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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AMANTE REVELADO / J. R. Ward
AMANTE REVELADO / J. R. Ward

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Irmandade da Adaga Negra

AMANTE REVELADO

 

Nas sombras da noite no Caldwell, Nova Iorque, desenvolve-se uma furiosa guerra entre os vampiros e seus assassinos. Existe um grupo secreto de irmãos como nenhum outro…. Seis guerreiros vampiros, defensores de sua raça. Mas agora um aliado desta Irmandade está a ponto de enfrentar seus próprios desejos escuros…

Butch Ou’Neal é um guerreiro por natureza. Um ex-polícial da homicídios que leva uma vida dura. É o único humano ao que foi permitido acessar o círculo íntimo da Irmandade da Adaga Negra. E quer se aprofundar ainda mais no mundo dos vampiros…. quer alistar-se na guerra territorial contra os Lessers. Não tem nada a perder. Seu coração pertence a uma fêmea vampira, uma beleza aristocrática que está muito acima de seu nível. Se não pode ter Marissa, então ao menos pode brigar lado a lado com seus irmãos…

O destino o amaldiçoa concedendo a ele o que deseja. Quando Butch se sacrifica para salvar dos assassinos um vampiro da população civil, cai preso da mais escura força da guerra. Dado como morto, é encontrado graças a um milagre, e a Irmandade chama Marissa para o trazer de volta. Mas possivelmente nem mesmo seu amor seja suficiente para salvá-lo…

 

 

— O que pensaria se eu dissesse a você que tive uma fantasia?

Butch O’Neal deixou seu uísque e olhou à loira que tinha falado com ele. Contra a cortina do fundo da área VIP do ZeroSum, era de outro mundo, vestida com tiras abertas de couro branco, um cruzamento entre a Barbie e Barbarella. Era difícil dizer se era uma das profissionais do clube ou não. O Reverendo só traficava o melhor, mas talvez houvesse sido uma modelo do FHM ou Maxim.

Ela pôs as mãos sobre a superfície de mármore da mesa e se inclinou para ele. Seus seios eram perfeitos, os melhores que o dinheiro podia comprar. E seu sorriso era radiante, uma promessa de atos realizados com joelheiras. Paga ou não, esta era uma mulher que tinha muita vitamina D e a desfrutava.

—Bem, papai? —disse a ele por cima da delirante música techno—Quer transformar meu sonho em realidade?

Lançou-lhe um sorriso duro. Certo como o inferno, que ela faria alguém muito feliz essa noite. Provavelmente um ônibus cheio. Mas ele não estaria montado nesse ônibus de dois andars.

—Sinto muito, terá que ir provar o arco íris em outro lugar.

Sua total falta de reação terminou o assunto de sua condição de profissional. Com um sorriso vazio, flutuou para a mesa seguinte e pôs em prática a mesma inclinação e o mesmo brilho.

Butch inclinou a cabeça para trás e tragou o resto do Lagavulin que ficava no copo. Seu proximo movimento foi fazer gestos a uma garçonete. Não se aproximou, só assentiu com a cabeça e se apressou até o bar para lhe trazer outro.

Eram quase três da madrugada, por isso o resto do trio chegaria em meia hora. Vishous e Rhage estavam caçando lessers, esses bastardos desalmados que matavam aos de sua espécie, mas provavelmente ambos os vampiros viessem decepcionados para tomar um drink. A guerra secreta entre os de sua espécie e a Sociedade Lessening tinha estado tranqüila durante janeiro e fevereiro, com alguns poucos assassinos soltos por aí. Isto eram boas notícias para a população civil de sua raça. E causa de preocupação para a Irmandade da Adaga Negra.

—Olá, policial. —A voz baixa, masculina chegou da direita, atrás da cabeça de Butch.

Butch sorriu. Esse som sempre o fazia pensar na névoa noturna, do tipo que esconde o que vai te matar. Menos mal que gostasse do lado escuro.

—Boa noite, Reverendo —disse sem se virar.

—Sabia que a iria rechaçar.

—Adivinhou isso?

—Talvez.

Butch olhou por cima do ombro. O Reverendo estava entre as sombras, olhos cor de ametista brilhantes, corte de cabelo mohawk apertado contra o crânio. Seu traje negro era belo: Valentino. Butch tinha um igual.

Embora no caso do Reverendo a lã penteada tinha sido comprada com seu próprio dinheiro. O Reverendo, aliás Rehvenge, aliás irmão da shellan de Z, Bela, era dono do ZeroSum e tirava uma parte de tudo o que passava ali. Demônios, com toda a depravação que havia em venda nesse clube, tinha o valor de uma montanha de dólares entrando por um funil dentro de seu cofre cada noite.

—Não, na realidade não era para você. —O Reverendo deslizou em um dos bancos fixos, alisando sua perfeita gravata Versace—. E além disso sei porquê disse a ela que não.

—Ah, é?

—Você não gosta de loiras.

Não, não gostava mais.

—Talvez eu não gostasse dela.

—Sei o que quer.

Enquanto chegava o novo uísque de Butch, o olhou rapidamente por cima.

—Sabe?

—É meu trabalho. Confia em mim.

—Sem ofender, mas prefiro não fazer isso sobre este tema em particular.

—Direi a você o que faremos, policial. —O Reverendo se inclinou, se aproximando dele,e cheirava muito bem.

Por outro lado, Cool Water do Davidoff era antigo mas bom.

—Ajudarei você, de qualquer jeito.

Butch deu uma palmada no pesado ombro do homem.

—Só estou interessado em donos de cantina, amigo. Os bons samaritanos me dão alergia.

—Às vezes só o oposto serve.

—Então estamos bem. —Butch mostrou com a cabeça à multidão meio nua retorcendo-se, com o apoio de doses de X e cocaína—. Aqui todo mundo parece igual.

Era engraçado, durante seus anos no Departamento de Polícia de Caldwell, o ZeroSum tinha sido um enigma para ele. Todo mundo sabia que o lugar era um buraco de drogas e um lago de sexo. Mas ninguém no Departamento tinha sido capaz de reunir evidências suficientes para obter uma ordem de busca… embora pudesse estar ali qualquer noite da semana e ver dúzias de infrações à lei, muitas delas ocorrendo conjuntamente.

Mas agora que Butch andava com a Irmandade, sabia porquê. O Reverendo tinha muitos truques na manga quando se tratava de mudar a percepção que tinham as pessoas sobre eventos e circunstâncias. Como vampiro, podia limpar a memória de qualquer humano, manipular as câmeras de segurança e se desmaterializar a vontade. A pessoa e seu negócio eram um móvel branco que nunca se movia.

—Me diga uma coisa —disse Butch—, como faz para que sua aristocrática família não saiba deste pequeno negócio que tem?

O Reverendo sorriu mostrando a ponta de suas presas.

—Me diga uma coisa, como é que um humano conseguiu se envolver tanto com a Irmandade?

Butch inclinou o copo em deferência.

—Às vezes o destino nos leva por caminhos tortuosos.

—Isso é certo, humano. Realmente certo. —Quando o celular de Butch soou, o Reverendo se levantou—Mandarei alguma coisa para você.

—A não ser que seja um uísque, não quero, amigo.

—Vai retirar o que disse.

—Duvido. —Butch pegou seu Motorola Razr e o abriu—. O que acontece, V? Onde está?

Vishous estava respirando como um cavalo com um leve rugido da sinuosa distorção de fundo: uma sinfonia de juramentos arrastados—Merda, policial. Temos problemas.

Butch sentiu a adrenalina, iluminando-o como uma árvore de natal.

—Onde está?

—Fora, nos subúrbios, temos uma emergência. Os malditos assassinos começaram a caçar civis em suas casas.

Butch se levantou de um salto.

—Já vou…

—É obvio que não. Você fique aí. Só liguei para que não pensasse que estávamos mortos, por não chegarmos. Até mais tarde.

Cortou-se a ligação.

Butch voltou a afundar-se no assento. Da mesa próxima à sua, um grupo de pessoas rompeu em um forte e alegre estalo, alguma piada compartilhada que os fez cair em risadas como um bando de pássaros quando se espalhavam pelo céu aberto.

Butch olhou dentro do copo. Seis meses atrás não tinha nada em sua vida. Não tinha mulher. Nem família próxima. Nenhum lar de que falar. E seu trabalho como detetive de homicídios o estava comendo vivo. Então foi demitido por brutalidade policialcial. Uniu-se à Irmandade através de uma série de eventos extraordinários. Conheceu a única mulher que o tinha achado um idiota. E também teve uma renovação total no guarda-roupa.

Ao menos esta última se encaixava dentro da categoria boa e ficou assim.

No princípio a mudança tinha sido um grande disfarce da realidade, mas ultimamente tinha notado que isso era tudo o que tinha mudado, estava exatamente onde tinha estado sempre: não mais vivo do que quando esteva apodrecendo em sua antiga vida. Ainda era dos que olhavam de fora.

Tragando seu Lag, pensou em Marissa e imaginou o cabelo loiro comprido até a cintura, a pele pálida,os olhos celestes e as presas.

Sim, não mais loiras para ele. Não podia se sentir, nem sequer remotamente, atraído sexualmente por outro tipo de mulher de cabelo claro.

Ah, demônios, a merda com a carta do Clairol. Não era como se qualquer mulher desse clube ou da face da terra pudesse comparar-se com Marissa. Era pura, como o cristal refletindo a luz, e a vida ao redor dela melhorava, se animava, iluminada por sua graça.

Merda. Era um idiota.

Salvo que, homem, era tão adorável. Por um curto tempo deu a impressão de se sentir atraída por ele, tinha esperanças de poder chegar a algum lugar. Mas logo ela desapareceu. O que é obvio provou que era inteligente. Não tinha muito a oferecer a uma mulher como ela e não por causa de só um humano. Estava entre duas águas, nas bordas do mundo da Irmandade, incapaz de brigar a seu lado devido ao que era, incapaz de voltar para mundo dos humanos porque sabia muito. E a única forma de sair deste terreno deserto, na metade de dois mundos, era com uma etiqueta pendurando no dedo gordo do pé.

Agora era um verdadeiro contêiner de harmonia ou o que?

Com outra afluência de felicidade–felicidade–alegria–alegria, o grupo do lado deixou sair uma nova onda de risada e Butch os olhou. No centro do grupo havia um homem loiro, pequeno, que usava um traje lustroso. Parecia ter quinze anos, mas no mês passado tinha sido um assíduo concorrente da seção VIP, atirando atençao como se fosse confete.

Obviamente, ele compensava suas deficiências físicas através do uso de sua carteira. Outro exemplo de que o verde se convertia em dourado.

Butch terminou seu uísque, chamou à garçonete, e logo olhou o fundo do copo. Merda. depois de quatro doses, não se sentia nem um pouco atordoado, o que indicava quão boa estava sua tolerância ao álcool. Claro, agora era um alcoólico graduado, não mais treinamento para principiantes.

E quando não se incomodou de se ter dado conta disso, compreendeu que tinha deixado de andar sobre a água. Agora estava afundando.

Bom, que não dissessem que não era a alegria personificada essa noite.

—O Reverendo diz que precisa de uma amiga.

Butch nem sequer se incomodou em olhar à mulher.

—Não, obrigado.

—Por que não me olha primeiro?

—Diga a seu chefe que agradeço seu… —Butch olhou para cima e fechou a boca de repente.

Reconheceu à mulher imediatamente, mas por outro lado, a chefe de segurança do ZeroSum era certamente inesquecível. Facilmente devia medir um metro e oitenta de altura. O cabelo negro azeviche cortado como o de um homem. Os olhos cinza escuro como o canhão de uma escopeta. Com a camisetaque estava usando, revelava a parte superior do corpo de uma atleta, todo músculo, veias e nada de gordura. A impressão que dava era que podia quebrar ossos e gostava disso, distraídamente olhou suas mãos. De dedos largos e fortes. Do tipo que podia machucar.

Santo inferno… gostaria que lhe machucasse. Esta noite, para variar, gostaria que doesse o exterior de seu corpo.

A mulher sorriu um pouco, como se soubesse o que estava pensando, e captou um brilho de presas. Ah… assim não era uma mulher. Era uma fêmea. Era um vampiro.

O Reverendo tinha razão, esse bastardo. Serviria-lhe, porque era tudo o que Marissa não era. E porque era o tipo de sexo anônimo que Butch tinha tido durante toda sua vida adulta. E porque era justo o tipo de dor que estava procurando sem saber.

Quando deslizou uma mão dentro de seu traje Ralph Laurent Etiqueta Negra, a fêmea negou com a cabeça.

—Não o faço por dinheiro. Nunca. Considere um favor a um amigo.

—Não te conheço.

—Você não é o amigo ao que me refiro.

Butch olhou por cima de seu ombro e viu o Rehvenge observando-o do outro lado do setor VIP. O homem lhe deu um sorriso satisfeito, logo desapareceu dentro de seu escritório particular.

—Ele é um bom amigo. —murmurou a fêmea.

—OH, está certo. Como se chama?

—Não é importante —lhe estendeu a mão—. Vem Butch, aliás Brian, de sobrenome Ou’Neal. Vem comigo. Esquece por um momento o que quer que seja que te faz beber esses goles do Lagavulin. Te prometo que toda essa auto destruição estará te esperando quando voltar.

Homem, realmente não estava com ânimo de averiguar quanto sabia sobre ele.

—Por que não me diz seu primeiro nome?

—Esta noite pode me chamar Symphathy. O que te parece?

A olhou da franja do cabelo até os pés. Usava calça de couro. Não estava surpreso. —Por acaso tem duas cabeças, Symphathy?

Ela rio, um som baixo e rico.

—Não e tampouco sou um travesti. O seu não é o único sexo que pode ser forte.

Olhou-a fixamente nos olhos de tom cinza. Logo olhou para os quartos privados. Deus... isto lhe era tão familiar. Uma rapidinha com uma estranha, um choque insignificante entre dois corpos. Esta merda tinha sido o resumo de sua vida sexual desde que tinha memória… exceto, que não se lembrava de ter sentido antes este tipo de desespero doente.

Que seja. Realmente permaneceria celibatário até sua morte quando seu fígado arrebentasse corroído? Só devido ao desprezo de uma fêmea que não merecia?

Olhou para baixo, a suas calças. Seu corpo estava desejoso. Ao menos essa parte da matemática estava certa.

Butch se levantou do banco fixo, o peito frio como o piso no inverno.

—Vamos.

 

Com um adorável soar de violinos, a orquestra de câmara se preparou para uma valsa e Marissa observou a brilhante multidão juntar-se no salão de baile. A seu redor, machos e fêmeas se juntavam, as mãos se uniam, os corpos se enlaçavam, olhadares se encontravam. A mescla de uma dúzia de diferentes variedades de essências de sedução enchia o ar com uma doce fragrância.

Respirou pela boca, tratando de não inalar tanto dela.

Não obstante, escapar tinha provado ser inútil, essa era a maneira que funcionavam as coisas. Embora a aristocracia se orgulhasse de suas maneiras e seu estilo, a glymera estava, depois de tudo, sujeita às verdades biológicas da raça: quando os machos se emparelhavam, sua possesividade tinha um aroma. Quando as fêmeas aceitavam o emparelhamento, levavam essa escura fragrância em sua pele com orgulho.

Ou ao menos Marissa assumia que era com orgulho.

Dos cento e vinte e cinco vampiros no salão de seu irmão, era a única fêmea sem companheiro. Havia um grupo de machos sem companheira, mas não era como se a fossem convidar para dançar. Para esses príncipes era melhor permanecer fora da valsa ou levar a suas mães ou irmãs à pista de baile, do que se aproximar.

Não, era eternamente indesejável, e enquanto um casal passava dando voltas a sua frente, olhou para baixo por educação. A última coisa que precisava era que tropeçassem um no outro enquanto evitavam olhá-la aos olhos.

Enquanto sua pele murchava, não estava certa de porque nessa noite, sua situação de espectadora esquiva lhe parecesse especialmente cansativa. Pelo amor de Deus, nenhum membro da glymera a tinha olhado nos olhos durante quatrocentos anos e estava acostumada a isso. No princípio tinha sido a indesejada shellan do Rei Cego. Agora era sua ex não desejada shellan, que tinha sido superada por sua amada Rainha mestiça.

Talvez no fim estivesse cansada de ser deixada de fora.

Com as mãos tremendo e os lábios apertados, recolheu a pesada saia do vestido e se dirigiu para o grande arco do salão de baile. A salvação estava ali fora no vestíbulo, e abriu a porta do salão de descanso das damas com uma oração. O ar que lhe deu as boas-vindas cheirava a fresia e perfume e dentro dos braços de seu invisível abraço havia… só silêncio.

Graças à Virgem Escriba.

A tensão se diminuiu um pouco enquanto entrava e olhava ao redor. Sempre tinha pensado nestes quartos particulares da mansão de seu irmão como vestuários luxuosos para debutantes. Decorados com motivos da Rússia kzarista, a sala vermelho sangue e a área de vestir estavam equipadas com dez cômodas, cada ponto de maquiagem tinha tudo o que uma fêmea pudesse necessitar para melhorar sua aparência. Estendendo-se atrás da sala de descanso estavam os quartos privados, os quais estavam todos de acordo com o desenho de um ovo Fabergé, diferente da extensa coleção de seu irmão.

Perfeitamente feminino. Perfeitamente adorável.

Parada no meio de tudo isso, queria gritar.

Em vez disso, mordeu os lábios e se inclinou para examinar o cabelo em um dos espelhos. As madeichas loira, que lhe chegavam à parte baixa das costas quando estavam soltas, estavam arrumadas com precisão de um relojoeiro, no alto da cabeça o coque se manteve em seu lugar,inclusive depois de várias horas, tudo estava em seu lugar, os fios de pérolas entretecidos por seu doggen exatamente onde tinham estado no início do baile.

Por outro lado, ao estar parada à margem, realmente não tinha posto a prova o trabalho de Enjoe Antoinette.

Mas seu colar estava desconjurado outra vez. Tirou o colar de pérolas de várias voltas para pô-lo em seu lugar de maneira que a última gota, uma tahitiana de vinte e três milímetros, apontasse diretamente para o pequeno decote que tinha.

O vestido cor cinza pomba era um clássico Balmain, um que tinha adquirido em Manhattan nos anos 1940. Os sapatos eram novos do Stuart Weitzman, embora ninguém pudesse vê-los, já que estavam ocultos debaixo da saia larga que chegava ao chão. O colar, pendentes e brincos eram da Tiffany, como sempre. Quando seu pai descobriu o grande Louis Comfort no fim de 1800, toda a família se tornou em leal cliente da companhia e assim tinham permanecido.

Esse era o selo da aristocracia certo? Perseverança e qualidade em todas as coisas, as novidades e os defeitos eram recebidos com olhares de desaprovação.

Endireitou-se e se afastou até que pôde se ver de corpo inteiro do outro lado da sala. Na imagem devolvida, o olhar era irônico: seu reflexo era de absoluta perfeição feminina, uma beleza improvável que parecia esculpida, não natural. Alta e magra, seu corpo estava formado com ângulos delicados, e seu rosto era absolutamente sublime, uma perfeita combinação de lábios, olhos, maçãs do rosto e nariz. A pele que cobria tudo isso era de alabastro. Os olhos de um azul prateado. O sangue em suas veias era um dos mais puros da espécie.

Mesmo assim, aqui estava. A fêmea desprezada. A que tinham deixado para trás. A indesejada, defeituosa, solteirona virgem que nem sequer um guerreiro de raça pura como Wrath tinha podido suportar sexualmente nem sequer uma vez, embora fosse para não transformá-la em uma newling. E graças a sua repulsão estaria para sempre sem companheiro, embora tivese estado com o Wrath o que pareceu uma eternidade. Devia ser tomada para que se considerasse a shellan de alguém.

Sua ruptura tinha sido uma surpresa, ao mesmo tempo que não, para todos. Apesar de Wrath declarar que ela o tinha deixado, a glymera sabia a verdade. Tinha estado intacta por séculos, sem ter levado nunca sua essência de aparelhamento, sem ter nunca estado, um dia, a sós com ele. Por outro lado nenhuma fêmea teria deixado o Wrath voluntariamente. Era o Rei Cego, o último vampiro de raça pura no planeta, um grande guerreiro e um membro da Irmandade da Adaga Negra. Não havia nada mais alto que isso.

A conclusão entre a aristocracia? Algo tinha que estar errado nela, algo l que estivesse oculto sob suas roupas, e essa deficiência era provavelmente de natureza sexual. Por que outra razão um guerreiro de sangue quente não havia sentido nenhum impulso erótico por ela?

Pausa profunda. Logo outra vez. E outra.

O aroma de flores recém cortadas invadiu seu nariz, a doçura crescia, tomando o controle, substituindo o ar… até que só tinha a fragrância entrando em seus pulmões. Pareceu que lhe fechava a garganta, como querendo lutar contra esse assalto, e atirou seu colar. Sufocada… se sentia tão sufocada com ele em seu pescoço. E pesava… como se houvesse mãos estrangulando-a… Abriu a boca para respirar, mas não ajudou. Seus pulmões estavam obstruídos com o cheiro das flores, revestidos por este… estava sufocando, afogando, embora não estivesse na água…

Com as pernas fracas, caminhou para a porta, mas não podia enfrentar os casais que dançavam, a essas pessoas que definiam quem era ao isolá-la. Não, não podia deixar que a vissem… se dariam conta do quão alterada estava. Veriam o quanto era difícil isto para ela. Então a desprezariam ainda mais.

Seus olhos percorreram a sala de descanso das damas, saltando de objeto em objeto, ricocheteando em todos os espelhos. Tratou freneticamente do… Que estava fazendo? Aonde podia… ir? … ao quarto, no andar de acima… tinha que… OH, Deus… não podia respirar, ia morrer aqui, aqui e agora, devido a sua garganta que estava se fechando tão apertadamente como um punho.

Havers… seu irmão… Precisava chegar a ele. Era um médico… Viria ajudá-la… mas arruinaria seu aniversário. Arruinado… por causa dela. Tudo se arruinava por causa dela… Tudo era culpa sua… Tudo. Toda a desgraça que produzia era culpa sua… Graças a Deus que seus pais tinham morrido a séculos e não tinham presenciado o que… ela…ia vomitar. Definitivamente ia vomitar.

Com as mãos tremendo e as pernas como um pudim, andou cambaleando até um dos banheiros e se fechou dentro dele. Em seu caminho ao banheiro tropeçou no lavabo, e abriu a torneira para que a água disfarçasse os sons de sua áspera respiração no caso de alguém entrar. Logo caiu sobre os joelhos e se inclinou sobre o vaso de porcelana.

Tinha náuseas e se sentiu desaventurada, da garganta trabalhando através de secas arcadas, não saía mais que ar. O suor surgiu na fronte, sob os braços e entre os seios. Com a cabeça dando voltas e a boca aberta lutava por ar, enquanto pensava que morreria e não tinha ninguém que a ajudasse. Que arruinaria a festa de seu irmão, que era uma coisa aborrecida como um enxame de abelhas… abelhas em sua cabeça, zumbindo, picando… lhe causando a morte… pensamentos sobre abelhas…

Marissa começou a chorar, não porque pensasse que morreria, mas sim porque sabia que não era assim.

Deus, os ataques de pânico tinham sido brutais nestes últimos meses, sua ansiedade, um perseguidor sem forma sólida, cuja persistência não esgotava nunca. E cada vez que tinha uma recaída, a experiência era uma nova e horrível revelação.

Pondo a cabeça entre as mãos, soluçou roucamente, as lágrimas correndo por seu rosto para ficar presas nas pérolas e diamantes que usava ao redor do pescoço. Estava tão sozinha. Apanhada em uma bela, enriquecida, fantasia de pesadelo, onde o homem do saco usava smoking e jaqueta e os abutres se precipitavam com asas de seda para lhe bicar os olhos.

Fazendo uma profunda inspiração, tratou de controlar sua respiração. Tranqüila… fique tranqüila. Esta bem. Havia feito isso antes.

Depois de um momento, olhou para baixo no vaso. O vaso era de ouro sólido e suas lágrimas tinham feito que a superfície da água ondeasse como se ali brilhasse a luz do sol. Abruptamente se deu conta de que os ladrilhos estavam duros debaixo de seus joelhos. E o espartilho estava mordendo suas costelas. E sua pele estava pegajosa.

Levantou a cabeça e olhou ao redor. Bom, quem o haveria dito. Tinha eleito sua câmara privada favorita para derrubar-se, a que estava apoiada no ovo dos Lírios do Vale. Ao sentar-se no vaso, viu-se rodeada de paredes de uma aceso cor rosa pintadas a mão com brilhantes trepadeiras verdes e pequenas flores brancas. O chão, o balcão e o lavabo eram de mármore rosa veteado de branco e nata. Os candelabros eram de ouro.

Muito lindo. Realmente um fundo perfeito para um ataque de ansiedade. Mas bem, ultimamente o pânico vinha contudo, certo? O novo negro.

Marissa se obrigou a levantar-se, fechou a torneira e sentou na pequena cadeira coberta de seda que havia em um canto do aposento. Seu vestido se acomodou ao redor dela, como se fosse um animal, rendendo-se agora que o drama tinha passado.

Olhou a si mesma no espelho. Seu rosto estava manchado, o nariz vermelho. A maquiagem arruinada. O cabelo um desastroso emaranhado.

Sim, assim era como se via em seu interior, assim não sentiria falta de que a glymera a desprezasse. De alguma forma sabiam que este era seu eu verdadeiro.

Deus… talvez essa fosse a razão pela qual Butch não a tinha querido…

OH, demônios, não. A última coisa que precisava era pensar nele nesse momento. O que tinha que fazer era endireitar-se o melhor que pudesse e logo sair correndo para seu quarto. Certamente, esconder-se era pouco atraente, mesmo para ela.

Justo quando se arrumava o cabelo, escutou que se abria a porta da sala de descanso, a música de câmara num crescente para logo diminuir quando a porta se fechou.

Genial. Agora seria apanhada. Mas talvez fosse uma fêmea, só assim não teria que preocupar-se por estar escutando às escondidas.

—Não posso acreditar que sujou meu xale, Sanima.

OK, ótimo, agora era uma bisbilhoteira além de uma covarde.

—Quase não se percebe —disse Sanima—. Embora graças à Virgem o agarrou antes de que o fizesse qualquer outra pessoa. Entremos aqui e lhe vamos passar um pouco de água.

Marissa se sacudiu para concentrar-se. Não se preocupe por elas, só arrume o cabelo. E por amor à Virgem faz algo com esse rimel. Parece um mapa.

Pegou um pano e o molhou silenciosamente enquanto as duas fêmeas entravam na pequena sala de frente. Obviamente, tinham deixado a porta aberta… as vozes não se atenuaram.

—Mas, e se alguém o viu?

—Shh… tire o xale… OH, Senhor. —escutou-se uma risada suave—. Seu pescoço.

A voz da mulher mais jovem baixou até tornar-se em um sussuro enlevado.

—É Marlus. Desde que nos emparelhamos o mês passado, esteve…

Agora a risada era compartilhada.

—Vai até vocêi freqüentemente durante o dia? —O tom reservado da Sanima soava deleitado.

—Ah, sim. Quando disse que queria que nossos quartos se conectassem, não entendi porquê. Agora, entendo-o. Ele é… insaciável. E… não só quer alimentar-se.

Marissa se deteve com o pano debaixo do olho. Só uma vez tinha conhecido a fome de um macho por ela. Um beijo, só um… e o entesourava em suas lembranças. Ia morrer virgem, e esse breve contato de bocas era tudo o que teria de índole sexual.

Butch Ou’Neal. Butch a tinha beijado com… Pare.

Passou a se ocupar com o outro lado de seu rosto.

—Que maravilhoso, estar recém emparelhada. Embora não devadeixar que ninguém veja estas marcas. Estragam sua pele.

—Por isso me apressei a vir aqui. O que teria acontecido se alguém chegasse e disesse, para que eu retirasse o xale devido ao vinho que derramei? —Isto foi dito com o tipo de horror, que normalmente se reservava para os acidentes que envolviam facas.

Embora, conhecendo a glymera, Marissa podia entender muito bem o porquê de evitar chamar sua atenção.

Deixando o pano de lado, tratou de voltar a arrumar o cabelo… e se deu por vencida respeito de evitar pensar no Butch.

Deus, tivesse querido ter que ocultar as marcas de seus dentes para que a glymera não as visse. Tivesse querido manter esse delicioso segredo de que debaixo dos civilizados vestidos que usava, seu corpo conhecia o sexo cru. E tivesse querido levar o aroma de seu vínculo com ela na pele, enfatizando-o, como o faziam as fêmeas emparelhadas, escolhendo o perfeito perfume que o complementasse.

Mas nada disso ia ocorrer. Por um lado, por isso tinha ouvido, os humanos não se emparelhavam. E embora o fizessem, a última vez que o tinha visto, Butch Ou’Neal se afastou dela, assim já não estava interessado. Provavelmente porque tinha ouvido de suas deficiências. Como era próximo à Irmandade, não havia dúvida de que agora sabia todo tipo de coisas a respeito dela.

—Há alguém aqui dentro? —disse Sanima agudamente.

Marissa amaldiçoou baixo e pareceu que tinha suspirado em voz alta. Deixando de lado seu cabelo e rosto, abriu a porta. Quando saiu, ambas as fêmeas olharam para baixo, o que nesta oportunidade era uma boa coisa. Seu cabelo parecia um descarrilamento de trens.

—Não se preocupem. Não direi nada —murmurou. Porque jamais podia falar de sexo em lugares públicos. Na realidade, tampouco em lugares privados.

As duas fizeram uma reverência respeitosa e não responderam enquanto Marissa saía.

Nada mais saiu da sala de descanso, sentiu como mais olhares se afastavam dela, todos os olhos olhando para outro lado… especialmente os daqueles machos sem emparelhar que estavam fumando em um canto.

Antes de que desse as costas ao baile, percebeu o olhar de Havers através da multidão. Saudou-a com a cabeça e lhe sorriu tristemente, como se soubesse que não suportava ficar nem um momento mais.

Queridísimo irmão, pensou. Sempre a tinha apoiado, nunca tinha demonstrado nenhum indício de que se envergonhasse de como tinha resultado ser. Poderia tê-lo amado devido a terem os mesmos pais, mas o adorava, mais do que tudo, por sua lealdade.

Com um último olhar para a glymera em toda a sua glória, foi para o seu quarto. Depois de um rápido banho, trocou de roupa colocando um vestido mais simples e sapatos de salto baixo, logo desceu pelas escadas do fundo da mansão.

Podia lutar estando intacta e não ser desejada. Se esse era o destino que a Virgem Escriba tinha ecolhido para ela, que assim fosse. Tinha visto coisas muito piores que enfrentar, e lamentar-se a respeito do que precisava, considerando tudo o que tinha, era aborrecida e egoísta.

O que não podia suportar era não ter um propósito. Graças a Deus que ela tinha uma posição entre o Conselho do Príncipes e que seu lugar estava assegurado devido a sua linha de sangue. Mas também havia outra forma de deixar uma indubitável marca em seu mundo.

Enquanto introduzia um código e abria a porta de aço, invejou os casais que dançavam na outra ponta da mansão e provavelmente sempre o fizesse. Salvo que esse não era seu destino.

Tinha outros caminhos que seguir.

 

Butch deixou o ZeroSum às três e quarenta e cinco, e embora seu carro estivesse estacionado na parte de trás, dirigiu-se em direção contrária. Precisava de ar. Jesus… precisava de ar.

Em meados de março ainda era inverno, até o momento, o norte do estado de Nova Iorque se via afetado, e a noite estava fria como um congelador. Enquanto andava, sozinho, pela Trade Street, o fôlego abandonava sua boca em nuvens brancas indo à deriva sobre seu ombro. A frieza e a solidão lhe vinham bem: Estava quente e saturado mesmo que tivesse deixado para trás a aglomeração de pessoas suando no clube.

Enquanto avançava, seus Ferragamos batiam com força contra a calçada, os saltos amassando o sal e a areia na pequena linha de concreto entre bancos de neve suja. Ao fundo, escutava a música amortecida proveniente dos outros bares da Trade, embora o horário de trabalho logo terminasse.

Quando se aproximou do McGrider, levantou o pescoço e acelerou o passo. Evitava o bar de blues porque os rapazes da polícia passavam por lá e não queria vê-los. Até onde seus antigos colegas do DPC sabiam, tinha desaparecido, e era assim que queria mantê-los.

O Screamer era o próximo e o rap duro tocava, transformando todo o interior do maldito edifício em um Bass Estender. Quando se afastou do clube, fez uma pausa e esquadrinhou o beco ao passar.

Aqui tinha começado tudo. Sua estranha viagem dentro do mundo dos vampiros tinha começado aqui mesmo em julho passado, com uma bomba posta em um carro, que ele tinha investigado, neste lugar: um BMW cheirando a merda. Um homem feito cinzas.

Nenhuma prova material exceto um par de estrelas das que se usam nas artes marciais. O golpe tinha sido muito profissional, o tipo de coisa que envia uma mensagem, e imediatamente depois disso os corpos das prostitutas tinham aparecido nos becos. As gargantas cortadas. O sangue com níveis muito altos de heroína. Com mais armas de artes marciais ao redor.

Seu companheiro, José da Cruz e ele, tinham assumido que existia um vinculo entre a explosão do carro de um cafetão da vizinhança e a vingança das mulheres mortas, mas logo se inteirou de toda a história. Darius, um membro da Irmandade da Adaga Negra, tinha sido enganado pelos inimigos de sua raça, os lessers. E os assassinatos daquelas prostitutas eram uma estratégia por parte da Sociedade Lessening para capturar a vampiros civis para interrogá-los.

Além disso no passado nunca teria suposto que os vampiros existissem. Muito menos que conduzissem BMW de 90.000 dólares. Ou que tivessem inimigos sofisticados.

Butch caminhou para baixo pelo beco, direto ao ponto onde tinham feito voar pelos ares o 650i. Ainda havia um anel de fuligem negra no edifício pelo calor da bomba e estendeu a mão, pondo as pontas dos dedos sobre o frio tijolo.

Tudo tinha começado aqui.

Uma rajada de vento subiu e cintilou sob o casaco, levantando a fina cachemira, chegando até o elegante traje debaixo. Deixando cair a mão, olhou até o último detalhe de sua roupa. O casaco era um Missoni, de aproximadamente cinco mil dólares. O traje por baixo, de Etiqueta Negra RL, aproximadamente três mil dólares. Os sapatos de noite de escassos setecentos dólares.As abotoaduras eram Cartier e estavam na categoria de cinco dígitos. O relógio era um Patek Philippe. Vinte e cinco mil dólares.

As duas Glock de 40 milímetros sob suas axilas eram duas peças magníficas.

Assim, brilhava… Jesus Cristo,a aproximadamente um valor de 44.000 dólares na Saks da Quinta Avenida e do Army/Navy. E isto não era mais que a ponta do iceberg de seus trapos. Tinha dois armários com esta merda no complexo… nenhum dos quais tinha comprado com seu próprio dinheiro. Cada um deles tinha sido adquirido com as verdinhas da Irmandade.

Merda… vestia roupa que não era dele. Vivia em uma casa e comia comida e assistia uma TV de tela de plasma… nenhuma das quais era dele. Bebia uísque escocês pelo qual não pagava. Conduzia um belo carro do qual não era dono. E o que fazia em troca? Em resumo não muito. Cada vez que tinham um pouco de ação, os irmãos lhe davam os trabalhos extras…

Os passos soaram ao fundo do beco, golpeando, golpeando, aproximando-se. E havia mais de um par de pés.

Butch retrocedeu nas sombras, desabotoando os botões de seu casaco e da jaqueta do traje, assim poderia chegar à arma se precisasse. Não tinha nenhuma intenção de se meter nos negócios de outra pessoa, mas não era do tipo que vacilava se um inocente estavesse sendo esmurrado.

Parecia que o policialcial nele ainda não estava morto.

Como o beco tinha uma única saída, a pista e os jogadores de campo que se aproximavam passaram ao lado dele. Esperando evitar qualquer fogo cruzado, aproximou-se de um contêiner de lixo e esperou para ver o que aconteceria.

Um rapaz jovem passou correndo perto dele, com o terror em seu rosto, seu corpo tremendo de pânico. E depois… bem, o que já se sabe.Dois valentões atrás dele tinham os cabelos muito claros e eram grandes como casas. Cheirando a talco de bebê.

Lessers. Indo atrás de um civil.

Butch tirou uma de suas Glock,digitou rapidamente o número de telefone de V, e saiu em perseguição. Enquanto corria, a chamada se caia na caixa postal, assim simplesmente colocou o Razr dentro de seu bolso.

Quando alcançou o drama, os três estavam na saída do beco, o que era uma péssima perspectiva. Agora que os assassinos tinham o civil esquecido, moviam-se prazerosamente, se aproximando, retrocedendo, sorrindo, jogando. O civil tremia, seus olhos tão abertos que a parte branca brilhava na escuridão.

Butch nivelou com sua arma a cena.

—Ei, loirinhos, o que parece a vocês, mostrarem suas mãos?

Os lessers pararam e o olharam. Cara, era como estar olhando a faróis, presumindo que você fosse um cervo e o que viesse em sua direção fosse um Peterbilt. Aqueles bastardos não mortos eram puro poder respaldado por fria lógica… uma perigosa combinação, especialmente por serem dois.

—Isto não é seu assunto —disse o da esquerda.

—Sim, isso é o que meu companheiro de quarto me diz continuamente. Mas verá, que na realidade não aceito bem os conselhos.

Tinha que dar crédito aos lessers; eram engenhosos. Um deles se concentrou nele. O outro se aproximou do civil, que parecia estar muito assustado para ser capaz de desmaterializar-se.

Isto vai se transformar rapidamente em uma situação com refém, pensou Butch.

—Por que não some ? —Disse o bastardo da direita—. É melhor para você.

—Provavelmente, mas pior para ele. —Butch assinalou com a cabeça para o civil.

Uma corrente gélida de ar atravessou o beco, agitando as páginas órfãs de um periódico e as bolsas de plástico vazias de compra. O nariz do Butch formigou e sacudiu a cabeça, odiando o aroma.

—Sabe —disse ele—, toda esta coisa de talco de bebê… como fazem os lessers para aguentar?

Os pálidos olhos dos assassinos viajaram de cima abaixo por ele como se não pudessem entender por que conhecia a palavra. E depois ambos se lançaram à ação. O lesser próximo ao civil lhe deu uma chave e arrastou o vampiro contra seu peito, transformando o potencial de refém em uma realidade. Ao mesmo tempo, o outro investiu contra Butch, movendo-se rápido como um piscar de olhos.

Entretanto, em seu interior, Butch não estava nervoso. Tranquilamente orientou o cano da Glock e disparou , acertando o filho de puta direto no peito. No instante em que sua bala penetrou, um chiado digno de uma banshee ( fada irlandesa) brotou violentamente da garganta do assassino e a coisa caiu na terra como um saco de areia, imobilizado.

Essa, não era a resposta habitual de um lesser ao ser baleado. No geral eles podiam repelir as balas, mas Butch guardava algo especial em seu carregador, graças à Irmandade.

—Que droga —resfolegou o assassino da direita.

—Surpresa, surpresa, bode. Consegui um pouco de chumbo de luxo.

O lesser voltou bruscamente para a realidade e arrastou o civil pela cintura com um braço, usando o vampiro como um escudo humano.

Butch mirou o casal com a arma. Maldita seja. Nada de disparos. Nem um disparo, absolutamente.

—Não ligue.

Um canhão surgiu da axila do civil.

Butch se atirou de cabeça por uma pequena entrada quando a primeira bala ricocheteou no asfalto. No momento em que encontrou refúgio, um segundo tiro perfurou sua coxa.

Droga, bem-vindos à terra do”Aos lentos lhe passam por cima”. Sentia sua perna como se tivesse um prego em brasa enfiado nela, o buraco em que estava apertado, lhe oferecia tanto cobertura como uma luz e o lesser estava se colocando em uma melhor posição de tiro.

Butch agarrou uma garrafa do Coors vazia e a jogou através do beco. Quando a cabeça do lesser saltou sobre o ombro do civil para rastrear o som, Butch apontou quatro tiros precisos em arco ao redor do casal. O vampiro aterrorizado, tal como esperava, transformou-se em um peso instável. Quando caiu livre do aperto do assassino, Butch atirou uma bala no ombro do lesser, o bastardo rodou sem parar, aterrissando com o rosto na terra.

Um tiro genial, mas o não morto ainda se movia, e certo como a merda que ia estar em pé em minutos. Aquelas balas especiais eram boas, mas o atordoamento não durava para sempre e isto ajudava se em lugar de uma arma lhe cravava algo no peito.

E sabe o que? Mais problemas.

Agora que o vampiro civil estava livre, tinha recuperado o fôlego e começou a gritar.

Butch mancou, blasfemando pela dor em sua perna. Jesus Cristo, este homem fazia alvoroço suficiente para trazer para toda a força policialcial da maldita Manhattan.

Butch se elevou frente ao rosto do rapaz, olhando-o com olhos duros.

—Preciso que pare a gritaria, entendeu? Me escute. Pare. Os gritos. Agora. — O vampiro balbuciou, depois se calou como se o motor de sua laringe ficasse sem gás. —Bem. Há duas coisas que preciso de você. Primeiro, quero que se acalme assim poderá desmaterializar-se. Entende o que estou dizendo? Respire lenta e profundamente, isso. Muito bem. E agora, quero que feche os olhos. Vamos, feche-os.

—Como sabe...?

—A conversa não está em sua lista de coisas para fazer. Feche os olhos .E continue respirando.Pense que está tudo bem e você conseguirá sair deste beco.

Quando o rapaz apertou fortemente as trementes mãos sobre os olhos, Butch registrou o segundo assassino, que estava de barriga para baixo no chão. A coisa tinha sangue negro caindo de seu ombro, e de sua boca saíam pequenos gemidos.

Butch agarrou um punhado do cabelo do lesser, inclinou a cabeça da coisa no asfalto, e pôs a boca da pistola junto a base do crânio. Apertou o gatilho. Quando a metade superior do rosto do bastardo se vaporizou, seus braços e pernas se crisparam. Caiu imóvel.

Mas o trabalho não estava terminado. Ambos os assassinos tinham que ser apunhalados no peito para estarem realmente mortos. E Butch não tinha nada afiado e brilhante com ele.

Tirou o telefone celular e teclou a dicagem rápida outra vez enquanto derrubava o assassino com o pé. Enquanto o celular de V começava a soar, Butch examinou os bolsos dos lessers. Surrupiou uma BlackBerry assim como também uma carteira…

—Me fodi —suspirou Butch. O assassino tinha ativado seu telefone, obviamente pedindo ajuda. E pela linha aberta, os sons de respiração pesada e o bater das roupas eram um sinal alto e claro de que a ajuda vinha rápido.

Butch deu uma olhada no vampiro enquanto o telefone de V seguia soando.

—O que vamos fazer? Pense direito. Parece realmente tranqüilo e controlado.

V, atende o maldito telefone. V...

O vampiro deixou cair as mãos, e seus olhos desceram sobre o assassino, cuja corpo estava agora por toda parte na parede de tijolo da direita.

—Ah… meu Deus…

Butch se levantou, colocando o corpo no meio.

—Não pense nisto.

A mão do civil emergiu e apontou para baixo.

—E …lhe deram um tiro.

—Sim, tampouco se preocupe por mim: Preciso que se acalme e vá, amigo. —Na realidade, agora mesmo.

No momento em que a caixa postal de V se atendia, chegou o som de botas batendo contra o chão, estavam descendo até o beco. Butch colocou o telefone dentro de seu bolso e desprezou o carregador da Glock. Enquanto encaixava um novo com um golpe, o momento de confusão tinha terminado.

— Se desmaterialize. Desmaterializa-te agora.

—Mas… mas…

—Agora! Tira seu traseiro daqui ou vai para casa em uma caixa.

—por que está fazendo isto? Só é um humano…

—Estou tão farto de escutar isso. Vai!

O vampiro fechou os olhos, murmurou uma palavra no Idioma Antigo, e desapareceu.

Enquanto isso, o compasso das chamas do inferno dos assassinos se fez mais forte. Butch olhou ao redor para refugiar-se, consciente de que seu sapato esquerdo estava emsopado, molhado com seu próprio sangue. A entrada pouco profunda era a única aposta. Blasfemando outra vez, grudou-se a ela e olhou o que vinha para ele.

—Ah, a merda… —Jesus, Deus no céu… havia seis deles.

 

Vishous sabia o que estava a ponto de acontecer a seguir, e não era algo do qual queria fazer parte. Quando um brilho luz branca transformou a noite em dia, deu a volta, afundando suas botas na terra. E não havia nenhuma razão para dar uma olhada para trás quando o grande rugido da besta retumbou através da noite. V sabia o que teria que fazer: Rhage tinha mudado, a criatura estava solta, e os lessers contra os quais tinham estado lutando estavam a ponto de ser o almoço. Mais ou menos, aqui não aconteceu nada… exceto por sua localização atual: o campo de futebol da Escola secundária do Caldwell.

Vai, Buldogues! Rah!

V subiu os degraus e praticou StairMaster (apartelho de ginástica) nelas, subindo à cúpula da seção de animadores do CHS. Lá embaixo, na linha de cinqüenta jardas, a besta agarrou um lesser, sacudiu a coisa no ar, e capturou o não morto entre seus dentes.

Vishous deu uma olhada ao redor. A lua não tinha saído, o que era ótimo, mas havia umas vinte e cinco malditas casas ao redor da escola secundária. E os humanos dentro daqueles blocos de dois andares, ranchos e casas ao estilo colonial da América Central acabavam de despertar devido a uma labareda tão brilhante como uma explosão nuclear.

V blasfemou e tirou bruscamente a luva que cobria sua mão direita. Quando moveu o braço, a incandescência do centro de sua palma deixada da mão de Deus, iluminou as tatuagens que corriam das pontas dos dedos até seu pulso por ambos os lados. Cravando a vista no campo, V se concentrou no batimento do coração, de seu coração, sentindo-o bombear em suas veias e entrando no pulso, o pulso, o pulso…

Ondas amortecidas saíram da palma, algo como ondas de calor se elevando do asfalto. No momento em que um par de luzes de alpendre se acenderam e as portas principais foram abertas e os pais de família colocaram as cabeças para fora de seus castelos, o mascaramento de mhis se fez necessário: a visão e os sons dos enfrentamentos no campo seriam substituídos pela ilusão, nada especial, de que tudo estava bem e como deveria ser.

Dos degraus, V usou sua visão noturna para observar os homens humanos olharem ao redor e se fazerem gestos. Quando as pessoas sorriram e deram um encolher de ombros, V pôde imaginar a conversa.

Ouça Bob, você também viu isso?

Sim, Gary. Uma grande luz. Enorme.

Deveríamos chamar à polícia?

Parece estar tudo bem.

Sim. Que estranho. Ouça, você, Marilyn e os meninos estão livres este sábado? Poderíamos dar uma volta pela alameda, talvez depois irmos comer uma pizza?

Boa idéia. Falarei com Sue. Boa noite.

Boa noite.

Enquanto as portas se fechavam e aqueles homens sem dúvida arrastavam os pés até o refrigerador para comer um sanduíche noturno, Vishous manteve a ilusão.

A besta não durou muito tempo. E não deixou muito sem comer. Quando terminou, o escamoso dragão olhou ao redor e quando a coisa localizou a V, um grunhido ondeou até os degraus, então terminou em um bufo.

— Terminou, tipo grande? —gritou V para baixo—. Para sua informação, o poste da portaria de lá poderia servir como um palito de dentes.

Outro bufo. Então a criatura se deitou e Rhage apareceu nu em seu lugar na empapada terra negra. logo que a mudança foi completada, V se transportou degraus abaixo e correu através do campo.

—Irmão? —gemeu Rhage enquanto tremia na neve.

—Sim, Hollywood, sou eu. vou levar você para casa com Mary.

—Não foi tão ruim como eu estava acostumado.

—Bom.

V tirou bruscamente a jaqueta de couro e a estendeu através do peito do Rhage; então tiro o telefone celular de um bolso. Tinha duas chamadas do número de Butch e discou para o celular do Policial, precisando apenas de uma discagem rápida. Quando não houve nenhuma resposta, V chamou Pit e ouviu a caixa postal.

Santo inferno… Phury estava com o Havers para que lhe ajustasse a prótese outra vez. Wrath não podia dirigir devido a sua cegueira. Ninguém tinha visto o Tohrment durante meses. Isto deixava ao Zsadist.

Depois de cem anos de luta com aquele homem, era difícil não amaldiçoar enquanto fazia a chamada. Z não parecia ser um bote salva-vidas, nem com muito esforço; era mais como os tubarões na água. Mas qual era a outra opção? Além disso, ao menos o irmão estava um pouco melhor desde que se havia emparelhado.

—Sim —a resposta chegou cortante.

—Hollywood externou seu Godzilla interior outra vez. Preciso de um carro.

—Onde estão?

—Caminho do Weston. No Campo de futebol da Escola secundária do Caldwell.

—Estarei ai em dez. Primeiros socorros?

—Não, ambos estamos intactos.

—Entendido. Resistam.

A conexão terminou e V olhou seu telefone. A idéia de que se pudesse confiar no aterrador bastardo era uma surpresa. Nunca teria acredito… não que visse acreditasse em muita coisa.

V pôs sua mão boa sobre o ombro do Rhage e levantou a vista para o céu. Um infinito, o universo inescrutável surgiu em cima dele, em cima de todos eles, e pela primeira vez, a imensidão o aterrorizou. Mas então, pela primeira vez em sua vida, voava sem uma rede.

Tinha perdido suas visões. Aquelas fotos do futuro, aquelas panaquices, as transmissões invasivas do que viria, aqueles quadros sem datas que o tinham mantido no limite desde que podia se recordar, simplesmente tinham ido. E também as intrusões nos pensamentos de outra pessoa.

Sempre quis estar sozinho em sua cabeça. Quão irônico encontrar o ensurdecedor silêncio.

—V? Estamos bem?

Olhou para o Rhage. A perfeita beleza loira do irmão ainda lhe cegava, até com todo o sangue de lesser em seu rosto.

—O meio de transporte chegará logo. Levaremo você para casa com sua Mary.

Rhage começou a resmungar e V simplesmente o deixou correr. Pobre homem miserável. As maldições nunca estiveram de sua parte.

Dez minutos mais tarde, Zsadist chegou, com o BMW de seu gêmeo, no campo de futebol, destroçando-o através de um atalho com bancos sujos de neve e deixando um rastro de barro nele. Enquanto o M5 atravessava a neve, V sabia que eles encheriam de pó o couro do assento traseiro, mas por outro lado Fritz, o extraordinario mordomo, podia tirar as manchas como não acreditasse no que aconteceu.

Zsadist saiu do carro e rodeou o capô. Depois de um século e meio morto de fome, por opção própria, usava agora suas boas de duzentas e oitenta e cinco libras em uma armação de 1,8m. A cicatriz em seu rosto permanecia chamando a atenção, tanto como o faziam as tatuadas bandas de escravo, mas graças a sua shellan, Bela, seus olhos já não eram poços negros de ódio. Em sua maior parte.

Sem dizer nada,os dois carregaram Rhage nos braços até o carro e apertaram seu poderoso corpo no assento traseiro.

—Vai fazer poof e desaparecer até sua casa? —disse Z enquanto sentava atrás do volante.

—Sim, mas tenho que limpar a cena. —O que significava, utilizar sua mão para limpar, fritando o sangue lesser que tinha salpicada por toda parte.

— Quer que o espere?

—Não, leve o nosso menino para casa. Mary vai querer vê-lo quanto antes.

Zsadist explorou as cercanias com um giro rápido de cabeça.

—Esperarei.

—Z, está tudo bem. Não ficarei aqui por muito tempo.

Aquele lábio arruinado se levantou em um grunhido.

—Se não estiver no complexo quando chegar lá, volto aqui.

O BMW saiu, levantando com os pneumáticos muita neve.

Jesus, Z realmente era um apoio.

Dez minutos mais tarde V se desmaterializou até o complexo, no momento em que estava chegando Zsadist e Rhage. Enquanto Z levava Hollywood para dentro, Vishous olhou ao redor, para os carros estacionados no pátio.

Onde demônios estava o Escalade? Butch deveria estar de volta já.

V tirou seu telefone e digitou a discagem rápida. Quando a caixa postal atendeu, disse:

—Ouça, companheiro, estou em casa. Onde está, Policial?

Como os dois se ligavamo constantemente, sabia que Butch verificaria logo o celular. Demônios, talvez ele estivesse ocupado pela primeira vez na história conhecida. Já era hora de que o lamentável HDP abandonasse sua obsessão por Marissa e conseguisse um pequeno alívio sexual.

E falando em alívio… V mediu a luz no céu. Calculou que tinha, aproximadamente, uma hora e meia de escuridão, e homem, estava nervoso como a merda. Tinha acontecido algo esta noite, algo ruim estava no ar, mas com suas visões ausentes, não sabia o que era. E essa espaço em branco o estava voltando louco.

Ligou o celular outra vez e discou um número. Quando deixou de tocar, não esperou um olá.

—Se preparare para mim agora. Coloque o que comprei para você. Seu cabelo deve estar preso e longe de seu pescoço.

Esperou para ouvir as três únicas palavras que lhe importavam e essas chegaram rapidamente, a voz feminina disse:

—Sim, meu lheage.

V desligou e se desmaterializou.

 

Ultimamente o ZeroSum estava fazendo bons negócios, pensou Rehvenge enquanto observava as contas. O fluxo de dinheiro era grande. Havia um aumento nos registros de recibos de jogo. O público crescia. Deus, tinha sido dono desse clube por quanto? Cinco? Seis anos? E finalmente, estava entrando dinheiro suficiente para que pudesse respirar tranquilo.

É obvio que era uma forma desprezível de fazer dinheiro, com sexo, drogas, álcool e apostas. Mas precisava manter a seu mahmen e, até pouco tempo, a sua irmã, Bela. Logo estava a chantagem sobre sua cabeça que tinha que cobrir.

Os segredos podiam ser muito caros de se manter.

Rehv levantou a vista quando a porta do escritório se abriu. Quando sua chefe de segurança entrou, pôde cheirar o persistente aroma de Ou’Neal nela e sorrio um pouco. Gostava de ter razão. —Obrigado por cuidar de Butch.

Os olhos cinzas do Xhex eram diretos como sempre. —Não o teria feito se não o tivesse desejado.

—E não teria pedido isso a você se não soubesse disso. Agora, o que aconteceu?

Sentou-se do outro lado do escritório, seu corpo poderoso e duro como o mármore no que estava apoiando os cotovelos. —Sexo forçado no quarto em cima do banheiro dos homens. Resolvi isso. A mulher vai apresentar queixa.

—Acabou com o menino que seguia você?

—Sim, mas terminou com um par novo de brincos, se entende o que quero dizer. Também encontrei dois menores no estabelecimento e os joguei para fora. E um dos gorilas estava recebendo subornos na fila, assim, o despedi.

—Algo mais?

—Temos outra overdose.

—Merda. Embora não com nosso produto, certo?

—Não. Merda externa. —Tirou uma pequena bolsa de celofane do bolso traseiro de suas calças de couro e a atirou sobre o escritório—. Consegui ficar com isto antes que chegassem os paramédicos, vou contratar algum pessoal extra para lutar com esta situação.

—Bem. Encontra esse Independente, e me traga seu traseiro. Quero me encarregar dele pessoalmente.

—Farei isso.

—Tem algo mais para mim?

No silêncio que seguiu, Xhex se inclinou para frente e entrelaçou as mãos. Seu corpo era todo músculos firmes, nada além de duros ângulos, excetuando seus empinados e pequenos seios. Era delirantemente hermafrodita, embora pelo que tinha ouvido, integralmente uma fêmea.

O policialcial devia sentir-se afortunado, pensou. Xhex não praticava sexo muito freqüentemente, e quando o fazia era porque pensava que o homem valia a pena.

Tampouco perdia o tempo,geralmente. —Xhex, fala.

—Quero saber uma coisa.

Rehv se recostou para trás na cadeira. —Vai fazer com que eu fique zangado?

—Sim. Está procurando uma companheira?

Quando seus olhos começaram a brilhar com um tom púrpura, inclinou o queixo para baixo e a olhou por debaixo das sobrancelhas. —Quem disse isso? E quero o nome.

—Dedução, não fofoca. De acordo com os registros do GPS, seu Bentley esteve freqüentemente perto do Havers. Acontece que sei que Marissa está disponível. É bonita. Complicada. Mas nunca se importou com a glymera. Está pensando em se emparelhar com ela?

—Não é nada. —mentiu.

—Bem. —Quando os olhos do Xhex se cravaram nele, ficou óbvio que sabia a verdade. —Porque seria uma loucura de sua parte tentá-lo. Ela descobriria você… e não refiro ao que acontece aqui. Pelo amor de Deus é membro do Conselho do Príncipes. Se soubesse que é um symphath, comprometeria a ambos.

Rehv se levantou e aplaudiu seu discurso. —A Irmandade já sabe a respeito de mim.

—Como? —resfolegou Xhex.

Pensou no pequeno assunto labios/caninos que tinha compartilhado com o Irmão Phury, e decidiu mantê-lo em segredo. —Simplesmente sabem. E agora que minha irmã está emparelhada a um Irmão, sou um membro da condenada família. Assim, inclusive se o Conselho dos Príncipes se inteira, esses guerreiros os manterão sob controle.

Que pena que seu chantagista não se visse afetado pelas regras dos Normais. Como estava descobrindo, os Symphaths, eram inimigos muito ruins. Não sentia pena que sua espécie fosse odiada.

—Está certo disso?

—Bela morreria se a enviassem a uma dessas colônias. Pensa que seu hellren suportaria que a transtornassem dessa forma, especialmente agora que está grávida? Z é um malvado filho da puta e muito protetor com ela. Assim, sim, estou certo.

—Alguma vez suspeitou a respeito de você?

—Não. E embora Zsadist sabia, não ia dizer a sua companheira. De nenhuma forma poria Bela nessa situação. As leis ditam que se conhecer um symphath deve entregar ele ou ela, ou então, enfrentar uma punição.

Rehv deu volta no escritório, apoiando-se na bengala agora que estava sozinho na presença de Xhex. A dopamina que injetava em si mesmo regularmente mantinha sob controle a pior parte dos impulsos do symphath, possibilitando a ele passar por um Normal. Não estava certo como o governava Xhex. Não estava certo de querer sabê-lo. Mas o assunto era, sem rodeios, que tinha que usar uma bengala ou era propensa a cair. Depois de tudo a percepção profunda lhe fazia chegar longe quando não podia sentir seus pés nem suas pernas.

—Não se preocupe —lhe disse—. Ninguém sabe o que somos. E continuará sendo assim.

Os olhos cinzas se elevaram para olhá-lo. —Está-a alimentando, Rehv. —Não era uma pergunta. Era uma afirmação—.Está alimentando a Marissa?

—Esse é assunto meu, não seu.

Levantou-se de um salto. —Maldito seja…. Tínhamos combinado. Faz vinte e cinco anos quando tive esse pequeno problema, conbinamos. Não teríamos companheiros. Não alimentaríamos aos Normais. Que demônios está fazendo?

—Sou a autoridade e esta conversa terminou. —Olhou o relógio—. E pelo que sei, é hora de fechar e precisa de um descanso. Os Moor podem fechar.

Olhou-o por um momento. —Não, vou terminar meu trabalho…

—Não estou sendo amável, estou ordenando a você que vá para casa.A verei amanhã de noite.

—Não se ofenda, mas vai a merda, Rehvenge.

Se dirigiu a porta dando passos duros, se movendo como a assassina que era. Enquanto a olhava partir, recordou que seu pessoal de segurança não era nada comparado com o que ela era capaz de fazer.

—Xhex —disse— possivelmente estivéssemos equivocados a respeito de ter companheiros.

Enviou-lhe um olhar carrancudo que dizia—Por acaso é estúpido?— por sobre o ombro. —Se droga duas vezes ao dia. Crê que eventualmente Marissa não se dará conta? O que me diz do fato de que tem que ir até seu irmão, o bom doutor ,para te fazer o neuromodulador de qual depende? Além disso, o que diria uma aristocrata como ela a respeito de tudo… isto? —varreu o escritório com o braço estendido—. Não estávamos equivocados. Esta somente esquecendo os porquês de tudo.

A porta se fechou atrás dela e Rehv olhou para baixo a seu intumescido corpo. Imaginou Marissa, tão pura e linda, tão diferente das outras fêmeas que conhecia, tão diferente de Xhex… da que se alimentava.

Desejava Marissa, a estas alturas estava meio apaixonado por ela. E o homem nele queria reclamar o que lhe pertencia ainda quando as drogas o voltavam impotente. Salvo que embora aparecesse sua parte escura certamente não machucaria aos que amava, certo?

Pensou nela, usando os vestidos de alta costura, tão apropriadamente vestida, tão refinada, tão… limpa. A glymera estava equivocada a respeito dela. Não era defeituosa; era perfeita.

Sorriu, seu corpo animando-se com um calor que somente podia se apagar através de fortes orgasmos. Estava chegando esse momento do mês, assim logo o chamaria. Se, o necessitasse outra vez… logo. Como seu sangue estava diluído, devia se alimentar com uma freqüência maior, e faziam quase três semanas da última vez.

Estaria-o chamando em uns poucos dias. E mal podia esperar para lhe ser útil.

 

V voltou para o complexo da Irmandade sobrando alguns minutos, materializou-se fora da casa em frente a porta dianteira. Tinha tido esperanças que essa espécie de sexo tivesse acabado com sua acuidade, mas não, ainda estava afiada como a merda.

Passou através do vestíbulo do Pit desarmando-se pelo caminho absolutamente tenso e tão preparado para tomar uma ducha, para se livrar do aroma da mulher. Deveria ter estado faminto; em vez disso, tudo o que desejava era um pouco de vodca Grei Goose.

— Butch, amigo! —chamou.

Silêncio.

V caminhou pelo corredor para o quarto do policial. —Chegou?

Abriu a porta. A cama gigante estava vazia. Então talvez policial estivesse na casa principal?

V andou pelo Pit e colocou a cabeça pela porta do vestíbulo. Um olhar rápido aos carros estacionados no pátio e seu coração começou a disparar no peito. Nenhum Escalade. Logo, Butch não estava no complexo.

Com o sol começando a sair pelo leste, a claridade do dia fez que seus olhos ardessem, assim, entrou novamente dentro de casa e se sentou atrás da rede de computadores.

Carregando as coordenadas do Escalade, viu que o SUV estava estacionado atrás do Screamer.

O que era bom. Ao menos Butch não estava envolto ao redor de uma árvore…

V congelou. Lentamente, colocou a mão no bolso traseiro de suas calças de couro, com um horrível pressentimento se apoderando dele, quente e que picava como um brotoeja. Abrindo o Razr, acessou a sua caixa postal. A primeira mensagem que aparecia era uma chamada perdida do número do Butch.

Enquanto aparecia a segunda mensagem, as persianas de aço do Pit começaram a baixar-se pelo dia.

V franziu o cenho.Se ouvia somente um chiado proveniente da caixa postal. Mas logo um estrondo fez que afastasse o telefone de um golpe de seu ouvido.

Agora a voz do Butch, firme, alta: “Se desmaterialize. Se desmaterialize agora.”

Um homem assustado: “Mas…Mas…”

“Agora! Demônios, tira seu traseiro daqui…” sons de golpes distantes.

“por que está fazendo isso? É somente um humano…..”

“Estou tão farto de escutar isso. Vai!”

Houve um ruído de metal se movendo,uma arma sendo carregada.

A voz do Butch: “OH, merda…”

Logo se desatou o inferno. Disparos, grunhidos, golpes surdos.

V saltou de atrás do escritório tão rápido que derrubou a cadeira. Somente para se dar conta de que estava preso dentro de casa devido à luz do dia.

 

O primeiro pensamento de Butch quando voltou a si foi que alguém devia fechar a torneira. O drip, drip, drip, era muito incômodo.

Logo abriu uma pálpebra e se deu conta de que seu próprio sangue estava fazendo a rotina do Kohler. Ah…. genial. O tinham moído e agora estava gotejando.

Este tinha sido um longo, longo e péssimo dia. Por quantas horas o tinham interrogado? Doze? Pareciam mil.

Tratou de respirar fundo, mas algumas de suas costelas estavam quebradas, assim, isso provocou hipoxia e mais dor. Homem, graças à hospitalidade de seus captores, tudo doía como sua puta mãe, mas pelo menos o lesser tinha fechado a ferida da bala.

Só para poder interrogá-lo por mais tempo.

A única coisa boa de tododo esse pesadelo era que, nenhuma palavra a respeito da Irmandade tinha abandonado seus lábios. Nenhuma única palavra,inclusive quando o assassino tinha trabalhado sob suas unhas e entre suas pernas. Butch ia morrer logo, mas ao menos quando chegasse ao céu poderia olhar São Pedro no rosto sabendo que não era nenhum traidor.

Ou, tinha morrido e chegado ao inferno?Era disso que se tratava tudo? Dada a merda em que tinha estado envolto na terra, podia muito bem ter ido pagar pensão ao diabo. Mas então, seu torturador não deveria ter chifres, como tinham os demônios?

OK, agora estava imaginando coisas.

Abriu os olhos um pouco mais, já era hora de separar a realidade das tolices que dançavam em sua cabeça. Tinha a sensação de que provavelmente este fosse seu último momento de consciência, assim melhor o aproveitar.

Sua visão era imprecisa. As mãos… os pés…yup, algemados. E estava estendido quieto sobre algo duro, uma mesa. O quarto era… escuro. O aroma de pó significava que provavelmente estivesse em um porão... uma lamparina quebrada… se, uma ferramenta de tortura. Estremecendo, afastou a vista das coisas afiadas espalhadas por aí.

O que foi esse barulho? Um tênue bramido. Se tornando mais forte. Mais forte.

Nem bem se deteve, uma porta se abriu no andar de cima e Butch ouviu dizer a um homem com voz afogada —Professor.

Uma suave réplica. Indistinta. Logo uma conversa, e uns passos andando de um lado a outro, fazendo com que o pó se filtrasse para baixo pelas pranchas de madeira do andar. Eventualmente, outra porta chiou ao abrir, e as escadas próximas a ele começaram a ranger.

Butch começou a suar frio sob as pálpebras. Através dos olhos entrecerrados, espiou para ver o que se aproximava.

O primeiro tipo era o lesser que tinha estado trabalhando nele, o indivíduo do verão anterior, da Academia Caldwell de Artes Marciais…. Se a Butch não falhava a memória se chamava Joseph Xavier. O outro estava vestidor dos pés à cabeça com uma brilhante túnica branca, seu rosto e mãos completamente ocultos. Parecia algum tipo de monge ou sacerdote.

Exceto, que não havia um homem de Deus ali embaixo. Quando Butch absorveu a vibração dessa pessoa, ficou sem fôlego devido à repulsão. O que quer que estivesse oculto embaixo dessa túnica, destilava maldade, do tipo que motivava os assassinos em série, estrupadores, assassinos e às pessoas que desfrutavam batendo em seus filhos: o ódio e a malevolência tinham adotado uma forma alta e sólida.

O nível de temor do Butch se elevou até o teto. Podia suportar ser espancado; a dor era uma merda, mas havia um ponto final marcado para quando seu coração deixasse de pulsar. Mas o que se escondia debaixo da túnica guardava sofrimentos misteriosos do tipo que se consideravam bíblicos. E como sabia? Seu corpo inteiro estava se rebelando, seus instintos disparados dizendo que corresse, que se salvasse….que rezasse.

As palavras chegaram a ele, partindo por sua mente. O Senhor é meu pastor; nada me faltará...

O capuz da figura da túnica,se voltou para Butch girando como se não tivesse ossos, como a cabeça de uma coruja.

Butch fechou os olhos de repente e se concentrou a recitar o salmo 23. Mais rápido… precisava trazer as palavras a sua mente, mais rápido. Em lugares de delicados pastos me fará jazer. Junto a águas de repouso me pastoreará… Confortará minha alma; guiar-me-á por caminhos de justiça por amor de seu nome...

—É este o homem? —a voz reverberou através do porão fazendo que Butch tropeçasse nas palavras, o fazendo perder o ritmo: Era ressonante e fazia eco, quase como se tirado de um filme de ficção científica com toda a distorção sobrenatural.

—Sua arma estava carregada com balas da Irmandade.

Volta para o salmo. E o faz rápido. Embora ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum…

—Sei que está acordado, humano. —A voz com eco se disparou dentro do ouvido do Butch—. Me Olhe e conheça o amo de seu captor.

Butch abriu os olhos, virou a cabeça e engoliu compulsivamente. O rosto que o olhava era escuridão condensada, uma sombra viva.

O Omega.

O Mal sorriu um pouco. —Assim sabe o que sou, certo? — se endireitou—. Não disse nada a você, certo, Fore-lesser?

—Ainda não terminei.

—Ah, logo, isso é um não. E trabalhaou bem nele, dado o próximo à morte que está. Sim, posso senti-la vindo para ele. Tão próxima. —O Omega se inclinou outra vez e inalou o ar sobre o corpo do Butch—. Sim, em uma hora. Ou talvez menos.

—Durará tanto como eu queira que dure.

—Não, não o fará. —O Omega começou a dar a volta à mesa e Butch seguiu seus movimentos, o terror crescendo e crescendo, consolidando-se na força centrífuga do passeio do Malvado. Girando, girando, girando…. Butch tremia tanto que seus dentes tocavam castanholas.

O tremor acabou no segundo em que o Omega se deteve no extremo mais afastado da mesa. Mãos espectrais se elevaram e agarraram o capuz da túnica branca, e a retiraram. Sobre suas cabeças a lamparina descoberta piscou como se sua iluminação tivesse sido absorvida pela escura forma.

—O deixe partir —disse o Omega, sua voz como uma onda, filtrada e intensificada pelas variações de ar—. Deixe-o nos bosques. Dirá aos outros que se mantenham afastados dele.

O que? pensou Butch.

—O que? —disse o Fore-lesser.

—A Irmandade conta entre suas debilidades com uma lealdade que é paralisante, não é assim? Sim, fidelidade   paralisante. Reclamam o que é dele. É o animal neles. —O Omega estendeu a mão—. Uma faca, por favor. Sou da opinião de que façamos que este humano nos seja útil.

—Acaba de dizer que ia morrer.

—Mas como estão as coisas vou lhe dar um pouco de vida. Algo assim como um presente. Faca.

Os olhos do Butch se abriram completamente enquanto uma faca de caça de vinte centímetros trocava de mãos.

O Omega pôs uma mão sobre a mesa, a folha sobre a ponta de um de seus dedos, e empurrou para baixo. Houve um rangido, como quando se corta uma cenoura.

O Omega se inclinou sobre o Butch. —Onde escondê-lo, onde escondê-lo…

Quando a faca baixou e se abateu sobre o abdômen do Butch, ele gritou.

E ainda seguia gritando quando cortaram levianamente seu ventre. Logo o Omega recolheu a pequena parte de si mesmo, o negro dedo.

Butch lutou, tironeando das ataduras. O horror fazia que seus olhos se inchassem até que a pressão em seus nervos ópticos o cegou.

O Omega inseriu a ponta de seu dedo dentro da tripa de Butch, logo se inclinou mais para baixo e soprou sobre o corte fresco. A pele selou, a carne entretecendo-se. Imediatamente Butch sentiu a podridão dentro dele, sentiu o mal deslizando por ele, se movendo. Levantou a cabeça. A pele ao redor do corte já estava ficando cinza.

As lágrimas arrasaram seus olhos. Escorrendo por suas bochechas.

—Solte-o.

O Fore-lesser foi abrir as algemas mas quando as soltou, Butch se deu conta de que não podia se mover. Estava paralisado.

—Eu o levarei —disse o Omega—. E sobreviverá e encontrará seu caminho de volta à Irmandade.

—Eles perceberão.

—Possivelmente, mas o acolherão.

—Ele dirá a eles.

—Não, porque não me recordará. —O rosto do Omega se inclinou para o Butch—. Não recordará nada.

Quando seus olhares se encontraram, Butch pôde sentir afinidade entre eles, pôde sentir o vínculo, o reconhecimento. Chorou pela violação que tinha sofrido, mas mais pela Irmandade. O acolheriam. Tratariam de ajuda-lo de qualquer forma que pudessem.

E certo como o mal nele, que terminaria traindo-os.

Salvo que talvez Vishous ou os irmãos não o encontrassem. Como poderiam? E sem roupa, o certo era, que morreria, rapidamente pela falta de amparo contra o frio.

O Omega se aprumou e limpou as lágrimas de uma das bochechas do Butch. O brilho da umidade resultava iridescente contra esses dedos negros translúcidos, e Butch queria de volta o que tinha saído de seu ser. Que não tivesse ocorrido. Levantando a mão para a boca, o Malvado saboreou a dor do Butch e seu medo, lambendo… chupando.

O desespero confundiu as lembranças de Butch, mas a fé que acreditou que o tinha abandonado arrojou outro parágrafo do salmo: Certamente o bem e a misericórdia me seguirão todos os dias de minha vida. E na casa do Senhor viverei para sempre.

Mas isso já não era possível agora, ou o era? Tinha o mal dentro dele, debaixo da pele.

O Omega sorriu, embora Butch não compreendia como podia se dar conta disso. —É uma lástima que não tenhamos mais tempo, já que sua condição é frágil. Mas em um futuro você e eu teremos a oportunidade. O que reclamo como meu sempre retorna para mim. Agora, dorme.

E como um abajur a que apagam, Butch dormiu.

 

—Responde a maldita pergunta, Vishous.

Justo quando o relógio do avô começava a sossegar na esquina, V afastou o olhar de seu Rei. Deteve-se a quarta badalada, assim eram uatro da tarde. A Irmandade tinha estado reunida no comando central do Wrath todo o dia, rondando pelo ridiculamente elegante salão Luis XIV, saturando o delicado ar do lugar com sua fúria.

—Vishous —grunhiu Wrath—, estou esperando. Como saberia onde encontrar o polí? E por que não mencionou isto antes?

Porque sabia que ia criar problemas, e seu carrinho de compras já estava cheio de merda.

Enquanto V tratava de pensar em que podia dizer, olhou seus irmãos. Phury estava na poltrona azul pálida em frente da lareira, seu corpo diminuindo a peça de mobiliário, seu cabelo multicolorido agora ultrapassava a linha da mandíbula. Z estava atrás de seu gêmeo, apoiado no suporte, seus olhos novamente negros, já que estava enfurecido . Rhage estava perto da porta, seu bonito rosto luzia uma perigosa expressão, seus ombros crispando-se como se sua besta interior estivesse igualmente zangada, tanto como para tirar o demônio do corpo de alguém.

E então, lá estava Wrath. Atrás do refinado escritório, o Rei Cego era todo ameaça, seu cruel semblante endurecido, seus débeis olhos ocultos atrás de seus envolventes óculos de cristais escuros. Seus fortes antebraços, marcados na parte interna com tatuagens que indicavam sua linhagem de sangue puro, apoiados em um livro de apontamentos gravado com relevos de ouro.

Que Tohr não estivesse no grupo era uma ferida aberta para todos eles.

—V? responde a pergunta ou que Deus me ajude lhe tirarei isso a golpes.

—Só posso dizer que sei como encontrá-lo.

—O que está escondendo?

V foi para o bar, serviu-se de dois dedos de Grei Goose, e o bebeu de um gole. Bebeu várias vezes e logo as palavras saíram de sua boca .

—Alimentei-o.

Um coro de inalações flutuou por toda o salão. Enquanto Wrath se levantava olhando-o com incredulidade, V se serviu de outra dose do Goose.

Você fez o que? —a última palavra foi um rugido.

—Deixe-o beber de mim.

—Vishous… —Wrath andou majestosamente dando a volta na mesa, as botas batendo o chão como canto rodado. O Rei se aproximou até ficar cara a cara—. É um homem. É humano. Que merda estava pensando? —Mais vodca. Definitivamente era o momento de mais Goose.

V tomou o gole e se serviu da quarta. —Com meu sangue nele, posso encontrá-lo e por isso fiz que bebesse. Vi…. que devia fazê-lo. Assim, o fiz, e voltaria a fazer.

Wrath se virou e passeou pelo salão, as mãos apertadas em punhos. Como se o chefe caminhasse para aliviar a frustração, o resto da Irmandade o olhava com curiosidade.

—Fiz o que tinha que fazer, —falou V, apoiando com força o copo.

Wrath se deteve perto de uma das janelas,as venezianas estavam trancadas para passar o dia, não entrava luz alguma. —Bebeu de sua veia?

—Não.

Um par de irmãos limparam a garganta, como se o estivessem incitando a ser honesto.

V amaldiçoou e se serviu de mais. —Ah, pelo amor de Deus, não é dessa forma com ele. Dava-lhe um pouco em um copo. Não sabia o que estava bebendo.

—Merda, V —murmurou Wrath—, poderia havê-lo matado nesse mesmo momento…

—Foi há três meses. Sobreviveu a isso, assim não há dano…

A voz do Wrath soou forte como um golpe de ar. —Violou a lei! Alimentando um humano! Cristo! O que se supõe que devo fazer a respeito disto?

—Se quer me entregar à Virgem Escriba, irei sem problemas. Mas esclareçamos uma coisa. Primeiro, encontrarei Butch e o trarei para casa, vivo ou morto.

Wrath levantou os óculos de sol e esfregou os olhos, um hábito que tinha desenvolvido ultimamente quando estava cansado da merda de ser Rei. —Se foi interrogado, pode ser que tenha falado. Poderíamos estar em perigo.

V olhou para baixo dentro do copo e negou lentamente com a cabeça. —Morreria antes de nos delatar. Garanto. —Engoliu a vodca e a sentiu deslizar por sua garganta—. Meu amigo é bom.

 

Marissa pensou que Rehvenge não tinha parecido para nada surpreso quando o chamou. Mas bem, de alguma maneira misteriosa sempre a tinha podido ler.

Colocando a capa negra, saiu pela parte de trás da mansão de seu irmão. Acabava de cair a noite, e estremeceu, embora não por causa do frio. Era pelo horrível sonho que havia tido durante o dia. Tinha estado voando, voando através do terreno, voando sobre um lago congelado com pinheiros em sua parte mais longínqua, tinha ido mais à frente do círculo de árvores, e logo diminuiu a marcha e olhou para baixo. Na terra nevada, ancolhido e sangrando, viu … Butch.

Por causa das imagens do pesadelo, via-se consumida pela necessidade de chamar à Irmandade. Exceto, que se sentiria estúpida quando os guerreiros retornassem a chamada muito zangados, para lhe dizer que ele estava perfeitamente bem? Provavelmente pensariam que o estava perseguindo. Mas, Deus… essa visão dele sangrando sobre a terra coberta de branco, essa imagem dele, necessitado e em posição fetal, perseguia-a.

Embora soubesse que foi um sonho. Somente… um sonho.

Fechando os olhos, se forçou a adotar um semblante de calma e se desmaterializou para o centro da cidade o terraço de um apartamento de cobertura a uns trinta andares do chão. Logo que tomou forma, Rehvenge abriu uma das seis portas de vidro.

Imediatamente franziu o cenho. —Está nervosa.

Enquanto se aproximava dele forçou um sorriso. —Sabe que sempre estou um poquinho incômodada.

Apontou-a com sua bengala gravado em ouro. —Não, isto é diferente.

Deus, nunca tinha conhecido alguém que fosse tão sensível a respeito de suas emoções. —Estarei bem.

Enquanto a tomava pelo cotovelo e a levava para dentro, viu-se envolta por um calor tropical. Rehv sempre tinha a temperatura assim, alta, e sempre usava um casaco de Marta cibelina longo até o andar que não tirava até que se achassem no sofá. Não tinha idéia como podia suportar o calor, mas parecia ansiá-lo.

Fechou a porta corrediça. —Marissa, quero saber o que aconteceu.

—Nada, sério.

Com um giro, Tirou a capa e a pendurou em uma cadeira de cor negra e cromo. Três dos lados do apartamento de cobertura eram feitos de folhas de vidro, e atrás delas se estendia a vista das duas metades do Caldwell incluindo as brilhantes luzes do centro da cidade, a escura curva do Rio Hudson, e as estrelas brilhando sobre tudo isso. Entretanto, em contraste com a cintilante paisagem, a decoração era minimalista, tudo elegantemente decorado em ébano e tons nata… algo assim como Rehv, com seu mohawk negro, sua pele dourada e sua roupa perfeita.

Em outras circunstâncias, teria adorado o apartamento de cobertura.

Em outras circunstâncias, poderia haver adorado a ele.

Os olhos violetas do Rehv se estreitaram enquanto se inclinava sobre a bengala e caminhava para ela. Era um homem enorme, treinado como um dos Irmãos, e tinha prática na arte de ameaçar, seu bonito rosto inclemente. —Não minta para mim.

Logo sorriu. Os homems tendiam a ser muito protetores, embora nenhum deles estivesse emparelhado, não lhe surpreendeu que parecesse preparado para caçar qualquer coisa em seu nome.

—Tive um sonho inquietante esta manhã e não deixei de tremer devido a isso. Isso é tudo.

Enquanto a estudava, teve a mais estranha sensação que estava esquadrinhando suas emoções, examinando como se interconectavan desde seu interior.

—Me dê a mão —lhe disse.

Estendeu-a sem duvidá-lo. Sempre observava as formalidades da glymera, e ainda não a tinha saudado como ditavam os costumes. Exceto quando sua Palmas se encontraram, não roçou com os lábios seus nódulos. Pôs o polegar sobre seu pulso e pressionou um pouco. Logo mais forte. De repente, como se tivesse aberto algum tipo de drenagem, seus sentimentos de temor e preocupação lhe percorreram o braço para baixo e fora, para ele, extraídos por seu contato.

—Rehvenge? —sussurrou fracamente.

No instante que a soltou, as emoções voltaram, como se a fonte de tudo se fechasse.

—Não será capaz de estar comigo esta noite.

Ruborizou e esfregou a pele onde a havia tocado. —É obvio que o farei. Já é… tempo.

Para que as coisas ficassem em movimento, foi para o sofá de couro negro que usavam habitualmente e ficou ali parada. Depois de um momento, Rehvenge foi para ela e tirou o casaco da Marta cibelina, arrojando a pele e alisando-a para que pudessem sentar sobre ela. Logo desabotoou a jaqueta de seu traje negro e a tirou também. Com a ponta dos dedos abriu a fina camisa de seda, que parecia tão branca, pelo centro, revelando uma parte de seu peito sem pelos. Seu peito era tatuado, duas estrelas de cinco pontas vermelhas, e havia mais desenhos sobre seu estômago.

Enquanto se sentava e se acomodava contra o braço da poltrona, seus músculos se flexionaram. Quando olhou para cima, atraiu-a seu olhar brilhante de ametista, tanto quanto sua mão quando estendeu o braço e lhe fez gestos com o dedo indicador para que se aproximasse. —Vêem aqui, tahlly. Tenho o que necessita.

Levantou a saia do vestido e subiu entre suas pernas. Rehv sempre insistia em que bebesse de sua garganta, mas das três vezes que o tinham feito, nenhuma só vez se excitou. O que era um alívio como um aviso. Tampouco Wrath tinha tido uma ereção quando estava perto dela.

Enquanto olhava para baixo, à glória de homem de pele suave que era Rehv, a fome moderada que havia sentido nos últimos dias a golpeou forte. Pôs as palmas sobre seup peitop e se arqueou sobre ele, observando-o enquanto fechava os olhos, inclinava o queixo para um lado e lhe percorria os braços com as mãos. Um suave grunhido escapou de seus lábios, era algo que sempre ocorria antes de que o mordesse. Sob outras circunstâncias, haveria dito que era devido à antecipação, mas sabia que não era certo. Seu corpo sempre estava flácido, e não podia acreditar que gostasse tanto ser usado.

Abriu a boca, sentindo que as presas se alargavam, estendendo-se para baixo desde sua mandíbula superior. Inclinou-se para o Rehv, ela…

A imagem do Butch na neve a paralisou, e teve que sacudir a cabeça para voltar a se focar na garganta do Rehv e na fome que sentia.

Se alimente, disse a si mesma. Toma o que ele oferece.

Tentou novamente, somente para parar com a boca sobre seu pescoço. Quando fechava os olhos com força devido à frustração, Rehv colocou a mão debaixo do queixo e elevou sua cabeça.

— Quem é ele, tahlly? —Rehv acariciou o lábio inferior com o polegar —. Quem é esse homem que amas que não alimenta você? E me sentirei completamente insultado se não me disser isso.

—OH, Rehvenge… não é ninguém a quem você conheça.

—É um tolo.

—Não. Eu sou a tola.

Com um inesperado arrebatamento, Rehv levou sua boca a dela, sobressaltando-a de tal maneira que arquejou, e com um impulso erótico, lhe introduziu a língua. A beijou habilmente, com suaves movimentos, deslizandou para penetrá-la. Não sentiu que se excitasse, mas podia dizer que tipo de amante seria: dominante, capitalista… consumado.

Quando empurrou seu peito, permitiu-a quebrar o contato.

Enquanto Rehv se deixava cair para trás, os olhos de ametista brilhavam, com uma linda luz violeta emanando deles, derramando-se dentro dela. Embora não pudesse sentir nenhuma ereção entre seus quadris, o tremor que corria por seu grande e musculoso corpo lhe disse que era um homem que tinha o sexo em mente e no sangue…. e que desejava penetrá-la.

—Parece muito surpresa—disse lentamente.

Considerando a maneira com que a maioria dos homems a olhavam, estava-o. —Isso foi algo inesperado. Especialmente por eu ter pensado que não pudesse…

—Sou capaz de emparelhar-me com uma fêmea. —Baixou as cílios, e por um momento luziu assustando-a—. Sob certas circunstâncias.

Apareceu de nenhuma parte, uma imagem chocante transitou por seu cérebro: ela nua em uma cama sobre um lençol da Marta cibelina, Rehv nu e totalmente ereto, lhe abrindo as pernas com os quadris. No interior de suas coxas, viu uma marca de mordida, como se tivesse se alimentado da veia que havia ali.

Quando inspirou profundamente e cobriu os olhos, a visão desapareceu e murmurou —Minhas desculpas, tahlly. Temo que minhas fantasias são muito explícitas. Mas não se preocupe, podemos fazer com que permaneçam só em minha mente.

—Deus querido, Rehvenge, nunca suspeitei. E talvez se as coisas fossem diferentes…

—Suficientemente justo. —A olhou no rosto e sacudiu a cabeça—.Eu realmente gostaria de conhecer esse seu homem.

—Esse é o problema. Não é meu.

—Então, como disse, é um parvo. —Rehv tocou seu cabelo—. E faminta como esta, teremos que fazer isto em outro momento, tahlly. Esse seu coraçãozinho não vai permitir isso esta noite.

Se afastou e ficou de pé, os olhos se desviando para as janelas, para a brilhante cidade. Perguntou-se onde estaria Butch e o que estaria fazendo, voltou a olhar para Rehv e quis saber porque demônios não se sentia atraída por ele. Era bonito como um guerreiro…

Potente, de sangue espesso, forte…. especialmente agora, com seu imponente corpo escancarado na poltrona coberta da Marta cibelina, as pernas estiradas em flagrante convite sexual.

—Desejaria querer você, Rehv.

Rio secamente. —Gracioso, sei exatamente ao que você se refere.

 

V se deslocou através do vestíbulo da mansão e se deteve no pátio. Ao casco de pedra que sobressaia a mansão, mandou sua mente para a noite, com seu radar procurando um sinal.

—Não se lançará a isto sozinho, —grunhiu Rhage em seu ouvido—. Encontra o lugar onde o têm detido e nos chama.

Quando V não respondeu, foi agarrado pela parte de atrás do pescoço e sacudido como um boneco de trapo. Apesar do fato de ter quase um metro e noventa de altura.

Rhage aproximou o rosto, pondo cara de não-me-fodas. —Vishous, me escutou?

—Sim, OK. —tirou o homem de cima, só para constatar que não estavam sozinhos. O resto da Irmandade estava esperando, armada e enfurecida, um canhão preparado para ser disparado. Exceto que… no centro de toda sua agressividade, estavam-no olhando com preocupação. Como essa preocupação o deixava louco, deu-lhes as costas.

V ordenou sua mente e se abateu sobre a noite, tratando de encontrar o pequeno eco de si mesmo dentro do Butch. Penetrando a escuridão, procurou através de campos e montanhas, lagos gelados e correntes que se precipitavam… Longe… longe…longe…

OH, Deus.

Butch estava vivo. Apenas. E estava… ao norte e ao este. A doze, talvez quinze milhas de distância.

Quando V tirou seu Glock, uma mão de ferro o segurou pelo braço. De novo Rhage o agarrava com firmeza. —Você não cuidará desses lessers sozinho.

—Tenho que ir.

—Me prometa! Estalou Rhage. Como se soubesse muito bem o que estava pensando V a respeito de encarregar-se de qualquer um que estivesse retendo Butch e chamar a outros somente para que o ajudassem com a limpeza.

Salvo que isto era pessoal, não só a respeito da guerra que havia entre vampiros e a Sociedade Lessening. Esses bastardos não mortos levaram o seu… bom, não sabia o que significava Butch especificamente para ele. Mas chegava mais profundamente que tudo o que tivesse sentido em um longo tempo.

—Vishous…

—Chamarei vocês quando estiver total e malditamente preparado. —V se desmaterializou livre da sujeição de seu irmão.

Viajando em um esmiuçado confusão de moléculas, materializou-se em uma arvoredo que havia atrás de um lago congelado na zona rural do Caldwell. Triangulou seu reaparecimento a umas cem jardas do lugar de onde tinha chegado o sinal de Butch, aproximando-se do mesmo, escondido e preparado para lutar.

O que resultou ser um bom plano, porque, sagrado inferno, podia sentir os lessers em qualquer parte…

V franziu o cenho e conteve o fôlego. Movendo-se lentamente, girou em semicírculo, procurando com olhos e ouvidos, sem utilizar seus instintos. Ali não havia assassinos. Não havia nada nos arredores. Nem sequer uma cabana nem um pavilhão de caça…

Abruptamente estremeceu. Não, havia algo nesses bosques, bom… Alguma coisa enorme, uma marca condensada de malevolência, um mal que o crispava.

O Omega.

Enquanto girava a cabeça para a repugnante concentração, uma fria rajada de vento bateu diretamente no rosto, como se a Mãe Natureza o urgisse a encaminhar-se em direção contrária.

Pois se fodesse. Tinha que tirar seu companheiro de quarto dali.

V correu para o que podia perceber de Butch, deixando marcas na rangente neve com suas botas. Sobre sua cabeça, a lua cheia brilhava claramente no limite de um céu espaçoso, mas a presença do mal era tão intensa que V poderia tê-la seguido às cegas. E merda, Butch estava próximo a essa escuridão.

Cinqüenta jardas depois, V viu os coiotes. Estavam rodeando algo que estava sobre o chão, grunhindo, não como se tivessem fome mas sim como se a manada estivesse sendo ameaçada.

E o que quer que fosse que tivesse captado seu interesse era de tal magnitude que nem sequer notaram que V se aproximava. Para que fugissem, apontou a arma para cima e descarregou um par de balas. Os coiotes se dispersaram e…

V patinou até se deter. Enquanto olhava o que estava estendido no chão, não podia engolir. O que esteva bom, já que tinha a boca seca.

Butch jazia na neve apoiado sobre um lado, nu, machucado, com sangue por todo o corpo, o rosto inchado e arroxeado. Tinha a coxa enfaixada, no local onde havia sido ferida, o sangue tinha transpassado a gaze que a cobria. Entretanto o horror não estava representado por nada disso.

A maldade estava rodeando ao policial… toda a seu redor… merda, era a escuridão, viciada a rastro que V tinha percebido.

OH, doce virgem no Fade.

Vishous examinou levemente ao redor, logo caiu de joelhos e brandamente colocou a mão enluvada sobre seu amigo. Quando um doloroso gemido lhe subiu pelo braço, os instintos de V lhe indicaram que retrocedesse porque aquilo no que tinha apoiado a palma devia ser evitado a todo custo. O Mal.

—Butch, sou eu. Butch?

Com um grunhido, policial se agitou, com um pouco de esperança brilhando em seu rosto machucado, como se tivesse levantado a cabeça para o sol. Mas logo a expressão se desvaneceu.

Deus querido, os olhos do homem se congelaram fechados devido a que tinha estado chorando e com o frio as lágrimas não tinham rolado para longe.

—Não se preocupe policial. Vou fazer o que? O homem estava a ponto de morrer aqui fora, Mas que demônios lhe tinham feito? Estava envolto pela escuridão.

Butch abriu a boca. Os ásperos sons que saíram poderiam ter sido palavras, mas não conseguiu as pronunciar.

—Policial, não diga nada. Eu cuidarei de você…

Butch negou com a cabeça e começou a mover-se. Com patética debilidade, estirou os braços e agarrou a terra, tratando de arrastar seu corpo quebrado através da neve. Afastando-se de V.

—Butch, sou eu…

—Não… —O policialcial ficou frenético, arranhando, arrastando-se a si mesmo—. Infectado… não sei como… infectado… não pode… me levar. Não sei porque…

V uso sua voz como uma bofetada, adotando um tom agudo e alto. —Butch! Pare!

O policialcial se deteve, embora não ficou claro se foi porque estava seguindo ordens ou porque tinha acabado sua energia.

—Que demônios fizeram a você, amigo? —V tirou uma manta do Mylar de sua jaqueta e a pôs ao redor de seu companheiro de quarto.

—Infectado. —Butch se virou torpemente sobre as costas e empurrou a coberta chapeada para baixo, sua mão rota caindo contra o estômago—. In…fectado.

—Que demônios…

No estômago de policial, havia um círculo negro do tamanho de um punho, algo assim como uma mancha roxa de bordas perfeitamente definidas. Em seu centro, parecia haver… uma cicatriz cirúrgica.

—Merda. —Tinham colocado algo nele.

—Me mate. —A voz do Butch era um arrepiante ronco—. Mate-Me agora. Infectado. Algo… dentro. Crescendo…

V se sentou sobre os calcanhares e mecheu o cabelo. Forçando as emoções a um segundo plano, pôs sua mente para trabalhar e rezou para que a overdose de matéria cinza fosse ao resgate. A conclusão a que chegou, momentos depois, era drástica mas lógica, e se concentrou nela até que conseguiu tranqüilizar-se. Desencapou uma de suas adagas negras com uma mão perfeitamente firme e se inclinou sobre seu companheiro de quarto.

O que não devia estar ali precisava ser removido. E dado quão malvado era, a extração tinha que ser feita aqui, em território neutro, e não em seu lar nem na clínica do Havers. Além disso, a morte estava expreitando a policial na nuca, e quanto antes fosse descontaminado, melhor.

—Butch, companheiro, quero que respire fundo, e que logo se mantenha quieto. Vou a…

—Tome cuidado, guerreiro.

V se deu volta escondido. Ali, atrás dele, flutuando sobre a terra, estava a Virgem Escriba. Como sempre, era puro poder, sua roupa negra imperturbável apesar do vento, o rosto oculto, a voz clara como o ar noturno.

Vishous abriu a boca, mas o interrompeu. —antes que se exceda e comece a indagação, responderei, não, não posso ajudar diretamente. Isto é um assunto do tipo que devo me manter afastada. Entretanto, direi isto a você. Seria sábio revelar a maldição que aborrece. Manipular o que está dentro dele te levará mais perto da morte do que nunca estiveste. E ninguém pode removê-lo além de você. —Sorriu um pouco, como se lesse seus pensamentos—. Sim, o momento atual é parte da razão pela que sonhou com ele em um princípio. Mas há outra causa da qual pode inteirar-se ao seu devido tempo.

—Viverá?

—Comece a trabalhar, guerreiro —lhe disse com tom duro—. Progredirá mais no caminho de sua salvação se atuar em vez de me ofender.

V se inclinou para Butch e se moveu com rapidez, desenhando com a faca sobre o estômago do policialcial. No momento que se abria um buraco, um gemido saía dos partidos lábios do homem.

—OH, Jesus. —Havia algo negro encerrado dentro da pele.

A voz da Virgem Escriba estava mais perto agora, como se estivesse exatamente sobre seu ombro. —Descobre sua mão, guerreiro, e atua com rapidez. estende-se com presteza.

V embainhou a adaga na vagem sobre o peito e arrancou a luva. Estirou-se para baixo e logo se deteve. —Espera, não posso tocar ninguém com isto.

—A infecção proporcionará amparo ao humano. O faz agora, guerreiro, e quando fizer contato, visualiza o branco brilho de sua palma estendendo-se a seu redor, como se estivesse banhado em luz.

Vishous adiantou a mão enquanto se imaginava rodeado de uma pura e radiante incandescência. No momento em que fez contato com a peça negra, seu corpo estremeceu e se sacudiu. A coisa, fosse o que fosse, desintegrou-se com um vaio e estalou, mas, OH, merda, sentiu-se doente.

—Respira —disse a Virgem Escriba—. Só respira enquanto passa.

Vishous oscilou e se apóio no chão, a cabeça pesando em seus ombros, a garganta pulsando. —Acredito que vou a…

Sim, vomitou. E enquanto a náusea se apoderava dele uma e outra vez, sentiu que seus braços eram aliviados de seu peso. A Virgem Escriba o sustentava enquanto vomitava, e quando terminou, largou-se contra ela. Por um momento até lhe pareceu que estava acariciando seu cabelo.

Logo saído do nada, um celular apareceu em sua mão boa, e a voz soou alta em seu ouvido. —Vai agora, leve o humano, e confia em que o assento do mal está na alma, não no corpo. E deve retornar com o pote de um de seus inimigos. Traga-o para este lugar e usa sua mão sobre ele. Faze-o sem demora.

V assentiu. Receber um conselho da Virgem Escriba sem havê-lo solicitado não era o tipo de coisa que deixasse à borda do caminho.

—E, guerreiro, mantém o escudo de luz em seu lugar ao redor deste humano. Mais adiante, usa sua mão para curá-lo. Ainda pode morrer a não ser que penetre suficiente luz em seu corpo e seu coração.

V sentiu o poder dela desvanecendo-se quando outra quebra de onda de náusea golpeava seu estômago. Enquanto lutava com os efeitos secundários resultantes do contato com essa coisa, pensou, Jesus, se ele se sentia assim tão mau, não podia nem imaginar como se sentiria Butch.

Quando soou o telefone que tinha na mão, se deu conta que já fazia algum tempo que estava deitado com as costas sobre a neve. —Olá? —disse, completamente enjoado.

—Onde está? O que está acontecendo? —escutar o grito da voz grave do Rhage foi um alívio.

—Estou com ele. Está aqui. —V olhou para o sangrento bolo que era seu companheiro de quarto— Jesus, preciso que me peguem. OH, merda Rhage… —V levou sua mão aos olhos e começou a tremer—. Rhage… o que lhe fizeram com ele…

O tom da voz de seu irmão se suavizou instantaneamente, como se ele soubesse que V se foi. —OK, somente se acalme. Me diga onde está?

—Bosques… Não sei… —Deus, seu cérebro estava totalmente em curto-circuito—. Pode me localizar com o GPS?

Uma voz de fundo, provavelmente a do Phury, gritou — O localizei!

—Bem, V, o achamos e já estamos indo…

—Não, o lugar está poluído. —Quando Rhage começou a falar com os outroa, V o cortou—. Carro. Precisamos de um carro. Vou ter que transportá-lo para fora daqui. Não quero que ninguém mais venha aqui.

Houve uma longa pausa. —Muito bem.Se dirija direto para o norte, irmão. A uma meia milha encontrará com a rota 22. Estaremos te esperando lá.

—Chame… —Teve que limpar garganta e secar os olhos—. Chame Havers. Diga-lhe que levaremos um caso de urgência. E lhe diga que precisamos de uma quarentena.

—Jesus… Que infernos lhe fizeram?

—Se apresse, Rhage… Espere! Traz um pote de lesser.

—Por que?

—Não tenho tempo de explicar isso Só se assegure de trazer um.

V meteu o telefone no bolso, cobriu novamente sua brilhante mão com a luva, e foi até Butch. Depois de assegurar-se que a manta do Mylar estava em seu lugar, tomou policial entre seus braços e levantou todo esse peso morto. Butch gemeu devido à dor.

—Esta vai ser uma viagem penosa —disse V—, mas devemos nos pôr em movimento.

Olhando o chão V franziu o cenho. Agora Butch não estava sangrando tanto, mas santo inferno, O que fazer com os rastros que deixariam sobre a neve? Se um lesser resovesse voltar, poderia surpreendê-los enquando estivessem indo.

Saídas de nenhuma parte, nuvens de tormenta cobriram o céu e começou a nevar com força.

Maldição, a Virgem Escriba era boa.

Enquanto V partia através do que agora era quase uma tempestade, imaginava uma protetora luz branca rodeando a ambos, tanto a ele como ao homem que tinha em seus braços.

 

—Veio!

Marissa sorriu enquanto fechava a porta do alegre quarto sem janelas que utilizava para os pacientes. Na cama de hospital, estando pequena e frágil, achava-se uma fêmea de sete anos. A seu lado, estando um pouco maior mas muito mais machucada, estava sua mãe.

—Não prometi a você ontem à noite que voltaria a te visitar?

Quando a jovensinha sorriu, viu-se um buraco negro onde deveria ter estado um de seus dentes dianteiros. —Mas ainda assim, veio. E é tão bela.

—Também você. —Marissa se sentou sobre a cama e tomou a mão da menina—. Como está?

— Mahmen e eu estivemos assistindo a Doura a Exploradora!

A mãe sorriu um pouco, mas a expressão não chegou a cobrir muito de seu cansado rosto nem seus olhos. Desde que a jovensinha tinha sido internada fazia três dias, a mãe parecia estar em uma espécie de piloto automático. Bem, exceto quando saltava cada vez que alguém entrava no quarto.

—Mahmen diz que somente podemos ficar aqui por pouco tempo. É verdade?

A mãe abriu a boca, mas Marissa respondeu, —Não tem que se preocupar a respeito de ir embora. Primeiro devemos curar a sua perna.

Estes não eram civis ricos, provavelmente não pudessem pagar nada disto, mas Havers nunca se negou a ninguém. E não pedir para que se fossem.

—Mahmen diz que minha perna esta mau. É isso, é verdade?

—Não por muito tempo. —Marissa olhou para baixo, às mantas. Havers ia operar a fratura composta em qualquer momento. Com sorte sararia corretamente.

—Mahmen diz que irei ao quarto verde por uma hora. Pode ser por menos tempo?

—Meu irmão manterá você ali somente o tempo necessário.

Havers ia substituir o osso com uma barra de platina, que era melhor que perder o membro, mas ainda assim, um golpe amargo. A jovem precisaria de mais operações quando fosse crescendo, e a julgar pelos exaustos olhos da mãe, a fêmea sabia que isto era só o começo.

—Não tenho medo. –A jovem pegou o desgastado tigre de pelucia e o colocou mais perto de seu pescoço—. Mastimon virá comigo. A enfermeira disse que podia.

—Mastimon te protegerá. É feroz, como deve ser um tigre.

—Disse a ele que não comesse ninguém.

—Muito inteligente de sua parte. —Marissa colocou a mão no bolso de seu vestido cor rosa pálido e tirou uma caixa de couro—. Tenho algo para você.

—Um presente?

—Sim. —Marissa girou a caixa para que ficasse de frente à jovem e a abriu. Dentro, havia uma placa do tamanho de um prato de chá, e o precioso objeto era tão gentil que resplandecia intensamente, brilhante como um espelho, cintilando como o sol.

—É tão bonito. —Suspirou a menina.

—Esta é minha placa dos desejos. —Marissa a tirou e girou—. Vê minhas iniciais no verso?

A jovem entreabriu os olhos. —Sim. E olhe! Há uma letra igual a de meu nome.

—Fiz que adicionasem a sua. Quero te presentear com isso.

A mãe emitiu um pequeno ofego do canto onde estava. Claramente sabia o que valia todo esse ouro.

—De verdade? —disse a jovem.

—Estique as mãos. —Marissa pôs o disco de ouro nas palmas da menina.

—OH, é muito pesado.

—Sabe como funcionam as placas dos desejos? —Quando a jovem negou com a cabeça, Marissa tirou uma pequena peça de pergaminho e uma caneta—. Pensa em um desejo e o escreve. Enquanto dorme, a Virgem Escriba virá e o lerá.

—Se não conceder o desejo, significa que é má?

—OH, não. Somente significa que tem planejado algo melhor para ti. Assim o que você gostaria? Pode ser qualquer coisa. Sorvete quando acordar. Mais ouro?

A pequena fêmea franziu o cenho com concentração. —Quero que minha Mahmen deixe de chorar. Ela fingi que não o faz, mas desde que… caí pelas escadas está triste.

Marissa engoliu em seco, sabendo muito bem que a menina não quebrou a perna dessa forma. —Acredito que isso está bom. Escreverei-o.

Usando os intrincados caracteres da Linguagem Antiga, escreveu com tinta vermelha: Sem intenção de ofender, estaria muito agradecida com a felicidade de minha mahmen.

—Pronto. O que parece?

—Perfeito!

—Agora o dobraremos e o deixaremos. Possivelmente a Virgem Escriba te responda enquanto estiver na sala de cirurgia… o quarto verde.

A menina abraçou o tigre mais forte. —Eu gostaria disso.

Quando entrou a enfermeira, Marissa ficou de pé. Em um arrebatamento de excitação, sentiu um impulso quase violento de proteger a jovem, de defende-la do que tinha ocorrido em seu lar e do que estava a ponto de acontecer na sala de cirurgia.

Em vez disso, Marissa olhou à mãe. —Tudo sairá bem.

Quando se aproximou e colocou a mão no magro ombro, a mãe estremeceu, e agarrou com força a mão de Marissa.

—Me diga que ele não pode entrar aqui —disse a fêmea em voz baixa—. Se nos encontrar, nos matará.

Marissa sussurrou —Ninguém pode entrar pelo elevador sem se identificar em frente a uma câmera. As duas estão a salvo. Juro.

Quando a fêmea assentiu com a cabeça, Marissa se retirou para que pudessem sedar a jovem.

Fora do quarto da paciente, inclinou-se contra a parede do corredor e sentiu mais fúria se agitando em seu interior. O fato que elas estivessem suportando a dor causada pelo temperamento violento de um homem era suficiente para que desejasse aprender a atirar com uma arma.

E Deus, não podia imaginar-se deixando essa fêmea e sua menina livres no mundo porque certamente esse hellren as encontraria quando deixassem a clínica. Embora a maioria dos homems punha a suas companheiras acima de si mesmos, sempre houve entre a raça uma minoria que abusavam e a realidade da violência doméstica era odiosa e seus efeitos de grande alcance.

Uma porta fechando-se a sua direita fez que levantasse a cabeça, e viu Havers que vinha caminhando pelo corredor, a cabeça afundada na história de um paciente. Era estranho… seus sapatos estavam vestidos com pequenas botas plásticas amarelas, do tipo que sempre usava com um traje isolante.

—Irmão, esteve outra vez no laboratório?

Os olhos se levantaram rapidamente e acomodou os óculos, empurrando-os mais sobre o nariz. Sua elegante gravata vermelha estava torcida. —Como?

Ela sorriu e indicou seus pés com a cabeça. —O laboratório.

—Ah… sim. Estive. —agachou-se para tirar a cobertura dos mocassins, esmagando o plástico amarelo entre as mãos. —Marissa, faça-me o favor de voltar para casa? Convidei ao leahdyre do Conselho do Príncipes e a outros sete membros para jantar na próxima segunda-feira. O menu deve ser perfeito e falaria com Karolyn pessoalmente, mas devo ir à sala de cirurgia.

—É obvio. —Exceto que Marissa franziu o cenho, dando-se conta de que seu irmão estava tão quieto como uma estátua—. Está tudo bem?

—Sim, obrigado. Vai… vai agora. Faze-o… sim, por favor vai agora.

Sentiu-se tentada a intrometer-se, mas não queria atrasá-lo com a operação da jovem, assim que o beijou na bochecha, endireitou-lhe a gravata, e se foi. Embora quando alcançasse as portas duplas que levavam a área da recepção, algo a impulsionou a olhar um olhar para trás.

Havers estava atirando o que tinha estado usando nos pés dentro de um depósito contra risco biológico, seu rosto estava tenso. Com um fundo suspiro, abraçou a si mesmo, logo abriu a porta que dava à sala de espera do bloco cirúrgico.

Ah, pensou, então, era isso. Estava preocupado pela operação da jovem. E quem poderia culpá-lo?

Marissa se virou para as portas… então escutou as botas.

Congelou.Somente um tipo de homem fazia esse estrondo quando se aproximava.

Virando sobre si mesma, viu a Vishous andando a paços largos pelo corredor, sua cabeça morena baixa, atrás dele, Phury e Rhage aparentando ser similares ameaças silenciosas. Os três destilavam armas e preocupação, e Vishous tinha sangue seco sobre as calças de couro e a jaqueta. Mas o que teriam estado fazendo no laboratório de Havers? Na realidade, essa era a única dependência que havia ali atrás.

Os Irmãos não perceberam sua presença até que virtualmente a atropelaram. Detendo-se como um grupo, afastando os olhos dela, sem dúvida devido ao fato de Wrath já não a ter em tão alta estima.

Querida Virgem, de perto se viam perigosamente maus. Indispostos, embora não doentes, se isso tivesse algum sentido.

—Há algo que possa fazer por vocês? —perguntou-lhes.

—Tudo está bem —disse Vishous com voz firme—. Nos desculpe.

O sonho… Butch estendido na neve…

—Há alguém ferido? É… Butch…

Vishous somente a tiro por cima e passou junto a ela, abrindo as portas que davam à recepção de um murro. Os outros dois lhe dirigiram presunçosos sorrisos, e logo fizeram o mesmo.

Os seguindo de longe, observou como passavam o posto de enfermeiras indo para o elevador. Enquanto esperavam que se abrissem as portas, Rhage pôs a mão no ombro de Vishous, e o outro Irmão pareceu encolher-se.

O intercâmbio fez que soassem sinos de alarme, e no instante que as portas do elevador se fecharam Marissa se dirigiu à ala da clínica da qual tinham saído esses três. Movendo-se rapidamente, passou o extenso , brilhantemente e iluminado laboratório, logo colocou a cabeça em cada uma dos seis antigos quartos para pacientes. Estavam vazias.

O que faziam os Irmãos aqui? Talvez somente tivessem vindo falar com Havers?

Por instinto, dirigiu-se ao escritório da frente, entrou no computador e examinou as admissões. Nada sobre o ingresso de nenhum dos Irmãos nem de Butch, mas isso não significava nada.

Os guerreiros nunca eram ingressados no sistema, e teria que imaginar que seria o mesmo se Butch tivesse ingressado. O que faltava era saber quantas das trinta e cinco camas que tinham estavam ocupadas.

Obteve a quantidade e fez um rápido percurso, explorando cada quarto. Tudo estava em ordem. Não havia nada fora do comum. Butch não tinha sido admitido… a não ser que estivesse em uma dos outros quartos do edifício principal. Algumas vezes os pacientes VIP ficavam ali.

Marissa se ergueu a saia e caminhou rapidamente para as escadas traseiras.

 

Butch se enroscou sobre si mesmo embora não tivesse frio, apoiado na teoria que se pudesse subir os joelhos o suficientemente alto, a dor que sentia no estômago aliviaria um pouco.

Sim, certo. O ardente atiçador que sentia no estômago não se sentiu impressionado por esse plano.

Abriu suas pálpebras inchadas, e logo depois de piscar várias vezes e de tomar fôlego, chegou às seguintes conclusões: Não estava morto. Estava em um hospital. E não havia dúvida que a merda que o mantinha com vida era a que lhe estavam injetando no braço.

Enquanto olhava cautelosamente, deu-se conta de outra coisa. Seu corpo tinha sido usado como um saco de boxe. Ah… e algo horrível lhe acontecia no estômago, como se sua última refeição tivesse sido um assado rançoso.

Que merda lhe tinha acontecido?

Só uma vaga série de fotos instantâneas passava por sua mente: Vishous encontrando-o no bosque. Ele com um instinto que lhe gritava que o irmão devia deixá-lo ali para que morrese , logo um pouco de ação com uma faca e… algo a respeito da mão de V, essa coisa brilhante utilizada para tirar um vil pedaço de…

Butch se moveu para ficar de lado e teve náusea apenas pela lembrança. Tinha havido algo maligno em seu estômago. Pura, indisoluta maldade, e o escuro horror tinha estado expandindo-se.

Com as mãos trêmulas, agarrou a bata de hospital que usava e a levantou. —OH… Jesus…

Havia uma mancha na pele de seu estômago, como uma marca de queimadura de um fogo que tinha sido extinto. Desesperado, escavou em seu sensível cérebro, tratando de recordar como tinha chegado ali essa cicatriz e o que a tinha ocasionado, mas terminou com um grande nada.

Assim, como detetive que tinha sido, tratou de examinar a cena… que neste caso era seu corpo. Levantando uma mão, viu que as unhas eram um desastre, como se algo como uma lima ou alguns pequenos pregos tivessem sido cravados baixo algumas delas. Uma respiração funda lhe disse que as costelas estavam quebradas. E a julgar pelos olhos inchados, devia assumir que seu rosto serviu de festa, já que estava com um monte de nódulos.

Tinha sido torturado. Recentemente.

Tocando sua mente outra vez, fez um varredura procurando lembranças, tratando de voltar ao último lugar no qual tinha estado. ZeroSum. ZeroSum com… o OH… Deus… essa fêmea. No banheiro. Sexo duro e sem preocupações. Logo tinha saído e… lessers. Tinha lutado com esses lessers. Tinham atirado nele e logo…

Nesse ponto suas lembranças chegaram ao fim da via do trem. Dispararam-se fora da margem do raciocínio para um abismo de huh, o que?

Tinha delatado à Irmandade? Tinha-os traído? Tinha entregue às pessoas mais próximas e queridas que tinha?

E que demônios lhe tinham feito no estômago? Deus, sentia-se como se houvesse lodo em suas veias, graças ao que parece, se deu um festa ali.

Permitindo-se afrouxar-se, passou um momento respirando pela boca. E se deu conta de que não podia ficar em paz.

Como se seu cérebro não quisesse deixar de trabalhar, ou talvez porque estava tentando luzir-se, a coisa lhe mandava visões a esmo de seu passado distante. Aniversário com seu pai olhando-o e sua mãe tensa e fumando como uma chaminé. Natais onde seus irmãos e irmãs recebiam presentes e ele não.

Noites cálidas de julho que nenhum ventilador podia aliviar, o calor levando o seu pai à cerveja fria. As Pabst Blue Ribbon levando a seu pai a servir de despertador a golpe de punhos só para Butch.

As lembranças as quais não tinha pensado em anos retornavam, todas visitantes indesejados. Viu seus irmãos e irmãs, felizes, gritando, jogando sobre a brilhante grama verde. E recordou como tinha desejado poder estar entre eles em lugar de conter-se, a ovelha perdida que nunca se encaixava.

E logo… OH, Deus, não… não esta lembrança.

Muito tarde. Viu a si mesmo com os doze anos que tinha então, magro e desgrenhado, de pé no meio-fio em frente a casa vizinha da familla Ou’Neal no South Boston. Era uma tarde clara e bonita de outono em que tinha observado como sua irmã Janie subia em um Chevy vermelho que tinha uma franja com um arco íris no lado. Em uma lembrança perfeita viu como o saudava através do vidro do assento do passageiro, enquanto o carro arrancava.

Agora que a porta para o pesadelo estava aberta, não pôde deter o horroroso espetáculo. Recordava que nessa noite tinha chegado a polícia e como lhe tinham ficado fracos os joelhos de sua mãe quando terminaram de falar com ela. Recordava os policialciais interrogando-o porque tinha sido a última pessoa que tinha visto Janie com vida. Escutou o seu irmão mais jovem dizendo aos policialciais que não tinha reconhecido os meninos e que tinha querido dizer a sua irmã que não subisse no carro.

Mais que tudo, via os olhos de sua mãe ardendo com tanta dor que não tinha lágrimas.

Logo avançou por volta de vinte e poucos anos. Deus… quando tinha sido a última vez que tinha falado ou visto um de seus pais? Ou a seus irmãos e irmãs? Fazia cinco anos? Provavelmente. Homem, a família havia se sentido muito aliviada quando se mudou para longe e começou a não voltar nas férias.

Sim, ao redor da mesa de Natal, todos outros tinham sido uma parte na malha da família Ou’Neal e ele tinha sido a mancha. Eventualmente deixo de ir a casa, lhes deixando só números de telefone para que pudessem localizá-lo, números que nunca marcavam.

Então não se inteirariam se morresse agora, ou sim? Sem dúvida Vishous sabia tudo sobre o clã Ou’Neal, desde seus números de seguro social até seus extratos bancários, mas Butch nunca lhe tinha falado deles. Chamaria a Irmandade? O que lhes diriam?

Butch olhou para baixo a si mesmo e soube que havia uma boa possibilidade de que não saísse andando dessa quarto. Seu corpo se parecia muito a aqueles que tinha visto quando trabalhava na Homicídios, do tipo que investigava nos bosques. Bom, naturalmente. Ali era onde o tinham encontrado. Descartado. Gasto. Deixado por morto.

Assim como Janie.

Exatamente como Janie.

Fechando o olhos, flutuou afastando a dor de seu corpo. E de fora da inundação de agonia, teve uma visão de Marissa na primeira noite em que a tinha conhecido. A imagem era tão vívida, que quase pode perceber o seu aroma de oceano e viu exatamente como tinha sido: o vestido amarelo muito justo que tinha posto… a forma em que via seu cabelo, longo até os ombros… a sala de estar cor de limão em que tinham estado juntos.

Para ele,ela era a mulher inesquecível, a que nunca tinha tido e nunca teria mas, que não obstante, lhe tinha chegado à alma.

Homem, estava tão endemoniadamente cansado.

Abriu os olhos e ficou em movimento antes de tomar consciência do que estava fazendo. Alcançando a parte interna de seu antebraço, desprendeu o elástico transparente da pele ao redor do lugar onde estava a inserção intravenosa. Deslizar a agulha para tirar da veia foi mais simples do que tinha pensado, mas logo, o resto lhe doía tanto, que mover essa pequena peça foi a gota que extravasou no copo.

Se tivesse tido forças, teria ido em busca de algo com mais fios para terminar consigo mesmo. Mas o tempo… o tempo era a arma que ia usar porque isso era o que tinha a disposição. E a julgar por como se sentia mal, não ia levar muito. Virtualmente podia ouvir seus órgãos cuspindo sua vida.

Fechando os olhos, deixo ir tudo, apenas consciente de que os alarmes tinham começado a soar na maquinaria que estava atrás da cama. Para um lutador por natureza, a facilidade com que se entregou foi uma surpresa, mas logo uma forte onda de esgotamento o golpeou e soube, instintivamente, que este não era o esgotamento do sonho mas sim o da morte, e se alegrou de que viesse tão rapidamente.

Flutuando livre de tudo, imaginou que estava no começo de um longo e escuro corredor ao qual no final havia uma porta. Marissa estava parada em frente da porta e enquanto lhe sorria abria o caminho para um quarto branco cheio de luz.

Sua alma se aliviou quando tomou um profundo fôlego e começou a caminhar para frente. Gostava de pensar que ia para o paraíso, apesar de todas as coisas más que tinha feito, assim era como estava sentindo.

Não teria sido o paraíso sem ela.

  

Vishous se deteve no estacionamento da clínica e observou como Rhage e Phury tiravam o Mercedes negro. Foram ao beco que estava atrás do Screamer pegar o telefone de Butch, logo levaram o Escalade do ZeroSum e depois foram para casa.

Sem sequer falar decidiu que V não sairia ao campo de batalha essa noite. O remanescente do mal que tinha manipulado se atrasava em seu organismo, fazendo-o sentir-se fraco. Mas, mais que tudo, ver a Butch espancado e próximo à morte tinha ocasionado algum tipo de dor interior. Tinha a sensação de que uma parte de si mesmo se desenquadrou, que alguma válvula de escapamento interior se abriu e segmentos de si mesmo estavam escapando de sua essência.

Na realidade, desde algum tempo, tinha a sensação de que pela primeira vez suas visões o tinham abandonado. Mas este filme de terror fazia tudo muito pior.

Privacidade. Precisava estar sozinho. Mas não podia suportar a idéia de voltar para o Pit. O silêncio que haveria ali, o sofá vazio onde Butch sempre se sentava, o poderoso conhecimento de que faltava algo, seria intolerável.

Assim que dirigiu ao seu esconderijo. Tomando forma novamente a trinta andares de altura, materializou-se na terraço de seu apartamento de cobertura do Commodore. O vento uivava e se sentia bem, mordendo através de sua roupa, fazendo-o sentir algo além desse buraco aberto no peito.

Foi para a ponta do terraço. Cruzando os braços na cornija, olhou sobre a ponta do arranha-céu, para as ruas de abaixo. Havia carros. Gente indo para o vestíbulo. Alguém inclinando-se dentro de um táxi, pagando o condutor. Tão normal. Tão perfeitamente normal.

Enquanto isso, ele estava ali morrendo.

Butch não ia saber se O Omega tinha estado dentro dele.Essa era a única explicação para o que lhe tinham feito. E embora o mal tivesse sido removido, a infecção era mais que mortal e o dano permanecia.

V esfregou o rosto. Que demônios ia fazer sem o Filho da puta sabichão e mau falado bebedor de uísque? De algum jeito o tosco bastardo suavizava a sua vida, provavelmente porque era como o papel de lixa, áspero, persistente, contra a corrente, fazendo com que tudo estivesse mais comum.

V se afastou da queda de trinta andares para o chão. Indo para uma porta, tirou uma chave dourada do bolso e a colocou na fechadura. O apartamento de cobertura atrás dessa porta era seu espaço privado, para seus… assuntos privados. O aroma da fêmea que tinha tomado na noite anterior persistia na escuridão.

A sua vontade, as velas negras flamejaram. As paredes, o teto e os chão eram negros e o vazio cromático absorvia a luz, sugando-a, absorvendo-a. A única peça de mobiliário era uma cama king size que estava igualmente coberta de lençóis de cetim negro. Mas não passava muito tempo no colchão.

Com o que contava era com a mesa de tortura. A mesa de tortura com seu duro suporte de madeira e sua medida. E também empregava as coisas que penduravam a um lado: as correias de couro, as partes de cano, as mordaças, os colares e pontas agudas, os látegos… e sempre as máscaras. Tinha que conseguir que as fêmeas fossem anônimas, lhes cobrir o rosto enquanto atava seus corpos. Não queria as conhecer mais do que como instrumentos para seus exercícios berrantes.

Merda, era um depravado no que concernia ao sexo e sabia, mas logo depois de ter provado muitas coisas, finalmente se tinha dado conta do que funcionava para ele. E felizmente havia fêmeas que gostavam do que os fazia, ansiavam-no como o ansiava a liberação que obtinha quando as dominava de uma ou de duas.

Exceto que esta noite enquanto olhava seu material, sua perversão o fez sentir sujo. Talvez porque nunca vinha aqui a não ser que estivesse preparado para usar o que tinha, assim nunca tinha dado uma olhada no lugar com a cabeça limpa.

O som do celular o sobressaltou. Quando olhou o número, ficou paralisado.

—Havers, está morto?

O tom de voz do Havers era sensível como o de todo médico profissional. O que era um indício de que Butch estava pendurado na ponta de um tecido de aranha.

—Paralisou, senhor. Arrancou as intravenosas e seus sinais vitais caíram. Trouxemo-lo de volta, mas não sei quanto tempo sobreviverá.

—Pode mantê-lo?

—Fiz-o. Mas quero que esteja preparado. É só um humano…

—Não, não o é.

—OH… é obvio, senhor, mas não quis dizer que...

—Merda. Olhe, vou voltar. Quero estar com ele.

—Preferiria que não o fizesse. Agita-se cada vez que alguém entra no quarto e isso não melhora as coisas. Neste momento está o mais estável que se pode e o mais cômodo possível.

—Não quero que morra sozinho.

Houve uma pausa.

—Senhor, todos morremos sozinhos. Embora estivesse no quarto com ele, ainda assim partiria para o Fade… sozinho. Precisa estar tranqüilo para que seu corpo diga se for reviver. Estamos fazendo todo o possível por ele.

V ficou uma mão sobre os olhos. Em uma voz suave que não reconheceu, disse:

—Eu não… não quero perdê-lo. Eu, ah… sim, não sei o que faria se ele… —V tossiu um pouco—. Foda-se.

—Cuidarei-o como se fosse um dos meus. Lhe dê um dia para estabilizar-se.

—Então até o anoitecer de amanhã. E me chame se sua condição piorar.

V desligou o telefone e encontrou a si mesmo olhando fixamente uma das velas acesas. Sobre seu torso de cera negra, a pequena cabeça de luz cativa ondeava com as correntes do quarto.

A chama o fez pensar. O brilhante amarelo era… bom, era um pouco parecido à cor do cabelo loiro, ou não.

Tirou o celular, decidindo que Havers estava equivocado sobre o assunto de que não devia ter visitas. Só dependia de quem fosse o visitante.

Enquanto discava, se resentía da única opção que tinha. E sabia que o que estava fazendo provavelmente não era justo. Também era provável que causasse uma confusão infernal. Mas, como havia um montão de coisas que lhe importavam uma merda, quando seu melhor amigo estava dançando com a parca sobre sua lápide.

 

—Senhorita?

Marissa levantou a vista do escritório de seu irmão. Tinha o plano com a disposição de lugares para o jantar dos Príncipes em frente dela, mas não podia concentrar-se. Toda essa busca na clínica e na casa e não tinha obtido nada. Enquanto isso, seus sentidos lhe gritavam que algo estava errado.

Forçou um sorriso para a doggen que estava na entrada.

—Sim, Karolyn?

A criada fez uma reverência.

—Uma chamada para você. Na linha um.

—Obrigado. —A criada inclinou a cabeça e se retirou enquanto Marissa levantava o fone. —Olá?

—Está no quarto próximo ao laboratório de seu irmão.

—Vishous? —ficou de pé de um salto—. O que…?

—Atravessa a porta que tem um pôster de Manutenção. Há um painel à direita que pode empurrar. Se assegure de colocar um traje contra risco biológico antes de entrar e vê-lo…

Butch… Deus querido. Butch.

—Que…?

—Ouviu-me? Coloque o traje e deixe isso pronto.

—O que houve…?

—Um acidente de carro. Vá. Agora. Está morrendo.

Marissa atirou o telefone e saiu correndo do escritório de Havers, quase atropelando a Karolyn no vestíbulo.

—Senhorita! O que aconteceu?

Marissa saiu em disparada através da sala, empurrou a porta de serviço, e tropeçou na cozinha. Quando chegou à ponta que levava às escadas de trás, perdeu um de seus sapatos de salto alto, assim que sacudiu o outro e seguiu correndo com os pés cobertos apenas por meias. No final da escada, introduziu o código de segurança para abrir a entrada da clínica e irrompeu dentro da sala de espera da Emergência.

As enfermeiras a chamaram por seu nome, mas ela as ignorou enquanto corria para o corredor do laboratório. Rasgando o ar a seu passo pelo laboratório de Havers, encontrou a porta indicada como Manutenção e a abriu estabanadamente.

Resfolegava, enquanto olhava ao redor... nada. Só vassouras, baldes vazios e aventais. Mas Vishous havia dito…

Espera. Havia tênues marcas sobre o andar, um pequeno rastro de desgaste que sugeria o abrir e fechar de uma porta oculta. Afastou os aventais para fora de seu caminho e encontrou um painel plano. Arranhando com as unhas, forçou-o para que se abrisse e franziu o cenho. Era uma espécie de quarto de monitoração, tenuemente iluminado com um jogo de computadores de alta tecnologia e medidores de sinais vitais. Inclinando-se para o brilho azul de uma das telas, viu uma cama de hospital. Sobre ela, jazia um homem escancarado e controlado com tubos e cabos que saíam dele. Butch.

Meteu-se entre os trajes amarelos contra risco biológico e máscaras que penduravam perto da porta e prosseguiu dentro do quarto, sentindo a fechadura a vácuo abrindo-se com um chiado.

—Virgem no Fade… —subiu a mão à garganta.

Definitivamente estava morrendo. Podia senti-lo. Mas havia algo mais… algo atemorizador, algo que acendia seus instintos de sobrevivência tanto como se estivesse enfrentando com um atacante que levasse uma arma. Seu corpo lhe gritava que corresse, que saísse dali, que se salvasse a si mesma.

Mas seu coração a levou ao lado da cama.

—OH… Deus.

A bata hospitalar lhe deixava descoberto os braços e as pernas, e mostravam as marcas roxas por todos os lados. E seu rosto… Deus bendito, estava terrivelmente machucado.

Quando emitiu um som como um grunhido do fundo da garganta, esticou-se para pegar sua mão… OH, não, não ali também. Os nós dos seus dedos estavam inchados nas pontas, a pele cor púrpura e lhe faltavam algumas das unhas.

Queria tocá-lo, mas não havia lugar onde pudesse fazê-lo.

—Butch?

Com o som de sua voz, o corpo se sacudiu e abriu os olhos. Bom, um olho.

Quando se focou nela, o fantasma deu uma tentativa de sorriso.

—Voltou. Acabo de… ver você na porta. —A voz era fraca, um pequeno eco do tom baixo que normalmente tinha. —Vi você e depois… te… perdi. Mas aqui está.

Sentou-se cuidadosamente na beira da cama e se perguntou com que enfermeira a teria confundido.

—Butch…

—Onde está… o vestido amarelo? —Suas palavras eram confusas, a boca não se movia muito, como se sua mandíbula estivesse quebrada—. Estava tão linda… com aquele vestido amarelo…

Definitivamente uma enfermeira. Esses trajes pendurados perto da porta eram amare… demônios. Não tinha colocado um, certo? Santo inferno, se seu sistema imunológico estivesse comprometido, precisava protegê-lo.

—Butch, vou sair e pegar um…

—Não… não me deixe… não vá… —Começou a retorcer as mãos contra as ataduras, as sujeições de couro rangeram—. Por favor… Por Deus… não me deixe…

—Está bem, voltarei em seguida.

—Não… Mulher que amo… vestido amarelo… não me deixe…

Sem saber o que mais fazer, inclinou-se e brandamente apoiou a palma sobre seu rosto.

—Não te deixarei.

Acariciou a bochecha machucada, seus lábios partidos esfregando-se contra sua pele enquanto sussurrava.

—prometa-me

—Eu…

A fechadura à vácuo se abriu com um chiado e Marissa olhou por cima de seu ombro.

Havers irrompeu no quarto como se tivesse sido empurrado para dentro. E embora usasse uma máscara amarela, o horror em seu olhar foi tão óbvio como um grito.

—Marissa! —cambaleou dentro do traje protetor que tinha colocado, a voz atenuada e frenética—. Doce Virgem do Fade, que está… deveria ter colocado um traje isolante!

Butch começou a lutar na cama, e lhe acariciou brandamente o antebraço.

—Shh… Estou aqui. —Quando se acalmou um pouquinho, disse

— Colocarei um agora…

—Não tem idéia… OH, Deus! —Todo o corpo de Havers tremeu—. Agora esta comprometida. Poderia estar poluída.

—Poluída? —Olhou para baixo para Butch.

—Certamente o sentiu quando entrou! —Havers começou a dizer todo tipo de palavras, nenhuma das quais ouviu.

Como seu irmão seguia com o mesmo, suas prioridades se estabeleceram por si só, aço fechando-se sobre aço. Não importava se Butch não tinha nem idéia de quem era ela. Se a confusão de sua identidade o mantinha com vida e lutando, isso era tudo o que importava.

—Marissa, está me escutando? Está contamin…

Ela olhou por sobre o ombro.

—Bom, se estou poluída, então parece que vou ficar com ele, não é certo?

  

John Matthew parou ante seu branco e apertou o punho sobre a espada. Na parte mais afastada do ginásio, através de muito colchonetes azuis, havia três sacos de boxe pendurados na ponta mais baixa dos degraus. Enquanto se concentrava, em sua mente, o do meio se transformou em um lesser. Imaginou o cabelo branco, os olhos e a pele pálidos que o perseguiam em seus sonhos, e começou a correr, seus pés descalços soando contra o plástico duro dos colchonetes.

Seu pequeno corpo não tinha nem velocidade nem força, mas sua vontade era enorme. E algum dia meio do ano seguinte, o resto dele ficaria a tom com o poder de seu ódio.

Maldição. Não. Podia. Esperar. Para que acontecesse a transição.

Levantando a espada sobre a cabeça, abriu a boca para deixar escapar um grito. Não saiu nada, porque era mudo, mas imaginava que estava fazendo muitíssimo ruído.

Por isso lhe concernia, os lessers tinham matado a seus pais. Tohr e Wellsie o tinham acolhido, haviam-lhe dito o que era realmente, tinham-lhe dado o único amor que conhecia. Quando esses bastardos assassinos mataram a ela e Tohr desapareceu, John tinha ficado com nada mais que sua vingança… vingança por eles e as outras vidas inocentes que tinham sido perdidas em janeiro passado.

John se aproximou da bolsa correndo escondido, com os braços sobre o ombro. No último instante, agachou-se formando uma bola, rodou pelos colchonetes, logo ficou de pé rapidamente com a espada, batendo na bolsa de abaixo. Se tivesse sido um cenário específico de combate, a lâmina teria entrado nas vísceras do lesser. Fundo.

Girou o punho.

Logo ficou de pé de um salto e girou em círculo, imaginando que o não morto caía de joelhos, sujeitando o buraco no abdômen. Apunhalou a bolsa de acima, vendo a si mesmo enterrando a lâmina na nuca…

—John?

Virou sobre si mesmo, resfolegando.

A fêmea que se aproximava fez com que tremesse… e não só porque lhe deu um susto de morte. Era Beth Randall, rainha mestiça, a fêmea que também era sua irmã, ou isso era o que indicavam as provas de sangue. Estranhamente, cada vez que estava perto dela, sua mente saia de férias, seu cérebro deixava de funcionar, mas ao menos já não se entristecia. A qual tinha sido sua primeira reação quando a conheceu.

Beth caminhou através dos colchonetes, uma alta e magra fêmea vestida com jeans e um sueter de pescoço alto branco, o cabelo escuro exatamente da mesma cor que o seu. Enquanto se aproximava, pôde cheirar o aroma de emparelhamento do Wrath nela, um perfume escuro característico de seu hellren. John suspeitava que a marca aparecia por causa do sexo, já que a fragrância sempre era mais forte na primeira refeição, quando vinham do quarto.

—John, acompanhe-nos para na última refeição da noite, na mansão?

—Devo ficar e praticar. —Indicou-lhe usando a linguagem de sinais americana. Todo mundo na casa tinha aprendido o LSA, e essa concessão a sua debilidade, a sua falta de voz, chateava-o. Desejou que não tivessem tido que lhe fazer nenhuma concessão. Desejou ser normal.

—Nós gostaríamos de ver você. E passa muito tempo aqui.

—A prática é importante.

Ela olhou a espada em sua mão.

—Também o são outras coisas.

Como continuava olhando-a, os olhos azuis dela deslizaram pelo ginásio como se estivesse tratando de encontrar um argumento atraente.

—Por favor. John, estamos… estou preocupada com você.

Em uma época, uns três meses atrás, teria-lhe encantado ouvir essas palavras de sua boca. De qualquer boca. Mas não mais. Não queria sua preocupação. Queria que se mantivesse afastada de seu caminho.

Quando sacudiu a cabeça, ela respirou profundamente.

—Está bem. Deixarei mais comida na cozinha, OK? Por favor… come.

Inclinou a cabeça uma vez, e quando levantou a mão para tocá-lo, afastou-se. Sem dizer outra palavra, ela deu a volta e caminhou através dos colchonetes azuis.

Quando a porta se fechou atrás dela, John pulou de novo para a parte mais afastada do ginásio e se agachou para começar a correr. Enquanto arrancava uma vez mais, levantou para o alto a espada, ódio puro impulsionando seus braços e pernas.

 

O Sr. X entrou em ação ao meio dia, entrando na garagem da casa em que parava, subiu a subiu a escada sem chamar a atenção, o que permitia a ele circular tão bem entre o trânsito humano de Caldwell.

Não tinha nenhum interesse em sua tarefa, mas se foi o Fore-less, fazia quando o amo dava uma ordem. Era isso ou lhe castigavam, algo pelo qual o Sr. X já tinha passado uma vez e não tinha desfrutado: Ter o Omega te esbofeteando com uma carta de demissão era quase tão divertido como comer uma salada de arame.

Ao Sr. X ainda lhe surpreendia o fato de que estivesse de volta neste insensato planeta e neste cargo outra vez. Mas parecia que o amo havia se cansado da porta de vaivém que eram seus Fore-lessers e queria ter uma fixa. Como evidentemente o Sr. X tinha sido o melhor de todos nos últimos cinqüenta ou sessenta anos, tinha sido chamado ao serviço para outra volta.

Uma reedição tirada do inferno.

Assim, hoje ia trabalhar. Enquanto colocava a chave na ignição e o anêmico motor do Town & Country tossiu, sentia-se absolutamente sem inspiração, já não era o líder que tinha sido. Mas era difícil sentir-se motivado nesta espécie de situação perder ou perder. O Omega ia voltar a enfurecer-se e a descarregar em seu número um. Era inevitável.

Sob o brilhante sol de meio-dia, o Sr. X saiu da fresca e alegre subdivisão, passando frente as casas construídas nos finais dos 90, que pareciam saídas do Monopoly. As coisas compartilhavam uma arquitetura vulgar, incorporando a particularidade de figuras que cercavam as casas com ordinárias variantes de adoráveis “patinhos-e-coelhinhos”. Muitos alpendres dianteiros com molduras insubstanciais. Muitas venezianas de plástico. Muitas decorações de estação, esta vez apoiadas no tema da Páscoa de Ressurreição.

O perfeito esconderijo para um lesser: um matagal de dedicadas mães esgotadas e estressados pais de classe média.

O Sr. X tomou a Lily Lane para a Rota 22, detendo-se ante o sinal vermelho da importante estrada. Usando o rastreador GPS, obteve uma localização aproximada do lugar no bosque que O Omega tinha pedido que visitasse. A duração da viagem seria de 12 minutos o que estava bom. O amo estava muito impaciente, ávido de ver se seu plano com o troyano humano tinha funcionado, ansioso de saber se a Irmandade levou o seu pequeno camarada para casa.

O Sr. X pensou no homem, estava certo que se conheceram antes. Mas, inclusive se perguntasse sobre onde e quando, nada disso importava nesse momento. E tampouco tinha importado quando o Sr. X tinha estado trabalhando nele.

Jesus, esse tinha sido um duro Filho da puta. Nenhuma só palavra a respeito da Irmandade tinha saído da boca do homem, sem importar o que lhe fizessem. O Sr. X ficou impressionado. Homens como esse teriam sido uma ótima aquisição se tivessem podido moldá-lo.

Ou talvez isso já tivesse ocorrido. Talvez esse humano fosse um deles agora.

 

Um pouco mais tarde, o Sr. X estacionou o Town & Country em uma parte alta da Rota 22 e se meteu no bosque. Tinha caido neve a noite anterior devido a uma estranha tormenta de março, e se empilhavam nos ramos dos pinheiros, como se as árvores tivessem se embelezado para jogar futebol entre eles. De fato, era certamente bonito. Se interessava essa merda da natureza.

quanto mais longe se internava no bosque, menos necessitava do rastreador porque podia sentir a essência do amo, inegável como se O Omega estivesse ali adiante. Talvez o humano não tivesse sido recolhido pelos Irmãos…

Bom, quem sabe.

Quando o Sr. X emergiu em uma clareira, viu um círculo chamuscado na terra. O calor que tinha ardido ali tinha sido suficientemente forte para derreter a neve e enlodar a terra por um momento e a terra agora voltava a congelar e mostrava os contornos da exposição.Em tudo ao redor, permaneciam os resíduos da presença do Omega, como o fazia o fedor do lixo no verão muito depois que se recolheu.

Aspirou pelo nariz. Sim, também havia algo humano na mescla.

Santa merda, tinham matado o tipo. A Irmandade tinha exterminado esse humano. Interessante. Exceto… por que não se inteirou O Omega de que o homem estava morto? Talvez não tivesse havido o suficiente dentro dele para ser chamado a casa pelo amo?

O Omega não ia gostar deste relatório. Era alérgico ao fracasso. Dava-lhe coceira. E a coceira derivava em coisas más para os Fore-lessers.

O Sr. X se ajoelhou sobre a terra murcha e invejou o humano. Afortunado bastardo. Quando um lesser morria, o que lo esperava do outro lado era um interminável sofrimento líquido, um horrendo banho que equivalia a todas as visões que tinha um cristão do inferno multiplicadas por mil: depois que os assassinos eram destruídos, retornavam às veias do corpo do Omega, circulando e voltando para circular em uma maligna inundação de outros lessers mortos, se transformando no mesmo sangue que o amo vertia em você quando foi iniciado na Sociedade. E por este reconstituir de assassinos, não havia fim ao cortante frio, nem à fome enloquecedora nem a esmagadora pressão porque permanecia conciente. Por toda a eternidade.

O Sr. X estremeceu. Em vida tinha sido um ateu, nunca tinha pensado na morte mais que como uma asquerosa sesta. Agora, como lesser, sabia exatamente o que o esperava quando o amo perdesse a paciência e o “despedisse” outra vez.

E mesmo assim havia esperanças. O Sr. X tinha encontrado uma pequena abertura, caso as peças se encaixassem .

Por um golpe de sorte, podia ser que tivesse encontrado uma via de escape para sair do mundo do Omega.

 

A Butch custou três longos e enfebrecidos dias recuperar a consciencia, surgiu do fundo como uma bóia, emergindo das profundidades ,de um nada para balançar-se por cima da realidade de um lago de luzes e sons. Casualmente, pôde recuperá-lo suficiente para entender que estava olhando uma parede branca que havia em frente dele e escutando um suave assobio ao fundo.

Um quarto de Hospital. Correto. As as ataduras tinham desaparecido de seus braços e pernas.

Só por diversão, virou até ficar de costas e se impulsionou para levantar a cabeça e os ombros da cama. Manteve-se erguido unicamente porque gostava da sensação de sentir o quarto girando a seu redor. Distraía-o de seu Mostruário do Whitman particular de dores e sofrimentos.

Homem, tinha tido estranhos e maravilhosos sonhos. Marissa a seu lado cuidando-o. Acariciando seus braços, seu cabelo, seu rosto, sussurrando que ficasse com ela. A voz tinha sido a que o tinha retido em seu corpo, a que o tinha mantido afastado da luz branca que qualquer idiota que tivesse visto Poltergeist saberia que era o outro mundo. Por ela, de alguma forma conseguiu ficar, e a julgar pelo firme e forte batimento de seu coração, sabia que ia ficar .

Salvo que, é obvio, os sonhos tinham sido uma fraude. Ela não estava aqui e agora estava preso em seu próprio corpo até que a coisa asquerosa terminasse com ele.

Maldita fosse sua podre sorte de ter que seguir respirando.

Olhou para cima no lugar de que penduravam os soros intravenosos. Observou fixamente a bolsa conectada a um cateter.

Logo olhou o que parecia ser um banheiro. Banho. OH, Deus!, Daria sua bola esquerda por uma ducha.

Enquanto deslizava as pernas para um lado, deu-se conta de que o que estava a ponto de fazer uma coisa que daria muito errada. Mas disse a si mesmo, enquanto pendurava a bolsa que se conectava com o cateter perto de sua medicação intravenosa, que ao menos o quarto quase não girava ao seu redor.

Respirou profundamente e agarrou o apoio com os soros para utilizá-lo como bengala.

Seus pés bateram no chão frio. Descarregou seu peso sobre as pernas.

Imediatamente lhe dobraram os joelhos.

Enquanto caía de volta sobre a cama, soube que não ia conseguir chegar até o banheiro. Perdendo as esperanças de lavar-se com água quente, deu a volta e observou o chuveiro com certa cobiça.

Butch inalou como se a parte posterior da cabeça tivesse estalado.

Marissa estava dormindo sobre o chão em um canto do quarto, enroscada sobre si mesmo, deitada de lado. Sua cabeça estava apoiada sobre um travesseiro e seu belo vestido de gaze celeste estava aberto lhe cobrindo as pernas. O cabelo ao redor dela, uma incrível cascata de cor loira platino, uma corrente de ondas de românce medieval.

Merda. Tinha estado com ele. Certamente o tinha salvado.

Seu corpo encontrou renovada força enquanto ficava de pé e andava aos tropeços através do chão de linóleo. Queria ajoelhar-se mas sabia que se o fazesse provavelmente ficaria no chão para sempre, assim se conformou ficando de pé perto dela.

Por que estava aqui? A última coisa de que tinha consciência , era que não queria ter nada que ver com ele. Demônios, no último mês de setembro se negou a recebê-lo quando a tinha ido ver a com a esperança de… tudo.

—Marissa? —Sua voz era áspera, clareou garganta—. Marissa, acorde.

Suas pálpebras tremeram até abrir-se e se levantou de repente. Seus olhos, de um azul pálido, como vidro de mar, fixaram-se nos seus.

— Vai cair!

Exatamente quando seu corpo oscilava para trás e se balançava sobre os calcanhares, ela deu um salto e o agarrou. Apesar de seu corpo esbelto assumiu todo seu peso facilmente, lhe recordando que não era uma mulher humana e que provavelmente fosse mais forte que ele.

Enquanto o ajudava a acomodar-se na cama e o cobria com os lençóis, o fato de estar fraco como um menino e de que o tratasse necessariamente como a um, incomodou seu orgulho.

—por que está aqui? —perguntou com um tom tão desagradável como sua confusão.

Quando ela evitou olhá-lo de frente, soube que também se sentia incomodada com a situação.

—Vishous me disse que estava ferido.

Ah, assim, V deve tê-la feito se sentir culpada para a convencera exercer o papel de Florence Nightingale para ele. Esse bastardo sabia que Butch se convertia em um idiota sorridente quando ela estava perto e que o som de sua voz conseguiria exatamente o que tinha conseguido, trazê-lo de volta. Mas ser uma corda forte para o bote salva-vidas, era uma posição muito incômoda para ela.

Butch grunhiu enquanto se acomodava. E também devido ao golpe que estava levando seu orgulho.

—Como se sente? —perguntou.

—Melhor. —Em comparação. Por outro lado, um ônibus poderia tê-lo atropelado e ainda assim estar em melhor estado do que estava depois do que o lesser tinha feito—. Assim, não tem que ficar.

Sua mão escorregou pelo lençol e respirou fundo, seus seios se elevaram debaixo do caro sutiã de seu vestido. Enquanto abraçava a si mesma, seu corpo se curvou elegantemente como uma S.

Afastou o olhar envergonhado, porque parte dele queria aproveitar-se de sua miséria e mantê-la a seu lado.

—Marissa, se quiser, pode ir agora.

—Na verdade, não posso.

Franziu o cenho e voltou a olhá-la.

—Por que não?

Ela perdeu a cor, mas logo levantou o queixo.

—Está baixo…

Ouviu-se um chiado e um alienígena entrou no quarto, uma figura vestida com um traje amarelo e máscara de oxigênio. O rosto atrás da máscara era o de uma mulher, mas a figura era indefinida.

Butch olhou Marissa horrorizado.

—Por que demônios não está usando um desses trajes? —Não sabia que tipo de infecção tinha, mas se era o suficientemente perigosa para que o pessoal médico estivesse usando um Silkwood, devia imaginar-se que era letal.

Marissa se encolheu, fazendo-o sentir-se como um valentão.

—Eu…. Eu simplesmente não o faço.

—Senhor? —Interrompeu gentilmente a enfermeira—. Se não o incomodar, eu gostaria de pegar uma amostra de sangue.

Pegou o antebraço enquanto continuava olhando Marissa.

—Supunha-se que devia usar um desses quando entrou, não é assim? Não é assim?

—Sim.

—Maldita seja —disse bruscamente—. por que não…?

Quando a enfermeira o cravou na parte interna do cotovelo, a força abandonou Butch como se com a agulha tivesse desinflado o globo de sua energia.

Um enjôo se apoderou dele e sua cabeça caiu para trás contra o travesseiro. Mas ainda estava zangado.

—Deveria usar um desses trajes.

Marissa não respondeu, somente andou ao redor da quarto.

No silêncio que seguiu, olhou o pequeno tubo que estava conectado a sua veia. Enquanto a enfermeira o substituía por outro vazio, não pôde evitar notar que seu sangue se via mais escuro do que o habitual. Muito mais escuro.

—Por Deus… Que diabos está saindo de mim?

—Está melhor do que antes, muito melhor —a enfermeira sorriu através da máscara.

—Então, de que cor era antes? —murmurou, pensando que o fluido parecia lodo marrom.

Quando a enfermeira terminou, colocou-lhe um termômetro debaixo da língua e checou as máquinas que estavam atrás da cama.

—Trareipara você um pouco de comida.

—Ela já comeu? —resmungou.

—Mantenha a boca fechada —houve um assobio e a enfermeira tirou o palito coberto de plástico dos seus lábios—. Muito melhor. Agora, há algo que possa fazer por você?

Pensou em Marissa arriscando sua vida por um sentimento de culpa.

—Sim, quero que ela saia daqui.

Marissa escutou essas palavras e deixou de andar. Recostando-se contra a parede, olhou para baixo, olhando a si mesma e se surpreendeu ao dar-se conta que seu vestido ainda ficava bem. Sentia-se da metade de seu tamanho normal. Pequena. Insustancial.

Quando a enfermeira se foi, os olhos castanhos de Butch arderam.

—Quanto tempo tem que ficar?

—Até que Havers me diga que posso sair.

—Está doente?

Negou com a cabeça.

—Por que estão me tratando?

—Pelas feridas que recebeu no acidente de carro. Que foram muitas.

—Acidente de carro? —ele estava confuso, logo indicou a agulha intravenosa com a cabeça como se quisesse mudar de assunto—. O que há aí dentro?

Ela cruzou os braços sobre os seios e recitou os antibióticos, os nutrientes, os analgésicos e os anticoagulantes que lhe estavam administrando.

—E também Vishous vem te ajudar.

Pensou no Irmão, seus surpreendentes olhos de diamante, as tatuagens que tinha nas têmporas… e sua óbvia aversão por ela. Era o único que entrava no quarto sem usar o traje protetor e o via duas vezes ao dia, no início e no final da noite.

—V veio me visitar?

—Põe sua mão sobre seu estômago. Isso o calma. —A primeira vez que o guerreiro tinha descoberto Butch e tinha levantado sua bata de hospital,ela ficou muda tanto pela visão íntima como pela autoridade que emanava do Irmão. Mas logo se ficou muda por outra razão. A ferida no estômago do Butch era aterradora… e logo Vishous também a tinha assustado. Tirou a luva que sempre o tinha visto usar, revelando uma mão brilhante que estava completamente tatuada.

Tinha estado aterrada sobre o que poderia acontecer depois, mas Vishous só tinha passado a palma da mão a três polegadas acima do estômago de Butch. Inclusive estando em coma, Butch tinha suspirado asperamente denotando alívio.

Logo, Vishous havia tornado a pôr a bata de hospital, arrumado os lençóis e se voltou para ela. Havia-lhe dito que fechasse os olhos, e como o temia, fez. Quase imediatamente a tinha alagado uma profunda sensação de paz, como se fosse banhada por uma calmante luz branca. Ele fazia isso toda vez antes de ir embora, e sabia que a estava protegendo. Embora não podia imaginar o porquê, dado que claramente a desprezava.

Voltou a centrar-se em Butch e pensou em suas feridas.

—Não esteve envolvido em um acidente de carro certo?

Fechou os olhos.

—Estou muito cansado.

Quando a deixou fora, sentou-se sobre o chão frio e envolveu os joelhos com os braços. Havers tinha querido lhe trazer coisas como um cama de armar ou uma cadeira cômoda, mas o preocupou que os sinais vitais de Butch voltassem a se paralisar, o pessoal médico não poderia se aproximar da cama com o equipamento necessária com eficiência e rapidez. Seu irmão tinha estado de acordo.

Depois de só Deus sabia quantos dias disto, suas costas estavam rígidas e suas pálpebras se sentiam como papel de lixa, mas não havia se sentido cansada quando tinha estado lutando para manter Butch com vida. Demônios, nem sequer tinha notado o passr do tempo, sempre se sentia surpresa quando as enfermeiras lhe traziam a comida, ou quando vinha Havers. Ou quando Vishous chegava.

Até o momento, não se sentia doente. Bom, havia se sentido doente antes de que Vishous viesse pela primeira vez. Mas depois que começasse a fazer o que fosse que fizesse com essa mão , tinha estado bem.

Marissa olhou para cima da cama de hospital. Ainda tinha curiosidade a respeito de por que Vishous a tinha enviado a esse quarto. Certamente a mão desse guerreiro estava reportando muito mais beneficio que ela.

Enquanto as máquinas apitavam brandamente e o ar condicionado soprava do teto, seus olhos vagaram sobre a longitude do corpo em repouso de Butch. Quando pensou no que havia debaixo das mantas, um rubor cobriu seu rosto.

Agora, sabia como era cada parte de seu corpo.

Sua pele era suave cobrindo todos os seus músculos e tinha uma tatuagem na parte baixa das costas em tinta negra… uma série de linhas agrupadas de quatro em quatro com cada uma atravessada por uma linha em ângulo. Vinte e cinco delas, se tinha somado corretamente. Algumas tinham se desvanecido, como se tivessem sido feitas anos atrás. Perguntava-se o que recordariam.

No que diz respeito a sua parte da frente, a sombra do pêlo negro sobre o seu peito tinha sido uma surpresa, já que não sabia que os humanos não eram sem pêlos como o eram os de sua espécie. Entretanto, não tinha muito pêlo sobre o peito, e se estreitava em seguida, traçando uma fina linha debaixo de seu umbigo.

E logo… Estava envergonhada de si mesma, mas tinha observado seu sexo. O pêlo na junta de suas pernas era escuro e muito denso, e no centro tinha um grosso caule de carne quase tão largo como seu pulso. Debaixo disso havia um pesado e potente saco.

Era o primeiro homem que havia visto nu e os nus de História da Arte simplesmente não eram iguais a realidade. Estava belamente feito. Era fascinante.

Deixou que sua cabeça caísse para trás e olhou o teto. Estava errado que tivesse invadido sua privacidade? Era correto que seu corpo se inflamasse tão somente por recordá-lo?

Deus, Quanto tempo faltava agora para que pudesse sair dali?

Perdida em seus pensamentos agarrou entre os dedos a fina malha do vestido e inclinou a cabeça para poder olhar o tecido de gaze celeste. A adorável criação de Narcisista Rodríguez deveria ter sido extremamente confortavel, mas o espartilho, que sempre usava porque era o adequado, realmente estava começando a incomôdá-la sobremaneira. Entretanto, a razão era que queria estar bonita para Butch, embora ele não se importasse e não devido a sua enfermidade. Já não se sentia atraído por ela. Tampouco a queria perto.

Ainda assim, continuaria vestindo-se bem quando lhe trouxessem mudas de roupa.

Que pena que o que usasse ali dentro tivesse que ir parar o incinerador. Que pena ter que queimar todos esses vestidos.

 

Aquele filho de puta de cabelo pálido estava de volta, pensou Van Dean enquanto dava uma olhada sobre o grosso cercado de arame.

Era a terceira semana seguida que o tipo vinha às brigadas clandestinas de Caldwell. Contra a animada multidão que estava ao redor da luta de jaula, ele se destacava como um letreiro de néon, embora Van não tivesse claro, exatamente, o por que.

Quando um joelho entrou em contato com suas costas, reconcentrou-se no que estava fazendo. Levando para trás o punho nu, fez ranger o braço que se encontrou com o rosto de seu oponente. O sangue voou do nariz do sue oponente, fragmentos vermelhos que aterrissaram diretamente no colchonete antes de que o fizesse o corpo do homem.

Van plantou os pés e cravou os olhos em seu cansado oponente, as gotas de suor aterrissavam nos seu abdômem. Não havia nenhum árbitro para evitar que Van desse mais murros. Nenhuma regra que lhe impedisse de dar chutes nos rins até que o bastardo necessitasse de emodiálise o resto de sua vida. E se esse pedaço de tapete humano sequer tremia, ia deixar de lado.

Trazer a morte com as mãos nuas era o que sua parte especial queria fazer, o que sua parte especial ansiava fazer. Van sempre tinha sido diferente, não só de seus oponentes mas também de todos outros com os quais tenha se wncontrado alguma vez: o assentamento de sua alma não era o de um lutador simplesmente, a não ser o de um guerreiro do tipo Romano. Lamentava não viver naqueles tempos quando estripava seu oponente se esse caía antes de você… logo ia para sua casa, violentava sua esposa e matava seus filhos. E depois roubava seus bens e queimava tudo o que restasse até os alicerces.

Mas vivia aqui e agora. E ultimamente existia outra complicação. O corpo que continha esta parte especial começava a envelhecer. O ombro o estava matando e também os joelhos, embora se assegurasse de que ninguém soubesse, dentro ou fora da jaula de luta.

Estendendo o braço para um lado, ouviu um estalo e dissimulou um estremecimento. Enquanto isso, a multidão rugiu e agitou o alambrado metálico de três metros de altura. Deus, os aficionados o amavam. O chamando por seu nome. Querendo ver mais dele.

Entretanto, eram, em sua maioria, irrelevantes para sua parte especial.

Em meio ao combate, encontrou o olhar fixo do homem de cabelo branco. Maldição, aqueles eram olhos estranhos. Apagados. Nenhum brilho de vida neles. E o tipo não aclamava tampouco.

Não importava.

Van chutou seu oponente com o pé descalço. O homem gemeu, mas não abriu os olhos. Fim da luta.

Os cinqüenta e tantos homens ao redor da jaula enlouqueceram gritando com aprovação.

Van saltou as grades e impulsionou seu corpo de noventa quilos sobre a parte de cima. Quando aterrissou, a multidão rugiu mais forte, mas retrocedeu seu passo. Na semana passada, quando um deles, cruzou seu caminho, o infeliz tinha terminado por cuspir um dente.

A “arena” de combate, tal como estavam as coisas, estava localizada em um estacionamento subterrâneo abandonado, e o dono do solar negociava os combates. Todo o assunto estava sombreado pela morte, Van e seus adversários não eram nada mais que o equivalente humano de brigas de galos. Entretanto, o pagamento era bom, e até agora não tinha havido nenhum problema —embora fosse sempre um problema—. Em meio ao sangue e as apostas, as placas do Departamento de Polícia não tinham aparecido na cena para nada, assim, era um clube de membros privados, e se descobria o bolo foi jogado no ar. Literalmente. O dono tinha uma equipe de seis valentões que mantinham tudo sob controle.

Van se aproximou do homem do dinheiro, agarrou seus quinhentos dólares e a jaqueta, logo se dirigiu para a caminhonete. A camiseta Hanes estava manchada de sangue, mas não se preocupou. Estava preocupado era por suas articulações doloridas. E aquele ombro esquerdo.

Droga. Parecia como se, cada semana, custasse-lhe mais e mais servir a sua parte especial e colocar seus oponentes no chão. Então de novo, subia na arena. No mundo da luta, os trinta e nove marcavam o momento da dentadura postiça.

—Por que parou?

Quando ia subir na caminhonete, Van examinou o pára-brisa do lado do condutor. Não estava surpreso de que o homem de cabelo branco tivesse vindo por trás dele.

—Não respondo a admiradores, companheiro.

—Não sou um admirador.

Seus olhos ficaram presos na superfície plaina do vidro.

—Então por que vem tanto a minhas brigas?

—Porque tenho uma proposta para você.

—Não quero um empresário.

—Tampouco sou um desses.

Van olhou por cima do ombro. O homem era grande e se movia como um lutador, com os ombros elevados e os braços soltos. Tinha mãos como chaleiras de ferro, do tipo que se poderiam dobrar em um punho tão grande como uma bola para jogar boliche.

Assim esse é o negócio, sim?

—Se quiser entrar na arena comigo, é com ele. —Indicando o homem do dinheiro.

—Não, tampouco é isso.

Van se voltou, pensando que o joguinho das vinte perguntas era uma merda.

—E o que quer?

—Primeiro tenho que saber por que parou.

—Foi derrubado.

A contrariedade cintilou sobre o rosto do homem.

—Então?

—Sabe o que mais? Esta começando a me encher o saco.

—Muito bem. Estou procurando um homem que se encaixe em sua descrição.

Ah, isso estreitava o campo. Um cara de rosto comum com o nariz quebrado, com um corte de cabelo militar. Sinceramente.

—Muitos homens se parecem comigo.

Bem, exceto por sua mão direita.

—Me diga uma coisa —perguntou ele—, tirou o apêndice?

Van estreitou os olhos e voltou a colocar as chaves da caminhonete no bolso.

—Está a ponto de acontecer uma de duas coisas e você escolhe. Afase-se e entro em meu carro. Ou continua falando e a eu caio em cima. É sua escolha.

O homem pálido se aproximou. Jesus, cheirava de maneira estranha. Como… talco para bebê?

—Não me ameace, moço. —A voz era baixa e o corpo que respaldava as palavras estava preparado para a ação.

Bem, bem, bem… O que parecia? Com certeza um oponente.

Van aproximou o rosto ainda mais.

—Então chega da porcaria do assunto.

—Apêndice?

—Não mais.

O homem sorriu. Retrocedeu relaxado.

—Você gostaria de ter um trabalho?

—Tenho um. Isto aqui.

—Construção. Derrubar estranhos por dinheiro numa jaula.

—Ambos, trabalhos honestos. E exatamente quanto tempo vocês estão farejando ao redor de meus negócios?

—O tempo suficiente. —O homem estendeu a mão—. Joseph Xavier.

Van viu mão estendida sem nenhuma reação.

—Não estou interessado em te conhecer, Joe.

—É Sr. Xavier para você, filho. E certamente não se oporá a escutar uma proposta.

Van inclinou a cabeça para o lado.

—Sabe o que mais? Pareço muito com uma puta. Eu gosto que me paguem para me tocar. Assim porque não me entrega um 100 dólares, Joe, e depois vemos a respeito de sua proposta.

Quando o homem ficou somente olhando, Van sentiu um inesperado golpe de medo. Homem, algo neste cara não estava certo.

A voz do bastardo foi ainda mais baixa quando falou:

—Primeiro diga meu nome corretamente, filho.

Qualquer coisa. Por cem dólares, agitaria suas gengivas até para uma aberração como esta.

—Xavier.

—É Sr. Xavier. —O homem sorriu como um predador, todo dentes, nada de alegria—. Diga-o, filho.

Algum impulso desconhecido fez que Van abrisse a boca.

Exatamente quando ia deixar sair as palavras, teve uma lembrança vívida de quando tinha dezesseis anos e deu um mergulho no Rio Hudson. No ar, tinha visto uma rocha maciça submarina com a qual ia se chocar e sabia que não haveria nenhuma mudança de curso. Efetivamente, sua cabeça havia feito contato como se a colisão tivesse sido predestinada, como se houvesse uma corda invisível ao redor de seu pescoço e a rocha fosse seu miserável destino. Mas não tinha sido uma coisa ruim, ao menos não em seguida. Imediatamente depois do barulho do impacto, tinha havido uma flutuante, doce, satisfeita calma, como se o destino tivesse sido completado. E soubesse por instinto que essa sensação era precursora da morte.

Que bonito, agora tinha aquela mesma desorientação ausente. E a mesma percepção de que este homem com a pele branca como o papel era como a morte: inevitável e destinado— e que vinha expressamente por ele.

—Sr. Xavier —sussurrou Van.

Quando a nota de cem dólares apareceu diante dele, estirou a mão com quatro dedos e a pegou.

Mas sabia que ainda sem o dinheiro teria escutado.

 

Horas mais tarde, Butch ficou de barriga para cima e a primeira coisa que fez foi procurar por Marissa.

Encontrou-a sentada no canto do quarto com um livro aberto a seu lado. Entretanto, seus olhos não estavam nas páginas. Contemplava os pálidos ladrilhos de linóleo, rastreando o padrão de manchas com um dedo longo, perfeito.

Parecia dolorosamente triste e tão linda que seus olhos arderam. Deus, a idéia de que poderia infectá-la ou pô-la em perigo de qualquer modo o fez querer cortar sua própria garganta.

—Lamento que tenha entrado aqui —grasnou. Quando ela estremeceu, pensou na escolha de palavras—. O que quero dizer é…

—Sei o que quer dizer. —Sua voz se endureceu—Está com fome?

—Sim. —esforçou-se por incorporar-se—. Mas do que realmente eu gostaria é um banho.

Ela se levantou, elevando-se como a névoa, tão elegante, e conteve a respiração enquanto caminhava para ele. Cara, aquele vestido azul claro era da cor exata de seus olhos.

—Me permita te ajudar a ir ao banheiro.

—Não, posso fazê-lo.

Ela cruzou os braços sobre o peito.

—Se tenta chegar ao banheiro sozinho, cairá e se machucará.

—Então, chama uma enfermeira. Não quero que me toque.

Contemplou-o durante um momento. Então seus olhos piscaram uma vez. Duas vezes.

—Me dê licensa durante um momento?— disse em um tom sereno—. Tenho que usar o banheiro. Pode chamar à enfermeira apertando o botão vermelho que está ali.

Entrou no banheiro e fechou a porta. A água começou a correr.

Butch quis chegar ao pequena botão, mas se deteve quando a forte corrente do lavabo seguiu desaguando atrás da porta. O som era contínuo, não como quando alguém lavava as mãos ou o rosto ou enchia um copo.

E seguiu, sem cessar.

Com um grunhido, arrastou-se da cama e se levantou, segurando o suporte de soro até que a coisa tremeu pelo esforço para mantê-lo direito. Pôs um pé diante do outro até que chegou à porta do banheiro. Pressionou seu ouvido contra a madeira. Tudo o que pôde ouvir foi a água.

Sem qualquer motivo, chamou brandamente. Depois bateu outra vez. Deu-lhe um golpe mais, logo girou a maçaneta, mesmo que envergonhasse a ambos como o inferno se ela estavesse usando as instalações…

Marissa estava no vaso, quando abriu. Mas o assento estava baixo.

E chorava. Estremecendo-se e soluçando.

—Ah… Jesus, Marissa.

Soltou um chiado, como se ele fosse a última coisa no planeta que queria ver.

—Sai!

Ele trasnladou e se afundou de joelhos diante dela.

—Marissa…

Enfiando o rosto entre suas mãos, estalou.

—Eu gostaria de um pouco de privacidade, se não se importar.

Ele chegou até a água e a fechou. Quando o lavabo se esvaziou com um pequeno ruído, a rápida respiração dela ocupou o lugar que o som do grifo tinha deixado.

—Está bem —disse—.Podera sair logo. Sairá...

—Se cale! —Ela deixou cair suas mãos o suficiente para o fulminar com o olhar—. Só volte para a cama e chama à enfermeira se já não o tiver feito.

Ele se sentou em seus calcanhares, enjoado, mas decidido.

—Sinto que esteja presa comigo.

—Aposto que sim.

Ele franziu o cenho.

—Marissa…

O som da desconexão da porta de ar o cortou.

—Policial? —A voz de V não soou atenuada pela equipamento protetor.

—Pare —gritou Butch. Marissa não necessitava mais de um espectador.

—Onde está, policial? Algo está errado?

Butch pensou em levantar-se. Realmente o fez. Mas quando se agarrou no poste de soro e se moveu, seu corpo lhe falhou, simplesmente tornou-se de borracha. Marissa tratou de agarrá-lo, mas ele deslizou de seu braço, acabando escancarado nos ladrilhos do banheiro, o rosto junto ao aro ao redor da base do vaso. Confusamente, ouviu Marissa falando em urgentes estalos. Então o cavanhaque de V entrou em seu campo de visão.

Butch olhou seu companheiro de quarto… e merda, sua visão se fez imprecisa, estava tão feliz de ver o bastardo. O rosto do Vishous estava exatamente igual, a barba escura ao redor da boca exatamente onde deveria estar, as tatuagens na têmpora sem alterar, aquela íris de brilhantes diamantes ainda acesos. Familiar, tão familiar. Lar e família envolto em uma embalagem de vampiro.

Entretanto, Butch não permitiu que nenhuma lágrima caísse. Já estava desesperadamente incapacitado junto a um vaso sanitario, Por Deus! Debilitar-se seria a cereja do bolo da vergonha.

Piscando ferozmente, disse.

—Onde está sua fodida roupa, homem? Já sabe, o traje amarelo.

V sorriu, seus olhos um pouco brilhantes como se ele também se sentisse um pouco emocionado.

—Não se preocupe, estou coberto. Assim, presumo que está de volta, não?

—E preparado para o rock and roll.

—Claro.

—Certo. Penso ter um futuro na construção. Por isso queria ver como estava armado este banheiro. Um excelente trabalho de azulejado. Deveria comprová-lo.

—O que parece se levo você de volta à cama?

—Depois quero olhar as tubulações do lavabo.

O respeito e o afeto impulsionavam claramente o calmo sorriso zombador de V.

—Ao menos me deixe te ajudar.

—Não, posso fazê-lo. —Com um gemido, Butch tratou de ficar em pé, mas então se afrouxou novamente para baixo contra o azulejo. Resultou que levantar a cabeça era um pouco entristecedor. Mas e se o deixassem aqui bastante tempo… uma semana, talvez dez dias?

—Vamos, policial. Grita, cara e me deixe te ajudar.

De repente Butch se encontrou muito cansado para confrontá-lo. Enquanto estava totalmente sem forças, estava consciente de que Marissa o olhava fixamente e pensou, homem, poderia parecer mais débil? Merda, a única graça que lhe salvava consistia em que, não sentia uma brisa fria no traseiro.

O que dava a entender que a bata de hospital ficou fechada. Obrigado, Deus.

Logo, os grossos braços de V fizeram um túnel abaixo dele e logo foi levantado facilmente. Enquanto avançavam, negou-se a deixar descansar a cabeça no ombro de seu amigo, mesmo que o mantê-la erguida lhe desse suores. Quando estava de volta na cama, seu corpo se viu atormentado por tremores e o quarto girou.

Antes de que V se endireitasse, Butch agarrou o braço do homem e sussurrou:

—Tenho que falar contigo. A sós.

—O que acontece? —disse V com idêntica calma.

Butch deu uma olhada em Marissa, quem rondava pelo canto.

Com um rubor, ela deu um olhar ao banheiro, logo pegou duas grandes bolsas de papel.

—Acredito que tomarei uma ducha. Com licença? —Não esperou uma resposta, só desapareceu dentro do banheiro.

Quando a porta se fechou, V se sentou na ponta da cama.

—Me diga.

—Em que tipo de perigo está?

—Encarreguei-me dela e há três dias, parece estar bem. Provavelmente poderá partir logo. Todos estamos bastante convencidos que já não há nenhuma coisa infecciosa em andamento.

—A que foi exposta? A que fui exposto?

—Sabe que esteve com os lessers, certo?

Butch levantou uma de suas mãos quebradas.

—E eu aqui pensando que tinha estado na Elizabeth Ardem.

—Sabichão. Esteve aproximadamente um dia…

Repentinamente, agarrou o braço do V.

—Não me quebrei. Não importa o que me fizeram, não disse uma só palavra sobre a Irmandade. Juro-o.

V pôs sua mão sobre a de Butch e apertou.

—Sei que não o fez, amigo. Sei que não.

—Bom.

Quando ambos se soltaram, os olhos de V foram às pontas dos dedos de Butch, como se imaginasse o que lhe tinham feito.

—O que é o que recorda?

—Só os sentimentos. A dor e o… terror. Pânico. O orgulho… o orgulho é pelo que sei que não os delatei, por isso sei que eles não me quebraram.

V assentiu com a cabeça e tirou uma ondulante mão fora do bolso. Antes de acendê-lo, olhou o fornecimento de oxigênio, amaldiçoou, e voltou a guardar o charuto.

—Escuta, camarada, tenho que te perguntar se… sua cabeça estiver bem? Quero dizer, passando por algo assim...

—Estou tranqüilo. Sempre fui muito descerebrado para ter pós trauma ou alguma merda, e além disso, não tenho realmente nenhuma lembrança do que aconteceu. Se Marissa puder sair bem daqui, então, sim, estou bem. —esfregou seu rosto, sentindo a coceira do crescimento da barba, logo deixou cair o braço. Quando a mão aterrissou em seu abdômen, pensou na negra ferida—. Tem alguma idéia do que me fizeram?

Quando V sacudiu a cabeça, Butch amaldiçoou. O tipo parecia um link andante do Google, assim, que não soubesse era uma coisa ruim.

—Mas estou nisso, policial. Encontrarei uma resposta para você, prometo isso. —O irmão indicou com a cabeça o estômago de Butch—. Então, como esta isso?

—Não sei. Estive muito ocupado estando em coma para me preocupar com meu tablete de chocolate.

—Se importa, se eu o fizer?

Butch se encolheu e empurrou as mantas para baixo. Enquanto V levantava a bata de hospital, ambos olharam para seu ventre. A pele não estava bem ao redor da ferida, toda cinza e franzida.

—Dói? —perguntou V.

—Como uma filha da puta. Sinto… frio. Como se houvesse gelo seco em minha tripa.

—Me deixará fazer uma coisa?

—O que?

—Só uma pequena cura, uma coisa que estive projetando em você.

—Claro. —Exceto quando V tirou sua mão de negociar e começou a tirar aquela luva, Butch retrocedeu—. O que vais fazer com essa coisa?

—Confia em mim, não?

Butch ladrou uma risada.

—A última vez que me disse isso terminei com um coquetel de vampiro, recorda?

—Salvou seu traseiro. Assim é como o encontrei.

Assim, esse tinha sido o por que daquilo.

—Bem, então, revoa um pouco essa mão sobre mim.

Ainda assim, quando V pôs perto a mão acesa, Butch estremeceu.

—Relaxe, policial. Isto não vai doer.

—Vi você torrar uma casa com esta bastarda.

—De acordo. Mas a rotina Firestarter aqui se reduz.

V bateu sua mão tatuada, acesa sobre a ferida, e Butch deixou sair um áspero gemido de alívio. Era como se uma água doce e morna se derramasse na ferida, logo fluía sobre ele, por ele. Limpando-o.

Os olhos de Butch rodaram para trás em sua cabeça.

—Ah… Deus… se sente bem.

Ficou mole, e depois flutuou, sem dor, deslizando em uma espécie de estado de sono. Deixou a seu corpo ir, deixando-se ir.

Realmente podia sentir a cura, como se o processo regenerativo de seu corpo retirasse a toda mancha. Enquanto os segundos trascorriam, enquanto os minutos passavam, enquanto o tempo ia à deriva no infinito, sentia como se dias inteiros de descanso e comer bem e de estar em paz fossem e viessem, lhe fazendo saltar por cima do maltratado estado no qual estava até o milagroso presente da saúde.

 

Marissa jogou a cabeça para trás e se plantou de pé diretamente sob a roseta do chuveiro, deixando que a água caísse por seu corpo. Sentia-se tremente, flácida e sua pele magra, sobre tudo depois de ver Vishous levar Butch à cama. Eles dois eram tão íntimos, o vínculo era claramente mútuo no modo com que seus olhos se encontraram e se sustentaram

Depois de muito tempo, saiu, apenas se secou com a toalha, jogou para trás seu cabelo seco. Quando foi por um conjunto de roupa de baixo limpo, olhou o espartilho e pensou, que seria um inferno colocar isso. Guardou-o de novo na bolsa, incapaz de agüentar agora o apertão de ferro ao redor do tórax.

Quando colocou o vestido cor pêssego sobre os seios nus, sentiu-se estranha, mas tinha contado com que seria incômodo. Ao menos durante um pequeno tempo. Além disso, quem saberia?

Dobrou o Rodríguez azul claro e o pôs em uma bolsa contra risco biológico junto com a roupa de baixo usada. Então se preparou e abriu a porta entrando na quarto do paciente.

Butch estava deitado na cama, a bata de hospital levantada sobre seu peito, as lençois abaixo ao redor de seus quadris. A mão acesa do Vishous descansava aproximadamente a sete centímetros acima da ferida enegrecida.

No silêncio entre os dois homens, ela era uma intrusa. Sem nenhum lugar aonde ir.

—Está dormido —grunhiu V.

Ela clareou sua garganta, mas não pôde pensar em nada que dizer. Depois de um prolongado silêncio, finalmente murmurou:

—Me diga… sua famíliasabe o que aconteceu?

—Sim. Na Irmandade todos sabem.

—Não, quero dizer… sua família humana.

—São irrelevantes.

—Mas não deveriam ser…

V levantou a vista com impaciência, os olhos de diamante duros e pouco caridosos. Pela razão que fosse, lhe passou pela mente, justamente agora, que para estar completamente armado ia com as adagas negras cruzando seu grosso peito.

Por outro lado, a expressão cortante harmonizava com as armas.

—A família do Butch não o quer. —A voz de V era estridente, como se a explicação não fosse assunto dele e o explicasse só para calá-la—. Assim, eles são irrelevantes. Agora vem aqui. Necessito que esteja perto dele.

A contradição entre o rosto do Irmão e sua ordem de aproximar-se a confundiu. Como era a realidade de que a mão era a de maior ajuda.

—Certamente não precisa de mim nem me quer aqui —murmurou. E se perguntou outra vez por que diabos V a tinha chamado fazia três noites.

—Está preocupado por você. Por isso quer que vá.

Ela avermelhou.

—Equivoca-se, guerreiro.

—Nunca me equivoco. —Com um brilho rápido, aquela íris brancas bordeados de azul marinho se elevaram para seu rosto. Eram tão frias que retrocedeu, mas Vishous negou com a cabeça.

—Venha, toca-o. O deixe sentir você. Tem que saber que está aqui.

Ela franziu o cenho, pensando que o Irmão estava louco. Mas caminhou até o lado oposto da cama e se aproximou para acariciar o cabelo de Butch. No instante em que entrou em contato, girou seu rosto para ela.

—Vê? —Vishous voltou a contemplar a ferida—. Deseja você ardentemente.

Desejaria que o fizesse, pensou.

—Serio?

Ficou rígida.

—Por favor não leia a minha mente. É grosseiro.

—Não o fiz. Você falou em voz alta.

Sua mão vacilou no cabelo de Butch.

—Ah. Sinto muito.

Entre eles cresceu o silêncio, ambos se concentraram em Butch. Então Vishous disse em um tom duro:

—Por que se fechou a ele, Marissa? Quando veio ver você no outono passado, por que o rechaçou?

Ela franziu o cenho.

—Nunca veio para ver-me.

—Sim, fez-o.

—Desculpe?

—Ouviu o que disse.

Enquanto seus olhos se olhavam diretamente, lhe ocorreu que apesar de que Vishous era tão horripilante para espantar a todos, não era um mentiroso.

—Quando? Quando veio?

—Esperou algumas semanas depois que deram um tiro em Wrath. Depois foi a sua casa. Quando retornou, disse que não o recebeu em pessoa. Homem, isso foi uma jogada muito fria, mulher.Você sabia o que sentia, mas o despediu por meio de um criado. Estupendo!

—Não... nunca fiz isso… Não veio, ele… Ninguém me disse que ele...

—Ah, por favor.

—Não empregue esse tom comigo, guerreiro. —Embora Vishous disparasse os olhos a seu rosto, estava muito zangada para preocupar-se com quem ou pelo que ele era—. No final do verão passado eu estava acamada pela gripe, graças a ter alimentado Wrath excessivamente e por trabalhar na clínica. Quando não tive notícias de Butch, entendi que não estava totalmente certo a respeito de nós. Como eu… não tive muita sorte com os homems, necessitei um tempo para conseguir me animar a me aproximar dele. Quando o fiz, há três meses aqui, na clínica, deixou claro que não queria conversa. Assim faz o favor de não me culpar por algo que não fiz.

Houve um longo silencio e depois Vishous a surpreendeu.

Na realidade lhe sorriu um pouco.

—Bom, que me disesse isso.

Aturdida, baixou o olhar até Butch e continuou acariciando seu cabelo.

—Juro, que se tivesse sabido que se tratava dele, teria me levantado da cama, mesmo estando miserável, para responder a porta eu mesma.

Em voz baixa Vishous murmurou:

—Genial, fêmea. Geeenial.

No silêncio que seguiu, ela pensou nos acontecimentos do verão passado. A convalescença pela que tinha passado não foi somente pela gripe. Tinha estado consternada pela tentativa contra a vida de Wrath por parte de seu irmão —pelo fato de que Havers, o sempre tenha sido um tranqüilo e aprazível curador, tinha ido a um lesser com o fim de trair a convocação do Rei. Certamente Havers o tinha feito como revanche devido ao modo como foi desprezada em favor da Rainha, mas isto não desculpava suas ações.

Querida Virgem do Fade, Butch tinha tratado de vê-la, mas por que não o haviam dito?

—Eu nunca soube que veio —murmurou, alisando o cabelo dele para trás.

Vishous retirou sua mão, e atirou bruscamente do lençol para cima.

—Fecha os olhos, Marissa. É seu vez.

Elevou a vista.

—Eu não sabia.

—Acredito em você. Agora feche-os.

Depois que a teve curou, V caminhou rapidamente para a porta, os grandes ombros enrolando a seu passo.

Ao chegar à porta de ar, olhou para trás sobre o ombro.

—Não pense que sou a única razão de seu cura. Você é sua luz, Marissa. Não o esqueça nunca. —Os olhos do Irmão se estreitaram—. Mas deve saber de uma coisa. Se alguma vez lhe fizer mal de propósito, considerarei você minha inimiga.

 

John Matthew se sentou em um sala de aula que estava fora da Escola secundária de Caldwell. Havia sete mesas largas frente à lousa, e todas exceto uma tinham um par de aprendizes as ocupando.

John estava sozinho na parte de trás. Que era assim também como tinha estado na escola.

Entretanto, a diferença entre esta classe e a matéria que tinha estudado na escola, era que agora tomava notas atentamente e olhava diretamente como se na lousa se estava desenvolvendo uma maratona do Die Hard.

Em qualquer caso, a geometria nunca era um tema que aqui se cobrisse.

Esta tarde, Zsadist estava à cabeça da classe, marcando o passo daqui para lá, falando da composição química dos explosivos plásticos C4. O Irmão usava uma de suas camisetas negras de pescoço de tartaruga de marca própria e um par de calças soltas de nylon. Com aquela cicatriz em seu rosto parecia exatamente como se tivesse feito o que as pessoas diziam dele: fêmeas assassinadas, lessers profanados, atacar até a seus Irmãos sem provocação.

Mas o mais estranho era, que era um professor extraordinário.

—Agora pelos detonadores —disse—. Pessoalmente, prefiro a variante de controle remoto.

Enquanto John voltava uma página limpa em seu caderno, Z fez um esboço de um mecanismo 3-D no tabuleiro, uma espécie de caixa com o intrincados circuitos. Sempre que o Irmão desenhava, o fazia com tanto detalhe e com tanto realismo que quase podia estender a mão e tocar a coisa.

No momento em que houve uma pausa, John checou o relógio. Outros quinze minutos, então seria o momento de comer uma comida ligeira e ir ao ginásio. Não podia esperar.

Quando começou nesta escola, tinha odiado o adestramento nas diversas artes marciais. Agora o amava. Ainda era o último da classe em termos de habilidades técnicas, mas ultimamente o compensava com a raiva. E sua agressividade tinha ocasionado uma reestruturação na dinâmica social.

Voltando para o princípio, três meses antes, seus companheiros de classe o tinham ridicularizado. Lhe acusando de fazer a bola aos Irmãos. Burlando-se de sua marca de nascimento porque se parecia com a cicatriz em forma de estrela que tinham no peito os da Irmandade. Agora os outros caras estavam mais ou menos certos disso. Bem, todos exceto Lash. Lash ainda mexia com ele, o pondo em evidência, o rebaixando.

Não, que John se preocupasse. Podia estar nesta classe como o resto dos aprendizes, podia, tecnicamente, viver no complexo com os Irmãos, podia, supostamente, estar unido à Irmandade pelo sangue de seu pai, mas desde que tinha perdido a Tohr e a Wellsie, no que concernia a ele, era independente. Não se comprometia com ninguém.

Assim as outras pessoas nesta sala não eram nada para ele.

Fixou seu olhar na parte posterior da cabeça de Lash. Ele usava o cabelo loiro longo em uma rabo de cavalo que descansava brandamente sobre uma jaqueta feita por algum desenhista de moda. E como é que John sabia sobre o desenhista? Porque Lash sempre dizia a todos a marca do que tinha colocado quando entrava na classe.

Também tinha mencionado esta noite que seu novo relógio do Jacob, o joalheiro, era anti- gelo.

John estreitou seus olhos, desfrutando só de pensar no combate que os dois teriam no ginásio. Como se ele sentisse o calor, Lash se virou, seu pendente de diamante brilhando. Os lábios se elevaram em um pequeno sorriso repugnante, franzindo-os depois quando atirou um beijo ao John.

—John? —A voz do Zsadist era dura como um martelo—. Tente me mostrar um pouco de respeito!

Quando John ruborizou e olhou à frente, Zsadist seguiu, dando um toque ao tabuleiro com um longo índice.

—Uma vez que um mecanismo como este é ativado pode acionar-se por várias coisas, a freqüência de som é a mais comum. Pode ligar de um telefone celular, um computador, ou usar um sinal de rádio.

Zsadist começou a desenhar outra vez, o chiado do giz soava estridente na sala.

—Aqui temos outra aula de detonador. —Zsadist retrocedeu—. Este é típico das bombas nos carros. Conecta-se a caixa de ação ao sistema elétrico do carro. Uma vez que a bomba está armada, no momento em que o carro é ligado, tick, tick, Boom.

A mão do John de repente apertou a caneta e começou a piscar com rapidez, sentindo-se enjoado.

O aprendiz ruivo chamado Blaylock perguntou:

—Estala imediatamente depois da ignição?

—Há um demora de alguns segundos. Também apontaria que posto que a instalação elétrica do carro foi desviada, o motor não ligará. O condutor girará a chave e ouvirá somente uma série de estalos.

O cérebro do John começou a acender-se em uma rápida, intermitente seqüencia.

Chuva… chuva negra no pára-brisa de um carro.

Uma mão com uma chave nela, avançando até alcançar a base do volante de direção.

Prendendo um motor mas falhando no arranque. Uma sensação de temor, de que alguém estava perdido. Depois uma luz brilhante…

John caiu da cadeira e se bateu contra o chão, mas não era consciente de que estava convulsionando: Muito ocupado chiando em sua cabeça, não sentia nada fisicamente.

Alguém se perdeu! Alguém… ficou para trás. Tinha abandonado a alguém…

 

Enquanto o amanhecer chegava e todas as venezianas de aço baixavam ao redor da sala de bilhar da mansão, Vishous dava uma dentada no sanduiche de rosbife do Arby. Tinha sabor de lista telefônica, embora não por culpa dos ingredientes.

Ante o suave estalo das bolas, levantou o olhar. Beth, a rainha, endireitava-se do feltro.

—Boa tacada —disse Rhage enquanto se recostava contra uma parede de seda.

—Prática meticulosa —rodeou a mesa, calculando sua seguinte tacada. Quando se curvou outra vez e sujeitou o taco com a mão esquerda, o Rubi Taciturno da Rainha brilhou intermitentemente em seu dedo médio.

V limpou a boca com um guardanapo de papel.

—Vai dar uma surra outra vez, Hollywood.

—Provavelmente.

Exceto que não teve oportunidade. Wrath cruzou a soleira, claramente de mau humor. Seu longo cabelo negro, que lhe caía quase até o traseiro coberto agora de couro, cintilou atrás dele, e logo caiu para assentar-se sobre suas costas musculosas.

Beth baixou seu taco.

—Como está John?

—Quem diabos sabe. —Wrath se inclinou e a beijou na boca, logo em ambos os lados do pescoço sobre suas veias—. Não irá ver o Havers, nega-se a aproximar-se para qualquer coisa da clínica. O menino está dormido no escritório de Tohr agora, simplesmente esgotado.

—Qual foi o detonador do ataque desta vez?

—Z estava dando uma aula sobre explosivos. O menino simplesmente se voltou louco, acabou no chão. O mesmo que antes, quando te viu pela primeira vez.

Beth envolveu os braços ao redor da cintura do Wrath e se apoiou no corpo de seu hellren. Os cabelos negros se misturaram, o dele liso, o dela ondulado. Deus, o de Wrath era tão endemoniadamente longo agora. Mas tinha dado sua palavra a Beth, a quem gostava, assim que o deixava crescer por ela.

V limpou a boca outra vez. Estranho, como os homens fazem merdas como essa.

Beth negou com a cabeça.

—Quero que John venha ficar em casa conosco. Passar a noite nessa cadeira, ficando no escritório… passa muito tempo sozinho e não come o suficiente. Além disso Mary diz que não fala do que aconteceu com Tohr e Wellsie absolutamente. Precisamente se nega a abrir-se.

—Pouco me importa se ele falar ou não, desde que vá ao condenado médico. —Os óculos de sol fechadas de Wrath posaram em V—. E como está nosso outro paciente? Cristo, sinto como se necessitássemos um médico residente por aqui.

V estendeu a mão em busca da bolsa de Arby e tirou o sanduiche número dois.

—O policial está se curando. Penso que terá alta em um dia mais ou menos.

—Quero saber que merda aconteceu. A Virgem Escriba não me conta nada sobre isto. Está calada como uma pedra.

—Comecei a investigação ontem. Comecei com as Crônicas. —Que eram dezoito volúmes de história dos vampiros no Antigo Idioma. Deus, fala sobre seus wallbangers. As malditas coisas eram quase tão divertidas como ler o inventário de uma loja de ferragens—. Se não encontrar nada, há alguns outros lugares que procurar. Compêndios de tradição oral que foram reduzidas a escritura, essa classe de merda. É altamente improvável que em nossos vinte mil anos no planeta algo como isto não tenha ocorrido antes. Vou passar o dia de hoje trabalhando nisso.

Porque como sempre não haveria sono para ele. Tinha passado uma semana desde que tinha dormido pela última vez, e não havia razão para pensar que a coisa seria diferente esta noite.

Inferno sagrado…estar acordado oito dias seguidos não era bom para sua atividade cerebral. Sem entrar em um estado de sono com regularidade, a psicose poderia arraigar e mudar facilmente e cortar seus circuitos. Era assombroso que não os tivesse perdido já.

—V? —disse Wrath.

—Perdão? O que?

—Está bem?

Vishous deu uma dentada no seu rosbife e mastigou.

—Sim, bem. Muito bem.

 

Quando a noite caiu umas doze horas mais tarde, Van Dean deteve sua caminhonete debaixo de um lado de uma pequena rua agradável e tranquila.

Não gostava desta situação.

A casa do outro lado da grama bem aparada não era problema na superfície, como qualquer outra casa colonial deste bairro. O problema era o número de carros estacionados no caminho de entrada. Quatro ao todo.

Haviam dito que se encontraria com o Xavier cara a cara.

Van estudou o lugar do interior de sua caminhonete. As persianas estavam todas fechadas. Só duas luzes dentro estavam acesas. A luz do alpendre estava apagada.

Mas havia bastante em jogo. Dizer que sim a este trabalho significava que poderia chutar traseiros, reduzindo a deterioração em seu corpo. E poderia ganhar mais do que ganhava agora por partida e assim poder economizar algo para sobreviver quando já não pudesse brigar mais.

Saiu e se aproximou do alpendre dianteiro. O tapete de entrada com um motivo de hera no qual plantou suas botas era realmente estranho.

A porta se abriu antes de tocar a campainha. Xavier estava ao outro lado, todo grande e descolorido.

—Chegou tarde.

—E disse a você que nos encontraríamos a sós.

—Preocupado por não poder dar conta de mais companhia?

—Depende de que tipo seja.

Xavier deu um passo à direita.

—Por que não entra e o averigua?

Van ficou no tapete.

—Só para que saiba, disse a meu irmão que vinha aqui. Direção e tudo.

—Que irmão, o maior ou o menor? —Xavier sorriu quando Van estreitou os olhos.—. Sim, sabemos deles. Como você diz, direções e tudo.

Van colocou a mão no bolso de sua parka. A nove milímetros deslizava em sua palma como se estivesse chegando a casa.

O dinheiro, pensa no dinheiro.

Depois de um momento, disse,

—Chegaremos ao fundo da questão ou seguiremos tagarelando sem fim?

—Não sou eu que está no lado errado da porta, filho.

Van entrou, mantendo um olho em Xavier. Dentro, o lugar estava frio, como se a temperatura estivesse baixa, ou possivelmente a casa estivesse abandonada. A falta de mobiliário sugeria este último.

Quando Xavier colocou a mão em seu bolso traseiro, Van se esticou. E o que tirou foi uma arma, em um certo sentido: Dez perfeitas notas de cem dólares.

—Então temos um trato? —perguntou Xavier.

Van olhou ao redor. Logo tomou o dinheiro e o guardou.

—Sim.

—Bem. Começa esta noite. —Xavier se virou e caminhou para a parte traseira da casa.

Van o seguiu, permanecendo alerta. Especialmente quando desceram ao porão e viu seis homens além de Xavier parados ao pés das escadas. Os homens eram todos altos, de cabelo pálido, e cheiravam a uma idosa.

—Parece como se você também tivesse alguns irmãos —disse Van casualmente.

—Não são irmãos. E não se usa essa palavra por aqui. —Xavier percorreu com o olhar os valentões—. Serão seus aprendizes.

 

Se movendo sozinho, mas vigiado por uma enfermeira que usava um traje anticontaminação, Butch retornou à cama depois de ter tido sua primeira ducha e se barbeado. O cateter e as intravenosas se acabaram e tinha conseguido comer uma boa comida. Também tinha dormido profundamente onze das passadas doze horas.

Deus… começava a sentir-se humano outra vez, e a velocidade com que estava se recuperando era um presente divino pelo no que se referia a ele.

—Fez bem, senhor —disse a enfermeira.

—Próxima parada, os Jogos Olímpicos. —Atirou dos lençóis sobre si mesmo.

Depois que a enfermeira partiu, olhou fixamente para Marissa. Estava sentada sobre a cama de armar que ele tinha insistido em que trouxessem para ela e sua cabeça estava inclinada sobre o encaixe que estava fazendo. Desde que tinha despertado aproximadamente uma hora antes, tinha estado agindo de forma um pouco estranha, como se estivesse a ponto de dizer algo que não estrava pronta para falar.

Seus olhos foram da coroa brilhante de sua cabeça, a suas mãos delicadas, até o traje de noite de cor pêssego que alagava sua cama… e logo deixou vagar seu olhar de volta até o sutiã do vestido. Havia delicados botões que desciam por toda a parte dianteira. Como centenas deles.

Butch estirou as pernas, sentindo-se inquieto. E se encontrou perguntando-se quanto tempo levaria para soltar cada uma dessas pérolas frouxas.

Seu corpo se removeu, o sangue se acumulou entre suas pernas, o fazendo ficar duro.

Bom, que surpresa. Realmente estava melhor.

E Senhor, era um filho da puta.

Olhou para longe dela e fechou os olhos.

O problema era, que com as pálpebras fechadas, tudo o que via era a si mesmo beijando-a no alpendre do segundo andar da casa de Darius o verão passado. OH, merda, recordava tão claramente como se fosse uma foto. Tinha estado sentado e ela tinha estado entre suas pernas e sua língua tinha estado na boca dela. Tinham terminado no chão quando ele quebrou a cadeira…

—Butch?

Abriu os olhos e voltou de um puxão. Marissa estava diante dele, com o rosto no mesmo nível. Em um ataque de pânico, baixou o olhar para assegurar-se de que os lençóis escondiam o que se forjava entre suas coxas.

—Sim? —disse com uma voz tão rouca que teve que repetir a palavra. Jesus, seu tom de voz sempre teve bordos grosseiros, suas palavras eram perpetuamente um pouco roucas, mas se havia uma coisa que certo a deixava pior era pensar em despir-se. Especialmente com ela.

Quando seus olhos lhe esquadrinharam o rosto, temeu que visse tudo, diretamente até seu coração. Onde a obsessão por ela era mais forte.

—Marissa, acredito que agora deveria ir dormir. Já sabe, descansar e tudo isso.

—Vishous disse que veio para ver-me. Depois de que atiraram no Wrath.

Butch fechou as pálpebras com força outra vez. Seu primeiro pensamento foi que ia tirar seu lamentável traseiro da cama, encontrar a seu companheiro de quarto, e socar o safado. Maldito seja, V…

—Não fui informada —disse. Como a olhou e franziu o cenho, negou com a cabeça—. Não soube que tinha estado até que Vishous me disse isso ontem à noite. A quem viu quando veio? O que aconteceu?

Não sabia?

—Eu, ah, uma doggen abriu a porta. Depois que subiu, disse que não recebia visitas e que ligaria por telefone. Como nunca o fez… não ia espreitar você ou algo do estilo.

Bom, certo… a tinha espreitado um pouco. Só que ela nunca saberia, graças a Deus. A menos que é obvio, V, esse idiota de língua solta, tivesse-a informado disso também. Bastardo.

—Butch, adoeci e precisei de algum tempo para me recuperar. Mas queria ver você. Por isso pedi que telefonasse quando me encontrei com você em dezembro. Quando disse que não, pensei… bom, que tinha perdido o interesse.

Tinha querido o ver? Havia dito isso?

—Butch, queria ver você.

Sim, havia-o dito. Duas vezes.

Bom, certo… não é que isso estimulasse a alguma coisa.

—Merda —suspirou, encontrando seu olhar— Tem idéia de quantas vezes passei com o carro em frente a sua casa?

—Fez isso?

—Virtualmente todas as noites. Foi patético. —Infernos, ainda o era.

—Mas queria que saísse deste quarto. Zangou-se por eu ficar aqui.

—Estava de saco cheio… er, zangado porque não tinha colocado um traje. E assumi que havia se sentido obrigada a estar aqui. —Com mãos trementes, procurou uma mecha de seu cabelo. Meu Deus, era tão suave—. Vishous pode ser muito persuasivo. E não queria que a compaixão ou a piedade lhe fizessem estar em um lugar que não desejava.

—Queria estar aqui. Quero estar aqui. —Agarrou sua mão e apertou.

No silêncio— OH—Meu Deus—deve—ser—Natal —que seguiu, pôs o máximo empenho em reordenar os últimos seis meses, para alcançar esta realidade que de certa forma se perderam. Ele a queria. Era verdade?

Sentia que era. Sentia-se bem. Sentia-se…

Deixou que palavras descuidadas e desesperadas voassem.

—Sou patético quando se trata de você, Marissa. Sim, completamente fod… er… realmente patético. Quando se trata de você.

Os pálidos olhos azuis dela se elevaram.

—Eu… também. Por você.

Butch não foi consciente de estar fazendo o grande movimento. Mas em um momento estavam separados por ar. No seguinte, pousava a boca na sua. Quando ela ficou sem fôlego, retrocedeu.

—Sinto muito...

—Não… eu… simplesmente estou surpresa —disse, com os olhos em seus lábios—. Desejo que você....

—OK. —Inclinou a cabeça para um lado e roçou sua boca.

—Se aproxime mais de mim.

Com um puxão em seu braço, aproximou-a com cuidado da cama, logo a puxou, de forma que ficasse sobre ele. Seu peso era pouco mais que ar quente e adorava, especialmente quando foi rodeado por seu cabelo loiro. Pondo ambas as mãos em seu rosto, olhou-a fixamente.

Quando seus lábios se separaram em um sorriso gentil somente para ele, viu as pontas de suas presas. OH, Meu Deus, tinha que entrar nela, tinha que penetrá-la de algum modo, assim se inclinou para cima e o fez com a língua. Gemeu enquanto ele lambia o interior de sua boca e logo se beijaram profundamente, enterrando as mãos em seu cabelo e embalando a parte de trás de sua cabeça. Estendeu as pernas e o corpo feminino deslizou entre elas, aumentando a pressão onde estava duro, grosso e ardente.

De repente, uma pergunta estalou em sua mente, uma que não tinha direito a formular, uma que o fez tropeçar e perder o ritmo. Separou-se dela.

—Butch, o que aconteceu?

Acariciou-lhe a boca com o polegar, perguntando-se se tinha tido a um homem. Nos nove meses desde que a tinha beijado antes, tinha tomado um amante? Possivelmente mas que um?

—Butch?

—Nada —disse, inclusive quando uma feroz veia possessiva arranhou em seu peito.

Voltou a tomar sua boca, e agora a beijou com uma sensação de propriedade a que não tinha direito, uma mão disparando para a parte baixa das costas, pressionando-a contra sua ereção. Sentiu a urgente necessidade de estabelecer uma reclamação sobre ela para que qualquer homem soubesse de quem era esta mulher. Estava louco.

Ela foi para trás bruscamente. Quando buscava o ar, pareceu confusa.

—Ficam ligados os homens humanos?

—Ah… nos pomos sensíveis, claro.

—Não… ligação. —Enterrou o rosto em seu pescoço, inspirou, logo começou a esfregar o nariz contra sua pele.

Aferrou-a dos quadris, perguntando-se quão longe ia chegar a coisa. Não estava certo de ter forças para o sexo, embora estavesse completamente ereto. E não queria presumir nada. Mas Jesus, Deus em céu, desejava-o.

—Eu adoro como cheira, Butch.

—Provavelmente seja o sabão que uso. —À medida que as presas subiram arrastando-se por seu pescoço, gemeu.

—OH, merda…não…pare…

 

Vishous entrou na clínica e se dirigiu diretamente à quarto de quarentena. Ninguém na enfermaria tinha questionado seu direito a irromper ali, e enquanto percorria o corredor, o pessoal médico tropeçava em seus próprios pés para afastar-se de seu caminho.

Inteligentes. Estava muito armado e fodidamente nervoso.

O dia tinha sido uma perda total. Não tinha encontrado nada nas Crônicas que se parecesse com o que tinham feito a Butch. Nem tampouco nas Histórias Orais. E o pior, detectava coisas no futuro, partes dos destinos de pessoas realinhando-se, mas não podia ver nada do que seus instintos lhe diziam que acontecia. Era como ver teatro com o pano de fundo baixado: de vez em quando via mover a cortina de veludo quando um corpo roçava a lateral, ou escutava vozes indistintas, ou a luz se movia sob a prega bordada. Mas não sabia detalhes, suas células cinzas estavam em branco.

Avançou com rápidas pernadas deixando atrás o laboratório do Havers e entrou no armário de manutenção. Quando passou pela porta oculta, encontrou a sala de espera vazia, os computadores e monitores continuando seus deveres de vigilância sozinhos.

V engoliu em seco.

Na tela acesa mais próxima, viu Marissa tombada na cama em cima de Butch. Os braços do policial a rodeavam, seus joelhos nus estavam totalmente abertos para acomodar o corpo da fêmea enquanto se moviam ondulantes um contra o outro. V não poderia ver seus rostos, mas era óbvio que suas bocas estavam fundidas e suas línguas entrelaçadas.

V esfregou a mandíbula, vagamente consciente de que sob suas armas e seus objetos de couro, sua pele havia se tornado quente. Deus... droga... agora a palma do Butch deslizava lentamente pela coluna vertebral da Marissa, indo sob seu abundante cabelo loiro, encontrando e acariciando a parte posterior de seu pescoço.

O cara estava totalmente excitado, mas era tão suave com ela. Tão tenro.

V pensou no sexo que tinha tido a noite que levaram Butch. Não tinha tido nada de suavidade. Coisa que tinha sido o objetivo de ambas as partes implicadas.

Butch trocou de posição e rodou sobre a Marissa, fazendo um movimento de montá-la. Ao fazê-lo, a bata de hospital se abriu, as costuras se rasgaram revelando suas fortes costas e a poderosa parte inferior de seu corpo. A tatuagem na base de sua coluna se flexionou quando empurrou os quadris entre suas saias, tentando chegar em casa. E enquanto esfregava contra ela o que sem dúvida era uma ereção dura como uma rocha, as mãos largas e elegantes de Marissa serpentearam ao redor e se cravaram em seu traseiro nu.

Quando o marcou com as unhas, a cabeça do Butch se elevou, sem dúvida deixando escapar um gemido.

Jesus, V inclusive podia ouvir o som... Sim… podia ouvi-lo. E do nada um sentimento de desejo piscou em seu interior. Merda. O que é que queria exatamente dessa cena?

A cabeça de Butch desabou no pescoço da Marissa, e seus quadris começaram a avançar e retroceder, depois a avançar outra vez. Sua coluna se ondulou e os pesados ombros se encolheram e se afrouxaram encontrando um ritmo que fez V piscar realmente rápido. E depois o deixou quieto.

Marissa se arqueou, com o queixo elevado, a boca aberta. Cristo, que quadro apresentava debaixo de seu homem, o cabelo todo derramado sobre os travesseiros, parte enredado no grosso bíceps de Butch. Em sua paixão, em seu vibrante vestido cor pêssego, era uma saída de sol, um amanhecer, uma promessa de calor, e Butch desfrutava do que tinha a sorte de tocar.

A porta da sala de espera se abriu e V deu a volta, bloqueando o monitor com seu corpo.

Havers pôs o relatório médico de Butch em uma prateleira e alargou a mão para agarrar um traje especial.

—Boa tarde, senhor. Veio curá-lo outra vez, certo?

—Sim... —a voz de V se quebrou e esclareceu garganta—. Mas agora não é um bom momento.

Havers se deteve, com o traje nas mãos.

—Está descansando?

No mínimo.

—Sim. Assim você e eu agora vamos deixá-lo sozinho.

As sobrancelhas do doutor se elevaram atrás dos óculos de grau.

—Como disse?

V tomou o relatório, empurrou-o para o doutor e depois agarrou o traje e o pendurou de novo.

—Mais tarde, doutor.

—T-tenho que fazer um reconhecimento. Acredito que pode estar preparado para ir a casa.

—Genial. Mas vamos.

Havers abriu a boca para discutir e V se aborreceu com a conversação. Pondo uma mão nos ombros do médico, olhou o homem nos olhos e o forçou a aceitar.

—Sim... —murmurou Havers—. Mais tarde. Am-manhã?

—Sim, amanhã está bem.

Enquanto V usava o irmão de Marissa levando-o pelos braços até o corredor, tudo no que podia pensar eram nas imagens da tela. Tão errado de sua parte por olhar.

Tão errado de sua parte por… querer.

 

Marissa estava ardendo.

Butch… Bom senhor, Butch. Sentia-se pesado em cima dela e grande, tão grande que suas pernas se abriram por completo debaixo do vestido para acomodá-lo. E a maneira que se movia... o ritmo de seus quadris a voltava louca.

Quando finalmente Butch quebrou o beijo, respirava com dificuldade e seus olhos pardos estavam cheios de fome sexual, uma absoluta fome masculina. Possivelmente deveria haver sentido aflita porque não tinha nem idéia do que fazia. Em lugar disso, sentia-se poderosa.

Enquanto se prolongava o silêncio, disse —Butch? —embora não estivesse muito segura do que lhe perguntava.

—OH... Deus, carinho. —Com um ligeiro roçar, a mão de Butch desceu de seu pescoço à clavícula. Deteve-se o chegar ao início do vestido, claramente pedindo permissão para tirá-lo.

Algo que a esfriou rapidamente. Seus peitos pareciam bastante normais, mas não é como se tivesse visto outras fêmeas para comparar. E não poderia suportar ver a repugnância com a que outros homems de sua classe a tinham olhado. Não no rosto deButch, e especialmente não estando nua. Essa aversão já tinha sido difícil de suportar, estando completamente vestida e vindo de homems que não lhe importavam.

—Está bem —disse Butch, tirando a mão—. Não quero te pressionar.

Beijou-a ligeiramente e rodou para um lado, arrastando um lençol sobre os quadris enquanto ficava de costas. Cobriu os olhos com o antebraço, e seu peito subia e baixava como se tivesse corrido.

Marissa baixou o olhar ao seu vestido e se deu conta de que agarrava o tecido com tanta força que seus nódulos estavam brancos.

—Butch?

O homem baixou o braço e sua cabeça girou no travesseiro. Seu rosto ainda estava machucado em algumas parte, um de seus olhos ainda negro e azul. E ela notou que o nariz se quebrara, mas não recentemente. Ainda assim, para ela era bonito.

—O que, carinho?

—Hã… teve muitas amantes?

Franziu o cenho, inalou e olhou como se não desejasse responder.

—Sim, tive-as.

Os pulmões da Marissa se tornaram de concreto quando o imaginou beijando a outras fêmeas, as despindo, deitando-se com elas. Estava disposta a apostar que a maioria de suas amantes não tinham sido virgens estúpidas.

Deus, ia vomitar.

—Outra razão pela que é bom que parássemos —disse ele.

—Como diz?

—Não estou dizendo que tivéssemos chegado tão longe, mas teria necessitado uma camisinha.

Bom, pelo menos Marissa sabia o que era um desses.

—Mas por que? Não sou fértil.

A longa pausa não inspirou confiança. E tampouco a maneira com que amaldiçoou baixo.

—Nem sempre fui cuidadoso.

—Com o que?

—O sexo. Tive... Muito sexo com gente que pode ser que não estivesse sã. E o fiz desprotegido. —ruborizou como se estivesse envergonhado, a cor subindo pelo pescoço e instalando-se em seu rosto—. Então sim, precisaria de uma camisinha com você. Não tenho nem idéia do que posso estar levando.

—Por que não foi mais cuidadoso com você mesmo?

—Simplesmente não me importava um mi... né, sim… —estirou uma mão e tomou uma mecha de seu cabelo. Quando o levou aos lábios e o beijou, disse baixo —Agora desejaria ser uma droga de virgem.

—Não posso pegar vírus humanos.

—Não foi só com humanos, Marissa.

Agora fico totalmente fria. Por alguma razão, se era com fêmeas de sua própria espécie, com mulheres, sentia diferente. Mas outra vampira?

—Quem? —perguntou tensa.

—De algum jeito não acredito que a conheça. —Deixou cair a mecha de cabelo e voltou a ficar com o braço sobre os olhos—. Deus, desejaria poder desfazer isso. Desfazer um montão de coisas.

OH... Jesus.

—Aconteceu recentemente, certo?

—Sim.

—A... amava-a?

Franziu o cenho e a olhou.

—Deus, não. Nem sequer a conhecia… OH, merda, isso parece pior, não?

—Tomou-a em sua cama? Dormiu a seu lado depois? —por que demônios estava fazendo estas perguntas? Era como pressionar um corte com uma faca.

—Não, estava em um clube. —A comoção transpareceu no rosto de Marissa, porque Butch amaldiçoou outra vez—. Marissa, minha vida não é bonita. A forma em que me conheceu, estando com a Irmandade, usando roupas elegantes... Não é a maneira em que vivi antes. Na realidade não é quem sou.

—Quem é, então?

—Ninguém que tivesse conhecido. Inclusive se fosse um vampiro, nossas trajetórias nunca teriam se cruzado. Sou do tipo trabalhador. —Ante seu olhar de confusão, Butch disse— De classe baixa.

Seu tom se apoiava nos fatos, como se estivesse recitando sua altura ou peso.

—Não penso em você como de classe baixa, Butch.

—Como disse, na realidade não me conhece.

—Quando estou deitada perto de você, quando sinto seu aroma, quando ouço sua voz, sei tudo o que importa. —Marissa o olhou percorrendo sua longitude—. É o varão com o que desejo deitar. Esse é quem é.

Uma fragrância escura e picante saiu da pele do Butch em uma rajada, o que ela reconheceria como a marca de seu vínculo se ele fosse um vampiro. Quando o aspirou em seu interior pelo nariz, se agarrou com força na resposta.

Com dedos que tremiam, foi ao primeiro dos pequenos botões de seu vestido.

Butch capturou as duas mãos dela na sua.

—Não se force, Marissa. Há coisas que quero de você, mas não tenho nenhuma pressa.

—Mas eu quero. Quero estar com você. —Afastou-o e começou a trabalhar nos botões, embora não chegasse longe porque tremia tremendamente—. Acredito que terá que fazê-lo.

A respiração do Butch saiu em um chiado erótico.

—Está certa?

—Sim. —Quando ele vacilou, ela assentiu em direção à blusa—. Por favor, tire isto.

Em lenta sucessão, liberou cada um dos botões de pérola, seus dedos machucados firmes, o vestido abrindo-se pouco a pouco enquanto continuava. Sem o espartilho, a pele nua de Marissa se revelou no profundo V que se formou.

Quando chegou ao último botão, todo o corpo da fêmea começou a tremer.

—Marissa, não está de acordo com isto.

—É só... nenhum homem me viu antes.

Butch ficou imóvel.

—Ainda está...

—Intacta —disse, odiando a palavra.

Agora o corpo do Butch tremeu e essa fragrância escura fluiu dele com mais força.

—Não teria importado se não fosse. Preciso que saiba.

Ela sorriu um pouco.

—Sei. Agora poderia... —quando as mãos do Butch subiram, sussurrou— seja amável, OK?

Butch franziu o cenho.

—Vou amar o que vir porque é você. —Quando não o olhou nos olhos, Butch se inclinou para frente—. Marissa, para mim é linda.

Impaciente consigo mesma, Marissa agarrou o vestido e descobriu seus seios. Fechando os olhos, percebeu que não podia respirar.

—Marissa. É preciosa.

Levantou as pálpebras, preparando-se. Mas ele não estava olhando o que tinha revelado.

—Mas ainda não me olhou, certo?

—Não o preciso.

As lágrimas apareceram no bordo de seus olhos.

—Por favor... só me olhe.

Os olhos do Butch deslizaram para baixo e inalou bruscamente entre dentes, o chiado atravessando a quarto. Demônios, ela sabia que havia algo errado…

—Jesus, é perfeita. —Com uma rápida passada, lambeu-lhe o lábio inferior com a língua—. Posso te tocar?

Afligita, assentiu com um puxão do queixo e a mão masculina deslizou sob a blusa, passou com suavidade por suas costelas e acariciou o lateral de um seio, suave como um suspiro. Acendeu-se com o contato e depois se acalmou. Pelo menos até que roçou seu mamilo com o polegar.

Então se arqueou involuntariamente.

—É... muito perfeita —disse com voz rouca—. Me deixa cego.

A cabeça de Butch baixou, seus lábios encontraram a pele do esterno, depois beijaram o caminho para um seio. O mamilo se arrepiou para cima, esticando-se para... sim, sua boca. OH... Deus, sim... sua boca.

Seus olhos olharam fixamente os de Marissa quando pegou à ponta de seu seio, atirando entre os lábios. Chupou durante um batimento do coração antes de soltar-se e soprou sobre a ponta reluzente. Entre suas pernas, ela sentiu uma onda de calor.

—Está bem? —disse ele—. Isto está bem?

—Não sabia que... Podia sentir assim.

—Não? —Roçou-lhe outra vez o mamilo com os lábios—. Mas certamente você tocou este lugar bonito. Não? Nenhuma vez?

Ela não poderia pensar com clareza.

—Às fêmeas de minha classe... ensinam-nos que não devemos... fazer tais coisas. A menos que estejamos com um companheiro e inclusive então... —Deus, do que falavam?

—Ah... bom, agora estou aqui, não? —Sua língua saiu fora e lambeu o mamilo—. Sim, agora estou aqui. Assim me dê sua mão, Marissa. —Quando o fez, beijou-lhe a palma—. Me deixe te demonstrar como se sente a perfeição.

Tomou o dedo na boca e o chupou, depois o liberou e o aproximou do dilatado mamilo. Descreveu círculos ao redor da ponta, tocando-a através de sua própria mão.

Ela deixou cair a cabeça, mas manteve os olhos nos seus.

—É tão...

—Suave e apertado ao mesmo tempo, certo? —Baixou a boca, cobrindo o mamilo e a gema do dedo, um calor suave e líquido—. Se sente bem?

—Sim... Virgem querida no Fade, sim.

Sua mão foi ao outro seio e fez rodar o mamilo, depois massageou a redondez debaixo. Era tão grande aparecendo sobre ela, com a roupa do hospital deslizando de seus poderosos ombros, os fortes braços apertados para manter-se sobre seu corpo. Quando mudou de lado e se ocupou do outro mamilo, seu cabelo escuro roçou a pele feminina, pálida, suave e sedosa.

Perdida no calor e um crescente desassossego, não notou que a saia começava a se mover... até que a teve por cima das coxas.

Quando ficou rígida, Butch lhe perguntou contra o seio —Me deixará ir um pouco mais longe? Se jurar parar no momento que deseje?

—Um... sim.

A palma de sua mão se deslizou pelo joelho feminino, e ela se sacudiu, mas quando Butch voltou a ocupar-se de seu seio, esqueceu-se do medo. Com círculos lentos e preguiçosos, a mão foi mais acima até que se deslizou entre suas coxas…

De repente, Marissa sentiu que algo se derramava fora dela. Entando em pânico, apertou as pernas fortemente e o empurrou.

—O que, carinho?

Ruborizando-se ferozmente, murmurou —Sinto algo... diferente...

—Onde? Aqui embaixo? —acariciou ligeiramente a parte interior de sua coxa.

Quando assentiu, o sorriso do Butch foi lento e atraente.

—Tem certeza? —Beijou-a, deixando um tempo as bocas juntas—. Quer me dizer o que é? —Enquanto ela ruborizava ainda mais, sua mão continuou a carícia—. Que tipo de diferença?

—Estou... —não podia dizê-lo.

A boca do homem mudou de posição para ficar ao lado de seu ouvido.

—Está molhada? —Quando assentiu, ele grunhiu profundamente em sua garganta—. Molhada está bom... Molhada é justo como quero você.

—É-o? por que…

Com um movimento suave e rápido, tocou acalcinha entre suas pernas, e ambos saltaram ante o contato.

—OH... Deus —gemeu Butch, a cabeça caindo sobre o ombro da Marissa—. Está tão para mim agora. Está tão bom para mim agora.

A ereção do Butch pulsava enquanto mantinha a mão no cetim quente e úmido que cobria o centro da Marissa. Sabia que afastava a um lado a calcinha, mergulharia em uma grande quantidade de mel, mas no momento não queria comociona-la tanto.

Retorcendo os dedos ao redor dela, esfregou o bordo da mão contra o topo de sua abertura, justo onde se sentiria melhor. Enquanto ela ofegava, seus quadris empurraram para frente, depois seguiram um ritmo lento. O que naturalmente o pôs ao limite. Para manter o controle, girou os quadris para que o estômago se assentasse sobre sua ereção, apanhando-a contra o colchão.

—Butch, preciso... alguma coisa... eu...

—Carinho, alguma… —ah, demônios, de maneira nenhuma se tinha dado prazer alguma vez. Estava surpreso por como se sentia seu mamilo.

—O que?

—Não importa. —afastou-se de seu centro e acariciou sua calcinha, simplesmente movendo as gemas dos dedos sobre ela—. vou cuidar de você. Confia em mim, Marissa.

Beijou-a na boca, chupando seus lábios, deixando-a perdida. Depois deslizou a mão sob o bordo de cetim para seu centro…

—OH... droga —Butch respirou, esperando que estivesse muito aturdida para ouvir a maldição.

Ela tentou retroceder.

—O que está errado comigo?

—Tranqüila, tranqüila. —Sustentou-a quieta pondo uma coxa sobre suas pernas. E depois lhe preocupou ter tido um orgasmo... dada a sensação de decolagem que acabava de percorrer seu membro—. Carinho, nada está errado. É só que está... OH, deus, está tão lisa aí. —Moveu a mão, os dedos escorregando entre as dobras de seu sexo... sagrado céu, era tão suave. Tão melosa. Tão quente.

Estava se perdendo em toda essa carne lisa quando a confusão da fêmea penetrou através da bruma.

—Não tem nada de pêlo —disse Butch.

—Isso é errado?

Riu.

—É bonito. É muito excitante.

Excitante? Melhor, explosivo. A única coisa que queria fazer era arrastar-se sob sua saia, lambê-la e chupá-la, mas definitivamente era ir muito longe.

E merda, era tão neandertal, mas a idéia de ser o único que tinha colocado a mão onde estava era totalmente erótica.

—Como é esta sensação? —perguntou-lhe, pondo as coisas um pouco mais no ponto.

—Deus... Butch. —arqueou-se violentamente na cama, com a cabeça inclinada para trás de modo que seu pescoço se curvava de forma encantadora.

Os olhos do homem se fixaram em sua garganta, e o instinto mais estranho apareceu através dele: queria mordê-la. E sua boca se abriu como se se preparasse para fazer justo isso.

Amaldiçoando, sufocou o estranho impulso.

—Butch... Dói-me.

—Sei, carinhoVou me ocupar disso. —enganchou-se a seu seio com a boca e começou a tocá-la seriamente, encontrando um ritmo com as carícias, tomando cuidado de permanecer fora para que não se lançasse.

No final foi ele quem se atirou. A fricção e a sensação dela e o aroma de tudo isso, multiplicaram-se em seu interior até que se deu conta que a estava pressionando sem pensar, empurrando os quadris no colchão a ritmo de sua mão. Quando sua cabeça caiu entre os seios da Marissa porque não podia mantê-la mais tempo elevada, soube que tinha que parar a massagem que lhe estava dando a sua ereção. Precisava prestar atenção a ela.

Butch levantou o olhar. Marissa tinha os olhos muito abertos e um pouco assustados. Estava no limite e se estava nervosa.

—Tranqüila carinho, tudo está bem. —não parou os movimentos entre suas pernas.

—O que está me acontecendo?

Aproximou sua boca de seu ouvido.

—Está a ponto de gozar. Só se deixe sentir. Estou aqui, tenho você.Se agarre a mim.

As mãos da Marissa se cravaram em seus braços e quando suas unhas fizeram sangue escorrer, sorriu, pensando que isso era perfeito.

Os quadris da fêmea se elevaram bruscamente.

—Butch...

—Isso.Goza para mim.

—Não posso... Não posso... —Marissa sacudiu a cabeça para frente e atrás, ficando presa entre o que queria seu corpo e o que sua mente não conseguia assimilar. Ia perder o ímpeto, a menos que ele fizesse algo rapidamente.

Sem nem sequer pensá-lo ou saber como ajudaria, enterrou o rosto em sua garganta e a mordeu, bem em cima da jugular. Isso foi o detonador. Ela gritou seu nome e começou a convulsionar-se, seus quadris sacudindo-se, seu corpo flexionando-se ao longo de toda a coluna. Com profunda alegria, Butch a ajudou a passar as ondas do orgasmo e lhe falou todo o tempo… embora só Deus sabia o que estava dizendo!

Quando Marissa se acalmou, ele levantou a cabeça de seu pescoço. Entre seus lábios, Butch viu a ponta das presas e foi sacudido por um desejo irresistível contra o que não pôde lutar. Empurrou a língua dentro de sua boca e lambeu as agudas pontas, as sentindo raspar sua carne. Queria as presas sobre sua pele... queria que o chupasse, encher seu ventre, que vivesse dele.

forçou-se a parar e a retirada foi tão vazia. Estava tenso por necessidades desconhecidas, e não todas eram sexuais. Necessitava... coisas dela, coisas que não entendia.

Marissa abriu os olhos.

—Não sabia que... seria como isso.

—Você gostou?

O sorriso da Marissa era suficiente para lhe fazer esquecer seu próprio nome.

—OH, sim.

Beijou-a brandamente, depois recolocou a saia no lugar e fechou os botões do vestido, envolvendo de novo o presente de seu corpo. Deslizando-a na curva de seu braço, ficou bem e confortável. Ela já se deslizava em sonhos, e ele estava condenadamente contente ao vê-la assim. Parecia a coisa mais natural a fazer, permanecer acordado enquanto ela descansava, para cuidá-la.

Embora por alguma razão, desejasse ter uma arma.

—Não posso manter os olhos abertos —disse Marissa.

—Nem o tente.

Butch lhe acariciou parte do cabelo e pensou que, apesar de que em uns dez minutos ia ter o pior caso de testículo roxo conhecido pela humanidade, tudo estava bem em seu mundo.

Butch Ou’Neal, pensou, encontrou a sua mulher.

 

—Parece tanto o seu avô.

Joyce Ou’Neal Rafferty se inclinou sobre o berço e agasalhou a manta sobre seu filho de três meses. Este debate tinha lugar desde que tinha nascido, e estava cansada dele. Claramente, seu filho se parecia com seu avô materno.

—Não, é igualzinho a você.

Quando Joyce sentiu os braços de seu marido abraçando-a pela cintura, lutou contra o impulso de afastar-se. Não parecia lhe importar o peso do bebê, mas a punha malditamente ansiosa.

Esperando que se concentrasse em qualquer outra coisa, disse.

—Assim que no próximo domingo tem onde escolher. Pode cuidar de Sean sozinho ou pode trazer para mamãe. O que quer fazer?

Deixou de abraçá-la.

—Por que não pode pegar seu pai da casa de repouso?

—Já conhece papai. Não consegue dirigir muito bem, sobre tudo no carro, ficará nervosa, se frustrará com ela, e teremos uma confusão no batisado quando chegarem.

—Acredito que é melhor que você se ocupe de sua mãe. Sean e eu estaremos bem. Possivelmente uma de suas irmãs pode vir conosco?

—Sim, possivelmente Colleen.

Ficaram um momento em silêncio, olhando Sean respirar.

Então Mike disse. —Vai convidar a ele?

Quis amaldiçoar. Na família Ou’Neal só havia um “ele”. Brian. Butch. “Ele”. Dos seis filhos que Eddie e Odell Ou’Neal tinham tido, dois deles se perderam. Janie tinha sido assassinada, e Butch basicamente tinha desaparecido depois do colégio. O último tinha sido uma bênção, o primeiro uma maldição.

—Não virá.

—De qualquer forma deveria convidá-lo.

—Se aparecer, mamãe se desgostará.

A rápida escalada de demência de Odell fazia que às vezes pensasse que Butch estava morto, e que por isso não estava por ali. Sua outra opção para agüentar a perda era inventar loucas histórias sobre ele. Como que agora estava a caminho de ser prefeito em Nova Iorque. Ou como estava indo à escola de Medicina. Ou como não era filho de seu pai e por isso Eddie não podia suportá-lo. Tudo eram loucuras. As duas primeiras por razões óbvias e a terceira porque, embora era certo que Eddie nunca tenha gostado de Butch, não era porque fosse um filho bastardo. Eddie nunca tinha gostado de nenhum de seus filhos.

—De qulquer forma deveria convidá-lo, Joyce. É sua família.

—Não na realidade.

A última vez que tinha falado com seu irmão tinha sido... Deus, em suas bodas fazia cinco anos? E tampouco nenhum outro o tinha visto ou ouvido muito dele após isso. Correu-se a voz na família de que seu pai tinha recebido uma mensagem do Butch em... agosto? Sim, no final do verão. Tinha dado um número com o que o qual podiam localizá-lo, mas isso era tudo.

Sean emitiu um pequeno assobio pelo nariz.

—Joyce?

—OH, vamos, não aparecerá se o convidarmos.

—Assim que você levaria o mérito por lhe oferecer a oportunidade, e não teria que tratar com ele. Ou possivelmente se surpreenderia.

—Mike, não vou chamá-lo. Quem precisa de mais drama nesta família? —Como se sua mãe estar louca e tendo Alzheimer não fossem problemas suficientes.

Fez um grande alarde ao olhar o relógio.

—Está passando CSI?

Com determinação, empurrou seu marido fora do quarto dos meninos, lhe distraindo de coisas que não eram assunto dele.

 

Marissa não estava certa da hora que era quando despertou, mas soube que não tinha estado dormindo durante muito tempo. Enquanto seus olhos se abriam, sorriu. Butch estava dormindo e abraçado a suas costas, uma grossa coxa entre suas pernas, uma mão lhe rodeando um seio, a cabeça em seu pescoço.

Quando rodou lentamente e ficou olhando- o de frente, seus olhos desceram pelo corpo masculino. O lençol com a que havia se coberto antes tinha deslizado, e sob a magra camisola de hospital, algo grosso descansava em seus quadris. Meu Deus... uma ereção. Estava excitado.

—O que está olhando, carinho? —A voz baixa de Butch soava como cascalho.

Ela saltou e levantou o olhar.

—Não sabia que estava acordado.

—Não dormi em nenhum momento. Estou a horas te olhando. —Pôs o lençol de novo em seu lugar e sorriu—. Como está?

—Bem.

—Quer que peçamos um pouco de comida...

—Butch —exatamente, como ia dizer isto?—. Os homems fazem o que me fez fazer, certo? Quero dizer, a noite passada, quando estava me tocando.

Ele ruborizou e atirou o lençol.

—Sim, fazemos. Mas não tem que se preocupar por isso.

—Por que?

—Simplesmente não tem que fazer isso.

—Deixaria-me olhar você? —Olhou seus quadris—. Aí embaixo?

Ele tossiu um pouco.

—Quer isso?

—Sim. Deus, sim... Quero tocar você aí.

Com um juramento suave, murmurou. —O que acontecerá pode ser que surpreenda você.

—Me surpreendeu quando sua mão esteve entre minhas pernas. Fala desse tipo de surpresa? Dessa forma tão boa?

—Sim —seus quadris se moveram, como se rodassem sobre a base de suas costas—. Jesus... Marissa.

—Quero você nu. —sentou-se sobre os joelhos e esticou a mão para sua bata—. E quero despir você.

Agarrou-lhe as mãos em um apertão forte.

—Eu, ah... Marissa, tem alguma idéia do que acontece quando um homem goza? Porque com total segurança, isso é o que vai acontecer se começar a me tocar. E não vou demorar muito.

—Quero descobrir. Com você.

Ele fechou os olhos. Tomou uma boa quantidade de ar.

—Meu Deus do paraíso.

E usando a parte inferior de seu corpo da cama, inclinou-se para frente para que pudesse deslizar as duas partes da bata por seus braços. Depois se deixou cair de volta sobre o colchão e seu corpo se mostrou: o grosso pescoço encaixado nesses amplos ombros... os duros músculos de seu peito que estavam cheios de pêlo... a torneada extensão de seu ventre... E...

Ela tirou o lençol,meu Deus, seu sexo era...

—está tão... enorme.

Butch soltou uma gargalhada.

—Diz as coisas mais estupendas.

—Vi-o quando estava... não sabia que ficava...

Marissa simplesmente não podia afastar o olhar da ereção que descansava contra o ventre. O duro sexo era da cor de seus lábios, e surpreendentemente belo, a lisa cabeça com uma pequena fenda, o corpo perfeitamente arredondado e muito grosso na base. E as bolas gêmeas abaixo eram pesados, descarados, viris.

Possivelmente os humanos eram mais longos que os de sua espécie?

—Como você gosta que o toquem?

—Se for você, de qualquer forma.

—Não, me ensine.

Ele fechou os olhos um momento, e seu torso se expandiu. Quando abriu as pálpebras, sua boca se abriu e com lentidão deslizou a mão para baixo pelo peito e o ventre. Movendo uma perna para um lado, pegou-o com a mão, rodeando essa carne rosa escura, a masculina mão suficientemente ampla para sujeitar a coisa. Com um movimento lento e fluido, acariciou sua ereção, da base à ponta, percorrendo o membro.

—Ou algo assim —disse roncamente, continuando—. Meu Deus, te olhando... poderia explodir a qualquer momento.

—Não —lhe afastou a mão de seu caminho e a ereção ricocheteou rígida em seu estômago—. Quero fazer você chegar a isso.

Quando o agarrou, ele gemeu, todo seu corpo se ondulou.

Butch estava quente. Estava duro. Era suave. Era tão grosso que Marissa não podia fechar a mão por completo a seu redor.

Vacilante a princípio, seguiu seu exemplo, subindo a mão de acima a abaixo, maravilhando-se ante como a carne acetinada deslizava sobre a base rígida dele.

Quando apertou os dentes, ela parou.

—Está tudo bem?

—Sim... maldição... —sua mandíbula fecou, as veias de seu pescoço se fizeram visíveis—. Mais.

Pôs sua outra mão sobre ele, pondo uma palma sobre a outra, as movendo juntas. A boca de Butch se abriu por completo, seus olhos ficaram em branco e uma capa de suor cobriu todo seu corpo.

—Como se sente com isto, Butch?

—Estou tão perto já. —Apertou as mandíbulas e respirou através dos dentes que estavam fechados. Mas então lhe agarrou as mãos, parando-a—. Espera! Ainda não...

Sua ereção pulsou, batendo em suas mãos. Uma gota cristalina apareceu na ponta.

Tomou ar entrecortadamente.

—Me atrase. Me faça trabalhar por isso. Quanto mais me queime, melhor será o final.

Usando seus ofegos e os espasmos de seu corpo como guia, aprendeu as pontas e vales de sua resposta erótica, averiguou quando se estava aproximando e como deixá-lo suspenso na ponta da espada sexual.

Deus, havia poder no sexo, e nesse momento ela o tinha todo. Estava indefeso, vulnerável... justo como tinha estado ela a noite anterior. Amava isto.

—Por favor.... carinho... —amava esta respiração rouca. Amava os tensos músculos de seu pescoço. Amava o poder de mando que tinha quando o sujeitava entre suas mãos.

O que a fez pensar. Deixou-o ir e atendeu seu saco, deslizando a mão sob seu peso, rodeando-o com os dedos. Com uma maldição, o retorceu os lençóis com os punhos até que seus nódulos ficaram brancos.

Ela continuou lançando-se até que Butch esteve nervoso e coberto de suor e tremendo. Então baixou a cabeça e pressionou a boca contra a sua. Ele a tragou, lhe agarrando o pescoço e sujeitando-a contra seus lábios, murmurando, beijando-a, invadindo-a com sua língua.

—Agora? —disse no meio do beijo.

—Agora.

Agarrando-o com a mão, moveu a palma cada vez mais rápido, até que seu rosto se contorseu em uma preciosa máscara de agonia e seu corpo ficou tenso como um cabo.

—Marissa... —sem coordenação, agarrou a bata de hospital e a pôs sobre os quadris, cobrindo seus olhos. Então ela o sentiu dar uma sacudida e tremer e algo quente e espesso saiu dele em pulsos, lhe cobrindo a mão. Soube instintivamente não perder o ritmo até que acabou.

Quando os olhos do Butch finalmente se abriram, estavam imprecisos. Saciados. Cheios de um carinho adorador.

—Não quero deixar você ir —disse ela.

—Então não o faça. Nunca.

Ele estava relaxando em sua mão, um retrocesso do duro membro que tinha sido. Beijando-o, tirou a mão de debaixo da bata de hospital e baixou o olhar, curiosa pelo que tinha saído dele.

—Não sabia que seria negro —murmurou com um pequeno sorriso.

O horror invadiu o rosto do Butch.

—OH, Cristo!

 

Havers caminhou pelo corredor para a quarto de quarentena.

No caminho, comprovou o estado da pequena fêmea que tinha operado dias atrás. Estava se curando bem, mas o preocupava enviár a ela e sua mãe de volta ao mundo. Aquele hellren era violento e era bastante provável que voltassem de novo para a clínica. Mas o que podia fazer? Não podia deixá-las aqui indefinidamente. Precisava do leito.

Continuou avançando, parando em seu laboratório, e fazendo gestos com a mão a uma enfermeira que estava processando várias amostras. Quando chegou à porta do armário de manutenção, exitou.

Odiava que Marissa estivesse encerrada com esse humano.

Mas o mais importante era que não tinha sido contaminada. De acordo com o exame físico que lhe tinham feito ontem, estava bem, assim seu pequeno engano de julgamento, evidentemente, não ia custar sua vida.

E quanto ao humano, ia para casa. Sua última amostra de sangue tinha estado bastante perto do normal, e estava ficando mais forte a uma velocidade incrível, por isso era tempo de afastá-lo de Marissa. Havers já tinha chamado à Irmandade, e lhes havia dito que viessem buscar o homem.

Butch Ou’Neal era perigoso, e não só pelo fato da contaminação. Esse humano queria Marissa... Estava em seus olhos. E isso não era aceitável.

Havers sacudiu a cabeça, pensando que tinha tentado separá-los no outono. No princípio, tinha presumido que Marissa consumiria o humano, e isso teria estado bom. Mas quando durante sua enfermidade ficou claro que ia atrás dele, Havers teve que intervir.

Deus, tinha esperado que alguma vez encontrasse um companheiro certo, mas certamente não um inferior e violento humano. Precisava de alguém respeitável, embora fosse muito pouco provável que isso acontecesse em um tempo próximo, dada a opinião que tinha a glymera dela.

Mas possivelmente... Bom, deu-se conta de como Rehvenge a olhava. Possivelmente isso podia funcionar. Rehv tinha uma linhagem muito boa por ambos os lados. Possivelmente era um pouco... duro, mas era apropriado aos olhos da sociedade.

Possivelmente esse casal deveria ser respirada? Depois de tudo, estava intacta, tão pura como o dia que tinha nascido. E Rehvenge tinha dinheiro, muita, embora ninguém sabia como ou porquê. Inclusive mais importante, não o influíam as opiniões da glymera.

Sim, pensou Havers. Esse seria um bom casal. Quanto mais ela poderia esperar.

Abriu a porta do armário, sentindo-se um pouco melhor. Esse humano estava a caminho de ir da clínica, e ninguém tinha porquê saber que tinham estado encerrados juntos durante dias. Seu pessoal era benditamente discreto.

Deus, só podia imaginar o que faria a glymera a Marissa se soubesse que tinha estado em contato tão próximo com um homem humano. Destroçaria sua reputação, simplesmente não poderia agüentar mais controvérsia, e francamente, Havers tampouco podia suportá-lo. Estava totalmente cansado por seus fracassos sociais.

Amava-a, mas estava no limite de sua resistência.

 

Marissa não tinha nem idéia do porquê Butch a estava arrastando ao banheiro quase correndo.

—Butch! O que está fazendo?

Abriu o grifo, colocou-lhe as mãos sob a água, e agarrou um sabonete. Enquanto a lavava, o pânico em seu rosto lhe estirava os olhos e estreitava a boca.

—Que demônios está acontecendo aqui?

Marissa e Butch deram a volta para a soleira da porta. Havers estava ali sem o traje especial anticontaminação... Mais furioso do que nunca o tinha visto.

—Havers...

Seu irmão a interpelou lançando-se para frente e tirando-a do banheiro de um puxão.

—Para... ai! Havers, isso dói!

O que Aconteceu depois foi muito rápido para que pudesse segui-lo.

De repente Havers simplesmente... foi. Um minuto estava puxando-a e ela estava lutando contra ele, e no seguinte Butch o tinha esmagado contra a parede com uma mão no rosto.

A voz de Butch saiu em um perigoso tom.

—Não me importa se for seu irmão. Não a trate dessa forma. Nunca. —Pôs o antebraço na nuca do Havers para enfatizar o que estava dizendo.

—Butch, deixe-o...

—Ficou claro? —Butch rugiu as palavras. Quando seu irmão gemeu e assentiu, Butch o soltou, moveu-se para a cama e com calma se envolveu um lençol sobre os quadris. Como se não acabasse de ameaçar a um vampiro.

Enquanto isso, Havers tropeçou e se segurou na borda da cama, seus olhos loucos quando se recolocou os óculos e a olhou irado.

—Quero que deixe esta quarto. Agora.

—Não.

A mandíbula do Havers se afrouxou.

—Como disse?

—Fico com Butch.

—De nenhuma forma!

Na Língua Antiga, disse. —Se me aceitar, estarei a seu lado como sua shellan.

Havers a olhou como se o tivesse esbofeteado: surpreso e aborrecido.

—E eu a proibiria de fazer isso. Não tem nobreza?

Butch interquebrou sua resposta.

—Na realidade deveria ir, Marissa.

Ela e Havers o olharam.

—Butch? —disse.

Esso rosto severo que adorava se suavizou um momento, mas depois ficou carrancudo.

—Se te deixar sair, deveria ir.

E não voltar, dizia sua expressão.

Ela olhou seu irmão, o coração começando a doer.

—Nos deixe. —Quando Havers negou com a cabeça, gritou—. Sai daqui!

Havia momentos que a histeria feminina captava a atenção de todo o mundo, e esse era um deles. Butch ficou quieto e Havers pareceu pasmo.

Então os olhos de seu irmão se moveram para Butch e se converteram em frestas.

—A Irmandade vem a buscar você, humano. Chamei-os e disse que está bem para ir. —Havers jogou o relatório médico de Butch sobre a cama, como se estivesse abandonando toda a situação—. Não volte aqui outra vez. Nunca.

Quando seu irmão se foi, Marissa olhou fixamente para Butch, mas antes que alguma palavra pudesse sair de sua apertada garganta, ele falou.

—Carinho, entenda por favor. Não estou bem. Ainda há algo dentro de mim.

—Não tenho medo de você.

—Eu sim.

Ela juntou as mãos ao redor do estômago.

—O que vai acontecer se vou daqui agora? Entre você e eu?

Pergunta errada a fazer, pensou no silêncio que se estabeleceu entre eles.

—Butch...

—Preciso averiguar o que me fizeram. —Baixou a vista e tocou com o dedo a ferida negra perto do umbigo—. Preciso saber o que está dentro de mim. Quero estar com você, mas não assim. Não da forma que estou agora.

—Estive com você por quatro dias e estou bem. Por que parar...

—Vai Marissa —sua voz soava angustiada e triste. Igual a seus olhos—. Logo que possa, irei buscar você.

Maldito se o fará, pensou.

Virgem Querida no Fade, isto era Wrath outra vez, claro que sim. A espera, sempre esperar, enquanto um homem com melhores coisas que fazer estava fora pelo mundo.

Já tinha agüentado trezentos anos de infundada espera.

—Não vou fazer isso —murmurou. Com mais força, disse—. Não vou voltar a esperar. Nem sequer por você. Quase a metade de minha vida aconteceu e a desperdicei sentada em casa esperando que um homem viesse por mim. Não posso fazer mais isso... não importa quanto... você me importe.

—A mim também importa. É por isso que te digo que vá. Estou protegendo você.

—Está... “me protegendo” —o olhou de cima abaixo, sabendo perfeitamente que tinha podido partir para de cima de Havers só porque Butch tinha tido o elemento surpresa a seu favor e o homem em questão era um civil. Se seu irmão tivesse sido um lutador, Butch teria sido colocado em seu lugar—.Está me protegendo? Cristo, posso te levantar sobre minha cabeça com um braço, Butch. Não há nada que possa fazer fisicamente que não possa fazer melhor. Assim não me faça nenhum favor.

Era, é obvio, a pior coisa que podia dizer.

Os olhos do Butch olharam para outro lado e cruzou os braços sobre o torso, seus lábios estreitando-se em uma linha.

OH, Deus.

—Butch, não quis dizer que seja fraco...

—Estou muito contente de que tenha me recordado algo.

OH, Deus.

—O que?

Seu tenso sorriso foi espantoso.

—Estou no final das coisas em duas frentes. O social e o da evolução. —Inclinou a cabeça para a porta—. Assim... sim, vai, agora. E tem toda a razão. Não me espere.

Começou a alongar uma mão para ele, mas seus olhos frios e vazios a retiveram. Maldição, tinha estragado tudo.

Não, disse a si mesma. Não tinha havido nada que para magoar. Não ia se afastar dos aspectos feios de sua vida. Não ia partir e deixá-lo e possivelmente voltar em um momento indefinido e pouco provável no futuro.

Marissa foi para a porta e teve que olhá-lo uma vez mais. Sua imagem com esse lençol enrolado sobre os quadris, o torso nu, golpes ainda se curando por todo o corpo... era uma coisa que ia desejar poder esquecer.

Saiu dali, o fechamento de ar selando-o com um chiado.

 

Maldição, pensou Butch quando se deixou cair sobre o chão. Então, assim era como se sentia ao ser esfolado vivo.

Esfregando a mandíbula, sentou-se ali olhando o vazio, perdido embora sabia exatamente em que quarto estava, só com os restos da maldade em seu interior.

—Butch, colega.

Levantou a cabeça de repente. Vishous estava parado dentro do quarto, e o irmão estava vestido para lutar, uma máquina de furia enorme vestida de couro. A bolsa de roupa de Valentino pendurada em sua mão enluvada parecia totalmente desconjurado, tão estranha como um mordomo preparando uma AK-47.

—Droga, Havers tem que estar louco para deixar você ir. Parece uma merda.

—Dia errado, isso é tudo. —E ia haver muitos mais desses, assim deveria habituar-se a eles.

—Onde está Marissa?

—Se foi.

—Se foi ?

—Não me faça dizê-lo outra vez.

—OH. Demônios. —Vishous tomou ar fortemente e atirou a bolsa à cama—. Bom, trouxe algumas roupas e um novo celular...

—Ainda está em mim, V. Posso senti-lo. Posso... saboreá-lo.

Os olhos diamantinos de V lhe deram uma rápida olhada de cima abaixo. Depois se aproximou e lhe tendeu a mão.

—O resto de você está sarando bem. Curando rápido.

Butch agarrou a palma de seu companheiro de quarto e foi levantado.

—Possivelmente se estiver livre para partir podemos resolvê-lo juntos. A menos que tenha encontrado...

—Nada ainda. Mas não perdi a esperança.

—Isso nos une.

Butch abriu a bolsa, deixou cair o lençol e colocou umacueca. Depois colocou as pernas em um par de calças negras e colocou os braços em uma camisa de seda.

Colocar roupa de rua o fazia se sentir como uma fraude, porque a verdade era que era um paciente, algo estranho, um pesadelo. Jesu Cristo... o que tinha saído dele quando tinha tido o orgasmo? E Marissa... pelo menos a tinha limpado o quanto antes possível.

—Seus resultados estão bem —disse V depois de ler o relatório que Havers tinha jogado—. Tudo parece ter voltado para a normalidade.

—Ejaculei faz uns dez minutos, e a coisa era negra. Assim não está tudo normal.

O silenciou recebeu esse pequeno e feliz comentário. Deus, se tivesse miserável e machucado inesperadamente a V, teria obtido uma reação menos assombrada.

—OH, Cristo —murmurou Butch, deslizando o pé em seus sapatos Gucci e agarrando o casaco negro de cachemira—. Vamos.

Quando foram para a porta, Butch olhou para trás, para a cama. Os lençóis ainda estavam desfeitos depois de que Marissa e Butch se lançaram um contra o outro.

Amaldiçoou e saiu de uma vez do quarto de controle. Depois V liderou o caminho por um pequeno armário cheio de produtos de limpeza. Fora dele, percorreram um corredor, viram um laboratório e entraram na própria clínica, ao lado de quartos de pacientes. Enquanto passava, olhou em cada uma até que parou parou de súbito.

Através do marco da porta viu Marissa, sentada no extremo de uma cama de hospital, o vestido pêssego envolvendo-a totalmente. Estava segurando a mão de uma menina pequena e falando em voz baixa enquanto uma fêmea mais velha, provavelmente a mãe da jovem, olhava do canto.

A mãe foi a que levantou o olhar. Quando viu Butch e V, retraiu-se em si mesma, aproximando um pulôver empilhado perto de seu corpo, e baixando seus olhos ao chão.

Butch engoliu com força e continuou caminhando.

Estavam na zona de elevadores, esperando por um, quando disse: —V?

—Sim?

—Embora não é nada concreto, tem alguma idéia do que me fizeram, certo? —não olhou o seu companheiro de quarto. V não o olhou.

—Possivelmente. Mas não estamos sozinhos nisto.

Um ding eletrônico soou e as portas se abriram. Continuaram em silêncio.

Quando saíram da mansão para a noite, Butch disse. —Sangrei negro durante um tempo, já sabe.

—Anotaram em seu relatório que a cor voltou.

Butch agarrou o braço de V e deu a volta ao homem.

—Agora sou parte lesser?

Aí. Estava sobre a mesa. Seu maior medo, sua razão de escapar da Marissa, o inferno com o qual tinha que aprender a viver.

V o olhou fixamente nos olhos.

—Não.

—Como sabemos?

—Porque rechaço essa conclusão.

Butch soltou seu aperto.

—É perigoso pôr a cabeça na areia, vampiro. Poderia ser seu inimigo agora.

—Merda.

—Vishous, poderia...

V o agarrou pelas lapelas e atirou dele com força contra seu corpo. O Irmão estava tremendo dos pés a cabeça, seus olhos brilhando como cristais na noite.

—Não é meu inimigo.

Imediatamente irritado, Butch agarrou os poderosos ombros de V, amassando a jaqueta de couro em seus punhos.

—Como saberemos com segurança?

V tirou as presas e chiadou, suas sobrancelhas negras juntando-se com força. Butch lhe devolveu a agressão, esperando, rezando, preparado para que começassem a dar-se murros um ao outro. Morria por lutar e ser machucado; queria sangue sobre ambos.

Durante um longo momento, estiveram pegos juntos, os músculos tensos, o suor saindo, no limite.

Então a voz de V invadiu o espaço entre os dois corpos, o tom quebrado com um fôlego ofegante e desesperado, e desanimando-se.

—É meu único amigo. Nunca meu inimigo.

Não souberam quem abraçou a quem primeiro, mas a urgência de dar uma surra ao outro se foi de seus corpos, deixando só a união entre eles. Permaneceram abraçados juntos fortemente, e ficaram um momento sob o frio vento. Quando se separaram, foi com desconforto e vergonha.

Depois de esclarecer-se ambos a garganta, V tirou um cigarro enrolado à mão e o acendeu. Quando exalou, disse. —Não é um lesser, policial. O coração é tirado quando acontece isso. O seu ainda pulsa.

—Possivelmente foi um trabalho parcial? Algo que foi interrompido?

—A isso não posso responder. Revisei os registros da raça, procurando algo, o que fosse. Mas não encontrei uma merda no primeiro intento, assim estou voltando a ler as Crônicas por completo. Demônios, inclusive estou investigando no mundo humano, procurando alguma merda escura na Internet. —V exalou outra nuvem de tabaco turco—. Eu encontrarei. De algum modo, de algum jeito, farei-o.

—Tentou ver o que vai vir?

—Quer dizer o futuro?

—Sim.

—É obvio que o tenho feito. —V deixou cair o cigarro, amassou-o com as botas, depois se agachou e agarrou a bituca. Quando a deslizou no bolso traseiro, disse—: Mas ainda sigo sem receber nada. Merda... preciso de um gole.

—Eu também. ZeroSum?

—Tm certeza que está preparado para isso?

—De nenhuma forma.

—Muito bem então, ao ZeroSum.

Andaram para o Escalade e entraram, Butch colocando-se no assento do acompanhante. Depois de colocar o cinto de segurança, sua mão foi ao estômago. Doía-lhe um montão o abdômen porque tinha estado movendo-se, mas a dor não importava. De fato, na realidade nada parecia fazê-lo.

Estavam saindo da estrada de entrada à clínica, quando V disse. —Ligaram para você na linha comum ontem. Ontem de noite, tarde. Um cara chamado Mikey Rafferty.

Butch franziu o cenho. Por que o ligaria um de seus cunhados, em especial esse? De todos seus irmãos e irmãs, Joyce era a que mais o detestava... que era dizer o bastante, considerando como se sentiam os outros. Teria tido seu pai o ataque do coração que tinha estado esperando todos esses anos?

—O que disse?

—O batismo de um menino. Queria que soubesse para que pudesse aparecer caso queria. É este domingo.

Butch olhou pela janela. Outro bebê. Bom, o primeiro de Joyce, mas era o neto número... Quantos foram? Sete? Não... oito.

Enquanto conduziam em silêncio, dirigindo-se para a parte urbana da cidade, as luzes dos carros em direção contrária brilhavam e se perdiam ao longe. Depois tendas. Depois edifícios de escritórios construídos pela mudança de século. Butch pensou em toda as pessoas vivendo e respirando no Caldwell.

—Alguma vez quis filhos, V?

—Não. Não me interessa.

—Eu estava acostumado a querer.

—Já não?

—Os meus não acontecerão, mas não importa. Muitos O’Neals neste mundo. Muitos.

Quinze minutos depois, estavam no centro da cidade e estacionados atrás do ZeroSum, mas a Butch resultou difícil sair do Escalade. A familiaridade de tudo isso —o carro, seu companheiro de quarto, seu canto de beber— o perturbava. Porque embora fosse o mesmo, tinha mudado.

Frustrado, reservado, inclinou-se para frente e tirou um boné dos Rede Sox do porta-luvas. Ao abrir a porta, dizendo-se que estava sendo melodramático e que tudo isto era rotina diária.

No momento em que saiu do SUV, congelou-se.

—Butch? O que aconteceu, homem?

Bom, não era a pergunta do milhão de dólares. Seu corpo parecia haver se convertido em uma espécie de diapasão. A energia estava vibrando através dele... Chamando-o...Girou e começou a caminhar pela rua Dez, movendo-se rápido. Simplesmente tinha que encontrar o que era, esse ímã, esse sinal familiar.

—Butch? Aonde vai, policial?

Quando V o agarrou pelo braço, Butch se soltou e pôs-se a correr devagar, sentindo que estava no bordo de uma corda e alguém atirava dele.

Estava fracamente consciente de V correndo devagar a seu lado e falando como se tivesse tirado o celular.

—Rhage? Tenho um caso aqui. Na Rua Dez. Não, é Butch.

Butch começou a correr a toda velocidade, o casaco de cachemira flutuando por detrás. Quando o grande corpo do Rhage se materializou em seu caminho de repente, Butch fez um desvio para rodear ao homem.

Rhage saltou justo em seu caminho.

—Butch, aonde vai?

Quando o Irmão o agarrou, Butch empurrou Rhage para trás com tanta força que ele se chocou contra um edifício de tijolos.

—Não me toque!

Quase duzentos metros depois de percorrido, encontrou o que o estava chamando: três lessers saindo de um beco.

Butch parou. Os assassinos pararam. E então houve um horrível momento de comunhão, um que levou lágrimas aos olhos do Butch quando reconheceu neles o que estava em seu interior.

—É um novo recruta? —perguntou um deles.

—É obvio que o é —disse outro—. E perdeu o registro esta noite, idiota.

Não... Não... OH, Deus, não...

Em um movimento sincronizado, os três assassinos olharam por cima de seu ombro ao que tinham que ser V e Rhage aparecendo pela esquina. Os lessers se prepararam para lutar, ficando em posição de combate, levantando as mãos.

Butch deu um passo para o trio. Depois outro.

—Butch —a doída voz atrás dele era de Vishous—. Deus... Não.

 

John encolheu seu pequeno corpo e fechou os olhos de novo. Aprisionado no assento de um desgastada e muito feia poltrona verde abacate, cheirava a Tohr com cada inspiração que para: O pesadelo do decorador tinha sido a posse favorita do Irmão e a “seatus non grata” do Wellsie. Exilado aqui em seu escritório do centro de treinamento, Tohr tinha passado horas sentado nele, com o trabalho de administração enquanto John estudava.

Depois dos assassinatos, John tinha usado essa coisa como cama.

Irritado, retorceu colocando as pernas pendurando sobre um braço, e empurrando para cima com a cabeça e os ombros. Apertou os olhos fechados ainda mais forte, rezando por um pouco de repouso. O problema era que o sangue lhe zumbia pelas veias e a cabeça lhe dava voltas a tudo e a nada em particular, todas coisas urgentes e desnecessárias.

Deus, a aula tinha acabado fazia duas horas e tinha seguido treinando inclusive depois de que os outros principiantes partiram. Mas não tinha podido dormir bem durante a última semana. Pensaria que teriam que ter acabado as pilhas.

Não obstante, possivelmente ainda estava nervoso pelo Lash. Esse filho da puta tinha estado burlando-se dele pelo desmaio de ontem frente a toda a classe. Homem, John odiava a esse menino. Realmente o odiava. Esse arrogante, rico, mordaz…

—Abre os olhos, menino, sei que está acordado.

John fez um movimento brusco e quase caiu no chão. Enquanto se levantava, viu o Zsadist na porta do escritório, vestido com esse uniforme de pescoço alto ajustado e calças soltas.

A expressão no rosto do guerreiro era tão dura como seu corpo. —me escute, porque não vou repetir .

John agarrou os braços da cadeira. Tinha um pressentimento sobre o que ia dizer.

—Não quer ir ao Havers, bem. Mas curta essa merda. Salta as refeições, parece que não dormiu durante dias, e sua atitude começa a me tirar do sério .

Bravo, este não era o típico bate-papo aluno/professor que John tinha tido alguma vez. E não aceitou a crítica muito bem: A frustração formava redemoinhos em seu peito.

Z lhe assinalou com o índice através da quarto. —Deixará de prestar atenção ao Lash, está claro? Só deixe o casulo. E a partir de agora, irá para casa durante as refeições.

John franziu o cenho, logo alcançou sua caderneta para assegurar-se de que Z entendesse o que queria lhe dizer.

—Esqueça de responder, menino. Não estou interessado. —Enquanto John começava a se irritar com tudo, Z sorriu, revelando suas enormes presas—. E tem melhor critério que te pôr entre meus dentes, não?

John afastou o olhar, era certo que o Irmão podia parti-lo pela metade sem muito esforço. E se ofendeu como o demônio por esse fato.

—Fará as pazes com o Lash, entendeu? Não façaque me coloque entre os dois. Vocês não gostariam. Assente se tiver entendido.

John assentiu, sentindo vergonha. Aborrecimento. Cansaço.

Afogado por toda a agressividade em seu interior soltou um suspiro e esfregou os olhos. Deus, tinha sido tão calmo durante toda sua vida, possivelmente inclusive tímido. Por que ultimamente tudo o zangava?

—Estas próximo à mudança. Isso é o que te acontece.

Lentamente John levantou a cabeça. Tinha ouvido bem, não?

Estou-o? Escreveu.

—Sim. Por isso é imprescindível que aprenda a se controlar. Se o fizer durante a transição, sairá ao outro lado com um corpo capaz de coisas que lhe afligirão. Estou falando de força bruta fisicamente. Do tipo animal. Do tipo que pode matar. Pensa que agora tem problemas? Espera ter essa carga entre suas mãos. Precisa aprender a se controlar agora.

Zsadist partiu, mas se deteve olhando sobre seu ombro. A luz caía sobre a cicatriz que percorria seu rosto e lhe deformava o lábio superior. —Uma última coisa. Precisa de alguém com quem falar? Sobre... Merda?

Bravo, bem, pensou John. Nem morto voltaria para o Havers para visitar esse terapeuta.

Foi por causa dele que recusou a fazer a revisão. A última vez que se colocou com o médico da raça, o cara o tinha chantageado com uma sessão de terapia que ele não tinha querido, e não tinha intenção de repetir a entrevista com o Dr. Phil. Com tudo o que tinha ocorrido recentemente, não pinçaria no passado outra vez, assim é que a única maneira em que retornaria a essa clínica agora seria se se estivesse sangrando.

—John? Quer falar com alguém? —Quando negou com a cabeça, os olhos de Z se estreitaram—. Bem. Mas entendeu a mensagem sobre você e Lash, ficou claro?

John baixou o olhar e assentiu.

—Bem, Agora arrasta seu traseiro para casa. Fritz preparou seu jantar e vou observar como você come isso. E vais comer isso tudo. Precisa estar forte para a mudança.

 

Butch caminhava perto dos assassinos e eles não se sentiam ameaçados por ele. Mas bem, estavam zangados, já que não fazia seu trabalho.

—Atrás de você, estúpido —disse o do meio—. Seu alvo está detrás de você. Dois Irmãos.

Butch rodeou os lessers, lendo seus rastros instintivamente. Suspeitava que o mais alto tinha sido iniciado durante o último ano mais ou menos: Tinha ainda alguns rasgos humanos, entretanto Butch não estava certo que ele soubesse. Os outros dois eram bastante antigos na Sociedade e estava certo disso não só porque tinham o cabelo e a pele pálida.

Deteve-se quando esteve atrás dos três e ficou olhando através de seus grandes corpos por volta de V e Rhage... Que pareciam estivar vendo um bom amigo morrendo em seus braços.

Butch soube exatamente quando os lessers foram atacar e se adiantou com eles. Ao mesmo tempo que Rhage e V assumiram postura de ataque, Butch agarrou ao assassino do meio pelo pescoço e o atirou ao chão.

O lesser gritou e Butch se atirou em cima dele, sabendo que não era competidor. Efetivamente, tirou-o ponta-pés e o lesser tomou o comando, sentando-se em cima, estrangulando-o. O bastardo era brutalmente forte e estava irritado, como no mínimo um lutador raivoso.

Enquanto Butch lutava para manter a cabeça sobre seus ombros, percebeu vagamente um brilho de luz e uma pequena explosão. E logo outra. Evidentemente, Rhage e V tinham limpado a casa e Butch lhes ouviu andar em frente. Graças a Deus.

Salvo que justo quando chegaram o monstruoso espetáculo começou.

Butch olhou profundamente no interior dos olhos do não morto pela primeira vez e algo fez clique em seu lugar, ambos estavam tão rígidos como se tivessem barras de ferro rodeando seus corpos. Enquanto o assassino estava completamente tranqüilo, Butch sentia o desejo entristecedor de… bem, não sabia do que. Mas o instinto foi o suficientemente forte para lhe fazer abrir a boca e respirar.    

E assim foi como começou a respirar. Antes de saber o que fazia, seus pulmões começaram a encher-se com uma longa e segura inspiração.

—Não... —sussurrou o assassino, tremendo.

Algo ocorreu entre suas bocas, uma espécie de nuvem de negrume abandonou ao lesser e se introduziu no Butch...

A conexão se quebrou com o brutal ataque de acima. Vishous agarrou ao assassino e atirou bruscamente lhe liberando do não morto, arrojando a coisa de cabeça contra o edifício. Antes que o bastardo pudesse recuperar, V deixou cair sobre ele, a negra lâmina e o cortou em rodelas.

Enquanto se murchavam a faísca e chiado, os braços de Butch caíram sem forças contra o asfalto. Rodou sobre um flanco e se enroscou sobre si mesmo, com os braços unidos estreitamente contra o estômago. As tripas lhe estavam matando, mas mais que tudo, sentia-se fodidamente enjoado, uma desagradável conseqüência de ter lutado enquanto se encontrava tão doente.

Um par de botas entrou dentro de seu campo de visão, mas não podia elevar a vista e ver o irmão. Não sabia que demônios tinha feito ou o que tinha acontecedo.

Tudo o que sabia era que os lessers e ele eram parentes.

A voz de V era tão fraca como a pele de Butch. —Está bem?

Butch fechou fortemente os olhos e negou com a cabeça. —Acredito que é melhor... Que me tire daqui. E não se atreva a me levar para casa.

 

Vishous abriu a porta de seu apartamento de cobertura e colocou Butch dentro enquanto Rhage mantinha a porta aberta. Os três tinham tomado o elevador de carga do edifício, o qual tinha sentido. O policial era um peso morto, pesando mais do que parecia, como se a força da gravidade lhe tivesse emprestado especial atenção.

Deitaram o policial na cama e se virou com cuidado sobre um lado, subindo os joelhos até o peito.

Houve um longo e amplo silêncio, durante o qual Butch parecia estar inconsciente.

Como se o estivesse usando a preocupação, Rhage começou a passear, e merda, depois desse enfrentamento, V estava confuso também. Acendeu um e aspirou fundo.

Hollywood esclareceu garganta. —Então, V… aqui é onde traz as mulheres, huh. —O irmão examinou e assinalou um par de algemas cravadas na negra parede—. Ouvimos histórias, é óbvio. Intuo que todas são certas.

—Que importância tem isso. —V se encaminhou ao bar e verteu uma longa medida de Grei Goose—. Temos que dar o golpe às casas desses lessers esta noite.

Rhage assinalou para a cama. —O que fazemos com ele?

Milagre dos milagres, o policial levantou a cabeça. —Não vou a nenhuma parte agora mesmo. Confia em mim.

V estreitou os olhos para seu companheiro. O rosto do Butch, que normalmente tinha o rubor irlandês como se trabalhasse em excesso em algo, estava completamente pálido. E cheirava... ligeiramente doce. Como a talco.

Jesus. Era como se por estar ao redor desses assassinos tivesse acentuado outra coisa nele… algo do Omega.

—V? —a voz do Rhage era suave. Realmente perto—. Quer ficar aqui? Ou melhor o levamos ao Havers?

—Estou bem —disse Butch com voz rouca.

Uma mentira em vários níveis, pensou V.

Acabou a vodca e olhou ao Rhage. —Vou com você. Policial, voltaremos e lhe traremos comida, OK?

—Não. Comida não. E não retornem esta noite. Só fecha para que não possa sair e me deixem.

Droga. —Policial, se te enforcar no banheiro, juro que te matarei outra vez, ouviu-me?

Uns apagados olhos cor avelã se abriram. —Quero saber o que me aconteceu muitíssimo mais do que quero me suicidar. Assim, não se preocupe.

Butch apertou as pálpebras outra vez e depois de um momento, Vishous e Rhage saíram ao balcão. Enquanto V fechava as portas, precaveu-se que estava mais preocupado por manter Butch dentro que de proteger ao cara.

—Onde vamos? —perguntou Rhage. Embora ele era o que normalmente tinha planos.

—A primeira carteira tem uma direção o Quatro E cinco Nove da Wichita Street, apartamento quatro C.

—Vamos até eles.

 

Quando Marissa abriu a porta de sua quarto, sentiu-se como uma intrusa em seu próprio espaço: Uma estranha feita de pó, com o coração quebrado e… perdida.

Olhando ao redor, pensou, Deus, era tão bonito e branca o quarto, não? A grande cama com dossel, as tumbonas, as penteadeiras antigas e as mesinhas. Tudo era tão feminino, exceto pela arte nas paredes. Sua coleção de gravuras em madeira do Alberto Durero não combinava com o resto da decoração, essas austeras linhas e esses duros bordos mais apropriados para olhos e objetos masculinos.

Exceto, que as imagens lhe falavam.

Quando foi olhar uma, teve a ligeira impressão de que Havers sempre os tinha desaprovado. Pensava que as pinturas do Maxfield Parrish de cenas românticas e de sonho eram mais apropriadas para uma fêmea Príncipes.

Nunca tinham estado de acordo na arte. Mas de qualquer maneira lhe tinha comprado as gravuras porque os amava.

Obrigando-se a se mover fechou a porta e foi para o chuveiro. Tinha pouco tempo antes de que o regularmente programado Conselho do Príncipes se reunisse esta noite, e Havers sempre gostava de chegar cedo.

Quando esteve sob a ducha, pensou quão estranha era sua vida. Quando tinha estado com o Butch nesse quarto de quarentena, esqueceu-se completamente do Conselho, a glymera e… tudo. Mas agora, ele tinha ido e tudo tinha retornado à normalidade.

A volta à realidade a golpeou tragicamente.

Depois de secar o cabelo, vestiu-se com um traje turquesa do Yves St. Laurent de 1960, logo foi para o porta jóias e escolheu um luxuoso conjunto de diamantes. As pedras se sentiam pesadas e frias ao redor do pescoço, os pendentes pesavam em seus lóbulos, o bracelete se fechava no pulso. Quando olhou fixamente as cintilantes gemas, pensou que essas mulheres da aristocracia eram realmente só umas cristaleiras para as riquezas de suas famílias, não eram elas.

Especialmente em reuniões do Conselho do Príncipes.

Ao descer as escadas, temeu encontrar-se com o Havers, mas acreditou que seria bom chegar com ele. Não estava em seu estudio, então se encaminhou para a cozinha, pensando que estaria tomando alguma coisa antes de partir. Quando se dirigia para a dispensa do mordomo viu Karolyn saindo do porão. A doggen conduzia uma pesada carga de caixas de cartão.

—Me deixe te ajudar —disse Marissa, correndo para ela.

—Não, obrigado… ama. —A faxineira se ruborizou e afastou o olhar, mas assim eram os doggen. Odiavam aceitar ajuda daqueles a quem servia.

Marissa sorriu gentilmente. —Deve embalar a biblioteca para esse novo trabalho de pintura. OH! Isso me recorda. Agora tenho pressa, mas preciso falar sobre o menu do jantar de amanhã.

Karolyn se inclinou levemente. —me perdoe, mas o amo me assinalou que a festa com o Príncipes leahdyre se cancelou.

—Quando lhe disse isso?

—Agora mesmo, antes de partir para o Conselho.

—Já foi? —Possivelmente pensou que queria ficar —.Melhor que eu vá correndo… Karolyn, está bem? Não tem bom aspecto.

A doggen se inclinou tanto que as caixas roçaram o chão. —Estou muito bem, ama. Obrigado.

Marissa correu fora da casa e se desmaterializo para a casa Tudor do atual Leahdyre do Conselho. Quando bateu na porta, esperou que Havers tivesse se acalmado. Podia entender seu aborrecimento considerando que os tinha descoberto, mas ele não tinha nada pelo que preocupar-se. Não era como se Butch estivesse em sua vida ou algo assim.

Deus, se sentia nauseada cada vez que pensava nisso.

Foi recebida por um doggen e conduzida até a biblioteca. Enquanto se dirigia à reunião, nenhum dos dezenove da educada mesa reconheceu sua presença. Isso era normal. A diferença estava em que seu irmão não elevou os olhos. Nem lhe tinha reservado um assento a sua direita. Nem rodeou a mesa para acompanhá-la a sua cadeira.

Havers não se acalmou. Absolutamente.

Bem, não importava, poderia falar com ele depois da reunião. Acalmá-lo. Reconfortá-lo, embora a matasse, porque ela poderia haver-se apoiado nele agora mesmo.

Sentou-se longe no final da mesa, em meio de três cadeiras vazias. Quando o último homem entrou na reunião, este ficou estático quando viu que todas as cadeiras estavam ocupadas exceto as de seu lado. Depois de uma pausa embaraçosa, um doggen entrou rapidamente com outra e o Príncipes se sentou em outro lugar.

O leahdyre, um distinto homem de cabelo grisalho e grande linhagem, revolveu alguns papéis, tamborilou sobre a mesa com uma pluma de ouro e esclareceu garganta. —Pela presente declaro iniciada esta reunião e apresento a ordem do dia que recebestes. Um dos membros do Conselho apresentou um esboço de uma eloqüente súplica ao Rei, por isso acredito podemos considerá-lo com urgência. —Elevou um papel de cor nata e o leu—. A conseqüência do brutal assassinato da Príncipes Wellesandra, casal do guerreiro da Adaga Negra Tohrment filho do Hharm e filha do Princepes Relix, e a conseqüência do sequestro da Princeps Bela, casal do guerreiro da Adaga Negra Zsadist filho do Ahgony e filha do Princepes Rempoon e irmã do Princepes Rehvenge, e a conseqüência das numerosas mortes de homems da glymera que foram capturados em sua juventude pela Sociedade Lessening, é óbvio que o evidente e atual perigo ao que se enfrenta a espécie ultimamente aumentou em extremo. Por conseguinte, este membro do Conselho respeitosamente procura recuperar a prática obrigada de seleção para todas as fêmeas sem aparear da aristocracia já que se tem que preservar a linhagem da raça. É mais, como o dever deste Conselho é proteger a todos os membros da espécie, este membro do Conselho respeitosamente procura que a prática da seleção se estenda a todas as classes sociais. —O leahdyre elevou a vista—. Segundo o costume do Conselho do Princepes, agora discutiremos a moção.

Os alarmes soaram na cabeça da Marissa quando olhou ao redor da sala. Dos vinte e um membros do Conselho atual, seis eram fêmeas, mas ela era a única a quem se aplicaria a ordem. Embora tinha sido a shellan de Wrath, nunca a tinha tomado, por isso se classificava sem aparear.

Enquanto na biblioteca o consenso de aprovação e suporte aumentava, Marissa cravou os olhos em seu irmão. Havers teria agora completo controle sobre ela. Boa jogada de sua parte, não?

Se fosse seu ghardian, não poderia sair de casa sem sua permissão. Não poderia permanecer no Conselho a menos que ele estivesse de acordo. Não poderia ir a nenhuma parte ou fazer nada porque a possuiria como sua propriedade, para todos os efeitos.

E não havia esperança de que Wrath rechaçasse a recomendação se o Conselho do Princepes votasse a favor da moção. Dado como estavam as coisas com os lessers, não havia uma posição racional para um veto, e embora ninguém pudesse derrocar a Wrath legalmente, a falta de confiança em sua liderança poderia conduzir ao mal-estar social. O que era a última coisa que a raça precisava.

Ao menos Rehvenge não estava presente, assim não poderiam aprovar nada esta noite. As ancestrais leis de trâmite do Conselho do Princepes condicionavam a que só os representantes das seis famílias originais podiam votar, mas todo o Conselho tinha que estar presente para que uma moção fosse concedida. Assim embora as linhagens estivessem na mesa, sem a assistência de Rehv, hoje não haveria nenhuma resolução.

Enquanto o Conselho discutia com entusiasmo a proposta, Marissa negou com a cabeça. Como podia Havers ter montado tudo isto? E tudo por nada, porque ela e Butch O’Neal eram… nada. Maldição, tinha que falar com seu irmão e desbaratar esta ridícula proposta. Sim, Wellesandra tinha sido assassinada e isso foi uma tragédia, mas obrigar às mulheres a permanecer ocultas era um passo para trás.

Uma retirada por volta dos anos escuros quando as mulheres estavam escondidas e não eram mais que posses.

Com gélida claridade, imaginou a essa mãe e a sua cria com a perna quebrada na clínica. Sim, isto não era só repressivo, era perigoso se o hellren equivocado estava a cargo da família. Legalmente, ninguém podia recorrer contra o ghardian de uma mulher sehcluded. A sua discrição, ele podia fazer o que quisesse com ela.

 

Van Dean estava em outro porão em outra casa em outro lugar do Caldwell, com um apito entre os lábios enquanto seus olhos seguiam os movimentos dos homens de cabelo descolorado frente a ele. Os seis “estudantes” estavam em fila, joelhos dobrados, punhos em alto. Golpeavam o ar frente a eles com velada velocidade, alternando esquerda e direita, alternando os ombros em conseqüência. O ar estava denso por sua doce fragrância, mas Van já não notava essa merda.

Soprou o apito duas vezes. Como uma unidade, os seis levantaram ambas as mãos como se agarrassem a cabeça de um homem como uma bola de basquete, e então golpearam com os joelhos direitas para frente repetidamente. Van soprou o apito outra vez e trocaram de perna.

Odiava admiti-lo, porque isso significava que se estava ficando mais, mas ensinar aos homens a brigar era muito mais fácil que estar corpo a corpo no quadrilátero. E apreciava a mudança.

Além evidentemente era bom ensinando. Já que essa grupo aprendia rápido e pegava forte, assim tinha algo com o que trabalhar.

E esses eram definitivamente membros de um grupo. Vestidos iguais. Com a mesma cor de cabelo. Usando as mesmas armas. O que não era tão óbvio era o que faziam. Esses meninos tinham o enfoque dos militares; não desses desalinhados idiotas, a maioria valentões guias de ruas cobertos de fanfarronice e balas. Demônios, se não soubesse teria assumido que pertenciam ao governo: havia brigadas deles. Tinham o último material. Eram apaixonados como o caralho. E havia muitos deles. Só tinha estado de lado durante uma semana dando cinco aulas ao dia, e cada uma com diferentes tipos. Demônios, eram só sua segunda viagem através do parque com esse particular punhado de homens.

Salvo que, por que queriam os federais utilizar a alguém como ele para ensinar?

Assobiou longamente, detendo-os todos. —Isso é tudo por esta noite.

Os homens romperam filas e foram por suas bolsas de roupa. Sem dizer nada. Não socializavam entre eles. Não tinham nenhuma dessas rotinas de que os meninos praticavam normalmente quando estavam em grupo.

Quando desfilaram, Van foi para sua bolsa e tomou a garrafa de água. Sorvendo um pouco, pensou sobre como atravessaria o povo agora. Tinha uma briga programada em uma hora. Sem tempo para comer, mas de toda formanão estava tão faminto.

Colocou a jaqueta, subiu trotando os degraus e fez uma volta rápida pela casa. Vazia. Sem móveis. Sem comida. Nada. E cada um dos outros lugares era exatamente igual. Carapaças de casas que por fora pareciam completamente normais.

Fodidamente estranho.

Saiu pela frente, assegurando-se que fechava a porta, e se encaminhou para sua caminhonete. Os lugares onde se encontravam eram diferentes cada dia e teve a impressão que sempre seria assim. Cada manhã às sete, recebia uma chamada com uma direção, e quando chegava permanecia ali, os homens foram mudando, as classes de luta de artes marciais mistas duravam duas horas cada uma. O horário funcionava como um relógio.

Possivelmente eram trabalhos de golpistas paramilitares.

—Boa tarde, filho.

Van ficou gelado quando olhou sobre o capô da caminhonete. Uma minivan estava estacionado em frente da rua, e Xavier se apoiava contra a coisa tão tranqüilo como uma mãe—mamãe que teria que ter estado conduzindo esse pedaço de merda.

—O que acontece? —disse Van.

—Vai bem com os homens. —O sorriso sem vida do Xavier combinava com seus pálidos e mortiços olhos.

—Obrigado. Agora já terminei.

—Ainda não. —A pele de Van se arrepiou quando o tipo deixou o carro e cruzou a rua—. Mas, filho, estive pensando que possivelmente poderia querer começar a se envolver mais estreitamente conosco.

Mais estreitamente comprometido, huh? —Não estou interessado no crime. Sinto muito.

—O que te faz pensar que o que fazemos é delito?

—Vamos, Xavier. —O tipo odiava quando omitia o Senhor assim é que o fazia freqüentemente—. O fiz uma vez. Era aborrecido.

—Se, esse grupo que roubava carros em que caiu. Com certeza seu irmão tem bastante que dizer a respeito, não? OH… não falo do irmão com o que roubou. Estou falando sobre o defensor da lei da família. Que está limpo. Richard, não?

Van franziu em cenho. —Que diz. Não coloque a minha família nisto, não quero lançar um centavo e entregar à polícia essas casas que utiliza como sedes. Acredito que os policialciais gostariam de vir jantar no domingo, estou malditamente certo. Não precisaria perguntar duas vezes.

Quando o rosto do Xavier se voltou frio, Van pensou, peguei você.

Mas então o homem sorriu. —E vou dizer o que. Posso te dar algo que ninguém mais pode.

—Ah sim?

—Incontestável.

Van cabeceou, absolutamente impressionado. —Não é um pouco cedo para me convidar? O que ocorre se não for de confiança?

—Será.

—Sua fé em mim é fodidamente doce. Mas a resposta é não. Sinto muito.

Esperou uma réplica. E tudo o que obteve foi um assentimento de cabeça.

—Como quiser. —Xavier se voltou e retornou a minivan.

Estranhos, pensou Van quando esteve dentro da caminhonete. Esses meninos eram definitivamente estranhos.

Mas ao menos pagavam o tempo. E bem.

 

Cruzando a cidade, Vishous tomou forma sobre a grama de um edifício de apartamentos muito bem conservado. Rhage chegou depois dele, materializando-se em carne e osso entre as sombras.

Merda, pensou V. Desejou ter tido um momento para outro cigarro antes de vir aqui. Precisava de um cigarro. Precisava… algo.

—V, irmão, está bem?

—Sim. Perfeitamente. Façamos.

Depois de abrir a fechadura com a mente, encaminharam-se para a porta. O interior do lugar cheirava como um ambientador, um fedor de laranja que impregnava os narizes como a pintura.

Aconteceram do elevador porque estava em uso e alcançaram o vão da escada. Quando chegaram ao segundo andar, deixaram atrás os apartamentos C1, C2 e C3. V manteve a mão sob a jaqueta sobre sua Glock, embora tivesse a impressão que o pior que lhes podia acontecer era que houvesse uma câmera no vestíbulo. O lugar estava de ponta em branco e parecia tirado de um canal Televenda: ramalhetes de flores falsas penduravam nas portas. O, capacho de bem-vinda com corações ou hera estavam no chão à porta de cada apartamento. Fotos emolduradas inspiradas em rosas postas de sol e de cor pêssego alternavam com outras de cachorrinhos peludos e despistados gatinhos.

—Amigo —resmungou Rhage—, alguém deu a este lugar com a varinha do Hallmark.

—Até que se quebrou.

V se deteve frente à porta assinalada com o C4 e ordenou aos ferrolhos que se abrissem.

—O que estão fazendo?

Ele e Rhage deram a volta.

Incrível, era uma autentica Garota de Ouro: Um metro de altura, uma branca coroa de cachos na cabeça, a mulher maior ia vestida com um conjunto de bata acolchoada, como se tivesse colocado para ir para cama.

O problema era que tinha o olhar de um pit bull. —Fiz uma uma pergunta, jovem.

Rhage assumiu o controle, o que era o melhor. Tinha mais encanto. —Senhora, estamos aqui visitando um amigo.

—Conhecem o neto do Dottie?

—Ah, sim, senhora. Conhecemos.

—Bem, parece que sim conhecem. —O que evidentemente não era uma completa mentira—. Por certo, acredito que deveria mudar-se. Dottie morreu faz quatro meses e ele não se encaixa aqui.

E você tampouco, acrescentou com o olhar.

—OH, ele se mudara. —Rhage sorriu agradavelmente enquanto mantinha unidos os lábios—. O certo é que se mudará. Sim, esta noite.

V o cortou. —Perdão, volto em seguida.

Quando Rhage lhe deu um olhar não-se-atreva-a-me deixar-com-esta-batata-quente, V entrou e   fechou a porta no nariz do irmão. Se Rhage não podia dirigir à fofoqueira, podia lhe roubar as lembranças, embora seria o último recurso. Os anciões humanos às vezes não aceitavam bem isso, seus cérebros não eram o suficientemente elásticos para resistir a invasão.

Então bem, Hollywood e a vizinha do Dottie estavam confraternizando enquanto V registrava o lugar.

Com desprezo, deu uma olhada. Amigo, tudo cheirava a lesser. Enjoativo. Como Butch.

Merda. Não pense nisso.

Obrigou-se a concentrar no apartamento. A diferença da maioria das casas de lesser, este estava mobiliado, embora obviamente por seu anterior ocupante. E o gosto do Dottie ia para os estampados de flores, toalhas de mesa e figurinhas de gatos. Ela sim combinava nesse edifício.

A sorte sorriu aos lessers e leram sobre sua morte no periódico obtendo sua identidade. Caramba, possivelmente inclusive fora seu neto que acampou aqui até ser recrutado pela sociedade.

V entrou na cozinha e saiu outra vez, sem surpreender-se de que não houvesse comida nos armários ou na geladeira. Quando se dirigiu à outra metade do apartamento, pensou que era muito curioso que os assassinos não ocultassem o lugar onde dormiam. Caramba, a maioria morriam com a carteira de identidade em cima que além disso estava como devia ser. Por outro lado, queriam aumentar os conflitos…

Hey.

V foi para um escritório rosa e branco onde um computador DELL Inspiron 8600 estava ligeiramente aberto e funcionando. Tocou o mouse com um dedo e fez um rápido clique. Arquivos encriptados. Todas as contra-senhas súper protegidas. Bla, bla, bla...

Embora os lessers dessem uma total boas-vindas a suas moradas, eram muito herméticos sobre seu hardware. A maioria dos assassinos tinham um computador em casa, e a Sociedade Lessening dava a todos os mesmos amparos e manobras de codificações que V no recinto. Assim basicamente sua merda era impenetrável.

O bom era que ele não conhecia o significado de impenetrável.

Fechou o DELL de um golpe e o desligou da parede. Meteu o cabo elétrico no bolso, fechou a jaqueta e guardou o portátil perto do peito. Logo entrou no apartamento. No quarto parecia que tinha estalado uma bomba de chintz com flores e metralha de floricultura cobrindo o colchão, as janelas e as paredes.

E então, ali estava. Em uma mesinha ao lado da cama, colocado ao lado do telefone, um exemplar de quatro meses do Reader’s Digest e um montão de garrafas com pílulas alaranjadas: um vaso de cerâmica do tamanho de um quarto de leite.

Abriu a tampa do telefone e chamou o Rhage. Quando o irmão desprendeu, V lhe disse—Estou saindo. Tenho um notebook e o pote.

Pendurou, deu um tapinha no contêiner de cerâmica e o agarrou fortemente contra a dura armação do notebook. Logo se desmaterializou para o Pit, pensando quão conveniente era que os humanos não forrassem as paredes com aço.

 

Enquanto o Sr. X via Van ir, soube que a petição tinha chegado muito cedo. Devia ter esperado até que o menino estivesse um pouco mais engajado à sensação de controle que surgia quando treinava aos assassinos.

Exceto, que o tempo estava passando.

Não é que estivesse preocupado porque se fechasse a escapatória. A profecia não havia dito nada sobre esse tipo de coisa. Mas O Omega tinha estado fodidamente de saco cheio quando o Sr. X o tinha deixado na última vez. Não tinha recebido nada bem as notícias de que o humano poluído tinha sido assassinado pelos Irmãos naquele clareira do bosque. Assim que as apostas estavam aumentando, e não a favor do Sr. X.

De repente, o centro de seu peito começou a esquentar-se, e então sentiu um batimento do coração onde uma vez tinha estado seu coração. A rítmica pulsação lhe fez amaldiçoar. Falando do diabo, o professor o estava chamando.

O Sr. X entrou na minivan, ligou, e conduziu sete minutos através da cidade até uma asquerosa casa de rancho em uma irritante parcela, em um bairro ruim. O lugar ainda cheirava ao laboratório de craque que tinha funcionado ali até que o proprietário anterior tinha atirado no sócio dos negócios. Graças a toxicidade persistente, a Sociedade tinha conseguido lhe fincar o dente a preço reduzido.

O Sr. X estacionou na garagem e esperou até que a porta chiou ao fechar-se antes de sair. Depois de ligar o alarme de segurança que tinha instalado, dirigiu-se para o dormitório atrás.

Enquanto ia ali, sua pele estava irritada e lhe picava, como se por todo o corpo tivesse brotoejas provocados pelo calor. Quanto mais tempo demorava para responder ao professor, pior se sentia. Até que se voltou louco pela necessidade de arranhar-se.

Colocado de joelhos e baixando a cabeça, não queria ir a nenhuma parte perto do Omega. Os instintos do professor eram como um radar e os objetivos do Sr. X eram agora os seus próprios, não os da Sociedade. O problema era, que quando o Fore-lesser era chamado, era como uma reclamação. Esse era o trato.

 

Logo que Vishous entrou no Pit, ouviu o silêncio e o odiou. Felizmente, apenas quinze minutos depois de abrir o portátil daquele lesser sobre o escritório, houve uma batida na porta. Depois de jogar um olhar ao monitor, abriu as fechaduras com a mente.

Rhage entrou mastigando algo, com a mão metida em uma bolsa Ziploc.

—Teve sorte com o excelente produto do Sr. DELL?

—O que está comendo?

—O melhor pãozinho de nozes e bananas do Mrs. Woolly. É impressionante. Quer?

V pôs os olhos em branco e voltou para notebook.

—Não, mas pode me trazer uma garrafa do Goose e um copo da cozinha.

—Sem problema. —Rhage fez o encargo e logo se apoiou contra a parede—. Assim, encontrou algo aí?

—Ainda não.

Quando o silêncio se expandiu até deslocar o ar do Pit, V soube que havia mais na visita que a comprovação do DELL.

Efetivamente, Rhage disse:

—Escuta, meu irmão…

—Não sou muito boa companhia agora mesmo.

—Sei. É pelo que eles me pediram que viesse.

V olhou por cima do notebook.

—E quem são “eles”? —Embora soubesse.

—A Irmandade está preocupada com você. Está se tornando malditamente tenso, V. fodidamente nervoso, e não o negue. Todo mundo o notou.

—OH, assim Wrath te pediu que se passe por psiquiatra comigo?

—Uma ordem direta. Mas de todo modo estava vindo para cá.

V esfregou os olhos.

—Estou bem.

—Não importa se não o está.

Não, na verdade, não o estava.

—Se não se importar, eu gostaria de examinar cuidadosamente este PC.

—Vamos ver você na Última refeição?

—Sim. Claro. —Certo.

V brincou nervosamente com o mouse e seguiu examinando os arquivos de sistema do notebook. Enquanto olhava a tela, deu-se conta ausentemente que seu olho direito, que tinha as tatuagens no lado, tinha começado a piscar como se a pálpebra estivesse entrando em curto-circuito.

Dois punhos enormes bateram no escritório e Rhage se inclinou.

—Ou vem ou venho atrás de você.

Quando Vishous fulminou com os olhos seu irmão, o olhar verde azulado do Rhage o observou fixamente desde sua elevada altura e sua incrível beleza.

OH, assim foram enfrentar se cara a cara até que a gente desistisse, né? Bem, que lhe fodessem, pensou V.

Salvo, que V foi o que perdeu. Momentos mais tarde, baixou o olhar para o portátil, fingindo que estiva examinando algo.

—Tem que desistir, OK? Butch é meu companheiro de quarto, assim é obvio estou preocupado por ele. Mas não é para tanto…

—Phury nos disse isso. Com receio de que suas visões estavam se esgotando.

—Cristo. —V se levantou bruscamente da cadeira, afastou Rhage a empurrões e andou —. Esse enganador filho da p…

—Se por acaso te consola, na realidade Wrath não lhe deu opção.

—Assim, o Rei o tirou a golpe de punho americano?

—Vamos, V. Quando estive louco, estiveste aí para mim. Isto não é diferente.

—Sim, .

—Porque é você.

—Bingo. —Homem, V simplesmente não podia falar desta merda. Ele, que falava dezesseis idiomas, simplesmente não tinha palavras para o incrível medo que lhe dava o futuro: o de Butch. O seu próprio. O de toda a raça. As visões do que ia acontecer sempre lhe tinham vexado, mas também tinham sido um estranho consolo. Inclusive se não gostava porque o voltava louco, ao menos nunca tinha sido pego de surpresa.

A mão do Rhage posou em seu ombro e este saltou.

—A Última refeição, Vishous. Ou aparece ou te pego como o correio entendeu?

—Sim. Bem. Agora sai daqui.

Logo que Rhage partiu, V voltou para o computador e se sentou. Exceto que em vez de voltar para o terreno da Tecnologia da Informação, ligou para o novo telefone de Butch.

A voz do policial estava toda cansada.

—Hey, V.

—Hey. —V sustentou o telefone entre a orelha e o ombro e se serviu de um pouco de vodca. Enquanto o líquido golpeava o copo, houve um som de algo arrastando-se sobre o linho, como se Butch estivesse rodando pela cama ou talvez tirando-a jaqueta.

Estiveram em silencio durante longo momento, nada exceto a conexão aberta do celular. E então V teve que perguntar:

—Quer estar com eles? Sente como se devesse estar com os lesser?

—Não sei. —Inalou profundamente. Exalou lentamente e durante muito tempo—. Não mentirei. Reconheci a esses bastardos. Senti-os. Mas quando olhei nos olhos desse assassino, quis destrui-lo.

V levantou seu copo. Enquanto engolia, a vodca ardeu em sua garganta do melhor modo possível.

—Como se sente?

—Não muito bem. Enjoado. Como se tivesse perdido o chão —Mais silêncio—. É o que sonhou? Lá no princípio, quando disse que se supunha que tinha que vir com a Irmandade… sonhou comigo e o Omega?

—Não, vi algo mais.

Embora com tudo o que estava ocorrendo, não podia ver um caminho no que lhe tinha sido mostrado, não podia vê-lo em um montão de níveis: A visão tinha sido sobre ele nu e Butch envolvendo-o, os dois muito alto no céu, entrelaçados em um frio vento.

Jesus Cristo, estava transtornado. Transtornado e pervertido.

—Olhe, irei ao entardecer e te baterei um pouco com as mãos.

—Bem. Isso sempre ajuda. —Butch esclareceu a garganta—. Mas V, não posso me sentar aqui e simplesmente esperar que isto passe. Quero fazer uma ofensiva. O que me diz se agarrarmos a uns poucos lessers e lhes darmos uma surra, que por uma vez eles sejam os que nos digam algo.

—Muito duro, policial.

—Você viu o que me fizeram? Crê que estou preocupado pela fodida Convenção de Genebra?

—Me deixe falar primeiro com o Wrath.

—Faz isso logo.

—Hoje.

—Excelente. —Houve outro longo silencio—. Ah,sim… tem uma televisão neste lugar?

—A tela plana está na parede à esquerda da cama. O controle está por aí… não sei onde está. Normalmente não… bom, não tenho a televisão em mente quando estou aí.

—V, cara, o que é esta montagem?

—Está bastante claro, não vê?

Houve uma pequena risada afogada.

—Suponho que isto era do que Phury estava falando, né?

—O que disse ele?

—Que estava metido em alguma merda pervertida.

V teve uma visão repentina de Butch em cima de Marissa, o corpo masculino movendo-se enquanto ela agarrava seu traseiro com suas lindas mãos.

Então viu a cabeça do Butch levantar-se e ouviu em sua mente o gutural e erótico gemido que brotou dos lábios de seu companheiro de quarto.

Apesar de si mesmo, Vishous bebeu com força um gole de vodca e rapidamente se serviu de outro.

—Minha vida sexual é privada, Butch. Como também o são meus… interesses não convencionais.

—Entendi. Não é assunto de ninguém exceto seu. Mas, uma pergunta mais.

—O que?

—Quando as garotas lhe atam, elas pintam suas unhas dos pés e essas coisas? Ou só lhe maqueiam? —Enquanto V ria em um estalo ruidoso, policial disse—: Espera… lhe fazem cócegas nas curvas com uma pluma, certo?

—Sabichão.

—Não, somente sou curioso. —A própria risada do Butch se desvaneceu—. Mas,você as machuca? Quero dizer…

Mais vodca.

—Tudo é questão de consentimento. E eu não cruzo a linha.

—Bem. É um pouco estranho para meu traseiro católico, reconheço-o… salvo que, ouça, o que seja que se sirva como escape.

V fez girar o Goose no copo.

—Então, policial, importa-se se te pergunto algo?

—O justo é justo.

—A ama?

Depois de um momento, Butch murmurou.

—Sim. Que me fodan, mas sim.

Quando o descanso de tela do computador apareceu, V pôs a gema do dedo no canto do mouse e interquebrou os tubos replicantes.

—Como é esse sentimento?

Houve um grunhido como se Butch estivesse se recolocando e estivesse rígido como uma tabela.

—O inferno, neste mesmo momento.

V passou com a flecha na tela, fazendo-a girar pelo escritório.

—Sabe… eu gosto dela com você. Vocês dois juntos tem sentido para mim.

—Exceto, pelo fato de que sou um operário humano que podia ser em parte lesser, diria que estou de acordo com você.

—Não está voltando um…

—Tomei algo desse assassino em mim ontem à noite. Quando inalei. Acredito que é por isso que logo cheirava como um. Não porque tivéssemos estado lutando, mas sim porque algo do diabo estava –está- em mim outra vez.

V amaldiçoou, esperando como o demônio que esse não fosse o caso.

—Vamos resolver isto, policial. Não vou deixar você na escuridão.

Falaram um pouco mais tarde e V ficou olhando ao computador enquanto fazia redemoinhos com a flecha. Manteve o exercício com o índice até que ficou totalmente insatisfeito com o tempo que estava perdendo.

Enquanto estirava os braços sobre a cabeça, deu-se conta de que o cursor tinha caido sobre o cesto de papéis de reciclar. Reciclar… reciclar… reprocessar para usar de novo.

O que acontecia Butch e o tema de inalar? Agora que V pensava nisso, quando tinha tirado o lesser de cima do policial, tinha sido consciente de que estava quebrando alguma classe de conexão entre eles.

Inquieto, agarrou o Goose e o copo e foi para as poltronas. Quando se sentou e bebeu mais, olhou a pinta do Lag que estava na mesinha de café.

V se inclinou para frente e agarrou o uísque escocês. Abrindo-o, levantou-o até os lábios e tomou um gole. Depois levou o Lag ao bordo do apóio de vodca e o verteu. Com os olhos entrecerrados, observou a combinação formando redemoinhos-se, vendo os dois mesclar-se, a vodca e o uísque diluídos em sua essência pura e ainda mais fortes juntos.

V levou a combinação aos lábios, jogou a cabeça para trás, e engoliu toda a maldita coisa. Então se acomodou atrás na poltrona.

Estava cansado… fodidamente cansado… can…

O sonho lhe chegou tão rápido que foi como se lhe tivessem machucado a cabeça. Mas não durou muito. O Sonho, como estava começando a chamá-lo, despertou minutos mais tarde com sua caracteristica violênta: voltou em si com um grito, com uma sensação de ruptura no peito, como se alguém estivesse usando um separador de costelas nele. Enquanto seu coração parava e logo pulsava com força, o suor brotou por todo seu corpo.

Rasgando a camisa para abri-la, baixou o olhar para seu corpo.

Tudo estava onde deveria estar, sem nenhuma ferida aberta à vista. Exceto as sensações permaneciam: a horrível pressão de levar um tiro, a terrível condenação de que a morte tinha vindo por ele.

Respirou entrecortadamente e compreendeu que esse era o fim da charada.

Deixou a vodca atrás e se cambaleou para seu escritório, decidido a conhecer bem e intimamente a esse computador.

 

Quando o Conselho do Princepes acabou, Marissa estava totalmente esgotada. O que tinha sentido, já que o amanhecer estava perto. Tinha havido muita discussão sobre a moção de sehclusion, nenhuma de modo negativo, todas centradas na ameaça dos lesser. Evidentemente, quando o voto fosse emitido, não só aconteceria, mas sim se Wrath não emitisse um proclama, o Conselho ia ver o como evidência de que o Rei faltava a seu compromisso com a raça.

O que era algo que os caluniadores de Wrath morriam por trazer em primeiro plano. O estar trezentos anos acontecendo do trono tinha deixado um gosto amargo nas bocas de alguns aristocratas, e estavam atrás dele.

Desesperada por partir, Marissa esperou e esperou à porta da biblioteca, mas Havers continuava falando com outros. No final, saiu e se desmaterializou de volta para casa, considerando que teria que acampar na quarto de seu irmão para poder falar com ele.

Quando chegou à porta da mansão, não chamou a Karolyn como normalmente fazia, mas sim se dirigiu escada acima para seu dormitório. Empurrando a porta para abri-la…

—OH… meu Deus. —Sua quarto era… uma cidade fantasma.

O guarda roupa estava aberto e vazio, nem sequer ficava um só cabide. A cama estava nua, os travesseiros não estavam, nem os lençóis e mantas. Todos os quadros estavam no chão, e havia caixas de cartão empilhadas contra a parede mais longínqua junto a cada mala Louis Vuitton que possuía.

—O que…? —Sua voz se apagou quando entrou no banheiro. Os armários estavam todos vazios.

Quando saiu cambaleando do banheiro, Havers estava de pé junto à cama.

—O que é isto? —disse passando o braço a seu redor.

—Tem que deixar esta casa.

No princípio tudo o que pôde fazer foi olhá-lo piscando.

—Mas vivo aqui!

Ele agarrou sua carteira, tirou um grosso maço de bilhetes, e os pulverizou pelo escritório.

—Toma isto. E suma.

—Tudo por causa de Butch? —reclamou—. E como vai funcionar isto com a proposta de sehclusion que fez no Conselho? Os Ghardians têm que estar ao redor de seus…

—Eu não propus a moção. E no que diz respeito a esse humano… —Negou com a cabeça—. Sua vida é sua. E ver você com um humano nu com o que tinha tomado parte em um ato sexual… —A voz do Havers se quebrou e se esclareceu garganta—. Suma agora. Vive como deseja. Mas não ficarei sentado para ver como destrói a você mesma.

—Havers, isto é ridículo…

—Não posso te proteger de você mesma.

—Havers, Butch não é…

—Ameacei a vida do Rei para reaver sua honra! —O som de sua voz ricocheteou pelas paredes—. E logo te encontro com um homem humano! Eu… eu não posso ter você perto mais tempo. Não confio nesta ira que desata em mim. Provoca atos de tanta violência. Faz… —Se estremeceu e se girou para ir —.Eu disse aos doggen que devem te deixar aonde deseje ir, mas depois disso, voltarão para esta casa. Terá que encontrar os seus.

Seu corpo ficou completamente intumescido.

—Ainda sou um membro do Conselho do Princepes. Terá que conversar ali.

—Não, porque não estou obrigado a pôr meus olhos emvocê. Wrath não terá motivo para negar-se à moção de sehclusion. Você estará sem um companheiro e eu não atuarei como seu ghardian, assim não terá a ninguém que te conceda permissão para sair ao exterior, ao ar livre. Nem sequer sua linhagem pode passar por cima da lei.

A mandíbula da Marissa se desencaixou. Santo Céu… seria uma total pária social. Uma autêntica… ninguém.

—Como pode me fazer isto?

Ele olhou sobre seu ombro.

—Estou cansado de mim mesmo. Cansado de lutar contra o impulso de te defender das escolhas que faz…

—Escolhas! Vivendo como uma mulher da aristocracia não tenho alternativas!

—Mentira. Podia ter sido uma companheira adequada para o Wrath.

—Não me queria! Sabe, viu-o com seus próprios olhos! Isso foi pelo que quis matá-lo!

—Mas agora que penso nisso, pergunto-me… por que não sentia nada por você? Possivelmente não se esforçou o suficientemente forte para captar seu interesse.

Marissa sentiu uma crua fúria. E a emoção cresceu mais abrasadora quando seu irmão disse:

—E no que diz respeito a escolhas, podia haver ficado fora do quarto do hospital do humano. Escolheu entrar ali. E escolheu… podia haver… não deitado com ele.

—Isso é o motivo disso tudo? Pelo amor de Deus, ainda sou virgem.

—Agora está mentindo.

Aquelas três palavras soltaram suas emoções. Quando o ardor se esgotou, chegou a claridade, e pela primeira vez, viu realmente a seu irmão: de mente brilhante, devoto de seus pacientes, amante de sua shellan morta… e absolutamente rígido. Um homem de ciência e ordem ao que gostava das regras e a previsibilidade, e desfrutava de uma precisa visão da vida.

E estava claramente decidido a proteger essa visão do mundo a custa de seu futuro… sua felicidade… ela mesma.

—Tem toda a razão —disse com uma estranha calma—. Tenho que ir.

Deu um olhar às caixas que estavam cheias com as roupas que tinha levado e as coisas que tinha comprado. Logo seus olhos se encontraram de novo. Ele estava fazendo o mesmo, as olhando como se medisse a vida que ela tinha levado.

—Deixarei que fique com os Durero, naturalmente —disse.

—Naturalmente —sussurrou ela—. Adeus, irmão.

—Para vocêi agora sou Havers. Não irmão. Nunca mais.

Ele deixou cair a cabeça e saiu da quarto.

No silêncio que seguiu teve a tentação de cair no colchão nu e chorar. Mas não havia tempo. Tinha talvez uma hora antes do alvorecer.

Virgem querida, onde iria?

 

Quando o Sr. X retornou da reunião com O Omega no outro lado, sentiu-se como se tivesse dor de estômago. O que parecia lógico, já que tinha sido alimentado de seu próprio traseiro.

O amo tinha feito planos detalhados sobre um montão de coisas. Queria mais lessers, mais vampiros mortos, mais avanço, mais... mais... Mas a coisa estava, não importava o que fosse dado, sempre estaria insatisfeito. Possivelmente essa era sua maldição.

Ele que fosse. O cálculo do fracasso do Sr. X estava no alto da lista, a equação matemática de sua destruição esboçada em giz. A incógnita na álgebra era o tempo. Quanto tempo antes de que O Omega se quebrasse e o Sr. X fosse mandado para a eternidade?

As coisas precisavam acelerar-se com Van. O homem tinha que subir a beira e ocupar seu lugar logo que fosse possível.

O Sr. X foi para o computador e o ligou. Sentando-se ao lado da seca mancha marrom de um atoleiro de sangue, abriu os arquivos dos Pergaminhos e encontrou o acontecimento pertinente. As linhas da profecia o acalmaram.

 

           Haverá um que trará o fim antes que o professor,

           Um guerreiro de tempos modernos encontrado no sétimo do

           vinte e um,

           E será conhecido pelos números que leva:

           Um mais que o compasso dispõe

           Embora só quatro pontos tem que marcar com sua direita,

           Três vistas tem

           Dois sinais em sua parte fronteira,

           E com um só olho negro, em um poço o será

           Nascido e morto

 

O Sr. X relaxou contra a parede, fazendo ranger o pescoço e olhando ao redor. Os pestilentos vestígios do laboratório de craque, a porcaria do lugar, o ar de más ações feitas sem remorsos eram como uma festa em que não queria estar mas da que não podia sair. Algo assim como a Sociedade Lessening.

Salvo que ia estar bem. Ao menos divisava a saída de lesser.

Deus, tinha sido tão estranho como tinha encontrado a Van Dean. X tinha ido aos últimos combates de lutadores procurando novos recrutas e Van imediatamente tinha se sobressaído sobre outros. Havia algo especial nele, algo que o destacava de seus oponentes. E observando os movimentos dele a primeira noite, o Sr. X tinha acreditado ver uma importante anexação à Sociedade... Até que se precaveu do dedo perdido.

Não gostava de introduzir ninguém com um defeito físico.

Mas quanto mais via brigar a Van, mais claro estava que um dedo mindinho ausente não era nenhum impedimento. Então um par de noites mais tarde viu a tatuagem. Van sempre brigava com uma camiseta posta, mas em uma ocasião a roupa lhe subiu ao redor do peito. Em suas costas, com tinta negra, um olho olhava fixamente entre suas omoplatas.

Isto foi o que enviou ao Sr. X aos Pergaminhos. A profecia estava profundamente sepultada no texto do manual da Sociedade Lessening, um completo mas esquecido parágrafo em meio das normas de iniciação. Felizmente, quando o Sr. X foi Fore-lesser a primeira vez, tinha lido as passagens o suficiente para recordar que a maldita coisa estava ali.

Como o resto de Pergaminhos, que tinham sido traduzidos ao espanhol em 1930, a redação da profecia era abstrata. Mas se tinha perdido um dedo na mão direita, então só tinha quatro para indicar. “Três vistas” eram infância, idade adulta, e logo a vida na Sociedade. E segundo o público da briga, Van era nativo, nascido na cidade de Caldwell, a qual também era conhecida como O Poço.

Mas havia mais. Os instintos do homem eram endemoniadamente nervosos. Tudo o que tinha que fazer era observá-lo na arena para saber que norte, sul, leste e oeste eram só parte do que ele estava sentindo: Tinha um estranho talento para antecipar-se ao movimento de seu oponente. Isso era o dom que o diferenciava.

De toda forma, o fator decisivo era o apêndice extirpado. A palavra marca podia ser interpretada de várias formas mas muito possivelmente se referia a cicatrizes. E todo mundo tinha um umbigo, então se também tinha o apêndice extirpado, havia duas cicatrizes em sua “fronteira”, não?

Além disso era o ano oportuno para lhe encontrar.

O Sr. X alcançou o telefone celular e ligou para um de seus subordinados.

Quando a linha soou, foi consciente de que precisava de Van Dean, esse lutador moderno, esse bastardo de quatro dedos, mais que a ninguém em sua vida. Ou atrás de sua morte.

 

Quando Marissa se materializou em frente da cinza e severa mansão, elevou a mão para a garganta e inclinou a cabeça para trás. Deus, tanta pedra levantada sobre a terra, todas as pedreiras vazias para reunir a carga. E tantas janelas, os vidros em forma de diamante pareciam barras. E logo estavam os seis metros de altura do muro de contenção que abrangia o pátio e os jardins. E as câmeras de segurança. E as portas.

Tão certo. Tão frio.

O lugar era precisamente como se esperava que fosse, uma fortaleza, não um lar. E estava rodeada por um neutralizador do que no Antigo País se chamava mhis, com o que a menos que devesse estar aqui, o cérebro não poderia processar a posição o bastante bem para encontrar o caminho. Demônios, a única razão pela que tinha conseguido chegar ao complexo da Irmandade era porque Wrath estava dentro. Depois de trezentos anos alimentando-se de seu sangue puro, havia muito dele nela para que pudesse encontrá-lo em qualquer lugar. Inclusive no mhis.

Enquanto olhava para a montanha frente a ela, a nuca formigou como se a vigiassem, e olhou sobre seu ombro. Ao leste, a luz do dia cobrava impulso, e o resplendor lhe fez arder os olhos. Estava quase sem tempo.

Com a mão ainda na garganta, aproximou-se de um par de maciças portas metálicas. Não havia timbre nem aldrava, assim tentou com um lado. Abriu-se, o qual foi uma comoção… ao menos até que chegou ao vestíbulo. Ah, aqui era onde lhe examinavam.

Pôs o rosto frente à câmara e esperou. Sem dúvida um alarme tinha divulgado quando tinha trespassado a primeira porta, assim que alguém viria e a deixaria entrar… ou a jogaria. Em cujo caso optaria por sua segunda opção. Correr a toda velocidade.

Rehvenge era a única outra pessoa a que poderia ter recorrido, mas era complicado. Seu mahmen era uma conselheira espiritual, ou algo pelo estilo, da glymera e não tinha dúvida de que estaria extremamente ofendida com a presença da Marissa.

Com uma oração à Virgem Escriba, segurou o cabelo com a mão. Possivelmente tinha apostado errado, mas supunha que Wrath não a jogaria tão perto do amanhecer. Por tudo o que suportou com ele, supunha que poderia deixá-la um dia ao amparo de seu teto. E era um homem de honra.

Ao menos Butch não vivia com a Irmandade pelo que sabia. Alojou-se em alguma outra parte durante o verão e supôs que ainda o fazia. Isso esperava.

Pesadas portas de madeira frente a ela se abriram, e Fritz, o mordomo, pareceu surpreso ao vê-la.

—Senhora? —O ancião doggen se inclinou levemente—. A… esperam?

—Não, não me esperam. —Estava tão longe de ser esperada como podia está-lo—. Eu, né...

—Fritz, quem é? —ouviu-se uma voz feminina.

Enquanto passos se aproximavam, Marissa apertou as mãos juntas e abaixou a cabeça.

OH, Deus. Beth, a rainha. Teria sido muito melhor ver primeiro o Wrath. E agora só podia supor que isto não ia acontecer.

Sem dúvida, sua Majestade a deixaria utilizar o telefone para chamar o Rehvenge. Deus, tinha tempo ainda para ligar?

As portas chiaram até abrir-se completamente.

—Quem é…? Marissa?

Marissa manteve os olhos no chão e fez uma reverência, como era costume.

—Minha Rainha.

—Fritz, pode nos perdoar? —Um momento depois, Beth disse—. Vocêi gostaria de entrar?

Marissa duvidou, então deu um passo atravessando a porta. Tinha um sentido periférico de cor incrível e calidez, mas não podia levantar a cabeça para observr tudo.

—Como nos encontrou? —perguntou Beth.

—O sangue de seu… hellren perdura em mim. Eu… tenho que lhe pedir um favor. Quereria falar com o Wrath, se não se aborrecer.

Marissa se surpreendeu quando lhe agarrou a mão.

—O que aconteceu?

Quando levantou os olhos para a Rainha, por pouco não deu um grito sufocado. Beth estava tão sinceramente afetada, tão preocupada. Ser recebida com qualquer tipo de calidez era desarmador, especialmente dessa mulher que com todo direito podia estar tentada de tirá-la aos tapas .

—Marissa, fale comigo.

Por onde começar.

—Eu... ah, eu preciso um lugar para ficar. Não tenho nenhum lugar onde ir. Fui expulsa. Estou...

—Espera, fale mais devagar. Mais devagar. O que Aconteceu?

Marissa inspirou profundamente e lhe deu uma versão resumida da história, uma que evitou qualquer menção do Butch. As palavras saíam dela como a água suja, derramando-se sobre o chão do brilhante mosaico, manchando a beleza sob seus pés. A vergonha de contá-lo ardia em sua garganta.

—Então ficará conosco —pronunciou Beth quando acabou.

—Só uma noite.

—Por quanto tempo quiser. —Beth apertou a mão da Marissa—. Todo o tempo. Quanto queira.

Enquanto Marissa fechava os olhos e tratava de não sofrer um colapso, vagamente foi consciente de som de passos, de pesadas botas descendendo pela escada atapetada.

Então a profunda voz do Wrath encheu o cavernoso vestíbulo do terceiro andar.

—Que demônios ocorre?

—Marissa ficará conosco.

Quando Marissa realizou outra reverência, estava totalmente despojada de orgulho, tão vulnerável como se estivesse nua. Estar sem nada e jogar-se na misericórdia de outros era um tipo desconhecida de terror.

—Marissa, me olhe.

O duro tom do Wrath era completamente familiar, que sempre tinha usado com ela, que a tinha feito sentir vergonha durante três séculos. Desesperadamente, jogou uma olhada para a porta aberta do vestíbulo embora oficialmente já estava sem tempo.

Os painéis de madeira se fecharam de repente como se o Rei assim o tivesse desejado.

—Marissa, fale.

—Pare já, Wrath —disse bruscamente a Rainha—. Já aconteceu muita coisa esta noite. Havers a expulsou.

—O que? Por que?

Beth fez um rápido resumo da história, e ouvir de um terceiro só incrementou sua humilhação. Enquanto lhe nublava a vista, lutou para não desfalecer.

E a batalha esteve perdida quando Wrath disse. —Jesus Cristo, que idiota. É obvio que fica aqui.

Com mãos trementes, Marissa se esfregou sob os olhos, capturando as lágrimas e rapidamente tirando-as com as pontas dos dedos.

—Marissa? Me olhe.

Levantou a cabeça. Deus, Wrath estava exatamente igual, um rosto muito cruel para ser bonito, esses óculos envolventes que o faziam parecer inclusive mais intimidante. Distraídamente, deu-se conta de que seu cabelo estava muito mais longo do que quando o tinha conhecido, chegava-lhe quase até a cintura.

—Me alegro que tenha vindo aqui.

Esclareceu-se voz.

—Agradeceria uma breve estadia aqui.

—Onde estão suas coisas?

—Estão empacotadas em minha casa… er, a de meu irmão… quero dizer, na de Havers. Retornei do Conselho do Princepes e todas minhas coisas estavam em caixas. Mas podem ficar ali até que resolva...

—Fritz! —Enquanto o doggen entrava correndo, Wrath disse—. Vá a casa do Havers e recolhe suas coisas. Melhor leve a caminhonete e um grupo adicional de braços.

Fritz se inclinou e saiu, movendo-se mais rápido do que alguém imaginaria que podia um ancião doggen.

Marissa tentou encontrar as palavras.

—Eu... eu...

—Vou mostrar seu quarto —disse Beth—. Parece a ponto de sofrer um colapso.

A rainha levou Marissa para a enorme escada, e enquanto subiam, Marissa olhou por cima do ombro. Wrath tinha uma expressão completamente desumana em seu rosto, a mandíbula tensa como o concreto.

Teve que deter-se.

—Está tudo bem? —perguntou-lhe.

Seu furioso olhar piorou.

—Esse seu irmão tem um talento natural para me encher o saco.

—Não quero te incomodar…

Wrath suavisou suas palavras.

—Isto foi pelo Butch, não? V me contou que foi com o policial e o resgatou. Me deixe adivinhar... Havers não apreciou que estivesse tão estreitamente ligada a nosso humano, correto?

Marissa só pôde assentir.

—O que disse, seu irmão realmente me enche o saco. Butch é nosso menino incluso se não pertencer à Irmandade e qualquer que cuide dele cuida de nós. Assim estabelece sua residência aqui para o resto de sua natural e maldita vida pelo que a mim se refere. —Wrath se encaminhou para a base das escadas—. Fodido Havers, fodido idiota. Vou procurar V e lhe fazer saber que está aqui. Butch não está por aqui, mas V saberá onde o encontrar.

—OH... não, não tem que...

Wrath não se deteve, nem vacilou, lhe recordando que não lhe dizia ao Rei o que tinha que fazer. Inclusive se não era algo pelo que preocupar-se.

—Bem —murmurou Beth—, ao menos não vai armado.

—Estou surpresa de que lhe importe tanto.

—Está brincando? É atroz. Colocar você para fora justo antes do amanhecer? De toda forma, vamos instalar você.

Marissa resistiu ao suave puxão da mulher.

—Me recebeu tão gentilmente. Como pode ser tão…

—Marissa. —Os olhos azuis escuro de Beth eram francos—. Salvou o homem que amo. Quando atiraram nele e meu sangue não era o suficientemente forte, manteve-o com vida ao lhe oferecer seu pulso. Assim vamos ser perfeitamente claras. Não há absolutamente nada que não fizesse por você.

 

Quando chegou o amanhecer e a luz entrou em torrentes no apartamento de cobertura, Butch despertou completamente excitado e no processo de fazer girar os quadris em uma confusão de lençóis de cetim. Estava coberto de suor, a pele hipersensível, a ereção pulsando.

Aturdido, confuso entre o que era real e o que esperava que fosse real, alargou a mão para baixo. Abrindo o cinto. Colocando a mão através de suas calças e boxers.

Imagens da Marissa se formavam redemoinhos em sua cabeça, metade fantasia em que tinha estado tão gloriosamente perdido, metade lembranças de seu tato. Sua mão caiu ritmicamente, sem estar certo se era ele o que se estava acariciando… Possivelmente era ela… Deus, desejava que fosse ela.

Fechou os olhos e arqueou as costas. OH, sim. Tão bom.

Mas então despertou.

Quando se precaveu do que estava fazendo, ficou violento. Zangado consigo mesmo e ainda mais pelo que estava acontecendo, manuseou rudemente seu sexo até que ladrou uma maldição e ejaculou. Não podia chamar isso de orgasmo. Mas bem seu penis soltou tacos em voz alta.

Com um temor, preparou-se e olhou abaixo para sua mão.

Logo simplesmente fraquejou de alívio. Ao menos algo tinha retornado à normalidade.

Depois de chutar fora suas calças e limpar-se com os boxers, foi ao banheiro e abriu o chuveiro. Sob o jorro, tudo no que podia pensar era em Marissa. Tinha saudades com uma fome aguda, uma espécie de dor faminta que lembrava quando deixou de fumar um ano atrás.

E merda, não havia Nicoderm para isto.

Quando saiu do banheiro com uma toalha ao redor dos quadris, seu novo telefone celular estava soando. Revolveu entre os travesseiros e finalmente o encontrou.

—Sim, V? —falou com voz áspera. Homem, sua voz sempre tinha soado como o traseiro pelas manhãs e hoje não era diferente. Soava como o motor de um carro que não queria ligar.

De acordo, já havia duas coisas normais a seu favor.

—Marissa se mudou.

—O que? —afundou-se no colchão—. De que demônios está falando?

—Havers a colocou para fora.

—Por minha culpa?

—Sim.

—Esse bastardo…

—Está no complexo, assim não se preocupe por sua segurança. Mas está desconcertada como o demônio. —Houve um longo silencio—. Policial? Está aí, amigo?

—Sim. —Butch caiu de novo na cama. Precavendo-se de que os tensos músculos se moviam nervosamente pela necessidade de chegar a ela.

—Como disse, está bem. Quer que a leve com você esta noite?

Butch levantou a mão para os olhos. A idéia que alguém a machucasse de qualquer forma o voltava completamente louco. Ao extremo da violência.

—Butch? Olá?

 

Quando Marissa se acomodou em uma cama com dossel, levantou as mantas até o pescoço e desejou não estar nua. O problema era que não tinha roupas.

Deus, embora ninguém se incomodaria aqui, estar nua… parecia incorreto. Escandaloso, embora ninguém saberia.

Deu uma olhada ao redor. Oquarto que lhe tinham dado era lindo, feitode um tecido transparente azul delphinium, com uma cena pastoral de uma dama e um pretendente ajoelhado repetida nas paredes, as cortinas, as colchas, a cadeira.

Não exatamente o que queria olhar. Os dois amantes franceses a curvavam, lhe parecendo não tão audível como visual, em um patética mostra do que não tinha com o Butch. O que nunca teria com o Butch.

Para solucionar o problema, apagou a luz e fechou os olhos. E a versão ocular dos plugues para os ouvidos funcionou como um feitiço.

Virgem Santa, que desastre. E tinha que perguntar-se de que maneira as coisas foram piorar. Fritz e os outros dois doggen tinham ido até a casa de seu irmão ,esperava que retornassem sem nada. Possivelmente Havers decidiria desfazer-se de suas coisas enquanto isso. Como tinha feito com ela.

Enquanto jazia na escuridão, olhou os escombros de sua vida, tratando de ver o que era ainda útil e o que tinha que abandonar como dispensável. Tudo o que encontrou foram desperdícios deprimentes, uma maioria de lembranças infelizes que não foram a nenhuma parte. Não tinha absolutamente nenhuma idéia do que queria ou aonde poderia ir.

E nada disto tinha sentido. Tinham passado três séculos aguardando e esperando que um homem se fixasse nela. Três séculos tratando de se encaixar com a glymera. Três séculos trabalhando desesperadamente para ser a irmã de alguém, a filha de alguém, a companheira de alguém. Todas essas expectativas externas tinham sido as leis físicas que tinham governado sua vida, mais onipresentes e fundamentais que a gravidade.

Salvo que, aonde a tinham levado tentar encontrá-los? Ao estar órfã, sem par, e rechaçada.

De acordo, então, a primeira norma para o resto de seus dias: não olhar ao exterior para definir-se. Poderia não ter nenhuma pista sobre quem era, mas melhor estar perdida e procurando, que empurrada por algum outro dentro de um status social limitado.

Ao tocar o telefone ao lado da cama se sobressaltou. Depois de soar cinco vezes, respondeu só porque se negava a parar.

—Olá?

—Senhora? —Um doggen—. Tem uma chamada de nosso amo Butch. Aceita-a?

OH, fenomenal. Assim que se inteirou.

—Senhora?

—Ah… sim, aceito-a.

—Muito bem. Dei-lhe sua marcação direta. Por favor não desligue.

Houve um clique e então essa áspera voz delatora.

—Marissa? Está bem?

Na realidade não, pensou, mas não era assunto dele.

—Sim, obrigado. Beth e Wrath foram muito caridosos comigo.

—Escute, quero vê-la.

—Verdade? Então, suponho que todos os seus problemas desapareceram magicamente? Deve estar encantado de voltar para a normalidade. Felicidades.

Ele amaldiçoou.

—Estou preocupado por você.

—Muito amável de sua parte, mas...

—Marissa...

—… não queremos me pôr em perigo, não?

—Escuta, só…

—Assim melhor que se mantenha longe para que não me faça mal…

—Maldita seja, Marissa. Maldita seja tudo isto!

Fechou os olhos, zangada com o mundo, com ele, com seu irmão e com ela mesma. E com o Butch também zangando-se, esta conversa era uma granada de mão a ponto de explodir.

Em voz baixa disse. —Agradeço que ligasse para ver como estava, mas estou bem.

—Merda...

—Sim, acredito que isso define bem a situação. Adeus, Butch.

Enquanto desligava o telefone, percebeu de que toda ela tremia.

O telefone voltou a soar imediatamente e olhou encolerizada a mesinha de noite. Com um rápido movimento de inclinação o pegou, esticou a mão e arrancou o fio da parede.

Empurrando o corpo sob os lençóis, enroscou-se sobre um lado. Não havia forma de que pudesse dormir, mas de toda forma fechou os olhos.

Enquanto jogava fumaça na escuridão, chegou a uma conclusão. Embora tudo era… bom, uma merda, para utilizar o eloqüente resumo de Butch… podia dizer isto ao menos: Estar de saco cheia era melhor que ter um ataque de pânico.

 

Vinte minutos mais tarde, com o boné dos Sox levemente baixada e um par de óculos de sol em seu lugar, Butch caminhou para um Funda Accord verde escuro 2003. Olhou a direita e esquerda. Não havia ninguém no beco. Não havia janelas nos edifícios. Não passavam carros na Rua Novena.

Inclinando-se, recolheu uma pedra do chão e fez um buraco no vidro do condutor. Quando o alarme se descontrolou, afastou-se do sedan mesclando-se nas sombras. Ninguém se aproximou. O ruído foi diminuindo.

Não tinha roubado um carro desde que tinha dezesseis anos e era um delinqüente juvenil no sul de Boston, mas tinha retornado em plena forma. Caminhou para o carro serenamente, arrebentou a porta e entrou. A seqüência que seguiu foi rápida e eficiente, provando que o crime, como seu acento southie, era algo que nunca tinha perdido: Arrancou o painel sob o painel. Encontrou os cabos. Pôs juntos os dois corretos e… brrummmm

Butch tirou do meio o resto dos pedaços de cristal com o cotovelo e saiu conduzindo tranqüilamente. Como os joelhos quase lhe tocavam o peito, esticou a mão para baixo, pressionou a alavanca e empurrou o assento para trás tanto como pôde. Pondo o braço na janela, como se estivesse tomando o ar frio primaveril, inclinou-se para trás, despreocupado.

Quando chegou ao sinal de pare ao final do beco, golpeou o sinal de tráfico e freou de repente: Seguir as leis de tráfico quando está em um veículo roubado e sem ter identificação era uma missão crítica.

Ao virar à esquerda dirigindo-se para a Novena, sentiu-se mal por qualquer cidadão que acabou de foder magnificamente. Perder seu carro não era divertido, e ao chegar ao primeiro semáforo, abriu o porta-luvas. O carro estava em nome de uma tal Sally Forrester. 1247 Barnstable Street.

Jurou lhe devolver o carro logo que fosse possível e lhe deixar dinheiro para cobrir os inconvenientes e a janela quebrada.

Falando de coisas quebradas… inclinou o retrovisor para ele. OH, Cristo, parecia um completo desastre. Precisava se barbear e seu rosto ainda parecia um desastre pelas surras. Com uma maldição, recolocou o espelho para não ter que ver um plano detalhado de sua feiúra.

Infelizmente, ainda tinha uma imagem bastante clara do que estava fazendo.

Saindo da cidade no Accord da Sally Forrester, alardeando de focinho de porco em plano saco de boxe, foi apanhado por um brilho de sua própria consciência que não agradeceu. Sempre tinha se movido na linha entre o bem e o mal, tinha estado sempre descolocado a forçar as normas para convir a seus propósitos. Demônios, batia nos suspeitos até que se quebravam. Fazendo vista grossa em alguma ocasião se isso podia lhe conseguir informação em um caso. Consumindo drogas inclusive depois unir ao corpo policialcial… ao menos até que abandonou o vício da coca.

A única coisa que não aceitou foram subornos ou favores sexuais no cumprimento do dever.

Assim, bem, parece que esses dois o converteram em um herói.

E o que estava fazendo agora? Indo atrás de uma mulher cuja vida já era um desastre. Só para poder unir-se a merda de desfile que a estava invadindo por completo.

Exceto que não poderia deter-se. Depois de ter tornado a ligar para Marissa repetidas vezes, tinha sido incapaz de deter-se nesta viagem pela rodovia. Antes obcecado, agora estava posuído por ela. Tinha que ver se estava bem e… bom, demônios, pensava que talvez poderia explicar-se um pouco melhor.

Entretanto, havia uma coisa boa. De certo parecia estar normal por dentro. Quando estava na casa de V, feito-se um novo corte no braço com uma faca porque face aos resultados da masturbação, tinha que comprovar seu sangue. Tinha sido vermelha, graças a Deus.

Aspirou profundamente… e logo franziu o cenho. Pondo o nariz sob o bíceps, inspirou outra vez. Que demônios era isto? Inclusive com o vento correndo pelo carro, e apesar das roupas, podia cheirar algo e não, não era a merda enjoativa do talco, o que felizmente tinha desaparecido. Agora era algo que saía dele.

Cristo. Ultimamente, era como se seu corpo fosse um ambientador elétrico que não podia controlar. Mas ao menos deste perfume ele gostava…

Whoa. Podia ser... Não, não era possível. Simplesmente não o era. Não?

Certamente não. Agarrou seu telefone celular e teclou rapidamente. Logo que ouviu o “olá” de V, disse. —Dirijo-me para ai, estou chegando.

Houve um som áspero e uma inalação como se Vishous estivesse fumando.

—Não estou surpreso. Mas como vem?

—No carro de Sally Forrester.

—De quem?

—Não tenho idéia, roubei-o. Olhe, não levo nada estranho. —Sim, certo—. Bom, estranho do tipo lesser. Só preciso ver Marissa.

Houve um longo silencio.

—Deixarei você entrar através das portas. Demônios, o mhis manteve a esses assassinos fora da propriedade durante setenta anos, assim não é provável que lhe possam rastrear aqui. E não acredito que venha aqui por nós. A não ser que estejam mal da cabeça?

—Maldição, claro que não.

Butch recolocou o boné dos Sox, e enquanto passava o pulso pelo nariz, chegou-lhe outro odor de si mesmo.

—Ah, V… escuta, há algo um pouco estranho que está me acontecendo.

—O que?

—Cheiro como a colônia de homem.

—Melhor para você. Às mulheres adoram esse tipo de coisas.

—Vishous, cheiro ao Obsession, e não uso nenhum, entendeu?

Houve um silêncio na linha. Logo. —Os humanos não se vinculam.

—OH, sério. Quer dizer isso a meu sistema nervoso central e a minhas glândulas sudoríparas? Apreciariam as notícias de última hora, estou certo.

—Deu-se conta disso depois de estar os dois juntos nesse quarto?

—Foi pior após, mas acredito que cheirei um pouco como isso em outra ocasião.

—Quando?

—A vi entrar no carro com outro homem.

—Faz quando tempo?

—Quase três meses. Pus a mão em cima da Glock quando vi o que acontecia.

Silêncio.

—Butch, os humanos não se vinculam como nós.

—Sei.

Mais silencio. Então. —Por acaso é adotado?

—Não. E não há presas na família, se isso for o que está pensando. V, homem, bebi algo de você. Está certo de que não me hei…

—Geneticamente é a única forma. Essa coisa de morder/converter são só tolices do folclore. Olhe, deixo você atravessar as portas e já falaremos depois de que veja Marissa. OH, e atende. Wrath não tem problema em dar uma surra aos lessers para averiguar que te aconteceu. Mas não quer que se envolva.

A mão de Butch girou bruscamente o volante.

—Droga. Isso. Passei horas ganhando o direito a me vingar, V. Sangrei pelo direito de golpear a esses malditos e obter minhas próprias respostas.

—Wrath...

—É um homem bom, mas não é meu Rei. Assim pode deixar isso.

—Só quer te proteger.

—Diga a ele que não preciso do favor.

V soltou uma enxurrada de palavrões ou dois, na Velha Língua, então resmungou. —Bom.

—Obrigado.

—Uma última coisa, policial. Marissa é uma convidada na Irmandade. Se ela não quiser ver você, o colocaremos para fora rapidamente, OK?

—Se não quiser conversar, irei eu mesmo. Juro-o.

 

Quando Marissa escutou a batida na porta, entreabriu os olhos e checou o relógio. Eram dez da manhã e não tinha dormido nada. Deus, estava exausta.

Mas possivelmente era Fritz com um relatório de suas coisas.

—Sim?

A porta se abriu para revelar uma grande sombra escura com um boné de beisebol.

Sentou-se, mantendo as mantas sobre seus seios nus.

—Butch?

—Olá. —tirou-se o boné, espremendo-o em uma mão e alisando o cabelo com a outra.

Ela desejou uma vela para ter luz.

—O que está fazendo aqui?

—Ah… Queria me assegurar em pessoa de que estava bem. Além disso o telefone… —Suas sobrancelhas se levantaram como se tivesse captado uma vista do fio que tinha arrancado da parede—. Um, se… seu telefone não funcionava. Tem problema em que eu entre um minuto?

Enquanto inspirava profundamente, tudo o que pôde cheirar foi a ele, o aroma chegou a seu nariz e se derramou sobre todo seu corpo.

Bastardo, pensou. Irresistível bastardo.

—Marissa, não vou equilibrar me sobre você, prometo-lhe isso. Sei que esta zangada. Mas podemos simplesmente falar?

—Bem —disse, sacudindo a cabeça—. Mas não acredite que vamos resolver alguma coisa.

Enquanto ele dava um passo para frente, caiu na conta de que era uma péssima idéia. Se queria falar, deveriam haver-se encontrado no andar de baixo,depois de tudo, era muito masculino. E ela estava muito nua. E agora estavam…, fechados juntos em um quarto.

Bom plano. Excelente trabalho. Possivelmente agora deveria saltar pela janela.

Butch se apoiou na porta que tinha fechado.

—Primeiro, está bem aqui?

—Sim, estou. —Deus, isto era embaraçoso—. Butch …

—Sinto muito haver bancado seu Humphrey Bogart —seu rosto machucado simulou um coice—. Não é que acredite que não seja capaz de se cuidar. Estou totalmente apavorado e não posso suportar a idéia de que acabe ferida.

Marissa o olhou. Olhe, isso era simplesmente aterrador. Essa humilde e incompetente desculpa foi a responsável por lhe fazer entender que não se sentia a seu nível.

—Butch …

—Espere, por favor… só me escute. Me escute até o final e então partirei. —Inalou lentamente, seu grande peito se expandiu sob o fino tecido da jaqueta negra—. Manter você longe de mim parece ser a única forma de assegurar que você estará a salvo. Mas é por ser eu o perigo, não por ser você fraca. Sei que não precisa de amparo ou ter nenhum tipo de vigilante.

No longo silencio que seguiu, mediu-o.

—Prove-o, Butch. Me diga o que aconteceu realmente. Não teve um acidente de carro, certo?

Ele esfregou os olhos.

— Alguns lessers me pegaram. —Quando ela ofegou, disse rapidamente—. Não foi um grande problema. Honestamente…

Ela levantou a mão.

—Para. Diga-me isso tudo ou nada. Não quero meias verdades. Isso nos rebaixa.

Amaldiçoou. Esfregou mais os olhos.

—Butch, fala ou vai.

—OK… OK. —Seu olhar cor avelã se elevou para seu rosto—. Pelo que imaginamos, fui interrogado durante doze horas.

Agarrou os lençóis o suficientemente forte para intumescer os dedos.

—Interrogado… como?

—Não recordo muito, mas nos apoiando no dano, diria que com o precioso material habitual.

—Material … habitual?

—Eletrochoque, murros a punho descoberto, a merda embaixo das unhas. —Quando parou, teve a certeza de que a lista continuava.

Uma inundação de bílis borbulhou em sua garganta.

—OH… Deus…

—Não pense nisso. Acabou-se. Terminou.

Doce Virgem do Fade, como podia dizer isso?

—Por que? —esclareceu a voz. Pensou que já que tinha querido a história completa era malditamente conveniente que demonstrasse que podia dirigi-lo—. Por que esteve em quarentena, então?

—Colocaram-me algo. —desabotoou-se a camisa seda e lhe mostrou a negra cicatriz de seu abdômen—. V me encontrou quando me deram por morto no bosque e tirou o que quer que fosse, mas agora estou como… conectado com os lessers. —Quando ela se esticou, deixou cair a camisa—. Se, os assassinos. Os que tratam de exterminar a sua raça. Assim acredite quando te digo, que minha necessidade de saber o que me fizeram não é um tipo de kumbaya, dessa merda de encontre-a-você-mesmo. Seus inimigos alteraram meu corpo. Puseram algo dentro de mim.

—É… um deles?

—Não quero sê-lo. E não quero ferir você nem a ninguém mais. Mas verá, esse é o problema. Há muita merda que não sei.

—Butch, me deixe te ajudar.

Ele amaldiçoou.

—O que acontece...

—E o que acontece se não ir trocar nada. —Inspirou profundamente—. Não vou mentir. Tenho medo. Mas não quero lhe voltar as costas e você é ótimo para tentá-lo e me voltar isso .

Ele sacudiu a cabeça, seu olhar continha receio.

—Sempre foi tão valente?

—Não. Mas parece que para você eu sou. Vai me deixar entrar?

—Quero fazê-lo. Sinto como se o precisasse. —Aconteceu bastante tempo antes de que cruzasse o quarto—. Estaria tudo bem se me sentar perto de você?

Quando ela assentiu e se moveu, sentou-se na cama, o colchão afundou sob seu peso e seu corpo deslizou para o dele. Olhou-a durante muito tempo antes de lhe buscar a mão. Deus, sua palma era tão cálida e grande.

Ele se inclinou e lhe roçou os nódulos com os lábios, então deslizou sua boca para frente e atrás.

—Quero me deitar perto de você. Não pelo sexo. Não por nada disso. Só...

—Sim.

Enquanto se levantava, ela abriu os lençóis, mas ele sacudiu a cabeça.

—Ficarei por cima.

Tirou o casaco e se estendeu a seu lado. Aproximou-a. Beijou-a no alto da cabeça.

—Parece estar realmente cansada —lhe disse à luz das velas.

—Sinto-me realmente cansada.

—Pois durma e me deixe velar você.

Apertou-se mais contra seu grande corpo e exalou. Era tão bom descansar a cabeça em seu peito e sentir seu calor e cheirá-lo. Ele acariciou as costas lentamente, e caiu dormindo tão rapidamente que não se deu conta de que o tinha feito até que sentiu a cama movendo-se e despertou.

—Butch?

—Tenho que ir falar com o Vishous. —Beijou-lhe o dorso da mão—. Segue descansando. Eu não gosto de vê-la tão pálida.

Ela sorriu um pouco.

—Sem guardiões.

—Isso era só uma sugestão. —Seus lábios se levantaram por um lado—. Que tal se nos encontrassemos antes da Primeira Refeição? Esperarei você na biblioteca.

Quando assentiu, ele se inclinou e lhe percorreu a bochecha com as pontas dos dedos. Então lhe olhou os lábios e o aroma que desprendia se fez abruptamente mais forte.

Seus olhos se fecharam.

Tomou menos de um segundo antes de que a sede se acendesse em suas veias, um tipo de ardente, premente necessidade. Por própria vontade, seus olhos se deslizaram do rosto à garganta e as presas começavam a lhe pulsar enquanto a realidade se reduzia a nada que não fosse um instinto: queria lhe perfurar a grossa veia. Queria alimentar-se dele. E queria ter sexo com ele enquanto o fazia.

Luxúria de Sangue.

OH, Deus. Esse era o por que de estar tão cansada. Tinha sido incapaz de alimentar-se de Rehvenge a outra noite, e então tinha começado todo o estresse por que Butch estivesse tão doente, seguido de seu desaparecimento. Além disso o assunto com o Havers.

Não era que os porquês importassem neste momento. Tudo o que distinguia era a fome.

Seus lábios se abriram e começou a procurar para…

Mas, o que aconteceria se bebia dele?

Bom, isso era fácil. Drenaria-o até deixá-lo seco tentando satisfazer-se porque seu sangue humano era muito fraco. Poderia matá-lo.

Mas Deus, devia ter sabor tão bom.

Cortou a voz da luxúria de sangue, e em um ato de vontade de ferro, pôs os braços sob os lençóis.

—Verei você esta noite.

Enquanto Butch se levantava, seus olhos se empanaram e colocou as mãos frente aos quadris, como se estivesse escondendo uma ereção. O que naturalmente fez que a urgência por agarrá-lo-se fizesse mais forte.

—Se cuide, Marissa —disse em tom baixo, triste.

Estava na porta quando ela disse.

—Butch?

—Sim?

—Não acredito que seja fraco.

Ele franziu o cenho como se se perguntasse a que vinha isso.

—Tampouco eu. Dorme bem, preciosa. Verei você logo.

Quando ficou sozinha, esperou a que a fome acontecesse e o fez. Com tudo o que estava acontecendo nestes momentos, adoraria ter o alimento longe durante um momento. Aproximar-se tanto de Rehvenge não parecia correto.

 

Van conduziu pelo centro da cidade enquanto a noite chegava ao Caldwell. depois de sair da estrada, tomou um desviou para o rio, com cuidado o caminhão sorteou a estrada infestada de buracos sob a ponte da grande cidade. deteve-se sob uma torre metálica marcada com um F-8 pintado com spray laranja, saiu fora e olhou a seu redor.

O tráfico corria por cima de sua cabeça, semibatendo ao acontecer com seu eco, enquanto os carros deixavam atrás os ocasionais gritos das buzinas. Aqui embaixo, ao nível do rio, o Hudson era quase tão ruidoso como o estrépito de cima. Tinha sido o primeiro dia em que o calor primaveril disparou, e a água fluía rapidamente em sua carreira por derreter a neve.

O sombrio junco cinza parecia asfalto líquido. Cheirava a lodo.

Examinou a área, com os instintos alerta. Homem, estar sozinho sob a ponte nunca era um bom lugar para estar. Especialmente quando a luz do dia se desvanecia.

Que se fodam, não deveria ter vindo. Voltou-se para o caminhão.

Xavier avançou das sombras.

—Alegra-me que o tenha feito, filho.

Van retrocedeu pela surpresa. Merda, este tipo era uma espécie de fantasma.

—Por que não pudemos fazê-lo por telefone? —OK, não soei muito convincente—. Droga, tenho coisas que fazer e teria que estar fazendo-as.

—Preciso que me ajude com algo.

—Disse-te que não me interessava.

Xavier sorriu um pouco.

—Sim, fez-o, certo?

O som de rodas no cascalho solto chegou aos ouvidos de Van e olhou a sua esquerda. O dourado Chrysler todo terrero, uma caminhonete completamente inesquecível, estava estacionada à esquerda junto a ele.

Mantendo os olhos no Xavier, Van colocou a mão no bolso e deslizou o dedo no gatilho da nove milímetros. Se queriam tentá-lo e lhe roubar, iriam ter que brigar antes.

—Há algo para você na parte de trás, filho. Para frente. Abre-o. —Fez uma pausa—. Tem medo, Van?

—Que se fodam. —aproximou-se, preparado para entrar em ação. Mas quando abriu a porta, tudo o que pôde fazer foi retroceder. Seu irmão, Richard, estava preso com uma corda de nylon, e lhe tinham colocado cinta isolante sobre a boca e os olhos.

—Jesus, Rich... —quando tentou lhe alcançar, ouviu como uma pistola era martelada e levantou o olhar para o condutor da caminhonete. O bastardo do cabelo raspado aetrás do volante apontava o que parecia uma Smith & Wesson do quarenta justo à cara de Van.

—Eu gostaria que reconsiderasse meu convite —disse Xavier.

 

Depois no volante do carro de Sally Forrester, Butch amaldiçoava enquanto girava à esquerda ante um semáforo e via o carro patrulha do Caldwell estacionado no Stewart na esquina do Framingham e Hollis. Sagrado inferno. Conduzir por aí em um conversível com dois dos grandes em efetivo não fazia que um tipo se sentisse depravado.

Boa coisa que tivesse reforços. V ia junto a sua traseira no Escalade e se dirigiam em direção ao Barnstable Road.

Nove minutos depois, Butch encontrou o pequeno Cape Cod de Sally. Depois de apagar os faróis e deixar que o Accord rodasse até parar, quebrou o cabo de conexão para desligar o motor. A casa estava escura, assim que se aproximou diretamente à porta principal, empurrou o dinheiro através da ranhura do correio e saiu pisando leve atravessando o caminho para o Escalade. Não se preocupou com que pudessem o apanhar nesta rua tão tranqüila. Se alguém fizesse perguntas, V possivelmente lhes faria um Windex mental.

Estava-se metendo no SUV quando ficou congelado, uma estranha sensação de urgência lhe atravessou.

Sem nenhuma razão aparente, seu corpo começou a zumbir... essa era a única forma em que podia descrevê-lo. Como se houvesse um telefone celular com o vibrador colocado no centro de seu peito.

Rua abaixo... Rua abaixo. Teria que ir rua abaixo.

OH, Deus... Lessers por ali.

—Que acontece, policial?

—Sinto muito, estão perto.

—Joguemos, então. —Vishous saiu de trás do volante e ambos fecharam as portas. Quando V pôs o alarme, as luzes do Escalade piscaram uma vez.

—Para frente, policial. Vejamos aonde nos leva isto.

Butch começou a andar. Depois passou a trotar.

Juntos correram através das sombras do tranqüilo bairro, permanecendo fora dos atoleiros de luz lançados por alpendres e luzes. Cortaram por um pátio traseiro. Esquivando e rodeando as piscinas portáteis. Passaram furtivamente por uma garagem.

O bairro era de tipo vulgar. Os cães ladraram dando aviso. Passou um carro com os faróis apagados e um rap trovejando. E logo uma casa abandonada. Seguida de um solar vazio. Até que finalmente chegaram a uma decrépita casa de dois andares, em uso anos setenta, que estava rodeada por uma cerca de madeira de quase três metros de alto.

—Aqui dentro —disse Butch aferrando-se à grade.

—Me dê sua perna, policial.

Enquanto Butch se agarrava à parte superior de perto e usava o joelho, V lhe atirou por cima da cerca como se fosse um jornal da manhã. Aterrissou no chão.

Aí estavam. Três lessers. Dois dos quais arrastavam um homem fora da casa pelos braços.

Butch entrou instantaneamente em ponto de ebulição. Era um aborrecimento radiativo pelo que lhe tinham feito, frustrado por seus medos por Marissa, apanhado por sua natureza humana... e esses assassinos se converteram no ponto focal de sua agressividade.

Exceto que V se materializou a seu lado e lhe segurou pelo ombro. Quando Butch se voltou para dizer ao Irmão que fosse a merda, Vishous falou.

—Pode enfrentar a eles. Só mantém a calma. Há olhos por toda parte e sem o Rhage ao redor, preciso combater a batente, OK? Assim não posso tirar nenhum mhis. Não vou ser capaz de mascarar isto.

Butch olhou fixamente seu companheiro de quarto, compreendendo que era a primeira vez em toda sua vida que lhe davam rédea solta para brigar.

—Por que me permite isso agora?

—Temos que nos assegurar de que esta pronto —disse V, desencapando uma adaga—. E assim é como saberemos. Assim agarrarei os dois que têm o civil e você vai pelo outro lado.

Butch assentiu imediatamente, logo se adiantou, consciente do grande rugido que crepitava entre seus ouvidos e dentro de seu corpo. Quando conseguiu aproximar-se do lesser, este estava a ponto de entrar na casa, o tipo mudou de direção quando ouviu que se aproximava.

O bastardo simplesmente observou vexado como Butch se aproximava dele.

—É o momento de que mostre seu apoio. —O assassino se virou afastando-se.

—Há duas mulheres aqui dentro. A loira é realmente rápida, assim a quero...

Butch atacou por trás e lhe deu uma chave de braço, sujeitando a cabeça do bode e os ombros. Era como montar um cavalo de rodeio. O assassino se sacudia grosseiramente e dava voltas, agarrando os braços e as pernas do Butch. Quando isso não funcionou, o cara atirou aos dois contra a casa com a suficiente força para amolgar a coberta de alumínio.

Butch seguiu lhe sujeitando, o antebraço apertado contra o esôfago do lesser, sua outra mão no pulso retorcendo-a, puxando-a para trás. Para conseguir um agarre ainda melhor, enlaçou as pernas ao redor dos quadris do assassino, cruzou os tornozelos, e lhe espremeu com as coxas.

Levou um momento, mas a asfixia e o esforço finalmente fizeram cair ao não-morto.

Exceto, sagrado inferno, para quando os joelhos do lesser começaram a dobrar-se, Butch sabia o que sentia uma máquina de pinball. Tinha sido machucado contra o exterior da casa, depois contra o marco da porta da frente, e agora estavam no vestíbulo e estava sendo batido daqui para lá no reduzido espaço.

Seus miolos produziam um ruído metálico no interior do crânio e seus órgãos internos pareciam ovos mexidos, mas, maldita seja, não ia deixar escapar. Quanto mais tempo mantivesse o lesser ocupado, mas oportunidades teriam essas mulheres de escapar.

OH, merda, era o momento de uma volta no carrossel. O mundo girou e Butch golpeou primeiro o chão, o lesser arrastando-se terminou em cima dele.

Lugar errado para estar. Agora era ele quem não podia respirar.

Tirou uma perna, chutou contra a parede, e saiu debaixo dele, empurrando o torso do lesser. Desgraçadamente, o bastardo se retorceu também, e os dois começaram a rodar daqui para lá sobre o horrível tapeta laranja. Finalmente, a força do Butch se esgotou.

Com pouco esforço, o assassino se atirou em cima dele fazendo que ficassem cara a cara, depois sujeitou ao Butch com uma chave de braço, lhe imobilizando.

OK... Agora seria um bom momento para que V aparecesse.

Só que o lesser olhou para baixo e encontrou o olhar do Butch, e tudo simplesmente se desacelerou .A terra deixou de girar. Detido. Morto.

Outra classe de chave de parafuso os unia, mas esta era uma luta de olhares e Butch era o que tinha o controle, embora estava na parte inferior do montão de corpos. O lesser se transfigurou e Butch seguiu seus instintos.

O que significa que abriu a boca e começou a inspirar lentamente.

Mas não estava tomando ar. Estava tomando ao assassino. O absorvendo. O consumindo. Foi como antes no beco, mas agora não havia ninguém para deter o processo. Butch simplesmente seguiu sugando em uma inalação interminável, um fluxo de sombras negras passava dos olhos, nariz e boca do lesser entrando no Butch.

Que se sentia como um globo cheio de poluição. Sentia-se como se estivesse assumindo o mando do inimigo.

Quando teve terminado, o corpo do assassino simplesmente se desintegrou em cinzas, a fina neblina de partículas cinzas caía em sobre o rosto, peito e pernas de Butch.

—Merda.

Absolutamente desesperado, Butch deslocou os olhos ao redor. V estava inclinado na entrada principal, sujeitando-se ao marco como se a casa fosse a única coisa que permitia que seguisse se mantendo em pé.

—OH, Deus. —Butch rodou de flanco, o feio tapete raspava em seu rosto. Tinha o estômago miseravelmente revolto, a garganta ardia como se tivesse estado bebendo uísque escocês durante horas. Mas o que era pior ainda, o mal estava outra vez nele, correndo através de suas veias.

Quando respirou através do nariz, cheirou a talco de bebe.

E soube que era ele, não os restos do lesser.

—V... —disse com desespero—. O que é o eu fiz?

—Não sei, policial. Não tenho nem idéia.

 

Vinte minutos depois, Vishous se encerrou com seu companheiro de quarto no Escalade e pôs todos os certos. Enquanto ligava com o celular e o punha na orelha, olhava de esguelha aButch. O policial parecia muito doente no assento do passageiro, como se estivesse enjoado, sofrendo uma defasagem de horário e caindo doente de gripe ao mesmo tempo. E cheirava a talco de bebê, como se ao suar exsudasse a fragrância através de cada um de seus poros.

Enquanto o telefone soava, Vishous arrancou o SUV, e dirigia, recordando como Butch se defendeu aplicando alguma classe de molho de merda contra o lesser. Citando uma frase do policial, Santa Maria, Mãe de Deus.

Homem... em um trabalho como este era uma arma infernal. Mas as complicações eram imensas.

V deu uma olhada outra vez. E notou para sua tranqüilidade que Butch não o olhava como o faria um lesser.

Merda.

—Wrath? —Disse V quando responderam a sua chamada—. Escuta, eu... merda... Aqui nosso menino acaba de consumir a um lesser. Não... Rhage não. Butch. Sim, Butch. Que? Não, vi-o... Consumir ao tipo. Não sei como, mas o lesser se transformou em pó. Não, não acredito que houvesse uma faca envolta. Inalou a maldita coisa. Olhe, para ser prudente, vou levá-lo a minha casa e o deixarei dar uma cabeçada. Logo volto para casa, OK? Bem... não, não tenho nem idéia de como o fez, mas te darei os detalhes quando chegar ao complexo. Que tal? Bem. Uh- huh. OH, Por Deus... sim, estou bem e deixa de me perguntar isso. Logo.

Desligou e atirou o telefone à estrada, a voz lhe chegou, toda fraca e rouca.

—Me alegro de que não me leve para casa.

—Desejaria-o, entretanto. —V agarrou um cigarro puro e o acendeu, tragando-o fortemente. Quando soprou a fumaça, expirou em uma janela.

—Jesus Cristo, policial, como soube que podia fazer isso?

—Não sabia. —Butch tossiu um pouco, como se lhe incomodasse a garganta.

—Me deixe ter uma de suas adagas.

V franziu o cenho e olhou a seu companheiro de quarto.

—Por que?

—Só me dê isso.

Quando V duvidou, Butch sacudiu a cabeça com tristeza—. Não vou matar você com ela. Juro-o por minha mãe.

Toparam com um semáforo em vermelho e afastou seu cinto de segurança do meio para poder desencapar uma das lâminas da cartucheira do peito. Deu a arma aButch pela manga, depois estudou a estrada para frente. Quando deu uma olhada por cima, Butch tinha subido a manga e estava cortando a parte interior do antebraço. Ambos cravaram o olhar no que saía dali.

—Perco sangue negro outra vez.

—Bom... Não é uma surpresa.

—Cheiro como um deles também.

—Sim. —Homem, V não gostava da obsessão que o policial tinha com a adaga—. Que tal se me devolver a adaga, colega?

Butch a entregou e V limpou o negro do aço em sua roupa de couro antes de voltar a embainhar a arma.

Butch envolveu os braços ao redor da cintura.

—Não quero estar ao redor de qualquer lugar que esteja Marissa quando estou assim, OK?

—Nenhum problema. Encarregarei-me de tudo.

—V?

—O que?

—Morreria antes de te fazer mal.

Os olhos de V cruzaram rapidamente o espaço entre eles. O rosto do policial estava cinza e seus olhos cor avelã absolutamente sérios, as palavras não eram uma mera expressão de pensamentos a não ser um voto: Butch O´Neal estava preparado para tirar a si mesmo do jogo se esta merda ficasse crítica. E era completamente capaz de fazer o trabalho.

V inalou outra vez seu cigarro e tentou não afeiçoar-se mais ao humano.

—Com um pouco de sorte não chegaremos a isso.

Por favor, Deus, não permita que cheguemos a isso.

 

Marissa passeava fazendo círculos através da biblioteca da Irmandade que terminavam na janela que dava para terraço e a piscina.

Pensou que o dia devia ter sido quente. Havia emplastros na neve que se derreteu, revelando um negro x no chão do terraço e terra de cor café no setor da grama.

OH, a quem demônios lhe importava a paisagem.

Butch tinha saído depois da primeira refeição dizendo que devia realizar um trabalho e que não demoraria. O quel estava bem. Estupendo. Justo. Mas isso tinha sido há duas horas.

Voltou-se para escutar que alguém entrava na quarto.

—Butch? OH... é você.

Vishous se deteve no umbral da porta, um legítimo guerreiro rodeado pelas extravagantes lâminas douradas da moldura.

Querida Virgem do Fade… sua expressão era totalmente vazia, o tipo de atitude que alguém adota quando traz más notícias.

—Me diga que está vivo —disse ela—, me salve a vida e me diga que está vivo.

—Está vivo.

Os joelhos da Marissa se dobraram e teve que agarrar-se a estante de livros que cobriam as paredes.

—Mas não virá, certo?

—Não.

Quando ficaram olhando fixamente um ao outro, ela notou distraídamente que vestia uma fina camisa branca com suas calças de couro negro: uma Turnbull and Asser com botões nas pontas do pescoço. Ela reconheceu o corte dos tecidos, era o que Butch vestia.

Marissa cruzou um braço por cima de sua cintura, aflita pelo Vishous embora ele estivesse do outro lado do quarto. Parecia um homem tão perigoso… E não pelas tatuagens em sua têmpora, nem pela negra barba de cabrito que luzia, nem por seu temível corpo. O Irmão era frio até a medula, e alguém tão distante era capaz de qualquer coisa.

—Onde está?—perguntou ela.

—Está bem.

—Então porque não está aqui?

—Foi sozinho há uma pequena briga.

Uma pequena briga. Lhe dobraram os joelhos novamente quando as lembranças de estar ao lado da cama do Butch retornaram para sua cabeça. Viu-o jazendo entre o lençol de hospital com essa bata, vulnerável, quase morrendo, poluído por algo ruim.

—Quero vê-lo.

—Não está aqui.

—Está com meu irmão?

—Não.

—E você não vai me dizer onde ele está, certo?

—Ligará a qualquer momento.

—Foi com os lessers? —quando tudo o que fez Vishous foi seguir olhando-a fixamente, o coração disparou. Não podia suportar que Butch se visse envolto nesta guerra. Tendo em conta o que já lhe tinha acontecido—. Maldição! me diga se foi com os assassinos, presunçoso bastardo!

Só silêncio. O qual é obvio respondia a pergunta. E também sugeria que Vishous não se importava se estava ou não zangada com ele.

Levantando a saia, Marissa se aproximou do guerreiro. Ao fazê-lo teve que dobrar o pescoço para poder olhá-lo no rosto. Deus, esses olhos, olhos como diamantes brancos com linhas cor azul meia-noite ao redor da íris. Frios. Muito, muito frios.

Fez o melhor que pôde para ocultar que tremia, mas o notou. Olhou seus ombros.

—Tem medo de mim Marissa? —disse—. Exatamente, o que acredita que posso te fazer?

Ignorou isso.

—Não quero que Butch lute.

Ele arqueou de uma de suas negras sobrancelhas.

—Não é de sua incumbência.

—É muito perigoso para ele

—Depois desta noite, não estou tão certo disso.

O rígido sorriso do Irmão fez que desse um passo atrás, mas a raiva a salvou de uma retirada total.

—Lembra-se daquela cama de hospital? Viu o que lhe fizeram da última vez. Pensei que Butch te importava.

—Sei que é um membro ativo e está deslocado, será utilizado.

—Eu não gosto da Irmandade neste momento —replicou ela—, nem de você tampouco.

Tratou de passar a seu lado, mas uma mão se moveu rapidamente, tomando-a pelo braço e aproximando- ,a de um puxão, dele, sustentando-a, embora não machucando-a. Os olhos lhe percorreram o rosto, o pescoço e logo se deslizaram pelo corpo.

E foi então quando viu o fogo nele. O calor vulcânico. O inferno interior que estava encerrado por todo esse frio autocontrole.

—Me solte —sussurrou, com o coração martelando fortemente.

—Não estou surpreso —Sua resposta foi tranqüila. Tranqüila como uma faca afiada descansando sobre uma mesa.

—A respeito de que?

—É uma fêmea que vale a pena. Assim não deveria agradar você —seus olhos cintilaram, estreitando-se sobre seu rosto—. Sabe, realmente é uma grande beldade da espécie, sabia?

—Não… Não o sou.

—Sim, é —A voz do Vishous foi ficando cada vez mais baixa, mais suave, até que não esteve certa de se realmente o ouvia ou estava em sua mente —Butch é uma sábia opção para você, fêmea. Cuidará de você, se o deixar. Quer, Marissa? Permitirá que tome conta de você?

Enquanto esses olhos de diamante a hipnotizavam, sentiu o polegar dele mover-se sobre seu pulso, para trás e para frente. O ritmo de seu coração descendeu gradualmente até fazer-se preguiçoso.

—Responde a minha pergunta, Marissa.

Ela se cambaleou

—O que? Qual foi a pergunta?

—Deixasse-o tomar ? —Vishous inclinou a cabeça e pôs a boca em seu ouvido—. Tomasse dentro de você?

—Sim… —exalou, consciente de que estavam falando de sexo, mas muito seduzida pela situação para não responder—. Tomarei dentro de mim.

A forte mão que a sujeitava se afrouxou, e começou a lhe acariciar o braço, movendo-se cálida e firmemente sobre sua pele. Ele olhou para onde a estava tocando, com uma expressão de profunda concentração no rosto.

—Bem. Isso é bom. Vocês dois são bonitos juntos. Uma maldita inspiração.

O homem se voltou sobre seus pés e saiu majestosamente do quarto.

Desorientada e surpresa Marissa cambaleou para a porta da biblioteca e viu que Vishous começava a subir as escadas, suas fortes coxas ganhando distância sem nenhum esforço.

Sem prévio aviso se deteve e voltou a cabeça para ela. Marissa levou uma mão à garganta.

O sorriso do Vishous era tão escuro como seus olhos eram pálidos

—Vamos, Marissa. Realmente pensou que ia te beijar?

Ela boqueou, isso era exatamente o que tinha estado pensando.

Vishous sacudiu a cabeça

—É a fêmea de Butch e tanto se terminar junto a ele como se não, sempre o será para mim —começou a subir de novo—. Além do que não é meu tipo. Sua pele é muito suave.

 

V entrou em estudo do Wrath e fechou as portas duplas, pensando que esse pequeno bate-papo com Marissa tinha sido perturbador como o inferno em diferentes níveis. Deus, não tinha lido os pensamentos de ninguém em semanas, mas os dela os distinguiu claros como o dia. Ou talvez só arriscou uma conjectura. Demônios, certamente o segundo. A julgar por esses olhos, abertos como pratos, claramente tinha estado convencida de que a ia beijar.

A razão pela qual ficou olhando-a fixamente era que o fascinava, não que se sentisse atraído por ela. Queria saber que havia nela que fazia que Butch a tocasse com tanta calidez e amor. Era algo em sua pele? Em seus ossos? Sua beleza? Como o fazia?

Como levava Butch a um lugar onde o sexo se convertia em comunhão?

V esfregou o centro do seu peito, consciente de uma pontada de solidão.

—Olá meu irmão —Wrath se inclinou, sobre seu delicado escritório, todo ele sólidos antebraços e grandes mãos—. Esta aqui para informar ou para se fazer de modelo para uma escultura?

—Eu… O sinto. Estou distraído.

Vishous se sentou e lhe contou todos os detalhes sobre a briga, especialmente o final, quando tinha observado o lesser desaparecer no ar, graças a seu companheiro de quarto.

—Maldição! —exalou Wrath.

V foi para a chaminé e jogou a bituca de um charuto no fogo.

—Nunca tinha visto nada parecido.

—Está bem?

—Não sei. Tivesse-o levado ao Havers para uma verificação, mas para o policial não há volta à clínica. Neste momento, está em meu apartamento de cobertura com seu celular ligado. Me ligará se as coisas ficam difíceis e então pensarei em algo.

As sobrancelhas do Wrath desapareceram detrás de seus óculos de sol espelhados.

—Estas certo está de que os lessers não podem rastreá-lo?

—Endemoniadamente certo. Em ambos os casos, foi ele quem foi atrás deles. É como se os cheirasse ou algo assim. Quando se aproxima parecem reconhecê-lo, mas é ele quem sempre se conecta primeiro.

Wrath olhou para baixo à pilha de papéis em seu escritório

—Eu não gosto que esteja aí fora sozinho. Eu não gosto nada.

Houve uma longa pausa até que V disse:

—Poderia ir buscá-lo. Trazê-lo para casa.

Wrath tirou os óculos de sol. Quando esfregou os olhos, o anel do Rei, com esse maciço diamante negro, cintilou no dedo do meio—. Temos fêmeas aqui. Uma das quais está grávida.

—Eu posso vigiá-lo. Posso me assegurar de que fique no Pit. Posso selar o túnel de acesso.

—Demônios —disse Wrath colocando de novo os óculos de sol—. Vai até ele. Traz para casa o nosso moço .

 

Para Van, a parte mas aterradora de sua indução à Sociedade Lessening não foi a conversão física, nem O Omega, nem a natureza involuntária de tudo isso. Não que essa merda não fosse horripilante.

Foi. Jesus… saber que o mal realmente existia e que caminhava por aí e… o fazia coisas às pessoas. Sim, era um enorme despertar, da pior das formas.

Mas não a parte mais aterradora.

Com um grunhido, Van se levantou do colchão nu sobre o qual tinha estado, desde só Deus sábia quando. Olhando para baixo, para seu corpo, estendeu o braço fora da articulação do ombro, logo o torceu firmemente.

Não, a parte mais aterradora era o fato de que quando finalmente deixou de vomitar e as arrumou para tomar fôlego, não pôde recordar exatamente porquê não tinha querido unir-se em primeiro lugar. Porque o poder estava de volta do seu corpo, o rugido dos vintes estava estacionado de novo em sua garagem. Graças à Omega, era de novo ele mesmo, já não mais uma pálida e desvanecida sombra do que alguma vez tinha sido. Certamente, os meios tinham sido uma manipulação da mente de terror e incredulidade. Mas os resultados… eram gloriosos.

Flexionou seus bíceps de novo, sentindo seus músculos e ossos, amando-os.

—Esta sorrindo —disse Xavier quando entrou no quarto.

Van olhou para cima.

—Sinto-me estupendo. Realmente, fodidamente, estupendo.

Os olhos do Xavier eram distantes.

—Não deixe que te suba à cabeça. E escuta bem. Quero que fique perto de mim. Nunca vá a nenhum lugar sem mim. Está claro?

—Sim, certo —Van tirou as pernas para fora da cama. Não podia esperar para correr e ver o que sentia.

Quando se levantou, a expressão do Xavier era estranha. Frustração?

— Algo errado? —perguntou Van.

— Sua indução foi tão… comum.

Comum? Que lhe tirem o coração e que o sangue seja trocado por algo que parecia alcatrão não contava como comum para ele. E por Jesus Cristo, Van não estava interessado em que lhe jogassem nessa rotina destinada a lhe aniquilar a euforia. O mundo voltava a ser refrescante e novo no que a ele concernia. Tinha renascido.

—Sinto te decepcionar —murmurou.

—Não estou decepcionado com você… ainda —disse Xavier olhando seu relógio—. Vista-se. Sairemos em cinco minutos.

Van foi ao banheiro e ficou frente ao vaso, somente para dar-se conta que não tinha vontade. E que tampouco estava sedento ou faminto.

OK, isto era estranho. Parecia antinatural não seguir sua rotina da manhã.

Inclinando-se para frente, olhou seu reflexo no espelho que estava sobre o lavabo. Os traços eram os mesmos, mas os olhos eram diferentes.

Sentiu um desconforto arrastando-se através dele. Esfregou-se o rosto com as Palmas para assegurar-se de que ainda era de carne e osso. Quando sentiu os ossos de seu crânio através da pele, pensou em Richard.

Que estava em sua casa com sua esposa e dois filhos. A salvo agora.

Van não teria mais contato com sua família. Nunca. Mas a vida de seu irmão parecia um troca justo. Os pais eram importantes.

Além disso, olhe tudo o que tinha ganho por esse sacrifício. A parte mais importante era que estava de volta no negócio.

—Preparado para ir ? —chamou Xavier da sala.

Van tragou forte. Homem, no que seja que ele tivesse entrado era muito mais escuro e profundo que somente uma vida de crimes. Era um agente do mal agora, não?

E isso deveria havê-lo incomodado mais.

Em lugar disso, estava descobrindo seu poder, preparado para utilizá-lo

—Sim, estou-o.

Van sorriu a seu reflexo, sentindo que seu destino especial se cumpriu. E era exatamente quem precisava ser.

 

Na tarde seguinte, Marissa estava saindo do chuveiro quando escutou as venezianas serem fechadas para a noite.

Deus, estava cansada, mas bem, tinha sido um dia ocupado. Muito ocupado.

Embora a única coisa boa era que pelo menos tudo o que tinha tido que fazer a tinha mantido separada de sua obsessão pelo Butch. Bem, em sua maior parte manteve a mente longe dele. Certo, às vezes se impediu de pensar nele.

O fato de que novamente ele tivesse sido ferido por um lesser era apenas uma parte de suas preocupações. Perguntava-se onde estaria e quem cuidaria dele. Não seu irmão, obviamente. Mas, Butch tinha alguém mais?

Tinha passado a noite com outra fêmea, estaria sendo cuidado por ela? Certo, Marissa tinha falado com ele na noite anterior e ele havia dito todas as coisas corretas: tinha-a tranqüilizado dizendo que estava bem. Não tinha mentido sobre a briga com o lesser. Foi sincero a respeito de não querer vê-la até que se sentisse mais estável. E lhe havia dito que se encontraria com ela na primeira refeição esta noite.

Ela tinha presumido que ela havia sido forçado, porque foi machucado, e não o culpava. Mas foi somente depois de desliga o telefone que se deu conta de tudo o que tinha esquecido de perguntar.

Zangada por suas inseguranças, inclinou-se sobre o cesto da roupa suja e atirou a toalha nele. Enquanto se endireitava, sentiu-se tão enjoada que ziguezagueou sobre seus pés descalços e teve que agachar-se até ficar de cócoras. Era isso ou desmaiar.

Por favor deixe que esta necessidade de me alimentar passe. Por favor.

Respirou profundamente até que a cabeça ficou limpa, então ficou de pé lentamente e se dirigiu ao lavabo. Quando colocou as mãos sob a água fria e salpicou o rosto, soube que teria que chamar a Rehvenge. Mas não esta noite. Esta noite precisava estar com Butch. Precisava vê-lo de perto e assegurar-se de que estava bem. E precisava falar com ele. Ele era importante, não seu próprio corpo.

Quando se sentiu o suficientemente firme, foi colocar um vestido verde azulado do YSL. Deus, realmente odiava vesti-lo agora. Guardava reminiscências tão negativas, como se a cena com seu irmão fosse um desagradável aroma que tivesse penetrado no tecido do vestido.

A batida à porta que estava esperando, aconteceu às seis em ponto. Fritz estava do outro lado da porta do quarto, o velho homem sorria ao fazer uma reverência.

—Boa tarde, senhorita.

—Boa tarde. Tem os documentos?

—Como a senhorita solicitou.

Pegou a pasta que lhe oferecia e foi para o escritório, onde folheou os documentos e assinou em várias linhas. Quando fechou a tampa da pasta descansou a mão sobre ela. —Fez isso tão rápido.

—Temos bons advogados, não sabia?

Respirou profundamente e devolveu o poder para o advogado e os documentos sobre renda. Então foi para a penteadeira e pegou um bracelete do conjunto de diamantes que usava quando chegou ao complexo da Irmandade. Enquanto usava a esplêndida peça para o doggen, assaltou-a o pensamento fugaz de que seu pai os tinha dado fazia mais de 100 anos.

Nunca teria adivinhado como seriam usados. Graças à Virgem Escriba.

O mordomo franziu o cenho. —O amo não sabe.

—Sei, mas Wrath foi muito amável comigo até agora. —Os diamantes brilharam pendurando entre as pontas dos dedos—. Fritz? Pegue o bracelete.

—O amo realmente não o sabe.

—Não é meu ghardian. Por isso não é sua decisão.

—É o Rei. Tudo é sua decisão. —Mas Fritz pegou a jóia.

Enquanto se afastava, o doggen se viu tão aflito, que ela disse. —Obrigado por me trazer roupa íntima e lavar este traje. Foi mutia consideração.

Alegrou-se um pouco pelo reconhecimento de seu trabalho. —Possivelmente gostaria que recuperasse alguns de seus vestidos das malas?

Ela olhou as malas St. Laurent e sacudiu a cabeça. —Não estarei aqui por muito tempo. Melhor deixá-los guardados.

—Como desejar, senhorita.

—Obrigada, Fritz.

Ele se deteve. —Deveria saber que coloquei rosas frescas na biblioteca para seu encontro desta tarde com nosso amo Butch. Pediu-me que conseguisse algumas para agradá-la. Pediu-me que me assegurasse de que fossem tão adoráveis e da cor dourada claro como seu cabelo.

Ela fechou os olhos. —Obrigada Fritz.

 

Butch enxaguou a lâmina de barbear, bateu-a contra a bordo da pia, e fechou a água. Segundo o espelho, barbear-se não o tinha ajudado muito; de fato, mostrava as marcas roxas, que agora se estavam amarelados. Merda. Queria parecer bem para Marissa, especialmente depois da noite anterior que tinha resultado ser um grande desastre.

Enquanto olhava fixamente seu reflexo, escovou os dentes da frente, o qual lhe faltava um pequeno pedacinho. Merda… se queria parecer bem como se a merecesse, precisaria de cirurgia plástica, desintoxicar-se e uma coleção completa de bonés.

Se ia ve-la em dez minutos tinha outras coisas com que se preocupar. Tinha falado como o inferno por telefone na noite anterior, e parecia distancia entre eles havia voltado. Mas ao menos estava disposta a vê-lo.

O que usava a sua maior preocupação. Estirou-se e pegou a lamina de barbear da beirada do branco lavabo. Estendendo o antebraço…

—Policial, terminará cheio de buracos se continuar com isso.

Butch olhou no espelho. Atrás dele, V estava apoiado contra o marco da porta, com um copo do Goose e um cigarro na mão. Tabaco turco perfumava o ar, acre, masculino.

—Vamos V, preciso estar bem. Sei que você fez maravilhas, mas… —Levou a lâmina em cima da pele, fechou os olhos, temendo o que ia sair.

—É vermelha, Butch. Está bem.

Deu uma olhada à úmida raia carmesim. —Entretanto como estar absolutamente certo?

—Já não cheira como um lesser e ontem à noite o fazia —V entrou no banheiro—. E segundo… antes que Butch soubesse que estava fazendo, V tomou seu antebraço, inclinou-se, lambeu o corte, e o selou rapidamente.

Butch se separou do aperto de seu amigo. —Jesus, V! Que acontece se este sangue estiver poluído!

—Está bem. De ver… —com uma sacudida, Vishous ofegou e paralisou contra a parede, os olhos rodando para a parte de trás da cabeça, o corpo crispando-se.

—OH, Deus…! —Butch se levantou horrorizado…

Só para ver V acabar com o ataque e beber, com calma um gole do copo.

—Está tudo bem, policial. Esta perfeitamente bem. Bom, bem para um tipo humano, o que realmente, não está em minha lista de preferências, entende?

Butch retrocedeu e lhe deu um murro no braço de seu amigo. E quando o Irmão amaldiçoou, Butch deu outro.

V o olhou zangado e esfregou o lugar.

—Cristo, policial.

—Aguente, merece isso.

Butch passou empurrando o Irmão e se dirigiu ao guarda-roupa. Enquanto tratava de decidir o que vestir, manipulava bruscamente a roupa, empurrando de um lado para outro os cabides.

Deteve-se. Fechou os olhos.

—Que merda, V. Ontem à noite estava sangrando negro. Agora não. É meu corpo algum tipo de planta processadora de águas residuais?

V se acomodou sobre a cama, recostando-se contra a cabeceira e apoiando o copo na coxa coberta de couro.

—Possivelmente, não sei.

Homem, estava tão cansado de sentir-se perdido.

—Pensei que soubesse de tudo.

—Isso não é justo, Butch.

—Merda… tem razão. Desculpe.

—Podemos mandar a merda as desculpas e em vez disso me deixa te bater?

Quando ambos riram, Butch se forçou a escolher um traje e terminou o jogando sobre a cama ao lado de V, um Zegna azul marinho. Então procurou entre as gravatas.

—Viu o Omega, certo? Essa coisa em mim era parte dele. Pôs parte dele em mim.

—Sim, isso é os que penso.

Butch sentiu a repentina necessidade de ir à igreja e rezar por sua salvação.

—Não haverá volta à normalidade para mim, certo.

—Provavelmente não.

Butch olhou fixamente a coleção de gravatas, ficando afligito pelas cores e as alternativas. Enquanto estava de pé congelado pela indecisão, por alguma razão pensou em sua família no sul de Boston.

Falando de normalidade… eles eram constantes, muito, tão implacavelmente iguais. Para o clã O’Neal, tinha houve um acontecimento fundamental, e essa tragédia tinha jogado o tabuleiro de xadrez da família ao ar. Quando as peças caíram, aterrissaram em cola: depois que Jane foi violentada e assassinada aos quinze anos, todos ficaram em seus lugares. E ele era o estranho sem redenção.

Para cortar o trem de seus pensamentos, Butch agarrou um par de sapatos Ferragamo vermelho sangue da prateleira. —Então, que planos tem para esta noite, vampiro?

—Supõe-se que é minha noite livre.

—Bem.

—Não, errado. Sabe que odeio não brigar, certo?

—Está muito tenso.

—Não.

Butch olhou por cima de seu ombro.

—Preciso lembrar você desta tarde?

V baixou os olhos ao copo.

—Não aconteceu nada.

—Despertou gritando tão forte que pensei que tinham atirado em você. Que demônios estava sonhando?

—Nada.

—Não trate de me evitar, é aborrecido.

V fez girou a vodca no copo. Bebeu-o.

—Só foi um sonho.

—Mentira. Vivi com você durante nove meses, colega. Quando dorme fica quieto como uma pedra.

—Que seja.

Butch deixou cair a toalha, colocou um par de cueca negras e pegou uma engomada camisa branca do armário.

—Deveria dizer ao Wrath o que está acontecendo.

—Que tal se não falarmos disso?

Butch colocou a camisa, abotoou-a, logo pegou de um puxão às calças riscadas para tirar do cabide.

—O que quero dizer é…

—Não faça isso policial.

—Deus, é um bastardo reservado. Olhe, estou aqui se quiser falar, OK?

—Não se irrite. Mas… e apontou. —V se esclareceu garganta—. A propósito, peguei emprestada uma de suas camisas ontem à noite.

—Está bem. Que use minhas meias é o que me incomoda.

—Não queria me apresentar ante sua noiva em roupa de combate. Que é tudo o que tenho.

—Disse que tinha falado com ela. Acredito que ficou nervosa.

V disse algo que soou como.

—Deveria.

Butch o olhou.

—Que disse?

—Nada. —De repente V se levantou da cama e se encaminhou para a porta—. Escuta, ficarei em minha outra casa esta noite. Estar aqui somente quando todos estão no trabalho me faz remoer toda a merda. Se me precisar, me liga no apartamento de cobertura.

—V. —Quando seu companheiro se deteve e olhou para trás, Butch disse—. Obrigado.

—Por que?

Butch levantou seu antebraço.

—Já sabe.

V se encolheu de ombros.

—Pensei que desse modo se sentiria mais tranqüilo ao estar com ela.

 

John caminhava através do túnel subterrâneo, os passos eram um retumbar de tambores que ecoavam e que o fazia notar quão sozinho estava, como nada poderia fazer.

Bom, somente exceto pela raiva. Agora estava sempre com ela, próxima como sua própria pele, lhe cobrindo a pele. Homem, não podia esperar para que começasse a aula desta noite, assim poderia deixar sair algo. Estava crispado, excitado, inquieto.

Mas possivelmente algo disso era porque, enquanto se dirigia para a casa principal, não pôde evitar recordar a primeira vez que percorreu este caminho com Tohr. Tinha estado tão nervoso então, e o ter perto tinha sido tranqüilizador.

Feliz fodido aniversário, pensou John.

Esta noite fazia exatamente três meses que tudo veio abaixo. Esta noite fazia três meses que o assassinato da Wellsie, o assassinato do Sarelle e o desaparecimento de Tohr, tinham sido repartidos como cartas do Tarot portadoras de más notícias. Bang. Bang. Bang.

E as conseqüências foram um tipo especial de inferno. Durante algumas semanas depois da tragédia, John tinha assumido que Tohr voltaria. Tinha esperado, tinha tido esperanças, tinha rezado. Mas… nada. Nenhuma comunicação, nenhuma telefonema, não… nada.

Tohr estava morto. Tinha que estar.

Enquanto John se aproximava das pequenas escadas que usavam ao interior da mansão, sentiu que não podia suportar cruzar a porta oculta para entrar no vestíbulo. Não estava interessado em comer. Não queria ver ninguém. Não queria sentar-se à mesa. Mas certo como o inferno que Zsadist viria atrás dele. Nos últimos dias o Irmão o tinha levado miserável à casa grande para as refeições. O que era embaraçoso e tinha provocado irritação em ambos.

John se forçou a subir os degraus e entrar na mansão. Para ele, a cegadora explosão de cores do vestíbulo era uma afronta aos sentidos, já não mais um festim para os olhos, e se dirigiu para o jantar com o olhar fixo no chão. Quando passava por baixo do grande arco, viu que a mesa estava posta mas não ocupada ainda. E cheirou cordeiro assado… definitivamente a comida favorita do Wrath.

O estomago do John rugiu de fome, mas não ia deixar se levar por isso. Ultimamente, não importava quão faminto estivesse, no instante que punha comida em sua boca, inclusive a especialmente feito para um ele, davam-lhe náuseas. E se supunha que tinha que comer mais para a mudança? Sim, certo.

Quando escutou passos ligeiros e apressados, voltou a cabeça. Alguém estava correndo a toda pressa na galeria do segundo andar.

Então chegaram risadas de cima. Gloriosas risadas femininas.

Reclinou-se fora do arco edeu uma olhada a grande escada acima.

Bela apareceu no patamar mais acima, sem fôlego, sorrindo, com uma túnica de cetim negra nas mãos. Quando desacelerou no começo da escada, olhou por sobre seu ombro, o cabelo grosso e escuro balançando atrás dela.

O tamborilar que veio depois era pesado e distante, aumentando o som até que foi como rochas batendo contra o chão. Obviamente, era o que estava esperando. Deixou sair uma risada, atirou com força a túnica mais alto, e começou a descer a escada, andando descalça sobre os degraus como se estivesse flutuando. Quando chegou em baixo, bateu o chão de mosaico do vestíbulo e girou justo quando Zsadist aparecia no corredor do segundo andar.

O Irmão a avistou e foi direito para o balcão, cravou as mãos no corrimão, dobrou as pernas e se impulsionou para o vazio. Voou para fora, o corpo em um perfeito mergulho de cisne… exceto, que não estava sobre a água, estava dois andares acima da dura pedra.  

O grito pedindo ajuda de John saiu como uma muda, e sustentada rajada de ar…

Que foi interrompida quando Zsadist se desmaterializou na cúpula do mergulho. Pegou forma seis metros a frente de Bela, que olhava o espetáculo com resplandecente felicidade.

Enquanto isso, o coração do John golpeava duramente pela comoção… logo bombeou rapidamente por uma razão diferente.

Bela sorriu a seu companheiro, a respiração ainda laboriosa, as mãos agarrando a túnica ainda, os olhos intensos com convite. E Zsadist se aproximou em resposta ao convite, parecendo fazer-se maior ainda enquanto se aproximava majestosamente dela. A essência do vinculo do Irmão encheu o vestíbulo, como se fosse um baixo grunhido de leão. O homem era todo animal neste momento… um animal muito sexual.

—Vocêi gosta de ser perseguida, nalla. —Disse Z em uma voz tão profunda que se distorcia.

O sorriso de Bela se fez maior enquanto retrocedia para um canto.

— Possivelmente.

—Então corre um pouco mais, por que não o faz? —As palavras foram escuras e inclusive John captou a erótica ameaça nelas.

Bela escapou, passandorapidamente em torno de seu companheiro, dirigindo-se à sala de bilhar. Voltando-se sobre si mesmo Z a seguiu como a uma presa, os olhos fixos no ondeante cabelo e o gracioso corpo da fêmea. Enquanto os lábios mostravam as presas, alongados caninos brancos, sobressaindo-se da boca. E não eram a única resposta que tinha a sua shellan.

Nos quadris, pressionando contra o fronte das calças de couro, havia uma ereção do tamanho do tronco de uma árvore.

Z deu ao John um rápido olhar e logo voltou para a caçada, desaparecendo dentro da quarto, aquele penetrante grunhido fazendo-se mais alto. Através das portas abertas, chegou um chiado de deleite, um roce, um ofego feminino e logo… nada.

Tinha-a capturado.

John pôs as mãos contra a parede, estabilizando uma sacudida da que não se precaveu. Ao pensar no que estavam fazendo, seu corpo se afrouxou curiosamente, lhe formigando um poquinho. Como se possivelmente algo estivesse despertando.

Quando Zsadist saiu um momento depois, tinha a Bela em seus braços, seu escuro cabelo estendendo-se pelo ombro dele, enquanto se curvava contra a força que a sujeitava. Tinha os olhos fixos no rosto de Z, enquanto este via por onde foram, a mão lhe acariciando o seio e os lábios curvando-se em um sorriso íntimo.

Tinha uma marca de mordida no pescoço, uma que definitivamente não tinha estado aí antes, e a satisfação de Bela enquanto contemplava a fome no rosto de seu hellren era absolutamente fascinante. John soube instintivamente que Z ia rematar duas coisas lá encima: o emparelhamento e a alimentação. O Irmão ia penetrar sua garganta e meter-se entre suas pernas. Provavelmente ao mesmo tempo.

Deus, John queria esse tipo de conexão.

O que estava acontecendo? Ainda se conseguisse passar pela transição, como ia estar alguma vez assim confortável e crédulo com uma fêmea? Os homems não tinham sofrido como ele, não tinham sido forçados a ponta da faca a uma odiosa submissão.

Infernos, olhe Zsadist. Tão forte, tão poderoso. As fêmeas queriam esse tipo de coisas, não debiloides como John. E não havia nenhuma dúvida. Não importava quão grande que se fizesse o corpo do John, sempre seria um debiloide, marcado para sempre pelo que lhe tinham feito.

Voltou-se e foi para a mesa de jantar, sentando-se somente em meio de toda a porcelana, a prata, o cristal e as velas.

Mas estar sozinho estava bem, decidiu.

Ao estar sozinho estava a salvo.

 

Enquanto Fritz subia as escadas para avisar Marissa, Butch esperava na biblioteca e pensava no bom homem que era o doggen. Quando tinha pedido um favor, o ancião tinha estado encantado de ocupar-se de seu pedido. Apesar de ser uma coisa fora do comum.

O aroma, a brisa do oceano encheu o quarto e o corpo de Butch tremeu instantâneamente numa visível resposta. Enquanto dava a volta, confirmou que a jaqueta estivesse em seu lugar.

OH, Cristo, estava linda com esse vestido verde azulado.

—Hey, carinho.

—Olá, Butch.

A voz da Marissa soava tranqüila, mas sua mão tremia insegura enquanto alisava o cabelo.

—Você está… bem?

—Sim, estou bem graças à mão curadora de V.

Houve um longo silencio. E logo disse,

—Estará bem se eu te cumprimentar apropriadamente?

Quando ela assentiu, aproximou-se e agarrou sua mão. Enquanto se inclinava e a beijava, sentiu que a palma estava fria como o gelo. Estava nervosa? Ou doente?

Franziu o cenho.

—Marissa, quer sentar um minuto antes de irmos comer?

—Por favor.

Conduziu-a a um sofá estofado de seda e notou que estava insegura enquanto segurava o vestido que esvoaçava e se sentava junto a ele.

Inclinou a cabeça.

—Me fale.

Quando não falou em seguida, insistiu.

—Marissa… tem algo em mente, certo?

Houve um silêncio desconfortável.

—Não quero que lute com a Irmandade.

Então era isso.

—Marissa, o que aconteceu ontem à noite foi inesperado. Eu não luto. Com certeza.

—Mas V disse que estava disposto e iriam utilizar você.

Whoa. Novidades para ele. Até onde sabia, a noite anterior tinha sido para provar sua lealdade, não para que entrasse em combate de forma habitual.

—Escuta, os irmãos passaram os últimos nove meses me mantendo fora das brigas. Não me meto com os lessers. Não é meu encargo.

A tensão dela se aliviou.

—É só que não posso suportar a idéia de que o machuquem outra vez.

—Não se preocupe com isso. A Irmandade faz seu trabalho, mas eu tenho pouco o que fazer.

Colocou-lhe uma mecha de cabelo atrás da orelha.

—Há algo mais que queira falar comigo, carinho?

—Tenho uma pergunta.

—Me pergunte qualquer coisa.

—Não sei onde mora.

—Aqui. Moro aqui.

Ante sua confusão, indicaram-lhe com a cabeça as portas abertas da biblioteca.

—Do outro lado do pátio, na casa de guarda. Moro com o V.

—OH... então, onde esteve ontem à noite?

—Bem aqui. Mas fiquei lá dentro.

Ela franziu o cenho, e logo disse bruscamente,

—Tem outras mulheres?

Como se alguma outra pudesse comparar-se a ela.

—Marissa...Não! Por que pergunta?

—Não dormimos juntos e você é um homem com evidentes… necessidades. Mesmo agora, seu corpo mudou, endureceu, cresceu.

Merda. Tinha tentado esconder a ereção, realmente tinha tentado.

—Marissa...

—Certamente precisa se aliviar freqüentemente. Seu corpo é temível.

Isso não soava bem.

—O que?

—Potente e poderoso. Digno de penetrar em uma fêmea.

Butch fechou os olhos, pensando que agora o Sr. Digno realmente estava se achando à altura das circunstâncias.

—Marissa, não há ninguém exceto você. Ninguém. Como poderia haver?

—Os homens de minha espécie podem tomar mais de uma companheira. Não sei se os humanos...

—Eu não. Não com você. Não posso imaginar a mim mesmo com outra mulher. Quero dizer, poderia se ver com alguém mais?

Na vacilação que seguiu, uma corrente de frio atravessou seu espinho dorsal, correndo do final das costas até a base do crânio. E enquanto ele enlouquecia, ela jogava com sua extravagante saia. Merda, também estava ruborizando-se.

—Não quero estar com ninguém mais —disse.

—O que não está me contando, Marissa?

—Há alguém de quem estive… próxima.

O cérebro do Butch começou a falhar, como se suas vias neuronais houvessem simplesmente evaporado e já não houvesse caminhos para sua matéria cinza.

—Como “próximo”?

—Não de forma romântica, Butch. Juro. É um amigo, mas é um homem, e é por isso que estou contando isso.

Pôs a mão em seu rosto.

—Você é o único que quero.

Olhando fixamente seus solenes olhos, não podia duvidar da sinceridade do que dizia. Mas merda, sentia-se como se tivesse sido enquadrado. O que era ridículo e mesquinho e… ah, Deus… não podia suportar absolutamente que estivesse com outra pessoa.

Se comporte O’Neal. Simplesmente arrasta seu traseiro de novo à realidade, colega. Agora.

—Bem —disse—. Quero ser o único para você. O único.

Deixando de lado toda essa merda de tipo-ciumento, beijou-lhe a mão… e se alarmou pelo tanto que tremia.

Esquentou os dedos frios com as palmas de suas mãos.

—A que se devem estes tremores? Está desgostada ou doente? Precisa um médico?

Ela tirou importância mas sem sua graça habitual.

—Posso me ocupar disso. Não se preocupe.

E um inferno que o faria. Cristo, estava completamente fraco, tinha os olhos dilatados, e seus movimentos eram descordenados. Doente, definitivamente doente.

—Por que não te levo de volta para cima, carinho? Matará-me não ver você, mas não tem aspecto de estar preparada para a refeição. E eu posso te levar alguma coisa para comer.

Ela encolheu os ombros.

—Tinha tantas esperanças… Sim, acredito que será o melhor.

Ficou de pé e fraquejou. Enquanto a tomava pelo braço, amaldiçoou oirmão dela. Se precisasse de ajuda médica, a quem poderiam levá-la?

—Vamos pequena. Se apóie em mim.

Segurando-a com cuidado, levou-a de volta ao segundo andar, passaram pelo quarto de Rhage e Mary, o de Phury, e foram mais longe, até que chegaram ao quarto de esquina que lhe tinham cedido.

Ela pôs uma mão na maçaneta de metal.

—Sinto muito, Butch. Queria passar um tempo com você esta noite. Pensei que teria mais forças.

—Por favor, posso chamar um médico?

Seus olhos estavam aturdidos, mas curiosamente despreocupados enquanto os levantava para olhá-lo.

—Não é nada que não possa resolver eu mesma. E logo vou estar bem.

—Homem… bem agora que eu queria te proteger.

Ela sorriu.

—Não é necessário, lembra?

—Conte se só fala isso para me tranqüilizar?

—Sim.

Enquanto se olhavam , um estupendo pensamento brilhou através de seu cérebro de ervilha: amava a esta mulher. Amava-a até a morte.

E queria que soubesse.

Acariciou-lhe o rosto com o polegar e decidiu que era uma verdadeira vergonha que não tivesse o dom das palavras. Queria dizer algo engenhoso e terno, para ter uma boa introdução antes de soltar a bomba. Exceto que saiu simplesmente seco.

Assim falou, com sua típica falta de sutileza:

—Amo você.

Os olhos da Marissa aumentaram.

OH, merda. Muito, muito...

Os braços passaram ao redor do seu pescoço e a abraçou com força, enterrando a cabeça em seu seio. Quando a envolveu em seus braços, e se preparou para cair totalmente rendido a seus pés, chegaram vozes pelo corredor. Abrindo a porta, a fez entrar no quarto, intuindo que precisavam de um pouco de intimidade.

Enquanto a colocava na cama e a ajudava a deitar-se, ordenou em sua cabeça todo tipo de palavras bregas, preparando-se para cortejá-la. Mas antes de que pudesse dizer qualquer coisa, ela apertou sua mão e apertou tão forte que acreditou que lhe partiria os ossos.

—Eu também te amo, Butch.

As palavras o fizeram esquecer-se de como respirar.

Totalmente nocauteado, deixou-se cair de joelhos ao lado da cama e teve que sorrir.

—Agora..., por que tinha que ir e fazer isto, carinho? Achava que você fosse uma fêmea inteligente.

Ela riu brandamente.

—Você sabe porque.

—Por que se compadece de mim?

—Porque é um homem de valor.

Esclareceu a garganta.

—Não sou realmente.

—Como pode dizer isso?

Bom, vamos ver. Tinha sido expulso da divisão de homicídios por arrebentar o nariz de um assassino. Havia fodido em sua maior parte com putas sem recursos. Atirado e matado outros homens. Além disso, sim, tinha essa antiga merda de cheirar coca e a presente e persistente de afogar-se em uísque escocês. OH, e tinha mencionado que tinha tentado suicídio depois do assassinato de sua irmã, tantos anos atrás?

Sim, tinha um pouco de valor. Mas só servia para uma viagem ao esgoto.

Abriu a boca, para revelar o segredo, mas se deteve.

Feche o bico, O’Neal. A mulher diz que te ama e ela é mais do que você merece. Não o arruíne com os desagradáveis hábitos do passado. Tenha um novo começo, aqui e agora, com ela.

Passou-lhe o polegar sobre o rosto perfeito.

—Quero beijar você. Tem vontade de me permitir isso?

—Não tem que se explicar. E eu sou feliz só estando perto de você, inclusive se não puder... —Estar dentro de você—. Inclusive se nós nunca… já sabe, fizermos amor.

Quando vacilou, não pôde dizer que a culpasse. A última vez que tinham estado juntos tinha sido uma droga, com seu corpo expulsando aquela porcaria e seu irmão perambulando por perto. Além disso agora estava claramente cansada.

Voltou-se para trás.

—Sinto muito.

—Não é que não queira estar com você. Pois eu quero,estou me reprimindo porque tenho medo de fazer mal a você.

Butch sorriu grosseiramente, pensando que se lhe arranhasse as costas tirando sua pele a tiras ao aferrar-se com força, estaria perfeitamente bom para ele.

—Não me importa se me machuque.

—Importa a mim.

Ele começou a levantar-se.

—É muito doce de sua parte. Agora, escuta, simplesmente trarei algo de...

—Espera.

Seus olhos brilharam na penumbra.

— OH… Deus, Butch… me beije.

Deteve-se, ajoelhando-se junto a ela.

—Eu irei com calma. Prometo.

Inclinando-se, pôs sua boca sobre a dela e lhe acariciou os lábios. Bom Senhor, era suave. Cálida. Merda… precisava dela. Mas não ia pressioná-la.

Até que se segurou em seus ombros e lhe disse:

—Mais.

Rezando para controlar-se, acariciou sua boca de novo e tentou ir para trás. Ela o seguiu, mantendo-os enlaçados… e antes de poder deter-se, passou-lhe a língua pelo lábio inferior. Com um erótico suspiro, ela se abriu e teve que deslizar dentro, sem ser capaz de rechaçar a oportunidade de penetrar nela.

Quando ela tentou aproximar-se mais, recostou-se sobre a cama, pressionando o seio contra ela. O que não foi boa idéia. A forma com que os seios absorviam seu peso enviou uma alerta máximo por seu corpo, lhe recordando quão desesperado um homem podia estar quando tinha a sua mulher em posição horizontal.

—Carinho, deveria parar.

Porque em um minuto mais ia tê-la embaixo dele, com o vestido arrancado de um puxão ao redor dos quadris.

—Não. —Deslizou as mãos sob a jaqueta e a tirou—. Ainda não.

—Marissa, isto se está pondo duro. Rapidamente. E você não se encontra bem...

—Me beije.

Cravou-lhe as unhas nos ombros, ferroadas que atravessaram a fina camisa com uma sucessão de pequenos e deliciosos brilhos.

Grunhiu e pegou sua boca de uma forma acalorada, nem gentil.

De novo, má idéia. Quanto mais forte a beijava, mais forte lhe devolvia o beijo, até que suas línguas se bateram em duelo e cada músculo nele se convulsionava por montá-la.

—Tenho que te tocar.

Subiu todo seu corpo à cama deslizando sua perna sobre as dela. Tocou-lhe o quadril e o apertou, movendo a mão e subindo-a por suas costelas até debaixo dos inchados seios.

Merda. Estava totalmente no limite agora.

—Sim faça.— disse ela em sua boca.—Toque-Me.

Quando se arqueou, pegou o que lhe oferecia, capturando seus seios, acariciando-os através do vestido de seda. Aspirando, pôs suas mãos sobre as dele, apertando-o mais contra si.

—Butch…

—OH, merda, me deixe ver você, pequena. Posso olhar você?

Antes de que pudesse responder, capturou-lhe a boca, mas a forma como enfrentou a sua língua deu a resposta. Sentou-a e começou a lhe desabotoar os botões do vestido. Sentia as mãos torpes, mas por algum milagre o cetim se abriu.

Exceto que havia muitas outras capas que atravessar. Maldita fosse, sua pele… tinha que chegar a sua pele.

Impaciente, excitado, obcecado, abriu a frente do vestido, baixou a alça da combinação para descobrir a pálida pele até a cintura. O espartilho branco que se revelou foi uma erótica surpresa e o percorreu com as mãos, sentindo a estrutura de seus ossos e a calidez de seu corpo debaixo dele. Mas já não pôde suportar mais e o arrancou.

Quando seus seios ficaram livres, a cabeça lhe caiu para trás, as longas e elegantes linhas do pescoço e dos ombros se expuseram a ele. Com o olhar sobre o rosto dela, Butch inclinou a cabeça e pegou um dos mamilos na boca, sugando. Doce céu, ia gozar, era tão saborosa. Estava ofegando como um cão, já desenquadrado por sexo e ainda não estavam nem perto de estar nu.

Mas ela estava aí lhe fazendo justiça, tensa, quente, necessitada, abrindo e fechando as pernas sob a saia. Cara, toda esta situação era uma espiral fora de controle, um motor a combustão girando mais e mais rápido a cada segundo. E era incapaz de pará-lo.

—Posso tirar isto?

Merda, sua voz tinha sumido.

—Este vestido… tudo?

—Sim…

A palavra foi um grunhido, um desesperado grunhido.

Infelizmente, o vestido era de uma só peça e o maldito se foi, não tinha paciência para desabotoar todos aqueles botões das costas. Acabou amontoando a saia, longa até o chão, em seus quadris e delineando um par de susurrantes e transparentes meias brancas, descendendo por suas longas e suaves pernas. Então deslizou as mãos pela parte interior de suas coxas, separando-as.

Quando ela se levantou, deteve-se.

—Se quiser que eu saia, eu farei isso. Em um batimento de coração. Mas eu só quero te tocar de novo. E possivelmente… te olhar.

Quando franziu o cenho, começou a baixar o vestido.

—Não estou dizendo que não. É só que… OH, Deus… o que acontecerá se for pouco atraente aí?

Jesus, não podia compreender porque aquilo a preocupava.

—Não é possível. Eu já sei quão perfeita é. Já senti, recorda?

Ela inspirou profundamente.

—Marissa, amo sentir você. Realmente amo. E tenho uma linda imagem de você em minha mente. Só quero conhecer a realidade.

Depois de um momento, assentiu.

—Bem… continue.

Mantendo seus olhares unidos, deslizou a mão entre suas coxas e... OH, sim, aquele suave e secreto lugar dele. Tão escorregadio e quente que vacilou e desceu sua boca para a orelha dela.

—É tão linda aqui.

Seus quadris se agitaram quando a acariciou, os dedos suaves e escorregadios por seu mel.

—Mmm, sim… quero estar dentro de ti. Quero colocar me...

A palavra pau era definitivamente muito vulgar, mas era o que ele estava pensando.

— Me introduzir em você, pequena. Bem aí. Quero estar rodeado por você, sustentado por seu abraço. Então acredite quando digo que é linda. Marissa? Me diga o que quero escutar.

—Sim… —Quando penetrou um pouco mais profundo, ela estremeceu. Deus… sim.

—Quer que eu goze dentro de você algum dia?

—Sim…

—Quer que te encha?

—Sim…

—Bem, porque isso é o que eu quero.

Mordiscou-lhe o lóbulo da orelha.

—Quero me perder profundamente em você e ter você me apertando enquanto você também goza. Mmm… se esfrega contra minha mão, me deixe sentir como se move para mim. OH, isto merda, é delicioso. Isto é… prepara seu interior para mim… OH, se...

Merda, tinha que deixar de falar. Porque se ela seguisse suas ordens um pouco melhor ia explodir.

OH, ao demônio com isso.

—Marissa, estende as pernas mais separadas para mim. As separe mais. E não pare o que está fazendo.

Quando ela obedeceu, lentamente, brandamente, moveu-se para trás e baixou o olhar a seu corpo. Embaixo de metros de enrolado cetim verde-azulado, as cremosas coxas estavam abertas, sua mão desaparecia entre eles, os quadris giravam em um ritmo que fazia que o membro lhe saltasse nas calças.

Pegou seu seio mais próximo e gentilmente lhe separou mais as perna. Afastou toda aquele cetim para um lado, baixou a cabeça e tirou a mão. Vagou pelo liso ventre, passando pelo umbigo, sobre a perfeita pele pálida de sua pélvis, ante a elegante e pequena abertura do sexo.

Todo seu corpo tremeu.

—Tão perfeita —sussurrou—. Tão… deliciosa.

Encantado, moveu-se para baixo pela cama e se encheu com a visão dela. Rosa, brilhante, delicada. E ele estava enlouquecendo com seu aroma, seu cérebro entrou em curto.

—Jesus…

—O que está errado?

Ela fechou os joelhos de repente.

—Nada.

Pressionou os lábios contra o topo de sua coxa e lhe acariciou as pernas, tratando de separar-lhe gentilmente.

—Nunca tinha visto algo tão bonito.

Demônios, bonito nem sequer se aproximava e ele lambeu seu s lábios, sua língua se desesperava por fazer muito mais que isso. Com voz ausente disse.

—Deus, pequena, desejo tanto me equilibrar sobre você.

—Se equilibrar sobre mim?

Ruborizou-se ante sua confusão.

—Eu… ah, quero te beijar.

Ela sorriu e se levantou, tomando seu rosto entre as mãos. Mas quando tratou de aproximá-lo, ele sacudiu a cabeça.

—Não na boca desta vez.

Quando ela franziu o cenho, voltou a pôr com cuidado a mão entre as coxas.

—Aqui.

Seus olhos brilharam aumentando tanto que quis se amaldiçoar. Linda forma de fazê-la se sentir relaxada, O ‘Neal.

—Por que…? Esclareceu a garganta.

— Por que quer fazer isso?

Bom Senhor, nunca tinha ouvido falar de… bom, é obvio que não. Os aristocratas provavelmente tinham sexo muito educado, muito missionário, e se soubessem algo sobre o assunto oral, certamente nunca falariam com suas filhas disso.

—Por que, Butch?

—Ah… porque se eu o fizer bem, você realmente o desfrutará. E… sim, eu também.

Deu uma olhada a seu corpo. OH, Deus, ia gozar. Preparar uma mulher nunca tinha sido algo que tivesse tido que fazer no passado. Com ela? Precisava-o. Ansiava-o. Quando pensava em lhe fazer o amor com a boca, cada centímetro quadrado lhe endurecia.

—Só quero saborear você totalmente.

As coxas dela relaxaram um pouco.

—Irá… devagar?

Que merda, ia permitir sim e começou a tremer.

—Farei, carinho. E vou fazer você se sentir muito bem. Prometo-lhe isso.

Deslizou mais abaixo pelo colchão, permanecendo a seu lado para que não se sentisse esmagada. Enquanto se aproximava mais de seu centro, seu corpo enlouquecia inclusive mais e a parte baixa das costas lhe esticava, tal e como o fazia justo antes de ter um orgasmo.

Homem, ia ter que ir tão devagar. Pelos dois.

—Amo seu aroma, Marissa.

Beijou-a no umbigo, depois o quadril, baixando centímetro a centímetro pela pele cremosa. Mais abaixo… mais abaixo… até que finalmente pressionou a boca contra o topo de sua fenda.

O que foi magnífico. O problema foi que ela ficou totalmente rígida. E saltou quando lhe pôs a mão na parte exterior da coxa.

Foi um pouco para trás e roçou os lábios para frente e para trás por seu estômago.

—Sou muito afortunado.

—P...por que?

—Como se sentiria se alguém confiasse assim em você? Confiasse uma coisa tão íntima?

Soprou em seu umbigo e ela riu um pouco, como se o ar quente lhe fizesse cócegas.

—Honra-me, sabe? Realmente o faz.

Apaziguou-a com palavras e sossegados beijos que se atrasavam pouco a pouco e foram baixando mais cada vez. Quando esteve preparada, deslizou a mão pela parte interior de sua perna, agarrou-a pela parte de atrás do joelho e gentilmente a abriu só um par de centímetros para si. Beijou sua fenda brandamente, uma e outra vez. Até que a tensão nela se aliviou.

Então baixou o queixo, abriu a boca e a lambeu. Ela parou e se sentou.

—Butch… ?

Como se estivesse comprovando para estar segura de que ele sabia o que fazia.

—Não lhe disse isso?

Agachou-se e levemente empurrou para cima a carne rosa com a língua.

—Disto é do que se trata o beijo francês, pequena.

Quando repetiu a lento varrida, sua cabeça caiu para trás, as pontas de seus seios se arrepiaram e lhe curvou a espinha dorsal. Perfeito. Justo onde a queria. Sem preocupar-se com modéstia ou nada disso, só desfrutando de sentir-se amada por alguém, tal e como merecia.

Com um sorriso, continuou avançando gradualmente, mais e mais profundo até que conseguiu seu real e autêntico sabor.

Seus os olhos ficaram em branco enquanto sorvia. Não se parecia com nada que tivesse descido por sua garganta antes. Era o mar, o melão amadurecido e o mel de uma vez, um coquetel que o fez ter vontade de chorar por sua perfeição. Mais… ainda precisava mais. Mas maldição, tinha que ficar cheio antes de seguir. Queria dar um festim a ela, mas não estava realmente preparada para esse tipo de gulodice.

Quando deu uma pequena pausa, ela levantou a cabeça.

—Já acabou?

—Não por muito tempo.

Homem, amava esse brilhante e sensual olhar em seus olhos.

—Por que não se recosta e me deixa fazer tudo? Estamos só no começo.

Quando relaxou um pouco, ele baixou o olhar para seus segredos, vendo como brilhava a sensível carne, pensando que ia haver muito mais desse brilho quando terminasse. Beijou-a de novo, depois a chupou, adulando-a com a língua, alvoroçando-a de forma delicada e preguiçosa. Seguiu varrendo com sua língua de um lado ao outro, empurrando mais à frente com o nariz, ouvindo seu gemido. Com uma suave pressão, abriu-lhe mais as coxas e se fechou sobre ela, delineando seu centro com a rítmica carícia de seus lábios.

Quando começou a agitar-se, um zumbido se acendeu em sua cabeça, a parte civilizada dele fazendo a estridente advertência Perigo, Will Robinson de que as coisas estavam indo muito rápidas. Mas não podia desistir, especialmente quando ela se agarrou aos lençóis e se arqueou como se fosse gozar a qualquer momento.

—Sente-se bem?

Fez-lhe cócegas na parte superior de sua fenda, movendo-se rapidamente sobre sua parte mais sensível.

—Você gosta disto? Você gosta que lamba você? Ou possivelmente você goste disto…

Absorveu-a em sua boca e ela gritou.

—OH, sim… Deus, meus lábios estão cobertos de você… sente-os, me sinta…

Agarrou-lhe a mão e a levou até sua boca, lhe movendo os dedos para frente e atrás, lambendo-os depois para limpá-los. Olhava-o com os olhos abertos, ofegando, com os mamilos eretos. Estava pressionando-a forte e sabia, mas ela estava bem aqui com ele.

Mordeu-lhe a palma da mão.

—Me diga que é isto que deseja. Me diga que me deseja.

—Eu… — Seu corpo ondeava na cama.

—Me diga que me deseja.

Cravou-lhe mais os dentes. Merda, não estava certo de por que precisava tanto escutá-la, mas precisava.

—Diga-o.

—Desejo você—disse ela entrecortadamente.

De algum lado, uma perigosa, ansiosa luxúria bateu em seu controle e seu autodomínio se quebrou. Com um som escuro que provinha de sua garganta, segurou-lhe as pernas por baixo, separando-as e mergulhou literalmente entre elas. Quando caiu sobre sua carne, penetrando-a com a língua, encontrando o ritmo com sua mandíbula, foi fracamente consciente de algum tipo de ruído na quarto, um grunhido.

Dele? Não podia ser. Esse era o som de um… animal.

Marissa tinha se sobressaltado a princípio pelo ato. Por sua carnalidade. A pecadora cercania, lhe atemorizava a vulnerabilidade. Mas logo nada disso importou. A calidez da língua de Butch era tão erótica que quase não podia suportar a melosa e escorregadia sensação... e tampouco podia suportar a idéia de que parasse em algum momento o que estava fazendo. Logo começou a chupá-la, sorvendo e tragando e dizendo coisas que faziam que seu sexo se agitasse até que o prazer a atormentava como a dor.

Mas tudo isso não foi nada comparado a quando gozou. Com uma quebra de onda de masculina necessidade, suas pesadas mãos a mantiveram abaixo, sua boca, sua língua, seu rosto percorrendo-a… Deus, esse som saindo dele, esse gutural, vibrante ronrono…

O orgasmo a atravessou grosseiramente, a mais destrutiva, linda coisa que houvesse sentido alguma vez, seu corpo arqueando-se com as líquidas labaredas de prazer...

Menos no topo.

A hirviente energia mudou, transformou-se, detonou.

A sede de sangue rugiu pela corrente sexual entre eles, arrastando-a para baixo em uma espiral de inanição. A fome abriu passo através de sua natureza civilizada, esmiuçando tudo menos a necessidade de ir a seu pescoço, e despiu as presas, preparada para dar a volta sobre suas costas e cair sobre sua jugular e beber forte...

Ia matá-lo.

Gritou e o empurrou pelos ombros.

—OH, Deus… não!

—O que?

Empurrando Butch pelos ombros, afastou seu corpo dele, saindo pelo lado da cama e caindo no chão. Enquanto a alcançava, confuso, deslizou-se pelo tapete até o canto mais longínquo, arrastando o vestido atrás dela, o sutiã pendurando em sua cintura. Quando não pôde ir mais longe, fez-se um novelo e se manteve ali. Enquanto seu corpo tremia petrificado, a dor em seu ventre a golpeava feito ondas, redobrando-se cada vez que voltava.

Butch foi atrás dela, assustado.

—Marissa… ?

—Não!

Deteve-se bruscamente. Seu rosto estava aflito, toda a cor tinha desaparecido de sua pele.

—Sinto tanto...querido Deus...

—Tem que ir.

Quando os soluços lhe subiram pela garganta, sua voz se voltou gutural.

—Doce Jesus, sinto … o sinto tanto… Eu não queria te assustar…

Tentou controlar sua respiração para poder tranqüilizá-lo, mas perdeu a batalha: estava ofegando, chorando. As presas lhe pulsavam. Sua garganta estava seca. E em tudo o que podia pensar era em lançar-se contra seu peito. Jogá-lo no chão e lhe cravar os dente no pescoço.

Deus, seu sangue. Devia ser bom. Tão bom, que não podia imaginar-se tendo nunca o bastante dele.

Ele tentou aproximar-se de novo dela.

—Não queria que as coisas fossem tão longe.

Marissa se ergueu, abriu a boca e chiou.

—Sai! Pelo amor de Deus, saia ! Ou vou machucar você!

Pôs-se a correr para o banheiro e se trancou nele. Quando o som do golpe da porta sumiu, escorregou para deter-se no mármore e captou uma horrível visão de si mesma no espelho. Tinha o cabelo bagunçado, o vestido desabotoado, as presas revelando-se, brancos e largos na boca que se abria assombrada.

Fora de controle. Sem dignidade. Defeituosa.

Agarrou a primeira coisa que viu, um pesado candelabro de cristal e o atirou contra o espelho. Quando seu reflexo se quebrou, olhou por entre suas amargas lágrimas como partes dela se desfaziam.

 

Butch se atirou para a porta do quarto de banheiro e golpeou com o punho até quase sangrar. Do outro lado ouviu o pranto da Marissa. Então escutou um ruído .

Bateu com o ombro os painéis de madeira.

— Marissa!

O golpe depois da porta se escutou outra vez, depois somente houve silêncio.    

—Marissa?

—Vai.

O tranqüilo desespero de sua voz fez com que lhe ardessem os olhos.

—Só… vai.

Estendeu a mão pela madeira que os separava.

— Sinto tanto.

—Vai… só saia. OH, Deus, tem que partir.

—Marissa.

—Não sairei até que você tenha ido. Vai!

Sentindo-se como se estivesse em um pesadelo, agarrou sua jaqueta e saiu tropeçando do quarto, tudo desarrumado, sentia os joelhos fracos. No corredor, apoiou-se contra a parede e a bateu com a cabeça.

Fechou os olhos, podia vê-la agachada no canto, o corpo tremendo ajoelhada em uma pose defensiva, com o vestido pendurando revelando seus seios nus como se tivesse sido rasgado.

A merda. Como era uma linda virgem e a tinha tratado como a uma puta, empurrando-a muito longe e muito duro porque não tinha sido capaz de controlar-se. Cristo, não importava quão quente estivesse, não estava acostumada a que um homem quisesse fazer durante o sexo.

Ou o que passava quando um homem era dominado por seus instintos. E ainda sabendo tudo isso, ainda assim a tinha retido pelas coxas naquela cama, apanhando-a enquanto a fodia com a língua, por Deus.

Butch bateu outra vez a parte de trás da cabeça contra a parede. Querido Deus, tinha estado tão assustada, até tinha despido as presas como se tivesse que proteger-se dele.

Com uma forte maldição, desceu a escada, tratando de deixar para trás o muito que se desprezava, sabendo que não poderia ir tão rápido ou tão longe para obtê-lo.

Quando chegou ao vestíbulo, alguém gritou.

—Butch? Butch! Está bem?

Saiu, saltou ao Escalade, e arrancou o motor. Tudo que o queria fazer era pedir perdão até ficar rouco, mas era a última pessoa no planeta que ela queria ver nesse momento, e não a culpava.

Acelerou o SUV para o centro da cidade, dirigindo-se diretamente à guarida de V.

Enquanto detinha o Escalade e subia no elevador do arranha-céu, parecia uma boa confusão. Bateu a porta de V abrindo-a.

Merda!

Rodeado pela luz de muitas velas negras, Vishous estava inclinado, com a cabeça baixa, os quadris cobertas de couro balançando-se para trás e para frente com força, os ombros nus e os braços dobrados com força. Embaixo dele havia uma fêmea com os pulsos e os tornozelos atados à mesa, o corpo coberto de couro exceto as pontas dos seios e o lugar onde V penetrava seu centro. Inclusive embora usasse uma máscara sobre o rosto e uma mordaça de bola na boca, Butch estava malditamente certo que estava ao bordo do orgasmo. Emitia pequenos gemidos pedindo mais, embora as lágrimas corriam por seu rosto coberta pelo couro.

Quando V levantou a cabeça do pescoço da fêmea, brilhavam-lhe os olhos e suas presas eram tão longos como… bem, para dize-lo de alguma forma, ela poderia precisar de pontos de sutura.

—Tremo em…

Butch falou sem noção e saiu do apartamento de cobertura.

Voltou para o Escalade aturdido, uma vez que subiu ao SUV não podia pensar aonde ir. Só se sentou no assento do condutor, pôs a chave no arranque, apoio a mão sobre a alavanca de mudanças de marcha… pensando no Vishous alimentando-se.

Os olhos acesos. As longas presas. O sexo.

Butch pensou em quão despreocupada se mostrou Marissa quanto a estar doente. E sua voz lhe ressonou na cabeça. Posso me encarregar disto. E logo não quero te fazer mal.

E se Marissa tinha estado sentindo a necessidade de alimentar-se? E sim essa tinha sido a razão pela qual o tinha mandado embora? Pelo amor de Deus ela era um condenado vampiro. Ou pensava que aquelas lindas presas eram pura decoração?

Deixou cair a cabeça no volante. OH, homem, isto era tão pouco atraente. Não precisava procurar mais explicações. Além disso por que não lhe perguntou se poderia tomar um pouco dele? A teria deixado em um batimento do coração do coração. Talvez ainda mais rápido.

Inferno. Só de pensá-lo provocava uma tremenda ereção. A idéia de que se afirmasse sobre seu pescoço e o chupasse era um tipo de afrodisíaco dos quais nunca encontrou antes. Imaginou-a nua, deitada sobre seu seio, o rosto em sua garganta...

Cuidado, O'Neal. Tome cuidado, não é só uma explicação o que esta procurando.

Salvo que estava excitada. Tinha-a provado. De fato, quando se havia colocado duro com ela, tinha parecido como se aquela doçura fluíra ainda mais. Mas então por que não lhe havia dito o que andava errado?

Talvez não quisesse beber dele. Talvez pensou que porque era um humano não podia tomá-lo.

Talvez porque era um humano, certamente não podia.

Sim, a merda com isso. Preferia morrer alimentando-a do que permitir que outro homem cuidasse de sua mulher. A idéia da boca da Marissa no pescoço de mais alguém, seus seios contra o peito de alguém mais, seu aroma no nariz de alguém mais, dela bebendo o sangue de alguém mais…

Minha.

A palavra disparou por sua cabeça. E se deu conta que a mão se dirigiu ao casaco e tinha encontrado o gatilho da Glock.

Apertando o acelerador, saiu para o ZeroSum, sabendo que antes de seu próximo movimento tinha que se controlar ,se acalmar e aplacar sua cabeça. Represar seu ciúmes homicidas para algum vampiro homem não era parte de sua lista de coisas pendentes.

Quando o celular começou a soar no bolso, agarrou o aparelho.

—Sim?

A voz de V era baixa.

—Lamento o que viu acontecer. Não esperava que chegasse...

—V, o que acontece se um vampiro não se alimenta?

Houve uma pausa.

—Nada de bom. Fica cansado, certamente cansado. E a fome faz mal. Pensa em uma intoxicação alimentícia. Ondas de dor em seu intestino. Se permitir que isso escape das mãos, se torna um animal. Torna-se perigoso.

—Ouvi aquelas histórias sobre o Zsadist, antes de que estivesse com Bela. Viveu de humanos, certo? E sei que é um fato que aquelas mulheres não morreram. Via-as no clube depois que terminava com elas...

—Esta pensando em sua garota?

—Sim.

—Olhe, vai beber alguma coisa?

—Mais de uma.

—Encontrarei-me com você.

Quando Butch estacionou no ZeroSum, V o esperava ao lado do clube, fumando. Butch saiu e ativou o alarme do Escalade.

—Policial.

—V.

Butch acariciou sua garganta e tratou de não pensar em como viu seu companheiro de quarto alimentando-se e tendo sexo. Falhou. Tudo o que via era Vishous sobre aquela fêmea, dominando-a, entrando repetidamente nela, o corpo movendo-se como um pistão.

Homem, graças a essa visão, ia ter que reajustar sua definição de sexo duro.

V aspirou com força o cigarro, logo o apagou com a ponta de seu shitkicker e guardou a bituca no bolso traseiro.

—Está preparado para entrar?

—Cristo, sim.

Os gorilas lhes deixaram entrar evitando a fila de espera e caminharam pelo clube passando entre a suarenta e superexcitada multidão, para a seção VIP. Um momento depois e sem precisar pedir, uma garçonete lhes trouxe um Lagavulin duplo e um Grei Goose.

Quando o telefone de V soou e este começou a falar, Butch deu uma olhada ao redor, ficando rígido soltou uma maldição. No canto, no refúgio das sombras, viu uma fêmea alta e musculosa. E a chefe de segurança de Rehvenge o observava, seus olhos ardiam como se desejasse voltar a repetir o que tinha ocorrido entre eles no banheiro.

Não voltaria a ocorrer.

Butch estava olhando sua taça quando V fechou o telefone.

—Era Fritz. Uma mensagem da Marissa para você.

Butch levantou a cabeça.

—O que disse?

—Quer que saiba que se sente bem, disse que precisa descansar esta noite, mas que estará bem amanhã. Não quer que se preocupe por ela… Ah, diz que te ama e que não fez nada errado quando fez o que quer que tenha feito.

Esclareceu sua garganta.

—O que fez? Ou é DM?(demasiada informação)

—Péssima DM.

Butch tomou um gole do conteúdo do copo e o elevou ao vazio. A garçonete acudiu imediatamente.

Quando ela os deixou para lhe conseguir um novo, olharam-se as mãos. Sentia os olhos de V perfurando-o.

—Butch, vai precisar mais do que pode lhe dar.

—Zsadist sobreviveu com…

—Z bebeu de vários humanos distintos. Você será o único. O problema é que seu sangue é tão fraco, que te drenará em pouco tempo já que terá que fazê-lo freqüentemente.

V respirou profundamente.

—Olhe, ela pode me usar se quiser. Pode ficar aí e saber o que acontece. O sexo não tem que estar comprometido.

Butch inclinou sua cabeça e se concentrou na jugular de seu companheiro de quarto. Então imaginou a Marissa naquele grosso pescoço, eles dois juntos. Entrelaçados.

—V, sabe que te quero como um irmão, certo?

—Sim.

—Alimenta-a e te arrancarei a fodida garganta.

V sorriu com satisfação, logo foi um amplo sorriso. O sorriso era tão amplo que teve que cobrir suas presas com o dorso da mão enluvada.

—Não se fala mais, homem. E menos mal. Nunca deixei alguém beber de minha veia antes.

Butch franziu o cenho.

—Alguma vez?

—Não! Sou uma virgem vascular. Pessoalmente, odeio a idéia de que uma fêmea se alimente de mim.

—Por que?

—Deixa-o.

Butch abriu a boca e V elevou a mão.

—Suficiente. Só deve saber que estou aqui se mudar de opinião e quiser me usar.

Isso não vai acontecer, pensou Butch. Nunca.

Respirando profundamente, agradeceu a Deus pela mensagem de Marissa. Tinha razão. Tinha-o mandado embora porque tinha que alimentar-se. Teria que ser isso. Homem, estava tentado a voltar a casa, exceto que queria respeitar seus desejos e não acossá-la. Além disso, amanhã a noite, assumindo que isto fosse sobre o sangue… bem, então tinha algo para ela.

Ia beber dele.

Quando a garçonete voltou com mais uísque escocês, Rehvenge apareceu na mesa. O corpo imponente do homem bloqueou a vista da multidão o que significava que Butch não podia ver a guarda de segurança dele. O que significava que poderia dar uma pausa.

—Minha gente lhes mantém o suficientemente abastecidos?

Perguntou Rehv.

Butch saudou com a cabeça.

—Bem abastecidos.

—É o que eu gosto de ouvir. —O Reverendo deslizou no banco fixo, esquadrinhando a seção VIP com seus olhos de ametista. Via-se bem, com essa roupa negra e a camisa de seda negra, seu mohawk era uma franja escura tosquiada da frente à parte de trás do crânio.

—Bom, eu gostaria de compartilhar algumas notícias.

—Vai se casar? —Butch bebeu a metade do novo Lag de um gole—. Onde tirou a licença? Na caixa dos “Coveiros”?

—Prova Heckler e Koch. —O Reverendo abriu sua jaqueta e lhe deixo ver o extremo de uma calibre quarenta.

—Bonita pistola para caniches a que tem aí, vampiro.

—Ao inferno com…

V interrompeu. — Olhar vocês é como ver jogos de tênis, e os jogos de raquete me aborrecem. Que novidades são?

Rehv olhou para Butch. —Tem um grande dom com as pessoas não?

—Tenta viver com ele.

Rehvenge sorriu com satisfação, logo ficou sério. Quando falou, sua boca apenas se movia e custava escutar as palavras.

—O Conselho do Princepes se reuniu ontem à noite. A questão é uma ordem de sehclusion para todas as fêmeas não apareadas. O leahdyre quer uma recomendação aprovada e apresentada ao Wrath o quanto antes.

V assobiou.

—Um fechamento.

—Exatamente. Usam o rapto de minha irmã e a morte da Wellesandra como razões fundamentais. Que é uma merda poderosa, como deveria ser.

Entrecerrando os olhos Rehvenge Olhou a V.

—Fala com seu chefe. A glymera está zangada pela perda dos civis que houve ao redor da cidade. Este movimento é uma advertência para o Wrath, estão levando muito a sério o que acontecer. O leahdyre está me perseguindo por que não podem votar a menos que todos os membros do conselho estejam presentes e eu estou ausente quase sempre. Posso postergar a reunião durante um tempo, mas não para sempre.

Naquele momento, um telefone celular soou dentro da jaqueta de Rehvenge e este respondeu.

—E olhe, aqui está Bela. Ouça, irmã... —os olhos do homem cintilaram e seu corpo mudou de posição.

—Tahlly?

Butch franziu o cenho, tinha a impressão de que quem quer que estivesse naquela linha era uma fêmea e não uma irmã. O corpo de Rehvenge desprendia tanto calor como o fogo de uma fogueira.

Perguntava-se que tipo de mulher se enredaria com uma obra de arte como o Reverendo. Por outro lado, obviamente V conseguia aparear-se, por isso evidentemente existiam esse tipo de mulheres por aí.

—Espera, tahlly.

Rehv franziu o cenho e ficou de pé.

—Até mais tarde, senhores. E as bebidas correm por minha conta esta noite.

—Obrigado pelos drinques—disse V.

—Maldição, sou um modelo de cidadão, certo?

Rehv foi a seu escritório e fechou a porta atrás dele.

Butch sacudiu a cabeça.

—Então Rehvenge tem uma chippie, né?

V disse grunhindo.

—Sinto pena por essa fêmea.

—Certo.

Butch deixou vagar o olhar pelo local e ficou tenso. Essa fêmea desumana com o corte de cabelo masculino ainda o olhava fixamente das sombras.

—Pegou isso, policial?

Pergunto V brandamente.

—A quem? —respondeu tomando o resto da bebida de um só gole.

—Sabe perfeitamente bem de quem estou falando.

—Não é seu assunto, companheiro.

 

Enquanto Marissa esperava que Rehvenge respondesse, perguntou-se onde estava. Ouvia-se um alvoroço de música e vozes. Em uma festa?

O ruído se cortou bruscamente, como se tivesse fechado uma porta.

—Tahlly, onde está? Ou será que agora Havers codifica seus telefones?

—Não estou em casa.

Silêncio.

—Então, está onde penso que está? Esta com a Irmandade?

—Como sabe?

Ele murmurou algo, logo disse:

—Só há um número no planeta que este telefone não pode rastrear, e é de onde minha irmã me chama. Agora você fala do mesmo lugar sem um identificador. Que infernos está acontecendo?

Encobriu a situação, dizendo que ela e Havers tinham discutido e tinha tido que procurar algum lugar onde ficar.

Rehv blasfemou.

—Deveria me haver chamado primeiro. Quero cuidar de você.

—É complicado. Sua mãe...

—Não se preocupe por ela. —A voz do Rehv se voltou um ronrono—. Vem comigo, tahlly. Tudo o que tem que fazer é se materializar no apartamento de cobertura e farei você recolher.

—Obrigado, mas não. Só vou estar aqui o tempo suficiente até que possa me estabelecer em outra parte.

—Se estabelecer em algum lugar...? Que demônios! Esta tolice com seu irmão é permanente!

—Estarei bem. Escuta Rehvenge, eu… preciso de você. Tenho que tentar outra vez…

Apoio a cabeça em sua mão. Odiava usá-lo, mas a quem mais poderia recorrer? E Deus… Butch… Butch... parecia-lhe que o estava enganando. Salvo que, qual era a alternativa?

Rehvenge grunhiu,

—Quando, tahlly? Quando me quer?

—Agora.

—Só vêm A... ah, inferno, tenho que me encontrar com o Princeps leahdyre. E logo tenho algumas questões relacionadas com o trabalho das que tenho que me ocupar.

Ela agarrou o telefone. Maldita espera.

—Amanhã, então?

—Ao anoitecer. A menos que queira vir e ficar em minha casa. Então poderíamos ter… todo o dia.

—Verei você na primeira hora da tarde.

—Não posso esperar, tahlly.

Depois de desligar, estirou-se na cama e se afundou de puro esgotamento, seu corpo se voltava indistinguível dos lençois, mantas e travesseiros, só outro objeto inanimado em cima do colchão.

OH, infernos… talvez esperar até manhã fosse o melhor. Poderia descansar e falar com Butch sobre o que estava acontecendo. Enquanto não estivesse sexualmente motivada, deveria ser capaz de controlar-se com ele e este era o tipo de conversa que era melhor ter pessoalmente. Se os humanos fossem como os vampiros quando estavam vinculados, Butch não ia achar nada bom que tivesse que estar com alguém mais.

Com um suspiro, pensou em Rehv. Logo no Conselho do Princeps. No sexo feminino em geral.

Deus, até se o movimento de sehclusion fosse derrotado por milagre, realmente haveria algum lugar certo para as fêmeas se eram ameaçadas em suas casas? Com a desintegração da sociedade vampírica e todos os enfrentamentos com os lessers, não havia nenhuma assistência social para a raça. Nenhuma rede de amparo. Ninguém para ajudar a fêmeas jovens se o hellren em sua casa era violento. Ou se a família mandava à fêmea longe.

Meu Deus! O que lhe teria acontecedo se Beth e Wrath não a tivessem recolhido? Ou se não tivesse a Rehvenge?

Bem poderia ter morrido.

 

Abaixo, no centro de formação do complexo, John foi o primeiro ao vestuário depois que terminou a aula. Trocou-se rapidamente ficando o suspensório e o ji, impaciente por que começasse a prática de combate.

—Qual é a pressa, John? Ah, espera, você gosta que lhe dêem de chutes no traseiro.

John olhou sobre seu ombro. Lash estava de pé em frente de seu armário aberto, tirando uma elegante camisa de seda. Seu peito não era maior que o do John e os braços eram magros, mas quando o tipo o olhou fixamente, seus olhos queimavam como se tivessem o tamanho de um touro.

John enfrentou diretamente aquele olhar deslumbrante, seu corpo avivando-se. Homem, esperava que Lash abrisse a boca, ansiava que dissesse algo mais. Somente uma coisa mais.

—Vai desmaiar outra vez, John? Como a joaninha que é?

Bingo.

John se atirou contra o moço, mas não chegou longe. Blaylock, o ruivo, agarrou-o e o conteve, tratando de evitar a luta. Mas Lash não era nenhum peso morto. O bastardo retirou seu punho e lhe atirou um gancho direito com tanta força que John se soltou do agarre pelo Blaylock e bateu os armários com um som metálico.

Atordoado, sem fôlego, John estendeu a mão cegamente.

Blaylock o agarrou outra vez.

—Jesus Cristo, Lash…

—O que? Vinha a por mim.

—Você começou.

Os olhos Lash se entrecerraram.

—O que disse?

—Não tinha que ser tão idiota.

Quando Lash apontou ao Blaylock, seu relógio de Jacob & CO,cintilou como uma lanterna sob as luzes.

—Cuidado, Blay. Jogar em sua equipe não é boa idéia.

O tipo sacudiu a mão e deixou cair suas calças.

—Homem, isto é muito bom. Como se sentiu desde esse extremo, John… guri?

John o deixo estar e se liberou. Quando seu rosto palpitou ao ritmo do batimento do coração, por alguma absurda razão pensou nas luzes intermitentes de um carro.

OH, Senhor… quão mal estava? Cambaleou até chegar à fila de lavabos, e conseguiu dar uma olhada no espelho que abrangia a parede. Genial. Simplesmente genial. A bochecha e o lábio já estavam inchando.

Blaylock apareceu atrás dele com uma garrafa fria de água.

—Ponha isto.

John pegou a água gelada e a pôs sobre o rosto. Fechou os olhos para evitar ver a si mesmo e ao ruivo.

—Quer que diga ao Zsadist que não treinará esta noite?

John sacudiu a cabeça.

—Está certo?

Ignorando a pergunta, John devolveu a garrafa de água e se dirigiu ao ginásio. Os outros alunos o seguiram tensos, pisando nos colchonetes azuis e alinhando-se a seu lado.

Zsadist saiu da quarto de equipamento, deu um olhar à cara de John e se voltou muito zangado. —Tirem as mãos todos, com as Palmas abaixo.—Caminhou na frente de cada aprendiz até que se deteve frente ao Lash.

—Bonitos nódulos. Contra a parede.

Lash passeou através do ginásio, com o ar satisfeito do que se salva de trabalhar.

Zsadist parou frente das mãos de John.

—As volte.

John o fez. Fez-se um silêncio que durou um batimento do coração. Então Zsadist agarrou o queixo do John e lhe fez subir a cabeça.

—Vê dobrado? —John sacudiu a cabeça.

—Náusea? —John sacudiu a cabeça.

—Sente dor? —Zsadist tocou um pouco a mandíbula. John estremeceu. Sacudiu a cabeça.

—Mentiroso. Mas isso é o que queria ouvir. —Z caminhou e se dirigiu aos aprendizes.

—Voltas. Vinte. E cada vez que passe por um companheiro que está ali de pé, vocês se deterão e farão vinte flexões. Estilo Marinha. Se movam!

Os gemidos eram fortes.

—Parece-lhes que me importa? —Zsadist assobiou entre dentes. —Se movam!

John começou com o resto, pensando que esta ia ser uma noite muito longa. Mas ao menos Lash não parecia tão feliz consigo mesmo…

Quatro horas mais tarde, resultou que John tinha razão.

Para o final da sessão, todos estavam esgotados. Z não só os moeu nos colchonetes, também os manteve mais tempo que de costume. Provavelmente, séculos mais que de costume. O maldito treinamento foi tão penoso que nem sequer John teria energia para seguir praticando depois de que terminasse o treinamento dessa noite. Em troca, foi diretamente ao escritório de Tohr e se derrubou na cadeira, sem sequer tomar banheiro.

Levantou as pernas e as apertou, calculou que descansaria só um minuto, logo iria tomar banho.

A porta se abriu de repente,

—Está bem? —exigiu Zsadist.

John não o olhou, só saudou a cabeça.

—Vou recomendar que tirem o Lash do programa.

John se ergueu e começou a sacudir a cabeça.

—De qualquer maneira, John. Esta é a segunda vez que foi até você. Ou tenho que te recordar os sopapos de faz uns meses?

Não, John o recordava. Merda, entretanto...

Com muito que dizer para que Z compreendesse tudo por gestos, alcançou o caderno e escreveu com extremo cuidado: Se o expulsar, parecerei fraco ante os outros. Vou lutar junto a estes caras algum dia. Como podem confiar em mim se pensarem que sou um peso leve?

Deu o caderno a Zsadist, que sustentou as páginas em suas grandes mãos com cuidado. A cabeça do Irmão baixou e franziu as sobrancelhas, sua boca deformada se moveu um pouco como se medisse cada palavra.

Quando Z terminou, atirou o caderno na mesa.

—Não terei essa pequena merda te batendo John. Simplesmente não o tolerarei. Mas está certo em um ponto. Estarei vigiando o Lash continuamente. Mas,mais um mais destes bonitos episódios, e se vai.

Zsadist caminhou até o armário onde estava oculto o acesso ao túnel, logo o olhou por cima do ombro.

—Escuta, John. Não quero uma luta geral durante o treinamento. Não quero que vá até o bastardo embora o mereça. Só mantém a cabeça baixa e suas mãos para você mesmo. Phury e eu o vigiaremos para você, de acordo?

John olhou ao longe, pensando o quanto tinha querido bater no Lash. O quanto ainda queria fazê-lo.

—John? Está claro? Nenhuma briga.

Depois de um longo momento, John assentiu devagar com a cabeça.

E esperou ser capaz de manter sua palavra.

Horas e horas depois, o traseiro de Butch estava tão adormecido que não poderia dizer onde terminava o chão e começava seu traseiro. Todo o dia, tinha estado sentado no vestíbulo à porta da quarto da Marissa. Como o cão que era.

Não poderia dizer que tinha sido tempo perdido. Havia pensando muito.

E tinha feito uma chamada telefonica que embora tinha sido o correto, sentiu-se miserável ao fazê-lo: fez da tripas coração e chamou a sua irmã Joyce.

Nada tinha mudado em casa. Evidentemente sua família lá no sul de Boston ainda não tinha interesse em ter nada a ver com ele. Realmente isso não lhe incomodava porque esse era o seu status . Mas o fazia sentir-se mal por Marissa. Ela e seu irmão tinham estado muito unidos, assim ser rechaçada por ele deve ter sido uma surpresa certamente desagradável.

—Amo?

Butch olhou para cima.

—Hei, Fritz.

—Tenho o que me pediu.

O doggen se inclinou e lhe ofereceu uma bolsa de veludo negro.

—Acredito que está de acordo com suas especificações, mas se não for assim, posso procurar outra.

—Estou certo de que é perfeita.

Butch pegou a pesada bolsinha, abriu-a e verteu o conteúdo em sua mão. A cruz de sólido ouro era de três polegadas de comprimento e duas polegadas de largura, grossa como um dedo. Suspensa ao final de uma longa cadeia de ouro, era exatamente o que estava procurando e a pôs ao redor do pescoço com satisfação.

O substancial peso era justo o que tinha esperado, um amparo tangível.

—Amo, que tal esta?

Butch sorriu à cara enrugada do doggen enquanto desabotoava sua camisa e deixava cair a corrente dentro. Sentiu a cruz deslizar abaixo em sua pele até que descansou justo sobre o coração.

—Como te disse, é perfeita.

Fritz sorriu, fez uma reverência e se foi, bem quando o antigo relógio começou a soar ao final do corredor. Uma vez, duas vezes… seis vezes.

A porta da quarto frente a ele se abriu.

Marissa se mostrou ante ele como uma aparição. Depois de tantas horas de pensar nela, seus olhos se velaram momentaneamente, vendo-a como se não fosse real, mas sim como um invento de seu desespero, o etéreo vestido, o cabelo como uma gloriosa aura dourada, seu rosto de inesquecível beleza. Quando a olhou fixamente, seu coração a transformou em um ícone de sua infância católica, a Madonna da Salvação e do Amor… e ele seu indigno servente.

Arrastou-se para levantar-se do chão, sua coluna rangeu ao ver-se obrigada a suportar seu peso.

—Marissa.

Ah, merda, suas emoções estavam justo ali em sua oxidada voz, a dor, a tristeza, o pesar.

Ela elevou a mão.

—Senti cada palavra do que mandei dizer ontem à noite na mensagem. Eu adorei estar com você. Cada momento. Essa não foi a razão pela qual tinha que partir e desejaria ter sido capaz de me explicar melhor nesse momento. Butch, precisamos conversar.

—Sim, sei. Mas se importa se descermos à sala?

Porque não tinha nenhuma intenção de ter público, e sem importar o que dissesse, dava-se conta que preferia não estar em uma quarto a sós com ele. Estava tão tensa como o inferno.

Quando assentiu, dirigiram-se à sala de estar no final do corredor, e no caminho, ficou atônito por quão fraca estava ela. Movia-se devagar, como se não pudesse sentir as pernas, estava muito pálida, quase transparente por sua falta de energia.

Uma vez dentro da quarto pêssego e amarelo, dirigiu-se para as janelas, longe dele.

Suas palavras foram tão fracas como sua respiração quando falou.

—Butch, não sei como te dizer isto…

—Sei o que está acontecendo.

—Sabe?

—Sim. —dirigiu-se para ela, com os braços estendidos.

—Não sabe que eu faria qualquer coisa...

—Não se aproxime mais. —deu um passo atrás.—Tem que se afastar de mim.

Deixou cair as mãos.

—Precisa te alimentar, não é assim?

Seus olhos aumentaram.

—Como soube…

—Esta tudo bem, carinho —sorriu um pouco—. Tudo está muito bem. Falei com o V.

—Mas sabe o que tenho que fazer? E não se… importa?

Ele assentiu.

—Por mim está tudo bem. Mais que bem.

—OH, graças à Virgem Escriba. C

Cambaleou-se sobre o sofá e se sentou como se seus joelhos tivessem falhado.

—Tive tanto medo que se ofendesse. Também será duro para mim, mas é a única forma segura. E eu já não posso esperar. Tem que ser esta noite.

Quando deu golpes na poltrona, foi a seu lado com alívio e se sentou com ela, enquanto tomava suas mãos. Deus, estava tão fria!

—Estou realmente preparado para isto —disse com grande antecipação.

Homem, repentinamente estava morrendo por levá-la de volta a seu quarto.

—Vamos.

Uma expressão curiosa cruzou seu rosto.

—Quer olhar?

Deixou de respirar.

—Olhar?

—Eu, ah… não estou certa de que seja uma idéia boa.

Quando suas palavras foram compreendidas, Butch foi consciente de sentir um afundamento em suas tripas. Como se alguém houvesse jogado com seus órgãos internos.

—Do que está falando… olhar?

—Quando estiver com o homem que me permite beber de sua veia.

Abruptamente, Marissa retrocedeu, lhe dando uma boa idéia da expressão que deveria ter.

Sim, ou possivelmente estava reagindo ao feito que tinha começado a grunhir.

—O outro homem —disse lentamente, enquanto entendia tudo o que me disse que estiveste vendo. Esteve se alimentado dele.

Ela assentiu devagar.

—Sim.

Butch se elevou sobre seus pés.

—Freqüentemente?

—Ah… quatro ou cinco vezes.

—E é um aristocrata, claro.

—Bom, sim.

—E seria um companheiro socialmente aceitável para ti, não?

Não como um pedaço de merda humano.

— Não é assim?

—Butch, não é romântico. Juro.

Sim, possivelmente de seu lado não o era. Mas era malditamente difícil imaginar qualquer homem sem desejar ter sexo com ela. O bastardo teria que ser impotente ou alguma merda assim.

—Esta interessado em você, certo? Responde a pergunta, Marissa. O menino voador com o plasma de um superhéroi… te deseja, não? Não é assim?

Deus de onde infernos vinham este ciúmes selvagens?

—Mas ele sabe que não sinto o mesmo.

—Beijou você?

Quando não respondeu, Butch se alegrava muito de não saber o nome do tipo e sua direção.

—Não o usará mais. Você me tem .

—Butch, não posso me alimentar de você. Tomaria muito… aonde vai?

Cruzou a pernadas a sala, fechou as portas duplas, e os encerrou sob chave. Enquanto retornava junto a ela, atirou a jaqueta de seu traje negro no chão e rasgou sua camisa, fazendo estalar os botões que voaram por toda parte. Ajoelhando-se frente dela, moveu a cabeça para trás e lhe ofereceu a garganta, ofereceu a si mesmo, a ela.

—Usará-me .

Houve um longo silencio. Então sua essência, essa fragrância limpa vistosa, intensificou-se até alagar a quarto. Seu corpo começou a tremer, começou a abrir a boca.

Quando despiu as presas, teve uma ereção imediatamente.

—OH… sim —disse com voz escura—. Tome. Preciso te alimentar.

—Não —gemeu, lágrimas brilhando em seus olhos azul aciano.

Fez um movimento para levantar-se, mas saltou sobre ela, tomando-a pelos ombros, sujeitando-a contra a poltrona. Moveu-se colocando-se entre suas pernas, unindo seus corpos, levantando-se sobre ela. Ainda quando estremecia contra ele e o empurrava, manteve-a perto, acariciando-a brandamente com o nariz, mordendo sua orelha, lambendo sua mandíbula, depois de um momento, deixou de lutar para escapar. E pegou pelos bordos da camisa para aproximá-lo mais dela.

—Assim, carinho —grunhiu—. Se agarre a mim. Me deixe sentir essas presas entrarem em mim profundamente. Desejo isso.

Colocou a palma da mão atrás de sua cabeça e aproximou sua boca de sua garganta. Um arco de puro poder sexual explodiu entre ambos, começaram a ofegar, sentia o fôlego e as lágrimas dela quentes sobre sua pele.

Mas então pareceu recuperar o juízo. Lutou firmemente e ele fez o que pôde para mantê-la em seu lugar, embora os dois fossem terminar com marcas. Embora no final perderia a luta contra ela. Já que como era simplesmente um humano, ela era mais forte, embora a superasse em peso em mais de 40 quilos.

Mas com sorte cederia e o usaria antes de que sua energia se debilitasse.

—Marissa, por favor, bebe —gemeu, sua voz rouca pela resistência e agora suplicando.

—Não…

Seu coração se quebrou quando ela soluçou, mas não a deixou ir. Não podia.

—Toma tudo o que há dentro de mim. Sei que não sou suficientemente bom, mas tome de todas as formas…

—Não me faça fazer isto…

—Tenho que… —Deus, sentia a mesma vontade de chorar que ela.

—Butch… —Seu corpo resistiu e retorceu contra o seu, suas roupas voaram quando lutavam—. Não posso me deter… por mais tempo… deixe-me ir… antes de que te faça mal…

—Nunca.

Passou tão rápido. Seu nome se disparou fora dela em um grito e então sentiu uma labareda de dor a um lado da garganta.

As presas se afundaram em seu jugular.

—OH…Droga… sim…! —Relaxou os punhos e a embalou quando travou em seu pescoço. Ladrou seu nome ao primeiro puxão erótico, a primeira dura sucção em sua veia, seu primeiro gole. Quando se reposicionou em um melhor ângulo, o prazer o alagou, as faíscas fluíram através de todo seu corpo como se tivesse um orgasmo. Esta era a forma em que tinha que ser. Precisava que tirasse dele para viver…

Marissa quebrou o contato e se desmaterializou, fora de seus braços.

Butch caiu de cabeça no vazio onde ela tinha estado, seu rosto plantando-se nas almofadas do sofá. Tendo cansado totalmente enredado, impulsionou-se para ficar de pé e deu a volta.

—Marissa! Marissa!

Atirou-se para as portas e arranhou a fechadura, mas não conseguiu liberar-se.

Então escutou sua voz quebrada, desesperada do outro lado. —Mataria você… Deus me ajude, mas mataria… te desejo tanto.

Bateu a porta.

—Me deixe sair!

—Sinto-o —Sua voz se quebrou, logo se fez mais firme. Temeu sua decisão.

— O sinto muito. Virei depois até você. Depois de fazer o que preciso.

—Marissa, não faça isto…

—Amo você.

Bateu a madeira com seus punhos.

—Não me importa se morrer! Não vá até ele!

Quando a fechadura cedeu finalmente, irrompeu no vestíbulo e correu para a escada.

Mas para o momento em que abriu a porta principal da mansão, ela tinha ido.

Do outro lado da cidade, em um estacionamento subterrâneo onde eram realizadas as lutas, Van saltava dentro da grade da jaula, ricocheteando sobre a planta de seus pés. O som de seus exercícios de aquecimento soava como o retumbar de um tambor sobre os níveis de concreto, cortando através do silêncio que reinava.

Esta noite não havia uma multidão, só três pessoas. Mas era vigorozo estar de pé só no aposento.

Van foi quem sugeriu o local ao Sr. X, e tinha mostrado como chegar no mesmo. Como conhecia o cronograma das lutas, estava certo de que essa tarde não haveria ninguém por ali e uma grande parte dele queria ter seu momento de glória, sua ressurreição aqui nesta arena, não em algum anônimo porão em alguma parte.

Testou alguns murros, muito satisfeito com sua força, então olhou seu oponente. O outro lesser se via tão motivado como ele pela luta corpo a corpo.

Do outro lado da jaula, Xavier ladrou. —Não se detenha até que tenha terminado. E Sr. D, que este esteja no chão imóvel não quer dizer “terminado”, esta claro?

Van assentiu, acostumado já a ser chamado por sua última inicial.

—Bem. —As palmas de Xavier aplaudiram e começou a luta.

Van e o outro lesser caminharam em círculos um sobre o outro, mas Van não tinha intenção de permitir que a lenta dança durasse por muito tempo mais, moveu-se primeiro, lançando murros, forçando a seu oponente a retroceder contra a jaula. O lesser recebeu os golpes desafiantes de seus nódulos como se fosse nada mais que chuva da primavera em seu rosto e então o imbecil mandou um gancho demolidor de direita. A maldita coisa agarrou Van em ângulo, abrindo seu lábio.

Doeu, mas a dor era boa, um reforço, algo mais em que focar-se. Van girou e mandou um murro voador, uma bomba no extremo de uma cadeia de aço. Certo como a merda de que ele tombaria, deixando o tipo escancarado. Van saltou sobre seu oponente e o dominou em um agarre por submissão, torcendo seu braço pelas costas de maneira que as articulações forçassem seu ombro e cotovelo. Somente um pouco mais de tensão e faria este idiota estalar perfeitamente.        

O lesser lhe deu um golpe baixo, de alguma forma cravando em Van o joelho em seu sexo. Uma rápida mudança de posições e Van estava debaixo. Então com outro giro estavam em pé.

A luta continuava sem parar, durante todo o tempo, sem descanso, os dois se bateram para tirar o inferno de seu interior. O que era um fodido milagre. Van sentia que poderia seguir por horas, sem importar quão machucado seu corpo fosse. Era como se tivesse um motor por dentro, uma força impulsionando-o, uma que não estivesse embotada pelo esgotamento ou a dor como o estava seu velho ser.

Quando a ação finalmente se quebrou, o fator decisivo era a especialidade de Van… qualquer coisa que fosse isso. Embora os dois estivessem igualados em força, Van era o amo nisto, e viu a oportunidade para ganhar. Fez estalar os intestinos do outro assassino, lhe cravando um golpe no fígado que poderia fazer que um oponente humano se cagasse na cueca. Então levantou seu oponente e bateu lançando-o ao chão da arena. Quando se elevou sobre o corpo e olhou para baixo, o sangue de Van emanava dos cortes ao redor de seus olhos e caíam sobre o rosto do tipo como lágrimas… lágrimas negras.

Momentaneamente as cores dançaram frente a Van, e o outro lesser tomou vantagem de sua falta de concentração girando sobre suas costas.

Sim, não aconteceria, não desta vez. Van fechou seu punho e o chocou com a têmpora do lesser, exatamente com a força correta e no lugar correto, nocauteando o estúpido lesser. Com um rápido arranque, Van chutou seu oponente, montou sobre o peito do assassino e bateu uma e outra vez, lhe rompendo o crânio até que os ossos protetores se abrandaram. E seguiu fazendo-o, batendo-o, dando à tarefa de eliminar a estrutura facial do tipo, a cabeça se voltou uma bolsa frouxa, seu oponente morto.

—Termine com ele! —exigiu Xavier das laterais.

Van olhou para cima, ofegando com dificuldade.

—Acabo de fazê-lo.

—Não… Acabe com ele!

—Como?

—Deveria saber o que tem que fazer. —O descolorido olhar de Xavier brilhava com uma luz misteriosa.—Tem que fazê-lo!

Van não tinha claro exatamente quão morto tinha que estar o lesser, mas o agarrou pelas orelhas e lhe torceu o pescoço até que se quebrou. Então soltou o corpo. Embora já não tivesse coração para que pulsasse, seus pulmões queimavam e seu corpo estava deliciosamente sem energia pelo exercício... exceto que o cansaço não durava.

Começou a rir. Já que a força retornava a ele, vertendo-se em alguma parte como se tivesse comido, dormido e tivesse tido dias para recuperar-se.

As botas do Xavier aterrissaram com força na arena e o Fore-lesser caminhava a grandes passos até ele, furioso.

—Disse que acabasse com ele, maldito seja.

—Uh-huh. Está bem. —Cristo. Xavier tinha que lhe tirar o triunfo do momento.—Pensa que sairá caminhando disto?

Xavier tremeu com raiva enquanto pegava uma navalha.

—Disse-te que o matasse.

Van se levantou e ficou de pé de um salto. Mas Xavier simplesmente saltou em cima dessa sujeira, essa bolsa desprezivel de lesser e o apunhalo no peito. Houve uma labareda de luz e logo… se foi. Nada mais que manchas negras na pista da arena.

Van retrocedeu até se chocar com a cerca.

—Que demônios…

Do outro lado, Xavier apontou a navalha para o peito de Van.

—Tenho expectativas em relação a você.

—Como… o que?

—Deve poder fazer isto… —apontou para a marca da desintegração com a navalha.—Você sozinho.

—Então me dê uma faca na próxima vez.

Xavier agitou sua cabeça, um estranho tipo de pânico ondulou em seu rosto. —Droga! —Deu uns passos a seu redor, e então murmurou.—Isto simplesmente tomará tempo. Vamos.

—Que há a respeito do sangue? —Homem, essa oleosa matéria negra repentinamente o fez enjoar-se.

—Tem que me importar uma merda? —Xavier recolheu a bolsa de roupa que tinha ficado do lesser e se foi.

Enquanto Van seguia para o estacionamento, estava realmente aborrecido que o Sr. X brincasse com algo assim. Tinha sido uma boa luta e Van tinha ganho. Queria desfrutar do sentimento.       

Em um silêncio forçado, os dois se dirigiram para aminivan que estava estacionada a umas quadras à frente. Enquanto caminhavam, Van esfregou o rosto com uma toalha tratando de não amaldiçoar. Quando chegaram ao automóvel, Xavier deslizou atrás do volante.

—Aonde vamos? —pergunto Van enquanto subia.

Xavier não respondeu, só começou a conduzir. Van olhou fixamente o limpador de pára-brisas, se perguntando como poderia esquecer o tipo. Não facilmente, suspeitava.

Quando passaram frente a um novo arranha-céu em construção, observou os homens do turno da noite. Sob as luzes elétricas, as equipes do sindicato estavam todos sobre o edifício igual a formigas, e os invejou embora tenha odiado tudo o que faziam.

Homem, se ainda fosse um deles, não teria que estar brigando com a péssima atitude do Sr. X.

Em um capricho, Van elevou a mão direita e observou o dedo mindinho perdido, recordando como o tinha perdido. Fodido estúpido. Tinha estado em uma construção, cortando pranchas sobre uma mesa de serrar, e decidiu tirar a guarda da maquina para fazer o processo mais rápido. Depois de um momento de distração seu dedo tinha terminado voando pelo ar com grande facilidade. A perda de sangue lhe tinha parecido tremenda, a substância gotejando sobre ele, cobrindo o chão sob a serra, empapando a terra. Vermelha, não negra.

Van colocou a mão sobre o peito e não sentiu o pulsar de seu coração.

Um estremecimento de ansiedade percorreu sua nuca, como aranhas escorregando dentro do pescoço de sua camisa. Deu uma olhada para Xavier, o único recurso que tinha.

—Estamos vivos?

—Não.

—Mas esse tipo foi assassinado, não? Assim devemos estar vivos.

Os olhos de Xavier dispararam chispas do outro lado do assento.

—Não estamos vivos. Confia em mim.

—O que aconteceu, então?

O esgotamento se refletiu na palidez de Xavier, no olhar fixo sem vida, as pálpebras cansadas o faziam ver-se como se tivesse milhões de anos de idade.

—O que aconteceu a você, Sr. X?

O Fore-lesser não respondeu, somente seguiu conduzindo.

 

Marissa se materializou na terraço do apartamento de cobertura deRehvenge e quase sofreu um colapso. Foi dando tombos para a porta corrediça que ele abriu de par em par.

—Marissa, bom Deus! —segurou-a entre seus braços e a conduziu para dentro.

Dominada pela sede de sangue, aferrou-se aos músculos de seus braços, a sede era tão forte que era provável que o mordesse estando ali de pé. Para se impedir de lhe rasgar a garganta, afastou-se de seu abraço, mas ele a agarrou e a fez girar para enfrentá-lo.

—Vêem aqui agora mesmo! —Atirou-a no sofá.—Está a ponto de sofrer uma comoção frente na minha fente.

Quando caiu sobre um montede almofadas, sabia que tinha razão. Seu corpo estava desequilibrado, sua cabeça dava voltas, sentia as mãos e os pés intumescidos. Seu estômago era como um fossa profunda e vazia, as presas tremiam, sua garganta estava seca como o inverno e quente como agosto.

Mas quando desabotoou a gravata e fez arrebentar os botões de sua camisa, ela resmungou:

—Não em sua garganta! Não posso agüentar isto… não você...

—Está muito fraca para se alimentar do pulso. Não tera suficiente e não temos tempo.

Como se isso fosse um sinal, sua visão começou a tornar-se imprecisa e a perder a consciência. Marissa ouviu que Rehvenge amaldiçoava e logo a colocou sobre ele, empurrou seu rosto em seu pescoço e…

A biologia assumiu o controle. Mordeu-o tão forte que sentiu tremer seu poderoso corpo e sugou com desinibido instinto. Com um grande rugido, sua força se verteu ao estômago e se estendeu aos membros e fez voltar seu corpo à vida.

Enquanto tragava com desespero, as lágrimas fluíam tão espessas como seu sangue.

Rehvenge sustentou Marissa brandamente, odiando a fome que a consumia. Era tão frágil, tão delicada… nunca deveria estar neste estado tão desesperado, acariciou-lhe as costas, tratando de acalmá-la. Enquanto chorava silenciosamente, ele se zangou. Cristo, o que ocorria a aquele tipo para que ela estivesse assim? Como podia obrigá-la a vir a outro?

Dez minutos mais tarde, levantou a cabeça. Havia um pequeno fio de sangue em seu lábio inferior e Rehv teve que agarrar-se ao braço do sofá para não inclinar-se e lambê-lo.

Saciada, mas com o rosto sulcada pelas lágrimas, Marissa se voltou e se recostou contra as almofadas de couro no outro extremo do sofá e se abraçou com os magros braços. Fechou os olhos e ele viu retornar a cor às umidas bochechas.

Deus, olhe aquele cabelo dela. Tão fino. Tão exuberante. Tão perfeito. Queria estar nu e não estar medicado e duro como uma pedra, com aqueles frisados cabelos loiros ondeando por todo seu corpo. E se não podia ter tudo, queria beijá-la. Agora mesmo.

Em vez disso, alcançou o terno, pegou um lenço, e se inclinou para ela. Ela saltou quando lhe secou as lágrimas, e pegou o lenço de linho rapidamente.

Revh voltou para seu canto do sofá.

—Marissa, fica comigo. Quero cuidar de você.

No silêncio que seguiu, pensou na situação em que ela se encontrava, e calculou que o tipo por quem estava apaixonada tinha que viver no complexo da Irmandade.

—Está ainda apaixonada pelo Wrath,certo?

Seus olhos se abriram.

—O que?

—Disse que não podia se alimentar do homem que queria. Wrath está emparelhado agora...

—Não é ele —disse.

—Phury, então? Como é celibatário...

—Não... e não quero falar disso, se não se importar —olhando para o lenço.—Rehvenge, eu gostaria de ficar um momento a sós. Posso me sentar aqui durante um momento? Sozinha.

Embora não estivesse acostumado a ser rejeitado, sobre tudo em sua própria casa, estava disposto a lhe dar espaço.

—Fique tanto tempo quanto quiser, Tahlly. Só feche a porta quando partir. Ligarei o alarme com o controle remoto depois que você for.

Quando colocou o terno, deixou a gravata solta e o pescoço da camisa aberto porque o tinha mordido rudamente e as marcas estavam muito sensíveis para serem cobertas. Não que se preocupasse o mínimo.

—É tão amável comigo —disse, contemplando seus sapatos.

—Realmente, não o sou.

—Como pode dizer isto? Nunca pede nada em troca.

—Marissa, me olhe. Me olhe —querida Virgem do Fade, era linda. Sobre tudo com seu sangue nela.—Não se engane. Ainda te quero como minha shellan, quero você nua em minha cama, quero você grávida com meu filho em seu corpo. Quero… sim, quero tudo com você. Não faço isto por ser agradável, faço para me colocar sob sua pele. Faço porque tenho esperanças de que algum dia, de alguma forma possa ter você onde quero que esteja.

Enquanto seus olhos e aumentavam, ele manteve o resto para si mesmo. Não havia razão para dar fazê-la saber do fato de que o Symphath que havia nele queria arrastar-se por sua mente e apropriar-se de cada emoção que houvesse sentido alguma vez. Ou compartilhar a realidade de que o sexo com ele seria… complicado.

Ah, as satisfações de sua natureza. E sua anomalia.

—Mas quero que acredite em uma coisa, Marissa. Nunca cruzarei a linha se você não quiser.

Além disso, Xhex estava provavelmente certa. Os mestiços como ele estavam melhores sozinhos. Inclusive se os Symphath não fossem discriminados e pudessem aparear-se e viver como os normais, nunca deveriam estar com alguém que estivesse indefeso contra seu lado escuro.

Colocou o casaco longo Marta cibellina.

—Esse seu homem … melhor que se una ao programa. Imbecil de merda desperdiçando uma fêmea tão valiosa como você. —Rehv juntou toda sua força de vontade e se dirigiu para a porta—. Se precisar de mim, me chame.

 

Butch andou pelo ZeroSum, foi para à mesa da Irmandade, e tirou o impermeável Aquascutum. Ia ficar aqui um bom tempo. O que não seria uma novidade, certo? Infernos, deveria montar um maldito barraco de cães e mudar-se.

Quando a garçonete chegou com um uísque escocês, disse:

—Há alguma possibilidade de que possa me trazer a garrafa?

—Sinto muito, não posso.

—OK, vêem aqui —a chamou com o dedo. Quando se inclinou, pôs uma nota de cem dólares sobre a bandeja.— É para você. Quero que me mantenha contente e servido.

—Claro.

Sozinho na mesa, Butch acariciou seu pescoço tocando com as pontas dos dedos as agudas feridas. Quando sentiu onde tinha sido mordido, tratou de não imaginar o que Marissa estava fazendo agora mesmo a alguém mais. A um aristocrata. A um bastardo bem educado que era melhor que ele, a platina frente às simples medida que o representava. OH, Deus!

Como um mantra, repetiu o que V havia dito. Que não tinha que ser sexual. Que isto era uma função biológica. Que não havia nenhuma opção. Que… não tinha que ser sexual. Esperava que se escutasse a letanía freqüentemente em sua cabeça, acalmaria o inferno de suas emoções, então poderia aceitar a necessidade que ela tinha de fazer isto. Depois de tudo, Marissa não era cruel. Tinha estado tão aflita como ele…

Em sua imaginação, viu seu corpo nu e não pôde menos que imaginar as mãos de outro homem acariciando seus seios. Os lábios de outro homem viajando através de sua pele. Outro homem que tomava sua virgindade enquanto a alimentava, seu corpo duro movendo-se em cima dela, dentro dela.

E todo o momento ela bebia… bebendo até que se enchesse, até que estivesse saciada, repleta.

Sendo cuidada. Por alguém mais.

Butch martelou seu duplo Lag.

Merda. Ia se partir ao meio. Ia desfazer-se, aqui mesmo, agora mesmo, seu interior se derramaria em carne viva sobre o andar, os órgãos vitais seriam moídos sob os pés de vários estranhos junto aos guardanapos de coquetel e os recibos de cartões de crédito.

A garçonete, bendito seu coração, veio com mais uísque escocês.

Quando pegou o segundo copo, exortou-se: O’Neal, se comporte e tenha um pouco de orgulho. Tenha um pouco de fé nela, também. Nunca dormiria com outro homem. Simplesmente não o faria.

Mas o sexo era só uma parte.

Quando terminou o uísque, deu-se conta que havia outra dimensão no pesadelo. Ela ia ter que alimentar-se com regularidade, certo? Teria que fazer isto uma e outra vez.

Droga. Gostaria de pensar que era um homem adulto o suficientemente, um homem bastante certo que poderia dirigir tudo isto, mas era possessivo e egoísta. E a próxima vez que se alimentasse, estariam de volta onde estava agora, ela nos braços de outro homem, ele bebendo em um clube sozinho, ao ponto de matar a si mesmo. Só que seria pior. E a seguinte vez ainda pior. Amava-a tanto, tão profundamente, que destruiria a ambos e isto não levaria muito tempo.

Além disso, que tipo de futuro poderiam ter? Com o vício de uísque adquirido ultimamente, provavelmente só ficaria mais uns dez anos com seu fígado e a raça de Marissa vivia durante séculos. Ele seria só uma nota no rodapé de página em sua longa vida, um buraco no caminho para finalmente descobrir um companheiro que fosse o correto, que poderia lhe dar o que precisasse.

Quando a garçonete lhe trouxe um terceiro uísque duplo, Butch sustentou seu indicador para mantê-la a seu lado. Esvaziou o copo enquanto esperava, e o devolveu, e ela voltou para o bar.

Quando retornava com o quarto, duas mesas mais à frente, um loiro ossudo, dilapidador de massa com um trio de guarda-costas de largos pescoços, começou a lhe fazer gestos para chamar sua atenção.

Cristo, parecia como se o menino passasse cada maldita noite neste lugar. Ou talvez fosse simplesmente um idiota.

—Hey! —Chamou o menino—. Precisamos de seu serviço. Tira esse pesado daqui.

—Já vou. —disse a garçonete.

—Agora —disse bruscamente o imbecil—. Não depois.

—Não demorarei muito —murmurou a Butch.

Quando ela se aproximou do punk, Butch observou enquanto a acossavam. Malditos fanfarrões faladores, todos eles. E não iriam melhorar embora a noite continuasse.

Por outra lado, Butch tampouco o faria.

—Parece um pouco agressivo, Butch O’Neal.

Fechou os olhos com força. Quando os abriu outra vez, a mulher com cabelo de homem e corpo masculino ainda estava na frente dele.

—Vamos ter um problema com você esta noite, Butch O’Neal?

Desejou que deixasse de dizer seu nome.

—Não, estou tranquilo.

Seus olhos cintilaram com uma luz erótica.

—Ah, isso eu o sei. Mas sério esta vez. Vai ser um problema esta noite?

—Não.

Ela o contemplou fixamente durante longo tempo. Então sorriu um pouco.

—Bem… estarei observando você. Tenha isso em mente.

 

Joyce O’Neal Rafferty esperou seu marido na porta com o bebê no quadril e um olhar furioso no rosto. Quando Mike ficou de pé so lado de fora, estava claramente cansado depois de fazer turnos duplos no T, mas a ela não poderia lhe haver preocupado menos.

—Hoje recebi uma ligação de meu irmão. Butch. Falou a ele sobre o batismo, não?

Seu marido beijou a Sean, mas não tentou nada com ela.

—Vamos, carinho...

—Isto não é assunto seu!

Mike fechou a porta.

—Por que o odeia tanto?

—Não vou discutir com você.

Enquanto ela virava partindo, ele disse:

—Ele não matou sua irmã, Jo. Tinha doze anos. O que poderia ter feito?

Trocou a seu filho de braço e não se voltou.

—Isto não é sobre Janie. Faz anos que Butch voltou as costas à família. Sua decisão não teve nada a ver com o que passou.

—Talvez todos viraram as costas a ele.

Fulminou-lhe com o olhar sobre seu ombro.

—Por que o defende?

—Era meu amigo. Antes de conhecer e me casar com você, era meu amigo.

—Certo amigo. Quando foi a última vez que teve notícias dele?

—Não importa. Foi bom comigo quando o conheci.

—É uma alma tão generosa. —dirigiu-se para a escada—. Vou dar de comer a Sean. Deixei algo para você jantar na geladeira.

Joyce se dirigiu para o primeiro andar, e quando chegou ao patamar superior, fulminou com o olhar o crucifixo que pendurava na parede. Passando pela cruz, entrou na quarto de Sean e se sentou na cadeira de balanço que estava perto do berço. Deixou um seio descoberto, e o ofereceu a seu filho que se prendeu dele, sua mão apertando a pele ao lado de seu rosto. Enquanto se alimentava, o pequeno corpo saudável se sentia quente e gordinho, as pestanas baixas sobre as bochechas rosadas.

Joyce tomou vários fôlegos profundos.

Merda. Agora se sentia mal pelos gritos. E por dar as costas à cruz do Salvador. Disse uma oração a Maria e logo tratou de acalmar-se contando os perfeitos dedos do pé de Sean.

Deus… se algo lhe acontecesse, morreria, seu coração literalmente nunca pulsaria do mesmo modo, outra vez. Como tinha feito sua mãe? Como tinha sobrevivido à perda de um filho?