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Abril a Junho de 1943
Abril a Junho de 1943

 

 

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RELATOS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Abril a Junho de 1943

 

                  

 

A Conquista da Tunísia

 

Tangidos os exércitos do Eixo para a Tunísia, esse último canto do continente africano tornou-se, em realidade, um campo de batalha insular. As duas forças antagônicas, que haviam reunido suas forças para a prova final, dependiam inteiramente de bases de abastecimento situadas além-mar. Os depósitos acumulados na África manteriam a luta apenas por um breve período, e se qualquer dos dois lados fosse privado de suas comunicações com outros continentes, seu destino estaria selado em pouco tempo.

 

Tal situação dava grande vantagem ao lado que possuísse superioridade naval. Durante toda a luta pela posse da África Setentrional, a frota britânica representou um papel inestimável. Desfechara duros golpes nas linhas marítimas do Eixo, e protegera os comboios aliados de modo a que suas perdas fossem pequenas. A queda da Líbia e da Tripolitânia significava que o Eixo confiava agora inteiramente nas curtas rotas de navegação através do estreito da Sicília. Se a linha de comunicação fosse adequadamente protegida, tal concentração representava uma vantagem evidente. Mas, em verdade, dava também às forças navais aliadas a oportunidade de concentrarem seu ataque contra uma pequena área, ao invés de guardarem todo o Mediterrâneo oriental contra comboios inimigos; e o problema de abastecimento do Eixo, longe de ser simplificado, caracterizava-se por crescentes dificuldades.

 

Mesmo assim, o bloqueio aliado, embora altamente eficaz como contribuição à campanha, não era de modo algum absoluto. Havia fatores que tornavam impossível isolar a Tunísia completamente. Em particular não era conveniente arriscar grandes forças de superfície em águas em que pudessem ser facilmente atacadas tanto pelos bombardeiros como pelos submarinos com bases tão próximas. A tarefa dos couraçados e das cruzadores era manter a defesa externa que conservava à distância a frota italiana, impedindo-a de intervir para dar forte proteção aos comboios vindos da Sicília. O ataque naval sobre aqueles comboios era em grande parte obra dos submarinos auxiliados por botes torpedeiros. De novembro a maio afundaram 89 navios num total de 268.000 toneladas. Os aviões afundaram 48 navios num total de 433.400 toneladas. A proporção dos afundamentos aumentou à medida que a campanha se desenvolveu, e durante todo o período um terço dos transportes e dos navios de abastecimentos enviados da Itália para a Tunísia eram postos no fundo do Mediterrâneo.

 

Tais cifras ilustravam não somente a eficácia da atividade naval aliada, mas também a contribuição da aviação para o ataque às comunicações marítimas do Eixo. Em realidade os aviões causaram tantos afundamentos de navios inimigos quanto os submarinos aliados. Mesmo assim isso era apenas o começo do que iam realizar. Quando as dificuldades do transporte marítimo obrigou os do Eixo a recorrerem ao transporte aéreo para o envio de reforços e abastecimentos, particularmente depois da retirada de Wadi Akarit, sofreram reveses ainda maiores. De acordo com a tática da aviação aliada, os Spitfires agiam juntamente com caças médios americanos de maneira particularmente eficaz. O resultado era uma devastadora combinação lançada contra os comboios do Eixo, pois as Spitfires forneciam a escolta necessária contra os Messerschmitts, enquanto os Lightnings ou os P-40 causavam a destruição entre os aparelhos inimigos de transporte. A 5 de abril um comboio fortemente escoltado foi interceptado, cem a perda de 18 transportes e de 13 outros aviões de escolta, tendo nesse dia sido derrubados 52 aviões inimigos. Durante o seguinte fim de semana foram destruídos 70 transportes. A 19 de abril a cifra correspondente a duas semanas foi de 159 aviões transporte; e a 22 uma formação de 20 gigantescos Merseburg de seis motores foi completamente destruída. Tal desastre dava valor especial a descrição feita pelo marechal do Ar Tedder da estratégia aliada, como um "laço que se fecha gradualmente".

 

A participação da força aérea no bloqueio constituía apenas uma parte de suas atividades. Passara definitivamente o período da supremacia aérea do Eixo. Em abril, a supremacia aérea dos aliados era quase comparada à superioridade aliada no mar e seus efeitos eram ainda mais visíveis. A superioridade numérica era acentuada pela reorganização que dava eficácia ainda maior à arma aérea. Foi necessária certa reorganização quando o 8o Exército deslocou-se para o interior da Tunísia e quando foram levadas em consideração as ligações entre a aviação do deserto ocidental e o comando militar da frente da Tunísia. Mas a criação em fevereiro de três comandos separados, em Malta, no Oriente Médio e no Noroeste da África, constituía apenas o primeiro passo para isso. Muito mais importante era o reagrupamento da força do Noroeste da África de acordo com as lições da campanha africana.

 

Tais lições tinham sido parcialmente aplicadas. Na operação ofensiva iniciada com o ataque a El Alamein, a unidade de operações era a característica essencial. Em toda a zona do conflito desde as bases inimigas de abastecimento até a linha de frente aplicavam-se os mesmos métodos. Todas as armas eram consideradas como partes de um simples instrumento usado com a finalidade dominante de destruir o inimigo. Quer empregada para arrasar os portos da Itália, quer para abrir caminho às tropas de terra através das defesas inimigas, a aviação agia sempre no sentido de dar o máximo de cooperação a todo o conjunto das forças aliadas.

 

De acordo com esta experiência é que surgiu a reorganização do comando da Aviação do Noroeste da África. Vários grupos receberam tarefas especiais, tais como transporte de tropas, reconhecimentos e patrulhas costeiras. A mais notável divisão, entretanto, foi a que surgiu entre as atividades estratégicas e táticas. A Força Aérea Estratégica, cujo poderio principal consistia em bombardeiros pesados e médios apoiados por caças de longo raio de ação, recebeu a missão de atacar as principais bases inimigas e cortar as linhas de abastecimento e comunicações. A Força Aérea Tática, composta principalmente de bombardeiros leves e de caças, devia bombardear os aeródromos e concentrações de tropa e os pontos fortes na zona de batalha ou abrir caminho entre as defesas inimigas. A dispersão da força aérea por meio de sua união a vários comandos terrestres, a independência completa que em situações críticas dificultava a cooperação efetiva entre o exército e a RAF, tinham sido evitadas. A aviação era uma força concentrada cujo emprego era dirigido pelo Alto Comando como parte do grande plano de operações, o que permitia a integração e a flexibilidade tão necessárias à vitória.

 

Mesmo a divisão da zona do Mediterrâneo em três comandos separados foi modificado pela coordenação das atividades da aviação. Os bombardeiros pesados do Oriente Médio atacavam persistentemente objetivos na Itália e na Sicília. Forças mais leves partidas de Malta inquietavam as estradas de ferro e os serviços de barcaças, atacando até mesmo os subúrbios de Roma. Da Tunísia, a Força Aérea Estratégica atacava a Sicília e a Sardenha com vigor cada vez maior. Uma dúzia ou mais de objetivos na Sicília eram persistentemente martelados, dando-se particular atenção aos aeródromos e bases navais, desferindo-se os golpes mais poderosos contra alguns centros industriais, entre eles Palermo, Messina e Trapani. Os ataques contra Palermo atingiram o máximo a 9 de maio, quando 400 bombardeiros pesados e médios escoltados por caças atacaram as docas e a zona industrial no reide mais pesado da campanha. Ataques diurnos contra Trapani e outros portos sicilianos contribuíam para o desgaste da navegação do Eixo, e da mesma forma os ataques contra os portos e os aeródromos da Sardenha inclusive uma violenta incursão contra Cagliari levada a efeito por cerca de 100 Fortalezas Voadoras a 31 de março. A 10 de abril a mais poderosa formação de Fortalezas até então empregada no Mediterrâneo atacou a base naval de La Maddalena, afundando o cruzador pesado Trieste e danificando seriamente o Gorizia bem como causando destroços nas instalações submarinas.

 

Na Itália continental o objetivo principal nos meses de março e abril foi Nápoles. A maioria dos ataques eram realizados por bombardeiros pesados do Oriente Médio; mas a 4 de abril a Força Aérea do Noroeste da África uniu-se a essa para um ataque diurno de aproximadamente 100 Fortalezas. No começo de maio o assalto estendera-se a Taranto e Reggio, à base aérea de Bari e ao aeródromo de Grosseto, a 130 km ao norte de Roma. Poucos desses ataques eram comparados aos golpes desfechados contra a Europa ocidental. Os bombardeios estendiam sua atividade sobre um grande número de objetivos, e grande concentrações como as de Nápoles e Palermo constituíam mais uma exceção do que uma regra. Mas em contraste com o ataque contra o Thur com sua tentativa de devastar uma grande zona produtora, os ataques no Mediterrâneo tinham por finalidade o desmantelamento das bases aéreas e a destruição das instalações portuárias e da navegação, e nesses esforços os aliados conseguiram inegável êxito.

 

Na própria Tunísia a Força Aérea Estratégica também se mostrava grandemente ativa. Bombardeiros pesados atacaram os principais portos desde Bizerta até Sfax bem como as principais bases inimigas; e na fase final da campanha emprestaram poderoso apoio na zona de batalha. Essas operações estavam diretamente ligadas às que vinham sendo realizadas pela Força Aérea Tática. Também atacavam contínua e vigorosamente os campos de pouso do Eixo tentando quebrar o poderio da aviação inimiga. O efeito destruidor de tais ataques contribuiu para a crescente supremacia que se tornou cada vez mais absoluta à medida que os aviões do Eixo eram obrigados a amontoar se nos poucos aeródromos que ainda restavam na extremidade nordeste da Tunísia. A 26 de abril estimava-se em 918, no mínimo, o número de aviões do Eixo perdidos e possivelmente cerca de 1.200 abatidos em combates aéreos desde o começo do ano, e que outros 586 haviam sido destruídos em terra. A 7 de maio foi anunciado que desde 8 de novembro haviam sido destruídos no ar 1.655 aviões do Eixo, com uma perda de 631 aviões aliados. Nessa data, com as defesas terrestres nazistas a desmoronar-se, a supremacia aliada era absoluta e os forças aéreas inimigas foram virtualmente varridas dos céus.

 

Juntamente com esse ataque direto contra a aviação do Eixo, verificou-se estreito e contínuo apoio às operações terrestres dos aliados. Foi esse sempre um elemento integral e decisivo no assalto às defesas do inimigo. Os aviões atacavam violentamente os pontos fortificados inimigos, abrindo caminho para o avanço da infantaria. Atacavam as posições de artilharia e as concentrações de tropas e linhas de comunicação. Aviões armados de canhões entre os quais os Hurricanes equipados com dois canhões de 40 mm, obtiveram notáveis êxitos contra os tanques. A técnica de variar continuamente os pontos atacados foi levada ao máximo de eficiência. Desde o combate de Wadi Zigzau até a ruptura final diante de Massicault, a supremacia aérea constituiu uma importante contribuição para aumentar cada vez mais as vantagens aliadas, tornando segura a vitória na África.

 

Avanço a Partir de Mareth

 

A chave da fase em que entrava agora a campanha tunisina era constituída pela firme resolução dos comandantes do Eixo de manterem suas posições elevadas a oeste do corredor costeiro. Se a linha de retirada para o norte pudesse ser mantida aberta, Rommel poderia continuar sua ação retardadora contra a pressão frontal do 8o Exército e retrair-se para fazer por fim junção com as forças de von Arnim na cabeça de ponte que cobria Túnis e Bizerta. Se o lado ocidental do corredor fosse ocupado pelos aliados seria lançada uma cunha entre as duas forças do Eixo, desfazendo seus planos para uma defesa combinada e expondo-os a serem destruídos isoladamente. Antes de tudo era preciso evitar que tal acontecesse. Era conveniente opor a máxima resistência ao 8o Exército; mas se fosse preciso escolher entre ceder terreno ante o ataque de Montgomery e arriscar-se a sofrer uma ruptura nas defesas do flanco oeste a fim de manter o terreno no sul, era certo que o Eixo escolheria a primeira solução.

 

Os aliados adaptaram deliberadamente sua estratégia a esta situação. A idéia de irromper do oeste e cortar a retirada de Rommel era sem dúvida tentadora. Mas para ser eficiente, a ruptura deveria ser explorada por uma força de grandes recursos, pois se tal não acontecesse a força atacante ficaria com seus flancos expostos e poderia vir a ser esmagada entre o grosso do exército inimigo. Até então, entretanto, os aliados careciam de reservas adequadas para serem lançadas nessa operação, e renunciaram á idéia de efetuarem uma ruptura de flanco, preferindo um ataque frontal pelo sul. Mas enquanto o papel dado às forças aliadas no norte da Tunísia fosse, em conseqüência, de natureza limitada, nem por isso deixava de ser de vital importância para o resultado final. Sua missão era exercer pressão ao longo de toda a linha a fim de desviar o máximo de tropas do Eixo, enfraquecendo desta forma a resistência na frente do 8o Exército. As forças americanas foram incumbidas de ameaçar o trecho vital de Fondouk até a zona de Gafsa, enquanto mais ao norte o 1o Exército britânico devia conter as forças de von Arnim e impedi-lo de enviar qualquer auxílio a Rommel.

 

As operações efetuadas pelo 2o Corpo americano tinham particular importância para o êxito da ofensiva da Linha Mareth. A 17 de março esta força composta de uma divisão blindada e de três de infantaria ocupou a zona de Gafsa e lançou duas pontas de lança para leste, na direção de Maknassy e El Guettar. Havia aí duas portas que o eixo estava vitalmente interessado em manter, pois o fechamento de qualquer uma delas ameaçaria a linha de retirada. Partindo de Maknassy a estrada costeira poderia ser cortada ao sul de Sfax. De El Guettar, uma força avançaria pela planície e isolaria Rommel, cortando o desfiladeiro de Gabes. Em realidade nenhuma das duas operações foi considerada pelo comando aliado. Mas a força do ataque americano apresentava uma ameaça real e forçou Rommel a desviar forças importantes para manter o passo em El Guettar e as últimas posições elevadas a leste de Maknassy. O caminho permaneceu fechado até que por ele tivesse sido feita a retirada. Mas para conseguir isso Rommel recolheu algumas de suas melhores tropas motomecanizadas, inclusive a 10a Divisão Blindada, e a falta dessas forças poderia ter sido decisiva na luta pela posse da Linha Mareth.

 

A Linha Mareth era uma posição poderosamente fortificada que guarnecia o estreito desfiladeiro entre as elevações de Matmata e o mar. Era uma série de pontos fortes construídos em profundidade e que se prolongavam para o sul, em elevações muito acidentadas até 600 m, com profundas gargantas e despenhadeiros e com fortins para reforçar essas defesas naturais. Além dessas elevações. encontravam-se as dunas do Saara, que, quando foram feitas as fortificações, eram consideradas instransponíveis por qualquer força considerável. Mas desde então a guerra no deserto se desenvolvera e grupos de exploradores do 8o Exército descobriram que a zona do deserto podia ser transposta por veículos motorizados. No começo de março uma coluna de vanguarda avançou para ocupar o posto avançado de Ksar Rhilane, no deserto. A linha Mareth possuía um flanco que podia ser contornado, e foi por meio de um movimento de flanco que se conseguiu finalmente alcançar êxito.

 

A defesa dessa posição por parte do Afrika Korps foi realizada sem a vantagem da direção de Rommel. Segundo um comunicado oficial alemão, Rommel havia muito estava doente. O ataque contra El Alamein foi desfechado quando o marechal alemão se encontrava na Alemanha, em tratamento, e foi contra o conselho insistente de seus médicos que ele voou para a África a fim de tomar a direção da campanha. Seu estado de saúde continuou piorando durante a retirada, e quando suas tropas alcançaram o abrigo da linha Mareth ele recebeu ordens de voltar para a Alemanha. As forças por ele deixadas ficaram sob o comando do marechal de campo Messe, que estava no comando desde a partida de Rommel; a retirada para a linha Enfidaville fez com que todos os exércitos do Eixo na Tunísia ficassem sob as ordens de von Arnim.

 

As operações preliminares começaram a 6 de março. Quatro dias foram precisos para realizar as operações de limpeza nos postos avançados do Eixo e no reconhecimento das defesas exteriores das posições principais. Então, pouco depois da meia-noite de 20 de março, num claro luar e sob a coberta de uma violenta preparação de artilharia, como as que caracterizavam todos os grandes ataques do 8o Exército, a infantaria avançou para um ataque frontal contra a linha Mareth.

 

O peso principal foi lançado numa frente de 10 km no setor de Zarat entre o mar e a estrada costeira. Aí o obstáculo inicial foi Wadi Zigzau, uma ravina que se desenvolvia para nordeste sobre o flanco costeiro, com 100 metros de largura em certos pontos e tendo de cada lado rochas verticais de 6 a 10 metros de altura. Do lado oposto havia cinco pontos fortificados com mais dois outros colocados atrás, que precisavam ser subjugados antes de que se pudesse consolidar um ponto de apoio inicial.

 

As tropas da 50a Divisão conseguiram apossar-se dos seus primeiros objetivos. Atacaram através da ravina e capturaram dois dos cinco pontos fortes que tinham pela frente. Atrás da infantaria vieram os engenheiros preparar o caminho para a travessia dos tanques. Pela manhã dois batalhões já haviam tomado posição no lado oposto da ravina e quatro tanques haviam conseguido atravessar. Mantiveram sua posição durante o dia, e na noite de 21 ampliaram seu ponto de apoio, transformando-o numa cunha de 5 km de base, que se estendia até a segunda linha de defesa das posições inimigas.

 

Mas o êxito foi efêmero. As tropas que haviam tomado pé do outro lado de Wadi Zigzau dependiam completamente de uma única passagem improvisada de 100 metros de comprimento que os engenheiros se esforçavam para aumentar. Mas a ravina era submetida a pesado fogo inimigo, e a lama preta que formava o fundo era mais mole e mais profunda do que se pensara. Chuvas caídas subitamente aumentaram as dificuldades, enchendo o grande valo com um metro de água, enquanto os engenheiros esforçavam-se por completar sua tarefa. As primeiras fundações consistiam em toras de 3 metros. Durante a noite seguinte foram empilhadas mais toras, bem como tudo mais que pudesse tornar mais forte a passagem - tambores de petróleo, sacos de areia, etc. - foi lançado numa tentativa para construir uma firme passagem através do valo. O resultado foi apenas temporariamente eficaz. Alguns tanques atravessaram durante a noite, mas apenas alguns canhões antitanques, tão importantes para a consolidação das posições conquistadas, conseguiram atravessar a ravina. A passagem não era suficientemente forte para suportar o equipamento pesado necessário ao prosseguimento do avanço. A ponte afundava gradualmente na lama e por fim somente a infantaria e os armamentos leves puderam ser transportados para o outro lado.

 

Em conseqüência, o inevitável contra-ataque alemão encontrou a cabeça de ponte virtualmente isolada. O ataque foi lançado na tarde de 22, e nessa noite os tanques da 15a Divisão Blindada alemã foram lançados contra os defensores. Sob o peso desse assalto, recuou a ponta de lança britânica. Os alemães e italianos fecharam a brecha aberta em suas defesas, e na madrugada do dia 23 os britânicos possuíam apenas um único ponto forte do outro lado da ravina. Aferraram-se a essa posição durante todo o dia; mas já se tornara evidente que o ataque inicial falhara; e ao cair da noite as tropas restantes foram retiradas, juntando-se ao grosso.

 

Noutro ponto, entretanto, as perspectivas eram mais promissoras. Enquanto o ataque principal era lançado contra o setor oriental da linha Mareth, estava também em progresso um movimento no flanco oeste. Ao general Freyberg fôra dado o comando de um corpo cujo núcleo era a divisão neozelandesa e que incluía unidades inglesas de tanques e artilharia, bem como tropas gregas e de francesas combatentes. Esta poderosa força ofensiva foi enviada em torno de Matmata para o interior do deserto, deslocando-se à noite e tentando realizar um ataque de surpresa que se apoderasse do ponto-chave de El Hamma e apanhasse pela retaguarda os defensores da linha Mareth.

 

A surpresa não foi obtida de modo completo. Os alemães, prevendo a possibilidade de tal operação, haviam ocupado posições defensivas ao sul de El Hamma. O reconhecimento aéreo descobriu a coluna aliada na véspera do ataque principal contra a linha Mareth, e a 20 a força ao comando de Freyberg era atacada pelas tropas avançadas alemães. Num ponto a 25 km ao sul de El Hamma, os britânicos penetraram num campo de minas apoiado por poderosas defesas antitanques e por considerável concentração de tropas inimigas. Mas o efetivo das forças aliadas era maior do que julgavam os alemães, e um ataque noturno a 21 cravou uma cunha através do campo de minas e efetuou um avanço de vários quilômetros. A coluna progrediu pelo vale em forma de V formado por duas cadeias de elevações, que se estreitava em direção do desfiladeiro em frente a El Hamma, enquanto a infantaria limpava as alturas dos flancos que dominavam o vale, e a aviação dava forte apoio aéreo, esmagando as concentrações do Eixo que pretendiam barrar o caminho aos atacantes.

 

Desta forma, enquanto se tornara evidente que o ataque frontal na linha Mareth estava condenado ao fracasso, havia boas perspectivas de que o movimento de flanco alcançasse seus objetivos. Imediatamente o general Montgomery decidiu transferir o peso principal de seu ataque de acordo com o princípio do aproveitamento do êxito. Retirou tropas de infantaria e motomecanizadas do setor de Zigzau e enviou esta poderosa força para contornar Matmata e unir-se ao corpo de exército neozelandês diante de El Hamma.

 

Por seu lado Messe operara no sentido de enfrentar a nova ameaça. Unidades alemães e italianas de infantaria foram enviadas para reforçar os defensores de El Hamma, estando as tropas blindadas também a caminho. Mas a presteza de sua decisão foi prejudicada pela demora na execução, o que se mostrou decisivo para toda a operação. A fim de obter completa segurança, o comandante alemão sentiu a necessidade de deslocar os britânicos de seus pontos de apoio do outro lado do Wadi Zibzau, e contra eles lançou a 15a Divisão Blindada apoiada por uma forte concentração de artilharia. A resistência tenaz dos britânicos fixaram aquelas forças durante o dia 23 de março, tornando impossível desviá-las para oeste senão depois dessa data. Se as referidas forças tivessem podido iniciar seus movimentos um dia mais cedo, teriam chegado a tempo de esmagar os neozelandeses antes dos mesmos serem reforçados por tropas frescas. Em realidade, a corrida no sentido de obter reforços era disputada de ambos os lados, mas os ingleses venceram com a vantagem suficiente para mudar o curso de toda a batalha.

 

Mesmo assim a situação era crítica. Os neozelandeses haviam consolidado suas conquistas e repelido sucessivos contra-ataques, mas no dia 26 tiveram de fazer frente a uma formidável tarefa. A 15 km ao sul de El Hamma, um estreito desfiladeiro através das duas cordilheiras convergentes dava acesso à planície de Gabes. Através do desfiladeiro corria uma baixa muralha romana, e atrás dela fôra colocada pesada concentração de artilharia, enquanto poderosas forças alemães ocupavam o vale e as elevações de cada lado. Dessas posições martelaram incessantemente as forças atacantes, e ao meio-dia de 26 parecia que os esforços aliados haviam fracassado e que o ataque podia ser abandonado.

 

Tal era a situação quando a nova força britânica, depois de três dias de marcha pelo deserto em meio a tempestades de areia, chegou à cena da batalha. Esses novos elementos de que dispunham os britânicos deram oportunidade a uma nova tentativa antes que os reforços do Eixo pudessem entrar completamente na batalha. As tropas tomaram posição logo que chegaram. Toda a aviação disponível foi chamada para dar apoio. As 4 horas da tarde, com o sol pelas costas e em meio a uma tempestade de areia, os britânicos lançaram o assalto decisivo. Centenas de canhões abriram uma tremenda preparação de meia hora. Ao mesmo tempo os aviões lançaram toda sua fúria sobre as linhas defensoras. Durante duas horas e meia, num ataque aéreo sem precedentes na campanha africana, o martelamento continuou, implacável. Esmagou as posições de artilharia e abalou fortemente a infantaria defensora, especialmente os italianos. O ataque da infantaria aliada, que se seguiu, cravou uma cunha nas posições do Eixo e se apoderou de numerosas posições de artilharia. Esse êxito limitado limpou o caminho para os tanques. Ao nascer dz lua as forças motomecanizadas penetraram através das linhas do Eixo, forçando-as a retroceder ainda mais. Durante todo o dia seguinte registrou-se encarniçada luta enquanto a infantaria limpava as elevações de cada lado e os tanques abriam caminho para a frente. Ao cair da noite as forças motomecanizadas haviam realizado um avanço de 15 km que as levaram até os arredores de El Hamma e decidiram virtualmente o destino de toda a linha Mareth.

 

Estando o seu flanco em perigo iminente, o marechal Messe não podia continuar arriscando uma resistência que de outro modo talvez se prolongasse por vários dias. Mesmo porque, em realidade, as posições frontais da linha Mareth começavam também a ceder. Quando o contra-ataque alemão de 22 repeliu os britânicos que haviam atravessado Wadi Zigzau, Montgomery respondeu lançando novo ataque no centro da linha. Na noite de 22 de março, a 51a Divisão Highland atacou em direção a Mareth contra espessos campos de minas e a obstinada resistência inimiga. Durante seis dias de encarniçada luta abriram caminho vagarosamente para o interior das principais defesas de Mareth. Entrementes a decisão de reforçar o ataque de flanco contra El Hamma tornou conveniente abrir caminho através de o Matmata a fim de encurtar a linha de comunicações com os neozelandeses. Conseqüentemente a 4a Divisão indiana que fôra mantida em reserva para explorar uma possível brecha na zona de Zarat, foi então lançada contra os passos através das elevações de Matmata. Um regimento inglês que operava com esta divisão limpou o passo de Halouf numa ação noturna que abriu uma estrada mais curta para El Hamma. Mais ao sul outra brigada limpou as defesas situadas nas elevações e rumou para o norte apresentando nova ameaça para o flanco imediato de Mareth. Com os aliados em El Hamma fechando o gargalo do bolsão entre esse ponto e Gabes, e com os pontos fortes da linha Mareth desmoronando-se ante o assalto direto, Messe devia andar depressa a fim de poder retirar-se. A 28 de março ele abandonou as posições na linha Mareth e reiniciou sua retirada. Uma encarniçada resistência manteve os aliadas em El Hamma até que o grosso das tropas estivesse fora de perigo. A infantaria italiana recebeu a missão de efetuar uma ação retardadora a fim de tornar possível a fuga do Afrika Korps. Oito dias depois do primeiro ataque, o inimigo fôra expulso das mais fortes posições que havia ocupado desde El Alamein, antes de tudo pelo êxito do avanço pelo flanco que ameaçou envolver toda sua tropa caso prolongasse a resistência fixa. A 30 haviam caído Gabes e El Hamma, e 8.000 prisioneiros, a maior parte italianos, caíram em mãos dos aliados.

 

Três dias depois do abandono da linha Mareth, o inimigo se abrigara em novas posições, a 80 km mais ao norte. Aproveitou a única linha de defesas naturais que havia entre Mareth e Enfidaville. Diante de Gabes os pântanos salgados que formam uma extensão do grande Chott Djerid estreitava o corredor costeiro para aproximadamente 25 km. Mas a planície costeira neste ponto oferecia poucas características naturais para a defesa. O verdadeiro gargalo situava-se a 30 km mais ao norte de Wadi Akarit, uma profunda ravina que se desenvolvia para norte-noroeste, em direção ao mar e era fortificada por uma linha de elevações paralelas. Ao longo desta posição as forças do Eixo mantinham uma linha de 20 km, apoiada em sua extremidade ocidental numa série de colinas fortemente defendidas e protegidas, além disso, por um fosso antitanque do lado oposto ao mar.

 

Como de costume a perseguição caracterizou-se por pesados ataques aliados contra as colunas inimigas, e pelos esforços do Eixo para retardar os perseguidores por meio de extenso uso de minas. Esperava-se, além disso, que uma resistência em Akarit poderia desenvolver-se por mais tempo, caso se obrigasse Montgomery a fazer uma pausa e a reagrupar suas forças antes de tentar outro ataque. Mas Montgomery estava resolvido a fazer pressão sem cessar sobre o inimigo, e com o mínimo de demora. Em fins de março suas patrulhas já estavam em contato com as novas posições do Eixo. Enquanto os últimos bolsões de resistência estavam sendo limpos na zona de Gabes, o 8o Exército era rapidamente lançado em linha para novo assalto. A velocidade com que a artilharia foi colocada em posição foi particularmente notável. Uma semana depois da ruptura em Mareth, tudo estava pronto para outro esforço de grande envergadura, e nas primeiras horas do dia 6 de abril o ataque foi lançado contra Wadi Akarit.

 

A operação constituiu uma surpresa, não somente em conseqüência da velocidade como também pela precisão. Nos anteriores ataques noturnos que haviam caracterizado a progressão do 8o Exército, o luar havia dado visibilidade aos atacantes. Mas nesta ocasião o golpe foi desfechado na escuridão, e a única luz vinha das estrelas. O primeiro choque foi travado deliberadamente em plena escuridão, e ao romper da aurora o êxito estava virtualmente assegurado.

 

Os objetivos principais eram duas posições elevadas no flanco ocidental da linha Akarit, cuja captura traria o domínio aliado sobre as posições do Eixo entre esse ponto e a costa. A altura-pivô era Jebel Roumana, de 120 m, que guarnecia o flanco das defesas ao longo da ravina. A oeste da mesma, do outro lado de um profundo valo estava Jebel Tebaga Fatnassa cobrindo os passos de ambos os lados. Ainda mais para oeste havia outra elevação, Jebel Beida, e diante dessas posições corria um fosso antitanque dando uma proteção extra às passagens entre aquelas.

 

A primeira operação realizou-se contra Jebel Beida. Na escuridão e no silêncio antes da preparação de artilharia, uma força de ghurkas subiu as encostas e dominou a guarnição num combate corpo a corpo. Então, às 4,30 horas da manhã foi iniciado o bombardeio preparatório por uma concentração de 500 canhões, enquanto o maior número de aviões até então empregado num único ataque golpeava os abastecimentos e as comunicações da retaguarda. Enquanto era feita uma finta contra as defesas ao longo do fosso, o verdadeiro ataque era lançado contra as posições elevadas. As alturas de Fatnassa foram assaltadas e capturadas. O peso principal do assalto foi lançado contra a posição de Roumana e efetuando por tropas da divisão Highland. Duas horas depois de iniciada a barragem, as posições vitais estavam em mãos dos britânicos.

 

Os do Eixo reorganizaram-se, num esforço para recuperarem as posições perdidas. A tarde estavam sendo desfechados poderosos e resolutos contra-ataques. Montgomery qualificou a luta daquele dia como "a mais encarniçada que tivemos desde El Alamein". Mas, apesar de todo o encarniçamento, foi curta e decisiva. Ao cair da noite o resultado fôra decidido. Os britânicos estavam firmemente de posse de passagens montanhosas através das quais suas unidades blindadas podiam contornar toda a linha do Eixo. A posição de Akarit tornara-se insustentável; e enquanto os tanques contornavam as guarnições fazendo 6.000 prisioneiros, que a 9 de abril ultrapassaram a mais de 9.500, os remanescentes das forças do Eixo fugiram para o norte, deixando novamente os italianos na retaguarda em seu habitual sacrifício para proteger a retirada das tropas alemães.

 

Desta vez a fuga foi longa. Não houve novos esforças para a realizar uma séria ação retardadora, pois os remanescentes do Eixo retrocederam para juntar-se às forças de von Arnim para uma resistência desesperada na parte extrema da Tunísia. Verificaram-se as tentativas habituais de dificultar a perseguição por meio de campos de minas e pequenos encontros de retaguarda. Mas pouco fizeram para retardar o rápido progresso do 8o Exército quando ele avançou para o norte ao longo da estrada costeira. Sfax caiu a 10 de abril, e ao cair da noite a vanguarda passara La Hancha a 40 km mais ao norte. Dois dias mais tarde os britânicos ocuparam Sousse, a 120 km ao norte de Sfax; e nessa ocasião o número de prisioneiros desde o ataque da linha Mareth subira a 20.000, sendo três quartas partes desse número italianos. Por esta ocasião também o grosso das tropas inimigas se retirara para posições elevadas que corriam para o interior desde Enfidaville, para daí juntar-se com as outras forças do Eixo na Tunísia num esforço final para manter um ponto de apoio em solo africano.

 

Este foi o clímax das proezas do Afrika Korps. Em seis meses fôra obrigado a recuar mais de 2.500 km. Sofrera uma sucessão de esmagadoras derrotas acompanhadas de pesadas perdas. Mesmo assim, apesar de todos os seus desastres, conseguira escapar de uma completa destruição. Evitara toda uma série de tentativas por parte do 8o Exército para flanquear e envolver seus poderosos remanescentes, e mantivera a muralha ocidental do corredor tunisino em face de sucessivas ameaças dos aliados de desmoroná-la e cair sobre as colunas havia muito retirantes, quando estas, em sua fuga para o norte, passavam pelos pontos perigosos.

 

A primeira ameaça procedeu da coluna do sul da força americana avançando da zona de Gafsa. O braço norte desta força capturara Macnassy a 22 de março e avançou para o estreito passo, várias milhas mais a leste. Mas não puderam desalojar os defensores do terreno elevado que impedia a progressão para a costa; e embora estivessem bastante avançados com relação à coluna do sul não podiam perfurar a cordilheira que se entrepunha e cuja captura lhes teria permitido tomar pela retaguarda os defensores do Eixo do passo de Guettaria. A ação além de Maknassy desenvolveu-se numa escala relativamente pequena, e o esforço principal de ambos os lados foi lançado na luta em torno de El Guettar.

 

O 2o Corpo americano avançou para leste desde El Guettar para um vale de forma arredondada cuja saída era um desfiladeiro de 10 km de comprimento entre Jebel Chemsi no norte e Jebel Beida, ao sul. As força do Eixo estavam fortemente fixadas nessas alturas com sua infantaria apoiada por algumas das melhores unidades motomecanizadas de Rommel. O esforço para limpar essas posições elevadas teve de enfrentar uma série de contra-ataques do Eixo que duraram vários dias. Alcançaram seu clímax a 25 de março com um resoluto assalto empregando uma poderosa força de tanques da 10a Divisão blindada e apoiados por pesado fogo de artilharia. Os americanos foram obrigadas a abandonar suas posições avançadas, mas o grosso permaneceu firme, e o fogo preciso de artilharia causou grandes baixas nas tropas atacantes. Isso significava um revés no avanço americano, mas Rommel não conseguira desalojá-los das vias de acesso do passo ou remover essa ameaça de flanqueamento que desviava forças importantes da defesa da linha Mareth.

 

Com a retirada do Eixo da linha Mareth, foi reiniciado o assalto americano. As alturas ao norte da entrada para o passo foram forçadas, mas os alemães mantiveram suas posições em Jebel Beida mais ao sul e daí conservaram o comandamento do passo e de suas vias de acesso. A 2 de abril, uma tentativa de penetração através do campo de minas inimigo foi repelido por uma poderosa força alemã de tanques, que, por sua vez, foi dispersa pelo fogo da artilharia americana. Mas essa pressão contínua, embora conseguisse só vantagens locais, emprestava grande auxílio ao 8o Exército. Repeliu forças alemães que poderiam ter sido usadas para dificultar a perseguição ao norte da linha Mareth, e ajudou a enfraquecer as defesas que os ingleses haviam assaltado com êxito em Wadi Akarit.

 

Com o colapso da posição de Akarit, a resistência alemã na zona de Gafsa chegou ao fim. As forças na zona de El Guettar foram deixadas num profundo bolsão de onde somente uma parte pôde ser retirada. deixando que os remanescentes fossem mortos ou aprisionados pelas forças britânicas e americanas convergentes. Por esse tempo os defensores a leste de Maknassy estavam também sob crescente pressão; mas a 8 de abril a retirada havia ultrapassado aquele ponto, e somente as tropas de retaguarda e os habituais campos de minas foram deixados para dificultar a ruptura final da linha.

 

Na tarde de 7 de abril as forças americanas e britânicas haviam feito contato na estrada entre Gafsa e Gabes. Não era uma junção completa, pois o 8o Exército continuou seu avanço independentemente das operações que se realizavam em seu flanco. Mesmo assim, sob o ponto de vista prático, esse contato marcou novo estágio na campanha. A ocupação de Gafsa não se destinava exclusivamente a exercer pressão contra o corredor costeiro. Foi também a captura de uma base onde os abastecimentos podiam ser acumulados para o uso do 8o Exército depois de sua passagem pelo desfiladeiro de Gabes. Quando a limpeza da estrada Gabes-Gafsa abriu o contato com esta base, a situação das forças de Montgomery se transformou. Sua dependência de longas rotas marítimas e terrestres que as ligavam à base principal de Alexandria, era coisa passada. Seus abastecimentos já não precisavam mais viajar milhares de milhas contornando o cabo da Boa Esperança e serem transportados ao longo da metade da costa da África do Norte. Podiam agora ser desembarcados nos portos de Marrocos e Argélia, e ao mesmo tempo haviam sido organizados grandes depósitos que muito facilitavam o problema de abastecimentos durante a perseguição de Sfax para Enfidaville.

 

Enquanto as forças do Eixo estavam engajadas para fechar as entradas em El Guettar e Maknassy, estavam também obrigadas a lançar seu peso contra um terceiro ponto perigoso mais ao norte. A 7 de março uma força americana atacando de Haj el Aioun avançou para leste por 30 km num ataque de surpresa que a levou até a aldeia de Fondouk. Seu avanço ameaçava um importante passo que conduzia a Kairouan com sua grande base e daí para a planície costeira diante de Sousse. Mas embora esse objetivo fosse atingido em face de uma oposição relativamente pequena, foi impossível desalojar os alemães das alturas dominantes ao sul da cidade. O avanço ulterior foi barrado, e no começo de abril os americanos foram forçados a se retirarem temporariamente de Fondouk.

 

A ruptura da linha de Akarit foi o sinal para um esforço mais considerável. Foram enviados reforços britânicos para essa zona; e enquanto os franceses atacaram ao norte de Pichon, as forças britânicas e americanas a 8 de abril avançaram em direção a Pichon e Fondouk. Pichon foi tomada depois de um dia de encarniçada luta, mas Fondouk ofereceu maior resistência. As forças do Eixo haviam fortalecido sua posição nas alturas ao norte e ao sul da cidade e coberto as vias de acesso com densos campos de minas. A força de tais posições, juntamente com um mal-entendido sobre o tempo do ataque, foi a causa do fracasso do primeiro assalto americano às alturas do sul e deixaram as tropas motomecanizadas do centro diante dos campos de minas que protegiam o passo. Com grande audácia os tanques tentaram esmagar o campo de minas, mas trinta dos veículos foram postos fora de ação, e a tentativa foi abandonada em favor de um esforço para encontrar outro caminho. Ao cair da tarde de 9 abril, os tanques conseguiram forçar o caminho através de uma ravina arenosa e atingiram a retaguarda de Fondouk. Por este tempo a infantaria havia-se apossado das alturas mais para o norte e tornado a cidade insustentável. Foi enviado auxílio inglês ao ataque contra as elevações ao sul, e nessa noite um ataque americano expulsou os defensores do Eixo. Pela manhã o passo fôra tomado, sendo reiniciado o avanço contra Kairouan. Houve um encontro com 50 tanques do Eixo que haviam sido separado do Afrika Korps em retirada, mas esses foram repelidos com a perda de 18 veículos, e na manhã da 11 os aliados entraram em Kairouan. A maior parte das forças motomecanizadas ultrapassaram a cidade e atacaram em direção à costa para inquietar a retirada aalemã. Mas nesse momento já era tarde demais para isolar qualquer parte considerável do grosso que se encontrava então além de Sousse. Mais uma vez o Eixo mantivera uma perigosa passagem em seu flanco até que pudesse escapar; mas a ameaça podia ter impedido qualquer ação retardadora séria nas vizinhanças de Sousse, e a ruptura assinalou o começo da verdadeira junção entre o 8o Exército e as restantes forças aliadas na Tunísia. A destruição dos exércitos do Eixo, havia muito protelada, estava agora à vista quando o Afrika Korps fugiu para seu último refúgio de onde outra retirada não era mais possível.

 

Por esta altura, o 1o Exército por sua parte exercia forte pressão contra as forças de von Arnim. Nos primeiros dias de março sua ala norte fôra forçada a retirar-se além de Tamera, e ataques posteriores levaram as forças do Eixo a 3 km do importante passo de Jebel Abiod. A captura desta posição ter-lhes-ia permitido rumar para o sul e ameaçar as comunicações dos aliados. Mas o perigo nunca se tornou agudo. A melhoria das condições de tempo, o término dos trabalhos para a organização de linhas de transporte eficientes e o acúmulo de abastecimentos e reservas adequadas transformaram a situação do 1o Exército permitindo que passasse da defensiva ao ataque.

 

As primeiras operações foram desfechadas a 27 de março. Quatro dias de obstinada luta através de um difícil terreno montanhoso levou-as à posse de Sedjenane e deu-lhes o controle de importantes alturas de onde um ataque ulterior podia ser desfechado. Um ataque retardador do Eixo foi repelido no dia seguinte, e os ingleses avançaram até quase Sidi Nsir. À sua esquerda, tropas marroquinas francesas capturaram Cap Serrat, a 3 de abril, e quatro dias mais tarde outra força da zona de Medjez-el Bab começou um avanço para as alturas ao norte da estrada de Beja. Este avanço fez vagarosos mas firmes progressos durante a quinzena seguinte. A 14 de abril, os britânicos haviam alcançado a aldeia de Heidous e se apoderado das importantes alturas de Jebel Ang e Tannagouche. Os contra-ataques do Eixo recuperaram temporariamente as duas últimas posições, mas Jebel Ang foi recapturada quase imediatamente. Com o 8o Exército se aproximando pelo sul, o 1o Exército revelava um poder ofensivo que prenunciava o esmagamento final da guarnição do Eixo no ataque decisivo que agora estava a ponto de ser desencadeado.

 

O Fim de um Exército

 

As forças do Eixo que agora ocupavam o arco de posições elevadas que cobriam Túnis e Bizerta foram reunidas num comando único às ordens do general von Arnim. O fim do Afrika Korps, como unidade combatente separada, foi simbolizado por sua incorporação às outras forças que se encontravam na Tunísia, e pela partida de Rommel da África. A longa luta pelo domínio do deserto ocidental, durante a qual Rommel mostrara suas notáveis qualidades de comando, era coisa do passado, e suas forças fundiram-se com as de von Arnim para defender o baluarte montanhoso que era seu último ponto de apoio na África.

 

A guarnição do eixo somava 15 divisões, e mais da metade das mesmas eram alemães. Persistentes esforços no sentido de enviar reforços haviam resultado na cobertura das perdas sofridas na linha Mareth e durante a retirada subseqüente, mas em muito pouco haviam aumentado os efetivos, e as forças combatentes somavam 200.000 homens. Os aliados tinham na África do Norte um efetivo sensivelmente superior ao dobro desse número; mas o grosso do 5o Exército americano não fôra engajado, e a força em realidade empregada na linha de batalha alcançava aproximadamente 18 divisões, das quais mais ou menos dois terços se compunham de britânicos.

 

Isso dava aos aliados uma considerável superioridade em tropas terrestres, particularmente desde que muitas das divisões do Eixo estavam agora desfalcadas. A vantagem em número, não era entretanto excessiva para uma força com a missão de atacar um inimigo apoiado em poderosas defesas naturais. A verdadeira superioridade residia menos no número do que no equipamento. As quatro divisões motomecanizadas do Eixo - três alemães e uma italiana - haviam sofrido pesadamente, e suas perdas em tanques, que subiam a 250 entre 1o de janeiro e 15 de abril, não haviam sido reparadas. Contra elas havia pelo menos quatro divisões do tanques aliados bem como outras unidades motomecanizadas; e embora a natureza do terreno oferecia poucas oportunidades para o emprego em larga escala de forças de tanques, eram usadas para limpar as posições montanhosas finais e eram de particular importância nos contra-ataques. Tratava-se de operações dispendiosas, e os tanques aumentavam rapidamente as vantagens do lado que mais facilmente pudesse reparar suas perdas. Na ocasião em que efetuou a ruptura para a planície e que foi restaurada a mobilidade para as tropas motomecanizadas, a preponderância aliada foi esmagadora e contribuiu muito para a rapidez do colapso do Eixo.

 

Uma vantagem semelhante existia no caso das outras armas. O efetivo da artilharia aliada bem como da qualidade dos artilheiros constituía um elemento vital. Mas era a superioridade aérea que se afirmava de modo mais decisivo. A superioridade numérica e qualitativa em combate, e na eficácia tática que tanto prejudicavam a organização aérea inimiga, refletiam-se no progressivo enfraquecimento dos bombardeios defensivos do Eixo contra as tropas de terra aliadas e na elevada proporção das perdas do Eixo com relação às perdas aliadas. Nos primeiros 11 dias de maio, os aviadores aliados abateram 300 aviões inimigos com a perda de 49 de seus aparelhos, o que representava para os eixistas uma proporção de perdas duas vezes maior do que a média da campanha. Por ocasião da ruptura em Massicault, a 7 de maio, sua supremacia era absoluta. As perdas do Eixo estavam na proporção de 11 para l, e as forças terrestres estavam virtualmente sem cobertura aérea quando os bombardeiros aliados as bombardearam até que as mesmas se submetessem.

 

A 16 de abril, quando as várias forças aliadas entraram em linha para o ataque final convergente, as forças do Eixo estavam confinadas a uma área de 13 000 km². A frente de aproximadamente 200 km representava dois lados de um quadrilátero com o mar nos outros dois lados. Começando no norte da costa a uns poucos quilômetros a leste de Cap Serrat, corria em direção sul além das posições mantidas pelos do Eixo em Jefna e Sidi Nsir. Havia uma leve curva para leste diante da posição-chave aliada de Medjez-el-Bab, e daí a linha continuava para o sul, correndo para oeste de Goubellat e para leste de Bou Arada. Na cordilheira Grand Dorsal, curvava-se para sudeste até alcançar as vizinhanças de Jebel Chirich, e daí corria cerca de 50 km para leste a um ponto da costa um pouco abaixo de Enfidaville.

 

O setor extremo norte ao longo do Mediterrâneo era mantido por uma pequena força francesa, o Corps Franc d'Afrique, composto de voluntários, com uma pequena percentagem de tropas marroquinas. Imediatamente abaixo, a zona ao norte do vale de Medjerda, que fôra cena do recente avanço do 1o Exército, ficara agora ocupada pelo 2o Corpo americano que fôra transferido para o norte num rápido e bem organizado movimento depois da junção do 1o e 8o Exércitos. O 1o Exército mantinha a linha ao sul de Grand Dorsal, e a sua direita encontrava-se o 19o Corpo francês que estava sendo rearmado pelos aliados. O restante da linha, de um ponto a oeste de Jebibina até a costa ao sul de Enfidaville, encontrava-se em mãos do 8o Exército.

 

Os dois pontos mais vulneráveis para o Eixo encontravam-se diante de Medjez-el-Bad e na zona ao sul de Pont du Fahs. O primeiro era um pivô de onde Túnis podia ser ameaçada, quer ao longo da rota clássica do vale de Madjerda, pelo caminho de Tebourba ou por um golpe ao longo de outra estrada principal que corria quase diretamente para leste, através de Massicault. O segundo guarnecia a saída da planície de Goubellat através do vale de Miliane, outra rota natural para Túnis. Além desses havia dois outros pontos de onde poderiam os alemães esperar um golpe perigoso. O 2o Corpo americano lutava num terreno desconhecido ao longo de um dos mais difíceis setores da frente. Mas diante dele havia duas estradas principais ambas conduzindo a Mateur, e a captura de Mateur ameaçaria despedaçar a frente alemã e oferecia uma séria ameaça a Bizerta. Ao sul o terreno diante do 8o Exército apresentava dificuldades quase iguais. Diante dele estendia-se uma série de profundas ravinas e morros elevados, que ofereciam obstáculos favoráveis ao inimigo fortemente entrincheirado em elevadas posições defensivas. Os ingleses teriam de abrir caminho para frente numa extensão de 30 km antes de poderem pôr em perigo qualquer posição vital. Mesmo assim, apesar dessas condições, o fato de achar-se nessa frente o 8o Exército era suficiente para fixar ao terreno poderosas formações inimigas. A força de Montgomery era a mais poderosa e a mais experimentada de todas as tropas aliadas, e o inimigo aprendera, por experiência, que a mesma não podia ser subestimada. Perdera uma importante parte de seus efetivos quando as divisões australianas e sul-africanas foram retiradas depois de El Alamein. Outra parte de seus efetivos foram transferidos para o 1o Exército; mas até a efetivação de tal transferência, somavam sete divisões das quais mais de duas eram motomecanizadas. Mas mesmo depois da transferência de algumas dessas forças, era ainda assim formidável o poderio do 8o Exército, e seria preciso o mais poderoso esforço para impedi-lo de repetir nas montanhas suas façanhas quase legendárias do deserto.

 

Todas essas estradas eram guarnecidas por posições elevadas cuja posse era de vital importância tanto para o ataque como para a defesa. A estrada para o norte, passando por Jefna, para Mateur era dominada por duas alturas conhecidas pelo nomes de morro Verde e morro Galvo. A estrada de Sidi Nsir para Mateur era dominada por várias elevações da qual a mais importante era Jebel Tahent (cota 609). Ao norte de Medjezel-Bab encontrava-se Jebe Amhera (a cota da Longa Demora) e, mais a leste, a estrada de Tebourba era coberta por Jebel Bou Aoukaz. Pont du Fahs achava-se situada entre Jebel Bou Kournine e Jebel Zághouan. Estas posições-chaves eram fortemente defendidas e suas vias de acesso protegidas por abundantes campos de minas. Morteiros e artilharia colocados nas elevações dominavam o terreno mais baixo. Escarpas rochosas de escalada quase impossível ou encostas nuas sem coberta alguma, antepunham-se aos atacantes. As guarnições do Eixo haviam cavado abrigos para os morteiros e metralhadoras, protegendo-os contra o bombardeio. Somente assaltando tais posições, uma a uma, se poderia abrir caminho para uma ruptura.

 

Por outro lado, o abandono de qualquer ponto importante seria fatal para os defensores. Somente no sul havia um pequeno compartimento onde uma retirada não significaria uma catástrofe iminente. Em todos os outros pontos, a linha devia ser guarnecida contra o máximo de pressão que pudesse ser exercida. Em tal situação a posse da iniciativa e a superioridade numérica e em potência de fogo por parte dos aliados era decisiva. O ataque podia ser lançado ao longo de toda a linha, e se o Eixo procurava fortalecer um ponto, seria às custas de outro, que ficava sob um ataque devastador. Os aliados podiam mudar o peso do ataque de um ponto para outro que parecesse vantajoso, e lançar os defensores para trás, expulsando-os das alturas que protegiam a planície. Uma quinzena de constante e firme pressão, levou os atacantes através das defesas montanhosas à vista de seu objetivo final.

 

O primeiro golpe foi desferido pelo 8o Exército contra a posição de Enfidaville. Era uma diversão destinada a ocupar o máximo possível de forças inimigas como medida preliminar para a ofensiva principal. Na noite de 19 de abril, num ataque ao luar, apoiado por uma preparação de 400 canhões, os ingleses envolveram Enfidaville e assaltaram as elevações que dominavam a estrada costeira. A elevação de 300 m de Jebel Garci foi assaltada e resistiu durante todo o dia seguinte a quatro ataques. Na noite de 20 a altura vizinha de Takrouna foi capturada depois de encarniçada luta. Em face de novos contra-ataques avançaram numa extensão de 10 km e se aferraram obstinadamente a estas novas posições enquanto o golpe principal era desfechado contra as defesas do Eixo mais a oeste.

 

Von Arnim tentou evitar esse assalto, atacando em primeiro lugar. Num esforço para desequilibrar o dispositivo dos atacantes e perturbar seus preparativos, lançou cinco batalhões de infantaria e um batalhão blindado composto de tropas de elite num ataque noturno a 20 de abril contra as defesas britânicas de Medjez-el-Bab, Q peso principal estava concentrado contra a "Cota das Bananas", posição ao sul da estrada de Túnis que os ingleses haviam capturado poucas horas antes. O ataque realizou consideráveis progressos durante a noite. A elevação foi cercada e parte da mesma capturada, e ao clarear do dia uma coluna encabeçada por 30 tanques atacava atrás da cota a dois quilômetros de Medjez-el-Bab enquanto outra coluna de 40 tanques assaltava as restantes posições britânicas na própria elevação. Mas os defensores mantiveram-se firmes em ambos os pontos, e pela manhã os alemães ficaram sob um devastador fogo de artilharia, enquanto a infantaria britânica avançava para reconquistar o terreno perdido. Ao cair da tarde todas as posições haviam sido recuperadas, a força blindada alemã sofrera grandes perdas em seus esforços para proteger a retirada, e 33 dos 70 tanques alemães foram postos fora de ação durante a luta.

 

Era o pesado sacrifício de um precioso equipamento numa empresa que terminara em fracasso. Significava que os preparativos do 1o Exército não haviam sido interrompidos e que sua posição de flanco estava garantida para o ataque que estava agora em vésperas de ser desfechado. Às duas horas da madrugada de 22 de abril os britânicos atacaram ao longo de uma frente de 15 km, abrindo a ofensiva geral que marcava a fase final da luta pela posse da Tunísia.

 

O ataque inicial foi efetuado no setor entre Goubellat e Bou Arada contra três alturas-chaves, que barravam o caminho para a planície a noroeste de Pont du Fahs. Enquanto a infantaria assaltava essas elevações de 120 m os franceses no Grand Dorsal mais ao sul avançavam em direção a Pont du Fahs com uma determinação que em parte superava sua relativa falta de equipamento moderno. Ao norte de Medjez-el-Bab, outras forças britânicas desferiram um assalto sobre a "Cota da Longa Demora", e em seu flanco esquerdo os americanos avançaram em direção a Jefna e Sidi Nsir.

 

Seguiram-se cinco dias de violenta luta em que as forças do Eixo foram gradualmente arrancadas dos principais bastiões de todo seu sistema defensivo. No dia 26 uma coluna americana havia avançado ao longo da estrada de Mateur e assaltava as poderosas defesas do Eixo diante de Jefna, enquanto tomava controle das alturas que dominavam a aldeia de Sidi Nsir. De Medjez-el-Bab duas forças britânicas avançavam vagarosamente para nordeste e para leste. Houve árdua luta pela posse da "Cota da Longa Demora" que foi capturada no dia 23 e perdida logo a seguir em conseqüência de um contra-ataque alemão. Mas a 26 foi finalmente conquistada, e isso juntamente com a captura de Heidous e Tannagouche limpou as principais posições do Eixo ao norte de Medjerda. Mais ao sul outra força avançou 13 km ao longo da estrada de Túnis até alcançar Sidi Medien. Na zona em torno de Pont du Fahs, uma pressão convergente por parte de forças francesas e britânicas levou as tropas do Eixo a se retirarem do saliente mais a sudeste. Tanques britânicos irromperam pela planície em torno do pântano salgado de Kourzia, enquanto os franceses avançaram até 5 km de Pont du Fahs e conseguiram um ponto de apoio nas alturas de Jebel Zaghouan. Mais a leste o avanço principal do 8o Exército fôra virtualmente detido, mas a contínua pressão resultou em avanços locais e conservou engajadas poderosas forças inimigas. A não ser nesse setor, as tropas do Eixo mantinham-se agora na última linha de colinas que protegiam a planície de Túnis, e a ruptura em qualquer ponto ameaçaria o colapso de toda a defesa.

 

Nesta fase a maior ameaça parecia residir na zona ao norte de Pont du Fahs. Enquanto os franceses avançavam do sudeste e uma coluna fazia pressão para leste, partida de Bou Arada, a infantaria mais ao norte, limpara as alturas que abriam caminho para Goubellat e a planície mais além. Os tanques britânicos avançaram através da zona do pântano salgado de Kourzia, desenvolvendo-se para o sul e o leste. Contra esta ameaça os alemães haviam concentrado o grosso de suas tropas motomecanizadas, e disso resultou uma pesada luta de tanques quando os britânicos se esforçaram para irromper através das restantes defesas. Atacaram a altura estratégica de Jebel Bou Kournine, a 24, mas seu ataque a essa e a outras posições restantes ao norte de Pont du Fahs caiu sobre poderosas defesas de minas e de canhões antitanques, e os tanques do Eixo, apesar de suas crescentes perdas impediram qualquer progresso considerável ao sul do pântano de Kourzia. O inimigo tentava vencer última barreira natural nessa zona, e a perspectiva de uma ruptura iminente desaparecia ante a tenacidade da resistência.

 

Na zona de Medjez-el-Bab, entretanto, uma ameaça ainda maior havia surgido. A captura da "Cota da Longa Demora" facilitara um avanço para leste do vale de Medjerda entre o rio e a estrada de Túnis. Aí os ingleses tinham pela frente um completo sistema de trincheiras de vários quilômetros de comprimento; mas abriram caminho por meio de um ataque noturno que os fez avançar 8 km, e a 27 de abril estavam a 15 km da planície de Túnis e assaltavam Jebel Bou Aoukaz, a última posição elevada importante que impedia o avanço.

 

Neste ponto parecia que se poderia esperar uma ruptura a qualquer momento. Ao cair da noite as tropas britânicas haviam aberto caminho até 400 m da crista de Jebel Bou Aoukaz. Repeliram contra-ataques durante a noite, e na manhã seguinte realizaram um avanço que as colocou de posse da maior parte da elevação. Mas os alemães se reorganizaram e detiveram a ameaça de um desastre. Lançando homens e tanques sem levar em conta perdas, conseguiram por meio de ferozes ataques repelir os britânicos para a planície. No dia seguinte registrou-se uma luta feroz e sangrenta quando os alemães procuraram reduzir o perigoso saliente, atacando não somente em Aoukaz mas também mais ao sul, em Sidi Abdallah, onde os britânicos haviam tomado a controle das alturas que dominavam a cidade. Houve algum progresso durante os dias 29 e 30; e embora conseguissem reduzir apenas em parte o avanço britânico, esses contra-ataques afastaram temporariamente para os alemães, o maior perigo, até então surgido.

 

Mas este êxito teve seu preço. A recaptura de Aoukaz exigira o uso de forças que eram muito necessárias contra os americanos imediatamente ao norte. Em fins de abril o 2o Corpo havia realizado um avanço de 20 Km que levou seu flanco esquerdo contra a posição de Jefna. Aí os americanos foram detidos por poderosas defesas fixadas nas cotas Verde e Calva, de cada lado da estrada principal. Mais ao sul, porém, haviam avançado além de Sidi Nsir e assaltavam os últimos obstáculos que barravam a estrada para Mateur. Um deles, a Cota 523, foi tomada a 30 de abril. Permanecia ainda o obstáculo mais formidável formado pela Cota 609 ou Jebel Tahent, imediatamente ao norte e dominando a estrada mais abaixo. Durante três dias os americanos lutaram resolutamente pela posse dessa elevação de 600 m com seus penhascos e seu topo achatado, onde os alemães estavam fortemente aferrados ao terreno. A 1o de maio seus esforços foram coroados de êxito. Avançaram para o topo da Cota 609 e expulsaram os defensores da contra-encosta. A vitória foi decisiva para todo o setor. A posição de Jefna foi flanqueada, e apesar dos contra-ataques alemães as elevações nessa zona foram envolvidas e capturadas. Ainda mais ao norte, ao longo da costa, os franceses e marroquinos mantiveram-se em tempo com o avanço. O caminho para Mateur estava agora aberto, e os alemães iniciaram uma retirada imediata desta importante base. A 3 de maio os americanos entraram em Mateur depois de um avanço de 25 km, e, juntamente com os franceses, avançaram num movimento convergente sobre Bizerta pelos dois lados do lago Achkel, enquanto outra coluna americana se abriu em leque contra as defesas de Tebourba.

 

Esta era a primeira ruptura verdadeira na linha inimiga, e significava a divisão das forças defensoras. Não era entretanto decisiva para o restante da frente. Von Arnim podia ainda deixar uma força relativamente pequena para ocupar os americanos na zona de Bizerta, e lançar seu flanco principal para cobrir Túnis, conservando aberto o caminho para a retirada do grosso de suas forças para a península do cabo Bon. Parecia ser esse o plano depois da perda de Mateur. Os americanos e franceses tinham de enfrentar rápidas ações retardadoras, mas não foi feita nenhuma tentativa séria para uma resistência em Bizerta. Os remanescentes de duas divisões do Eixo no norte retiraram em direção ao golfo de Túnis, enquanto o grosso se manteve firme contra a ameaça acima de Tebourba e desfecharam novos contra-ataques em direção a Medjez-el-Bab para aliviar a pressão enquanto a frente era reajustada nessa frente.

Mas os comandantes aliados não tinham intenção de dar tempo ao inimigo para completar seu novo dispositivo. Estavam agora preparando um ataque decisivo que desorganizaria toda a linha inimiga. Os tanques não haviam podido provocar uma ruptura ao norte de Pont du Tahs onde haviam realizado o esforço maior. Mas o avanço inglês a leste de Medjezel-Bab, e o êxito dos americanos em Mateur, levaram à decisão de transferir para este setor o golpe principal. A 6a Divisão motomecanizada foi chamada para o norte da região de Pont du Fahs, e a 1a Divisão motomecanizada fôra transferida do 1o para o 8o Exército, antes de começar a ofensiva. Então a 7a Divisão motomecanizada e a 4a Divisão, ambas indianas, foram transferidas do 8o Exército para o novo ataque. A maior parte de toda a aviação disponível foi concentrada para um golpe em massa. Enquanto o 8o Exército desfechava um novo ataque com suas restantes forças, os franceses atacavam em direção a Zaghouan e uma força britânica de tanques efetuou um poderoso ataque a leste de Bou Arada. As forças do Eixo foram fixadas na sul, e em particular as 10a e 21a Divisões Panzer foram mantidas aí pela ameaça de uma operação aliada de vulto. Os elementos motomecanizados do Eixo ficaram, desta forma, divididos, com seu ponto mais fraco na zona em que o verdadeiro golpe deveria ser desfechado.

 

As operações preliminares foram iniciadas a 5 de maio. As melhores condições de tempo permitiram que poderosas forças aéreas aliadas levantassem vôo para proteger um novo ataque contra Aoukaz. Desta vez o êxito foi completo. Ao cair da tarde a infantaria britânica se apoderara desta posição vital e o 1o Exército ficou pronto para realizar seu esforço supremo.

 

Às 3 da madrugada de 6 de maio foi dado o sinal para uma preparação concentrada da artilharia ao longo de um frente de 15 km. Simultaneamente a aviação atacou com a maior concentração de aviões até então realizada sobre um único campo de batalha. Com mais de 2.500 decolagens, martelaram durante nove horas as defesas do Eixo. Seu ataque foi irresistível. Abriram um caminho de 6 km através das posições alemães, arrebentando-as com uma chuva de bombas. Durante o dia a 6a e a 7a divisões motomecanizadas, flanqueadas por duas divisões de infantaria avançaram através das desfalcadas linhas do Eixo e marcharam em direção a Túnis.

 

O principal obstáculo restante era Massicault. Esta base fôra poderosamente fortificada, e uma força de 60 tanques do Eixo, incluindo quase todos remanescentes da 15a Divisão Panzer, havia sido reunida pana a defesa. Mas ao cair da noite de 6 de maio fôra destruída ou dispersada; e no dia seguinte contra uma encarniçada resistência de retaguarda, os britânicos avançaram 20 km e capturaram Túnis durante a tarde. Quase ao mesmo tempo patrulhas avançadas americanas penetraram em Bizerta, onde restavam para serem dominadas somente pequenas forças do Eixo.

 

Cinco dias depois cessara toda a resistência organizada. A captura de Túnis isolou as forças do Eixo na zona de Bizerta. A 9, os remanescentes de duas divisões alemães (a 334a e a Manteuffel) renderam-se incondicionalmente aos americanos, elevando a 25.000 homens, inclusive 6 generais, o número de prisioneiras feitos nessa região. No mesmo dia o que restava da 15a Divisão Panzer rendeu-se a seus velhos adversários da 7a Divisão motomecanizada britânica, lamentando-se o comandante alemão de que nada lhe haviam deixado, "nada de tanques, nem de artilharia, nem mesmo um simples granadeiro". Ao longo da frente principal os restos das forças do Eixo cediam terreno num avanço preliminar em direção ao cabo Bon. Não alcançaram esse abrigo. Os tanques britânicos avançaram para o sul, partindo de Túnis, contra as defesas que os alemães tentavam manter na entrada da península. Houve encarniçada batalha de tanques em Hammam Lif, onde os britânicos foram detidos no dia 8, mas irromperam pelo centro dois dias mais tarde, e ao clarear do dia 11 haviam avançado até Hammamet Para isolar a península e cortar a retirada ao inimigo.

 

O fim estava próximo. A rapidez do desmoronamento final obscureceu em parte a luta encarniçada que o precedeu. Os combates pela posse das elevações haviam sido travados contra um inimigo tenaz e cheio de recursos. No sul os aliados haviam podido apoderar-se apenas de posições secundárias. No norte as posições elevadas tinham sido conquistadas uma a uma, com o máximo esforço, e em várias ocasiões críticas o inimigo conseguira recapturá-las. Mesmo depois de ter sido alcançada a planície houve dura luta diante de Túnis e Bizerta e na entrada do cabo Bon; e o desmoronamento que se seguiu foi menos um sinal da ruptura do moral do Eixo do que um tributo à vitória completa dos aliados. As tropas que se encontravam no cabo Bon tinham poucas possibilidades de resistir, e nenhuma de escapar. As forças navais aliadas canhoneavam-nas pelo mar, enquanto a aviação martelava-lhes as posições. Os tanques britânicos penetraram por ambos os lados da península, esmagando a resistência em vários pontos e completando o cerco. Os exércitos mais ao sul encontravam-se em situação igualmente desesperadora. O 1o Exército manobrou para a retaguarda das forças do Eixo, envolvendo-as num firme anel de tanques, canhões e infantaria. Estando todas as artérias interiores sob o controle dos aliados, com incessante martelamento do ar, e tomados os postos de mando quando os tanques britânicos atravessaram as linhas inimigas, cessou toda a esperança de resistência organizada. Von Arnim foi capturado pelos ghurkas da divisão indiana. Algumas unidades talvez pudessem oferecer uma resistência mais prolongada, pois von Arnim recusou render-se com todas as suas tropas. Mas os esforços da 90a Divisão ligeira para manter o terreno terminou rapidamente ao render-se para os neozelandeses, e não foi mais possível qualquer resistência coordenada. No dia 12 toda a resistência organizada terminou e somente restaram alguns bolsões que foram liquidados no dia seguinte. Observou-se que o comandante italiano, marechal de campo Messe, cujas tropas se haviam portado bravamente na Tunísia, foi o último a render-se, somente capitulou depois que os alemães haviam desistido de lutar.

 

Para o Eixo, foi um desastre comparável á destruição do 6o Exército diante de Stalingrado. Em toda a campanha da Tunísia, segundo o secretário Stimson, os aliados capturaram 266.600 homens, mataram 30.000 e feriram gravemente 26.400. Suas perdas não ultrapassaram a 70.000 homens. Durante os três anos de guerra na África, que agora terminara vitoriosamente, as perdas do Eixo, segundo Churchill, foram de 950.000 mortos e capturados além da destruição de 8.000 aviões, 6.200 canhões e 2.550 tanques. Mesmo assim tais sacrifícios não foram inteiramente inúteis, apesar de terem terminado com a perda da África. Tais sacrifícios privaram os aliados da utilização do Mediterrâneo durante a maior parte deste período. Haviam mantido ocupada fora da Europa uma parte importante das forças aliadas de terra e ar. Através da campanha africana as tropas aliadas ganharam valiosa experiência e fôra organizado um sistema de comando de notável eficiência. Mas a conquista da Tunísia era simplesmente a captura de um posto avançado numa campanha que estava longe de ser decisiva. A perda de 300.000 soldados veteranos não era coisa insignificante para o Eixo. Mesmo assim era pouco, comparado com as 200 divisões que continuavam na frente russa, e o tempo ganho pelo Eixo na Tunísia podia ser considerado como um preço que valia a pena pagar. Em conseqüência desse sacrifício foi somente seis meses depois do desembarque inicial que os aliados se encontravam no domínio completo da costa sul do Mediterrâneo, e possuíam uma sólida base de onde pudessem avançar contra as ilhas italianas que constituíam a passagem para o continente europeu.

 

A Guerra no Oeste

 

Enquanto as forças terrestres da Inglaterra e dos Estados Unidos concentravam suas forças e ocupavam posições preliminares para um assalto do continente europeu, as linhas de sítio que cercavam a Europa Festung no oeste apertavam-se cada vez mais. O peso dos golpes aéreos contra a guarnição aumentava de mês para mês. A eficácia do bloqueio era mantida inalterada, e o contra-ataque com que a Alemanha esperara romper o cerco marítimo dos aliados foi duramente repelido durante o segundo trimestre de 1943.

 

A vitória no Atlântico era tão significativa quanto a vitória na Tunísia. Entretanto, somente o tempo poderia dizer se ela seria de caráter permanente. O mar não poderia ser ocupado por tropas vencedoras da mesma forma que uma região terrestre, e o inimigo talvez retornasse com outros elementos de combate. Entrementes, a situação, que até havia pouco era tão grave, se transformara completamente. A campanha submarina alemã sofrera uma derrota que muito se aproximava do desastre. As perdas aliadas em navios e cargueiros haviam declinado rapidamente. As novas construções continuavam a crescer, tendo a construção americana durante o mês de maio alcançado uma cifra de 1.782.000 toneladas. O crescente comando aliado do Mediterrâneo prometia ainda maior economia de praça nos navios. Se essas vantagens pudessem ser mantidas, o problema da navegação, de tanta importância para o esforço de guerra, poderia por fim ser considerado resolvido.

 

Certos fatos precisavam ainda ser levados em consideração. A conquista da África do Norte aliviara a situação no Mediterrâneo mas não removera imediatamente todos os perigos. Os aliados podiam disputar o controle do estreito da Sicília, mas era somente com a captura de Pantellaria e com a própria invasão da Sicília que conseguiriam o domínio completo desta passagem. Mesmo assim o perigo oferecido pelos submarinos inimigos, embora grandemente diminuído, não havia sido afastado por completo. Diminuíra muito a dependência da rota do Cabo, mas grande parte da vantagem era contrabalançada pelas crescentes exigências dos teatros de guerra da África do Norte e do Oriente Médio. A base de Alexandria ficou livre de satisfazer as exigências do 8o Exército, mas era responsável pelos 9o e 10o Exércitos cujas necessidades cresciam à medida que seus efetivos se tornavam maiores. Os preparativos de invasão exigia uma concentração sem precedentes em matéria de navegação no Mediterrâneo ocidental. Os aliados precisavam de todas as vantagens conquistadas para enfrentar essas crescentes necessidades.

 

Mas se o êxito no Mediterrâneo permitia desviar para o Atlântico uma pequena parte da navegação, contribuía também diretamente para aumentar as facilidades de uma invasão da Europa, e era também um bom augúrio para o êxito no Atlântico. Num período de seis meses a navegação escoltou 11 milhões de toneladas de navegação levando-a para os portos do norte da África e destes para o Atlântico com a perda de 2,16%. Isso constituía, em si mesmo, um grande êxito. O gargalo do estreito de Gibraltar era tentador para uma concentração de submarinos na zona circunvizinha. Somente uma eficientíssima organização de patrulhamento e proteção poderia manter as perdas numa proporção tão baixa. Foi um êxito notável que contribuiu de modo vital para a mais espetacular vitória terrestre, e um sinal encorajador sobre o que poderia ser feito quando se efetuava uma combinação adequada de navios e aviões para proteger as rotas marítimas.

 

Até certo ponto isso era realizado às custas do teatro de guerra do Atlântico. Eram necessárias pesadas escoltas de belonaves para as operações africanas; e quando essas operações foram seguidas pela expedição à Sicília, havia poucas perspectivas de desviar consideráveis forças navais de volta para o Atlântico. As operações nessa zona dependiam das vantagens absolutas conseguidas em tonelagem mercantil e de guerra do que no desvio de reforços de outros teatros de guerra. Tais condições tornavam ainda mais importantes os resultados obtidos e davam razões para esperar-se que muitos desses resultados fossem permanentes.

 

A primeira parte do ano não fôra promissora. As perdas subiram nos primeiros três meses, e março foi particularmente desfavorável. Os alemães anunciaram haver afundado 851.000 toneladas brutas durante esse mês, o que provavelmente não estava muito afastado da verdade, havendo prognósticos sobre uma campanha submarina intensa durante os meses de verão. Mas as contramedidas em que os aliados empregavam suas energias começavam agora a dar resultados. No mês de abril verificou-se bem definida melhora. Maio foi o melhor mês desde a entrada dos Estados Unidos na guerra, e junho foi qualificado pelo Almirantado como ocupando o segundo lugar na ordem crescente de perdas desde que começara a guerra. Os próprios dados alemães eram expressivos. As 415.000 toneladas de abril não atingiam sequer a metade das perdas de março. Em maio os alemães afundaram 380.000 toneladas, e em junho revelaram uma queda espetacular para 107.000 toneladas postas ao fundo pelos submarinos e mais 42.000 por minas, aviões e navios de superfície. Pelas cifras dadas pelos próprios alemães, via-se que seus submarinos haviam sido expulsos dos mares.

 

Mas haviam sido expulsos a viva força. Durante o mês de maio verificou-se uma das mais resolutas campanhas até então lançadas contra as retas de navegação do Atlântico Norte. Mas não constituiu apenas um fracasso do ponto de vista dos ataques à navegação aliada; foi também um desastre sem precedentes para os atacantes. O próprio efetivo da força submarina lançada na luta fornecia aos aliados numerosos objetivos, e esses aproveitaram largamente essa oportunidade. Pela primeira vez durante a guerra, as perdas alemães em submarinos excederam à sua capacidade de substituição. O Almirantado calculou que mais de 30 foram afundados durante o mês de maio; e, apesar da falta de atividades submarinas em junho, os aliados continuaram a manter a média de um afundamento por dia durante esse mês e o mês seguinte. Houve maior perda de navios em julho, porém mesmo isso não modificou o aspecto favorável do quadro. A corrente contínua de abastecimentos através do Atlântico, o elevado número de submarinos afundados, e o firme aumento do número de navios disponíveis eram fatores favoráveis aos aliados. A 14 de agosto Roosevelt e Churchill anunciaram que a construção durante o ano excedera as perdas em cerca de três milhões de toneladas. Mesmo que tais perdas tenham declinado em agosto, julgavam que "julho foi provavelmente o mês em que tivemos mais êxito, porque as importações foram mais elevadas, as perdas mais moderadas e o afundamento de submarinos mais numeroso".

 

Estes resultados foram obtidos por uma combinação de fatores. Patrulhamentos mais eficazes ao largo da costa americana expulsaram os submarinos desta zona outrora vulnerável, em direção ao Atlântico médio. Novos aparelhos para a localização e a destruição de submarinos foram postos em uso. Dispunham-se de maiores escoltas para os comboios, inclusive fragatas e destróieres que passaram a ter um lugar preponderante nas construções navais dos aliados. A distribuição de funções, que impôs ao Canadá e à Inglaterra o dever de proteger o Atlântico norte atestava não somente o aumento nas instalações navais, particularmente da parte do Canadá, que se concentrara na construção de navios de escolta e que aumentara sua marinha para mais de 500 navios, mas obrigou também esses dois países a aumentarem a atividade aérea das bases de ambos os lados do oceano. Aviões de longo raio de ação, incluindo Liberators equipados com tanques extras que lhes davam um raio de ação de 3.000 km, operavam da península do Labrador e de Terra Nova bem como das Ilhas Britânicas. A fim de fechar a lacuna no meio do Atlântico, foram postos em ação pequenos porta-aviões de escolta. E enquanto todos esses elementos eram empregados na luta contra os corsários, os recentes bombardeios contra as bases submarinas e os estaleiros de construção desses submersíveis causavam danos que dificilmente se poderiam avaliar mas que em dúvida, aumentavam as dificuldades alemães tanto no que se referia à construção como à reparação.

 

Era quase inconcebível que a Alemanha pudesse aceitar esta derrota como final. O submarino era a última arma que restava para a Alemanha evitar o desastre, e os nazistas estavam resolvidos a fazer novos esforços no sentido de restabelecer sua eficácia. Um comunicado alemão afirmava que os submarinos estavam sendo retirados das rotas de navegação a fim de guarnecer as costas contra o perigo de invasão, porém mesmo esta perda de iniciativa era uma retirada grande demais para ser aceita como verdadeira. Parecia inteiramente possível que a diminuição de atividade em junho era devida não a um convencimento da derrota mas à necessidade de evoluir no sentido de nova tática e de novos processos a serem aplicados contra aqueles recentemente apresentados pelos aliados. O ciclo normal pelo qual um contendor ganha vantagens temporárias pela aplicação de novos métodos aos quais o outro contendor acaba por encontrar uma resposta conveniente poderia bem acontecer nesse caso, havendo então possibilidade de um recrudescimento na atividade submarina, que se poderia transformar em contínua e ameaçadora. Esses meses iriam mostrar se a invasão da Europa poderia ser feita ou não em breve prazo. A continuação de perdas de navios numa escala como a de maio poderia tornar impossível o empreendimento. O fato de que o êxito se tenha verificado em maio e junho ao invés de em setembro e outubro constituiu uma diferença fundamental. Mesmo que as perdas subissem novamente no outono, os aliados teriam o benefício de um alívio justamente no período mais importante para todos os seus planos futuros.

 

A Ofensiva Aérea

 

Em seu discurso perante o Congresso, a 19 de maio, Churchill insinuou que seria dado aos partidários da vitória por meio da força aérea a possibilidade de provar a justeza de sua afirmação. "Vale bem a pena fazer tal experiência, embora não se exclua a execução de outras medidas" - disse o primeiro ministro com precaução. "Não há realmente prejuízo algum em pôr a prova essa opinião". Mas embora o peso crescente do ataque aéreo mostrasse em meados do verão resultados devastadores, estes se haviam limitado a pequenas áreas escolhidas, e as próprias limitações verificadas nas operações precedentes acentuavam o aspecto colossal da tarefa com que se defrontava a aviação em qualquer tentativa para obter a vitória por seus próprios meios. Não havia perspectivas reais de que seus recursos fossem adequados à realização de tal tarefa dentro de um tempo apreciável. O trabalho até então realizado fortalecia a impressão de que sua contribuição real seria enfraquecer o potencial de guerra do inimigo e desta forma preparar o caminho para uma ofensiva terrestre que trouxesse a decisão. Dieppe acentuara bem a necessidade de tal preparação. Os resultados conseguidos com o bombardeio aéreo da Alemanha, valiosos em si mesmos, deveriam alcançar sua maior importância como um dos elementos de operações combinadas.

 

"É de nossa política" - afirmou Churchill em seu discurso - "tornar impossível para a Alemanha manter qualquer forma de indústria bélica em escala grande ou concentrada, quer na Alemanha propriamente dita, quer na Itália ou nos países ocupados". Tal era, especialmente, a missão dos bombardeiros noturnos, e durante todo este período houve sinais de contínua experimentação no sentido de encontrar um modo mais eficaz de alcançar este objetivo. A escala atingida nela atividade aérea havia sobrepujado todos os precedentes táticos. O efetivo das forças disponíveis tornou possível empreender tipos de operações que dificilmente poderiam ter sido estudadas no ano anterior. A guerra aérea havia entrado em nova fase, e certos princípios adequados a essa fase tornaram-se evidentes através dos bombardeios noturnos deste período.

 

O primeiro era a concentração de meios. Isto fôra havia muito reconhecido como fundamental em princípio, tanto no ar como em outros campos da guerra. Nos primeiros dias as limitadas forças disponíveis e a multiplicidade dos objetivos essenciais retardaram sua integral aplicação prática. Mas no ano anterior estivera cada vez mais em evidência, e a experiência confirmara plenamente a justeza desse princípio. O efeito moral e material de um único ataque de grandes proporções era muito maior do que os danos acumulados de numerosos pequenos ataques somando o mesmo peso de bombas empregado. A saturação das defesas terrestres por uma força cujo ataque fosse concentrado num mínimo de tempo reduziria as perdas, quando estas fossem comparadas com as resultantes do emprego da mesma força quer em incursões separadas, quer num ataque mais prolongado. No começo de junho, os pequenos reides tinham sido virtualmente abandonados, exceto quando tinha finalidades especiais, sendo os bombardeiros concentrados para ataques em massa contra objetivos individuais escolhidos.

 

O segundo princípio que surgia de modo mais tentador era a concentração de objetivos. Este era menos aplicado e dependia mais de fatores geográficos específicos. Onde os objetivos industriais e militares fossem descentralizados, podiam somente ser atacados individualmente, e o golpe em um deles teria um efeito relativamente pequeno sobre os demais, que por sua vez deviam ser diretamente atacados. Por outro lado, numa zona tão concentrada como o Rhur, havia um alto grau de integração entre os elementos industriais e militares. O efeito de um poderoso golpe não ficava confinado a um objetivo imediato, mas se irradiava como um centro nervoso sobre o distrito adjacente. Um ataque sobre Wuppertal tinha conseqüências diretas sobre Essen. Um golpe contra Duisburg exercia influência em Dortmund. A destruição de uma mina de carvão ou de uma junção ferroviária não constituía um êxito apenas local, mas em realidade era uma contribuição para a desorganização de toda uma complexa região de produção bélica.

 

A região Rhur-Renânia fôra, desde o início, um objetivo favorito. Embora o Rhur contivesse somente 20% da capacidade industrial alemã, era de importância vital como centro da indústria pesada. Produzia três quartas partes do carvão da Alemanha e dois terços do ferro e do aço bem como uma alta percentagem de seus armamentos pesados. Encontrava-se dentro de um raio de ação relativamente acessível para os aviões com bases na Inglaterra; e embora parte de sua indústria mais leve talvez tivesse sido transferida para zonas menos vulneráveis mais a leste, as indústrias pesadas, dependentes de abastecimentos próximos de carvão e ferro, dificilmente poderiam ser removidas sem sacrificar seriamente sua eficiência. Conseqüentemente, o distrito oferecia numerosos objetivos contra os quais eram lançados repetidos ataques. Até 22 de junho, houvera 550 incursões sobre aquela região, inclusive 116 sobre Colônia, 60 sobre Duisburg, 56 sobre Essen e 53 sobre Suesseldorf. O número desses ataques indicava a limitada eficácia dos mesmos. Mas não havia termo de comparação entre o peso dos ataques desfechados em 1940 e as que atingiam esses mesmos objetivos três anos mais tarde.

 

Entretanto, os ataques contra o Rhur haviam sido até então somente parte de um amplo processo que se estendeu do noroeste da Alemanha e do Báltico para a Tchecoslováquia e o norte da Itália. Houve uma tentativa de diminuir a produção do Rhur como parte do ataque contra o conjunto do potencial de guerra alemão, mas não como um esforço concentrado no sentido de pôr aquela zona completamente fora de ação em prejuízo de outros objetivos. Mesmo em 1943 a dispersão de objetivos que marcava o primeiro trimestre do ano continuou no período seguinte. De oito grandes ataques durante as três primeiras semanas de abril, cinco atingiram lugares fora da zona do Rhur. Entre eles, contava-se um poderoso ataque contra Stuttgart, a 14 de abril, em que estavam representados todos os grupos de bombardeio da aviação canadense, e um duplo ataque de 600 aviões contra as fábricas de Mannhein e Skoda, em Pilsen, a 16 de abril. Durante este período os russos entraram em cena com uma série de incursões sobre as bases da Alemanha oriental, tais como Koenigsberg, Danzig e Tilsit, que ampliaram ainda mais o tipo de ataque disperso iniciado pela RAF.

 

A 26 de abril efetuou-se um ataque que anunciava uma mudança drástica e fundamental. Nessa noite, uma poderosa força de bombardeiros, superando um vendaval de 100 km por hora, deixou cair sobre Duisburg 1.350 toneladas de bombas. Tratava-se de um ataque comparável, pelo peso, às incursões de 1.000 aparelhos do ano anterior, e iniciou não somente um período em que os golpes isolados aumentaram grandemente de peso, como também o abandono da tática de dispersão em favor de uma concentração contra o Rhur e a parte adjacente da Renânia. Daí até o fim de junho quase todos os principais ataques estavam dirigidos contra o triângulo limitado por Duisburg, Dortmund e Colônia, e nesta zona de aproximadamente dois mil quilômetros quadrados recaiu uma série de golpes sem precedentes na história da guerra aérea.

 

Durante esses dois meses as forças pesadas da RAF atacaram metodicamente uma cidade após outra até que todos os centros importantes do Rhur haviam sido atingidos pelo menos por um ataque de grande envergadura. Embora poderosos, esses ataques não haviam alcançado a escala que pudesse determinar a destruição de uma cidade industrial num único reide. Mas podiam virtualmente destruir uma parte concentrada, ou instalações cujo funcionamento interessasse à vida da cidade; e procurava-se um efeito cumulativo não pela volta sobre o mesmo objetivo mas por um assalto no objetivo seguinte, com repetidos golpes sobre os centros maiores desferidos quando começassem a se recuperar do ataque anterior.

 

Havia intervalos até de duas semanas em que não se efetuara nenhum ataque dessa envergadura, devido às condições meteorológicas desfavoráveis ou à necessidade de reagrupar as esquadrilhas depois de uma série de pesadas incursões. Apesar dessas tréguas, a tonelagem mensal de bombas continuava a subir. De 8.000 toneladas em março, elevou-se a 11.000 em abril e 12.500 em maio; e embora não houvesse grandes ataques em junho até a noite de 11, a intensidade da ofensiva que se seguiu elevou o total desse mês a 15.000 toneladas. No período de 26 de abril houve dois ataques sobre cada uma de meia dúzia de cidades; Bochum foi atacada três vezes, e quatro outras cidades na zona Rhur-Renânia foram atingidas por um ataque cada uma. A tonelagem de bombas, tanto individual como total, elevava-se firmemente. Em seu ataque contra Coventry os alemães lançaram 450 toneladas de bombas; mas em fins de junho várias cidades alemães haviam sido atingidas por um peso de bombas quatro vezes maior, e os ataques de mil toneladas já começavam a ser considerados de escala moderada. O pesado ataque sobre Duisburg a 26 de abril foi ultrapassado por um reide contra Dortmund, a 4 de maio, e esse, por seu turno, foi superado por um segundo ataque contra Duisburg a 12 de maio em que foram lançadas quase duas mil toneladas de bombas. As crescentes facilidades da RAF eram evidenciadas pelo fato de que este pôde ser seguido, um dia depois, por ataques contra Bochum e Pilsen, acompanhados por uma incursão contra Berlim. Dortmund foi atingido por mais 2.000 toneladas a 23 de maio, completando assim um total de 100.000 toneladas sobre a Alemanha desde o começo da guerra. Duesseldorf sofreu uma incursão de igual magnitude a 25 de maio e uma ainda maior a 11 de junho, quando a maior força de bombardeiros pesados até então empregada lançou mais de 2.000 toneladas sobre essa cidade e num pequeno ataque contra Muenster. Wuppertal recebeu seu primeiro ataque desde o início da guerra a 29 de maio, com o lançamento de 1.500 toneladas. Colônia foi atingida duas vezes numa escala mais moderada. Essen não foi atacada durante o mês de junho, mas a 27 de maio foi vítima de uma nova experiência técnica quando a distribuição de bombas incendiárias, leves e pesadas, foi efetuada por dez ondas de aviões, cada uma delas levando um tipo especial de bomba calculado para causar o máximo de estragos sobre cada objetivo particular. Krefeld foi atacada por 700 aviões a 21 de junho, e Oberhausen, Muelheim e Gelsenkirchen achavam-se entre os outros objetivos de pesados ataques durante esse período.

 

Mesmo os resultados desses ataques em massa foram provavelmente superados pela façanha de um punhado de aviões empregados numa das mais surpreendentes aventuras da guerra. Uma das maiores fontes de abastecimento de água da região do Rhur, e uma fonte vital de energia elétrica, era o reservatório de Mohne, que continha cerca de 134 milhões de toneladas de água. Mais a leste a represa do Eder, a maior da Alemanha, controlava o nível d'água do Weser, sendo assim de importância fundamental para o funcionamento do canal Dortmund-Ems e do sistema de canais ligados com o Rhur e o Reno. Esses objetivos estavam havia muito indicados para serem destruídos e uma força especial fôra exercitada para o cumprimento dessa missão. A 16 de maio as tripulações estavam prontas e as condições eram propícias para o ataque, com os reservatórios completamente cheios pelas chuvas de primavera e o claro luar oferecia visibilidade sobre o alvo. Uma força de 19 Lancasters transportando minas ao invés de bombas fez-se ao ar para atacar as duas grandes represas e mais uma comporta auxiliar em Sorpe. Perderam-se oito aparelhos mas sua missão foi coroada de completo êxito. Grandes brechas foram abertas nas represas, libertando as águas, que inundaram as zonas circunvizinhas, destruindo usinas elétricas e inundando minas de carvão, desorganizando os transportes e arrasando moradias e fábricas. Além do dano direto, havia o efeito duradouro, resultante do fato de que mesmo que as avarias pudessem ser reparadas, os reservatórios não poderiam acumular novamente a quantidade de água reunida durante o inverno e a primavera. Muitos ataques talvez tivessem sido tentados, com perdas muito mais elevadas, sem que se conseguissem resultados tão extensos.

 

Durante este período houve apenas dois grandes esforços fora da região do Rhur. Um foi o pesado ataque contra as fábricas de armamento Schneider, em Le Creusot, a 19 de junho. O outro foi desfechado na noite seguinte quando uma força de Lancasters atacou a maior fábrica de aparelhos radiolocalizadores da Alemanha, em Friedrichshafen. Este segundo ataque foi notável não apenas por seu objetivo, mas muito mais ainda pelo significado de seu caráter experimental. Ao invés de voltar através da Alemanha enfrentando a oposição dos caças que seriam postados para interceptar sua volta, os bombardeiros voaram para a África do Norte para reabastecer-se, e três noites mais tarde fizeram a viagem de volta para a Inglaterra, bombardeando Spezia, no caminho. O fato dessa incursão circular ter sido efetuada sem a perda de um único aeroplano constituía uma clara recomendação do método adotado; e à medida que os aliados avançavam pelo Mediterrâneo em direção à Europa, a aquisição de bases cada vez mais próximas da Grã-Bretanha aumentava as perspectivas de operações bilaterais contra o solo alemão e os territórios ocupados pelo Eixo.

 

A concentração dos ataques sobre o Rhur tinha, em relação à tática anteriormente adotada de dispersar as incursões, a desvantagem de que os alemães eram capazes de concentrar suas defesas na mesma zona. O grosso dos caças alemães, e particularmente seus caças noturnos, tinham sido mantidos no oeste, e esses bem como as defesas terrestres foram concentrados a fim de reforçar a proteção do Rhur. Embora as perdas britânicas alcançassem a média de 5%, o número de aparelhos empregados em ataques repetidos significava um fluxo considerável de material de substituição a fim de manter os efetivos de primeira linha. Em junho as perdas em reides diurnos e noturnos somente sobre a Europa ocidental elevaram-se a 335 aparelhos, a maior parte bombardeiros pesados. As perdas incluíam 43 sobre Duesseldorf, 44 sobre Krefeld, 35 num ataque menor sobre Muelheim. No tocante aos aviões, tais perdas estavam perfeitamente dentro das possibilidades de substituição. A Inglaterra quadruplicara, num ano, sua produção de bombardeiros pesados, e nos primeiros dias de julho um comunicado oficial afirmava que a percentagem de baixas estava dentro das possibilidades de "substituir todas as perdas e deixar uma ampla margem para aumentar ainda mais a escala dos ataques". O que era ainda mais significativo, e certamente não menos vital, era a capacidade de superar as perdas de tripulações treinadas relativamente àquela percentagem. Mas a este respeito, também a percentagem de substituição podia perfeitamente ocupar-se das baixas que, em proporção com a força total, representava uma séria drenagem num período de tempo relativamente curto.

 

O aumento da produção americana foi igualmente espetacular. Em maio foram produzidos 7.200 aviões, inclusive cerca de 5.000 de combate, e a mudança de plano de produção resultou na maior proporção de bombardeiros pesados sobre o número total de aviões produzidos. Um dos resultados foi o rápido aumento no efetivo da força aérea americana com bases na Grã-Bretanha. O general Eaker revelou que o número desses aparelhos havia duplicado entre março e junho e seria novamente duplicado em setembro, afirmando que nessa ocasião participaria com a RAF em todo o peso da ofensiva contra o Eixo.

 

Entrementes esta força crescente se refletia não somente num maior número de incursões, mas num peso maior da parte dos ataques realmente empreendidos. O ataque contra a fábrica Renault a 4 de abril levado a efeito por 133 Fortalezas Voadoras foi o maior até aquela data. Mas aproximadamente 300 tomaram parte num tríplice reide contra Rennes, St. Nazaire e La Pallice a 29 de maio, e mais de 200 atacaram Wilhelmshaven e Cuxhaven a 11 de junho. Em oito grandes operações envolvendo cerca de 20 objetivos durante o mês de maio, mais de 1.600 bombardeiros lançaram um total de 2800 toneladas de bombas. Em junho houve apenas cinco operações grandes e duas de ordem secundária, mas sua tonelagem somou 3.255. Era ainda preciso, porém, mostrar que a aviação poderia penetrar na Alemanha sem sofrer perdas muito mais elevadas do que 4%, que era a média nesses ataques, apesar de um bem sucedido assalto contra Huls a 22 de junho. Quando tinham de enfrentar uma poderosa oposição de caças, suas perdas subiam inevitavelmente. No ataque contra Bremen, a 17 de abril, os alemães tiveram uma advertência de uma hora e os americanos, em conseqüência, perderam 16 bombardeiros. Um período semelhante de advertência no ataque duplo contra Bremen e Kiel, a 13 de junho, deu aos caças defensores tempo para preparar-se e o resultado foi a perda de 26 aparelhos americanos. Em troca causaram grandes baixas entre os caças alemães, afirmando ter destruído 63 no ataque de abril contra Bremen, e 50 no ataque de junho contra Bremen e Kiel. A defesa contra as Fortalezas Voadoras era muito dispendiosa, mas, em certas circunstâncias poderia dar resultados satisfatórios.

 

Uma das conseqüência foi que o bombardeio diurno americano nesta fase adotou a tática de objetivos dispersos para enfraquecer a defesa. O tamanho das forças disponíveis tornou possível enviá-los contra dois ou três objetivos em zonas adjacentes. Calculava-se que isso dividiria a força de caça deixando mesmo assim cada grupo de bombardeio suficientemente forte para uma defesa eficaz em formação. Onde os alemães se concentravam sobre um grupo único, tal como fizeram sobre Kiel em 13 de junho, esse grupo sofreu perdas relativamente pesadas, mas em compensação os demais grupos puderam agir tendo pela frente apenas uma oposição leve. Mas só o futuro haveria de revelar até que ponto esta técnica daria resultado sobre uma zona tal como o Rhur, ou se tanto de dia como de noite o bombardeio devesse ser efetuado por uma única força concentrada que saturasse as defesas.

 

Além desses ataques diurnos por meio de bombardeiros pesados, os caças e aviões de bombardeio leves continuavam suas poderosas incursões diurnas sobre a França e os Países Baixos, atacando especialmente aeródromos e instalações portuárias e de comunicação, além de ataques ocasionais sobre fábricas de material de guerra nas zonas ocupadas. A afirmação que, entre outros resultados, os bombardeios estavam destruindo 150 locomotivas por mês bem indicava o desgaste que tal forma de ataque impunha ao sistema de transporte do Eixo e sua contribuição para enfraquecer o potencial de guerra do inimigo.

 

O resultado combinado de todas essas formas de ataque era sem dúvida formidável. Numa cidade do Rhur após outra, as fábricas principais foram desmanteladas, as residências destruídas, e desmantelados os sistemas de água, energia e transporte. Mais de 1.000 acres da zona de Duesseldorf ficara virtualmente arrasada pelo grande ataque de 11 de junho. Dois terços dos edifícios Krupp na zona de Essen ficaram inutilizados. A destruição das represas e os danos causados em centros como Duisburg haviam feito diminuir seriamente o tráfego em toda a região. O distrito de Barmen em Wuppertal, onde eram fabricados muitos elementos essenciais para a indústria de Essen e de outros centros vizinhos foi posto virtualmente fora de ação. Fábricas de aço e de produtos químicos, máquinas e locomotivas, caminhões e instalações de montagem, encontravam-se entre os objetivos mais atingidos. Realizavam-se evacuações em massa, e mesmo antes dos grandes ataques de junho já se acreditava que a capacidade produtiva do Rhur havia diminuído em um terço.

 

Tratava-se, pois, de um caminho muito longo para destruir a indústria alemã em conjunto. Era de duvidar-se que pudesse ser realizado pela aviação com os recursos de que se dispunha. Mas mesmo uma destruição parcial tornaria impossível para a Alemanha manter seu poderio militar, e se não determinava o colapso da Alemanha mas facilitaria a invasão que viesse desfechar o golpe de misericórdia. "Se pudermos pôr fora de ação um terço da indústria alemã" - disse o porta-voz da RAF  em começos de junho - "isso nos capacitaria a penetrar na Europa com resultados mortais e sem perdas por demais sérias; e o inimigo pode decidir se as perspectivas de êxito em conduzir uma campanha de grande envergadura não justificariam tal campanha".

 

Deste ponto de vista, o assalto aéreo assumira agora o modelo de operações preliminares para a invasão. O ataque estratégico por meio de bombardeiros pesados causava grandes danos às principais bases de suprimentos. As incursões sobre a zona costeira precisavam somente de certa intensificação para se tornarem um ataque tático contra os transportes e as bases aéreas que iria isolar a zona escolhida para o desembarque. Em junho o anúncio de que uma força aérea tática havia sido criada na Inglaterra marcou um progresso de grande importância. Por si só, a aviação talvez não esmagasse a Alemanha, mas se aproximava agora o ponto em que prepararia o caminho para a libertação final do continente.

 

Guerra no Oriente

 

A 11 de maio, Churchill chegou a Washington acompanhado por uma numerosa delegação de conselheiros técnicas e militares a fim de manter outra conferência com Roosevelt e os chefes das forças armadas americanas. Em seu discurso ao Parlamento depois de sua volta a Londres, o Primeiro Ministro explicou que, embora nem todos os planos estabelecidos estivessem ainda completos, "o progresso dos acontecimentos se havia tornado mais rápido e os exércitos marchavam mais depressa do que se previra, tornando-se assim necessário explorar o novo terreno". Estava claro, por dedução, que embora ainda se discutissem detalhes quando às operações no teatro europeu, já haviam sido estabelecidos os contornos gerais. Chegara já a ocasião de encarar além do cumprimento desses planos para a possibilidade de uma ação em grande escala no Extremo Oriente, e tomar as medidas preliminares que colocariam a iniciativa neste teatro firmemente em mãos dos aliados.

 

O lugar do Extremo Oriente nas discussões que se seguiram era claramente indicado pela presença na conferência de dirigentes ingleses e americanos do teatro de guerra asiático. Entre os delegados ingleses contavam-se o marechal Wavell, o almirante Somerville e o marechal-do-ar Peirse, os comandantes das forças de terra, mar e ar na Índia. Do lado americano encontravam-se o general Stilwell, que comandava as forças americanas no continente asiático, o general Chennault que chefiava as forças aéreas na China. Churchill acentuou deliberadamente a presença de Wavell e seus companheiros, em seu discurso perante o Congresso: "Nem tampouco fizeram eles toda esta viagem" - assegurou a seus ouvintes - "simplesmente para estudar um meio de melhorar a saúde e o bem-estar do Mikado". Seu discurso chegou justamente na ocasião em que certos elementos nos Estados Unidos vociferavam - e em certos casos baseados em conjeturas - para que se transferisse o ataque da Europa para o Pacífico, e levantavam dúvidas completamente infundadas de que, uma vez derrotado Hitler na Europa, a Inglaterra não estaria em condições de auxiliar os Estados Unidos em sua luta contra o Japão. Churchill aproveitou muito bem a oportunidade para contestar vigorosamente tais idéias, acentuando não somente o lugar dos líderes do Extremo Oriente na conferência mas também os interesses ingleses na luta contra o Japão eram pelo menos iguais aos americanos. "E estou aqui para dizer-vos" - declarou enfaticamente - "que travaremos esta guerra lado a lado convosco, de acordo com o melhor emprego estratégico de nossas forças, enquanto houver um sopro de vida em nossos corpos e enquanto o sangue correr em nossas veias".

 

Mas embora pudesse finalmente prever-se ações de grande envergadura, era claro que sua execução devia esperar até que a vitória na Europa libertasse forças substanciais para serem empregadas na Ásia. O poderio aliado crescia no Extremo Oriente; mas embora tal poderio pudesse ser suficiente para lançar o Japão na defensiva e desfechar novos ataques contra as bases nipônicas avançadas no Pacífico, estava ainda longe de poder realizar a tarefa de expulsar o invasor da China e efetuar o assalto direto contra a metrópole japonesa.

 

Isso era ilustrado pelo resultado do ataque preliminar inglês contra o distrito de Arakan, no norte da Birmânia. No começo de 1943 um grande exército estava em organização na Índia, e os aviadores americanos e tropas técnicas haviam sido enviadas para esse país. Mas o exército indiano era muito deficiente em equipamento moderno, e faltavam recursos para uma operação em grande escala contra a Birmânia, como medida fundamental para restaurar as comunicações com a China. Tal ataque deveria ser feito por uma expedição marítima contra o sul da Birmânia a fim de apoderar-se dos principais portos e isolar as guarnições japonesas de suas fontes de abastecimentos. Isso exigia uma frota numerosa e forte proteção aérea, e não se dispunha de nenhum de tais elementos em quantidade suficiente. Até que se pudessem conseguir aviões e navios, somente se poderiam realizar operações secundárias.

 

Tal era o caráter do ataque contra Akyab. Realizado por uma pequena força, não se destinava a preparar o caminho para a invasão pelo norte - operação quase impossível contra uma resistência séria - mas eliminar uma base avançada que ameaçava a fronteira indiana, e talvez apoderar-se de um posto subsidiário de onde se poderiam realizar operações de ajuda ao avanço principal em direção sul.

 

De amplitude limitada, a operação resultou desde início num sério desapontamento. Os britânicos ocuparam a maior parte da península de Mayu e desceram pela faixa de terra entre os rios Mayu e Kaladan. Mas a 40 km ao norte de Akyab encontraram posições fortificadas e tenazmente defendidas. Uma série de entrincheiramentos guarnecidas por fortins de aço e concreto desafiavam o assalto da infantaria e o bombardeio da artilharia, e nem a aviação nem o canhoneio naval conseguiram destrui-los. A força britânica não pôde aplicar com êxito a tática de infiltração contra essas defesas ou para impedir o uso dessa mesma tática pelos japoneses, contra as forças britânicas. Suas longas linhas de comunicação eram paralelas a uma série de vales que corriam do sul para o norte, e as forças japonesas podiam avançar ao longo dessas vias de acesso e oferecer constante ameaça ao flanco britânico. Nos primeiros dias de março os japoneses conseguiram o domínio do vale de Kalaban e forçaram os britânicos a se retirarem para o norte até a península de Mayu. Tomaram novas posições através da península entre Buthedaung e Maungdaw a cerca de 100 km ao norte de Akyab, em meados de abril. Mas nos primeiros dias de maio os japoneses avançaram entre esses dois pontos e apresentaram novo perigo de envolvimento. Qualquer tentativa para manter as posições além da fronteira, particularmente quando se aproxima a estação dos mansões, seria sem objetivo e, além disso, perigosa. As tropas foram retiradas para a Índia, e sua retirada marcou o fracasso da campanha.

 

As lições de tal empreendimento não foram perdidas pelos líderes aliados durante sua conferência de Washington. Foram em parte responsáveis pelas medidas iniciais tomadas para revisar a organização do comando no teatro de guerra asiático. Ao mesmo tempo, o termo do mandato de Lord Linlithgow no posto de vice-rei da Índia oferecia oportunidade para a tomada de novas medidas no termo político que poderia também ser ligada à situação militar. A 19 de junho foi anunciado que Wavell fôra nomeado para o cargo de vice-rei. O general Auchinleck passou a comandar as forças indianas. Este posto acarretava o controle das operações na Birmânia. Mas foi então decidido separar essas funções e criar um comando para a Ásia Oriental para o prosseguimento da guerra contra o Japão. A declaração feita no encerramento da conferência de Quebec segundo a qual Lord Mountbatten fôra escolhido para novo comandante indicava que seriam tomadas novas medidas. Tratava-se de um dirigente militar jovem e vigoroso que mostrara seu talento como chefe de Operações Combinadas, e que era agora encarregado de um empreendimento de grande envergadura do qual as operações combinadas seriam a característica fundamental logo que os recursos aliados fossem adequados a um ataque em larga escala.

Entre outros sinais de aumento de atividade, estava o fortalecimento evidente do poderio da aviação aliada na Índia. Durante a campanha de Arakan, a superioridade aliada no ar não fôra suficiente para evitar a derrota. Os aviadores puderam efetuar ataques quase diários contra bases e comunicações bem como contra posições avançadas, tendo encontrado somente pouca oposição. Mas os ataques foram leves demais para poderem causar danos sérios. Em maio, um ataque com 12 toneladas de bombas era ainda qualificado de "muito pesado", e as 28 toneladas lançadas sobre objetivos ferroviários a 2 de maio constituíam um progresso bem definido. Nos últimos dias de maio, entretanto, houve sinais de que se iniciava uma fase completamente nova na guerra aérea nesse teatro de operações. Mais bombardeiros Liberator foram postos em ação, e a 19 de maio - o segundo de três dias de poderosos ataques - deixaram cair 125 toneladas de bombas sobre as instalações na Birmânia. Tal atividade era ainda de pequeno vulto, considerada pelos padrões europeus, mas era algo sem precedentes na guerra aérea na Ásia.

 

Na China também aumentara a importância das operações aéreas, embora já tivessem atingido certo vulto. Mas a pequena força aérea sob o comando do general Chennault aumentara de tamanho com a incorporação de pilotos chineses treinados, e em peso com a chegada de aparelhos Liberators às bases chinesas, e o efeito disso foi observado no revés causado às forças japonesas nos últimos dias de maio.

Durante a primeira parte do ano, as operações terrestres na China foram esporádicas e localizadas. A atividade japonesa preocupava-se em parte com a redução dos mais importantes focos de resistência nas proximidades das zonas estratégicas. O fato de ter sido enviada uma expedição contra a região lacustre na província costeira de Kiangsu, entre o rio Amarelo e a foz do Yangtze bem indicava o limitado controle territorial dos invasores nipônicos. Outra poderosa expedição foi enviada contra os baluartes de guerrilheiros nas montanhas de Taihsing, nas fronteiras entre Honan e Shansi, cuja captura livraria as comunicações japonesas e deixaria desocupadas forças consideráveis que poderiam ser empregadas noutro setor. Eram esses apenas dois de uma série de ataques sobre toda a periferia da China, desde Shantung até a fronteira birmanesa - uma atividade que se manifestou através de sete operações amplamente separadas durante a última parte de fevereiro.

 

E o aspecto ainda mais importante de tais operações era seu efeito econômico. Mesmo que o Japão não conseguisse estender suas conquistas permanentes, a ocupação de pontos particulares ou um avanço temporário no interior das zonas produtoras poderiam significar sérios golpes nos desfalcados recursos chineses. A ocupação da zona de concessão francesa de Kwangchowwan em fevereiro, significava o estreitamento do bloqueio pela captura de um dos poucos portos através dos quais poderiam chegar suprimentos para o interior. O avanço para a parte norte de Hunan, nas vizinhanças do lago de Tungking ameaçava uma das mais ricas regiões produtoras de alimento da China livre. Os japoneses haviam fracassado várias vezes em seus esforços por conseguir o controle estratégico dessa região por meio da captura de Changsha, mas ela continuava vulnerável às repetidas incursões de poderosas colunas japonesas avançando para o sul, através do Yangtze.

 

Tais incursões significavam sérios golpes na capacidade de resistência da China. Tinham por finalidade explorar uma situação tornada séria pelo fracasso das colheitas e agravada pelas dificuldades de distribuição bem como pela inflação monetária. No outono de 1942 houve fome em numerosas províncias, e particularmente em Honan onde, acreditava-se, cerca de cinco milhões de pessoas estavam ameaçadas de morrer de fome. As atividades militares japonesas eram acompanhadas pelo saque dos depósitos de gêneros e pela desorganização das comunicações, impedindo o abastecimento das zonas atingidas. Uma campanha de duas semanas em Hunan, em março, interrompeu a semeadura e acarretou a perda dos depósitos nos principais centros de comércio. O fato de terem as colunas japonesas se retirado depois de um breve período não significava necessariamente que sua finalidade não tivesse sido alcançada ou que a China pudesse considerar a operação apenas como um revés para o inimigo.

 

Durante a primeira semana de maio, outro avanço marcou mais um golpe japonês sobre a mesma região. Parecia ter por fim destruir a safra do arroz e abrir caminho para novo esforço contra Changsha. Seu desenvolvimento entretanto apareceu como uma séria ofensiva contra a capital chinesa de Chungking. Cinco divisões japonesas avançaram pelo vale do Yangtze, e na última semana de maio tentavam abrir à força uma passagem pelas gargantas das montanhas que davam passagem para a cidade chinesa que era o centro e o símbolo da resistência.

 

O avanço foi repelido principalmente pela aviação. Pequena que era a aviação aliada, seus efetivos não estavam em condições de vencer os caças japoneses cuja supremacia sobre o campo de batalha se tornara quase inconteste na primeira fase da ofensiva. A 29 de maio os bombardeiros pesados atacaram as zonas de retaguarda, danificando seriamente instalações militares e postos de abastecimentos na base japonesa de Ichang e desorganizando as comunicações ao longo do Yangtze. No dia seguinte, uma contra-ofensiva chinesa era desfechada, envolvendo uma parte considerável das forças avançadas japonesas e lançando o resto em desordem. Uma tentativa dos aviadores japoneses para recuperarem a superioridade aérea fracassou depois de uma encarniçada batalha sobre Ichang, e os aviadores aliados continuaram a martelar as bases japonesas e as colunas inimigas em retirada. Em meados de junho os chineses haviam capturado numerosos portos importantes no Yangtze e repelido os japoneses para seu ponto de partida. Os danos que o inimigo havia causado durante seu avanço não podia ser reparado, mas a vitória - embora considerando que as forças envolvidas fossem relativamente pequenas - era encorajadora não apenas como um afastamento da ameaça sobre Chungking mas também como demonstração da pouca capacidade da aviação japonesa em face de um reforço mesmo moderado por parte da aviação aliada. A possibilidade de que tal efetivo continuasse a crescer trazia novas esperanças para os chineses numa ocasião em que as esperanças pareciam naufragar.

 

Desta forma, portanto, os aliados resistiam na Ásia continental, mantendo o Japão nas extremidades do avanço já realizado, tornando impossível para os nipônicos estender ainda mais suas conquistas, havendo perspectivas de que os aliados poderiam tomar a iniciativa com mais êxito do que o haviam feito na campanha de Arakan. No Pacífico, uma correlação de forças muito semelhante mostrava uma inclinação ainda mais definida em favor dos aliados. Em meados de abril, durante um período de alarme ante a possibilidade de uma nova ofensiva japonesa, um jornal de Honolulu ainda julgava ser justo afirmar que "os aliados no sudoeste do Pacífico haviam estado travando combates de fixação, e empregando para isso uma força simbólica. Quando chegar a ofensiva japonesa, não será de modo algum inconcebível que tal força seja esmagada". Em fins de junho tais temores haviam em grande parte desaparecido. Reforços de terra e mar tinham aumentado os efetivos aliados, e o grosso da marinha de guerra americana encontrava-se na zona do Pacífico. Os recursos ainda eram inferiores aos necessários para uma ofensiva em grande escala, mas colocavam a iniciativa tática mais firmemente em mãos dos aliados e tornavam possível novas operações contra as extremidades das conquistas japonesas.

 

No Pacífico norte, o objetivo de tais esforços era a ilha de Kiska, nas Aleutas. Desde sua captura em 1942 os japoneses haviam convertido a ilha numa base de submarinos e hidroaviões e procuravam construir uma pista para aviões de caça no terreno acidentado e rochoso. Apesar da sua proximidade do Alaska, a posição japonesa não era considerada como uma séria ameaça ofensiva. Mas era uma base defensiva avançada que fortalecia a segurança do Japão nas Kurilas e impunha certas restrições à ação americana no Pacífico norte.

 

No começo de 1943 foram iniciadas medidas tendentes a anular ou mesmo eliminar este saliente japonês. A 12 de janeiro forças americanas desembarcaram na estreita ilha de Amchitka, a 100 km a sudeste de Kiska, sem encontrar oposição séria. A 16 de fevereiro uma base aérea começou a funcionar, e com a melhoria do tempo em março uma persistente ofensiva aérea foi iniciada deste ponto e das bases do Alaska. Seu objetivo era inquietar os japoneses em Kiska e impedir o trabalho de construção, particularmente a de uma pista ainda não terminada. Ataques quase diurnos foram realizados durante as semanas seguintes por ondas de bombardeiros que realizaram até 15 ataques num único dia, esforçando-se para anular Kiska como base efetiva de operações.

 

Em maio, uma operação mais importante foi empreendida com êxito contra Attu. Esta ilha, na extremidade da cadeia das Aleutas, situa-se a 275 km a oeste de Kiska, e aí também os japoneses haviam construído instalações e trabalhavam na construção de um aeródromo. Também este fôra atacado por bombardeiros pesados americanos e submetido a um bloqueio a longa distância por parte das forças navais americanas. Foi canhoneada a 18 de fevereiro, e a 26 de março uma força naval ligeira americana repeliu um forte destacamento de cruzadores e destróieres japoneses que escoltavam dois transportes para Attu ou para Kiska. Então, a 11 de maio, duas colunas americanas, com poderoso apoio naval, desembarcaram nas praias norte e sul da ilha e avançaram para o interior num movimento de pinças contra a guarnição japonesa.

 

Foi preciso três semanas de luta encarniçada para que a ilha fosse dominada. O encontro se travou num terreno acidentado coberto de neve, onde o inimigo se fixara em fortes posições. O gelo e a neve dificultavam as operações terrestres, enquanto o nevoeiro perturbava as operações aéreas e dificultava o tiro de artilharia dos navios de apoio. A guarnição de cerca de 3.000 homens combateu com um fanatismo ainda maior que o costumeiro. Quando a situação se tornou desesperada, a maioria dos defensores preferiu o suicídio à rendição. Foram feitos somente onze prisioneiros durante a campanha. Mas a pressão americana repeliu os defensores das alturas levando-os a uma resistência final em Chigagof Harbour; e a 30 de maio a última força organizada fôra expulsa e restavam somente extraviados para as operações de limpeza. Os americanos estavam seguramente de posse de Attu, flanqueando as comunicações de Kiska para o oeste e abrindo a possibilidade de novos ataques ao longo da cadeia de ilhas que iria finalmente conduzir ao Japão.

 

A pressão naval e aérea voltava-se agora contra a própria ilha de Kiska. Os navios americanos tentavam um bloqueio para cortar as comunicações da ilha, e as forças navais realizavam periodicamente bombardeios da guarnição. Aviões americanos e canadenses mantinham uma série de incursões destinadas a anular a ilha como base naval e aérea. Durante o mês de julho, Kiska foi canhoneada do mar oito vezes e atacada mais de sessenta pelo ar. Nas primeiras duas semanas de agosto, houve apenas um dia em que não foi atacada. O peso desses ataques não podia ser comparado com sua freqüência, pois muitos deles eram realizados por um único bombardeiro ou por um destróier isolado, mas serviam para desencorajar os japoneses em sua pretensão de efetuar uma resistência demorada nesse posto avançado a um ataque em perspectiva.

 

A invasão de Kiska verificou-se a 15 de agosto. Uma poderosa força aliada, da qual a sexta parte era composta de canadenses e o restante de americanos, desembarcou ao clarear do dia para completar a recaptura das Aleutas. Foi um golpe desfechado no ar. Embora muitas das instalações defensivas permanecessem intactas, testemunhando assim o efeito limitado do recente bombardeio, tinham sido completamente abandonadas pela guarnição. A perda de Attu, evidentemente, decidira os japoneses a abandonar sua posição mais a leste apesar de seu efetivo mais numeroso. Calculava-se que a evacuação começara nas primeiros dias de junho e foi gradualmente afetada durante os dois meses seguintes. Os aviões incursores enfrentaram ligeiro fogo antiaéreo até 13 de agosto, mas nessa data somente restava uma pequena guarnição, que se retirara antes do desembarque aliado.

 

A fuga da guarnição japonesa mostrava o quão incompleto fôra o bloqueio de Kiska, e sugeria que a observação aérea fôra muito deficiente. Se a guarnição japonesa atingia, de fato, dez mil homens como supunham os americanos, a retirada constituiu uma operação de vulto que acarretou um elevado número de navios e a hipótese de que a evacuação se verificou sob a proteção do nevoeiro das Aleutas era pouco mais que satisfatória. Mesmo assim, apesar desses defeitos técnicos, a recaptura de Kiska, sem luta, foi fundamentalmente o resultado da superioridade naval e aérea. Se essas forças não exerceram um bloqueio eficaz nem conseguiram tornar Kiska praticamente insustentável, acabariam de qualquer modo selando o destino da ilha, ao tornar impossível ao Japão abastecê-la e reforça-la em escala suficiente para repelir as forças que pudessem ser lançadas contra ela. Em tais circunstâncias, os japoneses tinham preferido salvar a guarnição ao invés de sacrificá-la numa ação retardadora que impusesse o máximo de perdas aos atacantes.

 

Esta decisão era significativa. Até então as japoneses tinham defendido cada posição fanaticamente, mesmo quando isso parecia impossível. O convencimento de sua própria invencibilidade fôra combinado com uma tentativa de desanimar seus inimigos, mostrando-lhes a impossibilidade de conseguir a vitória. Mas a demonstração não constituíra um êxito em Guadalcanal, Papua e Attu, e os aliados superavam essas dificuldades apresentando ao inimigo um poderio cada vez maior. Uma resistência suicida deixara de ser aconselhável quer estratégica, quer psicologicamente. Sem dúvida os japoneses estavam ainda preparados para oferecer esse tipo de resistência sempre que fosse de valor militar. Mas Kiska não valia a perda de forças consideráveis que poderiam ser empregadas noutra parte com melhores finalidades. Kiska significava um elo na cadeia de ilhas através do Atlântico norte, mas não era um elo de importância vital. A captura de Attu já tornara possível para os Estados Unidos desfechar ataques aéreos centra a base japonesa de Paramushiru, nas Kurilas. A aquisição de Kiska apenas tornava mais seguro o saliente que estava sendo lançado para oeste a uma distância de ataque do flanco norte do Japão.

 

No Pacífico sul a situação era mais complexa e a tarefa mais formidável. Aí os japoneses estavam entrincheirados em numerosas bases insulares formando um arco que cobria o acesso à Austrália pelo norte. Atrás dessas ilhas, e em grande parte fora do alcance sério de ataque aéreo, havia uma série de importantes bases navais, e especialmente a grande base de Truk, nas Carolinas. Mas próximo à zona de operações encontrava-se Rabaul na Nova Bretanha, o principal centro de concentração naval e aérea na zona avançada das conquistas japonesas, e a eliminação de Rabaul era o objetivo contra o qual se dirigiam antes de tudo as operações aliadas nessa fase da campanha.

 

Os primeiros avanços na Nova Guiné e Guadalcanal revelaram a importância dos obstáculos no caminho de uma ofensiva contra Rabaul e bem assim a dificuldade de empreender tal operação com as forças à disposição no local. A captura de Buna e a conquista de Guadalcanal, deram origem a uma série de operações terrestres até o fim de junho. Na Nova Guiné registraram-se em fevereiro encarniçados encontros quando os japoneses procuravam eliminar o aeródromo interior que os aliados mantinham em Wau e quando os aliados por seu turno atacavam as defesas em torno de Mubo, que barrava o caminho para Salamaua. Mas, no fim do mês, as operações diminuíram de intensidade e passaram apenas a atividades de patrulhas, sendo o conflito nos quatro meses seguintes travado quase exclusivamente pela aviação.

 

Neste campo de ação os aliados mantiveram a iniciativa durante a maior parte do período. Seus bombardeiros ofensivos mantiveram um contínuo ataque sobre uma ampla zona. Mais uma vez a amplitude das operações não foi grande se medida pelos padrões europeus. Vinte fortalezas representavam aí uma força poderosa, e cinqüenta toneladas de bombas constituíam um ataque extremamente pesado. Mas era mantido um firme martelamento sobre as bases japonesas ao longo de um arco de 5.000 km desde as ilhas Salomão até o Timor e os bombardeiros de longo raio de ação efetuavam de quando em vez profundas incursões no coração da zona japonesa, atacando Wake, as Celebes e as ilhas Gilbert.

 

O objetivo estratégico era anular as bases avançadas japonesas, para cortar as comunicações de que as mesmas dependiam, e para repelir para o norte a linha em que o inimigo podia operar com eficácia. Bases como as de Munda e Lae, e a base recentemente estabelecida em Wewak, construída dentro do principal baluarte japonês na Nova Guiné encontravam-se entre os objetivos mais atingidos. Rabaul. como ponto de concentração e dispersão de abastecimentos para toda a zona avançada, foi alvo de alguns dos mais pesados ataques de toda a campanha. Uma bem sucedida guerra de desgaste contra as instalações aéreas japonesas não somente reduziria a ameaça à Austrália e às posições avançadas que a cobriam, como também permitiria à aviação aliada ampliar sua própria zona de controle.

 

O ataque à navegação vinha em auxílio dessa missão. Os japoneses estacionados nas ilhas tinham de ser constantemente abastecidos por mar. A interrupção das linhas marítimas teria sérias conseqüências, e os bombardeiros aliados e os aviões de reconhecimento procuravam os comboios e as concentrações navais inimigas, atacando-os onde quer que os encontrassem. Era esse um dos grandes objetivos dos ataques contra Rabaul, onde, segundo o general MacArthur, estacionou durante todo esse período uma concentração de 250.000 toneladas de navios. Nos ataques contra os ancoradouros, um dos golpes mais notáveis foi desfechado em Kavieng, na Nova Irlanda, no começo de abril. Caindo sobre um grupo de navios de guerra e mercantes, uma esquadrilha de menos de doze Fortalezas Voadoras afundou um cruzador pesado e outro leve, e provavelmente um destróier, avariando três dos cinco destróieres restantes, e bombardeando o aeródromo adjacente. Nas enseadas inimigas no norte da Nova Guiné e nas ilhas de Shortland, ao longo das vias de acesso a essas bases e para as ilhas mais a oeste, os ataques tiveram características de firmeza e persistência. A destruição pelo ar era completada pelas atividades nos submarinos americanos cujas incursões os levavam à vista das costas japonesas. Entre 1o de fevereiro e 15 de junho, as informações atribuíram aos submarinos o afundamento de 58 barcos japoneses, elevando a 181 o número de afundamentos desse tipo. A navegação, fator de que dependia em grande parte a manutenção das conquistas japonesas, estava sendo destruída numa proporção que em muito excedia à capacidade nipônica de cobrir as perdas.

 

O êxito mais espetacular dentre todas essas atividades foi obtido no encontro do mar de Bismarck. A 1o de março um comboio japonês foi avistado ao norte da Nova Irlanda, navegando em direção a Lae. Consistia, nessa ocasião, em catorze navios, e a ele mais tarde se uniram mais oito barcos, elevando a composição a doze navios mercantes escoltados por dez cruzadores e destróieres. Avançava para oeste sob a cobertura de uma tempestade, numa rota que oferecia a permanente proteção das bases terrestres. O mau tempo impediu um ataque no primeiro dia, mas durante os três dias seguintes foi desfechado com toda a fúria juntamente com bombardeios contra o aeródromo de Lae. A 4 de março o comboio inteiro fôra completamente destruído, e nenhum dos navios chegou a destino. As autoridades aliadas avaliaram em 15.000 o número de soldado japoneses mortos bem como 90.000 toneladas de navios e 63 dos 150 aviões empregados pelos japoneses. Segundo as palavras do comunicado, tratava-se e "uma vitória tão completa que representava um verdadeiro desastre para o inimigo", e foi conseguida por uma força de 136 aviões aliados, ao preço total de um bombardeiro e três caças.

 

Mesmo assim, o número de aviões empregados num combate de importância era um indício significativo de como era estreita a margem de superioridade de que desfrutavam as forças aliadas e como era precária a iniciativa que possuíam caso os japoneses resolvessem concentrar forças mais poderosas no sudoeste do Pacífico. As notícias de que o Japão estava reforçando suas guarnições ao longo de todo o perímetro, deu motivo, na Austrália, a apreensões que apenas em parte foram afastadas pela vitória no mar de Bismarck. Uma concentração de 250 aviões em Rabaul, que provocou um ataque particularmente pesado por parte das aliados a 23 de março constituiu mais um sinal da crescente força inimiga, empregada durante o mês de maio numa série de pequenos mas persistentes ataques destinados ao que parece a anular a aviação aliada, atacando as principais bases aéreas na Nova Guiné. A 7 de abril foi iniciada uma série mais pesada de ataques, com uma incursão sobre Guadalcanal, em que tomaram parte 98 aviões; e embora 39 deles tivessem sido abatidos, o ataque continuou durante a semana seguinte com incursões igualmente violentas contra Oro Bay, Milne Bay e Port Moresby. A apreensão na Austrália subiu novamente com a notícia de poderosas concentrações em Truk e de que 200.000 soldados japoneses encontravam-se disponíveis nas bases das ilhas mais avançadas. Uma série de declarações emitidas por líderes americanos e australianos, inclusive o primeiro ministro Curtin e o general MacArthur, apelavam para uma atenção ainda maior para o sudoeste do Pacífico e solicitavam recursos mais adequados para enfrentar o perigo iminente.

 

O clamor diminuiu logo, em parte devido às afirmações tranqüilizadoras dos aliados, e em parte pelo aparecimento de reforços como medida de preparação para um novo avanço aliado. Já a posição americana nas ilhas Salomão se tinha estendido para o norte partindo de Guadalcanal, pela ocupação das ilhas Russell a 21 de fevereiro. Em maio a conferência anglo-americana em Washington mostrou claramente que a iniciativa iria ser levada adiante com mais vigor no Extremo Oriente. O fortalecimento da aviação aliada foi revelado por uma série de pesados reides contra Rabaul, Wewak e Munda, e particularmente pelo aumento do efetivo da aviação de caça, que teve desastrosas conseqüências sobre as tentativas japonesas de golpear as bases americanas. As incursões inimigas às ilhas Russell, no começo de junho, foram repelidas com pesadas perdas. Um ataque efetuado por 120 aviões contra Guadalcanal, onde a navegação aliada preparava ativamente a próxima operação, teve resultados ainda mais devastadoras. Foi destruído um total de 94 aviões, inclusive 77 abatidos pelos aviões defensores. As perdas americanas se elevaram a 6 aparelhos, e dois navios cargueiros sofreram avarias, além de um navio de desembarque. Isso constituía uma prova evidente da superioridade de que desfrutavam os aliados.

 

Tudo estava agora preparado para uma nova operação. No Pacífico norte a ocupação de Amchitka e Attu significavam uma operação convergente contra Kiska. Uma ofensiva desfechada a 30 de junho no Pacífico sul contra a base japonesa de Munda, acompanhada poucas horas depois por outro avanço na Nova Guiné contra Salamaua, revelou o início de um ataque em forma de pinças tendo Rabaul como objetivo.

 

O ataque contra Munda iniciou-se com um movimento de flanco por meio da ocupação da ilha de Rendova e dos grupos de Trobiand e Woodlark mais para oeste. Essas duas últimas posições foram tomadas sem resistência. Em Rendova, a pequena guarnição foi tomada de surpresa e rapidamente dominada, e os americanos puderam instalar baterias a 8 km de Munda, do outro lado de um pequeno canal, colocando assim aquela base aérea sob o fogo da artilharia. Entrementes um grupo de fuzileiros navais desembarcara na ilha de Nova Geórgia uma semana antes de começar a ofensiva, e capturou Viru Harbour, que oferecia um valioso ancoradouro a 55 km ao su1 de Munda. Essas operações preliminares tornaram possível um ataque direto contra o objetivo imediato. A 5 de julho duas forças desembarcaram em Nova Geórgia, uma a 20 km ao norte do aeródromo de Munda, e outra 10 km ao sul. A força do norte bloqueou rapidamente uma estrada entre Munda e sua base de abastecimentos em Bairoko Harbour, e ambas as colunas avançaram para o interior num movimento convergente contra a base japonesa.

 

Tais operações, como as que mais tarde foram efetuadas contra Kiska, revelaram importantes mudanças na tática dos japoneses. Em Guadalcanal, o desembarque americano teve de enfrentar uma contra-ofensiva japonesa, e especialmente uma série de ataques navais. Essas operações não se repetiram desta vez. Os japoneses limitaram-se a procurar reforçar e abastecer a guarnição de Nova Geórgia sob a cobertura de forças navais ligeiras. Mesmo tal operação se mostrou dispendiosa. Na noite de 5 de julho uma força de cruzadores e destróieres foi interceptada no golfo de Kula, e 9 navios foram afundados ou deixados em chamas. Outro encontro na noite de 12 resultou na perda de um cruzador e três destróieres. Novos combates durante o mês seguinte, acompanhados por ataques aéreos contra as belonaves japonesas, aumentaram ainda mais os danos causados. As perdas aliadas eram de um cruzador e dois destróieres, além de um único transporte perdido durante o desembarque de Rendova. As operações aéreas japonesas tiveram menos êxito ainda. Uma forte tentativa para interromper o desembarque inicial terminou com a perda de 101 aviões japoneses contra 14 americanos. Nenhum outro esforço foi feito na mesma escala; e com a anulação de Munda como base aérea, os americanos passaram a desfrutar completa supremacia aérea.

 

Esperara-se que tal acontecimento levaria à rápida submissão de Munda, e que o bombardeio aéreo completado pelo canhoneio naval e terrestre, tornaria relativamente fáceis as operações terrestres. Mas essa era uma previsão completamente errada. Em Munda a guarnição ofereceu tenaz resistência em fortes posições defensivas. Fortins e blockhouses de troncos reforçados com coral davam abrigo contra qualquer projétil, excetuando o impacto direto de artilharia, e oferecendo alvos pequenos para os canhões e os aviões. Estas posições protegiam os caminhos que, através da floresta, davam acesso ao aeródromo, comando a infiltração quase impossível e apresentando formidáveis obstáculos para qualquer ataque a viva força. Uma semana depois de desembarcar em Nova Geórgia, uma das forças atacantes encontrava-se a menos de 3.200 metros do aeródromo, mas sua progressão foi virtualmente detida na quinzena seguinte. Mesmo os tanques trazidos fizeram apenas pequena pressão sobre a defesa. Foi somente quando se puseram em ação os lança-chamas que se encontrou um método eficaz para limpar esses pontos fortes. Mesmo então o avanço foi lento e árdua a luta. A 25 de julho, depois que 200 bombardeiros lançaram 186 toneladas de bombas sobre Munda, no mais pesado ataque aéreo já levado a efeito no Pacífico sul, uma coluna reforçada americana desfechou um resoluto ataque. Durante 12 dias os atacantes abriram caminho literalmente passo a passo. Somente na tarde de 5 de agosto foi o aeródromo finalmente capturado, sendo o resto da guarnição morto ou disperso.

 

As etapas finais da operação encontraram, entretanto, muito menos resistência. Houve considerável oposição quando os americanos avançaram sobre Bairoko Harbour, o último ponto de apoio japonês na ilha, mas a 25 de agosto a guarnição preferiu bater em retirada a partilhar o destino dos defensores de Munda. Entrementes, a 15 de agosto, uma força americana ocupou Vella Lavella, flanqueando a base japonesa em Vila na ilha de Kolombangara. O aeródromo em Vila já havia sido virtualmente neutralizada, e a própria base foi dentro em pouco colocada ao alcance da artilharia americana, que a 27 de agosto desembarcou na ilha de Arundel. O completo abandono japonês das ilhas centrais do arquipélago das ilhas Salomão foi mais tarde evidenciado por uma retirada da base de hidroaviões situada em Rekata Bay, na ilha de Santa Isabel, nos primeiros dias de setembro. Era outro sinal de que o inimigo preferia evitar as perdas nos postos avançados e reunir seus efetivos para a defesa de posições mais importantes.

 

Entrementes, na Nova Guiné a luta não diminuía de intensidade. Em Lae e Salamaua os japoneses haviam construído importantes bases avançadas por cuja manutenção fizeram todos os esforços. A ausência de qualquer progresso aliado em Mubo mostrava que forças mais poderosas e melhores comunicações eram elementos essenciais para que se pudesse esperar qualquer vantagem real. Com isso em mira, uma força americana desembarcou em Nassau Bay, 15 km ao sul de Salamaua, a 30 de junho. Enquanto essas tropas avançavam para o interior, os australianos que se encontravam diante de Mubo avançaram para leste para juntar-se com elas. Fôra aberta uma nova estrada de abastecimento mais eficiente, e a força combinada estava em situação de efetuar um movimento de pinças contra o bastião japonês.

 

Aqui, como nas operações paralelas em curso nas ilhas SaIomão, a aviação representava um importante papel. Fôra efetuado um esforço coroado de êxito para interromper as comunicações marítimas de Lae e Salamaua e para afastar o apoio aéreo japonês, expulsando a aviação nipônica de outras bases aéreas na Nova Guiné. Os ataques contra Rabaul que haviam precedido a nova ofensiva foram em grande parte abandonados depois que esta foi iniciada. Ao invés do que se planejara anteriormente, os aviões eram reunidos para o ataque contra as concentrações de navios e contra as posições japonesas ao longo do perímetro de suas conquistas insulares. Wewak, em particular, foi cena de uma prolongada luta pelo domínio do ar. Em meados de agosto os japoneses tinham concentrado 225 aviões nesta base, como preparativo para um centra-golpe nos aliados. Mas estes aproveitaram-se da oportunidade para desfechar um golpe devastador. Um ataque de surpresa, a 17 de agosto, destruiu 120 aviões japoneses no solo e avariou mais 50, e no dia seguinte novo ataque completou a destruição de todos os aviões componentes da concentração original, com exceção de dez. Mas este golpe não foi o último, porque os japoneses trouxeram imediatamente novos reforços de aviões, e os aliados continuaram seus ataques num esforço para manter a vantagem que haviam obtido. No começo de setembro acreditavam ter tido êxito, pelo menos temporariamente. Anunciaram que os japoneses haviam sido forçados a retirar suas concentrações para bases mais distantes, dificultando assim o apoio que pudessem dar às forças terrestres, que agora estavam sofrendo forte pressão diante de Salamaua.

 

O acontecimento imediato na seqüência que levava à junção das forças procedentes de Nassau e da zona de Mubo era a queda da própria localidade de Mubo. Os americanos vindos de Nassau Bay penetraram atrás do posto avançado japonês e ameaçaram suas comunicações enquanto os australianos atacavam-no frontalmente. A 15 de julho os defensores eram obrigados a bater em retirada, e os aliados progrediram 11 km, chegando a 8 km de Salamaua. Aí foram detidos no fim do mês por forte resistência nas elevações que protegiam a cidade. Durante todo o mês de agosto abriram caminho vagarosamente em direção ao aeródromo a pouca distância da cidade, e a 27 atingiram de fato os limites do campo de pouso, sendo imediatamente detidos e forçados a ceder terreno em conseqüência de violentos contra-ataques japoneses.

 

Uma semana mais tarde a operação foi ampliada de modo súbito e espetacular. A 4 de setembro, sob a cobertura de forte bombardeio naval e aéreo, as forças aliadas efetuaram um desembarque a viva-força acima de Lae na praia norte do golfo de Huon. No dia seguinte foram lançados pára-quedistas no vale de Markham atacando a base pela retaguarda e capturando um aeródromo em que foram logo desembarcados reforços trazidos pelo ar. O resultado foi o cerco de toda a zona Lae-Salamaua, isolando-a de outras bases na Nova Guiné e fechando a armadilha em torno das guarnições cercadas. O assalto final foi levado avante vigorosamente. A 12 de setembro, Salamaua caiu em poder dos aliados, e os remanescentes de sua guarnição fugiram para unir-se aos defensores de Lae. As forças aliadas avançaram para eliminar também essa base.

 

Este duplo êxito nas ilhas Salomão e na Nova Guiné representava uma real vantagem. Os japoneses haviam sido privados de importantes posições de vanguarda, e as primeiras medidas foram tomadas no sentido de um movimento de pinças contra Rabaul. Entretanto a natureza limitada do avanço mostrou como os aliados estavam longe de uma ofensiva em grande escala. Juntamente com as operações nas Aleutas, o avanço representava um esforço no sentido de destruir as pontas do crescente que os japoneses haviam lançado em direção ao Alaska e a Austrália. Mas isso estavam longe de ameaçar as posições-chaves em que tinha suas bases o efetivo principal japonês. E embora pudesse vir a ter importantes resultados estratégicos, mostrava que os aliados estavam ainda apegados ao antigo e custoso método de avançar de ilha em ilha como uma preliminar essencial para esforços mais amplos que poderiam somente ser empreendidos com forças muito mais poderosas que quaisquer outras até então disponíveis no teatro de guerra do Pacífico.

 

A Pressão da Guerra Total

 

Durante a maior parte do quarto ano de guerra, os acontecimentos militares constituíam, por sua natureza, um prelúdio para uma provação em grande escala que estava em perspectiva. Significativos e encorajadores, os êxitos aliados eram apenas operações preliminares do esforço de maior vulto que constituía o objetivo final. As Nações Unidas tomavam posição para o encontro decisivo com o inimigo; e atrás dos movimentos das frentes de batalha os povos dos países envolvidos na guerra faziam estrênuos esforços para reunirem suas forças para a luta titânica que se aproximava.

 

A guerra se tornara, para as populações civis dos países beligerantes, um Moloch insaciável. Seus recursos em potencial humano e suas forças produtoras eram explorados em grau cada vez mais elevado à medida que se aproximava o clímax da guerra. Era preciso cobrir as perdas ocorridas nos campos de batalha. À medida que crescia a intensidade do conflito, os países beligerantes esforçavam-se por aumentar o efetivo de seus exércitos. Novas armas eram exigidas em quantidade cada vez maiores, obrigando, por sua vez, a maiores exigências com respeito a máquinas, matérias-primas e transportes. O esforço para satisfazer a tais necessidades deixava pouca margem para outros pedidos não ligados diretamente com o esforço de guerra. Mesmo países, como a Alemanha, que haviam aceitado a idéia de guerra total desde o início, verificaram que suas primeiras concepções sobre o que isso realmente significava tinham de ser drasticamente modificadas à medida que a luta se prolongava. As democracias, por sua parte, eram obrigadas, pela inexorável pressão das circunstâncias, a aceitar adaptações fundamentais contrárias a todas as suas tradições. A Inglaterra aceitara as imposições decorrentes dos trágicos dias de Dunquerque. A América começava agora também a aprender a lição segundo a qual a guerra não era a ocupação de apenas uma parte do tempo mas uma tarefa fundamental na qual a nação devia empregar todas as suas energias caso quisesse vencer.

 

Do lado do Eixo o peso da mobilização dos recursos necessários recaía antes de tudo na Alemanha. Outros países poderiam ser obrigados a sacrifícios mais duros, a fim de tornar possível a tarefa militar do Eixo. Mas o poderio militar e industrial da Alemanha era o alicerce do potencial de guerra eixista na Europa, e se esse começasse a desmoronar-se, nenhum dos parceiros ou satélites da Alemanha possuía os recursos necessários para reerguê-lo.

 

As devastações verificadas no ano anterior, embora não pronunciassem um colapso iminente, eram bastante sérias para exigir esforços estrênuos. As perdas relativamente leves do período da blitzkrieg foram seguidas de perdas mais sérias, impostas pela escala e a intensidade da luta na Rússia. A 21 de março Hitler afirmou que o número de alemães mortos subia a 542.000. Esta cifra era muito menor do que a apresentada pelos russos somente com referência à campanha de inverno. Por outro lado, a alegação em certos círculos aliados de que a Alemanha perdera quatro milhões de homens em mortos, prisioneiros e inválidos parecia ser altamente otimista. Mesmo assim as baixas na Rússia e as perdas na Tunísia, abrangendo alguns dos melhores elementos do exército alemão, era suficientemente séria para enfraquecê-lo qualitativamente, e tornar urgente, para o Reich, o problema de fechar os claros causados pelas perdas.

 

Verdade era que também a Alemanha desferira poderosos golpes contra seus inimigos. A Rússia sofrera oito milhões de baixas, e suas perdas em população tornavam ainda mais sério seu problema de potencial humano. Apesar disso, o êxito de sua ofensiva de inverno constituiu um indício surpreendente de sua capacidade de recuperação, e amorteceu qualquer esperança da parte da Alemanha de que a Rússia se encontrasse então relativamente mais fraca do que no começo do conflito. No ocidente concentravam-se as forças da Inglaterra e dos Estados Unidos, ainda relativamente dispersas. O Império Britânico, ao fim da campanha tunisina, já tivera aproximadamente 515.000 baixas de todos os tipos. O número total de perdas dos Estados Unidos em todos os teatros da guerra mantinha-se ainda abaixo de 100.000. Era para enfrentar esses novos antagonistas bem como para manter-se contra a Rússia que a Alemanha tinha agora de preparar-se.

 

Além de enfrentá-los no campo de batalha havia também a tarefa vital de vencê-los no campo da produção. Isso na realidade se tornara pouco menos que impossível. O mais que a Alemanha podia esperar era manter o nível de produção já alcançado, e mesmo isso parecia agora impossível. A aviação aliada de bombardeio causava prejuízos cada vez maiores nas indústrias de guerra da Alemanha. A tentativa para transferir as indústrias mais leves da zona perigosa na Alemanha ocidental para a Áustria e a Tchecoslováquia acarretava mais um deslocamento. Longas horas de trabalho, rações alimentícias pouco variadas e o aumento das dificuldades na vida das populações diminuíam a eficiência da mão-de-obra alemã, e os operários estrangeiros eram em grande número incompetentes ou deliberadamente ineficientes. Avaliava-se que esses fatores diminuíram de 10 ou 15% na primavera de 1943. As exigências de potencial humano nas fábricas e minas, nos transportes e na agricultura competiam seriamente com as do exército. E apesar disso enquanto cresciam as dificuldades para satisfazerem-se essas necessidades, mais um fardo era imposto pela ameaça de invasão e os grandes esforços que se faziam para preparar as defesas contra essa operação. A organização Todt, empenhada em fortificar a costa da Europa contra os desembarques aliados, clamava freneticamente por homens e materiais mesmo às custas de outros pedidos urgentes.

 

Mobilizando o Potencial Humano do Eixo

 

Um dos fatores que complicavam a situação era o fato de que o exército não podia satisfazer suas necessidades sem interferir na indústria de guerra. Segundo os cálculos normais, meio milhão de jovens alemães atingiam todos os anos a idade militar. Mas as classes abaixo da idade militar eram, na Alemanha, já menos numerosas calculando-se que a classe de 1925 não daria mais do que 380.000 jovens. Um número aproximado poderia ser obtido pela convocação de rapazes de 17 anos, mas mesmo assim as efetivos não satisfariam as exigências.

 

A conseqüência disso foi o recrutamento de soldados nas indústrias de guerra. Operários cuja capacidade técnica os colocara nas categorias de reserva, tiveram suas isenções revogadas. A missão ficara a cargo do General von Unruh, e era preciso seu consentimento para que qualquer homem ficasse livre do serviço combatente. Desde que surgiram notícias de que von Unruh devia recrutar mais 1.800.000 homens para as forças armadas, era pouco provável que qualquer alemão apto em idade militar ficasse, no verão de 1943, ocupando um cargo civil.

 

Apesar disso a indústria, da mesma forma que o exército, precisava de novos recrutas, e a retirada de operários da indústria dz guerra para servirem no exército tornava ainda mais séria a falta de elementos capacitados para o trabalho nas fábricas de material de guerra. Em fins de janeiro foram tomadas medidas novas e ainda mais drásticas para colocar à disposição do esforço de guerra todo o potencial humano. Um decreto baixado por Fritz Sauckel, diretor-geral de trabalho, ordenava que todos os homens entre 16 e 65 anos e todas as mulheres de 15 a 45 se registrassem para o serviço nacional. "Todos os alemães, homens e mulheres" - dizia o documento - "devem colocar suas energias exclusivamente à disposição da comunidade que combate e que trabalha a fim de que o objetivo desta guerra - a consecução rápida da vitória - seja alcançado". Significava acelerar ainda mais certos métodos que, em realidade, estavam sendo postos em prática desde o começo da guerra. Em particular o crescente emprego de mulheres na indústria, a que os alemães foram obrigados pela pressão das circunstâncias, e que os obrigou a modificar suas primeiras e insistentes afirmações de que o lugar das mulheres era na cozinha ao invés de nas fábricas. De um total de 29,5 milhões de operários, 15,5 milhões eram mulheres. O novo decreto mostrava que mais outros eram precisos para fechar os claros, e que sua mobilização era um abandono da teoria nazista que afirmava a urgência de tal necessidade.

 

Quase simultaneamente foram baixados outros decretos que acarretavam conseqüências drásticas, igualmente em contraste com as pretensões nazistas. Eram medidas que se destinavam a reduzir ou eliminar os estabelecimentos civis que não fossem absolutamente essenciais ao esforço de guerra a fim de aproveitar os materiais por eles empregados bem como utilizar são mão-de-obra para fins estritamente bélicos. Casas de comércio a varejo e por atacado, restaurantes, hotéis, pequenas fábricas e oficinas, foram particularmente atingidas. As casas que negociavam com artigos de luxo, inclusive objetivos de arte, deviam também ser fechadas; outras deveriam fechar ou juntar-se numa só grande firma. Entre 100.000 e 130.000 estabelecimentos de negócios deveriam desaparecer, e a maioria eram firmas pequenas. E foi justamente entre os pequenos comerciantes e os artesãos que o movimento nazista conseguira o maior apoio. Sua resistência contra os trustes, combinado com seu medo ao comunismo, fizera deles fervorosos adeptos de Hitler, que contra ambos lhes prometia proteção. Agora esses mesmos pequenos comerciantes e artesãos haviam sido eliminados pela pressão implacável da guerra total. Seu ressentimento era revelado indiretamente pela preocupação com que os propagandistas nazistas mostravam em refutar a idéia de que o partido nazista abandonava a classe média. Mas o órgão do partido, o Schwarze Korps, atirou para o lado tal pretensão. "A classe média não existe" - declarou com uma franqueza brutal. "Esta palavra é apenas um chavão que vem dos tempos democráticos".

 

Com tais medidas esperava-se que aproximadamente três milhões de trabalhadores ficassem em situação de trabalhar para a indústria de guerra alemã. Mas os próprios recursos alemães constituíam apenas um elemento, embora o mais importante, no esforço de guerra. A Alemanha estava resolvida a que, na tarefa de manter e defender a maior parte da Europa, o restante do continente, os países conquistados ou satélites deveriam cumprir integralmente a parte que lhes tocasse. A afirmação de que a Alemanha defendia a Europa contra o perigo do bolclnevismo era trombeteada por toda a parte com mais intensidade do que nunca, e os povos da Europa eram convocados a fazer causa comum com seus defensores na luta pela civilização ocidental.

 

A reação favorável das massas dificilmente correspondeu ao zelo dos que preconizavam a cruzada. Poucos dos países satélites morriam de amores pela Rússia. Mas tinham amargas e sérias razões para respeitar-lhe o poderio após os desastres que haviam recaído sobre suas tropas durante o inverno anterior, e a maré dos acontecimentos na Rússia e na África aumentava as dúvidas sobre as perspectivas de uma vitória alemã. O esforço dos nazistas para integrar o continente na guerra total sob a dominação alemã dava provas de como seria pequena a liberdade das países menores caso a Nova Ordem triunfasse. Tomava cada vez mais vulto a perspectiva de que a derrota alemã arrastaria consigo para o desastre as nações mais fracas. Mas estas não estavam ainda em situação de separar-se nitidamente do Eixo, apesar de já haver indícios de esforços no sentido de ficarem em situação menos difícil no caso de uma vitória aliada, aparentando para isso uma certa independência com relação à Alemanha.

 

A Finlândia fornecia um significativo exemplo dessa atitude. Nem a pressão diplomática americana, nem uma formal declaração de guerra por parte da Inglaterra conseguira separar a Finlândia do Eixo. Mas os finlandeses procuravam diferençar sua própria luta com a Rússia da luta geral e apresentar sua causa como completamente separada da causa alemã. No começo de 1943 surgiram notícias de que a Suécia procurava uma aliança protetora. Em seu discurso ao Riksdag a 2 de fevereiro, o presidente Ryti fez um apelo indireto aos aliados para que estes reconhecessem a situação especial da Finlândia. "As nações civilizadas" - disse ele - "jamais podem chegar ao ponto de não reconhecer o direito de uma nação de lutar por sua vida e liberdade". A eleição presidencial em fevereiro e as mudanças do gabinete que se seguiram trouxeram sinais de movimentos no sentido de se conseguir a paz. Disso nada surgiu, pois em realidade a permanência de tropas alemães na Finlândia era suficiente para impedir qualquer ação separada; mas a franca indicação feita a 1o de março pelo Presidente Ryti de que seu país se achava cansado da guerra, e sua afirmação do caráter defensivo das finalidades de guerra finlandesas, mostrava o pouco entusiasmo da Finlândia pelos laços diretos com a Alemanha, e as notícias em agosto de novas tentativas de paz - desta vez por intermédio de uma aproximação propiciada pelos deputados trabalhistas ingleses - indicavam um desejo desesperado de agarrar-se a todos os meios que pudessem tirar a Finlândia da guerra.

 

Desta forma, embora a Alemanha mantivesse a Finlândia como aliada tinha poucas esperanças de obrigar aquele pequeno país a maiores esforços militares. Ao mesmo tempo, o Reich alcançava um êxito limitado em seus esforços para mobilizar os recursos militares do resto do continente. Foi ordenada a mobilização geral nos países bálticos, com o objeto de formar uma legião especial. Foi exercida pressão sobre a Hungria e a Romênia a fim de aumentar suas contribuições e sobre a Bulgária para que enviasse um contingente para a frente russa. Durante o mês de abril os dirigentes desses países foram chamados um após outro ao quartel-general de Hitler, sendo-lhes apresentadas as exigências alemães para um auxílio mais completo na guerra contra a União Soviética.

 

Essas exigências encontraram considerável resistência. As divisões húngaras e romenas haviam sofrido tremendas baixas durante 3 campanha de inverno. O descontentamento popular disso resultante, manifestado por desordens ocorridas na Romênia em janeiro, mostravam o pouco desejo de que fossem feitos mais sacrifícios. A Romênia, tendo reivindicações territoriais sobre a Bessarábia, tinha mais razões do que os outros estados balcânicos ou danubianos para continuar sua luta contra a Rússia. Mas mesmo assim tinha retirado cinco das vinte divisões que inicialmente enviara contra a URSS, e em junho apareceram notícias de tentativas por parte da Romênia para conseguir uma paz em separado que lhe garantisse vantagens territoriais. A Hungria retirou a metade de suas nove divisões, resistindo às exigências alemães para que enviasse novas tropas para a frente oriental ou para os Bálcãs. A Bulgária, que segundo se noticiara recebeu do Reich a exigência de enviar onze divisões para os Bálcãs ou para a Rússia, mostrava-se relutante em partilhar a sorte de seus vizinhos. Em outubro o rei Boris afirmara sua lealdade ao Eixo. Mas sua visita a Hitler no fim de março não resultou em qualquer concessão real, e as arruaças antialemães em Sofia, no mês de maio, mostraram a impopularidade do decreto de cooperação com o Reich. Novos motins surgiram logo depois da misteriosa morte do rei, em agosto, após outra conferência com Hitler, e resultaram num esforço por parte da Alemanha para estreitar o controle sobre as comunicações e a administração interna da Bulgária. Mas essas medidas em nada contribuíram para a boa vontade dos búlgaros para com os nazistas. Apesar de todos os esforços de Hitler, o auxílio militar dos estados satélites seria menor esse ano do que em 1943.

 

As vicissitudes da Itália eram ainda mais sintomáticas da difícil situação com que agora se defrontava o Eixo. Como a Alemanha, ela adotava novas e mais rígidas medidas para conseguir recrutas para o exército e para a indústria de guerra. Em janeiro a classe de 1924 foi chamada às armas, sendo previsto o trabalho obrigatório das mulheres na esperança de que quatro milhões de homens pudessem ser postos á disposição do exército. No começo de abril certas classes até então consideradas incapazes para o serviço militar foram chamadas para prestarem serviços nas forças metropolitanas. Mas tais medidas em nada solucionaram as dificuldades das frentes de batalha. Significavam, ao contrário, medidas para fazer frente à crescente ameaça de uma travessia do Mediterrâneo. Em fins de março foram tomadas medidas para colocar o país sob governo militar em caso de invasão e para mobilizar para a defesa todos os homens e mulheres de mais de 17 anos. Mesmo os adolescentes de menos desta idade deviam ser considerados mobilizados para trabalhos civis. Entrementes Mussolini procurava fortalecer seu controle por meio de mudanças radicais do governo (inclusive a retirada de Ciano do Ministério do Exterior e sua nomeação para embaixador junto ao Vaticano), reorganizando o diretório do partido e exigindo compromisso pessoal de fidelidade da parte de todos os dirigentes fascistas. Com a queda da Tunísia, procurava fortalecer-se para enfrentar o novo golpe aliado.

 

Havia indícios de que os italianos já tinham dúvidas sobre sua capacidade para repelir a invasão. A declaração do secretário do partido fascista de que cairia com honra e dignidade, dificilmente poderia ser considerada como manifestação de confiança. Em tais circunstâncias a questão do que poderia acontecer em outros campos de batalha se tornava de interesse secundário. No fim de fevereiro Ribbentrop apareceu em Roma trazendo exigências de novas contribuições que, segundo se afirmava, incluíam mais 15 divisões para a frente russa. Em março Hitler pediu que tropas italianas fossem substituir guarnições alemães na França e nos Bálcãs. Mas a Itália precisava dispor de todos os seus efetivos na própria península. Perdera um exército na África. Dez divisões italianas haviam sido severamente castigadas na Rússia, e tudo o que restava delas havia sido retirado, sendo esta medida seguida de uma redução de tropas italianas na Grécia e na Iugoslávia. Quaisquer que tenham sido os acordos a que chegaram Hitler e Mussolini em seu encontro nos primeiros dias de abril, não havia sinal de que os dois ditadores houvessem tomado providências para remeter outras expedições italianas para o exterior. Parecia mais provável que a Itália estivesse resolvida a concentrar todas as suas forças para sua própria defesa, e que a Alemanha, por seu lado, deixava os italianos suportar tal peso em grande parte sozinhos.

 

Quanto às novas dificuldades militares impostas pelas aliados contra o Eixo, seu peso recaía, portanto, quase inteiramente sobre a Alemanha. Haveria poucas divisões satélites na frente russa. A necessidade de enviar mais tropas alemães para guarnecer os Bálcãs seria temporariamente equilibrada pela retirada de tropas alemães da Itália. A tarefa de guarnecer as defesas ocidentais contra uma invasão aliada caberia inteiramente aos alemães. Projetava-se sobre a fortaleza européia a sombra da derrota que se aproximava, e os elementos mais fracos na guarnição começavam a pensar em termos de "salve-se quem puder".

 

Mobilização dos Povos Vencidos

 

Tanto o problema da produção como os problemas militares das frentes de batalha tornavam-se cada vez mais graves. A tentativa alemã para drenar dos países satélites a mão-de-obra de que necessitava encontrou pouco mais êxito de que sua exigência de tropas. Em fins de maio, foi noticiado que a Itália chamava ao país os 400.000 operários que haviam sido enviados para a Alemanha, acreditando-se também que exigia a volta dos trabalhadores para o Reich. Neste caso, entretanto, a Alemanha tinha uma alternativa. Os países conquistados cujos homens não mereciam a confiança necessária para servirem nas forças armadas do Eixo poderiam ser utilizados como fontes produtoras de trabalho escravo, e seus homens e mulheres poderiam ser mobilizados para as fábricas e estabelecimentos agrícolas alemães e para o trabalho nas fortificações.

 

A 4 de outubro, Goering afirmou que a Alemanha já tinha à sua disposição seis milhões de trabalhadores estrangeiros, além de cinco milhões de prisioneiros de guerra. O fato de que as cifras alemães a esse respeito se contradiziam tornava ainda mais difícil obter-se uma avaliação aproximada; mas havia provavelmente cerca de quatro milhões de trabalhadores civis estrangeiros no Reich, na primavera de 1943; e possivelmente mais dois milhões de prisioneiros de guerra que trabalhavam, principalmente na agricultura. Mas com as exigências cada vez maiores sobre a produção de Guerra alemã e os novos pedidos de operários por parte da organização Todt que apressava a construção de fortificações de costa, foram tomadas novas medidas para mobilizar o potencial humano disponível dos países vencidos, em benefício do Reich.

 

Desde o início, as terras conquistadas a leste foram usadas como fontes de trabalho forçado para a Alemanha. Poloneses, russos e ucranianos eram arrebanhados sistematicamente e transportados para s Alemanha às centenas de milhares. Eram deliberadamente reduzidos ao estado de servos para o trabalho agrícola e industrial, forçados a usar distintivos reveladores de sua condição inferior, privados de qualquer descanso ou distração, e mesmo de assistência religiosa, e não gozavam de nenhuma das vantagens comuns da legislação trabalhista alemã; seu salário raramente excedia à metade do que era pago ao operário alemão. Nos países ocidentais, entretanto, tentaram os nazistas manter uma aparência de recrutamento voluntário, e foi somente quando isso não deu mais nenhum resultado que passaram a empregar o recrutamento forçado.

 

Até o outono de 1942, o recrutamento alemão na França, nos Países Baixos e na Escandinávia foi dirigido principalmente no sentido de trazer para a indústria alemã operários especializados. Quando os operários se mostravam relutantes em apresentar-se voluntários, era exercida pressão de vários modos, tais como o fechamento dos locais das indústrias e a recusa de cartões de alimentação para os trabalhadores que não aceitassem empregos na Alemanha. Mas tais medidas, mesmo quando completadas pelo emprego da força num crescente número de casos individuais, não mais correspondia às necessidades da situação. Na primavera de 1943 eram precisos novos recrutas, não somente para as fábricas de guerra da Alemanha, mas para o trabalho nas granjas, estradas e fortificações. Havia cada vez mais emprego por trabalhadores não especializados, não apenas na Alemanha mas nos próprios países ocupados, e uma mobilização geral era o meio mais eficaz para conseguir mão-de-obra. O trabalho obrigatório foi estabelecido na Bélgica em outubro de 1942. Em fevereiro de 1943 foi estendido à Holanda e Noruega, e Sauckel agia impiedosamente, de acordo com sua intenção de "mobilizar todas as reservas de mão-de-obra até o máximo já conhecido na História".

 

Na França a responsabilidade nominal pelo recrutamento da mão-de-obra continuou a cargo de Laval, mas ele era agora apenas um porta-voz subserviente de seus amos nazistas. A alegação de que prisioneiros de guerra franceses seriam postos em liberdade em troca de voluntários para o trabalho na Alemanha estava quase inteiramente desacreditada pelo pequeníssimo grupo de inválidos libertados, enquanto um número cada vez maior de operários era arrebanhado por imposição do conquistador. Os sucessivos apelos de Laval, e mesmo a aplicação da lei de setembro de 1942 sobre o trabalho obrigatório, não conseguiram mobilizar um número suficiente de operários que satisfizesse as exigências alemães. Requisições forçadas e prisões realizadas pela polícia de Vichy sob o controle alemão, prosseguiram durante o inverno. Acreditava-se que 300.000 franceses haviam sido enviados para a Alemanha no começo de março, e mais 200.000 foram exigidos durante os três meses seguintes. Nos primeiros dias de junho Laval pronunciou um discurso pelo rádio em que afirmava que "eu tento todos os dias tornar mais leves os vossos fardos", e anunciou que toda a classe de 1942 seria submetida à convocação para o trabalho "a fim de evitar arbitrariedades". Para todas as finalidades práticas, o potencial humano francês estava completamente submetido à vontade alemã.

 

Havia outros motivos para esse controle além das necessidades da produção alemã. Por toda a Europa ocupada, os nazistas haviam despertado um ódio implacável. Milhões de indivíduos nos países conquistados viviam agora com um único objetivo - alcançar o dia em que pudessem vingar-se de seus opressores. A proximidade de uma invasão aliada fazia com que se abreviasse a chegada desse dia. As notícias dos desembarques aliados na África provocaram, em realidade, tentativas prematuras e abortadas de insurreição na França. Era evidente que os nazistas tinham interesse em remover o maior número possível de indivíduos fisicamente aptos das zonas em que pudessem entrar em contato com os invasores, mantendo ao mesmo tempo esses indivíduos sob seu controle efetivo. De certos pontos importantes para a defesa a população foi completamente removida, e entre essas zonas encontrava-se a área do porto velho de Marselha, onde os alemães tiveram de vencer encarniçada resistência popular a fim de remover os moradores. A atenção especial dada aos jovens na mobilização para o trabalho obrigatório na França, mostrava o aspecto defensivo desta medida. Na Holanda, os soldados libertados sob palavra depois da rendição de seu país receberam ordens de apresentar-se às autoridades que planejavam coloca-los em segurança, dentro de campos de concentração. Como parte da mobilização da mão-de-obra na Bélgica, todos o jovens entre 18 e 20 anos deviam ser arrebanhados. Os nazistas não tinham intenção de deixar que inimigos jovens e vigorosos os assaltassem pela retaguarda.

 

Ao tratar do problema da alimentação ficava evidenciado um duplo propósito. Apesar de dois invernos rigorosos, a Alemanha ainda estava longe de enfrentar uma crise de alimentos. O pão era suficiente e as batatas abundantes. Fôra possível aumentar a ração de carne durante o inverno; e embora fosse novamente diminuída na primavera para uma ração semanal de pouco mais de meia libra para o consumidor comum, o nível geral de alimentação era melhor do que fôra em 1918. A escassez mais séria era a de gorduras, e mesmo essa não era tão crítica uma vez que se podia dispor de outros alimentos.

 

Isso fôra conseguido em parte pelo trabalho nos países conquistados, inclusive a Ucrânia, mas em parte também pelo saque das populações vencidas a fim de alimentar os alemães. Em todos esses países a ração para a população civil era mais baixa que na Alemanha, e todos os depósitos de alimentos eram requisitados pelos nazistas. Nos países da Europa ocidental, as rações de alimentos eram em geral aproximadamente dois terços das rações distribuídas aos alemães. Em seu discurso de outubro, Goering deixou transparecer que as populações vencidas deviam conseguir seus alimentos principalmente no mercado negro, que era em grande parte controlado pelos próprios nazistas que dele tiravam proveito. Uma considerável parte da produção de carne e de aves da Escandinávia e dos Países Baixos era requisitada pela Alemanha. Da mesma forma quase todo o peixe norueguês. A perda pela França dos abastecimentos alimentícios vindos da África do Norte deixou esse país sob verdadeiro estado de fome durante as meses de verão de 1943. Eram condições essas que a Alemanha não tinha interesse em remediar. Os trabalhadores que empregava para seu serviço podiam ser alimentados adequadamente. Quanto ao resto da população, o enfraquecimento de sua vitalidade através da subnutrição era um dos meios para tornar essas populações ineficientes como material para uma revolta bem sucedida.

 

No leste a política de fome era feita de modo ainda mais deliberado. Os poloneses, russos e gregos estavam na parte mais baixa da escala. A fome se apossara de Atenas, os carregamentos aliados de trigo, chegados por intermédio da Cruz Vermelha, serviam apenas para evitar parcialmente os piores horrores. Na Polônia e na Rússia ocupada, a fome e a doença andavam de mãos dadas. Os judeus, naturalmente, eram os que mais sofriam, e o costume nazista de descarregar sobre esse infeliz povo sua cólera ante qualquer revés tornou-se mais uma vez evidente durante o inverno de 1942. Leis antijudaicas foram impostas à França, onde os judeus foram deportados ou metidos em campos de concentração. Dos países satélites do leste, foram os judeus levados à Polônia, para serem tangidos para acampamentos de trabalho forçado ou para os guetos superlotados onde morriam de fome ou de enfermidades. A política nazista de extermínio deliberado dos judeus aproximava-se rapidamente de seu bárbaro objetivo.

 

Apesar disso, nenhuma dessas medidas conseguiu apagar completamente as centelhas de resistência nos países dominados. Mesmo depois de três anos de privações e de repressão e ferocidade das represálias nazistas ante qualquer ato de desobediência, o espírito de independência se mantinha vivo. Nas montanhas da Iugoslávia os patriotas continuavam sua luta contra as forças armadas do Eixo. Aumentavam na Grécia os choques entre os grupos de guerrilheiros e as forças de ocupação. A resistência francesa expressava-se não somente por meio de atos de sabotagem e em ataques contra oficiais alemães, mas também por meio de conflitos e de resistência ao trabalho forçado, e em março, diante das notícias de que todos os jovens de 20 a 23 anos seriam mobilizados para o trabalho obrigatório, milhares de rapazes fugiram para as montanhas da Savoia, onde mantiveram breve resistência contra as autoridades. O ódio dos noruegueses, ocasionado pelas repressões nazistas e pela apreensão de gêneros alimentícios, obrigou os alemães a proclamar o estado de emergência durante a segunda semana de outubro, como medida de precaução contra motins. A resistência holandesa ao trabalho obrigatório e o internamento de ex-soldados obrigaram os nazistas a proclamar a lei marcial no começo de maio. Protestos e greves por parte dos juízes na Bélgica e na Holanda, pelo clero na Holanda e na Noruega, pelos estudantes na Holanda e mesmo dentro da própria Alemanha (em Munique foram tomadas medidas de repressão contra o descontentamento estudantil) mostravam uma crescente solidariedade na resistência aos nazistas e exigiam da parte da Gestapo medidas cada vez mais constantes e drásticas. Na Dinamarca, a atitude inicial de completa indiferença deu lugar a uma ativa campanha de sabotagem. Quando, ao expirar o mandato do Parlamento, os alemães permitiram fossem feitas novas eleições os dinamarqueses se viram ante o dilema de abandonar seu direito de voto ou parecer que apoiavam um governo de coalizão colaboracionista. Preferiram porém afirmar sua constante fé no regime parlamentar, dando 90% dos votos aos partidos moderados, embora esses, no momento, apoiassem um ministério que tinha a aquiescência dos alemães.

 

A situação na Dinamarca acompanhou dentro em pouco a das outros países ocupados. As eleições encorajaram a população a uma resistência mais audaz e, da parte do governo, uma atitude mais firme diante dos conquistadores. Em agosto a sabotagem se tornara tão espalhada que os alemães exigiram a entrega dos culpados às côrtes militares alemães. Esta exigência, visando a aplicação da pena de morte que a Dinamarca havia abolido, veio num momento em que o ressentimento fôra acirrado pela repressão na Noruega. O resultado foi uma série de revoltas populares. Em Odense registraram-se graves conflitos, em que foi morto um oficial alemão. A repressão levou a um aumento da sabotagem e a disseminação das desordens. A aplicação, pelos alemães, do estado de sítio a uma cidade após outra, servia apenas para inflamar o ânimo popular. Os apelos feitos pelo rei e o governo para que cessassem os atos de hostilidade conduzentes a represálias, não foram ouvidos. Aos atos de sabotagem, seguiram-se as greves, e a ocupação militar de Copenhague a 21 de agosto trouxe a ameaça de uma greve geral por todo o país. A 28 os alemães apresentaram um ultimato exigindo a proclamação da lei marcial, do julgamento militar para os sabotadores, e severas penalidades para os autores de outros atos de resistência. Foi noticiado que o rei ameaçou abdicar se tal fosse aceito. O governo dinamarquês rejeitou francamente a exigência alemã. Os alemães responderam com a suspensão da autoridade governamental, mantendo o rei e seus ministros sob custódia, e apoderando-se do controle do país por meio da lei marcial. Suas tentativas de apoderar-se dos quartéis reais e do estaleiro naval resultou numa breve resistência militar. A pequena frota dinamarquesa foi posta ao fundo voluntariamente pelas próprias tripulações ou fugiu para portos suecos, e desta forma tornou-se ainda mais profunda a separação entre os dinamarqueses e seus vencedores. Mais uma vez os nazistas haviam despertado a coragem e a capacidade de sacrifício de uma população submetida, que se lhes opunha com poucos recursos e ao risco de temíveis represálias.

 

Tratava-se de forças que os aliados, tanto quanto os alemães, tinham de levar em consideração. Dentro da Fortaleza Européia encontravam-se populações escravizadas que esperavam ansiosas um ataque aliado como sinal para se voltarem contra os opressores, empregando nisso todas forças que ainda restavam. Era uma das tarefas das Nações Unidas manter vivo este espírito, dando-lhes o comando e as armas que permitissem às forças de libertação dentro da Europa cooperar com os invasores aliados. Corriam boatos de que pára-quedistas britânicos haviam saltado na Noruega e que aviões aliados estavam deixando cair armas para os patriotas franceses. Mas, juntamente com as palavras de encorajamento vindas do exterior, chegavam também apelos para que o povo dos territórios ocupados se mantivesse paciente. A ação prematura somente enfraqueceria o movimento sem conseguir qualquer resultado significativo. Era de importância vital fortalecer o movimento subterrâneo, mas era quase tão importante sofreá-lo até que chegasse o momento em que pudessem agir de modo a produzir o máximo efeito.

 

Problemas das Nações Unidas

 

Na batalha da produção as Nações Unidas, tanto quanto o Eixo, estavam subordinadas às exigências da guerra total. Mas nem todos os países aliados foram levadas a medidas igualmente extremas. Havia passado a fase em que procuravam superar um inimigo já em plena produção de guerra; em realidade, a Inglaterra afirmava estar produzindo tanto material de guerra quanto a Alemanha. Era o Eixo que devia agora encontrar as reservas necessárias para manter o ritmo dos seus adversários, cujo potencial de guerra apenas começava a ser utilizado. Mas se os aliados, em conjunto, encontravam-se sob uma pressão menos desesperada, enfrentavam empreendimentos formidáveis que exigiam que concentrassem o máximo de esforços num mínimo de tempo. Quanto mais demorassem para mobilizar todos os seus recursos, mais longa e mais difícil seria sua tarefa. O fato de que as medidas tomadas pelos aliados eram menos drásticas que as dos do Eixo revelava, em certos aspectos, que possuíam mais reservas e que dispunham ainda de capacidade de mobilização.

 

A intensidade do esforço de cada país isoladamente era de fato determinada pela vulnerabilidade de seu próprio solo ao poderio militar concentrado do Eixo. O perigo desesperado em que se encontrava a Rússia exigia que todas as parcelas de energia fossem empregadas na tarefa de sobreviver. Por mais ansiosos que pudessem estar a Inglaterra e os Estados Unidos em enviar-lhe todo o auxílio a seu alcance, sua contribuição ficava limitada por suas próprias obrigações e recursos. Nada do que fizessem poderia justificar qualquer afrouxamento por parte da Rússia de empregar todo seu poderio contra o invasor.

 

A tarefa se tornara mais difícil em conseqüência das perdas russas causadas pelo avanço alemão. A perda das regiões industriais de oeste, dos depósitos de carvão, ferro e manganês nas zonas ocupadas, dos férteis campos da Ucrânia, somente poderia ser superada através dos mais denodados esforços para desenvolver novas áreas nos Urais e mais além. A perda de 70 milhões de habitantes da população russa de pré-guerra, e as pesadas baixas sofridas pelo exército impunham esforços terríveis no potencial humano restante. A façanha russa de conseguir novas tropas e armas que tornaram possível a ofensiva de inverno foi uma vitória da organização e da força de vontade, e somente possibilitado pela redução da população civil ao estritamente necessário à subsistência. A produção de mercadorias para o consumidor cedeu lugar às necessidades do exército. A exigência, por parte da indústria de guerra, do potencial elétrico e combustível significava que os civis haviam sido quase inteiramente privados de aquecimento e eletricidade durante o inverno de 1942. O fardo do esforço de guerra sobre o sistema de transporte afetava a distribuição não apenas de combustível mas também de alimentos, e a gravidade da escassez de víveres significava que só seria possível manter rações adequadas por meio de consideráveis importações do exterior. O êxito da ofensiva de inverno aliviou a situação militar, mas a capacidade da Rússia para suportar novos sacrifícios havia diminuído seriamente depois de dois anos de guerra, e o prolongamento dessa situação poderia levar a população russa muito próximo ao ponto em que não pudesse mais suportar os sacrifícios.

 

Nenhum outro país entre as Nações Unidas suportou tais sacrifícios e privações. A dura necessidade obrigou a União Soviética a reduzir sua economia civil a um esqueleto, enquanto as nações ocidentais ainda sentiam ser possível manter certa margem acima das necessidades mais estritas. Na Inglaterra, entretanto, a margem era pequeníssima. Nos perigosos meses depois de Dunquerque e da Batalha da Grã-Bretanha, quando os bombardeiros noturnos martelavam as cidades e as crescentes perdas navais no Atlântico perturbavam completamente as linhas de abastecimento, a nação sabia que estava à beira do desastre. Reuniu todas as suas energias para enfrentar o perigo, para cobrir as perdas sofridas e organizar as forças armadas e criar capacidade de produção que lhe permitiria não somente manter-se contra novos assaltos, mas conseguir passar mais uma vez à ofensiva.

 

Na primavera de 1943 tornaram-se evidentes os frutos desses esforços. A produção em 1942 foi cinqüenta por cento maior do que no ano anterior, e continuava crescendo. No fim do ano a produção foi de fato o dobro daquela do mesmo período de 1941, e em certos produtos subiu ainda mais. O número de bombardeiros pesados produzidos em fevereiro de 1943, por exemplo, foi quatro vezes maior do que o do mês correspondente de 1942, e o Ministro da Produção declarou que um terço das fábricas estavam produzindo armas de tipos novos. Juntamente com o aumento da produção industrial, aumentava também a produção agrícola. A necessidade urgente de poupar praça nos navios foi resolvido pela combinação de aumento da produção e diminuição na procura de gêneros alimentícios. Em 1943 a Inglaterra aumentara sua produção interna de alimentos em 70%. Quando a isso foi acrescentada a economia conseguida por meio do racionamento de produtos tais como a carne e o queijo (embora o pão continuasse fora do racionamento) o resultado foi que a Inglaterra precisou importar apenas um terço de seu abastecimento de gêneros alimentícios ao invés de dois terços, como acontecia antes da guerra.

 

Mas embora a produção se mantivesse em alto nível, isso resultava principalmente de novas instalações e métodos melhores de trabalho ao invés de um aumento na mão-de-obra. Ao fim de 1942, havia muito poucas reservas de mão-de-obra. A produção civil de roupas e artigos semelhantes havia sido drasticamente reduzida. Artigos para exportação, com exceção daqueles ligados diretamente às necessidades militares, haviam sido reduzidos a uma fração do volume de antes da guerra. Nos dois anos anteriores já fôra posta em prática a política de fundir num só vários estabelecimentos menores que trabalhavam para as necessidades civis, e isso deixara para as indústrias de guerra mais 250.000 trabalhadores. O emprego tanto de homens como de mulheres fôra estritamente controlado, e ambos os sexos estavam sujeitos ao trabalho compulsório tanto civil como militar.

 

O resultado foi uma eficaz concentração das energias nacionais para fins de guerra. Em setembro de 1942, Mr. Bevin declarou que de 33 milhões de pessoas entre 14 e 65 anos de idade, aproximadamente 24 milhões haviam sido mobilizadas completamente para o serviço nacional de um modo ou de outro. Durante o inverno houve esforços para diminuir ainda mais a pequena margem existente. A expansão do emprego de mão-de-obra se tornara ainda mais difícil pela ampliação dos limites de idade para convocação tanto para homens como para mulheres, para as forças armadas. Com dois terços do total de mulheres inglesas (cerca de sete milhões), mobilizadas completamente para um ou outro serviço, era muito limitada sua capacidade de substituir o serviço masculino. Uma concentração ainda mais drástica das indústrias civis, e a pressão no sentido de aumentar o número de trabalhadores parcialmente mobilizados, continuava a ser o método principal com que contava o governo para dispor de mais operários para a produção de guerra inglesa que aumentava.

 

Através dos oceanos, os domínios ingleses eram também assoberbados pelos crescentes problemas de um esforço de guerra cada vez maior. Nem as restrições à vida civil nem o alcance de sua mobilização do potencial humano haviam alcançado um aspecto comparável com os da Grã-Bretanha. Nenhum dos domínios impôs o serviço militar obrigatório para além-mare na prática o emprego de mão-de-obra mobilizado era ainda limitado. Apesar de tudo, a magnitude do esforço de guerra somada ao desenvolvimento de sua economia de guerra acarretava uma drástica transformação e fazia com que os aliados se vissem a braços com problemas sérios, em seus esforços para utilizar integralmente seus recursos para fins de guerra.

 

O avanço do Japão e a ameaça de uma possível invasão fez com que a Austrália se lançasse ativamente na guerra. Em abril de 1943 suas forças armadas elevavam-se a 800.000 homens, e as exigências sobre seus recursos produtivos determinaram um sério problema de mão-de-obra. A Nova Zelândia era um caso muito semelhante. Além da crescente demanda de materiais de guerra e do desvio tanto de homens como de mulheres da indústria para as forças armadas, a chegada de tropas americanas no Pacífico Sul aumentou suas obrigações. Era preciso encontrar mão-de-obra para a construção de instalações. Abastecimentos alimentícios adicionais eram exigidos pelas forças armadas nessa região. Em fevereiro de 1943 a Nova Zelândia experimentava uma escassez crítica de mão-de-obra para o trabalho agrícola, estando também em dificuldade para fornecer os homens necessários à indústria de guerra. A Austrália reduzira de 65% o número de pessoas empregadas em atividades civis, enquanto o total dos trabalhadores das fábricas subiu de 40%. Aproximadamente três quartas partes desses empregavam-se agora na produção de guerra, e o esforço para conseguir um afluxo de 35.000 homens e mulheres por mês para o esforço de guerra somente podia ser conseguido se fossem tomadas medidas muito mais drásticas com relação às mercadorias e aos serviços de caráter civil, bem como um controle ainda mais rígido sobre a distribuição de mão-de-obra.

 

No Canadá também estava em perspectiva uma nova fase de ajustamento, uma vez que as reservas de potencial humano existentes estavam desfalcadas pelas exigências do esforço de guerra. Na primavera de 1943, as forças armadas compunham-se de 700.000 homens. As necessidades das forças terrestres, cujo efetivo básico fixado em três divisões de infantaria, duas divisões motomecanizadas, e duas brigadas de tanques, impunham a criação de reservas e de pessoal de substituição. Mas uma vez que esta força pesadamente mecanizada se destina a operações de choque, aquelas necessidades não poderiam ser pequenas quando as referidas forças tomassem parte nas operações de invasão. Novas medidas a respeito do problema dos comboios tornavam ainda maiores as necessidades da marinha canadense. A aviação, de mais de 200.000 homens, que fornecera aproximadamente uma quarta parte dos efetivos do pessoal aéreo da RAF, aumentava para 38 o número de grupos de aviação puramente canadense, o que exigiria 53.000 novos recrutas no ano seguinte.

 

Essas necessidades, em si mesmas, podiam ser atendidas por meio de sacrifícios relativamente moderados por parte da estrutura econômica do Canadá. Entretanto, quando a essas necessidades se somaram as exigências da indústria de guerra, o efeito devia ser muito mais drástico. O Canadá era agora o quarto produtor de abastecimentos de guerra entre as Nações Unidas, estando quase na mesma situação das três grandes potências. Menos de um terço de sua produção de guerra era empregado para suprir suas próprias forças armadas. O restante se destinava às necessidades das Nações Unidas. A metade dos transportes mecanizados do 8o Exército vinha das fábricas canadenses. A produção de navios e aviões, de produtos químicos e explosivos, instrumentos e material de comunicação (que quase não existiam antes da guerra) atingia agora consideráveis quantidades. O crescimento fôra acelerado pelas encomendas americanas, de acordo com o tratado de Hyde Park. Mas, ao contrário da maioria das Nações Unidas, o Canadá não recebia nada pela lei de empréstimos e arrendamentos. Ao invés disso, fizera à causa comum uma doação gratuita de um bilhão de dólares em alimentos e material de guerra em 1942. Esta doação foi feita nominalmente à Grã-Bretanha, mas esta transferira para outros países parte das mercadorias recebidas, e os tanques canadenses, entre outros materiais, estavam sendo enviados para a Rússia durante o ano de 1942. Em 1943, outra doação do mesmo valor foi feito às Nações Unidas, e o Canadá tratava agora diretamente com países como a Rússia, a China e a Austrália, ao invés de fazê-lo tendo a Inglaterra co:no intermediária.

 

Na primavera de 1943 a escala desse esforço de guerra num país de onze milhões de habitantes exigia novos reajustes na estrutura econômica. Os planos para esse ano previam a produção de 3.425.000.000 de dólares, o que era três vezes e meia maior do que o total de sua contribuição durante toda a primeira guerra mundial. Embora aproximadamente um milhão de trabalhadores estivessem empregados na indústria de guerra, havia séria escassez em mineração, madeira e aço, e a política posta em prática não oferecia soluções adequadas. Apesar da extensão da autoridade governamental sobre todos os recursos nacionais, as medidas tomadas tinham ainda um caráter experimental. Certa restrição de mercadorias destinadas ao consumo civil resultara da escassez de material e da proibição de certos artigos - particularmente automóveis e equipamento elétrico - cuja manufatura poderia prejudicar a produção essencial para a guerra. Em abril foram impostas certas restrições quanto ao emprego em estabelecimentos tais como tavernas, salões de beleza, e teatros. Mas não havia ainda um esforço adequado no sentido de distinguir a produção essencial daquela que não o era ou de transferir a mão-de-obra de uma indústria para outra, estando apenas no início o emprego de mulheres na indústria de guerra. A utilização do potencial humano continuava sendo o ponto mais fraco do esforço de guerra do Canadá.

 

Além da indústria, a agricultura apresentava um sério problema, não somente para o Canadá mas para toda a América do Norte. A aplicação do racionamento alimentar tanto no Canadá como nos Estados Unidos parecia para muitos cidadãos um incompreensível paradoxo nesses países de fartura. Entretanto uma combinação de fatores elevou as exigências potenciais acima do suprimento disponível, e obrigou a uma limitação de certos produtos do consumidor civil, no interesse do esforço de guerra geral.

 

O fator mais evidente eram os pedidos que os países deficientes na produção de alimentos, especialmente a Rússia e a Inglaterra, faziam aos Estado Unidos e ao Canadá. Isso, provavelmente, era mais importante para o Canadá do que para os Estados Unidos, e tanto mais quanto transferia a atenção de um produto que existia em abundância para outro cuja produção tinha de ser grandemente aumentada. O trigo constituía um exemplo: o Canadá continuava amontoar grandes excessos em vista da pouca procura do exterior. Em carne e produtos de granja, por outro lado, havia a urgente necessidade de aumentar a produção particularmente para fazer frente às necessidades da Inglaterra. Mais de 225 milhões de quilos de presunto e toicinho - 75% da produção canadense - foram exportados em 1942, além de 257 milhões de quilos de carne enlatada, e toda a produção de salmão. Cerca de 65% do queijo do Canadá, e 15% dos ovos foram enviados para o estrangeiro. Embora a produção canadense de gêneros alimentícios fosse a maior de sua história, havia pouco excesso desses produtos para consumo interno. A exportação pouco significava no caso dos Estados Unidos. O embarque de mantimentos para os Estados Unidos e a Rússia, embora em si mesmo considerável, correspondia apenas a uma parte da produção nacional, e era em parte compensado pelos alimentos que eram fornecidos, no local, às forças dos Estados Unidos na Austrália e na Inglaterra. Mas havia outros fatores que também atingiam o Canadá. As necessidades das forças armadas não somente se elevaram acima do nível civil, mas se complicaram pelo fato de que tais forças tiraram para si um número considerável de homens da produção agrícola. À resultante escassez de mão-de-obra, acrescentou-se a escassez de equipamento agrícola mecânico. Dificuldades variadas e o aumento dos pedidos por parte da população civil complicaram ainda a situação. Mesmo assim, eram moderadas as restrições do racionamento e a população civil não tinha rações para temer qualquer coisa que se parecesse à privação. Comparados com a Europa, os Estados Unidos eram ainda um país de abastança; mas a ilusão de que ele possuía um excedente indefinido de onde podia alimentar um mundo esfaimado deveria ser seriamente modificada quando se viu o quão depressa a margem de excesso poderia ser exaurida pelas exigências de um esforço militar unido.

 

Na organização geral da nação para a guerra, os Estados Unidos haviam feitos grandes avanços, cujo significado ficava um pouco obscurecido pelas dificuldades e dissenções que os acompanhavam. O problema era mais tremendo do que o caso do Canadá e em vários modos mais complicados que o caso da Inglaterra. A tarefa dificilmente poderia ser comparada à que a Rússia enfrentava em meio à invasão, mas as facilidades em realizá-la eram em certos aspectos inferiores às da União Soviética. Mesmo que o governo central possuísse poderes comparáveis, sua aplicação teria sido mais difícil num país em que a tradição do individualismo estava tão fortemente enraizada. Mas, mesmo não levando absolutamente em consideração a estrutura federal dos Estados Unidos, o governo central estava composto de modo a dificultar a adoção de uma política compreensiva e eficiente. Quando os homens que redigiram a Constituição separaram deliberadamente as fontes do poder, deixaram o caminho aberto para um conflito de iniciativa entre o executivo e o legislativo, e para um impasse que poderia pôr a perder a eficácia de cada um dos poderes, impedindo qualquer deles de se colocar à altura de uma situação de emergência. Enquanto o presidente significava a escolha de uma maioria nacional, os representantes ao Congresso eram mais o produto de interesses locais, e a falta de uma dependência mútua direta da parte do chefe do executivo e da maioria legislativa deixava esta última livre para concentrar-se sobre as assuntas de política interna ou para agir como instrumento dos grupos que ocupavam lugar importante no sistema político americano.

 

Foi essa a situação surgida quando um novo Congresso com uma representação republicana grandemente aumentada se reuniu no começo de 1943. Houve uma unanimidade virtual no desejo de prosseguir a guerra com o máximo vigor. Os créditos num total sem precedentes de 100 bilhões de dólares foram aprovados, para fins de guerra. A Lei de Empréstimos e Arrendamentos, pela qual um auxílio que se elevava a 10 bilhões - já igual às dívidas de guerra aliadas em 1920 - fôra aumentado, continuava em vigor. A vasta expansão do exército e da marinha foi aceita sem debates. Mas na organização da frente interna, tão vital para um eficiente esforço de guerra, surgiram lutas políticas sérias e apaixonadas. Quase todas as principais recomendações do governo a respeito da taxação e do controle de preços e relações de trabalho encontraram a oposição do Congresso. Ao mesmo tempo havia considerável impaciência quanto ao fato do governo não tomar medidas eficientes a respeito da organização da produção e pela maneira com. que era tratada a questão do potencial humano. Em abril de 1942, foi instalada uma "Comissão Bélica do Potencial Humano, e seus poderes foram aumentados em dezembro; mas embora pudesse controlar a transferência de mão-de-obra, sua autoridade não chegou a impor o trabalho obrigatório. Em maio de 1943, foi criado um "Escritório de Mobilização de Guerra", com o objetivo de obter o controle central sobre os vários aspectos da produção de guerra e terminar com os conflitos de autoridade entre as principais repartições governamentais. Mas permaneciam divisões fundamentais que precisavam ser solvidas antes que as energias completas da nação pudessem ser canalizadas para um esforço completo e coordenado.

 

Atrás dessas perturbações, entretanto, realizava-se um poderoso esforço de guerra. Em meados do verão aproximadamente dois terços da produção industrial americana estava empregada para fins de guerra, e o programa do ano previa um aumento de 80% na produção de guerra com relação a 1942. Havia indícios de que isso viesse a ser uma previsão otimista. A produção durante os três primeiros meses estava muito abaixo do previsto e um aumento de 7% em abril foi em parte contrabalançado por um ligeiro declínio em maio, ao invés do novo aumento. Mas com a produção de 2.000 tanques e mais de 7.000 aviões por mês, e com a fato de serem os navios mercantes produzidos numa média de seis por dia, a formidável façanha americana era muito pouco atingida pelas dificuldades que retardavam a convocação do máximo de produção.

 

A transformação das Nações Unidas de uma estrutura de paz para uma economia de guerra teve profundas repercussões nas condições de vida, algumas das quais deixariam marcas permanentes nos hábitos nacionais. Mesmo na América, onde o nível de vida civil permanecia uma utopia comparado com o da União Soviética, ou mesmo com o da Inglaterra, esperavam-se várias restrições. Mas a mudança mais importante de todas era a redistribuição de populações em conseqüência do aumento das indústrias de guerra. A concentração de consumidores na Inglaterra, acompanhado pelo crescimento e descentralização das indústrias de guerra, poderia importar numa mudança considerável no aspecto do país. No Canadá e nos Estados Unidos muitas zonas se desenvolveram tremendamente e muitos centros rurais transformaram-se em grandes distritos industriais. Na Rússia a mudança foi ainda mais profunda. A perda das zonas produtoras no ocidente lançara um fardo tremendo sobre os novos distritos industriais nos Urais e na Rússia Asiática. A transformação dessas regiões, já começada nos planos qüinqüenais, foi vastamente acelerada pelas necessidades da guerra. O centro de gravidade de toda a União Soviética estava sendo transferido para leste, com incalculáveis conseqüências sobre seu futuro desenvolvimento.

 

O Progresso da Unidade

 

Essas dificuldades da frente interna das Nações Unidas eram, tanto em sua natureza como em intensidade, diferentes das que se faziam sentir sobre a Alemanha. Similarmente, o problema de coordenar os esforços das Nações Unidas, embora continuasse absolutamente real, nada apresentava das dificuldades que se tornavam tão evidentes dentro das fileiras do Eixo.

 

As dificuldades maiores apareceram nas relações entre a Polônia e a União Soviética. Apesar do reatamento de relações em julho de 1941, o antagonismo latente entre os dois países estava longe de ser removido. Era agravado pela incessante atividade de vários grupos de emigrados poloneses que permaneciam vigorosamente antibolchevistas e que acariciavam aspirações no sentido de uma Polônia maior, que incluísse a Ucrânia. O governo de Sikorski evitou tais extremos, mas não fazia segredo de sua determinação de garantir a restauração de toda a Polônia de antes da guerra. O governo soviético, por seu lado, agia segundo o ponto de vista de que as anexações de 1939 deviam permanecer como parte integrante da União Soviética. Tratava os antigos habitantes da Polônia oriental como cidadãos soviéticos, e tal atitude agravava a inquietação dos poloneses com respeito à linha divisória definitiva.

 

A questão chegou a um ponto crítico em fins de fevereiro. Em declaração oficial, o governo polonês, embora manifestando sua amizade para com a Rússia, protestou contra os atos do governo soviético e insistiu na restauração do território de antes da guerra. Houve uma troca de ásperas declarações em que o porta-voz russo acusou o governo de Sikorski de intenções expansionistas e de representar somente a camarilha de latifundiários, acusações essas que receberam o apoio da União dos Patriotas Poloneses que se formara em solo russo. Outras questões agravavam a contenda, entre elas a responsabilidade pelo fato das forças polonesas organizadas na Rússia depois da invasão alemã não tomarem parte ativa na luta. O clímax foi alcançado em abril em conseqüência do suposto massacre de prisioneiros de guerra poloneses. A maior parte dos que haviam sido mantidos na Rússia foram postos em liberdade depois do ataque alemão, mas cerca de 8.000 estavam desaparecidos. Subitamente Goebbels viu nesta situação uma oportunidade para um golpe, de mestre. Os alemães anunciaram ter descoberto os cadáveres dos poloneses desaparecidos, numa vala comum nas proximidades de Smolensk, onde teriam sido massacrados pelos russos. Os poloneses abriram inquéritos e solicitaram à Cruz Vermelha que investigasse. A Rússia respondeu rompendo relações com o governo polonês em Londres, acusando-o de auxiliar a propaganda nazista. A luta tomou aspecto absolutamente claro, em meio a duras recriminações de ambos os lados.

 

Felizmente os piores aspectos da questão foram aplainados, embora perdurassem as causas. A Inglaterra e os Estados Unidos intervieram para induzir tanto a Polônia como a Rússia a que agissem com moderação. Os poloneses continuaram a protestar seu desejo de cooperação com a Rússia e deixaram que a questão serenasse. O governo soviético mostrou também uma atitude promissora. Stalin já expressara seu desejo de ver uma Polônia forte e independente, e em começos de maio ofereceu uma aliança formal caso os poloneses a desejassem. Nada foi feito para resolver o caso das fronteiras, mas os poloneses foram persuadidos a esperar por um momento mais conveniente para apresentarem suas reivindicações. E, entrementes, seus protestos de amizade e sua determinação sem reservas de lutar pela derrota da Alemanha trouxeram certa esperança de que a razão e a moderação pudesse ainda prevalecer nas decisões do governo polonês em Londres.

 

As deliberadas expressões de boa vontade da parte de Stalin para com a Polônia indicavam uma crescente cordialidade por parte da Rússia para com as Nações Unidas em geral. A primeira atitude de desconfiança, que ficara particularmente evidenciada durante o ano de 1942 a respeito da segunda frente na Europa, parecia ter desaparecido. A ordem do dia de Stalin emitida a 1o de maio exaltava os esforços comuns dos aliados e expressava a confiança na vitória como resultado de seus esforços comuns. A imprensa russa pagou tributo à eficácia da ofensiva aérea no ocidente e saudou a conquista da Tunísia como uma contribuição efetiva à causa comum. O aniversário da aliança anglo-soviética foi aproveitado como oportunidade para um tributo à sua importância não somente para a guerra mas também no período de paz vindouro. Não havia ainda uma completa coordenação militar. A Rússia não foi representada nas discussões de Washington, em maio, e o desejo expresso de Roosevelt para um encontro com Stalin estava ainda para realizar-se. Mas parecia evidente que Stalin estava plenamente informado dos planos ingleses e americanos e razoavelmente satisfeito com as perspectivas; e sua troca de cartas com Roosevelt, tendo Joseph Davies como emissário, teve lugar em meio a francos sinais de cordialidade, embora não fosse tornado público o conteúdo das mensagens. Mesmo os renovados sinais de impaciência durante o verão, expressos com certa frieza com relação à conferência de Quebec e numa renovação do clamor pela segunda frente, não obscureceu completamente a impressão de que uma aproximação mais estreita se efetuava gradualmente. E embora as necessidades russas fossem bastantes para levá-la a enviar um delegado à conferência de alimentação das Nações Unidas, reunida em maio, isso também era um indício de que a União Soviética marchava em direção a uma cooperação maior com os estados democráticos.

 

Dentro desta situação, a dissolução da Terceira Internacional foi um acontecimento altamente significativo. Reunido a 15 de maio, o Presidium do Comitê Executivo da Terceira Internacional decidiu formalmente que a unidade na luta contra o hitlerismo poderia ser conseguida de forma melhor "pela vanguarda do movimento da classe trabalhadora em cada país separado, trabalhando dentro da estrutura de seu próprio país". Em realidade, o papel do Comintern vinha declinando cada vez mais desde os primeiros dias da revolução russa. Nenhum congresso fôra realizado desde 1935 e embora o executivo tivesse continuado como guia e mentor dos partidos comunistas de outros países, fizera isso com limitada sabedoria e com êxito ainda mais duvidoso. Por outro lado, sua dissolução voluntária não significava necessariamente que a influência de Moscou sôbre o movimento comunista no estrangeiro fosse desaparecer. Mas a existência formal do Comintern fornecera um ponto de convergência para as forças da reação em outros estados, e dera aos nazistas uma de suas mais poderosas armas de propaganda para ser usada não somente na Alemanha, mas por toda a Europa e tanto no Japão como na América Latina. Em vista disso tudo, a existência do Comintern era, para a União Soviética, mais um prejuízo que uma vantagem. A perturbação que o Eixo manifestou diante da notícia da dissolução do Comintern foi bem uma prova da importância desta arma no arsenal fascista, e, por outro lado, conforto que veio dar aos tímidos conservadores dentro dos Estados Unidos pagaria muito bem os soviéticos pelo sacrifício de um instrumento de valor tão duvidoso.

 

De acordo com esta marcha dos acontecimentos, também se pode considerar como elemento de progresso a unificação das forças francesas de libertação. Seria longo e penoso desenredar a confusa situação que se seguiu à invasão da África do Norte, mas, gradualmente, apesar de muitos recuos e atrasos, os fatos se foram esclarecendo. Grande parte da dificuldade residia na rigidez com que tanto de Gaulle como Giraud se apegavam a seus respectivos pontos de vista. Numa situação que exigia ao mesmo tempo tato e flexibilidade, de Gaulle revelava os defeitos decorrentes de suas grandes qualidades. Tomara sua firme e corajosa atitude sobre a continuação da resistência francesa quando apenas um punhado de franceses sentiram que havia ainda uma causa a defender. Ele transformara esta causa em algo vivo e dinâmico. Foi em grande parte devido à sua incansável tenacidade nos dias mais negros que a estrela da França começou novamente a brilhar, e era para ele que milhões de franceses se voltaram à procura de liderança na luta crescente pela libertação. Não é surpreendente que ele e seus partidários sentissem que haviam sem a menor dúvida conquistado este direito de liderança, e que a causa pela qual vinham lutando pudesse estar agora ameaçada se antigos colaboracionistas tomassem parte na direção. De outro lado encontrava-se Giraud, preocupado com planos militares e pondo de lado, com certa ingenuidade, as considerações políticas, acreditando simplesmente que qualquer um que servisse consigo era um patriota sincero cujos serviços não deviam ser rejeitados por motivo de passagens obscuras num passado recente.

 

Esses pontos de vista opostos perturbavam o trabalho no sentido da unidade que os dois generais tão ansiosamente procuravam. No fim de maio realizou-se por fim uma conferência em Argel que lançou as bases para uma autoridade efetiva sobre os territórios franceses libertados. Um Comitê de Libertação Nacional foi organizado, composto de sete membros e tendo como presidentes de Gaulle e Giraud. Este organismo anunciou que exercia o poder sobre todo o território francês que não estivesse ocupado pelo inimigo, bem como autoridade sobre todas as forças francesas combatentes. Para realizar isso foi organizada uma comissão de catorze membros, também sob a presidência dos dois líderes.

 

Não terminara, entretanto, a dissenção. De Gaulle mostrou imediatamente certa tendência para utilizar esta nova organização para consolidar sua própria autoridade e expurgar a administração existente de antigos colaboracionistas como Peyroutou e Noguès. E, o que era mais crítico, pediu para que o expurgo se estendesse às forças armadas. Não confiava nos generais mais velhos cuja obstinada resistência à idéia de um exército mecanizado tal como de Gaulle advogara antes da guerra, indicava o espírito que levara a França ao desastre militar. Recordava amargamente o revés de sua expedição a Dakar e a resistência que havia sido oferecida pelas tropas de Vichy na Síria. Exigia uma reorganização completa que tirasse do exército os velhos oficiais. Queria tomar para si o posto de comissário da Defesa, que Giraud mantinha juntamente com seu cargo de comandante em chefe e reforçou suas exigências retirando-se do serviço ativo e ameaçando resignar do Comitê de Libertação.

 

Isso era levar a questão longe demais. Os aliados estavam empenhados em reorganizar e armar cerca de 300.000 homens sob o comando de Giraud. Uma drástica "limpeza" nesse exército significaria um atraso que podia vir a ter grave resultado sobre os planos militares. A Inglaterra e os Estados Unidos intervieram para preservar a autoridade de Giraud e impedir qualquer interferência séria com as medidas já tomadas. Os elementos moderados, como o general Catroux persuadiram de Gaulle a abandonar suas exigências por meio de um acordo em que as forças da África do Norte e os Franceses Combatentes ficaram como dois organismos independentes, com um comitê militar permanente para coordenar as atividades. Foi uma transigência que em realidade nada resolveu, mas que de momento serviu para amortecer a crise.

 

O fato evidente era que a unidade, embora difícil de conseguir-se, estava-se impondo por si mesma. O renascimento da França e sua aceitação corno membro ativo dos aliados somente poderia verificar-se se todas as facções subordinassem suas diferenças no interesse de uma finalidade comum. Embora Giraud e de Gaulle pudessem divergir, nenhum deles, em última análise, poderia tomar a responsabilidade de fechar o caminho para um acordo final. E por inexplicáveis que fossem as dúvidas que a Inglaterra e a França pudessem ter a respeito das finalidades e da conduta do Comitê ou sobre a personalidade dos dois líderes, dificilmente poderiam evitar um reconhecimento mais completo de suas reivindicações, uma vez conseguida a unidade.

 

Em fins de julho, foi dado um grande passo em direção a esse objetivo. A questão da unidade militar, de importância fundamental para todo o empreendimento, chegou finalmente a uma solução aceitável. O obscuro compromisso de junho foi posto de lado. Giraud foi colocado no comando de todas as forças francesas. Continuou a presidir o Comitê sempre que se discutiam assuntos militares. Quando deviam ser discutidos outros assuntos, a presidência cabia a de Gaulle. Este era também presidente do Comitê de Defesa Nacional, exercendo desta forma certo controle na política militar geral. O acordo fortaleceu a unidade do Comitê de Libertação Nacional e deu nova força à sua pretensão de ser reconhecido como órgão defensor dos interesses franceses. Isso foi um dos assuntos discutidos em Quebec; e o resultado foi a declaração de 27 de agosto, tratando do reconhecimento provisório e limitado do Comitê por parte dos aliados ocidentais. Os Estados Unidos reconheceram o Comitê como "administrador dos territórios franceses de além-mar que reconhecem sua autoridade", expressando assim uma simples simpatia em relação ao desejo do Comitê de representar os interesses da França. A Inglaterra e o Canadá foram um pouco mais longe, assegurando ao Comitê sua intenção de tornar efetivo tanto quanto fosse possível o seu desejo de defender e administrar todos os interesses franceses. A Rússia seguiu-se com um reconhecimento mais amplo do Comitê, considerando-o como representante dos interesses da República Francesa e de todos os franceses em luta contra os alemães. Esta declaração estava mais próxima daquilo que o Comitê desejava da parte dos aliados, mas mesmo os pronunciamentos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha davam-lhe nova situação que marcava um grande avanço em suas posições mesmo que ele ainda não fosse considerado membro integral das Nações Unidas.

 

A Suécia e a Espanha

 

À margem do conflito mundial, formalmente alheios a uma participação integral embora diretamente afetados pelo curso da guerra e profundamente preocupados com seu resultado, encontravam-se uns poucos países neutros entre os pequenos estados europeus. Em 1943 as piores dificuldades com que se haviam anteriormente defrontado a Suíça e Portugal, e que em várias ocasiões parecia marcá-los como as próximas vítimas da agressão do Eixo haviam diminuído em grande parte, embora esses países continuassem assoberbados por problemas econômicos e políticos conseqüentes de sua posição isolada num mundo em guerra. A Suécia e a Espanha, por outro lado, enfrentavam ainda a necessidade de realizar ajustamentos progressivos com relação às mudanças na situação geral, resultantes da mudança na correlação de forças estratégicas. E a política desses países oferecia não somente um contraste em atitude e conduta, mas uma demonstração profundamente significativa do declínio das possibilidades da Alemanha e de seus associados.

 

O esforço bem sucedido da Suécia de evitar ser arrastada à guerra prosseguiu enfrentando crescentes complicações. Sua posição geográfica e suas ligações comerciais expunham-na a uma considerável influência alemã, mesmo em tempos normais. A ocupação alemã da Noruega e da Dinamarca significava o completo controle da saída do Báltico e colocava virtualmente o comércio externo da Suécia à mercê dos nazistas. A Alemanha precisava dos produtos suecos, especialmente madeiras e minério de ferro, e a necessidade da Suécia de mercados externos e fontes de importações necessárias, arrastavam os dois países para uma ligação econômica ainda mais estreita. Do ponto de vista comercial, as circunstâncias haviam obrigado a Suécia a entrar quase completamente para a órbita alemã.

 

Politicamente, entretanto, as relações eram muito menos estreitas. A Suécia fazia sérios e resolutos esforços para adotar uma atitude correta e imparcial baseada na manutenção de seus legítimos direitos de nação neutra, e de seu desejo de evitar ofender qualquer dos beligerantes. Isso era muito mais difícil de conseguir. Uma de suas principais concessões à Alemanha era o direito de trânsito, para a Noruega, de soldados alemães desarmados, através do território sueco. Aparentemente, isso se destinava a permitir que os soldados alemães viajassem para seu país, em licença, e a Suécia insistia em que não estava dando aos alemães o direito de passagem para reforçar as tropas nazistas na Noruega. A Inglaterra, contudo, protestou energicamente contra isso e insistiu em que o fato era uma quebra da neutralidade. A Alemanha, por seu lado, protestou com igual vigor contra o fretamento de navios mercantes suecos pelos aliados, e lançava ataques periódicos contra a imprensa sueca por sua atitude inamistosa. Mas a Suécia continuava a resistir à pressão de ambas as direções e a manter uma atitude tão livre e independente quanto as circunstâncias pareciam permitir.

 

Quanto às simpatias populares, havia poucas dúvidas quanto ao lado a que as mesmas se inclinavam. A democracia parlamentar estava profundamente enraizada na tradição sueca, e sua atração pela Inglaterra baseava-se tanto na semelhança das instituições como numa amizade que durava havia longo tempo. Mas havia também um sentimento de afinidade para com a Alemanha embora fosse o mesmo seriamente modificado pela hostilidade geral ao nazismo. Do mesmo modo a posição da Suécia como principal nação escandinava envolvia um certo conflito emocional. A Suécia suspeitava, havia muito, da Rússia Soviética, e sentia uma profunda simpatia pela Finlândia mesmo depois desse país associar-se à Alemanha. Mas suas simpatias pela Noruega eram ainda mais fortes, e era constantemente assediada pelo perigo de represálias por parte da Alemanha e pelo fluxo de refugiados noruegueses que escapavam pela fronteira. Quando os métodos alemães na Noruega se tornaram mais severos, a hostilidade popular sueca para com os nazistas tornou-se mais precisa, refletindo-se numa atitude mais forte do governo em relação à pressão alemã.

 

O resultado foi o constante aumento na separação entre os dois países. Na abertura do Parlamento, em janeiro, o primeiro ministro chamou atenção para o fato da Suécia aumentar os preparativos militares e advertiu que resistiria à invasão de qualquer lado que partisse. Isso Poderia ser aplicado tanto para a Rússia como para a Alemanha; mas uma nova declaração de que haviam sido distribuídas instruções às tropas para que resistissem mesmo que fosse dada ordem de depor as armas, referia-se claramente ao estratagema usado pelos nazistas ao invadirem a Noruega, quando emitiram ordens falsas para que os noruegueses cessassem qualquer resistência. Durante toda a primavera continuaram as atritos entre os dois países. Novas medidas de grande rigor postas em prática na Noruega, aumentaram ainda mais a tensão existente, e as cerimônias fúnebres em memória dos mortos noruegueses, realizadas no começo de abril, não foram de molde a agradar os alemães. No fim de mês, um ataque alemão a um submarino sueco e a presença de minas alemães em águas territoriais suecas resultaram numa áspera troca de notas, e em uma ameaça por parte da Suécia de abrir fogo contra qualquer navio alemão que desrespeitasse sua neutralidade.

 

Atrás desta atitude mais firme estava não somente um ressentimento cada vez maior, mas o conhecimento da crescente poderio dos aliados. Enquanto havia perspectivas da Alemanha vencer a guerra ou de manter a maior parte de suas conquistas em resultado de um impasse militar, a Suécia não se arriscaria a uma ruptura com tão poderoso vizinho. No verão, tais perspectivas estavam quase completamente desvanecidas. Isso significava a diminuição do perigo de que a Suécia pudesse ser vítima do ataque alemão. Com suas tropas sofrendo dura pressão na Rússia, ameaçada de invasão pelo sul e pelo oeste, enfrentando a resistência nos países ocupados que lhe absorviam energias destinadas às frentes de batalha, a Alemanha não desejava agravar seus problemas levando outra nação, pequena mas resoluta, a formar ao lado dos povos inimigos, já tão difíceis de controlar. As vitórias aliadas deram à Suécia maior margem de ação e lhe permitiram tomar uma atitude mais firme em face dos nazistas.

 

A mudança ficou plenamente evidenciada pelo cancelamento do direito de trânsito das tropas alemães. Apesar da afirmação governamental de que tal concessão era compatível com a neutralidade, nunca houve tentativa de dissimular que o mesmo correspondia a uma lamentável e irritante necessidade. "É um dos fardos" - disse em abril o primeiro ministro - "que nosso país tem de suportar em conseqüência da guerra". Chegara agora a ocasião em que a Suécia podia livrar-se dessa desagradável obrigação. A 5 de agosto o governo anunciou que o tráfego seria detido a 20 do mesmo mês, e que o trânsito de material de guerra alemão para a Noruega também terminaria. Foi um gesto de desafio a que os alemães não mostraram desejo de enfrentar com medidas diretas. A pressão indireta ficou evidenciada pelos ataques efetuados no mesmo mês pelos navios de guerra alemães contra barcos pesqueiros suecos, ataques que justificavam a crença de que os nazistas pudessem tentar estrangular o comércio sueco. Mas permanecia clara a ampla significação da atitude sueca. Lera nas derrotas do Eixo na Rússia e na Sicília a próxima aproximação da queda da Alemanha nazista, e ela caminhara para uma separação mais clara com relação aos satélites do Eixo.

 

A situação da Espanha era muito mais difícil de ser remediada. Desde o começo da revolução contra o governo republicano, Franco esteve ligado pelos laços mais estreitos às potências fascistas. Sua vitória foi devido ao auxílio armado que recebeu delas. Sua ideologia tinha um substrato comum com as da Alemanha e Itália. Afirmava peremptariamente que seu triunfo significara o esmagamento do bolchevismo na Espanha pelas forças da civilização cristã e que a "Fera Vermelha" cujo covil era Moscou constituía uma ameaça contra a qual toda a Europa devia unir-se. Franco aderira entusiasticamente ao pacto anti-Comintern, e saudou a invasão hitlerista da Rússia como a prova final de que a luta era em verdade uma santa cruzada contra o perigo vermelho.

 

Seu entusiasmo, entretanto, não o levou até uma participação completa. Os falangistas mais extremados, inclusive Serrano Suner, advogavam a entrada da Espanha na guerra ao lado da Alemanha e da Itália. Mas a pavorosa devastação da guerra civil era por demais recente e a situação econômica do país por demais grave para que um passo dessa natureza fosse dado levianamente. Além disso, a Espanha precisava de suprimentos tanto da Inglaterra como dos Estados Unidos, e relutava em romper com esses dois países. A resistência de Franco aos que pretendiam tomar uma atitude extremada foi demonstrada pela demissão de Suner do cargo de ministro do Exterior, mas seu apoio básico ao Eixo era aberto e dedicado. A Inglaterra e os Estados Unidos continuavam a tentá-lo com palavras suaves e concessões comerciais, mas não conseguiam diminuir sua ligação com o Eixo. Franco continuava a manifestar sua confiança na vitória do nazi-fascismo, e seu ardente desejo de que a mesma se consumasse o mais depressa possível. Uma força de voluntários, a Divisão Azul, foi enviada para a frente russa. Franco expressou seu orgulho porque o sangue espanhol, juntamente com o sangue alemão, estava também correndo na realização da nobre tarefa. Não havia qualquer desejo de manter com relação à Rússia uma atitude de não-beligerância, e mesmo as potências ocidentais julgavam dúbia a neutralidade espanhola quando o chefe de estado atacava continuadamente o liberalismo e a democracia, qualificando-os de forças corruptas e moribundas do bolchevismo cuja condenação final estava iminente.

 

Esta atitude influenciou seriamente a invasão aliada da África do Norte. Houve um perigo real de que a resposta de Hitler fosse a invasão da Espanha e a ocupação das bases que dominavam o estreito de Gibraltar, sem oposição por parte de Franco. Houve mesmo a possibilidade de que a guarnição do Marrocos Espanhol se tornasse uma ameaça para o flanco das comunicações aliadas. Foi em grande parte por estas razões que um dos desembarques foi realizado em Casablanca a fim de manter garantido um porto no Atlântico para o caso em que a atitude da Espanha ameaçasse a entrada do Mediterrâneo; e durante todas as operações subseqüentes uma considerável força aliada permaneceu nas fronteiras do Marrocos Espanhol como uma salvaguarda contra um ataque repentino. Embora Franco não tomasse medidas efetivas, causava, por meio de suas declarações políticas, considerável preocupação aos aliados.

 

Pelo fim de 1942, entretanto, houve indícios de que algumas dúvidas começavam a invadir a mente do Caudilho. Podia-se verificar uma tendência para uma neutralidade mais firme por meio de tratativas com Portugal para a formação de um bloco ibérico. Nos meses seguintes, a desejada vitória alemã pareceu ainda mais remota. Em abril o ministro do Exterior Jordana começara a insinuar que a Espanha desejaria empregar seus bons ofícios para obter a restauração da paz, e a imprensa espanhola começou a clamar cada vez mais alto contra a desumanidade dos bombardeios contra populações civis. A 9 de maio, Franco já abandonara sua antiga confiança na vitória do Eixo, mostrando-se perturbado com a situação: "Chegamos ao que poderíamos chamar o ponto morto da guerra. Nenhum dos beligerantes tem força para destruir o adversário. Em vista disso, os que, como nós, observam a luta consideram um absurdo protelar o estabelecimento da paz". De todos os indícios do verdadeiro significado dos recentes êxitos aliados, nenhum era mais esclarecedor do que esta súbita preocupação de um ardente partidário do Eixo de terminar a luta cujo resultado, segundo seu desejo manifesto, deveria acabar pela esmagadora derrota dos aliados. Se Franco sentiu que a melhor esperança para a causa que defendia era agora uma paz transigida que deixasse vivos os bárbaros bolchevistas, não poderia ser dada maior prova de quão desesperadamente ferida fôra Alemanha e quão negras eram as perspectivas das campanhas vindouras.

                                                                                      

 

                      

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