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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A TERRA DAS FLORESTAS SOMBRIAS / Wolfgang
A TERRA DAS FLORESTAS SOMBRIAS / Wolfgang

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

“...Os olhos fixos na superfície cintilante da tela panorâmica, a testa coberta por minúsculas gotas de suor, o rosto do comandante Arcanas demonstrava crescente preocupação. Um silêncio incomum reinava na central de comando da nave espacial Warlord II, onde se aglomeravam pessoas, máquinas e computadores. Até os estalos dos reatores, que nos últimos anos haviam feito parte da vida a bordo, pareciam, de repente, mais silenciosos. Talvez no interior da gigantesca nave espacial houvesse uma alma capaz de prever o perigo que estava prestes a desabar sobre ela e seus tripulantes.”

 

 

 

 

A porta da casa fechou com um estalo, o que fez com que Kim interrompesse a leitura. Com o dedo indicador da mão esquerda entre as páginas, levou o livro até a escrivaninha. Sobre o tampo polido da mesa, empilhavam-se livros e cadernos escolares, papéis, uma borracha em forma de minibola e um pacote de canudinhos coloridos, usados para encobrir uma mancha de queimadura que, se fosse descoberta, certamente lhe traria problemas. A mancha era resultado de um teste — aliás, muito bem-sucedido — que fizera com algodão, uma lente e um punhado de fósforos. Kim dobrou uma folha de papel, colocou-a entre as páginas do livro e, com um pesaroso levantar de ombros, devolveu-o à prateleira.

Sobre a estante empilhava-se uma enorme quantidade de papel: alguns gibis (restos de sua coleção que já fora muito maior, todos presos com elástico e acomodados em uma das extremidades da estante), um número relativamente grande de livros de bolso e cerca de uma dúzia de volumes caros, encadernados. Eram livros bastante manuseados, pelo menos a maioria. Havia alguns novos, que ele ganhara de presente e que não lhe interessavam, mas que colocava entre seus outros tesouros em sinal de consideração às pessoas que os haviam dado, porém, com a certeza de que jamais os leria.

Ouviu os passos ligeiros da mãe no hall. Com um suspiro, Kim deu as costas para a estante, foi até a porta, mas se virou novamente para a escrivaninha, a fim de arrumar o caos que lá reinava. Queria dar a impressão de que havia estudado, em vez de ter passado a tarde toda mergulhado na mais recente edição de Guerreiros das estrelas.

Abriu o livro de matemática na página marcada pela orelha, ligou a calculadora de bolso e colocou-a ao lado de uma folha de papel cheia de rabiscos, mudos testemunhos de suas inúteis tentativas de solucionar o problema que o professor havia lhe passado. Matemática, assim como toda e qualquer matéria relacionada a números, não era o seu forte. Desde o primeiro dia de aula, Kim declarou guerra à matemática — e, nos sete anos e meio que se passaram desde então, nada havia mudado. Ele não gostava de números e simplesmente não entendia por que tinha de saber como se resolvia uma equação com duas incógnitas se tinha uma calculadora de bolso!

Com olhos críticos, examinou o arranjo sobre a mesa, acrescentou um lápis apontado ao conjunto e, satisfeito, saiu do quarto. No que dizia respeito aos deveres de casa, seus pais não lhe davam moleza. Com certeza o pai, como fazia todos os dias após o jantar, perguntaria, com um franzir de testa, pela lição de casa. Kim suspirou. Talvez mais tarde fizesse uma nova tentativa para resolver o problema! Em último caso poderia copiar, no dia seguinte, a solução de um colega de classe.

Lançando um último olhar para a estante de livros, finalmente saiu do quarto. O comandante Arcanas teria de esperar até o dia seguinte para conduzir a Warlord II rumo à batalha final contra os monstros vegetais telepáticos.

Kim desceu as escadas saltando os quatro últimos degraus com um único pulo. O casaco de sua mãe, pendurado no bali, ao lado da parca esgarçada do pai, mostrou-lhe que os dois estavam em casa. O pai usava a parca desde que Kim se conhecia por gente e, provavelmente, não iria se separar dela tão cedo. A porta da sala de estar estava apenas encostada, e a primeira coisa que Kim notou foi o cinzeiro, no qual fumegava um cigarro fumado pela metade.

Kim franziu a testa. O pai havia decidido parar de fumar há cinco meses e até então se mantivera firme nesse propósito. Mas, pelo jeito, começara de novo. Estranho! Estranho também era o pai já estar em casa àquela hora do dia. Não eram nem quatro da tarde — e ele normalmente não deixava o escritório antes das seis. Kim ouviu as vozes dos pais através da porta semi-aberta, mas não entendeu o que diziam. Lançou um olhar sobre o cigarro aceso, colocou o polegar no cinto e entrou. O pai e a mãe estavam sentados lado a lado no sofá, com a televisão ligada. Sobre a mesa havia um maço de cigarros, aberto, ao lado do cinzeiro e do isqueiro alaranjado. Seus pais interromperam a conversa abruptamente. Só se ouvia o tique-taque do velho relógio de parede.

— Oi, Kim — disse a mãe com voz baixa.

Ela endireitou o corpo e, com um gesto nervoso, afastou o cabelo da testa. Depois pousou as mãos nos joelhos.

— Eu... eu pensei que você estava no seu quarto, e...

Kim piscou, surpreso. Nunca vira a mãe tão insegura. Ele a conhecia sempre calma e controlada — e ela nunca falava sem pensar.

— Você... você terminou a lição de casa? — perguntou a mãe. Kim fez um gesto afirmativo e murmurou algo parecido com um “sim”, mas que, por via das dúvidas, também podia ser interpretado como “quase”.

O pai suspirou. Estava inquieto. O couro do sofá, já quebradiço, chiou quando ele, meio sem jeito, pegou o maço de cigarros. Pouco à vontade, Kim caminhou arrastando os pés no chão e tirou a mão do cinto. De repente entendeu por que os pais estavam tão nervosos.

— Vocês... vocês estiveram no hospital, não é?

O rosto da mãe se anuviou. Kim teve a sensação de ter dito algo errado.

— Sente, filho — pediu o pai.

Kim lançou um olhar interrogativo na direção do pai, cujo rosto estava escondido atrás de uma nuvem de fumaça azulada. Depois se sentou na beirada da poltrona.

— Meu filho... — começou o pai.

O pai só o chamava de “filho” quando estava muito bravo, muito bem-humorado ou muito nervoso. Raras vezes o chamava pelo nome; normalmente era “pequerrucho”, às vezes “Júnior”. “Meu filho” era sinal de que algo estava acontecendo.

— Eu... — o pai hesitou por um instante e depois recomeçou. — Sua mãe e eu queremos falar com você.

Kim estava nervoso. Não queria ouvir o que o pai tinha a dizer, pois já sabia do que se tratava. Um rápido olhar para o rosto pálido da mãe, marcado por profundas olheiras, deixou-o ainda pior. Ela esboçou um sorriso triste e seus dedos moviam-se nervosamente.

— Vocês estiveram com a Bekky, não é? — perguntou.

O pai confirmou com a cabeça. Apagou o cigarro e, com os dedos, desenhou linhas nas cinzas esbranquiçadas no cinzeiro.

— Sim, estivemos com a sua irmã — respondeu após algum tempo. Encarou Kim por cima dos aros dourados dos óculos e apoiou os cotovelos na mesa. Depois apoiou o queixo nas mãos, como fazia quando pensava ou quando queria explicar algo muito difícil.

— A sua irmã... Rebekka está muito doente, Kim. Kim balançou a cabeça.

— Eu sei. Ela tem de...

O pai interrompeu-o suavemente.

— Não é por causa do apêndice, filho.

— Não?! Mas vocês falaram que...

— Contamos isso para você porque... porque não queríamos deixá-lo preocupado.

— Você quer dizer que... que ela não teve apendicite?

— Sim, sim, ela teve apendicite — interrompeu o pai. — É que... — e acendeu outro cigarro. — Eu não sei... nós não sabemos como lhe explicar, filho... — e decidido. — Você foi junto quando levamos a sua irmã para a clínica e... você também ouviu o que o Dr. Schreiber disse. Ele explicou que uma operação de apêndice nos dias de hoje é coisa simples, de modo que não há motivo para preocupação. Ele também disse que a Rebekka estaria em casa dentro de uma semana.

Kim fez um gesto afirmativo. Lembrou de como tudo acontecera: de uma hora para outra, Rebekka começou a chorar e a se queixar de fortes dores no lado direito da barriga. Primeiro não levaram a sério: Rebekka completara quatro anos em maio, mas quando sentia alguma dor, ou quando era contrariada, portava-se como uma criança de colo. Mas os sintomas pioraram e, à noite, a menina começou a vomitar. O pai chamou uma ambulância e levaram-na para a clínica. Quando voltaram para casa, já era mais de meia-noite e a mãe mandou Kim para a cama. Mas como ele não conseguia dormir, ouviu os pais conversando por longas horas. O Dr. Schreiber lhes garantira que não havia motivo para preocupação. Kim lembrou bem do pequeno e franzino médico de cabelos grisalhos e olhos tristes escondidos atrás dos óculos de aros grossos.

Nos últimos dias, Kim notara um clima tenso na casa: o telefone tocava com mais freqüência que de costume e a mãe, quando atendia, sussurrava, em vez de falar com voz normal. E quando Kim entrava na sala, ela desligava rapidamente.

Uma sensação de medo começou a se manifestar no estômago do menino, parecida com os momentos de angústia que sentia quando trazia notas baixas para casa.

O pai continuou.

— Surgiram complicações. Isso acontece, não é freqüente, mas acontece. O Dr. Schreiber nos deu explicações, mas... — a voz do pai ficou trêmula e Kim percebeu lágrimas nos seus olhos. O pai piscou, tragou o cigarro e escondeu-se novamente atrás de uma nuvem de fumaça.

De repente ele levantou, permaneceu em pé, imóvel, e cerrou os punhos. Abriu a boca para falar, mas balançou a cabeça e, com um movimento brusco, deu-lhes as costas.

— Fale para ele — murmurou. — Eu não consigo.

Os olhos de Kim correram das costas do pai para o rosto da mãe.

— O que... o que aconteceu com a Bekky? — perguntou assustado.

A mãe tentou falar, mal contendo a emoção.

— Ela... estava tudo normal... ela foi anestesiada antes da operação, mas... — O coração de Kim deu um pulo doido. Suas mãos começaram a tremer e em sua garganta formou-se um nó.

— Ela... ela está morta?

A mãe ficou estarrecida, depois cobriu o rosto com as mãos e começou a soluçar.

— Não, filho.

O pai sentou-se novamente, os olhos marejados de lágrimas.

— Não, filho. Ela não está morta. Ela só não acordou da anestesia. Eles a trouxeram da sala de cirurgia, a colocaram na cama e esperaram que acordasse, mas ela não acordou. Ela simplesmente continua dormindo!

— Há quanto tempo?

— Há dois dias — murmurou o pai.

— Não contamos antes para você porque esperávamos que tudo fosse se ajeitar, mas há pouco telefonei para a clínica e... nada mudou. Ela continua inconsciente.

—Mas... ela nunca mais vai acordar?

Para Kim era difícil entender o que estava acontecendo. A idéia de que alguém dormia e nunca mais acordaria era monstruosa. Isso só acontecia nos livros ou nos contos de fada — não na vida real! Por um momento, a revolta dentro dele era mais forte que o medo. Isso não podia estar acontecendo com a sua própria irmã!

— A sua mãe e eu vamos para a clínica agora — disse o pai. — O Dr. Schreiber quer falar com a gente.

— Eu vou com vocês — declarou o menino. O pai não queria deixar.

— Infelizmente não vai dar, Kim. Eles não permitem a visita de crianças com menos de quatorze anos.

— Eu espero no corredor — insistiu Kim. — Eu quero ver a Rebekka!

O pai ia dizer algo, mas a mãe o impediu, colocando a mão no seu braço.

— Deixe-o ir!

Sem esperar a resposta do pai, Kim levantou da poltrona com um pulo e, tomando dois degraus por vez, subiu as escadas.

Minutos mais tarde, quando os pais se preparavam para sair, Kim estava de volta, abraçado a um ursinho de pelúcia sujo e amarrotado. Ao pobre bichinho faltava a orelha direita e um olho de vidro. Era o brinquedo favorito da Rebekka. Quando viu o urso, a mãe estremeceu e começou a chorar novamente, então Kim se deu conta de que não fazia sentido levar o brinquedo. Inseguro, girou o urso entre os dedos à procura de um lugar para colocá-lo.

— Tudo bem, filho — murmurou o pai. — Pode levá-lo. Quando atravessaram o pequeno jardim, começou a chover. O céu havia estado encoberto durante a maior parte do dia e, apesar de uma vez ou outra um solitário raio de sol abrir caminho entre as nuvens, reinava um frio desagradável. O outono chegara cedo este ano. Os jardins das casas populares que margeavam a rua onde Kim e sua família moravam ainda estavam floridos, mas a previsão do tempo anunciara geada para a próxima noite. A chuva que agora caía em gotas grossas e pesadas já era o prenúncio do inverno que se aproximava.

O pai levantou a gola do casaco e correu para abrir o carro. Deu partida e, abrindo a porta para a esposa e o filho, disse:

— Temos de nos apressar. O Dr. Schreiber nos espera às quatro e meia. E com esse trânsito...

Kim foi para o banco traseiro e colocou o cinto de segurança. A chuva intensa que tornava o habitual trânsito de final de tarde ainda mais complicado havia transformado as ruas em espelhos, que refletiam as imagens difusas dos carros.

Os pedestres abriam o guarda-chuva ou levantavam a gola dos casacos; alguns refugiavam-se em alguma loja. Escureceu. O pai ligou o aquecimento e, em pouco tempo, o calor aconchegante afugentou a umidade dentro do veículo, mas não conseguiu aquecer o interior do menino. Kim aninhou-se no banco traseiro e enfiou as mãos nos bolsos do paletó, mas o frio havia se apossado dele e não o largava mais. Parecia que se formara uma barreira ao redor do seu corpo que repelia todo e qualquer calor. Apertou o ursinho de pelúcia contra o corpo. Seus olhos encontraram os do pai no espelho retrovisor. Meio sem graça, colocou o urso de lado e apoiou o rosto no vidro embaçado do carro.

Depois que deixaram a cidade, o pai acelerou. O velocímetro estava pouco abaixo dos cem. O pai sempre dizia que, com tempo chuvoso e pista molhada, não se devia ultrapassar os oitenta, mas hoje, pelo visto, ele resolveu abrir uma exceção. O carro ultrapassou uma série de caminhões, arrastando atrás de si uma cauda de névoa cintilante formada por milhares de gotas de água.

Ao entrar na pista de acesso para a Ponte Sul, vislumbraram um reluzente arco-íris que se formara sobre o rio Reno. O rio, liso e opaco, lembrava uma alongada faixa de chumbo líquido. Kim avistou um enorme caminhão de carga que passava por baixo da ponte. Seguiu-o com os olhos até o perder de vista, depois voltou sua atenção de novo para o arco-íris. Não era um arco-íris muito grande nem muito vistoso. Haveria, talvez, uma hierarquia entre os arco-íris? A começar por pequenos e insignificantes, com poucas cores, até chegar aos exuberantes, que resplandeciam no mais variado colorido e que formavam uma ponte abobadada até o céu e as estrelas?

Talvez, no infinito do universo, houvesse um rei dos arco-íris? Se bem que Kim não podia imaginar como seria o tal rei dos arco-íris. Mas o universo era tão grande e tão maravilhoso que talvez, em algum minúsculo planeta, a galáxias de distância, existisse um rei dos arco-íris!

A ponte ficou para trás e as cores do arco-íris confundiram-se com o deprimente cinza do céu.

Nuvens negras acumulavam-se sobre a cidade e a chuva caía tão forte que o pára-brisa mal conseguia vencer as águas diluviais.

O crepitar das gotas sobre o teto do carro assemelhava-se a um longínquo trovejar. Entraram na Rua Mohren. O caminho era familiar para Kim, pois há alguns anos ele ficara internado nessa mesma clínica, também com apendicite, como a irmã. Aliás, apendicite era um mal de família, pois a mãe também não tinha mais apêndice.

Kim quase teve de repetir a terceira série, pois, a conselho do médico, tirou férias depois da operação, perdendo, assim, seis semanas de aula. Na época, o pai contratou um estudante para lhe dar aulas de recuperação e, enquanto seus amigos jogavam bola na rua ou faziam mil peripécias, Kim se via obrigado a enfiar a cara nos livros.

Finalmente chegaram. O pai parou o carro, debruçou-se para trás e abriu a porta para Kim.

— Você e sua mãe podem descer. Eu vou procurar um lugar para estacionar.

Kim soltou o cinto de segurança, saltou para fora do carro e correu, com a cabeça encolhida, para se abrigar debaixo do portal da clínica, todo branco e em forma de arco, onde já se acotovelavam pelo menos uma dúzia de pessoas. Homens, mulheres e algumas crianças, mas também dois homens de avental branco que, pelo visto, trabalhavam na clínica, os rostos sombrios voltados para o céu, na esperança de que a chuva desse uma trégua.

Uma mulher se virou para Kim, olhou para o urso debaixo do seu braço e sorriu. Mas o menino não retribuiu o sorriso, ao contrário, fez cara de poucos amigos e, num gesto provocador, apertou o bichinho contra o peito e encostou-se na parede úmida. Em alguma parte longe dali surgiu um relâmpago seguido pelo eco surdo do trovão.

Kim sentiu calafrios. Seus sapatos estavam encharcados e só agora ele se dava conta de que estava parado numa poça d'água. Deu um passo para o lado, mudou o urso do braço esquerdo para o direito e olhou, inseguro, para a mãe, cujo rosto lhe parecia muito magro e pálido. Uma sensação desagradável se apossou dele. Kim nunca havia se preocupado antes com a mãe; ele a amava, é claro, ela estava sempre presente, à disposição dele, da irmã e do pai, mas nunca lhe passou pela cabeça que ela poderia ter algum tipo de problema. Ela simplesmente era a mãe, sempre pronta para atender às necessidades da família, por menores que fossem. Sempre tinha tempo para ouvir e sempre tinha uma palavra de conforto. Nesse momento, Kim entendeu quanta força e quanta energia ela dispensava para estar sempre “a postos”. E, num ímpeto de carinho, pegou sua mão e sorriu. A mãe retribuiu o sorriso, mas seu olhar continuava triste. Apertou a mão do filho com tanta força que o machucou, enquanto a água da chuva se misturava com as lágrimas que escorriam pelo seu rosto.

O vento açoitou véus de água por entre os muros das casas. Os carros locomoviam-se lentamente, e nas calçadas não se via mais viva alma.

Uma ambulância, com a sirene cantando, aproximou-se em alta velocidade em meio a um espumante aguaceiro para desaparecer em seguida no extenso terreno da clínica. O pai veio correndo sob torrentes de água. Uma vez debaixo da proteção do portal, sacudiu a água da roupa e depois colocou o braço no ombro da mãe. Kim teve esperança de que ele dissesse: “Vamos esperar até a chuva passar”, ou algo parecido.

Mas ele não o fez, então enfrentaram a chuva novamente. Kim, tremendo de frio, correu atrás deles. Quando finalmente apareceu à sua frente o prédio grande e angular da clínica, os três estavam totalmente encharcados.

Kim comparou o prédio da clínica com um obscuro castelo medieval, habitado por demônios, bruxas e monstros telepáticos. Há algum tempo, quando esteve internado nesse mesmo prédio, não se sentira assim. Naquela época, tudo lhe parecera claro e alegre. Seu olhar pousou no letreiro de latão ao lado da entrada, no qual se lia em letras garrafais:

 

                           instituto cirúrgico da

             clínica universitária de düsseldorf

 

As palavras “Clínica” e “Instituto” lhe causavam arrepios. Certa vez perguntara ao pai por que um hospital era chamado de “Instituto”, mas o pai não soubera responder. Kim associava “Instituto” a prisão, manicômio, porões úmidos e mofados, repletos de ratos e outros animais repugnantes. Enquanto se aproximavam do maciço prédio de concreto, com os vidros das janelas embaçados, a denominação “Instituto” lhe parecia bastante adequada.

Ao entrar no prédio, uma onda de ar quente e abafado veio ao encontro deles. Kim passou pela porta basculante de vidro, sacudiu o corpo e se apressou para alcançar os pais. Atravessaram uma ante-sala, cujo chão ladrilhado devolveu o eco dos seus passos. Em seguida, passaram por um corredor comprido, no qual havia vários bancos de encosto alto; passaram por mais uma porta de vidro e, finalmente, chegaram à sala de espera da clínica infantil. Em um canto havia uma mesinha e várias cadeiras de madeira, pouco convidativas, ao lado de uma planta quase seca e de um cinzeiro amassado transbordando de pontas de cigarros e papel.

— Esperem aqui — pediu o pai. — Vou ver se o Dr. Schreiber chegou.

Apontou para as cadeiras, lançou mais um olhar para a mãe, na tentativa de lhe dar uma injeção de ânimo, e desapareceu atrás da porta basculante, que levava para a ala da cirurgia.

Kim colocou o urso de pelúcia sobre a mesa e sentou. Sua mãe continuou em pé, os olhos fixos nas portas fechadas do elevador na parte frontal do corredor. A luzinha do elevador acendeu e as portas se abriram com um alegre “ping”. Dois médicos e uma enfermeira apareceram, todos de avental verde-escuro, cabelo preso debaixo de redes e calçando tênis azul. Empurravam uma maca branca. Kim se esforçou para ver quem estava na maca, mas só conseguiu ver um topete negro e uma parte do ombro. A enfermeira acompanhou a maca com passos ligeiros; na mão erguida, segurava uma garrafa transparente contendo um líquido amarelado, da qual saía uma fina sonda de plástico para debaixo da manta que cobria a maca.

A mãe, os olhos fixos na figura coberta sobre a maca, começou a soluçar novamente. Seguiu os médicos com os olhos até desaparecerem com o paciente pela porta de vidro.

O pai voltou e disse:

— O Dr. Schreiber nos espera.

Ao lado da porta, uma plaqueta de metal informava que estava vetada a entrada de crianças com menos de quatorze anos, mas os pais não deram importância ao aviso.

Kim olhou ao redor: apesar do tempo que se passara desde que fora operado nessa mesma clínica, nada havia mudado: os mesmos quadros monótonos nas paredes, o mesmo cheiro impertinente... era quase como se as pessoas fizessem questão de não mudar nada.

O pai precipitou-se em direção a uma pequena cabine de vidro, trocou algumas palavras com a enfermeira dentro da cabine e seguiu em frente. Parou na penúltima porta, bateu, esperou um segundo e depois girou a maçaneta. O coração de Kim disparou. O quarto estava mergulhado na penumbra, interrompida apenas por algumas listras esparsas de luz que entravam pelas venezianas abaixadas. Em um canto havia uma pequena lâmpada coberta por um pano. Duas das três camas estavam vazias; na terceira dormia, em profundo sono, sua irmã Rebekka! Na cabeceira da cama estava instalado um complicado mecanismo de aparelhos piscantes e uma pequena tela, na qual um pontinho verde dava pulos irregulares, tudo acompanhado pelo monótono tique-taque dos diversos indicadores digitais. A mãe se aproximou da cama, os ombros trêmulos por causa do choro contido. Kim notou que, além deles, havia mais alguém no quarto. O Dr. Schreiber, até então imóvel, suspirou, deu a volta na cama e colocou a mão no braço da mãe:

— Eu... eu sinto muito, senhora Larssen — disse baixinho. Kim não gostava da voz do médico, mas ele parecia sincero:

— Achei melhor dizer a verdade.

A mãe acenou com a cabeça num gesto quase imperceptível. Seus dedos acariciaram a manta sobre a cama:

— Está... está bem, doutor. Sou grata por tudo o que o senhor fez. O Dr. Schreiber olhou para Kim.

— O menino sabe de tudo — explicou o pai.

O médico balançou a cabeça e enfiou as mãos nos bolsos do avental branco:

— Claro, é melhor assim.

— O senhor pode falar abertamente — disse a mãe.

— Não há muito o que falar — começou o Dr. Schreiber, hesitante. — Fizemos tudo que estava ao nosso alcance, mas infelizmente sem aparente resultado. É claro que ainda é cedo para... — tirou as mãos dos bolsos e continuou: — Não tem sentido tentar esconder a gravidade. Nos próximos dias ainda vou buscar a opinião de alguns colegas, mas o quadro não está bom, pelo menos no momento.

E, com um suspiro:

— Veja... nós... esse tipo de complicação não é desconhecida, mas eu, pessoalmente, ainda não havia tido nenhum paciente que apresentasse o problema. Por isso preciso recorrer à experiência de outros colegas e consultar literatura especializada. Os casos são raros, mas infelizmente acontecem. A Medicina tem algumas explicações, mas nenhuma delas me parece muito convincente. Tudo está em ordem, a operação foi bem-sucedida, o organismo reagiu bem, a anestesia perdeu o efeito... mas o paciente simplesmente não acorda!

O médico silenciou, à procura de palavras. Depois, hesitante:

— É como... como se o espírito do paciente se recusasse a reassumir a consciência, ou... como se algo o impedisse de acordar.

Um sorriso triste surgiu nos lábios do pai:

— E... a minha filha... é um desses casos? O Dr. Schreiber inclinou a cabeça:

— Infelizmente. Não sabemos quanto tempo vai durar. Às vezes, depois de um certo tempo, o paciente acorda sozinho; em alguns casos, os médicos até conseguem trazê-lo de volta. Mas não sabemos como e quando isso acontece.

E Rebekka? Os médicos poderiam fazê-la voltar, questionou-se Kim. Provavelmente o Dr. Schreiber estava diante da mesma incógnita. O médico continuou falando, mas Kim já não prestava atenção. Observou a irmã, imóvel, perdida na cama grande demais para ela. Fios coloridos saíam por baixo da manta e serpenteavam na direção do autômato cintilante diante da parede. Do cavalete de cromo, ao lado da cama, pendia a garrafa de soro. O rosto miúdo da menina estava quase completamente coberto por uma máscara respiratória.

Kim engoliu em seco. Sentiu um nó amargo na garganta e em seu estômago havia uma sensação desagradável de mal-estar. Colocou o ursinho de pelúcia sobre a cama, onde se delineava o braço direito da irmã, e depois deu um passo para trás. Fechou os olhos, mas de nada adiantou, pois não conseguiu esquecer a figura de Rebekka, perdida na imensidão branca da cama.

Kim só se deu conta de que estava chorando quando a mãe, com muito carinho, enxugou suas lágrimas. Ao erguer os olhos, viu que a mãe já não chorava, mas seu rosto refletia uma expressão tão grande de dor que o menino estremeceu.

O pai ainda estava falando com o médico, que, pacientemente, respondia às perguntas, enfatizando suas palavras com gestos. Kim olhou para as mãos do médico: brancas e finas, as veias sobressaindo como se fossem raízes azuladas.

Pouco depois, os três deixaram o quarto e retornaram para o corredor amarelo com as portas uniformes e o característico cheiro de hospital. Um velho, vestindo o avental azul, próprio para as visitas, foi ao encontro de Kim, parou na sua frente e encarou-o de maneira muito estranha. Ele era exatamente como Kim sempre havia imaginado que as pessoas idosas deviam ser: o andar curvado, a mão direita levemente estendida para a frente, como se estivesse acostumada a segurar uma bengala. O velho era menor que o pai, mas tinha ombros mais largos. Na mocidade devia ter sido alto e forte. Seus longos cabelos brancos lhe caíam até quase os ombros e a barba branca, muito bem cuidada, tocava o botão superior do avental. Ao redor dos olhos havia um espesso entrelaçado de rugas e a testa estava marcada por sulcos profundos.

O velho sorriu, balançou a cabeça e passou por eles, arrastando os pés. Kim resistiu à tentação de segui-lo com os olhos. Talvez fosse um avô visitando o neto doente, pensou. Kim gostaria de ter um avô. Seus avós morreram quando ele era muito pequeno, por isso nunca soubera como era ter um avô. Mas se tivesse um, teria de ser exatamente como o velho que acabara de encontrar.

O Dr. Schreiber acompanhou-os até o final do corredor, onde se despediu com um rápido aperto de mão, desaparecendo em seguida atrás da porta de vidro.

Parou de chover. Em silêncio, andaram pelo caminho ladeado por canteiros de flores e por um gramado bem cuidado, que os levava de volta para o portal de entrada, agora deserto. Sobre o asfalto brilhavam poças de óleo, o reboque das paredes descascava, colocando à mostra grandes manchas que, com alguma fantasia, podiam ser interpretadas como desenhos: por exemplo, uma mão bizarra, com dedos curvados, as unhas compridas e pontiagudas.

O pai parou, vasculhou os bolsos à procura das chaves do carro, mas as guardou em seguida:

— Vamos tomar um café, estou com sede.

Sem dizer uma palavra, a mãe se apoiou no braço do marido e os três atravessaram a rua. Kim respirou fundo. Parecia que tinha escapado de uma prisão com muros invisíveis e intransponíveis. Ficou parado no meio da travessia de pedestres e se virou para lançar um último olhar para a entrada da clínica, que agora lhe lembrava a goela escancarada de um monstro, à espreita da presa, ou a entrada de um calabouço sem saída, sem luz e ar, e sem esperança para aqueles que tiveram a infelicidade de cair nele. Dando as costas para essa imagem sinistra, apressou-se para alcançar os pais.

 

Na espaçosa lanchonete, foram recebidos pelo agradável aroma de café e bolo. Inúmeras pequenas lâmpadas sobre as mesas conferiam ao ambiente acolhedora claridade. Garçonetes de vestido preto e com um pequeno avental branco com entremeios de renda amarrado na cintura movimentavam-se, ágeis, entre as mesas. O pai apontou para uma mesa vaga perto da janela. Sentaram. O pai acendeu um cigarro, abafou um acesso de tosse com a mão e apoiou os braços na mesa. Seu rosto mostrava cansaço e, com os pensamentos longe, nem percebeu a garçonete, que perguntava, pela segunda vez, o que desejavam. Finalmente, pediu café e uma Coca-Cola para Kim. Depois, voltou-se para a esposa:

— Deveríamos ligar para a sua irmã. Talvez ela possa vir por alguns dias para lhe fazer companhia.

— Tia Birgit? — perguntou Kim. O pai fez um gesto afirmativo:

— Tenho certeza de que ela virá quando souber o que aconteceu.

— Por que você não tira uns dias de folga? — perguntou a mãe de Kim. — O escritório não vai desmoronar se você faltar uma semana, não é?

O esboço de um leve sorriso surgiu nos lábios do pai:

— É claro que não. Mas eu tenho muito trabalho no momento. E, com um suspiro:

— Acho que eu não seria muito útil para você em casa. Além disso, o trabalho me distrai.

Ele se inclinou para trás e estendeu as pernas por baixo da mesa:

— Vou ter de faltar muito... pretendo ir à clínica todos os dias.

A garçonete voltou com um bule de café e um copo de Coca-Cola. Kim olhou, pensativo, para o pai. Ele às vezes tinha uma maneira fria e realista de se expressar, o que fazia as pessoas à sua volta sentirem-se rejeitadas. A mãe se queixara disso algumas vezes, mas ele não entendia ou não queria entender. É claro que o pai não agia assim por mal, simplesmente era o jeito dele, e a família acabou aceitando sua maneira de ser, ainda que pessoas de fora ficassem chocadas.

Kim bebericou a sua Coca e se encolheu no banco estofado. Apesar de o ambiente estar aquecido de maneira gostosa, sentia frio. Seus sapatos e suas meias continuavam molhadas e fez força para não bater os dentes de tanto frio.

Bebeu mais um gole de Coca-Cola e colocou o copo cuidadosamente no círculo molhado que se formara sobre o tampo da mesa. Olhou pela janela. O céu ainda estava encoberto, mas já não chovia. Havia mais pessoas e carros nas ruas do que antes. O vidro da janela era um espelho transparente, mágico, que refletia sua imagem e a dos outros freqüentadores do café.

Por um momento, a rua do lado de fora da janela lhe parecia um atalho entre uma selva de concreto. Os homens não eram homens, mas seres encantados, e as casas se transformaram em castelos guarnecidos com ameias, que ocultavam obscuros e sinistros segredos. Mas logo a fantasia se desfez e a rua voltou a ser apenas uma rua numa tarde cinzenta de outono.

Um velho passou com passos vagarosos, mas voltou em seguida para espiar pelo vidro da janela. Era o velho de barba e cabelos brancos que cruzara seu caminho na clínica! Em vez do avental azul, vestia agora um casaco marrom-escuro, grande demais para ele, cujas mangas eram tão compridas que cobriam suas mãos. Alguns fios de cabelo branco lhe caíam sobre a testa. Com a mão esquerda, apoiava-se em uma bengala nodosa, enquanto esfregava a manga do casaco no vidro embaçado da janela. Kim assustou-se. O rosto do estranho velho permanecia impassível, enquanto não tirava os olhos do menino, mas Kim teve a impressão de que ele estava sorrindo, então, sem querer, retribuiu o sorriso.

O susto passou. De uma maneira singular, inexplicável, o velho enrugado lhe transmitia confiança. Era inimaginável que ele tivesse alguma intenção maldosa! Parecia ser a bondade em pessoa, como uma figura alegórica de um filme ou de uma peça teatral. Um bondoso avô, ou melhor, um feiticeiro sábio!

O pai pigarreou. Kim baixou os olhos com uma sensação de culpa e olhou para o fundo do copo. Desviara sua atenção para um desconhecido qualquer, enquanto a irmã continuava inconsciente naquela enorme prisão e, provavelmente, correndo perigo de morte.

O pai levantou, deixou dinheiro sobre a mesa e retirou os casacos do guarda-casacos. Quando deixaram o café, Kim olhou ao redor à procura do velho, mas não o encontrou. Talvez tenha se refugiado em algum lugar quente e acolhedor!

Pouco a pouco, a cidade mergulhou na penumbra do entardecer. Os carros ligaram os faróis e o asfalto molhado espelhou o brilho forte de suas luzes.

Para Kim, os carros se transformaram em barcos que flutuavam sobre um rio, cuja superfície refletia um maravilhoso céu estrelado. Também nas casas acendiam-se as luzes, mas havia casas que permaneciam parcialmente ou totalmente escuras, como se os moradores tivessem esquecido de fechar portas e janelas antes que a escuridão pudesse invadi-las.

O rio Reno se mostrava agora mais sereno e mais escuro que antes, quando estavam a caminho da clínica. Assemelhava-se a um profundo fosso à espera de uma vítima descuidada que pudesse engolir.

Eram quase oito horas da noite quando, finalmente, chegaram em casa. O pai esperou os dois descerem e depois levou o carro para a garagem. Uma meia-lua pálida pendia do céu, revestia os telhados com prata e aniquilava as cores vivas dos jardins.

Um calor reconfortante os recebeu ao entrar em casa. Kim pendurou seu casaco molhado no vestíbulo e correu para o quarto, para trocar de roupa. O livro com a lição de matemática ainda estava do mesmo jeito que ele o deixara e os indicadores verdes da calculadora de bolso o encararam como dois minúsculos olhos cintilantes.

Kim parou na porta, esticou o braço para ligar a luz, mas não o fez! Uma estranha sensação o deteve. Nada mudara, porém, tudo parecia diferente! Pela janela aberta fluiu a luz prateada da lua e a cruzeta da janela lançou uma sombra alongada sobre o tapete. Kim deu um passo hesitante, piscou assombrado e parou de novo. Por um momento, teve a nítida impressão de que, aos seus pés, no tapete, delineava-se uma paisagem em miniatura, com rios, montanhas, desfiladeiros, florestas e extensas planícies. Aí ouviu uma alegre risada!

Nesse instante, a porta da casa se fechou com um ruidoso estalo e o quarto voltou a ser o de sempre, com a costumeira desordem. Kim suspirou, ligou a luz e mudou de roupa. Em seguida, desceu até a cozinha.

A mãe pôs a mesa com pão, manteiga e carne assada fria. O pai, sentado perto da janela, os olhos cravados na escuridão do lado de fora, estava fumando novamente.

Comeram em silêncio. Quando terminaram, o pai levantou sem dizer uma palavra, foi para a sala de estar e ligou a televisão, enquanto a mãe lavava a louça. Normalmente ela juntava as xícaras e os pratos e os colocava na máquina de lavar louças, mas hoje ela preferiu fazer esse serviço ela mesma.

Kim a observou por um tempo. Depois empurrou a cadeira e avisou que ia subir para terminar a lição de matemática. A mãe levantou os olhos, tirou as mãos da água e as secou numa toalha:

— Você não precisa ir à escola amanhã, eu mando um bilhete. Foi um dia cansativo para todos. É melhor descansar. Dê boa-noite para o seu pai e depois vá para o quarto.

— Posso ler? — perguntou Kim. A mãe sorriu:

— Meia hora, está bem? Excepcionalmente.

Kim queria fazer um comentário, mas achou melhor se retirar. Pela porta semi-aberta da sala de estar, viu o pai sentado no escuro, os olhos fixos na tela da televisão, brincando nervosamente com o isqueiro.

— Boa noite! — disse Kim.

O pai não se mexeu e não respondeu. Kim encolheu os ombros. Ficou por mais um instante, sem saber o que fazer, depois subiu para o seu quarto. Passou pelo quarto dos pais, pelo seu e foi até o quarto da irmã. Com dedos trêmulos girou a maçaneta e procurou o interruptor de luz. Só depois que a claridade baniu as sombras atreveu-se a entrar.

Quando, há três anos, mudaram para a casa nova, os pais decoraram os quartos dos filhos de maneira igual: o mesmo tapete, as mesmas cortinas, a mesma mobília. Só que sobre a escrivaninha da irmã, que tinha apenas quatro anos, havia desenhos coloridos em vez de livros escolares e a estante de livros não estava abarrotada como a sua.

Kim foi até a estante e puxou, a olho, um dos livros com imagens coloridas. Folheou-o rapidamente, deslizando as páginas entre os dedos até sentir o suave sopro no rosto. Depois fechou o livro e colocou-o no lugar. Havia quase só livros com imagens, próprios para a idade da irmã, mas também havia alguns que ela ainda não podia ler sozinha: livros de contos de fada ou sagas, que a mãe às vezes lia para ela. Eram livros que não interessavam a Kim, pois ele se considerava quase adulto e gostava de outro tipo de literatura.

Ao sair do quarto da irmã, fechou a porta silenciosamente e, na ponta dos pés, seguiu para o seu próprio quarto, como se tivesse feito algo proibido.

Ouviu a mãe pegar o telefone e discar um número, mas como ela falava em voz baixa, Kim não conseguia ouvir o que dizia. Encostou-se no corrimão da escada para tentar escutar, mas depois lembrou que era feio escutar a conversa dos outros, então desistiu.

No quarto, Kim se despiu, apagou a luz e foi para a cama, depois de ligar o abajur e tirar da estante O ataque dos telepatas, último volume da série Guerreiros das estrelas.

Logo encontrou a página marcada, mas era difícil concentrar-se na leitura, apesar de estar lendo uma das cenas mais interessantes do livro: o momento em que o comandante Arcanas se viu diante da difícil decisão: conduzir a Warlord II para a luta contra os monstros telepáticos, tecnicamente muito superiores, ou desistir da luta e salvar a nave espacial, deixando o caminho rumo às galáxias livre para os sinistros monstros. As palavras pulavam diante dos seus olhos e não faziam sentido. Irritado, fechou o livro e ficou olhando para o teto; depois de alguns minutos, tentou novamente. Mas de nada adiantou: por mais que tentasse, não conseguia se concentrar. Tentava, insistentemente, imaginar o rosto barbudo do comandante Arcanas, mas, em vez disso, aparecia-lhe a imagem da irmã, perdida na imensidão da cama hospitalar.

Bateram na porta. Kim baixou o livro, sentou na cama e disse:

— Entra!

A maçaneta girou, a porta se abriu vagarosamente, deixando passar um estreito feixe de luz. Kim ouviu a voz da mãe, que continuava ao telefone.

— Incomodo? — perguntou o pai.

Kim não respondeu. O pai fechou a porta e foi até a cama. Empurrou o cobertor e sentou na beirada. Com um sorriso, tirou o livro das mãos do filho:

— Interrompi sua leitura.

— Você não incomoda — assegurou Kim. — O livro é... eu não consegui ler.

O pai quase nunca entrava no seu quarto à noite. Quando o fazia, era para falar sobre os erros que encontrara no dever de casa. Mas desta vez ele vinha por outro motivo:

— Isso é mais interessante que os deveres de casa, não é? — perguntou, apontando o livro.

Kim confirmou com a cabeça. Depois mordeu os lábios e murmurou algo. Mas, pelo jeito, o pai não queria esperar a resposta, pois continuou a falar:

— Eu também gostava desse tipo de literatura quando tinha a sua idade.

Kim olhou para ele, surpreso. O pai, lendo romance de ficção científica?

O pai percebeu o espanto do filho e sorriu:

— Acredite, no meu tempo de escola, eu devorava este tipo de livro. Aliás, não só eu, meus amigos também. Nós até chegamos a fundar um clube para trocar os livrinhos, escondidos dos nossos pais, pois eles não queriam que gastássemos nossa mesada com bobagens...

— Você... você gostava mesmo de ficção científica? — perguntou Kim, ainda incrédulo.

O pai foi até a estante de livros:

— Por que não? Minha coleção preferida era A nave espacial Orion, que você provavelmente não conhece... É do meu tempo.

Kim lembrou que Thomas, o menino que sentava ao seu lado na escola, certa vez levara um livro muito velho e gasto com esse título, mas Thomas não permitiu que Kim desse uma olhada.

— Eu até acho que em algum caixote no sótão ainda deve ter alguns desses velhos livros — disse o pai, pensativo.

— Você pode me dar esses livros? — perguntou Kim.

Para sua surpresa, o pai respondeu:

— Por que não?

O pai tirou um livro após outro da estante, leu os títulos e colocou-os de volta no lugar.

— Pelo que vejo, não há como impedir que você leia isso... Acomodou o último livro na estante e voltou sua atenção para o modelo de nave espacial que o filho fizera: — Entendo muito bem o que o fascina nesse tipo de literatura.

— É mesmo? — perguntou Kim e olhou, orgulhosamente, para o modelo.

Gastara a mesada de uma semana inteira para fazê-lo. Trabalhou noites a fio e não foi nada fácil montar as minúsculas antenas e os sensores a raio laser.

— Claro que entendo — continuou o pai. — A vida nessas histórias é muito mais simples do que a realidade. Não tem escola, não tem professores, nem pais que forçam a gente a ficar em casa com tempo bom lá fora para fazer os deveres.

Cúmplice, piscou para o filho:

— Você simplesmente senta na nave espacial e parte para o espaço.

— Não é bem assim! — retrucou Kim, meio chateado.

— Ah, é assim mesmo. Comigo foi assim. Quando eu tinha a sua idade, estive ao lado do comandante McLean na central de comando da Orion e tremia quando as naves dos Frogs atacavam a Terra.

Sorridente, girou o modelo nas mãos e perguntou:

— O que é isso?

— Uma Viper — explicou Kim, entusiasmado. — A tripulação é composta por apenas dois homens, mas ela é tão ágil e veloz que é praticamente imbatível.

Kim apontou para os dois pequenos e pontiagudos espinhos que saíam por baixo da carlinga de vidro da nave:

— Você está vendo? Canhões de laser!

— Ah... canhões de laser...

Kim lançou um olhar desconfiado na direção do pai. Estaria ironizando? Mas o pai não parecia estar nem um pouco irônico, ao contrário, parecia até muito sério.

— No meu tempo já éramos modernos. Tínhamos enormes naves espaciais, com um comprimento de quatro ou cinco quilômetros, com armas capazes de destruir um planeta.

— A Warlord II também consegue destruir um planeta — revidou Kim.

— Warlord II?

— A nave do comandante Arcanas. Ela é do tamanho da Lua, mas é veloz como um raio de luz — explicou Kim, repetindo o texto que lera no verso do livro Guerreiros das estrelas.

— As Vipers são usadas em missões especiais. Elas são pequenas e podem decolar e pousar em quase todos os lugares sem serem vistas. E quando atacam em bando, são mais perigosas que as naves grandes, porque são mais velozes.

O pai sorriu. Cuidadosamente, colocou o modelo na estante e murmurou:

— Pelo jeito, a época das grandes lutas espaciais terminou... Mas eu vim porque não lhe dei boa-noite há pouco. Desculpe, filho.

— Está bem, pai.

O pai foi até a porta, mas não saiu:

— Amanhã continuamos a falar sobre seus livros. Talvez possamos conciliar o comandante... como é mesmo o nome?

— Arcanas.

— Pois é... O comandante Arcanas com seus deveres de casa. Seu olhar caiu sobre a escrivaninha e ele desligou a calculadora

de bolso. Depois saiu definitivamente do quarto.

Kim não tirou os olhos da porta fechada. Hoje, por alguns momentos, o pai tirou a máscara que normalmente usava. Nunca antes Kim o vira assim! Com certeza ele não entrou no seu quarto para falar sobre o comandante Arcanas, e também não o tinha feito para desejar-lhe boa noite.

Kim cruzou os braços por trás da cabeça e bocejou. De repente, sentiu-se muito cansado, sonolento. Fechou os olhos. Sentiu sede e, por um instante, cogitou ir até a cozinha para beber um copo de leite. Mas o cansaço o prendeu na cama. Virou de lado, desligou o abajur e fechou os olhos definitivamente.

Adormeceu rapidamente, mas não foi um sono tranqüilo. Agitado, virou de um lado para outro, torturado por pesadelos confusos, nos quais apareciam a clínica, o comandante Arcanas e o rosto branco da irmã. Kim quis acordar, mas não conseguiu. Tentou beliscar o próprio braço, mas o pesadelo o deixou inerte, sem ação. Finalmente, acordou com um sobressalto, o coração disparado, na boca um gosto amargo e o pijama molhado de suor. Balançou a cabeça e engoliu em seco para se livrar do gosto desagradável na boca.

A lua desaparecera e não mais iluminava o quarto. Do lado de fora da janela reinava uma escuridão absoluta. De repente, no silêncio da casa, ouvia-se um fraco ranger! Uma mão gelada passou pelas costas do menino! Agora, de novo, o mesmo ranger, repetido, sem parar! Um ruído que lhe era familiar... o chiar da cadeira de balanço que ficava ao lado de sua cama!

Devagar, abriu os olhos. Reuniu toda coragem de que dispunha e olhou ao redor, para o teto e para a parede. Então viu: a sombra da cadeira de balanço projetada na parede branca!

Com um grito abafado, Kim ergueu o corpo e se espremeu contra a cabeceira da cama. A cadeira de balanço se mexia com movimentos suaves para a frente e para trás e, sentado nela, o homem velho de barba e cabelos brancos, cujos olhos escuros o fitavam incessantemente... O velho que havia visto duas vezes naquela tarde!

Kim, com a respiração ofegante, engoliu em seco. Apertou as mãos para esconder que estavam trêmulas.

— Quem... quem é o senhor? — perguntou com muito custo, pois a voz não queria sair.

O velho sorriu aquele seu sorriso característico em que não movia um só músculo do rosto:

— Tu me conheces — disse com voz sonora. Kim achou que a voz combinava com ele. O comandante Arcanas devia ter uma voz assim, pensou.

— Eu... eu acho que já vi o senhor hoje — disse, hesitante.

— Duas vezes — corrigiu o velho. — Primeiro no hospital, quando tu visitaste tua irmã e mais tarde, na rua. Lembras?

— Claro. O senhor... o senhor conhece a Rebekka?

O velho parou de balançar, ergueu o corpo e, com a mão esquerda, acariciou a longa barba branca:

— É claro que conheço tua irmã, Kim. Eu também te conheço. Tua irmãzinha falou muito sobre ti.

— O senhor... por que.... quero dizer... — balbuciou Kim, confuso.

— Conheço-vos, os dois — continuou o velho. — Também conheço teus pais e a tua tia Birgit, mas eles não me conhecem, infelizmente. Mas, faças-me o favor, e pares de me chamar de “senhor”. Afinal, somos amigos, não somos?

Kim confirmou:

— É claro... se você não tem nada contra. Mas como devo chamá-lo?

— Me chame como quiser. Talvez Arcanas?

O comandante Arcanas era mais alto, mais jovem e mais forte que o velho, mas enquanto o rosto do velho transmitia bondade e sabedoria, nos traços do comandante Arcanas dominavam a força, a firmeza e a determinação. Kim balançou a cabeça:

— Você não é o comandante Arcanas! O velho sorriu novamente:

— Eu sou Arcanas, mas também sou Gandalf, Merlin e o homem da lua, se assim o desejares. Tenho muitos nomes e todos me servem.

Quando viu a perplexidade no rosto do menino, acrescentou:

— Se tu quiseres, podes me chamar de Temístocles. Tua irmã costumava me chamar assim.

— Temístocles?!

Kim chegou à conclusão de que esse nome lhe caía bem.

— Está bem. Mas por que minha irmã o chamava assim? Ela o conhece?

— Claro! A Rebekka e eu somos bons amigos.

Kim ia dizer algo, mas Temístocles levantou a mão:

— Calma, Kim! Não temos muito tempo, mas vou explicar tudo. Eu vim para pedir tua ajuda.

— A minha ajuda?!

Em que um menino pequeno e fraco como ele podia ajudar um homem sábio como Temístocles?

Temístocles sorriu como se tivesse lido os pensamentos do menino:

— Tem algo que só tu podes fazer. Ou, para falar de outra maneira: só tu podes ajudar Rebekka. Ninguém mais pode, nem mesmo eu.

— Minha irmã?! — perguntou Kim, estupefato. Temístocles acenou com a cabeça, num gesto afirmativo.

— Mas... de onde você conhece a Rebekka?

— Eu a conheço há muito tempo — explicou Temístocles. — Ela me visita sempre lá onde eu moro. Ela tem muitos amigos lá. Todos gostam dela, por isso tua ajuda é muito importante.

Kim estava confuso:

— Mas eu... eu não entendo... De onde você vem? E como eu poderia ajudar?

— De onde eu venho?

Temístocles inclinou a cabeça. Aliás, parecia terminar cada frase com uma inclinação de cabeça:

— A terra de onde eu venho chama-se Märchenmond.

— Märchenmond?!

— É o nome que a tua irmã deu. Ele nos agradou tanto que resolvemos adotá-lo.

— Märchenmond é...

— Um país, um reino, um mundo... como quiseres, Kim. Tua irmã esteve lá muitas vezes e sempre esperávamos que um dia ela te levasse. Sabes, nós gostamos de visitas.

Temístocles suspirou e passou os dedos pela longa barba:

— Mas infelizmente aconteceu algo que ninguém previa. E é por isso que estou aqui.

Kim encolheu as pernas e enlaçou os joelhos com os braços, mantendo o olhar fixo em Temístocles.

— Para a tua irmã, Märchenmond é uma terra repleta de amigos, alegria e jogos divertidos — explicou o velho. — Mas Märchenmond também tem um pouco do vosso mundo. Lá também existe o bem e o mal, como aqui. Até agora conseguimos controlar o mal, mas, por mais que nos esforcemos, ele continua lá. A tua irmã gostava de passear sozinha na floresta e nunca lhe aconteceu mal nenhum, pois nós vigiamos os poderes malignos. Mas um dia Rebekka se aventurou nas profundezas obscuras da floresta e nós a perdemos de vista. Nossas fronteiras são muito bem vigiadas, mas existem caminhos e atalhos que conduzem para além da Cordilheira das Sombras...

— Cordilheira das Sombras?!

— A Cordilheira das Sombras faz fronteira com nosso país. São montanhas mais altas que a Lua, cujas sombras são tão profundas que nenhum ser é capaz de atravessá-las. Existem caminhos que nem mesmo nós conhecemos. E a tua irmã descobriu um desses caminhos.

— E o que aconteceu? — perguntou Kim, alarmado. Temístocles silenciou por um momento. Depois, com os olhos fixos no menino, disse:

— Ela foi feita prisioneira. Boraas, o Senhor das Trevas, prendeu-a em seu calabouço.

Kim teve um sobressalto:

— Mas vocês... vocês têm de a libertar!

— Não dá, Kim — disse Temístocles, triste. — Nenhum habitante de Märchenmond pode entrar no Reino das Trevas, pois imediatamente será transformado em sombra. Acredite, eu daria a minha vida para libertar a tua irmã, mas é impossível. Eu só fortaleceria o poder de Boraas, se tentasse. Até acredito que ele só mantém a tua irmã presa para poder destruir a mim e a Märchenmond.

— E você acha que... que eu poderia ir para lá sem ser transformado em sombra?

Temístocles confirmou:

— Sim, Kim. Cada habitante do teu mundo pode se mover livremente no Reino das Sombras. Inclusive tu.

Kim refletiu por alguns instantes, depois jogou a coberta para o lado e saltou da cama:

— Estamos esperando o quê? Vamos! Mas Temístocles não se mexeu:

— Eu sabia que tu ajudarias Rebekka. Mas é meu dever alertar-te. Será uma missão muito perigosa.

— Não tem importância — disse Kim.

Temístocles insistiu:

— Muito perigosa. Talvez... talvez tu nunca mais voltes. Talvez também te tornes prisioneiro. Boraas é um mago poderoso e muito maldoso. Seu poder é igual ao meu. Mas Kim não se intimidou:

— Não tem importância. Eu não tenho medo. Esse cara infame vai se arrepender de ter feito Rebekka prisioneira.

Temístocles levantou e apontou para a porta:

— Pois bem, se é o teu desejo, então me sigas!

Em silêncio, desceram as escadas e, apesar da escuridão, Kim enxergava com nitidez, como se tivesse olhos de gato. Sem fazer barulho, Temístocles abriu a porta da sala de estar.

— Estás mesmo decidido? — perguntou Temístocles novamente. Impaciente, Kim confirmou que libertaria a irmã das garras do maldoso feiticeiro.

— Então, que seja! — exclamou Temístocles. Atravessando a sala com passos rápidos, parou diante do velho carrilhão. O pêndulo do relógio não se mexia, porém, ainda se ouvia seu tique-taque.

— Eu tenho de te explicar algumas coisas — disse Temístocles. — Mas o tempo urge. Eu te espero em Märchenmond.

Com essas palavras, o velho entrou no relógio e desapareceu! Estupefato, Kim esfregou os olhos. Inseguro, estendeu a mão e tocou no pêndulo do relógio. Com a ponta dos dedos bateu levemente contra a madeira do relógio.

— Não, Kim! — era a voz de Temístocles, que sussurrava essas palavras.

— Mas como...?

— O caminho para nossas terras é conhecido por muitos, mas cada pessoa tem de encontrar o seu próprio caminho. E assim também tu! Acha-o, tu consegues, mas depressa. Espero por ti!

A voz foi se perdendo e o pêndulo do relógio começou a se mover de novo. Por alguns instantes, Kim ficou parado, indeciso. Depois saiu para o vestíbulo, onde uma luz branca e suave iluminava o vidro fosco da porta da casa. Ainda há poucos minutos a luz não estava lá! Kim girou a maçaneta, abriu a porta e, silenciosamente, desceu os degraus da escada que conduziam para o jardim.

A Viper estava estacionada em frente à sua casa, no meio da rua. As extremidades pontiagudas das asas da nave espacial chegaram a tocar o jardim da sua casa e da casa vizinha. O casco delgado parecia estar sendo impulsionado por alguma energia invisível e vigorosa, contida a muito custo.

Kim acariciou o uniforme de couro marrom-escuro que estava vestindo e que lhe caía como uma luva. Sua mão apertou a tecla do sensor ao lado da estreita escada de metal que conduzia à cabine de comando. Imediatamente, ouviu-se um leve zumbido e a carlinga vítrea se abriu.

Kim subiu a escada, sentou na poltrona macia e colocou o cinto de segurança. A carlinga se fechou automaticamente e, no mesmo momento, as luzes do painel de instrumentos acenderam, mergulhando a cabine em uma suave luz esverdeada.

Kim desceu a viseira do capacete. Seguro e confiante, mexeu na aparente confusão de botões, instrumentos e reguladores à sua frente, ligou os muitos interruptores e, passo a passo, despertou a complicada tecnologia da Viper.

Com delicada vibração, a nave ganhou vida. No centro da alavanca do leme, em semicírculo, acendeu uma luzinha trêmula, vermelha.

Kim estendeu a mão, respirou fundo e, decidido, apertou o botão da decolagem. Os dois reatores começaram a trabalhar com muito barulho. A detonação provocou um eco múltiplo que fez as janelas das casas tinir.

Kim apertou a alavanca de aceleração. Os incendiários explodiram com surdo bramido. Uma luz intensa saiu das tubeiras dos foguetes e mergulhou as casas numa claridade quase insuportável. A Viper se pôs em movimento com um barulho ensurdecedor, passou rente pelos telhados e subiu, arrastando uma cauda de fogo, rumo às estrelas.

 

Kim acelerou com um leve toque da mão, quase imperceptível, e a cidade, em menos de meio minuto, ficou reduzida a um mar de luzes para, logo em seguida, não ser nada mais que uma mancha obscura, que acabou sendo absorvida pela escuridão da noite. Cuidadosamente, Kim movimentou a alavanca de direção, levou a nave para o lado e seguiu vôo, fazendo uma ampla curva em direção ao norte. Embaixo dele apareceu o rio, nada mais que uma fina tira negra, parcialmente encoberta por nuvens vagantes, que serpenteavam rumo ao mar.

Kim inclinou levemente o nariz da Viper, com as extremidades das asas cortou uma nuvem ao meio e continuou acelerando, acompanhado pelas suaves trepidações da nave.

A terra formou um difuso amálgama de diversos matizes de cinza. Com incrível velocidade, cidades e aldeias, nada mais que pontos luminosos, deslizavam pela noite e, pouco mais de três minutos após a decolagem, avistou a costa.

O céu sobre o mar se apresentava límpido. Kim debruçou-se para o lado, para lançar um olhar sobre a imensidão oceânica, iluminada pela luz turva da lua. Notou um minúsculo ponto luminoso sobre a superfície do mar, reflexo da chama atômica que, com claridade chamejante, carregava-o rumo ao desconhecido.

Avistou uma grande massa escura de terra que, em fração de segundos, desapareceu na noite. Continuou acelerando cada vez mais e acabou alcançando uma velocidade tão grande que, por um momento, acreditou ver a lua se desprender do céu e peregrinar pelo firmamento.

No painel de instrumentos, duas luzes vermelhas, acompanhadas por um estridente zumbido, alertavam iminente perigo. Um rápido olhar pela janela lhe revelou que o metal nas extremidades das asas estava incandescente. Com um suspiro pesaroso, reduziu a velocidade. O zumbido parou e, após poucos segundos, as luzes vermelhas se apagaram. A Viper, uma nave incrivelmente veloz, fora construída para voar em espaço aberto. Assim, somente quando alcançassem o espaço sideral os reatores poderiam desenvolver sua plena capacidade.

Kim continuou voando com a velocidade do som infinitamente aumentada. Provavelmente o mar que sobrevoava estaria estremecendo sob as marteladas da barreira do som, rompida milhares de vezes. O que, no entanto, era insignificante frente à força real contida no delgado casco da nave.

Kim reduziu ainda mais a velocidade e perdeu altura. A Viper começou a degringolar, mas Kim, habilmente, controlou a situação e retomou o curso. Sentiu uma profunda união com a nave que estava pilotando. Já não havia mais diferença entre ele e a nave, ambos formavam, naquele momento, uma união perfeita e harmoniosa.

Nas profundezas, o mar era uma massa de chumbo derretido. Kim desceu mais um pouco, até que viu a sombra alongada da Viper projetada na superfície oceânica. Em seguida, subiu novamente, acelerando com cuidado, para não mais ultrapassar o limite de velocidade e entrar na zona de perigo.

No horizonte delineava-se, agora, uma linha branca, estreita, que em fração de segundos assumiu as proporções de uma poderosa ribanceira formada por gelo e neve, guardiã da imensidão desértica formada pela atmosfera congelada. Kim diminuiu a velocidade e deu início à descida. O luar se encarregou de projetar a sombra da Viper na superfície congelada, fazendo-a parecer um grande e silencioso pássaro. Kim viu um ponto minúsculo, branco, que se dirigia, com passos trôpegos, para o norte: um urso polar que, surpreso, se virou para seguir com os olhos a Viper, para ele um estranho ser. Kim saudou o urso, balançando as asas da nave. Voltou a acelerar até que o gelo se transformou numa superfície resplandecente, na qual não se identificava mais nenhum detalhe.

Quando a Viper sobrevoou o Pólo Norte durante o crepúsculo matutino, o pequeno compasso magnético no painel de comando começou a rodopiar. A agulha trepidou e, por um momento, girou fora de controle em torno do próprio eixo, para, em seguida, fazer uma rotação de cento e oitenta graus.

O romper do dia o acompanhou ao sobrevoar a costa. E, novamente, seu rumo o levou para o mar aberto. Como numa cena irreal e fantástica, o Sol galgou o horizonte, como uma pequena bola incandescente para transformar-se, em seguida, em um disco chamejante, cuja claridade dolorosa não se detinha nem diante do vidro fume de sua viseira. Mas mal conquistou o firmamento, o astro luminoso afundou novamente no horizonte, abrindo espaço para a noite que, por sua vez, num piscar de olhos, anunciou uma nova alvorada. Mais uma vez a Viper ultrapassara o Sol! Kim continuou sobrevoando o mar, que se estendia, infinito, sem que nada interrompesse o marasmo de sua imensidão. Um novo dia surgiu em apenas alguns minutos... a máquina continuou levando-o para o sul, cada vez mais, e mais... nenhum ser humano, nenhum pensamento, jamais ousara ir tão longe!

Aí, quando o cintilante esplendor das estrelas cobriu o céu pela terceira vez consecutiva, apareceu no horizonte, emergindo do mar, uma linha reta, negra. A Viper desacelerou, o que deixou Kim confuso. Ele conferiu os controles e apertou a alavanca de aceleração. Porém, dessa vez, a máquina se recusou a obedecer. Ao contrário, foi se tornando cada vez mais lenta, caindo suavemente, porém de maneira contínua. Com cuidado, Kim levou a Viper para a direita. A máquina se inclinou para o lado e, fazendo uma curva longitudinal, continuou a descer. Pelo menos ela ainda obedecia ao curso programado, pensou Kim.

Kim retornou ao curso retilíneo, observando, curioso, a paisagem que passava por ele nas profundezas. Não lhe era possível reconhecer detalhes, pois a altura e a velocidade ainda eram consideráveis, porém, o que viu o fez estremecer: rochas e pedras vítreas despojadas de qualquer vegetação, uma monstruosa solidão, tudo dominado pelo cinza e pelas sombras! O mundo abaixo dele parecia informe, sem vida, sem nem mesmo terra ou areia, somente rochas e pedras despidas e mortas. Talvez a paisagem do planeta Terra, há milhões de anos, muito antes da primeira forma primitiva de vida surgir em sua superfície, fosse parecida com essa, que então surgia diante dele.

Kim sentiu calafrios. Devia ser o Reino das Sombras de que Temístocles falara. Desprendeu-se a muito custo da horripilante visão, levantou a viseira e passou os olhos pelo horizonte. Em algum lugar, lá adiante, devia estar a Cordilheira das Sombras!

Após algum tempo, percebeu que a sombra negra à sua frente não era o horizonte, como pensara, mas... montanhas!

Espanto e choque o fizeram gritar. Arregalou os olhos. Temístocles lhe falara que a Cordilheira das Sombras era mais alta que a Lua, porém Kim não dera crédito às palavras do velho mago — achou que tinham sido ditas com certo exagero romântico.

Kim só despertou do assombro quando, no painel de instrumentos, começou a bruxulear uma bateria de luzinhas vermelhas. Apressado, agarrou a direção, puxando o nariz pontudo da Viper para o alto. Os indicadores da nave começaram a se descontrolar quando tentou, em vão, medir altura, massa e extensão da cordilheira fantasmagórica. Sem pestanejar, Kim desligou os aparelhos, concentrando-se na árdua tarefa de dirigir a Viper ao longo da parede rochosa que se erguia, vertical, para o alto.

Kim perdeu qualquer noção de tempo. Talvez tenham se passado apenas alguns momentos, talvez horas, até que, finalmente, aparecessem — perdendo-se nas alturas — os cumes das montanhas sombrias cobertos de gelo e envoltos em mantos de nuvens negras. Ele respirou fundo. Com um último forte impulso dos reatores, conseguiu conduzir a Viper por sobre os cumes, voltando, em seguida, para a posição horizontal.

Por algum tempo, Kim voou paralelamente à cadeia de montanhas. As rochas caíam, de ambos os lados, em tão forte declive, que nem mesmo sombra do chão se via. Era como se estivessem brotando diretamente do infinito.

Novamente, Kim reduziu a velocidade, pensou em pegar na direção, mas desistiu. Estava indeciso. Ele conseguira chegar até à Cordilheira das Sombras, mas agora não sabia o que fazer. Temístocles prometera esperar por ele lá. Mas não dissera onde.

Seu olhar pairou sobre o aparelho de rádio. Suspirou, balançou a cabeça e voltou a se concentrar na imagem dos cumes pontiagudos, que sobressaíam da negritude anônima como as presas bizarras de uma fera selvagem. Era uma imagem estarrecedora — e monótona. Temístocles certamente não entraria em contato com ele através do rádio para lhe dar instruções de pouso. “Cada ser humano tem de encontrar seu próprio caminho. Também você. Você pode”, foram essas as suas palavras.

Kim sorriu. Claro! Temístocles quis garantir sua segurança e, para tanto, Kim tinha de encontrar seu próprio caminho! Somente quem encontrasse o caminho para Märchenmond através da própria força poderia enfrentar os perigos que porventura lá o esperavam.

Uma leve vibração da máquina o deixou preocupado. Olhou pela janela e viu que o nariz da Viper sofrera uma leve deriva para a direita. Imediatamente puxou a direção, trazendo-a de volta para o antigo curso. Porém, uma suave mas contínua sucção, totalmente inexplicável, persistia. Através do impulso dos reatores, Kim conseguiu manter a nave em seu curso normal, no entanto, mal tirou a mão da direção, a estranha força invisível se fez presente de novo. A sucção, como lhe mostravam os instrumentos, estava cada vez mais forte.

Minutos se passaram. O barulho dos reatores começou a assumir proporções estrondosas e a nave passou a dar solavancos, quase um galope desembestado. A situação era de puro perigo!

Kim acabou desistindo da luta desigual. Não restava dúvida: a Viper era uma nave poderosa, mas, naquele momento, nada podia contra as forças que estavam atuando sobre ela. Era uma luta desigual! Imaginar que ele pudesse cair justamente sobre a mortal cumeada dessa serra apocalíptica o deixou apreensivo.

Tirou as mãos da direção, deixou-se cair para trás e, com o coração palpitante, permitiu que os poderes invisíveis agissem. Estes levaram a máquina para uma estreita curva e, em seguida, forçaram a Viper para o declive das montanhas sob os gritos agudos e sibilantes dos reatores. Algo se chocou contra a carlinga, provocando um profundo arranhão no material transparente. Por alguns minutos, a Viper se precipitou quase perpendicularmente rumo às profundezas, passando, em seguida, para uma descida em vôo planado, com sensível redução da velocidade.

Kim avistou uma planície pedregosa, entremeada de marrom e cinza, seguida por um oceano calmo, quase inerte. Depois, outra serra, cujos cumes nevados, apesar de se apresentarem bem mais elevados do que a maioria das montanhas da sua terra, nem de longe alcançavam a altura dos cumes da Cordilheira das Sombras. A Viper subiu um pouco e, em elegante vôo planado, sobrevoou as cristas despidas, descendo, em seguida, em um vale que se abria diante dele.

Nesse exato momento, os reatores pararam de funcionar! Por alguns segundos, Kim permaneceu paralisado, tentando compreender o que até então lhe parecia algo inconcebível. Não só os reatores, mas também a iluminação do painel de instrumentos, o oxigênio, todos os instrumentos, os interruptores, as instalações... tudo a bordo estava morto!

A nave espacial precipitou-se para a frente feito uma gigantesca flecha, carregada pelo seu próprio impulso, para, com algumas fortes sacudidas, despencar no vale feito uma pedra. O mundo virou um louco caleidoscópio de cores e contornos saltitantes. O ar passou sibilante pela carlinga, não havia como interromper a louca queda, cada vez mais descontrolada.

Com movimentos frenéticos, ditados pelo desespero, Kim puxou a direção, mexeu nos instrumentos em vão! De repente, a máquina foi atingida por um golpe estrondoso, um estardalhaço horripilante, como se o metal estivesse de vez se rompendo. Era o trem de pouso chocando-se contra a velocidade do ar. A forma aerodinâmica da Viper, bem como a incrível potência de seus reatores, permitiam-lhe manobrar, inclusive, dentro do espaço aéreo de um planeta. No entanto, nesse momento, a nave espacial havia se transformado em um planador, o que deixaria qualquer piloto de cabelo em pé.

Mas Kim não era qualquer piloto, era o melhor! Ainda na fase de aprendizado, surpreendera seus instrutores. Depois, os longos anos solitários no espaço, bem como as incontáveis missões perigosas, quando sua vida e a vida de seus colegas dependiam exclusivamente da sua habilidade — sempre um passo à frente do adversário —, fizeram dele o melhor piloto de Vipers que a frota jamais tivera.

Nesse momento, ao ver o chão se aproximar com velocidade cada vez maior e sabendo que talvez lhe restavam apenas alguns segundos de vida, Kim superou a si próprio: ousou o que nenhum piloto antes dele atreveu-se a fazer. Trabalhou com vários instrumentos ao mesmo tempo. A queda rasante da Viper passou a rodopios incontroláveis. Pela janela da nave só se via a grande massa de pedras acinzentadas, quando a máquina se aproximou perigosamente da parede rochosa.

Por um instante, Kim conseguiu recuperar o controle, lançou um breve olhar para as nuvens sobre a sua cabeça, para, em seguida, concentrar-se de novo no aparentemente impossível. Tinha de conseguir, se quisesse sobreviver! Novo golpe abalou a Viper, fazendo-a gemer e impelindo-a para ainda mais perto das rochas.

Kim começou a suar. Suas mãos tremiam e as batidas do seu coração lhe pareciam mais fortes que os uivos da tormenta fora da nave. Milímetro por milímetro, girou a alavanca da direção.

Encontrava-se, agora, a apenas alguns metros do chão. De repente, o sibilar do ar lhe soava menos agudo. A Viper estremeceu, sacudiu e, por um terrível momento, Kim achou que tudo havia acabado. Mas aí, vagarosamente, começou a erguer o nariz. Kim respirou fundo. O perigo ainda não estava banido, mas agora ele sabia que havia uma minúscula chance, pois, em geral, perto das montanhas, havia ventos ascendentes. Também aqui os ventos passavam rente às paredes das rochas fortes o suficiente para suportar e carregar um corpo pesado como o da Viper. Aproveitar os ventos perto das montanhas era um velho truque, e Kim imediatamente se valeu da chance que o momento lhe apresentava. É claro que não tinha a menor idéia se o truque também funcionava com uma nave pesada como a Viper — mas apenas alguns segundos o separavam da mortal colisão com o solo, portanto, não havia tempo para conjeturas.

A Viper passou rente à parede rochosa, subiu alguns metros, caiu de novo e se empinou quando Kim, com muito cuidado, acionou a alavanca da direção. Feito uma pedra que saltita sobre a superfície da água, a Viper correu ao longo da rocha, perdendo, ao mesmo tempo, altura e velocidade.

Kim manipulou a direção com a sensibilidade de um músico com seu instrumento. Ele sabia que era preciso controlar a perda de velocidade para não cair de vez.

A direção em suas mãos começou a trepidar suavemente. Kim sentiu que chegara o momento crítico. Mais uma vez puxou a máquina para o alto e, fazendo uma ampla curva, conseguiu afastá-la da rocha, iniciando uma descida plana.

A colisão com o solo era inevitável. A tira negra de um rio deslizou por debaixo da nave. Kim teve a fugaz impressão de copas desnudas de árvores, nas cores verde e marrom, a erguer suas garras ávidas na direção da Viper, como se quisessem devorá-la. Algo passou raspando pela fuselagem da nave. Mais uma vez, a Viper saltou para o alto e depois capotou. Uma das asas se rompeu, algo explodiu e depois o mundo mergulhou em um caos de estilhaços, chamas e no barulho infernal de metal rachando.

A primeira coisa que sentiu ao acordar foi o cheiro forte de coisa queimada. As costas, já não as sentia. Era como se alguém o tivesse socado há horas, sempre no mesmo lugar. Além disso, doía-lhe o pescoço. Kim tentou se mexer, tocou o pescoço, mas, com um gemido, deixou-se cair para trás. Na ponta dos dedos havia sangue! Então ouviu uma voz sonora:

— Fica deitado, jovem senhor!

Kim teve um sobressalto. Queria virar a cabeça, porém, uma dor aguda o forçou a continuar deitado. Passos aproximaram-se. Uma máscara negra, metálica, o capacete todo munido de ferrões, debruçou-se sobre o piloto machucado. Aliás, o homem estava coberto dos pés à cabeça com uma espécie de blindagem metálica, negra. “Seria um cavaleiro?”, questionou-se Kim, estupefato.

A voz sonora perguntou:

— Tens fortes dores, jovem senhor?

Kim abanou a cabeça com muito cuidado. Queria responder, mas só saíram alguns sons indecifráveis.

O desconhecido se debruçou ainda mais sobre ele. O reflexo do fogo que crepitava mais adiante provocava reflexos reluzentes na máscara negra, o que lhe conferia um aspecto ameaçador. Kim estremeceu. A enorme figura lhe dava medo.

Cerrou os dentes e, apoiando os cotovelos no chão, tentou se erguer. Mas o homem de armadura negra, exercendo suave pressão, fez com que ele se deitasse novamente:

— Não podes te mexer, jovem senhor. Estás ferido. O homem começou a mexer no pescoço do jovem. No primeiro momento, Kim sentiu uma queimação muito forte, que, no entanto, passou rapidamente, dando espaço a uma agradável sensação de alívio. Kim observou o estranho cavaleiro negro com interesse: uma grande sombra negra a se confundir com a escuridão da noite, cuja silhueta delineava-se contra o céu estrelado. A trepidante luz das chamas deixou o quadro ainda mais esdrúxulo.

— Quem... é você? — perguntou.

Kim lembrou-se das palavras de Temístocles. Märchenmond é uma terra fantástica, repleta de maravilhas que nenhum ser humano avistara. Mas também havia perigos concretos. Ele que o diga!

O cavaleiro negro observava Kim em silêncio:

— Kart — respondeu, finalmente. — Meu nome é Kart, jovem senhor. Mas não podes falar, é muito penoso.

Kim franziu a testa. Estava machucado, claro, mas não gostava de ser tratado como criança. Empurrou a mão do cavaleiro, ergueu o corpo e... caiu para trás, atordoado.

— Eu te avisei, jovem senhor — censurou Kart. — Ainda estás fraco, mas não deves te preocupar, estamos contigo.

Kim balançou a cabeça. Círculos multicoloridos começaram uma dança frenética diante de seus olhos. Com muito esforço conseguiu se concentrar:

— Quem... são vocês? Por que estou aqui? Kart balançou a cabeça:

— Muitas perguntas, jovem senhor — disse. — Meus homens e eu, jovem senhor, viemos para dar-te as boas-vindas.

Se não estivesse tão enfraquecido, Kim, com certeza, teria desatado a rir. Que situação!

— Chegamos tarde — continuou Kart, como se tivesse lido os pensamentos do piloto. — Vimos a nave cair, mas nada pudemos fazer.

— A Viper está muito danificada? — perguntou Kim. Kart virou a cabeça na direção das chamas.

— Vejas tu mesmo.

O cavaleiro negro enfiou as mãos debaixo das axilas do piloto e, cuidadosamente, ajudou-o a se erguer.

A Viper se encontrava a cerca de 50 metros dali, no final de uma ampla marca chamuscada que deixara para trás ao cair, o nariz fincado no chão. Em sua infeliz trajetória, a nave despedaçou arbustos, arrancou raízes e árvores para, finalmente, acabar destroçada aos pés de um gigantesco carvalho.

A fuselagem, outrora delgada, estava agora comprimida e rebentada. Ao redor da nave destroçada, a floresta ardia em chamas, e da carlinga, igualmente destruída, saía uma densa nuvem de fumaça negra. Por algum tempo, Kim ficou observando os vultos, que tentavam controlar os focos de incêndio. Com um pesaroso suspiro, fechou os olhos. A Viper nunca mais voaria para lugar nenhum.

— Tiveste sorte, jovem senhor — disse Kart. — O choque fez com que fosses lançado para fora da máquina.

— Que bela sorte — resmungou Kim. — Por um triz não quebrei o pescoço.

Kim lançou um último olhar de tristeza para a carcaça da Viper, balançou a cabeça e tentou, com força própria, erguer-se. Em vão!

— Vocês vieram ao meu encontro? Pelo menos foi o que eu entendi.

Kart confirmou:

— Sim. Nosso amo nos enviou para te mostrar o caminho.

— Seu amo?! Seu amo é Temístocles?

Kart hesitou, deu um passo para trás e balançou a cabeça:

— Meus homens e eu iremos escoltar-te até Morgon.

— Morgon?!

— O castelo do nosso amo — respondeu o cavaleiro negro. — Ele te espera. Tudo está preparado para tua recepção.

— Tive uma recepção nada agradável — retrucou Kim, com um sorriso forçado.

Mais uma vez tentou se levantar. Mas com um gemido caiu para trás.

— Continua deitado, jovem senhor — lembrou Kart. — Não podes andar.

— Está bem. Está bem — resmungou Kim. — Já entendi. E pare de me chamar de “jovem senhor”, meu nome é Kim.

Kart inclinou a cabeça. Seus olhos negros o fitavam pelas estreitas aberturas da máscara metálica:

— É tua a ordem... Kim — respondeu.

Kim teve a impressão de que essas palavras continham uma leve ironia.

Kart se virou, disse algumas palavras em uma língua desconhecida e fez um gesto, que Kim entendeu ser uma ordem. Dois cavaleiros em armaduras negras se aproximaram rapidamente, pegaram Kim por baixo dos braços e o levantaram como se ele fosse um boneco.

— Ei! — reclamou Kim. — O que significa isso?

— Um carro está à tua espera. Não podes cavalgar e temos de chegar a Morgon antes do amanhecer.

Com passos duros, Kart foi para a borda da floresta. Não se locomovia como um ser humano, mas como um grande robô, achou Kim.

Os cavaleiros o levaram para a floresta. Amarrados entre as árvores, havia cerca de uma dúzia de grandes cavalos negros. Eram animais imponentes, com selas negras e cabeça encouraçada. Armas e enormes escudos triangulares pendiam das selas. Os animais fungavam, inquietos, jogavam a cabeça de um lado para outro e tentavam morder os cavaleiros. Um dos homens bateu, com a mão enluvada, nas narinas de um dos cavalos.

Kart apontou para uma carreta de madeira, com quatro rodas, que se encontrava atrás dos cavalos:

— Infelizmente, não encontramos um transporte mais nobre — explicou. — Mas este deve servir para transportar-te até Morgon. Não é longe.

Dois cavaleiros acomodaram Kim na carreta ricamente almofadada e, depois, obedecendo a um gesto do seu líder, afastaram-se rapidamente.

Kim se acomodou da melhor maneira possível, apoiou a cabeça sobre as mãos e, tentando controlar a sensação nada agradável em seu íntimo, olhou ao redor. A floresta, os cavaleiros com seus cavalos enormes e feios e a escuridão não lhe agradavam nem um pouco. Pôde perceber que era tudo bem diferente daquilo que Temístocles havia lhe contado. Algo lhe dizia que muitas surpresas desagradáveis esperavam por ele nessas terras desconhecidas.

Kim passou os olhos pela floresta. Estranho: as árvores, apesar de altas e aparentemente fortes, transmitiam a impressão de ser deformadas e doentias. Seus troncos tinham cerca de quinze metros de altura e depois se abriam em ampla folhagem, que lembrava dedos curvados. As sombras entre as árvores não eram sombras normais. Não tinham contornos, como se toda a floresta fosse uma ilusão.

Aos poucos, a clareira começou a ganhar vida. Pouco a pouco, mais figuras gigantes, em reluzente negro, saíram da floresta. Kim achou estranha a maneira como se locomoviam, mas após algum tempo encontrou a explicação: todos os seus movimentos eram mecânicos, precisos, nenhum deles fazia gestos supérfluos, nem que fosse apenas um estalar de dedos. Novamente, Kim pensou em robôs, o que lhe causou tremores de frio e medo.

Kart se aproximou, segurando nas mãos uma taça com um líquido incolor e fumegante:

— Bebe — disse —, vai devolver-te as forças.

Kim torceu o nariz, desconfiado:

— O que é isto?

Kart fez um gesto autoritário, indicando que não admitia recusa:

— Algo que irá te ajudar.

Kim pegou a taça, levou-a à boca, mas ainda hesitou em beber.

— Temístocles tem notícias da minha irmã? — perguntou, para ganhar tempo.

— Nada sei. Tenho ordens de levá-lo até Morgon, nada além disso. Nosso amo te espera. Ele te dirá o que for necessário. Agora bebe!

Essas últimas palavras foram ditas em tom de comando. Além disso, houve uma repentina mudança no tratamento, que já não era mais formal, como antes, o que deixou Kim apreensivo. Kim achou melhor seguir as ordens do cavaleiro negro, por isso provou o líquido que lhe era oferecido. Tinha um agradável gosto aromático, como caldo de galinha, porém com um tempero diferente, que Kim não conseguia identificar. Bebeu o estranho caldo com goles pequenos e acabou esvaziando a taça.

— Obrigado, foi bom. Kart tomou a taça de suas mãos e jogou-a para trás:

— Agora podemos partir — disse.

Já não demonstrava nenhuma cordialidade e o tom de sua voz agora era frio. Kim olhou para a viseira metálica inexpressiva do gigante negro e intuitivamente levou a mão ao cinto, à procura do laser. Respirou aliviado, quando sentiu a arma. Algo estava acontecendo, havia uma ameaça no ar, ele não conseguia definir qual era o perigo, mas de uma coisa tinha certeza: se os cavaleiros negros achavam que tinham à sua frente uma vítima indefesa, teriam uma surpresa bastante desagradável.

O gesto de Kim não passou despercebido. Por uma fração de segundo, Kart ficou imóvel, depois deu um rápido passou para trás, os olhos fixos em Kim. “Agora ele vai exigir que eu lhe entregue o laser”, pensou Kim. Porém, sem mais uma palavra, Kart montou seu cavalo.

Um breve comando e o comboio se pôs em movimento. Os cavalos se agruparam em duas fileiras, no meio ia a carreta que levava Kim. Cada vez que passavam por um desnível, um buraco, ou por raízes e galhos, as sacudidelas se refletiam de maneira dolorosa no corpo machucado de Kim. Depois de algum tempo, as árvores começaram a ficar mais esparsas. Entraram em um caminho estreito e lamacento.

O cansaço e um torpor se apossaram de Kim. No seu cérebro parecia haver um enxame de abelhas, braços e pernas continham chumbo, de tão pesados. Forte nevoeiro cobria o chão como um grosso tapete cinza, e dedos invisíveis, obscuros, queriam agarrá-lo. Atordoado, Kim abanou a cabeça e esfregou os olhos, sem, no entanto, conseguir afugentar a terrível sonolência. Ao contrário, teve uma sensação febril e o surdo ribombar provocado pelos cascos dos cavalos refletiu-se em múltiplo eco na sua cabeça, deixando-o ainda mais atordoado. Suas têmporas começaram a latejar.

Sua garganta estava ressecada, sentiu sede, mas estava fraco demais para pedir água. Uma pálida meia-lua iluminou a cena e de algum lugar veio o grito estridente de um pássaro.

A floresta começou a se desfazer diante de seus olhos. Um véu brumoso encobriu árvores, galhos e até as sombras entre os troncos nodosos. Kim se jogou de um lado para outro. Gemendo, tentou mexer as mãos, em vão. Seu corpo parecia estar amarrado com cordas invisíveis. A floresta deu lugar a uma terra erma, hostil a qualquer tipo de vida, coberta apenas por rajadas de vento e gelo. Logo depois, o caminho se tornou mais íngreme. A carreta rangeu e, vez ou outra, algo batia contra o chão. Apesar do torpor, Kim percebeu o olhar de um dos cavaleiros negros, o que lhe causou arrepios, pois os olhos que o observavam atentamente pelas aberturas da viseira eram totalmente negros, sem pupila, sem íris e sem globo ocular, apenas duas poças negras. A estranha força hipnótica que irradiavam o deixou sem ação.

Um sono febril, atormentado por calafrios e pesadelos, apossou-se dele. A carreta seguia aos trancos e barrancos sobre o terreno acidentado. A Kim pareceu que estavam passando por uma paisagem bizarra de charcos borbulhantes, terras ermas, onde não havia nada além de pedras e declives rochosos. Depois de algum tempo, o ar se tornou cada vez mais rarefeito e a temperatura diminuiu sensivelmente.

A cerração que cobria o chão ficou tão espessa que a carreta e os cavaleiros negros pareciam estar deslizando sobre uma compacta camada branca.

Quando finalmente surgiram os primeiros sinais do crepúsculo, a febre diminuiu. A densa negritude da noite aos poucos cedeu lugar a uma alvorada cinzenta, povoada por sombras trepidantes, que aos poucos impelia a névoa para os buracos de onde ela veio.

Kart parou o cavalo e deu passagem para os outros cavaleiros:

— Chegamos — anunciou. — Castelo Morgon!

Exausto, Kim ergueu a cabeça e seguiu com os olhos o braço estendido de Kart. O pequeno comboio subiu um atalho que serpenteava montanha acima. A rocha parecia lisa como vidro e, entre os escombros ciclópicos espalhados à direita e à esquerda do caminho, não havia nem sobra de vegetação. No vale já clareava o dia, mas lá no alto ainda imperava o cinza enevoado. Era como se a luz do dia se recusasse a penetrar o enclave da noite. E, no final do caminho, erguia-se o castelo, negro e ameaçador!

Kim agarrou-se à beirada da carreta que o transportava. O castelo era enorme! Suas paredes negras caíam em declive e confundiam-se com a escuridão da noite. Não havia janelas ou balcões, apenas um portal semicircular, guarnecido, nas extremidades, pelos dentes enferrujados de uma porta levadiça. Além disso, ainda havia uma série de seteiras estreitas.

Morgon... esse nome tinha um som ameaçador. Kim fechou os olhos e pensou em Temístocles. Mas a imagem do bondoso velho não combinava, de maneira nenhuma, com o castelo, que reinava, sinistro e obscuro, lá no alto.

— Este é...

— Morgon — confirmou Kart, com visível impaciência. — O castelo do nosso amo.

— Mas... é tão... tão diferente do que eu imaginava — disse Kim. Kart inclinou a cabeça:

— Temos de nos proteger. Ainda conhecerás as belezas das nossas terras. Morgon é diferente...

Kart hesitou, fez um gesto vago com a mão direita e continuou:

— É a nossa proteção. Nosso reduto, um lugar onde estamos seguros dos nossos inimigos! Se não existisse Morgon, estaríamos expostos, enfraquecidos.

Kim não respondeu. Estava perplexo. O que Kart dizia lhe parecia lógico. Temístocles mencionara os poderes malignos em Märchenmond, poderes dos quais eles tinham de se proteger. Talvez o cavaleiro negro tivesse razão, talvez Morgon fosse o tributo que Märchenmond tinha de pagar para se proteger do mal. Um castelo destinado à luta e à defesa e que, portanto, não podia ser belo. Porém, mesmo assim, seu medo aumentava à medida que se aproximavam do castelo.

Ergueu-se e tentou espiar o interior da construção, mas, além de sombras obscuras e de contornos nebulosos, não conseguiu reconhecer nada.

A carreta passou por baixo da porta levadiça. Kim notou que a espessura dos muros era de pelo menos dez metros. Kart não exagerara: Morgon era realmente um baluarte! Provavelmente nenhum poder era forte o suficiente para vencer seus muros.

Os cavaleiros pararam. A carreta também. Kart desceu do seu cavalo, aproximou-se de onde Kim estava e lhe estendeu a mão:

— Vem, nosso amo te espera!

Abriu uma enorme porta de madeira, guarnecida com ferro, e, sem dizer uma palavra, deu passagem para Kim.

Atrás da porta havia um corredor estreito e baixo, iluminado por tochas, que o mergulharam num mar de luz e sombras. Kart colocou a mão no ombro de Kim e o empurrou corredor adentro. Kim tropeçou no chão de pedras, esbarrou na parede e se virou, furioso. O cavaleiro negro fechou a porta atrás de si, colocou a pesada tranca e esticou o braço:

— Vá!

Kim hesitou. Kart teve de se curvar para não bater o elmo contra o teto abaulado, porém, mesmo assim, ainda era quase um metro mais alto que Kim.

Kim quis pegar sua arma laser, mas desistiu. Talvez Kart tivesse motivo para seu comportamento autoritário. Talvez houvesse algo que ele, Kim, desconhecesse? Seja como for, Kim resolveu não mais se opor. Seguiu pelo estreito corredor, com Kart em seu encalço.

Depois de algum tempo, apareceu uma escadaria íngreme, com degraus estreitos e bastante gastos pelo tempo. Subiram a escadaria, passaram por uma porta e Kim se viu em uma enorme sala vazia.

— Espera aqui! — ordenou Kart. — Vou comunicar ao nosso amo que tu chegaste.

Antes que Kim pudesse responder, Kart desapareceu por uma porta na parede oposta. O medo que Kim sentira ainda há pouco transformou-se em irritação. Temístocles teria de lhe dar um bocado de explicações!

Furioso, não tirou os olhos da porta pela qual Kart desaparecera. Cogitou a possibilidade de ignorar as ordens do cavaleiro e ir atrás dele, mas logo desistiu. Não sentiu a menor vontade de se perder nos sombrios corredores do castelo.

Curioso, olhou ao redor, embora não tivesse muita coisa para descobrir. Os ladrilhos pretos aos seus pés lhe transmitiam a impressão de estar pisando em vidro. Para sua surpresa, o chão espelhado lhe devolvia sua imagem distorcida, porém reconhecível. Um quadro, aliás, nada animador: seu uniforme, além de rasgado, estava sujo e ensangüentado, seu rosto era puro cansaço. Em volta do pescoço havia uma ligadura, também ensangüentada. Kim passou a mão pelo pescoço... não sentia dor nenhuma! Lembrou que Kart lhe dera aquela poção esquisita para beber, que provocara febre e pesadelos, mas que fizera a ferida cicatrizar rapidamente.

Kim tirou a ligadura e, ao deslizar os dedos pelo pescoço, sentiu uma cicatriz fina, quase imperceptível, que se estendia do lado esquerdo do pescoço até quase a orelha.

Ele jogou a ligadura num canto da sala e, em pensamento, pediu perdão a Kart por ter duvidado dele. Uma noite de febre e pesadelos não era um preço alto pela rápida cura.

De repente, a sala ressoou sob o som de trombetas. Surpreso, Kim se virou para descobrir a origem do alarde. As paredes da sala pareciam ser feitas da mesma pedra preta dos muros externos de Morgon, porém, em um dos lados da sala, havia uma janela alta, estreita, com vista para os muros do castelo. Kim se apoiou no peitoril da janela e avistou um amplo pátio interno, iluminado por inúmeras tochas e braseiros que lhe conferiam uma claridade quase igual à da luz do dia. Um grupo de cavaleiros em suas armaduras negras marchou pelo pátio. Depois começaram a fazer alguns exercícios.

Uma voz profunda gritou comandos. Apareceram cada vez mais cavaleiros, até o pátio ficar repleto de figuras altas, todas vestidas de preto.

— Tu podes vir!

Kim se virou sobressaltado. Kart estava poucos passos atrás dele, os olhos correndo entre Kim e a janela. O que o cavaleiro estaria pensando?

— Nosso amo espera por ti — disse Kart.

Atrás da porta, havia outro corredor e mais uma porta, depois da qual surgiu um pequeno compartimento dividido ao meio por uma pesada cortina de veludo negro. Kart ergueu a cortina e fez um gesto convidativo para Kim. Entraram em uma sala de dimensões gigantescas. Colunas altas, lisas e negras sustentavam um teto abaulado. Nas paredes, cortinas escuras e diversas armas e, diante de cada coluna, estava, imóvel e mudo, um cavaleiro negro. Todo esse gigantesco espaço parecia estar impregnado de frieza e rejeição. Mas, na verdade, não era o ambiente esdrúxulo que prendia a atenção do garoto: Kim não conseguia desviar os olhos de um imponente trono negro erguido sobre uma espécie de pedestal, para o qual conduziam alguns degraus bastante rudimentares e que transmitiam a impressão de deformados. Era como se os homens que esculpiram esses degraus na pedra tivessem se baseado em regras geométricas diferentes e desconhecidas. E, no topo da escadaria...

Kim subiu as escadas e parou a poucos passos do trono. Cerrou os punhos e, incrédulo, olhou como que hipnotizado para o velho barbudo que o ocupava.

O rosto era o de Temístocles... o cabelo branco, a barba, as rugas... Mas ele não era Temístocles!

Não era Temístocles!

— Você não é Temístocles — constatou Kim.

O velho o encarou por alguns segundos, em silêncio.

— Certo — disse o velho, finalmente.

Kim respirou fundo. De repente estava tudo claro: os cavaleiros negros, as terras frias e sombrias cobertas por nevoeiros e pântanos, o horripilante castelo... tudo fazia sentido! Kim notou que, repentinamente, reinava silêncio absoluto. Reunindo toda sua coragem, deu um passo para a frente e repetiu:

— Você não é Temístocles.

E, fazendo das tripas coração, acrescentou:

— Você é Boraas!

 

Boraas sorriu. Seus dedos estavam cobertos por anéis dourados, que reluziam quando mexia as mãos. Apoiando os braços nos encostos laterais do trono, Boraas se inclinou para a frente:

— Sim — confirmou. — Eu sou Boraas. Sejas bem-vindo a Morgon, Kim. Esperei muito tempo por ti.

— Por mim?! — perguntou Kim, surpreso.

— Por ti, ou por alguém como tu — disse Boraas. — Dá no mesmo.

— Mas...

Boraas fez um gesto autoritário.

— Paciência, Kim, tu saberás de tudo no tempo oportuno. Kim revidou, furioso:

— Eu não quero saber de nada, eu...

— Cala-te! — gritou Boraas. — Eu não mandei que te trouxessem até aqui para discutir contigo.

— Você mandou me trazer...?

— Claro. Não estarias aqui se esse não fosse meu desejo. Ninguém entra no meu reino sem a minha ordem. Tomei a liberdade de desviar o curso da máquina ridícula que pilotavas.

— Você?! — exclamou Kim, atônito. — Então, foi você! Kim lembrou da força invisível que quase lhe custara a vida.

— Então... então a queda foi provocada por você — disse, mal contendo a raiva.

Um leve sorriso esboçou nos lábios do feiticeiro, que fez: “Tz, tz, tz”.

Depois, inclinando novamente o corpo para trás. Boraas disse:

— Estás enxergando as coisas por um ângulo equivocado, Kim. Tu me deves a vida. Se o Barão Kart e seus homens não estivessem no lugar certo, na hora certa, terias morrido.

— Barão Kart?

— Correto. Costumo receber meus hóspedes com o devido respeito, mas vejo que tu não sabes valorizar esse gesto nobre. O Barão Kart é de minha inteira confiança, portanto, consideres uma honra eu tê-lo enviado para resgatar-te.

Kim lançou um rápido olhar na direção do cavaleiro negro e voltou a se dirigir a Boraas:

— O que você quer de mim?

— Pergunta sábia, Kim, mas infelizmente é mais fácil perguntar do que responder.

Kim olhou, desconfiado, para o velho feiticeiro. Lembrou do que Temístocles falara sobre Boraas. Resolveu ficar atento e agir com extrema cautela.

— Presumo que meu irmão tenha te falado sobre mim — disse Boraas.

— Seu... irmão?

Boraas confirmou com a cabeça:

— Claro. Temístocles e eu somos irmãos, aliás, tenho de admitir que somos irmãos nada parecidos. Há muito tempo seguimos caminhos... hum, diferentes.

Agora ficava claro o porquê da semelhança entre Boraas e Temístocles. Por que não pensara nisso antes?

— Ele falou sobre você — confirmou Kim. — Ele também me disse que você mantém minha irmã aprisionada.

Boraas fez um gesto de menosprezo:

— Temístocles não perde nenhuma oportunidade de me caluniar.

— Então não é verdade que minha irmã é sua prisioneira? Boraas encolheu os ombros:

— Tua irmã está aqui, isto é correto. Também é verdade que ela não pode deixar Morgon enquanto não... hum... acontecem certas coisas.

— Rebekka está aqui? — exclamou Kim. — Quero vê-la!

— Calma, calma... uma coisa de cada vez, rapaz — disse Boraas. — Verás Rebekka no momento certo. Mas primeiro quero saber por que Temístocles te chamou.

— Você sabe tanto quanto eu. Boraas abanou a cabeça:

— Eu não sei, tampouco tu. Achas que sabes das coisas, mas, seja lá o que for que ele tenha te oferecido... eu ofereço mais. Se trabalhares comigo, terás tudo: poder, riqueza, vida eterna... tudo!

Kim seguiu as palavras com crescente espanto. Lá estava ele, indefeso, prisioneiro desse castelo e de seus cavaleiros negros, e Boraas lhe oferecia colaboração!

— Você... — balbuciou — você quer...?!

— Eu te quero! — bradou Boraas. — Quero a tua palavra e a tua lealdade, nada mais, nada menos! A disputa com meu irmão já dura incontáveis anos. Estou farto de ter de me proteger de suas constantes intrigas, de não poder viver no meu castelo e nas minhas terras em segurança. Luta comigo e venceremos! Se unirmos nossas forças, nosso poder será imbatível e Temístocles não terá como nos enfrentar.

— Poder? — indagou Kim, incrédulo. Boraas esboçou um sorriso:

— Eu sei o que estás pensando, mas posso te assegurar que estás enganado. No teu íntimo se encontra uma ânsia de poder adormecida, uma força talvez ainda maior do que Temístocles imagina. Mas tu não podes despertar essa força sozinho.... eu posso! Alia-te a mim e juntos varreremos essa mancha vergonhosa do mapa! Unidos somos poderosos, Kim. Onipotentes!

Kim estremeceu. Por uma fração de segundo passou diante dos seus olhos a lembrança das terras cinzentas e doentias pelas quais passara. O Reino das Sombras! E ao mesmo tempo viu que esse reino se expandia como uma avalanche devastadora, que engolia país por país, mundo por mundo e que, finalmente, iria abranger todo o Cosmos, construindo um Universo dominado pelo terror e pelo sofrimento. — Jamais! — exclamou.

Boraas não demonstrou nenhuma surpresa. Sorridente, brincou com um dos anéis de ouro e brilhante em seus dedos:

— Eu esperava essa resposta — disse, impassível. — Pelo menos de imediato. Mas temos tempo.

— Tempo?

— Eu sou muito paciente, Kim — disse Boraas em tom brando. — Terás oportunidade de repensar tua decisão.

— Jamais! — repetiu Kim, com firmeza. — Você pode me encarcerar por dez anos, mas nunca lutarei ao seu lado!

— Pode ser. Mas talvez depois de vinte anos, ou de cem anos... temos todo o tempo do mundo, Kim.

Boraas sorriu, satisfeito:

— Mas, sabe, eu nem preciso da sua aquiescência — continuou, em descontraído bate-papo. — Tu já estás preparado para ser meu aliado, só que ainda não tens consciência disso. A consciência desse fato só aceleraria o andamento das coisas... estás começando a me odiar... oh, tu ainda não o sentes, mas, depois de alguns dias no cárcere, tu, com certeza, sentirás o ódio crescer dentro de ti, lentamente, porém de maneira constante e contínua. Vais tentar lutar contra esse sentimento, mas de nada adiantará. Estarás em um calabouço escuro, solitário, só tu e o teu ódio e, depois de algum tempo, não conseguirás pensar em outra coisa a não ser no que eu fiz a ti e à tua irmã. E aí começarás a fazer planos para fugir. Mas, no íntimo, saberás que uma fuga não poderá dar certo. E, em algum momento, arquitetarás planos para me assassinar. Não haverá outro pensamento, apenas ódio e sede de vingança! E aí, Kim, quando estiveres completamente dominado pelo ódio, esgotado de tanto odiar, estarás pronto para me servir!

Boraas debruçou-se para a frente, dobrou as mãos e apoiou o queixo nos dedos:

— Sim! — disse. — Cada palavra que Temístocles te disse a meu respeito é verdade. Meu reino é o Reino das Sombras, do mal. E o ódio faz parte do mal. O ódio é uma força poderosa, ele vai se apossar de ti, mesmo contra a tua vontade. E aí, Kim, aí tu me pertencer ás!

— Pare! — gritou Kim, tapando os ouvidos com as mãos.

O garoto se curvou como se estivesse sofrendo uma agressão física.

— Pare! — gritou novamente. — Pare! Pare! Boraas soltou uma gargalhada sarcástica:

— Então já estás sentindo, não estás? Mas ainda não estás pronto... Levem-no!

Kim reagiu de maneira inesperada. Quando a mão enluvada quis agarrá-lo, ele a empurrou e, de repente, sem saber como, segurava o laser nas mãos.

— Nenhum passo mais!—gritou.

Boraas soltou outra risada, quase histérica:

— Não o deixem escapar!

Um dos cavaleiros deu um passo na sua direção, e Kim apertou o gatilho do laser. Porém... nada aconteceu!

Kim olhou, incrédulo, para a arma. Acionou-a repetidas vezes, mas o mortal raio laser não apareceu!

— Idiota! — disse Boraas, com desprezo. — Tu achas mesmo que eu ainda estaria sentado neste trono se as tuas armas funcionassem? Por que tu achas que a tua nave falhou? Nada do que vós fabricais funciona aqui — nada!

Mas, de repente, o feiticeiro ficou sério:

— Mas se tu gostas de brincar com raios... não tem problema!

O feiticeiro esticou o braço e, no mesmo instante, uma faísca azulada e crepitante correu-lhe pela mão para, em seguida, precipitar-se na direção de Kim, que sentiu uma forte pancada. Com um grito, deixou cair o laser. Uma dor lancinante, que se alastrou até os ombros, fê-lo cambalear. Logo depois, seus músculos se tornaram completamente insensíveis e o seu braço ficou rijo.

Um dos cavaleiros negros o agarrou com brutalidade e o empurrou na direção do corredor, acompanhado pela risada irônica do feiticeiro.

— Até breve, Kim! — gritou Boraas. — Nos veremos em breve, talvez muito antes do que pensas. Enquanto isso, lembra-te do que eu te disse!

A pesada cortina caiu e o cavaleiro o conduziu por um labirinto de escadas e corredores, na direção das profundezas do castelo. Kim não pensou mais em fuga. Sabia que não tinha a menor chance de escapar. E, se porventura conseguisse, acabaria se perdendo no emaranhado de salas, salões e corredores do castelo. Talvez, mais tarde, apareceria uma oportunidade propícia.

Finalmente chegaram a um corredor estreito, baixo, sem janelas, onde reinava uma sinistra sombra esverdeada. No chão, restos de comida em decomposição e água lamacenta. O cheiro era insuportável.

O cavaleiro abriu uma pesada porta de madeira. Cerca de meia dúzia de degraus conduziam para um cárcere escuro, sem janelas. Do teto pingava água. Quando Kim atravessou a soleira, um rato correu-lhe pelos pés, desaparecendo na escuridão.

O cavaleiro fechou a porta com um estrondo, deixando Kim entregue ao desespero. Ele cerrou os punhos e ficou parado, à espera de que suas pernas parassem de tremer. Ele estava preso no calabouço de Boraas! Lembrou do que Temístocles dissera sobre o Senhor das Sombras e seus cárceres subterrâneos. Nenhum ser vivo jamais conseguiu escapar dos cárceres de Boraas!

Kim perdeu a noção do tempo. Algumas vezes se estendeu no chão de pedras úmido e sete ou oito vezes passaram-lhe, pela estreita abertura na parte superior da porta, uma concha com água e pedacinhos de pão com um gosto amargo, que Kim engoliu a muito custo. Passou horas a fio acocorado na impenetrável escuridão, arquitetando planos de fuga... todos inúteis.

Quando Kim, febril e com o corpo dolorido, finalmente conseguiu adormecer, a porta do cárcere se abriu pela primeira vez. O ranger da porta enferrujada o fez acordar com um sobressalto. Um filete triangular de luz avermelhada iluminou o alto cavaleiro negro que entrava na cela.

— Venha, nosso amo quer falar-te!

Fraco e com os joelhos trêmulos, Kim se levantou. Depois das longas horas que passara na escuridão, a luz o incomodava e doía nos olhos. E, quando o cavaleiro colocou a mão sobre seus ombros para ajudá-lo a subir a escada, sentiu vontade de gritar de tanta dor.

Tropeçou e teria caído se o cavaleiro não o tivesse segurado. Mas Kim ainda tinha orgulho, por isso empurrou a mão que o apoiava. Sentiu-se fraco e doente e o caminho lhe parecia bem mais longo que antes. Queria descansar um pouco, mas o cavaleiro, impiedoso, empurrava-o para a frente.

Atravessaram a sala do trono e depois subiram uma escada em forma de caracol. No final dela havia uma pequena câmara, com uma porta para a plataforma redonda de uma torre, cercada por um parapeito de pedras de cerca de um metro de altura. Lá estava Boraas, vestindo uma longa capa preta com bordados prateados, esperando por ele. Nas mãos, segurava um bastão fino de prata, semelhante a um cetro, no qual se enrolava uma serpente estilizada de goela escancarada.

Kim levou a mão aos olhos, para proteger-se da luz clara do sol.

— Então? — começou Boraas sem rodeios. — Refletiste sobre o que eu disse?

Com um gesto, mandou o cavaleiro sair e, de costas para o parapeito da janela, postou-se diante de Kim, observando-o em silêncio.

— Tu não queres responder — constatou, sem nenhuma emoção. — É o que eu temia. Talvez eu devesse prender-te por mais algum tempo.

Pensativo, Boraas girou o bastão nas mãos, esperando uma resposta. Porém, Kim continuou em silêncio. Com certeza Boraas não mandara trazê-lo para um descontraído bate-papo. Ele queria algo e, pelo visto, não dispunha de tanto tempo como queria fazer Kim acreditar.

— Eu espero que as acomodações tenham estado a contento — continuou Boraas, sarcástico. — Infelizmente, o castelo de Morgon não está equipado para receber hóspedes ilustres como tu. Mas tentamos fazer o melhor.

— Razoável — respondeu Kim. — Confesso que já dormi melhor, mas não quero reclamar.

Boraas riu:

— Eu gosto de ti — disse. — Não sei se é a coragem do homem ou a teimosia da criança que te faz falar assim, mas gosto de ti. Vem!

Relutante, Kim atendeu o chamado do feiticeiro. Boraas virou e se debruçou sobre o parapeito. Com o bastão, apontou para oeste:

— Meu reino — disse, orgulhoso. — Aqui, tudo me pertence. Não existe nenhum ser vivo nessas montanhas que se oponha às minhas ordens!

Encontravam-se na torre mais alta do castelo, com vista livre sobre as terras vastas e cinzentas, sobre florestas, planícies e pântanos até as encostas da Cordilheira das Sombras. Kim tentou avaliar a distância até lá, mas a enorme altura dos cumes nevados tornava impossível qualquer estimativa. Ele só viu que era longe, três ou quatro dias de viagem, talvez mais.

Boraas, que seguira seu olhar, sorriu malicioso.

— Estás pensando em fuga, não é? Pois terás de te conformar em saber que é impossível deixar Morgon contra a minha vontade. Outros antes de ti já tentaram.

Kim não respondeu à provocação.

— O que você quer? — perguntou.

— Tu sabes. Há quatro dias eu te fiz uma proposta, que eu repito agora.

— Minha resposta é não!

Boraas ficou em silêncio. Um golpe de vento estufou a capa e, por um momento, Kim pôde ver a brilhante armadura negra que o feiticeiro usava por baixo do manto.

— Pois bem — disse Boraas. — Talvez eu tenha te subestimado. Vamos abrir o jogo. Não tenho tanto tempo assim como te fiz crer.

— Eu sei — murmurou Kim. — Senão você não mandaria me trazer até aqui.

Um brilho de raiva apareceu nos olhos do mago.

— Tu és inteligente, Kim — disse. — Eu diria até que inteligente demais. Mas, como eu disse, vou abrir o jogo. Eu ainda tenho um trunfo na manga.

— É mesmo?

— Tua irmã!

Kim estremeceu, mas não disse nada. Em silencioso ódio, cerrou os punhos.

Boraas sorriu, irônico.

— Tu disseste que querias vê-la. Pois bem, vou realizar o teu desejo. Talvez assim te tornes mais... hum... receptivo à minha proposta.

Boraas foi até a porta e, com um gesto, ordenou:

— Segue-me!

Novamente passaram por infinitos corredores e inúmeras portas e bifurcações. Kim tentou, em vão, orientar-se. Morgon parecia ser um gigantesco labirinto. Para ele, era um mistério como o feiticeiro e seus cavaleiros negros conseguiam se orientar ali dentro.

Boraas parou diante de uma grande porta de metal. Não havia buraco de fechadura nem maçaneta. O mago tocou a porta com seu bastão e imediatamente se ouviu a badalada de um sino. Em seguida, com um ruído sibilante, a porta se abriu.

O forte brilho de uma luz ofuscante causou tamanho impacto que Kim se viu obrigado a fechar os olhos. Somente depois de algum tempo se acostumou à estranha claridade e, cobrindo o rosto com a mão, atravessou a soleira da porta.

O salão em que entraram era diferente de todos os lugares que Kim até então conhecera em Morgon. As paredes eram de metal e o teto parecia ser feito de um único espelho abaulado.

Kim não conteve o grito quando a parede traseira, espelhada, abriu-se para um grande pedestal quadrado, esculpido em pedra negra, em cuja superfície polida havia um sarcófago de vidro. E no sarcófago jazia, pequenina e pálida...

— Rebekka!

Boraas se mostrou visivelmente satisfeito com a reação do seu prisioneiro:

— Pois é, Kim, tua irmã. Tu querias vê-la, não é?

Kim deu um passo na direção do sinistro caixão e esbarrou em um obstáculo invisível.

— O que você fez com ela? — perguntou, com a voz trêmula.

— Nada — respondeu Boraas. — E, respondendo à tua próxima pergunta, não tenho a intenção de fazer nada. Ela está dormindo, só isso.

O feiticeiro soltou uma risada maliciosa:

— Mas não é um sono tranqüilo. Ela dorme, mas ao mesmo tempo está acordada.

Com o dedo indicador tocou, de leve, as têmporas:

— O corpo dela dorme, mas seu espírito está acordado. Ela continuará dormindo o tempo que eu desejar. Nenhum poder no mundo poderá despertá-la, Kim. Somente eu. E a decisão é tua!

Kim fechou os olhos. Tentou imaginar como era estar aprisionado em um cárcere transparente, ouvir e sentir tudo que acontece ao redor, mas não poder se mexer. Os quatro dias que passara no calabouço escuro do feiticeiro quase o levaram à loucura. Mas o que sua A irmã estava passando era mil vezes pior.

— Você é... um monstro! — exclamou. — Monstro! Você... — cerrou os punhos e deu um passo na direção de Boraas.

Este parecia estar se divertindo:

— Tu me chamas de monstro? — perguntou, alegre. — O destino da tua irmã está em tuas mãos, Kim. Uma palavra tua e eu a despertarei agora mesmo. Basta querer.

As palavras do mago, quando ele dissera que Kim começaria a odiá-lo, voltaram à mente do garoto. De repente, Kim não tinha outro desejo senão se lançar sobre o maldoso velho e estrangulá-lo.

Boraas soltou uma de suas risadas sarcásticas:

— Continua assim, Kim. Continua! Estás no caminho certo! Estás começando a odiar-me!

— Isso... não é verdade — disse Kim, com a respiração ofegante.

— Eu sei que é verdade. Eu leio teus pensamentos como se os estivesse lendo em um livro aberto. Não há nada que possas esconder de mim. Reconheça tua derrota.

Kim torceu-se convulsivamente:

— Eu...

— Não tens escolha — continuou Boraas. — Tu podes libertar tua irmã do sofrimento e, por livre e espontânea vontade, ficar do meu lado. Ou podes prolongar o sofrimento dela por dias, semanas, talvez meses, até que estejas totalmente dominado pelo ódio. A escolha é tua!

Boraas já não falava com o costumeiro sarcasmo. Sua voz estava dura e áspera:

— Decide-te!

Kim, com uma sensação de total impotência, não conseguiu tirar os olhos do caixão vítreo.

— Rebekka... — sussurrou, e seus olhos encheram-se de lágrimas.

— Pois bem — disse Boraas. — Reconheço que tudo isso foi demais para ti. Eu te concedo mais uma hora para que te decidas. Nenhum segundo a mais!

Ergueu o bastão e a parede se fechou, fazendo o caixão desaparecer.

— Vem!

Com os olhos marejados de lágrimas, Kim seguiu o mago com passos trôpegos. Uma figura negra apareceu à sua frente:

— Leva-o para a sala do trono — ordenou Boraas. — E cuida bem dele!

O cavaleiro negro colocou sua pesada mão sobre o ombro do garoto. Boraas se virou, afastando-se com passos rápidos, enquanto Kim e o cavaleiro iam em direção à sala do trono.

Kim estava consciente de que as palavras de Boraas não eram ameaças vazias. Seu corpo estava sendo sacudido por tremores e em sua garganta se formara um nó. Mas ele não tinha escolha!

Chegaram ao pé da escada. Kim tropeçou, quase caiu, mas encontrou apoio na parede. Kim parou, virou-se e olhou para o rosto metálico, inexpressivo.

— Adiante! — ordenou o gigante, fazendo um gesto ameaçador.

Kim olhou para a frente, subiu um degrau e... fincou o cotovelo com toda força no peito do cavaleiro, o que, aliás, lhe causou uma tremenda dor. O cavaleiro, pego de surpresa, gritou, tentou em vão manter o equilíbrio, mas acabou estatelando-se nos degraus de pedra.

Kim olhou, assustado, para o corpo imóvel. Sua reação fora instintiva, impensada. Acuado, olhou para todos os lados. Em seguida, aproximou-se do cavaleiro estendido no chão, que mexeu a mão, emitindo fracos gemidos. Kim pegou a espada dele e tratou de fugir. Ele não se iludia... não demoraria muito para sua fuga ser descoberta e, frente a frente com os cavaleiros negros, sua espada de nada serviria. Mas, pelo menos, não iria morrer sem lutar. Sua morte ficaria na memória do feiticeiro por muito tempo.

Subiu a escadaria de pedra correndo. Entrou, a esmo, em um dos corredores e seguiu em frente, sem parar um minuto sequer para tomar fôlego! À sua frente apareceu uma luz difusa. Acelerou os passos, passou por uma porta baixa e viu-se, subitamente, em uma passagem estreita, exposta ao vento.

Difícil dizer quem estava mais surpreso: Kim ou o cavaleiro negro, que, como se tivesse brotado do chão, apareceu à sua frente. Mas como há pouco, na escadaria, Kim reagiu instintivamente. Deu um salto para o lado, chutou as pernas do cavaleiro, empunhando, ao mesmo tempo, a espada. O cavaleiro cambaleou, segurou o golpe com sua própria arma, emitindo uma espécie de rosnar enfurecido. As duas espadas se cruzaram com faiscante violência. Kim foi jogado para trás, bateu o corpo contra a parede e encolheu a cabeça. A espada negra do inimigo tentou atingi-lo, mas acabou acertando a pedra. O cavaleiro girou a arma para, novamente, arremessá-la contra Kim, que escapou por pouco. O garoto bateu na mão do agressor e conseguiu, assim, desviar um novo golpe.

Enfurecido, o cavaleiro tentou encurralar Kim, que se defendeu como pôde. Mas logo percebeu que não tinha chance. Cada vez mais impelido na direção das ameias, seus braços doíam dos golpes que rebatia.

Outro terrível golpe o fez cambalear e perder o equilíbrio. O cavaleiro soltou um grito triunfante e levantou a arma para desferir o golpe derradeiro. Nesse momento, Kim arriscou tudo: curvou-se e, com um pulo, fincou os dois pés na barriga do gigante encouraçado.

O golpe inesperado atingiu o inimigo em cheio! Ele rodopiou e, levado pelo próprio impulso, despencou do parapeito com um grito estridente, seguido por um surdo ruído, quando o corpo se espatifou no chão.

Kim não teve tempo para cantar vitória, pois, de repente, viu-se cercado pelo inimigo. Ele deu um pulo e, ágil, passou por baixo das espadas em movimento, pondo-se a correr como nunca antes correra em toda sua vida. Correu em ziguezague e acabou entrando em um corredor curto e tortuoso. Depois subiu uma escada íngreme que terminou diante de uma porta fechada. Com um elegante salto, alcançou o último degrau, girou em torno de si mesmo e, com toda a força, arrebentou a espada no capacete de um de seus perseguidores, que, com o impacto, foi lançado para trás. Ao rolar escada abaixo, levou consigo os outros cavaleiros, que vinham atrás dele. Por um instante só se via um emaranhado de corpos e armaduras.

Desesperado, Kim tentou abrir a porta e acabou arrebentando-a com um golpe de espada.

Ao perceber que sua presa estava prestes a escapar de novo, os perseguidores de Kim desataram a gritar, raivosos. Uma verdadeira torrente de metal negro subia as escadas.

Kim continuou correndo. Sua resistência começou a fraquejar e a espada em suas mãos estava cada vez mais pesada. Dobrou esquinas, passou por portas e atravessou grandes salas vazias.

De um minuto para outro se viu só. O corredor pelo qual acabara de passar estava vazio e o único ruído era o de sua própria respiração ofegante.

Kim parou, exausto. Por um instante, o mundo começou a girar à sua volta. Encostou-se na parede e respirou fundo. Seu coração batia tão depressa que doía, e o som do sangue circulando pelo seu corpo lhe chegava aos ouvidos.

Piscou para não chorar e, sempre vigilante, olhou em volta, antes de continuar a fuga sem rumo definido. Pelo menos por ora estava livre dos inimigos, mas isso não significava que estava a salvo. Boraas, com certeza, iria mandar vasculhar até o último canto do castelo quando soubesse da sua fuga.

Ao lembrar do mago, uma ira fria se apossou dele. Um sentimento que nunca antes experimentara começou a crescer em seu íntimo, a envenenar sua alma e a fincar garras em seus pensamentos. Pela primeira vez desde que se conhecia por gente, sentia ódio de alguém. Boraas falara muito sobre o ódio, mas para Kim, até então, não era nada mais do que uma palavra vazia, sem significado. Mas agora compreendia o que Boraas queria dizer. Se ele abrisse o coração para o ódio, esse sentimento acabaria por devorá-lo, transformando-o em uma criatura das trevas! Ele tinha de sair daquele castelo e rápido!

E, novamente, apareceu uma porta à sua frente. Kim prendeu a respiração e se pôs a escutar. Depois, com muito cuidado, girou a maçaneta. As dobradiças enferrujadas emitiram um chiado tão forte que Kim se apavorou, temendo que o castelo inteiro pudesse ouvir o barulho. A porta levava para outra sala. Pelo que parece, Morgon consistia somente de corredores que conduzem de uma sala para outra. Entrou, fechou a porta e, temeroso, olhou em volta. A sala estava totalmente vazia — em uma das paredes havia um enorme espelho, guarnecido com uma moldura dourada, e no chão ladrilhado, em frente ao espelho, o desenho de uma figura bizarra, parecida com uma estrela dentada. Por uma das janelas entrava a luz do sol.

Kim passou a tranca na porta, deu mais uma olhada atenta em torno e depois correu, abaixado, para a janela.

O espelho atraiu sua atenção. Causava-lhe arrepios, como tudo em Morgon. O vidro era preto e refletiu sua imagem como uma sombra fugaz. Nem mesmo o dourado da moldura conseguia captar a luz do sol, como seria normal.

Subitamente, Kim foi acometido de uma forte vertigem. Ele tropeçou, caiu e, atordoado, permaneceu estendido no chão. Sentiu náuseas e teve a sensação de que seus pensamentos estavam sendo comprimidos por uma mão invisível, gelada. Gemendo, tentou se erguer. Balançou a cabeça e, às cegas, começou a tatear em busca da espada. A arma tinha o peso de algumas toneladas. Com muito custo se pôs de pé e, cambaleando, foi até a janela. Atacado por nova onda de fraqueza, caiu sobre o parapeito. Agarrou-se ao caixilho da janela e, reunindo todas as forças, olhou para fora.

O muro do castelo caía num declive vertical de pelo menos dez metros. E, lá no fundo, aguardavam-no rochas dentadas e afiadas. Uma armadilha perfeita! Mas bem debaixo da janela, rente ao muro negro do castelo, havia uma esperança! Um pedaço de chão liso, arenoso, em forma de lua crescente.

Se pulasse, talvez não sobrevivesse à queda. Mas essa perspectiva lhe parecia mais aceitável do que o destino que Boraas certamente lhe tinha reservado. Não havia escolha!

Jogou a espada, agarrou-se ao parapeito e, com um sofrido suspiro, deixou-se cair no desconhecido.

 

Kim tentou, em vão, amenizar o impacto da queda dobrando o corpo. O choque foi brutal e ele perdeu os sentidos. Quando acordou, o sol já estava se pondo. Seu braço direito parecia quebrado, a dor era insuportável. Como mordera a língua, sentiu gosto de sangue na boca. A testa alertava para seu estado febril.

A janela de onde pulara lhe parecia infinitamente longe. Por alguns segundos não fez outra coisa senão ficar imóvel e quieto, admirado com o fato de ainda estar vivo. Depois rolou de lado, apalpou o braço dolorido e deslizou a ponta dos dedos sobre o profundo arranhão, que se estendia da mão até o cotovelo. Pelo visto, apesar da dor, não havia nenhum osso quebrado. Cerrou os dentes, fechou a mão em punho e, cuidadosamente, sentou. Apesar do muro ter estado o dia todo exposto ao sol ardente, a pedra continuava fria.

Um ruído aguçou seus sentidos. Era um vozerio nervoso que logo descambou em gritaria. Aos berros, alguém deu um comando e, logo depois, Kim distinguiu o pisotear de muitas botas pesadas.

“Estão à minha procura”, pensou, nervoso. O castelo, pelo visto, estava em polvorosa. Apesar da situação deveras complicada, Kim não pôde evitar que um sorriso de satisfação aparecesse em seus lábios. Boraas, com certeza, estaria soltando fogo pelas ventas. Provavelmente estava, neste exato momento, açoitando seus cavaleiros pelos inúmeros corredores do castelo.

Kim apertou o braço machucado contra o corpo e levantou com alguma dificuldade. Tinha de desaparecer o mais depressa possível. Não tardaria para Boraas se dar conta de que Kim conseguira o impossível: escapar dos muros de Morgon! E aí seus guerreiros iriam vasculhar e revirar cada canto do castelo, cada pedra, até o encontrar.

Kim quis pegar a espada, mas, para sua decepção, a lâmina estava quebrada. De qualquer maneira, com o braço machucado, ela não lhe seria de grande valia. Atento, pôs-se a observar em torno, tentando encontrar o caminho para o vale. A rocha, que no lado onde estava caía em declive íngreme, apresentava uma série de rachaduras, fendas e cumeadas escarpadas, mas nada que lhe pudesse servir de esconderijo. Além disso, era arriscado demais descer uma encosta tão íngreme com o braço machucado e perseguidores em seu encalço. Só tinha uma maneira de chegar ao vale: o caminho pelo qual viera! Se bem que essa alternativa não lhe agradava, pois o atalho que serpenteava montanha acima praticamente não oferecia nenhuma cobertura. E Boraas, com certeza, também pensaria nessa alternativa de fuga.

O tempo urgia. Kim lançou um último olhar para a janela no alto e depois, com a mão esquerda, foi tateando ao longo do muro. Circundou o castelo até a porta levadiça que havia sido rebaixada. Não havia sinal de sentinelas ou eventuais perseguidores, o que, obviamente, não significava nenhuma vitória, pois, atrás das estreitas seteiras fincadas em ambos os lados do portão, incontáveis olhos poderiam estar à espreita.

Era uma descida de quase meio quilômetro, até que, finalmente, veio a primeira curva. Indeciso, Kim passou os olhos pelas ameias, onde, com certeza, havia sentinelas patrulhando. Deparara-se com uma delas, o que, por um triz, não lhe custou a vida. Por ora, não havia ninguém, mas a sentinela poderia voltar da ronda a qualquer momento e descobrir Kim no caminho montanha abaixo. Seria seu fim. Mas conforme ponderava Kim, talvez Boraas tivesse tirado todas as sentinelas das ameias para sua perseguição, achando que ele ainda estava no castelo.

Longas conjeturas não levariam a lugar nenhum. Quanto mais o tempo passava, maiores eram as chances do mago chegar a determinadas conclusões e, conseqüentemente, agir. Kim optou pela descida.

Os primeiros quinhentos metros tornaram-se os mais longos da sua vida. De cinco em cinco minutos olhava para trás, o coração quase saltando pela boca. Kim estava quase certo de que o portão do castelo abriria a qualquer momento e um pelotão de cavaleiros negros sairia em seu encalço.

Mas, pelo jeito, o destino estava do seu lado. Kim chegou até a curva, espremeu-se atrás de uma das rochas ciclópicas que ladeavam o atalho pedregoso e lá permaneceu, imóvel, atento a qualquer ruído, por menor que fosse. Mas o castelo estava em completo silêncio. Só se ouvia o eterno uivar do vento quebrando nas rochas e nas fendas, e as marteladas do seu próprio pulso. Assim, Kim aventurou-se a seguir adiante.

Quando, finalmente, chegou ao pé da montanha, já era noite. Uma névoa densa e cinzenta saiu dos pântanos e o vento agora era de um frio cortante. Kim chegara ao limite de suas forças.

Perto de uma rocha pontiaguda, o caminho terminou abruptamente e, à sua frente, surgiu uma região pantanosa, coberta por um nevoeiro borbulhante e por um frio úmido. Em meio a grupos isolados de árvores deformadas, pululava um matagal espinhoso e uma grama pálida, de aspecto doentio. Kim pisou em chão mole e cada pisada sua formava uma depressão que, rapidamente, enchia-se de água — sem dúvida uma excelente pista para seus perseguidores!

Kim parou e ponderou seus próximos passos. Depois, tirou as botas e continuou a pé. O rastro agora, com os pés descalços, não dava tanto na vista. Com um pouco de sorte, ele passaria despercebido.

Caminhar estava cada vez mais penoso: as árvores foram se agrupando e havia trechos em que o matagal espinhoso era tão espesso que Kim só conseguiu atravessá-lo com muito custo. Provavelmente, ouvia-se o rebentar dos galhos a quilômetros de distância! Em pouco tempo seu corpo estava coberto de arranhões e seu uniforme lhe caía em frangalhos do corpo.

A moita acabou ficando impenetrável, forçando Kim a parar. Indeciso, olhou ao redor: à sua esquerda viu a superfície reluzente de um pequeno lago, emoldurado, em semicírculo, pelo mural escuro da floresta. Kim descobriu um pequeno atalho a serpentear pela margem. Acreditou ver uma pequena abertura entre as árvores. Mudou de direção e, esbravejando, lutou com o mato, com raízes suspensas, extremamente duras, e se viu, finalmente, às margens do lago. Um leve cheiro de podridão chegou-lhe ao nariz.

Deixou correr os olhos na direção oeste, onde se delineavam nitidamente, sob a pálida luz da lua, os contornos da Cordilheira das Sombras, um gigantesco e impenetrável muro de pedras a se erguer até as estrelas. Apesar do céu límpido, Kim não conseguiu distinguir os cumes das montanhas — era uma altura simplesmente inatingível! Atravessar essas montanhas era um empreendimento ridículo!

Por outro lado, devia existir um caminho. Rebekka o achara e ele também o acharia!

Kim contornou o lago e entrou novamente na floresta. Nenhum filete de luz penetrava o espesso enredado das copas das árvores. Apenas o fraco brilho do luar, que refletia no lago, conseguiu infiltrar-se através dos troncos, permitindo-lhe vislumbrar o que havia em volta. Ao seguir adiante, as mãos estendidas para a frente, como fazem os cegos, esbarrou numa árvore, ganhou um arranhão a mais e acabou pegando algo mole, quente e pegajoso. Algo escuro e peludo escapou dos seus dedos, soltando finos grunhidos. Kim estremeceu e, nesse momento, abençoou a escuridão que o impedia de ver certos detalhes.

Ao continuar, Kim acabou num caminho largo, coberto por grama e musgo. Parou, inseguro. Se continuasse por esse caminho, ganharia tempo, mas o faria sem proteção nenhuma.

Decidido, deixou o caminho mais confortável para trás e se voltou para oeste. O braço ainda doía, mas agora caminhava sobre musgo liso, o que não era tão penoso. Depois de andar por cerca de dez minutos, ouviu um ruído. Parou e ficou atento ao que ouvia.

Se a armadura não tivesse refletido o fino filete de luar que se perdia entre as árvores, Kim não teria percebido o perigo. Ele imediatamente se jogou de lado e, sem dar a menor atenção para a dor, adentrou o denso espinheiral, escondendo-se atrás de uma árvore.

Quando o cavaleiro negro passou rente por ele, os cascos do cavá-lo esparramaram terra por todos os lados e, por um terrível instante, Kim teve a sensação de que os olhos atrás da viseira o tinham descoberto. Mas o cavaleiro continuou seu galope desenfreado, sem o notar.

Kim respirou aliviado. Foi por pouco! Alguns segundos a mais e ele teria sido pisoteado pelo cavalo.

Mas o perigo, nem de longe, estava afastado. O chão, de repente, parecia vibrar sob o abafado tamborilar das patas dos cavalos, anunciando que toda uma tropa se aproximava!

Ainda escondido atrás da árvore, Kim, muito vigilante, ergueu a cabeça. Eram cinco... sete — uma dúzia ou mais de armaduras negras! Pelo visto, aquele primeiro cavaleiro fora enviado na frente para sondar o terreno. Os outros não eram tão velozes, também galopavam depressa, mas volta e meia freavam os cavalos para, atentamente, espreitar à esquerda e à direita e remexer o matagal com a ponta de suas lanças. Estavam à sua procura!

Boraas provavelmente enviou todo seu exército para vasculhar as florestas e os pântanos que circundam Morgon.

Com muita cautela, Kim rastejou para o interior da floresta. De repente, uma mão agarrou seu pé. Kim estarreceu!

— Nenhuma palavra! — sussurrou alguém atrás dele. — Os diabos negros têm ouvidos de lince. Um pio e eles nos pegam!

A mão soltou seu calcanhar e alguém o colocou de pé de uma maneira bastante rude. Kim conseguiu ver a furtiva imagem de uma figura magra, com cabelos desgrenhados e olhos escuros, atentos, mas também amedrontados.

— Vem, depressa!

O estranho pegou sua mão e correu, agachado, entre as árvores, arrastando Kim consigo. Penetraram cada vez mais nas profundezas da floresta e Kim se perguntou como seu guia conseguia se orientar na escuridão. A figura à sua frente era nada mais que uma sombra, e ele o seguia praticamente às cegas.

Depois de algum tempo, a floresta foi aclarando, até que, finalmente, chegaram às margens de um pequeno lago iluminado pelo luar. Quando Kim e seu guia apareceram, as libélulas que dançavam sobre a superfície da água dispersaram-se rapidamente.

Kim soltou a mão do desconhecido e tentou acalmar a respiração. A corrida o esgotara por completo. Ele queria agradecer, mas foi acometido por um acesso de tosse.

— Não estás em boa forma, hein?

— Estou — respondeu Kim, tossindo. — É que... você tem razão, não estou em forma, mas essa é uma longa história.

Aos poucos foi se acalmando e, pela primeira vez, encarou seu salvador — um garoto, como ele! Não muito alto, tinha cabelos compridos que lhe caíam até os ombros e sua pele, talvez sob o efeito do luar prateado, apresentava uma palidez como Kim nunca vira antes. Vestia roupas longas, bastante desgastadas, sem qualquer forma, mais parecidas com um saco. A expressão do seu rosto era séria, porém amigável.

— Que tanto tu me olhas? Nunca viste um garoto?

— Claro que vi — respondeu Kim, sem graça. — Mas, para ser sincero, nunca vi um menino como você.

— Obrigado. Tens um jeito todo especial de agradecer quem te salva a vida.

— Mas eu... eu só acho... é que... aconteceu tanta coisa, foi demais e eu...

— Contas-me depois — interrompeu o outro. — Temos de continuar.

Nervoso, apontou para a floresta que deixaram para trás:

— Os demônios das armaduras negras não são nem um pouco idiotas. Se eles descobrirem que eu te salvei...

Com um gesto significativo, passou os dedos pela garganta e, por um instante, Kim teve a impressão de ver membranas finas e transparentes entre os dedos do garoto.

— Seja lá como for — disse Kim —, eu lhe sou muito grato. Se você não tivesse aparecido, provavelmente a essa altura eu estaria novamente no cárcere de Boraas. Aliás, meu nome é Kim.

— Eu sou Adomat — disse o garoto. — Mas, meus amigos me chamam de Ado. É bem mais simples. Agora vem! Temos de continuar!

Ele se virou e, com passos rápidos, desapareceu na mata. Kim teve alguma dificuldade para acompanhá-lo.

Por cerca de quinze minutos seguiram ora por um lado, ora por outro, o que deixou Kim totalmente desorientado. Mas ainda assim ele percebeu que estavam indo para oeste. Atravessaram um córrego raso e lamacento, acompanharam suas margens por algum tempo e acabaram em outro lago. Sem dizer uma palavra, Ado fez um sinal para que parassem. Depois mexeu em um arbusto até aparecer uma abertura redonda na terra. Ado apontou para o buraco com um gesto convidativo:

— Chegamos.

Kim se aproximou. Largos degraus de barro levavam às profundezas.

— Vamos ter de entrar neste buraco? — perguntou Kim, hesitante. Ado levantou os ombros e olhou para Kim com ar de gozação:

— Infelizmente não posso oferecer coisa melhor. Mas se tu preferires o Castelo de Morgon... — disse, desaparecendo na terra.

Kim se apressou em segui-lo. A escada de barro o levou alguns metros para baixo, depois dobrou para a direita, terminando em uma caverna subterrânea. Ado acendeu uma tocha e a repentina claridade fez Kim piscar.

— Senta — disse Ado. — Deves estar cansado. Vou ver se acho algo para tu comeres.

Uma série de banquinhos agrupavam-se ao redor de uma mesa baixa. Ado apontou para a mesa e depois desapareceu no compartimento ao lado. Kim ouviu o barulho de panelas e louças. Sentou, apoiou os cotovelos sobre a mesa e olhou ao redor. Não havia muita coisa para ver. A caverna tinha, talvez, uma extensão de dez a doze metros. As paredes, o teto e o chão eram de barro, atravessado por raízes escuras. Além da mesa, ainda tinha um pesado baú, revestido com ferro, e três camas baixas, que não pareciam nada confortáveis.

Ado voltou com uma concha contendo uma sopa fria e um pedaço de pão úmido, mas Kim, faminto como estava, devorou tudo. Ado o observou enquanto comia, mas, educadamente, esperou Kim varrer a última migalha de pão da mesa.

— Pelo jeito tu estavas esfomeado mesmo — comentou.

— Se estava! — sorriu Kim. Inclinou-se para trás na cadeira nada confortável e perguntou:

— Por que você me ajudou?

Ado não respondeu. Hesitante, tamborilou com os dedos sobre a mesa e agora Kim constatava que não tinha se enganado: entre os dedos de Ado realmente havia membranas muito finas e transparentes.

Ao examinar Ado com maior atenção, notou ainda mais estranhezas: sua pele era branca, muito clara e, dependendo do ângulo da luz, aparecia o brilho de escamas prateadas. Suas pálpebras eram transparentes como as dos peixes e, em vez de cabelo, tinha algo parecido com algas muito finas. Não tinha unhas e seu pescoço apresentava duas fileiras de cicatrizes, quase imperceptíveis, que corriam paralelas, como se, naquele lugar, em tempos passados, houvesse brânquias.

De repente, Kim se deu conta de que estava com os olhos fixos em Ado e, sem graça, baixou a cabeça.

Ado sorriu:

— Eu pareço esquisito para ti, não é? — e, com uma risada desdenhosa: — Tu tens de ver meu pai.

— Seu pai?!

Ado inclinou a cabeça:

— Achas que eu vivo sozinho aqui? — perguntou.

— Onde estão seus pais?

— Saíram — respondeu Ado, vagamente. — Meu pai nunca vem aqui à noite. Ele só vem pela manhã, ao nascer do sol. Aliás, normalmente eu também só venho pela manhã. Durante o dia nós dormimos. Se não fosse assim, eu não poderia salvar você.

Kim abanou a cabeça:

— Não sei como lhe agradecer. Mas você ainda não disse por que fez isso por mim.

— Eu não gosto dos cavaleiros negros — respondeu Ado, secamente.

— Mas... o que você fez foi perigoso!

— Por que tu dizes que foi. Os cavaleiros negros irão revistar a floresta toda... mas não te preocupes. Estás seguro aqui. Eles nunca vêm aqui. Pelo menos até hoje nunca vieram.

Ado ergueu os ombros, bocejou sem a menor cerimônia e se inclinou para a frente. Kim sentiu o cheiro de água estagnada.

— Você... seu pai... Vocês moram aqui? — perguntou. Ado confirmou:

— Sim. Antigamente minha mãe também morava com a gente, mas isso faz muito tempo.

— Ela... ela morreu?

De repente, a feição do garoto se modificou: ficou dura, pesada, até seu olhar mudou. Mas ele respondeu calmamente:

— Não, ela não morreu. Os cavaleiros negros vieram buscá-la, mas isso faz muito tempo, eu nem lembro, eu era pequeno. Meu pai me contou.

— Quem é seu pai?

Ado sorriu:

— Meu pai é meu pai, ora, quem mais poderia ser? Se quiseres saber o que ele é, perguntes a ele!

Kim ficou sem graça. Percebeu que abordara um assunto sobre o qual Ado não gostava de falar.

— Espero que o que você fez por mim não lhe cause problemas quando seu pai souber — disse Kim, preocupado.

Ado balançou a cabeça:

— Claro que não. Meu pai também não gosta dos cavaleiros negros. Mas, agora eu quero te fazer algumas perguntas: Quem és tu, de onde vens? Nunca vi alguém como tu por aqui.

Pacientemente, Kim respondeu a todas as perguntas, que, aliás, não eram poucas. A curiosidade do estranho garoto era insaciável.

Ado o interrompeu várias vezes para fazer novas perguntas. Queria saber tudo nos mínimos detalhes. Acontece que Kim, por sua vez, também estava louco para fazer perguntas. Nunca tinha visto alguém como Ado. Depois de tudo que Boraas e Temístocles lhe contaram sobre o Reino das Sombras, Ado o surpreendia ainda mais. Mas ele se controlou e teve paciência até chegar sua vez. Afinal, Ado lhe salvara a vida e arriscara a própria segurança.

Finalmente, depois de horas — pelo menos assim lhe parecia —, Kim terminou sua história. Exausto, passou a mão pelos olhos e bocejou.

— Oh... estás cansado — disse Ado, um pouco sem graça. — Eu não devia ter feito tantas perguntas.

Kim inclinou a cabeça. Olhou para as camas. Seu corpo pedia cama. O garoto não se agüentava mais em pé de tanto cansaço.

— Podes deitar e dormir — disse Ado. — Eu vou esperar até... — olhou para a entrada da caverna e ficou à escuta por alguns segundos. -Depois anunciou:

— Meu pai chegou!

Kim não ouviu nenhum ruído. Mas Ado não se enganara: na entrada da caverna apareceu primeiro uma sombra, depois uma figura grande, de ombros largos. Ado deu um pulo e correu para o pai. Kim também levantou e ensaiou uma tímida reverência.

O pai de Ado era ainda mais estranho que o filho: bem velho, andava curvado, como se estivesse carregando um pesado fardo nos ombros. Porém, ainda dava para notar que na juventude devia ter sido um homem imponente. Seu rosto era fino, atravessado por profundos sulcos, e na cabeça portava uma coroa torta e suja que lembrava um pouco as coroas usadas por crianças em alguma peça de teatro infantil. No entanto, a aparência do velho não era ridícula, ao contrário, irradiava tristeza e melancolia.

O velho lançou um olhar indagador para o filho e se aproximou de Kim.

— Visita — constatou. E com um franzir da testa:

— Tu deves ser aquele que procuram.

Kim sentiu-se pouco à vontade. Esperava uma recepção mais cordial.

— E... — começou, inseguro. — Acho que sou eu... eu sou... meu nome é Kim. Kim Larssen.

— Kim Larssen — repetiu o pai de Ado, pensativo.

Hesitou por um instante e depois continuou com certa amargura:

— Eu sou o Rei dos Charcos... E presumo que Ado te tenha trazido até aqui.

Kim confirmou. Rei dos Charcos! Que nome estranho! Mas, ao mesmo tempo, por incrível que pareça, combinava com o velho.

Ado não se conteve e, afoito, contou tudo que acontecera. Seu pai ouviu em silêncio, algumas vezes balançou a cabeça e depois, arrastando os pés, foi até a mesa. Kim notou que os pés do velho deixaram pegadas úmidas no chão lamacento.

— Então foi isso... — murmurou. — Todo esse alvoroço... Eu vim mais cedo para casa porque não entendia o que estava acontecendo. Os cavaleiros estão vasculhando a floresta toda.

Lançou um olhar severo para o filho:

— Foi imprudente da sua parte trazê-lo para cá, Ado. Se ele falou a verdade... isto é, se ele realmente escapou de Morgon...

— É verdade! — exaltou-se Kim. O Rei dos Charcos continuou:

— Boraas não vai sossegar até te recapturar. Nunca antes alguém fez isso com ele.

Passou os dedos pela longa barba molhada e suspirou:

— Não poderás ficar aqui, rapaz.

— Mas, pai! — exclamou Ado, assustado. — Tu não podes enxotá-lo daqui!

— Claro que não. Mas os cavaleiros negros vão aparecer aqui, se não hoje, amanhã com certeza.

— Podemos escondê-lo — sugeriu Ado!

— Claro, de imediato sim. Mas Boraas não vai desistir. Mais cedo ou mais tarde ele vai descobrir o esconderijo.

O velho abanou a cabeça:

— Ele não pode ficar aqui!

Kim suspirou, cansado:

— Não quero causar problemas — disse, deprimido.

— Não é por mim, Kim -— desculpou-se o Rei dos Charcos. — Tu é que estás correndo perigo. Mas estou vendo que chegaste no limite das tuas forças. Fique um dia para descansar. Amanhã à noite te acompanharei até a borda da floresta.

Kim respirou, aliviado. Depois de tudo que passara, a expectativa de uma noite de sono em uma cama de verdade era paradisíaca. Queria deitar agora mesmo, mas o Rei dos Charcos ainda não havia terminado:

— Primeiro, quero examinar teu braço.

Kim puxou a manga para trás e cerrou os dentes, quando o rei passou os dedos pela ferida. Doeu, mas só por um instante. Depois, uma sensação agradável de alívio se alastrou pelo braço e a dor desapareceu como por encanto. Ado se aproximou com uma concha de madeira com alguns utensílios, provavelmente para primeiros socorros, e o pai de Ado começou a tratar do seu braço com uma habilidade quase milagrosa, de causar inveja a qualquer médico. Pelo visto, os habitantes dessa terra possuíam aptidões extraordinárias, desconhecidas dos médicos do mundo de Kim.

Kim perguntou ao Rei dos Charcos a respeito, mas este só balançou a cabeça:

— Nossos métodos de cura podem ser novidade para ti, mas, acredite, nosso poder de cura já foi bem maior, antes de Boraas aparecer por aqui.

Kim ainda quis fazer mais perguntas, porém, cansado como estava, mal se estendeu sobre uma das camas, já estava dormindo.

A luz dourada do sol penetrou na caverna quando Ado o acordou. O ar estava impregnado com o apetitoso cheiro de peixe frito. Kim esfregou os olhos e aspirou o cheiro.

— A comida está pronta — disse Ado, sorrindo. — Está mais do que na hora de levantar.

— Ah é? — respondeu Kim, enquanto procurava seus pertences. Suas roupas estavam cuidadosamente dobradas e colocadas sobre uma banquetinha ao lado da cama. Até o rasgo na manga direita do paletó estava remendado.

— Que horas são?

— Muito tarde — respondeu Ado. — Ou muito cedo, depende do ponto de vista. Dormiste quase o dia todo. O sol está prestes a se pôr de novo.

Kim saltou da cama. Estava descansado e pronto para novas peripécias.

— Então... tenho de desaparecer, não é? Ado abanou a cabeça:

— Que nada! Primeiro vamos comer. Depois eu te mostro nosso reino. É muito raro termos visitas, sabe.

Um pouco triste, acrescentou:

— Para ser franco, nunca temos visitas.

— Nosso reino? Você disse... reino?!

— É. Meu pai não brincou, ele é mesmo rei. Kim sorriu:

— Então você é um verdadeiro príncipe?

Mal terminou de falar, percebeu que fizera um comentário infeliz. Quando Ado respondeu com voz áspera, notou um relampejar de raiva nos olhos do garoto:

— Realmente, Kim, eu sou um príncipe. Talvez não pareça príncipe e talvez meu pai também não faça jus à imagem que tu tens de um rei... Afinal de contas, ele é apenas o Rei dos Charcos!

— Perdão — murmurou Kim. — Eu...

— Está bem.

Ado fungou e passou a mão pelo nariz. Encarou Kim com seus grandes olhos, que lembravam olhos de peixe, e fez uma careta:

— Vem, senão a comida esfria.

Sentaram à mesa, posta com pratos e talheres de madeira. Ado serviu peixe com bastante fartura e um mingau de aspecto nada apetitoso, mas muito saboroso. Para acompanhar, foi servida uma bebida quente, parecida com chá, mas com gosto de cacau. Kim literalmente devorou enormes quantidades de comida, o que deixou Ado estupefato. Afinal, ele se alimentava há quase uma semana apenas de pão e água e a refeição da noite anterior não tinha sido suficiente para matar sua fome.

— Ainda há pouco, um dos cavaleiros negros esteve aqui — informou Ado, depois de algum tempo.

Kim levou um susto tão grande que engasgou.

— Aqui?!

Ado confirmou:

— Sim. Perguntou por ti. Não diretamente, mas ele queria saber se nós tínhamos visto um estranho por aqui. É claro que se referia a ti. Todo o país está em polvorosa... por tua causa.

Partiu um pedaço de pão, enfiou-o na boca e deu uma risadinha:

— Meu pai disse que nunca vira os cavaleiros tão agitados. Boraas deve estar fora de si. Pelo menos agora sabemos que tu falaste a verdade.

— Vocês não acreditaram em mim!

— Não — disse Ado. — Nunca antes alguém conseguiu escapar de Morgon.

Kim inclinou a cabeça:

— Eu sei.

Ontem estivera exausto demais para pensar, mas hoje, já descansado, sua fuga parecia algo inacreditável até para ele mesmo.

— Talvez Boraas tenha me subestimado — disse Kim, sem grande convicção.

Como Ado não respondeu, terminaram a refeição em silêncio. Depois Ado tirou a mesa, guardou a louça e certificou-se de que o fogo estava apagado. Kim o seguiu até a saída da caverna. Ado falara a verdade: dentro de uma hora, mais ou menos, o sol desapareceria do céu. A luz do dia, a floresta já não lhe parecia mais tão sinistra como na noite anterior.

O sol derramava seus últimos raios sobre a superfície serena do lago, que reluzia como ouro derretido. Entre as árvores até apareciam tímidas florzinhas.

Kim foi até o lago e sentou na margem. Ado tirou a roupa e, com um elegante salto, pulou na água, que levantou em esguichos borbulhentos. Kim o seguiu com os olhos e, por um instante, acreditou enxergar o grande corpo prateado de um peixe.

Ado ficou por um longo tempo debaixo da água. Finalmente apareceu na margem oposta do lago. Kim se espantou com a capacidade do rapaz de mergulhar por tanto tempo sem precisar subir à superfície para respirar.

Não se cansou de observar Ado, que disparou como uma flecha, nadando ora para um lado, ora para outro, fazendo piruetas artísticas no ar para, em seguida, mergulhar de novo. Kim estava maravilhado, mas de repente entendeu que a água era o verdadeiro elemento de Ado.

Finalmente, Ado saiu da água e se vestiu. O cabelo molhado lhe caía quase até a cintura.

— Isso foi bom — disse, com a respiração tão calma como se tivesse feito apenas um suave passeio. — Eu não costumo entrar na água durante o dia. Não queres entrar?

Kim enfiou o dedo do pé na água... estava gelada!

— Não, obrigado — disse, estremecendo.

— As pessoas não nadam lá de onde vens? — indagou Ado.

— Claro, mas não com essa temperatura... e nem de longe tão bem quanto você. Aliás, esse é um lugar muito bonito.

Ado sentou ao seu lado, arrancou o caule de uma flor e o esfregou no rosto:

— Bonito? Aqui não é bonito. Kim olhou para ele, surpreso.

— Eu acho bonito, eu...

— Aqui não é bonito — repetiu Ado. — Tudo está doente, tu ainda não consegues ver, mas eu conheço os sinais. A água está apodrecendo e a floresta morre um pouco a cada dia. É um processo vagaroso, mas constante. A chuva queima o chão e o que sobra é sufocado pela névoa.

Ado cuspiu no chão, pegou um punhado de areia e jogou na água. Depois de alguns minutos continuou:

— Um dia, antes da chegada de Boraas, isso aqui era um paraíso.

— Antes da chegada de Boraas?! — repetiu Kim. — Isso quer dizer que essas terras não pertenciam a Boraas?

Ado balançou a cabeça:

— Não. Boraas te mostrou o reino dele, não mostrou?

Kim confirmou. Da mais alta torre de Morgon lançara um olhar sobre as terras cinzentas e áridas, e essa lembrança o fez sentir calafrios de pavor.

— Pois é — continuou Ado. — Estas terras eram bem diferentes: as águas eram límpidas e as florestas eram habitadas por animais e sílfides. À noite podia-se sair e passear, sem medo. Não havia cavaleiros negros e meu pai...

Ado cerrou as mãos.

— Seu pai não era o Rei dos Charcos — completou Kim.

— Não. Ele era o Rei dos Lagos, bonito, cheio de esplendor! E minha mãe era uma rainha de extraordinária beleza. Ela, seus irmãos e irmãs viviam felizes e em paz. Todos eram reis e... não eram.

— Não entendo... Ado sorriu:

— Comigo, a estirpe dos Reis dos Lagos se extingue. Antigamente havia muitos reis, mas eles não dominavam ninguém, pois todos eram reis...

Sua voz assumiu um tom amargo:

— Aí veio Boraas e tudo mudou. A deterioração tomou conta das florestas, os lagos começaram a secar e se tornaram charcos lamacentos. Quem não conseguiu escapar de Boraas e dos seus cavaleiros negros a tempo, mais cedo ou mais tarde desapareceu em seus calabouços.

Ado engoliu em seco e as lágrimas se misturaram às gotas de água no seu rosto:

— Um dia tudo voltará a ser como antes — profetizou.

— Foi... seu pai quem disse isso?

— Sim — confirmou Ado. — Vamos lutar. Um dia vamos nos libertar do domínio de Boraas.

— Quem? — perguntou Kim. — Você disse “nós”?

Ado não respondeu de imediato. Seu olhar se perdeu na floresta, no lago e no céu. Depois respondeu:

— Deve haver outros... Boraas não pode ter extinguido todos. Assim como meu pai e eu sobrevivemos, outros devem ter sobrevivido. Quando eu for adulto, vou sair para procurá-los. Vou encontrar os sobreviventes... Vou encontrá-los e levantar um exército capaz de enfrentar Boraas. E se eu não encontrar ninguém, vou lutar sozinho.

Kim tinha muito que dizer, mas também sabia que não era o momento propício. Ado, que até então se mostrava um menino alegre e descontraído, de repente lhe revelara uma faceta que deixou Kim surpreso.

Ao mesmo tempo, encontrou nas palavras de Ado, ainda quase uma criança como ele, sua própria ânsia de vingança, seu próprio desejo de seguir o caminho da luta, se bem que ele, Kim, já se encontrava no meio dela... Ou estaria enganado?

Porém, refletiu Kim, Ado estava errado, pois queria revidar violência com mais violência, o que, certamente, não era a solução.

No entanto, Kim não ousou revelar suas considerações para o garoto, que, depois de algum tempo, continuou:

— Eu venho muito para cá, sento às margens do lago e fico imaginando como era em tempos passados.

Encolheu as pernas, enlaçou-as com os braços e apoiou o queixo nos joelhos:

— Meu pai me contou tantas histórias que até parece que eu as vivi. É só fechar os olhos e eu vejo o lago como era... Eu juro, um dia ele voltará a ser como antes!

Kim sensibilizou-se com as palavras do garoto, tão preso a uma vida que não conhecera, que se tornara um sonho e que, provavelmente, continuaria sendo um sonho para sempre. No fundo, Ado talvez soubesse que seus planos não tinham futuro e que de nada adiantava opor-se à força dos cavaleiros negros. Porém, não foram sempre os sonhos que levaram os homens a grandes feitos, a realizar o impossível?

— Eu te observei ontem à noite — disse Ado. — Quando conheceste meu pai... Por pouco não soltaste uma gargalhada.

Envergonhado, Kim baixou os olhos:

— Eu... eh... eu... — gaguejou.

Ado sorriu: :

— Sabe, foi meu próprio pai que se autonomeou “Rei dos Charcos”.

Kim entendeu. Intitulando-se “Rei dos Charcos”, o pai de Ado quis demonstrar uma espécie de oposição a Boraas e seus cavaleiros, aliás, a única possibilidade de oposição que lhe restara. Quem se expõe voluntariamente ao ridículo desfruta certa liberdade, a liberdade dos palhaços, e assim se torna forte!

— Para onde pretendes ir? — perguntou Ado, de repente.

— Hum?!

— Aqui tu não podes ficar — lembrou Ado. — Eu gostaria que ficasses, mas meu pai está certo, não demoraria muito e os cavaleiros de Boraas te encontrariam aqui.

— Eu sei — suspirou Kim. — Mas de qualquer maneira, eu não poderia ficar. Tenho de seguir em frente — disse, apontando para oeste.

— Tu queres atravessar a Cordilheira das Sombras?

— Mas isso é impossível!

— Não. Eu já atravessei essas montanhas uma vez e minha irmã também.

— Mas era diferente — protestou Ado. — Tu conseguiste atravessá-las porque tinha a nave e a tua irmã encontrou o caminho porque era a vontade de Boraas.

— Isso prova que existe um caminho e eu tenho de encontrá-lo... eu vou encontrá-lo!

— E quando encontrares o caminho... o que vai ser?

— Ainda não sei. Vou procurar Temístocles. Juntos, vamos encontrar um meio de derrotar Boraas.

Depois de um longo silêncio, Ado perguntou:

— Tu me levas?

A pergunta pegou Kim de surpresa. Não sabia o que responder.

— Tu me levas? — repetiu Ado. — Eu conheço estas terras melhor que tu. Em dois, tudo será mais fácil.

Kim continuou indeciso.

— É muito perigoso — disse, finalmente. — Seu pai nunca permitiria.

Ado fez um gesto de pouco caso:

— Não é mais perigoso que ficar aqui. Boraas vai destruir tudo se não te recapturar. Eu falo com meu pai. Talvez ele até resolva nos acompanhar. Em três teríamos uma boa chance.

Kim revidou:

— Vocês não estariam mais seguros em lugar nenhum. Sou um perigo para vocês. Eu nunca me perdoaria se algo de ruim lhes acontecesse por minha causa.

— Eu não me importo de morrer — disse Ado, e Kim percebeu que ele estava falando sério.

— Se eu tiver de morrer, quero levar alguns dos diabos encouraçados comigo. Só assim valeria a pena morrer.

Kim não respondeu. O Rei dos Charcos jamais permitiria que Ado o acompanhasse e, por mais que Kim temesse atravessar a cordilheira fantasmagórica sozinho, a segurança de Ado era mais importante. Aprendera a gostar do menino que era tão diferente, mas que compartilhava seus sonhos e anseios. Se Ado e ele tivessem se encontrado em um outro lugar e em outras condições, com certeza teriam se tornado bons amigos.

— Não dá — disse Kim, finalmente.

Ado bufou:

— Seja sincero... Tu não queres me levar porque achas que sou fraco. Não me dizes que estás preocupado comigo... O que, aliás, seria uma grande bobagem. Eu não tenho medo de Boraas nem dos seus cavaleiros.

— Claro, eu acredito em você. Mas justamente por isso é importante que permaneça aqui. Você me contou como era antes e, como você, eu quero que volte a ser como antes. Você é o último da sua estirpe e só você conseguirá salvar estas terras, realizar o seu sonho e o do seu pai. Se você for embora comigo, seria como abandonar um bom amigo. Esta terra precisa de você e dos seus sonhos, Ado.

Um leve ruído fez Kim se virar, assustado. Era o Rei dos Charcos, que, sem ser percebido, ouvira a conversa dos meninos. Agora, ele disse, muito sério:

— Kim está certo, Ado. Colocou a mão no ombro do filho:

— Eu entendo teus motivos, Ado, mas é exatamente como Kim disse. Tu não podes acompanhá-lo.

Revoltado, Ado empurrou a mão do pai, levantou e se jogou na água.

O Rei dos Charcos balançou a cabeça:

— Perdoes meu filho, Kim. Ele ainda é muito jovem, incapaz de entender certas coisas. Um dia ele agradecerá por teres te recusado a levá-lo. É melhor partires imediatamente. Vá antes que Ado volte.

Kim queria se despedir de Ado, mas também reconheceu que Rei dos Charcos estava com a razão.

— Eu te acompanho e mostro como sair dos pântanos — disse Rei dos Charcos. — Os cavaleiros negros tomaram conta da floresta mas conheço caminhos que nem mesmo Boraas descobriu. Irei ti guiar até as fronteiras do meu reino... depois vais ter de seguir adiante por conta própria.

O rei suspirou e, muito emocionado, acrescentou:

— O caminho que escolheste é longo e perigoso.

— Eu sei — murmurou Kim.

A floresta os acolheu. Na companhia do Rei dos Charcos, Kim sentiu-se protegido e, nesse momento, até invejava Ado, que podia desfrutar a proteção que o pai lhe oferecia.

— Estas terras estão em alvoroço — disse o Rei dos Charcos. — Todos os cavaleiros do Barão Kart estão à tua procura. Tu não podes confiar em ninguém! Mantém-te sempre longe dos caminhos abertos e conhecidos e também das cidades e aldeias. O mal nunca dorme e Boraas tem espiões por toda parte.

Kim e o Rei dos Charcos andaram por mais de uma hora pela floresta, lado a lado, em mudo entendimento. Quando finalmente alcançaram os limites da região dos charcos, já era noite.

— Aqui temos de nos separar — disse o Rei dos Charcos. — Boa sorte, meu rapaz.

—Eu voltarei — prometeu Kim.

 

Kim andou por quase uma semana até finalmente se aproximar da Cordilheira das Sombras. Andou por vales e pântanos, atravessou planícies pedregosas e desertos ardentes, lutou com plantas carnívoras e, certa vez, “viu-se forçado a passar a noite em uma árvore, tremendo de medo e de frio, para não ser devorado por um bando de lobos. Os animais famintos só desapareceram ao amanhecer, no entanto, Kim ainda esperou por mais de uma hora até tomar coragem e descer da árvore. E, com tudo isso, volta e meia cruzava o caminho dos cavaleiros negros. Seguiu o conselho do Rei dos Charcos e evitou cidades e aldeias, mas, mesmo assim, freqüentemente se deparou com sinais dos enormes cavalos e algumas vezes só escapou por pura sorte. No começo teve a esperança de que o perigo diminuísse à medida que se aproximava da Cordilheira das Sombras, mas aconteceu exatamente o contrário: quanto mais se aproximava da gigantesca muralha formada pelas montanhas sombrias, mais sinais dos cavaleiros negros apareciam. A situação ficou tão crítica que Kim acabou tendo de se esconder durante o dia, seguindo caminho somente na calada da noite. Boraas, pelo visto, acionara todo seu exército para capturar um menino pequeno e indefeso. Mas, embora fosse senhor absoluto de um enorme e poderoso exército, seus cavaleiros acabaram se dispersando na imensidão de suas terras. Apesar disso, Kim estava longe de sentir-se seguro.

A floresta terminou abruptamente e o chão, até então cheio de musgos, passou a ser coberto por enormes cacos de pedra. Era como se um gigante tivesse despedaçado uma montanha e espalhado os restos pelas terras ao redor. Kim olhou para o estreito atalho que, serpenteando, subia a encosta. Começou suave para ficar cada vez mais íngreme e, finalmente, perdeu-se nos cumes titânicos, cobertos pela neve eterna e que pareciam perder-se no infinito. Até os desfiladeiros e os precipícios encobertos por véus de névoa e que ainda podiam ser vistos a olho nu estavam a uma altura de mais de mil metros. Atravessar a cordilheira por esse caminho levaria à morte certa, se não pelo ar rarefeito, então talvez por total esgotamento físico, ou ainda em detrimento do frio extremo que reinava nas eternas geleiras. Além disso, esses cumes formavam apenas uma parte relativamente baixa da cordilheira propriamente dita, ou seja, o pior ainda estava por vir. Ficar frente a frente com a Cordilheira das Sombras foi um impacto para Kim. Atravessá-la, nesse momento, parecia-lhe loucura.

Mas, sua irmã, uma criança de quatro anos, encontrou o caminho para o outro lado! Rebekka, com certeza, não atravessou as montanhas sombrias com força própria, portanto, deve existir um outro meio para vencer a cordilheira!

Kim suspirou. De que adianta se perder em conjeturas? Por enquanto, tudo era mistério. Kim começou a andar. Entre as paredes rochosas muito íngremes, seus passos provocavam um eco sinistro. Depois de quase um quilômetro, o garoto parou para lançar um último olhar para o vale: a floresta, já bem longe, cinzenta e hostil, com seus arbustos espinhosos, o musgo venenoso e os pântanos traiçoeiros, as plantas carnívoras, as aranhas e outros insetos perigosos... tudo lhe parecia até acolhedor diante do que o esperava. A cordilheira se apresentava despida de qualquer vegetação, sem nenhum sinal de vida.

Kim enfiou as mãos nos bolsos e continuou a subir. O caminho serpenteava entre rochas e cacos de pedras, as curvas, por vezes imprevisíveis, faziam-no voltar um trecho, mas aos poucos foi seguindo cada vez mais para oeste. A noite caiu rapidamente e o cinza das rochas transformou-se em preto. Depois de algum tempo, Kim ouviu um ruído que lhe era familiar e que, nos últimos dias, aprendera a temer: o tropel de cavalos!

Instintivamente, espremeu-se atrás de uma rocha e olhou para o vale. Cerca de trinta, talvez quarenta cavaleiros negros aproximavam-se pelo sul. Durante sua caminhada até a cordilheira, ao observar os cavaleiros de longe, Kim pôde constatar que, pelo jeito, o Barão Kart tinha uma espécie de tropa de elite, formada pelos mais altos e fortes cavaleiros. Também entre o grupo que se aproximava agora havia alguns gigantes, mas estes eram a minoria. Alguns dos cavaleiros, porém, eram até menores que o garoto.

Outros pareciam nada familiarizados com as selas — dava para notar que não se sentiam à vontade com os animais e que esse tipo de locomoção não era da sua natureza. Kim estava quase certo de que nem todos os cavaleiros, escondidos pelas armaduras negras, eram humanos!

Mal ousando respirar, ficou observando o grupo, que agora parava os cavalos no limite da floresta. O líder, um gigante, montado em um cavalo também gigante, levantou a mão e disse algo que Kim, devido a distância, não conseguiu ouvir. Os cavaleiros dividiram-se em quatro grupos: um grupo começou a juntar lenha e montar acampamento, enquanto os três outros grupos continuaram a galopar em direções opostas. De repente, um dos grupos começou a dirigir seus cavalos exatamente para onde Kim estava e, por um momento, ele achou que seu coração iria parar de bater. Às pressas, procurou um lugar adequado para se abrigar... em vão! Kim não hesitou e saiu correndo. Não restava dúvida: os guerreiros de Boraas vasculhariam a área toda de maneira metódica e meticulosa. Iriam levantar pedra por pedra, examinar fenda por fenda larga o suficiente para abrigar um menino do seu tamanho. Kim continuou a subir o mais depressa que pôde, olhou para trás e... levou o maior susto! Ele demorara mais de meia hora para chegar aonde chegou, mas os cavaleiros negros açoitavam seus cavalos de maneira impiedosa, de modo que, em pouquíssimo tempo, venceram quase a metade do caminho. Não demoraria muito e o descobririam! Ele tinha de encontrar um esconderijo... já!

Um pouco adiante se viu diante de uma bifurcação... para aonde ir? Não havia tempo para pensar. Correu para a direita e se viu dentro de um estreito desfiladeiro, com elevadas paredes formadas por rochas lisas. O caminho fez uma dobra e Kim estava diante de uma parede lisa, perpendicular!

Por um instante o susto o paralisou. Por pouco não começou a gritar. Sem saber o que fazer e em mudo desespero, cerrou os punhos. Caíra em uma perfeita cilada e, o que era pior, por sua própria culpa!

Nesse meio tempo, os cavaleiros alcançaram a bifurcação. A maioria seguiu em frente, sem lançar nem mesmo um rápido olhar para o desfiladeiro, o que encheu Kim de novas forças e esperança. Mas, de repente, uma figura pequena, blindada de preto, parou o cavalo e olhou, inseguro, na direção de Kim. O encouraçado puxou as rédeas e o cavalo relinchou, irado, deu meia-volta e trotou devagar para o desfiladeiro.

Desesperado, Kim girava os olhos à procura de uma saída, mas a parede era absolutamente lisa e não lhe oferecia nenhuma brecha, por menor que fosse. Então descobriu, não muito longe dali, logo depois da curva, um nicho baixo, plano, onde talvez ele pudesse se espremer. Era um esconderijo precário, pois o cavaleiro negro tinha de passar rente por ele. Mas era sua única chance!

Kim se espremeu no tal nicho e esperou, mal ousando respirar, o cavaleiro negro passar. Este foi com seu cavalo até o fim do desfiladeiro, desembainhou a espada e espetou a ponta afiada algumas vezes na terra. Nem mesmo a rocha escapou de sua busca.

Quando o cavaleiro virou o cavalo, Kim se jogou em cima dele de braços abertos, derrubando-o da sela.

Tomado de surpresa, o cavaleiro soltou um grito, tentou defender-se com a espada e acabou acertando o cotovelo no estômago de Kim. O golpe deixou o garoto sem ar por alguns segundos e o fez cambalear para trás. O cavalo relinchou, assustado, deu alguns passos de lado e empinou o corpo. Kim se agachou para não ser atingido pelos cascos que giravam no ar feito martelos, pequenos e mortais. Mesmo assim, um dos cascos roçou seu ombro e o deixou estirado no chão.

Para seu adversário, no entanto, a sorte não sorrira. O cavaleiro havia erguido a espada para dar o golpe mortal em Kim quando foi atingido pelas patas do animal descontrolado. O guerreiro caiu para trás e ficou estatelado no chão.

Kim, que também estava estirado no chão, ficou imóvel por um bom tempo até que, finalmente, tomou coragem e, cautelosamente, levantou-se, apoiado nas mãos e nos joelhos. O cavalo continuou pisoteando no mesmo lugar, os grandes olhos negros fixos em Kim. As patas dianteiras raspavam, ameaçadoras, a rocha.

— Calma, rapaz — murmurou Kim. — Calma... não vou lhe fazer mal.

Para sua surpresa, o animal parecia entender o que ele dizia ou, pelo menos, parecia reagir ao tom apaziguador na voz de Kim, pois parou de relinchar.

Kim levantou e aproximou-se vagarosamente do cavaleiro negro estendido no chão. Apalpou a armadura negra e logo percebeu que seu adversário estava inconsciente. Suas idéias começaram a fervilhar. No momento estava salvo, mas era uma segurança ilusória. Não tardaria e os outros cavaleiros iriam perceber a falta do companheiro. E, quando descobrissem o que havia acontecido, ele estaria perdido. Não iriam sossegar. Revistariam cada centímetro da região até achá-lo. Só lhe restava uma chance... Kim se rebelou contra essa possibilidade, mas também reconheceu que não tinha alternativa!

Decidido, Kim virou o cavaleiro negro e começou a tirar-lhe a armadura. Por sorte, ele era quase do seu tamanho. Entre gemidos e suspiros, Kim se pôs à difícil tarefa de livrar o ser à sua frente dos diversos componentes que compunham a reluzente armadura. O que veio à tona nada tinha de humano: um corpo musculoso, peludo, simiesco. Kim estremeceu ao ver as garras curvadas nas mãos. O rosto era achatado, sem expressão, e quando levantou uma das pálpebras, viu que o ser tinha olhos negros, sem pupilas.

Kim rasgou sua roupa em tiras, com as quais atou as mãos e os pés do homem-macaco. Por fim, ainda o amordaçou. Provavelmente ele conseguiria se libertar assim mesmo, mas Kim tinha esperanças de que até lá ele já estaria bem longe dali.

Com um último olhar para a saída do desfiladeiro e bastante relutante, o corajoso garoto começou a vestir a armadura, que parecia ter lhe sido feita sob medida! Embainhou a espada e se aproximou do cavalo, que jogou a cabeça para trás e tentou mordê-lo.

— Calma, rapaz — acalmou-o Kim. — Calma, não vou lhe machucar.

Kim acariciou o animal e continuou falando:

— Não vou lhe fazer mal, fique calmo... bem calmo. Eu não sou seu dono, mas não vou lhe machucar...

O animal estremeceu, mas não se agitou. Kim o apalpou e, repetindo as mesmas palavras carinhosas, segurou as rédeas. Ele nunca antes montara um cavalo em sua vida, mas agora tinha de tentar, custasse o que custasse. Kim o acariciou entre as orelhas, alisou a crina e, depois de algumas tentativas malogradas, finalmente conseguiu montar. O cavalo empinou e por um triz não o jogou no chão, mas Kim se agarrou firme à espessa crina e, com muito custo, manteve-se na sela.

Permaneceu alguns segundos sem se mexer, mal acreditando que realmente conseguira montar o cavalo. Depois apalpou novamente o pescoço do animal e puxou as rédeas:

— Vamos, rapaz — murmurou. — Vire-se!

E o milagre aconteceu! O cavalo relinchou, movimentou a cabeça e se virou. Depois, sem esperar ordens, trotou em direção à saída. Quando chegou à bifurcação, Kim parou. Não dava para ignorar o retumbante galopar de algumas centenas de cavaleiros, cujo ruído se misturava às batidas nervosas do seu coração. Virou a cabeça e viu cerca de meia dúzia de cavaleiros negros que vinham galopando pelo declive da montanha. Seu cavalo se pôs em movimento e, sem que pudesse evitar, o animal retomou seu lugar no grupo, e Kim se viu cercado pelos cavaleiros negros! Agarrou as rédeas com toda a força, rezando para não cair, pois, em corrida desembestada, o grupo galopou de volta para o vale. No meio do caminho se juntaram a outro grupo e, para desespero de Kim, tomaram o caminho do acampamento!

Sob a armadura negra que lhe servia de disfarce, o suor escorria pelo seu corpo. Vesti-la fora uma façanha bastante ousada, mas se infiltrar no acampamento dos cavaleiros de Boraas era puro suicídio! Ele tinha de sair dali, não importava como!

Desesperado, procurou uma saída. Por um momento teve o ímpeto de disparar em desenfreado galope na direção da floresta, mas desistiu imediatamente, pois só a muito custo conseguia manter-se na sela e, mesmo que o cavalo obedecesse às suas ordens, os outros o alcançariam antes que pudesse contar até dez.

Chegaram ao acampamento formado por duas fileiras de barracas agrupadas em semicírculo ao redor de uma grande fogueira. Um homem, que parecia ser o líder, gritou algo que, sem dúvida, era uma ordem.

O grupo se dissolveu e cada guerreiro se dirigiu a um determinado lugar. Kim, sem saber o que fazer, soltou as rédeas e, com uma prece muda, entregou-se à esperança de que o cavalo saberia, melhor que ele, o que fazer.

Um dos cavaleiros se aproximou dele, deu-lhe um soco amistoso e disse algumas palavras rápidas numa língua áspera e dura. Como Kim não respondeu, o outro repetiu as palavras. Com o coração apertado, Kim continuou mudo. O cavaleiro o fitou por alguns segundos, provavelmente ainda esperando uma resposta, depois murmurou algo, deu de ombros e se afastou.

Kim respirou aliviado. O que acabara de acontecer servira para mostrar-lhe como sua situação era precária.

Resolveu acompanhar um grupo de sete ou oito cavaleiros que trotava vagarosamente para a outra extremidade do acampamento, onde os cavalos paravam sem que tivessem recebido ordem para isso. A exemplo dos outros, Kim desmontou. Por um triz não caiu, mas — a sorte era-lhe favorável — ninguém notou.

Os cavalos trotaram até um abrigo perto da floresta. Mas seu cavalo não acompanhou os outros, ficou parado, raspou as patas na areia e, em seguida, esfregou a cabeça na armadura de Rim. Estarrecido, Kim notou que um dos cavaleiros observava a cena.

Acariciou as narinas do animal e murmurou:

— Vá, rapaz, por favor, se manda... Se você ficar aqui será morte certa para mim.

O cavalo bufou e, vagarosamente, pôs-se em movimento, não sem parar algumas vezes e olhar para trás, como se quisesse se certificar de que Kim continuava no mesmo lugar.

O frio e a umidade foram banidos pelas crepitantes labaredas da imensa fogueira, cujo brilho alaranjado expulsara a escuridão da noite. Os cavaleiros tiraram seus provimentos das mochilas e começaram a comer. Faminto e com sede, Kim vagueou pelo acampamento para se orientar e tentar colher dados sobre sua organização. Porém, não conseguiu descobrir nada. Apenas uma parte dos cavaleiros dormiu em barracas, os outros enrolaram-se em mantas ou simplesmente se acomodaram no chão, ao ar livre e sem cobertas.

Depois de algum tempo, Kim voltou para perto dos cavalos à beira da floresta. Mais tarde deitaria e fingiria que estava dormindo. À noite, quando todos estivessem dormindo, talvez tivesse oportunidade de tentar uma fuga. Mas, por enquanto, nem pensar. Inquieto, Kim perambulou entre as barracas, aparentemente sem rumo. Fez um vago sinal para um dos cavaleiros que queria puxar conversa e acabou sentando à sombra de uma das barracas. No ar, o murmúrio de vozes, o tinir de metal e o típico chiar de couro velho. Bem próximo dele, três enormes cavaleiros negros começaram um jogo de dados.

Kim se esticou no chão, cruzou os braços na nuca e olhou para as estrelas. Estava nervoso, amedrontado e exausto. Mesmo assim, lutou contra o sono, que estava prestes a vencê-lo!

Seus olhos se fecharam e já estava quase adormecendo quando um súbito barulho aguçou seus sentidos! Uma calorosa briga irrompeu entre os jogadores de dados. Um deles levantou e desembainhou a espada, enquanto os outros dois tentavam acalmá-lo.

Kim se ergueu para acompanhar, curioso, o desenrolar dos acontecimentos, que se atropelaram: com um grito de fúria, o guerreiro girou a espada e se atirou contra um de seus companheiros. A espada arranhou a armadura do adversário que, ao cambalear para trás, também puxou sua espada. Num piscar de olhos, estava iniciada uma luta feroz.

Kim achou que os outros cavaleiros iriam apartar a briga dos companheiros, mas nada aconteceu. Cada vez mais espectadores apareceram, mas ninguém mexeu uma palha para separar os briguentos.

A luta não durou muito. De repente, o que começou a briga cravou sua espada na pequena brecha desprotegida entre o elmo e a couraça que cobria o peito do outro. O atingido deu alguns passos para trás, cambaleante, deixou cair a arma e também caiu, como uma árvore tombada.

Os curiosos começaram a se dispersar. O guerreiro que começara a briga embainhou sua espada e continuou o jogo de dados como se nada tivesse acontecido.

Kim estremeceu. Aqui, pelo visto, a vida de nada valia. Ele esticou o corpo e encolheu as pernas. A armadura negra era uma excelente proteção contra o frio e, após algum tempo, novamente o cansaço começou a tomar conta dele. Fechou os olhos e começou a cochilar, mas pouco tempo depois, prestes a cair em sono profundo, ergueu-se outra vez, sobressaltado. Não podia se dar ao luxo de dormir!

Pouco a pouco o acampamento começou a silenciar. As fogueiras se apagaram, as vozes se calaram. E finalmente, por volta da meia-noite, só se ouvia o uivar do vento e, de vez em quando, os cascos dos cavalos, quando estes arranhavam o chão. Só Kim não dormia. No começo havia sido difícil permanecer acordado, mas agora o cansaço dera lugar a uma terrível inquietação. Só a muito custo conseguiu permanecer deitado sem se mexer.

Ficou acordado a noite toda, esperando uma chance de fugir. Meia dúzia de sentinelas patrulhavam, sem descanso, o lugar, impossibilitando qualquer tentativa de fuga. Kim chegou à conclusão de que a atenção dos vigias estava mais voltada para os companheiros adormecidos que para eventuais perigos de fora, o que lhe mostrou mais uma vez que a fuga era um empreendimento bastante complicado.

O som alarmante de uma trombeta desafinada despertou o acampamento para um novo dia. Kim foi um dos primeiros a levantar e, sem saber ao certo o que fazer, começou a mostrar uma frenética atividade: correu de um lado para outro, juntou madeira e armamentos, ajudou aqui e ali, fez de tudo para continuar em movimento. Esse seu comportamento provou ser o certo, pois não chamou a atenção. Em pouco tempo o acampamento foi desmontado e qualquer sinal que pudesse revelar sua presença foi eliminado.

Outro toque de trombeta! Um dos guerreiros soltou os cavalos, que trotavam de um lado para outro, à procura de seus donos.

O cavalo de Kim parou à sua frente e, brincalhão, cutucou seu peito com as narinas. Tomado de surpresa, Kim cambaleou para trás e se chocou contra um dos cavaleiros. Este, por sua vez, emitiu um ruído mais parecido com um rosnado e o empurrou contra o cavalo com tanta força que Kim só não perdeu o equilíbrio porque se agarrou à sela. Nesse momento, uma mão o agarrou pelo ombro e virou seu corpo brutalmente. Kim levantou os olhos e se viu frente a frente com um gigantesco guerreiro.

O gigante falou algumas palavras que Kim não entendeu, mas estava bastante claro que esperava uma resposta.

Suas idéias se atropelaram. A briga dos jogadores na noite anterior lhe mostrara que tudo era motivo para uma disputa mortal. Encarou o gigante, depois deu de ombros, voltou-se e montou em seu cavalo. O guerreiro agarrou seu cinto e tentou tirá-lo de cima do animal. Kim sacudiu a mão do cavaleiro e, com toda força, deu-lhe um pontapé no peito. O gigante caiu sentado, mas se levantou imediatamente aos gritos.

Kim quis desembainhar a espada mas não teve tempo, pois seu cavalo relinchou, arranhou os cascos no mesmo lugar e depois atingiu o gigante com as patas traseiras. O golpe foi tão forte que fez o guerreiro estatelar-se no chão. Ele demorou até conseguir se levantar. Os estranhos olhos negros debaixo da viseira fulminavam de ódio. Ergueu-se lentamente e desembainhou a espada.

Um grupo de cavaleiros negros apareceu, todos enormes. O guerreiro estremeceu e, submisso, baixou a cabeça. Um dos cavaleiros falou algo e o homem parecia encolher a cada palavra. Ele embainhou a espada, lançou um último olhar de ódio na direção de Kim e, sob o riso malicioso e irônico dos companheiros, pegou seu cavalo.

O exército dos cavaleiros negros agrupou-se em fileiras de quatro e seguiu caminho para leste. Afastaram-se da cordilheira, passaram por uma pequena floresta, descansaram por alguns minutos perto de um córrego onde os cavalos beberam a água lamacenta e continuaram, dessa vez, para oeste, na direção da cordilheira.

O tempo todo Kim ficou à espera de uma chance para escapar. Mas as patrulhas continuavam a postos! Mesmo se conseguisse fugir, sua ausência seria imediatamente notada, pois o exército de Boraas era regido por uma organização quase matemática.

Por volta do meio-dia, chegaram a um lago raso, cercado por montanhas baixas, onde fizeram outra pausa. Depois seguiram para o sul por um caminho paralelo à Cordilheira das Sombras. Algumas vezes, o líder ordenou que parassem, quando então enviava pequenos grupos na frente para o reconhecimento do terreno. Kim não conseguiu descobrir se havia uma sistemática nisso ou se agiam simplesmente ao acaso. Seja como for, ele sempre deu um jeito de se esquivar. Finalmente, ao cair da tarde, quando o sol mais uma vez se preparava para mergulhar nos infinitos cumes da cordilheira e as sombras se alastravam cada vez mais, chegaram ao topo de uma colina, onde pararam. Para Kim foi um choque o que viu: o amplo vale se afunilava na direção da cordilheira, desembocando em um estreito desfiladeiro cercado por paredes rochosas perpendiculares. Porém, o que mais o impressionou foram os milhares de cavaleiros negros que formigavam no vale! Ora se aglomeravam em grupos, ora formavam pelotões, tudo com movimentos lentos, quase majestosos. Incontáveis barracas e fogueiras cobriam o chão daquela região. Era impossível estimar o número de soldados; Deviam ser milhares, um exército monumental e poderoso movimentando-se para oeste feito uma enorme avalanche escura, prestes a se escoar no estreito desfiladeiro.

Kim seguiu os outros, que começaram a descer a colina. Um bando de pássaros enormes e pretos sobrevoou o vale com preguiçoso adejo e desagradável grasnar. Passaram pelas primeiras barracas, mas o líder não fez menção de parar. Ele os conduziu, em vez disso, por entre as barracas e as fogueiras até quase o centro do vale, onde fora construído um tipo de abrigo, sustentado por fortes vigas de madeira e cercado por uma vala coberta por um líquido oleoso. Uma fileira de cavaleiros negros cercava esse reduto que, pelo jeito, fora construído para fins de defesa. Kim se questionou o que, ou melhor, quem os líderes desse exército negro porventura temiam.

Ele fez força para esquecer, pelo menos no momento, o constante medo que o atormentava e fixou sua atenção nos acontecimentos. Quem sabe aqui não haveria uma boa chance para escapar!

Passaram rente pelos vigias. O líder trocou algumas palavras com um deles, enquanto Kim concentrava sua atenção na aglomeração de barracas. Os cavaleiros que aqui circulavam eram maiores e, de alguma forma, pareciam-lhe ainda mais ameaçadores.

De repente, Kim teve um sobressalto. Entre os gigantes negros sobressaía-se um, ainda maior que os outros. Sua armadura não se diferenciava da dos outros, mas Kim o reconheceu imediatamente: Barão Kart!

O susto quase lhe roubou os sentidos. O barão negro andava, inquieto, de um lado para outro. Gritou com um dos seus homens e, com um gesto mal-humorado, enxotou os outros. Uma das barracas se abriu e lá de dentro uma figura magra surgiu envolta em um manto negro e esvoaçante: Boraas!

Kim teve de lançar mão de toda sua força de vontade para se manter calmo. O feiticeiro saiu da barraca e olhou ao redor. Por um terrível momento Kim teve a impressão de que os olhos impiedosos do velho o haviam descoberto. Depois, Boraas se virou com um movimento brusco e se dirigiu para alguém dentro da barraca. Logo depois apareceu outra figura vestida de preto, que se pôs ao lado do feiticeiro.

O homem era menor que Boraas e vestia, como todos os outros, uma armadura negra desprovida de qualquer ornamento. Mas havia algo que o diferenciava dos outros! Apesar de sua baixa estatura e dos ombros estreitos, irradiava uma aura maléfica, como se fosse uma auréola sinistra.

Seguiram em frente, mas a imagem da figura ameaçadora o perseguiu de tal forma que Kim teve dificuldade para respirar. No seu interior formou-se um bloco de gelo. Era como se o desconhecido quisesse apoderar-se de sua alma! Finalmente pararam os cavalos. O líder gritou alguns comandos e todos desmontaram. Dois guerreiros recolheram os cavalos e os levaram para uma grande recua próxima à saída do vale.

O dia terminou como o anterior. Os homens se dispersaram, jogaram, beberam ou simplesmente conversaram. Kim se movimentou livremente, mas não ousou afastar-se mais de cem metros do grupo, pois para ele os guerreiros eram todos iguais e, se ele se perdesse, jamais encontraria novamente seu grupo. A sorte estava do seu lado, pois o guerreiro, cujo lugar ocupava, pelo visto não tinha amigos, assim, seu comportamento quieto e pouco social não despertava atenção.

Impaciente, Kim esperou a noite chegar. Nas colinas que cercavam o vale começaram a arder incontáveis fogueiras, o que dificultou seus planos de fuga. Ele teria de continuar a confiar na sorte e esperar por uma chance.

Kim teve uma terrível visão: viu-se espremido dentro da sinistra armadura negra, fazendo parte de uma infinita fileira de cavaleiros, atacando Temístocles e seus aliados. Se continuasse a acompanhar o exército de Boraas, poderia, de repente, ver-se envolvido em uma batalha contra os homens de Temístocles! Era uma hipótese bem provável e que o deixava bastante apreensivo.

Kim andou entre as barracas à procura de um lugar de onde pudesse controlar o desfiladeiro. O inimigo não dava trégua, não relaxava a vigilância nem por um minuto. As tochas e o bruxuleante fogo das inúmeras fogueiras projetavam nas paredes das rochas um alegre bale de luzes vermelhas, ao passo que nas profundezas do desfiladeiro um enigmático brilho esverdeado envolvia os cavaleiros, conferindo-lhes uma aparência distorcida. Era como se no desfiladeiro não estivesse se locomovendo um exército real, mas um infinito pelotão de sombras.

Indeciso, Kim olhou ao redor. Estava ainda mais cansado que na noite anterior e, como não comia já há dois dias, sentia-se fraco e indisposto. Mas não ousava levantar a viseira negra nem por um segundo. Finalmente deitou e cobriu-se com uma manta. Em poucos minutos estava dormindo profundamente.

Ficaram dois dias e três noites no vale. Algumas vezes tiveram de ceder lugar a novos grupos que estavam chegando. Com isso, aproximavam-se cada vez mais do desfiladeiro. O número de cavaleiros não parava de crescer, de modo que o vale já não comportava mais o monumental exército. Kim viu Boraas mais uma vez quando este, no segundo dia, inspecionou o acampamento montado em seu grande cavalo negro, flanqueado pelo Barão Kart e pelo estranho homem que lhe causara um grande mal-estar.

Os dias no acampamento transcorreram uniformes e ociosos. Kim passou quase todo o tempo andando, inquieto, de um lado para outro. Ele tinha consciência de que não demoraria muito e alguém notaria seu comportamento. Aliás, era um milagre que até agora tivesse passado despercebido.

Então, no terceiro dia, todos foram acordados com os gritos rudes dos líderes. Rapidamente se formaram longas fileiras duplas de uma exatidão milimétrica, que permaneceram imóveis, sob um sol ardente, por quase uma hora. Depois foram trazidos os cavalos.

Kim viu “seu” cavalo preto vir ao seu encontro. O animal esfregou a cabeça em seu ombro. Ele se deu conta de que seu comportamento poderia parecer estranho para os outros cavaleiros, mas ele não resistiu e acariciou as narinas do animal. O cavalo relinchou, arranhou o chão com as patas e fez alguns movimentos bruscos com a cabeça. Kim montou.

Aos poucos, todos os cavalos encontraram seus respectivos donos. A proximidade com o cavalo deu a Kim uma agradável sensação de bem-estar. Cercado pelo inimigo por todos os lados e mais próximo da morte do que da vida, o animal era seu único amigo e confidente, o único ser vivo que dividia com ele um mortal segredo.

E, de alguma forma, Kim acreditou que seu carinho era retribuído pelo cavalo.

Seguindo as ordens do líder, a longa fileira se pôs em movimento. Kim se viu, novamente, em meio a uma ilimitada coluna de cavaleiros negros que se dirigia para o desfiladeiro.

À medida que se aproximavam do desfiladeiro, o brilho esverdeado ganhava intensidade. Num primeiro momento, a impressão que se tinha era de que se tratava de um fogo verde, sem fumaça. Mas, quando chegaram mais perto, Kim percebeu que era algo bem diferente. Não havia chamas nem calor, apenas uma penetrante claridade esverdeada que parecia brotar das rochas, do chão e até do ar. Um som agudo e estridente fez seus sentidos vibrarem. E, de repente, foi acometido por um medo ainda muito mais intenso do que aquele que sentira até então. Era o pressentimento de que algo terrível aconteceria se não escapasse do brilho verde. Mas, fugir como? Cavalgavam agora lado a lado, tão próximos que quase não havia mais espaço entre os animais. As armaduras dos cavaleiros roçavam a rocha próxima. Estava mais do que claro que uma fuga a esta altura era simplesmente impossível, pois não dava nem mesmo para virar o cavalo.

Kim tentou se concentrar no que estava à sua frente. Os cavaleiros precipitavam-se, sem hesitar, para a luz verde. Seus corpos pareciam assumir uma inacreditável transparência! Kim se aproximou cada vez mais da luz, seu cavalo se assustou, mas Kim conseguiu acalmá-lo. Seu corpo começou a formigar quando entrou no brilho verde. Ofuscado, fechou os olhos, abaixou a cabeça e cobriu o rosto com a mão. Mas de nada adiantou. A luz transpassou sua mão, o metal da armadura e chegou ao seu corpo, fazendo-o gemer.

Então, de repente, como se alguém a tivesse desligado, a luz desapareceu e Kim se viu em uma enorme caverna de teto tão alto que nem era visto. À sua frente abria-se um infindável precipício! Os cavaleiros agruparam-se e, com muito cuidado, conduziram seus animais para uma ponte de pedra, construída sobre o precipício. Não havia proteção nenhuma, apenas a ponte, sem corrimão, tão estreita que mal assegurava a travessia dos cavalos. Porém, os cavaleiros forçavam seus animais sobre a ponte, um após o outro, em infinita fileira.

Vez ou outra, um bloco de rocha se soltava sob o pesado passo dos cavalos. De repente, um dos cavalos tropeçou, soltou um apavorado relincho e despencou no abismo, levando seu cavaleiro, sem que isso parasse por um minuto sequer o avanço dos outros.

Quando sua vez chegou, Kim se agarrou à crina do cavalo! Olhou para o precipício e, apavorado, fechou os olhos. Ele sentiu uma vertigem e por um momento a enorme caverna parecia girar à sua volta. O passo do cavalo soava como o retumbar de um trovão. Parecia-lhe que haviam se passado muitas horas até que, finalmente, alcançou a outra extremidade da ponte. O teto da caverna agora estava mais baixo e, com as paredes laterais, formava uma galeria baixa que se ramificava em inúmeros corredores laterais. O ar estava pesado e denso e a respiração ardia como fogo nos pulmões. Os cavaleiros acenderam tochas para iluminar o caminho.

Depois de algum tempo, fizeram uma pausa e Kim, sem que pudesse evitar, caiu em um sono profundo. Quando acordou, teve a sensação de ter dormido apenas alguns minutos. Estava mais cansado que antes.

Seguiram por galerias e elevadas catedrais de pedra, atravessaram estreitos desfiladeiros e se equilibraram à beira de precipícios sem-fim. Depois desceram os degraus rudimentares de uma escadaria esculpida na pedra.

Nova pausa e mais intermináveis horas sobre o lombo do cavalo. E quando Kim achou que não conseguiria se manter na sela por nem mais um minuto, apareceu à sua frente um pontinho de luz. As tochas se apagaram e o exército entrou numa caverna ampla, de cujo teto pendiam bizarras figuras de cristal. Bandos de enormes morcegos rodopiavam sobre suas cabeças e, na outra extremidade da caverna, ardia o já familiar fogo verde.

Seguiram em frente, sem pausa. O cavalo de Kim soltou um relincho cansado ao subir uma encosta coberta por cacos de rocha. Um dos animais tropeçou e, assustado, jogou seu cavaleiro no chão, onde ele ficou estirado, imóvel. Horrorizado, Kim fechou os olhos quando viu que o corpo foi pisoteado pelos que vinham atrás, sem que ninguém impedisse.

Novamente foram envolvidos pelo insuportável brilho verde, que, como aconteceu antes, fez Kim gemer de dor. Depois, ele se viu em um vale cercado por elevadas paredes de rocha, parecido com o que acabaram de deixar.

Então, de repente, Kim se deu conta do que acabara de acontecer: as montanhas ficaram para trás... Eles tinham atravessado a Cordilheira das Sombras!

 

Kim estava exausto demais para, pelo menos no momento, abraçar essa façanha: a travessia por baixo da Cordilheira das Sombras em toda sua magnitude. Até os cavaleiros negros estavam exaustos! Kim, em meio ao grupo que já lhe era familiar, dirigiu-se para a extremidade do vale. Desta vez não foram erguidas barracas nem mesmo os cavalos receberam os merecidos cuidados. Os guerreiros simplesmente se jogaram no chão e, no mesmo lugar onde estavam, enrolaram-se para dormir.

O desejo de fazer igual foi grande, mas Kim se controlou. Se houvesse uma chance para escapar, seria agora!

Inclinado para a frente, as mãos apoiadas no pescoço do cavalo, Kim passou pelos guerreiros, uns dormindo, outros totalmente apáticos. O vale estava fechado por todos os lados, somente ao norte havia uma estreita abertura na rocha. Obviamente, a saída do vale era vigiada, mas embriagado pela idéia da fuga, Kim evitou pensar no problema. Sentiu-se confiante, pois conseguira o impossível: a travessia da Cordilheira das Sombras! E não seria agora que um punhado de vigias iria detê-lo!

Kim acariciou o cavalo entre as orelhas para acalmá-lo. Depois, com os sentidos aguçados, aproximou-se vagarosamente da saída do vale. Cerca de meia dúzia de cavaleiros, protegidos pelas armaduras negras e apoiados em suas lanças, mantinham a guarda da passagem de aproximadamente vinte metros de largura. Kim parou. Não tinha nenhuma idéia concreta de como enfrentar a situação. Talvez romper o cordão dos guardas em desenfreado galope? Mas o outro lado da garganta com certeza também estaria sendo vigiado, o que, sem dúvida, seria seu fim!

O já familiar ruído de galope fez Kim se virar, assustado. Um pequeno grupo de cavaleiros aproximava-se da passagem. O líder trocou algumas palavras com um dos guardas e, em seguida, o cordão de vigias se abriu. Era a sua chance!

Kim não hesitou: exercendo suave pressão, forçou o cavalo a se virar e se enfileirou em meio ao grupo, passando, assim, a sentinela, sem despertar a menor atenção.

A garganta tinha por volta de cem metros de comprimento, mas para Kim, aflito e impaciente, parecia interminável. Passaram por outra fileira de vigias, aliás muito bem camuflados, na saída do desfiladeiro e chegaram, assim, a uma terra ampla e clara. Kim controlou a vontade de gritar de alegria! A paisagem montanhosa que se descortinava à sua frente diferenciava-se por completo da Cordilheira das Sombras. Entre as rochas claras surgia o alegre verde de arbustos e samambaias, como também o colorido vivo das flores serranas. Grama e musgo abafavam o trote dos cavalos e, de uma fenda no alto da rocha, um pinheiro estendeu seus galhos nodosos para a transparência azulada do céu. O ar estava impregnado pelo alegre gorjeio da passarada e um riacho serrano, com águas límpidas, cruzou seu caminho.

Kim tomou uma decisão: era agora ou nunca! Virou o cavalo, deu-lhe algumas esporadas e arrancou em galope desembestado. Um grito uníssono passou pelas fileiras dos guerreiros, seguido por comandos breves e irados. Uma flecha sibilou rente por ele, bateu na rocha e caiu em lascas, seguida por outra, que raspou sua armadura e deixou um longo e sangrento arranhão no flanco do seu cavalo. O caminho fez uma dobra, Kim entrou nela e, pelo menos por ora, estava salvo.

Kim fez uma rápida avaliação: à sua frente o caminho descia, íngreme, a encosta para então serpentear entre rochas e árvores, o que lhe dava, num primeiro momento, uma certa proteção das flechas e outros projéteis. Mas era imprescindível encontrar um esconderijo. Seu cavalo estava exausto e não resistiria por muito tempo a uma competição com os cavalos descansados dos perseguidores.

Os cavaleiros apareceram na curva. Kim reconheceu o Barão Kart, montado no primeiro cavalo.

Instigou o cavalo:

— Corre, rapaz, corre! Corre pela sua vida e pela minha... Se nos pegarem, vão nos matar!

O animal relinchou como se tivesse entendido. Em desenfreado galope, desceu a montanha, as narinas cobertas por espuma branca. Kim se agarrou, desesperado, à crina do animal, procurando, ao mesmo tempo, por uma saída. Mas, de um lado as terras estendiam-se abertas e desprovidas de qualquer abrigo e, de outro, a montanha caía em profundo precipício. Galopava agora rente a um barranco de cerca de dez metros de profundidade.

Kim arriscou um breve olhar para trás. A distância entre ele e seus perseguidores diminuíra e Kim acreditou enxergar nos olhos do barão o relampejar do ódio. O barão nunca o perdoaria por tê-lo exposto ao ridículo, o que, certamente, nunca lhe acontecera antes.

Sua vingança seria terrível! Uma vingança da qual o separavam só mais alguns poucos minutos...

Kim se forçou a olhar para a frente e, nesse momento, tomou uma decisão ditada pelo desespero: parou o cavalo, que empinou, deu meia-volta, mas acabou obedecendo às ordens do seu dono. Os gritos dos seus perseguidores o acompanharam quando Kim e seu cavalo arremessaram, num galope suicida, para o abismo.

Kim se jogou para a frente, enlaçou o pescoço do animal com os dois braços e fechou os olhos. Sentiu os músculos do animal quando este se preparava para o salto. Por dois ou três intermináveis segundos, homem e animal deslizaram pelos ares. Kim abriu os olhos e viu o outro lado voar ao seu encontro.

O impacto o arrancou da sela. Ele deu uma cambalhota no ar para, em seguida, despencar violentamente no chão, onde continuou rolando como uma pedra até, finalmente, sossegar. O cavalo tropeçou por alguns metros e caiu com um grito de dor para, em seguida, levantar-se com algum esforço.

Kim se ergueu gemendo. O corpo todo lhe doía e o sangue rumorejava em seus ouvidos. Seus perseguidores ficaram parados na margem oposta da garganta. O barão esbravejou e os cavaleiros, atingidos pela ira do líder, pareciam encolher cada vez mais.

Uma flecha passou sibilante e se cravou no chão à sua frente. Kim desviou-se de outra flecha e apressou-se para escapar de uma verdadeira chuva de flechas negras que caíam ao seu redor. Sua armadura o salvou da morte certa.

Encontrou abrigo atrás de uma rocha. As flechas continuaram a cair, mas não o atingiram mais. Provavelmente os cavaleiros só continuavam a atirar para dar vazão à raiva.

Kim recostou a cabeça no flanco do cavalo, que estava coberto de suor, e descansou por alguns minutos. Depois tirou o capacete negro, depositando-o na grama ao seu lado. Uma eternidade se passara — é o que lhe parecia — desde que colocara aquele capacete pela primeira vez. Ajoelhou-se e passou os dedos pelas pernas do animal. As articulações estavam inchadas! Era um verdadeiro milagre que o salto mortal não tenha lhe quebrado as quatro pernas!

— Pobre rapaz! — disse Kim, cheio de carinho. — Você está tão mal quanto eu, não é?

O cavalo levantou a cabeça, relinchou e enfiou o nariz no peito dele. Kim perdeu o equilíbrio e, rindo, caiu sentado. Mas o momento exigia seriedade.

— Eu sinto muito, rapaz, mas você ainda vai ter de me carregar por algum tempo. Ainda não estamos salvos. O Barão Kart certamente vai encontrar um caminho e, quando isso acontecer, quero estar o mais longe possível. Você também, não é?

Kim suspirou, prendeu o capacete na sela e montou de novo no lombo do cavalo. Continuaram a descer a montanha. Cada vez mais a paisagem pedregosa era substituída pelo verde e as esparsas árvores davam lugar a bosques verdejantes e a pequenas e convidativas florestas. Kim e seu cavalo saciaram a sede em um dos muitos riachos de águas cristalinas que beiravam o caminho. Os arbustos estavam carregados de pequenas frutas carnosas, que lembravam amoras, e Kim arrancou algumas bagas para matar a fome. O que não daria por algumas horas de sono em uma cama, ou mesmo no chão, mas ainda não se afastara o suficiente do barão e dos seus cavaleiros. Pelo menos até o anoitecer, teria de agüentar. Na escuridão, podia se esconder em um nicho de rocha ou entre alguns arbustos para arriscar um pouco de sono.

Ao cair da tarde, deixaram a região montanhosa e chegaram a uma campina verde cercada por uma floresta, o que encheu homem e animal de novo ânimo. Quando alcançaram as primeiras árvores, Kim soltou as rédeas e deixou-se cair no chão. A floresta e o céu límpido começaram a girar. Náuseas e uma fraqueza nunca antes sentida o dominaram. Kim caiu de joelhos, rolou de lado e tentou, em vão, levantar-se. Esgotara todas as suas forças físicas e, nesse momento, mesmo se o mundo à sua volta desabasse, não teria forças para dar um único passo.

Pouco depois, um ruído o fez erguer a cabeça. Os arbustos à sua frente se mexiam! Mas — que alívio! — era apenas um texugo que, atraído pelo barulho e talvez pelo cheiro que Kim e seu cavalo exalavam, aproximava-se para farejar, curioso.

— Olá, texugo — disse Kim com um sorriso cansado. — Você nem acredita como estou feliz em vê-lo.

Kim estendeu a mão e movimentou os dedos. O texugo farejou de novo, sentou-se nas patas traseiras e seus olhos pequenos, mas inteligentes, fitaram o estranho visitante.

— Você é apenas um texugo — murmurou Kim, quase dormindo. — Mas você é o ser mais bonito que eu vi nos últimos dias. Pena que não pode me ajudar.

O texugo inclinou a cabeça e piscou. Kim se aconchegou na grama macia, fechou os olhos e suspirou:

— Não me leve a mal, texugo, mas eu tenho de dormir. Se você tiver a paciência de esperar até eu acordar, então poderemos conversar.

O texugo emitiu alguns grunhidos, coçou a orelha, sacudiu o corpo e disse:

— Infelizmente não tenho tempo, mas voltarei com prazer. Sabe, não é fácil encontrar alguém para conversar.

Mais tarde Kim não saberia dizer se desmaiou de sono ou de susto.

Kim ficou por quase uma semana com Tak, o texugo, que habitava com sua mulher e uma série de filhotes, aliás bastante briguentos, uma ampla e confortável caverna debaixo da floresta, em razoável profundidade.

Os Taks — todos se chamavam Tak, a mulher e cada um dos oito filhotes — eram muito amáveis apesar de, num primeiro momento, parecerem um pouco sisudos e individualistas. Nos três primeiros dias, Kim permaneceu quase o tempo todo em um canto escuro e afastado e só acordava quando a senhora Tak lhe trazia a comida ou quando um dos pequenos Taks o puxava pelo cabelo ou tentava se enfiar debaixo de sua armadura. Somente no quarto dia deixou a caverna para se familiarizar com as redondezas e tratar do seu cavalo. Porém, esses passeios curtos só serviam para lhe mostrar que ainda estava bastante fraco. Kim quis montar seu cavalo, mas não conseguiu se manter na sela e caiu no chão. Desanimado, voltou para a acolhedora habitação dos texugos, onde se recolheu em seu canto e se aconchegou na folhagem seca que os Taks colheram para ele e que lhe servia de leito. Os texugos permaneciam durante o dia quase sempre na caverna. À noite saíam à procura de alimento e retornavam de suas caçadas somente com o raiar do sol. Kim ainda não tinha tido oportunidade de conversar muito com eles, pois não eram muito dados a conversa. Quando voltavam para casa, a senhora Tak imediatamente começava a encher a despensa e a preparar a comida, enquanto os filhotes se retiravam para brincar e o texugo-pai procurava seu lugar de estimação na caverna para tirar um tranqüilo cochilo.

A morada dos texugos era confortável e segura, um lugar para sentir-se bem e onde os problemas e as aflições eram esquecidos. Mas, Kim tinha uma missão! Ele sentou-se no chão ao lado de Takpai, que o encarou e disse:

— Espero que estejas melhor.

Kim inclinou a cabeça:

— Eu... eu já estou bem, o que devo a vocês.

— Deixas pra lá. Eu já disse? É raro alguém aparecer aqui. Nada mais natural que cuidar do próximo.

— Mas eu não posso ficar aqui — murmurou Kim. Tak abanou a cabeça:

— Ayyah — suspirou. — Esses jovens! Sempre com pressa. Eles nunca têm tempo para uma prosa.

Abanou a cabeça de novo e, um pouco triste, disse:

— Eu tinha esperança de que tu ficasses por um bom tempo, mas vejo que não posso manter-te aqui.

Kim olhou para o texugo, perplexo. Desde que chegara à caverna, Tak não trocara nem meia dúzia de palavras com ele. Esse súbito ímpeto de sociabilidade era uma surpresa.

— Fique alguns meses — pediu Tak. — O inverno está na porta e aí podemos ficar aqui para prosear.

O texugo levantou a cabeça e farejou:

— Muita coisa ruim está se passando nestas terras — murmurou. — Todos estão nervosos, ninguém tem tempo para uma prosa. Ayyah!

— O que você quer dizer com isso? — perguntou Kim. — O que está acontecendo?

— Então tu não sabes?

Kim meneou a cabeça:

— Eu... eh... eu estive ausente por algum tempo. Tak suspirou de novo:

— Ayyah. Estão dizendo que coisas terríveis acontecem. Nesta caverna, vivemos afastados de tudo, mas a gente ouve tanta coisa.

— Mas, que coisas terríveis acontecem? — insistiu Kim.

— Coisas terríveis, filho. Dizem que tem guerra e coisa pior. Mas as notícias demoram até chegar aqui. Se tu quiseres saber mais, terás de descer até o vale.

Kim inclinou a cabeça:

— É o que provavelmente terei de fazer. A senhora Tak se intrometeu na conversa:

— Mas, primeiro, vais descansar por mais alguns dias e te alimentar bem.

Ela deu um amigável empurrão nas costelas de Kim:

— Veja como estás magro! Se tu fosses meu filho... A senhora Tak fez um gesto de desaprovação:

— Tu só sais daqui depois de engordar — disse com firmeza. E assim foi feito.

No dia seguinte, os texugos o levaram para a caça. Kim ainda não se sentia forte o suficiente para esse tipo de empreendimento, mas Tak fez questão de que ele os acompanhasse e Kim achou que recusar seria ingrato e grosseiro.

Ver os texugos em ação foi uma experiência totalmente nova para o garoto. Em casa, ou seja, na caverna, os filhotes eram importunos e desordeiros, como, aliás, a maioria das crianças do mundo. Durante a caçada, no entanto, os jovens Taks transformaram-se em crianças disciplinadas e obedientes, que seguiam, atentos, tudo que o pai mandava ou fazia e que se esforçavam para não provocar nenhum ruído desnecessário. Andaram quase um dia inteiro pela floresta até que, finalmente, depararam-se com a presa. E aí tudo aconteceu tão rápido que Kim só percebeu que a caçada havia terminado quando o velho Tak apareceu com uma lebre morta entre os dentes.

Por um lado, Kim se alegrou com os Taks, mas, por outro, não conseguiu evitar um sentimento de pena pela pobre lebre. Tak percebeu o dilema do amigo:

— Tu estás com pena do orelhudo, não é?

Kim gaguejou algumas palavras e depois murmurou:

— Acho que tem de ser assim...

— Ayyah, tem de ser — confirmou Tak. — Assim é a vida, a gente devora ou é devorado. Entre vós, homens, não é diferente.

Kim esperou em silêncio até que o texugo continuasse:

— Veja, Kim, a natureza determinou que o forte devora o fraco e que o fraco devora o mais fraco... Nós o fazemos porque temos fome, temos de cuidar dos nossos filhos, é a ordem natural das coisas. Se todos seguem esse sistema implantado pela natureza, as coisas permanecem em equilíbrio.

Tak inclinou a cabeça e seus olhos passaram, atentos, pela armadura negra de Kim:

— Essa tua roupa não é nada bonita. Hoje de manhã eu saí da toca e vi muitos homens. Homens com cavalos iguais ao teu. E também as armaduras eram iguais à que tu vestes. Essa gente... É o teu pessoal?

Kim se assustou tanto com essa revelação que ficou mudo. Depois de algum tempo gaguejou:

— Eram... Eram muitos homens? Tak confirmou:

— Muitos. Não gostei deles. Ayyah... Não gostei nada, filho. Tu és um deles?

Kim negou veemente:

— Não, com certeza, não! Eu... Eu me infiltrei no meio deles... Eles são meus inimigos. E acho que são seus inimigos também... O que eles fizeram?

— Nada. Eles só passaram. Estão à tua procura?

— Acho que sim — murmurou Kim. — Mas eles não vieram só por minha causa... Em que direção foram?

— Na direção do vale — respondeu Tak. — Não pareciam ter pressa. Que gente é essa?

Kim refletiu por um bom tempo antes de responder. Ele tinha muita coisa para contar: a fuga, a perseguição, Barão Kart, Boraas e seu sinistro companheiro, mas algo lhe dizia que Tak já sabia de tudo.

— Ontem você disse que todos falam em guerra, lembra-se? Tak confirmou com a cabeça e Kim continuou:

— Pois é. Os cavaleiros que você viu vieram até aqui para conquistar estas terras.

Kim achou que o velho texugo iria se assustar ou pelo menos demonstrar surpresa. Mas, Tak apenas balançou a cabeça, dando a entender que essa informação não era nenhuma surpresa.

— Então ele conseguiu — murmurou o texugo.

— Quem conseguiu o quê?

— Boraas — respondeu Tak. — Há muito sabemos dos seus planos de conquista, mas até agora ele não ousou nos atacar abertamente. Aliás, tem os boatos...

— Boatos?

Tak respondeu depois de um longo silêncio:

— Nem sempre os boatos estão certos, filho. Mas também nem sempre os boatos são falsos, se é que me entendes. Dizem que Boraas encontrou um poderoso aliado e com a ajuda desse aliado ele conseguiu atravessar a Cordilheira das Sombras e ocupar estas terras. Ay-yah... Tempos terríveis virão! Eu sinto isso nos meus velhos ossos.

— Você... Você deveria fugir — disse Kim.

Kim não sabia explicar, mas de alguma forma sentia-se culpado pelo que estava acontecendo. Tak meneou a cabeça:

— Eu não temo por mim. Sou velho e uma velha árvore não se deve transplantar. Minha vida foi longa e feliz e se eu tiver de morrer, eu morro, não importa aonde. Ainda vai demorar um bocado até que os cavaleiros de Boraas consigam dominar estas terras. Não... Eu não penso em mim. Mas, preocupo-me com Tak, minha mulher, e com os outros Taks, meus filhos. Eles não têm uma vida feliz pela frente e isso me deixa triste. Ainda são muito jovens para compreender o que está se passando... Alguém tem de os ajudar.

— E... e esse alguém sou eu?

Tak fez que sim com a cabeça.

— Mas, o que eu posso fazer? — perguntou Kim. — Eu sou apenas um menino e Boraas tem um exército poderoso...

— O importante não é o que tu és, mas o que fazes! — respondeu o texugo. — Boraas, com todo seu poder, nada conseguirá, se tu estiveres verdadeiramente decidido a enfrentá-lo.

Tak silenciou, mas Kim teve a impressão de que o texugo ainda não havia terminado. E, realmente, depois de algum tempo, ele continuou:

— Tu ainda tens um longo caminho pela frente, Kim. Um caminho repleto de perigos. O que passaste até agora não é nada diante dos perigos que estão por vir. Mas, tu vais conseguir, se realmente quiseres! Eu tenho certeza!

O texugo se calou de novo, não havia mais nada a dizer! Kim levantou abruptamente, pendurou a lebre no cinto e assobiou para seu cavalo, o qual resolveu chamar simplesmente de “rapaz”. Montou e, lentamente, voltou para a toca dos texugos, seguido pelos Taks.

Às palavras do velho texugo não lhe saíram da cabeça. Ele não podia continuar escondido na caverna, enquanto os cavaleiros ocupavam as terras, e Boraas, talvez, dava início ao seu domínio de terror. Lembrou-se de Ado e do seu pai, o Rei dos Charcos, e, ao observar os jovens Taks, alegres e brincalhões, conscientizou-se de como devia ter sido duro para o Rei dos Charcos perder tudo que lhe era caro. Não

I demoraria muito e essas terras também seriam transformadas em um reino de sombras. Tak se transformaria em um texugo velho e amargo e seus filhos se tornariam jovens texugos com o coração repleto de ódio e maldade, saudosos, talvez, de um tempo que não conheceram. Não — isso não podia acontecer!

Mas fazer o quê?! Certo, por duas vezes escapara de Boraas e dos seus sinistros capangas, mas agora a situação era diferente. A luta já não era mais apenas dele, Kim. Agora, outras vidas e outros destinos estavam em jogo. Seria bastante difícil, se não impossível, deter Boraas e seu gigantesco exército.

Na manhã do sexto dia da sua permanência entre os texugos, Kim se despediu da família Tak, o que, aliás, causou-lhe tristeza. Mas ele já perdera tempo demais. Suas feridas cicatrizaram e a senhora Tak manteve sua promessa: enfiou tanta comida nele que Kim recuperou a saúde e a força rapidamente. Não havia motivo para continuar inativo.

O casal de texugos ainda o acompanhou por um bom trecho e, quando chegou a hora do adeus definitivo, uma solitária lágrima se desprendeu dos olhos da senhora Tak.

Kim queria dizer algo, mas não encontrou as palavras certas e, pelo visto, tudo estava dito. Kim fez um último gesto de despedida, deu meia-volta com seu cavalo e saiu galopando sem olhar para trás.

À medida que galopava para oeste, a floresta ia ficando cada vez mais cerrada e o terreno caindo suave, porém constantemente. A região continuava montanhosa e Kim estava descendo uma montanha coberta de florestas. Ao cair da tarde, fez uma pausa perto de um lago solitário, onde saciou sua sede com as águas cristalinas e geladas e se serviu das provisões que a senhora Tak lhe havia dado. A texuga-mãe enchera sua mochila com tanta comida que pelo menos por duas semanas Kim não precisaria se preocupar em caçar ou colher frutas e bagos.

A floresta se apresentou cada vez mais espessa e também mais habitada: eram coelhos, esquilos, algumas corças que, de longe, observavam Kim sem demonstrar medo. Uma vez, um esquilo chegou tão perto que Kim pôde tocar a pequena cabeça peluda. Em outra ocasião, um veado pastava no meio do caminho, sem se incomodar com a aproximação de Kim. Apesar da floresta ser bastante fechada, esparsos raios de luz encontravam caminho entre a densa folhagem, presenteando o solitário cavaleiro com um alegre bale de luzes douradas e sombras esverdeadas.

No final da tarde, Kim alcançou a borda da floresta, ou melhor, uma clareira bastante extensa. O garoto se deteve por alguns instantes sob a proteção das últimas árvores e depois entrou na clareira, onde havia, no centro, um aglomerado de pequenas casas — uma aldeia, talvez. Kim esporou o cavalo e se aproximou das casas. Depois de tudo que passara, mal podia esperar para encontrar seres de sua própria espécie. Rapidamente lhe passou pela cabeça que a armadura negra que estava vestindo talvez pudesse provocar desconfiança ou até medo entre os moradores da aldeia! Mas esse mal-entendido seria logo esclarecido. Kim tinha absoluta certeza de que, quando contasse sua história, seria recebido de braços abertos.

Ao chegar mais perto, percebeu que se tratava de uma espécie de fazenda ou sítio. Ao redor de um prédio de três andares, agrupavam-se quase uma dúzia de celeiros e estábulos. O grande pátio interno, de forma retangular, estava cercado por um muro que chegava à altura do seu peito, mas que, pelo visto, servia somente para demarcar o terreno, não para fins de defesa da propriedade.

No local, reinava um silêncio absoluto! Tudo estava deserto, embora portas e janelas estivessem abertas. Mas, pelo jeito, o sítio não estava abandonado, pois diante dos celeiros estavam espalhadas várias ferramentas, e da chaminé do prédio principal saía um filete de fumaça ondulante.

Fora isso, tudo estava quieto. Perto do portão estava uma carroça carregada até a metade com feno seco e, do lado da carroça, no chão, estavam espalhados alguns ancinhos, forcados de madeira e um saco rasgado com maçãs verdes. Era como se as pessoas tivessem abandonado as casas e o trabalho às pressas, numa fuga desembestada.

Kim atravessou o portão aberto, fez seu cavalo parar e olhou em volta. Ninguém apareceu! Uma mão gelada lhe apertou o coração. Instintivamente, segurou o punho da espada e desceu a viseira.

“Um prenúncio de morte!”, pensou Kim, assombrado. Uma propriedade daquele tamanho simplesmente não podia estar totalmente abandonada, mesmo que seus habitantes estivessem dormindo ou fora, nos campos, trabalhando. Onde estavam os animais? Devia haver cães, gatos, galinhas, vacas, porcos... Alguém ou algo vivo que fizesse barulho, que se mexesse!

Mas, não havia nada! Tudo continuava em silêncio, um silêncio tão profundo que o ranger de sua armadura era devolvido em eco pelas paredes das casas.

Kim desmontou, puxou a arma e se aproximou da porta semi-aberta de um dos celeiros. Com a mão ligeiramente trêmula, empurrou a porta e, hesitante, entrou. Amarelados filetes de luz solar passaram pelas fendas do telhado, mergulhando o ambiente em um estranho emaranhado de matizes claros e escuros. O celeiro estava repleto de sacos e ferramentas. A sombra de um palheiro bastante rudimentar dividiu o espaço em dois.

Bem diante da entrada, Kim viu um porco morto em meio a uma poça de sangue já seco.

Kim olhou como que hipnotizado para o animal. Depois de alguns segundos, esquecendo qualquer cautela, saiu correndo e atravessou o pátio na direção da casa principal. Com um empurrão, abriu a porta e se viu em um estreito vestíbulo, mergulhado em penumbra, seguido por uma sala de estar.

No soalho, cuidadosamente encerado, jazia, imóvel, o corpo de um guerreiro em sua armadura negra, o braço estendido, os dedos da mão curvados como as garras de um animal. A espada estava quebrada e pelos buracos da armadura corria sangue.

Não era o único morto! Provavelmente os habitantes daquele sítio haviam se refugiado na casa principal quando foram atacados pelos cavaleiros inimigos. E, pelo visto, resistiram com uma bravura que surpreendeu seus inimigos, mas que de nada adiantou.

Kim estremeceu e deixou a casa principal para começar uma busca minuciosa. Vasculhou prédio por prédio, cada canto dos quartos, do pátio... em vão! Nem sinal de vida! Os assassinos acabaram com homens e animais numa insana orgia de ódio e rancor.

Depois de mais de uma hora em que se viu confrontado, a cada passo, com os testemunhos de morte e destruição, Kim voltou para o pátio cambaleando. Encostou o rosto no flanco do seu cavalo e desatou em sofrido choro.

Ele passara com os Taks dias tranqüilos! Deixara-se envolver pela serenidade da floresta e da solidão, consciente da invasão das hordas de Boraas e de tudo que isso significava! Apesar de tudo que passara, o perigo para Kim sempre fora um tanto vago, mas agora, nesse exato momento, ele compreendeu, pela primeira vez, toda a dimensão da triste realidade: ele se encontrava em meio a uma sangrenta e cruel guerra!

A guerra era sinônimo do mal, algo desprezível. Isso nunca antes tinha ficado tão claro para ele como nesse momento. Guerra não eram exércitos vitoriosos que se enfrentavam em algum campo de batalha, tampouco heróis em reluzentes armaduras que, ostentando suas bandeiras, lutavam por uma causa nobre. O que Kim estava presenciando nesse momento era o assassinato brutal de homens e animais indefesos.

E, novamente, desatou a chorar. Aos prantos, socou o chão com os punhos fechados. Talvez devesse sentir ódio de Boraas, Kart e dos cavaleiros de armaduras negras responsáveis por essa chacina. Mas, o desespero e a dor eram tão grandes que não havia mais espaço para qualquer outro sentimento.

Aos poucos, suas lágrimas secaram. Kim levantou do chão e montou seu cavalo, que se mostrou rebelde. Provavelmente farejava o feno nos estábulos. Kim, no entanto, que ainda há poucas horas se alegrara com a expectativa de companhia humana e de um leito, agora só queria dar as costas para esse local devastado pela morte e pelo terror.

Deixou a fazenda para trás em desembestado galope. Escapara do Reino das Sombras, mas a guerra o alcançara! E, dessa vez, não tinha como fugir dela!

 

Kim dormiu ao relento. Durante o dia, o sol aquecia o ar, tornando a temperatura bastante agradável. Mas, à noite, a temperatura caía consideravelmente. Kim, tremendo de frio, enrolou-se em sua manta e cogitou fazer uma grande fogueira. Mas não tinha fósforos para acender a madeira. Poderia tentar fazer fogo como faziam os escoteiros, esfregando dois pedaços de madeira até que saísse uma faísca, mas não ousou fazê-lo, pois o mal estava por toda parte. Por ora, estava cercado pelo silêncio e pela paz, mas Kim não se iludia. Talvez, enquanto estava com os texugos, o exército de Boraas tenha invadido todas essas terras e ele se veria confrontado, novamente, por onde quer que passasse, com a morte e a destruição.

Esses pensamentos o atormentaram a noite toda e, bem antes do sol raiar, Kim guardou a manta e montou seu cavalo para seguir em frente. O céu ainda não havia clareado quando Kim chegou a um pequeno lago, ideal para fazer uma pausa. Ao descer do cavalo, deu um tapa carinhoso em Rapaz e, um pouco hesitante, foi até a água.

Estava cercado apenas pelos sons da floresta mas, de repente, havia um ruído diferente por perto. Devem ser os nervos, pensou. Mas o ruído continuou... Eram passos pesados e que se aproximavam rapidamente! Pelo visto, quem quer que fosse, não estava nem um pouco preocupado em esconder sua presença.

Há poucos minutos, Kim estava relaxado com a serenidade da natureza. Agora se via tenso e apreensivo. Afoito, procurou um lugar para se abrigar, mas a floresta estava afastada demais para que pudesse alcançá-la a tempo. Viu-se, para variar, numa situação precária. l Com a armadura negra que vestia, talvez até pudesse enganar os cavaleiros de Boraas por algum tempo, mas eles já estavam prevenidos e não tardaria até que descobrissem sua verdadeira identidade. Porém, se fosse encontrado pelos moradores dessas terras, a armadura negra poderia ser fatal para ele, pois era bem possível que os habitantes da região, movidos pela sede de vingança, matassem-no na hora, sem questionar quem ele de fato era. Aliás, Kim não poderia condená-los por esse tipo de atitude.

Lentamente, retirou-se em direção ao lago e desembainhou a espada, sem perder de vista o lugar na floresta de onde ouvira os passos. Mas, quando o desconhecido se mostrou, deixou Kim boquiaberto: era um gigante, literalmente!

Nos últimos tempos, Kim vira muitos homens tão altos que bem podiam ser chamados de gigantes, mas comparados àquele sujeito, grosseiro e de ombros largos, até o Barão Kart era pequeno e franzino. Kim estimou que o homem deveria ter, pelo menos, uns quatro metros de altura. Os ombros do gigante eram tão largos que seria humanamente impossível abraçá-lo — isso se alguém se dispusesse a fazê-lo, claro!

Usava uma calça de lã marrom-escura até os joelhos, em parte rasgada ou remendada. Além disso, um camisão bem largo, decotado e sem mangas, que mal cobria o peito peludo. Os longos cabelos escuros, pelo visto, nunca tinham sido lavados. Sobre o ombro direito estava dependurada uma enorme clava, maior do que o menino.

Frente a frente com Kim, o gigante abriu a boca e pôs à mostra duas fileiras de dentes amarelados:

— Ooooh! — fez com voz sonora e profunda. — Quem temos aí?

Kim se encolheu. Agarrado à espada, andou para trás, passo a passo, na direção do lago, até que a água lhe chegou à altura dos joelhos. O gigante deu um passo para a frente, rachou ao meio uma árvore como se fosse um palito de fósforo, e segurou a clava.

— Não se aproxime! — gritou Kim, quase sem voz de tanto medo. Reconheceu que seria inútil fugir.

O gigante sorriu:

— Uma armadura negra — disse num tom de voz como se falasse com um amigo ou consigo mesmo. — Ora, ora, vejam só: um cavaleiro negro!

O gigante olhou para todos os lados e coçou a cabeça, o que provocou um ruído como se alguém raspasse uma lousa com giz.

— E ainda por cima sozinho — acrescentou. — É bastante raro encontrar um de vós sozinho. Uma oportunidade como esta é preciso aproveitar.

Kim entendeu muito bem o que ele quis dizer. Por isso levantou a espada, apontou para a barriga do gigante e ameaçou:

— Fique parado aí, ou...

Entre as sobrancelhas espessas do gigante se formaram dois sulcos:

— Ou?

— Ou faço picadinho de você — completou Kim, tremendo dos pés à cabeça.

Por um momento pareceu que o gigante iria cair na gargalhada. Mas, de repente, mostrou-se preocupado:

— É... Acho que tu serias capaz mesmo — murmurou, coçando a cabeça de novo. — Tu serias capaz...

Deu mais um passo na direção de Kim, mas parou, assustado, quando este fez um gesto ameaçador com a espada. Lentamente, o gigante levantou a clava.

Reunindo toda a coragem que lhe restava, Kim emitiu um som que devia ser um grito, mas que acabou ficando mais parecido com um grasnar, e, de espada em punho, arremessou contra a barriga do gigante, desferindo-lhe um golpe com a parte lisa da lâmina, sem, no entanto, feri-lo.

A reação do gigante foi totalmente inesperada: apavorado, virou os olhos, atirou a clava para longe e, choramingando, caiu de joelhos:

— Não! — implorou. — Não me machuque, cavaleiro da armadura negra. Eu... eu sou apenas um gigante inofensivo e covarde, nunca fiz mal a ninguém.

Com uma lágrima rolando pela face, o gigante juntou as mãos num gesto de súplica e soluçou em altos brados.

Perplexo, Kim abaixou a espada. Há poucos minutos estivera certo de que iria morrer, e agora isso?!

O gigante continuou suplicando:

— Por caridade, senhor, poupe-me! Faça-me escravo, mas não me faças mal. Nunca na vida fiz mal a alguém e muito menos a um cavaleiro da armadura negra.

Desconcertado, Kim balançou a cabeça e deu um passo para trás. O rosto do gigante estava lívido. Seus lábios tremiam e seu olhar era de puro pavor. Apesar de estar de joelhos, seu rosto estava na mesma altura do de Kim.

— Eu... eu não sou cavaleiro — balbuciou o garoto.

Fincou a espada no chão macio, levantou a viseira e tirou o elmo. Apesar da situação bastante esdrúxula, tentou acalmar o gigante:

— Não precisa ter medo. Eu não quero lhe fazer mal. O gigante engoliu em seco:

— Mesmo, poderoso jovem senhor?... Não estás com raiva de Gorg pelas brincadeiras grosseiras? Eu te confundi...

— Claro que não — reforçou Kim.

— Mas... tu estás vestindo a armadura negra e... Kim suspirou:

— Eu sei. É uma longa história, mas eu não sou um deles.

— E, não estás com raiva... mesmo?

— Claro que não — assegurou Kim novamente. — E agora levante e assuma a postura de um gigante!

Solícito, Gorg levantou, erguendo primeiro um joelho, depois o outro:

— Posso... posso pegar minha clava?

A essa altura, Kim já não sabia se ria ou se chorava. Sem dizer uma palavra, fez que sim com a cabeça, sentou numa pedra e ficou observando o gigante, que pegou sua clava e foi até as margens do lago, onde, com suas mãos enormes, retirou alguns litros de água para lavar o rosto. Ele bufou, lançou um olhar receoso na direção de Kim e, de ombros caídos, aproximou-se. Depois sentou e arrancou um galho de cerca de dois metros de uma árvore para coçar as costas.

— Seu nome é Gorg? — perguntou Kim. O gigante confirmou:

— Na verdade, eu me chamo Gorganogan Maropalkam Orovatusanius Premius Nesto Schrqnirqk Gowlim, mas esse nome ninguém consegue gravar, então todos me chamam apenas de Gorg. Mas, senhor, se Gorg não o agrada, é só ordenar outro nome...

— Me agrada, claro — disse Kim, que começou a entender que o gigante não só era covarde como também muito falante.

— Está bem, então ficamos com Gorg. Eu também prefiro. É difícil se acostumar com outro nome. Meu pai costumava me chamar de pequeno, mas quando cresci, ele passou a me chamar de comprido ou de varapau e mais tarde só me chamava de Gorg. Ah... tempos bons!

Ele balançou a cabeça e lançou um olhar desconfiado para Kim:

— Permite-me uma pergunta, jovem senhor... Kim suspirou:

— Claro.

— Tu... tu não és um cavaleiro?

— Eu pareço, mas não sou. Gorg se mostrou aliviado:

— Que bom, muito bom. Nos últimos dias apareceram muitos cavaleiros de armadura negra nesta região e, quando eu vi o jovem senhor no lago, achei que fosse um deles para acabar com o pobre Gorg. Tem muitos por perto e o tempo todo estiveram à caça do pobre Gorg. Eles acham que eu sou perigoso, mas eu só quero sossego. E quando eu vi o jovem senhor no lago...

Kim cortou a interminável fala do gigante com um gesto:

— Eu já disse que não sou cavaleiro e ponto final! E, para dizer a verdade, também tive medo quando dei de cara com você. Talvez meu medo até fosse maior que o seu.

— Medo? — repetiu Gorg, incrédulo. — Medo de um inofensivo e covarde gigante?

Kim não conseguiu evitar o riso:

— Covarde, você? Com o seu tamanho?

Gorg fez uma careta como se estivesse com dor de dente:

— Ah, essa é uma longa história, jovem senhor — e suspirou. — Gorg não teve sempre esse tamanho... não mesmo! Quando eu era criança, eu era do teu tamanho, senhor. Mas, quando os outros pararam de crescer, eu continuei e fiquei cada vez maior. Meu pai sempre dizia que eu era muito burro e, por isso, nem percebia que estava na hora de parar de crescer. Mas, eu crescia e crescia... até chegar ao tamanho que tenho hoje.

— Mas, por que você é covarde? — insistiu Kim. — Com o seu tamanho e a sua força, você não precisa temer ninguém.

Gorg balançou a cabeça:

— O tamanho e a força de nada adiantam, jovem senhor. Quando eu era pequeno e fraco, como os outros, eu pensava como o senhor e, como toda criança, sonhei em ser gigante um dia.

Seu rosto assumiu uma expressão de tristeza:

— Não é nada bom ser gigante, jovem senhor. Todos são menores que a gente. Se a gente entra numa casa, a gente bate a cabeça, e se a gente toca em alguém, a pessoa começa a gritar. E todos apontam com o dedo e gritam: “Vejam, que grosseiro!”. Pois é, jovem senhor, assim é a força: se a gente não a tem, a gente a deseja, mas se finalmente ela é nossa... nunca mais a gente consegue se livrar dela. A gente tem de pensar muito bem antes de fazer as coisas, e a gente acaba até com medo de encontrar outras pessoas... Elas quebram com tanta facilidade.

Gorg suspirou, assoou o nariz com os dedos e levantou um pedaço de rocha de uns duzentos quilos para jogá-lo na água como se fosse uma simples pedrinha.

— Quando se é tão forte como eu, a gente tem de ser covarde, senhor — disse, triste.

— Você vive sozinho na floresta? — perguntou Kim depois de um tempo.

Gorg inclinou a cabeça:

— Sozinho, jovem senhor. Às vezes vou até a aldeia e de vez em quando encontro um fazendeiro das montanhas, mas não com freqüência.

Essas últimas palavras fizeram Kim voltar à cruel realidade:

— Você disse que viu cavaleiros? Gorg se mostrou solícito:

— Muitos, jovem senhor. Ontem também, e o dia anterior, e o dia antes...

— Me chame de Kim. O tratamento “jovem senhor” me faz lembrar de coisas que eu gostaria de esquecer.

— Como quiser, Kim. Estás interessado nos cavaleiros de armadura negra?

— Eu vim para advertir vocês, mas temo que tenha chegado tarde demais — respondeu Kim.

— Nunca é tarde para um aviso, mas é preciso te apressares, se queres estar a tempo em Gorywynn.

— Gorywynn?

— Nossa capital. Os cavaleiros com certeza não atravessaram a cordilheira para passear nestas florestas. Fala-se muito em guerra.

Kim levantou, decidido:

— Você está certo! E é por isso que tenho de seguir em frente. Na verdade, eu nem poderia ter perdido tanto tempo. Eles já têm uma vantagem bastante grande.

Gorg lançou um olhar pensativo para Kim:

— Queres ir para o vale? Kim confirmou com a cabeça.

— Eu conheço caminhos que os cavaleiros não conhecem. Tu podes chegar bem antes deles! Se queres, eu te acompanho.

Kim não respondeu de imediato. Os conhecimentos que Gorg tinha da região poderiam ser muito úteis. Além disso, sua figura gigantesca poderia, eventualmente, assustar o inimigo. Kim tomou uma decisão:

— Por que não?

Agachou-se para pegar a espada e o elmo e assobiou para seu cavalo, que veio imediatamente, bufando, desconfiado, ao ver o gigante.

— Preto, pelo jeito, é tua cor predileta — resmungou o gigante. Kim não respondeu. O gigante levantou os ombros e começou a andar, com passos largos, na direção da floresta. Kim esporou o cavalo e se apressou em segui-lo. Nada mais o surpreendia. Desde que chegara a Märchenmond, já vivera tantas situações absurdas que, a essa altura, ficaria surpreso se se deparasse com a normalidade.

Gorg foi na frente, com seu andar pesado. As brechas que abria na floresta eram tão largas que pelo menos três cavaleiros poderiam passar por elas com conforto. O barulho que provocava provavelmente era ouvido a quilômetros de distância. Mas Gorg, pelo jeito, não se preocupava com isso, o que, aliás, não combinava nem um pouco com a sua tão ressaltada covardia.

— Afinal, para onde você está me levando? — perguntou Kim depois de cerca de uma hora de marcha pela floresta. Kim percebeu que Gorg se afastara da direção oeste e que agora estavam caminhando quase paralelamente à Cordilheira das Sombras.

Sem parar de andar, Gorg se virou e fez uma careta, que devia ser um sorriso:

— Para o vale. Confia em mim, eu conheço o caminho.

Até o meio-dia, Gorg continuou a caminhar para o sul. Quando o sol estava prestes a se pôr, ele declarou em altos brados que estava na hora de tirar uma soneca e, sem esperar uma eventual objeção por parte de Kim, deitou debaixo de uma árvore, dobrou as mãos sobre a barriga e começou a roncar.

Kim suspirou, desceu do cavalo, tirou o saco com as provisões e começou a comer sem muita vontade.

Com a pálpebra esquerda semi-aberta, Gorg aspirou, deliciado, o ar impregnado com o aroma da comida.

— Você está com fome? — perguntou Kim.

Gorg abriu os dois olhos, sentou e sacudiu a cabeça entusiasticamente. Kim lhe entregou o saco com a comida.

— Sirva-se à vontade.

Mal acabou de falar, Kim se arrependeu, mas já era tarde. Gorg abriu o saco, inclinou a cabeça para trás e despejou seu conteúdo de uma vez só na imensa goela.

— Nada mal — comentou, mastigando. — Tu sabes viver, Kim. Depois soltou um arroto que mais parecia um estrondo e riu:

— É pouco, não fiquei satisfeito, mas, como um pequeno lanche, foi bom. Parece que saiu da cozinha da senhora Tak.

— Certo — disse Kim, surpreso. — Você conhece a família dos texugos?

— Quem não os conhece? Gente fina... gente fina mesmo... Gorg levantou a cabeça, fechou os olhos e aguçou os ouvidos.

— O que foi? — perguntou Kim. — Você está ouvindo algo?

— Um urso! — disse Gorg, assustado.

Deu um pulo, agarrou sua clava e tratou de fugir.

— Um urso! — gritou quase chorando. — Salve-se, senhor, um urso!

Kim levantou e quis montar seu cavalo, mas já era tarde. Uma enorme sombra cabeluda apareceu entre os arbustos e com um único golpe varreu Kim para o lado. Kim voou alguns metros pelos ares e acabou caindo no chão de costas, de maneira bastante dolorida. Mas ele levantou-se depressa e pegou a espada. O urso emitiu estranhos sons, parecidos com um rosnar, ergueu-se nas patas traseiras e, em seguida, aproximou-se do adversário. Kim mal conseguiu respirar de susto e medo. Já vira ursos grandes antes, mas este, pelo jeito, era o ancestral de todos os ursos. Era um animal velho, experiente na luta.

Seus pêlos longos, duros e espessos eram marrons, entremeados de fios brancos, e faltava-lhe a orelha direita. No lugar do olho direito havia uma grossa cicatriz.

Desesperado, Kim ergueu a espada que o urso, com um único golpe, tirou de sua mão, lançando-o, em seguida, novamente ao chão. O animal deitou a pata enorme, munida de garras afiadas, no peito de Kim, mantendo-o grudado no chão.

Kim esperneou e chutou, tudo em vão, pois o urso parecia nem sentir os golpes. Sua imensa goela se abriu e Kim viu duas fileiras de presas pontiagudas. Com o único olho que lhe restava, o animal o encarou, irado.

Mas não mordeu! Sua goela se fechou e, em seguida, passou alguns segundos farejando-o por inteiro, sem tirar a pata do seu peito.

— Estranho — disse o urso com voz profunda e rouca. — Tu pareces um cavaleiro, mas o teu cheiro é diferente. Devo comer-te ou não?

Kim gemeu, pois a pata pesada sobre seu peito lhe tirava o ar, e sua voz saiu um tanto trêmula e aguda quando explicou:

— Eu não sou um cavaleiro!

— É possível — rosnou o urso. — Mas também não és um dos nossos. Além disso, tu estás vestindo a armadura negra. Talvez eu devesse te comer.

— Eu não tenho gosto de nada — grasnou Kim. — Além disso, sou magro, e o tempo que você gasta para quebrar a armadura você consegue pegar uma carne mais suculenta.

O urso balançou a cabeça. Parecia refletir sobre as palavras de Kim. Depois disse:

— Ah... Essa armadura é muito fina... Acho que vou te comer.

Abriu a goela e fez menção de concretizar sua ameaça. Nesse momento, Gorg apareceu entre os arbustos. Com um grito e de braços abertos, o gigante se lançou sobre o urso, que emitiu um som rouco de raiva e, à moda dos ursos, sacudiu o corpo para se livrar do atacante.

Mas Gorg estava firmemente agarrado ao animal e não demorou muito para que os dois, gigante e urso, rolassem pelo chão da floresta.

O urso, cada vez mais enfurecido, foi o primeiro a se levantar. Jogou Gorg longe e se pôs nas patas traseiras. O gigante cerrou os punhos, agachou-se para escapar das patadas e, em seguida, deu um soco no nariz do urso, que, com certeza, teria lançado ao chão um boi. Mas o urso, sem grande esforço, ergueu Gorg como se fosse um brinquedo para, na mesma hora, lançá-lo ao chão com toda força. O impacto foi tão forte que derrubou algumas árvores. Gorg deu um chute no urso e lhe fincou o ombro na barriga. O urso cambaleou e, atingido por outro soco do gigante, foi para o chão.

— Não te metes com meus amigos — disse Gorg, ofegante. — Não tenho nada contra quando tu vens caçar na minha região, mas risca meus amigos do teu cardápio.

— Tua região?! — indignou-se o urso. — Pelo jeito tu não sabes onde estás, idiota. Estás na minha região! Aliás, desde quando és amigo dos cavaleiros da armadura negra?

— Ele não é cavaleiro, ele só parece, mas não é — explicou Gorg.

— Ah é? Então a aparência dele não é nada boa. A sorte dele é que os cavaleiros da armadura negra não me apetecem, senão eu nem teria perguntado.

— Eu... eh... eu suponho que vocês se conhecem? — perguntou Kim, inseguro.

Gorg fez que sim e, voltando-se para o urso, continuou:

— Deixa-o em paz, Kelhim. Se tu molestares meus amigos, arrebento a tua cara.

— Há! — fez Kelhim. — Vamos ver quem quebra a cara de quem. O urso levantou-se e, num gesto ameaçador, abriu os braços para, ali mesmo, decidir a questão. Mas Kim deu um pulo e se pôs entre os dois estranhos brigões:

— Por favor — pediu. — Temos de dialogar e não brigar. O urso inclinou a cabeça e piscou o único olho que tinha:

— Teu minúsculo amigo é corajoso — disse, voltando-se para Gorg. — Ele é muito mais corajoso que tu, se me permites o comentário.

Gorg fez uma careta:

— Não permito... mas tanto faz. Deixe-o em paz.

— Está bem... Não vou machucar o pequerrucho. Pelo menos por ora.

Aliviado, Kim observou o urso, que deu alguns passos para trás e sentou, como se nada tivesse acontecido.

— Eh... Talvez fosse útil se você nos apresentasse — disse Kim, hesitante.

Gorg, mal-humorado, deu de ombros:

— Não é importante, mas se achas... Este é Kelhim, um urso, como podes ver. O sujeito mais grosseiro que eu conheço. Devora os amigos dos seus amigos, não tem a menor educação.

Kelhim, novamente irado, balançou a cabeça:

— Talvez eu ainda devore o teu amigo, só para te irritar... E tu também, quem sabe?

Gorg, pronto para a luta, esticou o queixo:

— Tenta, para ver o que te acontece! Kim suspirou:

— E vocês querem ser amigos?

— Amigos?! — berrou Kelhim. — Esse aí... meu amigo?! É mais fácil encontrar amigos no Castelo Morgon. Sai do caminho, pequerrucho, para que eu possa ensinar alguns modos para esse sujeito.

Kim perdeu a paciência. Gorg cerrou os punhos, mas Kim deu-lhe um tapa na mão e depois, na ponta dos pés, colocou-se na frente do urso:

— Agora vocês vão ouvir! A floresta está repleta de inimigos! Por toda parte estão cavaleiros de Boraas, e se vocês fazem questão absoluta que eles nos descubram e nos matem, continuem a gritar, mas eu vou seguir meu caminho. Tenho mais o que fazer!

Dito isso, deu meia-volta, foi até seu cavalo e montou. Uma pesada mão pousou em seu ombro. Era Gorg, que tinha no rosto um largo sorriso:

— Fique — pediu o gigante.

— Só fico se vocês prometerem tomar juízo.

— Eu tenho juízo! — exclamou Kelhim. — Mas esse aí...

— Está bem, está bem! — gritou Kim. — Eu entendi! Os dois têm juízo.

Montado em seu cavalo, Kim pelo menos se encontrava na mesma altura dos dois. Ele os encarou e, num gesto de reprovação, balançou a cabeça:

— Todos os habitantes destas terras são como vocês? Por que se assim for, será uma brincadeira para Boraas dominar este país!

— Boraas? Brincadeira? — berrou o urso. — Espera até eu o agarrar, eu...

— Garras deveras pequenas, aliás — ironizou Gorg.

— Com minhas garras... — recomeçou o urso.

— Tu não vais fazer nada — interrompeu Gorg. — Não vais nem mesmo chegar perto do inimigo, pois para isso é preciso ter cabeça, ser inteligente...

Kim fechou os olhos e contou até quinze:

— Pois da minha parte — disse resignado —, vocês podem continuar brigando até o dia do juízo final. Indiquem-me o caminho que vou continuar sozinho.

Kelhim piscou como se visse Kim pela primeira vez:

— Para lá — resmungou e apontou com sua pata para trás.

— Vamos te acompanhar. Sozinho é muito perigoso. Kim ergueu as sobrancelhas:

— E você acha realmente que com dois brigões é menos perigoso?

— Com esse aí — respondeu Kelhim, apontando para o gigante — certamente é perigoso. É por isso que eu vou te acompanhar.

— Muito gentil — gemeu Kim. — Muito gentil... Para lá, você disse? E, sem mais uma palavra, esporou o cavalo e deixou Kelhim e o gigante para trás. Mas não demorou muito e os dois o alcançaram.

— Ei! — rosnou Gorg. — Não nos leve a sério... Kelhim e eu brigamos muito, mas não é por mal.

— Ah, não? — suspirou Kim.

Durante toda tarde seguiram para o sul, e Kelhim e Gorg brigaram o tempo todo. Finalmente chegaram a uma bifurcação e o gigante apontou para o vale, à esquerda:

— Vamos descer até o vale — disse. — Se tivermos sorte, alcançamos a estrada principal antes do anoitecer.

— Nada disso — resmungou Kelhim. — O sol está se pondo e desviamos procurar abrigo na minha caverna antes que escureça. Eu não gosto de dormir ao relento.

— Tua caverna? — perguntou Gorg, com sarcasmo. — Por que tua caverna?

Kelhim deu de ombros:

— Se tu quiseres, podes continuar até caíres de tanto cansaço. Kim e eu vamos pernoitar na minha caverna.

O urso se pôs nas patas traseiras e puxou Kim pelo braço para a direita. Ao mesmo tempo Gorg puxou Kim pelo outro braço para a esquerda.

— Esse peludo só pensa em dormir — ralhou Gorg. — Temos de seguir em frente. É só descer essa colina que já estamos na estrada principal.

Os dois começaram a puxá-lo simultaneamente para direções opostas.

— Parem imediatamente! — gritou Kim, esperneando, apavorado. Como ainda estava montado, o cavalo se assustou e saiu galopando, e Kim ficou bamboleando no ar entre os dois.

— Me soltem! — gritou, em pânico.

Eles obedeceram e o soltaram, e Kim despencou de quase dois metros de altura.

Demorou alguns segundos até se refazer da queda e do susto. Depois, levantou-se, esfregou o traseiro e encarou os dois, furioso:

— Para mim chega! Onde está a sua maldita caverna? Sem graça, Kelhim apontou para trás:

— Naquela direção, não é longe.

— Está bem, então vamos pernoitar lá. E amanhã cedo vocês vão me indicar o caminho e depois vão me deixar seguir em paz. Vocês são piores que os cavaleiros de Boraas!

Kelhim falara a verdade. Depois de meia hora, a floresta terminou abruptamente e se encontraram diante de uma parede rochosa, lisa e íngreme, entremeada por veias de minério. Cerca de um metro sobre o solo havia uma abertura quase redonda: a entrada da caverna! — Chegamos — disse Kelhim.

Kim torceu o nariz. Meio irônico, perguntou: — Esse buraco é a sua caverna, Kelhim? o Gorg, solícito, inclinou a cabeça sem perceber a ironia:

— É aqui que vamos pernoitar, mas é claro que primeiro vamos comer. E amanhã cedo vamos te acompanhar até o vale.

Com um sorriso de cumplicidade, o gigante acrescentou:

— A caverna tem mais uma saída no outro lado da montanha. Ganharemos muito tempo se atravessarmos a montanha em vez de contorná-la.

Kelhim arregalou os olhos:

— Então tu fingiste o tempo todo que não querias pernoitar na caverna enquanto já tinhas tudo planejado?

— Claro — confirmou Gorg, sem o menor constrangimento.

Kim sabia, de antemão, o que iria acontecer. E realmente aconteceu!

 

Na manhã seguinte, foi acordado por Gorg, que sacudiu seu ombro suavemente. Muito a contragosto, Kim abriu os olhos. A caverna ainda estava escura. Na noite anterior, haviam preparado um jantar simples, mas saboroso, sobre uma fogueira e agora as brasas restantes lançavam um brilho avermelhado nas paredes ásperas das rochas, dando vida às sombras. O ar ainda estava levemente impregnado pelo aroma de carne assada. Em algum lugar gotejava água, e da parte traseira da caverna ouvia-se o ronco de Kelhim e o relinchar do cavalo. Não foi fácil trazer Rapaz para dentro da caverna, foi preciso muita paciência e carinho. O animal permanecera inquieto e agitado a noite toda.

Kim levantou-se e espreguiçou-se. Esticou a cabeça à procura de Gorg, que lhe deu um sorriso paternal.

— Está na hora — disse o gigante.

Kim bocejou:

— Já?

Apesar do sono prolongado, seu corpo continuava dolorido e cansado.

— Temo que não nos reste tanto tempo como esperávamos — disse Gorg.

Kim ficou alerta na hora:

— O que aconteceu? — perguntou, assustado. Gorg balançou a cabeça e explicou:

— Durante a noite passaram cavaleiros defronte a caverna... Não te preocupes, eles não nos descobriram e, mesmo que soubessem da existência da caverna, aqui estamos seguros.

— Por que vocês não me acordaram?

— Tu precisavas dormir — respondeu Gorg.

Kelhim conseguiu chegar perto deles e captou alguma coisa da conversa.

— E aí? — indagou Kim, apreensivo. Gorg deu de ombros:

— Não sabemos se é verdade, talvez seja... mas Kelhim acha ter entendido que eles e outros grupos que nas últimas semanas vieram pelas montanhas iriam se juntar a um grande exército que está em algum lugar aqui perto, à espera da ordem de ataque. Talvez Kelhim esteja enganado, talvez não, mas, de qualquer maneira, achamos que essa informação deveria ser levada adiante.

— A informação está correta — disse Kim. — Eu já sabia, eu vi o exército.

Apesar da penumbra que reinava na caverna, Kim notou que Gorg empalideceu.

— Então é certo que... mas aí... Kim explicou:

— Boraas enviou pequenos grupos para reconhecer a região e espalhar o medo e o terror entre os habitantes. O exército propriamente dito está nas montanhas.

Gorg não respondeu. Depois de algum tempo, levantou tão bruscamente que bateu com a cabeça no teto baixo da caverna. Foi para a parte traseira da caverna, onde conversou com Kelhim. Depois voltou na companhia do urso:

— Então é verdade — resmungou Kelhim. — Eu tinha a esperança de que se tratava de um mal-entendido.

— Não, você entendeu certo. Infelizmente. Eu vi o exército, eu vim com eles pelas montanhas.

Kim apontou para a armadura negra no chão, ao lado de sua cama:

— Esse é o meu disfarce.

Kelhim ficou bravo:

— Por que tu demoraste tanto para nos contar tudo?

Foi a vez de Kim ficar emburrado:

— Vocês não me perguntaram. Além do mais, eu tive a impressão de que vocês não estavam nem um pouco interessados, só pensavam em brigar.

Kelhim queria engrossar, mas Gorg colocou a mão no ombro do urso:

— Kim tem razão, a culpa é nossa. Mas não é hora de discutir, temos de nos apressar.

Kim queria vestir a armadura, mas Gorg o impediu:

— O caminho é difícil, tu não poderás montar e essa coisa vai dificultar a caminhada.

Kim ficou indeciso. Talvez Gorg estivesse certo, mas por alguma razão achou melhor vestir a armadura negra.

— Estou pronto — disse logo depois. — Podemos ir.

Kelhim olhou para ele e balançou a cabeça. Resmungando, desapareceu no interior da caverna, seguido por Kim, que tentava acalmar seu cavalo. Gorg veio por último.

O fraco brilho vermelho do braseiro ficou para trás rapidamente e logo foram envolvidos por uma profunda escuridão. Por algum tempo, Kim tentou caminhar de olhos fechados, para se concentrar somente nos seus sentidos — audição e tato. O resultado foi que tropeçou no chão acidentado e esbarrou em pontas de rochas e pedras. Era melhor andar de olhos abertos, apesar de enxergar quase nada.

O caminho parecia não ter fim. Muitas vezes Gorg o dirigiu, com mão segura, sobre declives íngremes cobertos com pedregulho, que cedeu sob seus pés e com o pisar do cavalo, provocando avalanches de pedras que despencavam para as profundezas com o barulho de uma detonação de explosivos, preenchendo a escuridão com estrondosos e intermináveis ecos.

Havia escadas esculpidas na pedra que conduziam, em estreitas espirais, para as profundezas da terra. Havia, também, trechos retos, intermináveis, nos quais o ruído dos passos se perdia na escuridão, sem eco. Kim perdera a noção do tempo, quando, finalmente, à sua frente, ainda bem longe, apareceu um pontinho de luz do tamanho da cabeça de um alfinete.

— Não falta muito — informou Gorg, aliviado.

Kim se questionou sobre quais seriam os mistérios e os perigos que a caverna ocultava, pois até o gigante se mostrou aliviado ao deixá-la.

No entanto, alcançaram a saída sem um único momento de perigo. Saíram para uma espécie de plataforma de pedra foiciforme tão estreita que mal dava lugar para os três. Mas havia um estreito atalho que conduzia ao longo de uma das paredes. Da plataforma tinha-se uma visão livre do infinito azulado do horizonte e da imensidão das terras cobertas por florestas e prados verdejantes.

Kim estava maravilhado, porém Kelhim não lhe deu tempo para desfrutar a paisagem:

— O tempo urge, monta teu cavalo!

Kim olhou, desconfiado, para o atalho. Não tinha nem dois metros de largura! Um único passo em falso e despencaria com cavalo e tudo no abismo de cinqüenta ou mais metros de profundidade.

— Anda logo! — apressou-o Kelhim. — O caminho vai se alargar logo mais adiante. Tu não és o primeiro a passar por ele.

Kim conduziu o cavalo para o atalho, exercendo suave pressão. O animal se mostrou nervoso e demorou algum tempo até pisar na estreita faixa de rocha. Kim arriscou olhar para o abismo mortal, onde espinhaços agudos se erguiam à espera da vítima que despencaria lá do alto. Se o cavalo desse um passo em falso, todos os seus problemas estariam resolvidos, pois seria morte certa.

Mas, Rapaz não pisou em falso. Cauteloso e seguro, colocou uma pata de cada vez sobre a estreita faixa de pedra. Após poucos metros surgiu uma curva e, como Kelhim havia dito, logo em seguida o caminho se alargou. Kim suspirou aliviado e se virou. O gigante e o urso vinham quase colados nele. Kelhim, visivelmente nervoso, olhava para trás a cada minuto, como se estivesse à espera de alguém.

— Vamos, vamos! — apressou Gorg. — Temos de descer a montanha.

Kim esporou o cavalo e saiu galopando na frente. Quando chegaram ao pé da montanha, o urso os conduziu para um grupo de olmeiros:

— Espera aqui. Volto já — disse, desaparecendo entre os arbustos.

— O que ele tem? — perguntou Kim.

Em vez de responder, Gorg puxou Kim pelo braço e voltou com ele pelo caminho que acabaram de percorrer:

— Veja! — disse o gigante.

O olhar de Kim seguiu o braço estendido do gigante. De onde estavam era possível ver a entrada da caverna por onde acabaram de passar. E aí perceberam: algo mudara! Havia algo não palpável, não visível... Era mais uma forte sensação de ameaça, como se uma parte da impenetrável escuridão que reinava na caverna os tivesse acompanhado e agora estava lá, na pequena plataforma de rocha, onde ainda há pouco desfrutaram a vista sobre o vale.

Kim não saberia explicar em palavras o que estava acontecendo, mas um tremor lhe passou pelo corpo. Pelo menos por enquanto, resolveu não comentar nada com Gorg.

Kelhim demorou e Kim aproveitou para explorar a redondeza. Desde que deixara a Cordilheira das Sombras, a beleza dessas terras o acompanhava, uma beleza e uma graça que pareciam se desdobrar cada vez mais. Era uma natureza primitiva, intocada pela mão do homem, e que parecia obedecer a uma ordem divina. O ar era tão límpido que respirar tornava-se um deleite, e a luz do sol se refletia no orvalho das folhas, formando um arco-íris multicolorido.

A contemplação romântica em que Kim estava mergulhado foi bruscamente interrompida quando Kelhim irrompeu da floresta com algum estardalhaço:

— Estão lutando! — bufou, descontrolado.

Kim e Gorg olharam para ele, de olhos arregalados.

— Quem está lutando? — perguntou Gorg.

— Onde? — interrogou Kim.

— Cavaleiros! Contra os nossos! No vale, logo depois da floresta! Venham! Depressa!

Gorg emitiu um grito estridente, girou sua clava e correu atrás do urso para dentro da floresta. Kim apressou-se em segui-los. Na espessa mata, os dois logo ganharam considerável vantagem. Mas após alguns minutos chegaram a um caminho mais aberto, onde Kim se valeu da rapidez do seu cavalo e logo saiu na frente.

Era uma luta implacável! Homens vestidos de branco e dourado estavam encurralados no centro de uma clareira por cerca de cinqüenta cavaleiros de armadura negra, que os atacavam impiedosamente. A grama tingia-se de sangue e, apesar do chão estar coberto com armaduras negras, não dava para ignorar que eles estavam levando vantagem. Os guerreiros de branco e dourado estavam cada vez mais fracos e o pisotear dos cavalos e o bater das armas confundia-se com os gritos daqueles que tombavam por terra.

E, no meio da batalha, altivo e apoiado em seu bastão nodoso, um homem velho, de cabelos brancos:

— Temístocles! — exclamou Kim, estupefato

Mas seu grito se perdeu na balbúrdia da luta. Mesmo assim, Kim teve a impressão de que o olhar do velho mago, por um instante, voltou-se para ele.

Kim se inclinou sobre o pescoço do seu cavalo, esporou-o e desceu a encosta, seguido por Kelhim e o gigante, cujos gritos selvagens sobrepujaram o barulho da luta, atraindo a atenção dos combatentes.

Primeiro dois, depois quatro e, finalmente, seis dos guerreiros das armaduras negras desprenderam-se das fileiras dos atacantes e, de armas em punho, galoparam na direção de Kim e dos seus amigos. Sem dúvida acharam que um dos seus estava sendo perseguido por um gigante e por um urso enfurecido.

Quando perceberam o equívoco, já era tarde. Kim se agachou ainda mais sobre o lombo do cavalo e, em galope desenfreado, atirou-se no meio dos inimigos. Com dois bem colocados golpes de espada, conseguiu arrancar dois cavaleiros de suas selas.

Um grito uníssono passou pelas fileiras dos cavaleiros de Morgon. Kim virou seu cavalo, desferiu outro golpe a um terceiro cavaleiro, conseguiu rebater um golpe de espada com o braço e matou um quarto adversário. Os dois cavaleiros restantes foram, quase simultaneamente, arrancados da sela por Kelhim e Gorg.

Kim ergueu sua arma e galopou para o campo de batalha, onde a luta continuava sem trégua. Mas agora a sorte havia mudado. As armaduras negras começaram a perder o moral. Recuaram, tentaram se agrupar de novo para desmoronar definitivamente sob o feroz ataque dos cavaleiros brancos que, fortalecidos com a inesperada ajuda, ganharam nova força e novo ânimo. Os cavaleiros de Boraas se dispersaram e acabaram se retirando em caos total e desordenada fuga.

Mas não havia escapatória: estavam sendo perseguidos pelos cavaleiros brancos em suas armaduras douradas que, em fração de segundos, passaram de perseguidos a perseguidores. Além do mais, viram-se confrontados com Kelhim, cujas vigorosas patas trituravam o aço negro, amassando as armaduras, enquanto, por sua vez, o gigante Gorg pôs sua clava para funcionar impiedosamente.

Nesse momento, algo aconteceu com Kim. A arma em suas mãos parecia ganhar vida própria: a espada traçou um mortal e reluzente semicírculo no ar, quebrou escudos e lanças, arrebentou armaduras e proteções. Um golpe acertou seu ombro, deixando-o paralisado, mas ele mal sentiu a dor. Passou a espada da mão direita para a esquerda e continuou a lutar com força total. Um dos cavaleiros de Boraas esbarrou nele com seu cavalo, empurrou-o para o lado e apontou a lança para a cabeça do garoto. Kim se agachou, empurrou a lança com o punho e desfechou um golpe fulminante de espada contra o escudo do atacante, provocando um profundo entalhe na madeira. Ô golpe foi tão violento que arrancou Kim e seu inimigo de cima dos cavalos ao mesmo tempo. Kim caiu de costas, levantou-se na mesma hora e revidou o ataque do adversário. As lâminas das espadas chocaram-se numa chuva de faíscas; separaram-se para, novamente, cruzar-se. Kim cambaleou e tentou recuperar o fôlego. Seu adversário, com a respiração ofegante e as mãos trêmulas, parecia, igualmente, no limite de suas forças.

De repente Kim se deu conta do silêncio que os rodeava. A luta terminara e o inimigo à sua frente, pelo jeito, era a única armadura negra sobrevivente.

— Desista! — gritou Kim. — Você não tem nenhuma chance.

O outro ficou imóvel por um instante. Depois emitiu um grito abafado e, com a espada erguida, investiu contra Kim. Mas, nesse instante, uma lança dourada sibilou pelos ares e perfurou o inimigo.

Kim abaixou a arma, que lhe escapou das mãos. Seus dedos não tinham mais nenhuma força. Exaurido, caiu de joelhos, e assim permaneceu por alguns segundos, de olhos fechados, à espera de que o momento de fraqueza passasse. Depois levantou a cabeça e viu homens altos, esbeltos, envoltos em mantas brancas, compridas, sobre armaduras douradas, que formavam um círculo ao seu redor. Os capacetes achatados cobriam a cabeça até a nuca.

No rosto, os capacetes se prolongavam em estreita faixa, como proteção para o nariz. Os homens, cujos olhos estavam fixos em Kim, permaneceram imóveis e em silêncio. Pareciam inseguros, sem saber o que fazer.

Mas aí o círculo se abriu e apareceu Temístocles! Kim sorriu, pois o velho mago não o reconheceu devido a armadura negra. Kim levantou-se cambaleante e, com mãos trêmulas, embainhou a arma.

Temístocles encarou Kim por algum tempo, depois disse:

— Eu não sei quem és tu, mas, de qualquer maneira, agradecemos tua ajuda.

Temístocles esperou por uma resposta, mas Kim olhou para ele sem se mover e sem falar. Era um momento especial e Kim vibrava, de antemão, pensando no impacto que a revelação de sua identidade iria causar.

— Sem a tua ajuda — continuou Temístocles —, estaríamos perdidos.

Como Kim ainda não havia respondido, os olhos do velho se encheram de desconfiança:

— Como é possível... um servo de Morgon lutar contra seus próprios companheiros?

Foi aí que Kim resolveu revelar sua identidade:

— Talvez porque eu não seja um servo de Morgon. Vagarosamente, para aumentar o suspense do momento, tirou o capacete negro. Temístocles ficou boquiaberto, arregalou os olhos e a expressão do seu rosto recompensou Kim por tudo o que ele passara.

O velho mago demorou alguns minutos para recuperar a fala:

— Kim! Tu...? Kim riu, feliz:

— Você não pediu para que eu viesse? Bem, aqui estou! Temístocles, ainda espantado, balançou a cabeça:

— Por essa eu não esperava! Eu não esperava encontrar-te... não aqui!

Um sorriso iluminou o rosto do mago e ele se voltou para seus guerreiros, ainda mudos e desconfiados. Com um gesto apaziguador, levantou as mãos:

— Está tudo bem, ele é um dos nossos!

Os homens relaxaram. Ouviram-se alguns suspiros de alívio. Temístocles esperou um instante e depois disse:

— Eu vos explicarei tudo, mas agora me deixem sozinho com o nosso salvador. Temos muito que conversar!

Os cavaleiros obedeceram e Temístocles ficou a sós com Kim.

— Tu... ainda não acredito! Depois de tanto tempo! Balançou a cabeça:

— Eu não tinha mais esperança de que viesses... Tanto maior é minha alegria em ver-te são e salvo.

Kim apalpou seu ombro direito, que continuava insensível, e o braço quase paralisado. De repente, se deu conta das palavras do velho e perguntou:

— Depois de tanto tempo?! Foram apenas algumas semanas! Temístocles franziu a testa:

— Algumas semanas?!

Kim pensou no tempo que passara no calabouço de Boraas, o tempo de sua travessia pelas montanhas, suas andanças pelas florestas, o tempo que passara com os Taks:

— Não mais de duas semanas... Talvez um pouco mais.

— Duas semanas! — exclamou Temístocles. Depois ponderou:

— O tempo, Kim, é algo muito estranho. O tempo aqui não obedece às mesmas leis de outros lugares. No Reino das Sombras talvez tenham se passado duas semanas, mas aqui, entre nós, passaram-se mais de três anos.

— Três anos! — exclamou Kim, atônito. — Mas isso é impossível! Temístocles inclinou a cabeça:

— Nada é impossível, Kim.

— Mas... três anos! Agora eu entendo o seu espanto.

— Para ser sincero, eu já não tinha mais esperanças de rever-te algum dia — disse o velho mago.

— No começo, eu olhava para o céu. Dia após dia, por semanas e meses enviei meus cavaleiros à tua procura. Mas a cada dia que passava a esperança diminuía.

— Você achou que eu tinha me acovardado? — indagou Kim.

— Para dizer a verdade, eu tinha esperança de que tu tivesses ficado em casa, pois, caso contrário, só haveria uma explicação para a tua ausência: Boraas.

— É — disse Kim —, você está certo. Eu tive o desprazer de conhecê-lo.

— No momento em que te vi em tua armadura negra, eu o sabia — concluiu Temístocles.

O velho percebeu o cansaço de Kim:

— Perdoa-me — pediu. — Estou te crivando de perguntas em vez de te dar tempo para descansar. Vem até a sombra para repousar. Depois me contas tudo.

Kim seguiu o amigo para a beira da floresta. Logo depois da luta, ainda estava muito exaltado, mas agora, depois que vira o preço que os homens de Temístocles pagaram pela vitória, mergulhou em profunda depressão. Havia cerca de trinta cavalos, mas apenas dez cavaleiros brancos vivos, alguns com graves ferimentos. A vitória ganhara um gosto amargo! Kim encostou-se no tronco de uma árvore e fechou os olhos, entregando-se à dor. A sua volta os sobreviventes começaram a envolver os corpos dos mortos em panos brancos, enfileirando-os à beira da floresta. Durante muito tempo Kim permaneceu assim, imóvel, observando o trabalho triste dos homens. Depois, aos poucos, e com voz baixa, começou a falar sobre tudo que lhe acontecera. Não omitiu nada: falou sobre seus temores, as aventuras, o medo que sentiu disfarçado em meio ao exército inimigo...

Temístocles ouviu com paciência e atenção. Kim falou durante quase uma hora, sem parar, sem ser interrompido pelo amigo. Quando, finalmente, terminou, os dois permaneceram em silêncio.

Depois de um longo tempo, Temístocles se manifestou com um suspiro:

— Esse teu relato... a situação é bem pior do que eu havia imaginado.

— Eu sei. Ninguém melhor do que eu para saber o que está acontecendo. Eu vi o exército deles!

— A culpa é minha — murmurou Temístocles.

— Sua?!

— É, Kim. Eu cometi um erro imperdoável: subestimei Boraas. E, pior, eu sabia o quanto ele era mau.

Temístocles levantou abruptamente e começou a andar em círculos. As batidas do bastão no chão acompanhavam o ritmo de seus passos:

— Desde o começo tudo correu exatamente como ele havia planejado.

Kim balançou a cabeça:

— Você não tem culpa de nada, Temístocles!

— É claro que tenho! — refutou o velho mago. — Eu estava seguro demais. Todos nós acreditamos que Boraas estaria para sempre encarcerado no Reino das Trevas, do outro lado da Cordilheira das Sombras. Mas isso foi um grande equívoco. Ele encontrou o caminho.

Temístocles parou de andar. Apoiou-se em seu bastão e manteve o olhar fixo em Kim:

— O sujeito sinistro que viste ao lado de Boraas no acampamento... Que aspecto tinha?

Kim levantou os ombros, hesitante:

— Como todos os outros... Seu aspecto não o diferenciava dos outros, mas era mais...

Kim sentiu um calafrio percorrer seu corpo quando mentalizou a imagem do cavaleiro negro. Inseguro, tentou explicar:

— Não era nada visível, era algo... Temístocles completou:

— Três anos! — exclamou Kim, atônito. — Mas isso é impossível! Temístocles inclinou a cabeça:

— Nada é impossível, Kim.

— Mas... três anos! Agora eu entendo o seu espanto.

— Para ser sincero, eu já não tinha mais esperanças de rever-te algum dia — disse o velho mago.

— No começo, eu olhava para o céu. Dia após dia, por semanas e meses enviei meus cavaleiros à tua procura. Mas a cada dia que passava a esperança diminuía.

— Você achou que eu tinha me acovardado? — indagou Kim.

— Para dizer a verdade, eu tinha esperança de que tu tivesses ficado em casa, pois, caso contrário, só haveria uma explicação para a tua ausência: Boraas.

— É — disse Kim —, você está certo. Eu tive o desprazer de conhecê-lo.

— No momento em que te vi em tua armadura negra, eu o sabia — concluiu Temístocles.

O velho percebeu o cansaço de Kim:

— Perdoa-me — pediu. — Estou te crivando de perguntas em vez de te dar tempo para descansar. Vem até a sombra para repousar. Depois me contas tudo.

Kim seguiu o amigo para a beira da floresta. Logo depois da luta, ainda estava muito exaltado, mas agora, depois que vira o preço que os homens de Temístocles pagaram pela vitória, mergulhou em profunda depressão. Havia cerca de trinta cavalos, mas apenas dez cavaleiros brancos vivos, alguns com graves ferimentos. A vitória ganhara um gosto amargo! Kim encostou-se no tronco de uma árvore e fechou os olhos, entregando-se à dor. A sua volta os sobreviventes começaram a envolver os corpos dos mortos em panos brancos, enfileirando-os à beira da floresta. Durante muito tempo Kim permaneceu assim, imóvel, observando o trabalho triste dos homens. Depois, aos poucos, e com voz baixa, começou a falar sobre tudo que lhe acontecera. Não omitiu nada: falou sobre seus temores, as aventuras, o medo que sentiu disfarçado em meio ao exército inimigo...

Temístocles ouviu com paciência e atenção. Kim falou durante quase uma hora, sem parar, sem ser interrompido pelo amigo.Quando, finalmente, terminou, os dois permaneceram em silêncio.

Depois de um longo tempo, Temístocles se manifestou com um suspiro:

— Esse teu relato... a situação é bem pior do que eu havia imaginado.

— Eu sei. Ninguém melhor do que eu para saber o que está acontecendo. Eu vi o exército deles!

— A culpa é minha — murmurou Temístocles.

— Sua?!

— É, Kim. Eu cometi um erro imperdoável: subestimei Boraas. E, pior, eu sabia o quanto ele era mau.

Temístocles levantou abruptamente e começou a andar em círculos. As batidas do bastão no chão acompanhavam o ritmo de seus passos:

— Desde o começo tudo correu exatamente como ele havia planejado.

Kim balançou a cabeça:

— Você não tem culpa de nada, Temístocles!

— E claro que tenho! — refutou o velho mago. — Eu estava seguro demais. Todos nós acreditamos que Boraas estaria para sempre encarcerado no Reino das Trevas, do outro lado da Cordilheira das Sombras. Mas isso foi um grande equívoco. Ele encontrou o caminho

            Temístocles parou de andar. Apoiou-se em seu bastão e manteve o olhar fixo em Kim:

— O sujeito sinistro que viste ao lado de Boraas no acampamento... Que aspecto tinha?

Kim levantou os ombros, hesitante:

— Como todos os outros... Seu aspecto não o diferenciava c outros, mas era mais...

Kim sentiu um calafrio percorrer seu corpo quando mentalizou imagem do cavaleiro negro. Inseguro, tentou explicar:

— Não era nada visível, era algo... Temístocles completou:

— ... que se sente com a alma, um frio invisível o cerca como uma aura sombria. Algo repulsivo, violento.

Kim confirmou, surpreso:

— Exatamente! Você o conhece?

— O Lorde Negro! — e, com a voz trêmula de pavor, continuou: — Existe uma lenda antiqüíssima, quase esquecida. Segundo essa lenda, um dia vai aparecer um poderoso guerreiro no Reino das Sombras. Um guerreiro tão mau e cruel que atravessará com o seu exército das trevas a Cordilheira das Sombras. O Lorde Negro!

Temístocles baixou a voz:

— A lenda continua, Kim. Ela diz que quando aparecer o Lorde Negro, terá chegado o fim de Märchenmond.

— Impossível! — exclamou Kim. — Você deve estar enganado. É apenas uma lenda, mais nada. Vamos vencer o exército das trevas, assim como vencemos aquele bando há pouco.

Temístocles balançou a cabeça:

— Cada lenda contém um pouco de verdade, Kim. Talvez tu ainda não entendas, mas às vezes são justamente as coisas irreais que se tornam realidade.

Kim suspirou:

— Mas ainda não sabemos se o homem que eu vi é mesmo o Lorde Negro, isto é, se ele realmente existe. Ainda temos tempo. O exército de Boraas ainda não se formou, então podemos organizar nossa defesa.

Por alguns minutos, Temístocles ficou imóvel, olhando para o chão. Depois, como se estivesse despertando de um profundo sono, disse, sem muita convicção:

— Talvez tu tenhas razão. Em todo caso, faremos o que estiver ao nosso alcance.

Kim sorriu. A sinistra profecia de Temístocles o deixara ainda mais deprimido, mas ele se esforçou para não o demonstrar.

— Como começou a luta? — Kim perguntou mais para desviar a atenção do velho. — Foi uma emboscada?

— Não. Se Boraas quisesse armar uma cilada, certamente teria enviado mais guerreiros. Eu acho que para as armaduras negras também foi uma surpresa nos encontrar, provavelmente se trata de um daqueles pequenos grupos que vasculham a região ao longo da cordilheira, espalhando medo e terror entre a população. Temos enviado patrulhas a fim de avisar as pessoas — explicou Temístocles. — Mas muitas vezes chegamos tarde, como tu também viste — acrescentou, infeliz. — Até agora as armaduras negras evitaram um confronto aberto. Mas talvez tenham mudado de tática e o ataque esteja prestes a acontecer.

— Por que você veio até aqui? — perguntou Kim.

— Eu estou percorrendo Märchenmond — respondeu Temístocles. — A viagem mais longa e mais terrível da minha vida.

— Como assim?

— Märchenmond sempre foi uma terra da paz — disse o velho mago. — Mas agora meus companheiros e eu somos obrigados a chamar seus habitantes para a guerra. É claro que sabíamos que Boraas representava uma ameaça, mas nunca imaginamos que o perigo fosse tão abrangente. Por isso estamos à procura de aliados.

— Aliados? — perguntou Kim, incrédulo. — Mas... vocês não têm um exército?

— Não, Kim, não temos exército. Eu te falei que somos de paz. Até agora não era preciso ter soldados em Märchenmond. Não conhecemos hostilidades, pois vivemos em harmonia com a natureza e suas leis.

— Mas vocês terão de se defender! — exclamou Kim, pasmo.

A idéia de que um reino poderoso como Märchenmond não estava nem um pouco preparado para se defender de um eventual ataque inimigo lhe parecia simplesmente absurda.

— Essa é a verdade — continuou Temístocles. — Os cavaleiros que me acompanham nesta viagem sabem manusear uma espada, mas sua profissão não é matar. E, como vês, a maioria deles está morta — acrescentou com amargura.

Temístocles suspirou:

— Não temos um exército porque nunca foi necessário. Mas agora a situação é outra. Não podemos esperar por um milagre para salvar Märchenmond. É por isso que empreendemos esta viagem.

— E vocês... encontraram aliados?

Temístocles confirmou com a cabeça:

— Encontramos, mas temo que não o suficiente. Nossa viagem está quase chegando ao fim. Amanhã alcançamos a última etapa, as terras dos cavaleiros das estepes. Depois voltaremos para Gorywynn.

Um dos cavaleiros brancos se aproximou e, com uma reverência diante de Temístocles e um rápido olhar para Kim, disse:

— Estamos prontos, senhor. Temístocles inclinou a cabeça:

— Está bem. Vamos partir.

Kim apontou para os cavaleiros mortos, dispostos em fileira à sombra das árvores.

— Vocês vão deixá-los aqui?

— Não enterramos nossos mortos. Veneramos o espírito, não a carne que lhe serve de moradia. Em poucos dias o corpo se transforma em pó, retornando para o eterno ciclo da vida. Honramos nossos mortos através do respeito pela vida. Agora vem, temos de continuar!

Kim assobiou para seu cavalo, que veio sem demora. Temístocles lançou um olhar de admiração para o animal:

— Que belo animal! Como o encontraste?

— Na verdade, foi ele que me encontrou. Acho que ele não sente nenhuma falta do antigo dono.

Temístocles sorriu, mas logo ficou sério novamente:

— Tira a armadura negra, não precisas mais dela.

Kim olhou para a armadura, toda arranhada e sem brilho.

— Eu quero ficar com ela — disse. — Ela me trouxe sorte. Temístocles ergueu os ombros:

— Se é assim que tu queres... Mas, espera!

O mago foi até seu cavalo, abriu a mochila e retirou um embrulho que entregou a Kim. Era um manto de tecido branco, fino, quase transparente, entremeado com finíssimos fios de ouro e prata. Apesar de sua aparente leveza, o manto caiu em pregas retas e pesadas, como se fosse de veludo ou brocado. Sob a luminosidade do sol, o resplendor era ainda maior. Kim não se cansou de admirar tanta beleza e, quase com veneração, colocou-o sobre os ombros.

— Obrigado — disse. — É... é simplesmente maravilhoso!

Temístocles sorriu:

— É teu. Este manto esperou-te.

Encantado, Kim deslizou o tecido entre os dedos. Era delicado e parecia entremeado com raios solares, em vez de ouro.

— Cuides bem dele — recomendou Temístocles. — Ele é muito velho, mais velho do que eu, talvez até mais velho que Märchenmond. Muitos o cobiçaram, mas ninguém o mereceu. Tu és o primeiro a usar o manto de Laurin.

— O manto de Laurin?!

Temístocles explicou:

— A lenda de Laurin, o rei dos anões, é conhecida até na tua terra.

— É, eu a conheço — confirmou Kim. — Mas você quer dizer que não é apenas um conto de fadas?

— Sim e não. Desde os primórdios, os homens repetem as velhas histórias, elas são modificadas, aumentadas ou diminuídas, deturpadas, até que, por fim, já não se sabe mais o que é realidade e o que é fantasia. Mas quem está aberto para o maravilhoso, para o extraordinário e o sobrenatural, quem, como tu, está disposto a arriscar tudo para ganhar tudo, viverá coisas que para as outras pessoas são apenas sonhos.

— Eu não entendo...

— Existem... — Temístocles hesitou por um instante, depois concluiu:

— Perdão, estou me perdendo em devaneios. Ainda não chegou a hora da verdade.

Kim ia dizer algo, mas Temístocles levantou a mão:

— Não me pressiones, eu te peço. Mais tarde, em um outro tempo e num outro lugar, eu explicarei tudo. Por ora, tens a minha palavra de que este é realmente o manto de Laurin. Ele concede um enorme poder para aquele que o vestir. Mas os ombros cobertos pelo manto de Laurin também carregam grande responsabilidade.

— Poder? — indagou Kim. — Que tipo de poder? Temístocles não respondeu imediatamente. Kim sentiu que o velho mago estava relutante. Mas acabou se abrindo:

— Diz a lenda que ele pode conceder a invisibilidade. Quem o vestir pode atravessar paredes ou outros obstáculos sem ser visto ou ferido pela mão do homem.

— Invisível! — exclamou Kim. Num reflexo involuntário, retirou a mão do precioso manto, como se temesse danificá-lo ou sujá-lo.

— Mas... isso seria... Se for verdade, estaremos salvos! Com este manto podemos atingir o coração do exército de Boraas sem sermos vistos! Podemos tirar Boraas do seu abrigo, podemos...

Temístocles o interrompeu com um gesto:

— Eu não terminei de falar, Kim. O manto te concede invisibilidade, mas só por uma única vez. Se tu te valeres dele uma vez, seu poder se esgotará e ele voltará a ser o que era antes de receber a magia de Laurin, ou seja, um simples tecido, mais nada. Este manto é o nosso último recurso, quando todo o resto tiver falhado. Portanto, não o uses de maneira leviana, Kim.

Kim demorou um bom tempo até assimilar a grandeza do tesouro que Temístocles acabara de lhe confiar. Talvez o destino de todo o universo estivesse em suas mãos!

— Eu... eu prometo... prometo... — gaguejou.

Temístocles inclinou a cabeça e, sem mais uma palavra, voltou-se para seu cavalo. Mas Kim ainda tinha uma pergunta:

— Só mais uma coisa, Temístocles.

O velho mago se virou. Apoiado em seu bastão, dirigiu o olhar para a clareira atrás de Kim:

— Sim?

Kim engoliu em seco. Sentiu um nó na garganta. A pergunta que lhe apertara o peito desde que fugira de Morgon de repente não queria sair de sua boca. Mas a essa altura dos acontecimentos não tinha mais volta:

— Boraas me contou que... — começou, sem graça. — E que eu não consigo acreditar que...

— Que somos irmãos — completou Temístocles, sem demonstrar nenhuma emoção.

Kim confirmou com a cabeça.

— É verdade, mas também não é. Talvez seja difícil para tu entenderes. Somos muito parecidos, porém, somos totalmente diferentes. Sim, somos irmãos, aliás, éramos muito unidos, como se tivéssemos uma só alma em dois corpos. O que um pensava o outro fazia e vice versa. Mas isso foi há muito tempo... Há muito tempo mesmo, quase uma eternidade, antes do acontecimento que nos separou.

— O que aconteceu? — indagou Kim, perplexo e curioso. Temístocles sorriu:

— Tu não entenderias. Nossos caminhos se separaram e com o tempo afastamo-nos cada vez mais um do outro... Uma história longa e triste, Kim. Talvez eu tenha uma parcela de culpa... Talvez todos nós.

— Você?! — perguntou Kim, incrédulo. — Você está se culpando por que Boraas escolheu o caminho do mal?

— Mas é a verdade! Boraas escolheu o caminho errado, mas todos nós, em certo momento na vida, vemo-nos confrontados com alguma tentação. Ninguém pode afirmar que não conheceu a sedução do lado obscuro da vida. Existem homens — e não são poucos, Kim — que não encontram força para resistir à sedução do mal. Boraas era como eu, mas ele não tinha a minha força. Eu a tinha e eu sabia que ele não a possuía. Teria sido meu dever detê-lo. Talvez nada de ruim teria acontecido se eu estivesse ao lado do meu irmão no momento certo.

Revoltado, Kim abanou a cabeça:

— Esse não é um argumento válido. Você não pode assumir a responsabilidade de cada crime que acontece no mundo.

Temístocles demorou para responder. Depois murmurou:

— Talvez tu tenhas razão, mas talvez tenha sido um erro querer explicar-te isso. E agora vem, Kim. Chega de sangue por um dia. Ainda temos um longo caminho pela frente.

Saiu na frente com largos passos e Kim o seguiu. O velho mago lançou um último olhar para o campo de batalha, depois montou seu cavalo com a agilidade de um homem jovem. E, somente agora, de perto, Kim notara que tanto Temístocles como seus homens não montavam cavalos propriamente ditos, mas grandes unicórnios brancos! Os animais eram altivos como seus donos e, apesar de alguns apresentarem arranhões e manchas de sangue, eram magníficos! Temístocles acenou para ele e Kim também montou seu cavalo e se juntou aos cavaleiros brancos. Os unicórnios recuaram, assustados, quando viram o cavalo negro. Alguns se mostraram tão nervosos e agitados que foi preciso toda habilidade dos seus donos para acalmá-los. Kim sentiu o medo e a rejeição dos animais. Com seus cornos compridos, em forma de espiral, poderiam facilmente matar Kim e seu cavalo.

Temístocles deu uma ordem e o grupo se pôs em movimento, seguido pelos cavalos negros, cujos donos foram mortos em combate. Também Kelhim e Gorg os seguiram, embora hesitantes e mantendo certa distância, até que Temístocles se virou e chamou Gorg. Com passos largos o gigante se aproximou do mago, seguido por Kelhim.

Temístocles se voltou para o gigante:

— Eu quero que vós nos acompanheis — pediu. — Os cavaleiros das estepes vos ouvem. Eles são um povo altivo e teimoso, mas se vós me acompanhardes, eles ouvirão o que tenho a dizer.

Gorg não respondeu e Kelhim soltou um grunhido indecifrável.

— Eu sei, eu sei, quereis ficar aqui e caçar armaduras negras, mas, acreditai, vós sereis mais úteis se me acompanhardes até os cavaleiros das estepes. Vosso trabalho aqui está encerrado. O pessoal das montanhas fugiu, e...

— Não todos — interrompeu Gorg.

Para surpresa de Kim, a voz do gigante não tinha mais aquele tom serviçal ou medroso de antes.

— Não pudemos avisar a tempo... A fazenda das montanhas está destruída, chegamos tarde demais.

Temístocles inclinou a cabeça, triste:

— Eu sei, Gorg. Kim me contou. Mas também sei que a culpa não é vossa.

— Perseguimos os assassinos — informou Kelhim. O urso apontou para Kim:

— Se não fosse esse aí, nenhum dos camponeses teria escapado com vida. Achamos que seria melhor tomar conta dele.

— Fizestes o certo — confirmou Temístocles. — De nada adianta a vingança, muito menos para os mortos.

Kim seguiu a conversa, pasmo. Esperou que Gorg e Kelhim retornassem para o seu lugar no final do grupo, depois dirigiu seu cavalo para perto do unicórnio de Temístocles:

— Tomar conta? De mim?

Temístocles esboçou um sorriso:

— Kelhim não sabe escolher as palavras.

— Mas... eu não entendo... Eu achei que foi um encontro casual.

— De jeito nenhum — revidou Temístocles. Kim estava completamente confuso e inseguro:

— Mas então... então os dois o tempo todo fingiram... Ah! Eu devia ter percebido! A maneira como Gorg atacou as armaduras negras, não era nem um pouco covarde.

Agora era a vez de Temístocles se mostrar surpreso:

— Covarde? — perguntou, admirado. — Gorg, covarde? Eu conheço o gigante muito bem. Ele e Kelhim são amigos inseparáveis e são os sujeitos mais valentes e corajosos que conheci. Só que, de vez em quando, desenvolvem um humor um tanto esdrúxulo.

Cavalgaram o dia todo e, à medida que as horas foram passando, Temístocles se mostrava cada vez mais impaciente. Todos estavam exaustos, mas o velho mago não permitiu que fizessem uma pausa sequer até o cair da noite. E, na manhã seguinte, partiram antes do amanhecer.

A paisagem aos poucos foi mudando: a floresta aclarava cada vez mais, sendo interrompida por grandes e ensolaradas clareiras para, finalmente, dar lugar a uma estepe plana, coberta por uma grama amarelada que lhes crescia até a cintura. Ainda na parte da manhã, alcançaram uma estrada que os desviou um pouco para oeste e os afastou ainda mais da cordilheira. Quase perdida no horizonte, avistaram uma aldeia, depois cavalgaram algumas horas por grandes campos e novamente por estepes amareladas. Durante todo esse tempo Kim continuou ao lado de Temístocles, crivando-o de perguntas. Temístocles respondia com paciência, assim Kim ficou conhecendo muito sobre Märchenmond, sua história, seus habitantes. Sua curiosidade era insaciável! Mas a cada resposta que Temístocles lhe dava, os enigmas pareciam aumentar.

O sol galgou o céu, o calor aumentou e Kim sentiu sede, depois fome e por fim cansaço, como, aliás, todos os outros também. Até os unicórnios já não tinham o passo firme como no começo. Mas novamente Temístocles não lhes permitiu nenhuma pausa.

Kim achou que não suportaria continuar cavalgando nem mais um minuto, quando, à sua frente, ainda perdido na lonjura, avistaram uma nuvem amarelada de poeira na estrada e, quando chegaram mais perto, reconheceram um grupo de cerca de quinze cavaleiros.

Temístocles ordenou que parassem. Exaustos, os homens desceram dos unicórnios, quase cambaleando, e caíram na grama à beira da estrada. Também Kim sentou na grama e olhou, ansioso, para os cavaleiros que se aproximavam.

Eram homens altos de cabelos escuros. Era difícil distinguir uns dos outros, pois eram todos parecidos. De rosto fino e queimados de sol, seus corpos, apesar de magros, eram fortes e musculosos.

Montavam seus cavalos com naturalidade e elegância, como se cavaleiro e animal fossem um só. Usavam uma vestimenta de couro escuro que deixava pernas e braços à mostra. Kim notou, um pouco invejoso, que montavam sem sela nem arreios.

Os cavaleiros pararam bem na frente de Temístocles, que foi o único a permanecer montado em seu unicórnio para saudar o comitê de recepção. Para surpresa de Kim, o porta-voz dos cavaleiros era muito jovem, não muito mais velho que ele próprio, isto é, talvez treze ou catorze anos. O garoto era esbelto e de pele escura, como seus companheiros, mas seu cabelo era um pouco mais claro, e seus olhos eram azuis. Bastante autoconfiante, dirigiu a palavra a Temístocles:

— Sejas bem-vindo, Senhor de Gorywynn!

Inclinou a cabeça e passou os olhos pelo pequeno grupo de cavaleiros exauridos à beira da estrada. Mas, quando seu olhar recaiu sobre Kim, seu rosto ganhou um ar de desconfiança:

— Vossa vinda nos foi anunciada. Meu pai vos manda saudações. Sejais todos bem-vindos em nosso castelo.

Temístocles inclinou a cabeça. O garoto olhou de novo para a armadura negra de Kim e continuou:

— Fomos informados de que estás acompanhado por uma armadura negra. Pelo visto o mensageiro falou a verdade. É teu prisioneiro?

— Não. É um dos nossos.

— Um dos teus?! Mas veste a armadura do inimigo! Temístocles sorriu:

— Não julgues um homem pela aparência, príncipe Priwinn. O que um homem aparenta ser à primeira vista — impressão favorável ou desfavorável, tanto faz — pode, muitas vezes, ser enganoso. Kim é um dos nossos. Talvez até seja o melhor.

Priwinn refletiu sobre as palavras de Temístocles, depois deu de ombros e apontou para os homens estendidos na grama:

— Nossos mensageiros nos informaram que teus homens se encontram em péssimo estado. Trouxemos vinho e pão e nosso médico cuidará dos feridos. Foram atacados?

Temístocles não escondeu a tristeza:

— Ontem. Deparamo-nos com um grupo de armaduras negras. Apontou para Kim:

— Se não fosse o nosso amigo aqui, teríamos morrido.

A fisionomia de Priwinn refletiu seus sentimentos contraditórios: admiração e desconfiança ao mesmo tempo. Mas também havia em seu olhar um pouco de arrogância e desprezo.

O olhar penetrante do jovem príncipe fez com que Kim se sentisse pouco à vontade. Finalmente, Priwinn deu de ombros e voltou para perto dos seus homens. Um gesto seu e três cavaleiros trouxeram jarras de vinho:

— Fiqueis à vontade — disse Priwinn. — Comei do nosso pão. Depois seguiremos caminho. O tempo urge.

Também para Kim foi servido um cálice do vinho pesado e doce, que ele bebeu em pequenos goles. Lembrou das palavras de Temístocles: os cavaleiros das estepes eram um povo orgulhoso e, pelo visto, também um povo cerimonioso.

Kim esvaziou o cálice e o devolveu. Os homens, pouco a pouco, foram levantando para retomar a jornada, embora isso lhes exigisse algum sacrifício, pois ainda estavam exaustos.

O cavalo de Priwinn se mostrou nervoso e pisoteou o chão. O príncipe esporou o animal e disparou na frente, seguido por Temístocles e os seus. Depois de algum tempo, deixaram a estrada e atravessaram a estepe, diretamente para oeste, para longe da Cordilheira das Sombras. No horizonte apareceu uma imagem ainda difusa de algo grande e Temístocles confirmou a pergunta de Kim: era o castelo dos cavaleiros das estepes — Caivallon!

Mas, para surpresa de todos, em vez de cavalgar diretamente para o castelo, contornaram-no, fazendo uma curva para o sul.

Não demorou muito para que descobrissem o motivo. Mudo, Priwinn apontou para uma ruína que surgiu à sua frente: uma casa pequena, outrora talvez pitoresca, mas agora enegrecida pela fumaça de algum incêndio. Não tinha paredes, somente um teto parcialmente coberto pela grama. A parte dianteira e a parte traseira da construção eram sustentadas por pesadas vigas cobertas por musgo. Uma parte do telhado desmoronou e o chão ao redor da ruína estava coberto por um monte de vigas rachadas e carbonizadas. A impressão que dava era a de que ali houvera uma violenta explosão. Mas não foi só isso que atraiu a atenção de Kim e dos seus companheiros. Sobre a grama que parcialmente cobria o telhado estavam dispostos, em fileira, alguns corpos envoltos em lençóis brancos.

Por alguns minutos todos olharam, estarrecidos, para aquele cenário de terror. Finalmente, Temístocles perguntou:

— Armaduras negras?

Priwinn confirmou com a cabeça. O príncipe cerrou as mãos em punhos:

— Eram cerca de trinta cavaleiros, há dois dias, no meio da noite. Nenhum deles escapou. Atacaram-nos, mas pagaram um preço alto.

Temístocles balançou a cabeça:

— Violência contra violência não é a solução, príncipe. O rosto do jovem príncipe contorceu-se de raiva:

— Violência contra violência não é a solução? Por que, então, estás aqui, Senhor de Gorywynn? Não vieste para pedir apoio contra o inimigo a meu pai e ao meu povo?

— Isso é certo — admitiu Temístocles. — Mas também vim para advertir. Essas pessoas aqui não são as únicas vítimas dessa guerra cruel e inútil. Vós tereis de abandonar o castelo das estepes.

— Abandonar?! — revoltou-se o príncipe. — Tu não sabes o que dizes, Temístocles!

No lugar de uma resposta, o mago apontou para as vigas ao redor da ruína, que pareciam dedos erguidos, apontando para o céu límpido:

— Trouxeste-nos até aqui para nos mostrar isso, mas eu acho que ainda não entendeste o que isso significa.

— Eu sei — revidou o príncipe, com a voz embargada pelo ódio. — Trinta cavaleiros de Boraas e cinco dos nossos morreram... Trezentos cavaleiros negros virão a seguir.

Temístocles queria dizer algo, mas mudou de idéia e galopou rente ao príncipe, que retornou para o seu lugar à frente do grupo.

Kim suspirou aliviado. A tensão entre Temístocles e Priwinn causou-lhe mal-estar, pois sabe-se lá no que as desavenças entre os dois poderiam resultar. Mergulhado em pensamentos nada agradáveis, Kim teve um leve sobressalto quando o velho mago tocou seu ombro:

— Eu quero que tu permaneças ao meu lado — pediu. — Nossa estada em Caivallon será breve. Mas, enquanto estivermos lá, quero-te ao meu lado.

— Você teme pela minha segurança?

— Sim, e com razão, acredites.

Temístocles lançou um olhar apreensivo na direção do príncipe, que cavalgava um bom pedaço à frente:

— Tu viste e ouviste Priwinn, Kim. Ele não é o único a pensar assim. Eu tive meus motivos quando escolhi Caivallon como última etapa da minha viagem.

— São todos assim... assim, impetuosos? — perguntou Kim. Temístocles suspirou:

— Infelizmente, Kim. Ou melhor, quase todos. Mas é preciso entendê-los. Caivallon é a fronteira mais extrema de Märchenmond, isto é, o último reduto antes da Cordilheira das Sombras. Aqui, a influência de Morgon é mais forte que em qualquer outro lugar e nenhum povo sofreu mais que os cavaleiros das estepes.

Kim se virou na cela e olhou para as ruínas — seu estômago se rebelou:

— É tão inútil — murmurou.

— Pois é, Kim, mas infelizmente não é tão inútil como tu pensas — retrucou Temístocles. — Pelo menos não do ponto de vista de Boraas. O que para ti parece inútil, faz parte de sua tática diabólica.

— Tática?

Temístocles o encarou, surpreso:

— Será que tu não entendes? Ninguém melhor que tu para entender. Trata-se de terror, Kim, a pior arma inventada pelo espírito do homem. As armaduras negras aparecem em pequenos grupos, matando, incendiando. São imprevisíveis, sem plano aparente na escolha de suas vítimas. Não existe um sistema, apenas um alvo. Eles semeiam medo e, assim, preparam o terreno para a invasão propriamente dita. Quando Boraas chegar com o seu exército, encontrará um povo apavorado, desmoralizado.

— Mas isso é... terrível. E bárbaro! — exclamou Kim.

— Terrível? Bárbaro? Para ti, Kim. Mas no mundo de onde tu vens, essa tática é empregada diariamente. Vós fostes os mestres de Boraas, com vós ele aprendeu esse procedimento. Vós...

Temístocles se deu conta de que estava se exaltando e baixou a voz:

— Perdão — disse. — Eu perdi o controle.

E, sem mais uma palavra, esporou o unicórnio e se uniu aos seus cavaleiros. Kim queria segui-lo, mas pensou melhor. Algo lhe dizia que o mago queria ficar sozinho. Temístocles estava amargurado e, no fundo, Kim até o entendia.

Kim lançou um último olhar para a Cordilheira das Sombras e pareceu-lhe que uma sombra obscura encobria o sol para enegrecer o dia.

A primeira impressão que Kim teve de Caivallon era a de uma enorme montanha artificial, mas à medida que se aproximavam do castelo das estepes, mais o comparava a um aglomerado de casas de madeira encaixadas umas nas outras ou sobrepostas, a exemplo das cidades medievais. Caivallon era, de fato, uma montanha artificial criada pela mão do homem, pensou Kim, estupefato. Podia ser comparado a um gigantesco formigueiro, com milhares de entradas e saídas invisíveis. Uma muralha de cerca de dez metros de altura, em forma de anel, cercava o castelo. Entre as torres baixas que coroavam a muralha, homens patrulhavam, e os poucos portões da fortificação eram baixos e estreitos, provavelmente para resistir a um ataque maciço dos cavaleiros de Boraas.

Contrastando com o amarelo monótono da estepe, em Caivallon predominava o verde. Cada pedaço de chão, por menor que fosse, ostentava plantas verdejantes e até nos terraços do forte, dispostas em suaves elevações, havia algumas árvores.

Porém, apesar de todos os esforços de seus habitantes, com o intuito de dar uma aparência mais alegre ao seu castelo, Caivallon continuava sendo nada mais que um imenso forte, em nada melhor que o obscuro Castelo Morgon, talvez até pior em sua ostensiva dominância.

— Fica sempre ao meu lado, Kim — reforçou Temístocles ao passarem por um dos portões estreitos.

Agora Kim entendia o cuidado do amigo. As palavras e o comportamento de Priwinn mostraram quanto os habitantes de Caivallon eram revoltados e desconfiados. E a armadura negra que ainda usava, por certo, tornava-o bastante vulnerável.

Subiram por um caminho estreito, serpeante, que os levou para uma das inúmeras entradas de Caivallon, onde Temístocles e os seus desceram dos cavalos. Homens vestidos de marrom levaram seus animais e Priwinn os convidou a entrar no forte.

Por dentro, Caivallon também lembrava o Castelo Morgon. Tudo era feito de madeira antiqüíssima que, no decorrer de séculos, talvez de milênios, petrificara-se. Kim se questionou de onde os construtores de Caivallon teriam conseguido, em meio a uma estepe totalmente desprovida de árvores, essa enorme quantidade de madeira. Mas esse era um dos muitos mistérios de Märchenmond, que ele provavelmente nunca iria solucionar. Priwinn os conduziu através de um interminável labirinto de corredores e escadarias para uma sala no lado oeste do forte, onde uma janela escancarada, sem vidro, concedeu-lhes uma ampla visão da infinita estepe.

Para Kim, parecia um mar que, de repente, havia se solidificado, e cujas ondas amareladas estendiam-se infinitamente até o horizonte, onde se mesclavam com o céu. Um rio bastante largo, de águas corre-dias, partiu a paisagem em duas. Em alguns trechos, onde rochas e recifes interrompiam seu fluxo normal, a água se apresentou agitada e espumante, levando consigo tudo que se colocava em seu caminho. A correnteza devia ser muito forte!

Priwinn apontou para uma mesa comprida, que ostentava, em incrível fartura, terrinas e travessas repletas de alimentos e jarras com vinho e água.

— Comei — disse o príncipe. — Quando o sol se pôr, o Conselho dos Sábios irá se reunir. Até lá, repousem.

Temístocles inclinou a cabeça em sinal de agradecimento. Aproximou-se da mesa, mas mudou de idéia e, com um suspiro de cansaço, deixou-se cair em uma das camas dispostas ao longo das paredes. Seus companheiros fizeram o mesmo. Ninguém tocou nos alimentos, pois o cansaço era maior que a fome. Também Kim não resistiu à maciez da cama.

Um homem grisalho, usando roupas cinzas que lhe caíam até os pés, entrou na sala e fez uma breve reverência diante de Priwinn. Em seguida, começou a tratar dos feridos. Colocou ligaduras, passou pomadas e deu-lhes para beber estranhos líquidos, sempre murmurando algo que ninguém entendia.

— Eu não estou ferido — disse Kim, quando chegou sua vez.

— Pareces cansado, jovem senhor. É melhor tirares a armadura para que eu possa examinar-te.

Kim resolveu obedecer e despiu-se até ficar quase nu, coberto apenas por um avental que cobria seu ventre até as coxas. Nos ombros, o manto que Temístocles lhe havia dado. O médico lançou um olhar de veneração, mas também de espanto para a singular vestimenta e, em seguida, debruçou-se sobre Kim para submetê-lo a um cuidadoso exame. Havia inúmeros pequenos arranhões, além de manchas e contusões. Quando os dedos experientes do médico deslizaram sobre seu corpo, apalpando as partes doloridas, Kim se deu conta de como, o tempo todo, sentira-se fraco e doente.

— Bebe isto — murmurou o velho, passando-lhe uma taça rasa com um líquido incolor, mas de cheiro forte. Kim, já familiarizado com a medicina de Märchenmond e seus efeitos terapêuticos milagrosos, bebeu sem pestanejar.

— Vais dormir agora — disse o velho. — E, quando acordares, as dores terão desaparecido. Tu te sentirás melhor.

Kim esvaziou a taça e a devolveu ao velho. Quase imediatamente sentiu o efeito da poção. Pernas e braços ficaram pesados e as muitas dores do seu corpo deram lugar a uma agradável sonolência.

O médico levantou-se. Kim queria dizer algo, mas sua língua não o obedeceu. Virou-se de lado e a última coisa que percebeu era que alguém o cobria. Depois, mergulhou em um sono profundo.

Era noite quando Temístocles o acordou. Kim se ergueu, piscou e levantou. Os outros já estavam de pé, fartando-se, em silêncio, da comida à mesa.

— Está na hora — disse Temístocles. — O Conselho dos Sábios está se reunindo, não devemos fazê-los esperar.

Kim vestiu sua armadura, que fora limpa e reluzia como nova. Ao lado da armadura, encostado na parede, ele viu um grande escudo de madeira, quase do seu tamanho, adornado com belas incrustações: uma pomba e um corvo, sentados lado a lado em um galho. Apesar do tamanho, o escudo era leve como uma pluma.

— Um presente do príncipe Priwinn para ti — explicou Temístocles.

Kim franziu a testa:

— Um presente? Para mim? — perguntou, surpreso, pois a impressão que tivera era a de que o príncipe não simpatizava com ele.

— Enquanto tu dormias, falamos sobre ti. Priwinn é um rapaz orgulhoso e teimoso, mas ele respeita os corajosos e os valentes. Quando lhe contei a tua história, ele mudou de opinião a teu respeito e te mandou saudações. Mas, agora vem! Deves estar com a fome de um leão. Coma e depois vamos ao encontro do Conselho dos Sábios.

Quando começou a comer, percebeu que estava realmente faminto. Temístocles esperou pacientemente até Kim terminar de comer. Depois, levantou-se rapidamente e, com um gesto, pediu que o rapaz o seguisse. Os outros cavaleiros continuaram sentados.

Kim perguntou, surpreso:

— Os seus homens não vêm?

— Não. O Conselho dos Sábios só recebe a mim... e a ti. Vamos! Dois cavaleiros das estepes, vestidos de marrom, conduziram-nos por um corredor mal iluminado até uma escada, a qual desceram. No pé da escada uma porta se abriu para a estepe aberta. O vento frio trouxe consigo o cheiro de grama e terra. Os homens que os guiaram passaram por mais uma porta, que os conduziu novamente para o interior de Caivallon, e para outro corredor! O forte das estepes, com seu labirinto de corredores, parecia mesmo uma cópia de Morgon! Kim fez um comentário a esse respeito. Temístocles hesitou um pouco antes de responder:

— É, Kim... — explicou, finalmente. — Caivallon serviu de modelo para a construção de Morgon. Boraas viveu durante muito tempo entre o povo das estepes antes de dar-nos as costas definitivamente e voltar-se para as montanhas sombrias. Isso provavelmente também explica a amargura deste povo altivo.

— Você quer dizer que eles se culpam pela desgraça, assim como você?

Temístocles abanou a cabeça:

— Não. Eles sofreram uma grande decepção. Boraas era seu soberano. Eles o amavam, o veneravam e confiavam nele. Mas ele os desapontou. Ele se valeu da mentira e da falsidade. Acho que nenhum povo teria suportado tanta traição sem ódio e amargura.

Kim ainda tinha muitas perguntas, mas nesse meio tempo seus guias pararam diante de uma porta alta e fechada, que se abriu silenciosamente.

O Conselho dos Sábios! Como ninguém lhe explicara do que se tratava, Kim teceu algumas conjeturas a respeito, e agora podia constatar que a realidade correspondia exatamente àquilo que havia imaginado.

Entraram numa sala bastante ampla. Havia apenas uma mesa pesada e redonda ao redor da qual se encontravam reunidos cerca de uma dúzia de homens. Eram, em sua maioria, anciãos de cabelos brancos, como, aliás, imaginava que os sábios deviam ser. Mas também havia jovens, homens na flor da idade. Para surpresa de Kim, Priwinn também estava presente, sentado em uma cadeira de encosto alto.

Kim olhou para Temístocles, mas o mago lhe fez um sinal, o que provocou um murmúrio nervoso entre os presentes. Kim deparou com o olhar irritado de Priwinn e só então se dera conta de que pensara em voz alta. Sem graça, baixou os olhos. Temístocles colocou a mão sobre seu ombro e o levou para a mesa, onde havia duas cadeiras vazias à espera de ambos.

— Percebemos a tua surpresa, Kim — manifestou-se uma voz profunda.

Kim ergueu os olhos e se viu confrontado com o olhar sério, porém um tanto indulgente, de um homem alto, de cabelos escuros, sentado entre Priwinn e um ancião.

— Eu compreendo a tua estranheza ao ver uma criança entre o Conselho dos Sábios.

Priwinn, pelo jeito, não gostou da palavra “criança”. O homem sorriu e continuou:

— Tu esperavas encontrar apenas anciãos, mas é preciso considerar que o nosso destino não é guiado somente pela sabedoria da idade. A experiência e a sabedoria dos velhos é importante, mas não basta. O mundo precisa da impetuosidade dos jovens, assim como a sabedoria, que só se adquire com a idade. A união dos dois — sabedoria e impetuosidade — é a medida certa para que possamos tomar decisões importantes. Juventude e idade! Ambos se completam.

Ele sorriu novamente, inclinou-se para trás e olhou para Temístocles:

— No que diz respeito ao motivo da tua vinda, Senhor de Gorywynn, meu filho me contou que tu tiveste um confronto com as armaduras negras e que sofreste grandes perdas.

Temístocles não respondeu de imediato. Ponderou as palavras e depois se pronunciou:

— Isso está correto, Harkvan. Mas essa não é a razão pela qual estamos aqui. Perdoe minha franqueza, mas não nos resta muito tempo... Aliás, talvez não nos reste tempo algum. Eu vim para pedir tua ajuda e a ajuda do teu povo.

Temístocles fez uma pausa e Harkvan pediu para que continuasse:

— Märchenmond está ameaçada, uma ameaça muito maior que ainda há alguns dias imaginávamos e que só poderemos enfrentar se unirmos nossas forças.

— Estás falando dos bandos de Boraas?

— Não se trata de bandos isolados que aqui e ali semeiam insegurança, Harkvan. Aconteceu algo que ninguém esperava... isto é, na verdade aconteceram duas coisas. Boraas atravessou a cordilheira com todo seu exército. O grande ataque não deve demorar a acontecer.

— Estamos cientes disso — disse o ancião ao lado de Harkvan. — Também o nosso povo já se confrontou com as espadas dos cavaleiros de Morgon. Mas pagaram um preço bem alto. Boraas irá pensar duas vezes antes de tentar um novo ataque, pois estamos prevenidos.

— Pode até ser, mas na próxima vez não será apenas um punhado de cavaleiros a atacar, mas um exército inteiro. Será a guerra total!

— O Senhor de Gorywynn esquece que Boraas conhece muito bem a força de Caivallon. Um bando, ou mil cavaleiros, tanto faz, nós não os tememos!

— Não serão apenas mil cavaleiros — fez-se notar Kim, que não se conteve, mesmo sabendo que era um imperdoável atrevimento interromper o ancião.

— Não se trata de mil cavaleiros — reforçou. — Serão milhares e milhares, talvez mais de cem mil!

Harkvan franziu a testa:

— Seria melhor te calar enquanto...

— Mas eu sei do que estou falando — exaltou-se Kim. Temístocles lhe lançou um olhar de advertência, mas Kim continuou sem se abalar:

— Perdoem o meu atrevimento, nobres senhores, mas pelo que estou vendo, não estão se dando conta do tamanho do perigo. Eu estive no Reino das Sombras e atravessei a cordilheira em meio ao exército de Boraas. Caivallon é poderoso, mas os cavaleiros de Boraas irão varrê-los do mapa como uma onda gigantesca!

Kim silenciou à espera da tempestade que, sem dúvida, iria se abater sobre ele. Mas para sua surpresa, ninguém falou.

Temístocles colocou uma mão sobre seu ombro:

— As palavras do meu jovem amigo, infelizmente, são a pura realidade, Harkvan — disse.

— E o que tu esperas de nós? — perguntou Harkvan, finalmente.

— A vossa ajuda — repetiu o velho sábio. Harkvan meneou a cabeça:

— Serei franco, Temístocles. Sabíamos da tua vinda. Tu passaste por muitas terras e cidades.

— Sempre pedindo ajuda — completou Temístocles.

— Tu queres nossos guerreiros — comentou Priwinn. Temístocles suspirou:

— É isso mesmo, príncipe. Sozinhos somos fracos, mas encontrei aliados. Unindo nossas forças, seremos fortes. Eu tive grandes esperanças quando vim até aqui... Todos conhecem a bravura dos cavaleiros das estepes e...

Harkvan o interrompeu:

— Tua fala é estranha, Temístocles, em vista do que teu companheiro acabou de dizer. Como podemos dar-te guerreiros se estamos ameaçados? Como poderei ceder-te mil dos meus melhores cavaleiros se Boraas vai atacar Caivallon com seu poderoso exército? Tu pedes que eu te envie meus homens e que deixe Caivallon desprotegido? E as mulheres e as crianças, Temístocles?

— Mas é neles que eu penso. Também sei que não podes ceder nem um único homem.

— Eu não entendo...

Temístocles encarou Harkvan com firmeza:

— E preciso abandonar Caivallon!

As palavras de Temístocles foram um choque para os senhores de Caivallon, que, por alguns segundos, pareciam paralisados. Depois Harkvan levantou-se:

— Tu dizes para...

— Deixar Caivallon — confirmou Temístocles. — Vós sois fortes, Harkvan, mas contra Boraas não tereis nenhuma chance. Reúne as mulheres e as crianças e venha comigo. Em Gorywynn têm lugar para todos.

— Tu estás confuso, velho — irritou-se Priwinn, os olhos flamejando de ódio. — Há incontáveis gerações Caivallon é o baluarte entre leste e oeste, garantindo a segurança do reino. Nós nunca fugimos de um confronto... nunca!

— Nunca apareceu um inimigo tão poderoso como Boraas. Priwinn fez um gesto de desdém:

— Boraas é apenas um velho feiticeiro muito maldoso. Não temos medo dele.

— E do... Lorde Negro? Priwinn estarreceu:

— O que... o que estás dizendo?

— Há pouco falei de duas coisas que aconteceram — disse Temístocles, dando ênfase a cada palavra. — Esta é a segunda: Boraas não veio sozinho. Está acompanhado do Lorde Negro e todos sabem o que isso significa.

— É uma lenda — disse Priwinn, inseguro. — Uma velha lenda contada às crianças...

— Mas é a verdade — retrucou Temístocles. — Vós conheceis a lenda e também conheceis a profecia que nela está contida.

— Superstição. Ninguém jamais viu o Lorde Negro! Kim resolveu intervir de novo:

— Eu o vi!

Priwinn arregalou os olhos:

— Tu?!

Kim confirmou:

— Duas vezes. Naquela ocasião eu não sabia de quem se tratava e também ignorava a profecia que envolve seu aparecimento. Mas eu o vi!

— Foi engano, ilusão — intrometeu-se Harkvan. — Tu deves ter visto um outro guerreiro, talvez o Barão Kart...

— Eu conheço o Barão Kart. Eu vi o Lorde Negro, sem dúvida. Não tenho autoridade para lhes dizer o que fazer, mas vocês deveriam seguir o conselho de Temístocles e nos acompanhar até Gorywynn.

— Bobagem! — disse Priwinn entre lábios cerrados. — Caivallon tem...

— Vamos sucumbir! — interrompeu Kim. — Eu estive lá, Priwinn, eu vi o exército inimigo!

— Pode até ser — disse Harkvan. — Mas tu não consegues avaliar o que significaria para nosso povo deixar Caivallon. Caivallon não é apenas um lugar, é a nossa pátria, a nossa vida, simplesmente não podemos abandoná-lo!

— Eu entendo muito bem — retrucou Kim, pacientemente. — Mas talvez a única chance de salvar Caivallon seja justamente esta... deixá-lo. Talvez seja por pouco tempo. O exército de Boraas tomará o forte e...

O príncipe Priwinn se opôs mais por teimosia que por convicção:

— Caivallon nunca foi tomado pelo inimigo e jamais o será. Não temos medo de ninguém. Kim, nem mesmo de Boraas e do Lorde Negro! Kim suspirou:

— Às vezes fugir requer mais coragem do que resistir, Priwinn. Eu sei do que estou falando, pois eu também fugi. Ficar será um sacrifício inútil.

— E o que tu achas que devemos fazer? — perguntou Priwinn, com voz trêmula. — Correr para sermos caçados como animais selvagens? .';

Temístocles respondeu no lugar de Kim:

— Claro que não. Tu ainda és jovem, príncipe Priwinn, mas, num dado momento, compreenderás que não é covardia fugir de um perigo ao qual não se pode resistir. Tu e todos os teus homens morrerão sem conseguir deter o exército de Boraas. Só em Gorywynn haverá segurança para todos. Só teremos uma chance se unirmos nossas forças.

— Cada palavra tua é uma contradição — disse Harkvan. — Pelas tuas palavras entendo que nem mesmo Gorywynn nos salvará do Lorde Negro. Tu conheces a profecia tão bem quanto eu, Temístocles. Märchenmond desaparecerá com o aparecimento do Lorde Negro!

Harkvan encarou os membros do Conselho dos Sábios um a um:

— Sou vosso soberano, mas aqui no Conselho o meu voto tem o mesmo peso que o vosso voto. Eu já disse o que penso a respeito, mas cada um de vós está livre para formar vossa própria opinião. Portanto, vamos votar... Alguém ainda quer fazer uso da palavra?

Kim estava tão apreensivo que seu coração disparou. Pela expressão no rosto dos homens já dava para notar que decisão iriam tomar. Respirou fundo e levantou:

— Eu quero dizer algo! Harkvan inclinou a cabeça:

— Pois fala.

Kim engoliu em seco. Sentiu o olhar dos presentes e não pôde evitar que seus joelhos tremessem.

— Nobres senhores — começou, inseguro. — Eu imagino como deve ser difícil tomar a decisão que Temístocles lhes pede. Eu vi seu castelo e entendo muito bem o que significa para vocês deixar sua pátria, seu lar. Mas também conheço o tamanho da ameaça que cerca vocês e todos os habitantes desta terra. O príncipe Priwinn provavelmente lhes falou das minhas experiências, de modo que não é necessário repetir minha história. Eu sou o único aqui que esteve do outro lado das montanhas. Eu vi Morgon, o Reino das Trevas, e vi os seres que lá vivem. Não posso lhes dizer o tamanho exato do exército de Boraas, não sou nenhum general e não entendo nada de táticas de guerra. Talvez vocês até consigam deter o inimigo, talvez os muros de Caivallon até resistam às hordas de Boraas... julgar isso não me cabe. Mas eu vi as terras do outro lado e falei com pessoas que vivem sob o jugo de Boraas. Eu vi o que foi feito de terras outrora ricas e belas, vi no que ele transformou as florestas, os rios e os lagos. Talvez vocês consigam segurar Caivallon, mas não poderão impedir que Boraas também destrua esta terra e com ela toda Märchenmond. Nada poderão fazer quando ele queimar suas estepes, quando as armaduras negras pisotearem seus campos, quando transformarem as florestas de Märchenmond em obscuras matas e seus lagos em charcos fedorentos. Podridão e morte irão se espalhar pelo país. Fome, miséria e medo dominarão onde agora reina felicidade e harmonia. E quanto a vocês, serão prisioneiros em seu próprio castelo!

Kim silenciou e olhou ao redor. Os rostos dos homens estavam impassíveis. Só nos olhos de Priwinn viu ironia. Kim deu de ombros, levantou e saiu da sala, batendo a porta. Sabia que agira de maneira impulsiva, descontrolada, mas antes que pudesse voltar atrás, Temístocles o alcançou e, juntos, retornaram aos seus aposentos.

— Eu acho que estraguei tudo — disse Kim, desanimado. — Mas não consegui me controlar, eu...

Temístocles o encorajou:

— A tua fala impressionou o Conselho. Cada palavra que disseste é verdade.

— E o que vai acontecer agora?

— Estão discutindo... Não sei quanto tempo vai durar até que tomem uma decisão, mas não podemos mais esperar. Vamos partir ainda esta noite para Gorywynn. Harkvan vai nos enviar a decisão do Conselho por um mensageiro.

— E, o que você acha? Temístocles levantou os ombros:

— E difícil fazer um prognóstico. Nem todos do Conselho pensam como Priwinn. Eu espero que a razão vença. No fundo, tu só disseste o que todos já sabiam.

Kim foi até a janela e olhou para a estepe envolvida por uma atmosfera de paz. A lua cheia iluminava o céu, derramando sobre a paisagem sua luz prateada.

— Quando estaremos em Gorywynn? — perguntou o garoto.

— Amanhã.

Temístocles se pôs ao seu lado e apontou para o rio. De onde eles estavam, ouvia-se o fraco murmúrio das ondas.

— Harkvan se prontificou a colocar uma balsa à nossa disposição. O caminho para Gorywynn é longo, mas pelo rio é mais rápido.

Kim gostaria de ter conhecido melhor o castelo de Caivallon. Partir lhe causou uma leve sensação de pesar. Mas também reconheceu que era preciso apressar-se.

Não demorou muito e apareceu uma delegação de cavaleiros das estepes para buscá-los.

Deixaram Caivallon sem olhar para trás uma única vez sequer. Temístocles e seus homens montaram os unicórnios. Kim procurou por seu cavalo e o descobriu, sozinho, amarrado em um poste perto do portão, o que o deixou irritado. Mas também tentou entender essa atitude discriminatória. Os moradores de Caivallon tinham uma aversão natural à cor preta.

Passaram pelo portão e, em silêncio, dirigiram-se para o sul, aproximando-se cada vez mais do rio.

Era uma balsa grande, feita de esteiras entrelaçadas de maneira bastante grosseira. Mas, apesar do aspecto rudimentar, comportou não só os dez cavaleiros brancos e os quatros homens das estepes, que manejavam o leme, como também os animais. O chão balançou e oscilou bastante e o pesado casco dos animais fez com que entrasse água espumante pelo entrançamento. Os homens das estepes dirigiram a balsa para o meio do rio, depois amarraram o leme e deixaram que a correnteza os levasse. A velocidade aumentou rapidamente e não tardou para que as margens passassem tão depressa por eles que já não dava mais para ver as coisas com nitidez. E a velocidade continuava a aumentar.

Kim desceu do cavalo, livrou-se do capacete e da espada e, na tentativa de manter o equilíbrio na balsa oscilante, aproximou-se de Temístocles, que estava sentado na parte dianteira da balsa em meio a seus homens. Ele sorriu para Kim e fez um sinal para que o garoto sentasse ao seu lado:

— Senta-te, Kim. O caminho para Gorywynn ainda é longo e, seja como for, estamos condenados à inércia.

Sob seus pés, o rio rumorejava e, vez ou outra, uma onda maior os cobria com espuma branca, de modo que, em pouco tempo, estavam totalmente encharcados. Lá também estavam Gorg e Kelhim, e Kim se deu conta de que não mais os vira desde que chegaram a Caivallon. O rosto do gigante apresentava um ar sério e fechado.

Antes que pudesse perguntar, Temístocles esclareceu:

— Gorg fez questão de nos acompanhar. Eu quis que ficasse em Caivallon, mas ele insistiu em acompanhar-te.

— Acompanhar-me?

— Claro — respondeu Gorg, tentando, inutilmente, falar em voz baixa. — Tu achas que eu tive essa trabalheira toda para depois ficar mofando em Caivallon? Sabe-se lá o que vai acontecer-te!

Temístocles esclareceu:

— Talvez Gorg tenha esquecido de contar que ele te acompanha desde que tu deixaste a habitação dos Taks.

Kim ficou pasmo:

— Então... Então eles me vigiaram o tempo todo?

— Sim... os dois. Gorg e Kelhim nunca se separam.

Kim permaneceu mudo. Depois de alguns minutos, levantou-se e, com toda a força, deu um pontapé nos traseiros de Gorg e Kelhim.

Viajaram pelo “Rio Desaparecido” a noite toda. Kim queria perguntar a Temístocles por que o rio tinha esse nome, mas estava sono-lento demais. O balanço constante e o murmúrio das ondas o fizeram adormecer e só acordou ao amanhecer, quando Temístocles o sacudiu levemente. Demorou alguns segundos para se orientar. Depois lembrou onde estava:

— Chegamos? — perguntou.

— Quase.

Temístocles esticou o braço:

— Veja, Kim. Lá está Gorywynn.

O rio fez uma curva para, em seguida, desembocar em um lago.

E, na margem oposta, a cerca de dois ou três quilômetros de distância, estava Gorywynn!

Kim ficou boquiaberto, sem fala! Ele sempre soube que Gorywynn era belo, mas a realidade superou todas as suas expectativas.

Construído sobre uma faixa de terra comprida, foiciforme, que adentrava o rio como um dedo curvado, Gorywynn era verdadeiramente um castelo encantado! Kim o comparou a uma pedra preciosa, gigantesca e reluzente. Suas torres se erguiam infinitamente para o céu límpido e seus muros eram tão altos que já não dava mais para ver as cornijas e os frisos. Os murais vítreos do castelo refletiam a luz do sol em inúmeros reflexos reluzentes. Kim teve a impressão de presenciar uma verdadeira explosão de cores. Pássaros brancos sobrevoavam as torres e sobre o lago deslizavam pequenos barcos de madeira, guarnecidos com velas coloridas.

A balsa se aproximou dos muros do castelo. Só a muito custo Kim conseguiu desviar os olhos da fantástica visão. Os outros já estavam montados em seus unicórnios e esperavam, impacientes, que a balsa atracasse. Muitos dos barcos que cruzavam o lago se aproximaram e, quando a balsa foi se tornando mais lenta, cordas e ganchos foram lançados e presos à balsa. Seguiram o último trecho até Gorywynn rebocados pelos barcos.

Os muros vítreos do castelo se abriram e entraram num pequeno porto, emoldurado por um cais, também relativamente pequeno. Kim havia esperado um grande comitê de recepção, no entanto, foram recebidos apenas por três homens vestidos de branco.

Temístocles foi o primeiro a desembarcar com seu unicórnio. Trocou algumas palavras com os homens e depois fez um sinal para os outros. Quando Kim deixou a balsa, Temístocles o chamou:

— Na verdade, eu queria ter feito uma grande festa para comemorar a tua chegada. Mas, durante a minha ausência, surgiram alguns problemas que eu tenho de resolver.

Pela expressão no rosto dos homens, Kim pôde ver que as notícias não eram boas.

— Festejaremos à noite — acrescentou Temístocles. — Mas agora, Kim, tenho de deixar-te. Meus homens cuidarão de ti e do teu cavalo.

Ele fez um sinal e um dos homens pegou as rédeas do animal e o levou embora.

— Até mais tarde — despediu-se Temístocles. — Aproveite para conhecer Gorywynn, tu vais gostar.

Dizendo isso, montou o unicórnio e saiu em rápido galope, deixando Kim perplexo. Algo muito sério deve ter acontecido para deixar o velho mago tão afobado. Uma grande sombra escureceu o chão brilhante. Kim viu Gorg, o gigante, como sempre acompanhado por Kelhim, o urso, que dessa vez se movimentou sobre as quatro patas, ficando, assim, na altura do rosto de Kim.

— Ele só é alto quando está montado no seu cavalo negro — resmungou o urso.

Gorg, com o rosto sério e esfregando o traseiro, acrescentou:

— E inacreditável, mas o rapazinho teve a ousadia de me chutar. Ontem, na presença de Temístocles, ele era a coragem em pessoa, mas agora ele está só, não é mesmo? — perguntou, lançando um breve olhar para o urso.

Kim olhou em volta. Temístocles e seus homens sumiram e o último barco acabara de deixar o porto para velejar em direção ao lago aberto. Ele estava sozinho com os dois.

— E uma boa oportunidade para retribuir o chute, não é? — perguntou Kelhim.

Gorg se postou na frente de Kim e barrou a passagem:

— E aí? — retumbou. — Continuas corajoso?

Kim esticou o queixo, pronto para a luta:

— Vocês dois não me pegam mais com essas brincadeiras idiotas.

—Talvez devamos dar-te uma lição — ameaçou Kelhim, levantando a pata direita, como se quisesse pôr em prática a ameaça.

Kim não estava nem um pouco impressionado:

— Parem com isso e me digam por que Temístocles se mandou tão de repente.

— Isso até eu gostaria de saber — murmurou Gorg. — Estamos por fora como tu, mas ele com certeza vai nos contar tudo.

Gorg esticou o corpo e se dirigiu a Kelhim:

— Vamos aproveitar o tempo e visitar nosso velho amigo. Há anos que não vejo Rangarig. Ele ficará feliz com a nossa visita.

O urso murmurou algo que provavelmente devia ser uma confirmação.

— Tu nos acompanhas? — perguntou a Kim.

— Quem é Rangarig? Gorg abriu um sorriso:

— Nosso amigo. Tu gostarás dele, tenho certeza. Além disso, é melhor continuares do nosso lado. Temístocles não iria gostar se tu te perdesses.

— Eu sei me cuidar.

— Claro, mas Gorywynn é grande e é muito fácil se perder aqui. E, uma vez, perdido, demora muito até encontrar o caminho de volta.

Kim inclinou a cabeça para trás e olhou para os muros vítreos do castelo, que pareciam alcançar o céu. Gorg tinha razão, Gorywynn era gigantesco! Provavelmente, em pouco tempo, estaria irremediavelmente perdido se ousasse aventurar-se por conta própria. Mas também já estava farto de ser paparicado o tempo todo.

— Rangarig, com certeza, ficará feliz em conhecer-te — reforçou Gorg.

Kim ainda hesitou por um momento, depois deu de ombros:

— Que seja, então! Mas só se vocês prometerem me mostrar Gorywynn mais tarde.

— Rangarig mora no outro lado do castelo. No caminho para Já tu vais conhecer grande parte da cidade. Agora, vem!

Os três subiram uma ampla escadaria de vidro, que dava num corredor alto, claro, inundado pelo sol e que, por sua vez, levou-os a outra escadaria, construída ao ar livre. Kelhim não exagerara: estava conhecendo algumas das maravilhas de Gorywynn, que se apresentava como uma jóia de rara preciosidade, com milhares de facetas reluzentes. Era difícil acreditar que essa raridade fora erguida pela mão do homem. Tudo era radiante e claro e os lugares não tocados pela luz do sol eram iluminados por tochas e um mar de velas acesas, num jogo de luz e cor sem igual. Aliás, todas as salas, corredores e escadarias que atravessavam pareciam ser feitos de luz e cor.

Além disso, Gorywynn estava repleta de palpitante vida. Por toda parte havia gente, das mais variadas aparências e usando os mais diferentes tipos de roupas. Pelo visto, as pessoas deviam ser de origens bem distintas. Gorg explicou que todos esses povos atenderam ao apelo de Temístocles e vieram para Gorywynn para defender o castelo contra Boraas e suas hordas.

As palavras do gigante deixaram Kim triste. Gorywynn era um castelo encantado, um reduto de paz e alegria, ameaçado pelas garras maléficas de uma guerra iminente.

Depois de atravessar o castelo em toda a sua extensão, chegaram a um amplo pátio cercado por muros de pedra. Kelhim pediu que esperassem e, aos pulos, desapareceu em uma passagem alta e em forma de arco localizada no outro lado do pátio. Por alguns segundos tudo permaneceu em silêncio, depois, de repente, irrompeu uma gritaria e um bufar tão horripilante que Kim só pensava em fugir dali. Mas antes que pudesse tomar alguma atitude, apareceu Kelhim e, no encalço do urso, um enorme dragão dourado!

O monstro inclinou a cabeça escamosa para Kelhim e a goela escancarada deixou à mostra uma fileira dupla de dentes compridos e pontiagudos. Apavorado, Kim soltou um grito ao ver Kelhim escapar das garras do dragão, que, logo em seguida, varreu o urso com um único golpe de sua cauda gigantesca.

— Rangarig! — gritou Gorg tão alto que quase estourou os tímpanos do rapaz.

O dragão ficou imóvel, virou a imponente cabeça e olhou primeiro para o gigante, depois para Kim, fitando-os com repugnantes olhos vermelhos. O monstro atravessou o pátio, arrastando sua cauda e emitindo abafados ruídos, semelhantes a um remoto trovejar.

— Gorg! — o dragão cutucou o peito do gigante num gesto que provavelmente devia ser brincalhão, mas que fez o gigante cambalear para trás e cair no chão. O dragão soltou uma gargalhada e disse:

— Faz tanto tempo que não nos vemos! Que bom reencontrar-vos os dois ao mesmo tempo!

Parou diante de Kim, escancarou a goela e disse:

— Ainda mais que me trouxestes um delicioso petisco!

Kim deu um pulo para trás, tropeçou na cauda de Rangarig, cuja ponta se enrolou em seus pés.

— Mas que é isso? — retumbou o dragão. — Tu não vais fugir, vais? Não quero te machucar, é só te abocanhar e... pronto, tu já eras!

Horrorizado, Kim cobriu o rosto com as mãos. O dragão soltou seus pés, mas Kim estava tão estarrecido que não conseguiu mover um único músculo do corpo.

Enquanto isso, Gorg estava às gargalhadas — até segurava a barriga de tanto rir.

— Já basta, Rangarig! — berrou. — Kelhim já fez essa brincadeira com ele antes.

Rangarig bufou, decepcionado. Ergueu a cabeça e recuou alguns metros. O sol que adentrava o pátio derramou seus raios sobre o corpanzil do dragão, fazendo-o reluzir como se fosse ouro líquido.

— Então tu és Kim — constatou.

Kim já estava mais calmo, mas ainda não conseguia falar. Enquanto isso, o dragão continuou a dominar a cena:

— O grande Kim, corajoso, forte, inteligente... tz, tz, tz. Temístocles falou muito de ti, mas confesso que te imaginava bem maior.

— Eu... eh... isto é... — gaguejou Kim. Balançou a cabeça e levantou do chão, onde, até agora, estivera sentado. Já não estava mais com medo, mas bastante irritado:

— Eu não sei o que Temístocles contou para vocês, mas parece que sou um alvo fácil para brincadeiras idiotas e sem graça.

Rangarig recuou ainda mais, bateu com a cauda no chão e apoiou o queixo nas patas dianteiras. Seus olhos estavam na altura do rosto de Kim.

— Então tu és Kim — repetiu. — Tu escolheste um péssimo momento para fazer visitas.

E, voltado para Gorg e Kelhim:

— Aliás, vós também. Ahhhrg, os tempos são ruins, muito ruins.

— Há semanas estão todos em polvorosa! E todas essas pessoas de fora... — o dragão balançou a cabeça com tanta força que as escamas tiniram.

— Não se tem mais sossego... Gente por toda parte. Hoje à noite vai ter uma reunião com muitos homens importantes, mas temo que o resultado não seja nada bom.

O dragão encarou Kim, fechou um olho e resmungou: — Tu tens algo a ver com isso, pequeno herói?

— Acho que sim — confirmou Kim, meio sem graça. — Pelo menos indiretamente. Infelizmente sou o portador de más notícias. Eu não queria, mas...

Rangarig suspirou, provocando um ruído semelhante a pedras que, de grande altura, tombavam na água.

— Tu te vestes como o inimigo, pequeno herói, mas tu és um dos nossos, como explicas isso?

— Era a única chance de escapar de Boraas — respondeu Kim, irritado com os constantes comentários sobre sua roupa.

— Tu estiveste do outro lado da Cordilheira das Sombras?

— Pois é. Eu encontrei Boraas e tive o ambíguo prazer de conhecer o seu castelo, inclusive os cárceres.

No rosto do dragão fez-se notar uma expressão de surpresa:

— Tu estiveste em Morgon?

Kim confirmou com a cabeça e contou:

— E consegui escapar, o que, aliás, não foi só mérito meu. Eu tive muita sorte.

— Tu és muito modesto. É preciso mais do que sorte para escapar de Morgon. Ninguém o conseguiu até hoje. Eu sei que estás falando a verdade, eu li teus pensamentos. Admirável, realmente admirável!

— Você lê meus pensamentos? — perguntou Kim, assustado.

— Não diretamente — intrometeu-se Kelhim, que estava sentado ao lado do dragão.

— Rangarig não sabe ler os pensamentos, mas ele percebe quando alguém está mentindo.

— É um dom muito útil — confirmou o dragão. — Se eu não o tivesse, eu te julgaria um mentiroso.

Rangarig balançou a cabeça e bocejou:

— Tz tz tz... Temístocles não exagerou quando falou de ti. Ele se culpou por ter te colocado em perigo; achou que não devia ter-te chamado.

— Eu sei — disse Kim. — Mas a culpa não é de Temístocles. Boraas me atraiu para uma cilada e eu caí.

— Isso é o que tu acha — resmungou Rangarig. — E Temístocles também acha. Mas não é verdade, tudo aconteceu como tinha de acontecer.

Kim olhou para o dragão, estupefato:

— Eu não entendo...

— Muitos caminhos conduzem a Märchenmond — disse Rangarig, evasivo. — Todo aquele que quiser nos visitar não poderá ser influenciado, isto é, nenhum habitante de Märchenmond e nenhum morador da Cordilheira das Sombras poderá influenciar a escolha do seu caminho. Foi o acaso que fez a tua máquina cair do outro lado da Cordilheira das Sombras, um acaso que, certamente, veio ao encontro dos sinistros planos de Boraas. Mas ele não teve nada a ver com isso.

— Mas, então...

— Lembra-te do que Temístocles te disse: cada um tem de seguir seu próprio caminho para Märchenmond. Pois então, o caminho que tu percorreste foi o teu!

As palavras do dragão deixaram Kim atordoado:

— Então tudo... isto é... Morgon, minha fuga, o encontro com o Lorde Negro... tudo...

— Faz parte do teu caminho — completou Rangarig. — Existem milhares de caminhos para chegar até nós, todos são difíceis, Kim. Talvez o teu caminho tenha sido o mais árduo de todos, mas o teu sacrifício foi necessário, pois só assim pudeste compreender os poderes malignos que temos de enfrentar e só assim fomos avisados a tempo.

Rangarig deu um de seus suspiros profundos:

— Mas o caminho que nos espera será ainda mais árduo — profetizou. — Tu vais precisar de uma força gigantesca, Kim. Maior, talvez, do que és capaz de ter. Mas tu vais conseguir!

Falando isso, o dragão se virou e voltou para a sua moradia. Kim o seguiu com os olhos até ele desaparecer por baixo do portal arcado.

— O que ele quis dizer com isso? — perguntou, em voz baixa. Kelhim ergueu os ombros e balançou a cabeça:

— Rangarig é um cara estranho — disse, pensativo. — Às vezes ele pressente as coisas. Ele gosta de falar em charadas. Alguém deve ter-te dito que os dragões costumam falar em charadas. Certo é que muitas vezes é difícil entender o que ele quer dizer.

O urso soltou uma gargalhada:

— Mas a gente precisa admitir que sempre tem alguma verdade naquilo que ele diz. Às vezes as coisas não acontecem como ele diz, mas, na maioria das vezes, ele tem razão.

Pensativo, Kim franziu a testa. As palavras de Kelhim pareciam-lhe tão enigmáticas quanto as do dragão. Mas ele preferiu ficar calado.

Gorg lançou um olhar para o céu. O sol estava a pino — era hora do almoço.

— É melhor voltarmos — sugeriu. — Tenho fome. Retornaram pelo mesmo caminho. As pessoas, respeitosamente, deram-lhes passagem ou simplesmente paravam para lhes lançar olhares curiosos. Kim se questionou se a sua roupa causava estranheza ou se Temístocles falara sobre ele. Seja como for, ele sentiu que os moradores de Gorywynn o tratavam com certo respeito, o que o deixou sem graça.

Procuraram Temístocles na sala do trono, mas não o encontraram. Ninguém sabia do seu paradeiro. Tudo que se sabia era que deixara a sala visivelmente nervoso e, desde então, não fora mais visto.

Kelhim murmurou algo e deitou no chão ladrilhado coberto pelo sol, diante de uma das grandes janelas. Em vez de almoçar iria tirar uma soneca, anunciou, mal-humorado.

Gorg ficou irritado:

— Esse cara tem a cabeça fria! O que faço eu?

Kim se divertiu com os dois. Curioso, debruçou-se no parapeito da janela e olhou para um pátio banhado pelo sol, onde pessoas de branco andavam de um lado para outro, aparentemente sem objetivo definido. Diante de um dos muros vítreos havia uma série de barracas multicolores, onde eram vendidas as mais diversas mercadorias e onde saltimbancos apresentavam sua arte. No alto dos muros esvoaçavam flâmulas coloridas e o vento trazia os sons alegres de uma música, acompanhada pela voz clara de uma criança. Era uma imagem de absoluta paz.

Por quanto tempo aquelas pessoas continuariam a cantar e a rir, pensou Kim, deprimido. Num futuro não muito distante, as colinas verdejantes além dos muros estariam cobertas pelas armaduras negras e, em vez do alegre movimento que agora reinava no pátio, ouvir-se-iam os gritos de guerra e o tinir das armas. Os muros vítreos não iriam resistir ao ataque do exército de Boraas!

Com um suspiro doído, Kim se voltou para a sala do trono. Era um salão alto e claro, com amplas janelas, que em dois lados ocupavam a parede toda. O chão era feito de mosaico cintilante e as paredes eram ornadas com quadros e tapetes, dispostos de maneira bastante desordenada, sem, no entanto, causar uma impressão desagradável. Grande parte do ambiente foi ocupada por uma mesa comprida ao redor da qual estavam agrupadas uma série de cadeiras de madeira, ricamente entalhadas e de encosto alto. Na ponta da mesa havia uma espécie de trono, desprovido de qualquer ornamento, ladeado por duas colunas de pedra, em cuja ponta estava sentado um corvo, também de pedra.

— O trono de Märchenmond — explicou Gorg.

Curioso, Kim aproximou-se do trono. Parecia-lhe muito simples para ser o trono de um reino poderoso como Märchenmond. Mas, por outro lado, tinha de admitir que era justamente essa simplicidade que mais o impressionou.

— Então este é o trono de Temístocles — murmurou.

— Não — retrucou Gorg. — Tu não entendeste. E o trono de Märchenmond!

— Mas... eu pensei que Temístocles fosse...

— Nosso soberano?

Gorg riu como se Kim tivesse dito algo muito engraçado.

— Pois ele não é. Ele é o senhor de Gorywynn, mas não é o rei.

— Mas... então, quem ocupa este trono?

— Ninguém, ou melhor, cada um de nós. É uma cadeira como qualquer outra e nem é confortável. Quem sentar nela é nosso rei.

— Não estou entendendo nada — disse Kim, atordoado. — Você quer dizer que o trono de Märchenmond não é nada mais do que uma cadeira vazia e que qualquer um pode ocupá-la?

Gorg balançou a cabeça:

— Pode e não pode. Märchenmond não tem rei... ou melhor, tem inúmeros reis. Aqui cada um é rei, se quiser. Todos somos iguais, porque ninguém, mesmo se for poderoso, pode dar ordens.

— Você quer dizer — perguntou Kim, incrédulo — que aqui ninguém dá ordens, ninguém é responsável pela lei, pelas punições...

Gorg se mostrou paciente:

— Para que ordens se não tem ninguém para recebê-las? Não temos leis, Kim. Pelo menos não no papel. Aqui é tudo diferente de lá de onde tu vens. Mas talvez a maior diferença seja que aqui não temos leis e, conseqüentemente, não temos punições.

— E se alguém cometer um crime? — indagou Kim.

— Que crime? — contestou Gorg, admirado. — Por que alguém cometeria um crime? Há comida e bebida em abundância, as terras são vastas, infinitamente amplas. Se alguém não gosta dos vizinhos, está livre para se mudar. E se porventura alguém estiver com fome, poderá pedir pão e vinho e o receberá. Eu sei que lá de onde tu vens são cometidos muitos crimes por ódio, inveja ou ganância. Aqui não conhecemos o ódio, Kim, e também não existe inveja porque somos todos iguais, ninguém possui mais do que os outros e todos têm aquilo de que necessitam. E é por isso que não precisamos de um soberano.

Pensativo, Kim olhou para o trono vazio. Um trono vazio! Haveria símbolo melhor para esse país, onde, apesar de não existir um soberano, todos eram reis?

— Posso... posso sentar-me nele, só por alguns segundos? Gorg sorriu:

— Por que não?

Um pouco hesitante, Kim subiu os poucos degraus até o trono e sentou-se. A madeira era fria e dura. Ele se reclinou, tentou encontrar uma posição mais confortável e colocou as mãos no apoio para os braços, lisos e sem ornamento. Uma sensação estranha se apossou dele, algo indefinido, um desagradável arrepio. Um trono... o trono de Märchenmond! Gorg tinha razão, era uma cadeira como qualquer outra, mas era justamente isso que a tornava especial. Kim fechou os olhos e pensou no trono negro de Morgon. Talvez o trono de Märchenmond fosse em breve substituído pelo terrível trono negro do tirano de Morgon!

O ruído de passos se aproximando interrompeu seus pensamentos nada alegres. Abriu os olhos e viu Temístocles entrar na sala na companhia de uma dúzia de homens em vestimentas bem distintas. Temístocles abriu um sorriso carinhoso quando viu Kim sentado no trono.

— Pelo que vejo, Gorg já te mostrou tudo.

Sem graça, Kim queria levantar-se, mas Temístocles o impediu com um gesto:

— Fica.

Mas Kim levantou-se e desceu do trono. Kelhim acordou, ergueu-se bocejando e balançou a imponente cabeça:

— Está na hora da comida? — perguntou.

— Ainda não, velho amigo — disse Temístocles. — Mas é bom que os três estejam aqui.

O mago apontou para a mesa:

— Sentai, temos assuntos sérios para discutir.

Kim sentou em uma das cadeiras e Temístocles ocupou o lugar na ponta da mesa, enquanto os outros se acomodaram nas cadeiras restantes.

— Peço desculpas pela pressa com que convoquei esta reunião — começou Temístocles. — Mas aconteceram... coisas que exigem ume resolução.

Um barulho vindo de fora o interrompeu. Todos viraram a cabeça na direção das janelas de onde veio o estranho ruído. De repente apareceu um enorme olho vermelho a espreitá-los com curiosidade, Rangarig, o dragão dourado, espremeu seu corpanzil no balcão, estreito demais para ele, derramando uma cascata de escamas douradas na janela. O balcão rangeu de maneira assustadora, mas não despencou. Rangarig suspirou, enfiou a cabeça pela janela do meio, apoiando-se com as patas dianteiras no parapeito das outras duas. Temístocles saudou o dragão:

— Rangarig, obrigado por teres vindo. Perdoes o desconforto que te causamos.

Rangarig soltou sua risada retumbante como trovão, que fez a mesa estremecer. Do teto desprendeu-se uma pedra, estalando no chão, onde se despedaçou em milhares de cacos.

Temístocles franziu a testa:

— Cuidado, Rangarig, cuidado. Lembra-te de que esta é uma casa feita para homens e não para dragões.

Rangarig soltou outra risada, dessa vez ainda mais alta, provocando a queda de um dos quadros da parede, que se espatifou no chão.

Temístocles suspirou:

— Tu talvez sejas o único ser sobre a face da Terra a matar os inimigos pelo riso.

Temístocles olhou para o teto, onde se formou uma rachadura, e suspirou de novo.

— Vamos começar, o que temos a tratar é muito sério.

O mago encarou os presentes um a um. Quando seu olhar caiu sobre Kim, demorou um pouco mais:

— O inimigo não ficou parado durante a nossa ausência. Nossos emissários reportam que um grande exército deixou a Cordilheira e está a caminho do sul.

Essa notícia deixou Kim profundamente assustado. Não achou que Boraas permaneceria por muito tempo em seu refúgio nas montanhas, mas esperara que lhes seriam concedidas pelo menos algumas semanas para que pudessem se preparar melhor, esperança esta que agora já não existia.

Temístocles se voltou para Kim:

— Os homens aqui reunidos são representantes dos diversos povos e terras de Märchenmond. Juntos temos de encontrar uma saída.

— Quantos cavaleiros Boraas mandou desta vez? — indagou Kim.

Temístocles hesitou por um momento. Depois respondeu:

— Muitos. Aliás, demais para que possamos detê-los. Mais de cinco mil, segundo os nossos emissários.

— Cinco mil cavaleiros! E isso era apenas uma parte ínfima do exército de Boraas...

— Não é preciso esclarecer o que isso significa — continuou Temístocles. — O grande ataque está prestes a acontecer. Os cavaleiros já cruzaram o Rio Desaparecido e continuam sua marcha para o sul.

— Isto quer dizer que...

— Eles irão cercar Gorywynn e cortar nossos caminhos de fuga — fez-se notar um homem magro, barbudo, com a roupagem verde característica dos habitantes das florestas. — Tão logo tiverem se posicionado, virá o exército restante para nos atacar abertamente.

— É preciso repelir as armaduras negras!

— Não vamos conseguir — disse Temístocles, deprimido. — Foi tu, Kim, quem nos alertou sobre o poderoso exército de Boraas. Não podemos nem mesmo enfrentar os cinco mil homens que virão primeiro; não temos o número suficiente de homens para um confronto!

— E os cavaleiros das estepes, se... Temístocles lhe cortou a palavra com um gesto:

— Caivallon fica praticamente em frente às linhas inimigas. Talvez Boraas esteja planejando um ataque, mas talvez ele poupe o castelo das estepes. Seja como for, não podemos contar com a ajuda deles.

— Mas, então, o que faremos? Temístocles baixou os olhos:

— Nada — disse com a voz tão baixa que mal dava para ouvir.

— Não podemos fazer mais do que esperar e nos preparar para o ataque.

Kim ficou perplexo:

— Mas vocês não podem simplesmente cruzar os braços e esperar até que a desgraça se abata sobre vocês! Vocês têm de fazer alguma coisa! É preciso reunir os aliados, organizar,um exército, repelir o ataque... eu vi soldados em Gorywynn.

— Mas é isso que Boraas quer! Ele espera que retiremos nossas tropas de Gorywynn!

— Ele conta com a sua inércia! — exclamou Kim, com a voz trêmula de nervosismo. — Vocês não vêem o que Boraas tem em mente? Ele os está cercando! Ele vai sitiar o castelo! Se continuarem de braços cruzados, ele não precisará fazer nada, nem mesmo atacar! Ele só precisará colocar o exército em posição e esperar até que a fome e a sede forcem vocês a se render, sem luta!

— Gorywynn é grande — contestou Temístocles. — Estamos preparados para o estado de sítio. Podemos agüentar vários anos, se for o caso.

— E Boraas também espera anos. Você sabe que ele se encontra na melhor posição!

Temístocles suspirou:

— Eu sei — murmurou. — Eu já te falei uma vez, Kim, não somos um povo de guerreiros. Märchenmond é uma terra de paz, não de guerra. Se enfrentássemos o exército das armaduras negras em campo aberto, como tu sugeres, perderíamos de maneira desastrosa, ainda que tivéssemos um número maior de combatentes. Não queremos essa guerra e não podemos sair dela como vencedores.

— Ainda está em tempo — insistiu Kim. — O exército de Boraas ainda não chegou até aqui. Os muros de Gorywynn são poderosos e não será fácil, nem mesmo para Boraas, derrubá-los. Talvez ele queira mesmo nos sitiar, mas, mesmo assim, teremos uma chance. Podemos organizar uma defesa eficaz...

Temístocles levantou as mãos num gesto de rejeição:

— Não adianta, Kim. Eu devia ter-te dito logo, mas eu pensei que tu soubesses... Não estamos aqui reunidos para deliberar sobre a guerra, mas para arquitetar um plano que vamos submeter a Boraas e que ele possa aceitar. Sabemos que não temos nenhuma chance, mas queremos poupar o povo.

— Eu não acredito! — exclamou Kim. — Vocês querem capitular?

Temístocles inclinou a cabeça:

— Essa é a denominação que dão lá de onde tu vens.

— Mas... vocês não podem... não podem simplesmente desistir sem lutar! — exclamou Kim. — Vocês não conhecem o Reino das Sombras! Eu estive lá! Você ouviu minhas palavras diante do Conselho dos Sábios, Temístocles. Vocês não têm a menor idéia do que Boraas é capaz de fazer com esta terra e seus habitantes! Nada vai ser como antes, vocês...

Novamente Temístocles o interrompeu com um gesto:

— Claro que sabemos de tudo isto, Kim. Mas, independentemente da atitude que tomarmos, Märchenmond será destruída. A diferença é que talvez ganhemos algumas semanas e o número de mortos seja bem menor do que numa luta desigual e sem sentido.

— Mas a luta não será em vão! — revoltou-se Kim. — Eu vou ajudá-los. Eu posso construir armas! No mundo de onde eu venho temos armas terríveis...

— É isso, Kim. Tu o disseste: armas terríveis! Mas as tuas armas de nada servem, não funcionam aqui. Talvez até mesmo se voltassem contra nós. E suponhamos que saiamos vencedores empregando as armas terríveis de que tu falas... Märchenmond nunca mais seria a mesma! A nossa terra seria uma imagem idêntica do seu mundo e, um dia, viria outro Boraas e nos atacaria com as mesmas armas que tu nos trouxeste. Poderíamos até o vencer novamente, mas para isso teríamos de desenvolver armas ainda mais poderosas... cada vez mais potentes... e assim o ciclo da destruição continuaria infinitamente, até que os mundos estivessem totalmente destruídos. Tu sabes, Kim, que as minhas palavras são a mais pura verdade. Tu vens de um mundo que, há muito tempo, optou por esse caminho. Boraas vai nos vencer e talvez transforme Märchenmond em um mundo de terror, assim como criou o Reino das Sombras. Mas foi tu quem me falou sobre Ado e seu pai, o Rei dos Charcos. Tu me contaste que existem seres que, em meio ao terror, ainda vivem e possuem esperança! Um dia, Kim, talvez em cem, mil ou dez mil anos, o reinado de Boraas chegará ao fim e das ruínas do seu reino nascerá uma nova Märchenmond. Não é a primeira vez na eterna luta entre o bem e o mal que o mal conquista o poder. Mas também não seria a primeira vez que a vitória final é do bem! Se optássemos pelo caminho por ti sugerido, talvez até pudéssemos destruir Boraas, mas roubaríamos nosso próprio futuro. Nunca mais Märchenmond seria a mesma!

Temístocles silenciou, exausto. Por um longo tempo ninguém se manifestou. Enquanto Temístocles falara, muitas coisas passaram pela cabeça de Kim, mas ele preferiu calar. Simplesmente se recusava a aceitar a resignação com que Temístocles e seus homens enfrentavam a situação. Afinal, tratava-se de uma luta pela sobrevivência! A insegurança, a fraqueza e o vacilo não combinavam com a imagem que fizera do velho mago. Até as atitudes de Boraas faziam mais sentido...

Rangarig, o dragão dourado, quebrou o silêncio:

— Muito bem dito, Senhor de Gorywynn. Mas ponderes que tempos difíceis exigem o rompimento com certas tradições.

Temístocles olhou, pensativo, para o dragão:

— O que tu queres dizer com isso, Rangarig?

Rangarig balançou a cabeça, o que fez as colunas à direita e à esquerda da janela rangerem e o estuque do teto cair.

— As palavras do nosso jovem amigo fazem sentido, Temístocles. Seria imprudente desistir tão depressa.

— Pois se tu conheces uma saída, então fala — disse Temístocles.

— Se eu pudesse resolver o problema, eu já teria me manifestado — respondeu o dragão. — Mas existe uma sabedoria que está além da tua e da minha... Consulta o oráculo!

— O oráculo? — perguntou Kim, curioso. — O que é isso? Temístocles não respondeu de imediato. Girou a cabeça e olhou,

pensativo, para o trono vazio:

— Uma lenda — murmurou, finalmente. — Uma velha saga, nada mais. Diz a lenda que os dois corvos de pedra se manifestarão no dia em que Märchenmond correr grande perigo...

— Uma lenda? Como a lenda do Lorde Negro? E como... Nesse instante, aconteceu algo inesperado e muito estranho: um

som claro, vibrante, como se em algum lugar se rompesse um enorme vidro, preencheu a sala e Kim sentiu correntes geladas a lhe atravessar o corpo. Ele quis erguer a mão, mas não conseguiu. Algo, uma força invisível e irresistível se apoderou dele, deixando-o sem vontade própria. Como uma marionete guiada por mãos invisíveis, levantou da cadeira, passou pela fileira de homens que o olhavam, estupefatos, e foi até o trono vazio.

 

Absoluto silêncio reinava na sala quando Kim, com passos lentos e parecendo um autômato, aproximou-se do trono. As duas colunas de pedra à direita e à esquerda do trono começaram a ficar incandescentes, mas era um arder branco, frio. O estranho som foi se tornando cada vez mais intenso até que cada pedaço do seu corpo começou a vibrar e um desagradável formigamento partindo dos dedos dos pés e das mãos se expandiu, aos poucos, pelo corpo. As coisas ao seu redor confundiram-se e foram apagadas por densos tufos de névoa.

As imagens diminuíram, ficaram reduzidas a um minúsculo ponto claro, em cujo centro se encontrava o trono. Kim sentou e inclinou-se para trás. A cadeira, ao contrário da primeira vez que nela sentara, apresentava-se macia e aquecida. Kim vivenciou uma sensação nunca antes experimentada: a de absoluto poder! Por um fugaz momento — Kim o sentiu nitidamente — aquilo não era apenas uma cadeira vazia, mas o trono de Märchenmond, o centro de todo um gigantesco reino!

O ardor antagônico irradiado pelas colunas se intensificou. E aí Kim ouviu — para sua surpresa e provavelmente também dos demais presentes — a sua própria voz, calma e firme, a pronunciar palavras que lhe foram ditas por uma força maior:

— Nunca antes, desde que os portais do tempo se abriram para a vida, houve maior aflição e maior perigo para os homens de Märchenmond, desprotegidos. Boraas, o sinistro Senhor das Trevas, prepara-se para o assalto, desperta o terror. Lutador, pensador, homem, animal, ninguém traz a salvação, só o que aqui está! Um menino, jovem ainda, mas com bravura no coração, veio através do tempo e chega até vós com sofrimento. Longo foi o caminho, pedregoso o atalho que o trouxe para vos aconselhar. Só ele e ninguém mais, nenhum ser sobre a Terra, poderá vos libertar. Só a ele foi dada a chave, só para ele se abre o caminho para o soberano, o Rei do Arco-íris!

Kim abriu os olhos, contraiu as mãos, os dedos crisparam-se e, com um profundo suspiro, caiu para trás. Era como se, por um momento, uma mão suave e infinitamente delicada o houvesse tocado para, em seguida, desaparecer, deixando nele uma sofrida sensação de perda. Sentiu-se vazio, exaurido, como se as palavras que acabara de proferir tivessem consumido todas as suas forças. O ardor das colunas desapareceu e Temístocles, até então rígido, voltou à vida e correu até ele.

Kim ergueu-se com certa dificuldade:

— Está tudo bem — disse com voz fraca.

Levantou-se, deu um passo na direção do mago e, se este não o tivesse amparado, com certeza teria se estatelado no chão. A sala começou a girar ao seu redor e seu coração disparou. Kim estava tão atordoado que nem percebeu quando Temístocles o carregou nos braços até a mesa, onde o acomodou cuidadosamente em uma das cadeiras.

A fraqueza passou rapidamente. Kim levantou os olhos e olhou para o rosto dos presentes que o fitavam, preocupados.

— O que... o que aconteceu? — murmurou, confuso.

— O oráculo se manifestou através da tua boca — disse Temístocles.

O mago balançou a cabeça e lançou um olhar indagador para Rangarig:

— Foi obra tua?

— Não, Temístocles. Eu não tenho acesso aos mistérios do oráculo. Mas às vezes eu enxergo o caminho com maior nitidez do que vós.

— O Rei do Arco-íris — murmurou Temístocles, pensativo.

— O que significa tudo isso? — perguntou Kim. — Eu pronunciei as palavras, mas eu não as entendo.

— Ninguém as entende, Kim — explicou Temístocles, triste. Depois continuou: — Estamos vivendo na época das lendas e o Rei do Arco-íris é parte dela. Ninguém o conhece, só se sabe que tem a sua morada no final do tempo e que reside em um maravilhoso castelo de luz e cores, muito mais belo do que Gorywynn. Dizem também que é incrivelmente sábio e poderoso. Mas nenhum habitante de Märchenmond jamais o viu.

— Mas o caminho até ele é conhecido — intrometeu-se o dragão. — É um caminho longo e ninguém até hoje conseguiu segui-lo até o final.

Temístocles respirou fundo:

— Cala-te Rangarig, tu não sabes do que estás falando.

— Por quê? — perguntou Kim, que, de repente, teve a impressão de que Temístocles estava escondendo algo.

— É impossível — disse o mago. — Rangarig o sabe. Somente um curto trecho do caminho para o Castelo do Arco-íris é conhecido e, nesse curto trecho, há mais perigos do que um homem é capaz de suportar.

— Descreva-os — exigiu Kim. Irritado, Temístocles franziu a testa:

— Tu estás te valorizando demais, Kim.

— Eu sigo as palavras do oráculo. Temístocles balançou a cabeça:

— O oráculo se calou por um tempo tão longo que ninguém mais lembra quando falou pela última vez aos homens de Märchenmond. Eu confesso que até eu já havia perdido a fé nele. Mas também sabemos que o oráculo se manifesta por meio de enigmas e parábolas. Assim, as suas palavras nem sempre devem ser interpretadas ao pé da letra. E em nenhum momento o oráculo ordenou que tu fizesses a viagem para o Arco-íris, Kim. Tu possuis a chave para a salvação de Märchenmond, mas essa chave pode ser uma idéia, uma palavra dita no momento certo, alguma outra coisa... Fazer-te partir às pressas seria a morte certa. O caminho para o fim do mundo é longo e cheio de perigos, conhecidos e desconhecidos.

— O caminho pelo qual vim até aqui foi igualmente perigoso — lembrou Kim.

Temístocles se mostrou irredutível:

— Não adianta insistir, Kim. Tu terias de atravessar o Desfiladeiro das Almas e o Rio Desaparecido no trecho onde ele é mais profundo e onde tem a maior correnteza. Mas isso seria só o começo, pois o caminho segue pelas terras ermas do eterno gelo, passa pelo Castelo do Fim do Mundo... e nem aí tu terás alcançado o teu objetivo. Ninguém sabe o que te espera, porque todos aqueles que se aventuraram nessa viagem não retornaram.

— Mas é a nossa única chance!

— Pode ser. Mas com todo o respeito que devo ao oráculo... eu não permito que partas. O risco é muito grande.

Temístocles endireitou o corpo e, num tom que dava o assunto por encerrado, disse:

— Jamais!

Kim se voltou para Rangarig, na esperança de que este o ajudasse. Mas o dragão só baixou a cabeça:

— Temístocles está certo — disse. — Às vezes é difícil entender o oráculo.

— Mas eu o entendi! — Rangarig bufou:

— Muitas revelações do oráculo jamais foram interpretadas. Os homens mais sábios fracassaram... homens mais sábios do que tu, pequeno herói — acrescentou, irônico.

O dragão viu a revolta do garoto e continuou:

— O destino de grandes heróis se consumiu no caminho para o fim do mundo. A maioria não conseguiu ir além do Desfiladeiro das Almas e os poucos que conseguiram se perderam no Rio Desaparecido e nunca mais foram vistos.

— Desfiladeiro das Almas! O que significa isso? — perguntou Kim. Temístocles explicou:

— Uma garganta, a mais profunda de todas. É tão profunda que nenhum raio de sol jamais alcançou o seu fundo. Nenhuma ponte a atravessa, mas o pior é que nela mora um monstro...

— Ah! Ele não é tão terrível como dizem — intrometeu-se Rangarig. Temístocles sorriu, mas continuou com a maior seriedade:

— No fundo dessa garganta mora o Tatzelwurm! Nenhum homem jamais o venceu e poucos conseguiram escapar dele.

— O que é... o Tatzelwurm?

— Um parente meu... um aborto da natureza — bufou Rangarig. Temístocles não deu atenção às palavras de Rangarig e continuou:

— É um dragão, Kim. É o monstro mais terrível que jamais nasceu nas terras de Märchenmond. Nem mesmo Boraas ousaria medir forças com ele.

Rangarig não se intimidou:

— Boraas talvez não, mas...

— Não, Rangarig — interrompeu Temístocles. — Eu sei que tu darias a tua vida para nos salvar, mas o teu sacrifício seria em vão. Nenhum de nós duvida da tua coragem e da tua força, mas nem mesmo tu conseguirias vencer o Tatzelwurm. Acredites, amigo... encontraremos outra solução.

Rangarig silenciou, ofendido. Temístocles suspirou e voltou para sua cadeira perto da mesa:

— Não posso permitir que partas, Kim. Sinto muito, mas essa é a minha última palavra.

Passaram-se quatro dias durante os quais Temístocles esteve muito ocupado, correndo de uma importante reunião para outra. Kim continuou insistindo para que ele o deixasse ir rumo ao Arco-íris, mas o mago se mostrou irredutível. Como não havia muito que fazer, Kim aproveitou para conhecer melhor o Castelo Encantado de Gorywynn, quase sempre acompanhado por Kelhim e Gorg. No começo, Kim se irritou com a permanente presença dos dois, mas depois acabou se acostumando — e até gostando. Pelo menos não corria o risco de se perder no enorme castelo de cristal repleto de pessoas diferentes e coisas maravilhosas. O castelo era tão grande que em quatro dias Kim conseguiu ver só uma ínfima parte. Demoraria anos para explorá-lo todo. Passou muitas horas com Rangarig, o dragão dourado, na esperança de que este lhe contasse mais sobre o Desfiladeiro das Almas e seu terrível habitante. Mas Rangarig se fechou em copas. Kim acabou perdendo a paciência e acusou o dragão de covarde, de ficar em cima do muro. Rangarig bufou e declarou que iria ajudá-lo quando chegasse a hora, nem um minuto antes. Kim, por sua vez, não entendeu o que Rangarig quis dizer com isso.

Na tarde do quarto dia, a inquietação o levou até o topo da mais alta torre. Subir os inúmeros degraus se revelou um empreendimento extremamente penoso e cansativo, mais ainda para o urso Kelhim, que o acompanhava e que subiu a escadaria de quatro. Mas ao chegar à plataforma aberta da torre, cercada por um muro não muito alto de cristal azul-claro, viram-se recompensados pelo esforço, pois a vista era incomparável! Lá do alto os imensos murais de Gorywynn pareciam de brinquedo, o lago reluzia sereno e prateado e até as corredeiras do Rio Desaparecido pareciam mais suaves.

Kim apoiou os cotovelos no parapeito e se inclinou para a frente. O muro da torre caía cerca de duzentos metros em declive, unindo-se às águas prateadas do lago. Um bando de gaivotas sobrevoava o lago e, apesar da distância, Kim ouvia seus gritos, quando, vez ou outra, um dos pássaros conseguia fisgar um petisco no lago.

Kim piscou para a luz do sol, virou a cabeça e olhou para o trecho onde o Rio Desaparecido desembocava no lago.

— Por que Rio Desaparecido? — perguntou, curioso.

Kelhim deitou a cabeça no parapeito de cristal azulado e murmurou:

— Olha para o lago... Tu não percebes nada?

Kim olhou, atento, para a superfície serena do lago, mas não notou nada de extraordinário.

— O lago não tem escoamento — informou Kelhim.

Kim olhou para o urso, estupefato:

— Mas, então, para onde corre toda essa água que o rio leva para o lago?

Kelhim deixou Kim em suspenso por algum tempo, depois explicou:

— O rio desemboca no lago e depois segue subterrâneo. Ninguém jamais pesquisou, mas deve existir um gigantesco labirinto subterrâneo de cavernas através do qual o rio continua seu curso para oeste. Ele só reaparece na superfície depois de percorrer milhares de quilômetros debaixo da terra, mas só por um pequeno trecho, isto é, até o fim do Desfiladeiro das Almas, perto da caverna do Tatzelwurm, onde há um pequeno lago. De lá, o leito do rio retoma seu curso subterrâneo.

O urso piscou para Kim:

— É isso que tu querias saber?

Kim baixou os olhos. Kelhim percebeu que fizera sua pergunta com segundas intenções.

— Eu sei o que tu pensas — continuou o urso, sério. — Mas tu deverias esquecer esses planos. Não podes entrar nessa aventura sozinho. Mesmo se tu conseguisses sair de Gorywynn às escondidas, estarias perdido muito antes de chegar ao Desfiladeiro das Almas. E não haveria ninguém para te indicar o caminho. Os homens têm medo do Desfiladeiro e evitam até chegar perto. Além disso, ainda tem as armaduras negras. Tu conseguiste escapar dos homens de Boraas uma vez, mas será que conseguirás esse feito novamente?

Kim suspirou. Kelhim tinha razão, aliás, todos estavam certos: Temístocles, Rangarig, Harkvan, Priwinn... Mas, quando chegar o momento do confronto com Boraas, o bom-senso de nada lhes adiantaria.

Encostou o corpo no parapeito e não tirou os olhos do lago. De repente, sua atenção aguçou-se. Passou a mão pelos olhos, debruçou-se para a frente e, com a máxima atenção, fixou os olhos na desembocadura do rio.

— Kelhim! — exclamou, agitado. — Veja! O que é aquilo?

No rio apareceram alguns pontinhos que se aproximaram rapidamente com a correnteza.

Kelhim olhou para a direção apontada:

— Posso estar enganado, mas parecem balsas... muitas balsas.

— Acho que enxergo muito bem — murmurou Kim, sem tirar os olhos das balsas a pular sobre as ondas. — São os cavaleiros das estepes... Harkvan está chegando!

— Talvez... — disse Kelhim. — Parece que não são muitas balsas... Vem! Quero estar no porto quando chegarem. Isso me cheira a catástrofe!

Desceram as escadarias correndo e Kim se surpreendeu com a agilidade do urso. Não podiam perder tempo, pois tinham de atravessar todo o castelo até chegar ao cais. No meio do caminho, toparam com Gorg, que já sabia da chegada das balsas.

Quando chegaram, esbaforidos, uma multidão se aglomerava no cais. A primeira balsa acabara de chegar. Graças aos seus ombros largos, Kelhim e Gorg forçaram a passagem entre a multidão e, num piscar de olhos, ocupavam um lugar privilegiado às margens do rio, de onde observavam a chegada das embarcações.

No entanto, a alegria de rever os amigos das estepes virou, rapidamente, tristeza e desânimo, quando a pequena flotilha se aproximou. A primeira balsa se assemelhava à balsa com que Kim viera há poucos dias para Gorywynn. Kim contou as embarcações à medida que foram se aproximando e chegou ao número quarenta e oito, ao todo; talvez duas a três mil pessoas entre homens, velhos e jovens, mulheres e crianças. Mas já não eram mais os altivos habitantes de Caivallon que conhecera. Quase todos estavam feridos e seus gemidos eram mais altos que o vozerio da multidão.

— Deuses! — exclamou Gorg.

Os grandes portões de bronze, no final da escadaria, abriram-se com um toque de fanfarras e apareceu Temístocles, que, acompanhado por algumas sentinelas visivelmente nervosas, precipitou-se escadaria abaixo. A multidão se abriu para lhe dar passagem. A expressão do seu rosto, que era de preocupação, transformou-se em pavor ao se dar conta do que estava acontecendo.

Kim procurou por Harkvan, mas não o viu em nenhuma das balsas. Os homens de Gorywynn pulavam na água para nadar até as balsas.

Finalmente, a primeira balsa atracou. Milhares de mãos se estenderam para ajudar os exaustos habitantes das estepes. Muitos precisavam de ajuda para andar, alguns tinham de ser carregados e, entre os que conseguiam andar por conta própria, havia muitos que caíram por terra ao pisar o chão de Gorywynn, como se tivessem guardado toda sua energia para esse derradeiro passo que lhes salvou a vida.

Temístocles deu algumas ordens e a multidão se dispersou para que os fugitivos, que formavam uma longa fileira marcada pela tristeza e pelo desânimo, pudessem ser conduzidos até o Castelo Gorywynn, onde receberiam uma assistência melhor.

— Lá está Priwinn! — exclamou Gorg.

Kim se colocou na ponta dos pés para enxergar melhor. O jovem Príncipe das Estepes estava branco como cera. Uma de suas faces estava marcada por um longo arranhão vermelho de sangue que se estendia até o nariz e sua mão direita estava envolta em uma ligadura muito malfeita e suja. O príncipe se locomoveu cambaleando e provavelmente só a densa multidão que o cercava o impedia de cair. Temístocles também descobriu o príncipe. Na mesma hora, levantou seu bastão para afugentar a multidão e correu até Priwinn, seguido por Kim, Kelhim e Gorg. Chegaram a tempo de impedir que o príncipe se estatelasse no chão. Foi Gorg que o segurou com suas enormes mãos.

Preocupado, Temístocles se inclinou para o príncipe:

— Príncipe Priwinn! — disse, com voz trêmula de emoção. — Graças a Deus, estás vivo! Onde está teu pai? O que aconteceu?

Priwinn se desvencilhou das mãos do gigante. Cambaleou de novo e, com um profundo suspiro de exaustão, largou o corpo e sentou no chão:

— Tudo está perdido! — exclamou, — Nós... Caivallon... caiu! O mago ficou profundamente abalado com a notícia:

— Caivallon caiu! Mas como...?

— As armaduras negras de Boraas — informou Priwinn. E continuando: — Depois da tua partida, ainda discutimos... Demorou muito até chegarmos a uma decisão. Decidimos ficar em Caivallon. No entanto, por insistência do meu pai, o Conselho se prontificou a enviar mil dos nossos melhores cavaleiros para Gorywynn... para ninguém dizer que abandonamos nossos amigos na hora do aperto.

— Bobagem — retrucou Temístocles. — Isso nem me passou pela cabeça... Mas, o que aconteceu depois... os mil cavaleiros...?

— Nunca chegaram em Gorywynn. Depois de apenas um dia de viagem, depararam-se com o exército de Boraas e, no dia seguinte, começou o ataque a Caivallon.

A lembrança da cruel experiência fez o corpo do jovem príncipe estremecer, mas, apático, continuou a contar sua história:

— Foi terrível! Nossos homens lutaram bravamente e as armaduras negras sofreram grandes perdas... Mas os muros de Caivallon não resistiram à supremacia deles... Tivemos de fugir.

— Mas... e os habitantes de Caivallon...? Priwinn sacudiu a cabeça:

— Os que nos acompanharam até Gorywynn são os últimos... Todos os outros estão mortos ou desaparecidos. Quando fugimos, Caivallon estava em chamas. O castelo das estepes está destruído, Temístocles. Tu estavas certo, deveríamos ter seguido teu conselho e te acompanhado até Gorywynn... Agora é tarde.

Temístocles cerrou os punhos ao olhar para as balsas espalhadas sobre a superfície do lago:

— Acredite, Príncipe Priwinn, nunca antes desejei com tanto ardor que estivesse errado. E teu pai?

— Morreu, como todos os outros. O Conselho dos Sábios já não existe, eu sou o único sobrevivente. Eles e algumas centenas de fiéis enfrentaram o exército de Boraas para que pudéssemos fugir. Eu... eu queria ficar para lutar e morrer ao lado do meu pai, mas ele não o permitiu.

— Uma decisão sábia — murmurou Gorg. — Teu povo necessita de um líder.

Priwinn soltou uma risada amarga e nos olhos marejavam-lhe lágrimas:

— Um líder? Isso é ironia, Gorg. Não há lugar algum para onde eu pudesse conduzi-los.

— Ah! — intrometeu-se Kim. — É de suma importância que esteja vivo, Príncipe Priwinn. A verdadeira luta contra Boraas e seu exército ainda está por vir. Você perdeu uma batalha, mas a guerra continua.

Priwinn olhou para Kim em silêncio. Depois disse:

— Tu não viste nada, Kim. Viste o exército, mas não presenciaste a maneira como eles lutam... Eles não são humanos, são diabólicos. Não existe ninguém para enfrentá-los. Também Gorywynn vai cair, ninguém poderá resistir ao Lorde Negro.

— O Lorde Negro? — perguntou Temístocles, assustado. — Tu viste o Lorde Negro, príncipe?

Priwinn inclinou a cabeça:

— Ele estava à frente do exército... O mais terrível de todos, ninguém consegue vencê-lo.

Temístocles desviou o olhar:

— Estás cansado, príncipe — murmurou. — Providenciarei para que te levem aos teus aposentos e enviarei o médico para cuidar dos teus ferimentos. Mais tarde decidiremos o que fazer.

Temístocles deu uma ordem e uma das sentinelas tomou Priwinn nos braços como se fosse uma criança e o levou embora.

Naquela noite, as luzes não se apagaram em Gorywynn. O manto escuro da noite encobriu os muros vítreos do castelo, mas Gorywynn não dormiu. Apesar de sua gigantesca extensão, com a chegada dos cavaleiros das estepes, o castelo estava superlotado e não havia sossego para ninguém. Os feridos precisavam de cuidados; o luto dos que perderam entes queridos tinha de ser amenizado; a fome dos famintos, saciada e, quando não havia mais nada a fazer, formavam-se grupos para debater sobre o acontecido. Diante da desgraça que se abatera sobre o povo das estepes, os moradores de Gorywynn começaram a se dar conta, pela primeira vez, de qual seria o seu destino dentro de alguns dias ou semanas. Caivallon fora mais que um simples castelo e seus habitantes eram conhecidos como o mais corajoso e forte povo de Märchenmond. A derrota de Caivallon significava não apenas a queda de um forte, mas também o fim de um sonho. Caivallon representava o símbolo do poder e da segurança, um baluarte que, desde os primórdios, protegera Märchenmond de toda e qualquer ameaça. Tudo isso acabara com sua derrota. O inimigo dera o primeiro grande golpe nessa terrível guerra!

Kim tentou, em vão, falar com Temístocles e, como não conseguia pregar o olho, perambulava, inquieto e sem rumo, pelos amplos corredores de Gorywynn. Apesar da multidão espalhada pelos corredores, sentiu-se só, talvez o mais solitário entre todas as milhares de pessoas que povoavam Gorywynn.

E quando se viu, de repente, diante de uma porta fechada, guardada por uma sentinela de uniforme branco e dourado, percebeu para onde seu subconsciente o havia levado:

— Como vai o príncipe? — indagou.

— O Príncipe Priwinn está dormindo, senhor. Já recebeu cuidados médicos e agora está mais forte. Temístocles deu ordens para que não fosse incomodado.

Kim girou a maçaneta da porta:

— Não vou incomodá-lo, só quero me certificar de que ele está bem.

A sentinela estava hesitante. Kim, que entrementes trocara a armadura negra por uma túnica branca, o que o tornou igual a todos os habitantes de Gorywynn, resolveu se valer da posição de confiança que ocupava perante Temístocles:

— Não se preocupe — disse. — Temístocles sabe que estou aqui. Aliviado, o guarda inclinou a cabeça e Kim entrou.

O quarto estava escuro. No entanto, pelas frestas da porta e pela janela semi-aberta entrava luz suficiente para que fosse possível reconhecer alguns móveis. Kim ficou parado por alguns segundos, olhou ao redor e depois aproximou-se, hesitante, do leito do jovem príncipe. Na verdade, ele não sabia ao certo porque fora lá. Kim sabia que estava sendo intruso. Mesmo assim, aproximou-se mais ainda e ficou olhando para o príncipe, que dormia profundamente. Na penumbra do quarto seu rosto parecia pálido e fino. A ferida em sua face fora tratada e só ficara uma fina linha vermelha. Também as ataduras da mão direita foram trocadas. A respiração estava um pouco acelerada e o globo ocular sob as pálpebras semicerradas movia-se incessantemente, como se ele fosse atormentado por terríveis sonhos.

Kim resolveu sair do quarto, mas na porta, sem saber ao certo por que, virou-se para dar mais uma olhada no príncipe. Priwinn estava de olhos abertos!

Muito sem graça, Kim esboçou um sorriso:

— Eu... eu sinto muito se o acordei... Eu não quis incomodar... Desculpe.

Priwinn ergueu o corpo, apoiou o cotovelo na cama e balançou a cabeça:

— Tu não me acordaste, eu estava acordado o tempo todo. Eu estava esperando por ti.

— Ah, é?!

Priwinn confirmou com a cabeça:

— Eu pensei muito em ti, Kim — confessou. No caminho para Gorywynn, pensai no que tentaste nos dizer...

Priwinn hesitou e Kim teve a impressão de que seu rosto se contraiu, como se estivesse sob forte dor, embora na escuridão do quarto era difícil perceber alguma coisa.

Depois de uma longa pausa, Priwinn continuou:

— Fizeste um bom discurso diante do Conselho dos Sábios. Naquela ocasião, eu não entendi o que quiseste nos transmitir... Ou melhor, eu não quis entender. Quando, finalmente, entendi, era tarde demais.

Kim quis contestar, mas Priwinn o interrompeu com um gesto:

— É isso mesmo, Kim. Tu não sabes o que aconteceu depois que tu partiste.

— Mas eu sei...

— Tu não sabes! — exclamou Priwinn em voz alta. Kim lançou um olhar preocupado na direção da porta, mas tudo permaneceu em silêncio.

— Tu não sabes — repetiu Priwinn. — Falamos e falamos, meu pai, o Conselho e eu. Tuas palavras, Kim, impressionaram bem. O Conselho não conseguiu chegar a uma conclusão, o que nunca aconteceu antes. Falamos a noite toda, sem chegar a conclusão alguma. Finalmente, votamos e a maioria optou por não deixar Caivallon.

Priwinn deu uma risada amarga:

— Tu queres saber de quem foi o voto decisivo, Kim? Foi... o meu! Eu fui contra a evacuação de Caivallon e foi o meu voto que selou o nosso destino, Kim! O responsável pelo acontecido sou eu! Essa luta sem sentido, os mortos... tudo culpa minha! Se eu tivesse te dado ouvidos, em vez de me apoiar no meu maldito orgulho, eu teria poupado o meu povo dessa matança!

Timidamente, Kim tocou o ombro do príncipe:

— Não se culpe — disse baixinho. — Você agiu de acordo com os seus princípios, portanto, agiu certo. Não podemos impor a nossa vontade ao destino, ninguém tem força para tanto.

— Tu dizes isso para me consolar.

— Não, Priwinn. Você seguiu a voz da sua consciência e nunca é errado fazer isso. Eu acho que todos deveríamos seguir o caminho que achamos o mais certo e não seguir o caminho dos outros...

Kim se calou, embaraçado. As palavras que acabara de proferir trouxeram à tona algo que estava soterrado em seu íntimo: uma decisão que tomara há muito tempo mas que não tivera coragem de colocar em prática acabava de se tornar certeza:

— Cada um deve fazer o que acha que deve ser feito — enfatizou, mais para si próprio do que para Priwinn. — E exatamente isso que eu vou fazer! Já perdi tempo demais!

Priwinn o fitou atentamente:

— O que queres dizer com isso?

Kim hesitou. Algo lhe dizia que podia confiar no jovem príncipe sem restrições. Encostou a orelha na porta, mas não ouviu nada. Depois voltou para perto de Priwinn e sentou na beirada da cama. Em voz baixa, começou a reportar o que acontecera depois de sua chegada a Gorywynn.

Priwinn ouviu com atenção, sem o interromper. Quando Kim terminou, o príncipe comentou:

— Eu acho que sei o que tu pretendes fazer. Eu também acho que estás certo. Tu... tu me levas?

Surpreso, Kim perguntou:

— Levar você? Para o Rei do Arco-íris? Para um caminho que nem mesmo sei se leva a algum lugar?

Priwinn confirmou com a cabeça.

— Mas eu não tenho a menor idéia do que vai acontecer... Nem mesmo se voltarei — ponderou Kim. — É perigoso, pode até ser mortal. E talvez esse lendário Rei do Arco-íris nem exista... E se realmente existir, quem garante que ele vai nos ajudar?

— Ele existe — disse Priwinn. — E se esse for o teu desejo, vais encontrá-lo. Aqui ninguém precisa de mim. Gorywynn talvez caia... ou não, certo é que aqui não precisam de mim, a minha espada não vai decidir a luta. Se eu tiver de morrer, que não seja pela espada dos homens de Boraas. Sozinho tu não tens nenhuma chance, em dois talvez possamos sair vitoriosos.

Kim demorou alguns minutos para chegar a uma decisão. Depois levantou e com firmeza perguntou:

— Quando partimos?

O rosto do jovem príncipe se iluminou:

— Então tu me levas?

— Claro, pois sem a sua ajuda eu estaria perdido desde o início.

— Vamos nos encontrar dentro de meia hora no portão norte — sugeriu Priwinn. — Só quero trocar de roupa.

— E as sentinelas?

Priwinn fez um gesto impaciente:

— Não te preocupes, serei pontual.

Kim voltou para os seus aposentos, o coração palpitante. Sentiu-se aliviado, liberto de um pesado fardo, apesar de estar plenamente consciente de que, num futuro próximo, ver-se-ia confrontado com novos e desconhecidos perigos. Fechou a porta, tirou a túnica branca, jogando-a num canto, e vestiu a armadura negra. Certamente haveria, entre as múltiplas armaduras que circulavam em Gorywynn, uma bem melhor e mais bonita, mas ele preferiu essa, a armadura do inimigo, pois, por incrível que pareça, até agora lhe trouxera sorte. Vestiu-se cuidadosamente, depois levantou a tampa do pesado baú de carvalho ao lado de sua cama e tirou o manto de Laurin. Com um leve sentimento de culpa, colocou-o sobre os ombros. Temístocles lhe confiara essa preciosidade e agora ele traía a confiança do velho mago. Mas não tinha outro jeito.

Ainda pegou o escudo que ganhara de presente de Priwinn e deixou o quarto. Apesar da hora avançada, a vida ainda pulsava nos corredores de Gorywynn e o pátio do forte estava iluminado pelo fogo bruxuleante de incontáveis tochas. No seu caminho para as cavalariças, em plena armadura, o olhar curioso das pessoas o acompanhou, mas ninguém o parou para cobrar explicações.

O cavalo relinchou alegre ao vê-lo e Kim passou alguns minutos cobrindo o fiel animal com afagos.

Ao se virar para levar Rapaz para fora, viu-se confrontado com uma enorme sombra e seu coração deu um pulo:

— Gorg!

Do outro lado da cavalariça veio uma voz mal-humorada:

— E Kelhim também.

Kim reconheceu o urso que, de quatro, barrava a saída, balançando a cabeça:

— Tz tz tz... Era de se esperar que esse jovem esquentado não daria ouvidos aos conselhos dos mais velhos.

Gorg reforçou:

— É... Mas eu nunca pensei que ele tivesse o topete de simplesmente se mandar na calada da noite.

E lançando um olhar para o urso:

— O que vamos fazer com ele? ^

Kim engoliu em seco de tanta raiva e desapontamento. Suas esperanças malograram antes mesmo de começar. Kelhim se ergueu:

— Vamos sair daqui. Eu não gosto de cavalariças, são fedidas. E também não gosto de cavalos... Só para o café-da-manhã.

Gorg colocou sua enorme mão no ombro de Kim e o empurrou para fora. Atravessaram o pátio, mas, para surpresa de Kim, não se dirigiram para o prédio principal, mas para um pequeno portão lateral que se abriu, conduzindo-os para fora do castelo. Kim viu um reluzir dourado: Rangarig! Algo estava acontecendo, sem dúvida! Mas o quê? De repente, outra surpresa:

— Priwinn!

O príncipe sorriu:

— Eu prometi que viria, não é?

— Mas...

Perplexo, Kim olhou para Gorg, que se esforçou para não rir diante do espanto de Kim:

— Tu pensaste que te deixaríamos sozinho?

— Quer dizer que... vocês vêm com a gente? — perguntou Kim, estupefato.

— É claro... Como não podemos te amarrar aqui, resolvemos ir contigo.

Kim precisou de alguns minutos para entender o que estava acontecendo:

— Mas, vocês... vocês estiveram contra... ninguém apoiou... — gaguejou, confuso.

— Ninguém esteve contra — contestou Kelhim. — Mas também não podíamos te apoiar de imediato, pois tu estavas obcecado pela idéia de salvar Gorywynn e não podíamos deixar-te sair às cegas. Era preciso esperar até que tu estivesses realmente pronto para a grande missão.

 

Montados no lombo de Rangarig, voaram velozes como as flechas, o vento a lhes soprar no rosto. Kim se virou para olhar para trás. A terra desaparecia rapidamente e a escuridão engoliu seus contornos. Gorywynn, apesar da distância, assemelhava-se a uma jóia rara, cujos suaves matizes rosados e azulados continuavam a iluminar a noite.

— Vós estais bem acomodados? — perguntou Kelhim.

Sem esperar resposta, o urso enlaçou Kim e Priwinn com suas imponentes patas, espremendo-os contra seu peito peludo para protegê-los do vento gelado e impedir que caíssem.

Com o vigoroso rumorejo de suas asas, Rangarig foi conquistando os ares, ganhando cada vez mais altura. O luar se quebrou em reflexos dourados e prateados nos seus flancos, e quem nesta noite olhasse para o céu, certamente questionaria o que seriam as sombras reluzentes que passavam tão rente às estrelas. A despeito do abraço do urso e das costas largas de Gorg, Kim começou a sentir frio, mas se controlou heroicamente e não fez nenhum comentário.

Continuaram a voar para oeste, hora após hora, e Kim se admirou com a resistência do dragão que, pelo jeito, não conhecia o cansaço. Apesar de seu tamanho desmesurado, devia sentir o peso de seus quatro passageiros, dos quais dois pesavam mais que dez homens juntos. Mas Rangarig continuou a voar, sem interrupção, até que, finalmente, apareceu no horizonte o vislumbre de um novo dia. Somente aí o bater de suas asas se tornou mais lento e ele deslizou suavemente em direção à terra.

Curioso, Kim se inclinou para a frente. Flutuavam, agora, sobre as copas das árvores de uma grande floresta, cujos vários tons de verde eram, vez ou outra, interrompidos por uma pequena clareira ou pela tira reluzente de algum rio.

Rangarig desceu ainda mais e continuou voando por algum tempo sobre a floresta, até pousar, com um último e poderoso adejo, numa clareira alongada, coberta por flores. O dragão encolheu as asas, rastejou alguns metros pelo chão até alcançar uma sombra, na qual, aliviado, estendeu o corpanzil.

— É o suficiente por uma noite — ofegou. — Até um dragão precisa de descanso.

Esperou até que seus passageiros descessem, depois se enrolou, acomodou a cabeça nas patas dianteiras e começou a roncar.

Kim esfregou as costas, pois a viagem no lombo do dragão não fora nada confortável. Apesar do abraço do urso, Kim tivera medo o tempo todo de cair. Gorg esticou o corpaço:

— Uma boa soneca não seria nada mal — disse, bocejando. — Confesso que já fiz viagens mais confortáveis do que essa.

Rangarig ergueu a pálpebra do olho direito:

— Então vais a pé — resmungou, fechou o olho e continuou a roncar.

Kelhim soltou uma risada maliciosa:

— Em vez de criticar, tu deverias tratar de arranjar alguma coisa para a gente comer, estou com fome!

Gorg murmurou algo, girou a clava e olhou para o sol:

— Ainda é cedo para a caça, mas vou tentar a sorte. Enquanto isso, vós podeis fazer o fogo.

Gorg desapareceu na mata, provocando grande estardalhaço, Kim e Priwinn começaram a juntar madeira e folhagem seca, tarefa, aliás, nada fácil em vista do verde suculento da floresta. As árvores estavam floridas e havia poucos galhos secos que pudessem aproveitar. Assim, demorou mais de uma hora até que tivessem recolhido o suficiente para fazer uma fogueira. Kim tinha uma vaga idéia de como se fazia fogo: mediante a fricção de dois pedaços de madeira ou alguns outros métodos que tirara dos seus livros de aventura.

Priwinn riu e, piscando para ele, foi até o dragão adormecido, deu-lhe dois socos no nariz e um chute nos flancos. Sonolento, Rangarig abriu os olhos:

— Ah... o que... acontece?

Priwinn apontou para a pilha de madeira no centro da clareira:

— Precisamos de fogo. Rangarig rosnou:

— Bate a cabeça desses dois idiotas, talvez saiam faíscas. Depois levantou a cabeça, enfocou a pilha e bocejou. No mesmo

instante saiu um jato chamejante de sua goela escancarada, deixando um rastro preto na grama e incendiando a madeira com forte estrondo. Assustado, Kim deu um pulo. Rangarig, por sua vez, deitou a cabeça nas patas e já estava dormindo novamente.

Priwinn aproximou-se rindo: .,

— Estás vendo como é simples?

Kim, ainda perplexo, sacudiu a cabeça. E claro que já ouvira falar que alguns dragões cuspiam fogo, mas como tantas outras histórias, banira esta para o reino da fantasia.

— Agora só falta Gorg com a comida — resmungou Kelhim. Mas o gigante demorou um pouco e quando, finalmente, apareceu, mas não trouxe nenhuma caça:

— Apagai o fogo, depressa! — ordenou. Kelhim se mostrou revoltado:

— Por quê? Eu tenho fome!

Sem responder, Gorg se pôs a apagar o fogo, espalhando faíscas e brasa por todos os lados:

— Um batalhão de armaduras negras está a caminho!

— Um batalhão... Mas o quê...? ;

Já não havia mais fogo, mas Gorg continuou a pisotear o chão:

— Quinze a vinte... Se não tratarmos de sair daqui o mais rápido possível, seremos massacrados.

— Mas eles nem vão perceber que estamos aqui — comentou Kim. Gorg soltou uma risada sarcástica:

— É impossível esconder Rangarig. Além disso, Boraas está sempre muito bem informado sobre tudo que acontece. Certamente ele já sabe que estamos nos dirigindo para oeste e, é claro, não é difícil para ele adivinhar o que pretendemos.

Kelhim não se abalou e tentou acalmar Gorg:

— Para que ficar nervoso? Tu disseste que são mais ou menos vinte armaduras... Eu tratarei disso!

— Tu não vais fazer nada — disse Gorg. — Eu não tenho medo deles. Vinte não são páreo para nós, mas o caso é que, o quanto antes chegarmos ao Desfiladeiro das Almas, melhor para nós. Vou acordar esse lagarto dorminhoco e depois vamos seguir viagem.

Gorg se aproximou do dragão:

— Ei, Rangarig! — gritou no ouvido do dragão. — Temos de continuar!

Rangarig grunhiu, mexeu a cauda, derrubando uma pequena árvore e varrendo Gorg dos pés. Depois continuou roncando. Gorg levantou esbravejando e deu dois fortes chutes no nariz do dragão, fazendo o chão estremecer.

Sonolento, o dragão abriu um olho:

— Por que não me dais sossego?

Em seguida bocejou, escancarando a goela, cuspindo uma coluna de fogo na direção do gigante que, com um grito, deu um pulo para trás.

— Lagarto dorminhoco, hein? — resmungou o dragão. — Ainda vamos falar sobre isso... O que estais esperando? Vamos, montai!

Rangarig se encolheu e abriu as asas para que os quatro amigos pudessem subir melhor no seu dorso.

O vôo do dragão estava bem mais lento do que na noite anterior e ele também voava mais baixo, porém, mesmo assim, a paisagem passava por eles com incrível ligeireza. Depois de algum tempo, a floresta começou a dar lugar a uma nada convidativa região montanhosa.

— Falta muito? — perguntou Kim aos gritos, para sobrepujar o rumorejar das asas.

Gorg respondeu sem se virar:

— É muito longe, Kim. Mais dois a três dias, se continuarmos sem pausa, mas isso é impossível, pois Rangarig necessita de descanso, está ficando velho. Antigamente agüentava mais, mas agora não passa sem uma soneca.

Irritado, Rangarig sacudiu a cabeça, o que fez com que Gorg quase perdesse o equilíbrio.

Também Kim se agarrou, assustado, à coluna dentada no dorso do dragão.

— Parem! — gritou, irritado.

Rangarig soltou uma gargalhada, mas continuou voando com mais cautela.

A paisagem mudava a cada instante. Depois de algum tempo sobrevoaram uma planície coberta com pedras, onde cresciam alguns esparsos arbustos e, vez ou outra, alguma grama de aspecto doentio. Depois vieram montanhas não muito altas, porém íngremes e inóspitas. Rangarig passou rente pelos cumes e acabou indo para um altiplano árido, varrido pelo vento, onde fez um pouso nada suave, o que causou mal-estar nos seus passageiros.

Com um longo suspiro, que sobrepujou o uivar dos ventos, disse:

— Basta... Talvez aqui eu consiga dormir um pouco.

Como Gorg demorou para descer, Rangarig sacudiu o corpo e o gigante despencou de uma só vez, caindo sobre a rocha nada macia.

— Grosso! — xingou. — Só porque tens esse tamanho achas que podes tudo!

— Nem tudo — bufou Rangarig —, mas posso um bocado. E agora quero dormir. Nestas alturas, estaremos seguros.

O dragão enrolou o corpo para formar uma espécie de abrigo contra o vento gelado. E assim, protegidos pelos imponentes flancos dourados, os amigos ficaram aquecidos e seguros. Com uma sensação de bem-estar, Kim aconchegou-se no pêlo do urso, que fazia o papel de cobertor. Mas o sono não quis vir, pois sua cabeça fervilhava. Depois de algum tempo não agüentou mais ficar de olho arregalado e resolveu levantar. Engatinhando com muito cuidado para não acordar os outros, deixou a proteção que o corpo do dragão lhe oferecia e foi até a borda da rocha que caía, perpendicular, uns cem metros para o abismo, para uma paisagem erma e rochosa. Kim sentiu arrepios de frio, mas era um frio que vinha do seu íntimo e não havia cobertor para abrandá-lo.

Ouviu passos e se virou. Era Priwinn!

— Tu também não consegues dormir? — perguntou o Príncipe das Estepes.

— Não — respondeu Kim, voltando-se novamente para a paisagem inóspita. — Qual é o nome destas terras?

Tremendo de frio, Priwinn enfiou as mãos debaixo das axilas e pisoteou no mesmo lugar para se aquecer:

— Não tem nome, é uma parte da Cordilheira das Sombras.

— Aqui? — admirou-se Kim. — No coração de Märchenmond? Priwinn inclinou a cabeça:

— É um braço da Cordilheira. Esta extensão da Cordilheira se formou numa época que se perde na bruma dos tempos e se alonga por muitos e muitos quilômetros. Naqueles tempos, muito antes da construção de Gorywynn e Caivallon, estas terras eram habitadas por povos que hoje são apenas lenda. Os homens daqueles tempos eram diferentes dos povos que hoje habitam Märchenmond.

— Diferentes como? Priwinn sorriu:

— É uma lenda, Kim, nada mais.

— Por favor, conte — pediu Kim.

O príncipe hesitou um pouco, depois contou:

— Diz a lenda que os homens daqueles tempos eram poderosos, muito mais poderosos do que nós, e não havia nenhum ser vivo sob o Sol, nenhuma planta, nenhum animal que fosse capaz de enfrentá-los. Acho que talvez eram como os homens de onde tu vens, Kim. Dominavam a terra em ambos os lados da Cordilheira das Sombras. Viviam em cidades grandes e poderosas e possuíam máquinas voadoras mais velozes do que qualquer pássaro. Um dia resolveram estender seu domínio até as estrelas e, quando reconheceram que, apesar de todas as suas máquinas, seu poder tinha limites, tornaram-se amargos e maldosos. A inveja começou a envenenar seus corações. Suas máquinas se tornaram cada vez mais sofisticadas, mas à medida que cresciam suas riquezas, também crescia a insatisfação, e não tardou para que os habitantes de uma cidade olhassem com desconfiança para os moradores da outra. Uns diziam que possuíam mais. Outros, que suas máquinas eram mais potentes. E assim começaram as desavenças e brigas e c reino desmembrou-se em milhares de pequenos reinados, que, por sua vez, começaram a guerrear entre si.

Priwinn fez uma breve pausa para continuar em seguida:

— Suas armas, Kim, eram terríveis. Lançavam fogo, abriam a terra e incendiavam os céus. Mas, apesar de todas as guerras e de todo terror, sua riqueza crescia e, assim, construíam mais máquinas e mais armas. Todos sabiam que assim não podia continuar, mas ninguém moveu um dedo para impedir esse desenvolvimento mortal. Até que chegou a derradeira guerra, a mais cruel de todas. O céu ardia em chamas e a terra vomitou pedras incandescentes e gases tóxicos. A Cordilheira das Sombras se abalou sob os golpes tremendos que os homens infligiram à terra, que se rompeu no meio e uma fresta tão profunda nunca antes vista separou os homens.

— O Desfiladeiro das Almas — constatou Kim. Priwinn confirmou:

— É isso mesmo, Kim. O Desfiladeiro das Almas. E na extremidade dessa fenda que a terra abriu, sob o impacto das forças maléficas que o homem desencadeou, formou-se uma gigantesca barreira. Rios incandescentes e rochas derretidas escorreram das encostas c Cordilheira, unindo-se a essa barreira.

A voz do príncipe ficou embargada pela tristeza:

— Poucos sobreviveram, Kim. Refugiaram-se nas entranhas c terra e, assim, com seus filhos, viveram durante muitas gerações, se luz e sem ar, até que acabaram esquecendo de onde vieram. Séculos se passaram e quando os descendentes daqueles que sobreviveram encontraram o caminho de volta para a luz do dia, encontraram uma terra renovada, onde a vida voltara a brotar. Desde então, enxergamos a Cordilheira como uma advertência, isto é, devemos nos contentar com aquilo que temos e o que somos e não lançar mão das estrelas.

— Que história triste — murmurou Kim. ; Priwinn sorriu:

— É, Kim, mas é apenas uma lenda. Eu não acho que é verdadeira. H Kim não respondeu. Seu olhar se perdeu entre os contornos bizarros das montanhas ao seu redor e, de repente, encarou as coisas com outros olhos. As paredes rochosas faziam-no pensar em vidro fosco que, ao longo dos séculos, perdera o brilho. As estranhas listras podiam, talvez, ser o testemunho de rios de lava incandescente... De repente, Kim teve absoluta certeza de que a história que Priwinn lhe contara não era lenda, mas realidade!

Kim deu um passo para trás, sentou-se no chão e, tremendo de frio, enlaçou o corpo com os braços. Seu escudo o protegia um pouco do vento gelado, mas, mesmo assim, o frio se apossou, impiedoso, do seu corpo.

— Essa Cordilheira nos leva diretamente para o Desfiladeiro das Almas? — perguntou a Priwinn, que sentara ao seu lado.

— Sim, mas não vamos seguir pela Cordilheira. Rangarig só veio para cá porque aqui estamos seguros. Até as armaduras negras evitam esta região, e eu acho que o dragão veio muito a contragosto. Diz a lenda que a região é habitada pelos espíritos dos que aqui morreram.

Priwinn tentou esboçar um sorriso, mas não conseguiu esconder sua preocupação. Também Kim sentiu a ameaça invisível que os rodeava, a mesma sensação que teve quando atravessaram a caverna do urso.

— Você acha que vamos encontrar mais armaduras negras pelo caminho?

Priwinn deu de ombros:

— Espero que não, mas eles estão por toda parte. Boraas está muito apreensivo.

— Você acha que ele conhece nossos planos?

— Ainda não. Mas a partir do momento que ele tiver certeza, ele vai atacar Gorywynn imediatamente. E é isso que me preocupa.

Priwinn encolheu os joelhos e por um bom tempo nenhum dos dois falou. Finalmente, o príncipe levantou:

— Vem, é melhor dormirmos um pouco, vamos precisar de nossas forças.

Levantaram e voltaram para perto do dragão, onde encontraram Kelhim e o gigante, agarrados um ao outro, dormindo o sono dos justos. Kim deitou e tentou se acomodar da melhor maneira possível. Pouco antes de cair no sono, abriu os olhos mais uma vez e olhou para oeste, onde, oculto na lonjura brumosa, esperava por eles o Desfiladeiro das Almas! Depois dormiu.

Quando o dia começou a raiar, Rangarig os acordou e imediatamente, sem perda de tempo, seguiram viagem. O dragão, de asas bem abertas, deixou-se cair da borda do planalto que lhes havia concedido abrigo por uma noite para, assim, aproveitar os ventos ascendentes que sopravam, mornos, ao longo do declive montanhoso. Kim lançou um último olhar para a paisagem inóspita que os rodeava. Nada denunciava a breve permanência dos amigos naquele mundo solitário, dominado pelo vento e pelo silêncio — tudo continuava inerte, intocado, como há milênios. A vida, qualquer que fosse, ali não encontrava boa acolhida. Aos poucos, a plataforma rochosa se perdia na penumbra do crepúsculo. A Cordilheira era uma advertência pétrea, um monumento para que os erros do passado jamais fossem esquecidos e repetidos.

Kim recostou a cabeça nas costas largas de Gorg, tentando dormir mais um pouco, mas a fome e o frio o mantinham acordado. A medida que seguiam para oeste, o frio aumentava. Kim se questionou se naquele mundo haveria um pólo oeste e um leste em vez de pólos norte e sul, como na sua pátria, e se o Desfiladeiro das Almas os levaria para um reino glacial onde imperava o eterno gelo. Lembrou que Temístocles mencionara o deserto de gelo. Se realmente estivessem se aproximando dessas terras dominadas pelo gelo, então estariam perdidos, pois nenhum deles, exceto o urso com seu espesso pêlo, estava preparado para enfrentar uma marcha através de uma paisagem dominada por neve e gelo.

Mas agora era tarde. Já estavam na metade do caminho e por nada no mundo Kim voltaria.

Passaram-se mais um dia e uma noite. Rangarig, visivelmente cansado, já não mostrava o mesmo vigor do início, mas continuou voando sem se queixar. A Cordilheira ficara para trás e agora sobrevoaram uma ampla savana, onde, vez ou outra, apareciam algumas luzes dispersas de pequenos povoados e até uma cidade um pouco maior. Constante, Rangarig continuou seu vôo para oeste e, ao amanhecer, começou a descer lentamente, voando em círculos, à procura de um lugar adequado onde pudessem não só repousar, mas também se esconder.

De repente, as asas do dragão se contraíram e seu corpo empinou. Assustados, Kim e seus companheiros se agarraram uns aos outros.

— O que aconteceu? — gritou Gorg.

— Armaduras negras! — bufou Rangarig. — Na direção sul! Kim se inclinou para a frente e tentou dar uma espiada, mas não conseguiu ver nada além de uma mancha escura no horizonte. Rangarig, pelo jeito, tinha uma visão melhor, pois acelerou e, o mais depressa que pôde, voou para o sul. Em pouco tempo avistaram uma casa baixa, coberta por um telhado de palha, solitária e desprotegida em meio à savana. Um bando de armaduras negras e seus cavalos a cercava aos gritos!

Enquanto o dragão se preparava para a luta, a casa foi atingida por uma saraivada de flechas negras ardentes.

Rangarig alinhou as asas ao corpo, emitiu um horrendo grito e, como uma gigantesca flecha dourada, arremessou contra os atacantes, que estarreceram no meio dos movimentos. Por um momento, Kim teve a impressão de poder ver, através das máscaras negras metálicas, o susto estampado nos rostos. Se ainda há pouco havia um sistema no ataque dos cavaleiros diabólicos, agora era só caos, formado por cavalos assustados, gritos e o ruído de metal rachando. Com suas asas, Rangarig varreu cinco cavaleiros de uma vez de suas selas. Eles voaram pelos ares antes de se estatelarem no chão.

O dragão se empinou, emitiu outro grito, ainda pior que o primeiro, e se lançou contra o inimigo. Com suas poderosas patas, pisoteou, sem piedade, armaduras e escudos. Sua cauda açoitou meia dúzia de cavaleiros e abriu uma vala na terra.

A luta durou poucos minutos. Gorg, Kelhim, Kim e Priwinn pularam quase que simultaneamente de seu lombo e atacaram o inimigo pelos flancos. Kim desembainhou sua espada e correu na direção da casa para prestar ajuda.

A porta estava arrombada, nuvens de fumaça negra saíram de uma das janelas quebradas e no interior da casa ouvia-se o barulho da luta e o choro amedrontado de uma criança. Com um chute, Kim acabou de escancarar a porta e precipitou-se para o interior da casa. Com o canto dos olhos percebeu um movimento e, no último momento, ergueu o escudo, a tempo de aparar um pesado golpe de espada que o fez cambalear.

Kim esbarrou em um armário, perdeu o equilíbrio e caiu. Uma enorme figura ergueu-se sobre ele, levantou a arma e se deteve por um momento ao notar a armadura negra que Kim ainda vestia. Esse breve titubear era o que Kim precisava! Levantou-se com um pulo e rebateu o golpe com toda força. Com um surdo rangido, sua espada atravessou a armadura do adversário, furando o corpo do inimigo!

Kim precisou de um instante para acalmar a respiração ofegante antes de seguir os ruídos que vinham do interior da casa. Kim empurrou uma das portas e a cena que viu fez seu sangue gelar nas veias: quase tropeçou no corpo imóvel de um homem, cuja camisa estava encharcada de sangue, os dedos crispados no punhal, que levara seu adversário para a morte. O outro camponês defendia-se, desesperado, armado apenas com uma estaca de madeira, de um cavaleiro inimigo que o encurralava, passo a passo. O homem se agachou para escapar de um golpe de espada, pulou de lado e infligiu um golpe contra o capacete do inimigo, o que o deixou ao menos um pouco atordoado. Mas logo depois aparou um segundo golpe com a espada e, com o punho couraçado, acertou um soco no peito do camponês, que fez este gemer de dor e descuidar a defesa. O cavaleiro de Boraas se preparou para o derradeiro golpe.

Kim, por alguns segundos paralisado diante da cena horripilante, superou o torpor e se jogou entre os dois combatentes. Aparou e rebateu os golpes do cavaleiro negro, mas a investida foi fraca e a lâmina de sua espada escorregou e fincou-se no chão de madeira. E aí, mais uma vez, a armadura negra salvou a sua vida! Por uma fração de segundos os dois adversários ficaram frente a frente e Kim reconheceu a dúvida no olhar do outro. Nesse momento, alguém o empurrou de lado. Uma figura barbuda desceu, com força brutal, o cacetete na cabeça do cavaleiro da armadura negra, que despencou para a frente, estatelando-se no chão.

Ofegante, o sangue lhe escorrendo pelo rosto, olhar desconfiado, o camponês continuou com o cacetete nas mãos, em posição de ameaça, pronto para atacar.

Kim abaixou a espada e o escudo e, com movimentos lentos para não provocar nenhuma reação no outro, tirou o capacete. Esboçando um tímido sorriso, disse:

— Está tudo bem?

O camponês relaxou, mas a desconfiança permaneceu:

— Tu és... companheiro deles?

— Certamente que não! As aparências enganam.

Kim olhou para o cavaleiro de Boraas estendido no chão:

— Às vezes é uma vantagem vestir a armadura deles.

O camponês se mostrou confuso: .

— Eu... eu não sei quem tu és, mas te sou grato. Sem atua ajuda estaria morto, como meu irmão... Eles o mataram!

O camponês lançou um olhar na direção da janela:

— O perigo ainda não passou... Lá fora tem mais luta.

Kim balançou a cabeça:

— Não se preocupe, meus amigos estão dando cabo deles. Quem mais mora aqui?

— Minha mulher, meu filho e... a mulher do meu irmão. Tem ainda dois servos, que estão lá em cima para proteger as mulheres...

Só agora Kim se deu conta do choro de criança e dos soluços de mulher no andar de cima.

— Vá buscá-los — disse para o camponês. — O perigo passou, pelo menos por enquanto.

O homem subiu a escada enquanto Kim saiu, não sem dar uma minuciosa busca pelo resto da casa.

A luta acabara. Os cavalos negros, agora sem dono e muito nervosos, andavam de um lado para outro. Rangarig, por sua vez, farejou, desconfiado, os inimigos mortos, para descobrir se, porventura, não haveria alguém que se fingia de morto para mais tarde buscar reforço.

Kim informou os companheiros sobre o que acontecera na casa. De novo se viram confrontados com a matança brutal e sem propósito.

— Chegaram até aqui... — murmurou Priwinn. Gorg rangeu os dentes:

— As armaduras negras já dominam o país! Faz parte da tática de Boraas destruir primeiro a Hinterlândia. Quando começar o ataque contra Gorywynn, não haverá mais lugar para onde seus habitantes possam se refugiar. Boraas aprendeu a lição quando destruiu Caivallon e uma parte do teu povo conseguiu fugir, Príncipe Priwinn. Mas, agora, vamos ver se os camponeses precisam da nossa ajuda.

Kim foi o primeiro a entrar, seguido por Priwinn, depois Kelhim, que estava de quatro e quase não passou pela porta com seus ombros largos. Por último veio Gorg, que, apesar de andar curvado, bateu com a cabeça no teto, praguejando em voz baixa.

A família reunida na sala de estar se assustou ao deparar com o urso e o gigante, mas logo se acalmaram com as palavras de Kim:

— Não se preocupem, são meus amigos, não vão lhes fazer mal.

— Isso... é que... — gaguejou o camponês. — Eu acredito em ti... é que...

— Esquisito, não é? — resmungou o urso. — Mas tu não viste nada, bom homem. Se queres ver esquisitice, então, espia pela janela.

O camponês olhou para o urso, boquiaberto. Depois, um pouco hesitante, foi até a janela:

— Um dragão! — exclamou, atônito. — Um dragão dourado! Olhou para os quatro amigos com um misto de espanto e veneração:

— Mas... mas existe apenas um dragão dourado — murmurou. Gorg quis fazer um sinal afirmativo, mas bateu a cabeça no teto

com tanta força que a madeira já meio podre rachou de vez:

— E isso mesmo — respondeu, atordoado. — É ele... Rangarig! O camponês ficou lívido:

— Mas então... Então tu és Gorg!

Ofendido, Gorg torceu o nariz:

— Existe outro gigante por estas bandas?

— Gigante? — rosnou Kelhim. — Que gigante?

Gorg lançou-lhe um olhar mortal, bateu novamente com a cabeça e, finalmente, chegou à conclusão de que era mais seguro sentar-se.

Kim não conteve o riso quando viu que os dois estavam deixando o pobre homem totalmente confuso. Mas também teve pena das mulheres, que ainda estavam sob choque.

— Boa gente, não dêem atenção para estes dois, eles costumam brigar sempre, mas vocês deviam ver quando eles lutam.

— As armaduras negras... — murmurou o camponês. — Tu chegaste a tempo. Um minuto a mais e ninguém estaria vivo.

— Ele está reclamando — ralhou Gorg. — A gente tira eles da enrascada e ele se queixa de que não chegamos antes.

Agora o camponês estava ainda mais desconcertado. Inseguro, olhou ora para Gorg, ora para Kelhim, até que Priwinn resolveu se intrometer:

— Tu deverias te envergonhar, Gorg. Deixa essa pobre gente em paz. Gorg abaixou a cabeça, fingindo-se arrependido, e nos rostos do

camponês e de sua família apareceu um primeiro sorriso tímido, o que, finalmente, aliviou a tensão.

Começaram a levar os corpos dos cavaleiros em suas armaduras negras para fora e tentaram pôr as coisas em ordem. O trabalho em equipe rendeu frutos e, depois de apenas uma hora, só a janela quebrada e a mancha escura no chão, deixada pelo fogo, davam testemunho da luta que ainda há pouco fora travada.

Kim reparou na serenidade com que a família de camponeses aceitou a morte do ente querido. Quando se viu sozinho com Priwinn, tocou no assunto. O príncipe balançou a cabeça:

— Olha, Kim, eu não sei muita coisa sobre o teu mundo e as pessoas que lá vivem — disse, pensativo. — Mas, pelo que parece, vós sois uma gente bem estranha.

— Estranha por quê? Por que sentimos tristeza? Priwinn sorriu:

— Não, Kim. Nós também ficamos tristes, só que a nossa tristeza se manifesta de maneira diferente. A vida na Terra não é eterna.

Para alguns, como Temístocles ou Rangarig, a vida é mais longa, outros morrem cedo, ainda criança ou até recém-nascidos. Não está ao nosso alcance mudar, ou melhor, na verdade, nem queremos mudar. O corpo, Kim, este invólucro vulnerável que tanto vos preocupa, nada mais é do que um instrumento, uma espécie de ferramenta do espírito. Amamos nossos entes queridos igual a vós, mas amamos em primeiro lugar o seu espírito. Seus corpos morrerão, mas isso não quer dizer que eles estão mortos. Um ser humano, Kim, está morto a partir do momento em que ele é esquecido.

— Eu não entendo... — murmurou Kim.

— Mas é simples — disse Priwinn, pacientemente. — Talvez essa seja a diferença entre nós: aqui reconhecemos que nenhum ser humano vive apenas por si próprio.

— Mas eu vivo muito bem assim...

— Tu estás vivo, apenas isso! Uma pedra também vive, se igualas vida à existência, mas viver, realmente viver, só é possível através dos outros. Tu estás vivo por que aquilo que dizes, o que fazes, isto é, o teu sentir, o teu pensar, influencia os outros e vice-versa. E tu só estás realmente morto quando não há mais ninguém que lembre as tuas palavras, os teus feitos e, conseqüentemente, o teu ser. Somente quando tiveres desaparecido dos pensamentos de todos os homens é que estarás realmente morto. O homem valente que as armaduras negras mataram a pauladas continua vivo na memória dos seus e também na tua, embora por pouco tempo.

Kim refletiu sobre as palavras do príncipe e começou a entender o seu sentido. Ele estivera no Reino das Sombras e vira a terra morta, devastada, sem a presença humana. O Reino das Sombras estava morto de verdade, perdera a lembrança do seu passado... Mas não! Não era verdade! Kim lembrou do Rei dos Charcos e de seu filho, Ado. Haveria testemunho melhor que Ado e seu pai para provar o que Priwinn tentara lhe explicar?

Kim foi até a janela e olhou para fora. Tudo estava calmo, mas era uma calmaria ilusória. O Sol estava alto no céu, era quase meio-dia. Rangarig encontrou um canto sombreado perto da casa onde se enrolou para dormir. Seu ronco fazia os vidros das janelas trepidar.

Mas essa paz aparente era apenas uma fachada, prestes a desmoronar a qualquer momento para, de novo, dar entrada à morte e à perdição.

Kim se virou e ficou observando a mulher do camponês que estava servindo o almoço. Os pedaços suculentos de carne que ela acabara de colocar na panela lhe deram água na boca. Mas, antes de matar a fome, ainda tinha um assunto importante para resolver.

— Vocês não podem ficar aqui — disse. — Outros virão e os responsabilizarão pela morte dos companheiros.

— Isso até pode ser, jovem senhor, mas não temos para onde ir. As lavouras vizinhas já não estão mais seguras.

— Vocês poderiam tentar chegar até Gorywynn — sugeriu Kim.

— Dez dias de viagem?! — exclamou Priwinn, no lugar da mulher. — Tu esqueceste que nem todos têm o privilégio de viajar no lombo de um dragão.

— Mas...

Priwinn balançou a cabeça:

— Não... O único lugar seguro são as montanhas, que vós podeis alcançar em um dia. Kim está certo, aqui não tem mais segurança para vós.

— Mas as armaduras negras morreram todas, ninguém escapou...

— Até o silêncio tem olhos e ouvidos, não adianta, vós tendes de deixar este lugar.

Nesse instante entrou Gorg, com passos estrondosos e curvado, para não bater de novo com a cabeça no teto. Entre gemidos e suspiros, sentou à mesa:

— Rangarig, Kelhim e eu conversamos — disse o gigante, depois de ter devorado nada menos que dez maçãs e um filão inteiro de pão. Com um suspiro de satisfação limpou a boca e continuou:

— Os cavaleiros inimigos virão e se Brobing e sua família ainda estiverem aqui... bem, a coisa ficará feia!

— Rangarig não poderia levá-los para Gorywynn? Gorg balançou a cabeça:

— Não é má idéia, mas são quatro dias... dois de ida e dois de volta. Não podemos perder tanto tempo.

— O que você sugere?

Gorg tentou encontrar uma posição mais confortável para seus pés.

— Eles vêm com a gente — disse, finalmente. Kim levou um susto:

— Para o Desfiladeiro das Almas? — perguntou, incrédulo. — As mulheres e a criança?

Gorg o acalmou:

— Nas imediações do Desfiladeiro estarão seguros. Além disso, nas montanhas existem inúmeros esconderijos.

O gigante silenciou por um instante, depois disse, pensativo:

— Além do mais, sempre é bom ter um amigo por perto.

Kim não gostou da idéia. Ainda não conhecia o Desfiladeiro das Almas, mas, pelo que Temístocles e os outros lhe contaram, tratava-se de uma região bastante inóspita e, certamente, não era um lugar adequado para duas mulheres e um bebê indefeso.

— Não gosto da idéia — ponderou.

— Nem eu — confessou Gorg. — Mas eu não tenho idéia melhor, não podemos perder quatro dias.

— Têm muitos cavalos lá fora — conjeturou Kim. — Podemos pegar alguns deles e seguir para o Desfiladeiro a cavalo.

— Precisaríamos de seis dias ou mais... Além disso, tu esqueceste um pequeno detalhe.

— Que detalhe?

— O Tatzelwurm. E impossível passar por ele sem a ajuda de Rangarig.

Kim se calou, consternado. Pelo jeito, não tinham outra alternativa. Se mandasse Rangarig de volta para Gorywynn, talvez perdessem a última chance que ainda lhes restava. E se deixassem Brobing e sua família onde estavam, seria morte certa para eles. Uma situação cruel e sem saída!

Kim pensou por um tempo, foi até a mesa e sentou-se com um profundo suspiro:

— Está bem — concordou. — Quando partimos?

Após um bom descanso — todos recuperaram o sono atrasado —, voaram, novamente, para oeste. Os Brobings, que se viram forçados a abandonar seu lar e sua lavoura e enfrentar um futuro incerto, esvaziaram sua dispensa até a última migalha de pão e prepararam uma refeição que satisfizera até o monumental apetite de dois comilões como o urso e o gigante. Quanto a Rangarig, que, segundo suas próprias palavras, só comia a cada duas semanas, limitara-se a esvaziar o pequeno lago atrás da casa para saciar a sede. Depois, todos ocuparam seus lugares no dorso do dragão, que, em seguida, levantou vôo. Kim notou que o peso adicional dos adultos e de uma criança fazia uma sensível diferença até para as forças do dragão, que já não voava tão alto e com tanta velocidade como antes. Mas, para compensar o atraso provocado pela lentidão, Rangarig não procurou nenhum lugar para descansar. Continuou voando o dia todo até o entardecer.

A planície gramínea cedeu lugar a uma paisagem vulcânica, coberta por fragmentos de rocha, lava petrificada e fendas afuniladas.

As rochas, totalmente negras, não refletiam nem mesmo a luz do sol. Parecia até que eram cobertas por uma misteriosa substância que engolia toda luz. Gorg comentou que estavam se aproximando do Desfiladeiro das Almas, o que, no entanto, já ficara óbvio para todos.

Ao anoitecer, Rangarig, como de costume, começou a voar em círculos para descer e, pela última vez, espreitar um lugar onde pudessem repousar.

Gorg se virou e agarrou o braço de Kim com tanta força que este não conteve o grito de dor.

O gigante apontou para oeste:

— Vê!

Kim obedeceu: a terra caiu em suave declive, formando uma encosta quilométrica, sombria e repleta de cantos jamais penetrados pela luz, desprovida de qualquer tipo de vida ou movimento, em cuja extremidade abriu-se uma gigantesca fenda. O impacto que essa visão lhe causou foi tão grande que Kim até esqueceu de respirar. Esperara algo monumental, mas a sua imaginação não se aproximara nem de longe da realidade! Jamais conseguiria imaginar a verdadeira extensão do Desfiladeiro, que começava como um entalho reto, feito na terra com um machado desmesurado, para, em seguida, passar para uma abertura dentada que, à medida que se estendia para oeste, ganhava cada vez mais em largura. Além disso, paralelamente ao Desfiladeiro, estendia-se um vasto emaranhado de pequenas rochas e fendas que levaram Kim a pensar num poderoso raio negro que lá se chocou com o solo para, em seguida, estarrecer por toda a eternidade. Ele não conseguiu desgrudar os olhos do Desfiladeiro, profundo, obscuro e desprovido de qualquer sinal de luz, por menor que fosse, e que exercia um poder quase hipnótico sobre ele. Um irreprimível pavor se apossou de Kim, e quando o Desfiladeiro desapareceu de suas vistas, foi um grande alívio.

Pousaram em meio a fragmentos de rocha pontiagudos feito punhais, intercalados com blocos brutos de vidro negro. Com o corpo rijo e os músculos doloridos, desceram do lombo do dragão. Ninguém falou, mas não foi só o cansaço que os fez silenciar: a paisagem ao redor, tão hostil a qualquer forma de vida, encobriu suas almas como se fosse um pesado fardo.

Fizeram uma fogueira com a madeira e o chamiço que trouxeram e, com as provisões, prepararam uma refeição simples, porém saborosa. Depois de matar a fome, cada um procurou um canto para dormir. Nem mesmo Gorg, sempre tão falante, abriu a boca.

Kelhim foi escalado para a primeira vigia. Os demais integrantes do pequeno grupo de origem tão adversa já estavam dormindo profundamente. Kim teve um sono inquieto, atormentado por pesadelos. E quando Priwinn o acordou no meio da noite para lhe comunicar que chegara sua vez de vigiar, deu graças a Deus. Pegou um pedaço de carne assada fria e, envolto em uma manta de lã, sentou-se numa ponta de rocha. Não sentiu a menor vontade de comer, mas se esforçou para mastigar a carne: sabe-se lá quando teriam oportunidade para a próxima refeição — se é que haveria uma próxima refeição! Apesar da manta, Kim sentia tanto frio que seus dentes batiam. Um olhar para o céu noturno lhe disse que ainda faltava muito para o amanhecer. Depois de Kim seria a vez de Gorg, e depois, pouco antes do amanhecer, viria um dos servos. Talvez, pensou Kim, aquele fosse o último amanhecer de suas vidas. Fora acertado que os Brobings esperariam lá por eles durante uma semana e, se eles não retornassem no final dessa semana, os camponeses teriam de se virar sozinhos.

Uma semana! Estranho, mas pensar no futuro, ou melhor, refletir sobre o tempo, irreversível, incessante, acalmava-o. Apesar do terror que poderia estar reservado para eles nos dias que viriam, o futuro lhes traria, também, a decisão — por bem ou por mal! Só agora Kim entendia os adultos quando afirmavam que não havia nada pior do que a indecisão. A vitória na luta contra o Tatzelwurm ou dominar o Desfiladeiro das Almas — para o tempo não tinha o menor significado, ele continuava a correr incessantemente, não era possível detê-lo. E mesmo que sucumbissem, em algum momento, num futuro nebuloso, surgiria dos escombros uma nova Märchenmond, talvez até mais esplendorosa!

Sem querer, acabou cochilando e só acordou com o rosto de Gorg debruçado sobre ele e a mão quente do gigante em seu ombro. Sem graça, Kim quis se explicar, mas Gorg lhe fez um sinal para se calar, apontando para os outros que, enrolados em suas mantas, continuavam dormindo. Kim desceu da rocha e também se enrolou no chão.

Estava tremendo de frio, mas pior que o frio era o medo que rumorejava em suas entranhas.

Porém, mesmo assim, acabou adormecendo rapidamente e, de manhã, Priwinn mal conseguiu acordá-lo. Finalmente, Kim levantou bocejando e cambaleando. Todos já estavam reunidos ao redor da fogueira, deliciando-se com a carne assada cujo agradável cheiro lhes acariciava as narinas. Kim se espreguiçou, as costas lhe doíam. Entrementes o sol nascera, tentando abrandar um pouco a severidade da paisagem.

— E aí? Dormiste bem? — perguntou Gorg, piscando cora os olhos num gesto de cumplicidade. Não iria revelar que encontrou Kim dormindo durante a vigia.

Kim juntou-se aos outros ao redor da fogueira e começou a comer com tamanho apetite que até ele ficou surpreso.

Depois da refeição, nada mais os segurava e, sem demora, despediram-se dos Brobings. Mas, apesar da pressa, a despedida foi carinhosa e Kim teve de prometer aos camponeses que tomaria todo cuidado do mundo e que, com certeza, voltaria.

Com o coração pesaroso, Kim subiu no lombo do dragão, que saudou os camponeses pela última vez com um de seus imponentes gritos. Depois, abriu as asas e se lançou para os ares. Kim acenou para os Brobings até desaparecerem por completo de sua vista. Nas poucas horas que passaram juntos, aprendera a amá-los.

O Desfiladeiro se aproximou rapidamente. Por algum tempo, Rangarig voou paralelo à borda do Desfiladeiro, afiada como uma faca, até que, por fim, apareceu à sua frente um braço lateral estreito e dentado, onde Rangarig pousou.

— Parece-me que aqui é um lugar apropriado para descer.

Tinham de pousar, custasse o que custasse! Certa vez, Kim indagara a Gorg por que simplesmente não podiam sobrevoar o Desfiladeiro das Almas no lombo de Rangarig e continuar até o Castelo do Fim do Mundo ou mais adiante, se for o caso. Mas Gorg balançou a cabeça e lhe explicou que isso era impossível, pois para encontrar o caminho até lá tinham de seguir o curso do Rio Desaparecido. Ninguém sabia, nem mesmo Rangarig, aonde esse rio vinha novamente à tona. E aquele que se perde nestas terras de ninguém porque seguiu, por engano, o curso de um outro rio — muitos se perderam, acredite —, estará irremediavelmente perdido! O Desfiladeiro das Almas era o único caminho que levava ao Castelo do Fim do Mundo! E agora chegara o momento!

Desceram do lombo de Rangarig. Kim aproximou-se cuidadosamente da borda do Desfiladeiro e olhou para baixo. Apesar da encosta apresentar uma queda bastante íngreme, não parecia de todo impossível descer, pois escombros e rochas alisadas pelo tempo formavam uma espécie de rampa que facilitava a descida, pelo menos logo de início. Kim queria dar um bom exemplo e ser o primeiro a descer, mas Gorg o segurou com mão de ferro:

— Nada disso — comandou o gigante. — Primeiro Rangarig, depois eu e o urso. Sinto muito, mas desta vez tu serás o último, pequeno herói.

Kim queria protestar, mas Gorg simplesmente o empurrou de lado e deu passagem para o dragão dourado, que primeiro se certificou de que a rocha agüentaria seu peso e depois desapareceu nas profundezas, seguido por Gorg e Kelhim. Kim e Priwinn formaram a retaguarda.

Não tardou e Kim entendeu a ordem imposta por Gorg. Rangarig escorregou várias vezes sobre o cascalho, despencando por trinta a quarenta metros até reencontrar novamente o equilíbrio. Também os passos de Gorg provocavam pequenas avalanches de cascalho que desapareciam no abismo. Se Kim e Priwinn tivessem ido na frente, em pouco tempo teriam sido levados por uma avalanche de rochas.

A descida parecia interminável. Fizeram uma breve pausa sobre uma estreita e dentada faixa de rocha que mal os comportava e que parecia que iria despencar a qualquer momento sob o peso do dragão. Depois continuaram, metro por metro, passo por passo, minuto por minuto, hora após hora. Finalmente chegaram ao fundo do abismo. Só de pensar que esse era apenas o começo, pois o Desfiladeiro propriamente dito ainda estava muito distante, a uma profundidade de muitas centenas de metros, deixava Kim angustiado. Apesar de haver bastante espaço no fundo do cânion — as duas paredes laterais estavam a uma distância de cerca de cinqüenta metros uma da outra —, Kim não pôde evitar a sensação de claustrofobia. À medida que se aproximavam do fundo, a luz foi desaparecendo. Só restara um vago e difuso vislumbre de claridade, feito uma névoa.

Na penumbra, o ruído dos passos provocava ecos altos e duros. Kim virou-se para Priwinn, que vinha atrás dele, o já familiar medo estampado no rosto. Para Kim era, de certa maneira, reconfortante saber que não era o único a sentir medo.

O caminho fez uma dobra e Rangarig parou abruptamente. Gorg e Kelhim, que andavam grudados no dragão, quase tropeçaram sobre sua cauda e praguejaram em altos brados. Rangarig fez um gesto irritado com a cabeça:

— Quietos! Estou ouvindo algo!

Imediatamente se fez silêncio absoluto. Todos prenderam a respiração. Mais uma vez ficou provado que os sentidos do dragão eram bem mais aguçados do que os dos outros. Primeiro não ouviram nada além das marteladas do próprio coração, mas, após um certo tempo, Kim achou que ouvira um vozerio abafado, como se várias pessoas estivessem falando ao mesmo tempo.

Rangarig deu alguns passos para trás e fez um sinal para o urso:

— Vá na frente — sussurrou. — Eu não sou muito bom no disfarce. Aproxima-te sem fazer barulho.

Kelhim desapareceu na curva, enquanto os outros ficaram esperando, com o coração apertado. A espera foi breve. Kelhim voltou, uma das orelhas trepidando nervosamente, os olhos lampejando de ódio.

— Armaduras negras — rosnou. — O Desfiladeiro está cheio de armaduras negras!

— Mas... não pode ser... — murmurou Kim.

— Infelizmente é verdade. Eu não pude reconhecer muita coisa, é escuro lá embaixo como numa caverna, mas são muitos e, se não me engano, até vi o Barão Kart entre eles.

— Barão Kart! — exclamou Kim. — Mas como...? Kelhim deu de ombros num gesto quase humano:

— De alguma maneira ficaram sabendo dos nossos planos — disse.

— Mas isso é impossível! — protestou Kim. — É impossível! — repetiu. — Ninguém conhecia os nossos planos. Ficamos na incerteza até o último momento. E Rangarig é mais veloz do que eles!

O dragão balançou a cabeça:

— Talvez tenham partido muito antes de nós.

— E por que fariam isso?

— É preciso lembrar que Boraas é um mago, talvez até mais poderoso do que Temístocles. Eu também tenho o dom de prever algumas coisas.

— Se tu és tão sábio, então nos diga agora o que fazer — resmungou o urso.

— Só temos uma saída — respondeu Rangarig. — Enfrentá-los, o que mais?

Até Gorg ficou assustado com as palavras do dragão.

— Temos uma vantagem — explicou Rangarig. — Vamos surpreendê-los! Eles provavelmente não contam com a minha presença.

Gorg pensou nos prós e contras e, finalmente, deu de ombros, cuspiu nas mãos e girou sua clava:

— A esta altura não dá para voltar atrás, além disso, faz algum tempo que não entro para valer numa briga... portanto... em frente!

E voltando-se para Kim e Priwinn:

— Tratem de ficar entre nós, entendido?

Virou-se, deu um tapa nas costas do urso e desapareceu com passos largos na curva, seguido por Kelhim. Em seguida, o dragão dobrou a esquina não sem provocar algum ruído. E aí veio... o pesadelo!

Kelhim não exagerara! O Desfiladeiro parecia um formigueiro: por toda parte havia cavaleiros em suas armaduras negras. O ataque repentino os surpreendeu, porém eles rapidamente recuperaram a ordem e agruparam-se em uma férrea resistência.

Kim ergueu a espada e, contrariando as ordens de Gorg, lançou-se à luta. Conferiu um violento golpe a um cavaleiro inimigo, que tombou mortalmente ferido. Outro, atingido pela beirada do seu escudo, caiu para trás, desaparecendo, com um grito, por uma das fendas. Ao seu lado lutava Priwinn, desarmado, só com as mãos e os pés, desenvolvendo força sobrenatural com a qual resistiu aos adversários.

Porém, todo esse empenho de nada lhes adiantaria se não tivessem o dragão ao seu lado.

Sem Rangarig, que lutava ferozmente, estariam perdidos. O dragão varreu uma dúzia de atacantes com um único golpe de sua cauda, partiu rochas ao meio e, em fração de segundos, abriu uma brecha na falange inimiga. Kim teve de admitir, muito contra a vontade, aliás, que os cavaleiros de Boraas enfrentavam o dragão com bravura e coragem. Com suas espadas negras, golpeavam as escamas douradas de Rangarig sem, no entanto, conferir-lhe um só ferimento maior.

— Cuidado! — gritou Gorg. — Em cima!

Instintivamente, Kim ergueu o escudo para se proteger e cambaleou para trás, não sem tempo, pois no mesmo instante meia dúzia de flechas da grossura de um braço fincaram-se na madeira do escudo. Um grupo de cavaleiros subira numa saliência lateral de rocha e de lá atiravam suas flechas. Kelhim soltou um grito quando uma flecha atingiu seu ombro. Gorg por pouco não fora atingido por uma verdadeira rajada de flechas que, subitamente, abatera-se sobre ele.

Rangarig levantou a cabeça, abriu a goela e lançou um violento feixe de fogo contra a parede. Ofuscado, Kim fechou os olhos. Uma forte onda de calor passou pelo Desfiladeiro. Kim e Priwinn soltaram gritos de pavor e procuraram abrigo atrás de uma rocha. Quando, finalmente, a brasa se extinguiu, não havia mais sinal dos artilheiros.

— Adiante! — gritou Priwinn, correndo para a frente, seguido por Kim.

Gorg e Kelhim se aproximaram do outro lado. A chama lançada pelo dragão conseguira frear a fúria do inimigo, mas os cavaleiros ainda continuaram a atacar por algum tempo.

E, de repente, estavam livres! Os guerreiros se dissiparam e desapareceram, e só o estalar das rochas ardentes e os gemidos de Kelhim deram testemunho de que tudo não passara de um pesadelo.

— Não podemos perder tempo — urgiu Rangarig. — Eles agora estão prevenidos.

E, assim, seguiram em frente. Kelhim, devido ao ferimento, locomovia-se com dificuldade e gemia baixinho. Mas o urso agüentou firme até que, finalmente, fizeram uma pausa.

Jogaram-se no chão, exaustos. Até Rangarig, sempre a postos, não pôde evitar uma respiração ruidosa e ofegante. Kim notou que o dragão perdera algumas de suas escamas douradas. Dos pequenos ferimentos pingava sangue e seu olho direito piscava sem parar.

— Você está ferido! — constatou Kim, assustado. Rangarig bufou:

— Alguns arranhões, nada mais. Não há motivo para preocupação. Tratai de Kelhim. Enquanto isso ficarei na vigia.

Rangarig se virou e, gingando, retornou alguns metros, desaparecendo atrás de uma curva.

Kim rastejou para perto de Gorg e Priwinn, que estavam cuidando dos ferimentos do urso. Priwinn mexia, com mãos hábeis, no ombro de Kelhim e Gorg teve de empregar toda sua força para segurar o urso que, cego de dor, debatia-se violentamente.

— Ajude-me! — arquejou Priwinn.

Depois de alguma luta, conseguiram, finalmente, extrair a flecha do ombro do urso. A flecha, que penetrara profundamente na carne, era larga e tinha a extremidade guarnecida com pontas farpadas. Não era à toa que Kelhim se debatera tanto.

— Por sorte eles não têm o hábito de envenenar suas flechas — resmungou Gorg, que soltou as patas do urso.

Gemendo, o gigante levantou do chão:

— Kelhim teve sorte e nós também... Aliás, uma tremenda sorte!

— Sorte coisa nenhuma — revidou Rangarig. — Eu dou cabo de todos eles!

Gorg sorriu, mas, excepcionalmente, absteve-se de fazer um de seus comentários irônicos. Sentou no chão ao lado do urso e colocou a mão no ombro intacto:

— Você acha que vai conseguir andar? Kelhim bufou:

— É claro que vou andar — disse com voz rouca. — Não é um palito de dente que vai me derrubar. Só preciso descansar um pouco e depois...

— Não vai dar — interrompeu Gorg com delicadeza. — Temos de continuar imediatamente. Precisamos ganhar tempo... Aliás, precisamos de uma considerável vantagem, senão...

Gorg olhou preocupado para o céu, que, lá no abismo, se apresentava como uma fina tira azulada entre as paredes do Desfiladeiro:

— Neste trecho o despenhadeiro não é muito largo. De repente eles podem ter a idéia de nos bombardear, lá do alto, com blocos de rocha... Aí estaremos fritos.

— Mas Kelhim precisa descansar — insistiu Kim.

— Eu sei, eu sei — retrucou Gorg, aflito —, mas não dá. Se ficarmos aqui, vamos morrer. O Barão Kart é tudo, menos burro.

Barão Kart... um nome que causava arrepios! Kim perguntou:

— Você... você o viu?

— Sim, e eu queria poder lhe torcer o pescoço!

— Quem sabe o teu momento chegará — murmurou Kelhim, e se pôs de pé com alguma dificuldade.

Rangarig voltou do seu posto de espreita, bufando:

— Tudo calmo, acho que pelo menos por enquanto nos livramos deles.

— Ainda falta muito até o Rio Desaparecido? — perguntou Kim.

Rangarig sacudiu a cabeça e lançou um rápido olhar na direção do urso:

— Quatro a cinco horas.

Em pouco tempo, o lugar onde haviam repousado ficou para trás. Ninguém falava e, com exceção dos periódicos suspiros de Kelhim, tudo permanecia em silêncio. A estranha angústia que Kim sentira antes de entrarem no cânion novamente se apossava dele, dessa vez com mais intensidade. Examinou as paredes perpendiculares das rochas, totalmente lisas, como se tivessem sido polidas, e a angústia, aos poucos, deu lugar a um medo quase irracional. Também Gorg se virava para trás em intervalos cada vez mais curtos. No olhar, uma mal contida apreensão. Até em Rangarig, Kim notou uma certa preocupação. Agora ele entendia o porquê do nome Desfiladeiro das Almas. Aquele lugar era a pátria do medo, lá o medo se tornava real, assumia formas concretas. Era um medo de que ninguém escapava e que atacava a todos que ousassem penetrar no Desfiladeiro, sem distinção de classe, raça ou forma física.

Só à custa de algum esforço Kim conseguia colocar um pé diante do outro, pois era preciso muita força de vontade para não fugir dali correndo. O tempo passava lento e aos poucos o garoto chegou a um estado de espírito no qual suas idéias já não eram mais racionais. A única coisa que sentia ou pensava era medo! Mal respirava, e algumas vezes, quase inconsciente, tombou contra alguma parede rochosa e caiu no chão.

Até o dragão arquejou. Cada palavra lhe custava um certo esforço:

— Fal... ta... falta... pouco...

O único consolo era que, provavelmente, os inimigos se encontravam na mesma situação. Mas, quando lembrava da fisionomia metálica do Barão Kart, Kim tinha dúvidas. O Barão e os seus eram criaturas da noite, servos do mal. Sentiam medo? Não era exatamente o fato de não sentirem medo que os tornava tão poderosos?

Em um dado momento, depois de uma eternidade — pelo menos é o que lhe parecia —, apareceu um vislumbre de luz à sua frente. Apressaram os passos e, após mais alguns minutos, o terreno se transformou em enorme e afunilada depressão que Kim associou a uma cratera formada por uma gigantesca explosão. O Desfiladeiro continuou do outro lado da depressão. Entre os dois lados estendeu-se a superfície viscosa de um lago cinza-chumbo, de ondas efervescentes. Um surdo rumorejar fez o chão vibrar e um cheiro penetrante de mofo e umidade pairava no ar.

E aí, algo estranho aconteceu: deixaram o Desfiladeiro e seguiram na direção da depressão e, de repente, como num piscar de olhos, o medo desapareceu! Ficou a sensação desagradável que se tem depois de um pesadelo.

Exausto, com as pernas e os braços pesados como chumbo, Kim se encostou em uma das paredes rochosas e perguntou:

— É ele? É este o Rio Desaparecido?

Gorg, de fisionomia séria, inclinou a cabeça em sinal afirmativo:

— Apenas um pequeno trecho. Aqui ele vem à tona, mas desaparece novamente na montanha do outro lado... Dá para ver?

Kim seguiu com os olhos o braço estendido do gigante e percebeu uma abertura dentada na rocha, quase oculta por trás de uma cortina de água. Um atalho pedregoso e bem largo conduziu ao longo do lago para a caverna, aparentemente confortável e de fácil acesso.

— E... o Tatzelwurm? — perguntou Kim, temeroso.

— Ele sabe que estamos aqui — respondeu Rangarig. — Ele já o sabe há muito tempo. Ele sabe de tudo que acontece no Desfiladeiro das Almas, nada lhe escapa.

— E... onde ele está?

Rangarig soltou uma risada retumbante, porém um pouco forçada:

— Talvez até esteja com medo... Um visitante como eu certamente nunca apareceu por aqui.

De repente, o dragão levantou a cabeça e gritou:

— Ei, Tatzelwurm! Sai da toca! Eu sei que estás aqui!

As rochas devolveram as palavras em forma de eco distorcido. A cauda do dragão açoitou o chão nervosamente, provocando faíscas na rocha. E ele novamente desafiou o seu terrível “primo”:

— O que aconteceu?! Tu tens medo?

Nenhuma reação... E aí, de repente, ouviu-se um terrível bradar. A água do lago começou a ferver e a borbulhar e, diante dos olhos arregalados de Kim, emergiu das águas uma gigantesca cabeça, seguida por um pescoço de serpente tão comprido que Kim pensou que o monstro fosse apenas cabeça e pescoço. Mas depois também apareceu o corpo do Tatzelwurm, uma massa gigantesca formada por placas couraçadas, ferrões córneos e garras!

— Ah... finalmente! — retumbou Rangarig. — Eu pensei que não estivesses em casa.

— O que tu queres aqui? — revidou o Tatzelwurm, aos berros. — Tu não és bem-vindo. Ninguém penetra o meu domínio, esqueceste?

Rangarig sacudiu a cabeça:

— Nem por um segundo, primo. Eu vim para te propor um acordo.

— Um acordo?! — gritou o Tatzelwurm. — Eu não faço acordos, tu sabes disso. Quem vem aqui paga com a vida. Até tu... Além disso, estás acompanhado por umas figuras bem ridículas!

— São meus amigos — respondeu Rangarig, já menos seguro que antes.

— Eles querem atravessar o lago... e aí entra o acordo que quero te propor.

— Ah é? Pois, fala. Que diferença faz se vos devoro agora ou depois? Vou comer-vos de qualquer maneira... Mas fala, o que propões?

— Simples — respondeu Rangarig, aparentemente calmo. — Tu deixas meus amigos atravessar o lago e eu desistirei de te fazer comer a própria cauda, seu fruto degenerado da minha família!

Por um momento, o Tatzelwurm perdeu a fala. Certamente, até hoje, ninguém ousara falar com ele assim. Refeito do susto, começou a praguejar com tamanha violência que as paredes de rocha estremeceram sob os seus gritos.

— Como tu ousas falar comigo assim? Espera... Vou te mostrar quem manda aqui!

O monstro se empinou, depois mergulhou, provocando um enorme repuxo de água espumante e, por baixo da água, arremessou água como um torpedo contra Rangarig.

— Rápido! — gritou o dragão. — Tentarei detê-lo até que vós alcanceis a caverna... Depressa!

Kim, Priwinn, o urso e o gigante dispararam, mas não chegaram longe. De repente, a superfície da água explodiu perto da margem e o Tatzelwurm apareceu em toda sua monstruosidade. Ainda correndo, Kim se virou e não conteve o grito de pavor ao ver o tamanho do monstro. Há pouco, ainda em seu hábitat, no lago, já se apresentava gigantesco, mas agora, ao lado de Rangarig, era simplesmente um pesadelo que se tornava realidade. Com a goela escancarada (até Gorg, de pé, cabia nela, de tão monumental que era!) e um furioso zumbido, arremessou algo contra Rangarig. O dragão dourado escapou por um triz e, com sua cauda, desferiu um golpe na nuca do Tatzelwurm que o fez bater violentamente nas rochas. Com o impacto, um de seus dentes, longos e curvados, quebrou. O Tatzelwurm começou a debater-se em meio a uma horrenda gritaria. Sua cauda açoitou tudo ao seu redor, varreu Rangarig dos pés e se enrolou, como uma serpente, em volta do pescoço do dragão dourado. Rangarig resistiu com toda força e, ao mesmo tempo, fincou seus dentes na parte mais sensível do corpo do adversário: a barriga! E, novamente, o barranco estremeceu sob os berros pré-históricos. O Tatzelwurm empinou o corpo e arrastou o dragão dourado para a caverna.

Kim desprendeu-se da terrível cena a muito custo e acelerou o passo. Os outros já estavam bem na frente. Se Rangarig conseguisse deter o monstro por mais algum tempo, eles estariam salvos!

Mas parece que o Tatzelwurm leu seus pensamentos, pois, nesse momento, desvencilhou-se do seu adversário e seus olhos, pequenos e maldosos, deslizaram sobre o lago.

— Traição! — gritou.

Com um gesto irado, lançou Rangarig longe e fez menção de se lançar na água para perseguir Kim e seus amigos. Rangarig abocanhou sua cauda, arrancou-lhe uns seis metros e se jogou sobre as costas largas do monstro. O Tatzelwurm gritou, sacudiu o corpo e se jogou na água. Kim ainda viu as asas amplamente abertas de Rangarig e a goela escancarada da besta, depois os dois gigantes desapareceram em meio a um turbilhão de águas efervescentes e espumantes.

Ofegante, Kim alcançou a caverna. Ele queria se virar para ver o que estava acontecendo com Rangarig, mas Gorg simplesmente o pegou nos braços e o levou para o fundo da caverna bem longe da entrada.

Furioso, Kim se debateu:

— Solta-me! — gritou. — Temos de ajudar Rangarig. Ele é nosso amigo! Não podemos abandoná-lo!

— Tu não podes ajudá-lo, Kim — disse Gorg. — Nenhum de nós pode.

— Mas ele vai morrer! — chorou Kim. — O Tatzelwurm vai matá-lo!

— Talvez — disse Gorg. — Ele viu que estamos salvos... Quem sabe? Talvez ele escape com vida.

Kim lembrou do último e rápido reluzir dourado por trás da cortina de águas borbulhantes. Estava na cara que Gorg não acreditava no que dizia. Kim estava desesperado, mas, aos poucos, o desespero deu lugar a um surdo e abafado torpor.

Gorg tentou acalmá-lo com palavras carinhosas:

— Eu sei o que tu estás sentindo, Kim. E acredites, nós sentimos o mesmo. Mas, Rangarig sabia em que estava se metendo. E ele também sabia que numa luta com o Tatzelwurm sairia perdendo.

— Mas, então, por que... por que ele... — Kim soluçava tanto que não conseguia falar.

— Não havia outra alternativa. Ele teve de enfrentar a situação e o fez porque quis. Eu faria o mesmo se fosse necessário, assim como Kelhim e Priwinn. Cada um de nós daria sua vida para salvar Märchenmond. Também tu, não esqueças isso!

— Mas, Rangarig...

— Era teu amigo, eu sei.

De repente, o chão começou a trepidar e uma tremenda gritaria abalou a caverna. Depois, novamente o silêncio.

— Passou — murmurou Gorg. — O que quer que tenha acontecido, nada podemos fazer. E, quem sabe... Talvez ele até tenha escapado... Com certeza!

Gorg deu um tapa amigável no ombro de Kim na tentativa inútil de lhe dar um pouco de ânimo:

— Vem, temos de seguir. Ainda temos muito caminho pela frente. Os outros estão à nossa espera.

Com passos lentos e cansados, Kim andou ao lado do gigante por um caminho estreito, às margens do rio. Em nenhum momento Gorg tirou a mão do ombro de Kim — para segurá-lo caso o chão escorregadiço o fizesse cair nas águas agitadas, o que, certamente, seria fatal.

Kelhim e o Príncipe das Estepes esperavam por eles sobre uma saliência de rocha, que se erguia sobre as águas e oferecia espaço para todos.

O urso soltou alguns roncos amigáveis e o cutucou com seu focinho úmido, querendo animá-lo.

— Deixe-me — disse Kim, mal-humorado.

Ele sabia que estava sendo indelicado com Kelhim, mas sentiu necessidade de ferir alguém para, assim, abafar ou pelo menos amenizar sua própria dor. Mas, logo caiu em si e sorriu para o urso, pedindo-lhe perdão.

Priwinn, hesitante, tocou-o suavemente:

— Tu não podes cair em desespero. Rangarig está vivo, estou certo disso. Ele vive, enquanto estiver no seu pensamento.

Kim levantou a cabeça, sorriu e fechou os olhos. É isso mesmo, pensou. Enquanto alguém se lembrasse do dragão dourado, ele continuaria vivo. E, nesse momento, decidiu que o dragão dourado nunca morreria.

A parede não era muito íngreme, mas a água que chuviscava, incessante, sobre a rocha cobria tudo, inclusive os quatro amigos, com um gelado e fino nevoeiro, tornando a descida extremamente perigosa, pois a pedra estava úmida e escorregadia, de modo que mãos e pés não encontravam nenhum apoio. Kim, as mãos endurecidas pelo frio, tateava a rocha à procura de desníveis ou pequenas rachaduras que lhe pudessem servir de apoio. Antes de ousar dar a próxima pisada, certificava-se de que seus pés e mãos estivessem firmemente ancorados na rocha.

Após apenas dez minutos e já havia esgotado suas forças. Estava tenso, com os músculos rijos e não vencera nem a metade da descida. Ele parou por um instante, respirou fundo e olhou para baixo. Mais uns dez metros! Gorg e Priwinn já tinham chegado no fundo e olhavam, preocupados, para cima. O gigante juntou as mãos em concha diante da boca e gritou algo. Mas o barulho das águas que tombavam para o abismo ao lado deles engolia as palavras.

Mas, Kim sabia o que Gorg queria lhe dizer. Ele não prestara atenção e desviara muito para a esquerda. Um pouco mais à direita o caminho era bem mais acessível, mas Kim não encontrou força e coragem para subir a parede novamente, nem mesmo um curto trecho. E, assim, foi tateando, centímetro por centímetro, até que finalmente Gorg, de braços estendidos, conseguiu enlaçá-lo pela cintura.

— Podes te soltar! — gritou o gigante.

Kim desprendeu-se da rocha com um suspiro de alívio. Gorg o tirou da parede com a maior facilidade e o colocou no chão, como se fosse um boneco. Preocupado, perguntou:

— Está tudo bem?

Kim acenou com a cabeça e, seguindo o exemplo dos amigos, olhou para cima. Estavam seguindo o curso do Rio Desaparecido há dois dias. Fora uma caminhada problemática: por duas vezes perambularam, perdidos e à beira da exaustão, pelo labirinto subterrâneo, mas a parede rochosa que agora se erguia diante deles, aparentemente inofensiva, facilmente poderia tornar-se fatal para eles, ou pelo menos para um deles.

— E aí? — gritou Gorg. — Que tal?

Kim tinha certeza de que a voz do gigante não se ouvia lá no alto, mas não tardou e apareceu a cabeça peluda do urso por trás de uma saliência de rocha. Kelhim falou algo que não dava para ouvir, mas eles entenderam o que ele quis dizer.

Na esperança de poder contornar a parede rochosa, o urso seguiu o atalho que os havia conduzido para aquele penhasco, mas, pelo que parecia, não tinha dado certo. Para ele, com o ombro ferido e agora também infeccionado e com dores quase insuportáveis, a descida tornara-se praticamente impossível. Caminhar em terreno plano já era complicado, quanto mais descer uma parede rochosa lisa e escorregadia! A flecha que o atingira não estava envenenada, mas pelo visto continha o feitiço da inversão negativa, isto é, invalidava o poder milagroso de cura de Märchenmond, pois toda e qualquer tentativa de ajudar o urso ou aliviar seu sofrimento falhara. A ferida simplesmente não cicatrizava!

Gorg cerrou os punhos em mudo desespero:

— Se pelo menos tivéssemos uma corda! Qualquer coisa com que pudéssemos descê-lo!

Olhou para a queda d'água como se ela fosse a culpada. Nesse instante, Kelhim gritou lá do alto:

— Sai da frente! Vou pular!

Gorg pôs a mão na cabeça e, sem sair do lugar:

— Tu estás louco! Vais te arrebentar!

— Eu arrebento a tua cabeça, se não saíres do caminho! — gritou Kelhim, irritado. — Sai da frente! São apenas dez metros!

Gorg continuou indeciso. Mas ele e os outros sabiam que não havia outra alternativa. Não tinha volta. Mesmo que o urso conseguisse encontrar o caminho de volta para o Desfiladeiro das Almas, jamais conseguiria passar pelo monstro que lá estava, à espreita. Além do mais, Kelhim estava fraco demais para uma empreitada dessas.

O urso aproximou-se, cauteloso, da beirada; levantou o focinho e ergueu a pata. Finalmente, com um profundo suspiro, Gorg deu alguns passos para o lado, de costas para a queda d'água retumbante.

Não foi o pulo em si que preocupou o gigante. Kelhim já enfrentara alturas bem maiores do que aqueles dez metros. Mas havia alguns fatores que contribuíam para reduzir as chances do urso, que já não eram nada boas em vista do ferimento no ombro. O perigo maior era a saliência de rocha em declive e com pouco mais de um metro de largura que lhe serviria de trampolim. Para piorar ainda mais a situação, a umidade a deixara escorregadia.

Nesse instante, o urso deu um passo para a frente e... deixou-se cair! Por uma fração de segundos, Kim teve a impressão de que o corpo do urso pairava no ar, imóvel. No mesmo instante, ele despencou e, ainda no ar, enrolou-se, formando uma enorme bola peluda. Depois bateu no chão com força e o grito de dor confundiu-se com o barulho das águas.

Kelhim continuou rolando na direção do abismo. Desesperado, procurou algo em que pudesse se agarrar. Por um alucinante momento, todos pensaram que ele não se salvaria, mas Gorg deu um salto e agarrou a nuca do urso. Com todas as suas forças, o gigante o arrastou para longe do abismo ameaçador.

Kelhim gemeu, a ferida em seu ombro abriu novamente e o sangue escuro misturou-se às gotas de água em seu pêlo.

Gorg ajoelhou-se ao lado do amigo e acariciou sua pata. Kelhim resmungou e, pela primeira vez, sua voz trepidava.

Os três amigos o ajudaram a se pôr de pé.

— Vamos fazer uma pausa — sugeriu Priwinn. — Assim ele não pode continuar.

Irritado, Kelhim sacudiu a cabeça:

— Se eu deitar agora, não levanto mais. Temos de continuar... Para dizer a verdade, já não agüento mais ver cavernas e labirintos subterrâneos! Nem lembro mais a cor do céu!

Kim teve pena do urso, pois sabia que o tom alegre com que falava devia encobrir seu sofrimento.

Porém, pior que toda a carga física que tinham de suportar, era a escuridão e o permanente estrondear das águas que deixava seus nervos à flor da pele. Kim sentia frio há dois dias sem parar, sem trégua! A onipresente umidade infiltrava-se na roupa, na pele, e penetrava, impiedosa, as entranhas. Kim teve a impressão de que nada, jamais, conseguiria afugentar aquele frio, nem mesmo a maior fogueira do mundo.

A descida continuou íngreme e, finalmente, chegaram a uma rocha trapezóide, cuja extremidade formava uma espécie de escadaria natural, que conduzia para uma profundidade ainda maior.

Kim espiou para baixo: àquela altura, já deviam estar bem mais adiantados! De onde estava já dava para ver o fundo do abismo, onde as cataratas tombavam num lago redondo, negro, cujas águas, com o impacto, eram lançadas para o alto formando um enorme chumaço abaulado de espuma.

Ali, o barulho das águas era ainda maior, impossibilitando qualquer comunicação verbal. Kim cutucou Gorg e apontou para baixo. O gigante acenou com a cabeça. Lançou um rápido olhar cheio de preocupação para o urso e começou a descer.

Foi mais fácil do que pensaram. A rocha realmente formava uma escada, cuja superfície era áspera, permitindo-lhes locomover-se com certa segurança. Mesmo assim, demorou mais de uma hora até que, finalmente, alcançaram as margens do lago subterrâneo. E, por incrível que pareça, lá embaixo o barulho das águas era bem mais brando. A chaminé rochosa pela qual haviam descido talvez abrandasse o ruído.

Pensativo, Kim ficou olhando para a superfície efervescente do lago, que era bem maior que aquele em que habitava o Tatzelwurm. Seu escoamento tinha mais de cem metros de largura e era muito profundo. Um verdadeiro rio que corria nas profundezas da terra! Kim se ajoelhou e, com um certo receio, pôs a mão na água, cuja temperatura era mais elevada do que imaginara. Naquele trecho, as águas do Rio Desaparecido já não eram mais caudalosas.

Kim levantou e tentou seguir o curso do rio com os olhos. Também ali reinava aquela estranha e inexplicável luminosidade esverdeada que os acompanhara anteriormente, porém, bem mais fraca. A visibilidade era bastante limitada, cerca de cinco metros, depois eram só sombras. Mas, apesar disso, os amigos tinham uma certa noção da enorme caverna em que se encontravam. Era como se a intensidade da luz diminuísse, mas não a luz em si, pensou Kim, um pouco desnorteado.

— E agora? — perguntou Priwinn. Gorg ergueu os ombros:

— Não sei. De todos os aventureiros que seguiram este caminho antes de nós... ninguém jamais voltou.

Kim tinha suas dúvidas. Se fosse como Gorg dizia, então como se tinha conhecimento do Rio Desaparecido? Além disso, como se sabia em Gorywynn da existência do deserto gelado, do Castelo do Fim do Mundo e de todos os perigos que ainda estariam por vir? Mas preferiu não fazer nenhum comentário.

Deram uma volta ao redor do lago para certificar-se de que a caverna não tinha outra saída e que, tão próximos do seu objetivo, ainda pudessem, eventualmente, escolher o caminho errado. Em seguida, entraram em fila indiana na galeria estreita e baixa, por onde escoavam as massas de água. O teto era liso e abaulado e tão baixo que Gorg teve de se inclinar bastante para não bater a cabeça. Kim tentou não pensar nas muitas toneladas de rocha negra que se amontoavam sobre eles. Apesar do caminho se alargar aos poucos, permitindo-lhes até caminhar lado a lado, uma sensação de claustrofobia começou a invadi-lo: era como se o teto e as paredes se estreitassem cada vez mais, para esmagá-lo sem piedade.

E, para piorar, o caminho foi, aos poucos, afunilando novamente. Do rio saíam rochas pontiagudas, nas quais as águas se quebravam, formando pequenas montanhas de espuma ou minúsculos redemoinhos.

— Não falta muito — resmungou Kelhim. — Não falta muito... Gorg balançou a cabeça em sinal afirmativo e sugeriu:

— Deveríamos fazer uma pausa para descansar.

— Mas já estamos tão perto!

— Justamente por isso devemos fazer uma pausa. Estamos todos cansados e sabe-se lá o que nos espera do outro lado da Cordilheira. Talvez seja melhor aparecermos lá descansados.

Ninguém se opôs, pois todos estavam realmente exaustos. E o gigante tinha razão: o rio logo iria deixar seu leito subterrâneo e aí seria bem melhor que estivessem descansados. Talvez tivessem de fugir, ou lutar... Seu destino estava escrito nas estrelas.

Lado a lado, recostaram-se na parede da caverna para encontrar um pouco de descanso. Apesar do barulho das águas e do frio úmido, caíram no sono rapidamente.

Kim acordou com alguém sacudindo seu ombro. Em seguida, uma mão apertou-lhe a boca com força, abafando qualquer som.

Ele teve um sobressalto e, confuso, viu o rosto de Priwinn debruçado sobre o seu. O Príncipe das Estepes retirou a mão da boca do amigo e colocou o dedo sobre os lábios, fazendo-lhe sinal para permanecer calado.

Kim acenou com a cabeça e perguntou, sussurrando:

— O que está acontecendo?

Priwinn apontou com o dedo para trás:

— Vem vindo alguém. Parece que nos seguiram.

— Armaduras negras? — perguntou Kim, assustado.

Priwinn ergueu os ombros:

— Gorg voltou para ver se descobre alguma coisa — disse, também sussurrando. — Mas acho melhor nos prepararmos para uma fuga um tanto rápida.

Kim levantou-se imediatamente e colocou a espada e o escudo no braço esquerdo. Por um instante hesitou, depois desembainhou a espada e a entregou a Priwinn.

— Por que isso? — perguntou o príncipe, surpreso.

— Você não tem arma nenhuma. Você precisa se defender. O Príncipe das Estepes devolveu-lhe a espada, sorrindo:

— Eu não preciso dela.

— Eu sei — disse Kim. — Eu vi como você lutou sem arma, mas... Com um gesto impaciente, Priwinn o interrompeu:

— Tu não entendeste. Não usamos armas, nenhum de nós.

— Você quer dizer que...

— Eu quero dizer que nenhum cavaleiro das estepes jamais pegaria numa arma — explicou Priwinn. — Nós aprendemos a nos defender sem armas. Desprezamos as armas e desprezamos os que as usam.

— Mas você tem um escudo!

— Uma arma e um escudo são duas coisas bem diferentes, não são? — retrucou Priwinn, um pouco irônico.

Mas, logo ficou sério novamente:

— Vamos falar sobre isso mais tarde... Estou ouvindo algo. Atentos, aguardaram o que estava por vir. Nisso, Gorg se aproximou, nada silencioso.

— Onde está Kelhim? — perguntou Kim em voz baixa. Priwinn apontou, mudo, para uma sombra escura que de longe

parecia uma rocha, mas que se revelou ser o urso. Kim balançou a cabeça, satisfeito. Se os cavaleiros do Barão Kart realmente os seguiram até aquele ponto, uma surpresa bem desagradável estaria esperando por eles.

Gorg se juntou a eles, carregando no ombro direito um corpo mole e sem vida. Estava bastante sem graça.

— Brobing! — exclamou Priwinn, quando reconheceu de quem se tratava.

Gorg depositou o corpo do camponês no chão com algum cuidado e deu um passo para trás. Kim se ajoelhou e tateou o rosto e o pescoço do homem desmaiado. Depois suspirou, aliviado. A cabeça do camponês ostentava um imponente galo, mas ele respirava! Kim molhou o rosto de Brobing com um pouco de água e este abriu os olhos, emitindo alguns gemidos.

— O que você fez com ele, Gorg?

O gigante girou os dedos. Muito constrangido, começou a gaguejar:

— É que... Eu sinto muito... Mas ele se aproximou na surdina e a luz estava fraca... Eu só... eu nem toquei nele direito...

— Está bem, Gorg, ele está acordando.

Brobing tateou o galo na cabeça sob gemidos. Priwinn debruçou-se sobre ele:

— Tu nos seguiste! Que idéia maluca foi essa? Gorg quase amassou teu crânio porque te confundiu com o inimigo.

Brobing, ainda gemendo, segurou a cabeça com as duas mãos. A muito custo conseguiu erguer o corpo:

— Fugir... — disse, entre dentes cerrados. — Vós... tendes... fugir... Eu... eu vim para avisar...

— Avisar?! Mas o quê...?

— As armaduras negras... Eles vos perseguem!

— Isso já percebemos — resmungou Kelhim, que saiu do seu posto de vigia.

— Eles estavam esperando por nós no Desfiladeiro, mas conseguimos atrapalhar seus planos.

Brobing balançou a cabeça:

— Não é isso, Kelhim, eu... Depois que vós partistes, nós começamos a procurar um lugar onde pudéssemos nos abrigar, enquanto vós não voltáveis e... de repente, ouvi um ruído diferente. Pedi à minha família que se escondesse e me pus a descobrir a origem do ruído. Era um exército inteiro de cavaleiros negros!

— Quantos exatamente? — perguntou Gorg.

— Não sei... Talvez uns quinhentos ou mais. Estavam a caminho do Desfiladeiro.

— Quinhentos! — exclamou Gorg, assustado.

— Então os que esperaram por nós no Desfiladeiro era uma espécie de grupo de reconhecimento — constatou Kelhim.

— Provavelmente — disse Brobing. — Depois que vi aquele exército, aconselhei-me com a minha família e achamos que devíamos avisar-vos. Levei os meus para um esconderijo seguro nas montanhas e vim atrás de vós.

— Mas, como conseguiste passar pelo Barão Kart e pelo Tatzelwurm? — indagou Priwinn.

— Eu tive sorte. No Desfiladeiro reinava a maior confusão, tudo apontava para uma luta feroz. As armaduras negras, pelo jeito, sofreram grandes perdas. Mas, como era impossível passar por eles despercebido, procurei um esconderijo. Quando chegou o exército, eu os segui, mantendo uma certa distância, é claro, e sempre à espera do momento certo para continuar sozinho.

— E depois? — perguntou Gorg, apreensivo. Brobing continuou:

— Quando eles chegaram ao lago, atacaram o Tatzelwurm.

— Não é possível! Estás falando sério?

— Sério... Foi uma luta terrível! As armaduras negras trouxeram enormes catapultas, com as quais lançaram dardos e blocos de rocha sobre o monstro, mas de nada adiantou, pois ele os arrebentou como se fossem simples brinquedos. E depois o Tatzelwurm passou para o ataque.

— Você, por acaso, viu algum sinal de Rangarig? — perguntou Kim baixinho.

Uma expressão de tristeza passou pelo rosto do camponês:

— Nenhum sinal... Sinto muito.

— E depois? — urgiu Gorg.

— Acho que a luta durou mais de uma hora — contou Brobing. — Muitas armaduras negras perderam a vida. Mas, por fim, o Tatzelwurm foi derrotado pela superioridade numérica dos cavaleiros: eles o mataram e o exército seguiu adiante. Acamparam às margens do Lago Perdido. Eu esperei até de noite, depois entrei na água e nadei até a caverna.

— Um empreendimento bastante ousado!

Brobing fez um gesto de menosprezo:

— Nem tanto. Os cavaleiros sentiram-se bastante seguros e todos caíram em sono profundo, até mesmo os vigias. Quem, afinal, os atacaria aqui? Eu passei por eles sem maiores problemas, segui o curso do rio e... Bem, aqui estou.

Gorg suspirou:

— Pois é, agora tu estás aqui. Quantas horas nos separam deles?

— Eu acho que apenas algumas poucas horas — respondeu Brobing, nervoso. — É que eu me perdi no labirinto das cavernas e só consegui encontrar o caminho certo depois de algum tempo.

— Nós estávamos seguros demais e com isso perdemos muito tempo — resmungou Gorg.

O gigante olhou ao redor, como se esperasse o inimigo a qualquer momento:

— Temos de continuar imediatamente!

— Somos muito gratos a você, Brobing — disse Kim. — A sua coragem de nos seguir até aqui talvez nos tenha salvado a vida.

Brobing esboçou um sorriso meio sem graça:

— Vós arriscastes a vida para nos salvar, lembrais?

O camponês levantou-se, foi até a margem do rio e mergulhou as mãos na água gelada.

Priwinn esperou até que ele se refrescasse, depois perguntou:

— Quantos restaram depois da luta com o Tatzelwurm? Brobing refletiu por um momento, depois respondeu:

— Como eu já disse, eles sofreram grandes perdas, mas... acho que ainda devem ser mais de cem.

— O que estamos esperando? — perguntou Gorg. — Vamos! Quanto antes deixarmos as cavernas, melhor!

E, assim, partiram. Kelhim, que de todos tinha os sentidos mais aguçados, foi por último. A imagem dos inimigos, tão próximos, fez com que acelerassem o passo. Aos poucos, o leito do rio foi se afunilando e a correnteza estava cada vez mais forte. Mais uma vez tiveram de descer uma rampa íngreme, coberta de pedregulho, até que, finalmente, alcançaram uma grande caverna em cuja extremidade os saudou um minúsculo ponto acinzentado... a luz do dia!

Kim soltou um suspiro de alívio. Até chegar ao final da caverna ainda teriam de caminhar um bom pedaço, umas duas ou três horas, talvez, mas comparado com tudo que passaram, era quase um passeio. Esperaram por Kelhim, que ficara para trás, à espreita.

— Conseguimos! — suspirou Priwinn. — Achei que nunca mais iria ver a luz do dia!

Kim sentiu o mesmo e até no olhar de Gorg viu um relampejar de alegria. As sombras acinzentadas, que pareciam sair do teto e das paredes rochosas, ficaram para trás. Por algum tempo permaneceram em silêncio, sem palavras, cada um mergulhado em seus pensamentos e à espera do urso, até que Gorg perdeu a paciência:

— Eu vou ver o que está acontecendo! Esse bobalhão é capaz de se deixar prender!

As palavras ásperas, no entanto, deviam encobrir sua preocupação com o amigo. O gigante deu meia-volta e começou a subir a encosta que acabara de descer. Mas depois de alguns metros, o urso apareceu no topo da rampa. Agitado e ofegante, agitou-se rampa abaixo, arrastando consigo uma avalanche de poeira e pedras:

— Estão vindo! — gritou em altos brados. — As armaduras negras estão chegando!

O gigante deu um pulo para escapar tanto do urso, que vinha com toda velocidade, como também da avalanche de pedras:

— Se tu gritares mais alto eles nem terão de nos procurar — gritou, irritado.

— Vamos dar o fora! — exclamou Kelhim. — Eles já estão aí!

— Muita calma nessa hora — disse Gorg, girando a clava, c queixo erguido.

— O que significa “eles estão aí...”?! Quantos são? — Kelhim bufou:

— Significa que eles estão aí, ora! Que em poucos minutos vão chegar... Eu acho que eles me viram... Quantos são? Eu não contei, mas acredites, são mais do que podemos suportar, além disso estão a cavale

— A cavalo? — perguntou Kim, estupefato.

— É isso mesmo, trouxeram seus cavalos... Não me perguntes com conseguiram essa façanha, talvez com cordas... Sei lá! Vamos... vamos..

Kelhim manquejou na frente dos outros o mais depressa que pôde. Kim estava confuso, seus pensamentos se atropelavam. Cavalos?! Aqui, nas entranhas da terra? Para ele e os amigos fora uma tortura seguir o curso subterrâneo do rio, como, então, seria para um exército inteiro com cavalos e armaduras... No entanto, ele viu a maneira impiedosa com que Kart tratava seus homens. Para o Barão, a vida de um ser não tinha o menor significado.

De repente, um grito de fúria se mesclou ao barulho das águas. Kim se virou e por pouco não caiu de susto. No topo da ladeira surgiu uma figura alta, toda de preto, e atrás dele, ainda envoltos em penumbra, foram aparecendo cada vez mais armaduras negras.

Em um reflexo automático, Kim encolheu a cabeça, não sem tempo. Na mesma hora, alguém gritou uma ordem, seguida por uma rajada de flechas que, por sorte, não os atingiu, pois já se encontravam fora do alcance dos projéteis mortais, que esbarraram nas rochas ou caíram na água, sem lhes causar danos.

Agora apareceu o primeiro homem montado em seu cavalo, seguido por outro e mais outro, até que a caverna ficou repleta de cavalos inquietos e nervosos. Um breve comando e o primeiro cavaleiro conduziu seu animal, cuidadosamente, rampa abaixo. O cavalo relinchou e jogou a cabeça para trás, mas o cavaleiro o impeliu para a frente. Outro veio logo atrás e depois seguiu o exército todo! Era como se a própria penumbra tivesse despertado para a vida! Havia mais de cem cavaleiros, como Brobing dissera! Um dos cavalos tropeçou e, ao cair, soterrou seu cavaleiro. Uma avalanche de pedregulho despencou, arrastando vários cavaleiros, matando homens e animais, o que, no entanto, não interrompeu o avanço do inimigo.

— Mais rápido! — gritou Gorg.

O gigante levantou Priwinn como se fosse um boneco e o colocou nas costas largas do urso, que resmungou quando o príncipe encostou em seu ombro ferido, mas logo em seguida deu uma arrancada e disparou desenvolvendo quase a velocidade de um cavalo. Gorg agarrou o camponês e o colocou nos ombros, e também Kim sentiu a enorme mão de Gorg. O gigante o enfiou debaixo do braço como se fosse um «aro. Gorg saiu correndo tão depressa que Kim quase ficou tonto.

Mas, para Kim, estava claro que nem o urso com seu ombro ferido, nem o gigante com seu duplo fardo, iriam resistir por muito tempo.

Outra rajada de flechas negras foi atirada sem os atingir, porém caíram já bem mais perto. O inimigo descera a rampa e estava, agora, no encalço deles. O chão, coberto por inúmeras pequenas rachaduras e pedras por vezes pontiagudas, constituía um certo obstáculo para os cavalos, mas mesmo assim eles levavam vantagem tanto na rapidez como na resistência. Gorg acelerou ainda mais o passo, mas já estava bastante ofegante e, vez ou outra, tropeçava, mantendo o equilíbrio só à custa de grande esforço.

— Kim!

Kim levantou a cabeça. Quem chamava? Não era a voz de Priwinn e de nenhum dos outros... mas não lhe era desconhecida!

— Kim! Gigante! Voltem para o rio!

Gorg obedeceu sem titubear. Ainda correndo, deu meia-volta, pulou por cima de uma barreira rochosa de quase dois metros e foi parar ao lado do urso.

— Abaixem-se! — mandou a voz.

E, novamente, obedeceram instintivamente, sem pestanejar. De repente, um estrondear preencheu a caverna, quebrou no teto, fazendo tudo e todos estremecer. A superfície do lago começou a encrespar. Por uma fração de segundos a correnteza parecia estagnar, depois as águas se amontoaram, acompanhadas pelo barulho abafado de um golpe. Jatos de água espumante foram lançados para o alto, atingindo de dez a quinze metros de altura, seguidos por ondas acinzentadas com coroas de espuma que inundaram as margens, as rochas e cobriram as patas dos cavalos. Mas, mesmo cientes do perigo, os cavaleiros seguiram em frente, ignorando a primeira onda, seguida por uma segunda, mais forte, até que a água começou a fervilhar.

— Lá! Vede! — exclamou Gorg, agitado.

No meio do rio, a água começou a rodopiar com velocidade cada vez mais frenética. No centro desse redemoinho, as águas se abriram, formando um buraco afunilado que foi aumentando até que, finalmente, todas as águas do rio pareciam estar sendo sugadas para a: profundezas. O barulho estonteante era um martírio. Kim grudou a mãos nos ouvidos, torceu o rosto e olhou, os olhos lacrimejando, para os cavaleiros que se aproximavam. Era apenas um pequeno grupo que vinha na frente, talvez dez ou doze homens, quase irreconhecíveis atrás da cortina de chuviscos lançada pelas águas em rebuliço.

E aí o rio explodiu! Pelo menos foi essa a impressão causada quando o rio se dividiu no meio e as águas se ergueram bem alto. A caverna foi sacudida por forte tremor, as pedras se desprenderam do teto e despencaram e, quando a névoa espumosa começou a se dissipar, viram, horrorizados, uma enorme parede de água que, com os estrondos de uma natureza primitiva e enfurecida, precipitava-se para as margens, na direção dos cavaleiros estarrecidos. Num último momento, ainda tentaram escapar da desgraça, mas era tarde demais! A gigantesca onda os alcançou e engoliu homens e cavalos para, em seguida, quebrar, espumante, nas rochas impassíveis.

Kim se agachou e, de cabeça encolhida e respiração presa, esperou as águas passarem por cima do seu abrigo. As rochas haviam quebrado a violência do impacto, mas mesmo assim ele teve a impressão de que alguém martelava com toda força sua armadura.

Quando tudo passou, ele levantou-se arquejante. Num primeiro momento, não conseguiu se manter em pé, só aos poucos reconquistou o equilíbrio. Depois procurou pelos amigos, que, apesar de bastante sacudidos, não sofreram danos maiores.

— O que... O que foi isso? — perguntou Priwinn, atônito.

Mudo, Kim apontou para o rio. À sua frente, entre o abrigo que os protegera da fúria das águas e a saída da caverna, erguia-se das águas ainda em turbilhão uma rocha pontiaguda e fina feito agulha. Na luz difusa que reinava distinguiram duas figuras pequenas, vestidas de branco.

— Quem são?

— Ado — respondeu Kim. — Ado e seu pai, o Rei dos Charcos!

— Tu os conheces?

— Sim. Eu os encontrei... há muito tempo. Mas estou tão surpreso quanto vocês.

Kim queria dizer mais alguma coisa, mas a voz de Ado o interrompeu:

— Fuji! Vós estais em perigo! Saí da caverna!

Sem hesitar por nem um segundo, deixaram o abrigo e começaram a correr. Acuado, Kim olhou para trás. Nem sombra dos cavaleiros que os perseguiram! O rio os engolira. Mas o perigo ainda não estava banido. Sem se deixar intimidar pelo que acontecera aos companheiros, o exército se reagrupou, preparando-se para o ataque.

Ado os dirigiu:

— Para a direita! Afastai-vos do rio!

Os cinco amigos obedeceram. O chão às margens do rio era liso e, portanto, mais acessível que o solo rochoso mais adiante. Porém, a lembrança da onda gigante que havia engolido os cavaleiros ainda estava muito presente.

E novamente o rio começou a ferver e outro redemoinho se formou. Kim tropeçou numa rocha e se estatelou no chão. Mas, levantou-se imediatamente e ainda teve tempo de olhar para trás. Os cavaleiros reconheceram o perigo iminente e frearam os animais. Por um momento, pareciam indecisos e Kim achou que iriam voltar. Mas aí apareceu, no topo da encosta, um homem enorme em reluzente armadura negra. Os soldados se viraram, intimidados. Nem mesmo a morte certa os impedia de obedecer às ordens do Barão Kart!

Kim e seus amigos continuaram a correr em ziguezague para a saída da caverna enquanto, atrás deles, a desgraça se abatia pela segunda vez sobre os cavaleiros inimigos. Os gritos desesperados de homens e animais se misturavam ao ribombar das águas!

Faíscas eletrizadas e multicoloridas dançavam ao redor da agulha rochosa que servia de apoio para o Rei dos Charcos. De repente, o ar estava impregnado por um cheiro ácido e metálico, como o provocado por uma descarga elétrica. Uma linha de pequenas chamas azuladas correu, com velocidade fantástica, pela superfície da água, precipitando-se na direção dos cavaleiros.

— Correi! — gritou Ado. — Correi! É vossa vida que está em jogo! Ado pulou na água e, rente à superfície, feito peixe, nadou para a margem, onde, de braços estendidos, correu na direção do gigante e de Kim:

— Depressa! O tempo urge. Meu pai não pode detê-los por mais tempo sem despertar os espíritos das águas!

Kim não entendeu nada, mas achou melhor seguir o conselho de Ado. Continuaram correndo, tropeçaram sobre rochas, pularam sobre fendas e abismos e alcançaram, finalmente, a saída, onde se viram diante de outro vale rochoso.

Kim se virou para ver onde estava o Rei dos Charcos, mas Ado o arrastou para um abrigo sob a rocha. Kim só conseguiu lançar um rápido olhar para a pequena figura vulnerável que, apesar dos ombros curvados, manteve-se ereta na ponta da agulha rochosa, lançando um fogo azulado na direção das profundezas da caverna. Mas ainda havia algo que Kim não pôde reconhecer ao certo, mas que o fez estremecer. Algo grande, poderoso...

O chão começou a tremer. Um abafado trovejar saiu da caverna, quebrando-se nas rochas. De repente, o chão começou a pular e chacoalhar como um cavalo rebelde. Berros monstruosos fizeram-se ouvir e, no mesmo instante, a montanha cuspiu uma gigantesca onda que arrastou consigo homens, animais e rochas, cobrindo uma extensa área às margens do rio.

Mesmo depois que a onda se dispersou e o barulho cessou, Kim ainda sentiu o seu ribombar. Cuidadosamente, sempre atento a um novo tremor, ele se ergueu e olhou para a entrada da caverna. O rio se acalmara, embora pequenas ondas ainda encrespassem sua superfície. Vez ou outra via-se algo negro boiando nas águas, mas o pior passara.

Kim forçou-se a não mais olhar para trás e se voltou para Ado, que, de rosto impassível, olhou para a superfície da água.

— Obrigado! — disse Kim.

Palavra pobre para expressar a dimensão da gratidão! Talvez devesse dizer algo bombástico, palavras mais calorosas, mas Kim se encontrava em tal estado de torpor que o impedia de raciocinar.

Ado sorriu, mas quando falou, estava muito sério:

— Não tens o que agradecer — murmurou, sem tirar os olhos das águas. — Era o que eu desejava há muito tempo.

Aos poucos também reapareceram os outros, que haviam se refugiado atrás das rochas. Ado olhou para o gigante com uma mistura de medo e admiração, depois se voltou para o urso e, novamente, para Kim:

— E o dragão? Onde está? Gorg franziu a testa:

— Tu sabes de Rangarig?

Ado confirmou com a cabeça.

Com o coração pesaroso, Kim contou o que aconteceu. Mas depois sua curiosidade venceu e ele crivou Ado de perguntas:

— De onde vocês vieram? Como vocês nos encontraram? E, afinal de contas, por que vocês nos seguiram?

Ado levantou as mãos:

— Calma! É uma longa história. Deixe-me primeiro recuperar o fôlego.

— Claro, mas...

Kim pensou melhor: Ado também devia estar exausto, como eles talvez até mais:

— Descanse primeiro, aliás, todos nós devíamos descansar.

O Sol estava alto no céu, era por volta do meio-dia, mas seus corpos haviam se acostumado a um ritmo diferente durante a marcha c quase três dias pelo labirinto subterrâneo. Gorg, no entanto, não achou aconselhável fazer uma pausa. Lançou um último olhar para entrada da caverna e balançou a cabeça:

— A idéia de ficar tão perto da saída da caverna não me agrada nem um pouco... Deveríamos andar mais algumas horas até encontrar um lugar mais seguro.

E, assim, resolveram fazer apenas uma breve pausa e depois seguir. Kim suspirou, mas acabou se conformando. Em seu íntimo, duvida que alguém pudesse ter sobrevivido ao caos no interior da caverna.

Inquieto, tentou, de novo, arrancar algumas informações de Ado.

— Como vocês conseguiram atravessar a Cordilheira das Sombras?

— Foi mais simples do que eu pensei — murmurou Ado. — I pois da tua partida, vieram as armaduras negras. Pelo que parece Boraas sabia que tu te escondeste lá em casa, isto é, na floresta, pois se dignou a aparecer pessoalmente três dias depois que tu nos deixaste... acompanhado do Barão Kart!

— Eles... eles machucaram vocês? — perguntou Kim, assustado.

Ado balançou a cabeça:

— Não. Vieram de madrugada e conversaram longamente com o meu pai. Eu não sei o que foi dito, mas, quando foram embora, meu pai ficou muito pensativo. Durante dois dias não pronunciou uma palavra, não dormiu, ficou o tempo todo sentado, pensando.

Ado suspirou, recostou em uma rocha e enlaçou os joelhos com os braços. Depois de alguns minutos continuou:

— Depois meu pai me chamou e disse que teríamos de partir. Eu acho que Boraas e o Barão o ameaçaram, ou talvez exigiram que ele fizesse algo que ele não podia. Partimos na mesma noite.

— E atravessaram as montanhas? Ado sorriu:

— Não. Viemos pelo mesmo caminho que ti, por baixo da Cordilheira. O Rio Desaparecido não nasce nas montanhas sombrias, como vós acreditais. Ele nasce no Reino das Sombras, onde corre quase sempre subterrâneo, só depois ele atravessa a Cordilheira. Nadamos durante um dia e uma noite para alcançar o outro lado.

— Então seu pai conhecia o caminho? — indagou Kim, surpreso e um pouco irado, pois se sentiu traído pelo Rei dos Charcos

Ado, que parecia adivinhar seus pensamentos, inclinou a cabeça:

— Sim. Mas ele te deixou na incerteza de propósito, pois o caminho que nós seguimos seria inviável para ti. Ou tu és capaz de nadar durante quatro horas debaixo da água sem respirar uma única vez? — acrescentou, um pouco irônico.

— É claro que não — disse Kim, envergonhado. — Conta o resto — pediu. — O que aconteceu depois?

— Chegamos a Caivallon e...

— Caivallon?! — interrompeu Priwinn. — Tu viste Caivallon? Ado olhou, surpreso, para o príncipe:

— Tu conheces Caivallon?

— Caivallon é a minha pátria. Meu pai foi o senhor de Caivallon até a chegada das armaduras negras.

— Tu deves ser Priwinn!

Priwinn confirmou, impaciente:

— É, mas isso agora não tem a menor importância... Como está tudo lá?

Ado hesitou um pouco, depois disse:

— Sinto muito, príncipe, mas o fogo destruiu o Castelo das Estepes quase por completo. Não restou nada de sua antiga imponência. Os cavaleiros de Boraas se instalaram nas ruínas.

Priwinn engoliu em seco. Apesar de ter visto as chamas que arrasaram Caivallon com os próprios olhos, as palavras de Ado o atingiram profundamente. Ele fez o possível para esconder sua emoção, mas não conseguiu.

— E depois? — perguntou Gorg, ávido para saber o resto da história.

— Continuamos nadando até Gorywynn. Não foi nada fácil chegar até o castelo, por toda parte havia gente de Boraas.

— O ataque já começou?

— Não, mas eu temo que está prestes a acontecer. Gorywynn está sitiada por armaduras negras. Ninguém entra, ninguém sai. Vós conseguistes escapar no último momento.

— Mas, como conseguiste entrar?

— Nadamos por baixo dos barcos do inimigo.

— E... aí?

— Encontramos Temístocles. Ele e meu pai já se conheciam, se bem que meu pai nunca me falou sobre isso. Soubemos de tudo, também sobre a partida e vossos planos. E, assim, decidimos seguir-vos, o que não foi difícil. O Rio Desaparecido nos levou até vós.

— Bem na hora certa — disse Kelhim. — Um pouco mais tarde e... seria o nosso fim!

Ado concordou, sem falsa modéstia. Por algum tempo, ficou mergulhado em seus pensamentos, depois levantou e apontou para oeste:

— Vamos, não podemos perder tempo.

— Mas, temos de esperar seu pai! — protestou Kim. Ninguém respondeu. Só depois de algum tempo Kim entendeu que o Rei dos Charcos nunca mais voltaria!

O destino os levou para oeste, rumo ao frio e à incerteza. Porém, agora caminhavam à luz do dia e, apesar do vale estar coberto com pedras e blocos de rocha de Y todos os tamanhos, aceleraram o passo. A caverna e seus horrores ficaram para trás, restou o cansaço físico e uma certa pressão no peito, como depois de um pesadelo. Aos poucos, o vale se mostrou mais plano e o rio, já mais largo e mais calmo, acabou desaparecendo do outro lado do vale, entre duas colinas não muito altas. Fizeram uma pausa, a fome e a sede os torturou, mas não havia nada comestível. Entre as rochas crescia musgo e uma brenha esturricada. Havia também alguns bagos, mas como lhes eram desconhecidos, não tiveram coragem de comer, pois podiam ser venenosos. A cadeia montanhosa que se erguia do outro lado do vale lhes trouxe algum ânimo. Havia a incerteza, mas também a esperança, de encontrar abrigo e comida.

O Sol aproximou-se do horizonte, quando, finalmente, alcançaram as montanhas. Kelhim, cheio de dor, gemia a cada passo. O urso deitou às margens do rio e acomodou a cabeça sobre as patas. Os outros seguiram seu exemplo. Só Gorg, munido de uma energia inesgotável, subiu a montanha e desapareceu do outro lado.

Kim fechou os olhos. O vento que soprava do leste trouxe o prenuncio de neve e inverno. Mas lá, às margens do rio, o brilho do sol ainda era forte o suficiente para aquecer o corpo.

Deitado sobre o musgo macio e entregue ao brilho reanimador do sol, Kim deliciou-se com uma rara sensação de bem-estar que, no entanto, durou pouco, pois logo levantou-se para verificar o que estava acontecendo com Kelhim, estirado no chão, imóvel como desfalecido. Só seus gemidos esporádicos indicavam que ainda estava vivo.

Ele não vai morrer, pensou Kim, ele é muito forte, foi o cansaço que o deixou assim. O garoto se ajoelhou ao lado do amigo e notou a presença de Ado, que mexia, muito suavemente e com mãos hábeis, no ombro ferido de Kelhim.

— Você vai ajudá-lo? — perguntou Kim.

— Não da maneira como eu gostaria... Meu pai, com certeza, poderia ajudá-lo. Mas eu não posso fazer muita coisa. Talvez possa aliviar suas dores, mas só por algum tempo. A ferida parece feia... Quando ele foi ferido?

— Há três dias.

Ado ainda mexeu um pouco na ferida e depois levantou-se:

— Vamos deixá-lo dormir pelo menos até que Gorg retorne. Afastaram-se um pouco para não acordar o urso. Ado apontou

com a cabeça na direção de Priwinn, que se enrolara no chão, aparentemente dormindo:

— Ele é mesmo um príncipe? — perguntou.

— Sim — respondeu Kim, triste. — Um príncipe sem reino, como você.

Kim tinha uma pergunta na ponta da língua, mas estava um pouco hesitante. Finalmente tomou coragem e começou a gaguejar:

— O que seu pai fez... Quero dizer, com as águas... isto é... Foi magia?

Apesar de tudo que Kim viveu e apesar do que Priwinn e os outros lhe contaram, continuava estranhando a postura serena que os habitantes de Märchenmond assumiam diante da morte.

Ado sorriu. Talvez o medo da morte fosse simples ignorância, refletiu. Na terra de Kim, a maioria dos homens ainda não aprendeu a compreender o verdadeiro sentido da morte, ou seja, a encará-la como parte da vida.

— Magia? — repetiu Ado, pronunciando a palavra com certa ênfase. — É... para ti talvez seja magia, embora eu não a chame assim.

— Eu não entendo...

Ado sorriu novamente e olhou para o rio, como se lá estivesse a resposta. Depois de algum tempo começou a falar:

— Antes da chegada de Boraas, meu pai foi o Rei dos Lagos, lembras?

— Sim, mas...

— Agora, eu sou o Rei dos Lagos, se bem que ainda não me acostumei a essa idéia. Existe uma ligação entre o homem e a natureza... Eu não conheço a terra de onde tu vens, mas, pelo pouco que sei, entendo que vós encarais a natureza como algo que tem uma única utilidade, ou seja, servir-vos. Vós explorais a natureza, a torceis e a modificais... Fazeis o que bem entendem com ela.

Kim queria protestar, mas pensou melhor. Palavras duras, mas não dava para negar que continham uma certa verdade. Ado continuou:

— A maneira com que vós lidais com a natureza é errada. Fazemos parte dela, talvez nem mesmo uma parte muito importante. Mas somos ligados a ela e a nossa ligação é bem mais forte do que imaginamos. Existem seres que possuem uma ligação mais íntima do que outros e entre eles há alguns poucos que... bem, que se valem dessa ligação de uma maneira sábia.

Kim refletiu sobre as palavras de Ado e, um pouco hesitante, disse:

— O que o seu pai fez... Você é capaz de fazer o mesmo? Ado balançou a cabeça:

— Não... pelo menos não no momento. Talvez um dia, mas não estou certo disso. Nem sei se é isso que eu quero.

Gorg retornou e os interrompeu:

— O rio continua do outro lado — explicou o gigante. — Tem algumas árvores, não é uma floresta, mas são árvores e grama. Talvez encontremos algo comestível. Mas acho que vamos ter neve.

Gorg sacudiu o corpo como se já estivesse sentindo o frio:

— Precisamos continuar — murmurou. — É melhor pernoitar do outro lado.

Kim apontou para Kelhim:

— Ele está dormindo, precisa descansar. O gigante franziu a testa:

— Do outro lado é melhor para ele... e mais seguro.

— Mais seguro?! Gorg inclinou a cabeça:

— Estávamos muito tranqüilos, pequeno herói, lembra-te? Tranqüilos demais! Não pretendo cometer o mesmo erro de novo.

Gorg acordou o urso com delicadeza, até que este, finalmente, abriu um olho, não sem resmungar. O gigante lhe explicou seus planos e o urso levantou-se imediatamente. Também Brobing e o príncipe levantaram-se bocejando e seguiram Gorg colina acima. Por último veio Kim. Continuava cansado, mas entendia os motivos do gigante. O vale realmente tinha algo inquietador. Além disso, a perspectiva de voltar a ver grama e árvores tornavam o cansaço mais suportável.

O gigante parou no topo da colina e esperou pelos outros. Depois disse:

— Lá, debaixo das árvores, às margens do rio, parece-me ser um bom lugar para ficar.

Kim não prestou atenção. Sua energia estava se esgotando e mal conseguia se manter de pé. Gorg tentou animá-lo:

— Só mais um pouco!

Kim suspirou. Seguiu o gigante, com passos trôpegos, colina abaixo até o lugar apontado, debaixo das árvores. Kelhim se jogou na grama e, de imediato, adormeceu de novo. Também Kim se acomodou, porém, pior que o cansaço, era a fome. Sentiu náuseas e um gosto amargo na boca.

— Alguém devia ficar de vigia — sugeriu Brobing. Gorg concordou:

— É isso mesmo! Também temos de construir uma balsa. O rio aqui não é muito ligeiro, mas estou cansado de caminhar. Tu me emprestas a tua espada?

Kim precisou de alguns segundos para perceber que Gorg estava falando com ele. Entregou a arma ao gigante e ficou observando como ele cortou, com incrível rapidez, uma série de árvores para fazer a balsa. Os galhos mais finos ele simplesmente arrancou com a mão.

O cansaço o dominou e ele se estendeu de novo na grama. Gorg tinha razão, lá era bem mais frio do que do outro lado da cadeia montanhosa. Kim bocejou, virou para o outro lado e, na falta de um travesseiro, aconchegou a cabeça sobre o braço. O Sol se pôs e conferiu aos contornos arredondados das montanhas uma auréola de chamas. Pouco antes de cair em sono profundo, acreditou ver algo se movendo no cume das colinas: nada mais que uma sombra fugidia que, por uma fração de segundos, pôs-se à frente do Sol para, em seguida, desaparecer. A sombra de um cavaleiro em metal reluzente! Mas, Kim não deu importância ao fato e acabou dormindo.

Porém, mais uma vez, seu sono não foi nada tranqüilo. Não eram pesadelos que o atormentavam — pelo menos, mais tarde, não se lembrou de nenhum. Foi um sono interrompido inúmeras vezes por ruídos imaginários. E, quando acordava, eram apenas as marteladas do próprio coração.

Kim acordou com o primeiro raiar do dia e, apesar de continuar cansado, resolveu levantar-se. Uma vaga lembrança se fez presente... A voz de um dos vigias?!

Kim virou a cabeça e viu o gigante e Ado sentados perto de uma pequena fogueira, as mãos estendidas sobre o fogo para se aquecer.

Silenciosamente, para não acordar os outros, Kim levantou-se para se juntar aos dois. Gorg estava visivelmente cansado. Profundos sulcos, que antes não estavam lá, atravessavam seu rosto e sua pele, na luz trêmula do fogo, apresentava um aspecto doentio.

O gigante ergueu o rosto quando Kim se aproximou:

— Já acordado?

Kim estendeu as mãos sobre as chamas e friccionou os dedos. Só agora, ao sentir o calor do fogo, percebeu como a temperatura havia caído. A grama estava toda coberta pela geada.

— Ainda não — murmurou. — Finjo que estou acordado. Chegou mais perto do fogo até que a chama quase atingiu sua armadura, mas continuou sentindo frio.

— E vocês? — perguntou. — Vocês são madrugadores ou ainda nem dormiram?

— Mais ou menos — respondeu Ado. — Gorg e eu dividimos a vigia.

— Por que não me acordaram para um dos turnos? — indagou Kim.

Gorg riu e Kim resolveu mudar de assunto:

— E agora? O que vai acontecer?

Com a cabeça, o gigante apontou na direção do rio. Na margem estava ancorada uma balsa disforme. Não era uma obra de arte, mas parecia bastante sólida e grande o suficiente para abrigar a todos. Pelo visto, Gorg trabalhara a noite toda.

Kim balançou a cabeça num gesto elogioso:

— Parabéns, Gorg! Você conseguiu o impossível! Se você ainda tirar um frango assado da cartola, será o gigante mais simpático do mundo!

O gigante, um pouco triste, sacudiu a cabeça:

— Sinto muito, Kim. Eu vasculhei a redondeza, mas estas terras parecem despovoadas, mortas... Não encontrei nada, nem mesmo um pássaro.

Mortas... Kim estremeceu. Gorg traduzira em palavras o que ele, Kim, estava sentindo desde que deixaram a caverna. As terras pareciam mortas, apesar das árvores e da grama que crescia em tufos do chão seco e duro. Talvez nem mesmo mortas, mas simplesmente diferentes de tudo que até então conheceram. Era como se fosse um ambiente hostil a qualquer tipo de vida.

Kim tentou não se prender a pensamentos aflitivos e perguntou:

— Quando partimos?

— Logo que clarear. Kelhim pode continuar dormindo na balsa e tu também, se quiseres. Não podemos perder mais tempo.

Por um momento, Kim lembrou-se da visão sinistra que tivera na noite passada, pouco antes de adormecer: a armadura negra, ou melhor, a sombra de uma armadura. Mera impressão ou sonho? Deveria falar com Gorg a respeito? Kim decidiu que não contaria nada ao gigante. Para que deixar os outros ainda mais inquietos do que já estavam?

Deslizou os olhos sobre os contornos das colinas, ainda envoltos pela penumbra do amanhecer, detendo-se nas árvores às margens opostas do rio. Ontem à noite estivera cansado demais para notar os detalhes, mas agora viu que eram árvores estranhas, de um tipo como nunca vira antes. Os troncos eram lisos, quase como se tivessem sido polidos. Os galhos e ramos eram finos e rígidos, lembravam fios metálicos. Também a grama era diferente: ao verde mesclava-se um sombreado de cor indefinida. Os calamos, apesar de finos e flexíveis, eram afiados como minúsculos punhais. Até as pedras às margens do rio pareciam angulosas e pontiagudas. Era como se toda essa natureza tivesse sido criada para um único fim: defesa e proteção!

Gorg levantou-se sob gemidos para subir até o cume da colina, seguido por Ado, e Kim resolveu ir atrás dos dois.

Um feixe desbotado de luz alaranjada apareceu no horizonte quando chegaram ao topo. As sombras no vale começaram a se diluir. Somente diante da cadeia montanhosa dentada que circundava o vale ficou uma linha precisa, como que traçada por uma grande régua delimitando a fronteira entre o claro e o escuro. Era como se a noite se recusasse a ceder seu lugar ao dia. As montanhas não eram nem mesmo muito elevadas e, quando Kim lembrou da imensa caverna que atravessaram, chegou à conclusão de que todo aquele contexto era formado por um imenso geodo revestido por uma camada fina de rocha.

Também as montanhas que vieram depois os surpreenderam, pois eram igualmente baixas, pelo menos se comparadas aos imponentes precipícios e penhascos pelos quais passaram. Considerando os desníveis que o Rio Desaparecido supera ao longo de seu curso, aquelas terras ficavam bem abaixo do nível de Märchenmond. Talvez tudo aquilo não fosse nada mais que um único e imenso vale.

Kim deu meia-volta para descer a montanha quando percebeu um movimento em meio às sombras obscuras do vale. Assustado, agarrou o braço do gigante e apontou para o vale.

Gorg murmurou algo que mais parecia um rosnado; no rosto, uma expressão de alerta. Ele também notara o movimento. “Pelo amor de Deus!”, implorou Kim em prece muda. “Tudo, menos isso!”

Mas sua súplica não foi atendida. Depois de algum tempo o movimento se repetiu e, à medida que o sol galgava o horizonte, mais precisa se tornou a visão. E quanto mais detalhes reconhecia, mais aumentava o seu desespero. Não dava mais para ignorar a realidade: entre as rochas que circundavam as margens do rio havia cavaleiros. Armaduras negras!

Não eram tantos como da última vez, talvez entre vinte e trinta homens. No entanto, era o suficiente para acabar com eles naquele terreno aberto, desprotegido. E o pior: na ponta do grupo, perfeitamente reconhecível apesar da distância, uma figura enorme em sua armadura negra!

— Barão Kart — murmurou Kim.

Os cavaleiros se encontravam a cerca de uma hora de distância e, sob o chão rochoso, provavelmente era difícil acelerar o galope. Mas não havia dúvida de que, tão logo tivessem atravessado o vale e vencido a cadeia montanhosa, não tardaria para que os cavaleiros os alcançassem. Mesmo com a balsa não poderiam jamais desenvolver a mesma velocidade dos cavalos.

— Foi tudo inútil — murmurou Kim. — A morte de Rangarig, o Rei dos Charcos... tudo inútil!

Ainda restava uma última esperança: o manto milagroso de Laurin. Mas algo lhe dizia que ainda não chegara o momento para fazer uso dele.

— Cala-te! — ordenou Gorg. Sua voz tremia e seu rosto demonstrava tamanha raiva que Kim, assustado, deu um passo para trás.

— Nada foi inútil! — bradou o gigante. — Ainda temos tempo. Acorde os outros. Vós tendes de partir imediatamente!

— Nós?! — revidou Kim, sem entender.

— Eu fico — informou o gigante, decidido. — Vou tentar detê-los.

— Você é louco! Você não sabe o que está falando! Se você ficar, é a morte certa!

Gorg soltou uma de suas risadas sarcásticas:

— Que nada, meu pequeno herói. São poucos cavaleiros, e... Kim o interrompeu rudemente:

— Demais! Até para você!

— Tu queres me ofender? — reclamou o gigante. — É preciso mais do que um punhado de armaduras negras para me derrotar.

Kim balançou a cabeça:

— O seu sacrifício de nada adianta. Se ficarmos todos, teremos uma boa chance.

Gorg acabou com a discussão à sua maneira: sem mais uma palavra, pegou Kim e o enfiou debaixo do braço como um saco de batatas e, com passos largos, desceu a encosta, sem se incomodar com os gritos de protesto do garoto.

A gritaria acordou os outros.

— O que aconteceu? — perguntou Priwinn, ainda sonolento.

— Armaduras negras! — informou Gorg. — Uns vinte. Vós tendes de partir imediatamente. Eles estarão aqui dentro de uma hora!

Priwinn olhou para o gigante boquiaberto, depois deu um pulo e se pôs ao lado de Kim. Nem pensarem em deixá-lo enfrentar sozinho os cavaleiros do mal!

— Basta! — gritou Gorg. — Eu sei muito bem o que estou fazendo! Mas Kim não cedeu:

— Você não sabe nada! Precisamos de você, Gorg. Sabe-se lá que perigos ainda estão por vir!

— Se ninguém ficar para detê-los, não haverá mais perigo nenhum, pois eles nos alcançarão em menos de duas horas e tudo estará acabado!

— Eu fico — pronunciou-se Kelhim, que até então não se havia intrometido na briga.

— Kim tem razão, talvez ainda precisem de ti mais tarde, enquanto eu...

O urso apontou para o ombro ferido e inchado:

— Eu sou um peso inútil, um mutilado, de nada sirvo.

— E como tu pretendes lutar contra os cavaleiros do mal? — perguntou o gigante.

Kelhim soltou uma de suas gargalhadas roucas:

— Pode até ser que não seja mais o mesmo Kelhim de antes, mas ainda consigo proporcionar péssimos momentos ao Barão Kart. Eu não permito que fiques!

Gorg manteve a calma:

— Não sejas ridículo. Subi todos na balsa, desapareçais! Se continuarmos perdendo tempo com essa briga inútil, tudo se resolve, pois morreremos todos!

— Eu fico! — teimou Kelhim. Gorg fechou os olhos:

— Ah! Não digas!

Kelhim assumiu uma posição ameaçadora. Apesar do ferimento, ainda era uma figura imponente, mesmo ao lado de Gorg. O gigante era mais alto que o urso, mas Kelhim era mais compacto e mais largo.

— Eu fico! — repetiu Kelhim. — E se tu tiveres algo contra, terás de lutar comigo.

Por um momento deu a impressão de que o gigante iria aceitar o desafio, mas depois deu de ombros num gesto de resignação:

— Se é isso que tu queres...

O urso, com as patas ainda erguidas de maneira ameaçadora, passou por ele. Então, de repente, Gorg lhe conferiu um forte golpe na cabeça com sua clava. Kelhim caiu no chão, onde ficou estirado, duro como um pedaço de pau.

Priwinn soltou um grito:

— O que tu fizeste!?

— Eu fiz o que tinha de ser feito — respondeu Gorg, sem olhar para o Príncipe das Estepes.

— Esse idiota teria se matado sem pestanejar.

Gorg jogou a clava na grama e, sob gemidos, levantou o corpo pesado do urso e o levou até a balsa.

— Rápido! Andeis logo! — disse, impaciente.

Kim, Brobing, Ado e Priwinn ocuparam a balsa. Gorg soltou a amarra com um único rasgão. A balsa oscilou, rodopiou na correnteza e, finalmente, afastou-se lentamente das margens.

Kelhim só acordou por volta do meio-dia. Estava febril e murmurou palavras sem nexo. Da ferida no ombro, de aspecto bem feio, saía um forte cheiro. A infecção ainda não cedera, apesar dos incansáveis esforços de Ado. Sentindo-se infeliz ao ver suas tentativas malogradas, ele olhou para o urso e balançou a cabeça:

— Sinto muito, amigão, não sei mais o que fazer. Depois se virou para Kim:

— Ele vai morrer se não receber ajuda adequada.

Sua voz estava calma e sem amargura, mas, para Kim, cada palavra era um punhal que se enfiava no seu peito. Morrer...

Seria essa sua viagem nada mais que uma peregrinação para a morte? Seria esse o final da jornada? Uma morte sem sentido para cada um deles? Passou em revista as diversas etapas: primeiro Rangarig, o dragão bonachão, bondoso e invencível que sucumbiu em uma luta cruel por uma causa provavelmente inútil, um ideal que talvez nem existisse.

E o Rei dos Charcos! O velho triste que, num derradeiro esforço, revoltou-se contra o destino e, após incontáveis anos de opressão, finalmente enfrentou os tiranos e pagou com a vida pela coragem.

Gorg! O simpático gigante que, no fundo, não era nada mais que um menino e que ganhara o amor de Kim. Também ele iria morrer, só para lhes garantir algumas horas a mais. E agora Kelhim! Será que todos eles o acompanharam nessa tarefa apenas para morrer ao seu lado? Talvez até no lugar dele?

Por um momento, sua tristeza cedeu lugar ao ódio e Kim desejou ardentemente ficar frente a frente com o Barão Kart, nem que fosse pela última vez, para fazê-lo pagar por todo mal que causara.

Acariciou a cabeça do urso e se aconchegou no seu pêlo. Estava cada vez mais frio, apesar do brilho do sol. Entre as árvores que embainhavam as margens, surgiam, esporadicamente, pequenos tufos de neve, e nuvens acinzentadas e baixas começaram a cobrir o céu há pouco ainda límpido. O vento soprava gélido e entre os troncos que seguravam a balsa formava-se geada. Provavelmente dentro em breve iria nevar.

Kim se enrolou, enfiou a cara no pêlo macio do urso e tentou dormir. A balsa seguia, lenta mas constante, no meio do rio, longe das margens, inatingível para as flechas e os dardos dos inimigos. Por enquanto, nenhum sinal das armaduras negras! Havia duas explicações: ou Gorg conseguira detê-los ou o gigante fora derrotado, mas os cavaleiros do mal ainda não haviam descoberto que Kim e seus amigos fugiram com a balsa. Uma esperança, aliás, bastante vaga. Não demoraria e as armaduras negras iriam encontrar as árvores cortadas e, certamente, chegariam às devidas deduções.

O frio aumentava cada vez mais. Aos poucos, as árvores das margens foram desaparecendo e dando lugar à neve e a vastas áreas de terreno rochoso. No final da tarde, apareceram os primeiros blocos de gelo no rio, ainda finos e quebradiços como vidro, mas já eram prenúncios do que ainda estava por vir.

Tinindo de frio, os ocupantes da balsa tentaram proteger-se da melhor maneira possível. O sol se pôs e a balsa continuou flutuando calmamente sobre o grande rio. Kim dormiu um sono intranqüilo. Cada vez que um pedaço de gelo ou um bloco maior se chocava com a balsa, acordava sobressaltado. Num dado momento, algo arranhou os troncos com tanta força que ficaram apavorados, com medo de que a frágil embarcação pudesse romper-se. Mas nada aconteceu e continuaram seu percurso pela noite afora, rumo à incerteza.

Kim acordou quando a balsa parou com um solavanco. Sobressaltado, tentou manter o equilíbrio e suas mãos agarraram algo duro, frio. Era gelo por todos os lados!

Uma verdadeira barreira de gelo com recifes pontiagudos impedia a passagem! Boquiabertos, olharam para a paisagem bizarra que os cercava.

— Fim da linha! — comentou Priwinn laconicamente. — Pelo jeito, daqui para a frente teremos de seguir a pé.

Kim, longe de sentir a mesma calma, levantou-se, murmurou algo e parou, assustado, quando seus músculos, rígidos pelo frio, recusaram-se a fazer qualquer movimento. Seus dedos estavam anestesiados e sua pele formigava e queimava. O mesmo estava acontecendo com os outros. O frio os acertara em cheio! Ado e Priwinn pareciam pálidos e fracos. Brobing, ao lado da barreira de gelo, tremia dos pés à cabeça e tentava enxergar o que havia por trás do gelo.

— E aí? — perguntou Ado. — Tu consegues ver algo?

— Consigo. Gelo, nada mais do que gelo! O rio está quase todo coberto pelo gelo. Não dá mais para seguir com a balsa.

Brobing suspirou. A balsa estava totalmente encalhada no gelo e qualquer tentativa de libertá-la seria um empreendimento inútil. Mesmo se conseguissem, correriam o risco de ser esmagados pelo gelo imediatamente.

Kim respirou fundo. De nada adiantavam conjeturas, era preciso agir! Desceu da balsa e se viu na água gelada até a cintura. O impacto do frio foi tão grande que a dor chegou a lhe turvar a vista. Foi preciso toda a sua força de vontade para continuar! Cambaleando e com a mão direita apoiada na barreira de gelo, foi tateando até a margem, cada passo uma tortura! Depois de alguns segundos perdeu qualquer sensibilidade nas pernas e por várias vezes esteve prestes a desistir e seguir o impulso de simplesmente deixar-se cair na água e esquecer tudo. Mas, de alguma forma, ele conseguiu, e com ele também os outros! Uma vez na margem e quase inconscientes, deixaram-se cair no gelo.

Mas Kelhim, que deixou a balsa por último, não lhes deu trégua:

— Em frente! Vós tendes de se movimentar! Se dormirdes ou desmaiardes aqui, morrereis!

Kim gemeu. Queria dormir, entregar-se à traiçoeira sensação do calor amortecedor que se alastrava pelo corpo todo. Mas também sabia que Kelhim tinha razão e que o calor no seu interior não era nada mais que o prenuncio da morte. Mas, que importância tinha? Queria dormir, nada mais que dormir!

Kelhim o impeliu para a frente com certa brutalidade e forçou-o, assim, a andar.

— Andai! — mandou. — Vós tendes de andar! Não podeis ficar parados! Andai!

Depois de mais alguns passos, Kim caiu de joelhos, mas Kelhim, impiedoso, não permitiu que o garoto deitasse no chão nem por um segundo. As roupas lhes pendiam do corpo encharcadas e pesadas, mas para Kim, em sua armadura, ainda era pior. Era como se seu corpo estivesse cercado por uma mortal blindagem de gelo.

Seu coração galopava e queria explodir a qualquer momento. Diante dos olhos se formavam nevoeiros e o ar que aspirava se transformava em fogo liquefeito a lhe correr pela garganta e a queimar seus pulmões.

Mas continuou andando, levado por uma força incomum, para a qual não tinha explicação.

O urso tinha razão! Aos poucos e muito devagar, a movimentação do corpo surtiu efeito, embora sob dores quase insuportáveis. A vida começou a fluir novamente pelas veias: primeiro nada mais que um tímido formigamento na ponta dos dedos da mão e dos pés, acompanhado por agulhadas mais fortes. Depois, uma dor quente e poderosa. A névoa diante dos olhos se dissipou, os vagos contornos se desfizeram e descortinou-se uma paisagem dominada pelo branco monótono. Não havia nada além do gelo: nenhuma sinuosidade, nenhum desnível do terreno, nenhuma árvore, nenhum arbusto ou rocha que fosse! Horizonte e névoa formavam um único infinito! Vez ou outra Kim teve a impressão de ver, flutuando no nevoeiro branco-acinzentado, os contornos de uma construção enorme e bizarra, mas a imagem sumia imediatamente, antes que ele pudesse se concentrar nela.

Brobing parou de repente e, de olhos arregalados, apontou para a direção de onde vieram. Kim apertou os olhos para enxergar melhor e estarreceu! Minúsculos pontos negros se movimentavam sobre o gelo!

— É o fim! — murmurou Brobing, desconcertado. Kelhim se voltou para ele, enfurecido:

— Não fales bobagem! Em frente, vamos! Ninguém se mexeu.

— Vamos — urgiu o urso. — Temos de fugir! Ado balançou a cabeça:

— É inútil, urso. Só estamos desperdiçando nossas forças. Não existe lugar algum onde possamos nos refugiar.

Kelhim quis dar uma resposta áspera, mas preferiu se calar. Pensativo, girou os olhos pela imensidão gelada que os cercava. O jovem Rei dos Charcos estava certo: o deserto branco não oferecia esconderijo, nenhum lugar para se abrigar, nenhuma segurança!

— Tu estás certo! Não temos alternativa: teremos de lutar.

Kim inclinou a cabeça. Vagarosamente, desembainhou a espada e com as mãos firmes, agarrou seu escudo para enfrentar os cavaleiros que se aproximavam. Estava preparado para a luta decisiva.

 

Eram seis figuras altas em reluzente negro, munidas de arcos e flechas e lideradas pelo Barão Kart, enorme, ameaçador, que segurava nas mãos, como arma, uma grande bola negra, guarnecida de pontas agudas e ferrões que a faziam parecer uma grande estrela negra! Debruçados sobre os pescoços dos seus cavalos, os sinistros mensageiros da morte se aproximavam rapidamente: trezentos metros, duzentos... a cada momento, a distância diminuía.

Kim agarrou a espada com maior firmeza. A lâmina parecia vibrar em suas mãos. Demorou algum tempo até que ele percebesse que não era a lâmina que tremia, mas ele próprio, e não era de medo, mas de mal contida excitação. Ao seu lado, de olhos semicerrados, o corpo solto, Priwinn se preparava para o confronto. Kelhim se ergueu nas patas traseiras, assumindo a típica posição de ataque de sua espécie. Em pé, era mais alto que os cavaleiros montados em seus cavalos. Kim encarou o inimigo com calma. Se fosse num outro momento, não teria dúvidas sobre o desfecho da luta. Eram apenas sete cavaleiros e Kelhim liquidava, facilmente, quatro ou cinco de uma vez só. Também tivera a oportunidade de ver Brobing e Priwinn em combate, eram corajosos e destemidos. Mas, desta vez a situação era outra! Kelhim sofria com o ombro ferido, embora fizesse de tudo para não demonstrar. Quanto a Ado, não estava de maneira alguma preparado para uma luta de vida ou morte. Além disso, o terreno aberto, sem nenhuma cobertura, garantia aos cavaleiros considerável vantagem.

Nesse momento, como se alguém tivesse lhes dado sinal para o ataque, a fileira dos cavaleiros se desmembrou: três foram para a direita e outros três para a esquerda para iniciar o ataque por todos os lados. Só o Barão, montado em seu enorme cavalo, fora diretamente ao encontro de Kim.

Uma saraivada de flechas negras sibilou pelos ares. Kim se jogou na frente de Ado para protegê-lo. Um dos projéteis bateu no seu escudo e, com o impacto, Kim quase perdeu o equilíbrio. Pelo canto dos olhos viu Priwinn escapar por um triz de uma flechada. Emitindo um terrível grito, o Barão Kart começou a girar a bola munida de ferrões, presa no final de uma corrente. Mas não teve tempo de desferir o golpe mortal. Algo estranho aconteceu: a luz do dia se tornou amarelada, bruxuleou por um momento e acabou em suave ardor. Em frações de segundos surgiu um forte nevoeiro e o frio aumentou.

— Alto!

Um rápido comando bradou pelos ares com tanta força que Kim soltou a arma e tapou os ouvidos. Duas ou três armaduras negras foram varridas das selas quando os cavalos, assustados, empinaram-se. O Barão Kart conseguiu permanecer montado somente à custa de muito esforço. O ataque dos cavaleiros, ainda há pouco ordenado, desfez-se em caos.

Primeiro não era nada mais que uma indefinida sombra, mas em seguida a névoa movediça se rompeu e um cavaleiro todo de branco, muito grande, apareceu em meio aos combatentes. Kim olhou para ele com um misto de admiração e medo. Cavalo e cavaleiro, ambos da mesma tonalidade do gelo que os rodeava, ou seja, branco leitoso. O homem vestia um grosso casaco de pele e botas compridas, forradas. Também o cavalo estava protegido por um manto de pele branca. O homem era enorme, porém menos pelo porte físico e mais pela aura de inabalável força e superioridade que irradiava e que o cercava como um escudo invisível. Seria um adversário à altura de Gorg, pensou Kim com saudade e tristeza.

Os cavaleiros em suas armaduras negras se reagruparam. O Barão Kart recuperou o controle de seu cavalo e também os outros voltaram a montar seus animais.

— Sai do caminho! — ordenou Kart com uma voz mais fria que o próprio gelo.

O gigante branco balançou a cabeça:

— Não! Não haverá luta, Kart! Não aqui.

Kart, repleto de ódio, jogou a cabeça para trás e gritou um comando. Dois dos seus homens desembainharam as espadas e galoparam em direção ao gigante branco, que esperou por eles serenamente. Quando se viu frente a frente com as armaduras negras, ergueu a mão. Um grito horrendo cortou os ares. Os dois cavalos e seus cavaleiros tombaram no chão e lá ficaram estirados, imóveis, como fulminados por um raio. Na mesma hora, o gelo cobriu seus corpos.

— Eu avisei — disse o gigante do gelo. — Segure seus homens ou terá o mesmo destino.

O gigante branco se voltou para Kelhim e seus companheiros e os observou por alguns instantes. Depois se dirigiu a Kim:

— E agora tu, Kim Larssen. Esperamos por ti e teus amigos. Chegaste tarde.

Kim se assustou:

— Você... você sabe meu nome?

O gigante branco esboçou um sorriso:

— Claro. Conheço não só o teu nome como o nome dos teus amigos. Eu sei por que viestes até aqui e também sei como viestes. Nada do que acontece no nosso reino passa despercebido.

Kim começou a gaguejar:

— Mas, por que... o que... quem... Quem é você?

— Deram-me muitos nomes e um é tão bom quanto o outro. Guardiões do Universo... Eu acho que é esse o nome que os homens de Märchenmond nos deram.

— Guardiões do Universo!? — repetiu Kim, atônito. — O que significa isso?

— Tu saberás. Mas agora vem!

O gigante branco virou seu cavalo, fez um gesto com a mão e saiu galopando. A névoa se desfez e, onde há pouco havia uma imensidão gelada e vazia, agora se erguia um fantástico castelo todo de gelo e neve! Pontes reluzentes de gelo uniam as torres do castelo, tão altas que pareciam atingir o céu. O portal aberto ostentava o símbolo da eternidade: o número oito, porém deitado e todo feito de gelo!

Kelhim não escondeu a surpresa:

— O Castelo do Fim do Mundo!

O cavaleiro branco freou o cavalo e esperou por Kim e o urso:

— Ides na frente. Estão esperando por vós.

Kim hesitou. Kart e os quatro cavaleiros negros restantes continuavam lá, e Kim sentiu o olhar cheio de ódio do Barão.

— Sigais em paz — disse o Guardião do Universo. — Aqui estareis seguros. O Castelo do Fim do Mundo é um lugar de paz. O poder de Boraas termina aqui.

Kim e seus amigos obedeceram e se aproximaram do portal, enquanto o cavaleiro ficou para trás, confundindo-se, aos poucos, com o nevoeiro. Kim sentiu-se incrivelmente pequeno e perdido ao passar pelo imponente portal. Formavam um grupo derrotado, perdido, de cuja coragem e otimismo nada restara. Por pouco não perderam a vida. A salvação viera, literalmente, na última hora. Era um milagre! Lembrou o que o Guardião do Universo lhe dissera: “Nada do que acontece no nosso reino passa despercebido...”.

O que ele queria dizer com isso? Que estiveram o tempo todo sob a proteção do gigante branco? Mas, então, se assim fosse, o sacrifício de Gorg teria sido inútil! Kim não queria nem pensar nisso!

Entraram num pátio amplo, também totalmente branco. Kim ouviu um leve ruído e, quando se virou, viu o portal se fechar quase silenciosamente. Indecisos, ficaram parados no meio do pátio. As torres e os muros se erguiam para o alto, lisos, sem juntas, sem ranhuras, paredes simétricas, bem proporcionais, reluzentes, sem janelas nem portas. O castelo lembrava um pouco Gorywynn, com a indiferença de que, em Gorywynn, tudo era de vidro, ao contrário do Castelo do Fim do Mundo, onde tudo era feito de neve e gelo. Em Gorywynn dominava um cintilante caleidoscópio de cores, ao passo que naquele castelo imperava o branco frio e estéril. Enquanto as linhas arquitetônicas de Gorywynn tinham como denominador comum a luz e a graça, no Castelo do Fim do Mundo tudo respirava calma e majestade. Aliás, o silêncio era tão grande que chegava até a dar medo.

Uma das paredes lisas se abriu, como movida por mãos invisíveis, e um homem entrou no pátio. Parecia irmão gêmeo do gigante branco, só lhe faltava a aura de poder e serenidade que aquele irradiava.

— Bem-vindos ao Castelo do Fim do Mundo, o castelo à margem do tempo — saudou-os o homem.

Kim achou as palavras meio dramáticas, mas não o demonstrou. Baixou a cabeça em sinal de respeito. O gigante do gelo ficou à espera de resposta, mas como ninguém se pronunciou, deu de ombros e fez um gesto convidativo:

— Segue-me! Irei conduzir-vos para vossos aposentos, onde vos serão servidas refeições e onde vossas feridas serão tratadas.

O convite era deveras tentador, mas os cinco amigos ficaram parados e não fizeram menção de seguir o gigante. O gigante do gelo sorriu:

— Não tenhais medo. Vós estais no lugar mais seguro do mundo.

— Não é isso — manifestou-se Priwinn. — Mas não podemos perder tempo. Nosso...

— Vosso caminho termina aqui — interrompeu o gigante, ainda amável, mas com firmeza.

— O que significa isso? — perguntou Kim, assustado.

— Vosso caminho termina aqui. Todos os caminhos terminam aqui. Nenhum atalho, nenhum caminho, nenhuma estrada leva alem do Castelo do Fim do Mundo.

Kim não se conformou:

— Mas... mas alguma coisa deve haver do outro lado! O gigante do gelo balançou a cabeça:

— Só existe o nada. O vosso mundo termina aqui.

— Nosso mundo? — perguntou Priwinn, alerta — O que significa isso de nosso mundo?

O gigante explicou, paciente:

— Existem incontáveis mundos, Príncipe das Estepes. Assim como existem incontáveis homens com incontáveis pensamentos. Em cada um de vós existe mais mundos do que planetas no cosmo. E todos têm uma coisa em comum: terminam aqui.

Priwinn não se deu por satisfeito:

— Mas, então, existe um caminho? Só que não é o nosso?

— Existe um caminho — confirmou o homem, hesitante. — Mas é perigoso, estreito e não foi feito para seres como vós. Agora vinde! Falaremos sobre isso mais tarde.

Ele deu meia-volta e, de repente, apareceu outro gigante do gelo, e mais um, até que cada um dos cinco amigos ficou com o seu próprio guia, que os conduziu para o interior do castelo.

Os corredores eram estreitos e tão altos que não dava para ver o teto. O gigante que acompanhava Kim apontou para a parede e, onde ainda há pouco só havia gelo liso, de repente se abriu uma porta.

— Entra, Kim.

Inseguro, Kim se virou para ver onde ficaram seus amigos. Não lhe agradava nem um pouco que o separassem deles, mas reconheceu que não podia fazer nada. Apesar da maneira delicada e amável com que era tratado, ele não se iludia: as ordens daqueles homens do gelo tinham de ser obedecidas.

Kim soltou um suspiro de resignação e entrou na sala. Imediatamente a porta desapareceu, voltando a ser nada mais que uma parede de gelo absolutamente lisa.

Admirado, Kim olhou ao redor. Não havia janelas e portas, mas a sala estava toda iluminada. Em uma das paredes havia uma cama larga, de aspecto confortável. Na frente da cama, uma cadeira de encosto alto e uma mesa com pratos e bandejas, onde se amontoavam

frutas, carne e pão. Em jarras bojudas, fumegavam bebidas aromáticas. E tudo era feito de gelo, até os móveis e a louça sobre a mesa! O mais curioso, no entanto, era que apesar do gelo onipresente reinava uma temperatura agradável e aconchegante.

— Vou deixar-te sozinho — disse o guia. — Come e bebe a vontade e descansa. Voltarei mais tarde para cuidar dos teus ferimentos.

Kim queria protestar, mas antes que pudesse dizer algo, o homem se virou e desapareceu, passando pela parede totalmente lisa. Por alguns segundos, Kim ficou parado, boquiaberto, depois deu de ombros e foi até a mesa ricamente posta. Estava indeciso: por um lado, queria nada mais do que dormir em uma cama macia e aconchegante, um luxo que há muito tempo não desfrutava; por outro, a mesa posta o atraía como um ímã. A fome venceu! Com algum cuidado, sentou na cadeira de aspecto frágil e se serviu da carne assada que parecia apetitosa e que, de tão quente, chegou a lhe queimar os dedos, mas que, por incrível que pareça, não derreteu o prato de gelo. Kim resolveu não questionar mais nada e não mais quebrar a cabeça com o impossível e o surpreendente que o cercava desde que chegara àquele estranho castelo de neve e gelo. O melhor a fazer era aceitar as coisas do jeito que eram!

Depois de saciada a fome, levantou-se, espreguiçou-se e, trôpego de sono, foi até a cama, que, claro, era toda de gelo! Fronhas, lençóis e cobertores... tudo feito de neve, porém macio e muito leve. Deitou-se, cobriu-se e, em frações de segundos, caiu em profundo sono.

Desta vez nenhum pesadelo o torturou. Quando acordou, estava descansado e tão animado como há muito não se sentia. Alguém estivera no quarto enquanto dormia. No lugar do opulento jantar da noite anterior, a mesa estava posta com um convidativo café-da-manhã. Ao lado da cama havia uma bacia com água quente.

Kim comeu e se lavou (exatamente nessa seqüência, pois de repente lhe causou um prazer quase infantil quebrar as regras de sua infância). Depois, esperou pelos acontecimentos.

Foi preciso muita paciência, pois por um longo período não aconteceu nada. Finalmente, a parede se abriu e o seu guia entrou.

— Então? — perguntou o gigante do gelo, amável. — Está tudo do teu agrado?

Kim inclinou a cabeça:

— Muito. Sinto-me ótimo. Uma sensação que há muito não experimentava. Obrigado por tudo.

O gigante do gelo sorriu:

— Tu estavas muito cansado.

— É, mas agora estou ótimo. Eu dormi muito?

— Duas noites e um dia — respondeu o gigante do gelo.

— Duas noites!? — repetiu Kim, assustado.

— Estavas exausto, Kim. Cuidamos para que teu corpo pudesse se recuperar de todas as privações que sofreu.

— Duas noites! — repetiu Kim, de novo. — Perdi duas noites e um dia!

— Tu não perdeste, Kim, não te aflijas. Não só o teu mundo termina aqui, mas também o teu tempo! Não terá passado nem uma hora ao deixar o Fim do Mundo. Mas agora vem! Temos muito que conversar.

O gigante saiu para o corredor e fez um sinal para Kim.

— E os outros? — perguntou Kim, nervoso. — Priwinn, Ado e Brobing? E como vai Kelhim?

— Ainda estão descansando. O ferimento do urso era grave. Vai demorar algum tempo até que ele se recupere por completo. Mas não te preocupes, ele não morrerá.

E, depois de uma pequena pausa, acrescentou:

— Vós vos arriscastes muito.

Desceram uma escadaria ampla e comprida, passaram por outro corredor estreito e alto e pararam diante de uma porta fechada, igualmente feita de gelo reluzente e com o símbolo da eternidade, o oito deitado, que Kim já notara no portal de entrada.

— Entra!

Kim obedeceu. A porta se abriu silenciosamente e Kim se viu em uma espécie de pórtico alto e abobadado. Ao longo das paredes, estavam dispostas colunas arredondadas, de gelo branco-azulado e cintilante. Uma atmosfera estranha, um tanto angustiante, pairava no ar. Kim hesitou um pouco, mas depois andou sobre o chão luminoso e foi até a mesa no centro da sala. Nesse momento, sentiu um sopro fugidio daquilo que o símbolo, o oito deitado, representava, então estremeceu: sentira o sopro da eternidade!

Sentados à mesa em semicírculo estavam os três guardiões do mundo, atentos a cada passo seu:

— Aproxima-te — pediu o do meio. — Tu descansaste, comeste e agora está na hora de conversar.

Kim engoliu em seco. Não saberia explicar, mas achou que as palavras continham um leve tom de ameaça. O guardião do mundo continuou:

— Tu e os teus amigos correstes um grande risco para chegar até aqui. Muitos tentaram o mesmo, isto é, queriam encontrar o Fim do Mundo, mas poucos conseguiram.

— Mas não era isso que eu queria! — exclamou Kim, inseguro. — Eu só queria...

O guardião o interrompeu com um gesto rápido:

— Conhecemos o teu objetivo, Kim. Saibas, porém, que a tua viagem termina aqui. Até hoje ninguém conseguiu chegar ao Rei do Arco-íris. Não tem ida, nem volta!

— Mas, existe um caminho? — indagou Kim. O guardião sorriu:

— Sim, existe um caminho. Mas a nenhum homem é concedida a graça de segui-lo.

— Mas, eu tenho de encontrá-lo! — irritou-se Kim. — Só o Rei do Arco-íris poderá salvar Märchenmond!

— Ele poderia, Kim, mas mesmo se nós te deixássemos seguir o caminho, tu jamais chegarias até o fim. A ponte sobre o nada foi criada por seres infinitamente superiores a vós, homens. Nem mesmo a nós é permitido conhecer o seu poder. Nenhum homem jamais será capaz de vencer os perigos que o aguardam ao longo do caminho.

— Isso é problema meu — respondeu Kim, agressivo. — Eu quero, pelo menos, tentar. Rangarig, Gorg e os outros morreram. A sua morte não pode ser em vão!

Desesperado, continuou:

— Se... se eu não conseguir, será o fim de Märchenmond! O guardião respondeu com uma pergunta:

— Por que tu achas que estamos aqui? Nós não só temos a incumbência de proteger-vos, homens, para que não despenqueis da beira do mundo, como também temos de proteger a eternidade.

— De quem? De nós?

— De vós e de todos que queiram ocupá-la. Sobretudo, no entanto, é nossa tarefa proteger tolos e levianos como tu. Seria a tua perdição se te deixássemos seguir em frente.

— Mas, vocês não podem... Eu quero dizer, vocês têm de... Märchenmond desaparecerá se...

— A salvação de Märchenmond depende de ti, pequeno herói? — ironizou o guardião. — Tu achas que poderás fazer mais do que Temístocles e todos os poderosos magos de Märchenmond? Achas mesmo que és mais forte do que os exércitos de Boraas?

Kim refletiu bem antes de responder. Instintivamente sabia que tudo dependia de sua resposta e que não podia vacilar. O guardião estava penetrando o seu coração e conhecia seus pensamentos.

— Sim — afirmou Kim com toda convicção.

Ele estava absolutamente convencido de que o destino do grande e belo reino de Märchenmond estava em suas mãos, nas mãos de um pequeno garoto, frágil e vulnerável.

O guardião inclinou a cabeça:

— Se essa é a tua decisão, então estás livre para seguir o teu caminho. Mas saibas que, ao deixares o Castelo do Fim do Mundo, tu deixarás para trás também a nossa proteção. Outros antes de ti tentaram o salto para o nada. Homens, Kim, grandes e corajosos heróis. Mas, ninguém voltou.

— Eu sei — murmurou Kim. — Mas, tenho de tentar. E, de repente, teve uma idéia:

— Por que os senhores não me ajudam?

— Por que deveríamos te ajudar? Kim ousou uma última cartada:

— Talvez Boraas não se dê por satisfeito em conquistar Märchenmond. Talvez seu poder seja maior do que os senhores imaginam. Ele já provou que conseguiu o impossível: com a ajuda do Lorde Negro, seu companheiro terrível, venceu a Cordilheira das Sombras. Por que não poderia...?

— Se chegar a hora, saberemos nos proteger. Não está ao nosso alcance interferir nos destinos alheios, não nos intrometemos nos assuntos dos homens. Mesmo se quiséssemos, não o poderíamos. Também nós somos apenas minúsculas peças na grande engrenagem do espaço e do tempo. Existe um poder muito maior do que o nosso! O guardião mudou de tom:

— E, agora, Kim, consulta a tua consciência pela última vez. Se é mesmo a tua firme vontade continuar, as portas do Fim do Mundo se abrirão para ti. Mas só para ti, Kim, unicamente para ti! Os teus amigos ficarão aqui. A ponte para a eternidade só comporta um viajante por vez.

Kim queria responder, mas o guardião levantou a mão:

— Só mais uma coisa, pequeno herói. Tu chegaste aqui na condição de perseguido. Nossa imparcialidade não nos permite quaisquer interferências em assuntos alheios aos nossos. Por essa razão te previno: aquele que te persegue também encontrará o caminho para o nada.

Kim refletiu sobre essas palavras. O que o guardião queria lhe dizer, em rodeios, era que o Barão Kart o perseguirá para sempre. O guardião realmente lia seus pensamentos, pois confirmou:

— É ele mesmo. Os homens que o acompanham ficarão para trás, como também os teus amigos. Pois... ainda está disposto a seguir?

Kim confirmou com a cabeça, sem dizer uma palavra.

Por um tempo se fez silêncio e nada aconteceu. Mas aí, de repente, os contornos do átrio começaram a se diluir e sua visão ficou turva.

Quando Kim recuperou a visão, viu-se em uma ampla campina dominada pelo cinza-claro. Vestia novamente a armadura negra e do braço lhe pendia o escudo. O castelo e a paisagem de gelo desapareceram. Só restou um muro cinza que se perdia em alturas infinitas.

Kim estremeceu e girou em torno de si mesmo. A campina se prolongou para todos os lados até o infinito. Era como se ele estivesse num estreito friso, aos pés do gigantesco muro universal, que se estendia para o nada.

Kim ficou por muito tempo parado, olhando para o obscuro infinito. Antes, quando pensava no infinito, imaginava a negritude aveludada estrelada do cosmo, o vácuo entre os planetas e não como aqui... As palavras do guardião dos mundos lhe vieram à mente: o nada! O absoluto nada!

Kim gemeu. Começou a tremer e uma sensação indescritível e mortal de solidão se apossou de sua alma. Impassível, não conseguiu se mexer. O espírito humano não foi feito para o confronto com o nada. Podemos imaginar o vazio, talvez até compreender uma ínfima parte da eternidade. Mas, diante do nada, em que não há espaço nem mesmo para o vazio ou para a solidão, sentimo-nos impotentes. O nada é simplesmente inimaginável! O confronto com o nada, aliás uma idéia abstrata e contraditória, pode levar o ser humano à loucura. Agora Kim compreendeu de que perigos o guardião falara. Não havia ciladas, monstros ou inimigos à espreita. O nada era a própria emboscada, uma teia de aranha mortal na qual o espírito se enroscou. Um labirinto de intermináveis galerias e caminhos nos quais seu espírito estará irremediavelmente perdido.

Lançando mão de toda sua força de vontade, Kim sacudiu o corpo, coberto por gotas de suor frio.

Um leve ruído o fez erguer os olhos. A sua frente, ainda muito longe e quase imperceptível, abriu-se um pequeno portão na superfície lisa do muro dos mundos e saiu uma figura enorme em uma armadura negra!

Por um momento Kim pensou em fuga. Mas não havia lugar nenhum para onde pudesse fugir. De nada adiantaria andar ou correr, pois não havia nada além da planície uniforme, cinza, à margem do nada. O tempo da fuga e dos esconderijos ficara para trás!

Desembainhou a espada, pegou firme no escudo e foi ao encontro do Barão Kart!

Calmo, de escudo e espada na mão, o rosto coberto pela viseira negra, Kim esperou o ataque do inimigo. Quando apenas poucos metros separavam os dois adversários, o Barão parou. A bola mortal pendia, solta, da cintura. Os olhos escuros atrás das estreitas aberturas na proteção do rosto pareciam fitar Kim com desdém. Mas sua voz estava livre de qualquer ironia ou arrogância. Ao contrário, continha até um certo tom de respeito ou mesmo de admiração:

— Muito tempo — disse. — Tempo demais. Nunca antes alguém conseguiu me fazer de bobo por tanto tempo.

— Nunca antes alguém me perseguiu tanto — retrucou Kim. — O que você quer? Lutar ou falar?

O Barão soltou uma risada irônica:

— Belas palavras, pequeno herói. Temos tempo. Muito tempo. Apenas um de nós sobreviverá, não esqueças. A morte receberá o tributo que lhe é devido em tempo.

Kim ficou observando o Barão com desconfiança. Seriam as suas palavras mais uma de suas artimanhas com o intuito de distraí-lo para, no momento exato, atacá-lo de surpresa?

O Barão continuou:

— Eu travo minhas lutas de maneira impiedosa, Kim. Se tu pretendes pedir por clemência, terei de decepcionar-te. No entanto, costumo ser correto.

Kim estremeceu. Era como se tivesse levado uma surra:

— Você... você lê meus pensamentos?

Kart confirmou com a cabeça:

— Desde o primeiro momento em que te conheci, Kim.

— Mas... mas, como...?

Kart riu. Por causa da máscara metálica que lhe cobria o rosto, as risadas do Barão se transformaram em um ruído abafado e metálico.

— Tu algumas vezes te questionaste como conseguiste escapar de Morgon? Pois saiba que é uma pergunta inteligente. Neste momento, diante da decisão final, posso respondê-la, isto é, se tu estás interessado em ouvir a verdade.

Mal controlando o turbilhão de sentimentos que o invadiu, Kim pediu:

— Por favor.

— Tu não vais gostar da verdade, pequeno herói.

—Pois fale!

Kart deu de ombros:

— Estava tudo planejado, Kim. Desde o começo. Todos os te passos estavam traçados.

— Mas...

Kart o interrompeu e cada palavra sua foi um golpe cruel Kim:

— Graças a ti pudemos atacar Märchenmond. Tua fuga de Morgon foi necessária, da mesma maneira que tua permanência em nosso exército.

— Então... então vocês sabiam que era eu? Kart riu novamente:

— Se sabíamos? — perguntou, irônico. — Mas é o que havíamos planejado. Precisávamos de ti. Só na tua companhia foi possível vencer a Cordilheira das Sombras, pois só a ti foi concedida a graça de vencer as barreiras que nos separavam de Märchenmond.

Kim soltou um gemido. O ódio e o desespero que sentia nesse momento eram tão fortes que chegaram até a lhe causar dor física. Se as palavras do Barão fossem de fato verdadeiras, então ele, Kim Larssen, era o único responsável por todas as crueldades e todo o terror que se abateram sobre o reino de Märchenmond e que, certamente, ainda estavam por acontecer. A morte dos amigos, a destruição de Caivallon, cada gota de sangue derramado... Tudo culpa sua! Ele fora uma ferramenta nas mãos do mal e agora Kart estava colocando um espelho diante da sua alma com sórdida satisfação. Você, só você, Kim, tem culpa pelo sofrimento de Märchenmond!

Kim despencou num abismo sem-fim. Como poderá suportar esse espelho diante da sua consciência?

Kart, implacável, continuou

— Fomos nós que te chamamos, Kim. Nós! Não foi Temístocles. Prendemos a tua irmã para esse fim, isto é, com o intuito de atrair-te até nós, pois sabíamos que Temístocles, desesperado, iria chamar-te, assim como também tínhamos certeza de que virias. O desaparecimento de Märchenmond estava planejado há muito tempo, mas a Cordilheira das Sombras sempre fora uma barreira intransponível. Só um homem do teu mundo poderia vencê-la e, quando a tua irmã encontrou o desfiladeiro oculto e se perdeu no Reino das Sombras, reconhecemos a nossa chance. Tu, só tu podias guiar nossos homens para Märchenmond. E só tu podias dar vida à nossa arma mais poderosa: o Lorde Negro!

— Basta! — gritou Kim, desesperado. — Che