homens diante do vitelo. Tenho iguais mas com vacas e porcos, disse Kurt. Mostrou-me o operário que deixara cair a barra de ferro em cima da mão dele. Era o mais jovem. Kurt embrulhou as fotografias em papel de jornal. Tirou a escova de dentes do bolso do casaco. Pjele esteve em minha casa, disse ele. Esquece-te das fotografias na casa da modista. É melhor na da Tereza, disse eu, traz também as outras.

            Quem é essa, perguntou Georg. Abri a boca para falar, mas Kurt já estava a dizer: É uma espécie de modista.

            As mulheres precisam sempre de outras mulheres para se apoiarem, disse Edgar. Tomam-se amigas para odiarem melhor. Quanto mais se odeiam umas à outras, mais vezes juntas andam. É o mesmo com as professoras. Uma cochicha, a outra espeta a orelha e deixa a boca cair de espanto, como uma ameixa seca.

Toca e não se conseguem separar. Ficam eternidades à porta das salas de aula, de bocas coladas a ouvidos, passam metade da hora nisto. No intervalo, retomam os cochichos.

            Só pode ser sobre homens, disse Georg. Edgar riu-se: A maior parte só tem um e mais um para as horas vagas.

            Edgar e Georg eram homens das horas vagas de duas professoras. Ao ar livre, disseram, e coraram um bocadinho e olharam para mim e Kurt.

            Eu era uma mulher para as horas vagas do Inverno, porque, quando o Inverno terminou, já não havia homem.

            Ele nunca falava de amor. Pensava em água e dizia que eu era uma bóia para ele. Se eu fosse uma bóia, então seria uma bóia no chão. Era ali que nos deitávamos todas as quartas-feiras depois do trabalho, na floresta. Sempre no mesmo sítio onde a erva era alta e a terra firme. A erva não permanecia alta. Amávamo-nos à pressa, depois o calor e a geada juntavam-se na pele. A erva voltava, não sei como, a endireitar-se. E nós contávamos, não sei porquê, os ninhos de gralhas nas acácias negras. Os ninhos estavam vazios. Ele dizia: Vês. O nevoeiro tinha buracos. Não tardavam a fechar-se. O que arrefecia mais eram os pés, podíamos bater com eles no chão da floresta quanto quiséssemos. A geada começava a morder antes de ficar escuro. Eu dizia: Elas voltam para dormir, devem andar a comer no campo. As gralhas vivem um cento de anos.

            As gotas nos ramos já não resplandeciam. Tinham gelado em pequenos narizes. Não percebi como é que a luz desaparece, embora tivesse concentrado o olhar durante uma hora inteira. Ele disse que havia coisas que os olhos não podem entender.

            Quando já estava completamente escuro, dirigimo-nos para o eléctrico e voltámos para a cidade. O que dizia ele às quartas-feiras à noite quando chegava tão tarde a casa, não sei. A mulher dele trabalhava na fábrica de detergente.

Nunca perguntei pela mulher. Eu sabia que, por minha causa, ela não ficaria sozinha. Com este homem não se tratava de roubar. Só precisava dele às quartas-feiras, na floresta. Do filho dizia às vezes que gaguejava e vivia com os sogros no campo. Ia visitá-lo todos os sábados.

            Todas as quartas-feiras, os ninhos de gralhas estavam vazios. Ele dizia: Vês. Tinha razão acerca das gralhas. Mas acerca da bóia, não. No chão da floresta uma bóia é lixo. Era o que eu era para ele e ele para mim. O lixo só é um apoio quando andar perdido se tornou um hábito.

            Ele era alguém da secção de Tereza, que um dia nunca mais apareceu ao trabalho. Sob os ninhos das gralhas propôs-me que fugisse com ele pelo Danúbio. Apostava no nevoeiro. Outros apostavam no vento, na noite ou no sol. O mesmo é diferente para cada um, é como a cor preferida, disse eu. Mas estava a pensar: Como no suicídio.

            Mesmo na nossa floresta de acácias tinha de existir algures uma árvore com um puxador de porta no tronco. Vi esse tronco de árvore mais tarde, mas não naquela altura na floresta. Talvez estivesse demasiado próximo. Mas ele reconheceu essa árvore e abriu essa porta.

            Na quarta-feira seguinte morrera em fuga com a mulher. Esperei por um sinal de vida. Não era por amá-lo que ele me fazia falta. Mas não se suporta a morte de alguém com quem se partilha um segredo. Já na altura me interrogava por que ia com ele para a floresta. Deitar-me um pedacinho debaixo dele na erva grossa e espernear para fora da carne presa e depois não perder um momento a olhá-lo nos olhos — se calhar era isso.

            Só meses depois é que apareceu no gabinete médico um pedaço de papel com o nome dele. Tereza, que se movia muito bem por toda a fábrica, vira a notificação oficial. Aí podia ler-se: Nome, profissão, residência, data do óbito. Diagnóstico: morte natural — paragem cardíaca. Local do óbito: Residência do defunto. Hora: 17 horas e 20 minutos. O carimbo da Medicina Legal, uma assinatura azul.

            A fábrica de detergente, onde Tereza conhecia uma enfermeira, recebeu o mesmo pedaço de papel com o nome da mulher dele. Ali podia ler-se a mesma data de óbito, morte natural — paragem cardíaca, 12 horas e 20 minutos, em casa.

            Tereza disse: Andas a perguntar muito por ele e conhece-lo de certeza muito melhor que os outros. Tinhas um caso com ele, toda a gente sabe. Foi a primeira coisa que ouvi dizer de ti. Antes de nos termos encontrado na casa da modista, ele esteve lá. Vinha a sair quando eu ia a entrar. Ela tinha-lhe deitado as cartas. Agora já não interessa, disse Tereza, mas eu não teria confiado nele.

            O Capitão Pjele nunca me perguntou por ele. Afinal talvez houvesse coisas que o Capitão Pjele não soubesse. Mas eu tinha ido tantas vezes à floresta, como é que o Capitão Pjele poderia não saber. Talvez o Capitão Pjele conversasse com ele sobre mim. Mas ele nunca me sondava na floresta, ele não sabia nada de concreto a meu respeito. Exactamente porque não o amava é que isso me surpreendeu.

            Mas talvez ele pudesse contar ao Capitão Pjele que eu sabia cantar quando me obrigavam a fazê-lo.

            Vocês têm os vossos amores. Cheiram a madeira e a ferro, dizia Kurt. Eu não, mas é melhor assim. Não seria capaz de dormir com filhas e mulheres de tragadores de sangue, disse ele quando fazíamos a lista dos mortos em fuga de que ouvíramos falar. Ocupava duas páginas. Edgar mandou a lista para o estrangeiro.

            Foi Tereza que me deu a maior parte dos nomes, outros fora a modista. A cliente das manchas de esperma e o marido e o primo dele já não estavam entre os vivos.

            Georg ceifava a erva com a foice. Tínhamos as cabeças pesadas da lista e da aguardente. Georg pôs-se a fazer maluqueiras connosco a assistir. Cuspiu para as mãos, saltitou atrás do ancinho e fez feno. Depois o ancinho voltou a oscilar do ramo.

Georg tirou a escova de dentes do bolso das calças. Cuspiu nela e penteou as sobrancelhas.

            Perguntei a quem pertencia a casa de campo. Edgar disse, a um empregado de alfândega. Tinha muito dinheiro estrangeiro. Escondia-no no lustre dos meus pais, para que não o encontrassem. O meu pai conhece-o da guerra Agora está reformado, é ele que vai fazer passar a lista pela fronteira. Foi o filho dele que me deu a chave, ele vive na cidade.

            Do quarto de Edgar tinham desaparecido papéis. Ele tinha uma cópia da lista. Não em casa, disse. Mas os seus poemas é que tinham ido à vida. Até da memória, disse Edgar.

            Tereza não aparecera esta tarde. Eu dera-lhe as fotografias da fábrica. O pai dela tinha sido avisado contra mim no dia anterior. Eu era uma má influência sobre a filha dele, dissera o Capitão Pjele. A mim só o que me faltava era a lanterna vermelha.

            Eu fiz-me de parva, disse Tereza, e perguntei se Pjele se estava a referir ao partido. O meu pai respondeu: O partido não é nenhum bordel.

            Edgar, Kurt e Georg já tinham partido há muito. A erva cortada secava ao sol. Todos os dias via como o monte empalidecia e soçobrava. Já se tornara feno. O restolho começava a querer crescer.

            Uma tarde, o céu pôs-se negro e amarelo-fogo. Para lá da cidade, os relâmpagos cortavam o ar, trovejava. O vento dobrava as tílias e arrancava-lhes os galhos. Empurrava-os para o buxo e voltava a atirá-los para o ar. Estrebuchavam, no buxo a madeira crepitava. A luz parecia de carvão e vidro. Podia estender-se a mão e tocar no ar.

            O Senhor Feyerabend estava de pé debaixo das árvores e enchia uma almofada azul de feno. O vento levava-lhe os molhinhos da mão.

Ele corria atrás deles e apanhava-os com o sapato. A esta luz, parecia uma figura recortada. Tive medo que o relâmpago o visse e o fulminasse. Quando começaram a cair gotas grossas, correu para debaixo de telha. É para a minha Elsa, disse ele e levou a almofada para o quarto.

            A seguir às dores de cruzes da mãe podia ler-se: A Senhora Margit escreveu-me a dizer que andas com três homens. Graças a Deus que são alemães, mas lá por isso não deixa de ser putaria. Anda uma mãe, anos a fio, a pagar uma educação na cidade, para isso já servimos. E como paga sai-nos uma puta. Na fábrica também deves ter algum. Deus não permita que me apareças um dia com um valáquio e digas: Este é o meu marido. O barbeiro, que há muitos anos trabalhou na cidade, já naquela altura dizia que as mulheres educadas são tão reles como o cuspo. Mas a gente acredita sempre que nossos filhos são diferentes.

            A cera de abelhas fervia no tacho, as bolhas rebentavam e espumavam em redor da colher de pau, como cerveja. Em cima da mesa, entre caçarolas, pincéis, frascos, havia uma fotografia. A esteticista disse: É o meu filho. A criança tinha um coelho branco nos braços. O coelho já não existe, disse ela, comeu trevo molhado. Rebentou-lhe o estômago. Tereza praguejou. Não sabíamos, disse a esteticista, andámos a apanhá-lo de manhã, com o orvalho. Julgávamos que quanto mais fresco melhor. Com uma espátula, aplicou uma camada de cera da largura de uma mão à perna de Tereza. Já não era sem tempo, disse ela, a barriga das pernas já parece uma selva. Quando ela arrancou a camada de cera, Tereza fechou os olhos. De qualquer modo, depois teríamos matado o coelho, disse a esteticista, mas não tinha de ser. A camada partiu-se. Ela voltou a puxar. As primeiras camadas doem, mas depois habituamo-nos, há coisas piores, disse a esteticista.

            Coisas piores teria eu podido nomear algumas. Exactamente por isso já não tinha a certeza de querer que ela me depilasse.

            Tereza pôs as mãos atrás da cabeça e observou-me. Os olhos dela estavam aumentados como nos gatos. Tens medo, disse ela. A esteticista aplicou uma mancha de cera ao sovaco de Tereza. Da cera erguia-se uma escova de cabelo, quando os dedos longos a tinham arrancado.

            Os coelhos são bonitos, sobretudo os brancos, disse Tereza, mas a carne deles fede exactamente como a dos pardos. Os coelhos são animais asseados, disse a esteticista. O sovaco de Tereza estava nu. Vi ali um caroço do tamanho de uma noz.

            O atormenta-galinhas estava ao pé do dicionário. Tereza abanava-o todos os dias antes do almoço. Quando passava a porta, dizia: Venho dar forragem às galinhas. E todas as vezes perguntava se eu hoje já sabia como o pássaro das instruções de Georg se chamava em romeno. Mas eu só sabia dizer-lhe em romeno como o pássaro se chamava em alemão: britar ossos. O nome do pássaro não constava de dicionário nenhum.

            Uma vez tive uma ama alemã, disse Tereza. Era velha, porque a minha avó não queria amas novas, não fosse o meu pai sentir-se tentado. A velha era severa e cheirava a marmelos. Tinha pêlos compridos nos braços. Queriam que eu aprendesse alemão com ela. A luz, o caçador, a noiva. A palavra de que eu gostava mais era futter', porque na minha língua significava foder. E não cheirava a marmelos.

 

Futter, em alemão, significa «forragem». Todo este passo é complicado pela intervenção de duas línguas: a romena e a alemã. Há, no entanto, que advertir o leitor que tais reflexões surgem, no texto original, apenas em alemão. Esta situação torna-se ainda mais curiosa com a entrada da língua da tradução. (N. da T.)

 

Ela dá-nos leite e manteiga com coragem

Nós damos-lhe muita forragem

A ama costumava cantar-me:

 

         Ó meninos, vinde depressa para o lar

         que a luz a mãe já está a apagar.

 

            Ela traduzia-me a canção, eu estava sempre a esquecê-la. Era uma canção triste, eu preferia alegrar-me. Quando a minha mãe a mandava ao mercado, levava-me com ela. No caminho para casa, deixava-me ver com ela as noivas na montra do fotógrafo. Então gostava dela, porque se calava. Olhava mais tempo que eu, tinha de puxá-la. Quando saíamos dali, o vidro da montra estava cheio de dedadas nossas. O alemão ficou para mim sempre como uma língua dura de marmelos.

            Desde que vira a noz, perguntava todos os dias a Tereza se tinha ido ao médico. Ela fazia girar os anéis nos dedos e olhava para eles como se houvesse ali uma resposta. Abanava a cabeça, praguejava e parava de comer. O rosto endurecia-se-lhe. Numa segunda-feira disse: Fui. Perguntei: Quando. Tereza disse: Fui ontem a casa de um. É um quisto seboso, não é o que estás a pensar.

            Não acreditei e busquei a mentira mimosa e molhada nos olhos dela. Vi a criança urbana no rosto dela, obstinada e ágil, esgueirar-se-lhe pelos cantos da boca. Mas Tereza enfiou o soldadinho seguinte na boca, mastigou e, ao mesmo tempo, fez com que as galinhas matraqueassem e a bola voasse. Pensei para comigo: Quando se mente, a comida não sabe a nada. Porque Tereza foi capaz de continuar a comer, deixar de duvidar.

            Se amanhã te metamorfoseasses e tivesses escolha, perguntou Tereza, que pássaro gostarias de ser.

            Tereza não podia dizer muito mais tempo: Venho dar forragem às galinhas, não almoçámos juntas muito mais tempo.

Uma manhã, vinha eu a chegar ao trabalho quando ouvi alguma coisa a matraquear. O corredor estava tranquilo, não havia ninguém. Hesitei diante da porta do gabinete, de chave na mão. Pus-me à escuta, o matraquear vinha lá de dentro. Escancarei a porta. Estava um indivíduo sentado à minha secretária. Brincava com o atormenta-galinhas. Eu conhecia-o de vista, chamavam-lhe programador. Ria-se que nem um louco. Arranquei-lhe o atormenta-galinhas da mão. Ele disse: Na sociedade civil creio que a esta hora é costume bater-se antes de se entrar. Eu não chegara tarde mas já fora despedida. Depois de atirar com a porta, vi os meus pertences no corredor: sabonete, toalha de rosto, o fervedor de imersão de Tereza e o tacho. No tacho, duas colheres, duas facas, café e açúcar e duas chávenas. Numa das chávenas, uma borracha. Na outra, uma tesoura das unhas. Fui à procura de Tereza, fiquei especada na sua secção, pousei os pertences na mesa vazia. Esperei um pouco. O ar era péssimo, toda a gente andava de um lado para o outro. Azafamavam-se neste pequeno espaço, neste dedal cheio de pessoas. Olhavam-me pelo canto do olho. Ninguém me perguntou porque chorava e», O telefone tocou, uma delas atendeu e disse: Sim, está aqui. Mandou-me ao chefe de pessoal. Este apresentou-me um papelucho para eu assinar. Li e disse: Não. Ele olhou para mim ensonado. Perguntei: Porquê. Ele partiu um croissant ao meio. Duas migalhas brancas caíram-lhe no casaco escuro, já nem me lembro de tudo o que me ocorreu. Mas sei que gritei muito alto. Praguejei pela primeira vez, porque tinha sido despedida.

            Tereza não apareceu nessa amanhã ao serviço.

O céu estava despido. Um vento quente levou-me a cabeça pelo cabelo ao atravessar o pátio da fábrica, não sentia as pernas. Quem é asseado no vestir não chegará sujo ao céu, pensei eu.

Por teimosia, queria estar suja no céu do Capitão Pjele, contudo, desde aí vestia mais vezes roupa lavada.

            Percorri três vezes mais o mesmo caminho para a secção de Tereza, abri e fechei a porta sem dizer palavra. Os pertences ainda estavam em cima da mesa. Deixava as lágrimas continuarem a correr-me até aos ouvidos e ao queixo. Tinha os lábios a arder de sal, o pescoço encharcado.

            Debaixo da palavra de ordem, no empedrado vi os meus sapatos arrastarem-se e os outros andarem. Nas mãos, eles levavam carneiros de chapa ou papéis esvoaçantes. Vi-os ao longe junto a mim. Só os cabelos que lhes emolduravam as cabeças me pareciam perto e maiores que as camisas e os vestidos.

            Em mim já nem pensava, tal era o medo que sentia por Tereza. Praguejei pela segunda vez.

            Neste momento, ela estava sentada no gabinete do director. Ele tinha-a interceptado logo no portão. Só a deixou sair três horas depois quando eu, despedida, já passara o portão. Queriam que ela entrasse para o partido nesse mesmo dia e se afastasse de mim. Passadas três horas, ela disse: Pois sim.

            Na reunião à tarde, Tereza teve de se sentar na primeira fila mesmo em frente da toalha vermelha da mesa. Após a abertura, prestou-se homenagem ao pai de Tereza. Depois o indivíduo que presidia à reunião apresentou-a. Queira levantar-se e avançar, disse ele, para que todos possam ver o mais recente membro antes da sua adesão. Tereza levantou-se, virou o rosto para a sala. As cadeiras gemeram, os pescoços esticaram-se. Tereza percebeu para onde estavam a olhar: para as pernas dela.

            Fiz uma vénia, como antes de um espectáculo, disse Tereza mais tarde. Alguns riram-se, alguns até bateram palmas. Depois comecei a praguejar. Não se riram nem aplaudiram muito mais tempo, pois na mesa ninguém batia palmas. Sentiam-se apanhados e esconderam as mãos.

            Podeis fazer o pino e apanhar moscas como eu, disse Tereza. Um dos que estava na primeira fila pôs as mãos nas coxas. Estivera sentado em cima delas, estavam vermelhas como a toalha. As orelhas também, embora ele não se tivesse sentado em cima delas, disse Tereza. Escancarou a boca, inspirou e entortou os dedos. O vizinho, um indivíduo seco de pernas longas, disse Tereza, fez-lhe sinal, com o sapato no tornozelo, de que deveria sentar-se e calar-se. Tereza afastou o pé e disse: E, se isso não vos chegar, então dêem tratos de polé às cabecinhas até vos ocorrer uma ideia melhor.

            A minha voz permaneceu calma, disse Tereza. Eu sorria e eles ao princípio julgaram que ia agradecer-lhes pelo elogio ao meu pai. Depois ficaram de monco caído, havia mais branco nos olhos do que na parede da sala.

            Inesperadamente, Kurt veio à cidade numa quarta-feira. Neste dia de Verão, eu estava, apesar do sol, sentada no quarto, porque lá fora, no meio das pessoas, tinha de chorar. Porque, no eléctrico, tinha ido para o meio do carro, para gritar bem alto. Porque tinha saído a correr da loja, para não ter de arranhar e morder as pessoas.

            Pela primeira vez, Kurt ofereceu flores à Senhora Margit, provavelmente porque viera a meio da semana. O ramo tinha sido apanhado no campo. Papoilas e urtigas brancas. Estavam murchas da viagem. A água põe-nas frescas outra vez, disse a Senhora Margit.

            As flores não teriam sido necessárias. A Senhora Margit tinha amansado desde que eu fora despedida. Afagava-me, mas eu gelava por dentro. Não podia repelir nem suportar a mão dela. O Jesus dela também me fixava quando ela dizia: Tens de rezar, minha filha. Deus compreende tudo. Eu falava do Capitão Pjele, e ela falava de Deus. Eu tinha medo que as minhas mãos tivessem de esbofeteá-la.

            Uma vez viera aí um, disse a Senhora Margit, e perguntara por mim. Cheirava a suor. Ela tinha pensado que era um kanod. Istenem, disse ela, com tantos por aí, quem é que ainda consegue distingui-los. O homem mostrara-lhe a identificação, sem óculos ela não conseguira ver o que lá dizia. Antes de ela poder dizer que não, já ele estava no quarto. Fez-lhe toda a espécie de perguntas, disse ela. Pelas perguntas é que tinha percebido que não se tratava de amor.

            Ela paga a renda e vai trabalhar, mais do que isso não sei, dissera a Senhora Margit a este homem. Depois erguera a mão. Juro, dissera ela, e apontou para Jesus: Não estou a mentir, ele é minha testemunha.

            Isto foi no princípio do ano, disse a Senhora Margit. Se só estou a contar-te isto agora é porque o homem se foi embora e nunca mais voltou. À saída, pediu desculpa e beijou-me a mão. Era um cavalheiro, mas cheirava a suor.

            Desde então ela rezara muitas vezes por mim. Deus ouve--me, disse ela, ele sabe que eu não peço por qualquer um. Mas tu também tens de rezar um kicsit.

Kurt veio inesperadamente, porque Edgar e Georg tinham telefonado para o matadouro a dizer que tinham sido despedidos. Também tinham telefonado para a fábrica, disse Kurt. Um programador dissera-lhes que tinhas faltado tanto que tiveras de ser despedida. Tinham pedido para falar com Tereza, mas o homem desligara.

            Kurt tivera dores de dentes a noite inteira. Tinha o cabelo em desalinho. Na aldeia não havia dentista, disse ele, vão todos ao sapateiro. O sapateiro tem uma cadeira que se pode fechar à altura da barriga de quem se senta com uma tábua. A pessoa senta-se, e o sapateiro ata um fio resistente ao dente. Dá um laço na outra extremidade do fio e prende-o no puxador da porta da oficina. Com um pontapé firme fecha a porta da oficina.

O fio arranca o dente da boca. Paga-se quarenta lei, o mesmo que por um par de meias-solas, disse Kurt.

            Tereza não foi despedida na sequência da reunião do partido. Foi transferida para outra fábrica.

            Kurt disse: Ela é acriançada, não tem consciência política. O pai dela é adulto, por isso ela pode permanecer acriançada. Kurt tinha os cantos dos olhos mais vermelhos que o cabelo, a boca molhada.

            O meu pai também era adulto, disse eu, senão não teria pertencido às SS. Também teria feito monumentos que teria espalhado pelo país. Voltaria sempre a marchar. Que, depois da guerra, já estivesse queimado politicamente, esse é um arrependimento nunca foi seu. Marchou na direcção errada e é tudo.

            Ninguém ficou suficientemente queimado para ser informador, disse Kurt, quer fosse de Hitler ou Antonescu. Por causa da cicatriz que tinha no polegar, Kurt lembrava-me a criança-demónio. Uns anos depois de Hitler choraram todos por Estaline, disse ele. Desde aí ajudam Ceausescu a fazer cemitérios. Os pequenos informadores não pretendem altos cargos no partido. Pode-se usá-los tranquilamente. Os membros do partido podem queixar-se se quiserem fazer deles informadores. Podem defender-se melhor que os outros.

            Se eles quiserem, disse eu. Odiava as unhas sujas dele porque desconfiavam de Tereza. Odiava o seu queixinho mimado, porque quase me convencia. O botão a cair na camisa dele, também isso eu odiava, porque, quase a cair, estava preso por um fio.

            O que é que alguém tem de fazer para ter tanta consciência política como tu, perguntei. Arranquei-lhe o botão que estava a cair, puxei a linha e meti-a na boca. Kurt quis bater-me na mão, mas falhou.

            Chamas à tua desconfiança exactidão, disse eu com a linha na boca e o botão na mão, mas deixas as fotografias em casa de Tereza. A ela não lhe acontece nada se as acharem, disse Kurt.

            Julgas que, por não confiares em ninguém, te tomas invisível, disse eu. Kurt fixou os olhos na fotografia da recém - falecida, no seu vestido de roda e na sua sombrinha.

Não, disse ele. Pjele nunca mais nos perderá de vista. Trinquei a linha e engoli-a: Alguém alguma vez pôde escolher o pai. Kurt pôs a cabeça nas mãos. Há pessoas que deixam de conhecer os pais, disse ele. Perguntei: quem. Tamborilou com os dedos na mesa vazia, a repetir o matraquear do atormenta-galinhas. Cada par de dedos produzia um som diferente na madeira igual.

            Pensei para mim: Conhecemo-nos tão bem que precisamos um do outro. Mas facilmente poderíamos ter amigos completamente diferentes, se Lola não tivesse morrido no armário.

            Vai ao dentista, disse eu, o que tu tens é inveja por ninguém nos poder ajudar. Ele disse: Também tu estás lentamente a ficar acriançada.

            Depois estendeu a mão como uma criança. Mas eu meti o botão na boca: Deixa-o ficar antes que o percas. O botão matraqueava-me os dentes. Que é feito do atormenta-galinhas, perguntou Kurt.

            Escrevi à mãe a dizer que tinha sido despedida. Ela recebeu a carta logo no dia seguinte. E um dia mais tarde já eu recebia a resposta dela:

Soube-o na aldeia. Chego na sexta-feira à cidade no primeiro comboio.

Em resposta, escrevi-lhe:

Não posso estar tão cedo na estação. Estarei às dez horas junto à fonte.

As cartas nunca tinham chegado tão depressa.

            A mãe estava desde manhã cedo na cidade. Encontrámo-nos junto à fonte. Ela trazia nos braços dois cestos vazios e tinha um saco cheio aos seus pés. Beijou-me junto à fonte sem poisar os cestos. Já comprei tudo, disse ela, só já preciso de frascos de conserva.

            Peguei no saco pesado. Entrámos nas lojas. Não falámos uma com a outra. Se eu andasse com um dos cestos iguais, talvez os estranhos nos reconhecessem como mãe e filha. Mas assim os transeuntes metiam-se constantemente entre nós porque havia espaço livre.

            Na loja, a mãe pediu quinze frascos de conserva para pepinos, pimentos e beterraba. Como queres levá-los todos, perguntei. Ninguém te prende aqui, disse ela, nem a fábrica, nem um homem. Toda a aldeia já sabe que foste despedida.

            Eu levo os frascos dos legumes e o saco, leva tu os frascos da fruta, disse a mãe. Pediu mais dezassete frascos de conserva para ameixas, maçãs, pêssegos e marmelos. A mãe tinha três rugas na testa quando contou os legumes e a fruta. Ao contar, tinha de rever na memória os canteiros e as árvores, para não se esquecer de nada. Os frascos que o vendedor ia pondo em fila no balcão eram todos iguais.

            Não há qualquer diferença entre eles, disse eu. O vendedor embrulhou-os. Claro que são todos iguais, disse a mãe, mas ainda se há-de poder dizer para que se quer os frascos. Tenho de contar com a avó, disse ela, no Inverno, quando se comem mais as conservas, ela há-de estar em casa. Tu nunca vens a casa. No comboio, as pessoas vinham a dizer que estás grávida de três meses. Não me viram, eu vinha sentada lá no fundo. Mas os que estavam ao pé de mim ouviram e baixaram os olhos. Eu só queria enfiar-me pelo banco abaixo.

            Fomos à caixa. A mãe cuspiu para o polegar e o indicador e pagou. Podes olhar tanto quanto quiseres, disse ela, o trabalho faz calos.

            A mãe pousou os cestos no chão, abriu as pernas, levantou o traseiro e arrumou os frascos. Alguma vez em toda a tua vida pensaste porventura, disse ela, o que é ser mãe e ter de se envergonhar.

            Gritei-lhe: Se não me deixas em paz, nunca mais me vês. Se disseres mais uma palavra que seja.

A mãe engoliu em seco. Disse baixinho: Que horas são.

            No pulso ela trazia o relógio morto do meu pai. Por que andas com ele, ele não anda, perguntei. Isso ninguém sabe, disse ela, tu também tens um. O meu anda, disse eu, caso contrário não andaria com ele. Quando tenho um relógio posto, sei melhor com o que posso contar, disse ela, mesmo que ele não ande. Então por que perguntas que horas são, disse eu.

            Porque contigo não se pode falar de mais nada, disse a mãe.

            A senhora Margit disse: Nines lóvé nines muzsika, mas que se há-de fazer se agora não tens dinheiro para a renda. Posso esperar dois meses, que Deus te ajude, e assim não fico sozinha. Não é fácil encontrar uma rapariga alemã ou húngara, e não quero outra coisa em minha casa. Pelo nascimento, és católica e ainda hás-de rezar. Deus tem muito tempo, mais que nós, humanos. Deus vê-nos logo que nascemos. Nós é que precisamos de muito tempo até o vermos. Quando eu era nova, também não rezava. Percebo que não queiras voltar para a aldeia, disse a Senhora Margit, lá só vivem parvónios. Sempre que alguém não sabia o que estava correcto, dizia-se em Peste: És um camponês.

            A Senhora Margit queria ir ao mercado comprar queijo. Muito caro, disse ela. Tirei uma migalhinha para provar. A camponesa começou a gritar: Com as mãos todas sujas. Ora, eu lavo mais as mãos num dia que ela num mês. O queijo era ácido como vinagre.

            Ouvi dizer, disse a Senhora Margit, que há muitos camponeses que põem farinha no queijo. É um pecado perante Deus dizer isto, mas Deus sabe-o muito bem. Os camponeses nunca foram pessoas finas.

            A Senhora Margit far-me-á festas na cabeça em troca do adiamento da renda, disse a Tereza. Toma esse direito.

Porque não recebe dinheiro pelo quarto, exige sentimentos. Se eu conseguisse pagar a renda depressa, as mãos dela já não avançariam para a minha cabeça.

            Tereza arranjou-me umas explicações de alemão. Queriam que três vezes por semana eu ensinasse dois rapazes em casa deles. O pai era capataz na fábrica de peles. A mãe era dona de casa. Ela é órfã, disse Tereza. Os rapazes são duros de entendimento. O pai ganha bom dinheiro, tudo o mais não te interessa.

            Tereza tinha conhecido o homem das peles e os filhos na piscina das termas. As crianças são afectuosas, disse Tereza. Quando ela se tinha ido vestir, o pai dissera: Nós também vamos.

            Mas depois, no vestiário, mandara os filhos outra vez para a água. Enfiara-se, de calções de banho molhados, no gabinete de Tereza. Ofegante, tocara Tereza nos seios. Ela pusera-o na rua. Não se pudera fechar, o ferrolho desaparecera. Ele ficou à porta, Tereza vira-lhe os dedos dos pés por debaixo da porta. Eu vi logo que isto não ia dar nada, dissera ele. Foi só uma brincadeira, eu nunca enganei a minha mulher.

            Gritara: Venham cá. Tereza ouvira os pés molhados das crianças patinhar no empedrado. Quando saíra da cabina, o homem das peles também já estava pronto. Ele dissera: Por favor, espere. As crianças não lhe fizeram mal nenhum, estão quase prontas.

            Na escada, comecei a ouvir berros. Vinham do terceiro andar. Era aí que ficava o apartamento onde queriam que desse explicações de alemão. Quando lá cheguei, não pude bater, a porta estava fora das dobradiças. Encontrava-se encostada ã parede, no patamar. Do apartamento vinha fumo.

            O homem das peles tinha uma bocarra pingosa, capaz apenas de balbuciar. Tresandava a aguardente. Disse: O alemão faz sempre falta, nunca se sabe o dia de amanhã.

Os olhos assemelhavam-se às bolsas brancas dos sapos. Imersa na fumarada, a mulher olhava pela janela aberta de par em par. O fumo abraçava-a antes de se dirigir como um lençol para as árvores. A tarde não produzia ar fresco, limitava-se a deixar o fumo cair sobre os velhos choupos.

            A criança mais nova agarrava-se com força ao pano da louça e chorava. A criança maior deitou a cabeça em cima da mesa.

            Os Alemães são um povo orgulhoso, disse o homem das peles, nós, os Romenos, somos uns cães malditos. Uma matilha cobarde, vê-se no suicídio. Toda a gente se enforca, ninguém se atreve a matar-se a tiro. O vosso Hitler não confiava em nós nem à lei da bala. Vai para a cona da tua mãe, gritou a mulher. O homem das peles arrastava o armário: Isso queria eu, mas onde é que ela está.

            No chão da cozinha, viam-se bolinhas de pão. Antes da briga, as crianças tinham-se divertido a atirá-las uma à outra.

            O homem das peles pendurou um cigarro no canto da boca. Vacilava-lhe a mão e a cabeça, a chama do isqueiro não conseguia encontrar o cigarro. Este caiu ao chão. Olhou-o longamente, a chama torta, a queimar-lhe o polegar. Não deu por nada. Curvou-se, o braço era curto de mais. A chama recolheu-se de novo ao isqueiro. Ele olhou para as duas crianças. Estas não o ajudaram. Cambaleou até ao corredor, rasando o cigarro.

            Na escada, a porta bateu no corrimão. Ouviu-se um estrondo, corri para as escadas. O homem das peles estava prostado no patamar debaixo da porta. Saiu lá debaixo a gatinhar e deixou ficar a porta. Com o nariz a sangrar, arrastou-se pelas escadas abaixo.

            Ele queria levar a porta para a ma, disse quando voltei a entrar na cozinha, agora foi-se embora.

            Ele arrancou a porta das dobradiças numa fúria, disse a criança mais pequena, depois queria bater na mãe. Ela fugiu e fechou-se no quarto. Ele sentou-se à mesa da cozinha e começou a beber aguardente. Eu fui chamar a mãe ao quarto, porque agora ele estava muito calmo. Ela queria fazer sonhos.

O Óleo estava a ferver. Ele deitou aguardente para o fogo, para dentro do óleo. Disse que nos queria deitar fogo. A chama cresceu muito, ela poderia ter queimado a cara da mãe. O armário da parede pegou fogo. Apagámo-lo depressa, disse a criança.

            E agora aparece-me esta pela primeira vez e logo no meio desta loucura, disse a mulher para a criança. Arrastou os pés até à mesa e deixou-se cair na cadeira.

            Eu disse: Não faz mal. Mas fazia mal, como tudo aquilo que eu não suportava nem conseguia mudar. E dei por mim a fazer festas, como se ela fosse uma velha conhecida, no cabelo de uma estranha. Ela perdeu-se sob a minha mão. Consumia-se no seu amor amarrado de que nada mais restava que duas crianças, o fedor a fumo e uma porta fora do sítio. E uma mão estranha no cabelo.

            A mulher soluçou, senti o bicho-coração saltar-lhe da barriga para a minha mão. Saltitou de cá para lá, à medida que eu a afagava, só que mais depressa.

            Quando for noite, ele volta, disse a criança maior.

            A mulher tinha o cabelo curto. Via-lhe o couro cabeludo. E nos choupos, para onde o fumo se transferira, vi uma rapariga a deixar o orfanato. Eu sabia onde ele ficava nesta cidade. Conhecia o monumento que lá havia, junto ã cerca. A mãe de ferro no pedestal com o filho de ferro agarrado à bainha da saia era obra do pai de Tereza. Por detrás do monumento havia uma porta castanha. Era demasiado tarde para a mulher poder regressar. Uma vez passada a porta, o seu corpo seria demasiado comprido para uma cama de criança. Tinham-na descontado dos órfãos e dos anos que queriam amor lá fora, no ninho de pele de um homem. Os cobertores, as almofadas no sofá, os tapetes, as pantufas em casa dela eram todos de pele, mais os assentos das cadeiras na cozinha, até as pegas.

            A mulher fixou os olhos nas duas crianças e disse: Que se há-de fazer, há quem tenha pais a menos e há quem tenha pais a mais.

            A criança vai para o quarto quando precisa de chorar. Fecha a porta, baixa os estores e acende a luz. Põe-se à frente do espelho da casa de banho, diante do qual ainda ninguém se maquilhou. Tem duas asas que se abrem e fecham. É uma janela em que a criança se vê chorar três vezes. A autocomiseração é três vezes maior que no quintal. O sol não pode entrar. Ela não sente comiseração, porque tem de estar sem pernas no céu.

            Os olhos vêem, ao chorar, uma criança de ninguém no espelho. A nuca, as orelhas e os ombros fazem coro nas lágrimas. À distância de dois braços do espelho, até os dedos dos pés choram. O quarto torna-se, quando fechado, tão fundo como no Inverno a neve. Esta queima as faces tal como o choro.

            O moinho de café moía ruidosamente, sentia-o nos dentes. O fósforo sibilou diante da boca da mulher. A chama devorou rapidamente o pauzinho e queimou-lhe os dedos, quando o gás à volta do bico do fogão começou a chamejar. A torneira tossicava. Depois subiu pela cafeteira uma poupa cinzenta. A mulher atirou o café lá para dentro. Transbordou como terra pelas bordas.

            A criança mais pequena pôs o pano da louça debaixo da água fria, dobrou-o e pô-lo na testa.

            A mulher e eu bebemos café, a rena de loiça assistia do alto do armário. Ao segundo gole, o joelho dela embateu debaixo da mesa no meu joelho. Ela desculpou-se apesar de eu lhe ter feito festas. O fumo saíra, o fedor ficara. Eu teria preferido não estar ali onde a minha mão segurava a caneca.

            Vão lá para baixo, para a areia, disse a mulher, vão brincar. Disse-o de uma maneira que parecia: Vão enterrar-se na areia, não voltem mais.

            O café era espesso como tinta, a frase escorreu-me pela boca quando eu levantava a caneca. No regaço tinha duas nódoas de café. O café sabia a zanga.

Encurvada na minha cadeira, eu ouvia os passos rápidos das crianças a descer as escadas.

Deslizei o olhar pela cadeira abaixo, à procura da minha comiseração pela mulher. O padrão de folhas do meu vestido descia-me até aos tornozelos. Enquanto, atrás, na cadeira, se encontrava sentada a minha corcunda, à frente, entre os cotovelos, havia sentado uma coisa sem vida com duas nódoas de café no regaço.

            Quando os passos das crianças emudeceram nas escadas, eu era alguém que faz companhia à infelicidade, para que esta fique mais um pouco.

            A mulher e eu pusemos a porta no sítio. Ela lançou mãos à obra e era forte, porque só pensava na porta. Mas eu estava a pensar nela: Que eu me iria embora e que ela ficaria sozinha atrás desta porta.

            Ela foi buscar à cozinha o pano da loiça molhado e limpou as manchas de sangue do marido da porta.

            No caminho para casa, eu levava na mão um barrete de pele de castor e na cabeça todo um crepúsculo. A Senhora Margit só usava lenços na cabeça, nunca barretes de pele. Chapéus e peles fazem as mulheres vaidosas, dissera ela. Deus não gosta de mulheres vaidosas.

            Atravessei lentamente a ponte, o rio também cheirava a fumo. Pensei nas pedras e era como se o pensamento não fosse da minha cabeça. Vinha de fora e passou por mim. Ele podia afastar-se de mim como quisesse, depressa ou devagar, tal como das barras da balaustrada. Antes de terminar a ponte, eu queria ver se, a esta hora, o rio estava deitado de barriga para baixo ou de costas. A água jazia lisa entre as margens, e eu pensei para mim: Não preciso de barretes de pele, preciso é de dinheiro, para que a Senhora Margit não me faça mais festas.

            Quando entrei no quintal, o neto da Senhora Grauberg estava sentado nas escadas. O Senhor Feyerabend escovava os sapatos à porta. O neto brincava aos fiscais de transportes públicos consigo mesmo. Sentado era passageiro.

De pé era fiscal. Dizia: Os bilhetes, por favor. Tirava o bilhete de uma mão com a outra mão. A mão esquerda era o passageiro, a direita, o fiscal.

            O Senhor Feyerabend disse: Vem cá que eu faço de passageiro. Eu prefiro ser as duas coisas ao mesmo tempo, disse a criança, assim sei quem é que não vai encontrar o bilhete.

            Como vai Elsa, perguntei. O Senhor Feyerabend olhou para o barrete de pele na minha mão: De onde é que vem. Cheira a fumo.

            Antes de eu achar qualquer palavra, ele poisou a escova dentro de um sapato e quis passar pela criança. A criança esticou o braço e disse: Aqui ninguém muda de carro, fique onde está. O Senhor Feyerabend levantou sem uma palavra o braço da criança, como se levanta uma cancela. Agarrara o braço com força excessiva. Ainda se viam os dedos no braço da criança e já o Senhor Feyerabend ia a descer as escadas em direcção ao jardim do buxo.

            Aquando do nosso despedimento, Edgar dissera: Chegámos à última estação. Georg abanara a cabeça: À penúltima, a última é a saída do país. Edgar e Kurt acenaram. Creio que fiquei espantada por isso não me surpreender. Eu acenara sem pensar duas vezes. Sem querer, tínhamos permitido que a palavra se aproximasse de nós pela primeira vez.

            Escondi o barrete de pele no fundo do meu armário. Talvez ele seja mais bonito no Inverno que agora, pensei para mim. Tereza experimentara-o e dissera: Fede a folhas apodrecidas. Eu não sabia se ela estava a referir-se ao barrete que tinha na cabeça, pois pouco antes tinha-me mostrado a noz. Voltou a abotoar a blusa e olhou para o barrete ao espelho. Tereza estava zangada, porque eu dissera que a noz era mais pequena há duas semanas. Ela queria que eu mentisse. Eu queria que ela fosse ao médico. Eu vou contigo, disse eu. Ela assustou-se e levantou as sobrancelhas, o pêlo áspero de castor a tocar-lhe na testa enchia-a de nojo.

Tereza arrancou o barrete da cabeça e pôs-se a cheirá-lo. Não sou nenhuma criança, disse Tereza.

            Nessa noite entretive-me muito tempo com o atormenta-galinhas. O bico da galinha vermelha não chegava bem até à tábua. A galinha inclinava o pescoço, como se tivesse vertigens. Não conseguia debicar. O fio que, responsável por levantar-lhe e baixar-lhe o pescoço, lhe atravessava a barriga tinha-se emaranhado. A luz caía-me no braço, deixando escapar as nódoas de café no meu regaço. A galinha vermelha resplandecia teimosa e secamente como um cata-vento. Embora não conseguisse debicar, não parecia doente, mas satisfeita e obstinada em voar.

            A Senhora Margit bateu à porta e disse: Não consigo rezar com tanto matraquear.

            O Capitão Pjele disse: Vives de aulas particulares, da instigação popular e da putaria. Tudo coisas contrárias à lei. O Capitão Pjele estava sentado à sua enorme e brilhante secretária e eu, encostada à parede em frente, a uma mesinha nua de pecadora. Vi, debaixo da mesa, dois tornozelos brancos. E, na cabeça, uma careca tão húmida e abobadada como as gengivas na minha boca. Levantei a ponta da língua. A cavidade bocal chamava-se na língua dele céu-da-boca. Vi a careca deitada numa almofada de caixão, cheia de serradura, e os tornozelos debaixo de uma mortalha.

            E, de resto, como tens passado, perguntou o Capitão Pjele. O rosto dele não era malévolo. Eu sabia que tinha de ter cuidado, porque a dureza atacava sempre pelas costas, quando tinha o rosto calmo. Tenho sorte com o senhor, disse eu. Vou indo como o senhor quer. É para isso que lhe pagam.

            A tua mãe quer ir para sair do país, disse o Capitão Pjele, está aqui escrito. Abanou uma folha escrita. Tinha uma letra qualquer, mas não acreditei que fosse a da minha mãe. Eu disse: Lá por ela querer, isso não significa que eu queira.

            Nesse mesmo dia perguntei à mãe, numa pequena carta, se a letra era dela. A carta nunca chegou.

            A Edgar e Georg o Capitão Pjele dissera uma semana mais tarde que eles viviam da instigação popular e do parasitismo. Tudo coisas contrárias à lei. Toda a gente sabe ler e escrever neste país. Se se quiser, qualquer um pode escrever poemas sem pertencer a uma organização criminosa e inimiga do Estado. A nossa arte quem a faz é o próprio povo, o nosso país não precisa para isso de uma mão-cheia de marginais. Se querem escrever em alemão, por que não vão para a Alemanha, talvez lá se sintam em casa, no lodaçal. Sempre pensei que ganhassem juízo.

            O Capitão Pjele arrancou um cabelo a Georg. Pô-lo debaixo do candeeiro e riu-se. Um bocadinho crespo do sol, como nos cães, disse ele. Mas não é nada que não vá ao lugar à sombra. Lá em baixo, nas celas, está fresquinho.

            Agora podeis ir, disse o Capitão Pjele. O cão Pjele estava sentado à porta. Não se importa de chamar o cão, pediu Edgar. O Capitão Pjele disse: Porquê, está aí tão bem, à porta.

            O cão Pjele rosnou. Não saltou. Arranhou os sapatos de Georg e mordeu a bainha das calças de Edgar. Quando Edgar e Georg já estavam lá fora, no corredor, ouviram uma voz chamar: Pjele, Pjele. Não era a voz do Capitão, disse Edgar Talvez fosse o cão a chamar o Capitão.

            Georg esfregava os dentes com o dedo. Ouviu-se uma chiada. Rimo-nos. É assim que se faz, disse Georg, quando se é preso sem escova de dentes.

            Dei três explicações aos filhos do homem das peles: A mãe é boa. A árvore é verde. A água corre.

As crianças não repetiam, a areia é pesada. Mas: A areia é bonita. Não diziam: O sol queima. Mas: O sol brilha.

Queriam saber como se diz operário-modelo em alemão, e como se diz caçador. Como se diz Jovem Pioneiro'.

            O marmelo está maduro, disse eu a pensar na ama de Tereza e na dureza de marmelo da língua alemã. O marmelo tem pelinho, disse eu. O marmelo tem bicho.

            A que cheirava eu para estas crianças.

            Marmelos, disse a criança mais pequena, não gostamos nada de marmelos. E de pele, perguntei. É uma palavra tão pequena, disse a criança maior. Pêlo, disse eu. Também não é muito mais comprida, disse a criança.

            Quando lá cheguei pela quarta vez, a mãe das crianças estava na rua de vassoura na mão, à porta do prédio. Vi-a de longe. Não estava a varrer, estava encostada ao cabo. Quando me aproximei, ela começou a varrer. Só quando a cumprimentei é que ela olhou para mim. Nas escadas havia um pacote embrulhado em papel de jornal.

            As coisas não estão a correr bem na fábrica, disse ela, já não podemos pagar as explicações. Encostou a vassoura à parede, pegou no pacote e estendeu-mo. Uma almofada de vison e luvas de carneira genuína, murmurou.

            Tinha os braços caídos, não ergui a mão. Por que está aqui a varrer, perguntei, os choupos são mais ali. Sim, disse ela, mas a poeira está aqui.

            Q cabo da vassoura lançava a mesma sombra na parede que a enxada do pai no jardim quando a criança desejava que os cardos-do-coalho sobrevivessem ao Verão.

            A mulher deixou o pacote nas escadas e veio atrás de mim: Espere que eu quero dizer-lhe uma coisa. Apareceu aqui um a dizer mal de si. Não acredito numa palavra, mas não posso admitir estas coisas em minha casa. Tem de entender, as crianças ainda são muito pequenas para coisas destas.

 

Organização que agrupava crianças e adolescentes e em que se procurava instilar nessa faixa etária os princípios ideológicos do regime. (N. da T.)

            Na folha que o Capitão Pjele agitara a letra era da mãe. De manhã, às oito horas, a mãe tinha sido chamada ao polícia da aldeia. Ele ditara, a mãe escrevera. O polícia mantivera a mãe dez horas fechada no seu gabinete. Ela sentara-se à janela. Não se atrevera a abrir a janela. Quando alguém passara, ela batera no vidro. Na rua, ninguém levantara a cabeça. É sabido que não se deve olhar, disse a mãe. Eu também não teria olhado, porque assim como assim não se pode ajudar.

            Para combater o tédio, disse a mãe, limpei o pó ao gabinete. Encontrei um pano ao pé do armário. É melhor que estar só para ali sentada a pensar na avó, pensei. Ouvi o sino da igreja antes de a chave entrar na fechadura. Eram seis horas da tarde, disse a mãe. O polícia acendeu a luz. Não reparou que estava tudo limpo. Tive medo de lho dizer. Agora lamento não ter dito, ele ter-se-ia alegrado. Um homem tão jovem sozinho na aldeia. Não tem quem lhe faça um jeito.

            Ele ajudou-me muito, disse a mãe. Estou de acordo com o que ele ditou. Sozinha não teria conseguido escrever tudo aquilo. Leva de certeza muitos erros, é que não tenho muito prática de escrever. Hão-de percebê-la assim, senão ele não a teria enviado para o Serviço de Passaportes.

Em cima da cama só se viam cuecas de algodão. Setenta pares, disse a modista.

            Em cima da mesa havia muito cristal. Vou a Budapeste, disse ela, por que não voltaste para casa agora que foste despedida. Já não é a minha casa, disse eu. A modista estava a fazer um roupão para a viagem.

            Não estarei no quarto durante o dia, só de manhã e à noite. Desta vez fico uma semana. Quem perde o juízo como a tua avó não pode ser insensível, disse ela. Quanto mais não fosse por ela tinhas obrigação de voltar para casa. Ela vestiu o roupão. Um alfinete picou-lhe a nuca. Eu tirei o alfinete e disse: to pouparão àquilo de que me acusas.

            No roupão havia um capuz enorme preso com alfinetes. Enfiei o braço lá dentro, até ao cotovelo. Ela virou a cabeça para mim e disse: O capuz é o coração do roupão. Pode chorar-se sem lenço, ainda ontem à noite experimentei. Ele escorregou-me para o rosto, e as lágrimas foram limpas, não tive de fazer nada. Meti o dedo na ponta do capuz e perguntei: Por que choraste tu.

            Ela despiu o roupão antes de eu poder tirar o dedo da ponta do capuz. A minha irmã e o marido, disse ela, fugiram antes de ontem. Talvez já tenham chegado, as cartas apontavam para este dia. Mas a paciência mostrou-me vento e chuva. Talvez fosse só na fronteira, aqui esteve seco e tranquilo.

            A máquina de costura obrigava o capuz a passar lentamente por baixo da agulha, o carretel ia carregando a linha. O que a modista ia dizendo soava tão seco como o saltitar do fio através dos mecanismos férreos da máquina de costura.

            Espero que o empregado da alfândega ainda se lembre de mim. Vou levar na viagem a mesma roupa que daquela vez, foi assim que ficou combinado. Eu prefiro, disse a modista com um alfinete na boca, que as pessoas encomendem o que querem. Depois quando eu voltar vêm buscar as coisas. Assim os indecisos não me enchem a casa, remexendo tudo e não comprando quase nada.

            Os alfinetes tinham sido todos retirados do tecido. Os alfinetes tinham, como as frases, sido metidos uns a seguir aos outros na boca da modista, antes de ficarem junto ao braço dela, em cima da máquina. O capuz fora cosido, as extremidades foram-no mesmo duas e três vezes. A modista deu pequenos nós na ponta da linha. Para que não esgacem, disse ela. Empurrou a ponta do capuz para fora com a ponta da tesoura. Pôs o capuz na cabeça, mas não enfiou as mangas.

            Na Hungria, pode comprar-se um anão de nariz grande, disse ela. Ele acena com a cabeça. Se lhe dermos um toquezito e andarmos todo o dia na direcção para que o seu nariz apontou depois de parar, isso dá sorte. É caro, mas desta vez trago um anão da sorte, disse ela.

O capuz cobria os olhos da modista: O anão chama-se Imré. Olha sempre ou para a esquerda ou para a direita, nunca em frente.

            Abri a carta da mãe. A seguir às dores nas cruzes, podia ler-se: O barbeiro foi ontem a enterrar. Tinha envelhecido tanto nas últimas semanas e ficado tão tonto que não o terias reconhecido. Antes de anteontem festejou-se o nascimento de Maria. Estava eu sentada no quintal a descansar, porque não se deve trabalhar nos feriados. Estava a observar como as andorinhas se juntam nos fios da electricidade e a pensar que daqui a nada o Verão estava a terminar. Foi nessa altura que o barbeiro apareceu no quintal. Tinha calçado um sapato de cada nação: um chinelo e uma sandália. Trazia o tabuleiro de xadrez debaixo do braço e perguntou-me pelo avô. Eu disse: Mas ele morreu. Então ele levantou o tabuleiro de xadrez e disse: Então que hei-de eu fazer. Não se pode fazer nada, disse eu, o melhor é você ir para casa. Já irei, disse ele, mas primeiro quero jogar um jogo com ele.

            Instalou-se e seguiu-me os olhos em direcção às andorinhas. Senti-me mal na minha pele. Então disse: O meu pai foi ter consigo, está à sua espera em sua casa. E ele foi-se embora.

            Depois do despedimento, Edgar e Georg disseram-me: Somos livres como cães de subúrbio. Só Kurt permanece amarrado, para proteger o segredo dos tragadores de sangue. Georg mudou-se temporariamente, disse ele, para junto de Kurt, para a aldeia dos cúmplices.

            Sempre que Georg atravessa a aldeia, os cães desatam a ladrar, disse Kurt, tão estranho ele é ali. Só numa coisa é que Georg deixara de ser estranho: tinha começado um amor com uma jovem vizinha.

            Com a filha indiscriminadamente sorridente de um tragador de sangue, disse Kurt. Logo na primeira noite, vinha eu do matadouro, vi Georg atravessar com esta simplória o campo de restolho onde, à tarde, ainda havia trigo. Ambos tinham sementes de erva no cabelo.

            Georg afirmava ter namoriscado a vizinha um pouco por todo o quintal, mas tinha sido ao contrário. Ela também tentara com Kurt.

            Ela tem olhos sarapintados, disse Kurt, e o traseiro pesa o mesmo que um navio. E com ela só se pode falar sobre a rentabilização máxima dos tomates. Mas mesmo sobre isto sabe menos do que a avó dela já esqueceu. Aquela abre as pernas a qualquer um. No princípio do ano, deitou-se no campo com um polícia, assim como se ele estivesse a examinar brevemente o progresso das beterrabas. Edgar tinha a certeza de -que o polícia da aldeia a tinha mandado ir primeiro atrás de Kurt e depois atrás de Georg.

            Desde que fora despedida, os dias pendiam da corda dos acasos, baloiçavam e atiravam-me ao chão.

            A anã com a trança de erva continuava sentada na Trajanplatz. Embalava uma maçaroca verde nos braços e falava com ela. Abria-a e pegava no tufo de barbas de milho claras. Afagava as faces com as barbas do milho. Comia-as e aos grãos leitosos.

            Tudo o que a anã comia se tomava num filho. Era magra e a barriga, gorda. Os operários por turnos tinham-na enchido com a cobertura de uma noite no princípio do ano, que haveria de ter sido tão tranquila como a anã era muda. Os guardas tinham sido atraídos para outras mas pelas ameixoeiras. Ou os guardas tinham perdido a anã de vista, ou tinham sido instruídos para fazer vista grossa. Talvez tivesse chegado a hora de a anã morrer a dar à luz um filho.

            As árvores da cidade amareleceram, primeiro os castanheiros, depois as tílias.

Nos ramos amarelos eu vira apenas, depois do despedimento, um estado de coisas, mas não o Outono. Que o céu, às vezes, tivesse um cheiro amargo tinha que ver com o meu olfacto e não com o Outono. Matutar sobre plantas que desistem quando se teria de fazer o mesmo era-me muito difícil. Por isso via-as sem olhar até a anã encher a boca com as barbas de milho e com os grãos leitosos deste princípio de Outono.

            Encontrei-me com Edgar na Trajanplatz. Ele chegou de sacola de linho branco. Estava meia cheia de nozes, deu-mas. Fazem bem aos nervos, disse ele sarcasticamente. Coloquei uma mão-cheia de nozes no colo da anã. Ela pegou numa, meteu--a na boca e tentou abri-la com os dentes. Cuspiu a noz como uma bola. A noz rebolou pela praça. Então a anã pegou numa noz de cada vez e fê-las rolar pelo empedrado. Os transeuntes riam-se. Os olhos da anã eram grandes e sérios.

            Edgar pegou numa pedra do tamanho de uma mão, que estava ao pé do contentor do lixo. Tens de parti-las, disse à anã, lá dentro há que comer. Partiu a noz. A anã manteve os olhos fechados e não parou de abanar a cabeça.

            Edgar atirou, com o sapato, a noz partida para a berma da estrada e deitou a pedra no lixo.

            A criança põe uma noz na mão esquerda e outra na mão direita do pai. Imagina que as nozes são duas cabeças: a cabeça da mãe e a do pai, a cabeça do avô e a do barbeiro, a cabeça do rapaz-demónio e a sua própria. O pai entrelaça os dedos.

            Ouve-se um estalido.

            Pára, diz a avó-cantadeira, isso bole-me com os nervos.

A criança deixa a avó-cantadeira fora do jogo, porque assim como assim os estalidos lhe bolem com os nervos.

            Quando o pai abre as mãos, a criança olha para ver que cabeça se salvou e que cabeça se partiu.

            Da Trajanplatz fomos pela ruela estreita que tornejava como uma foice. Edgar andava muito depressa, tinha posto a anã a chorar por ter partido a noz. Ia a pensar nela.

            Proíbo-te de fazeres isso, disse Edgar, tenho de regressar ainda esta noite, não tenho onde dormir. Tens de prometer que não vais fazer isso. Eu não disse nada. Edgar parou e desatou a gritar: Estás a ouvir. Um gato trepou a uma árvore. Eu disse: Vês, ele tem sapatos brancos.

            Tu não és só tu, disse Edgar. Não deves fazer nada que não tenhamos combinado. Se te deitam a mão, somos todos culpados. Não vale a pena. Edgar tropeçou numa raiz que jazia no asfalto como um braço.

            Estava farta da voz dele. Não me ri, porque ele tropeçou, mas de raiva. Quando vocês ainda estavam lá nas vossas escolas, já eu tinha a minha vida, disse eu. Tu falas por todos, mas Georg e Kurt estariam de acordo.

            Come as nozes, disse Edgar, para ver se ganhas juízo.

            Edgar vivia com os pais no campo. Eles não lhe atiravam o despedimento à Cara. Já antigamente era assim, disse o pai de Edgar. Durante a ocupação húngara, não deixaram que o teu avô fosse promovido a chefe de estação, porque ele não quis que lhe mudassem o nome para um magiar. Ficou-se apenas pelo trabalho de cantoneiro e pela construção do viaduto no vale. Depois um pateta qualquer, que escrevia o nome com sz, ficou com o uniforme e passou a aquecer o eu numa cadeira de cabedal. E, sempre que o comboio apitava, saltitava e dava pulinhos à porta com a sua bandeirinha suja. Endireitava os , jarretes e fazia-se importante. O teu avô ria a bandeiras despregadas quando o via.

            Após o comboio da noite ter partido, levando Edgar pelos carris, reparei nas pedras entre traves. Não eram maiores que nozes.

Mais lá à frente, os carris abriam caminho por entre erva oleosa. O céu era mais comprido que eles. Fui lentamente seguindo a direcção do comboio até a plataforma terminar. Depois voltei para trás.

            Em frente do relógio grande da estação, observei como pessoas se apressavam com sacos e cestos, como o braço dos segundos saltava, como os autocarros quase roçavam com as barrigas nas casas, ao darem a volta na esquina. Nessa altura, já só tinha a sacola, esquecera-me das nozes de Edgar no banco. Voltei à plataforma. O comboio seguinte já estava nos carris. O banco estava vazio.

            Só havia um caminho debaixo dos meus pés: o caminho para a cabina telefónica.

            Tocou duas vezes, eu dei um nome diferente. O pai de Tereza acreditou em mim e chamou-a.

            Tereza veio à cidade, encontrar-se comigo ao pé do salgueiro-chorão com três troncos que florescia na margem do rio, bem longe dos olhares. Mostrei-lhe o frasco de conserva e o pincel que tinha na mala.

            Eu mostro-te a casa, disse Tereza, mas não quero ter nada que ver com isso. Espero por ti na outra rua. Eu tinha cagado no frasco de conserva e decidira ornamentar a casa do Capitão Pjele. Queria escrever Patife ou Porco na parede debaixo das janelas altas. Uma palavra curta, que não demorasse a escrever.

            Na casa, onde o Capitão Pjele supostamente morava, havia um outro nome'. Contudo, Teresa sabia onde vivia o director da fábrica. Fomos até lá.

            Por detrás dos cortinados, via-se ainda luz. Tereza e eu esperámos. Faltava pouco para a meia-noite, andávamos de um lado para o outro. As pulseiras de Tereza tilintavam, e eu disse: Tira-as.

 

Na Europa Central, os endereços constam de número da porta e nome de família das pessoas que habitam o andar. Este aparece depois junto à respectiva campainha. (N. da T.)

 

Depois era o vento que embatia em toda a espécie de objectos negros. Vi pessoas especadas onde só havia arbustos. Vi rostos em carros estacionados onde os assentos estavam desocupados. Caíam folhas no caminho onde não havia árvores. Os nossos passos pateavam e arranhavam o chão. Tereza disse: Os teus sapatos não prestam.

            A lua era um croissant. Amanhã estará mais claro, disse Tereza, ela está a crescer, tem a marreca para a direita. O candeeiro de rua fica à frente da casa. Estas casas estão sempre iluminadas. Isso é bom, porque se vê a parede, mas também nos vêem a nós.

            Procurei o sítio certo entre as duas janelas do meio. Meti o pincel no bolso do casaco, abri a tampa do frasco e dei-a a Tereza. Deixei a mala aberta.

            Tresanda como se já te tivessem apanhado, disse Tereza. Foi com a tampa para a outra ma.

            Quando cheguei à outra rua, não havia ninguém. Fui de cerca em cerca, de porta em porta, de árvore em árvore. Só no fim da ma é que me apareceu alguém saído de um tronco como de uma porta. Tive de olhar três vezes até se transformar em Tereza. Cheirei-lhe o perfume.

            Vamos, disse ela, pegou-me no braço, meu Deus, demoraste tanto, que andaste a escrever. Eu disse: Nada. Só deixei o frasco à porta.

            Tereza riu-se como uma galinha. O pescoço comprido, pálido alongava-se ao meu lado, como se as pernas lhe começassem nos ombros. Ainda tresanda, disse Tereza, ficou em ti o cheiro. Onde está a tampa, perguntei. Na árvore onde fiquei à espera, disse ela.

            Atirámos o pincel da ponte para o rio. A água estava negra e tão tranquila como a espera na cabeça.

Suspendemos a respiração e não ouvimos nada cair. Tinha a certeza de que o pincel não caíra à água. Inspirei e tive de tossir, porque os pêlos do pincel me faziam comichão na garganta. Vi a lua-croissant e tive a certeza de que o pincel ficara no ar pintando a esfera de estrias negras sobre a cidade — a noite.

            Edgar voltara à cidade. Estávamos há horas à espera de Georg na tasca. Não veio. Vieram dois polícias, andaram de mesa em mesa. O proletariado dos carneiros de chapa e dos melões de madeira mostrou as identificações e indicou o local de trabalho.

            O maluco da barba branca puxou um polícia pela manga, estendeu o lenço que, dobrado, cabia numa mão e disse: Professor de Filosofia. O maluco foi arrastado para fora pelo empregado de mesa. Vou processá-lo, meu rapaz, gritava ele, a si e aos polícias, mas os carneiros devoram. Os carneiros vão apanhar-vos, não se iludam. Esta noite cai uma estrela, e os carneiros vão devorar-vos nas almofadas como erva.

            Edgar mostrou a identificação. Professor na Escola Industrial, ali ao pé do Museu, disse ele. Eu apresentei a minha identificação e disse. Tradutora e o nome da fábrica de onde tinha sido despedida. Tinha a cabeça a escaldar, olhei penetrantemente o polícia nos olhos para que ele não reparasse como as veias me latejavam na cabeça. Folheou as nossas identificações e devolveu-no-las. Edgar disse: Ainda bem.

            Viu as horas, tinha de ir apanhar o comboio. Fiquei sentada à mesa e vi como a mão dele afagou o assento da cadeira vazia quando se levantou para sair. Empurrou o encosto em direcção à borda da mesa e disse: Georg agora já não vem.

            Os operários por turnos tornaram-se mais ruidosos depois de Edgar se ir embora. Os copos tilintavam, o fumo dançava pelo ar. Empurravam-se cadeiras, arrastavam-se sapatos. Os polícias tinham-se ido embora. Bebi mais uma cerveja, embora cada trago me soubesse a chá para bexiga.

Um homem gordo de bochechas vermelhas puxou a empregada de mesa para o seu colo. Ela riu-se. Um desdentado mergulhou a salsicha na mostarda e meteu-a na boca da empregada. Ela trincou e, enquanto mastigava, limpou a mostarda do queixo com o braço nu.

Como estes homens se babam de desejo, como, entre turnos, fora de casa, tentam abocanhar o amor para logo escarnecerem dele. Os mesmos homens que tinham ido atrás de Lola para o parque desgrenhado, que tinham enchido a anã na praça, em noites tranquilas. Que vendiam Jesus na cruz metido em sacos e depois espatifavam o dinheiro em bebida. Que levavam às mulheres rins de vitela ou parque. E ofereciam aos filhos ou às amantes lebres de um cinzento-poeira, para se entreterem. Também Georg, mais o seu atormenta-galinhas, era um deles, e a vizinha com os olhos sarapintados no círculo dos cúmplices, e de quem Kurt dizia que ria como um bicho caído também. Mas Kurt também não era diferente, com os seus ramos de flores campestres, que, após viagens longas e quentes, chegavam tarde de mais às mãos da Senhora Margit e de cabeça pendente. Mesmo a modista que recebia dinheiro pelo destino e enchia os filhos de corações de ouro. Nem a mulher do homem das peles mais o seu barrete de castor. Nem Edgar mais as suas nozes. Mas também eu era um deles, mais os meus rebuçados húngaros para a Senhora Margit. E mais o homem que não me fazia falta depois da sua morte. O que houvera entre nós parecia-me tão comum como um pedaço de pão depois de comido. Mesmo o lugar de erva na floresta. E que eu sou uma bóia de pernas abertas e olhos fechados, que aguenta as árvores com os ninhos de gralha a assistirem a este pedaço de esterco a queimar-se e a gelar no chão.

O maluco da barba branca voltara à tasca.

Arrastou-se até à minha mesa e bebeu o dedo de cerveja que ficara no copo de Edgar. Ouvi-o a engoli-la e pensei no sonho que contara a Edgar:

            Uma trotinete pequena e vermelha, na qual um motor resmunga. Só que ela não tem motor, o homem na tábua tem de fazê-la andar com o pé. Anda a grande velocidade, ao andar o cachecol esvoaça-lhe. Devia ser num quarto, dissera eu, porque a trotinete anda num chão de parque em direcção a um rodapé e desaparece pela frincha escura entre o parque e o rodapé. Depois da trotinete e do homem desaparecerem, a frincha apresenta olhos brancos. Um dos transeuntes que passam por mim no parque, diz: É a trotinete-acidente.

            Mais vale a avó andar sempre a cantar, a mãe sempre a estender massa na mesa, o avô sempre a jogar xadrez, o pai sempre a arrancar cardos-de-coalho do que, de repente, sabe-se lá como se modificarem. Mais vale ficarem assim parados no tempo, feios como são, do que se tornarem outras pessoas, pensa a criança para si. Mais vale estar em casa entre pessoas feias, no quarto e no quintal, do que pertencer a estranhos.

            Dois dias mais tarde, Kurt veio à cidade. Ofereceu à Senhora Margit um ramo de campainhas-do-monte. Elas deitavam as línguas vermelhas de fora e cheiravam a bolos.

            Ontem à noite a vizinha dos olhos sarapintados, disse Kurt, bateu à minha janela. Trazia uma lebrezita nos braços e disse que Georg começara uma briga com um desconhecido na estação da cidade. Ontem de manhã estive na aldeia, disse Kurt. Do outro lado da rua, o polícia chamou-me. Não fui até lá, permaneci onde estava. Baixei-me e apanhei uma folha amarela do chão. Meti-a na boca. O polícia atravessou a rua, ofereceu-me a mão e convidou-me para beber uma aguardente em casa dele. Eu disse-lhe que parasse de me tratar por tu.

Ele disse: É o que vamos ver. O polícia mora ao pé da casa onde estávamos. Recusei a aguardente. O polícia esperava que eu fosse andando, mas não arredei pé, limitei-me a girar a folha mais depressa na boca. Ele nada mais tinha para dizer, mas também não podia ir-se embora. Para não ter de olhar para a folha a girar na minha boca, baixou-se e apertou os sapatos. Cuspi a folha para o chão, mesmo para junto da mão dele e deixei-o ali. Ele disse qualquer coisa nas minhas costas, provavelmente uma praga.

            Kurt e eu fomos ao hospital. Kurt deu uma garrafa de aguardente ao porteiro. Ele aceitou-a e disse: Tem um quarto só para ele, no terceiro andar. Digo-vos isto, ainda que não devesse. Mas não vos posso deixar subir.

            Ao atravessarmos a cidade no caminho de regresso, Kurt disse: A lebrezita que a vizinha trazia nos braços, foi Georg que lha deu. Georg salvou-a de um gato nos campos e ofereceu-a à filha de um tragador de sangue. É tão bonita, cinzenta com a terra poeirenta. Tremia tanto quando Georg o trouxe. Tem a pele muito fina na barriga. Pensei, vão cair-lhe as tripas, quando me saltou da mão.

            Como é que a amásia soube que Georg está no hospital, perguntei. Pela lebrezinha, disse Kurt e riu-se.

            Georg tinha o maxilar partido. Quando lhe deram alta do hospital, Georg disse: Conheço a cara dos três assaltantes, da cantina, dos nossos tempos de estudantes. Mas só de vista. Não sei como se chamam.

            Tinham-lhe dado um encontrão quando ele saíra do comboio. Ele desviara-se. Pensei que iam atacar logo, disse Georg. Deixaram-me sair da estação, porque na plataforma havia gente de mais para o gosto deles.

            Ao pé da paragem dos autocarros, tinham empurrado Georg para o canto, entre a parede e o quiosque.

Punhos e sapatos, não vira mais nada, disse Georg.

            Um homenzinho seco acordara Georg no hospital. Estava aos pés da cama, tirou a carteira do casaco e deixou dinheiro na mesa-de-cabeceira e disse: Assim ficamos quites. Georg atirou-lhe primeiro a almofada e depois a chávena de chá à cabeça. Ele sorriu, o chá a escorrer-lhe pelo cabelo, disse Georg. Levou o dinheiro sujo da mesa-de-cabeceira e foi-se. Não era nenhum dos assaltantes.

            A amásia dos olhos sarapintados foi, com a lebrezinha poeirenta no cesto, à cidade visitar Georg ao hospital. Deixaram-na ir ao quarto. Teve de deixar a lebre com o porteiro. O porteiro deu-lhe pão. A amásia levou maçãs e bolo a Georg e fez-lhe festas no cabelo. Mas Georg queria saber quando é que ela vira o polícia da aldeia pela última vez.

            Ela é demasiado estúpida para mentir, disse Kurt, bebeu um gole de chá da chávena de Georg e desatou num pranto. Georg berrou com ela. Atirou-lhe as maçãs e o bolo para dentro do cesto e mandou-a embora. Ela deixou a lebrezita com o porteiro, ele pertencia ao doente que ela visitara, disse ao porteiro. Ele vem buscá-lo quando tiver alta.

            Quando, dez dias mais tarde, Georg saiu pelo portão, o porteiro bateu no vidro e apontou para a lebre. Estava numa gaiola na prateleira dos chapéus a devorar cascas de batata. Georg acenou e seguiu em frente. O porteiro gritou: Não pense em vir depois, no sábado à noite vai ser esfolada.

            A queixa contra os assaltantes não foi aceite pelo tribunal. Não tínhamos esperado outra coisa.

            Quando Georg chegou ao tribunal, o funcionário sabia quem tinha à sua frente. O Capitão Pjele tivera dez dias de avanço. Georg disse: Vou tentar à mesma.

            Onde é que trabalha, perguntou o funcionário. Queixas contra desconhecidos sem provas, isso é fácil, qualquer um nesta terra pode fazê-lo se não tiver mais que fazer.

            Eu tenho mais que fazer, venho do hospital, porque me maltrataram, disse Georg. E onde está o relatório de alta que comprova tudo isso, perguntou o funcionário. Não tenho nenhum, porque o médico foi a um casamento no dia em que me foi dada alta, disse Georg.

            Georg tinha o relatório de alta no bolso, mas lá dizia: Gripe de Verão com náuseas.

            Lá que sofre, sofre, disse o funcionário, mas é de preguiça, imaginação e mania da perseguição. Leve mas é a folhinha consigo, e dê-se por contente por não constar aí a sua verdadeira doença. Sente-se inocente. Ninguém é espancado sem motivo.

            Georg passou o resto do dia na tasca ao pé da estação. Tinha comprado um bilhete para ir para casa dos pais. Quando chegou à plataforma de bilhete na mão, Georg sentou-se no banco. Observou as pessoas a subir e a descer as escadas com cestos e sacos. As portas estavam abertas, as cabeças saíam, umas ao lado das outras, das janelas das carruagens. As mulheres comiam maçãs, as crianças cuspiam para a plataforma, os homens cuspiam para os pentes e penteavam-se. Georg foi assaltado por uma onda de repugnância.

            As portas fecharam-se. O comboio apitou, as rodas rolaram, os que tinham subido olhavam para trás, para a plataforma.

            Não queria voltar, disse Georg, para uma modista com sardas que cose e passa a ferro e diz que o filho é um falhado. Que manda ao filho, nas costas do marido, e no mesmo sobrescrito, um dinheirinho e muitas censuras. E também não queria voltar para um pai reformado, que pensa mais na sua bicicleta do que no seu filho. Voltar para junto de Kurt, para a aldeia dos cúmplices, isso também Georg não queria. Nunca mais queria ver a vizinha com os olhos sarapintados.

            Também não queria ir para os pais de Edgar ou para a Senhora Margit, disse Georg. Só senti o desejo de não levar as minhas pernas a dar nem mais passo neste mundo. Fui para a sala de espera, cansado e vazio, mostrei o meu bilhete ao fiscal e deitei-me no banco. Adormeci imediatamente como uma peça de bagagem esquecida. Até ser dia e um polícia fazer o seu dever com o cassetete, dormi profundamente. Quando me vim embora, as pessoas na sala de espera falavam dos comboios da manhã. Tinham um destino.

            Bem acordado, Georg foi, sem dizer uma palavra a mim, a Edgar e a Kurt, ao Serviço dos Passaportes.

            Não estava interessado nas vossas palavrinhas de consolo, disse Georg, não queria ouvir da vossa boca as frases tranquilizadoras. Odiava-vos e, perturbado como estava, não podia nem ver-vos. Só de pensar em vocês ficava em brasa. Queria vomitar-vos da vida, e a mim convosco, porque sentia o quanto dependíamos uns dos outros. Daí que tenha chegado, sem dar por isso, ao Serviço de Passaportes e tenha preenchido no guiché, como um afogado, o requerimento para sair do país, que entreguei imediatamente. Depressa antes que o Capitão Pjele pudesse aparecer-me à frente. E, ao escrever, parecia-me que ele me olhava do papel.

            Georg já não era capaz de dizer o que tinha escrito.

            Mas que de preferência queria sair já hoje deste país, disse ele, isso está de certeza no requerimento. Agora já estou melhor, já me sinto quase pessoa. Depois de entregue o requerimento, não esperava voltar a ver-vos.

            Georg pôs a mão na minha cabeça e com a outra mão puxou a orelha a Edgar.

            Era a tua insegurança, disse Edgar, tiveste de te enganar a ti próprio. Nenhum de nós teria dito uma única palavrinha tranquilizadora contra a tua saída.

            A modista não regressara da sua viagem à Hungria.

Ninguém teria adivinhado uma coisa destas, disse Tereza. O deitar paciências tomara a modista invisível para toda a gente. Tereza ficara ofendida, encomendara um trevo de quatro folhas para o seu fio de ouro e não suspeitara de qualquer intenção de fuga por parte da modista.

            Agora a avó vive no andar com as crianças, disse Tereza. Estava sentada à máquina de costura, quando Tereza lá chegara, como se sempre tivesse sido assim. As crianças chamavam-lhe mãe, e por momentos Tereza interrogou-se se ela não era mesmo a modista. A mulher é tal e qual a modista, disse Tereza, só uns vinte anos mais velha. Uma parecença assim até mete medo. A avó fala húngaro com as crianças, sabias que a modista era húngara, por que terá ela escondido isso. Porque nós não falamos húngaro, disse eu. Também não falamos alemão, disse Tereza, e sabemos que tu és alemã. As crianças nem dão conta que a mãe se foi embora. Quanto tempo irão ainda poder dizer sem chorar: A nossa mãe está em Viena, a poupar para um automóvel.

            A noz debaixo do braço de Tereza estava tão grande como uma ameixa e começou a amadurecer, tornando-se azulada no meio. A bétula com o puxador de porta no tronco olhava para o quarto. Tereza estava a fazer um vestido para si própria, queria que eu ajudasse. A fazer as casas para os botões e a chulear as bainhas.

            Quando coso, o fio nos botões fica tão grosso que estraga tudo, disse Tereza, as bainhas saem todas tortas.

            O namorado de Tereza, o médico, que eu só vira uma vez com Tereza na cidade, trabalhava no hospital do partido. Fazia turnos de dia e de noite. Era ele que tratava da coluna do pai de Tereza, das varizes da mãe de Tereza, e da esclerose da avó de Tereza. Mas não queria examinar Tereza.

            Não vejo outra coisa dia e noite que não sejam doentes, dizia ele a Tereza, deito-os pelos olhos.

Contigo não quero brincar aos médicos. Que ela devia consultar ao médico a que costumava ir, dizia ele. Quando Tereza lhe dizia o que o outro médico achava, ele dizia: Ele lá sabe, e abanava a cabeça. O outro médico achava, a acreditarmos que Tereza alguma vez lá fora: Só quando o caroço crescer completamente é que se pode tirá-lo.

            Que o homem que amo não me queira examinar parece-me estranho, dizia Tereza. Mas não me sentiria bem se fosse ele a tratar-me. Tomar-me-ia como todos os outros cuja carne lhe passa pelas mãos, não restaria mistério nenhum.

            A mão de porcelana branca com as jóias de Tereza estava em cima da mesa, rodeada de restos de tecido.

            Quando durmo com ele, disse Tereza, nunca tiro a blusa, para que ele não veja a noz. Ele põe-se em cima de mim e vai ofegando até ao fim. Depois salta da cama e vai fumar, e eu gostaria que ele ficasse um pouco mais deitado ao pé de mim. Estamos os dois a pensar na noz. Ele chama-me infantil quando pergunto: Por que te levantas tão depressa. Agora já não faço perguntas, disse Tereza, o que não significa que isso não me perturbe.

            Põe o vestido, disse Tereza, talvez te sirva. Sabes bem que me está grande de mais, disse eu.

            Mesmo que me servisse, eu não me teria metido lá dentro. A noz estava lá. Já quando, ao coser, tinha o vestido na mão, eu imaginava que estava a coser a noz a mim própria. Que a noz vinha passeando pela linha fora até ao meu corpo.

            Estava eu então a fazer as casas para os botões e Tereza convencida de que o vestido já não me agradava.

            O pai de Tereza tinha ido doze dias para o Sul do país, para erigir um monumento. Por isso, é que eu podia vir a casa dela. A mãe de Tereza tinha ido mais tarde, para estar presente na inauguração do monumento.

            Tereza não queria que a avó soubesse que eu estava lá. Tereza entreteve-a no jardim até eu estar no quarto dela. Ela não tem nada contra ti, dizia Teresa, às vezes até pergunta por ti.

Há uns anos ela ter-se-ia calado. Mas, desde que está esclerosada, tem a língua solta.

            Na carta da mãe vinham trezentos lei para a renda. A seguir às dores nas cruzes, podia ler-se: Vendi as batatas e poupei, para que não tenhas de fazer nada de que te envergonhes para ganhar dinheiro. As noites agora arrefeceram, ontem à noite acendi a lareira pela primeira vez. A avó continua a dormir ao relento. Os tractoristas, que vão lavrar o campo a meio da noite, costumam vê-la atrás do cemitério. Talvez alguma coisa a esteja a puxar para lá, isso seria muito bom.

            Ontem, o vigário veio ter comigo, de cara vermelha. Pensei que se andava a meter nos copos, mas estava vermelho de raiva. Ele disse: Pelo Santíssimo Sacramento, isto não pode continuar. Ontem a avó esgueirou-se, nas costas do acólito, para dentro a sacristia. Quando o vigário veio para celebrar a missa solene, ela apontou para a batina negra e o colarinho branco. Tu também és uma andorinha, disse, é só trocar de roupa e depois vamos voar os dois.

            Ambas as gavetas do armário da sacristia estavam vazias, a avó tinha comido as hóstias todas. A missa começou. Seis pessoas tinham-se confessado, disse o vigário. Vieram ao altar para a comunhão e ajoelharam-se para ali, de olhos fechados. Ele teve de fazer o seu dever diante de Deus. Foi com o cálice que continha apenas duas hóstias mordiscadas, de um lado ao outro. Elas abriam a boca para receber a hóstia. Ele teve de dizer como sempre o Corpo de Cristo. Na língua das duas primeiras, colocara uma hóstia mordiscada. A partir da terceira, começara a dizer o Corpo de Cristo e carregara-lhes com o polegar na língua.

            Tive de me desculpar, escreveu a mãe. Não lhe quero mal, disse o vigário, mas tenho de relatar isto ao Bispo.

            Georg foi morar com os pais de Edgar.

            A vizinha dos olhos sarapintados parece que desapareceu da face da Terra, disse Georg. O polícia aproveitou-se dela. Tem o quintal ceifado, mas a erva sobe ao céu. Que hei-de eu fazer todo o dia em casa de Kurt, escurece tão cedo. Kurt passa o dia inteiro no matadouro. À noite, fazia quatro ovos estrelados para nós dois, bebíamos aguardente para ajudar a digestão. Depois metia-se na cama com as mãos sujas. Enquanto Kurt dormia, eu andava pela casa toda com a garrafa de aguardente na mão. Lá fora, os cães ladravam, e umas quantas aves noctívagas berravam. Eu escutava e bebia a garrafa até ao fim. Quando estava meio embriagado, abria a porta da rua e olhava lá para fora, para o quintal. Na janela da vizinha havia luz. Enquanto lá fora era de dia, havia o quintal seco, e eu não queria saber dela para nada. Mas quando escurecia, só queria ir ter com ela. Fechava a porta da rua e deixava a chave enorme em cima do parapeito da janela. Teria voltado, de bom grado, a abrir a porta, para correr direitinho pelo quintal fora e ir bater àquela janela. Ela estava à espera que eu lá fosse uma noite. Só a chave grande no parapeito é que me impedia. Foi por um triz que não me meti outra vez na cama com ela.

            Quando Kurt dizia alguma coisa ao jantar, era sobre tubos, valas e vacas. E, está bem de ver, sobre os tragadores de sangue. Eu não conseguia engolir nem mais uma garfada, quando Kurt comia e falava de tragar sangue. Mas a ele sabia-lhe bem quando dizia: Quando mais frio está lá fora, mais sangue eles tragam. Comia os meus restos e molhava o pão na frigideira.

            De dia tinha de sair de casa, disse Georg, para um lado qualquer, senão ficava maluco. A rua da aldeia era morta, ia na outra direcção, para fora da aldeia. Não havia lugarejo onde eu já não tivesse estado pelo menos três vezes. Não tinha sentido andar a errar pelos campos. A terra estava molhada do orvalho e com o frio nunca chegava a secar. Estava tudo arrasado, arrancado, depenado, atado. A única coisa que se erguia era as ervas daninhas, que amadureciam até às raízes.

Espalhavam sementes. Eu pressionava os lábios, um de encontro ao outro e tinha sementes de erva na nuca, nos ouvidos e no cabelo. Faziam comichão, e eu tinha de me coçar. No meio das ervas daninhas havia gatos gordos à espreita. Os caules não restolhavam. As velhas lebres ainda conseguiam fugir. Os filhotes tropeçavam uns nos outros, depois estavam feitos. Não era a minha garganta em que firmavam os dentes. Gelado e sujo como uma toupeira, eu passava por tudo isto, nunca mais salvarei uma lebre.

            É verdade, disse Georg, estas ervas são belas, mas no meio delas, para onde quer que se olhe, os campos abrem, pelo menos é o que parece, a bocarra. O céu desaparecia, a terra colava-se aos sapatos. As folhas, caules e raízes das ervas eram vermelhas como o sangue.

            Edgar veio à cidade sem Georg. Ainda na noite anterior Georg se tinha alegrado com a perspectiva de finalmente sair da aldeia, de voltar a ver asfalto e eléctricos em vez de porcaria e erva. De manhã, andara a encanar a perna à rã e nunca mais ficava pronto.

            Georg não se queria apressar, Edgar intuiu que Georg queria perder o comboio. A meio do caminho, parou e disse: Volto para trás, não vou à cidade.

            Os seus lamentos sobre o estar sozinho em casa de Kurt eram apenas uma desculpa, disse Edgar. Ele agora não está sozinho, eu estou todo o dia em casa e os meus pais também. Mas não se pode falar com Georg. Parece um fantasma.

            Georg acordava de manhã cedo, vestia-se e sentava-se à janela. Quando os pratos e os talheres batiam uns nos outros, ele pegava na cadeira e vinha para a mesa. Depois da refeição, voltava com a cadeira para a janela. Punha-se a olhar lá para fora. Ali viam-se sempre a mesma madeira nua da acácia, a vala, a ponte, a porcaria e a erva, e nada mais. Quando é que chega o jornal, perguntava ele. Depois, quando o carteiro já tinha vindo, ele não tocava no jornal.

Estava à espera de notícias do Serviço dos Passaportes. Sempre que Edgar ia passear ou às lojas da aldeia, ele não queria acompanhá-lo. Não vale a pena calçar os sapatos, dizia ele.

            Os meus pais começam a estar fartos dele, disse Edgar. Não é por causa de lá comer e dormir, ele paga isso tudo, apesar de os meus pais não quererem o dinheiro. A minha mãe diz: Ele vive aqui connosco e nós incomodamo-lo, não tem maneiras nenhumas.

            A Edgar era cada vez mais difícil explicar aos pais que Georg dantes era diferente, que ele se tomara obstinado, porque tinha a cabeça cheia de problemas. Eles diziam: Porquê, não tarda nada terá o seu passaporte.

            Tudo começou naquela manhã de Outubro quando Georg voltou para trás a meio do caminho, e Edgar teve de ir sozinho à cidade, um dia nefasto.

No comboio viajava um grupo de homens e mulheres a entoar cânticos de igreja. As mulheres levavam velas acesas nas mãos. Os cânticos, porém, não eram arrastados e pesados como na igreja. Ajustavam-se à sibilação e aos estremeços do comboio. O coro de vozes baloiçava. As mulheres cantavam com vozes finas, altas, como se estivessem ameaçadas, como se se lamentassem em vez de gritar. Os olhos esbugalhavam-se-lhes da cara. Iam formando círculos tão largos com as velas que não havia como fugir ao medo de que a carruagem pegasse fogo. Os outros passageiros murmuravam entre si que eram membros de uma seita da aldeia vizinha. O fiscal não apareceu na carruagem, o coro não queria ser incomodado e subornara-o. Lá fora, o campo corria, milho seco, esquecido e caules negros de girassol sem uma folha. E, no meio deste ermo, uma das vozes do coro puxou o travão de emergência. Disse: Temos de orar aqui.

            O comboio parou, e o grupo desceu.

No arbusto, diante do qual o grupo se postou, ainda havia cotos de vela da última vez. O céu estava baixo, o grupo cantou, e o vento apagou as velas acesas. Os demais passageiros, que tinham permanecido na carruagem, acotovelavam-se às janelas para olharem lá para fora.

            Um homem e Edgar tinham ficado sentados. O homem estava a tremer, dobrava os dedos num punho. Dava com eles nas coxas e não tirava os olhos do chão. De repente, arrancou a boina da cabeça e começou a chorar. Estão à minha espera, disse ele alto para com os seus botões. Encostou o rosto à boina. Amaldiçoou a seita e disse: Foi dinheiro deitado à rua.

            Depois de o grupo da seita voltar a entrar, o comboio começou a lentamente andar. O homem choroso abriu a janela e deitou a cabeça de fora. Queria reduzir com os olhos a distância do terrapleno ferroviário. O homem pôs a boina e suspirou. O comboio dava tempo ao tempo.

            Pouco antes da cidade, as mulheres apagaram as velas e meteram-nas nos bolsos dos casacos. Os casacos compridos e os bancos estavam todos pingados de cera, pingos semelhantes a gordura fria.

            O comboio parou. Os homens desceram, atrás deles as mulheres. Atrás das mulheres, os demais passageiros.

            O homem choroso levantou-se, atravessou a carruagem rumo à retaguarda e olhou para a plataforma. Depois voltou para trás, sentou-se a um canto e acendeu um cigarro. Havia três polícias na plataforma. Quando já toda a gente tinha descido, eles entraram na carruagem e atiraram o homem para a plataforma. A boina caiu-lhe, levaram-no com eles. Do casaco caiu-lhe uma caixa de fósforos. O homem virou-se mais duas vezes para Edgar. Edgar apanhou a caixa de fósforos e meteu-a no bolso.

            Ficou parado diante do relógio grande da estação. O vento era cortante. Viu a esquina onde Georg tinha sido espancado. Entre o quiosque e a parede redemoinhavam folhas e papel. Edgar desceu a rua em direcção à cidade. Esta era omnipresente quando não se tinha rumo.

            Edgar foi ao barbeiro. Porque de manhã há menos clientes, disse Edgar. E depois disse: Porque não sabia o que havia de fazer, os meus cabelos começaram a incomodar-me. Queria ir para qualquer sítio quente, tinha a impressão de que precisava que alguém que não me conhecesse de lado nenhum se ocupasse uns minutos de mim.

            Edgar ainda se referia ao cabeleireiro dos tempos de estudante como o nosso barbeiro. Naquela época, Edgar, Kurt e Georg iam juntos ao homem dos olhos astutos, porque o descaramento do homem se suportava melhor a três. E porque ele só era cruel até começar a cortar. Depois tornava-se quase tímido, ou emudecia.

            O barbeiro estendeu a mão a Edgar: Com que então de volta à cidade. E os dois ruços, perguntou. O seu rosto não tinha envelhecido. Agora há muitos que já cá não vêm, pelo menos até ao princípio do ano, disse ele. Põem os bonés e gastam o dinheiro para o barbeiro em aguardente.

            O barbeiro tinha uma unha comprida no indicador direito, todas as outras estavam cortadas curtas. Com a unha comprida, separou o cabelo de Edgar em madeixas. Edgar ouviu a tesoura a abocanhar, o seu rosto foi diminuindo, o espelho ia-se afastando. Edgar fechou os olhos, sentia-se mal.

            O barbeiro não perguntara como é que eu queria cortar o cabelo, disse Edgar. Tosquiou-me por todos os que não vinham até ao princípio do ano. Quando me levantei da cadeira, tinha o cabelo curto como pêlo.

            Continuávamos a ver muita coisa da mesma maneira, como no tempo em que Edgar, Kurt, Georg e eu ainda éramos estudantes. Porém, a má sorte atacara-nos de modos diversos, desde que nos tinham espalhado pelo país. Permanecemos dependentes uns dos outros.

As cartas com os cabelos não serviam para nada, quando o medo que trazíamos na cabeça era legível na letra do outro. Cada um de nós tinha de enfrentar os seus carrapichos, brita-ossos, tragadores de sangue e máquinas hidráulicas, de escancarar os olhos e de fechá-los ao mesmo tempo.

            Quando fomos despedidos, vimos que passávamos pior sem esta perturbação fiel do que sob a sua coacção. Porque, com ou sem emprego, éramos considerados falhados pelos que nos rodeavam, passámos a acreditar que assim era. Embora examinássemos todas as razões e as mantivéssemos, não deixávamos de nos sentir assim. Estávamos gastos, fartos dos boatos sobre a morte próxima do Ditador, exaustos dos mortos em fuga, cada vez mais próximos dos obcecados com a fuga, sem darmos conta.

            O insucesso parecia-nos tão normal como o respirar. Era o que tínhamos em comum, como a confiança. E, porém, cada um acrescentava ainda, secretamente, alguma coisa de seu: a frustração pessoal. Dela decorriam uma péssima imagem de nós próprios e explosões de vaidade martirizante.

            O polegar rebentado de Kurt, o maxilar partido de Georg, a lebrezita cinzenta-poeira, o frasco malcheiroso de conserva na minha mala — tudo isso pertencia só a um de nós. Os outros sabiam disso.

            Cada um de nós imaginava como se podia deixar para trás os amigos, pelo suicídio. E recriminava-os, sem o dizer jamais, por ter de pensar neles, por não ter avançado por causa deles. Daí que cada um de nós se tomasse dono da verdade e tivesse sempre o silêncio à mão, silêncio que culpabilizava os outros, porque nós e eles vivíamos em vez de estarmos mortos.

            O esforço para nos salvar assentava na paciência. Não podíamos permitir que se acabasse, ou então tinha de voltar logo a recompor-se mal se rompia.

            Ao atravessar a praça depois da tosquia, Edgar ouviu patas de cão no seu encalço. Parou e deixou passar o homem e o cão.

O cão era o rafeiro do Pjele, disse Edgar. Mas não conhecia o homem do chapéu preto. O cão pôs-se a cheirar o sobretudo de Edgar e a rosnar. O homem puxou-o pela trela para longe de Edgar, o cão resistiu e voltou-se a olhar para ele. No semáforo seguinte, o homem e o cão estavam outra vez atrás de Edgar. Quando ficou verde, atravessaram a rua, metendo-se, contudo, no parque. Ali devia estar alguém à espera do cão, pois pouco depois o homem subiu sozinho para o eléctrico, no encalço de Edgar.

            Edgar disse: Dei comigo a pensar que quem traz o cão não é uma pessoa, e que eu com o meu pêlo curto não sou um cão. Mas parecemos.

            Quando Georg voltara para trás a meio do caminho para a estação, chegara sem fôlego ao quarto. Provavelmente tinha vindo a correr. A mãe de Edgar perguntara-lhe: Esqueceste-te de alguma coisa. Georg disse: De mim. Pôs a cadeira à janela e passou o dia inteiro a olhar lá para fora.

            Pouco antes do meio-dia, o carteiro batera à porta. Para além do jornal, trouxera uma carta registada. Georg não se mexera. O pai de Edgar dissera: A carta é para ti, tens de assinar.

            No sobrescrito vinha a resposta em relação ao passaporte. Georg levou a carta para o quarto, fechou a porta, deitou-se na cama. Os pais de Edgar ouviram-no chorar. A mãe de Edgar bateu e levou-lhe chá. Georg mandou-a embora com a chávena.

            Quando os pratos bateram uns nos outros, ele não veio para a mesa. O pai de Edgar bateu e levou-lhe uma maçã descascada. Deixou lá a maçã e não disse nada. Georg tinha a cabeça tapada com uma almofada.

            Os pais de Edgar foram para o quintal. A mãe deu de comer aos patos, o pai partiu madeira. Georg pegou na tesoura e pôs-se em frente do espelho. Deu umas tesouradas no cabelo.

            Quando os pais de Edgar entraram na sala vindos do quintal, ele estava sentado à janela. Parecia um bicho meio comido.

O pai de Edgar assustou-se, mas não perdeu a calma. Disse: Para que serve isso.

            Quando eu vi Georg pela primeira vez, disse: Não podes sair assim do país, vai ao barbeiro. Ele disse: Não farei nada por vocês quando estiver na Alemanha. Ouviram, não mexerei um dedo por vocês.

            Kurt, Georg e eu olhámos para as abertas onde Georg tinha cortado o cabelo até ao couro cabeludo. Kurt disse a Edgar: O teu cabelo também está muito esquisito.

            Sempre que já não sabe como é que o dia há-de acabar, a criança mete-se no quarto com a tesoura. A criança baixa as persianas e acende a luz. Põe-se em frente do espelho da casa de banho e começa a cortar o cabelo. A criança olha três vezes para o espelho, e o cabelo fica torto na testa.

            A criança corta as partes tortas, depois são as outras ao lado que ficam tortas. A criança corta as partes ao lado, depois são as que cortou antes que estão tortas.

            Em vez de franja, a criança tem agora uma escova torta sobre o rosto, a testa fica a descoberto. A criança tem de chorar.

            A mãe bate na criança e pergunta: Por que fizeste isso. A criança diz: Porque não posso comigo.

            Toda a gente lá em casa está à espera que da escova torta volte a crescer uma franja. Mais que todos lá em casa, a criança espera.

            Outros dias vêm. As franjas crescem.

            Mas um dia a criança não sabe outra vez como é que o dia há-de acabar.

            Há muitas fotos de árvores despidas no Inverno e árvores carregadas de folhas no Verão. À frente das árvores há bonecos de neve ou rosas. E, bem à frente nas fotografias, vê-se uma criança com um sorriso tão torto como a escova sobre o seu rosto.

            Na caixa de fósforos do homem do comboio havia uma árvore e uma fogueira riscada. Por em baixo podia ler-se: Proteja a floresta. Edgar pôs a caixa de fósforos na cozinha. Dois dias mais tarde, a mãe disse-lhe: Por baixo dos fósforos há uns números.

            Na estação de manobras havia comboios de mercadorias estrangeiros, disse Edgar, o homem queria passar a fronteira.

            Os números na caixa pareciam locais distantes. Edgar encheu a caixa com fósforos até cima. Meteu os fósforos um a um com as cabeças vermelhas umas em cima das outras. Puxou a tampa até meio, como um cobertor numa cama: Quando chegares à Alemanha, liga para estes números.

            Georg fechou a tampa por cima das cabeças. Com o cabelo retalhado, a que ninguém se conseguia habituar, ele agora já parecia um convidado. Eu ainda não me fui embora, disse Georg. Se não me atirarem do comboio em andamento, ligarei para esses números.

            Se Georg ligou ou não, nunca o soubemos. Não lhe deram o passaporte no guiché. Mandaram-no ao Capitão Pjele. O Capitão Pjele fez de conta que não via que Georg retalhara o cabelo. Disse: Sente-se. Pela primeira vez, tratou Georg por você.

            O Capitão Pjele pôs uma declaração e uma caneta em cima da mesa pequena e sentou-se à secretária grande. Estendeu as pernas e empurrou a cadeira para trás. É só uma assinaturazinha, disse o Capitão Pjele. Na declaração, Georg leu, comprometia-se a, no estrangeiro, não fazer nada que prejudicasse o povo romeno.

            Georg não assinou.

            O Capitão Pjele recolheu as pernas e levantou-se. Foi ao armário e tirou de lá um sobrescrito.

Pôs o sobrescrito em cima da secretária pequena. Abra-o, disse o Capitão Pjele. Georg abriu o sobrescrito.

            Agora poderiam dar jeito, disse o Capitão Pjele, posso escrever-lhe umas cartinhas.

O sobrescrito continha cabelos ruivos. Não eram meus, disse Georg, acho que eram de Kurt.

            Três dias mais tarde, Georg voltou a meter-se no comboio. Tinha a caixa de fósforos no bolso do sobretudo. Não foi atirado do comboio em andamento. Chegou à Alemanha.

            Antes de se ir, disse: Nunca mais escrevo cartas, só postais. O primeiro vinha dirigido aos pais de Edgar: Uma cena de Inverno com árvores nodosas junto ao rio. Agradecia ter podido morar em casa dos pais de Edgar. O postal demorou dois meses a chegar. Quando caiu na caixa do correio junto ao portão, já era póstumo.

            Duas semanas antes, o carteiro tinha batido à porta. Edgar assinara como tinha recebido o telegrama.

            Seis semanas depois de sair do país, Georg aparecera estatelado, de manhã cedo, na calçada de Frankfurt. No quinto andar da residência provisória havia uma janela aberta.

            No telegrama podia ler-se: Teve morte imediata.

            Quando o postal com a letra de Georg caiu na caixa do correio, Edgar, Kurt e eu já tínhamos entregado duas vezes um obituário na redacção do jornal.

            Da primeira vez, o redactor acenou e recebeu o papel em mãos.

            Da segunda vez, pôs-nos fora aos gritos. Antes de sairmos, deixámos-lhe a folha em cima da mesa, ao pé dos óculos.

            Da terceira vez, não passámos da portaria.

            O obituário nunca foi publicado.

            Os pais de Edgar guardaram o postal de Georg no quarto, no guarda-loiça, à frente dos copos. A cena de Inverno fixava a cama. Quando de manhã a mãe de Edgar acordava, ia descalça pelo chão até ao vidro do guarda-loiça olhar para a cena de Inverno. O pai dizia: Vou metê-lo na gaveta. Veste-te. A mãe de Edgar vestia-se, mas o postal permanecia no guarda-loiça.

            A mãe de Edgar nunca mais utilizou na costura a tesoura com que Georg retalhara o cabelo.

            Desde a morte de Georg que eu não conseguia estar deitada no escuro. A Senhora Margit dizia: Se dormires, isso ajudará a alma dele a encontrar a paz, quem é que pode pagar a conta da luz. Mesmo quando não se consegue dormir, às escuras descansa-se melhor.

            Eu ouvia a Senhora Margit através da porta do quarto. Ela gemia ou a reflectir ou a dormir. Ao fundo da cama, os dedos dos pés saíam-me do cobertor. Na barriga, tinha o atormenta--galinhas. O vestido em cima da cadeira transformava-se numa mulher afogada. Tinha de o arrumar. As meias pendiam como pernas cortadas do encosto da cadeira.

            No escuro, estaria metida num saco. No do cinto, no da janela. E no que não se tornara meu, no das pedras.

            A Senhora Margit disse: O mais certo é alguém tê-lo empurrado. Eu orgulho-me de ter olho para os temperamentos das pessoas. Georg não tinha ar disso. Agora nunca mais se levantará. Se foi assassínio. Deus levá-lo-á pela mão. Em caso de suicídio, vai-se para o purgatório. Rezo por ele.

 

No original, o pássaro referido por Georg chama-se «Neuntôter» que, literalmente, significa «que mata nove». O número nove assume para esta personagem um significado que a língua portuguesa não parece permitir manter ao longo de toda a obra. Optou-se por traduzir «Neuntôter» por «brita-ossos», para guardar a imagem agressiva da ave. (N. da T.)

            Kurt encontrou no fundo do armário nove poemas de Georg. Oito deles chamavam-se: Brita-ossos'. E o último: Quem pode dar um passo com a cabeça.

            Edgar tinha muitas vezes o mesmo sonho: Kurt e eu estávamos deitados na caixa de fósforos. Georg estava aos pés da caixa e dizia: Vocês é que estão bem. Puxava-nos a tampa até ao pescoço. A árvore na tampa da caixa de fósforos era, no sonho, uma faia. Ramalhava. Georg dizia: Durmam que eu protejo a floresta. Depois é a vossa vez. Aos pés da caixa de fósforos deflagrou o fogo.

 

            Kurt andava a faltar ao emprego desde a morte de Georg. Em vez de ir para o matadouro, ia à cidade.

Certa noite, a vizinha com os olhos sarapintados atravessou o quintal e bateu à porta de Kurt. Estás doente, perguntou. Mas não estás na cama.

            Kurt disse: É como vês, estou à porta.

            Na aldeia, os cães ladravam, porque o vento batia nos algerozes. A vizinha tinha, lá na casa dela, apagado a luz. A janela dela estava escura. Não estava suficientemente agasalhada e apertava-se nos próprios braços. Tinha calçadas umas chinelas de Verão bordadas, com saltos de cortiça. Por causa das meias grossas de lã de carneiro, ficavam-lhe pequenas, os calcanhares ficavam-lhes de fora.

            Queria que Kurt lhe desse o endereço de Georg na Alemanha. Não queria sentar-se, mas vacilou e caiu para o lado. A luz incidiu-lhe nos chinelos. Na escuridão, as pernas sobressaíam-lhe, como as das cabras brancas, das meias. Não tinha meias-calças.

            Kurt perguntou: Para que queres o endereço dele, se ele nem sequer se despediu de ti.

            Ela baixou a cabeça: Nós não nos zangámos, eu preciso de medicamentos.

            Kurt encontrou no fundo do armário nove poemas de Georg. Oito deles chamavam-se: Brita-ossos'. E o último: Quem pode dar um passo com a cabeça.

            Edgar tinha muitas vezes o mesmo sonho: Kurt e eu estávamos deitados na caixa de fósforos. Georg estava aos pés da caixa e dizia: Vocês é que estão bem. Puxava-nos a tampa até ao pescoço. A árvore na tampa da caixa de fósforos era, no sonho, uma faia. Ramalhava. Georg dizia: Durmam que eu protejo a floresta. Depois é a vossa vez. Aos pés da caixa de fósforos deflagrou o fogo.

            Kurt andava a faltar ao emprego desde a morte de Georg. Em vez de ir para o matadouro, ia à cidade.

            Certa noite, a vizinha com os olhos sarapintados atravessou o quintal e bateu à porta de Kurt. Estás doente, perguntou. Mas não estás na cama.

            Kurt disse: É como vês, estou à porta.

            Na aldeia, os cães ladravam, porque o vento batia nos algerozes. A vizinha tinha, lá na casa dela, apagado a luz. A janela dela estava escura. Não estava suficientemente agasalhada e apertava-se nos próprios braços. Tinha calçadas umas chinelas de Verão bordadas, com saltos de cortiça. Por causa das meias grossas de lã de carneiro, ficavam-lhe pequenas, os calcanhares ficavam-lhes de fora.

            Queria que Kurt lhe desse o endereço de Georg na Alemanha. Não queria sentar-se, mas vacilou e caiu para o lado. A luz incidiu-lhe nos chinelos. Na escuridão, as pernas sobressaíam-lhe, como as das cabras brancas, das meias. Não tinha meias-calças.

            Kurt perguntou: Para que queres o endereço dele, se ele nem sequer se despediu de ti.

            Ela baixou a cabeça: Nós não nos zangámos, eu preciso de medicamentos.

            Então vai ao médico, disse Kurt.

            Para que Kurt não fosse despedido, Tereza arranjou-lhe um atestado médico, no qual bastava ele escrever lá o nome. O atestado custara dez pacotes de Marlboro. Quando Kurt lhe quisera pagar, Tereza dissera: Roubei-os do armário do meu pai.

            Na carta da mãe podia ler-se a seguir às dores nas cruzes: Recebi os impressos grandes. O polícia preencheu-os por mim e pela avó. Ele disse que agora só faltas tu, mas tu sabes romeno suficientemente bem. Eu disse que o mais provável era tu não queres ir connosco. Isso vai atrasar tudo, opinou ele. O Relojoeirotoni é de opinião que tu vais pensar duas vezes antes de dizer não. Ele não hesitaria em ir connosco em teu lugar, mas como.

            Já expliquei tudo à avó, ela também teve de assinar. Não se consegue perceber a assinatura, mas é a letra dela. Pior seria se conseguisse perceber, pois ela já não sabe como se chama. Cantou um pouquinho. Ainda bem que não sei o que lhe vai na cabeça quando ela me olha como um furão.

            Hoje vendi os móveis no quarto da frente. Não quiseram a carpete, está toda comida das traças. Mando-te dinheiro para mais duas rendas. Depois é contigo. Não gostaria que aqui ficasses. Ainda tens a vida toda à tua frente.

            Preenchi as rubricas dos impressos: Nascimento e Escolas, Local de Trabalho e Exército a que o pai pertencera. Voltei a ouvir as canções dele pelo Fuhrer. Voltei a ver a enxada no quintal e as suas plantas mais estúpidas. Não sabia se na Alemanha também havia cardos-de-coalho. Soldados das SS regressados, isso era o que não faltava.

            O avô, o barbeiro, o Relojoeirotoni, o pai, o vigário e o professor chamavam mátria à Alemanha. Embora pais tivessem marchado por esse mundo fora pela Alemanha, chamavam-lhe mátria.

            Com a sua saída, Georg tinha calcado o caminho para mim e para Edgar. Para fora do beco sem saída, dissera na altura. E seis semanas mais tarde, jazia na calçada do Inverno de Frankfurt. Os brita-ossos permaneciam no armário de Kurt, metidos num sapato. Em vez deles, Georg voara do beco sem saída para o saco com a janela. As poças, em que jazia a sua cabeça, espelhavam talvez o céu. Todos tínhamos um amigo em cada pedacinho de nuvem... e, contudo, Edgar e eu seguimos Georg. Também Edgar redigira um requerimento a solicitar a saída. No bolso do casaco, tinha o telegrama com a morte de Georg.

            Kurt não se sentia capaz de se ir embora. Não tinha sentido ficar aqui, disse ele, mas vão vocês à frente. Eu vou depois. Baloiçava-se na cadeira, o chão gemia ao ritmo da desesperança Ela não assustava nenhum de nós.

            Sou um cúmplice dos tragadores de sangue, disse Kurt, é por isso que não me despedem. Quando vocês se forem embora, sou todo deles. Desde o Verão que os prisioneiros são levados em carrinhas para os campos atrás do matadouro. Andam a abrir um canal. Quando estão cansados, os cães atiram-se a eles. São levados na carrinha e ficam ali até a carrinha voltar à cidade, às seis da tarde. Eu fotografo do meu gabinete. Dois tragadores de sangue apanharam-me em flagrante, disse Kurt, foram os primeiros a saber. Talvez os outros também saibam. Meti os rolos no fundo do armário. Foi assim que dei com os poemas de Georg. Vou levá-los para a casa de Tereza e depois vou buscá-los antes de ir a casa dos pais de Edgar. Ele vai mandar-vo-los pelos empregados de alfândega.

            Talvez eu seja mesmo despedido, disse Kurt. Mandem duas fotografias quando chegarem à Alemanha, uma da janela e outra da calçada. Elas chegarão. Pjele sabe que elas doem.

            Tereza chorou quando soube que eu tinha preenchido as rubricas. O namorado dela tinha-a deixado. Tinha dito: Uma mulher sem filhos é como uma árvore sem frutos. Tereza e ele iam a caminho do eléctrico. Uma vez na paragem, ele tinha apontado para as pessoas na fila e dissera-lhe que doenças elas tinham.

            Tereza disse: Mas tu não as conheces. Porém, ele repartia diagnósticos: Aquele tem-no no fígado, aquela, nos pulmões. Quando não lhe ocorria mais nada dizia: Estás a ver como aquele põe a cabeça. E aquela tem-na no coração. E aquele, na laringe. Tereza perguntou: E eu. Ele não respondeu. As emoções, disse ele, não habitam a cabeça. Vêm das glândulas.

            A noz debaixo do braço de Tereza começara a doer nos últimos tempos. Estendia-se num ramal do sovaco ao peito.

            Eu não queria que Tereza ficasse sozinha e disse: Agarra-te a Kurt Tereza acenou. Assim como assim, eu já sou só metade da noz, disse ela. Levas contigo um bocadinho de mim. O que fica aqui, queres dar a Kurt. É fácil dividir o que já não está inteiro.

            Agora era a minha vez de pressionar o puxador da porta no tronco da bétula. Tereza sabia que esta porta se fechava sobre nós, que não me seria permitido vir visitá-la a este país.

Sei que nunca mais nos veremos, disse ela.

            Também tinha dito a Kurt: Agarra-te a Tereza. Uma amizade não é um casaco que possa herdar de ti, opinou ele. Posso enfiá-la. Vista de fora, até poderia servir, mas não aqueceria por dentro.

            Tudo o que se dizia tomava-se definitivo. Espezinhar tanto com as palavras na boca como com os pés na erva, eram assim todas as despedidas.

            Quem ama e parte, esse éramos nós próprios. Tínhamos levado a maldição de uma cantiga ao seu máximo expoente:

 

         Que Deus o castigue

         Que Deus o castigue

         Com o passo do escaravelho

         O zumbido do vento

         O pó da terra.

 

            A mãe veio no primeiro comboio para a cidade. No comboio tomou um calmante e foi da estação para o cabeleireiro. Foi a primeira vez na vida dela que foi ao cabeleireiro. Quis cortar a trança antes de partir.

 

            Porquê, a trança faz parte de ti, disse eu.

            De mim, sim, mas não da Alemanha.

            Quem é que diz.

            Quando se chega de trança à Alemanha, é-se maltratado, disse ela. À avó, corto-a eu mesmo. O barbeiro morreu. Um cabeleireiro da cidade não teria paciência para ela, não pára quieta à frente do espelho. Tenho de a amarrar à cadeira.

            O meu coração disparou, disse ela. O velho que me cortou a trança tinha a mão leve. O jovem que depois me lavou a cabeça tinha uma mão pesada. Tremi quando vi a tesoura aproximar-se. Foi como no médico.

            A mãe tem uma permanente. Apesar do frio, ela não pusera o lenço na cabeça, para poder mostrar os cabelos anelados. Andava com a trança cortada num saco de plástico.

            Leva-la contigo, perguntei.

            Ela encolheu os ombros.

            Andámos de loja em loja. Ela comprou um enxoval para a Alemanha: Uma tábua nova para amassar com um rolo da massa, um moinho de nozes, um serviço de jantar, um conjunto de copos de vinho e um conjunto para o bolo. E um fanqueiro novo de aço inoxidável. Roupa interior nova para ela própria e para a avó.

            Como para uma noiva, disse ela e olhou para o relógio morto. Pode mandar-se uma caixa com cento e vinte quilos por comboio para a Alemanha.

O relógio morto que trazia no pulso tinha uma bracelete nova. Que horas são, perguntou a mãe.

            À avó-cantadeira já não foi preciso cortar a trança. Quando a mãe regressou da cidade, ela jazia morta no chão, com um bocado de maçã na boca. Tinha morrido aquém do enxoval como para uma noiva. Tinha a dentada de maçã entre os lábios. Não tinha sufocado nela. A dentada tinha casca vermelha.

            No dia seguinte, o polícia não encontrou na casa inteira nenhuma maçã a que faltasse a dentada.

            Talvez ela tivesse comido a maçã e guardado a primeira dentada para o fim, disse o Relojoeirotoni.

Tem de ser riscada dos impressos, disse o polícia. A mãe deu-lhe dinheiro.

            Andou ela tanto tempo neste mundo, disse a mãe, bem que podia ter esperado um pouco até estarmos na Alemanha. Lá também há caixões. Mas ela não me suporta, por isso é que decidiu fechar os olhos nesta altura. Era isso que andava a maquinar quando me fixava como um furão. Agora tenho de me preocupar com coveiros e vigários. A sepultura tem de ser aqui. Era isso que ela queria, que eu deixasse tudo o que tenho entre as mãos.

            O rigor mortis já se tinha instalado. A mãe e o Relojoeirotoni cortaram a roupa à morta com a tesoura e deixaram-na em pêlo. A mãe trouxe um alguidar de água e um pano branco. O Relojoeirotoni disse: Lavar mortos não é coisa para familiares. Isso tem de ser feito por estranhos, senão morrem todos. Ele lavou a cara, o pescoço, as mãos e os pés à avó. Ainda ontem ela passou pela minha janela, disse ele. Quem teria pensado que hoje a estaria a lavar. Não me envergonho por ela estar nua. Cortou também a roupa interior nova com a tesoura. Depois a mãe coseu a roupa no corpo da morta.

            Quem é asseado no vestir, pensei para mim, não chega sujo ao céu. Não há outra maneira, disse o Relojoeirotoni, o corpo dela já não ajuda, já não se pode dobrá-la. E, voltando-se para mim, disse: Tu bem que podias ajudar.

            Eu tirei fio da caixa da costura e estava a meter linha numa agulha grossa, dobrei o fio. Pus a agulha na cadeira. Não é preciso dobrares a linha, disse a mãe, ela é suficientemente forte. Chega até ao céu. Deu pontos enormes e nós grossos no fim. Não sabia onde tinha posto a tesoura e cortou a linha com os dentes junto à morta.

            A boca da avó estava aberta, embora o queixo estivesse amarrado com um lenço. Descansa o teu bicho-coração, disse eu.

            A mãe morava em Augsburgo. Mandava uma carta com as dores nas cruzes para Berlim. Não estava certa de que era ela e escrevia no remetente do sobrescrito o nome da viúva, em casa de quem morava: Helene Schall.

            Na carta da mãe podia ler-se: A Senhora Schall também foi outrora refugiada. Veio para cá no fim da guerra, com três crianças às costas, sem marido. Criou os filhos sozinha, e sente-se em casa. Aqui uma pessoa sozinha vive desafogadamente da sua reforma. Que a goze bem é o que lhe desejo.

            A Senhora Schall diz que Landshut é mais pequena que Augsburgo. Como é isso se lá vivem tantos da nossa aldeia. A Senhora Schall mostrou-me o mapa. Mas no mapa há nomes de sítios pendurados por todo o lado, como vestidos na montra, que não nos podemos dar ao luxo de comprar.

            Quando vou à cidade e leio os letreiros dos autocarros, fico cheia de dores na nuca. Leio os nomes das ruas alto. Quando o autocarro se afasta, já os esqueci. Tenho a fotografia da nossa casa na mesa-de-cabeceira, para, durante o dia, não a ver. Mas à noite, antes de apagar a luz, olho sempre para a nossa casa. Tenho de morder os lábios e fico contente pelo quarto ir ficar às escuras.

            As ruas aqui são boas, mas é tudo tão longe. Não estou habituada ao asfalto, doem-me os pés e o cérebro. Sinto-me aqui tão cansada num dia como em casa me cansava talvez um ano inteiro.

            Aquela casa já não é nossa, agora vivem outras pessoas lá, escrevi à mãe. A tua casa é aí onde estás.

            No sobrescrito escrevi em letras grandes: Senhora Helene Schall. Escrevi o nome da mãe por baixo, entre parênteses e em letra muito mais pequena. Vi a mãe entre parênteses andar, comer, dormir e amar-me a medo, como no sobrescrito. Chão, mesa, cadeira e cama pertenciam à Senhora Schall.

            E a mãe respondeu-me: O que é a nossa casa, isso não podes tu saber. Onde o Relojoeirotoni trata das sepulturas, aí é que é, sem dúvida, a nossa casa.

            Edgar morava em Colónia. Ambos recebemos as mesmas cartas com os machados cruzados: Fostes condenados à morte, não tardaremos a apanhar-vos.

            O carimbo dos correios era de Viena.

            Edgar e eu telefonávamo-nos, o dinheiro não nos chegava para viajarmos. A voz ao telefone também não chegava. Fazia-nos falta o hábito de dizer segredos ao telefone, a língua ficava presa pelo medo.

            As ameaças de morte também me chegaram pelo telefone, pelo auscultador que eu tinha de segurar junto à face enquanto falava com Edgar Quando falávamos parecia-me que tínhamos trazido o Capitão Pjele connosco.

            Edgar ainda estava a viver numa residência provisória. Um velho no auge da vida, zombava ele, um professor falhado. Tal como eu dois meses antes, também ele tinha agora de provar que na Roménia tinha sido despedido por motivos políticos.

            Não basta ter testemunhas, disse o funcionário. É preciso um papel com carimbo a comprová-lo.

            De onde.

            O funcionário encolheu os ombros e equilibrou a caneta de encontro à jarra de flores. A caneta caiu.

            Por causa do despedimento, não recebíamos dinheiro do Fundo de Desemprego. Tínhamos de pensar duas vezes antes de gastar dinheiro e não nos podíamos visitar as vezes que queríamos.

            Fomos duas vezes a Frankfurt, para ver o lugar onde Georg tinha morrido. Na primeira vez não houve fotos para Kurt. Na segunda, já estávamos suficientemente endurecidos para fotografar. Mas nessa altura já Kurt jazia no cemitério.

            Examinámos a janela por dentro e por fora, a calçada de cima e lá em baixo. Pelos longos corredores da residência provisória, uma criança corria e respirava alto. Andámos em bicos de pés. Edgar tirou-me a máquina fotográfica da mão e disse: Voltamos outro dia, a chorar não sai nada de jeito.

            Percorremos a alameda principal do cemitério junto à floresta. A tranquilidade da hera dava-me ganas de arrancá-la. Numa sepultura via-se uma tabuleta:

            Esta campa encontra-se em condições de negligência. Solicitamos que a campa seja cuidada no prazo de um mês, caso contrário, será nivelada. A administração do cemitério.

            Não tive lágrimas para a sepultura de Georg. Edgar meteu a ponta do sapato na borda molhada da sepultura. Disse: Ele está ali dentro. Pegou num torrão de terra e atirou-o ao ar. Ouvimo-lo cair. Pegou noutro torrão e largou-o no bolso do casaco. Não ouvimos este torrão. Edgar olhou para a palma das mãos.

Que grande porcaria, disse ele. Eu sabia que não se estava apenas a referir à terra. A sepultura estava para ali como um saco. E a janela, pensei para mim, só tem a aparência de uma janela. Eu tinha-lhe tocado e não tinha sentido nada nas mãos, ao abrir e fechar da janela não senti nada mais que ao abrir e fechar dos olhos. A verdadeira janela devia estar lá em baixo na sepultura.

            Leva-se connosco o que nos mata, pensei para mim. Um caixão não me entrava na cabeça, só uma janela.

            Não sabia como é que a palavra transfinito chegara aqui ao cemitério. Mas junto a esta sepultura eu sabia o que ela devia ter significado sempre.

            Nunca mais o esqueci.

            Poderia ter dito a Tereza: Transfinito é uma janela que não desaparece quando alguém caiu dela. Não queria escrever isto numa carta. O Capitão Pjele não tinha nada que saber o que é transfinito. Era demasiado infame, para pensar em si mesmo ao ouvir a palavra. Ele fazia cemitérios até em lugares onde nunca estivera. Ele conhecia assim muitas janelas em muitos corredores.

            Quando Edgar e eu deixámos o cemitério, as árvores sopravam. O céu abatia-se sobre os seus ramos tortos. Frésias e túlipas geladas erguiam-se das sepulturas como de mesas. Edgar pôs-se a limpar as solas dos sapatos com um pequeno pau. Nos troncos das árvores deveriam de ter existido puxadores de portas. Cega que eu era, como naquela altura na floresta, não os vi.

            A seguir às dores nas cruzes da mãe, podia ler-se: Esta semana chegou da Roménia o caixote grande com as minhas coisas. Faltam o rolo da massa e a tábua para amassar. Sábado à tarde trouxe duas pombas para casa nos bolsos do casaco. Para uma sopinha boa, pensei para mim.

A Senhora Schall disse que isso não é permitido, as pombas pertencem ao município. Obrigou-me a levar as pombas de volta. Garanti-lhe que ninguém me tinha visto. As pombas poderiam ter fugido, disse eu. Que culpa tenho eu que as pombas se deixem apanhar, mesmo que pertençam ao município. Ali no parque há-as aos molhos.

            Tive de voltar a meter as pombas no casaco e levá-las de casa. Duas casas depois, quis deixá-las voar. Já que pertencem ao município, pensei para mim, hão-de encontrar o caminho de volta sozinhas. Naquela altura não se via ninguém na rua. Pu-las na relva da berma do caminho. Julgas que voaram. Enxotei-as com as mãos, mas não arredaram pé. Depois apareceu uma criança de bicicleta e saltou dela. Perguntou o que se passava. Então, são duas pombas, disse eu, que não querem sair daqui. A criança disse: Então deixe-as ficar, que lhe interessa isso. Depois da criança se ter ido embora, aproximou-se um homem e disse: Elas são do parque, quem as trouxe para aqui. Eu disse: Foi o miúdo que vai ali na bicicleta. Ele pôs-se a gritar: Que ideias são essas, aquele é o meu neto. Não sabia, disse eu. É que não sabia mesmo. Depois meti as pombas no bolso do casaco. Porque o homem ficou ali a olhar, eu disse: Todos ficam aí especados e ninguém se rala. Eu vou levar as pombas de volta para o parque.

            Pelos empregados da alfândega, Kurt mandara uma carta grossa com uma lista dos mortos em fuga, os poemas do brita-ossos, com fotos dos tragadores de sangue e dos prisioneiros. Numa fotografia podia ver-se o Capitão Pjele.

            Tereza morreu, podia ler-se na carta. Quando ela tocava na perna com o dedo, ficava uma mossa na pele. As pernas dela eram como mangueiras, a água não escoava com comprimidos, subiu até ao coração. Nas últimas semanas, Tereza fez radiações, tinha febre e vomitava.

            Agarrei-me a ela até ela te visitar. Foi Pjele que a mandou aí. Eu não queria que ela fosse. Ela disse: Tu tens é inveja.

            Depois de regressar da Alemanha, ela evitava-me. Foi fazer o relatório. Só a vi mais duas vezes e pedi-lhe tudo o que estava em casa dela. Mas não me surpreenderia se um dia destes Pjele tirar tudo da sua secretária.

            Requeri a saída do país, vemo-nos no princípio do ano.

            A morte de Tereza doeu-me como se eu tivesse duas cabeças a embater uma com na outra. Numa havia o amor ceifado, na outra, o ódio. Queria que o amor voltasse a crescer. Ele cresceu como erva e palha entrelaçadas e era a afirmação mais fria na minha testa. Era a minha planta mais estúpida.

            Mas três semanas antes da carta grossa Edgar e eu recebemos dois telegramas iguais:

            Kurt foi encontrado morto em casa. Enforcou-se com uma corda.

            Quem mandara o telegrama. Eu li em voz alta, como se tivesse de cantar à frente do Capitão Pjele. Nesta cantoria, a língua bateu pela testa como se a língua estivesse amarrada a uma batuta que o Capitão Pjele manipulava.

            Edgar veio visitar-me. Pusemos os telegramas lado a lado. Edgar abanou o atormenta-galinhas, a bola esvoaçou, os bicos debicaram na tábua. Observei as galinhas tranquilamente. Não senti inveja nem mesquinhez. Só medo. Tanto medo que não quis arrancar o atormenta-galinhas às mãos de Edgar.

            Não é por acaso que o correio é metido em sacos, disse eu. Os sacos dos correios demoram mais tempo a chegar que os sacos da vida. A galinha branca, a vermelha, a preta, eu queria vê-las pela ordem. A ordem estava comprometida por causa do rápido debicar. Mas não nos sacos do cinto, da janela, da noz, da corda.

            Tu e O teu saco do pão suábio, disse Edgar, se alguém te ouve, julga que és maluca.

            Espalhámos as fotos de Kurt pelo chão. Sentámo-nos diante delas como outrora no quintal do buxo. Tive de olhar brevemente para o tecto, para ver se o branco ali em cima não era mesmo o céu.

            Na última foto via-se o Capitão Pjele a atravessar a Trajanplatz. Tinha um embrulho de papel branco numa das mãos. Na outra mão, levava uma criança.

            Nas costas da foto, Kurt escrevera:

            O avô vai comprar bolos.

            Desejei que o Capitão Pjele leve um saco com todos os seus mortos. Que o seu cabelo cortado cheire a cemitério acabado de ceifar quando ele estiver sentado no barbeiro. Que os crimes tresandem quando, depois do emprego, ele se sentar à mesa com o neto. Que esta criança se enoje diante dos dedos que lhe oferecem bolo.

            Senti que a minha boca se abria e fechava:

            Kurt disse uma vez que estas crianças já são cúmplices. Cheiram quando os beijam à noite que os pais tragam sangue no matadouro e querem ir para lá.

            Edgar mexia a cabeça como se quisesse entrar na conversa. Mas calava-se.

            Estávamos sentados no chão diante das fotografias. Peguei na fotografia com o avô. Observei a criança de muito perto. Depois, o embrulho branco do avô.

            Ainda dizemos o meu barbeiro e a minha tesoura das unhas enquanto há outros que nunca mais vão perder um botão.

            De tanto estar sentada, tinha as pernas dormentes.

            Emudecemos e tomamo-nos desagradáveis, disse Edgar. Falamos e tomamo-nos ridículos.

 

                       

GLOSSÁRIO

Kampelsackel (suábio): bolsa de tecido para guardar pentes, pendurada na parede, sobre o lavatório.

Strabanzen (suábio): longo passeio sem destino.

Mojics (romeno): labregos. Aqui também como designação dos soldados do Exército Vermelho.

a fene (húngaro): Diabo.

kurvákat (húngaro): prostitutas.

Ide-oda (húngaro): para cá e para lá.

gazember (húngaro): uma pessoa sem préstimo.

Édes draga istenem (húngaro): Bom e doce Senhor Jesus.

Kicsit (húngaro): um pouquinho.

Nem szép (húngaro): isso não é bonito.

Kanod (húngaro): putanheiro.

Istenem (húngaro): Deus

Nincs lóvé nincs muzsika (húngaro): sem dinheiro não há música, em húngaro.

 

                                                                                Herta Muller  

 

                      

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