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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A TUMBA DO IMPERADOR / Steve Berry
A TUMBA DO IMPERADOR / Steve Berry

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A TUMBA DO IMPERADOR

 

Áreas do Norte — Paquistão

Sexta-feira, 18 de maio

8h10

Uma bala passou zunindo por Cotton Malone. Ele mergulhou no solo pedregoso e procurou abrigo nas esparsas árvores. Cassiopeia Vitt fez o mesmo e eles rastejaram pelo cascalho pontudo, encontrando uma pedra grande o suficiente para proteger os dois.

Mais tiros vieram na direção deles.

—   Isso está ficando sério — disse Cassiopeia.

—   Você acha mesmo?

A trilha deles tinha sido, até agora, calma. A maior concentração de picos do planeta os cercava. O teto do mundo, a mais de 3 mil quilôme­tros de Pequim, no extremo sudoeste da região autônoma de Xinjiang na China — ou nas áreas do norte do Paquistão, dependendo de quem res­pondia à pergunta —, ficava em uma fronteira arduamente disputada.

O que explicava os soldados.

—   Eles não são chineses — disse ela. — Consegui dar uma olhada. Certamente são paquistaneses.

Cumes pontiagudos e cobertos de neve que chegavam até 6 mil metros de altura protegiam geleiras, pedaços de florestas verde-escuras e vales exuberantes. As cordilheiras do Himalaia, Karakoram e Pamir misturavam-se aqui. Esta era a terra de lobos pretos e papoulas azuis, cabritos-monteses e leopardos da neve. Onde as fadas se encontravam, Malone lembrou-se do comentário de um velho observador. Possivel­mente a inspiração por trás de Shangri-La de James Hilton. Um paraí­so para trekkers, alpinistas, rafters e esquiadores. Infelizmente, Índia e Paquistão reivindicavam soberania, a China retomou a posse, e os três governos brigavam pela região desolada havia décadas.

—   Parece que eles sabem para onde vamos — disse ela.

—   Também pensei nisso. — Então, ele teve de acrescentar: — Eu avisei que ele não era confiável.

Eles vestiam jaquetas de couro, jeans e botas. Embora estivessem a mais de 2.500 metros acima do nível do mar, a temperatura estava sur­preendentemente amena. Uns 15 graus talvez, estimou ele. Por sorte, os dois carregavam armas chinesas semiautomáticas e alguns cartu­chos de reserva.

—   Temos que ir por ali. — Ele apontou para trás deles. — E esses soldados estão próximos o suficiente para fazer um estrago.

Malone buscou em seu cérebro eidético o que precisavam. Ele ha­via estudado a geografia local e notara que esse pedaço de terra, que não era muito maior do que Nova Jersey, já tinha sido chamado de Hunza, uma propriedade principesca por mais de novecentos anos, cuja independência finalmente evaporou na década de 1970. Os mora­dores locais, que tinham pele e olhos claros, reivindicavam ser descen­dentes dos soldados do Exército de Alexandre, o Grande, de quando os gregos invadiram, 2 mil anos atrás. Quem sabe? A terra permanecera isolada por séculos, até a década de 1980, quando a auto-estrada Karakoram atravessou-a e ligou a China ao Paquistão.

—   Temos de acreditar que ele vai conseguir resolver isso — disse ela finalmente.

—   A escolha é sua, não minha. Vá na frente. Eu dou cobertura.

Ele segurou a pistola chinesa de dupla ação. Não era uma arma ruim. Quinze tiros, bem precisa. Cassiopeia preparou-se também. Ele gostava dessa característica dela — sempre pronta para qualquer situa­ção. Formavam uma boa equipe, e esta formidável espanhola árabe definitivamente o deixava intrigado.

Ela seguiu na direção de uma fila de árvores.

Ele apontou a pistola por cima da pedra e preparou-se para atirar ao menor movimento. À sua direita, sob a iluminação fúnebre que atra­vessava a folhagem de primavera, ele conseguiu ver o cano de um rifle apontado para o tronco de uma árvore.

Ele atirou.

O cano desapareceu.

Malone decidiu aproveitar o momento e seguir Cassiopeia, man­tendo a pedra entre ele e seus perseguidores.

Ele a alcançou e os dois continuaram correndo, protegendo-se atrás das árvores.

Tiros agudos de rifle ecoaram. Balas zuniam em volta deles.

A trilha afastava-se das árvores e subia por um terreno íngreme, um tanto melhor para se escalar, entre rochas e pedras soltas. Não ti­nham muita proteção aqui, mas não havia alternativa. Depois da trilha, ele conseguia avistar desfiladeiros tão profundos que a luz só conse­guia entrar quando o sol estava alto. Um penhasco caía à direita deles, e eles correram por sua borda. O sol brilhava forte do outro lado, obscurecido pela sombra negra da montanha. Trinta metros abaixo, a água corria e tremia, cinzenta por causa da areia, lançando espuma ao ar.

Eles subiram a ladeira íngreme.

Cotton viu a ponte.

Exatamente onde tinham dito que ele a encontraria.

Não era bem uma ponte, apenas algumas estacas, que não pare­ciam seguras, pranchas de madeira na horizontal, tudo amarrado por cordas. Uma passarela de tábuas pendendo sobre o rio.

Cassiopeia chegou ao topo da trilha.

—   Temos de atravessar.

Ele não gostava da idéia, mas ela estava certa. O destino deles es­tava do outro lado.

Tiros ecoaram a distância, e ele olhou para trás.

Nenhum soldado.

O que o deixou preocupado.

—   Talvez ele os esteja distraindo — disse ela.

A desconfiança o deixava na defensiva, mas não tinha tempo para analisar a situação. Enfiou a arma no bolso. Cassiopeia fez o mesmo, depois apoiou o pé na ponte.

Ele foi atrás.

As tábuas vibravam por causa da agitação das águas que batiam. Ele calculou que estavam a menos de 30 metros do outro lado, mas tinha consciência de que ficariam suspensos no ar sem nenhuma cober­tura, movendo-se das sombras para a luz do sol. Era possível ver outra trilha de cascalho do outro lado, que seguia pelas árvores. Ele viu uma imagem, de uns 4 metros de altura, esculpida na rocha depois da trilha: uma imagem budista, exatamente como tinham dito a eles.

Cassiopeia virou-se para ele. Olhos orientais em um rosto ocidental.

—   Esta ponte já teve dias melhores.

—   Espero que ainda tenha mais um dia.

Ela agarrou as cordas trançadas que sustentavam a ponte no ar.

Ele apertou com mais força a áspera corda também, depois decidiu:

—   Eu vou na frente.

—   Por quê?

—   Sou mais pesado. Se a ponte me agüentar, agüentará você também.

—   Como não posso argumentar contra esse argumento — disse ela dando um passo para o lado —, fique à vontade.

Ele passou à frente, seus pés sintonizados com as vibrações cons­tantes.

Nenhum sinal dos perseguidores.

Ele decidiu que seria melhor se andasse mais rápido, não dando tempo para as tábuas reagirem. Cassiopeia o seguiu.

Um novo som ecoou mais alto do que a correnteza.

Grave e profundo. Distante, mas que estava se aproximando.

Tum Tum Tum.

Ele virou a cabeça para a direita e viu uma sombra em uma pedra, a mais de 1 quilômetro de distância, onde o desfiladeiro que estavam atravessando encontrava outro perpendicular.

Na metade do caminho, parecia que a ponte ia resistir, embora as tábuas mofadas parecessem esponjas. As palmas de suas mãos segura­vam frouxamente a corda áspera, prontas para agir se o chão cedesse embaixo de seus pés.

A sombra distante ficou maior e assumiu a forma distinta de um helicóptero de ataque AH-1 Cobra.

De fabricação americana, mas isso não queria dizer salvação.

Paquistaneses o pilotavam também. Washington havia fornecido os helicópteros para ajudar um suposto aliado na guerra contra o ter­rorismo.

O Cobra vinha na direção deles. Hélice com duas pás e duas tur­binas. O helicóptero carregava duas armas 20mm, mísseis anti-tanque e foguetes aéreos. Tão rápido quanto uma vespa e igualmente manobrável.

— Eles não estão aqui para ajudar — ele escutou Cassiopeia dizer.

Ele concordava, mas não precisava dizer que sabia disso desde o início. Eles tinham sido conduzidos a este local para este propósito.

Maldito filho da...

O Cobra começou a atirar.

Uma sucessão de estouros mandou balas 20mm na direção deles.

Ele mergulhou de barriga sobre as tábuas da ponte, no exato mo­mento em que Cassiopeia fazia o mesmo. O Cobra aproximou-se deles, o motor turbo-hélice sugava o ar seco e límpido. Salvas de tiros foram em direção da ponte, atingindo madeira e corda com uma fúria selvagem.

Mais tiros.

Concentrados nos 3 metros que o separavam de Cassiopeia.

Ele viu fúria nos olhos dela e observou enquanto ela pegava a arma, ajoelhava-se e atirava na capota do helicóptero. Mas ele sabia que o revestimento blindado e o fato de a aeronave estar movendo-se a mais de 270 quilômetros por hora reduziam a zero as chances de causar algum dano.

— Abaixe — gritou ele.

Outro tiro de canhão destruiu o pedaço da ponte entre ele e Cas­siopeia. Em um momento, a construção de madeira e corda existia, no minuto seguinte, era uma nuvem de poeira.

Ele ficou de pé e percebeu que a ponte toda estava prestes a de­sabar. Não podia voltar atrás, então correu os últimos 6 metros à sua frente, segurando-se nas cordas enquanto a ponte desabava.

O Cobra voou direto para o outro lado do desfiladeiro.

Ele se segurou firme às cordas e, conforme a ponte se dividia, cada metade pendendo para lados opostos do penhasco, ele voou no ar.

Bateu em uma pedra, ricocheteou, depois parou.

Mas não se deu chance de sentir medo. Devagar, puxou-se para cima, escalando os metros que faltavam até o topo. Os barulhos da cor­renteza e do helicóptero enchiam seus ouvidos. Fitou o outro lado do penhasco, procurando Cassiopeia, torcendo para que ela tivesse conse­guido subir até o outro lado.

O coração dele se apertou ao vê-la agarrada à outra metade da ponte enquanto esta balançava contra as pedras. Queria ajudá-la, mas não havia nada que pudesse fazer. Ela estava a 30 metros de distância. E só havia ar entre eles.

O Cobra fez uma manobra dentro do desfiladeiro, arqueando para cima, e começou a vir na direção deles de novo.

—   Você consegue escalar? — gritou ele, mais alto do que qualquer barulho.

Ela balançou a cabeça.

—   Tente — berrou ele.

Ela virou o pescoço na direção dele.

—   Saia daqui.

—   Não sem você.

O Cobra estava a mais ou menos 1 quilômetro de distância. O ca­nhão começaria a disparar a qualquer momento.

—   Suba — gritou ele.

Ela levantou uma das mãos.

E então, caiu de uma altura de 15 metros, dentro do rio.

Ele não sabia qual era a profundidade do rio, mas as pedras que se projetavam dele não eram nenhum consolo.

Ela desapareceu na água, que devia estar congelando, levando em consideração que o rio era alimentado pela neve da montanha.

Ele esperou que ela viesse à tona. Em algum lugar.

Mas isso não aconteceu.

Ele ficou fitando a corredeira cinzenta e ruidosa que carregava lodo, pedras e espuma em uma formidável corrente. Queria ir atrás dela, mas sabia que não era possível. Também não sobreviveria à queda.

Ficou parado, olhando, incrédulo.

Depois de tudo pelo que tinham passado nos últimos três dias.

Cassiopeia Vitt estava morta.

Três dias antes

 

Copenhague, Dinamarca

Terça-feira, 15 de maio

12h40

Cotton Malone digitou o endereço eletrônico com dedos trêmulos. Assim como um telefonema no meio da madrugada, não existe nada de bom em uma mensagem anônima.

O bilhete tinha chegado duas horas antes, enquanto ele estava fora da livraria, mas a funcionária que recebera o envelope sem nada escrito só se lembrara de entregar-lhe alguns minutos atrás.

—   A mulher não disse que era urgente — dissera ela, defendendo-se.

—   Que mulher?

—   Uma chinesa. Estava usando uma linda saia xadrez Burberry. Ela dis­se apenas para lhe entregar.

—   Ela falou o meu nome?

—   Duas vezes.

Dentro do envelope havia uma folha dobrada de papel-pergaminho cinzento no qual estava impresso o endereço de um site com sufixo .org. Subiu imediatamente os quatro lances de escadas até seu aparta­mento, que ficava em cima da livraria, e pegou o laptop.

Digitou o endereço e esperou enquanto a tela ficava preta, então uma nova imagem apareceu. Uma tela de vídeo indicava que uma transmissão ao vivo estava prestes a começar.

O link de comunicação estabeleceu-se.

Um corpo apareceu, deitado de costas, braços acima da cabeça, tornozelos e pulsos amarrados ao que parecia uma folha de compensa­do. Uma toalha envolvia o rosto, mas estava claro que era uma forma feminina.

— Sr. Malone. — A voz era eletronicamente alterada de forma a disfarçar qualquer tom ou altura. — Estávamos esperando. O senhor não estava com a menor pressa, não é? Temos algo para lhe mostrar.

Uma pessoa encapuzada apareceu segurando um balde de plástico. Ele assistiu enquanto a água era jogada na toalha que envolvia o rosto da mulher. O corpo dela contorceu-se enquanto ela lutava como podia.

Ele sabia o que estava acontecendo.

O líquido penetra na toalha e flui irrestritamente pela boca e pelo nariz. No início, ainda é possível respirar ar — a garganta contrai-se, inalando pouca água —, mas isso só pode ser mantido por poucos segundos. Então, o reflexo natural de ânsia de vômito entra em ação e perde-se o controle. A cabeça fica posicionada para baixo de forma que a gravidade prolongue a agonia. Era como afogar-se sem precisar afundar.

O homem parou de jogar água.

A mulher continuou lutando com as poucas forças que tinha.

Essa técnica datava da Inquisição. Altamente aprovada por não deixar marcas, sua principal desvantagem era a severidade — tão in­tensa que a vítima confessava qualquer coisa imediatamente. Malone já havia tido uma experiência com essa técnica, anos atrás, quando treinava para tornar-se um agente Magellan Billet. Todos os recrutas tinham de passar pela escola de sobrevivência. Sua agonia tinha sido ainda maior por não gostar de confinamento. O cativeiro somado à toalha molhada criara uma claustrofobia insuportável. Ele se lembrava de um debate público alguns anos atrás que discutia se a técnica era considerada tortura ou não.

Claro que era.

—   Este é o motivo do meu contato — disse a voz.

A câmera deu um zoom na toalha que envolvia o rosto da mulher. A mão de alguém entrou na cena e arrancou a toalha molhada, reve­lando Cassiopeia Vitt.

—   Ah, não — sussurrou Malone.

Reflexos de medo tomaram conta de seu corpo. Sentia-se como se estivesse delirando.

Isto não pode estar acontecendo.

Não.

Ela piscou para tirar água dos olhos, cuspiu a que estava na boca e recuperou o fôlego.

—   Não dê nada a eles, Cotton. Nada.

A toalha molhada foi colocada novamente em seu rosto.

—   Isso não seria nem um pouco inteligente — disse a voz compu­tadorizada. — Não para ela, claro.

—   Você pode me escutar? — disse Cotton no microfone do laptop.

—   Claro.

—   Isto é realmente necessário?

—   Para você? Acho que sim. É um homem tão respeitado. Ex-agen­te do Departamento de Justiça. Altamente treinado.

—   Sou dono de uma livraria.

A voz riu.

—   Não insulte a minha inteligência nem arrisque a vida dela ainda mais. Quero que entenda totalmente o que está em jogo.

—   E eu quero que entenda que eu posso matá-lo.

—   Quando isso acontecer, a Srta. Vitt já estará morta. Então vamos parar com toda essa valentia. Eu quero o que ela lhe deu.

Malone viu Cassiopeia retomar sua luta, a cabeça balançando de um lado para o outro embaixo da toalha.

—   Não dê nada a ele, Cotton. Estou falando sério. Eu lhe dei aquilo para guardar em segurança. Não entregue a ninguém.

Jogaram mais água. Os protestos dela cessaram enquanto ela luta­va para respirar.

—   Leve o que ela lhe deu para o Tivoli Gardens, às 14 horas, do lado de fora do pagode chinês. Alguém o procurará. Se você não aparecer... — A voz fez uma pausa. — Acho que pode imaginar as conseqüências.

A conexão foi interrompida.

Ele recostou-se na cadeira.

Fazia mais de um mês que não via Cassiopeia. E duas semanas que não falava com ela. Ela dissera que ia fazer uma viagem mas, como de costume, não deu detalhes. Não se podia dizer que tinham um relacio­namento. Apenas uma atração que ambos, habilmente, reconheciam. De uma forma estranha, a morte de Henrik Thorvaldsen aproximara-os e eles passaram bastante tempo juntos nas semanas que se seguiram ao enterro do amigo.

Ela era durona, inteligente e corajosa.

Mas tortura?

Duvidava que ela já tivesse passado por algo parecido.

Vê-la na tela do laptop cortou seu coração. De repente, percebeu que se algo acontecesse com essa mulher sua vida nunca mais seria a mesma.

Precisava encontrá-la.

Mas havia um problema

Ela obviamente tinha sido forçada a fazer tudo para sobreviver. Desta vez, porém, ela fora longe demais.

Ela não dera nada para ele guardar.

Ele não fazia a menor idéia do que ela, ou seu seqüestrador, esta­vam falando.

 

Chongqing, China

20h

Karl Tang adotou uma expressão que não deixava a menor pista do que ele estava pensando. Depois de quase três décadas de prá­tica, ele era mestre nessa arte.

—   E por que o senhor veio desta vez? — perguntou a médica. Ela era uma mulher com expressão fria, corpo tenso, cabelos pretos, corta­dos bem curtos, no estilo proletário.

—   Sua raiva por mim não diminuiu?

—   Não tenho nenhuma hostilidade, ministro. O senhor deixou bem claro na última visita que estava no comando, apesar de este ser o meu hospital.

Ele ignorou o insulto que vinha carregado no tom de voz dela.

—   E como está nosso paciente?

O Primeiro Hospital de Doenças Infecciosas, que ficava nos su­búrbios de Chongqing, cuidava de quase 2 mil pessoas que sofriam de hepatite ou tuberculose. Era um dos oito hospitais espalhados pelo país, todos desagradáveis, com prédios de tijolos cinzentos rodeados por cercas verdes, lugares onde as pessoas com doenças infecciosas po­diam ficar de quarentena. Mas o sistema de segurança com o qual esses hospitais contavam também os tornava ideais para abrigar qualquer outro prisioneiro doente do sistema penal chinês.

Como Jin Zhao, que sofrerá uma hemorragia no cérebro dez meses atrás.

—   Está deitado na cama dele, da mesma forma, desde o dia em que o trouxeram para cá — disse a médica. — Ele se agarra à vida. O dano é enorme. Mas, de acordo com as suas ordens, nenhum tratamento foi administrado.

Ele sabia que ela odiava o fato de ele usurpar sua autoridade. Já se foram os dias dos obedientes "médicos descalços" de Mao que, de acordo com o mito oficial, viviam de boa vontade entre o povo e cuida­vam com zelo dos doentes. E, embora ela fosse a administradora-chefe do hospital, Tang era o ministro da Ciência e Tecnologia, membro do Comitê Central, vice-primeiro-ministro do Partido Comunista Chinês e primeiro vice-presidente da República Popular da China — o segundo mais poderoso do país, atrás apenas do presidente e primeiro-ministro.

—   Como deixei claro da última vez, doutora — disse ele —, essa ordem não foi minha, e sim da diretiva do Comitê Central, ao qual eu e a senhora devemos total obediência.

Ele pronunciou essas palavras não apenas para a médica tola es­cutar, mas também para os três membros de sua equipe e dois capitães do Exército de Liberação Popular que estavam atrás dele. Todo militar usava uma farda verde com a estrela vermelha da terra natal gravada no quepe. Um deles certamente era informante —- provavelmente reportando-se a mais de um benfeitor —, então queria que falasse muito bem dele.

—   Leve-nos ao paciente — ordenou ele calmamente.

Eles atravessaram corredores com paredes rachadas e ásperas pin­tadas de verde, iluminados por fracas lâmpadas fluorescentes. O chão estava limpo, mas amarelado de tanto ser esfregado. Enfermeiras com rostos escondidos atrás de máscaras cirúrgicas inclinavam-se sobre doentes que usavam pijamas com listras azuis e brancas, alguns com robes marrons, parecendo mais prisioneiros do que pacientes.

Entraram em outra enfermaria através de portas de metal. A sala era espaçosa o suficiente para acomodar uma dúzia de pacientes, ou mais, mas havia apenas um deles deitado em uma única cama e cober­to por lençóis brancos e encardidos.

O ar cheirava mal.

—   Vejo que deixou o prisioneiro sozinho — disse ele.

—   Como o senhor me ordenou.

Mais um ponto a seu favor para o relatório do informante. Jin Zhao fora preso dez meses atrás, mas sofrera uma hemorragia durante o in­terrogatório. Logo depois, foi acusado de traição e espionagem, julga­do em um tribunal de Pequim e condenado, mas não estava presente em nenhum desses eventos, pois permanecera ali, em coma.

—   Ele está exatamente como o senhor o deixou — disse a médica.

Pequim ficava a quase mil quilômetros a leste, e ele supunha que essa distância estimulava a rebeldia desta mulher. Você pode roubar os Três Exércitos de seu comandante, mas não pode privar o mais humilde dos camponeses de sua opinião. Mais tolices de Confúcio. Na verdade, o go­verno podia, e esta vadia insolente deveria considerar o fato.

Ele acenou e um dos homens uniformizados a levou para o outro lado da sala.

Ele se aproximou da cama.

O homem deitado em prostração tinha uns 60 e poucos anos, seus cabelos sujos eram compridos e estavam despenteados, o corpo magro e o rosto fundo pareciam de um cadáver. Hematomas espalhavam-se pelo rosto e peito, enquanto tubos intravenosos saíam de ambos os bra­ços. Um ventilador alimentava seus pulmões com ar.

—   Jin Zhao, você foi considerado culpado de traição contra a Re­pública Popular da China. Foi-lhe concedido um julgamento, ao qual você não pode apelar. Sinto informar-lhe que a Suprema Corte Popular aprovou sua execução e negou-lhe recurso.

—   Ele não escuta uma palavra do que o senhor está dizendo afirmou a médica, do outro lado da sala.

Ele manteve os olhos fixos na cama.

—   Talvez não, mas as palavras têm de ser ditas. — Ele se virou para encará-la. — E a lei, e ele tem direito a um processo apropriado.

—   Vocês o julgaram sem que ele ao menos estivesse lá — explodiu ela. — Nunca escutaram o que ele tinha a dizer.

—   O representante dele teve a oportunidade de apresentar provas.

A médica balançou a cabeça, enojada, o rosto pálido de ódio.

—   O senhor escutou o que acabou de dizer? O representante não teve nem a oportunidade de falar com Zhao. Que provas ele poderia apresentar?

O ministro não sabia se os olhos e ouvidos do informante pertenciam a alguém de sua equipe ou a um dos capitães do exército. Era difícil ter certeza de qualquer coisa agora. A única coisa que sabia era que seu rela­tório para o Comitê Central não seria o único, então decidiu deixar claro:

—   Tem certeza? Zhao nunca foi comunicado de nada?

—   Ele foi espancado até ficar inconsciente. O cérebro dele está des­truído. Ele nunca vai acordar do coma. Nós o mantemos vivo apenas porque o senhor, ou melhor, o Comitê Central, mandou.

Ele percebeu a repulsa nos olhos da mulher, uma coisa que tem visto com muito mais freqüência recentemente. Principalmente em mulheres. Quase todos os funcionários do hospital — médicos e en­fermeiros — eram mulheres. Elas tinham evoluído muito desde a Re­volução de Mao, mas Tang ainda acreditava no que seu pai tinha lhe ensinado. Um homem não fala de negócios dentro de casa, e uma mulher não fala de negócios fora de casa.

Esta médica insignificante, que trabalha em um hospitalzinho público, era incapaz de compreender a enormidade do desafio dele.

Pequim governava uma terra que se estendia por 5 mil quilômetros de leste a oeste e mais de 3 mil de norte a sul. Uma grande parte era de montanhas inabitáveis e desertos, algumas das regiões mais deso­ladas do mundo, apenas 10 por cento do país arável. Quase 1,5 bilhão de pessoas — mais do que os Estados Unidos, a Rússia e a Europa juntos. Mas apenas 60 milhões eram membros do Partido Comunista Chinês — menos de 3 por cento do total. A médica era membro do país havia mais de uma década. Ele verificara. Ela não teria consegui­do um cargo administrativo tão alto se não o fosse. Apenas chineses da etnia han, membros do partido, conseguiam tal status. Os hans eram maioria absoluta da população, a pequena porcentagem restan­te dividia-se em 56 minorias. O pai da médica era um notável oficial no governo da província local, um membro leal do Partido que havia participado da Revolução de 1949 e conhecera pessoalmente Mao e Deng Xiaoping.

Tang ainda queria deixar as coisas mais claras.

—   Jin Zhao devia lealdade ao governo Popular. Ele decidiu ajudar nossos inimigos...

—   O que um geoquímico de 63 anos pode ter feito para prejudicar o governo popular? Ministro, me diga. Eu quero saber. O que ele pode­ria fazer conosco agora?

Ele olhou para o relógio. Um helicóptero estava esperando para levá-lo para o norte.

—   Ele não era espião — disse ela. — Nem traidor. O que ele real­mente fez, ministro? O que justifica bater em um homem até sua cabeça começar a sangrar?

Ele não tinha tempo para discutir o que já tinha sido decidido. O informante selaria o destino desta mulher. Em um mês, ela seria trans­ferida — apesar dos privilégios do pai — provavelmente para bem lon­ge, onde os problemas eram escondidos.

Ele se virou para um dos homens uniformizados e acenou.

O capitão tirou sua arma do coldre, aproximou-se da cama e atirou uma vez na testa de Jin Zhao.

O corpo se mexeu, depois ficou imóvel.

O ventilador continuou forçando ar para dentro dos pulmões sem vida.

—   A sentença foi executada — declarou Tang. — Devidamente tes­temunhada por representantes do governo popular, militares... a admi­nistradora deste hospital.

Ele indicou que estava na hora de ir embora. Deixaria a bagunça para a médica limpar.

Foi até as portas.

—   Vocês acabaram de atirar em um homem indefeso — gritou a médica. — Foi nisso que o governo se transformou?

—   Você deveria agradecer — disse ele.

—   Pelo quê?

—   Pelo governo não debitar do orçamento deste hospital o custo da bala.

E ele foi embora.

 

Copenhague

13h20

Malone saiu de sua livraria e entrou em Hojbro Plads. O céu vespertino estava sem nuvens, o ar dinamarquês era ameno. Stroget — um conglomerado de ruas onde não passavam carros, com lojas, cafés, restaurantes e museus — fervilhava.

Ele solucionara o problema do que levar simplesmente pegando o primeiro livro que viu em uma das prateleiras e enfiando-o den­tro de um envelope. Aparentemente, Cassiopeia optara por ganhar tempo ao envolvê-lo. Não era um jogo ruim, exceto que a artimanha não poderia ir longe demais. Ele gostaria de saber o que ela estava fa­zendo. Desde o último Natal, eles tinham se visitado algumas vezes, almoçado e jantado aqui e ali, trocado alguns telefonemas e e-mails. A maioria para falar sobre a morte de Thorvaldsen, que fizera os dois sofrerem. Ele ainda não conseguia acreditar que seu melhor amigo havia morrido. Todo dia, esperava que o velho dinamarquês astu­to fosse entrar em sua livraria, pronto para uma animada conversa. Ainda se ressentia pelo amigo ter morrido achando que ele o tinha traído.

—   Você fez o que tinha de fazer em Paris — dissera Cassiopeia. — Eu teria feito a mesma coisa.

—   Henrik não pensou assim.

—   Ele não era perfeito, Cotton. Ele se jogou em uma espiral. Não estava pensando e não escutava ninguém. Havia mais em jogo lá do que a vingança dele. Você não tinha escolha.

—   Eu o decepcionei.

Ela estendeu o braço sobre a mesa e apertou a mão dele.

—   Vou lhe dizer uma coisa. Se algum dia eu estiver encrencada, pode me decepcionar assim.

Ele continuava andando, as palavras dela ecoando em sua cabeça.

Agora estava acontecendo de novo.

Ele saiu da Stroget e atravessou o bulevar que brilhava cheio de carros, ônibus e bicicletas. Abriu caminho pela Râdhuspladsen, uma das muitas praças públicas de Copenhague, esta estendendo-se na frente da prefeitura. Viu os trompetistas de bronze em cima, tocando seus lurs sem som. Acima deles, ficava a estátua de cobre do Bispo Absalon que, em 1167, transformou uma pequena aldeia de pescadores em uma fortaleza cercada por muros.

Do outro lado da praça, depois do bulevar engarrafado, viu o Par­que Tivoli. Segurava o envelope com uma das mãos, sua Beretta de Magellan Billet escondida embaixo do paletó. Pegara a arma que ficava embaixo da cama, guardada em uma mochila, com outras lembranças de sua antiga vida.

—   Acho que está um pouco nervoso — dissera Cassiopeia para ele.

Estavam do lado de fora da livraria, no frio congelativo de março. Ela estava certa.

—   Não sou muito roviântico.

—   Mesmo? Eu nunca teria percebido. Sorte sua, eu sou.

Ela estava linda. Alta, magra, pele morena clara. Os pesados cabelos cla­ros roçavam em seus ombros, emoldurando um rosto incrível destacado por sobrancelhas finas e bochechas firmes.

—   Não fique se corroendo, Cotton.

Interessante ela saber que ele estava pensando em Thorvaldsen.

—   Você é um bom homem. Henrik sabia disso.

—   Cheguei dois minutos atrasado.

—   E não há nada que você possa fazer para mudar isso.

Ela estava certa.

Mas ele ainda não conseguia afastar esse sentimento.

Ele vira Cassiopeia na sua melhor forma e em circunstâncias que lhe tiraram toda a sua confiança — quando ela estava vulnerável, pro­pensa a erros, emotiva. Por sorte, ele estava lá para compensar, assim como ela estivera presente quando os papéis se inverteram. Ela era uma incrível mistura de feminilidade e força, mas todo mundo, até ela, de vez em quando ia longe demais.

Uma visão de Cassiopeia amarrada no compensado com uma toa­lha sobre o rosto cruzou sua mente.

Por que ela?

Por que não ele?

 

Karl Tang entrou no helicóptero e acomodou-se no compartimento traseiro. Seus negócios em Chongqing tinham acabado.

Odiava este lugar.

Trinta milhões de pessoas consumiam cada metro quadrado das colinas que cercavam a confluência dos rios Jialing e Azul. Sob o domí­nio mongol, han e manchu, fora o centro do império. Cem anos atrás, tornara-se a capital durante a guerra, na invasão japonesa. Agora, era uma mistura do novo e do antigo — mesquitas, templos taoistas, igre­jas cristãs, marcos comunistas —, um lugar quente, úmido, desgraça­do, onde os arranha-céus rasgavam o horizonte.

O helicóptero levantou voo em uma nuvem de carbono e rumou para o noroeste.

Dispensara os funcionários e capitães.

Nenhum espião viria nesta parte de sua viagem.

Tinha de fazer isso sozinho.

 

Malone pagou seu ingresso e entrou no Parque Tivoli. Parte parque de diversão, parte ícone cultural, o reino encantado florido e arborizado entretinha os dinamarqueses desde 1843. Um tesouro na­cional, onde rodas-gigantes, pantomimas e um navio pirata de estilo antigo misturavam-se às atrações mais modernas que desafiavam a gravidade. Até mesmo os alemães o pouparam na Segunda Guerra Mundial. Malone gostava de visitar o parque — era fácil de ver por que inspirara Walt Disney e Hans Chistian Andersen.

Ele atravessou a entrada principal e seguiu a avenida central con­tornada por flores. Jardins de bulbos, rosas, lilases, assim como cente­nas de tílias, castanheiras, cerejeiras e sempre-verdes em um engenho­so planejamento que, para ele, sempre parecia maior do que meros 21 acres. Cheiro de pipoca e algodão-doce enchia o ar, junto com o som de uma valsa de Viena e melodias tocadas por uma banda. Ele sabia que o criador do Tivoli justificara o excesso dizendo ao rei Christian VIII da Dinamarca que quando as pessoas estavam se divertindo não pensavam em política.

Conhecia o pagode chinês. Dentro do caramanchão de folhas ti­nha quatro andares com vista para o lago. Com mais de 100 anos, a construção asiática aparecia em quase toda publicação que citasse o Tivoli.

Um grupo de rapazes, elegantemente vestidos com paletós verme­lhos e chapéus de pele de urso, desfilava pela alameda adjacente. Era a Guarda do Parque, banda que marchava pelo Tivoli. As pessoas se alinhavam em volta das ruas para assistir à parada. Todas as atrações estavam demasiadamente cheias para uma terça-feira de maio, a tem­porada de verão estava apenas começando.

Malone visualizou o pagode, três repetições verticais da base em proporções menores, cada andar com um telhado que se projetava para a frente e beirais virados para cima. Pessoas entravam e saíam do res­taurante no térreo do pagode. Mais turistas ocupavam bancos embaixo das árvores.

Eram quase 14 horas.

Tinha chegado na hora.

Patos do lago misturavam-se à multidão, demonstrando pouco medo. Não podia dizer o mesmo sobre si. Estava em alerta, sua men­te pensando como o agente do Departamento de Justiça que fora por 12 arriscados anos. A idéia era aposentar-se cedo e fugir do perigo, tornando-se dono de uma livraria na Dinamarca, mas os últimos dois anos não tinham sido nem um pouco calmos.

Pense. Preste atenção.

A voz computadorizada tinha dito que quando ele chegasse lá, al­guém o procuraria. Aparentemente, os seqüestradores de Cassiopeia sabiam exatamente quem ele era.

—   Sr. Malone.

Ele se virou.

Uma mulher, com rosto mais longo do que redondo, estava parada ao seu lado. Os cabelos negros escorriam ao redor do rosto, e olhos casta­nhos com longos cílios só lhe acrescentavam uma qualidade misteriosa. Verdade seja dita, tinha uma queda por beldades orientais. Ela estava elegantemente vestida com roupas que valorizavam seus contornos, que incluíam uma saia xadrez Burberry envolvendo sua minúscula cintura.

—   Vim pegar a encomenda — disse ela.

Ele acenou com o envelope que segurava.

—   Isto?

Ela assentiu.

Devia ter uns 20 e poucos anos, movimentos casuais, aparente­mente despreocupada com a situação. Suas suspeitas estavam rapida­mente se confirmando.

—   Gostaria de ficar e almoçar comigo? — perguntou ele.

Ela sorriu.

—   Outra hora.

—   Parece promissor. Como posso encontrá-la?

—   Sei onde fica a sua livraria.

Ele sorriu.

—   Que burrice a minha.

Ela apontou para o envelope.

—   Preciso ir embora.

Ele entregou o pacote a ela.

—   Talvez eu apareça na sua livraria — disse ela, dando um sorriso.

—   Faça isso.

Ele ficou observando enquanto ela se afastava, desaparecendo na multidão, caminhando calmamente, sem se preocupar com nada.

 

TANG FECHOU OS OLHOS E DEIXOU O ZUMBIDO DA TURBINA DO HELIcóptero acalmá-lo.

Olhou no relógio.

Nove e cinco da manhã significava 14h05 na Antuérpia.

Tanta coisa estava acontecendo. Seu futuro estava sendo determi­nado por uma colisão de circunstâncias, que tinham de ser cuidadosa­mente controladas.

Pelo menos, o problema de Jin Zhao estava resolvido.

Tudo estava finalmente tomando seus devidos lugares. Trinta anos de dedicação prestes a serem recompensados. Cada uma das ameaças tinha sido eliminada ou contida.

Só faltava Ni Yong.

 

Antuérpia, Bélgica

14h05

Ni Yong estava acomodado em uma poltrona laqueada preta, uma reprodução do período Qing. Estava acostumado com as linhas elegantes e bonitas curvas, um excelente exemplo do talento chinês an­tes do século XVIII, a qualidade e precisão desta marcenaria tão meti­culosa que pregos e cola não foram necessários.

Seu austero anfitrião estava sentado em uma poltrona de vime, o rosto mais longo do que o da maioria dos chineses, olhos mais arre­dondados, testa alta, os poucos cabelos levemente ondulados. Pau Wen usava um casaco de seda verde-jade e calças brancas.

— Sua casa é muito elegante — disse Ni na língua nativa deles.

Pau assentiu ao ouvir o elogio, aceitando-o com a humildade que se espera de um homem de quase 70 anos. Jovem demais para ter es­tado com Mao em 1949 quando a Revolução Popular expulsou Chiang Kai-shek e seus Nacionalistas para Taiwan. Ni sabia que o papel de Wen crescera durante os anos 1960 e que ele continuou sendo impor­tante mesmo depois da morte de Mao, em 1976.

Então, dez anos depois, Pau deixou a China.

Acabando ali, na Bélgica.

—   Queria que a minha residência me fizesse lembrar de casa — disse Pau.

A casa, que ficava a poucos quilômetros da Antuérpia, por fora pa­recia uma estrutura simples com muros altos e cinzentos, com telhados de vários níveis, beirais virados e duas torres que incorporavam os ele­mentos fundamentais — reclusão, simetria, hierarquia — da arquite­tura tradicional chinesa. O interior da propriedade era iluminado, arejado e refletia as cores e os estilos de decoração clássica, embora todas as conveniências modernas — ar condicionado, aquecimento central, sistema de segurança, televisão por satélite — estivessem presentes.

Ni conhecia o design.

Siheyuan.

O último símbolo de riqueza chinesa — residência de várias fa­mílias com um pátio central cercado por quatro prédios, geralmente adornado com um jardim e um deque. Já tinha sido a casa de nobres, e hoje apenas militares chineses, membros do Partido ou os abomináveis novos ricos podiam comprá-la.

—   Esta casa — disse Ni — faz com que eu me lembre de uma resi­dência que visitei recentemente no nordeste, do prefeito local. Encontra­mos 250 barras de ouro escondidas nela. Uma façanha e tanto para um homem que ganhava poucos milhares de iuanes por ano. É claro que sen­do prefeito ele controlava a economia local, que aparentemente era reco­nhecida pelos negociantes locais e investidores estrangeiros. Eu o prendi.

—   E depois o executou. Rapidamente, tenho certeza.

Percebeu que Pau conhecia o sistema judicial chinês.

—   Ministro, diga-me o que o traz à Europa e à minha casa?

Ni comandava a Comissão Central de Inspeção Disciplinar do Partido Comunista da China. Diretamente subordinado ao Congresso Nacional, no mesmo nível do todo-poderoso Comitê Central, ele era responsável por arrancar pela raiz toda corrupção e todas as infrações.

—   O senhor não é um oficial que eu gostaria de ter como inimigo — disse Pau. — Ouvi dizer que é o homem mais temido da China.

Ela também já ouvira esse rótulo.

—   Outros dizem que provavelmente é o homem mais honesto da China.

Ele também já escutara essa descrição.

—   E o senhor, Pau Wen, ainda é um de nossos cidadãos. Nunca renunciou a esses direitos.

—   Tenho orgulho da minha herança chinesa.

—   Vim reivindicar uma parte dessa herança.

Eles estavam acomodados na sala de estar, que dava para um quin­tal interno com árvores floridas. Abelhas voavam de um botão chei­roso para outro, seus zumbidos e o gorgolejo da fonte eram as únicas distrações. Portas de vidro e cortinas de seda separavam-nos de um escritório adjacente.

—   Aparentemente — disse Ni —, quando o senhor deixou nossa terra natal, decidiu que alguns de nossos artefatos viriam junto.

Pau riu.

—   O senhor faz idéia de como era quando Mao estava vivo? Mi­nistro, diga-me, em sua alta posição como zelador da consciência do Partido, tem alguma idéia da nossa história?

—   Neste momento, apenas o seu roubo me preocupa.

—   Estou fora da China há quase três décadas. Por que o meu roubo só agora se tornou importante?

Tinham lhe avisado sobre Pau Wen, um historiador treinado, ora­dor habilidoso e mestre em transformar adversidade em vantagem. Tanto Mao quanto Deng Xiaoping tinham utilizado seus talentos.

—   Seu crime só chamou a minha atenção recentemente.

—   Um informante anônimo?

Ele assentiu.

—   Temos sorte de tê-los.

—   E vocês tornam tudo tão fácil. Têm até um website. Eles só pre­cisam encaminhar um e-mail, sem nome nem endereço, cheio de acusa­ções. Agora me diga, existem repercussões por fazer falsas acusações?

Ele não ia cair naquela armadilha.

—   Ao entrar pelo portão da frente, notei um cavalo de cerâmica da dinastia Han. Um sino de bronze do período Zhou. Um figurino da dinastia Tang. Todos originais, roubados pelo senhor.

—   Como você pode afirmar isso?

—   O senhor era inspetor de vários museus e coleções, uma forma fácil de se apropriar do que quer que desejasse.

Pau Wen se levantou.

—   Posso lhe mostrar uma coisa, ministro?

Por que não? Queria conhecer mais da casa.

Seguiu o homem mais velho pelo pátio, que desencadeava lem­branças da casa ancestral de sua família em Sichuan, uma província de colinas verde-jade e campos bem cuidados. Por setecentos anos, os Ni viveram ali, dentro de um bosque de bambus, que contornavam férteis arrozais. Naquela casa também havia um pátio. Com uma diferença, porém. Aquela casa não era de tijolos, e sim de terra batida.

—   O senhor mora aqui sozinho? — perguntou Ni.

Uma casa tão grande precisava de cuidado constante, e tudo pare­cia imaculado. Mas não vira nem escutara ninguém.

—   Mais do investigador que existe em você. Fazendo perguntas?

—   Parece-me uma pergunta fácil.

Pau sorriu.

—   A minha vida é de solidão auto-imposta.

Não era exatamente uma resposta, mas não esperara uma de toda forma.

Traçaram um caminho contornado por arbustos em vasos e teixos de pequeno porte e se aproximaram de uma grande porta preta, com um disco vermelho, do lado oposto do pátio. Abrindo a porta, havia um salão espaçoso, suportado por pilares imponentes com arabescos verdes no cume. Em uma parede havia prateleiras de livros, e em ou­tra, de rolos de manuscritos chineses. Uma luz suave penetrava pelas janelas. Ele notou a cuidadosa marcenaria, as cortinas de seda, os ar­mários antigos, mesas de madeira de lei, os objetos expostos como se estivessem em um museu.

—   Minha coleção — disse Pau.

Ni fitou a coleção.

—   É verdade, ministro. O senhor viu objetos de arte quando entrou em minha casa. Eles são valiosos. Mas este é meu verdadeiro tesouro. — Pau acenou e eles entraram mais no salão. — Aqui, por exemplo. Uma escultura de cerâmica esmaltada. Dinastia Han, 210 a.C.

O ministro examinou a escultura, feita de pedra de coloração es- verdeada. A figura de um homem com a mão na manivela do que pa­recia um moinho giratório.

—   É notável — disse Pau. — O grão era jogado em um receptáculo aberto em cima e o moinho remexia o que estava dentro, separando a casca. Esse tipo de máquina foi conhecido na Europa cerca de 2 mil anos depois, quando os navegadores holandeses o importaram da China.

Outro pedestal exibia uma imagem de cerâmica nas costas de um cavalo, com um estribo ao lado. Pau percebeu o interesse do visitante.

—   Esta é uma peça da dinastia Tang. Século VI ou VII d.C. Note que o homem está montado no cavalo. Os pés dele estão nos estribos. A China desenvolveu os estribos séculos atrás, mas eles só apareceram na Europa na Idade Média. O conceito do cavaleiro medieval, montado em um cavalo, armado com escudo e lança, não teria sido possível sem os estribos chineses.

O ministro olhou em volta e viu outros artefatos. Cem deles ou até mais.

— Eu reuni esses objetos de aldeia em aldeia — disse Pau — de tumba em tumba. Muitos deles de sepulturas imperiais encontradas na década de 1970. E você está certo, eu tive acesso a museus e coleções particulares.

Pau Wen apontou para um relógio d'água que disse ser do ano 113 a.C. Um relógio de sol, canos de armas, porcelanas, esboços astronô­micos, cada invenção é prova da engenhosidade chinesa. Um curioso item chamou a atenção de Ni: uma pequena concha equilibrada sobre um prato de bronze liso no qual ele percebeu gravuras.

—   O compasso — disse Pau. — Concebido pelos chineses 2.500 anos atrás. A concha foi gravada com magneto e sempre fica virada para o sul. Enquanto os ocidentais mal eram capazes de existir, os chi­neses aprenderam a navegar usando esse dispositivo.

—   Tudo isso pertence à República Popular — disse Ni.

—   Pelo contrário. Eu poupei isso da República Popular.

O ministro estava cansado do jogo.

—   O que você está querendo dizer?

—   Durante nossa gloriosa Revolução Cultural, uma vez eu assisti a um cadáver de 2 mil anos, descoberto em perfeitas condições em Changsha, ser jogado no sol por soldados para apodrecer, enquanto cam­poneses jogavam pedras nele. Esse foi o destino de milhões de objetos da nossa cultura. Imagine quantas informações científicas e históricas foram perdidas por causa dessa estupidez.

Tomou cuidado para não ser absorvido pela conversa de Pau. Como sempre ensinava aos seus subordinados, um bom investigador nunca se permite ser dominado pelo interrogado.

O anfitrião apontou para um ábaco de madeira e bronze.

—   Este tem 1.500 anos, foi usado em um banco ou escritório como calculadora. O Ocidente só tomou conhecimento de tal aparelho sécu­los mais tarde. O sistema decimal, o zero, os números negativos, as fra­ções, o valor do Pi. Esses conceitos, e tudo nesta sala, foram concebidos pela primeira vez pelos chineses.

—   Como você sabe disso? — perguntou Ni.

—   E a nossa história. Infelizmente, nossos gloriosos imperadores e a Revolução Popular de Mao reescreveram o passado para adequar-se às necessidades deles. Nós chineses sabemos pouco de onde viemos e de tudo o que realizamos.

—   E você sabe?

—   Olhe à sua volta, ministro.

Ele viu o que parecia a chapa de uma impressora, os caracteres prontos para serem impressos no papel.

—   A prensa móvel foi inventada na China em 1045 d.C., muito antes de Gutenberg refazer a façanha na Alemanha. Nós também de­senvolvemos o papel antes do Ocidente. A sismografia, o paraquedas, o leme, os mastros e as velas, tudo isso foi inventado primeiro na Chi­na. — Pau abriu os braços, mostrando o salão. — Esta é nossa herança.

Ni agarrou-se à verdade.

—   Você não deixa de ser um ladrão.

Wen balançou a cabeça.

—   Ministro, não foi o roubo que o trouxe aqui. Fui honesto com o senhor. Então, me diga, por que veio?

A rudeza era outra característica conhecida de Pau, usada para comandar uma conversa, controlando suas direções. Como Ni estava cansado da brincadeira, olhou em volta, na esperança de localizar o artefato. A descrição dizia que tinha uns 3 centímetros de altura e 5 cen­tímetros de comprimento, juntando uma cabeça de dragão, um corpo de tigre e asas de fênix. Feito em bronze, tinha sido encontrado em uma tumba do século III a.C.

—   Onde está o lampião do dragão?

Uma expressão curiosa espalhou-se pelo rosto enrugado de Pau.

—   Ela perguntou a mesma coisa.

Não era a resposta que ele esperava.

—   Ela?

—   Uma mulher. Espanhola, com um toque marroquino, acho. Uma beleza. Mas impaciente. Como você.

—   Quem?

Cassiopeia Vitt.

Agora ele queria saber.

—   E o que você disse a ela?

—   Mostrei o lampião a ela. — Wen apontou para uma mesa no ex­tremo oposto do salão. — Ficava bem ali. Muito precioso. Encontrei-o em uma tumba da época do Primeiro Imperador. Descoberto em... 1978, acho. Trouxe o lampião e todos esses itens comigo quando saí da China em 1987.

—   Onde está o lampião agora?

—   A Srta. Vitt quis comprá-lo. Ofereceu uma quantia alta, fiquei tentado, mas não aceitei.

O ministro esperou uma resposta.

—   Ela sacou uma arma e roubou-o de mim. Não tive alternativa. Sou um homem velho e moro sozinho.

Disso ele duvidava.

—   Um homem velho e rico.

Pau sorriu.

—   A vida tem sido boa para mim. E para você, ministro?

—   Quando ela esteve aqui?

—   Há dois dias.

Precisava encontrar essa mulher.

—   Ela deu alguma pista sobre quem era?

Wen balançou a cabeça.

—   Apenas apontou a arma, pegou o lampião e fugiu.

Uma história inesperada e perturbadora. Mas não insuperável. Era possível encontrá-la.

—   O senhor veio até aqui só por causa do lampião? — perguntou Pau. — Diga-me, isso tem alguma coisa a ver com sua iminente guerra política com o ministro Karl Tang?

A pergunta surpreendeu-o. Pau estava longe da China havia muito tempo. O que acontecia internamente não era segredo de Estado, mas também não era de conhecimento público — pelo menos, ainda não.

—   O que o senhor sabe sobre isso?

—   Não sou nenhum ignorante — respondeu Pau, quase em um sussurro. — O senhor veio porque sabia que Tang queria o lampião.

Fora de seu gabinete, isso era desconhecido. A preocupação agora tomava conta do ministro. Este velho estava muito mais bem-informado do que ele supusera. Mas outra coisa tinha lhe ocorrido.

—   A mulher roubou o lampião para Tang?

Wen balançou a cabeça.

—   Ela queria ficar com ele para si.

—   Então, o senhor permitiu que ela o levasse?

—   Achei melhor do que o ministro Tang ficar com ele. Antecipei que ele deveria vir e, na verdade, não sabia o que fazer. A mulher resol­veu meu problema.

A mente dele girava, avaliando a mudança na situação. Pau Wen o encarou com olhos que certamente tinham testemunhado muita coisa. Ni viera achando que uma visita surpresa a um velho ex-nacionalista chinês seria uma oportunidade fácil. Obviamente, não foi Pau quem se surpreendeu.

—   O senhor e o ministro Tang são os dois principais adversários para presidente e primeiro-ministro — disse Pau. — O atual ocupante desses cargos é velho, o tempo dele está acabando. Tang ou Ni. Todo mundo vai ter de escolher um lado.

Ele queria saber:

—   De qual lado você está?

—   No único que importa, ministro: o da China.

 

Copenhague

Malone seguiu a mensageira chinesa, suas suspeitas confirmadas. Ela não fazia idéia do que viera buscar, sabia apenas que de­veria levar o que ele lhe entregasse. Inferno, ela tinha até flertado com ele. Ele imaginou quanto ela estaria recebendo por essa perigosa tarefa, e também estava preocupado com o quanto o seqüestrador de Cas­siopeia sabia. A voz no laptop tinha zombado de sua experiência no governo — ainda assim, mandaram uma amadora desinformada.

Não perdeu a mensageira de vista enquanto ela abria caminho pe­los grupos de pessoas espalhados pelo parque. O caminho que ela esta­va pegando levaria-os para um portão secundário do Tivoli, ao norte. Ele observou quando ela saiu do parque, atravessou o bulevar e entrou novamente na Stroget.

Ele se manteve a uma quadra de distância dela.

Eles passaram por diversos sebos, os donos eram todos seus con­correntes e amigos, e incontáveis mesas ao ar livre e restaurantes, aca­bando em Hojbro Plads. Ela virou à direita no Café Norden, que ficava na extremidade leste da praça, e seguiu pelo campanário de Nikolaj, uma antiga igreja que agora servia como salão público de exposições. Ela virou em uma rua lateral que saía de Nikolaj, na direção de Magasin du Nord, a loja de departamentos mais exclusiva da Escandinávia.

Pessoas andavam pelas ruas, curtindo uma jovialidade coletiva.

Uns 10 metros à frente, carros e ônibus passavam de um lado para o outro onde a Stroget acabava.

Ela virou de novo.

Longe da loja de departamentos e do tráfego, seguiu na direção do canal e das ruínas carbonizadas do Museu de Cultura Greco-Romana, que ainda não tinha sido reconstruído depois de um incêndio que o destruíra no ano anterior. Naquela noite, Cassiopeia Vitt apareceu e o salvou.

Agora era a vez dele de retribuir o favor.

Aqui, havia menos pessoas.

Muitas das construções dos séculos XVIII e XIX, suas fachadas res­tauradas havia muito tempo, tinham sido bordéis freqüentados pelos marinheiros de Copenhague. Hoje em dia, apartamentos habitados por artistas e jovens profissionais dominavam a região.

A mulher desapareceu em outra esquina.

Ele correu até onde ela tinha virado, mas um contêiner de lixo blo­queava o caminho. Olhou em volta do contêiner de plástico e espiou a estreita viela cercada por muros de tijolos quebrados.

A mulher aproximou-se de um homem. Ele era baixo, magro e es­tava ansioso. Ela parou e entregou o envelope a ele. O homem abriu-o, depois gritou alguma coisa em chinês. Malone não precisava escutar o que estava sendo dito para compreender. Era óbvio que ele sabia o que esperavam, e, certamente, não era o livro.

Ele deu um tapa no rosto dela.

Ela foi jogada para trás e esforçou-se para recuperar tanto seu equi­líbrio quanto sua compostura. Colocou a mão no rosto ferido.

O homem pegou alguma coisa embaixo do paletó.

Uma arma apareceu.

Malone adiantara-se a ele, já com sua Beretta na mão e dizendo:

—   Ei.

O homem virou, viu Malone e a arma e, na mesma hora, agarrou a mulher, encostando o cano da arma em seu pescoço.

—   Jogue a arma naquela lixeira — gritou o homem em inglês. Malone estava decidindo se deveria arriscar ou não, mas o olhar

aterrorizado da mulher dizia para obedecer.

Ele jogou a arma na lixeira, o que produziu um som alto, mostran­do que havia pouca coisa ali dentro.

—   Fique quieto — disse o homem enquanto andava de costas com sua refém.

Malone não podia deixar a perseguição terminar ali. Esta era a úni­ca forma de chegar a Cassiopeia. O homem e sua refém continuavam seguindo para onde a viela encontrava-se com outra rua movimentada. Pessoas passavam constantemente pela interseção.

Ele ficou parado, a 15 metros de distância, e observou.

Então, o homem soltou a mulher e, juntos, os dois saíram correndo.

 

Ni avaliou Pau Wen, percebendo que tinha caído diretamente na armadilha que este esperto homem tinha armado.

—   E o que é melhor para a China?

—   O senhor conhece a história da raposa astuta que foi pega por um tigre faminto? — perguntou Pau.

Ele decidiu agradar Wen e balançou a cabeça.

—   A raposa protestou dizendo: "Não ouse me comer porque sou superior a todos os outros animais, e se você me comer, vai enfurecer os deuses. Se não acredita em mim, siga-me e veja o que acontecerá." O tigre seguiu a raposa para a floresta, e todos os animais correram as­sim que os viram. O tigre, atônito, sem se dar conta de que era a causa da fuga, deixou a raposa ir embora. — Wen ficou em silêncio por um momento. — Quem é você, ministro, a raposa astuta ou o tigre inad­vertido?

—   Parece que um é um tolo, e o outro, um manipulador.

—   Infelizmente, não há outros competindo pelo controle da China — disse Paul. — Você e o ministro Tang têm feito um trabalho magis­tral eliminando todos que os desafiam.

—   Então, você diria que sou o tolo ou o manipulador?

—   Não cabe a mim decidir.

—   Posso garantir-lhe — disse Ni —, não sou nenhum tolo. Existe corrupção em toda a República Popular. O meu dever é livrar-nos des­sa praga.

O que não era uma tarefa simples em uma nação em que 1 por cen­to da população detinha 40 por cento da riqueza, a maior parte ganha com corrupção. Prefeitos de cidades, oficiais provinciais, membros do alto escalão do Partido — já prendera todos eles. Suborno, peculato, apropriação indevida, decadência moral, abuso de privilégios, contra­bando, desperdício e roubo aconteciam desenfreadamente.

Wen assentiu.

—   O sistema que Mao criou estava contaminado de corrupção des­de o início. Como poderia não estar? Quando um governo é responsá­vel apenas de cima para baixo, a desonestidade torna-se insidiosa.

—   Foi por isso que você deixou o país?

—   Não, ministro, vim embora porque passei a detestar tudo que ti­nha sido feito. Tantas pessoas massacradas. Tanta opressão e sofrimen­to. Aquela China e a China de hoje são um fracasso. Não existe outra forma de ver as coisas. Dezesseis entre as vinte cidades mais poluídas do mundo ficam em nosso país, o líder mundial em emissão de dióxido sulfúrico. A chuva ácida está destruindo a nossa terra. Poluímos as águas sem pensar nas conseqüências. Destruímos nossa cultura, nossa história, nosso respeito próprio, sem a menor consideração. Oficiais lo­cais são recompensados por mais saídas econômicas, não por iniciativas públicas. O sistema assegura sua própria destruição.

Ni avaliou e viu que essas observações podiam ser uma trapaça. Então, decidiu mudar de assunto.

—   Por que o senhor permitiu que aquela mulher levasse o lampião?

Pau observou-o de forma a deixá-lo desconfortável, da mesma for­ma que o olhar de seu pai, que um dia respeitara.

—   Esta é uma pergunta para a qual o senhor já devia saber a res­posta.

 

Malone virou a lixeira, pegou sua arma e saiu correndo pela viela.

Ele deveria ter desconfiado.

A mensageira não era nenhuma vítima. Apenas uma cúmplice que estragara o plano. Foi até o final da viela e virou a esquina.

Seus dois adversários estavam a uns 30 metros na sua frente, cor­rendo na direção do Holmens Kanal, suas ruas cheias de carros seguin­do para a praça mais movimentada de Copenhague.

Viu os dois criminosos virarem à esquerda e desaparecerem em uma esquina.

Guardou a arma e misturou força com expressões educadas para abrir caminho pela multidão.

Chegou a uma interseção com semáforo. O Danish Royal Theater ficava do outro lado da rua. À sua direita, viu Nyhavn, cheia de pes­soas se divertindo em cafés coloridos que se estendiam pelo novo porto. Seus dois alvos estavam seguindo por uma calçada lotada, pa­ralela a uma ciclovia e à rua engarrafada, indo na direção do Hotel d'Angleterre.

Um Volvo parou pouco antes da entrada do hotel.

O homem e a mulher atravessaram a ciclovia e seguiram direta­mente para a porta do carro aberta.

Dois tiros, como se fossem balões estourando, e o homem foi joga­do para trás, caindo no chão.

Outro tiro e a mulher caiu ao lado dele.

Filetes carmins escorriam dos corpos.

O medo se espalhou, um murmúrio que deixou a multidão em pânico. Três pessoas de bicicleta bateram umas nas outras, tentando desviar dos corpos.

O carro saiu em disparada.

Vidros escurecidos protegiam os ocupantes enquanto o carro se afastava, e virava bruscamente à esquerda. Tentou ler a placa, mas o Volvo desapareceu na Kongens Nytorv.

Foi correndo até as vítimas, ajoelhou-se e checou se tinham pulso.

Ambos estavam mortos.

Os ciclistas pareciam feridos.

Ele se levantou e gritou em dinamarquês:

—   Chamem a polícia.

Passou a mão nos cabelos e suspirou.

A trilha que o levaria a Cassiopeia tinha desaparecido.

Afastou-se da aglomeração de pessoas que se juntara, aproximan­do-se das mesas nas calçadas e das janelas do Hotel d'Angleterre. Pes­soas com expressões chocadas estavam de pé, olhando. Cadáveres nas calçadas não eram uma coisa comum na Dinamarca.

Sirenes distantes sinalizavam que a ajuda estava chegando.

O que significava que precisava ir embora.

—   Sr. Malone — disse uma voz, perto de sua orelha esquerda.

Começou a se virar.

—   Não, olhe para a frente.

Uma sensação distinta do cano de uma arma encostado na sua es­pinha disse-lhe para seguir o conselho do homem.

—   Preciso que ande comigo.

—   E se eu me recusar? — perguntou ele.

—   Não encontrará Cassiopeia Vitt.

 

Província Shaanxi, China

22h

Karl Tang olhou para o vasto espaço fechado. O vôo de helicóptero para o norte, de Chongqing, passando pelas Montanhas Qin, durara quase duas horas. Deixara Pequim não apenas para supervi­sionar pessoalmente a execução de Jin Zhao, mas também para resol­ver dois outros assuntos de igual importância, o primeiro em Shaanxi, berço cultural da China. Um arqueólogo do Ministério da Ciência uma vez dissera-lhe que se você cavasse um buraco em qualquer lugar desta região, desenterraria alguma coisa dos 6 mil anos de história da China.

À sua frente, estava o exemplo perfeito.

Em 1974, ao cavar um poço, camponeses descobriram um vasto complexo de catapultas subterrâneas que, disseram-lhe, levaram a 8 mil soldados de terracota em tamanho natural, 130 charretes e 670 cavalos, todos arrumados em formação militar — um exército silencioso, virado para o leste, cada um deles esculpido e erguido há mais de 2.200 anos. Eles guardavam um complexo de palácios subterrâneos, no centro do qual estava a tumba imperial de Qin Shi, o homem que acabou com cinco séculos de desunião e lutas, tomando para si o exaltado título Shi Huang.

Primeiro Imperador.

Onde deveria ter sido cavado aquele poço, hoje está o Museu dos Guerreiros e Cavalos de Terracota da Dinastia Qin, seu destaque, o sa­lão de exibição, se estende por mais de 2 mil metros à sua frente, co­berto por um impressionante arco de vidro. Faixas de terra dividiam a cena escavada em 11 filas latitudinais, cada uma delas pavimentada com tijolos antigos. Telhados de madeira, que tinham sido suportados por robustas vigas de madeira e vigas transversais, tinham desapare­cido havia muito tempo. Porém, para bloquear a umidade e preservar as imagens dos guerreiros, seus construtores sabiamente revestiram a área com esteiras e uma camada de barro.

O eterno exército de Qin Shi sobreviveu.

Tang fitou o mar de guerreiros.

Todos usavam uma túnica grosseira, cinto e sandálias de correias. Oito rostos básicos tinham sido identificados, mas não havia nenhum exatamente igual a outro. Alguns tinham os lábios bem fechados e olhos fixos em algo à frente, revelando uma característica de firmeza e força. Outros exibiam vigor e confiança. Alguns ainda evocavam uma seriedade, sugerindo a sabedoria de um veterano. Incrivelmente, as poses imóveis, repetidas inúmeras vezes em um determinado número de posturas definidas, de fato criavam uma sensação de movimento.

Tang já visitara antes e caminhara entre os arqueiros, os soldados e as charretes puxadas por cavalos, sentindo o forte cheiro da terra de Shaanxi, imaginando o ritmo dos pés marchando.

Sentia-se poderoso ali.

O próprio Qin Shi havia caminhado por este solo sagrado. Durante 250 anos, terminando em 221 a.C., seis governantes reais — Qi, Chi, Yar, Zhao, Han, Wei e Qin — lutaram pelo seu domínio. Qin Shi aca­bou com esse conflito, conquistando seus vizinhos e estabelecendo um império com toda a autoridade centrada nele mesmo. A terra acabou recebendo o seu nome. Uma alteração da forma como Qin viria a ser pronunciado pelos estrangeiros.

Chin.

China.

Tang achava difícil não se impressionar pelas grandiosas conquis­tas, embora Qin Shi tenha vivido muito tempo atrás, seu impacto ainda ressoava. Ele foi o primeiro a dividir a terra em prefeituras, cada uma composta por unidades menores chamadas condados. Ele aboliu o sis­tema feudal e eliminou os generais aristocratas. Pesos, medidas e moe­das foram padronizados. Um código de leis uniforme foi decretado. Ele construiu estradas, um muro para proteger a fronteira do norte e as cidades. Ainda mais crítico, os vários e confusos manuscritos locais foram substituídos por um alfabeto escrito.

Mas o primeiro imperador não era perfeito.

Ele decretou leis severas, impingiu impostos pesados e requisitou milhares de pessoas para os serviços militar e de construção. Milhões morreram em seu reinado. Começar um empreendimento não é fácil, mas manter o sucesso é ainda mais difícil. Os descendentes de Qin Shi não conseguiram aprender a lição do Primeiro Imperador, permitindo que revoltas de camponeses se transformassem em rebeliões desenfreadas. Três anos após a morte de seu fundador, o império ruiu.

Uma nova dinastia sucedeu.

A dinastia Han.

Cujos descentes continuam dominando até hoje.

Tang era um Han, da província Hunan, outro lugar quente e úmido no sul, lar de pensadores revolucionários, sendo Mao Tsé-Tung o mais famoso deles. Freqüentara o Instituto de Tecnologia de Hunan, depois foi transferido para a Escola de Geologia de Pequim. Depois de formar-se, trabalhou como instrutor técnico e político na Equipe de Pesqui­sa Geomecânica; depois trabalhou como engenheiro-chefe e chefe do departamento político da Secretaria Geral de Geologia. Foi quando o Partido primeiramente o notou e ele foi designado para cargos na pro­víncia Gansu e na Região Autônoma do Tibete, ganhando reputação como cientista e administrador. Voltou para Pequim e foi promovido de assistente a diretor do escritório geral do Comitê Central. Três anos depois, foi promovido para o próprio Comitê Central. Agora era o vice-primeiro-ministro do Partido, primeiro vice-presidente da República, a um passo do cume do triângulo político.

—   Ministro Tang.

Ele se virou ao escutar seu nome.

O curador do museu se aproximou. Pôde perceber pelo andar do homem e pela expressão educada em seu rosto que alguma coisa esta­va errada.

Tang estava na passarela que cercava a Cova 1,15 metros acima das imagens em terracota. O salão de exposição de 16 mil metros estava fe­chado à noite, mas as luzes no espaço, que parecia um hangar, estavam acesas, seguindo suas instruções prévias.

—   Fui avisado de que o senhor havia chegado — disse o curador. Os óculos pendendo de uma corrente em seu pescoço.

—   Antes de ir para a Cova 3, gostaria de alguns momentos aqui — disse Tang. — Ver esses guerreiros nunca me decepciona.

Do lado de fora, seis outros salões estavam na escuridão, junto com o teatro, as livrarias e lojas e barracas que amanhã tentariam vender suvenires para os quase 2 milhões de turistas que vinham ali todo ano para ver a chamada oitava maravilha do mundo.

Ele cuspia em tal designação.

Em sua opinião, aquela era a única maravilha do mundo.

—   Precisamos conversar, ministro.

O curador era um intelectual conservador, parte de uma minoria Zhuang, o que significava que nunca conseguiria ascender profissional­mente. Toda a descoberta de Qin Shi ocorrera sob o Ministério da Ciência de Tang, então o curador claramente compreendia a quem devia lealdade.

—   Estou tendo problemas em conter as informações — disse o curador.

Ele esperou mais explicações.

—   A descoberta aconteceu há dois dias. Liguei para o senhor ime­diatamente. Pedi para que ninguém falasse a respeito, mas infelizmen­te essa ordem não foi levada a sério. Os arqueólogos já estão falando... Muitos já sabem que descobrimos outra câmara.

Não queria escutar isso.

—   Percebo que você queria manter a descoberta em segredo. Mas isso provou-se difícil.

Este não era o lugar, então pousou a mão de forma tranquilizadora no ombro do homem e disse:

—   Leve-me à Cova 3.

 

Eles deixaram o prédio e atravessaram o pátio escuro na direção de outra estrutura enorme iluminada por dentro.

A Cova 3 tinha sido descoberta a 20 metros ao norte da Cova 1 e a 120 metros a leste da Cova 2. A menor das três escavações, em forma de U, e com menos de 500 metros. Apenas 68 imagens em terracota e uma charrete puxada por quatro cavalos tinham sido encontradas ali, nenhuma formação militar.

Então, eles perceberam.

O figurino, os gestos e a formação dos guerreiros sugeriam que a Cova 3 era o comando central do exército subterrâneo, reservada para generais e outros oficiais de alta patente. Os guerreiros tinham sido en­contrados aqui dispostos com as costas na parede, brandindo varas de bronze sem escudos, única arma usada apenas pelos guardas de honra imperiais. Além disso, sua localização, no extremo noroeste, assegura­va que fosse bem protegido pelos exércitos das outras duas covas. Em vida, Qin Shi tinha liderado 1 milhão de soldados armados, mil charretes e 10 mil cavalos para a conquista e "triunfo sobre o mundo". Morto, ele claramente teve a intenção de fazer algo similar.

Tang desceu a rampa leste até o fundo da Cova 3.

Luzes brilhantes iluminavam a cena surreal. Um estábulo e uma charrete enchiam o primeiro recanto. Dois corredores curtos, um à direi­ta e outro à esquerda do estábulo, ligavam duas câmeras mais fundas.

Esperou até que os dois estivessem abaixo do nível do solo antes de falar sobre o problema com seu administrador.

—   Eu contava com você — disse ele —, para assegurar que a des­coberta ficasse em segredo. Se não consegue lidar com isso, talvez pre­cisemos de outra pessoa no comando.

—   Posso garantir-lhe, ministro, já consegui conter as informações. Só queria que o senhor soubesse que sua existência vazou além dos três que a encontraram.

—   Conte-me novamente o que foi descoberto.

—   Percebemos uma fraqueza. — O diretor apontou para a direi­ta. — Ali. Achamos que era onde a cova terminava, mas estávamos errados.

O ministro viu um buraco na parede leste, a terra empilhada ao lado.

—   Não tivemos tempo de limpar os escombros, ministro — disse o diretor. — Após uma inspeção inicial, parei as escavações e liguei para o senhor.

Uma coleção de cabos saía de caixas de metal e um transformador estava por perto. Ele olhou para a abertura, as luzes brilhando do outro lado.

—   É uma nova câmara, ministro — disse o curador. — Desconhe­cida.

—   E a anomalia?

—   Está lá dentro, esperando pelo senhor.

Uma sombra dançava nas paredes internas.

—   Ele está lá o dia todo — disse o diretor. — Conforme o senhor mandou. Trabalhando.

—   Sem ser perturbado?

—   Como o senhor pediu.

 

Antuérpia

Ni analisou Pau Wen, irritado consigo mesmo por ter subestimado o esperto homem.

—   Olhe à sua volta — disse Pau. — Aqui está a prova da grandeza chinesa há mais de 6 mil anos. Enquanto a civilização ocidental mal tinha começado, a China já moldava ferro, travava guerras com armas e mapeava sua terra.

Sua paciência tinha se esgotado.

—   Aonde o senhor quer chegar com esta conversa?

—   O senhor já se deu conta de que a agricultura da China era mais desenvolvida no século IV a.C. do que a da Europa no século XVIII? Nossos ancestrais sabiam plantar em fileiras, a importância de capinar as ervas, conheceram a semeadeira e o uso eficiente de arreios séculos antes de qualquer outra cultura no planeta. Estávamos tão à frente que não é possível fazer nenhum tipo de comparação. Diga-me, ministro. O que aconteceu? Por que não estamos mais nessa posição superior?

A resposta era óbvia — o que Pau obviamente já tinha percebido —, mas Ni não falaria palavras sediciosas, imaginando que o salão, ou seu anfitrião, podia estar grampeado.

—   Um estudioso britânico estudou esse fenômeno décadas atrás — disse Pau —, e concluiu que mais da metade das invenções e des­cobertas básicas sobre as quais o mundo moderno é baseado veio da China. Mas quem sabia disso? Os próprios chineses ignoram seu pas­sado. Existe uma história que conta que quando os jesuítas missioná­rios mostraram pela primeira vez um relógio mecânico aos chineses no século XVII, eles ficaram espantados e não sabiam que seus próprios ancestrais tinham inventado isso mil anos atrás.

—   Isso tudo é irrelevante — ele deixou claro, falando para qual­quer pessoa que pudesse estar escutando.

Pau apontou para uma escrivaninha de sequoia encostada em uma parede do outro lado. Todos os itens necessários para caligrafia — tin­ta, pedra, pincéis e papel — estavam organizadamente dispostos em volta de um laptop.

Eles foram até lá.

Pau digitou algo no teclado e a tela ganhou vida.

 

O homem parou ereto. Ele parecia ter uns 30 e poucos anos, seus traços eram mais mongóis do que chineses, cabelos pretos presos em um penteado frouxo. Ele usava um robe branco com mangas largas, com detalhes em verde-claro no colarinho. Outros três homens, usando calças pretas e longas vestes cinzentas por baixo de curtos paletós azuis, o cercavam.

O homem tirou o robe.

Estava nu, o corpo pálido musculoso. Dois dos assistentes começaram a enfaixar seu abdome e suas coxas com bandagens brancas. Depois que a tarefa foi concluída, o homem ficou imóvel enquanto o terceiro criado lavava seu pênis e seu saco escrotal, que estavam expostos.

A limpeza foi feita três vezes.

O homem sentou-se em uma cadeira em uma posição semi-reclinada, en­quanto dois criados seguravam firmemente suas pernas abertas. O terceiro participante aproximou-se de uma mesa laqueada e tirou de uma bandeja uma faca encurvada com um cabo rachado de osso.

Ele se aproximou do homem na cadeira e perguntou com uma voz auto­ritária:

—   Hou huei pu hou huei?

O homem permaneceu na mesma posição enquanto considerava a pergun­ta — vai se arrepender ou não? — e balançou a cabeça negativamente, sem a menor demonstração de medo ou incerteza.

O assistente assentiu. Então, com dois rápidos golpes com a faca, cortou o pênis e o saco escrotal do homem, o corte foi feito bem próximo ao corpo, sem deixar nada exposto.

Nenhum som foi emitido.

Os dois assistentes seguravam as pernas trêmulas do homem com firmeza.

Sangue jorrou, mas o terceiro assistente cuidou do ferimento, obviamente causando dor ao homem sentado. Ainda assim, nenhum som foi emitido. A agonia tomava conta de seu rosto, mas o paciente pareceu recobrar o controle e equilibrou-se.

Algo que parecia ser papel embebido em água foi colocado sobre o ferimen­to, várias camadas, até que o sangue não mais as atravessasse.

Ajudaram o homem a se levantar, visivelmente tremendo, em seu rosto uma expressão meio excitada, meio assustada.

 

—   Ajudaram-no a andar pelo quarto nas duas horas seguintes, an­tes de ter permissão de se sentar — disse Pau.

—   O que... o que era isso? — perguntou Ni, sem fazer o menor es­forço para disfarçar o choque com o que acabara de assistir.

—   Uma cerimônia que aconteceu centenas de milhares de vezes em nossa cultura. — Pau Wen hesitou. — A criação de um eunuco.

Ni sabia dos eunucos e do complexo papel que tiveram na Chi­na durante 2.500 anos. Os imperadores eram considerados meros re­ceptores de um "mandato dos Céus" mítico, um conceito que oficial­mente santificava o direito deles de governar. Para preservar a aura de santidade, a vida pessoal da família imperial era protegida para que ninguém pudesse ver suas falhas. Apenas eunucos efeminados, que dependiam do imperador para viver, eram considerados humildes o suficiente para suportar tal testemunho. O sistema foi tão bem-sucedido que se enraizou, mas uma associação tão freqüente e íntima dava aos "eunucos uma oportunidade fácil. Sem filhos, eles não deveriam desejar poder para passar para seus herdeiros, nem deveriam ter qual­quer necessidade de riqueza.

Mas esse não foi o caso.

Os imperadores acabaram se tornando joguetes nas mãos desses párias, que se tornaram mais poderosos do que qualquer ministro do governo. Muitos imperadores nunca se encontravam com os adminis­tradores governamentais. Em vez disso, as decisões entravam e saí­am do palácio levadas por eunucos, sem que ninguém soubesse quem realmente recebia ou emitia os decretos. Apenas os governantes mais conscientes e cuidadosos evitavam a influência deles, mas esses foram poucos. Finalmente, no início do século XX, quando o último impera­dor foi expulso do palácio, o sistema foi abolido.

—   Os eunucos não existem mais — declarou Ni.

—   Por que você pensaria isso?

O pensamento da possibilidade de estar sendo gravado desapareceu.

—   Quem é você?

—   Sou uma pessoa que aprecia o nosso passado. Um homem que testemunhou a destruição em grande escala de tudo o que considera­mos sagrado durante milhares de anos. Sou um homem chinês.

O ministro sabia que Pau tinha nascido na província de Liaoning, que fora educado na França em uma época que as crianças chinesas ti­nham permissão para freqüentar uma universidade estrangeira. Culto, autor com seis tratados históricos publicados, ele conseguira sobrevi­ver aos expurgos de Mao, o que Ni acreditava não ter sido uma tarefa fácil. Pau acabou conseguindo permissão para sair do país — algo raríssimo — levando consigo riqueza. Ainda assim...

—   O senhor fala de traição — disse Ni, claramente.

—   Eu falo a verdade, ministro. E acho que o senhor tem as mesmas suspeitas.

Ni deu de ombros.

—   Então, o senhor está errado.

—   Por que ainda está aqui? Por que ainda está escutando o que digo?

—   Por que me mostrou este vídeo?

—   Ao encarar a morte, aquele que está preparado para morrer so­breviverá, enquanto aquele que está determinado a viver morrerá. Essa idéia já foi exprimida de outra forma. Shang wu chou ti.

Ni já tinha escutado essa expressão.

Destrua a escada depois de subir.

—   A interpretação mais comum instrui-nos a atrair o inimigo para uma armadilha, depois impossibilitar sua fuga — disse Pau. — Adver­sários diferentes são atraídos para armadilhas de formas diferentes. Os ambiciosos são seduzidos pela promessa de ganhos. Os arrogantes, por um sinal de fraqueza. Os inflexíveis, por uma artimanha. Qual deles é o senhor, ministro?

—   Quem está me atraindo?

—   Karl Tang.

—   Na verdade, parece que quem está fazendo isso é o senhor. E ain­da não respondeu à minha pergunta. Por que me mostrou este vídeo?

—   Para provar que sabe pouco do que está acontecendo à sua vol­ta. Sua hipócrita comissão perde tempo investigando oficiais corruptos e membros desonestos do Partido. Vocês caçam fantasmas, enquanto a verdadeira ameaça está à espreita. Mesmo dentro do seu mundo sa­crossanto, que se orgulha de ser a consciência do Partido, o senhor está cercado. Os eunucos ainda existem, ministro.

—   Como sabe disso?

—   Porque sou um deles.

 

Cassiopeia Vitt foi jogada de volta ao quarto que era sua prisão havia dois dias. Sua camisa estava encharcada, seus pulmões doíam por causa do esforço para tentar respirar.

A porta foi fechada.

Só então tinha permissão para tirar a venda de seu rosto.

Sua cela devia ter 4 metros por 2, parecia ficar embaixo de uma escada, pois o teto era inclinado. Não havia janelas, a luz vinha de uma lâmpada de baixa voltagem que nunca era apagada. Nenhum mó­vel, apenas um colchão fino sobre o assoalho. Tentara descobrir o que podia nos poucos momentos em que saíra dali. Parecia estar dentro de uma casa, a distância dali para a sala de tortura era de apenas alguns passos, e entre os dois cômodos havia um banheiro a que ela fora duas vezes.

Mas onde estava?

Dois dias atrás, estava na Antuérpia.

Inclinou-se para a frente, as mãos nos joelhos. Suas pernas não ti­nham forças, seu coração estava disparado, e ela estremeceu.

Fora amarrada duas vezes à prancha, a toalha cobrindo seu rosto. Achava-se capaz de suportar qualquer coisa, mas a sensação de afogamento, com pés e mãos amarrados, a cabeça abaixada, era demais. Uma vez ela lera que violência mental não precisava de socos.

Acreditava nisso.

Duvidava se seria capaz de suportar outra sessão.

Perto do fim da primeira, ela envolvera Malone, o que lhe pare­ceu um passo inteligente. Nas poucas horas entre deixar a casa de Pau Wen e seu seqüestro, ela poderia facilmente ter entregado o artefato a alguém.

E eles pareciam ter acreditado nela.

Malone era tudo o que tinha.

E não podia dar a essas pessoas o que elas queriam. Eles a mata­riam? Pouco provável, pelo menos até que entrassem em contato com Copenhague.

E depois disso?

Não queria pensar nas possibilidades.

Estava orgulhosa por não ter implorado, chorado nem se compro­metido.

Mas comprometera Cotton.

Mas ele lhe dissera diversas vezes que se algum dia precisasse de alguma coisa, não devia hesitar. A situação parecia encaixar-se.

Nos últimos dois dias, ela jogara jogos mentais, lembrando-se de datas históricas, afastando seus pensamentos. Multiplicara números por dezenas de milhares.

Mas os pensamentos em Malone não a deixavam fugir da realida­de por muito tempo.

Ele era alto e bonito, com cabelos louros brilhantes e animados olhos verdes. Já o considerara frio, sem emoção, mas no último ano descobrira que isso não era verdade. Tinham passado por muita coisa juntos.

Confiava nele.

A respiração dela acalmou-se. O coração diminuiu o ritmo.

Seus nervos tranquilizaram-se.

Ficou de pé e esfregou os pulsos doloridos.

Com quase 40 anos e em outra enrascada. Mas geralmente isso ganhava de qualquer outra coisa que pudesse imaginar-se fazendo. Na verdade, seu projeto de reconstruir um castelo francês do século XIV, usando apenas ferramentas e materiais disponíveis 700 anos atrás, es­tava progredindo. O supervisor que cuidava da obra dissera-lhe algu­mas semanas antes que já tinham feito 10 por cento do trabalho. Sua intenção tinha sido envolver-se mais no empreendimento, mas uma ligação da China mudara as coisas.

—   Eles o levaram, Cassiopeia. Ele se foi.

Lev Sokolov não era um homem propenso ao pânico. Na verdade, ele era um indivíduo inteligente, esperto, conciso, singular. Nascido e criado na anti­ga União Soviética, ele conseguira escapar, indo logo para a China.

—Meu filho estava brincando no celeiro de vegetais da avó — disse Soko­lov em russo, a voz falhando. — Um dos vizinhos de sua avó ofereceu para trazê-lo de volta para casa, ela aceitou. Isso foi oito semanas atrás.

—   E o vizinho?

—   Fomos direto bater na porta dele. Ele disse que depois de dar dinheiro para ele comprar bala, deixou-o no quarteirão do nosso apartamento. Ele é um desgraçado mentiroso. Ele o vendeu, Cassiopeia. Sei que o vendeu. Não tem outra explicação.

—   O que a polícia fez?

—   O governo não quer falar sobre roubo de crianças. Para eles, é um caso isolado e sob controle. Mas não é. Duzentas crianças desaparecem daqui todos os dias.

—   Não pode ser.

—   Mas é. E meu filho agora é uma dessas crianças.

Não soubera o que dizer.

— Temos poucas opções — disse Sokolov, a voz desesperada. — A mídia é próxima demais do governo para fazer qualquer coisa. A polícia não fala conosco. Até mesmo os grupos de apoio para pais como nós encontram-se em segredo. Colamos pôsteres por toda a província, mas a polícia ameaçou nos prender se continuássemos. Ninguém quer se lembrar de um problema que oficialmente não existe. — Ele fez uma pausa. — Minha esposa desmoronou. Ela não fala mais coisa com coisa. Não tenho mais para quem pedir. Preciso da sua ajuda.

Esse era um pedido que ela não podia recusar.

Cinco anos antes, Lev Sokolov salvara a vida dela, e ela devia isso a ele.

Então, conseguiu um visto de turista de trinta dias, comprou uma passagem para Pequim e partiu para a China.

Ela se deitou de bruços no colchão e fitou a parede de gesso inaca­bado. Conhecia cada rachadura e buraco. Uma aranha morava em um canto, e ontem ela vira quando esta pegou uma mosca.

Era solidária à mosca.

Não sabia quanto tempo levaria até ser chamada de novo. Isso de­pendia de Malone.

Estava cansada de ficar presa, mas um menino de 4 anos dependia dela.

E ela estragara tudo.

Passos do lado de fora sinalizaram que alguém aproximava-se. Estranho. Só recebera visitas cinco vezes. Duas vezes para ser tortura­da, uma terceira para deixarem um pouco de arroz e repolho cozido, e duas vezes para levá-la vendada ao banheiro no corredor.

Será que eles tinham descoberto que Malone não os levaria a lugar nenhum?

Ela esticou os braços para cima, as mãos espalmadas no chão, que pulsava com cada passo.

Hora de fazer alguma coisa. Mesmo que seja errada.

Conhecia a rotina. A fechadura era destrancada, a porta abria, ran­gendo as dobradiças, uma venda para os olhos era jogada lá dentro. Só quando o elástico já estava bem ajustado em volta de sua cabeça, alguém entrava. Ela supôs que seu seqüestrador estivesse armado e, claramente, não estava sozinho, já que sempre havia pelo menos duas pessoas com ela. Nas duas vezes foi interrogada por um homem, o mesmo que falou com Malone pelo computador com a voz disfarçada e sem sotaque.

Uma chave foi colocada na fechadura.

Ela fechou os olhos enquanto a porta se abria. Não jogaram uma venda. Abriu as pálpebras e viu um sapato aparecer. Depois outro. Será que estava na hora de alguma refeição? Da última vez em que trouxe­ram comida, apenas deixaram lá, pois ela estava dormindo de pura exaustão. Talvez seus seqüestradores achassem que ela estava exaurida demais depois da tortura para representar uma ameaça.

Ela realmente estava cansada, seus músculos doíam, seus mem­bros estavam doloridos.

Mas uma oportunidade era uma oportunidade.

O homem entrou no quarto.

Espalmando as mãos no chão, ela projetou o corpo para cima, atin­gindo-o por baixo com as pernas.

Uma bandeja com pão e queijo caiu. Ela ficou de pé e pisou com a sola de sua bota no rosto do homem. Algo quebrou, provavelmente o nariz dele. Ela bateu com o salto no rosto dele mais uma vez. A parte de trás da cabeça dele bateu no chão e ele ficou imóvel.

Mais um chute nas costelas fez com que ela se sentisse melhor.

Mas o ataque tinha sido barulhento. E havia pelo menos mais uma ameaça por perto. Procurou nas roupas do homem e encontrou uma arma em um coldre de ombro. Pegou a arma e verificou o pente.

Completamente cheio.

Hora de ir embora.

 

Copenhague

Malone fitou seu seqüestrador. Eles abandonaram a rua asim que a polícia chegou, virando a esquina e voltando para a Streget.

—   Você tem um nome? — perguntou Malone.

—   Pode me chamar de Ivan.

O inglês com forte sotaque russo fazia o rótulo parecer adequado, assim como a aparência do homem — era baixo, tinha peitoral forte e os cabelos grisalhos. O rosto avermelhado e manchado como um ca­maleão era dominado por um nariz eslavo e sombreado por uma barba rala que estava molhada de suor. Ele vestia um terno que não se ajusta­va a ele. A arma já tinha sido guardada e, agora, eles estavam em uma pequena praça, sob a sombra da Rundetarn, uma torre do século XVII que oferecia vistas privilegiadas de sua cúpula a 30 metros de altura. O som do tráfego não dava para ser ouvido nesta altura da Stroget, apenas os saltos batendo nas pedras e as gargalhadas de crianças. Es­tavam parados embaixo de uma passarela coberta virada para a torre, um muro de tijolos atrás deles.

—   Seu pessoal matou aqueles dois? — perguntou Malone.

—   Eles acham que viemos livrar-nos deles.

—   Importa-se em me dizer como sabe sobre Cassiopeia Vitt?

—   Uma mulher e tanto. Ah, se eu fosse mais jovem e uns 40 quilos mais magro. — Ivan fez uma pausa. — Mas não é isso que você quer ouvir. Cassiopeia está envolvida em uma coisa que ela não compreen­de. Espero que você, como ex-agente americano, avalie melhor o pro­blema.

—   É a única razão para eu estar aqui.

Parece que a mensagem nas entrelinhas foi compreendida.

Vá direto ao ponto.

—   Você poderia me dominar — disse Ivan, assentindo. — Sou um russo gordo e fora de forma. Burro também. Todos nós somos, certo?

Malone percebeu o sarcasmo.

—   Eu poderia acabar com você. Mas e o homem parado perto da árvore, do outro lado, de jaqueta azul, e o outro perto da entrada da Rundetarn? Não sei se eu conseguiria fugir deles. Eles não são gor­dos nem estão fora de forma.

Ivan riu.

—   Já tinham me dito que você era esperto. Dois anos afastado do serviço não mudaram isso.

—   Acho que ando mais ocupado agora que estou aposentado do que quando trabalhava para o governo.

—   Isso é ruim?

—   É melhor falar rápido ou posso querer me arriscar com seus amigos.

—   Não precisa bancar o herói. Cassiopeia está ajudando um ho­mem chamado Lev Sokolov. Ex-russo, mora na China. Cinco anos atrás, Sokolov se casou com uma chinesa contra a vontade do governo russo. Ele fugiu e, uma vez na China, pouco pode ser feito.

—   Que novidade — disse Malone.

—   Achamos que ele estava morto. Mas não estava.

—   Então, o que mudou?

—   Sokolov tem um filho de 4 anos que foi roubado. Ele ligou para Vitt, que foi procurar o menino.

—   E isso preocupa você? E a polícia?

Ivan balançou a cabeça.

—   Milhares de crianças desaparecem na China todo ano. É a histó­ria de ter filho. Na China, isso é uma necessidade. O filho leva o nome da família. E o filho que ajuda os pais na velhice. Esqueça as filhas. Filho é o que importa. Não faz sentido para mim.

Malone continuava escutando.

—   A política do filho único na China é um pesadelo — disse Ivan. — Os pais têm de ter permissão. Se não tiverem, levam uma multa, que é mais do que os chineses ganham por ano. Como alguém pode ter certeza de que vai conseguir o filho em uma única tentativa? — O russo levantou o dedo. — Comprando vim.

Malone já lera sobre o problema. Fetos femininos eram abortados ou abandonados, e décadas da política do filho único tinham causado uma falta de mulheres.

—   O problema de Sokolov — disse Ivan — é que ele está lutando contra uma rede criminosa. — Ele gesticulou com os braços curtos. — É pior do que na Rússia.

—   Difícil de imaginar.

—   É ilegal abandonar, roubar ou vender crianças na China, mas comprar é legal. Um menino pequeno custa 900 dólares americanos. Muito dinheiro quando um trabalhador ganha 1.700 dólares por ano. Sokolov não tem chance.

—   Então Cassiopeia foi ajudar. E daí? Por que você está preocupado?

—   Quatro dias atrás, ela viajou para a Antuérpia — disse Ivan.

—   Para procurar o menino lá?

—   Não. Para encontrar o menino, ela precisa encontrar outra coisa antes.

Agora, ele estava entendendo.

—   Algo que você obviamente quer? Ivan deu de ombros.

Malone lembrou do vídeo da tortura.

—   Quem está com Cassiopeia?

—   Pessoas más.

Não gostou do que ouviu.

—   Já lidou com eunucos?

 

Ni não sabia se devia ficar perplexo ou enojado pela revelação de Pau Wen.

—   O senhor é um eunuco?

—   Passei pela mesma cerimônia que o senhor acabou de testemu­nhar, quase quarenta anos atrás.

—   Por que o senhor faria uma coisa dessas?

—   Era o que eu queria fazer com a minha vida.

Ni tinha ido para a Bélgica achando que Pau Wen poderia ter as respostas que tanto procurava. Mas uma nova e perturbadora gama de perguntas tinha sido levantada.

Pau acenou para que saíssem do salão de exposição e voltassem para o pátio. O ar do meio-dia tinha esquentado, o sol brilhava em um céu sem nuvens. Mais abelhas pareciam ter se juntado ao ataque aos botões de primavera. Os dois homens pararam ao lado de um jarro de vidro, de aproximadamente 1 metro de largura, contendo peixinhos dourados.

—   Ministro — disse Pau —, na minha época, a China estava pas­sando por um momento de revolta. Antes e depois da morte de Mao, o governo não tinha visão, saía de um programa fracassado para outro. Ninguém ousava desafiar nada. Em vez disso, uns poucos preciosos tomaram decisões imprudentes que afetaram milhões. Quando Deng Xiaoping finalmente abriu o país para o mundo, foi um passo ousado. Achei que talvez tivéssemos uma chance de sucesso. Mas o país não estava preparado para a mudança. A imagem daquele estudante sozi­nho confrontando o tanque na praça da Paz Celestial ficou gravada na memória do mundo. Uma das imagens mais marcantes do século XX. O que o senhor bem sabe.

Sim, ele sabia.

Estava lá naquele dia — 4 de junho de 1989 — quando a tolerância do governo esgotou-se.

—   E o que Deng fez depois? — perguntou Pau. — Agiu como se aquilo nunca tivesse acontecido, seguindo em frente com mais absur­dos.

Ni teve de dizer:

—   Conversa estranha para um homem que ajudou a formar alguns daqueles policiais.

—   Não formei nada — disse Pau, a raiva insinuando-se pela pri­meira vez em sua voz. — Passei a minha vida nas províncias.

—   Roubando.

—   Preservando.

Ni ainda se sentia perturbado pelo vídeo.

—   Por que aquele homem foi emasculado?

—   Ele entrou para a irmandade. Aquela iniciação ocorreu três me­ses atrás. Agora, ele já está curado e trabalhando com seus irmãos. Ele não teve permissão para beber nada nos três dias depois da cirurgia. Você viu como o assistente tampou a uretra do homem antes de cobrir o ferimento com papel molhado. No quarto dia, depois que o curativo foi tirado, quando a urina fluiu, a cirurgia foi considerada um sucesso. Do contrário, o iniciado teria tido uma morte agonizante.

Ni não podia acreditar que alguém poderia se submeter a tal atro­cidade por livre e espontânea vontade. Mas ele sabia que Pau estava certo. Centenas de milhares em toda a história da China fizeram isso. Quando a dinastia Ming acabou, em meados do século XVII, mais de 100 mil eunucos foram expulsos da capital. A queda dos governos Han, Tang e Ming foi atribuída aos eunucos. O Partido Comunista Chinês há muito tempo usava-os como exemplos de ambição desenfreada.

—   O interessante é que — disse Pau — das centenas de milhares de homens que foram castrados, apenas uma porcentagem mínima mor­reu. Outra de nossas inovações chinesas. Somos muito bons em criar eunucos.

—   Que irmandade? — Ni queria saber, sua voz mostrando irritação.

—   Eles são chamados de Ba.

Ni nunca ouvira falar de tal grupo. Deveria? Seu trabalho era pro­teger o governo e o povo de todas as formas de corrupção. Para atingir esse objetivo, ele gozava de uma liberdade que nenhum outro oficial público recebia, reportando-se diretamente ao Comitê Central e ao pró­prio primeiro-ministro. Nem mesmo Karl Tang, o vice-primeiro-minis­tro, podia interferir, embora tentasse. O próprio Ni criara a unidade de investigação de elite, obedecendo a ordens do Comitê Central, e passara a última década construindo uma reputação de honestidade.

Mas nunca houvera nenhum Ba.

—   O que é isso? — perguntou.

—   Com todos os recursos que têm sob seu comando, certamente pode ficar sabendo mais sobre eles. Agora que já sabe onde procurar.

Ele não gostou do tom condescendente.

—   Onde?

—   À sua volta.

Ele balançou a cabeça.

—   Você não é apenas um ladrão, também é mentiroso.

—   Sou simplesmente um velho que sabe mais do que o senhor... Sobre vários assuntos. O que me falta é tempo. O senhor, entretanto, tem isso de sobra.

—   O senhor não sabe nada de mim.

—   Muito pelo contrário. Sei muita coisa. O senhor ascendeu de líder de esquadra a capitão de pelotão e depois a comandante da área militar de Pequim, uma honra enorme, concedida apenas àqueles em quem o governo tem muita confiança. O senhor era membro da esti­mada Comissão Militar Central quando o próprio primeiro-ministro o escolheu para ser chefe da Comissão Central de Inspeção Disciplinar.

—   Devo ficar impressionado porque o senhor conhece a minha his­tória oficial? Está na internet para quem quiser ver.

Wen deu de ombros.

—   Sei muito mais, ministro. O senhor é um assunto que me inte­ressa já há um tempo. O primeiro-ministro fez uma escolha difícil, mas devo dizer que ele acertou ao escolhê-lo.

Ni sabia da oposição que existira na época de sua nomeação. Mui­tos não queriam um militar em uma posição que poderia investigar quem quisesse à vontade. Achavam que isso poderia significar mais ganho de poder militar.

Mas ele provara que os eruditos estavam errados.

—   Como o senhor poderia saber sobre essa decisão difícil?

—   Porque eu e o primeiro-ministro conversamos muito sobre o senhor.

 

Província de Shaanxi, China

Tang mandou o diretor permanecer no prédio da Cova 3 e fi­car de guarda no nível térreo, garantindo que ele não fosse perturbado. Não que ele esperasse ser. Ele era o segundo homem mais poderoso da China — embora, irritantemente, alguns tivessem começado a elevar Ni Yong a este mesmo patamar.

Fora contra a nomeação de Ni, mas o primeiro-ministro vetara to­das as objeções, dizendo que Ni Yong era um homem de personalida­de, um homem que sabia lidar com o poder de forma racional e, de acordo com todos os relatórios, era exatamente isso que ele tinha feito até agora.

Mas Ni era confuciano.

Disso não havia dúvidas.

Tang era legalista.

Esses dois rótulos definiam a política chinesa havia mais de 3 mil anos. Todo imperador recebeu um dos dois rótulos. Mao dissera que acabaria com a dicotomia, insistindo que a Revolução Popular não di­zia respeito a rótulos, mas nada mudou de verdade. O Partido, assim como os imperadores anteriores, pregava o humanismo confuciano en­quanto exercia o poder implacável do legalismo.

Rótulos.

Eles eram problemáticos.

Mas também podiam ser úteis.

Esperava que os próximos minutos o ajudassem a decidir qual ex­tremidade desse espectro pesaria na sua batalha que travaria com Ni Young.

Atravessou o portão improvisado.

O cômodo úmido fora aberto na terra e lacrado séculos atrás com barro e pedra. Luzes artificiais foram trazidas ali para dentro a fim de iluminar o espaço de 5 metros quadrados. O silêncio, a decrepitude e as camadas de fuligem faziam com que se sentisse um intruso em um túmulo secular.

—   É incrível — disse o homem ali dentro.

Tang pedira que uma avaliação adequada fosse feita, e este acadê­mico magro com maxilar pequeno certamente podia fazer isso.

Três mesas de pedra com camadas de poeira suportavam o que pareciam frágeis folhas marrons empilhadas uma sobre a outra.

Sabia o que eram.

Um tesouro de folhas de seda, cada uma contendo caracteres e de­senhos pouco visíveis.

Em outras pilhas, havia tiras de bambu, amarradas juntas, colunas de cartas enfileiradas em cada uma. O papel não existia na época em que esses pensamentos foram memorizados — e a China nunca usou papiro, apenas seda e madeira, o que acabou sendo bom, já que ambos duraram séculos.

—   É a biblioteca perdida de Qin Shi?

O outro homem assentiu.

—   Eu diria que sim. Existem centenas de manuscritos. Tratam de tudo. Filosofia, política, medicina, astronomia, engenharia, estratégia militar, matemática, cartografia, música, ensinam até equitação e como usar um arco. Esta pode muito bem ser a maior concentração de co­nhecimento em primeira mão já encontrado sobre a época do Primeiro Imperador.

Ele sabia o que isso significava. Em 1975, mais de mil tiras de bam­bu foram descobertas. Os historiadores proclamaram aquela como a maior descoberta, mas exames posteriores lançaram dúvida sobre sua autenticidade. Mais tarde, foi determinado que a maior parte deles era de uma época depois de Qin Shi, quando dinastias posteriores refor­mularam a realidade. Este lugar, porém, permanecera escondido du­rante séculos, a um 1 quilômetro da tumba do Primeiro Imperador, parte de seu grandioso mausoléu, protegido por seu exército eterno.

—   O mais incrível é que eu consigo ler o que está escrito neles — disse o especialista.

Tang sabia da importância dessa habilidade. A queda de uma di­nastia era sempre vista como a retirada do poder dos céus. Para evitar qualquer maldição, cada nova dinastia criticava a anterior. O expurgo era tão completo que até o sistema de escrita podia ser alterado, tornan­do qualquer tentativa de decifrar o que vinha antes muito mais difícil. Apenas nas últimas décadas, os eruditos, como este que estava aqui com ele, aprenderam a ler esses manuscritos perdidos.

—   Eles estão aqui? — perguntou Tang.

—   Deixe-me mostrar-lhe o que encontrei.

O especialista pegou um dós frágeis pedaços de seda.

Poeira voou pelo ar como fantasmas enfurecidos.

O próprio Qin Shi garantiu que nenhum dos escritos de sua época sobreviveria ao seu reino quando mandou queimar todos os manus­critos, exceto os relacionados à medicina, agricultura e adivinhação A idéia era "deixar as pessoas ignorantes" e evitar o "uso do passado para desacreditar o presente". Apenas o imperador era digno de ter uma biblioteca, e conhecimento era um monopólio imperial. Eruditos que desafiaram esse decreto foram executados. Particularmente, qual­quer e todo manuscrito de Confúcio estava sujeito à destruição imedia­ta, já que os ensinamentos dele iam diretamente contra a filosofia do Primeiro Imperador.

—   Escute isto — disse o especialista. —Muito tempo atrás, Confúcio morreu e as palavras sutis ficaram perdidas. Seus setenta discípulos perece­ram e a grande verdade foi distorcida. Portanto, os Analectos foram divididos em cinco versões, as Odes em quatro, e as Mutações foram transmitidas em várias tradições. Diplomatas e persuasores discutiram o que era verdadeiro e o que era falso, e as palavras do mestre tornaram-se um caos. Isso perturbou o imperador, então ele queimou os manuscritos para transformar as pessoas comuns em idiotas. Ele guardou, porém, os pensamentos originais do mestre no palácio e estes o acompanharam até a morte.

Isso significava que todos os seis grandes clássicos confucianos de­viam estar aqui.

O Livro das Mutações, um manual divinatório. O Clássico de História, uma reunião de discursos e escrituras dos lendários reis eruditos da antigüidade. O Clássico de Poesia, contendo mais de trezentos versos adornados com significados escondidos. Os Anais de Primavera e Outo­no, a história completa do estado natal de Confúcio. O Clássico dos Ritos, que explicava o comportamento adequado de cada um, do camponês ao governante. E finalmente, o Clássico da Música, cujo conteúdo era desconhecido, já que não existia nenhuma cópia dele.

Tang sabia que os Han, que sucederam o Primeiro Imperador com uma dinastia que durou 425 anos, tentaram reparar o dano que Qin Shi tinha feito e reuniram muitos textos confucianos. Mas ninguém sabia se essas edições posteriores refletiam precisamente os originais. Encontrar um conjunto completo de obras, intocados, seria um feito monumental.

—   Quantos manuscritos temos aqui? — perguntou Tang, calma­mente.

Contei mais de duzentos textos separados. O especialista fez uma pausa. — Mas nenhum foi escrito por Confúcio.

Seus medos estavam aumentando.

Confúcio era o rótulo dado pelos jesuítas do século XVII ao erudi­to conhecido pelos discípulos no século V a.C. como Kong Fu-Zi. As idéias dele sobreviveram na forma de dizeres, e sua crença central pare­cia ser a de que o homem deveria buscar viver de forma boa, sempre se comportando com humanidade e cortesia, trabalhando diligentemente, honrando a família e o governo. Ele enfatizava "o jeito dos outros reis", encorajando o presente a trazer força e sabedoria do passado. Ele defen­dia uma sociedade altamente organizada, mas na qual essa ordem não seria alcançada pelo uso da força, e sim pela compaixão e pelo respeito.

Qin Shi não era confuciano.

Pelo contrário, o Primeiro Imperador abraçou o legalismo.

Essa contra-filosofia acreditava que a força e o terror nus e crus eram as únicas bases legítimas de poder. Monarquia absoluta, burocra­cia centralizada, domínio do Estado sobre a sociedade, a lei como uma ferramenta penal, vigilância, informantes, perseguição de dissidentes e coerção política eram suas ferramentas fundamentais.

Ambas as filosofias desejavam um Estado unificado, uma sobera­nia poderosa e uma população absolutamente submissa, mas enquanto os legalistas batiam em cabeças, os confucianos ensinavam respeito — a obediência voluntária do povo. Quando o Primeiro Império legalista caiu no século III a.C., o confucionismo tornou-se seu substituto e per­maneceu assim, de uma forma ou de outra, até o século XX, quando os comunistas resgataram o legalismo.

Entretanto, o pensamento de Confúcio voltou a ser popular. As pessoas identificavam-se com seus dogmas de paz, especialmente de­pois de sessenta anos de severa opressão. Ainda mais perturbadora era a ascensão da democracia, uma filosofia ainda mais preocupante do que o confucionismo.

Tenho uma boa notícia — disse o especialista. — Encontrei a confirmação para aquele outro assunto.

Tang seguiu-o até outra mesa de pedra.

—   Esses manuscritos de bambu eram como relatórios anuais do Primeiro Império.

Tang sabia que os antigos chineses mantinham relatórios detalhados sobre tudo, principalmente sobre fenômenos naturais. Em sua especiali­dade, geologia, eles classificavam as rochas em minério, não metais e argilas. Eles levavam em consideração dureza, cor e brilho, assim como forma. Eles até isolaram quais substâncias eram formadas bem nas profundezas da terra e determinaram como poderiam descobrir se eram confiáveis.

—   Encontrei aqui registros de perfurações — disse o especialista. — Bem específicas.

Tang já vira outras sedas. Mapas.

—   Nosso sítio de exploração aparece nos mapas?

O homem assentiu.

—   A área é mostrada de uma maneira geral. Mas sem pontos de referência geográficos é impossível ter certeza.

Embora os antigos tivessem desenvolvido o compasso e a carto­grafia, eles não usavam longitude e latitude, um dos poucos conceitos revolucionários que os chineses não foram os primeiros a desenvolver.

—   Pegue os mapas e os preserve, e qualquer outra coisa que esteja diretamente ligada à nossa busca.

O especialista assentiu.

—   O resto não tem importância. Agora, o outro problema. Mostre-me.

O homem colocou a mão no bolso do seu casaco e entregou a ele um objeto de prata, que brilhava na luz.

Um relógio.

Mostrador industrial com dígitos que brilhavam no escuro. Um pino projetava-se em um dos lados e a palavra SHANGAI indicava onde tinha sido fabricado.

—   Foi feito décadas atrás — disse ele.

—   Foi encontrado quando conseguiram entrar. Os arqueólogos fi­caram muito mais excitados com isso do que com os manuscritos.

Agora ele compreendia a gravidade do problema do diretor de manter sigilo.

—   Alguém esteve aqui antes?

O especialista assentiu.

—   Certamente. Não havia relógios na época de Qin Shi. Vire o re­lógio.

Gravado na parte de trás havia uma série de caracteres chineses. Ele chegou mais perto da luz e leu a mensagem:

 

SERVIR O POVO.

1968

 

Já havia visto um relógio com a mesma inscrição antes. Haviam sido dados para certos membros do Partido, no aniversário de 75 anos de Mao Tsé-Tung. Nada pretensioso nem caro, apenas uma recordação de uma grande ocasião.

Vinte e seis de dezembro de 1968.

Poucos e valiosos líderes dessa primeira geração estavam vivos. Embora tivessem um status privilegiado no panteão comunista, mui­tos foram vítimas dos expurgos de Mao. Outros morreram de velhice. Um, porém, continuava ativo no governo.

O primeiro-ministro, que de vez em quando exibia o presente que ganhara do ex-presidente.

Tang precisava ter certeza.

—   Não tem nenhum texto confuciano aqui? Tem certeza?

O especialista balançou a cabeça.

—   Todos eles foram tirados desta sala. Deveriam estar aqui, mas não estão.

Desafios aos seus planos pareciam vir de todos os lados. Jin Zhao. Lev Sokolov. Ni Yong.

Agora isso.

Fitou o que estava em sua mão.

E soube exatamente a quem o relógio pertencera.

 

Cassiopeia desviou-se do homem deitado no chão e aproximou-se da porta. Finalmente, estava na ofensiva, e atiraria em qual­quer um que se colocasse entre ela e sua liberdade.

Com cautela, ela espiou o corredor estreito. Dois metros à frente, a porta do banheiro estava entreaberta. Outra porta, a poucos mais de 1 metro depois dessa, do outro lado, estava fechada. O corredor termina­va no que parecia um hall de entrada bem iluminado.

Saiu.

As paredes eram pintadas de rosa e estavam encardidas, o gesso do teto precisava de uma pintura. Definitivamente uma casa. Alugada. Certamente, afastada, com um cômodo convenientemente sem janelas embaixo da escada.

Estava usando a mesma calça jeans e a mesma camisa de dois dias atrás. Seu casaco havia sido levado no primeiro dia. Por incrível que pareça, ainda estava com a sua carteira e seu passaporte. Tudo cheirava a suor, e seria ótimo um banho quente, mas só de pensar em mais água caindo em seu rosto, seu estômago revirava.

Andou com cuidado, cada passo dado com leveza, a arma ao lado de seu corpo, o dedo no gatilho.

No final do corredor, seguiu para a porta da frente, mas o som de uma voz murmurada fez com que não saísse.

Parou e escutou.

Alguém estava falando. Depois houve silêncio. E a voz de novo. Parecia que alguém estava ao telefone. Continuou escutando e con­firmou que escutava apenas uma voz. Decidiu que tinha de aprontar alguma com esse filho da mãe também. Já descarregara sua raiva no homem que ficou deitado na sua cela, então por que não terminar o que tinha começado?

Identificou o local em outro corredor curto que terminava em uma porta parcialmente fechada. Antes de seguir por esse caminho, foi até uma janela e olhou para fora. Viu apenas árvores e pastagem. Esta­vam em alguma zona rural. Chegara ali amarrada e vendada, dentro da mala de um carro. Estimara aproximadamente meia hora, que, dada a localização da Antuérpia, podia ser em qualquer lugar na Bélgica, Holanda ou França.

Um Toyota escuro estava, estacionado bem na frente. Imaginou se as chaves estariam dentro do carro ou com um dos seqüestradores.

A voz abafada continuava ao telefone.

Também podia aproveitar a privacidade que tão conveniente­mente tinha conseguido. Precisava descobrir para quem essas pessoas trabalhavam. Poderiam levá-la ao filho desaparecido de Lev Sokoiov. Encontrá-lo era sua única preocupação. Graças a Deus, pensara à frente e fizera o que fizera, envolvendo Malone.

Se não fosse isso, estaria morta, ou o menino, perdido para sempre.

Parou do lado de fora da porta, mantendo o olhar fixo na faixa de luz que saía do cômodo.

Alguma coisa naquela voz ativou sua memória.

Não fazia idéia de quantas pessoas estavam ali dentro, mas não dava a mínima. Seus nervos estavam à flor da pele. Sua paciência, esgotada.

Estava cansada, faminta, suja e furiosa.

Segurou a arma, colocou o pé esquerdo no chão e abriu a porta com o direito.

A porta abriu, batendo na parede.

Ela entrou e, na mesma hora, viu apenas um homem, falando ao telefone celular.

Ele não demonstrou a menor surpresa ao vê-la.

Em vez disso, fechou o telefone e disse:

— Já estava na hora.

Ela fitou seu rosto, como se tivesse visto um fantasma.

E, em certos aspectos, tinha.

 

Malone nunca tinha escutado a palavra eunuco em uma conversa antes.

—   Você quer dizer o homem castrado? — perguntou Malone.

—   Existe algum outro tipo? — questionou Ivan. — Esses caras são asquerosos. —Abriu os braços curtos. — Eles deitam, abrem as pernas e cortam tudo. — Ele levantou um dedo. — E não emitem nenhum som. Nem um pio.

—   E por que fazem isso? — perguntou Malone.

—   Honra. Eles imploram para fazer isso. Sabe o que eles fazem com as partes cortadas? Eles chamam de pao, tesouro, colocam em jar­ros em uma prateleira alta. A kao sheng. Alta posição. É um simbolismo de que atingiram uma alta posição. A coisa toda é uma maluquice.

Ele concordou.

—   Mas eles fazem isso toda hora. Agora os eunucos estão prontos para dominar a China.

—   Como é?

—   Você vem da América do Sul, não é? É de lá que vem seu nome, Malone?

A gíria do Sul?

—   Vá direto ao ponto.

Ivan parecia gostar de que seus interlocutores achassem que ele era burro, mas este russo robusto podia ser tudo, menos burro.

—   Ba. Uma organização secreta chinesa. Tem mais de 2 mil anos. E a versão moderna não é melhor que a original. A intenção deles é conseguir o poder. Não é bom para o meu país, nem para o seu. Esses caras são maus.

—   O que isso tem a ver com Cassiopeia?

—   Não sei exatamente. Mas existe uma conexão.

Agora sabia que o homem estava mentindo.

—   Você é um merda.

Ivan riu.

—   Gosto de você, Malone. Mas você não gosta de mim. Quanta energia negativa.

—   Aqueles dois caras lá na rua não passam muita energia positiva.

—   Não se preocupe com eles. Matá-los livra o mundo de dois pro­blemas.

—   Sorte a nossa que você estava aqui, não?

—   Malone, nosso problema é sério.

Ele deu um passo à frente, agarrou Ivan pelas lapelas e encostou-o no muro de tijolos que estava atrás. Aproximou seu rosto do dele.

—   Eu diria que isso é verdade. Onde está Cassiopeia?

Ele sabia que provavelmente os dois que estavam dando cobertura ao russo reagiriam. Estava preparado para dar meia-volta e cuidar de­les. É claro que isso se eles não resolvessem atirar primeiro.

—   Nós precisamos dessa fúria — disse Ivan baixinho, sem fôlego.

—   Nós quem?

— Eu, Malone.

As palavras vieram da sua direita. Uma voz nova. De mulher. Fa­miliar.

Deveria saber.

Soltou o homem e virou-se.

A 3 metros deles estava Stephanie Nelle.

 

Cassiopeia engatilhou a arma e apontou diretamente para Viktor Tomas.

—   Seu desgraçado, filho da...

—   Não diga coisas das quais vai se arrepender depois.

O lugar parecia uma sala de reuniões, já que havia uma cadeira, na qual Viktor estava sentado, três outras vazias e algumas mesas e abajures. As janelas se abriam para a frente de casa através das quais ela viu o Toyota.

—   Você me torturou.

Ele deu de ombros.

—   Preferia que não tivesse sido eu? Fiz de tudo para a experiência ser, ao menos, suportável.

Ela atirou na base de uma cadeira estofada, apontando para algum ponto entre as pernas dele.

—   Você chama aquilo de suportável?

Ele nem piscou, os olhos sérios e inexpressivos.

—   Descarregou sua raiva?

Ela vira este homem pela última vez um ano antes. Ele trabalhava para uma ditadora da Ásia Central. Aparentemente, tinha encontrado um novo chefe.

—   Para quem você está trabalhando?

Ele se levantou da cadeira.

—   Para o vice-primeiro-ministro chinês, Karl Tang. Uma nova onda de raiva tomou conta dela.

—   Viktor, me dê uma razão para eu não o matar agora.

—   Que tal se eu disser que sei onde o filho de Lev Sokolov está preso?

 

Ni estava perplexo.

—   O senhor e o primeiro-ministro conversaram sobre mim?

Pau assentiu.

—   Muitas vezes. Também conversamos sobre a nação.

—   E por que ele conversaria com o senhor sobre isso?

—   Muito tempo atrás, eu e ele passamos por muita coisa juntos. Ele não é o imbecil impotente que muitos acham que ele seja.

Ni sabia que a maioria dos membros do Comitê Central não se importava mais com a opinião do primeiro-ministro. Ele estava com quase 80 anos, doente, e mantinha-se no cargo simplesmente porque ninguém tinha, até agora, emergido com apoio suficiente para tomar o poder.

Pau estava certo.

Havia uma divisão dentro do Partido Comunista Chinês. Pare­cia com a que existia quando Mao estava moribundo em 1976, e sua esposa e três outros formaram a infame Camarilha dos Quatro. O então primeiro-ministro e Deng Xiaoping associaram-se para fazer oposição à camarilha, finalmente conquistando o controle político em outra batalha ideológica — o conflito travado longe dos olhos pú­blicos, dentro da hierarquia do Partido, exatamente como o conflito atual seria.

—   No que o primeiro-ministro está trabalhando?

—   Ele está tentando determinar o que é melhor para a China.

Isso não lhe dizia nada.

—   Ministro, o senhor pode achar que tem amplo apoio político, talvez possua. Mas esse apoio pode evaporar em um instante se o Ba tomar o poder. Eles sempre foram legalistas. Todos os atos deles ins­tauraram um domínio bitolado de opressão. Eles não teriam a menor tolerância com o senhor.

—   O que eu poderia temer de um grupo de eunucos?

Pau apontou para a porta aberta que ligava o pátio ao salão de exposição.

—   Tenho excelentes manuscritos do nosso passado guardados aqui. Textos fascinantes, mas não existe uma Carta Magna. Nenhum tribunal de independência. Ministro, nós herdamos o despotismo. A história chinesa é dominada por generais, imperadores e comunistas. Legalistas, todos eles.

—   Como se eu não soubesse disso. O senhor já trabalhou para eles.

—   Diga-me o que faz o senhor pensar que seu futuro será diferen­te? O que o senhor faria pela China? Se conseguisse se tornar primeiro-ministro, o que faria?

Secretamente, considerara muitas vezes essa questão. A nação os­cilava à beira de um colapso. O atual sistema nacional era simplesmen­te incapaz de gerar riqueza e tecnologia suficientes para competir com o mundo e conter efetivamente 1,5 bilhão de pessoas. Segundo a crença de Mao, concentrar todos os recursos econômicos nas mãos do Estado não tinha dado certo. Mas a política subsequente de Deng de encorajar investimento estrangeiro irregular também tinha fracassado.

Isso tinha levado à exploração.

Governar a China era como empinar uma pipa em um dia sem ven­to. Você pode ajustar a rabiola, mudar o desenho, correr mais rápido, mas sem uma brisa para levá-la para cima, nada aconteceria. Durante décadas, os líderes chineses ignoraram que simplesmente não havia brisa. Em vez disso, eles faziam remendos e mais remendos, tentando forçar a pipa a subir, sempre fracassando.

—   Quero mudar tudo — disse ele calmamente, surpreso por ter pronunciado as palavras.

Pau finalmente o levara a isso.

Como este velho sabia tanta coisa a seu respeito?

—   Ministro, houve um tempo em que a superioridade da vida chi­nesa, com sua agricultura avançada, linguagem escrita e artes altamen­te desenvolvidas, era tão atraente que aqueles que conquistamos, ou aqueles que nos conquistaram, buscavam assimilar nossa cultura. Eles passaram a nos admirar e queriam fazer parte da nossa sociedade. Esse desejo era complementado por um ritual humano confuciano, que acen­tuava a harmonia, a hierarquia e a disciplina. Existem inúmeros textos antigos que fazem referência a povos que, séculos atrás, deixaram de existir como grupos étnicos separados, tão completa era a assimilação deles. O que aconteceu? O que nos transformou em algo a ser evitado?

—   Nós nos destruímos — respondeu Ni.

A China realmente tinha passado por sucessivos ciclos de unifi­cação e fragmentação — e, em todas as vezes, algo era perdido. Algo irrecuperável. Uma parte da consciência coletiva. Uma parte da China.

—   Agora você compreende por que saí da China? — perguntou Pau tranqüilamente.

Não, na verdade ele ainda não compreendia.

—   Nossas dinastias entraram em decadência de uma forma sinis­tramente previsível — disse Pau. — Geralmente, os líderes mais an­tigos são mais poderosos, os mais recentes são frágeis, desmotivados ou meros fantoches. Inevitavelmente, a corrupção combina poder e dinheiro, sem o benefício da lei para evitar o abuso. Uma ausência de regras claras na sucessão política gera o caos. As rebeliões fermentam enquanto a força militar enfraquece. O governo, então, se isola e se enfraquece. Não há dúvida do fim. — Pau ficou em silêncio por um momento. — Esse foi o destino de toda dinastia chinesa nos últimos 6 mil anos. Agora é a vez do comunismo.

Ni não podia discutir com essa conclusão. Lembrou-se de uma viagem para o sul alguns meses atrás durante outra investigação. Um oficial local, um velho amigo, o levou até o aeroporto. Pelo caminho, passaram por outdoors anunciando novos apartamentos com piscinas, jardins e cozinhas modernas.

—   O povo está cansado de Revoluções Culturais e guerras — dis­sera seu amigo. — O povo gosta de coisas materiais.

—   E o senhor? — perguntou Ni.

—   Também gosto. Quero uma vida confortável.

Mantinha-se fiel a essa afirmação. Ela falava muito do estado atual

da China, onde o governo fazia meros remendos nos problemas. Mao pregara o orgulho da pobreza. O problema é que ninguém mais acre­ditava nisso.

Pau abaixou-se e, na areia do jardim, fez dois caracteres.

Ni sabia o que significavam. "Revolução". Wen se levantou.

— Mais precisamente "afastamento de mandato". Todas as dinas­tias chinesas justificavam sua ascensão com essa frase. Quando a dinastia Qirtg foi derrubada em 1912 e o último imperador foi expulso, era assim que nos referíamos ao acontecimento histórico. Em 1949, Mao roubou o mandato de Chiang Kaishek para construir uma república pós-Qing. Está na hora de outro afastamento de mandato. Mas a per­gunta é: quem será o líder desse esforço.

Ni fitou o velho homem, a cabeça girando de tantas suspeitas. Não existia mais um investigador dentro dele. Agora pensava como o polí­tico — o líder — que desejava ser.

—   O comunismo durou mais do que seu papel histórico — disse Pau. — Crescimento econômico desenfreado e nacionalismo bruto não conseguem mais suportá-lo. Simplesmente não existe o que conecte a forma de governo atual na China com seu povo. A extinção da União Soviética mostra claramente essa falha. Agora, está acontecendo de novo. O desemprego na China está fora de controle. Centenas de mi­lhões de pessoas são afetadas. A condescendência de Pequim, como a de Moscou décadas atrás, é imperdoável. Ministro, o senhor deve se dar conta de que o mesmo nacionalismo que hoje conforta o Partido pode muito bem tornar-se o fascismo de amanhã.

—   Por que o senhor pensa que estou lutando pelo poder? Acha que eu quero poder? Acha que as pessoas que me apoiam querem isso?

—   Mas o senhor encontrou um problema, não foi?

Como este erudito, que acabara de conhecer, sabia tudo que o per­turbava?

—   A queda de Moscou o assusta — disse Pau. — Como poderia não assustar? Mas nós somos diferentes. Nós nos adaptamos melhor às contradições. Nossos governantes proclamam-se confucianos há muito tempo, mas governam como legalistas, e mesmo assim ninguém nun­ca questionou essa dicotomia. E diferentemente dos russos, a maioria dos chineses não passa necessidade e tem alguns eletrodomésticos em casa. Nosso Partido não é ignorante. Mesmo com todos os defeitos, nós não cometeremos suicídio político. Então, nosso dilema é claro. Como persuadir 1,5 bilhão de pessoas a esquecer a norma e segui-lo rumo ao desconhecido?

Ni esperou uma resposta para a pergunta.

— Orgulho, ministro. Uma coisa tão simples. Mas apelar para isso pode muito bem ser a sua resposta.

 

COPENHAGUE

Malone sentou-se à mesa no Café Norden, acomodado bem perto da janela do segundo andar que estava aberta. Do lado de fora, Hojbro Plads vibrava, lotada. Stephanie Nelle e Ivan também estavam sentados. Os dois inspetores de Ivan estavam no andar de baixo, em uma das mesas que ficavam na rua.

—   A sopa de tomate daqui é ótima — disse Malone para os outros dois.

Ivan passou a mão na barriga.

—   Tomate me deixa com gases.

—   Então, em todo caso, é melhor evitar — disse Stephanie.

Malone conhecia Stephanie havia muito tempo. Foi uns dos 12 agentes originais dela na Magellan Billet. Ela criara a unidade do De­partamento de Justiça, recrutando pessoalmente 12 homens e mulhe­res, cada um com um talento especial. Malone tinha uma carreira na Marinha, onde chegou a comandante. Era capaz de pilotar aviões e livrar-se de situações perigosas. Seu diploma em direito de Georgetown e sua habilidade em tribunal apenas enriqueciam ainda mais seu currículo. A presença de Stephanie ali, naquele lindo dia na Dinamar­ca, não significava nada além de encrenca. A associação dela com Ivan só agravava a situação. Ele sabia a opinião de Stephanie sobre trabalhar com russos.

Apenas quando necessário.

E ele concordava.

As mesas do café estavam cheias, pessoas subindo e descendo pela escada no canto, muitos carregando sacolas de compras. Perguntou-se por que estavam conversando em público, mas imaginou que Stepha­nie soubesse o que estava fazendo.

—   O que está acontecendo aqui? — perguntou ele à ex-chefe.

—   Há poucos dias, fiquei sabendo do envolvimento de Cassiopeia com Lev Sokolov. Fiquei sabendo do interesse russo também.

Ainda estava furioso por causa dos dois assassinatos.

—   Você matou aqueles dois que eu estava perseguindo para que não tivéssemos outra alternativa a não ser negociar com você — disse ele para Ivan. — Não podia me deixar saber nada sobre eles, certo?

—   Eles são pessoas más. Más, muito más. Merecem o destino que tiveram.

—   Eu não sabia o que ia acontecer — disse Stephanie para ele. — Mas não devia me surpreender.

—   Vocês dois se conhecem? — perguntou Malone.

—   Nós já fizemos negócios antes.

—   Não estou pedindo a ajuda de vocês — disse Ivan. — Isso não envolve os Estados Unidos.

Mas Malone percebeu que Stephanie intrometera-se nesse negócio, praticando o velho ditado: "mantenha os amigos perto, e os inimigos ainda mais perto".

—   Cotton — disse ela. — Cassiopeia envolveu-se em algo que é muito maior do que ela imagina. A China está no meio de uma luta interna pelo poder. Karl Tang, o vice-primeiro-ministro, e Ni Yong, o chefe do Departamento Anticorrupção do Partido Comunista, estão prestes a lutar pelo controle. Há um bom tempo, estamos assistindo a essa batalha, que está se tornando uma guerra. Como eu disse poucos dias atrás, fiquei sabendo da entrada de Cassiopeia no país por acaso, quando pesquisamos mais a fundo, vimos que Ivan também estava interessado...

—   Então você pegou um avião e veio para a Dinamarca.

—   Este é o meu trabalho, Cotton.

—   Mas este não é o meu trabalho. Não mais.

—   Nenhum de nós — disse Ivan — quer que Tang vença. Ele é outro Mao, apenas pior.

Malone apontou para Ivan.

—Você me contou sobre uma criança desaparecida e um tal de Lev Sokolov.

—   O camarada Sokolov é geólogo — disse Ivan. — É russo, mas trabalha para os chineses. Digamos que ele sabe de coisas que seria melhor se não soubesse.

—   E é por isso que era melhor quando ele estava morto — desta­cou ele.

Ivan assentiu.

—   O que ele sabe?

Ivan balançou a cabeça.

É melhor você não saber.

Ele encarou Stephanie.

—   Espero que você saiba.

Ela não disse nada.

A raiva dele aumentou.

—   No que foi que Cassiopeia se meteu que é tão importante a pon­to de alguém torturá-la?

Mais uma vez, Stephanie não respondeu, embora fosse claro que sabia a resposta. Em vez disso, levantou o olhar para fitar Ivan.

Conte a ele.

O russo pareceu considerar o pedido, e de repente Malone perce­beu que Ivan não era um agente de campo. Ele tomava as decisões.

Como Stephanie.

—   Vitt — disse Ivan — está atrás de um artefato. Um lampião que Karl Tang deseja. Como Sokolov não cooperou, Tang roubou o filho dele. Então, Sokolov faz duas coisas que Tang não esperava. Chama Vitt e desaparece. Já faz duas semanas que não é visto. — Ele estalou os dedos. — Desapareceu.

—   Então, Karl Tang pegou Cassiopeia? — perguntou Malone.

Ivan assentiu.

—   Eu diria que sim.

—   O que aconteceu hoje, Cotton? — perguntou Stephanie.

Ele contou a ela do bilhete, da tortura, da forma como improvisou.

—   Pareceu a melhor coisa a fazer. E claro que eu não sabia que tinha espectadores.

—   Posso lhe garantir — disse ela — que nós íamos seguir aqueles dois para ver aonde nos levariam. Eu ia avisar-lhe depois. Matá-los não estava nos meus planos.

—   Vocês americanos ficam se metendo nos meus negócios — disse Ivan. — E depois querem me dizer como fazer.

—   Fala sério — disse Malone. — Você matou as duas pistas que tínhamos para ficarmos mais dependentes de você.

Ivan deu de ombros.

Coisas ruins acontecem. Você tem que aceitar.

Malone queria dar um soco na cara do filho da mãe, mas sabia que era melhor não o fazer. Então, perguntou:

—   Por que o lampião é tão importante?

Ivan deu de ombros.

—   Vem de uma velha tumba. Sokolov tem de consegui-lo pegar para satisfazer Karl Tang.

—   E onde está? — perguntou ele.

—   Na Antuérpia. Foi por isso que Vitt foi para lá dois dias atrás. Ela desapareceu dois dias depois.

Ele se perguntou o que podia ter motivado os russos a ponto de ar­marem uma operação de inteligência desta escala, enviando um agente de médio a alto escalão, e atrapalhando os americanos, atirando em duas pessoas no meio de Copenhague. Alguém, em algum lugar, es­tava gritando que isso era importante. E por que Washington estava tão interessado a ponto de envolver a Magellan Billet? Stephanie só costu­mava ser chamada quando os canais de inteligência convencionais não eram mais viáveis. Cassiopeia certamente se metera em algo impor­tante o suficiente a ponto de torturarem-na. Será que ela estava sendo torturada de novo neste momento? Aqueles dois cadáveres estendidos na frente do Hotel d'Angleterre não apareceram, então quem quer que tenha mandado o vídeo certamente já desconfiava de que alguma coisa dera errado.

—   Preciso pegar meu computador — disse ele. — Eles podem ten­tar entrar em contato comigo de novo.

—   Duvido que isso vá acontecer — disse Stephanie. — Quando Ivan resolveu improvisar, ele pode ter selado o destino de Cassiopeia.

Malone não queria escutar aquilo, mas ela estava certa. O que o deixou ainda mais furioso. Encarou Ivan com raiva.

—   Você não parece nem um pouco preocupado.

—   Estou com fome.

O russo chamou a atenção da garçonete e apontou para um prato de defumados em uma vitrine de vidro, levantando os cinco dedos. A moça assentiu, mostrando que entendera quantos deveria levar.

—   Isso vai deixar você com gases — disse Malone.

—   Mas são deliciosos. Os peixes dinamarqueses são muito bons.

—   Esta operação está envolvendo a Billet toda agora? — pergun­tou ele para Stephanie.

Ela assentiu.

—   Coisa grande.

—   O que você quer que eu faça? — Ele apontou para Ivan. — O sargento Schultz aqui não sabe de nada, não vê nada, não escuta nada.

—   Quem disse isso? Não fui eu. Sei de muita coisa. E eu amo Hogan's Heroes.[*]

—   Você é apenas um russo burro.

O homem corpulento sorriu.

—   Ah, entendo. Você quer me irritar. Exasperar, não? Este homem grande e burro vai perder a cabeça e dizer mais do que devia. — Ele levantou um dedo gordo. — Está assistindo muito a CSI ou NCIS na televisão. Adoro esta série. Mark Harmon é o cara durão.

Malone decidiu tentar outra estratégia.

—   O que deveria acontecer quando Cassiopeia encontrasse o lam­pião?

—   Entregaria a Tang e ele devolveria o garoto.

—   Você não acredita nisso.

—   Eu? Não. Karl Tang não é honesto. O menino já se foi. Eu sei disso. Você sabe disso...

—   Cassiopeia sabe disso — terminou Stephanie.

—   Exatamente — disse Malone. — Então, ela fez as apostas e es­condeu o lampião. Eles a pegaram. Ela disse que estava comigo para ganhar tempo.

—   Sei pouco sobre ela — disse Ivan. — Ela é esperta?

Talvez não esperta o suficiente, pensando bem.

—   Ivan me disse que os eunucos vão tomar o poder na China. Ba é como se chamam.

Stephanie assentiu.

Eles são uma facção radical. Têm grandes planos, e nenhum deles é bom para nós, ou para qualquer pessoa. O Departamento de Es­tado considera improvável a ascensão deles, mas estão errados. Estou aqui por outra razão, Cotton.

Ele percebeu a incerteza dela. Russos ou chineses? Dor de cabeça ou dor de estômago? Mas ele percebeu mais alguma coisa. Mais do que ela queria discutir agora.

A garçonete trouxe os cinco peixes, cheirando como se tivessem acabado de ser pescados.

— Ah — disse Ivan. — Maravilha. Têm certeza de que não querem?

Ele e Stephanie balançaram a cabeça.

Ivan engoliu um dos peixes.

—   Só vou dizer que isso envolve coisas importantes. Grandes. Coi­sas que não queremos que os chineses saibam.

—   E os americanos? — perguntou Malone.

—   Vocês também.

—   E Sokolov contou aos chineses?

Ivan mastigou o peixe.

—   Não sei. E por isso que precisamos saber sobre o lampião.

Malone olhou para fora. Sua livraria ficava do outro lado da praça ensolarada. Pessoas entravam e saíam pela porta da frente, invadin­do a praça cheia como se fossem abelhas em sua colmeia. Devia estar vendendo livros. Gostava do que fazia. Empregava quatro nativos que faziam um bom trabalho em manter as prateleiras sempre cheias. Ti­nha orgulho do seu negócio. Alguns dinamarqueses compravam regu­larmente suas edições de colecionador com ele. Nos últimos três anos, ele conquistara a reputação de ser o homem que conseguia tudo o que quisesse. Como nos 12 anos em que foi um dos agentes de Stephanie Nelle.

Neste momento, era Cassiopeia quem precisava dele.

—   Vou para a Antuérpia — disse ele.

Ivan estava devorando outro peixe.

—   E o que vai fazer quando chegar lá? Sabe onde procurar?

—   Você sabe?

Ivan parou de comer e sorriu.

Havia pedaços de carne de peixe presos entre seus dentes.

—   Sei onde Vitt está.

 

Cassiopeia avaliou o que Viktor acabara de dizer sobre o Fi­lho desaparecido de Lev Sokolov. Perguntou de novo:

—   Para quem você trabalha?

—   Quando saí da Federação da Ásia Central, fui para o leste e aca­bei na China. Encontrei muitas oportunidades de emprego lá.

—   Principalmente para um filho da puta mentiroso e duas caras como você.

Ele balançou a cabeça.

—   Não posso acreditar que pense isso de mim. O que eu fiz na Ásia Central era o meu trabalho. E eu fiz bem. Os objetivos da missão foram todos alcançados.

—   E eu quase morri. Duas vezes.

—   Essa é a palavra principal. Quase. Novamente, cumpri meu de­ver.

Ela sabia que ele estava evitando a pergunta.

—   Para quem você trabalha?

—   Estou dizendo a verdade. Karl Tang.

—   Que decadência. Da presidente suprema da Federação da Ásia Central para o segundo na linha de poder da China.

—   Ele paga bem. Tenho plano de saúde e dentário e três semanas de férias remuneradas. No ano que vem, terei um plano de aposenta­doria.

O senso de humor dele não lhe interessava.

—   Foi você quem mandou aqueles homens atrás de mim dois dias atrás?

Viktor assentiu.

—   Não podíamos permitir que saísse da Bélgica com aquele lam­pião.

—   Por que Tang o queria?

—   Ele não tem a menor intenção de devolver o filho de Sokolov. Então, decidiu apoderar-se do lampião aqui.

—   Por que simplesmente não procura Pau Wen diretamente? Ou manda você? Por que eu?

—   Honestamente, não sei.

Ela mantinha a arma levantada.

—   Honestamente. Essa palavra não existe no seu vocabulário. — Ela o tinha na mira. — Você me torturou.

—   Certifiquei-me de que não fosse torturada.

—   Não foi o que me pareceu.

A expressão dele suavizou.

—   Você preferia ter sido torturada por alguém que realmente qui­sesse afogá-la?

Ele mudara de um ano para cá. Embora ainda fosse baixo e troncudo, seus cabelos emaranhados tinham sido substituídos por um corte rente acima das orelhas. O nariz largo e os olhos fundos, de alguma herança eslava, permaneciam, mas a pele estava mais morena do que quando morava na Ásia Central. Ele tinha 40 e poucos anos, no máxi­mo, e havia deixado de usar roupas largas, que escondiam ombros e braços obviamente acostumados ao exercício, e passara a usar camisas e calças elegantes e ajustadas ao corpo.

—   Onde está o menino? — perguntou ela.

—   Sokolov brincou com os russos. Agora está brincando com os chineses. Eles matam sem nenhuma repercussão, já que eles são a lei.

Não estamos na China.

—   Mas Sokolov está. Tang está atrás dele. Suponho que você o escondeu, mas é só uma questão de tempo até que seja encontrado. Tang tem dezenas de milhares de espiões, e todos eles querem agradar o próximo primeiro-ministro da China. Você ou eu não temos a menor importância no esquema geral.

Ela duvidava disso.

—   O que você está fazendo para ele?

—   Tang me contratou no outono do ano passado. Ele precisava de um agente que não fosse chinês, e eu estava desempregado. Ele não ia me designar para este trabalho em particular até que escutei seu nome. Quando expliquei a ele minha conexão, com alguns ajustes nos fatos, Tang me mandou para cá.

Ela abaixou a arma, chegando ao seu limite.

—   Você faz idéia do que me fez passar?

—   Não tive escolha. Tang dá as ordens. Ontem, eu lhe dei uma chance de fugir quando lhe levaram comida, mas você estava dormin­do. Mandei meu compatriota agora há pouco para ver se desta vez você agia. — Ele apontou para a arma. — O que parece que você fez. Estava aqui esperando por você. — Ele apontou para o telefone em cima da mesa. — O telefonema era falso.

—   E o que o fez pensar que eu não fugiria simplesmente?

—   Você está com raiva.

Este homem a conhecia bem.

—   Mais algum ajudante por aqui?

Apenas o que foi levar comida. Você o machucou?

—   Vai ficar com uma cicatriz.

—   Cassiopeia, Tang quer o lampião. Você não pode simplesmente entregá-lo a ele e acabar com isso?

—   E perder aquele menino? Como você disse, o lampião é o único poder de barganha que tenho. Você disse que sabia onde o menino es­tava preso. Então, me diga.

—   Não é fácil assim. Você nunca conseguiria chegar perto dele. Deixe-me ajudar.

—   Trabalho sozinha.

—   Foi por isso que envolveu Malone? Eu sabia que você estava mentindo, mas Tang me obrigou a entrar em contato.

—   O que aconteceu em Copenhague?

—   Não tive notícias dos dois que foram contratados para o serviço. Mas com Malone, certamente aconteceu alguma coisa bem ruim a eles.

Ela precisava ligar para a Dinamarca e explicar-se. Mas não dali.

—   Onde estão as chaves do carro que está lá fora?

—   Na ignição. — Ele se levantou da cadeira. — Deixe-me ir com você. Não posso ficar. Independente do que eu disser, Tang vai me res­ponsabilizar pela sua fuga. Não vou poder mais trabalhar para ele. Te­nho informações sobre as operações dele que podem ser valiosas.

Ela considerou a proposta. Fazia sentido. Independente de como se sentisse em relação a Viktor Tomas, ele certamente seria muito útil. No ano passado, ele inteligentemente conseguira chegar bem perto da presidente da Federação da Ásia Central. Agora estava bem próximo a Karl Tang, que era o único que podia reunir Lev Sokolov ao filho. Não havia dúvidas de que ela tinha se atrapalhado. Agora, precisava resgatar o lampião e conseguir um acordo. Então, por que não aceitar a oferta de ajuda de um homem que podia entrar em contato direto com Tang?

E que sabia onde estava o filho de Sokolov.

—   Tudo bem — disse ela. — Vamos.

Ela deu um passo para o lado e deixou Viktor sair na frente. Ele pegou o telefone celular e o guardou no bolso. Quando ele es­tava passando por ela, na direção da porta, ela levantou a arma acima de sua cabeça e bateu com o cabo no pescoço dele.

Ele soltou um gemido enquanto levantava uma das mãos.

Ela bateu com o cano de metal da arma na têmpora esquerda dele.

Ele girou os olhos e caiu no chão.

— Como se eu fosse acreditar em alguma palavra que você diz.

 

Província Shaanxi, China

11h40

Tang caminhou entre os guerreiros de barro, em eterna guarda. Deixara a Cova 3 e voltara à Cova 1. O especialista tinha ido embo­ra. O fato de não haver nenhum texto de Confúcio na Cova 3 — embora todos os seis devessem estar ali — era intrigante. Assim como o relógio de prata que ainda segurava.

Tinha suspeitas de que muita coisa tinha acontecido trinta anos atrás.

Agora sabia.

Naquela época, esta região do Condado de Lintong era uma fazen­da. Todo mundo sabia que o Primeiro Imperador estava enterrado ali havia mais de 2.200 anos. Mas ninguém sabia do exército subterrâneo, e sua descoberta levou a muitas escavações. Durante anos, trabalhado­res labutavam dia e noite removendo camadas de terra, areia e casca­lho, fotografando e registrando as centenas de milhares de casos. Mais trabalhadores, então, juntaram uma peça de cada vez, refazendo as imagens quebradas, os frutos do trabalho exaustivo deles à sua volta.

O exército de terracota passara a ser considerado com uma expres­são monumental dos talentos comunais chineses, simbolizando um Estado unificado, uma cultura criativa e submissa, um governo que trabalhava para e com seu povo.

Um simbolismo quase perfeito.

Uma das poucas vezes em que concordara em usar o passado para justificar o presente.

Mas, aparentemente, durante todas essas escavações, um esconde­rijo de documentos — a biblioteca perdida de Qin Shi — também tinha sido encontrado.

Ainda assim, ninguém ficou sabendo.

E uma lembrança dessa omissão ficara para trás.

Um relógio.

Deixado de propósito?

Quem sabe?

Mas dada a pessoa que mais provavelmente fizera a descoberta, Tang não podia descartar nada.

Pau Wen.

Consultor especial do Comitê Central, conselheiro tanto de Mao Tsé-Tung quanto de Deng Xiaoping, um homem culto cujo valor vinha de sua habilidade em entregar o resultado desejado — e nada melhor para asse­gurar privilégios do que sucessos repetidos. Mao e Deng não foram admi­nistradores muito eficientes. Ambos governaram com pinceladas grossas, deixando os detalhes para homens como Wen. Tang sabia que ele fora o responsável por muitas escavações arqueológicas no país e que, em deter­minada época, supervisionara as escavações dos guerreiros de terracota.

Será que o relógio que segurava era de Wen?

Tinha de ser.

Encarou um dos guerreiros que estava na vanguarda do exército. Ele e os outros seriam os primeiros a enfrentar um inimigo, seguidos de ondas e mais ondas de homens aterrorizantes.

Aparentemente sem fim. Indestrutíveis.

Como a própria China.

Mas a nação chegara a uma encruzilhada. Trinta anos de moder­nização sem precedentes produziram uma geração impaciente, uma geração indiferente ao regime comunista, que se concentrava mais na vida familiar, cultural e econômica, em detrimento da nacionalidade. A médica no hospital parecia um excelente exemplo.

A China estava mudando.

Mas nenhum regime em toda a história da China tinha aberto mão do poder sem derramar sangue, e o Partido Comunista não seria o pri­meiro.

Seu plano para conseguir o poder exigiria ousadia, mas ele esperava que o que ele estava buscando provar conseguisse criar uma certa cer­teza, um ar de legitimidade, talvez até uma fonte de orgulho nacional.

Um movimento acima chamou sua atenção.

Estava esperando.

No parapeito 5 metros acima, uma figura vestida de preto apare­ceu, seguida de outra. Ambos eram magros e musculosos, os cabelos bem curtos, os rostos inexpressivos.

—   Aqui embaixo — disse ele, tranqüilamente.

Os dois homens desapareceram.

Quando convocara seu especialista do Ocidente, também ordenara que mais dois homens o acompanhassem. Eles tinham aguardado nas imediações, esperando uma ligação sua, que fizera enquanto saía da Cova 3.

Os homens apareceram no outro extremo da fila de guerreiros e aproximaram-se sem emitir nenhum som, parando a poucos metros de distância.

—   Queimem tudo — mandou ele. — Tem cabos elétricos e um transformador, então podemos colocar a culpa na eletricidade.

Os dois homens assentiram e saíram.

 

Malone e Stephanie atravessaram a Hojbro Plads. O sol de fim de tarde tinha descido atrás dos telhados recortados de Copehhague. Ivan tinha ido embora, dizendo que precisava resolver alguns as­suntos e voltaria em uma hora.

Malone parou perto de uma fonte e sentou-se na borda molhada.

—   Uma bolsa sua foi roubada aqui uns dois anos trás.

—   Eu me lembro. Acabou tornando-se uma aventura e tanto.

—   Quero saber o que exatamente está acontecendo.

Ela permaneceu em silêncio.

—   Você precisa me contar o que está em jogo — disse ele. — Tudo. E não é uma criança desaparecida ou o próximo primeiro-ministro da China.

—   Ivan acha que não sabemos, mas nós sabemos.

—   Esclareça tudo.

—   É extraordinário, na verdade. E começa em uma coisa que Stalin aprendeu com os nazistas.

Agora estavam indo a algum lugar.

—   Durante a Segunda Guerra Mundial, a maior parte do petróleo da Alemanha vinha das refinarias da Romênia e da Hungria. Por volta de 1944, essas refinarias já tinham sido exploradas ao máximo, e não coinci­dentemente, a guerra terminou logo depois. Stalin assistiu enquanto os alemães ficavam literalmente sem combustível. E resolveu que a Rússia sempre seria auto-suficiente. Ele via a dependência do petróleo como uma fraqueza catastrófica que devia ser evitada a todo custo.

Isso não era um choque.

—   Todos não pensam assim?

—   Diferentemente do resto do mundo, incluindo os Estados Uni­dos, Stalin encontrou uma forma de fazer isso. Um professor universi­tário chamado Nikolai Kudryavtsev lhe deu a resposta.

Malone esperou.

—   Kudryavtsev postulou que petróleo não tinha nada a ver com fósseis.

Ele conhecia o pensamento convencional. Durante milhões de anos, um antigo pântano nativo de plantas e animais, incluindo dinos­sauros, foi engolfado por depósitos sedimentários. Mais milhões de anos de calor e pressão comprimiram a mistura que se transformou em petróleo, combustível fóssil.

—   Em vez de ser biótico, ou seja, derivado de material que já foi vivo, Kudryavtsev afirmou que o petróleo é abiótico, simplesmente um material primitivo que a terra forma e exclui continuamente.

Na mesma hora, Malone percebeu as implicações.

—   É infinito?

—   Essa é a questão que me trouxe até aqui, Cotton. E que nós te­mos de responder.

Ela explicou sobre a exploração de petróleo soviética na década de 1950 que descobriu grandes reservas a milhares de metros de profun­didade, em níveis muito abaixo do que seria esperado de acordo com a teoria do combustível fóssil.

—   E isso pode ter acontecido conosco — disse ela — no Golfo do México. Um campo foi encontrado em 1972 a mais de 1,5 quilômetro de profundidade. Suas reservas estavam se reduzindo em um ritmo surpreendentemente lento. A mesma coisa aconteceu em campos no norte do Alasca. Isso deixou os geólogos desconcertados.

—   Você está dizendo que os poços se reabastecem?

Ela balançou a cabeça.

—   O que me disseram é que depende das rochas ao redor. No Gol­fo do México, o solo do oceano é recortado por fissuras profundas. Isso teoricamente permitiria que o petróleo pressurizado saísse do fundo do mar, aproximando-se da superfície. Tem mais uma coisa também.

Ele sabia que, como de costume, ela viera preparada.

A idade geológica do petróleo que sai desses poços que mencio­nei, aqueles que aparentemente estão se reabastecendo, é diferente do que era vinte anos atrás.

-— E o que isso quer dizer?

—   Que o petróleo está vindo de uma fonte diferente.

Ele também entendeu o que isso significava.

Não estava vindo de plantas ou dinossauros mortos.

—   Cotton, o petróleo biótico é o mais superficial. Poucas centenas de metros. O petróleo abiótico vem de muito mais fundo. Não existe nenhuma forma científica de o material orgânico chegar numa profun­didade tão grande, então tem de haver outra fonte para esse petróleo. Stalin percebeu que a União Soviética poderia conseguir uma forte vantagem estratégica se essa nova teoria sobre a disponibilidade do petróleo pudesse ser provada. Ele previu, lá na década de 1950, que o petróleo ia se tornar politicamente importante.

Agora ele compreendia as implicações, mas queria saber:

—   Por que nunca ouvi falar disso?

—   Stalin não tinha nenhum motivo para informar seus inimigos do que tinha descoberto, principalmente nós. Todo material publicado a esse respeito foi em russo, e naquela época, pouquíssimas pessoas fora da União Soviética liam essa língua. O Ocidente ficou preso na teoria do combustível fóssil, e qualquer alternativa era rapidamente considerada imaginação.

 

Tang saiu do Museu da Cova i, entrando na noite quente. A praça que contornava o complexo histórico estava quieta. A meia-noite aproximava-se.

Seu telefone celular vibrou.

Pegou-o no bolso e olhou para o mostrador. Pequim. Atendeu.

—   Ministro — disse alguém —, temos boas notícias. Lev Sokolov foi encontrado.

—   Onde?

—   Lanzhou.

A apenas algumas centenas de quilômetros a oeste.

—   Ele está sendo vigiado de perto, mas não sabe que estamos lá.

Agora, podia seguir adiante. Escutou os detalhes, depois mandou:

—   Continue a vigília. Estarei lá pela manhã. Bem cedo.

—   Tem mais uma coisa — disse o assistente. — O supervisor do poço ligou. Ele mandou dizer que o senhor deve se apressar.

Gansu ficava a 200 quilômetros ao norte. A parada final da sua via­gem. O helicóptero estava esperando, abastecido, pronto para ir.

—   Diga a ele que estarei lá em duas horas.

—   E um último assunto.

Seus subordinados andavam bem ocupados.

—   O Ministro Ni está na residência de Pau Wen há três horas.

—   Você sabe se a viagem de Ni foi oficialmente aprovada?

—   Não que nós possamos determinar. Ele mesmo reservou o voo há dois dias e saiu de repente.

O que só confirmava que Ni Yong tinha espiões dentro do gabinete de Tang. De que outra forma ele saberia que precisava ir à Bélgica? Nenhuma surpresa, mas a profundidade da rede de inteligência de Ni o preocupava. Poucos e preciosos membros de sua equipe sabiam do significado de Pau Wen.

—   Ni ainda está dentro da casa? — perguntou ele.

—   Estava há dez minutos.

—   Elimine os dois, Ni e Pau.

 

Ni concentrou-se na palavra interessante que Pau Wen usara.

Orgulho.

—   Já fomos a nação mais importante do mundo — disse o homem mais velho. — Possuidores de uma superioridade comprovada. Du­rante a dinastia Tang, se um residente estrangeiro se casasse com uma mulher chinesa, ele não tinha permissão para sair da China. Era consi­derado impensado levar uma mulher para fora dos limites da civiliza­ção, para um reino menor.

—   E daí? Nada disso importa mais. — Ele estava frustrado e de­monstrava isso. — O senhor fica aqui, seguro na Bélgica, enquanto nós lutamos na China. Fala do passado como se fosse fácil repeti-lo. Minha tarefa é muito mais difícil do que pode imaginar.

—   Ministro, sua tarefa não é diferente das tarefas de muitos que vieram antes do senhor. Na minha época, não havia como fugir de Mao. Todos os prédios públicos tinham uma estátua ou um busto dele. Fotos dele eram exibidas em todos os lugares: caixas de fósforo, ca­lendários, táxis, ônibus, aviões. Carros dos bombeiros e locomotivas exibiam fotos gigantes dele, junto com bandeiras vermelhas. Ainda as­sim, agora vemos que era tudo uma mentira. O rosto irrepreensível e corado de saúde de Mao? Aquela imagem não tinha nada a ver com o homem. Ele estava velho e doente, os dentes pretos. Ele era feio, com aparência de uma pessoa fraca. — Pau apontou para um aquário com um peixe dentro. — Naquela época, e agora, a China é como um peixe no meio das árvores. Totalmente perdida. Fora do lugar. Sem esperança de sobrevivência.

Os pensamentos de Ni estavam um caos. Seus passos depois que voltasse para casa não pareciam mais viáveis. Planejara iniciar o cami­nho rumo ao seu objetivo: tornar-se primeiro-ministro. Muitos estavam prontos para apoiá-lo. Começariam o processo, recrutando mais para a sua causa. Mas uma nova ameaça surgira, uma ameaça que podia ser um presságio de fracasso.

Olhou em volta no pátio e lembrou-se do que seu avô tinha lhe ensinado sobre feng shui.

O lugar que se escolhia para morar era de grande importância. A orientação de uma casa podia ser ainda mais importante. Coloque-a vi­rada para o sul. Escolha certo e as colinas serão abundantes, as águas, claras, e o sol, brilhante.

Seu avô fora um homem sábio.

Em meio à confusão, existe a paz. Em meio à paz, os olhos de alguém estão abertos.

Ele tentara prestar atenção a essa lição e colocar seus pensamentos no lugar, dizendo para si mesmo que deveria manter o controle.

—   Karl Tang reconhece a confusão da China — disse Pau. — E ele também compreende o valor do orgulho nacional. Isso é o mais im­portante, ministro. Mesmo quando as mudanças acontecem, ninguém pode perder o prestígio, o Partido menos ainda.

—   E esse lampião faz parte desse plano?

Wen assentiu.

—   Tang está muitos passos à sua frente.

—   Por que está me dizendo isso?

—   Essa explicação levaria tempo demais, apenas acredite que o que estou dizendo é sincero. — Wen estendeu o braço e tocou o ombro de Ni com sua mão calejada. — Ministro, o senhor precisa adaptar suas idéias. Foi bom que soubesse do interesse de Tang e viesse até aqui, mas a ameaça à China é maior do que o senhor imagina.

—   O que o senhor diria para eu fazer?

Ni odiava-se por estar pedindo orientação a esse ladrão.

—   O senhor é um homem para ser respeitado. Um homem confiá­vel. Use isso.

Não estava impressionado pelos elogios de Pau.

A verdade seria melhor.

—   Poucas horas depois que ela saiu aqui de casa, Cassiopeia Vitt foi feita prisioneira por Tang. Ela conseguiu esconder o lampião antes de ser capturada, e eu sei onde. Eu planejava pegá-lo de volta, mas a tarefa agora deve ser sua.

O tamanho da farsa de Wen ficou claro. Estava brincando com Ni desde o começo. E Ni não gostava disso. Mas como não tinha escolha, perguntou:

—   Por que esse lampião é tão importante?

—   O fato de o senhor não saber essa resposta só prova o quão atrás de Karl Tang está.

Não podia discutir com isso.

—   Como posso ganhar terreno?

—   Recupere o lampião, volte para a China e, depois, localize um homem chamado Lev Sokolov. Ele trabalha para o Ministério do De­senvolvimento Geológico, em Lanzhou, mas no momento está escon­dido. Tang sequestrou o filho dele e está usando o menino como forma de conseguir a cooperação de Sokolov. Fiquei sabendo que Sokolov é a pessoa que pode explicar a importância do lampião.

—   Cooperação para quê?

—   Cabe ao senhor descobrir isso.

Embora ele tivesse a sensação de que Pau Wen sabia bem.

—   Minha rede de informações é extensa, principalmente no que diz respeito a Tang. Quando fiquei sabendo do interesse dele pelo lam­pião, resolvi vir aqui pessoalmente. Mas nenhuma alusão a nada que o senhor disse aqui jamais chegou ao meu conhecimento.

—   O que deve fazer com que questione a sua equipe. Será que há um espião entre eles? O lampião logo estará com você. Volte para a China e encontre Sokolov.

—   E os eunucos que me cercam? Aqueles que o senhor disse que devo temer.

—   Eles mostrarão a cara.

—   Eles também representam uma ameaça para Tang?

—   Obviamente não.

—   Como vou saber quem eles são?

Wen sorriu.

—   No passado, nós, eunucos, sofríamos uma mudança de voz, um desagradável falsete. Jovens, nos tornávamos flácidos e gordos, com pouca força. Conforme envelhecíamos, perdíamos esse peso e rugas profundas apareciam em nosso rosto. A falta de testosterona também se manifestava em emoções, ficávamos com raiva ou tristes rapida­mente. Nada disso acontece mais. Suplementos modernos mascaram todos os efeitos colaterais, especialmente se o homem não for castrado antes da idade adulta, o que geralmente ocorre. Saiba que será pratica­mente impossível, sem uma inspeção visual, saber.

—   Tang está atrás de Sokolov?

Wen assentiu.

—   Com todos os esforços que pôde reunir.

Ni teria de verificar tudo que ficara sabendo antes de se converter.

—   Onde o lampião está escondido?

Dentro do Museu Dries Van Egmond, na Antuérpia. Guarda uma coleção particular de arte e móveis dos séculos XVII e XVIII. Cas­siopeia Vitt escondeu o lampião em um budoar no terceiro andar, deco­rado em estilo chinês, com algumas peças comuns de porcelana Ming. Eu mesmo já fui lá visitar. Talvez ela tenha achado que fosse passar despercebido, pelo menos por alguns dias. Ou, se fosse notado, os fun­cionários do museu fossem guardá-lo. Não foi uma decisão ruim, le­vando em consideração as poucas opções que ela tinha.

O fato de Pau estar lhe contando a localização parecia uma confir­mação de que ele estava finalmente sendo sincero.

—   Devo ir.

—   Antes que vá — disse Pau —, tenho mais uma coisa para lhe mostrar.

Ni acompanhou o anfitrião para dentro da casa, seguindo um lon­go corredor até uma porta laqueada preta. Do outro lado, uma escada de madeira subia por dentro de uma torre retangular. Uma porta apa­recia no topo da escadaria. Depois dela, o sol do final da tarde brilhava, seu calor entrando através de janelas nas quatro paredes.

—   Fique aqui — disse Pau. — Bem na porta. Assim não será visto por quem está lá fora.

Ni questionou o subterfúgio.

—   Se você olhar por esse canto — disse Pau —, terá uma excelente visão da entrada da frente. Depois dele, na estrada, verá um veícu­lo estacionado no bosque, a 1 quilômetro, mais ou menos, da entrada principal.

Ni seguiu as instruções, apertando os olhos por causa do brilho do sol e enxergando o carro, pouco visível entre as árvores.

—   Pessoas descuidadas — disse Wen, atrás dele. — Trabalham para Tang. Eles vigiam a casa. Não é sempre. Eles vêm e vão. Mas têm estado aqui bastante nos últimos dois dias.

—   Foi por isso que desconfiou que Tang viria atrás do lampião?

—   Parecia lógico.

Nas sombras distantes, ele viu outro carro estacionar ao lado do primeiro. Dois homens saíram de cada carro, armados com rifles. O medo subiu pela sua espinha.

Os homens foram andando na direção dos muros cinzentos, diri­gindo-se para o portão da frente.

—   Isso é um tanto inesperado — disse Pau calmamente. Homens com armas aproximavam-se e tudo que esse homem dizia era inesperado.

Ni estava preocupado. Muito.

 

Malone avaliou as informações surpreendentes que Stephanie estava lhe dando.

—   O Ocidente — disse ela — acredita que o petróleo é um combus­tível fóssil. Você se lembra, quando na década de 1960, todos os postos de gasolina Sinclair exibiam sua logomarca, que era um dinossauro? Havia comerciais de TV com dinossauros morrendo, decompondo-se e virando petróleo. Pergunte a dez pessoas de onde o petróleo vem e todas elas vão responder que vem de dinossauros mortos.

Ele se lembrava daqueles comerciais e tinha de admitir que ele também tinha sido doutrinado. O petróleo era um combustível fóssil, um recurso finito.

—   Imagine, Cotton, se o petróleo for infinito. Se a terra o produzir continuamente, como um recurso renovável. Os russos acreditam nisso há muito tempo.

—   Stephanie, o que isso tem a ver com Cassiopeia?

O ar do final de tarde esfriara. Ivan logo voltaria, e todos eles via­jariam para a Antuérpia. Precisava entender o problema antes disso.

—   Já ouviu falar da base Dniepr-Donetsk no leste da Ucrânia?

Ele balançou a cabeça.

—   Na década de 1950, a área deixou de ser um lugar com possi­bilidade de perfuração. Sem potencial para produção de petróleo foi a con­clusão da equipe de pesquisadores. Sabemos disso porque um ameri­cano que trabalha perfurando poços, J. F. Kenney, fazia parte da equipe que examinou o local com os russos. Nenhuma rocha reservatório foi encontrada lá. — Ela fez uma pausa. — Hoje a base contém mais de 400 milhões de barris em reservas comprovadas, descobertas bem no fundo. O homem que determinou isso foi Lev Sokolov. Ele era um es­pecialista russo na teoria do petróleo abiótico.

—   Como podemos ter certeza de que a equipe da década de 1950 não estava errada e havia petróleo lá o tempo todo?

—   Aconteceu de novo. Na Península Kola, no norte da Rússia. Ou­tro lugar que não tinha a menor perspectiva de produção, segundo a teoria de combustível fóssil. Ainda assim, os russos perfuraram 11 qui­lômetros para baixo e encontraram gás metano. Ninguém acreditava que pudesse ser encontrado metano naquela profundidade em rocha de granito. A teoria do combustível fóssil não sustentava essa desco­berta, mas o gás estava exatamente onde Sokolov previra.

—   E agora Washington finalmente está interessado em tudo isso?

—   Violentamente. Isso poderia mudar o equilíbrio mundial de po­der, o que explica por que Karl Tang está tão interessado. Ivan está certo. Tang é uma ameaça a todos nós. Se ele assumir o controle da Chi­na, a desestabilização em toda a região, e até no mundo, será enorme Principalmente se ele tiver petróleo ilimitado à sua disposição.

—   O Presidente Daniels quer que Tang seja detido?

—   Na verdade, Cotton, nós o queremos morto.

Ele compreendia a enormidade da afirmação. Os Estados Unidos não assassinavam pessoas oficialmente.

Mas acontecia.

—   E vocês esperam que os russos façam o serviço?

Ela deu de ombros.

—   O suficiente para eu ter me intrometido nos negócios deles. Ivan não ficou nem um pouco feliz em me ver. O suficiente para Sokolov estar vivo, ele não queria que nós nos envolvêssemos.

—   Como ele ficou sabendo de mim?

—   Por aqueles dois mensageiros, acho. Quando a mulher levou o bilhete até a sua livraria, os homens dele estavam vigiando.

Ela não contara uma parte da história.

—   E onde você estava?

—   Vigiando também. Ele só me informou sobre o seu encontro no Tivoli quando você já estava a caminho.

—   Então, você já sabia algumas coisas que Ivan contou lá no café?

Ela assentiu.

—   Sabia. Achei que fôssemos conversar.

—   O que você sabia sobre Cassiopeia?

—   Não fazia a menor idéia de que ela estava sendo torturada.

Ele acreditou nela.

—   Fizemos as contas, Cotton. Se Tang tornar-se primeiro-ministro, ele vai desfazer cinqüenta anos de diplomacia. Ele acha que a China foi maltratada por todos e quer uma retribuição. Ele vai assegurar o do­mínio da China de todas as formas que puder. Neste momento, mante­mos a China na linha graças à sua dependência de energia estrangeira. Mantemos uma reserva de petróleo de sessenta dias, e o Japão de cem. A China não tem nem dez. Um bloqueio naval poderia facilmente levar o país à submissão. Oitenta por cento do petróleo que a China importa passa pelo Estreito de Ormuz e de Malaca. Eles ficam bem longe da China e nós controlamos ambos.

—   Então eles se comportam, pois sabem o que poderíamos fazer?

—   Mais ou menos isso, embora a ameaça nunca seja colocada em palavras. Ruim, quando estamos lidando com a China. Eles não gos­tam de lembretes de suas fraquezas.

Malone estava feliz por não ser diplomata.

—   Se Tang tiver petróleo ilimitado à sua disposição — disse ela — perderemos a pouca influência que temos. A China praticamente con­trola o mercado de moedas atualmente e é nosso credor número um. Embora nós não gostemos de admitir, precisamos da China. Se os poços de petróleo chineses forem infinitos, eles serão capazes de expandir a economia deles à vontade, forçar quaisquer políticas que queiram, sem a menor preocupação com o que os outros se importam ou pensam.

—   O que está deixando a Rússia nervosa.

—   O suficiente para afastarem Tang.

Ok, ele estava convencido. Isso era sério.

—   Sei que pode achar que sou uma tola. Mas acredite em mim, já fiz minhas apostas. Não estou contando cem por cento com Ivan. Ainda assim...

—   Precisa de mais ajuda.

—   Mais ou menos isso.

—   Suponho que isso signifique que temos de encontrar Sokolov antes de Ivan. E Cassiopeia parece o caminho mais rápido.

Ela assentiu.

—   Vamos entrar no jogo dos russos e encontrar Cassiopeia. Se Ivan conseguir deter Tang enquanto isso, será bom para nós. Se não, preci­sarei da sua ajuda para esconder Sokolov deles.

Ele conhecia as regras. Mesmo se Tang vencesse e conseguisse o controle da China, se Sokolov estivesse no Ocidente, uma moeda de barganha seria substituída pela outra.

—   Só espero que Cassiopeia agüente firme até chegarmos lá.

 

Tang olhou pela janela enquanto o helicóptero subia pelo céu noturno. Viu luzes bruxuleando, vindo da Cova 3, e soube que o que restava dos manuscritos escondidos de Qin Shi estava queimando. Só seriam necessários alguns momentos para acabar com todas as sedas e transformar bambu em cinzas. Quando algum alarme soasse, não te­ria sobrado mais nada. A causa? Curto-circuito. Fios defeituosos. Trans­formador ruim. Qualquer coisa. Nada levaria a crer que o incêndio foi intencional. Outro problema resolvido. Mais do passado erradicado.

O que estava acontecendo na Bélgica agora o preocupava.

O copiloto chamou sua atenção e apontou para um fone de ouvi­dos. Tang colocou-o.

—   Uma ligação para o senhor, ministro.

Ele esperou, então escutou uma voz familiar.

—   Tudo correu bem.

Viktor Tomas ligando da Bélgica. Já estava na hora.

—   Vitt está a caminho? — perguntou Tang.

—   Ela fugiu, exatamente como previ. Mas ela conseguiu me apa­gar antes de sair. Minha cabeça está doendo.

—   Mas você consegue rastreá-la?

—   Contanto que ela fique com aquela arma. Até agora o sinal está funcionando.

—   Muito bem pensado. Ela ficou feliz em vê-los?

—   Não muito.

—   Você precisa saber que Pau Wen está recebendo uma visita en­quanto nos falamos. Ordenei um ataque.

—   Achei que eu estivesse no controle aqui.

—   O que lhe deu essa impressão?

—   Não posso garantir sucesso se o senhor me neutraliza. Eu estou aqui, o senhor não.

—   Ordenei um ataque. Discussão encerrada.

Um momento de silêncio se passou, então Viktor disse:

—   Estou indo atrás de Vitt. Entrarei em contato quando tiver no­vidade.

—   Quando estiver com o lampião...

—   Não se preocupe — disse Viktor. — Eu sei. Vitt não sairá viva. farei isso do meu jeito. Pode ser?

—   Como disse, você está aí, eu estou aqui. Faça do seu jeito.

 

Cassiopeia passou a primeira marcha, soltou a embreagem e desceu a estrada com o Toyota. Mais dois movimentos e passou a ter­ceira. Não sabia bem para onde estava indo, apenas que era para longe de Viktor Tomas.

Será que ele realmente achou que ela o levaria junto?

Olhou pelo espelho retrovisor. Nenhum carro à vista. Uma paisa­gem sem árvores estendia-se pelos dois lados da estrada, e os únicos elementos que quebravam a monotonia verde eram o gado pastando e torres de igrejas bem distantes. Já determinara que estava em algum lugar na região centro-norte da Bélgica, já que seus vales cheios de ár­vores e planaltos ficavam confinados na parte sul do país. Perto da fronteira com a Alemanha, ela sabia que havia pântanos, e nada disso era visível dali. Nem o oceano, que era a fronteira do extremo norte.

Passou a quarta marcha, ainda observando à sua volta, e olhou para o relógio digital: 17h20. O marcador de combustível mostrava que havia três quartos de gasolina no tanque.

Muito conveniente.

Viktor mandou o guarda à sua cela sabendo que ela o dominaria, depois esperou, fingindo dar um telefonema, ela confrontá-lo.

Ela se lembrou da Ásia Central, da última vez que Viktor estava, supostamente, ao seu lado.

— De jeito nenhum — disse ela.

Colocou o pé no freio.

O Toyota foi diminuindo a velocidade até parar. Viktor desempe­nhara um papel, mudando de lados a cada hora — com os asiáticos, de­pois com os americanos e, então, com os asiáticos de novo. E verdade, ele acabara do seu lado e ajudara, ainda assim — e agora?

Viktor queria que ela pegasse o carro.

Ok, ela o pegou, mas não estava indo para onde ele acreditava que ela ia. O Museu Dries Van Egmond na Antuérpia certamente estaria fe­chado para o dia. Teria de esperar escurecer para recuperar o lampião.

E ela não podia levar Viktor até lá.

Passou a primeira e voltou para a estrada. Dois quilômetros de­pois, viu uma bifurcação, na qual uma placa dizia que a Antuérpia fi­cava 20 quilômetros a oeste.

Acelerou nessa direção.

Ni desceu a escada e seguiu um surpreendentemente ágil Pau Wen até o pátio, onde o anfitrião bateu palmas três vezes. Uma porta abriu-se e quatro jovens chineses apareceram, todos usando macacão cinza de paraquedista e tênis pretos.

Reconheceu um dos homens imediatamente.

Do vídeo.

— Sim, ministro — disse Pau —, ele trabalha para mim.

Os compatriotas andaram com passos firmes de atletas, parando na frente de Pau em uma fila, os olhares fixos e insensíveis, rostos imóveis.

—   Quatro homens armados estão se aproximando pelo portão da frente. Vocês sabem o que fazer.

Eles concordaram em uníssono e deixaram o pátio.

—   Achei que morasse sozinho — disse Ni.

—   Eu não disse isso.

Ele segurou o braço de Wen.

—   Estou cansado das suas mentiras. Não sou alguém com quem o senhor deva brincar.

Pau claramente não gostou do gesto.

—   Tenho certeza de que não. Mas enquanto o senhor está aqui de­monstrando a sua força, quatro homens armados estão se aproximando da casa. Já considerou a hipótese de que o senhor pode ser o alvo deles?

Ni soltou o braço do velho.

Não, não tinha pensado nisso.

Pau acenou e eles voltaram para dentro da casa, encontrando uma pequena antessala, decorada apenas com um tapete oval vermelho e duas estantes laqueadas pretas. Dentro delas, penduradas em hastes de prata, havia diversas pistolas.

—   Escolha uma, ministro — disse Pau.

Ele pegou uma Glock.

—   O pente está cheio — informou Pau. — Tem mais munição na gaveta.

Ni verificou sua arma para certificar-se, depois pegou mais três pentes.

Era bom ter uma arma na mão.

Pau apertou seu ombro.

—   Vamos mostrar para Karl Tang que a luta que está por vir não será fácil.

 

Cassiopeia estava nos arredores da Antuérpia. Conhecia a cidade, já tendo visitado várias vezes. O rio Escalda corria por um lado, e os outros três lados eram protegidos por uma série de bulevares cujos nomes lembravam as forças Aliadas que lutaram pela liberdade de Flandres na Primeira Guerra Mundial. Seu centro histórico abria-se como um leque em volta da catedral, da prefeitura renascentista e de um castelo. Não era um parque temático medieval abarrotado de turis­tas, mas uma cidade próspera cheia de lembranças de quando era um dos lugares mais influentes do continente europeu.

Encontrou a estação de trem central, uma mistura de mármore, vidro e ferro batido, e estacionou a uma quadra dali, em um local com uma placa de proibido. Se Viktor a estivesse rastreando pelo carro, a trilha acabaria ali. Esperava que a polícia da cidade o rebocasse logo dali.

Enfiou a arma na cintura, deixando a camisa escondê-la. Seu corpo e sua mente estavam no limite. Precisava dormir. Mas também preci­sava livrar-se de Karl Tang, pelo menos até estar pronta para negociar.

Atravessou a rua e passou embaixo de várias árvores floridas, na direção do zoológico da Antuérpia. Entre a estação de trem da cidade e o museu de história natural, estendia-se um parque cheio de folha­gem. Um local calmo, principalmente agora que o zoológico já estava fechado para o dia. Encontrou um banco de onde conseguia ver o carro estacionado a uns 200 metros, e com o tronco de uma árvore atrás.

Deitou no banco, a arma em cima do seu umbigo, embaixo da blusa.

Ainda faltavam, pelo menos, umas três horas para escurecer.

Descansaria enquanto isso.

E faria vigília.

 

Província Gansu, China Quarta-feira, 16 de maio

2h10

Tang saiu do carro e avaliou o bem iluminado sítio. O equipamento portátil suportava um guindaste vermelho e branco que se le­vantava 40 metros. Quando ele requisitara o equipamento ao ministro do petróleo, ele sabia que seria exigida pelo menos uma fábrica com potência mecânica de 600 CV, equipada com circulação interna e sis­tema de resfriamento de água, classificada para perfurações de pelo menos 3 mil metros. Discretamente, ele despachara o equipamento apropriado por terra para Gansu, onde já trabalhara no governo da província. Segundo a lenda, essa região era a terra natal de Fú Xi, o patriarca mítico de todos os chineses, e algumas escavações recentes confirmaram que pessoas realmente tinham vivido ali mais de 10 mil anos atrás.

Ele dormira durante o vôo de noventa minutos, preparando-se para o que estava por vir. As 48 horas seguintes seriam críticas. Cada passo tinha de ser dado sem erros, cada oportunidade, maximizada.

Escutou o ruído das turbinas de diesel, geradores elétricos e bom­bas de circulação. Gansu era um baú do tesouro de recursos naturais, cheio de carvão, ferro, cobre e fósforo. Seus ancestrais também sabiam disso. Os registros, alguns dos quais sobreviveram e ele acabara de ver na câmara recém-aberta da Cova 3, mostravam longos inventários de minerais e metais preciosos. Tang ordenara esta exploração em particu­lar em busca de um desses recursos: petróleo.

O solo no qual estava pisando já suportava uma das maiores fon­tes da China. Infelizmente, os poços de Gansu secaram havia mais de duzentos anos.

O superintendente do sítio aproximou-se, um homem com rosto fino, testa alta e cabelos pretos puxados para trás. Ele trabalhava di­retamente para o Ministério da Ciência, e fora enviado para ali por Tang, junto com uma equipe de confiança. O governador de Gansu questionou a atividade não autorizada, mas simplesmente recebeu a informação de que o ministro estava explorando e, se tudo corresse bem, os resultados trariam benefícios econômicos.

O que era verdade.

Só que mais para ele do que para o governador.

— Que bom que o senhor estava por perto — gritou o superinten­dente por causa do barulho. — Acho que eu não teria conseguido con­ter isso por mais tempo. — Um sorriso apareceu nos lábios do homem. — Nós conseguimos.

Tang sabia o que essa afirmação significava.

Este sítio fora especificamente selecionado 11 meses atrás, não por geólogos, mas por historiadores. Uma área tinha sido aberta e nive­lada, depois uma estrada de acesso fora aberta na floresta. Um mapa de 2.200 anos, descoberto no noroeste de Gansu, fora a fonte. O mapa, feito em quatro placas de pinheiro idênticas, representava a divisão ad­ministrativa, geográfica e econômica da região na época de Qin Shi. Oi­tenta e dois foram indicados com nome, além de rios, florestas e montanhas. Um desses rios ainda corria a 500 metros dali. Até as distâncias das estradas imperiais estavam claramente especificadas. Na falta das coordenadas de latitude e longitude, transpor esses locais para a reali­dade provou-se uma tarefa difícil, mas bem-sucedida.

Foi Jin Zhao quem conseguiu.

Antes de ele ser preso, antes da hemorragia, antes do julgamento, da condenação e da execução, Zhao encontrou este sítio.

—   Atingimos a profundidade três dias atrás — relatou o superin­tendente. — Esperei para comunicar-lhe até ter certeza. — Tang viu o sorriso no rosto do homem. — O senhor estava certo.

—   Mostre-me.

Ele foi levado a uma plataforma de perfuração, onde trabalhadores estavam ocupados. Tang mantivera a equipe pequena de propósito.

—   Atingimos a camada de areia betuminosa há cinco dias — disse o superintendente, apesar do intenso barulho.

Ele sabia o que isso significava. Quando o lodo retirado revela areia betuminosa significa que o petróleo não está longe.

—   Baixamos sensores pelos buracos. Verificamos as pressões e ex­traímos amostras. Tudo parecia bem. Então, começamos a selar.

Tang sabia o que havia sido feito depois. Pequenos detonadores foram baixados até alguns buracos com cargas de explosivos. Depois tubos foram colocados através dos buracos e qualquer vazamento foi selado. No topo dos tubos, inúmeras válvulas foram cimentadas no lu­gar. Petróleo jorrando de um poço era a última coisa que eles queriam. "Dominar o petróleo cru" com um fluxo calculado era muito melhor.

—   Estávamos bombeando ácido desde ontem — disse o superin­tendente. — Paramos algumas horas atrás para esperar a sua chegada.

O ácido era usado para dissolver os últimos centímetros restantes de calcário entre o poço selado e o petróleo. Uma vez que não houvesse mais calcário, o petróleo pressurizado subiria e seria controlado pelas válvulas.

—   Infelizmente, parei o ácido um pouco tarde demais. Uma hora atrás, aconteceu isto.

Ele observou o superintendente abrir uma válvula e petróleo cru cair em um barril.

Na mesma hora, Tang percebeu a pressão.

—   É forte.

O homem assentiu.

—   Tem muito petróleo lá embaixo. Ainda mais para um campo que ficou seco por duzentos anos.

Tang afastou-se do buraco, permanecendo embaixo do guindaste vermelho e branco. Começou a pensar mais como um cientista, menos como um político, considerando as implicações.

Inacreditável.

Jin Zhao estava certo.

 

Bélgica

Ni segurou a Glock e avançou para a frente da casa. Entrou no hall, as paredes de tijolo cinzento, que parecia bambu artificial, co­bria uma seção. Estava a poucos passos da entrada principal, onde ha­via uma fonte de pedra. Uma visão clara das portas de carvalho era bloqueada por uma tela de seda verde. Não via os quatro empregados de Pau desde que eles desapareceram do pátio. Pau lhe dissera para cobrir a entrada principal e também sumira.

Escutou quatro ra-tá-tás do lado de fora.

Tiros.

Não estava nada interessado em juntar-se à confusão, mas as pa­lavras de Pau ecoavam em sua mente. Já considerou a hipótese de que o senhor pode ser o alvo deles?

Mais tiros. Mais perto agora.

Fixou o olhar na porta.

Balas bateram na grossa madeira pelo lado de fora, depois atraves­saram-na, atingindo as paredes e o chão. Mergulhou para se proteger atrás de uma viga polida que mantinha o telhado em pé.

As portas da frente se abriram.

Dois homens entraram com rifles automáticos.

Agachou-se em uma postura defensiva, mirou e mandou uma sé­rie de tiros na direção deles.

Os homens se dispersaram.

Estava a uns 2 metros acima deles, mas eles carregavam rifles pe­sados, e Ni tinha apenas uma pistola.

Onde estava Pau Wen? E seus homens?

Tiros de automática começaram a jorrar, atingindo a viga que o protegia. Decidiu que devia se retirar, então foi para o interior da casa.

Passou por um armário de madeira alto, que lhe ofereceu proteção momentânea.

Uma bala passou bem perto de sua orelha.

Luz do sol vindo de uma clarabóia iluminava o hall, mas não havia como chegar à abertura, que tinha pelo menos 10 metros de altura. À sua direita, ao passar por portas de treliça vaivém, muitas abertas, ele espiou o movimento em um pátio. Outro homem carregando um rifle, e não estava usando macacão cinza de paraquedista.

Suas opções estavam diminuindo rapidamente. Parecia que esses quatro estavam atrás dele, e não de Pau. Olhou para o pátio e viu o brilho do metal enquanto um atirador mirava através das portas de treliça. Deitou-se no chão, rastejando pela madeira encerada, enquanto balas atravessavam ripas de madeira e abriam caminho a menos de 1 metro acima dele.

Sua mente latejava.

Embora tivesse uma carreira militar, nunca tinha estado sob fogo. Muito treinamento, mas a total confusão desta situação massacrava qualquer reação ensaiada que pudesse ter.

Isto era uma loucura.

Rolou duas vezes até uma pesada poltrona de madeira e virou-a para que sua parte mais grossa lhe oferecesse cobertura.

Viu uma sombra. O homem do pátio estava avançando.

Ajoelhou-se e atirou pela treliça.

Seu corpo parecia de pedra.

Na mesma hora, mais balas vieram em resposta.

Os dois que estavam na porta da frente entraram.

Atirou duas vezes na direção deles e jogou-se pelas portas de treli­ça, atravessando-as, os braços afastando a madeira enquanto os olhos procuravam mais perigos.

O pátio estava vazio.

O homem com o rifle automático estava deitado no chão, atingido não por duas balas, mas por uma flecha que saía de sua espinha.

Ni escutou movimento atrás de si e sabia o que estava se aproxi­mando, então procurou cobertura atrás de uma jardineira de pedra. Mais balas atravessaram o pátio, algumas encontrando o enorme aquá­rio de vidro — que se estraçalhou formando uma cascata de água e peixe.

Conhecia pouco o resto da casa, exceto a sala de exposição, cuja porta estava a 10 metros de distância. Se conseguisse chegar lá, talvez conseguisse fugir por uma das janelas.

Mas qualquer esperança de salvação desfez-se quando um homem apareceu, apontando uma arma diretamente para ele.

Com dois na casa e um morto a poucos metros, sabia agora onde estavam todos os invasores.

— Levante-se — mandou o homem, em chinês. — Deixe a arma no chão.

Os outros dois saíram de dentro da casa.

Soltou a arma e levantou-se.

Os peixes dourados debatiam-se em desespero pelo piso molhado. Ni compreendia o terror deles. Sua respiração também estava ofegante.

Avaliou os três, todos chineses, magros e fortes. Matadores de alu­guel. Ele mesmo empregava milhares como esses por toda a China.

—   Já mataram Pau Wen? — perguntou Ni.

—   Você primeiro — disse o homem, balançando a cabeça.

Dois silvos antecederam o ruído de flechas atravessando carne. Dois dos homens começaram a perceber que lanças com penas pen­duradas na extremidade tinham atingido seus peitorais. Antes que pu­dessem inspirar de novo, seus corpos desmoronaram no chão, as armas caindo.

Três homens usando macacões cinza de paraquedista materializa­ram-se das laterais do pátio, cada um segurando um arco com a corda esticada, uma flecha no fio, pronta para ser disparada, mirando o últi­mo intruso.

—   Você pode até conseguir atirar em um, dois, ou talvez três de nós — disse a voz de Pau, que não aparecia. — Mas não vai conseguir deter todos nós.

O homem pareceu considerar suas opções, resolveu que não que­ria morrer e abaixou o rifle.

Wen e o quarto homem saíram da sala de exposição. Dois dos ho­mens de Wen controlaram o último intruso, levando-o embora sob a mira da flecha.

—   Você estava planejando deixar que me matassem? — gritou Ni para Pau.

—   Toda armadilha precisa de uma isca, ministro.

Ni estava furioso e levantou a arma, mas Pau simplesmente ig­norou-o e saiu. Os outros dois homens abaixaram seus arcos e rapida­mente juntaram os peixes que estavam espalhados pelo chão, desapa­recendo dentro da casa.

—   Eu criava esses peixes desde que nasceram — disse Pau. — Es­pero que não morram por causa do choque.

Ni não podia importar-se menos.

—   O senhor já se deu conta do que acabou de acontecer? Aqueles homens vieram aqui para me matar.

—   Essa foi exatamente a hipótese que eu levantei antes de eles che­garem. Aparentemente, Tang mandou-os para eliminar nós dois.

O ministro sentia o gosto acre de adrenalina na boca. Seu coração estava disparado.

—   Preciso voltar para casa.

—   E o lampião? — perguntou Pau. — Achei que o senhor o qui­sesse.

—   Não é tão importante quanto o que espera lá.

—   Não tenha tanta certeza. Acho que as respostas que o senhor procura estão aqui, e eu sei exatamente como obtê-las.

 

Província Gansu, China

3H20

Tang estava sentado sozinho. Seu helicóptero fora levado para ser abastecido em um aeroporto a 50 quilômetros ao sul. Preci­saria do tanque cheio, pronto para voar em quatro horas. Quando iria cuidar de Lev Sokolov.

As construções portáteis usadas pela equipe de perfuração como acomodação para dormir ficavam a 1 quilômetro do guindaste, e o su­perintendente oferecera seu trailer. O cômodo era arrumado, a chapa elétrica e a geladeira estavam limpas, alguns pratos de plástico esta­vam empilhados ao lado do forno de micro-ondas. Suas acomodações não costumavam ser assim, mas era perfeito para as próximas horas. Não estava com sono, já que o cochilo no vôo vindo do museu fora restaurador. Agradeceu a solidão e refletiu sobre o fato de que tudo à sua volta um dia fizera parte do próspero Primeiro Império de Qin Shi.

Incrível o que tinham alcançado tanto tempo atrás.

Seus ancestrais tinham inventado o guarda-chuva, o sismógrafo, a roda de fiar, a porcelana, o motor a vapor, pipas, cartas de baralho, molinetes, até uísque.

Mas sal.

Esse foi o mais incrível salto de todos.

Cinco mil anos atrás, os moradores da costa ferviam a água do mar para produzir sal. Mas conforme eles foram entrando cada vez mais pelo continente, o sal, importante como complemento alimentar e pre­servativo, essencial para a sobrevivência deles, tornou-se mais difícil de ser encontrado. E transportá-lo por centenas de milhares de quilô­metros provou-se uma tarefa assustadora. Teriam de encontrar outra fonte, e a descoberta de aqüíferos — lugares de água subterrânea sal­gada — resolveu o problema.

A primeira descoberta registrada aconteceu na época do Primeiro Imperador, não muito longe de onde Tang estava agora. No início, os poços eram rasos, cavados à mão, mas exploração mais profunda levou à invenção da perfuração.

As primeiras brocas foram forjadas em ferro pesado, os canos eram feitos com bambu. Um ou mais homens ficavam de pé em uma pran­cha de madeira, projetada na forma de uma gangorra, que levantava a broca a mais ou menos 1 metro do solo. Quando caía, a broca pulveri­zava o solo rochoso. Centímetro a centímetro, repetia-se esse processo. Mais tarde, historiadores levantaram a teoria de que a idéia surgiu da prática de socar o arroz para transformá-lo em farinha.

A técnica acabou tornando-se altamente sofisticada, diversos pro­blemas ainda comuns na perfuração — desmoronamentos, ferramen­tas perdidas, poços desviados, retirada de escombros — foram aper­feiçoados. Poços de 100 metros tornaram-se comuns na época de Qin Shi. Tecnologia comparável só foi vista em outro lugar mais de 2 mil anos depois. Por volta de 1000 d.C., poços de 400 metros eram rotina, e enquanto as furadeiras americanas mal atingiam 500 metros no século XIX, as chinesas exploravam abaixo de 1.000 metros.

Esses primeiros inovadores, que buscaram poços de água salgada, também fizeram outra descoberta.

Uma emissão altamente combustível, sem cheiro.

Gás natural.

Eles descobriram que ele podia ser queimado, produzindo uma fon­te de energia quente e limpa que dissolvia a água salgada e revelava o sal.

E eles também encontraram petróleo.

Uma matéria lamacenta — gordurosa e pegajosa, como caldo de carne, descreveu um observador — que borbulha de poços mais profundos. No começo, essa lama preto-esverdeada era um mistério, mas eles logo descobriram que ela também podia ser queimada, produzindo uma chama brilhante de longa duração. E também conseguia fazer os eixos de seus vagões virarem-se mais rapidamente. O petróleo tornou-se a substância dos imperadores, acendendo os lampiões de seus palácios e iluminando suas tumbas — fornecendo até uma arma poderosa para devastar um inimigo.

Tang maravilhava-se com as conquistas.

Enquanto inventavam os mecanismos de perfuração, ele sabia que eles também tinham descoberto os melhores lugares de se perfurar, criando a ciência da geologia. Eles tornaram-se especialistas em locali­zar crostas de sal em superfícies rochosas e detectar o cheiro pungente de água salgada escondida. Eles descobriram que arenito amarelo leva­va à água salgada rica em cloreto férrico, enquanto arenito preto levava a poços carregados de sulfato de hidrogênio. Claro, eles não conheciam as composições químicas, mas determinaram como reconhecer de for­ma eficiente e usar esses compostos.

Seu ministério tinha estudado detalhadamente a história da per­furação chinesa em busca de água salgada. Havia até um museu em Zigong que contava a história. Inacreditavelmente, nos dois últimos milênios, quase 130 mil poços foram perfurados, algumas centenas na época do Primeiro Imperador.

Um deles em particular afundava-se a 250 metros.

— Como você sabe disso? — Ele exigiu saber de Jin Zhao.

O irritante geoquímico se recusara a cooperar, então ele finalmente man­dara que Zhao fosse preso.

—   Ministro, eu não sei de nada. É tudo teoria.

Já escutara essa explicação antes.

—   É mais do que teoria. Diga-me.

Mas o prisioneiro recusava-se.

Fez um gesto e o soldado que estava a alguns metros de distância avançou sobre Zhao, arrancando-o da cadeira e dando dois socos em seu estômago. Es­cutou quando o velho não conseguiu respirar. Zhao caiu de joelhos, os braços envolvendo o abdome.

Um leve aceno mostrou que dois socos eram suficientes.

Zhao esforçava-se para respirar.

—   Só vai piorar — disse ele. — Diga-me.

Zhao acalmou-se.

—   Não me bata mais. Por favor.

—   Diga o que quero saber.

Investigara toda a vida de Jin Zhao e sabia que ele não era membro do Par­tido, não estava associado a nenhuma atividade do Partido, e às vezes falava deforma depreciadora do governo. Seu nome aparecia com freqüência na lista local de suspeitos, e ele já havia sido avisado diversas vezes para acabar com qualquer atividade dissidente. Tang agira como seu protetor mais de uma vez, evitando sua prisão, mas a condição para isso era a cooperação.

Zhao conseguiu levantar-se.

—   Não vou lhe dizer nada.

O soldado acertou um soco no maxilar de Zhao. Outro no peito. E um terceiro esmagou o crânio do homem.

Zhao caiu.

Sangue escorria de sua boca semiaberta.

Dois dentes caíram.

Um chute no estômago e Zhao retraiu-se na posição fetal, braços e pernas grudados ao corpo.

Poucos minutos depois, Jin Zhao entrou em um estado de incons- ciência do qual nunca despertou. Uma hemorragia cerebral protegeu tudo que ele sabia, mas uma busca em sua casa e em seu escritório re­velou documentos suficientes para Tang saber que bem ali, 2.200 anos atrás, homens haviam perfurado o local em busca de água salgada e encontraram petróleo. E enquanto Jin Zhao estava deitado no chão, im­plorando ajuda, gritando que sua cabeça estava explodindo de dor...

—   Responda só uma pergunta — disse Tang. — Uma coisa simples e chamo o médico. Você vai receber cuidados. Não vai apanhar mais.

Viu a esperança da verdade nos olhos do homem.

—   Lev Sokolov encontrou o local?

Zhao assentiu que sim.

Primeiro devagar, depois mais rápido.

 

Antuérpia

21H05

Cassiopeia desceu a rua correndo, A procura de um lugar para se Esconder. Três homens estavam atrás dela desde que saíra do hotel. O lampião de dragão estava em sua mão esquerda. Carregava-o com cuidado, dentro de um saco plástico, envolvido por plástico bolha.

Prédios de tijolo vermelho e casas brancas cercavam-na, protegendo uma confusão de ruas de pedra vazias. Passou por uma praça tranqüila, os três homens 50 metros atrás. Não havia mais ninguém em seu campo de visão. Não podia per­mitir que eles pegassem o lampião. Perdê-lo significava perder o filho de Sokolov.

—   Aqui — ela escutou uma voz dizer.

Do outro lado da rua, estava Cotton Malone.

—   Recebi seu recado — disse Malone. — Estou aqui.

Ele estava acenando para ela se aproximar.

Ela correu, mas quando chegou à esquina, ele não estava mais lá. Os três homens mantiveram o passo.

—   Aqui.

Ela olhou para uma travessa estreita. Malone estava a 50 metros de dis­tância, ainda acenando para ela se aproximar.

—   Cassiopeia, você está cometendo um erro.

Ela se virou.

Henrik Thorvaldsen apareceu.

—   Você não pode ajudá-lo.

—   Estou com o lampião.

—   Não confie nele — disse o dinamarquês, e então desapareceu. Seus olhos procuraram pelas ruas e edifícios. Os três homens não tinham, chegado mais perto e Malone ainda acenava para ela se aproximar.

Ela correu.

Cassiopeia acordou.

Estava deitada no banco da praça. A luz do dia havia se apagado, o céu agora parecia desbotado. Estava dormindo havia um tempo. Olhou para trás, além do tronco da árvore. O Toyota continuava estacionado, e não havia nenhum policial ou vagabundo por perto. Afastou o sono de sua mente. Estava mais cansada do que imaginara. A arma conti­nuava embaixo de sua blusa. O sonho alongava-se em sua cabeça.

Não confie nele dissera Henrik Thorvaldsen.

Em Malone?

Ele era a única outra pessoa lá.

Ela estava a meia hora de distância do Museu Dries Van Egmond. O passeio a ajudaria a ter certeza de que não estava sendo seguida. Ten­tou não dar atenção às suas emoções, fazer sua mente parar de questio­nar, mas não conseguia. A aparição de Viktor Tomas a deixara nervosa.

Era a ele que Henrik Thorvaldsen referira-se?

Viu uma fonte de água, caminhou até lá e tomou alguns goles.

Enxugou a boca e se endireitou.

Hora de acabar com isso.

 

Malone saiu do helicóptero NATO em um pequeno aeroporto ao norte da Antuérpia. Ivan seguiu Stephanie pela pista de aterrissa­gem. Stephanie providenciara o voo rápido de Copenhague. Quando eles estavam longe das hélices, o helicóptero voltou para o céu da noite.

Dois carros com motorista esperavam.

—   Serviço Secreto — informou ela. — De Bruxelas.

Ivan falara pouco durante a viagem, apenas jogou conversa fora sobre televisão e filmes. O russo parecia obcecado por entretenimento americano.

—   Tudo bem — disse Malone. — Estamos aqui. Onde está Cassio­peia?

Um terceiro carro aproximou-se vindo do outro lado do terminal, passando por filas de jatinhos luxuosos.

—   Meu pessoal — disse Ivan. — Preciso falar com eles.

O russo gorducho caminhou até o carro, que parou. Dois homens saíram.

Malone chegou mais perto de Stephanie.

—   Ele tem pessoal aqui?

—   Parece que sim.

—   Nós temos alguma inteligência independente nisto? — pergun­tou ele baixinho.

Ela balançou a cabeça.

—   Não temos tempo suficiente. Será amanhã bem cedo, antes que eu consiga qualquer coisa.

—   Então, estamos expostos, como cego em tiroteio.

—   Essa não é a primeira vez.

Era verdade.

Ivan voltou para perto deles, falando enquanto andava:

—   Temos um problema.

—   Por que isso não me surpreende? — perguntou Malone.

—   Vitt está na jogada.

—   Por que isso é um problema? — perguntou Stephanie.

—   Ela fugiu dos seqüestradores.

Malone desconfiou.

—   Como você sabe disso?

Ivan apontou para os dois homens ao lado do carro.

—   Eles estavam vigiando e viram quando tudo aconteceu.

—   Por que não a ajudaram? — Mas ele sabia a resposta. — Você quer que ela nos leve ao lampião.

—   Isto é operação de inteligência — disse Ivan. — Tenho um tra­balho a fazer.

—   Onde ela está?

—   Por perto. Indo para um museu. Dries Van Egmond.

A raiva dele aumentou.

—   Como você sabe disso?

—   Vamos.

—   Não, nós não vamos — disse Malone.

A expressão de Ivan ficou tensa.

—   Eu vou. Sozinho. — Malone deixou claro.

O rosto pálido de Ivan abriu um sorriso.

—   Já tinham me alertado sobre você. Dizem que você é um Cava­leiro Solitário.

—   Então, você sabe que é melhor ficar fora do meu caminho. Vou encontrar Cassiopeia.

Ivan encarou Stephanie.

—   Você assume agora? Acha que vou permitir isso?

—   Olhe — disse Malone, respondendo a ela. — Se eu for sozinho, tenho mais chances de descobrir o que você quer. Vocês aparecem com todos esses capangas e não vão conseguir nada. Cassiopeia é profissio­nal. Ela sabe o que fazer.

Pelo menos era o que ele esperava.

Ivan apontou um dedo para o peito de Malone.

—   Por que eu confiaria em você?

—   Venho me fazendo a mesma pergunta sobre você.

O russo tirou um maço de cigarros do bolso e enfiou um entre os lábios. Encontrou uma caixa de fósforo e o acendeu.

—   Não estou gostando disso.

—   Como se eu me importasse com o que você gosta. Quer que o serviço seja feito. Eu faço.

—   OK — disse Ivan enquanto soltava a fumaça. — Encontre-a. Pe­gue o que queremos. — Ele apontou para o carro. — Eles podem mos­trar o caminho.

—   Cotton — disse Stephanie. — Vou providenciar um pouco de privacidade. A polícia da Antuérpia sabe o que está acontecendo. Só não sabem onde. Preciso garantir a eles que nenhuma propriedade será destruída, que não haverá uma porta ou janela quebrada. Apenas vá lá, pegue-a e saia.

—   Não deve ser um problema.

—   Sei que não devia ser um problema, mas você tem uma reputação.

—   Isso não é Patrimônio Mundial, é? Só destruo esses.

—   Apenas entre e saia, OK?

Ele se virou para Ivan.

—   Assim que eu puder entrar em contato, ligarei para Stephanie. Mas terei de sondar Cassiopeia. Ela pode não querer sócios.

Ivan levantou e apontou um dedo.

—   Ela pode não querer, mas terá sócios, sim. Isso é bem maior do que um garoto de 4 anos.

—   É exatamente por isso que você vai ficar aqui. Se falar essas pa­lavras perto dela, ela some.

Ele não planejava cometer o mesmo erro que cometera em Paris com Henrik Thorvaldsen. Cassiopeia precisava de sua ajuda e ele iria ajudá-la. Incondicional e desprendidamente.

E Ivan podia ir para o inferno.

 

Ni, ainda abalado pelo ataque, assistiu enojado. O quarto homem, capturado por Pau Wen, foi levado para fora da casa, além dos muros cinzentos, até um celeiro que ficava uns 50 metros atrás do terreno, entre árvores grandes. Os quatro assistentes de Pau tiraram as roupas do homem, amarraram seu corpo com uma corda grossa, depois o levantaram no ar, suspenso por um guindaste de madeira em forma de L.

—   Tenho cavalos e bodes — disse Pau. — Usamos o guindaste para armazenar feno na parte de cima do celeiro.

O guindaste levantou 10 metros, até uma porta dupla na altura do telhado. Um dos homens de Pau, o do vídeo, estava parado nesta por­ta. Os outros três homens — todos usando túnicas verdes e sem man­gas — atiçavam as chamas de uma fogueira no térreo, usando troncos secos e feno como combustível. Mesmo a 10 metros de distância o calor era intenso.

—   Precisa ficar quente — disse Pau. — Senão, o esforço seria em vão.

A noite tinha chegado, preta e fria. O homem amarrado pendia perto do cume do guindaste, a boca selada com uma fita adesiva, mas sob a luz bruxuleante, Ni viu horror no rosto do homem.

—   Qual o propósito disso? — perguntou Ni.

—   Precisamos de informações. Perguntamos educadamente, mas ele se recusou a falar.

—   O seu plano é assá-lo?

—   De forma alguma. Isso seria uma barbaridade.

Ni estava tentando permanecer calmo, dizendo a si mesmo que Karl Tang tinha ordenado a sua morte. Conspirações, expurgos, pri­sões, tortura, julgamentos, encarceramentos e até execuções eram co­muns na China.

Mas assassinato político aberto?

Talvez Tang achasse que, como o assassinato ocorreria na Bél­gica, não precisaria dar explicações. A morte repentina de Lin Biao, o escolhido para suceder Mao, em 1971, nunca fora totalmente do­cumentada. Biao supostamente morreu em um acidente de avião na Mongólia enquanto tentava fugir da China, depois de ser acusado de estar envolvido em uma conspiração para derrubar Mao. Mas apenas a versão do governo sobre o que aconteceu foi divulgada. Ninguém sabia onde, como ou quando Lin Biao morrera, apenas que ele tinha falecido.

E ficava repetindo para si mesmo que o homem pendurado pelo guindaste viera ali para matá-lo.

Um dos homens acenou indicando que o fogo estava pronto.

Pau esticou o pescoço e assentiu.

O homem no celeiro rodou o guindaste de forma que não ficasse mais paralelo, e sim perpendicular ao celeiro. Isso fez com que os pés descalços do homem passassem a uns 3 metros das chamas.

—   Não deixem que o fogo toque a carne — instruiu Pau. — Intenso demais. Rápido demais. Contraproducente.

Ni lembrou-se da lição sobre tortura. Este homem velho parecia ser um conhecedor. Mas de tudo que Ni sabia sobre Mao, todos do regime eram mestres da arte. Pau estava imóvel, vestido em uma túnica de gaze branca, assistindo enquanto o homem amarrado lutava contra as cordas.

—   Você vai responder às minhas perguntas? — perguntou Pau.

O homem não esboçou nenhuma reação. Apenas continuou lu­tando.

—   Está vendo, ministro — disse Pau —, o calor é excruciante, mas existe uma coisa bem pior.

Um leve movimento no pulso de Pau e um dos homens jogou o conteúdo de um balde nas chamas. Um assobio, seguido de uma onda de calor, arremessou o pó para cima conforme ele vaporizava, envol­vendo o prisioneiro em uma nuvem abrasadora.

A agitação do homem aumentou muito, seu sofrimento era óbvio.

Ni captou um odor no ar da noite.

—   Pó de pimenta — disse Pau. — A fumaça sozinha causa uma agonia incrível, mas o vapor químico contínuo aumenta a intensidade do calor na pele. Se ele não fechasse os olhos, ficaria cego por muitas horas. O vapor irrita as pupilas.

Pau acenou de novo e outro balde com pó de pimenta foi jogado.

Ni pensou que o prisioneiro não iria suportar aquilo.

—   Não fique com pena dele — disse Pau. — Este homem trabalha para Karl Tang. Seu inimigo. Eu simplesmente quero que ele nos diga tudo o que sabe.

Na verdade, Ni também.

O fogo continuava enfurecido, as chamas certamente começando a chamuscar os pés do homem.

A cabeça do prisioneiro começou a assentir, sinalizando sua ren­dição.

—   Desta vez, não demorou muito. — Pau fez um sinal e o homem no celeiro rodou o guindaste, tirando o corpo do homem de cima das chamas. A fita foi arrancada de sua boca. Um grito agonizante encheu o ar.

—   Ninguém vai escutar — avisou Pau. — Os vizinhos mais próxi­mos ficam a quilômetros de distância. Diga-me o que queremos saber ou volta para lá.

O homem respirou fundo algumas vezes e pareceu acalmar-se.

—   Tang... quer o senhor morto. O ministro Ni também.

—   Conte mais — ordenou Pau.

—   Ele está... indo atrás... do lampião. Enquanto... estamos aqui.

—   E Cassiopeia Vitt?

—   Ela também... está indo atrás do lampião. Deixaram... que ela fugisse. Está sendo... seguida.

—   Viu, ministro — sussurrou Pau baixinho. — É por isso que a tortura resiste há tanto tempo. Funciona. Descobrimos muitas coisas vitais.

A sensação de enjôo que Ni sentia só aumentou. Não havia regras nem limites para a moralidade dele? O que tinha acontecido com a consciência dele?

Pau fez outro gesto, e abaixaram o prisioneiro até o chão. Na mes­ma hora, um dos homens de Pau pegou uma arma e atirou na cabeça do homem amarrado.

Ni permaneceu em silêncio, depois finalmente perguntou:

—   Isso era necessário?

—   O que o senhor queria que eu fizesse? Que o soltasse?

Ni não respondeu.

—   Ministro, como o senhor vai governar a China se não tiver estô­mago para se defender?

Ni não gostou da crítica.

—   Acredito em tribunais, na lei e na justiça.

—   O senhor está prestes a entrar em uma batalha da qual apenas am de vocês sobreviverá. Nem os tribunais, nem as leis ou justiça de­cidirão esse conflito.

—   Eu não sabia que esta seria uma luta até a morte.

—   Karl Tang não deixou isso claro?

Ni acreditava que sim.

—   Tang é cruel. Ele mandou esses homens para acabar com a ba­talha antes mesmo de ela começar. Qual será a sua resposta, ministro?

As últimas horas, nesse lugar prosaico, tinham-no deixado com uma sensação de vulnerabilidade, desafiando tudo que ele achava que sabia sobre si mesmo. Nunca ordenara diretamente a morte de nin­guém — embora tenha prendido muitos que acabaram sendo executa­dos. Pela primeira vez, a enormidade do que ele estava prestes a fazer pesou em seus ombros. Talvez Pau estivesse certo. Governar a China exigia força. E ele se perguntou: conseguiria matar com o mesmo san­gue-frio que Pau Wen demonstrou?

Provavelmente não.

—   E melhor nós irmos — disse Pau. — Não é muito longe daqui.

Ni sabia para onde iam.

Para o Museu Dries Van Egmond.

Antes que fosse tarde demais.

 

Província Gansu, China

Tang abriu a porta do trailer e saiu para a noite sem lua, as estrelas escondidas atrás das nuvens. O ar ali, a centenas de quilôme­tros da cidade mais próxima, era refrescante e limpo. Flexionou as per­nas. Antigas emoções ferviam dentro de si. Estava perto — bem perto — e sabia disso.

Pensou em seu pai e em sua mãe, almas ingênuas que não sabiam nada do mundo além da simples aldeia onde moravam. Viveram cer­cados por árvores e plantações, presos nas encostas de uma montanha. Seu único irmão morrera no Tibete, encurralando os rebeldes. Nin­guém nunca explicou o que aconteceu lá. Seus pais nunca pergunta­riam, e não havia qualquer registro.

Mas isso não importava.

Lute no grupo. Era isso que Mao pregava. Acredite no Partido, con­fie no Estado. O individual não significava nada.

Sua família venerava Mao. Mas seu pai também gostava bastante de Confúcio, assim como o pai dele havia gostado.

Só depois que Tang deixou a aldeia, especialmente escolhido para receber educação secundária e superior, percebeu a drástica contradi­ção. Seu professor de filosofia na faculdade abrira seus olhos.

—   Deixe-me contar-lhe sobre um homem que morava no estado de Song e cultivava sua terra todos os dias. Seu trabalho provia bastante comida para sua família e sua aldeia. No meio do campo, havia um toco de árvore. Um dia, uma lebre, correndo a toda velocidade, bateu no toco, quebrou o pescoço e morreu. Isso foi um tanto fortuito, já que todos gostavam muito de carne. Depois disso, o homem deixou sua plantação e passou a ficar vigiando o toco, na esperança de conseguir outra lebre da mesma maneira. Mas ele nunca mais conseguiu, e sua família e aldeia sofreram com essa negligência. Esse é o defeito do confucianismo. Aqueles que tentam governar o presente com a conduta do passado cometem a mesma tolice.

Ele escutou os ruídos distantes dos geradores do guindaste. Não faltava muito para o amanhecer. Pensou de novo no professor da uni­versidade, aquele que um dia lhe perguntou:

—   O que fará depois que se formar?

—   Pretendo estudar em Pequim e fazer mestrado em geologia.

—   A terra lhe interessa?

—   Sempre me interessou.

—   Você tem espírito e é promissor. Percebi isso nos últimos três anos. Talvez considerasse outra coisa além de seus estudos, algo que tenha a ver com responder às perguntas que me faz constantemente?

Nos dias que se seguiram, ele escutara o professor explicar sobre a distante dinastia Shang, a mais antiga da qual havia provas docu­mentadas, que existiu quase 4 mil anos atrás. Um estado altamente de­senvolvido com sistema de recolhimento de impostos, código penal e exército, que era governado por um autocrata que se intitulava Eu, o homem sozinho e único.

—   Isso foi significativo — dissera o professor. — A primeira vez que te­mos notícia de um único homem assumindo total controle sobre muitos.

A dinastia Zhou sucedeu a Shang e levou o ideal autocrático adian­te, expandindo a autoridade do governante.

—   Dizia-se que toda a terra embaixo do Céu pertencia ao rei e que todas as pessoas nessas terras deviam-lhe obediência.

Mas governar um reino tão grandioso de apenas um lugar provou-se uma tarefa difícil, então os reis Zhou criaram o feudalismo — parentes que recebiam soberania limitada sobre porções do domínio, além de títulos como duque, marquês, conde e barão.

—   Um sistema que o Ocidente só conseguiu criar mil anos depois.

A lealdade ao rei era garantida através do sangue, e não de ju­ramento, mas, com o passar dos anos, os lordes locais começaram a dividir os próprios feudos. Esses vassalos acabaram revoltando-se e eliminando o rei Zhou, rebaixando-o a seu igual.

—   Isso levou ao Período das Primaveras e Outonos, uma guerra caótica de todos contra todos. Em 250 anos, quinhentas guerras foram disputadas entre os estados feudais. Finalmente, todos acreditaram que o Estado de Qu, que ocupava a região central banhada pelo rio Azul, sairia vitorioso. Esse medo fez com que os Estados menores buscassem a proteção de Qi. Com maior força militar, economia sólida e governante hábil, Qi podia ajudar os outros. Uma liga de defesa mútua foi estabelecida e o duque de Qi foi nomeado Hegemônico, ou Ba da liga, com a função de preservar a paz. E foi o que ele fez.

Achava adequado, já que Ba significava "pai, protetor".

Mas o que mais interessava-lhe era a forma como conseguiram a proteção.

Toda a população foi organizada em filas militares. As lojas eram reguladas, um monopólio estabelecido sobre a produção de moedas, sal e ferro, controlado pelo Estado. Os resultados foram um exército forte e uma economia sólida, que não apenas oferecia proteção contra os inimigos como também fortalecia o poder do Hegemônico.

—   Esses foram os primeiros legalistas — dissera o professor. — Uma escola política dedicada a exaltar o governante e maximizar a autoridade. A filosofia deles era simples. O soberano é criador da lei, os oficiais são os seguidores da lei, o povo está sujeito à lei. O soberano sábio detém seis poderes. A habilidade de conceder vida, de matar, de enriquecer, de empobrecer, de promover e de rebaixar.

E o conceito espalhou-se por outros Estados.

No final do Período das Primaveras e Outonos, após trezentos anos de constante agitação, por volta de 481 a.C., 22 dois Estados so­breviveram. O resto foi absorvido pelos vizinhos.

—   A luta piorou no período dos Reinos Combatentes que veio em seguida — contara o professor. — Após mais de duzentos anos de conflito, sete Estados surgiram, cada um governado por um Hegemônico. Os conselheiros deles eram todos irmãos do Ba, legalistas que ensinavam que os outros deviam pagar impostos a ele, que era a força maior, enquanto os que tinham menos força pagariam impostos aos outros. O Ba consolidou sua influência sobre os reis, defendendo o fim do sistema feudal. Postos herdados foram substituídos por burocratas no­meados, que podiam ser dispensados ou até executados segundo a vontade do governante. Feudos herdados foram retomados em unidades administrativas e chamados de condados. Deforma inteligente, nomeando oficiais que eram meras extensões de si mesmo, o Hegemônico reuniu todo o poder nele mesmo.

No final do período dos Reinos Combatentes, o Ba assumiu con­trole virtual sobre as monarquias. Embora outros feitos tecnológicos fossem mais conhecidos — a descoberta da pólvora, o cultivo do bicho-da-seda —, Tang acreditava que a invenção chinesa que mais impactou o mundo era o totalitarismo.

—   Foi uma revolução de cima — explicara seu professor. — O povo não resistiu, estava prostrado depois de cinco séculos de guerras incessantes. E ninguém podia questionar a ordem que os legalistas ofereciam. E embora tudo isso tenha ocorrido aproximadamente 2.500 anos atrás, até hoje todos os chine­ses temem de forma irracional o caos e a desordem.

Uma década depois, o reino de Qin conquistou os sete Estados so­breviventes, transformando um ducado retrógrado e seis vizinhos em guerra no Primeiro Império.

—   Qin Shi implantou o legalismo na nossa cultura, e isso permanece até hoje, embora o conceito tenha mudado no decorrer dos séculos. Por causa des­sas mudanças, eu e você temos de conversar mais.

E eles conversaram, muitas vezes mais.

—   Estude Mao — aconselhara seu professor. — Ele é um legalista moder­no. Ele compreendia o temor que as mentes chinesas têm do caos. E isso, mais do que qualquer outra coisa, explica tanto o sucesso como o fracasso dele.

Tang estudara.

Nacionalmente, Mao quis unir, fortalecer e proteger a China, exata­mente como Qin Shi fizera. Socialmente, ele quis transformar a China em uma sociedade igualitária na tradição Marxista, Pessoalmente, ele quis transcender a própria mortalidade e assegurar que sua Revolução se tornasse irreversível.

Ele foi bem-sucedido no primeiro objetivo. O segundo foi um fra­casso total.

E o terceiro?

Essa é uma pergunta não respondida.

Era impressionante como ele ficara parecido com Qin Shi. Ambos estabeleceram regimes novos, trazendo unidade após longos períodos de agitações sangrentas, massacrando todos os feudos locais. Eles eram padronizadores, engenheiros sociais, insistindo em um único idioma e uma única moeda, na ortodoxia e na lealdade. Ambos abominavam os comerciantes e calaram os intelectuais. Incentivavam a adoração a eles mesmos e inventaram novos títulos para satisfazer seus egos. Qin esco­lhera Primeiro Imperador, enquanto Mao preferiu Presidente. Na morte, ambos foram sepultados com opulência e severamente criticados, mas a estrutura de seus regimes perdurou.

—   Isso não foi um acidente — dissera seu professor durante uma de suas últimas conversas. — Mao compreendia o Primeiro Imperador. Você também deve compreendê-lo.

E ele compreendia.

Nenhum líder chinês do século XX conquistou a devoção do povo como Mao. Ele tornou-se um imperador, e nem um único pacto que Pequim fez depois com o povo podia se comparar ao "destino do Pa­raíso" que imperadores como Mao gozaram.

Mas os dias de Mao tinham chegado ao fim.

Seja fiel a soluções políticas propostas séculos atrás por eruditos mortos há muito tempo. Foi o conselho de Confúcio como forma de compreen­são. Isso parecia impossível.

Uma segunda lebre não morreria no mesmo toco.

Tang concordava sinceramente com a Revolução Cultural de Mao. Em deferência a isso, ele deixara de usar a forma tradicional do seu nome — Tang Karl, com o nome da família primeiro. Escolheu a forma moderna Karl Tang. Lembrava-se de quando os Guardas Vermelhos percorreram o país, fechando escolas, prendendo intelectuais, restrin­gindo publicações, acabando com mosteiros e templos. Qualquer coisa que lembrasse o passado feudal e capitalista da China fora destruído — velhos costumes, velhos hábitos, velha cultura e forma antiga de pensar foram todos eliminados.

Milhões morreram, e outros milhões foram afetados.

Ainda assim, Mao era mais amado do que nunca, e o Estado, mais forte do que nunca.

Olhou no relógio, depois respirou o ar puro mais algumas vezes.

Um sorriso se formou em seus lábios.

Estava na hora de começar.

 

Antuérpia

Cassiopeia aproximou-se do museu, dirigindo-se para os fundos para a mesma entrada que vigiara dois dias antes. Encontrara o museu Dries Van Egmond em um guia de hotel enquanto tentava de­cidir o melhor lugar para esconder o lampião. O museu abrigava uma coleção de objetos de arte dinamarqueses, franceses e flamengos. Mas a cômoda chinesa foi o que realmente chamou sua atenção.

Esperava que o lampião tivesse passado despercebido.

Passara por casais voltando para casa e pedestres perdidos nos próprios pensamentos, mas ninguém escondido em alguma entrada ou seguindo furtivamente seus passos. Propagandas coladas nas vitri­nes chamavam atenção para as lojas fechadas. Mas ela ignorou todas as distrações. Precisava recuperar o lampião e entrar em contato com Sokolov. Essa conexão seria intermediada por um casal que comparti­lhava o sofrimento dele de perder um filho e que havia concordado em encaminhar qualquer e-mail codificado da Bélgica.

Imaginou o que teria acontecido com Malone. Viktor dissera-lhe que não tinha recebido nenhuma notícia de Copenhague, mas isso não significava nada vindo dele. Talvez fosse para a Dinamarca quando cumprisse sua tarefa ali. Malone podia ajudá-la a decidir o que fazer em seguida.

Seria melhor ir de trem. Sem inspeções de segurança. E ela poderia dormir.

 

Malone localizou o museu, espremido em uma fila de prédios que alternavam novos e antigos. A fachada revelava detalhes que su­geriam motivos italianos. Havia pouco movimento nas ruas da Antu­érpia, apenas luzes iluminando calçadas vazias. A cidade cochilando antes do cair da noite. Examinou a estrutura das janelas esculpidas do prédio, uma em cima da outra, em vários quadrados, círculos e retângulos. Nenhuma brilhando com vida.

Estacionara a duas quadras dali e aproximou-se com passos lentos. Não sabia o que estava prestes a acontecer. Como Cassiopeia planejava entrar? Será que pretendia invadir? Certamente não por ali. A entrada principal era protegida por um portão de ferro que ficava trancado, e as janelas tinham grades. Stephanie ligara e dissera que providenciara para que o sistema de alarme fosse desligado, já que a Europol e a po­lícia local estavam trabalhando com ela. Cooperação local costumava significar que gente com salário muito maior do que o dela estava dan­do as ordens. O que era prova ainda maior do que isso envolvia muito mais do que um menino de 4 anos desaparecido.

Malone grudou na lateral do prédio para manter-se nas sombras, evitando a luz da rua. Olhou para a esquina, esperando ver Cassiopeia.

Mas só viu três homens saindo de um carro estacionado.

Nenhuma luz acendeu-se no interior do carro quando as portas foram abertas, o que chamou a atenção de Malone.

Eles estavam depois da entrada do museu, a uns 50 metros de onde ele estava, escondido pela escuridão.

O pequeno grupo de figuras escuras foi para a calçada, caminhou sem emitir nenhum ruído até a entrada do museu e testou o portão de ferro.

— Vamos pelos fundos — ele escutou um deles dizer em inglês. — Ela certamente está aqui. Peguem as coisas, para o caso de precisarmos.

Dois dos homens voltaram para o carro, de onde tiraram um enor­me contêiner. Juntos, os três dirigiram-se para a esquina mais próxima e viraram à direita. Malone desconfiou de que devia haver outra entra­da no prédio — pelos fundos, pela outra rua. Então atravessou a via e decidiu aproximar-se pela direção oposta.

 

Ni estava parado na escuridão, fora do jardim do museu Dries Van Egmond. Pau Wen estava ao seu lado. Eles viajaram do campo até a Antuérpia, estacionaram o carro a várias quadras dali e entraram no prédio pela porta dos fundos. Pau trouxera um de seus homens, que acabara de fazer um reconhecimento do terreno escuro.

O homem reapareceu e sussurrou:

—   Tem uma mulher perto do prédio, prestes a invadir. Três ho­mens estão se aproximando pela rua de trás.

Pau pensou naquelas informações, depois sussurrou:

—   Vigie os homens.

O homem afastou-se.

E estavam próximos a uma rua que passava atrás do museu, entre os prédios na próxima quadra. Um pequeno estacionamento ocupava a extensão da cerca viva que separava o jardim da rua. Um portão aber­to, com estrutura de marfim, levava a um pátio, cercado pelo museu em três laterais. Ni tentou concentrar-se, mas outras imagens passa­vam pela sua mente. Nenhuma boa. Os homens atingidos por flechas. O homem amarrado levando um tiro na cabeça. Repetiu para si mesmo que, pelo menos por enquanto, ele estava na ofensiva de novo. Wen parecia ser útil, mas Ni ainda estava desconfiado.

Três homens apareceram, dois deles carregando contêineres. Eles desapareceram pelo portal do pátio dos fundos.

—   Vitt voltou para pegar o lampião — sussurrou Pau. — Mas Tang também veio.

—   Como você sabe?

—   Não tem outra explicação. Aqueles homens trabalham para ele. Outro homem aproximou-se pela direção oposta. Sozinho. Alto, ombros largos, mãos vazias. Entrou no jardim também. Ni gostaria que tivesse mais luz, mas a lua já tinha desaparecido, e a rua à sua frente era um mar de escuridão.

—   E quem é aquele? — perguntou Ni para Pau.

—   Ótima pergunta.

 

Malone confirmara suas suspeitas. Agora tinha certeza. Os três homens estavam seguindo Cassiopeia. Dois deles usavam másca­ras de esqui sobre a cabeça e roupas pretas e justas, que marcavam seus corpos enxutos, e luvas e sapatos escuros. O terceiro homem vestia roupas escuras também, mas usava calça e paletó. Era mais baixo, um pouco mais corpulento e parecia estar no comando. Segurava um pe­queno dispositivo na mão, que mantinha apoiado na cintura, seguindo suas diretrizes.

Cassiopeia estava sendo eletronicamente rastreada.

Perguntou-se se ela sabia.

O líder acenou e eles continuaram andando no escuro e atravessa­ram portas de vidro que abriam para uma varanda. A fachada de trás do prédio era coberta por hera. Malone imaginou que quando era uma casa, essa varanda devia ser um local onde as pessoas reuniam-se para admirar o jardim. O interessante era que, diferente das portas da frente, as dos fundos não estavam trancadas. Talvez isso tivesse alguma coisa a ver com Stephanie. Incrível o que a presença de alguns russos fazia.

O líder passou o braço por um vidro quebrado e abriu a porta por dentro, aparentemente da mesma forma que Cassiopeia.

Os três desapareceram lá dentro.

Malone caminhou entre as suaves fragrâncias das flores pálidas, em direção à porta.

Pegou sua Beretta.

 

Província Gansu, China

Tang digitou uma senha que concluiu a conexão de vídeo. Preferia comunicação cibernética a reuniões frente a frente. Se a codi­ficação correta fosse usada, era praticamente seguro. Salvo se uma das partes da conversa permitisse a violação.

Mas isso não era uma preocupação neste caso.

Todos os participantes tinham feito juramentos, eram unidos pela fraternidade, todos membros leais e dedicados do Ba.

Ele tocou a tela do laptop, que se dividiu em dez partes. Um rosto masculino apareceu em cada uma, mostrando traços de chi­neses Han, todos eles com 50 e poucos anos, assim como ele. Eles prestavam serviços nas mais diversas áreas. Um era juiz da Suprema Corte Popular. Vários eram respeitados chefes de departamento. Dois eram generais militares. Três eram membros do todo-poderoso Co­mitê Central. Eles tinham alcançado postos superiores, assim como Tang — com disciplina e despercebidos — e serviam como líderes de divisão Ba. Homens que supervisionavam outros irmãos, espalhados por todos os governos locais, nacional e militares. O número total deles era limitado, pouco mais de 2 mil, mas o suficiente para atingir seu objetivo.

—   Bom dia — disse ele no microfone do laptop.

A China, apesar dos 5 mil quilômetros de leste a oeste, passando por cinco fusos horários internacionais, baseava-se no fuso horário de Pequim. Ele nunca entendera a lógica, já que isso levava a irritantes diferenças no horário de trabalho, mas explicava as variadas roupas dos homens na tela.

—   Eu queria informar que a saúde do primeiro-ministro está se deteriorando rapidamente — disse ele. — Fiquei sabendo que ele tem menos de um ano de vida. É claro que isso será mantido em segredo. Mas é imperativo que fiquemos em estado de prontidão constante.

Ele viu os homens assentirem.

—   O Comitê Central está preparado — disse ele. — Temos a maio­ria sólida para alcançarmos o posto de primeiro-ministro.

Cento e noventa e oito pessoas serviam no todo-poderoso Comitê Central. Ele cultivara bem mais de cem membros, não do Ba, que acre­ditavam, assim como ele, que a China devia seguir em uma direção que lembrasse mais Mao do que Deng Xiaoping.

—   E Ni Yong? — perguntou um dos homens. — O apoio a ele está crescendo.

—   Estamos cuidando desse assunto. Um funeral com honras de es­tado em sua homenagem vai rapidamente trazer pessoas para a nossa causa.

—   Isso é mesmo necessário?

—   A forma mais simples de eliminar o problema é eliminar o can­didato. Isso já foi discutido e aprovado.

—   De forma condicional — logo acrescentou um dos outros. — Como um último artifício. A morte de Ni poderá trazer implicações, dependendo da forma como acontecer. Não queremos um mártir.

—   Isso não irá acontecer. A morte dele será atribuída a uma de suas muitas investigações que saiu muito errado. Acontecerá fora do país.

Ele viu que muitos concordaram, mas alguns poucos não.

—   Ni tem um forte apoio militar — disse um dos generais. — A morte dele não será ignorada.

—   E nem deve ser. Mas do ponto de vista mais amplo, ele logo será esquecido conforme as coisas forem acontecendo. A morte do primei­ro-ministro será inesperada. Isso inevitavelmente levará à incerteza, e o povo não vai permitir que isso continue por muito tempo. Vão implo­rar por segurança. E nós lhes daremos isso.

—   O quão rápido agiremos?

—   O quão rápido a constituição permitir. Já providenciei para as províncias convocarem eleições imediatas. Claro, até que isso acon­teça, eu estarei no comando temporariamente, como primeiro vice-presidente. É provável que tenhamos o controle em uma questão de semanas.

Então, o trabalho de verdade começaria, e o primeiro passo seria afastar-se apressadamente da democratização, o que causaria a extin­ção do Partido. E não haveria mais necessidade de um Comitê Central de Inspeção Disciplinar. Em vez disso, a corrupção seria resolvida de forma particular. Todas as desavenças seriam punidas de forma apro­priada. A maioria dos observadores externos havia previsto que a Chi­na iria seguir o caminho do Ocidente ou que o Partido Comunista aca­baria, e manter o curso atual quase certamente levaria às duas coisas. Seu objetivo era mudar esse curso em 180 graus.

Qin Shi, os imperadores que o sucederam e Mao tinham feito isso.

Agora ele faria.

Os chineses têm um medo irracional do caos e da desordem.

—   Ofereceremos à nação exatamente o que ela suplica — disse ele. — Estabilidade. Ordem. Uma vez que isso estiver estabelecido, o povo nos dará muitas regalias.

—   Mas somos poucos — disse outro dos homem. — Manter essa ordem pode se provar uma tarefa difícil.

E é por isso que temos de conquistar o posto de primeiro-mi­nistro. Isso nos garantirá poder irrestrito. De lá, podemos facilmente remodelar a nação.

Sempre que falava com os irmãos, tomava o cuidado de usar a pri­meira pessoa do plural, nós. Aquele era, em teoria, um esforço coletivo, e ele sabia que não conseguiria alcançar seu objetivo sem a ajuda de todos eles.

—   Temos de estar prontos para agir com rapidez — disse ele. — Eu mesmo estou trabalhando em uma tática que poderá melhorar muito a nossa posição, talvez até nos proporcionar um papel dominante na po­lítica mundial. O Ocidente não vai ditar como deve ser a vida na China, dizer o que é certo e errado, decidir nosso futuro.

—   O senhor parece confiante.

—   Os missionários e educadores tentaram modernizar e cristianizar o nosso país. Os japoneses tentaram nos conquistar. Os americanos tentaram nos democratizar. Os soviéticos tentaram nos controlar. To­dos fracassaram. Ainda pior, nós também tentamos e fracassamos. So­mos uma grande civilização. — Ele fez uma pausa. — E seremos mais uma vez o que fomos um dia.

Viu que os homens do outro lado da conexão concordavam com ele.

—   E nosso mestre? — perguntou um dos homens finalmente. — Não temos nenhuma notícia dele.

—   Fiquem tranqüilos — esclareceu ele. — Ele está conosco.

 

Antuérpia

Cassiopeia passou por uma das muitas salas de visita do Mu­seu, tentando recordar-se da disposição do lugar que visitara poucos dias antes. As salas do térreo ficavam ao redor de um hall central no qual uma escadaria de mármore levava aos andares superiores. Ela passou pelo mesmo relógio inglês e duas vitrines no estilo chinês que exibiam antigüidades caras. Uma galeria de porcelana abria-se à sua direita, as mesas do século XVII cobertas por objetos esmaltados e de marfim, e alguns artigos de colecionador Adelgade Glasvaerker do sé­culo XIX. Atravessando uma sala principal, dividida por quatro colu­nas iônicas, ela encontrou uma escadaria nos fundos, provavelmente usada por empregados no passado.

Começou a subir.

Tinha conseguido entrar com facilidade. Sabia que muitos desses lugares antigos não tinham alarmes. Em vez disso, optavam por sen­sores de movimento, mas não notara nenhum em sua primeira visita. Talvez fosse porque acreditavam não ter nada ali que valesse a pena ser roubado, ou talvez fosse apenas uma questão de custo.

Continuou andando com leveza, todos os sentidos em alerta, a arma na mão. Parou no primeiro andar e olhou para o térreo, os ouvi­dos aguçados para escutar qualquer ruído. Mas não ouviu nada.

Afastou a apreensão.

Apenas pegue o lampião e saia.

 

Malone não fazia a menor idéia do lugar para onde estava indo, mas os três homens à sua frente não sofriam do mesmo problema. Eles atravessavam as salas deliberadamente, seguindo o rastreador que um deles carregava. Manteve-se afastado, escondendo-se atrás de móveis, andando com cuidado com suas solas de borracha no piso de mármore. Estava dentro da galeria, que provavelmente era clara e arejada durante o dia, graças a janelas salientes que se abriam para o jardim dos fundos.

Espiou para dentro da caverna sombria e viu tetos de madeira en­talhada e esmaltada. À sua esquerda, abria-se uma sala com paredes revestidas de couro. Podia sentir o cheiro das rosas, lilases e pilriteiros do lado de fora da varanda. Estava agachado atrás de uma poltrona com encosto alto, esperando os três homens prosseguirem.

Um movimento à sua esquerda chamou sua atenção.

Outros três homens entraram pela porta da varanda.

Continuou abaixado e aproveitou-se da escuridão.

Dois dos homens que entraram eram eretos. O terceiro movia-se com a lentidão da idade, e sob as poucas luzes que vinham de fora, conseguiu ver o rosto. Definitivamente, um homem velho.

Um dos homens segurava um arco e carregava uma bolsa cheia de flechas nos ombros.

Não se vê isso todos os dias.

Os três entraram em silêncio, então pararam, o mais velho apontou para o que segurava o arco, que entrou na mansão. Os outros dois he­sitaram, então avançaram.

Malone saiu da sala por outra porta, afastada daquela pela qual os outros tinham passado, e dirigiu-se à frente, encontrando a porta principal.

Atrás de uma pequena escrivaninha, que parecia ser a mesa de al­gum atendente, havia uma loja de suvenires. Entrou, manteve-se aten­to ao que acontecia atrás dele, mas não escutou nada.

Avistou um livreto que descrevia a mansão em diversos idiomas, incluindo inglês. Pegou um e foi até a janela. Havia um mapa dos qua­tro andares. Localizou três escadas e muitas salas. No terceiro andar, havia um espaço chamado SALA CHINESA. Nenhum outro lugar ti­nha um nome parecido.

Será que foi lá que Cassiopeia escondeu o lampião?

Malone pegou suas coisas e decidiu usar uma escada secundária.

 

Cassiopeia chegou ao topo da escadaria e rapidamente se dirigiu à sala chinesa. Espelhos com molduras douradas alinhavam-se nas paredes, e o piso era de um rico parquete. Porcelana oriental en­feitava cômodas esculpidas. Fora uma dessas cômodas, um armário laqueado de vermelho com acabamento refinado, que solucionara seu problema. Ela pensara que os armários certamente não eram inspe­cionados regularmente. Pelo que sabia, este era um museu pequeno, de pouca importância, algo que apenas preservava a formalidade e o gosto de um antigo dono rico, que pelo menos por uns alguns dias proporcionou-lhe um esconderijo conveniente.

Rapidamente, ela entrou na sala, aproximou-se do armário e abriu as portas. O lampião estava exatamente onde ela o havia deixado. Não tinha levado nenhuma bolsa para carregá-lo. Resolveria isso depois. Pegar um trem diretamente para Copehhague estava começando a pa­recer uma boa idéia. Quando chegasse lá, decidiria o próximo passo.

Pegou o lampião.

Uma cabeça de dragão em um corpo de tigre, com asas. Na casa de Pau Wen notara que havia um líquido dentro do lampião, sua boca estava selada com cera.

Escutou um som vindo de trás.

Ela girou.

Tudo parecia congelado no escuro.

A três metros dela, duas formas apareceram no arco que levava ao hall. Uma terceira forma materializou-se, bloqueando a outra saída à sua direita.

Silhuetas de armas surgiram, apontadas em sua direção.

—   Solte o lampião — disse um dos homens em inglês.

Ela pensou em atirar para abrir caminho, mas decidiu que seria tolice.

Não conseguiria livrar-se dos três.

—   Solte a arma também — disse a voz.

 

Malone escutou uma voz assim que chegou ao topo da escadaria — um homem falando sobre um lampião e uma arma. Aparen­temente, um dos seis homens que estavam dentro da casa encontrara Cassiopeia. Ele se lembrou do mapa, que dizia que a sala chinesa ficava à sua esquerda, logo depois de uma galeria de retratos com uma cole­ção de miniaturas, uma porta depois no corredor.

Atravessou a galeria, contornando formas escuras, tomando cui­dado para não se chocar com nada. Olhou por uma porta e confirmou que dois homens estavam parados no corredor, olhando para dentro de uma sala.

Ambos seguravam armas.

Pinturas elaboradas dentro de molduras grossas estavam espa­lhadas pelo amplo corredor. Notou que o piso era de parquete, o que significava que, diferente do mármore, anunciaria sua presença. Como precisava fazer alguma coisa e não havia tempo para sutilezas, decidiu que uma abordagem direta seria melhor.

— Com licença — disse ele.

Os dois homens viraram. Um deles levantou a arma e atirou.

 

Ni estava no térreo com Pau Wen. Não gostava nem um pouco dessa situação. Era um alto oficial do governo chinês — um homem além de qualquer repreensão, cuja reputação significava tudo — mas agora estava dentro de um museu belga que acabara de ser arrombado.

Escutou uma voz vindo de cima da escada principal.

Depois outra.

E um tiro.

Pau disse alguma coisa para o terceiro homem — que acabara de voltar —, então, com um leve movimento de pulso dispensou-o.

O assistente subiu as escadas.

—   Esta situação ainda pode piorar — disse Pau. — Confesso que achei que não haveria ninguém aqui. Aparentemente, eu estava errado. Precisamos ir embora.

Mais tiros.

—   Uma batalha está acontecendo lá cima — disse Ni.

Pau agarrou seu braço e puxou-o para a porta da varanda.

—   Mais um motivo para irmos embora. Podemos voltar à nossa posição inicial, longe do jardim, e observar. Meu assistente fará o pos­sível para conseguir o lampião. Ele é...

—   Dispensável?

—   Eu estava pensando em capaz. Mas certamente é as duas coisas.

 

Cassiopeia escutou uma voz dizer "com licença", viu os dois homens reagirem e decidiu aproveitar o momento de distração deles para cuidar do homem à sua direita. Colocara o lampião no chão, mas em vez de soltar a arma, como mandaram, ela girou e disparou no ter­ceiro homem.

Mas não havia mais ninguém ali.

Ela pegou o lampião quando os dois homens parados no arco abri­ram fogo. Podia jurar que a voz era de Malone. Mas isso seria bom demais mesmo em sonho.

Mais tiros foram disparados, mas ela não era o alvo.

Cassiopeia decidiu que, como os dois estavam ocupados, o terceiro homem era a maior ameaça. Então foi para a porta, espiou para a sala ao lado e não viu nenhum sinal de movimento. Havia muitas silhuetas escuras na sala — móveis e objetos pendurados na parede. Havia outra saída a 10 metros, com muitos lugares para se esconder no caminho.

Todos representavam problemas.

Mas ela não tinha escolha.

 

Malone não tinha para onde fugir. Segurava uma Beretta carregada, mas só tinha um pente sobressalente, então resistiu ao im­pulso de retaliar.

Por sorte, ele previra o ataque deles e entrara na sala ao lado, exa­tamente quando eles desviaram a atenção de Cassiopeia. Pelo menos agora ele era o alvo.

Vidro estilhaçou enquanto balas atingiam alvos duros e lascavam madeira. A sua esquerda, um vaso aumentou a ruína de porcelana no chão com seus fragmentos.

Stephanie ia matá-lo, mas não era sua culpa. Ninguém lhe avisara que isso seria uma reprise de um filme de bangue-bangue.

Decidiu que bastava e mandou três tiros em resposta. Pelo menos, agora sabiam que ele estava armado. A movimentação confirmou que eles estavam mudando de posição. Atirou mais duas vezes e saiu de seu esconderijo, descendo o corredor até onde os dois homens estavam antes.

Mas todos eles tinham desaparecido, provavelmente ido para a es­cada principal.

Hora de encontrar um aliado.

— Cassiopeia — chamou. — É Cotton.

 

Cassiopeia escutou Malone chamar seu nome, mas não podia responder. O terceiro homem estava perto. Podia sentir a presença dele, a poucos metros, escondido entre os móveis que se espalhavam à sua frente. Ela aproveitara o barulho do tiroteio para se dirigir para o arco que levava para a saída.

Mas seu nêmesis provavelmente estava fazendo a mesma coisa.

Agachou-se atrás de uma poltrona para se esconder e seguiu para a porta, com o lampião em uma das mãos e a arma na outra. Fazendo a volta, ela poderia prender os dois homens em um fogo cruzado. Ela de um lado do corredor, Malone do outro.

 

Malone ia de uma sala para outra, atravessando o corredor. Os dois homens estavam à sua frente, ou pelo menos ele achava que sim. Os tiros haviam parado. O que era um problema.

Estava escutando alguma coisa, que parecia metal. Um cheiro invadia suas narinas.

Lembrou-se dos dois contêineres que os primeiros homens carre­garam para dentro. Imaginou o que seria. O que o líder dissera?

Para o caso de precisarmos.

Viu um líquido brilhando com o reflexo da luz fraca que vinha do lado de fora e espalhava-se pelo corredor.

Sentiu um cheiro doce.

Gasolina.

Percebeu o que estava para acontecer e conseguiu afastar-se no momento em que uma onda de ar vinha em sua direção, seguida pela luz cegante e o calor intenso de uma chama em erupção.

 

Ni e Pau Wen saíram pelo jardim do museu, atravessaram a rua de trás e o estacionamento de cascalho, e buscaram abrigo nas som­bras de um prédio no quarteirão seguinte. Os tiros tinham parado e Ni esperava logo escutar sirenes aproximando-se. Certamente alguém tinha chamado a polícia.

—   Não é melhor irmos embora? — perguntou ele a Pau.

—   Precisamos ver o que vai acontecer.

Ni olhou para o museu e viu uma luz forte vindo da janela do terceiro andar.

—   Está pegando fogo — disse ele.

Raios de luz espalhavam-se pela escuridão conforme o terceiro an­dar era destruído pelas chamas.

—   Isso pode ser um problema, em diversas escalas — disse Pau, os olhos fixos na destruição.

Ni não queria escutar.

—   Importa-se de explicar?

—   Vamos esperar que meu irmão seja bem-sucedido. E rápido.

 

Os ossos e músculos de cassiopeia se retesaram quando foi atingida pela inesperada onda de calor. Seus olhos ardiam por causa da luz que as chamas emitiam. Pontos negros atrapalhavam sua visão e ela se esforçava para ver o que estava à sua frente e atrás.

O corredor estava pegando fogo.

Malone estava em algum lugar na outra extremidade, depois da sala chinesa. Não tinha sentido ser sutil agora.

— Cotton — chamou ela.

Nenhuma resposta, e o silêncio dele era tão insuportável quanto o calor.

À sua esquerda, a escada principal descia. A madeira do piso do corredor, carvalho de séculos atrás, queimava vigorosamente, e o gesso da parede estava prestes a ir pelo mesmo caminho.

Precisava ir embora.

Mas não sem Malone.

Sabia que existia outra forma de descer, a escada que usara, mas as chamas bloqueavam todos os caminhos naquela direção. Ainda segu­rava o lampião e a arma, e decidiu ver se Malone talvez tinha seguido em frente, através das salas interligadas do outro lado do corredor.

Nenhum sinal dos três homens.

Ela se virou e viu a fonte do problema. Duas caixas de metal vira­das no chão, ambas em chamas.

Cassiopeia chegou ao final do corredor, onde uma balaustrada de mármore abria-se para a escada principal que levava para o segundo andar. Não havia mais corredor onde as escadas começavam, e ela deu de cara com uma parede de pedra. Com cuidado, ela olhou para fora e não viu nenhum movimento. Alguma coisa estalou embaixo dela, então rachou, e ela viu o teto do hall desabar, a velha casa rapidamente rendendo-se. Será que os três homens tinham escapado? Não tinham motivo para continuar ali, exceto para recuperar o lampião. Mas po­diam estar esperando para confrontá-la do lado de fora.

A escada estava a 5 metros de distância.

Ela se jogou para a frente.

Quando alcançou a ponta da balaustrada e começou a virar-se para as escadas, alguma coisa atingiu a parte de trás de seus joelhos. Braços agarraram suas pernas. Ela caiu para a frente, batendo na pare­de de mármore.

Um homem estava atracado com ela.

Ela se debateu, virando o corpo, batendo com a arma na cabe­ça do agressor. Ele era magro e forte, mas ela conseguiu afastá-lo e fugir.

O lampião e a arma voaram de suas mãos.

Um chute mandou a arma para a balaustrada, onde desapareceu entre as hastes grossas.

Ficou de pé.

O agressor estava todo vestido de preto, o rosto escondido por uma máscara de lã. Devia ser uns 15 quilos mais pesado. Ela se jogou em cima dele, batendo com os ombros em seu peito, imprensando-o contra a parede.

 

Malone escutou Cassiopeia chamar seu nome mas preferiu não responder. Vira três formas correndo no escuro, na direção da esca­da principal. Conseguira chegar mais perto, através de salas interliga­das, tomando cuidado com sua aproximação entre as formas escuras. Já havia muita fumaça, e isso dificultava a visão e a respiração.

Escutou uma briga e viu alguma coisa deslizar pelo piso em cha­mas. Correu até a porta e localizou um objeto. Pequeno. Trinta centíme­tros de comprimento, e mais ou menos 15 de altura.

Uma cabeça de dragão em corpo de tigre com asas.

O lampião?

Esticou o braço para pegá-lo, mas seus dedos o repeliram. O ex­terior de bronze estava quente. Usou o sapato e o afastou das tábuas em chamas, puxando para a sala onde estava, na qual três paredes já estavam queimando.

Precisava ir embora.

Olhou para o corredor, na direção do topo das escadas, e viu Cas­siopeia e um homem de preto.

Lutando.

 

Ni assistiu ao museu Dries Van Egmond queimar. Os dois andares superiores estavam pegando fogo, chamas atravessando o telha­do, lambendo a noite. Janelas quebravam-se por causa do calor e da pressão, espalhando vidro pelo jardim.

—   Os chineses produziam vidros bem melhores — disse Pau. — Com qualidade muito melhor do que de qualquer coisa que a Europa tenha produzido.

Ni questionou-se sobre a aula de história, considerando o que es­tavam testemunhando.

—   O senhor sabia que, na cova dos guerreiros de terracota, des­cobrimos que as armas que eles carregavam, suas espadas e facas, que emergiram do solo afiadas, brilhantes e imaculadas, haviam sido feitas de materiais que evitavam a ferrugem. Acabamos descobrindo que era uma liga de cobre e estanho combinada com mais outros 11 metais, tais como cobalto, níquel, cromo e magnésio. Pode imaginar? Mais de 2 mil anos atrás nossos ancestrais já sabiam como proteger o metal.

—   E nós nos deixamos abater — disse Ni. — Mesmo com toda essa tecnologia.

Pau continuou fitando o fogo.

—   O senhor não gosta de violência, não é mesmo?

—   Ela nunca atinge objetivos de longo prazo.

—   Um Estado eficiente utiliza sete punições para três prêmios. Um Estado fraco utiliza cinco punições para cinco prêmios. Isso é um fato comprovado.

—   Se a vida de uma pessoa não tem valor, então a sociedade que moldou essa vida também não tem valor. Como alguém pode pensar diferente?

—   Os impérios, por natureza, são repressores.

—   O senhor não se preocupa que pessoas podem estar morrendo naquele incêndio? Um de seus homens, por exemplo.

—   Ele deve se proteger, é o dever dele.

—   E o senhor não tem nenhuma responsabilidade nisso?

—   É claro. Sou responsável pelo fracasso dele.

Ele nunca poderia, e não iria, se permitir ter tão pouco respeito à vida das outras pessoas. Mandar homens para a morte nunca deveria ser uma tarefa fácil. Embora não conhecesse o homem que estava lá dentro, preocupava-se com sua segurança.

Todos os líderes deveriam se sentir assim.

Não deveriam?

—   O senhor é um homem singular — disse ele para Pau Wen.

—   Sou mesmo. Mas não foi por acaso que o senhor me conheceu.

 

Cassiopeia conseguiu afastar-se do agressor e ficar de joelhos. O calor do fogo, que queimava a poucos metros deles, ficara mais intenso, as chamas aproximavam-se cada vez mais rápido. Por sorte, as paredes e o piso do museu eram de mármore. A fumaça estava aumen­tando, tornando cada respiração um desafio. Ela precisava encontrar o lampião, mas, antes, tinha que resolver o problema do homem de preto que habilmente ficara de pé, pronto para mais. O coração dela estava acelerado, batia com tanta força que fazia suas costelas estremecerem. Seus músculos estavam fracos de fadiga. Dois dias de tortura e nenhu­ma comida estavam cobrando seu preço.

O homem investiu para cima dela.

Ela esquivou-se, agarrou os braços dele e empurrou-o para trás, virando seu corpo, tentando forçá-lo a abaixar. A agitação dele tornava difícil segurá-lo e ele conseguiu soltar-se e empurrá-la até a balaustrada. Pelo parapeito, ela viu uma queda de 10 metros.

Ele a girou de forma que olhasse para baixo.

O homem deu-lhe um tapa com a parte de trás da mão. Então, tentou empurrá-la. Ela sentiu um gosto acre de sangue. A adrenalina tomou conta de Cassiopeia quando ela levantou a perna direita e en­fiou o salto da bota na virilha dele.

Ele se dobrou de dor, as mãos indo para o local do golpe.

Ela deu uma joelhada no roto do homem, fazendo com que ele caísse para trás.

Avançando, ela fechou o punho.

 

Malone usou a camisa para segurar o lampião, que ainda estava quente. Parecia sólido, uma única abertura na cabeça do dragão. Atra­vés da luz bruxuleante, viu gotas de cera derretida que selavam a boca de bronze. Sentiu um cheiro familiar e aproximou o lampião do nariz.

Petróleo.

Balançou o lampião. Parecia estar meio cheio.

Viu caracteres chineses gravados na parte de fora e supôs que tal­vez o que o fizesse tão importante fosse o que estava escrito. Já vira isso antes: mensagens do passado que ainda eram relevantes nos dias atuais. Mas, independente do que fosse, precisava tirá-lo desse inferno em chamas enquanto ainda servia para alguma coisa.

Virou-se.

Um dos homens estava a alguns metros de distância, bloqueando a única saída. Segurava uma arma na altura da cintura, apontada para a frente.

—   Deve estar quente por trás desta máscara de lã — disse Malone.

—   Quero o lampião.

Ele mostrou o artefato.

—   Isto? Acabei de achar no fogo. Nada especial.

—   Entregue-me o lampião.

Malone detectou um sotaque asiático no inglês. O fogo ardia em volta deles, não com força, mas espalhando-se, usando os móveis como combustível. Labaredas de fogo tomaram conta do piso de madeira que o separava do outro homem.

Aproximou-se.

O homem levantou a arma.

—   O lampião. Jogue-o para mim.

—   Acho que isso não vai ser...

—   Jogue-o.

Malone fitou o dragão e as gotas de cera que escorriam de sua boca. Ainda sentia o cheiro de petróleo e decidiu que se o homem que­ria o lampião, então ia ter o lampião.

Levantou o lampião no ar mas, enquanto o soltava, girou de leve o pulso. Tomou cuidado para colocar apenas velocidade suficiente de forma que caísse perto e o agressor precisasse dar um passo à frente para pegar o prêmio.

Observou a cabeça do dragão virada para baixo e viu o líquido começar a escorrer de sua boca. As gotas encontraram o calor abaixo produzindo som e luz, enquanto o fogo desfrutava do que certamente era uma ótima refeição.

Petróleo saía enquanto o homem armado dava um passo à frente e segurava o lampião pelas asas, de cabeça para baixo, a cabeça virada para o chão.

Novas chamas surgiram no chão conforme o petróleo evaporava.

O fogo subiu em busca de mais combustível.

Quando encontrou o lampião, uma bola de calor e luz formou-se na mão do homem.

Um grito cortou o ar fervente enquanto as roupas do homem pe­gavam fogo. Ele soltou o lampião e a arma, agitando os braços no ar enquanto suas roupas desintegravam-se.

Malone encontrou sua Beretta no chão e deu dois tiros no peito do homem.

O corpo em chamas desabou.

Malone aproximou-se e deu mais um tiro na cabeça do homem. — Mais do que você teria feito por mim — sussurrou ele.

 

Cassiopeia deu um soco no rosto de seu agressor. Ele estava fraco por causa do golpe na virilha, paralisado de dor, sem ar. Come­çou a tossir, tentando respirar um pouco de ar puro no meio de toda aquela fumaça.

Mais um soco e ele desmaiou, estava imóvel.

O fogo agora consumia o corredor à sua esquerda — piso, paredes e teto —, a fumaça aumentava a cada segundo. Ela também tossiu, com o pulmão cheio de gás carbônico.

Dois tiros ecoaram, vindo do outro lado do corredor.

—   Cotton — gritou ela.

Mais um tiro.

—   Cotton. Pelo amor de Deus, me responda.

—   Estou aqui — gritou ele através das chamas.

—   Consegue chegar até as escadas?

—   Não. Vou sair por uma das janelas.

Ela deveria ir ajudá-lo. Ele faria isso.

—   Você consegue sair? — perguntou ele através das chamas.

—   Está limpo aqui.

Ela continuou com o olhar fixo no corredor do terceiro andar, ago­ra completamente tomado pelo fogo. Suas articulações latejavam, seus pulmões ardiam. Percebeu que não tinha alternativa. Precisava sair. Mas...

—   Preciso do lampião — gritou ela.

—   Está comigo.

—   Vou sair — disse ela.

— Vejo você lá fora.

Ela se virou e foi para as escadas, mas algo abaixo chamou sua atenção. Um homem com rosto lúgubre, os olhos negros fixos nela. Ele segurava um arco, uma flecha já colocada na corda, bem esticada.

Ela estava sem arma. Não havia para onde correr.

O homem continuou mirando nela, suas intenções claras.

Ele viera matá-la.

 

Ni escutou outra janela do terceiro andar estilhaçar, depois o som de algo voando. Viu uma cadeira cair no jardim e quebrar, depois percebeu um movimento na janela aberta. Outra coisa foi joga­da. Menor, porém pesada, que caiu rapidamente, aterrissando em um caminho de cascalho.

—   Aquilo pode ser o que viemos procurar — disse Pau.

Um homem saiu pela janela, segurando uma trepadeira que cobria a fachada de trás do museu. Não tinha nem o tamanho nem a estrutura do assistente de Wen.

—   E o homem que entrou depois daqueles três — disse Pau.

Ni concordou.

Sirenes se aproximavam. Logo a área estaria cercada pelos bombeiros.

—   Precisamos ver se foi o lampião antes que ele consiga descer — disse Pau.

Ni concordou.

—   Eu vou.

—   Rápido.

Ni saiu de seu esconderijo e caminhou pela escuridão até o jardim. Ficou de olho no homem. Percebeu que ele usava as trepadeiras com habilidade para descer. Ni optou por uma aproximação oblíqua, avan­çando não pelos caminhos de cascalho, contornados com precisão por flores perfumadas, mas pelo canto, usando o solo fofo e ciprestes altos para mascarar sua aproximação.

Viu a cadeira em pedaços, depois olhou para onde vira o objeto pe­queno cair e localizou uma forma escura no meio de um dos caminhos.

Olhou para cima e viu o homem esforçando-se para descer com a ajuda das trepadeiras. Lentamente estava conseguindo. A cabeça e os olhos dele pareciam ter a única intenção de procurar lugares para se segurar, então Ni aproveitou o momento e pegou o objeto.

Levantou-o e percebeu que estava quente.

Uma cabeça de dragão em corpo de tigre com asas de fênix.

O lampião.

 

Malone segurou-se nas plantas e começou a descer. Conseguira recuperar o lampião do fogo, depois jogou-o no jardim. Quando chegara, percebera que o cascalho lá embaixo era fino, como rolimãs, então provavelmente protegeria o lampião quando ele tocasse o chão.

Não estava com pena do homem morto lá dentro. Não tinha dúvi­das de que assim que entregasse o lampião, ele atiraria.

Estava prestando atenção às trepadeiras, grato por elas aparente­mente estarem ali havia muito tempo, seus talos firmemente presos à parede. O segundo andar ainda não estava pegando fogo, e a fumaça dos dois andares superiores subia para bem longe dele. Definitivamen­te era mais fresco e mais fácil de respirar ali.

Olhou para baixo para ver o quanto ainda faltava e viu uma som­bra passar pela cadeira quebrada. Viu quando alguém rapidamente pegou o lampião.

— Isto não é seu — gritou ele.

A sombra hesitou por um instante, olhou para cima, então correu para a saída do jardim.

A atenção que estava dispensando ao ladrão fez com que ignoras­se as trepadeiras. Cegamente, ao tentar segurar a planta seguinte, ela cedeu com um estalo.

Ele caiu para trás.

E continuou caindo.

 

Ni saiu correndo do jardim mas olhou para trás ao escutar um estalo. Viu o homem cair 10 metros. Não tinha como saber se a que­da o machucaria ou se o homem levantaria e iria atrás dele.

Mas não ia esperar para descobrir.

Passou apressadamente pelo portão, atravessou a rua e encontrou Pau Wen.

—   É melhor irmos embora — disse Pau.

Ni não podia argumentar com ele. Já tinha corrido riscos suficien­tes. Não podia ser descoberto ali.

—   Sei que está preocupado com as pessoas dentro do museu — disse Pau. — Mas voltaremos para casa e esperaremos meu irmão. En­tão, saberemos a situação.

 

Cassiopeia percebeu que não tinha como fugir. O arqueiro teria uma visão limpa da balaustrada até que ela chegasse ao corredor em chamas, então não tinha escapatória. Também não conseguiria che­gar nem perto do arqueiro, pois a flecha a alcançaria mais rápido do que podia se mover.

O jogo tinha acabado.

Esperava que Malone tivesse conseguido fugir. Sentiria saudades dele, embora apenas agora, ao encarar a morte, percebera o quanto. Por que nunca se expressara? Nunca disse uma palavra. Por que ambos apreciavam essa dança em que nenhum dos dois se comprometia, mas, mesmo assim, sempre procurava o outro quando precisava?

Uma pena não ter conseguido ajudar Lev Sokolov. O que será que aconteceria com o filho dele? Provavelmente nunca mais seria visto. Ela tentara. Fizera tudo que podia.

Mas não fora o suficiente.

Eram estranhos os pensamentos de uma pessoa na hora da morte. Talvez houvesse um instinto que trouxesse à tona todos os arrependi­mentos. Foi isso que Henrik Thorvaldsen sentiu em Paris? Se foi, talvez Malone estivesse certo e o amigo morreu achando que fora traído. Que horrível. Principalmente, não sendo verdade. Agora compreendia a an­gústia de Malone, seu arrependimento por não ter feito as coisas certas, e desejou que ela mesma tivesse mais uma chance.

—   Tou qie zhu ren de zei bi si wu yi — disse o arqueiro.

Ela não sabia falar chinês, então as palavras dele não significavam nada.

—   Acabe logo com isso — gritou ela, esperando que ele soltasse a corda e que a flecha atravessasse sua carne.

Doeria?

Não por muito tempo.

Dois tiros a assustaram.

O arqueiro cambaleou e ela percebeu que haviam atirado nele. Mergulhou para a direita no momento que ele soltou a corda. Mas como ele estava caindo quando a flecha foi lançada, sua ponta de metal atingiu apenas o mármore.

Ficou de pé e olhou através das grossas pilastras.

Um homem estava subindo, parou onde o corpo do arqueiro contorcia-se em espasmos.

Mais um tiro e o corpo ficou imóvel.

Viktor Tomas veio em sua direção.

Não gostou do que viu rios olhos dele. Ele certamente estava fu­rioso por ela tê-lo atacado na casa. Por isso ele estava ali, segurando a arma dela, aquela que deixara cair, apontando diretamente para ela, com as mãos.

Ela enfrentou com ele o mesmo dilema que enfrentara com o ar­queiro.

Não tinha para onde correr.

Ele atirou.

 

Malone rolou para sair da moita. Deus abençoe o jardineiro que cuida dessa cerca viva, mantendo-a presa a um muro perfeito de l,80m de altura. Os muitos galhos da cerca suavizaram sua queda, em­bora um deles tenha machucado seu quadril.

Levantou-se.

Aos 48 anos, estava um pouco velho para isso, mas pensou em Cas­siopeia. Precisava encontrá-la. Lembrou-se de que percebeu, enquan­to descia, que os dois primeiros andares ainda não estavam pegando fogo, mas esse talvez não fosse mais o caso. Sirenes aproximavam-se, então supôs que a privacidade que Stephanie conseguira tinha acaba­do. E o lampião e o ladrão haviam sumido.

De modo geral, a noite tinha sido um fracasso total.

Virou-se para a varanda e dirigiu-se para a porta pela qual todos haviam entrado.

Três bombeiros saíram.

Pareceram assustados ao vê-lo, e um deles gritou alguma coisa. Não sabia falar flamengo. Mas não precisava de tradução. Dois poli­ciais apareceram e sacaram suas armas.

Sabia o que queriam.

Então, levantou as mãos.

 

Cassiopeia esperou a bala, mas só sentiu um ventinho quando ela passou bem perto de sua orelha direita.

Então, escutou o metal atravessar carne.

O homem que ela derrubara tinha levantado e estava avançando para cima dela com uma faca. O tiro de Viktor atingiu-o no peito. O cor­po caiu no mármore, tremeu como se acometido por uma febre, então ficou imóvel.

—   Eu disse que eu não era o inimigo — disse Viktor.

Ela respirou e desceu as escadas correndo.

—   Se você trabalha para Tang, para quem esses homens trabalham?

Viktor apontou para o topo da escada.

—   Ele era meu. Mas este aqui — ele deu de ombros —, não faço a menor idéia.

—   Atirou no seu próprio homem?

—   Na verdade, é de Tang. E você preferia ter sido esfaqueada?

Ela apontou.

—   Ele disse alguma coisa antes de você atirar nele. Em chinês. Não falo chinês.

—   Eu falo.

Aguçou os ouvidos.

—   Ele disse "morte ao ladrão que rouba do mestre".

 

Malone decidiu tentar o que podia.

— Tem uma mulher lá dentro. Está no terceiro andar. Ela precisa de ajuda.

Não tinha certeza se estava sendo compreendido, já que os dois policiais só estavam interessados em prendê-lo. Não pareciam preocu­par-se com mais nada.

Colocaram seus braços para trás e seus pulsos foram presos com uma correia de nylon.

Muito apertado, mas não podia dizer nada.

 

Cassiopeia desceu logo atrás de Viktor pela escada principal, para longe do fogo e do teto preto de fumaça acima deles. Suor misturado com fuligem escorria pelo rosto dela, caindo em seus olhos. Estava mais fácil de respirar, já que a fumaça parecia concentrada nos dois andares superiores. Escutou sirenes e viu luzes de emergência pis­cando pelas janelas. Precisavam sair. Muitas perguntas seriam feitas, e ela não tinha respostas satisfatórias para nenhuma delas.

—   Espero que tenha um plano de saída — disse ela.

—   Tem uma saída pelo porão. Eu verifiquei.

—   Como você me encontrou?

Ouviram madeira lascando e alguma coisa quebrou. Vozes exaltavam-se por causa da urgência. Provavelmente bombeiros arrombando a entrada principal.

Ela e Viktor pararam no primeiro andar, ao pé da: escada.

—   Deixe-os passar — sussurrou ele.

Ela concordou.

Afastaram-se da escadaria e entraram em uma das salas do pri­meiro andar. Não havia fogo ali ainda. Esperava que os bombeiros se concentrassem nos andares superiores.

Uma grande mesa de bilhar ofereceu-lhes um bom esconderijo, o tecido verde decorado com vários acessórios de marfim.

—   Você não respondeu à minha pergunta — sussurrou ela. — Como me encontrou?

Ele mostrou a arma que ainda segurava.

—   Se você não tivesse me dado um golpe na cabeça, eu teria lhe dito que tinha um rastreador dentro. Idéia de Tang. Questões de inteli­gência chinesa. Teríamos deixado a arma. Mas da forma como as coisas aconteceram, rastreamos você até aqui.

E ela já sabia quem tinha mandado o arqueiro. Pau Wen. Morte ao ladrão que rouba do mestre. Tinha percebido que havia mais coisas en­volvendo aquele velho homem, mas estava ocupada demais para se preocupar.

Escutaram passos. Bombeiros corriam escada acima, carregando machados e tubos.

—   É muito arriscado — sussurrou Viktor. — Vamos encontrar ou­tro jeito de descer.

—   Tem outra escada por ali. — Ela apontou para a esquerda. — Foi por onde eu subi.

—   Vá na frente. Quando encontrarem aqueles corpos, a polícia vai invadir este lugar.

Atravessaram uma série de salas escuras até as escadas e desceram para o porão, tomando o cuidado de não fazerem barulho. Um corre­dor preto levava até o centro da mansão, passando por várias portas fechadas com cadeado. Provavelmente depósitos. Um ruído vindo dos canos que passavam acima de suas cabeças sugeria pressão e tempera­tura elevadas. Entraram em uma sala cheia de ferramentas de jardinagem — mas tinha uma porta de saída.

—   Deve nos levar ao térreo — disse Viktor.

—   Provavelmente pela lateral do prédio — acrescentou ela. — Po­deríamos ficar bem se saíssemos por lá.

A porta destrancava por dentro. Viktor abriu a porta de metal e colocou a cabeça para fora. As luzes de emergência iluminavam a noite em um ritmo frenético. Mas ela não escutou nenhum som vindo dos degraus de pedra que levavam ao térreo.

— Você primeiro — disse Viktor.

Ela saiu e saboreou o ar fresco. Eles abaixaram-se e subiram usan­do o vão da escada como cobertura.

Em cima, viraram à direita, na direção da rua que ficava na frente do museu. Ela percebeu que precisariam aparecer, sem serem notados, pela viela estreita que separava o museu do prédio ao lado.

A 2 metros do final, o caminho foi de repente bloqueado.

Uma mulher estava ali.

Stephanie Nelle.

 

Malone chegou à frente do museu em um carro de polícia que estava esperando logo depois do jardim. Um machucado em seu qua­dril estava doendo e fazia com que mancasse.

Puxaram-no do carro e ele viu três caminhões ocupando a rua que estava deserta mais cedo quando ele chegou. Mangueiras esguichavam água no ar por escadas que subiam de dois caminhões. Tudo ficava muito próximo pelos dois lados, tornando desafiadora a tarefa de man­ter o fogo confinado em um prédio. Por sorte, o tempo estava bom.

Um dos oficiais uniformizados guiou-o entre os caminhões até onde os carros estavam estacionados, talvez a uns 30 metros do inferno.

Ele viu Stephanie.

Ela não parecia feliz.

—   Eles encontraram três corpos lá dentro — disse ela quando trou­xeram-no para mais perto. — Todos baleados.

—   E Cassiopeia?

Stephanie apontou para a direita. Cassiopeia apareceu atrás de uma das vans da polícia, o rosto coberto de fumaça preta, molhado de suor. Olhos muito vermelhos, mas, apesar disso, ela parecia bem.

—   Encontrei-a fugindo do prédio.

Atrás dela, vinha um homem. Primeiro, Malone ficou tão feliz ao vê-la que não percebeu. Mas agora que seus medos tinham se dissipa­do e a calma voltara a reinar prestou atenção em seu rosto. Viktor Tomas.

—   Que diabos ele está fazendo aqui? — perguntou Malone.

—   Quanto tempo, Malone — disse Viktor. —Adoro algemas. Com­binam com você. — Viktor apontou um dedo. — Não me esqueci que ainda lhe devo uma.

Malone sabia do que ele estava falando. Da última vez que eles tinham se visto. Na Ásia.

—   E aqui estamos nós — disse Viktor. — Juntos de novo. Malone encarou Stephanie.

—   Tire essas algemas.

—   Você vai se comportar? Cassiopeia aproximou-se e disse para ele:

—   Obrigada por vir.

Ele viu que ela parecia ilesa.

—   Eu não tive escolha.

—   Disso eu duvido. Mas obrigada.

Ele balançou a cabeça na direção de Viktor.

—   Você e ele trabalhando juntos?

—   Ele salvou a minha vida lá dentro. Duas vezes. Malone olhou para Viktor e perguntou:

—   Qual é o seu envolvimento desta vez?

—   Posso responder essa, Malone — disse Ivan, saindo de trás de um dos veículos estacionados.

O russo apontou para Viktor.

—   Ele trabalha para mim.

 

Ele estava deitado em um banco estofado, endireitou-se. Suas pernas estavam abertas, seus genitais expostos. Séculos atrás, havia um lugar, um ch'ang tzu, localizado fora dos portões do palácio, onde especialistas desempe­nhavam essa função por quantias irrisórias. Eles também ensinavam a técnica a aprendizes, transformando, assim, a profissão em uma tradição. O profissio­nal que encarava agora era tão hábil quanto aqueles artesãos, mas só trabalha­va para os irmãos.

Terminaram a limpeza final.

A água quente misturada com pimenta ardia.

Permanecera rígido enquanto os dois ajudantes envolviam seu abdome e suas coxas com bandagens brancas. Mal conseguia respirar, mas compreendia o propósito.

Vai doer?

Afastou o pensamento de sua cabeça.

A dor não importava. O laço. Os irmãos. Eles significavam tudo para ele. Seu professor o apresentara ao Ba e agora, após vários anos de estudo, ele se tornaria parte deles. O que seus pais diriam? Ficariam mortificados. Mas eles não eram ninguém, pessoas sem visão. Instrumentos para serem usados como uma pá ou um ancinho, deixados de lado quando quebrados ou fora de uso. Não queria ser um deles.

Queria comandar.

O especialista assentiu e ele endireitou sua postura na cadeira, abrindo ainda mais as pernas. Dois irmãos prenderam as duas pernas. Falar, temer a dor que estava por vir, seria uma prova de fraqueza, e nenhum irmão podia ser fraco.

Apenas os fortes podiam fazer parte.

Viu a faca, pequena e curva.

— Hou huei pu hou huei? — perguntaram a ele.

Devagar, balançou a cabeça. Nunca se arrependeria.

Aconteceu rápido. Dois golpes, e seu saco escrotal e seu pênis mutilados foram exibidos.

Esperou a dor. Sentiu sangue escorrer do ferimento, a pele arder, as pernas tremerem. Mas nenhuma dor.

Observou quando seus órgãos foram colocados em uma bandeja de prata, sangue envolvendo a carne como um prato em um restaurante.

Então, veio a dor. Lancinante. Aflitiva. Excruciante.

Seu cérebro explodiu em sofrimento. Seu corpo tremia.

Os dois homens continuaram segurando-o com firmeza. Ele manteve a boca fechada. Lágrimas enchiam seus olhos, mas ele mordeu a língua para manter o controle.

Silêncio era a única resposta aceitável.

Um dia, ele comandaria os irmãos, e ele queria que soubessem que aceitou sua iniciação com coragem.

Tang lembrou-se daquele dia, 36 seis anos atrás. Permanecera imó­vel enquanto o ferimento era envolvido em papel molhado, camada em cima de camada, até que a hemorragia parasse. Ele lutara contra o choque que tomou conta de seus nervos, mantendo um leve domínio da realidade. Os três dias que se seguiram foram um teste ainda maior por causa da agonia da sede e da inabilidade de urinar. Lembrava-se de esperar que o líquido fluísse no quarto dia.

E fluiu.

Estava no trailer silencioso, recordando-se, preparando-se para deixar o sítio arqueológico. Raramente pensava naquele dia agora, mas esta noite era especial.

O telefone celular por satélite tocou.

Encontrou o aparelho e viu o número que apareceu. Era de fora do país. Código da Bélgica. Conhecia bem o número.

Residência de Pau Wen.

—   Fiz exatamente como instruiu — disse ele ao atender. — Orde­nei um ataque a Ni Yong enquanto ele estava em sua residência.

—   E eu impedi o ataque, exatamente como planejado. O ministro Ni ficou muito grato e agora acredita que sou seu aliado.

Onde está Ni?

—   Logo estará a caminho da China. Com o lampião.

—   O lampião devia ser meu.

—   Não importa mais — disse Pau. — Não tem mais petróleo. Queimou.

—   Você me garantiu que o lampião ficaria seguro. — O tom de voz dele aumentara. — Você me disse que seria devolvido a mim, intacto, assim que Ni saísse da Bélgica.

—   E você não deveria perturbar Cassiopeia Vitt — disse Pau. — Ela levaria o lampião até você.

—   Não se pode confiar nela.

—   Então, você roubou dela e esperou ganhar o prêmio a força?

—   Fiz o que achei melhor.

—   Sua tarefa era apenas atacar Ni Yong — disse Pau calmamente. — E não me matar.

Controlou-se.

—   Matamos três dos homens que você mandou — disse Pau. — E capturamos o quarto. Eu o interroguei. Não cooperou muito, mas final­mente me disse que ele e os outros tinham recebido ordens para matar o ministro Ni e a mim. Ninguém deveria ficar vivo na casa. Ele disse que as suas ordens foram claras. Claro, ele não era um irmão. Apenas foi pago para fazer um serviço, que por acaso não fez.

O momento passara.

—   Você não é mais necessário — disse ele a Pau.

—   Por esse comentário, suponho que assumiu o controle da irman­dade? O Ba agora responde a você?

—   Como o faz há uma década. Sou o único mestre que conhecem.

—   Mas eu sou Hegemon. O líder propriamente eleito deles.

—   Que nos abandonou e a este país anos atrás. Não precisamos mais que se envolva.

—   Por isso ordenou a minha morte?

—   Por que não? Parecia a coisa certa a fazer.

—   Eu concebi todo este plano. Desde o começo. Você era apenas um jovem iniciado, recém-chegado ao Ba.

—   Foi quando você encontrou os textos de Confúcio no sítio ar­queológico dos guerreiros de terracota?

—   O que você sabe sobre isso?

—   A biblioteca foi redescoberta alguns dias atrás. Seu relógio foi encontrado lá dentro.

—   Então foi lá que eu o perdi — disse Pau. —Já desconfiava. Mas é claro que eu planejava voltar para examinar mais o lugar. Infelizmente, nunca tive a oportunidade.

—   Por que você pegou apenas os textos de Confúcio?

—   Para preservá-los. Se os pesquisadores e arqueólogos de Mao os descobrissem, nunca teriam sobrevivido. Mao desprezava Confúcio.

—   A biblioteca não existe mais. Pegou fogo.

—   Você não é nem um pouco melhor do que eles.

Tang ressentiu o tom de voz insolente.

—   Não sou mais um jovem iniciado. Sou o vice-primeiro-ministro da República Popular da China. Provavelmente o próximo primeiro-ministro e presidente.

-— Tudo por minha causa.

—   Eu não diria isso — Tang riu. — Você está longe há muito tem­po. Implementamos seu plano sem a sua ajuda. Então, fique em seu refúgio, são e salvo na Bélgica. A China não é mais para você.

—   Seu adversário, porém — disse Pau —, está voltando para casa muito mais sábio. Ministro Ni agora sabe sobre o Ba. Ele pode muito bem impedir que você seja bem-sucedido.

—   Ni não é páreo para mim.

—   Mas eu sou.

—   Não existe nenhuma forma legal de você entrar na China. Ne­nhum visto será emitido. Tenho absoluto controle sobre isso. Os pou­cos irmãos que estão com você aí também serão impedidos de voltar.

—   Nem todo mundo o apoia — Pau Wen deixou claro.

Tang sabia que isso podia se provar verdade, mas estava contando com o sucesso para conquistar os que ainda duvidavam dele.

—   Basta. Que tenha vida curta, Pau.

Encerrou a ligação.

Não havia mais nada para ser dito.

Lembrou-se de uma lição que aprendera muito tempo atrás, du­rante seu treinamento para se tornar um irmão.

Nunca transpareça suas intenções.

Sorriu.

Não necessariamente.

 

Ni andou pela sala de exibição de Pau Wen, esperando seu anfitrião voltar. Quando eles retornaram à residência, Pau pedira licença para ausentar-se. Na viagem de volta da Antuérpia, Ni ligara para Pe­quim e falara com seu assistente-chefe, dizendo que queria um relató­rio imediato das atividades de Karl Tang. Ao contrário do que Pau Wen pensava, Ni já vinha vigiando Tang havia algum tempo, plantando espiões no gabinete do vice-primeiro-ministro. Mesmo assim, nunca ninguém tinha falado qualquer coisa sobre os eunucos ou sobre o Ba.

Já sabia que Tang tinha deixado a capital na véspera, aparentemen­te para encontrar com oficiais locais em Chongqing, mas o verdadeiro propósito de sua viagem tinha sido supervisionar a morte de um ho­mem chamado Jin Zhao, cuja sentença de morte tinha sido recentemen­te apoiada pela Suprema Corte Popular. Instruíra seu assistente-chefe a descobrir mais sobre o caso de Zhao e sobre o interesse de Tang na morte do homem.

Seu telefone começou a vibrar, assustando-o. Sua equipe tinha sido rápida, como de costume. Atendeu, esperando que Wen demorasse pelo menos mais alguns minutos, já que essa conversa devia ser em particular.

— Jin Zhao era um geólogo experimental que trabalhava para o Ministério de Desenvolvimento Geológico — relatou seu assistente. — Ele supostamente passou informações confidenciais sobre a exploração de petróleo para os russos.

—   Que tipo de informação?

—   O relatório não diz. Segredo de Estado.

—   E o agente russo?

—   Nenhuma menção.

—   Ele realmente passou a informação?

—   Não. Uma tentativa frustrada, ou algo assim, segundo os autos. Entretanto, o outro nome que o senhor falou, Lev Sokolov, também foi mencionado.

Ele seguira o conselho de Wen e pedira a seu assistente um dossiê sobre Lev Sokolov e seu paradeiro.

—   Ele é um expatriado russo que trabalhava com Jin Zhao em um laboratório de pesquisas químicas em Lanzhou, diretamente comanda­do pelo Ministério de Desenvolvimento Geológico.

O que significava que Karl Tang controlava o lugar.

—   Zhao e Sokolov eram colegas?

—   Eles estavam trabalhando em um projeto experimental sobre exploração avançada de petróleo. É isso que o orçamento do projeto descreve. Além disso, não sabemos de mais detalhes.

—   Descubra — disse ele. Sabia que havia como descobrir, princi­palmente no departamento dele.

Escutou com atenção o relato da noite ocupada de Tang, viajando de Chongqing para o sítio arqueológico dos guerreiros de terracota. Curiosamente, uma das covas tinha sido destruída por um incêndio, preliminarmente atribuído a um curto-circuito. Tang já tinha ido em­bora quando a destruição ocorreu, seguindo para um campo de explo­ração de petróleo no norte de Gansu. Nada de extraordinário nisso, já que Tang supervisionava o programa de exploração de todo o país.

—   Agora, ele está em Gansu — reportou o assistente. — Não temos olhos nem ouvidos nesse local, mas não é necessário. Sabemos o próxi­mo destino dele. Lev Sokolov está desaparecido há duas semanas. Os emissários de Tang o encontraram ontem em Lanzhou. O ministro está voando para lá.

—   Temos homens em Lanzhou?

—   Cinco. A postos.

Lembrou-se do que Pau Wen tinha dito. Encontre Sokolov. É ele quem pode explicar o significado do lampião.

—   Quero que resgatem Sokolov antes que Tang chegue até ele.

—   Sim, senhor.

—   Estou a caminho de volta. — Ni já tinha uma reserva em um voo que saía de Bruxelas, que ele confirmara quando voltara da cidade. — Em umas 15 horas, mais ou menos, estarei aí. Mande o que quer que encontre sobre Sokolov ou Zhao por e-mail. Poderei acessar quando estiver voando. Quero saber a conexão entre eles e por que Tang está tão interessado neles.

Ni viu que Pau Wen estava vindo em sua direção.

—   Preciso desligar.

Encerrou a ligação e escondeu o telefone.

O velho entrou e perguntou:

—   Estava apreciando de novo as minhas maravilhas?

—   Estou mais interessado no lampião.

Pau entregara o artefato a um de seus homens quando chegaram.

—   Infelizmente, ele foi danificado e o líquido que continha foi der­ramado.

—   Quero levá-lo para a China.

—   Claro, ministro. Pode levar. Só peço que o mantenha longe de Karl Tang. Também tenho notícias perturbadoras.

Ni esperou.

—   Tang teve uma reunião virtual com os membros do Ba algumas horas atrás. Uma reunião e tanto, pelo que me falaram. Eles estão se preparando para o golpe final.

Decidiu que não podia mais acreditar cegamente no que esse ho­mem dizia.

—   Onde está Tang?

Pau avaliou-o com um olhar curioso.

—   Um teste, ministro? Para ver se falo com autoridade? — O velho fez uma pausa. — Certo. Entendo seu ceticismo, embora depois do que aconteceu no museu, eu esperasse que tivéssemos progredido. Mas é bom ser cauteloso. Vai mantê-lo vivo por mais tempo.

—   O senhor não respondeu à minha pergunta.

—   Ele está em um campo de exploração de petróleo no norte de Gansu.

Exatamente o que seu assistente dissera.

—   Passei?

—   Que golpe começou?

Pau sorriu, satisfeito ao perceber que estivera certo o tempo todo.

—   O Ba está vivo de novo, depois de anos de sono auto-imposto.

—   Estou voltando para casa.

Pau assentiu.

—   O lampião já está empacotado e pronto.

—   E o senhor ainda não faz idéia de seu significado?

Pau balançou a cabeça.

—   Apenas que o ministro Tang e Cassiopeia Vitt querem colocar as mãos nele. Tem alguma coisa escrita do lado de fora. Talvez tenha algum significado. O senhor certamente tem especialistas que poderão interpretar.

Ele tinha, mas esse velho estava mentindo e ele sabia disso. Não importava. Uma guerra o esperava na China, e ele estava perdendo tempo. Então perguntou:

—   O que aconteceu no museu?

Três corpos foram retirados. Suponho que um deles foi o do meu irmão. Cassiopeia Vitt e outros dois homens foram retirados do local pelas autoridades.

—   O que vai acontecer agora?

—   Para o senhor, ministro? Nada. Para mim, quer dizer que Cas­siopeia Vitt vai voltar aqui.

—   Como sabe disso?

— Anos de experiência.

Ni estava cansado da ostentação deste homem. Agora sabia que o rosto sem expressão e as palavras inteligentes eram uma máscara para uma mente calculadora e insensível. Pau era um expatriado que, obviamente, mais uma vez estava se intrometendo na política chinesa. Mas Pau estava na Bélgica, muito longe da luta. Não era um jogador. Ni estava curioso, porém, sobre uma coisa:

—   O que o senhor fará quando Cassiopeia Vitt voltar?

—   Talvez seja melhor que o senhor não saiba, ministro.

Concordava.

Talvez fosse.

 

Malone esfregou os pulsos e esperou a circulação voltar. A polícia o tinha apertado muito. Será que eles estavam furiosos por cau­sa do museu, pensando que ele era o culpado? Mas eles estavam er­rados. O culpado estava a poucos metros dele, ao lado de seu novo benfeitor.

—   Você me disse que trabalhava para Karl Tang e para os chineses — falou Cassiopeia para Viktor.

—   E trabalho. Mas estou lá por causa dos russos.

Malone balançou a cabeça.

—   A mesma coisa da Ásia Central. Trabalhando para nós, para eles, para nós de novo, depois para eles. Inferno, não consigo entender como você consegue.

—   Sou um homem talentoso — disse Viktor, sorrindo. — Já traba­lhei até para ela. — E apontou para Stephanie.

Stephanie deu de ombros.

—   Eu o usei em uns dois trabalhos freelances. Diga o que quiser, mas ele trabalha bem.

—   Da última vez, ele quase matou todos nós — lembrou Malone. — Entrei lá cego, achando que ele estava do nosso lado.

—   E eu estava — acrescentou Viktor.

—   Ele é um bom agente — disse Ivan. — E próximo a Karl Tang, está exatamente onde queremos que esteja.

Isso explicava como Ivan sabia tanto sobre o que estava acontecen­do com Cassiopeia. Mas Malone sentiu necessidade de perguntar:

—   Por que precisam de nós?

—   Tang envolveu vocês — respondeu Viktor. — Eu disse para dei­xá-los em paz.

Ivan balançou a cabeça.

—   Não pedi para Stephanie se meter nos meus negócios. Idéia dela, não minha. Contratei Viktor para um serviço. Ele trabalha bem.

—   O filho de Sokolov é o que importa — disse Cassiopeia. — É por causa dele que estou aqui. E preciso ir embora.

Stephanie segurou o braço de Cassiopeia.

—   Não vai mesmo. Olhe à sua volta. Um museu está em chamas, três homens estão mortos. A propósito, qual de vocês os matou?

Malone levantou a mão.

—   Matei um. Mas estava sendo bonzinho.

—   Quer dizer que atirou nele depois que o jogou no fogo? — per­guntou Stephanie.

Ele deu de ombros.

—   Pode me chamar de louco, mas eu sou assim.

—   Viktor matou os outros dois — disse Cassiopeia.

Malone percebeu a gratidão na voz dela, o que o deixou irritado.

—E o lampião?—perguntou Ivan a Cassiopeia. — Você o encontrou?

—   Estava comigo, mas não está mais — disse Malone.

Ele explicou o que aconteceu no jardim. Ivan pareceu agitado. As coi­sas aparentemente não estavam acontecendo de acordo com seus planos.

—   Preciso do lampião — declarou o russo. — Temos de descobrir quem era o homem no jardim.

—   Não é difícil — disse Cassiopeia. — O arqueiro e esse ladrão no jardim são homens de Pau Wen. Ele está com o lampião. De novo.

—   Como você sabe disso? — perguntou Stephanie.

Cassiopeia repetiu o que o arqueiro dissera.

Ivan encarou Malone.

—   Quando caiu, o lampião ficou inteiro?

—   A coisa era feita de bronze. Ficou bem. Mas usei o óleo que tinha dentro para cuidar do homem que eu matei.

Ivan franziu a testa.

—   Não tem mais óleo?

Ele assentiu.

—   Pegou fogo.

—   Então, estamos todos encrencados. Karl Tang não quer o lam­pião. Ele quer o que tinha dentro.

 

Tang assistiu ao amanhecer no leste, os primeiros raios de sol colorindo o céu de violeta, depois de salmão, e mais tarde de azul. Seu helicóptero estava subindo pelo ar da manhã, seu destino, Lanzhou, 400 quilômetros a oeste, mas ainda na província de Gansu.

Sentia-se revigorado.

A conversa com Pau Wen tinha sido boa. Outro elemento resolvi­do. Agora estava na hora de cuidar de Lev Sokolov.

O que esse homem sabia podia muito bem determinar o futuro de todos eles.

 

— A culpa é sua — disse Malone para Ivan. — Se tivesse nos contado a verdade, isso não teria acontecido.

—   Por que esse óleo em particular é tão importante? — perguntou Stephanie, e Malone percebeu o interesse em sua voz.

Ivan balançou a cabeça.

—   É importante. Para Tang. Para Sokolov. Para nós.

—   Por quê?

Um sorriso espalhou-se pelo rosto do russo.

—   Aquilo é petróleo de muito tempo atrás. Uma amostra direta da terra. Ficou na tumba por 2 mil anos. Depois ficou na lâmpada até esta noite.

—   Como você sabe disso? — perguntou Malone.

—   Nós só sabemos — disse Viktor — o que Karl Tang disse. Ele me contou que o lampião foi tirado de uma escavação por Pau Wen na década de 1970, e ficou com ele desde então. A boca do dragão estava selada com cera de abelha.

Malone assentiu.

—   Até o fogo começar. Que os seus homens começaram.

—   Contra a minha vontade — disse Viktor.

—   Não foi o que você disse a eles quando chegaram. Disse para pegar a gasolina para caso precisassem.

—   Já ouviu falar em jogar o jogo? — perguntou Viktor. — Tang nos mandou recuperar o lampião e mascarar qualquer evidência de que estivemos lá. Se tivéssemos entrado e saído sem maiores problemas, não haveria necessidade. É óbvio que eu não fazia a menor idéia de que teríamos essa maravilhosa reunião.

Malone viu a derrota no rosto de Cassiopeia.

—   O filho de Sokolov está desaparecido — disse ela para ele. — Sem petróleo. Sem lampião.

—   Mas nada disso faz sentido — disse ele.

—   Precisamos fazer uma visita a Pau Wen.

Ele assentiu.

—   Mas também precisamos descansar. Você parece estar prestes a desmoronar. Eu também estou cansado.

Aquele garotinho depende de mim.

Ele viu a resolução formar-se nos olhos de Cassiopeia.

—   Entrarei em contato com Pau — disse Ivan.

Malone balançou a cabeça.

—   Não é uma boa idéia. O que você acha que vai descobrir? Cas­siopeia já esteve lá. Ela deve a ele. Temos uma razão para aparecer lá.

—   Não gosto desse plano. Olhe o que aconteceu da última vez que dei ouvidos a você.

—   Ele provavelmente está se achando muito esperto agora — disse Cassiopeia. — Certamente, Pau tem alguém no meio daquela multidão assistindo a esse espetáculo. Então, ele sabe que estou viva.

Malone entendeu o que ela queria dizer.

E um dos homens dele não está.

—   Quero saber tudo sobre Pau Wen — disse Malone para Stepha­nie. — Antes de irmos. Acha que consegue alguma coisa sobre o passa­do dele rapidamente?

Ela assentiu.

Malone encarou Ivan.

—   Descobriremos o que precisamos saber.

O russo atarracado assentiu.

—   OK. Tente.

—   Preciso ir embora — disse Viktor.

Malone moveu os braços.

—   Cuidado para a porta não bater no seu traseiro quando estiver saindo.

Cassiopeia entrou na frente de Viktor.

—   Não antes de você me dizer onde está o filho de Sokolov. Você me disse que sabia.

—   Menti para que me levasse com você.

—   Onde está o garoto? — perguntou ela, o apelo claro em sua voz.

Mas Viktor pareceu insensível.

—   Eu realmente não sei. — Ele encarou Ivan. — Tang vai querer saber de mim. Claro, os homens dele estão mortos e eu não estou com o lampião. Ele não vai ficar nada feliz.

—   Vá atrás dele — disse Ivan. — E faça o que faz melhor.

—   Mentir. — Malone não conseguiu resistir.

—   Sei lidar com Tang — disse Viktor. — Mas tem uma coisa que vocês devem saber.

Malone estava escutando.

—   Tang ordenou um ataque à casa de Pau Wen. Talvez ele nem esteja vivo.

—   E só agora você resolveu mencionar isso? — perguntou Malone.

—   Sabe, Malone, só estou aqui há poucos minutos, mas para mim, basta.

—   Você é bem-vindo para dar seu melhor palpite.

—   Resolvam isso depois — disse Stephanie. — Neste momento, estou preocupada com esse Pau Wen. Cotton, você e Cassiopeia vão à casa dele. Vou providenciar o que precisam, e Ivan e eu vamos esperar notícias suas. Viktor, vá fazer o que tem de fazer.

—   Quem morreu e deixou você no poder? — perguntou Ivan.

—   Não temos tempo para discutir.

Malone viu que Ivan concordava.

Ele também viu quando Viktor saiu por entre os carros estacionados.

—   Você podia ter sido um pouco menos duro com ele — disse Cas­siopeia.

Malone não podia se importar menos.

—   Ele não salvou a minha vida. Duas vezes.

 

Lanzhou, China

7H20

Tang não gostava de Lanzhou tanto quanto não gostava de Chongqing. A cidade cercava o rio Amarelo, espremida em um vale estreito e confinada entre montanhas íngremes. Centenas de olarias e fornalhas soltando fumaça eram vistas em seus arredores, tudo tinha a mesma coloração de barro, como a paisagem. No passado, servira de portão para a China, o último lugar para trocar de cavalos e com­prar provisões antes de seguir para o oeste e entrar no deserto. Agora era a capital da província de Gansu — arranha-céus, shoppings e uma convergência de linhas ferroviárias estimulando o consumo. Nada de árvores, mas muitas chaminés, minaretes e fios de alta-tensão. Uma impressão geral de desolação.

Saiu do carro que o pegara no aeroporto. Tinha sido informado de que Lev Sokolov estava sob custódia, depois que seus homens invadi­ram a casa onde ele estava escondido.

Aproximou-se do prédio de apartamentos, passando por uma fon­te que não continha nada além de sujeira e ratos mortos. Uma névoa matinal sumia conforme o sol ficava mais alto, revelando um céu cinzerito. O cheiro de cimento fresco misturava-se com a fumaça exalada pelos carros e ônibus. Um labirinto de vielas e becos radiava em todas as direções, dividindo quarteirões de casas caindo aos pedaços. Estava cercado por um emaranhado louco de carroças, ambulantes, bicicletas e fazendeiros vendendo seus produtos. Os rostos eram principalmen­te árabes e tibetanos. Todo mundo usava roupas em tons de cinza, as únicas cores brilhantes vinham dos letreiros das lojas. Ele mudara de roupa, trocando seu terno sob medida por calças, camisa para fora, tê­nis e chapéu.

Parou na frente do prédio de granito, um lance de escadas de madeira levava aos andares superiores. Tinham lhe dito que era um prédio de gerentes de nível médio de uma refinaria de petróleo das redondezas. Subiu as escadas, os degraus mofados e úmidos, o topo cheio de caixas empilhadas, cestas e mais bicicletas. No segundo andar, encontrou a porta de madeira marcada, um homem esperando do lado de fora.

—   Havia homens nos vigiando — reportou o homem.

Tang parou na porta e esperou.

—   Trabalham para o ministro Ni.

—   Quantos?

—   Cinco. Cuidamos deles.

—   Disfarçadamente?

O homem assentiu.

Sorriu para mostrar sua satisfação. O vazamento em seu gabine­te era pior do que imaginava. Ni Yong mandara homens diretamente para ali. Isso teria de ser corrigido.

Mas primeiro...

Entrou.

A única sala acomodava umas poucas cadeiras e uma mesa baixa, a pequena cozinha que ocupava uma parede estava cheia de utensílios imundos, caixas de alimentos, pratos e comida podre. Em um sofá es­tava sentado Lev Sokolov, as mãos e os pés amarrados, um pedaço de fita preta sobre a boca, a camisa encharcada de suor. Os olhos do russo arregalaram-se ao ver Tang.

Ele assentiu e apontou.

—   É bom ficar com medo mesmo. Você me causou muitos proble­mas.

Falou em chinês, pois sabia que Sokolov entendia cada palavra.

Tang tirou o chapéu. Havia um homem seu de cada lado do sofá. Fez um gesto para que esperassem do lado de fora, e eles obedeceram.

Olhou em volta. Paredes pintadas de bege, lâmpadas de baixa voltagem pouco úteis para quebrar a escuridão. Fungos verdes surgiam no teto.

—   Não é um bom esconderijo. Infelizmente para você, desconfia­mos de que não tivesse saído de Lanzhou e concentramos nossas bus­cas aqui.

Sokolov observava com os olhos brilhando de pavor.

Uma cacofonia de moedores, perfuradoras e aviões, além das con­versas das pessoas, passava pela janela, que era mínima.

Sokolov era alto, com ombros largos, cintura e quadris finos. Um nariz pequeno e reto projetava-se por baixo da fita que cobria sua boca, enquanto cabelos pretos, longos e sem corte escorriam por cima de suas orelhas. A barba começava a aparecer em seu rosto e pescoço. Tang sa­bia que esse estrangeiro era brilhante. Talvez um dos maiores teóricos do mundo em geologia petrolífera. Juntos, ele e Jin Zhao podem ter comprovado uma teoria que poderia mudar o mundo para sempre.

—   Estou com você — disse Tang. — E estou com seu filho. Eu lhe ofereci um jeito de ter seu filho de volta, mas você escolheu outro cami­nho. Saiba que Cassiopeia Vitt fracassou. É bem provável que ela esteja morta agora. Ela não conseguiu o lampião. Na verdade, não existe mais petróleo dentro dele.

Os olhos de Sokolov encheram-se de terror.

—   Isso mesmo — disse ele. — Qual é a sua utilidade agora? E do seu filho? O que vai acontecer com ele? Não seria adequado que ele se reunisse com a mãe? Pelo menos, ele terá um dos pais.

Sokolov balançou a cabeça em uma tentativa furiosa de bloquear a realidade.

—   Isso mesmo, camarada Sokolov. Você vai morrer. Assim como Zhao morreu.

Ele parou de balançar a cabeça, os olhos brilhando com uma inter­rogação.

—   O recurso dele foi negado. Nós o executamos ontem.

Sokolov o encarava horrorizado, o corpo tremendo.

Tang recordou-se de que precisava de Sokolov vivo, mas também queria que este homem conhecesse o pavor. Meses atrás, ele tinha man­dado que fizessem um perfil completo dele. Com isso, ficou sabendo da devoção dele ao filho. Esse nem sempre era o caso. Tang conhecia vários homens que não se importavam muito com os filhos. Dinheiro, ambição, às vezes até amantes, eram mais importantes. Mas não com Sokolov. O que era, em um aspecto, admirável. Não que pudesse solidarizar-se.

Outra coisa desse perfil lhe veio à mente.

Um pequeno item que apenas na noite anterior tornara-se impor­tante.

Foi até a porta, abriu-a e fez um gesto para um dos homens se aproximar.

—   No carro lá embaixo, tem alguns itens — disse ele, em um tom de voz baixo. — Pegue-os. Depois — ele fez uma pausa —, encontre alguns ratos.

 

Malone dirigiu enquanto Cassiopeia ficou sentada em silêncio no banco do carona. O quadril dele ainda doía, mas seu orgulho estava mais profundamente ferido. Devia ter mantido a calma com Viktor. Mas não tinha paciência nem tempo para lidar com distrações, e aquele homem exigia atenção constante. Talvez, porém, estivesse mais irritado pelo fato de Cassiopeia tê-lo defendido.

—   Eu estava falando sério — disse ela. — Sou grata por você ter vindo.

—   Que outra escolha eu tinha?

—   Vender livros.

Ele sorriu.

—   Eu não faço isso tanto quanto gostaria. Links de vídeos de ami­gos sendo torturados entram no caminho.

—   Eu tinha de fazer isso, Cotton.

Ele queria compreender.

Cinco anos atrás, me envolvi em uns negócios na Bulgária que não acabaram bem. Foi quando conheci Sokolov. Ele trabalhava para os russos. Acabei encrencada, mas Sokolov me tirou de lá. Correu um risco e tanto.

—   Por quê?

—   Ele odiava Moscou e amava a nova esposa. Uma chinesa. Que estava grávida na época.

Agora ele compreendia. A mesma criança que agora estava em pe­rigo.

—   O que você estava fazendo nos Bálcãs? Não é um bom lugar para se passear.

—   Eu estava atrás do ouro da Trácia. Um favor para Henrik. Mas as coisas ficaram feias.

Era comum isso acontecer com as coisas que envolviam Henrik Thorvaldsen.

—   Conseguiu encontrar?

—   Claro que sim. Mas mal consegui sair do país. E sem o ouro. Cotton, Sokolov não precisava fazer o que fez, mas eu nunca teria conseguido sair de lá se não fosse por ele. Depois, ele me encontrou pela internet. De vez em quanto, nos falávamos. Ele é um homem interessante.

—   Então você está em débito com ele.

Ela assentiu.

—   E eu estraguei tudo.

—   Acho que eu tive um pouco a ver com isso também.

Ela apontou para o cruzamento que se aproximava e disse para ele virar para leste.

—   Você não fazia a menor idéia sobre o petróleo no lampião — disse ela. — Você estava agindo no escuro. — Ela fez uma pausa. — A esposa de Sokolov está arrasada. Aquele menino era a vida dela. Eu a encontrei na semana passada. Acho que ela não vai conseguir sobrevi­ver sabendo que ele não vai mais voltar.

—   Ainda não terminamos — disse ele.

Ela se virou para olhar para ele. Apesar da escuridão, ele conse­guiu ver o rosto dela. Estava cansada, frustrada, furiosa.

E linda.

—   Como está o seu quadril? — perguntou ela.

Não era exatamente o que ele queria que ela perguntasse, mas ele sabia que ela era tão arisca quanto ele quando se tratava de emoções.

—   Vou sobreviver.

Ela estendeu a mão e tocou no braço dele. Ele se lembrou de outra vez que se tocaram, logo depois do enterro de Henrik, quando se afas­taram do túmulo, passando pelas árvores desfolhadas de inverno, por um terreno coberto de neve, de mãos dadas, em silêncio. Não precisa­vam falar. O toque dizia tudo.

Como agora.

Um telefone tocou. O dele. Estava no console entre eles.

Ela afastou a mão e atendeu.

—   É Stephanie. Ela tem informações sobre Pau Wen.

—   Coloque no viva voz.

 

Cassiopeia digeriu as informações que Stephanie passou so­bre Pau Wen. Sua mente voltou para algumas horas atrás quando achou que fosse morrer. Arrependera-se de algumas coisas, lamentou a forma como sentiria saudades de Malone. Percebera a irritação dele quando ela defendeu Viktor, embora não fosse exatamente uma defesa, já que ela ainda acreditava que Viktor sabia muito mais sobre o filho de Sokolov do que ele estava disposto a admitir. Era óbvio que Viktor es­tava jogando outro jogo perigoso. Russos contra chineses, americanos contra os dois.

Não era uma coisa fácil.

Stephanie continuou relatando o que havia descoberto.

Malone estava escutando, sua memória fotográfica certamente re­gistrava cada detalhe. Isso podia ser uma bênção, mas também uma maldição. Havia tantas coisas que ela preferia não se lembrar.

Mas havia algo que ela lembrava claramente.

De cara com a morte, encarando o arqueiro, a flecha apontada para ela, e depois quando Viktor apontou a arma em sua direção, desejou desesperadamente ter mais uma oportunidade com Malone.

E teve.

 

Bélgica

Malone fitou o homem. Apesar de já passar da meia-noite, da escuridão do lado de fora e das evidências de um tiroteio, o velho ho­mem que abriu as portas — de pernas curtas, peito magro e olhos ver­melhos, mas alertas — parecia inabalável.

Um sorriso débil apareceu em seus lábios. Malone reconheceu o rosto.

Do museu. Com mais dois, um deles carregando o arco e as flechas.

Cassiopeia estava certa. Pau Wen realmente estava com o lampião.

Cassiopeia não deu tempo para Wen reagir. Pegou sua arma, a mesma que Viktor usou para rastreá-la, e encostou o cano no pescoço dele. Puxou Wen para fora e o empurrou contra uma parede de pedra, imprensando alguns galhos de bambu artificial entre o robe de seda dele e a parede.

— Você mandou o arqueiro para me matar — disse ela.

Dois chineses mais jovens apareceram no topo de uma escadaria que levava para a casa. Malone puxou sua Beretta e apontou na direção deles, balançando a cabeça, dizendo que não deviam interferir. Os dois prosseguiram, como se soubessem que Cassiopeia não puxaria o gatilho.

Que bom que eles achavam isso. Já Malone não tinha tanta certeza.

Você veio até a minha casa — disse Pau. — Roubou meu lam­pião, apontou uma arma para mim. Eu não tinha o direito de recuperar a minha propriedade?

Ela engatilhou a arma. Os outros dois chineses reagiram à ameaça crescente, mas Malone manteve-os afastados com sua arma.

—   Você não mandou aquele homem para me matar por causa do lampião — disse ela. — Você queria que eu pegasse aquela maldita coisa.

—   Foi o ministro Tang, e não eu, quem mudou essa situação.

—   Talvez devêssemos deixá-lo explicar — disse Malone. — E tal­vez ele se sinta mais à vontade para falar se você tirar a arma do pes­coço dele.

—   E alguns homens também foram atrás de mim hoje. Para me matar — disse Pau. — Mandados por Tang. Pode ver as evidências dis­so nas portas. Infelizmente para eles, eles morreram tentando.

—   E nada de polícia? — perguntou Malone.

Wen sorriu.

Cassiopeia abaixou a arma.

Wen alisou sua túnica de seda e dispensou os dois homens com um aceno de mão.

—   Você sabia que nós viríamos — disse Malone.

Vira a certeza nos olhos do homem.

—   Você não. Mas ela sim. Eu sabia que ela estaria aqui antes de o sol nascer.

 

Ni estava esperando para embarcar no vôo de Bruxelas para Pequim. Usara seu passaporte diplomático para que o lampião fos­se no avião e estivesse esperando por ele no terminal quando desem­barcasse na China. Já havia telefonado para seu gabinete, e um carro estaria no aeroporto para levá-lo diretamente para lá. Esperava que até chegar em Pequim já soubesse mais sobre o Ba e a conexão de Karl Tang com essa irmandade. Aparentemente, nada tinha dado certo nas últimas horas, mas estava muito mais informado, e isso era bom. Pau Wen fora útil, talvez útil demais, mas Ni agora estava mais preocupa­do com Tang.

Escutou o anúncio de que os passageiros da primeira classe po­diam embarcar.

Reservara um lugar na classe luxuosa por duas razões: porque pre­cisava descansar e porque a companhia aérea oferecia conexão de in­ternet durante o voo para os passageiros da primeira classe. Precisava se manter conectado.

Levantou-se.

O telefone vibrou em seu bolso, e ele o atendeu.

—   Não temos Sokolov — informou seu assistente. — Nossos ho­mens desapareceram. Não fazem contato há duas horas.

—   E Tang está em Lanzhou?

—   Ele está com Sokolov agora.

Pensou rápido. Tinham perdido o elemento surpresa.

—   Quer que mandemos mais homens? — foi perguntado.

O curso parecia claro. Retirar, reavaliar, depois decidir.

—   Não. Esperem.

—   E Sokolov? Isso pode ser fatal para ele.

—   Teremos de esperar que não.

 

Cassiopeia seguiu Malone e Pau Wen para uma das salas de reunião. Reparou novamente na marcenaria, nas treliças, assim como nas antigas cortinas de seda e lanternas. Observou enquanto Malone absorvia tudo à sua volta também, certamente concluindo, assim como ela havia concluído na primeira vez que estivera ali, que esse lugar exalava riqueza e bom gosto. O bruxulear de velas lançava uma luz suave, e isso a acalmou.

Um mapa chamou a atenção de Malone. Cassiopeia também o no­tara. Talvez com 2 metros de comprimento por 1 de altura, pintado em seda — fina, engomada e texturizada. Uma série de símbolos chineses contornava as quatro laterais, formando uma moldura. Ela admirou as cores — carmim, safira, azul, amarelo e verde — cada matiz parecendo desbotada por um esmalte amarelo-acastanhado.

—   É impressionante — comentou Malone.

—   É uma reprodução de algo que vi uma vez. Uma representação antiga da China. — Pau apontou: — Os planaltos dos desertos de Gansu e Qinghai a oeste. Ao sul, Guangdong e Guangxi. O mar a leste, e ao norte, a Longa Muralha de Dez Mil Milhas.

Malone riu ao escutar a expressão.

—   Os chineses não a chamam de A Grande Muralha — disse Pau.

O mapa era bem detalhado, mostrava lagos e rios e o que pareciam

estradas conectando as cidades, todos delineados por pictografias.

Wen apontou para alguns lugares.

—   Aqui embaixo fica Ling-ling, a cidade mais ao sul. Chiu-yuan, ao lado da longa muralha, protegia o norte. Ch'i-fu e Wu guardavam o mar Amarelo. Os rios retratados são o Wei, o rio Amarelo e o rio Azul.

—   É preciso? — perguntou Malone.

—   Os chineses eram excelentes cartógrafos. Na verdade, foram eles que desenvolveram a técnica. Então, sim, o mapa é preciso.

Malone apontou para o extremo sudoeste e o que parecia ser a re­presentação de montanhas. Três símbolos indicavam o lugar:

—   É uma inscrição solitária.

Pau assentiu.

—   O Pavilhão da Preservação da Harmonia. Um lugar antigo que ainda existe. Um dos milhares de templos da China.

O anfitrião apontou para duas poltronas de ratã, e eles se senta­ram. Wen se acomodou em frente a eles em uma cadeira cantonesa. Malone, aparentemente recordando as informações que Stephanie pas­sara ao telefone, tentou minimizar os fatos e não mencionou os russos. Mas ele disse:

—   Sabemos que o lampião não é importante. É o petróleo dentro dele que Karl Tang quer. O senhor saberia por quê?

Os olhos de Wen mantiveram-se vazios e duros.

Na primeira visita, Cassiopeia não percebera as manipulações do velho, achando que estava no controle. Agora estava mais esperta.

—   Apenas que Tang quer uma amostra de petróleo antigo por al­gum motivo.

—   Está mentindo — declarou ela.

Wen franziu a testa.

—   E se eu estiver? O que vocês têm a oferecer em troca da informa­ção que vieram buscar?

—   O que o senhor quer? — perguntou Malone. Depois fez um ges­to indicando tudo o que estava à sua volta. — Obviamente, não precisa de dinheiro.

—   Verdade, sou um homem rico. Mas tenho uma necessidade. Deixe-me fazer uma pergunta para a Srta. Vitt. Pretende voltar para a China?

—   O senhor sabe sobre Sokolov, sobre o menino e sobre Tang. Sabe de tudo, não sabe?

—   E a resposta para a minha pergunta?

—   Eu não ia. Mas agora vou.

—   Suponho que sua entrada será sem o consentimento do governo chinês, não é?

—   Isso provavelmente seria o melhor — disse Malone.

—   Quero ir com a senhorita.

—   Por que consideraríamos tal coisa? — perguntou ela.

—   Eu sei onde existe mais uma amostra de petróleo de 2 mil anos atrás.

 

Tang segurou um balde de metal que estava no carro. Pegara no campo de perfuração junto com alguns outros itens, antes de sair. Seu homem tinha voltado com dois ratos, um deles de ótimo tamanho, encontrado no beco atrás do edifício. Sabia que não seria difícil. Pré­dios como esse estavam infestados deles.

Escutou as pestes correndo dentro da caixa de papelão que fora usada como gaiola. Sabia que não levaria muito tempo para desco­brirem que podiam atravessá-la. Sua investigação sobre o passado de Sokolov revelara que ele tinha uma fobia terrível de ratos, o que torna­va as chances de refúgio do russo ainda mais estranhas. Mas tarde, ele provavelmente não teria muitas opções. Esconder-se entre 1,5 milhão de habitantes de Lanzhou possivelmente parecera uma aposta mais se­gura.

Tang voltou para onde Sokolov estava preso a uma cadeira com uma fita na boca, as mãos e os pés ainda amarrados. Mandara que ti­rassem a camisa dele, deixando seu peito exposto. Dois pedaços de corda com uns 2 metros cada estavam atrás da cadeira.

Sokolov ainda não tinha visto os ratos, mas certamente já escutara o barulho.

Tang acenou e a cadeira foi empurrada para trás. Sokolov agora estava encarando o teto, suas costas no chão, os pés no ar. A caixa de papelão foi aberta e Tang colocou os ratos no balde. O metal escorre­gadio impedindo que conseguissem tração, embora eles tentassem em vão escalá-lo.

Aproximou-se de Sokolov.

— Está na hora de você compreender o quão sério estou falando.

 

Bélgica

Malone escutara o bastante no carro para saber que Pau Wen tinha manipulado Cassiopeia alguns dias antes e que estava ten­tando fazer o mesmo agora.

—   Por que o senhor quer ir para a China? — perguntou ele para Pau. — Fiquei sabendo que fugiu do país décadas atrás.

—   E qual é o seu envolvimento aqui?

—   Sou seu agente de viagem. A pessoa que pode reservar sua pas­sagem, dependendo do que eu achar disso tudo.

Pau sorriu.

—   Está perto de acontecer uma revolução. Talvez até sangrenta. Na China, trocas de poder sempre envolveram morte e destruição. Karl Tang pretende assumir o controle do governo, de uma forma ou de outra.

—   Por que ele precisa de uma amostra de petróleo de séculos atrás? — perguntou Cassiopeia.

—   Vocês conhecem a história do Primeiro Imperador, Qin Shi? — perguntou Pau.

Malone conhecia um pouco. Sabia que tinha vivido duzentos anos antes de Cristo, cem depois de Alexandre, o Grande, e uniu sete Es­tados em guerra em um único império, formando o que mais tarde se chamaria China, em sua homenagem. O primeiro a fazer isso, co­meçando uma sucessão de dinastias que governaram até o século XX. Autocrático, cruel, mas também visionário.

—   Posso ler uma coisa para vocês? — perguntou Pau.

Nem Malone nem Cassiopeia opuseram-se. Na verdade, Malone queria escutar o que o homem tinha a dizer, e ficou feliz ao ver que Cassiopeia parecia concordar.

Pau bateu palmas duas vezes e um dos jovens, que os observara de cima quando chegaram, apareceu com uma bandeja, sobre a qual havia uma pilha de frágeis folhas de seda. Ele colocou a bandeja no colo de Pau e saiu.

—   Esta é uma cópia de Registros do Historiador ou Shiji, como pas­sou a ser chamado. Foi escrito com o objetivo de abranger toda a histó­ria da humanidade, de uma perspectiva chinesa, até a época da morte do escritor, por volta de 90 a.C. É o primeiro trabalho de registro his­tórico da China.

—   E, por acaso, o senhor tem o original? — perguntou Malone. — Pronto para nos mostrar.

—   Como eu disse, sabia que ela viria.

Malone sorriu. Este homem era bom.

—   O criador do Shiji foi o grande historiador da dinastia Han, Sima Qian. Ele supostamente consultou registros imperiais e viajou muito, baseando-se em documentos privados, bibliotecas e lembranças pes­soais. Infelizmente, Qian acabou perdendo os privilégios que o rei lhe concedia. Foi castrado e preso, mas quando foi solto, tornou-se nova­mente secretário do palácio e completou seu trabalho.

—   Ele era eunuco? — perguntou Malone.

Pau assentiu.

—   Um eunuco muito influente também. Este manuscrito ainda goza de imenso prestígio e é admirado em todo o mundo. Continua sendo a melhor fonte que existe sobre o Primeiro Imperador. Dois de seus 130 capítulos falam especificamente de Qin Shi.

—   Escrito quase cem anos depois que ele morreu — comentou Ma­lone.

—   Você conhece a história.

Malone deu um tapa na própria cabeça.

—   Tenho uma boa memória para detalhes.

—   Você está certo. Foi escrito muito tempo depois que o Primeiro Imperador morreu. Mas é tudo o que temos. — Pau Wen pegou a fo­lha de seda que estava no topo, marrom e manchada como se alguém tivesse derramado chá ali. Caracteres apagados, escritos em colunas, estavam visíveis.

—   Posso ler? — perguntou Pau.

 

E o Primeiro Imperador foi enterrado no monte Li.

Desde sua ascensão ao trono, Qin Shi começara a escavação e construção no monte Li, e quando todos os poderes estavam reunidos em suas mãos, mais de 700 mil trabalhadores foram enviados para o local para labutar.

Através de três rachaduras subterrâneas, eles cavavam e despejavam bronze derretido para fazer o caixão externo e os moldes dos palácios, pavilhões e gabinetes do governo com os quais a tumba foi preenchida.

E havia ferramentas maravilhosas e jóias preciosas e raros objetos trazidos de longe. Os artesãos recebiam ordens de construir bestas[†] como armadilhas para que qualquer pessoa que tentasse saquear a tumba encontrasse morte re­pentina.

Usando mercúrio, eles fizeram os cem rios da terra, o rio Amarelo e o Azul, e o mar da China, e máquinas mantinham as águas em movimento. As constelações do céu foram reproduzidas em cima, e as regiões da terra embaixo.

Tochas foram feitas de óleo para queimar por um longo tempo. Concubinas sem filhos receberam ordens de seguir o imperador na morte, e entre os artesãos e trabalhadores, nenhum teve permissão de sair dali vivo.

Vegetação foi plantada de forma a parecer uma montanha.

 

—   Nenhum governante antes, ou desde então — disse Pau — criou um memorial dessa magnitude. Havia jardins, recintos, portões, torres e palácios imensos. Até um exército de terracota, milhares de figuras em formação militar, pronto para defender o Primeiro Impe­rador. A circunferência total do complexo da tumba é de mais de 12 quilômetros.

—   Aonde o senhor quer chegar? — perguntou Cassiopeia, impa­ciente. — Captei a referência de tochas feitas de óleo que queimavam por muito tempo.

—   O monte ainda existe, a apenas 1 quilômetro do museu dos guerreiros de terracota. Hoje, tem apenas 50 metros de altura, metade foi levada pela erosão, mas dentro ainda está a tumba de Qin Shi.

—   Que o governo chinês não permitirá que seja escavada — disse Malone. — Li notícias recentes sobre isso. O sítio está cheio de mercú­rio. Eles usaram para simular rios e oceanos no chão da tumba. Testes feitos no solo confirmaram altas taxas de mercúrio no solo.

—   Você está certo, tem mercúrio lá. E fui eu que, décadas atrás, escrevi o relatório que levou à ordem de não escavação.

Pau levantou-se e andou pela sala, aproximando-se de outra ima­gem feita de seda, que estava pendurada, esta de um homem imponen­te usando um robe comprido.

—   Esta é a única representação que restou de Qin Shi. Infelizmen­te, foi criada séculos depois de sua morte, por isso sua precisão é duvi­dosa. O que sobreviveu foi a descrição que um de seus conselheiros fez dele. Ele tem a tromba de um vespão e olhos grandes que vêem tudo. Seu peito é como o de uma ave de rapina, e sua voz é como a de um chacal. Ele é cruel e tem um coração de tigre ou lobo.

—   Como isso pode nos ajudar? — perguntou Malone.

Um sorriso satisfeito iluminou o rosto envelhecido de Pau Wen.

—   Eu estive dentro da tumba de Qin Shi.

 

Lanzhou, China

Tang mostrou a Lev Sokolov o que estava dentro do balde. Os olhos do russo ficaram apavorados.

—   Ratos ativos — disse Tang.

Sokolov ainda estava deitado no chão, amarrado à cadeira, as per­nas dobradas, olhos para o teto, como um astronauta em uma cápsula. Sua cabeça começou a balançar para a frente e para trás, implorando para parar com tudo. Suor brotando em sua testa.

—   Você mentiu para mim pela última vez — disse Tang. — E eu protegi você. Os oficiais aqui de Gansu queriam prendê-lo. Eu impedi. Queriam bani-lo da província. Eu disse não. Chamaram-no de dissi­dente. E eu o defendi. Você não era nada além de problema. Pior, você me causou constrangimento pessoal. E isso eu não posso deixar sem resposta.

Seus três homens estavam ao lado da cadeira, dois nas pernas e um perto da cabeça dele. Tang acenou e eles seguraram Sokolov de forma que seu corpo ficasse na mesma posição. Tang rapidamente se aproximou e virou o balde, pressionando-o com força, mantendo-o no lugar, os ratos presos embaixo, agora andando e cheirando o peito nu de Sokolov. A cabeça do russo balançava da direita para a esquerda, as mãos de um dos homens de Tang segurando-a, os olhos fechados em agonia.

Tang pressionou o peito sobre o balde para garantir que ele não saísse do lugar e amarrou as cordas que estavam no chão para prender o balde ao corpo de Sokolov.

Tang deixou as coisas acalmarem-se por um momento, mas Soko­lov continuava debatendo-se.

—   Sugiro que fique quieto — disse Tang. — Assim você os deixaria menos agitados.

O russo pareceu recobrar um pouco do controle e parou de se de­bater, mesmo assim, os três homens continuaram segurando-o firme.

Tang foi até a mesa e pegou um dos dois últimos itens que trouxera da plataforma de petróleo. Um pequeno maçarico de mão com ignição instantânea movido a acetileno. O tipo de instrumento usado para pe­quenos consertos nos equipamentos. Abriu a válvula de latão. Saiu gás pela ponta, produzindo um assobio. Colocou o maçarico de pé sobre a mesa e pegou o último item, uma vela de ignição, e acendeu.

Ajustou a chama para azul quente.

Abaixou-se e deixou o calor lamber o fundo do balde, depois pas­sou a chama nas laterais do recipiente.

—   Conforme esquenta, os ratos instintivamente afastam-se do me­tal. Logo sentirão uma necessidade desesperada de sair da prisão. Mas não tem como sair. Tudo é resistente às garras deles, menos a sua pele.

Tang escutou os ratos batendo na parte interna do balde, guinchando de aflição.

Sokolov gritava por trás da fita, mas só era possível escutar um murmúrio. O corpo preso do russo estava todo tenso e molhado de suor. Tang continuava aquecendo o balde, com cuidado para não esquentar demais, apenas o suficiente para incitar os ratos a atacarem a carne.

O rosto de Sokolov estava deformado de aflição. Lágrimas escor­riam dos olhos do russo e pingavam pelas laterais.

—   Os ratos vão chegar até o seu estômago — disse Tang. — Vão cavar pela sua pele, tentando fugir do calor. — Ele continuava esquen­tando o balde com a chama. — Não podemos culpá-los. Qualquer cria­tura faria a mesma coisa.

Sokolov gritou de novo — um murmúrio longo e intenso que foi abafado pela fita. Tang imaginou o que estava acontecendo. Os ratos arranhando furiosamente, usando os dentes também, amaciando a car­ne que poderia ajudá-los a fugir mais rápido.

Tang aprendera que o truque era saber quando parar. Se demoras­se muito, a vítima ficaria com ferimentos sérios, talvez até fatais, cau­sados pelas infecções espalhadas pelos ratos. Se fosse rápido demais, o objetivo não seria atingido, e repetir o processo era problemático, a não ser que a vida da vítima não importasse.

Bastava.

Afastou o maçarico.

—   É claro — disse ele, mantendo o olhar tão gentil quanto a voz — que existe uma alternativa, se você estiver disposto a escutar.

 

Bélgica

Malone captou o significado do que Pau tinha dito.

—   Como isso é possível?

—   Quando o exército de terracota foi descoberto em 1974, o presi­dente Mao me mandou até lá para investigar e determinar a extensão da descoberta. Imediatamente percebi que o que tinha sido descoberto era de uma importância imensa. Ninguém fazia idéia de que o exército subterrâneo existia. — Pau apontou para as sedas à sua frente. — Shiji não fala nada sobre isso. Nenhum registro escrito menciona sua exis­tência. Era como se tivesse sido concebido, produzido, enterrado e, de­pois, esquecido.

Malone lembrava-se de ter lido sobre a descoberta. Pau estava cer­to — teve um significado enorme para a China. Milhões de pessoas iam ao sítio todo ano. Nenhum chefe de Estado que visitava o país deixava de ir lá. Até o papa foi visitá-lo durante uma visita sem precedentes à China no ano passado.

—   Enquanto eu estava no sítio arqueológico — continuou Pau —, em um dia de sorte, encontrei algo ainda mais notável.

As escavações não paravam, dia e noite, havia três meses. Já tinham sido desenterrados centenas de guerreiros de terracota, a maioria em pedaços, empilhados um em cima do outro, como árvores caídas em uma floresta. Por sorte, as peças estavam todas umas perto das outras, então Pau mandou que uma ofi­cina de restauração fosse construída, e as imagens, montadas. Os arqueólogos e engenheiros asseguraram-lhe que era possível fazer isso. De fato, eles estavam confiantes de que o exército inteiro poderia ser ressuscitado e colocado de pé, um guerreiro de cada vez. Podia haver milhares deles, disseram-lhe. Além de charretes e cavalos.

Que sítio seria aquele!

E ele concordava.

Mas o monte que ficava ali perto o interessava mais. Ficava a 1 quilôme­tro de distância, ao sul do rio Wei, ao lado das encostas da montanha Black Horse. Uma extensa pirâmide de terra com laterais rasas e base ampla, ocul­tada por árvores que se elevavam pela planície herbosa, aparentemente parte da paisagem.

Mas essa tinha sido a idéia.

Os homens da época de Qin Shi acreditavam que os mortos continuavam vivendo, mas em um mundo diferente, e que deviam ser tratados como os vi­vos. Então, o Primeiro Imperador criou para ele mesmo uma imponente necrópole imperial, um império subterrâneo para continuar seu reinado no mundo dos mortos. Uma vez criado, tudo foi escondido com terra, criando um monte que chegou a ter mais de 100 metros.

Alguém já entrou no monte?

Referências literárias de centenas de anos depois da morte de Qin re­latam que entraram na tumba duas vezes. Primeiro, rebeldes em busca de armas três anos após a morte do imperador, depois 700 anos mais tarde para ser saqueado. Cinzas espalhadas, terra queimada e os próprios guerreiros que­brados sugerem que a primeira violação pode ter ocorrido. Poucas das armas que os guerreiros carregavam foram encontradas até agora. Mas o monte em si não fez parte da primeira violação, e ninguém sabe ao certo se a segunda invasão realmente aconteceu. Ele lera o Shiji e sabia que era possível haver rios e oceanos de mercúrio ali dentro, parte de uma elaborada representação do império de Qin, e isso pode ter sido um problema. Embora na antigüidade fosse visto como um remédio, o mercúrio estava longe de ser isso, e provavel­mente contribuiu para a morte do imperador. O tolo ingeria todos os dias um elixir de mercúrio, achando que lhe garantiria a imortalidade. Mas, então, olhando o monte que estava ali havia mais de 2 mil anos, Pau pensou que talvez Qin estivesse certo.

Ali estava a imortalidade dele.

O próprio Mao interessava-se bastante pelo que estava acontecendo ali. Já tinham se passado sete anos desde a Revolução Cultural. Multidões ace­nando com seus livrinhos vermelhos com os ensinamentos de Mao já não existiam havia muito tempo, graças a Deus. Colégios e universidades ti­nham reaberto. O exército era estável. O comércio voltara. A China fazia parte do mundo de novo. Os guerreiros da época do Primeiro Imperador - um exército subterrâneo, imponente, silencioso e até agora desconhecido - podiam ser úteis para implantar o projeto de Mao para a construção da nação. Então, o governo assumira o controle do sítio, lacrado pelos milita­res, e os empregados eram revistados na entrada e na saída. Alguns saques aconteceram, a maioria arcos de bronze vendidos como sucata. Muitos fo­ram presos, tornando-se exemplos, para que nada atrapalhasse o potencial da área. O presidente tinha lhe dito para fazer o que fosse necessário afim de preservar o achado.

Mao confiava nele, não podia decepcioná-lo.

Então, ordenara mais escavações exploratórias.

Shiji deixava claro que havia inúmeros aspectos no complexo da tumba. As escavações já tinham dado frutos. Áreas de interesse tinham sido identi­ficadas. Em uma delas, cavalos e charretes foram descobertos. Não represen­tações, e sim ossos de cavalos e uma charrete de verdade. O que mais estava escondido na terra à sua volta? Só lhe restava imaginar. Levaria anos para descobrir tudo.

—   Ministro?

Ele virou-se para encarar um dos muitos supervisores a quem confia­ra os trabalhadores locais, homens com quem podia contar para manter a ordem.

—   Encontramos urna coisa.

Ele seguiu o grupo pelo sítio principal — que tinham começado a chamar de Cova 1 — até uma área 25 metros a noroeste.

Uma escada aparecia após uma curva escura, enfiada na terra vermelha.

—   Eu encontrei a biblioteca imperial embaixo daquele solo — disse Pau. — Centenas de manuscritos. Um mais valioso que o outro.

—   Nunca ouvi falar dessa descoberta — disse Malone.

—   Porque eu fechei o lugar. Mao não estava interessado em ma­nuscritos. Para ele, o passado não tinha importância, a não ser que pu­desse ser usado na sua revolução. Mao era legalista, não confuciano... Se é que entendem a diferença.

—   Benevolência versus opressão — disse Cassiopeia.

Pau assentiu.

—   É um debate que prossegue na China há muito tempo.

—   E você é o quê? — perguntou Malone.

—   Servi a muitos legalistas.

—   Isso não responde à minha pergunta.

—   Sou o que for melhor para a China. Essa sempre foi a minha preocupação.

Ainda não era uma resposta, então ele insistiu:

—   Por que o senhor fechou a biblioteca?

—   Para evitar que Mao destruísse o que estava dentro.

—   E o que estava dentro?

—   Ensinamentos que contradiziam os de Mao.

—   O senhor é bom em não responder a perguntas.

Pau sorriu.

—   Minha intenção era voltar e explorar mais o local, porém as cir­cunstâncias mudaram e não tive a oportunidade de retornar. Mas o que importa é o que encontrei lá dentro.

Malone esperou.

—   O caminho para a tumba de Qin Shi.

Tang observava enquanto Lev Sokolov pensava no que ele Ti­nha acabado de falar. O russo continuava preso à cadeira, mas o balde tinha sido tirado. Os roedores tinham dilacerado sua pele e sangue jor­rava de ferimentos feios.

—   Você vai fazer o que eu falei? — perguntou ele para Sokolov.

A boca do cientista ainda estava colada por uma fita, então só pôde assentir.

Tang apontou para a estante.

—   Você vai precisar de antibióticos, e depressa. Imagina a quantas doenças você foi exposto. Sugiro que não me decepcione.

Sokolov assentiu furiosamente, mostrando que isso não ia acon­tecer.

O telefone celular via satélite de Tang vibrou em seu bolso. Uma interrupção como essa devia ser vital, então olhou para ver quem era.

Viktor Tomas.

Foi para o corredor do lado de fora e atendeu a ligação.

—   Tenho algumas coisas para lhe contar — disse Viktor.

Escutou o que estava acontecendo na Bélgica, depois disse:

—   Você estava certo sobre Cotton Malone. Eu devia ter escutado.

—   Ele é incontrolável.

—   Não gosto muito dele, e você?

—   Ele é encrenca.

—   E Malone e Vitt estão na casa de Wen agora?

—   Estão.

Isso não fazia parte do plano.

—   Preciso saber os frutos dessa reunião.

—   Estou esperando essa informação agora mesmo.

 

Malone percebeu que a paciência de Cassiopeia tinha acabado. Sabia que a preocupação dela era o filho de Sokolov e que, no mo­mento, não tinham nada para oferecer para Karl Tang, então tentou perguntar para Pau:

—   O que o senhor viu dentro da tumba do imperador?

—   Posso lhe dizer que as histórias de saques estavam erradas. Era um lugar virgem. Intocado.

—   E ninguém ficou sabendo? — perguntou Malone. — Nem seu bom camarada Mao?

—   Tempos difíceis, Sr. Malone. Essas coisas não eram importantes naquela época. A Revolução Cultural de Mao fez com que inúmeras histórias chinesas se perdessem para sempre. As gangues quebraram mãos de pianistas, queimaram livros e pinturas, forçaram cirurgiões a limpar banheiros, professores a usar orelhas de burro. Mao queria muita desordem para que conseguisse alcançar muita ordem, por meio dele. Foi uma época em que destruímos de boa vontade nossa herança. A descoberta do exército de terracota acabou ajudando a mudar esse pensamento tolo, mas isso foi alguns anos depois. Na época da minha descoberta, preferi ficar com a boca fechada.

—   Mas mudou de idéia agora — disse Cassiopeia.

—   Preciso voltar para a China...

—   Sem ser notado — disse Malone.

Pau assentiu.

—   Vocês têm como. Eu estou precisando. Vocês também precisam. Dentro da tumba de Qin existem centenas de lampiões, cheios de pe­tróleo. Eu mesmo acendi um.

O anfitrião acompanhou-os de volta para perto do mapa em seda, que estava do outro lado da sala, e apontou para o meio dele.

—   Aqui fica Xianyang, capital de Qin. A tumba do Primeiro Impe­rador foi construída aqui por perto. Se conseguirem me levar até Xi'an, posso conseguir a amostra de petróleo de que vocês precisam.

Malone analisou o mapa mais de perto. Gostaria de saber ler o que estava escrito em toda à sua volta.

—   São designações antigas?

Pau assentiu.

—   Se o levarmos até lá, o senhor consegue entrar na tumba de Qin? — perguntou Cassiopeia.

—   A biblioteca que eu descobri foi redescoberta há poucos dias, adjacente à Cova 3 no museu de terracota.

—   Então, eles encontraram a passagem para a tumba — disse Ma­lone.

—   As informações que recebi dizem que os que encontraram a câ­mara estão concentrando seus esforços nos manuscritos. Não encontra­ram a entrada, e não encontrarão. Eu escondi bem a passagem.

—   Como o senhor sabe disso tudo? — perguntou Malone.

—   Karl Tang me disse, há pouco tempo. Nós nos falamos ao telefo­ne. Ele mencionou os manuscritos, mas nada sobre a passagem.

Essa informação aguçou o interesse de Malone.

—   E por que o senhor estava conversando com Karl Tang?

— Já fomos aliados, mas não somos mais. Preciso voltar para a Chi­na imediatamente. Em troca, eu lhes mostrarei a entrada para a tumba e darei um lampião cheio de petróleo da época de Qin Shi.

—   Onde está o lampião de dragão? — perguntou Cassiopeia.

—   O ministro Ni Yong o levou de volta para a China. Ele veio aqui, depois de você, procurando a mesma coisa. Como não era importante, deixei que ele o levasse.

—   Ele não sabe sobre o petróleo?

Wen balançou a cabeça.

—   Eu não contei a ele.

—   E o senhor ainda não vai nos contar por que aquele petróleo é tão importante para Karl Tang — questionou Cassiopeia.

—   Contarei. Mas quando estiver na China.

—   Então, me diga uma coisa — disse Malone. — E o seu lugar no avião depende de uma resposta muito boa. — Ele fez uma pausa. — Como você e Tang já foram aliados?

—   Nós dois fazíamos parte do Ba. Eunucos. Embora eu desconfie de que você já soubesse disso.

Verdade, ele já sabia.

Malone pegou o celular e disse:

—   Preciso fazer uma ligação.

Pau apontou para as janelas e para o pátio que ficava atrás.

Malone saiu e discou o número de Stephanie. Ela escutou o relato dele e o pedido. Falou um momento com Ivan, que estava com ela, depois disse:

—   Podemos fazer isso. Pode trazê-lo.

—   Estamos depositando muita confiança nisso.

—   Eu sei — disse ela. — Mais uma coisa, Cotton. O Robin Hood do museu, aquele que tentou atingir Cassiopeia... Quando examina­ram o corpo, descobriram uma coisa que agora me parece ainda mais relevante.

Malone já sabia.

—   Ele também era eunuco.

 

Tang estava parado no corredor e tranqüilamente digeria os novos acontecimentos.

Os americanos estavam envolvidos?

Inesperado, para dizer o mínimo. Mas não totalmente insuperável. Estava prestes a voltar para o quarto e encerrar seus negócios com Lev Sokolov quando o telefone tocou de novo.

Ele o atendeu.

—   Meu informante russo acabou de me avisar — disse Viktor. — Malone, Cassiopeia e Wen estão vindo para a China.

—   Você sabe como?

—   Os russos vão ajudar. Estão trabalhando com os americanos.

Um problema, por um lado, mas um alívio por outro. Escutou en­quanto Viktor explicava os planos da viagem, depois disse:

—   Isso nos dá a oportunidade de eliminá-los todos de uma só vez.

—   Exatamente o que pensei.

—   Quando eles virão?

—   Em poucas horas. Já reservei um voo.

—   Precisarei que você assuma o comando pessoalmente, assim que chegar aqui. — Lembrou dos espiões em seu gabinete. — Comunique-se apenas comigo. São poucos em quem posso confiar essas informações.

—   Resolverei tudo enquanto estiver a caminho — disse Viktor.

—   Acredito que você realmente vá gostar da morte de Malone, mas já percebi que as coisas são um pouco diferentes em relação a Cassio­peia. Antes, você deixou claro que ela não passaria daquela noite. Evi­dentemente que isso não aconteceu.

—   Por causa da interferência de Wen.

—   O que você quer dizer que foi minha interferência.

—   Eu não disse isso.

—   Não precisou. Ordenei o ataque a Ni, que falhou. Pau obvia­mente retaliou, o que causou problemas inesperados.

—   O senhor está no comando — disse Viktor

—   Ainda assim, tenho a impressão de que você ficou feliz por eu interferir, pelo menos no que diz respeito a ela.

—   Eu obedeço às suas ordens.

—   Quero saber. — Ele fez uma pausa. — Você tem alguma relutân­cia em ver Cassiopeia morrer junto com os outros?

A linha ficou em silêncio por um momento. Tang esperou.

—   Nenhuma -— disse Viktor. — Cuidarei disso.


 

Baía de Ha Long, Vietnã

Quinta-feira, 17 de maio

7H

Malone olhava perplexo aquela cena magnífica.

Ele conhecia a fábula. Certa vez, um dragão correu para a costa e, ao balançar o rabo, cavou vales e fendas pelo caminho. Quando a criatura se jogou no mar, a água preencheu as depressões, deixando monólitos, aquelas pequenas ilhas de pedra, imponentes como uma galeria de esculturas inacabadas, uma atrás da outra, quase alcançan­do o céu. Parado no cais, admirando a Baía de Ha Long, cujo nome significa "onde o dragão desceu ao oceano", ele quase acreditava na lenda. As águas tranqüilas estendiam-se por mais de 1.500 quilômetros quadrados, e acabavam alcançando o Golfo de Tonkin. Três mil ilhas pontilhavam a vastidão azul-turquesa, a maioria blocos de calcário inabitado. Arbustos e árvores verdejantes cobriam grande parte delas, o fascinante contraste de sua cor primaveril com o brilho opaco só real­çava aquela cena surreal.

Malone, Pau Wen, Cassiopeia, Stephanie e Ivan voaram da Bélgica a Hanói em um EC-37 da força aérea americana. Fizeram a viagem em pouco mais de dez horas, graças a um passe livre para o espaço aéreo russo conseguido por Ivan. Pegaram um helicóptero e fizeram um rá­pido voo para o leste, indo na direção da província de Quang Ninh. A Rússia parecia ter um bom relacionamento com os vietnamitas, pois eles foram recebidos no país sem maiores questionamentos. Quando Malone estranhou tanta camaradagem, Ivan simplesmente sorriu.

—   Já esteve aqui antes? — perguntou Cassiopeia.

Eles pararam perto de um conjunto de casas que formava uma vila flutuante. Enormes barcos turísticos repousavam ancorados, assim como muitos juncos, suas velas em forma de leque não encontravam vento. Um pequeno barco apareceu, dentro havia um pescador usando dois remos cruzados formando um X. Malone observou enquanto o homem equilibrava-se e jogava a rede na água, seus pesos abrindo a malha como uma flor.

—   Uma vez, anos atrás — respondeu Malone. — Em uma missão, passei por aqui a caminho da China.

—   Da mesma forma que fará hoje — disse Ivan. O russo observava o céu, procurando algo. — A fronteira está a menos de 200 quilômetros ao norte. Mas não iremos nessa direção.

—   Parece que você já fez isso antes — comentou Stephanie.

—   Algumas vezes.

Pau Wen passara o longo voo calado; dormiu a maior parte do tem­po, como fizeram todos, tentando ajustar-se às seis horas de diferença. Pau contemplava o mar, deixando a impressão de que também estivera ali antes. Uma fina névoa emanava da superfície da água, atenuando o sol nascente. Nuvens acinzentadas pontilhavam um céu azul.

—   Tran Hung Dao, alto comandante do Vietnã, enfrentou o exérci­to de Kublai Khan aqui —, disse Pau —, em 1288. Ele colocou estacas de bambu nos rios para que, quando os barcos chineses chegassem em maré baixa, como sabia que aconteceria, os cascos fossem perfurados. Quando isso acontecia, suas tropas apareciam e matavam os invasores.

Malone conhecia o resto da história.

—   Mas os chineses voltaram, conquistaram e dominaram a região por quase mil anos.

—   O que explica por que o Vietnã e a China não são amigos — acrescentou Ivan. — Boa memória.

Durante o voo, Malone lera as informações que Stephanie rapi­damente juntara sobre Pau Wen. A experiência de Wen era acadêmica com ênfase em história, antropologia e arqueologia, mas era evidente sua habilidade como político. De que outra forma alguém se tornaria confidente de Mao Tsé-Tung e Deng Xiaoping, duas personalidades ex­tremamente diferentes, e seria bem-sucedido com ambos?

—   Meu tio era pescador — disse Pau. — Ele navegava em um junco. Quando era criança, eu saía para velejar com ele.

Uns cinqüenta juncos flutuavam na baía.

—   A vela de algodão é imersa em um líquido que vem de uma planta similar à batata-doce — continuou Pau. — E isso que dá a colo­ração avermelhada. Também previne o apodrecimento e o mofo. Mi­nha tarefa, quando criança, era cuidar das velas. — Pau não fez esforço para esconder seu tom nostálgico. — Eu adorava a água. Ainda me lembro de costurar os grossos panos de algodão uns nos outros, um ponto de cada vez.

—   O que o senhor quer? — perguntou Malone.

—   Você é sempre tão direto?

—   O senhor alguma vez responde alguma pergunta?

Wen sorriu.

—   Só quando quero.

Cassiopeia pegou três sacolas na doca. Mais cedo ela havia se ofe­recido para comprar comida e bebida, e Ivan lhe dera dinheiro local para as compras.

—   Pão e refrigerante — anunciou. — Foi o melhor que consegui a essa hora da manhã. Há um café ali na frente que deve abrir daqui a pouco.

Uma pequena vila acomodava-se perto do litoral — um conjunto de prédios baixos em tons pastéis, com telhados simples e silenciosos, uma leve fumaça saindo de várias chaminés.

Malone aceitou a Pepsi e perguntou a Ivan:

—   Vamos ver se você consegue responder a uma pergunta. O que, exatamente, vamos fazer?

—   De vez em quando, entramos escondidos na China. Eles têm radares, mas as rochas e montanhas dão cobertura.

—   Vamos de junco até lá?

Ivan balançou a cabeça.

—   Hoje não.

Malone havia pedido a Stephanie outros três relatórios. Um sobre Karl Tang, primeiro vice-presidente da China e vice-primeiro-ministro do Partido Comunista. Tang era de origem simples, formado em geo­logia, ascendera de forma constante dentro do Partido até que, agora, estava a um passo do topo. No complexo sistema político chinês, o Par­tido Comunista estava intimamente interligado ao governo. Toda posição-chave no governo era ocupada por um representante do Partido. O que explicava por que o presidente também era o primeiro-ministro do Partido. Ninguém conseguia eleger-se a qualquer cargo sem o con­sentimento do Partido, o que significava que Karl Tang era um homem muito poderoso. Ainda assim, será que ele desejava tanto um lampião de uma velha tumba a ponto de seqüestrar um garoto de 4 anos?

Ni Yong parecia ser exatamente o oposto de Tang. A começar pelo nome, pois usava a forma tradicional em que o sobrenome vem à fren­te do nome. Criado na província de Sichuan em uma vila onde quase todos chamavam-se Ni. Serviu nas Forças Armadas por duas décadas, chegando a um alto posto. Ele também estava na Praça da Paz Celes­tial em junho de 1989 quando os tanques chegaram. O Ocidente consi­derava-o moderado, talvez até liberal, porém burocratas chineses que diziam uma coisa, mas faziam outra, já tinham enganado os ocidentais outras vezes. Sua gerência da Comissão Central de Inspeção Discipli­nar era vista como admirável por muitos, uma mudança animadora dos padrões de Pequim. A esperança era que Ni Yong se tornasse um novo tipo de líder do Oriente.

O último relatório tratava de Viktor Tomas.

Além de seu último encontro, Malone não sabia nada sobre aquele homem. O primeiro encontro deles acontecera no ano anterior, na Ásia Central, e fora breve. Viktor trabalhara para as forças de segurança da Croácia e, para não ser julgado por crimes de guerra, mudou de lado, ajudando a inteligência americana como informante. No ano anterior, quando souberam que Viktor havia se aproximado do chefe da Federa­ção da Ásia Central, pressionaram-no a cooperar. Mais cedo, no avião, enquanto os outros dormiam, Malone perguntara a Stephanie:

—   Ele é da Bósnia?

Ela balançou a cabeça.

—   O pai dele era americano. Ele foi criado na Bósnia e na Califórnia.

O que explicava a falta de qualquer sotaque europeu e sua profi­ciência em usar gírias.

—   Ele é útil, Cotton.

—   Ele é um informante. Nada além de um prostituto. Onde ele está agora?

—   Com Tang. Na China.

—   Então, qual é a dele? Está com os russos? Com os chineses? Qual é a missão dele?

Ela ficou muda.

—   Estamos apostando todas as nossas fichas nele — disse Malone. — E não gosto nada disso.

Stephanie não falou nada, o que dizia muito.

Mas Malone não falara da boca para fora, aquela era sua opinião sobre os informantes. Desleais e normalmente muito descuidados. Sa­bia disso não apenas por causa de Viktor, mas por tantos outros que en­contrara em sua vida como agente da Magellan Billet. A missão pode, ou não, ser crucial para eles. Os resultados não importam. Sobreviver e ser pago é o que importa.

Malone observou Ivan, que ainda analisava a Baía de Ha Long. O sol, a temperatura e a bruma matinal haviam aumentado rapidamente.

—   É um patrimônio da humanidade da UNESCO — informou Ste­phanie.

Ele viu o brilho nos olhos dela.

—   Como posso causar estrago nessa baía?

—   Tenho certeza de que encontraria um jeito.

—   Lá — disse Ivan. — Finalmente.

Ele viu o que chamou a atenção do russo. Um avião, descendo, atravessando o mar, em direção a eles.

 

Pequim, China

8H40

Ni entrou no mausoléu de Mao Tsé-Tung.

O edifício de granito ficava ao sul da Praça da Paz Celestial, um prédio baixo, com pilares, construído pouco mais de um ano após a morte do presidente. Supostamente, 700 mil trabalhadores participaram da construção do edifício, um símbolo do amor que o povo chinês nutria por seu Grande Timoneiro. No entanto, fora tudo propaganda. Os tais "trabalhadores" eram levados à capital todos os dias, de ônibus. Eram pessoas comuns, cada uma delas forçada a carregar um tijolo até o local. No dia seguinte, os mesmos tijolos eram recolocados por outras pessoas comuns trazidas pelos mesmos ônibus.

Loucura, mas nada fora do comum para a China.

O mausoléu estava fechado para reformas nesse último ano. Na pressa de se construir um memorial, pouca atenção fora dada à dis­posição das coisas. Feng shui fora ignorado. Como resultado, muitos problemas estruturais surgiram ao longo dos anos, problemas que seu avô poderia ter facilmente evitado.

No vôo vindo da Bélgica, Ni enviara um pedido para uma audi­ência urgente com o primeiro-ministro. Um funcionário respondeu ra­pidamente, confirmando que Ni seria recebido assim que chegasse ao país. Reportar-se diretamente ao primeiro-ministro sobre uma investi­gação em andamento não era incomum, já que a Comissão de Inspeção Disciplinar respondia somente a ele. No entanto, o encontro acontecer no mausoléu de Mao era diferente. O motivo era o primeiro-ministro estar lá fazendo a inspeção final antes da reabertura, que aconteceria em alguns dias. No saguão do mausoléu, uma enorme poltrona de már­more branco com uma estátua de Mao. Atrás dela, um mural destacava a extensão geopolítica do domínio póstumo do presidente. Seguranças cercavam o saguão de piso lustrado. Ele já conhecia o procedimento. Dois oficiais de terno se aproximaram e ele levantou os braços, prepa­rado para a revista.

—   Não é preciso — ouviu uma voz, oscilante pela idade, dizer.

O primeiro-ministro entrou no saguão. Um homem baixo, atarracado, com sobrancelhas grossas que pareciam crescer em direção às têmporas. Vestia terno e gravata pretos, como de costume, e andava apoiando-se em uma bengala vermelha envernizada.

—   O ministro Ni tem a minha confiança. — O primeiro-ministro indicou com sua bengala. — Deixem-no passar.

Os seguranças se retiraram sem confiscar a pistola em seu coldre. Havia recebido uma arma no momento em que saiu do avião. Achara prudente, dadas as circunstâncias incertas.

—   Vamos caminhar — disse o primeiro-ministro.

Eles se afastaram em direção ao interior do mausoléu.

Os sinais da reforma estavam por todos os lados: tinta fresca e mármore brilhando.

—   O que é tão urgente? — perguntou o primeiro-ministro.

—   Por favor, me fale sobre Pau Wen.

O velho parou.

Apesar da respiração fraca, da voz frágil e vacilante, das mãos e dos dedos magros, Ni percebeu que a mente daquele homem não era nada lenta.

—   Ele é perigoso.

—   Como assim? — perguntou Ni.

—   Ele é um eunuco.

—   E o que isso significa?

O primeiro-ministro sorriu.

—   Agora você não está sendo honesto comigo. Sabe bem o que isso significa.

Poucas luzes iluminavam o interior do prédio e o ar-condicionado deixava o ambiente gelado.

Ele havia dado o primeiro passo. Agora esperava uma resposta.

—   Não se pode confiar em um eunuco — continuou o primeiro-ministro. —A desonestidade é inerente a eles. Destruíram várias dinas­tias com suas traições.

—   Não preciso de uma aula de história.

—   Talvez precise. Quando o Primeiro Imperador morreu, seu eu­nuco chefe conspirou para que o filho mais velho, herdeiro do trono, cometesse suicídio. Então, ele auxiliou o outro filho a se tornar o Se­gundo Imperador, pensando que dessa forma poderia controlar o tro­no. O reinado durou apenas quatro anos. Tudo o que Qin Shi lutou para conseguir, o que milhões morreram para alcançar, desapareceu dentro de três anos após sua morte. Tudo por causa de um eunuco. Aquele pária ainda é lembrado na história como "o homem que cha­mou um veado de cavalo".

Ni não se importava nada com isso.

—   Preciso saber de Pau Wen e de seus contatos com ele.

Os olhos do primeiro-ministro estreitaram-se, mas ele não o repre­endeu.

—   Pau Wen também chamaria um veado de cavalo.

Ele não podia discordar de tal comentário.

Eles continuaram caminhando, o bater constante da bengala no chão de mármore acompanhado do arrastar de solas de couro.

—   Décadas atrás — disse o velho —, eu e Pau Wen éramos amigos. Realizamos muita coisa juntos. Nós nos desencantamos com Mao.

O primeiro-ministro parou, seu rosto se contorceu, como se tentas­se reunir todos os pensamentos, desconexos até este momento, alguns provavelmente desagradáveis.

— A Revolução Cultural foi uma época terrível. Os jovens eram en­corajados a atacar os mais velhos, os estrangeiros e os burgueses. Pen­sávamos que era certo, que era necessário. Mas era loucura e aconteceu por nada. No fim, o poderoso dragão não era páreo para a cobra local.

Ele assentiu ao escutar o antigo provérbio.

— A China mudou — disse o primeiro-ministro. — As pessoas mu­daram. Infelizmente, o governo não.

Ni teve de perguntar:

—   Por que está me contando essas coisas?

—   Por que sinto que você não vencerá a batalha que está por vir contra Karl Tang, ministro.

 

Baía de Ha Long

Malone balançou a cabeça ao ver o avião anfíbio bimotor, um Twin Bee, feito como um tanque com rebites, estruturas pesadas e grossas paredes de metal pintadas de vermelho e branco. Seu casco flutuava na água como um barco.

—   Sua passagem para a China — disse Ivan.

—   Você não pode estar falando sério — retrucou Cassiopeia. — Eles vão nos derrubar com facilidade.

O russo discordou.

—   Nunca aconteceu antes.

Ivan desdobrou um mapa que apoiou sobre grade de madeira do cais e colocou o dedo gorducho com a unha suja sobre a Baía Ha Long. Depois, traçou uma linha em direção ao nordeste, atravessando o nor­te do Vietnã, passando pela fronteira com a China e chegando à cidade de Kunming, na província de Yunnan, a 800 quilômetros de distância.

—   Vocês têm o caminho livre daqui até a fronteira — disse Ivan.

—   Parece que você e os vietnamitas são camaradas.

Ivan deu de ombros.

—   Eles não têm escolha.

Malone sorriu.

—   Lagos por todos os lados. Ao sul de Kunming, Dian Chi é a melhor opção. Tem 40 quilômetros de extensão. Vários lugares para pousar sem ser percebido.

—   E quando chegarmos? — perguntou Malone.

—   Podemos pegar o trem que vai para o norte até Xi'an — inter­feriu Pau Wen. — São apenas algumas horas. De lá, podemos ir de ônibus até o sítio arqueológico do exército de terracota.

Malone não estava convencido.

—   Isso aqui não é um passeio pela Europa. Você está falando de voar 800 quilômetros até um país fechado, com uma enorme força aé­rea, sem avisar. Eles podem facilmente tirar conclusões erradas.

—   Já consegui um piloto — disse Ivan —, que sabe manipular os controles.

—   Eu posso pilotar — esbravejou Malone. — Só quero estar vivo para conseguir pousar.

Ivan descartou as preocupações dele com um gesto da mão.

—   A província de Yunnan não é hostil.

Pau assentiu.

—   Sempre foi renegada. Localização remota, terreno inóspito, po­pulação diversificada. Um terço das minorias chinesas mora lá.

—   Temos amigos — continuou Ivan —, que nos ajudarão. O cami­nho estará livre. Leve este mapa que marquei. Suponho que saiba ler o mapa.

Cassiopeia puxou o mapa.

—   Eu fico com essa tarefa.

—   Tanque cheio? — perguntou Malone.

—   O suficiente para chegarem até lá. Mas devem entender que é uma viagem com passagem só de ida.

 

Ni não podia deixar que o comentário negativo o atingisse. Era mais esperto do que isso. Então, voltou à sua pergunta.

—   Conte-me sobre Pau Wen.

—   Eu não respondo a interrogatórios. Não sou uma de suas inves­tigações.

—   Talvez devesse ser.

—   Por causa de Pau Wen? Você dá muito crédito a ele.

—   Na Bélgica, Karl Tang enviou homens para me matar. Pau Wen os impediu. Ele também me contou coisas sobre você e Tang. Falou de conversas entre vocês dois. Disse que falaram sobre mim. Quero saber de tudo.

Eles pararam na entrada da cripta. O corpo de Mao ao centro, pro­tegido por um sarcófago de cristal.

—   Eu mandei subirem o corpo — disse o primeiro-ministro. — Queria vê-lo em toda sua glória.

Ni sabia que, como muitos outros em Pequim, Mao viajava a tra­balho todos os dias. O corpo era levado à superfície e depois de volta a uma câmara subterrânea à prova de terremotos, lacrado em um casu­lo transparente, cercado por nitrogênio puro. Lâmpadas de halogênio projetavam um brilho dourado sobre o corpo.

—   Você acha que Pau, Tang e eu somos co-conspiradores? — per­guntou o primeiro-ministro.

—   Não sei o que pensar. Estou apenas fazendo uma pergunta. Conte-me sobre suas conversas com Pau Wen.

—   Eu me lembro de quando Mao morreu — disse o primeiro-ministro, indicando o corpo. — Nove de setembro de 1976, pouco depois da meia-noite. A nação ficou de luto por dez dias. Alto-fa­lantes e estações de rádio transmitiam música fúnebre. Os jornais o declararam o maior marxista da era contemporânea e disseram que ele sempre iluminaria o caminho do avanço dos chineses. Naquele dia, por três minutos, o país inteiro caiu em silêncio. — O velho pa­rou, seus olhos fixos naquele espetáculo. — Mas para quê? Diga-me, para quê?

Ni percebeu que estava sendo ignorado.

—   Eu não estava lá. Você estava. O que esperava ganhar com a canonização dele?

O primeiro-ministro virou-se para encará-lo.

—   Sabe o que aconteceu depois que ele morreu?

Ni balançou a cabeça.

—   Publicamente, Mao havia escrito que queria ser cremado. Ele dizia que após a morte as pessoas não deveriam ocupar mais espa­ço. Deveriam ser cremadas. Ele anunciou publicamente que seria o primeiro e voltaria às cinzas, usado como fertilizante. Mas todos nós sabíamos que isso era só publicidade. Ele queria ser idolatrado. O problema era que ninguém sabia como embalsamar. Não faz parte dos nossos costumes. Os médicos encontraram um texto russo na biblioteca nacional e seguiram o procedimento, mas injetaram tan­to formol que seu rosto inchou como uma bola e as orelhas ficaram horizontais. Pode imaginar o que foi ver aquilo? A pele de Mao ficou viscosa, pois os produtos químicos começaram a vazar pelos poros. Eu estava lá. Eu vi.

Ni nunca havia escutado essa história.

—   Eles não podiam drenar o excesso, então usaram toalhas e algo­dão, na esperança de massagear o fluido para que se acomodasse no corpo. Um deles fez pressão demais e um pedaço da bochecha direita quebrou. Chegou a um ponto em que tiveram de cortar o paletó e as calças para conseguir enfiar o corpo dentro deles.

Ni se perguntou por que estava ouvindo isso.

—   Mas eles não eram completamente imbecis, ministro. Antes de injetar formol nele, fizeram um boneco de cera de corpo inteiro. — Ele apontou para o sarcófago. — E é isso que você vê agora.

—   Não é Mao?

Ele balançou a cabeça.

— Mao se foi, e já faz muito tempo. Isso é só uma ilusão.

 

Malone seguiu Cassiopeia e Pau Wen até o final do píer, com Stephanie ao seu lado.

—   Você sabe que isso é loucura — sussurrou ele.

—   Ivan falou que eles fazem isso o tempo todo. Normalmente do litoral para o norte. A única diferença é que metade do voo será sobre o Vietnã.

—   E isso deve fazer com que me sinta melhor?

Ela sorriu.

—   Você dá conta.

Malone apontou para Wen.

—   Levá-lo junto também é loucura.

—   Ele é seu guia.

—   Não somos parte de seja lá o que for que ele está procurando. Duvido que ajude muito.

—   Já que sabe disso, se prepare.

Ele balançou a cabeça.

—   Eu deveria estar vendendo livros.

—   Como está seu quadril?

—   Dolorido.

—   Preciso fazer contato antes de sairmos — gritou Cassiopeia, pa­rando ao fim do píer. Ela informara que um vizinho de Lev Sokolov concordara em servir como intermediário. Tudo o que precisava era de um laptop, que Stephanie providenciou, e conexão por satélite, que Ivan conseguiu.

Cassiopeia equilibrou o laptop na grade do cais e Malone ajudou-a a segurá-lo. Ele observou enquanto ela digitou um endereço de e-mail e uma mensagem.

 

LI SOBRE OS PENSAMENTOS DE MAO, MAS NÃO CONSIGO ACHAR SUAS PALAVRAS SOBRE UNIDADE. PODERIA ME AJUDAR?

 

—   Que esperto.

Ele sabia que os chineses censuravam a internet, restringindo o acesso a ferramentas de busca, blogs, fóruns ou qualquer site que permitisse livre conversação. Também aplicavam filtros que bus­cavam, em todo conteúdo digital que entrava ou saía do país, por qualquer coisa suspeita. Estavam prestes a criar sua própria intranet, exclusiva para a China, o que seria bem mais fácil de controlar. Ele tinha lido sobre o empreendimento, seus custos absurdos e desafios tecnológicos.

—   Achei uma cópia do Livro Vermelho e desenvolvi um código — disse ela. — As palavras de Mao nunca levantariam suspeitas. Os vizi­nhos disseram que checariam constantemente por alguma mensagem.

Citações do presidente Mao Tsé-Tung — ou como o Ocidente o cha­mava, O Livro Vermelho — era o livro mais impresso na história. Quase 7 bilhões de exemplares. Certa época, todo chinês era obrigado a ter um, agora essas edições eram valiosos itens de colecionador. Malone comprara um havia alguns meses, no leilão mensal de Roskilde, para um de seus clientes.

O laptop apitou com uma nova mensagem.

 

É DEVER DOS MILITARES E DO PARTIDO SERVIR O POVO. SEM OS INTERESSES DO POVO EM MENTE, SEU TRABALHO É INÚTIL.

 

Ela olhou para ele

—   Essa é a resposta errada. O que significa encrenca.

—   Eles podem dizer o que está acontecendo? — perguntou Stephanie.

—   Não sem se comprometerem.

Ela está certa assegurou Pau Wen. Também uso um código parecido quando me comunico com amigos na China. O governo mo­nitora o ciberespaço atentamente.

Malone devolveu o laptop.

—   Precisamos ir, só tenho de fazer uma coisa antes.

Ivan estava falando ao telefone havia alguns minutos, afastado do grupo. Malone desceu o cais e, assim que o russo terminou a ligação, perguntou:

—   Alguma coisa que queira dividir com a gente?

—   Você não gosta muito de mim, não é?

—   Não sei. Quem sabe se você melhorar sua postura, usar roupas diferentes, fizer uma dieta e mudar de atitude, nosso relacionamento melhore.

—   Eu tenho uma missão a cumprir.

—   Eu também, mas você está dificultando as coisas.

—   Coloquei um avião nas suas mãos e lhe ofereci uma forma de entrar no país.

—   Cadê o Viktor? Estou com saudades dele.

—   Também está em uma missão.

—   Preciso saber de uma coisa e, pelo menos uma vez, me fale a verdade.

Ivan o encarou.

—   Viktor está lá para matar Karl Tang?

—   Se tiver oportunidade, seria uma boa.

—   E Sokolov? Ele vai matá-lo também?

—   De jeito nenhum. Nós o queremos de volta.

—   Ele sabe muito? Talvez coisas que você não saiba?

Ivan simplesmente o encarou.

—   Eu acho que sim. Sokolov deve ter ficado bem ocupado durante o tempo em que ficou na China. Diga, se Viktor não conseguir resgatar Sokolov ou, Deus o livre, nós o encontrarmos primeiro, quais são as ordens dele?

Ivan ficou calado.

—   Exatamente o que pensei. Vou fazer um favor a nós todos e não contar isso para ninguém. — Ele indicou o fim do píer. — Ela não vai deixar isso acontecer a Sokolov.

—   Talvez ela não tenha escolha. Era muito melhor quando pen­sávamos que Sokolov estava morto. Agora, Viktor é quem vai decidir.

—   Faremos com que ele faça a escolha certa.

Malone aproximou-se do grupo enquanto Cassiopeia entrava no avião, seguida por Wen.

—   Sanguessuga maldito — sussurrou para Stephanie.

—   Fique de olho nele, Cotton.

Ele apontou para Ivan.

—   E você, fique de olho nele.

Malone entrou no avião. Dois assentos de couro lado a lado, Cas­siopeia estava em um e Pau sentou-se um banco atrás. O painel não se estendia ao lado do passageiro, o que facilitava a visão de Cassiopeia pelos vidros da frente. Ele apertou o cinto e analisou os controles, repa­rando que a velocidade máxima era de 200 quilômetros por hora. Um tanque de gasolina com 320 litros. Outro tanque reserva com 60 litros. Ele fez as contas. Cerca de 1.500 quilômetros de distância. O bastante para uma viagem só de ida, como Ivan havia dito, o que ele esperava não ter um duplo sentido.

—   Presumo que você saiba o que está fazendo — indagou Cassio­peia.

—   Chegou a hora de descobrir.

Ela lançou-lhe um olhar desconfiado.

—   O que foi? — perguntou ele.

—   Você sabe pilotar essa coisa, não sabe? — A dúvida estampava seu rosto.

Ele ajustou o acelerador, as hélices e o combustível. Olhou os plugues da quilha e percebeu que estavam intactos. Quanto virou a chave, o duplo motor rugiu. Malone testou a mistura de combustível até que as hélices girassem. Girou a manivela do elevador e a da guarnição do leme.

—   Sem problemas — disse ele.

Cassiopeia parecia não acreditar muito nele.

O avião começou a se movimentar e ele pegou o manche e fez a manobra pela baía. Virou na direção sul para que a leve brisa que per­cebera antes de embarcar ficasse atrás deles.

Acelerou os motores à potência de 180 cavalos.

O avião deslizou sobre o mar, os controles enrijeceram e ele segu­rou firme o manche.

Sua primeira decolagem na água. Algo que sempre quis fazer.

Em menos de 150 metros, o avião decolou, devagar e constante, como um elevador. Viram o mar aberto além da baía. Ele inclinou o avião para a esquerda e reajustou o curso para nordeste, de volta ao litoral. Os controles estavam lentos, mas respondendo aos comandos. Não era um P-3 Orion, ele sabia, nem mesmo um Cessna ou um Beechcraft. Esse tanque não fora feito para muita coisa além de pequenos saltos sobre a água.

—   Dê uma olhada naquele mapa — disse a Cassiopeia.

Ela examinou o mapa.

—   Nós vamos nos basear no terreno para chegar lá — esclareceu Malone.

—   Presumindo que este mapa esteja certo.

—   Não se preocupem — disse Pau em sua orelha direita. — Conhe­ço bem essa parte do Vietnã e da China. Posso nos guiar até lá.

 

Ni examinava o rosto do primeiro-ministro, tentando determinar se esse homem era amigo ou inimigo. Realmente não fazia idéia.

O que está vendo é a réplica de cera feita antes de o presidente ser embalsamado. O corpo se decompôs há muito tempo e foi cremado de acordo com o desejo de Mao.

—   Então por que manter este lugar aberto?

—   Ótima pergunta. Já me perguntei a mesma coisa várias vezes. A resposta mais simples é que o povo espera por isso.

Ni teve de falar:

—   Não acredito que este ainda seja o caso.

—   Você pode até estar certo. Essa é a tristeza da nossa herança. Não temos nenhum legado. Somente uma sucessão de dinastias, cada uma delas chegando com própria ambição, opondo-se à anterior, sendo bem recebida pelo povo para depois decair pela mesma corrupção da anterior. Por que nosso futuro seria diferente?

—   Está falando como Wen.

— Já disse que fomos próximos no passado. Mas chegou um ponto em que nos afastamos. Ele escolheu um caminho, e eu, outro.

Ele se sentia desconfortável. Estava acostumado a ter o controle da situação, a saber as perguntas e as respostas. Mas não agora. Os outros estavam vários passos à sua frente. Então perguntou o que realmente queria saber.

—   Por que vou perder para Karl Tang?

—   Porque não sabe das ameaças à sua volta.

—   Pau Wen disse o mesmo.

—   Quero saber de uma coisa. Se eu perceber que está mentindo ou me dizendo o que quero escutar, esta será a última vez que nos falaremos.

Ele não gostava de ser tratado como criança, mas reconheceu que aquele homem não chegara ao topo do triângulo político sendo um tolo. Então decidiu que responderia a pergunta honestamente.

—   O que fará com a China se for eleito primeiro-ministro?

Desde que Pau Wen lhe fizera a mesma pergunta, no dia anterior,

vinha pensando na resposta.

—   Primeiro irei separar o Partido Comunista do governo. Essa união é a fonte de toda a corrupção. Em seguida, a escolha dos repre­sentantes será reformada, baseada em mérito, e não em patrocínio. O papel da Assembléia Popular Nacional e de outros congressos me­nores nas províncias deve crescer. O povo deve ser ouvido. E, por fim, o Estado de Direito deve ser estabelecido, o que significa que o judiciá­rio tem de se tornar independente e funcional. Nós aprovamos cinco constituições desde 1949 e ignoramos todas elas.

—   Você está certo — disse o primeiro-ministro. — A autoridade do Partido tem sido debilitada por políticas irracionais, corrupção e nenhuma visão. No momento, e este é o meu maior medo, somente os militares têm a habilidade de administrar o país se falharmos. Eu compreendo que você faz parte das Forças Armadas, mas a nação não duraria muito como uma marionete.

—   Disso não tenho dúvidas. Três milhões de tropas ativas, contro­ladas por sete comandantes regionais, dos quais fui um, não poderiam governar. Devemos localizar e promover competência técnica, habili­dades gerenciais e comerciais em nosso povo. O ritmo extremamente lento do nosso processo decisório causa estragos incalculáveis.

—   Você quer democracia?

A pergunta foi sussurrada.

—   É inevitável. De alguma forma. Não como no Ocidente, mas alguns elementos não podem ser evitados. Uma nova classe média emergiu. Eles são inteligentes. Eles não escutam apenas o governo, mas também uns aos outros. Eles estão complacentes agora, mas isso está mudando. Guanxi deve ser abolido. É a raiz de todos os problemas re­lacionados à corrupção.

O princípio de "não é o que você sabe, mas quem você conhece" incita desonestidade. Guanxi dependia de conexões, forçando empreen­dedores a relacionarem-se com servidores do governo ou do Partido que poderiam aprovar seus pedidos e fazer-lhes favores. O sistema, tão entranhado que já fazia parte da estrutura governamental, permitia que di­nheiro e poder se mesclassem harmoniosamente, sem resistência moral.

O primeiro-ministro assentiu.

—   Esse sistema deve ser desfeito. Eu não tenho como fazer isso, mas a juventude vem ganhando poder. A individualidade está surgin­do. A filosofia de Mao se foi. — Uma pausa. — Ainda bem.

—   Na era da mensagem de texto, acesso à internet e a telefones celulares, um pequeno caso de corrupção pode incitar uma revolta — disse Ni. — Eu vi isso quase acontecer diversas vezes. A cada dia que passa, o povo está tolerando menos a corrupção.

—   Os dias de lealdade cega terminaram. Lembro-me de quando era jovem. Todos desejavam demonstrar seu amor por Mao, então fo­mos ao rio Azul, que diziam que Mao atravessara a nado, então que­ríamos fazer o mesmo. Milhares pularam no rio. Eram tantos que não havia espaço para nadar. O rio era como uma sopa, nossas cabeças pa­reciam almôndegas. — O primeiro-ministro parou. — Centenas de pes­soas morreram naquele dia. Minha esposa foi uma delas.

Ele não sabia o que dizer. Há tempos percebera que muitos da geração passada se recusavam a falar sobre as três décadas que sepa­ravam a Revolução de 1949 e a morte de Mao. Como se estivessem sobrecarregados demais com a dor e o ressentimento do que aconteceu para falar sobre o assunto. Assim, apenas mencionavam casualmente, como se falassem do clima, ou em sussurros, como se ninguém estives­se escutando.

Ele também carregava sua parcela de memórias amargas. Pau Wen se relembrou da Praça da Paz Celestial — Quatro de Junho de 1949 — sabendo que Ni estivera lá.

Ni sempre pensava sobre aquele dia, o dia em que sua vida mudou.

—   Onde está meu filho? — perguntou a mulher.

Ni não sabia responder. Ele estava protegendo um seguimento da enorme praça, sua divisão estava responsável por manter o perímetro da praça seguro.

A limpeza começara no dia anterior, a maioria dos manifestantes já havia ido embora, mas o ar ainda fedia a lixo e morte. Todos os dias, desde o mês de abril, pessoas apareciam. Até que mais de 1 milhão chegaram a ocupar o pavimento. Os estudantes haviam começado a rebelião, mas a maior parte da multidão era formada por trabalhadores desempregados, condenando a inflação que alcançava o patamar de dois dígitos e corrupção pública. Passara a última semana aqui, a mando de seu comandante, para vigiar os manifestantes, mas o que mais fazia mesmo era escutar.

—   A senhora deve ir embora — disse a ela.

—   Meu filho estava aqui. Preciso encontrá-lo.

Ela já era uma senhora, uns vinte anos mais velha do que ele. Os olhos expressavam uma tristeza que só uma mãe poderia conhecer. Sua própria mãe teria arriscado tudo por ele. Seus pais desafiaram a política de um só filho e deram à luz quatro crianças, o que trouxe um enorme fardo à família. Ele foi o terceiro, quase uma decepção, odiava a escola, não tirava boas notas e estava sempre metido em confusões. Quando não passou no exame nacional de admissão nas universidades, seu futuro estava decidido.

As Forças Armadas.

Lá encontrou um lar e um propósito: defender Mao, servir ao país.

Pensou, então, que sua vida havia finalmente se definido.

Até dois dias atrás.

Ele assistiu à 27a e 28a divisões dispersarem pacificamente a maior par­te da multidão. Essas divisões tinham sido trazidas das províncias da perife­ria, pois Pequim pensou que as divisões locais poderiam ser complacentes. Os soldados, quase todos desarmados, avançaram a pé e dispersaram as pessoas usando gás lacrimogêneo, e a maioria dos manifestantes fugiu em paz.

Um grupo com cerca de 5 mil pessoas permaneceu.

Eles atacaram os soldados com pedras e tijolos, usando ônibus incendia­dos como barricadas. Tanques foram utilizados e os manifestantes também os atacaram, um deles pegou fogo e matou seus ocupantes.

Foi aí que tudo mudou.

Na noite anterior, o exército voltara com rifles, baionetas e mais tanques. O tiroteio durou várias horas. Soldados e manifestantes morreram. Ele es tive­ra lá, nas margens, responsável por proteger a divisa externa enquanto as 27a e 28a divisões vingavam-se.

Todas as ordens anteriores de não atirar foram revogadas.

Riquixás e ciclistas atravessavam a disputa, resgatando os feridos, ten­tando levá-los a hospitais. Pessoas levavam surras, facadas e tiros. Os tanques esmagavam tanto corpos quanto veículos.

Viu tantos morrerem que perdeu a conta.

Pais e mães começaram a chegar havia algumas horas, forçando passagem para se aproximar da praça agora vazia. Todos foram alertados, mandados em­bora, e a maioria obedeceu. Porém alguns, como aquela mãe que ele confronta­va no momento, recusaram-se.

—   A senhora deve sair desta área — ele avisou novamente, a voz suave.

Ela examinou o uniforme dele.

—   Capitão, meu filho tem mais ou menos a sua idade. Estava aqui desde o início. Quando eu soube o que estava acontecendo, tive de vir. Tenho certeza de que compreende. Deixe-me procurar por ele.

—   A praça está vazia — disse Ni. — Ele não está aqui.

—   Há corpos — disse ela, com uma voz que falhava devido à emoção.

E havia. Empilhados como madeira, longe da vista, a apenas 100 metros de distância. Um dos motivos pelos quais seus homens haviam sido alocados para cá era manter todos afastados dos corpos. Seriam descartados ao anoite­cer, removidos e queimados em uma única fogueira para que ninguém pudesse contar o número de mortos.

—   A senhora tem de ir — insistiu ele mais uma vez.

Ela o empurrou para o lado, seguindo em frente, além do ponto que seus homens receberam ordens de defender. Ela fazia com que se lembrasse tanto de sua mãe, que lhe ensinara a nadar, a andar de patins, a dirigir um caminhão. Uma alma amorosa que só se importava com o bem-estar dos filhos.

Antes que pudesse impedir a mulher, outro soldado, um capitão como ele, ergueu seu rifle e atirou.

A bala atingiu a espinha da mãe.

O corpo dela inclinou, depois caiu de frente no chão.

Uma onda de raiva o atingiu. Ni apontou seu rifle para o soldado.

—   Você a avisou para não avançar. Eu escutei. Ela ignorou. Eu estava seguindo ordens.

O capitão encarava a arma, sem medo em seus olhos.

—   Nós não matamos mulheres desarmadas — declarou Ni lentamente.

—   Fazemos o que devemos.

O capitão estava certo.

O Exército de Libertação Popular fazia o que tinha de fazer, o que incluía matar homens e mulheres desarmados. Até hoje ninguém sabe quantos morreram na Praça da Paz Celestial, ou nos dias e nas semanas seguintes. Centenas? Milhares? Dezenas de milhares?

Tudo que ele sabia era que uma mulher havia perdido a vida.

Uma mãe.

—   Nós fomos tolos — disse o primeiro-ministro. — Tantas coisas estúpidas fizemos por Mao.

 

Lanzhou, China

Tang estava satisfeito com o fato de o prédio ter sido protegido. Ordenara a seus homens tomarem o controle do laboratório petro­químico, mandando embora todos que fossem dispensáveis e restrin­gindo o acesso. Por sorte, apenas 12 pessoas trabalhavam no prédio, a maioria funcionários do escritório e assistentes, e somente um dos dois cientistas daquele laboratório ainda estava vivo.

Lev Sokolov.

Na véspera, tinham trazido o expatriado russo da cidade, depois que um médico cuidara de seus ferimentos. Os ratos deixaram suas marcas, física e mental. Matar Sokolov não estava fora de questão, mas antes Tang precisava de informações. Jin Zhao não revelou nada além de que Lev Sokolov havia encontrado a prova.

Mas o que era?

Sokolov abraçava o abdome com um dos braços, protegendo os curativos que Tang sabia que estavam ali. Ele apontou para a mesa em aço inoxidável e para um recipiente em cima dela.

—   Isso é uma amostra de petróleo extraída ontem de um poço no lado ocidental de Gansu. Mandei perfurar no mesmo lugar onde os antigos perfuraram na época do Primeiro Imperador. — Ele percebeu que Sokolov sabia do que estava falando. — Exatamente como Jin Zhao instruiu. Achei que você sabia. Agora me diga o que você achou. Zhao disse que você localizou um indício.

Sokolov assentiu.

—   Uma forma de ter certeza.

Excelente.

—   O mundo inteiro vem extraindo petróleo constantemente da terra por mais de 200 anos — disse Sokolov, com a voz inexpressiva. — Petróleo biótico, combustível fóssil, não está muito longe da superfície. É de fácil acesso e nós o esgotamos.

—   Como sabe disso?

—   Porque eu testei amostras de todos os poços no planeta. Existe um depósito na Europa onde todas estão armazenadas. Nenhuma de­las contém combustível fóssil.

—   Você ainda não me disse como sabe disso.

—   Petróleo abiótico tem a mesma aparência, o mesmo cheiro e rea­ge da mesma forma que o petróleo biótico. A única diferença é que pre­cisamos perfurar mais fundo para alcançá-lo. Nem sei se isso importa mais. Onde está o meu filho? Quero ele de volta.

—   Você o terá de volta. Quando eu tiver o que quero.

—   Está mentindo.

Ele deu de ombros.

—   Sou o único caminho até o seu filho. Agora, ele é só mais um en­tre os milhares de meninos que desaparecem a cada ano. Oficialmente, o problema não existe. Entendeu? Seu filho não existe.

Ele viu a desesperança no rosto do russo.

—   O petróleo biótico acabou — continuou Sokolov. — Já foi abun­dante. Era formado de matéria orgânica decomposta, ficava perto da superfície e de fácil acesso. Mas enquanto retirávamos combustível fóssil do solo, a terra reabastecia algumas dessas reservas com petróleo criado em camadas mais profundas. Nem todos os poços se reabastece­ram. Alguns são bióticos sem espaço para o petróleo abiótico alcançar a superfície. Então, eles secam. Outros estão sobre fissuras onde o pe­tróleo abiótico pode escoar das camadas profundas.

Perguntas se formavam em sua cabeça. Há 2.200 anos, foi encontra­do petróleo em Gansu. Há 200 anos este mesmo poço secou. Ele havia estudado a geografia subterrânea e sabia que as fissuras naquela área eram muito fundas — canais de terra por onde petróleo pressurizado poderia subir com facilidade. A teoria de Jin Zhao era que petróleo abiótico poderia ter escoado das camadas mais profundas, restaurando o poço de Gansu.

—   Como sabe que o poço em Gansu simplesmente não continha mais petróleo do que pensávamos?

Sokolov parecia sentir dor. Respirava com dificuldade e olhava mais para o chão do que para Tang.

—   Sua única chance de ver seu filho novamente é cooperando. — Tang deixou claro.

O russo balançou a cabeça.

—   Não falarei mais nada.

Tang pegou o telefone e discou um número. Quando atenderam, ele perguntou:

—   O garoto está aí?

—   Posso buscá-lo.

—   Então vá.

Ele encarou Sokolov.

—   Ele está aqui — falou a voz ao seu ouvido.

—   Ponha-o ao telefone.

Tang entregou o aparelho para Sokolov, que não o aceitou.

—   Seu filho quer falar com você — disse Tang.

A expressão desafiante desapareceu do rosto do russo. Ele levan­tou a mão lentamente para pegar o telefone.

Tang balançou a cabeça e ligou o alto-falante.

Uma voz agitada —jovem, estridente — falou, perguntando se seu pai estava lá. Ficou óbvio que Sokolov reconhecera a voz, pois começa­ra a falar, mas Tang silenciou o telefone e disse:

—   Não.

Ele levou o aparelho ao rosto.

—   Fique na linha. — Foi a ordem que deu ao homem que estava ao telefone. — Se o camarada Sokolov não me disser exatamente o que quero saber no próximo minuto, quero que mate o garoto.

—   Não pode! — gritou Sokolov. — Por quê?

—   Eu tentei a persuasão, depois a tortura e pensei que havíamos progredido, mas você continua a me desafiar. Só me resta matar seu filho e descobrir o que preciso em outro lugar.

—   Não existe outro lugar. Eu sou o único que conhece o procedi­mento.

—   Você deve ter registrado em algum lugar.

Sokolov balançou a cabeça.

—   Apenas na memória.

—   Não tenho mais tempo a perder com sua relutância em coope­rar. Outros assuntos necessitam da minha atenção. Decida.

Um ventilador de teto girava lentamente, quase não movimentan­do o ar quente do laboratório. Com a derrota estampada em seu rosto, o geoquímico assentiu.

—   Deixe o garoto onde está — disse Tang. — Devo ligar de novo daqui a pouco.

Ele desligou o telefone e esperou Sokolov falar.

—   Se a amostra na mesa tiver o indício — disse o cientista —, pro­va que o petróleo é de fonte abiótica.

—   Que indício?

—   Diamantoides.

Ele nunca ouvira o termo antes.

Menor do que o comprimento de onda da luz visível. Partículas minúsculas de diamantes que se formam dentro do petróleo criado na profundidade da crosta terrestre, onde temperatura e pressão são altas. Um milhão deles mal cabe na cabeça de um alfinete, mas eu os encon­trei, e os nomeei. Adamantes. Grego para "diamante".

Ele percebeu o orgulho na declaração, mas o ignorou e perguntou:

—   Como você os encontrou?

—   Aquecer petróleo a 450°C causa a evaporação dos compostos químicos. Somente os diamantes ficam, o que é revelado por raios X.

Ele se maravilhou com o conceito.

—   Eles têm as mais variadas formas: bastões, discos, até mesmo parafusos, e não estão presentes no petróleo biótico. Diamantes só po­dem ser formados nas profundezas do manto. E isso é a prova concreta do petróleo abiótico.

—   E como sabe que a terra realmente produz o petróleo?

—   Bem aqui, neste laboratório. Eu aqueci mármore, óxido de ferro e água a 1.500°C em 50 mil vezes a pressão atmosférica, simulando as condições de 150 quilômetros abaixo da terra. Todas as vezes eu pro­duzi metano e octano.

Tang compreendeu a importância do resultado. Metano é o princi­pal componente do gás natural, e octano é a molécula do hidrocarboneto na gasolina. Se eles podiam ser produzidos em laboratório, podiam ser produzidos naturalmente, junto com o próprio petróleo.

—   Os russos sabem disso, não é? — perguntou.

—   Eu mesmo encontrei mais de 80 campos no Mar Cáspio utilizan­do essa teoria. Alguns ainda duvidam, mas sim, os russos acreditam que o petróleo é abiótico.

—   Mas eles não têm provas.

Sokolov concordou.

—   Eu fui embora antes de descobrir os diamantoides. Zhao e eu fizemos isso aqui.

Então os russos trabalham em cima de uma teoria não compro­vada?

—   Por isso não falam disso publicamente.

E por que estavam muito interessados, pensou Tang. Sem dúvida, querem Sokolov de volta. Quem sabe até silenciado, para sempre. Ain­da bem que Viktor Tomas o mantinha informado sobre o que os russos estavam fazendo. Entretanto Tang não falou nada sobre o assunto. Em vez disso, disse:

—   E é por isso que eles mantêm o mito da escassez?

—   Eles assistem, entretidos, enquanto o restante do mundo paga caro pelo petróleo, sabendo que é infinito.

—   Porém, são igualmente cautelosos, já que não têm prova de que sua teoria é verdadeira.

—   O que é compreensível. Para eles falta o que você tem. Uma amostra verificada de um lugar onde os antigos perfuraram petróleo. Apenas os chineses poderiam ter tal amostra. — A repulsa invadiu a voz de Sokolov. — Esse é o único lugar na terra onde o homem perfu­rou petróleo dois milênios atrás.

Tang inchou-se de orgulho.

Sokolov apontou para a mesa.

—   Se existirem diamantoides nessa amostra, o petróleo é abiótico. Tudo que precisa é de uma amostra retirada naquela época, do mesmo campo, para comparação. Para comprovar a teoria, tal amostra deve ser comprovadamente biótica e não apresentar diamantoides.

Ele apreciava a simplicidade da equação. Primeiro, petróleo biótico esgotado com a perfuração substituído por petróleo abiótico. E Gansu talvez seja o único lugar na terra onde essa comparação pode ser feita. Todos os registros históricos sobreviventes deixam claro que os primeiros exploradores, mais de 2.000 anos atrás, perfuraram ex­clusivamente nas proximidades do poço em Gansu. Qualquer petróleo existente naquela época teria vindo daquela área.

Tudo que precisava era de uma amostra comprovada daquele pe­tróleo.

—   Você disse que o lampião não existe mais — falou Sokolov. — Nem o petróleo. Então, de onde virá a amostra de comparação?

—   Não se preocupe, camarada. Eu protegi aquela amostra e você a terá em breve.

 

Pequim

Ni percebeu que o primeiro-ministro expressava-se de forma sutil, como se pretendesse manter seu ouvinte tenso. Das outras vezes, havia uma mesa entre eles, os seus relatórios investigativos eram re­cebidos com pouco interesse e parcos comentários. Mas essa conversa era diferente.

—   Eu me lembro — disse o velho — quando as janelas dos ônibus eram cobertas com slogans e fotos de Mao. Assim como as vitrines das lojas. Estações de rádio só transmitiam música revolucionária, pen­samentos de Mao ou notícias oficiais. Cinemas exibiam apenas Mao cumprimentando a Guarda Vermelha. Até mesmo óperas e balés só representavam obras revolucionárias. Todos nós carregávamos nosso livro de citações, já que nunca se sabia quando lhe mandariam citar uma seção.

A voz do primeiro-ministro era baixa e rouca, como se as memó­rias fossem amargamente dolorosas.

—   Servir o povo. Essa era a mensagem de Mao. Na verdade, nós o servíamos. E esse prédio é a prova de que ainda o servimos.

Ni começou a entender por que estavam ali.

—   Hegemonia é a nossa fraqueza — continuou o primeiro-minis­tro. — Essa relutância que temos de cooperar com qualquer potência estrangeira, mesmo quando não há ameaça. A hegemonia é uma ex­pressão natural do nosso totalitarismo, assim como as relações pacífi­cas são da democracia. Nós sempre acreditamos ser o centro geográfico e geopolítico do mundo. Durante séculos, e especialmente desde 1949, o único objetivo da nossa política externa tem sido dominar nossos vi­zinhos e, em seguida, o restante do mundo.

—   Isso está totalmente fora do nosso alcance.

—   Eu e o senhor sabemos disso, mas e o restante do mundo? Lem­bro-me de quando Kissinger veio em 1971, em uma missão secreta, para estabelecer as bases de um novo relacionamento entre os Estados Unidos e a China. O uso do termo hegemonia confundiu os tradutores americanos. Eles não conseguiam transmitir adequadamente o signifi­cado. O conceito era literalmente desconhecido para eles. — O primeiro-ministro apontou para a cripta. — Mao então disse: a China se ergueu. Ele estava dizendo ao mundo que nenhum estrangeiro jamais nos controlaria novamente. Receio, porém, que ninguém estava escutando.

—   Nós sempre fomos ignorados — disse ele. — Vistos como retró­grados, antiquados. E pior ainda, repressivos e ditatoriais.

—   O que é culpa nossa. Nunca nos esforçamos para contradizer essa percepção. Na verdade, parecemos gostar de estar sob uma luz negativa.

Ni ficou intrigado.

—   Porque o senhor é tão cínico?

—   Estou apenas falando a verdade. E desconfio de que o senhor saiba bem disso. A democracia é rival da hegemonia. Dispersão de po­der entre as autoridades eleitas, em vez de concentrá-lo nas mãos do governante; fortalecer, em vez de subjugar o povo. Esses conceitos es­tão além da nossa compreensão.

—   Mas não podem mais permanecer assim.

—   Eu me recordo dos anos 1950, quando Mao estava no auge do poder. Mapas eram desenhados mostrando nossas fronteiras se esten­dendo ao norte, sul e a oeste para terras que não controlávamos. Es­ses mapas eram distribuídos aos oficiais para motivá-los a pensar com grandeza. E funcionava. Acabamos intervindo na Coréia, invadindo o Tibete, bombardeando Kinmen, atacando a Índia e ajudando o Vietnã, tudo com a intenção de dominar essas terras. — O primeiro-ministro fez uma pausa. — Somente o Tibete continua sob nosso controle, e nos­so domínio lá é frágil, depende de força.

Ni lembrou-se do que Pau disse.

—   Está dizendo, então, que não deveríamos ter orgulho nacional?

—   Parece que só o que temos é orgulho. Somos a cultura mais an­tiga do planeta, e olhe bem para nós. Temos pouco para mostrar por nossos esforços, além de uma infinidade de problemas insuperáveis. Receio que sediar os Jogos Olímpicos teve um efeito semelhante ao dos mapas. Uma motivação para os ambiciosos dentro do governo faze­rem coisas tolas. — Pela primeira vez a voz soou com raiva, e os olhos brilharam furiosos. — Continuamos conscientes de todas as vezes que fomos desrespeitados décadas atrás, ou mesmo séculos atrás. Por qual­quer motivo, queremos nos vingar, não importa quão trivial. É ridículo, absurdo e será a nossa ruína.

—   Nem todos pensam assim — disse Ni.

O primeiro-ministro assentiu.

—   Eu sei. Somente os homens de mais idade. Mas ainda há muitos de nós, e há homens jovens prontos para explorar nossos medos.

Ele sabia exatamente a quem esse comentário era dirigido.

—   Mao está lá — disse o primeiro-ministro — para que o adore­mos. A imitação de cera de um líder fracassado. Uma ilusão. No entan­to, 1,5 bilhão de chineses ainda o adoram.

—   Eu não. — Ele sentiu-se fortificado ao fazer a declaração.

—   Não adore. Nunca.

Ni ficou calado.

—   Homens como Karl Tang são perigosos para todos nós — dis­se o primeiro-ministro. — Eles vão defender a recuperação forçada de Taiwan, e depois de toda a região do Mar da China Meridional. Eles vão querer o Vietnã, Laos, Tailândia, Camboja, Mianmar e até mesmo a Coréia. Nossa velha grandiosidade recuperada.

Pela primeira vez, Ni compreendeu a gravidade da batalha imi­nente. Ele disse:

—   E, no processo, eles nos destruirão. O mundo não vai ficar para­do enquanto tudo isso acontece.

—   Eu consegui manter as coisas em ordem — disse o primeiro-ministro. — Sabia que não podia mudar nada, apenas manter tudo como estava até meu sucessor chegar. Esse homem estaria em uma posição melhor para fazer mudanças. Você está pronto, ministro, para ser essa pessoa?

Se lhe fizessem a mesma pergunta três dias atrás, ele teria respon­dido que estava. Agora não tinha tanta certeza, e algo em seus olhos deve ter revelado seu momento de dúvida.

O velho assentiu e disse:

—   Tudo bem ter medo. O medo nos mantém humildes, e a hu­mildade nos torna sábios. Isso é o que falta em Karl Tang. É a sua fraqueza.

Alguns momentos de silêncio se passaram. Uma voz interior aconselhou-o a ter cuidado com suas palavras, enquanto outro pensamento de Mao veio à mente.

A campanha do Desabrochar de Cem Flores.

Uma época da década de 1950, quando a crítica ao governo foi en­corajada, novas soluções e idéias foram incentivadas, e milhões de car­tas chegavam ao governo. Em pouco tempo, apareceram cartazes nos campi das faculdades, passeatas eram realizadas, artigos publicados, todos defendendo uma mudança rumo à democracia.

Mas foi apenas uma armadilha política, uma maneira inteligente de desentocar os dissidentes. Mais de meio milhão foram presos, tor­turados ou mortos.

—   Sabe dos eunucos? — A pergunta do primeiro-ministro o pegou de surpresa.

Ele assentiu.

—   Pau Wen e eu treinamos para o Ba. Dedicamos os dois anos exigidos para meditação e instrução, nos preparamos para a iniciação. Ambos estávamos despidos e nossos abdomens envoltos com as ataduras, os nossos corpos banhados com água de pimenta. Eu segurei Pau enquanto ele era castrado, senti o tremor de suas pernas, presen­ciei a angústia em seu rosto, vi como ele aceitou a mutilação com hon­ra. — Sua voz tornou-se um mero sussurro. — No entanto, quando chegou a hora e o Tao perguntou se eu lamentaria o que estava prestes a acontecer, eu disse que sim.

Ni o fitou incrédulo.

—   Eu fiquei com medo. Quando confrontado com a perspectiva do que ia acontecer, algo me disse que a faca não era o meu destino.

—   E essa voz estava certa.

Um olhar cansado tomou conta do rosto envelhecido.

—   Talvez. Mas saiba que aqueles que enfrentam a faca e não emi­tem um som sequer possuem uma força que o senhor e eu não compre­endemos.

Ni não se esqueceria disso.

—   O discurso oficial do Partido, naquela época e agora, é que Mao estava 70 por cento certo e 30 por cento errado. Mas nunca identifica­mos qual parte do seu pensamento está certa ou errada. — Uma risada escapou dos lábios finos do primeiro-ministro. — Que tolos nós somos.

O velho apontou para o corpo de Mao.

—   Ele supostamente repousa sobre uma pedra negra de Tai Shan, como um lembrete do que Sima Qian escreveu em Shiji. A vida pode ser mais pesada que o monte Tai ou mais leve que uma pena de ganso. Você deve decidir, ministro. Como será a sua?

 

Malone manteve a altitude do avião por volta de 5 mil pés. Nunca tinha pensado que um dia voaria pelo espaço aéreo vietnamita. Abaixo, estendia-se uma paisagem de montanhas e colinas que cres­ciam exuberantes a partir de vales verdes, envoltas em névoa, muitas riscadas por fazendas de arroz.

—   Estamos nos aproximando da fronteira — informou Cassiopeia. Ela estudava o mapa fornecido por Ivan.

—   As autoridades locais na província de Yunnan — disse Pau — têm boas relações com seus vizinhos. Eles têm fronteira não apenas com o Vietnã, mas também com Laos e Myanmar. Pequim fica muito longe, então a lealdade deles sempre foi mais local.

—   Espero que isso ainda seja verdade — disse Malone. — Não estamos com armas suficientes.

—   Durante o expurgo conduzido por Mao, muitos fugiram para Yunnan. O fato de ser remoto ofereceu refúgio. O terreno ao norte da­qui, na China, é similar ao que está abaixo de nós agora.

Ivan os orientou a seguir a ferrovia Kunming-Hekou, uma linha construída pelos franceses no início do século XX, do Vietnã até a Chi­na, passando pelas cidades bastante populosas de Gejiu e Kaiyuan.

—   Você costuma trabalhar sempre com os russos? — Pau pergun­tou a Malone.

—   Normalmente não.

—   Qual é o interesse deles aqui?

—   Como se fôssemos contar a você — disse Cassiopeia, virando-se e encarando Wen. — Que tal você nos dizer por que está voltando para casa e nós diremos por que os russos estão aqui.

—   Estou voltando para impedir uma revolução.

—   É mais provável que comece uma — disse ela.

—   Você é sempre tão agressiva?

—   O senhor é sempre tão falso?

—   Aparentemente, você não sabe o que é o guanxi.

—   Explique-me, por favor.

—   Em toda a nossa história, para superar momentos difíceis, os chineses se apoiam na família e nos amigos. Naqueles que podem aju­dar. É chamado de zôu hòu mén. "Pela porta de trás." Claro, se um favor é oferecido e aceito, aquele que recebeu o favor tem a obrigação de retribuir. Isso mantém o guanxi em equilíbrio.

—   E o que o impede de nos levar direto para um desastre? — per­guntou Cassiopeia.

—   Não sou o inimigo. Karl Tang detém essa excelência.

—   Estou vendo a fronteira — disse Malone.

Cassiopeia voltou a prestar atenção ao terreno.

A ferrovia seguia como uma cobra em direção ao norte, atraves­sando uma rodovia que Ivan disse que agora conectava a China ao Vietnã. A estrada virava a oeste, a linha ferroviária seguia ao norte. Uma ponte atravessava o rio Vermelho, entupida com carros parados em um posto de controle.

Malone desceu para mil pés.

—   Aqui vamos nós.

 

Ni invadiu o gabinete da Comissão Central de Inspeção Disci­plinar, localizado propositalmente longe do Zhongnanhai, um comple­xo de palácios, pavilhões e lagos de Pequim que servia de sede tanto para o Partido quanto para o governo. Sua visita ao primeiro-ministro fora preocupante. Nada fazia sentido. Tudo parecia invertido. Ele esta­va dividido pela dúvida, envolto por uma nuvem turbulenta de emo­ções desconhecidas e assombrado pelos questionamentos do primeiro- ministro.

Como sua vida seria avaliada?

Por sua força ou fraqueza?

Ao chegar ao carro, telefonara mandando que toda a sua equipe se reunisse na sala de conferências. Ele precisava de aliados, não de traidores, e estava na hora de descobrir que posição cada um ocupava.

Quatorze pessoas esperando. Nove homens, cinco mulheres. Ele acalmou a onda de entusiasmo com um gesto e imediatamente dispen­sou as mulheres. Então, disse aos homens:

— Tirem suas calças.

Todos olharam para ele, incrédulos.

Ele tirou a arma e apontou-a diretamente para eles.

— Eu não vou repetir.

 

Cassiopeia olhava pela janela a paisagem montanhosa. A luz do sol aquecia o ar rarefeito. Estavam voando pelo espaço aéreo chinês havia mais de uma hora, sem problemas. Olhando para trás, ela ficou feliz por estar voando com Malone. Mesmo que Viktor Tomas tenha salvado sua vida duas vezes, ela confiava em Cotton Malone.

Implicitamente.

Ele fora à Bélgica quando precisou dele, e isso queria dizer alguma coisa.

Ela deixara poucos homens se aproximarem. Manter as emoções escondidas sempre fora o melhor caminho. Ela lera uma vez que mu­lheres com pais fortes gravitavam em torno de homens fortes, e Malone, definitivamente, fazia com que ela se lembrasse de seu pai. Ele fora um gigante dos negócios, um bilionário que fizera fortuna sozinho e con­trolou a Europa e a África. Muito parecido com Henrik Thorvaldsen, a quem admirara muito, mas só percebera o quanto bem mais tarde. A morte parecia levar todo mundo que ela amava. A idéia de sua própria morte, que parecera tão próxima e vivida no museu, estava fresca em sua memória. Que confusão de sentimentos. Este era um momento definitivo. Logo, estaria com 40 anos. Não tinha marido nem filhos, nin­guém com quem compartilhar a vida. Morava sozinha em uma antiga propriedade francesa, uma vida dedicada a ajudar os outros.

E ignorando as próprias necessidades?

Talvez fosse hora de mudar tudo isso.

Ela sempre ficava ansiosa para ver Malone e lamentava quando se separavam. Estaria procurando um substituto para seu pai, o único homem em sua vida que nunca desafiou? Não. Essa explicação era sim­ples demais. Sua mãe diria que os homens são como campos — exigem cultivo cuidadoso e atenção diária, tudo na esperança de que um dia possam se provar produtivos. Uma abordagem um tanto cínica.

Que não funcionava para ela.

Ali estava ela, voando sobre o sul da China, a caminho do desco­nhecido. Valia a pena? Se encontrasse o filho de Lev Sokolov, sim.

E se não?

Não queria pensar em fracasso.

Então, controlou sua ansiedade pensando em Malone e percebeu que talvez tivesse realmente encontrado algo para si.

Algo que queria.

Finalmente.

 

Ni ficou satisfeito ao ver que nenhum de seus funcionários mais próximos era um traidor. Lembrou-se do que Pau Wen falara da medicina moderna e como os efeitos da castração poderiam ser masca­rados, então seguiu a única forma de investigação que garantia resulta­dos. Também mandou que seu assessor-chefe realizasse imediatamen­te uma inspeção física em todos os homens no prédio. Enquanto isso acontecia, ele revisou as informações que sua equipe tinha acumulado desde o dia anterior.

Não havia referência alguma a uma organização chamada Ba nos arquivos de segurança. Esses registros teriam incluído interrogatórios de presos, declarações de testemunhas, relatórios de incidentes, noticiá­rio, qualquer coisa que não exigisse um selo segredo de estado. Os arquivos continham milhões de documentos, muitos haviam sido digi­talizados, tornando possível uma pesquisa razoavelmente rápida. His­toricamente, sua equipe descobriu o que Pau Wen já havia dito, sobre como o Ba surgiu de um antigo movimento legalista e supostamente desapareceu por volta do século XVII.

Nada indicava que a organização ainda existia.

Também havia pedido que fizessem uma pesquisa sobre Pau Wen, mas nenhum registro oficial revelou qualquer ligação entre Pau, o pri­meiro-ministro e Karl Tang.

No entanto, tal ligação certamente existia, eles mesmos haviam admitido.

Um toque na porta de seu escritório atrapalhou seus pensamentos.

Seu assessor-chefe entrou.

—   Todos foram examinados. Nenhum eunuco, ministro.

—   Você acha que eu sou louco, não é?

—   Eu nunca me atreveria a julgá-lo.

Ele gostava daquele homem, honrado e acima de qualquer censu­ra, foi por isso que o escolheu como assistente-chefe.

—   Não pude lhe dizer antes — disse o assessor —, enquanto os outros estavam aqui. Mas encontramos algo na noite passada.

Sua atenção aguçou.

—   Uma chamada do exterior foi feita para o celular do ministro Tang. Eu pedi que suas linhas fossem monitoradas semanas atrás. Ele usa vários telefones, com números que mudam a cada semana. Tem sido um desafio ficar à frente dele. Não grampeamos todas as conver­sas, mas conseguimos o suficiente. — Seu assessor entregou-lhe um pen drive. — Uma gravação.

Ni inseriu o pen drive em seu computador e escutou. Imediata­mente reconheceu as vozes de Tang e Pau. Detectou a tensão e o con­flito. Reconheceu o desafio que esses homens representavam um para o outro. A traição de Tang e seu aviso a Pau: "Não existe nenhuma forma legal de você entrar na China. Nenhum visto será emitido. Tenho absoluto controle sobre isso. Os poucos irmãos que estão com você aí também serão impedidos de voltar."

—   É a prova que procurávamos? — perguntou o assistente. Ele balançou a cabeça

—   Não é o suficiente.

Mas ao menos ele sabia que aquilo tudo não era ficção.

 

Malone contemplava a imensidão verde de um lago, sua su­perfície brilhante, com ondulações e pontilhada de juncos.

Lago Dian.

Montanhas contornavam o litoral oeste, as encostas exuberantes cobertas de árvores, a maior parte do lado leste era formada por planí­cies de terra ocra ocupadas por fazendas. Fumaça saía das chaminés de uma aldeia de pesca a alguns quilômetros de distância.

Diminuiu a altitude do avião para 500 pés.

Cassiopeia soltou seu cinto e inclinou-se, olhando pela janela da frente. Ele reparou no mapa que as montanhas a oeste eram chamadas Xi Shan. Viu, esculpidos no penhasco, caminhos e escadas que conectavam uma sucessão de templos, seus pagodes imponentes, com telha­dos curvos e beirais pintados, fazendo com que se lembrasse do Tivoli e de casa.

— Os contornos ondulados das colinas — disse Pau Wen — se as­semelham a uma mulher deitada, com mechas de cabelos que voam para a água. Por isso, são chamadas de A Bela Adormecida.

Malone achou que o título parecia adequado.

—   Os templos são das dinastias Yuan, Ming e Qing. Ali, onde o teleférico chega ao cume, no século XVIII, um monge taoista esculpiu um longo corredor até a face da montanha. A lenda diz que seu cinzel quebrou quase no fim. Em desespero, ele se jogou no lago. Cinqüenta anos depois, seus seguidores completaram o trabalho, que é conhecido como o Portão do Dragão.

—   Parece história para turistas — disse Cassiopeia.

—   Na verdade, o conto é bem próximo da realidade.

Ivan dissera que o lago estendia-se por 40 quilômetros de norte a sul, e Malone acreditava nisso por não ver nada além de água no ho­rizonte.

—   Vamos ver o que tem lá embaixo antes de pousar.

Ele empurrou o manche para a frente e reduziu a velocidade.

O vôo para o norte atravessando a província de Yunnan fora sosse­gado, o céu estava vazio. Ele tinha se acostumado à viagem tranqüila, mas, de repente, as asas do Twin Bee sacudiram.

Os motores estalaram, religando em seguida.

Projéteis perfuraram o casco e ricochetearam pela cabine.

O ar escapava pelos buracos.

A asa direita despedaçava-se a cada impacto e os elerões soltaram-se. O avião começou a cair para a esquerda por falha nos comandos do lado direito.

—   O que foi isso? — perguntou Cassiopeia.

A resposta veio quando um jato passou por cima deles, deixando um rastro de fogo no céu da manhã.

—   Tiro de canhão — disse ele.

A asa triangular do bombardeiro desapareceu na distância, mas o rastro de fumaça indicava seu retorno para um novo ataque.

—   Esse jato é do Exército de Libertação Popular — disse ele —, e não está aqui por acaso. Os chineses sabiam que viríamos.

Ele mexeu no manche e usou a velocidade para recuperar o míni­mo de controle. Durante todo o vôo, irritara-se com a falta de sincronia dos dois motores. Para um piloto, a arfada era o sinal mais claro, mas os motores do Twin Bee gritavam um com o outro como um soprano e um barítono discutindo.

—   O que posso fazer? — perguntou Cassiopeia.

—   Diga onde o jato está.

—   Ele está vindo na nossa direção, por trás — avisou Pau serena­mente.

Eles estavam forçando caminho pelo ar denso, apenas alguns me­tros acima do lago. Malone conseguiu altitude subindo a mil pés. O Twin Bee não era páreo para os aviões modernos, canhões e mísseis guiados.

Eles possuíam, porém, uma arma.

—   Qual é a distância?

—   Difícil dizer — respondeu ela. — Vários quilômetros.

Ele conhecia inúmeros pilotos de caça e sabia como pensavam, in­dependente da nacionalidade. Ele mesmo quisera ser um. Essa era uma presa fácil, um gavião desafiando um pombo. O piloto ia se aproximar antes de atirar.

Checou o velocímetro.

Um pouco abaixo de 110 quilômetros.

Lembrou-se do que seu instrutor havia lhe ensinado.

Ninguém nunca colidiu com o céu. A altitude é sua amiga.

—   Chegará em poucos segundos — disse Cassiopeia.

Ele esperava que o Twin Bee agüentasse o que estava prestes a fazer. As superfícies de controle a estibordo estavam danificadas, mas os controles a bombordo e o leme da cauda pareciam intactos. O mais importante, os motores estavam funcionando. Esperou mais dois se­gundos, então acelerou ao máximo e puxou o manche. O anfíbio seguiu em uma subida íngreme, erguendo-se com o casco gemendo. A altura do Twin Bee aumentava enquanto tracer rounds eram disparadas, dei­xando suas marcas no céu limpo.

2.000 pés

2.500

3.000

O bombardeiro passou por baixo deles, seus motores deixaram um rastro de fumaça preta. Caça-bombardeiros não são feitos para baixas al­titudes. Eles funcionam melhor na estratosfera, e não perto da terra, onde combustível e computadores poderiam ser aproveitados ao máximo.

Atingiu 3.300 pés.

—   Meu estômago está na garganta — disse Cassiopeia.

—   Eu tinha de fazer algo inesperado.

—   Isso definitivamente foi inesperado.

Ele sabia que aviões pequenos não eram o meio de transporte fa­vorito dela, lembrou-se de uma viagem de helicóptero bastante turbu­lenta pela Ásia Central com Viktor como piloto.

Concentrou-se no que estava à sua frente. O Aniquilador surgiu na distância. Malone percebeu que o caça podia facilmente abatê-los com mísseis ar-ar. Outra lição da Marinha passou por sua mente.

Aprenda com o erro dos outros.

—   Vamos descer — alertou.

Reduziu a velocidade e girou a manivela dos elevadores. O ar lá fora era volúvel e inconsistente, o que só agravava a situação. Baixou a asa esquerda e caiu lentamente. Após uma curva fechada, ele angulou o nariz e estabilizou a uns 800 pés acima do lago.

—   Consegue ver o jato? — perguntou.

Cassiopeia girou a cabeça em todas as direções.

—   Não. Mas isso não significa nada. Ele ainda pode nos ter na mira.

Um fato que ele já sabia. Lutava para manter a asa equilibrada, já que as superfícies de controle a bombordo ignoravam seus comandos.

—   Pelo visto isso era uma armadilha — acrescentou Pau Wen.

—   Brilhante observação.

Ele lançou um olhar para Cassiopeia, que parecia ter compreen­dido. Viktor. De que outra forma ficariam sabendo? A China era um lugar enorme e, ainda assim, aqui estavam, esperando, no Lago Dian, exatamente para onde Ivan os enviara.

As copas das árvores aproximavam-se enquanto ele planava sobre o lago. Felizmente, o junco mais próximo flutuava a mais de 1,5 quilô­metro de distância.

Um sopro de vento empurrou-os para a direita.

Ele manteve o nariz elevado.

Malone nunca havia feito um pouso na água antes e já notava que a percepção de profundidade seria diferente. Tinha de avaliar a distância correta e garantir que a velocidade estaria perfeita quando a parte infe­rior do avião tocasse a superfície. A última coisa de que precisavam era quicar pelo lago. Também estava preocupado com a estagnação. Por sorte, nenhum vento soprava, ou pelo menos nenhum que ele conse­guisse ver nas árvores. Decidiu facilitar e desligar os motores enquanto passavam pela última árvore, nada além de água aproximando-se à frente.

Como lhe ensinaram: a gravidade nunca perde.

—   Estou aliviada que há bastante espaço — disse ela.

Ele também estava. Bastante espaço para deslizar até parar. Malo­ne aliviou o manche e empinou o nariz para que a cauda tocasse a água primeiro. Um pensamento veio à sua mente. Os flutuadores embaixo de cada asa precisavam ficar acima da água, já que poderiam acabar tornando-se âncoras.

O Twin Bee quicou duas vezes, depois deslizou pela água. Malone sentiu, pelo manche, que estava perdendo tração, e o avião parou a cerca de 200 metros da costa.

Ele abriu a porta.

Cassiopeia fez o mesmo do outro lado.

O Twin Bee balançava sobre a água agitada, sua fuselagem crivada de buracos de bala. Malone estudou o céu. O bombardeiro estava longe para ser visto. Para o sul, um flash apareceu. Um instante depois, um rastro de vapor serpenteou um caminho através do céu da manhã.

Soube imediatamente o que estava acontecendo.

Míssil ar-terra, guiado por radar, vinha direto na direção deles.

—   No lago. Agora. Mergulhem fundo — gritou.

Esperou um instante para ter certeza de que Cassiopeia e Pau en­traram na água verde-musgo, depois mergulhou. Ignorou o frio e lançou-se para o fundo, nadando com as mãos em concha.

Outro pensamento perturbador passou por sua cabeça. Poluição. Provavelmente aquela água não era pura.

Poucos segundos depois, uma explosão abalou a superfície e o Twin Bee foi destruído pelo míssil. Ele arqueou o corpo e forçou-se para a superfície. Sua cabeça encontrou ar e ele abriu os olhos, não en­contrando nada do anfíbio além de destroços em chamas.

Um segundo depois, Cassiopeia e Pau surgiram na superfície.

—   Estão bem? — gritou.

Ambos acenaram com a cabeça.

—   Precisamos alcançar a margem.

Ele nadou em torno dos escombros que ainda queimavam, na di­reção deles, Inclinou a cabeça para o sul. Um ponto negro começou a crescer em tamanho.

O Aniquilador estava voltando.

—   Boiem de bruços na água. Finjam-se de mortos — disse ele —, e não se mexam até ele ir embora.

Malone logo assumiu a mesma posição, na esperança de que o tru­que funcionasse. Perguntou-se por que o caça não tinha simplesmente os abatido. Teria sido fácil, principalmente no início, quando não sa­biam de sua presença. Mas certamente a idéia era permitir que o lago engolisse as provas.

Estendeu os braços e permitiu que seu corpo flutuasse, na esperan­ça de que o piloto não se certificasse da morte deles bombardeando-os com tiros de canhão.

 

Lanzhou

Tang deixou o laboratório, satisfeito com a solução do problema que Lev Sokolov representava. Instruiu os homens que deixara para vigiar o prédio de que qualquer tentativa de fuga deveria ser com­batida com violência. Agora, entendia o suficiente para saber por onde começar — com ou sem Sokolov. O russo só oferecia uma forma mais conveniente de confirmar a descoberta, mas não a única.

E suas implicações eram enormes.

A China precisava de mais de 300 milhões de toneladas de petró­leo bruto por ano. A produção industrial do país — o que significava toda a sua economia — baseia-se no petróleo. Atualmente, 60 por cen­to são importados da África, América Latina e Rússia, como forma de não se tornarem vulneráveis à volatilidade política do Oriente Médio e não ficarem sob influência dos Estados Unidos. Por que outra razão a América ocupou o Iraque se não para monopolizar a oferta de pe­tróleo do Oriente Médio? Ele não conseguia pensar em outro motivo, seus especialistas também não. Esses mesmos especialistas alertavam repetidamente que os Estados Unidos facilmente transformariam o petróleo do Oriente Médio em uma arma. Bastaria uma pequena interrupção no fornecimento e a China entraria em uma queda livre que o governo não conseguiria impedir. Tang já estava cansado de lidar com nações desonestas ricas em petróleo. Há poucas semanas, milhões de iuanes foram emprestados para mais um país africano que nunca pagaria — tudo para garantir que a China seria o primeiro país na lista de exportação de petróleo. A política externa do regime atual — uma mistura vertiginosa de apaziguamento, contradição, rejeição e defesa — há muito tempo troca mísseis balísticos, recursos nucleares e tecnologias preciosas apenas para garantir que o petróleo continue fluindo para o país.

Isso humilha a China, e expõe uma fraqueza.

Mas tudo isso poderia mudar se os milhares de poços espalhados pela China pudessem prover energia perpétua. Ele não poderia revelar "como", mas poderia explorar "o quê", mantendo o petróleo fluindo e eliminando os tanques que lotavam os portos chineses todos os dias carregando petróleo bruto. Resultados levam ao sucesso, e sucesso leva ao orgulho. Devidamente embalados e distribuídos, seus efeitos pode­riam certamente fortalecer qualquer regime político.

De acordo com a teoria do combustível fóssil, sabia que a China possuía somente 2,1 por cento das reservas mundiais de petróleo. Os Estados Unidos, 2,7 por cento. A Rússia, 7 por cento. O Oriente Médio, 65 por cento. Nada pode ser feito sobre a dominância árabe, um de seus vice-ministros advertiu recentemente. Discordava. Tudo depende do que você sabe.

Seu telefone tocou.

Parou de andar em direção ao carro que o esperava e atendeu.

— O alvo está no lago — disse Viktor Tomas.

A idéia era atacar o avião de Pau Wen atraindo o mínimo de aten­ção. Tráfego de rádio, monitorado por inúmeras agências governamen­tais, incluindo os funcionários na província de Yurvnan, verificariam que uma aeronave não identificada havia sido interceptada por um caça militar. O protocolo exige que intrusos sejam abatidos.

- Sobreviventes? — perguntou Tang.

- Três. Na água. O bombardeiro está fazendo sua passagem final. Vai usar canhões para se certificar de que ninguém vai nadar para a praia.

— Você sabe o que fazer.

 

Malone boiava, a água batia em suas orelhas, o que tornava difícil ouvir. Esperava que três corpos flutuantes satisfizessem a curiosi­dade do piloto. Ele arriscou virar apenas um pequeno ângulo de sua cabe­ça e viu que o caça ainda estava ao sul, sua combustão se intensificando.

Em seguida, um novo som. Vindo do leste.

A batida constante de lâminas giratórias cortando o ar.

Ele se virou e tirou a água do rosto.

Um helicóptero pairava sobre as árvores. Maior do que um heli­cóptero de ataque, parecia ser um transporte armado. Parou sobre o lago, virado para o sul. Ambos, Cassiopeia e Pau, aparentemente per­ceberam a mudança e pararam de boiar também, observando.

—   Malone — disse uma voz pelo alto-falante. — Estou em contato com o jato, pedindo ao piloto que recue.

Viktor.

Malone avaliou a situação enquanto assistia ao Aniquilador conti­nuar sua abordagem.

—   Parece que ele não quer ouvir — disse Viktor.

Outros segundos passaram-se, e dois mísseis ar-ar foram lançados do helicóptero, seguindo diretamente para o bombardeiro. Em menos de dez segundos o caça foi desintegrado, pedaços em chamas surgindo de uma densa nuvem de fumaça e cobrindo a margem com destroços.

—   Temos que sair da água — gritou Malone.

Eles começaram a nadar em direção à margem.

Gostariam de uma carona? perguntou Viktor.

O helicóptero pairava sobre eles.

Dois cabos desceram.

—   Você e Pau vão — disse ele. — Eu vou nadar.

—   Um pouco insensato, não acha? — disse Cassiopeia, enquanto ela e Pau prendiam-se.

—   Não para mim.

Ele observou enquanto eram içados pelo lago e levados para a margem, cerca de 200 metros de distância.

Verdade, a poluição do lago o preocupava, mas ficar em débito com Viktor Tomas parecia pior.

 

Ni examinava o lampião do dragão. Antes de seguir para a reunião com o primeiro-ministro no túmulo de Mao, mandara que trouxessem o lampião do aeroporto e colocassem-no em sua mesa.

Karl Tang tinha se esforçado muito para recuperá-lo. Por quê? No­tou gravuras do seu lado e perguntou-se o que elas significavam. Ele deveria mandar ser examinado por alguns especialistas. A campainha do telefone em sua mesa o irritou. Avisara seus funcionários de que não queria ser incomodado.

Apertou com força o botão que piscava.

—   O gabinete do primeiro-ministro está na linha.

Sua raiva desapareceu.

—   Pode passar.

Poucos segundos depois, o mesmo sussurro rouco do túmulo de Mao disse:

— Apenas alguns minutos atrás, um de nossos caças J-10 forçou uma aeronave anfíbia não identificada a pousar no Lago Dian. Em se­guida, o caça foi derrubado por um de nossos helicópteros, pilotado por um estrangeiro autorizado a voar pelo ministro Tang.

Ele escutava em estado de choque.

—   Esse helicóptero estava protegendo três pessoas que haviam fu­gido para o lago. — O primeiro-ministro fez uma pausa. — Um deles era Pau Wen.

Ni levantou-se da cadeira.

—Parece, ministro, que Pau voltou para casa. Durante muitos anos, ele tentou me convencer a permitir seu retorno. O que ele lhe disse é verdade. Nós nos falamos várias vezes desde que assumi este cargo. Na verdade, também falamos de você. Essas conversas eram inocentes. Dois velhos lamentando as oportunidades perdidas. Há muito tempo que Pau quer voltar, mas é melhor que ele fique longe. Infelizmente, parece ter encontrado um caminho de volta sem o meu consentimento.

Ni arrepiou-se.

—   O que está acontecendo?

—   Uma excelente pergunta, para a qual você deve descobrir a res­posta. Eu realmente não sei. Mas gostaria de saber por que perdemos a vida de um homem e uma aeronave de 5 milhões de iuanes.

Ni também gostaria.

—   Há muito tempo aprendi que aqueles que se destacam em defesa enterram-se nas profundezas da terra — continuou o primeiro-ministro. — Aqueles que se destacam em ataque agem das maiores alturas do céu. Pau Wen nunca age na defensiva. Ele se mantém em constante ofensiva.

O fuso horário estava deixando Ni extremamente cansado. Enig­mas não ajudavam.

—   O que devo fazer?

—   Eu sei o que Karl Tang está procurando, e também sei por que Pau Wen voltou.

—   Então envolva a segurança interna e as forças armadas. Eles po­dem lidar com a situação.

—   Não, ministro. A última coisa que a China suportaria é uma guerra civil pública por controle político. O caos seria insuperável. O mundo quer tirar vantagem da nossa crise. Isso deve ser um assunto privado. Entre o senhor e Tang. Não vou envolver mais ninguém, nem permitir que o senhor faça isso.

—   Parece que Tang envolveu o exército.

—   E eu tomei medidas para impedir que isso aconteça novamente.

—   Então o que devo fazer?

—   O senhor pode começar ouvindo. Tenho de lhe contar o que aconteceu, em 1977, pouco depois que Mao morreu.

 

Cassiopeia soltou a corda e saltou os poucos metros que restavam até o chão. Estava molhada, mas felizmente o ar da manhã esta­va quente. Pau Wen saltou ao lado dela. Ela ficou impressionada com a agilidade do homem mais velho.

—   Você está bem? — perguntou ela.

—   Muito bem. — Ele alisava sua camisa e calças encharcadas.

Eles estavam à beira de um campo amplo que se estendia a leste do lago por 1 quilômetro ou mais. O helicóptero afastou-se algumas centenas de metros e aterrissou, levantando uma nuvem de poeira. Ela se apressou em direção à beira do lago, chegando no instante em que Malone surgiu.

—   Não há como saber quantos parasitas e bactérias tenho agora dentro de mim — disse ele, água escorrendo por todo o corpo.

Ela sorriu.

—   Não pode ser tão ruim assim.

—   Fácil para você dizer. Você não vai ter seis dedos e três braços em alguns dias.

Pau Wen aproximou-se deles.

Na verdade, esta parte do lago é relativamente limpa. A parte norte é outra história.

— Onde está seu namorado? — perguntou Malone.

Ela não gostou de seu tom, mas entendeu o ressentimento. Viktor sabia da rota, porque Ivan sabia, o que significava que tinham sido traí­dos por um deles, ou por ambos.

Mas isso não fazia sentido.

Os russos queriam encontrar Sokolov, Por que acabar com a mis­são, antes mesmo de começar?

Ela ouviu passos pela terra seca atrás deles e virou-se para ver Viktor, vestido em um macacão de voo verde, vindo em sua direção.

Malone passou correndo por ela e deu um soco na cara de Viktor.

 

Malone estava preparado quando Viktor ficou de pé. Desviou da primeira investida e acertou outro soco no estômago de Viktor e, imediatamente, notou que era duro como aço.

—   Você nos traiu — disse ele —, de novo.

Viktor baixou os punhos.

—   Malone, você é tão burro assim? Karl Tang não liga a mínima para você. É ele quem Tang quer morto. — Viktor apontou para Pau. — Só o que fiz foi intervir e salvar o seu pescoço, o que, aliás, pode vir a custar o meu.

—   E você espera que acreditemos nisso? — perguntou Malone.

—   Tang quer vê-lo morto — Viktor disse a Pau. — Para salvá-los, tive de salvar você.

Wen virou-se para Malone.

—   Temos de seguir para o norte. Tang tem um poder enorme nesta região.

—   Posso levá-los para onde precisarem — disse Viktor.

—   E por que confiaríamos em você? — perguntou Cassiopeia.

—   Acabei de explodir um piloto. Isso não mostra de qual lado estou?

Malone percebeu a mudança no tom de voz. Mais macia, mais cal­ma. Tranquilizadora. A voz parecia ser apenas para ela. Porém Malone queria saber:

—   Karl Tang vai nos deixar vagar pela China em um helicóptero PLA? Podemos fazer o que nos der vontade?

—   Se formos rápidos, estaremos bem longe antes que ele tenha tempo de reagir. Minhas ordens eram assegurar que o caça bombar­deasse o lago com seus canhões para que ninguém nadasse até a mar­gem. Mudei as ordens. Vai demorar um pouco para que se reorga­nizem. Uma coisa que aprendi é que os chineses, diferente de nós, não sabem como improvisar. Essa não foi uma ação com permissão oficial, então algum comandante local está agora tentando decidir o que fazer.

Malone, passando a mão pelos cabelos molhados, tentou avaliar suas opções.

Não havia muitas.

Olhou para o lago e percebeu que nenhum dos juncos aproxima­ra-se dos destroços na água ou na margem onde eles estavam.

Quando se virou para fazer outra pergunta a Viktor, um punho acertou seu queixo. O choque deixou-o atordoado, derrubando-o no chão, o dia claro piscando em seus olhos.

—   Não. Me. Bata. De novo. — disse Viktor, por cima dele.

Malone pensou em revidar, mas optou por não fazer nada. Ainda estava indeciso, mas tinha certeza de duas coisas: Viktor acabara de sal­var suas vidas e, aparentemente, gostava de Cassiopeia. As duas coisas o incomodavam.

—   Vocês dois já terminaram? — perguntou Cassiopeia.

—   Eu sim — disse Malone, levantando-se e encarando Viktor.

—   Eu não sou seu inimigo — disse Viktor. Malone esfregou o maxilar.

—   Já que temos pouco tempo, teremos de confiar na sua palavra. Leve-nos para o norte.

—   Onde?

—   Xi'an — respondeu Pau. — Para a tumba de Qin Shi.

 

Ni esforçava-se para ouvir a voz baixa do primeiro-ministro pelo telefone.

—   A época que precedeu a morte de Mao foi caótica, logo em se­guida também. A política alternava entre o maoismo e algo extrema­mente diferente. Que direção isso tomaria ninguém sabia. O próprio Mao tentou equilibrar os pontos de vista conflitantes, mas já era muito velho e fraco para mantê-los sob controle.

Embora fosse jovem, Ni lembrava-se do início dos anos 1970, e sa­bia que a Camarilha dos Quatro, maoistas radicais liderados pela espo­sa de Mao, apoiava táticas como lutas de classes, anti-intelectualismo, igualitarismo e xenofobia. A oposição lutava por crescimento econômi­co, estabilidade, educação e pragmatismo.

—   A balança ficou oscilando nos dois anos que antecederam a morte de Mao. Havia lutas internas, brigas secretas, expurgações pú­blicas e até mesmo algumas mortes. No fim, Deng Xiaoping reivindi­cou o poder, mas a luta para chegar a esse ponto foi longa e amarga. As cicatrizes, profundas. Pau Wen e eu estávamos presentes durante cada batalha.

—   De que lado?

—   Isso não importa. Mas os erros cometidos naquele tempo ainda nos assombram. É por isso que a luta pelo poder, entre Tang e você, não pode ser um espetáculo público. Não permitirei que o mesmo erro seja cometido novamente.

O primeiro-ministro falava como um confucionista.

—   Deng Xiaoping era, de muitas maneiras, pior do que Mao — disse o primeiro-ministro. — Para ele, qualquer reforma era aceita, con­tanto que não afetasse o partido, o governo ou a idéia do marxismo. Sua filosofia era elevar o padrão de vida, não importava como, e olhe o que aconteceu. Ele nos permitiu destruir nosso país.

Ni não tinha argumentos contra essa conclusão. As cicatrizes desse desenvolvimento desregrado e sem freios assomavam em toda parte. A nação não tinha sido poupada em nada.

—   Parecemos condenados — disse o primeiro-ministro. — Éramos uma nação isolada, até a chegada dos portugueses. Duzentos anos de­pois, fomos devastados por nossa própria corrupção. Tropas ocidentais e canhoneiras controlavam nossos portos, como se fôssemos uma co­lônia das potências ocidentais. Essa atmosfera de derrota era perfeita para a ascensão de Mao, que disse às pessoas exatamente aquilo que elas queriam ouvir. O comunismo, porém, mostrou-se muito pior do que qualquer outra coisa que aconteceu antes. Mao nos isolou nova­mente. Deng tentou mudar isso, mas foi longe demais, rápido demais. Não estávamos prontos. Foi quando Pau Wen decidiu agir. Ele enxer­gou uma oportunidade e colocou cada irmão do Ba no governo ou nas Forças Militares, cobrando deles apenas um dever: crescer em estatura e poder. Ninguém sabia quem ascenderia mais rápido, e essa pessoa foi Karl Tang.

—   E ele tem outros, não apenas do Ba, que o seguirão.

—   Muitos outros. Seus argumentos são persuasivos, assim como eram os de Mao e Deng. Muitos no Comitê Central e na Assembléia Nacional apoiarão de boa vontade o legalismo de Tang.

Seus consultores já o haviam alertado dessa probabilidade.

—   A história é como uma donzela e podemos vesti-la como bem entendermos — disse o primeiro-ministro. — Dez anos após a mor­te de Mao, nosso governo tinha sido completamente transformado, reorganizado. Milhares de novos oficiais foram indicados, o passado totalmente erradicado. Pau Wen aprendeu com esse caos. Com rara ha­bilidade, nas últimas três décadas, ele tem comandado os irmãos do Ba, incluindo Karl Tang, em um rumo singular. Eu sei que ele deixou o país para administrar melhor esse plano.

Ni relembrou a conversa telefônica gravada e falou para o primei­ro-ministro:

—   Obviamente, os caminhos de Tang e Pau se separaram.

—   Cuidado, ministro, não se pode confiar em eunucos.

Seus nervos estavam à flor da pele. Esperou que o primeiro-minis­tro falasse mais, porém só houve silêncio. Finalmente, o velho homem disse:

—   Ministro, eu fui informado neste instante de que um helicóptero decolou do Lago Dian com quatro pessoas. Três delas, incluindo Pau Wen, saíram do lago.

—   Intercepte-o.

—   O que ganharíamos com isso?

Ele sabia a resposta. Nada.

—   Por sorte acredito saber o destino desse helicóptero.

Ele escutou.

—   Xi'an, você deve ir para lá imediatamente. Mas, antes, tem algo que você precisa saber. Algo que nem mesmo Pau Wen sabe que existe.

 

Tang esperou no campo de pouso de Lanzhou. o terminal, um cubículo cinza de cimento, com cortinas de veludo vermelho adornan­do as janelas altas, tinha o charme de um prédio abandonado. Não po­deria partir sem saber o que tinha realmente acontecido no Lago Dian. Se tudo saísse de acordo com o plano, Viktor Tomas estaria com todos os três passageiros a bordo de seu helicóptero. Se fosse assim, Viktor não faria um relatório por telefone. Em vez disso, eles inventaram um código por meio do qual uma mensagem poderia ser transmitida sem despertar suspeitas.

Depositara muita confiança nesse estranho, mas, até aquele mo­mento, o desempenho de Viktor tinha sido admirável. Escutara, no dia anterior, enquanto Viktor contava suas façanhas com Cotton Ma­lone e Cassiopeia Vitt, avaliando como poderia tirar proveito dessas informações. Havia concordado com a opinião de Viktor de que, para ser aceito por Malone e Cassiopeia, e descobrir precisamente o que os russos e os americanos tanto queriam, algo impressionante teria de acontecer.

Por isso autorizou Viktor a abater o bombardeiro.

Agora descobriria exatamente o que seus inimigos planejavam.

Quando tomasse posse como primeiro-ministro, com total controle do Partido e da nação, usufruindo do apoio do Comitê Central e das Forças Militares, nunca seria questionado.

Até que isso acontecesse, estava vulnerável.

Portanto, qualquer medida que minimizasse seus riscos seria bem-vinda.

Seu telefone anunciou uma mensagem de texto de sua equipe. Olhou o visor.

Clima para a região de lintong acessado.

Monitorando o fluxo de dados vindo do helicóptero, era possível tomar conhecimento das informações digitais enviadas ou recebidas pelos aparelhos eletrônicos a bordo. Viktor tinha dito que, se não con­seguisse usar o rádio, solicitaria informações sobre a previsão do tem­po para um determinado local. Esse seria o destino deles.

Lintong ficava na província de Shaanxi, a leste de Xi'an. Onde ficava a tumba de Qin Shi e os guerreiros terracota. Respondeu à mensagem de texto para sua equipe com uma ordem concisa.

Certifiquem-se de que o caminho deles esteja livre. Sem interferências.

 

13H

Malone sentou-se no compartimento de passageiros do helicóptero com Cassiopeia e Pau Wen, enquanto Viktor pilotava sozinho na cabine. Suas roupas ainda estavam molhadas do mergulho no Lago Dian, mas já estavam secando. Eles voavam para noroeste, mil quilô­metros sobre o coração da China, seguindo para a província de Shaanxi e Xi'an. Continuava cético em relação a confiar em Viktor, então fez um gesto para Cassiopeia e Wen tirarem os fones de ouvido.

Aproximou-se deles e falou:

—   Quero ter uma conversa sem que ele escute. — Manteve a voz abaixo do nível do barulho dos motores.

—   Estamos progredindo, Cotton — respondeu Cassiopeia, e ele percebeu sua irritação.

—   Sei que seu objetivo é achar o filho de Sokolov. Mas algum de vocês acha que isso tudo está acontecendo sem ninguém saber?

—   É claro que não — disse Pau. — Mas estamos chegando aonde precisamos ir. Até lá, poderemos mudar a situação.

—   E brigar com Viktor — completou Cassiopeia — não tornará as coisas mais fáceis.

—   Você tem uma queda por ele, não tem?

—   O meu interesse é pelo filho de Lev Sokolov. Quero achar esse garoto. E para fazer isso, preciso encontrar uma amostra de petró­leo antigo para dar a Tang. Para conseguir isso, temos que estar em Xi'an.

—   Você não acha que esse trato continua valendo, acha? Solokov deve estar encrencado. — A frustração dela era visível, e ele odiava pressioná-la, mas aquilo tinha de ser dito. — É possível que Tang já esteja com Sokolov — falou. — Talvez ele nem precise mais de você.

—   Então por que ainda estamos vivos? — perguntou ela.

Ele apontou para Wen:

—   Aparentemente, ele é o alvo do interesse de Tang agora. Viktor deixou isso extremamente claro.

E ainda havia o que Ivan não tinha dito. Sobre Solokov. Os russos o queriam de volta, mas, se ficassem sem alternativa, sua morte não estava fora de questão.

Ele olhou para Wen.

—   O que vamos fazer quando chegarmos?

—   Vamos entrar na tumba de Qin Shi, como eu já fiz uma vez. Mas vamos precisar de lanternas.

Malone achou um compartimento onde havia duas e pegou-as.

—   A tumba não estava acabada quando Qin morreu — disse Pau. — Seu filho, o Segundo Imperador, a terminou e lá enterrou o pai. Ele, então, enganou os arquitetos e alguns dos construtores, fazendo-os en­trar na tumba e aprisionando-os debaixo da terra. Eles morreram com o imperador.

—   Como você sabe disso? — perguntou Malone.

—   Vi seus ossos. Estavam lá quando entrei na tumba.

—   Então você está dizendo que existe outra entrada e saída — dis­se Cassiopeia.

Pau explicou que a água subterrânea representara um desafio para os construtores porque as escavações foram tão profundas a ponto de encostar no lençol d'água. Então, um elaborado sistema de drenagem foi criado. Longos canais de 800 metros de comprimento atravessavam a terra, impedindo a água de penetrar nas câmaras durante a cons­trução. Uma vez completas, a maior parte dos túneis foi preenchida e aterrada para formar uma represa.

Entretanto, alguns permaneceram abertos.

—   Eu encontrei um desses túneis por acaso quando descobri a bi­blioteca de Qin Shi. Ele contorna todas as armadilhas que os constru­tores armaram para os ladrões, o que deve ter sido a intenção. Eles precisariam de uma maneira de entrar para inspecionar a obra de vez em quando, sem se expor ao perigo.

—   Por que, então, eles não utilizaram esses túneis quando ficaram presos lá dentro? — perguntou Cassiopeia.

—   A resposta para a sua pergunta será óbvia quando vir a entrada.

—   E o mercúrio? — perguntou Malone, relembrando a conversa do dia anterior na casa de Pau.

Eu deixei a tumba ventilar por vários dias antes de entrar. Tam­bém usei um respirador.

—   E agora? — perguntou Cassiopeia, A tumba está lacrada há mais de vinte anos.

—   Medidas preventivas foram tomadas.

Não era exatamente reconfortante, pensou Malone, olhando de relan­ce para a cabine, seu outro problema. Do lado de fora, a chuva escondia o sol conforme nuvens ameaçadoras aproximavam-se.

—   Ele salvou nossas vidas — disse Cassiopeia. — Inclusive a sua. É a nossa forma de chegar até Tang.

—   E o que impede Tang de ir à tumba de Qin e pegar o óleo ele mesmo? Viktor já sabe disso há dois dias.

—   Como entraria? — perguntou Pau. — A tumba nunca foi esca­vada.

—   Você não sabe o que eles fizeram — explicou Malone. — Nós nem sabemos se estamos indo para Xi'an.

—   Estamos na direção correta — disse Pau.

—   E se alguém estiver nos esperando quando aterrissarmos?

—   Se fosse o caso — retrucou Pau —, por que não permitir que o bombardeiro nos matasse?

Boa pergunta.

—   O que tem dentro da tumba? — perguntou Cassiopeia a Pau.

—   Não é o que você espera.

Malone disse:

—   Poderia explicar melhor?

—   Vou deixar que você mesmo descubra quando estivermos lá dentro.

 

14H30

Ni saiu do carro que o levara a leste, de Xi'an ao distrito de Lintong e ao museu da Dinastia Qin, onde ficavam os guerreiros e ca­valos de terracota. O primeiro-ministro dissera que o helicóptero que transportava Pau Wen chegaria nos próximos 30 minutos. Também contara a Ni algo que nunca soubera, algo que somente uma pessoa ainda viva sabia.

A tumba de Qin Shi, Primeiro Imperador da China, tinha sido aberta.

Embora os guerreiros de terracota tivessem sido escavados e co­locados em exposição para o mundo ver, a tumba em si, um enorme monte arborizado que dominava uma terra plana e miserável, supos­tamente nunca havia sido violada. Todos concordavam que a tumba constituía uma das maiores oportunidades arqueológicas do planeta. Qin Shi mudou fundamentalmente a forma como o seu mundo era go­vernado, solidificando o legalismo, criando um conceito de governo que unificou a China. Ele se tornou o centro de uma nação, e assim permaneceu até mesmo depois de morto, levando com ele não apenas uma comitiva de barro, mas um sistema político completo, que refletia a autoridade suprema na vida e na morte. Aqueles que vieram depois dele tentaram diminuir sua influência reescrevendo a história. Mas en­trar na tumba, estudar seu conteúdo, poderia ser uma forma de corrigir cada uma dessas edições.

No entanto, o governo comunista sempre disse não.

Oficialmente, o motivo era que ainda não existiam tecnologias e técnicas para preservar adequadamente o que estava por baixo do monte. Por isso, foi considerado mais seguro manter a tumba selada.

Até poucas horas atrás, Ni nunca havia questionado essa explica­ção. Não era importante para sua caça contra a corrupção. Ele só havia visitado o museu uma vez, há alguns anos, quando uma série de rou­bos aconteceu na oficina de restauração — trabalhadores locais rouba­ram peças dos guerreiros escavados para vender no mercado negro. Agora ele estava de volta, e o lugar fervilhava com as multidões que se moviam e balançavam como algas em uma corrente suave. Milhões de pessoas visitavam o local todos os anos; e hoje — apesar de um opres­sor céu cinzento — não parecia ser uma exceção. Os parques estavam cheios, a área especialmente reservada para ônibus, lotada. Ele sabia que um metrô estava em construção em Xi'an, uma linha de 30 quilô­metros que aliviaria o tráfego, mas ainda faltavam alguns anos para sua conclusão.

Não contara a ninguém para onde estava indo, requisitando o helicóptero do Comitê Central que o levara a oeste. Karl Tang havia deixado Lanzhou três horas atrás, para leste, na direção de Xi'an, o que significava que seu inimigo já devia estar ali. Aproveitou o voo de Pequim para ler o que sua equipe havia acumulado, estudando um assunto que pouco conhecia.

Eunucos.

Sua população variava de 3 mil a 100 mil, dependendo da época. Para todos os chineses, todas as forças naturais vêm em ciclos, atingin­do um pico com o yang, em seguida recuando com o yin. Masculinidade, força e virtude sempre estiveram associadas ao yang, enquanto as mulheres, os eunucos e o mal eram governados pelo yin. Ele aprendeu que pode haver uma explicação lógica para essa dicotomia. Toda a his­tória da China foi escrita por mandarins, a elite culta que, como classe, desprezava os eunucos do palácio. Mandarins tinham de qualificar-se para a posição, depois de anos de árduo estudo, passando por exames. Eunucos adquiriam sua influência sem quaisquer qualificações. Assim, era compreensível que os registros escritos que sobreviveram tivessem pouca coisa boa a dizer sobre os eunucos.

Não era nenhuma surpresa saber que maus-tratos eram comuns. Cada vez que encontravam um membro da família imperial eram obri­gados a humilhar-se como escravos. Eles perceberam cedo na vida que nunca poderiam ser venerados como estudiosos ou estadistas. O complexo de inferioridade gerado a partir de tal tratamento motivaria ressentimento em qualquer um. Aprenderam que sua capacidade de sobrevivência, uma vez que seus serviços não fossem mais necessários, dependia da quantidade de riqueza que conseguissem acumular secre­tamente. Para adquiri-la, precisavam estar muito próximos das autori­dades. Então, manter-se nas boas graças de seus patronos e conservar seus patronos no poder tornaram-se seu principal interesse.

Existiram, porém, eunucos que se tornaram conselheiros estima­dos. Vários alcançaram altas posições. Tsai Lun, no século II, inventou o papel. Ssu-ma Chien tornou-se o pai da história chinesa. Zheng He foi o maior marinheiro da China de todos os tempos, construindo uma frota no século XV que explorou o mundo. Nguyen An, um verdadeiro renascentista, projetou o Palácio Proibido. Feng Bao, durante o século XVII, habilmente geriu os negócios da nação sob o imperador Wanli. Na mesma época, Chen Ju ajudou a manter um tribunal interno fun­cionando, enquanto o externo era despedaçado em facções. Por seus serviços, depois de sua morte, a ele foi conferido o título de Puro e Leal.

Em sua leitura, Ni percebeu que os imperadores simplesmente pas­saram a acreditar que os eunucos eram mais confiáveis do que os fun­cionários do governo. Eunucos nunca aprenderam ideais grandiosos ou foram levados a considerar o bem maior sobre si. Eles simplesmente passaram a representar a vontade pessoal do imperador, enquanto fun­cionários do governo apresentavam a vontade política alternativa da burocracia estabelecida.

Um embate clássico de ideologias.

Que os eunucos venceram.

Depois perderam.

Agora eles estavam de volta.

E seu líder estava aqui, em Xi'an, esperando.

 

Tang analisava os monitores do circuito fechado. Toda a área do museu era coberta por câmeras que mantinham vigilância constante sobre as três covas e seus abrigos correspondentes, o salão de exposições, os restaurantes, o centro de informação, o cinema, até mesmo sobre as lojas de suvenires.

Ele olhou para o relógio de parede e percebeu que um helicóptero logo se aproximaria. Nada incomum. Os oficiais do governo, dignitários, até mesmo alguns dos novos-ricos do país voavam rotineiramente para o local. Da mesma forma que os militares transportavam pessoal indo e vindo. Tang viera no mesmo helicóptero que o esperava a 1 qui­lômetro de distância, um pouco além do perímetro externo, em um campo designado como local de pouso.

Vinte e quatro telas enchiam a parede esverdeada diante dele em um prédio mal-iluminado que ficava a 2 quilômetros da tumba. O edi­fício era parte de um complexo administrativo que os cientistas, arque­ólogos e burocratas usavam como sede. Ele fora informado de que a fiação defeituosa havia sido responsável pelo incêndio na Cova 3. Um mal-estar geral pairava no ar, pois ninguém queria ser responsabiliza­do. Principalmente o administrador. O tolo irritante desculpou-se repe­tidamente sobre a catastrófica perda para a história. Tang decidiu ser mais generoso do que o esperado e assegurou à equipe que ele compreendia. Contratempos acontecem. Conduza uma investigação, depois envie um relatório detalhado.

Seu olhar varreu os monitores.

Uma multidão, ansiosa e ativa — empurrando, acotovelando-se — encheu as telas. A chuva começara havia uma hora. Tang compreendia o valor das receitas turísticas, mas a adulação necessária para garantir aquele dinheiro irritava-o.

Isso também mudaria quando chegasse ao poder.

As imagens nos monitores mudavam de poucos em poucos segun­dos, a rolagem dos números na parte inferior indicavam o tempo e a localização de cada exibição. Seus olhos dançavam nas telas, absor­vendo o caos, reparando nos guardas uniformizados que apareciam de tempos em tempos, cada um falando via rádio com o despachante à sua direita.

Uma tela chamou sua atenção.

—   Lá — ordenou ele, apontando. — Número 45.

O monitor que indicava câmera 45 parou de rolar.

—   Onde fica isso?

—   No lado oeste da montanha, perto dos túmulos dos artesãos.

A tela mostrava um homem vestido com uma camisa escura, de mangas curtas e calça escura. Estava parado na beira de um campo mo­lhado, a floresta na base do monte da tumba ao fundo. Estava virado para a câmera, a chuva encharcando seu corpo. Alto, magro, de cabelos negros e, apesar de Tang não conseguir ver esses detalhes, ele sabia que o homem tinha olhos castanhos, nariz largo e traços definidos.

Um murmúrio de alarme fluiu pela sala quando o rosto foi reco­nhecido.

—   O ministro Ni está no local — ouviu um dos homens dizer.

Na tela, Ni virou-se e lutou contra o solo úmido, em direção a um aglomerado de casas de madeira e pedra com telhados de colmo.

—   O que é isso? — perguntou Tang.

—   Área restrita. Ordens de Pequim, ministro. Há muito tempo. Aquela área está proibida.

—   Ninguém entra lá?

O homem balançou a cabeça.

—   Nunca. Monitoramos a cerca, mas não entramos.

Ele compreendia os efeitos criados por uma ordem de Pequim. Não era questionada, apenas obedecida, até que outra ordem oficial vinda de Pequim revogasse a anterior.

Na tela, enquanto Ni afastava-se, Tang notou algo saliente no bolso traseiro da calça dele.

—   Foque no que ele está carregando — ordenou imediatamente. O foco da câmera aproximou de Ni ainda caminhando, e o objeto

tornou-se claro. Uma lanterna.

Deu um tapinha no ombro de um dos seguranças e apontou para a arma no coldre.

—   Preciso da sua arma. O homem entregou-a.

Ele verificou o pente. Totalmente carregada.

—   Leve-me até lá.

 

Ni parou propositadamente e virou-se para a câmera. Se Karl Tang estivesse observando, e o primeiro-ministro tinha garantido que ele estaria, então queria que ele soubesse que estava ali. Agora, veria se seu inimigo tinha mordido a isca.

 

Malone olhava por uma janela manchada pela chuva para a tumba de Qin Shi. O monte coberto pela floresta crescia do chão como um furúnculo na paisagem marrom plana. Ele havia lido sobre o lugar muitas vezes. Um complexo de catacumbas subterrâneas ao longo de 50 quilômetros quadrados, a maioria inexplorada. Até visitou a exposi­ção de guerreiros de terracota em Londres no ano passado, mas nunca imaginou que pudesse um dia entrar na própria tumba.

O helicóptero aproximou-se pelo sul, mergulhando sobre colinas acinzentadas a uns 300 pés. Uma chuva torrencial inundava a área. Mais montanhas apareciam a oeste, o rio Wei fluía para o norte. A 1,5 quilômetro, mais ou menos, podia ver os imponentes salões e outros edifícios que compunham a área do museu, e uma multidão de pessoas com guarda-chuvas, que enfrentavam o dilúvio.

— Vamos aterrissar ao norte — disse Viktor nos fones de ouvido. — Disseram que há um lugar reservado para helicópteros lá.

Malone preferia estar armado e estava torcendo para conseguir acessar um armário que vira antes. Quando o trinco abriu, suspeitou imediatamente. Dentro, havia quatro pistolas. Ele pegou uma e, lembrando-se da última vez que esteve em um helicóptero com Viktor To­mas no controle, conferiu o pente.

Totalmente carregada. Vinte balas.

Removeu algumas e examinou. Nenhum cartucho vazio.

Recolocou a munição e entregou uma delas a Cassiopeia. Não ofe­receu uma a Pau Wen, e ele também não pediu.

Guardou a pistola semiautomática por baixo da camisa. Cassio­peia fez o mesmo.

Os rotores desaceleraram, e eles gradualmente começaram a per­der altitude.

 

Tang saiu do prédio da segurança dirigindo-se para um carro que o esperava, quando viu um helicóptero militar vindo do sul. Ele queria ir atrás de Ni Yong, mas sabia que não deveria.

— Deixe o carro ligado — ordenou.

Então voltou para o prédio.

 

Ni parou na cerca enferrujada junto a um conjunto de edifícios em ruínas. O primeiro-ministro tinha dito que as estruturas pareci­das com cabanas haviam sido construídas às pressas na década de 1980. Até onde o primeiro-ministro sabia, ninguém entrava na área havia vin­te anos — e a julgar pela grama alta e a vegetação que consumiam o lugar, e os buracos que marcavam os telhados de palha, ele acreditava naquela afirmação. Os edifícios ficavam a cerca de 100 metros da base do monte dentro do perímetro de uma antiga muralha que não existia mais.

Ele olhava com uma mistura de fascínio e admiração.

O primeiro-ministro também avisou que Pau Wen estava indo paia o interior da tumba de Qin Shi.

—   Como isso é possível? — perguntou.

—   Há duas maneiras de entrar. Pau Wen conhece uma. Eu conheço a outra.

 

Cassiopeia pulou do helicóptero no chão encharcado, seguida por Malone e Pau. Enquanto as pás paravam de rodar, Viktor surgiu da cabine e perguntou:

—   Achou as armas, Malone?

- E desta vez elas realmente têm balas.

—   Você gosta de guardar rancor, não é?

Ninguém se aproximou do helicóptero, e não havia nenhum veí­culo à vista. Estavam provavelmente a 1,5 quilômetro do monte, e me­tade disso do complexo do museu. Outro helicóptero pousou a uns 100 metros de distância.

—   Amigos seus? — perguntou Malone.

Viktor deu de ombros.

—   Não faço idéia.

—   A segurança é um pouco relaxada — disse Malone.

—   E nós somos estrangeiros — ressaltou Cassiopeia.

—   Mas vocês vieram em um helicóptero PLA — disse Viktor. — E é isso que importa.

A chuva caía sem parar, encharcando novamente a roupa ainda úmida de Malone. Mas pelo menos o ar estava quente.

Pau Wen apontou na direção do museu.

—   Temos de ir. As exposições fecharão em breve.

 

Tang analisava o monitor, satisfeito por Viktor Tomas ter entregado Pau Wen, Cotton Malone e Cassiopeia Vitt, exatamente como prometido. Ele dividia sua atenção entre o campo de pouso ao norte e o que Ni Yong estava fazendo no lado oeste do monte. Sua po­sição dava-lhe vantagem, e mandou que os homens que manipulavam as câmeras não perdessem de vista nenhuma das duas cenas.

Assumiu o comando da segurança do museu, sabendo que nin­guém questionaria sua autoridade. Tampouco entrariam em contato com Pequim. A única pessoa que poderia lhe dar ordens era o próprio primeiro-ministro, o que era muito improvável. O velho raramente se preocupava com política hoje em dia, e Tang tinha parado de prestar atenção às atividades diárias do primeiro-ministro. Simplesmente não importavam.

Ni Yong e Pau Wen.

Eles importavam.

E Tang já tinha os dois à vista.

Seu olhar voltou-se para a tela de Ni Yong. Viu Ni escalar uma cer­ca de aço frágil e saltar para o outro lado. Precisava ir até lã e descobrir o que estava atraindo a atenção de seu inimigo. Ele fora informado de que não havia nada lá, apenas um depósito deserto, ainda assim o "nada" era cercado, vigiado e protegido por uma ordem da capital.

No monitor, viu Wen e seus três companheiros caminharem pela chuva em direção ao saguão da Cova 3. O mesmo lugar onde a câmara da biblioteca imperial costumava ficar. Onde o relógio havia sido en­contrado.

Interessante.

 

Malone ficou impressionado com a Cova 3. Era o menor dos três sítios escavados, e um cartaz em inglês dizia que este era o centro de comando do exército subterrâneo, com oficiais de alta patente, uma guarda imperial e uma carruagem. Os visitantes enchiam uma passa­rela que rodeava as escavações 15 metros abaixo. A iluminação suave dava à cena surreal um brilho verde-amarelado. O ar estava úmido, a chuva caía no teto alto em uma batida constante. Um forte aroma de terra encheu suas narinas. A falta de controle do clima era surpreen­dente, considerando que, certamente, a idéia de envolver a cova era para manter a umidade controlada.

Pau levou-os à grade enquanto um grupo de turistas afastava-se ao longo do corredor.

— Esta cova é única no tamanho e na composição.

Malone avaliou a disposição da cova. Muitas das figuras de terracota estavam sem cabeça. No pavimento abaixo, cacos de outras figuras estavam empilhados, como um quebra-cabeça despejado da caixa.

— Apenas 68 guerreiros foram encontrados aqui — disse Pau. — Milhares enchem as outras duas covas. Aqui, foram encontrados os guardas do exército imperial subterrâneo, seus generais, a elite.

Malone observou a carruagem, que ficava no centro da cova, na base de uma rampa parcialmente escavada que subia ao nível do chão.

—   Estive aqui em 1979, quando esta cova foi encontrada — disse Pau —, mas ela não foi completamente explorada até meados da déca­da de 1980, na mesma época que deixei a China. Então, vi apenas fotos. Reparou em alguma coisa estranha?

Oito soldados estavam à esquerda da carruagem, nenhum à direi­ta. Todos os outros soldados preenchiam as duas reentrâncias de am­bos os lados da cova em forma de U.

—   Por que não há ninguém do lado direito da carruagem? — per­guntou Malone.

—   Tem outra coisa — disse Pau.

—   O carro está torto em relação à rampa — disse Cassiopeia.

Malone viu que ela tinha razão, o que tornava impossível para as rodas saírem da cova sem colidir com a parede da rampa. Para sair, teria de manobrar à esquerda.

—   Reparei nisso pelas fotos — disse Pau. — Para um povo tão cui­dadoso com cada aspecto do projeto, esse erro não pode ser por acaso.

—   Então, o buraco na parede de barro, à esquerda do carro, é im­portante? — perguntou Malone.

Pau assentiu.

—   Os arquitetos deixaram a mensagem de que algo importante está localizado à esquerda. Poucos dias atrás, essa câmara que está ven­do foi redescoberta.

—- Parece uma bagunça — disse Viktor.

Malone também notou cabos, pás, ancinhos e montes de terra de cada lado da abertura, e o que parecia ser uma caixa elétrica chamus­cada.

—   Parece mais um incêndio.

—   Acidentes acontecem — disse Pau.

Mas Malone não era tão tolo.

—   Você soube no momento em que a câmara foi encontrada, não foi?

—   Mais importante do que isso, Karl Tang descobriu. Ele estava aqui, e começou o incêndio. Intencionalmente destruiu a Biblioteca Im­perial de Qin Shi.

Malone tinha mais perguntas, mas agora não era o momento.

—   Este lugar fecha em 45 minutos.

—   Temos de entrar nessa abertura — disse Pau.

Malone avaliou a cova novamente. Duas rampas adicionais leva­vam até o chão da cova. Ambas bloqueadas com correntes que pode­riam facilmente ser puladas. Pelo menos quatro câmeras de um circui­to fechado estavam visíveis, embora, provavelmente, houvesse mais. As que podiam ser vistas mandavam o recado de que alguém estava observando, e as escondidas proporcionavam os melhores ângulos. Contou seis guardas uniformizados patrulhando a passarela e só Deus sabia quantos outros espalhados, à paisana. A multidão estava calma e pacífica.

—   Precisamos de uma distração — sussurrou.

Cassiopeia concordou.

—   Estava pensando a mesma coisa.

—   Tenha cuidado — disse Pau. — Os seguranças daqui vão reagir a qualquer gesto imprudente.

—   E se formos pegos? — perguntou Viktor.

—   Seremos presos, e aí poderemos ver se você é mesmo um amigo ou um inimigo.

Malone gostava da parte da frase relacionada a Viktor, mas a idéia de ser detido na China não era muito boa, especialmente levando em conta que estavam ali ilegalmente, e pelo menos dois deles estavam armados.

—   Vou cuidar da distração — disse Viktor.

—   Achei que deveria — disse Malone.

—   Tenho a sensação de que vocês três não me querem por perto mesmo.

Não, Malone pensou, ele não queria.

—   Vou estar lá fora quando acabarem de fazer seja lá o que estive­rem planejando. Vou chamar atenção com alguma coisa, mas nada que me faça ser preso.

Viktor saiu, misturando-se à multidão, atravessando para o outro lado da passarela.

—   Temos de evitar as rampas — disse Malone. — É muito eviden­te. Vamos usar a escada. — Indicou com a cabeça para uma pequena corrente que bloqueava degraus metálicos. — Desçam depressa e en­trem no buraco no chão antes que as câmeras se reagrupem.

Pau e Cassiopeia assentiram.

Malone levava duas lanternas numa mochila, atirada sobre o om­bro, de cor verde característica do exército, com uma estrela vermelha. Manteve a arma debaixo da camisa molhada.

Um grito ecoou pelo salão.

Malone viu Viktor agitando um braço no ar e gritando em chinês. Parecia que ele tinha se ofendido com alguma coisa que um dos visi­tantes tinha dito ou feito.

Viktor empurrou um homem.

Mais discussão.

A atenção da platéia focou-se no distúrbio, assim como a da se­gurança. Todos os seis uniformes correram em direção à confusão que rapidamente se agravava.

Malone esperou que as câmeras virassem em direção ao crescente tumulto, então sussurrou:

— Agora.

Cassiopeia pulou a corrente curta e desceu.

Pau Wen a seguiu.

Malone vigiava. Ninguém parecia estar prestando a menor aten­ção neles. Quando Wen chegou ao chão, Malone desceu a escada atrás dele. Juntos, eles colaram na parede de barro para evitar as figuras de terracota parcialmente restauradas no caminho.

Cassiopeia entrou na câmara.

Antes de Wen desaparecer no interior da passagem, pegou uma das pás. Aparentemente, as ferramentas seriam necessárias, de modo que Malone pegou outra e entrou na passagem escura.

 

Tang assistia a Viktor Tomas em um monitor e Pau Wen e seus dois companheiros no outro. Tang inspecionou a câmara da bibliote­ca minuciosamente antes de ordenar o incêndio e descobriu que não havia nada de interessante lá dentro, além dos manuscritos. Pau sabia que os manuscritos haviam sido perdidos, queimados — eles falaram sobre isso ao telefone — mas a primeira coisa que fez ao voltar à China foi ir direto para lá.

Por quê?

—   Ordene a desocupação do prédio — disse. — Coloque um ho­mem em cada saída e vários nas passarelas. Mantenha esta câmera fo­cada naquela abertura. Se alguém aparecer, detenha-o imediatamente. Se eles se tornarem um problema, atire.

Ele segurou a pistola com força.

—   Estou indo para lá agora. Quero o edifício vazio até eu chegar, ex­ceto o estrangeiro que começou a confusão. Mantenha-o dentro do prédio.

 

Malone examinou o espaço apertado, talvez 1 metro quadrado, no chão e nas paredes, tijolos rudimentares, e no teto, madeira gros­sa, uma parte desmoronada havia muito tempo.

—   Entrei pela primeira vez pelo buraco do teto — disse Pau. Três mesas, parecidas com pedestais, feitas de pedra, estavam va­zias. O chão cheio de cinzas, o ar denso com o cheiro de fuligem.

Definitivamente alguma coisa tinha pegado fogo ali.

—   Essas mesas já foram cobertas de tiras de bambu e seda, todas com inscrições da época de Qin Shi. Sua biblioteca imperial. Karl Tang mandou destruí-la há dois dias.

—   Por que ele faria uma coisa dessas? — perguntou Cassiopeia. — Como poderia ser uma ameaça para ele?

—   Qualquer coisa que ele não pode controlar é uma ameaça. Malone ouviu o ruído lá de fora começar a diminuir. Ele deu um passo para a saída e olhou para cima.

—   As pessoas estão indo embora.

—   Imagino que a mando de Tang. O que significa que temos pouco tempo.

—   Para quê? — perguntou.

—   Para sair.

 

Ni atravessou um emaranhado de grama molhada e aproximou-se da segunda de três estruturas rebaixadas. A chuva continuava caindo. A vegetação já tinha coberto as paredes externas havia muito tempo, trepadeiras espessas iam do chão ao teto. A maioria das janelas estava intacta, as vidraças estavam cobertas com uma camada de su­jeira úmida. Viu besouros e mosquitos esmagados em telas rasgadas.

Aproximou-se da porta de madeira. Nenhuma fechadura impe­dia o acesso, como havia sido informado, então ele a empurrou. As dobradiças enferrujadas resistiram e, em seguida, cederam. A porta afastou-se o suficiente para ele passar pela abertura.

Forçou para fechá-la mais uma vez.

A luz filtrada pelas janelas sujas tornava-se um cinza-amarronzado. As sombras consumiam o lugar, que talvez tivesse uns 5 metros quadrados. Uma das paredes havia desabado, expondo o clima e o que estava atrás da construção. Arados estavam espalhados pela terra escu­ra, tudo coberto por uma camada úmida de ferrugem e terra. Diversos vasos e jarros de barro quebrados estavam amontoados contra uma parede. Teias de aranha cobriam os cantos.

Passou pela ruptura na parede, de volta à chuva. O que buscava estava do lado de fora.

Lembrou-se da voz ao telefone mais cedo.

—   Contratei espiões para monitorar o que Pau Wen estava fazendo na área do monte — dissera o primeiro-ministro. — Ele achava que ninguém o vigiava, e isso pode ter sido verdade nos casos de Mao e Deng, mas não para mim. Eu o acompanhei de perto.

—   E o que descobriu? — perguntou Ni.

—   Pau encontrou uma entrada para a tumba. O que me surpreendeu. Fora relatado que a tumba de Qin continha grandes quantidades de mercúrio. No entanto, ele entrou, chegando a ficar lá dentro por várias horas certo dia, reaparecendo de um buraco na terra, perto do lugar que mais tarde se tornaria a Cova 3. Aconteceram episódios estranhos durante a noite ao longo da semana seguinte, embora ninguém tenha denunciado nada oficialmente.

Ni queria saber mais.

—   Homens e equipamentos trabalhavam no escuro. Trabalhadores que não faziam parte da força de trabalho do local. Uma das desvantagens da nossa forma de governo é que ninguém jamais teria denunciado o que viu ou ouviu. Pau Wen estava no comando, e ninguém o desafiaria.

—   Só você.

— Fiz uma investigação nas semanas seguintes. Não conseguimos encon­trar o lugar por onde Wen tinha desaparecido. Tantas escavações aconteciam, a área estava repleta de talhos profundos, o que tornava impossível. Mas des­cobri outra coisa, anos mais tarde. Por ordens de Pequim, voltei ao monte da tumba. Isso foi depois de Wen ter fugido da China. Mandaram que eu encon­trasse um caminho para o interior do monte, e eu encontrei.

—   Por que ninguém nunca falou sobre isso?

—   Há um bom motivo para o sigilo.

Ni olhou para as sombras que envolviam os barracos em ruínas. Árvores haviam bloqueado o céu, deixando apenas filetes de luz atra­vessarem a folhagem. A água, porém, encontrou caminho e caía em um ritmo constante. O monte da tumba começava sua ascensão a menos de 50 metros de distância. Estava, talvez, o mais próximo da base que po­deria chegar. As cercas que protegiam a frente também passavam atrás das construções, bloqueando qualquer caminho adiante.

Viu o poço exatamente onde o primeiro-ministro dissera que es­taria. Uma construção circular de alvenaria com 2 metros de altura e plantas molhadas agarrando-se às pedras.

Não tinha caminhado em direção ao poço contornando os barracos porque queria retardar seu adversário. Desta forma, Tang iria vê-lo en­trar na construção, mas não sair dela.

Aproximou-se do poço e olhou para dentro. A menos de 1 metro para baixo, uma chapa enferrujada bloqueava a abertura. Duas alças improvisadas tinham sido soldadas nela. Para todos os efeitos, o tam­pão estava lá para impedir que alguém, ou alguma coisa, caísse no poço.

Mas ele sabia que não.

Agarrou as alças, a ferrugem úmida manchando sua pele, tornan­do difícil segurar firme.

E afastou a placa.

 

Malone ficou confuso.

—   Para onde vamos?

Pau ajoelhou-se e começou a afastar uma camada de poeira e de­tritos do chão.

—   Quando entrei nesta câmara pela primeira vez, a sala estava intacta, mas notei áreas afundadas em dois lugares.

Malone entendeu.

—   Levando em conta as três mesas de pedra, significava que havia terra firme em toda parte.

—   Correto. Lá fora falei sobre o simbolismo da carruagem e a ram­pa apontando para a esquerda. Agora está óbvio para mim que é por causa do que encontrei dentro desta sala.

—   Está ficando quieto lá fora — disse Cassiopeia.

Malone também percebera isso.

—   Fique atenta.

Ela se posicionou perto da saída.

Pau terminou, e Malone viu tijolos, cada um com um símbolo gra­vado, que já estava meio apagado.

—   O que são? — perguntou.

—   O que parece uma casa é o símbolo para o número 6. O X com uma linha em cima e outra embaixo é o 5. O que parece um T é o 7.

Malone observou que as linhas paralelas, que obviamente forma­vam o 4, apareciam com mais freqüência do que outros algarismos, exceto a colher com uma linha ao longo do cabo.

—   O que é isso?

—   Nove.

—   Há um padrão — disse Pau. — Mas confesso que só fui capaz de decifrá-lo porque o chão afundou.

Malone seguiu por onde Wen apontara.

—   Os números 4 e 9 são importantes para os chineses. Nove é pronunciado jiu, que é o mesmo para "longo" e "para sempre". O nú­mero 9 sempre foi relacionado à vida longa e boa sorte. Chegou a ser associado aos imperadores. Quatro, por outro lado, é pronunciado si, que é o mesmo que "morte". O número 4 sempre foi considerado azar.

Ele procurou os símbolos de 4 e 9 e viu que havia dois conglome­rados.

—   Quando entrei na câmara, vi que esses tijolos — Wen apontou para um grupo de noves — estavam afundados. Esse grupo de quatros também estava. Descobri que havia aberturas abaixo do chão que leva­vam até duas passagens separadas.

—   Então você escolheu a da sorte — disse Malone.

—   Parecia a escolha certa.

Malone ainda segurava uma pá. Ele forçou a lâmina entre dois ti­jolos no chão com um nove e bateu a sola do sapato contra a parte de cima. O chão era duro, mas cedeu, e ele inclinou o cabo, forçando o tijolo para cima.

—   Como estão as coisas lá fora? — perguntou a Cassiopeia.

—   Muito quietas.

—   O ministro Tang está a caminho — disse Pau.

Malone olhou para Pau, que estava ajudando a tirar cada tijolo. De repente, teve uma idéia. Pau olhou para cima e o olhar do homem mais velho confirmou que ele também havia determinado o próximo passo.

—   Isso é assustador — disse Malone. — Estou realmente começan­do a pensar como o senhor.

Pau sorriu.

—   Não consigo ver por que isso é ruim.

 

Tang seguia por um tapete vermelho que formava um caminho até os poucos degraus de pedra no edifício de vidro e tijolos que pro­tegia a Cova 3. Fora informado de que o salão estava vazio, e todas as saídas, protegidas com guardas. Trouxera com ele dois homens, ambos irmãos do Ba, que ele tinha mandado ficar a postos nas proximidades.

— Ninguém sai deste prédio — gritou ele quando passou por três dos guardas do museu nas portas principais.

Viktor Tomas o esperava lá dentro.

—   Você foi ótimo — disse a Viktor.

—   Entregue, como prometido.

A cova escavada estendia-se diante dele. Aproximou-se do parapeito da passarela, apontou para baixo e, em seguida, virou-se para os dois irmãos:

—   Fiquem de guarda bem na saída desta escavação.

Tang assistiu a quando eles desceram a escada, sacaram as armas e cada um ficou de um lado do portal para a biblioteca imperial de Qin Shi.

Entregou sua arma a Viktor.

—   Termine o serviço. Agora.

Viktor pegou a pistola e desceu as escadas, aproximando-se dos dois homens, que estavam prontos para atacar.

—   Pau Wen — chamou Tang. — O prédio está fechado.

Ninguém respondeu.

—   Você está preso. — Sua voz ecoou pelo salão, mascarada pelo barulho da chuva batendo no telhado de metal.

Nenhuma resposta.

Fez sinal para Viktor avançar.

Os dois irmãos moviam-se com cautela, olhando ao redor da borda do portal, avaliando a situação, então correram para a escuridão, segui­dos por Viktor.

Ele esperou o estalar suave de tiros abafados, mas nada aconteceu.

Viktor reapareceu.

—   Você deveria vir aqui.

Ele não gostou do tom zombeteiro na voz do homem.

Desceu a escada e entrou na câmara. Assim como ele suspeitava, um cheiro de cinzas espalhava-se pelo ar. Nem uma única seda ou tira de bambu restava, apenas as três mesas de pedra, a sala não estava muito diferente de dois dias atrás — exceto por duas coisas.

No chão, dois conjuntos de tijolos tinham sido removidos, expon­do aberturas de aproximadamente 1 metro quadrado cada uma, em lados opostos da sala.

Olhou dentro das aberturas.

Elas desciam cerca de 2 metros dentro da terra.

Mas qual delas eles usaram?