Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AMANTE ESCURO / J. R. Ward
AMANTE ESCURO / J. R. Ward

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Irmandade da Adaga Negra

AMANTE ESCURO

 

Nas sombras da noite, em Caldwell (Nova Iorque) se desenrola uma sórdida e cruel guerra entre os vampiros e seus carrascos. A Irmandade e seus caçadores e os assassinos. E existe uma Irmandade Secreta de seis vampiros guerreiros, os defensores de toda a sua raça. Nenhum deles deseja aniquilar a seus inimigos com tanta ânsia como Wrath, o campeão da Irmandade da Adaga Negra.

Wrath, o vampiro de raça mais pura dos que povoam a terra, tem uma dívida pendente com aqueles que, há séculos, mataram seus pais. Quando morre um de seus mais fiéis guerreiros, deixando órfã uma jovem mestiça, ignorante de sua herança e seu destino, não resta a ele outra saída senão levar a bela jovem para o mundo dos não mortos.

Traída pela debilidade de seu corpo, Beth Randall se vê impotente para resistir aos avanços desse desconhecido, incrivelmente atraente, que a visita toda a noite, envolto nas sombras. Suas histórias sobre a Irmandade a aterrorizam e fascinam... E seu simples toque provoca chispas de um fogo que pode acabar consumindo a ambos...

 

 

Darius olhou a seu redor no clube, e se deu conta, pela primeira vez, da multidão de pessoas semidesnudas que se contorciam na pista de dança. Aquela noite, o Screamer's estava lotado, repleto de mulheres vestidas de couro e homens com aspecto de ter cometido vários crimes violentos.

Darius e seu acompanhante encaixavam à perfeição. Com a exceção de que eles eram assassinos de verdade.

— Realmente pensa fazer isso? — perguntou-lhe Tohrment. Darius dirigiu seu olhar para ele. Os olhos do outro vampiro se encontraram com os seus.

— Sim. Isso mesmo.

Tohrment bebeu um gole de seu uísque escocês. Um sorriso lúgubre apareceu em seu rosto, deixando entrever, fugazmente, as pontas de suas presas.

— Está louco, D.

— Você deveria compreendê-lo.

Tohrment inclinou seu copo com elegância.

— Mas está indo muito longe. Quer arrastar com você uma garota inocente, que não tem nem ideia do que está acontecendo, para submetê-la a sua transição em mãos de alguém como Wrath. É uma loucura.

— Ele não é mau..., apesar das aparências. — Darius terminou sua cerveja. — E deveria mostrar-lhe um pouco de respeito.

— Respeito-o profundamente, mas não me parece boa ideia.

— É preciso.

— Está seguro disso?

Uma mulher com uma minissaia diminuta, botas até as coxas e um corpete confeccionado com correntes passou junto a sua mesa. Sob as pestanas carregadas de rímel, seus olhos brilharam com um incitante lampejo, enquanto rebolava como se seus quadris tivessem uma dupla articulação.

Darius não prestou atenção. Não era sexo o que tinha em mente nessa noite.

— É minha filha, Tohr.

— É uma mestiça, D. Já sabe o que ele pensa dos humanos. — Tohrment moveu a cabeça. — Meu tataravô o era, não me vê precisamente alardeando isso na frente dele.

Darius levantou a mão para chamar à garçonete e apontou sua garrafa vazia e o copo de Tohrment.

— Não deixarei que morra outro dos meus filhos, pelo menos se houver uma possibilidade de salvá-la. De qualquer modo, nem sequer estamos seguros de que vá mudar. Poderia acabar vivendo uma vida feliz, sem saber jamais de minha condição. Não seria a primeira vez que acontece.

Tinha a esperança de que sua filha se livrasse daquela experiência. Porque se passasse pela transição e sobrevivesse convertida em vampiresa, a perseguiriam para caçá-la, como a todos eles.

— Darius, se ele se comprometer a fazê-lo, será porque está em dívida com você. Não porque o deseje.

— Eu o convencerei.

— E como pensa enfocar o problema? Pode se aproximar numa boa da sua filha e lhe dizer: Ouça, sei que nunca me viu, mas sou seu pai. Ah, e sabe algo mais? Ganhou o grande prêmio na loteria da evolução: é uma vampiresa. Vamos a Disneylândia!

— Neste momento odeio você.

Tohrment se inclinou para frente; seus grossos ombros se moveram sob a jaqueta de couro negro.

— Sabe que o apóio, mas penso que deveria reconsiderar. — Houve uma incômoda pausa. — Talvez eu possa me encarregar disso.

Darius lançou-lhe um frio olhar.

— E acredita que poderá retornar tranquilamente para sua casa depois? Wellsie cravaria uma estaca no seu coração, e o deixaria secar ao sol, meu amigo.

Tohrment fez uma careta de desagrado. — Bom argumento.

— E logo viria a mim. — Ambos os machos estremeceram — Além disso... — Darius se inclinou para trás quando a garçonete serviu as bebidas. Esperou que partisse, embora o rap soasse estrondosamente a seu redor, amortecendo qualquer conversa. — Além disso, são tempos difíceis. Se algo me acontecer...

— Eu cuidarei dela.

Darius deu uma palmada no ombro a seu amigo.

— Sei que o fará.

— Mas Wrath é melhor. — Não havia nem um sentimento de ciúmes em seu comentário. Simplesmente, era verdade.

— Não há outro como ele.

— Graças a Deus — disse Tohrment, esboçando um meio sorriso.

Os membros de sua Irmandade, um fechado círculo de guerreiros fortemente unidos que trocavam informações e lutavam juntos, eram da mesma opinião. Wrath era uma corrente de fúria em assuntos de vingança, e caçava a seus inimigos com uma obsessão que raiava a demência. Era o último de sua estirpe, o único vampiro de sangue puro que restava sobre o planeta, e embora sua raça o venerasse como a um rei, ele desprezava sua condição.

Era quase trágico que ele fosse a melhor opção de sobrevivência que a filha mestiça de Darius tinha. O sangue do Wrath, tão forte, tão puro, aumentaria suas probabilidades de superar a transição se esta lhe causasse algum mal. Mas Tohrment não se enganava. Era como entregar uma virgem a uma besta.

De repente, a multidão se deslocou, amontoando-se uns contra os outros, deixando passar a alguém. Ou a algo.

— Maldição. Aí vem — balbuciou Tohrment. Segurou seu copo e bebeu de um gole até a última gota do seu escocês — Não se ofenda, mas me vou. Não quero participar desta conversa.

Darius observou como aquela maré humana se dividia abrindo caminho para uma imponente sombra escura que se sobressaía por cima de todos eles. O instinto de fugir era um bom reflexo de sobrevivência.

Wrath media um metro e noventa e cinco de puro terror vestido de couro. Seu cabelo, longo e negro, caía diretamente de uma mecha em forma de M sobre a fronte. Uns grandes óculos de sol ocultavam seus olhos, que ninguém jamais viu. Seus ombros tinham o dobro do tamanho que os da maioria dos machos. Com um rosto tão aristocrático quanto brutal, parecia o rei que na realidade era por direito próprio e o guerreiro que o destino o tinha transformado.

E a onda de perigo que o precedia era sua melhor carta de apresentação.

Quando o gélido ódio chegou até Darius, ele agarrou sua cerveja e bebeu um longo gole.

Realmente esperava estar fazendo o certo.

 

Beth Randall olhou para cima quando seu editor apoiou o quadril sobre a escrivaninha. Seus olhos estavam cravados no decote de Beth.

— Trabalhando até tarde outra vez? — murmurou.

— Olá, Dick.Não deveria estar já em casa com seu mulher e seus dois filhos?, adicionou mentalmente.

— O que está fazendo?

— Redigindo um artigo para o Tom

— Sabe? Há outras formas de me impressionar.

Sim, já imaginava.

— Leu meu e-mail, Dick? Fui à delegacia de polícia esta tarde e falei com José e Ricky. Asseguraram-me que um traficante de armas se mudou para esta cidade. Encontraram duas Magnum manipuladas em mãos de uns traficantes de drogas.

Dick esticou o braço para lhe dar um tapinha no ombro, acariciando-o antes de retirar a mão.

— Você continua trabalhando nas coisas pequenas. Deixa que os meninos grandes se preocupem com os crimes violentos. Não queremos que aconteça algo a esse rosto tão bonito.

Sorriu, entrecerrando os olhos enquanto seu olhar se detinha nos lábios da garota.

Essa rotina de olhá-la fixamente já durava três anos, pensou ela, desde que tinha começado a trabalhar para ele.

Um saco de papel. O que precisava era um saco de papel para colocar sobre a cabeça cada vez que falava com ele. Talvez com a fotografia da senhora Dick colada nele.

— Quer que a leve para sua casa? — perguntou.

Só se caísse uma chuva de agulhas e pregos, pedaço de símio.

— Não, obrigado. — Beth se virou para a tela de seu computador com a esperança de que ele entendesse a indireta.

Por fim, afastou-se, provavelmente na direção do bar no outro lado da rua, aonde se reuniam a maioria dos repórteres antes de irem para casa. Caldwell, Nova Iorque, não era precisamente um foco de oportunidades para um jornalista, mas os «meninos grandes» do Dick gostavam de aparentar que levavam uma vida social muito agitada. Desfrutavam reunindo-se no bar do Charlie para sonhar com os dias em que trabalhariam em jornais maiores e importantes. A maior parte deles eram como Dick: homens de meia idade, comuns, competentes, mas o que faziam estava longe de ser extraordinário. Caldwell era o suficientemente grande e estava muito próxima da cidade de Nova Iorque para contar com crimes violentos suficientes, batidas por drogas e prostituição que os mantinham ocupados. Mas o Caldwell Courier Journal não era o Times, e nenhum deles ganharia jamais um Pulitzer. Era algo deprimente.

Sim, bom, se olhe ao espelho, pensou Beth. Ela era só uma repórter de base. Nem sequer tinha trabalhado, nunca, em um jornal de tiragem nacional. Assim, quando tivesse cinquenta e tantos, ou as coisas mudassem muito teria que trabalhar para um jornal independente redigindo anúncios por palavras e vangloriando-se de seus dias no Caldwell Courier Journal.

Esticou a mão para alcançar a bolsa de M&M que estava guardada. Aquela maldita estava vazia. De novo.

Talvez devesse ir para casa e comprar comida Chinesa para levar.

Enquanto se dirigia à saída da redação, que era um espaço aberto dividido em cubículos por frágeis tabiques cinza, encontrou-se com o contrabando de barras de chocolate de seu amigo Tony. Tony comia todo o tempo. Para ele não existia café da manhã, almoço e jantar. Consumir era uma proposição binária. Se estivesse acordado, tinha que levar algo à boca, e para manter-se aprovisionado, sua mesa era um cofre do tesouro de perversões com alto conteúdo em calorias.

Tirou o papel e saboreou com prazer a barra de chocolate enquanto apagava as luzes e descia a escada que conduzia à rua Trade. No exterior, o calor de julho parecia comportar-se como uma barreira física entre ela e seu apartamento. Doze quadras completas de calor e umidade. Por sorte, o restaurante chinês estava a meio caminho de sua casa e contava com um excelente ar condicionado. Com alguma sorte, estariam muito ocupados essa noite, e ela teria oportunidade de aguardar um pouco naquele ambiente fresco.

Quando terminou o chocolate, abriu a tampa de seu telefone, teclou a marcação rápida e fez um pedido de carne com brócolis. À medida que avançava, os lúgubres e conhecidos lugares foram aparecendo ante ela. Ao longo dessa viela da rua Trade, só havia bares, clubes de striptease e negócios de tatuagens. Os dois únicos restaurantes eram o chinês e um mexicano. O resto dos edifícios, que tinham sido utilizados como escritórios nos anos vinte quando o centro da cidade era uma zona próspera, estavam vazios. Conhecia cada fenda da calçada; sabia de cor a duração dos semáforos. E os sons misturados que se ouviam através das portas e janelas abertas tampouco lhe eram surpreendentes.

No bar do McGrider soava música de blues; da porta de vidro do ZeroSum saíam gemidos; e as máquinas de karaokê estavam a todo volume no Ruben's. A maioria eram lugares dignos de confiança, mas havia alguns deles dos quais preferia manter-se afastada, sobretudo do Screamer's, que tinha uma clientela verdadeiramente tenebrosa. Aquela era uma porta que nunca cruzaria a menos que tivesse uma escolta policial.

Enquanto calculava a distância até o restaurante chinês, sentiu uma onda de esgotamento. Deus, que umidade. O ar estava tão denso que lhe deu a impressão de que estava respirando através de água.

Teve a sensação de que aquele cansaço não era devido unicamente ao tempo. Durante as últimas semanas não tinha dormido muito bem, e suspeitava que estivesse à beira de uma depressão. Seu emprego não a levava a nenhuma parte, vivia em um lugar que não lhe importava nenhum pouco, tinha poucos amigos, não tinha amante e nenhuma perspectiva romântica. Pensando em seu futuro, imaginava dez anos mais tarde estancada no Caldwell com o Dick e os meninos grandes, sempre imersa na mesma rotina: levantar-se, ir ao trabalho, tentar fazer algo novo, fracassar e retornar para casa sozinha.

Talvez necessitasse uma mudança. Ir embora de Caldwell e do Caldwell Courier Journal. Afastar-se daquela espécie de família eletrônica conformada por seu despertador, o telefone de seu escritório e o televisor que mantinha afastados seus sonhos enquanto dormia.

Não havia nada que a retivesse na cidade salvo o hábito. Não tinha falado com nenhum de seus pais adotivos durante vários anos, assim não sentiriam falta dela. E os novos amigos que tinha, estavam ocupados com suas próprias famílias.

Ao escutar um assobio lascivo atrás dela, entreabriu os olhos. Esse era o problema de trabalhar perto de uma zona como aquela. Às vezes, encontrava-se com algum perseguidor.

Logo chegaram as cantadas, e a seguir, como era de esperar, dois sujeitos cruzaram a rua para colocar-se atrás dela. Olhou a seu redor. Estava afastando-se dos bares em direção ao longo vão de edifícios vazios que havia antes dos restaurantes. A noite era nublada e escura, mas pelo menos havia luzes e, de vez em quando, passava algum carro.

— Eu gosto de seu cabelo negro — disse o mais velho enquanto adaptava seu passo ao dela. — Importa-se se o tocar?

Beth sabia que não podia parar. Pareciam meninos de alguma fraternidade universitária em férias de verão, mas não queria correr nenhum risco. Além disso, o restaurante chinês estava só a cinco quadras.

De qualquer modo, procurou em sua bolsa seu spray de pimenta. — Quer que a leve a algum lugar? — perguntou de novo o mesmo moço. — Meu carro não está longe. Sério, por que não vem conosco? Podemos ir todos.

Sorriu abertamente e deu uma piscada a seu amigo, como se com aquele bate-papo meloso fosse levá-la para a cama instantaneamente. O cupincha riu e a rodeou, seu ralo cabelo loiro saltava a cada passo que dava.

— Sim, montemo-la! — disse o loiro. Maldição, onde estava o spray?

O mais velho esticou a mão, tocando seu cabelo, e ela o olhou atentamente. Com sua pólo e suas calças curtas de cor cáqui, era realmente de aparência agradável. Um verdadeiro produto americano.

Quando lhe sorriu, ela acelerou o passo, concentrando-se no tênue brilho de néon do pôster do restaurante chinês. Rezou para que passasse algum transeunte, mas o calor havia afugentado aos pedestres para os locais com ar condicionado. Não havia ninguém ao redor.

— Quer me dizer seu nome? — perguntou o produto americano.

Seu coração começou a bater com força. Tinha esquecido o spray na outra bolsa.

— Vou escolher um nome para você. Deixe-me pensar... O que acha de «gatinha»?

O loiro soltou uma risadinha.

Ela engoliu saliva e tirou seu celular, se por acaso precisasse chamar o 911.

Conserva a calma. Mantenha o controle.

Imaginou como se sentiria bem quando entrasse no restaurante chinês e se visse rodeada pela rajada de ar condicionado. Possivelmente devia esperar e chamar um táxi, só para estar segura de chegar em casa sem que a incomodassem.

— Vamos, gatinha — sussurrou o produto americano. — Sei que vai gostar.

Só três quadras mais...

No instante em que desceu o meio-fio da calçada para cruzar a rua Dez, ele a segurou pela cintura. Seus pés ficaram pendurados no ar, e enquanto a arrastava para trás, cobriu-lhe a boca com a palma da mão. Beth lutou como uma possessa, chutando e lançando murros, e quando acertou um bom golpe em um olho, conseguiu escapar. Tentou afastar-se o mais rapidamente possível, sapateando com força sobre o pavimento, enquanto o fôlego se amontoava em sua garganta. Um carro passou pela rua Dez, e ela gritou assim que viu o brilho dos faróis.

Mas então o homem a segurou de novo.

— Você me paga, cadela — disse em seu ouvido, tampando-lhe a boca com uma mão. Sacudiu-lhe o pescoço de um lado a outro, e a arrastou para uma parte mais escura. Podia cheirar seu suor e a colônia de universitário que usava, à medida que escutava as estridentes gargalhadas de seu amigo.

Um beco. Estavam levando-a para um beco.

Sentiu ânsia, a bílis lhe fazia cócegas na garganta. Sacudiu o corpo furiosamente, tentando libertar-se. O pânico lhe dava forças, mas ele era mais forte.

Empurrou-a atrás de um contêiner de lixo e pressionou seu corpo contra o dela. Ela lhe deu várias cotoveladas e chutes.

— Maldita seja, segura os braços!

Conseguiu dar no loiro um bom murro no queixo antes que segurassem seus punhos e os levantasse por cima de sua cabeça.

— Vamos, cadela, isto você vai gostar — grunhiu o produto americano, tratando de introduzir um joelho entre as pernas da garota.

Colocou-lhe as costas contra a parede de tijolo do edifício, mantendo-a imóvel pela garganta. Teve que usar a outra mão para lhe rasgar a blusa, e tão logo ele deixou sua boca livre, começou a gritar. Esbofeteou-a com força, cortando-lhe o lábio. Sentiu o sabor do sangue na língua e, uma dor pungente. — Se fizer isso de novo, cortarei sua língua. — Os olhos do homem ferviam de ódio e luxúria enquanto levantava a renda branca do sutiã para deixar expostos seus seios. — Diabos, acredito que o farei de qualquer jeito.

— Ouça, são de verdade? — perguntou o loiro, como se ela fosse lhe responder.

Seu companheiro agarrou um dos mamilos e deu um puxão. Beth fez uma careta de dor, as lágrimas nublaram seus olhos. Ou talvez estivesse perdendo a vista porque estava a ponto de desmaiar.

O produto americano riu.

— Acredito que são naturais. Mas poderá averiguar você mesmo quando eu terminar .

Ao escutar o loiro rir bobamente, algo no interior de seu cérebro entrou em ação e se negou a deixar que aquilo acontecesse. Obrigou-se a deixar de lutar e recorreu a seu treinamento de defesa pessoal. Exceto pela agitada respiração, seu corpo ficou imóvel, e o produto americano demorou um minuto para notar.

— Quer brincar numa boa? — disse, olhando-a com suspeita. — Ela assentiu lentamente. — Bem. — Inclinou-se, aproximando o nariz do dela. Beth lutou para não se afastar, enojada pelo fétido aroma de cigarro rançoso e cerveja. — Mas se gritar outra vez, vou dar em você muitas facadas. Entende? — Ela assentiu de novo. — Solta-a.

O loiro lhe soltou os punhos e riu, movendo-se ao redor de ambos como se procurasse o melhor ângulo para observar. Seu companheiro lhe acariciou asperamente a pele, e ela teve que fazer um enorme esforço para conservar a barra de chocolate do Tony no estômago quando sentiu as náuseas subindo por sua garganta. Embora repugnassem aquelas mãos apertando seus seios, esticou a mão procurando sua braguilha. Ainda a segurava pelo pescoço, e ela tinha problemas para respirar, mas no momento em que tocou seus genitais, ele gemeu, afrouxando a presa.

Com um enérgico apertão, Beth agarrou os testículos, retorcendo-os tão forte como pôde, dando um joelhada no nariz enquanto ele caia. Uma corrente de adrenalina atravessou seu corpo, e durante um décimo de segundo desejou que o amigo a atacasse em lugar de ficar olhando-a estupidamente.

— Bastardos! — gritou-lhes.

Beth saiu correndo do beco, segurando a blusa, sem parar até chegar à porta de seu edifício de apartamentos. Suas mãos tremiam com tanta força que teve trabalho para introduzir a chave na fechadura. E só quando estava na frente do espelho do banheiro percebeu que rodavam lágrimas por suas bochechas.

 

Butch O’Neal levantou a vista quando soou o rádio sob o painel de seu carro patrulha sem distintivos. Em um beco não longe dali, um homem se encontrava jogado no chão, mas vivo.

Butch olhou seu relógio. Eram pouco mais de dez, o que significava que a diversão acabava de começar. Era uma sexta-feira à noite de começo de julho, e os universitários começavam suas férias e estavam ansiosos por competir nas Olimpíadas da Estupidez. Imaginou que o sujeito tinha sido assaltado ou que lhe tinham dado uma lição.

Esperava que fosse o segundo.

Butch tomou o fone e disse ao operador que atenderia à chamada, embora fosse detetive de homicídios, não patrulheiro. Estava trabalhando em dois casos nesse momento, um afogado no Rio Hudson e uma pessoa atropelada por um motorista que fugiu, mas sempre havia lugar para alguma coisa mais. Quanto mais tempo passasse fora de sua casa, melhor. Os pratos sujos na pia e os lençóis enrugados sobre a cama não vão se importar.

Ligou a sirene e pisou no acelerador enquanto pensava: Vejamos o que aconteceu aos meninos do verão.

 

À medida que atravessava Screamer’s, Wrath esboçou um depreciativo sorriso enquanto a multidão tropeçava entre si para se afastar de seu caminho. De seus poros emanava medo e uma curiosidade mórbida e luxuriosa. O vampiro inalou o fétido aroma.

Gado. Todos eles.

Apesar de usar os óculos escuros, seus olhos não puderam suportar a tênue luz, e teve que fechar as pálpebras. Sua vista era tão ruim que ficava muito mais cômodo em total escuridão. Concentrando-se em seu ouvido, esquivou os corpos entre os compassos da música, isolando o arrastar de pés, o sussurro de palavras, o som de algum copo estilhaçando-se contra o chão. Se tropeçasse em algo, não lhe importava. Dava no mesmo o que fosse: uma cadeira, uma mesa, um humano..., simplesmente passava por cima do que fosse.

Notou a presença do Darius claramente porque o seu era o único corpo daquele maldito lugar que não cheirava a pânico. Embora o guerreiro estivesse no limite essa noite.

Wrath abriu os olhos quando estava na frente do outro vampiro. Darius era um vulto disforme, sua cor escura e sua roupa negra eram só o que a vista de Wrath conseguia distinguir.

— Aonde foi Tohrment? — perguntou ao sentir um eflúvio de uísque escocês.

Wrath se sentou em uma cadeira. Olhou fixamente à frente e observou à multidão ocupando de novo o espaço que ele tinha deixado entre eles.

Esperou.

Darius se distinguia por não andar pelos ramos e sabia que Wrath não suportava que o fizessem perder tempo. Se guardasse silêncio, era porque algo acontecia.

Darius bebeu um gole de sua cerveja, logo respirou com força.

— Obrigado por vir, meu senhor...

— Se quiser algo de mim, não comece com isso — disse Wrath com voz lenta, advertindo que uma garçonete se aproximava. Pôde perceber uns seios grandes e uma franja de pele entre a blusa apertada e a saia curta.

— Querem algo de beber? — perguntou ela lentamente. Ficou tentado em sugerir que se deitasse sobre a mesa e deixasse ele beber de sua jugular. O sangue humano não o manteria vivo muito tempo, mas com toda segurança teria melhor sabor que o álcool aguado.

— Agora não — disse.

Seu hermético sorriso excitou a ansiedade dela lhe causando, ao mesmo tempo, uma rajada de desejo. Ele pôde notar esse aroma nos pulmões.

Não estou interessado, pensou.

A garçonete assentiu, mas não se moveu. ficou ali, olhando-o fixamente, com seu cabelo loiro curto formando um halo na escuridão ao redor de seu rosto. Encantada, parecia ter esquecido seu próprio nome e seu trabalho.

E que incômodo era aquilo. Darius se mexeu impaciente.

— Isso é tudo — murmurou. — Estamos satisfeitos.

Quando a moça se afastou, perdendo-se entre a multidão, Wrath escutou Darius clarear a garganta.

— Obrigado por vir. — Isso vai há ... conhecemos-nos faz tempo. — Assim é.

— Lutamos juntos muitas vezes, eliminamos a montes de lessers.

Wrath assentiu. A Irmandade da Adaga Negra tinha protegido a raça contra a Sociedade Lessening durante gerações. Estavam Darius, Tohrment e os outros quatro. Os irmãos eram superados em número pelos lessers, humanos sem alma que serviam a um malvado amo, o Omega. Mas Wrath e seus guerreiros estavam decididos a proteger aos seus.

Darius pigarreou de novo. — depois de todos estes anos...

— D, vá direto ao assunto. Marissa necessita de mim para um pequeno assunto esta noite.

— Quer utilizar minha casa outra vez? Sabe que não permito que ninguém mais fique nela. — Darius deixou escapar uma risada incômoda. — Estou seguro de que seu irmão preferiria que não aparecesse na sua casa.

Wrath cruzou os braços sobre o peito, empurrando a mesa com a bota para ter um pouco mais de espaço.

Importava-lhe pouco que o irmão da Marissa fosse muito sensível e se sentisse ofendido pela vida que Wrath levava. Havers era um esnobe e um diletante cuja insensatez ultrapassava todos os limites. Era totalmente incapaz de entender a classe de inimigos que tinha a raça e o que custava defender seus membros. E só porque o moço se sentia ofendido, Wrath não ia brincar de cavalheiro enquanto assassinavam a civis. Ele tinha que estar no campo de batalha com seus guerreiros, não ocupando um trono. Havers podia ir passear.

Embora Marissa não tivesse por que suportar a atitude de seu irmão.

— Talvez aceite sua oferta.

— Bem.

— Agora fala.

— Tenho uma filha.

Wrath girou lentamente a cabeça.

— Desde quando?

— Há algum tempo.

— Quem é a mãe?

— Não a conhece. E ela... ela morreu.

O pesar de Darius se espalhou a seu redor com um acre aroma de dor antiga que se sobrepôs ao fedor de suor humano, álcool e sexo do clube.

— Que idade tem? — exigiu saber Wrath. Começava a pressentir para onde se encaminhava aquele assunto.

— Vinte e cinco.

Wrath sussurrou uma maldição.

— Não me peça isso, Darius. Não me peça que o faça.

— Tenho que lhe pedir. Meu senhor, seu sangue é...

— Chame-me assim outra vez e terei que fechar sua boca para sempre.

— Não o entende. Ela é...

Wrath começou a levantar-se. A mão de Darius segurou seu antebraço e o soltou rapidamente.

— É meio humana.

— Por Deus...

— É possível que não sobreviva à transição. Escuta, se você ajudá-la, pelo menos terá uma oportunidade. Seu sangue é muito forte, aumentaria suas probabilidades de sobreviver à mudança sendo uma mestiça. Não estou pedindo que a tome como shellan, nem que a proteja, porque, eu posso fazê-lo. Só estou tentando... Por favor. Meus outros filhos morreram. Ela é a única que ficará de mim. E eu... amei muito a sua mãe.

Se tivesse sido qualquer outro, Wrath teria usado sua frase favorita: Vá à merda. Pelo que ele sabia, só havia duas boas posturas para um humano. Uma fêmea, sobre suas costas. E um macho, de barriga para baixo e sem respirar.

Mas Darius era quase um amigo. Ou teria sido, se Wrath lhe tivesse permitido aproximar-se.

Quando se levantou, fechou os olhos com força. O ódio o embargava concentrando-se no centro de seu peito. Desprezou a si mesmo por partir, mas simplesmente não era a espécie de macho que ajudasse a qualquer pobre mestiço a suportar um momento tão doloroso e perigoso. A cortesia e a piedade não eram palavras que faziam parte de seu vocabulário.

— Não posso fazê-lo. Nem sequer por você.

A angústia de Darius o atingiu como uma grande onda, e Wrath cambaleou ante a força de semelhante emoção. Então, apertou o ombro do vampiro.

— Se na verdade a amas, faça-lhe um favor: peça a outro.

Wrath deu a volta e saiu do local. A caminho da porta apagou a imagem de si mesmo do córtex cerebral de todos os humanos do lugar. Os mais fortes pensariam que tinham sonhado. Os fracos nem sequer o recordariam.

Ao sair à rua, dirigiu-se a um canto escuro atrás do Screamer’s para poder materializar-se. Passou junto a uma mulher que fazia um boquete em um sujeito entre as sombras. A poucos metros, um vagabundo bêbado dormia no chão e, um traficante de drogas discutia pelo celular o preço do crack. Wrath soube imediatamente que o seguiam e quem era. O doce aroma de talco para bebês os delatavam sem remédio.

Sorriu amplamente, abriu sua jaqueta de couro e tirou um de seus hira shuriken. A estrela feita de aço inoxidável se acomodava perfeitamente à palma de sua mão. Quase cem gramas de morte preparados para sair voando.

Com a arma na mão, Wrath não alterou o passo, embora seu desejo fosse ocultar-se rapidamente na escuridão. Estava ansioso por brigar depois de deixar Darius plantado, e aquele membro da Sociedade Lessening tinha chegado no momento certo.

Matar a um humano sem alma era precisamente o que necessitava para eliminar seu mal-estar.

À medida que atraía ao lesser para a densa escuridão, o corpo de Wrath ia se preparando para a luta, seu coração batia pausadamente, os músculos de seus braços e coxas se contraíram. Percebeu o ruído de uma arma sendo engatilhada e calculou a direção do projétil. Apontava para a parte traseira de sua cabeça.

Com um rápido movimento, girou sobre si mesmo no momento em que a bala saía da arma. Inclinou-se e lançou a estrela, que com um brilho prateado começou a traçar um arco mortífero. Acertou ao lesser exatamente no pescoço, cortando-lhe a garganta antes de continuar seu caminho para a escuridão. A pistola caiu ao chão, chocando ruidosamente contra o pavimento.

O lesser segurou o pescoço com ambas as mãos e caiu de joelhos.

Wrath se aproximou dele, revistou-lhe os bolsos e guardou a carteira e o telefone que levava.

Depois tirou uma longa faca negra de uma capa que usava no peito. Sentia que a luta não tivesse durado mais, mas a julgar pelo cabelo escuro e encaracolado e o ataque relativamente torpe, tratava-se de um novato. Com um rápido empurrão, colocou o lesser de barriga para cima, atirou a faca ao ar, e segurou o punho com um rápido giro de pulso. A lâmina se afundou na carne, atravessou o osso e chegou até o negro vazio onde estava o coração.

Com um som apagado, o lesser se desintegrou em um brilho de luz.

Wrath limpou a lâmina em suas calças de couro, deslizou-a para dentro da capa e ficou de pé, olhando a seu redor. A seguir, se desmaterializou.

 

Darius bebeu uma terceira cerveja. Um casal de fanáticos do estilo gótico se aproximou dele, procurando uma oportunidade de ajudá-lo a esquecer seus problemas. Ele rechaçou o convite.

Saiu do bar e se encaminhou para seu BMW 6501 estacionado no beco atrás do clube. Como qualquer vampiro que se preze, ele podia se materializar a vontade e atravessar grandes distâncias, mas era um truque difícil de executar se carregasse algo pesado. E não era algo que alguém queria tornar público. Além disso, um carro elegante sempre era digno de admiração.

Subiu ao automóvel e fechou a porta. Do céu começaram a cair gotas de chuva, manchando o pára-brisa como grossas lágrimas.

Não tinha esgotado suas opções. O bate-papo sobre o irmão de Marissa o tinha deixado pensativo. Havers era um médico totalmente entregue à raça. Talvez ele pudesse ajudá-lo. Certamente, valia a pena tentá-lo.

Ensimesmado em seus pensamentos, Darius introduziu a chave no contato e a fez girar. O motor fez um som rouco. Girou a chave de novo, e no instante em que escutou um rítmico tictac, teve uma terrível premonição.

A bomba, que tinha sido acoplada ao chassi do carro e conectada ao sistema elétrico, explodiu.

Enquanto seu corpo ardia com um estalo de calor branco, seu último pensamento foi para a filha que ainda não o conhecia. E que nunca o faria.

 

Beth esteve sob a ducha quarenta e cinco minutos, utilizou meio pote de gel, e quase derreteu o papel barato pintado das paredes do banho devido ao intenso calor da água. Secou-se, colocou uma bata e tentou não olhar-se outra vez ao espelho. Seu lábio tinha um aspecto feio.

Foi para o único cômodo que possuía seu pequeno apartamento. O ar condicionado quebrou fazia um par de semanas, e o ambiente da sala era tão sufocante como o do banho. Olhou para as duas janelas e a porta corrediça que conduzia a um pátio traseiro sem graça. Teve o impulso de abrir todas; entretanto, limitou-se a revisar as trancas.

Embora seus nervos estivessem destroçados, ao menos seu corpo estava se recuperando rapidamente. Seu apetite havia retornado em busca de vingança, como se estivesse incômodo por não ter jantado, assim se dirigiu diretamente à cozinha. Até as sobras de frango de quatro noites pareciam apetitosas, mas quando abriu o papel alumínio, percebeu um odor de meia esportiva úmida. Jogou no lixo todo o pacote e colocou um recipiente de comida congelada no microondas. Comeu os macarrão com queijo de pé, sustentando a pequena bandeja de plástico na mão com uma luva de cozinha. Não foi suficiente, assim teve que preparar outra porção.

A ideia de engordar dez quilos em uma noite só era tremendamente atraente; como o era. Não podia fazer nada com o aspecto de seu rosto, mas estava disposta a apostar que seu misógino atacante neandertal preferia a suas vítimas finas e atléticas.

Piscou, tentando tirar da cabeça a imagem de seu próprio rosto. Deus, ainda podia sentir suas mãos, ásperas e desagradáveis, manuseando seus seios.

Tinha que denunciá-lo. Iria a uma delegacia de polícia. Agora não queria sair do apartamento. Pelo menos até que amanhecesse.

Dirigiu-se até o sofá que usava como sofá e cama e se colocou em posição fetal. Seu estômago tinha dificuldades para digerir o macarrão com queijo e uma onda de náusea seguida por uma sucessão de calafrios percorreu seu corpo.

Um suave miado a fez levantar a cabeça.

— Olá, Boo — disse, estalando os dedos com inapetência. O pobre animal tinha fugido apavorado quando ela tinha entrado como uma tromba pela porta tirando a roupa e jogando-a por toda a sala.

Miando novamente, o gato negro se aproximou. Seus grandes olhos verdes pareciam preocupados enquanto saltava com elegância para seu colo.

— Lamento todo este drama — murmurou ela, lhe fazendo carinho.

O animal esfregou a cabeça contra seu ombro, ronronando. Seu corpo estava morno, quase não pesava. Não soube o tempo que permaneceu ali sentada acariciando sua suave pelagem, mas quando o telefone soou, teve um sobressalto.

Enquanto tentava alcançar o aparelho, aleitou-se para continuar acariciando a seu mascote. Os anos de convivência tinham conseguido que sua coordenação gato e telefone beirasse a níveis de perfeição.

— Olá? — disse, pensando que era mais de meia-noite, o que descartava aos vendedores por telefone e sugeria algum assunto de trabalho ou algum psicopata ansioso.

— Olá, senhorita B. Coloque suas sapatilhas de baile. O carro de um indivíduo saltou pelos ares ao lado do Screamer's. Ele estava dentro.

Beth fechou os olhos e quis soluçar. José da Cruz era um dos detetives da polícia da cidade, mas também um grande amigo.

Mas tinha que dizer que acontecia com ela o mesmo que a maioria dos homens e mulheres que usavam uniforme azul. Como passava tanto tempo na delegacia de polícia, tinha chegado a conhecê-los bastante bem, mas José era um de seus favoritos.

— Olá, está aí?

Conte a ele o que aconteceu. Abra a boca.

A vergonha e o horror do ocorrido lhe oprimiam as cordas vocais.

— Aqui estou, José. — afastou o escuro cabelo do rosto e pigarreou. — Não poderei ir esta noite.

— Sim, claro. Quando deixou passar uma boa informação? — Riu alegremente. — Ah, mas venha com calma. El Duro tem o caso.

El Duro era o detetive de homicídios Brian O’Neal, mais conhecido como Butch. Ou simplesmente senhor.

— Sério, não posso... ir aí esta noite.

— Está ocupada com alguém? — A curiosidade fez a voz soar autoritária. José estava felizmente casado, mas ela sabia que na delegacia de polícia todos especulavam a suas costas. Uma mulher com um corpaço como o seu sem um homem? Algo tinha que acontecer. — E então? Está?

— Por Deus, não. Não.

Houve um silêncio antes que o sexto sentido de policial e seu amigo ficasse alerta.

— O que aconteceu?

— Estou... bem. Um pouco cansada. Irei à delegacia de polícia amanhã.

Apresentaria a denúncia então. No dia seguinte se sentiria suficientemente forte para recordar o que tinha acontecido sem deprimir-se.

— Necessita que vá vê-la?

— Não, mas agradeço mesmo assim. Estou bem, de verdade.

Desligou o telefone.

Quinze minutos depois colocou um par de jeans recém lavados e uma camisa larga que ocultava suas esplêndidas curvas. Chamou um táxi, mas antes de sair procurou no armário até encontrar sua outra bolsa. Pegou o spray de pimenta e o apertou com força na mão enquanto se dirigia à rua. No trajeto entre sua casa e o lugar onde tinha explodido a bomba, recuperaria a voz e contaria tudo ao José. Por muito que detestasse a ideia de recordar a agressão, não ia permitir que aquele imbecil seguisse livre fazendo o mesmo a outra pessoa. E embora nunca o prendessem, ao menos teria feito todo o possível para tentar capturá-lo.

 

Wrath se materializou na sala da casa de Darius. Maldição, já tinha esquecido quão bem vivia o vampiro. Embora D fosse um guerreiro, comportava-se como um aristocrata, e para falar a verdade, tinha certa lógica. Sua vida tinha começado como um príncipe de alta linhagem, e ainda conservava o gosto pelo bom viver. Sua mansão do século XIX estava bem cuidada, cheia de antiguidades e obras de arte. Também era tão segura como a câmara couraçada de um banco.

Mas as paredes amarelo claro do salão feriram seus olhos.

— Que agradável surpresa, meu senhor.

Fritz, o mordomo, apareceu do vestíbulo e fez uma profunda reverência enquanto apagava as luzes para aliviar os olhos de Wrath. Como sempre, o velho homem vestia roupa negra. Estava com o Darius ao redor de cem anos, e era um doggen, o que significava que podia sair à luz do dia mas envelhecia mais rápido que os vampiros. Sua subespécie tinha servido aos aristocratas e guerreiros durante muitos milênios.

— Ficará conosco muito tempo, meu senhor?

Wrath negou com a cabeça. Não podia evitá-lo.

— Umas horas.

— Seu quarto está preparado. Se precisar de mim, senhor, aqui estarei.

Fritz se inclinou de novo e caminhou para trás para sair da sala, fechando as portas duplas atrás dele.

Wrath se dirigiu para um retrato de mais de dois metros de altura de quem haviam dito ter sido um rei francês. Colocou suas mãos sobre o lado direito do pesado marco dourado. O tecido girou sobre seu eixo para revelar um escuro corredor de pedra iluminado com lâmpadas de gás.

Ao entrar, desceu por umas escadas até as profundidades da terra. Ao final dos degraus havia duas portas. Uma conduzia aos suntuosos aposentos de Darius, a outra se abriu para o que Wrath considerava um substituto de seu lar. A maioria dos dias dormia em um armazém de Nova Iorque, em uma residência interior feita de aço com um sistema de segurança muito similar ao do Fort Knox.

Mas ele nunca convidaria Marissa para lá. Nem a nenhum dos irmãos. Sua privacidade era muito valiosa.

Quando entrou, as lâmpadas presas nas paredes se acenderam por toda a residência automaticamente. Seu resplendor dourado iluminava só tenuemente o caminho na escuridão. Como deferência à escassa visão de Wrath, Darius tinha pintado de negro os muros e o teto de seis metros de altura. Em um canto, destacava-se uma enorme cama com lençóis de cetim negro e um monte de travesseiros. No outro lado, havia uma poltrona de couro, um televisor de tela grande e uma porta que dava a um banheiro de mármore negro. Também havia um armário cheio de armas e roupa.

Por alguma razão, Darius sempre insistia em que ficasse na mansão. Era um maldito mistério. Não se tratava de que o defendesse, porque Darius podia proteger a si mesmo. E a ideia de que um vampiro como D sofresse de solidão era absurda. Wrath percebeu a Marissa antes que entrasse na residência. O aroma do oceano, uma brisa fresca, a precedia. Terminemos com isto de uma vez, pensou. Estava ansioso para retornar às ruas. Só tinha saboreado um pouco de batalha, e essa noite queria abarrotar-se.

Voltou-se.

Enquanto Marissa inclinava seu miúdo corpo para ele, sentiu devoção e inquietação flutuando no ar ao redor da fêmea.

— Meu senhor — disse ela.

Pelo pouco que podia ver, usava uma roupa minúscula de gaze branca, e seu longo cabelo loiro lhe caía em cascata sobre os ombros e as costas. Sabia que se vestiu para agradá-lo, e desejou no mais íntimo de seu ser que não tivesse se esforçado tanto.

Tirou a jaqueta de couro e a capa onde levava suas adagas.

Malditos fossem seus pais. Por que lhe tinham dado uma fêmea como ela? Tão... frágil.

Mas, pensando bem, considerando o estado em que se encontrava antes de sua transição, talvez temessem que outra mais forte pudesse lhe causar mal.

Wrath flexionou os braços, seus bíceps mostraram sua força, um de seus ombros rangeu devido ao esforço.

Se pudessem vê-lo agora. Seu esquálido corpo se transformou no de um frio assassino.

Talvez seja melhor que estejam mortos, pensou. Não teriam aprovado no que se transformou.

Mas não pôde evitar pensar que se eles tivessem vivido até uma idade avançada, ele teria sido diferente.

Marissa mudou de lugar nervosamente.

— Lamento incomodar. Mas não posso esperar mais. Wrath se dirigiu ao banheiro.

— Necessita de mim, e eu atendo.

Abriu a torneira e subiu as mangas de sua camisa negra. Com o vapor elevando-se, lavou a sujeira, o suor e — a morte de suas mãos. Logo esfregou o sabonete pelos braços, cobrindo de espuma as tatuagens rituais que adornavam seus antebraços. Enxaguou-se, secou-se e caminhou até a poltrona. Sentou-se e esperou, chiando os dentes.

Durante quanto tempo tinham feito aquilo? Séculos. Mas Marissa sempre necessitava algum tempo para poder aproximar-se. Se tivesse sido outra, sua paciência teria se esgotado imediatamente, mas com ela era um pouco mais tolerante.

A verdade era que sentia pena por ela porque a tinham forçado a ser sua shellan. Ele havia dito várias vezes que a liberava de seu compromisso para que encontrasse um verdadeiro companheiro, um que não somente matasse tudo o que a ameaçasse, mas sim também a amasse.

O estranho era que Marissa não queria deixá-lo, por muito frágil que fosse. Ele imaginava que ela provavelmente temia que nenhuma outra fêmea fosse querer estar com ele, que nenhuma alimentaria à besta quando o necessitasse e sua raça perderia sua estirpe mais poderosa. Seu rei. Seu líder, que carecia da vontade de liderar. Sim, era um maldito inconveniente. Permanecia afastado dela a menos que precisasse alimentar-se, o que não acontecia com frequência devido a sua linhagem. A fêmea nunca sabia onde ele estava, ou o que estava fazendo. Passava os longos dias só na casa de seu irmão, sacrificando sua vida para manter vivo ao último vampiro de sangue puro, o único que não tinha nenhuma gota de sangue humano em seu corpo.

Francamente, não entendia como suportava isso... nem como o suportava a ele.

De repente, sentiu vontade de amaldiçoar. Aquela noite parecia ser muito apropriada para alimentar seu ego. Primeiro Darius e agora ela.

Os olhos do Wrath a seguiram enquanto ela se movia pela residência, descrevendo círculos a seu redor, aproximando-se dele. Obrigou-se a relaxar, a estabilizar sua respiração, a imobilizar seu corpo. Aquela era a pior parte do processo. Dava-lhe pânico não ter liberdade de movimentos, e sabia que quando ela começasse a alimentar-se, a sufocante sensação pioraria.

— Esteve ocupado, meu senhor? — disse suavemente. Ele assentiu, pensando que se tivesse sorte, ia estar mais ocupado antes do amanhecer.

Marissa finalmente se ergueu frente a ele, e o vampiro pôde sentir sua fome prevalecendo sobre sua inquietação. Também sentiu seu desejo. Ela o queria, mas ele bloqueou esse sentimento da fêmea.

Sob nenhum conceito teria relações sexuais com ela. Não podia imaginar submeter a Marissa às coisas que tinha feito com outros corpos femininos. E ele nunca a quis dessa maneira. Nem sequer no princípio.

— Venha aqui — disse, fazendo um gesto com a mão. E deixou cair o antebraço sobre a coxa, com o punho para cima. — Está faminta. Não deveria esperar tanto para me chamar.

Marissa desceu até o chão perto de seus joelhos, seu vestido formou redemoinhos ao redor de seu corpo e seus pés. Ele sentiu o calor dos dedos sobre sua pele enquanto ela percorria suas tatuagens com as mãos, acariciando os negros caracteres que detalhavam sua linhagem no antigo idioma. Estava suficientemente perto para captar os movimentos de sua boca abrindo-se, suas presas cintilaram antes de afundá-los na veia.

Wrath fechou os olhos, deixando cair a cabeça para trás enquanto ela bebia. O pânico o invadiu rápida e fortemente.

Dobrou o braço livre ao redor da beirada da poltrona, tencionando os músculos ao tempo que segurava nos cantos para manter o corpo em seu lugar. Calma, precisava conservar a calma. Logo terminaria, e então seria livre.

Quando Marissa levantou a cabeça dez minutos depois, ele se ergueu de um salto e aplacou a ansiedade caminhando, sentindo um alívio doentio porque não podia mover-se. Assim que sossegou, aproximou-se da fêmea. Estava saciada, absorvendo a força que a embargava à medida que seu sangue se mesclava. Não o agradou vê-la no chão, de modo que a levantou, e estava pensando em chamar Fritz para que a levasse para a casa de seu irmão, quando uns rítmicos golpes soaram na porta.

Wrath se voltou para olhar do outro lado da sala, levou-a para a cama e ali a recostou.

— Obrigado, meu senhor — murmurou ela. — Voltarei para casa por meus próprios meios.

Ele fez uma pausa, e logo colocou um lençol sobre as pernas da vampiresa antes de abrir a porta de repente.

Fritz estava muito agitado por algo.

Wrath saiu, fechando a porta detrás de si. Estava a ponto de perguntar que demônios podia justificar tal interrupção, quando o aroma do mordomo impregnou sua irritação.

Soube, sem perguntar, que a morte tinha feito outra visita. E Darius tinha desaparecido.

— Senhor...

— Como foi? — grunhiu. Ocupar-se-ia da dor mais tarde. Primeiro necessitava detalhes.

— Ah, o carro... — Estava claro que o mordomo tinha problemas para conservar a calma, e sua voz era tão frágil e doida como seu velho corpo. — Uma bomba, não senhor. O carro... Ao sair do clube. Tohrment chamou. Viu tudo. Wrath pensou no lesser que tinha eliminado. Desejou saber se tinha sido ele quem tinha perpetrado o atentado. Aqueles bastardos já não tinham honra. Pelo menos seus precursores, fazia séculos, tinham lutado como guerreiros. Esta nova raça estava composta por covardes que se escondiam atrás da tecnologia.

 

— Chama à Irmandade — vociferou. — Diga-lhes que venham imediatamente.

— Sim, é obvio. Senhor... Darius me pediu que lhe desse isto — o mordomo estendeu algo, — se você não estivesse com ele quando morresse.

Wrath agarrou o envelope e retornou ao aposento, sem poder oferecer compaixão alguma nem ao Fritz nem a ninguém. Marissa tinha partido, o que era bom para ela.

Colocou a última carta de Darius no bolso de sua calça de couro.

E deu rédea solta a sua ira.

As lâmpadas explodiram e caíram em pedacinhos enquanto um torvelinho de ferocidade girava a seu redor, cada vez mais forte, mais rápido, mais escuro, até que o mobiliário se elevou do chão traçando círculos ao redor do vampiro. Jogou para trás a cabeça e rugiu.

 

Quando o táxi deixou Beth frente ao Screamer’s, a cena do crime se encontrava em plena atividade. Brilhos de luzes azuis e brancas saíam dos carros patrulha que bloqueavam o acesso ao beco. O quadrado veículo blindado dos técnicos tinha chegado. O lugar estava lotado de agentes tanto de uniforme como vestidos de civil. E a habitual multidão de curiosos ébrios, apropriou-se da periferia do cenário fumando e conversando. Em todos os anos que levava como repórter, tinha descoberto que um homicídio era um acontecimento social em Caldwell. Evidentemente para todos menos para o homem ou mulher que tinha morrido. Para a vítima, imaginava, a morte era um assunto bastante solitário, embora tivesse visto frente a frente o rosto de seu assassino. Algumas pontes temos que cruzar a sós, sem importar quem nos empurre pela borda.

Beth cobriu a boca com a manga. O aroma de metal queimado, um pungente fedor químico, invadiu seu nariz.

— Ouça, Beth! — Um dos agentes acenou. — Se quer se aproximar mais, entra no Screamer's e sai pela porta traseira. Há um corredor...

— De fato, vim ver o José. Está por aqui? O agente esticou o pescoço, procurando entre a multidão. — Estava aqui faz um minuto. Talvez tenha voltado para a delegacia de polícia. Ricky! Viu ao José?

Butch O’Neal parou frente a ela, silenciando ao outro policial com um sombrio olhar.

— Que surpresa.

Beth deu um passo atrás. El Duro era um bom espécime de homem. Corpo grande, voz grave, presença avassaladora. Supunha que muitas mulheres se sentiriam atraídas por ele, porque não podia negar que era de aparência agradável, de uma maneira tosca, rude. Mas Beth nunca havia sentido soltar uma faísca.

Não é que os homens não a fizessem sentir nada, mas aquele homem, em concreto, não a interessava.

— Então, Randall, o que a traz por aqui? — levou um pedaço de chiclete à boca e enrugou o papel formando uma bolinha. Seu queixo ficou a trabalhar como se estivesse frustrado; não mastigava, amassava.

— Estou aqui pelo José. Não pelo crime.

— Claro que sim. — Entrecerrou os olhos. Com suas sobrancelhas de cor castanha e seus olhos profundos, parecia sempre um pouco zangado, mas, bruscamente, sua expressão piorou

— Pode vir comigo um segundo?

— Na realidade preciso ver o José...

Ele segurou seu braço com um forte apertão.

— Só venha aqui. — Butch a levou a um canto isolado do beco, longe do burburinho.

— Que diabos aconteceu com seu rosto?

Ela ergueu a mão e cobriu o lábio ferido. Ainda devia estar abalada, porque tinha esquecido de tudo.

— Repetirei a pergunta — disse. — Que diabos aconteceu?

— Eu, é... — A garganta lhe fechou.

— Estava... — Não ia chorar. Não diante de El Duro.

— Preciso ver José.

— Não está aqui, assim não poderá contar com ele. Agora fale.

Butch lhe imobilizou os braços dos lados, como se pressentisse que podia sair correndo. Ele media só uns poucos centímetros mais que ela, mas a prendia com 30 quilos de músculo pelo menos.

O medo se instalou em seu peito como se quisesse perfurá-la, mas já estava farta de ser maltratada fisicamente essa noite.

— Me solte, O'Neal — Colocou a palma da mão no peito do homem e empurrou. Ele se moveu um pouco.

— Beth, me diga...

— Se não me soltar... — seu olhar sustentou a dele, — vou publicar um artigo sobre suas técnicas de interrogatório. Já sabe, as que necessitam raios X e gesso quando termina.

Os olhos de O'Neal se entrecerraram de novo. Afastou os braços de seu corpo e levantou as mãos como se estivesse rindo.

— Está bem. — Deixou-a e retornou à cena do crime. Beth apoiou as costas contra o edifício, e sentiu que suas pernas fraquejavam. Olhou para baixo, tratando de reunir forças, e viu algo metálico. Dobrou os joelhos e se inclinou. Era uma estrela de arremesso de artes marciais.

— Ouça, Ricky! — chamou. O policial se aproximou, e ela apontou ao chão.

— Provas.

Deixou-o fazer seu trabalho e se dirigiu a toda pressa à rua Trade para pegar um táxi. Simplesmente, já não podia suportar mais.

No dia seguinte apresentaria uma denúncia oficial para José. A primeira hora da manhã.

Quando Wrath reapareceu no salão, tinha recuperado o controle. Suas armas estavam em suas respectivas capas e sua jaqueta pesava na mão, cheia das estrelas de arremesso e facas que gostava de utilizar.

Tohrment foi o primeiro da Irmandade a chegar. Tinha os olhos acesos, a dor e a vingança faziam o azul escuro brilhar de maneira tão vívida que até Wrath pôde captar o brilho de cor.

Enquanto Tohr se recostava contra uma das paredes amarelas de Darius, Vishous entrou na residência. O cavanhaque que deixou crescer fazia pouco dava-lhe um aspecto mais sinistro que o habitual, embora fosse a tatuagem ao redor de seu olho esquerdo o que realmente o colocava no campo do assustador. Essa noite tinha bem enterrada na cabeça uma boina dos Red Sox e as complexas marcas das têmporas quase não se viam. Como sempre, sua luva negra de condutor, que usava para que sua mão esquerda não entrasse em contato com ninguém inadvertidamente, estava em seu lugar.

O que era algo bom. Um maldito serviço público.

Seguiu-lhe Rhage. Tinha suavizado sua atitude arrogante em deferência ao motivo da convocação daquela reunião. Rhage era um macho muito alto, enorme, poderoso, mais forte que o resto dos guerreiros. Também era uma lenda sexual no mundo dos vampiros, bonito como um galã de cinema e com um vigor capaz de rivalizar com um rebanho de garanhões. As fêmeas, tanto vampiras como humanas, pisoteariam a suas próprias crias para chegar a ele.

Pelo menos até que vislumbrassem seu lado escuro. Quando a besta de Rhage saía à superfície, todos, irmãos incluídos, procuravam refúgio e começavam a rezar.

Phury era o último. Sua claudicação era quase imperceptível. Sua perna ortopédica tinha sido substituída fazia pouco, e agora estava composta por uma liga de titânio e carbono de última tecnologia. A combinação de barras, articulações e perna estava atarraxada à base da coxa direita.

Com sua fantástica juba de cabelos multicoloridos, Phury deveria estar acompanhado de atrizes e modelos, mas tinha se mantido fiel a seu voto de castidade. Só havia lugar para um único amor em sua vida, E isso tinha estado matando-o lentamente durante anos.

— Onde está seu gêmeo? — perguntou Wrath.

— Z está a caminho.

Que Zsadist chegasse por último não era nenhuma surpresa. Z era um gigantesco e violento perigo para o mundo. Um maldito bastardo que blasfemava a todas as horas e que levava o ódio, especialmente pelas fêmeas, a novos níveis. Por fortuna, entre seu rosto coberta de cicatrizes e seu cabelo talhado ao corte de barba, tinha um aspecto tão aterrador como realmente era, de modo que as pessoas estavam acostumadas a se afastarem de seu caminho.

Raptado de sua família quando era uma criança, tinha acabado como escravo de sangue, e o mau trato nas mãos de sua ama tinha sido brutal em todos os sentidos. Phury levou quase um século para encontrar a seu gêmeo, e Z tinha sido torturado a ponto de ser dado por morto antes de ser resgatado.

Um mergulho e o sal do oceano tinha cicatrizado as feridas na pele do Zsadist, e além do labirinto de cicatrizes, ainda exibia as tatuagens de escravo, assim como vários piercings que ele mesmo tinha acrescentado, só porque gostava da sensação de dor.

Com toda certeza, Z era o mais perigoso dos membros da Irmandade. Depois do que tinha suportado, não lhe importava nada nem ninguém. Nem sequer seu irmão.

Até Wrath protegia suas costas na presença daquele guerreiro.

Sim, a Irmandade da Adaga Negra era um grupo diabólico. O único que se interpunha entre a população de vampiros civis e os lessers.

Cruzando os braços, Wrath passou o olhar pela sala, observando a cada um dos guerreiros, pensando em suas forças, mas também em suas maldições.

Com a morte de Darius, recordou que, embora seus guerreiros estivessem dando duros golpes às legiões de assassinos da Sociedade, havia muito poucos irmãos lutando contra uma inesgotável e autoregeneradora reserva de lessers.

Porque Deus era testemunha de que havia muitos humanos com interesse e aptidões para o assassinato.

A balança simplesmente não se inclinava a favor da raça. Ele não podia evitar o fato de que os vampiros não viviam eternamente, que os irmãos podiam ser assassinados e que o equilíbrio podia quebrar-se em um instante a favor de seus inimigos.

Demônios, a mudança tinha começado. Desde que o Omega tinha criado a Sociedade Lessening fazia uma eternidade, o número de vampiros tinha diminuído de tal maneira que só ficavam uns quantos enclaves de população. Sua espécie beirava a extinção. Embora os irmãos fossem mortalmente bons no que faziam.

Se Wrath fosse outra classe de rei, como seu pai, que desejava ser o adorado e reverenciado por parte das famílias da espécie, talvez o futuro tivesse sido mais prometedor. Mas ele não era como seu pai. Wrath era um lutador, não um líder, se desenvolvia melhor com uma adaga na mão que sentado, sendo objeto de adoração.

Concentrou-se de novo nos irmãos. Quando os guerreiros lhe devolveram o olhar, notava-se que esperavam suas instruções. E aquela consideração o colocou nervoso.

— Tomei a morte do Darius como um ataque pessoal — disse.

Houve um surdo grunhido de aprovação entre seus companheiros.

Wrath tirou a carteira e o celular do membro da Sociedade Lessening que tinha matado.

— Tirei isto um lesser que tropeçou comigo nesta mesma noite atrás do Screamer'S. Quem quer fazer as honras?

Lançou-os ao ar. Phury pegou ambos os objetos e passou o telefone ao Vishous.

Wrath começou a caminhar de um lado a outro.

— Temos que sair de caçada de novo.

— Tem toda a razão — grunhiu Rhage. Houve um movimento metálico e logo o som de uma faca ao cravar-se em uma mesa. — Temos que prendê-los onde treinam, onde vivem.

O que significava que os irmãos teriam que fazer um reconhecimento do terreno. Os membros da Sociedade Lessening não eram estúpidos. Alteravam seu centro de operações com regularidade, mudando constantemente suas instalações de recrutamento e treinamento de um lugar a outro. Por este motivo, os guerreiros vampiros consideravam que era mais eficaz agir como chamarizes e lutar contra todo aquele que fosse atacá-los.

Ocasionalmente, a Irmandade tinha realizado algumas incursões, matando dúzias de lessers em uma só noite. Mas essa classe de tática ofensiva era rara. Os ataques a grande escala eram eficazes, mas também apresentavam algumas dificuldades. Os grandes combates atraíam à polícia, e tratar de passar inadvertidos era vital para todos.

— Aqui há uma carteira de motorista — murmurou Phury. — Investigarei a direção. É local.

— Qual é o nome? — perguntou Wrath. — — Robert Strauss.

Vishous soltou uma maldição enquanto examinava o telefone.

— Aqui não há muito. Só alguma coisa na memória de chamadas, umas marcações automáticas. Averiguarei no computador quem chamou e que números foram marcados.

Wrath chiou os dentes. A impaciência e a ira eram um coquetel difícil de digerir.

— Não preciso dizer a você para trabalhar o mais rápido possível. Não há maneira de saber se o lesser que eliminei esta noite foi o autor da morte de Darius, assim penso que temos que limpar completamente toda a zona. Terá que matá-los a todos, sem nos importar os problemas aos quais nos expomos.

A porta principal se abriu de repente, e Zsadist entrou na casa.

Wrath o olhou sardônico.

— Obrigado por vir, Z. Esteve muito ocupado com as fêmeas?

— Que tal se me deixasse em paz?

Zsadist se dirigiu a um canto e permaneceu afastado do resto.

— Onde vai estar você, meu senhor? — perguntou Tohrment suavemente.

O bom do Tohr. Sempre tratando de manter a paz, foi mudando de assunto, intervindo diretamente ou, simplesmente, pela força.

— Aqui. Permanecerei aqui. Se o lesser que matou Darius está vivo e interessado em jogar um pouco mais, quero estar disponível e fácil de encontrar.

Quando os guerreiros se foram, Wrath colocou a jaqueta. Deu-se conta então de que ainda não tinha aberto a carta de Darius, e a tirou do bolso. Havia uma faixa de tinta escrita nele. Wrath imaginou que se tratava de seu nome. Abriu o envelope. Enquanto tirava uma folha de papel cor creme, uma fotografia caiu revoando ao chão. Recolheu-a e teve a vaga impressão de que a imagem possuía um cabelo longo e negro. Uma fêmea.

Wrath olhou fixamente o papel. Era uma caligrafia contínua, um rabisco ininteligível e impreciso que não tinha esperança de decifrar, por muito que entreabrisse os olhos.

— Fritz! — chamou.

O mordomo chegou correndo.

— Lê isto.

Fritz tomou a folha e dobrou a cabeça. Leu em silêncio.

— Em voz alta! — rugiu Wrath.

— OH. Mil perdões, amo. — Fritz clareou a garganta. Se não tiver tempo de falar com você, Tohrment lhe proporcionará todos os detalhes. Avenida Redd, número 1188, apartamento 1 — B. Seu nome é Elizabeth Randall. Pós-escrito: A casa e Fritz são seus se ela não sobreviver à idade adulta. Lamento que o final tenha chegado tão logo D.

— Filho de cadela — murmurou Wrath.

 

Beth tinha colocado seu traje noturno, consistindo em umas calças curtas e uma camiseta sem mangas, e estava abrindo o sofá quando Boo começou a miar na porta corrediça de vidro. O gato dava voltas em um estreito círculo, com os olhos fixos em algo que havia no exterior.

— Quer brigar outra vez com o bichano da senhora Gio? Já fez isso uma vez e o resultado não foi muito bom, recorda?

Uns golpes na porta principal a fizeram girar a cabeça com um sobressalto.

Dirigiu-se até ela e aproximou um olho à mira. Quando viu quem estava ao outro lado, deu a volta e apoiou as costas contra a madeira.

Os golpes voltaram a ouvir-se.

— Sei que está aí — disse El Duro. — E não penso partir.

Beth abriu o ferrolho, abriu a porta de repente. Antes que pudesse lhe dizer que fosse ao diabo, passou a seu lado e entrou.

Boo arqueou o lombo e murmurou.

— Eu também tenho prazer em conhecê-lo, pantera negra. — O vozeirão ensurdecedor de Butch parecia totalmente desconjurado em seu apartamento.

— Como entrou no edifício? — perguntou ela enquanto fechava a porta.

— Forcei a fechadura.

— Há alguma razão em particular para que tenha decidido irromper neste edifício, detetive?

Ele deu de ombros e se sentou em uma andrajosa poltrona. — Pensei que podia visitar uma amiga.

— Então por que me incomoda ?

— Tem um bonito apartamento — disse ele, olhando suas coisas.

— Vá mentiroso.

— Ouça, pelo menos está limpo. Que é mais do que posso dizer de meu próprio chiqueiro. — Seus escuros olhos castanhos a olharam diretamente ao rosto.

— Agora, falemos do que aconteceu quando saiu do trabalho esta noite, certo?

Ela cruzou os braços sobre o peito. Ele riu entre dentes.

— Deus, o que tem José que eu não tenho?

— Quer lápis e papel? A lista é longa.

— Auch. É fria, sabia? — Seu tom era divertido —

— Me diga, você só gosta dos que não estão disponíveis?

— Escuta, estou esgotada...

— Sim, saiu tarde do trabalho. Às nove e quarenta e cinco, mais ou menos. Falei com seu chefe. Dick me disse que ainda estava em sua mesa quando ele partiu para o Charlie'S. Veio para casa caminhando, não? Pela rua Trade certamente, presumo, como faz todas as noites. E durante um bom momento, ia só.

Beth engoliu saliva quando um leve ruído fez com que desviasse o olhar para a porta corrediça de vidro. Boo tinha começado de novo a ir de um lado a outro e a miar, esquadrinhando algo na escuridão.

— Agora, vai contar-me o que aconteceu quando chegou ao cruzamento da Trade com a Dez? — Seu olhar se suavizou.

— Como sabe...?

— Diga-me o que aconteceu, e prometo que me certificarei de que esse filho de uma cadela tenha o que merece.

 

Wrath permaneceu imóvel, submerso nas sombras da serena noite, olhando fixamente a silhueta da filha de Darius. Era alta para uma fêmea humana, e seu cabelo era negro, mas isso era tudo o que podia perceber com seus pobres olhos. Respirou o ar da noite, mas não pôde captar seu aroma. Suas portas e janelas estavam fechadas, e o vento que soprava do oeste trazia o aroma afrutado do lixo putrefato.

Mas podia escutar o murmúrio de sua voz através da porta fechada. Estava falando com alguém. Um homem em quem ela, aparentemente, não confiava, ou não a agradava, porque só pronunciava monossílabos.

— Farei com que seja o mais fácil possível — dizia o homem.

Wrath viu como a moça se aproximava e olhava para fora através da porta de vidro. Seus olhos estavam fixos nele, mas sabia que não podia vê-lo. A escuridão o envolvia por completo.

Beth abriu a porta e pos a cabeça, impedindo com o pé que o gato saísse ao exterior.

Wrath sentiu que sua respiração se fazia mais lenta ao perceber o aroma da mulher. Cheirava verdadeiramente bem. Como uma flor deliciosa. Talvez como essas rosas que florescem de noite. Introduziu mais ar em seus pulmões e fechou os olhos ao tempo que seu corpo reagia e seu sangue se agitava. Darius estava no certo; aproximava-se de sua transição. Podia farejá-lo nela. Mestiça ou não, ia produzir-se sua transformação.

Beth deslizou a porta enquanto se virava para o homem. Sua voz era muito mais clara com a porta aberta, e Wrath gostou de seu som rouco.

— Se aproximaram do outro lado da rua. Eram dois. O mais alto me arrastou para o beco e... — O vampiro prestou atenção imediatamente. — Tratei de me defender com todas as minhas forças, mas ele era mais corpulento que eu, e seu amigo me segurou os braços. — Começou a soluçar. — Disse-me que cortaria minha língua se gritasse. Pensei que ia matar-me, sério. Logo me rasgou a blusa e tirou o sutiã para cima. Estive muito perto de que me... Mas consegui me liberar e corri. Tinha os olhos azuis, cabelo castanho e um brinco na orelha esquerda. Usava uma pólo azul escura e calças curtas de cor cáqui. Não pude ver bem seus sapatos. Seu amigo era loiro, cabelo curto, sem brincos, vestido com uma camiseta branca com o nome dessa banda local, Os comedores de Tomates.

O homem se levantou e se aproximou. Rodeou-a com um braço, tratando de atraí-la contra seu peito, mas ela retrocedeu separando-se dele.

— De verdade pensa que poderá prendê-lo? — perguntou.

O homem assentiu.

— Sim, é obvio que sim.

 

Butch saiu do apartamento de Beth Randall de mau humor. Ver uma mulher que tinha sido atingida no rosto não era uma parte de seu trabalho que gostasse. E no caso de Beth era particularmente perturbador, porque a conhecia fazia bastante tempo e se sentia atraído por ela. O fato de que fosse uma mulher extraordinariamente formosa não tornava as coisas mais fáceis. Mas o lábio inflamado e os hematomas ao redor da garganta eram danos evidentes frente à perfeição de suas feições. Beth Randall era absolutamente preciosa. Tinha o cabelo longo negro e abundante, uns olhos azuis com um brilho impossível, uma pele cor creme e uma boca feita exatamente para o beijo de um homem. E que corpo: pernas largas, cintura estreita e seios perfeitamente proporcionados.

Todos os homens da delegacia de polícia estavam apaixonados por ela, e Butch teve que reconhecer que tinha um enorme mérito: nunca usava sua aparência para obter informação confidencial dos moços. Dirigia todos a um nível muito profissional. Nunca teve um encontro com nenhum deles, embora a maioria teria renunciado a seu testículo esquerdo só para segurar a mão dela.

De uma coisa sim estava seguro: seu atacante tinha cometido um tremendo engano ao escolhê-la. Toda a força policial sairia em perseguição daquele imbecil assim que averiguassem sua identidade. E Butch tinha uma boca muito grande.

Subiu no seu carro e conduziu até as instalações do Hospital Saint Francis, do outro lado da cidade. Estacionou sobre o meio-fio da calçada frente à sala de urgências e entrou.

O guarda da porta giratória sorriu-lhe.

— Dirige-se ao depósito, detetive?

— Não. Devo visitar a um amigo. O homem assentiu e se afastou.

Butch atravessou a sala de espera de urgências com suas plantas de plástico, revistas com as páginas arrancadas e pessoas com rosto de preocupação. Empurrou umas portas duplas e se dirigiu ao estéril e branco ambiente clínico. Saudou com uma pequena inclinação de cabeça às enfermeiras e médicos que conhecia e se aproximou do controle.

— Olá, Doug, recorda ao tipo que trouxemos com o nariz quebrado?

O empregado levantou a vista de um gráfico que estava olhando.

— Sim, estão a ponto de lhe dar alta. encontra-se atrás, residência vinte e oito.

— O interno soltou uma risadinha — o nariz era o menor de seus problemas. Não cantará notas baixas durante algum tempo.

— Obrigado, amigo. A propósito, como vai sua esposa?

— Bem. Dará a luz em uma semana.

— Me avise quando nascer a criança.

Butch se dirigiu à parte detrás. Antes de entrar na residência vinte e oito, revisou o corredor com o olhar em ambas as direções. Tudo tranquilo. Não havia pessoal médico à vista, nem visitantes, nem pacientes.

Abriu a porta e enfiou a cabeça.

Billy Riddle levantou o olhar da cama. Uma bandagem branca lhe subia pelo nariz, como se estivesse evitando que lhe saísse o cérebro.

— O que acontece, oficial? Já encontrou ao indivíduo que me atingiu? Vão me dar alta e me sentiria melhor sabendo que o tem sob custódia.

Butch fechou a porta e correu o ferrolho silenciosamente. Sorriu enquanto cruzava a residência fixando-se no brinco de diamantes quadrado que brilhava no lóbulo esquerdo do sujeito.

— Como vai esse nariz, Billy?

— Bem. Mas a enfermeira se portou como uma bruxa... Butch agarrou sua pólo e o jogou a seus pés. Logo lançou o atacante de Beth contra a parede, com tanta força que o maquinário que se localizava atrás da cama balançou.

Butch aproximou tanto seu rosto do jovem que podiam ter-se beijado.

— Divertiu-se ontem à noite?

Os grandes olhos azuis se encontraram com os seus. — Do que está falam...?

Butch o jogou de novo contra a parede.

— Alguém o identificou. A mulher a que tentou violar.

— Não fui eu!

— Claro que foi você. E se considerar sua pequena ameaça sobre sua língua com sua faca, poderia ser suficiente para enviá-lo a Dannemora. Alguma vez teve namorado, Billy? Aposto que será muito popular. Um bonito menino branco como você.

O sujeito ficou tão pálido como as paredes.

— Não a toquei!

— Digo a você uma coisa, Billy. Se for sincero e me disser onde está seu amigo, é possível que saia caminhando daqui. Do contrário, levarei você para a delegacia de polícia em uma maca.

Billy pareceu considerar o trato uns instantes, e logo as palavras saíram de sua boca com extraordinária rapidez:

— Ela o desejava! Rogou-me...

Butch levantou o joelho e a pressionou contra a entre pernas do Billy. Um chiado saiu de sua garganta.

— Por isso terá que urinar sentado toda esta semana? Quando o valentão começou a balbuciar, Butch o soltou e observou como deslizava lentamente até o chão. Ao ver reluzir as algemas, sua choramingação aumentou de intensidade.

Butch voltou-o bruscamente e sem maiores considerações colocou as algemas.

— Está detido. Algo que diga pode, e será, usado contra você no tribunal. Tem direito a um advogado...

— Sabe quem é meu pai? — gritou Billy como se tivesse conseguido tomar ar durante um segundo. — Ele fará com que o despeçam!

— Se não puder pagá-lo, o estado proporcionará um. Entende estes direitos que falei?

— À merda!

Billy gemeu e assentiu com a cabeça, deixando uma mancha de sangue fresca sobre o chão.

— Bem. Agora vamos arrumar a papelada. Detestaria não seguir o procedimento apropriado.

 

Boo! Pode deixar de fazer isso? — Beth deu um golpe no travesseiro e girou sobre si mesma para poder ver o gato.

O animal a olhou e miou. Com o resplendor da luz da cozinha, que tinha deixado acesa, viu-o dando passos em direção à porta de vidro.

— Nem sonhe, Boo. É um gato doméstico. Confia em mim, o ar livre não é tão bom como parece.

Fechou os olhos, e quando ouviu miado lastimoso seguinte, soltou uma maldição e jogou os lençóis a um lado. Dirigiu-se até a porta e verificou o exterior.

Foi então quando viu o homem. Estava de pé junto ao muro traseiro do pátio, uma silhueta escura muito maior que as outras sombras, já familiares, que projetavam as latas de lixo e a mesa de picnic coberta de musgo.

Com mãos trementes revisou o ferrolho da porta e logo passou às janelas. Ambas estavam bem fechadas. Baixou as persianas, pegou o telefone sem fio e retornou ao lado do Boo.

O homem se moveu. Merda!

Vinha para ela. Verificou de novo o ferrolho e, retrocedeu, tropeçando na borda do sofá. Ao cair, o telefone se soltou de sua mão, saltando longe. Bateu fortemente contra o colchão, o que fez com que sua cabeça ricocheteasse devido ao impacto. Incrivelmente, a porta de vidro se abriu como se nunca tivesse tido o ferrolho colocado, como se ela nunca tivesse trancado.

Ainda deitada de costas, agitou as pernas violentamente, enredando os lençóis ao tentar empurrar seu corpo para afastar-se dele. Era enorme, seus ombros largos como vigas, suas pernas tão grosas como o torso da moça. Não podia ver seu rosto, mas o perigo que emanava dele era como uma pistola apontando para seu peito.

Rodou para o chão entre gemidos e engatinhou para afastar-se, arranhando os joelhos e as mãos contra o duro chão de madeira. As pisadas do homem atrás dela ressonavam como trovões, cada vez mais perto. Encolhida como um animal, cegada pelo medo, chocou-se contra a mesa do corredor e não sentiu dor alguma.

As lágrimas começaram a rodar por suas bochechas enquanto implorava piedade, tentando chegar à porta principal... Beth despertou. Tinha a boca aberta e um alarido terrível quebrava o silêncio do amanhecer.

 

Era ela. Estava gritando com toda a força de seus pulmões. Fechou firmemente os lábios, e imediatamente os ouvidos deixaram de doer. Saltou da cama, foi até a porta do pátio e, saudou os primeiros raios do sol com um alívio tão doce que quase se enjoa. Enquanto os batimentos de seu coração diminuíam, respirou profundamente e revisou a porta.

O ferrolho estava em seu lugar. O pátio vazio. Tudo estava em ordem.

Riu baixo. Não era estranho que tivesse pesadelos depois do que tinha acontecido na noite anterior. Certamente ia sentir calafrios durante algum tempo.

Deu a volta e se dirigiu à ducha. Estava esgotada, mas não queria ficar só em seu apartamento. Desejava o burburinho do jornal, queria estar junto de todos os seus companheiros, telefones e papéis. Ali se sentiria mais segura.

Estava a ponto de entrar no banheiro quando sentiu uma pontada de dor no pé. Levantou a perna e extraiu um pedaço de cerâmica da áspera pele do calcanhar. Ao inclinar-se, encontrou o vaso que tinha sobre a mesa feito pedacinhos no chão.

Franzindo o cenho, recolheu os pedaços.

O mais provável era que o tivesse atirado quando entrou a primeira vez, depois de ter sido atacada.

 

Quando Wrath desceu às profundidades da terra sob a mansão do Darius, sentia-se esgotado. Fechou a porta com chave atrás dele, desarmou-se, e tirou um estragado baú do armário. Abriu a tampa, grunhindo enquanto levantava uma laje de mármore negro. Media quase um metro quadrado e tinha dez centímetros de grossura. Colocou-a no meio da sala, voltou para baú e recolheu uma bolsa de veludo, que jogou sobre a cama.

Despiu-se, tomou banho e se barbeou e logo voltou nu à sala. Pegou a bolsa, soltou a fita de cetim que a fechava, e tirou uns diamantes sem esculpir, do tamanho de seixos, sobre a laje. A bolsa vazia escorregou de sua mão para o chão.

Inclinou a cabeça e pronunciou as palavras em sua língua materna, fazendo subir e baixar as sílabas com a respiração, rendendo tributo a seus mortos. Quando terminou de falar, ajoelhou-se sobre a laje, sentindo as pedras lhe cortando a carne. Deslocou o peso de seu corpo para os calcanhares, colocou as palmas das mãos sobre as coxas e fechou os olhos.

O ritual de morte requeria que passasse o dia sem mover-se, suportando a dor, sangrando em memória de seu amigo. Mentalmente, viu a filha de Darius.

Não devia ter entrado em sua casa dessa forma. Tinha lhe dado um susto de morte, quando só o que queria era apresentar-se e lhe explicar por que ia necessitar dele logo. Também tinha planejado lhe dizer que ia perseguir a esse macho humano que a atacou.

Sim, tinha dirigido a situação maravilhosamente. Com a delicadeza de um elefante em uma loja de louças.

No instante em que entrou, ela enlouqueceu de terror. Teve que despojá-la de suas lembranças e colocá-la em um ligeiro transe para acalmá-la. Quando a depositou sobre a cama, sua intenção tinha sido partir imediatamente, mas não pôde fazê-lo. Permaneceu perto dela, avaliando o difuso contraste entre seu cabelo negro e a branca capa do travesseiro, inalando seu aroma.

Sentindo um comichão sexual nas vísceras.

Antes de ir-se, certificou-se de que as portas e janelas ficassem seguras. E logo se voltou para olhá-la uma vez mais, pensando em seu pai.

Wrath se concentrou na dor que estava se apropriando de suas coxas.

Enquanto seu sangue tingia de vermelho o mármore, viu o rosto de seu guerreiro morto e sentiu o vínculo que tinham compartilhado em vida.

Tinha que fazer honra à última vontade de seu irmão. Era o menos que devia a aquele macho por todos os anos que tinham servido juntos à raça.

Mestiça ou não, a filha do Darius nunca mais voltaria a caminhar pela noite desprotegida. E não passaria só por sua transição.

Que Deus a ajudasse.

 

Butch terminou de fichar Billy Riddle por volta das seis da manhã. O indivíduo se mostrou muito ofendido porque o tinha colocado na cela com traficantes de drogas e, delinquentes, assim Butch tomou muito cuidado em cometer tantos enganos tipográficos como foi possível em seus informes. E para sua surpresa, a central de processamento de dados se confundia continuamente sobre a classe de formulários que deviam ser preenchidos com exatidão.

E depois, todas as impressoras se estragaram. As vinte e três que havia.

Apesar de tudo, Riddle não passaria muito tempo na delegacia de polícia. Seu pai era na verdade um homem poderoso, um senador. Assim que um elegante advogado o tiraria dali em um abrir e fechar de olhos. Não acreditava que pudesse retê-lo mais que uma hora. Porque assim agia o sistema judicial para alguns. O dinheiro manda, permitindo aos canalhas sair em liberdade.

Para Butch não restou mais remédio que reconhecer com amargura que essa era a realidade.

Ao sair ao vestíbulo, encontrou-se com uma das habituais visitantes noturnas da delegacia de polícia. Cherry Pie acabava de ser liberada das celas femininas. Seu verdadeiro nome era Mary Mulcahy, e pelo que Butch tinha ouvido, trabalhava nas ruas fazia dois anos.

— Olá, detetive — ronronou. O batom vermelho se concentrou nas cantos de sua boca, e o rímel negro formava um mancha ao redor de seus olhos. Certamente seu aspecto melhoraria e seria bonita, pensou ele, se deixasse a pipa de crack e dormisse durante todo um mês. — Vai para sua casa sozinho?

— Como sempre. — Sustentou a porta aberta para ela ao sair.

— Não cansa sua mão esquerda depois de um tempo? Butch riu enquanto ambos se detinham e levantou a vista para as estrelas.

— Como vai, Cherry?

— Sempre bem.

Colocou um cigarro entre os lábios e o acendeu enquanto o olhava.

— Se caírem muitos cabelos na palma da mão, pode me chamar. Farei grátis, porque você é um filho de cadela de aparência muito agradável. Mas não diga a meu cafetão que eu disse isso.

Soltou uma nuvem de fumaça e, com expressão ausente, tocou com o dedo sua orelha esquerda rasgada. Faltava-lhe a metade superior.

Deus, esse cafetão era um cão raivoso. Começaram a descer os degraus.

— Já consultou esse programa do qual falei? — perguntou Butch quando chegaram à calçada. Estava ajudando a um amigo a colocar em marcha um grupo de apoio para prostitutas que queriam livrar-se de seus cafetões e levar outra vida.

— Ah, sim, claro. Boa coisa. — Lançou-lhe um sorriso

— Vejo-o depois.

— Se cuide.

Deu-lhe as costas, dando uma palmada na nádega direita.

— Pense, isto pode ser seu.

Butch a observou rebolar rua abaixo durante um momento. Logo se dirigiu a seu carro, e seguindo um impulso, conduziu até o outro lado da cidade, voltando para bairro do Screamer'S. Estacionou frente ao McGrider's. Uns quinze minutos depois uma mulher usando uns ajustados jeans e um corpete negro saiu do chiqueiro. Piscou como se fosse míope ante a brilhante luz. Quando viu o carro, sacudiu sua cabeleira castanha e foi caminhando para ele. Butch abriu o guichê e ela se inclinou, beijando-o nos lábios.

— Quanto tempo sem ver você. Sente-se solitário, Butch? — disse ela apertada contra sua boca.

Cheirava a cerveja rançosa e a licor de cerejas, o perfume de todo dono de cantina ao final de uma longa noite.

— Entra — disse ele.

A mulher rodeou o carro pela frente e deslizou junto a ele. Falou de como tinha ido durante a noite enquanto ele conduzia até a margem do rio, lhe contando quão decepcionada estava porque as gorjetas outra vez tinham sido escassas e que os pés a estavam matando de tanto ir de um lado a outro do balcão. Estacionou sob um dos arcos da ponte que cruzava o rio Hudson e unia as duas metades de Caldwell, certificando-se de ficar a suficiente distância dos indigentes deitados sobre suas improvisadas camas de papelões. Não havia necessidade de ter público.

E tinha que reconhecer que Abby era rápida. Já tinha desabotoado suas calças e manipulava seu pênis ereto com movimentos firmes antes que ele tivesse desligado o motor. Enquanto empurrava para trás o assento, ela subiu a cavalo sobre ele e lhe acariciou o pescoço com a boca. Ele olhou a água, além de seu sensual cabelo encaracolado.

A luz do amanhecer era formosa, pensou quando esta tocou a superfície do rio.

— Ama-me, carinho? — sussurrou ela a seu ouvido.

— Sim, claro.

Alisou-lhe o cabelo para trás e a olhou nos olhos. Estavam vazios. Podia ter sido qualquer homem, por isso sua relação funcionava.

Seu coração estava tão vazio como aquele olhar.

 

Enquanto o senhor X cruzava o estacionamento e se dirigia à Academia de Artes Marciais de Caldwell, captou o aroma do Dunkin Donuts no outro lado da rua. Esse aroma, esse sublime e denso aroma de farinha, açúcar e azeite quente, impregnava o ar matutino. Olhou para trás e viu um homem sair com duas caixas de cor branca e rosa sob o braço e um enorme copo de plástico com café na outra mão.

Essa seria uma maneira muito agradável de iniciar a manhã, pensou o senhor X.

Subiu à calçada que se estendia sob a marquise vermelha e dourada da academia. deteve-se um momento, inclinou-se e recolheu um copo de plástico descartado. Seu dono anterior tinha tomado cuidado de deixar um pouco de soda no fundo para apagar nele seus cigarros. Jogou a desagradável mescla no contêiner de lixo e abriu o trinco das portas da academia.

Na noite anterior, a Sociedade Lessening marcou um ponto na guerra, e ele tinha sido o artífice de semelhante façanha. Darius tinha sido um líder vampiro, membro da Irmandade da Adaga Negra. Todo um endiabrado troféu.

Era uma maldita pena que não tivesse ficado nada do cadáver para colocá-lo sobre uma parede, mas a bomba do senhor X tinha feito o trabalho à perfeição. Ele se encontrava em sua casa escutando a frequência da polícia quando chegou o relatório. A operação tinha saído tal como tinha planejado, perfeitamente executada, perfeitamente anônima.

Perfeitamente mortífera.

Tentou recordar a última vez que um membro da Irmandade tinha sido eliminado. Com segurança, muito antes que ele passasse a tomar parte da Sociedade, fazia algumas décadas. E tinha esperado uns tapinhas nas costas, não semelhantes elogios. Pensou inclusive que lhe dariam mais responsabilidades, talvez uma ampliação de sua área de influência, talvez um rádio geográfico de atuação mais extenso.

Mas a recompensa..., a recompensa tinha sido maior que o esperado.

O Omega o tinha visitado uma hora antes do amanhecer e lhe tinha conferido todos os direitos e privilégios como lesser chefe.

Líder da Sociedade Lessening.

Era uma responsabilidade extraordinária. E exatamente o que o senhor X sempre tinha desejado.

O poder que lhe tinham concedido era o único louvor que lhe interessava.

Dirigiu-se a seu escritório a grandes passos. As primeiras aulas começariam às nove. Tinha ainda tempo suficiente para perfilar algumas das novas regras que deviam acatar seus subordinados na Sociedade.

Seu primeiro impulso, uma vez que o Omega partiu, foi enviar uma mensagem, mas isso não teria sido sensato. Um líder organizava seus pensamentos antes de agir; não se apressaria a subir ao pedestal para ser adorado. O ego, depois de tudo, era a raiz de todo o mal.

Por isso, em lugar de alardear como um imbecil, tinha saído ao jardim para sentar-se e observar a grama que havia atrás de sua casa. Ante o incipiente resplendor do amanhecer, tinha repassado os pontos fortes e as debilidades de sua organização, permitindo que seu instinto lhe mostrasse o caminho para encontrar um equilíbrio entre ambos. Do labirinto de imagens e pensamentos tinham surgido várias normas a seguir, — o futuro foi ficando claro.

Agora, sentado atrás de sua escrivaninha, escreveu a contra-senha da página Web protegida da Sociedade e ali deixou claro que se produziu uma mudança de liderança. Ordenou que todos os lessers fossem à academia às quatro, nessa mesma tarde, sabendo que alguns teriam que viajar, mas nenhum estava a uma distância de mais de oito horas de carro. Quem não assistisse seria expulso da Sociedade e açoitado como um cão.

Reunir aos lessers em um só lugar era raro. Naquele momento seu número oscilava entre cinquenta e sessenta membros, dependendo da quantidade de baixas que a Irmandade sofria em uma noite e o número dos novos recrutas que podiam ser arrolados no serviço. Os membros da Sociedade se encontravam todos na Nova Inglaterra e seus arredores. Esta concentração no nordeste dos Estados Unidos se devia ao predomínio de vampiros na zona. Se a população se mudasse, também o fazia a Sociedade.

Como tinha acontecido durante gerações.

O senhor X era consciente de que convocar aos lessers no Caldwell para uma reunião era de vital importância. Embora conhecesse a maioria deles, e a alguns bastante bem, necessitava que eles o vissem, escutassem-no e o calibrassem, em especial se ia mudar seus objetivos.

Convocar a reunião à luz do dia também era importante, já que isso garantia que não seriam surpreendidos pela Irmandade. E ante seus empregados humanos, facilmente podia fazê-la passar por um seminário de técnicas de artes marciais. Ficariam reunidos na grande sala de conferências do porão e fechariam as portas com chave para não serem interrompidos.

Antes de desconectar-se, redigiu um relatório sobre a eliminação de Darius, porque queria que seus caça vampiros o tivessem por escrito. Detalhou a espécie de bomba que havia utilizado, a maneira de fabricar uma com muito poucos elementos e o método para conectar o detonador ao sistema do acendedor de um carro. Era muito fácil, uma vez que o artefato estava instalado. Só o que tinha que fazer era armá-la, e ao acionar o contato, qualquer um que estivesse dentro do veículo ficaria convertido em cinzas.

Para obter esse instante de satisfação, ele tinha seguido ao guerreiro Darius durante um ano, vigiando-o, estudando todos seus costumes diários. Fazia dois dias, o senhor X tinha entrado furtivamente na concessionária de BMW dos irmãos Greene, quando o vampiro tinha deixado seu veículo para uma revisão. Instalou a bomba, e na noite anterior tinha ativado o detonador com um transmissor de rádio simplesmente passando ao lado do carro, sem deter-se nem um segundo.

O longo e concentrado esforço que tinha previsto a organização naquela eliminação não era algo que queria compartilhar. Queria que os lessers acreditassem que pode executar uma jogada tão perfeita em um instante. A imagem desempenhava um importante papel na criação de uma base de poder, e ele queria começar a construir sua credibilidade de mando imediatamente.

Depois de desconectar-se, recostou-se na cadeira, tamborilando com os dedos. Desde que tinha se unido à Sociedade, o objetivo tinha sido reduzir a população de vampiros por meio da eliminação de civis. Essa continuaria sendo a meta geral, é obvio, mas seu primeiro juízo seria uma mudança de tática. A chave para ganhar a guerra era eliminar à Irmandade. Sem esses seis guerreiros, os civis ficariam nus ante os lessers, indefesos.

A tática não era nova. Tinha sido tentada durante gerações passadas e descartada numerosas vezes quando os irmãos tinham demonstrado ser muito agressivos ou muito escorregadios para serem exterminados. Mas com a morte de Darius, a Sociedade ganhava um novo impulso.

E tinham que agir de uma maneira diferente. Tal e como estavam as coisas, a Irmandade estava aniquilando a centenas de lessers cada ano, o que fazia necessário que as filas fossem engrossadas com caça vampiros novos e inexperientes. Os recrutas representavam um problema. Eram difíceis de encontrar, difíceis de introduzir na Sociedade e menos efetivos que os membros veteranos.

A constante necessidade de captação de novos membros conduziu a uma grave debilitação da Sociedade. Os centros de treinamento como a Academia de Artes Marciais de Caldwell tinham como objetivo primitivo selecionar e recrutar humanos para engrossar suas filas, mas também atraíam muito a atenção. Evitar a ingerência da polícia humana e proteger-se contra um ataque por parte da Irmandade requeria uma contínua vigilância e uma frequente recolocação. Mudar-se de um lugar para outro era um transtorno constante, mas como podia estar a Sociedade bem provida se os centros de operações eram atacados de surpresa?

O senhor X moveu a cabeça com um gesto de enfado. Em algum momento ia necessitar um primeiro-tenente, embora por agora preferisse agir sozinho.

Por sorte, nada do que tinha pensado fazer era excessivamente complicado. Tudo se reduzia a uma estratégia militar básica. Organizar as forças, coordená-las, obter informação sobre o inimigo e avançar de uma forma lógica e disciplinada.

Essa tarde organizaria seus efetivos, e quanto à questão relativa à coordenação, ia distribuí-los em esquadrões, e insistiria em que os caça vampiros começassem a reunir-se com ele habitualmente em pequenos grupos.

E a informação? Se queriam exterminar à Irmandade, necessitavam saber onde encontrar a seus membros. Isso seria um pouco mais difícil, mas não impossível. Aqueles guerreiros formavam um grupo cauteloso e desconfiado, não muito sociável, mas a população civil de vampiros tinha algum contato com eles. Depois de tudo, os irmãos tinham que alimentar-se, e não podiam fazê-lo entre eles. Necessitavam sangue feminino.

E as fêmeas, embora a maioria delas vivessem protegidas como se fossem obras de arte, tinham irmãos e pais que podiam ser persuadidos para que falassem. Com o incentivo apropriado, os machos revelariam aonde foram suas mulheres e a quem viam. Assim descobririam à Irmandade.

Essa era a chave de sua estratégia geral. Um programa coordenado de seguimento e captura, concentrado em machos civis e as escassas fêmeas que saíam desprotegidas, conduziria, finalmente, aos irmãos. Seu plano tinha que ter êxito, antes que os membros da Irmandade saíssem de seu esconderijo com suas adagas desencapadas, furiosos porque os civis tinham sido capturados brutalmente, ou porque alguém podia dar com a língua nos dentes e descobrir onde se ocultavam.

O melhor seria averiguar onde se encontravam os guerreiros durante o dia. Eliminá-los enquanto brilhava o sol, quando eram mais vulneráveis, seria a operação com maiores probabilidades de êxito e em que, possivelmente, as baixas da Sociedade seriam mínimas.

Em geral, matar vampiros civis era só um pouco mais difícil que aniquilar a um humano normal. Sangravam se cortados, seus corações deixavam de bater se disparasse neles e se queimavam se fossem expostos à luz solar.

Entretanto, matar a um membro da Irmandade era um assunto muito diferente. Eram tremendamente fortes, estavam muito bem treinados e suas feridas se curavam com uma celeridade assombrosa. Formavam uma subespécie particular. Só tinha uma oportunidade frente a um guerreiro. Se não a aproveitava, não voltava vivo.

Senhor X se levantou da escrivaninha, parando um momento para observar seu reflexo na janela do escritório. Cabelo claro, pele clara, olhos claros. Antes de unir-se à Sociedade tinha sido ruivo. Agora já quase não podia recordar sua aparência física anterior.

Mas sim, tinha muito claro seu futuro. E o da Sociedade. Fechou a porta com chave e se encaminhou para o corredor de azulejos que conduzia à sala de treinamento principal. Esperou na entrada, inclinando levemente a cabeça ante os estudantes à medida que entravam para suas aulas de jiu-jitsu. Este era seu grupo favorito: um conjunto de jovens, entre os dezoito e os vinte e quatro anos, que mostravam ser muito promissores. À medida que os moços, vestidos com seus trajes brancos, entravam fazendo uma pequena reverência com a cabeça e dirigindo-se a ele como sensei, o senhor X ia avaliando um por um, observando a forma como se moviam seus olhos, como deslocavam o corpo, qual podia ser seu temperamento.

Uma vez que os estudantes estavam em fila, preparados para começar a luta, continuou examinando-os, sempre interessado na busca de potenciais recrutas para a Sociedade. Necessitava uma combinação justa entre força física, acuidade mental e ódio não canalizado.

Quando se aproximaram dele para unir-se à Sociedade Lessening na década dos anos cinquenta, era um roqueiro de dezessete anos incluído em um programa para delinquentes juvenis. No ano anterior tinha apunhalado a seu pai no peito depois de uma briga em que aquele bastardo o tinha golpeado repetidas vezes na cabeça com uma garrafa de cerveja. Acreditava tê-lo matado, mas por desgraça não o fez e viveu o tempo suficiente para matar a sua pobre mãe.

Mas, pelo menos, depois de fazê-lo, seu querido pai teve a sensatez de estourar os miolos com uma escopeta e deixá-los disseminados por toda a parede. O senhor X encontrou os corpos durante uma visita que fez a casa, pouco antes de ser preso e internado em um centro público.

Aquele dia, diante do cadáver de seu pai, o senhor X aprendeu que gritar aos mortos não provocava nem a menor satisfação. Depois de tudo, não havia nada que fazer com alguém que se foi.

Considerando quem o tinha criado, não foi surpreendente que a violência e o ódio corressem pelo sangue do senhor X. E matar vampiros era um das poucas satisfações socialmente aceitáveis que tinha encontrado para um instinto assassino como o seu. O exército era aborrecido. Teria que acatar muitas normas e esperar até que se declarasse uma guerra para poder trabalhar como ele queria. E o assassinato em série era em pequena escala.

A Sociedade era diferente. Tinha tudo o que sempre quis: recursos ilimitados, a ocasião de matar cada vez que o sol sumia e, é obvio, a oportunidade, tão extraordinária, de instruir à próxima geração.

Assim teve que vender sua alma para entrar, embora não representasse nenhum problema. Depois do que seu pai tinha feito a ele, quase não lhe restava alma.

Além disso, em sua mente, tinha saído ganhando com o trato. Tinham lhe garantido que permaneceria jovem e com uma saúde perfeita até o dia de sua morte, e esta não seria resultado de uma falha biológica, como o câncer ou uma enfermidade cardíaca. Pelo contrário, teria que confiar em sua própria capacidade para conservar-se em uma peça só.

Graças ao Omega, era fisicamente superior aos humanos, sua vista era perfeita e podia fazer o que mais gostava. A impotência o tinha incomodado um pouco ao princípio, mas tinha se acostumado. E o não comer nem beber..., afinal nunca tinha sido um gourmet.

E fazer correr o sangue era melhor que a comida ou o sexo. Quando a porta que conduzia à sala de treinamento se abriu bruscamente, girou a cabeça imediatamente. Era Billy Riddle, e trazia os dois olhos roxos e o nariz enfaixado.

O senhor X arqueou uma sobrancelha.

— Não é seu dia livre, Riddle?

— Sim, sensei. — Billy inclinou a cabeça

— Mas queria vir de qualquer modo.

— Bom menino. — O senhor X passou um braço ao redor dos ombros do moço.

— Eu gosto de seu sentido de responsabilidade. Fará algo por mim... Quer indicar a eles o que tem que fazer durante o aquecimento?

Billy fez uma profunda reverência; suas amplas costas ficando quase paralelas ao chão.

— Sensei.

— Vá até eles. — Deu-lhe uma palmada no ombro.

— E não torne fácil.

Billy levantou o olhar, seus olhos brilhavam. O senhor X assentiu.

— Me alegro de que tenha captado a ideia, filho.

 

Quando Beth saiu de seu edifício, franziu o cenho ao ver o carro de polícia estacionado do outro lado da rua. José saiu dele e se dirigiu para ela a grandes pernadas.

— Já me contaram o que aconteceu. — Seus olhos ficaram fixos na boca da mulher.

— Como está?

— Melhor.

— Vamos, levarei você ao trabalho.

— Obrigado, mas prefiro caminhar. — José fez um movimento com seu queixo como se quisesse se opor, então ela estendeu a mão e lhe tocou o antebraço.

— Não quero que isto me aterrorize tanto que não possa continuar com minha vida. Em algum momento terei que passar por esse beco, e prefiro fazê-lo pela manhã, quando há luz suficiente.

Ele assentiu.

— Está bem. Mas chamará um táxi de noite ou pedirá a qualquer de nós que vá pegá-la.

— José...

— Alegra-me saber que está de acordo. — Cruzou a rua de volta a seu carro.

— Ah, não acredito que tenha ouvido o que Butch O'Neal fez ontem à noite.

Duvidou antes de perguntar:

— O quê?

— Foi fazer uma visita a esse canalha. Acredito que tiveram que reconstruir o nariz do indivíduo quando nosso bom detetive acabou com ele. — José abriu a porta do veículo e se deixou cair sobre o assento.

— Virá hoje por ali?

— Sim, quero saber algo mais sobre a bomba de ontem à noite.

— Já imaginava. Vemos-nos depois.

Saudou com a mão e arrancou, afastando do meio-fio da calçada.

Já era três da tarde e ainda não tinha podido ir à delegacia de polícia. Todos no escritório queriam ouvir o que lhe tinha acontecido a noite anterior. Depois, Tony tinha insistido em que saíssem para almoçar. Depois de sentar-se de novo em seu escritório, passou a tarde mastigando chiclete e perdendo o tempo com seu e-mail.

Sabia que tinha trabalho a fazer, mas simplesmente não se encontrava com forças para finalizar o artigo que estava escrevendo sobre o contrabando de armas que a polícia tinha encontrado. Não tinha que entregá-lo em um prazo concreto e, certamente, Dick não ia lhe dar a primeira página da seção local.

Ademais nem sequer ela o tinha feito. A única coisa que Dick lhe dava era trabalho editorial. Os dois últimos artigos que tinha deixado cair sobre sua escrivaninha tinham sido esboçados pelos meninos grandes, Dick queria que ela comprovasse a veracidade dos fatos. Seguir os mesmos critérios com os quais ele se familiarizou no New York Times, como sua obsessão pela veracidade, era, de fato, uma de suas virtudes. Mas era uma pena que não levasse em conta a equidade em um trabalho realizado. Não importava que o artigo fosse transformado por ela de cima abaixo, só obtinha uma menção secundária compartilhada no artigo de um menino grande.

Eram quase seis quando terminou de corrigir os artigos, e ao introduzi-los no fichário do Dick, pensou que não tinha vontade de passar pela delegacia de polícia. Butch tinha tomado sua declaração na noite anterior, e não havia nada mais que ela tivesse que fazer com respeito a seu caso. E, evidentemente, não se sentia cômoda com a ideia de estar sob o mesmo teto que seu assaltante, embora ele se encontrasse em uma cela.

Além disso, estava esgotada.

— Beth!

Deu um coice para ouvir a voz do Dick.

— Agora não posso, vou à delegacia de polícia — disse em voz alta por cima do ombro, pensando que a estratégia para evitá-lo não o manteria a raia durante muito tempo, mas ao menos não teria que lutar com ele essa noite.

E na realidade queria saber algo mais sobre a bomba. Saiu correndo do escritório e caminhou seis quadras naquela direção. O edifício da delegacia de polícia pertencia à típica arquitetura dos anos sessenta. Dois pisos, labiríntica, moderna em sua época, com abundância de cimento cinza claro e muitas janelas estreitas. Envelhecia sem elegância alguma. Grossas linhas negras corriam por sua fachada como se sangrasse por alguma ferida no telhado. E o interior também parecia moribundo: o chão coberto com um sujo linóleo verde cinzento, os muros com painéis de madeira falsa e os rodapés danificados de cor marrom. depois de quarenta anos, e apesar da limpeza periódica, a sujeira mais persistente se incrustou em todas as fendas e fissuras, e jamais sairia dali, nem sequer com um pulverizador ou uma escova.

Nem sequer com uma ordem judicial de desalojamento.

Os agentes se mostraram muito amáveis com ela quando a viram aparecer. Logo que colocou o pé no edifício, começaram a reunir-se a seu redor. Depois de falar com eles no exterior enquanto tratava de conter as lágrimas, dirigiu-se à recepção e conversou um momento com dois dos moços que estavam atrás do balcão. Tinham detido a uns quantos por prostituição e tráfico de entorpecente, mas, pelo resto, o dia tinha sido tranquilo. Estava a ponto de partir quando Butch entrou pela porta de trás.

Levava umas calças jeans, uma camisa fechada até o pescoço e um casaco vermelho na mão. Ela ficou olhando como a cartucheira se arqueava sobre seus largos ombros, deixando entrever a culatra negra da pistola quando seus braços oscilavam ao andar. Seu escuro cabelo estava úmido, como se acabasse de começar o dia.

O que, considerando o ocupado que tinha estado a noite anterior, provavelmente era certo.

Dirigiu-se diretamente para ela.

— Tem tempo para falar?

Ela assentiu.

— Sim, claro.

Entraram em uma das salas de interrogatório.

— Para sua informação, as câmaras e microfones estão desligados — disse.

— Não é assim como quase sempre trabalha?

Ele sorriu e se sentou à mesa. Entrelaçou as mãos.

— Pensei que deveria saber que Billy Riddle saiu sob fiança. Soltaram-no esta manhã cedo.

Ela tomou assento.

— De verdade se chama Billy Riddle[1]? Não tire o sarro. Butch negou com a cabeça.

— Tem dezoito anos. Sem antecedentes de adulto, mas estive dando uma olhada a sua ficha juvenil e esteve muito ocupado: abuso sexual, perseguição, roubos menores. Seu pai é um tipo importante, e o menino tem um advogado excelente, mas falei com a fiscal do distrito. Tratará de pressioná-lo para que não tenha que atestar.

— Irei ao tribunal se tiver que fazê-lo.

— Boa garota. — Butch clareou a garganta. — E como está?

— Bem. — Não ia permitir que El Duro bancasse o psicólogo. Havia algo na evidente rudeza de Butch O’Neal que fazia com que ela quisesse parecer mais forte.

— Sobre essa bomba, ouvi que possivelmente se trate de um explosivo plástico, com um detonador de controle remoto. Parece um trabalho de profissionais.

— Já jantou?

Ela franziu o cenho.

— Não.

E considerando o que tinha engolido pela manhã, também saltaria o café da manhã do dia seguinte.

Butch ficou de pé.

— Bom. Agora mesmo me dirigia ao Tullah'S. Ela se manteve firme.

— Não jantarei com você.

— Como quiser. Então, imagino que tampouco quererá saber o que encontramos no beco junto ao carro.

A porta se fechou lentamente a suas costas. Não cairia em semelhante armadilha. Não o faria... Beth saltou da cadeira e correu atrás dele.

 

Em sua ampla residência cor creme e branco, Marissa não se sentia segura de si mesma.

Sendo a shellan do Wrath, podia sentir sua dor, e por sua força sabia que certamente tinha perdido a outro de seus irmãos guerreiros.

Se tivessem uma relação normal, não o duvidaria: correria para ele e trataria de aliviar seu sofrimento. Falaria com ele, abraçaria, choraria a seu lado. Ofereceria a calidez de seu corpo.

Porque isso era o que as shellans passavam por seus companheiros. E o que recebiam em troca também. Deu uma olhada no relógio Tiffany de sua mesinha de cabeceira. Logo se perderia na noite. Se quisesse alcançá-lo teria que fazê-lo agora.

Marissa duvidou, não queria enganar-se. Não seria bem vinda. Desejou que fosse mais fácil apoiá-lo, desejou saber o que ele necessitava dela. Uma vez, fazia muito tempo, tinha falado com o Wellsie, a shellan do irmão Tohrment, com a esperança de que pudesse lhe oferecer algum conselho sobre como agir e comportar-se, como conseguir que Wrath a considerasse digna dele.

Depois de tudo, Wellsie tinha o que Marissa queria: um verdadeiro companheiro. Um macho que retornava para casa com ela, que ria, chorava e compartilhava sua vida, que a abraçava. Um macho que permanecia a seu lado durante as tortuosas, e felizmente escassas, ocasiões em que era fértil, que aliviava com seu corpo seus terríveis desejos durante o tempo que durava o período de necessidade.

Wrath não fazia nada disso por ela, ou com ela. E nesse estado de coisas, Marissa tinha que ir a seu irmão em busca de alívio a suas necessidades. Havers apaziguava suas ânsias, tranquilizando-a até que passavam aqueles desejos. Semelhante prática os envergonhava a ambos.

Tinha esperado que Wellsie pudesse ajudá-la, mas a conversa tinha sido um desastre. Os olhares de compaixão da outra fêmea E suas réplicas cuidadosamente meditadas tinham desgastado a ambas, acentuando tudo o que Marissa não possuía. Deus, como estava só.

Fechou os olhos, e sentiu novamente a dor de Wrath. Tinha que tentar chegar a ele, porque estava ferido. E além disso, o que restava na vida além dele?

Percebeu que Wrath se encontrava na mansão do Darius. Inspirando profundamente, se desmaterializou.

Wrath afrouxou lentamente os joelhos e se ergueu, escutando como voltavam as vértebras a sua posição com um rangido. Tirou os diamantes de seus joelhos.

Bateram à porta e ele permitiu que esta se abrisse, pensando que era Fritz.

Quando cheirou a oceano, apertou os lábios.

— O que a traz aqui, Marissa? — disse sem virar-se para olhá-la. Foi até o banho e se cobriu com uma toalha.

— Me deixe lavá-lo, meu senhor — murmurou ela. — Eu cuidarei de suas feridas. Posso...

— Assim estou, bem.

Sarava rápido. Quando finalizasse a noite seus cortes mal se notariam.

Wrath se dirigiu ao armário e examinou sua roupa. Tirou uma camisa negra de manga larga, umas calças de couro d... Por Deus, o que era isso? Ah, não, nem de brincadeira. Não ia lutar com aquela cueca. Por nada do mundo o surpreenderiam morto com um objeto como aquele.

A primeira coisa que tinha que fazer era estabelecer contato com a filha de Darius. Sabia que seu estava se esgotando, porque sua transição estava próxima. E depois tinha que comunicar-se com Vishous e Phury para saber o que tinham averiguado dos restos do lesser morto.

Estava a ponto de deixar cair a toalha para vestir-se, quando percebeu que Marissa ainda estava na residência. Olhou-a.

— Vá para casa, Marissa — disse.

Ela baixou a cabeça.

— Meu senhor, posso sentir sua dor...

— Estou perfeitamente bem.

Ela duvidou um momento. Logo desapareceu em silêncio. Dez minutos depois, Wrath subiu ao salão.

— Fritz? — chamou em voz alta.

— Sim, amo? — O mordomo parecia grato que o chamasse.

— Tem à mão cigarros vermelhos?

— É obvio.

Fritz atravessou a residência trazendo uma antiga caixa de mogno. Apresentou-lhe o conteúdo inclinando-a com a tampa aberta. Wrath pegou um par daqueles cigarros feitos à mão.

— Se gostar, conseguirei mais.

— Não se incomode. Serão suficientes. —Wrath não gostava de drogar-se, mas aquela noite queria dar conta desses dois charutos.

— Deseja comer algo antes de sair?

Wrath negou com a cabeça.

— Talvez quando voltar? — A voz do Fritz foi se apagando à medida que fechava a caixa.

Wrath estava a ponto de fazer calar ao velho macho quando pensou no Darius. D teria tratado melhor ao Fritz.  

— Está bem. Sim. Obrigado.

O mordomo ergueu os ombros com satisfação. Por Deus, parece estar sorrindo, pensou Wrath.

— Prepararei cordeiro, amo. Como prefere a carne?

— Quase crua.

— E lavarei sua roupa. Devo providenciar também roupa nova de couro?

— Não me... — Wrath fechou a boca

— Claro. Seria magnífico. E, ah, pode me conseguir umas cuecas boxer? Pretas, XXL.

— Será um prazer.

Wrath deu a volta e se dirigiu à porta.

Como diabos tinha acabado de repente tendo um servente?

— Amo?

— Sim?, — grunhiu.

— Tenha muito cuidado aí fora.

Wrath se deteve e olhou por cima de seu ombro. Fritz parecia embalar a caixa contra seu peito.

Era tremendamente estranho ter alguém esperando-o ao voltar para casa.

Saiu da mansão e caminhou pelo longo caminho da entrada até a rua. Um relâmpago cintilou no céu, antecipando a tormenta que podia cheirar formando-se ao sul.

Onde diabos estaria a filha de Darius nesse momento? Tentaria primeiro no apartamento.

Wrath se materializou no pátio traseiro da casa, olhou pela janela e devolveu o ronrono de boas vindas ao gato com um som próprio. Ela não estava no interior, de modo que Wrath se sentou frente a mesa de picnic. Esperaria uma hora mais ou menos. Logo teria que ir ao encontro dos irmãos. Podia voltar pelo final da noite, embora considerasse como tinham saído as coisas na primeira vez que a tinha visitado, imaginava que despertá-la às quatro da manhã não seria o mais inteligente.

Tirou os óculos de sol e esfregou a ponta do nariz. Como ia explicar-lhe o que ia acontecer e o que ela teria que fazer para sobreviver à mudança?

Teve o pressentimento de que não se mostraria muito feliz escutando o boletim de notícias.

Wrath lembrou-se de sua própria transição. O caos que se formou então. A ele tampouco tinham preparado, porque seus pais sempre quiseram protegê-lo, mas morreram antes de lhe dizer o que ia acontecer .

As lembranças voltaram para sua mente com terrível clareza. No final do século XVII, Londres era um lugar brutal, especialmente para alguém que estava só no mundo. Seus pais tinham sido assassinados ante seus olhos dois anos antes, e ele tinha fugido dos de sua espécie, pensando que sua covardia naquela espantosa noite era uma vergonha que devia suportar em solidão.

Enquanto na sociedade dos vampiros tinha sido alimentado e protegido como o futuro rei, tinha descoberto que no mundo dos humanos o que mais se tinha em conta era, principalmente, a força física. Para alguém da compleição que ele tinha antes de passar por sua mudança, isso significava permanecer no último escalão da escala social. Era tremendamente magro, esquelético, frágil e presa fácil para os meninos humanos em busca de diversão. Durante sua permanência nos subúrbios de Londres, tinham-no golpeado tantas vezes que se acostumou a que algumas parte de seu corpo não funcionassem bem. Para ele era habitual não poder dobrar uma perna porque tinham apedrejado seu joelho, ou ter um braço inutilizado porque tinham deslocado o ombro ao arrastá-lo atado a um cavalo.

Alimentou-se do lixo, sobrevivendo à beira da inanição, até que, finalmente, encontrou trabalho como servente no estábulo de um comerciante. Wrath limpou ferraduras, cadeiras de montar e bridas até sangrar a pele das mãos, mas pelo menos podia comer. Seu leito se encontrava entre a palha da parte superior do celeiro. Aquilo era mais fofo que o duro chão ao qual estava acostumado, embora nunca soubesse quando despertaria com um chute nas costelas porque algum cavalariço queria deitar-se com uma ou duas donzelas.

Naquele tempo, ainda podia estar sob a luz solar, e o amanhecer era a única coisa de sua miserável existência ansiava. Sentir o calor no rosto, inalar a doce bruma, deleitar-se com a luz; aqueles prazeres eram os únicos que havia possuído, e os tinha em grande estima. Sua vista, debilitada desde seu nascimento, já era ruim naquela época, mas bastante melhor que agora. Ainda recordava com penosa clareza como era o sol.

Tinha estado a serviço do comerciante durante quase um ano, até que todo seu mundo mudou de repente.

A noite em que sofreu a transformação, jogou-se em seu leito de palha, completamente esgotado. Nos dias anteriores, havia se sentido mal e havia custado muito fazer seu trabalho, embora aquilo não fosse uma novidade.

A dor, quando chegou, atormentou seu frágil corpo, começando pelo abdômen e estendendo-se para os extremos, chegando à ponta dos dedos das mãos, dos pés, e ao final de cada fio de seus cabelos. A dor não era nem remotamente similar a qualquer das fraturas, contusões, feridas ou surras que tinha recebido até aquele momento. Dobrou-se e encolheu-se, com os olhos quase saindo das órbitas em meio da agonia e a respiração entrecortada. Estava convencido de que ia morrer e rezou para mergulhar o quanto antes na escuridão. Só queria um pouco de paz e que finalizasse aquele horrível sofrimento.

Então uma formosa e esbelta loira apareceu para ele. Era um anjo enviado para levá-lo a outro mundo. Nunca duvidou.

Como o patético miserável que era, suplicou-lhe clemência. Estendeu a mão para a aparição, e quando a tocou soube que o fim estava perto. Ao ouvir que pronunciava seu nome, ele tratou de sorrir como amostra de gratidão, mas não pôde articular palavra. Ela contou que era a pessoa de quem tinha sido noiva, a que tinha bebido um gole de seu sangue quando era um criança para assim saber onde encontrá-lo quando se apresentasse sua transição. Disse que estava ali para salvá-lo.

E logo Marissa abriu o punho com suas próprias presas e levou a ferida a sua boca.

Bebeu desesperadamente, mas a dor não cessou. Só ficou diferente. Sentiu que suas articulações se deformavam e seus ossos se deslocavam com uma horrível sucessão de estalos. Seus músculos se retesaram e logo se rasgaram, e teve a sensação de que seu crânio ia explodir. À medida que seus olhos aumentavam, sua vista ia se debilitando, até que só ficou o sentido do ouvido.

Sua respiração áspera e gutural feriu sua garganta enquanto tentava aguentar. Em algum momento desmaiou, finalmente, só para despertar em uma nova agonia. A luz solar que tanto amava se filtrava através das ranhuras das pranchas do celeiro em pálidos raios dourados. Um daqueles raios lhe tocou em um ombro, e o aroma de carne queimada o aterrorizou, retirou-se dali, olhando ao seu redor preso do pânico. Não podia ver nada salvo sombras imprecisas. Cegado pela luz, tratou de levantar-se, mas caiu de barriga para baixo sobre a palha. Seu corpo não lhe respondia. Teve que tentar duas vezes antes de poder conseguir afirmar-se sobre seus pés, cambaleando como um potro.

Sabia que precisava proteger-se da luz do dia, e se arrastou até onde pensou que devia estar a escada. Mas calculou mal e caiu do palheiro. Em meio de seu atordoamento, acreditou poder chegar ao silo para o grão. Se conseguisse descer até ali, encontrar-se-ia rodeado pela escuridão.

Foi medindo com os braços por todo o celeiro, chocando-se contra as caixas e tropeçando com as ferramentas agrícolas, tratando de permanecer longe da luz e controlar ao mesmo tempo suas ingovernáveis extremidades. Quando se aproximava da parte traseira do celeiro, bateu a cabeça contra uma viga sob a qual sempre tinha passado facilmente. O sangue lhe cobriu os olhos.

Instantes depois, um dos cavalariço entrou, e não o reconhecendo, exigiu saber quem era. Wrath girou a cabeça em direção à voz familiar, procurando ajuda. Estendeu as mãos e começou a falar, mas sua voz não soou como sempre.

Logo escutou o som de uma forquilha aproximando-se pelo ar em feroz ataque. Sua intenção era desviar o golpe, mas quando segurou a manga e deu um empurrão, enviou o cavalariço contra a porta de um dos estábulos. O homem soltou um grito de espanto e escapou correndo, certamente em busca de reforços.

Wrath encontrou finalmente o porão. Tirou dali dois enormes sacos de aveia e os colocou junto à porta para que ninguém pudesse entrar durante o dia. Exausto, dolorido, com o sangue escorrendo pelo rosto, arrastou-se dentro e apoiou as costas nua contra o muro. Dobrou os joelhos até o peito, consciente de que suas coxas eram quatro vezes maiores que no dia anterior. Fechando os olhos, reclinou a bochecha sobre os antebraços e tremeu, lutando para não desonrar-se chorando. Esteve acordado todo o dia, escutando os passos sobre sua cabeça, os coices dos cavalos, o monótono zumbido dos bate-papos. Aterrorizava-o pensar que alguém abrisse a porta e o descobrisse. Alegrou-se que Marissa se foi e não estava exposta à ameaça procedente dos humanos.

Retornando ao presente, Wrath escutou à filha do Darius entrar no apartamento. Acendeu-se uma luz.

 

Beth jogou as chaves sobre a mesa do corredor. O rápido jantar com El Duro havia resultado surpreendentemente fácil. Ele tinha subministrado alguns detalhes sobre a bomba. Tinham achado uma Magnum manipulada no beco. Butch tinha mencionado também a estrela de arremesso de artes marciais que ela tinha descoberto no chão. A equipe do CSI estava trabalhando nas armas, tentando obter rastros, fibras ou qualquer outra prova. A pistola não parecia oferecer muito, mas a estrela tinha sangue, que estavam submetendo a análise de DNA. Quanto à bomba, a polícia pensava que se tratava de um atentado relacionado com drogas. O BMW tinha sido visto antes, estacionado no mesmo lugar atrás do clube. E Screamer's era um lugar ideal para os traficantes, muito exclusivos com respeito a seus territórios.

Esticou-se e colocou umas calças curtas. Era outra dessas noites calorosas, e enquanto abria o sofá, desejou que o ar condicionado ainda funcionasse. Ligou o ventilador e deu de comer ao Boo, que, após deixar vazia sua tigela, reatou seu ir e vir ante a porta de correr.

— Não vamos começar de novo, ou sim?

Um relâmpago resplandeceu no céu. aproximou-se da porta de vidro e a deslizou um pouco para trás, bloqueando-a. Deixaria aberta só um momento. Por uma vez, o ar noturno cheirava bem. Nem um pouco a lixo.

Mas, Por Deus, fazia um calor insuportável.

Inclinou-se sobre o lavabo do banheiro, depois de tirar as lentes de contato, escovar os dentes e lavar o rosto, encharcou uma toalha em água fria e esfregou a nuca. Uns fiozinhos de água desceram por sua pele, e ela recebeu com prazer os calafrios ao voltar a sair.

Franziu o cenho. Um aroma muito estranho flutuava no ambiente. Algo exuberante e picante...

Encaminhou-se para a porta do pátio e farejou um par de vezes. Ao inalar, sentiu que se aliviava a tensão de seus ombros. E logo viu que Boo se sentou escondido e ronronava como se estivesse dando a boas vindas a alguém conhecido.

— Que diab...?

O homem que tinha visto em seus sonhos estava do outro lado do pátio.

Beth deu um salto atrás e deixou cair a toalha úmida; escutou fracamente o som surdo quando chegou ao chão.

A porta deslizou para trás, ficando aberta por completo, apesar de que ela a tinha bloqueado.

E aquele maravilhoso aroma se fez mais evidente quando ele entrou em sua casa.

Sentiu pânico, mas descobriu que não podia mover-se.

Por todos os Santos, aquele desconhecido era colossal. Se seu apartamento era pequeno, com sua presença pareceu reduzi-lo ao tamanho de uma caixa de sapatos. E o traje de couro negro contribuía para fazê-lo maior. Devia medir pelo menos dois metros. Um minuto...

O que estava fazendo? Tomando as medidas para fazer um traje?

Teria que estar saindo a toda pressa. Deveria estar tratando de chegar à outra porta, correndo como alma que leva o diabo.

Mas estava como hipnotizada, olhando-o.

Usava um casaco apesar do calor, e suas longas pernas também estavam cobertas de couro. Usava pesadas botas com ponteira de aço, e se movia como um predador.

Beth esticou o pescoço para ver seu rosto.

Tinha o queixo proeminente e forte, lábios grossos, maçãs do rosto marcados. O cabelo, escorrido e negro, caía-lhe até os ombros de uma mecha em forma de u na frente, e em seu rosto se apreciava a sombra de uma incipiente barba escura. Os óculos de sol negros que usava, curvados nos extremos, ajustavam-se perfeitamente a seu rosto e lhe conferiam um aspecto de capanga.

Como se a aparência ameaçadora não fosse suficiente para fazê-lo parecer um assassino.

Fumava um charuto fino e avermelhado, no qual deu uma longa tragada fazendo brilhar o extremo com um resplendor alaranjado. Exalou uma nuvem dessa fumaça fragrante, e quando esta chegou ao nariz de Beth, seu corpo se relaxou ainda mais.

Pensou que certamente vinha para matá-la. Não sabia o que tinha feito para merecer aquele ataque, mas quando ele soltou outra baforada daquele estranho charuto, quase não pôde recordar onde estava. Seu corpo se sacudia enquanto ele diminuía a distância entre ambos. Aterrorizava-lhe o que aconteceria quando estivesse junto a ela, mas notou, absurdamente, que Boo ronronava e se esfregava contra os tornozelos do estranho.

Aquele gato era um traidor. Se por algum milagre sobreviesse àquela noite, o obrigaria a comer vísceras.

Beth jogou o pescoço para trás quando seus olhos se encontraram com o feroz olhar do homem. Não podia ver a cor de seus olhos através dos óculos, mas seu olhar fixo queimava.

Logo, aconteceu algo extraordinário. Ao deter-se frente a ela, a jovem sentiu uma rajada de pura e autêntica luxúria. Pela primeira vez em sua vida, seu corpo ficou lascivamente quente. Quente e úmido.

Seus clitóris ardia por ele.

Química, pensou aturdida. Química pura, crua, animal. Qualquer coisa que ele tivesse, ela o queria.

— Pensei que podíamos tentar de novo — disse ele.

Sua voz era grave, um profundo retumbar em seu sólido peito. Tinha um ligeiro acento, mas não pôde identificá-lo.

— Quem é você? — disse em um sussurro.

— Vim para buscá-la.

A tontura a obrigou a apoiar-se na parede.

— A mim? Aonde... — A confusão a obrigou a calar-se.

— Aonde me levará?

À ponte? Para jogar seu corpo ao rio?

A mão do Wrath se aproximou do rosto dela, e tomou o queixo entre o índice e o polegar, fazendo-a girar a cabeça para um lado.

— Matar-me-á rápido? — resmungou ela — Ou lentamente?

— Matar não. Proteger.

Quando ele baixou a cabeça, ela tratou de conscientizar-se de que devia reagir e lutar contra aquele homem apesar de suas palavras. Precisava colocar em funcionamento seus braços e suas pernas. O problema era que, na realidade, não desejava empurrá-lo para longe dela. Inspirou profundamente.

Santo Deus, cheirava estupendamente. A suor fresco e limpo. Um almíscar escuro e masculino. Aquela fumaça...

Os lábios dele tocaram seu pescoço. Deu-lhe a sensação de que a cheirava. O couro de seu casaco rangeu ao encher de ar seus pulmões e expandir seu peito.

— Está quase preparada — disse em silêncio.

— Não temos muito tempo.

Se referia-se a que tinham que despir-se, ela estava completamente de acordo com o plano. Por Deus, aquilo devia ser o que uma pessoa se referia quando ficava poética com o sexo. Não questionava a necessidade de tê-lo dentro dela, unicamente sabia que morreria se ele não tirasse as calças. Já.

Beth estendeu as mãos, ansiosa por tocá-lo, mas quando se afastou da parede começou a cair. Com um único movimento, ele colocou o cigarro entre seus cruéis lábios e ao mesmo tempo a segurou com grande facilidade. Enquanto a levantava entre seus braços, ela se apoiou nele, sem incomodar-se nem sequer em fingir certa resistência. Levou-a como se não pesasse, cruzando a residência com grande rapidez.

Quando a recostou sobre o sofá, seu cabelo caiu para frente, e ela levantou a mão para tocar as negras ondas. Eram grossas e suaves. Passou-lhe a mão pelo rosto, e embora ele pareceu surpreender-se, não a retirou.

Por Deus, tudo nele irradiava sexo, da fortaleza de seu corpo até a forma como se movia e o aroma de sua pele. Nunca tinha visto um homem semelhante. E seu corpo era tão bom como sua mente.

— Me beije — disse ela.

Ele se inclinou sobre ela, como uma silenciosa ameaça. Seguindo um impulso, as mãos do Beth agarraram as lapelas do casaco do vampiro, puxando-o para aproximá-lo de sua boca.

Ele segurou ambos os punhos com uma só mão.

— Calma.

Calma? Não queria calma. A calma não era parte do plano.

Lutou para soltar-se, e não conseguindo arqueou as costas. Seus seios retesaram a camiseta, e esfregou uma coxa contra a outra, prevendo o que sentiria se o tivesse entre eles.

Se colocasse suas mãos sobre ela...

— Por todos os Santos — murmurou ele.

Ela sorriu, deleitando-se com o súbito desejo de seu rosto.

— Me toque.

O estranho começou a sacudir a cabeça, como se quisesse despertar de um sonho.

Ela abriu os lábios, gemendo de frustração.

— Suba a camiseta. — arqueou-se de novo, oferecendo seu corpo, desejando saber se havia algo mais quente em seu interior, algo que ele pudesse extrair com as mãos

— Faça-o.

Ele jogou o cigarro da boca. Suas sobrancelhas se juntaram, e ela teve a vaga impressão de que deveria estar aterrorizada. Em lugar disso, ergueu os joelhos e levantou os quadris do sofá. Imaginou que ele beijava o interior das coxas e procurava seu sexo com a boca. Lambendo-a.

Outro gemido saiu de sua boca. Wrath estava mudo de assombro.

E não era do tipo de vampiros que ficam estupefatos frequentemente.

Céus.

Aquela mestiça humana era a coisa mais sensual que teve perto em sua vida. E tinha apagado uma ou duas fogueiras em algum tempo.

Era a fumaça vermelha. Tinha que ser isso. E devia estar afetando a ele também, porque estava mais que disposto a tomar à fêmea.

Olhou o cigarro.

Bem, um raciocínio muito profundo, pensou. O mau era que aquela maldita substância era relaxante, não afrodisíaca.

Ela gemeu outra vez, ondulando seu corpo em uma sensual onda, com as pernas completamente abertas. O aroma de sua excitação chegou tão forte como um disparo. Por Deus, ele teria caído de joelhos se não estivesse sentado.

— Me toque — suspirou.

O sangue de Wrath batia como se estivesse correndo desbocado e sua ereção palpitava como se tivesse um coração próprio. — Não estou aqui para isso — disse.

— Me toque assim mesmo.

Ele sabia que devia negar-se. Era injusto para ela. E tinham que falar.

Talvez devesse retornar mais tarde.

Ela se arqueou, pressionando seu corpo contra a mão com que ele segurava os punhos. Quando seus seios retesaram a camiseta, ele teve que fechar os olhos.

Era hora de ir-se. Na verdade era hora de...

Mas não podia ir sem saborear ao menos algo.

Sim, mas seria um bastardo egoísta se lhe colocasse um dedo em cima. Um maldito bastardo egoísta se tomava algo que ela estava oferecendo sob os efeitos da fumaça.

Com uma maldição, Wrath abriu os olhos.

Por Deus, estava muito frio. Frio até a medula. E ela quente. O suficiente para derreter esse gelo, ao menos durante um momento.

E tinha passado tanto tempo...

O vampiro baixou as luzes da residência. Logo usou a mente para fechar a porta do pátio, colocar o gato no banheiro e correr todos os ferrolhos do apartamento.

Apoiou cuidadosamente o cigarro sobre o borda da mesa junto a eles e soltou os punhos. As mãos dela agarraram seu casaco, tentando segurá-lo pelos ombros. Ele tirou o objeto de um puxão, e quando jogou ao chão com um som surdo, ela riu com satisfação. Seguiu-se a capa das adagas, mas a manteve ao alcance da mão.

Wrath se inclinou sobre ela. Sentiu seu fôlego doce e mentolado quando posou a boca sobre seus lábios. Ao sentir que ela estremecia de dor, retirou-se imediatamente. Franzindo o cenho, tocou-lhe o borda da boca.

— Esquece — disse ela, agarrando seus ombros.

É obvio que não o esqueceria. Que Deus ajudasse a aquele humano que a tinha ferido. Wrath ia arrancar-lhe cada um de seus membros e o deixaria na rua sangrando.

Beijou suavemente o machucado em processo de cura, e logo desceu com a língua até o pescoço. Esta vez, quando ela empurrou os seios para cima, ele deslizou uma mão sob a fina camiseta e percorreu a suave e cálida pele. Seu ventre era plano, e deslizou sobre ele a palma da mão, sentindo o espaço entre os ossos dos quadris.

Ansioso por conhecer o resto, tirou-lhe o objeto e a jogou em um lado. Seu sutiã era de cor clara, e ele percorreu os bordas com a ponta dos dedos antes de acariciar com as palmas seu seios, que cobriu com as mãos, sentindo as duras pontas de seus mamilos sob o suave cetim.

Wrath perdeu o controle.

Deixou as presas a descoberto, emitiu um murmúrio e mordeu o fechamento frontal do sutiã. O mecanismo se abriu de repente. Beijou um de seus mamilos, colocando-o na boca. Enquanto sugava, deslocou o corpo e o estendeu sobre ela, caindo entre suas pernas. Ela acolheu seu peso com um suspiro gutural. As mãos de Beth se interpuseram entre ambos quando ela quis lhe desabotoar a camisa, mas ele não teve paciência suficiente para que o despisse. Ergueu-se — puxou a roupa para tirar fazendo saltar os botões e enviando-os pelos ares. Quando se inclinou de novo, seus seios roçaram o peito de rocha e seu corpo estremeceu sob ele.

Queria beijá-la outra vez na boca, mas estava além da delicadeza e a sutileza, assim rendeu culto aos seios com a língua e logo mudou para seu ventre. Quando chegou à calcinha da garota, deslizou-a pelas longas e suaves pernas.

Wrath sentiu que algo lhe explodia na cabeça quando seu aroma chegou em uma fresca onda. Já se encontrava perigosamente perto do orgasmo, com seu membro preparado para explodir e o corpo tremendo pela urgência de possuí-la. Levou a mão a suas coxas. Estava tão úmida que rugiu.

Embora estivesse tremendamente ansioso, tinha que saboreá-la antes de penetrá-la.

Tirou os óculos e as colocou junto ao cigarro antes de encher de beijos seus quadris e coxas. Beth lhe acariciou o cabelo com as mãos enquanto o apressava para que chegasse a seu destino.

Beijou-lhe a pele mais delicada, atraindo o clitóris para sua boca, e ela alcançou o êxtase uma e outra vez até que Wrath não pôde conter suas próprias necessidades. Retrocedeu, apressou-se a tirar as calças e a cobri-la com seu corpo uma vez mais.

Ela colocou as pernas ao redor de seus quadris, e ele murmurou quando sentiu como seu calor lhe queimava o membro. Utilizou as poucas forças que restavam para deter-se e olhá-la no rosto.

— Não pare — sussurrou ela. — Quero sentir você dentro de mim.

Wrath deixou cair a cabeça dentro da depressão de seu pescoço. Lentamente, jogou para trás o quadril. A ponta de seu pênis deslizou até a posição correta ajustando-se a ela com perfeição, penetrando-a com um poderoso arremesso. Soltou um bramido de êxtase.

O paraíso. Agora sabia como era o paraíso.

 

Em sua residência, o senhor X colocou calças de trabalho e uma camisa negra de náilon. Sentia-se satisfeito pela forma como tinha transcorrido a reunião com a Sociedade essa tarde. Todos os lessers tinham assistido. A maioria deles se encontraram dispostos a submeter-se a seus ditados, só uns poucos tinham exposto problemas, enquanto que outros tinham tratado de adulá-lo. Tudo isso não os tinha conduzido a nenhuma parte.

Ao final da sessão, tinha escolhido a vinte e oito mais para que permanecessem na área de Caldwell, apoiando-se em sua reputação e na impressão que tinham causado ao conhecê-los pessoalmente. Aos doze mais capacitados tinha dividido em dois esquadrões principais. Aos outros dezesseis os distribuiria em quatro grupos secundários.

Nenhum deles pareceu disposto a aceitar a nova distribuição. Estavam acostumados a trabalhar por sua própria conta, e sobre tudo aos mais seletos não achavam muita graça em permanecer atados. Tudo parecia muito complicado. A vantagem da divisão em esquadrões consistia em que podia lhes atribuir diferentes partes da cidade, dividi-los em pequenos contingentes e fiscalizar seu rendimento mais de perto.

O resto tinha sido enviado de volta a seus postos. Agora que tinha a suas tropas em formação e com suas respectivas missões atribuídas, se concentraria no procedimento de reunir informação. Já tinha uma ideia de como fazer funcionar, e provaria naquela noite.

Antes de sair à rua, jogou para cada um de seus pitbulls um quilo de carne crua picada. Gostava de mantê-los famintos, assim que os alimentava em dias alternados. Tinha aqueles cães, ambos machos, fazia dois anos, e os prendia em extremos opostos de sua casa, um à frente e o outro na parte traseira, Era uma disposição lógica do ponto de vista defensivo, mas também o fazia por outra questão: a única vez que os tinha atado juntos, atacaram-se ferozmente.

Recolheu sua bolsa, fechou a casa e cruzou a grama. O rancho era um pesadelo arquitetônico de falso tijolo construído a princípios dos anos setenta, e, ele mantinha o exterior feio de propósito. Precisava encaixar no entorno, e o preço daquela zona rural não superaria os cem mil em curto prazo.

Além disso, a casa não importava. O importante era a terra. Com uma extensão de quatro hectares, permitia-lhe ter privacidade. Na parte de trás, também havia um velho celeiro rodeado de árvores. Tinha-o convertido em sua oficina, e — os carvalhos e bordos amorteciam os ruídos, o que era de vital importância. Depois de tudo, os gritos podiam ouvir-se.

Apalpou o aro do chaveiro até que encontrou a chave correta. Como essa noite teria que trabalhar, deixaria na garagem o único capricho que se permitiu, o hummer negro. Sua caminhonete Chrysler, que já tinha quatro anos, seria mais adequada e o encobriria melhor.

Levou dez minutos para chegar até o centro da cidade e logo se dirigiu para o Vale das Prostitutas de Caldwell, um lance de três quadras escassamente iluminadas e cheias de lixo perto da ponte. O tráfico era intenso essa noite por aquele corredor de depravação. Deteve-se sob uma luz fraca para observar a atividade da zona. Os carros percorriam a escura rua, parando a cada pouco para que os condutores examinassem o que havia nas calçadas. Sob o infernal calor do verão, as garotas acampavam na rua, rebolando sobre seus sapatos de saltos impossíveis, cobrindo apenas seu seios e traseiros com objetos ligeiros que pudessem tirar facilmente.

O senhor X abriu a bolsa e tirou uma seringa de injeção hipodérmica cheia de heroína e uma faca de caça. Ocultou ambas as coisas na porta e baixou o vidro do lado contrário antes de mesclar-se com a maré de veículos.

Ele era só um entre tantos, pensou. Outro idiota, tratando de conseguir algo.

— Procura companhia? — escutou gritar uma das prostitutas.

— Quer montar? — disse outra, movendo o traseiro.

À segunda volta, encontrou o que estava procurando, uma loira de pernas longas e grandes curvas.

Exatamente o tipo de prostituta que teria comprado se seu pênis ainda funcionasse.

Ia desfrutar com aquilo, pensou o senhor X pisando no freio. Matar o que já não podia ter lhe proporcionava uma satisfação especial.

— Olá, querido — disse ela aproximando-se. Colocou os antebraços sobre a porta do carro e se inclinou através da janela. Cheirava a chiclete de canela e a perfume misturado com suor. — Como está?

— Poderia estar melhor. Quanto me custará comprar um sorriso?

Ela observou o interior do carro e sua roupa.

— Com cinquenta o farei chegar ao céu, ou aonde você queira.

— É muito. — Mas só o disse por dizer. Era ela a quem queria.

— Quarenta?

— Deixe-me ver suas tetas.

Ela as mostrou.

Ele sorriu, tirando a trava das portas para que pudesse entrar.

— Como se chama?

— Cherry Pie. Mas pode me chamar como quiser.

O senhor X deu volta à esquina com o carro até chegar a um lugar retirado debaixo da ponte.

Jogou o dinheiro no chão aos pés da mulher, e quando ela se inclinou para recolhê-lo, introduziu-lhe a seringa de injeção na nuca e apertou o êmbolo até o fundo. Instantes depois ela desabou como um boneca de pano.

O senhor X sorriu e a jogou para trás no assento para que ficasse sentada. Logo jogou a seringa de injeção pela janela, que caiu junto a muitas outras, e colocou o veículo em marcha.

 

Em sua clínica clandestina, Havers elevou a vista do microscópio, desconcentrado pelo sobressalto. O relógio do avô estava repicando em um canto do laboratório, lhe indicando que era a hora do jantar, mas não queria deixar de trabalhar. Voltou a fixar a vista no microscópio, perguntando-se se tinha imaginado o que acabava de ver. Depois de tudo, o desespero podia esta afetando a sua objetividade.

Mas não, as células sanguíneas estavam vivas. Exalou um suspiro e estremeceu.

Sua raça estava quase livre. Ele estava quase livre.

Finalmente, tinha conseguido que o sangue armazenado ainda fosse aceitável.

Como médico, sempre tinha tido dificuldades na hora de tratar pacientes que podiam ter certas complicações no parto. As transfusões em tempo real de um vampiro a outro eram possíveis, mas como sua raça estava dispersa e seu número era pequeno, podia ser muito difícil encontrar doadores a tempo. Durante séculos quis instaurar um banco de sangue. O problema era que o sangue dos vampiros era muito variável, e seu armazenamento fora do corpo sempre tinha sido impossível. O ar, essa cortina invisível sustentadora de vida, era uma das causas do problema, nem eram necessárias muitas dessas moléculas para poluir uma amostra. Com apenas uma ou duas, o plasma se desintegrava, deixando aos glóbulos vermelhos e brancos desprotegidos, e evidentemente imprestáveis.

Ao princípio, não compreendia muito bem como se produzia este processo. No sangue havia oxigênio. Por essa razão era vermelho ao sair dos pulmões. Aquela discrepância o tinha conduzido a algumas fascinantes descobertas sobre o funcionamento pulmonar dos vampiros, mas não o tinha aproximado de seu objetivo. Tinha tratado de extrair sangue e armazená-lo imediatamente em um recipiente hermético. Esta solução, embora fosse a mais óbvia, não funcionou. A desintegração era inevitável igualmente, mas a um ritmo menos acelerado. Isso lhe tinha sugerido a existência de outro fator, algo inerente ao entorno corporal que faltava quando o sangue era extraído do corpo. Tratou de isolar amostras em calor e em frio, em suspensões Salinas ou de plasma humano.

Um sentimento de frustração o tinha consumido à medida que fazia mudanças em seus experimentos. Realizou mais prova e tentou diferentes enfoques. Às vezes abandonava o projeto, mas sempre retornava a ele.

Passaram várias décadas.

E depois, uma tragédia pessoal lhe proporcionou uma razão para resolver o problema. Depois da morte de sua shellan e de seu filho durante o parto fazia uns dois anos, obcecou-se e começou tudo outra vez.

Sua própria necessidade de alimentar-se tinha estimulado. Por regra geral, só precisava beber a cada seis meses, porque sua linhagem era muito forte. Ao morrer sua formosa Evangeline, esperou o tempo que pôde, até que ficou prostrado na cama por causa da dor da fome. Quando pediu ajuda, obcecou-se com o fato de sentir tanta ânsia de viver para beber de outra fêmea. E até chegou a pensar que tinha que alimentar-se só para experimentar e certificar-se de que não seria o mesmo que com Evangeline. Estava convencido de que não obteria nenhum prazer no sangue de outra e assim não trairia sua memória.

Tinha ajudado a tantas fêmeas, que não foi difícil encontrar a uma disposta a oferecer-se. Escolheu a uma amiga que não tinha companheiro, e manteve a esperança de poder conservar sua própria tristeza e humilhação.

Foi um autêntico pesadelo. Tinha aguentado tanto tempo que assim que cheirou o sangue, o predador que havia nele reapareceu. Atacou sua amiga e bebeu com tanta força que, posteriormente, teve que costurar a ferida do punho.

Quase lhe arranca a mão a dentadas.

Aquela reação o fez repensar sobre o conceito que tinha de si mesmo. Sempre tinha sido um cavalheiro, um erudito, alguém dedicado a curar, um macho não sujeito aos desejos mais primários de sua raça.

Mas, claro, sempre tinha estado bem alimentado.

E a terrível verdade era que o tinha deleitado o sabor desse sangue. O suave e cálido fluxo que passou por sua garganta, e a descomunal força que veio depois.

Tinha sentido prazer, e quis mais.

A vergonha o fez sentir ânsia, e jurou que nunca mais beberia de outra veia.

Tinha cumprido aquela promessa, embora como resultado se tornou fraco, tão fraco que concentrar-se era como tratar de encerrar um banco de névoa. Sua inanição era a causa de uma constante dor no estômago. E seu corpo, ansioso por um sustento que o alimento não podia lhe dar, canibalizou a si mesmo para manter-se vivo. Tinha perdido tanto peso que suas roupas se penduravam por todos os lados e tinha o rosto gasto e cinza.

Mas o estado em que se encontrava lhe tinha mostrado o caminho.

A solução era óbvia.

Terei que alimentar aquilo que tinha fome.

Um processo hermético unido a uma quantidade suficiente de sangue humano, e já tinha suas células sanguíneas vivas.

Sob o microscópio, observou como os glóbulos dos vampiros, maiores e de forma mais irregular comparados com os humanos, consumiam lentamente o que lhes tinha dado. A recontagem humana diminuiu nessa mostra, e quando este se extinguiu, quase estava disposto a apostar que a viabilidade do componente vampiro se reduziria até chegar a zero.

Só tinha que realizar uma prova clínica. Extrairia um litro de uma fêmea, mesclaria com uma proporção adequada de sangue humano, e logo faria ele mesmo uma transfusão.

Se tudo saísse bem, estabeleceria um programa de doação e armazenamento. Salvar-se-iam muitos pacientes. E aqueles que tinham decidido renunciar à intimidade de beber poderiam viver sua vida em paz.

Havers ergueu a vista do microscópio, precavendo-se de que tinha estado observando os glóbulos durante vinte minutos. O prato de salada do jantar estaria esperando-o sobre a mesa.

Tirou a bata branca e atravessou a clínica, fazendo uma pausa para falar com alguns membros de seu pessoal da enfermaria e um par de pacientes. As instalações eram bastante amplas e estavam ocultas nas profundezas da terra sob sua mansão. Havia três salas de cirurgia, várias salas de exame e reanimação, o laboratório, seu escritório e uma sala de espera com acesso independente que dava à rua. Via perto de mil pacientes ao ano e fazia visitas a domicilio para partos e outras emergências segundo as necessidades.

Embora sua atividade tivesse diminuído ultimamente por causa de um diminuição da população.

Comparados com os humanos, os vampiros contavam com tremendas vantagens no referente à saúde. Seu corpo sanava rápido. Não sofriam enfermidades como o câncer, a diabetes ou Aids. Mas que Deus os ajudasse se tinham um acidente a plena luz do dia. Ninguém podia lhes prestar ajuda. Os vampiros também morriam durante sua transição ou momentos depois. E a fertilidade constituía outro tremendo problema. Apesar de que a concepção fosse bem-sucedida, com frequência as fêmeas não sobreviviam ao parto, seja pelas hemorragias ou por alguma infecção. Os abortos eram habituais, e a mortalidade infantil excedia qualquer limite.

Para os doentes, feridos ou moribundos, os médicos humanos não constituíam uma boa opção, embora as duas espécies compartilhassem em grande medida a mesma anatomia. Se um médico humano chegasse a solicitar uma análise de sangue a um vampiro, encontraria toda espécie de anomalias e acreditaria ter algo digno de publicar-se no Diário Médico da Nova a Inglaterra. O melhor era evitar essa espécie de tentação.

Em ocasiões, entretanto, algum paciente terminava em algum hospital humano, um problema que aumentado desde que tinha começado a funcionar o 911 e as ambulâncias chegavam imediatamente. Se um vampiro ficava tão ferido gravemente que perdia o conhecimento longe de sua casa, corria o perigo de ser recolhido e levado a uma sala de urgências humana. Tirá-lo dali sem permissão médica sempre tinha sido muito difícil.

Havers não era arrogante, mas sabia que era o melhor médico com que contava sua espécie. Tinha concluído à Faculdade de Medicina da Universidade do Harvard duas vezes, uma ao finais de 1800 e logo na década de 1980. Em ambos os casos declarou em seu formulário de matrícula que era inválido, e a universidade lhe permitiu concessões especiais. Não tinha podido assistir às conferências porque estas se realizavam durante o dia, mas tinham permitido a seu doggen tomar notas e entregar seus exames. Havers tinha lido todos os textos, mantido correspondência com os professores, e inclusive assistido a seminários e bate-papos programados em horas noturnas.

Sempre o tinha fascinado a Academia.

Quando chegou ao primeiro piso, não o surpreendeu ver que Marissa não tinha descido à sala de jantar, embora o jantar se servisse à uma da madrugada todas as noites.

Dirigiu-se às dependências da fêmea.

— Marissa? — disse na porta, tocando suavemente uma vez. — Marissa, é a hora de jantar.

Havers mostrou a cabeça. A luz do candelabro do vestíbulo se filtrou, criando um raio dourado que atravessou as trevas. As cortinas ainda cobriam as janelas, e ela não tinha acendido nenhum dos abajures.

— Marissa, querida?

— Não tenho fome.

Havers cruzou a soleira. Distinguiu a cama com dossel e o pequeno vulto que formava seu corpo sob as mantas.

— Mas tampouco comeu nada ontem à noite. Nem jantou.

— Descerei mais tarde.

E fechou os olhos,  chegou à conclusão de que lhe tinham subministrado alimento a noite anterior. Cada vez que via o Wrath, encerrava-se em si mesma durante vários dias.

Pensou nos glóbulos vivos de seu laboratório.

Wrath podia ser o rei de sua raça por nascimento e ter o sangue mais puro de todos, mas aquele guerreiro era um completo bastardo. Não parecia se preocupar com o que estava fazendo a Marissa. Ou possivelmente nem sequer sabia quanto a afetava sua crueldade.

Era difícil decidir qual dos dois crimes era pior. — Fiz um progresso importante — disse Havers, aproximando-se da cama para sentar-se na borda

— Vou libertar você.

— Do que?

— Desse... assassino.

— Não fale assim dele.

Havers chiou os dentes.

— Marissa...

— Não quero me libertar dele.

— Como pode dizer isso? Trata você sem nenhum respeito. Detesto pensar nesse bruto alimentando-se de você em qualquer beco...

— Vamos a casa do Darius. Tem uma residência ali.

A ideia de que ela estivesse exposta a outro dos guerreiros não o tranquilizava precisamente. Todos eram aterradores, e alguns francamente pavorosos.

Sabia que a Irmandade da Adaga Negra era um mal necessário para defender a raça, e tinha que estar agradecido por seu amparo, mas só podia sentir temor ante eles. O fato de que o mundo fosse tão perigoso e os inimigos da raça tão poderosos para fazer imprescindível a existência de tais guerreiros, era trágico.

— Não deve fazer isto a você mesma.

Marissa deu meia volta, lhe dando as costas.

— Vá embora.

Havers levou as mãos aos joelhos e se levantou. Suas lembranças da Marissa antes que começasse a prestar serviço a seu terrível rei eram muito difusos. Só podia recordar algumas vezes e breves momentos de sua existência anterior, e temia que não ficasse nada da alegre e sorridente da jovem.    

E no que se converteu? Em uma sombra total que flutuava pela casa, adoecendo por um macho que a tratava sem nenhuma consideração.

— Espero que repense E deves comer — disse Havers suavemente. — eu adoraria contar com sua companhia.

Fechou a porta em silêncio e se dirigiu para a escadaria curva. A mesa da sala de jantar estava disposta como gostava, com o serviço completo de porcelana, cristal e prata. Sentou-se à cabeceira da reluzente mesa, e um de seus doggens apareceu para serví-lo .

Ao baixar a vista para olhar o prato de alface, forçou um sorriso.

— Karolyn, esta salada tem um aspecto estupendo.

A mulher inclinou a cabeça e seus olhos brilharam ante aquele louvor.

— Hoje fui a uma granja só para procurar o alface que você gosta.

— Bem, aprecio seu esforço. — Havers se dedicou a cortar as delicadas verduras assim que ficou só na formosa sala. Pensou em sua irmã, encolhida na cama.

Havers era médico por natureza e profissão, um macho que tinha dedicado sua vida inteira a serviço de outros.

Mas se alguma vez Wrath ficasse tão ferido gravemente para necessitar sua ajuda, sentir-se-ia tentado a deixar esse monstro sangrar. Ou a matá-lo na sala de cirurgia com um talho de bisturi.

 

Beth recuperou a consciência lentamente. Foi como sair à superfície depois de um salto de trampolim perfeitamente realizado. Havia um resplendor em seu corpo, uma certa satisfação enquanto ressurgia do nebuloso mundo do sonho.

Sentiu algo na frente.

Suas pálpebras se abriram. Uns longos dedos masculinos se moviam sob a ponte de seu nariz, passaram por sua bochecha e desceram a seu queixo.

Havia suficiente luz natural procedente da cozinha, de modo que podia distinguir na penumbra ao homem que estava estendido a seu lado.

Estava totalmente concentrado em explorar seu rosto. Tinha os olhos fechados, a sobrancelha franzida, as grosas pestanas contra suas maçãs do rosto altas e firmes. Estava a seu lado, seus ombros gigantescos lhe tampavam a vista da porta de vidro.

Deus Santo, era enorme. E maciço.

Seus antebraços eram do tamanho das coxas dela. Em seu abdômen estavam ressaltados os músculos de uma forma espetacular. Suas pernas, grossas e musculosas. E seu sexo era tão grande e magnífico como o resto de seu corpo.

A primeira vez que se aproximou dela nu e teve oportunidade de tocá-lo, ficou impressionada. Não tinha nem rastro de pêlo no torso nem nos braços ou pernas. Só pele lisa sobre músculos de aço.

Perguntou-se por que se depilara completamente, inclusive ali embaixo. Talvez se tratasse de um fisiculturista.

Embora a razão de fazer o Full Mona, com uma navalha de barbear era um mistério.

As imagens do que tinha acontecido entre eles eram um tanto imprecisas. Não podia recordar exatamente como tinha entrado em seu apartamento, ou o que lhe havia dito. Mas tudo o que tinham feito em posição horizontal era endiabradamente vívido.

O que tinha sentido, já que ele a fez experimentar os primeiros orgasmos de sua vida.

As pontas dos dedos giraram sobre seu queixo e subiram a seus lábios. Acariciou-lhe o lábio inferior com o dedo polegar.

— É formosa — sussurrou-lhe. Seu ligeiro acento o fazia arrastar os erres, quase como se estivesse ronronando.

Bem, isso é razoável, pensou ela. Quando ele a tocava, ela se sentia formosa.

A boca dele pousou sobre a sua, mas não estava procurando nada. O beijo não era uma petição, a não ser um gesto de agradecimento.

Em alguma parte da residência, soou um celular. O toque não correspondia ao dela.

Ele se moveu tão rapidamente que ela levou um susto. Em um instante estava a seu lado, e no seguinte junto a sua jaqueta, abrindo a tampa do telefone.

— Sim? — A voz que antes lhe havia dito que era formosa tinha desaparecido. Agora grunhia.

Beth cobriu os seios com o lençol.

— Reunião na casa de D dentro de dez minutos. Desligou o telefone, voltou a deixá-lo na jaqueta e recolocou suas calças. Aquele jeito de vestir-se a fez voltar um pouco para a realidade.

Deus, realmente tinha tido relações sexuais, verdadeiramente alucinantes, com um completo estranho?

— Como se chama? — perguntou-lhe.

Quando estava subindo a calça de couro negro, teve uma magnífica visão de seu traseiro.

— Wrath. — dirigiu-se à mesa para recolher seus óculos. Quando se sentou junto a ela, já estavam colocados.

— Tenho que ir. Talvez não possa voltar esta noite, mas tentarei.

Ela não queria que se fosse. Gostava da sensação de seu corpo ocupando a maior parte de sua cama.

Estendeu as mãos para ele, mas as retirou. Não queria parecer necessitada.

— Não, me toque — disse ele, dobrando-se para baixo, expondo com prazer seu corpo para ela.

Beth colocou a palma da mão em seu peito. Sua pele era cálida, seu coração batia de forma regular e compassada. Notou que tinha uma cicatriz redonda no peitoral esquerdo.

— Necessito saber algo, Wrath. — Seu nome soava bem, embora parecesse ligeiramente estranho.

— Que diabos está fazendo aqui?

Ele sorriu um pouco, como se gostasse de seu receio.

— Estou aqui para cuidar de você, Elizabeth.

Bom, podia-se dizer que o tinha feito.

— Beth. Chamam-me Beth.

Ele inclinou a cabeça.

— Beth.

Ficou de pé e alcançou sua camisa. Percorreu com as mãos a parte da frente, como se procurasse os botões.

Ela pensou que não ia encontrar muitos. A maior parte se encontravam dispersados pelo chão.

— Tem um cesto de papéis? — perguntou ele, como se precavesse do mesmo.

— Ali. No canto.

— Onde?

Ela se levantou, sustentando o lençol a seu redor, e agarrou a camisa. Jogá-la no lixo pareceu um desperdício. Quando o olhou de novo, ele tinha colocado uma capa negra sobre a pele nua, em que se viam duas adagas entrecruzadas em meio do peito, com o punho para baixo.

Curiosamente, ao olhar suas armas se tranquilizou. A ideia de que houvesse uma explicação lógica para sua aparição era um alívio.

— Foi Butch?

— Butch?

— Que o enviou para me vigiar.

Ele colocou a jaqueta, cujo volume lhe alargou os ombros ainda mais. O couro era tão escuro como seu cabelo e uma das lapelas tinha um bordado de intrincado desenho em fio negro.

— O homem que a atacou ontem à noite — disse. — Era um estranho?

— Sim. — rodeou-se com seus próprios braços.

— A polícia se comportou bem com você?

— Sempre o fazem.

— Disseram-lhe seu nome?

Ela assentiu.

— Eu tampouco podia acreditar. Quando Butch me disse pensei que era uma brincadeira. Billy Riddle parece mais um personagem da Vila Sésamo que um violador

— Mas estava claro que tinha um modo operante e algo de prática.

Deteve-se. O rosto do Wrath tinha um aspecto tão feroz, que retrocedeu um passo.

Jesus, se Butch era duro com os delinquentes, este tipo era muito mais que mortífero, pensou.

Mas então sua expressão mudou, como se ocultasse suas emoções porque sabia que podiam assustá-la. Dirigiu-se ao banho e abriu a porta. Boo saltou a seus braços, e um ronrono baixo e rítmico ressonou no denso ar.

Com toda segurança não procedia de seu gato.

O som gutural provinha do homem enquanto sustentava a seu mascote nos braços. Boo aceitou gostando daquela atenção, esfregando sua cabeça contra a larga palma que o estava acariciando.

— Darei o número de meu celular, Beth. Tem que me chamar se se sentir ameaçada de alguma forma. — Soltou ao gato e recitou uns quantos dígitos. Fez ela repeti-los até que os memorizou.

— Se não vier esta noite, quero que vá pela manhã ao 816 da avenida Wallace. Eu explicarei tudo a você. — Então simplesmente a olhou.

— Venha aqui — disse.

Seu corpo obedeceu antes que sua mente registrasse a ordem de mover-se.

Quando se aproximou, deu-lhe um abraço ao redor da cintura e a atraiu contra seu duro corpo. Pousou seus lábios quentes e famintos sobre os dela enquanto afundava a outra mão em seu cabelo. Através de suas calças de couro, ela pôde sentir que estava novamente pronto para o sexo.

E ela estava preparada para ele.

Quando ele ergueu a cabeça, deslizou a mão lentamente por sua clavícula.

— Isto não fazia parte do plano.

— Wrath é seu primeiro nome ou seu sobrenome?

— Ambos. — Deu-lhe um beijo de um lado do pescoço, lhe chupando a pele. Ela deixou cair um pouco a cabeça, enquanto sua língua a percorria.

— Beth?

— Hmm?

— Não se preocupe pelo Billy Riddle. Terá o que merece.

Beijou-a rapidamente e logo saiu pela porta de vidro. Ela passou a mão no lugar onde ele a tinha chupado. Sentiu ardência.

Correu à janela e levantou a cortina. Ele já tinha ido.

 

Wrath se materializou no salão de Darius.

Não tinha esperado que a noite transcorresse dessa forma, e aquela circunstância adicional podia complicar a situação.

Ela era a filha de Darius. Estava a ponto de ver como todo seu mundo se transformava e virava do avesso. E pior ainda, tinha sido vítima de um assalto sexual a noite anterior, pelo amor de Deus.

Se tivesse sido um cavalheiro, a teria deixado em paz.

Sim, e quando foi a última vez que se comportou de acordo com sua linhagem?

Rhage apareceu frente a ele. O vampiro levava uma longa gabardine negra de corte militar em cima de sua roupa de couro e, sem dúvida, o contraste com sua beleza loira era impressionante. Sabia perfeitamente que o irmão usava seu físico de uma forma implacável com o sexo oposto e que, depois de uma noite de combate, sua maneira favorita de tranquilizar-se era com uma fêmea. Ou com duas.

Se o sexo fosse comida, Rhage teria sido definitivamente obeso.

Mas não era só um rosto bonito. O guerreiro era o melhor combatente que a Irmandade tinha, o mais forte, o mais rápido, o mais seguro. Nascido com um excesso de poder físico, preferia enfrentar os lessers com as mãos nuas, guardando as adagas só para o final. Sustentava que era a única maneira de conseguir alguma satisfação com o trabalho. Do contrário, os combates não duravam o suficiente.

De todos os irmãos, Hollywood era o único de que falavam os varões jovens da espécie, o venerado, a quem todos queriam imitar. Mas isso era devido a seu clube de admiradores que via só a brilhante superfície e os suaves movimentos.

Rhage era maldito. Literalmente. Meteu-se em algum problema grave justo depois de sua transição. E a Virgem Escriba, essa força mística da natureza que fiscalizava à espécie do Fade, tinha lhe dado um castigo infernal. Duzentos anos de terapia de aversão que aparecia sempre que ele não conservasse a calma.

Terei que sentir compaixão pelo pobre bastardo.

— Como se sente esta noite? — perguntou Rhage. Wrath fechou os olhos brevemente. Uma imprecisa imagem do corpo arqueado de Beth, captada enquanto olhava para cima do interior de suas pernas, invadiu-o. Enquanto fantasiava saboreando-a de novo, fechou os punhos, fazendo ranger seus nódulos. Tenho fome, pensou.

— Estou preparado — disse.

— Um momento. O que é isso? — perguntou Rhage.

— O que é o que?

— Essa expressão em seu rosto. E por Cristo, onde está sua camisa?

— Te cale.

— O que...? Por todos os diabos. — Rhage soltou uma risadinha

— Ontem à noite teve alguma ação, não é assim?

Beth não era ação. De maneira nenhuma, e não só porque era a filha do Darius.

— Esquece-o, Rhage. Não estou de bom humor.

— Ouça, sou o último a criticar. Mas tenho que perguntar: era boa? Porque não parece especialmente relaxado, irmão. Possivelmente possa lhe ensinar algumas coisas e depois fazer que a prove outra vez.

Wrath empurrou com lentidão ao Rhage contra a parede, fazendo cambalear um espelho com os ombros do macho.

— Fecha o bico, ou eu mesmo fecharei com um murro. Você escolhe, Hollywood.

Seu irmão só estava brincando, mas havia algo desrespeitoso em comparar sua experiência com a Beth, embora remotamente, com a vida sexual de Rhage.

E talvez Wrath começasse a se sentir um pouco possessivo.

— Entendeu-me? — disse, arrastando as palavras.

— Perfeitamente. — O outro vampiro sorriu de orelha a orelha, seus dentes mostraram um brilho branco em seu impressionante rosto

— Mas se tranquilize. Normalmente não perde o tempo com as fêmeas, e eu me alegro de saber que deu uma saidinha, isso é tudo. — Wrath o soltou

— Embora, Por Deus, não é possível que você tenha...

Wrath desencapou uma adaga e a afundou na parede a escassos milímetros do crânio de Rhage. Pensou que o ruído do aço ao atravessar o gesso soava bem.

— Não insista com o assunto. Entendeu?

O irmão assentiu devagar enquanto a manga da adaga vibrava ao lado de sua orelha.

— Ah, sim. Acredito que tudo ficou muito claro. A voz do Tohrment diluiu a tensão:

— Hey! Rhage, cagou outra vez?

Wrath ficou quieto um instante mais, só para certificar-se de que a mensagem tinha sido recebida. Logo arrancou a faca da parede e deu um passo atrás, rondando pela residência enquanto chegavam os outros irmãos.

Quando entrou Vishous, Wrath levou o guerreiro para um lado. — Quero que me faça um favor.

— Me diga.

— Um macho humano. Billy Riddle. Quero que aplique sua magia computadorizada. Necessito saber onde vive.

V acariciou a cavanhaque.

— Está na cidade?

— Acredito que sim.

— Considere feito, meu senhor.

Quando todos estavam presentes, incluído Zsadist, que tinha dado a honra de chegar a tempo, Wrath começou a reunião.

— O que sabemos do telefone do Strauss, V?

Vishous tirou sua boina dos Red Sox e passou uma mão pelo escuro cabelo. Falou enquanto voltava a colocar a boina.

— O nosso moço gostava de acotovelar-se com tipos musculosos, de tipo militar, e fanáticos da Jackie Chan. Temos chamadas para o Gold's Gyni, para um campo de paintball e a dois centros de artes marciais. Ah, e gostava dos automóveis. Também havia uma oficina mecânica no registro.

— E chamadas pessoais?

— Algumas. Uma para uma linha fixa desconectada faz dois dias. As outras para celulares, impossíveis de rastrear, não locais. Chamei a todos os números repetidamente, mas ninguém respondeu. Esses identificadores de chamadas são uma merda.

— Procurou seus antecedentes na Internet?

— Sim. Típico delinquente juvenil com gosto pela violência. Encaixa perfeitamente no perfil do lesser.

— O que sabemos de sua casa? — Wrath olhou por cima do ombro aos gêmeos.

Phury olhou de esguelha a seu irmão e logo começou a falar:

— Apartamento de três cômodos sobre o rio. Vivia só. Sem muitos pertences. Um par de armas sob a cama, algumas munições de prata e coletes antibalas. E uma coleção de pornô que obviamente não usava.

— Agarrou seu frasco?

— Sim. Guardei-o em minha casa. Levá-lo-ei a Tumba esta noite.

— Bem — Wrath olhou ao grupo. — Dividiremos. Preparem todo o necessário. Quero entrar nesses edifícios. Procuraremos seu centro de operações nessa região.

Dispôs aos guerreiros em parcerias, e ele ficou com o Vishous. Disse aos gêmeos que fossem ao Gold's Gym e ao campo de paintball[2]. Tohr e Rhage se encarregariam das academias de artes marciais. Ele e Vishous iriam dar uma olhada na oficina mecânica, e esperava ter sorte.

Porque se alguém quisesse conectar uma bomba a um automóvel, não precisaria ter à mão um elevador hidráulico? Antes que todos saíssem, Hollywood se aproximou, com uma seriedade que não era habitual nele.

— Homem, Wrath, já sabe que faço muitas idiotices — disse Rhage. — Não quis ofender você. Não o mencionarei nunca mais. Wrath sorriu. Rhage era muito impulsivo, o que explicava tanto sua fama de bocudo como sua afeição ao sexo.

E o problema já era bastante grave quando era normal, por não mencionar o momento em que a maldição lhe transtornou o interruptor da psique e a besta ganhou vida rugindo.

— Falo a sério, homem — disse o vampiro.

Wrath afagou seu irmão no ombro. Em termos gerais, aquele filho de cadela era todo um camarada.

— Perdoado e esquecido.

— Sinta-se livre para me golpear quando quiser.

— Eu o farei, me acredite.

 

O senhor X conduziu até um beco escuro do centro da cidade e com uma entrada em ambos os extremos. Depois de estacionar a caminhonete frente a um montão de contêineres de lixo, carregou Cherry Pie sobre seu ombro e se afastou quase vinte metros. Ela gemeu um pouco ao roçar contra suas costas, como se não quisesse que o movimento perturbasse o êxtase causado pelas drogas.

Estendeu-a no chão, e não ofereceu nenhuma resistência quando lhe deu um talho na garganta. Observou-a um momento enquanto do seu pescoço emanava o sangue brilhante. Na escuridão parecia azeite de motor. Umedeceu a ponta de um de seus dedos no líquido vital que jorrava. Seu olfato detectou a presença de uma enfermidade. Perguntou-se se ela estaria inteirada de que sua hepatite C estava em um estágio muito avançado. Afinal, estava lhe fazendo um favor lhe economizando uma desagradável viagem para a morte.

Embora tampouco lhe tivesse importado matá-la se gozasse de boa saúde.

Limpou o dedo com o barra da saia da mulher e logo se dirigiu para um monte de escombros. Um colchão velho lhe serviria à perfeição. Apoiando-o contra os tijolos, protegeu-se atrás dele, sem notar o aroma fétido que desprendia. Tirou sua arma de dardos e esperou.

O sangue fresco atraía aos vampiros civis como corvos a um milharal.

E tal como tinha suposto, em pouco tempo apareceu uma figura ao final do beco. Olhou a esquerda e direita, e logo avançou. O senhor X sabia que quem se aproximava tinha que ser um vampiro. Cherry estava bem dissimulada na escuridão. Não podia atrair a atenção de ninguém, salvo pelo aroma sutil de seu sangue, algo que o olfato humano nunca poderia captar.

O macho jovem se apressou a acalmar sua sede com avidez, caindo sobre a Cherry como se alguém tivesse preparado um banquete para ele. Ocupado em beber, foi pego de surpresa quando o primeiro dardo saiu da arma e impactou em seu ombro. Seu instinto imediato foi proteger sua comida, de modo que arrastou o corpo do Cherry atrás de umas latas de lixo amassadas.

Quando sentiu o segundo dardo, girou e deu um salto, com os olhos postos no colchão.

O corpo do senhor X ficou tenso, mas o macho avançou de uma forma mais agressiva que eficaz. Os movimentos de seu corpo estavam ligeiramente descoordenados, o que sugeria que ainda estava aprendendo a controlar seus membros depois de sua transição.

Dois dardos mais não conseguiram pará-lo. Era evidente que o Domosedan[3], um tranquilizante para cavalos, não era suficientemente efetivo. Obrigado a lutar contra o macho, o senhor X o aturdiu facilmente lhe dando chutes na cabeça, fazendo-o cair no sujo asfalto com um uivo de dor.

O alvoroço não passou inadvertido.

Felizmente, tratava-se de dois lessers, e de algum humano curioso ou da polícia, o que seria ainda mais fastidioso. Os lessers se detiveram ao final do beco e, depois de intercambiar impressões entre eles um instante, avançaram para investigar.

O senhor X soltou uma maldição. Não estava preparado para dar-se a conhecer ou descobrir o que estava fazendo. Necessitava ainda engraxar as engrenagens de sua estratégia de recopilação de informação antes de implantá-la e atribuir missões aos lessers. Depois de tudo, um líder não deve ordenar nunca algo que não tenha feito antes, e com êxito.

Também se tratava de uma questão de interesse próprio. Alguém podia tentar soltar-se da corrente de mando e dirigir-se diretamente ao Omega, apresentando a ideia como própria, ou argumentando fracassos preliminares. O Omega sempre recebia com satisfação as iniciativas e as orientações novidadeiras. E tratando-se de lealdade, não a tinha com ninguém.

Além disso, a impressão que o Omega podia ter ante um pequeno fracasso era apressada e terrível. O anterior chefe do senhor X o tinha experimentado perfeitamente fazia três noites.

Extraiu os dardos do corpo. Teria preferido matar ao vampiro, mas não tinha tempo suficiente. Com o macho ainda gemendo no chão, o senhor X correu a toda velocidade para a outra saída do beco, sem afastar-se da parede. Depois manteve apagadas as luzes da caminhonete até que se perdeu entre o tráfego.

 

O despertador de Beth interrompeu seus pensamentos, e ela se apressou a silenciá-lo. Não necessitava dele. Tinha acordado fazia uma hora, com a mente zumbindo como um cortador de grama. Com a chegada da alvorada toda a magia e o mistério da ardente noite se desvaneceram, e se via obrigada a enfrentar ao que tinha feito.

O sexo desprotegido com um estranho era como um despertar infernal.

Em que demônios estaria pensando? Jamais tinha feito nada semelhante. Sempre tinha sido muito saudável, e graças a Deus tomava a pílula anticoncepcional para regular seus esporádicos períodos, mas quanto às outras implicações, o estômago deu um salto só de pensar.

Quando o encontrasse de novo lhe perguntaria se estava saudável, e rezaria para ouvir a resposta que esperava. E também para que fosse sincera.

Talvez se fosse mais perita naquelas questões, estaria preparada com alguma proteção. Mas quando tinha sido a última vez que tinha dormido com alguém? Fazia muito tempo. Muito mais que o prazo de validade de uma caixa de preservativos.

A ausência de vida sexual se devia mais a seu desinteresse que a qualquer tipo de barreira moral. Os homens, simplesmente, não ocupavam um lugar destacado em sua escala de prioridades. Encontravam-se em algum lugar entre limpar os dentes e manter seu carro em bom estado. E ela não tinha carro.

Frequentemente se perguntava se lhe ocorresse algo mau, sobre tudo quando via os parceiras da mão dadas pela rua. A maioria das pessoas de sua idade saíam com muita frequência, tentando procurar a alguém para casar. Mas ela não. Até agora não havia sentido o desejo ardente de estar com um homem, e inclusive tinha trabalhado na possibilidade de que fosse lésbica. O problema era que não a atraíam as mulheres.

De modo que a noite anterior tinha sido um autêntico descobrimento.

Espreguiçou-se, sentindo uma deliciosa tensão nas coxas. Fechando os olhos, sentiu-o dentro dela, seu grosso membro entrando e saindo até esse momento final quando seu corpo se convulsionou dentro do dela em um poderoso arrebatamento, com seus braços esmagando-a contra ele.

Seu corpo se arqueou involuntariamente; a fantasia era o suficientemente forte para sentir palpitações entre as pernas. Os ecos desses orgasmos a fizeram morder os lábios.

Com um gemido ficou em pé e se dirigiu para o banho. Quando viu a camisa que ele tinha rasgado e arrancado para jogá-la ao cesto, recolheu-a e a aproximou do nariz. O tecido negro estava impregnado com seu aroma.

Suas palpitações se fizeram mais intensas. Como tinham se conhecido ele e Butch?

Também pertencia à polícia? Nunca o tinha visto, mas não conhecia todos os membros da delegacia de polícia.

Drogas, pensou. Devia ser um policial da brigada de entorpecentes. Ou talvez um chefe da equipe SWAT.

Porque definitivamente parecia um tipo duro que procurava problemas.

Sentindo-se como se tivesse dezesseis anos, deslizou a camisa sob o travesseiro, e então viu no chão o sutiã que ele tinha tirado. Santo Deus, a parte dianteira tinha sido cortada com algum objeto afiado.

Estranho.

 

Depois de uma ducha rápida e um café da manhã ainda mais rápido composto por duas bolachas de aveia, um punhado de cereais e um copo de suco, foi caminhando até o escritório. Levava meia hora em sua mesa olhando fixamente o protetor de tela como uma idiota quando soou o telefone. Era José. — tivemos outra noite ocupada — disse ele, bocejando. — Outra bomba?

— Não. Um cadáver. Uma prostituta foi achada com o pescoço cortado entre a Terceira e Trade. Se vier à delegacia de polícia poderá ver as fotografias e ler os informes. Extra oficialmente, claro.

Demorou dois minutos em chegar à rua depois de ter desligado o telefone. Decidiu ir primeiro à delegacia de polícia e logo à direção da avenida Wallace.

Não podia negar que ardia em desejos de ver de novo a seu visitante noturno.

Enquanto caminhava para a delegacia de polícia, o brilhante sol matutino castigou-a sem piedade. Procurou em sua bolsa os óculos de sol, embora não foram suficientes para mitigar a luz, assim teve que colocar sua mão sobre os olhos a modo de viseira. Sentiu-se aliviada ao entrar na fresca e escura delegacia de polícia. José não estava em seu escritório, mas encontrou o Butch, que saía do seu.

Ele sorriu secamente, fazendo com que se formassem rugas em torno de seus olhos.

— Temos que deixar de nos encontrar assim.

— Ouvi que tem um novo caso.

— Estou seguro de que vai estar inteirada dos detalhes.

— Algum comentário, detetive?

— Já fizemos uma declaração esta manhã.

— O que, sem dúvida, não esclareceu absolutamente nada. Vamos, não pode acrescentar algumas palavras para mim?

— Não se for oficial.

— E se for extra-oficial?

Ele tirou um chiclete do bolso, tirou-lhe o envoltório maquinalmente, dobrando-o na boca, começou a mastigar. Ela sabia que antes era um fumante contumaz, mas fazia algum tempo que não o via com um cigarro. Provavelmente, isso explicaria que estivesse continuamente mascando chiclete.

— Extra oficialmente, O’Neal — ela falou. — Eu juro.

Ele assentiu com a cabeça.

— Então necessitamos um lugar tranquilo aonde não possam nos ouvir.

Seu escritório era aproximadamente do tamanho do cubículo aonde ela trabalhava no jornal, mas ao menos tinha porta e uma janela. Entretanto, seu mobiliário não era tão bom como o dela. Sua escrivaninha de madeira estava tão deteriorada que parecia ter sido utilizada como banco de trabalho de um carpinteiro. Havia partes desprendidas na superfície, e a pintura estava tão raiada que absorvia a luz fluorescente como se estivesse sedenta.

Jogou um arquivo antes de sentar-se.

— Foi encontrada atrás de um montão de latas de lixo. A maior parte de seu sangue terminou no esgoto, mas o forense encontrou restos de heroína em seu organismo. Teve relações sexuais essa noite, mas isso não é precisamente uma novidade.

— Oh, Meu deus, é Mary — disse Beth enquanto via uma horrenda fotografia e se afundava em uma cadeira.

— Vinte e um anos. — Butch soltou uma maldição. — Que maldito desperdício.

— Eu a conheço.

— Da delegacia de polícia?

— Quando éramos crianças. Estivemos na mesma casa de acolhida durante algum tempo. Depois, encontrei-me com ela algumas vezes, quase sempre aqui.

Mary Mulcahy tinha sido uma criança formosa. Só tinha estado na casa de acolhida com o Beth durante um ano antes que a enviassem de novo para sua mãe biológica. Dois anos depois retornou à custódia estatal após ter permanecido só durante uma semana quando tinha sete anos. Disse que se manteve com farinha quando o resto da comida se acabou.

— Já tinha ouvido que viveu em lares adotivos — disse Butch pensativo enquanto a olhava.

— Você se incomoda se perguntar por que?

— A você o que parece? Não tinha pais. — Fechou o arquivo e o deslizou pela mesa. — Encontrou alguma arma?

Os olhos do detetive se entrecerraram, mas não com dureza. Parecia estar pensando se seguia a corrente ou mudava de assunto.

— A arma? — apurou ela.

— Outra estrela de arremesso. Tinha rastros de sangue, mas não dela. Também encontramos resíduos pulverizados em dois lugares diferentes, como se alguém tivesse deixado sinais luminosos e as tivesse colocado no chão. Embora seja difícil imaginar que o assassino quisesse atrair a atenção para o corpo.

— Acredita que o que passou a Mary está relacionado com a bomba de ontem de noite?

Ele deu de ombros, um leve movimento involuntário nas largas costas.

— Talvez. Mas se tivesse sido uma vingança contra seu cafetão, teriam golpeado no escalão superior, perseguindo o próprio fanfarrão.

Beth fechou os olhos, recordando a Mary quando tinha cinco anos, com uma andrajosa Barbie decapitada sob o braço.

— Mas também — disse Butch — pode ser que isto seja só o começo de algo mais sério.

Ela ouviu como a cadeira do policial deslizava para trás e elevou o olhar enquanto ele rodeava o escritório e se aproximava.

— Tem planos para jantar esta noite? — perguntou ele.

— Jantar?

— Sim. Você e eu.

El Duro estava convidando-a a sair? De novo? Beth se levantou, queria estar ao mesmo nível que ele.

— Ah, sim... não, quero dizer, obrigado, mas não.

Embora não tivessem uma relação estritamente profissional, ela tinha outras coisas em mente. Desejava manter livre sua agenda para o caso de o homem de couro querer vê-la de noite, e também pela manhã.

Diabos, uma boa transa e já pensava que havia algo entre eles? Tinha que ser realista.

Butch sorriu cinicamente.

— Um dia destes descobrirei por que você não gosta de mim.

— Sim eu gosto. Trata a todo mundo igual, e embora não aprove seus métodos, não posso negar que eu gostei do fato de que tenha quebrado o nariz ao Billy Riddle.

As duras feições do rosto do Butch se suavizaram. Quando seus olhos a olharam fixamente, ela pensou que era um desperdício não sentir-se atraída por ele.

— E obrigado por enviar ontem à noite a seu amigo — disse, pendurando a bolsa do ombro. — Embora tenha que admitir que ao princípio me deu um susto de morte.

Justo antes que aquele homem lhe mostrasse exatamente como fazer bom uso do corpo humano.

Butch franziu o cenho.

— Meu amigo?

— Já sabe, aquele que parece um pesadelo gótico. Me diga: é de antidrogas, não é certo?

— De que diabos está falando? Eu não enviei a ninguém para vê-la.

O sangue gelou em seu corpo.

E a suspeita e alarme que tinham aparecido no rosto do Butch a impediram de tratar de agilizar a memória.

Dirigiu-se para a porta.

— Equivoquei-me. Butch a segurou pelo braço.

— Quem diabos esteve ontem à noite em seu apartamento?

Oxalá soubesse.

— Ninguém. Como acabo de dizer, equivoquei-me. Já nos veremos.

Apressou-se a cruzar o vestíbulo, com seu coração batendo a tripla velocidade. Quando alcançou ao fim da rua, fez uma careta de dor ao sentir o sol em seu rosto.

Uma coisa estava clara: por nada do mundo se encontraria com aquele homem, embora o 816 da avenida Wallace estava na melhor parte da cidade e estivessem a plena luz do dia.

 

Por volta das quatro da tarde, Wrath se sentia a ponto de explodir. Não tinha podido retornar junto ao Beth a noite anterior. — E ela não tinha vindo pela manhã.

O fato de que não tivesse vindo reunir-se com ele podia significar duas coisas: ou algo tinha ocorrido, ou o estava evitando.

Consultou o relógio braile com as pontas dos dedos. Pôr-do-sol.

Ainda faltavam umas horas.

Malditos dias do verão. Muito longos. Verdadeiramente longos.

Foi ao banho, salpicou o rosto com água, e apoiou os braços sobre o lavabo de mármore. À luz do abajur, olhou-se fixamente, sem ver nada mais que uma mancha imprecisa de cabelo negro, dois traços por sobrancelhas e o contorno de seu rosto.

Estava exausto. Não tinha dormido em todo o dia, e a noite anterior tinha sido como um choque de trens.

Salvo a parte com Beth. Isso tinha sido... Soltou uma maldição e se deu por vencido.

Deus, que diabos estava acontecendo? Estar dentro dessa fêmea tinha sido o pior de toda a merda que tinha suportado na noite anterior. Graças a esse pequeno e estupendo interlúdio, sua mente divagava, seu corpo estava em um estado perpétuo de excitação e seu estado anímico era um asco.

Ao menos, ao último já estava acostumado. A noite anterior tinha sido um desastre total.

Depois de deixar aos irmãos, ele e Vishous tinham ido ao outro lado da cidade dar uma olhada na oficina mecânica. Estava fechada a cal e cimento, e depois de examinar o exterior e forçar a entrada, tinham chegado à conclusão de que já não se usava como centro de operações. Por outro lado, o decrépito edifício era muito pequeno, e não puderam encontrar nenhum porão oculto. Além disso, o bairro não era o mais apropriado. Perto dali havia um par de locais de comida abertos toda a noite, e um deles era frequentado por policiais. Estariam muito expostos.

Ele e Vishous se dirigiam já de volta a casa de Darius, fazendo uma breve parada no Screamer's para satisfazer o desejo de tomar um uísque Grei Goose, quando se meteram em um problema.

E as coisas foram de mal em pior sem remédio.

Em um beco, um vampiro civil se encontrava gravemente ferido, com dois lessers junto a ele dispostos a terminar o trabalho. Matar aos lessers tinha levado algum tempo, porque ambos eram experientes. Quando a luta terminou o outro vampiro já estava morto.

Tinham agido com o macho jovem cruelmente, seu corpo parecia uma almofadinha cheia de punhaladas pouco profundas. A julgar pelos arranhões dos joelhos e o cascalho nas palmas das mãos, tinha tentado várias vezes afastar-se arrastando-se. Havia sangue humano fresco ao redor de sua boca e o aroma desse sangue também flutuava no ar, mas não puderam ficar para examinar à fêmea a quem tinha mordido.

Tinham companhia.

Imediatamente depois que os lessers desaparecessem aos ouvidos dos vampiros, soaram as sirenes da polícia, um som estridente que significava que alguém tinha chamado ao 911 ao escutar a briga ou ver os brilhos de luz. Tiveram o tempo justo de colocar o cadáver no carro de Vishous e partir a toda velocidade.

Na casa de Darius, V tinha examinado o corpo. Na carteira do macho havia uma tira de papel com caracteres no antigo idioma. Nome, direção, idade. Só tinham se passado seis meses desde sua transição. Muito jovem.

Uma hora antes do alvorada, tinham levado o corpo aos subúrbios da cidade, a uma formosa casa situada perto dos bosques. Um par de anciões vampiros tinha aberto a porta, e seu terror ao encontrar ao outro lado aos dois guerreiros cheirou ao Wrath a lixo queimado. Quando confirmaram que tinham um filho, Vishous retornou ao automóvel e recolheu os restos. O pai tinha saído correndo e tinha pegado a seu filho dos braços do Vishous, enquanto Wrath segurava à mãe, que desmaiou.

O fato de que aquela morte tivesse sido vingada tinha tranquilizado um pouco ao pai. Mas não parecia ser suficiente. Não para o Wrath.

Queria ver mortos a todos os lessers antes de poder descansar.

Wrath fechou os olhos, escutando o ritmo do The Black Álbum do Jay e tentando separar sua mente do ocorrido a noite anterior.

Um tamborilar rítmico se escutou por cima da música, e deixou que se abrisse a porta.

— O que ocorre, Fritz?

O mordomo entrou com uma bandeja de prata.

— Tomei a liberdade de lhe preparar algo de comer, amo. Fritz colocou a bandeja na mesa que havia diante do sofá. Quando levantou a tampa de um dos pratos, ao Wrath chegou o aroma de frango com ervas finas.

Então se deu conta de que tinha fome.

Sentou-se, pegou um pesado garfo de prata e observou a baixela.

— Certo, Darius gostava de merda cara, não é assim?

— Oh, sim, amo. Só o melhor para meu princeps.

O mordomo esperou enquanto Wrath se concentrava em arrancar do osso algo de carne com os cobria. Carecia de finas maneiras, assim acabou segurando com os dedos a coxa de frango.

— Gosta do frango, amo?

Wrath assentiu enquanto mastigava.

— É um condenado perito em cozinha.

— Me alegro muito de que tenha decidido ficar aqui. — Não por muito tempo. Mas não se preocupe, já me encarregarei de que tenha a alguém a quem cuidar. — Wrath afundou o garfo em algo que parecia purê de batata. Era arroz, que se esparramou de seu prato. Soltou uma maldição enquanto tentava reunir uma parte com o indicador. — E será muito mais fácil viver com ela que comigo.

— Prefiro cuidar de você. E amo, não prepararei mais esse arroz. Também me assegurarei de cortar sua carne. Não o pensei. Wrath limpou a boca com um guardanapo de linho.

— Fritz, não perca seu tempo tentando me agradar.

O ancião esboçou um breve sorriso.

— Darius tinha muita razão quanto a você, amo.

— Em que sou um miserável filho de cadela? Sim, ele era intuitivo, isso é certo. — Wrath pescou um pedaço de brócolis com o garfo. Diabos, odiava comer, em especial se alguém o observava

— Nunca saberei por que desejava tanto que viesse ficar aqui. Ninguém pode estar tão necessitado de companhia.

— Era por você.

Wrath entrecerrou os olhos atrás de seus óculos.

— De verdade?

— Preocupava-o que você fosse tão solitário. Vivendo só, sem uma verdadeira shellan, sem um doggen. Estava acostumado a dizer que seu isolamento era um castigo que você mesmo se impôs.

— Bem, não o é. — A voz do Wrath cortou o suave tom do mordomo.

— E se quer ficar aqui, deverá guardar seus teorias psicanalíticas, entendido?

Fritz se sacudiu como se o tivessem golpeado. Dobrou-se pela cintura e começou a se retirar do quarto.

— Minhas desculpas, amo foi grosseiramente impróprio por minha parte me dirigir a você como o fiz.

A porta se fechou silenciosamente.

Wrath se recostou no sofá, segurando o garfo de Darius na mão.

Ah, Cristo. Esse maldito doggen podia deixar louco a um santo.

E ele não era um solitário. Nunca o tinha sido. A vingança era um endiabrado companheiro.

 

O senhor X olhou aos dois estudantes que combatiam entre si. Tinham uma estatura similar, — ambos tinham dezoito anos e — uma boa constituição física; mas ele sabia qual ia ganhar.

De repente, um deles deu um chute lateral rápido e forte, derrubando ao oponente na lona.

O senhor X ordenou finalizar o combate, não disse nada mais enquanto o vencedor estendia a mão e ajudava ao Perdedor a ficar de pé com esforço. As amostras de cortesia eram irritantes, e sentiu desejos de castigá-los a ambos.

O primeiro código da Sociedade era claro: aquele a quem derruba ao chão, deverá chutá-lo até que deixe de mover-se. Assim simples.

Embora esta fosse uma aula, não o mundo real. E os pais que permitiam a seus filhos empapar-se de violência certamente teriam algo que dizer se suas preciosos crianças chegassem a casa inteligentes para ser enterrados.

Quando os dois estudantes se inclinaram ante ele, o rosto do Perdedor tinha uma cor vermelha brilhante, e não só a causa do exercício. O senhor X deixou que a classe o olhasse, sabendo que a vergonha e a confusão eram partes importantes do processo corretivo.

Inclinou a cabeça em direção ao vencedor.

— Bom trabalho. Entretanto, a próxima vez derruba-o mais rapidamente, de acordo? — Logo se dirigiu ao Perdedor. Percorreu-o com o olhar da cabeça aos pés, notando a respiração entrecortada e o tremor nas pernas.

— Já sabe aonde ir.

O Perdedor piscou rapidamente enquanto caminhava para o muro de cristal que dava ao vestíbulo. Como lhe tinha ordenado, deteve-se ante os painéis transparentes, com a cabeça em alto para que todos os que entravam no edifício pudessem ver seu rosto. Se deixava que lhe rodassem lágrimas pelas bochechas, teria que repetir o castigo na próxima sessão.

O senhor X separou a classe e começou a lhes indicar seus exercícios rotineiros. Observou-os, corrigindo posturas e posições dos braços, mas sua mente estava em outro lado.

A noite anterior não tinha saído como estava planejada. Tinha ficado muito distante de ser perfeita.

Em sua casa, a frequência da polícia lhe tinha informado do achado do corpo da prostituta pouco depois das três da madrugada. Não havia menção alguma ao vampiro. Possivelmente os lessers levaram a civil para divertir-se com eles.

Era uma pena que as coisas não tivessem saído como esperava, e queria empreender outra caçada. Usar a uma fêmea humana assassinada recentemente como ceva ia funcionar. Mas tinha que calibrar melhor os dardos tranquilizantes. Tinha começado com uma dose relativamente baixa. Não queria matar ao civil antes de lhe tirar informação. Mas estava claro que tinha que aumentar o efeito da droga.

Essa noite estaria ocupado.

O senhor X dirigiu o olhar ao Perdedor.

Teria que dedicar-se ao recrutamento. As filas deviam ser reforçadas um pouco devido à perda daquele recruta novo fazia duas noites.

Vários séculos atrás, quando havia muitos mais vampiros, a Sociedade contava com centenas de membros, disseminados ao longo e largo do continente europeu assim como nos novos assentamentos da América do Norte. Entretanto, agora que a população de vampiros tinha diminuído, também se tinha reduzido a Sociedade. Tratava-se de uma questão prática. Um lesser aborrecido e inativo não era conveniente. Escolhidos especificamente por sua capacidade para a violência, seus impulsos assassinos não podiam congelar-se unicamente porque não houvesse suficientes objetivos que perseguir. Alguns deles tinham tido que ser exterminados por matar a outros lessers competindo pela superioridade na fila, algo que estendia a ocorrer se havia pouco trabalho. Também podia acontecer algo pior que isso: teriam começado a matar seres humanos por esporte.

O primeiro era uma desgraça e — uma moléstia. O último era inaceitável. Ao Omega não preocupavam as baixas humanas. Ao contrário. Mas a discrição, mover-se entre as sombras, matar rapidamente e voltar para a escuridão eram os princípios dos caça vampiros. Chamar a atenção dos humanos era mau, e nada abalava mais ao Homo Sapiens que um punhado de pessoas mortas.

Essa era também uma das razões pelas quais o recrutamento de novos membros podia ser complicado. Estavam acostumados a ter mais ódio que objetivos. Um período de adaptação era de vital importância, para que a natureza secreta da guerra cercada desde tempo imemorial entre os vampiros e a Sociedade pudesse manter-se.

Apesar de tudo, tinha que engrossar suas fileiras.

Olhou de novo ao Perdedor e sorriu, esperando o caída da noite.

Pouco antes das sete, o senhor X se dirigiu aos subúrbios, onde localizou facilmente o 3461 da rua Pilhar. Estacionou o hummer e esperou, matando o tempo memorizando os detalhes da casa. Era típica da zona central dos Estados Unidos. Um amplo edifício situado no centro de uma diminuta parcela com uma árvore grande. Os vizinhos estavam o bastante perto para poder ler os letreiros das caixas de cereal das crianças pela manhã e as etiquetas das latas de cerveja dos adultos de noite.

Uma vida simples e feliz. Ao menos do exterior.

A porta se abriu, e o Perdedor da classe da tarde saltou fora como se estivesse abandonando um barco em pleno afundamento. Seguiu-lhe sua mãe, que se deteve um pouco no primeiro degrau e olhou ao veículo frente à casa como se fosse uma bomba a ponto de estourar.

O senhor X baixou o guichê e saudou agitando a mão. Ela devolveu a saudação passados uns momentos.

O Perdedor saltou ao hummer, seus olhos brilharam ambiciosos ao examinar os assentos de couro e os indicadores do painel.

— Boa noite — disse o senhor X enquanto apertava o acelerador.

O moço levantou as mãos torpemente e inclinou a cabeça.

— Sensei.

O senhor X sorriu.

— Me alegro que estivesse disponível.

— Sim, bom, minha mãe é como uma patada no traseiro. — O Perdedor estava tentando ser frio, lançando com veemência as maldições.

— Não deveria falar dela desse modo.

O moço se sentiu confuso momentaneamente, obrigado a reconsiderar sua atitude briguenta.

— Ah, quer que volte para casa às onze. É uma noite da semana, e tenho que trabalhar pela manhã.

— Vamos nos assegurar de que retorne então.

— Aonde vamos?

— Ao outro lado da cidade. Há alguém que quero que conheça.

Um pouco mais tarde, o senhor X deteve o carro em um amplo caminho que serpenteava entre árvores e esculturas de mármore de aspecto antigo. Havia também arbustos ornamentais, que se elevavam como figuras sobre um bolo de marzipan verde: um camelo, um elefante, um urso. O desenho tinha sido feito por um perito, por isso cada um deles se distinguia perfeitamente. Falando de manutenção, pensou o senhor X.

— Estupendo. — O Perdedor moveu o pescoço da esquerda a direita.

— O que é isto? Um parque? Olhe isso! É um leão. Sabe?, acredito que quero ser veterinário. Isso seria estupendo. Já sabe, curar animais.

O moço só estava no veículo vinte minutos escassos, e o senhor X já estava desejando desfazer-se dele. Aquele tipo era como uma dor de dente: uma irritação permanente.

E não só porque dissesse constantemente «sabe?».

Ao sair de uma curva, apareceu uma grande mansão de tijolo.

Billy Riddle estava no exterior, apoiado contra uma coluna branca. Suas calças jeans estavam ligeiramente mais abaixo de sua cintura, mostrando o barra de sua roupa interior, e brincava com um chaveiro na mão, lhe dando voltas. Endireitou-se quando viu o hummer, e mostrou um sorriso que retesou a atadura de seu nariz.

O Perdedor voltou para sua posição inicial no assento. Billy se dirigiu para a porta dianteira do passageiro, movendo com facilidade seu musculoso corpo. Quando viu o moço ali sentado, franziu o cenho, cravando no outro tipo um olhar feroz. O Perdedor desabotoou o cinto de segurança e procurou o bracelete.

— Não — disse o senhor X. — Billy se sentará atrás de você.

O jovem voltou a recostar-se no assento, mordendo os lábios.

Ao ver que o outro não deixava o lugar, Billy abriu de um puxão a porta de trás e entrou. Procurou os olhos do senhor X no espelho, e a hostilidade se transformou em respeito.

— Sensei.

— Olá, Billy, como está?

— Bem.

— Muito bem, muito bem. Faz o favor de subir as calças.

Billy baixou a cintura dos jeans enquanto seus olhos se moviam para a parte posterior da cabeça do Perdedor. Parecia como se quisesse fazer um buraco nela, E a julgar pelos dedos nervosos do moço, este sabia.

O senhor X sorriu.

A química é tudo, pensou.

 

Beth se recostou na cadeira, esticando os braços. A tela de seu computador brilhou.

Vá, Internet estava sendo muito útil.

De acordo com o resultado da busca que tinha efetuado, o 816 da avenida Wallace pertencia a um homem chamado Fritz Perlmutter. Tinha comprado a propriedade em 1978 por algo mais de 200.000 dólares. Quando procurou no Google o nome Perlmutter, encontrou várias pessoas com a inicial F em seu nome, mas nenhum deles vivia em Caldwell. Depois de comprovar algumas das base de dados governamentais e não encontrar nada que valesse a pena, pediu ao Tony que entrasse furtivamente em algumas páginas Web.

Resultou que Fritz era uma pessoa de vida irrepreensível, respeitosa com a lei. Suas contas bancárias eram impecáveis. Nunca tinha tido nenhum problema com o fisco nem com a polícia. Tampouco tinha estado casado. E era membro do grupo de clientes privados do banco local, o que significava que tinha dinheiro em abundância. Tony não pôde averiguar nada mais.

Fazendo, cálculos, concluiu que o senhor Perlmutter devia ter ao redor de setenta anos.

Por que diabos alguém como ele se acotovelaria com seu vagabundo noturno?

Talvez o endereço fosse falso.

Isso sim que a teria surpreendido. Um tipo vestido de couro negro armado até os dentes dando informação falsa? Quem teria pensado?

Mesmo assim, o 816 do Wallace e Fritz Perlmutter era o único que tinha.

Repassando os arquivos do Caldwell Courier Journal's, tinha encontrado um par de artigos sobre a casa. A mansão estava no registro nacional de lugares históricos, como um extraordinário exemplo do estilo federal, e havia algumas historia e artigos de opinião sobre os trabalhos que se realizaram nela imediatamente depois de que o senhor Perlmutter a tivesse comprado. Evidentemente, a associação histórica local tinha tentado acessar à casa durante anos para ver as transformações que podia ter feito, mas o senhor Perlmutter tinha rechaçado todas as solicitudes. Nas cartas ao diretor, a irada frustração que mostravam os entusiastas da história se mesclava com uma aprovação a contra gosto para as restaurações, efetuadas com bastante exatidão, no exterior.

Enquanto relia um dos artigos, Beth meteu um antiácido na boca, mastigando-o até formar um pó que lhe encheu os interstícios dos molares. O estômago voltava a lhe incomodar, e de uma vez tinha fome. Estupenda combinação.

Talvez fosse a frustração. Em resumo, não sabia muito mais que quando começou.

E o número do celular que o homem lhe tinha dado? Impossível de rastrear.

Ante aquele vazio de informação, encontrava-se ainda mais decidida que antes a manter-se afastada da avenida Wallace. E em seu interior tinha surgido uma necessidade de ir confessar se.

Consultou a hora. Eram quase as sete.

Como tinha fome, decidiu ir comer. Era melhor não deter-se na igreja de Nossa Senhora e ir alimentar-se com algo mais material e evidente.

Inclinando a cabeça, olhou por cima do painel que separava seu cubículo de outros. Tony já se foi.

A verdade é que não queria estar só.

Seguindo um absurdo impulso, agarrou o telefone e marcou o número da delegacia de polícia.

— Ricky? Sou Beth. Está por aí o detetive O’Neal? Bem, obrigado. Não, nenhuma mensagem. Não, eu... Por favor não o chame. Não é nada importante.

Era igual. El Duro não era realmente a companhia sem complicações que estava procurando.

Ficou olhando seu relógio de pulso, ensimesmada no movimento do ponteiro dos segundos ao redor da esfera. A noite se estendia ante ela como uma carreira de obstáculos, e tinha que ser capaz de suportar e vencer aquelas horas.

Oxalá transcorressem rapidamente.

Possivelmente comesse algo e depois iria ver um filme. Algo para atrasar a volta a seu apartamento. Pensando bem, provavelmente seria mais sensato passar a noite em um motel. Se por acaso o homem voltasse a procurá-la.

Acabava de desligar o computador quando soou seu telefone. Respondeu ao segundo tom.

— Ouvi que estava me buscando.

Pensou que Butch O’Neal era áspera como um montão de cascalho. No bom sentido.

— Hmm. Sim. — jogou o cabelo para trás por cima dos ombros. — Ainda está livre para jantar?

Sua risada foi um retumbar profundo.

— Estarei em frente ao jornal em quinze minutos.

Desligou antes que ela pudesse fazer algum comentário indiferente, tirando importância daquela espécie de encontro.

 

Depois do pôr-do-sol, Wrath entrou na cozinha, levando a bandeja de prata com os restos de sua comida. Ali, como no resto da casa, também tudo era da melhor qualidade. Eletrodomésticos de aço inoxidável, grandes dispensas e bancada de granito. E muitas janelas.

Muita luz.

Fritz estava na pia, esfregando algo. Olhou por cima de seu ombro.

— Amo, não era necessário que trouxesse isso.

— Sim, era necessário.

Wrath colocou a bandeja sobre uma bancada e se apoiou nos braços.

Fritz fechou a torneira.

— Deseja alguma coisa?

Bom, para começar, gostaria não ser tão teimoso.

— Fritz, seu trabalho aqui é estável. Queria que soubesse.

— Obrigado, amo. — A voz do mordomo era muito tranquila. — Não sei o que faria se não tivesse alguém a quem cuidar. E considero este lugar como meu lar.

— E o é. Durante o tempo que queira permanecer nele. Wrath se voltou e se dirigiu à porta. Estava — quase fora da cozinha quando ouviu Fritz dizer:

— Este também é seu lar, amo.

Ele moveu a cabeça.

— Já tenho um lugar onde dormir. Não necessito outro. Wrath entrou no vestíbulo, sentindo-se particularmente feroz. Esperava que Beth estivesse viva e se encontrasse bem. Ou que Deus tivesse piedade de quem lhe tivesse feito mal.

E se tinha decidido evitá-lo? Isso não o importava, mas o corpo dela estava a ponto de necessitar algo que só ele podia lhe proporcionar. De modo que cedo ou tarde reagiria. Ou morreria.

Pensou na suave pele de seu pescoço. Recordou a sensação de sua língua lhe acariciando a veia que saía do coração.

Suas presas se alargaram como se estivesse ante ele. Como se pudesse afundar seus dentes nela e beber.

Fechou os olhos quando seu corpo começou a agitar-se. Seu estômago, satisfeito pela comida, converteu-se em um doloroso poço sem fundo.

Tratou de recordar a última vez que se alimentou. Tinha passado algum tempo, mas certamente nem tanto.

Obrigou-se a tranquilizar-se, a controlar-se. Era como tratar de reduzir a velocidade de um trem com um freio de mão, mas, finalmente, uma refrescante corrente de sensatez substituiu os violentos impulsos de suas ânsias de sangue.

Quando voltou para a realidade se sentiu intranquilo, seus instintos necessitavam um tempo para meditar.

Aquela fêmea era perigosa para ele. Se lhe afetava dessa forma sem encontrar-se nem sequer na mesma residência, podia ser perfeitamente seu pyrocant, seu detonador, por assim dizê-lo. Seu sulco de alta velocidade, sua via direta para a autodestruição.

Wrath passou uma mão pelo cabelo. Que maldita ironia que a desejasse como a nenhuma outra fêmea.

Embora possivelmente não fosse nenhuma ironia. Talvez fosse precisamente assim como era o sistema do pyrocant. O impulso de ser atraído pelo que podia o aniquilar fazia sentir uma certa tontura que não era do todo desagradável.

Depois de tudo, que tipo de diversão haveria se a gente pudesse controlar facilmente a bomba relógio que leva em seu interior?

Diabos. Precisava tirar Beth de sua responsabilidade. Rapidamente. Tão logo sofresse sua transição, a colocaria em mãos de um macho apropriado. Um civil.

Involuntariamente, a sua mente acudiu a imagem do corpo ensanguentado do macho jovem abatido a noite anterior. Como diabos podia um civil assegurar seu amparo? Não tinha resposta para isso. Mas que outra opção havia? Ele não ia cuidar dela.

Possivelmente poderia entregá-la a um dos membros da Irmandade.

Sim, e a quem escolheria entre essa manada? Ao Rhage? Ele só a acrescentaria a seu harém, ou pior ainda, a devoraria por equívoco? A V com todos seus problemas?

Ao Zsadist?

Realmente acreditava que podia suportar que um de seus guerreiros se deitasse com ela?

Nem pensar.

Deus, estava cansado.

Vishous se materializou diante dele. O vampiro ia essa noite sem sua boina de beisebol, e Wrath pôde distinguir tenuemente as complexas marcas ao redor de seu olho esquerdo.

— Encontrei ao Billy Riddle. — V acendeu um de seus charutos atados à mão, sustentando-o com seus dedos enluvados. Ao exalar a fumaça, a fragrância de tabaco turco perfumou o ar.

— Foi detido faz quarenta e oito horas por agressão sexual. Vive com seu pai, que é um senador.

— Antecedentes destacados.

— É difícil chegar mais alto. Tomei a liberdade de fazer algumas investigações. O moço se meteu em alguns problemas quando era menor de idade. Assuntos violentos. Merdas sexuais. Imagino que o chefe das campanhas eleitorais de seu querido pai estará encantado com o fato de que o moço vai alcançar a maioridade. Agora tudo o que faça Billy é do domínio público.

— Tem seu endereço?

— Sim. — Vishous sorriu abertamente.

— Vai dar uma boa sova no moço?

— Leu meu pensamento.

— Então vamos.

Wrath sacudiu a cabeça.

— Reunir-me-ei contigo e com o resto dos irmãos aqui um pouco mais tarde. Mas antes tenho que resolver um assunto. Pôde sentir que os olhos do V. se aguçavam, o perspicaz intelecto do vampiro examinava a situação. Entre os irmãos, Vishous era o que mais força intelectual tinha, mas tinha pagado por semelhante privilégio.

Wrath tinha seus próprios demônios, que não eram precisamente uma maravilha, mas não quis levar a suas costas a cruz do Vishous. Saber o que lhes proporcionava o futuro era uma carga terrível.

V deu uma tragada no cigarro e jogou a fumaça lentamente. — Ontem à noite sonhei com você.

Wrath ficou rígido. Estava esperando algo assim.

— Não conte, irmão. Não quero saber. Sério. O vampiro assentiu.

— Só quero que recorde uma coisa, de acordo?

— Dispara.

— Dois guardiões torturados combaterão entre si.

 

O jantar foi magnífico — disse Beth quando Butch se deteve ante seu edifício.

Ele se mostrou plenamente de acordo. Ela era inteligente, divertida e francamente formosa. E se ele se excedesse, ela sempre o colocava no lugar que lhe correspondia com delicadeza.

Também era incrivelmente sensual.

Estacionou o carro junto à calçada, mas não desligou o motor. Imaginou que se girasse a chave do contato pareceria que estava se convidando a entrar.

E era exatamente o que queria, é obvio, embora não pretendesse que ela se sentisse incômoda se não desejava o mesmo ele.

Vá, estava-se convertendo em um bom menino.

— Parece surpreendida de ter se divertido — disse.

— Tenho que reconhecer que um pouco sim estou.

Butch a percorreu com o olhar, começando pelos joelhos, que apareciam ligeiramente pela barra da saia. Sob o tênue resplendor do painel, podia distinguir a adorável silhueta de seu corpo, seu longo e delicioso pescoço, seus lábios absolutamente perfeitos. Queria beijá-la ali mesmo, sob aquela suave luz, no assento dianteiro de seu carro patrulha camuflado, como se fossem dois adolescentes.

E também queria acompanhá-la ao interior de seu apartamento. E não sair até a manhã seguinte.

— Obrigado — disse ela, lhe lançando um sorriso e estendendo a mão para abrir a porta.

— Espera.

Moveu-se rápido para que ela não tivesse tempo de pensar e ele tampouco. Segurou-lhe o rosto com as mãos e a beijou.

 

Wrath se materializou no pátio traseiro do apartamento de Beth e sentiu coceira em toda a pele.

Ela estava perto, mas em sua casa tudo permanecia às escuras. Assaltado por um pressentimento, rodeou o edifício por um extremo. Havia um sedan comum estacionado em frente. Ela estava dentro.

Wrath se dirigiu até a calçada e, como se estivesse dando um passeio entre as sombras, passou junto ao veículo.

Deteve-se em seco.

Seus inúteis olhos foram o suficientemente efetivos para lhe indicar que um sujeito a tinha entre seus braços, como se o potente desejo sexual do macho humano não o tivesse delatado.

Pelo amor de Deus, podia cheirar a luxúria daquele bastardo através do vidro e o aço do sedan.

Wrath se equilibrou para frente. Seu primeiro instinto foi arrancar a porta do carro e matar ao canalha que estava colocando as mãos em cima dela, tirá-lo dali e lhe rasgar a garganta.

Mas no segundo último se conteve e se obrigou a retornar à escuridão.

Filho da puta. Via tudo vermelho, por causa do alterado que estava.

Que outro macho estivesse beijando esses lábios, sentindo seu corpo sob suas mãos...

Um grunhido gutural vibrou através de seu peito e saiu por sua boca.

Ela é minha.

Soltou uma maldição. Em que universo paralelo estava vivendo? Ela era sua responsabilidade temporária, não sua shellan. Podia estar com quem quisesse, onde quisesse e quando quisesse.

Mas, Deus, a ideia de que ela pudesse gostar do que o sujeito lhe estava fazendo, que pudesse preferir o sabor daquele beijo humano, era suficiente para lhe fazer palpitar as têmporas.

Bem-vindo ao maravilhoso mundo do ciúme — pensou. — Pelo preço de sua entrada, obtém uma maldita dor de cabeça, um desejo quase irresistível de cometer um homicídio. E um complexo de inferioridade.

Viva!

Por Deus, estava ansioso por recuperar sua vida. Um segundo depois de que ela concluísse sua transição, ele partiria da cidade. E fingiria que nunca tinha conhecido à filha de Darius.

 

Butch O’Neal beijava como os deuses.

Seus lábios eram firmes mas deliciosamente suaves. Sem pressionar muito, deixaram-lhe muito claro que estava disposto a levá-la à cama e lhe demonstrar que não se andava pelos ramos.

E cheirava muito bem de perto, uma mescla de loção de barbear e roupa recém lavada. Rodeou-o com as mãos. Sentiu seus ombros largos e fortes e seu corpo arqueado para ela. Era pura energia reprimida, e nesse momento quis sentir-se atraída por ele. Sinceramente desejou que fosse assim.

Mas não sentiu o doce arrebatamento do desespero, a fome selvagem. Não como o havia sentido a noite anterior com... Era o pior momento para estar pensando em outro homem. Quando Butch se separou dela, havia um brilho melancólico em seus olhos.

— Não é o que esperava, não é assim?

Ela riu interiormente. Assim era El Duro. Franco e direto, como sempre.

— Sabe beijar, O’Neal, não me cabe nenhuma dúvida. Não se trata de falta de técnica.

Ele retornou a seu lugar e moveu a cabeça.

— Muito obrigado por isso.

Mas não parecia terrivelmente ferido.

E agora que pensava as coisas com maior claridade, alegrava-se de não ter sentido faísca alguma. Se tivesse gostado, se tivesse querido estar com ele, teria lhe machucado o coração. Estava segura. Em dez anos, se é que durava tanto, ele explodiria por dentro devido ao estresse, o horror e a dor que seu trabalho comportava. Já o estava devorando vivo. Cada ano se afundava mais, e ninguém poderia tirá-lo dessa queda para o abismo.

— Tenha muito cuidado, Randall — disse ele. — Já é bastante mau saber que não acendo sua paixão. Mas esse ar de compaixão em seu rosto me tira do sério.

— Sinto muito. — Sorriu-lhe.

— Posso fazer uma pergunta?

— Adiante.

— O que passa com os homens? vo..., você gosta? Quer dizer, você gosta deles?

Ela riu, pensando no que tinha feito a noite anterior com o estranho. A pergunta sobre sua inclinação sexual tinha já uma resposta clara e contundente.

— Sim, eu gosto dos homens.

— Alguém machucou você? Já sabe, feriu-a? Beth negou com a cabeça.

— É algo que prefiro manter em segredo.

Ele baixou a vista para o volante, percorrendo a circunferência com uma mão.

— É uma maldita pena. Porque é maravilhosa. Digo-o a sério. — Clareou a garganta como se sentisse incômodo. Um sentimental. Por Deus, no fundo, El Duro não era mais que um sentimental.

Seguindo um impulso, inclinou-se e o beijou na bochecha. — Você também é fantástico.

— Sim. Sei. — Lançou-lhe sua característica careta de brincadeira.

— Agora coloca o traseiro nesse edifício . É tarde.

Butch observou Beth cruzar frente aos faróis de seu carro, com seu cabelo ondeando sobre os ombros.

Era uma pessoa maravilhosa, pensou. Uma mulher genuinamente boa.

E Deus, ela também sabia exatamente a sorte que ele teria. Esse olhar triste em seus olhos fazia um momento significava que tinha vislumbrado a morte lenta que o esperava.

Assim era bom que não houvesse química entre eles. De outro modo, talvez tivesse tratado de convencê-la a apaixonar-se por ele só para não ir ao inferno com sua solidão.

Moveu a alavanca de marchas, mas manteve o pé no freio enquanto ela subia a escada até o vestíbulo. Quando alcançou a maçaneta da porta e lhe dizia adeus com a mão, algo se moveu entre as sombras junto ao edifício.

Desligou o veículo rapidamente.

Havia um homem vestido de negro dirigindo-se à parte traseira.

Butch saiu do carro e deslizou silenciosamente para o pátio posterior.

 

Wrath estava concentrado unicamente em chegar até Beth. Por isso não ouviu os passados do homem que o seguia até que cruzou a metade do pátio.

— Polícia! Alto!

Logo percebeu claramente o som familiar da arma sendo engatilhada e dirigindo-se para ele.

— As mãos onde eu as veja!

Wrath advertiu o aroma do homem e sorriu. A agressividade tinha substituído à luxúria, e, a ânsia de luta era tão intensa como o tinha sido a ânsia sexual. Aquele sujeito estava cheio de fluídos essa noite.

— Eu disse mãos para cima!

O vampiro se deteve e procurou entre sua jaqueta uma de suas estrelas. Polícia ou não, eliminaria a esse humano com um bom corte na artéria.

Mas então Beth abriu a porta de vidro.

O vampiro a cheirou imediatamente, e teve uma ereção instantânea.

— As mãos!

— O que está acontecendo? — exigiu saber Beth.

— Volta para dentro — vociferou o humano. — As mãos, bode! Ou abrirei um buraco na parte posterior do crânio!

Naquele momento, o policial se encontrava a uns poucos metros de distância e se aproximava rapidamente. Wrath levantou as palmas das mãos. Não ia matar diante de Beth. Além disso, essa pistola estaria colada a seu corpo em questão de três segundos. E nem sequer ele poderia sobreviver a um disparo a queima roupa.

— O’Neal...

— Beth, vai daqui vai!

Uma pesada mão segurou com força o ombro de Wrath. Deixou que o policial o empurrasse contra o edifício.

— Vai dizer-me o que está fazendo por aqui? — ordenou o humano.

— Saí a passear — disse Wrath. — E você?

O policial agarrou primeiro um braço do Wrath e logo o outro, e jogou para trás. As algemas se fecharam rapidamente em seus punhos. O sujeito era um autêntico profissional com aqueles instrumentos metálicos.

Wrath olhou de soslaio para Beth. Por isso podia ver, tinha os braços cruzados com força diante do peito. O medo espessava o ar a seu redor, convertendo-o em um véu que a cobria da cabeça aos pés.

Que bem está saindo isto, pensou. De novo, tinha lhe dado um susto de morte.

— Não a olhe — disse o policial, empurrando o rosto do Wrath para a parede

— Como se chama?

— Wrath — respondeu Beth. — Disse-me que se chamava Wrath.

O humano lhe lançou um verdadeiro rugido.

— Tem algum problema de ouvido, doçura? Fora daqui!

— Eu também quero saber quem é.

— Darei um relatório por telefone amanhã pela manhã, vale?

Wrath grunhiu. Não podia negar que fazê-la entrar era uma ideia excelente, mas não gostava da forma como o policial estava falando.

O humano revistou os bolsos da jaqueta do Wrath e começou a tirar armas. Três estrelas de arremesso, uma navalha automática, uma pistola, uma parte de corrente.

— Me valha o céu — murmurou o policial enquanto deixava cair os elos de aço ao chão com o resto do carregamento. — Tem alguma identificação? Ou não deixou suficiente espaço para colocar uma carteira, considerando que leva em cima quinze quilos de armas ilegais?

— Quando o policial encontrou um grosso maço de dinheiro, soltou outra maldição.

— Também vou encontrar drogas, ou já vendeu todo seu carregamento?

Wrath se deixou sacudir de um lado a outro. Enquanto tirava suas duas adagas das capas, olhou fixamente ao policial, pensando no muito que ia desfrutar rasgando sua garganta com os dentes. inclinou-se para frente, primeiro a cabeça. Não pôde evitá-lo.

— O’Neal, tome cuidado! — disse Beth, como se lhe tivesse lido a mente.

O policial pressionou o canhão da pistola contra o pescoço do Wrath.

— Qual é seu nome?

— Está me prendendo?

— Sim. Assim é.

— Por que?

— Deixe-me pensar. Invasão, posse de armas. Tem licença para levar este tipo de artilharia? Apostaria que não. Ah, e graças a essas estrelas de arremesso, também estou pensando em homicídio. Sim, acredito que isso é tudo.

— Homicídio? — sussurrou Beth.

— Seu nome? — exigiu saber o policial, olhando-o fixamente.

Wrath sorriu pelo baixo. — Deve ser clarividente. — A que se refere?

— Ao crime de homicídio. — Wrath riu surdamente enquanto baixava o tom de voz

— Alguma vez esteve dentro de uma bolsa para cadáveres, oficial?

A raiva, pura e vibrante, saiu por todos os poros do policial.

— Não me ameace.

— Não é uma ameaça.

O gancho de esquerda chegou pelo ar tão rápido como uma bola de beisebol, e Wrath não fez nada para evitá-lo. O grosso punho do policial atingiu a um lado do queixo e lhe jogou a cabeça para trás. Uma pontada de dor lhe explodiu no rosto.

— Butch! Pare!

Beth correu para eles, como se quisesse   interpor-se entre ambos, mas o policial a manteve a distância sujeitando-a por um braço.

— Por Deus, sim que é incômoda! Quer sair ferida? — disse o humano, empurrando-a.

Wrath cuspiu sangue.

— Tem razão. Volta para dentro.

Porque a coisa estava tomando má aparência.

Graças à visão fugaz daquela sessão de carícias, não lhe agradava o policial, para começar. Mas se o sujeito se dirigia outra vez ao Beth com esse tom, Wrath lhe soltaria todos seus dentes. E logo mataria a aquele filho de cadela.

— Anda, Beth — disse.

— cale-se! — gritou-lhe o policial.

— Vai bater-me outra vez se não o fizer?

O policial se encarou com ele, furioso.

— Não, vou dar-lhe um tiro.

— Por mim está bem. Eu gosto das feridas de bala. — A voz do Wrath se converteu em um sussurro

— Só que não diante dela.

— Vai à merda.

Mas o policial pegou as armas e o dinheiro jogou em cima de sua jaqueta. Logo segurou o braço do vampiro e começou a caminhar.

Beth sentiu um ligeiro enjôo quando viu o Butch arrastando ao Wrath.

A fúria entre ambos parecia materializar-se a cada passo. Embora Wrath estivesse algemado e mirado com uma pistola, ela não estava muito segura de que Butch estivesse a salvo. Tinha a sensação de que aquele desconhecido, um autêntico enigma para ela, estava permitindo que o tivesse detido.

Mas Butch também deve saber, pensou. Se não, teria guardado sua arma em lugar de ir pressionando o canhão contra a têmpora do outro.

Sabia que Butch era duro com os criminosos, mas estaria tão louco para matar a um?

A julgar pela perigosa expressão de seu rosto, não teve nenhuma dúvida de que a resposta era afirmativa, e talvez inclusive ficasse impune. Quem a ferro mata, a ferro morre, e era evidente que Wrath não era um cidadão respeitoso com a lei. Se aparecia com um balaço na cabeça em qualquer beco de má morte ou flutuando de barriga para baixo no rio, a quem surpreenderia?

Obedecendo a um instinto, correu rodeando o lateral do edifício.

Butch se dirigia a seu veículo como se levasse uma carga instável, e ela se apressou a alcançá-los.

— Espera. Tenho que lhe fazer uma pergunta.

— Quer saber que número calça ou algo assim? — espetou o policial.

— O quarenta e, seis — disse Wrath com voz lenta. — Recordarei você pelo Natal, bode.

Beth se colocou ante eles de tal maneira que deviam deter-se ou enrolá-la. Olhou fixamente o rosto do Wrath.

— Por que veio ver-me?

Poderia ter jurado que seu olhar se suavizou atrás dos óculos de sol.

— Não quero falar disso neste momento. Butch a afastou empurrando-a com mão firme.

— Tenho uma ideia. Por que não me deixa fazer meu trabalho?

— Não a toques — grunhiu Wrath.

— Sim, claro, seus desejos são ordens. — Butch o fez avançar de um empurrão.

Quando chegaram ao carro, o detetive abriu a porta de atrás e empurrou para baixo o imponente corpo do Wrath.

— Quem é? — gritou ela.

O vampiro a olhou, com seu corpo perfeitamente erguido apesar de que Butch o empurrava desde todos os ângulos.

— Seu pai me enviou — disse claramente. E logo se sentou no assento traseiro.

Beth ficou sem respiração.

Viu entre brumas ao Butch fechando de repente a porta e correndo para o lado do condutor.

— Espera! — exclamou.

Mas o carro se colocou em marcha. Os pneus deixaram marcas de borracha no asfalto.

 

Butch pegou o telefone e pediu à central que enviasse alguém imediatamente ao pátio traseiro de Beth para recolher as armas e o dinheiro que tinha deixado ocultos sob sua jaqueta. Enquanto conduzia, levava um olho colocado na estrada e outro no espelho retrovisor. O suspeito também o olhava fixamente, com um sorriso malicioso em seu perverso rosto. Jesus, aquele tipo era enorme. Ocupava a maior parte do assento traseiro e tinha a cabeça dobrada em ângulo para não bater contra o teto quando passavam por cima de algum buraco.

Butch estava ansioso por tirá-lo do maldito carro, menos de cinco minutos depois, saiu da rua Trade para entrar no estacionamento da delegacia de polícia e deixou o veículo tão perto da entrada posterior como foi possível. Saiu e abriu a porta traseira.

— Não me cause problemas, viu? — disse, agarrando o braço do sujeito.

O homem ficou de pé. Butch empurrou-o.

Mas o suspeito começou a caminhar para trás, afastando-se da delegacia de polícia.

— Caminho equivocado.

O policial se deteve com firmeza, afundando os calcanhares no pavimento, e empurrou outra vez com força.

 

Mas o suspeito continuou avançando, arrastando ao Butch com ele.

— Acredita que não vou disparar? — perguntou o detetive, pegando sua arma.

De repente, tudo se transformou.

Butch nunca tinha visto ninguém mover-se tão rápido. Em um segundo, o sujeito, que tinha os braços atrás das costas, atirou as algemas ao chão e, com apenas um par de movimentos, o detetive foi desarmado, imobilizado com um braço ao pescoço e arrastado a um lugar escuro.

A escuridão os tragou. Enquanto Butch lutava por defender-se, precaveu-se de que estavam no estreito beco situado entre a delegacia de polícia e o edifício de escritórios vizinho. Era muito estreito, não estava iluminado e tampouco havia janelas.

Quando Butch saltou pelos ares e foi empurrado contra a parede de tijolo, o pouco ar que ficava em seus pulmões saiu imediatamente. De maneira inconcebível, o homem o levantou do chão sustentando-o pelo pescoço com apenas uma mão.

— Não devia intrometer-se, oficial — disse o homem com um grunhido profundo e acentuado. — Devia seguir seu caminho e deixar que ela viesse comigo.

Butch agarrou a garra de ferro. A enorme mão fechada ao redor de sua garganta estava bloqueando o último fôlego de vida. Tentou respirar, procurando ar desesperadamente. Sua visão se fez imprecisa. Estava a ponto de perder a consciência .

Soube, sem sombra de dúvidas, que não tinha escapatória. Sairia do beco no interior de uma bolsa, como o homem lhe tinha prometido.

Um minuto mais tarde abandonou toda resistência; seus braços caíram inertes e ficaram pendurados. Ele queria lutar. Possuía vontade para fazê-lo, mas suas forças se esgotaram.

E a morte? Aceitava-a, ia morrer cumprindo com seu dever, embora como um idiota, por não ter pedido reforços. Mesmo assim, era melhor e mais rápido que acabar em uma cama de hospital com alguma enfermidade lenta e desagradável. E mais honroso que suicidar-se de um disparo. O qual era algo que Butch tinha baralhado mais de uma vez.

Com seu último fôlego, tentou dirigir o olhar para o rosto do homem. Sua expressão era de absoluto controle.

 

Este tipo fez isso antes. E está acostumado a matar. Por Deus, Beth.

Revolveram-se as vísceras ao pensar no que poderia fazer um homem como aquele a Beth.

Wrath sentiu que o corpo do policial se relaxava. Ainda estava vivo, mas não ficava muito tempo.

A ausência total de medo naquele humano era algo notável. O policial tinha incomodado ele e surpreendido, e se tinha defendido de uma maneira admirável, mas em nenhum momento tinha sentido medo. E agora que se aproximava seu fim, estava resignado à morte. E quase poderia jurar que supunha para ele um alívio.

Maldição. Wrath imaginou que ele houvesse sentido igual. Era-lhe penoso matar a alguém capaz de morrer como o faria um guerreiro. Sem temor nem vacilação. Havia muito poucos machos como este, tanto vampiros como humanos.

A boca do policial começou a mover-se. Estava tentando falar. Wrath se inclinou.

— Não... a... faça mal.

O vampiro surpreendeu a si mesmo respondendo:

— Estou aqui para salvá-la.

— Não! — Uma voz soou na entrada do beco. Wrath voltou a cabeça. Beth corria para eles.

— Solte-o!

Afrouxou o apertão na garganta do policial. Não ia matar a aquele tipo diante dela. Necessitava que confiasse nele. E certamente não o conseguiria se enviava ante seus olhos ao policial para encontrar-se com o Criador.

Enquanto Beth se detinha com uma derrapagem, Wrath abriu a mão, deixando cair ao humano ao chão. Uma respiração entrecortada e ofegante mesclada com uma tosse rouca se escutou entre as sombras.

Beth caiu de joelhos — ante o policial e olhou para cima.

— Quase o mata!

Wrath soltou uma maldição, sabendo que tinha que sair dali. Logo apareceriam outros policiais.

Olhou para o outro lado do beco.

 

— Aonde acredita que vai? — Sua voz soava cortante por causa da ira.

— Quer que fique aqui para que me prendam de novo?

— Merece apodrecer no cárcere!

Com uma sacudida, o policial tratou de levantar-se, mas as pernas se dobraram. Mesmo assim, separou-se as mãos de Beth quando esta as estendeu para ele.

Wrath precisava encontrar um canto escuro para poder materializar-se. Se Beth se impressionou tanto pelo fato de que quase tinha matado a alguém, executar o ato de desaparecimento frente a ela acabaria por horrorizá-la por completo.

Deu a volta e começou a afastar-se. Não gostava da ideia de separar-se dela, mas que mais podia fazer? Se disparavam e o   matavam, quem cuidaria dela? E não podia permitir que o metessem na prisão. As celas tinham barras de aço, o que significava que quando amanhecesse não poderia desmaterializasse para ficar a salvo. Ante semelhantes opções, se um grupo de policiais tentasse prendê-lo nesse momento, teria que matá-los a todos. E então o que pensaria ela dele?

— Pare! — gritou-lhe.

Ele seguiu adiante, mas as pisadas de Beth ressonaram quando se aproximou correndo.

Olhou-a, frustrado pela forma como tinham saído as coisas. Graças a pequena briga com seu amigo, temia-o, e isso complicaria tudo quando tivesse que cuidar dela. Não tinha tempo suficiente para convencê-la que o acompanhasse voluntariamente. O que significava que teria que recorrer à força quando se apresentasse sua transição. E não acreditava que fosse gostar de nenhum dos dois.

Quando percebeu seu aroma, soube que se aproximava perigosamente a hora da mudança.

Talvez devesse levá-la com ele nesse preciso momento. Wrath olhou a seu redor. Não podia tornar-lhe ao ombro ali mesmo, a só uns metros da delegacia de polícia de polícia, e sobre tudo enquanto aquele maldito policial os observava.

Não, teria que voltar pouco antes do amanhecer e raptá-la. Logo a prenderia no quarto de Darius se fosse preciso. Teria que escolher entre isso ou que ela morresse .

 

— Por que mentiu? — gritou Beth. — Não conheceu meu pai.

— Sim o conheci.

— Mentiroso — cuspiu ela, — É um assassino e um mentiroso.

— Pelo menos tem razão no primeiro.

Os olhos dela se abriram desmesuradamente, e o terror apareceu refletido em seu rosto.

— Essas estrelas de arremesso.. em seus bolsos. Você matou a Mary. Não é certo?

Ele franziu o cenho.

— Nunca matei a uma mulher.

— Então também tenho razão no segundo.

Wrath olhou ao polícia, que ainda não se recuperou por completo, mas logo o faria.

Maldita seja, pensou. E se Beth não tinha tempo até o amanhecer? O que aconteceria escapava e não podia encontrá-la? Baixou o tom da voz:

— Sentiu muita fome ultimamente, não é certo? Ela se tornou para trás sobressaltada.

— O que?

— Fome, mas não ganhou peso. E está cansada. Muito cansada. Também sente ardor nos olhos, especialmente durante o dia, não? — inclinou-se para frente — Olha a carne crua e se pergunta que sabor terá. Seus dentes, os superiores dianteiros, doem-lhe, e também as articulações, e, sente a pele quente.

Beth piscou, com a boca aberta.

Atrás dela, o policial tratou de ficar em pé, cambaleou-se, e outra vez caiu sentado ao chão. Wrath falou mais rápido:

— Sente que não encaixa, não é assim? Como se todos os outros se movessem a uma velocidade diferente, mais devagar. Acredita que é anormal, diferente, que está isolada, intranquila. Sente que algo vai acontecer, algo monumental. Quando está acordada, sente temor de seus sonhos, perdida em ambientes familiares. — Fez uma pausa.

— Não sente impulsos sexuais absolutamente, mas os homens a acham incrivelmente atraente. Os orgasmos que teve ontem à noite foram os primeiros que experimentou.

 

Era tudo o que podia recordar sobre sua existência no mundo humano antes de sua transição.

Ela o olhou fixamente, estupefata.

— Se quiser saber que diabos está acontecendo, tem que me acompanhar. Está a ponto de cair doente, Beth.

— E eu sou o único que pode ajudá-la.

Ela deu um passo atrás. Olhou ao detetive, que parecia estar refletindo sobre as vantagens de permanecer deitado. O vampiro lhe agarrou as mãos.

— Não farei mal a você. Prometo-o. Se tivesse querido matá-la, podia tê-lo feito ontem à noite de dez maneiras diferentes, não está de acordo?

Ela voltou a cabeça para ele, e fechou os olhos enquanto Wrath sentia como recordava exatamente o que lhe tinha feito. O aroma de seu desejo saturou docemente o olfato do vampiro.

— A um momento ia matar ao Butch.

Para falar a verdade, não estava muito seguro disso. Um bom competidor era difícil de encontrar. .

— Não o tenho feito.

— Pôde fazê-lo.

— De verdade importa? Ainda respira.

— Só porque eu o evitei.

Wrath grunhiu, e jogou a melhor cartada que tinha:

— Levarei você à casa de seu pai.

Ela abriu os olhos incrédula, e logo os entrecerrou com surpresa.

Voltou a olhar ao policial. Já tinha levantado e se apoiava no muro com uma mão, com a cabeça balançando, como se fosse muito pesada para seu pescoço.

— Meu pai, é? — Sua voz gotejava desconfiança, mas também havia nela suficiente curiosidade, de modo que Wrath soube que tinha ganhado a partida.

— Nos esgota o tempo, Beth.

Houve um longo silencio.

Butch levantou a cabeça e observou o beco.

Em um par de minutos ia tentar efetuar outra prisão. Sua determinação era evidente.

— Tenho que ir   -disse Wrath. — Vêem comigo. Ela fechou o punho com força sobre a bolsa.

 

— Que fique muito claro: não confio em você.

Ele assentiu.

— Por que deveria fazê-lo?

— E esses orgasmos não foram os primeiros.

— Então por que a surpreendeu tanto senti-los? — disse ele suavemente.

— Apresse-se — murmurou ela, dando as costas ao oficial. — Podemos conseguir um táxi no Trade. Não pedi que esperasse o que me trouxe aqui.

 

Enquanto acelerava o passo pelo beco, Beth sabia que estava arriscando a vida. Era enorme a probabilidade de que a estivessem enganando. E nada menos que um assassino.

Mas como tinha sido capaz de saber tudo o que ela estava sentindo?

Antes de dobrar a esquina, voltou a olhar ao Butch. Tinha uma mão estendida como se quisesse alcançá-la. Não pôde lhe ver o rosto devido à escuridão, mas seu desesperado desejo atravessou a distância que os separava. Vacilou, perdendo o ritmo de seus passos.

Wrath a agarrou pelo braço.

— Beth, vamos.

Que Deus a ajudasse, começou a correr de novo.

No instante em que saíram ao Trade, fez gestos a um táxi que passava. Graças a Deus, deteve-se em seco, subiram a toda pressa, e Wrath deu uma direção que se encontrava a um par de ruas de distância da avenida Wallace. Obviamente era uma manobra de desorientação.

Deve fazê-lo com muita frequência, pensou.

Quando o táxi arrancou, sentiu o olhar do Wrath do outro extremo do assento.

— Esse policial — perguntou ele — significa algo para você?

 

Ela tirou da bolsa seu telefone e marcou o número do posto telefônico da delegacia de polícia.

— Fiz uma pergunta. — Wrath utilizou um tom cortante.

— Vá para o inferno. — Quando escutou a voz do Ricky, respirou profundamente

— José Está?

Não levou mais de um minuto encontrar ao outro detetive, e quando finalizou a chamada já tinha transpassado a soleira da porta para ir procurar ao Butch. José não tinha feito muitas perguntas, mas ela sabia que viriam depois. E como ia explicar por que tinha fugido com um suspeito?

Isso a convertia em cúmplice, ou não?

Beth guardou o telefone na bolsa. Tremiam-lhe as mãos, e se sentia um pouco enjoada. Também notava que lhe faltava oxigênio, embora o táxi tivesse ar condicionado e a temperatura era agradavelmente fresca. Abriu o vidro. Uma brisa cálida e úmida lhe alvoroçou o cabelo.

O que tinha feito com seu corpo a noite anterior, e com sua vida nesse momento?

O que era o seguinte? Incendiar seu apartamento? Detestava o fato de que Wrath tivesse colocado frente a ela a única reclamação a que não podia resistir. Claramente, era um criminoso. Aterrorizava-a, mas mesmo assim seu corpo se avivava só pensando em um de seus beijos.

E odiava que ele soubesse que tinha conseguido lhe fazer experimentar os primeiros orgasmos de sua vida.

— Nos deixe por aqui — disse Wrath ao condutor dez minutos mais tarde.

Beth pagou com uma nota de vinte dólares, pensando que tinham sorte de que ela levasse dinheiro em efetivo. O dinheiro do Wrath, aquele enorme maço de bilhetes, encontrava-se no chão de seu pátio traseiro. Não estava precisamente em condições de pagar o trajeto.

Ainda não podia acreditar que fosse a uma casa estranha com aquele homem.

O táxi se afastou, e eles seguiram caminhando pela calçada de um bairro tranquilo e luxuoso. A mudança de cenário era absurdo. Da violência daquele beco aos ondulados jardins e maciços de flores.

 

Estava disposta a apostar que as pessoas que viviam naquela casa nunca tinha fugido da polícia.

Voltou a cabeça para olhar ao Wrath, que ia uns passos atrás dela. Examinava os arredores como se temesse algum ataque surpresa, embora Beth não soubesse como era capaz de distinguir algo com seus óculos negros. Não entendia por que s levava sempre postos, além de impedí-lo de ver corretamente, eram tão chamativos que atraíam a atenção sobre ele. Se alguém tinha que descrevê-lo, o faria com enorme precisão em segundos.

Embora seu longo cabelo negro e sua enorme envergadura produziam exatamente o mesmo efeito.

Deixou de olhá-lo. As botas do macho, com seu tamborilar compassado atrás dela, soavam como os nódulos de uma mão atingindo uma sólida porta.

— Então..., o policial — a voz do Wrath era íntima, profunda — é seu amante?

Beth não pôde evitar um sorriso. Por Deus, parecia ciumento.

— Não vou responder a isso.

— Por que?

— Porque não tenho que fazê-lo. Não o conheço, não devo nada a você.

— Chegou a me conhecer bastante bem ontem à noite — disse ele com um grunhido apagado.

— E eu cheguei a conhecer você muito bem.

Não falemos disso agora, pensou ela, sentindo-se instantaneamente úmida entre as pernas. Por Deus, as coisas que esse homem podia fazer com a língua.

Cruzou os braços diante do peito e ficou olhando uma casa colonial bem conservada. As luzes se filtravam através das janelas, lhe dando um formoso aspecto. Parecia, de certo modo, acolhedora. Talvez porque as casas acolhedoras são universais. E especialmente atraentes.

Sentia vontade de passar uma semana inteira em uma delas.

— Ontem à noite foi um engano — disse.

— Não me pareceu que fosse assim.

— Pois pareceu mal. Pareceu tudo mal.

Chegou até ela antes que o houvesse sentido mover-se. Estava caminhando e, de repente, encontrou-se entre seus braços. Uma de suas mãos a sustentou pela base da nuca. A outra empurrou seus quadris contra ele. Notou a ereção sobre seu ventre.

 

Fechou os olhos. Cada centímetro de sua pele voltou para a vida, sua temperatura se elevou. Odiava reagir assim ante ele, mas ao o mesmo acontecia ao homem, não pôde controlar-se.

Esperou a que sua boca descesse até a dela, mas não a beijou. Seus lábios seguiram até sua orelha.

— Não confie em mim. Não me queira. Importa-me pouco. Mas nunca minta. — Inspirou com força como se fora a sugá-la.

— Posso cheirar que emana sexo neste momento. Poderia deitá-la nesta calçada e me colocar sob sua saia em um milésimo de segundo. E você não me rechaçaria, não é certo? Não, provavelmente não o faria.

Porque era uma idiota. E evidentemente desejava morrer. Os lábios do vampiro esfregaram um lado de seu pescoço. E logo lambeu ligeiramente sua pele.

— Agora bem, podemos ser civilizados e esperar chegar a casa. Ou podemos fazê-lo neste mesmo lugar. De qualquer forma, morro por estar dentro de você outra vez, e você não poderá me rechaçar.

Beth sujeitou os ombros do Wrath, supunha-se que devia empurrá-lo longe de si, mas não o fez. Atraiu-o para ela, aproximando os seios a seu peito.

O homem emitiu um som de macho desesperado, uma mescla entre um gemido de satisfação e uma profunda súplica.

— Sim — pensou ela, — estou ganhando terreno.

Quebrou o contato com lúgubre satisfação.

— A única coisa que faz esta terrível situação remotamente passível é o fato de que você me deseja mais.

Levantou o queixo com um movimento brusco e começou a caminhar. Podia sentir os olhos dele sobre seu corpo ao segui-la, como se a estivesse tocando com as mãos.

— Tem razão — disse ele

— Mataria por te ter. Beth deu meia volta e lhe apontou com um dedo.

— Assim que se trata disso. Viu-nos o Butch e a mim nos beijando no carro. Não é assim?

Wrath arqueou uma sobrancelha, sorriu tenso, mas guardou silêncio.

— Por isso o atacou?

— Só resisti a prisão.

— Sim, isso era o que parecia — murmurou ela

— Então, é certo? Viu como me beijava?

 

O vampiro cortou o espaço entre seus corpos, irradiava ira.

— Sim, vi-o. E eu não gostei que a tocasse. Excita-te saber disso? Quer me dar uma boa estocada me dizendo que é melhor amante que eu? Seria uma mentira, mas me doeria como o diabo.

— Por que se importa tanto? — perguntou ela.

— Você e eu passamos uma noite juntos. Nem sequer isso! Só um par de horas.

O homem apertou o queixo. Ela soube que estava rangendo os dentes a julgar pelo movimento de seus maçãs do rosto, alegrou-se de que levasse posto os óculos de sol. Tinha o pressentimento de que seus olhos a teriam aterrorizado de morte.

Quando viu um carro passar pela rua, recordou que era um fugitivo da polícia e, tecnicamente, ela também. Que diabos estavam fazendo, discutindo na calçada... como amantes?

— Olhe, Wrath, não quero que me prendam esta noite.

— Nunca pensou que tais palavras saíssem de sua boca.

— Sigamos adiante, antes que alguém nos encontre.

Deu a volta, mas ele a sujeitou firmemente pelo braço.

— Ainda não sabe — disse lugubremente. — Mas é minha. Durante um milésimo de segundo, ela se balançou para ele. Mas logo sacudiu a cabeça, levando as mãos ao rosto, tentando não escutar.

Sentia-se marcada, e a maior loucura era que em realidade não lhe importava. Porque ela também o desejava.

O que não ajudaria nada a melhorar o estado de sua saúde mental.

Por Deus, precisava repassar novamente os últimos dois dias. Oxalá pudesse voltar atrás só quarenta e oito horas, até encontrar-se de novo ante seu escritório quando Dick representava seu papel habitual de chefe lascivo.

Faria duas coisas de maneira diferente: chamar um táxi em lugar de ir andando até sua casa, e assim nunca teria encontrado ao Billy Riddle. E no instante em que tinha entrado em seu apartamento, teria metido alguma roupa em uma mala, para partir e passar a noite em um motel. Dessa forma, quando aquele musculoso estranho, disfarçado de traficante com seu traje de couro, tivesse ido procurá-la não a teria encontrado.

 

Só queria voltar para sua patética e aborrecida vida. E isso soava tremendamente ridículo, se tinha em conta que fazia tão somente um momento tinha pensado que sair dela era a única maneira de salvar-se.

— Beth. — Sua voz tinha perdido grande parte de sua mordacidade. — Me olhe.

Ela moveu a cabeça, só para sentir que lhe retirava as mãos dos olhos.

— Tudo vai bem.

— Sim, claro. É provável que, neste momento, esteja a caminho minha ordem de prisão. Ando por aí na escuridão com um tipo como você. Tudo isto está acontecendo porque estou desesperada por conhecer meus pais mortos, e sou capaz de colocar minha vida em perigo ante a remota possibilidade de saber algo sobre eles. Deixe eu dizer algo: há um caminho muito longo entre a situação em que me encontro agora e o que você chama «bem>. Ele acariciou a bochecha com a ponta do dedo.

— Não vou fazer mal. E não deixarei que ninguém faça isso. Ela se esfregou a frente, perguntando-se se alguma vez voltaria a adquirir uma certa aparência de normalidade.

— Deus, Oxalá nunca tivesse aparecido em minha casa. Desejaria não ter visto nunca seu rosto.

Ele deixou cair a mão.

— Quase chegamos — disse laconicamente.

 

Butch renunciou tentar levantar-se e permaneceu no chão. Esteve sentado um momento, tratando simplesmente de respirar. Não era capaz de mover-se.

Não era só pela dor de cabeça que lhe brocava as têmporas, nem tampouco porque sentisse as pernas frágeis, embora parecessem incapazes de lhe sustentar.

Estava envergonhado.

Que um homem mais corpulento o houvesse sovado não supunha um problema, mas seu ego certamente tinha sofrido um duro reverso.

Era consciente de que tinha cometido um engano e colocado em perigo a vida de uma jovem. Quando chamou para que recolhessem as armas, devia ordenar que dois policiais o esperassem na porta da delegacia de polícia. Sabia que o suspeito era especialmente perigoso, mas estava seguro de poder controlá-lo ele só. Sim, claro, não tinha controlado uma merda. Quase o amassam, e ainda por cima Beth se encontrava agora em companhia de um assassino.

Só Deus sabia o que podia lhe ocorrer.

Butch fechou os olhos e colocou o queixo sobre os joelhos. A garganta lhe doía infernalmente, mas era sua cabeça o que verdadeiramente o preocupava. Não estava bem. Seus pensamentos eram incoerentes, seus processos cognitivos se foram ao diabo. Talvez tinha estado sem oxigênio o tempo suficiente para que lhe fritassem os miolos.

Tratou de fazer provisão de todas suas forças, mas só conseguiu afundar-se mais na névoa.

E além disso, devido a seu lado masoquista tão terrivelmente oportuno, o passado fustigou seu dolorido crânio.

Da desordenada confusão de imagens que se amontoavam em sua mente, surgiu uma que fez com que as lágrimas aparecessem em seus olhos. Uma jovem, de pouco mais de quinze anos, entrando em um carro desconhecido, lhe dizendo adeus com a mão do guichê enquanto desaparecia rua abaixo.

Sua irmã mais velha Fanie.

À manhã seguinte, tinham encontrado seu cadáver no bosque, atrás do campo de beisebol. Tinham-na violado, golpeado e estrangulado. Não nessa ordem.

Depois do sequestro, Butch deixou de dormir a noite inteira. Duas décadas mais tarde, ainda não conseguia fazê-lo.

Pensou na Beth, olhando para trás enquanto corria junto ao assassino. Seu desaparecimento em companhia daquele sujeito foi a única coisa que fez que o policial ficar de pé e arrastar seu corpo para a delegacia de polícia.

— O’Neal! — José chegou ofegante pelo beco.

— O que aconteceu?

— Temos que emitir uma ordem de busca e captura. — Era essa sua voz? Soava rouca, como se tivesse ido a um jogo de futebol e tivesse gritado durante duas horas.

— Homem branco, um metro noventa e oito. Vestido de couro negro, óculos de sol, cabelo negro até os ombros. — Butch estendeu uma mão, procurando apoio contra o edifício.

— O suspeito não está armado.

 

— Eu o desarmei. Mas certamente conseguirá novas armas antes de uma hora.

Ao dar um passo adiante, cambaleou.

Jesus. — José lhe sujeitou o braço, sustentando-o.

Butch tratou de não apoiar-se nele, mas necessitava ajuda. Não podia mover as pernas corretamente.

— E uma mulher branca. — Sua voz se quebrou

— Um metro setenta e cinco, cabelo negro longo. Leva uma blusa azul e uma saia branca. — Fez uma pausa

— Beth.

— Sei. Foi ela que chamou. — O rosto do José ficou tensa

— Não lhe pediu detalhes. Pelo som de sua voz, soube que não me daria nenhum. — Os joelhos do Butch tremeram

— Hei, detetive. — José o segurou.

— Vamos com calma.

No instante em que atravessaram a porta posterior da delegacia de polícia, Butch começou a ziguezaguear.

— Tenho que ir procurá-la.

— Descansemos neste banco.

— Não...

José afrouxou a mão, e seu companheiro caiu como um peso morto. A metade dos homens da delegacia de polícia foi em sua ajuda. A maré de sujeitos vestidos de azul escuro com insígnias o fez sentir-se patético.

— Estou bem — disse bruscamente, mas teve que colocar a cabeça entre os joelhos.

Como tinha podido permitir que isto passasse? Se Beth aparecia morta pela manhã...

— Detetive? José ficou de cócoras e colocou o rosto na linha de visão do Butch

— Já chamamos a uma ambulância.

— Não a necessito. Já saiu a ordem?

— Sim, Ricky a está emitindo neste momento. Butch levantou a cabeça. Lentamente.

— Céus, o que aconteceu no pescoço? — sussurrou José.

— Usaram-no para me levantar do chão.

— Engoliu saliva um par de vezes. — recolheu as armas no endereço que dei?

— Sim. Temos as armas e o dinheiro. Quem demônios é esse tipo?

— Não tenho nem a mais remota ideia.

 

Wrath subiu pela escada dianteira da casa de Darius. A porta se abriu de repente antes que pudesse tocar o maçaneta de bronze.

Fritz estava ao outro lado.

— Amo, não sabia que estava... O doggen ficou petrificado quando viu o Beth.

Sim, sabe quem é — pensou Wrath — Mas vamos com calma.

Ela estava bastante assustada.

— Fritz, quero que conheça o Beth Randall. — O mordomo ficou olhando-o

— Vais deixar-nos entrar?

Fritz fez uma profunda reverência e inclinou a cabeça.

— É obvio, amo. Senhorita Randall, é uma honra conhecê-la pessoalmente.

Beth pareceu desconcertada, mas se preparou para sorrir quando o doggen se ergueu e se separou da soleira.

Quando ela estendeu a mão para saudá-lo, Fritz deixou escapar um som afogado e olhou ao Wrath solicitando permissão.

— Adiante — murmurou Wrath enquanto fechava a porta principal. Nunca tinha podido entender as bravas normas dos doggens.

O mordomo estendeu as mãos com reverência, as fechando sobre a mão dela e baixando a frente até as tocar. Pronunciou umas palavras no antigo idioma em um cometido arrebatamento.

Beth estava assombrada. Mas não tinha maneira de saber que ao lhe oferecer a mão lhe tinha concedido a máxima honra de sua espécie. Como filha de um princeps, era uma aristocrata de alto berço em seu mundo.

Fritz estaria resplandecente durante dias.

— Estaremos em meu quarto — disse Wrath quando o contato se quebrou.

O doggen vacilou.

— Amo, Rhage está aqui. teve um... pequeno acidente.

Wrath soltou uma maldição.

— Onde está?

— No banheiro do piso de abaixo. — Agulha e fio?

— Dentro, com ele.

— Quem é Rhage? — perguntou Beth enquanto cruzavam o vestíbulo.

Wrath se deteve perto do salão.

— Espera aqui.

Mas ela o seguiu quando começou a caminhar.

Ele voltou a cabeça, assinalando para a porta do salão. — Não foi um pedido.

— Não vou esperar em nenhuma parte.

— Maldição, faz o que digo.

— Não. — A palavra foi pronunciada sem aquecimento. Desafiava-o intencionalmente e com pasmosa tranquilidade, como se ele não fosse mais que um obstáculo em seu caminho, igual a um velho tapete.

— Jesus Cristo. Está bem, mas logo não terá vontade de jantar.

Enquanto se encaminhava irritado até o banho, pôde cheirar o sangue do vestíbulo. Era grave, e desejou com força que Beth não estivesse tão ansiosa por ver tudo.

Abriu a porta, e Rhage elevou a vista. O braço do vampiro pendurava sobre o lavabo. Havia sangue por toda parte, um atoleiro escuro no chão e um menor sobre o mármore.

— Rhage, o que aconteceu?

— Fatiaram-me como a um pepino. Um lesser me deu uma boa, cerceou a veia e chegou até o osso. Estou gotejando como um coador.

Em uma imprecisa imagem, Wrath captou o movimento da mão do Rhage baixando até seu ombro e subindo no ar.

— Livrou-te dele?

— Diabos, claro.

— Oh... por... Deus — disse Beth, empalidecendo

— Santo céu. Está costurando...

— Olá. Quem é esta beleza? — disse Rhage, fazendo uma pausa em sua tarefa.

Houve um som surdo, e Wrath se moveu, tampando a visão de Beth com seu corpo.

— Necessita ajuda? — perguntou, embora tanto ele como seu irmão sabiam que não podia fazer nada. Não podia ver bem para costurar suas próprias feridas, e muito menos as de outro. O fato de ter que depender de seus irmãos ou do Fritz para curar-se era uma debilidade que desprezava.

— Não, obrigado — riu Rhage. — Arranjo bastante bem, como sabe por experiência. E quem é sua amiga?

— Beth Randall, este é Rhage. Meu sócio. Rhage, ela é Beth, e não sai com estrelas de cinema, entendido?

— Alto e claro. — Rhage se inclinou para um lado, tratando de ver por trás do Wrath. — Prazer em conhecê-la, Beth.

— Está seguro de que não quer ir a um hospital? — disse ela fracamente.

— Não. Parece pior do que é. Quando a gente pode usar o intestino grosso como cinturão, então sim deve ir a um profissional.

Um som rouco saiu da boca do Beth.

— A levarei para baixo — disse Wrath.

— Oh, sim, por favor — murmurou ela. — eu adoraria ir... abaixo.

Rodeou-a com o braço, e soube que estava muito afetada pela forma como se pegou a seu corpo. O fazia sentir muito bem que ela se refugiasse nele quando lhe faltavam as forças.

Muito bem, de fato.

— Estará bem? — disse Wrath a seu irmão.

— Perfeitamente. Irei assim que termine com isto. Tenho que recolher três frascos.

— Boa sorte.

— Teriam sido mais se este pequeno obséquio não tivesse chegado por correio aéreo. Com razão você gosta tanto dessas estrelas. — Rhage deu uma volta com a mão, como se estivesse atando um nó. — Deve saber que Tohr e os gêmeos estão... — agarrou uma tesoura do balcão e cortou o fio — continuando nosso trabalho de ontem à noite. Terão que retornar em um par de horas para informar, tal como pediu.

— Diga-lhes que batam na porta primeiro.

Rhage assentiu com a cabeça, e teve o bom julgamento de não fazer nenhum comentário.

Enquanto Wrath conduzia a Beth pelo vestíbulo, encontrou-se de repente lhe acariciando o ombro, as costas, e logo a agarrou pela cintura, afundando seus dedos na suave pele. Ela se aproximou dele tanto como pôde, com a cabeça à altura de seu peito, descansando sobre seu peitoral enquanto caminhavam juntos. Muito prazeroso. Muito acolhedor, pensou ele. Muito bom. Em todo caso, apertou-a contra si.

E enquanto o fazia, desejou poder retirar o que havia dito na calçada. Que ela era dele.

Porque não era certo. Não queria tomá-la como sua shellan. Acalorou-se, ciumento, imaginando as mãos do policial tocando-a. Incômodo por não ter acabado com aquele humano. Aquelas palavras lhe tinham escapado.

Ah, diabos. A fêmea tinha manipulado seu cérebro. De algum jeito, tinha conseguido lhe fazer perder seu bem estabelecido autocontrole e fazer surgir nele o maldito psicopata que levava dentro.

E aquela era uma conexão que queria evitar.

Depois de tudo, os ataques de loucura eram a especialidade do Rhage.

E os irmãos não necessitavam a outro louco de gatilho fácil no grupo.

Beth fechou os olhos e se recostou contra Wrath, tratando apagar a imagem da ferida aberta que acabava de ver. O esforço era como tampar a luz, do sol com as mãos. Alguns fragmentos daquela horrível visão continuavam aparecendo. O sangue vermelho brilhante, o escuro músculo ao descoberto, o impressionante alvo do osso... E a agulha. Perfurar a pele e atravessar a carne para fazer passar o fio negro...

Abriu os olhos.

Estava melhor com eles abertos.

Não importava o que o homem houvesse dito. Não se tratava de um arranhão. Precisava ir a um hospital. E ela teria tentado lhe convencer com maior ênfase, se não tivesse estado ocupada tratando de manter sua última comida tailandesa dentro do estômago.

Além disso, aquele sujeito parecia muito competente em remendar a si mesmo.

Também era tremendamente bonito. Embora a enorme ferida atraísse toda sua atenção, não pôde evitar fixar-se em sua deslumbrante face e seu corpo escultural. Cabelo loiro curto, brilhantes olhos azuis, um rosto que pertencia a grande tela. notava-se que levava um traje do mesmo estilo que Wrath, com calças de couro negro e pesadas botas, mas tinha tirado a camisa. Marcando os músculos do torso ficavam ressaltados sob a luz central, em um impressionante desdobramento de força. E a tatuagem multicolorida de um dragão que lhe cobria toda a costa era realmente espetacular.

Mas, claro, Wrath não ia ter como sócio a um adoentado de aspecto efeminado.

Traficantes de drogas. Parecia evidente que eram traficantes de drogas. Pistolas, armas brancas, enormes quantidades de dinheiro em espécie. E quem mais se envolveria em uma luta a faca e depois ficaria a brincar de médico?

Recordou que o homem mostrava no peito a mesma cicatriz de forma circular que Wrath.

Pensou que deviam pertencer a uma bando. ou à máfia. De repente necessitou algum espaço, E Wrath a soltou no momento de entrar em uma residência de cor limão. Seu passo se fez mais lento. O lugar parecia um museu ou algo similar ao que poderia parecer na Revista de Arquitetura Colonial. Grossas cortinas de cor clara emolduravam largas janelas, ricas pinturas a óleo reluziam nas paredes, os objetos decorativos estavam dispostos com refinado gosto. Baixou a vista ao tapete. Devia custar mais que seu apartamento.

Pensou que talvez não só traficassem com cocaína, crack ou heroína. Podiam dedicar-se também ao mercado negro de antiguidades.

Seria uma combinação que não se via muito frequentemente.

— É bonito — murmurou, tocando com o dedo uma caixa antiga — Muito bonito.

Ao não obter resposta, olhou ao Wrath. Estava parado na sala com os braços cruzados sobre o peito, alerta, apesar de que se encontrava em sua própria casa.

Mas então, quando relaxava?

— Sempre foi colecionador? — perguntou-lhe, tratando de ganhar um pouco de tempo para controlar seus nervos. Aproximou-se de uma pintura da Escola do Rio Hudson. Santo céu, era um Thomas Cole. Provavelmente valia centenas de milhares

— Isto é muito formoso.

Olhou de soslaio sobre o ombro. É estava concentrado nela, sem prestar atenção à pintura. E em seu rosto não se via refletida nenhuma expressão de posse ou orgulho. Não parecia a forma de comportar-se de alguém quando outra pessoa admirava seus pertences.

— Esta não é minha casa — afirmou. — Seu pai vivia aqui.

Sim, claro.

Mas, que diabos. Já tinha chegado muito longe. Já não lhe importava continuar com aquele jogo.

— Por isso parece, tinha muito dinheiro. Como ganhava a vida?

Wrath cruzou a residência em direção a um delicioso retrato de corpo inteiro de um personagem que parecia um rei.

— Vêem comigo.

— O que? Quer que atravesse essa parede...?

Ele oprimiu uma mola em um extremo do quadro, e este girou para fora sobre um eixo, deixando ao descoberto um escuro corredor.

— Oh — exclamou ela.

Ele fez um gesto com a mão.

— Depois de você.

 

Beth se aproximou com cuidado. A luz dos abajures de gás piscava sobre a pedra negra. inclinou-se para frente e viu umas escadas que desapareciam em uma curva muito mais abaixo.

— O que há aí abaixo?

— Um lugar tranquilo onde poderemos falar.

— Por que não ficamos aqui acima?

— Porque vais querer fazer isto em privado. E é muito provável que meus irmãos apareçam muito em breve.

— Seus irmãos? — Sim.

— Quantos são?

— Cinco, agora. Mas não tenha medo. Adiante. Não acontecerá nada ruim aí abaixo, prometo-o.

Ah, sim. Claro.

Mas colocou o pé sobre a beirada dourada do marco. E avançou para a escuridão.

 

Beth respirou profundamente, e vacilante estendeu as mãos para as paredes de pedra. O ar não era mofado, nem havia uma asquerosa capa de umidade ou algo similar; simplesmente estava muito escuro. Desceu pelos degraus lentamente, medindo o caminho. Os abajures pareciam vaga-lumes, iluminando a si mesmos mais que à escada.

E então chegou ao final. À direita havia uma porta aberta, e ali percebeu o cálido resplendor de um candelabro. A residência era igual ao corredor; de paredes negras, tenuemente iluminada, mas limpa. As velas tremiam ligeiramente. Ao colocar a bolsa sobre a mesa de chá, perguntou-se se aquele seria o dormitório do Wrath.

Ao menos o tamanho da cama era apropriado para ele. E os lençóis eram de cetim?

Supôs que havia trazido muitas mulheres a aquela guarida. E não precisava ser um lince para imaginar o que acontecia uma vez que fechava a porta.

Ouviu correr o ferrolho, e o coração lhe deu um salto.

— Respeito a meu pai — disse vivamente.

Wrath passou junto a ela e tirou a jaqueta. Debaixo levava uma camiseta sem mangas, e ela não pôde ignorar o rude poderio de seus braços enquanto seus músculos se retesavam ao deixar a um lado o objeto de couro. Pôde apreciar as tatuagens de seus antebraços quando se tirou dos ombros a capa vazia das adagas.

Foi ao banheiro e ela escutou correr a água. Quando retornou, secava o rosto com uma toalha, colocou os óculos antes de olhá-la. — Seu pai, Darius, era um macho muito valioso. — Wrath arrojou a toalha de maneira despreocupada e se dirigiu a uma cadeira, sentou-se com o respaldo para diante, colocando as mãos sobre seus joelhos — Era um aristocrata no antigo país antes de converter-se em guerreiro. É..., era meu amigo. Meu irmão no trabalho que faço.

«Irmão». Seguia utilizando essa palavra.

Wrath sorriu um pouco, como se recordasse algo agradável para si mesmo.

— D tinha muitas habilidades. Era rápido com os pés, inteligente como poucos, bom com uma faca. Mas além disso era culto. Todo um cavalheiro. Falava oito idiomas. Estudou de tudo, desde religiões do mundo até história da arte e filosofia. Podia falar durante horas sobre a Wall Street e, logo explicar por que o teto da Capela Sistina é em realidade uma obra maneirista[4] e não do Renascimento.

Wrath se inclinou para trás, percorrendo com seu robusto braço a parte superior da cadeira. Tinha as coxas abertas. Parecia muito cômodo enquanto sacudia para trás o longo cabelo negro.

Endiabradamente sensual.

— Darius nunca perdia a calma, por muito feias que ficassem as coisas. Sempre se concentrava no trabalho que estava fazendo até terminá-lo. Morreu contando com o mais profundo respeito de seus irmãos.

Wrath parecia de verdade sentir falta do seu pai. Ou quem fosse o homem que estivesse usando com o propósito de... Qual era exatamente seu propósito?, perguntou-se. O que ganhava lhe contando todo esse lixo?

Bom, ela estava em sua residência, não?

— E Fritz me disse que a amava profundamente. Beth franziu os lábios.

— Caso eu acredite, a pergunta é óbvia. Se meu pai me amava tanto, por que nunca se incomodou em vir a me conhecer?

— É algo complicado.

— Sim, é difícil chegar até onde vive sua filha, estender a mão e lhe dizer seu nome. É realmente penoso. — Cruzou a residência, só para encontrar-se de repente junto à cama. colocou-se imediatamente em outra parte.

— E a que vem toda essa retórica dos guerreiros? Ele também pertencia à máfia?

— Máfia? Não somos da máfia, Beth.

— Então só são assassinos independentes e traficantes de drogas? Hmm..., pensando-o bem, talvez a diversificação é uma boa estratégia de negócios. E necessitam muitíssimo dinheiro para manter uma casa como esta e encher a de obras de arte que deveriam estar no Museu Metropolitano.

— Darius herdou seu dinheiro e era muito bom administrando-o. — Wrath inclinou a cabeça para trás, olhando para cima

— Como filha dele, agora tudo pertence a você.

Ela entrecerrou os olhos.

— Ah, sim?

Ele assentiu.

É um mentiroso, pensou Beth.

— E onde está o testamento? Onde está o testamento que me diga que papéis devo assinar? Espera, me deixe adivinhar, não se pagaram os direitos de sucessão, durante os últimos trinta anos. — esfregou os doloridos olhos.

— Sabe o que, Wrath? Não tem que mentir para me levar a cama. Por muito que me envergonhe admiti-lo, só o que tem que fazer é pedir.

Respirou profundamente com um ar de tristeza. Até agora não se deu conta de que uma pequena parte dela tinha acreditado que obteria algumas respostas. Finalmente.

Mas, claro, o desespero pode fazer cair a qualquer no mais espantoso ridículo.

— Escuta, vou daqui. Isto só foi...

Wrath se situou na frente dela em um abrir e fechar de olhos. — Não posso deixá-la partir.

O medo lhe acelerou o coração, mas tratou de fingir que não o sentia.

— Não pode me obrigar a ficar.

O homem lhe sujeitou o rosto com suas mãos. Beth retrocedeu bruscamente, mas ele não a soltou.

Acariciou-lhe a bochecha com a ponta do polegar. Cada vez que se aproximava muito, ela ficava sem palavras, e tinha acontecido de novo. Sentiu que seu corpo se balançava para ele.

— Não vou mentir — disse Wrath — Seu pai me enviou para buscar você porque vai necessitar de minha ajuda. Confia em mim. Ela se retirou de um puxão.

— Não quero escutar essa palavra de seus lábios.

Ali estava ele, um criminoso que quase tinha matado a um policial diante de seus olhos, esperando que acreditasse em uma palavra que ela sabia que era falsa.

Enquanto acariciava suas bochechas como um amante. Devia pensar que era estúpida.

— Escuta, vi meus documentos. — A voz não tremeu. — Minha certidão de nascimento diz «pai desconhecido», mas havia uma nota no registro. Minha mãe disse a uma enfermeira na sala de partos que ele havia falecido. Não pôde dar seu nome porque nesse instante entrou em choque por causa de uma hemorragia e, morreu.

— Lamento-o, mas isso não é certo.

— Lamenta-o. Acredito que sim.

— Não estou brincando com você...

— É obvio que sim! Deus, não sei como pude pensar que podia conhecer meus pais, embora fosse pela boca de outro... — Olhou-o fixamente com desgosto.

— É muito cruel.

Ele soltou uma maldição com um som frustrado e desagradável.

— Não sei como fazer que me acredite.

— Não se incomode em tentá-lo. Não tem nenhuma credibilidade. — Agarrou sua bolsa .

— Demônios, talvez seja melhor assim. Quase prefiro que tenha morrido ou que era um criminoso. Ou que vivíamos na mesma cidade e nunca veio me ver, que nem sequer sentiu curiosidade por saber como eu era.

— Ele sabia. — A voz do Wrath soava muito perto outra vez.

— Ele a conhecia.

Ela se voltou. Ele estava tão próximo que a perturbou com seu tamanho.

Beth deu um salto para trás.

— Já basta com isso.

— Ele a conhecia.

— Deixa de dizer isso!

— Seu pai a conhecia — gritou Wrath.

— Então por que não me queria? — gritou ela a sua vez. Wrath deu um coice.

— Queria você. Cuidava de você. Durante toda sua vida esteve perto de você.

Ela fechou os olhos, abraçando seu próprio corpo. Não podia acreditar que sentisse a tentação de cair sob seu feitiço de novo. — Beth, me olhe, por favor.

Ela abriu as pálpebras.

— Me dê sua mão — disse Wrath

— Dêem-me isso

Ao não obter resposta, ele colocou a mão no peito, sobre o coração.

— Por minha honra. Não menti.

Ficou completamente quieto, como se quisesse lhe dar a oportunidade de ler cada matiz de seu rosto e de seu corpo.

— É possível que seja verdade? — perguntou-se.

— Ele a amava, Beth.

Não acredito nada. Não acredito nada. Não...

— Então por que não veio me ver alguma vez? — sussurrou. — Esperava que não tivesse que conhecê-lo. Que não tivesse que viver a classe de vida que ele vivia. — Wrath a olhou fixamente

— Mas se acabou seu tempo.

Houve um longo silencio.

— Quem era meu pai? — perguntou em voz baixa.

— Era o mesmo que eu.

E então, Wrath abriu a boca. Presas. Tinha presas.

O horror lhe encolheu a pele. Empurrou-o com força.

— Maldito louco!

— Beth, me escute...

— Para que me diga que é um maldito vampiro? — riu dele, empurrando seu peito com as mãos

— Maldito louco! Maldito... louco! Se quer representar seus fantasias, faça-o com qualquer outro.

— Seu pai...

Deu-lhe uma bofetada, com força. Justo na bochecha.

— Não se atreva. Nem sequer tente. — Doía-lhe a mão, esfregou-a contra seu ventre. Queria chorar, porque se sentia ferida. Porque tinha tratado de feri-lo, e não parecia afetado pelo golpe que lhe havia dado

— Por Deus, quase cheguei a acreditar, quase — gemeu.

— Mas teve que bancar o esperto e mostrar esses dentes falsos.

— São reais. Olha-os mais de perto.

A residência se viu alagada com a luz de muitas velas... sem que ninguém as acendesse.

De repente, ficou sem respiração, sentindo que nada era o que parecia ser. Já não havia regras. A realidade se esfumava para uma dimensão diferente.

Cruzou a residência a toda pressa.

Ele a alcançou na porta, mas ela se inclinou, cobrindo seu rosto com as mãos, como se estivesse rezando uma oração para mantê-lo afastado.

— Não se aproxime . — Agarrou a maçaneta e empurrou com todo o peso de seu corpo. A porta não se moveu.

Sentiu que o pânico corria por suas veias como se fosse gasolina espessa.

— Beth...

— Deixe-me sair! — A maçaneta da porta lhe arranhou a pele quando afastou-se dele.

Quando a mão dele posou sobre seu ombro, gritou:

— Não me toque!

Separou-se de um salto. Deu voltas bruscas ao redor da sala. Wrath a seguiu, aproximando-se lenta e inexoravelmente. — Eu a ajudarei.

— Deixe-me em paz!

Esquivou-se com um rápido movimento e voltou a correr para a porta. Esta vez se abriu inclusive antes que pudesse agarrar o maçaneta.

Como se ele o tivesse desejado, voltou a olhá-lo com horror. — Isto não é real.

Subiu a escada a toda velocidade, mas só tropeçou uma vez. Quando tentou manipular a mola do quadro, quebrou-se uma unha, mas finalmente o abriu. Atravessou correndo o salão, saiu precipitadamente da casa e...

Wrath estava ali, parado na grama da parte dianteira. Beth patinou ao deter-se em seco.

O terror deslizou por seu corpo, o medo e a incredulidade lhe oprimiram o coração. Sentiu que sua mente se afundava na loucura. — Não! — Tratou de fugir de novo, correndo em qualquer direção sempre que se afastava dele.

Ouviu-o atrás dela e tratou de alcançar maior velocidade. Correu até ficar sem fôlego, até que o esgotamento a cegou, suas pernas não lhe responderam. Não pôde continuar, e ele ainda continuava ali.

Caiu sobre a grama, soluçando.

Encolhendo-se, como estivesse se defendendo de uma surra, começou a chorar.

Quando ele a levantou, não resistiu.

Para que? Se aquilo era um sonho, acabaria por despertar. E se fosse verdade...

Necessitaria muitas mais explicações que as que acabava de lhe dar.

Enquanto Wrath levava em seus braços a Beth de volta ao aposento, pôde perceber o medo, a confusão que emanavam dela como ondas de angústia. Depositou-a sobre a cama, cobrindo-a com um lençol. Logo se sentou na cadeira, pensando que ela apreciaria um pouco de espaço.

Após um momento, a mulher se virou, e o guerreiro sentiu seus olhos fixos nele.

— Estou esperando que termine este pesadelo. A que soe o alarme do despertador — disse com voz rouca. — Mas isso não vai passar, verdade?

Ele negou com a cabeça.

— Como é possível? Como...? — esclareceu a garganta

— Vampiros?

— Só somos uma espécie diferente.

— Chupasangues. Assassinos.

— Melhor falar de minoria perseguida. Era a razão pela qual seu pai esperava que não sofresse a mudança.

— Mudança?

Ele assentiu lugubremente.

— Meu deus. — levou a mão à boca como se fosse vomitar

— Não me diga que vou A...

Uma onda de pânico a assaltou, invadindo a residência como uma brisa que chegou a ele em uma fria rajada. Não podia suportar sua angústia e queria fazer algo para aliviá-la, embora a compaixão não se encontrava entre suas virtudes.

Se houvesse algo contra o que pudesse lutar para ajudá-la... Mas, de momento, não havia nada. Absolutamente nada. A verdade não era um objetivo que pudesse eliminar. E não era seu inimigo, apesar de que lhe fizesse mal. Só... era.

Ficou de pé e se aproximou da cama. Ao ver que não fugia, sentou-se. As lágrimas que se deslizavam por suas bochechas cheiravam a chuva da primavera.

— O que vai acontecer comigo? — murmurou.

O desespero em sua voz sugeria que falava com Deus e não com ele. Mas em qualquer caso respondeu:

— Sua transformação está muito próxima. A todos chega em algum momento ao redor de nosso vigésimo quinto aniversário. Ensinarei você a se cuidar e o que deve fazer.

— Deus santo...

— Quando terminar, precisará beber. Ela se engasgou e se levantou de um salto.

— Não vou matar a ninguém!

— As coisas não são assim. Necessita o sangue de um vampiro macho. Isso é tudo.

— Isso é tudo — repetiu ela em tom apagado.

— Os humanos não são nossas vítimas. Isso são contos de velhas.

— Nunca matou a um... humano?

— Não para beber dele — respondeu, evitando dar uma resposta direta. — Há alguns vampiros que sim o fazem, mas a força não dura muito. Para não adoecer, temos que nos alimentar de nossa própria raça.

— Faz que soe muito normal.

— E o é.

Ela guardou silêncio. E então, pareceu dar-se conta da situação.

— Você deixará que eu...

— Beberá de mim. Quando chegar o momento.

A mulher emitiu um som afogado, como se quisesse gritar mas um cheiro nauseabundo o tivesse impedido.

— Beth, sei que é difícil...

— Não sabe.

— Porque eu também o sofri. Ela ficou olhando-o.

— Também soube assim, de repente?

Não o estava desafiando. Em realidade, só esperava ter algo em comum com alguém. Não importa quem fosse.

— Sabia quem eram meus pais — disse ele, — mas haviam falecido quando chegou minha transição. Eu estava só e não sabia o que esperar. Por isso compreendo sua confusão.

O corpo do Beth caiu sobre os travesseiros.

— Minha mãe também o era?

— Ela era humana, por isso Darius me contou. Sabe-se de vampiros que procriam com eles, embora seja muito raro que a criança sobreviva.

— Posso deter a mudança? Posso evitar que isto ocorra?

Ele moveu a cabeça negativamente.

— Dói?

— Vais sentir...

— Não a mim. Farei mal a você?

Wrath dissimulou a surpresa. Ninguém se preocupava com ele. Vampiros e humanos o temiam por igual. Sua raça o venerava, mas ninguém se preocupou nunca por ele. Não sabia o que fazer com esse sentimento.

— Não. Não me fará mal.

— Poderia matá-lo?

— Não a deixarei fazê-lo.

— Promete-me isso? — disse ela com obrigação, sentando-se de novo e agarrando o braço do vampiro.

Não podia acreditar que estivesse jurando proteger a si mesmo porque ela o pedia.

— Prometo-lhe isso. — Estendeu uma mão para cobrir as dela, mas se deteve antes de tocá-la.

— Quando ocorrerá?

— Não posso dizer com segurança, mas logo.

Ela o soltou, recostando-se sobre os travesseiros. Logo assumiu uma posição fetal, lhe dando as costas.

— Talvez desperte — murmurou. — Talvez ainda desperte.

 

Butch bebeu seu primeiro escocês de um gole. Grande engano. Tinha a garganta inflamada e sentiu como se tivesse beijado uma tocha. Logo que deixou de tossir, pediu outro ao Abby.

— Nós a encontraremos — disse José, deixando sua cerveja sobre a mesa.

José estava bebendo com moderação, já que tinha que voltar para casa com sua família. Mas Butch era livre de fazer o que lhe desse a vontade.

José brincava com seu copo, fazendo-o girar em círculos sobre o balcão.

— Não deve se culpar, detetive. Butch riu e tragou o segundo escocês.

— Já. É enorme a inteligente de pessoas que estavam no carro com o suspeito. — Elevou um dedo para chamar a atenção do Abby

—Volta a enchê-lo.

— Ao momento. — rebolou, aproximando-se imediatamente com o uísque, lhe sorrindo enquanto enchia seu copo.

José se revolveu em seu tamborete, como se não aprovasse a velocidade com que Butch esgotava sua taça e o esforço por não dizer nada o fizesse retorcer-se.

Quando Abby partiu para atender a outro cliente, Butch se virou para olhar ao José.

 

— Esta noite vou ficar bastante desagradável. Não deveria ficar por aqui.

Seu companheiro meteu uns amendoins à boca.

— Não vou deixar você aqui.

— Já tomarei um táxi para voltar para casa.

— Não. Ficarei até que perca o sentido. Logo o arrastarei de volta a seu apartamento. Verei você vomitar durante uma hora e o meterei na cama. Antes de ir deixarei a cafeteira preparada e uma aspirina junto ao açúcar.

— Não tenho açúcar.

— Então junto à bolsa. Butch sorriu.

— Teria sido uma excelente esposa, José.

— Isso é o que diz a minha.

Guardaram silêncio até que Abby encheu o quarto copo.

— As estrelas de arremesso que tirei desse suspeito — disse Butch, — verificou algo sobre elas?

— São iguais às que encontramos no carro bomba e junto ao corpo de Cherry. Chamam-nas tufões. Quase cem gramas de aço inoxidável de boa qualidade. Dez centímetros de diâmetro. Peso central desmontável. Podem-se comprar por Internet por uns doze dólares cada uma ou nas academias de artes marciais. E não, não tinham rastros.

— As outras armas?

— Um extraordinário jogo de facas. Os meninos do laboratório ficaram fascinados com elas. Liga metálica, dureza de diamante, formosa forma. Fabricante inidentificável. A pistola era uma Beretta padrão de nove milímetros, modelo 92G — SD. Muito bem cuidada e, evidentemente, com o número de série apagado. As balas sim que são estranhas. Nunca tinha visto algo assim. Vão, cheias de um líquido que estão analisando. Os meninos pensam que é só água. Mas por que faria alguém algo assim?

— Tem que ser uma brincadeira.

— Ah, sim..

— E não há rastros.

— Não.

— Em nenhum objeto.

— Não. — José acabou os amendoins e fez um gesto com a mão para pedir mais ao Abby

— Esse suspeito é hábil. Trabalha limpamente. Um verdadeiro profissional. Quer apostar que já está muito longe daqui? Não parece ser oriundo de Caldwell. — Diga-me que enquanto eu perdia o tempo me fazendo examinar pelos médicos contrastou os dados com a polícia de Nova Iorque.

Abby chegou com mais frutos secos e uísque.

— A balística está analisando a arma, para ver se tiver algum traço pouco comum — disse José sem alterar a voz.

— Estamos investigando o dinheiro se por acaso está quente. A primeira hora da manhã daremos aos meninos de Nova Iorque o que temos, mas não será muito.

Butch soltou uma maldição enquanto via encher o copo.

— Se algo acontecer a Beth... — Não terminou a frase.

— Nós a encontraremos. — José fez uma pausa.

— E que Deus tenha piedade dele se lhe fizer mal.

Sim, Butch pessoalmente iria detrás daquele indivíduo.

— Que Deus o ajude — jurou, agarrando seu copo para dar outro gole.

 

Wrath se sentia esgotado quando se sentou na poltrona, esperando a que Beth falasse de novo. Sentia o corpo como se afundasse em si mesmo, os ossos frágeis sob a carga de pele e músculos.

Ao fazer memória da cena no beco da delegacia de polícia, lamentou-se que não tivesse apagado a memória do policial. O que significava que aquele homem andaria buscando-o com uma descrição exata.

Maldita seja. Tinha estado tão absorto em todo aquele maldito drama que tinha esquecido de proteger-se.

Estava ficando descuidado. E isso era extremamente perigoso.

— Como soube dos orgasmos? — perguntou Beth com brutalidade.

Ele ficou rígido, igual a seu pênis, só escutando essa palavra de seus lábios.

Revolveu-se em seu assento inquieto, perguntando-se se podia evitar lhe responder. Naquele momento, não queria falar sobre seu encontro sexual da noite anterior, ao menos enquanto ela estivesse nessa cama, a tão escassa distância.

Pensou em sua pele. Suave. Delicada. Quente.

Como sabia? — perguntou.

— É verdade, não?

— Sim — sussurrou ela

— Foi diferente com você porque não é..., é um...? Diabos, nem sequer posso pronunciar essa palavra.

— Talvez — Juntou as palmas de suas mãos com as dela, entrelaçando os dedos com força.

— Não sei.

Porque para ele também tinha sido diferente, apesar de que, tecnicamente, ela ainda era humano.

— Ele não é meu amante. Butch. O policial. Não o é.

Wrath respirou lentamente.

— Me alegro.

— Assim se o voltar a ver, não o mate.

— De acordo.

Houve um longo silencio. Ela voltou a revolver-se na cama. Os lençóis de cetim emitiam um sussurro peculiar.

Imaginou suas coxas esfregando-se uma contra a outra, e logo viu a si mesmo abrindo-as com as mãos, separando-as com a cabeça, abrindo caminho a beijos até onde tão desesperadamente queria chegar.

Engoliu saliva, sentindo que sua pele estremecia.

— Wrath?

— Sim?

— Em realidade não tinha previsto se deitar comigo ontem à noite, não é certo?

As difusas imagens daquele tórrido encontro o obrigaram a fechar os olhos.

— Assim é.

— Então por que o fez?

Como poderia não fazê-lo?, pensou ele, apertando o queixo. Não tinha podido dominar-se.

— Wrath?

— Porque tive que fazê-lo — replicou ele, estendendo os braços, tratando de tranquilizar-se. O coração lhe saía do peito, seus instintos voltavam para a vida, como preparando-se para a batalha. Podia escutar a respiração da mulher, o batimento de seu coração, o fluir de seu sangue.

— Por que? — sussurrou ela.

 

Tinha que partir. Devia deixá-la só.

— Me diga por que.

— Fez que me desse conta da frieza que levo em meu interior.

O som de outro movimento na cama chegou a seu ouvido.

— Eu gostei muito de dar calor — disse ela com voz rouca.

— E de sentir.

Um escuro desejo fez estremecer as vísceras do vampiro, dando um salto a seu estômago.

Wrath conteve a respiração. Esperou para ver se passava, mas a mordente sensação se fez mais forte.

Merda, essa pecaminosa necessidade não era só de sexo. Era de sangue.

— O dela.

Ficou de pé rapidamente e tratou de estabelecer uma distância maior entre ambos. Precisava sair dali. Percorrer as ruas. Lutar.

E precisava alimentar-se.

— Escuta, tenho que ir. Mas quero que fique aqui.

— Não vá.

— Tenho que fazê-lo.

— Por que?

Abriu a boca, suas presas palpitavam à medida que se alargavam.

E seus dentes não eram a única coisa que pedia para ser utilizado. Sua ereção era um mastro rígido E doloroso pressionando contra sua braguilha. Sentiu-se oprimido entre as duas necessidades. Sexo. Sangue. Ambas com ela.

— Está fugindo? — sussurrou Beth. Era uma pergunta, mas havia nela um tom de brincadeira.

— Tome cuidado, Beth.

— por que?

— Estou a ponto de estourar.

Ela saltou da cama e se aproximou dele, lhe colocando uma mão sobre seu peito, justo em cima do coração, e enlaçando-o com a outra pela cintura.

Murmurou quando ela se comprimiu contra seu corpo.

Mas ao menos o desejo sexual se sobrepôs à ânsia de sangue.

 

— Vais dizer-me que não? — perguntou ela.

— Não quero me aproveitar de você — disse ele com os dentes apertados. — Já teve suficiente por uma noite.

Ela apertou os ombros.

— Estou zangada, assustada, confusa. Quero fazer o amor até que não sinta nada, até ficar intumescida. Como muito, estaria utilizando você. — Olhou para baixo. — Deus, isso soou horrível.

Ela pareceu música celestial. Estava preparada para que a utilizasse.

Levantou-lhe o queixo com a ponta do dedo. Embora seu fragrante aroma lhe dizia exatamente o que seu corpo necessitava dele, desejou poder ver seu rosto com toda claridade.

— Não vá — sussurrou.

Ele não queria fazê-lo, mas sua ânsia de sangue a colocava em perigo. Precisava estar forte para a mudança. E ele tinha suficiente sede para deixá-la seca.

A mão do Beth se deslizou para baixo até encontrar sua ereção.

E sacudiu o corpo bruscamente, respirando com violência. Seu ofego quebrou o silêncio na residência.

— Você me deseja — disse ela. — E quero que tome. Esfregou a palma da mão sobre seu pênis; o calor da fricção lhe chegou com dolorosa clareza através do couro de suas calças.

Só sexo. Podia fazê-lo. Podia aguentar o desejo de sangue. Mas estava disposto a deixar a vida da mulher em mãos de seu autocontrole?

— Não diga que não, Wrath.

Logo ficou nas pontas dos pés e pressionou os lábios contra os seus.

Jogo finalizado, pensou ele, comprimindo-a contra si. Empurrou a língua dentro de sua boca enquanto a sujeitava pelos quadris e colocava o membro em sua mão. O gemido de satisfação da mulher aumentou sua ereção, e quando as unhas dela se cravaram em suas costas, fascinaram-lhe as pequenas pontadas de dor porque significavam que estava tão ansiosa como ele. Estendeu-a sobre a cama em um abrir e fechar de olhos, e lhe subiu a saia e rasgou as calcinhas com feroz impaciência. A blusa e o sutiã não correram melhor sorte. Já haveria tempo para delicadezas. Agora se tratava de puro sexo.

Enquanto beijava furiosamente seu seios, arrancou-se a camisa com as mãos. Soltou-a o tempo imprescindível para desabotoar as calças e deixar livre seu membro. Logo laçou com o antebraço um de seus joelhos, levantou-lhe a perna, e se introduziu em seu corpo.

Escutou-a dar um grito afogado ante a enérgica entrada, sua úmida intimidade o acolheu, vibrando em um orgasmo. Ele ficou imóvel, absorvendo a sensação de seu êxtase, sentindo suas palpitações íntimas.

Um entristecedor instinto de posse fluiu por seu corpo. Com apreensão, deu-se conta de que queria marcá-la. Marcá-la como dele. Queria esse aroma especial sobre a totalidade de seu corpo para que nenhum outro macho lhe aproximasse, para que soubessem a quem pertencia, e que temessem as repercussões de querer possuí-la.

Mas sabia que não tinha direito a fazer isso. Ela não era dele.

Sentiu seu corpo imobilizar-se debaixo dele, e olhou para baixo.

— Wrath? — sussurrou ela. — Wrath, o que ocorre?

O vampiro tentou separar-se, mas tomou o rosto com as mãos.

— Está bem?

A preocupação por ele em sua voz foi o que desencadeou sua força solta.

Em uma assombrosa onda, seu corpo saltou fora do alcance de sua mente. Antes de poder pensar em suas ações, antes de poder deter-se, apoiou-se com os braços e arremeteu contra ela, com força, penetrando-a. O travesseiro da cama atingiu contra a parede ao ritmo de seus empurrões, e ela se agarrou a seus punhos, tratando de manter-se em seu lugar.

Um som profundo inundou a residência, fazendo-se cada vez mais forte, até que advertiu que o grunhido procedia de seu próprio interior. Quando um calor febril se apoderou de toda sua pele, pôde perceber essa escura fragrância da posse.

Já não foi capaz de deter-se.

 

Seus lábios deixaram os dentes ao descoberto enquanto seus músculos se retorciam e seus quadris se chocavam contra ela. Empapado em suor, a cabeça lhe dando voltas, frenético, sem respiração, tomou tudo o que lhe oferecia. Tomou e exigiu mais, convertendo-se em um animal, igual a ela, até chegar a mais pura selvageria.

Seu orgasmo chegou violentamente, enchendo-a, bombeando em seu interior, em um êxtase interminável, até que se deu conta de que ela experimentava seu próprio clímax ao mesmo tempo que ele, enquanto se agarravam um ao outro por sua vida contra dilaceradoras ondas de paixão.

Foi a união mais perfeita que tinha experimentado.

E logo tudo se converteu em um pesadelo.

Quando o último estremecimento abandonou seu corpo e passou ao dela, nesse momento de esgotamento final, o equilíbrio que tinha conseguido manter entre seus desejos se desnivelou. Suas ânsias de sangue saíram à luz em um arrebatamento ruim e urgente, tão poderoso como tinha sido a luxúria.

Tirou os dentes e procurou seu pescoço, essa veia deliciosamente próxima à superfície de sua branca pele. Suas presas estavam dispostas a cravar-se profundamente, tinha a garganta seca com a sede dela, e o intestino sofria espasmos de uma inanição que lhe chegava à alma, quando se separou de repente, horrorizado pelo que estava a ponto de fazer.

Afastou-se dela, arrastando-se pela cama até cair ao chão sentado.

— Wrath? — chamou-o Beth alarmada.

— Não!

Sua sede de sangue era muito forte, não podia negar o instinto. Se se aproximava muito...

Gemeu, tratando de tragar saliva. Sentia a garganta como o papel de lixa. O suor invadiu todo seu corpo de novo, mas esta vez lhe produziu calafrios.

— O que aconteceu? O que fiz?

Wrath se arrastou para trás, o corpo lhe doía e a pele lhe ardia. O aroma de seu sexo sobre ele era como um látego contra seu autocontrole.

— Beth, me deixe só. Tenho que...

 

Mas ela seguia aproximando-se. O corpo do vampiro se chocou contra a poltrona.

— Se afaste de mim! — Mostrou as presas e murmurou com força.

— Se chegar perto terei que mordê-la, entende?

Ela se deteve imediatamente. O terror turvava o ar a seu redor, mas logo moveu a cabeça.

— Você não me faria mal — disse com uma convicção que lhe impressionou por perigosamente ingênua.

Lutou por falar.

— Vista-se. Vai para cima. Peça ao Fritz que a leve para casa. Enviarei alguém que a proteja.

Agora estava ofegando, a dor lhe rasgava o estômago, de uma forma quase tão brutal como aquela primeira noite de sua transição. Nunca tinha necessitado de Marissa dessa maneira. Jesus. O que estava acontecendo?

— Não quero ir.

— Tem que fazê-lo. Enviarei a alguém que cuide de você até que possa me reunir consigo.

As coxas tremiam, os músculos tensos lutavam contra o ânsia que invadiu seu corpo. Sua mente e suas necessidades físicas brigavam entre elas, cercando uma luta sem quartel. E ele sabia qual sairia vitoriosa se ela não se afastasse.

— Beth, por favor. Dói-me. E não sei durante quanto tempo poderei me dominar.

Ela vacilou, e — logo começou a vestir-se a toda pressa.

Dirigiu-se à porta, mas antes de cruzá-la girou para olhá-lo.

— Vá embora.

Abandonou em silêncio a residência.

 

Eram pouco mais das nove quando o senhor X chegou ao McDonald's.

— Me alegro que tenha gostado do filme. Pensei ainda outra coisa para esta noite, embora teremos que fazê-lo rápido. Um de vós tem que voltar para casa às onze.

Billy amaldiçoou a lembrança quando se detiveram frente ao menu iluminado. Pediu o dobro do que tinha solicitado o Perdedor, que quis pagar sua parte.

— Não se preocupe. Eu convido — disse o senhor X — Mas procure que não sobre nada.

Enquanto Billy comia e o Perdedor brincava com sua comida, o senhor X os levou no carro à Zona de guerra. O campo de jogos de raios laser era o lugar de reunião preferido dos menores de dezoito anos, pois seu escuro interior era perfeito para ocultar tanto o acne como a patética luxúria adolescente. O amplo edifício de dois pisos estava a transbordar essa noite, cheio de nervosos moços que tratavam de impressionar a aborrecidas garotas vestidas à última moda.

O senhor X conseguiu três pistolas e uns arnês adaptados como objetivos de tiro, e entregou um a cada menino. Billy esteve preparado para começar em menos de um minuto, sua arma descansava em sua mão comodamente, como se fosse uma extensão de seu braço.

 

O senhor X observou o Perdedor, que ainda estava tentando colocar as tiras do arnês sobre os ombros. O moço parecia aflito, seu lábio inferior lhe pendurava enquanto os dedos manipulavam os fechamentos de plástico. Billy também o olhou. Parecia um caçador examinando a sua presa.

— Pensei que podíamos fazer uma pequena competição amistosa — disse o senhor X quando finalmente cruzaram a entrada giratória. — Veremos qual de vocês pode acertar mais vezes ao outro.

Ao entrar no campo de jogo, os olhos do senhor X rapidamente se adaptaram à aveludada escuridão e aos brilhos de néon de outros jogadores. O espaço era o suficientemente grande para os trinta moços que dançavam ao redor dos obstáculos, rindo e gritando enquanto disparavam raios de luz. — Nos separemos — disse o senhor X.

Enquanto o Perdedor piscava como um míope, Billy se afastou, movendo-se com a agilidade de um animal. Após um momento, o sensor no peito do Perdedor se acendeu. O menino olhou para baixo como se não soubesse o que lhe tinha acontecido.

Billy se retirou à escuridão.

— Será melhor que se coloque protegido, filho — murmurou o senhor X.

O senhor X se manteve afastado enquanto observava tudo o que faziam. Billy acertou ao Perdedor uma e outra vez de qualquer ângulo, passando de um obstáculo a outro, aproximando-se rápido, logo lentamente, ou disparando de longa distância. A confusão e ansiedade do outro moço aumentavam cada vez que cintilava a luz em seu peito, e o desespero o fazia mover-se com coordenação infantil. Deixou cair a arma. Tropeçou com seus próprios pés. Atingiu-se um ombro contra uma barreira.

Billy estava resplandecente. Embora seu alvo estivesse falhando e, debilitando-se, não mostrou clemência. Inclusive dirigiu um último disparo quando o Perdedor deixou cair sua arma e se recostou contra uma parede, esgotado.

E ato seguido desapareceu entre as sombras.

Esta vez o senhor X seguiu ao Billy, rastreando seus movimentos com um propósito diferente ao de comprovar seus resultados. Riddle era rápido, passava de um obstáculo a outro, voltando sobre seus passos aonde estava o Perdedor para poder pegá-lo por trás.

 

O senhor X adivinhou o ponto do destino do Billy. Com um rápido giro à direita, interpôs-se em seu caminho.

E disparou a queima roupa.

Surpreso, o moço baixou a vista para seu peito. Era a primeira vez que seu receptor se acendia.

— Bom trabalho — disse o senhor X

— Jogou muito bem, filho, até agora.

Billy levantou os olhos enquanto sua mão pousava sobre o objetivo que piscava. Seu coração.

— Sensei. — Pronunciou a palavra como um amante, cheio de respeito e adoração.

 

Beth não tinha intenção de pedir ao mordomo que a acompanhasse, porque estava muito agitada para ter uma conversa decente com alguém. Enquanto se dirigia para a rua, tirou seu celular para chamar um táxi. Estava chamando quando o ronronar do motor de um carro a fez levantar a vista.

O mordomo saiu do Mercedes e inclinou a cabeça.

— O amo me chamou. Quer que a leve a sua casa, ama. E... eu gostaria de ser seu chofer.

Mostrava-se expectante, quase esperançado, como se ela fizesse um grande favor lhe deixando que a acompanhasse. Mas necessitava um pouco de ar. Depois de tudo o que tinha acontecido, sua cabeça parecia dar voltas.

— Obrigado, mas não. — Forçou um sorriso. — Só vou A... No rosto do homem apareceu uma sombra de abatimento, e adquiriu a expressão de um cão espancado.

Por um momento, amaldiçoou-se por ter esquecido suas boas maneiras, enquanto a invadia um sentimento de culpa.

— Bom, está bem.

Antes que Fritz pudesse rodear o carro, ela abriu a porta e se sentou. O mordomo pareceu ficar nervoso por sua iniciativa, mas se recuperou rapidamente, mostrando, imediatamente, um sorriso radiante em seu enrugado rosto.

Quando ficou ao volante e ligou o motor, ela disse:

— Vivo em...

— Oh, já sei onde vive. Sempre soubemos onde se encontrava. Primeiro no Hospital St. Francis, na unidade de cuidados intensivos neonatal. Logo uma enfermeira a levou a sua casa. Tínhamos a esperança de que a enfermeira ficasse com você, mas o hospital a obrigou a devolvê-la. Logo a enviaram ao orfanato. Isso nós não gostamos nada. E depois a uma casa de acolhida, com os McWilliams na avenida Elmwood, mas você ficou doente e teve que voltar ao hospital por culpa de uma pneumonia.

Colocou o luz de alerta e girou à esquerda em um pare.

Ela quase não podia respirar, escutava com toda sua atenção.

— Depois a enviaram para os Ryan, mas havia muitas crianças. Mais tarde, esteve com os Goldrich, que viviam em uma casa de dois pisos na rua Raleigh. Pensamos que os Goldrich fossem ficar com você, mas então ela ficou grávida. Finalmente, voltou para o orfanato. Detestamos que ficasse ali, porque não a deixavam sair para brincar o suficiente.

— Sempre fala de “nós” — sussurrou ela, temerosa de perguntar, mas incapaz de não fazê-lo.

— Sim. Seu pai e eu.

Beth cobriu a boca com o dorso da mão, observando o perfil do mordomo como se fosse algo que pudesse reter.

— Ele me conhecia?

— Ah, claro, ama. Desde o começo. O maternal, a escola elementar e o instituto. — Seus olhos se encontraram.

— Sentimo-nos muito orgulhosos de você quando foi à universidade com essa beca de estudos. Eu estava ali quando se graduou. Tirei fotografias para que seu pai pudesse vê-la.

— Ele me conhecia. — Pronunciou as palavras como se falasse do pai de outra pessoa.

O mordomo a olhou e sorriu.

— Temos todos os artigos que publicou, inclusive os que escreveu no instituto e na universidade. Quando começou no Caldwell Courier journal, seu pai se negava a ir deitar pela manhã até que lhe trazia o jornal. Pouco lhe importava se tinha passado uma noite complicada ou estava cansado, nunca ia à cama até que lesse o que você escrevia. Estava muito orgulhoso de você.

Ela rebuscou em sua bolsa, tratando de encontrar um lenço de papel.

— Aqui — disse o mordomo, lhe entregando um pacote pequeno.

 

Beth soou o nariz tão delicadamente como pôde.

— Ama, deve compreender que para ele foi muito difícil estar afastado de você, mas sabia que seria perigoso aproximar-se muito. As famílias dos guerreiros devem ser vigiadas cuidadosamente, e você estava desprotegida porque cresceu como humana. Também esperava que não tivesse que acontecer a transição.

— Você conheceu minha mãe?

— Não muito, bem. Não estiveram juntos muito tempo. Ela desapareceu pouco depois de que começassem a ver-se porque descobriu que ele não era humano. Não lhe disse que estava grávida, e só voltou a lhe buscar quando estava a ponto de dar a luz. Acredito que tinha medo pela criatura que ia trazer para o mundo. Por desgraça morreu de parto e foi levada a um hospital humano antes de que pudéssemos chegar até ela. Mas deve saber que ele a amava. Profundamente.

Beth absorveu a informação, empapando sua mente, enchendo todos os vazios.

— Meu pai e, Wrath estavam muito unidos? — O mordomo vacilou.

— Seu pai gostava de Wrath. Todos gostamos. Ele é nosso senhor. Nosso rei. Por isso seu pai enviou a ele para procurá-la. Não deve temê-lo. Nunca lhe fará mal.

— Disso estou segura.

Quando viu o edifício em que vivia, desejou ter um pouco mais de tempo para poder falar com o mordomo.

— Já chegamos — disse ele

— O 1188 da avenida Redd, apartamento 1-B. Embora deva dizer que nem seu pai nem eu aprovamos nunca que você vivesse embaixo.

O veículo se deteve. Ela não queria sair.

— Poderia lhe fazer mais pergunta? Possivelmente mais tarde? — disse.

— Oh, ama, sim. Por favor. Há muitas coisas que queria lhe contar.

Saiu do carro, mas ela já estava fechando a porta quando ele chegou a seu lado.

Beth pensou em estender a mão para lhe mostrar seu agradecimento formalmente, mas, em lugar disso, colocou os braços ao redor do pequeno ancião e o abraçou.

 

Uma vez que Beth abandonou o aposento, a sede do Wrath gritou chamando-a, torturando duramente, como se soubesse que tinha sido ele quem a tinha enviado longe.

Arrastou-se até o telefone para chamar primeiro ao Fritz e logo ao Tohrment. A voz apagava, e teve que repetir as palavras para que o entendessem.

Depois de falar com o Tohr, começaram as arcadas secas. Entrou no banheiro cambaleando, enquanto chamava a Marissa com a mente. Inclinou-se sobre o vaso sanitário, mas seu estômago estava quase vazio.

Tinha esperado muito, pensou. Ignorou os sinais que seu corpo esteve enviando fazia algum tempo. E logo tinha chegado Beth, e sua química interna tinha tomado o controle. Não estranhava que tivesse enlouquecido.

O perfume da Marissa lhe chegou do aposento.

— Meu senhor? — chamou ela.

— Necessito...

Beth, pensou, alucinado. Viu-a ante ele, escutou sua voz em sua cabeça. Estendeu a mão. Não tocou nada.

— Meu senhor? Devo ir até você? —perguntou Marissa do quarto.

Wrath secou o suor do rosto e saiu, cambaleando como um bêbado. Agitou os braços cegamente no ar, desabando-se para frente.

— Wrath! — Marissa correu para ele.

Deixou-se cair sobre a cama, arrastando-a consigo. Seu corpo se oprimiu contra o dela.

Ele sentiu a Beth.

E seu rosto foi parar entre os lençóis que ainda conservavam a fragrância de Beth. Respirou profundamente, tratando de estabilizar-se, mas se sentiu embargado de novo pelo aroma daquela humana.

— Meu senhor, precisa se alimentar. — A voz de Marissa chegava desde muito longe, como se estivesse fora, na escada. Tratou de olhar para o lugar de onde saía a voz, mas não pôde distinguir nada. Agora estava totalmente cego.

A voz da Marissa se fez estranhamente forte.

— Meu senhor, venha. Toma meu punho. Agora.

Sentiu a cálida pele em sua mão. Abriu a boca, mas não pôde fazer que seus braços o obedecessem corretamente. Estendeu a mão, tocou um ombro, uma clavícula, a curva de um pescoço. Beth.

A fome o dominou, e se apoderou do corpo feminino. Com um rugido afundou os dentes na suave carne até chegar à artéria. Bebeu profundamente e com força, vendo imagens da mulher morena que agora era dela, sonhando que se entregava a ele, imaginando-a entre seus braços.

Marissa soltou um grito afogado.

Os braços do Wrath quase a estavam partindo em dois, seu enorme corpo era como uma jaula em torno dela enquanto bebia. Pela primeira vez, sentiu cada uma das curvas de seu corpo, incluindo o que pensou que devia ser uma ereção, algo que nunca antes tinha percebido.

As possibilidades eram excitantes. E terroríficas.

Ficou sem forças e tratou de respirar. Isto era o que sempre quis dele. Embora sua paixão fosse indecente. Mas que mais podia esperar? Era um homem com todo o sangue. Um guerreiro.

E finalmente se deu conta de que a necessitava. A satisfação ocupou o lugar do mal-estar, e a mulher percorreu lentamente com as mãos seus amplos ombros nus, uma liberdade que nunca tomou. A garganta do homem emitiu um som rouco, como se quisesse que continuasse. Com delicioso prazer, ela afundou as mãos em seu cabelo. Era muito suave. Quem tinha imaginado? Um macho tão rude, mas, ah, que suaves eram essas ondas escuras, tão suaves como seus vestidos de cetim.

Marissa quis ver o interior de sua mente, uma invasão a que nunca se arriscou por temor a ofendê-lo. Mas agora tudo era diferente. Talvez quisesse beijá-la quando terminasse. Fazer amor. Talvez agora pudesse ficar com ele. Gostaria de viver na casa do Darius junto a ele. Ou onde fosse. Não importava.

Fechou os olhos e explorou seus pensamentos.

Mas só pôde ver a fêmea em que ele realmente estava pensando. A fêmea humana.

Era uma beleza de cabelo escuro com os olhos entrecerrados. Estava estendida sobre suas costas com os seios descobertos. Acariciava-lhe os duros mamilos rosados com os dedos enquanto lhe beijava o estômago e seguia descendo.

Marissa tratou de desfazer-se daquela imagem como se fosse um cristal quebrado.

Wrath não estava ali com ela. Não bebia de seu pescoço. Não era o corpo dela o que oprimia contra o seu.

E essa ereção não era por sua causa. Não era por ela.

Enquanto lhe sugava o pescoço e seus grossos braços a esmagavam contra ele, Marissa protestou a gritos por aquela traição. Por suas esperanças. Por seu amor. Por ele.

Que apropriado era que a estivesse sangrando! Desejava que concluísse logo, que bebesse todo seu sangue até deixá-la seca, que a deixasse morrer.

Tinha demorado anos em dar-se conta da verdade. Toda uma eternidade.

Ele nunca tinha sido dela. Nunca o seria.

Deus, agora que a fantasia tinha desaparecido, não restava nada.

 

Beth deixou a bolsa sobre a mesa da entrada, saudou o Boo e entrou no banheiro. Olhou a ducha, mas não tinha vontade de tomar um banho. Embora o seu tenso corpo tivesse vindo estupendamente passar um bom momento sob a água quente, adorava o aroma persistente de Wrath sobre sua pele. Era um perfume maravilhoso, erótico, uma escura fragrância. Algo que nunca antes tinha experimentado, algo que jamais poderia esquecer.

Abriu a torneira, lavou-se, sentia-se deliciosamente sensível e dolorida entre as pernas, embora não lhe importava a dor. Wrath podia fazer o amor com essa fúria sempre que quisesse. Ele era...

Sua mente não pôde encontrar a palavra adequada. Tão somente sua imagem penetrando-a, seus colossais ombros e seu peito cobertos de suor, contraídos enquanto se entregava. Enquanto a marcava como dela.

Isso, ao menos, o que lhe tinha parecido. Sentiu como se tivesse sido dominada e marcada por um homem. Possuída.

E queria experimentá-lo de novo. Já.

Mas moveu a cabeça, pensando que o sexo desprotegido tinha que acabar. Já era mau que o tivesse feito duas vezes. A próxima vez teria mais cuidado.

Antes de sair do banho, olhou seu reflexo no espelho e se deteve em seco. Aproximou-se de examinar-se mais atentamente o rosto.

Seu aspecto era o mesmo que pela manhã, mas se sentia como se fosse uma estranha.

Abriu a boca e inspecionou os dentes. Quando tocou os dois caninos dianteiros, como era de esperar, doeram-lhe.

Santo céu, quem era ela? E o que era?

Pensou no Wrath, obrigando-se a afastar-se dela, com seu corpo meio nu em tensão e seus músculos como se fossem atravessar sua pele. Ao mostrar seus dentes, pareceu-lhe que as presas eram mais longas que quando os viu pela primeira vez. Como se tivessem crescido.

Seu formoso rosto se havia contorsionado de agonia. Era isso o que esperava a ela?

Ouviu um golpe seco na outra residência, como se alguém estivesse tocando na janela. Escutou ao Boo dar um miado de boas vindas.

Beth mostrou a cabeça cautelosamente.

Havia alguém junto à porta do pátio. Alguém de grande envergadura.

— Wrath? — Correu a abrir a porta antes de certificar-se bem.

Quando viu a figura que se encontrava do outro lado, desejou ter sido mais cuidadosa.

Não era Wrath, embora aquele homem se parecia um pouco. Cabelo negro curto. Rosto cruel. Olhos de uma cor azul escura intensa. Couro por toda parte.

No rosto do desconhecido apareceu uma expressão de surpresa ao olhá-la fixamente, mas pareceu sobrepor-se imediatamente.

— Beth? — Tinha uma voz profunda, mas amistosa, e ao sorrir, brilharam umas presas.

Ela nem sequer se sobressaltou.

Maldição, estava se acostumando a esse estranho mundo.

— Sou Tohrment, um amigo do Wrath. — O tipo lhe estendeu a mão.

— Pode me chamar Tohr. — Deu-lhe um apertão, sem saber muito bem o que devia dizer.

— Estou aqui para proteger você. Estarei fora se necessitar algo.

O homem... vampiro — merda, o que fosse — deu a volta e, dirigiu-se à mesa de picnic.

— Espera — disse ela. por que não...?

— Entre, por favor. Ele deu de ombros.

— Está bem.

Quando cruzou a soleira, Boo miou com força e lançou um zarpazo às pesadas botas do homem. Ambos se saudaram como velhos amigos, e quando o vampiro se endireitou, sua jaqueta de couro se abriu, deixando entrever umas adagas como as do Wrath. E certamente seus bolsos também estariam repletos do tipo de armas que Butch tinha expropriado do Wrath.

— Quer algo de beber? — disse ela. Não sangue. Por favor, não diga sangue.

 

Ele sorriu abertamente, como se soubesse o que estava pensando.

— Tem cerveja? Cerveja? Bebia cerveja?

— Ah, claro. Acredito que sim. — Desapareceu na cozinha. Trouxe dois Sam Adams. Ela também precisava beber algo nesse momento.

Depois de tudo, era anfitriã de um vampiro. Seu pai tinha sido um vampiro.

Seu amante era um vampiro.

Jogou para trás a garrafa e bebeu um bom gole. Tohrment riu surdamente.

— Uma longa noite?

— Não pode nem imaginar — replicou ela, limpando a boca.

— Talvez sim. — O vampiro se sentou na poltrona, seu enorme corpo transbordava por todos lados, fazendo parecer pequeno o respaldo.

— Me alegro de finalmente conhecê-la. Seu pai falava muito de você.

— De verdade?

— Estava muito orgulhoso de você. E tem que saber... que se manteve longe para protegê-la, não porque não a amasse.

— Isso é o que me disse Fritz. E Wrath também.

— Fez boa amizade com ele?

— Com o Wrath? — Sim.

Sentiu que suas bochechas se ruborizavam, e se dirigiu à cozinha para que ele não visse sua reação. Pegou um pacote de bolachas da parte superior da geladeira e colocou algumas em um prato.

— Ele é..., é... como descrevê-lo., — Tratou de pensar uma boa resposta.

— De fato, acredito que sei.

Ela retornou e lhe ofereceu o prato.

— Quer?

— Bolachas de aveia com passas — disse ele, pegando três. Minhas favoritas.

— Sabe? Pensava que os vampiros só bebiam sangue.

— Não. Contém nutrientes necessários, mas também necessitamos alimento.

— E o que diz do alho?

— Atrai um pouco. — recostou-se na poltrona, mastigando alegremente.

— Eu adoro nas torradas com um pouco de azeite de oliva.

Céus. Aquele indivíduo estava parecendo quase simpático. Não, isso não podia ser. Com seus penetrantes olhos examinava continuamente as janelas e a porta de vidro, como se estivesse vigiando os arredores. Ela soube, sem lugar a dúvidas, que se visse algo que não gostava se levantaria daquela poltrona em um milésimo de segundo. E não seria para revisar as fechaduras, mas para atacar.

Levou outra bolacha à boca.

Pelo menos sua presença a relaxava... até certo ponto.

— Não é como Wrath — deixou escapar ela.

— Ninguém é como Wrath.

— Sim, — Mordeu sua própria bolacha, e se sentou no sofá.

— Ele é uma força da natureza — disse Tohr, inclinando a garrafa para beber.

— É letal, sobre isso não há dúvida. Mas não existe ninguém que possa proteger melhor que ele, caso decida fazê-lo. Embora eu acredito que já decidiu.

— Como sabe isso? — sussurrou ela, perguntando-se o que lhe teria contado Wrath.

Tohr pigarreou, o rubor lhe cobriu as bochechas.

— Ele a marcou.

Ela franziu o cenho, baixando a cabeça para olhar-se.

— Cheira-o — disse Tohr. — A advertência impregna seu corpo.

— Advertência?

— Como se fosse sua shellan.

— Sua o que?

— Sua companheira. Esse aroma em sua pele envia um poderoso sinal a outros machos.

Então ela estava certa sobre as relações sexuais que tinham tido e seu significado.

Isso não deveria me comprazer tanto como me compraz, pensou.

— Não se importa, ou sim? — disse Tohr — Ser dele.

Não queria responder a isso. Por uma parte queria ser do Wrath, mas, por outra, sentia-se muito mais segura estando como sempre tinha estado. Só.

— Você tem uma? — perguntou.

— Uma companheira? O rosto do vampiro se iluminou com devoção.

—Chama-se Wellsie. Comprometeram-nos antes de nossa transição. Foi uma verdadeira sorte que nos apaixonássemos. A verdade é que se a tivesse conhecido na rua, a teria escolhido. Foi uma questão do destino, não acredita?

— Às vezes, também funciona para nós — murmurou ela.

— Sim. Alguns machos tomam mais de uma shellan, mas eu não posso imaginar estar com outra fêmea. Evidentemente, essa é a razão pela qual Wrath me escolheu .

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Perdão?

— Os outros irmãos têm fêmeas das que bebem, mas não têm laços emocionais. Nada evitaria que eles... — deteve-se e, mordeu outra bolacha

— Bom, dado que é...

— Sou o que?

Deu-se conta de que apenas conhecia a si mesmo, e nesse tema estava disposto inclusive a receber sugestões de estranhos.

— Formosa. Wrath não quis colocá-la nas mãos de nenhum outro, porque se sentissem tentados a ultrapassar-se contigo, surgiriam graves problemas. Tohr deu de ombros.

— Bom, e um par de irmãos são realmente perigosos. Não ocorreria deixar a uma fêmea só com eles, e muito menos a uma pela qual sentisse algo.

Ela não estava segura de querer conhecer nenhum dos irmãos.

Espera um minuto, pensou.

— Wrath já tem uma shellan? — perguntou. Tohr terminou sua cerveja.

— Acredito que é melhor que fale com ele sobre esse tema. Aquilo não era precisamente um não.

Um doentio sentimento de desilusão se instalou em seu peito. Voltou para a cozinha.

Maldição. Sentia muito afeto pelo Wrath, deitaram-se duas vezes, e sua cabeça era um caos.

Isto vai doer, pensou enquanto abria outra cerveja. Quando as coisas ficassem difíceis entre eles, ia doer como o diabo.

Apesar de converter-se em vampiro. Oh, Por Deus.

— Mais bolachas? — disse em voz alta. — eu adoraria.

— Cerveja?

— Não, é suficiente, obrigado.

Ela trouxe o pacote da cozinha. Guardaram silêncio enquanto acabavam todas as bolachas, incluindo os pedaços que ficavam no fundo.

— Tem algo mais de comer? — perguntou ele.

Ela se levantou, sentindo um pouco de fome também.

— Verei o que posso encontrar.

— Tem tv à cabo? — — disse assinalando com a cabeça o televisor.

Ela lhe deu o controle.

— Claro que sim. E se não me engano, esta noite há uma maratona de Godzilla pela TBS.

— Estupendo — disse o vampiro, estirando as pernas. — Sempre me coloco do lado do monstro.

Ela sorriu.

— Eu também.

 

Butch despertou porque alguém estava perfurando seu crânio.

Abriu um olho.

Tratava-se do timbre do telefone.

Pegou o telefone e o colocou junto à orelha.

— Sim?

— Bom dia, raio de sol. — Com a voz do José a dor de cabeça se fez insuportável.

— Que horas são? — grasnou.

— As onze. Pensei que gostaria de saber que Beth acaba de chamar, buscando você. Parecia encontrar-se bem.

O corpo do Butch relaxou aliviado.

— E o tipo?

— Nem sequer o mencionou. Mas disse que queria falar hoje com você. Cancelei a ordem de busca enquanto falava com ela porque estava chamando de sua casa.

O detetive se sentou.

E logo voltou a recostar-se.

No momento, não iria a nenhuma parte.

— Não me encontro muito bem — murmurou.

— Já imaginava. Por isso disse a ela que estaria ocupado até a tarde. Só para que saiba, saí de sua casa às sete esta manhã.

Ah, Cristo.

Butch tentou outra vez colocar-se em posição vertical, obrigando-se a manter-se direito. A residência dava voltas. Ainda estava bêbado. E tinha ressaca.

Estava realmente ocupado.

— Vou para lá.

— Eu não faria isso. O capitão tem você na mira. Os de Assuntos Internos se apresentaram por aqui perguntando por você e pelo Billy Riddle.

— Riddle? por que? — Vamos, detetive. Sim, ele sabia por que.

— Escuta, não está em condições de se entrevistar com o capitão. — A voz do José era uniforme, pragmática.

— Precisa serenar. Recuperar-se. Venha um pouco mais tarde. Eu o cubro.

— Obrigado.

— Deixei aspirinas junto ao telefone com um bom copo de água. Pensei que não fosse poder chegar até a cafeteira. Toma três, desconecta o telefone, e dorme. Se acontecer algo emocionante, irei te buscar.

— Amo você, doçura.

— Então compra um abrigo de vison e uns bonitos brincos para nosso aniversário.

— Ganhou isso.

Desligou o telefone depois de duas tentativas, e fechou os olhos. Dormiria um pouco mais, e, poderia sentir-se como uma pessoa de novo.

 

Beth rabiscou sua última correção em um texto sobre uma série de roubos de passaportes e carteiras de identidade. Parecia como se o artigo estivesse sangrando, a julgar pela quantidade de modificações que tinha feito com seu implacável rotulador vermelho, dando-se conta de que, ultimamente, os meninos grandes do Dick estavam ficando cada vez mais descuidados, descarregando nela a maior parte do trabalho. E não se tratava só de enganos de fundo; agora também cometiam enganos gramaticais e estilísticos. Como se não tivessem a menor consideração pelo correto uso da língua.

Não lhe importava fazer trabalhos de edição em um artigo no qual colaborava, sempre e quando a pessoa que preparava o primeiro rascunho se preocupasse em realizar uma pequena quantidade de correções.

Beth colocou o artigo em sua bandeja de trabalhos finalizados e se concentrou na tela de seu computador. Abriu de novo um arquivo no qual tinha estado escrevendo com intermitências durante todo o dia.

De acordo, que mais queria saber? Repassou sua lista de perguntas.

Poderei sair durante o dia? Com o que, frequência terei que me alimentar? Quanto tempo vou viver?

Seus dedos voavam por cima do teclado. Contra quem está lutando?

E logo: Tem uma...?

Qual era a palavra? Shellan? Em troca teclou esposa.

Deus, estremeceu ante a possível resposta de Wrath. E embora não a tivesse, de quem se alimentava?

E o que sentiria no momento em que saciasse sua fome nela?

Sabia instintivamente que seria algo similar ao sexo, algo em parte selvagem, que o consumia todo. E provavelmente a deixaria maltratada e frágil.

Assim como em um estado de êxtase total.

— Trabalhando Duro, Randall? — Dick arrastou as palavras. Ela fechou o arquivo imediatamente para que seu chefe não pudesse vê-lo.

— Como sempre.

— Sabe? Circula por aí um rumor sobre você. — De verdade?

— Sim. Ouvi que saiu com esse detetive de homicídios, O’Neal. Duas vezes.

— E?

Dick se apoiou em sua escrivaninha. Ela usava uma camiseta frouxa de gola canoa, de modo que havia pouco que pudesse ver. Ele se endireitou.

— Bom trabalho. Faz um pouco de magia com ele. Averigua tudo o que possa. Poderíamos fazer um artigo de capa sobre a brutalidade policial com ele como capa. Continua assim, Randall, e talvez me convença de que é idônea para uma ascensão.

Dick partiu, desfrutando daquele papel de encarregado de outorgar favores.

Que imbecil.

Seu telefone soou, E ela não pôde evitar vociferar no auricular.

Houve uma pausa.

— Ama? Está bem? Era o mordomo.

— Sinto muito. Sim, estou bem. — Apoiou a cabeça sobre sua mão livre. depois de tratar com personagens como Wrath e Tohr, a versão simplória de arrogância masculina do Dick parecia absurda.

— Se houver algo que eu possa fazer...

— Não, não, estou bem. — riu. — Nada com o que não tenha me enfrentado antes.

— Bem, provavelmente não deveria ter chamado. — A voz de Fritz se converteu em um cochicho. — Mas não queria que estivesse despreparada. O amo encomendou um jantar especial para esta noite. Para você e ele, exclusivamente. Pensei que possivelmente poderia ir pegá-la para ajudar a escolher um vestido.

— Um vestido?

Para uma espécie de encontro com o Wrath?

A ideia lhe pareceu absolutamente maravilhosa, mas então recordou que tinha que evitar ver idílios aonde podia não havê-los. Em realidade, não sabia em que estado se encontrava sua relação.

Nem se ele estava se deitando com alguém mais.

— Ama, sei que é presunçoso por minha parte. Ele mesmo a chamará. — Nesse momento, a segunda linha de seu telefone começou a soar. — Só queria que estivesse preparada para esta noite.

O identificador de chamadas iluminou o número que Wrath lhe tinha feito memorizar. surpreendeu a si mesma sorrindo como uma idiota.

— Eu adoraria que me ajudasse a escolher um vestido. Sério.

— Bem. Iremos à Galeria. Ali há também um Brooks Brothers. O amo comprou roupa. Acredito que também quer estar o mais elegante possível para você.

Quando desligou, aquele estúpido sorriso continuava pregado em seu rosto como se tivesse colocado cola.

Wrath deixou uma mensagem no correio de voz para Beth e rodou sobre a cama, estendendo a mão em busca de seu relógio. Era três da tarde. Tinha dormido quase seis horas, algo mais que o habitual, mas era o que seu corpo geralmente necessitava depois de comer.

Deus, desejou que ela estivesse com ele.

Tohr tinha chamado para lhe informar. Ambos tinham ficado acordados toda a noite vendo filmes de Godzilla, e pelo som da voz do macho, estava meio apaixonado por ela.

O que Wrath compreendeu perfeitamente, embora, ao mesmo tempo, desgostou-lhe.

Mas tinha feito o correto ao enviar ao Tohr. Rhage teria se jogado sobre ela imediatamente, e então Wrath teria tido que lhe quebrar algo. Um braço, talvez uma perna. Talvez ambas as coisas. E Vishous, embora não tivesse a extravagante e formosa aparência de Hollywood, possuía uma veia de fanfarrão bastante acusada. O voto de castidade do Phury era firme, mas por que colocá-lo ante a tentação?

Zsadist?

Nem sequer tinha considerado essa opção. A cicatriz em seu rosto lhe teria dado um susto de morte. Diabos, até o Wrath podia apreciá-lo. E o terror mortal de uma fêmea era o afrodisíaco favorito do Z. O excitava mais que a muitos machos ver suas fêmeas com roupa interior de Vitória's Secret.

Não tinha escolha. Tohr voltaria a se fazer de sentinela se necessitasse outra vez.

Espreguiçou-se. Sentir os lençóis de cetim contra sua pele nua o fez desejar Beth. Agora que se alimentou, seu corpo se sentia mais forte que nunca, como se seus ossos fossem colunas de carbono e seus músculos cabos de aço. Voltava a ser ele mesmo, e todo seu ser ansiava toda a ação que lhe pudesse dar. Mas havia algo que o deixava inquieto. Lamentava amargamente o que tinha acontecido com a Marissa.

Recordou aquela noite. Logo que levantou a cabeça de seu pescoço, soube que quase a tinha matado. E não por beber muito.

Ela tinha saído impetuosamente, seu corpo irradiava uma enorme angustia ao afastar-se tropeçando da cama. — Marissa.

— Meu senhor, Libero-o de nosso pacto. É livre de mim. Ele tinha soltado uma maldição, sentindo-se terrivelmente mal pelo que lhe tinha feito.

— Não entendo seu aborrecimento — murmurou ela fracamente. — Isto é o que sempre quis, e, agora eu concedo isso. — Nunca quis...

— A mim — sussurrou ela. — Sei.

— Marissa.

— Por favor, não pronuncie as palavras. Não suportaria escutar a verdade de seus lábios, embora a conheça bem. Sempre se envergonhou de estar ligado a mim.

— De que diabos está falando? — Você não gosta. Fui desagradável. — O que?

— Pensa que não o notei? Arde em desejos de se livrar de mim. Quando termino de beber, levanta-se de um salto, como se houvesse sido obrigado a suportar minha presença. — Então começou a soluçar. — Sempre tratei de estar limpa quando venho vê-lo. Passo horas na banheira, me lavando. Mas não posso encontrar a sujeira que você vê.

— Marissa, pare. Não prossiga. Não se trata de você.

— Sim, sei. Vi à fêmea. Em sua mente. — Estremeceu.

— Sinto muito — — disse ele. — E nunca me desagradei de você. É formosa.

— Não diga isso. Não agora. — A voz da Marissa se endureceu. — A única coisa que pode lamentar é que levei muito tempo para aceitar a verdade.

— Ainda a protegerei — jurou ele.

— Não, não o fará. Eu já não lhe importo. Nunca lhe importei.

E então partiu, enquanto o aroma fresco do oceano permanecia um momento antes de dissipar-se.

Wrath esfregou os olhos. Estava decidido a compensar-lhe de algum modo. Não sabia como fazê-lo exatamente, tendo em conta o inferno que tinha suportado. Mas não estava preparado para deixá-la flutuando no éter, pensando que nunca tinha significado absolutamente nada para ele. Ou que, de algum jeito, tinha-a considerado impura.

Nunca a tinha amado, era verdade. Mas não queria feri-la, e essa era a razão pela qual lhe havia dito tão frequentemente que o deixasse. Se ela partia, se deixava claro que não o queria, poderia manter a cabeça alta no malicioso círculo aristocrático ao qual pertencia. Em sua classe, uma shellan rechaçada por seu companheiro era tratada como mercadoria estragada.

Agora que ela o tinha deixado, economizou-se a ignomínia. E tinha o pressentimento de que quando se divulgasse a notícia não surpreenderia a ninguém.

Era estranho, nunca tinha imaginado realmente como se separariam ele e Marissa. Possivelmente, depois de todos os séculos transcorridos tinha assumido que nunca o fariam. Mas, para ser sincero, nunca tinha esperado que ocorresse pela aparição de outra fêmea.

Isso era o que estava acontecendo. Com a Beth. Depois de marcá-la na noite anterior como o tinha feito, não podia pretender que não estava ligado emocionalmente a ela.

Amaldiçoou em voz alta, pois conhecia o suficiente da conduta e psicologia do vampiro macho para compreender que tinha problemas. Diabos, agora ambos tinham problemas.

Um macho apaixonado era uma coisa perigosa, sobre tudo porque teria que deixar a sua fêmea e entregá-la aos cuidados de outro. Tentando separar de sua mente as implicações que podia ter tudo aquilo, Wrath pegou o telefone e marcou um número à medida que subia as escadas, pensando que precisava comer algo. Ao não obter resposta, imaginou que Fritz teria saído para comprar comida.

Tinha pedido aos irmãos que viessem aquela noite, e gostavam de comer bem. Tinha chegado o momento de fazer uma revisão em comum, de inteirar-se de todas as suas investigações.

A necessidade de vingar ao Darius queimava.

E quanto mais se aproximava Wrath da Beth, mais quente era o fogo.

 

Butch saiu do escritório do capitão. Sentia a cinta de sua pistola muito leve sem a arma dentro de sua carteira muito plana sem sua placa. Era como estar nu.

— O que aconteceu? — perguntou José.

— Saio de férias.

— Que diabos significa isso?

Butch começou a descer para o vestíbulo.

— O Departamento de Polícia de Nova Iorque tinha algo sobre esse suspeito?

José o segurou pelo braço, empurrando-o para uma das salas de interrogatório.

— O que aconteceu?

— Suspenderam-me sem pagamento, até que conclua uma investigação interna que nós dois sabemos que terá como resultado que agi com força desmedida.

José passou uma mão pelo cabelo.

— Disse que me afaste desses suspeitos. — Esse tipo, Riddle, merecia algo pior. — Essa não é a questão.

— É estranho, isso mesmo disse o capitão.

Butch se dirigiu para o espelho e se olhou. Deus, estava envelhecendo. Ou talvez simplesmente estava cansado do único trabalho que tinha gostado.

Brutalidade policial. À merda com isso. Ele protegia aos inocentes, não a qualquer valentão que se excitava fazendo-se passar por um tipo duro. O problema era que havia muitas normas que favoreciam aos criminosos. Suas vítimas, cujas vistas ficavam destruídas por causa da violência, deveriam ter a metade da sorte que eles.

— Em todo caso eu não pertenço a este lugar — disse suavemente.

— O que?

Já não havia um lugar no mundo para os homens como ele, pensou.

Butch deu a volta.

— Então, o departamento de Polícia de Nova Iorque. Conseguiu averiguar algo?

José o olhou fixamente durante bastante tempo. — Suspenso da corporação, eh?

— Pelo menos até que possam me despedir oficialmente. José levou as mãos aos quadris e olhou para baixo, movendo a cabeça como se estivesse protestando a seus sapatos, mas respondeu:

— Nada. É como se tivesse saído de um nada. Butch amaldiçoou.

— Essas estrelas. Sei que pode-se conseguir pela Internet, mas também podem comprar na cidade, não é assim?

— Sim, através das academias de artes marciais. Juntemos um par delas na cidade.

José assentiu devagar.

Butch tirou as chaves de seu bolso. — Verei você depois.

— Espera, já enviamos a alguém para investigar. Em ambas as academias disseram que não recordam de ninguém que se encaixasse com a descrição do suspeito.

— Obrigado pelo dado. — Butch começou a aproximar-se da porta.

— Detetive. José sujeitou a seu companheiro pelo braço. — Maldição, pode se deter um minuto?

Butch olhou por cima do ombro.

— É agora quando me adverte que me mantenha longe dos assuntos da polícia? Porque bem pode economizar o discurso.

— Por Cristo, Butch, eu não sou seu inimigo. — Os escuros olhos castanhos do José eram penetrantes. — Os moços e eu estamos com você. No que a nós concerne, você faz o que tem que fazer, e nunca se equivocou. Seja quem é que atingia, certamente o merecia. Mas o melhor que sempre teve sorte, sabe? Que tal se tivesse ferido a alguém que não era...

— Curta o sermão de pregador. Não estou interessado. — Agarrou o maçaneta da porta.

José apertou mais forte.

— Está fora da corporação, O’Neal. E se colocar em uma investigação da qual foi afastado não vai fazer voltar a Janie.

José retirou a mão, como se estivesse atirando a toalha. — Sinto muito. Mas deveria saber que seguir aprofundando no assunto só pode prejudicar. Isso não vai ajudar a sua irmã. Nunca a ajudou.

Butch moveu a cabeça lentamente. — Merda. Já sei.

— Está seguro?

Sim, estava. Tinha desfrutado atingindo ao Billy Riddle, e tinha sido para vingar-se pelo que tinha feito a Beth. Não tinha que ver com sua irmã. Não ia devolver-lhe a vida, sabia perfeitamente. Janie tinha ido. Fazia muito tempo.

Mesmo assim, os olhos tristes do José o fizeram sentir-se como se tivesse uma enfermidade terminal.

— Tudo está bem — encontrou-se dizendo, embora realmente não acreditasse.

— Não... Não se arrisque muito aí fora, detetive. Butch abriu a porta.

— Arriscar-me é só o que sei fazer, José.

 

O senhor X se recostou na cadeira de seu escritório, pensando na noite que se aproximava. Estava pronto para tentar de novo, embora a zona do centro da cidade estivesse vermelho vivo nesse momento com a bomba e o descobrimento do cadáver da prostituta. Patrulhar em busca de vampiros no bairro do Screamer's ia ser perigoso, mas o risco de ser preso era um estímulo acrescentado ao desafio.

Se as pessoas queriam prender um tubarão, não pescavam em água doce. Tinha que ir aonde estavam os vampiros.

Sentiu uma onda de nervosismo ante semelhante expectativa.

Tinha estado perfilando suas técnicas de tortura. E essa manhã, antes de sair para a academia, tinha visitado o centro de operações que prepararia em seu celeiro. Suas ferramentas estavam ordenadas e reluzentes: um torno de dentista, facas de vários tamanhos, um malho e um cinzel, uma serra.

Vários furadores. Para os olhos.

Certamente, o truque consistia em percorrer essa fina linha entre a dor e a morte. A dor se podia prolongar durante horas ou dias. A morte era o interruptor principal que devia ser apagado.

Alguém bateu na porta.

— Entre — disse ele.

Era a recepcionista, uma mulher com os braços grandes como os de um homem e carente de seios. Suas contradições nunca deixavam de assombrá-lo. Apesar de que uma espécie de inveja delirante pelo sexo masculino a tinha impulsionado a tomar esteroides e levantar pesos como um gorila, insistia em usar maquiagem e arrumar o cabelo. Com sua camiseta curta e bermuda, parecia uma drag queen perversa.

Ela era desagradável.

Sempre deveria saber quem é — pensou ele. — E quem não é.

— Há aqui um tipo que quer falar com você. — Sua voz era muito grave. — O’Neal, acredito que esse é seu nome. Age como um policial, mas não mostrou a insígnia .

— Diga-lhe que vou sair. — Maldito fenômeno da natureza, adicionou para si.

O senhor X teve que rir enquanto a porta se fechava detrás dela. Dele. Ou o que fosse.

Ali estava ele, um homem sem alma que matava vampiros, e a estava chamando monstro.

Ao menos ele tinha um objetivo. E um plano.

Ela iria de novo essa noite ao Gold's Gym. Mas depois de livrar-se de sua sombra das cinco em ponto.

 

Faltava pouco para as seis quando Butch estacionou o carro frente ao edifício de Beth. Cedo ou tarde teria que devolver o veículo, mas estar suspenso não significava estar despedido. O capitão teria que lhe pedir que entregasse o maldito automóvel.

Tinha ido às academias de artes marciais, e falado com os diretores. Um daqueles indivíduos havia resultado bastante incômodo. O típico arrogante, um fanático da defesa pessoal, convencido de que era realmente asiático, apesar de ser tão alvo como Butch.

Ao outro tinha achado extremamente estranho. Apresentava um aspecto similar ao de um leiteiro da década dos anos cinquenta, com o cabelo loiro, alisado com goma, e um incômodo sorriso luminoso que parecia tirado de um anúncio de dentifrício de meio século. O sujeito se esforçou ao máximo por colaborar, mas havia nele algo muito raro. O detector de mentiras do Butch tinha dado o alarme no momento em que o senhor Mayberry tinha aberto a boca.

E além disso o tipo cheirava como um maricas.

Butch subiu de dois em dois os degraus do edifício de Beth e apertou a campainha.

Tinha deixado uma mensagem em sua secretária eletrônica do trabalho e em casa, na qual dizia que iria vê-la. Estava a ponto de apertar de novo o interfone quando a viu através da porta de vidro, entrando no vestíbulo.

Maldição.

Usava um ajustado vestido negro que lhe sentava à perfeição, e que quase lhe fez palpitar de novo as têmporas. O decote em V, bastante pronunciado, deixava divisar seu seios. A cintura rodeada fazia ressaltar seus finos quadris. E a abertura em um dos laterais mostrava ligeiramente a coxa a cada passo que dava. Colocou saltos altos, fazendo com que seus tornozelos parecessem frágeis e encantadores.

Ela levantou a cabeça da bolsa na qual tinha estado procurando algo, e pareceu surpreendida de vê-lo.

Levava o cabelo preso. Ele não pôde evitar imaginar a deliciosa sensação que lhe invadiria ao soltar-lhe

Ela abriu a porta. — Butch.

— Olá. — Sentia a língua paralisada, como um criança. — Recebi suas mensagens — disse ela suavemente.

Ele deu um passo atrás para que ela pudesse sair.

— Tem tempo para falar?

Embora sabia qual ia ser sua resposta.

— Ah, agora não.

— Aonde vai?

— Tenho uma encontro.

— Com quem?

Ela o olhou nos olhos com uma tranquilidade tão deliberada, que ele soube imediatamente que ia contar uma mentira.

— Ninguém em especial.

Sim, claro.

— O que aconteceu com o homem de ontem à noite, Beth? Onde está?

— Não sei.

— Está mentindo.

Seus olhos não se separaram dos dele.

— Se me permitir...

Ele a agarrou pelo braço.

— Não vá vê-lo.

O som rouco de um motor quebrou o silêncio entre ambos. Um Mercedes grande, de cor negra, com janelas escuras, deteve-se. Algo digno de um narcotraficante.

— Ah, maldição, Beth. — Apertou-lhe o braço, desesperado por atrair sua atenção. — Não faça isto. Está dando ajuda a um suspeito.

— Deixe-me, Butch.

— Ele é perigoso.  

— E você não é?

Soltou-a.

— Amanhã — disse ela, olhando para trás. — Falaremos amanhã. Me espere aqui depois do trabalho.

Frenético, interpôs-se em seu caminho. — Beth, não posso deixar que você...

— Vai prender-me?

Como polícia, não podia. A menos que lhe devolvessem a placa.

— Não. Não o farei.

— Obrigado.

— Não estou fazendo um favor — disse ele amargamente enquanto caminhava a seu redor. — Beth, por favor.

Ela se deteve.

— Nada é o que parece.

— Não sei. Eu vejo as coisas bastante claras. Está protegendo a um assassino, e tem muitas possibilidades de ir parar a uma caixa de pinho. Não se dá conta de como é esse tipo? Vi seu rosto de perto quando sua mão estava ao redor de meu pescoço, e estava apertando para me arrancar a vida. Um homem como esse leva o assassinato no sangue. É parte de sua natureza. Como pode ir encontrar-se com ele Diabos, como pode permitir que circule pelas ruas?

— Ele não é assim.

Mas essas palavras foram formuladas quase como uma pergunta. A porta do veículo se abriu, e saiu um pequeno ancião vestido com smoking.

— Ama, há, algum problema? — perguntou-lhe o homem solicitamente, ao tempo que lançava ao Butch um olhar maligno.

— Não, Fritz. Não acontece nada. — Sorriu, mas um pouco insegura. — Amanhã, Butch.

— Se viver até então.

Ela empalideceu, mas desceu apressadamente os degraus, deslizando para o interior do carro. Alguns momentos depois, Butch entrou no seu. E os seguiu.

 

Quando Havers ouviu passos que vinham para a sala de jantar, levantou a vista de seu prato franzindo o cenho. Esperava que seu jantar transcorresse sem interrupções.

Mas não era um dos doggens com notícias de que tinha chegado um paciente para ser atendido.

— Marissa! — levantou-se da cadeira. Deu-lhe um sorriso.

— Pensei descer. Estou cansada de passar tanto tempo em meu quarto.

— Agrada-me muito sua companhia.

Quando ela chegou à mesa, ele afastou sua cadeira. Estava contente de ter insistido em que o lugar dela estivesse sempre preparado, mesmo depois de ter perdido a esperança de que o acompanhasse alguma vez. E essa noite parecia como se ela estivesse fazendo um esforço maior que o simples feito de descer para jantar. Tinha colocado um bonito vestido de seda negra com uma jaqueta de pescoço rígido e levantado. O cabelo lhe caía ao redor dos ombros, dando um resplendor dourado à luz das velas. Estava encantadora, e percebeu um brilho de entusiasmo. Era um insulto que Wrath não pudesse apreciar tudo o que ela podia lhe oferecer, que aquela fêmea deliciosa de sangue nobre não fosse o suficientemente boa para ele.

E que só a utilizasse para alimentar-se.

— Como vai seu trabalho? — perguntou ela enquanto um doggen lhe servia vinho e outro lhe servia a carne. — Obrigado, Phillip. Carolyn, isto parece delicioso.

Segurou um garfo e espetou suavemente o rosbife.

Por todos os céus, pensou Havers. Isto era quase normal.

— Meu trabalho? Bem. Na realidade, estupendamente. Como te mencionei, fiz um pequeno avanço. Dentro de pouco poderemos solucionar nossos problemas alimentícios. — Levantou seu copo e, bebeu. O vinho de Borgonha devia ter sido um acompanhamento perfeito para a carne, mas não lhe fazia bem. Tudo o que havia em seu prato também parecia amargo. — Esta tarde fiz uma transfusão com sangue armazenado, e me sinto maravilhoso.

Estava exagerando um pouco. Não se sentia doente, mas algo não ia bem. Ainda não tinha experimentado a habitual descarga de energia.

— Oh, Havers — exclamou ela suavemente. — Ainda sente falta de Evangeline, não é assim?

— Dolorosamente. E beber não funciona... agradável. Não, não se manteria vivo à maneira antiga. De agora em diante, fá-lo-ia clinicamente, com uma agulha esterilizada no braço que o conectasse a uma bolsa.

— Sinto muito — disse Marissa.

Havers estendeu a mão, colocando a palma para cima sobre a mesa.

— Obrigado.

Ela colocou sua mão na dele.

— E sinto ter estado tão... preocupada. Mas agora tudo melhorará.

— Sim — disse ele de modo premente. Wrath era a classe de bárbaro que queria continuar bebendo da veia, mas pelo menos Marissa podia evitar a indignidade. — Poderia provar a transfusão. Também a libertará.

Ela afastou a mão e segurou seu copo de vinho. Quando levou o Borgonha à boca, derramou um pouco sobre sua jaqueta. — Oh, caramba — murmurou, limpando com a mão o líquido da seda. — Sou terrivelmente tola, não é assim?

Tirou a jaqueta e a colocou na cadeira vazia a seu lado.

— Sabe, Havers? Eu gostaria de prová-lo. Beber já não é algo que me pareça apetecível tampouco.

Um delicioso alívio, uma prometedora sensação o dominou. Tratava-se de uma sensação totalmente alheia, já que não a tinha sentido durante muito tempo. A ideia de que algo poderia mudar para melhorar se converteu em um conceito estranho para ele.

— De verdade? — sussurrou ele.

Ela inclinou a cabeça, fazendo que seu cabelo se deslizasse para trás sobre os ombros, e pegou o garfo.

— Sim, de verdade.

E então viu as marcas em seu pescoço.

Duas perfurações inflamadas. Uma ferida vermelha no lugar onde ele tinha chupado. Contusões de cor púrpura na pele da clavícula onde uma forte mão a tinha apertado.

O horror o deixou sem apetite, e borrou sua visão. — Como pôde tratá-la tão grosseiramente? — perguntou Havers em voz, baixa.

Marissa levou a mão ao pescoço antes de recuar e colocar rapidamente uma mecha de seu cabelo para frente.

— Não é nada. De verdade, não é... nada.

Seu irmão não pôde afastar os olhos daquela região, e continuou vendo claramente o que ela tinha escondido. — Havers, por favor. Desfrutemos da comida. — Tomou seu garfo de novo, como se estivesse preparada para demonstrar exatamente como se fazia. — Vamos. Come comigo.

— Como posso fazê-lo? — Jogou seus talheres de prata.

— Porque se acabou.

— O que se acabou?

— Quebrei o pacto com o Wrath. Já não sou sua shellan. E não o verei mais.

Havers só pôde olhar ao vazio durante um instante.

— Por que? O que mudou?

— Ele encontrou uma fêmea a quem quer.

A ira se coagulou nas veias do Havers.

— E a quem prefere acima de você?

— Não a conhece.

— Conheço todas as fêmeas de nossa classe. Quem é? — exigiu saber.

— Ela não é de nossa classe.

— Então é uma das escolhidas pela Virgem Escriba? — Na hierarquia social dos vampiros, elas eram as únicas que estavam acima de uma fêmea da aristocracia.

— Não. É humana. Ou pelo menos meio humana, por isso pude deduzir a partir de seus pensamentos sobre ela. Havers ficou paralisado em sua cadeira. Humana. Uma humana? Marissa tinha sido abandonada por uma... Homo Sapiens?

— Já notificaram à Virgem Escriba? — perguntou com voz dolorida.

— Isso ele tem que fazer, não eu. Mas não se equivoque, irá a ela. Se... acabou.

Marissa tomou um pedaço pequeno de carne e o colocou entre seus lábios. Mastigou cuidadosamente, como se tivesse esquecido a maneira de fazê-lo. Ou possivelmente a humilhação que estava sentindo não lhe permitia engolir com facilidade.

Havers apertou os braços de sua cadeira. Sua irmã, sua formosa e pura irmã, tinha sido ignorada. Utilizada. E também tratada com brutalidade.

E só o que restava de sua união com seu rei era a vergonha de ter sido deixada de lado por uma humana.

Seu amor nunca tinha significado nada para o Wrath. Tampouco seu corpo nem sua impecável linhagem.

E agora o guerreiro tinha manchado sua honra. O inferno estava a ponto de abrir-se.

 

Wrath colocou a jaqueta do Brooks Brothers. Apertava-lhe um pouco nos ombros, mas seu tamanho era difícil de encontrar, e não o tinha informado ao Fritz.

De qualquer forma, aquele objeto poderia ter sido feita à medida, e mesmo assim se sentiria aprisionado. Estava muito mais cômodo com os trajes de couro e as armas que com aquela porcaria de tecido.

Entrou no banheiro e piscou um olho. O traje era negro, assim como a camisa. Isso era só o que realmente podia ver. Santo Deus, provavelmente parecia um advogado.

Despojou-se da jaqueta e a colocou sobre o suporte de mármore do lavabo. Levando o cabelo para trás com mãos impacientes, atou-o com uma tira de couro.

Onde estava Fritz? O doggen tinha saído para buscar Beth fazia quase uma hora. Já deveriam ter retornado, mas a casa ainda estava vazia.

Ah, diabos. Embora o mordomo tivesse demorado só um minuto e meio, Wrath se sentia inquieto igualmente. Estava ansioso por ver Beth, nervoso e distraído. Só podia pensar em afundar o rosto em seu cabelo enquanto introduzia sua parte mais dura no mais profundo do corpo dela.

Deus, esses sons que fazia quando alcançava o orgasmo. Olhou seu próprio reflexo. Voltou a colocar a jaqueta.

Mas o sexo não era tudo. Queria tratá-la com respeito, não só atirá-la de costas. Desejava ir um pouco mais devagar. Comer com ela, falar. Diabos, queria lhe dar o que as fêmeas gostavam: um pouco do ATC (Amor, Ternura e Cuidado).

Ensaiou um sorriso. Fez o melhor, sentindo como se as bochechas fossem rachar. De repente, pareceu-lhe totalmente falso, de plástico. Demônios, tinha que aparentar um pouco de naturalidade e conseguir uma noite romântica. Não se tratava disso? Esfregou o queixo. Que demônios sabia ele de romantismo?

Sentiu-se como um estúpido.

Não, era algo pior que isso. Aquele novo traje elegante o deixava descoberto, e o que viu foi uma autêntica surpresa. Estava trocando voluntariamente por uma fêmea, e só para tratar de comprazê-la.

Isso era mesclar o trabalho e o prazer, pensou. Por essa razão, nunca devia tê-la marcado, jamais devia permitir-se aproximar-se tanto.

Recordou a si mesmo, uma vez mais, que quando ela concluísse sua transição, ele terminaria a relação. Retornaria a sua vida. E ela haveria...

Deus, por que se sentia como se tivessem atravessado o peito de um disparo?

— Wrath? — A voz do Tohrment retumbou por toda a sala.

O tom de barítono de seu irmão foi um alívio, e o devolveu à realidade.

Saiu à sala e franziu o cenho quando escutou o assobio apagado de seu irmão.

— Olhe-se — disse Tohr, movendo-se a seu redor.

— Morda-me.

— Não, obrigado. Prefiro as fêmeas. — O irmão riu. — Embora tenha que dizer que não está nada mal.

Wrath cruzou os braços sobre o peito, mas a jaqueta apertou tanto que temeu rasgar a costura das costas. Deixou cair as mãos.

— A que veio?

— Chamei o seu celular e não me respondeu. Disse que queria que todos nos reuníssemos aqui esta noite. A que hora?

 

— Estarei ocupado até a uma.

— A uma? — pronunciou Tohr com lentidão.

Wrath colocou as mãos nos quadris. Uma sensação de profunda inquietação, como se alguém tivesse irrompido em sua casa, assaltou-lhe.

Agora lhe parecia que o encontro com o Beth não estava bem. Mas era muito tarde para cancelá-lo.

— Digamos que a meia noite — disse.

— Direi aos irmãos que estejam preparados.

Teve a sensação de que Tohr sorria dissimuladamente, mas a voz do vampiro era firme.

— Ouça, Wrath.

— O que?

— Ela é tão formosa como você pensa que é. Só lhe digo isso se por acaso queria saber.

Se qualquer outro macho houvesse dito isso, Wrath teria dado um murro no nariz. E embora se tratasse do Tohr, sua ira ameaçou sair à superfície. Não gostava que o recordassem quão irresistível era ela. Isso o fez pensar no macho a quem ela seria destinada para o resto de sua vida.

— Quer me dizer algo ou simplesmente está exercitando os lábios?

Não era um convite a opinar, mas de toda forma, Tohr aproveitou a oportunidade.

— Está apaixonado.

Deveria receber um vá à merda como resposta, pensou Wrath.

— E acredito que ela sente o mesmo — rematou Tohr.

Oh, grandioso. Isso o fazia sentir-se melhor. Ainda romperia seu coração.

O encontro era realmente uma ideia péssima. Aonde pensava que lhes conduziria toda essa merda romântica?

Wrath despiu as presas.

— Só estou fazendo tempo até que ela passe por sua transição. Isso é tudo.

— Sim, certo. — Quando Wrath grunhiu das profundidades da garganta, o outro vampiro deu de ombros.

— Nunca antes tinha visto você arrumar-se para uma fêmea.

— É a filha do Darius. Quer que me comporte como Zsadist com uma de suas prostitutas?

— Santo Deus, claro que não. E, demônios, desejaria que deixasse isso. Mas eu gosto do que está acontecendo entre você e Beth. Esteve só muito tempo.

— Essa é sua opinião.

— E a de outros.

A fronte do Wrath se cobriu de suor.

A sinceridade do Tohr o fez sentir-se preso. E também o fato de que se supunha que somente estava protegendo ao Beth, mas se preocupava em fazer com que ela se sentisse mais especial para ele do que na realidade era.

— Não tem nada que fazer? — perguntou.

— Não.

— Má sorte a minha.

Desesperado por ocupar-se de algo, dirigiu-se ao sofá e recolheu sua jaqueta de couro. Precisava substituir as armas que lhe tinham tirado, e posto que Tohr não parecia ter muita pressa por partir, aquela distração era melhor que ficar a gritar.

— A noite que Darius morreu — disse Tohr, — disse-me que você tinha se negado a cuidar dela.

Wrath abriu o armário e colocou a mão em uma caixa cheia de estrelas de arremesso, adagas e, correntes. Selecionou algumas com gestos bruscos.

— E?

— O que o fez mudar de opinião?

Wrath apertou os dentes, fazendo-os chiar, a ponto de perder os estribos.

— Está morto. Estou em dívida com ele.

— Também estava em dívida com ele quando estava vivo.

Wrath começou a dar voltas.

— Tem que tratar algum outro assunto comigo? Se não, saia já daqui.

Tohr levantou as mãos.

— Tranquilo, irmão.

— Tranquilo, uma merda. Não falarei dela nem com você nem com ninguém mais. Entendido? E mantenha sua boca fechada com os irmãos.

— De acordo, de acordo. — Tohr retrocedeu para a porta

— Mas faça um favor. Aceita o que está acontecendo com essa fêmea. Uma debilidade não reconhecida pode ser mortífera.

Wrath grunhiu e ficou em posição de ataque, adiantando a parte superior do corpo.

— Debilidade? E diz isso um macho que é o bastante estúpido para amar a sua shellan? Deve estar brincando. Houve um longo silencio até que Tohr falou de novo, suavemente, como se estivesse meditando cada palavra:

— Tenho sorte de ter encontrado o amor. Todos os dias agradeço à Virgem Escriba que Wellsie seja parte de minha vida.

Wrath sentiu uma onda de ira, provocada por algo que não podia solucionar a golpes.

— É patético. Tohr murmurou:

— E você estive morto centenas de anos, mas é muito egoísta para procurar uma tumba e ficar nela.

Wrath atirou ao chão a jaqueta de couro.

— Pelo menos não recebo ordens de uma fêmea.

— Precioso traje.

Wrath cortou a distância que os separava com duas pernadas, enquanto seu companheiro se preparava para um choque frontal. Tohrment era um macho grande, com ombros largos e braços longos, poderosos. A briga parecia iminente.

Wrath sorriu friamente, alargando as presas.

— Se passasse tanto tempo defendendo a nossa raça como o que passa perseguindo a essa sua fêmea, talvez não tivéssemos perdido ao Darius. Pensou nisso?

A angústia aflorou ao rosto do Tohr como sangue de uma ferida no peito, A candente dor do vampiro espessou o ar. Wrath percebeu o aroma, levando o ardor da aflição ao mais profundo de seus pulmões e à alma. Ter manchado a honra e o valor de um macho com um golpe tão baixo o fez sentir-se francamente desprezível. E enquanto esperava o ataque do Tohr, deu a boas vindas ao ódio interno como a um velho amigo.

— Não posso acreditar que disse isso. — A voz do Tohr tremia . — Necessita...

— Não quero nenhum de seus inúteis conselhos.

— Vá à merda. — Tohr lhe deu um bom golpe no ombro. — De qualquer modo vai receber. Já é hora de que aprenda quem são realmente seus inimigos, bode arrogante, antes de que fique só.

Wrath quase não escutou a porta fechar-se de repente. A voz que ouvia em sua cabeça, lhe gritando que era um desprezível pedaço de merda, anulava quase todo o resto.

Inalou uma longa baforada de ar e esvaziou seus pulmões com um forte grito. O som fez vibrar toda a residência, sacudindo as portas, as armas soltas, o espelho do banheiro. As velas soltaram uma furiosa labareda como resposta, acariciando com suas chamas as paredes, desejosas de liberar-se de suas mechas e destruir o que encontrassem a seu caminho. Rugiu até que sentiu uma tremenda ardência na garganta e seu peito se inflamou.

Quando ao fim recuperou a calma, não sentiu alívio. Só remorso.

Dirigiu-se ao armário e tirou uma Beretta de nove milímetros. Depois de carregá-la, inseriu a arma na parte de atrás de seu cinturão. Logo foi para a porta e subiu os degraus de dois em dois, tratando de chegar o mais rapidamente possível ao primeiro piso.

Ao entrar no salão, aguçou o ouvido. O silêncio era um dos melhores tranquilizantes. Precisava acalmar-se.

Entreteve-se rondando pela casa, detendo-se na mesa da sala de jantar. Tinha sido preparada tal como ele tinha pedido. Dois talheres em cada extremo. Cristal, prata e velas.

E tinha chamado patético a seu irmão?

Se não tivesse sido porque se tratasse dos valiosos pertences de Darius, teria varrido a mesa inteira de um tapa. Moveu sua mão, como se estivesse preparado para seguir aquele impulso, mas a jaqueta o aprisionou. Agarrou as lapelas do traje, disposto a arrancar aquele objeto das costas e queimá-la, mas, naquele momento, a porta principal se abriu. Virou-se.

Ali estava ela, ultrapassando a soleira — entrando no vestíbulo.

Wrath baixou as mãos, esquecendo por um instante sua ira. Beth vestia negro. Tinha o cabelo preso. Cheirava... a rosas noturnas em flor. Respirou profundamente, seu corpo ficou rígido, enquanto seu instinto mais selvagem lhe pedia para possuí-la ali mesmo.

Mas então percebeu as emoções da mulher. Estava receosa, nervosa. Pôde dar-se conta claramente de sua desconfiança, e sentiu uma perversa satisfação quando ela vacilou em olhá-lo.

Seu mau humor voltou, agudo e cortante.

Fritz estava ocupado fechando a porta, mas a felicidade do doggen era evidente no ar que o rodeava, reluzente como a luz do sol.

— Deixei uma garrafa de vinho no salão. Servirei o primeiro prato em trinta minutos, está bem?

— Não — ordenou Wrath.

— Sentaremos agora.

Fritz pareceu desconcertado, mas logo captou claramente a mudança nas emoções do Wrath.

— Como desejar, amo. Em seguida.

O mordomo desapareceu como se algo se incendiasse na cozinha.

Wrath olhou fixamente para Beth.

Ela deu um passo para trás. Provavelmente porque ele estava deslumbrante.

— Parece... diferente — disse ela.

— Com essa roupa.

— Se pensar que a roupa me civilizou, não se engane.

— Não me engano.

— Está bem. Então terminemos com isto.

Wrath entrou na sala de jantar, pensando que o seguiria. E se não quisesse fazê-lo, provavelmente seria melhor. De toda forma, tampouco ele tinha muita vontade de sentar-se à mesa.

 

Beth observou com estupor como Wrath se afastava com uma indiferença absoluta. Deu-lhe a sensação de que não estava nem aí se ela jantava com ele ou não.

Se não estivesse refletindo ainda sobre a conveniência daquela encontro, teria se sentido totalmente insultada. Ele a tinha convidado para jantar. Então por que se mostrou tão contrariado quando ela tinha aparecido? Esteve tentada de voltar sobre seus passos e sair correndo daquela casa.

Mas o seguiu até a sala de jantar porque lhe pareceu que não tinha escolha. Havia tantas coisas que queria saber, coisas que só ele poderia lhe explicar. Mas se tivesse outra forma de obter a informação que precisava perguntando a qualquer outra pessoa, não estaria ali.

À medida que avançava diante dela, concentrou-se em sua nuca, tentando ignorar sua enérgica passada. Mas não pôde subtrair

a seus poderosos movimentos. Ele caminhava com uma desenvoltura que fazia que seus ombros se agitassem a cada passo sob sua elegante jaqueta. Enquanto seus braços se balançavam, ela sabia que suas coxas se contraíam e relaxavam. Imaginou nu, com os músculos endurecendo-se sob sua pele.

A Butch ressonou em sua cabeça: Um homem como esse leva o assassinato na vida. É parte de sua natureza.

Entretanto, na noite anterior Wrath lhe tinha pedido que partisse quando considerou que era um perigo para ela.

Disse a si mesmo que tinha que esquecer-se de tratar de conciliar todas aquelas contradições. Todas suas reflexões eram tão inúteis como tentar adivinhar o futuro nas folhas de chá. Precisava seguir seu instinto, e este lhe dizia que Wrath era a única ajuda que tinha.

Ao entrar na sala de jantar, a formosa mesa posta para eles foi uma agradável surpresa. Havia um centro de narcisos e orquídeas, candelabros de marfim, e a porcelana e a prata reluziam com todo seu esplendor.

Wrath se deu a volta e retirou uma cadeira, esperando que ela se sentasse.

Deus, estava fantástico com aquele traje. Pela abertura da camisa aparecia seu pescoço, e a seda negra fazia com que sua pele parecesse bronzeada. Era uma pena que estivesse de tão mau humor. Seu rosto parecia tão pouco amistoso como seu temperamento, e com o cabelo penteado para trás, seu queixo ressaltava ainda mais sua agressividade.

Algo o tinha deixado assim. Algo muito grave.

Justo o homem para um encontro perfeito — pensou ela. — Um vampiro iracundo com maneiras de brutamontes.

Aproximou-se com cautela. Quando afastou a cadeira para que ela se sentasse, podia jurar que ele se inclinou e inalou profundamente o perfume de seu cabelo.

— Por que demorou tanto? — perguntou ele, sentando-se à cabeceira da mesa. Ante seu silêncio, ele arqueou uma sobrancelha, que sobressaiu nas lentes de seus óculos de sol.

— Demorou Fritz em convencê-la para que viesse?

Para entreter-se em algo, ela pegou o guardanapo e o desdobrou em seu colo.

— Não foi nada disso.

— Então o que aconteceu.

— Butch nos seguiu. Tivemos que esperar até que conseguimos despistá-lo.

Ela se precaveu de que o ar ao redor do Wrath se obscurecia, como se seu aborrecimento absorvesse a luz diretamente.

Fritz entrou com dois pequenos pratos de salada. Colocou-os sobre a mesa.

— Vinho? — perguntou.

Wrath assentiu com a cabeça.

Uma vez que o mordomo terminou de servir o vinho e saiu, ela segurou um pesado garfo de prata, obrigando-se a comer.

— E agora por que está com medo? — A voz do Wrath era sardônica, como se zombasse de seus temores.

Ela espetou a salada.

— Hmm. Poderia ser porque parece estar como se quisesse estrangular a alguém?

— De novo entrou nesta casa assustada. Antes que me visse, já estava morta de medo. Quero saber por que.

Ela não afastou a vista do prato.

— Talvez me recordasse que ontem à noite quase mata a meu amigo.

— Cristo, basta com isso.

— Foi você quem perguntou — respondeu ela. — Não se zangue se você não gosta de minha resposta.

Wrath limpou a boca com impaciência.

— Mas ao final não o matei, não é assim?

— Só porque eu o detive.

— E isso a incomoda? A maioria das pessoas adora ser herói.

Ela soltou seu garfo.

— Sabe uma coisa? Não quero estar aqui com você.

Ele seguiu comendo.

— Então por que veio?

— Porque você me pediu que viesse!

— Acredite-me, posso aceitar uma negativa — afirmou, como se não o preocupasse absolutamente.

— Foi um tremendo engano. — Ela colocou seu guardanapo ao lado do prato enquanto se levantava.

Ele soltou uma maldição.

— Sente-se.

— Não me dê ordens.

— Permita-me que emende isso. Sente-se e se cale. Ela o olhou surpreendida.

— Você, arrogante bode...

— Não é a primeira que me chama assim esta noite, muito obrigado.

O mordomo escolheu esse momento para entrar com uns pasteizinhos quentes.

Ela olhou com ferocidade ao Wrath e estendeu uma mão, fingindo que só tentava alcançar a garrafa de vinho. Não ia partir diante do Fritz. Além disso, de repente, sentiu vontade de ficar. Assim poderia gritar ao Wrath um pouco mais.

Quando estavam sós de novo, ela murmurou:

— O que pretende conseguir me falando assim?

Ele pegou um último bocado de salada, colocou o garfo no borda do prato e se limpou com o guardanapo, dando ligeiros toques nas cantos dos lábios. Como se o tivesse aprendido no manual de etiqueta da Emily Post.

— Vamos esclarecer uma coisa — disse — Você necessita de mim. Assim esqueça já do que pude fazer a esse policial. Seu bom companheiro Butch ainda caminha sobre a terra, não é assim? Então, qual é o problema?

Beth o olhou fixamente, tentando ler em seu olhar através de seus óculos, procurando um pouco de suavidade, algo a que ela pudesse conectar-se. Mas aqueles óculos escuros eram uma barreira intransponível, e os duros traços de seu rosto não lhe revelaram nenhum indício.

— Como pode significar a vida tão pouco para você? — perguntou ela em voz alta.

Ele deu um frio sorriso.

— Como pode significar a morte tanto para você?

Beth se apoiou no respaldo da cadeira, sobressaltada por sua presença. Não podia acreditar que tivesse feito amor com ele — não, corrigiu-se, que tivesse tido sexo com ele. — Aquele homem era absolutamente insensível.

De repente, sentiu que uma dor surda se instalava em seu coração, E não era por causa da dureza que estava mostrando com ela, mas sim porque se sentia decepcionada. Realmente, tinha desejado que fosse diferente ao que, naquele momento, aparentava. Quis acreditar que aqueles arrebatamentos de calidez que lhe tinha mostrado eram parte dele na mesma medida que seu lado violento. Colocou sua mão sobre o peito, tentando afastar aquela dor. — Queria partir, se não se importa.

Um longo silencio abriu caminho entre eles.

— Ah, diabos... — murmurou ele, respirando lentamente. — Isto não está bem.

— Não, não está.

— Pensei que a merecia... Não sei. Um encontro. Ou algo..., algo normal. — riu com rudeza enquanto ela o olhava com surpresa.

— Uma ideia estúpida. Já sei. Deveria me dedicar a aquilo no que sou perito. Estaria mais cômodo ensinando-a a matar.

Sob seu feroz orgulho, ela vislumbrou que, no fundo, havia algo mais. Insegurança? Não, não era isso. Com ele se trataria, naturalmente, de algo mais intenso.

Auto depreciação .

Fritz voltou para recolher os pratos da salada, reaparecendo imediatamente com a sopa. Era uma vichvssoise fria. Curioso, pensou ela distraidamente. Geralmente, a sopa se servia primeiro, e logo a salada, ou não? Certamente os vampiros tinham muitos costumes diferentes. Como possuir mais de uma mulher. Sentiu que seu estômago dava um salto. Não queria pensar nisso. Negava-se a fazê-lo.

— Olhe, quero que saiba — disse Wrath enquanto levantava sua colher — que eu luto para me proteger, não porque sinta prazer assassinando. Mas matei a milhares de pessoas. A milhares, Beth. Entende? Assim, se acha que não me sinto cômodo ante a morte, está equivocada. Não posso fazer isso por você. Simplesmente, não posso.

— Milhares? — resmungou ela curvada. Ele assentiu.

— E em nome de Deus, contra quem luta?

— Bastardos que a matariam logo que passe pela transição.

— Caçadores de vampiros?

— Lessers. Humanos que venderam suas almas ao Omega em troca de um reino de terror livre.

— Quem, ou o que, é o Omega? — Quando ela pronunciou a palavra, as velas piscaram furiosamente, como atormentadas por mãos invisíveis.

Wrath duvidou. Realmente parecia incômodo falando daquele assunto. Ele, que não tinha medo a nada.

— Quer dizer o demônio? — — insistiu ela.

— Pior ainda. Não pode compará-los. A gente é simplesmente uma metáfora. O outro é real, muito real. Felizmente, o Omega tem uma oponente, a Virgem Escriba. — Sorriu ironicamente. — Bem, talvez felizmente seja uma palavra muito forte. Mas existe um equilíbrio.

— Deus e Lúcifer.

— Poderia ser, se utilizarmos seu vocabulário. Nossa lenda diz que os vampiros foram criados pela Virgem Escriba como seu único legado, como suas crianças escolhidas. O Omega se ressentiu pela capacidade dela de gerar vida e desprezou os poderes especiais que ela tinha outorgado à raça vampírica. A Sociedade Lessening foi sua resposta. Utiliza aos humanos porque é incapaz de procriar e além disso são uma fonte de agressividade disponível imediatamente.

Isto é simplesmente muito estranho, pensou ela. Troca de almas. Imortalidade. Essas coisas não existiam no mundo real.

Embora, pensando bem, ela estava jantando com um vampiro. Como podia pensar que tudo o que estava ouvindo era impossível?

Pensou no formoso homem loiro que tinha visto costurando a si mesmo.

— Tem companheiros que lutam com você, verdade?

— Meus irmãos. — Bebeu um gole de sua taça de vinho. Logo que os vampiros reconheceram que estavam ameaçados, escolheram aos machos mais fortes e poderosos. Treinaram-nos para lutar e enfrentar aos lessers. Depois, esses guerreiros procriaram com as fêmeas mais fortes durante várias gerações, até que surgiu uma subespécie de vampiros. Os mais poderosos dessa classe foram instruídos para formar a Irmandade da Adaga Negra.

— São irmãos de sangue? Ele sorriu forçadamente.

— Poderia dizer que sim.

Seu rosto ficou sério, como se fosse um assunto privado. Ela notou que não lhe diria nada mais sobre a Irmandade, mas ainda sentia curiosidade sobre a guerra que estavam lutando, sobre tudo porque ela estava a ponto de converter-se em um daqueles que necessitavam de seu amparo.

— Então, você mata humano.

— Sim, embora estejam tecnicamente mortos. Para dar a seus lutadores a longevidade e a força necessária para nos combater, o Omega tem que despojá-los de suas almas.

— Suas severas feições deixaram entrever um indício de repugnância.

— Embora ter alma não evita que os humanos nos persigam.

— Você não gosta..., você não gosta de nós, verdade?

— Em primeiro lugar, a metade do sangue que corre por suas veias procede de seu pai. E em segundo, por que teria que gostar dos humanos? Maltrataram-me e repudiaram antes de minha transição, e a única razão pela qual não me chateiam agora é porque morrem de medo ao ver-me.

— E se chegassem a saber que existem os vampiros, nos perseguiriam embora não pertencessem à Sociedade. Quando os humanos se sentem ameaçados por algo que não controlam, sua resposta é lutar. Mas são uns fanfarrões, aproveitam-se do fraco e se inclinam ante o forte. — Wrath sacudiu a cabeça.

— Além disso, irritam-me. Já viu como aparece retratada nossa espécie em seu folclore? Olhe a Drácula, pelo amor de Deus, um maligno chupa sangue que espreita aos indefesos. Também há filmes de série B e pornô. Para não mencionar essa mascara do Halloween. Presas de plástico e capas negras. As únicas coisas que refletiram corretamente esses idiotas são que bebemos sangue, que não podemos sair à luz do dia. O resto é pura merda, inventada para nos alienar e infundir medo às massas. Ou algo pior e ofensivo: a ficção se utiliza para imaginar uma espécie de mística para humanos aborrecidos que pensam que o lado escuro é um lugar divertido para visitar.

— Mas você realmente não nos caça, verdade?

— Não use essa palavra. São eles, Beth. Não nós. Você não é completamente humana agora mesmo, e muito em breve perderá toda parte humana. — Fez uma pausa.

— E não, eu não os caço. Mas se entrarem em meu caminho, se verão em um sério problema.

Ela refletiu durante uns instantes sobre o que ele acabava de dizer, tratando de ignorar o pânico que a invadia cada vez que pensava na transição que, supostamente, estava a ponto de atravessar.

— Quando atacou ao Butch assim... Certamente ele não é um..., como se diz..., um lesser.

— Ele tentou me afastar de você. — Wrath apertou o queixo. — Esmagarei a todos que o façam, seja ou não seu amante. Se o fizer de novo...

— Prometeu-me que não o mataria.

— Não o matarei. Mas não vou ser suave com ele.

Ela pensou que era melhor colocar a El Duro de sobre aviso.

— Por que não come? — perguntou Wrath. — Precisa s alimentar.

Ela olhou para baixo. Comida? Sua vida se transformou, da noite para o dia, em uma novela do Stephen King, e ele se preocupava com sua dieta?

— Come. — Inclinou a cabeça para seu prato.

— Deve estar o mais forte possível para a mudança.

Beth levantou sua colher, só para que ele não continuasse com a conversa. A sopa estava ótima, embora imaginou que estava bem preparada e perfeitamente amadurecida.

— Você vai armado agora mesmo, não é assim? — perguntou ela.

— Sim.

— Alguma vez abandona suas armas?

— Não.

— Mas quando estávamos... — Fechou a boca antes de que as palavras fazendo o amor saíssem dela.

Ele se inclinou.

— Sempre tenho algo a meu alcance, inclusive quando a possuo.

Beth engoliu outra colherada de sopa. Ardentes pensamentos entraram em conflito com a horrível sensação de que ou era um paranóico, ou o mal verdadeiramente sempre espreitava.

E demônios, Wrath era muitas coisas. Mas não lhe parecia precisamente um tipo histérico.

Houve um longo silencio entre eles, até que Fritz levou os pratos de sopa e trouxe o cordeiro. Ela notou que a carne do Wrath tinha sido cortada em pedaços do tamanho de um bocado. Que estranho, pensou.

— Depois do jantar quero mostrar algo a você. — Ele agarrou seu garfo e fez um par de tentativas para cravar a carne.

E foi então que ela compreendeu que nem sequer se incomodava em olhar para seu prato. Tinha o olhar fixo em um ponto debaixo da mesa.

Um calafrio a atravessou. Havia algo muito raro. Olhou cuidadosamente os óculos de sol que ele usava. Recordou as pontas de seus dedos procurando seu rosto naquela primeira noite que estiveram juntos, como se estivesse tentando ver seus traços através do tato. E começou a pensar que talvez ele não usasse aqueles óculos para proteger-se da luz, mas para tampar seus olhos.

— Wrath? — disse ela suavemente.

Ele estendeu o braço para alcançar sua taça de vinho, sem errar sua mão ao redor desta até que notou o tato do cristal.

— O que? — levou a taça aos lábios, mas voltou a colocá-la na mesa

— Fritz? nós necessitamos o tinto.

— Aqui está, amo. — O mordomo entrou com outra garrafa. — Ama?

— Ah, sim, obrigado.

Quando a porta da cozinha se fechou, Wrath disse:

— Quer me perguntar algo mais?

Ela clareou a garganta. Fazia um instante estava se desesperada por encontrar uma debilidade nele, e agora a invadia a absoluta certeza de que era cego.

Se fosse inteligente, coisa que era seriamente discutível, teria feito a lista de perguntas que tinha confeccionado e logo teria ido para casa.

— Beth?

— Sim..., eh, então é verdade que você não pode sair durante o dia?

— Os vampiros não suportam a luz do sol.

— O que lhes acontece?

— Imediatamente seu corpo se cobre com queimaduras de segundo e terceiro grau pela exposição ao sol. Pouco depois ocorre a incineração. O sol não é algo com quem se possa brincar.

— Mas eu posso sair.

— Você não sofreu ainda a mudança. Embora, quem sabe? Ao melhor, inclusive depois poderia ser capaz de tolerar a luz. As pessoas que têm um pai humano podem responder de forma diferente. As peculiaridades próprias dos vampiros podem diluir-se. — Tomou um gole de sua taça, lambendo os lábios

— Mas você não, você vais passar pela transição, o sangue de Darius corre fortemente por seus veias.

— Com que frequência terei que... me alimentar?

— Ao princípio, bastante frequentemente. Talvez duas ou três vezes ao mês. Embora, como disse, não há maneira de saber.

— Depois que me ajude a primeira vez, como poderei encontrar um homem de que possa beber...?

O grunhido do Wrath a interrompeu. Quando levantou a vista, sobressaltou-se. Estava incômodo de novo.

— Eu me encarregarei de encontrar a alguém — disse ele com um acento mais marcado do usual.

— Até então, utilizará a mim . — Espero que isso seja logo — murmurou, pensando que ele não parecia muito feliz de estar junto a ela.

Ele franziu os lábios enquanto a olhava.

— Tão impaciente está por encontrar a alguém mais?

— Não, só pensei que...

— O que? Pensou o que? — Seu tom era duro, tão duro como o olhar fixo que podia adivinhar depois dos óculos.

Queria lhe dizer que parecia, com toda clareza, que ele não tinha nem o menor desejo de permanecer a seu lado, mas era difícil encontrar as palavras adequadas. O rechaço a feria, embora tratava de convencer-se de que, sem dúvida, estaria melhor sem ele.

— Eu..., ah, Tohr disse que você foi o rei dos vampiros. Suponho que isso o manterá ocupado.

— Meu companheiro terá que aprender a fechar a boca.

— É verdade? Você é o rei?

— Não — disse ele bruscamente.

Bom, se isso não era uma portada em seu rosto...

— Está casado? Quero dizer, tem uma companheira? Ou duas? — acrescentou rapidamente, imaginando que bem podia soltar todas suas dúvidas. O mau humor voltava a rondar sobre ele. Não acreditava que pudesse piorá-lo.

— Por Cristo. Não.

Até certo ponto, aquela resposta foi um alívio, embora estando claro o que ele pensava das relações.

Ela tomou um gole de vinho.

— Não há nenhuma mulher em sua vida?

— Não.

— Então, de quem se alimenta?

Longo silêncio nada prometedor.

— Houve alguém.

— Houve?

— Houve.

— Até quando?

— Recentemente. — deu de ombros

— Nunca estivemos juntos. Fomos uma má parceria.

— A quem recorre agora?

— Deus, é jornalista até quando não trabalha, não é?

— A quem? — insistiu ela.

Ele a olhou durante um longo instante. E logo seu semblante se transformou, relaxando um pouco a agressividade que tinha mostrado até então. Apoiou suavemente o garfo em seu prato E colocou a outra mão na mesa com a palma para cima.

— Ah, diabos.

Apesar de sua maldição, de repente, o ar pareceu menos denso.

Ao princípio, ela não confiou naquela mudança de humor, mas então ele tirou os óculos e se esfregou os olhos. Quando voltou a colocar os óculos, ela notou que seu peito se alargava, como se estivesse reunindo forças.

— Deus, Beth, acredito que queria que fosse você, apesar de que não vou estar perto muito tempo depois de sua transição. — Sacudiu a cabeça.

— Sou um estúpido filho de cadela.

Beth piscou, sentindo uma espécie de calor sexual pensando que ele beberia seu sangue para sobreviver.

— Mas não se preocupe — disse ele.

— Isso não vai acontecer. E logo encontrarei outro macho para você.

Afastou seu prato, sem provar quase nada do cordeiro.

— Quando foi a última vez que se alimentou? — perguntou ela, pensando no poderoso desejo contra o qual o tinha visto lutar.

— Ontem à noite.

Uma opressão no peito lhe fez sentir-se como se seus pulmões estivessem bloqueados.

— Mas não me mordeu.

— Foi depois que se foi.

Ela imaginou com outra mulher em seus braços. Quando tentou alcançar a taça de vinho, a mão lhe tremia.

Estupendo. Suas emoções aconteciam umas a outras de uma forma vertiginosa essa noite. Tinha estado aterrada, zangada, loucamente ciumenta.

Perguntou-se qual seria a seguinte.

E teve o pleno convencimento de que não se trataria, precisamente, da felicidade.

 

Beth colocou de novo a taça de vinho sobre a mesa, desejando ter mais controle sobre si mesma.

— Você não gosta, verdade?

— disse Wrath em voz baixa.

— De que?

— Que eu beba de outra fêmea.

Ela riu lugubremente, desprezando a si mesma, a ele e toda aquela maldita situação.

— Desfruta esfregando isso em meu nariz?

— Por um momento, ele guardou silêncio .

— A ideia de que algum dia você marque a pele de outro macho com seus dentes e coloque seu sangue dentro de você me deixa louco.

Beth o olhou fixamente.

Então porquê não fica comigo?, pensou ela. Wrath sacudiu a cabeça.

— Mas não posso me permitir isso.

— Por que não?

— Porque você não pode ser minha. Não importa o que tenha dito antes.

Fritz entrou, recolheu os pratos E serviu a sobremesa: morangos colocados delicadamente sobre um prato com bordas douradas e um pouco de molho de chocolate ao lado para banhar, junto a uma bolacha pequena.

Normalmente, Beth teria despachado aquela deliciosa combinação; em questão de segundos, mas se encontrava muito agitada para comer.

— Você não gosta dos morangos? — perguntou Wrath enquanto levava um à boca. Seus brilhantes dentes brancos morderam a vermelha carne.

Ela deu de ombros, obrigando-se a olhar para outro lado.

— Sim eu gosto.

— Toma. — Agarrou um morango de seu prato e se inclinou para ela.

— Me permita que e lhe dê isso.

Seus longos dedos sustentaram o pedúnculo com firmeza, enquanto seu braço se balançava no ar.

Ela desejava tomar o que ele oferecia.

— Posso comer por mim mesma.

— Já sei — disse ele sinceramente. — Mas essa não é a questão.

— Teve sexo com ela? — perguntou. Arqueou as sobrancelhas com surpresa.

— Ontem à noite?

Ela assentiu com a cabeça.

— Quando se alimenta, faz amor?

E deixa responder a sua seguinte pergunta. Agora mesmo, não me deito com ninguém mais que com você.

Agora mesmo, repetiu ela mentalmente.

Beth baixou o olhar para suas mãos, colocadas em seu colo, sentindo-se ferida de uma forma estúpida.

— Deixe-me alimentar você — murmurou ele. — Por favor.

Oh, madura, disse-se ela. Eram adultos. Eram maravilhosos na cama, e isso nunca lhe tinha acontecido jamais com nenhum homem. Realmente ia afastar-se só porque ia perdê-lo?

Além disso, embora lhe prometesse um futuro de rosas, um homem como ele não permaneceria em casa muito tempo. Era um lutador que andava com uma turma de tipos como ele. Os assuntos domésticos e o lar seriam para ele tremendamente aborrecidos. Tinha-o agora. Queria-o agora.

Beth se inclinou para frente em sua cadeira, abriu a boca, colocando os lábios ao redor do morango, tomando-o inteiro. Os lábios de Wrath tremeram ao vê-la morder, e quando um pouco do doce suco escapou e gotejou para seu queixo, soltou um assobio afogado.

— Quero lamber isso — murmurou baixo. Esticou-se para frente, mas conseguiu dominar-se. Levantou seu guardanapo. Ela colocou sua mão na dele.

— Usa seu boca.

Um som grave, saído do mais profundo de seu peito, retumbou na residência.

Wrath se inclinou para ela, inclinando a cabeça. Ela captou um brilho de suas presas enquanto seus lábios se abriam e sua língua saía. Lambeu o suco e logo se afastou.

Olhou-a fixamente. Ela devolveu o olhar. As velas piscaram.

— Vêem comigo — disse ele, oferecendo sua mão.

Beth não vacilou. Colocou sua palma contra a dele e deixou que a guiasse. Levou-a ao salão, acionou a mola do quadro e atravessaram a parede, descendo pela escada de pedra. Ele parecia imenso em meio da escuridão.

Quando chegaram ao patamar inferior, levou-a a seu quarto. Ela olhou para a enorme cama. Tinha sido arrumada, com os travesseiros cuidadosamente alinhados contra a cabeceira e os lençóis de cetim suaves como água imóvel. Uma onda de calor invadiu seu corpo ao recordar o que tinha sentido ao tê-lo em cima, movendo-se dentro dela.

De novo estavam ali, pensou. E não podia esperar.

Um profundo grunhido a fez olhar por cima de seu ombro. O olhar de Wrath estava fixo nela como em um alvo de tiro.

Tinha lido seu pensamento. Sabia o que ela queria. E estava pronto para entregar-lhe

Caminhou para ela, e Beth ouviu a porta se fechar com o ferrolho. Olhou a seu redor, perguntando-se se havia alguém mais no quarto. Mas não viu ninguém.

A mão dele se dirigiu para seu pescoço, lhe dobrando a cabeça para trás com o dedo polegar.

— Toda a noite quis beijar você.

Ela se preparou para algo forte, disposta para algo que ele pudesse lhe dar, só que quando seus lábios posaram sobre os dela o fizeram com uma extraordinária doçura. Pôde sentir a paixão nas tensas linhas de seu corpo, mas claramente se negava a apressar-se. Quando elevou a cabeça, sorriu-lhe. Pensou que já estava totalmente acostumada às presas.

— Esta noite vamos fazer lentamente — disse ele. Mas ela o deteve antes de que ele a beijasse de novo.

— Espera. Há algo que devo... Tem camisinhas? Ele franziu o sobrecenho.

— Não. Por que?

— Por que? Ouviu falar de sexo seguro?

— Eu não sou portador desse tipo de enfermidades, e você não pode me contagiar nada.

— Como sabe?

— Os vampiros estão imunizados contra os vírus humanos.

— Então pode ter todo o sexo que queira? Sem preocupar-se por nada?

Quando ele assentiu com a cabeça, ela se sentiu um pouco enjoada. Deus, quantas mulheres deve haver...

— E você não é fértil — disse ele.

— Como sabe?

— Confia em mim. Nós dois saberíamos se fosse. Além disso, não terá sua primeira necessidade até passados cinco anos mais ou menos depois da transição. E inclusive quando estiver nessa época, a concepção não está garantida porque...

— Espere. O que é isso da necessidade?

— As fêmeas só são fecundas cada dez anos. O que é uma bênção.

— Por que?

Ele clareou a garganta. De fato parecia um pouco pesaroso.

— É um período perigoso. Todos os varões respondem em alguma medida se estiverem próximos de uma fêmea que esteja atravessando sua necessidade. Não o podem evitar. Pode haver lutas. E a fêmea, ela, né..., os desejos são intensos. Ou isso é o que ouvi.

— Você não tem filhos?

Ele negou com a cabeça. Logo franziu o cenho.

— Deus.

— O que?

— Pensar em você quando tiver sua necessidade. — Seu corpo se balançou, como se tivesse fechado os olhos

— Ser o único que você utilize.

Emanou calor sexual. Ela pôde sentir uma rajada quente deslocando-se no ar.

— Quanto tempo dura? — perguntou ela com voz rouca.

— Dois dias. Se a fêmea estiver... bem servida e alimentada adequadamente, o período cessa rapidamente.

— E o homem?

— O macho fica totalmente esgotado quando termina. Seco de sêmen e de sangue. Leva— muito mais tempo para ele recuperar-se, mas nunca ouvi uma queixa. Jamais. — Houve uma pausa.

— Eu adoraria ser quem alivie você.

De repente, ele deu um passo para trás. Ela sentiu uma corrente de ar frio quando o humor dele mudou e o calor se dissipou.

— Mas essa será a obrigação de algum outro macho. E seu privilégio.

Seu celular começou a soar. Tirou-o de seu bolso interior com um grunhido.

— O que? — Houve uma pausa.

Ela se dirigiu ao banheiro para lhe dar um pouco de privacidade. E porque precisava estar só um momento. As imagens que apareciam em sua mente eram suficientes para aturdi-la. Dois dias. Só com ele?

Quando saiu, Wrath estava sentado na cama, com os cotovelos nos joelhos, aconchegado. Tirou a jaqueta, E seus ombros pareciam mais largos, ressaltados pela camisa negra. Ao aproximar-se, captou uma imagem fugaz de uma arma de fogo sob a jaqueta e estremeceu um pouco.

Ele a olhou enquanto ela se sentava a seu lado. Beth desejou poder compreendê-lo melhor e culpou aos óculos escuros. Estendeu a mão para o rosto dele, acariciando a antiga ferida de sua bochecha, deslizando-a para seu forte queixo. Sua boca se abriu ligeiramente, como se seu tato o deixasse sem respiração.

— Quero ver seus olhos — disse ela.

Ele se afastou um pouco para trás.

— Por que não?

— Por que te interessa saber como são?

Ela franziu o cenho.

— É difícil entendê-lo ocultando-se atrás dos óculos. E neste instante, não me incomodaria saber o que está pensando.

Ou sentindo, que é ainda mais importante. Finalmente, ele deu de ombros.  

— Faz o que queira.

Como não fez nenhum movimento para tirar os óculos, ela tomou a iniciativa, os deslizando para frente. Suas pálpebras estavam fechadas, suas pestanas escuras contra a pele. Permaneceu assim.

— Não vai mostrar seus olhos?

Ele apertou o queixo.

Ela olhou os óculos. Quando os levantou para a luz de uma vela, quase não pôde ver algo através dos cristais, pois eram tremendamente opacos.

— É cego, não é? — disse ela suavemente.

Seus lábios voltaram a franzir-se, mas não em um sorriso.  

— Se preocupa que não possa cuidar de você?

Não a surpreendeu a hostilidade. Imaginava que um homem como ele odiaria qualquer debilidade que possuísse.

— Não, isso não me preocupa absolutamente. Mas eu gostaria de ver seus olhos.

Com um movimento relâmpago, Wrath a arrastou ao outro lado de seu colo, sustentando-a em equilíbrio de modo que só a força de seus braços impedia que atingisse o chão. Sua boca tinha um rictus amargo.

Devagar, levantou as pálpebras. Beth abriu a boca.

Seus olhos eram da cor mais extraordinária que tinha nunca visto. Um verde pálido resplandecente, tão claro que era quase branco. Emoldurados por umas grossas e escuras pestanas, brilhavam como se alguém tivesse acendido uma luz no interior de seu crânio.

Então se fixou em suas pupilas e se deu conta de que não estavam bem. Eram como diminutos alfinetes negros, desfocados. Acariciou seu rosto.

— Seus olhos são formosos.

— Inúteis.

— Formosos.

 

Ela olhou fixamente enquanto ele tentava adivinhar seus traços, forçando a vista.

— Sempre foram assim? — sussurrou ela.

— Nasci quase cego, mas minha visão piorou depois de minha transição e, provavelmente, deteriorara-se ainda mais à medida que envelheça.

— Então ainda pode ver algo?

— Sim. — Dirigiu a mão para seu cabelo. Quando sentiu que caía sobre seus ombros, deu-se conta de que ele estava tirando as presilhas que seguravam seu penteado.

— Sei que eu gosto de seu cabelo solto, por exemplo. E também sei que é muito, formosa. Seus dedos perfilaram os contornos de seu rosto, descendo suavemente para seu pescoço e sua clavícula, até abrir caminho entre seu seios.

Seu coração bateu rapidamente, seus pensamentos se voltaram confusos, e o mundo desapareceu a seu redor, ficando unicamente eles dois.

— A vista é um sentido supervalorizado — murmurou ele, estendendo a palma da mão sobre seu peito. Era forte e cálida, uma antecipação do que seu corpo sentiria quando se encontrasse sobre ela.

— Tato, gosto, olfato, audição. Os outros quatro sentidos são igualmente importantes.

Ele se inclinou para diante, acariciou-lhe o pescoço com os lábios, e ela sentiu um suave arranhão. Suas presas, pensou. Subiu por sua garganta.

Desejou que a mordesse.

Wrath respirou profundamente.

— Sua pele possui um aroma que me provoca uma ereção instantânea. Tudo o que tenho que fazer é cheirar.

Ela se arqueou nos braços dele, esfregando-se contra suas coxas, empurrando seu seios para cima. Sua cabeça se abandonou, e deixou escapar um pequeno gemido.

— Deus, adoro esse som — disse ele, subindo a mão até a base de sua garganta.

— Faça de novo para mim, Beth. Lambeu delicadamente seu pescoço. Ela o satisfez.

— Isso — gemeu ele — Santo céu, isso.

Seus dedos começaram a deslocar-se novamente, esta vez até o laço de seu vestido, que soltou com destreza.

— Não deveria deixar que Fritz troque os lençóis.

— O que? — resmungou ela.

— Na cama. Quando você vai. Queria aspirar seu perfume quando me deito nela.

A parte dianteira de seu vestido se abriu, e o ar frio percorreu sua pele enquanto a mão dele avançava para cima. Quando chegou ao sutiã, traçou um círculo ao redor das bordas de renda, avançando gradualmente para o interior até roçar seu mamilo.

O corpo dela estremeceu, e se agarrou aos ombros dele. Seus músculos estavam rígidos pelo esforço de sustentá-la. Ela olhou sua temível face, magnífica.

Seus olhos brilhavam, expelindo uma luz que moldava seu seios nas sombras. A promessa de sexo selvagem e seu feroz desejo por ela eram evidentes pelo chiar de seu queixo, pelo calor que saía de seu imponente corpo e pela tensão de suas pernas, seu peito.

Mas ele tinha um absoluto controle de si mesmo. E dela.

— Desejei-a com tanta paixão... — disse ele, afundando a cabeça em seu pescoço, mordendo-a ligeiramente, sem quase arranhar a pele. Logo passou sua língua sobre a pequena ferida como uma úmida carícia, e se deslocou para baixo, a seu peito

— Na realidade ainda não a possuí apropriadamente.

— Não estou tão segura disso — disse ela.

Sua risada soou como um trovão profundo, sua respiração era cálida e úmida sobre a pele dela. Beijou-lhe a parte superior do peito, logo tomou o mamilo em sua boca, através da renda. Ela se arqueou de novo, sentindo como se um dique se quebrasse entre suas pernas.

O guerreiro levantou a cabeça, com um sorriso de desejo despontando em seus lábios.

Deslizou suavemente para baixo o sutiã. Seu mamilo ficou ainda mais ereto para ele, à medida que via a escura cabeça do macho descendendo até sua pálida pele. Sua língua, lustrosa e rosada, saiu de sua boca e começou a lambê-la.

Quando suas coxas se abriram sem que ele o tivesse pedido, riu de novo, com um profundo e masculino som de satisfação.

Sua mão abriu caminho entre os pregas do vestido, roçando seu quadril, movendo-se lentamente sobre sob seu ventre.

Encontrou o elástico de suas calcinhas e deslizou o dedo indicador sob ele. Só um pouco.

Moveu a ponta do dedo adiante e atrás, lhe provocando sensuais cócegas perto de onde ela desejava e necessitava.

— Mais — exigiu ela. — Quero mais.

— E o terá. — Seu dedo inteiro desapareceu sob suas calcinhas. Ela soltou um grito quando entrou em contato com seu centro quente e úmido

— Beth?

Ela quase tinha perdido a consciência, embriagada por seu tato.

— Hmm?

— Quer saber que gosto tem ? — disse ele contra seu peito. Um longo dedo entrou em seu corpo, como se ele quisesse que soubesse que não estava se referindo a sua boca.

Ela se agarrou a suas costas através da camisa de seda, arranhando-o com as unhas.

— Pêssegos — disse ele, deslocando seu corpo, movendo-se para baixo com sua boca, beijando a pele de seu estômago.

— É como comer pêssegos. Carne suave em meus lábios e em minha língua quando chupo. Delicada e doce no fundo de minha garganta quando engulo.

Ela gemeu, próxima ao orgasmo e muito longe de toda prudência.

Com um movimento rápido, ele a levantou, levando-a à cama. Quando a estendeu, separou-lhe as pernas com a cabeça, posando a boca entre suas coxas.

Ela deu um grito sufocado, colocando as mãos no cabelo do vampiro, enredando seus dedos nele. Ele deu um puxão no laço de couro que o prendia. Os cachos de cabelo escuros caíram sobre seu ventre, como a revoada das asas de um falcão.

— Como os pêssegos — disse ele, despojando-a de sua calcinha — E eu adoro os pêssegos.

A claridade assustadora e formosa que irradiavam seus olhos inundou todo seu corpo. E então ele baixou novamente a cabeça.

 

Havers entrou em seu laboratório e perambulou durante uns instantes sem saber muito bem o que fazer, fazendo ressonar seus passos sobre o pavimento branco. Depois de dar um par de voltas ao redor da sala, decidiu sentar-se em seu lugar habitual. Acariciou o elegante pescoço esmaltado de seu microscópio, olhou as numerosas provetas e recipientes de cristal que havia nas prateleiras, ouviu o zumbido das geladeiras, o ronrono monótono do sistema de ventilação no teto e percebeu o persistente aroma do desinfetante Lysol.

Aquele ambiente cientista lhe recordou o objetivo de sua investigação.

E o orgulho que sentia por sua grande capacidade mental.

Considerava-se civilizado, capaz de controlar suas emoções, bom para responder logicamente aos estímulos. Mas não tinha força para controlar o ódio e a fúria que o invadiam. Aquele sentimento era muito violento, muito poderoso.

Estava forjando vários planos, e todos implicavam derramamento de sangue.

Mas a quem queria enganar? Se pretendia levantar embora só fora uma simples navalha contra Wrath, o único sangue derramado seria o dele mesmo.

Precisava encontrar a alguém que soubesse matar. Alguém que pudesse aproximar-se do guerreiro.

Quando encontrou a solução, pareceu-lhe tremendamente óbvia. Já sabia a quem procurar e onde encontrá-lo.

Havers se dirigiu para a porta, E sua satisfação fez aparecer um sorriso a seus lábios. Mas quando viu seu reflexo no espelho que havia sobre a pia do laboratório, ficou gelado. Seus inquietos olhos estavam muito brilhantes, mostrando uma avidez desconhecida, e aquele desagradável sorriso nunca o tinha visto em seu rosto. O rubor febril que coloria suas bochechas era produto do enorme desejo de um infame desenlace.

Não se reconheceu com aquela máscara de vingança. Odiava o aspecto que tinha adquirido seu rosto.

— Oh, Deus.

Como podia pensar tais coisas? Era médico. Seu trabalho consistia em curar. Prometeu salvar vidas, não tirá-las. Marissa havia dito que tudo tinha terminado. Ela falou que quebrou o pacto, e não voltaria a ver o Wrath.

Mas mesmo assim, não merecia ser vingada pela maneira como tinha sido tratada?

Agora era o momento de atacar. Aproximando-se de Wrath naquele momento, já não se veria obstaculizado pelo fato de que Marissa pudesse ficar presa no fogo cruzado.

Havers sentiu um estremecimento, e supôs que era o horror pela magnitude daquilo que estava considerando fazer. Mas então seu corpo cambaleou, teve que estender o braço para sustentar-se. A tontura fez com que o mundo a seu redor girasse loucamente, por isso teve que aproximar-se vacilante de uma cadeira. Liberando o nó de sua gravata, esforçou-se por respirar. O sangue — pensou. — A transfusão.

Não estava funcionando.

Desesperado, caiu de joelhos. Consumido por seu fracasso, fechou os olhos, abandonando-se à escuridão.

 

Wrath rodou para um lado, arrastando consigo a Beth, firmemente abraçada a ele. Com sua ereção ainda palpitando dentro dela, alisou-lhe o cabelo para trás. Estava úmido com seu delicado suor.

Minha.

Enquanto beijava seus lábios, notou com satisfação que ela ainda respirava com dificuldade.

Tinha-lhe feito o amor apropriadamente, pensou. Lento e com suavidade.

— Ficará? — perguntou ele. Ela riu roucamente.

— Não estou segura de poder caminhar agora mesmo. Assim acredito que ficar aqui é uma boa opção.

Ele apertou os lábios contra sua fronte.

— Retornarei pouco antes da alvorada.

Quando ele se retirou do cálido casulo de seu corpo, ela levantou a vista.

— Aonde vai?

— Reunir-me com meus irmãos, e depois vamos sair. Saiu da cama e se dirigiu para o armário para colocar seu traje de couro e ajustar a cartucheira sobre os ombros. Deslizou uma adaga a cada lado e agarrou a jaqueta.

— Fritz estará aqui — disse ele

— Se necessitar algo, marca no telefone asterisco quarenta. Soará no piso de acima.

Ela se envolveu com um lençol e saltou da cama. — Wrath. — Tocou-lhe o braço.

— Fique.

Ele se inclinou para lhe dar um beijo fugaz.

— Voltarei.

— Vai lutar?

— Sim.

— Mas como pode fazê-lo? É... — interrompeu-se.

— Fui cego durante trezentos anos.

Ela conteve a respiração. É tão velho?

Ele teve que rir.

— Sim.

— Bom, tenho que dizer que se conserva muito bem. — Seu sorriso murchou.— Quanto tempo viverei?

Uma onda de medo frio o impactou, fazendo que seu coração se paralisasse durante um instante.

O que aconteceria se ela não sobrevivesse à transição?

Wrath sentiu que o estômago se revolvia. É, que estava acostumado a enfrentar os maiores perigos, de repente, sentia ranger o intestino com um medo mortal e primitivo.

Ela tinha que viver, de acordo? De acordo?

Colocou-se a olhar ao teto, perguntando-se com quem diabos estava falando. Com a Virgem Escriba?

— Wrath?

Atraiu Beth para si e lhe deu um forte abraço, como se quisesse protegê-la daquele destino incerto.

— Wrath — disse ela em seu ombro. — Wrath, querido, não posso... Não posso respirar.

Soltou-a imediatamente e a olhou fixamente, tentando perceber algo com seus olhos moribundos. A incerteza retesou a pele de suas têmporas.

— Wrath? O que acontece?

— Nada.

— Não respondeu a minha pergunta.

— É porque não sei a resposta.

Ela pareceu desconcertada, mas então ficou nas pontas dos pés e o beijou nos lábios.

— Bem, seja qual for o tempo que fique, desejaria que ficasse comigo esta noite.

Um golpe na porta interrompeu sua conversa.

— Wrath — A voz do Rhage retumbou através do aço. — Já chegamos todos.

Beth deu um passo atrás. O pôde sentir que ela era extraordinariamente vulnerável.

Esteve tentado a encerrá-la com chave, mas não poderia suportar mantê-la prisioneira. E seu instinto lhe dizia que apesar do muito que ela quisesse que as coisas fossem diferentes, resignava-se a seu destino, assim como ao papel que ele desempenhava. Também, de momento, estava a salvo dos lessers, pois eles a veriam somente como uma humana.

— Estará aqui quando eu retornar? — perguntou ele, colocando a jaqueta.

— Não sei.

— Se sair, necessito saber onde encontrá-la.

— Por que?

— A transição, Beth. Estará mais segura se ficar.

— Talvez.

Ele guardou a maldição. Não ia rogar lhe.

— A outra porta que há no vestíbulo — disse ele — vai dar ao quarto de seu pai. Pensava que você gostaria de entrar ali.

Wrath saiu antes de ficar em ridículo.

Os guerreiros não rogavam, e raras vezes perguntavam. Tomavam o que queriam e matavam por isso se fosse necessário. Mas no fundo de sua alma esperava que ela estivesse ali quando voltasse. Gostava da ideia de encontrá-la dormindo em sua cama.

 

Beth entrou no banheiro e tomou uma ducha, deixando que a água quente aliviasse seus nervos. Quando saiu e se secou, viu uma bata negra em um varal. Colocou-a.

Cheirou as lapelas do objeto e fechou os olhos. Estava impregnada com o aroma do Wrath, uma mescla de sabão, loção de barbear e...

Vampiro macho.

Santo Deus. De verdade estava acontecendo tudo aquilo? Dirigiu-se ao quarto. Wrath tinha deixado o armário aberto. Sentiu curiosidade por revisar sua roupa. Mas o que encontrou foi um esconderijo de armas que a deixou petrificada.

Pensou em partir, e embora quisesse fazê-lo, sabia que Wrath tinha razão: ficar era mais seguro.

E a quarto de seu pai era uma tentação.

Daria uma olhada. Esperava que o que encontrasse ali não lhe provocasse palpitações. Deus era testemunha de que seu amado não fazia mais que lhe dar um susto atrás de outro.

Ao sair para o corredor, fechou as lapelas da bata. As lâmpadas de gás piscaram, fazendo com que as paredes parecessem vivas enquanto fixava a vista na porta do outro lado do corredor. Antes de perder o interesse, caminhou até ali, girou o maçaneta e empurrou.

A escuridão a saudou do outro lado, um muro negro que recordava a um poço sem fundo ou um espaço infinito. Transpassou a soleira e tateou a parede em busca de um interruptor da luz, que não pôde encontrar.

Avançando no vazio, moveu-se devagar para a esquerda até que seu corpo se chocou com um objeto grande. Pelo som dos puxadores de bronze e o aroma de cera de limão, supôs que tinha tropeçado com uma cômoda alta. Seguiu caminhando, medindo com cuidado até que encontrou um abajur.

Piscou ante a luz. A base do abajur era um fino vaso oriental e a mesa sobre a qual se apoiava era de mogno esculpida. Sem dúvida, a residência estava decorada com o mesmo estilo magnífico do piso superior.

Quando seus olhos se adaptaram a aquela tênue iluminação, deu uma olhada ao redor.

— Oh..., Deus... meu.

Havia fotografias dela por toda parte. Em branco e negro, primeiros planos, em cor. Era ela em todas as idades, de criança, em sua adolescência, na universidade. Uma delas era muito recente, e tinha sido tirada enquanto saía do escritório do Caldwell Courier Journal. Recordava esse dia. Tinha sido a primeira nevada do inverno, e estava rindo enquanto olhava ao céu. Fazia oito meses.

A ideia de não ter podido conhecer seu pai só por uma escassa margem de tempo a impactou como algo trágico. Quando tinha morrido? Como tinha vivido?

Uma coisa estava clara: tinha muito bom gosto e muito refinamento. E, obviamente, gostava das coisas deliciosas. O imenso espaço privado de seu pai era extraordinário. As paredes, de uma cor vermelha profunda, exibiam outra coleção espetacular de paisagens da Escola do Rio Hudson com molduras belamente decoradas. O chão estava coberto de tapetes orientais azuis, vermelhos e dourados que brilhavam como vidraças de cores. A cama era o objeto mais magnífico da quarto. Uma antiguidade maciça, esculpida à mão, com cortinados de veludo vermelho que penduravam de um dossel. Na mesinha da esquerda havia um abajur e outra fotografia dela; na da direita, um relógio, um livro e um copo.

Ele havia dormido nesse lado.

Aproximou-se para olhar o livro, delicadamente encadernado em pele. Estava em francês. Debaixo havia uma revista. Forbes. Voltou a colocá-los em seu lugar e logo olhou o copo. Ainda ficava um pouco de água no fundo.

Ou alguém estava dormindo ali agora... ou talvez seu pai tivesse morrido muito recentemente.

Deu um olhar a seu redor procurando roupa ou uma mala que lhe indicasse que havia um convidado. O escritório de mogno no outro lado do quarto chamou sua atenção. Aproximou-se e se sentou em sua poltrona com forma de trono, de braços esculpidos. Ao lado de sua pasta de couro havia um monte de papéis. Eram as faturas dos gastos da casa. Eletricidade, telefone, água... Todas em nome do Fritz.

Tudo era tão absolutamente... cotidiano. Ela tinha as mesmas coisas em seu escritório.

Beth voltou a olhar o copo sobre a mesinha.

A vida dele tinha sido interrompida bruscamente, pensou. Sentindo-se como uma intrometida, mas incapaz de resistir, abriu uma gaveta da escrivaninha. Canetas Montblanc, grampos, um grampeador. Fechou-a e abriu outra maior. Estava cheia de arquivos. Registros financeiros.

Por todos os céus. Seu pai estava bem ocupado. Verdadeiramente ocupado.

Olhou outra página. Carregado de milhões e milhões. Voltou a colocar o arquivo em seu lugar e fechou a gaveta. Aquilo explicava muitas coisas. A casa, a coleção de arte, o carro, o mordomo.

De um lado do telefone havia uma fotografia dela em uma moldura prateada. Agarrou-a e tentou imaginá-lo olhando-a. Haveria alguma fotografia dele?, perguntou-se.

Acaso se podia fotografar a um vampiro?

Perambulou pela residência de novo, olhando cada uma das molduras. Só ela. Só ela. Só...

Beth se inclinou, alcançando com mão trêmula uma moldura de ouro.

Continha um retrato em branco e negro de uma mulher de cabelo escuro que olhava timidamente à câmara. Tinha a mão sobre o rosto, como se sentisse vergonha.

Aqueles olhos, pensou Beth intrigada. Tinha contemplado no espelho um par de olhos idênticos a aqueles durante todos os dias de sua vida.

Sua mãe.

Roçou com o dedo indicador o interior do vaso.

Sentando-se às cegas na cama, aproximou a fotografia de seus olhos tanto como pôde sem que a visão ficasse imprecisa. Como se a proximidade da imagem anulasse a distância temporária e a levasse até a mulher encantadora que havia na moldura.

Sua mãe.

 

Isto está melhor, pensou o senhor X enquanto carregava um inconsciente vampiro civil sobre o ombro. Arrastou rapidamente ao macho através do beco, abriu a parte de trás da caminhonete e se desfez de sua presa como se fosse um saco de batatas. Teve a precaução de colocar uma manta negra de lã cobrindo sua carga.

Sabia que desta vez seu plano teria êxito, e aumentar a dose do tranquilizante Domosedan e acrescentar Acepromazina[5] tinha feito a diferença. Sua intuição de usar tranquilizantes para cavalos em lugar de sedativos destinados a humanos tinha sido correta. Apesar de tudo, o vampiro tinha necessitado dois dardos da Acepromazina antes de cair.

O senhor X olhou por cima do ombro antes de colocar-se atrás do volante. A prostituta que tinha matado estava estendida sobre um bueiro; seu sangue saturado de heroína penetrava pela boca-de-lobo. A amável moça até o tinha ajudado com a agulha. Certamente, ela não esperava que a droga tivesse uma pureza de 100%.

Nem que corresse por suas veias em uma quantidade suficiente para fazer alucinar a um elefante.

A polícia a encontraria pela manhã, mas ele tinha sido muito cuidadoso: luvas de látex, uma boina sobre o cabelo e roupa de náilon de uma malha muita densa que não soltava fibras.

E além disso, ela não tinha lutado.

O senhor X ligou o motor pausadamente e deslizou através da rua Trade.

Um fino brilho de suor causado pela excitação apareceu sobre seu lábio superior. Aquela sensação da adrenalina bombeada por seu corpo o fez sentir falta dos dias em que ainda podia desfrutar do sexo. Embora o vampiro não tivesse nenhuma informação para dar, ia divertir-se o resto da noite.

Pensou que podia começar com o malho.

Não, seria melhor o torno de dentista sob as unhas.

Isso debilitaria imediatamente ao macho. Depois de tudo, não tinha muito sentido torturar a alguém que perdeu o conhecimento. Seria como dar patadas a um cadáver. Ele tinha que ser consciente de sua dor.

Escutou um leve ruído procedente da parte traseira. Olhou por cima de seu ombro. O vampiro se movia sob a manta. Bem. Estava vivo.

O senhor X dirigiu de novo a vista à estrada y, franzindo o cenho, inclinou-se para diante, segurando com força o volante.

Diante dele viu o brilho de umas luzes de freio. Os carros estavam parados em uma longa fila. Um punhado de cones de cor laranja obrigavam a parar, E as luzes intermitentes azuis e brancas anunciavam a presença da polícia. Um acidente?

Não. Um controle. Dois policiais com lanternas examinavam o interior dos veículos, e de um lado do meio-fio tinham colocado um pôster no qual se lia: «Controle de dosagem alcóolica».

O senhor X pisou no freio. Procurou em sua bolsa negra, tirou sua pistola de dardos E disparou outros dois tiros no vampiro para sossegar o ruído. Com os vidros escuros e a manta negra cobrindo a sua vítima, talvez passasse sem maiores problemas, desde que o macho não se movesse.

Quando chegou sua vez, baixou o vidro enquanto o policial se aproximava. A luz da lanterna do homem se refletiu no painel, produzindo um resplendor.

— Boa noite, oficial. — O senhor X adotou uma expressão afável.

— Esteve bebendo esta noite, senhor?

O policial, de meia idade, tinha um aspecto anódino e vulgar. Seu bigode necessitava um bom acerto e seu cabelo cinza sobressaía de sua boina descuidadosamente. Parecia um cão pastor, mas sem o colar antipulgas e a cauda.

— Não, oficial. Não bebi.

— Ouça, eu o conheço.

— De verdade? — O senhor X sorriu ainda mais enquanto olhava para o pescoço do homem. A raiva o levou a pensar na faca que tinha na porta do carro. Esticou um dedo e roçou a manga, tratando de tranquilizar-se.

— Sim, você ensina jiu-jitsu a meu filho. — Quando o policial se inclinou para trás, sua lanterna se balançou um pouco, iluminando a bolsa negra que havia no assento do lado.

— Darry, vêem conhecer o sensei do Billy.

Enquanto o outro policial caminhava para eles, o senhor X aproveitou para comprovar se a bolsa tinha a zíper fechado. Seria uma desgraça que vissem a pistola de dardos ou a Glock de nove milímetros que levava oculta ali.

Durante cinco minutos, teve uma agradável conversa com os dois policiais enquanto fantasiava sobre a maneira de acabar com eles. Quando colocou em marcha a caminhonete, surpreendeu-se de ter a faca na mão, quase em seu colo.

Teria que desafogar-se jogando fora toda aquela agressividade.

 

Wrath olhou com atenção os imprecisos contornos do edifício comercial de um só piso. Durante as duas últimas horas, ele e Rhage tinham estado vigiando a Academia de Artes Marciais Caldwell, tentando descobrir se ali se desenvolvia alguma atividade noturna. As instalações estavam situadas em um extremo do centro comercial, ao lado de uma fila de árvores. Rhage, que na noite anterior tinha visitado o lugar, calculava que ocupava uma superfície de uns seis mil metros quadrados.

Suficientemente grande para ser o centro de operações dos lessers. O estacionamento se estendia até a frente da academia, com quinze lugares de cada lado. Tinha duas entradas: a principal, com portas de vidro duplo, e uma lateral sem ventilação. De sua posição estratégica no bosque, podiam ver tanto o estacionamento vazio como as entradas e saídas do edifício.

O resto dos acessos só eram becos sem saída. Pelo Gold's Gym não tinham desfilado mais que sujeitinhos. Fechava a meia-noite e abria às cinco da madrugada, e esteve silencioso nas duas últimas noites. No campo de paintball acontecia o mesmo, ficava vazio do momento em que fechava suas portas. As melhores opções eram as duas academias, e Vishous e os gêmeos estavam no outro lado da cidade vigiando a outra.

Embora os lessers não tivessem problemas com a luz diurna, saíam a caçar de noite porque era então quando suas presas estavam em movimento. Perto do amanhecer, os centros de recrutamento e treinamento da Sociedade eram utilizados como lugares de reunião, embora nem sempre. Além disso, devido aos lessers mudarem de lugar com frequência, um desses centros podia estar ativo durante alguns meses, ou talvez um ano, e depois ser abandonado.

Como Darius tinha sido atacado fazia só alguns dias, Wrath esperava que a Sociedade ainda não tivesse mudado.

Apitou seu relógio.

— Demônios, são quase três.

Rhage se apoiou contra a árvore que tinha a suas costas.

— Então suponho que Tohr já não virá esta noite. Wrath deu de ombros, esperando ansiosamente que seu companheiro aparecesse.

Não o fez.

— É estranho nele. — Rhage fez uma pausa.

— Mas não parece surpreso.

— Não.

— Por que?

Wrath voltou a dar de ombros.

— Enfrentei-o, e não devia fazê-lo.

— Não vou perguntar.

— Muito sensato por sua parte. — E logo, por alguma razão absurda, acrescentou

— Preciso me desculpar com ele.

— Isso será uma novidade.

— Sou tão detestável?

— Não — respondeu Rhage sem sua habitual fanfarronice.

— Só que não se equivoca com tanta frequência.

Vindo de Hollywood, a franqueza foi surpreendente.

— Bom, o que disse ao Tohr foi algo realmente repugnante.

Rhage bateu-lhe nas costas.

— Com a ampla experiência que tenho ofendendo às pessoas, me deixe dizer que não há nada que não possa arrumar-se.

— Colocou a Wellsie nisto.

— Essa não foi uma boa ideia.

— E o que ele sente por ela.

— Merda.

— Sim. Mais ou menos.

— por que?

— Porque eu...

Porque tinha sido um idiota ao rechaçar os conselhos de Tohr sobre um assunto que dirigia com enorme êxito fazia dois séculos. Apesar de que Tohr ser um guerreiro, mantinha uma relação com uma fêmea de grande valia. E era uma boa união, forte, amorosa. Ele era o único dos irmãos que tinha podido fazer isso.

Wrath pensou na Beth. Imaginava vindo para ele, lhe pedindo que ficasse.

Estava desejoso de encontrá-la em sua cama quando voltasse para casa. E não porque queria possuí-la. Queria dormir a seu lado, descansar um pouco, sabendo que ela estava segura junto a ele.

Ah, diabos. Tinha o terrível pressentimento de que teria que permanecer perto dessa fêmea durante algum tempo.

— Por que? — repetiu Rhage.

Wrath sentiu cócegas no nariz. Um aroma adocicado, como de talco para bebês, flutuava na brisa.

— Estende o tapete vermelho de boas vindas — disse enquanto desabotoava a jaqueta.

— Quantos? — perguntou Rhage, dando meia volta. Estalos de ramos e rangidos de folhas ressoaram na noite, e se fizeram cada vez mais fortes.

— Pelo menos três.

— Caramba.

Os lessers vinham diretamente para eles, através de uma clareira no arvoredo. Faziam ruído, falando e caminhando despreocupadamente, até que um deles se deteve. Os outros dois fizeram o mesmo, guardando silêncio.

— Boa noite, moços — disse Rhage, saindo ao descampado.

Wrath se aproximou em silêncio. Quando os lessers rodearam a seu irmão inclinando-se e tirando as facas, ele avançou por entre as árvores.  

Então saiu das sombras e levantou do chão a um dos lessers, e então começou a luta. Cortou-lhe a garganta, mas não teve tempo de concluir. Rhage tinha se ocupado de dois deles, mas o terceiro estava a ponto de atingir ao irmão na cabeça com um taco de beisebol.

Wrath se precipitou sobre aquele rebatedor sem alma, derrubando-o e apunhalando-o na garganta. Um grito afogado borbulhou no ar. Wrath deu uma olhada a seu redor, se por acaso havia mais ou seu irmão necessitava ajuda.

Rhage estava perfeitamente bem.

Apesar de sua escassa visão, Wrath pôde perceber a extraordinária beleza do guerreiro quando lutava. Lançava seus punhos e patadas com movimentos rápidos e ágeis. Estava dotado de uns reflexos animais, com uma enorme potencia e resistência. Era um mestre do combate corpo a corpo, e os lessers mordiam o pó uma e outra vez, e com cada golpe era mais difícil levantar-se.

Wrath retornou junto ao primeiro lesser e se ajoelhou sobre o corpo. Ele se retorceu enquanto revistava os bolsos e pegava todos os documentos de identificação que pôde encontrar.

Estava a ponto de apunhalá-lo no peito quando ouviu um disparo.

 

Então, Butch, vai esperar até que eu saia esta noite? – Abby sorriu, lhe servindo outro uísque.

— Talvez.

Não queria, mas depois de outro par de goles poderia mudar de opinião. Caso ainda pudesse levantar-se se estivesse bêbado.

Com um giro para a esquerda, ela viu atrás dele a outro cliente, e lhe dirigiu uma piscada enquanto lhe mostrava um pouco o decote. Sempre terá que ter um plano B. Provavelmente era uma boa ideia.

O telefone de Butch vibrou em seu cinturão.

— Sim?

— Temos outra prostituta morta — disse José. — Pensei que quisesse saber.

— Onde? — Saltou do assento no balcão como se tivesse que ir a alguma parte. Logo se sentou outra vez, devagar.

— Trade e Quinta. Mas não venha. Onde está?

— No McGrider's.

— Me dá dez minutos?

— Aqui estarei.

Butch afastou o copo enquanto a frustração o rasgava. Ia terminar assim? Embebedando-se todas as noites? Ou talvez trabalhando como investigador privado ou como guarda de segurança até que fosse despedido por indolência? Vivendo só nesse apartamento de dois quartos até que seu fígado deixasse de funcionar?

Nunca tinha sido bom para fazer planos, mas talvez tivesse chegado o momento de traçar alguns.

— Não gostou do uísque? — perguntou Abby, emoldurando o copo com seus seios.

Em um ato reflexo, ele alcançou o maldito copo, aproximou-o de seus lábios e bebeu.

— Esse é meu homem.

Mas quando foi servir outro, ele cobriu a boca do copo com a mão.

— Acredito que é suficiente por esta noite.

— Sim, está bem. — Ela sorriu quando ele sacudiu a cabeça.

— Bem, sabe onde me encontrar.

Sim, desgraçadamente.

José demorou muito mais de dez minutos. Passou quase meia hora antes de que Butch visse a figura austera de seu companheiro atravessando a multidão de bebedores que naquela hora se amontoavam no bar.

— Nós a conhecemos? — perguntou Butch antes de que o homem pudesse sentar-se.

— Outra do cafetão Big Daddy. Carla Rizzoli, aliás Candy.

— O mesmo modus operandi?

José pediu uma vodca só.

— Sim. Talho na garganta, sangue por toda parte. Tinha uma substância nos lábios, como se lhe tivesse saído espuma pela boca.

— Heroína?

— Provavelmente. O forense fará a autópsia amanhã a primeira hora.

— Encontrou-se algo no cenário?

— Um dardo. Como o que se dispara em um animal. Estamos analisando-o. — José olhou o vodca com uma rápida inclinação de sua cabeça. — E ouvi que Big Daddy's está furioso. Anda procurando vingança.

— Sim, bem, espero que tome contra o namorado da Beth. Talvez uma guerra tire de seu esconderijo a esse bastardo. — Butch apoiou os cotovelos sobre a barra e esfregou os olhos irritados. — Maldição, não posso acreditar que ela o esteja protegendo.

 

— A verdade é que nunca o teria imaginado. Finalmente escolheu a alguém.

— E é um completo delinquente.

José o olhou.

— Vamos ter que detê-la.

— Suponho. — Butch piscou, entreabrindo os olhos. Escuta, supõe-se que manhã a verei. Me deixe falar com ela primeiro. Deixará?

— Não posso fazer isso, O’Neal. Você não...

— Sim, pode fazê-lo. Só programa a detenção para o dia seguinte.

— A investigação está avançando para...

— Por favor. — Butch não podia acreditar que estivesse rogando.

— Vamos, José. Eu posso melhor que ninguém conseguir que raciocine.

— E isso por que?

— Porque ela viu como quase me mata.

José baixou o olhar à imunda superfície do balcão.

— Dou um dia. E é melhor que ninguém se inteire, porque o capitão me cortaria a cabeça. Logo, aconteça o que acontecer, a interrogarei na delegacia de polícia.

Butch assentiu com a cabeça enquanto Abby retornava rebolando com uma garrafa de escocês em uma mão e uma de vodca na outra.

— Parecem secos, moços — disse com uma risadinha. A mensagem em seu fresco sorriso e seus olhos limpos se fazia cada vez mais forte, mais desesperada à medida que a noite se aproximava de seu fim.

Butch pensou em sua carteira vazia. Seu coldre vazio. Seu apartamento vazio.

— Tenho que sair dela — murmurou, deslizando para fora do assento. — Quero dizer, daqui.

 

O braço do Wrath absorveu a descarga da escopeta de caça, e o impacto retorceu seu torso como se fosse uma corda. Com a força do disparo, caiu girando ao chão, mas não ficou aí. Movendo-se rapidamente e ao mesmo nível do chão, conseguiu afastar-se do caminho, sem dar ao atirador a oportunidade de acertá-lo de novo.

O quinto dos lessers tinha saído de alguma parte e estava armado até os dentes com uma escopeta de cano serrado.

Atrás de um pinheiro, Wrath examinou rapidamente a ferida. Era pouco profunda. Tinha afetado a uma parte do músculo de seu braço, mas o osso estava intacto. Ainda podia lutar.

Tirou uma estrela de arremesso e saiu ao descampado.

E foi então que uma tremenda labareda iluminou a clareira.

Saltou de novo para as sombras.

— Por Cristo!

Agora sim tinha chegado a hora. A besta estava saindo de Rhage. E a coisa ia ficar muito feia.

Os olhos do Rhage brilharam como as brancas luzes de um carro à medida que seu corpo se rasgava e transformava. Um ser horrível ocupou seu lugar, com suas escamas reluzentes à luz da lua e suas garras esfaqueando o ar. Os lessers não souberam o que os atingiu quando aquela criatura os atacou com as presas nuas, perseguindo-os até que o sangue correu por seu enorme peito como uma verdadeira corrente.

Wrath ficou atrás. Já tinha visto aquilo antes, e a besta não necessitava ajuda. Diabos, se aproximava muito, corria o perigo de receber um golpe de sua fúria.

Quando tudo terminou, a criatura soltou um uivo tão forte que as árvores se dobraram e seus ramos se partiram em dois.

A matança foi absoluta. Não havia esperança de identificar a nenhum dos lessers porque não ficava nenhum corpo. Até suas roupas tinham sido consumidas.

Wrath saiu para a clareira.

A criatura girou ao redor, ofegando.

Wrath manteve a voz tranquila e as mãos baixadas. Rhage estava ali em alguma parte, mas até que voltasse, não havia forma de saber se a besta recordava quem eram os irmãos.

— Já terminou — disse Wrath

— Você e eu já fizemos isso antes.

O peito da besta subia e baixava, e, seus orifícios nasais tremiam como se farejassem o ar. Os olhos resplandecentes se fixaram no sangue que corria pelo braço do Wrath. Emitiu um bufo. As garras se elevaram.

— Esquece-o. Já fez sua parte. Já se alimentou. Agora, recuperemos ao Rhage.

A grande cabeça se agitou de um lado a outro, mas suas escamas começaram a vibrar. Um grito de protesto abriu uma brecha na garganta da criatura, e então houve outra labareda.

Rhage caiu nu ao chão, aterrissando com o rosto para baixo.

Wrath correu para ele e se deixou cair de joelhos, estendendo a mão. A pele do guerreiro brilhava devido ao suor, e se agitava como um recém-nascido em meio do frio.

Rhage reagiu quando seu companheiro o tocou. Tentou erguer a cabeça, mas não pôde.

Wrath pegou na mão do irmão e a apertou. A queimação quando voltava a recuperar-se sempre era uma merda.

— Relaxe, Hollywood, está bem. Está perfeitamente bem. — tirou a jaqueta e, cobriu suavemente a seu irmão.

— Aguenta e deixa que eu cuide, de acordo?

Rhage resmungou algo e se encolheu feito um novelo. Wrath abriu seu celular móvel e marcou.

— Vishous? Necessitamos um carro. Agora. Não brinque. Não, tenho que transportar o nosso moço. Tivemos uma visita de seu outro lado. Mas não diga nada ao Zsadist.

Desligou e olhou ao Rhage.

— Odeio isto — disse o irmão.

— Já sei. — Wrath retirou o cabelo pegajoso, empapado em sangue, do rosto do vampiro. — Levaremos você para sua casa.

— Fiquei furioso ao ver que disparavam em você.

Wrath sorriu suavemente.

— Está claro.

 

Beth se mexeu, afundando-se mais profundamente no travesseiro.

Algo não ia bem.

Abriu os olhos no momento em que uma profunda voz masculina quebrava o silêncio:

— Que demônios temos aqui?

Ela se ergueu, olhando freneticamente para o lugar de onde saiu o som.

O homem impressionante que estava ante ela tinha os olhos negros, inanimados, e um rosto de duras feições sulcado por uma cicatriz dentada. Seu cabelo era tão curto que virtualmente parecia raspado. E suas presas, longas e brancas, estavam aparecendo.

Ela gritou. Ele sorriu.

—Meu som favorito.

Beth colocou uma mão sobre a boca.

Deus, essa cicatriz. Atravessava-lhe a fronte, passava sobre o nariz e a bochecha, e girava ao redor da boca. Um extremo daquela horripilante ferida serpenteante torcia seu lábio superior, arrastando-o para um lado em um permanente sorriso de desprezo.

— Admirando minha obra de arte?, — pronunciou ele com lentidão. — Deveria ver o resto de meu corpo.

Os olhos dela se fixaram em seu amplo peito. Levava uma camisa negra, de manga larga, pega à pele. Em ambos os peitorais eram evidentes uns anéis pequenos sob o tecido, como se tivesse piercings nos bicos dos peitos. Quando voltou a olhá-lo ao rosto, viu que tinha uma banda negra tatuada ao redor do pescoço e um brinco no lóbulo esquerdo.

— Formoso, não acredita? — Seu frio olhar era um pesadelo de lugares escuros sem esperança, do mesmo inferno.

Seus olhos eram o mais aterrador dele.

E estavam fixos nela como se estivesse tomando as medidas para uma mortalha. Ou selecionando-a para o sexo.

Ela moveu o corpo longe dele, e começou a olhar a seu redor procurando algo que pudesse usar como arma.

— O que acontece, você não gosta?

Beth olhou para a porta, e ele riu.

— Pensa que pode correr com suficiente rapidez? — disse ele, tirando as abas da camisa das calças de couro que usava. Suas mãos posaram sobre a braguilha. — Estou seguro de que não pode.

— Afaste-se dela, Zsadist.

A voz do Wrath foi um doce alívio. Até que viu que não usava camisa e que seu braço estava na tipóia.

Ele apenas a olhou.

— É hora de que vá, Z. — Zsadist sorriu friamente.

— Não quer compartilhar a fêmea?

— Só gosta quando paga por ela.

— Então conseguirei uma de vinte. Supondo que sobreviva quando terminar com ela.

Wrath continuou aproximando-se do outro vampiro, até que se encontraram cara a cara. O ar rangeu a seu redor, sobrecarregado de violência.

— Não vai tocá-la, Z. Nem sequer a olhará. Vai lhe dar boa noite e sair daqui. — Wrath tirou a tipóia, deixando ver uma atadura no bíceps. Havia uma mancha vermelha no centro, como se estivesse sangrando; mas parecia disposto a encarregar-se do Zsadist.

— Aposto que o incomoda ter necessitado que o trouxessem para casa esta noite — disse Zsadist

— E que eu fosse o mais próximo com um carro disponível.

— Não me faça lamentá-lo mais.

Zsadist deu um passo à esquerda, e Wrath avançou para ele, usando seu corpo para interpor-se em seu caminho.

Zsadist riu entre dentes com um retumbar profundo e maligno.

— Realmente está disposto a lutar por um humano?

— Ela é a filha de Darius.

Zsadist inclinou a cabeça. Seus profundos olhos negros examinaram suas feições. Depois de um instante, seu rosto brutal pareceu suavizar-se, adoçando seu sorriso depreciativo. E imediatamente começou a arrumar a camisa enquanto a olhava de esguelha, como se estivesse desculpando-se.

Entretanto, Wrath não se afastou.

— Como se chama? — perguntou-lhe Zsadist.

— Chama-se Beth. — Wrath escondeu com sua cabeça o campo visual de Zsadist.

— E você vai sair.

Houve uma longa pausa.

— Sim. Claro.

Zsadist se dirigiu à porta, balançando-se com o mesmo movimento letal com que o fazia Wrath. Antes de sair, deteve-se e olhou para trás.

Devia ter sido verdadeiramente atraente alguma vez, pensou Beth. Embora não fosse a cicatriz o que o fazia pouco atraente. Era o fogo maligno que emanava de seu interior.

— Prazer em conhecê-la, Beth.

Ela soltou o ar que esteve retendo quando a porta se fechou e os ferrolhos foram colocados em seu lugar.

— Está bem? — perguntou Wrath. Ela pôde sentir seus olhos lhe percorrendo o corpo, e logo tomou suas mãos suavemente

— Não..., não tocou em você, verdade? Ouvi que gritava.

— Não. Não, só me deu um susto de morte. Despertei e ele estava no quarto.

O vampiro se sentou na cama, acariciando-a como acreditasse que estava bem. Quando pareceu satisfeito,colocou os cabelo para trás. As mãos tremiam.

— Está ferido — disse ela. — O que aconteceu?

Ele a rodeou com o braço são e a apertou contra dele.

— Não é nada.

— Então por que necessita um tipóia? E uma agulha? E por que ainda está sangrando?

— Shhh. — Ele colocou o queixo sobre sua cabeça. Pôde sentir que o corpo tremia.

— Está doente? — perguntou ela.

— Só tenho que abraçar você um minuto. De acordo?

— Absolutamente.

Logo que seu corpo relaxou, ela se afastou. — O que ocorre?

Ele segurou o rosto com as mãos e a beijou com delicadeza. — Não teria suportado que ele a tivesse... afastado de mim.

— Esse tipo? Não se preocupe, não iria com ele a nenhuma parte. — E então compreendeu que Wrath não estava falando de uma encontro. — Pensa que poderia ter me matado?

Essa era uma possibilidade que, certamente, não parecia impossível, sobre tudo depois de ter visto a frieza daqueles olhos.

Em vez de responder, a boca do Wrath posou de novo sobre a sua.

Ela o deteve.

— Quem é? E o que aconteceu?

— Não a quero perto de Z outra vez. Nunca. — Passou-lhe uma mecha de cabelo por atrás da orelha. Seu tato era terno. Sua voz, não. — Está me escutando?

Ela assentiu. — Mas o que...?

— Se ele entrar em uma sala e eu não estiver em casa, vêem me buscar. Se não estiver, tranque-se com chave em uma das salas de baixo. As paredes são feitas de aço, assim não pode materializar-se dentro. E nunca o toque. Nem sequer por descuido.

— É um guerreiro?

— Entende o que eu estou dizendo?

— Sim, mas ajudaria se soubesse um pouco mais.

— É um dos irmãos, mas falta pouco para não ter alma. Desgraçadamente, necessitamos dele.

— Por que, se é tão perigoso? Ou o é só com as mulheres?

— Odeia a todo mundo. Exceto a seu gêmeo, talvez.

— Oh, estupendo. Há dois como ele?

— Graças a Deus também há Phury. Ele é o único que pode apaziguar a Z, e mesmo assim, não é seguro totalmente. — Wrath a beijou na fronte.

— Não quero assustar você, mas necessito que tome isto a sério. Zsadist é um animal, mas acredito que respeitava a seu pai, assim possivelmente a deixe em paz. Não posso correr riscos com ele. Ou com você. Me prometa que se manterá afastada dele.

— De acordo. — Ela fechou os olhos, apoiando-se no Wrath. Ele a rodeou com o braço, mas logo se separou.

— Vamos. — Colocou-a de pé

— Venha para meu quarto. Quando entraram na quarto de Wrath, Beth ouviu como a ducha se fechava. Um momento depois, a porta do banho se abriu.

O outro guerreiro que tinha conhecido antes, o atraente que parecia uma estrela de cinema que estava costurando uma ferida, saiu lentamente. Tinha uma toalha envolta ao redor da cintura e o cabelo gotejava. Movia-se como se tivesse oitenta anos, como se lhe doesse cada músculo do corpo.

Santo Deus, pensou ela, Não tinha muito bom aspecto, E parecia acontecer algo no estômago. Estava volumoso, como se tivesse tragado uma bola de basquete. Perguntou-se se a ferida que tinha visto costurar teria se infectado. Parecia febril. Deu uma olhada no seu ombro e franziu o cenho surpreendida ao ver que quase não ficava um arranhão. Dava a sensação de que aquela lesão era vai antiga.

— Rhage, como se sente? — perguntou Wrath, separando-se dela.

— Dói-me o ventre. — Sim.

— Posso imaginá-lo.

Rhage cambaleou um pouco enquanto dava um olhar ao redor do quarto, com os olhos apenas abertos.

— Vou para casa. Onde está minha roupa?

— Perdeu-a. — Wrath colocou seu braço são ao redor da cintura de seu irmão. — E não irá, ficará na residência de D.

— Não o farei.

— Não comece. E não estamos brincando. Quer se apoiar em mim, pelo amor de Deus?

O outro homem fraquejou, e os músculos das costas do Wrath se retesaram ao carregar o peso. Saíram lentamente ao corredor e se dirigiram ao quarto do pai de Beth. Ela permaneceu a uma distância discreta, observando enquanto Wrath ajudava ao irmão a deitar-se na cama.

Quando o guerreiro se recostou sobre os travesseiros, fechou os olhos com força. Sua mão se moveu para o estômago, mas fez uma careta de dor e a deixou cair a um lado, como se a mais leve pressão fosse uma tortura.

— Está doente.

— Sim, uma maldita indigestão.

— Quer um antiácido? — disse bruscamente Beth. — Ou um Alka-Seltzer?

Os dois vampiros a olharam, ela se sentiu como uma intrusa.

De todas as coisas estúpidas que podia ter dito...

— Sim — murmurou Rhage enquanto Wrath cochilava.

Beth foi procurar sua bolsa e se decidiu pelo Alka-Seltzer porque continha um analgésico que podia aliviar os dores. No banheiro de Wrath, pôs água em um copo e colocou dentro a pastilha efervescente.

Quando voltou para o quarto de Darius, ofereceu o copo ao Wrath. Mas ele moveu a cabeça.

— Você o fará melhor que eu.

Ela se ruborizou. Era fácil esquecer que ele não podia ver.

Inclinou-se para o Rhage, mas estava muito longe. Subiu a bata, subiu ao colchão e se ajoelhou junto a ele. Sentiu-se incômoda por estar tão perto de um homem nu e viril diante de Wrath.

Sobretudo, se considerasse o que tinha acontecido ao Butch.

 

Mas Wrath não tinha nada com que preocupar-se ali. O outro vampiro podia ser tremendamente sexy, mas ela não sentia absolutamente nada quando estava a seu lado. E, a julgar por seu estado, estava segura de que ele não ia ultrapassar com ela.

Levantou a cabeça de Rhage suavemente e apoiou o borda do copo em seus formosos lábios. Levou cinco minutos para beber o líquido a pequenos goles. Quando terminou, ela quis descer da cama, mas não pôde. O homem, com uma grande sacudida girou de lado e colocou a cabeça em seu colo, colocando um musculoso braço ao redor das costas dela.

Estava procurando consolo.

Beth não sabia o que podia fazer por ele, mas deixou o copo de lado e lhe acariciou as costas, percorrendo com a mão sua espantosa tatuagem. Sussurrou-lhe algumas palavras que gostaria que alguém dissesse a ela quando se sentia doente. E cantarolou uma canção.

Após instantes, a tensão na pele e nos músculos relaxou, e começou a respirar profundamente.

Quando estava segura de que se tranquilizou, liberou-se cuidadosamente do abraço. Ao olhar ao Wrath, preparou-se para enfrentar a sua ira, embora estivesse segura de que ele compreenderia que havia agido de uma forma totalmente inocente.

A impressão a deixou imóvel.

Wrath não estava zangado. Justamente o contrário

— Obrigado — disse roucamente, inclinando a cabeça em um gesto quase humilde. — Obrigado por cuidar de meu irmão.

Tirou os óculos de sol.

E a olhou com total adoração.

 

O senhor X arrojou a serra sobre o banco de trabalho — limpou as mãos com uma toalha.

Bem, diabos, pensou. O maldito vampiro tinha morrido. Tinha tentado por todos os meios despertar ao macho, inclusive com o cinzel, e tinha revirado completamente o celeiro durante o processo. Havia sangue de vampiro por toda parte. Ao menos a limpeza seria fácil.

O senhor X se dirigiu para as portas duplas e as abriu. Justo nesse momento, o sol despontava sobre uma colina longínqua e uma encantadora luz dourada se ia estendendo suavemente por toda da paisagem. Retrocedeu quando o interior do celeiro se iluminou.

O corpo do vampiro explodiu com uma labareda, e o resto do sangue que empapava o chão sob a mesa se evaporo em uma nuvem de fumaça. Uma suave brisa matutina levou para longe o fedor da carne queimada.

O senhor X se dirigiu para a luz da manhã, olhando a neblina que começava a dissipar-se sobre a grama da parte traseira. Não estava disposto a assumir que tinha fracassado. O plano teria funcionado se não se encontrasse com esses policiais e não precisasse utilizar dois dardos suplementares com seu prisioneiro. Só precisava voltar a tentar

Sua obsessão pela tortura fazia com que se sentisse ansioso

Entretanto, no momento tinha que parar os assassinatos de prostitutas. Aqueles estúpidos policiais serviram também para lhe recordar que não podia agir quando tivesse vontade e que podiam prendê-lo.

A ideia de encontrar-se com a lei, — não era especialmente incômoda. Mas se orgulhava da perfeição de suas operações.

Por isso tinha escolhido às prostitutas como ceva. Supunha que se uma ou duas apareciam mortas, não seria motivo de escândalo. Era menos provável que tivessem uma família que chorasse por elas, por isso a polícia não estaria tão pressionada para deter o assassino. Quanto a inevitável investigação, teriam muitos suspeitos entre os alcoviteiras e delinquentes que trabalhavam nos becos, onde a polícia poderia escolher.

Mas isso não significava que pudesse tornar-se descuidado. Nem que abusasse do Vale das Prostitutas.

Retornou ao celeiro, guardou suas ferramentas e se dirigiu à casa. Revisou suas mensagens antes de tomar uma ducha.

Havia vários.

O mais importante era do Billy Riddle. Evidentemente, o moço tinha tido um encontro perturbador na noite anterior e tinha chamado pouco depois da uma da madrugada.

Era bom que estivesse procurando consolo, pensou o senhor X. E provavelmente tinha chegado o momento de ter uma conversa sobre seu futuro.

Uma hora depois, o senhor X se dirigiu à academia, abriu as portas e as deixou sem colocar o ferrolho.

Os lessers aos quais tinha ordenado reunir-se com ele para lhe informar começaram a chegar pouco depois. Pôde ouví-los falar em voz baixa no vestíbulo ao lado de seu escritório. No momento em que se aproximou deles, calaram-se e ficaram olhando-o. Vestiam trajes de tarefa negros, seus rostos estavam sombrios. Só havia um que não estava descolorido. O corte a escova do cabelo negro do senhor O destacava entre outros, ao igual a seus escuros olhos castanhos.

Conforme passava o tempo que permanecia um lesser na Sociedade, suas características físicas individuais iam se diluindo progressivamente. Os cabelos castanhos, negros e avermelhados ficavam cor cinza pálida, os matizes amarelados, carmesim ou bronzeados da pele se transformavam em um alvo descolorido. O processo geralmente demorava uma década, embora ainda se viam algumas mechas escuras ao redor do rosto de O.

Fez uma rápida recontagem. Todos os membros de seus dois primeiros esquadrões estavam ali, assim fechou com chave a porta exterior da academia e escoltou ao grupo ao porão. Suas botas ressonaram forte e nitidamente no vão da escada metálica.

O senhor X tinha preparado o centro de operações sem nada especial ou fora do comum. Simplesmente, tratava-se de uma antiga sala de aula com doze cadeiras, uma lousa, um televisor e um cadafalso à frente.

A escassa decoração não era só um disfarce. Não queria nenhuma distração de alta tecnologia. O único propósito daquelas reuniões era a eficácia e o dinamismo.

— Me contem o que aconteceu ontem à noite — disse ele, olhando aos assassinos. — Como foi?

Escutou os informes, fazendo caso omisso a toda espécie de desculpas. Só tinham matado a dois vampiros na noite anterior. E ele lhes tinha exigido dez.

E era uma desgraça que O, que era novato. Tivesse sido o responsável por ambas as mortes.

O senhor X cruzou os braços sobre o peito.

— Qual foi o problema?

— Não pudemos encontrar nenhum — disse o senhor M.

— Ontem à noite eu encontrei um — disse o senhor X. com brutalidade. — Com bastante facilidade, poderia acrescentar. E o senhor O, dois. — Bom, o resto de nós não pôde. — M olhou a outros. — O número nesta zona diminuiu.

— Não se trata de um problema geográfico — murmurou uma voz da parte de atrás.

O olhar do senhor X deslizou entre os lessers, detendo-se na escura cabeça de O, na parte traseira da residência. Não o surpreendeu absolutamente que o assassino tivesse falado.

Estava demonstrando ser um dos melhores, embora fosse um recruta novo. Com magníficos reflexos e vitalidade, era um grande lutador, mas como acontecia com todas as coisas possuidoras de uma força excessiva, era difícil de controlar. Por isso, o senhor X o tinha colocado em um grupo aonde havia outros com séculos de experiência. Mas era consciente de que O. era capaz de dominar qualquer grupo composto por indivíduos inferiores a ele.

— Importa-se de explicar um pouco mais detalhadamente, senhor 0? — Ao senhor X não interessava absolutamente sua opinião, mas queria mostrar o novo recruta aos outros.

O senhor O. deu de ombros despreocupadamente, e sua lentidão falando raiava no insulto.

— O problema é a motivação. Se um fracassa não acontece nada. Não há, consequências.

— E o que sugere exatamente — perguntou o senhor X. O se esticou para frente, agarrou M pelo cabelo e lhe cortou a garganta com uma faca.

Os outros lessers retrocederam de um salto, inclinando-se para tomar posições de ataque, apesar de que 0 voltou a sentar, limpando com os dedos a folha da faca com uma calma pasmosa.

O senhor X fez uma careta de desagrado, mas conseguiu controlar-se imediatamente.

Atravessou a residência até onde se encontrava M. O lesser ainda estava vivo, tratando de respirar e tentando conter com as mãos a perda de sangue.

O senhor X se ajoelhou.

— Fora todo mundo daqui. Agora. Nos reuniremos amanhã pela manhã, e espero escutar melhores notícias. Senhor O, você fica.

  1. desafiou a ordem e fez um movimento para levantar-se, mas o senhor X o aprisionou na cadeira, tirando o controle dos músculos de seu corpo. O homem pareceu momentaneamente impressionado, e tentou lutar contra a tenaz que agarrava seus braços e pernas.

Era uma batalha que não ganharia. O Omega sempre outorgava uma série de vantagens adicionais aos lessers chefes. E este tipo de domínio mental sobre os companheiros assassinos era uma delas.

Quando a sala ficou vazia, o senhor X tirou uma faca e apunhalou M no peito. Houve um brilho de luz e logo um estalo enquanto o lesser se desintegrava.

O senhor X olhou com ferocidade para O. do chão.

— Se alguma vez voltar a fazer algo assim, entregarei você ao Omega.

— Não, não o fará. — Apesar de estar a mercê do senhor X, a arrogância de O era desenfreada.

— Não acredito que tenha muito interesse em se apresentar ante o Omega como se não pudesse controlar a seus próprios homens.

O senhor X ficou de pé.

— Tome cuidado, O. Subestima o afeto do Omega pelos sacrifícios. Se o oferecesse como presente, agradeceria muito. — O senhor X percorreu a bochecha de O com um. — Se prendesse você e o chamasse, não haveria complacência. E eu gostaria de vê-lo.

O jogou a cabeça para trás bruscamente, mais zangado que assustado.

— Não me toque.

— Sou seu chefe. Posso fazer com você o que quiser. — O senhor X agarrou com uma mão o queixo de O, e introduziu o dedo polegar entre os lábios e os dentes do homem, empurrando o rosto do lesser. — Assim cuida de suas maneiras; não volte a matar nunca a outro membro da Sociedade sem minha permissão expressa, e nos daremos muito bem.

Os olhos castanhos de O arderam.

— O que me diz agora? — murmurou o senhor X, estendendo a mão e alisando o cabelo do homem para trás. Ficou de uma cor chocolate escuro. O lesser resmungou em voz baixa. — Não o ouvi. — O senhor X apertou o dedo polegar contra a parte suave e carnuda sob a língua de O, afundando-lhe até que apareceram lágrimas nos olhos de seu subordinado. Quando deixou de apertar, deu-lhe uma carícia rápida e úmida sobre o lábio inferior.

— Repito que não o ouvi.

— Sim, sensei.

— Bom moço.

 

Marissa não se sentia cômoda na cama. Não fazia mais que dar voltas, afagando os travesseiros, sem conseguir conciliar o sono nem fazer diminuir a irritação que sentia. Parecia que seu colchão estava cheio de pedras e seus lençóis se converteram em papel de lixa.

Separou as mantas e se dirigiu para as janelas fechadas e cobertas com grosas cortinas de cetim. Necessitava um pouco de ar fresco, mas não podia abrí-las. Já era de dia.

Sentou-se em uma poltrona, cobrindo os pés descalços com a barra de sua camisola.

Wrath.

Não podia deixar de pensar nele. E cada vez que uma imagem deles juntos vinha a sua memória, desejava soltar uma maldição, o que não podia deixar de surpreendê-la.

Ela era dócil, doce e amorosa. Toda perfeição e suavidade feminina. A ira ia totalmente contra sua natureza. Mas quanto mais pensava no Wrath, mais gana tinha de dar golpes contra algo.

Caso pudesse fechar os punhos.

Olhou as mãos. Claro que podia, embora fossem pateticamente pequenas.

Sobre tudo se as comparasse com as de Wrath.

Deus, tinha suportado muito. E ele nem sequer se deu conta do extraordinariamente difícil que tinha sido sua vida.

Ser a shellan virginal e intocável do vampiro mais poderoso de todos era um inferno em vida. Seu fracasso como fêmea tinha deixado sua auto-estima pelo chão. O isolamento tinha estado a ponto de afetar a sua prudência. Afligia-a a vergonha de viver com seu irmão por não ter um lar próprio.

E sempre se havia sentido horrorizada ante o olhar daqueles que falavam nas suas costas. Sabia que era um tema constante de conversa, invejada, compadecida, espiada. Para as fêmeas jovens contava sua história, mas não queria saber se era como advertência ou estímulo.

Wrath não era consciente de quanto tinha sofrido.

Mas parte da culpa era dela. Tinha acreditado que desempenhar o papel de fêmea boa era o correto, a única maneira de ser digna, a única possibilidade de compartilhar, finalmente, uma vida com ele.

Mas qual tinha sido o resultado?

Que ele tinha encontrado uma humana morena que o interessava mais.

Deus, a recompensa a todos seus esforços era injusta e claramente cruel.

E não era a única que tinha sofrido. Havers tinha sentido uma enorme preocupação por ela durante séculos.

Wrath, por outro lado, sempre esteve bem. E não cabia nenhuma dúvida de que, nesse momento, estava estupendamente. Certamente, agora se encontrasse na cama com aquela fêmea humana, fazendo bom uso desse mastro rígido que tinha entre suas coxas.

 

Marissa fechou os olhos.

Pensou na sensação de ser oprimida contra seu corpo, sustentada por seus fortes braços, consumida por ele. Ficou muito impressionada por sentir muito calor. Tinha-o sentido com grande ferocidade, com todo seu corpo, suas mãos lhe enredando o cabelo, sua boca lhe sugando fortemente a garganta. E esse grosso pênis seu a tinha assustado um pouco.

Não podia deixar de ser irônico.

Tinha sonhado durante longo tempo com aquela situação. Ser possuída por ele. Deixar atrás seu estado virginal e saber o que era ter um macho em seu interior.

Sempre que tinha imaginado um encontro sexual entre eles, seu corpo se acendia, sentindo um comichão na pele. Mas a realidade tinha sido entristecedora. Não estava preparada absolutamente, e desejava que tivesse durado mais tempo, mas que tivesse sido um pouco menos intenso. Tinha o pressentimento de que teria gostado se ele tivesse agido com algo mais de suavidade.

Mas tinha que reconhecer que ele não estava pensando nela. Marissa fechou a mão, até cravar suas unhas na palma. Não queria voltar para seu lado. Só o que desejava era que experimentasse a dor que ela tinha suportado.

 

Wrath abraçou Beth e a atraiu para si, olhando ao Rhage por cima de sua cabeça. Observar sua delicadeza ao acalmar o sofrimento do macho tinha quebrado qualquer tipo de barreira.

Cuidar de seus irmãos, cuidar de si mesmo, pensou. Era o código mais antigo da classe dos guerreiros.

— Venha para minha cama — sussurrou-lhe ao ouvido.

Ela deixou que a puxasse pela mão e a conduzisse ao quarto. Uma vez dentro, ele fechou a porta, correu o ferrolho e apagou todas as velas exceto uma. Logo tirou o cinturão da bata que ela levava posta e a deslizou por seus ombros. Sua pele nua brilhou à escassa luz.

Ele tirou as calças de couro. Logo estavam deitados.

Wrath não queria ter relações sexuais. Não agora. Só queria um pouco de consolo. Queria sentir a morna pele contra a sua, o fôlego sobre seu peito, o batimento do coração a poucos centímetros do dele. E queria lhe devolver um pouco daquela tranquilidade que lhe proporcionava.

Acariciou seu longo cabelo sedoso e respirou profundamente.

— Wrath? — Sua voz soava adorável na sombria calma, e gostou da vibração de sua garganta contra o peito.

— Sim. — Beijou-lhe a parte superior da cabeça.

— A quem perdeu você? — Mudou de posição, colocando o queixo sobre seu peito.

— Perder?

— A quem lhe tiraram os lessers?

A pergunta pareceu, em princípio, estranha. Mas depois não. Ela tinha visto as consequências de um combate e, de algum jeito, tinha vislumbrado que não só lutava por sua raça, mas também por ele mesmo.

Transcorreram uns instantes antes de que pudesse responder.

— A meus pais.

Sentiu que a curiosidade de Beth se transformava em pena.

— Lamento-o. — tomou um longo silencio.

— O que aconteceu?

Ele pensou que aquela era uma pergunta interessante. Porque havia duas versões. Segundo a tradição popular dos vampiros, essa sangrenta noite tinha assumido toda sorte de implicações heróicas, e foi anunciada como o nascimento de um grande guerreiro. A ficção não era obra dela. Seu povo precisava acreditar nele, assim tinha idealizado uma fábula na qual sustentar sua distorcida fé.

Só ele sabia a verdade.

— Wrath?

Seus olhos se fixaram na nebulosa beleza de seu rosto. Era difícil negar o tom afável de sua voz. Queria lhe oferecer sua compreensão e, por alguma razão desconhecida, ele queria recebê-la.

— Foi antes de minha transição — murmurou — Faz muito tempo.

Deixou de lhe acariciar o cabelo à medida que as lembranças voltavam para sua mente horríveis e vívidas.

— Pensávamos que sendo a Primeira Família estávamos a salvo de lessers. Nossos lares estavam bem defendidos, ocultos nos bosques, e nos mudávamos continuamente. — Voltou a acariciar o cabelo do Beth e continuou falando: — Era inverno. Uma fria noite de fevereiro. Um de nossos serventes nos traiu e revelou nossa posição. Apareceu um grupo de quinze ou vinte lessers matando a todos aquele que cruzava em seu caminho na nossa propriedade antes de fazer uma brecha em nossas muralhas de pedra. Nunca esquecerei os golpes quando chegaram às portas de nossos aposentos privados. Meu pai gritou pedindo suas armas enquanto me introduzia em uma antecâmara oculta. Encerrou-me ali um segundo antes de que destroçassem a porta com um aríete. Ele era bom com a espada, mas eram muitos.

As mãos do Beth acariciaram seu rosto. Sua voz se converteu quase em um sussurro.

Wrath fechou os olhos, rememorando as horrorosas imagens que ainda eram capazes de lhe provocar pesadelos. — Massacraram aos serventes antes de matar a meus pais. Vi tudo através de um buraco na madeira. Eu disse que via um pouco melhor então.

— Wrath...

— Faziam tanto ruído que ninguém me ouviu gritar. — Estremeceu.

— Lutei por me liberar. Empurrei o fecho, mas era sólido, e eu frágil. Tentei arrancar a madeira, arranhei até que me quebraram as unhas e meus dedos se cobriram de sangue, dava coices... — Seu corpo respondeu ante a lembrança do horror de estar confinado, sua respiração se fez desigual e, um suor frio deslizou por suas costas — Quando se foram, meu pai tratou de arrastar-se até onde eu estava. Tinham lhe atravessado o coração, E — estava... desabou na escassa distância da antecâmara, com os braços estendidos para mim. Chamei-o uma e outra vez até ficar afônico. Roguei para que vivesse, embora visse como a luz de seus olhos se apagava por completo. Estive ali preso durante horas junto a seus cadáveres, olhando crescer os atoleiros de sangue. Alguns vampiros civis foram na noite seguinte . E me resgataram. — Sentiu uma carícia tranquilizadora no ombro, levou-se os dedos de Beth à boca para beijar. — Antes que os lessers partissem, arrancaram todas as cortinas das janelas. Quando o sol saiu e inundou a residência, todos os corpos se desfizeram. Não ficou nada para enterrar. Sentiu que algo deslizava por seu rosto. Uma lágrima. De Beth.

Acariciou-lhe a bochecha.

— Não chore. Embora apreciasse sua compaixão.

— Por que não?

— Não muda nada. Eu chorei enquanto olhava, e mesmo assim morreram todos. — Virou de lado e a abraçou.

— Se tivesse podido... Ainda sonho com essa noite. Fui um covarde. Tinha que ter estado fora com minha família, lutando.

— Mas o teriam assassinado.

— Como um macho, protegendo aos seus. Isso é honrado. Em troca me encontrava choramingando em um esconderijo — murmurou aborrecido.

— Que idade tinha?

— Vinte e dois.

Ela arqueou as sobrancelhas com certa surpresa, como se tivesse pensado que tinha que ser muito mais jovem.

— Disse que foi antes de sua transição?

— Sim.

— Como foi então? — Alisou-lhe o cabelo. — É difícil imaginar em uma diminuta antecâmara, com o tamanho que tem.

— Era diferente.

Disse que foi frágil.

— Eu era.

— Então possivelmente necessitava que o protegessem.

— Wrath encolerizou-se.

— Um macho protege. Nunca ao contrário.

Repentinamente, ela retrocedeu.

Quando o silêncio entre ambos se fez muito longo, ele soube que ela estava pensando em sua forma de agir. A vergonha o fez retirar as mãos de seu corpo. Rodou afastando-se até ficar deitado sobre as costas.

Não devia ter lhe contado nada.

Imaginava o que Beth estaria pensando dele. Depois de tudo, como podia não sentir-se enojada ante seu fracasso e sua debilidade no momento em que sua família mais tinha necessitado dele?

Com uma sensação de abatimento, perguntou-se se ela ainda o quereria, se ainda o receberia em sua úmida intimidade. Ou tudo teria terminado agora que conhecia seu segredo?

Esperava que ela se vestisse e partisse. Mas não o fez. Ah, claro. Compreendia que sua transição se aproximava inexoravelmente, e necessitava seu sangue. Era uma questão de simples necessidade.

Escutou-a suspirar na escuridão, como se estivesse renunciando a algo.

Perdeu a noção do tempo. Permaneceram um junto ao outro, sem tocar-se durante muito tempo, talvez horas. Dormiu fugazmente, despertando quando Beth se abraçou a ele e deslizou uma perna nua sobre a sua.

Uma sacudida de desejo lhe percorreu o corpo, mas a rechaçou grosseiramente.

A mão dela roçou seu peito, baixou até seu estômago e chegou ao quadril. Ele conteve a respiração e teve uma ereção imediata, seu membro dolorosamente perto de onde o estava tocando.

Seu corpo se aproximou mais ao dele, seus seios lhe acariciavam as costelas e esfregava seus clitóris contra uma das coxas.

Talvez estivesse adormecida.

Então ela tomou seu membro na mão. Wrath gemeu, arqueando as costas.

Seus dedos o masturbaram com firmeza.

E instintivamente quis abraçá-la, ansioso pelo que parecia estar lhe oferecendo, mas ela o deteve. Erguendo-se até ficar de joelhos, pressionou-o contra o colchão com as mãos sobre seus ombros.

— Esta vez é para você — sussurrou, beijando-o suavemente. Ele quase não podia falar.

— Ainda me... quer?

Confundida, arqueou as sobrancelhas.

— Por que não iria querê-lo?

Com um patético gemido de alívio e gratidão, Wrath se equilibrou sobre ela novamente, mas não deixou aproximar-se de seu corpo. Empurrou-o de novo para baixo E, segurou-o pelos punhos, colocando seus braços acima da cabeça.

Beijou-o no pescoço.

— A última vez que estivemos juntos, foi muito... generoso. Merece o mesmo tratamento.

— Mas seu prazer é o meu. — Sua voz soou brusca. — Não tem ideia de quanto eu gosto que chegue ao orgasmo.

— Não estou tão segura disso. — Sentiu que ela se movia, e logo sua mão roçou a ereção. Ficou sentado sobre a cama enquanto um som grave saía de seu peito. — Possivelmente tenha uma ideia.

— Não tem que fazer isto — disse ele com voz rouca, lutando outra vez por tocá-la.

Ela se inclinou sujeitando com força os punhos do homem e mantendo-o quieto.

— Relaxe. Deixe-me tomar o controle.

Wrath só pôde olhar para cima incrédulo e com ofegante espera enquanto ela pressionava seus lábios contra os dele.

— Quero possuir você — sussurrou ela.

Em um doce arrebatamento, introduziu a língua em sua boca. Penetrou-o, deslizando-se dentro e fora como em um coito.

Seu corpo inteiro ficou rígido.

Com cada um de seus empurrões, introduzia-se mais profundamente, em sua pele e seu cérebro. Em seu coração. Estava possuindo-o, tomando-o. Deixando sua marca sobre ele.

Quando deixou sua boca, desceu por seu corpo. Lambeu-lhe o pescoço. Chupou-lhe os mamilos. Esfregou as unhas suavemente sobre seu ventre. Acariciou-lhe os quadris com os dentes.

Ele agarrou o travesseiro da cama e atirou, fazendo ranger a madeira.

Ondas de um pungente calor fizeram com que se sentisse como se fosse morrer. O suor ardia sobre sua pele. Seu coração palpitava com força acelerada.

Seus lábios começaram a pronunciar palavras no antigo idioma, tratando de expressar sentimentos profundos que invadiam seu interior.

No instante em que ela introduziu o membro entre seus lábios, faltou-lhe pouco para alcançar o êxtase. Gritou, enquanto seu corpo se convulsionava. Ela se retirou, lhe dando tempo para tranquilizar-se.

E logo o fez padecer uma verdadeira tortura.

Sabia exatamente quando acelerar o ritmo e quando fazer uma pausa. A combinação de sua boca úmida na grossa glande e suas mãos movendo-se acima e abaixo no pênis constituíam um duplo embate que quase não podia suportar. Levou-o a borda uma e outra vez até que se viu obrigado a suplicar. Finalmente, ela montou escarranchada sobre ele. Wrath olhou ao espaço entre seus corpos. As coxas dela estavam completamente abertas sobre seu membro palpitante, e por pouco perde a prudência.

— Toma-me — gemeu. — Deus, por favor.

Ela se introduziu nele, e, seu corpo inteiro foi percorrido por aquela sensação. Apertada, úmida, quente, envolveu-o por completo. Ela começou a mover-se a um ritmo lento e constante, e ele não aguentou muito. Quando chegou ao clímax, sentiu como se o tivessem esmigalhado em dois; as descargas de energia criaram uma onda de choque que encheu todo o quarto, estremecendo o mobiliário e apagando a vela.

Quando recuperou lentamente o sentido, apercebeu-se que era a primeira vez que alguém se esmerou tanto em agradá-lo.

Queria rogar que o possuísse uma e outra vez.

Beth sorriu na escuridão ao escutar o som que fez Wrath enquanto seu corpo estremecia sob do dela. A força de seu orgasmo a alcançou também, e caiu sobre o ofegante peito do macho enquanto suas próprias deliciosas ondas a deixavam sem respiração.

Temendo pesar muito, fez um movimento para descer, mas ele a deteve, sujeitando-a pelos quadris, lhe falando docemente em uma língua estranha que ela não entendeu.

— O que?

— Fique onde está — disse ele.

Ela se apoiou sobre seu corpo, relaxando-se completamente. Perguntou-se pelo significado das palavras que ele tinha pronunciado enquanto faziam amor, embora pelo tom de sua voz, delicado e adulador, podia imaginá-lo. Apesar de não as entender, soube que se tratava das palavras de um amante.

— Seu idioma é formoso — disse.

— Não há palavras dignas de você.

Sua voz soava diferente, como se tivesse trocado sua opinião sobre ela.

Não há barreiras, pensou ela. Não havia barreiras entre eles nesse momento. Esse muro defensivo que fazia com que ele estivesse sempre em guarda tinha desaparecido.