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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A VELOCIDADE DA LUZ / Javier Cercas
A VELOCIDADE DA LUZ / Javier Cercas

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

Esta é a história de uma amizade que começa em 1987, quando o narrador, um jovem aspirante a romancista, parte para uma universidade do Midwest norte-americano e conhece Rodney Falk, um veterano do Vietname, intratável, ferozmente lúcido e corroído pelo seu passado. Mas esta é também a história de uma experiência radical no abismo indecifrável do mal e da culpa, que o narrador apenas conseguirá compreender e assumir anos mais tarde, como uma fulguração, quando conhece o sucesso e o que ele acarreta de corrupção. Será então que a figura vaga (confusa, imprecisa) de Rodney e a sua história devastadora acabam por se impor com a força e a emergência do necessário, como um marco da sua própria história e da própria condição humana.

Com uma escrita de uma transparência enganadora e um enredo que não dá tréguas ao leitor, A Velocidade da Luz esquadrinha a nossa capacidade ilimitada para causar estragos, a infinita estupidez da guerra e a infinita estupidez do êxito, mas, e sobretudo, o poder definitivo da Literatura para enfrentar a realidade e os seus demónios.

Como todos os livros, este está em dívida para com muitos outros livros. Entre eles tenho de mencionar dois volumes que recolhem experiências de antigos combatentes do Vietname: Nam, de Mark Baker e War and Aftermath in Vietnam, de T. Louise Brown. Também me foram de grande utilidade os seguintes textos: A Rumor of War, de Philip Caputo; Vietnam - A War Lost and Won, de Nigel Cawthorne; Dispatches, de Michael Herr; «Trip to Hanoi», em Styles of Radical Will, de Susan Sontag. Quero agradecer, além disso, a ajuda desinteressada que me deram Quico Auquer, Andrés Barba, Jessica Berman, Frederic Bonet, David Castillo Buils, Àngel Duarte, Tomas Frauca, David T. Gies, Cristina Llençana, Rosa Negre, Núria Prats, Guillem Terribas, John C. Wilcox e, muito particularmente, Jordi Gracia, Felip Ortega e David Trueba, a quem este livro deve ainda mais do que pensam.

 

 

 

 

                   TODOS OS CAMINHOS

Agora levo uma vida falsa, uma vida apócrifa, clandestina e invisível embora mais verdadeira do que se fosse real, mas eu era ainda eu quando conheci Rodney Falk. Foi há muito tempo e foi em Urbana, uma cidade do Middle West norte-americano onde passei dois anos nos finais da década de oitenta. A verdade é que cada vez que me interrogo por que terei ido parar precisamente lá, respondo a mim próprio que fui parar precisamente lá como poderia ter ido parar a qualquer outro sítio. Contarei por que razão, em vez de ir parar a qualquer outro sítio, fui parar precisamente lá.

Foi por acaso. Naquele tempo - faz agora dezassete anos - eu era muito jovem, tinha acabado os estudos e partilhava com um amigo um apartamento escuro e pestilento na calle Pujol, em Barcelona, muito perto da plaza Bonanova. O meu amigo chamava-se Marcos Luna, era de Gerona tal como eu e, na realidade, era mais e menos que um amigo. Tínhamos crescido juntos, tínhamos brincado juntos, tínhamos frequentado a escola juntos, tínhamos os mesmos amigos. Desde sempre, Marcos queria ser pintor; eu não, eu queria ser escritor. Mas tínhamos tirado duas licenciaturas inúteis, não tínhamos trabalho e éramos pobres como rafeiros, de modo que nem Marcos pintava nem eu escrevia, ou só o fazíamos nos poucos tempos livres que nos deixava a tarefa quase exclusiva de sobreviver. Conseguíamo-lo a muito custo. Ele leccionava numa escola tão nojenta como o apartamento onde vivíamos, e eu era tarefeiro numa editora de negreiros (preparando originais, revendo

traduções, corrigindo provas), mas como os nossos salários de miséria nem sequer chegavam para pagar o aluguer do apartamento e garantir o nosso sustento, aceitávamos aqui e ali todos os trabalhos suplementares a que conseguíamos deitar mão, por mais estranhos que fossem, desde propor nomes a uma agência de publicidade para que esta escolhesse de entre eles o de uma nova companhia aérea, até ordenar os arquivos do Hospital de La Vale d'Hebron, passando por escrever letras de canções, que nunca nos foram pagas, para um músico que agonizava sem inspiração. Além disso, quando não estávamos a trabalhar nem a escrever ou a pintar dedicávamo-nos a calcorrear a cidade, a fumar marijuana, a beber cerveja e a falar das obras-primas com que um dia nos vingaríamos de um mundo que, apesar de ainda não termos exposto um único quadro ou publicado um único conto, considerávamos estar a ignorar-nos de uma forma flagrante. Não conhecíamos pintores ou escritores, não frequentávamos cocktails ou apresentações de livros, mas é provável que gostássemos de nos imaginar dois boémios numa época em que já não existiam boémios ou dois temíveis kamikazes dispostos a embater alegremente contra a realidade; a verdade é que não passávamos de dois provincianos arrogantes perdidos na capital, sozinhos, furiosos e decididos a por nada deste mundo regressar a Gerona, porque isso equivalia a renunciar aos sonhos de triunfo que tínhamos acalentado desde sempre. Éramos brutalmente ambiciosos. Aspirávamos a fracassar. Mas não a fracassar sem mais nem menos e de qualquer maneira: aspirávamos a fracassar de uma forma total, radical e absoluta. Era a nossa forma de aspirarmos ao sucesso.

Numa noite na Primavera de 1987, aconteceu uma coisa que não tardaria a alterar tudo. Marcos e eu acabávamos de sair de casa quando, precisamente no cruzamento da Muntaner com a Arimon, demos de caras com Marcelo Cuartero. Cuartero era um catedrático de Literatura na Universidade Autónoma a cujas aulas magníficas eu assistira com fervor, apesar de ter sido um aluno medíocre. Era um cinquentão corpulento, baixo, ruivo e descuidado na forma de vestir, com uma cara enorme de tartaruga triste dominada por umas sobrancelhas de mau da fita e uns olhos sarcásticos um pouco assustadores; era também um dos principais especialistas europeus no romance do século XIX, tinha encabeçado a agitação universitária contra o franquismo nos anos sessenta e setenta e continuava a ser, segundo se dizia (embora fosse difícil deduzi-lo pela orientação das suas aulas e pela leitura dos seus livros, escrupulosamente isentos de qualquer conteúdo político), um comunista de alma e coração, resignado e irredento. Cuartero e eu tínhamos trocado apenas um ou outro comentário de corredor durante os meus anos de estudante mas naquela noite ele parou para falar comigo e com Marcos, contou-nos que vinha de uma tertúlia literária que se reunia todas as terças e sextas-feiras no Oxford, um bar próximo, e, como se a tertúlia não tivesse colmatado a sua vontade de conversar, perguntou-me o que estava a ler e pusemo-nos a falar de literatura; depois convidou-nos a beber uma cerveja no El Yate, um bar com grandes vidraças e madeiras polidas onde Marcos e eu não costumávamos entrar por nos parecer luxuoso de mais para o nosso exíguo orçamento. Apoiados no balcão, estivemos a falar de livros durante um bocado, após o qual Cuartero me perguntou de repente em que trabalhava; como Marcos estava presente decidi não mentir mas fiz todo o possível para dourar a verdade. Ele, no entanto, deve tê-la adivinhado, porque foi nessa altura que me falou de Urbana. Cuartero disse que tinha lá um bom amigo, na Universidade de Illinois, e que esse amigo lhe dissera que, no ano seguinte, o Departamento de Espanhol oferecia várias bolsas de estudo de professores auxiliares a licenciados espanhóis.

- Não faço ideia de como será a cidade - reconheceu Marcelo. - O pouco que sei é graças a Quanto Mais Quente Melhor.

- Quanto Mais Quente Melhor - perguntámos, Marco e eu, em uníssono.

- O filme - respondeu Marcelo. - No início, Jack Lemmon e Tony Curtis têm que dar um concerto numa cidade gelada do Middle West, perto de Chicago, mas, devido a uma confusão com uns gangsters, acabam por fugir a sete pés para a Florida, disfarçados de coristas, onde fazem uma pândega sensacional. Pois então, Urbana é a cidade gelada a que nunca chegam, pelo que se deduz que Urbana não deve ser uma maravilha ou que deve ser, pelo menos, o contrário da Florida, supondo que a Florida é uma maravilha. Enfim, isso é tudo o que sei. Mas a universidade é boa e julgo que o trabalho também. Pagam um salário pelas aulas de línguas, o suficiente para viver, e exigem a inscrição no programa de doutoramento. Nada de muito exigente. Além disso, tu querias ser escritor, não?

Senti as faces incendiarem-se. Sem me atrever a olhar para Marcos, balbuciei alguma coisa mas Cuartero interrompeu-me:

- Pois um escritor tem de viajar. Vais ver coisas diferentes, conhecer outras pessoas, ler outros livros. Isso é proveitoso. Enfim - concluiu -, se te interessar, telefona-me.

Cuartero foi-se embora pouco depois mas Marcos e eu ficámos no El Yate, pedimos outra cerveja e estivemos um bocado a beber e a fumar em silêncio; ambos sabíamos o que o outro estava a pensar, e ambos sabíamos que o outro o sabia. Pensávamos que Cuartero tinha acabado de formular em meia dúzia de palavras o que há muito tempo pensávamos sem o formular: pensávamos que, além de ler todos os livros, um escritor devia viajar, ver mundo, viver com intensidade e acumular experiências, e que os Estados Unidos - qualquer lugar dos Estados Unidos - eram o local ideal para fazer todas essas coisas e escrever; pensávamos que um emprego estável e remunerado que deixasse tempo livre para escrever era muito mais do que naquele momento eu podia sonhar conseguir em Barcelona; demasiado jovens ou demasiado iludidos para saber o que significa uma vida a esvair-se pelo bueiro, pensávamos que a nossa vida em Barcelona estava a esvair-se pelo bueiro.

- Bom... - acabou Marcos por dizer e, sabendo que a decisão já estava tomada, acabou o copo de um gole - .. .outra cerveja?

Foi assim que, seis meses depois desse encontro fortuito com Marcelo Cuartero, após uma viagem interminável de avião com 'escalas em Londres e Nova Iorque, fui parar a Urbana como podia ter ido parar a qualquer outro sítio. Lembro-me de que a primeira coisa que pensei ao chegar, enquanto a camioneta da Greyhound que me trazia de Chicago entrava numa sucessão de avenidas desertas ladeadas por casinhas com alpendre, prédios de tijolo avermelhado e canteiros meticulosos que resplandeciam sob o céu candente de Agosto, foi na sorte incrível que tiveram Tony Curtis e Jack Lemmon em Quanto Mais Quente Melhor, e de que escreveria a Marcos para lhe dizer que tinha feito dez mil quilómetros em vão porque Urbana - apenas um ilhéu de cento e cinquenta mil almas flutuando no meio de um mar de campos de milho que se estendia sem interrupção até aos subúrbios de Chicago - não era muito maior nem parecia menos provinciana que Gerona. Evidentemente, não lhe disse nada disso. Para não o desiludir com a minha desilusão, ou para tentar modificar um pouco a verdade, o que lhe disse foi que Marcelo Cuartero estava enganado e que Urbana era como a Florida, ou melhor, como uma mistura em miniatura de Florida e Nova Iorque, uma cidade efervescente, solarenga e cosmopolita onde os romances praticamente se escreveriam por si sós. Mas, como por muito que nos empenhemos as mentiras não alteram a verdade, não demorei muito tempo a verificar que a minha primeira e compungida impressão da cidade estava correcta e, por isso, durante os primeiros dias que passei em Urbana deixei-me dominar pela tristeza, incapaz como estava de me emancipar da nostalgia do que deixara para trás e da certeza de que, em vez de uma cidade, aquele tormento sem fim perdido no meio de nenhures era um cemitério onde rapidamente acabaria transformado num fantasma ou num zombie.

Foi o amigo de Marcelo Cuartero quem me ajudou a superar essa depressão inicial. Chamava-se John Borgheson e acabou por ser um inglês americanizado ou um americano que não tinha sabido deixar de ser inglês (ou o contrário); quero dizer que, embora a sua cultura e a sua educação fossem americanas e a maior parte da sua vida e da sua carreira académica tenham decorrido nos Estados Unidos, ainda conservava quase intacto o seu sotaque de Birmingham e não se deixara contagiar pela maneira de ser directa dos norte-americanos, de forma que, à sua maneira, continuava a ser um britânico da velha escola, ou gostava de pensar que o era: um homem tímido, educado e reticente, que lutava em vão para esconder o humorista de vocação que trazia dentro de si. Borgheson, que rondava os quarenta anos e falava aquele castelhano um tanto arcaico e pedregoso que, com frequência, falam aqueles que o leram muito e falaram pouco, era a única pessoa que eu conhecia na cidade e, à minha chegada, teve a deferência inusitada de me acolher em sua casa; mais tarde, ajudou-me a alugar um apartamento próximo do campus e a instalar-me, mostrou-me a universidade e conduziu-me pelo labirinto da sua burocracia. Durante esses primeiros dias não pude evitar a ideia de que a amabilidade excessiva de Borgheson se devia, por causa de algum mal-entendido, ao facto de ele me considerar um aluno dilecto de Marcelo Cuartero, o que não deixava de me parecer irónico, sobretudo porque nessa altura eu já começava a ter suspeitas fundadas de que se Cuartero não me tinha enviado para um lugar mais remoto e inóspito que Urbana era por não conhecer um lugar mais inóspito e mais remoto que Urbana. Borgheson também se apressou a apresentar-me a alguns dos meus futuros colegas, seus alunos e professores auxiliares como eu no Departamento de Espanhol e, numa noite de sábado, poucos dias depois da minha chegada, organizou um jantar com três deles no Courier Café, um pequeno restaurante situado em Race, muito perto de Lincoln Square.

Lembro-me muito bem do jantar, entre outras razões porque receio bem que algumas das coisas que aí aconteceram possam dar a imagem exacta do que devem ter sido as minhas primeiras semanas em Urbana. Os três colegas que compareceram, dois homens e uma mulher, tinham mais ou menos a minha idade. Os dois homens dirigiam uma revista semestral intitulada Línea Plural: um deles era um venezuelano chamado Felipe Vieri, um tipo muito culto, irónico, um pouco altivo, que se vestia com um esmero de alguma forma amaneirado; o outro chamava-se Frank Solaún e era norte-americano de origem cubana, robusto e entusiasta, com um sorriso radioso e o cabelo alisado com gel. Quanto à mulher, o seu nome era Laura Burns e, conforme soube mais tarde pelo próprio Borgheson, pertencia a uma família opulenta e aristocrática de San Juan de Puerto Rico (o pai era proprietário do jornal mais importante do país), mas o que nela mais me chamou a atenção naquela noite, além do seu físico inequívoco de gringa - alta, sólida, loura, com a pele muito branca -, foi a sua propensão intimidadora para o sarcasmo, refreada a muito custo devido ao respeito que a presença de Borgheson lhe inspirava. Este, aliás, impôs a sua hierarquia com suavidade ao longo do jantar, encaminhando a conversa, sem esforço, para temas que pudessem ser do meu interesse ou dos quais, conforme ele imaginava ou desejava, eu não pudesse sentir-me excluído. De modo que falámos da minha viagem, de Urbana, da universidade, do departamento; falámos também de escritores e de cineastas espanhóis e depressa me apercebi de que Borgheson e os seus discípulos estavam mais a par do que eu daquilo que acontecia em Espanha, porque eu não lera os livros nem vira os filmes de muitos dos escritores e cineastas que eles mencionavam. Duvido que esse facto me humilhasse porque naquela época o meu ressentimento de escritor inédito, menosprezado e praticamente agrafo me autorizava a considerar pura porcaria tudo o que se fazia em Espanha - e pura arte tudo o que não se fazia lá -, mas não excluo que esse facto explique em parte o que aconteceu por altura dos cafés. Nesse momento, Vieri e Solaún estavam já há algum tempo a falar com devoção incondicional do cinema de Pedro Almodóvar; sempre solícito, Borgheson aproveitou uma pausa daquele dueto entusiasta para me perguntar que opinião me mereciam os filmes do realizador manchego *(1). Tal como toda a gente, julgo que nessa altura também gostava dos filmes de Almodóvar, mas naquele momento devo ter sentido uma necessidade inadiável de me tornar interessante ou de deixar bem clara a minha vocação cosmopolita marcando distâncias relativamente àquelas histórias de freiras toxi-codependentes, travestis castiços e assassinas de toureiros, de modo que respondi:

- Francamente, parecem-me uma paneleirice.

Uma gargalhada selvagem de Laura Burns aclamou a minha sentença e a satisfação que me provocou esse acolhimento escandaloso impediu-me de notar o silêncio glacial dos restantes comensais, que Borgheson se apressou a quebrar com um comentário de urgência. O jantar terminou pouco depois sem outros incidentes e, ao saírmos do Courier Café, Vieri e Solaún propuseram que fôssemos beber um copo. Borgheson e Laura Burns declinaram a proposta; eu aceitei-a.

Os meus novos amigos levaram-me a uma discoteca chamada Chester Street, localizada apropriadamente em Chester Street, junto da estação de comboios. Era um sítio enorme e oblongo, de paredes nuas, com um balcão à direita e, diante dele, uma pista de dança crivada de luzes estroboscópicas que, àquela hora, já estava repleta de gente. Assim que entrámos, Solaún não hesitou em perder-se entre a multidão convulsa que inundava a pista; pela nossa parte, Vieri e eu abrimos caminho até ao balcão para pedir cubas-libres e, enquanto esperávamos que nos servissem, comecei a fazer a Vieri um comentário trocista e perplexo pelo facto de na discoteca só se verem homens mas, antes de conseguir terminá-lo, um rapaz abordou-me e disse-me alguma coisa que não percebi ou achei difícil perceber.

 

*(1) Manchego: natural de La Mancha. (N. da T.)

 

Inclinando-me para ele, pedi lhe que o repetisse; repetiu-o: perguntou-me se me apetecia dançar com ele. Estive quase a pedir-lhe que o repetisse de novo mas, em vez de o fazer, olhei para ele: era bastante jovem, bastante louro, parecia muito alegre, sorria; agradeci-lhe e disse-lhe que não queria dançar. O rapaz encolheu os ombros e, sem mais comentários, foi-se embora. Ia contar a Vieri o que acabara de acontecer quando fui abordado por um tipo alto e forte, com bigode e botas à campino, que me fez a mesma pergunta, ou semelhante, que o rapaz me fizera; incrédulo, dei-lhe a mesma resposta, ou semelhante, e, sem voltar sequer a olhar para mim, o tipo riu-se silenciosamente e também se foi embora. Precisamente nesse momento, Vieri estendeu-me a minha cuba-libre, mas não lhe disse nada e já nem me foi preciso ler a ronha ressabiada e um pouco vingativa que havia nos seus olhos para me sentir como Jack Lemmon e Tony Curtis chegando à Florida vestidos de constas e para entender o silêncio estupefacto que se seguiu ao meu veredicto sobre os filmes de Almodóvar. Muito tempo depois, Vieri contou-me que, quando na manhã seguinte àquela noite triunfal, Frank Solaún disse a Laura Burns que me tinham levado a uma festa gay em Chester Street, o grito de Laura soou como um anátema pelos corredores do departamento: «É que é tão espanhol que deve ter o cérebro em forma de bilha com gargalo e tudo!»

Gostaria de acreditar que durante os meus primeiros dias em Urbana este tipo de argoladas não terá sido tão frequente como receio, mas tal não posso garantir; o que posso garantir é que me habituei à minha nova vida com muito mais rapidez do que vaticinavam. E a verdade é que era uma vida cómoda. A minha casa - um apartamento de duas assoalhadas com cozinha e casa de banho - ficava a cinco minutos a pé do Foreign Languages Building, o edifício que albergava o Departamento de Espanhol, no número 703 de West Oregon, entre Busey e Coler, numa zona de ruelas, estreitas e arborizadas. Tal como Marcelo Cuartero me prometera, ganhava o suficiente para viver sem apertos e as minhas obrigações como professor de Espanhol e estudante de doutoramento deixavam-me quase todas as tardes e todas as noites livres, além de uns fins-de-semana longuíssimos que incluíam as sextas-feiras, de modo que dispunha de muito tempo para ler e escrever, e de uma biblioteca imensa onde me abastecer de livros. Rapidamente, a curiosidade pelo que tinha à frente substituiu a nostalgia pelo que deixara para trás. Escrevia assiduamente para a família e amigos - sobretudo para Marcos -, mas já não me sentia só; de facto, depressa descobri que, querendo, nada era mais fácil do que fazer amigos em Urbana. Tal como todas as cidades universitárias, aquele era um lugar asséptico e falaz, um microclima humano órfão de pobres e de velhos onde todos os anos aterrava e de onde todos os anos descolava em direcção ao mundo real uma população composta por jovens de passagem procedentes de todo o planeta; somado à evidência um tanto angustiante de que nem na cidade nem em várias centenas de quilómetros em redor havia outra distracção além do trabalho, esta circunstância facilitava sobremaneira a vida social, e é um facto que, em contraste com a quietude estudiosa do resto da semana, de sexta à tarde a domingo à noite, Urbana transformava-se num fervedouro buliçoso de festas privadas que ninguém parecia querer perder e para as quais toda a gente parecia estar convidada.

Não conheci Rodney Falk em nenhuma dessas festas particulares e concorridas mas no gabinete que partilhámos durante um semestre no quarto andar do Foreign Languages Building. Nunca chegarei a saber se me destinaram aquele gabinete por acaso ou por ninguém o querer partilhar com Rodney (inclino-me mais para a segunda que para a primeira hipótese), mas o que sei é que, se não mo tivessem destinado, o mais provável é que Rodney e eu nunca tivéssemos feito amizade e tudo tivesse sido diferente. A minha vida não seria como é e a lembrança de Rodney ter-se-ia apagado da minha memória como, com a passagem dos anos, se apagou a de quase toda a gente que conheci em Urbana. Ou talvez nem tanto, talvez esteja a exagerar. Ao fim e ao cabo é verdade que, sem que minimamente se propusesse a isso, Rodney não passava despercebido no meio da uniformidade rigorosa que imperava no departamento e que toda a gente acatava sem refilar, como se se tratasse de uma norma tácita mas palpável de profilaxia intelectual paradoxalmente destinada a instigar a competição entre os membros daquela comunidade orgulhosa da sua estrita observância meritocrática. Rodney transgredia essa norma porque era bastante mais velho do que os restantes professores auxiliares de Espanhol, quase nenhum de nós ultrapassava os trinta anos, mas também porque nunca assistia às reuniões, cocktails e encontros convocados pelo departamento, coisa que toda a gente atribuía, conforme comprovei imediatamente, ao seu temperamento reservado e excêntrico, para não dizer arredio, contribuindo para o envolver numa lenda difamatória que incluía o privilégio de ter conseguido o emprego de professor de Espanhol graças à sua condição de veterano da Guerra do Vietname. Lembro-me de que numa recepção oferecida pelo departamento aos novos professores auxiliares, na véspera do início das aulas, alguém comentou a sua ausência crónica, o que provocou de imediato, entre o conciliábulo de colegas que me rodeava, uma catarata de conjecturas selvagens acerca daquilo que Rodney devia ensinar aos seus alunos, porque nunca o tinham ouvido falar espanhol.

- Porra! - concluiu nessa altura Laura Burns, que acabava de se juntar ao grupo. - A mim o que me preocupa não é que Rodney não saiba nada de espanhol, mas que qualquer dia destes apareça por aqui com uma Kalashnikov e nos limpe o sebo a todos.

Ainda não tinha esquecido este comentário, que foi recebido com uma gargalhada geral, quando no dia seguinte conheci finalmente Rodney. Naquela manhã, a primeira do ano lectivo, cheguei muito cedo ao departamento e, ao abrir a porta do gabinete, a primeira coisa que vi foi Rodney sentado na sua mesa, lendo; a segunda coisa foi que levantava os olhos do livro, me olhava e, sem qualquer palavra de permeio, se levantava. Tive um instante irracional de pânico provocado pela lembrança do desabafo de Laura Burns (que, de repente, deixou de me parecer um desabafo e também de me parecer divertido) e pelo tamanho daquele homenzarrão com fama de desequilibrado que avançava na minha direcção; mas não desatei a correr. Com apreensão, apertei-lhe a mão que me estendia e tentei sorrir.

- Chamo-me Rodney Falk - disse, olhando-me nos olhos com uma intensidade desconcertante e fazendo um ruído que soou como um bater de calcanhares marcial - E tu?

Disse-lhe o meu nome. Rodney perguntou-me se era espanhol. Disse-lhe que sim.

- Nunca estive em Espanha - declarou. - Mas um dia gostaria de a conhecer. Leste Hemingway?

Eu mal tinha lido Hemingway, ou lera-o sem muita atenção, e a minha opinião sobre o escritor norte-americano cabia numa fotografia instantânea protagonizada por um velho acabado, fanfarrão e alcoólico, amigo de bailarinas e de toureiros, que divulgava nas suas obras fora de moda uma imagem de postal turístico amassado com i >s estereótipos mais rançosos e insuportáveis de Espanha.

- Sim - respondi, aliviado por aquele vislumbre de conversa literária e, como devo ter visto outra oportunidade magnífica para deixar bem clara entre os meus colegas de faculdade a minha vocação cosmopolita incorruptível, que julgava já ter apregoado com o meu comentário homófobo sobre o cinema de Almodóvar, acrescentei: - Francamente, acho-o uma merda.

A reacção do meu flamante companheiro de gabinete foi mais expedita que a de Vieri e Solaún há algumas noites: sem um gesto de desaprovação ou aquiescência, como se, de repente, eu tivesse desaparecido da sua vista, Rodney deu meia-volta e deixou-me a falar sozinho; depois tornou a sentar-se, a agarrar no livro e a mergulhar nele.

Naquela manhã nada mais se passou e, se descontarmos a surpresa ou o pânico inicial e Ernest Hemingway, o ritual dos dias que se seguiram acabou por ser mais ou menos idêntico. Apesar de eu chegar sempre ao gabinete assim que o Foreign Languages Building abria, Rodney adiantava-se sempre e, após um cumprimento de compromisso que no caso do meu colega era mais um mugido, a manhã passava-se entre o ir e vir das aulas e os momentos que passávamos sentados, cada qual à sua secretária, a ler ou a preparar as aulas (Rodney sobretudo a ler e eu sobretudo a preparar as aulas), mas sempre fechados a sete chaves num mutismo que só timidamente tentei quebrar nalgumas ocasiões, até ter compreendido que Rodney não tinha o mais pequeno interesse em falar comigo. Foi nesses dias que, espiando-o às escondidas da minha secretária ou pelos corredores do departamento, comecei a familiarizar-me com a sua presença. A primeira vista, Rodney tinha o aspecto cândido, baldas e anacrónico daqueles hippies dos anos sessenta que não tinham querido ou conseguido adaptar-se ao alegre cinismo dos anos oitenta, como se por gosto ou à força tivessem sido encurralados numa valeta para não perturbarem o movimento triunfante da História. No entanto, a sua indumentária não destoava do igualitarismo informal que reinava na universidade: calçava sempre sapatilhas, calças de ganga desbotadas e grandes camisas aos quadrados, embora no Inverno - no Inverno polar de Urbana - substituísse as sapatilhas por umas botas militares e se cobrisse com grossas camisolas de lã, um blusão de cabedal e um gorro de pele. Era alto, corpulento, ligeiramente desajeitado; andava com os olhos sempre fixos no chão e aos tropeções, inclinado para a direita, com um ombro mais subido que o outro, coisa que dotava o seu andar de uma instabilidade bamboleante de paquiderme prestes a desmoronar-se. Tinha o cabelo comprido, espesso e arruivado, e uma cara grande e larga, com a pele ligeiramente avermelhada e feições que pareciam esculpidas no crânio: queixo duro, maçãs do rosto proeminentes, nariz escarpado e boca trocista e depreciativa que, ao abrir-se, revelava uma dupla fileira de dentes desiguais, quase ocres, bastante deteriorados. Sofria de fotofobia num dos olhos, o que o obrigava a protegê-lo do contacto com o sol tapando-o com uma venda de pano preto presa à cabeça por uma fita, um emplastro que lhe infundia um ar de antigo combatente não desmentido pelo seu andar trôpego nem pelo seu aspecto descuidado. Sem dúvida por causa dessa lesão, à vista desarmada os seus olhos não pareciam ser da mesma cor, embora, prestando atenção, se verificasse que simplesmente um deles era de um castanho mais claro, quase mel, e o outro de um castanho mais escuro, quase preto. Além do mais, também verifiquei imediatamente que Rodney não tinha amigos no departamento e que, excepto com Dan Gleylock - um velho professor de Linguística em cujo gabinete o vi algumas vezes a conversar de café na mão -, mantinha com os restantes membros da faculdade uma relação que nem sequer atingia aquele grau de cordialidade superficial que a educação impõe.

Nada faria prever que o meu caso ia ser diferente. De facto, é quase certo que a minha relação com Rodney nunca teria superado o estádio de autismo a que mutuamente nos confinámos durante os primeiros dias do curso sem a colaboração involuntária de John Borgheson. Na primeira sexta-feira após o início das aulas, Borgheson convidou-me para almoçar com ele e com um professor italiano, jovem e com um ar lânguido de dândi, chamado Giuseppe Rota, que era, durante aquele semestre, professor convidado na faculdade. O almoço teve duas partes. Durante a primeira, Rota falou sem cessar, enquanto Borgheson permaneceu num silêncio meditativo ou embaraçado; durante a segunda parte trocaram de papéis - Borgheson falou e Rota permaneceu em silêncio como se o que ali se ventilava não lhe dissesse respeito -, e só nessa altura compreendi o objectivo do convite. Borgheson explicou que Rota tinha sido contratado pela universidade para leccionar um curso de iniciação à Literatura Catalã; até ao momento, no entanto, só se tinham matriculado três pessoas, o que representava um grave contratempo uma vez que as normas da universidade obrigavam o departamento a cancelar os cursos que não tivessem um mínimo de quatro inscrições. Chegado a este ponto, o tom do discurso de Borgheson deixou de ser expositivo para se tornar veemente, como se tentasse mascarar com a ênfase que nele punha a vergonha que sentia ao pronunciá-lo. Porque, o que Borgheson me rogou com a anuência silenciosa de Rota - e depois de se precaver contra qualquer possível objecção, tratando de afagar de passagem a minha vaidade com o argumento de que, dado o meu conhecimento da matéria e o nível elementar obrigatório do curso, este não podia ser muito proveitoso para mim - foi que me matriculasse nele, subentendendo-se que consideraria um favor pessoal este meu pequeno sacrifício e também que o curso não implicaria para mim qualquer esforço além do de assistir às aulas. Evidentemente, acedi de imediato ao pedido de Borgheson, encantado por retribuir parte dos favores que ele me fizera. Mas o que de modo nenhum podia prever - nem Borgheson podia antecipar-me - era o que iria significar aquela decisão trivial.

Comecei a pressenti-lo na terça-feira da semana seguinte quando, ao fim da tarde, entrei na sala onde ia ser leccionada a primeira aula de Literatura Catalã e vi sentados em volta de uma mesa os meus três colegas de curso. Um deles era um tipo com ar patibular, vestido de preto rigoroso, com o cabelo pintado de vermelho e penteado à punk; o outro era um chinês baixo, magro e irrequieto; o terceiro era Rodney. Os três olharam para mim sorridentes e em silêncio e, depois de me certificar de que não me tinha enganado na sala, cumprimentei-os e sentei-me; passados instantes apareceu Rota e a aula começou. Começar é uma forma de dizer. Na realidade, aquela aula acabou por nunca começar, simplesmente porque era uma aula impraticável. A razão era, conforme comprovámos de imediato, não haver uma língua comum a todos os que a ela assistíamos. Rota, que falava bem o castelhano e o catalão, não falava, no entanto, uma única palavra de inglês, e o americano patibular, que se apressou a informar-nos de que queria aprender catalão porque estudava Filologia Românica, limitava-se a arranhar o francês, tal como Rodney, que além disso falava castelhano; quanto ao chinês, que se chamava Wong e estudava Realização na escola de arte dramática, além de chinês só sabia inglês (muito mais tarde soube que o seu desejo de aprender catalão se devia ao facto de ter um namorado catalão). Não levámos muito tempo a compreender que, dadas as circunstâncias, eu era o único instrumento possível de comunicação entre os membros daquela improvisada assembleia ecuménica, de modo que, depois de Rota, suado e alterado, tratar em vão de se fazer entender por todos os meios ao seu alcance, incluindo por gestos, eu me ofereci para o traduzir do catalão para o inglês, única língua que todos os interessados entendiam, excepto o próprio Rota. Além de ridículo, o procedimento era de uma morosidade exasperante, embora, valha-nos isso, nos tenha permitido contornar não só aquela aula introdutória mas, por incrível que pareça, o semestre inteiro, não sem grandes doses, verdade seja dita, de generosa hipocrisia e de sorrisos por parte de todos. Mas, como é natural, naquele primeiro dia saímos todos deprimidos e atónitos, de modo que ao princípio só pude interpretar como um sarcasmo o comentário feito por Rodney quando, depois de saírmos juntos da aula e de percorrermos em silêncio o hall do Foreign Languages Building, estávamos prestes a despedir-nos à porta do edifício:

- Nunca tinha aprendido tantas coisas numa única aula - foi o comentário de Rodney. Digo desde já: primeiro pensei que estava a troçar; depois pensei que não estava a referir-se ao que eu julgava que estava a referir-se e depois fiquei sem saber o que pensar. Rodney acrescentou: - Não sabia que falavas catalão.

- Vivo na Catalunha.

- Toda a gente que vive na Catalunha fala catalão ?

- Nem toda a gente.

Rodney parou, olhou para mim com um misto de interesse e de receio e perguntou:

- Leste Mercê Rodoreda?

Disse que sim.

- Gostas?

Como já tinha aprendido a lição e desejava um bom relacionamento com o meu colega de gabinete, disse que sim. Rodney fez uma expressão estranha, que não soube como interpretar, e por instantes pensei em Almodóvar e em Hemingway e achei que tinha estado a enganar-me, que talvez os admiradores de Hemingway pudessem deixar de detestar Rodoreda tal como os admiradores de Rodoreda não pudessem deixar de detestar Hemingway. Antes de poder matizar ou retirar a mentira que acabara de infligir-lhe, Rodney tranquilizou-me.

- Eu adoro - disse. - Li-a na tradução espanhola, claro, mas quero aprender catalão para a ler no original.

- Pois vieste parar ao sítio certo - escapou-me.

- O que dizes?

- Nada.

Já ia despedir-me quando inesperadamente Rodney disse:

- Apetece-te uma Coca-Cola?

Fomos ao Treno's, um bar situado na esquina da Goodwin com a West Oregon, a meio caminho entre a minha casa e a faculdade. Era um local frequentado por estudantes, com mesas de madeira e paredes também forradas a madeira, com uma grande lareira apagada e uma grande janela que dava para a Goodwin. Sentámo-nos junto da lareira e pedimos uma Coca-Cola para Rodney, uma cerveja para mim e uma tigela de pipocas para os dois. Conversámos. Rodney contou-me que vivia em Rantoul, uma cidadezinha próxima de Urbana, e que aquele era o terceiro ano que dava aulas de Espanhol na universidade.

- Gosto - acrescentou.

- A sério? - perguntei.

- Sim - respondeu. - Gosto de dar aulas, gosto dos colegas do departamento, gosto da universidade. - Deve ter visto alguma estranheza na minha cara, porque perguntou: - Isto surpreende-te?

- Não - menti.

Rodney deu-me lume com um Zippo e, enquanto acendia o cigarro, reparei no isqueiro: era velho e devia ter sido prateado mas agora era de um amarelo ferroso; na parte superior, em letras maiúsculas, via-se a palavra Vietname e por baixo uns algarismos (6 - 69) e duas palavras: Chu Lai; na parte inferior via-se um cão sentado e sorridente e por baixo dele uma frase: «Fuck it. I got my orders.» Rodney reparou que o meu olhar se fixara no isqueiro porque disse enquanto o guardava:

- Foi a única coisa boa que trouxe daquela guerra de merda. Ia pedir-lhe que me falasse do Vietname quando bruscamente insistiu em que falasse de mim. E fi-lo. Falei-lhe, creio, de Gerona, de Barcelona, das minhas primeiras impressões de Urbana, e ele interrompeu-me para me perguntar como fora parar ali. Desta vez não lhe menti mas também não lhe disse a verdade; pelo menos toda a verdade.

- Urbana é um bom lugar para viver. - Sentenciou Rodney quando acabei de falar; depois, misteriosamente, acrescentou: - É como nada.

Perguntei-lhe o que isso significava.

- Significa que é um bom lugar para trabalhar - disse como única resposta.

Enquanto eu pensava nas razões que Marcelo Cuartero me tinha dado para que eu fosse para Urbana, Rodney pôs-se a falar de Mercê Rodoreda. Tinha lido dois dos seus romances (A Praça do Diamante e Espelho Partido); eu só tinha lido o segundo mas garanti-lhe com gravidade de leitor infalível que os dois que ele lera eram os melhores que Rodoreda tinha escrito. Nessa altura, Rodney fez-me uma proposta: disse-me que todas as terças e quintas-feiras, depois da aula de Rota (ou depois da aula de Rota traduzida " por mim), podíamos ir ao Treno's para que eu lhe ensinasse a falar catalão; em troca estava disposto a pagar-me o que combinássemos. Disse-o numa voz muito séria mas, estranhamente, senti-me como se ele tivesse acabado de me contar uma piada um pouco macabra que eu não soubera decifrar ou (mais estranhamente ainda) como se estivesse a desafiar-me para um duelo. Eu ainda não podia saber que esse era o tom de voz habitual de Rodney, de modo que, embora nem sequer tivesse a certeza de conseguir ensinar catalão a alguém, menos por orgulho que por curiosidade, respondi: - Basta que me pagues as cervejas.

Foi assim que Rodney e eu nos tornámos amigos. Naquela quinta-feira voltámos ao Treno's e, a partir da semana seguinte, tal como tínhamos combinado, reunimo-nos aí todas as terças e quintas, no fim da aula oficial de catalão. Chegávamos pouco depois das seis, sentávamo-nos na mesa ao pé da lareira, pedíamos Coca-Cola (para ele), cerveja (para mim) e começávamos a conversar até o sítio fechar, por volta das nove. Sobretudo durante os primeiros dias tentava dedicar todo o tempo possível a fazer com que Rodney adquirisse os rudimentos do catalão mas, pouco a pouco, a indolência ou o aborrecimento venceram-nos e o dever da aprendizagem deu lugar ao prazer da conversa. Não é que não falássemos também nos tempos livres de que dispúnhamos no gabinete, mas fazíamo-lo de uma forma descontínua ou distraída, entre o ramerrão de outras ocupações, como se aquele fosse um local inadequado para prolongar as conversas do Treno's; pode ser que, pelo menos, Rodney assim o entendesse ou que, por algum motivo, quisesse evitar que no departamento soubessem da nossa amizade. O caso é que, mal comecei a relacionar-me com ele fora do gabinete, pressenti que havia uma discrepância fundamental, embora para mim indefinível, entre o Rodney que eu conhecia e o que os meus colegas de departamento conheciam, apesar de os dois partilharem o mesmo físico deteriorado e o mesmo ar de extravio, como se tivessem acabado de acordar e a teia do sono ainda lhes cobrisse os olhos. Mas o que naquele momento não podia pressentir de maneira nenhuma é que essa discrepância estava vinculada à própria essência da personalidade de Rodney, a um centro nevrálgico que ele mantinha escondido e ao qual, por essa altura, ninguém - de certa forma nem sequer ele próprio - tinha acesso.

Não guardo uma lembrança fiel daquelas tardes do Treno's, mas algumas delas são bastante intensas. Lembro-me, por exemplo, da atmosfera cada vez mais carregada do bar à medida que a noite avançava e o local se ia enchendo de estudantes que liam, escreviam ou conversavam. Lembro-me da cara jovem, redonda e sorridente de uma empregada de mesa que costumava servir-nos e de uma má reprodução de um retrato de Modigliani que pendia de uma parede, mesmo à direita do balcão. Lembro-me de Rodney alisando de vez em quando o cabelo revolto e reclinando-se incómodo na sua cadeira, esticando na direcção da lareira as pernas que quase não lhe cabiam debaixo da mesa. Lembro-me da música que se ouvia pelas colunas de som, muito ténue, quase como um eco distorcido de outra música, e lembro-me de que essa música me fazia sentir que não estava num bar de uma cidade do Middle West ao final dos anos oitenta, mas nos fins dos anos setenta num bar de Gerona, porque era a música dos bares da minha adolescência em Gerona (coisas como Led Zeppelin, como ZZ Top, como Frank Zappa). Lembro-me muito bem de um pormenor curioso: a última canção que punham todas as noites, como um aviso discreto aos clientes habituais de que o bar ia fechar, era It's alright, ma (I'm only bleeding), uma velha canção de Bob Dylan que Rodney adorava porque, tal como a mim os ZZ Top me devolviam o desconsolo sem horizontes da minha adolescência, a ele era-lhe devolvido o júbilo hippy da sua juventude, ainda que se tratasse de uma canção tristíssima que falava de palavras desiludidas que ecoam como balas e de cemitérios a abarrotar de falsos deuses e de gente solitária que chora e tem medo e vive num poço sabendo que tudo é mentira e que compreendeu cedo de mais o que não vale a pena tentar compreender, e esse júbilo era-lhe talvez devolvido graças a um verso que eu também não consegui esquecer: «Quem não está ocupado em nascer está ocupado em morrer». Lembro-me também de outras coisas. Lembro-me de que Rodney falava com uma estranha paixão atónita, fumando sem tréguas e gesticulando muito, possuído por uma espécie de euforia permanente, e que embora nunca (ou quase nunca) se risse, dava a impressão de nunca falar totalmente a sério. Lembro-me de que nunca (ou quase nunca) falávamos da universidade e de que, apesar de Rodney nunca (ou quase nunca) falar de coisas pessoais, nunca (ou quase nunca) dava a impressão de falar de outra coisa além de si próprio. E tenho a certeza de que não o ouvi mencionar a palavra Vietname uma única vez. Mais de uma vez, pelo contrário, falámos de política ou, mais precisamente, foi Rodney quem falou de política. Mas foi só já bem entrado o Outono que compreendi que, se não falávamos de política mais frequentemente, não era por esta não interessar a Rodney mas por eu não entender absolutamente nada de política (muito menos da política norte-americana que, para Rodney, era a única real ou, pelo menos, a única relevante), o que, diga-se em abono da verdade, também não parecia importar muito ao meu amigo que, em todas as ocasiões em que abordou o assunto, me deu a impressão de falar mais para si próprio ou para um interlocutor abstracto que para mim, dir-se-ia que instado por uma espécie de impulso furioso de desabafo, por uma veemência ressentida e sem esperança contra os políticos do seu país (que considerava, sem excepções, um rebanho de mentirosos e flibusteiros), contra as grandes corporações económicas que detinham o verdadeiro poder político e contra os meios de comunicação que, segundo ele, propagavam com impunidade as mentiras dos políticos e das grandes empresas.

Mas o que recordo sobretudo daquelas tardes do Treno's é que praticamente só falávamos de livros. Naturalmente, pode ser que esteja a exagerar, pode ser que não seja verdade, que o futuro altere o passado, que os factos posteriores distorçam a minha memória e que no Treno's, Rodney e eu não falássemos praticamente só de livros, mas o que eu recordo é que praticamente só falávamos de livros; do que, de qualquer forma, tenho a certeza, é de que rapidamente compreendi que Rodney era o amigo mais culto que já tivera. Embora por algum motivo tenha demorado ainda algum tempo a confessar-lhe que queria ser escritor e que ali em Urbana tinha começado a escrever um romance, falei-lhe desde o princípio dos narradores norte-americanos que lia nessa altura: de Saul Bellow, Philip Roth, Bernard Malamud, John Updike, Flannery O'Connor. Para minha surpresa (para minha alegria também), Rodney lera-os a todos; esclareço que não foi por ter dito que os lera mas por eu notar que os lera, devido aos comentários com que travava ou alimentava o meu entusiasmo kamikaze (com mais frequência o primeiro que o segundo). Foi sem dúvida Rodney quem pela primeira vez mencionou, naquelas tardes do Treno's, alguns dos escritores que mais tarde associei sempre a Urbana: Stanley Elkin, Donald Barthelme, Robert Coover, John Hawkes, William Gaddis, Richard Brautigan, Harry Mathews. Também falámos, uma vez ou outra, de Rodoreda, que antes das aulas impossíveis de Rota era o único autor catalão que o meu amigo conhecia, bem como de alguns escritores latino-americanos que apreciava; e julgo que mais de uma vez Rodney mostrou ou fingiu algum interesse pela literatura espanhola, embora me desse conta imediatamente de que, ao contrário dos discípulos de Borgheson, a conhecia pouco e lhe agradava menos. Do que realmente Rodney gostava, o que o apaixonava, era a velha literatura norte-americana. A minha ignorância a esse respeito era absoluta, de modo que demorei ainda algum tempo a compreender que, tal como os de qualquer bom leitor, os gostos e opiniões de Rodney nesta matéria estavam pejados de preconceitos; o facto é que eram inequívocos: adorava Thoreau, Emerson, Hawthorne e Twain, considerava Fenimore Cooper uma fraude, Poe um autor menor, Melville um moralista de uma solenidade insuportável e James um narrador artificioso, snobe e sobrevalorizado; respeitava Faulkner e Thomas Wolfe e achava que não havia em todo o século um autor com tanto talento como Scott Fitzgerald, mas só Hemingway, justamente Hemingway, era objecto da sua devoção incondicional. Incondicional mas não acrítica: ouvi-o muitas vezes troçar dos erros, banalidades, piroseiras e limitações de que padeciam os romances de Hemingway mas, graças a uma inflexão inesperada da argumentação, como que num passe de magia, esses desaires acabavam sempre por se transformar, aos olhos de Rodney, em condimentos indispensáveis da sua grandeza. - Muita gente escreveu romances melhores que os de Hemingway - disse-me na primeira vez que falámos dele, como se se tivesse esquecido da opinião analfabeta que emiti naquele dia em que nos conhecemos. - Mas ninguém escreveu contos melhores que Hemingway e ninguém é capaz de superar uma página de Hemingway. Além disso - concluiu com um sorriso, antes que eu ficasse totalmente ruborizado -, se reparares bem é muito útil como detector de idiotas: os idiotas nunca gostam de Hemingway. - Embora talvez o fosse, não encarei esta última frase como uma alusão pessoal; não me aborreci, embora tivesse podido fazê-lo. Mas, independentemente de ter ou não razão, com o tempo acabei por pensar que, mais do que um escritor admirado, Hemingway foi para Rodney um símbolo obscuro e radiante cujo alcance nem sequer ele próprio conseguia determinar completamente.

Disse anteriormente que já ia avançado o Outono quando compreendi que o interesse de Rodney pela política não era meramente anedótico mas muito sério, embora também um tanto disparatado ou, pelo menos - para o dizer de uma forma convencional - pouco convencional. Na realidade, só comecei a pressenti-lo num domingo no início de Outubro em que um colega do departamento chamado Rodrigo Ginés me convidou para almoçar em sua casa juntamente com outros dois colegas do departamento, para falarmos do número de Línea Plural que deveria sair no semestre seguinte. Ginés, que tinha chegado a Urbana ao mesmo tempo que eu e que acabaria por ser um dos meus melhores amigos, era chileno, era escritor, era violoncelista; era também professor auxiliar de Espanhol. Fora, há muitos anos, professor na Universidade Austral do Chile mas, com a queda de Salvador Allende, a ditadura expulsara-o e obrigara-o a ganhar a vida noutros empregos, entre eles o de violoncelista da Orquestra Sinfónica Nacional. Tinha pouco mais ou menos a mesma idade de Rodney, mulher e dois filhos em Santiago e um ar melancólico de índio órfão, com bigode e pêra, que não traíam o seu humor negro, a sua sociabilidade compulsiva ou o seu gosto pelo vinho e pela boa mesa. Naquele domingo compareceram em sua casa, além de Felipe Vieri e Frank Solaún, os dois directores da revista e incondicionais de Almodóvar, vários professores auxiliares do departamento, entre eles Laura Burns e uma austríaca chamada Gudrun com quem, nessa altura, o nosso anfitrião andava a sair. Comemos um frango com mole poblano cozinhado por Ginés e, depois do jantar, discutimos longamente o conteúdo da revista. Falámos de poemas, de contos, de artigos, da necessidade de contar com novos colaboradores e, quando estávamos a discutir este último ponto, eu trouxe à baila o nome de Rodney, sugerindo que lhe pedíssemos alguma coisa para o próximo número; já ia recitar as excelências intelectuais do meu amigo quando notei que os restantes comensais olhavam para mim como se estivesse a anunciar-lhes a aterragem iminente em Urbana de uma nave espacial tripulada por anõezinhos com antenas. Calei-me. Fez-se um silêncio incómodo. Foi nessa altura que, como se tivesse encontrado nas suas próprias mãos o instrumento indicado para garantir o sucesso da reunião, Ginés interveio para contar a história. Não posso garantir que seja verdadeira em todos os pormenores, limito-me a contá-la tal como ele a contou. Ao que parece, na terça-feira daquela mesma semana, enquanto se dirigia, mais cedo do que o costume, para a sua primeira aula do dia, o meu amigo chileno tinha visto um Buick poeirento a parar sem qualquer cuidado no meio da Lincoln Avenue, ao lado de um poste de electricidade, justamente no cruzamento da Green Street. Ginés pensou que o carro se avariara e continuou a andar em direcção ao cruzamento, mas admitiu o seu engano quando, à medida que se aproximava, viu que o condutor saía e que, em vez de se pôr a verificar o motor ou a examinar o estado dos pneus, abria a porta traseira, tirava um balde com um pincel e um cartaz e o colava no poste de electricidade. O condutor ostentava uma venda no olho direito e imediatamente o reconheceu como sendo Rodney. Segundo contou Ginés, até àquele dia não tinha trocado uma única palavra com ele e talvez por isso tenha ficado parado a alguns metros do carro, vendo, confuso e intrigado, como Rodney acabava de colar o cartaz, sem saber se devia aproximar-se ou pôr-se a andar pela Green, afastando-se como se não tivesse visto nada. Ainda hesitava quando Rodney acabou de alisar o cartaz no poste, deu a volta e o viu. Nessa altura, Ginés não teve outro remédio senão aproximar-se. Aproximou-se e, embora sabendo que Rodney não tinha qualquer problema, perguntou-lhe se tinha algum problema. Rodney olhou para ele com o seu olho destapado, sorriu de uma forma arrevesada e respondeu-lhe que não; depois apontou para o cartaz acabado de colar ao poste. Como praticamente não entendia inglês, Ginés não compreendeu nada do que lá estava escrito mas Rodney informou-o de que o cartaz era uma convocatória para uma greve geral contra a General Electric em nome do Partido Trotskista ou de uma facção do Partido Trotskista, Ginés não se lembrava muito bem.

- Contra a General Electric - repetiu Ginés, interrompendo o seu relato. - Porra! Eu nem sequer sabia que neste país ainda havia um Partido Trotskista!

Ginés explicou que naquele momento ficou a olhar para Rodney sem saber o que dizer e que Rodney ficou a olhar para ele sem saber o que dizer. Decorreram alguns segundos eternos, durante os quais, conforme disse, teve sucessivamente vontade de rir e de chorar, e depois, enquanto o silêncio se dilatava e ele esperava que Rodney dissesse alguma coisa ou que a ele lhe ocorresse alguma coisa que dizer, lhe passou incrivelmente pela cabeça a cara do general Pinochet, imóvel e com o olhar invisível atrás dos seus perpétuos óculos de sol, sentado num camarote do Teatro da Escola Militar de Santiago, enquanto ele e os seus colegas da Orquestra Sinfónica tocavam o Adagio e allegro de Saint Saêns ou o Rondo Caprichoso de Dvorak, qualquer uma das duas peças mas nenhuma outra, e quase sem querer tentou imaginar o que teria pensado ou o que teria dito a Rodney o general Pinochet numa situação como aquela, pensou no orçamento do Estado chileno que o general Pinochet administrava e pensou também, com uma satisfação que mula não compreendia totalmente, que, comparado com o presidente da General Electric, Pinochet era igual ao capataz de uma fábrica de uralite cujos operários, em todo o território da União, não superassem em número os filiados do Partido Trotskista (ou da facção do Partido Trotskista) a que Rodney pertencia ou apoiava. Por fim, foi este quem quebrou o enguiço. Bom - disse. - Eu já acabei. Queres que te leve até à faculdade?

- E foi assim - concluiu Ginés com o seu sotaquezinho chileno, esvaziando um copo de vinho e abrindo os olhos e os braços de par em par num gesto de perplexidade. - Levou-me até à faculdade e lá nos despedimos. Mas passei todo o dia com uma sensação estranhíssima no corpo, como se naquela manhã tivesse entrado por engano na representação de uma obra dada e, sem querer, acabasse por fazer o papel de protagonista.

Conhecendo Ginés como com o tempo cheguei a conhecer, tenho a certeza de que não fez referência a esta situação com o objectivo de impedir que Rodney colaborasse na revista, mas o facto é que nem naquela nem em nenhuma outra das reuniões da Línea Plural o nome de Rodney voltou a ser mencionado. Tirando isso acrescentarei que, na companhia de Rodney, por mais de uma vez me acossou também a suspeita de estar a representar por engano um drama ou uma piada (às vezes uma piada inquietante ou mesmo sinistra) que não pertencia a nenhum género ou estética conhecidos e que não significava nada mas que me tocava de uma forma tão íntima como se alguém a tivesse escrito ex professo para mim. Outras vezes a impressão era a contrária, a de que não era eu mas Rodney quem interpretava uma obra cujo verdadeiro significado - que por vezes prometia revelar zonas da personalidade do meu amigo impermeáveis ao escrutínio quase involuntário a que se submetia nas nossas conversas no Treno's - acariciava e estava prestes a capturar e que no fim me escapava das mãos como água, como se a fachada transparente de Rodney não escondesse mais do que um fundo também transparente. Não posso omitir aqui um episódio ocorrido pouco depois de começarmos a nossa amizade porque, à luz de determinados factos de que tive conhecimento muito mais tarde, adquire uma ressonância ambígua mas eloquente.

Nalgumas tardes de sexta-feira eu ia nadar a uma piscina coberta pertencente à universidade, que ficava a uns vinte minutos da minha casa.

Nadava uma hora ou uma hora e meia, às vezes mesmo duas, metia-me um bocado na sauna, tomava um duche e voltava para casa exausto e feliz com a sensação de ter eliminado toda a matéria supérflua acumulada durante a semana. Numa dessas sextas-feiras, precisamente ao sair da piscina, deparei com Rodney. Estava do outro lado da rua, sentado num banco de pedra, diante de uma grande extensão de relva sem árvores, separado desta apenas por uma rede de arame entrançado, com os braços cruzados, a venda no olho e as pernas também cruzadas, como se aproveitasse ociosamente o sol derradeiro do entardecer. Vê-lo ali surpreendeu-me e alegrou-me. Surpreendeu-me porque eu sabia que Rodney não tinha aulas sexta-feira à tarde e além disso julgava saber que o meu amigo não permanecia em Urbana mais do que o tempo estritamente indispensável e, excepto nos dois dias da nossa tertúlia do Treno's, regressava a Rantoul assim que terminava as suas obrigações académicas; alegrou-me porque nada apetece tanto, depois de fazer exercício, como beber uma cerveja, fumar um cigarro e conversar um pouco. Mas, continuando a aproximar-me de Rodney e passando pela extremidade de uma sebe que vedava completamente a visão da relva, apercebi-me de que o meu amigo não estava a apanhar sol mas a observar um grupo de crianças que brincava em frente. Eram quatro e tinham oito ou nove anos, talvez dez, vestiam calças de ganga, T-shirts e bonés e brincavam atirando e apanhando um disco de plástico que ia e vinha entre eles a planar e a girar sobre si próprio como um disco voador; calculei que os pais não andariam longe mas do sítio onde estava, no passeio da frente, não conseguia vê-los. E nessa altura, quando ia atravessar a rua para cumprimentar Rodney, parei. Não sei concretamente por que o fiz mas julgo que foi por ter visto alguma coisa estranha no meu amigo, alguma coisa que me pareceu dissuasora ou mesmo ameaçadora, uma rigidez como que congelada na sua postura, uma tensão dolorosa, quase insuportável, na forma como se sentava e olhava para as crianças. Eu estava a uns vinte ou trinta metros dele, de modo que não lhe via a cara com clareza, ou só a via de perfil. Imóvel, lembro-me de ter pensado: tem tanta vontade de rir que não consegue rir. Depois pensei: não, está a chorar e continuará a chorar e não vai deixar de chorar, se é que alguma vez deixará de o fazer, até os miúdos irem embora. Depois pensei: não, tem tanta vontade de chorar que não consegue chorar. Depois pensei: não, tem medo, um medo afiado como uma lâmina de barbear, um medo que corta e sangra e fede e que eu não consigo entender. Depois pensei: não, está louco, completamente louco, tão louco que é capaz de nos enganar e de fingir que está no seu perfeito juízo. Ainda pensava nisto quando um dos miúdos atirou o disco com demasiada força, fazendo-o sobrevoar a cerca e pousar com suavidade a uns metros de Rodney. O meu amigo não se moveu, como se não tivesse reparado no disco (o que, evidentemente, era impossível). O miúdo aproximou-se da cerca, apontou para o disco e disse alguma coisa a Rodney que acabou por se levantar do banco, agarrar no disco e, em vez de o devolver aos seus proprietários, ir até à cerca e se pôr de cócoras para ficar à mesma altura do miúdo que, depois de alguma hesitação, se aproximou dele. Agora estavam os dois frente a frente, olhando-se através dos losangos de arame da cerca; ou melhor, Rodney olhava para o miúdo e o miúdo olhava alternadamente para Rodney e para o chão. Durante um ou dois minutos, durante os quais os outros miúdos permaneceram à distância, à espera do amigo mas sem se decidirem a aproximar-se dele, Rodney e o miúdo estiveram a falar, ou melhor, foi apenas Rodney quem falou. O miúdo fazia outras coisas: concordava, sorria, abanava a cabeça numa negativa, tornava a concordar; a determinada altura, depois de olhar Rodney nos olhos, a atitude do miúdo mudou. Pareceu incrédulo ou assustado ou mesmo (por um instante fugaz) possuído pelo pânico, pareceu querer afastar-se da cerca mas Rodney reteve-o, agarrando-o com força pelo pulso e dizendo-lhe alguma coisa que sem dúvida pretendia ser tranquilizadora; nessa altura o miúdo começou a fazer força e tive a impressão de que estava prestes a gritar ou a desatar a chorar. Rodney não o soltou, continuou a falar com ele de uma forma confidencial e quase peremptória, veemente e, então, num segundo, também eu tive medo, pensei que poderia acontecer alguma coisa, não sabia exactamente o quê, interroguei-me se deveria intervir, dar um grito e pedir a Rodney que soltasse o miúdo e o deixasse ir embora. No segundo seguinte tranquilizei-me: de repente, o miúdo pareceu acalmar-se, tornou a concordar, tornou a sorrir, primeiro timidamente e depois de uma forma aberta, altura em que Rodney o soltou e o miúdo disse várias palavras seguidas, que não entendi embora pudesse ver a sua boca e tivesse tentado ler-lhe os lábios. Acto contínuo, Rodney levantou se sem pressa e atirou o disco por cima da cerca, que planou e foi cair longe do sítio onde esperavam os amigos do miúdo que, para minha surpresa, não voltou de imediato para junto deles, tendo permanecido ainda algum tempo diante da cerca, indeciso, a falar tranquilamente com Rodney, afastando-se apenas quando os amigos lhe gritaram várias vezes que tinham de se ir embora. Rodney viu como os miúdos se afastavam a correr pela relva, e, em vez de dar a volta e de se ir embora também, tornou a sentar-se no banco, tornou a cruzar as pernas, tornou a cruzar os braços e a ficar imóvel ali, diante do poente, e eu não me atrevi a aproximar-me dele, a fingir que não tinha visto nada e a propor-lhe uma cerveja e dois dedos de conversa. Não apenas por não ter entendido a cena e ter ficado incomodado ou perturbado, mas também por de repente ter ficado com a certeza de que, naquele momento, o meu amigo desejava sobretudo estar sozinho, de que não ia mover-se daquele banco durante muito tempo, de que ia deixar que a luz fugisse, caísse a noite e chegasse a madrugada sem fazer nada excepto talvez chorar ou rir em silêncio, nada que não fosse olhar para aquela extensão de relva como um enorme hangar vazio de que a escuridão pouco a pouco se apoderava e onde, provavelmente, ele via dançar (mas isto não o soube ou não o imaginei senão muito mais tarde) umas sombras indecifráveis que só faziam sentido para ele, embora fosse um sentido aterrador.

Rodney era assim. Ou, pelo menos, Rodney era assim em Urbana há dezassete anos, durante os meses em que fui seu amigo. Assim e de outras formas muito mais irritantes, mais desconcertantes também. Ou, pelo menos, muito mais desconcertantes e irritantes para mim. Lembro-me, por exemplo, do dia em que lhe disse que queria ser escritor. Tal como aos amigos da Línea Plural, em cujas páginas não publiquei mais que resenhas e artigos, não o confessara antes a Rodney por cobardia ou por pudor (ou uma mistura de ambas as coisas). Mas, naquela tarde de fins de Novembro, há já mês e meio que investia todo o tempo livre que me era proporcionado pelas minhas aulas na escrita de um romance (romance que, por outro lado, nunca terminei), de modo que devia sentir-me menos inseguro do que o costume e a dada altura disse-lhe que estava a escrever um romance. Disse-o cheio de ilusões, como se estivesse a revelar um grande segredo mas, ao contrário do que esperava, Rodney não reagiu alegrando-se ou interessando-se pela notícia, pelo contrário. Por um instante, a sua expressão pareceu ensombrar-se e, com um ar de aborrecimento ou de decepção, dirigiu o olhar para a vidraça do Treno's, a essa hora manchada pelas luzes nocturnas. Passados alguns segundos recuperou o seu ar habitual, alegre e sonolento, olhou para mim com curiosidade mas não disse nada. Este silêncio envergonhou-me, fez-me sentir ridículo; mas imediatamente a vergonha foi substituída pelo rancor. Para contornar a situação tive de lhe perguntar se não se admirava com o que acabara de lhe dizer, tendo Rodney respondido:

- Não. Por que razão me surpreenderia?

- Porque nem toda a gente escreve romances - disse. Agora Rodney sorriu.

- É verdade - disse. - Nem sequer tu.

- O que queres dizer? - perguntei.

- Que tu não escreves romances, estás a tentar escrevê-los, o que é muito diferente. É melhor não confundires. Além disso - acrescentou sem tentar suavizar a aspereza do comentário anterior -, nenhuma pessoa normal lê tantos romances como tu se não for com intenção de escrever.

- Tu não escreveste nenhum - objectei.

- Eu não sou uma pessoa normal - respondeu.

Quis perguntar-lhe por que não era uma pessoa normal mas não pude, porque Rodney mudou rapidamente de assunto.

Esta conversa interrompida deixou-me na boca um travo tão amargo que suspendi os nossos encontros no Treno's com a falsa desculpa de que estava sobrecarregado de trabalho, mas na semana seguinte voltámos a falar do romance e reconciliámo-nos, ou melhor, primeiro reconciliámo-nos e depois voltámos a falar do romance. Não foi no Treno's, nem tão pouco no gabinete, mas depois de uma festa em casa do chinês Wong. Passou-se assim. Um dia, precisamente ao terminar a aula de Catalão, Wong pediu a palavra com uma certa solenidade para explicar que o seu trabalho de fim de semestre na escola dramática consistia na encenação de um drama em um acto e, com cerimoniosa humildade, garantiu-nos que seria uma honra para ele se comparecêssemos ao ensaio geral que ia ter lugar em sua casa naquela mesma sexta-feira à noite e disséssemos o que achávamos.

Evidentemente, eu não tinha a menor intenção de comparecer à convocatória mas, ao regressar da piscina na sexta à tarde, com um fim-de-semana imenso e deserto de ocupações pela frente, devo ter pensado que qualquer desculpa era boa para não trabalhar e fui até à casa de Wong. Este recebeu-me com grandes demonstrações de gratidão e surpresa e, amavelmente, levou-me até umas águas-furtadas onde, num dos cantos, se abria um espaço ocupado apenas por uma mesa e duas cadeiras diante das quais, no chão, se encontravam já sentados vários espectadores, entre eles o americano patibular da aula de Literatura Catalã. Um pouco envergonhado, como se me tivessem apanhado em falta, cumprimentei-o, sentei-me depois junto dele e estivemos a conversar até Wong ter achado que já não viriam mais convidados e ordenar o início da representação. O que vimos foi uma obra de Harold Pinter intitulada Traições e representada por estudantes da escola; não me lembro do argumento mas lembro-me de que só tinha quatro personagens, de que a sua cronologia interna estava invertida (começava pelo fim e acabava no princípio) e de que decorria ao longo de vários anos e em diversos cenários, incluindo um quarto de hotel em Veneza. A obra já ia bastante avançada quando se ouviu a campainha da porta. Interrompeu-se a representação, Wong levantou-se silenciosamente, foi abrir a porta e regressou logo a seguir com Rodney que, agachando-se muito para não bater com a cabeça no tecto inclinado, se veio sentar ao pé de mim.

- O que fazes aqui? - perguntei-lhe num sussurro.

- E tu? - respondeu, piscando-me um olho.

Terminada a obra, aplaudimos efusivamente e, depois de vir ao palco para cumprimentar o público na companhia dos seus actores, com várias reverências preparadas para a ocasião, Wong anunciou que os comes e bebes esperavam por nós no andar de baixo. Rodney e eu descemos as escadas das águas-furtadas na companhia do americano patibular, que elogiava a encenação de Wong e a comparava com outra que tinha visto há anos em Chicago. Na sala havia uma mesa coberta com uma toalha de papel e cheia de sanduíches, canapés e garrafas; à volta dela, com avidez, amontoavam-se os convidados que tinham começado a comer e a beber sem esperar que o anfitrião e os actores se juntassem a nós. Seguindo o exemplo deles, servi-me de um copo de cerveja; seguindo o meu exemplo, Rodney serviu-se de um copo de Coca-Cola e começou a comer uma sanduíche. Frugal ou aborrecido, o americano patibular conversava, de cigarro na mão, com uma rapariga muito magra, muito alta, cujo ar de estudante lúmpen se harmonizava na perfeição com o ar punk do meu colega. Rodney aproveitou a ausência deste para falar.

- O que achaste? - perguntou.

- Da obra?

Assentiu enquanto mastigava. Eu encolhi os ombros.

- Bem - disse. - Bastante bem.

Com o olhar, Rodney exigiu uma explicação.

- Bom - reconheci. - A verdade é que não tenho muita certeza de ter entendido tudo.

- Eu, pelo contrário, tenho a certeza de não ter entendido nada - disse Rodney depois de emitir um grunhido e de limpar a boca com um gole de Coca-Cola. - Mas receio que a culpa disso não seja de Wong, mas de Pinter. Já não me recordo onde li a forma como descobriu o seu método de escrita. O tipo estava com a mulher e disse-lhe: «Querida, tenho escritas várias cenas bastante boas mas que não têm qualquer relação entre si. O que faço?» E a mulher respondeu-lhe: «Não te preocupes, cola-as todas que os críticos se encarregarão de dizer o que significam». A coisa funcionou. A prova é que não há uma única linha de Pinter que os críticos não entendam perfeitamente.

Ri-me mas não fiz qualquer comentário ao comentário de Rodney porque nesse momento Wong e os actores entraram na sala. Houve uma tentativa de aplausos, que não prosperou, e em seguida aproximei-me de Wong para o felicitar. Conversámos durante algum tempo sobre a obra; depois apresentou-me a um dos seus actores e, no fim, ao namorado catalão, um estudante de Informática, louro, altivo e bochechudo que, apesar das muitas demonstrações de afecto de Wong, me deu a impressão de fazer o possível por me esconder a relação que os unia. Rodney não se aproximou de nós; nem sequer cumprimentou Wong; também não conversava com ninguém. Estava encostado ao umbral da porta da cozinha, imóvel, com um meio sorriso na boca e a bebida na mão, como se estivesse a assistir a outra representação. Continuei a observá-lo às escondidas, evitando que os nossos olhos se cruzassem.

Ali estava, sozinho e como que invisível para todos no meio do bulício da festa. Não parecia incomodado, pelo contrário, parecia apreciar bastante a música, os risos e as conversas que fervilhavam à sua volta; parecia estar a reunir coragem para quebrar o seu isolamento auto-imposto e juntar-se a qualquer um dos grupinhos que a toda a hora se faziam e desfaziam mas, sobretudo (isto ocorreu-me enquanto o via olhar para um casal que improvisava uns passos de dança numa das extremidades vazias da sala), parecia um miúdo extraviado numa reunião de adultos ou um adulto extraviado numa reunião de crianças ou um animal extraviado numa manada de animais de uma espécie diferente da sua. Depois deixei de o observar e pus-me a conversar com uma das actrizes, uma rapariga loura, sardenta e muito bonita que me falou da dificuldade de interpretar Pinter; eu falei-lhe da dificuldade de entender Pinter, do método de composição de Pinter, da mulher de Pinter, dos críticos de Pinter; a rapariga olhava para mim muito séria, incapaz de decidir se devia aborrecer-se, sentir-se elogiada ou desatar a rir. Quando voltei a procurar Rodney com os olhos não o encontrei. Procurei-o por toda a sala: nada. Nessa altura dirigi-me a Wong e perguntei-lhe se o tinha visto.

- Foi-se embora agora mesmo - respondeu, apontando para a porta com uma expressão ofendida. - Sem dizer nada da obra. Sem se despedir. Decididamente, aquele tipo está passado ou então é um cabrão.

Debrucei-me sobre uma janela que dava para a rua e vi-o. Estava de pé nas escadas do alpendre, alto, volumoso, desamparado e vacilante, com o seu perfil de ave de rapina recortando-se levemente à luz macilenta dos candeeiros enquanto levantava a gola do casaco de cabedal, endireitava o seu gorro de pele e permanecia muito quieto, olhando para a escuridão da noite e para os grandes flocos de neve que caíam à sua frente, cobrindo com um brilho mate o jardim e a calçada. Por um segundo, recordei-me dele sentado no banco a olhar para os miúdos que brincavam com o disco de plástico e pensei que estava a chorar, ou melhor, tive a certeza de que estava a chorar mas, no segundo seguinte, o que pensei foi que na realidade estava apenas a olhar para a noite de uma forma muito estranha, como se nela visse coisas que eu não conseguia ver, ou como se estivesse a olhar para um insecto enorme ou para um espelho deformador, e depois pensei que não, que na realidade olhava para a noite como se andasse por um desfiladeiro junto de um abismo muito negro e não houvesse ninguém que tivesse tantas vertigens e tanto medo como ele e, de repente, enquanto pensava nisto, senti que todo o ressentimento que tinha incubado contra Rodney durante aquela semana se tinha evaporado, quem sabe se por naquele momento ter julgado adivinhar o motivo porque nunca comparecia às reuniões e festas da faculdade e, no entanto, ter comparecido àquela.

Agarrei no meu sobretudo, despedi-me de Wong a toda a pressa e saí à procura de Rodney. Encontrei-o quando estava a abrir a porta do carro; não pareceu alegrar-se especialmente ao ver-me. Perguntei-lhe para onde ia; respondeu-me que ia para casa. Pensei em Wong e disse-lhe:

- Pelo menos podias despedir-te, não achas? Não disse nada; apontou para o carro e perguntou:

- Queres que te leve?

Respondi-lhe que a minha casa ficava apenas a quinze minutos a pé e que preferia ir andando; depois perguntei-lhe se queria acompanhar-me um pouco. Rodney encolheu os ombros, fechou a porta do carro e pôs-se a andar ao meu lado, ao princípio sem dizer nada e depois falando com uma animação repentina, embora não me lembre de quê. Do que me lembro é de que andávamos pela Race e de que, por volta do Silver Creek - um antigo moinho de tijolo transformado em restaurante chique -, depois de um silêncio, Rodney parou, ofegando.

- De que trata? - perguntou de improviso.

Soube imediatamente a que se referia. Olhei para ele. O gorro de pele e a gola subida do casaco quase lhe escondiam a cara, nos olhos havia vestígios de lágrimas mas pareceu-me que estava a sorrir.

- De que trata o quê? - perguntei.

- O romance - respondeu.

- Ah, isso - disse com uma expressão despreocupada, como se a inexplicável displicência de Rodney a respeito desse assunto não tivesse sido o motivo que me levara a suspender os nossos encontros no Treno's. - Bom, na realidade ainda não tenho muita certeza...

- Agrada-me interrompeu Rodney.

- O que é que te agrada? - perguntei, atónito.

- Que ainda não saibas do que trata o romance - respondeu. - Se o souberes de antemão, é mau, acabas por dizer apenas o que já sabes, que é o que sabemos todos. No entanto, se ainda não souberes o que queres dizer mas és tão louco, estás tão desesperado ou tens a coragem suficiente para continuar a escrever, se calhar acabas por dizer alguma coisa que nem sequer julgavas saber e que só tu podes acabar por saber e isso, se calhar, tem algum interesse. - Como de costume, não soube se Rodney falava a sério ou a brincar mas naquela altura não percebi uma única palavra do que disse. Rodney deve tê-lo notado porque, recomeçando a andar, concluiu: - O que quero dizer é que quem sabe sempre para onde vai nunca chega a lugar nenhum e que só se sabe o que se quer dizer quando já se disse.

Naquela noite despedimo-nos junto ao Courier Café, já muito perto da minha casa e, na semana seguinte, reatámos os nossos encontros no Treno's. A partir dessa altura falámos com frequência do meu romance; de facto, e embora com certeza falássemos de outras coisas, essa é quase a única de que me lembro de termos falado. Eram conversas um tanto peculiares, frequentemente confusas, de certa forma sempre estimulantes, mas só de certa forma. Rodney, por exemplo, não tinha interesse em discutir o argumento do meu livro, que, pelo contrário, era o que mais me preocupava, mas sim quem expunha o argumento. «As histórias não existem», disse-me uma vez. «O que existe é quem as conta. Se souberes quem é, tens história; se não souberes quem é, não tens história.» «Nesse caso, eu já tenho a minha», disse-lhe. Expliquei-lhe que a única coisa que estava clara no meu romance era precisamente a identidade do narrador: um tipo exactamente igual a mim e que estava exactamente nas mesmas circunstâncias que eu. «Então o narrador és tu próprio?», conjecturou Rodney. «Nem pensar», disse-lhe, feliz por ser eu agora a confundi-lo. «Parece-se em tudo comigo mas não sou eu.» Repleto do objectivismo de Flaubert e de Eliot, argumentei que o narrador do meu romance não podia ser eu porque nesse caso teria sido obrigado a falar de mim próprio, o que não era apenas uma forma de exibicionismo ou descaramento, mas um erro literário, porque a verdadeira literatura nunca revelava a personalidade do autor, antes ocultava-a. «É verdade», concordou Rodney. «Mas falar muito sobre si próprio é a melhor maneira de se esconder». Rodney também não parecia grandemente interessado no que eu estava a contar ou me propunha contar no meu livro; o que lhe interessava era o que não ia contar. «Num romance, o que não se conta é sempre mais relevante do que aquilo que se conta», disse-me novamente. «Quero dizer que os silêncios são mais eloquentes que as palavras e que toda a arte do narrador consiste em saber calar-se a tempo. Por isso, no fundo, a melhor maneira de contar uma história é não a contar.» Eu ouvia Rodney embevecido, quase como se ele fosse um alquimista e cada frase que pronunciava o ingrediente necessário de uma poção infalível, mas é provável que estas discussões sobre o meu futuro romance frustrado - que a longo prazo seriam decisivas para mim e que, sem que nenhum dos dois o pudesse prever, iriam ser praticamente as últimas que Rodney e eu manteríamos - contribuíssem a curto prazo para me confundir porque a verdade é que quase todas as semanas mudava completamente a orientação do meu livro. Já referi que naquela época era muito novo e carecia de experiência e de discernimento, o que vale tanto para a literatura como para a vida e explica que naquelas conversas sobre literatura prestasse uma atenção desmesurada a observações anódinas de Rodney e mal desse conta de outras que mais cedo ou mais tarde - mais cedo que mais tarde - me acabariam por ser de grande utilidade; pode ser que me engane mas agora tendo a acreditar que, embora seja um paradoxo - ou precisamente por isso -, o que me permitiu sobreviver, sem sofrer danos irreparáveis, à avalancha de lucidez frequentemente delirante de Rodney foi precisamente essa incapacidade para diferenciar o essencial do supérfluo e o sensato do insensato.

Finalmente, numa manhã no início de Dezembro, entreguei a Rodney as primeiras páginas do meu romance e, no dia seguinte, quando ao chegar ao gabinete lhe perguntei se as lera, combinou falarmos do assunto no Treno's, depois da aula de Rota. Eu estava impaciente para saber a opinião de Rodney mas naquela tarde a aula foi tão extenuante que, ao chegar ao Treno's, já me tinha passado a impaciência ou já me tinha esquecido do romance e a única coisa que queria era beber uma cerveja e esquecer-me de Rota e do americano patibular que durante uma hora interminável me tinham torturado, obrigando-me a traduzir do catalão para o inglês e do inglês para o catalão uma discussão absurda acerca das similitudes existentes entre um poema de J. V. Foix e outro de Arnaut Daniel. De modo que é natural que, quando Rodney me perguntou, depois da segunda cerveja e sem aviso prévio, se tinha a certeza de que queria ser escritor, eu lhe tenha respondido:

- Qualquer coisa menos ser tradutor. - Rimo-nos, ou pelo menos eu fi-lo, mas enquanto o fazia lembrei-me de outra discussão: a que tínhamos pendente acerca das primeiras páginas do meu romance e, como um prolongamento despreocupado da piada anterior, perguntei: - Achaste assim tão mau o que te dei?

- Mau não - respondeu Rodney. - Horroroso.

O comentário foi como um soco no estômago. Reagi com rapidez. Tentei explicar-lhe que o que lera era apenas um rascunho, tratei de defender o esboço do romance que anunciava; em vão. Rodney tirou do bolso do casaco as páginas do romance, desdobrou-as e dedicou-se a triturar o seu conteúdo. Fê-lo sem paixão, como um médico legista que executa uma autópsia, o que ainda me magoou mais; mas o que mais me feriu foi saber intimamente que o meu amigo tinha razão. Derrotado e furioso, com todo o rancor que acumulara enquanto Rodney falava, perguntei-lhe se, na sua opinião, o que devia fazer era deixar de escrever.

- Eu não disse isso - corrigiu-me, impávido. - O que deves ou não fazer é assunto teu. Não há nenhum escritor que não tenha começado por escrever porcarias como esta ou piores porque para ser um escritor decente nem sequer é preciso talento, basta um pouco de empenho. Além disso, o talento não se tem, conquista-se.

- Nesse caso, por que me perguntas se tenho a certeza de querer ser escritor? - perguntei.

- Porque podes acabar por consegui-lo.

- E onde está o problema?

- No facto de ser um ofício bastante fodido.

- Não mais que o de tradutor, imagino. Sem falar no de mineiro.

- Não tenhas tanta certeza - disse com uma expressão insegura. - Não sei, se calhar só devia ser escritor quem não consegue ser outra coisa.

Ri-me como se tentasse imitar o riso feroz de um kamikaze ou Como se estivesse a vingar-me.

- Ora, ora, Rodney, não me venhas dizer agora que és um romântico inveterado. Ou um sentimental. Ou um cobarde. Eu não tenho medo nenhum de fracassar.

- Claro - disse. - Porque não fazes a mais pequena ideia do que é. Mas, quem falou do fracasso? Eu referia-me ao sucesso.

- Então é isso! - disse eu. - Agora entendo. A catástrofe do êxito. É disso que se trata. Mas isso não é uma ideia, homem, é apenas um lugar-comum.

- Pode ser - disse e, em seguida, como se estivesse a rir-se de mim ou a repreender-me mas não quisesse que eu desconfiasse de uma coisa nem de outra, acrescentou: - Mas as ideias não se transformam em lugares-comuns por serem falsas, mas por serem verdadeiras, ou, pelo menos, por conterem uma parte substancial de verdade. E, quando nos fartamos da verdade e começamos a dizer coisas originais tentando tornar-nos interessantes, acabamos por não dizer senão tolices. No melhor dos casos, tolices originais e até interessantes, mas tolices.

Não soube o que responder e bebi um gole de cerveja. Sentindo que o sarcasmo me aliviava do ultraje da decepção, disse:

- Bom, pelo menos depois do que leste tens de reconhecer que estou vacinado contra o sucesso.

- Também não tenhas tanta certeza disso - replicou Rodney. - Se calhar ninguém está vacinado contra o êxito; se calhar basta ter resistência suficiente ao fracasso para que o sucesso nos agarre. E nessa altura já não há escapatória. Acabou-se. Finito. Kaput. Aí tens Scott, Hemingway. Estavam ambos apaixonados pelo sucesso e este matou-os aos dois, aliás, muito antes de serem enterrados. Sobretudo ao pobre Scott, que era o mais fraco e o que mais talento tinha e por isso o desastre o agarrou primeiro sem lhe dar tempo de se aperceber de que o êxito é letal, uma pouca-vergonha, um desastre sem paliativos, uma humilhação para sempre. Agradava-lhe tanto que, quando finalmente chegou, nem sequer se deu conta de que, embora se iludisse com protestos de orgulho e demonstrações de cinismo, na realidade não tinha feito outra coisa senão persegui-lo e que, agora que o tinha finalmente, já não lhe servia para nada nem podia fazer nada com ele excepto deixar que o corrompesse. E corrompeu-o. Corrompeu-o até ao fim. Já sabes o que dizia Oscar Wilde: «Na vida há duas tragédias. Uma é não se conseguir o que se deseja.

A outra é consegui-lo». - Rodney riu-se; eu não. - Enfim, o que quero dizer é que ninguém morre por ter fracassado mas é impossível sobreviver com dignidade ao sucesso. Isto ninguém o diz, nem sequer Oscar Wilde, porque é evidente ou porque é vergonhoso dizê-lo, mas é assim. De modo que, se te empenhares em ser escritor, adia o sucesso o mais que puderes.

Enquanto ouvia Rodney, lembrei-me inevitavelmente do meu amigo Marcos, dos nossos sonhos de triunfo e das obras-primas com que pensávamos vingar-nos do mundo. E lembrei-me sobretudo de que uma vez, há anos, Marcos me tinha contado que um colega insuportável da Faculdade de Belas-Artes lhe dissera que a condição ideal de um artista era o fracasso, e que ele lhe respondera com uma frase de um escritor francês, possivelmente Jules Renard: «Sim, eu sei. Todos os grandes homens foram inicialmente ignorados; mas eu não sou um grande homem, de modo que preferia ter êxito imediatamente.» Também pensei que Rodney falava como se soubesse o que eram o êxito e o fracasso quando na verdade não conhecia nem uma coisa nem outra (ou não as conhecia senão através dos livros e não mais do que eu, que mal as conhecia), e que na realidade as suas palavras eram apenas as palavras de um perdedor embebido na hipócrita e enjoativa mitologia do fracasso que ensombrava um país histericamente obcecado pelo sucesso. Pensei tudo isto e estive quase a dizê-lo mas não disse nada. O que fiz, depois de um silêncio, foi troçar da lamúria de Rodney.

- Se fracassas, é porque fracassas; e se tens sucesso, é porque tens sucesso - disse. - Que panorama!

O meu amigo nem sequer sorriu.

- Um ofício lixado - disse. - Mas não por isso. Ou não apenas por isso.

- Achas pouco?

- Sim - disse, e depois perguntou: - O que é um escritor?

- O que há-de ser? - respondi, impaciente. - Um tipo que é capaz de colocar as palavras umas atrás das outras e que é capaz de o fazer com elegância.

- Exactamente - aprovou Rodney. - Mas é também um tipo que coloca a si próprio problemas bastante complexos e que, em vez de os resolver ou de tentar resolvê-los, como faria qualquer pessoa sensata, os torna ainda mais complexos. Ou seja, é um doido que olha para a realidade e às vezes a vê.

- Toda a gente vê a realidade - objectei. - Mesmo sem estar louco.

- Aí é que te enganas - disse Rodney. - Toda a gente olha para a realidade mas pouca gente a vê. O artista não é quem torna visível o que é invisível, isso sim é romantismo, embora não da pior espécie; o artista é quem torna visível o que já é visível, que toda a gente olha e ninguém consegue ou ninguém sabe ou ninguém quer ver. Ninguém quer ver, digamos antes. É demasiado desagradável, com frequência pavoroso, e é preciso ter os tomates no sítio para ver sem fechar os olhos ou desatar a correr, porque quem o vê fica destroçado ou enlouquece. A menos, claro está, que tenha um escudo com que proteger-se ou que possa fazer alguma coisa com o que vê. - Rodney fez uma pausa e prosseguiu: - Quero dizer que as pessoas normais padecem ou desfrutam da realidade mas não podem fazer nada com ela, enquanto o escritor pode, porque o seu ofício consiste em converter a realidade em sentido, embora esse sentido seja ilusório; ou seja, pode convertê-la em beleza e essa beleza ou esse sentido são o seu escudo. Por isso digo que o escritor é um doido que tem a obrigação ou o privilégio duvidoso de ver a realidade e, por isso, quando um escritor deixa de escrever, acaba por se matar, porque não soube acabar com o vício de ver a realidade mas já não tem um escudo com que proteger-se dela. Por isso Hemingway se matou. E, por isso, quando somos escritores já não podemos deixar de o ser, a não ser que queiramos arriscar. Como disse, um ofício fodido.

Aquela conversa podia acabar muito mal - de facto tinha todas as condições para acabar muito mal -, mas não sei como nem porquê acabou melhor que nenhuma outra, com Rodney e eu saindo do Treno's às gargalhadas e eu sentindo-me mais amigo dele do que nunca e sentindo, mais do que nunca, vontade de chegar a ser um verdadeiro escritor. Pouco depois começaram as férias de Inverno e, praticamente de um dia para outro, Urbana esvaziou-se: os estudantes fugiram em massa para as suas casas, as ruas, edifícios e lojas do campus ficaram desertos e um estranho silêncio sideral (ou talvez fosse marítimo) apoderou-se da cidade, como se esta se tivesse transformado de chofre num planeta girando longe da sua órbita ou num iluminado transatlântico encalhado milagrosamente na neve sem fim de Illinois. Na última vez que estivemos juntos no Treno's, Rodney convidou-me a passar o dia de Natal na sua casa de Rantoul. Recusei o convite, explicando-lhe que há muito tempo que Rodrigo Ginés e eu programávamos para essa data uma viagem de carro pelo Middle West, na companhia de Gudrun e de uma amiga americana de Gudrun com quem eu tinha ido para a cama algumas vezes (Barbara, chamava-se); expliquei-lhe também que, se me desse o seu número de telefone de Rantoul, lhe telefonaria no regresso para nos encontrarmos antes de as aulas começarem de novo.

- Não te preocupes - disse Rodney. - Telefono-te eu. Assim nos despedimos e, menos de uma semana depois, partia de viagem com Rodrigo, Barbara e Gudrun. Tínhamos previsto ausentarmo-nos de Urbana por quinze dias mas a verdade é que só voltámos quase um mês depois. íamos no carro de Barbara, inicialmente seguindo um plano prévia e vagamente elaborado, e mais tarde deixando que fosse o capricho ou o acaso a guiar-nos. E, assim, muitas vezes conduzindo todo o dia e dormindo de noite em motéis de estrada e pequenos hotéis baratos, descemos primeiro para sul, por Saint Louis, Memphis e Jackson, até chegarmos a Nova Orleães, onde permanecemos vários dias, passados os quais iniciámos lentamente o regresso fazendo um desvio por este, subindo por Meridian, Tuscaloosa e Nashville até chegarmos a Cincinnati e depois a Indianapolis, de onde voltámos para casa embebidos da luz, do frio, das estradas, do som, da imensidão, da neve, dos bares, das pessoas, das planícies, da porcaria, dos céus, da tristeza, dos povos e das cidades do Middle West. Foi uma viagem enorme e feliz, durante a qual tomei a decisão irrevogável de seguir o que Rodney me dizia, de atirar para o lixo o romance em que tinha estado a trabalhar durante meses e de começar a escrever outro de imediato. De modo que a primeira coisa que fiz ao chegar a Urbana foi procurar Rodney. Na lista telefónica havia apenas um Falk - Robert Falk, médico - a morar em Rantoul e, como sabia que Rodney vivia com o pai, calculei que fosse o pai de Rodney. Marquei várias vezes o número que figurava na lista mas ninguém atendeu. Por outro lado, e ao contrário do que tinha prometido, durante o resto das férias Rodney também não me contactou.

No fim de Janeiro recomeçaram as aulas e, no primeiro dia, ao abrir a porta do meu gabinete, certo de que ia reencontrar-me finalmente com Rodney, estive a ponto de chocar com um gordinho quase albino que nunca vira. Naturalmente, julguei que me tinha enganado de gabinete e apressei-me a pedir desculpa, mas antes de poder fechar a porta o tipo estendeu-me a mão e disse-me num espanhol penoso que não me tinha enganado; em seguida pronunciou o seu nome e anunciou-me ser o novo professor auxiliar de Espanhol. Perplexo, apertei-lhe a mão, balbuciei alguma coisa, apresentei-me; depois conversámos um pouco, ignoro acerca de quê e só no fim me atrevi a perguntar-lhe por Rodney. Disse-me que não sabia de nada, excepto ter sido contratado para o substituir. Antes da primeira aula da manhã, investiguei nos gabinetes: ali também não sabiam nada. Acabei por me dirigir à secretária do chefe do departamento que, no dia seguinte, me deu notícias do meu amigo. Ao que parece, apenas alguns dias antes do fim das férias, um familiar tinha telefonado para participar que Rodney não ia reingressar no seu posto de trabalho, razão pela qual o chefe se vira obrigado a procurar, furioso e a toda a pressa, quem o substituísse. Perguntei à secretária se sabia o que tinha acontecido a Rodney; disse-me que não. Perguntei-lhe se sabia se o chefe saberia; disse-me que não e aconselhou-me a nem me atrever a perguntá-lo. Perguntei-lhe se tinha o telefone de Rodney; disse-me que não.

- Nem eu nem ninguém no departamento - disse-me, e nessa altura vi que estava tão furiosa com Rodney como o seu chefe; no entanto, antes de me ir embora rendeu-se à minha insistência e acrescentou a contragosto: - Mas tenho a direcção.

Passados alguns dias, pedi emprestado o carro de Barbara e fui até Rantoul. Estava uma tarde luminosa de princípio de Fevereiro. Saí de Urbana pela Broadway e Cunningham Avenue, dirigi-me para norte por uma auto-estrada que atravessava milheirais enterrados na neve, brilhantes de sol e salpicados de pinheiros, bordos, silos de metal e casinhas isoladas e, passados vinte minutos, depois de passar ao lado de uma base aérea do exército, cheguei a Rantoul, uma pequena cidade de trabalhadores (na realidade, pouco maior que uma grande aldeia) comparada com a qual Urbana tinha um certo ar de metrópole. A entrada, no cruzamento de duas ruas - Liberty Avenue e Century Boulevard -, havia um posto de gasolina.

Parei e perguntei a um homem de fato-macaco por Belle Avenue, rua onde, segundo a secretária do departamento, vivia Rodney; deu-me algumas indicações e continuei em direcção ao centro. Passado pouco tempo estava perdido. Tinha começado a anoitecer; a cidade parecia deserta. Parei o carro numa esquina, precisamente onde uma placa anunciava: Sangamon Avenue. À minha frente passava uma linha de comboio e, mais além, a cidade dissolvia-se numa escuridão de bosques; à minha esquerda, a rua não tardava a dividir-se; à minha direita, a uns trezentos metros, um anúncio luminoso piscava. Virei à direita e fui até ao anúncio: Bud's Bar, rezava. Estacionei o carro no meio de uma fila de carros e entrei.

No bar reinava um ambiente de sábado à noite, fumarento e jovial. Estava bastante gente: rapazes jogando ao bilhar, mulheres metendo moedas nas máquinas de jogo, homens bebendo cerveja e vendo um jogo de basquetebol num ecrã de televisão gigante; uma juke-box difundia música country. Aproximei-me do balcão, atrás do qual deambulavam três empregados - dois muito novos e o outro um pouco mais velho - em redor de uma mesa baixa e repleta de garrafas e, enquanto esperava que alguém me atendesse, fiquei a olhar para as fotografias de estrelas de baseball e para um grande retrato de John Wayne vestido de cowboy e com um lenço vermelho amarrado ao pescoço, que pendiam da parede do fundo. Por fim, um dos empregados, o mais velho dos três, aproximou-se de mim com um certo ar de urgência mas, antes que pudesse perguntar-me o que queria beber, disse-lhe que estava à procura de Belle Avenue, do número 25 de Belle Avenue. Como se estivesse a troçar, o empregado perguntou:

- Quer ver o médico?

- Quero ver o Rodney Falk - respondi.

Devo tê-lo dito numa voz demasiado alta porque dois homens que estavam ao meu lado com os cotovelos apoiados no balcão se voltaram e olharam para mim. A expressão do empregado alterara-se: agora a troça transformara-se num misto de estranheza e interesse; também ele apoiou os cotovelos no balcão, como se a minha resposta tivesse dissipado a sua pressa. Era um homem de uns quarenta anos, maciço e escuro, de cara rochosa, olhos achinesados e nariz de pugilista; usava um boné suado com o emblema dos Red Socks, que deixava sair pela nuca e pelos lados da cara madeixas de cabelo oleoso.

- Conhece o Rodney? - perguntou.

- Claro - respondi. - Trabalhámos juntos em Urbana.

- Na universidade?

- Na universidade.

- Compreendo - afirmou abanando a cabeça, pensativo. Depois acrescentou: - O Rodney não está em casa.

- Ah - disse, e estive quase a indagar onde estava ou como saberia ele que não estava em casa, mas nessa altura já devia estar a sentir-me inquieto porque não o fiz. - Bom, não interessa. - Repeti: - Poderia dizer-me onde fica o número 25 da Belle Avenue?

- Claro - sorriu. - Mas antes não lhe apetece beber uma cerveja?

Naquele momento, reparei que os homens sentados ao balcão continuavam a observar-me e, absurdamente, imaginei que toda a clientela do bar estava pendente da minha resposta; uma espuma fria acumulou-se-me de chofre no estômago, como se tivesse acabado de entrar num sonho ou numa zona de perigo de onde devia fugir quanto antes. Foi nisso que pensei naquele momento: em sair quanto antes daquele bar. Por isso disse:

- Não, obrigado.

Tal como me indicara o empregado, a casa de Rodney ficava apenas a quinhentos metros do Bud's Bar, mesmo ao dobrar a esquina de Belle Avenue. Era uma casa mais antiga, mais ampla e mais sólida que as que se alinhavam junto dela; com excepção do telhado de duas águas, de um cinzento de lousa, o resto do edifício estava pintado de branco; além de umas estreitas águas-furtadas, tinha dois pisos, um alpendre ao qual se acedia por uma escada de degraus castanhos e um jardim dianteiro de relva queimada pela neve, onde se erguiam dois bordos de copa grande e um mastro com a bandeira americana ondulando suavemente na brisa do anoitecer. Estacionei o carro diante da entrada, subi as escadas do alpendre e toquei à campainha. Ninguém respondeu e voltei a tocar. Já estava quase a espreitar para dentro de casa por uma das janelas do rés-do-chão quando a porta se abriu e no umbral apareceu um homem de cabelo completamente branco, com cerca de setenta anos, vestido com um roupão azul muito grosso e com umas pantufas da cor, agarrando com uma mão a maçaneta da porta e com a outra um livro; na penumbra do vestíbulo, atrás dele, entrevi um bengaleiro, um espelho com moldura de madeira, o início de umas escadas alcatifadas que subiam na direcção da escuridão do primeiro andar. Excepto pela corpulência e pela cor dos olhos, o homem pouco se parecia com Rodney mas imediatamente adivinhei nele o pai. Sorri e, atabalhoadamente, cumprimentei-o e perguntei-lhe por Rodney. De repente, adoptou uma atitude defensiva e, com uma severidade desmedida, perguntou-me quem era. Expliquei-me. Só nessa altura pareceu descontrair um pouco.

- O Rodney falou-me de si - disse, sem que a luzinha de desconfiança que lhe brilhava nos olhos se tivesse apagado. - O escritor, não é?

Disse-o sem vestígios de ironia e, como me tinha acontecido há quase um ano com Marcelo Cuartero no El Yate, senti que as faces se me incendiavam. Era a segunda vez na minha vida que alguém me chamava escritor e fui esmagado por um misto inextrincável de vergonha e de orgulho, e também por uma vaga de afecto por Rodney. Não disse nada mas como o homem não parecia disposto a convidar-me para entrar, nem a quebrar o silêncio para dizer alguma coisa, perguntei-lhe se era o pai de Rodney. Disse-me que sim. Depois voltei a perguntar-lhe por Rodney e respondeu-me que não sabia onde estava.

- Foi-se embora há algumas semanas e não voltou - disse.

- Aconteceu-lhe alguma coisa? - perguntei.

- Por que razão lhe teria acontecido alguma coisa? - respondeu.

Nessa altura contei-lhe o que me tinham dito no departamento.

- É verdade - disse o homem. - Fui eu quem os avisou de que o Rodney não voltaria a dar aulas. Espero que isso não lhes tenha causado qualquer transtorno.

- De forma nenhuma - menti, pensando no chefe do departamento e na sua secretária.

- Ainda bem - disse o pai de Rodney. - Bom - acrescentou depois, iniciando o gesto de fechar a porta -, desculpe-me mas tenho coisas que fazer e...

- Espere um momento - interrompi-o sem saber como ia continuar; continuei: - Gostaria que dissesse ao Rodney que estive aqui.

- Não se preocupe. Di-lo-ei.

- Sabe quando estará de volta?

Em vez de responder, o pai de Rodney suspirou e, a seguir, como se a vista não chegasse para me ver com nitidez na escuridão crescente do anoitecer, soltou a maçaneta da porta e accionou um interruptor: uma luz branca varreu de chofre o crepúsculo do alpendre.

- Diga-me uma coisa - disse então, pestanejando. – Para que veio até aqui?

- Já lhe disse - respondi. - Sou amigo do Rodney. Queria saber por que não regressou a Urbana. Queria saber se lhe tinha acontecido alguma coisa. Queria vê-lo.

Nesse momento o homem observou-me fixamente, como se até essa altura não me tivesse visto realmente ou como se a minha resposta o tivesse decepcionado, surpreendido, talvez; inesperadamente, um instante depois sorriu, um sorriso simultaneamente duro e quase afectuoso, que cobriu a sua cara de rugas e onde, no entanto, reconheci pela primeira vez um eco distante das feições de Rodney.

- Acredita a sério que o Rodney e você eram amigos? - perguntou.

- Não estou a perceber - respondi.

Suspirou novamente e quis saber quantos anos tinha. Disse-lhe.

- Você é muito novo - disse. - Diga-me outra coisa, o Rodney alguma vez lhe falou do Vietname? - Ele próprio respondeu à pergunta. - Não, evidentemente que não. Como poderia falar-lhe a si do Vietname? Não perceberia nada. Nem sequer a mim falava disso, ou fazia-o apenas ao princípio. À mãe sim, até ela ter morrido. E à mulher, até ela não aguentar mais. Sabia que o Rodney foi casado? Não, também não sabia. Você não sabe nada acerca do Rodney. Nada. Como poderia ser amigo dele? O Rodney não tem amigos. Não consegue tê-los. Compreende, não compreende?

À medida que falava, o pai de Rodney fora levantando a voz, enchendo-se de razão, enfurecendo-se, transformando as palavras no carburante da sua ira. E, por instantes, receei que fosse fechar-me a porta na cara ou desatar a chorar. Ficou em silêncio, bruscamente decrépito, um pouco arquejante, olhando com o livro nas mãos para a noite que caía sobre Belle Avenue, mal iluminada por candeeiros de luz amarelada que lançavam uma luz fraca. Eu também fiquei em silêncio, sentindo-me muito pequeno e muito frágil diante daquele velhote encolerizado e sentindo sobretudo que nunca deveria ter ido a Rantoul à procura de Rodney. Nessa altura, foi como se o homem me tivesse lido o pensamento porque disse num tom de voz atormentado:

- Desculpe-me. Não devia ter falado assim consigo.

- Não se preocupe - tranquilizei-o.

- O Rodney voltará - declarou sem me olhar nos olhos. - Não sei quando irá voltar, mas fá-lo-á. Acredito que sim. - Hesitou um momento e depois prosseguiu: - Durante anos não parou muito tempo em casa, andou de cá para lá, não estava bem. Mas ultimamente tudo tinha mudado e sentia-se muito bem na universidade. Sabia que se sentia muito bem na universidade? - Concordei. - Sentia-se muito bem, sim, mas não podia durar, era bom de mais para ser verdade. De modo que aconteceu o que tinha de acontecer. - Tornou a agarrar na maçaneta com a mão livre; tornou a olhar para mim. Não sei o que havia nos seus olhos, não sei o que neles vi (já não era receio, gratidão também não), nem sequer saberia definir o que senti ao vê-lo, mas o que sei é que se parecia muito com o medo. - E isso é tudo - concluiu. - Creia-me que lhe agradeço muito ter-se incomodado e ter vindo até aqui e desculpe a minha falta de cortesia. Você é uma boa pessoa e saberá compreendê-lo; além disso, o Rodney gostava de si. Mas oiça o que lhe digo, volte para Urbana, trabalhe muito, porte-se o melhor que puder e esqueça-o. Esse é o meu conselho. De qualquer forma, se não puder ou não quiser esquecer o Rodney, o melhor que pode fazer é rezar por ele.

Nessa noite, voltei para Urbana confuso e talvez um pouco assustado, como se tivesse acabado de cometer um erro de consequências imprevisíveis, sentindo-me mais só do que nunca em Urbana e sentindo também, pela primeira vez desde a minha chegada, que não deveria permanecer muito mais tempo naquele país que não era o meu e cuja idiossincrasia impossível nunca chegaria a decifrar, disposto de qualquer forma a esquecer para sempre a minha visita equivocada a Rantoul e a seguir à letra os conselhos do pai de Rodney.

Neste último caso fracassei, evidentemente, ou pelo menos fracassei em parte, não apenas porque há muito tempo me esquecera de rezar, mas também porque rapidamente descobri que Rodney tinha sido demasiado importante para mim para o eliminar de chofre e porque, em Urbana, tudo conspirava para manter viva a sua lembrança. É verdade que, nem nas semanas que se seguiram nem durante todo o tempo que ainda permaneci em Urbana, quase ninguém do departamento voltou a mencionar o nome dele e nem sequer quando me cruzei ocasionalmente com Dan Gleylock pelos corredores da faculdade me atrevi a perguntar-lhe se tinha alguma notícia dele. Mas também é verdade que cada vez que passava diante do Treno's, e passava por lá diariamente, me lembrava de Rodney e que precisamente por essa época comecei a ler alguns dos seus autores favoritos e não conseguia abrir uma página de Emerson ou de Hawthorne ou de Twain - para não falar de Hemingway - sem pensar imediatamente nele, tal como não conseguia escrever uma linha do romance que tinha começado a escrever sem sentir atrás de mim o seu sopro vigilante. De modo que, embora Rodney se tivesse volatilizado por completo, a realidade é que estava mais presente do que nunca na minha vida, como que transformado num fantasma ou num zombie. Fosse como fosse, a verdade é que não decorreu muito tempo até me convencer de que nunca mais voltaria a ouvir falar dele.

Evidentemente, enganei-me. Numa noite de princípios de Abril ou finais de Março, justamente depois do Spring Break - o equivalente norte-americano às férias da Semana Santa -, telefonaram para a minha casa. Lembro-me de que estava a acabar de ler um conto de Hemingway intitulado «Um lugar limpo e bem iluminado» quando o telefone tocou; lembro-me também de que o atendi pensando naquele conto tristíssimo e sobretudo na oração tristíssima que continha - «Nada nosso que estás no nada, nada é o teu nome, teu reino nada, tu serás nada no nada como no nada» -: era o pai de Rodney. Ainda não me repusera da surpresa quando, depois de me confessar ter arranjado o meu número de telefone através do departamento, começou a desculpar-se pela forma como me tinha tratado na minha visita a Rantoul. Interrompi-o; disse-lhe que não tinha razões para pedir desculpa, perguntei-lhe se sabia alguma coisa de Rodney. Respondeu-me que lhe telefonara há alguns dias de um qualquer lugar do Novo México, que tinham conversado um pouco e que estava bem, embora de momento não fosse provável a sua vinda para casa.

- Mas não lhe telefono por isso - esclareceu imediatamente. - Telefono-lhe porque gostaria de falar consigo. Teria alguns minutos para mim?

- Claro - disse. - De que se trata?

O pai de Rodney pareceu hesitar uns instantes e depois disse:

- A verdade é que preferia falar consigo pessoalmente. Cara a cara. Se não vir inconveniente.

Disse-lhe que não via inconveniente.

- Importa-se de vir até a minha casa? - perguntou.

- Não - disse e, embora de qualquer maneira pensasse ir porque, por essa altura, já me tinha esquecido da sensação de angústia que se apoderara de mim após a minha primeira visita a Rantoul, acrescentei: - Mas ao menos podia dizer-me qual é o assunto.

- Não é nada importante - disse. - Gostaria apenas de lhe contar uma história. Julgo que pode interessar-lhe. Acha bem sábado à tarde?

 

                         LISTAS E ESTRELAS

Decorreram já dezasseis anos desde aquela tarde de Primavera que passei em Rantoul mas, talvez por durante esse tempo saber que mais cedo ou mais tarde teria de a contar, que não poderia deixar de a contar, ainda me lembro com exactidão da história que ao longo daquelas horas me contou o pai de Rodney. Guardo, pelo contrário, uma lembrança muito mais imprecisa das circunstâncias que a rodearam.

Cheguei a Rantoul pouco depois do meio-dia e encontrei a casa sem dificuldade. Assim que toquei à campainha, o pai de Rodney abriu a porta e conduziu-me até à sala, um aposento amplo, acolhedor e bem iluminado, com uma lareira, um sofá de couro e duas poltronas de orelhas num dos lados e, no outro, junto à janela que dava para a Belle Avenue, uma mesa de carvalho rodeada de cadeiras, com as paredes cobertas até ao tecto de livros perfeitamente alinhados e com o chão coberto por grossos tapetes cor de vinho que amorteciam os passos. A verdade é que, depois da nossa inesperada conversa telefónica, eu quase previra que desde o princípio o pai de Rodney faria gala de uma cordialidade que o nosso primeiro encontro não augurava mas o que de maneira alguma podia ter previsto é que o homem diminuído e intimidante que, de roupão e pantufas, me tinha despachado sem grandes contemplações há alguns meses apenas, me recebesse agora vestido com uma elegante sobriedade mais adequada a um maduro habitante de Boston que a um médico rural reformado do Middle West, aparentemente transformado num desses falsos idosos que teimam em exibir, sob a certeza ingrata dos seus muitos anos, a vitalidade e distinção de quem não se resignou ainda a gozar apenas das migalhas da velhice. No entanto, à medida que foi desfiando a história que eu fora ouvir, essa fachada mentirosa começou a desmoronar-se e a revelar imperfeições, manchas de humidade e gretas sem fundo e, a meio do relato, o pai de Rodney já tinha deixado de falar com a energia exuberante do início - quando o fazia como que possuído por uma urgência longamente adiada, ou antes, como se no facto de falar e de eu o ouvir a vida se lhe esvaísse, olhando-me com insistência nos olhos como se procurasse neles uma confirmação impossível do seu relato - porque, naquele momento e nas suas palavras, já não vibrava o mais pequeno ímpeto vital mas apenas a memória peçonhenta e inflexível de um homem carcomido pelos remorsos e devastado pela infelicidade, e a luz cinzenta que entrava pela janela envolvendo a sala em sombras lhe apagara do rosto qualquer vestígio da sua juventude remota, deixando apenas uma antecipação de caveira. Lembro-me de que, a dada altura, comecei a ouvir o repicar da chuva sobre o telhado do alpendre, um repicar que quase a seguir foi substituído por um aguaceiro alvoroçado de Primavera que nos obrigou a acender um candeeiro de pé porque nessa altura já era quase noite e estávamos há muitas horas sentados frente a frente, enterrados nas duas poltronas de orelhas, ele a falar e eu a ouvir, com o cinzeiro a transbordar de beatas e, na mesa, uma cafeteira e duas chávenas de café vazias e um monte de cartas manuseadas com carimbos do exército norte-americano, cartas procedentes de Saigão, de Danang, de Xuan Loc e de Quang Nai, de diversos lugares da península de Batagan, cartas que abarcavam um período de mais de dois anos e tinham a assinatura dos seus dois filhos, de Rodney e também de Bob, mas sobretudo de Rodney. Eram bastante numerosas, estavam ordenadas cronologicamente e guardadas em três capas de cartolina preta com fecho de borracha, cada uma das quais tendo colada uma etiqueta onde se liam, escritos à mão, o nome de Rodney e o de Bob, a palavra Vietname e a data da primeira e da última cartas que continham. O pai de Rodney parecia conhecê-las de cor ou, pelo menos, tê-las lido dezenas de vezes e, durante aquela tarde, leu-me alguns fragmentos. O facto não me surpreendeu; o que me surpreendeu - o que me deixou literalmente boquiaberto - foi no fim da minha visita me ter obrigado a ficar com elas. «Eu já não as quero para nada», disse-me antes de nos despedirmos, entregando-me as três capas. «Por favor, fique você com elas e faça o que achar melhor.» Era, sob todos os aspectos, um pedido absurdo, mas precisamente por ser absurdo não pude ou não soube recusá-lo. Ou talvez, no fim de contas, não fosse tão absurdo. A verdade é que durante estes dezasseis anos não deixei de tentar explicá-lo. Pensei que me confiava as cartas dos filhos por ter consciência de que não lhe restava muito tempo de vida e não desejar que fossem parar às mãos de alguém que desconhecesse o seu significado e pudesse acabar desfazendo-se simplesmente delas; pensei que me confiava as cartas porque fazê-lo equivalia a uma tentativa simbólica e sem esperança de libertar-se para sempre da história funesta que encerravam e da qual, ao ceder-mas, me fazia depositário ou mesmo responsável, ou porque ao fazê-lo me queria obrigar a partilhar com ele o fardo da sua culpa. Pensei todas estas coisas e muitas outras também mas, evidentemente, ainda não sei com certeza por que me confiou aquelas cartas e agora não o saberei nunca; talvez nem ele próprio o soubesse. É indiferente. O facto é que mas confiou e que agora as tenho à minha frente, enquanto escrevo. Durante estes dezasseis anos li-as muitas vezes. As de Bob são raras e concisas, distraidamente amáveis, como se a guerra absorvesse integralmente a sua energia e a sua inteligência e transformasse em banal ou ilusório tudo o que lhe era alheio; as de Rodney, pelo contrário, são frequentes e caudalosas e, na sua forma, nota-se uma evolução que é sem dúvida um espelho da evolução sentida pelo próprio Rodney durante os anos que passou no Vietname: a princípio, cuidadosas e matizadas, preocupadas em não permitir que a realidade transpareça nelas a não ser através de uma sofisticada retórica da reticência, feita de silêncios, alusões, metáforas e subentendidos e, no fim, torrenciais e desaforadas, com frequência confinantes com o delírio, como se o torvelinho incontrolável da guerra tivesse rompido um dique de contenção por cujas fendas tivesse transbordado uma avalancha insensata de clarividência.

O que se conta em seguida é a história de Rodney ou, pelo menos, a sua história tal como ma contou o seu pai naquela tarde e como eu a recordo, e tal como aparece também nas suas cartas e nas cartas de Bob.

Não ha discrepâncias fundamentais entre essas duas fontes e, embora tenha verificado alguns nomes, alguns lugares e algumas datas, ignoro que partes desta história correspondem à verdade da história e que partes temos de atribuir à imaginação, à fraca memória ou à má consciência dos narradores. O que conto é apenas o que eles me contaram (e o que deduzi ou imaginei a partir do que eles me contaram), não o que aconteceu realmente. Importa acrescentar que aos vinte e cinco anos, quando naquela tarde ouvi dos lábios do pai a história de Rodney, eu ignorava tudo ou quase tudo acerca da Guerra do Vietname, que, nessa altura, desconfio, não era para mim mais do que um confuso ruído de fundo nos tele-jornais da minha adolescência e uma obsessão enfadonha de alguns cineastas de Hollywood. E desconfio também que, ainda que estivesse a viver há quase um ano nos Estados Unidos, nem sequer conseguia imaginar que, embora tivesse terminado há mais de uma década, no espírito de muitos norte-americanos estava ainda tão viva como a 29 de Março de 1973, dia em que, depois da morte de quase sessenta mil compatriotas - rapazes que rondavam, na sua maioria, os vinte anos - e de ter arrasado por completo o país invadido, lançando sobre ele dez vezes mais bombas que sobre toda a Europa ao longo da Segunda Guerra Mundial, o exército dos Estados Unidos saiu finalmente do Vietname.

Rodney tinha nascido há quarenta e um anos em Rantoul. O pai era de Houlton, no estado do Maine, a nordeste do país, muito perto da fronteira canadiana. Tinha estudado em Augusta (para onde a sua família se mudara em virtude de o seu avô ter ficado arruinado durante a crise económica de 29) e mais tarde em Nova Iorque. Depois de se licenciar na Faculdade de Medicina de Columbina, em 43 alistou-se no exército como soldado raso e durante os anos seguintes lutou no Norte de África, em França e na Alemanha. Não era um homem religioso (ou não o foi até muito avançada a sua vida), mas tinha sido educado nesse sentido estrito da justiça e da integridade ética que parece património das famílias protestantes e sentia uma satisfação íntima por ter participado na guerra, porque estava convencido de ter lutado pelo triunfo da liberdade e de que, graças ao seu sacrifício e ao de muitos outros jovens norte-americanos como ele, os Estados Unidos tinham salvo o mundo da iníqua abjecção do fascismo; estava convencido também de que, ao ter-se erigido pela força das armas em garante da liberdade, o seu país não podia recusar, por moleza ou cobardia, o compromisso moral que tinha contraído com o resto do mundo, abandonando nas mãos do terror, da injustiça ou da escravidão aqueles que solicitassem a sua ajuda para se libertarem da opressão. Regressou da Europa em 45. No mesmo ano, começou a exercer medicina em hospitais públicos do Middle West, primeiro em Saint Paul, Minnesota, e depois em Oak Park, um subúrbio de Chicago, até que, por razões que não me quis explicar e eu não quis indagar (mas que, segundo insinuou ou eu deduzi, teriam sem dúvida alguma relação com o seu idealismo, com a sua candura e com a sua total decepção com o funcionamento da medicina pública), se fixou definitivamente em Rantoul, o que não deixa de ser curioso e até enigmático, porque é impossível imaginar um destino menos brilhante para um médico jovem, cosmopolita e ambicioso como ele. Ali, em Rantoul, se casou com uma rapariga de famílias bastante humildes que conhecera em Chicago; ali, naquele mesmo ano, nasceu Rodney; Bob nasceu no ano seguinte.

Desde o princípio, Rodney e Bob foram duas crianças diametralmente opostas; a passagem do tempo não fez mais do que acentuar essa oposição. Os dois tinham herdado a força física e a energia de ferro do pai mas só Bob se sentia bem com isso e era rapaz de tirar partido delas enquanto, para Rodney, pareciam constituir pouco menos que um infeliz acidente da sua natureza, uma Característica pessoal contra a qual era necessário lutar com a mesma naturalidade ou resignação com que se luta contra uma doença congénita. Em criança, Rodney era extrovertido até à ingenuidade, veemente, espontâneo e afectuoso, e este carácter sem artifícios, somado ao seu gosto pela leitura e ao seu brilhantismo nos estudos, transformou-o no favorito indisfarçável do pai. Bob, pelo contrário - e talvez para rentabilizar a má consciência que a predilecção declarada por Rodney causava ao progenitor -, desenvolveu nas suas relações com a família um perfil reservado e defensivo, frequentemente tirânico, pródigo em calculismos, justificações e cautelas que talvez fossem, inicialmente, apenas uma forma de reclamar a atenção que lhe era negada mas que, de uma forma insidiosa, derivou numa estratégia destinada a esconder as deficiências pessoais e intelectuais que, com razão ou sem ela, faziam com que se sentisse inferior ao irmão, o que, com o tempo, acabou por transformá-lo num desses benjamins de manual que, por fazerem um constante aproveitamento dos subterfúgios familiares esbanjados pelo primogénito, parecem sempre muito mais maduros que este e, com frequência, o são. No entanto, estas descompensações e dissimilitudes nunca se traduziram em hostilidade entre os dois irmãos, porque Bob estava demasiado ocupado a acumular rancor contra o pai para poder senti-lo também contra Rodney, e porque Rodney, que não tinha qualquer animosidade contra Bob e que tinha consciência de precisar da habilidade física e da sagacidade vital do irmão muito mais do que o irmão necessitava do seu afecto ou da sua inteligência, sabia proporcionar-lhe constantes motivos de satisfação nos jogos a dois, no seu gosto partilhado pela caça, pela pesca e pelo baseball, nas suas saídas e amizades partilhadas. De tal forma que, por um desses equilíbrios instáveis sobre os quais se fundam as amizades mais sólidas e duradouras, a disparidade entre Rodney e Bob acabou por constituir a melhor garantia de uma cumplicidade fraternal que nada parecia capaz de destruir.

Nem sequer a guerra o fez. Em meados de 1967, Bob alistou-se como voluntário no corpo de Marines e passados alguns meses chegou a Saigão integrado na Primeira Divisão de Infantaria. A decisão de se alistar foi inesperada para todos e o pai de Rodney não punha de parte a hipótese de poder ser explicada por duas razões distintas mas complementares: a sua incapacidade de enfrentar com êxito as exigências do curso de Medicina que, menos por vocação que por orgulho - para demonstrar a si próprio que conseguia estar à altura do pai -, tinha começado a frequentar no ano anterior, e o afã insaciável de obter a admiração da família através daquele acto inesperado de arrojo. Sendo assim - e na opinião do pai de Rodney nada permitia pensar que não o fosse -, a decisão de Bob tinha sido acertada porque, assim que tomou conhecimento dela, o pai não pôde deixar de sentir-se secretamente orgulhoso dele. Tal como tantos outros norte-americanos, nessa altura o pai de Rodney considerava que a Guerra do Vietname era justa e que, com aquela decisão impetuosa, o seu filho, libertando um país longínquo e indefeso da ignomínia do comunismo, não fazia mais do que continuar no sudeste asiático o trabalho que ele tinha iniciado na Europa há vinte e quatro anos. Talvez porque o conhecia melhor que os seus pais, a decisão de Bob não surpreendeu Rodney mas horrorizou-o e, dado que foi o único membro da família a conhecê-la antes de ele a ter tomado, fez tudo o que estava ao seu alcance para o dissuadir do seu objectivo e, depois de a ter levado a cabo, para que a revogasse. Não conseguiu. Naquela época Rodney frequentava em Chicago, com a velada mas firme oposição inicial do pai, estudos de Filosofia e Literatura, e a sua opinião acerca da guerra diferia por completo da opinião do irmão e do pai, que atribuía a posição do seu primogénito à influência do ambiente dissoluto e anti-belicista que, como em tantos outros campus universitários um pouco por todos os Estados Unidos, se respirava no campus da Northwestern University. A verdade, no entanto, é que, quando Bob se incorporou no exército, Rodney já tinha uma ideia bastante clara do que acontecia quer no Vietname do Sul quer no Vietname do Norte. Não só seguia metodicamente as vicissitudes da guerra através da imprensa norte-americana e francesa, como lera, além de uma história completa do Vietname, tudo o que a esse respeito lhe caíra nas mãos, incluindo as análises de Mary McCarthy, Philippe Devillers e Jean Lacouture e os livros de Morrison Salisbury, Staughton Lynd e Tom Hayden, e tinha chegado à conclusão, muito menos impulsiva ou mais razoável que a de muitos dos seus colegas de curso, de que as motivações declaradas da intervenção do seu país no Vietname eram falsas ou adulteradas, a sua finalidade confusa e no fim de contas injusta, e os seus métodos de uma brutalidade atrozmente desproporcionada. De modo que Rodney muito cedo começou a participar em todo o tipo de actividades contra a guerra, tendo conhecido numa delas Julia Flores, uma mexicana de Oaxaca, estudante de Matemática em Northwestern, alegre e desinibida, que o meteu em cheio no movimento pacifista e o iniciou no amor, na marijuana e num espanhol rudimentar repleto de tacos(1). Numa tarde do Verão em que se licenciou na universidade, enquanto passava alguns dias com a família, Rodney recebeu uma notificação do exército com a ordem de recrutamento. Sem dúvida que esperava por ela mas nem por isso deve tê-lo alarmado menos. Não disse nada aos pais; também não procurou o refúgio de Julia

 

*1. Tacos: num jogo de palavras, o autor refere-se tanto à conhecida comida mexicana (tacos) como a palavrões (vulgarmente conhecidos como «tacos», em Espanha). (N. da T.)

 

nem o conselho de nenhum dos seus companheiros de protesto. Rodney sabia que não podia alegar nenhuma justificação real para se esquivar a essa ordem, de forma que é possível que, durante os dias que se seguiram, vivesse dividido entre o receio de desertar, tomando o caminho do exílio para o Canadá que tantos jovens da sua idade já tinham tomado naquela época, e o receio de ir para uma guerra remota e odiosa contra um país martirizado, uma guerra à qual sabia com certeza que - ao contrário do seu irmão Bob, que considerava com fundamento um homem de acção e de inumeráveis astúcias - não conseguiria sobreviver. Num daqueles dias de dúvidas inevitáveis, chegou a casa uma carta de Bob e, como sempre fazia, o pai leu-a em voz alta enquanto jantavam, salpicando a leitura de exegeses orgulhosas que eram como uma censura, ou que o nervosismo atemorizado do filho interpretou como uma censura. O caso é que, no meio de um dos comentários do pai, Rodney interrompeu-o, a interrupção degenerou em disputa e a disputa numa dessas brigas em que os dois antagonistas, porque se conhecem melhor que ninguém, sabem melhor que ninguém onde ferir para fazer a maior quantidade de sangue possível. Nesta não houve sangue - pelo menos sangue físico, sangue não meramente metafórico -, mas sim acusações, insultos e bater de portas. Na manhã seguinte, antes de alguém acordar, Rodney agarrou no carro do pai e desapareceu, e quando, passados três dias sem dar sinais de vida, regressou a casa, reuniu o pai e a mãe e anunciou-lhes sem solenidade e sem lhes dar oportunidade de réplica que dentro de dois meses se alistava no exército. Quase vinte anos depois desse dia aziago de Agosto, sentado à minha frente na mesma poltrona de orelhas onde tinha ouvido as palavras definitivas de Rodney, enquanto segurava numa chávena de café já frio e procurava nos meus olhos o alívio de uma centelha de perdão, o pai de Rodney continuava ainda a interrogar-se onde estivera e o que tinha feito o seu filho durante aqueles três dias de fuga e continuava a interrogar-se também, tal como o fizera vezes sem conta durante os últimos vinte anos, por que razão Rodney não desertara e acabara por acatar a ordem de ir para o Vietname. Durante todo aquele tempo, fora incapaz de encontrar uma resposta satisfatória para a primeira pergunta; mas não para a segunda. «As pessoas tendem a acreditar que muitas explicações convencem menos que uma só», disse-me o pai de Rodney. «Mas, verdade é que para quase tudo há mais de uma razão.» Segundo o pai de Rodney, este não teria ingressado no exército se tivesse podido livrar-se legalmente disso, mas não se sentia capaz de ferir a consciência da lei - embora a considerasse injusta - e muito menos de se humilhar pedindo-lhe a ele que mexesse os cordelinhos da sua profissão para que algum dos seus colegas aceitasse incorrer na fraude de lhe inventar um impedimento médico. Por outro lado, recusar-se a ir para a guerra em nome das suas convicções pacifistas teria acarretado a Rodney dois anos de cadeia e a opção do exílio no Canadá também não estava isenta de riscos, entre eles o de não poder regressar ao seu país durante muitos anos. «Além disso», continuou o pai de Rodney, «no fundo era ainda um miúdo com a cabeça cheia de romances de aventuras e de filmes do John Wayne: sabia que o pai tinha feito a guerra, que o avô tinha feito a guerra, que a guerra é o que fazem os homens, que só na guerra um homem prova ser homem.» Por isso o pai de Rodney intuía que algum recanto escondido da mente do filho, alimentada pelas noções de coragem, honradez e rectidão que ele lhe tinha inculcado, e em luta com as suas próprias ideias germinais de rapaz acabado de sair da adolescência, acalentava ainda, secreta mas poderosamente, um conceito heróico e romântico da guerra como feito essencial na vida de um homem, o que explicava a sua convicção amadurecida durante vinte anos de que se o seu filho tinha traído o seu anti-belicismo, tinha engolido o seu medo e tinha obedecido à ordem de marcha para o Vietname, tinha sido no fundo por vergonha, porque sabia que, não o fazendo, nunca mais poderia voltar a olhar para a cara das pessoas simples do seu país, nunca mais poderia voltar a olhar para a cara do irmão ou da mãe mas, sobretudo - acima de tudo -, porque nunca mais poderia voltar a olhar para a cara do pai. «De modo que fui eu quem mandou o Rodney para o Vietname», disse o pai de Rodney. «Tal como já o fizera com o Bob.» Antes de ir para o Vietname, Rodney passou por um primeiro período de instrução («instrução básica», chamavam-lhe) em Fort Jackson, na Carolina do Sul, e por um segundo período («instrução avançada», chamavam-lhe) em Fort Polk, Louisiana. As suas primeiras cartas datam daquela época. «A primeira coisa que se nota ao chegar aqui», escreve Rodney sobre Fort Jackson, «é que a realidade retrocedeu até um estádio primitivo, porque este sítio é regido pela hierarquia e pela violência: os fortes seguem em frente, os fracos não. Assim que entrei pela porta insultaram-me, raparam-me a pente zero, puseram-me roupa nova, despojaram-me da minha identidade, não sendo necessário que alguém me dissesse que, se queria sair daqui com vida, tinha de tentar uma assimilação com o ambiente, diluir-me no grupo, e tinha também de ser mais brutal que os meus restantes companheiros. A segunda coisa que se nota é ainda mais elementar. Antes de conhecer isto já sabia que a felicidade total não existe, mas aqui aprendi que também não existe a infelicidade total, porque qualquer descanso mínimo é uma fonte infinita de felicidade.» Rodney perdeu dez quilos nos primeiros vinte dias em Fort Jackson. Aí e em Fort Polt, eram duas as sensações dominantes no estado de espírito de Rodney: a estranheza e o medo. A maior parte dos seus companheiros, rapazes entre os dezoito e os dezanove anos, eram mais novos do que ele. Alguns eram delinquentes a quem o juiz dera a escolher entre a cadeia e o exército; outros eram uns desgraçados que, por não saberem o que fazer com a vida, tinham considerado com razão que o exército iria dotá-la de algum objectivo e de algum sentido; a imensa maioria eram trabalhadores sem estudos que se adaptavam aos rigores da milícia com menos dificuldade que ele, que, apesar de estar habituado à vida ao relento e à sua antiga familiaridade com as armas de fogo, tinha levado até essa altura uma existência demasiado regalada para conseguir sobreviver sem estragos à aspereza do exército. Mas havia também o medo. Não o medo como estado de espírito mas como uma sensação física, fria, humilhante e pegajosa, que mantinha apenas uma semelhança longínqua com o que até essa altura tinha chamado medo; não o medo de um inimigo distante, ainda invisível ou abstracto, mas o medo dos chefes, dos companheiros, da solidão, de si próprio. Um medo que, talvez contraditoriamente, não o impediu de começar a amar todas essas coisas. Há uma carta escrita em Xuan Loc e datada de 30 de Janeiro de 1969, quando Rodney tinha já quase um ano de Vietname, onde descreve em pormenor um episódio desses meses de instrução, como se tivesse precisado de todo um ano para conseguir digeri-lo, ou para decidir contá-lo. Poucos dias antes da sua partida para o Vietname, reuniram-no juntamente com os seus companheiros no salão nobre de Fort Polk para que um capitão e um sargento acabados de chegar da frente dessem uma palestra de última hora sobre técnicas de evasão e sobrevivência na selva. Enquanto o capitão falava - um homem tom um sorriso impassível e gestos educados -, o sargento segurava num coelho albino, fofo e inquieto, com uns olhos atónitos de lança que, com a sua presença intempestiva, acabou por monopolizar a atenção dos soldados. A dada altura, o coelho fugiu das mãos do sargento e desatou a correr; o capitão calou-se e uma barulheira de recreio de escola apoderou-se da sala enquanto o coelho se escapulia por entre as carteiras até alguém o apanhar e entregar ao sargento. Nessa altura, o capitão agarrou nele e, antes de a gritaria cessar totalmente e se fazer na sala um silêncio brutal, em poucos segundos, sem que o sorriso lhe desaparecesse dos lábios e quase sem se sujar de sangue, partiu-lhe o pescoço, esfolou-o, arrancou-lhe completamente as vísceras e atirou-as aos soldados.

Poucos dias depois de assistir a esta cena esboçada quase em jeito de premonição ou advertência, Rodney aterrou no aeroporto militar de Ton Son Nhut, em Saigão, após um voo na Braniff Airlines que durou quase trinta horas, durante as quais umas hospedeiras fardadas os alimentaram, a ele e aos seus companheiros, à base de cachorros quentes. Isto aconteceu no início de 1968, justamente quando se iniciava a ofensiva do Tet, e na cidade - transformada nessa altura numa lixeira de flores mortas, papéis arrastados por um vento húmido e empestado de urina, excrementos humanos e estruturas de fogos artificiais queimados durante as festas terminadas há pouco - o medo era palpável por toda a parte, como uma epidemia. Isso foi a primeira coisa que Rodney notou ao chegar ao Vietname: o medo, novamente o medo. A segunda coisa que notou foi novamente a estranheza. Mas neste caso a razão da estranheza era outra, era que o Vietname forjado na sua imaginação não tinha a mais pequena semelhança com o Vietname real; de facto, dir-se-ia tratar-se de dois países diferentes, e o mais surpreendente era o facto de o Vietname imaginado nos Estados Unidos parecer muito mais verdadeiro que o Vietname da realidade e, em consequência, ele sentir-se muito menos alheio àquele que a este. O resultado deste paradoxo era outro paradoxo: apesar de continuar a desprezar o que os Estados Unidos estavam a fazer ao Vietname (e a sua própria contribuição nessa ofensiva), no Vietname sentia-se muito mais norte-americano do que na América do Norte e, apesar do respeito e da admiração que imediatamente lhe inspiraram os vietnamitas, ali sentia-se muito mais distante deles do que se sentia no seu próprio país. Rodney supunha que a causa desta incoerência era a sua total incapacidade de comunicação com os poucos vietnamitas com que se relacionava, não apenas por alguns desconhecerem a sua língua mas porque, mesmo aqueles que a falavam, o esmagarem com o seu exotismo, com a sua falta de ironia, com a sua incrível capacidade de abnegação e com a sua espantosa e permanente serenidade, com a sua cortesia exagerada (que não era difícil confundir com o servilismo infundido pelo temor) e com a sua credulidade insípida, a ponto de, pelo menos durante os primeiros dias da sua estadia em Saigão, com frequência não conseguir livrar-se da suspeita de que aqueles homenzinhos de traços orientais que, sem excepção, pareciam ter menos dez anos do que na realidade tinham e que, por mais velhos que fossem, não ficavam grisalhos nem carecas eram, também sem excepção, mais simples ou menos complexos que ele, uma suspeita que, apesar de ser genuína, o enchia de uma culpa indeterminada. Estas impressões iniciais variaram sem dúvida com o tempo (embora as cartas quase não registem a mudança porque, com certeza, quando chegou o momento de o fazer, as preocupações de Rodney já eram outras), mas Rodney também depressa se apercebeu de que a acção combinada do Vietname e do exército lhe tinha roubado complexidade a ele, e isto, que reconhecia como uma mutilação da sua personalidade, proporcionava-lhe secretamente uma espécie de alívio: a sua condição de soldado quase que anulava a sua margem de autonomia pessoal, mas essa proibição de decidir por si próprio, essa submissão à rígida hierarquia militar, humilhante e embrutecedora como era, funcionava ao mesmo tempo como um anestésico que lhe granjeava uma felicidade desconhecida e abjecta que, sendo abjecta, não era menos real. Porque naquele momento descobriu na própria carne que a liberdade é não só mais valiosa que a escravidão mas também muito mais dolorosa e que, pelo menos ali, no Vietname, o que menos desejava era sofrer.

De modo que os primeiros meses de Rodney no Vietname não foram duros. Para isso contribuiu a sorte. Ao contrário do seu irmão, colocado desde a chegada num batalhão de combate, por um acaso que nunca chegou a entender (e que, com o tempo, chegou a imbuir a um erro burocrático), Rodney foi colocado num cargo subalterno de um organismo encarregado de fornecer entretenimento à tropa, com sede na capital. Daí, a guerra ficava tranquilizadoramente longe; além disso, o trabalho não era ingrato. Passava a maior parte do tempo num escritório com ar condicionado e, quando se via obrigado a sair, era só para acompanhar do aeroporto ao hotel, cantores, estrelas de cinema e humoristas, para garantir que não lhes faltava nada ou para os conduzir ao lugar aonde tinham de actuar. Era um emprego privilegiado de retaguarda, sem outro risco além do de viver em Saigão; o problema é que, por essa altura, mesmo viver em Saigão constituía um risco considerável. Rodney teve oportunidade de o comprovar apenas um mês depois da sua chegada à cidade. Em seguida, descrevo o que aconteceu tal como ele o refere numa das suas cartas.

Uma tarde, ao sair do trabalho, Rodney entrou num bar perto da paragem do autocarro que o levava diariamente para a base militar onde pernoitava. No bar estavam apenas dois grupos de soldados sentados às mesas e um aspirante a oficial dos Boinas Verdes bebendo sozinho numa das extremidades do balcão; Rodney apoiou os cotovelos na outra ponta, pediu uma cerveja e bebeu-a. Quando perguntou quanto devia, a empregada - uma vietnamita jovem, de traços delicados e olhos fugidios - disse-lhe que já estava paga e apontou para o aspirante que, sem se voltar na sua direcção, levantou uma mão apática em jeito de cumprimento; de longe, Rodney agradeceu-lhe e foi-se embora. A partir daí, adoptou o hábito de beber uma cerveja todas as tardes naquele bar. Ao princípio o ritual era sempre o mesmo: entrava, sentava-se ao balcão, bebia uma cerveja trocando sorrisos e palavras soltas em vietnamita com a empregada, depois pagava e ia-se embora; mas, passadas quatro ou cinco visitas, conseguiu vencer a desconfiança da empregada, que verificou falar um inglês elementar mas suficiente e que, a partir de então, começou a passar os momentos mortos que o trabalho lhe deixava a conversar com ele. Até que um belo dia tudo isso acabou. Foi numa sexta-feira à tarde, quando, tal como todas as sextas-feiras à tarde, os soldados enchiam o bar festejando o início do fim-de-semana com a sua primeira bebedeira e as empregadas de mesa não eram suficientes para os servir. Rodney preparava-se para pagar a bebida e sair quando sentiu uma palmada no ombro.

Era o aspirante dos Boinas Verdes. Cumprimentou-o com uma alegria exagerada e convidou-o para um copo, que Rodney se sentiu obrigado a aceitar; pediu aos gritos uma cerveja para Rodney e um whisky duplo para ele. Conversaram. Enquanto o faziam, Rodney observou o aspirante: era baixo, sólido e musculoso, com a cara macerada de rugas; tinha olhos violentos e como que desvairados e fedia a álcool. Não era fácil entender as suas palavras mas delas Rodney deduziu que ele era de uma aldeola do Arizona, que estava no Vietname há mais de um ano e que lhe faltavam alguns dias para voltar a casa; por outro lado, Rodney contou-lhe que estava apenas há algumas semanas em Saigão e falou-lhe do trabalho que fazia. Depois do primeiro whisky veio o segundo e depois o terceiro. Quando o aspirante ia pedir o quarto, Rodney declarou que se ia embora. Era a terceira vez que o fazia mas, desta vez, sentiu que uma mão como uma garra lhe apertava o braço. «Calma, recruta», disse o aspirante, e Rodney sentiu, sob aquele tratamento vagamente amistoso, uma vibração de lâmina de faca acabada de afiar. «É o último.» E pediu o whisky. Enquanto esperava que o servissem fez a Rodney uma pergunta que ele não entendeu. «Perguntei o que achas que viemos cá fazer», repetiu o aspirante com a voz cada vez mais pastosa. «A este bar?», perguntou Rodney. «A este país», esclareceu o aspirante. Não era a primeira vez que lhe faziam aquela pergunta desde que estava em Saigão e já sabia a resposta regulamentar, sobretudo a resposta regulamentar para um aspirante. Deu-a. O aspirante riu-se como se arrotasse e, antes de voltar a falar, pediu novamente o seu whisky, que nunca mais chegava. «Nisso nem tu acreditas. Ou porventura imaginas que vamos salvar esta gente do comunismo com esta corja de bêbados?», perguntou, abarcando com um gesto afectado e trocista o local repleto de soldados. «Vou dizer-te uma coisa: esta gente não quer que a salvemos. Vou dizer-te outra: a única coisa que viemos cá fazer foi matar amarelos. Vês aquela rapariga?», disse em seguida, apontando para uma empregada que vinha na direcção deles com uma bandeja de copos, contornando com dificuldade a multidão de clientes. «Há meia hora que lhe peço um whisky mas não mo traz. Sabes porquê? Não, claro que não o sabes... Mas eu vou dizer-te. Não mo traz porque me odeia. É tão simples como isso. Odeia-me. A ti também te odeia. Se pudesse matar-te-ia, tal como a mim. E agora vou dar-te um conselho.

Um conselho de amigo. O meu conselho é que a mates tu a ela antes que ela possa matar-te a ti.» Rodney não pôde dizer nada porque naquele momento a empregada passou diante deles e o aspirante lhe passou uma rasteira que a deitou a ela e à bandeja ao chão por entre um estrépito de vidros partidos. Rodney agachou-se instintivamente para ajudar a empregada a levantar-se e para juntar os destroços. «Que diabo estás a fazer?», ouviu o aspirante dizer. «Raios a partam, deixa que ela limpe.» Rodney não lhe deu atenção e imediatamente sentiu um ligeiro pontapé nas costelas, quase um empurrão. «Já te disse que deixasses, recruta!», repetiu o aspirante, desta vez aos gritos. Rodney levantou-se e disse sem pensar, como se para si próprio: «Não deveria ter feito isso.» Arrependeu-se imediatamente das suas palavras. Durante dois segundos o aspirante olhou para ele com curiosidade, depois deu uma gargalhada. «O que é que disseste?» Rodney apercebeu-se de que o bar tinha ficado em silêncio e de que era o alvo de todos os olhares; a empregada de olhos fugidios observava-o sem pestanejar atrás do balcão. Rodney ouviu-se a dizer: «Disse que não deveria ter atirado a rapariga ao chão.» O bofetão atingiu-o na face; depois viu como o aspirante o repreendia, o insultava, troçava dele, voltava a bater-lhe. Rodney suportou a humilhação sem se mexer. «Não vais defender-te, recruta?», gritou o aspirante. «Não», respondeu Rodney, sentindo que a fúria se lhe acumulava na garganta. «Por que não?», voltou a gritar-lhe o aspirante. «O que és? Um maricas ou um filho da puta de um pacifista?» «Sou um recruta», respondeu Rodney. «E o senhor um aspirante que, para além do mais, está bêbado.» Nessa altura o aspirante despojou-se lentamente dos galões sem tirar os olhos de cima dele e depois disse, como se a sua voz surgisse do coração de uma caverna: «Defende-te agora, cobarde de merda.» A luta durou apenas alguns segundos porque imediatamente um enxame de soldados se interpôs entre os dois adversários. De mais a mais, Rodney não saiu maltratado da refrega mas, durante os dias que se seguiram, esperou com resignação uma denúncia por bater num aspirante que, para sua surpresa, nunca chegou. Demorou algum tempo a voltar ao bar e, quando o fez, a empregada que já conhecia disse-lhe que a amiga já não trabalhava ali e que julgava que tinha deixado Saigão. Esqueceu o episódio. Tentou esquecer a empregada. Mas passadas algumas semanas desde a sua visita ao bar tornou a vê la. Naquela tarde, Rodney estava a espera do autocarro, rodeado de soldados que se apressavam, tal como ele, a regressar à base, quando um dos pedintes adolescentes que pululavam frequentemente pelas imediações insistiu tanto em limpar-lhe as botas que ele acabou por deixar. Ali estava, com um pé em cima da caixa do engraxador quando, ao erguer os olhos, reconheceu com alegria a rapariga. Estava no outro lado da rua e olhava para ele. Inicialmente julgou que ela também se alegrara ao vê-lo, porque lhe sorria ou lhe pareceu que sorria, mas imediatamente reparou que era um sorriso estranho e a alegria transformou-se em alarme quando verificou que na realidade a rapariga lhe estava a pedir com gestos de urgência que fosse ter com ela. Rodney deixou o engraxador e pôs-se a andar rapidamente na direcção da rapariga. Mas enquanto atravessava a rua viu que o engraxador passava ao seu lado a correr e, nesse instante, ouviu-se a explosão. Rodney caiu ao chão no meio do estrondo, ficou uns instantes aturdido ou inconsciente e, quando voltou a si, na rua reinava um caos de catástrofe e a paragem do autocarro tinha-se transformado numa amálgama de ferro e de morte. Só horas depois Rodney ficou a saber que no atentado tinham perdido a vida cinco soldados norte-americanos e que a carga explosiva que os matou estava colocada na caixa do engraxador onde, momentos antes da deflagração, tinha o seu pé apoiado. Quanto ao engraxador e à empregada, nunca mais voltou a saber-se deles e Rodney chegou à conclusão inevitável de que a empregada que lhe tinha salvo a vida e o engraxador que estivera prestes a arrebatá-la tinham sido dois dos executores do massacre.

Durante todo o tempo que passou em Saigão essa foi, por acaso, a única vez em que sentiu a proximidade da morte e o facto de ter escapado de forma providencial não fez mais do que reforçar a sua convicção infundada de que, enquanto permanecesse ali, não correria perigo, de que ia sobreviver, de que depressa estaria de volta a casa e de que, nessa altura, seria como se nunca tivesse estado naquela guerra.

Mas quem estava na guerra era Bob. Desde que chegara ao Vietname, Rodney recebia com frequência notícias dele. Bob visitava Saigão sempre que estava de licença, e Rodney esmerava-se em recebê-lo como a um rei: cobria-o de presentes comprados no mercado negro, levava-o a beber ao terraço do Continental, a jantar ao Givral, um pequeno restaurante com ar condicionado, na esquina de Le Toi com Tu Do, e depois a locais exclusivos do centro - incluindo, como incompreensivelmente se encarrega de referir Bob em várias das suas cartas, o Hung Dao Hotel, um célebre e concorrido prostíbulo de três andares situado na rua Tu Do, não longe do Givral -, locais onde a bebida e a conversa se prolongavam muitas vezes até às madrugadas ardentes da praça Lam Son. Rodney dedicava-se por inteiro ao irmão durante essas visitas mas quando os dois se despediam depois de uma semana de farras diárias nunca ficava com a satisfação de ter contribuído para que Bob esquecesse por algum tempo a inclemência da guerra, embargado sempre por uma mágoa difusa que lhe deixava no estômago uma sensação de pesar, como se tivesse passado aqueles dias fraternais de riso, confidências, álcool e noites em branco tentando purgar um pecado que não tinha cometido ou não recordava ter cometido mas que lhe ardia como se fosse real. No fim de Maio, os dois irmãos encontraram-se em Hue, onde Rodney tinha ido na qualidade de assessor para todo o serviço de um célebre cantor country e da sua tribo de gogo girls. Por essa altura, faltava um mês para a desmobilização de Bob; há muito que este tinha posto de parte a ideia, que acariciou durante algum tempo e que chegou a participar aos pais por carta, de voltar a alistar-se no exército, e naquele momento estava exultante, desejoso de voltar para casa. De regresso a Saigão, Rodney escreveu uma carta para Rantoul onde contava o seu encontro com Bob e descrevia o optimismo transbordante do irmão mas, duas semanas mais tarde, ao chegar ao escritório pela manhã, o capitão de quem dependia directamente mandou-o chamar ao seu gabinete e, depois de longas introduções tão solenes como confusas, comunicou-lhe que durante uma missão rotineira de reconhecimento, numa vereda que saía da selva e terminava numa aldeia próxima da fronteira do Laos, Bob ou alguém que ia junto dele tinha pisado uma mina de setenta quilos de explosivos e a única coisa que restava do corpo do seu irmão e dos outros quatro companheiros que, infelizmente para eles, se encontravam perto naquele momento, eram os farrapos ensanguentados que conseguiram recolher nos arredores da cratera de dez metros de diâmetro deixada pela explosão.

A morte de Bob mudou tudo. Ou, pelo menos, era isso que pensava o pai de Rodney e o que os factos confirmam. Porque, pouco depois de o irmão falecer, Rodney rejeitou por escrito a possibilidade de dar por terminado o seu tempo de serviço no exército e de voltar para casa - uma possibilidade da qual se tornara merecedor graças à morte de Bob - e apresentou um pedido de integração num batalhão de combate. Nenhuma das suas cartas explica esta decisão e o seu pai ignorava os motivos reais que o levaram a tomá-la; estavam vinculados, sem dúvida, à morte do irmão mas também podia ter sido uma decisão não premeditada ou instintiva e o próprio Rodney os ignorasse. De qualquer forma, a verdade é que, a partir daquele momento, as suas cartas se tornaram mais frequentes, mais prolixas e mais obscuras. Graças a elas o pai de Rodney começou a perceber ou a calcular (como poderia ter começado a fazê-lo qualquer pessoa que as tivesse recebido) que aquela era uma guerra diferente da que ele tinha levado a cabo e talvez de todas as outras guerras. Percebeu ou calculou que naquela guerra havia uma ausência absoluta de ordem, sentido ou estrutura, que quem lutava carecia de um objectivo ou direcção definidos e que, portanto, nunca se alcançavam objectivos, nem se ganhava ou perdia nada, nem havia um progresso que pudesse medir-se, nem sequer a mais pequena possibilidade, já não de glória, mas de dignidade para quem lutava nela. «Uma guerra onde reinava toda a dor de todas as guerras mas onde não havia lugar para a mais ínfima possibilidade de redenção, grandeza ou decência que tem lugar em todas as guerras», disse-me o pai de Rodney. O filho teria aprovado a sua frase. Numa carta de início de Outubro de 1968, onde já se nota o tom obsessivo e alucinatório que tingirá muitas das suas missivas posteriores, escreve: «O mais atroz nesta guerra é não ser uma guerra. Aqui o inimigo não é ninguém porque pode ser qualquer um, e não está em parte alguma porque está em todas: está dentro e fora, em cima e em baixo, à frente e atrás. Não é ninguém mas existe. Noutras guerras tentava-se vencê-lo; nesta não. Nesta tenta-se matá-lo apesar de todos sabermos que matando-o não o vamos vencer. Não vale a pena iludirmo-nos: esta é uma guerra de extermínio de modo que quanto mais coisas matarmos - pessoas, animais ou plantas, é indiferente - tanto melhor. Arrasaremos o país, não deixaremos nada. Mesmo assim, não ganharemos a guerra simplesmente porque esta guerra não se pode ganhar ou só Charlie *(2) pode ganhá-la: ele está disposto a matar e a morrer, ao passo que a única coisa que nós queremos é que passem quanto antes os doze meses que temos de passar aqui para podermos voltar a casa. Entretanto, matamos e morremos mas ninguém sabe por que matamos e morremos. Claro que todos nos esforçamos por fingir que entendemos alguma coisa, que sabemos por que estamos aqui e matamos e podemos morrer, mas fazemo-lo para não enlouquecermos por completo. Porque aqui estamos todos loucos, loucos e sós e sem possibilidade de avanço ou retrocesso, sem possibilidade de perda ou ganho, como se déssemos voltas sem parar em redor de um círculo invisível traçado no fundo de um poço vazio, onde o sol nunca entra. Escrevo às escuras. Não tenho medo. Mas às vezes assusta-me pensar que estou prestes a saber quem sou, que, atrás de qualquer curva de qualquer caminho, vou ver aparecer um soldado que sou eu.»

Nas cartas daqueles primeiros meses que viveu afastado da ilusória segurança de Saigão, Rodney nunca menciona Bob mas regista com pormenor as novidades que abundam na sua nova vida. O seu batalhão estava instalado numa base próxima de Da Nang, mas esse era apenas o lugar de descanso porque a maior parte do tempo era passado em operações na região. De dia, chapinhando nos arrozais e percorrendo a selva palmo a palmo, asfixiados pelo calor, pela humidade e pelos mosquitos, suportando aguaceiros bíblicos, com lama até às sobrancelhas e comidos pelas sanguessugas, alimentando-se de enlatados, sempre a suar, exaustos e com todo o corpo dorido, fedendo depois de semanas sem se lavarem, alheios a qualquer esforço que não fosse o de continuarem vivos, enquanto mais de uma vez - depois de caminharem horas e horas armados até aos dentes, carregando mochilas de montanha e certificando-se conscienciosamente onde punham os pés para evitar a fatalidade das minas que semeavam os caminhos da selva - se surpreendiam ao desejar que os tiros começassem de uma vez, nem que fosse apenas para quebrar a monotonia esgotante daqueles dias intermináveis onde o tédio era frequentemente mais enervante que

 

*(2) Charlie: nome dado pelos soldados americanos aos guerrilheiros do Vietcong. (N. da T.)

 

a proximidade do perigo. Isto acontecia durante o dia. Durante a noite - depois de cada um ter cavado a sua vala de atirador no entardecer vermelho dos arrozais, enquanto a lua se erguia majestosa no horizonte -, a rotina alterava-se mas nem sempre para melhor. Às vezes não tinham outro remédio senão tentar dormir embalados pelos tiros da artilharia, pelo estrondear dos helicópteros a aterrar ou pelos disparos das M-16; outras vezes era preciso sair em patrulha e faziam-no de mãos dadas ou agarrados ao uniforme do companheiro que os precedia, como miúdos apavorados pelo receio de se perderem no escuro. Havia também as vigilâncias, vigilâncias eternas durante as quais cada rumor da selva era uma ameaça e era necessário lutar com garra contra o sono e contra o fantasma insone dos companheiros mortos. Porque foi naqueles dias que Rodney conheceu o sopro quotidiano da morte. «Uma vez li uma frase de Pascal que diz que ninguém se entristece completamente com a desgraça de um amigo», escreve Rodney dois meses depois da sua chegada a Da Nang. «Quando a li pareceu-me uma frase mesquinha e falsa; agora sei que aquilo que diz é verdade. O que a torna verdadeira é esse 'completamente'. Desde que estou aqui vi morrer vários companheiros. A morte deles horrorizou-me, enfureceu-me, fez-me chorar; mas mentiria se dissesse que não senti um alívio obsceno diante dela, pela simples razão de o morto não ser eu. Ou dito de outra maneira: o pavor está na guerra mas muito antes estava em nós.» Estas palavras talvez expliquem em parte que nas cartas desta época Rodney fale apenas dos seus companheiros vivos - nunca dos mortos -; interroguei-me com frequência se também explicariam o facto de estarem repletas de histórias como se, por algum motivo, Rodney não quisesse dizer de forma directa aquilo que as histórias sabem dizer à sua maneira lateral ou elíptica. São histórias que se passaram com ele ou com alguém que lhe era próximo ou que lhe contaram, simplesmente; ponho de parte a hipótese de alguma delas ser inventada. Referirei apenas a do capitão Vinh porque, por alguma razão, é possível que tenha sido a que mais afectou Rodney.

O capitão Vinh era um oficial do exército sul-vietnamita que estava colocado, na qualidade de guia e intérprete, na unidade onde o meu amigo estava destacado. Era um trintão adoentado e cordial com quem, conforme afirma Rodney numa das cartas em que conta a sua história, tinha conversado mais de uma vez enquanto ambos recuperavam energias engolindo as suas rações de combate ou fumavam um cigarro nas pausas das marchas. «Não te aproximes dele», disse-lhe um veterano da sua companhia depois de, numa tarde, o ver a conversar amistosamente com o capitão. «Esse tipo é um traidor do caraças.» E contou-lhe o seguinte episódio. Numa ocasião capturaram três guerrilheiros do exército Vietcong e um oficial dos serviços secretos meteu-os num helicóptero e pediu ao capitão e a quatro soldados, entre eles o veterano, que o acompanhassem. O helicóptero descolou e, já a uma altura respeitável, o oficial começou a interrogar os prisioneiros. O primeiro recusou-se a falar e, sem qualquer hesitação, o oficial ordenou aos soldados que o atirassem para o vazio; obedeceram. Aconteceu a mesma coisa com o segundo prisioneiro. Não houve necessidade de interrogar o terceiro: chorando e pedindo clemência, começou a falar de uma forma tão incontrolável que o capitão Vinh mal tinha tempo de traduzir as suas palavras; mas, quando terminou a sua confissão, teve a mesma sorte dos seus companheiros. «Descolámos o helicóptero com três tipos e descemos sem nenhum», disse o veterano. «Mas ninguém fez perguntas. Quanto ao capitão, é lixo. Viu o que estamos a fazer ao seu povo e continua a ajudar-nos. Não sei como permitem que continue connosco», queixou-se. «Mais cedo ou mais tarde irá trair-nos.» Passado não muito tempo, Rodney havia de recordar o vaticínio do veterano. Tudo começou na manhã em que a sua companhia acorreu a uma aldeia próxima que tinha sido ocupada na noite anterior pelo Vietcong. O objectivo da incursão do Vietcong era o de recrutar soldados e, com esse fim, os guerrilheiros pediram a ajuda do chefe da aldeia que se mostrou renitente em colaborar com eles. A resposta dos guerrilheiros foi tão fulminante que, quando o homem quis rectificar, já era tarde: agarraram nas suas duas filhas, de seis e oito anos, violaram-nas, torturaram-nas, cortaram-lhes o pescoço e atiraram os seus cadáveres mutilados para o poço que abastecia a aldeia de água potável, para a contaminarem. Toda a companhia de Rodney encaixou a história em silêncio, excepto o capitão Vinh, que ficou literalmente doente. «As minhas filhas», gemia sem parar para quem quisesse ouvi-lo, para ninguém. «Têm a mesma idade, aquelas meninas tinham a mesma idade das minhas filhas.» Passados dois meses, no próprio dia em que chegava Da Nang depois de passar uma semana de licença em Tóquio, Rodney teve de ajudar na evacuação dos treze mortos e dos cinquenta e nove feridos de uma companhia de combate que, naquela mesma manhã, tinha sido vítima de uma emboscada na selva. O facto impressionou-o mas a impressão transformou-se numa fúria gelada no momento em que soube que a rápida investigação subsequente aos factos tinha concluído que a carnificina só podia ter sido resultado de uma denúncia e que o autor daquela denúncia só podia ter sido o capitão Vinh. Numa carta posterior Rodney afirma que, quando teve conhecimento da traição do oficial, caso pudesse teria morto sem hesitar «aquela ratazana assassina com quem tinha partilhado comida, tabaco e conversa» mas que agora já não era preciso porque o intérprete tinha sido entregue ao exército sul-vietnamita que o executara sem demora; Rodney acrescentava que se alegrava com a notícia. A carta seguinte que os pais de Rodney receberam era apenas uma nota: nela o filho expõe concisamente que os mesmos serviços de espionagem que tinham revelado a traição do capitão Vinh acabavam de chegar à conclusão de que o oficial tinha feito a denúncia aos comunistas do Vietcong por estes terem raptado as suas duas filhas, ameaçando matá-las a menos que colaborasse com eles.

Depois de receberem esta nota sumaríssima, os pais ficaram quase um mês sem ter notícias de Rodney e, quando a correspondência foi reatada, pouco a pouco e insidiosamente, foram dominados pela sensação de que não era o seu filho quem lhes escrevia mas alguém diferente que lhe usurpava o nome e a letra. Era uma sensação estranha, disse-me o pai de Rodney, como se quem escrevesse fosse Rodney e não o fosse ao mesmo tempo ou, o que era ainda mais estranho, como se quem escrevesse fosse demasiado Rodney (Rodney em estado quimicamente puro, extracto de Rodney) para ser verdadeiramente Rodney. Li e reli essas cartas e, por ambígua ou confusa que seja, a observação parece-me exacta porque nessas páginas, sem dúvida escritas de um fôlego, é evidente que a escrita de Rodney entrou num duvidoso território fantasista onde, ainda que seja difícil não identificar ao longe a voz do meu amigo, é impossível não notar um potente diapasão de desvario que, sem a tornar completamente irreconhecível, a torna pelo menos inquietantemente alheia a Rodney, entre outras coisas porque nem sempre evita as tentações da truculência, a solenidade ou o simples pretensiosismo. Acrescentarei que, a meu ver, o facto de Rodney escrever aquelas cartas no hospital onde estava a recuperar dos estragos do incidente só revela em parte o seu carácter anómalo mas não basta para anular a sensação perturbadora que a sua leitura provoca. «O incidente.» Foi assim que o chamou o pai de Rodney durante a tarde em que estive em sua casa porque, ao que parece, foi assim que o designou Rodney na única vez que o pai o interrogou em vão acerca dele. O incidente Tinha acontecido durante o mês em que esteve sem notícias do filho e, através de diversas fontes e ao longo dos anos, tudo o que o pai de Rodney conseguira averiguar foi que a companhia de Rodney tinha participado numa mal conduzida incursão à aldeia de My Khe, na província de Quang Nai, que se saldara em mais de meia centena de vítimas; conseguira averiguar também que, a partir do incidente ou em consequência dele, e apesar de não ter sofrido nenhuma ferida física, Rodney tinha permanecido internado durante três semanas num hospital de Saigão e que, muito tempo depois, já de volta a casa, tivera de prestar declarações no processo que foi instaurado contra o tenente que estava no comando da sua companhia e que acabou por ser absolvido das acusações que lhe eram imputadas. Isto foi tudo o que, por sua conta e em todos aqueles anos, o pai de Rodney conseguiu averiguar acerca do incidente. Quanto ao filho, nunca se referiu ao caso a não ser de passagem, da forma mais superficial possível quando não teve outro remédio senão fazê-lo e nem nas cartas posteriores à sua temporada no hospital nem nas que escreveu estando ainda internado chega sequer a mencioná-lo.

A verdade é que tanto umas como outras eram cartas completamente diferentes das que tinha escrito até então e, com o tempo, o pai acabou por atribuir esta mudança - talvez por necessitar atribuí-la a algum motivo tangível - ao consumo imoderado da marijuana e do álcool que Rodney fomentou durante os seus primeiros meses na Frente. Nas cartas anteriores, Rodney tende a anotar todos os factos e regra geral evita as reflexões abstractas; agora, pelo contrário, os factos e as pessoas volatilizaram-se e pouco mais resta que pensamentos de uma veemência que horrorizava o pai e que, passado pouco tempo, o levariam à ingrata conclusão de que o filho estava irremediavelmente a perder o juízo.

«Agora conheço a realidade da guerra», escreve, por exemplo, Rodney numa das suas cartas. «A verdade desta guerra e de qualquer outra guerra, a verdade de todas as guerras, a verdade que tu conheces como a conheço eu e como a conhece qualquer um que tenha estado numa guerra porque, bem lá no fundo, esta guerra não é diferente mas igual a todas as guerras e, bem lá no fundo, a verdade da guerra é sempre a mesma. Toda a gente conhece aqui esta verdade só que ninguém tem a coragem de admiti-la. Todos mentem. Eu também. Quero dizer que eu também mentia até ter deixado de o fazer, até me ter enojado de mentir, até a mentira me enojar mais do que a morte: a mentira é suja, a morte é limpa. E essa é precisamente a verdade que toda a gente aqui conhece (que conhece qualquer um que tenha estado numa guerra) e ninguém quer admitir. Que tudo isto é belo: que a guerra é bela, que o combate é belo, que é bela a morte. Não me refiro à beleza da lua erguendo-se como uma moeda prateada na noite sufocante dos arrozais, nem às faixas de sangue que desenham na escuridão as balas tracejantes, nem ao instante milagroso de silêncio aberto por algum entardecer no bulício sem pausa da selva, nem a esses momentos extremos em que quase nos anulamos e connosco se anulam o medo e a angústia, a solidão e a vergonha, fundindo-se com a vergonha e a solidão, com a angústia e com o medo de quem está ao nosso lado, e então a identidade alegremente se evapora e já não somos ninguém. Não, não é só isso. É sobretudo a alegria de matar, não só porque enquanto são os outros quem morre nós continuamos vivos, mas também porque não há prazer comparável ao prazer de matar, não há sensação comparável à sensação portentosa de matar, de arrebatar absolutamente tudo o que possui e é outro ser humano absolutamente idêntico a nós próprios, fazendo-nos sentir nessa altura algo que nem sequer conseguia imaginar que fosse possível sentir, uma sensação semelhante à que devemos sentir ao nascer e esquecemos, ou à que sentiu Deus ao criar-nos ou à que deve sentir quem pare, sim, é exactamente isso o que se sente quando se mata, não é, papá? A sensação de que, finalmente, estamos a fazer alguma coisa importante, verdadeiramente essencial e para a qual estivemos a preparar-nos sem o saber durante toda a vida e que, caso não a tivéssemos podido fazer, nos teria transformado irremediavelmente numa escória, em homens sem verdade, sem coesão e sem substância, porque matar é tão belo que nos completa, nos obriga a chegar a zonas de nós próprios que nem sequer avistávamos, é como descobrirmo-nos, descobrindo imensos continentes de fauna e flora veladas, lá, onde julgávamos não haver mais do que terra colonizada, e por isso agora, depois de ter conhecido a beleza transparente da morte, a beleza ilimitada e cintilante da morte, sinto-me como se fosse maior, como se me tivesse alargado e alongado e prolongado para além dos meus limites anteriores, tão mesquinhos, e por isso penso também que toda a gente deveria ter direito a matar, para se alargar e alongar e prolongar o mais possível, para atingir essas caras de êxtase ou beatitude que eu vi nas pessoas que matam, para se conhecer a fundo ou ir tão longe quanto a guerra o permita, e a guerra permite ir muito longe e muito depressa, mais longe e mais depressa ainda, mais depressa, mais depressa, mais depressa, há momentos em que de repente tudo se acelera e há um fulgor, uma vertigem e uma perda, a certeza devastadora de que, se conseguíssemos viajar mais depressa do que a luz, veríamos o futuro. Foi isto que descobri. É isso que agora sei. () que sabem todos os que cá estão e o que sabiam os que cá estavam e já não estão, e também os alucinados ou os corajosos que nunca estiveram aqui mas que é como se tivessem estado, porque viram tudo isto muito antes de existir. Sabem-no todos, toda a gente. Mas o que me enoja não é que isso seja verdade mas que ninguém diga a verdade e estou prestes a interrogar-me por que razão ninguém o faz e ocorre-me algo que nunca me tinha ocorrido: que talvez ninguém o diga, não por cobardia, mas simplesmente porque soa falso, absurdo ou monstruoso, porque ninguém que não saiba de antemão a verdade tem capacidade para a aceitar, porque ninguém que não tenha estado aqui vai aceitar o que aqui sabe qualquer soldado raso: que as coisas que fazem sentido não são verdade. São apenas verdades truncadas, miragens: a verdade é sempre absurda. E o pior de tudo é que só quando isto se sabe, quando se aprende o que só se pode aprender aqui, quando finalmente se aceita a verdade, só então se pode ser feliz. Dir-te-ei de outra forma: antes odiava a guerra, odiava a vida e, sobretudo, odiava-me a mim próprio; agora amo a vida, a guerra e, sobretudo, amo-me a mim próprio. Agora sou feliz.»

Poderia apanhar aqui e ali um punhado de passagens análogas retiradas das cartas que Rodney escreveu nessa época, todas de um estado de espírito semelhante, todas igualmente obscuras, imorais ou abstrusas. É verdade que somos assaltados pela tentação de reconhecer naquelas palavras transtornadas como que o negativo de uma radiografia da mente de Rodney naquele momento da sua vida e até de ler muito mais coisas do que talvez Rodney tenha querido incluir nelas. Resistirei à tentação, evitarei interpretações.

Assim que lhe deram alta no hospital, Rodney reintegrou-se na sua companhia e, passados dois meses, quando faltavam poucos dias para terminar a sua permanência obrigatória no Vietname, graças a um conhecido que lhe franqueou a entrada na embaixada americana em Saigão, telefonou pela primeira vez aos pais e comunicou-lhes que não voltaria para casa. Tinha decidido realistar-se no exército. Talvez por terem compreendido imediatamente que a decisão era irrevogável, os pais de Rodney nem sequer tentaram que reconsiderasse, tentando apenas compreendê-la. Não conseguiram. No entanto, depois de uma conversa tão longa como entrecortada de súplicas e de soluços, acabaram aferrando-se à esperança precária de que o seu filho não tinha perdido o juízo mas que, simplesmente, a guerra o tinha transformado, já não sendo o mesmo rapaz que eles tinham gerado e criado e por isso não podendo imaginar-se a si próprio de volta a casa como se nada tivesse acontecido porque a simples perspectiva de se reintegrar na vida de estudante (prolongando-a num doutoramento, como tinha previsto inicialmente) ou de procurar emprego numa escola secundária ou, pior, de recuperar durante uma longa temporada de repouso na placidez provinciana de Rantoul, lhe parecia agora ridícula ou impossível, enchendo-o de um pânico que não conseguiam entender. De modo que Rodney ficou outros seis meses no Vietname. O pai ignorava quase tudo o que acontecia ao filho nessa época, durante a qual cessou por completo a correspondência de Rodney com a família que só teve notícias dele através de alguns, poucos, telegramas onde, com laconismo militar, os informava de que estava bem. A única coisa que o pai de Rodney conseguiu averiguar mais tarde foi que, durante aquele período, o filho esteve a lutar numa unidade anti-guerrilha, de elite, conhecida como Tiger Force, integrada no primeiro batalhão da 101? Divisão Aerotransportada e que, durante esses seis meses, Rodney, indubitavelmente, entrou em combate com muito mais frequência do que até então porque quando no fim do Verão de 1969 tomou o avião de volta para casa o fez com o peito blindado de medalhas - a Estrela de Prata pela coragem e o Coração de Púrpura estavam entre elas - e uma lesão numa anca que o acompanharia até ao fim da vida, condenando-o para sempre a andar com o seu passo trôpego e instável de perdedor.

O regresso foi catastrófico. O pai de Rodney lembrava-se muito bem da chegada do filho a Chicago. Há já duas semanas que Julia Flores e ele, que mal se conheciam pessoalmente, se telefonavam Com frequência para ultimar os preparativos, mas quando chegou o grande dia, tudo saiu errado desde o princípio: o autocarro da (Greyhound em que ele e a mulher fizeram a viagem desde Rantoul chegou a Chicago com quase duas horas de atraso por causa de um acidente de tráfego; Julia esperava-os, tendo-os levado no seu carro e conduzindo a toda a pressa até ao aeroporto de O'Hare. Mas no acesso a este foram retidos por um engarrafamento de forma que, quando os três entraram no terminal, há mais de uma hora que o avião de Rodney tinha aterrado. Perguntaram aqui e ali e, por fim, depois de darem muitas voltas e fazerem muitas averiguações, tiveram de ir buscar Rodney a uma esquadra de polícia. Encontraram-no sozinho e desfigurado mas não quis dar-lhes qualquer explicação, nem naquele dia nem nunca e, para não arruinar ainda mais o reencontro, eles preferiram não a pedir à polícia. Só passados vários meses o pai de Rodney ficou com uma ideia precisa do que acontecera naquela manhã no aeroporto. Foi depois do processo instaurado contra Rodney - e a partir do qual este foi condenado ao pagamento de uma multa cujo montante foi abonado pela sua família -, um julgamento ao qual Rodney proibiu a mãe e o pai de assistirem e de cujo desenvolvimento e conteúdo este só teve conhecimento depois de conversar às escondidas com o advogado de defesa do filho. O advogado, um esquerdista de prestígio chamado Donald Pludovsky, que tinha aceite o caso porque era amigo de um amigo do pai de Rodney e que desde o princípio da conversa se esforçou por tranquilizá-lo tentando retirar importância ao episódio, recebeu-o no seu escritório da rua Wabash e começou por lhe contar que Rodney tinha feito juntamente com um soldado negro os três dias da viagem de volta do Vietname (primeiro de Saigão até Tóquio num C-41 da força aérea, depois, das Filipinas a São Francisco, num avião da World Airways e, por fim, daí até Chicago) e que, ao sair em O'Hare e verificar que não estava ninguém à sua espera, decidiram ir tomar o pequeno-almoço a uma cafetaria. O terminal estava invulgarmente concorrido e reinava aí um ambiente de festa ou, pelo menos, foi essa a primeira aturdida e feliz impressão que tiveram os dois recém-chegados até que, a dada altura, enquanto arrastavam as suas mochilas por um corredor a abarrotar de gente, uma rapariga se separou de um grupo de estudantes, abordou Rodney que, dos dois veteranos, era o único que ainda vestia uniforme, e perguntou-lhe se vinha do Vietname. Estranhando a ausência dos pais e de Julia, que tinham prometido estar à sua espera no aeroporto, Rodney talvez tenha julgado que a rapariga tinha sido enviada por eles, de modo que parou, sorriu e, alegremente, lhe disse que sim. Então a rapariga cuspiu-lhe na cara. Olhando para ela sem compreender, Rodney perguntou à rapariga por que o fizera mas, como ela não respondeu, após um instante de hesitação, limpou a saliva e recomeçou novamente a andar. Os estudantes seguiram-nos. Entoavam em coro palavras de ordem contra a guerra, riam-se, gritavam-lhes coisas que eles não entendiam, insultavam-nos. Até que Rodney não aguentou mais, deu meia-volta e enfrentou-os. O soldado negro agarrou-o por um braço e pediu-lhe que não ligasse mas Rodney desembaraçou-se e, enquanto os estudantes continuavam com os seus cânticos e com os seus gritos, tentou em vão falar com eles, tentou raciocinar mas acabou por desistir, dizendo-lhes que eles não lhes tinham feito nada e que os- deixassem em paz. Já se preparavam para seguir o seu caminho quando um comentário injurioso ou desafiador, proferido por um rapaz de cabelo muito comprido, atravessou o alvoroço dos estudantes. Imediatamente, Rodney atirou-se ao rapaz e começou a dar-lhe uma sova que o teria matado se não fosse a intervenção in extremis da polícia do aeroporto. «E não se passou mais nada», disse Pludovsky ao pai de Rodney, reclinando-se na sua cadeira com um cigarro na mão e um ar indisfarçável de satisfação, imprimindo ao tom de voz uma ligeireza de quem acaba de contar uma travessura não isenta de piada. O pai de Rodney não sorriu, não disse nada, limitou-se a permanecer alguns instantes em silêncio e depois, sem olhar para ele, pediu ao advogado que lhe contasse o que o rapaz dissera a Rodney. «Ah, isso...», disse Pludovsky, tentando sorrir. «Bem, a verdade é que não me lembro muito bem».

«Claro que lembra», disse sem hesitar o pai de Rodney. «E quero que mo diga.» Repentinamente incomodado, Pludovsky suspirou, apagou o cigarro, entrelaçou as mãos em cima da sua grande mesa de carvalho. «Como queira», disse, aborrecido, como se, no último momento, se lhe tivesse escapado um caso da forma mais estúpida. «O que o rapaz disse foi: 'Vejam que cobardes são estes assassinos de crianças.»

Quando o pai de Rodney saiu do escritório do advogado já tinha compreendido que a altercação de O'Hare tinha sido apenas o reflexo do que acontecera nos últimos meses e uma antecipação do que iria acontecer no futuro. Não se enganou. Porque a vida de Rodney nunca mais voltou a parecer-se àquela que ele tinha abandonado à força um ano e meio antes com a ida para o Vietname. No mesmo dia da sua chegada a Rantoul, os amigos de sempre tinham preparado uma festa de boas-vindas. A mãe convenceu-o a comparecer mas, embora tenha saído de casa vestido para a ocasião, com as chaves do carro na mão e regressado de madrugada, na manhã seguinte os seus pais souberam que nem sequer tinha passado pela festa e, nos dias que se seguiram, souberam por vizinhos e amigos que Rodney tinha passado aquela noite ao telefone numa cabina perto da estação de comboios e a dar voltas pela cidade no Ford do pai. Poucos meses depois, Julia e ele casaram-se e foram viver para um subúrbio de Minneapolis onde ela leccionava numa escola secundária. A união durou apenas dois anos e apenas graças à tenacidade de Julia. De facto, bastou muito menos tempo para que ela se apercebesse de que aquele era um casamento impossível, tal como qualquer outro que Rodney tivesse tentado por essa altura. Este, aparentemente, tinha regressado do Vietname mas na verdade era como se ainda lá estivesse ou como se tivesse trazido o Vietname para casa. Pior ainda, enquanto estava no Vietname, Rodney não parava de falar do Vietname nas cartas que escrevia aos pais, a Julia, aos amigos; agora, em vez disso, deixou por completo de o fazer, não por não o desejar - a verdade era antes a contrária, provavelmente não havia nada no mundo que desejasse tanto -, mas por não conseguir, quem sabe se por ter a certeza de que ninguém estava em condições de entender o que tinha para contar, ou por pensar que não devia fazê-lo, como se tivesse visto e vivido coisas que todos os que o conheciam deviam continuar a ignorar. A verdade é que saltava à vista que, se enquanto estava no Vietname não pensava senão nos Estados Unidos, agora que estava nos Estados Unidos não pensava senão no Vietname. É possível que em muitos momentos sentisse nostalgia da guerra, que pensasse que nunca deveria ter regressado a casa e que deveria ter lá morrido, lutando ombro a ombro juntamente com os seus companheiros. É possível que em muitos momentos sentisse que, comparada com a vida de fera encurralada que agora levava nos Estados Unidos, a vida no Vietname era mais séria, mais verdadeira, mais digna de ser vivida. É possível que compreendesse que nunca mais poderia voltar ao país que tinha abandonado ao partir para o Vietname, não apenas porque já não existia e era outro, mas porque também ele já não era o mesmo que o abandonara. É possível que depressa tenha aceitado que ninguém regressa do Vietname, que, uma vez tendo lá estado, o regresso é impossível. E é quase certo que, tal como tantos outros veteranos do Vietname, se tivesse sentido enganado porque assim que pisou solo americano soube que todo o país o desprezava ou, no melhor dos casos, que desejava escondê-lo como se a sua simples presença fosse uma vergonha, um insulto ou uma acusação. Rodney não podia esperar que o recebessem como a um herói (porque não o era e porque não ignorava que aos derrotados ninguém os recebe como heróis, mesmo que o sejam) mas também não esperava que o próprio país que lhe exigira abdicar da sua consciência e cumprir o seu dever de americano não desertando para o Canadá e participando numa guerra infame e alheia, evitasse agora a sua presença como se se tratasse de um criminoso ou de um empestado. Ele e tantos veteranos como ele, se eram culpados de alguma coisa, eram-no porque os tinham levado a sê-lo as circunstâncias brutais da guerra e o país que os tinha obrigado a travá-la. Ou, pelo menos, é o que Rodney deve ter pensado nessa altura, tal como o pensaram tantos outros veteranos do Vietname no seu regresso a casa. Quanto à sua antiga militância anti-belicista, é indubitável que Rodney tinha muito mais argumentos que nos seus anos de estudante para considerar aquela guerra uma burla orquestrada pelo fanatismo e pela irresponsabilidade da classe política e alimentada pelo uso fraudulento que esta fizera da retórica dos velhos valores norte-americanos, mas também é inegável - ou era-o, pelo menos, para o pai de Rodney - que o facto de estar ou não contra a guerra tinha ficado reduzido, aos seus olhos, à categoria de Uma questão quase banal, transferida para segundo plano pela lancinante ignomínia de os Estados Unidos terem enviado milhares e milhares de rapazes para o matadouro, abandonando-os depois à sua sorte num lugar perdido no mapa, doentes, exaustos e enlouquecidos, ébrios de desejos e de impotência, lutando até à morte contra a sua própria sombra nos lamaçais de um país calcinado.

Mas tudo isto não são, ao fim e ao cabo, mais do que conjecturas. É razoável supor que, durante muito tempo após o seu regresso do Vietname, Rodney pensasse ou sentisse o que se disse anteriormente; não é impossível supor que pensasse ou sentisse exactamente o contrário. Os factos, no entanto, são o que são; cinjo-me a eles. Nos primeiros meses que passou nos Estados Unidos, Rodney quase não saiu de casa (nem da casa familiar de Rantoul nem da que partilhou com Julia em Minneapolis) e, quando começou a fazê-lo, foi apenas para se envolver em discussões que mais de uma vez degeneraram em lutas quase sempre provocadas pela sua tendência incontrolável para interpretar qualquer comentário sobre o Vietname ou sobre a sua permanência no Vietname, por inofensivo ou anódino que fosse, como uma agressão pessoal. Perdeu os seus amigos de Chicago e também os de Rantoul e cortou qualquer vínculo com os antigos companheiros do Vietname, talvez porque, voluntária ou involuntariamente, desejava esconder a sua qualidade de antigo combatente, o que explicaria o facto de, durante muito tempo, se ter recusado terminantemente a procurar ajuda ou companhia às sedes da Associação de Veteranos. Apesar do empenho incansável de Julia, pouco tempo depois de casarem, o casamento já se tinha degradado de forma irreversível. Quanto à família, só se relacionava com a mãe evitando, durante muitos anos, a companhia e as conversas com o pai. Bebia e fumava imenso, whisky, cerveja, tabaco e marijuana e caía com frequência em depressões que o mergulhavam numa prostração de semanas ou meses e o obrigavam a encher-se de medicamentos. Nunca mais foi pescar ou caçar. Nunca mais voltou a falar do irmão Bob. Vivia num estado de inquietação permanente. Durante quase ano e meio sofreu de fortes insónias e só conseguia vencê-las quando ia ao cinema com Julia, que lhe dava a mão e o sentia, pouco a pouco, abandonar-se na escuridão sussurrante da sala e, finalmente, mergulhar no sono como nas profundezas de um lago. De dia nunca se sentava de costas voltadas para uma janela, estava obcecado em manter fechadas todas as persianas de casa. Passava as noites desafogando a sua inquietação pelos corredores e antes de finalmente se meter, em vão, na cama, iniciava um ritual inevitável que consistia em inspeccionar todas e cada uma das portas e janelas de casa, em verificar que não havia qualquer obstáculo que dificultasse a sua fuga e que tudo o que necessitava para se defender estava à mão, bem como em ensaiar mentalmente o modus operandi adequado para a possibilidade inverosímil de acontecer uma emergência. Com o tempo conseguiu adormecer na sua própria cama mas os pesadelos sobressaltavam-no frequentemente e um ruído inofensivo no jardim bastava para o acordar, saindo intempestivamente para averiguar o que o tinha provocado. Ao divorciar-se de Julia voltou para casa dos pais e, nos dois anos que se seguiram, atravessou várias vezes o país de ponta a ponta. Um dia, de repente, fazia as malas, metia-as no carro e partia sem aviso prévio nem destino concreto e, passados um, dois, três ou quatro meses, voltava à casa familiar sem dar a mais pequena explicação como se tivesse ido passear pelo bairro. Sobreviveu a duas tentativas de suicídio, acabando por aceitar, a partir da segunda delas, que o internassem nos serviços médicos da Associação de Veteranos de Chicago. Não demorou muito tempo a pôr-se à procura de trabalho, mas sim a encontrá-lo porque, embora gozasse de algumas prerrogativas devido à sua situação de antigo combatente, durante muito tempo considerou humilhante socorrer-se delas e, cada vez que se apresentava a uma entrevista laboral, chegava a casa dominado por uma fúria incontrolável, convencido de que os seus empregadores passavam a vê-lo como um monstro de duas cabeças assim que descobriam que era um veterano de guerra. O primeiro emprego que conseguiu foi um trabalho cómodo e razoavelmente remunerado na administração de uma fábrica de conservas, mas só durou alguns meses, mais ou menos como os que se seguiram. Mais tarde, tentou dar aulas de línguas em colégios de Rantoul ou dos arredores de Rantoul e tentou também recomeçar os seus estudos, matriculando-se num mestrado de Filosofia na Nortwestern University. Foi tudo inútil. Quando Rodney regressou do Vietname transformado numa sombra derrotada do rapaz brilhante, trabalhador e ajuizado que fora, o pai esperou que o tempo acabasse por devolver a sua natureza perdida. Mas tinham decorrido oito anos desde o seu regresso e Rodney continuava mergulhado numa bruma impenetrável, transformado num fantasma ambulante ou num zombie. Em Rantoul passava os dias inteiros deitado na cama a ler romances, fumar marijuana e ver filmes antigos na televisão e, quando saía de casa, era só para conduzir durante horas por estradas que não levavam a lado nenhum ou para beber sozinho nos bares da cidade. Era como se vivesse hermeticamente fechado numa bolha de aço. Mas o mais estranho (ou o que o pai achava estranho), é que não parecia viver essa situação de desamparo e de solidão absoluta como uma condenação mas como o fruto festivo de uma intenção precisa, como que o antídoto ideal contra a desconfiança desmedida que sentia relativamente aos outros e contra a sua não menos desmedida desconfiança em si próprio. De modo que, a dada altura, os pais de Rodney acabaram por aceitar, com uma resignação não isenta de alívio, que o Vietname tinha transformado o seu filho para sempre e que este nunca mais voltaria a ser o que fora.

De repente tudo mudou. Um ano e meio antes de Rodney começar a dar aulas em Urbana, a mãe morreu com um cancro no estômago. A agonia foi longa mas não penosa e Rodney suportou-a sem sobressaltos nem dramatismos, renunciando de um dia para outro aos seus hábitos de ócio indefinido para cuidar da moribunda que, durante todos aqueles anos de convalescença da guerra, tinha sido o seu único apoio moral; de mais a mais, na tarde em que a enterraram ninguém o viu derramar uma única lágrima por ela. No entanto, dias depois, ao voltar de uma viagem de trabalho, o pai de Rodney encontrou o filho apoiado à mesa da cozinha, iluminado pelo sol brilhante do meio-dia que entrava pela janela e chorando baba e ranho. Não se lembrava de ver Rodney chorar desde criança mas não disse nada. Deixou as suas coisas no vestíbulo, voltou à cozinha, preparou duas infusões de macela, serviu uma ao filho e serviu-se da outra, sentou-se à mesa, agarrou-lhe numa mão, grande, áspera e venosa, e ficou muito tempo junto dele, em silêncio, bebendo o seu chá de macela e também o de Rodney, sem lhe largar a mão, ouvindo-o chorar como se durante todos aqueles anos tivesse acumulado uma reserva inesgotável de lágrimas e o seu pranto nunca mais se fosse extinguir.

Há muito tempo que pai e filho conviviam na mesma casa quase sem dirigirem palavra um ao outro mas, ao entardecer, Rodney começou a falar e foi só nessa altura que o pai teve um vislumbre ofuscante da vertigem de remorsos em que o seu filho vivera todos aqueles anos, porque compreendeu que Rodney se sentia culpado não só pela morte do irmão, da mãe e de um número indefinido de pessoas, mas também por não ter tido a coragem de obedecer à sua consciência, tendo-se vergado à ordem de ir para a guerra, por ter abandonado aí os seus companheiros, por ter presenciado o horror sem atenuantes do Vietname e por ter sobrevivido a ele. A conversa acabou de madrugada e, no dia seguinte, quando acordaram, Rodney pediu o carro ao pai e foi a Chicago. A viagem repetiu-se na semana seguinte e na outra, e rapidamente as visitas de Rodney à capital se transformaram numa rotina semanal. Ao princípio ia e vinha no mesmo dia, saindo muito cedo e voltando à noite, mas com o tempo começou a ausentar-se de Rantoul por dois ou até três dias. Para não perder a melhoria que a morte da mulher introduzira na relação com o seu filho, o pai de Rodney não o incomodava, limitando-se a emprestar-lhe o carro e a perguntar-lhe quando pensava voltar. Mas uma tarde, no regresso de uma dessas viagens, Rodney contou-lhe; contou-lhe que ia todas as semanas a Chicago à sede da Associação de Veteranos do Vietname, à mesma onde anteriormente fora internado duas vezes e tratado à base de injecções de Largactil, onde recebia ajuda de um psiquiatra especializado em transtornos provocados pela guerra e onde se reunia com outros veteranos com quem colaborava na organização de sessões públicas, manifestações e conferências, bem como na elaboração de uma revista onde, durante vários anos, publicou artigos sobre cinema e literatura e escritos furibundos contra a frivolidade delituosa da classe política do seu país e a sua submissão servil aos ditames das grandes corporações económicas. A notícia não surpreendeu o pai de Rodney que, nessa altura, já se tinha apercebido há algum tempo da mudança pela qual o seu filho passara em poucos meses. Não só em relação a ele. Rodney tinha abandonado o consumo de álcool e de marijuana, tinha começado a partilhar a lida da casa, a desterrar os seus hábitos de excêntrico e a recuperar alguns dos seus amigos de sempre. Pouco a pouco, esta transformação tornou-se mais sólida e mais visível porque Rodney não tardou a aceitar um emprego como contabilista de um restaurante em Urbana, a começar a colaborar, como voluntário, com um pequeno sindicato independente e a frequentar o local que os Veteranos das Guerras Estrangeiras tinham na cidade. Era como se, com a morte da mãe, a vida inteira de Rodney tivesse entrado em crise; como se, graças às suas viagens a Chicago e à ajuda da Associação de Veteranos, tivesse começado a fender-se a bolha onde asfixiava há mais de quinze anos e estivesse a vencer a vergonha de ser um antigo combatente do Vietname ou a descobrir alguma forma de orgulho no facto de ser um sobrevivente daquela guerra fantasmagórica. De forma que, quando conseguiu o seu emprego de professor de Espanhol em Urbana, Rodney levava uma vida tão organizada e laboriosa que nada faria suspeitar que não tivesse deixado definitivamente para trás as sequelas intermináveis da sua passagem pelo Vietname.

Mas não as tinha deixado para trás. O pai de Rodney soube disso numa noite do Natal de 1988, poucos meses antes de me contar a história do filho na sua casa de Rantoul e apenas alguns dias depois de Rodney e eu nos termos despedido à porta do Treno's com a promessa, posteriormente frustrada, de que voltaríamos a ver-nos quando eu regressasse da minha viagem pelo Middle West na companhia de Barbara, Gudrun e Rodrigo Ginés. Naquela tarde, um homem tinha telefonado para casa a perguntar por ele. Rodney não estava de modo que o pai quis saber quem lhe telefonava. «Tommy Birban», disse o homem. O pai de Rodney nunca tinha ouvido aquele nome mas não estranhou esse facto porque, desde que Rodney tinha quebrado o isolamento da sua bolha, não era raro que desconhecidos telefonassem para sua casa. O homem disse que era amigo de Rodney, prometeu voltar a telefonar daí a pouco tempo e deixou um número de telefone para o caso de Rodney querer antecipar-se e telefonar-lhe primeiro. Quando Rodney chegou a casa nessa noite o pai deu-lhe o recado e entregou-lhe um papel com o número de telefone do amigo; a reacção do filho surpreendeu-o: um pouco pálido, agarrando no papel que lhe estendia, perguntou-lhe se tinha a certeza de que era esse o nome do desconhecido e, embora ele lhe tenha garantido que sim, fê-lo repetir várias vezes, para se certificar de que não se enganara. «Passa-se alguma coisa?», perguntou o pai de Rodney. Rodney não respondeu, ou respondeu com um gesto simultaneamente dissuasório e depreciativo.

Mas mais tarde, enquanto jantavam, o telefone voltou a tocar e, antes de o pai poder levantar-se para o atender, Rodney deteve-o em seco com um grito. Os dois homens entreolharam-se e foi nessa altura que o pai de Rodney soube que alguma coisa não estava bem. O telefone continuou a tocar até que, finalmente, se calou. «Se calhar era outra pessoa», disse o pai de Rodney. Rodney não disse nada. «Vai tornar a telefonar, não é verdade?», perguntou o pai de Rodney depois de um silêncio. Nesse momento Rodney assentiu. «Não quero falar com ele», disse. «Diz-lhe que não estou. Ou melhor, diz-lhe que estou de viagem e que não sabes quando volto. Sim, diz-lhe isso.» Naquela noite, o pai de Rodney não arriscou nenhuma outra pergunta porque sabia que o filho não ia responder e passou todo o dia seguinte à espera do telefonema de Tommy Birban. Evidentemente, a chamada chegou e o pai de Rodney atendeu imediatamente o telefone e fez o que o filho lhe pedira que fizesse. «Ontem não me disse que o Rodney estava fora», argumentou Tommy Birban, desconfiado. «Já não me lembro do que lhe disse ontem», respondeu ele. Depois improvisou: «Mas é melhor não tornar a telefonar. O Rodney foi-se embora e não sei onde está nem quando irá voltar.» Estava prestes a desligar quando, no outro lado da linha, a voz de Tommy Birban deixou de soar ameaçadora e soou implorante, como um soluço perfeitamente articulado: «É o pai do Rodney, não é verdade?» Não teve tempo de responder. «Sei que ele está a viver consigo, disseram-me na Associação de Veteranos de Chicago, foram eles que me deram o seu número de telefone. Quero pedir-lhe um favor. Se mo conceder, prometo-lhe que não voltarei a telefonar, mas tem de conceder-mo. Faça o favor de dizer ao Rodney que eu não vou pedir-lhe nada, nem sequer que nos vejamos. A única coisa que quero é falar um bocado com ele, diga-lhe que quero falar um bocado com ele, diga-lhe que preciso de falar com ele. É tudo. Mas diga-lhe, por favor. Dir-lhe-á?» O pai de Rodney não soube como negar-se a cumprir o pedido e o facto de o seu filho o ter recebido sem se alterar nem fazer qualquer comentário permitiu-lhe enganar-se com a ilusão de que aquele episódio que não conseguia nem queria entender tinha terminado sem grandes consequências. Previsivelmente, alguns dias mais tarde, Tommy Birban voltou a telefonar. Nessa altura já Rodney não atendia o telefone, de modo que foi o pai quem o fez.

Tommy Birban e ele discutiram alguns segundos, violentamente, e já estava quase a desligar quando o filho lhe pediu que lhe passasse o telefone; não sem alguma hesitação e avisando-o com o olhar de que ainda estava a tempo de evitar o erro, passou-lho. Os dois antigos amigos falaram durante muito tempo, mas Rodney não permitiu que ouvisse a conversa da qual apenas pescou alguns pedaços desconexos. Nessa noite, Rodney não conseguiu adormecer e, no dia seguinte, Tommy Birban tornou a telefonar e os dois voltaram a conversar durante horas. Este ritual detestável repetiu-se durante mais de uma semana e, no amanhecer do dia de Ano Novo, o pai de Rodney ouviu barulho no rés-do-chão, levantou-se, foi até ao alpendre e viu o filho a meter a última mala no porta-bagagem do Buick. A cena não o surpreendeu; na realidade já quase a esperava. Rodney fechou a mala e subiu as escadas do alpendre. «Vou-me embora», disse. «Ia subir para me despedir.» O pai soube que mentia mas abanou a cabeça afirmativamente. Olhou para a rua coberta de neve, para o céu quase branco, para a luz cinzenta; olhou para o filho, alto e destruído diante dele, e sentiu que o mundo era um lugar vazio, habitado apenas pelos dois. Esteve quase a perguntar-lhe: «Para onde vais?»; esteve quase a dizer-lhe: «Não sabes que o mundo é um lugar vazio?» Mas não o disse. O que disse foi: «Já não vai sendo tempo de esqueceres tudo isso?» «Eu já o esqueci, papá», respondeu Rodney. «Tudo isso é que não se esqueceu de mim.» «E foi a última coisa que o ouvi dizer», concluiu o pai de Rodney, afundado no seu cadeirão de orelhas, tão exausto como se não tivesse dedicado aquela tarde interminável na sua casa de Rantoul a reconstruir para mim a história do seu filho, mas a tentar em vão escalar uma montanha inacessível carregado de equipamento inútil. «Depois demos um abraço e ele foi-se embora. O resto já você sabe.»

E foi assim que o pai de Rodney acabou de me contar a sua história. Nenhum de nós tinha mais nada a acrescentar mas ainda fiquei algum tempo com ele e, durante um período indefinido, que não saberia medir em minutos ou em horas, permanecemos sentados frente a frente, mantendo um simulacro desmaiado de conversa, como se ambos partilhássemos um segredo odioso ou a autoria de um delito, ou como se procurássemos desculpas para que eu não tivesse de enfrentar sozinho o caminho de volta a Urbana e ele a solidão primaveril daquele casarão sem ninguém. Quando, finalmente, decidi ir me embora, já de madrugada, tive a certeza de que recordaria para sempre a história que me tinha contado o pai de Rodney e de que eu já não era o mesmo que, naquela tarde, há muitas horas, tinha chegado a Rantoul. «Você é muito novo para pensar em ter filhos», disse-me o pai de Rodney enquanto nos despedíamos e eu não o esqueci. «Não os tenha porque se arrependerá; embora, se não os tiver, também venha a arrepender-se. A vida é assim: faça o que fizer, arrepender-se-á. Mas deixe-me que lhe diga uma coisa: todas as histórias de amor são insensatas, porque o amor é uma doença; mas ter um filho é arriscar-se a uma história de amor tão insensata que só a morte é capaz de a interromper.»

Foi o que me disse o pai de Rodney e que eu não esqueci.

De mais a mais, nunca mais voltei a vê-lo.

 

                       PORTA DE PEDRA

Regressei a Espanha pouco mais de um ano depois daquela tarde de Primavera em que o pai de Rodney me contou a história do seu filho. Durante o tempo que ainda passei em Urbana aconteceram muitas coisas. Não vou tentar contá-las aqui, não apenas porque seria entediante, mas sobretudo porque a maior parte delas não pertence a esta história. Ou talvez pertença e eu ainda não me tenha apercebido disso. É indiferente. Direi apenas que no Verão passei um mês de férias em Espanha; que no ano lectivo seguinte, de volta a Urbana, continuei com as minhas aulas e com as minhas coisas e que, por essa altura, comecei uma tese de doutoramento (que nunca acabei) dirigida por John Borgheson; que tive amigos e amantes e que me tornei mais amigo dos amigos que já tinha, sobretudo de Rodrigo Ginés, de Laura Burns, de Felipe Vieri; que estive ocupado a nascer e não estive ocupado a morrer; que durante todo aquele tempo trabalhei com afinco no meu romance. Tanto, que na Primavera do ano seguinte já o tinha terminado. Não tenho a certeza de que fosse um bom romance, mas era o meu primeiro romance e escrevê-lo tornou-me extremamente feliz pela simples razão de ter demonstrado a mim próprio que era capaz de escrever romances. Por via das dúvidas acrescentarei que não era sobre Rodney embora nele aparecesse uma personagem secundária cujo aspecto físico alguma coisa devia ao aspecto físico de Rodney; era, pelo contrário, um romance de fantasmas ou de zombies que decorria em Urbana, protagonizado por uma personagem exactamente igual a mim e que se encontrava exactamente nas mesmas circunstâncias que eu... De modo que, quando me fui embora de Urbana, ia carregado com o meu primeiro romance, sentindo-me bastante feliz e sentindo também que, embora não tivesse viajado muito, nem tivesse visto muito mundo, nem tivesse vivido com muita intensidade ou acumulado muitas experiências, aquela longa temporada nos Estados Unidos tinha sido o meu verdadeiro doutoramento; ia convencido de que já não tinha mais nada para aprender ali e de que, se queria ser um escritor a sério e não um fantasma ou um zombie - como Rodney, como as personagens do meu romance e como alguns habitantes de Urbana -, então tinha de regressar imediatamente a casa.

E foi o que fiz. Mesmo que estivesse disposto a voltar a qualquer custo, a verdade é que o regresso acabou por ser menos incerto do que o previsto porque, no mês de Maio, justamente quando me preparava para fazer as malas, Marcelo Cuartero me telefonou de Barcelona para me oferecer um lugar de professor associado na Autónoma. O salário era pequeno mas, juntamente com as receitas que me proporcionavam alguns trabalhos circunstanciais, era o bastante para alugar um estúdio no bairro de Sant Antoni e para sobreviver sem grandes apertos à espera da publicação do romance. Foi assim que comecei a recuperar com avidez a minha vida de Barcelona; naturalmente, também recuperei Marcos Luna. Nessa altura, Marcos já vivia com Patrícia, uma fotógrafa que trabalhava . para uma revista de moda, ganhava a vida a desenhar num jornal e tinha começado a expor com alguma regularidade e a fazer nome entre os pintores da sua geração. Foi precisamente Marcos que, no fim daquele mesmo ano, depois de o meu romance ter sido publicado numa editora minúscula no meio de um silêncio quebrado apenas por uma resenha inútil e delirantemente elogiosa de um discípulo de Marcelo Cuartero (ou do próprio Marcelo Cuartero sob pseudónimo), me conseguiu uma entrevista com o subdirector do seu jornal que, por sua vez, me convidou a escrever crónicas e resenhas para o suplemento cultural. De modo que, mais ou menos e com a ajuda de Marcos e de Marcelo Cuartero, comecei a organizar a minha vida em Barcelona enquanto metia mãos à obra e escrevia o meu segundo romance. No entanto, muito antes de conseguir terminá-lo apareceu Paula, que acabou por alterar tudo, incluindo o próprio romance. Paula era loura, tímida, espigada e diáfana, uma daquelas trintonas disciplinadas e esquivas cuja altivez de aparência é uma máscara transparente da sua imperiosa necessidade de afecto. Acabava, nessa altura, de se separar do seu primeiro marido e trabalhava na secção cultural do jornal; como eu quase não ia à redacção, demorei bastante tempo a conhecê-la, mas quando finalmente o fiz compreendi que o pai de Rodney tinha razão e que apaixonar-se é deixar-se vencer ao mesmo tempo pela insensatez e por uma doença que só o tempo cura. O que quero dizer é que me apaixonei por Paula de tal maneira que, assim que a conheci, tive a certeza que têm todos os apaixonados: a de que, até então, nunca me tinha apaixonado por ninguém. O idílio foi maravilhoso e extenuante mas foi, sobretudo, uma insensatez e, como uma insensatez leva a outra, passados alguns meses fui viver com ela, depois casámo-nos e mais tarde tivemos um filho, Gabriel. Todas estas coisas aconteceram num muito breve lapso de tempo (ou no que me pareceu um muito breve lapso de tempo) e, quando me dei conta, já estava a viver numa casinha geminada, com jardim e muito sol, num bairro residencial dos arredores de Gerona, transformado de repente em protagonista quase involuntário de uma insípida imagem de bem-estar provinciano que nem no pior dos meus pesadelos de jovem aspirante a escritor saturado de sonhos de triunfo teria podido imaginar.

Mas, para minha surpresa, a decisão de mudar de cidade e de vida acabou por ser acertada. Teoricamente tínhamo-la tomado porque Gerona era um lugar mais barato e mais tranquilo que Barcelona, de onde nos podíamos pôr no centro da capital numa hora, mas na prática e com o tempo descobri que as vantagens não acabavam aí: como em Gerona o salário de Paula no jornal quase que chegava para satisfazer as necessidades da família, rapidamente pude abandonar o trabalho na universidade e os artigos do jornal para me dedicar em pleno à escrita dos meus livros; a isto é preciso juntar o facto de em Gerona dispormos para tudo da ajuda de familiares e de amigos com filhos e de quase não haver distracções, de modo que a nossa vida social era nula. Para além disso, Paula ia e vinha diariamente de Barcelona, enquanto eu me ocupava da casa e de Gabriel, o que me deixava muito tempo livre para o meu trabalho. Os anos mais felizes da minha vida e quatro livros - dois romances, uma colectânea de crónicas e um ensaio -, foi O resultado desta teia favorável de circunstâncias. É verdade que todos eles passaram tão despercebidos como o primeiro, mas também é verdade que eu não vivia essa invisibilidade como uma frustração, muito menos como um fracasso. Em primeiro lugar, por uma mistura defensiva de humildade, arrogância e cobardia, não me sentia amargurado por os meus livros não merecerem mais atenção do que aquela que recebiam pois não achava que a merecessem e, ao mesmo tempo, porque pensava que muito poucos leitores estavam em condições de os apreciar, e também porque secretamente receava que, se merecessem mais atenção do que aquela que recebiam, acabariam fatalmente por revelar a sua flagrante pobreza. E, em segundo lugar, porque nessa altura já tinha compreendido que, se era escritor, o era porque me tinha transformado num maluco que tem a obrigação de olhar para a realidade e que às vezes a vê e que, se tinha também escolhido aquela profissão lixada, talvez fosse por não conseguir ser outra coisa além de escritor. Porque, de certa forma, não tinha sido eu quem escolhera aquela profissão, mas fora aquela profissão a escolher-me a mim.

Passou-se o tempo. Comecei a esquecer-me de Urbana. Não soube esquecer, no entanto (ou não completamente), os amigos de Urbana, sobretudo porque, ocasionalmente e sem que me propusesse a isso, continuavam a chegar-me notícias deles. O único que ainda lá estava era John Borgheson, que voltei a ver várias vezes, cada vez mais catedrático venerável e cada vez mais britânico, nas suas visitas ocasionais a Barcelona. Felipe Vieri tinha acabado os seus estudos em Nova Iorque, tinha conseguido um emprego de professor na Universidade de Nova Iorque e, desde essa altura, vivia em Greenwich Village, convertido no que sempre desejara ser: um nova-iorquino dos pés à cabeça. A vida de Laura Burns era mais turbulenta e mais variada: tinha terminado o seu doutoramento em Urbana, casara com um engenheiro informático do Havai, divorciara-se e, depois de ter peregrinado por várias universidades da Costa Oeste, tinha aterrado em Oklahoma City, tornando a casar-se, desta vez com um homem de negócios que a tinha arrancado do seu trabalho na universidade e a obrigava a viver dividida entre Oklahoma e a Cidade do México. Quanto a Rodrigo Ginés, também ele terminara o seu doutoramento em Urbana e, depois de leccionar dois anos na Purdue University, tinha regressado ao Chile, não a Santiago mas a Coyhiaque, no Sul do país, onde se casara novamente, leccionando na Universidade de Los Lagos.

Rodney foi a única pessoa de quem não soube nada durante muito tempo e isto apesar de, cada vez que entrava em contacto com alguém que tinha estado em Urbana na minha época (ou imediatamente antes, ou imediatamente depois), acabar sempre por perguntar por ele. Mas não saber nada de Rodney também não significava que o tivesse esquecido. De facto, agora seria fácil imaginar que nunca deixei de pensar nele durante todos aqueles anos; a realidade é que isso só em parte é verdade. É verdade que de vez em quando perguntava a mim próprio o que teria sido feito de Rodney e do pai, quanto tempo teria demorado o meu amigo a voltar para casa após a sua fuga e quanto tempo teria demorado a voltar a partir após o seu retorno. Também é verdade que pelo menos algumas vezes fui seriamente atacado pelo desejo ou pela urgência de contar a sua história e que, cada vez que isso aconteceu, limpei o pó das três pastas de cartolina preta com fecho de borracha que o pai dele me dera e reli as cartas que continham e as notas que eu próprio tomara, assim que voltei a Urbana, do relato que ele me fizera naquela tarde em Rantoul, tal como é verdade que me documentei a fundo lendo tudo o que me caiu nas mãos sobre a Guerra do Vietname, e que tomei páginas e páginas de notas, fiz esquemas, defini personagens e planeei cenas e diálogos, mas a verdade é que ficavam sempre peças soltas que não encaixavam, becos sem saída impossíveis de clarificar (sobretudo dois: o que tinha acontecido em My Khe e quem era Tommy Birban), e, talvez por isso, cada vez que resolvia começar a escrever, acabava por desistir passado pouco tempo, atolado na minha impotência para dotar de sentido aquela história que, no fundo, talvez não o tivesse (ou isso era, pelo menos, o que julgava na altura). Era uma sensação estranha, como se, embora o pai de Rodney me tivesse tornado de alguma forma responsável pela história desastrosa do filho, essa história acabasse por não me pertencer totalmente e não fosse eu quem devesse contá-la e, portanto, me faltassem a coragem, a loucura ou o desespero que contá-la exigiria, ou talvez como se ainda fosse uma história inacabada, que ainda não tinha atingido o ponto de cocção, maturidade ou coerência que faz com que uma história deixe de resistir obstinadamente a ser escrita.

E é verdade também que, tal como me tinha acontecido em Urbana com o meu primeiro romance frustrado, durante anos fui quase incapaz de me pôr a escrever sem sentir a respiração de Rodney atrás de mim, sem pensar qual teria sido a sua opinião acerca desta frase ou daquela, deste adjectivo ou daquele - como se a sombra de Rodney fosse ao mesmo tempo juiz furibundo e anjo tutelar -, e, evidentemente, era ainda mais incapaz de ler os autores favoritos de Rodney - e lia-os muito - sem discutir mentalmente os gostos e as opiniões do meu amigo. Tudo isso é verdade mas é-o do mesmo modo o facto de, à medida que o tempo passava e a lembrança de Urbana se ia dissolvendo na distância como o rasto esponjoso de um avião que se afasta num céu puríssimo, também a lembrança de Rodney se dissolveu com ele, de modo que quando o meu amigo reapareceu de forma inesperada eu convencera-me de que não só nunca escreveria a sua história, como nunca voltaria a vê-lo novamente, a menos que um acaso improvável o impedisse.

Aconteceu há três anos mas não aconteceu por acaso. Eu tinha publicado, há alguns meses, um romance que girava em volta de um episódio menor acontecido durante a guerra civil espanhola; excepto pela temática, não era um romance muito diferente dos meus romances anteriores - embora mais complexo e mais intempestivo, porventura mais extravagante - mas, para surpresa de todos salvo raras excepções, a crítica acolheu-o com algum entusiasmo e, no pouco tempo decorrido desde o seu aparecimento, tinha vendido mais exemplares que todos os meus livros anteriores juntos o que, para dizer a verdade, também não era suficiente para o converter num bestseller. Tratava-se, quando muito, de um ruidoso succès d'estime, embora, em todo o caso, mais do que suficiente para tornar feliz ou mesmo provocar a euforia de quem, como eu, por essa época já tinha começado a incorrer no cepticismo ressabiado daqueles escribas quarentões que abandonaram há que tempos e em silêncio as frenéticas aspirações de glória que alimentaram na sua juventude e se resignaram à dourada mediania que o futuro lhes reserva quase sem mais tristeza ou cinismo que os indispensáveis para sobreviver com alguma dignidade.

Foi nesse momento de alegria inesperada que Rodney reapareceu. Num sábado à noite, no regresso de uma digressão promocional por várias cidades andaluzas, Paula recebeu-me em casa com a notícia de que, nesse mesmo dia, Rodney tinha estado em Gerona.

- Quem? - perguntei, incrédulo.

- O Rodney - repetiu Paula. - O Rodney Falk. O teu amigo de Urbana.

Evidentemente, eu tinha-lhe falado muitas vezes de Rodney mas o facto não diminuiu a estranheza que me provocou ouvir dos lábios da minha mulher aquele nome familiar e estrangeiro. Em seguida, Paula começou a contar-me a visita de Rodney. Ao que parece, a meio da manhã tinham tocado à campainha de casa; como não esperava ninguém, antes de abrir, Paula espreitou pelo visor e assustou-a tanto ver do outro lado da porta um desconhecido corpulento com o olho direito tapado por uma valente pala de pano que esteve quase a ficar em silêncio e a não abrir. A curiosidade, no entanto, pôde mais que a inquietação e acabou por perguntar quem era. Rodney identificou-se, perguntou por mim, tornou a identificar-se e, no fim, Paula caiu em si, abriu-lhe a porta, disse que eu estava de viagem, convidou-o a entrar e a tomar café. Enquanto o bebiam, observados a uma distância receosa por Gabriel, Rodney contou que estava há uma semana a viajar por Espanha, que tinha chegado há três dias a Barcelona, tinha visto o meu último romance numa livraria, o tinha comprado, o tinha lido, tinha telefonado para a editora e, depois de muito insistir e de enganar uma das raparigas do departamento de imprensa, tinha conseguido que lhe dessem os meus dados. Segundo Paula, talvez por ter achado graça ao castelhano ortopédico de Rodney, ao seu intragável catalão aprendido comigo em Urbana ou por Rodney ter tido a astúcia ou o instinto de o tratar como um adulto, que é a melhor forma de conquistar as crianças, não decorreu muito tempo até Gabriel abandonar a sua desconfiança inicial e confraternizar de imediato com o meu amigo, de modo que, quando Paula se deu conta, Gabriel e Rodney já estavam a jogar pingue-pongue no jardim. Os três passaram o dia juntos: almoçaram em casa, passearam pela zona antiga da cidade e estiveram bastante tempo num bar da praça de Sant Domènec a jogar matraquilhos, um jogo que apaixonava Gabriel e que Rodney desconhecia totalmente, o que, sempre segundo Paula, não o impediu de jogar com a paixão do neófito nem de festejar aos gritos cada golo, abraçando, atirando ao ar e beijando Gabriel. De modo que, ao entardecer, quando Rodney lhes participou que tinha de se ir embora, Gabriel e Paula tentaram convencê-lo a mudar de opinião com o argumento de que eu chegaria dentro de poucas horas. Mas não conseguiram. Rodney alegou que naquela mesma noite em Barcelona tinha de apanhar um comboio para Pamplona, onde tinha previsto passar as festas de San Fermín.

- Está hospedado aqui - disse Paula ao terminar o seu relato, estendendo-me uma folha quadriculada com um nome e um número de telefone garatujados pela letra bicuda e inconfundível de Rodney. - Hotel Albret.

Naquela noite manteve-me acordado uma dupla inquietação que só em parte tinha relação com a visita de Rodney. Por um lado, há menos de vinte e quatro horas que tinha ido para a cama com a escritora local encarregada de apresentar o meu livro em Málaga; não era a primeira vez que enganava Paula nos últimos meses mas, depois de cada infidelidade, os remorsos torturavam-me furiosamente durante dias. Mas, por outro lado, também me inquietava o reaparecimento inopinado de Rodney, justamente no momento da minha consagração como escritor, como se receasse que o meu amigo não tivesse vindo ter comigo para festejar o meu sucesso mas para desvendar o que este tinha de farsa, humilhando-me com a lembrança dos meus ridículos inícios de aspirante a escritor em Urbana. Julgo que naquela noite adormeci sem ter apaziguado os remorsos mas decidido a não telefonar a Rodney e a esquecer a sua visita quanto antes.

No entanto, no dia seguinte, parecia não haver na minha casa outro tema de conversa que não fosse Rodney. Entre outras coisas, Paula e Gabriel contaram-me que o meu amigo vivia em Burlington, uma cidade do estado de Vermont, que tinha uma mulher, que acabara de ter um filho e que trabalhava numa imobiliária. Não sei o que me surpreendeu mais, se o facto de Rodney, sempre tão avesso a falar comigo da sua vida privada, tivesse falado dela com Paula e Gabriel, ou o facto não menos insólito de, a avaliar pelo que tinha contado à minha mulher e ao meu filho, Rodney levar agora uma existência tranquila de pai de família, incompatível com o homem secretamente corroído pelo seu passado, que era em Urbana, sem que ninguém o suspeitasse, como se o tempo decorrido desde então tivesse acabado por sarar as suas feridas de guerra e lhe tivesse permitido sair do túnel interminável de infelicidade por onde andara sozinho e às escuras durante trinta anos. Na segunda-feira, Paula revelou as fotografias que ela e Gabriel tinham tirado com Rodney; eram fotografias felizes. A maior parte delas mostravam apenas Rodney e Gabriel (numa estavam a jogar matraquilhos, noutra estavam sentados na escadaria da catedral, noutra estavam a descer a Rambla de mão dada); mas em duas delas, Paula também aparecia: uma fora tirada na ponte de Les Peixeteries Velles, a outra na porta da estação, mesmo antes de Rodney apanhar o comboio. Finalmente, terça-feira de manhã, depois de ter dado muitas voltas ao assunto, decidi telefonar a Rodney. Não o fiz por durante aqueles três dias Gabriel e Paula me terem perguntado vezes sem conta se já tinha falado com ele mas por três razões diversas e complementares: a primeira foi por ter descoberto que queria falar com Rodney; a segunda foi por ter compreendido que o receio de que Rodney tivesse vindo para estragar a festa do meu sucesso era absurdo e mesquinho; a terceira - embora não menos importante - foi por, nessa altura, já estar há mais de meio ano sem escrever uma única linha e me ter ocorrido a dado momento que, se conseguisse falar com Rodney acerca da sua estadia no Vietname e iluminar os impasses daquela história tal como eu a conhecia através dos testemunhos do pai e das cartas que Rodney e Bob lhe tinham enviado da Frente, então talvez conseguisse entendê-la na totalidade e pudesse empreender com garantias a tarefa sempre adiada de contá-la.

De modo que terça-feira de manhã telefonei para o hotel Albret, em Pamplona, e perguntei por Rodney. Para meu espanto, o recepcionista informou-me de que não estava lá hospedado. Por pensar que havia um engano, insisti e, passados alguns segundos, o recepcionista disse-me que, efectivamente, Rodney tinha dormido no hotel no domingo mas que na segunda de manhã tinha cancelado de repente a reserva de cinco dias que fizera antecipadamente e tinha partido para Madrid. «Disse que se alguém perguntasse por ele disséssemos que estava no hotel San António de La Florida», acrescentou o recepcionista. Perguntei-lhe se tinha o número de telefone do hotel; respondeu-me que não. Pousei o auscultador.. Levantei o auscultador. No serviço de informações da Telefónica obtive o número de telefone do hotel San António de La Florida; telefonei e perguntei por Rodney. «Um momento, por favor», pediram-me.

Esperei um momento, após o qual voltou a ouvir-se a voz do recepcionista. «Sinto muito», disse. «O senhor Falk não está no quarto». Na manhã seguinte tornei a telefonar para o hotel e tornei a perguntar por Rodney. «Acaba de sair», disse-me o mesmo recepcionista (ou talvez fosse outro). Furioso, estive quase a desligar de chofre mas controlei-me a tempo de perguntar até quando Rodney tinha reserva. «Hoje ainda pernoitará aqui», respondeu o recepcionista. «Mas amanhã já não.» Agradeci e desliguei o telefone. Passada meia hora, e uma vez que cheguei à conclusão de que se perdesse o rasto de Rodney não voltaria a recuperá-lo, telefonei novamente para o hotel e reservei um quarto para aquela mesma noite. Depois liguei à Paula para o jornal, informei-a de que ia a Madrid para ver Rodney, meti num saco uma muda de roupa, um livro e as três capas que continham as cartas de Rodney e do irmão e dirigi-me para o aeroporto de Barcelona.

Aterrei em Madrid às seis, e, quarenta minutos mais tarde, depois de contornar a cidade pela M-30, um táxi deixou-me no hotel San António de La Florida, mesmo em frente da estação de comboios de Príncipe Pio. Era um hotel modesto cuja fachada dava para um passeio barulhento de esplanadas e restaurantes típicos. Atravessei um hall e subi umas escadas alcatifadas que davam para uma sala espaçosa; numa das extremidades ficava a recepção, ladeada por duas cabinas telefónicas e uma pirâmide de plástico com postais turísticos. Fiz o registo, deram-me a chave do quarto e perguntei por Rodney. O recepcionista - um homem penteadíssimo, melancólico, de óculos - consultou o livro de registo e a seguir um cacifo.

- Quarto 334 - foi a sua resposta. - Mas agora não está. Quer que lhe dê algum recado quando voltar?

- Diga-lhe que estou hospedado no hotel - respondi. - E que estou à espera dele.

O recepcionista apontou o recado num papel e um empregado conduziu-me até um quarto minúsculo, um pouco sórdido, com as paredes creme e as portas e molduras pintadas de um vermelho sangue. Despi-me, tomei um duche, voltei a vestir-me. Deitado na cama, coberto por uma colcha com um estampado de flores idêntico ao que se via nas cortinas corridas, que permitiam a visão de um nó de vias rápidas e uma esquina profusamente arborizada da Casa de Campo, no outro lado da qual prosseguiam os penúltimos subúrbios da cidade, esperando que a qualquer momento Rodney batesse à porta, entretive-me antecipando mentalmente o nosso encontro. Perguntava a mim próprio até que ponto Rodney teria mudado desde a última vez que o vira, numa noite de Inverno de há catorze anos, no passeio coberto de neve do Treno's; perguntava a num próprio se o pai lhe teria falado da minha visita a Rantoul e do que me tinha contado acerca dele; perguntava a mim próprio se aceitaria falar comigo dos seus anos no Vietname, se aceitaria explicar-me o que tinha acontecido em My Khe e quem era Tommy Hirban; perguntava a mim próprio por que se teria incomodado a ir a Gerona visitar-me e qual a sua opinião sobre o meu romance. Até que, devorado pela impaciência ou farto de fazer perguntas a mim próprio, por volta das nove desci até à recepção e encarreguei o recepcionista de dizer a Rodney, assim que este chegasse, que estava à espera dele na cafetaria.

A cafetaria estava cheia de gente. Sentei-me na única mesa livre, pedi uma cerveja e mergulhei no romance que tinha trazido de casa. Várias cervejas depois, pedi uma sanduíche e mais tarde um café e um whisky duplo. O tempo passou. As pessoas entravam e saíam do local mas Rodney continuava sem aparecer. Já devia ser muito tarde porque o efeito esfuziante do whisky e do café já se tinha desvanecido quando pedi um segundo café. «Sinto muito», respondeu o empregado. «Vamos fechar.» Convenci-o a servir-me o café num copo de plástico e, com ele na mão, subi até à sala onde naquele momento o recepcionista atendia um casal de turistas atrasados. Horas antes, quando tinha descido para jantar, a sala estava bem iluminada por uma fila de focos embutidos no tecto mas agora tinha-se apoderado dela uma escuridão atenuada apenas pela luz da recepção e de dois candeeiros de pé, cujo círculo de luz só chegava para arrancar da sombra as gravuras da velha Madrid, as litografias goyescas e as desengraçadas naturezas-mortas que decoravam as paredes. Sentei-me sob a luz de um dos candeeiros, de costas para a vidraça que percorria a sala de uma ponta a outra e quase diante da escada que vinha do hall, junto da qual havia um relógio de parede que marcava as duas. Um pouco afastado, sob outro candeeiro, um homem sozinho via na televisão um filme a preto e branco. O homem não demorou muito tempo a desligar a televisão e a apanhar o elevador para o seu quarto. Nessa altura, o recepcionista já se livrara há que tempos do casal de turistas e dormitava atrás do balcão. Continuei à espera e, numa pausa da leitura, desanimado pelo cansaço e pelo sono, perguntei a mim próprio se Rodney não se teria escapulido novamente e se o mais sensato não seria ir para a cama.

Apareceu pouco depois. Ouvi abrir-se a porta do hall e, como sempre que isso acontecia, fiquei um momento expectante, passado o qual vi Rodney emergir da penumbra da escada e, sem reparar na minha presença, dirigir-se com o seu passo apressado e desajeitado ao balcão da recepção. Enquanto Rodney acordava o recepcionista do seu sono leve, senti o coração aos pulos: pousei o livro na mesinha de apoio do sofá onde estava sentado, levantei-me e fiquei ali, de pé, sem conseguir dar um passo nem dizer nada, como que enfeitiçado pelo aparecimento esperado do meu amigo. A voz do recepcionista quebrando o silêncio da sala anulou o feitiço.

- Aquele senhor está à sua espera - disse a Rodney, apontando-lhe para trás das costas.

Rodney deu a volta e, após alguns segundos de hesitação, começou a avançar na minha direcção, esquadrinhando a semi-escuridão da sala com um olhar mais inquisitivo que incrédulo, como se os seus olhos feridos não conseguissem reconhecer-me.

- Bem, bem, bem - acabou por grasnar quando ficou a alguns passos de distância, sorrindo com toda a sua maltratada dentadura e abrindo os braços como pás de moinho. - Não posso acreditar. O insigne escritor em pessoa. Mas, pode saber-se que diabo estás aqui a fazer?

Não me deixou responder: demos um abraço.

- Há muito tempo que estás à minha espera? - tornou a perguntar.

- Há um bocado - respondi. - Ontem liguei para o número de Pamplona que deste à Paula e disseram-me que estavas hospedado aqui. Tentei entrar em contacto contigo mas não consegui, de modo que esta tarde apanhei um avião e vim para Madrid.

- Só para me veres? - fingiu surpreender-se, sacudindo-me os ombros. - Pelo menos podias ter-me avisado de que vinhas. Estaria à tua espera.

Como que a desculpar-se, Rodney descreveu as circunstâncias que tinham alterado os seus planos de viagem. Inicialmente, explicou, o seu plano consistia em passar a semana de San Fermín em Pamplona, mas quando chegou à cidade, no domingo anterior, e se instalou no Albret - um hotel bastante afastado do centro, perto da Clínica Universitária -, compreendeu que tinha cometido um erro e que não valia a pena correr o risco de os sanfermines reais desmerecerem os magníficos sanfermines fictícios que Hemingway lhe ensinara a recordar. De modo que no dia seguinte fez novamente as malas, cancelou a reserva do hotel e, sem sequer se permitir um vislumbre da cidade em festa, veio para Madrid. Dito isto, Rodney passou a descrever-me em pormenor o tortuoso itinerário da sua viagem por Espanha, falando depois com entusiasmo da sua visita a Gerona, de Gabriel e de Paula. Enquanto o fazia eu tentava sobrepor a precária memória que conservava dele com a realidade do homem que tinha agora à minha frente; apesar dos catorze anos decorridos desde a última vez que o vira, ambas se encaixavam quase sem necessidade de ajustes porque, em todo aquele tempo, o físico de Rodney não mudara muito. Talvez os quilos que aumentara lhe dessem um aspecto menos agreste ou mais vulnerável, talvez as feições se tivessem esbatido um pouco, talvez o corpo se inclinasse um pouco mais à direita, mas vestia com o mesmo desalinho militante de sempre - sapatilhas, calças de ganga gastas, camisa azul aos quadrados -, e o cabelo comprido, ruivo e um pouco caótico, a inquietação permanente dos seus olhos de cores quase diversas e a sua corpulência desconjuntada de paquiderme continuavam a dotá-lo do mesmo ar de extravio de que eu me recordava.

A dada altura, Rodney interrompeu bruscamente a sua explicação com outra explicação.

- Amanhã apanho o comboio para Sevilha às sete - disse. - Temos toda a noite pela frente. Vamos beber um copo?

Interrogámos o recepcionista sobre algum bar próximo onde pudéssemos beber um copo mas ele disse-nos que no bairro estava tudo fechado àquelas horas e que, no centro, só estariam abertas as discotecas. Aborrecidos, perguntámos-lhe se podia servir-nos alguma coisa na sala.

- Sinto muito - disse. - Mas, se quiserem, no primeiro andar há uma máquina de café.

Subimos até ao primeiro andar, rindo nos das «intermináveis noites madrilenas» que, segundo Rodney, os roteiros turísticos apregoavam e pouco tempo depois voltámos para a sala com a mistela fornecida pela máquina de café e sentámo-nos nos sofás onde eu esperara por ele. Rodney não resistiu à tentação de dar uma vista de olhos fugaz à capa do romance pousado na mesa; porque reparei que fazia uma careta de perplexidade, eu também não resisti à tentação de lhe perguntar se conhecia o autor.

- Claro - respondeu. - Mas é demasiado inteligente para mim. Na realidade, receio que seja demasiado inteligente para ser um bom romancista. Está sempre a ostentar o quão inteligente é, em vez de deixar que o romance o seja. - Bebendo um gole de café, reclinou-se no sofá e continuou: - E falando de romances, suponho que já terás começado a transformar-te num cretino ou num filho da puta, não é verdade? Olhei para ele sem perceber.

- Não fiques com essa cara, homem - riu-se. - Era uma brincadeira. Mas, enfim, afinal de contas é nisso que acabam por transformar-se todos estes tipos de sucesso, ou não?

- Não tenho a certeza - defendi-me. - Se calhar o que o sucesso faz é tirar cá para fora o cretino ou o filho da puta que alguns têm lá dentro. Não é a mesma coisa. Além disso, lamento dizer-te que o meu sucesso é muito relativo, nem sequer chega para isso.

- Não sejas tão optimista - insistiu. - Desde que estou em " Espanha já me falaram duas ou três vezes do teu livro. Malum signum. A propósito, Paula disse-te que até eu o li?

Disse-lhe que sim e, para não me humilhar perguntando-lhe precipitadamente o que tinha achado, com um único movimento acabei de beber o café e pus um cigarro nos lábios. Rodney inclinou-se na minha direcção com o velho Zippo amarelado e ferrugento que conservava do Vietname.

- Bom, na verdade julgo que os li a todos - especificou. Engasguei-me com a primeira passa.

- Todos? - inquiri quando acabei de tossir.

- Creio que sim - disse depois de acender também um cigarro. - De facto, julgo que me tornei um notável especialista na tua obra. Obra com maiúscula ou com minúscula?

- Vai à merda.

Rodney tornou a rir-se, feliz. Parecia realmente contente por estarmos juntos; eu também, embora menos, talvez porque as provocações de Rodney não me permitissem pôr totalmente de parte o receio paranóico de o meu amigo ter vindo dos Estados Unidos só para ridicularizar o meu sucesso ou, pelo menos, para me baixar a crista. Talvez para pôr de parte esse receio, ou para o confirmar, como Rodney não parecia disposto a continuar, perguntei-lhe:

- Bom, não me vais dizer o que achaste?

- Do teu último romance?

- Do meu último romance.

- Achei bom - disse Rodney fazendo um gesto inseguro de assentimento e olhando-me com os seus olhos castanhos e alegres.

- Mas, posso dizer-te a verdade?

- Claro - disse, amaldiçoando a hora em que me lembrara de viajar até Madrid à procura de Rodney. - Desde que não seja demasiado ofensiva.

- Bom, a verdade é que gostei mais do primeiro que escreveste - disse. - O de Urbana, quero dizer. Como se chamava?

- O Inquilino.

- Isso.

- Fico feliz - menti, pensando em Marcelo Cuartero ou no discípulo de Marcelo Cuartero que tinha escrito acerca do livro.

- Tenho um amigo com a mesma opinião. Creio que foi o único que o leu. Numa resenha dizia mais ou menos que entre Cervantes e eu havia um imenso vazio na literatura universal.

Rodney deu uma risada que revelou os seus dentes maltratados.

- O que gosto nele é que parece um romance cerebral mas na realidade está cheio de sentimento - disse depois. - Este último, pelo contrário, parece estar cheio de sentimento mas na realidade é demasiado cerebral.

- Justamente o contrário do que dizem os críticos a quem não agradou. Dizem que é um romance sentimental.

- Não me digas? Nesse caso acertei. Hoje, quando um simplório não sabe como atacar um romance, ataca-o dizendo que é sentimental. Os simplórios não percebem que escrever um romance consiste em escolher as palavras mais emocionantes para provocar a maior emoção possível; também não percebem que uma coisa é o sentimento e outra o sentimentalismo, e que o sentimentalismo é o fracasso do sentimento. E, como os escritores são uns cobardes que não se atrevem a contradizer os simplórios que mandam e que baniram o sentimento e a emoção, o resultado são todos esses romances muito correctos, frios, pálidos e sem vida que parecem saídos directamente do guichet de um funcionário vanguardista para agradar aos críticos... - Rodney deu uma passa sôfrega no cigarro e durante alguns segundos pareceu absorto. - Ouve, diz-me uma coisa - acrescentou depois, olhando-me subitamente nos olhos. - O professor maluco do romance sou eu, não sou?

A pergunta não deveria ter-me apanhado desprevenido. Já disse que no meu romance de Urbana havia uma personagem meio desencantada cujo aspecto físico excêntrico fora inspirado no aspecto físico de Rodney, e naquele momento lembrei-me de que, enquanto escrevia o romance, pensara muitas vezes que, no caso improvável de o ler, Rodney não deixaria de se reconhecer nela. Suponho que para ganhar tempo e encontrar uma resposta convincente que, sem faltar à verdade, não ferisse Rodney, perguntei:

- Que professor? Que romance?

- Que romance poderia ser? - respondeu Rodney. - O Inquilino. Olalde sou eu ou não?

- Olalde é Olalde - improvisei. - E tu és tu.

- Vai enganar outro - disse em castelhano, como se tivesse acabado de aprender a expressão e a usasse pela primeira vez. - Não me venhas com a história de que uma coisa são os romances e outra a vida - continuou, voltando ao inglês. - Todos os romances são autobiográficos, meu amigo, mesmo os maus. E quanto a Olalde, bom, eu acho que é o que o livro tem de melhor. Mas, na verdade, o que me diverte mais é que me vejas assim.

- Como? - perguntei, já sem tentar esconder a evidência.

- Como o único que se apercebe realmente do que se está a passar.

- E por que razão te diverte?

- Porque era exactamente assim que eu me via.

Nesse momento rimo-nos ambos e eu aproveitei a circunstância para desviar a conversa. Evidentemente, estava desejoso de lhe falar do Vietname e das minhas tentativas frustradas de contar a sua história mas, porque pensei que podia ser contraproducente por prematuro ou precipitado, podendo dissuadi-lo de abordar um assunto que nunca quisera abordar comigo, optei por esperar, crente de que a noite acabaria por me proporcionar o momento certo sem que tivesse de transformar aquele reencontro de amigos num interrogatório e sem fomentar em Rodney a suspeita, não totalmente infundada, de que só quisera vê-lo para o sondar. De modo que, tentando recuperar na madrugada estival daquele hotel de Madrid a cumplicidade das noites invernosas do Treno's - com a neve fustigando as janelas e os ZZ Top ou o Bob Dylan ouvindo-se pelas colunas de som -, conduzi a conversa de maneira a falarmos de Urbana: de John Borgheson, de Giuseppe Rota, do chinês Wong e do americano patibular, cujo nome tínhamos ambos esquecido ou nunca soubemos, de Rodrigo Ginés, de Laura Burns, de Felipe Vieri, de Frank Solaún. Depois falámos demoradamente de Gabriel e de Paula e resumi-lhe a minha vida em Urbana depois de ele ter desaparecido e também a minha vida em Barcelona e Gerona depois de desaparecer Urbana e, no fim, sem que eu lho pedisse, Rodney contou-me com alguns acrescentos o que Paula já me tinha contado: que vivia em Burlington, no estado de Vermont, há quase dez anos, que tinha um filho (chamava-se Dan) e uma mulher (chamava-se Jenny), que estava empregado numa imobiliária; também me contou que nos próximos dias lhe comunicariam se lhe tinham concedido um lugar de professor numa escola pública de Rantoul, coisa que, conforme sublinhou, desejava fervorosamente, porque tinha muita vontade de voltar a viver na sua cidade natal. Assim que pronunciou o nome da cidade, percebi que tinha chegado a minha oportunidade.

- Eu conheço-a - disse.

- A sério? - perguntou Rodney.

- Sim - respondi. - Depois de deixares de dar aulas em Urbana, fui a tua casa procurar-te. Vi um pouco da cidade mas estive sobretudo com o teu pai. Suponho que te terá contado.

- Não - disse Rodney. - Mas é normal. Estranho teria sido contar-me.

- Espero que esteja bem - disse, para dizer alguma coisa. Rodney demorou a responder; de repente, sob a luz amarelada

do candeeiro de pé, cercado pela escuridão da sala, pareceu fatigado e com sono, talvez bruscamente aborrecido, como se nada pudesse interessar-lhe menos que falar do seu pai. Disse:

- Morreu há três anos. - Ia resignar-me a algum lugar-comum de consolo quando Rodney interveio para mo poupar: - Não te preocupes. Não há nada a lamentar. Há muitos anos que o meu pai não fazia outra coisa senão atormentar-se. Agora, pelo menos, já não se atormenta.

Rodney acendeu outro cigarro. Julguei que ia mudar de assunto, mas não o fez; com alguma surpresa, ouvi-o continuar:

- De modo que foste vê-lo. - Respondi afirmativamente. - E do que falaram?

- Na primeira vez, de nada - expliquei, escolhendo as palavras com cuidado. - Ele não quis. Mas passado algum tempo, telefonou-me e fui vê-lo. Nessa altura contou-me uma história.

Então Rodney olhou para mim com curiosidade, erguendo, inquisitivo, as sobrancelhas. Então disse-lhe:

- Espera um instante. Quero mostrar-te uma coisa. Levantei-me, passei a toda a pressa diante do recepcionista que, sonolento, se sobressaltou, entrei no elevador, subi até ao meu quarto, agarrei nas três pastas pretas, desci de volta à sala e pousei-as em cima da mesa, diante de Rodney. Com um brilho irónico nos olhos e na voz, o meu amigo perguntou:

- O que é isto?

Não disse nada, limitei-me a apontar para as pastas. Rodney abriu uma delas, olhou para o maço de sobrescritos ordenados cronologicamente, tirou um, leu os dados do destinatário e do remetente, olhou para mim, tirou a carta que o sobrescrito continha e, enquanto tentava decifrar a sua própria caligrafia no deteriorado papel do exército norte-americano, porque o silêncio se prolongava, perguntei:

- Reconheces?

Rodney tornou a olhar para mim, desta vez fugazmente e, sem responder, pousou a carta na mesa, agarrou noutro sobrescrito, tirou outra carta, pôs-se também a lê-la.

- Foi o meu pai quem tas deu? - murmurou, brandindo a que tinha na mão. Não respondi. - É estranho - disse depois de uns segundos.

- O que é que é estranho?

- Que estejam aqui, em Madrid - respondeu sem levantar os olhos das cartas. - Que eu as tenha escrito e já não as entenda. Que o meu pai tas tenha dado.

Lentamente, tornou a meter as cartas nos sobrescritos, tornou a colocar os sobrescritos nas pastas, fechou a pasta, perguntou:

- Leste-as?

Disse que sim. Abanou a cabeça, indiferente, esquecendo-se das cartas e reclinando-se novamente no sofá. Após outra pausa voltou a perguntar com aparente interesse:

- O que achaste?

- Disto? - perguntei, apontando para as pastas.

- Do meu pai - corrigiu-me.

- Não sei - reconheci. - Só o vi duas vezes. Não consegui formar uma opinião. Mas creio que não tinha a certeza de ter agido bem.

- Em relação a quê?

- Em relação a ti.

- Ah - Esboçou um leve sorriso. Na sua cara já não havia rasto da vivacidade que a tinha animado há minutos atrás. - Nisso enganas-te. Na realidade nunca tinha a certeza de ter agido bem. Nem em relação a mim nem em relação a ninguém. Esse tipo de pessoas nunca tem a certeza.

- Não entendo - disse.

Rodney encolheu os ombros; em jeito de explicação acrescentou:

- Não sei, no fim de contas se calhar é verdade só haver dois tipos de pessoas: as que agem mal e acham sempre que agiram bem, e as que agem bem e acham sempre que agiram mal. Inicialmente, o meu pai era do primeiro tipo mas depois transformou-se num campeão do segundo. Suponho que acontece a muita gente. - Passou uma mão nervosa pelo cabelo em desordem e por um momento pareceu prestes a rir mas não se riu. - O que quero dizer é que a partir de um determinado momento o meu pai não me deu muitas oportunidades para que me sentisse orgulhoso dele. Claro que eu também não lhe dei muitas oportunidades para que se sentisse orgulhoso de mim. De modo que suponho que tudo terá sido um maldito mal-entendido. Mas, bom, estas coisas acontecem a toda a gente. - Suspirou sem deixar de sorrir, ao mesmo tempo que apagava o cigarro no cinzeiro repleto de beatas. Iniciando o gesto de se levantar do sofá, apontou para o relógio de parede que estava junto das escadas e que marcava as cinco. - Enfim, estou a aborrecer-te. Esta história já não interessa a ninguém e eu deveria dormir um pouco, não achas?

Mas eu já não estava disposto a deixar fugir aquela oportunidade. Disse-lhe que esperasse um instante, que aquela história me interessava. Um pouco admirado, Rodney interrogou-me em silêncio com uma espécie de candura maliciosa. Então, consciente de que era agora ou nunca, contei-lhe de uma assentada que o pai me tinha chamado a Rantoul precisamente para me falar dela, disse-lhe o que o pai me tinha contado e perguntei-lhe por que achava que o fizera e por que, além disso, me dera as suas cartas e as de Bob. Rodney ouviu-me com atenção e voltou a refastelar-se na cadeira; depois de um longo silêncio, durante o qual o seu olhar se perdeu para lá do cerco de luz que nos furtava à escuridão da sala, olhou-me novamente e deu uma gargalhada.

- De que te ris ? - perguntei.

- De, a não ser que tenhas mudado muito, essa ser uma pergunta retórica.

- O que queres dizer?

- Sabes perfeitamente o que quero dizer - respondeu. - O que quero dizer é que depois de teres falado com o meu pai, saíste da minha casa convencido de que o que ele queria era que contasses a minha história ou, então, de que tu próprio terias de a contar. Estou enganado?

Não corei, também não neguei a verdade. Rodney abanou a cabeça de um lado para outro num gesto que parecia de censura mas que, na realidade, era de troça.

- A presunção - murmurou. - A lixada presunção dos escritores. - Fez um silêncio e, olhando-me nos olhos, disse: - E então?

- E então o quê?

- E então por que não a contaste?

- Tentei - reconheci. - Mas não consegui. Ou melhor, não soube.

- Está bem - disse Rodney, como se a minha resposta o tivesse decepcionado, perguntando em seguida: - Diz-me uma coisa. O que te contou o meu pai?

- Já te disse: tudo.

- O que é tudo?

- O que sabia, o que tu lhe tinhas contado, o que imaginava, o que está nas cartas - expliquei. - Também me contou que havia coisas que não sabia. Falou-me de um incidente numa aldeia, por exemplo. My Khe, chamava-se. Não sabia o que tinha acontecido lá mas explicou-me que, depois desse incidente, passaste uma temporada num hospital e que depois tornaste a alistar-te no exército. Enfim, isso também consta das cartas.

- Leste-as todas - disse Rodney como se perguntasse.

- Claro - respondi. - O teu pai deu-mas para que as lesse. Além disso, já te disse que a dada altura quis contar essa história.

- Porquê?

- Pela razão pela qual se contam todas as histórias. Porque me obcecava. Porque não a compreendia. Porque me sentia responsável por ela.

- Responsável?

- Sim - disse, e quase sem dar-me conta acrescentei: - Se calhar não somos responsáveis apenas pelo que fazemos mas também pelo que vemos, lemos ou ouvimos.

Assim que me ouvi pronunciar esta frase arrependi-me de o ter feito. A reacção de Rodney confirmou-me o meu erro: os lábios dele compuseram instantaneamente um sorriso velhaco, que se desvaneceu imediatamente, mas antes que eu pudesse rectificar, o meu amigo começou a falar devagar, como que possuído por uma raiva sarcástica e contida.

- Ah - disse. - Bela frase. Como vocês, escritores, gostam de frases bonitas. No teu último livro há algumas. Francamente bonitas. Tão bonitas que até parecem verdade. Mas, claro, não o são, são apenas bonitas. Estranho é ainda não teres aprendido que escrever bem é o contrário de escrever frases bonitas. Nenhuma frase bonita é capaz de apreender a verdade. Se calhar nenhuma frase é capaz de apreender a verdade mas...

- Eu não disse que queria contar a verdade - interrompi-o, irritado. - Disse apenas que queria contar a tua história.

- E qual a diferença entre as duas coisas? - perguntou, procurando os meus olhos com um ar triste de desafio.

- As únicas histórias que vale a pena contar são as verdadeiras e se não pudeste contar a minha não foi por não o teres conseguido mas porque não se pode contar.

Calei-me. Não devia ter-me calado, mas calei-me. Devia ter-lhe dito: «Isso também é uma frase bonita, Rodney, e talvez seja verdade.» Devia ter-lhe dito: «Enganas-te, Rodney. As únicas histórias que vale a pena contar são as que não podem ser contadas.» Devia ter-lhe dito uma dessas duas coisas, ou talvez as duas, mas não lhe disse nenhuma e calei-me. Senti sono, senti fome, senti que a noite começava a girar em direcção ao amanhecer mas, sobretudo, senti o espanto de estar envolvido naquela conversa que nunca imaginei poder manter com Rodney e que pensei estar apenas a mantê-la porque Rodney sabia secretamente que ma devia e talvez também porque, contra todas as expectativas, a passagem do tempo tinha acabado por cicatrizar as fendas intermináveis do meu amigo. Deixei passar uns segundos, acendi um cigarro e, depois da primeira passa, ouvi-me dizer:

- O que aconteceu em My Khe, Rodney? Falávamos quase em sussurros mas a pergunta ecoou na quietude da sala como um tiro. Andava a fazê-la há catorze anos e durante todo esse tempo tinha averiguado algumas coisas acerca de My Khe. Sabia, por exemplo, que na actualidade era uma vasta praia turística situada a quinze quilómetros de Quang Ngai, no distrito de Son Tihn, não longe do porto de Sa Ky, uma faixa de terra de sete quilómetros de comprimento, encaixada entre um escuro bosque de álamos e as águas transparentes do rio Kinh, que vira muitas fotografias que repetiam as mesmas imagens anódinas de ócio estival de qualquer praia do mundo: mulheres e crianças banhando-se calmamente na margem, a suave ladeira de areia finíssima coberta de mesas e de cadeiras de plástico vermelho, uma crista de suaves colinas perfilhando-se placidamente ao longe contra um céu tão azul como o mar; e sabia também que há trinta e dois anos se erguia uma aldeia junto daquela praia e que num dia de 1968 Rodney tinha lá estado. Mas embora tivesse imaginado muitas vezes o que acontecera em My Khe - com a minha imaginação corrompida nessa altura pelas reportagens, livros de história, romances, documentários e filmes sobre o Vietname -, com rigor não sabia nada.

Pensei que Rodney me tinha lido o pensamento quando, com uma espécie de resignação ou de indiferença, perguntou:

- Não imaginas?

- Mais ou menos - respondi, sinceramente. - Mas não sei o que aconteceu.

- Não precisas - garantiu. - O que imaginas foi o que aconteceu. Aconteceu o que acontece em todas as guerras. Nem mais nem menos. My Khe é apenas um episódio. Além disso, no Vietname não houve um My Khe, houve muitos. O que aconteceu num aconteceu mais ou menos em todos. Satisfeito?

Não disse nada.

- Não, claro que não - adivinhou Rodney, endurecendo novamente a voz e prosseguindo em seguida, como se não quisesse que eu entendesse o que dizia mas o que queria dizer. - Mas, se te interessa tanto, posso contar-te alguma coisa que te deixe satisfeito. O que preferes? Conheço muitas histórias. E eu também tenho imaginação. Diz-me o que precisas para que a tua história faça sentido e fiques com a ilusão de que a entendes. Di-lo, eu conto-te e acabamos, de acordo? Mas antes deixa-me avisar-te de uma coisa: conte o que contar, inventes o que inventares, nunca vais entender a única coisa que importa e que é eu não querer a tua compaixão. Percebes? Nem a tua nem a de ninguém. Não preciso dela. Isso é a única coisa que importa ou, pelo menos, a única coisa que me importa a mim. Compreendes, não é verdade?

Concordei, arrependido de ter levado a conversa até àquele extremo e, enquanto desviava os olhos de Rodney, senti na boca um sabor acre a cinza ou a moedas velhas. Na vidraça que dava para a estação do Príncipe Pio o amanhecer lutava já contra a escuridão minguante da madrugada, varrendo sem pressa as sombras da sala. Há algum tempo que o recepcionista deixara de dormitar e se afadigava no seu cubículo. Troquei com ele um olhar vazio e, voltando-me para Rodney, murmurei uma desculpa. Rodney não deu sinais de a ter ouvido mas, depois de um longo silêncio, suspirou e nesse momento julguei adivinhar, numa mudança imperceptível da sua expressão, o que ia acontecer. Não me enganei. Com a voz apaziguada e um ar de cansaço perguntou: - A sério que queres que te conte?

Sabendo que tinha ganho, ou que o meu amigo me tinha permitido ganhar, não disse nada. Então Rodney cruzou as pernas e, depois de reflectir um momento, começou a contar a história. Fê-lo de uma forma estranha, rápida, fria e precisa ao mesmo tempo; ignoro se antes já a tinha contado a alguém mas, enquanto o ouvia, soube que a tinha contado a si próprio muitas vezes. Rodney contou que, na semana anterior ao incidente de My Khe, uma patrulha de rotina formada por soldados da sua companhia tinha sido abordada num cruzamento de estradas por uma adolescente vietnamita que, enquanto se agitava à volta deles, pedindo-lhes ajuda com gestos angustiantes, deixou que uma granada de mão que trazia metida na roupa explodisse, tendo morrido despedaçados em resultado desse encontro, além da adolescente, dois membros da patrulha, tendo outro perdido um olho e outros dois ficado feridos com menos gravidade. O episódio obrigou-os a redobrar as medidas de segurança, injectando na companhia um nervosismo adicional que talvez explicasse em parte o que mais tarde aconteceu. E o que aconteceu, foi que, numa manhã, a sua companhia foi enviada em missão de reconhecimento à aldeia de My Khe com o objectivo de se certificar da falsidade de uma informação segundo a qual membros do Vietcong se escondiam aí. Rodney lembrava-se de tudo como que envolto numa neblina de sonho, o Chinook em que viajava descendo primeiro em direcção ao mar, depois já na areia e, finalmente, em círculos sobre um punhado de hortas intactas enquanto os camponeses corriam até à praça da aldeia, em pânico devido às vozes peremptórias que se ouviam através dos altifalantes, o helicóptero aterrando junto de um cemitério e depois o clarão do sol no céu exemplarmente azul, o deslumbramento das flores nos parapeitos e uma gritaria difusa ou remota de galinhas ou crianças no ar cristalino da manhã enquanto os soldados se dispersavam por uma impecável geometria de ruas desertas até, a dada altura, sem saber muito bem como, porquê ou quem o tinha iniciado, se ter desencadeado o tiroteio. Primeiro ouviu-se um disparo isolado, quase imediatamente rajadas de metralhadora, mais tarde gritos e explosões e, em apenas alguns segundos, uma enlouquecida tempestade de fogo pulverizou a quietude milagrosa da aldeia. Quando Rodney se dirigia para o local onde calculava que decorria o combate, ouviu atrás de si um rumor copioso de fuga ou emboscada, voltou-se, deu um grito de fúria e pavor, começou a disparar e depois continuou a gritar e a disparar sem saber por que gritava, para onde ou sobre quem disparava, disparando, disparando, disparando apenas, e também gritando e, quando deixou de o fazer, a única coisa que viu à sua frente foi um monte ininteligível de roupa e cabelos empapados de sangue e mãos e pés minúsculos e desmembrados e olhos sem vida e ainda suplicantes, viu uma coisa múltipla, húmida e escorregadia que fugia rapidamente à sua compreensão, viu todo o horror do mundo concentrado em alguns metros de morte mas não conseguiu suportar essa visão ofuscante e, a partir daquele momento, a sua consciência abdicou. Do que sucedeu mais tarde, tinha apenas uma muito vaga lembrança onírica de incêndios e animais estripados, de velhos chorando e de cadáveres de mulheres e crianças com as bocas abertas como vísceras ao ar. Rodney já não se lembrava de mais nada e, durante os seus meses de hospital ou durante o resto da sua estadia no Vietname, nunca mais ninguém voltou a falar-lhe do incidente, e só muito tempo depois, quando se efectuou o julgamento já nos Estados Unidos, Rodney soube o que também soubera e me contara o seu pai: que em My Khe não se travara nenhuma batalha, que não havia aí nenhum guerrilheiro escondido, que nenhum dos membros da sua companhia fora, sequer, ferido, e que o episódio se saldara por cinquenta e quatro vietnamitas mortos, a maior parte mulheres, velhos e crianças.

Quando Rodney acabou de falar permanecemos um bocado em suspenso, sem nos atrevermos sequer a olhar um para o outro, como se o seu relato nos tivesse feito viajar até um lugar onde só era real o medo e esperássemos o aparecimento benéfico de um visitante que nos devolvesse a segurança partilhada daquela sórdida sala de hotel madrileno. O visitante não apareceu. Rodney apoiou as suas mãos enormes nos joelhos e levantou-se do sofá com um ranger das articulações; encolhido e um pouco cambaleante, como se estivesse enjoado, com vertigens ou com vontade de vomitar, deu uns passos e ficou a olhar para a rua, apoiado no parapeito da janela.

- Já é quase dia - ouvi-o dizer.

Era verdade. A luz fraca do amanhecer inundava a sala, dotando tudo o que a habitava de uma realidade fantasmagórica ou incerta, como se fosse um cenário mergulhado num lago, e, ao mesmo tempo, aguçando o perfil de Rodney, cuja silhueta se recortava

hesitante contra o azul-cobalto do céu; por um instante pensei que, mais do que uma ave de rapina, era o perfil de um predador ou de um felino.

- Bom, essa é mais ou menos a história - disse num tom de voz perfeitamente neutro, regressando ao sofá com as mãos escondidas nos bolsos das calças. - É como imaginavas?

Pensei um momento na resposta. A boca já não me sabia a cinza nem a moedas velhas mas a alguma coisa que se parecia muito a sangue sem ser sangue. Sentia horror mas não conseguia ter compaixão e, a dada altura, também senti - odiando-me por senti-lo e odiando Rodney por me ter obrigado a senti-lo - que todos os sofrimentos que a sua estadia no Vietname lhe tinha infligido eram justificados.

- Não - acabei por responder. - Não é.

De pé à minha frente, Rodney continuou a falar, mas eu estava demasiado atordoado para processar as suas palavras e, pouco depois, tirou uma mão do bolso e apontou para o relógio de parede.

- O meu comboio sai dentro de pouco mais de uma hora - disse. - É melhor subir para ir buscar as minhas coisas. Esperas por mim aqui?

Disse que sim e fiquei à espera dele na sala, olhando através da vidraça amanhecida as pessoas que entravam na estação do Príncipe Pio, o tráfego e a animação incipiente da manhã no bairro de La Florida, olhando para elas sem as ver porque a única coisa que me ocupava a mente era a certeza equivocada e agridoce de que a história inteira de Rodney acabara por fazer sentido aos meus olhos, um sentido atroz que nada poderia suavizar ou emendar. Passados dez minutos, Rodney regressou carregando as malas e acabado de sair do duche. Enquanto ele pagava a conta do hotel um tipo entrou numa das cabinas que ladeavam a recepção e, não sei porquê, ao vê-lo marcar um número e esperar pela resposta, recordei um nome com um sobressalto e estive quase a dizê-lo em voz alta. Sem deixar de olhar para o tipo fechado na cabina, ouvi Rodney perguntar ao recepcionista como devia ir até à estação de Atocha e o recepcionista responder que o mais rápido era apanhar um comboio em Príncipe Pio. Então Rodney voltou-se para mim para se despedir mas eu insisti em acompanhá-lo até à estação.

Descemos até ao hall e, antes de sair para o passeio de La Florida, Rodney colocou no olho a venda de pano. Atravessámos o passeio, entrámos na estação, Rodney comprou um bilhete e dirigimo-nos para o cais sob uma enorme estrutura de aço e vidro translúcido semelhante ao esqueleto de um enorme animal pré-histórico. Enquanto esperávamos no cais, perguntei-lhe se podia fazer-lhe uma última pergunta.

- Não, se for para o teu livro - respondeu. Tentei sorrir mas não consegui. - Ouve o que te digo e não o escrevas. Qualquer um pode escrever um livro se se propuser fazê-lo, mas nem todos são capazes de guardar silêncio. Além disso, já te disse que esta história não pode ser contada.

- É possível - admiti, embora nesse momento não tenha querido calar-me: - Mas se calhar as únicas histórias que vale a pena contar são as que não podem ser contadas.

- Outra frase bonita - disse Rodney. - Se escreveres o livro, lembra-te de não a incluíres. O que querias perguntar-me?

Sem hesitar um segundo, perguntei:

- Quem é Tommy Birban?

A cara de Rodney não se alterou, eu não soube ler o olhar daquele seu único olho, ou talvez não houvesse nada para ler nele. A seguir, quando falou, conseguiu que a sua voz parecesse natural.

- Onde foste buscar esse nome?

- O teu pai mencionou-o. Disse que antes de ires embora de Urbana, falaste com ele ao telefone e que por isso te foste embora.

- Não te disse mais nada?

- Que mais deveria ter-me dito?

- Nada.

Naquele momento anunciaram nos altifalantes a chegada iminente do comboio de Atocha.

- O Tommy era um companheiro - disse Rodney. - Chegou a Quang Nai quando eu já era um veterano e tornámo-nos muito amigos. Saímos dali quase ao mesmo tempo e, desde essa altura, nunca mais o vi... - Fez uma pausa. - Mas, sabes uma coisa?

- Que coisa?

- Quando te conheci, recordaste-me o Tommy. Não sei porquê. - Com um levíssimo sorriso nos lábios Rodney esperou pela minha reacção, que não chegou. - Bom, na realidade sei. Sabes, na guerra existem os que se afundam e os que se salvam. Não havia outros. O Tommy era dos que se afundam e tu também o terias sido. Mas o Tommy salvou-se, não sei como, mas salvou-se. Às vezes penso que lhe teria valido mais não o ter feito... Enfim, esse era o Tommy Birban: um derrotado que se afundou ainda mais por se ter salvo.

- Isso não responde à minha pergunta.

- Que pergunta?

- Por que te foste embora depois de teres falado com ele ao telefone?

- Não me tinhas feito essa pergunta.

- Faço-ta agora.

Sabendo que o tempo jogava a seu favor, Rodney limitou-se a responder com um gesto de impaciência e uma evasiva:

- Porque o Tommy queria meter-me numa alhada.

- Que alhada? O Tommy esteve em My Khe?

- Não. Ele chegou muito mais tarde.

- Então...?

- Então nada. Coisas de companheiros. Acredita em mim, se te explicasse não entenderias. O Tommy era muito fraco e continuava obcecado pelas histórias da guerra... Rancores, inimizades, coisas assim. Eu já não queria saber de nada disso.

- E foste-te embora só por isso?

- Sim. Achava que estava curado de tudo aquilo mas não estava. Agora talvez não o fizesse.

Compreendi que Rodney estava a mentir-me; também compreendi ou julguei compreender que, contrariamente ao que tinha pensado na sala do hotel há momentos apenas, o horror de My Khe não explicava tudo.

- Bom - disse Rodney enquanto o comboio de Atocha parava à nossa frente. - Passámos a noite a falar de tontices. Escrever-te-ei. - Deu-me um abraço, agarrou nas malas e, antes de entrar no comboio, acrescentou: - Cuida bem do Gabriel e da Paula. E tem cuidado contigo.

Abanei a cabeça afirmativamente mas não fui capaz de dizer nada porque só conseguia pensar que era a primeira vez na minha vida que abraçava um assassino.

Voltei ao hotel. Quando cheguei ao quarto estava pegajoso de de suor, de modo que tomei um duche, mudei de roupa e deitei-me na cama a descansar um bocado antes de apanhar o avião de regresso. Tinha a boca amarga, doía-me a cabeça e zumbiam-me os ouvidos; não conseguia deixar de dar voltas ao meu encontro com Rodney. Arrependia-me de ter ido vê-lo a Madrid; arrependia-me de saber a verdade e de me ter empenhado em averiguá-la. Evidentemente, antes da conversa daquela noite eu calculava que Rodney já tinha matado. Tinha estado numa guerra e morrer e matar é o que se faz nas guerras; mas o que não podia imaginar era que tivesse participado num massacre, que tivesse assassinado mulheres e crianças. Saber que o tinha feito enchia-me de uma aversão sem fendas e sem piedade; tê-lo ouvido contar com a indiferença com que se conta um episódio doméstico anódino aumentava esse horror até ao asco. Agora o calvário de remorsos em que Rodney se esvaíra durante anos parecia-me um castigo brando e perguntava a mim próprio se o facto inverosímil de ter sobrevivido à culpa, longe de constituir um mérito, não aumentava o peso pavoroso da sua responsabilidade. Havia evidentemente explicações para o que me tinha contado mas nenhuma delas igualava o tamanho da ignomínia. Por outro lado eu não compreendia que, tendo-me revelado sem rodeios o que acontecera em My Khe, Rodney tivesse evitado, no entanto, explicar-me quem era e o que representava Tommy Birban, a menos que com as suas evasivas tivesse querido esconder-me um horror superior ao de My Khe, um horror tão injustificável e inenarrável que, aos seus olhos e por contraste, transformasse o de My Khe num horror narrável e justificável. Mas, que inimaginável horror de horrores podia ser esse? Um horror em qualquer caso suficiente para, há catorze anos, pulverizar o equilíbrio mental de Rodney e obrigá-lo a abandonar a sua casa e o seu trabalho e a recomeçar a sua vida de fugitivo assim que Tommy Birban reapareceu. Claro que também era possível que Rodney não me tivesse contado toda a verdade acerca de My Khe e que Tommy Birban já tivesse chegado ao Vietname quando isso aconteceu e estivesse de alguma forma vinculado à matança. E o que tinha querido dizer com aquilo de Tommy Birban ser um fraco que não se deveria ter salvo e de ser parecido comigo? Significaria que tinha protegido Tommy Birban ou que estava a protegê-lo como me tinha protegido a mim?

Mas tinha protegido Tommy Birban de quê, se é que o tinha protegido! E protegera-me a mim de quê?

Ao meio-dia, quando o recepcionista me acordou para me dizer que tinha de libertar o quarto, demorei alguns segundos a aceitar que estava num quarto de Madrid e que o meu encontro com Rodney não tinha sido um sonho mas antes um pesadelo. Duas horas depois apanhava um avião de volta a Barcelona, decidido a esquecer para sempre o meu amigo de Urbana.

Não consegui. Ou melhor, foi Rodney quem impediu que com seguisse. Nas semanas seguintes recebi várias cartas suas; ao princípio não respondi mas o meu silêncio não o demoveu e continuou a escrever. Passado algum tempo rendi-me à teimosia de Rodney e à evidência incómoda de que o nosso encontro em Madrid tinha selado entre nós uma intimidade que eu não desejava. As suas cartas daqueles dias abordavam assuntos diversos: o seu trabalho, os seus conhecidos, as suas leituras, Dan e Jenny, sobretudo Dan e Jenny. Assim, soube que a mulher com quem Rodney tivera um filho era quase da minha idade, quinze anos mais nova do que ele, que tinha nascido em Middlebury, uma localidade próxima de Burlington, e que trabalhava como caixa num supermercado; em várias cartas descreveu-ma em pormenor mas, curiosamente, as descrições divergiam, como se Rodney tivesse acerca dela um conhecimento demasiado profundo para poder capturá-la com umas quantas palavras improvisadas. Outro pormenor curioso (ou que agora me parece curioso) é que, pelo menos em duas ou três ocasiões, Rodney tentou dissuadir-me novamente, como já o fizera em Madrid, do meu projecto de contar a sua história; achei estranha tanta insistência, entre outras coisas porque a considerei supérflua e julgo que a dada altura acabou por me infundir a suspeita efémera de que no fundo o meu amigo sempre desejara que eu escrevesse um livro acerca dele e de que a conversa que tivemos em Madrid, tal como todas as outras que tivemos em Urbana, continha uma espécie de manual de instruções codificado sobre como escrevê-lo ou, pelo menos, como não escrevê-lo, como se Rodney tivesse estado a instruir-me, de uma forma sub-reptícia e desde que nos conhecemos, para que algum dia contasse a sua história. No princípio de Agosto, Rodney participou-me que acabavam de lhe atribuir o lugar de professor de que estava à espera e que se preparava para mudar com Dan e Jenny para a velha casa familiar de Rantoul. Nas semanas seguintes, Rodney quase deixou de me escrever e quando, em meados de Setembro, a sua correspondência recuperou o ritmo anterior, a minha vida tinha sofrido uma mudança cujo alcance real nem sequer podia imaginar nessa altura.

Foi uma mudança imprevisível embora, de certa forma, tivesse sido possível a Rodney tê-la previsto. Já disse que antes do parêntesis do Verão, o acolhimento dispensado ao meu romance sobre a guerra civil, transformado inesperadamente num êxito notável da crítica e num pequeno êxito de vendas, tinha ultrapassado as minhas expectativas mais optimistas; no entanto, entre finais de Agosto e princípios de Setembro, quando se inicia a nova temporada literária e os livros da anterior são confinados ao esquecimento das últimas estantes das livrarias, aconteceu a surpresa: como se durante o Verão os jornalistas se tivessem posto de acordo para ler apenas o meu romance, de repente começaram a convidar-me para falar dele nos jornais, revistas, rádios e televisões; como se durante o Verão os leitores se tivessem posto de acordo para ler apenas o meu romance, de repente começaram a chegar-me notícias exultantes da minha editora segundo as quais as vendas do livro tinham disparado. Omito os pormenores da história, porque são públicos e alguns ainda os recordarão; não omito que neste caso a imagem da bola de neve é, apesar de ser um cliché (ou precisamente por isso), uma imagem exacta. Em menos de um ano fizeram-se quinze edições do livro, venderam-se mais de trezentos mil exemplares, estava em vias de tradução para vinte línguas e havia uma adaptação cinematográfica em curso. Aquilo era um triunfo sem paliativos que ninguém na minha situação se teria atrevido a imaginar, nem sequer nos seus delírios mais loucos e o resultado foi que, de um dia para o outro, passei de escritor falido e desconhecido, com uma vida retirada e provinciana, a ser famoso, a ter mais dinheiro do que aquele que sabia gastar e a ver-me envolvido num torvelinho frenético de viagens, entrega de prémios, apresentações, entrevistas, colóquios, feiras do livro e festas literárias, que me arrastou de um lado para outro por todos os confins do país e por todas as capitais do continente. Incrédulo e exultante, inicialmente nem sequer consegui aperceber-me de que girava sem controlo no vórtice de um ciclone demencial. Eu pressentia que aquela era uma vida perfeitamente irreal, uma farsa de dimensões descomunais semelhante a uma enorme teia de aranha que eu próprio segregava e tecia e da qual estava prisioneiro. Mas, embora fosse tudo uma mentira e eu um impostor, estava desejoso de correr todos os riscos com a única condição de que ninguém me arrebatasse o prazer de gozar a fundo daquela patranha. Os profissionais do farisaísmo afirmam que não escrevem para serem lidos senão pela selecta minoria que consegue apreciar os seus escritos selectos, mas a verdade é que qualquer escritor, por mais perfeccionista ou hermético que seja, deseja secretamente ter inúmeros leitores e mesmo o poeta maldito mais feroz, abominável e corajoso, sonha em ter os jovens a declamar os seus versos pelas ruas. Mas no fundo, aquele furacão desgovernado não tinha qualquer relação com a literatura nem com os leitores mas com o sucesso e com a fama. Sabemos que, desde sempre, os sábios aconselharam a receber o sucesso e o fracasso com a mesma expressão indiferente, a não se vangloriar com a vitória nem se aviltar chorando na derrota, mas também sabemos que até eles (sobretudo eles) choraram e se aviltaram e se vangloriaram, incapazes de respeitar esse ideal magnífico de impassibilidade, e que por isso aconselharam a aspirar a esse ideal, porque sabiam melhor do que ninguém que não há nada mais venenoso do que o sucesso nem mais letal do que a fama.

Embora inicialmente quase não tivesse consciência disso, o sucesso e a fama começaram imediatamente a aviltar-me. Alguém diz que quem rejeita um elogio é porque quer dois: o que já lhe fizeram e aquele a que a modéstia mentirosa do elogiado obriga com a sua recusa. Eu depressa aprendi a reclamar mais elogios, rejeitando-os, e a exercer a modéstia, que é a melhor maneira de alimentar a vaidade; depressa aprendi também a simular a fadiga e o aborrecimento da fama e a inventar pequenas desgraças que atraem a compaixão e afugentam a inveja. Estes estratagemas nem sempre foram eficazes e, como é lógico, fui com frequência vítima de mentiras e calúnias; mas o pior das calúnias e das mentiras é que quase sempre acabam por nos contaminar, porque é muito difícil não cedermos à tentação de nos defendermos delas transformando-nos em mentirosos e caluniadores. Secretamente, nada me agradava tanto como conviver com os ricos, poderosos e triunfadores e exibir-me ao seu lado. A realidade não parecia oferecer resistência (ou oferecia apenas uma resistência ínfima comparada com a que oferecia antes), de forma que, vertiginosamente, tudo aquilo que anteriormente tinha desejado parecia estar agora ao meu alcance e, pouco a pouco, tudo o que anteriormente tinha sabor começou agora a parecer-me insípido. Por isso bebia a toda a hora: quando me aborrecia, para não me aborrecer; quando me divertia, para me divertir mais. Foi sem dúvida a bebida que acabou por me transportar a uma montanha russa de noites de euforia alcoólica e sexual e dias de ressacas apocalípticas, e que me revelou a culpa, não como um mal-estar ocasional fruto da violação de normas auto-impostas, mas como uma droga cuja dose tinha de aumentar constantemente para que continuasse a surtir o seu efeito narcotizante. Talvez por isso - e porque a bebedeira do êxito me cegava com uma miragem de omnipotência, sussurrando-me ao ouvido que tinha chegado a hora tanto tempo esperada de me vingar da realidade -, converti-me de repente num mulherengo indiscriminado; continuava a amar Paula e continuava a sentir-me culpado sempre que a enganava mas não podia nem queria deixar de a enganar. Pelas mesmas razões, e também porque sentia que a celebridade me tinha elevado de súbito acima deles tornando-os dispensáveis, desprezei quem sempre tinha admirado e quem sempre me tinha demonstrado o seu afecto, e adulei quem me tinha desprezado ou desprezava, ou quem eu tinha desprezado, com a esperança insaciável - porque quando se tem sucesso só se quer continuar a ter sucesso - de conquistar também a sua aprovação. Lembro-me, por exemplo, do que aconteceu com Marcelo Cuartero. Numa tarde daquele Outono frenético estivemos quase a cruzar-nos numa rua do centro de Barcelona mas enquanto nos aproximávamos incomodou-me de repente a perspectiva de ter de parar e de falar com ele e, no último momento, mudei de passeio e evitei-o. Passado não muito tempo sobre esse encontro frustrado alguém trouxe à baila o nome de Marcelo num grupinho improvisado durante um cocktail literário. Ignoro o que estaríamos a discutir mas o caso é que, a dada altura, um crítico que queria ser ensaísta mencionou um livro de Marcelo como exemplo do ensaio árido, estéril e curto de vistas que triunfava na universidade, e um ensaísta de sucesso que queria ser romancista secundou essa opinião com um comentário mais cruel que sagaz. Foi nessa altura que intervim, certo de conseguir a aquiescência sorridente do grupinho.

- Claro - disse, concordando com o comentário do ensaísta, apesar de ter lido o livro de Marcelo e de me ter parecido brilhante. - Mas o pior de Cuartero não é ser aborrecido, nem sequer por pretender que o admiremos por demonstrar que leu o que ninguém quis ler. O pior é que está senil, chiça.

Também não me esqueci do que aconteceu durante esses meses com Marcos Luna. Se é verdade que ninguém se entristece totalmente com a desgraça de um amigo, então também o é ninguém se alegrar totalmente com a alegria de um amigo; é possível, no entanto, que naquela época ninguém estivesse mais perto que Marcos de se alegrar plenamente com as minhas alegrias. Estas, para além disso, coincidiram com um período ingrato para ele. Em Setembro, precisamente quando o meu livro iniciava a sua descolagem para a notoriedade, Marcos foi operado a um descolamento de retina; a intervenção não correu bem e duas semanas depois foi necessário repeti-la. A convalescença foi longa. Marcos passou no total mais de dois meses no hospital, prostrado pela certeza deprimente de que sairia dali convertido num deficiente. Mas desta vez teve sorte e quando voltou a casa tinha recuperado quase por completo a visão. Durante o tempo que passou no hospital falei várias vezes com ele ao telefone, quando me telefonava da cama para me felicitar cada vez que, na rádio, ouvia falar do meu livro ou me ouvia falar a mim, ou sempre que alguém comentava com ele os meus triunfos; mas, preso como estava pelas múltiplas obrigações do sucesso, nunca arranjei tempo para o visitar e, quando tornei a vê-lo, fugazmente, numa esplanada do Eixample, mesmo antes de um jantar de negócios, quase não o reconheci: velho e diminuído, com o pouco cabelo completamente cinzento, pareceu-me a imagem viva da derrota. Demorámos muito tempo a reencontrar-nos mas, enquanto isso, adoptámos o hábito (ou adoptei-o eu, impondo-o) de falar todas as semanas ao telefone. Fazíamo-lo sábado à noite, quando eu já estava a beber há muitas horas e, com o pretexto da nossa antiga intimidade, lhe telefonava e desabafava as angústias que me causava a mudança repentina da minha vida e, de passagem, afagava o meu orgulho demonstrando a mim próprio que o êxito não me tinha mudado e que continuava a ser amigo dos meus amigos de sempre; sei que há uma vaidade inversa em quem se mortifica atribuindo a si próprio infâmias que não cometeu, e não quero incorrer nisso, mas não posso deixar de suspeitar que aquelas confidências alcoólicas de madrugada funcionavam também entre nós como uma periódica e subliminar celebração das minhas vitórias, e que talvez fossem outra forma de infligir ao meu amigo, sob o disfarce enganoso da queixa pela minha situação de privilégio, a humilhação dos meus triunfos numa altura em que, com problemas de saúde e a sua carreira de pintor estagnada, ele tinha motivos para sentir o mesmo que ambos tínhamos sentido sem ser caso para tal quando há muitos anos partilhávamos o apartamento da calle Pujol: que a sua vida estava na merda. Talvez isto explique o facto de, numa dessas noites de sábado, arrebatado pela soberba hipócrita da virtude, eu recordasse a conversa que tinha mantido com Rodney em Madrid.

- O sucesso não te transforma num cretino ou num filho da puta - disse a Marcos, a dada altura. - Mas pode fazer vir à tona o filho da puta ou o cretino que alguns têm cá dentro. - E então acrescentei: - Quem sabe, se tivesses sido tu, e não eu, quem tivesse tido sucesso, se calhar não estaríamos agora a falar.

Marcos não me desligou o telefone naquele momento mas fê-lo no dia seguinte quando lhe telefonei para lhe pedir desculpa pela minha mesquinhice. Não aceitou as minhas desculpas, recordou-me as minhas palavras, censurou-as, chamou-me filho da puta e cretino, proibiu-me de voltar a telefonar-lhe e, sem mais explicações, desligou. Passados alguns dias, no entanto, recebi um e-mail dele onde me pedia que lhe perdoasse. «Se nem sequer sou capaz de conservar uma amizade com mais de trinta anos, então é porque estou mesmo acabado», lamentava-se. Marcos e eu reconciliámo-nos mas algumas semanas depois teve lugar um episódio que resume melhor do que qualquer outro a dimensão da minha deslealdade para com ele. Não entrarei em muitos pormenores; ao fim e ao cabo o facto em si mesmo (não o que revela) talvez careça de importância. Foi depois da apresentação de um livro de um fotógrafo mexicano cujo prefácio eu escrevera. A cerimónia efectuou-se num lugar qualquer de Barcelona (talvez tenha sido em MACBA, talvez no Palau Robert) e compareceram Marcos e Patrícia, sua mulher, a quem, ao que parece, unia uma antiga amizade com o fotógrafo. Durante o cocktail que se seguiu à apresentação, Marcos, Patrícia e eu estivemos à conversa mas, no fim, alegando que no dia seguinte tinha de se levantar cedo, o meu amigo recusou-se a ficar para o jantar e Patricia e eu não conseguimos fazer com que mudasse de opinião. A lembrança que tenho do que se seguiu é confusa, mais ainda que a de outras noites daquela época, porque é possível que neste caso a minha memória se tenha esforçado por apagar ou confundir o que aconteceu. O que recordo é que Patricia e eu assistimos a um jantar bastante concorrido na Casa Leopoldo, que nos sentámos juntos e que, embora tivéssemos mantido sempre uma relação cordial mas distante - como se ambos tivéssemos concordado em que a minha amizade com Marcos não nos convertia automaticamente em amigos -, naquela noite procurámos uma cumplicidade que nunca tínhamos desejado ou nos tínhamos permitido. Creio que foi com o primeiro whisky posterior ao jantar que me passou pela cabeça o desejo de ir para a cama com ela; assustado com a minha temeridade, tentei afastar esse pensamento de imediato. Não consegui ou, pelo menos, não consegui que deixasse de rondar-me a cabeça insidiosamente, como uma obscenidade cada vez menos obscena e mais verosímil, enquanto eu e uns quantos noctívagos prolongávamos a noite ao balcão do Giardinetto e eu emborcava whiskies falando com este e com aquele mas sabendo sempre que Patricia continuava ali. Finalmente, quando já de madrugada fecharam o Giardinetto, Patricia levou-me ao hotel. Durante o trajecto não deixei de falar um minuto, como se procurasse uma fórmula que a retivesse, mas ao estacionar o carro em frente à porta e ao despedir-se de mim com um beijo só arranjei coragem para lhe propor que tomássemos um último copo no meu quarto. Patricia olhou para mim divertida, quase como se eu fosse um adolescente e ela uma velha enfermeira obrigada a despir-me.

- Não estarás a insinuar-te, pois não? - e riu-se.

Não tive tempo de me envergonhar porque antes que isso acontecesse uma fúria fria queimou-me a garganta.

- És uma puta rasca - ouvi-me então a dizer. - Passas a noite a aquecer-me a braguilha e agora deixas-me pendurado. Vai à merda.

Fechei a porta do carro com força e, em vez de entrar no hotel, pus-me a andar. Não sei durante quanto tempo o fiz mas quando voltei para o hotel a fúria tinha-se transformado em remorso. O efeito do álcool, no entanto, não se tinha dissipado, porque a primeira coisa que fiz ao entrar no meu quarto foi telefonar para a casa de Marcos, felizmente, foi Patricia quem atendeu o telefone. Atabalhoadamente, pedi-lhe desculpa, supliquei-lhe que não tivesse- em conta o que lhe dissera, aleguei que tinha bebido de mais, tornei a pedir-lhe desculpa. Com voz seca, Patricia aceitou as minhas desculpas e eu perguntei se ela pensava contar a Marcos.

- Não - respondeu antes de desligar. - E agora mete-te na cama e trata de cozer a bebedeira.

Não continuo. Poderia continuar mas não continuo. Poderia contar mais histórias mas não quero baixar o nível. Há alguns dias li um poema escrito por Malcom Lowry após a publicação do romance que lhe deu fama, dinheiro e prestígio; é um poema truculento e enfático, mas às vezes não há outro remédio senão ser enfático e truculento porque a realidade, que quase nunca respeita as regras do bom gosto, frequentemente abunda em truculências e ênfases. O poema diz assim:

O êxito é como um desastre terrível, pior que a tua casa ardendo, que o estrépito da derrocada quando as vigas caem cada vez mais depressa enquanto continuas ali, testemunha desesperada da tua condenação.

A fama destrói como um ébrio a morada da alma e revela-te que apenas por ela trabalhaste. Ah! Se o triunfo não me houvesse traído beijando-me e tivesse permanecido na escuridão para sempre, derrotado e fracassado...

Há muitos anos, Rodney avisara-me e, embora nessa altura tenha interpretado as suas palavras como a inevitável secreção de moralismo de um perdedor embebido da enjoativa mitologia do fracasso que impera num país histericamente obcecado pelo sucesso, devia pelo menos ter previsto que ninguém está vacinado contra o êxito e só quando temos de o enfrentar é que compreendemos que não se trata apenas de um mal-entendido, do alegre desbragamento de um dia, mas de um mal-entendido e de um desbragamento humilhantes; também devia ter previsto que é impossível sobreviver com dignidade ao sucesso porque este destrói como um ébrio a morada da alma e porque é tão belo que descobrimos que, embora nos iludíssemos com protestos de orgulho e higiénicas demonstrações de cinismo, na realidade não fizéramos outra coisa senão persegui-lo, tal como descobrimos, assim que o temos nas mãos e já é tarde para o rejeitarmos, que ele só serve para nos destruir a nós e a tudo o que nos rodeia. Deveria tê-lo previsto mas não o previ. O resultado foi ter perdido o respeito pela realidade; também perdi o respeito pela literatura, a única coisa que até então tinha dotado de sentido ou na verdade de uma ilusão de sentido. Porque o que julguei descobrir então é exactamente o pior que podia ter descoberto: que a minha verdadeira vocação não era escrever, mas ter escrito, que eu não era um verdadeiro escritor, que não era escritor por não conseguir ser outra coisa mas por a escrita ser o único instrumento que tivera à mão para aspirar ao sucesso, à fama e ao dinheiro. Agora já os conquistara, agora já podia deixar de escrever. Quem sabe se por isso, deixei de escrever; por isso e porque estava demasiado vivo para escrever, demasiado desejoso de consumir o sucesso até ao último fôlego, e só se pode escrever quando se escreve como se estivéssemos mortos e a escrita fosse a única forma de evocar a vida, o último cordão que ainda nos liga a ela. De modo que, após doze anos sem viver mais que para escrever, com a veemência e a paixão excludentes de um morto que não se resigna com a sua morte, de repente deixei de escrever. Foi nessa altura que, de facto, comecei a correr perigo. Verifiquei que, tal como Rodney também me dissera há muitos anos - quando eu era tão jovem e incauto que nem sequer podia sonhar que o sucesso um dia poderia abater-se sobre mim como uma casa em chamas -, o escritor que deixa de escrever acaba a procurar ou a atrair a destruição, porque contraiu o vício de olhar para a realidade, e às vezes de a ver, mas já não consegue usá-la, já não consegue transformá-la em sentido ou beleza, já não tem o escudo da escrita com que se proteger dela. E nessa altura é o fim. Acabou-se. Finito. Kaput.

O fim aconteceu num sábado de Abril de 2002, precisamente um ano depois da publicação do meu romance. Nessa altura há já muitos meses que deixara por completo de escrever e que saboreava o veneno jubiloso do triunfo; por essa época, as mentiras, as infidelidades e o álcool tinham gangrenado totalmente a minha relação com Paula.

Naquela noite, o dono de uma revista literária que tinha acabado de me atribuir o prémio do melhor livro do ano deu um jantar na sua casa de campo, numa aldeia do Empordà; aí se reuniu um grupo numeroso de pessoas: jornalistas, escritores, cineastas, fotógrafos, professores, críticos literários, amigos da família. Fui a esse encontro com Paula e Gabriel. Não era uma coisa habitual e não me lembro por que o fiz. Talvez por o anfitrião me ter garantido ao telefone que seria uma festa quase familiar e que outros convidados também iriam acompanhados pelos filhos; talvez para silenciar a má consciência que me provocava o facto de enganar Paula com frequência e de quase não dedicar tempo algum a Gabriel; talvez por achar que essa imagem familiar avalizava a minha reputação de escritor impermeável às lisonjas da fama, uma reputação de insubornável e de modéstia que, conforme depressa descobri, constituía a ferramenta ideal para cair nas graças dos membros mais poderosos da sociedade literária - que são sempre os mais cândidos, porque sentem a sua hierarquia menos ameaçada -, e também para me proteger da hostilidade que o meu sucesso tinha suscitado entre aqueles que se sentiam desprezados por ele, porque consideravam que eu o tinha arrebatado. A verdade é que, excepcionalmente, fui ao jantar com Gabriel e com Paula. Sentaram-me à mesa em frente ao anfitrião, um velho empresário com interesses em jornais e editoras de Barcelona; de um lado tinha Paula e, do outro, uma jovem jornalista radiofónica, sobrinha do anfitrião, que, seguindo instruções do tio, se arranjou de maneira a que a conversa girasse toda em redor das causas do sucesso inesperado do meu livro. Como a jornalista quase obrigou a intervir cada um dos convidados, houve opiniões para todos os gostos; quanto a mim, instalado a meu bel-prazer na minha posição de protagonista do serão, limitava-me a comentar com dubitativa aprovação tudo o que se dizia e, num tom de voz suavemente irónico, a pedir de vez em quando ao anfitrião que mudássemos de assunto, o que era interpretado por todos como uma prova de humildade e não como uma astúcia orientada no sentido de fazer com que não decaísse a discussão dos meus méritos. Acabado o jantar, bebemos café e licores num antigo átrio transformado em sala, onde os convidados se foram juntando em grupos que se faziam e desfaziam ao sabor das conversas. Já passava da meia-noite quando Paula interrompeu a conversa que, de whisky na mão, eu mantinha com um guionista de cinema, com a sua mulher e com a sobrinha do anfitrião, acerca da adaptação cinematográfica do meu romance; disse-me que Gabriel estava a adormecer e que, no dia seguinte, ela tinha de trabalhar.

- Vamo-nos embora - participou, acrescentando sem qualquer convicção -, mas fica, se quiseres.

Já estava a arranjar argumentos para tratar de a convencer a ficarmos mais um bocado quando o guionista interveio.

- Claro - disse, apoiando a proposta de Paula e apontando para a sua mulher. - Nós voltamos esta noite para Barcelona. Se quiseres podemos passar em Gerona e deixar-te em tua casa.

Aliviado, procurei os olhos de Paula.

- Não te importas?

Todos os olhares convergiram nela. Eu sabia que se importava mas ela disse:

- Claro que não.

Acompanhei Gabriel e Paula até ao carro e, quando Gabriel se deitou no banco traseiro, vencido pelo sono, Paula fechou a porta e murmurou:

- Da próxima vez vens sozinho às tuas festas.

- Não disseste que não te importavas que ficasse?

- És um cabrão.

Discutimos; não me lembro do que dissemos mas, enquanto via o meu carro afastar-se a toda a pressa pela vereda de cascalho que saía da quinta, pensei o que tantas vezes pensava naquela época: que chega uma altura na vida dos casais em que tudo o que dizem o dizem para magoar, que o meu casamento se tinha transformado numa forma refinada de tortura e que quanto mais cedo se desfizesse, melhor para todos.

Mas esqueci-me imediatamente da briga com Paula e continuei a gozar a festa. Esta prolongou-se até de madrugada e, quando entrei no carro do guionista e da mulher, vi-me sentado junto de uma jovem muito séria e com ar de intelectual em quem quase não tinha reparado durante toda a noite. A viagem até Gerona foi rápida mas bastou para que me apercebesse de que a rapariga estava com os copos, para ter a certeza de que estava a namoriscar comigo, para ficar a saber vagamente que era amiga da sobrinha do anfitrião e que trabalhava na televisão local. Ao entrar na cidade, a rapariga propôs tomarmos um último copo no bar de uns amigos que, conforme disse, não fechava até ao amanhecer. O guionista e a mulher declinaram a oferta com o argumento de que já era muito tarde e ainda tinham de continuar a viagem até Barcelona; eu aceitei-a.

Fomos ao bar. Bebemos, conversámos, dançámos e acabei a noite na cama da rapariga. Quando saí da casa dela estava quase a nascer o dia. Na rua esperava-me o táxi que tinha pedido por telefone; dei a minha direcção ao motorista e dormitei durante todo o trajecto mas quando o taxista estacionou à porta da minha casa desejei estar morto: de pé, diante de um carro celular, dois mossos d’esquadra *(1) esperavam junto da rampa de acesso à garagem. Paguei ao taxista com uma nota trémula e, ao sair do carro, reparei que a rampa de acesso à garagem, onde costumávamos parar o carro, estava vazia e soube que Paula e Gabriel não estavam em casa.

- O que aconteceu? - perguntei, aproximando-me dos dois agentes.

Jovens, graves, quase espectrais sob a luz lívida do amanhecer, perguntaram-me se eu era eu. Disse que sim.

- O que aconteceu? - repeti.

Um dos polícias apontou para a porta da minha casa e perguntou:

- Podemos conversar um momento lá dentro, por favor? Mandei entrar os dois polícias, sentámo-nos na sala de jantar, tornei a perguntar o que tinha acontecido. Quem me respondeu foi o polícia que tinha falado anteriormente.

- Viemos comunicar-lhe que a sua mulher e o seu filho sofreram um acidente - disse.

A notícia não me surpreendeu; com um fio de voz consegui perguntar:

- Estão feridos?

O polícia engoliu em seco antes de responder:

- Estão mortos.

A seguir o polícia puxou de um caderninho e deve ter iniciado um relato asséptico e pormenorizado das circunstâncias em que se deu o acidente mas, apesar de me ter esforçado por prestar atenção a explicação,

 

*(1) Mossos d'esquadra: polícia da Generalitat da Catalunha. (N. T.)

 

a única coisa que captei foram palavras soltas, frases incoerentes ou desprovidas de sentido. A lembrança das horas que se seguiram é ainda mais insegura. Sei que naquela manhã fui ao hospital onde Paula e Gabriel tinham dado entrada, que não vi ou não quis ver os cadáveres, que começaram a chegar imediatamente familiares e alguns amigos, que tomei algumas medidas confusas relacionadas com os funerais, que estes se efectuaram no dia seguinte, que não assisti, que um ou outro jornal incluiu o meu nome na notícia do acidente, e que a minha casa se encheu de telegramas e de faxes de condolências que eu não lia ou lia como acusações veladas. Na realidade, daqueles dias, recordo-me apenas de uma coisa com alucinada clareza.: das minhas visitas à sede dos Mossos d’esquadra. Em muito pouco tempo estive ali quatro vezes, talvez cinco, embora todas me pareçam agora a mesma. Recebia-me num gabinete uma sargento de uniforme, bonita, fria e esforçadamente profissional que, sentada comigo a uma secretária muito colorida, com flores e fotografias da sua família, me explicava vezes sem conta a informação que a polícia reunira sobre o acidente, fazia croquis, respondia às minhas perguntas. Eram reuniões longas mas, apesar das causas e das circunstâncias da colisão não oferecerem dúvidas à polícia (o piso de calçada escorregadio devido à humidade da noite, talvez uma distracção mínima, uma curva efectuada a maior velocidade que a devida, uma guinada desesperada que a atira para a faixa contrária, o horror final de uns faróis que ofuscam de frente), eu saía sempre dali com novas interrogações que, passadas algumas horas ou dias, voltava a descarregar na esquadra. A sargento combinou um encontro com os dois agentes que tinham chegado primeiro ao local do acidente e se tinham encarregado da sua resolução e, na companhia de um deles, um dia à tarde fui até à curva onde este se tinha verificado; na manhã seguinte voltei ao local, sozinho, e fiquei ali um bocado, vendo passar os carros, sem pensar em nada, olhando para o céu, para o asfalto e para a desolação daquele descampado varrido pela tramontana. Não saberia dizer com certeza por que razão agia daquela forma, mas não excluo que uma parte de mim desconfiasse que alguma coisa não encaixava, que naquela história havia pontas soltas, que a polícia estava a esconder-me alguma coisa e que, se conseguisse descobri-la, imediatamente se abriria uma porta e Paula e Gabriel entrariam por ela, vivos e sorridentes, como se tudo tivesse sido um engano ou uma brincadeira de mau gosto. Até que uma manhã, ao entrar no gabinete da sargento para a nossa enésima reunião, a encontrei acompanhada por um homem mais velho, de barba, vestido à civil. A sargento fez as apresentações e o homem explicou-me que era psicólogo e que dirigia uma associação chamada Serviço de Apoio ao Luto (ou coisa do género), destinada a ajudar os familiares dos mortos em acidentes. O psicólogo continuou a sua exposição durante algum tempo mas eu deixei de o ouvir; nem sequer olhava para ele. Limitava-me a olhar para a sargento que se cansou de esquivar os meus olhos e acabou por interromper o homem.

- Oiça o que lhe digo e vá com ele - disse, acabando por me devolver o olhar. E, pela primeira vez, senti uma nota de cordialidade ou emoção na sua voz. - Eu já não posso fazer mais nada por si.

Saí da esquadra e nunca mais lá voltei. Naquela mesma tarde fui a uma agência imobiliária, aluguei o primeiro apartamento que me ofereceram em Barcelona, perto da Sagrada Família, e, depois de vender de qualquer maneira e a toda a pressa a casa de Gerona e de me desfazer dos pertences de Gabriel e de Paula, mudei-me para lá, disposto a dedicar-me conscienciosamente à tarefa de morrer e não à de nascer. Uma escuridão total apoderou-se então da minha vida. Descobri que o pai de Rodney tinha razão e que o mundo é um lugar vazio; mas também descobri que naquele momento a solidão era para mim menos uma condenação que o único bálsamo possível, a única bênção possível. Não via a minha família, não via os meus amigos, não tinha televisão, rádio ou telefone. Tratei também de que só as pessoas indispensáveis soubessem a minha nova direcção e quando alguma delas (ou alguém que me tenha localizado através delas) batia à minha porta, simplesmente não abria. Foi o que aconteceu com Marcos Luna que durante algum tempo aparecia regularmente em minha casa e se fartava de tocar à campainha sabendo que eu estava lá dentro a ouvi-lo. Até perceber que não conseguiria falar comigo. A partir de então limitava-se a deixar na minha caixa de correio, todas as sextas-feiras à tarde, um maço de charros de marijuana acabados de fazer. Também a minha agente literária me enviava de vez em quando uma relação das pessoas que telefonavam para o seu escritório a pedir a minha comparência nalgum sítio ou a perguntar por mim, embora nunca lhe tenha respondido. Evidentemente, não trabalhava, mas as vendas do livro tinham-me proporcionado receitas suficientes para viver sem trabalhar durante anos e eu não via qualquer razão para não deixar passar o tempo até o dinheiro se esgotar. O meu único esforço consistia em não pensar, sobretudo em não recordar. Ao princípio tinha sido impossível. Até ter abandonado a casa que tinha partilhado com Paula e Gabriel e ter ido para Barcelona, não conseguia deixar de me torturar pensando no acidente. Interrogava-me se no último instante Gabriel teria acordado e teria tido consciência do que ia acontecer; interrogava-me sobre o que teria pensado Paula naquele momento, que lembrança a teria distraído enquanto conduzia, provocando a guinada que, por sua vez, provocou o acidente, o que teria acontecido se, em vez de ficar na festa, tivesse voltado para casa com eles... Aqueles que conheceram a sevícia programada dos campos de concentração nazis ou soviéticos costumam dizer que, para a suportarem, se encorajavam recordando a felicidade que tinham deixado para trás porque, por remota que fosse, continuavam sempre a abrigar a esperança de algum dia a poderem recuperar; eu carecia desse consolo. Como os mortos não ressuscitam, o meu passado era irrecuperável, de modo que me apliquei conscienciosamente em aboli-lo. Talvez por isso, assim que me instalei em Barcelona, tenha começado a fazer uma vida nocturna. Passava semanas inteiras sem sair de casa, lendo romances policiais na cama, alimentando-me de sopas de pacote, latas de conserva, tabaco, marijuana e cerveja, mas era habitual passar a noite fora, percorrendo sem tréguas a cidade, caminhando sem rumo certo, parando de vez em quando para beber um copo, descansar um pouco e recuperar forças antes de continuar o meu passeio para nenhures até ao amanhecer, quando voltava para casa arrasado e me deitava na cama, sedento de sono e incapaz de dormir, enervado pelos ruídos alheios do mundo que, incrivelmente, continuava o seu curso imperturbável. As insónias transformaram-me num teórico apaixonado do suicídio e agora penso que, se não o pus em prática, não foi só por cobardia ou por excesso de imaginação, mas também porque receava que os meus remorsos acabassem por sobreviver a mim próprio ou, mais provavelmente, por ter descoberto que, mais que morrer, o que desejava era nunca ter vivido e, por isso, às vezes conseguia ter um sono transparente e sem sonhos quando me imaginava a viver no limbo puríssimo da não existência, na felicidade de antes da luz, de antes das palavras. Viciei-me a jogar com a morte. De vez em quando, agarrava no carro e conduzia de uma forma obsessiva e temerária durante dias inteiros, ao acaso, parando apenas para comer ou para dormir, confortado pela certeza permanente de que a qualquer momento podia dar uma guinada como a que matara Gabriel e Paula, e, uma noite, num prostíbulo de Montpellier, envolvi-me numa discussão sem sentido com dois indivíduos que acabaram por me dar uma sova que me mandou de novo para um hospital de onde saí com o corpo cheio de nódoas negras e com o nariz partido. Também comprei uma pistola. Tinha-a guardada numa gaveta e, de vez em quando, tirava-a, carregava-a e encostava-a à cabeça ou abaixo do queixo, ou metia-a na boca e mantinha-a aí, saboreando a acidez ardente do cano e acariciando levemente o gatilho enquanto o suor me jorrava pelas fontes e a minha respiração ofegante parecia retumbar-me na cabeça e encher até ao limite o silêncio do apartamento. Uma noite, passeei durante muito tempo pelo parapeito do terraço, feliz, nu e em equilíbrio, com a cabeça em branco, consciente apenas da brisa que me arrepiava a pele, das luzes que iluminavam a cidade e do precipício vertiginoso que tinha à minha frente, cantarolando entre dentes uma canção que esqueci.

Nesse estado de funambulismo sem saída passei a Primavera, o Verão e o Outono, e foi só numa noite de princípios do Inverno passado que, graças à aliança providencial de um incidente desagradável, de uma descoberta funesta e de uma lembrança ressuscitada, de repente, tive um vislumbre fugaz de que não estava condenado a levar para sempre a vida subterrânea que tinha levado nos últimos meses. Tudo começou no Tabu, um clube nocturno situado na parte baixa da Rambla e frequentado por turistas, que acorrem em busca de espectáculos porno locais a preços acessíveis. É um local escuro e gasto, com um balcão disposto em ângulo recto à direita da entrada e um palco rodeado de mesas e cadeiras de metal, sobrevoado por globos de luz com lantejoulas prateadas, à esquerda do qual um pano esconde os privados para as actuações pagas.

Eu tinha lá estado algumas vezes, sempre muito tarde, e, tal como fizera nas minhas visitas anteriores, naquela noite pedi um whisky à mulher velha, miúda e pintalgada que parecia ser a encarregada do local e instalei-me numa ponta do balcão a beber e a fumar enquanto apreciava o espectáculo à distância. Devia ser um dia normal porque, embora entre o público sobressaísse um grupo de jovens ruidosos e excitados que confraternizavam efusivamente com as artistas e subiam para o palco assim que elas se insinuavam, o resto do local estava quase deserto e só se viam dois casais apoiados no balcão a alguns metros de mim: um deles no centro do balcão e o outro um pouco mais afastado. Já tinha bebido o primeiro whisky e estava quase a pedir o segundo quando, precisamente no momento em que no palco uma mulher nua fazia uma felação a um homem vestido de soldado romano, senti que alguma coisa anómala acontecia ao meu lado; voltei-me e vi o casal que estava no centro do balcão a discutir violentamente. Minto, não vi isso; o que vi, apenas nalguns segundos fulgurantes de estupefacção, foi que o homem e a mulher gritavam um ao outro desfigurados, que o homem atravessava a cara da mulher com uma bofetada, que a mulher tentava devolvê-la sem sucesso, que, dominado por uma fúria cega, o homem começava a bater na mulher e que continuava a bater-lhe e a bater-lhe até a deitar ao chão, de onde ela tratava de defender-se entre lágrimas, insultos, murros e pontapés no ar. Também vi que o casal que estava mais longe se afastava da cena, fascinado e amedrontado, que o volume da música impedia que o público que estava diante do palco reparasse na briga, e que a única pessoa que parecia determinada a pará-la, esganiçando-se atrás do balcão, era a velha encarregada do local. Quanto a mim, fiquei imóvel, paralisado, olhando para a luta agarrado ao meu copo de whisky vazio, até terem aparecido, alertados sem dúvida pela encarregada, dois porteiros do local, que dominaram com dificuldade o agressor e o levaram para a rua com um braço torcido atrás das costas, enquanto a encarregada, escoltada por outras pupilas, levava a rapariga para trás do palco. Foi também a encarregada que, uma vez de volta à sala, tratou de apaziguar a inquietação de uma clientela que na sua maior parte vislumbrara apenas o fim da altercação e foi ela também que, depois de se certificar de que o espectáculo continuava, ao passar ao pé de mim para voltar ao seu lugar no balcão me pespegou, sem sequer olhar para mim, como se eu fosse um cliente habitual e comigo pudesse desafogar a tensão acumulada:

- E você, bem que podia ter feito alguma coisa, ou não?

Não disse nada; não pedi o segundo whisky; saí dali. Lá fora fazia um frio de rachar. Subi pela Rambla em direcção à plaza de Catalunha e, assim que vi um bar aberto, entrei e pedi o whisky que não me atrevera a pedir no Tabu. Bebi-o com dois goles apressados e pedi outro. Reconfortado pelo álcool, reflecti sobre o que acabara de acontecer. Perguntei a mim próprio em que estado teria ficado a mulher, que no fim tinha deixado de resistir aos pontapés do agressor e jazia inerme no chão, extenuada e talvez inconsciente. Disse a mim próprio que, se não fosse pela intervenção in extremis dos dois porteiros, nada indicava que o homem deixasse de bater na sua vítima até ficar sem forças ou até a matar. Não me interroguei, pelo contrário, acerca do que perguntara a encarregada do local: por que razão eu não tinha feito nada para parar a pancadaria; não me interroguei porque já o sabia: por medo; talvez também por indiferença e até por uma sombra de crueldade. É possível que alguma parte de mim tivesse apreciado aquele espectáculo de dor e de fúria e que essa mesma parte não se tivesse importado que continuasse. Foi então que, como se emergisse de um abismo de séculos, recordei uma cena paralela e inversa à que acabara de presenciar no Tabu, uma cena passada há mais de trinta anos num bar de uma cidade longínqua que eu não conhecia. Aí, nalgum lugar de Saigão, o meu amigo Rodney tinha defendido uma empregada vietnamita da brutalidade alcoolizada de um aspirante dos Boinas Verdes; não tinha sido indiferente ou cruel, tinha vencido o medo e não lhe tinha faltado a coragem. Exactamente o que eu não fizera nem tivera minutos atrás. Mais que vergonha pela minha cobardia, pela minha crueldade e pela minha indiferença, senti perplexidade pelo facto de me lembrar de Rodney precisamente naquele momento, quando o esquecera há quase dois anos.

Horas depois, recapitulando o que acontecera naquela noite, pensei que essa lembrança intempestiva era na realidade uma premonição. Pensei-o nessa altura mas podia ter pensado muito antes, justamente quando, ao acabar de beber o whisky naquele bar da Rambla e ao tirar a carteira para o pagar, caiu ao chão o maço desordenado de papéis que guardava nela; agachei-me para os apanhar: havia cartões de crédito, a carta de condução e o bilhete de identidade, facturas atrasadas, pedaços de folhas de bloco com números de telefone e nomes vagamente conhecidos garatujados. Entre eles estava a fotografia, dobrada e amarrotada; desdobrei-a, olhei-a por um segundo, menos de um segundo, reconhecendo-a sem querer reconhecê-la, com mais incredulidade que assombro; depois tornei a dobrá-la rapidamente e meti-a na carteira juntamente com os outros papéis. Acto contínuo paguei, saí para a rua com uma sensação de vertigem ou de perigo real, como se levasse uma bomba na carteira, e desatei a andar muito depressa, sem sentir o frio da noite, sem reparar nas luzes e nas pessoas da noite, tentando não pensar na fotografia mas sabendo que essa imagem procedente de uma vida que quase julgava arrumada poderia explodir diante da porta de pedra em que se transformara o meu futuro, abrindo uma fenda pela qual imediatamente se escoariam no presente o futuro e o passado, a realidade. Subi pela Rambla, atravessei a plaza de Catalunha, fui pelo Paseo de Gràcia acima, virei à esquerda ao chegar à Diagonal e continuei a andar muito depressa, como se precisasse de ficar esgotado quanto antes ou como se precisasse de ganhar coragem ou adiar o mais possível o momento inevitável. Finalmente, numa esquina de Balmes, sob a luz mutante de um semáforo, decidi-me: abri a carteira, procurei a fotografia e olhei para ela. Era uma das fotografias que Paula e Gabriel tinham tirado com Rodney durante a visita do meu amigo a Gerona e também a única imagem de Paula e Gabriel que eu tinha conservado por descuido. Desfizera-me das restantes ao mudar-me para Barcelona. Ali estavam os dois, naquele pedaço de papel esquecido, como dois fantasmas que resistem a desvanecer-se, diáfanos, sorridentes e intactos na ponte de Les Peixeteries Velles; e lá estava Rodney, muito teso entre os dois, com a sua venda de pano no olho e as suas duas mãos enormes pousadas sobre os ombros da minha mulher e do meu filho, como um ciclope disposto a protegê-los de uma ameaça ainda invisível. Fiquei a olhar para a fotografia; não tentarei descrever o que pensava. Fazê-lo seria desvirtuar o que senti enquanto pensava. Direi apenas que já estava há muito tempo com os olhos cravados na fotografia quando me dei conta de que estava a chorar, porque as lágrimas, que me caíam em catadupa pela cara, estavam a empapar a minha camisa de flanela e a lapela do sobretudo. Chorava como se nunca mais fosse parar de chorar. Chorava por Paula e por Gabriel, mas talvez chorasse sobretudo porque até então não tinha chorado por eles, nem na sua morte nem nos meses de pânico, culpa e reclusão que se seguiram. Chorava por eles e por mim; também soube ou julguei saber que chorava por Rodney e, com uma estranha sensação de alívio - como se pensar nele fosse a única coisa que pudesse eximir-me de pensar em Paula e em Gabriel -, imaginei-o naquele mesmo instante na sua casa de Rantoul, na sua casa provinciana de dois pisos, águas-furtadas, alpendre e jardim com dois bordos em Belle Avenue, com o seu trabalho aprazível e rotineiro de professor de escola, vendo o seu filho crescer e a sua mulher amadurecer, redimido do destino de inadaptado incurável que durante mais de trinta anos o tinha encurralado ferozmente, dono de tudo o que tinha tido no tempo acetinado e inacessível da fotografia que agora mo devolvia.

Não sei há quanto tempo estava parado junto do semáforo quando consegui voltar a meter a fotografia na carteira, atravessar Balmes e, sem deixar de chorar (ou assim penso), pôr-me a andar até Muntaner e depois até à parte alta. Tratava novamente de não pensar em nada mas pensava em Paula e em Gabriel; fazê-lo doía-me como uma amputação. Para evitar a dor obriguei-me a pensar novamente em Rodney. Lembrava-me das nossas conversas incansáveis no Treno's, da minha visita ao pai dele em Rantoul, do meu projecto sempre adiado de um dia escrever a sua história e da conversa que tivemos em Madrid, quando descobrira, com uma repugnância que agora me parecia repugnante, que o meu amigo carregava na sua consciência o peso da morte de mulheres e crianças. E a dada altura, entre as imagens que atravessavam como nuvens ou meteoritos o meu cérebro enevoado, lembrei-me de Rodney na festa do chinês Wong, rodeado de gente e no entanto impermeável, apenas um animal extraviado no meio de uma manada de animais de outra espécie, recordei-o nas escadas do alpendre de Wong, naquela mesma noite, alto, destruído, desamparado e vacilante, cobrindo-se com o seu casacão de cabedal e com o seu gorro de pele enquanto eu o observava de uma janela que dava para a rua, a neve caía com grandes flocos sobre a calçada e ele olhava para a noite sem chorar (embora ao princípio me tivesse parecido que chorava), olhava para a noite como se andasse por um desfiladeiro junto de um abismo muito negro e não houvesse ninguém que tivesse tantas vertigens e tanto medo como ele. E então compreendi de repente o que não tinha compreendido naquela noite de há tantos anos: se eu abandonara a festa para ir à procura de Rodney fora porque, observando-o da janela, soube que era o homem mais sozinho do mundo e porque, por alguma razão evidente que no entanto não estava ao meu alcance, eu era a única pessoa que podia acompanhá-lo, e compreendi também que, nesta noite de tantos anos passados, as voltas tinham mudado. Agora eu também era responsável pela morte de uma mulher e de uma criança (ou sentia-me responsável pela morte de uma mulher e de uma criança), agora era eu o homem mais sozinho do mundo, um animal extraviado no meio de uma manada de animais de outra espécie, agora era Rodney, e se calhar seria Rodney apenas quem podia acompanhar-me, porque ele tinha percorrido muito antes e durante muito mais tempo que eu o mesmo túnel de pavor e remorsos por onde eu andava às cegas há vários meses, e tinha encontrado a saída: só Rodney, meu semelhante, meu irmão - um monstro como eu, como eu um assassino - podia mostrar-me uma frincha de luz naquele túnel de infelicidade por onde, sem ter forças sequer para desejar sair dele, eu caminhava sozinho e às escuras desde a morte de Gabriel e de Paula, tal como Rodney o fizera durante trinta anos desde que ao virar alguma curva de alguma vereda de algum lugar sem nome do Vietname vira aparecer um soldado que era ele.

Naquela noite voltei para casa mais cedo do que o costume, deitei-me na cama com os olhos abertos e, pela primeira vez em muitos meses, dormi seis horas seguidas. Tive dois sonhos. No primeiro só aparecia Gabriel. Estava a jogar matraquilhos num local grande, desconjuntado e vazio como uma garagem, batendo nas bolas com uma alegria adulta, quase feroz; não tinha adversário ou eu não conseguia ver o seu adversário e parecia não ouvir os gritos com que eu tentava atrair a sua atenção; até, de repente, ter soltado as pegas e, aborrecido ou furioso, se ter voltado para mim. «Não chores, papá», disse então, com uma voz que não era sua ou que não consegui reconhecer. «Não me doeu.» O segundo sonho foi mais longo e mais complexo, mais desconexo também. Primeiro vi as caras de Paula e de Gabriel, muito juntas, quase face contra face, sorrindo me de uma forma inquisitiva como se estivessem do outro lado de um vidro. Depois a cara de Rodney juntou-se a elas e começaram as três a sobrepor-se como que numa transparência, fundindo-se umas nas outras, de tal forma que a cara de Gabriel se modificava até se transformar na de Paula ou de Rodney, e a cara de Paula se modificava até se transformar na de Rodney ou Gabriel, e a cara de Rodney se modificava até se transformar na de Gabriel ou de Paula. No fim do sonho via-me a chegar a casa de Rodney, em Rantoul, num dia azul e soalheiro, descobrindo com uma angústia indescritível, entre sorrisos falsos e olhares de receio, que quem vivia com o meu amigo não eram a sua mulher e o seu filho, mas Paula e Gabriel, ou uma mulher e uma criança que imitavam a voz, o físico e até os gestos de afecto de Paula e de Gabriel mas que, de alguma forma perversa, não eram eles.

No dia seguinte, a ansiedade acordou-me. Barbeei-me, tomei duche, vesti-me e, enquanto tomava café e fumava um cigarro, decidi escrever a Rodney. Lembro-me bem da carta. Nela começava por me desculpar por ter deixado de lhe escrever; depois perguntava-lhe pela sua vida, pela mulher e pelo filho; depois mentia-lhe: falava-lhe de Gabriel e de Paula como se ainda estivessem vivos e falava-lhe também de mim como se há muitos meses não estivesse ocupado em morrer mas em viver e não me tivesse transformado num fantasma ou num zombie e continuasse a viver e a escrever como se não tivesse destruída a morada da alma. Reparei imediatamente que escrever a Rodney actuava sobre mim como um lenitivo e, enquanto via brotar, como insectos, as palavras no ecrã do computador, quase sem me aperceber concebia a ilusão sem argumentos de que visitar Rodney em Rantoul era a única maneira de quebrar a lógica de aniquilação em que me encontrava preso. Assim que acabei de formular esta ideia, comecei a pô-la por escrito mas, porque compreendi que era apressada e brutal e exigia demasiadas explicações, imediatamente a suprimi e, depois de dar muitas voltas e de fazer e refazer vários rascunhos, acabei por expressar simplesmente o meu desejo de voltar um dia a Urbana e de voltar a vê-lo lá ou em Rantoul, uma declaração suficientemente vaga para não destoar da serenidade e casualidade do resto da missiva. Acabei de redigi-la já era noite e, de manhã, enviei-a para Rantoul por correio expresso.

Durante duas semanas esperei em vão pela resposta de Rodney. Receando que a minha carta se tivesse extraviado, voltei a imprimi-la, voltei a enviá-la; o resultado foi o mesmo. Este silêncio desconcertou-me. Não achava verosímil que nenhuma das duas cartas tivesse chegado ao seu destino mas sim que Rodney as tivesse recebido e, por alguma razão (talvez por ter sentido ser uma ingratidão ou uma ofensa eu ter interrompido sem explicações a nossa correspondência em plena voragem do êxito), se recusasse a responder; havia também a possibilidade de Rodney já não viver em Rantoul, uma conjectura reforçada pelo facto de, conforme consegui averiguar, não haver em Rantoul nenhum telefone em nome de alguém chamado Falk. Qualquer uma das hipóteses era plausível mas não me lembro de como cheguei à conclusão de que a segunda era a mais razoável, ainda que fosse também a mais inquietante e a menos optimista. Ao fim e ao cabo, se o orgulho ferido era a causa do silêncio de Rodney, então havia a esperança de o quebrar, porque não era insensato pensar que mais cedo ou mais tarde acabaria por cicatrizar; mas se a causa do silêncio era Rodney não ter recebido as minhas cartas por se ter mudado com a família para outra cidade (ou, pior ainda, por ter fugido novamente, transformado novamente num fugitivo crónico incapaz de se libertar do seu passado infame), então qualquer perspectiva de voltar a ver Rodney se evaporava para sempre. Rapidamente o desânimo substituiu a perplexidade; a ilusão fugaz de um encontro com Rodney exerceu sobre mim o efeito de uma espécie de sortilégio salutar que se revelou de súbito um último e ridículo ardil da impotência. Mais uma vez não tinha à minha frente mais do que uma porta de pedra.

Voltei à minha vida subterrânea; deixei passar o tempo. Numa sexta-feira de Fevereiro, mais ou menos dois meses depois de tentar recomeçar a minha correspondência com Rodney, ao abrir a minha caixa de correio para ir buscar o maço de charros que Marcos me deixava todas as semanas, encontrei uma carta da minha agente literária. Ao contrário do que fizera das outras vezes, desta feita abri-a. A minha agente participava-me na carta que a embaixada espanhola em Washington me propunha realizar uma viagem promocional por diversas universidades dos Estados Unidos. Não sei se já disse que este tipo de convites para ir aqui e ali se convertera numa coisa tão rotineira como o silêncio administrativo com que respondia a todas elas.

Ia deitar a carta fora quando me lembrei de Rodney; abri o maço de Marcos, tirei um charro, acendi-o, dei duas passas e guardei a carta num dos bolsos. Fui depois até à rua e pus-me a andar em direcção ao centro. Naquela noite não fiz nada diferente do que vinha fazendo há meses; na de sábado também não, nem na de domingo. Mas durante todo o fim-de-semana não parei de pensar na proposta e, segunda-feira à tarde, depois de muito tempo sem dar sinais de vida, telefonei à minha agente. Ela ainda não tinha superado a surpresa da chamada quando lhe dei a surpresa acrescida de ter decidido aceitar a viagem pelos Estados Unidos na condição inegociável de uma das suas etapas ser Urbana. A partir daqui foi tudo muito rápido: a embaixada e as universidades aceitaram as minhas condições, organizaram a viagem e, em meados de Abril, quase quinze anos depois de ter saído de Urbana, voltei a apanhar um avião para os Estados Unidos.

 

                   A ÁLGEBRA DOS MORTOS.

A viagem pelos Estados Unidos durou duas semanas, durante as quais percorri o país de costa a costa, dominado ao princípio por um estado de espírito no mínimo contraditório. Por um lado, estava expectante, desejoso não só de voltar a Urbana, de voltar a ver Rodney, mas também - o que se calhar equivalia ao mesmo - de emergir por algum tempo da sujidade do subsolo e de me aliviar do peso de um passado que não existia ou que podia fingir não existir em cada lugar a que chegava; mas, por outro lado, sentia também uma apreensão angustiante porque, pela primeira vez em quase um ano, ia sair do estado de hibernação com que tentara preservar-me da realidade, e ignorava qual seria a minha reacção quando voltasse a expor-me a ela em carne viva. De modo que, embora depressa me tenha apercebido de que não me desabituara totalmente da intempérie, durante os primeiros dias tive a sensação de andar um pouco às cegas como quem, depois de um longo cativeiro às escuras, demora algum tempo a habituar-se à luz. Saí de Espanha num sábado e só cheguei a Urbana passados sete dias, mas assim que pisei o solo dos Estados Unidos comecei a ter notícias das pessoas de Urbana. A primeira escala da viagem foi a Universidade da Virginia, com sede em Charlottesville. O meu anfitrião, o professor Victor T. Davies, um famoso especialista em Literatura do Iluminismo, foi buscar-me ao aeroporto de Dulles, em Washington, e, durante as duas horas de trajecto até à universidade, falámos de alguns conhecidos comuns; entre eles surgiu o nome de Laura Burns.

Há anos que eu não tinha notícias dela, tal como não as tinha de nenhum dos amigos de Urbana, mas Davies e Laura mantinham contactos frequentes desde que ela publicara uma edição crítica (excelente, especificou) de Los eruditos a la violeta, a obra de Cadalso; segundo Davies, Laura divorciara-se há vários anos do seu segundo marido e era agora professora na Universidade de Saint Louis, a menos de três horas de carro de Urbana.

- Se soubesse que eram amigos, ter-lhe-ia dito que estavas para vir - lamentou-se Davies.

Ao chegar a Charlottesville, pedi-lhe o número de telefone de Laura e nessa mesma noite telefonei-lhe do meu quarto do Colonnade Club, um sumptuoso edifício destinado ao alojamento dos visitantes oficiais da universidade. O telefonema encheu Laura de uma alegria exagerada e quase contagiosa e, superado o primeiro momento de espanto e após uma rápida troca de informações, combinámos que ela se poria em contacto com John Borgheson, que era agora chefe do departamento e tinha organizado a minha estadia em Urbana, e que, de qualquer maneira, nos encontraríamos lá no sábado seguinte.

A segunda cidade que visitei foi Nova Iorque, onde tinha de dar uma conferência no Barnard College, uma instituição adstrita à Universidade de Columbia. Logo na noite da minha chegada, depois da conferência, a minha anfitriã, uma professora espanhola chamada Mercedes Esteban, convidou-me para jantar na companhia de outros dois colegas num restaurante mexicano da rua 43; aí, sentado a uma mesa, Felipe Vieri esperava por nós. Ao que parece, Esteban e ele tinham-se conhecido quando ambos leccionavam na Universidade de Nova Iorque e, desde essa altura, mantinham uma boa amizade; tinha sido ela quem o informara saber da minha visita e, entre ambos, tinham organizado aquele reencontro inesperado. Há muitos anos que Vieri e eu tínhamos deixado de nos corresponder e, sem contar com alguma notícia dispersa apanhada aqui ou ali (evidentemente, também tinham chegado até Vieri os ecos do sucesso do meu romance), ignorávamos tudo acerca um do outro, mas durante o jantar o meu amigo fez tudo o que pôde para preencher essa lacuna. Assim, soube que Vieri continuava a leccionar na Universidade de Nova Iorque, que continuava a viver em Greenwich Village, que tinha publicado um romance e vários livros de ensaios, um dos quais sobre o cinema de Almodóvar; quanto a mim, menti tal como tinha feito na carta inútil que enviara a Rodney e tal como tinha mentido a Davies e a Laura: falei-lhes de Gabriel e de Paula como se estivessem vivos e da minha vida feliz de escritor provinciano de sucesso. Mas do que falámos mais foi de Urbana. Vieri tinha trazido consigo vários exemplares de Línea Plural («uma jóia impossível de encontrar», troçou, efeminando a expressão e a voz e dirigindo-se aos restantes comensais) e um monte de fotografias, entre as quais reconheci uma da reunião de colaboradores da revista onde Rodrigo Ginés referiu o seu encontro dada com Rodney enquanto este colava cartazes trotskistas contra a General Electric. Apontando para um rapaz radiante que olhava para a máquina fotográfica naquela fotografia, entalado entre Rodrigo e eu, Vieri perguntou:

- Lembras-te do Frank Solaún?

- Claro - respondi. - O que foi feito dele?

- Morreu há sete anos - disse Vieri sem afastar os olhos da fotografia. - De sida.

Abanei a cabeça mas ninguém acrescentou qualquer comentário e continuámos a conversar: de Borgheson, de Laura, de Rodrigo Ginés, de amigos e conhecidos; Vieri tinha notícias bastante precisas de muitos deles mas durante o jantar não me atrevi a perguntar-lhe por Rodney. Fi-lo mais tarde, num bar situado na esquina da Broadway com a rua 121, perto do Union Theological Seminary - a residência da universidade onde estava hospedado -, onde estivemos a conversar a sós até de madrugada. Previsivelmente, Vieri lembrava-se muito bem de Rodney; previsivelmente, não voltara a saber dele; previsivelmente também, estranhou que fosse eu, que tinha sido o seu único amigo em Urbana, a perguntar-lhe por Rodney.

- Em Urbana, com certeza alguém saberá dele - aventurou.

Com essa esperança, cheguei finalmente a Urbana na tarde de sábado, vindo de Chicago. Lembro-me de que, ao descolar do aeroporto de O'Hare e sobrevoar os subúrbios da cidade - com a linha dentada dos arranha-céus perfilhando-se contra o azul avermelhado do céu e o azul intenso do lago Michigan - não pude evitar lembrar-me da minha primeira viagem de Chicago para Urbana, há dezassete anos, num autocarro da Greyhound fustigado pela canícula de Agosto, enquanto à minha volta desfilava uma extensão interminável de terra parda e desabitada idêntica à que agora parecia quase parada sob o avião, salpicada aqui e ali de manchas verdes e ranchos dispersos; lembrei-me daquela primeira viagem e pareceu-me espantoso estar prestes a chegar novamente a Urbana, um lugar que naquele momento, precisamente quando lá ia pôr os pés depois de tanto tempo, me pareceu de repente tão ilusório como uma invenção do desejo ou da nostalgia. Mas Urbana não era uma invenção. No aeroporto, John Borgheson estava à minha espera, talvez mais calvo mas não mais decrépito do que a última vez que o vira, há anos, em Barcelona, em qualquer dos casos igualmente afável e acolhedor e mais britânico do que nunca. E, enquanto me levava até ao Chancellor Hotel e eu observava sem reconhecer as ruas de Urbana, descreveu-me em pormenor o plano que elaborara para a minha estadia na cidade, contou-me que a festa de boas-vindas estava prevista para aquela mesma tarde às seis e propôs ir buscar-me ao hotel dez minutos antes dessa hora. No Chancellor tomei um duche e troquei de roupa; depois desci até ao hall e matei o tempo passeando para cima e para baixo à espera de Borgheson, até, a dada altura, fugazmente, me ter parecido reconhecer alguém; surpreendido, retrocedi, mas a única coisa que vi foi o meu rosto reflectido num grande espelho de parede. Perguntando a mim próprio há quanto tempo não me olhava num espelho, olhei para o meu reflexo como se olhasse para o rosto de um desconhecido e, enquanto o fazia, imaginei que estava a mudar de pele, pensei que aquele era o lugar de arribação, pensei no peso do passado, na sujidade do subsolo e na prometida claridade do céu aberto, e pensei também que, embora o objectivo daquela viagem fosse quimérico ou absurdo, o facto de a ter empreendido não o era.

Borgheson chegou à hora combinada e levou-me a casa de uma professora de Literatura que tinha insistido em organizar a festa. Chamava-se Elizabeth Bell e tinha chegado a Urbana quase em simultâneo com a minha partida, de modo que só me lembrava vagamente dela; quanto aos restantes convidados, na sua maior parte professores e professores auxiliares de Espanhol, não conhecia nenhum. Até ter aparecido Laura Burns, loura, bonita e urgente, que me abraçou e me beijou com estrépito, beijou e abraçou Borgheson com estrépito, com estrépito cumprimentou os restantes convidados e se assenhoreou imediatamente da conversa, disposta, ao que parece, a cobrar-nos com o seu protagonismo absoluto as duas horas e meia de carro que tinha gasto para vir desde Saint Louis. Não era a primeira vez que fazia esta viagem. Durante a conversa telefónica que tinha mantido com ela, em Charlottesville, Laura contou-me que de vez em quando ia visitar Borgheson que, conforme verifiquei naquela noite, tinha deixado de a tratar como uma discípula notável para a tratar como uma enteada rebelde cujas extravagâncias se envergonhava de considerar irresistivelmente graciosas. Durante o jantar, Laura não parou de falar nem um instante embora, apesar de estarmos sentados lado a lado, não tenha trocado uma palavra comigo a sós ou num aparte; o que fez foi falar aos outros de mim, como se fosse uma dessas mulheres ou mães que, tal como criaturas simbióticas, só parecem viver em função das conquistas dos seus maridos ou filhos. Primeiro falou do êxito do meu romance, acerca do qual tinha escrito um artigo encomiástico no World Literature Today, e mais tarde discutiu com Borgheson, Elizabeth Bell e o marido desta - um linguista espanhol chamado Andrés Virias - sobre as personagens reais que se escondiam por detrás das personagens fictícias de O Inquilino, o romance que eu tinha escrito e situado em Urbana e, a dada altura, comentou que o chefe do departamento daquela época se sentira retratado no chefe do departamento que aparecia no livro e arranjara maneira de fazer desaparecer todos os exemplares existentes na biblioteca, mas estranhei que nem Laura, Borgheson, Elizabeth ou Virias mencionassem Olalde, o professor de Espanhol fictício cuja aparência extravagante-e talvez não apenas a sua aparência - fora visivelmente inspirada na aparência de Rodney. Depois Laura pareceu cansar-se de falar de mim e começou a contar histórias e a rir-se às gargalhadas dos seus anteriores maridos e sobretudo de si própria como mulher dos seus dois anteriores maridos. Só depois do jantar Laura cedeu o monopólio da conversa que, inevitavelmente, derivou então para o catálogo razoável das diferenças que separavam a Urbana de há quinze anos da Urbana actual, e depois para o desfiar do inventário das vidas, tão díspares quanto infelizes, que tinham levado os professores e auxiliares do meu tempo. Toda a gente conhecia alguma história ou algum retalho de história mas quem parecia mais bem informado era Borgheson, ao fim e ao cabo o professor mais antigo do departamento, de modo que quando fui até ao jardim para fumar um cigarro na companhia de Laura, de Virias e de um professor auxiliar, lhe perguntei se sabia alguma coisa acerca de Rodney.

- Porra - disse Laura. - É verdade, o chanfrado do Rodney. Borgheson não se lembrava dele, mas Laura e eu ajudámo-lo a recordar-se.

- Claro - acabou por se lembrar. - Falk. Rodney Falk. O grandalhão que tinha estado no Vietname. Tinha-me esquecido completamente. Era de aqui perto, de Decatur ou de um sítio desses, não é verdade? - Não disse nada e Borgheson prosseguiu: - Claro que me lembro. Mas convivi muito pouco com ele. Não me digas que eram amigos?

- Partilhámos o gabinete durante um semestre - respondi, evasivo. - Depois ele desapareceu.

- Ora, ora - interveio Laura, pendurando-se no meu ombro. - Mas se vocês estavam todo o dia a conspirar no Treno's como se fossem da CIA. Sempre quis saber de que tanto falavam.

- De nada - disse eu. - De livros.

- De livros? - perguntou Laura.

- Era um tipo curioso - interveio Borgheson, dirigindo-se a Virias e ao professor auxiliar, que seguiam a conversa com ar de estarem verdadeiramente interessados nela. - Parecia um redneck, um simplório, e, evidentemente, dava a impressão de nunca ter a cabeça completamente no sítio. Mas acontece que era um tipo cultíssimo, muito erudito. Ou, pelo menos, era isso que dizia dele o Dan Gleylock, que foi seu amigo. Lembras-te do Gleylock?

- Mas como queres que não se lembre? - respondeu Laura por mim. - Quanto a ti não sei, mas eu nunca tinha encontrado um tipo que fosse capaz de falar dezassete línguas ameríndias. Sabes, John? Sempre achei que, se os marcianos chegassem à Terra, tínhamos pelo menos uma maneira de nos certificarmos de que eram marcianos: enviávamos o Gleylock e, se ele não os entendesse, eram marcianos de certeza.

Borgheson, Virias e o professor auxiliar riram-se.

- Reformou-se há dois anos - prosseguiu Borgheson. - Vive agora na Florida, de vez em quando recebo um e-mail dele... Quanto a Falk, a verdade é que não tornei a ouvir uma única palavra acerca dele.

A festa terminou por volta das nove mas Laura e eu fomos sozinhos tomar um copo antes de ela iniciar o caminho de regresso a Saint Louis. Levou-me ao The Embassy, um bar comprido, pequeno e mal iluminado, com as paredes e o chão revestidos de madeira, que ficava junto da Lincoln Square e, assim que nos sentámos ao balcão, diante de um espelho que repetia a atmosfera sossegada do local, lembrei-me de que naquele bar decorria uma cena do meu romance situado em Urbana. Enquanto pedíamos as bebidas disse-o a Laura.

- Claro - sorriu. - Por que achas que te trouxe aqui? Estivemos à conversa no The Embassy até tarde. Falámos um pouco de tudo; também, como se estivessem vivos, da minha mulher e do meu filho mortos. Mas daquela conversa recordo sobretudo o final, talvez por naquele momento ter tido pela primeira vez a intuição enganadora de que o passado não é um lugar estável mas mutante, permanentemente alterado pelo futuro e de que, por isso, nada daquilo que já aconteceu é irreversível. Já tínhamos pedido a conta quando, não como quem faz o balanço da noite mas como quem profere um comentário inofensivo, Laura disse que o êxito me ficava bem.

- E por que razão haveria de me ficar mal? - perguntei. E, acto contínuo, disse automaticamente aquilo que dizia há dois anos cada vez que alguém incorria no mesmo erro: - Os escritores de sucesso dizem que a condição ideal de um escritor é o fracasso. Ouve o que te digo: não acredites neles. Não há nada melhor do que o sucesso.

E então, também como fazia sempre, citei a frase do escritor francês, Jules Renard possivelmente, com que há vinte anos Marcos Luna calara a boca de um colega da Faculdade de Belas-Artes: «Sim, já sei. Todos os grandes homens foram ignorados; mas eu não sou um grande homem, de modo que preferiria ter sucesso imediatamente.» Laura riu-se.

- Não há dúvida - disse. - Assenta-te bem. Digas o que disseres, é estranho. Olha o caso do meu segundo marido. O gringo do caraças já se encheu fazendo aquilo de que gosta mas não pára de se queixar da escravidão do sucesso, e de que isto assim e de que isto assado. Bullshit. Pelo menos os que fracassam não se dedicam a chatear a paciência dos outros com o seu fracasso.

Com deliberada ingenuidade perguntei:

- Tu fracassaste?

Um sorriso mordaz curvou-lhe os lábios.

- Claro que não - disse num tom de voz ambíguo, entre agressivo e tranquilizador. - Era só uma maneira de falar, homem. Todos sabemos que só os idiotas fracassam. Mas agora diz-me uma coisa: que nome dás a ter deitado dois casamentos borda fora, estar mais sozinha que uma cadela, ter quarenta anos e nem sequer ter feito uma carreira académica decente? - Ficou em silêncio e, uma vez que eu não respondia, prosseguiu com acidez, como que apaziguada pelo seu próprio sarcasmo: - Enfim, deixemos isso... O que vais fazer amanhã?

O empregado veio com a conta.

- Nada - menti enquanto pagava, encolhendo os ombros. - Dar uma volta por aqui. Ver a cidade.

- É uma boa ideia - disse Laura. - Sabes, tenho a impressão de que nos dois anos que passaste em Urbana não viste nada, não te apercebeste de nada. É verdade, rapaz, parecia que levavas na cabeça umas palas de burro.

Laura ficou um momento a olhar para mim, como se não tivesse acabado de falar, como se hesitasse ou como se fosse pedir desculpa pelas suas palavras mas em seguida pousou o copo no balcão, passou-me uma mão pela cara, beijou-me nos lábios, sorriu suavemente e repetiu em voz baixa:

- De nada.

Fiquei em silêncio, perplexo. Laura voltou a pegar no copo e acabou com o seu conteúdo de uma vez.

- Calma, rapaz - disse então, voltando ao seu tom de voz habitual. - Não te vou pedir que vás para a cama comigo. Já sou demasiado crescidinha para que um parvo como tu me dê negas mas, pelo menos, faz-me o favor de tirar essa cara de idiota com que ficaste... Bom, vamos?

Laura levou-me no seu carro até ao Chancellor e, quando parou à porta, propus-lhe que tomássemos um último copo no bar do hotel; assim que pronunciei aquelas palavras lembrei-me de Patrícia, a mulher de Marcos, e arrependi-me da proposta. Mais que uma insinuação parecia uma tentativa patética de reparação, uma palmadinha de consolo nas costas. Laura abanou a cabeça numa negativa.

- É melhor não - disse, sorrindo apenas. - É muito tarde e eu tenho ainda duas horas de viagem pela frente.

Demos um abraço e, enquanto o fazíamos, por um instante senti uma alfinetada de nostalgia antecipada porque intuí que aquela seria a última vez que a veria e intuí que ela também o intuía.

- Fico muito feliz por nos termos visto - disse a minha amiga enquanto eu abria a porta do carro. - Fico muito feliz por estares bem. Quem sabe? Se calhar vou um dia a Barcelona, gostaria de conhecer a tua mulher e o teu filho.

Ainda sem sair do carro, olhei-a nos olhos e pensei dizer-lhe: «Estão ambos mortos, Laura. Matei-os eu.»

- Claro, Laura - foi, no entanto, o que lhe disse. - Vem quando quiseres. Adorarão conhecer-te.

Depois fechei a porta e entrei no hotel sem me voltar para a ver afastar-se.

No dia seguinte, acordei sem saber onde estava mas essa sensação durou apenas uns segundos e, depois de me reconciliar com o facto admirável de estar de volta a Urbana, enquanto tomava duche decidi transformar em verdade a mentira que tinha dito a Laura no The Embassy e adiar até à tarde a minha visita a Rodney, em Rantoul. De modo que, depois de tomar o pequeno-almoço no Chancellor, pus-me a andar em direcção ao centro. Era domingo, as ruas estavam quase desertas e ao princípio tudo me parecia vagamente familiar, mas passados alguns minutos já estava perdido e não pude deixar de pensar que talvez Laura tivesse razão e eu tivesse vivido durante dois anos em Urbana com umas palas colocadas, como um fantasma ou como um zombie deambulando por aquela povoação de fantasmas ou zombies. Tive de fazer parar um tipo que fazia footing com uns auriculares na cabeça para que me indicasse o caminho até ao campus; obedecendo às suas indicações, ao chegar finalmente a Green Street, comecei a orientar-me. E foi assim que, como se perseguisse a sombra do alegre, temível e arrogante kamikaze que eu fora em Urbana, vi novamente a relva verdíssima do Quad, o Foreign Languages Building, a minha antiga casa do 703 de West Oregon, o Treno's. Estava tudo mais ou menos como eu o recordava, excepto o Treno's, transformado agora num desses cafés, iguais em todo o lado, que os snobes americanos consideram muito europeus (de Roma) e os snobes europeus consideram muito americanos (de Nova Iorque) mas que são impossíveis de encontrar em Nova Iorque ou em Roma. Entrei, pedi uma Coca-Cola ao balcão e, olhando para a manhã soalheira através das vidraças que davam para a Goodwin, bebi-a num instante. Depois paguei e saí.

Na recepção do Chancellor indicaram-me um stand de aluguer de automóveis que estava aberto ao domingo. Aí aluguei um Chrysler, certifiquei-me, junto de um empregado, de que me lembrava do caminho e, meia hora mais tarde, depois de fazer o mesmo percurso que fizera há quinze anos para ver o pai de Rodney (pela Broadway e Cunningham Avenue e depois pela auto-estrada do norte), chegava a Rantoul. Assim que entrei na cidade reconheci o cruzamento da Liberty Avenue com Century Boulevard e também o posto de gasolina, que agora se chamava Casey's General Store e tinha sido remodelado com bombas modernas e ampliado com um supermercado e cafetaria. Como não tinha a certeza de conseguir localizar a casa de Rodney, parei ali o carro, entrei na cafetaria e perguntei pela Belle Avenue a uma empregada gorda, de farda e coifa brancas, que me deu aos gritos algumas indicações confusas sem deixar de atender os seus clientes. Voltei para o carro, tratei de seguir as indicações da empregada e, justamente quando já julgava ter-me perdido outra vez, vi as linhas do comboio e soube logo onde estava. Fiz marcha-atrás, virei à direita, passei junto da porta fechada do Bud's Bar e estacionei diante da casa de Rodney. O seu aspecto não diferia muito do de há quinze anos, embora o seu tamanho e a sua distinção um pouco caduca de velha mansão de campo ainda contrastasse mais do que na minha memória com a funcionalidade anódina dos edifícios adjacentes. Rodney, sem dúvida, tinha-a reformado para a família porque a fachada e o alpendre pareciam acabados de pintar e por isso achei estranho que, entre o par de bordos que se erguiam no jardim dianteiro, ondulassem ainda as listas e as estrelas da bandeira americana num pequeno mastro cravado na relva. Fiquei uns instantes no carro, com o coração na garganta, tentando assimilar o facto de estar finalmente ali, no fim da viagem, prestes a encontrar-me novamente com Rodney e, passados alguns segundos, subi as escadas do alpendre e toquei à campainha. Ninguém respondeu. Voltei depois a tocar, com idêntico resultado. A poucos metros da porta, à direita, havia uma janela que, conforme recordava, dava para a sala onde eu tinha estado a conversar com o pai de Rodney, mas não pude espreitar para o interior da casa através dela porque umas cortinas brancas mo impediam. Dei a volta. Um todo-o-terreno conduzido por um velhote dobrou a esquina, passou lentamente à minha frente e afastou-se em direcção ao centro da cidade. Desci as escadas do alpendre, pensei em bater na casa de algum vizinho e perguntar por Rodney, mas pus a ideia de lado quando reparei que uma mulher em roupão me espiava de uma janela, no outro lado da rua. Decidi dar um passeio. Caminhei em direcção à linha-férrea, para lá da qual a cidade parecia desintegrar-se numa desordem de baldios, pequenos bosques e campos cultivados, e mais tarde paralelamente a ela, tornando a fazer o caminho que tinha acabado de percorrer de carro. Ao chegar perto do Bud's Bar vi que tinha acabado de abrir. A porta continuava fechada mas estava um camião estacionado em frente e, apesar do sol vertical da manhã, anúncios luminosos de Miller Lite, de Budweiser, de Icehouse e de Ice Brewer brilhavam, ténues, nas janelas. Por cima deles havia um grande letreiro de apoio aos soldados norte-americanos que combatiam no estrangeiro: «Pray for peace. Support our troops.»

Entrei. O local estava vazio. Sentei-me num tamborete, ao balcão, e esperei que viessem atender-me. O Bud's Bar continuava a ser a desengraçada taberna de província que eu recordava, com o seu leve cheiro a estábulo, os seus bilhares, jukeboxes e ecrãs de televisão por toda a parte e, quando vi aparecer por uma porta de batente um tipo pachorrento, com um boné dos Red Socks, quis pensar que era o mesmo empregado que, há quinze anos, me dissera onde ficava a casa de Rodney. O homem fez um comentário, que não entendi totalmente (uma coisa do género de não poder confiar em gente que começa a beber antes do pequeno-almoço) e, já atrás do balcão, um pouco ofuscado pela claridade do sol que entrava pelas janelas atrás de mim, perguntou-me o que queria beber. Observei a sua cara grosseira, os olhos achinesados, o nariz de pugilista e o cabelo escasso e entremeado de brancas que saía do seu boné suado; não sem alguma surpresa, disse para comigo que, efectivamente, era o mesmo homem, dezasseis anos mais velho. Pedi-lhe uma cerveja, ele serviu-a, apoiou as suas mãos de açougueiro no balcão e, antes que eu pudesse interrogá-lo acerca de Rodney perguntou-me:

- Você não é daqui, não é verdade?

- Não - respondi.

- Posso perguntar-lhe de onde é? Disse-o.

- Merda - exclamou. - Isso fica longe, hem? - Corrigiu-se: - Bom, nem tanto. Agora já nada é muito longe. Além disso, vocês também estão em guerra, não é?

- Em guerra?

- Meu Deus, mas onde andou metido neste último ano, amigo? Iraque, Madrid, não ouviu falar de tudo isso?

- Sim - disse, depois de acender um cigarro. - Ouvi alguma coisa. Mas não tenho a certeza se estaremos tão em guerra como vocês.

O homem pestanejou.

- Não entendo - disse.

Felizmente, naquele momento, entrou de repente no bar uma rapariga apressada e com olheiras, com um piercing prateado a brilhar-lhe no umbigo. Sem sequer a cumprimentar, o homem começou a censurar-lhe alguma coisa, mas a rapariga mandou-o para o diabo e desapareceu pela porta de batente. Deduzi que o homem era o proprietário do bar; perguntei a mim próprio se a rapariga seria sua filha.

- Merda - disse ele novamente, como se risse do seu próprio aborrecimento. - Estes jovens já não respeitam ninguém. No nosso tempo era diferente, não acha? - E, como se paradoxalmente a irrupção da rapariga tivesse melhorado o cariz da manhã, o homem acrescentou: - Oiça, incomoda-o que eu o acompanhe com uma cerveja?

Não foi preciso responder-lhe. Enquanto se servia da cerveja pensei que devia ter cinquenta e cinco ou sessenta anos, mais ou menos a idade de Rodney; mentalmente, repeti: «Nosso tempo?» Bebeu um gole de cerveja e pousou a garrafa no balcão; endireitando o cabelo sob o boné dos Red Socks, perguntou:

- Do que estávamos a falar?

- De nada importante - apressei-me a responder. - Mas queria fazer-lhe uma pergunta.

- Diga.

- Vim a Rantoul ver um amigo - comecei. - O Rodney Falk. Acabei de bater em casa dele mas não me responderam. Há algum tempo que lhe perdi o rasto, de modo que nem sequer sei se ainda...

Calei-me. O homem tinha levantado uma mão com parcimónia e, fazendo pala com ela para se proteger da luz, examinava-me com interesse.

- Oiça, eu conheço-o, não é verdade? - acabou por dizer.

- Conhece-me mas não se lembra de mim - respondi. - Estive aqui há muito tempo.

O homem abanou a cabeça e baixou a mão. Em poucos segundos a alegria tinha desertado do seu rosto, substituída por uma expressão que não era de troça mas que o parecia.

- Receio que tenha feito a viagem em vão - disse.

- O Rodney já não vive aqui?

- O Rodney morreu há quatro meses - respondeu. - Pendurou-se numa viga do alpendre, em sua casa.

Perdi a fala; por um segundo faltou-me o ar. Atordoado, afastei os olhos do tipo e, tentando fixá-los nalgum lugar atrás do balcão, vi as fotografias de estrelas de baseball e o grande retrato de John Wayne que pendiam das paredes; naqueles quinze anos, as estrelas de baseball tinham mudado mas John Wayne não. Continuava ali, lendário, imperturbável e vestido de cowboy, com um lenço vermelho ao pescoço e um sorriso invencível nos olhos, como um ícone perdurável do triunfo da virtude. Apaguei o cigarro, bebi um gole de cerveja e de repente tive uma sensação gelada de enjoo, de irrealidade, como se já tivesse vivido aquele instante ou como se o tivesse sonhado: um bar solitário e perdido de uma cidade solitária e perdida do Middle West, com a luz a entrar em jorros pelas janelas e um barman pachorrento e charlatão que, como se me sussurrasse ao ouvido uma mensagem sem um sentido preciso, mas que naquele momento fazia todo o sentido do mundo para mim, me dava a notícia da morte de um amigo que na realidade mal conhecia e que talvez mais que um amigo era um símbolo cujo alcance nem sequer eu próprio conseguia determinar totalmente, um símbolo obscuro ou radioso como o que, se calhar, Hemingway tinha representado para Rodney. E enquanto pensava sem pensar em Rodney e em Hemingway - no suicídio de Rodney há quatro meses no alpendre da sua casa de Rantoul, Illinois, e no suicídio de Hemingway na sua casa de Ketchum, Idaho, quando Rodney era apenas um adolescente -, pensei em Gabriel e em Paula, ou antes, o que aconteceu foi que me apareceram, alegres, luminosos e mortos, e então senti um desejo incontrolável de rezar, de rezar por Gabriel, por Paula e por Rodney, também por Hemingway e, naquele preciso momento, como se acabasse de entrar uma borboleta pela janela aberta do Bud's Bar, lembrei-me bruscamente de uma oração que aparece em «Um lugar limpo e bem iluminado», um relato desolado de Hemingway que eu tinha lido muitas vezes desde que o lera pela primeira vez na noite remota em que o pai de Rodney me telefonou para Urbana para me contar a história do seu filho, uma oração que soube imediatamente ser a única oração adequada para Rodney porque Hemingway, sem o saber, a escrevera para ele muitos anos antes de morrer, uma oração inconsolável que Rodney sem dúvida lera tantas vezes como eu e que, imaginei por instantes, talvez Rodney e Hemingway tivessem rezado antes de porem fim à vida e que Paula e Gabriel nem sequer haviam tido tempo de rezar: «Nada nosso que estás no nada, nada é o teu nome, teu reino nada, tu serás nada no nada como no nada.» Rezei mentalmente esta oração enquanto via o barman aproximar-se do fundo do balcão, gordo e grave ou se calhar indiferente, secando as mãos num trapo, como se se tivesse retirado uns instantes pela pura necessidade de se ocupar com alguma coisa ou como se também tivesse estado a rezar. Por um momento pensei em ir-me embora; depois pensei que não podia ir-me embora. Estupidamente, perguntei:

- Conhecia-o?

- Ao Rodney? - perguntou estupidamente, apoiando novamente os cotovelos no balcão.

Assenti.

- Claro - sorriu. - Como não? Este é um sítio pequeno, aqui conhecemo-nos todos. - Acabou de beber a cerveja e, recuperando de repente a loquacidade, prosseguiu: - Como não havia de o conhecer? Éramos ambos daqui, vivíamos muito perto, crescemos juntos, íamos juntos à escola. Eu tinha a mesma idade que ele, mais um ano que o irmão dele, o Bob. Agora estão ambos mortos... Enfim. Sabe uma coisa? O Rodney tinha muito valor, estávamos todos convencidos de que faria alguma coisa grandiosa, de que chegaria longe. Depois veio a guerra, a do Vietname, quero dizer. Sabe que o Rodney esteve no Vietname? - Tornei a assentir. - Eu também quis alistar-me. Mas não me deixaram. Um sopro no coração, disseram-me, ou uma coisa do género. Suponho que tive sorte porque depois se viu que era tudo mentira, os políticos enganaram-nos a todos, tal como agora, todos aqueles rapazes a morrerem como tordos lá no Iraque. Você dir-me-á o que estamos a fazer nesse país de merda. E o que estávamos a fazer no Vietname. Uma vez ouvi alguém dizer, talvez o próprio Rodney, já não me lembro bem, ouvi-o dizer que quando uma pessoa se mete numa guerra o mínimo que tem de fazer é ganhá-la porque, se a perde, perde tudo, incluindo a dignidade. Não sei qual é a sua opinião, mas quanto a mim tinha razão. O Rodney perdeu o Bob lá, uma mina rebentou com ele. E, bom, suponho que de certa forma ele também morreu lá. Quando voltou já não era o mesmo. Agora parece fácil dizê-lo mas talvez no fundo soubéssemos desde sempre que ele acabaria assim. Ou talvez não, não sei. Você de onde o conhecia?

- Trabalhámos juntos em Urbana - disse. - Foi há muito tempo, na universidade.

- Claro - disse o patrão. - Não sabia que ele tinha feito amigos lá, mas essa foi uma época boa para ele. Via-se que andava contente. Depois foi-se embora e durante muitos anos quase não apareceu por aqui. Quando o fez vinha casado e com um filho. Dava aulas na escola. A verdade é que eu nunca o tinha visto tão bem, parecia outra pessoa, parecia... não sei, parecia quase aquele que sempre julgámos que ia ser. Até que aconteceu aquela história da reportagem e foi abaixo.

Naquele momento entraram no bar dois casais de meia-idade, alegres e endomingados. O meu interlocutor deixou de falar, cumprimentou-os com um gesto, voltou-se para a porta batente e chamou pela rapariga. Mas como esta não aparecia, o homem não teve outro remédio senão ir atender os seus clientes. Enquanto o fazia, a rapariga reapareceu e encarregou-se do pedido não sem antes trocarem novamente algumas alfinetadas de passagem. Depois o homem voltou pesadamente para junto de mim.

- Quer outra? - perguntou, apontando para a minha garrafa de cerveja vazia. - À conta da casa.

Neguei com a cabeça.

- Estava a falar-me do Rodney e de uma reportagem.

Fez uma careta de asco, como se o seu olfacto tivesse acabado de detectar no ar uma corrente de ar fétido.

- Era uma reportagem de televisão, uma reportagem sobre a Guerra do Vietname - explicou de má vontade. - Parece que contava coisas horríveis. Digo parece porque não a vi, nem preciso, mas de qualquer maneira essas coisas saíram depois em toda a parte. Nos jornais, nas televisões, em toda a parte. Se vivesse aqui, saberia, muita gente falou do assunto.

- E o que tinha o Rodney a ver com a reportagem?

- Dizem que aparecia nela.

- Dizem?

- As pessoas dizem. Já lhe disse que eu não vi a reportagem. O que dizem é que o homem que aparecia a contar todas essas coisas horríveis era o Rodney. Pelos vistos não se reconhecia, os da televisão tinham feito alguma coisa para que não o reconhecessem, falava de costas para a câmara ou coisa assim, mas as pessoas começaram a somar dois mais dois e rapidamente chegaram à conclusão de que era ele. Eu não sei, já lhe digo. O que sei é que antes de passarem a reportagem na televisão e de tudo se complicar já Rodney andava há várias semanas sem sair de casa e depois também não se soube nada dele até, bom, até se ter matado. Enfim, não me faça falar disto, é uma história do caraças e eu não a conheço bem. Devia era ir ver a mulher dele. A mulher do Rodney, quero dizer. Já que se deu ao trabalho de fazer a viagem...

- A mulher dele ainda vive em Rantoul?

- Claro. Aqui ao lado, na casa do Rodney.

- Acabei de passar por lá e não encontrei ninguém. Já lhe disse.

- Devem ter ido a algum sítio. Mas aposto que vêm almoçar. Não tenho a certeza de que à Jenny lhe apeteça muito falar destas coisas depois de tudo o que teve de aguentar, mas bom, pelo menos poderá cumprimentá-la.

Agradeci-lhe e quis pagar a cerveja, mas não mo permitiu.

- Diga-me uma coisa - disse, enquanto apertávamos as mãos e ele retinha a minha mais um segundo do que era habitual. - Pensa ficar muito tempo em Rantoul?

- Não - respondi. - Por que pergunta?

- Por nada - largou-me a mão e ajeitou o pouco cabelo que tinha sob o boné. - Mas você sabe como são estes sítios pequenos. Se ficar, oiça o que lhe digo e não acredite em tudo o que lhe contarem sobre o Rodney. As pessoas dizem muitas asneiras.

Uma explosão de luz cegou-me ao sair para a rua: era meio-dia. Mais confuso que abatido, pus-me a andar automaticamente em direcção à Belle Avenue. Tinha a cabeça em branco e a única coisa que me lembro de ter pensado, enganando-me, é que aquele era realmente o fim da viagem, e também, sem me enganar ou enganando-me menos, que Rodney tinha na verdade encontrado a saída do túnel, só que era uma saída diferente daquela que eu tinha imaginado. Ao chegar à frente da casa de Rodney estava empapado em suor e já tinha decidido que o melhor era regressar imediatamente a Urbana, entre outras coisas porque a minha presença ali só podia importunar a família de Rodney. Entrei no Chrysler, arranquei e estava quase a sair de Belle Avenue para tomar o caminho de volta a Urbana quando pensei que não podia ir-me embora daquela maneira, com todas as interrogações abertas à minha frente como uma cerca de arame farpado e sem sequer ter visto a mulher e o filho de Rodney. Ainda não tinha acabado de pensar isto quando os vi. Tinham acabado de dobrar a esquina e caminhavam sob a sombra verde dos bordos, de mão dada pela vereda de cimento que corria entre a calçada e os jardins dianteiros das casas e, enquanto avançavam na minha direcção, órfãos e sem pressa pela rua vazia, vi de repente Gabriel e Paula caminhando por outras ruas vazias, e depois Gabriel soltando a mão da mãe e desatando a correr com o seu passo oscilante, rindo e ansioso por me deitar os braços ao pescoço. Senti que os meus olhos estavam prestes a encher-se de lágrimas. Contendo-as, desliguei o motor, respirei fundo, saí outra vez para a rua e esperei por eles apoiado ao carro, a fumar; o cigarro tremia-me um pouco na mão. Não tardaram a parar à minha frente. Olhando para mim com uma mistura de ansiedade e receio, a mulher perguntou-me se eu era jornalista, mas não me deixou responder.

- Se é jornalista pode dar a volta e regressar por onde veio - ameaçou-me, pálida e tensa. - Não tenho nada para lhe dizer e...

- Não sou jornalista - interrompi-a.

Ficou a olhar para mim. Expliquei-lhe que era amigo de Rodney, disse-lhe o meu nome. A mulher pestanejou e pediu-me que o repetisse; repeti-o. Então, sem deixar de olhar para mim, soltou a mão do miúdo, passou-lhe o braço pelos ombros, apertou-o contra a anca e, depois de afastar os olhos por um segundo, como se alguma coisa a tivesse distraído, senti que todo o seu corpo se distendia. Antes de ter falado compreendi que sabia quem eu era, que Rodney lhe falara de mim. Disse:

- Chegas tarde.

- Já sei - disse, e quis acrescentar alguma coisa, mas não soube o quê.

- Chamo-me Jenny - disse, passado um momento e, sem descer o olhar até ao filho, acrescentou: - Ele é o Dan.

Estendi a mão ao miúdo que, após um instante de hesitação, ma apertou: um frágil conjunto de ossos envolto em carne rosada; ao soltá-la, ele também olhou para mim: esquálido e muito sério, só os seus grandes olhos castanhos faziam lembrar os grandes olhos castanhos do pai. Tinha o cabelo claro e vestia umas calças de bombazina fina e uma camisola azul de manga curta.

- Quantos anos tens? - perguntei-lhe.

- Seis - respondeu.

- Acabou de fazer - disse Jenny. Aprovando com a cabeça, comentei:

, - Já és um homem.

Dan não sorriu, não disse nada e houve um silêncio durante o qual se ouviu o barulho de um comboio de mercadorias circulando atrás de mim, rumo a Chicago, enquanto um sopro de brisa aliviava o calor do meio-dia, agitando a bandeira americana no mastro do jardim e arrefecendo-me o suor na pele. Assim que o comboio passou, Dan perguntou:

- Foste amigo do meu pai?

- Sim - disse.

- Muito amigo?

- Bastante - disse, e acrescentei: - Por que perguntas? Dan encolheu os ombros num gesto adulto, quase desafiador.

- Por nada - disse.

Ficámos novamente em silêncio, um silêncio mais embaraçoso do que longo, durante o qual pensei que a cerca de arame farpado ia ficar intacta. Esmaguei o cigarro no passeio.

- Bom - disse. - Tenho de me ir embora. Fico contente por vos ter conhecido.

Dei meia-volta para abrir o carro, mas nessa altura ouvi a voz de Jenny atrás de mim:

- Já almoçaste?

Ao voltar-me repetiu a pergunta. Respondi a verdade.

- Ia preparar alguma coisa para o Dan e para mim - disse Jenny. - Por que não nos fazes companhia?

Entrámos em casa, fomos até à cozinha e Jenny pôs-se a preparar o almoço. Tentei ajudá-la mas não me deixou e, enquanto observava Dan a observar-me, apoiado no umbral da porta, sentei-me numa cadeira, junto de uma mesa coberta com uma toalha aos quadrados azuis e vermelhos, diante de uma janela que dava para um jardim traseiro onde cresciam maciços de hortênsias e de crisântemos; calculei que nesse jardim estaria o alpendre onde Rodney se enforcara. Sem interromper o seu trabalho, Jenny perguntou-me se queria beber alguma coisa. Disse-lhe que não e perguntei se podia fumar.

- É melhor não, se não te importas - disse. - É por causa do miúdo.

- Não me importo.

- Eu antes fumava muito - explicou. - Mas deixei de fumar com a gravidez. Desde essa altura só fumo um cigarro de vez em quando.

Enquanto Dan desaparecia no interior da casa, como se já se tivesse certificado de que tudo corria bem entre mim e a mãe, Jenny começou a contar-me como se tinha libertado da dependência do tabaco. Via-a de perfil e dediquei-me a observá-la. Quase não tinha parecenças com a mulher que a minha imaginação tinha construído a partir das descrições curiosamente discrepantes contidas nas cartas de Rodney. Pequena e muito magra, possuía uma dessas discretas belezas cujo destino ou cuja vocação é passar despercebida; de facto, as suas feições não ultrapassavam o limite da correcção: as maçãs do rosto um pouco salientes, o nariz minúsculo, os lábios finos e sem carne, os olhos de um cinzento mate; dois brincos dourados e simples brilhavam nos lóbulos das orelhas e faziam realçar a cor castanho-escura do cabelo, liso e preso com displicência num carrapito. Vestia umas calças de ganga desbotadas e uma camisola de lã azul que dificilmente escondia a pujança dos seus peitos. Para além disso, e apesar da sua fragilidade física, toda ela irradiava uma espécie de serenidade enérgica e, enquanto a ouvia falar, quase sem querer tentei imaginá-la junto de Rodney, mas não consegui e, também quase sem querer, perguntei a mim próprio como teria conseguido aquela mulher de aparência fria e insignificante romper o solipsismo afectivo do meu amigo.

Dan apareceu novamente na porta da cozinha; interrompendo a mãe, perguntou-me se queria ver os seus brinquedos.

- Claro - adiantou-se Jenny. - Mostra-os enquanto eu acabo de preparar o almoço.

Levantei-me e acompanhei-o até à mesma sala de paredes cobertas de livros, janela a dar para o alpendre, sofá e poltronas de couro onde, há quinze anos, o avô de Dan me tinha contado, ao longo de uma tarde interminável de Primavera, a história inacabada de Rodney. O aposento quase não tinha mudado mas agora o chão coberto de tapetes cor de vinho estava por sua vez coberto de brinquedos numa desordem de acampamento que, inevitavelmente, me fez recordar a desordem que reinava na sala da minha casa quando Gabriel tinha a idade de Dan. Este, sem mais explicações, começou a mostrar-me os seus brinquedos, um por um, elucidando-me acerca das suas características e do seu funcionamento com a seriedade retraída de que as crianças são capazes em qualquer ocasião e os homens só quando arriscam a vida. E quando, passado algum tempo, Jenny anunciou que o almoço estava pronto, já nos unia uma dessas correntes obscuras de cumplicidade que os adultos levam frequentemente meses ou anos a estabelecer.

Comemos uma salada, esparguete com molho de tomate e um bolo de framboesa. Dan monopolizou completamente a conversa, de modo que quase não falámos de outra coisa senão da sua escola, dos seus brinquedos, dos seus gostos e dos seus amigos, sem nos referirmos a Rodney uma única vez. Jenny esteve todo o tempo atenta ao filho, embora algumas vezes a tenha surpreendido a observar-me. Quanto a mim, de vez em quando não conseguia evitar que me assaltasse a suspeita insidiosa de estar num sonho. Ainda emocionado pela notícia da morte de Rodney, custava-me ultrapassar a estranheza de estar a almoçar em sua casa, com a sua viúva e com o seu filho mas, ao mesmo tempo, sentia-me apaziguado por uma calma quase doméstica, como se não fosse a primeira vez que partilhava a mesa com eles. O final do almoço, no entanto, não foi tranquilo, porque Dan se recusou redondamente a dormir a sua sesta obrigatória e, a única coisa que a mãe conseguiu, depois de muitas negociações, foi que aceitasse deitar-se no sofá da sala, à espera que nós tomássemos ali o café. De modo que, enquanto Jenny preparava o café, fui até à sala e sentei-me ao pé de Dan que, depois de teclar furtivamente o Gameboy, que a mãe o proibira de jogar, e de ficar algum tempo a olhar para o tecto, adormeceu com uma postura estranha, com um braço um pouco torcido atrás das costas. Fiquei a olhar para ele sem me atrever a mover o braço com receio de o acordar, mergulhado como estava nas profundezas insondáveis onde dormem as crianças, e lembrei-me de Gabriel adormecido ao pé de mim, respirando a um ritmo silencioso, regular, infinitamente aprazível, transfigurado pelo sono e a gozar da segurança perfeita que lhe provocava o facto de o seu pai estar a velar por ele. E por um momento senti vontade de abraçar Dan como tantas vezes tinha abraçado Gabriel, sabendo que não o abraçava para o proteger mas para que ele me protegesse a mim.

- Aqui tens - disse Jenny em voz baixa, entrando na sala com a bandeja do café. - É sempre a mesma história. Não há maneira de o fazer dormir a sesta e depois só Deus sabe como custa acordá-lo.

Pousou a bandeja numa mesinha que estava entre as duas poltronas e, depois de mover ligeiramente o braço torcido de Dan até este pousar com naturalidade sobre o peito do miúdo, foi até à outra ponta da sala e abriu a cortina da janela que dava para o alpendre, para permitir que o sol dourado da tarde iluminasse o aposento. Depois serviu os cafés, sentou-se à minha frente mexendo o seu, bebeu-o quase de um gole, deixou passar um tempo em silêncio e, talvez por eu não encontrar uma maneira de iniciar a conversa, perguntou:

- Pensas ficar por aqui durante muito tempo?

- Só até terça-feira.

- Em Rantoul?

- Em Urbana.

Jenny abanou a cabeça afirmativamente e depois disse:

- Lamento que tenhas feito uma viagem tão longa para nada.

- Tê-la-ia feito de qualquer forma - menti.

Bebi um gole de café e em seguida falei-lhe da minha viagem pelos Estados Unidos, disse-lhe que Urbana era só mais uma etapa da viagem e, sabendo que provavelmente Jenny já o sabia, expliquei-lhe que, nos dois anos que lá tinha vivido, me tornara amigo de Rodney e que tinha querido voltar.

- Pensei que podia voltar a vê-lo - continuei. - Embora não tivesse a certeza. Há muito tempo que não sabia nada dele e há alguns meses mandei-lhe uma carta, mas nessa altura suponho que...

- Sim - ajudou-me Jenny. - A carta chegou pouco depois da sua morte. Deve andar por aí.

Acabou de tomar o café e deixou-o na mesinha. Eu imitei-a. Para dizer alguma coisa disse:

- Sinto muito o que aconteceu.

- Eu sei - disse Jenny. - O Rodney falou-me muito de ti.

- A sério? - perguntei fingindo surpresa, mas só em parte.

- Claro - disse Jenny e, pela primeira vez, vi-a sorrir. Um sorriso ao mesmo templo claro e malicioso, quase astuto, que revelou uma minúscula rede de rugas na comissura dos lábios. - Eu conheço a história toda, o Rodney contou-ma muitas vezes. Contava coisas muito engraçadas. Dizia sempre que até se ter tornado teu amigo nunca tinha conhecido ninguém tão estranho que parecesse normal.

- É curioso - disse, ruborizando enquanto tentava imaginar que coisas Rodney lhe teria contado. - Eu, pelo contrário, sempre pensei que o estranho fosse ele.

- O Rodney não era estranho - corrigiu-me Jenny. - Tinha apenas pouca sorte. Foi a pouca sorte que não o deixou viver em paz. Nem sequer o deixou morrer em paz.

Tentando descobrir a forma de a interrogar sobre as circunstâncias que tinham rodeado a morte de Rodney, distraí-me por um momento e, quando recomecei a ouvir o que me dizia, a ironia tinha contaminado por completo a sua voz e eu já tinha perdido o fio da conversa.

- Mas, sabes o que acho? - ouvia-a dizer.

Dissimulando a distracção com uma expressão interrogativa, incitei-a a continuar. - O que acho é que na realidade foi sobretudo para te ver.

Demorei um segundo a compreender que estava a falar da viagem de Rodney a Espanha. Então a minha surpresa foi genuína. Não achava que a viagem que tinha acabado de fazer só para o ver fosse o inverso da que Rodney fizera; achava sim que, em Espanha, o perseguira de hotel em hotel, acabando por ter de viajar até Madrid só para podermos conversar um pouco. Jenny deve ter lido a surpresa na minha cara porque matizou:

- Bom, talvez não só por isso, mas também para isso. - Compondo um pouco o carrapito enquanto lançava um olhar de soslaio a Dan, reclinou-se no sofá e deixou que as mãos repousassem sobre as coxas: eram compridas, ossudas, sem anéis. - Não sei - rectificou imediatamente. - Posso estar enganada. O que é verdade é que voltou muito contente da viagem. Disse-me que tinha estado contigo em Madrid, que tinha conhecido a tua mulher e o teu filho, que agora eras um escritor de sucesso.

Jenny pareceu hesitar um segundo, como se quisesse continuar a falar de Rodney e de mim mas tivesse consciência de que a conversa tinha tomado um rumo errado e devesse emendá-lo. Ficámos calados um momento, findo o qual Jenny começou a falar-me da sua vida em Rantoul. Contou-me que, depois da morte de Rodney, o seu primeiro impulso tinha sido vender a casa e voltar para Burlington. No entanto, depressa compreendera que fugir de Rantoul e voltar a Burlington em busca da protecção da família equivalia à admissão de uma derrota. Ao fim e ao cabo, disse, Dan e ela tinham a sua vida organizada ali; tinham a sua casa, os seus amigos, não tinham problemas económicos. Além do dinheiro do seguro de vida de Rodney e da pensão de viuvez, ela usufruía de um bom salário como administrativa numa cooperativa agrícola. De modo que decidira ficar em Rantoul e não estava arrependida.

- O Dan e eu arranjamo-nos muito bem sozinhos - disse. - Além disso, em Burlington nunca poderia permitir-me uma casa como a que temos aqui. Enfim... - procurou os meus olhos e, quase como se isso a envergonhasse, perguntou: - Vamos lá fora fumar um cigarro?

Sentámo-nos nos degraus do alpendre. Em Belle Avenue, o ar cheirava intensamente a Primavera; a luz da tarde ainda não tinha começado a oxidar-se e a brisa soprava com mais força, arrancando as folhas dos bordos e fazendo ondular a bandeira americana no jardim. Antes que eu pudesse acender o meu cigarro, Jenny deu me lume com o Zippo de Rodney. Fiquei a olhar para ele. Ela seguiu o meu olhar. Disse:

- Era do Rodney.

- Eu sei - disse.

Acendeu o meu cigarro e depois o seu, tapou o Zippo, segurou-o por instantes na sua mão ossuda e depois estendeu-mo.

- Fica com ele - disse. - Eu já não preciso. Hesitei um instante sem a olhar nos olhos.

- Não, obrigado - respondi.

Jenny guardou o Zippo e fumámos durante algum tempo sem falar, olhando para as fachadas da frente, para os carros que de vez em quando passavam por nós e, enquanto o fazíamos, procurei a janela onde tinha visto uma mulher a espreitar-me há umas horas. Agora não se via ninguém. Estávamos em silêncio, como aqueles velhos amigos que já não precisam de falar para se sentirem bem juntos. Pensei que há mais de um ano que não estava tanto tempo com alguém e por um segundo pensei que Rantoul era um bom lugar para viver. Tinha acabado de pensar nisto quando, como se retomasse uma conversa interrompida, Jenny me perguntou:

- Não queres saber o que aconteceu?

Desta vez também não olhei para ela. Por um momento, enquanto aspirava o fumo do cigarro, passou-me pela cabeça a ideia de que talvez fosse melhor não saber nada. Mas disse que sim e foi nessa altura que, com uma naturalidade desconcertante, como se estivesse a contar uma história remota e alheia, que em nada a afectava, me contou a história dos últimos meses de Rodney. A história começava na Primavera anterior, há mais ou menos um ano, por aquela época. Uma noite, enquanto jantavam, um desconhecido telefonou para casa deles perguntando por Rodney; quando Jenny lhe perguntou quem era, disse que era jornalista e que trabalhava para uma televisão do Ohio. Ficaram admirados, mas Rodney não viu qualquer motivo para se recusar a falar com o homem. A conversa, que Jenny não conseguiu ouvir, durou vários minutos e, ao voltar para a mesa, Rodney estava desfigurado e com o olhar perdido. Jenny perguntou-lhe o que tinha acontecido mas Rodney não respondeu (segundo Jenny, é provável que nem tivesse ouvido a pergunta), continuou a jantar e, passados alguns minutos, ainda com comida no prato, levantou-se e disse a Jenny que ia dar um passeio. Só voltou depois da meia-noite. Jenny esperava-o acordada, exigiu-lhe que lhe contasse a conversa que tinha tido com o jornalista e Rodney acabou por aceder. Na realidade, fez muito mais do que isso. Evidentemente, Jenny não ignorava que Rodney tinha passado quase dois anos no Vietname e que essa experiência o tinha marcado de uma forma indelével, mas até essa altura o marido nunca lhe contara nada e ela nunca lhe tinha pedido que o fizesse; naquela noite, no entanto, Rodney desabafou. Durante horas falou do Vietname, mais precisamente, falou, enfureceu-se, gritou, riu, chorou e no fim a madrugada surpreendeu-os a ambos na cama, vestidos, acordados e extenuados, olhando-se como se não se reconhecessem.

- Desde o princípio tive a sensação de que se estava a confessar a mim - disse Jenny. - Senti também que não o conhecia e que, até essa altura, nunca o tinha amado verdadeiramente.

Antes de lhe contar o que tinha conversado com o jornalista do Ohio, Rodney explicou-lhe que no fim da sua estadia no Vietname tinha sido colocado num efémero esquadrão de elite conhecido como Tiger Force, com o qual entrou inúmeras vezes em combate. O esquadrão cometeu barbaridades sem conta, que Rodney não especificou ou não quis especificar e, ao ser finalmente dissolvido, todos os seus membros juraram manter silêncio acerca delas. No entanto, quando no início dos anos setenta o Pentágono criou uma comissão cujo objectivo consistia em investigar os crimes de guerra da Tiger Force, Rodney decidiu romper o pacto de silêncio e colaborar com ela. Foi o único membro do esquadrão que o fez mas não serviu para nada. Várias vezes prestou declarações perante a comissão e a única vantagem que obteve foi a hostilidade declarada das chefias, dos companheiros de armas (que o consideraram um delator) e a hostilidade velada do resto do exército (que também o considerou um delator) porque, quando o relatório chegou finalmente à Casa Branca, alguém decidiu que o melhor a fazer era arquivá-lo. «Foi tudo uma pantomima», disse Rodney a Jenny. «No fundo ninguém estava interessado na verdade». Em consequência da sua comparência perante a comissão, Rodney recebeu várias ameaças de morte; depois deixou de as receber e durante anos julgou que tudo estivesse esquecido. De vez em quando, chegavam-lhe notícias dos seus companheiros de esquadrão: uns mendigavam pelas ruas, outros definhavam nas cadeias ou passavam longas temporadas em hospitais psiquiátricos; apenas uns poucos tinham conseguido refazer-se e levar uma vida normal, pelo menos aparentemente normal. Rodney não quis voltar a saber nada deles e de facto fez tudo o que estava na sua mão para que não conseguissem localizá-lo. Mas um dia, quando Rodney já pensava que aquela história estava enterrada, um deles descobriu-o. Era o melhor amigo que tivera no esquadrão, talvez o único verdadeiro amigo; mentalmente desequilibrado, destruído por remorsos que reapareciam ciclicamente e não lhe davam tréguas, o amigo tentou convencê-lo de que a única forma de conseguirem um pouco de paz era recorrer às autoridades e pedir a reabertura do caso, confessando os factos e pagando por eles. Rodney tentou acalmá-lo, tentou raciocinar com ele (disse-lhe que tinha passado demasiado tempo, que, nessa altura, as autoridades já nem estariam dispostas a encenar pantomimas e que não lhes dariam qualquer atenção), mas foi tudo inútil. Incapaz de suportar a pressão suplicante e obsessiva do seu companheiro, Rodney optou pela solução radical que tinha utilizado outras vezes: desapareceu de Rantoul.

- Como se chamava o amigo? - interrompi nesta altura do relato de Jenny.

- Tommy Birban - respondeu. - Por que perguntas?

- Por nada - disse e obriguei-a a continuar: - O que queria o jornalista de Ohio?

- Que o Rodney lhe contasse tudo o que sabia acerca da Tiger Force - respondeu Jenny.

Rodney explicou a Jenny que o jornalista estava a fazer uma reportagem sobre o assunto. Ao que parece, Tommy Birban contactara-o e contara-lhe a história; mais tarde, este acedera ao relatório arquivado do Pentágono onde verificara que o único testemunho era o de Rodney e que, em traços gerais, este coincidia com o que Tommy Birban lhe tinha contado. Por isso o jornalista pedia a Rodney que contasse agora diante das câmaras o que, anos antes, contara perante a comissão; depois ele pôr-se-ia em contacto com todos os membros do esquadrão que conseguisse localizar para lhes pedir o mesmo.

Quando o jornalista acabou de explicar o seu projecto, Rodney disse-lhe que tinha passado demasiado tempo desde a guerra e que não queria voltar a falar nela. O jornalista insistiu vezes sem conta, tentando chantageá-lo emocionalmente, mas Rodney mostrou-se inflexível. «Nem pensar», disse naquela noite a Jenny, vociferando desfigurado, como se na realidade não estivesse a falar com Jenny. «Bastante trabalho me deu aprender a viver com isto para lixar tudo agora.» Jenny tentou acalmá-lo. Aquilo já tinha acabado, tinha dito claramente ao jornalista que não queria aparecer na reportagem, ele não voltaria a incomodá-los. «Enganas-te», disse-lhe Rodney. «Voltará. Isto nunca mais acaba. Isto está apenas a começar.»

Tinha razão. Passados alguns dias o jornalista tornou a telefonar para tentar convencê-lo e ele, novamente, recusou colaborar; tentou mais algumas vezes, com novos argumentos (entre eles o de que, excepto Tommy Birban, todos os membros do esquadrão que tinha conseguido localizar se recusavam a falar e de que o seu testemunho era essencial porque constituía a fonte fundamental do relatório do Pentágono), mas Rodney manteve-se firme. Uma manhã, pouco depois da última chamada telefónica, o jornalista apareceu sem avisar em sua casa acompanhado por outro homem e por uma mulher. Jenny fê-los esperar no alpendre e foi chamar Rodney, que estava a tomar o pequeno-almoço com Dan e que, ao chegar ao alpendre e sem os cumprimentar, pediu aos dois homens e à mulher que se fossem embora. «Fá-lo-emos assim que me deixar dizer-lhe uma coisa», disse o jornalista. «Que coisa?», perguntou Rodney. «O Tommy Birban morreu», disse o jornalista. «Temos motivos para pensar que o mataram.» Houve um silêncio durante o qual o jornalista pareceu esperar que a notícia provocasse o seu efeito em Rodney e a seguir contou-lhe que, depois de contactar outros membros do esquadrão para lhes pedir que colaborassem na reportagem, Birban tinha começado a receber cartas anónimas que, com ameaças, tentavam dissuadi-lo de falar diante das câmaras; bastante assustado, telefonou várias vezes para o jornalista, cheio de dúvidas, mas finalmente decidiu não se deixar intimidar com a chantagem e levar por diante o projecto e, uma semana antes, apenas dois dias antes de gravarem, ao sair de casa, um carro atropelou-o e fugiu. «A polícia está a investigar», disse o jornalista.

«Não é provável que encontrem os responsáveis, mas você e eu sabemos quem são. Também sabemos que, se você continuar sem falar, o seu amigo terá morrido para nada.» Rodney permaneceu calado, imóvel como uma estátua. «Isso é tudo o que queria contar-lhe», concluiu o jornalista, estendendo um cartão de visita que Rodney não aceitou. Fê-lo Jenny, instintivamente, sabendo que ia rasgá-lo assim que o homem se fosse embora. «Agora a decisão é sua. Telefone-me se precisar de mim.» O jornalista e os seus dois acompanhantes deram a volta e Jenny viu, com uma ponta de alegria, como se afastavam em direcção ao carro que estava estacionado diante da porta. Mas antes que a sua alegria se tornasse completa, ouviu ao seu lado uma voz que parecia a de Rodney sem o ser totalmente e soube que aquelas palavras inofensivas iriam mudar-lhes a vida: «Esperem um pouco.»

Rodney e os três visitantes permaneceram toda a manhã e uma grande parte da tarde trancados na sala. Ao princípio, Jenny teve de vencer o impulso de ouvir através da porta fechada, mas, quando passada meia hora de conciliábulo viu os dois acompanhantes do jornalista irem até à rua e voltarem com uma equipa de gravação, nem sequer tentou persuadir Rodney a não cometer o erro que estava prestes a cometer. Passou o resto do dia fora de casa com Dan e voltou já depois de anoitecer e de os jornalistas se terem ido embora. Rodney estava sentado na sala, mudo e às escuras e embora Jenny tivesse tentado saber, depois de dar o jantar e deitar apressadamente Dan, o que acontecera durante a sua ausência deliberada, não conseguiu arrancar-lhe uma palavra e ficou com a impressão de que estava louco, completamente drogado ou bêbado e de que já não compreendia o que lhe diziam. Foi o primeiro sinal de alarme. O segundo chegou pouco tempo depois. Nessa noite, Rodney não dormiu; nas que se seguiram também não. Acordada na cama, Jenny ouvia-o deambular pelo andar de baixo, ouvia-o falar sozinho ou talvez ao telefone; uma vez ou outra pareceu-lhe ouvir risos, uns risos sufocados, como os que se controlam num enterro. E desta forma se iniciou um processo de deterioração imparável. Rodney pediu baixa no colégio e deixou de dar aulas, não ia à rua, passava os dias a dormir ou deitado na cama e acabou por se desinteressar completamente dela e de Dan. Era como se alguém lhe tivesse arrancado uma ligação mínima mas indispensável ao seu funcionamento e todo o seu organismo tivesse sofrido um colapso, transformando-o num despojo de si próprio. Jenny tentou falar com ele, tentou obrigá-lo a aceitar a ajuda de um psiquiatra; foi inútil. Fingia ouvi-la (talvez a ouvisse realmente), sorria-lhe, acariciava-a, pedia-lhe que não se preocupasse, garantia-lhe vezes sem conta que estava bem, mas ela sentia que Rodney vivia tão alheado de tudo o que o rodeava como um planeta girando sobre si mesmo na sua órbita. Deixou passar o tempo, na esperança de as coisas mudarem. Não mudaram. A emissão da reportagem televisiva não fez mais do que piorar tudo. Em princípio, não teria muita repercussão porque fora realizada por uma cadeia local, mas rapidamente os principais jornais do país fizeram eco das suas revelações e uma televisão nacional comprou os direitos e emitiu-a numa hora de grande audiência. Embora o autor da reportagem lhes tenha enviado uma cópia, Rodney não quis vê-la; embora no bilhete que acompanhava a cópia o jornalista garantisse ter cumprido a promessa de manter o anonimato de Rodney, a realidade desmentiu-o: a realidade é que não era difícil identificar Rodney na reportagem e o resultado deste deslize ou deslealdade foi que o acosso dos jornalistas e as perguntas e rumores sobre a reclusão do marido tornaram a vida de Jenny asfixiante. Quanto à sua relação com Rodney, em pouco tempo se degradou até se tornar insustentável. Um dia tomou uma decisão drástica: disse a Rodney que o melhor seria separarem-se. Ela iria com Dan para Burlington e ele poderia ficar sozinho em Rantoul. O ultimato era um último estratagema com o qual Jenny tentava provocar uma reacção em Rodney, confrontando-o, sem contemplações, com a evidência de que, ou travava a sua queda livre ou acabava por destruir a sua vida e por perder a família. Mas a artimanha não deu resultado. Rodney aceitou a sua proposta com submissão e a única coisa que perguntou a Jenny foi quando planeava ir-se embora. Naquele momento, Jenny compreendeu que estava tudo perdido e foi também naquele momento que, em muito tempo, teve a primeira conversa com Rodney. Não foi uma conversa esclarecedora. Na realidade, Rodney quase não falou. Limitou-se a responder com um laconismo exasperante às perguntas que ela formulava e Jenny nunca deixou de ter a sensação de estar a falar com uma criança sem futuro ou com um velho sem passado, porque Rodney olhava para ela como se estivesse a olhar para um céu invertido.

A determinada altura, Jenny perguntou-lhe se tinha medo. Com uma réstia de alívio, como se tivessem acabado di roçar com a ponta de um dedo o coração escondido da sua angústia, Rodney disse que sim. «De quê?», perguntou-lhe Jenny. «Não sei», disse Rodney. «Das pessoas. De vocês. Às vezes tenho medo de mim.» «De nós?», perguntou-lhe Jenny. «De nós, quem?» «De ti e do Dan», respondeu Rodney. «Nós não vamos fazer-te mal», disse Jenny a sorrir. «Eu sei», disse Rodney. «Mas isso é o que me assusta mais.» Jenny lembrava-se de que, ao ouvir aquela frase, foi ela quem teve medo de Rodney e foi também então que compreendeu que tinha de se ir embora de Rantoul com o filho quanto antes. Mas não o fez. Decidiu ficar. Amava Rodney e sentiu que, acontecesse o que acontecesse, tinha de o ajudar. Não conseguiu ajudá-lo. As últimas duas semanas foram de pesadelo. De dia, Jenny tentava conversar com ele, o que era quase sempre inútil porque, apesar de ele entender as suas palavras, era incapaz de dotar as frases que pronunciava de um significado inteligível, frases mais próximas do delírio hermético e rigorosamente coerente de um doido que de qualquer discurso articulado. Quanto às noites, Rodney continuava a passá-las em branco mas agora dedicava grande parte delas a escrever. Jenny adormecia embalada pelo ruído sem pausa das teclas do computador mas quando, alguns dias depois da morte de Rodney, se atreveu a abrir os arquivos dele, encontrou-os vazios, como se, no último momento, o marido tivesse decidido poupá-la aos eflúvios venenosos do inferno onde ele se consumia. Jenny garantia que nos dias que precederam a sua morte Rodney tinha perdido completamente a cabeça; garantia também que o que aconteceu foi o melhor que podia ter acontecido. E o que aconteceu foi que uma manhã, pouco depois do Natal, Jenny se levantou mais cedo do que o costume e, ao passar diante do quarto onde Rodney dormia há algum tempo, o viu vazio e com a cama por abrir. Inquieta, procurou Rodney na sala de jantar, na cozinha, por toda a casa e, no fim, encontrou-o no alpendre dependurado numa corda. - E é tudo - concluiu Jenny, abandonando por alguns segundos a naturalidade distante que até esse momento tinha conseguido imprimir ao relato. - O resto podes imaginar. A morte melhora muito os mortos, de modo que no fim parecia que toda a gente gostava muito do Rodney. Até os jornalistas vieram ver-me... Lixo.

Por instantes, julguei que Jenny ia desatar a chorar, mas não desatou a chorar. Esmagou o seu segundo cigarro nos degraus do alpendre e, tal como fizera com o primeiro, guardou-o na mão; depois de um longo silêncio voltou-se para mim procurando-me os olhos.

- Não te disse? - disse, quase sem sorrir. - O problema não é adormecer o Dan, o problema é acordá-lo.

Dan, efectivamente, acordou com um humor desgraçado, mas foi-lhe passando enquanto bebia uma almoçadeira de leite com cereais e a mãe e eu o acompanhávamos com um café. Quando terminámos, Jenny propôs darmos um passeio antes que escurecesse.

- O Dan e eu vamos levar-te a um sítio - disse-me.

- A que sítio? - perguntou Dan.

Jenny agachou-se junto dele e, tapando a boca com a mão, falou-lhe ao ouvido.

- De acordo? - perguntou, levantando-se novamente. Dan limitou-se a encolher os ombros.

Ao saírmos de casa, virámos à esquerda, atravessámos a via-férrea e fomos por Ohio, uma rua bem asfaltada, quase sem casas ou lojas, que se dirigia para os arredores da cidade. Quinhentos metros à frente, diante de um bosque frondoso de bétulas, erigia-se um edifício de paredes brancas, uma espécie de enorme celeiro rodeado de relva em cuja fachada se lia em grandes letras vermelhas: «Veteran of Foreign Wars Post 6759»; ao lado deste havia outro letreiro mais pequeno, semelhante ao que ostentava a fachada do Bud's Bar, só que decorado com uma bandeira norte-americana; o letreiro rezava: «Support our troops.» O edifício parecia vazio mas não devia estar porque estavam vários carros estacionados diante da porta; ao passar junto dele Jenny comentou:

- O clube dos veteranos de guerra. Existe em toda a parte. Organizam festas, reuniões e coisas assim. Eu só lá estive uma vez mas sei que, antes de nos conhecermos, Rodney frequentava-o bastante, pelo menos foi o que me disse. Queres entrar?

Disse que não era preciso e afastámo-nos do clube por um carreiro de terra paralelo à estrada, conversando, Dan no meio e Jenny e eu de cada lado, Jenny segurando-lhe a mão esquerda e eu a direita. Passado um bocado abandonámos a estrada, tomámos um caminho que subia suavemente à esquerda, entre campos de milho verde e, ao chegarmos ao cimo de uma pequena lomba, afastámo-nos do caminho, metendo-nos num quadrilátero irregular de relva salpicado por um punhado de campas desalinhadas, onde se erguiam dois freixos alimentados com a terra dos mortos e um mastro de ferro oxidado e desprovido de bandeira. Dan soltou-nos as mãos e desatou a correr pela relva do cemitério, parando diante de uma lápide de pedra por polir.

- Aqui está - disse Dan quando chegámos ao seu lado, apontando para a campa com o dedo.

Olhei para a lápide, em cuja face tinham esculpido o desenho de um rapaz lendo sob uma árvore e uma inscrição: «Rodney Falk. Apr. 6 de 1948 / Jan. 4 de 2004»; junto da inscrição havia um ramo de flores frescas. «Um lugar limpo e bem iluminado», pensei. Ficámos os três de pé diante da campa, calados.

- Bom, na realidade não está - acabou por dizer Dan. Depois de matutar uns instantes perguntou: - Onde estamos quando estamos mortos?

A pergunta não era dirigida a ninguém em concreto mas eu esperei que Jenny respondesse; não respondeu. Decorridos alguns segundos senti-me na obrigação de dizer:

- Em lado nenhum.

- Em lado nenhum? - perguntou Dan, exagerando o tom de interrogação.

- Em lado nenhum - repeti. " Dan ficou pensativo.

- Nesse caso é como se fôssemos fantasmas? - perguntou.

- Tal e qual - respondi e depois menti sem o saber: - Só que os fantasmas não existem e os mortos sim.

Dan acabou por afastar os olhos da lápide e, olhando-me de relance, ameaçou um sorriso, como se tivesse tanta certeza de não ter compreendido como de não querer demonstrar não ter compreendido. Depois afastou-se de nós e foi até uma das extremidades do cemitério, para lá do qual se avistava ao longe um amontoado de casas de paredes leprosas, abandonadas talvez, e começou aí a apanhar pedrinhas do chão e a atirá-las sem força na direcção dos campos limítrofes, uma sucessão de terras por cultivar com meia dúzia de ervas. Jenny e eu permanecemos juntos, sem dizer nada, observando alternadamente Dan e a campa de Rodney. Estava a ficar escuro e começava a arrefecer; o céu estava de um azul-escuro, quase preto, mas uma franja irregular de luz alaranjada iluminava ainda o horizonte e só o canto precoce dos grilos e um ruído atenuado e longínquo do tráfego perturbavam o silêncio irrepreensível da colina.

- Bom - disse Jenny passado algum tempo durante o qual não pensei em nada, não senti nada, nem sequer vontade de rezar. - Está a ficar tarde. Voltamos?

Era quase noite quando chegámos a casa. Eu tinha um jantar marcado em Urbana com Borgheson e um grupo de professores e, se quisesse chegar ao Chancellor à hora marcada, tinha de partir imediatamente, de modo que disse a Dan e a Jenny que tinha de me ir embora. Ficaram ambos a olhar para mim, um pouco atónitos, como se, mais que uma surpresa, as minhas palavras fossem o prelúdio de uma deserção; após um silêncio indeciso, Jenny perguntou-me:

- O jantar é importante?

Não era. Não era de todo. E disse-o.

- Então por que não o cancelas? - perguntou Jenny. - Podes ficar cá a dormir, há quartos de sobra.

Não teve de repetir. Telefonei para Borgheson e disse-lhe que estava cansado e com febre e que, para tentar estar em forma para a palestra do dia seguinte, o melhor seria não ir ao jantar e ficar no hotel a descansar. Borgheson aceitou a mentira sem refilar, embora eu tenha tido de me empenhar a fundo para o convencer de que não era necessário ir até ao Chancellor em meu auxílio. Resolvido o problema, convidei Dan e Jenny para jantar num restaurante que ficava a alguns quilómetros da cidade, na direcção de Urbana, o Kennedy's, e, durante a sobremesa, enquanto Dan e um amigo da escola cuja família também lá estava brincavam com o Gameboy, Jenny contou-me como tinha conhecido Rodney, falou-me do trabalho, da família, da vida que levava em Rantoul. Quando saímos do restaurante eram quase dez horas. No caminho de volta, Dan adormeceu e, ao chegarmos a casa, peguei nele ao colo, levei-o até ao quarto e, enquanto Jenny o deitava, esperei por ela na sala, bisbilhotando os CD que se alinhavam numa pirâmide de alumínio ao pé da aparelhagem de som. A maior parte era de rock and roll, alguns de Bob Dylan. Entre eles estava Bringing it ali back home, um disco que incluía uma canção que eu conhecia bem: It's alright, ma (I'm only bleeding). Com o disco nas mãos comecei a ouvir na minha cabeça aquela canção desconsolada que, no entanto, nunca deixava de devolver a Rodney o júbilo intacto da sua juventude e, de repente, enquanto esperava por Jenny e recordava com a mesma precisão quer a letra quer a música, tive a certeza de que, no fundo, aquela canção só falava de Rodney, da vida destruída de Rodney, porque falava de palavras desencantadas que soam como balas e de cemitérios repletos de deuses falsos e de gente solitária que chora, tem medo e vive num poço, sabendo que é tudo mentira e que compreendeu com demasiada rapidez que não vale a pena tentar entender, porque falava de tudo isso e sobretudo de que quem não está ocupado a nascer está ocupado a morrer. «Rodney já só estava ocupado a morrer», pensei. E pensei: «Eu ainda não.»

- Apetece-te ouvir música? - perguntou Jenny ao entrar na sala.

Disse-lhe que sim, ela ligou o aparelho e foi até à cozinha. Evitei a tentação de Dylan, pus Astral weeks, de Van Morrison e, quando ela voltou trazendo uma garrafa de vinho e dois copos, sentámo-nos frente a frente e deixámos o disco tocar, conversando com uma fluidez favorecida pelo álcool e pela voz rugosa de Van Morrison. Não me lembro do que falámos ao princípio mas do que me lembro muito bem é de que, sentados há já algum tempo, não sei muito bem porquê (talvez por alguma coisa que eu próprio tenha dito, mais provavelmente por alguma coisa dita por Jenny) me recordei de repente de uma carta que Rodney tinha enviado para o pai, de um hospital do Vietname, depois do incidente de My Khe, uma carta onde falava da beleza da guerra, da velocidade arrasadora da guerra. E nessa altura pensei que, desde que estava em Rantoul, tinha a impressão de que tudo se tinha acelerado, de que tudo tinha começado a correr mais depressa do que o habitual, cada vez mais depressa, mais depressa, mais depressa, de que a dada altura tinha havido um clarão, uma vertigem e uma perda, pensei que, sem o saber, tinha viajado mais depressa do que a luz e que aquilo que agora via era o futuro. E foi também nessa altura que, misturada com a música de Van Morrison e com a voz de Jenny, tive pela primeira vez uma sensação simultaneamente insólita e familiar, que talvez já tivesse intuído sem palavras assim que vi Dan e Jenny a avançarem na minha direcção naquela tarde pela Belle Avenue; a sensação de que ali, naquela casa que não era a minha casa, diante daquela mulher que não era a minha mulher, com aquela criança adormecida que não era meu filho mas que dormia no andar de cima como se eu fosse seu pai, ali eu era invulnerável. E interroguei-me também, com um início cintilante de alvoroço, se eu não seria obrigado a dotar o suicídio de Rodney de algum sentido, se a casa onde estava não era um reflexo da minha casa e Dan e Jenny um reflexo da família que perdi. Interroguei-me se aquilo não seria o que se via ao emergirmos da sujidade do subsolo para a claridade do céu aberto, se o passado não seria um lugar permanentemente alterado pelo futuro e nada do que já acontecera era irreversível, se o que havia no fim do túnel não copiaria o que havia antes de lá entrarmos, interroguei-me se não seria aquele o fim verdadeiro de tudo, o fim da viagem, o fim do túnel, a brecha na porta de pedra. Agora sim, disse para comigo, possuído por uma estranha euforia. Acabou-se. Finito. Kaput.

Assim que acabei de pensar nisto interrompi Jenny.

- Há uma coisa que não te contei - disse.

Olhou para mim, um pouco admirada com a brusquidão e, de repente, deixei de saber como contar-lhe o que tinha de contar. Soube-o passado um segundo. Tirei então da minha carteira a fotografia de Gabriel, Paula e Rodney na ponte de Les Peixeteries Velles e estendi-a. Jenny pegou nela e durante alguns instantes observou-a com atenção. Depois perguntou:

- É a tua mulher e o teu filho?

- Sim - respondi. E, como se fosse outra pessoa a falar por mim, continuei enquanto um arrepio de frio me percorria a espinha como uma serpente: - Morreram há um ano, num acidente de automóvel. É a única fotografia deles que conservo.

Jenny ergueu os olhos da fotografia e, naquele momento, reparei que o disco de Van Morrison tinha deixado de tocar; a realidade foi, num lento crescente, recuperando a sua velocidade habitual.

- Para que vieste? - perguntou Jenny.

- Não sei - disse, embora o soubesse. - Estava num poço e queria ver o Rodney. Creio que pensei que o Rodney também tinha estado num poço e que tinha saído dele. Creio que pensei que ele podia ajudar-me. Ou melhor, creio ter pensado que era a única pessoa que podia ajudar-me... Enfim, dou-me conta de que tudo isto parece um pouco ridículo e não sei se para ti fará muito sentido, mas creio ter sido o que pensei. Jenny não demorou a responder.

- Faz sentido - disse.

Nessa altura fui eu quem olhou para ela.

- A sério?

- Claro - insistiu, sorrindo levemente, novamente uma imperceptível rede de rugas escavadas nas comissuras dos lábios. Por um segundo soube ou desconfiei que, por ter vivido com Rodney, as palavras dela não eram fruto da compaixão mas que entendia verdadeiramente, que só ela poderia entender; por um segundo senti a suave irradiação da sua beleza e de chofre julguei compreender a atracção que exercera sobre Rodney. Quase como se desse por terminado o assunto, ou como se considerasse não valer a pena que lhe dedicássemos mais tempo, continuou: - A culpa. Isso não é muito difícil de entender. Eu também podia sentir-me culpada pela morte de Rodney, sabes? Encontrar culpados é muito fácil; difícil é aceitar que não os há.

Não tinha a certeza do que quisera dizer com estas palavras mas, por alguma razão, recordei outras que Rodney tinha escrito ao pai: «As coisas que fazem sentido não são verdade», tinha escrito Rodney. «São apenas verdades truncadas, miragens: a verdade é sempre absurda.» Jenny acabou de beber o seu copo de vinho.

- Tenho uma cópia da reportagem - disse como se não tivesse mudado de assunto e acto contínuo fosse dar-me a resposta verdadeira à dúvida que eu acabara de formular. - Queres vê-la?

Por não estar à espera, a pergunta desconcertou-me. Primeiro pensei que não queria ver a reportagem; depois pensei que queria vê-la; depois pensei que queria vê-la mas que não devia vê-la; depois pensei que queria vê-la e que devia vê-la. Perguntei:

- Tu viste-a?

- Claro que não - disse Jenny. - Para quê?

Como se a minha pergunta tivesse sido uma resposta afirmativa, Jenny foi ao andar de cima, passado pouco tempo regressou com o vídeo e pediu-me que a acompanhasse até uma divisão que ficava entre a cozinha e a sala, junto do início das escadas; aí havia um televisor, um sofá, duas cadeiras, uma mesinha. Sentei-me no sofá enquanto Jenny ligava o televisor, inseria a cassete e me entregava o telecomando.

- Espero por ti lá em cima - disse.

Reclinei-me no sofá e carreguei no play. A reportagem começou imediatamente. Intitulava-se Segredos Sepultados, Verdades Brutais e durava uns quarenta minutos. Combinava imagens de arquivo, a preto e branco, pertencentes a documentários sobre a guerra, e imagens actuais, a cores, de aldeias e campos das regiões de Quang Ngai e Quang Nam, juntamente com algumas declarações de camponeses da zona. Dois fios cosiam ambos os blocos de imagens: um era uma asséptica voz em off, o outro, o testemunho de um veterano do Vietname. O que, em síntese, narrava a voz em off era a história das atrocidades cometidas há trinta e cinco anos por um esquadrão sanguinário da Divisão Aerotransportada 101 do Exército Norte-Americano que operou em Quang Ngai e em Quang Nam, transformando-as num enorme campo de extermínio. O esquadrão, conhecido como Tiger Force, era uma unidade composta por quarenta e cinco voluntários que agiam em coordenação com outras unidades mas que funcionavam com uma grande autonomia e quase sem supervisão. Distinguiam-se pelo seu uniforme de camuflagem às riscas, que imitava o pêlo de um tigre. O inventário de horrores que a reportagem documentava não tinha limites: os soldados da Tiger Force assassinaram, mutilaram, torturaram e violaram centenas de pessoas entre Janeiro e Julho de 1969, e tornaram-se célebres entre a aterrorizada população da zona por trazerem ao pescoço, como colares de guerra que faziam lembrar brutalmente as suas vítimas, fiadas de orelhas humanas unidas por atacadores. No fim da reportagem a voz em off mencionava o relatório do Pentágono que, em 1974, a Casa Branca resolveu arquivar com o pretexto de não reabrir as chagas do conflito recém-terminado. Quanto ao veterano, aparecia sentado numa poltrona, imóvel à contraluz de uma janela, fazendo com que uma mancha de escuridão lhe ocultasse o rosto. A voz dele, pelo contrário - rouca, gelada, abstraída - não tinha sido distorcida, era claramente a voz de Rodney. A voz contava histórias; também fazia comentários. «Agora tudo aquilo é difícil de entender», dizia, por exemplo, a voz. «Mas houve uma altura em que, para nós, era a coisa mais natural do mundo. Inicialmente custava um pouco, mas depressa nos habituávamos e era como um trabalho qualquer.» «Sentíamo-nos deuses», dizia a voz. «E, de certa forma, éramos. Tínhamos o poder de dispor da vida de quem quiséssemos e exercíamos esse poder.» «Durante anos não consegui esquecer todas e cada uma das pessoas que vi morrer», dizia a voz. «Apareciam-me constantemente, como se estivessem vivas e não quisessem morrer, como se fossem fantasmas. Mais tarde consegui esquecê-las, ou foi isso que julguei, embora no fundo soubesse que não se tinham ido embora. Regressaram agora. Não me pedem contas nem eu as dou. Não há contas pendentes. Apenas não querem morrer, querem viver em mim. Não me queixo porque sei que é justo.» A voz fechava a reportagem com estas palavras: «Podem julgar que éramos monstros, mas não éramos. Éramos como toda a gente. Éramos como vocês.»

Quando a reportagem acabou permaneci algum tempo sentado no sofá, sem conseguir mexer-me, com os olhos cravados na tempestade de granizo que ocupava o ecrã do televisor. Depois tirei a cassete do leitor de vídeo, apaguei o televisor e fui até ao alpendre. A cidade estava em silêncio e o céu repleto de estrelas; fazia um pouco de frio. Acendi um cigarro e pus-me a fumá-lo enquanto contemplava a noite silenciosa de Rantoul. Não sentia horror, não sentia náuseas, nem sequer tristeza e, pela primeira vez em muito tempo, também não sentia angústia; o que sentia era algo estranhamente prazeroso que nunca tinha sentido, como que um esgotamento infinito ou uma calma infinita e branca, ou como que um sucedâneo do esgotamento ou da calma que só me fazia ter vontade de continuar a olhar para a noite e de chorar. «Nada nosso que estás no nada», rezei. «Nada é o teu nome, o teu reino nada, tu serás nada no nada como no nada.» Ao acabar de fumar o cigarro tornei a entrar em casa e subi ao andar de cima. Jenny tinha adormecido com um livro no regaço e com a luz acesa; Dan estava aninhado junto dela. O quarto ao lado estava também com a luz acesa e com a cama feita, e deduzi que Jenny o tinha preparado para mim. Apaguei a luz do quarto de Jenny e de Dan, apaguei a do meu e meti-me na cama.

Naquela noite demorei muito tempo a adormecer e no dia seguinte acordei muito cedo. Quando Dan e Jenny se levantaram já tinha o pequeno-almoço quase pronto. Enquanto o tomávamos, um pouco precipitadamente porque era segunda-feira e Dan tinha de ir para a escola e Jenny para o trabalho, esquivei-me algumas vezes ao olhar de Jenny e, ao acabar, ofereci-me para os levar de carro. A escola de Dan era, conforme comentou Jenny quando lá estacionámos, a mesma onde Rodney tinha trabalhado, um edifício de tijolo, de três andares, com um grande portão de ferro por onde se acedia ao pátio, rodeado por um gradeamento metálico. Diante da entrada já se tinha juntado um grupo de pais e filhos. Juntámo-nos ao grupo e, quando finalmente o portão se abriu, Dan deu um beijo à mãe; depois voltou-se para mim e, examinando-me com os grandes olhos castanhos de Rodney, perguntou-me se ia voltar. Disse-lhe que sim. Perguntou-me quando. Disse-lhe que rapidamente. Perguntou-me se estava a mentir. Disse-lhe que não. Abanou a cabeça afirmativamente. Nessa altura, porque julguei que ia dar-me um beijo, iniciei o gesto de agachar-me, mas ele deteve-me estendendo-me a mão; apertei-a. Depois vimo-lo desaparecer com a sua mochila de criança pelo pátio de cimento e por entre a gritaria dos seus colegas.

Enquanto regressávamos ao carro, Jenny propôs-me tomar um último café porque ainda tinha algum tempo antes de começar a trabalhar, disse. Fomos à Casey's General Store e sentámo-nos junto de uma vidraça que dava para as bombas de gasolina e, mais ao longe, para o cruzamento de entrada na cidade; pelos altifalantes soava em surdina uma melodia country. Reconheci a empregada que nos atendeu: era a mesma que no domingo me tinha indicado sem especial cuidado o caminho para a casa de Rodney. Jenny trocou algumas palavras com ela e depois pedimos dois cafés.

- Quando o Rodney voltou de Espanha disse-me que querias escrever um livro acerca dele - disse Jenny, assim que a empregada se foi embora. - É verdade?

Eu tinha-me preparado para que Jenny me interrogasse sobre a reportagem mas não para o que me perguntou. Olhei para ela. Os seus olhos cinzentos tinham adquirido reflexos violáceos e revelavam uma curiosidade que ultrapassava a minha resposta, ou foi isso que me pareceu. A minha resposta foi:

- Sim.

- Escreveste? Disse que não.

- Por que não?

- Não sei - disse, e lembrei-me da conversa sobre o assunto que Rodney e eu tínhamos mantido em Madrid. - Tentei escrevê-lo várias vezes mas não consegui. Ou não soube escrevê-lo. Creio que sentia que a história dele não estava acabada ou que não a entendia totalmente.

- E agora? - perguntou Jenny.

- Agora o quê?

- Agora está acabada? - tornou a perguntar. - Agora já a entendes ?

Como uma luz súbita, naquele momento pareceu-me compreender o comportamento de Jenny desde a minha chegada a Rantoul. Julguei compreender por que razão me contara os últimos dias de Rodney, por que quisera mostrar-me a sua campa, por que me convidara a ficar em sua casa, por que me mostrara a reportagem sobre a Tiger Force. Tal como se as palavras tivessem o poder de dotar de sentido ou de uma ilusão de sentido o que dele carece, Jenny queria que eu contasse a história de Rodney. Pensei em Rodney, pensei no pai de Rodney, pensei em Tommy Birban mas, sobretudo, pensei em Gabriel e em Paula e, pela primeira vez, pressenti que todas aquelas histórias eram na realidade a mesma história e que só eu podia contá-la.

- Não sei se está acabada - respondi. - Também não sei se a entendo, ou se a entendo completamente. - Voltei a pensar em Rodney e disse: - Claro que se calhar não é preciso entender completamente uma história para a poder contar.

A empregada serviu-nos os cafés. Quando se foi embora, Jenny, mexendo o seu, perguntou:

- O que é que não entendes? Por que razão o fez?

Não respondi imediatamente. Provei o café e acendi um cigarro enquanto, com um arrepio, me lembrava da reportagem.

- Não - disse. - Na realidade creio que isso é a única coisa que entendo. - Como se pensasse em voz alta, acrescentei: - O que talvez não entenda é por que razão não o fiz eu.

A chávena de Jenny ficou no ar, a meio caminho entre a mesa e os seus lábios, enquanto ela me fitava com um olhar de dúvida, como se a minha observação fosse obviamente absurda ou como se acabasse de suspeitar que eu estava louco. Depois desviou os olhos na direcção da janela (o sol bateu-lhe em cheio na cara, incendiando o brinco dourado que estava à vista) e pareceu reflectir até voltar novamente a olhar-me com um meio sorriso e a chávena concluiu a sua viagem interrompida molhando-lhe os lábios e acabando pousada na mesa.

- Bom, ontem tentei explicar-te. Tu não mataste ninguém. - «Mentiu-me», pensei num segundo, numa fracção de segundo. «Viu a reportagem.» Assim que tornou a falar descartei essa ideia: - Nem sequer acidentalmente - disse, acrescentando depois: - Além disso, no fim de contas és escritor, ou não?

- E o que é que isso tem a ver?

- Tudo.

- Tudo?

- Claro, não percebes?

Não disse nada e ficámos a olhar um para o outro até Jenny ter respirado fundo, expirado enquanto desviava outra vez os olhos na direcção da janela e ter ficado absorta na contemplação do homem que naquele momento enchia o depósito da sua camioneta no posto de gasolina. Quando se voltou novamente para mim, inundou-me uma espécie de alegria, como se na realidade a tivesse entendido e entendê-la me permitisse também entender tudo o que até essa altura não tinha entendido. Acabei de tomar o meu café e Jenny fez o mesmo.

- Está a fazer-se tarde - disse. - Vamos?

Pagámos e saímos. Jenny acompanhou-me até ao carro e, quando lá chegámos, perguntei se queria que a levasse ao emprego.

- Não é preciso - disse. - Fica muito perto. - Tirou um bloco da carteira, escrevinhou alguma coisa numa folha, arrancou-a e entregou-ma. - O meu endereço de e-mail. Se decidires escrever o livro, mantém-me informada. E outra coisa, não faças caso do Dan.

- A que te referes?

- Ao que ele disse na porta da escola - esclareceu.

- Ah - disse.

Fez uma careta de contrariedade ou de desculpa.

- Suponho que está à procura de um pai - aventurou.

- Não te preocupes. - Aventurei: - Suponho que eu estarei à procura de um filho.

Jenny concordou, sorrindo apenas; pensei que ia dizer alguma coisa mas não disse nada. Meteu uma mão num dos bolsos das calças, num gesto que me pareceu tímido ou envergonhado, como se não conseguisse decidir como devíamos despedir-nos e depois estendeu-ma; quando a apertei, senti nela um objecto frio e metálico: era o Zippo de Rodney. Jenny não me deixou reagir. - Adeus - disse.

Deu a volta e começou a afastar-se. Após um momento de indecisão, guardei o Zippo, entrei no carro, arranquei e, antes de entrar na avenida que saía de Rantoul, olhei para a esquerda e vi-a ainda ao longe, andando pelo passeio na sombra, só e decidida, frágil e no entanto animada por alguma coisa, como que por um orgulho determinado e inflexível, a sua silhueta diminuindo à medida que entrava na cidade, e não sei porquê pensei num pássaro, num colibri ou numa garça, ou se calhar numa andorinha, pensei no voo nervoso e sem medo da andorinha e depois pensei no póster de John Wayne que pendia de uma parede do Bud's Bar, que Rodney vira tantas vezes e sem dúvida Jenny também, pensei absurdamente nestas duas coisas enquanto continuava a olhar para ela, esperando que a dada altura ela sentisse o meu olhar e se voltasse, e também me olhasse, como se esse gesto derradeiro pudesse ser também um sinal inconfundível de aprovação. Mas Jenny não deu a volta, não olhou para mim, de modo que entrei na avenida e saí de Rantoul.

Quando nessa manhã cheguei a Urbana, já tinha elaborado um plano bastante preciso do que iria fazer nos próximos meses, ou melhor, nos próximos anos; como é lógico, esse plano incluía o risco de a realidade acabar por desvirtuá-lo, mas não ao ponto de o tornar irreconhecível. Isso, para bem ou para mal - nunca chegarei a saber se mais para bem que para mal -, foi o que, no entanto, aconteceu.

Regressei a Espanha depois de respeitar com impaciência os compromissos que tinha pendentes em Urbana e em Los Angeles e a primeira coisa que fiz ao aterrar em Barcelona foi pôr-me à procura de um novo apartamento porque, assim que entrei no apartamento da Sagrada Família, compreendi que aquilo era uma pocilga sem redenção. Encontrei-o imediatamente - um apartamento pequeno e com muita luz situado na calle Floridablanca, não longe da plaza de Espana - e assim que acabei de me instalar pus-me a escrever este livro. Desde essa altura, quase não fiz outra coisa. Desde essa altura - e vai já para seis meses -, sinto que levo uma vida que não é real, mas falsa, uma vida clandestina, escondida e apócrifa mas mais verdadeira que se fosse real. A mudança de apartamento permitiu-me apagar facilmente o meu rasto, de modo que, até há pouco tempo, ninguém sabia onde eu vivia. Não via ninguém, não falava com ninguém, não lia jornais, não via televisão, não ouvia rádio. Estava mais vivo do que nunca mas era como se estivesse morto e a escrita fosse a única forma de evocar a vida, o último fio que me ligava a ela. A escrita e, até há pouco, Jenny. Porque, no meu regresso de Urbana, Jenny e eu começámos a escrever um ao outro quase diariamente. Inicialmente, os nossos e-mails tratavam exclusivamente do livro sobre Rodney que eu estava a escrever. Fazia-lhe perguntas, pedia-lhe pormenores e esclarecimentos e ela respondia-me diligente e aplicadamente; mais tarde, pouco a pouco e de uma forma quase imperceptível, os e-mails começaram a abordar outras coisas - Dan, Rantoul, a sua vida e a de Dan em Rantoul, eu e a minha vida invisível em Barcelona, às vezes Paula e Gabriel - e, passadas algumas semanas, eu já tinha comprovado com satisfação que aquela forma de comunicarmos tolerava ou propiciava maior intimidade que qualquer outra. Foi assim que começou um longo, lento, complexo, sinuoso e delicado processo de sedução. Talvez esta palavra não seja a exacta, talvez a palavra exacta seja persuasão. Ou talvez demonstração. Não sei que palavra Jenny escolheria. Não interessa. O que interessa não são as palavras, são os factos. E o facto é que, enquanto dedicava a esse processo a mesma energia que dedicava ao livro que estava a escrever, não parava de imaginar a minha vida quando ambos estivessem concluídos e eu vivesse com Dan e com Jenny em Rantoul. Imaginava uma vida plácida e provinciana como a que em tempos receara, como a que depois tive e mais tarde destruí, uma vida também apócrifa e verdadeira no meio de nenhures. Imaginava-me levantando-me todos os dias muito cedo, tomando o pequeno-almoço com Dan e com Jenny, levando-os depois à escola e ao trabalho e depois trancando-me a escrever até serem horas de os ir buscar, primeiro Dan e depois Jenny, indo buscá-los e voltando para casa onde preparávamos o jantar e jantávamos, e depois de jantar brincávamos, líamos, víamos televisão ou conversávamos até que o sono nos ia vencendo, um a um, sem que nenhum dos três quisesse admitir, nem sequer perante si próprio, que aquela rotina quotidiana era na realidade uma espécie de sortilégio, um passe de magia com que queríamos tornar o passado reversível e ressuscitar os mortos. Outras vezes, imaginava-me deitado numa rede, no jardim das traseiras, junto do alpendre onde, num tempo tão remoto que já não parecia real, Rodney se tinha enforcado numa tarde de sábado ou de domingo de finais de Primavera ou princípios do Verão ardente de Rantoul, com Dan e os amigos gritando e brincando à minha volta enquanto eu lia ao acaso Hemingway, Thoreau e Emerson, uma ou outra vez mesmo Mercê Rodoreda, enquanto ouvia Bob Dylan e partilhava golinhos de whisky e passas de marijuana com Jenny, que ia e vinha entre a casa e o jardim. Dali, a morte de Gabriel e de Paula estariam muito longe, o Vietname estaria muito longe, o sucesso e a fama estariam tão longe como as nuvens minúsculas que de vez em quando esconderiam o sol, e então ver-me-ia a mim mesmo como o hippy que há mais de trinta anos Rodney deve ter sido e nunca quis deixar de ser. Ver-me-ia assim, imaginava-me assim, feliz e um pouco ébrio, transformado de alguma forma em Rodney ou no instrumento de Rodney, a olhar para Dan como se na realidade estivesse a olhar para Gabriel, a olhar para Jenny como se na realidade estivesse a olhar para Paula. E enquanto nestes meses de Barcelona imaginava a minha vida futura e feliz em Rantoul e continuava a longa, lenta e sinuosa sedução ou persuasão de Jenny na intimidade do correio electrónico, nem por um dia deixei de me sentar a esta secretária e de me dedicar por inteiro a cumprir o encargo tanto tempo adiado de escrever esta história que talvez e desde sempre tenha sido instruído por Rodney para contar, esta história que não entendo nem nunca entenderei e que, no entanto, conforme imaginei à medida que a escrevia, me sentia obrigado a contar porque só pode ser entendida se for contada por alguém que, como eu, nunca conseguirá entendê-la e, sobretudo, porque é também a minha história e também a de Gabriel e a de Paula. De modo que durante muito tempo escrevi, seduzi, persuadi, demonstrei e imaginei, até que um dia, quando senti que o processo de sedução estava maduro e que, embora ignorasse qual seria o final exacto deste livro, já estava sem dúvida a prevê-lo, decidi expor abertamente os meus planos a Jenny. Fi-lo sem temor e sem rodeios, como se estivesse a recordar-lhe um compromisso assumido por ambos tempos atrás, como quem aceita uma fatalidade venturosa, porque por aquela altura, depois de meses a escrever-lhe quase diariamente e a insinuar-lhe de forma cada vez menos críptica as minhas intenções, eu tinha a certeza de que as minhas palavras não iriam surpreendê-la e também de que ela ia acolhê-las com alegria.

Não foi assim. Por incrível que pareça - incrível pelo menos para mim -, ambas as certezas eram falsas. Jenny demorou a responder ao meu e-mail e, quando finalmente o fez, foi para agradecer a minha proposta e para a seguir a recusar de uma forma afectuosa mas taxativa. «Não iria funcionar», escreveu-me Jenny. «Não basta prever que as coisas vão acontecer para que aconteçam, nem basta desejar. Isto não é álgebra nem geometria. Quando se trata de pessoas, dois mais dois nunca são quatro. Quero dizer que ninguém consegue substituir ninguém: o Dan não pode substituir o Gabriel e eu não posso substituir a Paula; tu, por mais que o queiras, não podes substituir o Rodney.» «Acaba o livro», concluía Jenny. «Deves isso ao Rodney. Deves isso ao Gabriel e à Paula. Deves isso ao Dan e a mim. E, sobretudo, deves isso a ti próprio. Acaba-o e depois, se te apetecer, vem passar alguns dias connosco. Estaremos à tua espera.» A resposta de Jenny deixou-me aniquilado, sem capacidade de reacção, como se tivessem acabado de esbofetear-me e eu não soubesse quem, como ou porquê me esbofeteara. Reli-a, tornei a relê-la; entendia todas as palavras mas era-me impossível assimilá-la. Estava tão convencido de que o meu futuro estava em Rantoul com Dan e com ela que nem sequer tinha imaginado um futuro alternativo no caso de esse ser ilusório ou fracassar. Além disso, a negativa de Jenny era tão inequívoca e os seus argumentos tão invulneráveis que não me senti com forças para tentar rebatê-los e insistir na minha proposta.

Não respondi ao e-mail de Jenny. Não haveria qualquer passe de magia, não haveria qualquer sortilégio, não recuperaria o que tinha perdido. De repente, vi-me de regresso à minha antiga vida subterrânea; de repente, pareceu-me compreender que era absurdo continuar a escrever este livro. E já estava prestes a abandoná-lo definitivamente quando descobri qual era o seu final exacto e por que razão tinha de o terminar. Aconteceu pouco depois de, numa tarde ao sair de casa para ir almoçar, ter descoberto um maço de cigarros cheio de charros de marijuana a escorregar pela ranhura da minha caixa de correio.

Não pude deixar de sorrir. Na manhã seguinte telefonei a Marcos e ficámos de nos encontrar dois dias depois no El Yate para bebermos uma cerveja.

Foi Marcos quem escolheu o bar. Quando cheguei, muito antes da hora marcada, o meu amigo já lá estava, sentado num tamborete, de costas para a porta e com os cotovelos apoiados no balcão. Sem dizer nada sentei-me junto dele e pedi uma cerveja; Marcos também não disse nada, nem sequer desviou os olhos do seu copo. Era uma quinta-feira de meados de Outubro e a última claridade da tarde estava prestes a extinguir-se contra as vidraças que se abriam sobre a esquina de Muntaner e Arimon. Enquanto esperava que me servissem perguntei:

- Como me localizaste?

Marcos suspirou antes de responder.

- Por acaso - disse. - Um dia destes vi-te na rua e segui-te. Já sabia que tinhas mudado de apartamento mas, pelo menos, podias ter avisado. A vida não está de molde a andar a atirar marijuana pela janela fora.

- Não a atiraste - disse. - Com certeza que quem alugou o apartamento depois de eu ter saído te estará agradecido.

- Muito engraçado. - Voltou-se para me ver. Depois disse: - Como estás?

Com alguma apreensão eu também me voltei. À primeira vista, não me pareceu o quarentão envelhecido do nosso último encontro, no MACBA ou no Palau Robert, na noite desastrosa em que tentei seduzir Patricia; parecia apenas cansado, talvez aborrecido. De facto, as calças de ganga desbotadas, a camisola azul bastante larga e a camisa de um azul mais claro, com as fraldas de fora, conferiam-lhe um aspecto de desalinho vagamente juvenil, que nem o pouco cabelo grisalho nem os óculos de tartaruga, grossos e um pouco antiquados, desmentiam totalmente; uma barba de dois dias escurecia-lhe as faces. Enquanto o observava sentia-me observado por ele e, antes de responder à sua pergunta, perguntei a mim próprio se lhe estaria a fazer lembrar um fantasma ou um zombie.

- Bem - menti. - E tu?

- Eu também.

Abanei a cabeça com aprovação. O empregado serviu-me a cerveja, bebi um gole, acendi um cigarro e depois acendi o de Marcos, que ficou a olhar para o Zippo de Rodney; eu também olhei. Por momentos, pareceu-me um objecto longínquo e estranho, um meteorito minúsculo, um fóssil ou um sobrevivente de alguma glaciação; por segundos, pareceu-me que o cão gravado nele não sorria mas troçava de mim. Pousei o isqueiro no balcão, em cima do maço de cigarros e perguntei:

- Como está a Patricia? Marcos tornou a suspirar.

- Separámo-nos há mais de um ano - disse. - Julguei que sabias.

- Não sabia.

- Bom, é indiferente - disse, como se fosse mesmo indiferente, passando uma mão pela barba crescida; reparei que uma mancha de tinta escurecia um pouco o seu dedo anular. - Suponho que estávamos juntos há demasiado tempo e, enfim... Está a viver em Madrid há alguns meses, de modo que não a vejo.

Não disse nada. Continuámos a beber e a fumar em silêncio e, a dada altura, lembrei-me inevitavelmente da última vez que tinha estado no El Yate, há dezassete anos, com Marcos e com Marcelo Cuartero, quando este me propôs ir para Urbana e tudo começou. Passeei os olhos pelo bar. Eu lembrava-me de um sítio luxuoso da zona alta, inacessível à nossa economia de indigentes, frequentado por executivos e reluzente de espelhos e madeiras polidas, mas o local onde agora me encontrava parecia antes (ou, pelo menos, parecia-me a mim) uma escura taberna de província. Alguns pormenores da decoração esforçavam-se pateticamente por imitar o interior imaginário de um iate - quadros descoloridos com temas marítimos, candeeiros em forma de âncora, apliques cobertos por abat-jours em forma de esqualo, um relógio de pêndulo em forma de raqueta de ténis -, mas as horríveis cortinas cor-de-rosa presas nas molduras das janelas pintadas de um verde horrível, as bandejas de aspecto rançoso alinhadas no balcão sem brilho, as máquinas de moedas pestanejando a sua promessa estimulante de riqueza, os empregados com as fardas sujas de caspa e a clientela de bebedoras solitárias de Marie Brizard e de bebedores solitários de genebra, que, de vez em quando, trocavam alguns comentários de velhos conhecidos habituados ao álcool e ao cinismo, aproximavam mais o El Yate do Bud's Bar, do que da minha lembrança do El Yate.

De repente, senti-me bem ali, com o meu cigarro e com a minha cerveja na mão, como se nunca devesse ter saído daquele bar de Barcelona com o seu ambiente de bar de província; de repente, perguntei a mim próprio por que razão Marcos quisera encontrar-se comigo precisamente ali.

- E por que quiseste encontrar-te comigo aqui? - perguntei.

- Há muito tempo que não vinha cá - disse. E acrescentou: - Não mudou nada.

Perplexo, perguntei se se referia ao bar.

- Refiro-me ao bar, à calle Pujol, ao bairro, a tudo - respondeu. - De certeza que até o nosso apartamento está na mesma. Fico lixado.

Sorri.

- Não vais ficar nostálgico?

- Nostálgico? - A interrogação não continha surpresa mas fastio, fastio que confinava com a irritação. - Nostálgico porquê? Aquilo não foi o que de melhor nos aconteceu na vida. Às vezes parece mas não foi.

- Não?

- Não. - Franziu os lábios numa careta depreciativa. - O melhor é o que nos está a acontecer agora.

Houve um silêncio, passado o qual ouvi Marcos a rir; contagiado, também comecei a rir-me e, durante uns instantes, um riso frouxo, estranho e descontrolado impediu-nos de falar. Depois Marcos propôs tomarmos outra cerveja e, enquanto a serviam, para lhe perguntar alguma coisa, interroguei-o sobre o seu trabalho. Marcos bebeu um gole de cerveja que lhe deixou uma pincelada de espuma em redor da boca.

- Há coisa de um ano, logo a seguir à Patrícia e eu nos termos separado, deixei de pintar - explicou. - Estava farto de sofrer. Não vendia a merda de um quadro há meses e nem sequer podia salvar a face atribuindo a culpa ao mercado, esse senhor tão prestatável, porque sentia que o que pintava era uma porcaria. De modo que deixei de pintar. Nem imaginas como me senti bem. De repente, apercebi-me de que tudo não passava de um mal-entendido absurdo. Alguém, ou alguma coisa, me tinha convencido de que eu era um artista quando na realidade não o era e por isso sofria tanto e era tudo uma merda. Vinte anos puxando numa direcção quando na realidade queria ir noutra, vinte anos para o caixote do lixo... Um mal-entendido desgraçado. Mas, em vez de ficar deprimido, assim que compreendi isso senti-me bem, foi como se tivesse tirado um peso enorme de cima. De modo que decidi mudar de vida. - Deu uma passa no cigarro e começou novamente a rir mas engasgou-se com o fumo e a tosse cortou-lhe o riso. - Mudar de vida - continuou depois de um gole de cerveja que lhe limpou a garganta. - Grande camelo. É preciso ser estúpido para acreditar que se pode mudar de vida como se, com quarenta anos, ainda não soubéssemos que não somos nós que mudamos a vida mas a vida que nos muda a nós. Enfim... O caso é que aluguei uma casa no campo, numa povoação da Cerdanya e mandei tudo para o diabo. O primeiro mês foi óptimo: passeava, cuidava da horta, conversava com os vizinhos, não fazia nada; cheguei mesmo a conhecer uma miúda, uma enfermeira que trabalhava em Puigcerdà. Aquilo parecia o paraíso e comecei a fazer planos para ficar lá. Até que as coisas deram para o torto. Primeiro foram os problemas com os vizinhos, depois a rapariga fartou-se de mim e mais tarde comecei eu a aborrecer-me. De repente, os dias pareciam-me eternos e perguntava a mim próprio que diabo fazia ali. - Calou-se por um momento e perguntou: - Sabes o que acabei por fazer? - Adivinhava, quase que sabia, mas deixei que fosse Marcos a responder à sua própria pergunta. - Pus-me a pintar. Olha que é de gritos. Pus-me a pintar por tédio, para ocupar o tempo, porque não tinha nada melhor para fazer.

Pensei no meu livro interrompido e nos dois alegres e arrogantes kamikazes que Marcos e eu tínhamos imaginado ser há dezassete anos e nas obras-primas com que planeávamos vingar-nos do mundo. Disse:

- Parece-me um motivo tão bom como qualquer outro.

- Enganas-te - discordou Marcos. - É o melhor motivo. Ou, pelo menos, o melhor de que me lembro. A prova é que pintar nunca me divertiu tanto como nessa altura. Não sei se o que pintei é bom ou mau. Pode ser que seja mau. Ou pode ser que seja o que de melhor pintei na minha vida. Não sei e, para dizer a verdade, é-me indiferente. A única coisa que sei é que, bom... - Hesitou um momento, olhou para mim e pensei que ia novamente desatar a rir.

- A única coisa que sei é que se não tivesse começado a pintar ainda estaria a viver naquele sítio de merda.

Embora os ponteiros do relógio de pêndulo em forma de raqueta estivessem congelados nas cinco horas, de certeza que já passava das nove porque os bebedores solitários de genebra e de Marie Brizard tinham desaparecido do El Yate e os empregados estavam há algum tempo a servir jantares nas mesas que se alinhavam ao longo das vidraças; atrás destas era já noite cerrada e os faróis dos carros, os semáforos e os candeeiros imprimiam à rua uma trémula sugestão de aquário. Quando Marcos se cansou de monologar acerca dos quadros que tinha pintado, imaginado ou esboçado na Cerdanya, perguntou:

- E tu?

- Eu o quê?

- Estás a escrever?

Disse-lhe que não. Depois disse-lhe que sim. Depois perguntei-lhe se queria beber outra cerveja. Aceitou. Enquanto a bebíamos contei-lhe que tinha dedicado os últimos meses a escrever um livro, que o tinha abandonado há umas duas semanas e que já não tinha a certeza de que valesse a pena acabá-lo ou, sequer, de querer acabá-lo. Marcos perguntou-me de que tratava o livro.

- De muitas coisas - disse.

- Por exemplo? - insistiu.

Foi então que, ao princípio com relutância, quase para corresponder às confidências de Marcos, mais tarde com interesse e no fim arrebatado pelas minhas próprias palavras, comecei a falar-lhe do nosso apartamento partilhado na calle Pujol, do encontro com Marcelo Cuartero no El Yate, da minha viagem a Urbana, do meu trabalho em Urbana, da minha amizade com Rodney, do pai de Rodney, dos anos de Rodney no Vietname, do meu regresso a Barcelona e depois a Gerona, de Paula e de Gabriel e do meu encontro com Rodney no hotel San António de La Florida, em Madrid, das duas tragédias que existem na vida e da alegria provocada pelo sucesso, mas também da euforia e da humilhação e da catástrofe, da morte de Gabriel e de Paula, do meu purgatório no apartamento da Sagrada Família, de túneis e subsolos e portas de pedra, de brechas nas portas de pedra, da minha viagem pelos Estados Unidos e do meu regresso a Rantoul, de Dan e de Jenny, dos crimes da Tiger Force, da morte de Tommy Birban e do suicídio do Rodney, do meu regresso a Barcelona, do meu regresso frustrado a Rantoul, das miragens da Álgebra e da Geometria. Falei-lhe de todas estas coisas e de outras e, à medida que o fazia, soube que Jenny tinha razão, que Marcos tinha razão: tinha de acabar o livro. Ia acabá-lo porque devia isso a Gabriel, a Paula e a Rodney, também a Dan e a Jenny, mas, sobretudo, porque devia isso a mim próprio, ia acabá-lo porque era um escritor e não conseguia ser outra coisa, porque escrever era a única coisa que podia permitir-me olhar para a realidade sem me destruir ou sem que esta caísse sobre mim como uma casa em chamas, a única coisa que podia dotá-la de um sentido ou de uma ilusão de sentido, a única coisa que, como tinha acontecido durante aqueles meses de reclusão, de trabalho, de espera vã, de sedução, persuasão ou demonstração, me tinha permitido vislumbrar de facto e sem o saber o fim da viagem, o fim do túnel, a brecha na porta de pedra, a única coisa que me tinha transportado do subsolo para o ar livre e me tinha permitido viajar mais depressa que a luz e recuperar parte do que tinha perdido entre o estrépito da queda; acabaria o livro por isso e porque acabá-lo era também a única forma de, nem que fosse através destas páginas, Gabriel e Paula permanecerem de algum modo vivos e de eu deixar de ser quem fora até então, quem fui com Rodney - meu semelhante, meu irmão -, para me transformar noutro, para ser de alguma maneira e em parte e para sempre Rodney. E a dada altura, enquanto continuava a falar a Marcos do meu livro sabendo já que ia acabá-lo, assaltou-me a suspeita de que talvez o tivesse abandonado há duas semanas não por não querer acabá-lo ou por não ter a certeza de que valesse a pena acabá-lo, mas porque não queria acabá-lo. Porque, quando já avistava o seu fim - quando quase sabia o que queria dizer esta história porque já quase o dissera; quando chegara quase onde queria chegar, precisamente porque nunca tinha sabido aonde ia -, foi mais forte do que eu a vertigem de ignorar o que haveria do outro lado, que abismo ou espelho esperava por mim para lá destas páginas, quando tivesse novamente todos os caminhos pela frente. E foi nessa altura que soube não só o final exacto do meu livro mas a solução que procurava. Eufórico, expliquei-o a Marcos com a última cerveja. Expliquei-lhe que ia publicar o livro com outro nome que não o meu, com um pseudónimo.

Expliquei-lhe que antes de o publicar o reescreveria totalmente. Mudarei os nomes, os lugares, as datas, expliquei-lhe. Mentirei em tudo, expliquei-lhe, mas apenas para melhor dizer a verdade. Expliquei-lhe: será um romance apócrifo, tal como a minha vida clandestina e invisível, um romance falso mas mais verdadeiro do que se fosse real. Quando acabei de lhe explicar tudo isto, Marcos permaneceu uns segundos em silêncio, fumando com uma expressão ausente; depois bebeu de um gole o resto da cerveja.

- E como acaba? - perguntou.

Abrangi com um olhar o bar quase vazio e, sentindo-me quase feliz, respondi:

- Acaba assim. 

 

                                                                                Javier Cercas 

 

 

                      

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