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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ABRIL EM PARIS / Michael Wallner
ABRIL EM PARIS / Michael Wallner

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

Paris, 1943: na cidade ocupada pelas tropas alemãs durante a II Guerra Mundial, o jovem cabo alemão Roth trabalha como tradutor para a polícia secreta. Ele faz tudo para se envolver o menos possível com a guerra, tarefa difícil para alguém que passa os dias numa sala de torturas, traduzindo as confissões dos suspeitos de participação na Resistência. Quando está de folga, Roth veste seu terno xadrez e passa a se arriscar, com seu francês impecável, pelas ruas parisienses, flanando pela cidade como civil e tentando ao máximo abstrair dos horrores da guerra.

Mas as andanças de Roth têm um objetivo mais específico: a esperança de encontrar Chantal, uma francesa tão encantadora quanto misteriosa. No fim da tarde, quando ele vaga como civil pela cidade, ela é a bela filha de um livreiro. À noite, quando ele está com seu uniforme e acompanhado de seus superiores, ela é uma encantadora dançarina numa casa noturna. Quando Roth finalmente consegue juntar as evidências, já é tarde demais: ele já está apaixonado por uma militante da Resistência, que usa de todo o seu charme para tentar obter informações privilegiadas da polícia secreta. Chantal, por sua vez, também demora a se dar conta de que, na verdade, o jovem alemão significava para ela mais do que gostaria.

Em Abril em Paris, Michael Wallner narra uma história de amor que desafia tudo aquilo que se poderia chamar de bom senso. E um amor que foge das regras que imperam em tempos de inimizade e que acaba obrigando um jovem soldado alemão, que queria manter-se afastado de tudo, a envolver-se e tomar partido.

 

 

 

 

                   PONT ROYAL, 1943

O major lançou-me um olhar sombrio.

- Termine o caso de Marselha. Depois pode descansar. Amanhã, apresente-se para o serviço. Estará de volta dentro de alguns dias. Eles não gostam de rostos estranhos por lá.

Levantei-me, bati continência, pois o major havia levantado seu braço automaticamente. Permaneci de pé depois que ele se foi. Na parede, a luz desenhava a esquadria em cruz da janela. Senti frio de repente, fechei o último botão, peguei a boina, como se estivesse de saída. Joguei-a de volta, deixei-me cair sobre a cadeira, li o texto em francês e, com dois dedos, comecei a datilografar a tradução.

Você poderia ter tomado outro caminho, pensei. Que descuido, passar justo pela rue dês Saussaies. Em frente ao quartel principal surgiram os uniformes pretos e prateados, uma rápida troca de palavras. O outro pedira fogo? Você será cuidadoso. Só traduzirá expressões do dicionário. Olhará para a mesa, não nos olhos de ninguém. Esquecerá o que deixarão você ver. À noite, irá para o seu hotel; de manhã, apresentação pontual para o serviço. Até que eles não precisem mais de você. Depois retornará ao seu major, que não quer nada além de apreciar a cidade e ter a sensação de ser um vencedor. Esse mesmo, que deixa por sua conta a movimentação de setas e cifras no mural e apenas assina os teus relatórios com seu nome. Enquanto você for indispensável a ele, ele evitará que te mandem para a verdadeira guerra.

A Pont Royal estava com seus pilares praticamente encobertos, faltava apenas meio metro até a marca de cheia de setecentos e pouco. Pescadores se curvavam sobre a balaustrada. Hoje, as pedras já estavam quentes, as pessoas tomavam banho de sol com os olhos semicerrados. Um ou outro se virava na direção oposta quando ouvia os pregos nas solas das botas dos soldados. Eu mergulhei na multidão de Saint-Germain. Quanto maior o número de pessoas, menos a minha condição de estrangeiro chamaria a atenção. A água estourava na construção de ferro da Pont Solférino. Uma oriental gorducha estava em frente à banca de um verdureiro; uma a uma, ela apalpou três maçãs que muito deixavam a desejar no tamanho. Não muito longe dali, um Oberschútze1 e seu companheiro olhavam fixamente para a mulher, em cuja testa reluzia uma meia-lua prateada.

- Até que as mulheres daqui são interessantes - disse o Oberschútze.

O outro acenou. - Por uma dessas eu até me sujeitaria a uma pequena vergonha racial como essa.

Apesar de seu porte, ela era muito elegante e se comportava como se não merecesse estar na rua. Devolveu as maçãs, quando o proprietário saiu da loja e a inspecionou desconfiado. Deu alguns passos com insegurança, notou os soldados que estavam em seu caminho com um sorriso irónico nos lábios.

Desviei dos militares, segui por uma viela de pedra. Eu andava mais rápido do que precisava. As solas comiam o asfalto, embora na verdade eu quisesse vaguear. Contava as placas de hotéis que passavam sobre mim. Entrar em algum, pensei, solicitar um quarto no andar superior. Tirar as botas, em silêncio, as janelas altas do quarto abertas, e o tempo passa sem movimentação.

Comecei a andar mais devagar. A loja do lado oposto estava abaixo do nível da rua, lá no fundo brilhava uma lâmpada. Na entrada, pilhas de cadeiras com estofado cor-de-rosa. Abaixei-me e toquei a seda frágil. Bem lá no fundo, um homem levantou a cabeça; a luz destacava bem o seu rosto do fundo. Sobressaltei quando me viu, como se tivesse sido pego fazendo algo proibido.

Eu procurava ruas mais largas, pessoas, empurra-empurra. A maioria das lojas já estava vazia e mostrava aos passantes apressados apenas suas estruturas marrons vazias. Uma padaria ainda estava aberta, a fila era longa. Peguei a fila, evitei olhares; as pessoas mantinham certa distância de um uniforme. Comprei um pão polvilhado de farinha. Quando saí, um garçom varria a serragem da calçada. Os restaurantes abriam cedo.

 

Ooersc iútze: insígnia de reconhecimento para soldados comuns que exerciam liderança e possuíam habilidades militares, mas que não poderiam ser promovidos a Gefreiter. (N. da T.)

 

Eu nunca havia percebido que aquele portão preto não levava a uma casa, mas sim para uma viela. Estiquei o pescoço para decifrar a placa quase apagada. - Rue de Gaspard? O portão estava fechado. Apesar da minha curiosidade, hesitei, encostei-me na porta. Passantes reparavam no modo como eu estava encostado entre a rua e a entrada. Lancei um olhar para além da soleira de ferro. A viela desaparecia na sombra de um muro, uma luz cinza projetava-se no asfalto. Desviei desse portão e avancei. Em toda parte lojas fechadas; o sol do fim de tarde penetrava nas casas mais baixas.

Ao dobrar uma esquina, esbarrei num vendedor de velharias que trazia suas mercadorias para o balcão. Um busto de bronze no braço, bloqueou meu caminho. Nenhum embaraço diante do uniforme verde-acinzentado. Examinei um relógio de pêndulo encostado no muro. Caixa de nogueira, o pêndulo de latão polido.

- Me semble que j’ai vu exactement Ia même à Munich - disse eu.

A pronúncia sem sotaque o surpreendeu.

- C’est possible, monsieur. Je Vai achetée à’une famille ayant a vécu en Allemagnependant longtemps.

- Quel est votre prinx?

O vendedor mencionou o valor. Nenhum francês compraria o relógio por este preço. Eu ofereci a metade. Ele não recuou nem um único centímetro, insistia que havia prometido não desperdiçar a peça.

- Alors, je regrette.

Avancei mais pela rue de Gaspard.

A jovem mulher estava sentada imóvel sobre uma pedra, que se encontrava diante da livraria como uma rocha caída do céu. Reparei nas pernas bem torneadas sob o casaco, ela lia. Um pouco antes de passar, ela levantou o olhar. Não continuei meu caminho, entrei na loja. No balcão, um homem com o cabelo grisalho repartido. Um toco de cigarro apagado em sua boca. Ele passava cola em panfletos de papel; o pincel perdia cerdas. Um rápido olhar para o uniforme.

- Vous cherchez quelque chose de spécial?- resmungou ele, sem interesse. Não esperou por minha resposta, colou o panfleto na parte de dentro da contracapa de um livro. Eu dei a entender que queria dar uma olhada na loja. Seus gestos eram mais repelentes do que convidativos. Posicionei-me em frente à estante ao lado da janela, meus dedos deslizavam pelas contracapas dos livros. Olhava para fora através do vidro fosco.

Ela continuava sentada sobre a pedra. Um rosto de beleza peculiar. Olhos enormes, uma testa redonda, sedutora, coberta de cachos cor-de-cobre. Ela possuía uma cabeça de gato astuto, os lábios suaves e sinuosos; seu queixo era muito curto e caía abruptamente até o pescoço.

Uma borboleta pousou no parapeito. A jovem levantou a cabeça como se alguém a tivesse tocado. Devagar, deixou o livro de lado e levantou-se. Vinha em direção à janela, onde a borboleta permanecia em repouso, suas asas tremendo. No que ela avançava, eu recuava passo a passo entre as estantes. Ela alcançou a janela baixa na ponta dos pés, os olhos fixos na borboleta. A poucos metros de distância, olhava na minha direção - e não me notou.

Com vários livros na mão, de repente, percebi o olhar investigativo do proprietário. Ele fechou o pote de cola e veio em minha direção.

- Vous avez trouvél

Eu me virei; e assim não pude ver, se a borboleta voou ou não. O homem era uma cabeça mais baixa que eu; a calvície luzia entre o cabelo repartido.

Dei um passo na direção da saída.

- II y en a trop. Je sais pás choisir.

Com isso, coloquei os livros de volta, cheguei até a porta aberta e num passo dei conta da soleira e do degrau. Minha bota pisou com força sobre o asfalto.

Ela não estava mais lá. Meus olhos procuraram atrás do arbusto, deslizaram para a saída da viela. Seu livro estava sobre a pedra. Sem pegá-lo na mão, observei a encadernação austera. Lê Zero, o título não me dizia nada. Ao olhar para cima, tive subitamente a impressão de estar sendo observado por detrás de todas aquelas janelas. Devagar, com passos largos, procurava alcançar o portão preto e pisei na rua. Desviei de dois policiais mal-humorados e dobrei na alameda arborizada.

— Veja onde o senhor se meteu? - interpelou-me o Rottenfúhrer.2 Eu estava exausto, nervoso, já esperava há duas horas. Tentei encontrar uma posição confortável no banco no corredor. Incessantemente, iam e vinham patentes superiores, diante das quais eu tinha que bater continência. No andar térreo foram conferidos minha identificação e meu posto. O guarda só me deixou passar depois de um telefonema. No caminho para o andar superior, eu admirara as manchas verdes do mármore. Antigamente, diplomatas com suas esposas flanavam por estas escadas. Quase que se perdia a noção de onde se estava.

- Onde o senhor esteve? - repetiu o Rottenfúhrer.

- Aqui fora, onde mais? - respondi, sem me levantar. O sujeito era da mesma patente que eu. O primeiro dia definia como a pessoa seria tratada no departamento.

- Pode esquecer esse tom - ele indicou para que eu o seguisse.

- Você domina a taquigrafia? - perguntou ele olhando para trás.

Um simples ”sim” teria bastado. - Senão eu não estaria aqui.

- Ah é? - O Rottenfúhrer virou-se com um sorriso repugnante.

- Temos muitas pessoas detidas aqui; nenhuma delas por saber taquigrafar.

Pressionei uma arcada contra a outra e continuei andando, calado. Eu tinha 22 anos, ainda não conhecia a frente de combate. Tornei-me soldado numa idade, na qual não me restava mesmo outra alternativa. Nós éramos dois irmãos. Meu pai não possuía meios para enviar ambos à universidade. Otto pôde tornar-se médico. Eu começara a estudar Direito, para provar que também era capaz de fazer algo sem a ajuda da família. A guerra tirou-me desse caminho e

Nota de rodapé:poupou-me de outras decisões.

 

2 Rottenfúhrer: insígnia acima de Sturmmann, era usada pela SS e pela AS. (N. da T.)

 

Entramos na repartição. Portas altas de carvalho, uma mulher forte em trajes civis, dois Sturmmãnner3 ocupados com máquinas de escrever. Mais uma vez, tive que aguardar. Finalmente, o Rottenfúhrer bateu na porta do escritório seguinte, segui em frente e fiquei diante do homem magro que eu encontrara há três dias na rue dês Saussaies.

- Ah, o senhor. - Levantou os olhos do papel e olhou em minha direção. - Disseram-lhe o que deve fazer?

- Não detalhadamente.

— Os detalhes são importantes. — Ele pegou a pasta verde-acinzentada e levantou-se. Era de estatura mediana e, mesmo usando um uniforme na medida exata, parecia mais franzino do que eu havia registrado em minha memória.

- Venha. - Ele abriu a passagem ao lado da escrivaninha, atrás havia uma porta divisória. - Roth, não é mesmo? - perguntou ele.

- Obergefreiter4 Roth, às ordens - respondi.

- Há quanto tempo servindo?

- Março de 1940, Hauptsturmfúhrer.

- Escolheu a melhor época.

Eu não tinha certeza se ele estava se referindo ao avanço triunfal ou a minha apresentação no dia de hoje. Chegamos a uma sala bem iluminada. Primeiro vi o rosto do jovem, seu cabelo molhado lhe cobria a testa. No canto, havia uma tina. Um rapaz de no máximo quinze anos; suas mãos estavam amarradas às costas. Notei dois homens uniformizados, ambos Rottenfúhrer. Puxei meu bloco. O Hauptsturmfúhrer sentou-se e, num gesto rápido indicou uma mesa menor. O lápis caiu no chão. Eu o peguei, sendo o mais silencioso possível, dei alguns passos até a mesa e baixei os olhos. Tudo começou imediatamente e sem um momento de transição.

 

3 Sturmmann: soldado da tropa de choque. (N. da T.)

4 Obergefreiter: insígnia para comandante de um pequeno pelotão. (N. da T.)

5 Hauptsturmfúhrer: insígnia da SS, o equivalente a capitão das Forças Armadas. (N. da T.)

 

Voltei ao hotel e, no meu quarto minúsculo, deixei-me cair na imensa cama que dominava quase todo o espaço. Do quarto de cima vinha barulho de água, botas voaram para um canto, Hirschbiegel tinha voltado. Perdurou horas. Coloquei um pão sobre a mesa, não consegui comer. Olhava fixamente para as poltronas desbotadas, procurava não prestar atenção aos ruídos. As paredes eram finas como papelão, e era somente isso que separava as cabeceiras das camas. Alguém estava ao telefone. E aí, o que foi? Não faço ideia. Talvez seja melhor no mesmo lugar onde fomos anteontem. No Jardin não sei o quê. A propósito, vou levar mais alguém, como o senhor já sabe.

Barulho do elevador; o cabo no saguão levava pilotos para cima e para baixo, encontro do comando aéreo no quarto andar. Eu permanecia de pé, entre a cama e a mesa, indeciso. Nos últimos tempos, notava com maior freqüência meus batimentos cardíacos. Virei-me para o espelho. O nariz fino, as sobrancelhas escuras, pensei em fotografias antigas. Não era minha boca que havia endurecido, mas sim meus olhos. Você deveria prestar atenção no seu corte de cabelo, pensei e passei água nas laterais para assentar os fios. Deitei-me na cama, devagar. Tive sede, mas não havia mais nada no quarto. Meu olhar caiu sobre as botas - não queria sair assim de novo, não hoje à noite.

Por minutos, fiquei sentado ali, com a cabeça baixa e ombros caídos. As pessoas na Pont Royal estavam sentadas nas pedras aquecidas pelo sol, os olhos cerrados voltados para a direção da luz. Os olhos se abriam, assim que aparecesse alguém usando botas. Eu temia esse momento. Quando eles se viraram, voltavam para suas casas, quando murmuravam pragas, que eu ouvia e entendia. Eu era do tipo que andava por todos os lados, em todas as cidades, quando podia ser como eles. Queria misturar-me, fazer parte; ninguém tinha o direito de ver em mim uma outra pessoa. Desde o glorioso dia da ocupação, eu não sentia nada além de opressão. Levantei-me devagar e abri a porta do armário, como se fosse uma decisão muito difícil de ser tomada. Há quanto tempo eu não usava o terno xadrez? Descobri um buraco feito por traças, graças a Deus num local onde não seria notado. Tirei-o do cabide e segurei-o sobre o peito.

- Você poderia ser um empregado qualquer -, disse eu para o espelho. - Ou um garçom depois do expediente. Talvez você trabalhe com um livreiro, cole etiquetas nas contracapas, faça serviços de mensageiro. - Um olhar para a estante, a metade dos livros eram franceses. Eu carregaria um deles debaixo do braço, iria para um lugar onde muitos flanavam. Assim o risco seria menor.

Peguei um salsichão na gaveta e uma maçã. O pão esfarelava enquanto eu o rasgava, cortei o salsichão com um canivete e comi devagar. Se o rapaz interrogado realmente roubara os carburadores? Ele apenas fora visto nas redondezas. Cinco ônibus para o transporte de presos - nenhum deles pegou; faltavam os carburadores. Observei minhas mãos enquanto cortava o salsichão. O sangue do rapaz estava seco. Parei de mastigar. Lembrei-me que eu não sairia do hotel em trajes civis. Escutei os batimentos cardíacos. Se a rue dês Saussaies descobrir, quebram seu pescoço.

Limpei a boca na toalha de mão, levantei-me e tirei do armário a sacola de pano, que antes eu usava para transportar minha roupa. No quarto superior, Hirschbiegel ouvia música. ”Ma pomme”. Fechei os botões do uniforme e calcei as botas.

Na escada encontrei um tenente da Força Aérea acompanhado de uma dama. Bati continência, ele nem me notou.

- Dans quelques minutes j’ai temps pour toi. - O tenente encadeava as palavras desajeitadamente.

- Pour quoi faire? - riu a mulher.

Na recepção, a sentinela trocava algumas palavras com a faxineira, que falava algumas palavras em alemão. O soldado ofereceulhe confeitos. Os bombons estavam grudados uns nos outros, ele sorria; seus olhos permaneciam sérios. Caminhei pelo corredor segurando a bolsa. As paredes estavam pintadas de marrom-escuro, com alguns arranhões causados por malas. Eu passava todos os dias por este corredor, desta vez eu tinha a sensação de que a saída se distanciava a cada passo que eu dava.

- Ô, camarada!

Eu não parei.

— Você, um segundo!

Virei a cabeça, como se não tivesse nada a ver com aquilo.

— Hirschbiegel perguntou por você! — disse o soldado.

— Quando?

— Ele bateu na porta, você não estava.

Pelo vidro vi que um major da Força Aérea vinha em direção ao hotel.

- Obrigado - disse eu sobre o ombro, com três passos estava na saída e abri a porta para o major. Mantive posição de sentido, até ele chegar na recepção. A faxineira desapareceu no nicho.

Eu percorria as ruas como se tivesse um destino certo. Mesmo com o sol, o vento que soprava do leste estava frio e levantava poeira. Sementes douradas grudavam no esterco de cavalo. Pedacinhos de papel giravam no ar. Eu murmurava os nomes das ruas para dominar minha excitação. Reduzi o passo em frente a uma casa em ruínas, olhei em volta. Ao primeiro olhar parecia que a casa tinha sido atingida por uma bomba. Uma parte da fachada pendia sobre a calçada, as vigas de apoio podiam romper-se a qualquer momento. Entrei pelo portão. Os canos de água estourados mostravam-se nas fendas do que restava do muro. Parei para ouvir com atenção, tirei o pó de uma cornija e preparei o terno. Foi complicado livrar-me das botas permanecendo de pé; eu pulava e fazia mais barulho do que gostaria. Enfiei a jaqueta e a calça do uniforme na bolsa. Por alguns segundos permaneci de cueca no saguão vazio. Passos do lado de fora, quis esconder-me assustado atrás da escadaria afundada. Mas era apenas alguém que passava. Não ousei tirar a identificação oficial, apenas joguei-a por cima do meu ombro, para que pendesse pelas costas. Rapidamente, enfiei-me na camisa e na calça e amarrei os sapatos. Os canos das botas teimavam em não entrar na bolsa, com uma bagagem como esta eu chamaria a atenção. Examinei o saguão; a curvatura da escada terminava num canto deserto, luz alguma chegava ali. Lancei uma prece rápida aos céus e empurrei a bolsa para a escuridão. Quis colocar o chapéu de feltro macio e descobri no último minuto a etiqueta Klawischnigg & Sòhne, Múnchen. Arrebentei a linha com os dentes, arranquei a etiqueta e joguei-a fora. Puxei o chapéu para frente, cobrindo bem a testa.

Pisei na rua como se fosse outra pessoa. Despi-me de qualquer privilégio, estava desprotegido de invasores e invadidos. Não podia mostrar meus documentos, nem falar minha língua; um vocábulo errado me entregaria. Eu precisaria executar a transformação para o original, no mais tardar, às sete e meia; mas não levei comigo o relógio, herança com gravação em alemão.

De início, desejei ter um outro nome, e antes que soubesse por que, decidi-me por Antoine. Monsieur Antoine, assistente de livreiro. Tirei o magno volume da bolsa, as fábulas de La Fontaine. O livro trazia-me segurança, reforçava minha biografia. Monsieur Antoine dava um passeio. Era alguém que vagava pelas ruas despercebido, um homem jovem trajando um terno em xadrez miúdo. Seus passos não soavam diferentes dos passos dos homens em sua volta. Nenhum passo agudo, nenhum motivo para que alguém desviasse dele. Aos poucos, passei a respirar com mais calma, os dedos não envolviam mais o livro com tanto medo. Puxei o chapéu para a nuca. Sem nenhum motivo, sorri para o fim de tarde.

Monsieur Antoine atravessou a Pont Royal e seguia para as ruas movimentadas não muito longe do cais. Surgiam barracas de verduras, ao lado pessoas bebiam vinho tinto em copos pequenos. Dobrei a esquina, a confusão de vozes envolveu-me imediatamente. Todos falavam! Eu ouvia homens velhos que riam atrás de uma moça com chapéu de flores. O grito de uma gorducha direcionado para o outro lado da rua, três mulheres respondiam. Um abade, os ombros iluminados pela luz alaranjada, piscou para uma senhora gorda e fazia previsões do tempo. A onda barulhenta e falante me agarrou, me arrastou para dentro da atmosfera e do som. Coloquei uma moeda na vasilha de uma velha que segurava um acordeão.

Ela tirou o instrumento da boca. - Que! est votre désir, mon garçon?

Eu havia planejado falar o menos possível. Mas monsieur Antoine achava isso errado. Numa noite de primavera, um parisiense calado só chamaria a atenção. Ao redor, todos estavam animados, gabavam-se e fanfarronavam.

Pedi uma música popular, da qual eu só conhecia o refrão: Je te veux. A velha acenou maravilhada, empurrou o instrumento para o canto da boca e começou. Depois de ter ouvido por algum tempo, continuei a caminhar. Observei uma madame com um véu finíssimo, sua boca estava pintada de vermelho-escuro. Um bando de adolescentes passou correndo, o policial caminhava na direção contrária.

Entrei na fila da pâtisserie. Uma mulher baixa chegou bem perto de mim. À frente, um magno vendedor amarrava pacotes com biscoitos. Eu observava uma estudante que lia um livreto de três tostões com a testa franzida. Eu teria dado tudo para saber o que ela, tão esquecida do mundo, encontrava naquelas letras. A última ração de biscoitos pertencia a mim, eu paguei; a mulher atrás de mim lançou-me um olhar furioso. Eu pensei se deveria dar-lhe os biscoitos, mas acabei pousando meu livro sobre o pacote e coloquei tudo debaixo do meu braço.

Enquanto meus passos diminuíam perante as mercadorias expostas na vitrine e eu me assegurava que meu terno realmente poderia ser considerado um modelo francês, percebi que havia tomado o caminho da rue de Gaspard.

Hoje a rua resplandecia sob uma outra luz. Baixo, o sol brilhava entre as cumeeiras e mergulhava os telhados num vermelho quente. A rocha perante a livraria estava desocupada. Eu entendi como era sem sentido procurar pela mulher com a cabeça de gato. Naquele dia, ela provavelmente havia parado ali por acaso. Deve ter comprado um livro e sentado na pedra para ler. Depois disso ela foi embora e possivelmente jamais voltaria à rue de Gaspard.

A livraria estava fechada. Desapontado, decifrei o nome sobre o portal -Joffo, Livres. Por curiosidade, girei a maçaneta, estava aberta. A campainha soou.

- Posso entrar? - perguntei em francês.

- Pode olhar o que quiser, monsieur - respondeu o dono, detrás do balcão.

Dirigi-me a uma estante e posicionei-me de maneira que ele pudesse ver bem meu rosto.

- O senhor tem a nova tradução de Ana Karenina? - perguntei.

- Não existe uma nova tradução. - O homem corpulento aproximou-se, balançando a cabeça. - Prospere fechou as portas. No momento, não está saindo nada dessa área.

Deixei que ele me desse a edição antiga. Olhei atentamente nos olhos do livreiro. Ele reconheceria em mim o Obergefreiter que o visitara ontem?

- Ela data de antes da guerra. - Devolvi o livro a ele.

- Como eu dizia. - Ele deu de ombros. Descobriu o livro estreito debaixo do meu braço. - O senhor está lendo as fábulas? Estendeu a mão. - Posso?

Eu dei-lhe meu livro favorito.

- Essa edição é rara. - Ele sorriu, com uma expressão de quem faz negócios.

Assustei-me. Talvez o livro tivesse um carimbo alemão.

Joffo abriu o exemplar. - Veja: ela só foi publicada até 1936.

- Olhou para mim.

- Será que o senhor estaria interessado em vender?

- Lamento, foi um presente - suspirei aliviado.

- Em algum lugar devo... - Mais ligeiro do que se poderia imaginar, o homem corpulento foi até a estante seguinte e puxou uma edição preciosamente ilustrada, luxuosa. Mostrou-me a história A sorte e a pequena criança com a ilustração de uma página inteira de Doré.

- Eu lia esse livro para minha filha, quando ela era pequena disse Joffo.

Na margem da folha, descobri palavras rabiscadas em letra de criança. De repente, vi a moça com a borboleta de novo na minha frente, a jovem mulher de cabelos castanho-avermelhados. A ideia era louca, mas ousei uma tentativa.

- Ainda não vi sua filha hoje.

Ele levantou a cabeça. Os olhos se estreitaram como os de um javali.

- Nós nos conhecemos, monsieur?

- Não - sorri. - Só apareço na região às vezes.

- E seu nome?

- Antoine... - Meu olhar passou rapidamente pela lombada dos livros. Uma sequência de letras, gravação em ouro, um Re em itálico, ali uma antologia com o título Lês Barbares. -Antoine Rebarbes. - Faltava-me o ar.

- O senhor é de Paris?

- Venho de fora - respondi o mais ingénuo possível. - Poderia embrulhar o Tolstoi para mim?

Ele hesitava, foi para detrás do balcão e embrulhou Ana Karenina em um papel marrom. Tirei uma nota do bolso.

- Ah? Estão sendo impressas novamente? - Joffo segurou a nota nova contra a luz. Era uma nota do Registro das Forças Armadas.

- Também já me perguntei isso.

- Finalmente. - Ele virava e desvirava a nota. - As notas velhas já estão apodrecendo entre os dedos.

A nota desapareceu no caixa. Contou o troco.

- Onde conheceu minha filha? - perguntou astuto. - No salão, talvez?

Eu hesitei. Em que tipo de salão era possível encontrá-la?

- No salão, claro. - Eu peguei as moedas e dirigi-me à saída. Joffo seguiu-me, desconfiado.

- O senhor só aparece na região de vez em quando - e corta o cabelo justamente aqui?

Procurei a coerência. Abri a porta.

- Trata-se de um bom barbeiro. - Saí sorrindo.

Joffo segurou a porta para que a campainha não soasse uma segunda vez.

- Boa noite, monsieur - disse eu por cima do ombro. Senti que ele me seguiu com os olhos. A chave girou na fechadura. Eu tomei meu caminho de volta pela viela.

- Quanto custa o relógio de pêndulo? - perguntei ao vendedor de velharias.

Disse um preço que era a metade do cobrado da última vez. Dirigi-me para o boulevard.

Estava com calor, minha jaqueta estava pendurada sobre os ombros, o chapéu na nuca. Há uma hora eu procurava por um salon de coiffure. Na rue Jacob, crianças barulhentas subiam nas latas de lixo. Eu parei. Não havia nenhuma placa sobre a entrada, pouca luz no interior. Olhando mais atentamente, reconheci duas cadeiras largas, uma prateleira com garrafas, na frente um homem de estatura mediana com uma tesoura. À direita, fregueses que esperavam sua vez. Continuei a caminhar. Depois de alguns passos, me virei e entrei. Dei uma olhada ao redor, nenhum sinal da mulher com a cabeça de gato.

-Já lhe atendo logo, monsieur. - O maítre era pouco mais velho que eu. Sua jaqueta justa estava abotoada na lateral.

- Este senhor está na sua frente.

Dois clientes que pagavam encobriam um terceiro. Eles se foram.

Vi o cinturão, o quepe preto sobre os joelhos, a caveira prateada. Os saltos das botas chocaram-se quando o homem levantou. O barbeiro convidou-o com um gesto para que se sentasse. Um olhar do Sturmbannfúhrer,6 justo quando eu já queria sair novamente. Afundei-me numa cadeira, ao lado de um velho que lia jornal.

— O monsieur deseja um belo corte curto? — perguntou o maitre e, sem nem esperar que o freguês se acomodasse, jogou uma toalha sobre seus ombros.

O oficial olhava-se desinteressado no espelho. Ele não entendeu, apontou com a mão o lado em que desejava a risca. O barbeiro borrifou água na sua nuca.

Sturmbann

 

6 úfireT: insígnia SS utilizada pelo comando de batalhão. (N. da T.)

 

Meu olhar baixou para o seu coldre. O gatilho brilhava como se fosse uma pistola de brinquedo. Do lado de fora as pessoas passavam. Ficam estagnadas com a visão do pente do maitre passando pelo cabelo do homem da SS. O clic-clic da tesoura. Os dedos deslizavam pela nuca com agilidade, para cima e para baixo. Mãos lisas, macias, bronzeadas. Eu cruzei os braços.

No interrogatório, os dedos do rapaz estavam imóveis, duros, como os aros de uma roda arrebentada - como se não lhe pertencessem mais. Ele não gritara enquanto torciam seus dedos, chorou somente mais tarde. Forcei-me a pensar em outras mãos. As mãos do pescador na Pont Royal; uma espalmada sobre a balaustrada, a outra segurava a vara com grande delicadeza. Só as pontas dos dedos puxavam a linha furtivamente, como se o próprio pescador não pudesse perceber sua movimentação. As mãos do oficial da SS eram grandes, com sardas. Deitavam calmas em seu colo. Clipclip na nuca.

A porta foi aberta. Uma mãe arrastava seu filho ao barbeiro. Ela viu o oficial e parou.

- Oh, oh - dizia - volto mais tarde. - Desapareceu, puxando o menino confuso atrás de si.

O oficial virou a cabeça contra a vontade do barbeiro. Observava as crianças ruidosas em frente à entrada.

- Seus? - queria saber.

- Não, monsieur. - Cuidadosamente o maitre girou a cabeça do oficial para a posição correta.

- De quem são? - perguntou o Sturmbannfúhrer num francês canhestro.

- São meus irmãos - disse uma voz de mulher.

Ela entrou por uma cortina de miçangas, a vassoura na mão. Ela parecia mais forte naquele avental branco, com certeza já tinha vinte anos. Seu cabelo envolvia a cabeça em ondas e cachos. Os olhos grandes expressavam seriedade. Calor de felicidade no meu estômago, inclinei-me involuntariamente para frente. Por um instante, o clip-clip parou.

- Meninos bonitos - acenou o oficial da SS. Prosseguiu em alemão: — A guerra é mais difícil para as crianças.

Ela pôs a vassoura de lado, foi até a porta. Não estava usando meias; eu espiei as suas panturrilhas. Ao mesmo tempo em que a campainha soava, ela gritava os nomes dos meninos. Eles interromperam sua brincadeira, rostos suados e vermelhos, hora de parar. Eles entenderam o aviso e desapareceram no final da rua.

O barbeiro retirou a toalha virando seu pulso e apresentou ao oficial o resultado no espelho. Este acenou inexpressivo e levantou-se. Quis colocar a moeda sobre o balcão, mas virou-se e a depositou na mão da jovem mulher. Com uma fisionomia carrancuda, ela abriu o caixa e deixou a moeda cair lá dentro.

- Procuro por um restaurante - disse ele na roda. - O Pèletier. O barbeiro balançou a cabeça. A ruiva também não respondeu. Eu pressionei os dedos contra a esfera do polegar, levantei-me e posicionei-me na frente do Sturmbannfúhrer. Eu ouvira falar do Pèletier. A SS solicitava a presença de mulheres naquele local.

- Fica atrás da Saint-Germain-les-Prés, no lado sul da praça.

- Nós nos entreolhamos.

- Não tem como errar.

- Merci, monsieur - disse o oficial, o forte ”s” alemão sobressaindo-se, e pôs seu quepe. Enquanto as botas rangiam na soleira, sentei-me na cadeira do barbeiro. A jovem juntava os cabelos do alemão com uma vassoura.

— Por que disse que eram seus irmãos? — indagou o barbeiro a ela, enquanto o Sturmbannfúhrer se perdia na multidão. - Nada de piadas com essa gente, Chantal.

- São os meninos do Samuel. - Ela varria bem próximo a mim. O maitre abria uma toalha limpa sobre meus ombros. Eu observava a mulher no espelho.

- De onde o senhor conhece o Pèletier? - perguntou ela, assim que percebeu meu olhar. - Somente os porcos freqüentam aquele lugar.

- Chantal! - O barbeiro virou-se. O velho atrás do jornal não se mexia.

- Então eu lhe indiquei o caminho certo. - Eu sorri. - Quero mais curto atrás e nas laterais, por favor.

- O monsieur nunca nos deu a honra antes - disse o maitre.

O nariz comprido no rosto fino chamou minha atenção. Como se o nariz tivesse sido colocado ali intencionalmente.

- Estou de passagem.

- Viajar é complicado nos dias de hoje - respondeu ele, espreitando.

- Custou-me dois dias - acenei. - Sabe Deus quantas vezes tivemos que parar. A estrada está bloqueada entre Thiers e Moulins.

Eu espantei-me como meu cérebro cuspia mentiras sem dificuldade. Em pensamento, eu tinha diante dos olhos o mapa do Estado-maior. Formação de quadrilhas e associações de inimigos, setas e traços, a frente de batalha aproximadamente na altura da coxa. O barbeiro umedeceu meu cabelo. A tesoura aproximava-se da minha têmpora. Fechei os olhos. Tudo ficou calmo. De tempos em tempos, o velho virava a página. A mulher, que se chamava Chantal, estava sentada atrás do caixa. A filha do livreiro, pensei, e tentava imaginar como ela crescera em meio a milhares de livros. À noite, seu pai pegava as fábulas e as lia para ela. Quando ela mesma aprendeu a ler, nos dias mais bonitos, Chantal levava seu livro para fora, sentava-se na pedra e mergulhava na sua história. O ruído da tesoura deixava-me sonolento. Eu via Antoine sentado na cadeira do barbeiro como se estivesse a uma grande distância. Há pouco ele havia levantado suspeita por ter indicado o caminho para um homem da SS. Suspeita porque ele vinha de fora. As denúncias se acumulavam, colaboradores em todo lugar, desconfiança entre os franceses. Monsieur Antoine não podia falar com Chantal nem na loja, nem na rua. Por outro lado, como alemão, era fácil conhecer mulheres nesses dias. O toque de recolher não valia para mulheres em companhia alemã, as casas noturnas estavam cheias. As parisienses alimentavam suas famílias saindo com oficiais. Eu abri os olhos. Observava Chantal no espelho.

O barbeiro terminou seu trabalho, eu levantei-me. Ela escovou meu terno. Não me presenteou com olhar algum, enquanto eu o pagava. Ninguém abriu a porta para mim. Ambos permaneceram calados até que eu deixasse o salão. Pelo vidro vi como começaram a falar, agitados.

O cabelo recém-cortado coçava, coloquei o chapéu. Pensei em sentar no café em frente, até que Chantal tivesse terminado seu trabalho. Não fazia sentido. Caminhei pela rue Bonaparte até o cais. O rio ainda parecia violento. Um sargento debruçado na balaustrada dizia ao seu acompanhante que o nível da água estava baixando. Os pescadores foram para casa. Não era a primeira vez que eu via os pequenos Vs. Os parisienses moldavam o símbolo da vitória. Bilhetes de metro dobrados, um fósforo quebrado em V. Alguém rasgara um V num jornal, uma corrente de ar soprava a folha na minha frente.

Eu já tinha passado pela torre Eiffel, quando ouvi os sinos dobrarem. Qual igreja, que horas? Estremeci. Um segundo sino começou a tocar. Contei as batidas, dobrei a esquina no seis. Quando o sino bateu pela sétima vez, comecei a correr. Passei pelo cais d’Orsay, mas não mais rápido do que o aconselhável. Eu freava os passos quando apareciam soldados. Uma patrulha passava, demorei-me debaixo de um plátano, esperei até que minha respiração desacelerasse. Atravessei a Pont Royal, cheguei ao bairro onde ficava meu hotel, e dobrei na viela que eu acreditava que fosse a mesma que eu tinha guardado na memória. Ao meu redor, as ruas começaram a se esvaziar. Mulheres passavam apressadas com suas sacolas de compras. Rapazes deixavam transparecer que estavam apenas vagueando; mas eles também sabiam que a partir das oito da noite não podiam mais se demorar nas ruas.

Por mais que eu procurasse, não conseguia encontrar a ruína! Agora eu corria, olhava para as cumeeiras, esperava por uma característica que pudesse reconhecer. Quando, sem êxito, passei pela terceira vez em frente ao alfaiate, vi a única possibilidade de voltar ao hotel.

- Vocês também vão mais tarde ao Turachevsky? - um grupo de oficiais da força aérea conversava em frente ao portal. Parei a alguns metros de distância e tentei me orientar.

- Não faço ideia de quem vai se apresentar hoje, mas sempre tem algo acontecendo por lá.

O tenente notou minha presença. Eu ocultei meu rosto, pegando a aba do chapéu para saudá-lo. Continuei. Como tudo parecia diferente quando faltava a luz do dia! O armarinho, escuro, a cerca com o V preto, encoberto pela tinta branca passada pelas forças armadas. Meus passos eram os únicos. Cruzei a praça. Janelas iluminadas, a escuridão logo chegaria. Descobri a placa do açougue de carne de cavalo e ri aliviado. Mais uma vez à direita — finalmente eu estava diante da ruína. Entrei rápido, apalpei na escuridão debaixo da escada, peguei a alça de minha bolsa. Troquei de roupa com mãos nervosas. As meias úmidas não queriam entrar nas botas. Eu pulava e batia com o pé, ao mesmo tempo em que fechava os botões do uniforme.

Os pregos das solas batiam no asfalto; o Obergefreiter tomava o caminho de volta para o hotel, sem pressa. O mesmo grupo da Força Aérea veio ao meu encontro. Eu bati continência.

No quarto, caí sobre a cama, cruzei os braços atrás da cabeça. Eu delirava, não conseguia pensar. A centímetros de distância, pouquíssimo abafado pela parede fina, alguém telefonava. Não, se você trouxer as irmãs, então não ligo para Dorine. Risadas curtas. Você planejou um monte de coisas! Então, dez e meia

! Colocou no gancho. Ouvi alguém discando. Olhei fixamente para o quadrado iluminado da casa em frente. Meu relógio marcava oito horas em ponto. Est-ce que je pourrai parler avec Mademoiselle Dorine? Elle n’est pás lá? Quoi? A janela escureceu.

- Quem te ensinou a retirar um carburador?

- Qui t’a appris, comment démonter lê carburateur? - disse eu. -

e sais lefaire - respondeu o rapaz.

- Eu simplesmente sei como fazer.

- Quem te ensinou?

— Qui t’a montré? —Je ne sais plus.

- Não sei mais.

— Amigos?

- Talvez.

- Amigos da escola ou quando adultos?

- Não consigo me lembrar.

O Hauptsturmfúhrer estava sentado no canto da escrivaninha e balançava a bota.

- Você deveria se lembrar - disse ele, baixo.

Quase afogaram o menino na tina. Mais três dedos foram-lhe deslocados. Um médico com a patente de Untersturmfúhrer,1 um homem indiferente de cavanhaque, e unhas feitas, recolocava as articulações em seus devidos lugares, sem anestesia. Nenhum grito, nenhum choramingo, o menino vomitou de repente. O médico praguejou por causa da sujeira em seu colete. Depois disso, o Hauptsturmfúhrer apresentou ao delinqüente novas formas de tortura. Somente agora ele confessava ter roubado os carburadores. Há muito isso já estava fora de questão. A repartição de registro já havia solicitado outros ônibus para o transporte de presos. O que eles queriam saber na verdade era onde se encontravam os resistentes. Eu virei a cabeça.

 

7 Untersturmfúhrer patente da SS, logo abaixo do Obersturmfuhrer (N da T )

 

- Pausa para fumar? - O Hauptsturmfúhrer olhou para mim. Será que ele percebeu que eu fechei os olhos? Ele permitiu que eu deixasse a sala. Para não ser testemunha, pensei de início. Mas pelo seu olhar entendi que estava tendo consideração comigo. Ao sair, ouvi o primeiro grito.

O Hauptsturmfúhrer chama vá-se Leibold e era austríaco. Mostrava-se vitreamente frio na sala de interrogatório e atrás de uma escrivaninha. As patentes mais baixas o chamavam de ”porrete”. Fora do escritório, gostava de falar de sua casa. Possuía um rosto de traços bem definidos, que pareciam se perder sob a sua cabeça calva. Quase que diariamente parávamos para fumar, no fim do corredor cuja janela não dava para a rua, mas para um jardim irreal. Lá brotavam rosas, uma videira selvagem deixava seu rastro muro acima como uma penugem verde.

- Sinto falta das montanhas - Leibold ofereceu-me um cigarro. - Conhece a região ao redor de Sankt Wolfgang? - Ele falava dos animais que gostava, plantas que havia colhido. Dos pastos, as aldeias ao redor do lago, a solidão, os penhascos íngremes que só podiam ser explorados com a ajuda de cordas e ganchos. Eu soltei a fumaça contra o vidro da janela. Enquanto ele falava, eu observava um maneta, que com a ajuda de um suspensório de couro havia prendido uma foice no corpo e cortava a grama.

- Eu sou um homem da cidade - admiti, enquanto Leibold aguardava em silêncio.

- Então o senhor deve gostar de Paris. Bati as cinzas.

- Às vezes acho que não é verdade que estamos aqui. Percebi seu olhar atento.

- Que não é verdade, mas que nossa presença é merecida. - corrigi rapidamente. Meus olhos cruzaram o jardim. - Quanto tempo será que o homem levou para aprender a manejar a foice só com um braço?

Leibold deu um passo para trás de mim.

- A guerra torna as pessoas inventivas. - Senti o cheiro de loção pós-barba cara, um vestígio de naftalina. - Como passa suas noites, Roth?

- Na maioria das vezes fico no hotel. - Eu não me mexia.

- Nunca se diverte?

Ouvi os estalos do cigarro quando ele deu um trago no cigarro.

- Eu leio muito.

- Não é disso que eu estou falando.

- Para mim esses... lugares são muito barulhentos.

- Existem outros.

- Esses eu não posso pagar. - Eu o fitei expressando tanto despreparo, que ele acabou desviando o olhar.

- Eu lhe mostrarei um local assim oportunamente. - Soou como um certo tom de comando. Ele esticou a coluna. - O médico já teve tempo o suficiente para restabelecer o rapazola.

- O que vai acontecer com ele... depois? - Pisei na guimba.

- Drancy - respondeu Leibold. - Mas não sou eu quem decide isso.

O campo de internação Drancy estava superlotado; execuções providenciavam mais espaço. E diariamente, transportes dirigiam-se para a indústria bélica na região do Reno.

Passei a noite toda no quarto, lendo. Mais tarde, olhei fixamente para as janelas escuras. O homem ao lado dizia ao telefone, que Dorine tinha ficado abaixo de suas expectativas. No quarto superior, Hirschbiegel tocava ”Ma Pomme” na vitrola pela oitava vez consecutiva.

Na tarde seguinte, a vontade e a curiosidade venceram novamente o medo de ser descoberto. Eu tirei o terno xadrez do armário, peguei uma camisa limpa e escolhi um cinto. Quando me viu pela segunda vez com a bolsa de roupas sujas, o sentinela fez uma piada sobre higiene, que deveria fazer com que a faxineira risse. Ela disse: - Une bonne soirée, senhor cabo.

Pisei na rua, alcancei o saguão do prédio e executei a troca de roupas com a mesma eficiência de um ator. Coloquei os sapatos com os cadarços abertos, já prontos para serem calçados, sem a necessidade de pisar de meias no corredor sujo. Empacotei as peças do uniforme já na ordem certa em que as vestiria.

Eu era Antoine novamente! Desci a rua caminhando em passos leves; comprei uma flor, somente para segurá-la na mão. Sem me afastar muito do rio, segui na direção sudeste; passei pelas duas ilhas e atravessei para o lado sul, pouco antes da Gare d’Austerlitz.

Monsieur Antoine entrou na rue Jacob e sentou-se no café Lubinsky, em frente à barbearia. Pedi um Creme. Não havia leite, servia-se leite em pó em potinhos de geléia. Puxei o chapéu para trás e esperei. Na mesa ao lado, uma senhora contava que uma jovem de dezesseis anos que morava na sua vizinhança havia denunciado seu colega de escola que, coitado, a amava. Ela escrevera uma carta anónima ao comando-geral. A polícia militar apareceu às três da manhã. O rapaz conseguira fugir pelo telhado no último instante.

Levantei a cabeça, a silhueta de Chantal surgira atrás do vidro. Eu não tirava os olhos da porta. Minutos depois, ela saiu, jogou mechas de cabelo na lixeira e abriu a porta para um freguês. Do outro lado, se aproximava um policial grisalho. Eles pararam juntos, ele gesticulava com o porrete de borracha, ela ajeitava cachos atrás da orelha. Com a mão na aba de seu quepe, o policial se despediu e continuou sua caminhada. Chantal entrou na loja e contou ao barbeiro o que ela tinha ouvido. Eles riram.

Na tarde do dia seguinte, descobri que ela não trabalhava todos os dias na barbearia; esperei em vão. No outro dia, ela conversava com um amigável judeu que administrava o armarinho vizinho. Ele era o pai dos meninos brincalhões. Desde a visita do oficial da SS, a barbearia parecia ter caído no gosto dos alemães. Naquela tarde, contei quatro soldados que vieram cortar o cabelo.

Às sete e cinco, Chantal baixou as persianas. Um minuto depois, ela apareceu no outro lado da viela. Fechou a bolsa, onde guardava o pagamento. Até aquele momento, eu tive que imaginar que vestido ela estava usando debaixo do avental. Agora eu podia ver se estava certo. Era o verde de listras azuis suaves. No dia seguinte, especialmente quente, Chantal se apresentou usando um de estampa vermelha, que se alargava ao longo das pernas. Depois que ela passou pelo Lubinsky, paguei sem pressa, esperei até que ela estivesse quase fora de vista, e a segui. Ela não seguiu diretamente para a rue de Gaspard, mas optou por um desvio pela Lycée e leu as manchetes numa banca de jornal. Comprou verduras e pão; eu percebi o quanto ela se distraía nos últimos momentos antes do toque de recolher, para ficar o máximo de tempo possível ao ar livre. Finalmente, já escurecia, ela parou diante do portão preto, lançou um último olhar para a. rua movimentada, empurrou o portão e desapareceu. A partir desse ponto eu raramente a seguia. Parava na entrada, ouvia os passos de Chantal se afastarem. Assim que ela passava pela pedra grande, a luz que saía da loja me dava uma última visão de seu vestido estampado.

Ela desaparecia, e meu dia também terminava. Atravessava a Pont Royal apressado, enfiava o uniforme e a bota na casa abandonada e voltava para o hotel. Pelo caminho, encontrava pais de família andando rápido e mulheres que empurravam apressadas seus carrinhos de bebê. Era uma hora em que os parisienses tinham certa indignação no olhar; em vez de aproveitar a noite, tinham medo de serem encontrados na rua de sua própria cidade. Eu entrava no hotel, registrava-me com o sentinela, pedia que transmitisse a Hirschbiegel que eu estava cansado demais para sair e jogava-me na cama ainda de botas. Durante aquele período eu dormia muito mal. Quando não era o meu vizinho ao telefone, era acordado pelos tiros de alerta das patrulhas que impunham o toque de recolher. Freqüentemente eu ouvia gritos, mas somente em sonho. Nas horas escuras o vestido verde de Chantal iluminava tudo.

Ela se chamava Arma Rieleck-Sostmann e era extraordinariamente alta. Trabalhava com Leibold, aparentemente como datilógrafa, mas na verdade a organização de toda a repartição era de sua responsabilidade. Nas baixas patentes, onde ninguém possuía um certificado escolar digno de ser mencionado, todos se alegravam por serem dirigidos por Anna Rieleck-Sostmann. Ela era a abelha rainha no Estado-maior de Leibold.

- Eu vi o senhor - ela me abordou, enquanto eu passeava no pátio durante a hora do almoço. Ela comia um sanduíche de pão preto. Todos contentavam-se com o pão de vento francês; de qual domínio senhorial será que ela recebia o pão preto? Senti cheiro de patê de fígado, genuinamente alemão.

- Viu-me? - Parei diante de uma saliência do muro. - Nós não nos vemos diariamente?

Apesar do calor, Rieleck-Sostmann usava um casaco de pele branca, coelho ou gato. O cabelo preso acompanhava os movimentos de sua mastigação. Observei os músculos das bochechas.

- Depois do trabalho o senhor vagueia por aí em trajes civis.

- Seus olhos cinzas me analisavam com curiosidade.

Transferi meu peso para as duas pernas, a fim de não cambalear. No mesmo instante, comecei a passar mal.

- Com certeza você me confundiu com outro — respondi.

- Pare com isso - ela me interrompeu. - A saída em trajes civis é permitida somente para oficiais de alta patente - e mesmo assim, só com autorização especial.

Eu conhecia as regras. Delitos eram severamente punidos, nos últimos tempos transferiam todos para o Leste.

— Eu não sabia. — Analisei o rosto de Rieleck-Sostmann.

— Você não está comendo — disse ela.

- Prefiro comer depois do trabalho.

- Os interrogatórios? -Seus traços não mudavam, mas percebi que fazia troça de mim. - Seu antecessor também passava mal. Era um Obersturmfúhrer de Wiesbaden. Tomava comprimidos para aliviar. Quando acabou o remédio, ficou doente. Agora está em Smolensk.

- Senhorita Rieleck, o que a senhorita viu...

- Senhora - replicou ela. - Meu marido morreu na guerra. Ela deu uma mordida. - Por que se faz passar por francês?

- Eu queria ver... se meu francês era bom o suficiente para enganar os franceses.

- Para quê? - perguntou ela, impassível. - O senhor não está no serviço secreto.

- Foi uma brincadeira impensada - balbuciei. - E só aconteceu uma única vez.

— O senhor é um sonhador, Obergefreiter. O senhor não combina com esses tempos - Rieleck-Sostmann amassou o papel do pão e levantou-se. Somente por conta dos sapatos altos estava mais alta do que eu. - Leibold convidou o senhor para o encontro das forças SS?

Senti calor e frio.

- Por que deveria?

- Eu datilografei a lista de convidados.

Apesar do pavor, minha curiosidade foi despertada.

- Saberia me dizer por que o Hauptsturmfúhrer me convidaria?

- Olhe-se no espelho, Obergefreiter. - Pela primeira vez ela riu. - Possui um uniforme de gala? Ou também vai aparecer lá em seu terno xadrez?

- Por favor, senhora Rieleck - disse em voz baixa. - Não me denuncie. - Ela calou-se. - Eu tenho um outro uniforme - acenei.

- Verifique se não está faltando nenhum botão. A propósito, a festa será no seu hotel. - Com isso, deixou-me ali.

Eu investigava os rostos dos outros enquanto datilografava os protocolos no corredor da sala de interrogatórios. Rieleck-Sostmann me entregou? Alguém sabia do meu disfarce? Fui tão longe que cheguei a enrolar numa conversa um dos ”quebra-ossos” de Leibold.

— Dússeldorf — disse ele surpreso, quando perguntei de onde vinha. Um outro Rottenfúhrer juntou-se a nós, logo estávamos em quatro, fumando. Durante a conversa sobre a Renânia, constatei aliviado que ao menos as patentes mais baixas não sabiam de nada.

— Meu ajudante está em casa, de férias — disse Leibold naquela mesma tarde. Ele olhava para o jardim, chovia. O verde cobria metade da parede. - Gostaria que o senhor me acompanhasse. - acrescentou, sorrindo.

Eu perguntei sobre o motivo do encontro.

- Camaradagem. - Deixou a ponta de cigarro cair ao chão bem próximo de mim. - Trate de polir suas insígnias, Roth, e encere as botas.

No hotel, tirei meu melhor uniforme do armário; estava amassado. A lavanderia já estava fechada há muito tempo. Corri até o porão e pedi ajuda à faxineira. Ela era prestativa. À noite, a farda estava pendurada ao lado do espelho, recém-passada. Observeime com o uniforme, o cinza-escuro me dava algo de marcante. Coloquei a boina de modo elegante e ajeitei o cinto de couro.

Dúzias de oficiais tumultuavam o hotel, alguns em companhia feminina. Francês mal-falado, atmosfera gentil, forçada. Leibold apareceu pontualmente.

— Nada mal — analisou-me. — Preto ainda lhe cairia melhor. — Bateu no meu ombro. Não tomamos o elevador, Leibold detestava lugares apertados.

Saudações gerais no quinto andar. Dois homens da Gestapo curvavam-se sobre a lista de convidados. Olharam-me desconfiados, o cabo das Forças Armadas. Aproximei-me de Leibold para demonstrar a que roda eu pertencia.

- Avisarei quando precisar do senhor. - Deixou-me para trás na entrada e dirigiu-se aos senhores do salão. Eu nunca vira antes um Standartenfúhrers de perto. Uma pessoa enorme, ele cumprimentou Leibold calorosamente.

 

8 Standartenfúhrer: insígnia conferida a oficiais AS e SS que comandavam unidades conhecidas como Standarten, com 300 a 500 homens. (N. da T.)

 

Peguei um copo de vinho branco e recolhi-me a um canto. Meia hora depois, apareceu Ana RieleckSostmann. Trajava um conjunto azul, a saia cobria as pernas quase até as canelas.

- Também foi convidada? - perguntei surpreso.

- Uma mensagem para Leibold - Rieleck-Sostmann ergueu a pasta. Seu olhar dizia que não queria pertencer à categoria das francesas maquiadas, que eram circundadas pelos oficiais.

- Devo levá-la até ele? - Leibold estava sentado de frente para o Standartenfúhrer. Uma vista peculiar, ambos sobre o fundo do papel de parede com estampa de coroa de flores. Assim que eu ia dar o primeiro passo, senti a mão de Rieleck-Sostmann no meu braço.

- Tem tempo. - Seus dedos demoraram-se sobre minha abotoadura. - Em que andar fica o seu quarto?

Eu lhe disse.

- E o número? Olhei para ela.

- Vá na frente, eu bato na porta duas vezes. - Seus olhos permaneceram frios.

- E se Leibold...

- Não vai sentir sua falta tão cedo.

Eu queria replicar, a postura de Rieleck-Sostmann excluía objeção. Dirigi-me à porta de dois batentes, devagar, passo a passo, não me virei mais. Levantei a mão para a continência e passei pelos cães de guarda. Suor nos canos das botas. A jaqueta do uniforme estava colada nas axilas. Na escada, um grupo de oficiais da SS tentava formular uma frase difícil em francês. Desci três andares, passei pelo corredor. Assustei-me quando ao meu lado uma lâmpada estalou e apagou. Destranquei, deixei que a porta batesse, estava em pé no quarto como um estranho. A cama ocupava praticamente todo o espaço. Não acendi a luz, não abri as cortinas, apesar do ar viciado. Como sempre, eu não tinha nada para beber. Senti uma pulsação abafada nas têmporas.

Pouco depois, Rieleck-Sostmann esgueirou-se no quarto e trancou a porta sem fazer barulho. Olhou para mim, como se avaliasse uma mercadoria. Soltou os cabelos. Com um movimento brusco abriu meu cinto.

- Você ficaria bem com uma baioneta - disse ela, enquanto colocava o penduricalho de lado

- Não acho que punhais sejam práticos - murmurei. - É fácil de se emaranhar

Ela deu-me um empurrão, caí sobre a cama. Abriu os botões da jaqueta e da blusa, sem tirar a roupa. Um claro farfalhar, sua saia escorregou para o chão. Ela usava meias cor de pele. Ajoelhou-se sobre mim, abriu minha camisa. Lembrei-me de meu vizinho no quarto ao lado, que atrás da parede fina talvez nesse mesmo instante estivesse tirando o telefone do gancho.

- Temos que ser silenciosos.

Ela me agarrou pelo quadril e puxou minha calça até os joelhos. Eu tive que pensar na água que cobria a construção de aço da Pont Solférino.

Antes de autorizarem que eu retornasse ao salão, membros da polícia secreta examinaram a lista meticulosamente.

Leibold esperava.

- O senhor tem que pedir permissão - disse ele irritado.

- Saí rapidamente, Hauptsturmfúhrer. - Bati continência. Assim que ele desviou o olhar, enxuguei o suor do lábio superior.

- Tem que agüentar mais meia horinha ainda. Depois nos juntamos a alguns senhores que irão ao Turachevsky.

- Não tenho como bancar minhas despesas numa casa noturna, Hauptsturm...

- Pare de se rebaixar - dirigiu-se Leibold a mim. - Acha que lá o champanhe é cobrado por taça? Sirva-se de um pouco de caviar de esturjão.

Passei um pouco da geléia preta numa torrada. Desde que a embaixada soviética fora desocupada, encontrava-se a conserva em todo lugar. Assim como chás de diferentes tipos, mais gordurosos e fortes do que o pozinho moído do estoque das Forças Armadas. Lembrei-me de ter lido no Je suis partout histórias de arrepiar sobre o confisco. Alçapões e calabouços, bacias elétricas para queimar cadáveres. Nas fotos, os rostos esbranquiçados pelo flash.

Eu andava entre os uniformes segurando meu prato. Sem chamar a atenção, olhei pela janela. Na sacada em frente, uma francesa vestindo um penhoar observava a sociedade barulhenta. Desapareceu no interior da sua casa, assim que me curvei para fora. Fiquei olhando para o quadrado escuro. O que Chantal estaria fazendo? Morava junto com o pai? A casa ficava em cima da livraria? Pela primeira vez, eu me espantei por nunca tê-la visto com outros homens. O barbeiro talvez?

- Está sonhando, Roth?

O olhar de Leibold, os olhos tristes das outras ocasiões brilhavam por conta do champanhe.

— Partida. — Ele colocou seu quepe. Parecia anos mais jovem quando cobria sua calvície.

Quatro homens dividiam um carro. Eu era o único cabo. O banco de trás ameaçou ficar apertado. Ofereci-me para tomar o metrô; poderíamos muito bem nos reencontrar em Trinité. Leibold amenizou a situação com uma piada, dizendo que ninguém queria que eu me encerrasse nos quartéis junto com os soldadecos depois do toque de recolher. Quando embarquei, um olhar fuzilante do Standartenfúhrer. Leibold tirou seu punhal e deitou-o sobre os joelhos. Eu me espremi bem próximo à porta.

- Sabem o que encontrei sobre o capacho na saída do refeitório dos oficiais? - perguntou o Standartenfúhrer. - Um folhetim.

Partimos.

- Fotos indecentes? - O Untersturmfúhrer virou-se no banco da frente.

- Do tipo mais cómico - ria seu superior. - Uma mulher, vista de costas, que não usava nada além de calças curtas de couro. A calça tinha janelas ovais na bunda!

Durante as risadas, Leibold observou-me como se eu estivesse sendo submetido a um teste. Passamos sobre a Solférino, a água chiava, invisível.

- Agora é a melhor hora para ir ao Turachevsky - disse o passageiro da frente. Depois da meia-noite chegam os homens das Forças Armadas. Aí fica muito apertado. Uma vez vi oito soldados sentados em um único sofá. — Sua risada barregante foi sufocada pelo olhar do Standartenfúhrer.

— Numa ocasião, ouvi um negro cantando lá — disse Leibold.

- Absolutamente espantoso.

— Tomara que tenha balé. — respondeu o Standartenfúhrer. Ficaram calados até a rue Clinchy. As ruas estavam desertas.

Poucos civis alemães. Uma mulher corria com suas sandálias barulhentas de madeira. Assim que ouviu o carro alemão, correu para dentro de uma casa. Na entrada do Schéhérézade brilhava uma luz azul, refletida pela pala do boné do porteiro noturno.

Paramos diante do Turachevsky, desci, abri a porta para o Hauptsturmfúhrer.

- Não faça essa cara - vociferou Leibold.

A porta foi aberta, antes mesmo de o Standartenfúhrer pôr a mão no botão da campainha.

- Que coisa, está vazio. - O Standartenfúhrer olhou para a nossa roda. - Normalmente é necessário apertar a campainha várias vezes até que alguém ouça.

Fui o último a pisar no salão. Sofás e divãs, um lustre tão alto que não era alcançado pela fumaça.

- Pode vir a ficar mais animado - resmungou o Standartenfúhrer.

A recepcionista veio em nossa direção trajando um vestido de seda azul. Na sua mão a ponta de um lencinho de renda, com o qual dava pequenas batidinhas na testa.

- Ah, mon dieu, boa noite, o que aconteceu, santo Deus? perguntou. - Onde estão os amigos dos senhores, lês messieurs soldais?

Os oficiais se entreolharam.

- O calor, madame, a noite bonita. Faz com que todos queiram ficar ao ar livre.

- O senhor não sabe das novas, monsieur officier. Todos os soldados foram para a Rússia, ontem à noite, de trem.

- Mas que bobagem - interveio o Standartenfúhrer. - Je vous assure, madame, nenhum soldado deixou Paris rumo ao Leste. Gostaria de saber quem espalha essas porcarias!

- Assim espero - respondeu a madame um tanto aliviada. Encore deuxjours comme ca, eje dois congédier lês filies. Abanava. o lencinho na altura dos seios. - Quelíe horreur cette guerre de Russie. Os alemães devem ter grandes prejuízos.

- Muito pelo contrário, madame. - O Standartenfúhrer assumiu um tom agudo. -

faut garder votre sang froid, je vous en prie. Os prejuízos alemães não se comparam ao imenso sucesso perante a história mundial. - Com isso, deixou a matrona ali, parada, cruzou o salão fazendo barulho com as suas botas e desapareceu no bar. Nosso cortejo juntou-se a ele.

Civis da embaixada, um com polainas brancas. Ademais, viam-se ladrõezinhos de quinta, contrabandistas e corruptos. Poucos das Forças Armadas. Escassos acenos de ”crânios”, atestados de honra exibidos com desleixo. O garçom nos indicou a melhor mesa, a um braço de distância do palco. Hesitei antes de me sentar, Leibold fez um gesto de camaradagem.

- Sente-se! - disse atrás de mim.

Puxei uma cadeira da mesa ao lado. No palco, as bailarinas apresentavam uma cena de animais. Usavam máscaras de ovelhas e leões, de resto, quase mais nada. A música era uma melodia de camponeses. O Standartenfúhrer pediu duas garrafas, enquanto as meninas pulavam no palco.

- Espero que o champanhe também não seja assim, sem gosto - disse ele.

O número encerrou com a unificação das ovelhas e dos leões. Os homens das Forças Armadas uivavam.

- Fácil de resolver. - O enorme oficial olhou desdenhoso ao seu redor.

As moças desapareceram sem se curvar perante o público. Agora tocavam uma marcha. O pianista levantou-se e deu a entender, num alemão muito cortado, que seriam apresentadas esculturas vivas de nu artístico.

- Preciso então de uma aguardente! - suspirou o Standartenfúhrer. Não esperou o garçom abrir o champanhe, mas ordenou que providenciasse logo seu pedido. O Untersturmfúhrer deixou a rolha estourar. A mão de Leibold pendia ao lado da cadeira, não muito longe do meu joelho. Ele batia o ritmo na perna da minha cadeira. Peguei um copo cheio e me arrastei um pouco para o lado.

— Nu artístico! — resmungou o Untersturmfúhrer, quando quatro meninas representavam A ponte para a felicidade. Um rapaz vestido de príncipe andou sobre a ponte e exigiu atenção de cada uma de suas colunas nuas. O Standartenfúhrer despejou sua aguardente garganta abaixo num gole só.

- Pior do que os contos de fada dos Grimm!

- Mas aquela de coque se sobressai como uma fera atrevida.

- O Untersturmfúhrer bebia alternadamente aguardente e champanhe.

A ponte para a felicidade desapareceu. A apresentação de nu artístico que se seguiu começou com um solo de violino ao fundo. Senti claramente a mão de Leibold no cano da bota.

Três mulheres encarnaram O julgamento de Paris. Divindades gregas nuas que rodavam lentamente com suas insígnias. A peituda Hera usava uma toga vermelha. Afrodite brincava, desajeitada, com uma folha de figo e cobria alternadamente sua nudez. A terceira era Atena.

Esqueci a mão de Leibold, que agarrou meu joelho, cuidadosamente, pois a deusa da guerra era representada por Chantal. Ela trajava capacete e armadura, que na frente era tão decotada, que deixava seus seios se imporem. Como as outras, ela também esticava o braço na direção da maçã dourada, ao mesmo tempo em que girava. Seus cabelos vermelho-castanhos brilhavam à luz do holofote. O rosto era totalmente inexpressivo.

- Basta, senhores! - O Standartenfúhrer levantou-se num pulo. - Agora eu quero appeler lês domes. - Foi se arrastando de volta ao salão.

Levantei-me devagar, rígido, olhava fixamente para o palco. A mão de Leibold desviou-se para o estojo de cigarros. Paris, todo pintado de dourado, estava prestes a entregar a maçã à Afrodite, mas o tumulto na frente do palco irritou-o. A maçã caiu e rolou por trás das luzes da ribalta. Diversão entre as divindades. Desapareceram atrás da cortina transparente, sem finalizar a cena. Ao som de ”Dor da paixão” a luz do palco foi apagada. Eu ainda permanecia do mesmo jeito. Chantal, a ajudante do barbeiro - ela esteve mesmo ali?

Leibold me analisava.

- Qual das graciosidades te enfeitiçou? Acaso não foi o rapaz? - O rosto brando, gotas de suor em sua testa.

- E então, o que foi? - perguntou o Untersturmfúhrer. Leibold apontava para o salão, onde uma campainha tocava pela segunda vez. Andei por entre as mesas, sem responder. Leibold seguia-me, com um copo na mão.

Assim que entramos, a madame bateu palmas para que se apressassem. No mesmo instante, meninas saíram de todas as portas. O lustre emitia uma luz forte. O Standartenfúhrer aguardava a saída de todas no sofá. Uma moça alta de túnica azul posicionou-se no meio como um mastro de bandeira, ao redor da qual as outras se agruparam. A segunda, com cara de ofendida, levantou a sainha e mostrou a traseira. Uma eslava de olhos amarelados e dentes fortes. A moça de blusa verde, muito magra, omoplatas bem definidas. Não paravam de entrar novas meninas, todas esticando os rostos na tentativa de reter os bocejos. O farfalhar das sedas, o ranger das sandálias. Meu olhar corria de porta a porta, de onde surgiria Chantal?

- Qual será a intenção daquela com cara de dragão e máscara de carnaval? - riu o Standartenfúhrer. -Já estão mobilizando o exército de reserva! - Uma que estava na lateral abriu seu quimono. Os seios olhavam cada um para um lado. Reparei que nenhuma delas parecia estar realmente presente. O sorriso como que pintado com cuspe. Uma fileira já estava formada, a segunda surgia por trás.

- Sempre achei que a casa tivesse no máximo dez meninas. - acenava impressionado o oficial enorme.

O Untersturmfúhrer trocava olhares com a moça alta de túnica. Quando a segunda fileira estava completa, as retardatárias deitaram na frente das demais. Sobrancelhas arqueadas, caras sérias. O par de olhos de Chantal não estava presente.

- Atenção, fotografia do grupo! - o Standartenfúhrer arreganhou os dentes. Abriu o primeiro botão, ajeitou a cruz de mérito. O Untersturmfúhrer esperava pela escolha de seu superior, para em seguida poder finalmente desaparecer com a moça alta. Leibold esparramou-se na poltrona como se tudo aquilo não tivesse nada a ver com ele. Todos se calaram, o momento da escolha.

- Mesdames, a oferta surpasse lê... Como se fala ”procura”? dirigiu-se o oficial a mim.

- Demande - respondi, e com isso atraí os olhares para mim.

A madame trouxe champanhe. Curvando-se, chamou a atenção do Standartenfúhrer para um anjo corpulento. - Vous connaissez Flora, uma novidade?

- Não, não - Flora não correspondia ao gosto do oficial. - Aquela lá trás, segunda fileira - disse ele. - A quarta da esquerda, com a boca vulgar. Já nos divertimos antes.

— Alors, monsieur — acenou a madame. Seu lencinho abanou na direção da candidata.

- O prato simples e caseiro, o eterno gosto alemão - pensou alto o grandalhão, enquanto a escolhida vinha em sua direção com olhar baixo. - Bom - suspirou ele, como se já não se importasse mais com a apresentação. O Untersturmfúhrer saltou com um nervosismo um tanto exagerado na direção da moça de túnica, como se um outro pudesse roubá-la dele. Ela não sorria.

- Perdeu o apetite? - Leibold estava ao meu lado. O cheiro da sua loção pós-barba cara alcançou as minhas narinas.

- Para falar a verdade, eu não tinha em mente...

- Podemos ir a outro lugar, se quiser. Pegou na borda de brocado, seu braço raspou na minha nuca. Olhei para o rosto branco e indiscreto. Duas dúzias de mulheres continuavam na nossa frente. A madame brincava com a cruz prateada entre os seus seios. Sua cara deveria nos estimular, mas notei que ela já perdia a paciência. Na segunda fileira, vi uma de cabelo bem curto que se entregava ao bocejo, sua boca se abria. Passou a mão pelos olhos, jóias tilintaram.

— Aquela — disse eu e deixei Leibold para trás.

A moça de cabelo curto passou entre as fileiras das colegas com um ”pardon” baixo, seus ombros estreitos à frente. Leibold não desfez seu sorriso nem por um segundo e simplesmente voltou para o bar.

As meninas deram meia-volta sobre seus saltos, as que estavam deitadas ergueram-se, braços e pontas de cintos voaram; em poucos segundos, a sala, o tapete verde acinzentado estava sem ninguém. As que não foram escolhidas começaram a tagarelar na escada, como num pensionato de moças. A de cabelo curto aguardava minha companhia. Colocou a mão na frente da boca. Por todo aquele tempo, eu ainda mantive as esperanças de encontrar Chantal entre aquelas que estavam saindo. Em lugar algum o cabelo vermelho-castanho. A filha do livreiro. O julgamento de Paris.

- Veuillez monter? - encorajava a madame.

Sem nenhum contato, segui a moça de cabelo curto que, seguindo o protocolo, se apresentou como Yvette. Eu sabia que Leibold me observava da porta, e não me virei mais.

O quarto era maior do que se poderia supor, deixei-me cair na cama. Yvette livrou-se do casaquinho verde.

- Seulement un moment - disse eu.

Ela não compreendeu e ajoelhou-se diante de mim no tapete.

- Je pars tout de surte. - Procurei notas no bolso da frente. Paguei-a e empurrei sua mão, que me acariciava.

- Mais qu’est-ce que t’as? Tu me voulais.

- Oui, tu me piais beaucoup. Je suis fatigue.

Olhei para o relógio. Será que Chantal ainda estava na casa? Como ela conseguia ir à noite da casa noturna até a rue de Gaspard? Em algum lugar, atrás das paredes, o Untersturmfúhrer ria. A de cabelo curto deitou-se no meu colo. Adormeceu enquanto ainda acariciava minha mão.

— Hoje à noite! Eu lhe imploro!

Hirschbiegel bateu na porta de forma estrondosa, agora estava parado na entrada.

- Hoje vamos sair por aí! - dizia ele, os olhos arregalados, para me enxergar na escuridão.

Hirschbiegel pesava cem quilos. Suas pernas eram grossas como barris, possuía a força de um boi. Apesar de mandar fazer o seu uniforme de tenente sob medida, parecia um palhaço.

- Chercher lafemme! - dizia ele. - Você não vai me deixar de lado mais uma vez!

Hirschbiegel era de Munique, seus pais eram ricos. Ele contou que eles até possuíam um apartamento em Paris. O júnior tornava a guerra como um passeio. Seu único medo era ir sozinho aos prostíbulos. Ele envergonhava-se de dirigir a palavra às prostitutas e queria que eu acertasse o alvo por ele.

— Hoje não. — Puxei o lençol até o peito.

- Deus do céu! Você só fica aí deitado! - Um passo na direção da janela, ele abriu a cortina. Suor brilhava em seus cachos loiros. Ficou estarrecido ao se virar.

Anna Rieleck-Sostmann tinha a perna apoiada sobre o canto da cama e vestia a meia.

-Jesus, Maria, pardon! - Com o susto, tombou contra a parede. - Foi só por conta da escuridão - desculpou-se ele, examinando a mulher seminua. - Eu não sabia que você tinha contato com o inimigo - disse ele com leve sorriso. - Apresente-me! -Já havia recuperado sua coragem. - Quem sabe podemos a três...

- O senhor se retire do quarto, enquanto uma dama se veste.

O tom de Rieleck-Sostmann atingiu Hirschbiegel de forma tão certeira quanto as ordens dos Rottenfúhrer no escritório.

Ele se assustou ao ouvir a língua materna.

- É uma das nossas! — exclamou involuntariamente.

- Saia agora, tenente. - Ela não levantou a voz nem por um momento.

- Se eu soubesse...! Mil perdões, senhorita. - Suas garras imensas tateavam à procura da porta nas suas costas. Ao retroceder, esbarrou na borda da cama, Rieleck-Sostmann ergueu-se, ameaçadora. Logo depois pudemos ouvir os passos pesados dele se afastando no corredor.

— Sinto muito. — Eu afagava suas costas.

- Tudo bem. Ainda assim, seu hotel é menos complicado que o meu. - Alisou a outra meia, olhou para mim.

- Vai sair com o gordo? - O cabelo loiro cobria metade de seu rosto.

Peguei um de seus cigarros.

- Talvez.

Começou a prender as mechas.

- Você não se sente tentado a bancar o francês novamente?

Acendi o fósforo.

- Quem se prejudicaria, se eu o fizesse?

— E se eu te denunciar como déserteur amoureux?

Eu nunca sabia quando ela estava de brincadeira. Ela observou meus olhos iluminados pela chama. Obedecendo a uma ideia repentina, levantou-se, abriu meu armário e pegou o xadrezinho. Vestiu o paletó, sorrindo. Fantasiada de homem, ela voltou e se jogou sobre mim. Suportei sua afetuosidade dolorosa. Depois disso, ela se levantou e deixou o paletó deslizar até o chão. Arrumou seu cabelo pela segunda vez na frente do espelho. Passei a língua pelo lábio inferior, onde ela me mordera.

Nos segundos em que Rieleck-Sostmann espiava o corredor, desejei ter nada além de um trabalho normal, longe de Paris, um escritório num lugar qualquer, frases que eu traduzia para o alemão. E ao mesmo tempo eu sabia que em nenhum outro lugar eu teria uma vida tão confortável como aqui.

Rieleck-Sostmann se foi. Por minutos, fixei o olhar no paletó sobre o tapete. Sentia falta de monsieur Antoine. O homem jovem que puxava o chapéu para a nuca e caminhava pela cidade sobre solas macias. O parisiense desconhecido; ele cumprimentava e era cumprimentado. Ele apreciava o calor dos dias de verão.

Até então não tivera a coragem de desprezar o aviso de Rieleck-Sostmann. Eu não ia a rue Jacob nem de uniforme, nem em trajes civis. Muitas vezes tive a intenção de voltar ao Turachevsky; mas também não reunia forças para isso. Perguntava-me freqüentemente como Chantal podia trabalhar ali. Do pouco que eu sabia dela, uma coisa estava clara, ela odiava os invasores. Por que se apresentava nua perante eles?

Naquelas semanas, tornei-me sombrio e apático. Estávamos interrogando um coquillard9 que era suspeito de ter planejado os ataques incendiários no nono arrondissement. Ele era lacónico, nodoso como raízes, escondia-se por trás de seu dialeto. Freqüentemente, tive que perguntar uma segunda vez para entender o que ele queria dizer. Leibold deixou que os Rottenfúhrer cuidassem do homem ao seu modo. Mas parecia que eles batiam sobre pedra oca. O rapaz tinha ombros largos, que ele curvava para se proteger quando as pancadas começavam. Deixou que mergulhassem sua cabeça na tina, eles a mantiveram debaixo da água por um tempo infinito. Não disse nada quando o levantaram. Impediram-no de dormir; permanecia sentado, com as pálpebras pesadas e a mandíbula projetada para frente, e falava de modo tão incompreensível que muitas vezes tive que associar palavras de sonoridade similar para encontrar algum sentido.

- Não vamos arrancar nada de interessante dele - disse Leibold mais tarde no corredor. - Eu tenho certeza de que o homem é um bode expiatório. Em alguns dias eu o libero. Cinco cães farejadores; daí em diante ele não ficará mais um segundo sequer sozinho. Em algum momento ele vai ter que entrar em contato com alguém.

Às vezes, durante os interrogatórios infindáveis, eu tinha a impressão de estar eu próprio submetido aos métodos impiedosos dos Rottenfúhrer.

 

9 Coquillard: termo histórico de denominação de um bando de ladrões que tinham uma concha presa na gola de suas roupas. (N. da T.)

 

Aí eu achava que não suportaria mais. A lembrança dos gritos acordava-me toda noite. Falara com Leibold sobre o retorno ao meu posto de origem; afinal, tinha sido transferido apenas temporariamente. Eu não tenho que me preocupar com isso, foi sua resposta.

- Voltou ao Turachevsky recentemente? - Evitáramos o tema desde aquela visita. - A sua pequena de cabelo curto correspondeu às suas expectativas? - Um brilho lascivo e frio demorou-se no olhar de Leibold.

Os dias na rue dês Saussaies, as acrobacias sexuais com Rieleck-Sostmann, minha saudade de Chantal - e sentia-me preso naquele triângulo infeliz.

Comecei a ouvir barulho de água vindo de cima. Hirschbiegel entrou em sua banheira. Eu continuava a olhar fixamente para o paletó no chão. A ideia de que ouviria ”Ma pomme” a qualquer momento deu-me a motivação necessária. Apressado, peguei a calça que estava na cama e me vesti.

O calor não dava trégua, e já era quase noite. Eu me transformei em monsieur Antoine. Como na primeira vez, La Fontaine estava comigo, eu me sentia mais seguro com o livro. Não perdi tempo na margem norte, atravessei a Pont Royal e dirigi-me à rue Jacob. Achei uma mesa à sombra no Lubinsky. Tomei o primeiro café com creme. Coloquei o livro na minha frente, como alguém que quer ler e não deseja ser incomodado. Ficara quente de um dia para o outro. O ar cozinhava sobre o asfalto, uma névoa pairava sobre as cumeeiras. As pessoas apreciavam isso, ouvia-as falar sobre uma tempestade que chegaria à cidade à noite. Agachei-me para amarrar o cadarço. Então percebi uma sombra.

Observando-me seriamente, ela se projetou sobre mim. Trajava o vestido de estampa vermelha. Não me observava, mas sim o livro. Um macaco furioso cavalgava sobre um peixe-dragão, ao redor um mar espumante em tons intensos de verdes. A gravação em cobre do título sempre representou para mim a entrada para algo encantado. Os dedos de Chantal acariciavam as barbatanas do monstro marinho.

- Só um peixe-gato tem essa aparência - disse ela. - Nenhum outro animal. - Sua voz soava mais grave do que eu me lembrava, era como a de um garoto na época da mudança de timbre.

- Nunca vi um peixe-gato. - Eu utilizava esse vocábulo pela primeira vez.

— Às vezes meu avô os pesca. No campo — respondeu Chantal.

- Você mora no campo?

Um olhar surpreso.

- Você sabe que não. - Ela sentou-se tão bruscamente que meu café entornou da xícara.

- Une Grenouille vit un Boeuf, qui lui sembla de belle taille. Ela abriu o livro.

- ”O touro e o sapo” - acenei. - Gosta dessa fábula?

- Ela acontece na vida real com freqüência.

- O sapo que quer se igualar em tamanho a um touro?

- Pessoas muito cheias de si, a ponto de estourar. - Ela chamou o garçom que passava apressado. - Há tempos que não o vejo aqui

- ela prendeu o vestido entre os joelhos. Meu olhar passou pelo triângulo do seu colo.

- Notou minha pessoa?

- A maioria das pessoas de fora que circulam por aqui usa uniforme - disse ela depois de uma pausa. - Você não.

- Eu não. - Esperei. Uma corrente de ar veio da lateral. A página aberta agora era a de ”O macaco e o leopardo”. O garçom colocou uma limonada na frente de Chantal. Ela tomou em pequenos goles. Meu olhar penetrou em sua boca.

- O que você faz? - perguntou ela de súbito.

Consegui algum tempo fechando o livro e colocando-o na bolsa. Seria muito arriscado dizer que era livreiro. A filha do livreiro poderia fazer perguntas. Eu sabia que a Sorbonne estava fechada. Mas e as universidades de outras cidades? A pausa ameaçou ficar demasiadamente longa.

- Sou estudante.

- É isso mesmo que o senhor aparenta ser. - Pela primeira vez ela sorriu. - Por que não teve que ir para a guerra?

- E a senhora, mademoiselle! - Já estava farto daquele joguinho de perguntas. - Sua única ocupação é varrer fios de cabelo?

- O que quer dizer? - Leve penugem em seu lábio superior. — Eu sei algo a seu respeito. — Estalei os dedos e apontei para a xícara vazia. O garçom acenou. Olhei para Chantal. - Você gosta de borboletas.

- De onde...? - perguntou ela realmente surpresa.

- Toda vez que uma borboleta voa para longe, uma pequena tristeza toma a senhora de assalto.

Silêncio. Sentia meu coração bater. Naquele momento me atreveria a tudo, até mesmo a equilibrar-me sobre uma fiação elétrica sobre o café.

- Como sabe disso? - Seu olhar estava sério.

- Dança? - Eu ouvia uma risada silenciosa em minha voz. Com certeza sabe onde é possível dançar hoje à noite.

- As luzes são proibidas.

- Onde se dança com as cortinas fechadas.

E o toque de recolher?

- O Frite não pode estar em todos os lugares.

Seu copo estava vazio. Procurou na sua bolsa. - O senhor se enganou em relação a mim. Preciso ir.

- Permite? - Puxei o pires com a conta.

- Conhece a fábula da raposa apaixonada? - Chantal levantou-se. - A raposa quer o amor de uma menina. Ela promete realizar seu desejo com uma condição. Ela tem que cortar as garras e limar os dentes. A raposa apaixonada faz o que a menina ordena. Mas como agora ela não podia mais se defender, a menina instiga os cachorros contra ela.

Coloquei moedas sobre o pires.

- A senhora quer dizer então que uma raposa não deve deixarse domar por uma menina?

Sem responder, forçou sua passagem por entre as mesas. Coloquei o chapéu e a segui. No Lubinsky, o garçom procurava surpreso pelo freguês que pagou, mas não tomou seu café com creme.

Chantal tomou a rue Jacob na direção oeste.

- Já precisa ir para casa? - Alcancei-a.

Do leste veio o primeiro trovão.

- O que mais sabe de mim? - Andou mais rápido.

— À noite, passa pela banca de jornal e lê as novidades. Não deixa de fora nem as manchetes de Je suis partout. Compra frutas no Maillard e pão duas casas adiante. Empurra o portão preto e desaparece numa viela escondida. Às vezes, fica sentada numa pedra que deve ter caído do céu.

Chantal parou. Ao longe um raio branco-azulado cruzou o céu lácteo.

- Meu pai me disse que um homem perguntou de mim. Era o senhor?

A trovoada seguinte estourou sobre o quinto arrondissement. Escureceu rapidamente. O ar foi dominado por um cheiro de enxofre. Uma sombra que surgira de súbito cortou o rosto de Chantal em duas metades. Uma ventania ameaçava soprar meu chapéu para longe. Ela se aproximou.

- Se meu pai vir o La Fontaine com certeza fará uma oferta.

— Não está à venda.

Raios cortavam o céu sobre os telhados. O vento carregado de poeira pressionava o vestido de Chantal contra seu quadril. Eu tirei o casaco e pendurei-o sobre seus ombros. As primeiras gotas molhavam minha camisa.

- Não deveríamos ficar aqui.

Andávamos contra a tempestade que uivava na viela. O cabelo de Chantal estava desgrenhado. - Devo acompanhá-la até a sua casa? — O vento soprou remoinho no meu rosto, eu cuspi. Chantal virou a cabeça. Eu abracei suas costas, juntos resistimos ao vento. Fomos pegos de surpresa pelo aguaceiro no cruzamento do bulevar. De repente, Chantal me puxou para uma viela esburacada. O asfalto estourara como num terremoto. Depois de uma dúzia de passos alcançamos um bar. Estava lotado de pessoas que fugiam da tempestade. Todos em pé, encostados uns nos outros.

- Tinto ou branco? - O dono percebeu nossa presença.

Vi o rosto vermelho e suado de Chantal. Ela sacudia seus cachos. Fechei os olhos diante das gotas d’água.

- Dois tintos! - ela respondeu.

Os copos foram levados sobre o balcão de mão em mão até chegar a nós. Chantal os pegou.

- Onde mora?

A pergunta veio de forma inesperada. Impossível mencionar o hotel. Lembrei de Hirschbiegel. - Com um amigo - disse eu. Ele me descrevera o apartamento uma vez. Muito aconchegante, era possível convidar mulheres para lá. Ficava no segundo arrondissement.

Brindamos. Ela bebericou.

- Onde fica esse apartamento?

- No segundo anondissement.

Calada, Chantal bebia seu vinho. De seu cabelo emanava um leve vapor, a naftalina do meu casaco emanava um cheiro peculiar. Os últimos refugiados buscavam abrigo da chuva; do outro lado do vidro, tudo se diluía. Chantal estava cansada. Seu ombro encostou-se no meu. Eu passei o braço em sua cintura. Virei-a um pouco para mim e abracei sua nuca. Ela tinha os olhos fechados. Afaguei seus lábios, eles se abriam um pouco, senti sua respiração. As pontas dos seus dedos estavam nas minhas costas. Um homem ao nosso lado empurrou-nos levemente, para que encostássemonos em outra pessoa. Chantal ergueu as pálpebras, cinza e violeta em suas pupilas. Explorou minha nuca com a mão. Perto de nós alguém sacudia a jaqueta molhada, uma mulher ria. Cheiro de gente e de vinho.

- O que você faz quando não está lendo as fábulas? - perguntou Chantal.

A sala de interrogatórios surgiu na minha frente, os prisioneiros. Homens que tentavam regatear com Leibold para se preservar de dores. Os fracos que tudo diziam e que eram tratados com desprezo. Os durões que se enrijeciam pela dor e mesmo assim se despedaçavam.

- Eu simplesmente passeio por Paris - disse eu.

Quando saímos para a rua, o céu já tinha clareado. O calor do dia emanava dos muros. Chantal e eu caminhamos lado a lado sem nos tocar. Chegamos ao portão preto.

- O que fará amanhã? - perguntei.

Ela devolveu-me o casaco.

- Amanhã não estarei no salão.

Por um momento pensei no Turachevsky, em sua apresentação como Atena. Eu compreendi que ela mencionava o salão do barbeiro.

- Nos encontramos no Lubinsky?

- Eu não sei - Seu olhar explorava meus olhos.

- Ou talvez prefira uma área verde?

- Não está com frio? - perguntou-me.

Abri-lhe a porta, ela esgueirou-se para dentro. Antes que ela chegasse até a lanterna, todas as luzes ao seu redor se apagaram. Corri feliz pelas ruas escuras e assombradas. Monsieur Antoine passara a noite com Chantal. Nenhuma máscara, nenhum fingimento - tinha sido eu mesmo!

Na noite seguinte, subi um andar a mais no hotel e fui entrando enquanto ainda batia na porta. Botas tinham acabado de ser jogadas num canto, o gramofone tocara ”Ma pomme”. Hirschbiegel já estava em casa.

- Hirschbiegel, sou eu - o barulho das torneiras, ele estava no banheiro. Contornei a cama e bati na porta.

- Ei, Hirschbiegel?

Empurrei a porta de leve. Lá estava ele, deitado. O corpo enorme quase arrebentava a banheira. O peito peludo e molhado estava arqueado, seus olhos estavam fechados.

- Ei, tenente!

Consegui extrair dele um grito pavoroso, olhos assustados.

- Entrando aqui dessa maneira, na ponta dos pés? - Gotas d’água pousavam sobre seu cabelo crespo. Apoiou os braços, queria se levantar, rangidos e estalos.

- Nenhum inimigo à vista, Hirschbiegel. - Sentei-me no banquinho.

- A moça de ontem se acalmou? - Entortou a cabeça, o queixo gordo foi empurrado para o lado. - De que unidade ela é?

- É só uma conhecida. - Eu quis manter Rieleck-Sostmann fora disso.

- E como está com as outras moças?

- O tempo é de vacas magras.

- A sua valquíria era tudo menos magra — disse ele, totalmente maravilhado.

- Amor entre colegas.

Hirschbiegel soltou uma gargalhada.

- Coleguismo é uma coisa maravilhosa! - Seu corpo boiava de um lado para o outro. Quando vai me levar junto?

- Na verdade, não gosto mais de ir naquelas casas - dei de ombros. — Acaba nos tomando a ilusão.

O rosto vermelho acenava, sério. - Sente-se a falta de uma vida a dois, mas acaba-se permanecendo sempre o estrangeiro. - De repente, apoiou com a mão na beirada da banheira. - Eu te fiz a oferta! - disse ele. - Eu não disse várias vezes que o apartamento está à disposição?

Eu contemplava os desenhos dos azulejos. - É verdade, você ofereceu.

- Você poderia ser um pouco mais prestativo - mendigava ele.

- Mas por que seus pais compraram esse apartamento antes da guerra...?

- Sonho de juventude do meu pai - respondeu Hirschbiegel.

- Ele sempre quis pintar. Meu velho e a pintura! Ele não se importou com a lenda da inimizade hereditária e comprou o apartamento; ainda nos tempos da república. Tudo foi desenrolado por um judeu, pessoa de confiança; até hoje está tudo no nome de ”Wasserlof. Um Hirschbiegel no Châtelet chamaria a atenção. - O tenente fechou a torneira com os dedos do pé. Silêncio repentino.

- Então o apartamento está vazio? - perguntei desinteressado.

- Não é uma pena? - Levantou-se. - Não é grande, mas serve para uma boa diversão. Quando quer que eu lhe mostre o apartamento?

- Amanhã talvez? - deixei escapar, um pouco rápido demais.

Levantou-se com imenso ruído. - O quê? - Jatos de água cintilavam ao redor do colosso. - Primeiro você some durante semanas e agora essa pressa toda? - Pegou a toalha.

- A guerra não vai durar para sempre. - Olhei pela janela. Ainda com uma perna na banheira, ele olhou para mim. – Você tem razão: colha a rosa, antes que ela murche... Mas amanhã eu não posso. Reunião: vamos discutir a situação, à noite bridge com o coronel - deixou o banheiro arrastando os pés.

- Talvez eu possa... - levantei-me devagar - vê-lo assim mesmo?

- Sem mim? - seus olhos estreitaram-se, desconfiados.

- Só para ver o que é necessário... para ficar aconchegante. Segui-o.

Ele abriu a cómoda e retirou uma chave delicada. Prateada, cinzelada.

- Você sempre vai conseguir entrar pela porta no térreo. Mas a zeladora não te conhece. Será que ela vai abrir para um inimigo?

Considerei a hipótese de lhe contar sobre monsieur Antoine. —Com isso abrem-se vitrines — disse, em vez disso. — Não um apartamento.

Colocou hesitante a chave em minha mão. - Você já tem alguém em mente, alguém que a gente possa levar...? - Soou esperançoso.

- Darei um jeito. - Dirigi-me à porta.

- Um momento! - Seguiu-me enrolado na toalha. - Você não sabe onde fica.

Memorizei o endereço.

- E mais uma coisa, Hirschbiegel... - apontei para seu gramofone. - Eu imploro, arranje outro disco.

Na noite seguinte, deixei pela primeira vez, não sem escrúpulo, o distintivo no hotel. Transformei-me em monsieur Antoine com mais cuidado do que de costume. Comprei uma rosa próximo à ponte. Atravessei a Pont e enfiei a flor na minha lapela. Retribuí o sorriso das duas senhoritas que andavam de mãos dadas. Não tomei o caminho habitual, mas me aproximei da rue de Jacob dando muitas voltas. As placas dos hotéis pareciam-me uma promessa. Eu estava em posse de algo melhor: a chave do apartamento de Hirschbiegel; eu a carregava no forro do meu paletó.

Cheguei ao Lubinsky por uma viela e acomodei-me no terraço. Agia como se a fachada espelhada da barbearia não exercesse nenhum fascínio sobre mim, e sentei com o coração disparado. Chantal não trabalhava lá às quartas-feiras; apesar de saber disso, tentava avistá-la através do vidro. Imaginava que ela também me descobriria e sairia a qualquer momento pela porta.

O terraço estava cheio de pessoas. Falavam sobre o fato de as Forças Armadas manterem o cessar-fogo, mas não a SS. Uma das janelas luxuosas do hotel Louis XV fora totalmente baleada na última noite. Eu não bebia café, pedi em vez disso pastis, dissolvi o líquido oleoso. O sabor lembrou-me do dentista da minha infância. Bebi pastis por Chantal. Tinha que me tornar mais francês em tudo, eu queria agradá-la, levá-la a rir, provar-lhe minha generosidade. Em pensamento, eu caminhava por seu corpo. Minha mão lembrava-se de sua cintura, a resistência dos músculos. Eu cheirara seus cabelos, qual era o gosto de sua boca? As costas eram lisas, as pernas fortes. Enquanto isso, meu olhar procurava pela rua, para cima e para baixo. Sempre que um vestido verde se aproximava, eu levantava a cabeça; nunca era Chantal. Depois que eu já tinha pedido o segundo copo, dirigi-me para o interior do café, olhei em cada lugar, cada nicho. Depois de uma hora paguei a conta. Troquei de lado na rua com passadas vacilantes. No salão, o barbeiro cortava o cabelo de uma menina. Além deles, apenas o homem velho com seu jornal no recinto escuro.

Duas mulheres vieram na minha direção.

- Não mandam ninguém para o campo com doze anos - dizia uma. A outra estava inconsolável. - Michel tem catorze.

Ela me notou na vitrine espelhada. Virei-me, cheirei a rosa. No mesmo momento, descobri Chantal no outro lado, no Lubins-ky. Ela realmente viera, levara a sério nosso encontro! Acenei-lhe e quis atravessar a rua. Um jipe militar passou, perdi-a de vista por um segundo. Chantal esgueirava-se entre as mesas, como se não tivesse me percebido e deixava o café novamente. Chamei seu nome, ela não se virou. Acreditei que conseguiria alcançá-la com alguns passos - Chantal era mais rápida. Quanto mais eu tentava me aproximar, mais ela se adiantava. Eu desacelerava, ela também andava mais devagar. Corri para dar um fim àquela brincadeira incompreensível. Chantal entrou numa travessa estreita. Levei algum tempo para achá-la de novo. Desse modo inexplicável nos aproximávamos da rue de Gaspard, sem trocar uma única palavra. Ela abriu o portão com um empurrão e entrou. Também consegui passar antes que ele se fechasse, passei pela loja de velharias e vi Chantal desaparecer na livraria. Por que ela fez com que eu viesse até aqui?

Aproximei-me da pedra, olhei para a entrada. Do lado de dentro, Joffo atendia dois sargentos; eles compravam cartões-postais. Esperei os soldados saírem; entrei, curioso.

O patrão encontrava-se atrás do balcão, no fundo da loja, e arrumava livros em duas pilhas. Nenhum sinal de Chantal. Deixei a campainha da loja tocar e desejei uma boa noite. Joffo posicionou-se na lateral, enquanto eu me aproximava dele. Não o vi por um momento. Lancei um olhar para o depósito ao fundo, onde achava que Chantal estivesse.

Alguém me agarrou, prendeu meus braços nas costas. Mãos fortes me seguravam. O ataque foi tão inesperado que bati o rosto com toda força no balcão. Eu ofegava, tentava me virar; meu agressor mantinha-se firme. Dois homens puxaram-me para cima, empurraram-me para frente. Cambaleante, reconheci um deles como sendo o velho Joffo. Ele e o outro levaram-me até o depósito. Firmei os pés no assoalho, tentava soltar minhas mãos. Uma tampa no chão estava aberta. Obrigaram-me a descer a escada, eu queria gritar; levei um empurrão, tropecei, seguraram-me quando ameacei cair. Bati com a cabeça na viga, senti minhas pernas descerem cambaleantes, até chegar num chão firme. Terra batida, um porão. Sentaram-me na cadeira. Agora eu reconhecia o segundo homem: era o barbeiro da rue Jacob. Amarrou minhas mãos às costas com habilidade, enquanto Joffo fechava a tampa sobre nós. Uma dor cortante nos pulsos. Ergui-me, olhei fixamente para uma lâmpada que balançava de um lado para o outro.

- Bem-vindo - disse Joffo, puxando uma segunda cadeira, onde se sentou. - Hoje você passou muitas vezes por esta viela.

Minha garganta estava seca, senti batimento nas têmporas.

- O que significa isso, monsieur?

- Quem é você? O que quer de nós?

Eu tentava manter a postura ereta, apesar de estar com as mãos atadas.

- O que o senhor quer dizer?

O barbeiro vasculhou meus bolsos. Seu nariz lançava uma sombra grotesca sobre sua boca. Tirou a mão, sem achar nada.

Onde estão seus documentos?

Nesse momento, me vi na mesma situação que outrora vira outras pessoas. Amarrado a uma cadeira, luz forte nos olhos. Perguntas que não tinham respostas.

— Extraviaram-se.

- Quem é você?

- Sou um francês como vocês.

- Francês e colaborador - retrucou o barbeiro.

- Quem disse isso?! - precipitei-me irritado.

- Quem são seus contatos? Vichy? A Gestapo?

Refleti. A verdade era pior do que os dois supunham. Eu não colaborava, eu fazia parte. Tudo o que a SS queria saber, eu era o primeiro a ouvir, testemunha iminente. Pensando bem, eu estava naquele momento perante o inimigo. Fragmentos passavam por minha cabeça. Comunistas, padres corajosos, veteranos de guerra pertenciam à Resistência. Havia prensas em porões, borrões nas paredes das casas e tapumes, um faxineiro havia conseguido deter informações no quartel general de transportes. O rapaz que roubara os carburadores para evitar o transporte de presos. Na maioria das vezes, casos isolados, não parecia existir uma organização, nenhuma hierarquia, só algumas armas. Era esse o opositor que Leibold e o esquadrão combatiam com todas as forças? Um velho livreiro e um barbeiro colérico?

- Onde seus papéis foram extraviados? - perguntou Joffo.

- Uma batida policial, os alemães - respondi.

- Você é um informante - o livreiro balançou a cabeça. Olhei-o indignado. - Achei que os informantes tivessem sempre os melhores documentos!

Joffo alisou suas sobrancelhas espessas.

- Conte. O que aconteceu com seu passaporte?

Tentei lembrar dos interrogatórios da rue dês Saussaies. Em que situação Leibold acreditava mais nos infratores? Quando se resignavam, lamuriavam - ou quando se rebelavam e se indignavam? Olhei Joffo diretamente nos olhos.

- Eles pararam o trem que ia para Paris - resmunguei.

- Onde?

- Pouco antes de Thiers. Aparentemente, a estrada estava interrompida. Todos tiveram que desembarcar. Os soldados levaram meu documento para averiguação. Não o recebi de volta.

- Que soldados?

— Aqueles com o crânio. — Não tirei os olhos do livreiro.

- Por que a SS interessou-se justo por você? - O barbeiro deu um passo em minha direção.

- Não faço ideia. Prenderam-me por duas noites.

- Em qual prisão? - Os olhos de varrão do velho me analisaram atentamente.

- Nenhuma. Um campo na floresta.

Detalhes - lista dos campos, planos de deportação, avisos de sabotagem — tudo passava pela minha cabeça. Conferindo todas as informações para deixar minha história coerente.

- No terceiro dia ouvi um oficial dizer que logo seríamos transportados. - Tentava me soltar das cordas. - Mas eu não queria ser levado para a Alemanha e construir granadas!

— Você fugiu? — perguntou descrente o barbeiro.

— Como? — Joffo curvou-se para frente.

- Deveríamos ser levados para um campo de prisioneiros. No caminho, subimos uma montanha. O trem andava devagar, foi lá que eu saltei. — Abaixei a cabeça.

Estava tudo em silêncio. Percebi que os dois se entreolhavam.

- Mmm - fez Joffo. - Não podemos checar nada disso.

O barbeiro prostrou-se na minha frente.

- Podemos te obrigar a dizer a verdade!

Em pensamento, vi a cuba d’água, as extremidades dos membros quebradas, os Rottenfuhrer que não paravam de bater. A ameaça do maitre soou exagerada. Sua pessoa delicada não tinha a prática de bater.

O velho sentou-se mais confortavelmente.

- Você fica aqui até contar tudo.

Isso era impossível. Até à meia-noite eu tinha que sair daqui de qualquer maneira. Um Obergefreiter que não aparecesse no quartel para o último toque de corneta ainda era aceitável. Não aparecer na rue dês Saussaies para trabalhar já não era mais considerado um delito de cavaleiro.

- E a casa onde você mora? - perguntou Joffo. - O apartamento no segundo arrondissement.

De repente compreendi tudo. Chantal! Ela contara tudo ao pai. Não, não ao pai - ao líder dessa célula. Com uma clareza repentina, entendi que Chantal tinha realmente puxado assunto comigo. Com seus encantos, fez com que me sentisse seguro. Saiu comigo por uma noite, deu-me esperanças. Amaldiçoei minha vaidade, amaldiçoei a mim mesmo, por ter caído em sua armadilha.

- O apartamento - repetiu Joffo.

Lembrei-me da chave no meu bolso. Eles a encontrariam assim que me vasculhassem minuciosamente.

- Pertence a um amigo - respondi.

- Ele também é informante? - perguntou o barbeiro.

Numa fração de segundo lembrei-me que Hirschbiegel mencionara uma pessoa de confiança.

- Seu nome?

Eu ri.

- Acham que Isaak Wasserlof poderia ser um informante dos alemães?

— Ele é judeu? — perguntou o maitre espantado. Os dois rapidamente aos sussurros.

- Se você mora no segundo arrondissement - disse Joffo - por que vem a nossa região com tanta freqüência?

- O senhor deveria imaginar. - Meu sorriso não teve o efeito desejado.

- Chantal? - perguntou o pai. - Por quê? Têm tantas outras por aí.

Dei de ombro.

— Pois é, monsieur...

- Não acredito que você só venha aqui por causa de Chantal

- meteu-se o barbeiro.

- De onde você vem?

Inventei nomes. Pais e avós, descrevi ruas da minha infância, relatei a amizade com Wasserlof, que me oferecera abrigo em sua casa em Paris. Vim na esperança de a Sorbonne retomar suas atividades, para me matricular no semestre do outono. Depois aconteceu o episódio dos documentos.

- Requereu novos documentos? -perguntou o barbeiro. -Mostre-nos o comprovante.

Sorri angustiado.

- Sabe quantas horas eu já passei naquela fila? Nunca fui atendido!

Estranhamente, pareciam acreditar na minha história. Humilhação por parte dos alemães, dias e semanas de espera nos corredores do departamento de registro; a impossibilidade de receber um novo documento prontamente: essa era a realidade de Paris. Por um momento, ambos estavam prestes a aceitar que tinham diante de si um jovem francês que se apaixonara pela filha do livreiro. Tomei vantagem da mudança de atmosfera e pedi a Joffo que soltasse minhas mãos. Ele olhou para meus pulsos inchados. Fez um sinal para o barbeiro que se posicionou atrás de mim e começou a soltar as cordas.

— Do que você vive? — perguntou o velho.

— Eu me viro.

Ele virou a cabeça para o lado.

- Você pagou recentemente com uma nota de valor alto.

Senti que os nós estavam se soltando.

- Wasserlof me deu dinheiro.

- A nota era recém-impressa. - Novamente, a voz de Joffo demonstrava desconfiança.

- E daí? - Minhas mãos estavam livres.

- Eu não sabia dessa história do dinheiro - disse o maitre. Levantei-me, dei um passo na direção da escada.

- Um momento, amiguinho! - De repente, dei de cara com o cano de uma pistola do exército. Alcancei o primeiro degrau com um salto, arremessei a corda enquanto corria.

-Pare!

Corri para cima, sem olhar para trás. Sobre mim o quadrado escuro. Abri a tampa com o ombro. Senti um golpe contra minha perna, no mesmo instante em que ouvi um disparo. Apesar de o impacto quase me derrubar, subi o restante da escada. Empurrei a tampa para o lado, ela bateu ruidosamente no chão. Estava no depósito da livraria, atrás de mim surgia a cabeça do barbeiro.

- Fique parado!

- Eu disse tudo!

Mais um tiro disparado, a bala atingiu alguns livros bem próximos de mim. Corri para a loja, pulei atrás de uma estante e me aproximei da saída. Do balcão, o barbeiro acertava a mira. Abri a porta, agachado, a campainha soou. Com um último olhar vi que o livreiro abaixava a mão do maitre.

- Aqui não - disse Joffo.

Corri para fora e desci os degraus. Passei apressado pela pedra da rue de Gaspard, notei o olhar espantado do vendedor de velharias, abri o portão preto e cheguei na rua, o bulevar. Misturei-me à multidão, minha respiração se acalmava. Devagar, passei pelo Lubinsky. Na Pont Royal, olhei ao meu redor. Ninguém parecia me seguir.

Estava ficando escuro. Somente agora tomava conhecimento da dor na perna. Uma mancha escura na calça que aumentava gradualmente. Um tiro arrancara um pedaço de carne da batata da perna. Cheguei até a ruína, rasguei minha camisa e enfaixei a ferida. Coloquei o terno xadrez, os sapatos macios, o chapéu na bolsa. Fechei-a, como se nunca mais quisesse abri-la.

Roth, soldado das Forças Armadas, Paris, verão, 1943. O ser humano tem uma nacionalidade, pensei no caminho de volta. É ela que o constitui. O uniforme cinza, a cruz flexionada nas pontas, a bandeira. Enquanto a guerra durasse, essa era minha realidade. Estranhamente aliviado por ter saído quase intacto da aventura, voltei ao hotel mancando. Levei a bolsa ao quarto e subi para ver Hirschbiegel. Eu ia sugerir ao tenente uma agradável noite para homens. Dois alemães em terras estrangeiras e inimigas.

Duas semanas depois, encontrei Leibold no corredor, pouco antes de iniciar o trabalho.

- Eu tinha razão! - Num bom humor anormal tirou o quepe e passou a mão pela pele do crânio. - O coquillard nos levou até o buraco dos ratos.

Somente agora reparava que há dias não via o delinqüente. Lembrei-me da paciência espantosa com que Leibold o interrogara - sem nenhum resultado digno de ser mencionado. O homem negara apático, permanecia sentado como uma pedra coberta de musgo, mesmo as práticas dos Rottenfúhrer deixaram-no impassível.

- Eu o libertei - disse Leibold de forma afável. -Já desconfiávamos do lugar há algum tempo. É uma barbearia.

Por um instante tive a sensação de que o corredor comprido e reto estava se curvando. Leibold continuava a caminhar e me obrigava a permanecer ao seu lado.

- Nosso amigo se considera esperto - sorria ele, satisfeito. Cortou o cabelo, pagou e saiu. Pouco depois voltou por uma casa anexa.

Um raio de luz inesperado atingiu-me; do lado de fora o dia estava absurdamente claro.

- E já... aproveitaram a oportunidade para agir? - Eu estava perante o Hauptsturmfúhrer, ofuscado.

- Nada de pressa - Chegamos ao escritório. - Meu pessoal observa cada um que entra e sai de lá. Agiremos dentro de alguns dias - Leibold colocou a mão sobre a maçaneta. - Depois faremos a barba do barbeiro!

- Onde é a loja? - perguntei um pouco precipitado demais.

- No sexto arrondissement, perto do cais. - Leibold virou-se. - Conhece a região?

Fingi que pensava. Sem esperar por minha resposta, ele entrou em sua sala.

Eu olhava fixamente para a pedra lavrada gasta. Notei a presença de um Obersturmfúhrer tão tarde, que só bati continência quando ele já passara. Lentamente, tirei minha boina e prendi a bolsa debaixo do braço. Próximo a mim um Sturmmann abriu a porta e quase me atropelou. Eu entrei e cumprimentei. Um ”bom dia” resmungado de todas as mesas. Peguei meu bloco de anotações, apontei meu lápis. Rieleck-Sostmann olhava-me desafiadoramente. Algo nela estava diferente. Seu cabelo armava-se em ondas artificiais na lateral. Era a última moda entre as francesas; o penteado não combinava com a alemã enorme. Acenei em reconhecimento; sorrindo, ela ajeitou os cachos. Sem trocar uma palavra, fui para o outro lado. Sentei-me à minha pequena mesa. Os Rottenfúhrer suavam antes mesmo de entrarem em ação. Observei os canos das botas de Leibold quando ele passou por mim a passos regulares. Não foi possível ver os olhos de nenhum dos infratores.

Na pausa para o almoço, Rieleck-Sostmann aproximou-se de mim e comeu o sanduíche de pão preto em minha companhia.

- Como vão indo seus passeios franceses? - perguntou ela.

Eu estava sentado de olhos fechados e fingi que apreciava o sol.

- Deixei de lado - respondi de acordo com a verdade.

— Nenhuma voltinha mais?

Era impossível não pensar em Chantal. No andar feliz e rebolado, com o qual ela correu de mim através das vielas. O último olhar que me lançou antes de eu cair na armadilha. O cheiro de Chantal, a única vez em que ela abrira os lábios para mim.

A noite, deitei-me nos braços enérgicos de Rieleck-Sostmann e, ao mesmo tempo, afagava Chantal. A alemã percebeu a diferença e excitou minha paixão desesperada. Ela fez tanto barulho que o vizinho que estava ao telefone bateu na parede. Não consegui segurar Chantal por muito tempo; fiquei sozinho com Rieleck-Sostmann. Ela cortou um strudel que alguém lhe enviara do Reich. Deitado, eu comia as uvas passas e observava a gigante que se vestia. No andar de cima o gramofone começou a tocar. Movimentei os lábios acompanhando o texto de ”Ma pomme” e descobri, sorrindo, que Hirschbiegel era, no momento, minha única luz. O tenente gordo com sua concepção imatura sobre as mulheres tornara-se um amigo.

- Por que está rindo? - Rieleck-Sostmann apertou a cinta-liga.

- O penteado ficou bom em você. - Olhei para o lado.

Eu queria ir até o quarto do tenente, depois que ela já tivesse ido. Recebi um olhar de reconhecimento do meu vizinho de quarto no corredor.

Hirschbiegel já terminara seu banho. - Hoje seria a noite ideal

- irradiou-se. - Minha sorte vai mudar, você vai ver! - com a respiração presa, fechou o botão da calça.

O conhaque estava morno, Hirschbiegel acrescentou água fria, bebemos.

- A propósito, o que você acha do meu tesouro? - Pegou orgulhoso a capa marrom sobre a mesa e puxou um disco reluzente. Comprei ontem! - Hirschbiegel ligou a vitrola e colocou o vinil.

- Com isso você dobra sua coleção - sorri. - O que é? Soou uma orquestra de gaita de foles. Servi-me de mais conhaque e me acomodei sobre a cama de Hirschbiegel.

Maurice Chevalier cantava. Em abril ele amara uma moça, no verão abandonou-a por causa de outra. A moça estava triste. Chevalier consolava, ela era a moça para o mês de abril. Ele voltaria no ano seguinte. Avril prochain — je reviens!

- Como será... no próximo abril? - indaguei. Ouvimos a música até o final em silêncio.

Quando deixamos o hotel, Hirschbiegel cheirava a água-de-violeta e domara os cabelos crespos com brilhantina.

- Vamos deixar as bonecas dançarem. - Seu rosto brilhava, cheio de esperança.

Caminhamos na direção do Sena, fizemos uma refeição à beira do rio e fomos para o oeste, beirando a margem. O tenente interessou-se pela visão traseira de uma florista corpulenta; seguimos a moça por mais duas pontes. Ele comprou um ramalhete, mas não teve coragem de avançar mais. Com as flores nas mãos, ele voltou em minha direção.

— Não deixa de ser um começo — sorriu, timidamente.

Uma noite suave. Apesar de não ser visível, o verão já se aproximava, nossos sentidos sabiam. As folhas das castanheiras se enrolavam por causa do calor. Nos jardins abandonados à margem do rio, mulheres trabalhavam agachadas ou ajoelhadas. Queimavam ervas daninhas, limpavam batatas. Os escassos e estreitos canteiros de flores próximos da água estavam dominados por urtigas. Um carrinho de bebê à sombra de uma árvore, ali estava acocorada uma mãe vestida de preto; uma outra cortava grama. Um trabalhador passou pedalando uma bicicleta que rangia. Sobre o guidom, ele prendera troncos grossos como um braço com marcas recentes de machado; mastros balançando, a distância de um metro. Observei minha sombra que, com ombros inclinados, caminhava à minha frente.

- E então, caçula, o que você conta? - O tenente colocou-se na minha frente.

- O que posso contar? Está quente. - Mantive os olhos na direção da sombra.

- Você é a miséria em pessoa, sabia disso? - Franziu as sobrancelhas, preocupado. - Pára um pouco, o que você tem?

Eu tentei esquivar-me para o lado do rio. - Nada. Absolutamente, nada.

- São os ”crânios”? - Ele tropeçava ao meu lado. - Os presos, certo? É demais para você?

Passei a mão na testa. Havia grande atividade na rue dês Saussaies. O número de interrogatórios aumentara abruptamente. As execuções eram mais freqüentes. As prisões estavam superlotadas. Haviam construído novos campos. Tiros durante a noite. Leibold estava sob pressão, ficava cada vez mais feroz; com maior freqüência, autorizava os Rottenfúhrer a realizarem seus exercícios. O prédio de mármore fervilhava de gente da Gestapo. Férias eram cortadas, a cada dia as pessoas pareciam ficar mais nervosas. Mas não era isso.

- A sua unidade vai se retirar? - perguntei a Hirschbiegel, para mudar de assunto.

Ele acenou. - Estão aguardando a ordem para marchar a qualquer hora. Não tenho nada a ver com isso. O coronel me deve mil no bridge. Ele quer ganhá-los de volta. - Como ele não sabia se virar muito bem com as palavras, o tenente deu-me uma cotovelada. Pára com isso... Eu não gosto quando você fica para baixo. Você é um desses presenteados pela vida.

Surpreso, examinei o sujeito bondoso. Havia manchas de suor por toda sua jaqueta de uniforme, o homem parrudo estava verdadeiramente se derretendo.

- Um cara feito você sempre se arranja - disse ele. - Você é um sujeito de sorte, Roth, não sabia disso?

Eu suspirei. - O que será de mim? - respondi em tom baixo.

- Uma mulher?! - ele riu alto. - Seria a última coisa a passar pela minha cabeça! O preferido das mulheres foi fisgado! Uma francesa?

Eu acenei.

- Casada?

- Pior.

- Pior não pode ser.

- Ela pensa que eu sou um porco imundo.

- Você? - Ficou perplexo. - Então, ela não te merece. Ou você aprontou alguma com ela?

Calei-me. As batidas nas têmporas voltaram.

- O que aconteceu com vocês? - insistiu Hirschbiegel.

- Eu me fiz passar por francês.

Analisei seu olhar, cuidadosamente. Eu me colocara em suas mãos. A ideia era tão bizarra, que Hirschbiegel só compreendeu tudo depois de uma explicação minuciosa. Calados, entramos debaixo do arco de uma ponte.

- Sabia que podia ter levado um tiro por isso? - pôs as mãos na cintura.

- Primeiro aconteceu uma coisa - murmurei. - Uma coisa qualquer. Depois aconteceu de novo, e mais uma vez. - Minhas palavras soaram cavernosas sobre a abóbada úmida. - Uma coisa levou a outra, cada vez mais para o fundo.

As pedras refletiam a movimentação da água.

- Você a ama? - perguntou ele.

Procurei traços de ironia em suas feições. - Essa não é uma época para amar.

- É para o que então? - Ele lambeu o sal de seu lábio superior

- É melhor só se preocupar com o dia seguinte - disse eu. - Cada folha do calendário que se arranca é uma vitória

- Você a verá de novo?

- Como? Como francês, como alemão, como tradutor da SS?

- Como você - respondeu Hirschbiegel

-Não tem mais jeito - Senti frio a sombra - Vou arrancar as folhas do calendário

- E eu vou jogar bridge - disse o gordo - Uma guerra peculiar. Continuamos nossa caminhada, acompanhei o som de nossos passos em harmonia. Tomamos a próxima escada da margem e voltamos para a rua.

Estava com meu melhor uniforme e olhava-me no espelho. Ajeitei o cinto de couro. Obergefreiter das Forças Armadas, um homem jovem de olhos assustados.

Eu não o fazia por preocupação, como tentei convencer-me anteriormente. Eu não o fazia para proteger a mim mesmo de um flagrante. Eu o fazia para revê-la.

Comi devagar e pensativo, no restaurante da esquina. Bebi três copos de vinho tinto, o que não era do meu feitio. Tomei o caminho a pé. Andei algumas quadras da avenue de 1’Opéra, passei pelo campo onde as Forças Armadas estacionavam os carros. A sentinela estava perante o quartel com a testa molhada, pálido, como se fosse desmaiar a qualquer momento. Segui no sentido norte. Os muros das velhas chaminés suavam, o lixo boiava no esgoto. Um tenente da SS, alto como uma árvore, com uma mulher loira, desanimada. Ele se apoiava nela com o ombro. Três Oberschútzen conversavam no dialeto da região de Silésia, os uniformes mal-arrumados, provavelmente reservistas. Cada vez mais eles eram vistos na cidade, as tropas de combate estavam desaparecendo no Leste. Os homens seguravam muitos pacotes, por isso só puderam bater continência a um capitão com um aceno com os olhos. Duas parisienses passeavam, seus rostos pareciam cavernosos, lábios e bochechas como que puxados para dentro. Um retoque nervoso no penteado quando eu passei.

Aproximava-me de Trinité. A pâtisserie já não deveria mais estar aberta, mas a fila de espera impedia seu fechamento. Lá dentro, um oficial da administração, ele deve ter entrado sem pedir licença; mulheres pequenas mantinham-se próximas a ele. As persianas já corriam para baixo, a placa foi dependurada. O oficial se afastou, esbravejando como uma dona de casa. Cartazes mostravam, a Opera Municipal de Berlim estava visitando Paris. O rosto pálido de uma prima donna com um maço de flores.

Quando cheguei ao bairro de Pigalle, achei que precisaria descansar. Na verdade, eu queria dar tempo ao meu medo. Segurava a manga do uniforme, enquanto tomava absinto. Como se quisesse me agarrar àquele momento, ao presente. Paguei e saí.

Só faltavam mais algumas ruas. Uma trovoada cortada pelas cumeeiras, as nuvens se remexiam. Não choveria hoje à noite. Passei pelo Schéhérézade, o porteiro fazia um gesto convidativo, não diminui meu passo.

O Turachevsky estava ali, irreal, abandonado. Parei poucos metros antes da porta. A gola ficou muito apertada; eu tinha suor na testa. Um grupo de Gefreiter10 forçou a passagem e, bem dispostos, exigiram que eu fosse com eles. Aceitei o convite. A madame em pessoa abriu a porta para nós.

- Vieram cedo, meus senhores - dizia ela com um sorriso profissional.

A diversão era sobre os sofás e as espreguiçadeiras. Meninas e mulheres; para os ordinários, elas usavam apenas vestidos brancos, os quimonos só apareciam depois da meia-noite - com os oficiais. Prendi a boina na dragona e dei uma olhada em volta.

- E você, meu filho? - A madame abanava seu leque. - Nos conhecemos, n’est-ce pás? Você prefere... deixe-me adivinhar. Ela mantinha o negócio fluindo, os indecisos tornavam os turnos mais lentos.

Antecipei-me a sua indicação e desapareci no bar. Peguei uma dose de absinto e sentei-me numa das mesas ao fundo. No palco, o tenor apresentava-se rodeado de mulheres usando casacas. Ele celebrava a pequena diferença. Os militares bateram palmas para o balé. A atmosfera era mais leve, com mais liberdade do que da vez em que estive com a roda dos oficiais. Bebiam-se as bebidas mais baratas; alguns precisavam tomar coragem antes de ir para o salão. As meninas incansáveis dançavam ao som de ”Ma pomme”;

 

10 jefreiter: a insígnia mais baixa à qual um soldado comum poderia ser promovido. (N. da T.)

 

Um passo à esquerda, três à direita, gritos femininos, o pianista debatia-se para manter o ritmo. Correria de um lado para o outro, as pernas das moças se cruzavam, a pequena orquestra tocava obstinada.

Como era macio aqui no interior. Deixei que o espírito verde fizesse efeito, abri um botão do uniforme. Observei meus dedos que batiam, acompanhando o ritmo. O pavor ainda estava presente, apenas oculto. Eu aguardava.

Um anão era utilizado como regador por moças seminuas. O pequeno gritava com voz crocitante: - Regar os legumes! Não deixem minha flor murchar! - Risos. Um treinador de pombos levava seus protegidos a saltitar através de um arco e a puxar um carrinho engraçadinho. Foi mandado embora debaixo de vaias, pois seus artistas faziam cocô em sua casaca. O homem-borracha pegou a gaita entre os dedos dos pés e tocou uma marcha alemã.

O balé surgia em inúmeras fantasias, dez mulheres; Chantal não estava entre elas. Eu flutuava numa névoa verde. O motivo da minha visita refugiara-se em outra esfera. Observei o pianista, admirei sua habilidade em acompanhar cada acontecimento do palco e em manusear o instrumento em todas as canções sem cometer erros. Ele tinha por volta de 50 anos. Estudos no conservatório, imaginei. Interrupção por causa da guerra entre 14 e 18, em seguida, concertos em pequenas cidades, casamento com uma cantora. Ela abrira mão da carreira pelas crianças; ele mantinha a família como podia. Gabares, bares, finalmente o bordel em Pigalle. Ele era pago por hora. Quanto maior o número de tons que ele dedilhava, mais ele levava para casa. Às vezes, um major bêbado lhe dava uma nota de cem para que tocasse ”Schón Rosmarin” ou ”Lippen schweigen”.

Chantal apareceu como a preferida de um sultão. As outras meninas usavam perucas pretas; rodearam Chantal, tocando pequenos snujs. Ela jogou o cabelo para trás e cumprimentou o sultão. Uma risada frívola tomou conta de mim. O pianista tocava em quintas paralelas, soava mais chinês do que árabe. O paxá do palco deixou que Chantal executasse a dança dos sete véus; as outras se ofereciam a ele, submissas. Ela deixou o palco assim que caiu o último pedaço de pano. Os soldados aplaudiram. Eu rasguei meus próprios véus e levantei-me. Não tinha mais conhecimento sobre o perigo, sobre o qual eu havia especulado nas horas anteriores. Cambaleei na direção da orquestra.

- Accès interdit, monsieur - disse o pianista, sem interromper a musica do harém. Virei a cabeça lentamente, sorri e desapareci atrás da cortina de veludo. Colidi com o tenor. Sob a luz de um refletor identifiquei que era um velho. Olhos cheios de água me examinavam, a peruca negra como o carvão escondia cabelos brancos

- Pronto para um dueto, soldado? - Seus lábios foram pintados em forma de coração, uma espessa camada de pó cobria erupções da pele; jogara um cachecol em torno do pescoço enrugado. Empurrei o homem para o lado, tropecei no corredor estreito. Os pregos das minhas botas produziam barulho.

- Vous allez ou, monsieur? - o contra-regra apertou um controle na mesa de luz, um violeta intenso reluziu do palco.

- Chantal - forcei a passagem e deixei-o para trás.

Luz azul no corredor, fragmentos de palavras e risadas atrás das portas. Eu cambaleava desamparado. Do palco soava a música das touradas. Eu chamava por Chantal. As falas pararam por um momento, começaram novamente. Encerramento e fanfarra.

- Saia, Chantal! - A violência da própria voz fez-me cambalear contra uma parede forrada de papel, o papel movimentou-se. Bailarinas passavam correndo, colidiam comigo, breves reclamações

O sultão ergueu-se na minha frente.

- Quittez la scène, les boches! - Um braço musculoso esmagava minha nuca, forçava-me a uma flexão.

- Georges, t'esfou? As moças, praticamente nuas, puxavam o patriota para trás. O aperto ao redor do meu pescoço desapareceu, as mulheres me rodearam. - Tout vá bien, monsieur. Vous vous amusez? On peut aider?

Precisava de ar.

- Chantal!

- Qu’est-ce qu’il veut? Ça vous dit quelque chose, Chantal? sussurravam em minha volta. Ao fundo, o tenor entoava a canção sobre a infidelidade de suafroufrou. As meninas xmgaram - Leonard a deja commené. Putain! - Deixaram-me ali, cobriam-se com mais um pedacinho de pano enquanto andavam e pularam no palco.

Cheguei ao final do corredor. Uma porta. As dobradiças chiavam, abriu-se para fora, torta. Um quintal interno iluminado pelo luar do verão, hera crescia em toda parte. Paredes de casas erguiam-se, da altura de chaminés. Chantal estava agachada num canto. Encostei-me na moldura da porta, ela levantou o olhar. Precisou de vários segundos para associar o uniforme ao meu rosto. Ela se assustou tanto que, levantando-se, começou a tremer todo o corpo. Vestia um penhoar desbotado. A brisa do verão brincava com seus cabelos.

— Chantal. — Depois de tudo o que eu imaginara como cumprimento, era a única palavra que me vinha à cabeça. Eu queria ir em sua direção, a sola da bota fez um barulho agudo na soleira gasta. - Eu quero te advertir de algo.

- Demónio - disse ela, baixo. - Seu demónio. - Fechou o penhoar apressadamente.

- Eu te procurei, Chantal. - Ela queria passar. O quintal era apertado, saltei em seu caminho e agarrei-a. Ela virou-se, chutoume, cuspiu. O absinto me deixava lerdo e forte. Ela não conseguia escapar.

- Chantal, ouça! - disse em alemão.

- Porco alemão! Solte-me!

Bateu-me com toda a força no rosto, golpeou meu abdómen. Colidi contra a parede, cambaleei. Com um salto ela alcançou a saída, lascas de madeira velha saltaram quando a porta bateu. Eu a segui, pressionando o cotovelo contra a barriga.

- Eu preciso te advertir, Chantal!

Uma fresta foi aberta numa porta em frente. O anão correu de volta, assim que viu o uniforme. Escuridão no corredor. Eu a segui, produzindo um barulho ensurdecedor com meus passos. Segui-a por todo lado pelo labirinto do Turachevsky. Então vi seu penhoar desaparecer numa curva. Artistas espantados pulavam para os lados, moças de quimono fumavam, espremiam-se na parede.

Por último, o salão apareceu diante de mim. Tropecei no tapete, perdi o equilíbrio sob o lustre. As mulheres no sofá escondiam suas risadas, a madame apareceu. Antes que eu pudesse explicar qualquer coisa, um par de botas prostrou-se perante mim. Levantando o olhar a partir dos canos das botas visualizei o Untersturmfúhrer. Barregava como de costume. Logo atrás, o Standartenfúhrer, ocupado em acender uma cigarrilha, lançava-me um olhar surpreso. Levantei-me o mais depressa que pude, inseguro. A fada verde voara. Bati continência.

- Descansar - resmungou o Standartenfúhrer - Não estamos no campo de treinamento. - Seu rosto transformou-se num sorriso malicioso. - Os rapazes já estão brincando de lebre e ouriço. - Uma risadinha do Untersturmfuhrer.

Meus olhos procuravam Chantal freneticamente. Inúmeras portas, uma cortina cobria uma passagem, escadas que levavam a algum lugar.

A cigarrilha queimava, o Standartenfúhrer não perdeu mais seu tempo comigo, desapareceu com sua companheira no bar. Eu estava de pé, debaixo do lustre. Comecei a passar mal. Com extremo vagar, tirei a boina da dragona e coloquei-a na cabeça. A despedida da madame parecia vir de muito longe. Saí no ar da madrugada.

Eu apenas piorara tudo. A desconfiança de Chantal transformou-se em certeza; eu era o inimigo, o porco alemão. Eu não podia fazer mais nada por ela. Cambaleei na praça. A fada verde deixou uma chama sem luz, eu precisava de água. No hotel, bebi da torneira feito um boi. Noite de luar, clara, eu dormia sem sonhar. Ainda estava usando as botas.

O calor retornou em setembro. A ordem do dia na rue dês Saussaies era usar uniforme de verão. Leibold não se permitia esse conforto. Jaqueta do uniforme, fecho do cinturão, distintivo de serviço de guerra bem preso ao pescoço. Ele parecia ser uma pessoa que sempre sentia frio.

— Hoje — disse ele,

Passaram-se dias desde a última vez em que fumamos na janela. Embaixo, a grama murcha estava na altura do joelho, ninguém se preocupava com isso. Senti falta do jardineiro maneta.

- Tenho hora marcada no barbeiro hoje - Leibold sorriu levemente. - Essa célula parece ser bastante grande.

- O salão do barbeiro? - contemplei o plátano, cujas folhas estavam ficando avermelhadas.

- Rue Jacob - acenou ele. Eu olhava fixamente para a esquadria em cruz da janela que se desmanchava na luz.

- Conhece o lugar?

Pigarreei.

- Com certeza já passei em frente.

Ele aproximou-se.

- Depois de hoje à noite ele não existirá mais.

Aceitei o cigarro que ele me oferecia. Ele só continuou a falar depois que a primeira nuvem de fumaça subiu.

- O coquillard estará lá. Panfletos, provavelmente. Estamos supondo que a máquina está no porão.

- À noite? - perguntei.

- Não é necessário - Leibold balançou a cabeça. - Os parisienses precisam ver que estamos tomando medidas drásticas - ele equilibrou as cinzas no cigarro vertical. - Provavelmente, amanhã terá muito trabalho te esperando.

- Entendo, Hauptsturmfúhrer.

- Está se sentindo bem?

- Ele aproximou o rosto. — Como assim? — Estiquei a coluna.

- O senhor ultimamente, parece não estar muito presente, meu caro. Já faz algum tempo que venho notando.

Assustei-me. Eu queria ser útil, sem chamar a atenção. Não podiam ter-me na mira. - Meu desempenho não está...?

- Nada relacionado a trabalho - negou com um aceno. Cinzas caíram sobre a manga. - De homem para homem: o que o está incomodando?

- Nada, senhor Leibold, Hauptsturm... - Adotei posição de sentido. - De hoje em diante vou me dedicar mais.

- O senhor é um mistério, Obergefreiter. - disse o homem calvo.

- Posso ajudar de alguma forma? - Senti sua sinceridade e sabia que tais simpatias eram perigosas. - Tome a tarde livre. - Leibold jogou o cigarro no chão e apagou-o com a sola. Não era um favor, pensei. Normalidade, distância. - Recupere-se - disse ele. - Por que não vai nadar? Provavelmente será a última oportunidade esse ano - passou um lenço branco sobre a calvície. Bati continência tarde demais, observei como o uniforme preto desapareceu no fim do corredor.

Nenhum barulho, em lugar algum. Como se o hotel tivesse sido abandonado. Ninguém passava pelos corredores, ninguém telefonava. Todo mundo ainda estava trabalhando. Só eu estava deitado sobre a cama e escutava. Um fraco ruído de tráfego. Uma gota solitária no banheiro. Tinha a impressão de ser a única criatura viva no prédio. A possibilidade de tomar alguma providência ficava menor a cada minuto que eu perdia. Mas minha chance de sobreviver crescia. Eu precisava decidir, agir; eu continuava deitado. Puxei o travesseiro para trás da nuca, fixava a poltrona estofada. O verde-acinzentado da cortina lembrava-me os olhos de Chantal.

Sentei-me, como se tivesse acabado de acordar, evitei olhar no espelho. Abri a porta do armário e abaixei-me até minha bolsa. Assim fiquei por segundos. Finalmente, agarrei a alça e coloquei a bolsa sobre a cama. Virei-me para a parede, devagar. Ali estava o calendário; a folha de hoje ainda não tinha sido arrancada. Eu queria fazer isso à noite, quando voltasse. Fiquei paralisado quando senti o tecido do terno xadrez entre os dedos.

Nada era diferente do usual. A fachada da casa em ruínas pendia sobre a calçada, oferecia perigo, o arco da entrada recebeu-me com sua frieza. Pus o uniforme de lado com mais cuidado que de costume. Dobrei a camisa e a calça, preocupado; forcei os canos das botas para dentro da bolsa, pensativo. Já tinha retirado a identificação oficial, balançava a correntinha na mão. Com uma devoção incompreensível, pendurei-a novamente no pescoço, senti o metal no peito. Rapidamente abotoei a camisa civil por cima.

Nessa noite, monsieur Antoine era uma personalidade forçada. Eu representava um papel. Andei pelas ruas, olhar fixo no asfalto. O caminho parecia ser mais longo. Um silêncio suspeito na Pont Royal. Por que os Oberschútzen olhavam para mim? Não peguei o bulevar como sempre, mas refugiei-me em travessas estreitas, utilizei passagens desertas, aproximava-me da rue Jacob por desvios.

O garçom do Lubinsky convidou-me para entrar. Não reduzi minha marcha. Passo a passo, o café desaparecia atrás de mim. Dois sargentos dobraram a esquina; espremi-me contra a parede. Cheguei até o armarinho do judeu. Ao fundo, a fachada de vidro despendia uma luz tênue. Atento, e ao mesmo tempo com medo, parei para dar uma olhada ao redor. A força-tarefa já estava à espreita? Leibold mandaria a tropa de choque ou pessoas em trajes civis? Estariam nas entradas das casas e já mantinham o local na mira há muito tempo?

Se eu agora simplesmente passasse pela loja, chegasse à próxima esquina, voltasse para minha realidade cinzenta, seria como se nada tivesse acontecido. Eu arrancaria a página da folhinha como todos os dias. Se eu parasse e abrisse a porta, não teria nada além de um abismo à frente e às costas.

O trinco de latão. A campainha da loja soou.

— Bonjour mousieur, será logo atendido.

Como sempre, lá estava o velho sentado com seu jornal. Uma cliente na poltrona larga, o cabelo molhado penteado sobre a testa.

Chantal estava no caixa. Nesse instante o sol desapareceu atrás de uma nuvem isolada. O barbeiro virou-se.

Ninguém dizia uma palavra.

Eu comecei. Usava meu melhor francês.

- Era uma vez um animal. Tinha cabeça de urso, mas a parte de trás parecia ser de uma zebra. Visto de frente, as pessoas diziam: isso é um urso. As pessoas que viam o animal por trás, afirmavam que era uma zebra. E como ninguém via o animal pela frente e por trás ao mesmo tempo, começou uma briga. O animal não sabia por que brigavam, pois vivia como se fosse um só.

Eu disse as últimas frases na direção de Chantal. Seus olhos estavam escuros de confusão. Ela mantinha as duas mãos apoiadas no caixa.

- Do que ele está falando? - sibilou o barbeiro. - O que ele quer? Durante meu conto, a freguesa puxara o cabelo para o lado, como se fosse uma cortina, e observava-me no espelho.

— Feche sua loja, monsieur — disse eu ao barbeiro. — De preferência, já.

- O senhor é louco? - Ele se aproximou.

- O senhor precisa ir. - Virei-me para o caixa. - Você também, Chantal.

- O que você sabe sobre isso?! - perguntou o maítre, de modo incisivo.

- Nada. - Ela não se mexia um milímetro sequer.

De repente e pela primeira vez desde que eu pisara no salão, o homem velho baixou o jornal. Cabelos brancos surgiram, olhos de um azul luminoso. Examinava-me.

- Você é o boche? - perguntou.

— Sim. Eu sou o boche.

Calmamente, o velho pousou as mãos sobre o jornal.

- E você é a zebra, e também é o urso?

- É isso mesmo, monsieur.

O velho virou-se para o barbeiro.

- Escute o que ele tem a dizer, Gustave.

- Com isso dobrou o jornal e levantou-se.

 

11 Boche: palavra francesa pejorativa para denominar os alemães. (N. da T.)

 

- Como assim, pai?

- Faça isso. - O velho pegou o chapéu do gancho. Abriu a porta e fez de conta que olhava o tempo. Permaneceu por um momento sob o sol, e por fim desceu a rue Jacob a passos lentos.

- Vamos para os fundos - Gustave apontou para uma cortina de miçangas. - Vai levar só um minuto, madame - virou-se para a freguesa, que o acompanhava espantada com o seu olhar.

Atravessei os cordéis de miçanga, Chantal veio por último. Uma cozinha minúscula, uma pequena mesa redonda. O barbeiro indicou-me a única cadeira. Chantal encostou-se na pia. As miçangas batiam umas nas outras.

- Vocês estão esperando pelo coquillard - disse eu depois de um breve silêncio.

Ele trocou um olhar com Chantal.

- Quem? Descrevi o homem.

- Não o conhecemos.

- Eu traduzi seu interrogatório - disse eu. - Ele foi solto. Ele os trouxe até vocês. Quando ele virá?

Não conseguia fazer outra coisa a não ser olhar para Chantal, mesmo com o silêncio tenso, o espanto dos dois. Rapidamente, sua respiração estufou seu peito.

- Nós não estamos esperando ninguém - mentiu o barbeiro.

- Às seis e meia - Chantal o interrompeu. Ele olhou-a estarrecido.

- Seis e meia - repeti. Lembrei-me dos sinos das seis horas quando cruzei a ponte. - Então não temos muito tempo.

Mantive as mãos cerradas entre os joelhos e relatei os fatos da forma mais calma que pude. A maior parte do que disse era para Chantal. Os cordéis da cortina quebravam a luz que caía

- Você pode dizer qualquer coisa - disse o barbeiro, rude.

- Por que o senhor está fazendo isso? - Chantal puxou uma mecha para trás da orelha. - É gente sua.

Eu dei de ombros.

- Quem sairá lucrando, se eles prenderem vocês?

Subitamente, o barbeiro saltou para a passagem e espiou por entre os cordéis. À luz do fim de tarde, via-se a frente de um carro parar em frente à vitrine. Um segundo carro aproximou-se pela esquerda. Nenhum emblema, mas aqueles carros eram conhecidos por aqui.

Gustave virou-se.

- É uma armadilha! - Ele estava bem próximo de mim.

- Eu não precisava dizer nada a vocês! - levantei-me da cadeira.

Do lado de fora, soou a campainha da loja. A mulher deixou o salão apressada, com os cabelos molhados. Passou pelos homens uniformizados, que desciam do carro. Um deles examinou seus documentos.

- Desapareçam, vamos! - sibilei.

Chantal acenou para Gustave. Na entrada, os homens receberam ordens de um Scharfúhrer.12 Agitado, o barbeiro empurrou para o lado caixas que ocultavam uma portinhola.

- O que vai acontecer com o senhor? - perguntou Chantal, enquanto ele destrancava a porta.

- Se me apanharem, estarei no mesmo barco que vocês.

Ela lutou consigo mesma por um segundo, depois apontou para o corredor sem luz. Agachei-me. À minha frente, os passos apressados do maitre. Chantal vinha por último.

Passamos por um corredor estreito, depois descemos alguns degraus. No porão, abriram uma grade. Senti cheiro de vinho, a resina dos barris. Chegamos a um depósito. Um raio de luz vinha de cima, um poço num quintal acima de nós. O maitre nos guiou até uma escada de caracol. Chantal agarrou seu vestido para poder andar mais depressa. Alcançamos um corredor ao nível da terra.

- Attentionl - Sussurros do fundo de um apartamento. Uma lâmpada, sob ela uma sombra. O barbeiro parou diante de um pátio interno, percebi olhares curiosos nas sacadas. Uma mulher brigava com seu filho, rádio, a estação alemã para a França. De novo uma chave, depois da passagem seguinte surgiu a rua. Atravessáramos todo o bloco de casas. O barbeiro aproximou-se do arco do portão.

 

12 Scharfúhrer líder de um grupo formado por dois Rottenfuhrer e mais oito homens (N. da T )

 

- Seu casaco - disse Chantal.

Ele mexeu nos botões apressado, jogou a blusa branca fora.

- Esperem! - Eu espiei para fora. Conhecia a tática deles. Na frente vinham os homens de uniforme para tirar a raposa de seu esconderijo. Nos fundos, espreitavam em trajes civis. Aproximei a cabeça de uma saliência nos tijolos. Sol vermelho de fim de tarde, ruídos da rua, normalidade. Um carro estacionou do outro lado, um outro estava parado com o motor ligado, ambos modelos franceses Alguém fumava ao lado, terno cinza, gravata discreta. Forcei a vista. Apesar do dia empoeirado, seus sapatos estavam perfeitamente polidos. Virei-me.

- Eles estão aqui - sussurrei. - Tem outra saída?

Chantal virou-se pelo quintal.

- O porão. Mas aí teríamos que voltar.

- Não. Vamos correr! - o barbeiro enterrou as mãos nos bolsos.

- Com esses sapatos? - Chantal apontou para seu salto agulha. Olhei para Gustave.

- Estão posicionando homens em cada esquina.

Chamados, batidas em portas. O instante perdera-se. Botas chutaram um obstáculo. O barbeiro deu dois passos à frente, voltou, mordeu as costas da mão. Primeira salva de tiros, uma fechadura arrebentou. Gritos de protesto, respostas em alemão. Em algum lugar uma criança chorava.

Gustave aproximou-se da luz.

- Vamos nos separar!

Chantal acenou.

- Boa sorte.

Ele partiu correndo. Disparou da entrada escura e deu um giro de noventa graus. Imediatamente, o homem com os sapatos polidos saltou para dentro do carro. Ternos escuros surgiram de todos os lados. Vi quando passaram pelo arco do portão, apenas há alguns metros de nós. Pessoas que passavam pararam, assustadas. Um tiro. Estarrecimento na rua. Alguém se jogou ao chão. Tiros, agora mais distantes. Chantal espreitava, o dedo posto entre os lábios. Depois, nada mais. Longos segundos se arrastaram. A rua voltou ao seu ritmo. A pessoa que estava no chão levantou-se, bateu a calça. Um ciclista levou uma buzinada, desequilibrou-se. Duas mulheres empurravam uma carreta.

- E agora? - Chantal estava bem próxima a mim.

Vozes atrás de nós, tumulto. Passos de botas sobre a passagem de metal. Estávamos na sombra do muro. Um deles gritou em alemão:

- Encontramos a prensa!

- Acharam a sua máquina - traduzi.

- O que vamos fazer? - Ela virava a cabeça de um lado para o outro.

- Chantal? - Nossos olhos se encontraram.

- Sim?

- Você consegue rir? - Tomei-lhe a mão.

- Rir? - Ela puxou-a de volta.

- A coisa toda não passa de uma grande diversão. ”

Um homem jovem usando um terno de pequenas estampas de xadrez saiu pelo portão. Atrás dele, uma linda mulher num vestido de listras azuis. Ela gargalhava. Enquanto ele continuava andando, ela lançava-se sobre ele. Ele teve que segurá-la, pois ela se curvava de rir.

-Arrete, ca suffit - disse ele.

- U a... il... U ajeté as chaussure. - Ela jogou a cabeça para trás, não conseguia se segurar, enchia a rua com explosões de gargalhadas. As pessoas ao redor se viravam.

- Calme-toi, ils regardent tous. - O homem jovem estava incomodado com a felicidade.

— La chaussure! II ajeté sã chaussure! — Ela segurava a barriga. Muco e saliva corriam por seu queixo. Ele a agarrou pelo quadril.

- Oui, sã chaussure, j’ai compris.

Como se a palavra lhe provocasse novamente, disparou a próxima cascata de gargalhadas. Os cabelos castanho-ferrugem caíam sobre sua testa.

Ele tentava fazer com que ela continuasse a caminhar. - Allons II est tard. -Pediu compreensão aos passantes com um leve sorriso.

O curioso casal passou por um carro preto, no qual se encontravam dois homens de terno. Eles haviam baixado as janelas. Um deles seguiu-os com o olhar, o outro foi contagiado pelo riso.

- Eles estão se divertindo - disse.

Um carro oficial vazio estava parado na esquina seguinte. Um Sturmmann estava encostado nele, com uma das botas sobre o paralama, e enrolava um cigarro.

- A senhorita deve ter visto o passarinho verde! -observou ele sorrindo.

- Pardon, monsieur? - O jovem não entendeu.

O Sturmmann cuspiu migalhas de tabaco. — Bonita, mas tantan. - disse ele, quando o casal desapareceu ao dobrar a esquina. A risada desapareceu gradualmente.

Chantal olhou ao seu redor.

- Estão nos seguindo?

Acariciei seu quadril.

- Para onde vamos?

- Direita.

- Aí voltaremos para a Jacob.

- Confie em mim.

Chegamos à rue de Seine. Um carro preto vinha em nossa direção, devagar, como que espreitando. Reconheci o carro oficial de Leibold tarde demais. Chantal sentiu meu vacilo. Atrás dos vidros, duas silhuetas que usavam quepes.

Puxei Chantal para mim, virei-a para a rua e beijei sua boca. Minhas mãos escorregaram por seus ombros, ao longo das costas. Apertei suas nádegas e mantive-as presas. Olhem para aí, pensei. Olhem para as nádegas dela! Chantal tentou soltar um grito.

O carro estava na mesma altura da rua que nós, diminuíram a velocidade. Levantei um pouco a cabeça. Vi a cara de Leibold no retrovisor. A boca pressionada contra os lábios de Chantal, meu olhar encontrou os olhos do Hauptsturmfúhrer. Mas o olhar de Leibold parecia não me reconhecer. Ele apenas observava a cena. Um homem jovem beijava uma jovem francesa. Para mim, o olhar de Leibold durou uma eternidade. Depois seguiram em frente. O carro se afastava pela rue de Seine pouco a pouco e desapareceu por trás de uma carroça de verduras.

A rua estava cheia de pessoas paradas à sombra, que conversavam agitadas. Outros passavam apressados. Eu beijava Chantal. Nós nos beijávamos. Ao longe uma sirene, passos de botas, palavras alemãs atrás da esquina seguinte. Pouco a pouco, o barulho de rua voltava à calçada naquela noite.

Armazéns e estábulos, entradas sob toldos, tinta pintada sobre chaminés engorduradas. De dentro da ruína vinham aragens com cheiro de vinho tinto. Andamos pelos caminhos de pedra de Montmartre. Do lado norte, à sombra, um vinhedo, caldeirões a gás e galpões compridos, trens apitavam ao longe, fumaça industrial brotava, alta. O horizonte escondia-se em meio a uma névoa de pó.

Não nos faláramos mais desde aqueles minutos na rue Jacob. O vestido de Chantal rodava ao meu lado, listras azuis, suaves. Eu tentava esquecer o rosto de Leibold.

Ela olhava para mim.

- Por que fez isso?

Eles estavam sentados ao redor, bebiam. Dúzias de indivíduos da Força Aérea, equipados com máquinas fotográficas. Um artilheiro alimentava os pardais. Olhou ao redor, orgulhoso, quando o pássaro voou com a migalha no bico.

- É sua própria gente - Chantal insistia para que eu respondesse.

-Sim.

- Por quê, então?

- Não sei por quê.

Murmúrios nas copas das árvores, um violinista apareceu à entrada de um restaurante e posicionou o violino sob o queixo. No caminho, um poço. Arregacei as mangas e bebi. Olhava para Chantal.

- Seu pai também está sendo procurado. - Um fio de suor escorrendo em seu pescoço. Senti vontade de tocá-la. Enxuguei as mãos na camisa.

- Hoje à noite ele estará a salvo. -Involuntariamente, ela olhou para trás. - Amanhã nos encontraremos... - Ela hesitou.

Eu sorri.

- Não diga isso. Eu sou um boche.

- Você é um boche - ela repetiu.

Chegamos a um terraço grande, não dava para subir mais. Atrás de nós, crescia a montanha de mármore branco. Centenas de pessoas encontravam-se sobre a colina. Aos nossos pés a cidade preenchia o mundo até o último canto. Dois sargentos apontavam para longe e um gritava para o outro quais prédios reconhecia. Uma a uma, colocamos nossas quatro mãos sobre o parapeito. Senti o sol avermelhado na nuca.

- Esse apartamento - disse Chantal. - Existe mesmo?

Há tempos eu não pensava mais no apartamento. Hirschbiegel nunca mais o mencionara. Apalpei o peito com cuidado e senti. Em todas aquelas semanas eu trazia a pequena chave no meu bolso; não acreditando, tirei-a. Um puxador prateado com um minúsculo floreado.

- Existe - disse.

- O apartamento do judeu no segundo arrondissement - Chantal permanecia olhando para o longe. - Onde é? - Apontou para baixo.

Hirschbiegel só mencionara o endereço uma vez. Eu estava certo de que esquecera o nome. Faillard, surgiu facilmente. - Rue Faillard, número doze — disse sem hesitação.

Chantal acenou e virou-se. Esbarrou num cabo, ele se desculpou sem malícia.

Pegamos a descida para o leste. Enquanto caminhava, eu segurava firmemente a chave. E se o apartamento estivesse cheio de quinquilharias alemãs? Quadro do Fúhrer, conservas alemãs, cartões postais de Heidelberg?

O caminho desembocou na rue Clignancourt. O que de cima parecia infinito revelou-se um labirinto dominante. Chegamos a La Fayette, misturamo-nos com a multidão em Saint-Denis. Chantal não perguntou nem uma única vez pelo caminho. Antoine acompanha a filha do livreiro ao apartamento do tenente, pensei.

Na fronteira para o segundo arrondissement havia um bloqueio, tiravam as pessoas do metrô para a luz do dia.

- Saiam, saiam! latia um capacete de aço ao meu lado.

- Peut-être une bambe en cadeau - sorriu Chantal. Ela forçou a passagem em meio aos parisienses indignados. As ruas se esvaziavam. Ela andava mais devagar, olhava para cima com freqüência.

Faillard. Estava escrito sobre nossas cabeças em letras veneráveis. Nove, onze, atravessamos a rua, número doze. Meu olho pulou para o botão da campainha. Chantal apertou-o. Eu rezei ao deus das zeladoras. Os segundos arrastavam-se. Um chiado, uma fresta entreabriu-se, Chantal enfiou a mão para dentro. Antes mesmo que alguém espiasse pela abertura, havíamos passado para dentro.

Subi a escada devagar, lia as placas à meia-luz. Nomes franceses antigos. Como chamava a pessoa de confiança de Hirschbiegel?

Quarto andar, última tentativa. Havia alguma fechadura em que coubesse a chave prateada? Do último degrau eu li gravado em ouro: Wasserlof. Pisei diante da porta, aliviado.

— E o seu amigo? — perguntou Chantal, quando enfiei a chave cuidadosamente na fechadura.

- Ele não está. -Empurrei demais o palhetão, puxei-o de volta, empurrei um pouco, sentia tudo pelos dedos. Não girava. Chantal estava aguardando atrás de mim. Lambi o suor dos lábios. Troquei de mão, encostei a testa na porta. Os dentes resvalavam em cantos, o orifício estava com uma folga, mas nada acontecia.

- Deixe-me tentar - Chantal empurrou-me energicamente para o lado, retirou a gordura da chave no meu paletó e destrancou a porta com facilidade. A porta se escancarou para dentro, como se estivesse há muito tempo sob pressão. A folha rangeu sobre a madeira, o assoalho subira, estufara-se. Chantal devolveu a chave, deixou que eu entrasse primeiro.

Não havia luz. Dois quartos, a sala dava para a rua. Móveis que eu nunca vira antes. Tudo parecia encaixado. Madeira escura, baús, dobradiças. À primeira vista nenhum emblema alemão, nada que pudesse fazer com que Chantal se lembrasse do inimigo. Jornais velhos, franceses. Na minicozinha, chá russo.

- Seu amigo navega? - Ela estava em pé no meio do quarto, o sol do fim de tarde deixava seu vestido translúcido.

O quarto estava decorado como a cabine de um navio, foi o que percebi. Madeira de teca, tudo aparafusado, como se houvesse a possibilidade de haver uma tempestade em alto-mar na rue Faillard. Eram móveis de navio.

Passos vinham de baixo, fiquei estarrecido, enquanto Chantal se dirigia despreocupada até a janela. Uma porta foi aberta no andar de baixo. O morador afastou-se. Acordeão em algum lugar. As venezianas estavam abaixadas, Chantal abriu uma, deixou que o ar entrasse. Eu cheguei atrás dela, ela se virou. Com a cabeça abaixada, centímetro por centímetro, apoiou-se no meu peito. Sua testa em meu ombro; abracei-a com cuidado. O farfalhar do tecido.

- O que é isso? - Seus dedos pararam em minhas costas. Lembrei-me da identificação oficial. Nome e número, Oberge-

freiter das Forças Armadas.

- Nada. - Retesei-me.

- Tem alguma coisa. - Ela tentava achar o lugar novamente.

- Um amuleto para trazer sorte.

- Por que o usa nas costas?

Afastei-me. - Estou suado. - Deixei o quarto. No corredor tive que decidir entre duas portas. Abri o armário de vassouras, fechei-o novamente, fui ao banheiro e passei o trinco.

Sabonete, pasta de dente, talco: tudo de marca alemã. Deixei a água correndo. Juntei as tralhas, escancarei a janela que dava para o prisma de ventilação e joguei tudo fora. Um forte tilintar soou lá de baixo. Não conseguia desenganchar o meu cinto, os botões pareciam minúsculos. Nervoso, tirei a camisa e a corrente com a identificação, que escondi no cesto de roupa suja. Lavei-me. Um robe de seda estava pendurado na porta.

- Antoine! - ela chamou do lado de fora.

- Sim?

- Como é seu verdadeiro nome?

Vesti o robe.

- Meu nome é Antoine! - Amarrei o cordão. No espelho não via mais nada de alemão em mim.

Quando saí, Chantal estava em pé no dormitório. Ela curvava-se sobre o colchão. Firme e robusto, provavelmente era procedente do Reich. Ao erguer-se, sorriu por causa do robe. Era muito curto para mim.

- Quero ouvir agora - disse ela. - Por que fez aquilo? - Eu me calei. Tremia por causa da seda fria. - Talvez... - começou a dizer com um olhar irônico - por que você tem um coração francês?

- Sentou-se na beirada da cama. - Ou simplesmente não gosta da guerra?

- A guerra não é nada de extraordinário - respondi rude.

Sempre tem uma guerra.

- Então resta apenas a solução francesa. - Por um momento pareceu que entristecera. - O senhor fez o que fez por uma mulher.

Virei a cabeça para a janela. Do lado de fora tudo ficava azul. Pensei em Leibold. Talvez ele estivesse deitado numa cama parecida, seu colchão era francês; afundava no meio. Olhava fixamente para um teto parecido. Hoje ele tivera azar, mas em algum momento viria à sua mente a imagem do casal se beijando, talvez percebesse quem ele realmente vira. Se refletisse o suficiente, chegaria à conclusão. Quanto tempo restava?

Sentei-me ao lado dela, observei as marcas na minha pele na abertura do robe. Segurávamos a mão um do outro. A dela era bronzeada e forte. Não consegui apreciar a situação, um ruído em meio àquele momento.

- Onde você está? - Chantal pôs a mão no meu cabelo. Seus ombros, o teto azul. A noite que caía com peso. Eu queria erguer-me novamente, para fechar as venezianas. Ela não deixou mais que eu escapasse.

Acordei de súbito durante a madrugada. Procurava pelo motivo. Sons vinham em minha direção, não eram propagados, apenas pensados. A perna de Chantal estava sobre a minha. Acariciei sua coxa e seu joelho, devagar. O corpo bonito, relaxado, sua respiração regular. Quando ela virou a cabeça, o cabelo caiu sobre seu rosto, puxei-o suavemente para o lado. Ela se levantou no momento seguinte, de um sono profundo para a vigília absoluta.

- Eles estão vindo? - Afastou-se de mim e sentou-se, ereta. Eu queria puxá-la para perto de mim. Ela pressionou as costas contra a cabeceira da cama. - Que horas são?

Eu apontei para fora, ainda não havia um brilho cinza na janela.

-Chantal...

- Sim?

— Não consigo mais me lembrar da música.

- Música? - Balançou a cabeça na escuridão.

- Uma melodia.

-Como assim...? -

Aproximei-me. - Se eu não conseguir me lembrar não vou poder dormir novamente.

Ela acariciou minha clavícula, devagar.

- Você é o boche mais maluco que eles já enviaram para cá. E então, como é a música?

Eu sussurrei alguns tons.

- Fala de uma moça que é amada durante o mês de abril. No verão, ela está sozinha de novo.

Chantal acenou.

- Em abril - repetiu séria.

- Avril prochain -je reviens - lembrei-me das palavras. Tons graves, curtos. - Você conhece?

Chantal cantou com sua voz de menino. O resultado foi uma melodia nova e truncada. Escorreguei para debaixo do cobertor, senti o cansaço voltar. Agora Chantal estava acordada. Começou a me acariciar. Não permitiu que eu dormisse em seu peito. Cheirou meu ombro, minha barriga. Deslizou sobre mim. Seu umbigo oval dançava para cima e para baixo.

Chantal lavava suas axilas, seu peito. Eu estava sentado sobre a tampa da privada e fumava. As janelas estavam abertas. Era tão cedo que a cidade só dava sinais isolados de vida.

- Por que você trabalha no Turachevsky? - perguntei.

Sua mão que segurava a esponja desacelerou.

- Não volte mais lá - continuou de costas para mim.

- Por causa do dinheiro? - Eu senti que a pergunta a afastava de mim.

Ela ajuntou cabelo, prendeu-o na nuca. Cobriu os seios com os braços, virou-se.

- Não quero que você me veja lá.

— Assim como os outros boches?

-É.

Levantei-me.

- Aqui é o único lugar onde podemos nos encontrar.

Olhou-me com olhos cansados, lascivos.

- Hoje à noite? - perguntei.

- Talvez hoje à noite.

Joguei o cigarro na privada.

- O que vai fazer agora?

- Vou procurar Gustave. Eles não o pegaram, eu sinto. Fiquei admirando a nós dois no espelho. Ela vestiu a blusa, abraçou-me. Alguém buzinou na frente do prédio. Fomos juntos. Chantal seguiu à frente.

- Estarei esperando na escadaria pouco antes das oito - disse ela.

Não nos beijamos mais. Fiquei confuso naquele apartamento estranho, em meio aos móveis de navio. À luz do sol nascente, tirei da cueca o emblema das Forças Armadas. Tranquei a porta com cuidado, beijei a chave como se fosse minha aliada. Enquanto eu descia a escada, calculei se daria tempo para levar a bolsa de monsieur Antoine para o hotel antes do início do trabalho.

Coloquei a bolsa debaixo da escrivaninha. Um Rottenfúhrer ergueu rapidamente o olhar, curvou-se novamente sobre sua lista. Minha mesa era a menor, e a mais distante da janela. Ninguém me chamara ainda. Sentei no meu lugar, peguei os protocolos dos interrogatórios de ontem e comecei a traduzir.

Meia hora depois Rieleck-Sostmann saiu da sala de Leibold. Esperei por um gesto, um olhar que me dissesse a quantas estava o barómetro lá dentro. Rieleck-Sostmann passou.

- Ele está esperando - disse ela às minhas costas. Quando me voltei ela já arquivava papéis.

Peguei bloco e lápis, bati e entrei. Leibold estava ao telefone. Bati continência; ele não estava com pressa. Finalmente, desligou.

- Está melhor hoje? - Fechou o botão de cima do uniforme. Foi nadar?

Estiquei a coluna.

- Nadar, Haupsturmfúhrer?

- Foi um dia magnífico. - Colocou-se perante a janela, de forma que eu não podia ver a expressão de seu rosto. - Ontem, tivemos um calor de matar durante a batida.

Prendi a respiração.

- O que o senhor fez nessa bela noite de verão? - Ele pestanejou no raio de luz.

- Nada de especial. Encontrei um camarada.

Leibold virou-se para a porta, agarrou o trinco e esperou. Ele quer saber o nome, entendi. - Hirschbiegel. Tenente do coronel Schwandt.

- Tanque? - O Hauptsturmfúhrer olhou-me fixamente.

- Sim, senhor. - Eu mencionei a unidade em que Hirschbiegel servia.

- O que você tem a ver com eles? - Girou o salto da bota sobre o assoalho.

- O tenente e eu estamos acomodados no mesmo hotel.

- Entendo. - Ele abriu a porta intermediária; os Rottenfúhrer estavam na sala de interrogatório. - Não prendemos todos ontem - disse Leibold com um leve sorriso. - Mesmo assim, estou satisfeito.

Tive a sensação de estar com um gancho de ferro em volta do meu pescoço. Abaixei a cabeça, aparentemente para virar a página já escrita do bloco.

- Seja cuidadoso - disse o Hauptsturmfúhrer.

Parecia que o chão do escritório cedia. Pressionei dois dedos contra o lápis, senti que logo ele quebraria. Finalmente, Leibold passou para o outro lado. Eu o segui e arrumei meu lugar.

Trouxeram o barbeiro.

Havia apanhado, uma ferida aberta sobre o olho direito. Sentaram-no na cadeira. Leibold deixou que lessem os dados pessoais. Gustave Thiérisson, residente no número 31 da ruejacob, proprietário de um salão de cabeleireiro.

Ele ainda não me vira.

- Já tem o salão há muito tempo? - começou Leibold.

- Vous l’avez longtemps lê salon? - perguntei em tom baixo.

Gustave ergueu-se, as algemas tilintaram. Não foi sua aparência que me abalou, mas a falta de esperança em seu olhar. Olhava para mim fixamente.

- Propriété defamille - respondeu, finalmente, com uma voz frágil.

- Propriedade de família - disse eu.

- Na sua propriedade de família você também tem licença para uma gráfica?

Hesitei por um momento longo demais.

- Diga logo! - berrou Leibold.

Pressionei um joelho contra o outro, traduzi. O barbeiro queria falar. Não esperaram tanto tempo. Desta vez o Haupsturmfúhrer não deixou que eu saísse.

Bateram no rosto de Gustave. Ele não gritava, gemia, estarrecia-se à espera do próximo golpe. Só continuaram a bater nele quando sua dor diminuiu. Jogaram-no ao chão, pisaram em sua barriga. Leibold não os interrompeu, não fazia perguntas, deu-lhes tempo. Por fim, puxaram o barbeiro de volta para a cadeira e abriram sua calça. Um deles vestiu uma luva. Gustave olhou-me perplexo; sangue pingava de sua sobrancelha. Ele observava a luva que se aproximava de seus órgãos genitais. O Rottenfúhrer os agarrou. Gustave gritou sem parar; virou-se para escapar do ataque. Seus ombros foram puxados para trás. O que estava com a luva só afrouxou o punho depois que Leibold lhe dera um sinal. O corpo de Gustave era sacudido por convulsões. Ele ainda gritava, mas como se sua voz viesse de longe. Gradualmente, o som que emitia transformou-se num choramingo. Um córrego desceu pela perna da calça, pingou no chão, ao lado do sapato.

- De agora em diante eu quero respostas precisas - disse Leibold. - Uma palavra que eu não goste e eles continuam.

Eu traduzi. Minhas axilas, as costas estavam molhadas de suor.

- A prensa é sua? - continuou Leibold.

Eu fiz a pergunta. - Dis lê vite! - acrescentei no mesmo fôlego. Leibold me analisava, mas não interrompeu. O rosto machucado, o nariz quebrado. Gustave admitiu ser o proprietário da prensa.

- No seu salão também trabalha uma mulher - disse o Hauptsturmfúhrer. - Como é o nome dela?

Eu traduzi. Gustave ergueu um pouco a cabeça. Nossos olhos se encontraram.

- Como é o nome dela?! - repetiu Leibold. Os Rottenfúhrer estavam a postos.

- Dis son noml - dirigi-me ao barbeiro, demasiadamente enérgico.

- Chantal - respondeu Gustave quase inaudível.

- O outro?

- Joffo - ele hesitou. - Elle n’en a rien àfoutre.

- A mulher não tem nada a ver com isso - disse eu.

O olhar de Leibold oscilava entre mim e o infrator.

- Veremos.

- Retomou seus passos.

O barbeiro perdeu a consciência pouco antes do almoço. Os Rottenfúhrer tentavam acordá-lo com jatos d’água. Como isso não ajudava, Leibold deixou que o levassem à cela. Puxaram o homem desacordado para fora, seus pés batiam sobre o chão.

Sentei-me no pátio longe dos outros e comecei a fumar. Eu via Gustave, suas feridas abertas. Mais um interrogatório desses e ele diria tudo. Eu tragava o cigarro agitado.

- Você precisa dormir mais - Anna Rieleck-Sostmann saiu da sombra.

- É só o calor. - Meu sorriso falhou.

Ela sentou-se de tal modo que suas pernas alcançaram a luz do sol.

- Se eu puder, eu te ajudo.

— E você acha que eu preciso de ajuda?

- Você conhece esse barbeiro, não é verdade? - Ela reclinou a cabeça.

Meu olhar assustado dizia tudo.

- Por que acha isso?

- Não fique de joguinhos comigo - Rieleck-Sostmann espantou uma mosca de sua testa.

- Uma vez cortei meu cabelo em seu salão. - Deveria soar casual. - Você disse alguma coisa para Leibold? - Meu dedo tocou as costas de sua mão.

- Por que deveria? - Pegou um cigarro do meu maço. Dei-lhe fogo. - Você vai se dar mal com ou sem a minha ajuda.

Ela pestanejou quando uma centelha chegou muito perto de seu olho.

- Por favor, Anna...

- Eu tenho tempo hoje. Que tal às sete? - Ela me observava de lado. - Não esqueça sua bolsa debaixo da escrivaninha. - Com isso levantou-se e foi embora.

Por minutos olhei fixamente para o raio de sol que alcançou primeiro meu sapato, depois a panturrilha. Senti o calor através do cano de couro da bota. Não me mexi até o momento em que o Rottenfúhrer ordenou que eu entrasse.

Lavei-me. Esfreguei os pés e os joelhos com uma esponja áspera, o cabelo com sabão grosso. Evitei olhar no espelho. Por último, enxagüei-me com água gelada. Há pouco, a porta se fechara atrás de Rieleck-Sostmann. Eu esforçava-me para apagar a última hora da minha memória. As coxas fortes, o pescoço avermelhado. Saí do banheiro, rasguei três folhas do calendário. Vesti o uniforme, comprei uma garrafinha de água-de-colônia da faxineira e passei no pescoço e nas têmporas.

Não se via nenhuma estrela, quase não havia civis nas ruas. Eu mergulhei na noite nublada. A mistura usual de oficiais e cabos que, flanando, procuravam o prazer. Por um instante, tive a impressão de ouvir passos atrás de mim, mas a calçada estava vazia.

Cheguei à rue Faillard sem pegar nenhum desvio. Diante do prédio, fui dominado pelo medo. Minhas mãos estavam úmidas, passei-as pelos cabelos duas vezes antes de apertar a campainha. Mais uma vez, a zeladora permaneceu sendo um fantasma atrás de uma porta acortinada. Só uma tosse baixinha delatou que havia alguém ali.

Na escadaria, chamei o nome de Chantal aos sussurros, sem resposta. Esperei em frente à porta. Era possível que algo a tivesse atrasado. Depois de meia hora tive a certeza de que ela não viria. Levei muito tempo para conseguir abrir a porta; novamente, ela arranhou o assoalho. Hoje, o apartamento parecia sombrio e desabitado. Somente os travesseiros e os lençóis faziam lembrar a noite anterior. Achei uma garrafa de vinho na cozinha. Sem acender a luz, sentei-me no sofá de navio e bebi. Mais tarde, servi-me do conhaque de Hirschbiegel. Bebi em goles grandes.

Quando as duas garrafas já estavam vazias, abri a janela e vagueei pelo apartamento. A angústia por não poder fazer nada.

Comecei a passar mal, cuspi a aguardente que queimava e fui em direção à saída. Cambaleei sobre os degraus lisos, os saltos das botas eram insuportavelmente barulhentos. Passei correndo pela casinhola da zeladora, em direção ao rio. Só diminuí o passo ao pisar sobre a ponte de pedras; passei por dois Scharfúhrer, saudando-os. Evitei as proximidades da rue Jacob e utilizei somente pequenas vielas.

Um relógio bateu oito horas quando cheguei ao portão preto da rue de Gaspard. Escurecia por toda a parte. Entrei. A loja do vendedor de velharias estava trancada, como se ele a tivesse deixado para sempre. Cheguei à livraria, sentei sobre a pedra para poder respirar. Suor corria pelas minhas sobrancelhas. De repente, algo na escuridão me deu um sobressalto. A loja estaria sendo vigiada? Estavam à espreita na noite para agir a qualquer momento? Imprudente vir até aqui! Perigoso também para Chantal. Dei conta dos degraus com um salto. Bati na porta. Assustei-me quando ela se abriu rangendo. Faltou o soar da campainha. Somente agora notava o vidro quebrado. Mesmo conseguindo identificar somente contornos, notei ao entrar que eles foram minuciosos. As estantes estavam tombadas; centenas de livros estavam espalhados pelo chão. Observei a devastação à luz vacilante da chama de um fósforo. Voltei-me, apaguei a chama. Algo se movera na viela? Permaneci parado por segundos, escutando. Finalmente, abri caminho e cheguei até o balcão. O livro de contabilidade estava aos meus pés, rasgado; pastas, quadros, mapas espalhados. No depósito ao fundo, a mesma situação. Jogaram o acervo todo sobre um monte só. Cansado, sentei-me sobre a montanha de livros e tirei a boina. Amaldiçoei as circunstâncias que me levaram até aquelas pessoas. Qualquer coisa que eu fizesse também os colocaria em perigo. Culpei-me por ter colocado a faca no pescoço de Chantal. Não fora eu que fizera o barbeiro revelar o nome dela? Eu a encontraria amanhã no interrogatório?

Nenhum ruído em volta, só o farfalhar do papel. A boina escapou e caiu ao chão. Estiquei a mão para pegá-la e descobri a ponta de um tapete, coberto de livros. Levantei-me. Com mais um fósforo iluminei o chão. Bati com o pé, era oco. Olhei para o balcão - tudo continuava calmo. Encontrei uma vela e a acendi. Comecei a levantar as estantes vazias, empilhei os livros na parede. Pouco a pouco pus o tapete a descoberto, peguei uma ponta e puxei o tecido empoeirado para trás. Com o bico da bota procurei por um canto ou um aprofundamento. Estava abafado aqui, tirei o casaco do uniforme.

O corte no assoalho era quase imperceptível, mesmo quando segurei a vela sobre o local. Pingou cera na minha mão. As tábuas estavam colocadas sem entalhe. Só um lugar fendido, como se fosse emendado. Procurei no recinto por uma vara. Notei o fogão de ferro fundido, na parede estava apoiado o atiçador. A alça tinha uma grossura peculiar e terminava achatada. Coloquei a vela sobre o chão, enfiei a alavanca no assoalho e joguei meu peso sobre ela. Um ranger demorado, logo o gancho quebraria. De repente, a tampa cedeu. Uma fresta estreita abriu-se. A lembrança de que há semanas eu havia sido arrastado lá para baixo. Coloquei o pé no primeiro degrau, desci cuidadosamente. Pisei no chão batido e olhei ao redor com a vela na mão. Rudes paredes de tijolos; numa das paredes, caixas com batatas e maçãs.

- Estou apontando diretamente para o seu coração - disse uma voz na escuridão.

Dei um salto para trás.

- Parado! - gritou ele.

- Joffo? - Apaguei a vela com um sopro. Nenhuma resposta.

- Eu estou sozinho.

- Por que devo acreditar em você?

Peguei os fósforos. A caixa escorregou da minha mão, apalpei o chão úmido. Pouco depois, a vela queimava entre mim e o livreiro. Seu rosto estava cheio de medo.

- Há quanto tempo você está aqui? - perguntei.

- Eles vieram tão depressa que não pude mais fugir - respondeu Joffo.

- O porão tem outra saída?

- Não.

- Como pretendia subir?

- Eu tentei. A tampa estava pesada demais.

- Você teria se sufocado.

- Não - Joffo segurou a pistola na luz. — Não com isso. - Ele subiu as escadas. - Eles voltarão.

Eu o segui.

- Onde está Chantal?

- Foi embora.

- Para onde?

Estávamos em pé lado a lado, ele fechou a tampa e puxou o tapete para cobri-la.

- Não verá minha filha novamente, monsieur.

- Não sou culpado pelo que aconteceu!

Joffo colocou o atiçador de volta no seu lugar.

- Tenho que abandonar meus livros - disse ele. - Vocês são culpados disso.

Ele assoprou a vela e levou-me até o balcão. Tateamos até a porta. Antes de ir, contei a ele o que acontecera com o barbeiro. Calei-me sobre a tortura. Joffo abaixou-se, pegou o trinco da porta que fora arrancado. Ele fez um ruído para dentro.

- Não tente nos achar, monsieur. - Ele olhou para o mundo devastado dos livros. Saltei para o exterior, sem despedida. Parei por um momento ao lado da pedra, sobre a qual vi Chantal pela primeira vez. Que livro ela estava lendo naquele dia?

Na mesma noite, tirei tudo o que havia de alemão em minhas roupas. Nomes de marcas foram eliminadas, estampas foram desfiguradas. Até mesmo a numeração na sola dos sapatos, unidade de medida alemã, raspei com uma faca.

No dia seguinte, solicitei uma reunião com Leibold. Não como de costume, na janela que dava para o jardim, estávamos frente a frente no escritório. Eu disse que era Obergefreiter das Forças Armadas e que, sendo assim, solicitava a transferência para a minha antiga unidade.

- Não gosta mais da rue dês Saussaies? - Leibold manteve um tom cordial, mas senti que me olhava com certa impaciência.

Os boatos de invasão nos últimos tempos fizeram com que os movimentos de resistência aumentassem bruscamente. Diariamente, dúzias de detentos passavam por nosso departamento; muitas vezes o interrogatório era apenas um prelúdio para a execução. Confessei a Leibold que os inquéritos acabavam comigo.

- Essas pessoas são inimigas do Reich! - O Hauptsturmfúhrer acentuou cada uma das palavras. - Se estivesse na linha de combate, teria que matar essas pessoas com as próprias mãos. - No silêncio, ouvia-se um caminhão passar. - É isso que o senhor quer, Obergefreiter?

O sol escrevia uma cruz dura na parede coberta por cal. Fixei o olhar na mancha de sol atrás do Hauptsturmfúhrer.

- Estou pedindo a minha transferência - repeti. Minha voz soava estranha.

- O senhor saberá da minha decisão. - Ele curvou-se sobre a escrivaninha.

Naquele dia traduzi o interrogatório de duas francesas que invadiram um campo para ver seus maridos. Quando deixei o escritório no final da tarde, Rieleck-Sostmann conversava com um Untersturmfúhrer. Ele contava que o barbeiro detido morrera por causa dos ferimentos.

- Grécia, se tiver sorte - disse Hirschbiegel. Estávamos sentados lado a lado sobre a cama dele. - Talvez Romênia. Dá um jeito de ir para as montanhas. - Ele apertava as mãos rosadas entre os joelhos. Do lado de fora uma bonita noite de outono se anunciava. Atrás das cumeeiras dos prédios em frente o céu resplandecia, o ar estava mais fresco.

- Romênia? - eu tentava me lembrar do mapa dos Bálcãs que meu major trouxera de lá. Anotações rabiscadas a lápis: Forças Guerrilheiras de Josip; nos Bálcãs, parecia tratar-se de uma guerra contra criminosos.

Calamo-nos; nenhum de nós mencionara a Rússia. Por que Leibold temeria mandar-me para lá?

- Não quer revê-la antes disso? - perguntou Hirschbiegel.

- Eles foram embora - respondi. - Provavelmente para o interior.

- A rue Faillard está vazia - suspirou o tenente. - Que pena. Bebemos conhaque.

- Deixe-me ouvir a canção mais uma vez - disse eu.

Hirschbiegel pegou um tanto de brilhantina do pote e espalhou-a nas mãos. Levantei-me e fui até a estante. - Certamente não estarei mais em Paris no próximo mês de abril.

- Foi sem querer, pardon - disse ele, quando achei a capa de disco marrom.

Tirei o vinil. Estava quebrado ao meio.

- Sentei em cima - Hirschbiegel desculpava-se com os olhos.

- Ainda lembra da melodia? - Eu segurava as duas partes, uma junto da outra. - Como era mesmo?

O tenente massageava seu cabelo.

- É apenas mais um desses sucessos, por que se importa?

Eu li o título cindido. ”Avril prochain”. A melodia não me vinha mais à memória.

Logo depois perambulávamos em direção ao Sena, o perfume de violeta de Hirschbiegel se antecipava à nossa frente. O céu esfriava sobre o verde e o amarelo dos plátanos, escurecia rapidamente. Eu inspirava a brisa suave. As poucas nuvens eram superfícies marrons. Homens usando blusas de lã apoiavam-se nas janelas dos andares superiores. Um café abria naquele instante, o garçom ainda estava varrendo. Músicas variadas vinham de todas as direções, violinos ao longe, sons de trompete alemão, ”Seemann nicht erschúttern”. Um conjunto musical de mulheres tocava no restaurante do outro lado da rua. Atravessamos lentamente.

A delicada violinista chamou imediatamente a atenção de Hirschbiegel. Francesa dos livros de ilustração, regia entradas difíceis com o arco. Sua parceira, a mulher que tocava viola. Robusta, bem alimentada, seu peito levantava o instrumento a cada inspiração. A violoncelista lançou-me um olhar triste no fim da valsa.

Hirschbiegel mastigava um pedaço de pão branco. - Não quer nos apresentar às damas?

- Todas as quatro?

- A matrona no piano a gente manda para casa! - disse ele rindo.

Esqueceu-se do conjunto feminino depois de alguns copos.

- Tem música lá fora! - O tenente tropeçou no bulevar. Misturamo-nos à massa, que ficava mais densa, à medida que a noite se aproximava. O soprar das vozes, milhares de passos e patas de soldados. Bigodes espessos, dentes de ouro que eram expostos pelos sorrisos. Rostos exangues, apesar de bronzeados. Soldados parados na frente de uma vitrine miserável, as mãos nas costas. Não levavam a obrigação da saudação tão à risca, de qualquer modo não havia muitos oficiais perambulando por ali. Notei um sargento baixinho que passava pela quarta vez pela mesma esquina, achando-se importante, como se estivesse atrasado para uma reunião. E era apenas um passante solitário perdido.

O número de mulheres superava o dos soldados. Hirschbiegel via atrás de cada mulher uma profissional, bastava que mostrasse as panturrilhas.

- Mas essa daí é! - sibilava ele a cada dois metros.

Solas de madeira, casaquinhos pendurados sobre os ombros. Povoavam as ruas em duplas, quartetos, riam unindo as cabeças encostadas umas nas outras. Ouvi fragmentos em alemão, que as meninas usavam quando iniciavam uma conversa. Pass mal uffauf-wid-dersen. Risos, petulância, nada sério. As verdadeiras profissionais pareciam cavalos de corrida entre póneis inocentes; saltos altos, peles sobre os ombros. Expor-se e ser admirada, barganhas rápidas e negócios frustrados. Um rapaz vestido como janota que discutia com um garçom à porta de um café: - Mais, j’ai douze ans.

- Passamos por uma mulher velha, que estava acocorada como que petrificada à sombra de uma banca de jornal.

Decidi-me por um café no Quai de Ia Tournelle, com vista para a Notre-Dame.

- E agora? - Hirschbiegel olhava impaciente para os outros fregueses.

- Vamos esperar até que a sorte sorria para nós?

Olhava para os casais ao redor, resmungando. Ficar sentado ali inibia seu desejo de conquistar.

- Ultimamente tenho saído muito de noite apenas na companhia de homens - rosnava ele.

Eu apreciava a brisa que vinha da água. Pouco depois, surgiram duas mulheres jovens. Saias comportadas, blusas engomadas, chapéus delicados sobre as cabeças. Depois de uma rápida troca de palavras, decidiram sentar-se no café. Hirschbiegel esticou a coluna, quando elas se dirigiram para a mesa ao lado. Passou as costas da mão sobre a testa brilhante.

- Eu gosto da grandona de frente volumosa - murmurou ele. - Você ficaria satisfeito com a mais delicada?

Acenei, sem ao menos prestar atenção.

- O que será que elas são? Costureiras? Duas professoras? Não são profissionais, isso dá para perceber de cara. Quando vai falar com elas?

Deixei que se passassem dez minutos, sem que eu tomasse nenhuma atitude.

— Alguém vai roubá-las de nós — forçou ele.

De fato, um francês elegante apareceu na mesa ao lado e iniciou uma conversa.

- Agora um francês toma nossa frente! - Hirschbiegel remexeu-se na cadeira. - A grandona tinha tudo a ver comigo.

As mulheres negaram gentilmente o convite do francês. Dando de ombros, ele voltou à mesa de seus amigos.

- Agora você, caçula! - Hirsbiegel cutucou-me com o cotovelo. Curvei-me para a mesa ao lado. - Excusez mói, mademoiselles.

On na pás encore díné, mon copam et mói. Nous ne sommes pás d’accord sur quel restaurant prendre.

- Mais U y a d’excellentes occasions autour - respondeu a delicada.

- O quê? O que ela disse? - Hirschbiegel sentou-se numa posição similar à de um cavaleiro num monumento.

- Lês desmoiselles n’auraient pás un petit faim par hasard? perguntei.

- Un tout petit faim toujours - riu a mais forte.

- Olha, como ela ri - idolatrou o tenente. Expliquei-lhe que as duas não podiam arcar com um restaurante caro.

- Diga que eu pago tudo! - bradou ele. - O melhor, tudo do melhor! - Hirschbiegel estava tomado por uma alegria infantil, bateu palmas para o garçom e não aceitou recusa, também pagou a conta das damas. Sugeriu um restaurante elegante.

O toque de recolher já estava valendo há algum tempo quando fomos embora. Orgulhoso de sua sorte e ao mesmo tempo tímido, Hirschbiegel sugeriu irmos à rue Faillard para mais um drinque. A robusta, trabalhadora numa fábrica de botões, enganchou-se nele. A mais delicada caminhava a meu lado, calada.

Chegamos à rua escura, o prédio. Pensei numa desculpa com a qual eu não estragaria a aventura de Hirschbiegel. Eu não queria subir por nada. O tenente tomou a mão de sua acompanhante e pressionou o dedo dela contra a campainha. O ranger curto. Antes que ele escancarasse a porta, percebi uma movimentação à meialuz. Assustei-me; o pavor de perseguições alojara-se em mim desde a tarde na rue Jacob.

Passos aproximaram-se. Chantal parou à beira da calçada. Examinava as mulheres e o outro homem uniformizado sem entender nada.

- Antoine? - chamou ela, baixinho.

Eu não sabia o que fazer de tanta alegria. Fui em sua direção, parei.

- Você ainda está na cidade?

Ela usava um casaco pesado, uma bolsa na mão.

- Você não está sozinho?

- Estou, estou - balbuciei. Virei-me para Hirschbiegel.

O tenente aproximou-se.

- É ela? - perguntou ele curioso.

- Meu amigo - expliquei. - O dono do apartamento.

- O judeu? - Apesar da situação irreal, Chantal sorriu. - Posso falar com você? - Um olhar para as mulheres. - Não vai demorar muito.

- Para onde vocês querem ir? - perguntou Hirschbiegel.

- Para qualquer lugar. - Ela olhou para mim.

O gordo colocou-se entre nós. - Tome. - Com um aceno caloroso deu-me a chave prateada.

- E você? - Eu segurei sua mão.

- Tem muitos hotéis por aí. - Ele fez uma reverência desajeitada e voltou para as duas mulheres. Com muito esforço, explicou em fragmentos que era necessário continuar o passeio. Protestos e risos, depois os passos dos três se afastaram.

- Por que ainda está na cidade? - perguntei.

- Parto amanhã.

Eu permaneci em pé na beira da calçada, perdido, em dúvida, feliz.

— Chantal, eu te amo - disse eu, rouco.

- Não - sussurrou ela no escuro.

- Eu não vou ficar muito tempo em Paris. - Aproximei-me de seu rosto.

- Por quê?

- Pedi transferência.

- Claro. - Ela tocou minha face. - Alguém que fala nossa língua tão bem...

- Para onde eu vou, meu francês não vai servir em nada. Confusa, ela me abraçou. Nos beijamos. Ela abriu seu vestido e deixou que ele caísse no chão. Deitamos sobre a cama. Ela tomou minha língua entre os dentes. Acariciei suas coxas longas e bronzeadas. Sua bacia movimentava-se lentamente. Ela me acolheu dentro de si delicadamente. Os seios macios, eu enrolava seus cabelos densos em meus dedos. Deixei todos os pensamentos de lado. Essa noite eclipsou todo o resto. Era como se o tempo tivesse parado. Mais tarde, enchi dois copos com vinho e falei do tempo que estava por vir. A França livre.

Chantal ria com os olhos baixos.

- Meu pai tem uma queda pelo imperador.

- Napoleão? - Eu acariciava suas costas.

- Papai não é um monarquista. - Ela olhou para mim. - Mas antes da guerra, ele era contra tudo que significasse subversão

- E você? - Eu explorava cada uma de suas vértebras.

- Naquela época eu ainda tinha cabelo curto - sorriu. - Papai e Bertrand sentavam-se juntos muitas noites no depósito da livraria. Bertrand é o pai de Gustave. Antigamente, ele era o barbeiro.

- O de cabelo branco com o jornal?

Ela acenou. - Um líder popular apaixonado. Ele tentava converter papai. Mas papai sempre dizia: as pessoas que protestam perante a Bastilha, deveriam fazer melhor uso do domingo, e passear com suas famílias.

Nu, sentado na cama, eu tentava traçar para nós a época que sucederia a guerra. Como se meu pensamento fraco tivesse força para tornar tudo realidade. Eu esqueci da Europa devastada e criei uma ilha de normalidade. No olhar que Chantal desviava, nas suas respostas escassas, percebi que ela não acreditava nesse futuro. Para ela, o presente era confuso demais para que se pudesse visualizar um único dia sequer do futuro. Mesmo agora, quando a guerra forçava os alemães a retrocederem, ela não via em sua cidade nada além do uniforme estrangeiro. No interior, as coisas eram melhores. Onde seu avô tinha terras, havia poucas tropas.

- A terra não é para ser subjugada - sussurrou ela no quarto. - A terra é mais forte que os tanques que passam sobre sua superfície.

Lá embaixo, uma canção alemã ressoou em nossa direção, interrompendo os nossos sonhos. Tomei Chantal nos braços e contei que Gustave morrera. Ela permaneceu quieta, completamente imóvel. Depois de algum tempo, percebi que ela chorava.

- Eu poderia desaparecer - disse eu de repente. Em meio às lágrimas, ela riu. - Desertar? Você? Irritei-me pelo fato de ela não me levar a sério nem por um segundo.

- Você não é francês. Você apenas sonha que é um. - Ela passou a mão pelo meu cabelo.

Tirei minha cabeça de suas mãos e expliquei-lhe que eu tinha a intenção de deixar a faculdade para trás. Depois de um tempo de grandes destruições as pessoas precisariam de coisas mais simples. Madeira ou pedra; eu planejava usar meu talento manual. Tais habilidades também eram procuradas em Paris.

- Para onde você vai, Chantal? - Nossa respiração se manteve por algum tempo no mesmo ritmo e depois se separou novamente.

- Para longe de Paris.

A perspectiva de que estávamos juntos pela última vez atordoava-me. Olhei em direção à janela. A manhã anunciava-se por ruídos. Se Chantal tivesse dito apenas uma palavra, eu teria ido com ela naquela noite, para qualquer lugar.

Ela jogou o cobertor sobre os pés.

- Independente do que acontecer - sussurrou ela - nunca mais volte ao Turachevsky.

- Se eu não tivesse aparecido por lá, nunca mais nos teríamos visto.

- Prometa.

- Dificilmente terei oportunidade para isso.

- Mesmo assim, prometa.

Eu coloquei dois dedos sobre sua boca e jurei.

- Ainda se lembra das fábulas? - Ela virou-se de modo que podia me fitar melhor. - Está tudo escrito nas fábulas.

Eu acenei. Minha cabeça estava pesada.

- Todos os caminhos estão nas fábulas - disse Chantal. Lembrei-me do desenho da raposa e das uvas. Abri os olhos mais uma vez e vi que ela sorria. Do lado de fora amanhecia, gradualmente.

Foi um dezembro severo. Eu escalava montes de neve, chegava à rue des Saussaies, olhava indiferente para o Sturmmann, enquanto ele controlava meus documentos na recepção diariamente. Subia a escada de mármore, entrava no departamento, sentava no meu lugar. Cumprimentava Rieleck-Sostmann.

Eles falavam do Leste, reservadamente, em meias palavras. Mudança do posicionamento de tropas e trégua era o que mais se falava então. Logo aconteceria no Oeste também. Rommel chegara a Fontainebleau no dia 18 para comandar a defesa da Muralha do Atlântico. Na rue des Saussaies, as pessoas preocupavam-se com o desenvolvimento do caso. Eu não tomava parte das conversas e não era solicitado a fazê-lo. Os outros sabiam que eu recebera instruções para marchar.

As condições não muito claras, o serviço que ficava cada vez mais sem sentido e brutal com o passar das semanas, tudo isso acabaria. Os papéis foram lavrados, Leibold só precisava preencher a data. Região de fronteira de Sérvia e Montenegro, território desconhecido, companhia nova, outros camaradas. Os dias passavam.

Eu vi um relatório da situação, sem querer, numa pasta aberta.

  1. Ofensiva russa contra os batalhões sul da Ucrânia. / 2. A queda da Bulgária. / 3. Ordem de retirada da Grécia e do Mar Egeu. / 4. Abandono progressivo do bastião Sudeste, travessia para a defesa final da linha fortificada Sava-Tisza. A palavra final estava sublinhada.

Eu olhara para a região montanhosa no mapa; a linha de combate serpenteava na região do Carso como um verme perdido. Eu esperava. Achava a demora para a partida torturante, mas Leibold não falava nada a respeito. O Natal se aproximava. Eu tinha esperança de deixar Paris até o final do ano.

Viver nas histórias encurtava o tempo. Eu lia assim que terminava meu serviço. Romances, contos, o que me viesse às mãos. Vasculhava as livrarias diariamente, comprava e comia as palavras, às vezes colocava dois livros na estante numa mesma noite. Eu gostava mais daqueles que tratavam de honra e de grandes tarefas. Na madrugada, eu imaginava como Chantal vivia no campo, o que ela fazia nos dias curtos e escuros. Que roupa usava, o que comia. Eu me agarrava teimosamente à idéia de que não se tratava de uma despedida para sempre.

Raramente abria a porta, apenas quando era Hirschbiegel quem batia, na maioria das vezes altas horas da noite. Sua frota de tanques fora transferida; trabalho na Muralha do Atlântico. Ele vivera três anos e meio de guerra como se fosse um passeio, agora ele tinha que enfrentar justo as tropas de invasão. O tenente estava feliz por ter sido designado para o Oeste da Normandia e não para o setor de Calais onde o ataque era esperado. Ele se demorava cada vez mais no banho; escondia seu nervosismo sob algazarra bávara. Nas raras noites em que o acompanhei, senti-me incomodado e voltei cedo ao hotel. Eu já dissera adieu à cidade, Paris era passado. Por isso o convite foi tão surpreendente.

- Natal antecipado - disse Leibold.

Nós estávamos na nossa janela privilegiada voltada para o jardim. A neve esmagava a grama que não fora cortada no outono. Ultimamente, Leibold fumava sem parar. Os dedos amarelados de nicotina não combinavam com suas mãos bem cuidadas. - Na ocasião falaremos novamente sobre sua transferência. - Deixou as cinzas caírem, sorria.

- Chegou a hora? - perguntei tão eufórico como se Leibold estivesse me dando férias para passar em casa.

Mencionou o restaurante.

- Vamos nos encontrar cedo. O Stan-dartenführer vem de Chartres e tem que voltar ainda na mesma noite.

Eu confirmei minha presença no Trinité às oito horas. Eu poderia levar mais alguém? Leibold deu de ombros; com as mãos para trás, voltou para o escritório.

Depois que troquei de roupa no hotel, subi para o quarto de Hirschbiegel e contei-lhe sobre o convite.

- Não quero. - Cuidadosamente, o gorducho olhava em volta da banheira para ver se não faltava algo.

- Não vai demorar muito. Eles querem retornar para Chartres na mesma noite.

- Eu tenho aversão aos "crânios" - respondeu ele. Se o meu coronel souber que eu fui a uma festa de Natal da SS, vai sobrar para mim - Hirschbiegel livrou-se de sua cueca tamanho barraca.

Encostei a testa no vidro da janela. - Leibold não é o pior deles - murmurei.

Enquanto o tenente mergulhava seu corpo na água quente, falei do restaurante e das mulheres que poderiam ser encontradas ali. Aos poucos, foi simpatizando com a idéia. Partimos às sete e meia. No caminho, Hirschbiegel apontou para um cartaz do colaborador e orador Henriot. Sobre a boca e o nariz do francês a resistência havia colado um cartaz. "A la Population!"

- Você não tem que denunciar uma coisa dessas? - Hirschbiegel cutucou-me sorrindo. Coloquei as mãos nos bolsos.

Dois Sturmmánner condecorados, juntamente com seus ajudantes, estavam sentados à mesa com Leibold; o Standartenführer vinha à frente dos Leibstandarten.13

Hirschbiegel segurou-me na entrada. - Por que não trouxeram logo o Himmler? - Seguiu-me resmungando até a mesa dos camaradas.

Leibold fez as apresentações. - Se nosso jantar ficar francês demais, o Gefreiter Roth será de grande utilidade - antecipou-se à surpresa dos senhores, que em outra circunstância não tolerariam um Obergefreiter à mesa. Leibold ofereceu-me o lugar ao lado dele. Hirschbiegel acomodou-se entre os uniformes pretos. Lançou-me olhares irados, porque não havia nenhuma mulher à vista no restaurante.

O lugar revelou-se um fracasso. Os senhores de Chartres consideraram o vinho um desaforo. O maitre desculpou-se, o seu melhor estoque havia sido confiscado numa batida.

 

13 Leibstandarten: tropa sob comando pessoal de Hitler; também faziam a segurança de oficiais importantes. (N. da T.)

 

- Culpa dele mesmo! Quem manda não esconder melhor as coisas! - riu o Standartenführer.

Nós partimos. Os senhores tomaram o caminho usual de bares na região do Sena. Os boatos da invasão eram o tema da conversa, mas tudo num tom como se o local do acontecimento fosse uma caixa de areia. Quarta Frota de Tanques para o Oeste, garantir abastecimento, defesa aérea ao longo da linha Mame. Só faltava Góring satisfazer a produção dos velhos Ju a tempo. - O espaço aéreo continua sendo o casus knaxus. - Na teoria o caso parecia resolvido.

- Nosso cozinheiro é um francês - disse o Standartenführer pouco depois das dez. - Ele aconselhou um lugar, o nome soava polonês. Emil, você ainda lembra do nome?

Desde o começo da noite, o Sturmbannführer Emil tentava conversar comigo em francês; ele colocava seu vocabulário à prova. Emil vinha de Detmold; um homem contido, mas cativante. Para minha surpresa, ele conhecia as fábulas. Quando íamos para o carro, parou do meu lado e citou de cabeça: "O burro, metido na pele do leão, causava pânico onde quer que o farejassem. Ele, que era um animal de que ninguém se escondia, via agora como todos tremiam perante ele."

- E então, vocês têm aqui um bordel polonês ou não? - interrompeu o Standartenführer.

- Roth? - Leibold dirigia-se a mim. - Esteve ultimamente no Turachevsky?

A partida foi decidida. Mesmo com Chantal já há muito fora da cidade, a idéia de ir justo naquele lugar animou-me.

Pouco se falou no carro. Olhei para fora, a noite, às vezes fitava as mãos fortes de Emil. Fingi que não percebia os olhares de Leibold. Quando descemos, Hirschbiegel postou-se a meu lado.

- Eles são piores do que a fama que têm - sussurrou ele. Eu lhe peço, fique perto de mim.

Leibold apertou o botão da campainha.

Muitas moças estavam no salão. A madame aproximou-se ruidosa, inconvenientemente obsequiosa. Diante da fartura, os senhores de Chartres foram tomados por uma súbita timidez. Para desanuviar a atmosfera, Leibold sugeriu o bar. A madame escoltou-nos para lá. Conseguimos uma mesa perto do palco; estranho, esses lugares sempre eram ocupados primeiro. Perante nós o balé apresentava o disparate usual. Emil procurou um lugar a meu lado, mas desta vez Leibold fora mais rápido. Hirschbiegel espremeu-se, aborrecido, entre os ajudantes.

O champanhe veio na temperatura certa. Depois que as meninas do balé foram aplaudidas pelos senhores de Chartres, um dos Leibstandarte resolveu bancar o engraçado e começou a contar piadas. Ele engolia o champanhe como se fosse aguardente. - Quem conhece aquela da truta do arco-íris?!

Hirschbiegel ficava cada vez mais carrancudo. Depois que a primeira piada não surtiu o efeito esperado, ele se desculpou, lançou-me um olhar e desapareceu no salão. Os homens riram às suas costas e fizeram observações sobre os fogosos pesos pesados das Forças Armadas.

Enquanto eu acompanhava Hirschbiegel com os olhos, percebi alguém no corredor. Uma mulher de cabelos castanhos-avermelhados; sua roupa não combinava com o Turachevsky. Calças escuras; um casaco cinza, pesado; ela tinha uma bolsa. A mulher se parecia com Chantal. No segundo seguinte, ela tinha desaparecido.

- Preciso contar essa para minha velha! - gritou um ajudante.

- Então ela deveria ouvir essa! - O Standartenfúhrer brilhava. Levantei-me devagar.

O olhar de Leibold acompanhou-me.

- Achou alguém? - perguntou ele, baixo.

Murmurei uma desculpa, que desapareceu em meio às risadas. Tomei o caminho mais curto e entrei no salão. A mulher com o casaco não estava mais à vista. Quase mais nenhuma moça. Dois cabos reclamavam, só tinham mais meia hora e não chegara a vez deles. Nenhum sinal de Chantal. Nesse meio-tempo, eu estava certo de ter me enganado. Mesmo assim, perguntei para uma grega de quimono; ela não conhecia ninguém que se chamasse Chantal. Ela subiu a escada numa pressa inexplicável. Ao redor, soldados; de resto, o salão parecia estranhamente abandonado. Fui em direção à porta, lancei um olhar para a rua gelada. Indeciso, desanimado, voltei ao bar.

Três dos cinco músicos levantavam-se naquele momento e pegavam seus instrumentos. O maestro deu conta das teclas sozinho; Offenbach, uma marcha de ”A vida parisiense”. Só o baterista acompanhava o ritmo; o mecanismo dos pedais rangia. Vi os outros músicos desaparecerem numa saída lateral.

Os homens ao redor de Leibold ainda riam. Canos de botas esticados sob a mesa; os oficiais rindo espalhafatosamente, tentavam respirar. Suas insígnias pulavam para cima e para baixo. Um dos Leibstandarte continuou a incitá-los. - Um camarada esqueceu de presentear a mulher com flores no seu aniversário...!

Leibold notou-me no bar e convidou-me com uma expressão interrogativa para voltar. Fingi que pedira algo para beber. A música continuava, a marcha agora era repetida. O baterista lançava olhares impacientes ao pianista. Usando todos os seus dedos ao mesmo tempo, o homem grisalho queria substituir uma orquestra inteira. Atrás de mim, o argelino colocou dois copos na estante e lançou o pano de prato sobre os ombros. Pegou algumas garrafas vazias e deixou o balcão em direção ao salão.

Meus olhos cruzaram apressados o ambiente. Não havia mais empregados em lugar algum. A moça bonita com os cigarros, a velha romena que saía dos banheiros balançando a cabeça - não consegui ver nenhuma delas. Um pressentimento ruim atravessoume. Predominantemente, as mesas estavam cheias de gente das Forças Armadas. Os poucos franceses eram negociantes, contrabandistas, os outros parisienses. Uma observação veio-me à mente. O Standartenfúhrer não dissera que o Turachevsky fora recomendado? - A mulher em roupas de homem, a bolsa embaixo do braço.

O Offenbach terminou no meio do compasso. Vozes que há pouco gritavam com a música desapareceram no silêncio. Uma confusão rude de vozes masculinas. O baterista escapuliu agilmente pela saída do palco. O maestro juntou as partituras calmamente e empurrou o banquinho para trás.

Eu esgueirei-me entre a platéia.

- Posso falar-lhe um momento? - Minha mão sobre o ombro de Leibold. Ele olhou-me surpreso. Os outros gargalhavam, só o simpático Emil notou-me.

- Asseyez-vous - sorriu ele.

- Hauptsturmfúhrer, eu... - Um olhar para o piano. O homem grisalho apressava-se, sem olhar para trás. Não havia mais tempo. Eu puxei Leibold para cima. Desconfiança em seu olhar.

- Ué? - Ele me seguiu devagar.

Para chegar ao corredor central tive que pular por cima das pernas do Sta.ndartenfu.hrer. Ele se encolheu para o lado, não queria perder de vista sua plateia. - E quando ele apareceu com as flores, ela disse...

Nitidamente, notei a seta vermelha iluminada que apontava para os banheiros. Só alguns passos até lá. Ao mesmo tempo, o maestro desaparecia atrás da cortina de veludo. Do salão vinham conversas em tom alto. Alguém gritava: - E a música! - Ao meu lado o Haupsturmfúhrer espreitava. Ninguém estava no caminho.

Algo rompeu-se. Eu não ouvi o estouro. Uma dor nos ouvidos. Antes de cair no chão, vi a seta à minha frente estilhaçar-se como uma vela-estrela. Alguma coisa atingiu meu olho. Claridade. A luz vinha como uma nuvem; havia objetos dentro. Eu senti o silêncio, apesar de se tratar do contrário. Uma tampa de mesa redonda, estilhaços do lustre, suporte de ferro, pedaços de cadeiras. Tudo voava, o lugar estremeceu, de repente pareceu totalmente vazio; em seguida, um brilho insano.

Leibold foi jogado sobre mim, assombro em seu olhar. O corpo macio entregava-se perfeitamente, Leibold colocou-se sobre mim como um cobertor. As chamas surgiram; agora era possível entender o acontecido. Umidade nas têmporas. Eu tossia, volteime, peguei o Haupsturmfúhrer pelo braço e virei-o para o lado. De frente, parecia não ter se machucado. Quando o sentei no chão, senti seu uniforme rasgado atrás, sangue sobre suas costas. O rosto pálido, desacreditado.

Ergui-me cuidadosamente. Meu olho esquerdo estava encoberto, sangue na bochecha. Eu não tinha nenhum lenço, enxuguei com a manga. O silêncio imediato em seguida, só um pouco de fumaça. O chão do salão cedera no meio; a bomba deve ter sido escondida ali. Apesar da superfície escura dava para distinguir o preto dos uniformes, as braçadeiras vermelhas. Os ajudantes de Chartres foram estraçalhados; faltava metade da cabeça de um deles. Ernil estava deitado mais afastado, suas pernas estremeciam. Eu cambaleei até ele, estuque caiu do teto perto de mim. Ao redor, as chamas começavam a comer tudo. Curvei-me sobre Emil, sua boca aberta, não conseguia gritar. Sua barriga estava rasgada de cima a baixo. Lembrança longínqua dos tempos de quartel, a voz do nosso sargento: ”Primeiros socorros no caso de tiro no abdómen!” Empurrei as tripas de Emil de volta à cavidade abdominal, passei o cinto ao seu redor e apertei a fivela três furos a mais. Ele gemeu. Levantei-me, vi o cadáver do Standartenfúhrer ao lado. O homem forte estava deformado, os braços esticados sobre a cabeça, como se ele quisesse alcançar alguma coisa.

Sangue corria sobre meus olhos. Reconheci as mulheres cobertas por véus que, seminuas, saltavam do palco logo atrás do tenor, com dois baldes de água. Civis rastejavam no chão; uma moça de quimono cuidava de um homem envolvido por um terno queimado.

Leibold estava consciente, suas mãos moviam-se para trás. Vi que suas costas estavam totalmente queimadas, o tecido do uniforme fundido com a pele. Por enquanto, parecia que ele ainda não sentia quase nenhuma dor. Encostei-o na parede, de lado. Corri para o salão, onde a fuga geral se instalou. Soldados e garotos misturados, corriam como selvagens. Eu procurava Hirschbiegel à toa; a madame também não estava à vista.

— Onde fica o telefone? — gritei no tumulto. Ninguém parou. Mulheres corriam pelas escadas. Agarrei uma delas. — O telefone!

Ela apontou para a cortina. Afastando-a para o lado, encontrei um corredor que dava para o escritório. Abri a porta fina. O cofre estava aberto, papéis espalhados pelo chão; leques, penhoares de renda, um poodle de pelúcia esquecido. Senti o perfume da madame. Tirei o telefone do gancho.

Voltei para ficar com Leibold até a chegada do comando. Ele tentara levantar-se e poucos metros adiante desfalecera. O salão devastado estava às escuras, algumas chamas subiam pelo revestimento de madeira, o balcão ardia. Baldes haviam rolado para dentro da cratera da bomba. Não havia mais vestígios dos músicos nem das pessoas de trás do palco.

- Como assim... - soprou a voz do Hauptsturmfuhrer. Agachei-me a seu lado. - Por que tirou-me de lá? - Seus olhos estavam escuros, manchas de fuligem sobre o crânio.

O momento ficara ardendo em meus olhos: Chantal em roupas de homem. Compreendi tudo nesse segundo. Père Joffo e o esconderijo no porão, Chantal que se apresentava aqui como Atena, deusa da arte da guerra. Sua frase fez um novo sentido: ”Prometa que não vai mais voltar ao Turachevsky.” Eu entendia tudo, tão dolorosamente, que tive que virar as costas para Leibold.

- Por quê? - perguntava ele pela segunda vez. - Como você sabia? - Apesar de ele sentir fortes dores, não tirava os olhos de mim.

- Tive uma sensação estranha - menti.

Do lado de fora, portas eram arrombadas, ordens soavam do salão. Logo depois, uniformes, enfermeiros. Um médico do Estado-maior, grisalho, usando óculos antiquados, pulava por cima dos cadáveres, levantou um braço ou outro, virava rostos. Agachou-se ao lado de Emil, examinou-o e chamou a maca, surpreso. Leibold não podia ser deitado de costas; apoiado em dois enfermeiros, arrastou-se para fora. Segui o grupo. Virei-me mais uma vez no corredor. O piano estava aberto, a tampa fora arrancada. As cordas penduradas para fora tremiam por causa dos passos dos homens apressados em volta.

O médico disse que eu devia ter muita sorte. Se o estilhaço tivesse entrado mais um milímetro para a direita, não teria sido possível salvar o olho. Preparou um curativo; de agora em diante eu via o mundo achatado. Levaram-me para o hotel ao amanhecer.

Pouco depois das sete surgiram passos no corredor. Uma única batida, já estavam no quarto. Desta vez, homens em trajes civis, eu deveria vestir-me. Antes mesmo que eu estivesse totalmente consciente, eles já começaram a revistar meus pertences. Eu perguntei pelo motivo, protestei. Instruções, diziam, e eu deveria ficar calado. Enquanto eu entrava no uniforme, o medo veio à tona. Eu previra esse momento mais de cem vezes - desde o primeiro dia em que me transformei em monsieur Antoine.

Eles pegaram os livros franceses e fotografias privadas da estante, um diário, no qual eu fizera a última anotação há meses, graças a Deus. Quando tiraram o terno xadrez do armário, cerrei os dentes. Esse terno não provava nada, mas eu me sentia como se tivessem arrancado o meu disfarce. Um deles descobriu o lugar onde eu removera a etiqueta. Não me questionaram, apenas anotaram. Ordenaram que eu me apressasse. Com o curativo no olho, todo movimento era estranho. Enquanto eu pegava o que havia de mais importante, passou um desejo pela minha cabeça, que me surpreendeu: se eu já estivesse na linha de combate, teria me poupado do pior.

Passos sobre mim. Eles também estavam no quarto de Hirschbiegel. Culpei-me pela leviandade de tê-lo envolvido em minha vida dupla. De cima vinham protestos em dialeto da Bavária. Quando me tiraram do quarto, uma briga corporal iniciara-se no andar de cima. Vi Hirschbiegel na escadaria, não estava completamente vestido, invocara a proteção de seu superior. Dois homens em trajes civis prendiam suas mãos em suas costas. O tenente com corpo de barril era forte demais; livrou-se das garras dos homens. - Camarada! - gritou Hirschbiegel o mais alto que pôde. Como um boi, que reconhecia os matadores. Empurraram-me antes que eu pudesse responder.

Levaram-me para meu antigo local de trabalho num carro civil, na rue dês Saussaies. Não passei pela entrada que usava diariamente; pararam diante de um portão que mal se via da rua. Normalmente, os transportes que buscavam os infratores e os levavam aos interrogatórios ficavam aqui. Fui conduzido por corredores, dos quais eu sabia a existência, mas onde eu nunca pisara antes. Iluminação artificial e fraca nas soleiras, paredes caiadas de qualquer jeito ficavam para trás. Eu tentava achar placas com nomes nas portas das celas; não havia nenhuma. Apenas buracos escuros, atrás dos quais havia pessoas.

A porta da cela bateu atrás de mim; nenhuma palavra de esclarecimento. Eu fiquei encostado na parede. O mesmo sentimento de fracasso dos tempos da escola, quando estava perante uma tarefa que não conseguiria realizar. Sobre o catre, dois cobertores dobrados, o saco de palha parecia recém-enchido. A pia suja, a torneira funcionava. A cuba desinfetada. A janela começava na altura da cabeça. Eu tinha que me agarrar às grades e subir para poder ver a rua.

Tirei meu casaco, coloquei-o como travesseiro em cima do saco de palha. Senti frio. O aquecedor era um cano cheio de sulcos que vinha do teto e desaparecia no chão. Cobri-me. Quando eu fechava meu olho direito, via a lâmpada através do curativo como um sol se esfumando. Minha ferida ardia.

Três oficiais da SS estavam mortos, muitos feridos. Tinham que descobrir os autores do crime rapidamente; o caso chegaria até Berlim. Eu tentava ver minha situação sob o ponto de vista deles, que olhavam por aquele olho mágico, que me buscaram, que me interrogariam. O que eu tinha feito? Usado um terno xadrez. Ninguém entenderia meus motivos. A ideia de alta traição dominou a mente de todos e não se deixava dissipar.

Nunca mais volte ao Turachevsky. Enquanto eu tocava na minha ferida, deitado sobre o catre, quase chegava a ficar contente com a ideia de estar naquela situação por causa de Chantal. Eu a admirava. Atena despira-se na frente dos alemães odiados, para depois mandá-los pelos ares. Levantei-me. Eu não previra esse desfecho? Desde o momento em que eu pegara o terno xadrez no armário, já não era claro que tudo tinha que terminar aqui? Só havia uma saída - a linha de combate. Procedimento rápido, tanto aqui como lá.

Levantei-me, fiz algumas flexões para movimentar o sangue, comecei a andar. Seis passos e meio numa direção, seis passos e meio de volta. A armação de metal da cama ficava para trás; o balde, a pia. Já era dia, eles desligaram a iluminação do teto. Será que já me buscariam hoje? Eles precisavam de resultados.

Agarrei-me à grade da janela e puxei meu corpo para cima. O dia frio estava ficando mais claro. Trincheiras foram cavadas na neve. Na galeria em frente, um Sturmmann caminhava lentamente de um lado para o outro. Cuspia em longas curvas sobre a neve; curvava-se sobre a rampa para ver onde o cuspe tinha ido parar. Os muros que rodeavam o pátio pareciam muros de quartéis. As celas eram escuras demais, alguém da rua não poderia identificar se havia outra pessoa atrás das grades ou que eu estava olhando para baixo. Voltei a pisar no chão. Retomei minhas passadas.

Fazia dois anos que eu tinha chegado a Paris. Oito cansativas horas dentro de um caminhão do exército antes de chegar à cidade. Na última parada, meu major irradiava uma alegre impaciência. Batia com as luvas na costura da calça. - Cada palavra, Roth! - dizia ele. - Eu quero entender cada palavra. - Eu tivera esperanças de que ele me convidasse para seguir viagem no jipe. Mas o major só estava se esticando sobre o salto da bota, virou-se e embarcou novamente.

Logo depois, alcançamos o subúrbio. Trilhos de trem atingidos por bombas, modelos perfeitos de crateras; pioneiros estavam de pé fumando sobre os dormentes, um deles nos saudou com o cabo do cachimbo. Os que estavam na cabine do caminhão, gritavam o que viam para nós, que estávamos embaixo da lona. À minha frente estava um artilheiro da Francônia, o pescoço esticado no quadrado iluminado.

- Chega de casas! - gritou ele. - O que houve com as mulheres?

- Tudo vazio - respondeu o do mirante. - Só gente nossa.

O francônio bateu no teto.

- Droga de lona! No início da ocupação entraram sem.

Mais tarde uma longa curva, o caminhão desacelerou. Janelas elegantes, galhos cheios de flores. Tínhamos chegado ao Arco do Triunfo. O que eu de fato via poderia ser qualquer prédio, em qualquer cidade. Atrás do caminhão surgira ofegante o Quartiermeister.14

- Roth! - gritou ele com os olhos semicerrados. - O Obergefreiter Roth está aí dentro?

Empurrei o joelho do francônio para o lado, espremi-me entre os outros e pulei do caminhão em movimento. A luz clara ofuscoume, o Quartiermeister deu-me apoio para que eu não caísse. Seus óculos brilhavam.

- Vou levá-lo para P4, P6 e HJ7 - disse ele, folheando em suas listas. O vento soprou entre suas cópias de papel-carbono. - Você vai morar no hotel do major.

Eu estava em pé nos Champs-Élysées. Do meio da rua, as árvores estavam tão distantes que eu não conseguia distinguir se eram plátanos ou tílias. De fato, consegui ver muito poucos civis. O sol transformava a rua num calço iluminado. O Quartiermeister correu até o jipe e gritou sobre os ombros:

- Anda logo! - Eu colocara as mãos nas costas, levantara a cabeça e andara como um comandante militar. Apenas alguns metros. Atrás de mim o caminhão buzinou.

Cansaço nas pernas. Eu estava tonto. Encostei a testa na parede. Olhei para o sol que estava se pondo atrás do prédio. Eu devo ter andado ininterruptamente durante três horas dentro da cela.

Há meses, escutara às escondidas um detento falar sobre sonhos diurnos. O tempo parecia um horizonte inexpugnável, intoxicação por causa das paredes cobertas de cal. No segundo ano de sua solitária, ele chegara a sonhar até sete horas seguidas de olhos abertos e, nisso, andara vinte quilómetros dentro da cela. Seus pés ficaram cheios de bolhas sem que ele percebesse.

Perguntei-me como meu cérebro e meus nervos reagiriam ao que estava por vir. Nas centenas de pessoas que foram interrogadas na minha presença eu observara como elas mudavam com a proximidade da morte. Quando acabava a esperança e o corpo estava exposto à dor, algo inaudito apoderava-se de todos.

Não vieram naquela tarde, também não vieram na primeira noite. A procissão com a distribuição de comida passou duas vezes pela minha cela.

 

14 Quartiermeister: soldado encarregado de providenciar alojamento. (N. da T.)

 

Eu estava com fome, mas não me anunciei. Permaneci deitado sobre o catre e tentava não tomar conhecimento do cheiro de cebola e carne.

Na manhã seguinte eu não tinha recebido o desjejum, ouvi três batidas regulares. Levantei de sobressalto. Novamente, três batidas. Eu corria pela cela, tentava ouvir pelo ralo da pia, pelo cano do aquecedor. Vinha detrás do catre, deveria haver um decurso de um cano na parede. Procurei por um objeto; eu não tinha recebido nenhuma vasilha ou colher. Não consegui tirar as botas às pressas. Abri a camisa e tirei a identificação oficial. Devolvi as três batidas no mesmo intervalo.

A resposta veio imediatamente. Eu esperava que o outro usasse o alfabeto quadrado de batidas, eu não conhecia outro código. A parede tinha uma péssima ressonância; tive que encostar a cabeça nela para ouvir claramente. Ao mesmo tempo, não tirava os olhos do orifício na porta.

O outro tinha prática, batia sem pressa. Imaginei o quadrado, cinco linhas horizontais, cada uma com cinco letras. Ele bateu quatro vezes, quarta linha, P até T; depois cinco vezes - T. Pausa. Terceira linha, quinta letra - O. Segunda, quarta -1. Eu entendi: TOI? Os nomes aqui não tinham significado algum, mas eu sabia, pelo menos, que o outro detento era francês. Deixei a identificação cair. Eu ainda era membro das Forças Armadas alemãs; trocar mensagens por código com franceses não podia melhorar minha situação. Eu respirei: não havia uma situação. Muito em breve eu saberia de tudo.

Comecei. Uma batida, depois outra - A. Três, depois quatro - N. Enquanto eu me apresentava como monsieur Antoine, minha escrita tornava-se mais fluente.

O outro chamava HENRI e perguntava: DESDE ONTEM?

Eu confirmei. Ele perguntou o que tinha de novo em Paris. Eu hesitei. Ele podia ser tanto um político como um criminoso. Respondi com generalidades. Conversamos por cerca de meia hora. De repente as batidas pararam, no meio de uma frase. Depois veio um rápido AGORA.

Eu imaginava uma cela acima ou abaixo de mim sendo aberta e a forma como retiravam Henri de lá. Talvez o levassem para meu antigo departamento, onde estaria agora um outro tradutor. Os Rottenfúhrer e a tina estariam preparados.

Somente então, de uma hora para outra, comecei a passar mal. Eu senti ânsia de vómito, curvei-me sobre o balde. Não tinha comido nada, só vomitei uma gosma branca. Ajoelhei-me, ouvi minha respiração extenuada nas paredes de latão no balde.

Numa de nossas conversas na janela, Leibold explicara-me que qualquer dor física era suportável desde que se soubesse com antecedência o que aconteceria. Alguns, achava ele, comportavam-se como se estivessem sob uma intervenção cirúrgica. Aos gritos e ofegantes, esperavam aquele momento passar. Depois voltavam a ser os mesmos. Só eram alcançados resultados com o desconhecido, porque ele não oferecia parâmetros. O delinqüente não poderia deduzir qual seria a força necessária para resistir perante o desconhecido, não poderia prever como reagiria. Esse medo contaminava qualquer um, o pânico de dizer algo nesse estado, que mais tarde não poderia ser consertado.

Deitei-me sobre o saco de palha. Leibold soubera até então surpreender qualquer detento. Homens psicologicamente treinados, sujeitos com garras enormes e costas largas; nenhum deles tinha deixado a sala de interrogatórios sendo a mesma pessoa. Cada um deles tinha sido atingido em seu ponto especial. Às vezes, demorava dias, mas o Haupsturmfúhrer tinha paciência e achava o meio certo. O austríaco quieto de olhos tristes, que amava as montanhas e conhecia as plantas pelo seu nome em latim. Passou pela minha cabeça, que ainda demoraria muito até que suas queimaduras sarassem. Eles me levariam então até alguém que eu não teria condições de avaliar. Nada era previsível, só o resultado final.

Eu fiquei em pé e recomecei minha caminhada. A certeza do que era iminente deixava-me peculiarmente leve; a melancolia das últimas semanas desaparecera. Lavei o rosto, os braços e o peito com água fria, enxagüei a boca e enxuguei-me com a camisa. Enquanto eu prosseguia meu caminho, tentei me lembrar dos métodos, dos quais tornei-me testemunha. Eu tentava prever o que o corpo sentiria. Compreendi que imaginar a prática não bastava, ajoelheime, levantei o catre de ferro com o ombro e coloquei minha mão sob ele. Com a outra fui pressionando lentamente, até alcançar a força máxima. O metal embolotado enterrou-se nos ossos da mão, algo ameaçava quebrar; apertei com mais força e contei os segundos. Depois de dois minutos afrouxei. Registrei que depois da tortura meu coração batia mais acelerado do que durante o ato. Sobre a mão espalhou-se um hematoma; a marca do quadrado estava nítida. A dor se irradiava até o ombro. Eu estava satisfeito comigo. De repente, percebi um olho no orifício da porta atrás de mim. Levantei-me e, aparentemente, retomei indiferente minha caminhada.

Era o terceiro dia. A procissão com a distribuição de comida passou pela quinta vez; o cheiro era bom. Não fui até a vigia, sabia que não estavam me ignorando, era intencional. Não era um fumante inveterado, mas nesse momento gostaria de ter combatido a fome com tabaco. À tarde o desejo por um cigarro aumentou consideravelmente. Eu martelei contra a porta. Demorou quinze minutos até que um guarda abrisse a tampa.

- Sim?

- Eu quero comprar cigarros na cantina.

— Tem dinheiro?

— Meu dinheiro foi tomado de mim quando fui detido.

— Então tem que escrever uma petição, para que seu dinheiro seja convertido em cupons.

- Eu não tenho lápis.

— Pode comprar um lápis na cantina.

— Sem dinheiro?

Dominando minha raiva, afastei-me da porta. A tampa foi fechada. Bebi água com as mãos; o hematoma ficara preto.

Tive calafrios à noite. A ferida no olho começava a pulsar, temia que algo pudesse ter acontecido ao globo ocular. Passei a mão sobre o curativo, soltei-o na beirada, apalpei a região que estava queimando. Ainda não era hora de dormir, mas enrolei-me nos dois cobertores, permaneci deitado, tremendo por horas. Meu olho saudável examinava a parede da cela à minha frente. Qualquer acontecimento fora do comum chamava minha atenção, já tinha a planta do local na minha cabeça.

A luz foi apagada. Do lado de fora ecoavam os últimos passos, o carrinho com a comida não tinha parado novamente. Eu me levantei e comecei a andar no escuro. O quadrado claro da janela, seis passos e meio, a porta, seis passos e meio. Depois de algum tempo, tive a impressão de ouvir batidas, mas quando me joguei sobre o catre para prestar atenção, já tinham cessado. Eu tirei a identificação do pescoço e bati. Quatro, cinco, pausa. Um, um, pausa. Um, dois. Henri não respondia. Quando eu deitava, a pressão no olho ferido aumentava. Puxei o saco de palha para a parede e encostei-me nele, sentado. Eu sentia frio. Lembrei-me de um infrator mais velho, que desmaiara durante o procedimento. Acordaram-no com água fria. Quebraram-lhe os dentes, ele veio abaixo, mais uma vez jogaram água, pisaram sobre sua cabeça. Ele rastejava sobre os ladrilhos. Só mais tarde constataram que haviam danificado seus ouvidos; ele não podia mais entender as perguntas. Quando o levaram para fora, o chão estava inundado de água.

De repente eu não sabia mais no que estava pensando. Desejava ardentemente um cigarro. Não dormi até o nascer do sol. Minhas costas doíam de tanto que eu me encolhia ao sentar; o olho pulsava. Os calafrios tomavam-me em empuxos irregulares. Quando clareou, já não sabia de mais nada.

A sirene acordou-me minutos depois.

Durante a contagem matinal solicitei que fosse levado a um médico. Dois Sturmmánner vieram me buscar. Passamos por uma longa galeria. Ruídos das celas, falavam em francês. Atrás de uma porta, alguém cantava. Passamos por uma sala com três poltronas altas, máquinas com cabos compridos pendiam da parede: aqui tosqueavam as cabeças. A porta no fim do corredor tinha uma cruz vermelha. Um Sturmmann levou-me para dentro, o outro esperou do lado de fora.

O médico usava o jaleco branco sobre o uniforme. Era o mesmo homem atarracado que cuidava das vítimas dos interrogatórios. Ele fumava. Deu uma tragada voraz. Havia várias bacias de metal cheias de chumaços de algodão ensangüentados e curativos. Um jornal francês estava sobre alguns instrumentos; pinças e seringas, um estetoscópio antigo.

- Ele está com dores no olho - disse o Sturmmann para o médico.

- Deixe-me ver. - O médico colocou o cigarro na borda da mesa e retirou o curativo. Retirou o último esparadrapo num puxão só. Curvei-me de dor; ele arrancara a crosta de sangue.

- Eu sou prisioneiro sob investigação e tenho direito a um tratamento de acordo com o regulamento - eu ofegava.

Sem se mostrar impressionado, o médico pegou o cigarro e tragou; com outra mão examinou a ferida.

- Não é nada.

Tentei ficar parado.

- O globo ocular foi atingido?

— Só posso dizer isso depois que o hematoma desinchar. — Ele se espreguiçou e olhou-me mais de perto. Ele tinha um sinal na pele em forma de lágrima entre as sobrancelhas. Eu fechei o olho sadio. Um véu claro, o rosto do outro não era mais do que uma sombra. Senti seu cheiro de nicotina.

- Dentro de alguns dias darei mais uma olhada. - Ele mergulhou um chumaço de algodão numa solução marrom e passou sobre a ferida. Puxei o ar entre os dentes, quase desmaiei. Ouvi a voz do médico de longe.

- Não exagera. Até parece que estou amputando sua perna. Todos os meus propósitos de estar preparado para enfrentar a dor, desmoronaram. Meu desamparo assustava-me.

- O senhor teria um cigarro para mim? - perguntei, enquanto o doutor colocava um novo curativo. Um breve olhar entre ele e o Sturmmann.

- Pegue. O maço está quase vazio.

A claridade perante o olho desapareceu de novo.

Mal podia esperar para voltar à minha cela. Na porta, pedi fogo ao Sturmmann. Segundos depois, eu estava sentado sobre o catre e fumava um cigarro com a cabeça jogada para trás. Apreciei a queima suave do tabaco, segurei a fumaça por longo tempo nos pulmões. A leve sensação de tontura durou até o meio-dia. Desta vez, o carrinho com a comida parou; sopa de trigo-mouro e um pedaço grande de pão. Tomei a sopa, ávido. Retomei minha caminhada depois da refeição. A dor esmorecera.

Já estava escurecendo quando vieram me buscar. Adivinhei para onde íamos pela face solenemente carrancuda dos Sturmmánner. As portas pesadas abriram-se; passamos pelo barbeiro e pela sala do médico, descemos longas escadas. O mármore aqui não era tão abundante como na recepção. Pela primeira vez pisei no pátio que antigamente observava pela janela. Pisávamos sobre pedras cobertas de gelo, por força do hábito andávamos em passos iguais. Descobri a casa de ferramentas do jardim. O maneta guardava suas ferramentas para ceifar ali? Voltamos ao prédio por uma porta de ferro.

A escadaria estreita não tinha janelas e terminava num quarto bem iluminado. Solicitaram que eu esperasse. Os Sturmmánner deixaram a sala pelo mesmo lugar por onde haviam entrado. Do outro lado havia uma segunda porta. É isso, pensei. Quem passa por aqui, chega ao coração da rue dês Saussaies.

Deve ter passado ao menos uma hora, até que eles viessem. Dois Rottenfuhrer, eu conhecia ambos. Posicionaram-se à esquerda e à direita. Levantei-me e passei decidido entre eles, em direção à sala ao lado. Nunca pisara no meu local de trabalho por aquela porta. As mesas estavam posicionadas como se o interrogado estivesse preso por um gancho. Ao fundo, a porta intermediária estreita, pela qual eu entrava diariamente com Leibold. Um secretário uniformizado estava sentado no lugar que até pouco tempo pertencia a mim. Ele tinha a pele lisa, não era jovem. Mantinha o olhar fixo no papel.

O Untersturmfúhrer levantou o olhar do processo. Eu o reconheci; era aquele que barregava quando ria. Tínhamos bebido aguardente juntos no Turachevsky.

- Alguém está cuidando da sua ferida? - ele perguntou. Nada em seu comportamento revelava se ele se lembrava de mim.

Eu acenei e sentei-me sobre a única cadeira vaga. Um olhar severo de sua parte fez com que eu levantasse de novo.

- Então você está na condição de me responder algumas perguntas. -Agora apontava-me o lugar, sentamo-nos ao mesmo tempo. O secretário pegou o lápis.

- Como está o Haupsturmfúhrer Leibold? - perguntei e soube no mesmo momento que cometera um erro. Eu estava sob suspeita de alta traição, à minha frente um oficial superior. Minha tentativa de agir como membro da família causou o efeito oposto.

- Desde quando passava informações ao inimigo? - perguntou o Untersturmfúhrer com voz inalterada. Abriu o processo. - Mencione os seus contatos e suas ações planejadas.

Quem respondia prontamente e sem reservas as três perguntas padrão era poupado do pior. Na noite passada, uma frase passou pela minha cabeça: não se pode confessar uma mentira. Eu não sabia onde lera isso. Debaixo da lâmpada clara, face a face com os Rottenfúhrer e o Untersturmfúhrer que aguardava, eu respondi:

- Eu jamais retransmiti informações internas. Não há contatos, por isso também não conheço as ações deles.

O Untersturmfúhrer acenou, como se esperasse exatamente essa resposta.

- Nós temos testemunhas que o viram em trajes civis. Por que se passava por francês?

Somente Rieleck-Sostmann poderia ter me denunciado. Estaria ela nesse momento na sala ao lado, esperando ouvir o meu primeiro grito? Será que ela usava o conjunto cinza que cobria seus joelhos recatadamente? Será que ela tinha escolhido um outro penteado?

- Quem disse isso? - perguntei.

- Trajava roupas civis em público ou não? - repetiu ele. Calei-me.

Ele se levantou. - Insubordinação e relacionamento amistoso com o inimigo! - Ergueu o punho, era um gesto bem ensaiado. Logo bateria com força na mesa. Tomei conhecimento de um pequeno movimento do Rottenfúhrer. O sujeito - seu nome era Franz - estava ficando impaciente. Raramente tinham um prelúdio tão longo com os franceses.

- Com quem manteve contato? - O punho do Untersturmfúhrer bateu no tampo da mesa com tudo.

- Com ninguém. Eu sou Obergefreiter das Forças Armadas e... Notei o aceno do Untersturmfúhrer. Quase ao mesmo tempo, o primeiro golpe me alcançou. Como se um rasgo separasse as têmporas. Voei da cadeira, tudo ficou branco por um momento. Não bateram pela segunda vez. Levantei os olhos devagar, o Untersturmfúhrer estava com um papel na mão.

- Sabemos quem são os autores do atentado - disse ele. Gérard Joffo, Chantaljoffo, Théodore Benoit, Gustave Thiérisson. O senhor teve contato com esses criminosos?

- Eu... Conheço dois deles - respondi, fazendo um grande esforço.

- Teve contato com eles! - gritou o Untersturmfúhrer.

- Gustave Thiérisson é barbeiro. Ele cortou meu cabelo.

O Untersturmfúhrer chegou mais perto, suas botas cresciam ao meu lado.

- O senhor quer que acreditemos que pôs o uniforme do Reich de lado, vestiu-se como francês, encontrou o chefe de uma organização criminosa, sem revelar informações secretas a que o senhor teve acesso devido à sua posição privilegiada?

- Sim, é isso que eu quero dizer.

Eu tinha certeza de que os Rottenfukrer me atacariam a qualquer momento.

- Onde estão essas pessoas agora? — perguntou ele, em vez disso, e voltou para a escrivaninha.

Com um vestígio de esperança, entendi que eles não tinham pego Chantal e seu pai. Enquanto eles pudessem admitir que eu sabia o paradeiro deles, seria poupado.

— Eu não sei ao certo. - disse eu com cuidado.

- O que isso quer dizer?

- Eu acho que eles não estão mais em Paris.

- Então onde?

- Não conheço o lugar exato.

O Untersturmfúhrer esperou que o secretário terminasse de anotar.

- Desde quando o senhor sabia que haveria um atentado no clube noturno Turachevsky? - Ele pronunciou o nome com tanta dificuldade, que nem parecia que conhecia o bordel.

Refleti sobre isso. Se Rieleck-Sostmann contou-lhes sobre minha vida dupla, eles deviam acreditar que eu tinha algo a ver com a bomba. Uma história grotesca: um soldado alemão caiu nos encantos de uma linda combatente da Resistência e deixou-se induzir a pôr a faca no pescoço de sua própria gente. Os fatos eram mais prosaicos. Eu sabia que Chantal fazia parte da Resistência. Eu deveria tê-la denunciado. Em vez disso, alertei sua gente contra a força-tarefa. De acordo com a lei da ocupação, eu era culpado.

- Acha que eu teria ido ao Turachevsky se soubesse do atentado? - respondi. - Além disso, também fui atingido na detonação.

O rosto do Untersturmfúhrer petrificou-se.

- Três oficiais de altos cargos da SS e sete civis foram mortos. Dois oficiais estão no hospital militar com mutilações correndo risco de vida! Obergefreiter Roth escapa com um arranhão no olho! Ninguém tem tanta sorte! - Ele curvou-se sobre a mesa. - O senhor sabia! O senhor planejou e trabalhou na execução! Confesse!

Os Rottenfúhrer aproximaram-se.

- Eu avisei ao Hauptsturmfúhrer Leibold a tempo para que ele...

Acabei dizendo o que não devia. Como poderia avisar Leibold de uma coisa que, pretensamente, eu não sabia? Eu senti que os homens atrás de mim entrariam em ação a qualquer instante. Ao mesmo tempo, entendi que eu não podia dizer nada ao Untersturmfúhrer, por mais boa vontade que tivesse! Eu não conhecia o paradeiro de Chantal, nem de seu grupo. Misteriosamente ficou claro para mim que não havia nada que evitasse o que estava por vir. As imagens dos procedimentos invadiram-me. Os mergulhos na tina, nos quais muitos literalmente se afogavam, os membros quebrados. A proibição de dormir, pela qual mesmo os homens fortes e emocionalmente equilibrados, acabavam balbuciando, tornando-se eles mesmos carcaças sujas. Homens que entregavam tudo ao serem forçados a um crepúsculo sem fim, para finalmente poderem dormir.

O medo me deixava desesperançoso e morto. Enquanto me agarravam e me puxavam para cima, tentava dominar o enjoo. Eu senti ânsias, vomitei na barriga de um dos Rottenfúhrer; ele praguejou. Ao mesmo tempo atingiram-me os primeiros golpes.

Na conjuntura em que acordei não podia sentir nada além de medo de receber novos golpes. Conversa fiada que os torturados acostumavam-se a métodos repetitivos; a dor não é algo que se domina. Cada movimento sobre o catre causava tormento, que até então era inimaginável para mim. Eu tentava evitar até o menor dos movimentos, mas ficar deitado, quieto, era igualmente doloroso. Identifiquei as partes de onde vinham as pulsações, apalpei inchaços disformes. Quase não dava para achar meu nariz, o olho ferido inchou até fechar. Quando tentava abrir a boca, sentia agulhadas; o maxilar devia estar quebrado. Eu vira delinqüentes que foram carregados da sala de interrogatórios nesse estado; a parte inferior de seus rostos estranhamente pendurada para o lado, maxilar e lábios não lhes obedeciam mais. Eu tentava imaginar meu rosto e caí num sono febril.

Acordei por causa de novas dores; o doutor estava na cela. Eu não podia ver o que ele fazia. Ele alinhava meus ossos e fazia curativos. Eu gritava; mas não era minha voz. Ele murmurava algo sobre agüentar firme, terminou seu trabalho e deixou o local. Mais tarde, muito mais tarde, haviam colocado um mingau e água ao lado do catre, eu bebi. Caía tudo pelo canto da boca, pingava no chão. Não toquei no mingau. Com medo, prestava atenção em cada passo que se aproximava, relaxava quando passavam pela minha porta. Entre as fases sem consciência, eu ouvia batidas ao longe. Henri queria falar comigo? Eu não tinha forças para responder, não conseguia me concentrar para entender o alfabeto.

Por dois dias, talvez mais, deixaram-me em paz. Apesar de nunca tocar no mingau, não sentia fome. Numa noite vomitei a água. Eu esperava pelas batidas de Henri. Empurrei minha jaqueta para baixo do ombro para que minha cabeça encostasse na parede. Eu fiquei à espreita por muitas horas, afundado em pensamentos e imagens.

Minha mãe severa veio até mim, ela parecia mais velha do que na realidade. Meu irmão contava que fizeram ele estudar medicina às pressas; precisavam de médicos com urgência. Trazia consigo os professores que tínhamos em comum, todos usavam barbas. Um deles exibia a fivela dourada com a qual foi condecorado por Sua Majestade.

- Meu pai tem um fraco pelo imperador - dizia Chantal.

Ela estava sentada em cima do balde, no canto, e usava o vestido que eu mais gostava. A estampa vermelha cobria suas pernas nuas até o joelho. Ela esticou o tecido entre as coxas. Como seu corpinho era estreito. O vestido não tinha um decote profundo, mas estava apertado sobre os seios.

- Qual imperador? - Eu tentava erguer-me.

- Napoleão. - Com dois passos largos ela estava ao lado do catre e sentou-se no buraco ao lado dos meus joelhos. — Papai não é monarquista. Ele apenas tem predileção por cerimoniais. - Ela se encostou no meu quadril e apoiou o cotovelo em mim. - Antes da guerra ele era contra tudo que significasse subversão. Amaldiçoava a frente popular e dizia que suas ideias lançariam a França na ruína.

- Com cuidado, pus minha mão na coxa de Chantal. - Naquela época eu ainda usava cabelo curto - ela sorria. - Muitas vezes à noite, papai e Bertrand sentavam-se juntos no depósito da livraria.

- O de cabelo branco com o jornal?

Ela acenou. - Gustave e eu ficávamos do lado de fora e líamos. Às vezes meu pai saía, aparentemente para verificar se não estávamos aprontando alguma com os livros. Na verdade, ele buscava mais uma garrafa de vinho tinto. Bertrand era um líder popular fervoroso. Ele tinha na cavidade debaixo da pia da barbearia um revólver de baixo calibre e uma carabina escondidos. No dia em que tivermos que tomar as ruas, eu não me atrasarei, ele dizia a papai.

Meus dedos sentiram o calor que emanava de Chantal, os movimentos imperceptíveis que suas coxas faziam ao falar. Eu gostava de colocar as mãos entre suas pernas.

- Papai dizia: ”as pessoas que estão protestando em frente à Bastilha, deveriam aproveitar o domingo para passear com suas famílias”. - Ela ria ao se lembrar disso. - Uma vez ouvi uma briga entre Bertrand e meu pai. Papai ficou tão bravo que, em sua fantasia, sentou-se no alto de um depósito de metralhadoras e prendeu os chefes da Revolução. Ele os desmascarou, revelando que eram estrangeiros e judeus. Profundamente ofendido por ser posto no mesmo saco que os judeus, Bertrand deixou a nossa loja.

Uma batida. Pausa, agora três. Duas batidas, três vezes. Pausa. Enquanto eu ainda pensava sobre as letras C e H, Chantal levantara-se. Henri continuou. Eu tinha perdido o início. Ouvi um L, talvez P, continuou sem nexo. Como eu não respondia, esperava que ele começasse de novo. Chantal desaparecera no canto entre a janela e o cano do aquecedor. Com muito esforço consegui me virar para o lado, tirei a identificação e tentei bater a palavra DEVAGAR. Eu usava as cifras corretas? Henri agora batia muito apressado, parecia ser importante. Por mais que me esforçasse e prensasse a orelha contra a parede, eu não o entendia. Desisti, relaxei, as batidas esmoreceram. Eu adormecia, eu acordava. O canto da janela estava numa escuridão completa.

Na manhã seguinte a porta da cela foi aberta de modo diferente do normal. Não era o passo arrastado do guarda, que colocava mingau e água ao lado do catre. No corredor ouvi o ruído de solas batendo umas nas outras. O silêncio de homens em posição de sentido.

Hauptsturmfúhrer Leibold entrou na cela, estreito como uma deformação no espelho. Segundos se passaram, até que eu entendi que ele não estava diante de mim em sonho. Apesar de estar com curativo nas costas, ele usava o uniforme preto. O casaco ele pousara sobre os ombros; o quepe escondia o ferimento na cabeça. Nos segundos em que o examinei, ocorreu uma transformação na concepção que tinha sobre ele. Leibold é aquele que trará a salvação, pensei. Só Leibold poderá me ajudar. Ele veio para resolver meu destino.

A porta atrás dele foi trancada. Lá estava ele com os lábios pressionados.

- O senhor poderia ter se protegido - disse ele baixo.

Deu um passo na minha direção, sua expressão ficou triste. Tomei consciência do meu aspecto. O homem jovem, com o qual Leibold gostava tanto de ficar na janela - seus próprios homens estraçalharam-me o rosto. Eu queria dizer algo, estertorei apenas.

- Por que ficou? - Ele curvou-se sobre mim. - Poderia estar longe dali, bem antes de a bomba explodir.

-Eu... não... sabia-murmurei e olhei para ele, não estava certo se ele compreendera.

- Um segundo antes e você também seria estraçalhado. - Ele balançava a cabeça pensativo. - Lá em cima todos acreditam que o senhor é um traidor. Sabia disso?

Meu aceno causava dor.

- Não sou traidor - aleguei. Nova dor no nariz cheio de crostas, algo úmido sobre minha bochecha.

- Eu não entendo por que o senhor insiste - dizia ele. -Conhece o procedimento.

Eu engoli e calei-me.

- Não vai adiantar nada. Diga o que precisamos saber. Depois disso ficará melhor. Dou-lhe minha palavra. - Nunca vira seus olhos tão calorosos como dessa vez.

- Vão me executar de qualquer maneira - sussurrei.

- Sim — sorriu ele. - Nós vamos executar o senhor. Mas isso é rápido.

— Por que não me enviou para a linha de combate?

- Ninguém determina o próprio destino - como que sem querer, Leibold pôs a mão nas costas onde estavam as ataduras. - Aqui você é mais importante. Nós precisamos saber onde estão a mulher e o pai dela — disse ele, cansado.

- Quando vão me executar? - eu tremia apoiado no cotovelo

- Quando você menos esperar. - Ele olhou-me triste - Não se alegre tão cedo. - Ele foi até a porta e bateu. -A propósito, hoje é Natal - disse ele. - Noite entre camaradas. É uma pena que o senhor não faça parte do grupo.

O Sturmmann bateu continência quando Leibold passou por ele. O ruído oco da porta. Eu tentava imaginar como eles festejavam o Natal do lado de fora.

No dia seguinte levaram-me ao médico. Ele me examinou, repugnância em seu olhar ao ver o queixo quebrado. Minha mandí-bula foi aberta com violência, ele montou um pedaço de arame na parte quebrada. O homem velho manuseava minha boca com a impassibilidade de um mecânico. Só seu cavanhaque subia e descia. Os Sturmmànner seguravam-me. Eu me perguntava se Leibold promovera a operação. Ele era um homem com senso de proporção; talvez tivesse se incomodado com a deformação do meu rosto. Depois, o médico contou dez comprimidos numa latinha. - Para as dores - resmungou ele, como se não fosse compreensível por que eu deveria ser poupado da dor.

Quando levantei da maca, minhas pernas cederam. Os Sturmmànner carregaram-me para fora. Eu fui levado mais duas portas adiante até o barbeiro. O francês executava seu trabalho com mais mau humor que o médico. Sua barba impressionante crescia do queixo, passava pelo pescoço, e lá embaixo ia ao encontro dos pêlos do peito. Sentaram-me na cadeira sem o menor cuidado; o homem pegou a máquina monstruosa; o cabo passava por mim, para cima e para baixo. O motor trabalhava ruidoso e, aos solavancos, o barbudo começou pela têmpora e foi passando para a parte de cima. As pequenas feridas no crânio que começavam a sarar foram abertas novamente. O francês simplesmente passava a lâmina por cima. Eu me encolhi e virei-me.

- Esse gosta de fazer show - disse o Sturmmann para seu colega.

A direita e à esquerda caíam tufos de cabelo ao chão. Não havia espelho. Curioso e amedrontado ao mesmo tempo, eu queria ter visto a extensão da devastação. Diante de mim estava pendurado um único galho de pinheiro com alguns enfeites de Natal. Quando o grosso do serviço já estava feito, o Sturmmann soltou-me para fumar um cigarro no corredor. O barbeiro colocou uma lâmina mais fina e começou a dar o acabamento no pescoço e na nuca. Para isso, puxou minha gola para o lado. Ao mesmo tempo, senti como seus dedos empurraram um objeto que estalava para dentro da minha camisa. Escorregou para baixo e ficou preso entre as omoplatas. De um segundo para o outro, a dor foi esquecida; minha atenção voltou-se para a coisa nas minhas costas. Como o barbeiro estava em pé atrás de mim, não pude ver seu rosto; também não tentei me virar. Pouco depois, ele terminou seu trabalho e limpou as lâminas da máquina enquanto eu era conduzido para fora. Nosso olhar não se encontrou nem uma única vez.

De volta à cela, esperei por dez minutos. Depois abri o casaco e a camisa, tateei as costas, o objeto caiu no chão. Era um pedaço de papel enrolado bem apertado. Com dedos ágeis, desdobrei-o. Somente três linhas.

”Nós sabemos onde você está.

Responda ao Henri.

Ele pode fazer algo por você.”

A assinatura consistia de duas letras. C.J.

Joguei-me no catre. O bilhete estava no meu colo, eu lia e relia as palavras. Depois de minutos de surpresa, ergui o olhar para cada canto da janela, onde Chantal desaparecera pela última vez. Eu não duvidei nem por um momento que as iniciais C. J. fossem de Chantal Joffo.

Nesse instante, o muro de um estado vegetativo de mau humor, que eu colocara em torno de mim há dias, desmoronou. Eu estava sentado sobre o saco de palha e chorei. O arame no meu maxilar doía; abri a boca, chorando.

Mesmo que eu mal pudesse esperar para entrar em contato com Henri, deixei que se passassem horas. Eu pensava em perguntas para mais tarde, formulava da forma mais precisa possível. Finalmente, arrumei meu posto de comunicação sobre o catre. Como eu não tinha nem lápis nem papel, puxei um prego enferrujado da parede, para riscar algo no muro em caso de necessidade. Experimentei o salto da bota como instrumento para bater. Peguei a caneca e a vasilha de metal, isso também não me satisfazia. Por último, escolhi a identificação oficial, ela era pequena e angulosa.

Comecei. Dois, três. Um, cinco. Três, quatro. Primeiro só conseguia avançar devagar. Aos poucos, foi melhorando. As letras se tornavam códigos por si só; eu não contava mais, escrevia palavras inteiras sem interrupção.

Tudo continuava quieto. Talvez Henri não estivesse na cela; alguns detentos trabalhavam na cantina e na limpeza. Possivelmente, ele estava dormindo. Pela primeira vez eu tentava imaginar como ele era. Pequeno e musculoso, com calças chulas e uma camisa que antes da detenção fora branca. Na minha visão interna ele usava uma boina e fumava a erva preta francesa. Eu sorri; apenas imaginara um francês de um livro de contos.

Enquanto isso, eu continuava a bater. Tentei por toda a tarde, levantava de tempos em tempos, olhava pelo buraco na porta. Henri não respondia. A mensagem de Chantal chegara tarde demais? Será que ele havia sido transferido ou executado? Desisti pouco antes da distribuição da comida. Pendurei a identificação no pescoço e deitei-me sobre o catre. Eu planejei continuar à noite, mesmo que fosse mais perigoso, pois as batidas seriam ouvidas com mais facilidade nos silenciosos blocos de celas. De resto, a aproximação do carrinho era a distração mais importante do dia. Quando ele parou diante da minha cela, peguei a vasilha cheia, sem lançar um único olhar sobre ela. Comi sentado, senti o calor na região do estômago; meus pensamentos estavam em outro lugar. Não era absurdo esperar pela ajuda de um detento? Assim que Leibold tivesse certeza, que eu não sabia o paradeiro de Chantal, eu deveria contar com uma execução a qualquer momento. E mesmo assim, tudo o que acontecia parecia fazer sentido para mim. Eu me enrolei em milhares de especulações e desejos! Quase que sonhando, eu imaginava uma salvação da rue dês Saussaies em meio a uma grande aventura. O combatente da Resistência francesa que libertava um soldado alemão! O prédio velho deveria ter corredores e porões secretos, que a SS desconhecia. Rotas de fuga em passagens subterrâneas, fuga durante a noite sob neblina, para fora de Paris, reencontro com Chantal. Nós nos reencontraríamos no campo, árvores a florir ao nosso redor, da casa subia uma fumaça branca, cavalos pastavam no cercado.

Coloquei a vasilha vazia de lado, apoiei-me na parede e sorria. A dor no maxilar lembrava-me que o arame não fora feito para sorrisos.

Acordaram-me com sacudidas impetuosas; devia estar no meio da noite. Não havia luz na cela, só o raio de uma lanterna no meu rosto. Mãos puxavam-me para cima. Não tive a oportunidade de calçar as botas. Fui arrancado, pisava de meias nos corredores, escada abaixo, para o pátio gelado. Pedras machucavam as solas dos pés, eu continuava sendo empurrado. Um breve olhar para a janela, na qual muitas vezes parara com Leibold para fumar. Ele vai ajudar, pensei eu, Leibold é o único que pode me ajudar.

Os Rottenfúhrer, o secretário, tudo estava como de costume. Eu estava meio inconsciente, dormira tão profundamente como há muito tempo não fazia. Eu cambaleei até a cadeira. Um golpe no peito deixou claro que eu não tinha sido autorizado a sentar. Leibold entrou na sala de interrogatórios pela porta intermediária. Eu respirei aliviado. Ele usava o casaco do uniforme sobre os curativos, tinha uma exaltação incomum, sentou-se aprumado.

- Chantal Joffo encontra-se nas proximidades de Metz, não é mesmo? - Leibold falava calmamente, a voz soou ausente.

- Metz? - Chantal nunca mencionara Metz em minha presença.

- Chantal Joffo encontra-se nas proximidades de Metz? - repetiu ele.

Teriam dado um fim a Henri?

- Eu não sei - respondi atordoado.

Leibold repetiu a pergunta várias vezes. Eu refletia, considerando a possibilidade de ele estar querendo me comunicar algo. Seus olhos não revelavam nada.

- Não sei nada sobre Metz - afirmei.

Ele acenou, como se contasse com isso. Os Rottenfúhrer não entraram em ação. Finalmente, Leibold pegou o telefone do gancho e iniciou uma conversa. Ao mesmo tempo ele acenou com a mão para que eu fosse levado. No recinto vazio, antes da sala de interrogatórios, não consegui mais prosseguir. Eu queria me sentar, ordenaram que eu ficasse em posição de sentido, rosto virado para a parede. Os dois permaneceram no recinto. Sentaram-se à minha direita e à minha esquerda e fumavam. Eu estava em pé, as mãos na costura da calça. Passaram-se minutos, eu esperava. Deve ter passado uma hora, quando finalmente compreendi. Não continuariam com o interrogatório. A situação era ficar em pé, ali. Até os próximos acontecimentos.

De uma conversa com Leibold eu sabia que chegaram a esse método por acaso. Um Untersturmfúhrer solicitara um infrator para interrogatório, mas logo em seguida esqueceu-se disso. Já que as patentes inferiores não receberam outra ordem, deixaram o homem em pé perante o escritório do Untersturmfúhrer, que nesse ínterim fora para casa. O detento ficou ali por uma tarde inteira e a noite; no dia seguinte, de manhã, foi abaixo, desmaiado. Não tinha sido nada além de descuido, mas levou-os a uma ideia eficaz. Depois de dias sem dormir, os interrogados confundiam-se no interrogatório, entregavam informações, que golpes não teriam arrancado. Na luz forte da sala de interrogatórios, a cabeça curvava-se sobre o peito, acordavam-nos com golpes e jatos de água. Eles tinham um colapso e, finalmente, confessavam - para poder dormir.

Eu estava em pé na sala iluminada. Os Rottenfúhrer se revezavam em intervalos irregulares. Não passava um minuto em que eu não fosse observado. Mais cedo do que o suposto, a condição se transformou em algo torturante. Estava acostumado a passar horas em pé sem me mexer no campo de treinamento, mas lá a duração era sabida. A infinitude tornava o procedimento tão pérfido. Eu pensava em deixar-me cair e simular um desmaio. O medo dos golpes para me devolver a consciência era maior. Tentei diversas táticas para pregar uma peça no tempo. Contei de um a cem e transferi o peso do corpo para a perna direita. Depois da primeira centena, passei para o lado esquerdo. Quando repeti o procedimento pela décima vez percebi que a circulação das pernas diminuía e que era melhor distribuir o peso para ambas as pernas.

Eu continuava a contar, sem um motivo especial. Minha coluna, os ombros começaram a doer. Eu quis apoiar as mãos na cintura. Um grito do Rottenfúhrer, caíram novamente para a costura da calça. Na minha cabeça ficou claro, depois cada vez mais escuro. Mais tarde acreditava ter visto algo vermelho. A parede na minha frente ficou borrada, de repente ela ficou totalmente irreal. Eu comecei a desenhar um mapa sobre o reboco descascado. Inventei países e estreitos, montanhas que eu provia de cores. Não pude manter a concentração mais do que alguns minutos. O corpo não acompanhava mais, manifestava-se com violência. Eu adormeci, puxei a cabeça para cima, caiu de novo com tudo. Um grito. Eu continuava em pé de olhos esbugalhados, sentia como meu queixo tremia. O arame em meu maxilar. A parede borrada, eu achava que ainda olhava para ela, mas eu já estava sonhando. Minhas pálpebras caíram, eu tombei para a frente.

Dois braços puxaram-me para cima, punhos tratavam de meus rins, as costelas. Eu ofegava, soltaram-me. Levantei sozinho. Achava que os golpes tivessem me acordado. Mas a situação não se manteve por muito tempo. Eu cambaleava, me esforçava para ficar em posição de sentido.

O procedimento se repetiu várias vezes, acompanhava-me cada vez mais a fundo no meu desespero que quase não me era mais consciente. Os olhos se fechavam instintivamente, mas o resto da minha vontade obrigava-me a ficar acordado. Eu tremia, suava. Parecia que as roupas tinham ficado muito apertadas e que estourariam no corpo. Eu tinha a impressão de que meus pés inchavam, sim, todo o peso do meu corpo desembocava nos pés, que não queriam me carregar mais. A luz sobre mim começou a girar. A sala se alargava, encolhia, até que senti uma pressão sobre meus ombros. Golpes mostraram-me que eu adormecera de novo. Quando levantei a cabeça outra vez, Chantal estava ao meu lado.

- Gustave foi um dos primeiros a serem enviados para a linha de Maginot - dizia ela.

- Chantal - sussurrei.

- Cala a boca - interrompeu o Rottenfúhrer aos gritos.

Com o olhar, indiquei a ele que eu não tinha permissão para falar.

- Gustave escreveu-me contando que os soldados mais velhos imaginavam que a guerra fosse pior do que a anterior... E agora viam-se imersos numa monotonia desgastante. Os alemães não atacaram por meses.

Chantal levantou a perna e apoiou o salto contra a parede. A saia escorregou sobre o joelho. Eu a invejava por ela poder encostar-se.

- Para espantar a monotonia, dançarinas apresentaram-se perante as tropas, atores também. Uma vez veio até Maurice Chevalier.

Algo percorreu-me. Eu levantei a cabeça com tanto cuidado que os Rottenfúhrer não perceberam. -Chevalier? - Eu apenas movimentei os lábios.

Chantal acenou. - Ele cantou para eles. Sabe por quanto tempo os alemães esperaram para atacar?

- Até abril - sussurrei. - A ofensiva foi ordenada em abril. O arame me causava dores quando eu ria.

- O sujeito ainda acha a situação engraçada! - gritou um dos Rottenfúhrer.

Ouvi quando eles se levantaram. Estiquei os ombros.

- Maurice Chevalier - ria eu, furtivamente.

A porta se abriu, os substitutos entraram. Nos segundos da transferência, virei-me para Chantal.

- Você conhece a música, aquela da moça de abril? - perguntei. Um chute contra meus jarretes. Desmaiei sob seus golpes.

Quando levantei a cabeça a janela atrás dos homens estava iluminada. Eu movimentei a língua dentro da boca, estertorei. A mim parecia que eu dizia algo. Carregaram-me para o outro lado. Leibold estava sentado atrás da escrivaninha e mexia a colher numa xícara de café.

-Estava acordado. Eu tinha dormido? Como depois de uma bebedeira, estava deitado sobre o catre, minha cabeça um inseto lúgubre. Há quanto tempo? Era o mesmo dia ou o seguinte? Por que me deixaram dormir? Eu devo ter confessado algo. Era torturado pela dúvida se eu soubera de algo que já não me lembrava mais. Por que me deixaram dormir?!

Sentei-me com muita dificuldade. O sol estava atrás do prédio, já devia ter passado do meio-dia. Esforçava-me para pensar com clareza. Se tivesse entregado algo decisivo, eu já seria inútil para eles e logo me executariam. Se esperassem mais informações, então não teria como explicar o motivo de me deixarem dormir. Restava-me pouco tempo. Lembrei-me do bilhete e de Henri. Eu retirei a identificação e comecei a bater o código. Três vezes, pausa, em seguida três novamente. A resposta veio logo em seguida. Henri escutava.

CONFISSÃO, sinalizei eu. O QUE EU SEI? - CHANTAL?

Ele poderia explicar minha situação através dessas perguntas? Henri conhecia Chantal pessoalmente, ou ele fora informado de outra cela? Na minha imaginação eu não o via mais como um francês de um livro de contos. Agora Henri era um moleque astuto, que tinha contatos em todos os lugares, vestia-se bem e só seguia seus próprios interesses. Mas também essa imagem desmanchou-se, e enquanto eu esperava por uma resposta, Henri continuava transformando-se. Eu o via sentado próximo ao cano do aquecedor, ele usava um uniforme preto e anotava minhas comunicações. Ele e Leibold planejavam os próximos procedimentos. Assustado, afastei-me da parede. Mas me acalmei com a ideia de que eu não era importante o suficiente, para justificar tanto esforço: simular códigos, recados repassados pelo barbeiro do presídio; isso era complexo demais para a SS. Com seus métodos convencionais podiam descobrir tudo o que quisessem.

Sinais ágeis vieram do outro lado. AMANHÃ. INTERROGATÓRIO NOITE. DEPÓSITO JARDIM. Depois nada mais.

Uma onda de pensamentos invadiu-me. Chantal era da oposição. A organização da Resistência tornara-se mais refinada nos últimos tempos. Havia empregados civis franceses na rue dês Saussaies; eles cuidavam do aquecimento e limpavam os lavabos. Algum deles saberia como tirar detentos da fortaleza? E por que eu? Por que eu deveria ser tão incomum? Não prendiam centenas diariamente? Muitos eram executados sem cerimónia. A esperança de que eu era tratado de forma diferenciada do que minha situação sugeria me parecia exagerada. Apesar de ter vontade de fazer perguntas, guardei a identificação. Henri não se expressara em vão de modo tão resumido. Amanhã. Interrogatório noite. Depósito jardim.

Impaciente, esperei os ruídos que antecediam o jantar; a parada do carrinho na cela vizinha. Quando a tampa abriu e eu segurei minha vasilha para fora, pedi por uma porção grande. Queria estar fortalecido para o dia seguinte. O velho ajudante de cozinha franziu a testa, mergulhou a concha uma segunda vez. Peguei o recipiente cheio até a borda com cuidado. Comi devagar; tentava identificar os ingredientes. Ervilhas, cereais brancos, alguns pedaços de toucinho. Eu mastigava como alguém que não tinha mais dentes.

Em seguida cuidei do meu olho. Durante os golpes, tentei protegê-lo da melhor forma possível. Tirei o curativo cuidadosamente, apalpei a região, senti uma casca e um saquinho úmido, que podia ser pus. Quando eu movimentava os olhos de um lado para o outro, o olho esquerdo ainda revelava uma vista embaraçada. Decidi arriscar deixá-lo de agora em diante sem atadura. Deitei-me cedo sobre o catre e tentei dormir.

Eu acordei; ruídos no corredor. Alegria antecipada e pavor, eles me buscariam nesse instante. Mas alguém era levado. Eu ouvi um choramingo, o criminoso arquejava. No final do corredor, ele gritou, não consegui entender as palavras. Eu não consegui adormecer de novo, a seqüência de perguntas invadiu-me novamente. À luz do dia, minha cabeça estava caída sobre o peito.

Perdi o café-da-manhã e irritei-me com meu descuido. Eu tinha que estar forte hoje à noite. Tentei fazer algumas flexões de braço no chão de pedra. Já na terceira vez desmoronei sobre o peito, sentia-me muito mal e a respiração estava cansada. Já que não podia fazer mais nada, retomei minha caminhada. Caminhei até a hora do almoço, depois da refeição dormi outra vez. Deitado sobre o catre, não tirei as botas nem o casaco, queria estar preparado para tudo. Quando começou a escurecer, tirei o bilhete minúsculo do saco de palha, a mensagem de Chantal, li-a com uma confiança afetuosa, embrulhei meu prego com o papel e joguei-o na privada. Eu estava pronto para deixar minha cela.

Uma hora se passou desde o jantar e ainda não tinha acontecido nada. O trabalho já deveria ter terminado nos escritórios; só cumpriam horário noturno em casos urgentes. Agarrei a grade e puxei-me para cima, tentava ver a esquina, mas não consegui visualizar as janelas do meu departamento. Desci decepcionado, escorreguei até o chão com as costas na parede. Onde estava Henri? Caí no sono sentado.

Passaram-se dois dias, sem que o decurso rotineiro fosse quebrado por algo anormal. Ninguém apareceu para me interrogar; nenhuma notícia de Henri, por mais que eu batesse a identificação na parede. Eu lançava olhares de interrogação ao ajudante de cozinha, ia até o orifício da porta quando passos se aproximavam. Assim, entrei num estado de espera sem fim, que me levava a fazer coisas surreais. Tirei as botas porque senti uma minúscula dobra na meia que eu queria alisar. Subi na janela e procurei mensagens no muro em frente. Depois tentei imaginar se Chantal fora pega. Por que ela me deixava esperando?

Na terceira noite deitei-me muito cedo. Fitava o teto como alguém que esperava o carrasco e não sabia a que horas ele viria. E mais tarde, devia ter passado uma hora, senti repentinamente que eu, preso naquela cela, era uma pessoa miserável. Minha situação, a confusão na minha cabeça, não significavam nada além de um fracasso patético. Eu queria ser outra pessoa, passear no meio das massas - como francês, como alemão, totalmente à vontade. Controlar Leibold, enganar os franceses, parecia tão fácil. Algo ficou mais claro nas horas que permaneci deitado: eu achava que não tinha que tomar uma posição. Eu desejava me despir do alemão e me vestir de francês sempre que quisesse.

Em meio à minha euforia apaixonada, nunca perguntara a Chantal quais eram os seus motivos, o que era importante para ela. Agora estava claro que, desde o início, ela agira taticamente. Colocou-me nas mãos de sua gente e mais tarde, apesar de reconhecer a minha situação de pessoa apaixonada, não hesitou em manter seus planos. Chantal sempre foi uma batalhadora, enquanto eu me enrolava no idílio das minhas ideias, eu fugia da realidade. Ela mantivera o inimigo à vista, enquanto eu tentava oscilar entre as duas linhas de combate. Ela tinha ido ao bordel para matar os invasores odiados. Ela transformara algo. A única coisa que eu transformara foi abrir mão de certas comodidades. Reich e Fúhrer, eu queria escapar e fugir na direção dos franceses. Quando o francês me desmascarou, transformei-me no típico alemão, que levava uma vida boa ao longo do Sena. Chantal tinha gostado de mim; que ela tivesse me respeitado, já não acreditava mais. Aos seus olhos eu era o camaleão que se desviava de qualquer oposição, uma existência tanto de um lado quanto de outro. Minha transformação em monsieur Antoine não fora heróica, eu não era um trapaceiro arrojado que pregou uma peça em sua própria gente. Eu era um covarde que não ousava se opor abertamente. Os Rottenfúhrer, porretes de Leibold, eram mais claros em suas convicções do que eu. Em minha petulância até esperei que fosse libertado, achava que podia fugir das pessoas que desperdiçariam apenas mais uma bala comigo, aquela que desintegraria minha nuca.

Esse era eu; e reconhecer isso já não era sem tempo. Nunca houvera um plano de fuga. Henri nunca existiu. Sempre foram iminentes os interrogatórios ou a execução, eu decidi não cair mais em promessas vagas. Se adormecesse agora, estaria consciente de que não imaginaria mais nada.

Buscaram-me no meio da noite. Tive tempo suficiente para vestir-me adequadamente. Antes de partirmos, olhei ao redor da cela, como se não pudesse esquecer de nada. Descemos pelo corredor silencioso. Atrás dos orifícios das portas, havia muitos que ouviam nossos passos e ficavam felizes por não serem eles os conduzidos por ali. Passamos pelo salão do barbeiro, pela enfermaria, escada abaixo para o quintal gelado. No primeiro instante, achei que era a lua que iluminava o terreno tão intensamente, mas aquela luz vinha da lâmpada sobre a cumeeira. Diante de nós estava a trilha que fora escavada na neve. Um Sturmmann na minha frente, outro atrás; ambos mal-humorados e cansados.

Eu ouvia um zumbido que não combinava com a noite silenciosa. Alonguei os músculos, olhei ao meu redor numa fração de segundos. Estávamos no fim do pátio, pouco antes da escada que seguia para a sala de Leibold. Via-se nitidamente o depósito do jardim atrás de uma luz clara. A porta estava entreaberta. O cadeado pendurado para o lado, o trinco aberto.

O zumbido terminou com um estrondo. O holofote sobre o telhado explodiu. Vozes e gritos na escuridão. O negrume pegou todos os olhos desprevenidos; falta de luz. Eu corri. Empurrei o Sturmmann para o lado, corri sobre a neve alta, afundei na neve congelada, pulei, erguendo as pernas o mais que podia, corria na direção do depósito do jardim. Comecei a reconhecer os primeiros contornos. Surpresos, os Sturmmãnner gritavam, engatilhavam as armas. Bati no muro que julgara ficar mais distante. Eu via o suficiente para reconhecer a fresta, abri a porta de latão e esgueirei-me para dentro. Eu corria com os braços esticados para frente, sem ter noção do que me esperava. Tiros acertaram a porta, estilhaços de madeira.

Bati contra a parede, encontrei uma passagem que só poderia seguir para o prédio de trás. Escuridão ininterrupta. Apalpando, compreendi que estava dentro de uma casa. Poltronas macias, contornos de uma lareira. O próximo cómodo era a cozinha, do pátio cintilava uma luz. Estremeci, alguém estava na porta.

- Vite, par ici - disse o homem.

Passos aproximaram-se do lugar de onde eu viera. Sem tempo para perguntas. Eu o segui pela porta, que ele fechou apressado. Uma escada para baixo, paredes úmidas; a luz de sua lanterna mostrava saliências do muro, fiação elétrica na escuridão. O homem andava depressa, estávamos num sistema ramificado de porões. Ele parou ao fim de um corredor. Três degraus para cima, no fundo uma porta de tábuas.

Ele me iluminou.

- Pode ser que sirva. -Jogou peças de roupa sobre mim, um par de sapatos rolou pouco depois.

- Quem é o senhor? - eu ofegava, enquanto tirava as botas e desabotoava as calças.

- Rápido, rápido!

Não era parisiense. Um dialeto como só se ouvia na costa, talvez alguém da Normandia. Seu jeito de jogar as roupas chamou-me a atenção. Enquanto eu trocava de camisa, descobri que o homem só tinha um braço.

- O senhor é o jardineiro?

Examinou-me desconfiado.

- Eu não sei nada de você, e você não sabe nada de mim.

- Foi o Henri que falou com o senhor?

- Ande logo! - gritou ele, pois eu estava demorando muito para amarrar os cadarços.

- Para onde devo ir agora? - O casaco estava muito apertado nas axilas, a calça muito larga na cintura.

- Passe por esta porta.

- Onde devo me esconder?

Ele enfiou a chave na fechadura, empurrou-me alguns degraus para cima. O ar frio da noite.

- Boa sorte.

- O senhor tem dinheiro?

A porta já tinha se fechado. A chave foi girada. Tudo levou cerca de dois minutos. Somente agora eu notei que não se ouvia mais nada dos perseguidores. Orientei-me rapidamente: uma travessa perto de Ste. Marie Madeleine. Só precisava dobrar a esquina para chegar na entrada do meu ex-local de trabalho. Por alguns momentos apreciei o frio da noite de janeiro como se fosse o ar da liberdade. Mas para onde eu poderia ir sem documentos, sem um centavo no bolso? Saí do nicho. Os sapatos eram macios, eu deixei a rue dês Saussaies sorrateiramente.

Continuei andando por mais algumas ruas, observava com cuidado, nada indicava que estivesse ocorrendo uma busca. Saí do bairro sem que ninguém me abordasse. Percebi que tomava o rumo do meu antigo hotel. Hábito ridículo. Permaneci à sombra de uma coluna. Na cabeça só me vinha um lugar que parecia ser seguro: a ruína não muito longe do açougue de carne de cavalo, onde eu havia me transformado.

Meus passos sobre a rua coberta de neve. Eu estava preparado para o tiro na nuca, para o impacto repentino e para a perda de calor; agora eu caminhava com passos leves pela Paris silenciosa. Jamais alguém conseguira fugir da rue dês Saussaies. Quem entrou em contato com o maneta, para onde ele foi? Quem deu o tiro que propiciou a escuridão salvadora?

Caminhei por meia hora. Encontrei a casa, entrei no saguão e esgueirei-me para debaixo da escada, onde antes a bolsa com as roupas esperava pelo meu retorno. Empurrei pedras e pedaços de tijolos para o lado e agachei-me no canto. Não estava tão frio assim, não a ponto de eu temer ficar congelado durante o sono. Eu ainda estava com calor por causa da caminhada; enrolei-me bem no casaco. Refleti de olhos fechados. Deveria deixar Paris? No interior eu chamaria mais atenção. Os alemães me procuravam, os franceses não confiariam em mim. Eu não sabia onde encontrar Chantal. Então, decidi. Paris. Desisti da ideia de voltar para casa passando pelas linhas de combate. De agora em diante eu era um desertor procurado que podia ser executado sem processo. Lembrei-me da invasão. Sorri. Ter a esperança de que a guerra tomaria rumos que fossem úteis a mim era a mais extravagante de todas as fantasias.

Dormi, acordei com frio, levantei-me com os membros endurecidos e andei em círculos no pátio interno para me aquecer. Eu sentia sede, fome. Você tem que pensar no mais simples, no que está mais próximo. Na noite fria que não queria deixar a manhã chegar, senti meus ferimentos com intensidade. O arame na mandíbula, o olho do qual saía pus por um dos cantos, as contusões e os cortes. Eu me via como uma carcaça. Na rue dês Saussaies essa condição parecia ser natural. Mas agora em liberdade, eu era como um exemplar danificado. Eu não resistiria a privações por muito tempo nesse estado. Enquanto eu dava conta dos meus círculos, veio-me a ideia: Hirschbiegel. Eu não tinha ideia do que acontecera a ele desde a noite no Turachevsky. Ele era das Forças Armadas; seu coronel era um homem muito influente. Ninguém pensaria seriamente que Hirschbiegel tinha algum tipo de envolvimento com o atentado. Ele ainda estaria em Paris? Sua unidade já teria recebido a ordem para marchar? Quanto mais eu me esquentava, mais pesada minha cabeça ficava. Agachei-me debaixo da escada e adormeci novamente.

Oficiais e suas tropas entravam e saíam do hotel incessantemente. Bem cedo pela manhã, segui para lá, o corpo todo tremendo de frio. Já que a invasão era apenas uma questão de tempo, dois homens com pistolas automáticas patrulhavam a entrada. Escondime a cem metros de distância atrás de um tronco de carvalho e esperava, mesmo de longe, reconhecer Hirschbiegel.

O relógio da torre da igreja soou nove badaladas. Ele começava a trabalhar às oito e meia, mas não apareceu. Às dez horas afasteime dali, caminhando na direção do rio. Fazia algum sentido esperar diante de seu local de trabalho? No fundo eu sabia a verdade. Se Hirschbiegel não estivesse mais morando no hotel, então ele já teria deixado Paris. Meu amigo estava executando seu serviço em algum lugar no interminável front do Atlântico.

Na hora do almoço cheguei a Lês Halles e juntei alguns restos de verduras e legumes. Tirei proveito do tumulto de uma fila em frente a uma padaria para roubar um pão caído no chão. À noite, fiz uma segunda tentativa na frente do hotel. Logo admiti que meu esforço era inútil.

Tentei adiar a ideia de passar mais uma noite debaixo da escada em espiral o tanto quanto fosse possível. O medo do frio era maior do que o pavor de ser apanhado. Enquanto eu vagava sem rumo pelo segundo arrondissement e mais tarde pelo terceiro, percebi que me aproximava sem querer da rue Faillard. Uma esperança patética invadiu-me, talvez Hirschbiegel tivesse escondido a chave em algum lugar. Talvez ele tenha contado com a possibilidade de eu aparecer aqui um dia. A saudade de passar a noite num bom colchão, num quarto aconchegante, era tão irresistível, que assumi todos os riscos.

Pisei na viela deserta com cuidado e cheguei até o portão. Toquei a campainha, o conhecido ranger da porta. Entrei com o coração batendo forte, meti-me dentro do edifício e passei pelo quartinho da zeladora. Os joelhos ficaram fracos no quarto andar. Fome e cansaço - sentei-me num degrau. Observei a porta do patamar e pensava onde Hirschbiegel poderia ter escondido a chave. Apalpei todo o batente da porta, procurei em frestas, olhei debaixo do capacho. Examinei a janela, as saliências dos degraus. Eu não queria acreditar nas evidências e comecei a procurar novamente. Engatinhei, apalpei, desci um andar, subi a escada de joelhos, não deixei escapar nada e não encontrei nada. Desesperado, forcei a porta com meu corpo, ela não cedeu nem um milímetro. Foi aí que tive consciência de como minha esperança era insustentável. Somente um sonhador teria suposto que Hirschbiegel teria deixado a chave para mim numa cidade ocupada, onde todos tentavam proteger seus bens! Mas a tentativa teve seu lado positivo. Subi a escada até a porta do sótão, e naquele patamar me enrolei e não passei aquela noite ao relento.

Curiosamente, eu não fiquei com medo de ser reconhecido nos dias que se seguiram. A cidade era uma prisão onde prisioneiros e carcereiros tentavam se evitar. Essa prisão começava a ferver gradualmente. Por mais que não combinasse com a época do ano, os parisienses usavam, onde pudessem, as cores da bandeira tricolor. Cachecol vermelho, luvas azuis, camisa branca. Casaco vermelho, gorro azul, pacote branco debaixo do braço. Cada vez mais aparecia pintado nas paredes das casas o V da vitória, apesar do controle rígido. As Forças Armadas não conseguiam dar conta de passar tinta por cima de todos eles.

Durante minha expedição pela Paris cinzenta, observei dezenas de detenções. A minoria era de judeus. As denúncias haviam aumentado; muitos queriam se livrar de um vizinho desagradável ou do dono da loja concorrente, antes que o domínio alemão chegasse ao fim. Apesar do inverno rigoroso, Paris estava mais nervosa, mais esperançosa, mais agressiva do que alguns meses atrás. Havia momentos em que eu não me sentia um rejeitado de ambas as partes, mas sim uma figura normal no meio do tumulto. Eu encontrava vultos pelo caminho, nos quais eu reconhecia um destino parecido; emigrantes que permaneceram em Paris por três anos e agora esperavam pela libertação. Colaboradores que viam suas chances desaparecerem e que não sabiam em que nova existência podiam se refugiar. A maioria estava à procura de alimentos. Parecia impossível conseguir algo quente. Uma vez mendiguei às freiras misericordiosas um pouco de sopa. Uma outra vez, o motorista de um carro de leite deu-me um grogue. Pouco depois eu estava na Pont Royal em meio à neblina, o olhar baixo, apreciando a água e pensava nos tempos em que os pescadores ficavam sentados aqui, sobre as pedras quentes.

Todos sonhavam em ver os uniformes alemães desaparecerem. E, no entanto, eles estavam mais presentes que nunca. Em cada bairro, em cada entroncamento, os ocupadores agiam com uma dureza intransigente. Mas a rebelião estava sendo planejada; ela existia, antes mesmo de as reais condições terem sido criadas para isso. Tinha prazer em ser um anónimo na cidade nesses dias. Eu era observador e prisioneiro em uma só pessoa.

Uma trilha estreita cortava a neve. A rue de Gaspard pairava num abandono cinzento, ninguém à vista. Deve ter havido fogo na loja do comerciante de velharias. Uma fumacinha negra saía das janelas, que agora eram apenas buracos. Um vento frio soprava. A loja depère Joffo fora lacrada com tábuas. Agachei-me, peguei no canto da tábua mais baixa. Foi serviço bem executado, utilizaram pregos longos.

Voltei, na entrada da loja de velharias encontrei uma parte de arreio queimado, que usei como alavanca. Rangendo, o primeiro prego cedeu, a tábua se desprendeu. Eu puxava e empurrava sem prestar atenção se alguém me observava. Arranquei duas tábuas, por detrás delas achei a maçaneta. O vidro estava quebrado, enfiei a mão e abri a porta por dentro. Uma última olhada, arrastei-me por baixo do tabique e entrei na loja.

- Chantal! - chamei assim que passei pela porta.

Desde que me despedira de Joffo aqui, nada parecia ter mudado. Olhei ao redor, entre estantes tombadas e livros espalhados. Centenas, milhares de exemplares estavam amontoados, estantes quebradas, jogadas umas sobre as outras.

- Chantal, sou eu!

Ao mesmo tempo que tremia de felicidade por antecipação, apavorava-me a ideia de ficar frente a frente com ela. Nesse meiotempo, eu tinha virado um trapo, a calça suja por ter que dormir no chão, muitos fios puxados no casaco. Minha barba crescia e coçava. O garçom não havia me reconhecido quando passara há pouco na frente do Lubinsky.

Cavei um caminho até o fundo da loja e esgueirei-me atrás do balcão. Pensativo, peguei o livro-caixa de Joffo do chão, meus olhos passaram pelos números pequenos; surpreendi-me fazendo contas de adição com eles. Pus o livro de lado, andei até o aquecedor onde estava o atiçador. Meus dedos procuravam a ponta achatada; há semanas erguera a tampa do chão com ela. Encaixei a alavanca, abri o porão do mesmo modo, acendi um fósforo e desci.

- Chantal! - repeti seu nome várias vezes. - Não se esconda, Chantal, sou eu!

Tudo estava como eu tinha guardado na memória, sujo, vazio e abandonado. Iluminei cada canto. Um balde com batatas velhas estava no chão, seus brotos enroscavam-se uns nos outros. O fósforo queimou meus dedos, deixei-o cair. Fiquei em pé ali mesmo, cansado por conta da decepção.

Há pouco, sob o arco da Pont Royal, ocorrera-me a ideia: Chantal não deixara Paris! Ela estava se escondendo - como eu! Parecera-me a única solução possível. Voltei ao depósito e sentei-me sobre o monte de livros. Coloquei a cabeça entre as mãos.

- No dia em que os alemães invadiram a cidade marchando, papai acompanhou o velho Bertrand até os Champs-Élysées.

Chantal usava o mesmo casaco pesado, com o qual eu a vira pela última vez no Turachevsky. Ela posicionou uma perna sobre os livros como um homem e apoiou o cotovelo sobre o joelho. - Os dois velhos ficaram em pé na beira da rua - ela continuou. - Papai me contou que, para não chorar, cantou a Marselhesa baixinho. Ninguém podia ouvi-lo ao lado do matraquear das correntes dos tanques.

- E depois?

- Bertrand começou a cantar a Internacional. Imagine: dois velhos cantando e na frente deles os tanques alemães desfilando.

Senti uma coceira num dos lados. Mesmo que fosse grosseiro perante Chantal, comecei a me coçar. Tinha pego uma pulga em algum lugar. Ela apreciava o calor de minha axila.

- Um ano depois, na rue de Seine, encontrei um panfleto disse ela. - Trouxe-o para casa. Papai leu o manifesto com uma emoção como até então só lera as obras de Rabelais.

Uma vez que comecei, não conseguia mais parar de me coçar. Estiquei minha coluna, raspei e massageei e apresentava uma dança de repuxos. Chantal não se importava.

- Pouco depois Gustave voltou do front. Trazia com ele um baderneiro. Ele tinha os contatos necessários. Ainda na mesma semana levamos partes de uma prensa, pedaço por pedaço, para o porão da barbearia.

A coceira ficou ainda pior. Levantei-me de sobressalto e coçava cada vez mais freneticamente. Algo estava grudado no meu sapato, uma folha de papel colorida. Levantei a perna coçando, era um desenho. Puxei-o da sola. Traços simples, a superfície pintada com lápis de cor. Reconheci imediatamente o que representava: ”A raposa e as uvas”.

- Foi você que desenhou? - perguntei. Chantal foi para a frente da loja. Eu olhava fixamente para a folha; a raposa que tentava subir pelo tronco da árvore. O galho com as uvas era inalcançável para ela.

- Você nunca se perguntou - perguntei eu - por que o ilustrador pendurou as uvas numa árvore, quando na verdade elas crescem na cepa? - Imaginei como Chantal quando criança ficava sentada aqui com seus lápis e copiava os desenhos do livro. - Todos os caminhos estão nas fábulas - murmurei. Levantei a cabeça e espreitei.

- O que você quis dizer com - todos os caminhos estão nas fábulas? - Segui Chantal na loja. - Chantal?

Dobrei a folha com cuidado e coloquei-a no bolso. Comecei a andar de um lado para o outro, como uma traça perdida, com ar empertigado, pegava aqui uma coisa do chão, ali alisava uma página amassada. Eu tentava entender a antiga ordem da loja. Encontrei uma estante com um R e uma com um S. Fui até o lado oposto, lá Baudelaire fora atirado ao chão, como também os outros autores com B. Ergui estantes e escavei em todos os montes. Joguei para o lado os livros cujos autores não começavam com F. Parei diversas vezes para espreitar. Finalmente descobri Flaubert. Revirei a pilha mais agitado e deparei-me de um segundo para o outro com a capa que me era tão conhecida: a água verde, espumosa, envolvendo o sombrio monstro marinho. Peguei o livro das fábulas com cuidado.

— Sim — acenei na sala escura. — Sim, sim! — Sentei sobre uma estante derrubada e comecei a folhear.

”A pomba e a formiga”.

”O observador de estrelas que caiu num poço”.

”O coelho e os sapos”.

Lia exaltado, o dedo sobre as figuras. Parei na história ”O galo e a raposa”. A ilustração de Doré fora copiada na margem do livro, a mão de uma criança copiara a raposa com um lápis.

- Você é talentosa, Chantal! - sorri e passei a procurar mais atentamente. Logo encontrei não só figuras, mas também comentários. Ao lado de um lobo feroz decifrei as palavras: tio Bébert. Ou quando estivemos em Trouville, rabiscado à margem de uma paisagem marítima.

Cheguei à fábula ”A sorte e a pequena criança”. Fortuna, de uma nudez corpulenta, estava em pé sobre a roda do destino e colocara a mão sobre o peito de um pequeno menino. Ele estava sentado à beira do poço, uma floresta densa de folhas caducas ao redor de ambos. Recordava-me da figura, fora a primeira ilustração de uma mulher nua de minha infância. Na margem inferior estava escrito a lápis: Floresta Grandpères de Balleroy.

Debrucei-me inerte sobre a anotação. Tentava me lembrar das palavras de Chantal. No nosso primeiro encontro ela chamou o peixe da capa de peixe-gato.

- Onde se pega um peixe-gato? - perguntei.

- Meu avô os pega às vezes no interior.

Levantei-me devagar, deixei o livro aberto sobre o balcão. A floresta de Balleroy. Retomei minha busca. Pouco tempo depois, tinha nas mãos um atlas escolar. Era da época da guerra anterior, mas os nomes dos lugares dificilmente teriam mudado.

- Balleroy - disse eu. - Onde fica Balleroy, Chantal?

Primeiro, procurei nos arredores de Paris, depois nas províncias ao Norte — lie de France, Seine-et-Marne, depois Picardie, Vai d’Oise, Alta-Normandia. Gradualmente, meus olhos começaram a arder de tanto ler os nomes impressos em letras miúdas. Quanto mais eu avançava para o Oeste, considerava mais improvável a probabilidade de encontrar Balleroy. Os Joffo não eram normandos; uma propriedade na costa era improvável. Recomecei, desta vez pelo sul de Paris. Não encontrei um lugarejo que se chamasse Balleroy.

A luz diminuiu. Fiquei tempo demais aqui! O susto pela leviandade que cometia tomou conta de mim, coloquei apressadamente as fábulas e o atlas debaixo do braço e esgueirei-me para fora da loja protegido pelo crepúsculo. Enquanto eu ajeitava as tábuas em seus devidos lugares, olhei em volta. Chantal não esperava por mim em lugar algum.

Cheguei à rue Jacob. A grade da barbearia estava arriada. O vendedor judeu de miudezas também abandonara sua loja. Desviei de patrulhas alemãs, da melhor forma que pude, caminhei decidido de volta ao meu lugar de dormir. Alcancei a rue Faillard na escuridão, pressionei os livros contra o corpo com força e passei por dois carros para alcançar a entrada do prédio. O ranger da porta ao se abrir, pisei no pátio coberto por uma fina camada de gelo e quase chegara à casinha da zeladora.

A marca dos dois carros estacionados me sobressaltou. Era tarde demais. Eu já ouvia passos, atrás de mim homens se aproximavam correndo. A porta da casinha abriu-se lentamente. Eu queria ficar parado, escorreguei nas pedras lisas e tentei recuar. Leibold estava diante de mim. Sua capa colocada corretamente, dois botões do casaco fechados. Batia com as luvas contra a coxa. No silêncio que me pareceu infinito, perguntei:

— Como me encontrou?

- Eu nunca perdi o senhor. - Seu sorriso de contentamento não era normal. - Nem por um minuto.

Apenas mais dois passos até ele. Senti um calor brusco. Imagens passavam rapidamente; o maneta na rue dês Saussaies que não se apavorou nem por um minuto por causa da perseguição. Os Sturmmànner nos nossos encalços desapareceram de súbito. Por que eu não desconfiei que alguém observava a livraria de Joffo? Revirei tudo por ali por mais de uma hora. Eu deveria ter concluído que Hirschbiegel também fora interrogado depois do atentado no Turachevsky? Que ele de qualquer modo entregaria o segredo da rue Faillard? Eu entendi que as semanas que se passaram não faziam parte de um golpe de sorte, mas sim de um plano de Leibold. Ele deixara que eu nadasse como um peixe dourado num aquário, enquanto me observava ininterruptamente. A liberdade que apreciei fora uma graça de Leibold. Ele ficou esperando pacientemente até que eu procurasse a livraria e descobrisse o que ele não podia achar: o paradeiro de Chantal.

Um Rottenfúhrer surgiu atrás de Leibold, a arma preparada.

Eu não tinha esperança e nem a menor chance. Mas saltei para frente, agarrei Leibold pelo braço e joguei-o contra o Rottenfúhrer. Por um momento senti as ataduras em suas costas. O Rottenfúhrer não podia atirar sem atingir Leibold. Ambos cambalearam para trás; o sorriso no rosto de Leibold desapareceu.

- Não - disse ele irritado.

Eu corri. Os passos dos outros estavam tão próximos, que eu contava com um tiro certeiro a qualquer momento. Segurei os livros com as duas mãos - por que eles não abriram fogo?, subi correndo o primeiro, o segundo andar. Gritos dos Sturmmãnner. Eu compreendi que eles me queriam vivo. Não havia escapatória. Minha respiração ofegante. Eu subia três degraus de uma vez só; de baixo vinham solas com pregos, sem pressa.

Eu tinha descoberto três noites atrás. O ponto na parede, o ponto sabotado. O cadeado na porta do sótão era firme e massivo. A ancoragem, no entanto, estava presa a uma alvenaria frágil. Eu esperava conseguir arrancar os parafusos da parede com algum esforço e entrar no sótão. Um pedaço de ferro com uma borda afiada me serviria como ferramenta. Nas noites anteriores, ficara horas raspando no local.

As ordens de Leibold misturavam-se ao barulho das botas. Passei correndo pelo apartamento de Wasserlof. Certamente tinham vasculhado tudo por lá, minuciosamente. Com mais alguns saltos cheguei à porta de ferro. Respirava de boca aberta, chacoalhei a fechadura. A tala de metal não cedia. Movido pelo pânico, agarrei a ancoragem, puxei-a com os dedos para baixo. A cavilha moveu-se um milímetro e depois escorregou para a posição original. Eu puxava, ouvia os homens já no terceiro andar. Quando me abaixei, os livros caíram ao chão. Tateei em busca do pedaço de ferro, encaixei-o entre a parede e a tala. O canto afiado rasgou meu tênar. Eu fazia força como um louco, gritava de desespero - e de repente tinha a ancoragem nas mãos. Sangue. Não havia tempo para pegar os dois livros, peguei o primeiro que achei e dei de cara com a escuridão. Gritos vinham de baixo, descobriram a rota de fuga. Fechei os olhos no breu total. Abri-os novamente, o alçapão, o quadrado que se destacava na escuridão. Coloquei o livro dentro da calça, fechei o casaco, corri para a janela. O trinco era muito alto e estava enferrujado. Não tive outra alternativa senão dar uma cabeçada. Primeiro o vidro se quebrou, depois o alçapão cedeu como um todo, estilhaços chuviscavam sobre meus ombros. Joguei a caixa para trás. Os Sturmmánner chegaram ao sótão; a luz de suas lanternas dançava.

Pulei para fora, com meus pés no chão tomei impulso e saltei. Sem fôlego, quase nada no estômago, mesmo assim tive forças para me projetar para cima. Já estava com os ombros para fora, tomei impulso para cima, estava pendurado entre o céu e a terra. Puxei as pernas rapidamente. Rolei para cima do telhado que era bastante íngreme. Segurei-me na beirada do alçapão e olhei em volta. As telhas estavam cobertas com um pouco de neve, senti que havia gelo mais abaixo. Subi mais.

Agora tiros eram disparados pelo telhado. Um deles apareceu fora do alçapão e atirava na noite escura. Vi o brilho do cano, senti o tiro passar raspando. Continuei a subir, agarrava-me, escorregava, esperneava, segurei a curvatura da cumeeira. Aos gritos, projetei-me para o canto mais alto. Escorreguei sentado. A cabeça do perseguidor virou-se na minha direção, ele atirou. Duas balas passaram raspando, a terceira me acertou. Perfurou entre as costelas. Caí para o outro lado do telhado. Havia apenas uma lucarna, uma saliência, talvez uma cornija. Soltei-me, enquanto começava a queimar em meu corpo. Escorreguei de costas. O telhado da casa em frente amorteceu o impacto, mas não consegui me segurar. Vi saliências de telhas cobertas de neve passarem por mim; as mãos agarravam-se nelas com feracidade, os pés tentavam encontrar algum apoio. Gelo por toda parte. Agarrei um gancho por pouco tempo - uma picada quente na mão. Algo se rasgou. Passei da calha, segurei o latão fino no último instante. Algo estalou e quebrou-se. Agarrei-me com toda força como se a calha fosse um tapete voador. Essa última pegada me foi também arrebatada. Por alguns instantes, eu estava totalmente livre na escuridão. Feliz por ter escapado deles, voando pela noite.

Imagem da Virgem Maria. Um brilho avermelhado, fraco. Não estava propriamente acordado. Só meus gemidos. Em seguida, perdi a consciência novamente.

Mais tarde, virado para o lado, senti um calor nas minhas costas, barulho suave de água. Alguém me lavava. Antebraço forte, um vulto largo curvado sobre mim, cabelos crespos. Ela me fitava, imóvel.

- Você realmente voltou - disse uma voz de mulher. Incapaz de me mover. Eu era o gemido em pessoa. Ouvi uma risadinha baixa. Agua ao longo de minhas costas. Tempo.

Um estado de semiconsciência do qual eu não queria acordar. Recuperava a lucidez, sem compreender. O quarto, os ruídos pareciam próximos. Alguém ia, vinha. Sobre mim o quadro na parede, a Virge Marie. Um vulto trajando azul num jardim alegre. O primeiro mundo que tomei consciência. A mãe de Deus apontava para o alto com um rosto sério, mas a margem do quadro estava à sombra. Tentei imaginar uma pomba.

Eu havia me mexido? A pessoa no quarto parou. Enxugou as mãos, chegou mais perto.

- Você está acordado? Você está acordado?

Eu tirei o olhar da Virgem. A dor tomou conta de mim, estremeceu o corpo todo.

- Não. Não vai poder fazer isso por muito tempo - disse a mulher.

Ela curvou-se mais, já era mais velha, mas não uma mulher idosa. Os olhos não eram felizes, um nariz achatado, somente a boca sorria. Cabelos escuros, fios brancos se misturavam. Um avental azul de tecido macio.

- Não tenho nada para aliviar suas dores - disse ela. - Nada, nada. - Ela apontou para mim.

Sem forças para erguer a cabeça e me ver. O corpo devia estar destruído. Dois pedaços de madeira, que começavam no ombro e continuavam ao longo do braço, tábuas no lugar de talas. Batiam umas nas outras fazendo um leve ruído. Em volta da mão esquerda uma atadura grossa.

- Não sou médica. - Ela deitou o braço com as tábuas numa outra posição. - Não há médicos. Você tem que comer alguma coisa.

- A dor era abafada e distante.

- Será que você ainda tem um osso inteiro no corpo? - Sua mão aproximou-se do meu cabelo. - Você tem que comer - disse ela acentuando cada palavra. - Você me entende?

Eu não estava vestindo nada que denunciasse minha origem. De onde ela sabia que eu não era francês?

- Você é o boche maluco. - Ela ergueu-se. - Viu, só? Eu sei. Meu olhar interrogativo. - Eu sou a zeladora. Meu nome é Valie.

Assustei-me. Leibold havia surgido da casinha da zeladora. Ele me espreitara de lá.

Ela percebeu o pavor nos meus olhos.

- Primeiro, te escondi no porão. A casa tem quatrocentos anos. Debaixo do porão há um outro, mais antigo. Eles procuraram a noite toda e durante todo o dia seguinte. Talvez eles voltem. - Ela seguiu meu olhar para o quadro da Virgem Sagrada. - Agora estamos em outro lugar.

Ela sorriu de repente.

- Eu vi você subir com a senhorita. Vocês subiram duas vezes. — Ela dizia isso como se fosse um grande segredo.

- Eu conheço o apartamento de Wasserlof. - Ela levantou-se.

- Por que a senhorita não vem mais? - Como eu não respondia, ela deixou o quarto. — Qualquer hora você me conta.

Prestei atenção à minha respiração. Ela me chamou de boche. Ela me escondia. Ela conseguiu me proteger da ordem de busca. Mais uma armadilha de Leibold? Onde ficava esse quarto, essa casa? O lugar onde estava parecia-me tão irreal quanto o tempo em que eu ficara inconsciente. Onde eu tinha caído?

Emiti um som. Ela voltou. Levei muito tempo para formular a palavra.

- Hoje.

Ela curvou-se.

- Estamos no começo de fevereiro. Eu acho que é o dia seis.

Ela riu do meu gemido.

- Sim, você ficou deitado muito tempo. Você estava morto, acredite, morto. Só havia mais uma centelha de vida em você. Você estava destroçado, mas a centelha não queria apagar. Você é resistente, boche. Agora deixe-me esquentar a sopa. - Ela desapareceu do meu campo de visão.

A zeladora alimentava-me. Ela colocou um pequeno funil de metal na minha boca. Eu queria morder, mas não deu certo. Eu achei que o arame na boca tivesse se rompido, mas percebi que do lado esquerdo faltavam alguns dentes. Valie despejou a sopa com cuidado, mas esta vazou de novo pelo canto da boca. Melhorou quando ela colocou o funil do lado direito. Eu engolia e bebia. Apreciei o calor.

- Você ainda não pode morder - disse ela. - Mas parece que consegue engolir. - Ela sorria. - Então, não está tudo quebrado aí por dentro.

Eu prestei atenção ao interior do meu corpo, tentava seguir o caminho da sopa.

Comecei a acreditar aos poucos que eu tinha escapado da morte. Dias e semanas, durante os quais apenas detalhes mudavam. Uma vez, Valie retirou as flores artificiais de cima da cómoda. Numa tarde, o sol estava tão forte, que iluminou todo o quadro da madona. Era mesmo uma pomba que pairava sobre ela, envolta no símbolo da trindade. Eu admirei o quadro iluminado pelo sol até a luz sumir, centímetro por centímetro.

Chantal não me visitou naqueles tempos nem uma única vez. Nos sonhos diurnos eu a imaginava como uma combatente, trajando calças escuras, o cabelo amarrado sob o capacete. Ela sabia lidar com armas. Ela não falava, permanecia unicamente sentada ou passava ao lado da minha cama. Cada vez mais ficava claro para mim que Chantal não podia saber de nada. Ela não tinha noção de que eu estivera no Turachevsky na noite do atentado. Ela nunca chegou a saber da minha prisão. Então, ela também não me enviara nenhuma notícia. Acertei finalmente, que Henri fora um fantasma que Leibold colocara na minha cabeça. Sua missão era fazer com que eu perambulasse por Paris durante o inverno.

Numa manhã, pedi a zeladora, mais por sinais do que por fala, para que trouxesse meus livros. Ela me deu o que eu colocara dentro da calça antes da queda. Não as fábulas. Elas estavam perdidas, talvez nas mãos de Leibold. Sobre minha barriga estava o atlas aberto. Valie estava sentada ao meu lado, folheava e fitava o mapa dos pólos, os contornos da Oceania e o Leste da Ásia. Como eu não podia mexer os braços e as mãos, pedi-lhe que abrisse na página da França. Os limites da França depois de 1918. Cidades, rios, divisas.

Eu procurava por um nome simples e curto. Algo da realeza se escondia dentro dele. A palavra começava com ”F” ou ”B”. Eu tinha certeza, de que me lembraria. A vila, o lugarejo, a propriedade do avô de Chantal - o povoado que ela havia rabiscado na margem das fábulas. Tentava me lembrar diariamente, por horas a fio. Meus olhos deslizavam pelos lugares. Por muito tempo eu não quis acreditar - inexplicavelmente, eu esquecera do nome.

Valie trazia-me sopa, na maioria das vezes de legumes. Uma vez mergulhou pão branco no leite e empurrou pequenos pedaços para dentro da boca. Eu mastigava com a língua e com tocos de dentes. Como era bom! Dali em diante ela fazia o mingau de pão diariamente.

Pensava com freqüência sobre como deveria agradecer a Valie por seus cuidados. Minha desconfiança de que ela trabalhava para Leibold ainda não tinha se apagado por completo. Quando meu rosto já estava quase curado, a ponto de eu poder falar, perguntei-lhe:

- Por que a senhora está fazendo isso por mim? - Valie estava sentada no banquinho ao lado da minha cama; era noite.

- Eu conhecia Wasserlof. - Suas mãos estavam imóveis sobre o avental. - Um dia ele trouxe alemães consigo e mostrou-lhes o apartamento. O senhor e a senhora Hirschbiegel eram pessoas elegantes. O monsieur dava-me algo pela minha dedicação.

Ela levantou-se e começou a remexer coisas pelo quarto. Depois ele veio algumas vezes sozinho para Paris, mesmo depois da morte de Wasserlof. Quando os alemães entraram marchando, perguntei a ele: o que acontecerá com o apartamento? Ele disse: bom, agora não vou mais poder pintar. Rimos disso. - As bochechas de Valie brilhavam. - Um dia, no meio da guerra, apareceu o filho de Hirschbiegel e testou a chave. Ele não parece com o pai. Depois vieram você e a senhorita. Por último, vieram os alemães. - Valie encolheu os ombros. - Isso é tudo.

Eu não compreendia seu contentamento, afinal ela falava do inimigo. Hirschbiegel era tenente das Forças Armadas. Eu mesmo era o inimigo, que se deleitara com uma parisiense na cidade ocupada. Perguntei a Valie sobre isso. Ela apenas sorriu e desapareceu sem dar uma resposta.

Ela tinha trinta e muitos, e do seu jeito rústico e maduro, era bem bonita. Mesmo trajando um avental ela possuía algo de sedutor. Muitas vezes tive vontade de perguntar onde estava seu marido.

Havia morrido na guerra, fora feito prisioneiro? Fiquei sabendo apenas que antes da guerra Valie trabalhara como enfermeira. Ela entendia alguma coisa de ossos.

Minha perna direita não lhe causava preocupações. Uma fratura de fémur comum, que sararia normalmente. No lado esquerdo, a panturrilha foi bastante atingida, os dois ossos estavam esmigalhados. Valie limpara as feridas abertas e juntara as partes novamente. Até então, nenhuma infecção havia se manifestado. Mas ela não sabia dizer se os ossos da perna estavam calcificando na posição certa.

A madeira e as ataduras começaram a exalar odores. Ela trocou as talas. Não senti quase nada. O braço esquerdo estava praticamente sarado, restavam apenas alguns hematomas. Eu conseguia comer e folhear o atlas escolar razoavelmente. Somente a atadura da mão me atrapalhava. Só vi a ferida debaixo do curativo depois de algum tempo. Valie havia me preparado para isso: a metade superior da articulação do mindinho fora arrancada. Deve ter acontecido quando escorreguei do telhado. A pele já estava começando a se fechar por cima do osso. O local coçava, não era pior do que uma picada de vespa.

A febre veio no começo de março. No início, a mancha sob o joelho parecia um galo. Mais tarde começou a encher de pus. A pele estufou, estourou, um líquido branco saiu. Valie limpava a ferida diariamente com chá de camomila. Eu tinha dores por todo o corpo. Meu sangue corria furioso, eu achava que ia perder o juízo. Toda vez que eu abria os olhos o tempo havia passado um pouco. Dos sonhos não me lembrava, a não ser de um.

Começou num barranco, onde eu empurrava uma roda. Eu me espantei porque a roda não seguia seu caminho para baixo sozinha. Era difícil. Eu a observei mais atentamente - era de ouro maciço. Em seguida, a roda transformou-se numa coroa, perfeitamente redonda, com pontas grandes. Eu a empurrava na minha frente com força, sempre para baixo. Perguntava-me sobre o destino final. O que havia lá embaixo? Finalmente, alcancei o ponto mais baixo, era o mar. Essa coroa tinha que chegar até o mar, entendi; e para lá eu a empurrava.

Quando acordei, uma palavra me acompanhava. A palavra que combinava com a coroa. Balleroy. Levantei a cabeça. - Balleroy disse eu para a Virgem Maria. Ela apontava para cima.

Quando Valie chegou, perguntei se ela conhecia um lugar perto do mar chamado Balleroy. Ela queria enxugar minha testa, refrescar os pulsos. Eu afastei suas mãos e pedi o atlas. Hesitante, ela abriu o mapa da França. Eu não estava forte o suficiente para me concentrar por muito tempo. Tudo se embaçava perante meus olhos, logo adormeci.

Na manhã seguinte, Valie colocou uma faca afiada na água fervente. Tirou-a com um pano, curvou-se sobre minha perna e fez um corte embaixo do meu joelho. Eu gritei. Saiu muito líquido. Valie limpou a ferida com aguardente. Eu perdi a consciência.

Depois que acordei, pedi a ela que procurássemos juntos. Ela trouxe o banquinho para perto. Começamos pelo Norte, na fronteira belga, e viajamos pela costa. Eu repetia o nome Balleroy constantemente. Passando por Pas-de-Calais fomos até Somme, depois até Seine-Maritime, indo finalmente para Eure e Calvados. Nossos dedos exploraram a região de Caén e Bayeux, ao longo dos balneários St. Laurent e Arromanches-les-Bains, E de repente, quando já queríamos ir para Cherbourg, o nome estava perante nós. Valie manteve o dedo sobre o local, eu pronunciei a palavra. Pequeno, mas claramente legível. ”Balleroy.”

Ficava na Baixa-Normandia, muito mais longe de Paris do que eu tinha suposto. Uma estrada desenhada com um traço bem fino levava até lá. A fazenda do avô de Chantal ficava em algum lugar ao longo dessa estrada. Talvez você não morra, pensei. Desse momento em diante havia uma convicção em mim.

A estação do ano também me dava confiança. Enquanto a infecção diminuía gradativamente, a primavera se instalava. Mesmo no quarto escuro que só era banhado de sol por pouco tempo, percebia-se que a natureza despertava. Eu não queria continuar doente, algo tinha que mudar!

Enquanto eu continuava de cama e com cada movimento das pernas ouvia as talas baterem umas nas outras, a viagem para a Normandia tomava forma dentro de mim. Tão nitidamente como se a rue Faillard terminasse diretamente em Balleroy. Valie percebia minha inquietação e observava a minha constante ladainha. Eu era um paciente insuportável, mal-humorado que queria ir embora. Eu odiava meu estado e forçava-a a ajudar-me a levantar. Perguntei muitas vezes onde estavam minhas coisas, até que Valie colocou minha calça e minha camisa sobre a cadeira. Estavam ali, prontas como uma perspectiva do que estava por vir.

Valie trouxe-me uma tesoura, minha barba já chegava ao peito. Cortei tufos crespos. Quando mais tarde ela veio com um pincel de barba e uma navalha, e calmamente os pôs em movimento, eu tive certeza de que Valie tinha feito a barba de seu marido da mesma forma. Sentado em meio à barba cortada, toquei no assunto.

- Sim, havia um aqui - disse ela. - Mas ele não vai voltar mais.

- Por que não?

- Ele foi para longe. - A navalha passava pela minha bochecha.

- No campo? - Estufei a bochecha um pouco.

- Ele não está com saúde.

- Ferido?

Ela falava pausadamente e cheia de saudade.

- Eu só sei que o senhor Hirschbiegel precisou ir para um hospital em Munique. Sua esposa escreveu para mim. Isso foi antes da guerra.

Pensativa, sem pressa, Valie falou sobre seu amor por esse alemão, que durara muitos anos. Depois daquela carta não chegara mais nenhuma notícia. Valie não sabia se o monsieur ainda estava vivo.

Eu suspeitara muito de seus motivos, mas não podia imaginar isso. Enquanto a lâmina deslizava sobre o queixo e o pescoço, o fantasma de Leibold que sempre espreitara por trás de Valie, desapareceu definitivamente.

Ela devolveu-me meu antigo rosto. Em resposta a minha insistência, trouxe um espelho. Foi uma visão fantasmagórica. O tratamento dos Rottenfúhrer providenciara para que meu queixo pendesse para o lado. A mandíbula inferior estava livre de dentes, os buracos eram visíveis. Quebraram meu nariz, o nariz fino e reto agora era corcunda. Devo ter me machucado no pescoço durante a queda; uma cicatriz traçava seu caminho da orelha até a clavícula.

Em alguns lugares do crânio a casca de sangue desalojara o cabelo; tufos escassos surgiam ali novamente. Eu perdi peso; rugas profundas desenhavam-se na testa, sacos roxos pendiam sob os olhos. Meu aniversário de vinte e três anos não estava longe. Mas o sujeito que olhava para mim do espelho parecia muito mais velho.

Tiramos a tala direita, a fratura dos ossos já devia ter sarado. Tirei as pernas da cama, coloquei o braço sobre o ombro de Valie, apoiei o pé no chão e levantei-me. Eu havia contado com a possibilidade de não ter forças e mesmo assim assustei-me. Minha perna comportava-se como um pedaço de carne sem vida. Senti o joanete sobre os azulejos, senti que meu joelho se dobrava, mas mesmo assim a perna era inútil. Quase caí. Valie manteve-me de pé. Começou a carregar-me pelo quarto. A perna com a tala servia de apoio, a outra eu simplesmente arrastava. Andamos em círculo. Eu era pesado demais, logo ela respirava com dificuldade. Depois de alguns minutos, ela levou-me de volta para a cama. Eu estava exausto. Talvez eu ainda tivesse que ficar aqui por semanas.

Pedi outros livros a Valie, ela prometeu providenciar alguns. Na mesma noite, trouxe um romance em alemão. Ele pareceume familiar. Depois de algumas evasivas, ela admitiu ter retirado o livro do apartamento de Hirschbiegel. Ela possuía uma chave.

- Então eu poderia entrar? - perguntei eu, alegre.

- Não gosta mais da minha casa, boche? - Pela primeira vez ela usou o apelido como xingamento.

Haviam se passado doze semanas, desde a minha queda do telhado para a proteção de Valie. Ela cuidou de um destroçado, escondeu um fugitivo. Como eu poderia retribuir? Quando numa noite eu folheava o atlas mais uma vez, notei que uma página havia sido retirada. O Pacífico e a Oceania estavam separados do resto do mundo. Por alguns instantes, estudei ilhas com nomes de Onotoa ou Nanunmanga, passei o dedo pelo arquipélago de Fiji. Segui o curso da linha internacional de fuso horário, a Oeste da qual sempre era um dia mais tarde do que a Leste. Finalmente, peguei a folha solta, alisei-a e comecei a dobrá-la. Tive que destruir minha criatura duas vezes, na terceira consegui fazer um pássaro. Cada uma de suas asas era azul. A cabeça era formada pela costa da Nova Zelândia, seu rabo era ornado pelas Ilhas Gilbert. Escrevi no rodapé Para Valie e esperei pela noite.

- Para a despedida? - perguntou ela.

Eu estava comendo feijão. Ela sentou-se no banquinho ao lado da cama e fitava a criatura de papel em seu colo.

- Como pretende passar pelas barreiras? - Em sua mão o cisne inútil flutuava pelo ar.

- Como fiz até então - respondi e percorri o trajeto rapidamente na cabeça. Paisagens no primeiro lampejo da primavera. Árvores cheias de flores, o véu verde sobre os campos. Era final de março. Eu sabia que eles tinham designado um quarto de milhão de homens para o fortalecimento da Muralha do Atlântico. Em cada quilómetro da linha costeira encontravam-se dez bunkers. Dunquerque, Lê Havre, Cherbourg, St. Maio, Bresteas Ilhas do Canal foram declarados fortalezas. Tanques do tipo Sturmges- chute15 e Jãgereinheiten.16 A maiioria dos soldados estava acampada no território que eu queria atravessar. De muletas, sozinho, sem dinheiro e sem documentos. À- procura de Chantal.

Valie agradeceu e saiu. Durante a noite permaneci deitado, mas acordado, apanhava o futuro com palavras e relatava a mim mesmo, o que estava por acontecer. Eu esperava que Chantal pudesse me ouvir.

A tala fora presa sobre a perna da calça. Nós nos abraçamos, eu acariciava suas costas quentes, sentia a respiração profunda da mulher que salvou minha vida. Provavelmente, não nos veríamos mais. E mesmo assim, Valie e eu falávamos sobre mais tarde, planejávamos onde iríamos nos encontrar quando tudo tivesse acabado. A muleta presa debaixo da axila, abri o portão. Não nos beijamos. Quando saí mancando pela rue de Faillard, o toe toe da batida da tala na calçada ressoou alto.

Saí da cidade na manhã cinza juntando-me a um grupo de cerca de cem homens que estava a caminho do trabalho. Depois do bois, consegui carona num caminhão de verduras. O motorista não fez perguntas. Eu usava um terno marrom e sapatos com solas com pregos, pois Valie deduzira que eu teria que percorrer a maior parte do caminho a pé. Ela também me arranjara um casaco.

A sorte me abandonou depois de Poissy. Um aguaceiro deixou intransitável a estrada que tinha sido transformada num deserto de cascalho por tanques alemães; o caminhão atolou. Com a ajuda de tábuas, o verdureiro e eu tentamos colocar o veículo em terreno onde pudéssemos passar. Assim eu arruinei meu terno no primeiro dia. Quando a chuva acalmou,, o motorista tomou o caminho para o vilarejo para buscar um carro de bois. Nos despedimos; continuei minha viagem a pé poucos quilómetros depois de Paris.

A muleta de madeira afundava no chão lamacento. Na primeira noite, dormi protegido por um grupo de salgueiros, perto do riacho.

 

15 Sturmgeschútz: tanques usados para dar suporte à infantaria. (N. da T.)

16 Jãgereinheiten: tanques projetados para destruir tanques inimigos. (N. da T.)

 

Bebi água e comi uma parte das provisões que Valie embrulhara para mim. Apesar de sentir frio, foi uma experiência inacreditável, depois de semanas no quarto dos fundos, dormir sob um céu tempestuoso. Fechei os olhos, extasiado. Repassava na mente nomes de ervas, cogumelos e frutas silvestres comestíveis, até me lembrar que em abril não acharia nada daquilo. No fim, eu chegaria a Balleroy, e não me importava quanto tempo levaria. Eu tentava imaginar a surpresa e a alegria de Chantal. Eu queria esperar o fim da guerra ao seu lado, trabalharia nos campos, ajudaria na colheita, até que pudéssemos começar nossa nova vida.

Inúmeros batalhões passaram durante a manhã pela estrada que eu tomara. Nenhum dos homens nos caminhões se preocupou com o manco à beira da estrada. Mesmo assim, decidi então prosseguir minha viagem por caminhos que cortavam as plantações e os campos. Eu tinha arrancado do atlas o mapa do Norte da França.

Na segunda noite, descobri, num vilarejo chamado Thière, que eu avançara apenas alguns quilómetros. Desviara-me muito para o Sul. Exausto, de baixo-astral, arrastei-me para um celeiro, deitei sobre o casaco e cobri-me com palha. Acordei no escuro com frio, vesti o casaco e enfiei-me mais a fundo no feno.

O tempo mudara. Ficara úmido e instável, as noites geladas. Meu terno amanhecia congelado quando eu dormia ao relento. Minhas provisões acabaram depois de três dias. Eu não queria roubar.

Nesses dias havia muita gente duvidosa a perambular, pessoas como eu. Defrontava-me com a desconfiança, aonde quer que eu fosse. Ninguém me convidava para uma refeição ou me oferecia abrigo por livre e espontânea vontade. Depois que eu tentei fazer amizade pela terceira vez com um cachorro de uma fazenda, que me seguia até a corrente não deixar mais, peguei o que eu precisava. Roubei os restos de pão do cocho dos cavalos. Arranquei do chão as primeiras cebolas da primavera e as comi cruas. Às vezes, eu torrava pão e cebolas num espeto de madeira. Um fazendeiro sentiu o cheiro da fogueira do meu acampamento e espantou-me com tiros de espingarda. Nesse meio-tempo, eu já usava a muleta com tanta habilidade, que até mesmo homens com pernas sadias não conseguiam me alcançar.

Nunca na minha vida havia tirado leite de vaca. Depois de algumas tentativas passei a dominar a técnica até no escuro. Sabia como acalmar uma vaca, como desviar de seu coice. Esgueirava-me para o galinheiro e roubava os ovos enquanto a vila toda dormia. Uma noite, atrevi-me até a pular a janela aberta de uma casa. Eu arrombei a câmara de defumação e peguei um pedaço de toucinho. O cachorro latia tão perto de mim que deixei o toucinho cair e saí correndo. Mais tarde, fiquei com raiva de mim mesmo. O que era uma mordida na perna perto do prazer de um toucinho bem temperado?

Depois de uma noite especialmente fria - eu já estava há quase três semanas na estrada -, um tremor febril obrigou-me a ficar deitado na palha numa manhã e lá permanecer durante três dias sem alimento. Na quarta manhã, acordei recuperado; eu sentia a primavera em minhas articulações, saí do celeiro e aqueci-me ao sol. Como a invasão já era uma certeza, os alemães não esperavam mais pelo inimigo no interior do país. Entre os franceses e os ocupadores a maioria das coisas se resolviam por si só. O cessar fogo de ambas as partes era quebrado somente por ataques de guerrilheiros e por ações de represália que se seguiam a estes. Eu mesmo não vi nenhuma dessas execuções, mas a mulher de um padeiro contoume como um vilarejo inteiro fora exterminado, depois que dois soldados alemães sobre uma moto foram pelos ares.

Eu continuava a evitar estradas vigiadas. Deduzira que encontraria o primeiro batalhão já próximo ao mar, e surpreendi-me com a enorme movimentação de tropas. Eu observei carregamentos de combustível para divisões de tanques, transporte de batalhões, tanques de transporte acoplados que carregavam armações de aço de vários metros. Passei por estradas recém-niveladas. Vi pontes explodidas, que dificultariam a entrada do inimigo para o interior do país. Com minha estaca de madeira, passei ao lado de campos minados pelos pioneiros alemães. Desviei de postos de controle na estrada, quando conseguia identificá-los a tempo. Passei por um controle desses com muita sorte, pois peguei a muleta, pus sobre o ombro, como se fosse uma pá, e juntei-me a um grupo de trabalhadores.

Procurei uma fazenda isolada depois da vila Heudebouville. Consegui ver a família rapidamente; os fazendeiros já eram mais velhos, cinco ou seis crianças, dois empregados. Normalmente, as pessoas nas fazendas dormiam com as galinhas, mas aqui as luzes ainda permaneciam acesas mesmo sendo tarde da noite. Do meu posto de vigia, atrás de uma árvore, eu desejava poder por fim caminhar até o local onde estava a palha sem ser percebido. O cachorro era um velho vira-lata que latia sem motivo. Os moradores não se incomodavam mais com ele.

Finalmente, a última janela ficou escura. Eu corri para o portão da cerca e abri-o, o suficiente para poder passar. O cachorro choramingou. Cheguei ao mezanino por uma escada, fiz um forro com o meu casaco, cobri-me com a palha apanhada com pressa. Imediatamente, meus olhos se fecharam.

O céu estava escuro. Eu acordei por causa de gritos, não entendi a língua de imediato. Já queria me arrastar até a parede de tábuas, quando o barulho começou. Uma janela bateu. Passos, gritos na casa. Em algum lugar, uma porta foi escancarada, choro de criança, berreiro. Vi por uma fenda a luz das lanternas a tremeluzir. Um tiro, gritos terríveis. Raios de luz chegaram até a palha, partículas de poeira brilhavam no ar. Chamados.

- Tem mais um aqui!

Um casaco de couro, uma capa cinza. Eu estava plenamente acordado e ao mesmo tempo atordoado. Não conseguia me mexer. Gestapo, pensei no momento.

- Saia. - O homem não falava alemão, mas sim o dialeto da região. O cano de uma pistola, modelo antigo. Quando tentei pegar minha muleta, ele atirou. A bala acertou o monte de palha. Eu gritei numa angústia mortal, apontei para a tala na minha perna. O homem viu a muleta e jogou-a para baixo. Desci a escada para o relento, com cuidado. Eu tinha esquecido o meu casaco.

Do portão, vi dez homens, franceses; eles estavam agregando a família. Fogo atrás de uma janela. A avó e a fazendeira estavam com as crianças pequenas, os meninos intimidados, sonolentos, mantinham-se perto do pai. Um empregado perplexo, de cócoras, o outro estava sendo trazido. Eu não conseguia despertar totalmente do sono, sentia um medo doentio, paralisante. Eu era empurrado para a frente, com as mãos na nuca. Não entendia o que estava acontecendo. Os sujeitos armados eram franceses, falavam a língua da região dos camponeses.

O velho, de cueca e jaqueta de pele, foi levado ao monte de esterco. Uma ordem aos gritos, dois apontaram e atiraram. Os gritos das mulheres vieram em uníssono. Enquanto o homem pesado ainda caía ao chão, buscaram seu pai. Ele passou com as pernas rígidas por cima do cadáver de seu filho. As mulheres não gritavam mais; as crianças estavam paradas, com os olhos arregalados. O homem velho morreu com um suspiro. O próximo da fila era o empregado mais velho. Ele se defendia, gritava. Uma bala atingiu-o na têmpora.

Então, o homem com a capa empurrou-me na direção do monte de esterco. As mãos ainda para o alto, perdi o equilíbrio e caí. O cheiro do estrume numa intensidade absurda. Fui puxado para cima, tive que passar pelas mulheres. Olhares perplexos, ninguém me conhecia. Quase não havia mais espaço entre os mortos para ficar em pé. Nenhum ruído. Virei-me, queria falar, só consegui gaguejar. O segundo empregado foi colocado ao meu lado. Três armas foram apontadas à luz dos archotes. Eu vi uma mão esticada, apontava para o homem ao meu lado. Ele distendeu os músculos. Eu só me dei conta do tiro quando o empregado caiu, a mão levantada como que para se proteger. Ouvi sussurros, era minha própria respiração. Tudo permanecia quieto. Recarregaram, levantaram os canos dos fuzis.

- Não - disse alguém.

Ele era jovem, sua camisa tinha um rasgo na gola. Deu alguns passos na minha direção, sem passar por cima dos cadáveres. Era pouco mais velho que eu, os óculos davam-lhe um ar cativante. Ele me examinava.

- Você não é daqui - disse ele.

- Não. - Fitei-o.

- Quem é você?

- Eles queimaram minha vila - disse eu em voz baixa.

- Onde?

Todos esperavam. Minha resposta seria decisiva entre a vida ou a morte. Alguém me dissera o nome de uma vila destruída. Eu não conseguia me lembrar. Deixei os braços caírem, cambaleei sobre a perna ferida.

- O nome do lugar? - perguntou ele sem demonstrar impaciência.

Deixei a cabeça cair, simplesmente não conseguia dizer nada. Comecei a chorar. Dois homens trouxeram o filho mais velho do camponês.

- São traidores - disse o que usava óculos, como se eu tivesse o direito de uma explicação antes da execução. - Colaboradores. Eles estão condenados à morte por serem delatores.

Ele quis se certificar de que eu o compreendera.

- Eu dirijo a brigada Liberation Normandie - disse ele por fim e voltou aos seus homens. Eles miraram. Um dos homens que tinha trazido o rapaz estava bem próximo de mim. Eu vi a sombra de uma coronha de espingarda. Ele me acertou atrás da orelha. O archote.

Tudo estava calmo. Eu mexia as pernas. A cabeça parecia estar presa ao meu corpo. Levantei os ombros. O dia amanhecia. Não havia outra luz. Eu apalpei a nuca, uma crosta de sangue. Eu estava deitado próximo ao monte de esterco.

Os homens não estavam mais lá, os cadáveres haviam sumido. Respingos escuros na parede caiada, poças d’água no solo. Um trapo ao lado da palha. Espiei por cima do cercado do esgoto. A fazenda estava destruída, o fogo apagado. Custou-me um esforço infindável levantar-me. Manquei até a casa, não pensei na muleta. Não encontrei uma alma viva, deixei-me cair no batente da porta. Eu sentia frio, não sabia onde o meu casaco tinha ficado. Depois de alguns minutos, levantei-me novamente. Apenas ir embora. Cada passo era acompanhado de um retumbar interno. Eu tentava manter a cabeça quieta.

Execução, pensei. Não eram alemães. Uma discórdia familiar? Brigãde Liberation, lembrei. O homem de óculos fazia parte da Resistência. Como Chantal. Eu chegara até o portão torto, dei o primeiro passo na trilha. Ouvi o choramingo. Era o cachorro, sua corrente arrastando-se em meio à poeira. Ele andava para lá, para cá, sempre até o final da corrente. Latia, não parava de andar. Farejava, latia. Segurei-me por um momento no pilar. O cachorro era velho, mas mesmo assim eu não confiava nele. Fui mancando até a casinha onde sua corrente estava presa. Quatro pinos batidos através de uma placa metálica. Eu não conseguia soltar a corrente. Vi o monte de terra ao lado. Terra recém-mexida, em formato de retângulo. Ali perto, um casaco de mulher sobre a grama. Os rostos daqueles que estavam debaixo da terra surgiram na minha frente, faces de camponeses à luz do archote. O pai forte, os empregados. O filho mais velho tinha no máximo dez anos. Eu me virei.

Fui até o cachorro. Ele latiu e deu alguns passos para trás. Até que não pôde mais. Agachei-me, minha cabeça latejava. Peguei a coleira, soltei a correia. A corrente caiu no chão. O cachorro permaneceu parado. Levantei-me devagar, não lancei mais nenhum olhar para o monte recém-feito de terra. Liberation. Eu cheguei até o portão pela segunda vez. Traços rosa no horizonte, o caminho ia naquela direção. Caminhei sem a muleta, mantive o equilíbrio com os braços. O cachorro estava parado no portão. Eu esperava que ele fosse me acompanhar. Ele permaneceu no lugar onde seus donos estavam enterrados. Ouvi seus latidos por um longo tempo.

A fazenda ficava para o sul. A colina erguia-se para o horizonte, onde um banco podre sob um freixo prometia revelar uma bela vista. Haviam me descrito a propriedade. Eu me aproximei, com aquele jeito de andar arrastado que eu adotara para caminhar sem muleta.

Era domingo, não havia ninguém nos campos. Algumas pessoas em trajes de boa qualidade na estrada empoeirada. Parecia que a igreja ficava atrás da colina. Apesar de saber que o mar estava a quilômetros de distância, esperava ver a rebentação depois dessa e da próxima elevação. Eu ria. Eu tinha medo. Imaginava ir com Chantal para a beira desse mar, via seus pés descalços na areia. Não muito rápido, disse para mim mesmo, cuidado. Você vai cair. Devagar! Procure um pedaço de pau, foi o que decidi, já que não conseguia me controlar. Eu ia cada vez mais depressa, subia a colina correndo, remando com os dois braços. Um velho casal trajando o preto do domingo virou-se. Eu estava em trapos, sem fazer a barba, a caneleira continuava sendo apenas duas talas de madeira que batiam uma na outra. Minha boca estava sempre um pouco aberta, o maxilar não estava se restabelecendo. Isso não me incomodava. Eu ria alto. Andava tão rápido que fiquei com a vista emaranhada. Um sino batia em algum lugar, pessoas procuravam alcançar o cume da colina, a missa devia ter acabado.

Eu imaginei cem maneiras de como Chantal deveria me cumprimentar. Haviam se passado meses desde Paris. Eu estava certo de que ela me surpreenderia como sempre.

Cheguei na fazenda. A porta lateral estava trancada. Deduzi que Chantal e sua família voltariam logo da missa, e decidi esperar. Algumas pessoas passaram e examinaram-me com curiosidade. Fui abandonado pela paciência, dei a volta pela casa de pedra, cuja parede oeste estava coberta de xisto negro. Cheguei na parte central da propriedade. A grama não crescia, poças lamacentas, o cheiro de esgoto recendia do lado de fora da cerca. Quatro porcos no chiqueiro de tábuas tortas; estavam deitados ao sol, com preguiça. De repente me dei conta do mendigo que eu era. Será que me enxotariam daqui? Não havia cachorro, isso me tranqüilizava. Só os porcos farejando na sujeira.

A porta de trás se abriu, uma mulher velha olhou para fora e desapareceu em seguida. O rosto de uma jovem no andar de cima; quando eu a notei, ela se afastou da janela. Do lado de dentro, a velha falava com alguém que estava no interior do cómodo. Dei alguns passos com cuidado, mantive as mãos levantadas, um pouco para o lado, para mostrar que eu estava desarmado. Ouvi choro de criança quando a porta se abriu pela segunda vez. Luz no fim do corredor, de lá uma sombra se aproximava.

Père Joffo pisou no pátio. Seus cabelos estavam brancos, o vento caminhava entre seus fios. O vulto forte do varrão transformara-se num animal lívido e curvado. Ele me reconheceu apesar da minha desfiguração. Estávamos parados frente a frente no pátio exposto ao vento como dois estranhos.

- De onde? - ele perguntou, atónito.

- Paris.

- Quem sabe que você está aqui? - A voz desapareceu no vento.

- Ninguém. - Eu me aproximei. Seu olhar recaiu sobre a tala. — Ninguém me seguiu — reforcei.

A janela do primeiro andar foi aberta. A jovem trajando um vestido claro tinha uma leve semelhança com Chantal. Joffo notou-a.

- É Roth - disse ele depois de uma breve hesitação.

Ela assustou-se por um instante, movimentação na casa. A velha surgiu no corredor. Meu nome mudava alguma coisa; não era simpatia, apenas curiosidade. A criança chorou de novo. A jovem desapareceu da janela. Com um gesto indeciso Joffo apontou para uma mesa gasta pela chuva, que estava sobre o único local verde diante da casa. Sentei-me, esticando minha perna com esforço; a marcha sobre a colina me deixara exausto. Joffo sentou-se no banquinho em frente. A camponesa ficou perto da porta. Eu estava com sede, mas não disse nada. A jovem apareceu no térreo, um embrulho nos braços. Uma criança enrolada em linho. Somente o topete escuro era visível.

- E Chantal? - Eu não conseguia mais segurar a pergunta. Joffo olhou para a criança. Eu segui seu olhar.

- Ela está aqui?

- Não - disse ele. - Ela não está mais aqui.

Quase caí para frente de decepção.

- Quando o senhor espera que ela volte?

Joffo estava sentado quieto, apenas o cabelo se movimentava. Eu entendi que ele não iria dizer que ela voltaria logo, que tinha ido à igreja ou ao bosque; Chantal estava longe, eu sentia. Talvez com um outro grupo, na costa, lutando na clandestinidade. Tantas semanas, o longo caminho! Eu tinha seguido um traço infantil. Chegara a Balleroy, mas não ao meu destino. Coloquei as mãos sobre a mesa, uma sobre a outra.

- O senhor quer comer e beber? - perguntou uma voz suave. A jovem deitou a criança na sombra. Ela tinha olhos maiores que os de Chantal e cabelos escuros. O andar era parecido.

- A senhorita é irmã dela? - perguntei.

- Prima. - Ela permaneceu séria.

- Seu bebê? - Agora eu podia ver melhor a criança. Cabelo preto, um rosto enrugado, os olhos eram dois traços adormecidos.

A jovem não respondeu.

- Que idade tem? - perguntei.

- Três semanas.

- Vai ficar para comer? - perguntou Joffo.

- Sim, obrigado. A mulher entrou.

A avó sentou-se no banco encostado na parede da casa e observou como a jovem me servia. Eu comi pão e creme de natas, mais algumas cenouras. Bebi sidra velha. Estava azeda e deixava os pensamentos mais claros. Eu não era um hóspede nessa casa, toleravam-me como alguém que estava de passagem. Eles notaram a dificuldade com que eu mastigava. O lado esquerdo do maxilar movimentava-se inutilmente. Eu mordiscava a cenoura como um cão velho.

- Para onde vai? - Joffo confirmou meu receio.

- Para onde Chantal estiver - era a única resposta. – Onde ela está? Eu a encontrarei.

A prima deu um passo na minha direção, como se quisesse falar. Joffo pediu silêncio com um gesto. Ele se levantou, andou acompanhando o comprimento da parede da casa. A sombra da pereira encontrava-se uma porta para o porão. Ele levantou a tampa e desapareceu. Eu e a velha, a criança, a jovem permanecemos mudos. Eu mordia o pão. A prima de Chantal encheu meu copo mais uma vez.

Joffo voltou com uma garrafa de aguardente. A velha entrou e trouxe dois copos. Joffo serviu-nos. A jovem sentou-se no chão, do lado da criança, projetava uma sombra sobre o rosto do bebê com sua própria mão. Joffo olhou para o sol. Nesse momento ele era de novo o javali com os olhos estreitos. Esvaziamos nossos copos.

Os alemães entraram com tropas em Balleroy de forma inesperada. Um batalhão dizimado do sul, a caminho de Pas-de-Calais. Eles queriam abrigo e cuidados, abrigaram-se em três fazendas.

- O capitão era correto - disse Joffo. - Um homem com o qual se podia conversar. A tropa se ajeitou no celeiro, ele e os oficiais na casa.

Encheu novamente os copos, bebeu, eu esperei.

- Chantal e Jeanne estavam arrumando os quartos. - Ele ergueu a cabeça para a sobrinha. Sua atenção pertencia à criança.

- As duas dormiam no quartinho, colado ao celeiro. Demos provisões, as mulheres cozinharam. Os soldados eram quietos; estavam a caminho do front. Nós pensamos - todos na vila pensaram - que depois de dois dias tudo voltaria ao normal.

Uma cenoura rolou da mesa. Joffo pegou-a do chão e colocou-a ao lado do meu prato. Ele bebeu um terceiro copo. Eu tinha parado de comer. Atrás de nós uma gralha grasnava.

- Na noite anterior à partida um dos tenentes descobriu o porão debaixo do galinheiro - Joffo apontou para o lado sul, onde nogueiras jovens eram curvadas pelo vento. - Lá tínhamos escondido o que eles não podiam achar. - Ele deu de ombros. - Provisões para um ano, armas. O capitão confiscou as armas, mas proibiu o saque. Todos se serviram do vinho. Os oficiais se embebedaram com os soldados.

A velha sentou-se ao lado de Joffo. Seu olhar passava por mim em direção à colina. Ele se calou por um momento.

- À noite, o tenente foi até o quartinho das mulheres. Sem notar Jeanne, ele atacou Chantal. Jeanne saiu e me acordou. Eu peguei um pedaço de pau e corri até lá. Quando cheguei ao quartinho já era tarde.

Joffo passou a mão pela testa.

- O tenente morreu, sangrava de várias feridas. Chantal arrancara-lhe o punhal do cinturão e o esfaqueara. Eu disse para ela procurar um lugar seguro. Chantal estava sentada sobre a cama ensangüentada e fitava o punhal. Ela queria fugir. Mas os gritos de Jeanne acordaram os alemães.

Joffo levantou-se e foi até o meio do retângulo.

- O capitão ordenou que a trouxessem até aqui. Aqui. - Ele baixou a cabeça. - Estávamos todos ao relento. Meu pai estava com a criança adormecida nos braços. Meu irmão, as mulheres, dois empregados. Chantal estava em pé na frente do capitão. Aquela noite estava fria. Ela tremia. Sem hesitar por um segundo, sem uma única palavra, o capitão puxou a pistola, jogou Chantal no chão e acertou-lhe a nuca. - Os dedos de Joffo apontavam para o local.

Ele voltou à mesa. - A criança acordou por causa do tiro e começou a chorar. - Ele parou na minha frente, fitou a mesa gasta. A velha mulher estava sentada, ereta.

- Colocaram meu irmão na parede e um empregado que estava na fazenda por acaso. Por fim, os soldados avançaram na direção do meu pai. Cuidadosamente ele entregou a criança a Jeanne, e foi para o lado dos outros. Todos foram executados ao mesmo tempo.

Joffo sentou-se, colocou uma das mãos sobre a outra.

- Dez franceses mortos por conta de um alemão morto - disse ele. - Essa é a proporção. Mas o capitão ficou satisfeito. O dia já estava amanhecendo, ele ordenou a partida. Quando o sol nasceu o batalhão já tinha deixado Balleroy para trás. Meu pai completaria hoje oitenta anos.

Eu me surpreendi fazendo as contas. Quantos dias, quantas semanas? Se eu tivesse partido antes, passado pelas estradas principais, eu teria deixado, diariamente, longos trechos para trás - menos do que uma semana, calculei, atrasara-me apenas quatro dias.

Joffo entrou na casa e voltou com o punhal. Colocou-o sobre a mesa.

- Ninguém lembrou de levá-lo.

Eu hesitei. Finalmente puxei a lâmina da bainha cinza-escuro. O sangue fora lavado. Eu baixei o olhar para o aço.

- Ela já foi enterrada?

A prima respondeu no lugar de Joffo.

- Quer ver?

Passei a mão pelo fio da navalha. Junto às nogueiras surgiam nuvens. O vento emudecera de vez. Já sabia de tudo e não compreendia nada.

- O que vai fazer? - perguntei.

- Continuar vivendo - disse o livreiro.

- Para nós ficou a criança. - A velha ainda olhava para a colina. Eu esvaziei meu copo. A cachaça era forte. Eu fitei a criatura embrulhada em linho.

- Como se chama?

- Seu nome é Antoinette - respondeu Joffo.

Virei-me. Levantei-me devagar; as talas batiam umas nas outras. Fui mancando para baixo da árvore e curvei-me. A criança dormia, aflita, como se dormir fosse um esforço. Eu queria tocar uma das mãozinhas, não me atrevi.

- O bebê de Chantal? - perguntei. Meus joelhos tremiam. Ninguém disse uma palavra.

Eu fitei o rosto pequenino.

- E o parto?

- Fácil - disse a velha.

Lembrei-me de Chantal no vestido verde-claro, Chantal na rue Faillard. Eu olhei diretamente para o sol, mergulhei na claridade. Acariciei a cabeça pequena. Ela repuxou o rosto.

- Antoinette - disse eu em voz baixa.

Mais tarde, Jeanne ajeitou um lugar para mim no celeiro. Eu estava sentado sobre um cobertor de palha. Raios de sol brincavam com a poeira. Fitava minhas mãos, o dedo que faltava, a perna com a tala. Pela segunda vez puxei o punhal da bainha. Coloquei a ponta sobre meu peito. Coberto pelo casaco, não sentia muito. Abri a camisa. Pressionei o punhal contra minha pele. Vi como ela se distendeu, rompeu-se, vazou uma gota de sangue. Deitei o punhal ao meu lado. De repente a palha estava com o cheiro do cabelo de Chantal. Inalei o perfume, estiquei a mão para os pontos luminosos dançantes. Gritei e ao mesmo tempo tampei minha boca. Eu gritava para a minha mão. Saliva corria pelas dobras da palma da mão. Anoitecia, eu ainda olhava para o lado de fora. Chantal e Antoine. Quando fugimos da batida policial. Nos beijamos às vistas de Leibold. Quando ela estava sobre mim na rue Faillard. Seus cabelos, seus seios. Nunca mais. Nada.

À noite, voltei para a casa e comi com a família. Eu estava sentado como todos os outros e mastigava. Ninguém acendeu a luz. A escuridão que tomava conta do recinto nos unia. Mais tarde, eu quis ver a criança. Jeanne levou-me até o quarto. Eu tirei a menina do berço e coloquei-a contra o meu peito. Antoinette não acordou. Eu a apertei. Sua respiração no meu pescoço. Ela emitiu um grito. Jeanne quis acalmar a criança. Permaneci com ela. Embalei Antoinette, até que ela adormecesse novamente.

Permanecer, era o que desejava nessa noite. Em Balleroy, perto do mar. Ficar aqui, e a guerra lá longe. Antoine e Antoinette. Quando eu já estava deitado na palha, pensei na palavra pai. Eu não tinha nenhum sentimento em relação a ela.

No dia seguinte, permitiram que eu passeasse com Antoinette. Mas quando pisei no gramado, mandaram Jeanne ir atrás de nós. Depois disso, eu quis ajudar Joffo a cortar lenha. Ele largou o machado sem dizer uma palavra e entrou na casa.

Eles deixavam que eu fizesse as refeições com eles. Não perguntavam nada, não queriam saber nada. Eram hospitaleiros e ao mesmo tempo permaneciam distantes. Eu não falava de Paris, também não falava sobre a minha viagem. Desci a colina com Jeanne e a criança e perguntei onde era o mar. Muito longe, ela respondeu, não era possível ir lá agora. Eles construiriam abrigos antiaéreos e cercas. Já fazia tempo que Jeanne não ia à praia. Tomamos o caminho de volta; tiraram a criança dos meus braços e levaram-na para dentro da casa.

- É minha filha - disse eu nessa noite deitado na palha. - Eles querem cultivar o luto sem mim, eles querem tirá-la de mim. — Confuso, ri para o teto. - Ela faz com que sejamos parentes!

No dia seguinte, pedi para Jeanne mostrar-me o túmulo. Levamos Antoinette conosco. A caminho do cemitério, passamos pela vila. Ninguém estava na rua, mas eu sabia que me observavam. Eu era o boche, eles tinham ouvido falar de mim. A janela da segunda casa da vila estava aberta. O rádio tocava. O vento espalhava a melodia, que às vezes soava mais alta, às vezes soava mais baixa. Alguém cantava, eu entendia só algumas palavras, mas eu conhecia a melodia. Chevalier cantava animado e desavergonhado Avril prochain -je reviens. Eu queria me aproximar, mancava com mais pressa, a cerca bloqueou meu caminho. Surpresa, Jeanne seguiu-me com a criança no colo. Quando chegou até mim, a música já havia terminado.

O monte de terra fora recém-mexido, nenhuma placa sobre ele, somente uma cruz de pedra. Poucas flores. Eu tentei me ajoelhar, a tala da perna me impediu. Antoinette começou a chorar, o sol estava forte. Um monte de terra, outros túmulos ao lado. Tudo isso não tinha nada a ver com Chantal. Tomamos o caminho de volta. O mês de junho estava mais quente que de costume. Na volta pensei: você não pode ficar. Eles não vão deixar.

Eu passava os dias no celeiro. Vinha somente para comer e para ver a criança. Numa noite, fiquei na casa e contei sobre as execuções em Heudebonville. Joffo balançou a cabeça.

- Não existe nenhuma brigada que se chama Liberation Normandie - disse ele. - Somente bandos que se aproveitam do fato de os alemães estarem saindo do interior do país.

- Não eram bandoleiros - retruquei. - Foi uma ação planejada. A velha saiu. Jeanne estava curvada sobre a criança.

- Então, o camponês era mesmo um colaborador - disse Joffo.

- Penalidades são necessárias.

- Comunistas? - perguntei. Ele não respondeu.

Dias depois, ele me chamou para o pátio. Antoinette estava deitada à sombra.

- Quando vai partir? - perguntou ele, sem um discurso introdutório.

Eu queria retorquir, mas não o fiz. Perguntei pela criança.

- Como sabe que você é o pai? - replicou com uma expressão petrificada.

Eu apenas o fitei.

- Talvez, depois que tudo passar... Calei-me.

- Antoinette é francesa, sua família está aqui - disse o livreiro. - É impossível levar a criança com você. E você também não pode ficar.

Olhei para a colina.

— O mar é muito longe?

Ele olhou para minha perna.

- Muito longe para você.

- Eu gostaria muito de ver.

Ele passou a mão pela testa.

- Está certo - disse simpático. -Amanhã, talvez amanhã.

No dia seguinte, levei Antoinette pela última vez ao gramado.

Conversei com ela e contei-lhe sobre sua mãe. Dormimos juntos sobre a grama. Ela acordou inquieta, um choro silencioso, sufocante. Eu a peguei, acariciei suas costas e comecei a cantar. Sobre a moça que eu amei, na cidade, em abril. As palavras me faltavam, emudeci logo. Antoinette olhava-me atenta. Eu dizia que precisava ir e que seria melhor se ela me esquecesse. Eu disse isso por minha causa. Mais tarde, entreguei a criança a Jeanne, recebi uma trouxa de provisões da velha e botas de Joffo. Não se falou mais sobre o passeio até o mar.

Eu parti ao raiar do dia, tão estrangeiro como chegara. Levei comigo o punhal com o qual Chantal havia se defendido. Poucos quilômetros depois de Balleroy, surgiram navios na névoa da manhã; as primeiras tropas tentavam pisar em solo firme. Era o dia seis de junho. Eu não sabia o que era aquilo. Eu estava a caminho. 

 

                                                                                Michael Wallner 

 

 

                      

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