Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AMOR EM ALTO MAR / Heinz G. Konsalik
AMOR EM ALTO MAR / Heinz G. Konsalik

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AMOR EM ALTO MAR

 

O cego foi o primeiro a saltar do autocarro. A princípio viu-se somente sua bengala branca, a porta automática abriu-se devagar e ruidosamente, em seguida o bastão apalpou através da abertura, depois apareceu uma cabeça oblonga, com cabelos castanhos curtos e óculos de lentes grossas e de cor escura, que virou-se à esquerda e à direita, como que espreitando, para então desaparecer mais uma vez no interior do autocarro, antes que o sujeito saísse de vez do veículo.

Os outros passageiros esperaram pacientes no autocarro todo equipado com condicionadores de ar e que cheirava a limpeza, até que o cego saltasse conduzido por uma moça, tacteando com cuidado o desconhecido à sua frente. As pessoas acostumaram-se e conversaram o bastante sobre ele no longo voo de Frankfurt a São Francisco, com escala em Miami. Mesmo voando na primeira classe, na certa para não importunar ninguém, ele foi, nesse meio tempo, um deles. E iria conviver com eles durante semanas em um navio de duzentos metros de comprimento e vinte e oito de largura, com onze conveses e cerca de seiscentos passageiros. Um hotel de luxo flutuante atravessando o Pacífico de um lado para o outro.

- O que a gente se pergunta mesmo - um passageiro sussurrou para sua mulher durante o voo - é o que um homem assim aproveita dessa viagem. Gasta uma fortuna... e não vê coisa alguma.

 - A acompanhante, claro que uma enfermeira, explicará tudo para ele.

 A mulher bocejou. Já faziam seis horas que estavam no ar, haviam bebido champanhe, comido presunto de Praga com couve-de-bruxelas, degustado como sobremesa um delicioso creme e, a seguir, um café moca com conhaque ou licor e, nesse momento, estavam na fase da modorra após a comida.

 - Além disso - opinou a mulher - isso não nos diz respeito.

 - É bem verdade que ele poderá ouvir e cheirar tudo... mas gastar muitos milhares com isso?

- Ernest, feche os olhos e durma um pouco.

- Sim, e ele tem o sol, o calor, o ar fresco do mar... Mesmo assim não seria o meu caso. Que tipo de profissão pode ter um sujeito assim?

- Vá até lá e pergunte a ele! - A mulher reclinara bem para trás o recosto do assento e preparava-se para tirar um cochilo. - Em todo o caso ele tem bastante dinheiro.

Após a decolagem em Frankfurt, outros passageiros também falaram sobre o cego na parte da frente do Jumbo, até acostumarem-se com sua presença entre eles. Agora, em São Francisco, as pessoas apresentavam-se amáveis esperando que ele saltasse do autocarro. Mas depois acabou-se a amabilidade no amplo e alto saguão do píer 7. Os novos passageiros do NM Atlantis apressaram-se como se fossem tomar de assalto uma montanha, passando pelo cego com as bagagens de mão, estojos fotográficos e sacolas, a fim de, passando pela escada, ocupar o navio branco, orgulhosamente embandeirado.

 

Um pequeno batalhão de comissários esperava por eles no píer do convés. O comissário-chefe - ali chamado de director de hotel - viu rostos conhecidos e cumprimentou uns e outros; três oficiais de uniforme branco formavam um impressionante Comité de recepção; o comissário-chefe apertou mãos, até que a onda humana também passasse por ele.

Os passageiros dividiram-se velozmente em todas as direcções, nas partes de cima e debaixo do navio. Aqueles que já conheciam o NM Atlantis, os repetidores, os fiéis passageiros de várias viagens, apressaram-se em direcção aos seus lugares. Em contrapartida, os novos mostraram suas passagens, sendo cada um acompanhado por um comissário até a cabine que iria ser seu lar durante três, quatro ou cinco semanas.

O segundo autocarro parou diante do saguão do píer 7. Nesse dia subiriam a bordo até São Francisco trezentos e quarenta novos passageiros, cheios de expectativa para conhecer a vastidão infinita dos mares do sul.

O NM Atlantis tomaria uma rota até aqui não seguida por nenhum navio de cruzeiro, com ilhas cujos nomes seriam ouvidos pela primeira vez, a não ser que a pessoa fosse um geógrafo. Trezentas pessoas da Europa; sem contar os americanos que viajavam sozinhos. A relação de passageiros impressa na gráfica de bordo continha muitos nomes conhecidos e o comandante Teyendorf suspirara algumas vezes durante a leitura.

 - Meu Deus, ela está de novo a bordo? - gritara ele apontando para um nome. - Não se podia impedir isso, Sr. Riemke?

 Gehard Riemke, o "director de hotel", encolheu os ombros.

- Ela paga, portanto não podemos impedir, comandante. Que motivo daríamos para recusar-lhe a viagem?

 - Muito simples, está tudo ocupado! Tudo reservado!

- Ela sabe muito bem que não é este o caso. Sempre reservou a suíte 004, a Goethe, com um ano de antecedência! Então, não podemos fazer nada.

- Podia-se argumentar: a senhora põe em perigo a moral do navio.

- Senhor comandante! - Riemke torceu a boca com um ar sarcástico. - Se partíssemos desse ponto de vista, então deveríamos desembarcar vinte por cento dos passageiros durante a viagem... no mínimo! Além do que, agora essa dama está com setenta e seis anos!

- Vamos aguardar! - Teyendorf colocou a lista de passageiros em cima da escrivaninha e foi para a extremidade da ponte a estibordo. Dali ele podia abranger com a vista todo o lado do navio e vislumbrar o passadiço. Outros passageiros apressavam-se sob as gigantescas janelas do saguão do píer 7, investindo em direcção ao barco.

O cego do autocarro caminhou devagar, tacteando com a bengala branca o caminho à sua frente, embora a moça estivesse de braço dado com ele; parou diante de uma loja de flores e levantou o nariz farejando.

 - Está bem assim? - perguntou o cego em voz baixa.

Uma pergunta completamente incompreensível.

 - Muito bem, Sr. Dabrowski - respondeu a moça também em voz baixa.

 - Então, adiante!

Chegaram à escada e subiram os degraus tacteando. Na entrada do navio, várias mãos esticaram-se solícitas em direcção a eles.

 

- Obrigado - disse Dabrowski. - Obrigado. Cabina 136 para mim e 313 para a enfermeira Beate. Não creiam que eu seja uma pessoa completamente desamparada. Em três dias estarei conhecendo o barco tanto quanto os senhores. Aqui, nós estamos numa espécie de saguão. Posso ouvi-lo pelo som, pelo eco. Por favor, levem-nos às nossas cabines...

Tão logo Dabrowski ficou sozinho em sua cabine, ele tirou o casaco, atirou-o em cima da cama e pegou a mala de couro. O comissário encontrava-se com a enfermeira Beate a caminho do convés Atlantis, onde situava-se a 313.

- O Sr. Dabrowski é totalmente cego? - perguntou.

- Totalmente.

- Então a senhora precisa explicar para ele tudo que vê?

- Aliás é por isso que posso viajar junto. - As faces de Beate brilharam um pouco febris. - Minha primeira grande viagem marítima. Já estive duas vezes em Helgoland, mas aí aproveitei pouco. Deus, como fiquei enjoada! Vi tudo como que através de uma névoa.

- Eu também.

- O senhor? Um marinheiro? Fica enjoado?

 - Em Helgoland, sempre! Conheço muita gente que viaja por todos os mares... mas quando partem de Cuxhaven para Helgoland, ficam de rosto verde. A senhorita verá que tudo é diferente aqui no Pacífico. Nesta estação do ano o oceano Pacífico é realmente tranquilo. Com algumas excepções, é claro. Elas sempre existem.

 - E somos justamente nós que viveremos essas excepções, não é mesmo?

 - Olha, pode ser que haja algum balanço na viagem de Acapulco até o Panamá, mas nos daremos bem! A propósito, eu me chamo Nobert.

 - O senhor é o comissário da minha cabine?

 - Não. Em geral fico no bar Atlantis. Todos nós ajudamos somente no embarque. Não sei quem é o encarregado de seu corredor.

Pararam diante do número 313, a porta estava aberta, no interior da cabine as luzes ardiam. O ar-condicionado zumbia de modo quase imperceptível. Soava uma música baixa no rádio montado na mesinha-de-cabeceira.

- A bagagem estará a bordo em cerca de uma hora - disse o comissário Nobert. - Em seguida, nós as entregamos nas cabines - Desejo-lhe que se divirta a bordo... se é que cuidar de um cego pode ser chamado de diversão.

- Para mim é. - Ela sentou-se na cadeira atrás da mesa e esticou os braços. - O Sr. Dabrowski é um paciente agradável. Ele faz muitas coisas sozinho. Terei muito tempo livre.

 - Fico contente em ouvi-lo. - Ele fez uma pequena vénia e sorriu radiante. Uma moça nada má, pensou ele, um especialista. Um comissário que já participava de viagens de luxo havia cinco anos, tinha lá sua experiência. Não tremendamente linda, mas e daí? A maioria das mulheres bonitas é presunçosa, mas a média é grata por qualquer coisa.

Quando se pode optar entre uma mulher de classe, atrás da qual os homens correm como cães de caça, e uma moça de beleza mediana que muitas vezes não é notada... então escolhe-se a mediana. Mais tarde você sentirá a alegria dela nas marcas das costas.

- Até mais tarde - disse Beate respondendo com um sorriso contido.

- O bar Atlantis! Atrás do solário.

- Encontrarei.

 

Nobert fechou a porta e voltou apressado ao convés Pacífico, a fim de levar outros passageiros às suas cabines. Um caso de sorte essa pequena, pensou ele cheio de alegria antecipada enquanto levava a mala de uma velha senhora para a cabina do convés superior. Haverá poucas jovens a bordo. Essa vai ser outra vez uma viagem na qual a média de idade dos passageiros situa-se entre os sessenta e setenta anos... afinal de contas, quem pode bancar tal luxo? Haverá algumas filhas muito bem vigiadas, mas elas não são para nós, os comissários. Outros já estão prontos para elas. Os jovens oficiais, os engenheiros de bordo. Os gatos de serviço. Um comissário de bar está em má situação, à noite ele fica entre suas garrafas.

Beate esperara até que Nobert fechasse a porta, depois pegou o telefone e discou o número da cabina 136. Dabrowski atendeu.

- Tudo em ordem? - perguntou ela.

- Tudo. Nesse momento estou bebendo um bom uísque. Meu comissário de cabina chama-se Volker. É evidente que sou seu primeiro cego. Ele me perguntou se vai precisar vestir-me pelas manhãs. - Dabrowski deu uma risada seca. - Eu respondi que não, para isso estou acompanhado de uma simpática moça! Ele deve encarar-me como um milionário totalmente pirado. Será óptimo que isso se espalhe a bordo. Como foi a coisa para seu lado, Beate?

- Já fisguei o comissário do bar Atlantis.

- Genial! A propósito, nós nos sentamos à mesa C 8, bem defronte à mesa do comandante. Um lugar muito bom. Podem-se ver muitas coisas dali.

Parece gozado que um cego diga uma coisa dessas, mas Dabrowski divertia-se com isso. No fundo, ele era uma pessoa de humor.

Quando o comissário Volker levou a garrafa de uísque e o copo com gelo, Dabrowski disse bem despreocupado:

- Excelente. Um Chiavas de quinze anos! - e, ao supor que Volker encarava-o espantado, acrescentou: - Sinto o cheiro, meu caro. Se você fosse cego, também vivenciaria o mundo através do nariz e dos ouvidos, sobretudo dos ouvidos! A audição é o decisivo. Assim, por exemplo, você está usando sapatos novos, Volker. Posso ouvir, as solas novas ainda rangem ao andar. Ainda não são suficientemente flexíveis.

Volker saiu da cabina desconcertado. Depois, na despensa do convés, disse para seus colegas:

 - Mas que sujeito eu tenho na 136! Cego, mas ouve as pulgas tossirem. Reconhece o uísque pelo cheiro.

 - Idiotice. Isso não existe. - O comissário do corredor de estibordo, chamado de "Franz, a hélice" por causa do bigode longo e saliente, fez um sinal de negação como se fosse para uma piada de mau gosto.

- Da próxima vez apresente um uísque alemão para ele, aí você vai ver que só foi um acaso..

 - O que você está fazendo, Beate? - perguntou Dabrowski ao telefone. Ele estava sentado junto à enorme janela dividida em dois e, posto que a cabina situava-se a bombordo, podia-se ver o píer 8 e o resto do porto... desde que se pudesse enxergar. Dabrowski chegara a retirar os óculos escuros e olhava pela janela como se seus olhos estivessem plenamente em ordem.

 - Estou esperando a bagagem - respondeu Beate.

 - Isso ainda pode levar algum tempo. Vamos passear no tombadilho?

 - Se você quiser.

 

 - Óptimo. Vou indo em sua direcção no foyer. Até daqui a pouco, Beate. - Ele desligou, pegou um gravador e falou lenta e sublinhadamente:

- A bordo. Nenhum acontecimento especial. Horário: 16:22 h.

Continuou sendo segredo seu como ele foi capaz de dizer uma hora tão precisa assim. Cinco minutos depois, desceu o corredor de cabinas tacteando com a bengala branca em direcção à tolda, passando pelo salão de cabeleireiro e pela loja envidraçada de um joalheiro internacional. Aqui ele parou um instante, bateu no vidro como que compondo na cabeça um mapa de orientação e depois seguiu adiante com passos miúdos e cautelosos. Os passageiros que vinham em sua direcção abriam caminho pressionando-se contra a outra parede do corredor.

 - Bom dia - disse Dabrowski algumas vezes com a maior das amabilidades. - Bom dia. Muito obrigado!

 Os passageiros seguiam-no com a vista, em parte espantados, em parte compadecidos. Sim senhor, que audição têm os cegos! E que faro! Como o de um animal selvagem. Eles parecem farejar o mundo exterior. Mas mesmo assim, fazer uma viagem dessas... no fundo é uma idiotice. Mesmo que se lhe explique e descreva tudo, como poderá ele compreender a aparência da ilha de Páscoa ou de Bora Bora, as ilhas mais lindas do mundo.

Ou o delta do rio Guayas que se adentra para ir a Guaiaquil, cercado de manquejais flutuantes. Pode-se explicar tudo, mas jamais se substituir a experiência da visão.

 Os passageiros respondiam ao cumprimento. Um homem com sede de viver. Todo cautela. Mais tarde devíamos tomar umas e outras por ainda sermos tão razoavelmente saudáveis...

 Beate foi em sua direcção no foyer, deu-lhe o braço e juntos subiram a escada para o tombadilho. Quando ela abriu a porta de vidro, recebeu o ar quente qual nuvem densa. O gigantesco barco tinha um agradável ar-condicionado. Mais tarde isso se modificaria nos mares do Sul - os repetidores da viagem sabiam - quando nem mesmo o melhor ar-condicionado conseguia refrescar o navio e os chineses da lavanderia lá embaixo tinham dificuldade para impedir que as coisas de lã se enredassem por falta de água fria. Então, os gigantescos agregados de esfriamento não conseguiam. Além disso, não se podia responsabilizar mais o consumo de energia.

Mas isso ainda estava bem longe. Ali era apenas São Francisco, o início da viagem... o quarto autocarro trouxe do aeroporto outros passageiros que subiam a bordo de assalto.

 Dabrowski recostou-se na balaustrada e deixou que Beate contasse o que via. Nesse momento, entrou marchando no terraço do prédio uma orquestra, todos de uniforme vermelho e branco e capacetes adornados com penas. As câmaras de televisão foram postas em posição, para filmar a partida do NM Atlantis.

O comandante Horst Teyendorf saiu da ponte de comando na companhia do primeiro-oficial e, da extremidade da proa, olhou para a escada.

As roldanas das amarras foram averiguadas na parte anterior e posterior da tolda, o oficial de segurança informou por rádio à ponte estar tudo pronto para a partida. No terraço do terreno do píer, a orquestra começou a tocar uma marcha militar da marinha americana.

 - Pelo amor de Deus, lá está ela! - gritou Teyendorf de repente. - Hollywood em seus melhores dias!

 

 Ela já era vista através dos grossos vidros do saguão do píer: uma figura de estatura mediana, não tão exuberante, mas cheia de curvas, com um vestido de seda de flores enormes - papoulas que se assemelhavam a manchas de catchup - sapatos de verniz branco e de salto alto, nos quais ela andava dançando como se estivesse se movendo ao som de uma música caprichosa. Aliás, não se viu a cabeça na mesma hora. Estava oculta por um gigantesco chapéu branco revestido de renda, guarnecido com rosas vermelhas e lilases brancos de plástico. Enquanto caminhava com passinhos miúdos, balançava na mão direita uma sombrinha de renda branca; com a esquerda, acenava para todos os lados, como se a estivessem aplaudindo.

Nesse momento, quando ela levantou a cabeça para olhar a lateral branca do navio, pode-se ver também seu rosto: como uma máscara, sem nenhuma ruguinha, coberto com muito ruge, lábios vermelhos fogo, um nariz estreito como que sem osso, olhos que pareciam de gato depois de incontáveis liftings e sobrancelhas castanhas. Acima, saindo por baixo do chapéu, um emaranhado de cachos negros que, de um modo engraçado, enroscavam-se em cima das orelhas. Era seguida por um enorme empregado negro de libré branca empurrando um carrinho achatado cheio de bagagem.

Os funcionários da aduana atrás da mesa diante da escada e os três polícias de guarda arreganharam-lhe um sorriso. A mulher disse qualquer coisa para eles e uma risada alta retumbou pelo saguão.

- É assim que deve ser uma punição divina! - disse Teyendorf cheio de amargura na voz. - Isso supera tudo dela a que me acostumei até agora.

 - Gostaria de ter a aparência dela quando for velho! - Willi Kempen, o primeiro-condutor, levou o binóculo aos olhos e enfocou a velha senhora. Nesse momento, teve ampliados o rosto e a aba do chapéu. Era a primeira vez que via Anne White. Até então, sempre estivera de férias quando ela encontrava-se a bordo. E tanto mais as pessoas contavam-lhe sobre ela, sobre aquela lendária viva conhecida em todos os navios de cruzeiro, fossem de bandeira americana, inglesa, norueguesa, russa, italiana, grega ou alemã. Agora era a vez da alemã de novo. - Enorme! - disse Willi Kempen.

Teyendorf olhou de soslaio para seu primeiro condutor.

- Eu não sabia que você era perverso, Kempen - suspirou ele. - Mas em seu lugar, eu não faria nem por dez mil dólares...

 - Senhor comandante!

 - Você fica logo horrorizado quando faço uma piada.

 - Porque em geral esse não é seu estilo, senhor comandante.

 - Certíssimo. Mas quando vejo Anne White, fico fora de

mim! Estão todos a bordo?

- Vou averiguar.

De Riemke, o director de hotel, chegou a informação que ainda faltavam três americanos, um italiano e um francês, que viajavam em particular, e um dos astros da viagem, o cantor de câmara Franco Rieti. Rieti chegara dois dias antes e ainda dera uma apresentação na pedra de São Francisco. Como Canio em Bajazzo. Os jornais escreveram que a plateia aplaudiu durante exactos dezassete segundos. Depois disso, Rieti começou a tossir e andar de um lado para o outro com um cachecol de lã enrolado

no pescoço. As cordas vocais são especialmente a coisa mais sensível nos homens.

 

 - Partiremos na hora, Kempen - disse Teyendorf voltando para a casa do leme. - Todos tiveram tempo de sobra para chegar a bordo na hora.

 Ele tornou a olhar para o relógio, balançou a cabeça em silêncio e saiu da ponte. Kempen seguiu-o com a vista. O guarda, um segundo-oficial, desligou o aparelho de rádio pelo qual acabara de falar com o oficial de segurança da tolda dianteira; estava tudo pronto para a partida.

 - O velho tornou a roer unha hoje, não? - disse ele. - Há pouco me deu uma bronca porque o quebre estava enviesado. Qual é o problema?

 - Anne White chegou a bordo.

- Para a tripulação é uma grande alegria! Eles vão estar de bolsos cheios no desembarque. E o velho vai ficar de cabeça cheia. Na última vez houve duas brigas de faca no alojamento da tripulação, quase um assassinato. Claro que os passageiros não notaram coisa alguma e ninguém conseguiu provar uma ligação com a Sra. White... mas todos aqui sabem qual foi o motivo: quinhentos dólares!

- Essa Anne White deve ser maluca.

- Como queira. - O segundo-oficial arreganhou um sorriso largo e tornou a aproximar-se da gigantesca janela panorâmica da ponte. - Em todo o caso, ela tem um conteúdo hormonal digno de causar inveja a qualquer mulher de trinta anos.

 Nesse momento, o director de hotel Riemke recebia a milionária americana no saguão do convés Pacífico. A mulher enroscou-se no pescoço dele, beijou-o e gritou com voz ressonante:

 - Ah, como me alegro por estar aqui de novo! Não!, mas tantos comissários novos e elegantes! E Rudi está de novo a bordo. Abrace-me, Rudi!

 Seu alemão quase não tinha sotaque, sua falta de recato era arrebatadora. Rudi Pfannenstiel, o comissário-chefe, estava apartado, retraído, mas avançou obediente, abraçou Anne White e deixou-se beijar. Seus comissários sorriram encantados. Era raro ver-se Pfannenstiel, o ditador, perder a calma.

 Em segundo plano, ao lado de um dos oficiais, estava postado um homem baixo e quase delicado, de terno azul claro, observando a entrada da Sra. White com perplexidade evidente. Seu rosto ascético, emoldurado por cabelos castanhos com mechas grisalhas, pareceu agora de uma certa forma desconcertado.

 - Pronto para filmar - ele comentou a cena do beijo. - Quem é essa aí?

 - O senhor não conhece a Sra. White, padre? - o oficial olhou com desprezo o religioso católico de bordo, que embarcara somente havia uma hora. O padre jesuíta Heinrich Brause, destacado pela ordem para os cuidados espirituais do barco, um pastor de todos os mares, desapontou-o.

 - Isso é ela? - o padre Brause coçou a aba do nariz. - Já ouvi falar bastante dela. Mas nunca tive a alegria de viajar ao seu lado num barco.

- Alegria, padre? - o oficial ostentou um sorriso enviesado.

- Sim. Porei a Sra. White debaixo de minha asa.

- Isso demoraria pelo menos meio ano.

- Você não conhece a obstinação da Igreja. - O padre Brause respondeu com um sorriso. Era conhecido pelos provérbios marcantes e sarcásticos. - Além disso sou jesuíta. Até hoje quase ninguém conseguiu livrar-se de um jesuíta...

 

 Na suíte Goethe, a de número 004, esperavam pela Sra. White um gigantesco buque de flores e uma cuba de gelo com champanhe. Seu comissário de cabina, Josef Kraxler, um bávaro em quem o mar estava tão metido na medula que, durante as férias na cidade natal, deitava-se no pasto, encarava as encostas das montanhas e ficava sonhando com o Havaí e o Taiti, cumprimentou-a com um:

 - Ora, ora, cá está de novo... - e suportou com galhardia o beijo de saudação da mulher.

 - Você ficou mais gordo ainda! - disse Anne White contemplando-o com um olhar de desaprovação. - Sabe, não gosto de homens gordos. Roger White também era uma bola de gordura.

- Bem, sabe como é, eu preciso proteger-me de alguma maneira - disse Kraxler à vontade. - Como ouvi dizer que a senhora vinha, comi como um leão.

 - Seu vigarista! - Anne White tirou da cabeça o gigantesco chapéu de renda, sacudiu a peruca de cachos, desabou sobre uma poltrona funda e esticou bem as pernas. Suíte 004, um de seus muitos "lares".

- Abre a garrafa, Josef, estou ressecada.

 

Os últimos passageiros subiram a bordo, os americanos que faltavam, um italiano, proprietário de uma vinícola, chamado Artur Tatarani, o negociante de imóveis François de Angeli e, por último, o cantor de música de câmara Franco Rieti, agasalhado, apesar do dia quente, como se estivesse partindo para uma viagem à Gronelândia.

 O director de hotel Riemke suspirou satisfeito e comunicou à ponte:

 - Todos a bordo. Ninguém a menos nem a mais. Podemos partir!

 Na verdade, isso era um grande erro. Na cabina interior 213 encontravam-se dois passageiros, apesar de tratar-se de uma cabina individual: os gémeos univitelinos Herbert e Hans Fehringer. Eram um desses raros pares de gémeos que não se podem distinguir de maneira alguma. Mesmo entre os gémeos espantosamente semelhantes existem, em geral, minúsculas diferenças com as quais eles podem ser separados - uma nódoa no ombro, uma modificação no corte de cabelo, alguma cicatriz em algum lugar, um sorriso diferente, uma dessemelhança no andar; isso sem falar nas diferenças masculinas, desde que se tenha o privilégio de vê-los desnudos lado a lado... No caso de Herbert e Hans Fehringer não se podia constatar tal coisa. Os próprios médicos se desesperavam, a coisa já havia sido testada uma vez com alegria maldosa; os irmãos tinham a mesma pressão sanguínea e inclusive o mesmo pulso. Era-se obrigado a simplesmente acreditar, quando eles afirmavam, fosse falso ou correcto: "Eu sou Hans!" Mais tarde, até mesmo o pai fora levado a cometer engano e, tudo, jamais.

 Os gémeos Fehringer não haviam sido abençoados, pelo contrário. Eles negociavam em um carro com óculos acidentados, consertavam-nos e depois ofereciam-nos como garantia.

 Isso dava para viver, mas não dava para financiar uma viagem de longa distância dos dois.

 

 O truque nesses passeios pela vastidão do mundo era sempre o mesmo: um pagava a passagem, o outro simplesmente acompanhava. Haviam desenvolvido um método assombrosamente simples, que também funcionou da melhor maneira possível no NM Atlantis: voaram até São Francisco num avião da ABC, ali esperaram pelo desembarque dos passageiros do navio que vinha de Frankfurt e, de táxi, seguiram o segundo autocarro.

Em seguida, Herbert Fehringer misturou-se à multidão de passageiros, apresentou no saguão do convés Pacífico o bilhete correspondente para o trecho São Francisco-Sidney e foi acompanhado por um comissário até a cabine 213.

Ali chegando, preencheu o documento de bordo amarelo que se encontrava em cima da mesa, tornou a sair do navio com ele e entregou o bilhete ao irmão Hans que estava esperando junto a um quiosque no hall do píer. Este, por sua vez, entrou no NM Atlantis agitando a passagem. Coisa que não deu nas vistas no meio à massa humana que deambulava de um lado para o outro, uma vez que Hans disse:

 - Já fui checado, só dei mais um pulinho em terra.

 E, quando mais tarde Herbert tornou a entrar no navio com seu documento de bordo, bastou uma olhada no cartão amarelo.

 As dificuldades começaram somente após a partida, durante a viagem, quando se tratava de levar uma vida dupla como vida única. Mas mesmo nessa questão os gémeos Fehringer haviam desenvolvido uma habilidade francamente artística.

 A cabina 213, em geral vendida como individual, apresentava a vantagem de, em caso de necessidade, poder acolher também duas pessoas. Uma chamada cama Pullman, cama adicional, dobrável na parede e que depois ficava suspensa sobre a normal, permitia a recepção de um segundo passageiro. Claro que nesse momento ela não estava ocupada, permitindo que o segundo gémeo Fehringer se deitasse à noite de modo confortável. O colchão estava afivelado à cama, a cama normal possuía um travesseiro extra, uma coberta adicional fazia parte do equipamento padrão e, além disso, viajava-se por regiões tão quentes que, de qualquer modo, ninguém se cobria à noite.

Tão logo os dois Fehringers encontraram-se em sua cabina, fecharam a porta e experimentaram a cama Pullman. Esta, com alguns puxões, deixou-se soltar da parede sem maiores dificuldades. Não houve mais discussão alguma para se saber quem dormiria em cima e quem embaixo. Por meio de uma alternância equilibrada: três dias Hans em cima, três dias Herbert.

- Excelente! - disse Hans Fehringer sentando-se na cama e esfregando as mãos. - Que mesa temos? - ele pegou o mapa das mesas que estavam à disposição e acenou satisfeito. - Segundo horário de refeição, mesa B 6. O caminho dali até as cabinas é curto. Não podia ser melhor.

 

 Bateram na porta. O comissário de cabina. Hans Fehringer desapareceu no acto dentro do armário.

- A bagagem ainda vai demorar um pouco - disse o comissário. - Eu sou Louis. Bem-vindo a bordo. Deseja alguma coisa, Sr. Fehringer?

- Ah, sim. Uma garrafa de vodca.

- O senhor só vai poder comprar depois da partida. Determinação da aduana.

- E, por favor, todos os dias uma garrafa térmica com suco de laranja gelado, uma cuba de gelo e um cesto com frutas frescas.

Entregou a Louis uma nota de cinquenta marcos, que a fez desaparecer como se fosse um pedaço de papel para o lixo.

 

 Havia passageiros que logo se apresentavam a seu comissário de cabina com trezentos marcos.

 Deve-se saber disso: a coisa mais importante em um navio é um comissário de cabina benevolente. Aqueles que perdem as graças destes, no fim da viagem não passam de uma pilha de nervos. Nesse ponto, a surdez do comissário é o menor dos sofrimentos.

- O que é então que posso receber agora? - perguntou Herbert Fehringer. - Estou com a língua colada no céu da boca.

 - Eu poderia trazer-lhe cerveja. Uma pilsenurquell.

 - Você é um anjo! Quatro garrafas! Geladíssimas!

Os gémeos Fehringer começaram a aclimatar-se. Estavam tremendamente confortáveis no NM Atlantis. Aquela era a maior cabina na qual haviam viajado pelo mundo até então. Um navio de luxo, de verdade!

 No hospital do NM Atlantis, no convés A, já se encontrava um dos novos passageiros esperando pelo médico, arrastando a cadeira de um lado para o outro, impaciente. A enfermeira Erna telefonava para todos os lados esforçando-se para encontrar o Dr. Mario Paterna, o médico do navio, que deambulava por algum lugar. No final, ele havia sido visto no bar Olympia, depois do tombadilho onde acabara de conversar com o cego.

 Agora, no momento da mudança de passageiros, o hospital era o lugar mais tranquilo a bordo.

 - É tão urgente assim? - a enfermeira Erna virou-se do telefone na direcção do intranquilo passageiro.

 - Por acaso eu estaria aqui se não fosse? - de facto, sua voz soou um pouco desesperada.

 - Talvez eu possa ajudar-lhe, não? O senhor está com dores?

 - Não.

 - Com náuseas?

 - Isso sim.

 A enfermeira Erna lançou um olhar quase assustado para o passageiro.

 O navio ainda encontrava-se no píer e já havia um sujeito achando que estava doente? Não podia ser.

- Palpitações?

- Também.

- O senhor já teve antes esses problemas?

- Não. Somente depois... - o passageiro fez um sinal negativo. - Gostaria de falar com o médico. Agora! De que serve um hospital se não há nenhum médico à disposição?!

 Finalmente, a enfermeira Erna encontrou o Dr. Paterna no convés de esportes, descreveu pelo telefone os padecimentos do paciente e depois informou de modo tranquilizador:

 - O Dr. Paterna já está vindo.

 - Ele é italiano? - perguntou o passageiro com tom azedo.

 - Não. É de Dortmund. Talvez seu avó seja da Itália.

 - Uma vez eu estive hospitalizado na Itália, lá embaixo, na Calábria. Uma semana inteira. Você já esteve hospitalizada alguma vez na Calábria, enfermeira? Não? Esse tipo de coisa a gente não esquece jamais! Agora eu sei porque a maioria das óperas dramáticas foram compostas por italianos.

 O Dr. Mario Paterna era um homem alto e magro, que não podia desmentir sua origem do sul dos Alpes. As coisas mais atraentes nele eram os cabelos bem pretos de cachos encaracolados e os dentes de uma brancura deslumbrante, sobre os quais ele afirmava jamais tê-los escovado com os cremes dentais propagandeados a plenos pulmões, mas sim apenas com um simples giz.

 

 - E mastigar! - dizia ele sempre. - Mastigar com força! Os dentes precisam estar sempre mastigando. Pensem-nos hunzas, nos montanheses do Himalaia. Eles não sabem o que é cárie, mas também mastigam raízes dia e noite.

 Num certo sentido ele era uma excepção em termos de médico de navio: não se lhe podia imputar nenhum caso a bordo. Mesmo quando em todas as viagens as senhoras possuídas pelo demónio do sexo se hospitalizavam... ele as tratava com meios médicos e não deitando-se em suas camas. Algumas senhoras com desmedido desapontamento chegavam ao ponto de espalhar o boato de que ele devia ser bicha... um homem tão bonito como esse e sem nenhum interesse pelas mulheres, claro que isso é anormal! Contudo, contra essa afirmação havia o facto de ele ser divorciado e pai de uma menina de nove anos.

 - O que está acontecendo? - perguntou o Dr. Paterna após ter levado o passageiro doente para a sala de exame. O hospital possuía instalações modelares. Podiam-se inclusive realizar operações; tinha-se à disposição o mais moderno aparelho de anestesia. A enfermaria dispunha de vinte leitos. - Você está com palpitações?

 - Meu nome é Oliver Brandes. Sou oculista de Gelsenkirchen. - O passageiro ficou sentado na cadeira como que esgotado. - Estou com medo.

 - Como se o coração estivesse sendo apertado por um gancho?

 - Sim.

 - E falta de ar?

 - Por enquanto não. - Oliver Brandes encarou o Dr. Paterna, desconcertado. - Será que isso ainda vai acontecer? Pelo amor de Deus... estou com medo de que o navio naufrague.

- O que você está sentindo? - foi a resposta incrédula de Paterna.

- Medo de morrer afogado. Nalgum lugar lá fora no oceano Pacífico. Ou de ser estraçalhado pelos tubarões. Se o navio naufragar...

 - Ele não vai afundar. Pelas medidas humanas ele é insubmergível.

 - Pelas medidas humanas! - os olhos de Brandes começaram a tremer. - Disseram a mesma coisa do Titanic. E o que aconteceu? Mais de mil seres humanos afundaram junto com ele.

 - Não temos tantas pessoas assim a bordo - disse o Dr. Paterna em tom sarcástico. - Portanto, isso também não é possível.

 - Seu escárnio é inoportuno, doutor. - Nesse momento, todo o rosto de Brandes tremia. - Antes da viagem, eu sonhei seis vezes que o navio estava naufragando!

- Mas mesmo assim o senhor veio a bordo?

- Eu não queria ridicularizar-me perante o coral.

- O que é que o coral tem a ver com isso?

 

- Estamos todos a bordo. Vinte e dois homens! Até Valparaíso. Uma idéia completamente maluca e ainda por cima cara como o diabo. Mas nosso presidente disse: "O que fazemos com nosso dinheiro? Não dá para gastá-lo em banquetes, pois setenta por cento de nós têm diabetes. Tão-pouco podemos gastá-lo em porres, pois o fígado já não aguenta mais. Gastá-lo com as "putas"... Desculpe-me, doutor, mas foi isso que ele disse... "nos deixaria frustrados, pois quem é que ainda consegue dar uma? Mas ver o mundo, isso ainda podemos! Portanto, vamos fazer uma tentativa". - A voz de Brandes ficou chorosa. - O que é que eu podia fazer? Dar no pé? Cair no ridículo? Essa é a primeira vez que entro num navio, eu nunca quis entrar num, sempre tive medo de morrer afogado. Meu pai me enfiou isto na cabeça: fique sempre onde você possa voltar a pé para casa. E agora eu devo nadar no maior oceano do mundo. Você precisa me ajudar, doutor.

Paterna assentiu. As pessoas nunca aprendem, pensou ele. Eis aí um homem bem-sucedido, abastado, um oculista de Gelsenkirchen, e treme de medo em sua primeira viagem de navio. Mas ele vai fazê-la com medo de ser encarado como covarde por seus companheiros de coral. Vai ter de superar esse obstáculo.

 - Vou acompanhá-lo numa apresentação particular pelo navio. - Disse o Dr. Paterna procurando um tranquilizante no armário de medicamentos. - Vou mostrar-lhe quantos compartimentos estanques temos. Por maior que seja o rombo não nos encheremos de água.

- E se nós só quebrarmos?

- Isso é mais impossível ainda.

- Se racharmos ao meio?

- Bem improvável.

- Explodirmos?

- Olha, qualquer um pode afogar-se até na banheira! - o Dr. Paterna pegou um copo com água e entregou dois comprimidos a Brandes.

- Tome, por favor.

- Contra o quê?

- Os comprimidos deixam a pessoa indiferente. Se o navio afundar mais tarde, você vai tirar o terno para não molhá-lo.

Brandes engoliu os comprimidos, depois lançou um olhar de vida para o Dr. Paterna e disse:

- Você me acha um idiota total, não?

- De maneira nenhuma. Amanhã nós vamos andar pelo navio.

- Amanhã! Até lá se passará uma noite terrível.

 - Vá até nosso bar nocturno no Clube do Pescador e tome o maior porre. Isso ajuda.

 Oliver Brandes assentiu e, com as pernas bem inseguras, saiu do hospital. A enfermeira Erna pegou o copo e lavou-o.

- Esse aí nós vamos ver daqui a pouco - disse ela enquanto lavava.

- É o que eu também receio. - O Dr. Paterna deu uma risada baixa.

- O que você acredita que vai acontecer quando soar o alarme de exercício amanhã às dez da manhã? Preciso estar perto dele.

 

Existe uma lei irrevogável em todos os navios. Quando um barco zarpa ou ancora, o próprio comandante deve estar na ponte observando a manobra, isso quando ele mesmo não é obrigado a realizá-la.

 Horst Teyendorf era o tipo de comandante que assumia o controle pessoal na partida e na ancoragem, dirigindo o gigantesco corpo do navio. A coisa parecia tão simples: com uma pequena alavanca ele regulava os movimentos de mais de 33 mil toneladas.

 

 No terraço do prédio do píer, a orquestra americana tocou como despedida a marcha militar alemã "Velhos camaradas". A banda de bordo respondeu no tombadilho com Leve-me na viagem, comandante... e Adeus, adeus, não fique fora muito tempo... A bordo evitava-se de modo consciente fazer despedidas com marchas militares. Aquele era um navio civil, mesmo que os passageiros homens, noventa por cento deles na idade de ex-combatentes do fronte, desfrutassem da "Velhos camaradas" com os olhos brilhando, acompanhando o ritmo com batidas bizarras na balaustrada ou andando no tombadilho com o peito para fora e um insinuado passo de marcha. Alguns chegaram a ficar com olhos vermelhos de tanta emoção. "Good by, meus queridos amigos..."

 O NM Atlantis afastou-se lentamente do porto de São Francisco. Dois barcos-faróis tocaram as sirenes, o Atlantis respondeu com três trovões de sua sirene de neblina aguda e impetuosa. Centenas de braços acenaram, nesse momento a orquestra americana tocava melodias de musicais, a banda de bordo desceu do convés.

 - Bandinha preguiçosa essa - disse com desprezo um senhor de cabelos grisalhos e terno de seda. - Aposto como são todos sindicalizados.

 Ewald Dabrowski, o cego, encontrava-se também na balaustrada do tombadilho. Ao seu lado, Oliver Brandes abraçava-se ao corrimão de madeira respirando profunda e apressadamente. Agora não havia como voltar atrás. O oceano amplo iria abraçá-lo. Não se podia mais voltar a pé para Gelsenkirchen. Os comprimidos do Dr. Paterna que deviam deixar a pessoa indiferente não estavam fazendo nenhum efeito, embora ele mal pudesse supor que no fundo se tratassem apenas de inofensivos tabletes de cal.

 Brandes encarou o vizinho e soltou um suspiro fundo.

 - O senhor é cego? - perguntou ele.

 - Sim - foi a resposta lacónica de Dabrowski.

 - Sorte a sua. O senhor não vê o mar.

 - Mas até que podíamos trocar. Eu gostaria muito de ver o mar.

 - O senhor não tem medo?

 - De quê?

 - De afundarmos.

 - Bem, mais cedo ou mais tarde todos temos de encarar isso. E daí?

 - Minha Nossa Senhora, o senhor tem nervos de aço! Sabe como é terrível morrer afogado?

 - Não. No meu caso seria a primeira vez. O senhor já teve alguma experiência com isso?

 Brandes percebeu que dali não sairia nenhuma conversa sensata. Soltou-se da amurada e seguiu adiante. Talvez, pensou ele com seus botões, os cegos precisem viver com um certo fatalismo a fim de suportar o próprio sofrimento. No fundo, este sujeito é admirável. Coisa que ele já havia pensado no avião.

 Teyendorf saiu da ponte quando o Atlantis deixou o porto para trás por baixo da Golden Gate. Era sempre uma experiência nova passar por baixo daquela construção e ver a silhueta de São Francisco submergir lentamente. O entusiasmo dos passageiros não tinha limites.

Eles fotografavam a ilha-prisão de Alcatraz de todos os Ângulos; desde muito tempo que não havia nenhum prisioneiro naqueles prédios sombrios... Contudo, o mito permaneceu como último adeus da Golden Gate, que era tão esplêndida.

 

 E agora tinham à sua frente o Pacífico, o maior oceano do mundo. Começava uma aventura organizada em seus mínimos detalhes.

 Teyendorf encontrou o director de hotel Riemke e o comissário-chefe Pfannenstiel em seu camarote de comandante situado bem debaixo da ponte. Jogou o quepe sobre a escrivaninha, sentou-se no sofá de couro verde e cruzou as mãos. Willi Kempen, o primeiro-condutor, assumira a pilotagem do navio.

 - O que é? - perguntou Teyendorf.

 Pfannenstiel colocou uma folha de papel em cima da mesa.

 - A proposta para a mesa do comandante, senhor. O senhor não externou nenhum desejo.

 - Estou pouco ligando para quem vai sentar-se a ela. - Teyendorf deu uma rápida olhada na relação. Três casais e um solteiro. - No fundo, isso é uma tortura...

 - Temos três importantes repetidores a bordo. Além disso, First, o director-geral da Central Hidráulica Unida; o Dr. Simka, presidente do conselho fiscal da Indústria Química Hohenberger; o professor-cirurgião Dr. Lampertz, todos acompanhados das mulheres, depois os deputados federais...

 - Pare! - Teyendorf levou as mãos às orelhas com um talento de actor. - Essa vai ser de novo a viagem...

 - Em Sidney um cavalheiro da presidência da companhia de navegação virá a bordo - Comunicou Riemke. - Ainda não sabemos quem.

 - Ainda por cima isso! Isso aqui é a selecção de seiscentos passageiros? Não temos a bordo nenhum mestre-artesão, nenhum verdureiro, nenhum velho aposentado simpático e amigável...?

 - Não podemos tratar com rudeza toda a sociedade influente, senhor comandante. Sei o que o senhor pensa, mas os cavalheiros esperam pela mesa do comandante. - Riemke encolheu os ombros. - Uns correm atrás disso, outros fogem. Eu também fugiria.

 - Fora, Riemke!

 - Também posso colocar a Sra. White em sua mesa, senhor comandante - disse Pfannenstiel em tom suave.

 - Olha aqui, se eu não vir seus calcanhares fumegantes neste segundo, vai acontecer uma desgraça! - Teyendorf bateu com o punho na mesa.

- Cavalheiros, estou pouco ligando para quem vai ouvir minhas besteiras de sempre. Por sorte, até Valparaíso só temos doze dias de mar, nos quais devo sentar-me à mesa. Deixarei que me façam uma surpresa.

 Enquanto Riemke e Pfannenstiel ainda negociavam com o comandante Teyendorf por causa da lista de honra, as reclamações já abarrotavam os dois representantes do comissário-chefe. Alguns regateavam mesas junto às janelas. Outros, os viajantes experientes, queriam livrar-se de suas mesas junto às janelas, por saberem que, mais tarde, nos mares do Sul, mas também já na costa sul-americana, o sol queimaria tanto através dos vidros que, apesar das cortinas cerradas e do ar-condicionado ligado a todo o vapor, toda a refeição se tornaria um banho turco. Além disso, de que serve a mais bela das paisagens quando a janela está permanentemente fechada? Inclusive, quando a própria pessoa tem disposição, as mesas vizinhas reclamarão em voz alta: feche a cortina!

 Um casal de Oelde empreendeu uma luta heróica.

 

 - Senhor comissário-chefe! - disse o marido, com o rosto todo vermelho de excitação. - Acabei de saber que o casal Senkpiel vai sentar-se à mesa connosco. Não pode ser, é o que digo! Esses dois já se sentaram à nossa frente no Jumbo. O homem fuma cachimbo! Um depois do outro. Está levando uma bolsa inteira de cachimbos. E que tabaco ele fuma! Minha mulher passou mal, ficou sufocada, quase teve um ataque do coração. E agora essa gente vai passar quatro semanas à nossa mesa... não, não, isso precisa ser mudado agora mesmo!

 Com um gesto discreto, ele passou uma nota de cem marcos à mão do representante do comissário-chefe e recebeu a mesa B 16, para duas pessoas, bem distante do casal Senkpiel e de seus cachimbos periscópios.

 - Tudo acontece do jeito que você vê, minha querida - disse o marido de Oelde cheio de orgulho vitorioso para sua mulher. - Uma noitinha dessas...

 Aliás, ele não precisava gastar tanto, a mesa B 16 estava mesmo desocupada.

 Houve barulho em todas as cabinas até o jantar. A bagagem foi distribuída e agora as pessoas desfaziam as malas, penduravam os vestidos e ternos nos armários, espalhavam as roupas brancas pelas gavetas. Em pelo menos cem cabinas, as senhoras escandalizavam-se horrorizadas e soltavam gritos ao tirar os vestidos amarrotados das malas, depois procuravam no catálogo telefónico o número do costureiro de bordo... mas este estava permanentemente ocupado, não encontrando-se em seu pequeno e bolorento atelier. Houve um assalto imediato aos quartinhos com ferro de passar para o auto-serviço, existentes em todos os conveses. Ocorreram as primeiras batalhas femininas. Aquelas que entravam na fila nos quartos de passar roupa com mais de um vestido eram xingadas pela falta de consideração. Um linguista constataria encantado a inteligente capacidade de criação de palavras das damas da sociedade.

 O tempo voou. O primeiro horário de refeições - atrasado nesse dia por causa da partida - Começou às 19 horas. Poucos maridos não tiveram de suportar o mau humor de sua cara-metade. Os homens mesmo não tinham problema algum; calça, camisa, gravata e um paletó leve, isso sempre caía bem. Eles compensavam o alvoroço das mulheres com uma cerveja. É a melhor coisa que se pode fazer numa situação dessas.

 Na cabina 213, os gémeos Fehringer vestiram-se com todo cuidado. Não se diferenciavam em nada um do outro, inclusive os lenços de enfeite saíam do bolso do paletó com uma exactidão milimétrica. No espelho do armário que ia até o chão, os dois estavam completamente iguais. Ainda tinham tempo até o segundo horário de refeição, às 20 e 30 horas.

 - Quem vai primeiro? - perguntou Herbert.

 - Disputamos na provinha.

 Tiraram os fósforos e Herbert ganhou. No fundo, isso era supérfluo, mas sempre os divertia. No entanto, aquele que comesse em segundo lugar tinha sempre o papel mais difícil, posto que o comissário de mesa supunha que ele devia estar satisfeito. Era sempre uma pequena sensação quando, após a troca no banheiro, o segundo gémeo chegava à mesa e dizia:

 - Por favor, traga de novo o cardápio! - seguindo-se então toda uma infatigável série de pratos.

 

 O comissário de bebidas também ficava admirado com a sede e capacidade de resistência daquele freguês, o qual - enquanto um só homem pelo que parecia - liquidava oito cervejas no jantar e depois, de ânimo alegre e sobretudo erecto, saía do refeitório.

 O único perigo consistia no facto de alguém ver os gémeos por acaso, coisa que não havia acontecido em todas as viagens até então feitas. Tudo transcorria segundo um plano com exactidão de segundos, desde o desjejum até o namoro no bar nocturno. Claro que os dois também dividiam os passeios em terra, uma vez Herbert, noutra Hans, de acordo com o interesse de cada um pela oferta. Eles sabiam que só seriam obrigados a jogar bolinha no caso de Bora Bora; ambos queriam conhecer a ilha mais bela do mundo.

 No fundo, o segundo horário de refeição é sempre o mais exclusivo. Primeiro porque a pessoa não precisa apressar-se, posto que a mesa não será mais usada e também não precisará ser posta de novo. Depois porque o comandante também come no segundo horário de refeição. Em terceiro lugar, as pessoas encontram muitos conhecidos que já sabem de todas essas vantagens desde outras viagens. De uma certa maneira, os repetidores estão em seu meio. E acima de tudo é um imenso sacrifício comer às 18 horas, quando a pilsen ainda está saindo espumante da serpentina da cervejaria.

 Mas também existem certas desvantagens, quando, por exemplo, consta peixe frito no cardápio. Nesse caso, o primeiro horário de refeição é servido com o peixe frito no ponto, estalando. No segundo horário de refeição, após ficar crepitando por hora e meia, ele não passa de uma coisa pastosa, lodosa. Nem o melhor mestre-cuca consegue manter estalando seiscentas porções de peixe frito durante mais de duas horas. Acontece o mesmo no caso do macarrão e também do aspargo. Claro que se poderia fazer o que compete a um hotel de luxo, cozinhar tudo segundo os pedidos; contudo, nenhum dos trezentos comensais por horário de refeição iria esperar. Pedir agora e ser servido em dez minutos o mais tardar. De qualquer modo, esses cozinheiros dos navios de cruzeiro são mesmo mágicos. Só em se ler o cardápio que muda todos os dias já é um gozo culinário; mesmo existindo passageiros que proclamam sem a menor cerimónia: por mais de quinhentos marcos por dia eu posso exigir.

 O NM Atlantis rolava suave sobre as ondas em direcção ao México, deixando para trás a costa da Califórnia. Terminara o primeiro jantar. No salão de festas, que ali se chamava Salão dos Sete Mares, a banda de bordo tocava para a dança digestiva. Os três bares do navio já haviam sido sitiados. Alguns fanáticos do ar fresco encontravam-se no convés olhando a noite estrelada e a espuma produzida pela quilha do navio ao mergulhar nas ondas. O marulhar monótono era incrivelmente tranquilizador.

 Na cabina 213, Hans Fehringer estava deitado na cama Pullman observando o irmão vestir o blazer azul-marinho de botões dourados. O jantar transcorrera sem maiores dificuldades. O comissário de mesa não se admirara do comensal que devorava montanhas. Somente as pessoas da mesa vizinha mostraram-se um pouco perplexas e olharam em sua direcção.

 - Vou dar um pulinho no Clube do Pescador - disse Herbert Fehringer. - Durma bem, Hans.

 

 Fechou a porta da cabina. Havia terminado o serviço dos comissários de cabina, ninguém os incomodaria mais. Havia sido um bom dia, assim como oxalá seriam os muitos dias que tinham pela frente.

 

Após o jantar, Ewald Dabrowski deu folga a sua assistente pelo resto da noite. Ele mostrara à assistência curiosa como um cego come: a enfermeira Beate cortava tudo em seu prato em pequenos pedaços e, em seguida, ele comia com garfo e faca como qualquer pessoa. A única diferença talvez fosse que, de vez em quando, ele tacteava o prato com o garfo, tal como fazia ao andar com a bengala branca. Portanto, ele não precisava ser Alimentado, respiraram aliviadas as pessoas a sua volta nas outras mesas. Por maior que fosse o amor ao próximo, maior que fosse a tolerância e por todo

humanitarismo cristão... todos queriam desfrutar da comida com apetite e estética, afinal de contas haviam pago caro por isso. No entanto, um homem desamparado que precisasse ser Alimentado, não seria lá uma visão que tivesse um efeito estimulante sobre o apetite.

 - Pode ir - disse Dabrowski depois que Beate acompanhou-o até o ferver da tolda. Era o primeiro andar do Atlantis com biblioteca, estúdio de música, butique, joalheiro, salão de cabeleireiro e sofás e poltronas de couro fundos. Dali se ia também ao enorme e luxuoso salão de festas do navio, o Salão dos Sete Mares, onde no dia seguinte teria lugar o coquetel de saudação do comandante com posterior apresentação da direcção do barco. A refeição que se seguiria com o comandante era o primeiro ponto culminante social a bordo. Os homens de smoking, em sua maioria brancos, as mulheres com vestidos de noite longos. Era a hora ansiada na qual se podia mostrar o que se tinha em termos de jóias e gosto. Os maridos correspondentes brilhavam orgulhosos no reflexo das jóias. Tinham-se tão poucas oportunidades de se ostentar o sucesso.

 Dabrowski ficou parado um instante apoiado na bengala branca, deixando que os passageiros que se dirigiam às suas cabinas o ultrapassassem.

Alguns o cumprimentaram por terem a sensação de que deviam ser especialmente amáveis para com um doente. Ele respondeu aos cumprimentos e, em seguida, apalpou a joalheria. A porta de vidro estava aberta; ele entrou tacteando com a bengala à sua frente e parou quando esta chocou-se com o balcão. A bela vendedora com a designação oficial de Gerente da Firma Joalheira Heinrich Ried, Munique, Amsterdam, Monte Carlo, lançou ao cego um olhar mais ou menos desamparado. Se existe alguma coisa para a qual se precisa de olhos, essa coisa são as jóias. Elas não podem ser sentidas.

 - Boa noite, senhorita Erika Treibel - .disse Dabrowski comportado. - Ficou espantada, não?

 - Honestamente, sim! O senhor me conhece?

 - Meu nome é Dabrowski. - Deu uma batida com a bengala branca na cadeira que havia ao lado do balcão e sentou-se. As enormes lentes escuras dos óculos fitaram Erika Treibel. Uma sensação desagradável e angustiante constrangeu a jovem. Ela não sabia o que devia fazer e teria cumprimentado com o maior entusiasmo qualquer pessoa que entrasse na joalheria nesse momento. - Sou tido aqui a bordo como o industrial Dabrowski. Poderia fechar a porta?

 

 - Por quê? - Erika Treibel ficou tomada pelo medo. Sou tido... que significava isso? Ou ele é um industrial ou não é. Ela andou devagar atrás do balcão e postou-se ao lado do discreto botão do alarme. Um leve sorriso percorreu o rosto de Dabrowski.

 - Você está usando um lindo vestido de jérsei de seda, Erika - disse ele. - E o brinco e pingente de pescoço de água marinha lhe caem admirávelmente bem. Só que não devia usar um anel de rubi.

 - Meu Deus! - Erika Treibel respirou fundo, o coração batia com toda a força. - O senhor... o senhor... não é cego...?

 - Por favor, feche a porta. E pode ir tratando de engolir seu medo, ele é descabido. Ewald Dabrowski. Está certo. O resto não. - Levantou-se da cadeira, foi tacteando até a porta à maneira dos cegos, fechou-a e voltou ao balcão. Erika Treibel pousara a ponta do dedo sobre o botão de alarme. - Devo transmitir-lhe o afectuoso cumprimento de seu

chefe, o Sr. Ried. Nesse momento ele se encontra em Sidney para comprar opalas e virá a bordo também em Sidney.

 - Está... Certo... - balbuciou Erika desconcertada. - Então, quem é o senhor na verdade?

 - Você conhece Paolo Carducci? - perguntou Dabrowski apertando a bengala branca entre as pernas. Se alguém olhasse de fora através da vitrine, veria um cego apoiado em sua bengala.

 - Carducci? Não...

 - Bem, o que no início do nosso século era o elegante Manulescu, corresponde em nossa época ao não menos elegante Carducci: o mais refinado, frio, inteligente e especializado ladrão de jóias. Outrora Manulescu roubava as mulheres dos conselheiros e as condessas, as concubinas francesas e as grã-duquesas russas, em Nice, Monte Carlo, San Remo, Paris, Genebra, Londres e St. Moritz... Carducci atua junto às mulheres de industriais e esposas de dentistas, as amantes de directores e mulheres de conselheiros fiscais. Mudou a camada social das freguesas. Mas sobretudo Carducci jamais escalaria, como Manulescu fez em Nice, a fachada do hotel Negresco, para chegar até às jóias. Ele dá preferência a uma limpeza mais confortável: as cabinas de um navio.

 - E... e o que é que o senhor tem com isso?

 - Fui contratado por uma companhia internacional de seguros para descobrir Carducci. Em geral chamam esse tipo de coisa de detective.

 - Oh, Deus! Um 007 a bordo...

 - Nem tanto, Erika. Não subo pelas chaminés caçando ninguém, não atiro em ninguém e tão-pouco tenho nas calças uma maravilha da técnica que, ao apertar um botão, cuspa fogo de barragem por todos os buracos. Quando eu descobrir Carducci, vou pousar a mão em seu ombro e dizer da maneira mais simpática: Paolo, não faça nenhuma besteira!

Você se encontra num navio e não pode fugir. Mesmo estando nas proximidades da costa, não mergulhe pela amurada! Estamos cercados por tubarões, como você sabe.

 - E... esse Carducci está aqui no navio?

 - Temos motivos para supor isso. Na verdade, ninguém o conhece, que é um génio com centenas de rostos. Sabemos como é a aparência dele enquanto Carducci, existem lindos retratos na polícia de Nápoles. Mas são antigos. Têm mais de dez anos. Nessa época ele ainda era muito brutal e deselegante e arrombava as lojas. Agora é um cavalheiro. Mais tarde, recolhemos alguns de seus nomes das listas de passageiros;

 

 Rafael Solderna, Jim McHarris, barão von Saalfelden, Dr. Jens Petermann... O sujeito fala perfeitamente o inglês, o francês, o alemão, o espanhol e, claro, o italiano.

Se ainda existissem grão-duques russos em abundância, com toda certeza, ele também falaria russo. um génio mesmo!

 - E por que ele haveria de estar aqui a bordo? - a voz de Erika Treibel tremia descontroladamente. Não era uma pessoa medrosa, mas nesse momento estava com a pele toda arrepiada.

 - Como todos os larápios, Carducci também comete um erro: ele conserva um ritmo determinado. - Dabrowski jogou a cabeça um pouco para trás. Os cegos gostam de fazer isso quando fazem força para escutar.

- Decorei tudo como se fosse uma balada. De meados de março até início de abril, no Arconia de Southampton a Tânger. Despojos, 730 mil marcos. Fim de abril a meados de maio, com o NM Lucretia de Cádis, passando pelas Baleares e circundando a Sicília, até Génova. Despojos, 600 mil marcos. De Génova, quatro semanas no Mediterrâneo com o NM Hélios. Uma boa viagem; ele ficou com 1,2 milhão. Em julho ele precisou descansar, mas agosto foi temporada de novo. Com o NM Heljefjord até as ilhas gregas e a Terra Santa. As mulheres sacrificaram 570 mil marcos. De fim de agosto até meados de setembro a coisa foi mal. Uma viagem com o NM Krasnoênrsk Pireu, Istambul, Odessa, Sotschi e de volta a Alexandria, rendeu apenas 390 mil marcos. Afinal, as pessoas tinham muito medo dos russos e se contiveram nas coisas de valor. Mas depois! - Dabrowski acariciou a bengala branca. - De Alexandria pelo canal de Suez, passando pelo mar Vermelho e ao longo da África até Mombaça com o NM Silverness. Aí a renda foi de 1,4 milhão! Notou alguma coisa, Erika? Existe um sistema nisso. Carducci não sai viajando de um lado para o outro pelo mundo. Ele prefere as viagens em sequência! Faz baldeação de barco a barco. Nós vamos pegá-lo nesse erro. Ele esteve no Caribe por último e, com o NM Princesa Aicha, veio a São Francisco através do canal do Panamá. Ainda assim ele embolsou 870 mil marcos na viagem. É inconcebível a quantidade de jóias que as pessoas levam consigo nessas viagens.

 - E agora... agora ele está aqui...

 - O NM Atlantis é o único navio de luxo que nessa época está partindo de São Francisco para uma viagem mais longa. E Carducci estava em São Francisco. Se ele não romper a própria lógica, e por que haveria de romper?, hoje ele subiu a bordo. Aqui ele encontra a mesa posta com o que há de mais rico no ano. O que brilhará amanhã no refeitório nas orelhas, pescoços, braços e dedos, o deixará tão arrebatado a ponto de fazer uma oração de graças. Erika, em quanto você avalia seu estoque?

 - Não sei. - Ela encarou Dabrowski, espantada. - Mas com toda a certeza são dois milhões. - Erika tornou a respirar fundo. - O senhor acredita que ele tentará arrombar minha loja? Temos o melhor equipamento de alarme. Na época da montagem, o Sr. Ried testou todas as possibilidades. O equipamento funcionou na hora. E há sempre movimento no corredor, durante a noite inteira. Aqueles que saem do Clube do Pescador precisam passar por aqui. Além disso, as mulheres guardam as jóias nas gavetas do cofre.

 

 - Quando não precisam delas! Mas veja, amanhã à noite é o jantar do comandante, um grande desfile; cada mulher, uma árvore de Natal enfeitada. Depois do jantar, vão para os bares, para os salões, dançarão. Erika, quem é que ainda vai ao escritório do comissário para pedir sua gavetinha com segredo? As pessoas levam seus cacarecos para a cabina nas poucas horas que faltam para o amanhecer. E então Carducci esfrega as mãos.

 - E como é que o senhor vai querer impedir isso, Sr. Dabrowski?

 - Não posso impedir coisa alguma. - Dabrowski baixou um pouco a cabeça, endireitou os óculos escuros e levantou-se. Havia um casal parado diante de uma das vitrines admirando um anel de esmeralda. - Só posso ficar olhando e intervir. Como cego entro em qualquer lugar. Quem não enxerga é tido como inofensivo, não perigoso. As pessoas não precisam esconder-se de um cego. Claro que ele pode ouvir, mas de que lhe serve isso, se não pode averiguar quem está falando? O cego tem uma espécie de liberdade do louco... é o que pensam os que enxergam. Carducci pensará o mesmo. Como um cego poderia incomodá-lo? Esta é a minha grande chance.

 - E o senhor vai suportar isso? Durante várias semanas?

 - É o que espero, Erika. É o que espero. - Dabrowski foi apalpando até à porta. O casal entrou na loja, abriu caminho para o cego e seguiu-o com a vista.

 - Todas essas coisas lindas e ele não enxerga nada - sussurrou a mulher. - Senhorita, quanto custa o bracelete de brilhantes? Aquele na segunda janela, na parte debaixo à esquerda...

 Com passos indecisos, batendo com a bengala branca de vez em quando na parede do corredor, Dabrowski subiu a escadaria central, para ir tomar mais uma pilsen gelada e espumante no bar Atlantis. Tinha a esperança de travar algum conhecimento enquanto bebia.

Ludwig Moor jamais poderia dar-se ao luxo de fazer essa viagem, se não tivesse um tio a quem, com oitenta e nove anos, ocorresse a idéia maluca de viajar pelo oceano Pacífico. Contudo, a alegria antecipada parece que foi grande demais; onze dias antes do início da viagem, o coração do tio falhou e Ludwig Moor herdou, entre outras coisas, também essa viagem.

 Moor não devolveu o bilhete, senão que aproveitou a oportunidade única para realizar o sonho de milhões de pessoas: estar ao menos uma vez nos mares do Sul! O Taiti com suas lindíssimas moças... Claro que ele conhecia as pinturas de Gauguin. A ilha de Tonga com seu rei gordo que começava a chorar quando tocavam canções populares alemãs, Rabaul no arquipélago Bismarck, que outrora fora colónia alemã... ele tinha selos de lá em sua colecção.

 Não se podia devolver esse tipo de coisa! Tão-pouco isso passaria pela cabeça do tio Fritz.

 

 Ludwig Moor era funcionário público. Tribunal de comarca, departamento de cadastro. Uma função chatíssima. Registros de hipotecas e dívidas hipotecárias, bem como suas liquidações. O interessante disso era que poucas vezes o proprietário da casa era o dono real, ao contrário, quase sempre eram bancos ou companhias de seguro que se deixavam registrar emprestando o dinheiro. Coisa que sempre espantou Moor, havia vinte e dois anos. Com que então um sujeito parava diante de um prédio e dizia orgulhoso: "Esta é a minha casa!" e o que de facto lhe pertencia talvez fosse a metade do telhado e, quando muito, a chaminé. É possível que esse tipo de coisa tenha algo a ver com a política económica, com o fluxo de caixa, com os meios disponíveis ou com o sarcástico lema: "A melhor vida é a vida a crédito", mas Ludwig Moor nunca compreendeu isso.

 Mas agora ele tinha a oportunidade de contar aos seus colegas de repartição que havia bebido uma cerveja em Bora Bora num dos hotéis mais caros do mundo e que uma beldade dos mares do Sul lhe pendurara no pescoço uma corrente de frangipana. Com isso ele passaria inclusive o magistrado que só havia chegado à Grã-Canária.

 Após o primeiro jantar, Moor concedeu-se um passeio no Clube do Pescador, situado na parte bem inferior do navio, no convés C. Bebeu bravamente apenas dois coquetéis, achou a música de discoteca alta demais, enfureceu-se com uma dama de meia-idade que dançava rock com a saia puxada para cima qual uma adolescente e, pouco depois, pôs-se a caminho de volta ao lar, a cabina 382.

 Estava prestes a entrar no elevador, quando um grito de rachar madeira quase jogou-o de encontro à parede. Com um pulo, Moor tomou de assalto a cabina do elevador, mas ao fechar-se a porta ele tornou a ouvir o grito... alto, penetrando até a medula dos ossos, num tom intermediário ao de um trompete rachando ao meio.

 O elevador parou no convés A e um senhor de cabelos grisalhos entrou. Fitou o pálido Moor e apertou o botão do convés do solário.

 - Desculpe-me por dirigir-lhe a palavra - disse ele. - Mas o senhor não está passando bem?

 - Olha, houve um grito agora mesmo... um grito terrível... - balbuciou Moor.

 - Onde?

 - Lá embaixo. No convés C. Nunca tinha ouvido um grito desses. Tive a sensação de que o chão também tremia.

 - Dr. Schwarme.

 - Como disse?

 - Dr. Schwarme é o meu nome. Advogado. Por que não damos um outro pulo até lá embaixo? - O Dr. Schwarme causou uma impressão corajosa. Moor assentiu várias vezes e murmurou o próprio nome.

 - Encantado... Por um grito humano?

 - Não sei. Olha, quando um ser humano grita desse jeito é porque está vivendo alguma coisa muito terrível. Soou como se não fosse humano. Eu poderia imaginar... quando alguém está sendo torturado...

 O Dr. Schwarme empurrou o queixo para a frente, parou o elevador, apertou o botão do convés C e bateu com um punho no outro.

 - Vamos ver logo o que foi. Talvez tenha sido uma roldana enferrujada, elas produzem um som de rasgar o coração.

 - Aqui embaixo? De noite? Em alto-mar?

 - Tem razão.

 O elevador parou, a porta se abriu, Schwarme e Moor saíram na escadaria. Os dois olharam em volta. Tudo estava quieto e vazio. Apenas soava uma música suave através da porta bem isolada do bar nocturno.

- De onde veio o grito? - perguntou o Dr. Schwarme.

- Não sei. Estava em toda a parte, pairava no ar... duas vezes...

 

- Duas vezes?

 - Meu coração quase parou.

 - Agora está tudo quieto. - O Dr. Schwarme passou a mão pelo rosto. Ao fazê-lo, notou que estava suando. Suor frio. - Vamos aguardar mais alguns minutos... depois vamos até o bar e entornamos um conhaque duplo. Acho que o senhor precisa muito de um.

 Moor assentiu capitulando, prendeu a respiração e desejou jamais tornar a ouvir o grito.

 

O Clube do Pescador é sempre a última estação no decorrer dos dias que na verdade não são entediantes no NM Atlantis.

Quando todos os bares se fecham, ali encontram-se os incansáveis, os ávidos por experiências, os solitários e aqueles que jamais se esgotam. Muitas vezes acontecia que um passageiro com uma capacidade de resistência fenomenal saísse do Clube do Pescador directo para o bufé do desjejum no convés, comesse e, desperto como um peixe, fosse nadar na piscina, no momento em que os viajantes "normais" saíam das cabinas.

 O bar nocturno encontrava-se firme nas mãos de Jerry. Originalmente ele se chamava Lothar, mas achara que o nome parecia honesto demais para seu emprego. Jerry soava temerário, soava a aventura, a Chicago e sobre tudo podia ser sussurrado por alguma moça apaixonada. Num abraço íntimo, Jerry soava melhor do que um soprado Lothar. Além disso, Jerry era um mestre das misturas. Os coquetéis inventados por ele não podiam ser encontrados nem no Waldorf de Nova York nem no Hyatt de São Francisco. Quando um dia ele se aposentasse, iria escrever um livro sobre coquetéis.

 Quando Moor e o Dr. Schwarme entraram, havia tal aperto na pequena pista de dança que já não se podia mais falar em combinações de passos.

 O discotecário colocara um swing dos bons velhos tempos e os corpos rodavam, flutuando de um lado para o outro. Moor dirigiu-se para o balcão onde viu dois banquinhos livres e aboletou-se no assento. O Dr. Schwarme seguiu-o.

 - Ficou com mais sede? - perguntou Jerry com um sorriso amigável. Afinal, ele acabara de ver Moor ir embora poucos minutos antes. - Mais um Urquell?

 - Conhaque - disse Moor com voz sombria. - Mas, por favor! Nada de humedecer o copo!

 Ele havia lido isso numa piada de uma revista e achara engraçado.

 - Francês? - perguntou Jerry.

 - Que mais poderia ser? - Moor encarou o Dr. Schwarme. - O senhor também?

 - Não, para mim um uísque.

 - Uísque escocês?

 - Eu disse uísque e isso sempre é um bourbon.

 Jerry serviu com o rosto pétreo. Sacos de dinheiro, pensou ele. Sempre se comportam como se estivessem no sétimo céu, quando têm a oportunidade de ensinar um barman. Serviu um conhaque alemão para Moor e um uísque também alemão ao Dr. Schwarme e esperou até os dois tomarem o primeiro gole.

 - Satisfeitos?

 - Excelente. - O Dr. Schwarme virou-se e deu uma olhada pelo bar.

 

 Todos ainda eram apenas desconhecidos, recém-chegados a bordo, mas dentro de poucos dias se constatariam quais eram os que ali vinham todas as noites na qualidade de frequentadores habituais. Como em toda a parte onde os homens vivem em comunidade, grupinhos se formariam ali embaixo e as pessoas com sede de viver se sentiriam bem. O Dr. Schwarme também fazia parte desse grupo. A bem da verdade, ele estava acompanhado da mulher na viagem, mas esta já se encontrava na cama na cabina havia muito tempo, com o rosto emplastrado de um creme nutritivo esverdeado. Se ele dizia: "Vou tomar mais uma cervejinha rápido" e só voltava mais tarde, a mulher estava dormindo tão profundamente que não ouvia coisa alguma quando ele desabava na cama. Ele sabia disso, era um velho "navegador".

O ar marinho exercia sobre Erna o mesmo efeito que champanhe misturado com tranquilizantes; no início animava, sobretudo no jantar e nas festas nocturnas a bordo, mas então, depois do término da programação oficial, sentia-se como que paralisada. Tão logo entrava na cabina e tirava a roupa, dormia no acto. A posição horizontal era como uma alavanca que a pressionava para baixo: fim. Em contrapartida, Erna Schwarme era uma mulher bonita, no verdadeiro sentido da palavra: estatura um pouco acima da mediana, cabelos louros, quarenta e poucos anos, muito bem cuidada, com uma pele realmente delicada, quase sem rugas - o creme nutritivo esverdeado! - e um corpo que se poderia descrever como de formas perfeitas. Suas roupas denunciavam ateies caros e suas jóias mostravam a todos que o marido, o Dr. Peter Schwarme, era um advogado bem-sucedido. Mas dinheiro grosso mesmo ele ganhava como consultor pessoal. Poucos podem imaginar o que seja isso e na verdade é difícil imaginar, quando se lhes explica que o Dr. Schwarme vendia empresários, que ele qualificava homens - e, de acordo com a tendência correspondente, também um número crescente de mulheres - Colocando-os e tirando-os da indústria e do comércio, ocupando posições de direcção. De gerente de divisão para cima, ele conseguia tudo que as carreiras de sucesso prometiam. Isso apresentava a vantagem de, mais tarde, os senhores estabelecidos nomearem o Dr. Schwarme para os conselhos fiscais ou entregarem os processos à sua banca. Um efeito duplo... Erna Schwarme mostrava isso com a elegância e as jóias. No fundo, seu permanente cansaço no mar era a única coisa perturbadora nela.

 - Na barriga de um navio tudo soa diferente - disse o Dr. Schwarme tomando um segundo gole de seu "bourbon ". - Afinal, aqui estamos abaixo da superfície do mar. Quando pensamos nisso, facilmente ficamos com medo. Imagine só a pressão que está sendo exercida agora contra as paredes! Suponho que esse seu grito terrível tenha sido um cabo de aço que bateu na parede de ferro aqui embaixo, nalgum lugar. Como eu disse: aqui tudo soa diferente.

 Moor assentiu, bebeu o conhaque, ainda tendo nos ouvidos aquele grito de rachar madeira.

 - O que há mais aqui embaixo além do bar?

 - Os porões, toda a instalação das máquinas, os tanques de água, toda a parte técnica... eles não podem gritar. Foi algum outro barulho.

 - Não se pode chamar isso de barulho. - Moor pediu outro conhaque e dessa vez recebeu um francês de verdade. - Dê só uma olhada, doutor. O cego está sentado lá atrás, no canto. Perto da pista de dança.

 

 - Ele ouve a música, ouve os passos da dança, talvez também a respiração dos dançarinos e suas conversas... os cegos têm uma audição incrivelmente desenvolvida. - O Dr. Schwarme deu uma risada alta. - Talvez ele também cheire o perfume das mulheres, coisa que deve bastar-lhe para a felicidade. Eu não trocaria o meu lugar com ele nem por milhões. Assim que eu o vi no tombadilho quando da partida, pensei: devíamos falar com ele, mostrar-lhe como pode ser alegre a vida a bordo, trazê-lo para o nosso meio social, deixar que ele participe das nossas experiências de viagem. No fundo, ele parece ser um homem alegre. Eu observei. Quando os americanos tocaram Velhos camaradas, música que nos toca fundo na alma, ele também aplaudiu na amurada. Posso perguntar qual a sua idade?

 - Cinquenta e dois anos.

 - Não! - O Dr. Schwarme esfregou a mão espalmada em cima do balcão. - Então somos do mesmo ano. Que coisa! Garçom, mais uma rodada!

 A essa hora da noite, ainda se encontravam no bar o dono da vinícola Tatarani, de Angeli, que como sempre parecia saído de uma revista de moda, e dois senhores sentados bem lado a lado num sofá, que se encaravam como amantes, acariciando-se as mãos de vez em quando e bebendo champanhe. No canto oposto, três alegres senhores cochichavam e gargalhavam com suas mulheres; pareciam estar esperando que os dois se abraçassem e beijassem num impulso. Coisa que na verdade não fizeram, mas encostaram-se ombro a ombro espalhando uma sensação de imensa felicidade.

 O comissário-chefe Pfannenstiel, aboletado em seu banquinho de freguês costumeiro no canto extremo do bar - pois uma noite sem Pfannenstiel no Clube do Pescador, só se ele estivesse seriamente enfermo -, tão logo os dois cavalheiros subiram a bordo, mandou que averiguassem seus nomes na lista de passageiros. Sua atenção fora chamada pelo facto de os dois caminharem pela escada de braços dados, como um casal de namorados. O mais velho chamava-se Jens van Bonnerveen e era originário de Leiden, na Holanda; o mais novo era um alemão, chamava-se Eduard Grashorn e, de vez em quando, parecia realmente envergonhado. Sobretudo quando Jens pousava a mão frouxa no traseiro de Eduardo, então este estremecia e olhava para todos os lados com movimentos rápidos de doninha.

 Os casais investiam de um lado para o outro na pequena pista de dança redonda. As jóias das mulheres cintilavam. Notavam-se também as abotoaduras de brilhante dos homens. Contudo, o jantar dessa noite fora completamente normal. O grande desfile só ocorreria no dia seguinte, no coquetel de recepção e no jantar do comandante.

 

 Ewald Dabrowski observava por trás dos óculos escuros os dançarinos e os fregueses no bar e nas mesas. Nenhum daqueles que terminavam a noite no Clube do Pescador tinha a aparência de um ladrão de jóias. Contudo, meu caro Ewald, Dabrowski pensou com seus botões, qual a aparência de um ladrão de jóias? Poderia ser aquele senhor ali no bar, aquele que bebe o terceiro uísque num curto espaço de tempo - era o Dr. Schwarme -, ou o elegante meridional - Tatarani, o viticultor de Toscana - que era tão amável a ponto de dançar quatro vezes com as damas solitárias, inclusive com uma idosa que girava com todo cuidado, mas cujo rosto transmitia uma impressão de enorme êxtase. Os dois veados? Impossível! Sabia-se que o ladrão Carducci, ao personificar o barão von Saalfelden ou o Dr. Petermann, sempre capitulou diante dos encantos femininos, tendo dormido várias vezes com suas vítimas até o momento de roubá-las. Claro que então as suspeitas jamais recaíam sobre ele, o amante secreto e fogoso; pois mãos que sabiam acariciar desse modo tão estonteante jamais estariam em condições de arrombar caixas de jóias e gavetas com segredo.

 Mesmo assim, Dabrowski tinha a sensação de que Carducci encontrava-se ali no bar. Essa estranha sensação, ardente como a que se tem ao tocar um circuito eléctrico de baixa voltagem, já o havia ajudado ou advertido várias vezes. Era algo inexplicável em Dabrowski que às vezes o deixava assustado. Nesse momento, esse pressentimento aparecera de novo, relacionado com uma leve dificuldade respiratória.

 - Vamos? - perguntou o Dr. Schwarme no balcão. Ele deu uma olhada no relógio. - Três e meia da madrugada. Onde toma o desjejum, Sr. Moor?

 - No restaurante.

 - Jamais vou conseguir. Não consegui nos outros navios e vai ser a mesma coisa aqui no Atlantis. Estaremos sentados às dez horas atrás do bar Atlantis. O que tenciona fazer?

 - Nada. Ficar sem fazer nada na espreguiçadeira. Talvez ler... um Konsalik...

 - Pelo amor de Deus! - O Dr. Schwarme lançou a Moor um olhar francamente espantado. - O senhor lê Konsalik?

 - O senhor o conhece? Quantos livros dele já leu?

 - Nenhum.

 - Então, como é que o senhor quer discutir sobre isso? - Moor levantou-se do banquinho do bar. - Por volta das dez e meia estarei atravessando o convés do solário.

 Os dois assinaram a conta dando nomes e números das cabinas, incluindo a gorjeta - no final da viagem devia-se saldar a importância total das contas no escritório especial do comissário - e saíram do bar. Então ficaram esperando pelo elevador no pequeno foyer situado entre o fosso e a escada; o ascensor parecia estar vindo do convés superior de tanto que demorava.

 - Permite-me perguntar o que o senhor faz profissionalmente? - indagou o Dr. Schwarme.

 - Administro casas. - Moor não via nenhuma mentira nisso.

 Como funcionário do departamento de cadastro, ele conhecia todos os bens, dívidas, encargos, hipotecas judiciais e dívidas hipotecárias. - Uma grande quantidade.

 - Ah. O senhor é gerente administrativo de uma empresa de administração de imóveis?

 - É, pode-se chamar assim.

 - Interessante. Neste momento estou engalfinhado com um. processo tremendo contra uma sociedade de proprietários... Aí está o elevador!

 A porta deslizou abrindo-se, os dois entraram, a porta se fechou... e no momento de se fechar por completo, ressoou um grito que lhes penetrou até os ossos. Moor recostou-se na parede do elevador com o rosto amarelo, pálido.

 - Olha... - gaguejou ele. - Foi isso... O senhor escutou...?

 - Isso... esse tipo de coisa... até um surdo escuta. - O Dr. Schwarme passou a mão no rosto. Que som! Que grito extraordinário! E, no entanto, por mais que fosse irreconhecível, havia algo de humano naquele barulho.

 

Era um ser vivo em extrema dificuldade que gritava ali... O Dr. Schwarme recordou-se de um processo criminal de um assassino que gravara o último grito de sua vítima. Os dois tinham um som tão idêntico, mesmo não sendo tão penetrantes. E mesmo não sendo tão potentes a ponto de ressoar através de algumas paredes, de tal modo que se pudesse dizer que a pessoa que gritava estava bem ao lado.

 O Dr. Schwarme puxou o nó da gravata um pouco para baixo, abriu o colarinho da camisa e apertou o botão do elevador que indicava tolda.

 - Vamos... vamos mandar averiguar agora mesmo o que está acontecendo no convés C - disse ele hesitante. - Vamos tirar o director de hotel da cama e, se for preciso, o próprio comandante. Não viajo em navios onde ressoam gritos de morte.

 - O senhor quer dizer que foram... gritos de morte? - Ludwig Moor sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. - Mas isso não é possível. Existe um espaço de meia hora entre o primeiro e o segundo grito.

Ninguém demora tanto para morrer.

 - O senhor tem alguma idéia das coisas que nós, os juristas, vemos e ouvimos? Quando alguém se acidenta, é estrangulado, esmagado ou... Uma vez tive um processo gigantesco. Uma batida de carros em massa numa auto-estrada com neblina. Noventa e quatro carros metidos uns por cima e por dentro dos outros. Um dos meus constituintes foi retirado dos destroços pelos bombeiros somente depois de seis horas. Depois de seis horas! E ele ainda estava vivo. Ambas as pernas cortadas. E nessas seis horas ele gritou durante quatro.

 - Pare, estou passando mal. - Moor levou a mão direita à boca. - Por que esse maldito elevador anda tão devagar?

 Tudo estava vazio e quieto na tolda. Um homem idoso estava sentado atrás da recepção da comissária lendo um romance policial.

Estava vestido com um jaleco branco, era o guarda-noturno.

 O Dr. Schwarme precipitou-se para fora do elevador como quem fosse tomar a recepção de assalto, só faltou o "hurra! hurra!". Moor se lhe juntou, pálido como um cadáver e um pouco hesitante.

 O homem de jaleco branco, ansioso, levantou a vista do romance policial. Aqueles que voltavam lá de baixo a essa hora haviam dado uma parada no Clube do Pescador. Ele sabia disso por seus mais de quarenta anos de viagens em barcos de passageiros; era inconcebível as coisas que os fregueses levavam do bar nocturno lá para cima. Podia-se escrever um livro impróprio para menores sobre isso; a começar pela dama vestida só de calcinha trazendo o resto da roupa debaixo. do braço, até aquele senhor director que toda a vez que bebia champanhe tinha diarreia e saía correndo para a cabina com as calças cagadas. Os dois cavalheiros que nesse momento chegavam ali em cima, também estavam possuídos de uma pressa igualmente suspeita. Ele os encarou com afecto.

 - O director de hotel! - disse o Dr. Schwarme ofegante. - Precisamos falar agora mesmo com o senhor director de hotel.

 - Agora? São quatro da manhã.

 - Eu não lhe perguntei que horas são - uivou o Dr. Schwarme. - Trate de acordar o Sr. Riemke agora!

 - Isso é impossível. - O homem da vigilância nocturna continuou pacientemente sentado em sua cadeira. O teor alcoólico dos dois cavalheiros era razão mais que suficiente para perdoar-lhes muitas coisas.

 - De que se trata?... De um grito, de um grito medonho - gritou Moor.

 - De rachar madeira - assentiu o Dr. Schwarme. - Entenda, homem! Um grito!

 

 - Sim senhor, um grito. - O guarda-nocturno assentiu. Pelo menos uma novidade. Nenhum drama conjugal, nenhum bêbado, nenhuma senhora pelada, nenhum cônsul cagado... agora temos dois gozadores. - Onde?

 - No convés C.

 - Ah!

 - Que quer dizer com esse "ah!"? - berrou o Dr. Schwarme.

 - Quero dizer que os caras lá do bar voltaram a tocar um cool. Eles têm um disco no qual um canto faz "já!" com uma voz guinchante.

uma coisa maluca, mas as pessoas gostam! Está no hit parade.

Olha, os dias de hoje são um pouco pirados. Os críticos acham Heino, o bom cantor, uma porcaria, mas quando alguém peida no microfone, eles adoram; a nova bossa! Onde é que fomos parar...

 O Dr. Schwarme encarou pasmado o sujeito da guarda nocturna.

 - Você ficou maluco? - disse ofegante depois de algum tempo. - Está aí filosofando sobre música, enquanto nós comunicamos ter ouvido um grito de morte...

 - No convés C.

 - Sim! - berrou Moor, nesse momento já com os nervos à flor da pele. Em se tratando de um funcionário público do departamento de cadastro, isso significa alguma coisa. - Um grito de morte! É isso aí!

 - Duas vezes!

 O vigia nocturno assentiu atencioso.

 - Dois mortos no convés C. E por causa disso devo acordar o senhor director de hotel?

 Moor encarou horrorizado o sujeito atrás do balcão.

 - Meu Deus do céu, que tipo de navio é esse?! - balbuciou ele, recostando-se na parede de espelho e respirando com golfadas profundas como se o ar ali fosse rarefeito demais. - Dois mortos não são nada! Sr. Dr. Schwarme...

 - Isso não vai ficar assim não! - o Dr. Schwarme levantou o indicador num gesto de ameaça dos tempos primitivos. - Pode contar com isso. As consequências serão arrasadoras. Vou convocar todos os passageiros para o Salão dos Sete Mares e explicarei tudo a eles. Na Alemanha eu iria para a imprensa.

 - Chamarei a ronda - disse o homem da guarda nocturna de modo tranquilizador. - Eles vão verificar. Convés C. Gritos de morte. Dois. Os caras vão ficar contentes. Meus senhores, podem ir para a cama. Tudo vai entrar nos eixos. - Pegou o telefone, discou um número... era do laboratório fotográfico onde, naturalmente, não havia ninguém trabalhando nesse momento. E, sob os olhares críticos do Dr. Schwarme e de Ludwig Moor, disse: - Jan, será que dá para você levar sua tropa inteira para examinar todo o convés C? Alguém gritou por lá. Com um terror de morte. Estou com duas testemunhas aqui. Sim, pode deixar que anoto os nomes. - Ele fingiu estar ouvindo uma resposta e depois disse para o Dr. Schwarme: - O pessoal da ronda vai descer agora mesmo para inspeccionar. Seus nomes, por favor?

 - Dr. Schwarme, cabina 018.

 - Ludwig Moor, cabina 382.

 O homem atrás do balcão assentiu.

 - Suponho que o senhor comandante vai dar-lhes uma explicação pessoalmente. Boa noite!

 Satisfeitos, o Dr. Schwarme e Moor retornaram ao elevador.

 

 - Basta a gente ter a energia suficiente - disse o Dr. Schwarme cheio de vaidade. - Energia e segurança! As pessoas ficam impressionadas. Jamais devemos ceder diante desses sujeitos subalternos! Bem, estou ansioso para saber o que o comandante nos dirá amanhã de manhã. Não vai poder simplesmente subestimar ou pôr de lado um grito desses.

 O elevador sibilou e os dois satisfeitos cavalheiros deixaram-se levar aos seus conveses.

 

A tarefa de um comandante é comparável à de um prefeito. Natural que um navio viaje através do Pacífico de São Francisco até Hong-Kong. Para isso ele tem os melhores instrumentos náuticos a bordo e uma meia dúzia de oficiais, radar e cartas marítimas exactas. Ninguém fala sobre isso, o trabalho é dele. Mas a coisa não termina aí. O que acontece pelo navio é muito mais dramático do que, talvez, a entrada em ziguezague no porto de Nawiliwili. Fazer com que convivam seiscentos passageiros e trezentos homens da tripulação no decorrer de algumas semanas, num espaço apertado, com todo tipo de insuficiência e imponderabilidade da natureza humana; durante muitos e muitos dias comandar de maneira invisível e discreta uma pequena cidade flutuante; escutar e aplainar pequenas e grandes preocupações todos os dias; receber queixas justificadas e críticas obstinadas; controlar a disciplina da tripulação, isso sem falar das obrigações sociais nos coquetéis das festas de aniversário e até das recepções particulares de personalidades conhecidas... são apenas uma pequena parte dos deveres a cargo do prefeito, aqui chamado de comandante. Mas os conhecedores especialistas da matéria sabem que os piores aborrecimentos, que dilaceram e esfrangalham os nervos, vêm da companhia de navegação. É bem verdade que esta está situada bem distante, na Alemanha, mas sua presença é constante a bordo por rádio ou telefone. E a coisa fica bem incómoda quando alguém da presidência viaja como passageiro. Existem comandantes que encaram isso como uma refinada punição.

 Nessa manhã, Hors Teyendorf também encontrava-se com o estado de espírito para chamar sua companhia de navegação por rádio e dizer: "A partir de agora abdico de qualquer responsabilidade!"

 O causador do aborrecimento actual estava um pouco amarrotado na habitação do comandante, cercado pelo director de hotel Riemke, pelo director de cruzeiro Manni Flesch e pelo mestre-de-cerimónias Hanno Holletitz. O director de cruzeiro de um navio é o responsável pelo entretenimento a bordo.

Ele organiza as festas de bordo e apresentações dos artistas, ocupa-se da televisão de bordo, dá notícias vindas por rádio da Alemanha duas vezes por dia e patrocina competições de mergulho com senhores sérios e temidos na vida particular por suas posições superiores, que ali saltam alegres na piscina para ir buscar colheres de metal. Existem torneios de ténis de mesa e campeonatos de xadrez, bem como cursos de pintura e arte. Mas um director de cruzeiro existe sobretudo para servir de pára-choque para todo o mau humor que porventura os passageiros entediados arrastem consigo.

 

Pois, depois de cinco dias, no mais tardar, uma grande quantidade deles fica com vertigem de bordo; então, para eles nada mais está direito, mas nada mais mesmo. Um director de cruzeiro sem pele de couro não chega à idade madura.

 Em compensação, um homem como Hanno Holletitz, o Mestre-de-cerimónias, leva uma vida mais fácil. Ele é conferencista, locutor, formador do moral, contador de piadas. Sempre que ocorre uma apresentação - exceptuando-se, claro, um concerto de violoncelo ou uma noitada de piano; esse tipo de coisa é apresentado pessoalmente pelo director de cruzeiro - então um homem como Holletitz é o ponto culminante da noite.

Nas festas à fantasia, nas noitadas bávaras, nos torneios de dança, nas apresentações de folclore em que as moças do Taiti ou grupos de maoris sobem a bordo, nas sessões de magia ou de "Música... Música dos Anos Quarenta", Holletitz anima o espírito contando piadas que muitas vezes equilibram-se à beira do decoro. Quem melhor as aproveita são as mulheres - seria pelo teor de iodo do ar marinho? -, pois em geral sua risada clara abafa o sorriso entre os dentes dos homens. No mar muitas coisas ficam diferentes...

 Portanto, nessa manhã, o comandante Teyendorf, Riemke, Flesch e Holletitz cercavam um homem de cabelos negros do tipo típico das terras do sul, que estava com um evidente ar de contrição e tinha as mãos levantadas num gesto de defesa, como se estivesse com medo de ser jogado ao mar naquele exacto momento.

 - Eu estava adivinhando - disse o comandante. - Fui contra desde o início; ainda sou contra e sempre serei. Mas essa companhia de navegação! Todos sabiam muito bem. Permissão excepcional. É só de São Francisco até Acapulco! Só! Fui enérgico quando observei que isso é proibido pelo direito naval. Só dessa vez, uma excepção. E agora a merda está em nossas mãos!

 - Quem podia prever? - o envergado meridional levantou ainda mais as mãos no círculo de seus acusadores. - Afinal de contas, é a primeira vez que eles estão no mar. Quem podia saber? Só se sabe que eles são muito sensíveis.

 - Esses brutos... e ainda por cima sensíveis! - o director de cruzeiro Flesch e Riemke sacudiram a cabeça espantados.

 - Acontece com frequência - replicou o meridional versado nas coisas de circo. - Uma vez eu vi um lutador de boxe gigantesco chorando muito por ter atropelado um cão com seu carro.

 - Aqui se trata de coisa bem diferente de um lutador de boxe delicado! - a voz de Teyendorf ficou mais alta. - Como vai ser daqui por diante?

 -  Em acapulco acaba tudo.

 - Isso ainda leva três dias! E enquanto isso? Claude Ambert, este era o nome do sujeito envergado, encolheu os ombros. Antes da viagem por mar, ele escrevera à companhia de navegação: "Eu poderia subir a bordo em São Francisco e desembarcar em acapulco onde tenho um contrato para apresentação. Faço uma apresentação a bordo por um caché especial..." Não tinha nenhuma esperança de receber uma resposta. Mas esta veio bem rápido por telex: sua proposta fora aceite. Talvez a expressão "caché especial" tivesse tido um efeito mágico; no mundo dos negócios elas são as palavras mais usadas.

 

 Em todo caso, a permissão inesperada deixou-o louco de alegria, mas quando o NM Atlantis atracou no píer de São Francisco e ele apresentou-se ao comandante, viu como uma pessoa relativamente delicada e sobretudo educada era capaz de vociferar usando palavras bem ordinárias. Após uma hora, Ambert compreendera que sua presença a bordo correspondia a um crime, embora a companhia americana não somente suportasse, se não que estimulasse isso. As comunicações por rádio, voando de um lado para o outro, não eram nenhuma novidade. A companhia de navegação mantinha-se firme: Ambert sobe a bordo, faz uma apresentação e depois desembarca em acapulco. Quatro dias com ele, dá para suportar! Não se devia ter tão pouco humor assim, por favor. Essa apresentação entraria para a história do NM Atlantis como uma curiosidade incomparável. Além do que, essa era a vontade expressa do Dr. Humperday, membro da directoria, cujo amigo, o Dr. Kragges, já se encontrava a bordo. E o Dr. Kragges era um amante entusiasta...

 - Não faz sentido ficar gritando aqui - disse Riemke que, na qualidade de comissário-chefe bem como director de hotel, era tido como uma pessoa de raciocínio prático. - Alguma coisa deve acontecer. Estão aí as queixas dos passageiros, mas nós não vamos dizer-lhes a verdade até faltar um dia para Acapulco, até a entrada em cena. A propósito, depois disso não devem ocorrer mais esses gritos que as pessoas escutam a milhas de distância.

 - Afinal, são tão sensíveis... - disse o director de cruzeiro com um jeito sarcástico. - Na verdade, após três a gente devia buscar um psiquiatra, não?

 - Meus senhores, o que sabem sobre o psiquismo de um elefante?! - disse Ambert rígido. - A alma de um elefante é uma maravilha.

 Em São Francisco, quando os passageiros em fim de viagem já haviam saído de bordo e os novos ainda não tinham chegado, entraram no navio dois pacientes elefantes, com gigantescas orelhas ondulantes, batendo os pés um atrás do outro, o de trás segurando a cauda do da frente. Trotaram pela escotilha sem hesitar, como se uma viagem pelo mar fosse a coisa mais natural para eles, enquanto seu tratador Claude Ambert, de terno preto e turbante branco, irradiava de alegria. Ele não ouviu quando Teyendorf disse na ponte:

 - Isso vai dar cem por cento errado!

 - Mas isso é uma loucura completa, senhor comandante. - Willi Kempen, o condutor que se encontrava em contacto por rádio com o contramestre lá embaixo no píer, ouviu a comunicação vinda do porão. Os dois paquidermes cinzentos pareciam ser rapazes bem pacíficos - perdão, pareciam ser moças adoráveis, pois se tratava de elefantas -, olharam a sua volta no novo alojamento, ergueram as trombas e soltaram um satisfeito

guincho. Ambert deu-lhes como ração especial um pão branco inteiro, pesando cada um dois quilos. Num compartimento contíguo havia quatro enormes baldes de água para fazer os pães descerem.

 - Mesmo tendo uma grande quantidade de palha... esses brutos mijam e cagam um bocado. Até Acapulco isso aqui vai virar um chiqueiro, senhor comandante.

 - Diga isto aos cavalheiros da companhia de navegação; Kempen.

- Teyendorf fez um sinal negativo. - Não falarei mais nada sobre isto. Meus lábios já estão cansados. E qual o resultado? "Não seja tão pedante", esta foi a resposta; "imagine como os passageiros vão ficar contentes quando os elefantes dançarem rumba no convés superior".

 

 - Rumba? No convés superior? - o condutor ficou de olhos arregalados. - Mas como é que os bichos vão chegar ao convés superior?! Pela escada? De elevador? Puxados por guindaste? Senhor comandante, tudo isso é uma loucura!

 - Por mim a coisa está liquidada. - Teyendorf bateu com o punho cerrado sobre a amurada. - É Flesch quem terá de esquentar a cabeça com isso.

 Mas, claro, isso foi apenas uma maneira de falar. Naturalmente que um comandante tem a ver com tudo o que acontece em seu navio. Sem a palavra do comandante nada anda, nenhuma decisão é tomada, nenhum problema solucionado. A bordo, com toda a democracia e liberalismo, na verdade reina um princípio patriarcal.

 E, assim, agora também era o comandante quem devia decidir o que iria acontecer. Dois passageiros haviam comunicado espantados ao guarda-nocturno nas primeiras horas da manhã: dois gritos de morte tinham sido dados no convés C.

 - Gritos de morte! - disse Claude Ambert perplexo. - Minhas pequenas apenas trombetearam. Elas estão intranquilas, meus caros.

 - Olha, eu sei como soam os gritos dos elefantes... do circo, do jardim zoológico e por um passeio em Sri Lanka. - Nervoso, Teyendorf acendeu um cigarro. - Para um passageiro inocente e despreocupado, a coisa deve ser arrasadora no verdadeiro sentido da palavra! Pode provocar um ataque do coração, meus senhores. Afinal, quem iria supor que há elefantes a bordo? Então, a pessoa sai inofensivamente do bar e dá de caras com um grito espantoso. O coração deve quase parar! Senhor Ambert...

 - Os elefantes também são seres vivos com nervos. Inclusive com nervos delicados...

 - E o que significa isso?

 - Sissy e Beata estão enjoadas por causa do mar.

 - Era só o que faltava! - gritou o condutor Willi Kempen. - Elas também vomitam?

 - Por enquanto não.

 - Mas podem vomitar?

 - Bem, elas são mamíferos. Como eu e você.

 - Obrigado. - Agitado, Teyendorf tragou o cigarro. - Portanto, que fazer? Devem parar esses gritos de trombeta!

 - Não se pode dar um nó na tromba de um elefante, senhor comandante! - Ambert gritou horrorizado. - Se elas não estivessem enjoadas, estariam quietas.

 - Chame o Dr. Paterna aqui em cima, Kempen. - Teyendorf ficou andando de um lado para o outro em sua imensa sala de estar com elegante mobiliário e paredes revestidas de madeira. Holletitz tentou uma piada, afinal essa era sua profissão:

 - A formiguinha parou na frente de um elefante e disse: "Ei, e se a gente se amasse agora, então..."

 - Pare com isso, Holletitz! - Teyendorf interrompeu de modo cortante. - Não podemos subestimar essa coisa com piadinhas. As elefantas estão enjoadas... aliás, como é que pode, Sr. Ambert? Com esse mar tranquilo!

 - Elas são criaturas extremamente sensíveis. Todo mundo sabe que os elefantes têm almas bastante delicadas.

 

 - Quer dizer então que isso pode significar que elas vão ficar cada vez mais barulhentas e darão suas trombeteadas em espaços de tempo cada vez menores, sujando todo o seu ambiente e, vamos supor que o caso seja grave, ficarão furiosas e demolirão o porão. As paredes e portas foram construídas prevendo-se casos normais; mas quando dois elefantes desse calibre se enraivecem, eles derrubam portas e paredes como se fossem de papelão. Não podemos nem acorrentá-las! - Teyendorf esmagou o cigarro.

- Mais tarde enviarei um telex para a companhia de navegação. Do tipo que eles nunca leram antes!

 Bateram na porta. O Dr. Paterna, médico de bordo, entrou no camarote do comandante. Encarou admirado a reunião dos cavalheiros visivelmente agitados.

 - Aconteceu alguma coisa? - perguntou ele de imediato.

 - De quantos medicamentos precisa um elefante com enjoo do mar? - perguntou Teyendorf.

 O Dr. Paterna virou a cabeça e encarou Willi Kempen. Será que o velho está querendo gozar-me? Mas essas caretas estariam sérias demais para isso.

 - Na veterinária, pelo menos é o que eu acredito, calcula-se a quantidade segundo o peso do paciente. - O Dr. Paterna estava um tanto consternado. - De que se trata?

 - De dois elefantes com enjoo do mar - disse Riemke.

 - Não compreendo...

 - Temos lá embaixo no convés C dois elefantes enjoados para tratar. - Teyendorf esfregou as mãos. - Sim, o senhor arregala os olhos, doutor. Não existe nada que a nossa companhia de navegação não torne possível! Este aqui, o Sr. Claude Ambert, é o tratador. Ele acabou de me notificar que Sissy e Berta são criaturas tão sensíveis que até o mais leve marulho faz tremer seus corpos de toneladas de peso.

 - É verdade - disse o Dr. Paterna sério.

 - É verdade o quê? - balbuciou Riemke.

 - Os elefantes são criaturas delicadas. Mas o que é que eu posso fazer?

 - Você deve dar um remédio contra o enjoo do mar para Sissy e Berta.

 - É impossível, senhor comandante.

 - Por quê?

 - Para deixar dois elefantes em condições de navegar... bem, não tenho cinquenta quilos de medicamentos aqui. A farmácia do navio está montada para tratamento médico de seres humanos. Eu desisto.

 - Você ouviu, Sr. Ambert? - Teyendorf voltou a dar suas passadas de parede a parede. - Todos nós desistimos dos seus elefantes. O que se pode fazer? E o que pode acontecer se não fizermos nada?

 - Pelo amor de Deus! - espantado, Ambert cerrou os punhos.

- Alguma coisa precisa ser feita! Sissy e Berta podem ter um ataque do coração. Os elefantes têm o coração instável.

 - Seria uma solução - disse Riemke de modo seco. - Ainda não temos bife de elefante no cardápio.

 - Eu só ouço brincadeiras estúpidas em toda a parte. - Teyendorf lançou um olhar incisivo para o Dr. Paterna. - Doutor, trate de pensar nalguma coisa!

 - Bem, se eu der cinquenta comprimidos de dramamine num balde de água a cada paquiderme, deve fazer algum efeito. Mas não vai dar para aguentar muito tempo. São cem pastilhas por dia.

 - Só até Acapulco - disse Flesch, o director de cruzeiro encarando o rosto espantado de Ambert.

 

 - Isso... isso tem algum efeito colateral?

 - Sim. Os comprimidos deixam a criatura cansada.

 - E o que farei com elefantes cansados? - berrou Ambert: - Devo fazer uma apresentação aqui. Sissy e Berta devem dançar rumba.

 - Nesse caso, elas não vão dançar rumba nenhuma! - Teyendorf respondeu com outro grito, facto incomum em seu jeito em geral

tranquilo. - Elas não se apresentam e dormem até Acapulco.

 - O coração delicado delas...

 - Pare com isso! - Teyendorf fez o punho sibilar no ar. - Os elefantes vão receber o balde cheio de dramamine, é uma ordem do comandante, entendido?

 - Nesse caso, peço permissão para dormir junto com meus animais.

- Ambert tremia de agitação. - Devem montar uma cama de emergência ao lado deles.

 - Tudo o que quiser, Sr. Ambert... mas trate de manter seus bebés gigantes bem calmos! - Teyendorf olhou na direcção de Riemke, o director de hotel. - Qual explicação você vai dar aos dois cavalheiros a respeito dos gritos?

 - Trombetas... - objectou o acanhado Ambert.

 Mas o Sr. Riemke tinha uma outra solução:

 - Já andei pensando nisso. Explicarei que a trave de uma roldana afrouxou um pouco provocando um guincho do cabo de aço.

 - Mas isso é uma babaquice completa!

 - Para nós, claro. No entanto, esses dois cavalheiros vão acreditar. Sobretudo se deixarmos plausível para eles que um navio vive com centenas de barulhos que um leigo jamais saberia explicar.

 - Vamos tentar. - Teyendorf fez um aceno curto com a cabeça. - Obrigado, meus senhores.

 Na escadaria lá fora, o Dr. Paterna pousou a mão no ombro de Ambert.

 - Vamos até o hospital agora e depois até suas amadas. Prescreverei a menor dose possível.

 - O senhor vai envenená-las, doutor. Será que não bastam vinte e cinco comprimidos por elefante?

 -, podemos testar. Portanto, vamos começar então com vinte e cinco pastilhas.

 - Obrigado, doutor. - Ambert ficou com os olhos marejados de lágrimas. - Sissy e Berta são todo o capital que tenho, são minha vida. Levaram três anos para aprender todos os números e truques. As duas tornaram-se minhas filhas. Com elas posso conversar como converso com o senhor, doutor. E as duas me respondem. Compreendo cada som que fazem. Doutor, devemos tratá-las com todo cuidado.

 - Com luvas de veludo. - O Dr. Paterna deu um sorriso tranquilizador. - Afinal, são senhoritas, não é mesmo? E a minha especialidade é o tratamento compreensivo das damas.

 

O casal von Haller tinha uma noite tranquila atrás de si.

 

 Não era de se admirar: o Sr. von Haller embriagara-se antes no bar Atlantis com tudo a que tinha direito, já na primeira noite a bordo apalpara as nádegas de três comissárias, coisa que elas encararam de maneira educada, mas transmitiram a notícia com toda a rapidez, e depois foi arrastado para a cabina 156, pendurado no braço de sua esposa, uma mulher de medidas impecáveis e que sem dúvida nenhuma havia sido uma beldade cheia de paixão contida nos anos da juventude.

 Ele era um alegre senhor idoso, na casa dos setenta, um conversador charmoso e espirituoso, cuja esclerose cerebral fazia com que contasse tudo três vezes, sem - Coisa que deve ser elogiada - mudar coisa alguma. Tinha uma postura erecta - "sou um antigo membro da cavalaria, ficava sentado na sela como um dois de paus, a coluna bem esticada, o olhar para a frente, para o inimigo!" - e cabelos grisalhos ondulantes que lembravam o jeito de Einstein. E havia mais uma coisa que certamente ninguém sabia a bordo, à excepção do comandante: ele usava um nome falso.

 O Sr. von Haller era da nobreza, uma alteza, era o príncipe Friedrich Enno von Marxen, e sua espigada mulher chamava-se Juliane Herbitina, princesa von Marxen, nascida em Oyen e cujo nome de solteira era von Oyen. E com esse nome e também para não despertar outras coisas, as altezas viajavam como von Haller, metendo-se pura e simplesmente na aristocracia mais baixa.

 Portanto, a noite havia sido tranquila, o príncipe estava sentado na beirada da cama escutando a mulher cantarolar no banheiro ao lado. Depois ela bufou debaixo do chuveiro qual um hipopótamo emergente e gritou:

 - Pode vir agora, Friedi!

 O príncipe suspirou e continuou sentado na beirada da cama. Havia quarenta e cinco anos que ela o chamava de Friedi, desde o primeiro beijo no jardim do castelo Herrschenhain, e ele não conseguira dar um fim a esta palavra imbecil que soava como se fosse um som de linguagem de bebé. Do ponto de vista estritamente psicológico, este fora um dos estímulos que o transformaram no que ele era agora.

 A princesa Juliane Herbitina - em geral, a alta aristocracia adorna-se com nomes estranhos - saiu do banho desnuda. Nela tudo era gigantesco: os seios, os quadris, as coxas, as nádegas, resumindo: uma montanha de carne que não se podia abranger com um olhar. E mesmo assim não parecia gorda nem rechonchuda, pois tudo nela era bem proporcionado, combinando-se numa harmonia completa; só que rasgava qualquer

fita métrica.

 Ao contemplar essa visão, o príncipe suspirou mais fundo ainda e andou descalço pelo tapete do chão.

 - Que propõe para hoje, meu tesouro? - perguntou ele.

 - Vamos ficar com a combinação violeta, Friedi. - Ela passou por ele, o chão tremeu sob cada passo dado, e olhou pela janela o mar lá fora.

Antigamente, a parte traseira dela induzia a que ele saltasse de modo espontâneo e mostrasse a ela pela milésima vez como tudo acontecia lá fora, na natureza, mas esses tempos haviam passado. Nem mesmo a mais intensa lembrança produzia alguma excitação e as fotos das revistas pornográficas eram contempladas por ele como se fossem reproduções de quadros de Rubens. Ainda havia apenas uma coisa que ainda o estimulava um pouco em seus setenta e três anos, dando um leve indício de como devia ser antes nos dias nublados. E era sobre isso que estavam falando agora.

 - A violeta, minha querida? - perguntou o atencioso príncipe. - Como queira. Vamos começar.

 

 - Estou vendo peixes-voadores. Ah, como é bonito! - Ela coçou a nádega direita, dura como mármore, e depois deu um tapa com a mão espalmada. Pairava no ar o aroma de um perfume exótico. Os conhecedores diriam: trata-se de gengibre branco. - Tome o banho primeiro, Friedi.

- É para já, querida.

 Ele entrou no banheiro arrastando os pés, postou-se debaixo do chuveiro, esfregou-se com geléia de banho massageando-se um pouco. Com isso, conseguiu meia erecção, alegrando-se como uma criança que ganha um brinquedo e, todo encharcado como estava, correu de volta ao quarto.

- Dê só uma olhada nisso! - gritou com voz trémula. - Um Marxen jamais fica velho!

- É o ar marinho que faz isso, Friedi. - A princesa lançou apenas um olhar rápido naquele acontecimento, tornou a coçar a nádega direita e, com um sorriso sarcástico, ficou vendo o príncipe virar-se diante do espelho da parede, até que o motivo da enfática alegria começasse a murchar de novo.

 - Não seja infantil, Friedi - disse a mulher enquanto ele continuava a girar diante do espelho. - Vamos tomar o desjejum. Estou com fome. Vá enxugar-se.

 O príncipe assentiu, um pouco tristonho diante da rápida transitoriedade, voltou arrastando os pés para o banheiro e enxugou-se. Enquanto isso, a princesa retirou do armário as meias femininas violetas, uma liga violeta com tiras guarnecidas com pregas também violetas e um sutiã transparente da mesma cor. Colocou tudo lado a lado na cama do príncipe e, em seguida, tirou do armário um terno preto, uma camisa social, meias masculinas e tudo mais que um homem usa.

 Com gestos lentos, ela vestiu o traje masculino, completo com gravata e sapatos, e depois foi sentar-se no banquinho acolchoado junto à janela. Os peixes-voadores continuavam a cintilar diante da janela, com o sol reflectindo-se nas barbatanas transparentes. O Atlantis deslizava de modo quase imperceptível pelo mar de um azul quase incrível e de ondas suaves.

 O príncipe saiu do banheiro e começou a vestir-se, colocando primeiro o sutiã. Seguiram-se as ligas e, por último, ele rolou as meias pelas pernas. Ele ofegava enquanto se vestia, respirava pesado e, depois de vestir tudo, sentou-se na cama com postura empertigada, na pose lasciva e provocante de uma puta de luxo. Com as pernas cruzadas e também um pouco esticadas, o dorso um pouco jogado para a frente oferecendo a escassa pelugem grisalha. Mas seu rosto estava irradiante, sua cabeça parecia francamente bela. Dava para se imaginar que na juventude ele devia ter possuído uma figura imponente, acentuada, aristocrática.

 A princesa olhou para ele e bateu com o nó do dedo no tampo da mesa.

 Um calafrio percorreu o corpo do príncipe. Suas coxas abriram-se ainda mais.

 - Entre! - gritou ele. Sua voz soou um tanto afectada. - A porta está aberta, querido.

 A princesa vestida com trajes masculinos levantou-se do banquinho e andou até a cama. Por sua postura, maneira de caminhar e expressão, podia-se ver que ela interpretava o papel entediada, petrificada pela rotina e hábito, assim como quem escova os dentes e gargareja pela manhã.

 

 - Você está de novo encantadora, meu docinho - disse ela. - De prender a respiração. Você me deixa louco com esse seu corpinho. Eu podia virar um animal de rapina e parti-la ao meio!

 - Faz isso... faz isso... - balbuciou o príncipe caindo para trás, sobre os travesseiros, com as pernas bem escarranchadas. - Ele pertence a você... tudo lhe pertence, somente a você... você, homem alto e forte; você, Hércules; você, deus grego; você, centelha de fogo... Aniquile-me com seu amor! Liquide-me! Ohhhhh...

 Animado, o príncipe fechou os olhos, o canto da boca tremia. Com um ar de entediada, a princesa tirou a gravata, torceu-a transformando-a numa corda de seda e começou a bater no príncipe com ela. Este estertorava de prazer curvando-se sob os golpes, empinando-se; e, quando a princesa inclinou-se sobre ele, enrolou a gravata em torno de seu pescoço e estrangulou-o com todo cuidado, o príncipe soltou gritinhos

ofegantes que pareciam ser:

 - Ah, que prazer! Que prazer!

 De repente, ele relaxou, pressionou as pernas uma na outra e enterrou os dedos no lençol. A princesa tornou a empertigar-se, tirou a camisa pela cabe a e foi abrir o armário, para procurar um vestido de pregas, arejado e florido, para o desjejum. Em virtude de sua potente silhueta, ela possuía a coragem para usar algo assim, mas os condes von e zu Oyen sempre foram sujeitos corajosos.

 O príncipe tornou a sentar-se ainda respirando pesada e ofegantemente. Seu rosto reflectia o prazer.

 - Como estive, meu amor?

 - Muito bem. Mas a expressão centelha de fogo foi nova.

 - O ar marinho. Foi você quem disse, meu amor. O ar marinho me deixa excitado. - Ele livrou-se do sutiã violeta; abriu bem os braços como quem pratica a ginástica matinal, contraiu-os e tornou a abri-los, enquanto observava a mulher que se vestia. - Você tem uma bunda esplêndida, minha linda.

 - Trata de se vestir logo, estou com fome. - A princesa pós o vestido de pregas e contemplou-se com ar crítico no imenso espelho de parede.

- A propósito, vi uma comissária que é do tipo exacto que lhe agrada. Alta, com jeito de rapaz e magra, cabelos cortados à joãozinho. Vestida com roupas de homem... seria o seu ideal!

 - Fale com ela, meu tesouro. - O príncipe deu um salto da cama.

- Fale logo com ela! Ofereça-lhe um bom preço. - Ele foi até o banheiro, tirou as ligas e meias, enxugou-se e então voltou a ser o velho de pele descorada e enrugada, braços finos e sem músculos e penugem grisalha. - Mande-a vir assistir amanhã de manhã. Ah, você tem de mostrar-me quem é... Cabelo à joãozinho, um pajem delicado... que maravilha!

 Meia hora depois o Sr. e Sra. von Haller apareceram no restaurante, um casal elegante e distinto que o próprio representante do comissário-chefe conduziu a uma mesa ainda livre, onde ele puxou a cadeira para a veneranda senhora.

 O príncipe esfregou as mãos qual criança que recebe um presente, prendeu um monóculo no olho esquerdo e disse com o prazer de quem sabe gozar a vida:

 

 - Quatro ovos mexidos com champinhon e duas fatias de presunto de Praga. Além disso, chá, meio louro, e uma canequinha de rum. E torrada... sim, claro, torrada, bem douradinha, por favor. - Recostou-se na cadeira, lançou um olhar irradiante para a mulher e acrescentou: - Que lindo dia, meu amor. Uma viagem marítima como essa não pode ser substituída por coisa nenhuma.

 

Por volta das nove e meia da manhã, a voz do oficial de segurança ressoou pelos alto-falantes de todas as cabinas, de todos os corredores, salões, bares e conveses:

 - Pedimos sua atenção para um importante comunicado. As determinações internacionais de segurança prescrevem que se realize um exercício de emergência para o caso de necessidade, no início de cada viagem marítima. Pede-se a todos os passageiros que, ao soar o sinal de sirene prescrito, três vezes três ruídos longos, vistam as roupas de salvamento que se encontram nos armários, venham até o tombadilho e concentrem-se sob os respectivos botes salva-vidas. O número dos botes está escrito nas roupas de salvamento. Ali chegando, nossos oficiais lhes explicarão as medidas para os casos de emergência e lhes darão alguns conselhos. Repito: as determinações internacionais de segurança...

 Por um terrível acaso, justamente Oliver Brandes encontrava-se nesse minuto no banheiro de sua cabina. É bem verdade que ele ouviu a voz saindo do alto-falante da cabina através da porta fechada, mas não compreendeu as palavras. Ao correr com as calças ainda arriadas para o quarto, houve um estalido e a voz desapareceu.

 Oliver Brandes engoliu um dos comprimidos que o Dr. Paterna lhe dera, empurrou-o com suco de laranja e depois foi para o convés. Posto que todas as espreguiçadeiras em volta da piscina estivessem ocupadas, ele subiu a escada que dava ao convés olímpico e ocupou uma cadeira da última fila, bem encostada na parede, para não ser obrigado a ficar olhando o mar. Só o leve movimento das ondas, o suave mergulhar e ascender do navio que se manifestavam no horizonte, aparecendo e sumindo na amurada, bastavam plenamente para provocar-lhe uma sensação opressiva no estômago. Brandes deitou-se rapidamente na imensa toalha que o comissário de convés lhe dera, puxou para cima da testa o chapéu de linho branco e adormeceu. Ao seu lado, uma senhora esfregava-se com óleo de bronzear que exalava um forte cheiro de coco. Na fila de espreguiçadeiras à sua frente, um senhor gordo relatava seus padecimentos da próstata sem a menor cerimónia e trocava experiências com outros cavalheiros.

 

 "Nesse trecho ao longo das costas californiana e mexicana, com esse mar liso e céu azul e ensolarado, nenhum navio pode naufragar, pensou Oliver Brandes satisfeito. Aqui não existe nenhum iceberg, como ocorreu outrora com o Titanic, e os perigosos furacões só acontecem nos mares do Sul. Mas nós ainda chegaremos lá", e, ao pensar nisso, seu coração apertou-se de novo. Oliver Brandes havia visto alguns filmes sobre furacões e tormentas, nos quais casas inteiras eram atiradas para o ar, automóveis transformavam-se em bolas, ondas da altura de prédios varriam a costa e a terra submergia na água. Quando um navio entrava numa coisa assim, de nada adiantavam as orações. De qualquer modo, Brandes estava firmemente convencido disso. Neste contexto, ele propôs-se dar um pulo até o assistente espiritual evangélico de bordo, o pastor Günter Wangenheim, para conversar e perguntar se, em caso de naufrágio do navio, ele poderia ir até lá para rezar.

 A sirene soou às dez em ponto, três longos sons, três vezes, um atrás do outro. Oliver Brandes acordou sobressaltado na espreguiçadeira e, com um horror vazio, viu seus vizinhos saírem correndo e muitos passageiros, já com os salva-vidas amarelos no pescoço, apressarem-se pelas escadas e conveses.

 - Eu bem que adivinhei - Brandes balbuciou e continuou deitado rígido como um pedaço de pau. - Eu bem que sabia! Mas já agora? Oh, meu Deus, por que tinha de acontecer? É a minha primeira viagem de navio... e ele mergulha nas profundezas do Pacífico.

 O comissário de convés foi até ele e, na opinião de Brandes, dando uma impressão de serenidade.

 - O senhor deve pôr o salva-vidas agora mesmo e ir até o local de seu bote.

 - Será que isso faz sentido? - Oliver Brandes cruzou as mãos. Ele já havia lido muito a esse respeito. - Primeiro mulheres e crianças... eu sou solteiro, vou por último. Não faz sentido.

 O comissário não o entendeu direito e estendeu-lhe a mão para ajudá-lo a levantar-se.

 - a prescrição, meu senhor. Por favor, vá agora mesmo à sua cabina, ponha o salva-vidas e dirija-se ao local de seu bote.

 - Mas ele tem lugar suficiente.? - balbuciou Brandes.

 - Nossos botes e pranchas de salvamento podem receber o dobro... mas isso o senhor ainda vai ouvir.

 Brandes levantou-se, desceu a escada que dava para o seu convés e cruzou com os passageiros usando os salva-vidas, que se dirigiam ao tombadilho. Dois oficiais também passaram por ele: usando limpos uniformes brancos e sem salva-vidas. Claro, pensou Brandes. A tripulação por último. E o comandante fica lá em cima na ponte, leva a mão ao quepe batendo continência e afunda com seu navio. Já havia visto isso duas vezes no cinema e ficara profundamente comovido. O comandante e seu navio... fiel até à morte.

 Na cabina, ele enfiou o salva-vidas pela cabeça, viu que este tinha o bote número 4 e subiu até o tombadilho. Ainda não estamos adernando, pensou ele confiante. Isso é bom, pois o pânico não se espalha tão rápido. Talvez eu até sobreviva.

 Todos os companheiros de infortúnio já se encontravam reunidos sob o bote 4. Brandes admirou-lhes a disciplina, o humor macabro. Eles riam e conversavam, alguns inclusive fumavam ou tiravam fotos uns dos outros. O fotógrafo de bordo também andava de um lado para o outro tirando fotografias de casais junto à amurada ou de grupos alegres. Brandes achou bem macabro o facto de se marcar daquela maneira um perigo de morte. Recostou-se na parede e fechou os olhos, desamparado.

 - Com que então você está aí! - ele ouviu uma voz conhecida. - Eu o estava procurando.

 - Doutor, que bom que está aqui! - Brandes começou a tremer. - Vai ficar perto de mim, não vai? Também está no bote 4? Graças a Deus! Quanto tempo isso ainda vai levar?

 - Talvez uns vinte minutos, não mais. - O Dr. Paterna endireitou o salva-vidas de Brandes e apertou o laço. - Depois estará livre.

 - Livre... - Oliver Brandes engoliu em seco com trejeitos espasmódicos. - Imagino que deve ser terrível morrer afogado.

 - Só os primeiros minutos é que são ruins. Assim que a água entra nos pulmões...

 

 - Estou passando mal. - Brandes revirou os olhos. - Acho que vou desmaiar... - O Dr. Paterna agarrou o braço de Brandes e arrastou-o até à porta da escadaria. O exercício acabava para ele nesse momento, mas não seria necessário levá-lo ao hospital. Esse tipo de histeria curava-se sozinha e, se Brandes tivesse um pouco de álcool na cabina, passaria rápido pela crise.

 Pálido, Brandes deitou-se na cama, enquanto o Dr. Paterna buscava uma garrafa de vodca na cuba de gelo. Encheu meio copo e levou-o aos lábios de Brandes. Este arregalou os olhos como alguém que está sufocando.

 - Beba!

 - Senhor doutor, vou vomitar...

 - Não vai coisa nenhuma! Eu já havia pensado nisso, foi por esse motivo que o procurei por toda a parte.

 - Só mais vinte minutos. O senhor não quer salvar-se, doutor? Não precisa ficar aqui embaixo ao meu lado.

 - Senhor Brandes, trata-se de um exercício. Só isso! Claro que o senhor ouviu o comunicado...

 - Não ouvi coisa nenhuma. A bem da verdade, claro que alguém falou no rádio de bordo, mas nesse momento eu me encontrava no banheiro.

 - Trata-se apenas de um exercício para o caso de necessidade. Para que tudo possa transcorrer rápido, sem dificuldades ou pânico.

 - Eu sei. - Brandes estava deitado de olhos fechados na cama, com respiração funda e apressada. O meio copo de vodca começou a fazer efeito, sua cabeça girava. Parecia que havia água entrando por um rombo. Um rombo... o navio afundava... - Só está querendo tranquilizar-me, doutor. Obrigado. Estou sereno no fim. Eu vi que ia acontecer.

 - Sou uma pessoa educada, Sr. Brandes - disse o Dr. Paterna de modo ríspido -, e não existe nenhum paciente que possa queixar-se de mim. Mas eu gostaria de lhe dar um soco na fuga, só como terapia. Você não passa de um frouxo histérico! Daqui a pouco virá o outro sinal: fim do exercício.

 - O senhor sabe o que a orquestra tocou no Titanic no momento do naufrágio? O coral Mais Perto do Senhor, meu Deus... Afundaram tocando isso. O que vão tocar aqui?

 - Leve-me na viagem, comandante... - disse o Dr. Paterna com um jeito sarcástico.

 - Muito engenhoso.

 - Acho que você ainda precisa tomar uma vodca quádrupla. Senhor Brandes, nunca antes vi um sujeito como você a bordo. Como é que vou tirar-lhe esse medo patológico?

 - Ficará tudo bem quando eu voltar a pôr os pés em terra: O mar é terrível.

 - Por que seus companheiros de coral não o seguraram pelo braço? Afinal, onde estavam eles no momento do alarme?

 - Se eles tiverem enchido a cara, nem vão notar que o navio está afundando. Ninguém vai conseguir afastá-los do copo.

 - Enchido a cara? Já às dez da manhã?

 - Mas que importância têm as horas? - Brandes ficou mais calmo, a respiração já não estava mais estertorante, a vodca circulava por seu cérebro. - O senhor ainda vai conhecer meus camaradas, doutor.

 

 - Nada disso! - o Dr. Paterna levantou-se da beirada da cama e olhou Brandes de cima. Muitos pés arrastavam-se no corredor, uma algazarra de vozes passava pela porta. O exercício de alarme acabara. Agora os novatos tomaram conhecimento através dos oficiais sobre a segurança do navio que era quase insubmergível. E se de facto ele naufragasse, haveria lugar para todos nos botes de salvamento. A segurança era a oferta máxima a bordo. - Acredita agora que tudo não passou de um exercício? - perguntou o Dr. Paterna.

 - Sim. - Brandes encarou-o, súplice. - Desculpe-me, doutor. Mas não posso fazer nada. Eu sou assim. Histérico, não?

- Bem, eu chamaria a coisa de síndrome doentia de medo.

- Vocês, os médicos, são sempre tão amáveis com suas expressões especiais. - Brandes levantou-se, mas tornou a deitar-se no mesmo instante. O quarto começou a girar, a vodca derrubara-o por completo. - Como é que posso ser ajudado?

 - Você está noivo, é casado?

 - Não. Tenho uma namorada, mas não é um relacionamento firme. Porquê, doutor?

 - Você devia travar conhecimento com alguma pessoa simpática aqui a bordo. Dentro de três dias haverá um encontro de solteiros no bar Olímpia no qual as pessoas poderão conhecer-se à vontade. Você vai ver, uma linda mulher ao seu lado fará milagres.

 - Se eu comparecer ao encontro de solteiros, o coral inteiro vai cair na minha pele. Eles vão aprontar e me deixar numa situação difícil.

- Você tem sorte com as mulheres, Brandes...

- Depois ficarei desmoralizado pelo resto da viagem.

 - Mas é claro que você está acima dessas criancices, seja soberano! Tem quatro esplêndidas semanas pela frente, deve desfrutar delas, mais nada! E se seus colegas de coral se tornarem renitentes, basta citar-lhes Goltz von Berlichingen.

 - Vou tentar, doutor. - Brandes estendeu a mão ao Dr. Paterna mas continuou deitado. Na verdade, estou meio bêbado, pensou ele. Meio copo de vodca às dez da manhã... Afinal, não sou nenhum musique russo...

- Eu lhe agradeço.

 O Dr. Paterna deu-lhe um aceno amigável e saiu da cabina. No corredor encontrou o segundo-engenheiro que estava descendo à sala de máquinas.

 - Algum caso grave? - perguntou ele.

 - De jeito nenhum. Falta-lhe apenas uma experiência bem-sucedida.

 - DÊ a ele o número da cabina da Sra. White!

 Os dois deram uma gargalhada e saíram em direcções diferentes.

 Oliver Brandes dormiu. Teve um sonho clássico: uma belíssima mulher nua saiu do mar espumante. Afrodite, a deusa nascida da espuma.

 Brandes mergulhou por completo nesse sonho, soltando grunhidos de prazer.

 

Os gémeos Fehringer preparavam-se para o almoço.

 

 Não haviam tido nenhuma dificuldade com o café da manhã. Herbert comeu no restaurante, Hans mandou que lhe servissem o desjejum na cabina. Posto que o comissário de convés que distribuía o café da manhã para os passageiros de sua copa não tinha a menor idéia do que acontecia ao mesmo tempo no restaurante, jamais daria nas vistas essa duplicidade matinal. Claro que também era possível se pedir para que o almoço e jantar fossem servidos na cabina, mas em geral isso só era feito para os doentes. Era muito raro que uma pessoa sozinha ou mesmo duas quisessem ter uma refeição íntima. Nesses casos, a cabina transformava-se numa chambre séparée e o comissário num silencioso confidente e cúmplice.

Quando alguém encomendava à noite uma garrafa de champanhe com duas taças, canapés, um cesto cheio de frutas frescas e pastéis torradinhos, qualquer comissário sabia que só poderia entrar nessa cabina se fosse chamado.

 Os gémeos Fehringer haviam dividido a viagem de tal maneira que na primeira semana ocorresse a "troca a jacto" no restaurante, na segunda semana um ficasse doente e comesse na cabina e na terceira semana tudo se repetiria com a mesma habilidade. O mais tardar nessa terceira semana. O comissário de mesa já não podia mais compreender como uma pessoa era capaz de almoçar e jantar duas vezes, sem ficar gordo como um porco.

 - Vamos verificar as horas - disse Herbert Fehringer como quem prepara um ataque. Ele era o gémeo "mais velho", havia visto a luz do mundo exactamente quarenta e sete minutos antes. Hans, chamado orele de "caçula", respeitava essa hegemonia. - São agora 12 horas e 53 minutos.

 - Certo.

 - às 13 horas,30 minutos eu me levanto da mesa, chego ao banheiro às 13 horas e 32 minutos e às 13 horas e 40 minutos você se senta à mesa.

 - Entendido.

 Os dois postaram-se mais uma vez diante do espelho para verificar a roupa e a aparência. O mesmo penteado, isso sem falar do rosto inteiro, da mesma camisa, mesma gravata, mesmo paletó de tricô, calças, meias, sapatos... não havia diferença alguma.

 Os dois acenaram-se satisfeitos no espelho abrindo um largo sorriso. Essa era a terceira viagem de navio desse tipo e nunca antes houvera qualquer complicação. Eles sempre tomaram os maiores navios de cruzeiro, pois nestes, claro, uma pessoa perdia-se entre os seiscentos passageiros ou mais, com dois horários de refeição e mais de dez conveses... Mesmo quando aparecia duas vezes. Já no primeiro dia os dois haviam percebido que o navio mais difícil seria o Atlantis, posto que quase a metade dos passageiros estava repetindo a viagem e se conhecia. E porque reinava uma agradável atmosfera íntima no barco, apesar de seu tamanho. Era impossível impedir que as pessoas se conhecessem o mais tardar após uma semana, se não pelo nome, pelo menos de vista. Os passageiros trocavam cumprimentos amáveis e até mesmo algumas palavras sem maiores compromissos nos bares... e era justamente aí que residia o perigo para os gémeos Fehringer. Era possível que alguém descobrisse a dupla apresentação na troca no banheiro.

O jogo só estava ganho nesse dia quando um deles voltava ao restaurante e o outro encontrava-se na cabina.

 

 Herbert Fehringer deu outra longa tragada no cigarro. Formou-se uma brasa grande e, quando Herbert virou-se para a mesa, a brasa caiu de repente indo aterrissar na manga do paletó de tricô. Isso provocou um cheiro repugnante e queimou um pedaço de tecido, por mais rápido que Herbert tenha sido ao bater a brasa. O paletó estava estragado. Para que ocorresse a troca no restaurante, Hans também precisava chamuscar a manga de seu paletó.

 - Mas que grande merda! - disse Herbert Fehringer. - Não vou trocar de roupa outra vez! Você vai lá e eu banco o doente hoje. Em compensação trocamos à noite e você fica na cabina. Ninguém consegue melhorar de uma doença com tanta rapidez. Então, amanhã fazemos o giro normal.

 O destino deve ter actuado ali de alguma forma, pois esse almoço tornou-se decisivo para os gémeos Fehringer.

Hans Fehringer conheceu uma mulher, Sylvia de Jongh, no meio da multidão de passageiros que esperava diante da porta ainda fechada do restaurante.

Foi como se ele tivesse sido atingido por um raio.

 

Aqueles que conheciam Sylvia de Jongh só podiam ficar fascinados.

 Era uma dessas raras mulheres que exercem um efeito narcotizante sobre os homens. A pessoa a via, ouvia sua voz, media seu corpo com os olhos, desfrutava do rebolar de seu andar e, assim, perdia o sentido da realidade. Era-se possuído por uma magia sedutora, enriquecida com os desejos mais loucos.

 Ao ver Sylvia parada ao lado do marido, com os longos cabelos negros presos à nuca com uma fita de veludo vermelho sangue, os seios aparecendo no decote fundo do vestido que apenas envolvia-lhe a silhueta com uma auréola de cor, Hans Fehringer respirou fundo e recostou-se na enorme vitrine da entrada do restaurante que, junto dos cardápios, continha também as fotos do mestre-cuca, do comissário-chefe e dos anfitriões. Hans viu que aquela magnífica mulher também o notara, pois um Fehringer não passava despercebido nem por sua altura e nem por seu magnetismo masculino e elegância, mesmo sendo esta oriunda do catálogo de uma loja de ponta de estoque. Sempre depende de quem e como se veste alguma coisa; existem paletós de tricô feitos de cashmere que custam mais de quinhentos marcos e outros de tecidos mesclados por noventa marcos... uns caem no corpo como um saco, enquanto outros modelam o portador. Os olhares de Sylvia e Hans Fehringer cruzaram-se rapidamente; Hans ostentou um sorriso mágico nos lábios e Sylvia virou a cabeça na mesma hora. O homem ao seu lado disse alguma coisa e olhou para o relógio... ainda faltava um minuto para que a porta do restaurante fosse aberta. Ele parecia estar criticando essa pedante manutenção do horário, estava morto de fome; era um homem alto e pesado, visivelmente mais velho do que a mulher, com mãos largas e dedos fortes.

 No fundo, ele não pode compreender quando Sylvia cedeu diante de seu insípido pedido de casamento cinco anos atrás aceitando ser sua mulher. Ainda hoje, ele se perguntava, de vez em quando, como tivera a sorte de possuir uma mulher tão linda assim. Naquela época, Sylvia fora à sua ferraria artística a pedido dos pais, a fim de encomendar uma combinação de portas de três abas de ferro batido. Ele fizera três projectos, cada qual mais bonito do que o outro e, quando os pais se decidiram, ele e três aprendizes puseram mãos à obra com verdadeiro entusiasmo.

 A coisa começara assim. O ferreiro artístico Knut de Jongh possuía um bom nome conhecido além-fronteiras; já nessa época ele dava ocupação para vinte e quatro pessoas - hoje em dia, para sessenta e nove - e havia três anos que Knut era vivo. Sua mulher morrera afogada durante as férias numa ilha dinamarquesa, de ataque do coração, pelo que os médicos disseram mais tarde; uma situação trágica para a qual não havia nenhuma saída.

 

 O casamento com Sylvia, ele constatou com muita rapidez, era um stress só. Não porque Knut não conseguisse mais dar o que uma mulher bela e jovem ansiava da vida, por causa da diferença de vinte anos entre as idades dos dois, mas porque sempre que aparecia com Sylvia em qualquer lugar, ele era obrigado a testemunhar a rapidez com que os outros homens se imbecilizavam. Na verdade, Knut não tinha a menor razão para sentir ciúmes, pois Sylvia parecia ser uma esposa fiel, mesmo gostando de flertar. A despeito disso, ele ficava profundamente incomodado com o facto de os outros homens devorarem sua mulher com os olhos.

 Para não deixar que surgissem tentações de qualquer tipo, Knut de Jongh tomava pílulas para aumentar a potência, engolia cápsulas de proteína e, duas vezes por semana, era massageado para estimular a circulação sanguínea... tudo isso só para poder carregar Sylvia nas mãos largas até à cama ou o sofá, a fim de demonstrar que a melhor idade de um homem era aos cinquenta e dois anos.

 Mas já não ia mais aos banhos de mar com Sylvia. Ali ele não tinha um minuto de tranquilidade quando Sylvia passeava na praia vestida com um minúsculo biquini. Assim como os ursos seguem uma trilha de mel, os homens também trotavam atrás dela. Ele pensou algumas vezes se não devia usar a força adquirida na bigorna e na mesa de ferreiro - nesse caso a praia ficaria atapetada de homens inconscientes -, mas depois tomou a decisão de afastar-se nas viagens de cruzeiro. Via-se muita coisa do mundo, podia-se vislumbrar o areal, a maior parte dos passageiros era mais velha do que ele e tinha Sylvia sempre sob controle. Quando Knut estava sentado ao lado dela, um tronco de homem vestido de smoking branco sob o qual podia-se divisar os músculos, lançando um olhar duro a cada sujeito que se aproximava da mesa, ninguém ousava convidar a bela jovem para uma dança.

 Para Knut de Jongh, um navio era o lugar ideal para se passarem as férias.

 Treze horas. As portas de vidro abriram-se e os passageiros invadiram o restaurante como quem acabasse de passar por uma dieta de cura.

 Hans Fehringer também juntou-se à multidão. Ele avançara um pouco e, no momento da abertura da porta, estava postado atrás da bela mulher.

No momento em que Hans Fehringer postara-se ao lado de Sylvia, Knut de Jongh acabava de dizer:

 - Ora, até que enfim! Treze horas em ponto. Obstinado como um tanque!

 A mulher arriscou um olhar sobre Hans pelo canto do olho. Jogando a cabeça para trás e esticando-se. Ao fazê-lo, os seios abaularam-se ainda mais sob o fino tecido do vestido. Ela não estava usando sutiã, os mamilos ressaltaram-se de modo evidente.

 

 Com imensa alegria, Fehringer viu que o casal tinha a mesa número 9, junto à janela, numa linha oblíqua à sua mesa B 6. Coisa que lhe permitiu olhar a mulher o tempo todo, contemplar admirado cada movimento dela e lançar-lhe sorrisos. Isso não oferecia nenhum perigo, posto que o marido estava sentado de costas para ele. Inclusive, ao receber o vinho branco seco, Hans ergueu o copo e brindou-a.

Ela não reagiu, senão que virou a cabeça, olhou o mar pela janela, mas seus pés esgaravataram o tapete... um pequeno indício de seu nervosismo. Mais tarde então, ela brincou com o saleiro, leu o cardápio algumas vezes e, por cima da borda, lançou um olhar na direcção de Fehringer.

 

Depois, rápido, como um estremecer de pálpebras, sua cabeça tornou a virar-se para o lado e Sylvia deu outra olhada no mar. Enquanto isso, Knut de Jongh comeu seis pratos do cardápio e deu-se por satisfeito. Um homem como ele precisava de uma boa base, como ele chamava, para vencer o dia. Depois da refeição, iriam andar no convés, deitariam sob a coberta do deque de desportos e tirariam uma saudável sesta na espreguiçadeira, embalados pelo quente vento mexicano. A propósito, três vezes por semana - propor-se com toda firmeza - ele se retiraria à cabina após a refeição, acompanhado por Sylvia, a fim de refutar o estúpido mexerico a respeito da grande diferença de idade.

 Sylvia de Jongh comeu desconcentrada e muito pouco, apenas uma entrada e o prato principal, um peixe tropical frito, de carne branca e sem nenhum sabor de peixe. Em compensação, bebeu com razoável rapidez três copos de Chablis, sempre virando a cabeça à esquerda em direcção à janela, pois ao sentar-se recta na mesa diante do prato, seu olhar caía forçosamente em Fehringer, sentado numa linha oblíqua na frente dela.

 Ela levantou-se logo após o café, que encerrava a refeição, e disse algo ao marido que acabara de acender um charuto estreito mas evidentemente caro. Via-se que ele estava querendo fumar com prazer e não tinha a menor vontade de ir embora nesse instante.

 Fehringer ouviu alguns trechos de palavras e acreditou ter compreendido "convés". A fascinante mulher desviou-se de seu olhar num gesto de evidente defesa e saiu do restaurante. Hans Fehringer seguiu-a alguns minutos depois e encontrou-a no elevador. Postou-se atrás dela, entrou na cabina depois dela e aguardou até que a porta se fechasse.

 - Que devo apertar? - perguntou ele enquanto ostentava um sorriso significativo.

 - Solário, por favor.

 Sylvia ficou olhando um ponto fixo à sua frente e Hans Fehringer tornou a admirar-lhe a cabeça e o início dos seios. O perfume que ela exalava era acre e cheirava a limões frescos.

 - O senhor é um descarado! - Sylvia disse de repente, sem nenhum rodeio. - Afinal, o que está imaginando?

 A resposta é simples.

 - Eu nunca vi uma mulher tão linda como você e Deus sabe o quanto já andei pelo mundo.

 - E por acaso isso é alguma razão para comportar-se desse jeito arrogante?

 - E de que outra maneira eu poderia expressar minha admiração?

 - Não devia.

 - Você está exigindo o impossível.

 - E o que o senhor espera?

 - Não daria para dizer dentro de um elevador e num prazo de dois minutos. - Hans Fehringer deu uma olhada no mostrador luminoso do aviso dos andares. - Solário. Chegamos. Tem alguma coisa contra que eu também procure uma espreguiçadeira no solário?

 - Como passageiro o senhor pode deitar-se onde bem entender. Só lhe peço que, por favor, não se sente ao meu lado. No lugar do meu marido.

 - Talvez eu tenha sorte e a cadeira do outro lado esteja vaga.

 

 - Eu achava que o senhor seria capaz de ter livres lado a lado, na segunda fila diante da piscina.

 - Segure-as - disse Fehringer. - Vou buscar as toalhas com o comissário.

 Ela encarou-o com o rosto um pouco virado de lado, assentiu e sentou-se na espreguiçadeira que lhe tocava, a do meio. Quando Fehringer voltou trazendo no braço as enormes toalhas vermelhas que serviam de base, Sylvia havia tirado a roupa e estava sentada na cadeira com um fantástico maiô bem decotado. Era negro, só que no meio, debaixo dos seios, havia uma gigantesca papoula. Era mais refinado e atraente do que o menor dos biquinis.

 - Você tem uma maneira de derrubar os homens que é quase criminosa - disse Hans Fehringer abrindo a toalha de banho sobre a espreguiçadeira de Sylvia.

 - Bem, se isso lhe deixa intranquilo...

 - Fico intranquilo mesmo...

 -... então é só trocar de lugar. Meu marido tem um ciúme doentio.

 - Com toda a razão. - Fehringer deslizou em sua espreguiçadeira. Por um instante, ele pensou no irmão que o aguardava na cabina, pois de acordo com o planeamento a tarde pertencia a este. Mas aquela era uma situação excepcional à qual não se podia renunciar por causa de um acordo. - Se eu fosse ele só andaria com um cassetete recheado de chumbo.

 - Ele não precisa disso. - Pela primeira vez surgiu um leve sorriso no rosto clássico e estreito de Sylvia. - Ele tem as mãos. Isso basta. É ferreiro profissional.

 - Que interessante!

 - Hoje em dia temos uma fábrica de artigos de forja artística com sessenta e nove empregados. A própria televisão já fez um documentário de meia hora sobre nós. Foi quando meu marido produziu as novas instalações do portão do castelo Bittelfeld, de acordo com documentos de 1643...

 - Prefiro o ano de 1984...

 - Por quê?

 - Porque este é o ano em que conheci a mulher mais linda do...

 - Pare com isso, por favor! Ou será que você acha isso muito original?

 - Olha, dizer a uma linda mulher o quanto ela é maravilhosa... será sempre justificado em qualquer lugar!

 - Qual a sua profissão?

 - Negociante de carros.

 - Ah! - Sylvia tornou a sorrir. - É or causa disso que tem essa conversa mole. - Ela recostou-se, cruzou os braços na nuca e, ao fazê-lo, esticou os seios mais ainda na direcção de Fehringer. - Que marcas de carros?

 - Carroças de luxo. - Era uma mentira, mas que soava bem. - Temos o tipo de clientela que prefere uma Maserati como segundo carro. - Fehringer espreguiçou-se na cadeira. - Epá. Seu marido está vindo pelo bar. Chegará aqui logo. Nós nos conhecemos?

 - Não. Não nos conhecemos. Por favor!

 

 Knut de Jongh avançou com ímpeto, desabou sobre a espreguiçadeira e tirou os sapatos com os próprios pés. Ainda estava cercado por uma auréola de fumaça de charuto. Deu uma olhada em Fehringer, mas este fechara os olhos como se estivesse dormindo.

 - Bem que você poderia ter esperado mais alguns minutos - resmungou Jongh entre os dentes. - O sol não vai sair correndo.

 - Não estou fazendo uma viagem de navio para ficar cercada por fumaça de charuto nenhum. - Sylvia sentou-se e começou a besuntar-se de creme de bronzear. - Por que devo estar presente enquanto você fuma? Eu gostaria de desfrutar de cada minuto do ar marinho.

 - Você tem tempo para isso até Sidney. - Knut de Jongh ainda grunhiu algumas palavras incompreensíveis para si mesmo, depois acenou para o comissário de convés que passava apressado e gritou sem a menor cerimónia: - Uma aguardente e uma cerveja, comissário!

 Fehringer levantou a cabeça de supetão como quem acorda assustado.

 - Que está havendo? - perguntou.

 - Desculpe-me. - Sylvia de Jongh parou de passar o creme de bronzear. - Meu marido pediu uma aguardente e uma cerveja.

 - E precisava acordar-me gritando?

 - Não gritei coisa nenhuma. - Knut de Jongh lançou um olhar aborrecido para Sylvia e depois para Fehringer.

 - Mas eu fui acordado por ele.

 - Talvez o senhor tenha o sono leve. Por que não toma Valium?

 - Obrigado pelo conselho. E o senhor devia usar um abafador de som... - Knut de Jongh contraiu as maças do rosto, a cólera ardeu em seu peito, mas ainda conseguiu controlar-se.

 - Não estou com a menor vontade de começar uma discussão com o senhor - disse de modo ríspido. - Estou neste navio para descansar e não para xingar as outras pessoas. - Knut fez um gesto amplo.

- O barco tem espreguiçadeiras de sobra.

 Foi bem claro. Hans Fehringer olhou para Sylvia. Os olhos dela suplicaram-lhe para não dizer mais nada e ir embora. Mas também disseram: nos veremos de novo. Foi uma promessa muda, mas patente.

 - O senhor tem toda a razão - disse Fehringer seco. - Tem lugares de sobra onde se pode sentar ao lado de pessoas agradáveis.

 Levantou-se, puxou a toalha de banho e foi embora. Knut de Jongh seguiu-o com a vista, com um ar sombrio.

 - Sujeitinho malcriado! - vociferou ele. - Imagine se todos a bordo fossem assim!

 - Mas você também não se comportou de maneira correcta. - Sylvia tornou a deitar-se toda besuntada de creme. - Você gritou mesmo!

 - E por acaso eu devia correr atrás do comissário para sussurrar-lhe o pedido? Meu Deus, como vocês são sensíveis!

 - O negócio é que nem todo o mundo lida com ferro.

- Meu martelo transformou-me em milionário e a você também!

- De Jongh deixou-se cair para trás. O revestimento da espreguiçadeira soltou um rangido suspeito. - Bom. Dei um grito um pouco alto. E daí? - ele estendeu a mão na direcção dela às apalpadelas e conseguiu segurar-lhe a coxa. - Você não acha que a gente devia ir correndo para a cabina, tesouro?

 - Hoje não, no primeiro dia... quero tomar sol:

 

 Ele suspirou, olhou para o céu sem nuvens e de um azul profundo e ficou esperando a aguardente e a cerveja. Enquanto isso, ficou tamborilando na coxa da mulher com a ponta dos dedos, isso também era um tipo de carinho à Jongh.

 Nesse momento, Hans Fehringer era recebido pelo irmão de um modo que não se poderia chamar de contente.

 - Onde é que você estava, seu bundão? - perguntou ele. - Está atrasado mais de meia hora!

 - Desculpe-me - Hans Fehringer não teve a coragem de contar o conhecimento que travara com Sylvia de Jongh. Ele conhecia de antemão a reacção do outro. - O café demorou tanto tempo...

 - Mais de meia hora? como você sabe a tarde me pertence!

 - Eu o invejo! - Hans pensava em Sylvia. De repente, sentiu o peito arder. Que aconteceria se o irmão a encontrasse e passasse por ela sem prestar atenção? Posto que ela não podia suspeitar da existência dos dois gémeos, ficaria completamente desconcertada. - Onde você pensa em meter-se?

 - Vou ver: Onde houver lugar.

 - Onde se tem mais conforto é no convés do Lido. Protegido do vento, a piscina fica bem diante do nariz e, além disso, um barzinho. O solário é muito barulhento... devemos chamar a menor atenção possível, Herbert.

 Herbert Fehringer, vestido apenas com um diminuto calção de banho, assentiu, vestiu o roupão de banho e pegou óleo de bronzear, óculos de sol e um lenço.

 - Não esqueça de fechar à chave, Hans - disse ele.

 - Por acaso sou algum idiota?

 - às vezes é.

 - Obrigado. A viagem está mesmo começando muito bem! Quando é que você volta?

 - Por volta das seis. Hoje é dia do coquetel do comandante e, em seguida, haverá o jantar de saudação. Traje de luxo. Smoking branco, quando vemos as jóias de novo.

 - E daí?

 - Essa parece ser a única diferença entre nós. - Herbert Fehringer também colocou o porta-moedas no bolso do roupão de banho. - Você está pouco ligando para as jóias, mas eu as amo. Eu posso parar diante de uma esmeralda como se estivesse vendo um quadro. - Ele abriu a porta, olhou no corredor. Não havia nenhum comissário à vista, podia sair sem ser observado. - Passe bem, irmãozinho!

 Hans Fehringer fechou a porta atrás de Herbert, jogou-se em cima da cama e fechou os olhos. Que mulher!, pensou. E que homem nojento! Eis aí a velha pergunta, que jamais pode ser respondida nem compreendida: por que as mulheres mais lindas têm sempre os maridos mais horríveis?

 Ele estremeceu. Bateram na porta da cabina. O comissário.

 - Está tudo bem! - gritou Fehringer. - Eu gostaria de dormir um pouco.

 O primeiro dia a bordo. E ainda tinham muitos dias pela frente. Até Sidney. O jogo de trocas durante semanas inteiras... essa era a viagem mais longa desse tipo que os dois haviam empreendido. Nos outros navios, os "exercícios" deles haviam durado no máximo três semanas; quando tivessem superado essa viagem, saberiam que se podia viajar pelo mundo inteiro lançando mão desse truque.

 

 Só não se podia fazer uma coisa: apaixonar-se. E era exactamente esse erro que Hans Fehringer estava cometendo agora. "A gente também vai passar por cima disso", pensou ele reagindo de maneira igual a todos os outros homens que, ao defrontarem-se com uma bela mulher, perdem uma parte essencial da razão.

 

O Dr. Schwarme encontrou Ludwig Moor no tombadilho.

 Moor agia como quem gozava de plenas condições de saúde: marchava de um lado para o outro do convés com passos bem medidos. Com postura de um certo modo erecta - Cabeça erguida e olhando para a frente, peito estofado, costas rectas, os braços pendurando de modo rítmico, o rosto cheio de uma profunda seriedade - ele desceu o tombadilho, fez uma acentuada e bizarra meia-volta na extremidade do convés e voltou marchando o mesmo trecho até a outra ponta. Ali, outra meia-volta e de novo caminhou pelo tombadilho até a próxima virada.

 O Dr. Schwarme ficou observando interessado aquela marcha que passou por ele duas vezes. Quando Moor passou por ele a terceira vez, o Dr. Schwarme dirigiu-lhe a palavra.

 - O que está fazendo?

 Moor seguiu marchando. Não restou outra alternativa ao Dr. Schwarme, a não ser andar ao seu lado. Sentiu-se um idiota completo.

 - Estou andando um quilómetro - disse Moor, sem modificar a postura.

 - Como disse?

 - Pelas manhãs ou depois do almoço para facilitar a digestão. O senhor não lê o planejamento do dia? Está escrito: "Corra um quilómetro com a nossa anfitriã Bárbara. Tombadilho, bombordo. Pelas manhãs às..." Mas eu não vou participar disso como se estivesse num batalhão. Prefiro andar esse quilómetro sozinho. Não sou nenhum herói.

 - E agora vai querer fazer isso todos os dias?

 - Mas claro que sim, desde que não haja nenhum passeio em terra! Ah, esse ar marinho! Ele insufla os pulmões, é o que lhe digo.

 - Alguém comunicou-se com o senhor por causa do grito da noite passada? - o Dr. Schwarme marchava ao lado de Moor esperando que sua panturrilha começasse a tremer. Nunca fora um bom corredor. Na realidade, gostava tanto de conforto que, inclusive para percorrer o menor dos trajectos até a charutaria situada a trezentos metros de sua casa, sentava-se no carro e ia dirigindo. Nesse momento, andar um quilómetro ali no navio seria um recorde total para ele. Afinal, aquele Moor não parava, ele devorava seu trajecto sem interrupção e com seriedade heróica.

 - Sim. Um oficial jovem.

 - Comigo foi o próprio director de hotel.

 - Por diplomacia, quando se tem uma cabina 018. No caso da 032, eles mandam subalternos. O que foi que ele lhe contou?

 - Na certa o mesmo que ao senhor: alguma coisa deslizou nalgum lugar da sala de máquinas. Metal com metal... isso solta um grito.

 - E o senhor acreditou nisso, Dr. Schwarme?

 - E o que eu podia fazer? Trata-se de uma explicação óbvia. Que outra coisa poderia ser? - o Dr. Schwarme andava um pouco contorcido ao lado de Moor. Já havia deixado a terceira volta para trás. - Quantas vezes mais terá de andar, Sr. Moor?

 - Mais nove vezes.

 

 - Então eu passo. - Schwarme parou e deixou Moor marchando sozinho. - Que tenciona fazer depois da maratona? - gritou para o outro.

 - às 15 horas a anfitriã vai ensinar-me shovelboard1 no convés de esportes. Sabe jogar shovelboard?

 - Disso eu participo. Sou um bom jogador.

 - Sua mulher também?

 - Ela está no cabeleireiro. Coquetel de saudação dado pelo comandante e banquete de boas-vindas. Hoje à noite as mulheres terão seu grande desfile. - O Dr. Schwarme acenou para o maratonista. - Até mais tarde no convés de desportos!

 Ele desceu a escada que levava ao solário, sentou-se no interior do bar Atlantis, pediu uma pilsen de barril e ficou observando os outros passageiros. Algumas mulheres se haviam reunido na varanda envidraçada de bombordo, para começar um curso de hobby de construção sob a supervisão de uma anfitriã. A estibordo, um clube de bridge começou seus encontros. Faziam-se os primeiros contactos para a longa viagem. Nisso, o olhar de Schwarme caiu sobre o cego Dabrowski que estava sentado sozinho a uma mesinha redonda na saída para o solário e sorvia um ponche Planter, os olhos voltados para a frente através dos óculos de lentes escuras.

 O que estará pensando e sentindo esse sujeito agora, pensou o Dr. Schwarme. Está sentado ali, cercado de total escuridão, apenas ouvindo barulhos e vozes, sem que ninguém se preocupe com ele, sua enfermeira deve estar nadando ou tomando banho de sol... uma vida desconsolada, mesmo quando se tem muito dinheiro.

 Ele pegou o copo de pilsen, foi até a mesinha e pigarreou. Dabrowski levantou o rosto à espreita.

 - Posso sentar-me ao seu lado? - perguntou Schwarme de modo um pouco hesitante. - O assento ainda está livre.

 - Mas tenha a bondade! - Dabrowski sorriu. Viu que

Schwarme, apesar de estar dirigindo a palavra a um cego, estava muito embaraçado e sentara-se com todo o cuidado, talvez com medo de provocar alguma comoção. - Está um dia lindo hoje.

 - Sim. Um céu azul e sem nuvens, sol, um mar mansinho... - Schwarme hesitou desconcertado. Que coisa mais imbecil! Seu idiota! Diz isso justamente a um cego!

 Dabrowski ostentou um sorriso suave.

 - Pode continuar falando tranquilo. O que o senhor vê, eu sinto, posso imaginar.

 - Claro. - Schwarme enxugou a testa. Mas isso não acontece mesmo, pensou ele. Como é que uma pessoa sendo cega pode compreender conceitos figurativos apenas por ouvir falar? Chega uma pessoa e diz: "Veja só que bela palmeira alta!" como pode ele, um cego, imaginar em seu íntimo o jeito de uma palmeira como essa? Para ele, claro que uma palmeira só pode ser uma palavra. - O senhor me permite fazer uma pergunta bem idiota e descarada?

 - Por favor!

 - E como pode ter uma idéia do que é o azul? Ou do que são nuvens? - Schwarme levantou as nádegas alguns centímetros do assento:

- Meu nome é Dr. Schwarme. Advogado.

- Dabrowski. Sua pergunta é justificada, só que não me diz respeito. Até à idade de vinte e seis anos, eu podia enxergar tão bem quanto o senhor.

 - Ah, é mesmo? Desculpe-me, Sr. Dabrowski.

 

 - Depois, de repente tive uma paralisia em ambos os nervos ópticos. Consultei os melhores médicos, de Turim a Tóquio, de Viena ao Rio. Estive inclusive em Moscovo! Todos ficaram fascinados com minha doença, nunca haviam visto algo assim... mas ninguém conseguiu ajudar-me. num ano fiquei completamente cego. E já faz treze anos. Para mim está claro que não existe mais nenhuma esperança. E os milagres também não acontecem. Mas se o senhor me disser agora: temos à nossa frente um mar liso de um azul bem escuro, então, puxando pela memória, eu consigo ver.

 - Isso é fantástico. - O Dr. Schwarme esvaziou o copo e deu uma olhada no relógio. Dali a pouco começaria o jogo de shovelboard no convés de esportes. - Se o senhor não se importar, podemos encontrar-nos com mais frequência para conversar.

 - Mas por favor, doutor. - Dabrowski acenou na direcção do Dr. Schwarme. - Eu ficaria muito contente.

 Ele viu o Dr. Schwarme sair no convés e passou em revista todos os que estavam sentados ou de pé no bar. Na tarde desse dia, às 17 horas e 45 minutos começava o coquetel de recepção do comandante Teyendorf para o primeiro horário de refeição. Depois haveria o banquete de gala.

Aconteceria o mesmo com o segundo horário a partir das 19 horas e 45 minutos. Finalmente, começaria o grande baile de boas-vindas no Salão dos Sete Mares, no qual o conferencista Hanno Holletitz apresentaria os artistas da viagem de cruzeiro. Para Paolo Carducci - ou seja lá que nome pudesse estar usando nesse momento a bordo - esta seria a primeira oportunidade para examinar as jóias mais de perto e escolher as mulheres que merecessem seu interesse. Podia-se calcular com toda a facilidade que, hoje à noite, cintilariam alguns milhões nas orelhas, pescoços, braços e dedos.

 Que aparência poderia ter Carducci, perguntou-se Dabrowski. Só tinham à disposição uma foto antiquíssima, um típico instantâneo de polícia que por seu turno mostrava um típico siciliano de cabelos pretos, barba por fazer, sorriso arreganhado... uma foto miserável de um vigarista impenetrável. Nos anos de ascensão de sua carreira como ladrão de jóias internacional, Carducci transformara-se por completo, trabalhara com perucas e maquilhagens, pintara os cabelos e chegara inclusive a ostentar uma careca numa viagem pela parte oriental do Mediterrâneo. Ele não recuava diante de nada. Qual seria a aparência dele hoje, ali, a bordo

do NM Atlantis?

 Seria o elegante jovem louro que tomava o segundo coquetel lá no balcão do bar? Nesse instante, Dabrowski estava olhando Herbert Fehringer.

Ou o sujeito com roupão de banho vermelho vinho com listras douradas, que tomava uma batida de leite de coco com rum branco?

Tratava-se de Tatarani, o proprietário da vinícola. Ou aquele playboy ali no canto do bar, que flertava com uma mulher de biquini colorido e que pedira uma garrafa de champanhe? Ele constava na relação dos passageiros como sendo François de Angeli, negociante de imóveis. Ou seria um dos senhores completamente discretos que se metiam em tudo logo no primeiro dia, tomando uma cerveja ou entrando numa conversa que girasse em torno de política?

 

Entre as pessoas que conversavam, reinava a unanimidade quanto à culpabilidade da parte dos sindicatos por tudo. Essa harmonia era uma boa base para a viagem comum que duraria semanas pelo oceano Pacífico.

 Dabrowski levantou-se, pegou a bengala branca e saiu para o convés às apalpadelas. As pessoas desviavam-se dele, abrindo o caminho e admirando seu sentido de tacto que inclusive levou-o até à escada que dava para o convés de esportes, sem a ajuda de ninguém. Ali, ele encontrou Beate, sua enfermeira; ela estava deitada ao sol, na fileira atrás de Knut e Sylvia de Jongh, e levantou-se na hora ao ouvir o tique-taque típico da bengala. Levou Dabrowski para a cadeira ao seu lado e ajudou-o a acomodar-se. A bombordo, o Dr. Schwarme, Ludwig Moor e outros dois senhores haviam começado o primeiro jogo de shovelboard; a anfitriã Bianca explicou-lhes o jogo mostrando-lhes algumas tacadas. Parecia muito fácil empurrar os discos de madeira sobre o convés liso, mas na realidade precisava-se de muita sensibilidade e inclusive de esforço muscular.

 - Você observou ou ficou sabendo de alguma coisa? - sussurrou Dabrowski virando a cabeça para Beate.

 - Não. Todos ainda se conhecem muito pouco para isso.

 - Certo. Mas vai ser diferente depois do baile de boas-vindas. Os que já se conhecem, os repetidores da viagem, são inofensivos. Carducci não se encontra entre eles.

 - Está vendo essa mulher de beleza exuberante à nossa frente? Ao lado do sujeito troncudo?

 - A que está com o maiô extravagante?

 - É. Está-se iniciando um flerte. Com um homem mais jovem, alto e magro. Cabelos louros, elegante, um pouco rústico, mas que faz bem o tipo das mulheres.

 - Acho que ele está no bar Atlantis. Flerte, como assim?

 - O velho dela já andou espantando o sujeito com uns grunhidos. Parece ser um tirano.

 - Mas com volumosa conta bancária. Quer apostar como hoje à noite a mulher vai estar brilhando mais do que árvore de Natal?

 Dabrowski virou-se ao sol, tirou a camisa e depois deitou-se de dorso desnudo na espreguiçadeira. Seu corpo era trabalhado, musculoso e sem gordura. Por isso mesmo, a bengala branca ao seu lado incomodava mais ainda.

 - Fique de olhos grudados nela, Beatinha. Ela é a vítima típica de Carducci.

 - O flerte dela é inofensivo, chefe.

 - Quando se tem tantas jóias assim, nada mais é inofensivo.

Agora Carducci também pode estar louro.

 - Mas deve ter uma aparência bem mais velha.

 - Ele não! Acredito que ele seja capaz de subir a bordo como um recém-nascido. Para que horas você marcou o cabeleireiro?

 - Para as quatro.

 - Fique de ouvidos abertos, minha pequena. Os cabeleireiros e os padres têm uma coisa em comum: são os confessores das mulheres solitárias. O que não se fica sabendo nos cabeleireiros, não se saberá mais em lugar nenhum. - Dabrowski sorriu, colocou na cabeça um lenço de bolso como protecção contra o sol e entregou-se ao calor e ao suave marulhar.

 

 

 - Devo usar o vestido de seda branco para a gala de hoje? - nesse momento, Sylvia de Jongh perguntou ao marido, sem se mexer quando este tornou a tocar-lhe a coxa.

 - Claro. Você fica irresistível com ele.

 - E todas as jóias de rubi?

 - Todas! A mulher de Knut de Jongh deve mostrar com toda a calma o quanto seu marido é um homem bem-sucedido. Para mim, a inveja das outras mulheres é bálsamo.

 - Só porque você também pode desfrutar do brilho.

 - Certo. Afinal de contas, fui eu quem pagou. E ganhando honestamente na ferraria. Ninguém deixou herança nenhuma para mim. Ganhei tudo com minhas próprias mãos.

 Sylvia suspirou. Ia começar de novo, ela já sabia. O hino ao homem esforçado, que antes ficava trabalhando na bigorna, malhando em ferro quente, e que agora dirigia uma empresa internacional. Uma carreira no milagre económico do pós-guerra. Um selímademan que sempre se alegrava de poder ter manteiga e presunto no pão.

 De facto, ela é uma mulher de beleza incomum, pensou Knut de Jongh. Uma espécie de criatura de contos de fada. E me pertence! Essa sorte é realmente incompreensível. Vou comprar-lhe uma peça bem valiosa na joalheria de bordo durante a viagem. Posso me dar a esse luxo com a gorda conta bancária na Suíça... Ele inclinou-se na direcção de Sylvia e beijou-a no ombro e no pescoço. O leve tremor da mulher foi encarado por ele como paixão.

Jamais teria imaginado que podia ser por defesa e aversão.

 

Claude Ambert instalara-se ao lado de seus elefantes.

 Haviam levado para baixo uma cama dobrável, uma mesa, duas cadeiras e um balde de roupas, feito de tecido, com marcos de metal e fecho de correr... e com isso tornou-se o luxo. O segundo-comissário resumiu a situação numa frase:

 - Isso aqui é um porão de depósito, não adequado a coisa nenhuma; só temos luz e uma conexão com o ar-condicionado.

 - E se eu precisar ir ao banheiro? - perguntou Ambert. Era evidente que Sissy e Berta estavam contentes. As duas elefantas brincavam com a palha e, de vez em quando, faziam festa em seu dono com a ponta da tromba.

 - Mas é claro que você não vai ficar aqui embaixo o dia inteiro, Sr. Ambert.

 - Mas durante a noite! - Ambert apontou para a porta. - Pode-se passar pelo hall da piscina ao lado e ir ao banheiro durante a noite?

 - Não. Ele fica fechado.

 - Nesse caso você deve deixar aberto.

 - Não dá, por motivo de segurança. Quando o hall da piscina está aberto, o salva-vidas deve estar presente. Ordens.

 - Mas ninguém nada à noite.

 - Você tem cada idéia. O bar é ao lado. Se os caras ficarem sabendo que a piscina está aberta, vai ser o diabo. Vão pular na água com farda e tudo. Você sabe muito bem como os bêbados se comportam. E quanto mais ricos, mais incríveis. Isso provocaria a mais pura orgia aquática. - O segundo-comissário fez um gesto negativo. - Não vai poder ser mesmo.

- Lançou um olhar para as duas elefantas. Pairava no ar um cheiro de merda. - Essas duas aí mijam em cima da palha.

 Mais tarde, na comissária, os funcionários compreenderam que um ser humano tinha direitos diferentes dos elefantes. Um comissário levou para Ambert um balde de zinco, substituído mais tarde por um vaso de urina do hospital, conhecido no jarrão técnico como compadre.

 O Dr. Paterna foi lá depois do almoço. Levava consigo sua maleta de médico como se estivesse visitando um paciente na cabina. As elefantas estavam paradas junto à parede, com as trombas para baixo e as orelhas arriadas, observando o ambiente com olhinhos opacos. Claude Ambert estava sentado numa cadeira entre as duas, tendo aos pés dois pães imensos. O mar ficara um pouco mais agitado; lá em cima, no convés, não se percebia nada, mas lá embaixo o movimento de balanço era mais forte.

 - E como vão nossas pacientes? - o Dr. Paterna perguntou alegre.

 - De um jeito miserável. Veja só, elas não comeram nada! Antes, quando viam um pão, era a maior guerra. Mas agora... Sissy já vomitou algumas vezes. Ainda vamos ter mar mais encapelado?

 - Mas isso ainda não é nada. Estamos com ventos de dois quilómetros por segundo! Quando chegarmos às águas mexicanas, mais ou menos perto de Mazatlan, podem soprar ventos de até cinco quilómetros por segundo.

 - Então elas vão morrer! - disse Ambert com voz contida. Ele olhou a maleta de médico. - O que foi que o senhor trouxe, doutor?

 

 - Tantos comprimidos quanto pude dispensar. Espero receber mais em acapulco. Calculei vinte e cinco para cada elefanta. Deve bastar, afinal só devemos amortecê-las um pouco.

 - E elas não vão se envenenar?

 - Bem, se os seres humanos conseguem suportar os comprimidos, claro que os elefantes também suportarão.

 - Não diga isso, doutor. Os elefantes são criaturas delicadas.

 O Dr. Paterna lançou um olhar para os dois gigantes cinzentos. Podia-se sentir fisicamente a tristeza das duas. Acorrentadas pelo pé direito traseiro, as elefantas estavam quase imóveis na palha. Só quando o navio fazia um leve movimento de balanço, é que saía das trombas um som parecido a um profundo suspiro.

 - Portanto, vamos começar. - O Dr. Paterna colocou a maleta em cima da mesa e abriu-a. - Vou dissolver os comprimidos em dois baldes com água. Elas estão bebendo, pelo menos?

 - Não com muita vontade. Quando não tocam no pão, é porque a coisa é mesmo muito séria.

 Ambert e o Dr. Paterna tentaram. Dissolveram em cada balde vinte e cinco comprimidos contra o enjoo do mar e, em seguida, empurraram os baldes na direcção das elefantas. Berta começou a beber na mesma hora sugando a água pela tromba; Sissy farejou, tomou um gole e depois desviou a tromba.

 - Ah! - disse Ambert. - Desculpe-me, Sissy. - Ele foi até uma enorme bolsa de papel, despejou quatro colheres de açúcar na água e depois voltou. - Sissy é uma doçura completa! - explicou para o perplexo Dr. Paterna. - Mesmo quando não se pode sentir o gosto de quatro colheres... pelo menos ela vê que a água está açucarada. Os elefantes são individualistas.

 Sissy ficou contente. Ela também sugou toda a água do balde, agradeceu a Ambert com uma palmadinha de tromba e balançou as orelhas.

 - Quando é que os comprimidos vão fazer efeito? - perguntou Ambert.

 - numa hora mais ou menos. E o efeito deve durar pelo menos doze horas. - O Dr. Paterna fechou a maleta de médico. - Você vem junto comigo para o ar puro? Seus pulmões precisam disso.

 Claude Ambert assentiu.

 - Volto já! - disse ele para as elefantas. - Não tenham medo, meus amores. Só faltam três dias, então estaremos em terra. Então vocês terão solo firme debaixo dos pés. Tenham coragem, minhas pequenas!

 Os dois subiram ao tombadilho e, lá chegando, sentaram-se num dos banquinhos brancos. Ludwig Moor estava fazendo uma de suas caminhadas de um quilómetro e, nesse momento, passou por eles. A porta que dava para a ala das suítes abriu-se e uma senhora de maquilhagem pesada e idade incerta, com a peruca de cachos luxuosos enfeitada com uma fita dourada, deu uma olhada no convés. O decote do vestido era tão exagerado que bastaria inclinar-se para a frente que tudo sairia.

 - Ah, meu Deus! - sussurrou o Dr. Paterna. - Queira desculpar-me. Preciso voltar ao hospital. Só lá tenho um pouco de segurança.

 - Mas o que está acontecendo, doutor?

 - Está vendo aquela senhora junto à porta?

 - Sim.

 

 - Trate de não se aproximar dela. Chama-se Anne White. Só o advogado dela é que sabe o montante de sua conta bancária. Você estará perdido se cair nas garras dela. A mulher devora os homens como uma aranha-fêmea.

 - Milionária? - perguntou Ambert interessado. Seu olhar desviou-se para a Sra. White, apalpou-a. Ele achou que a primeira impressão até que foi bem vantajosa. Uma mulher de meia-idade, madura e, por conseguinte, visivelmente amadurecida por toda a parte. - Viva?

 - Há cinquenta e dois anos.

 - E como disse?

 - Bem, a Sra. White deve ter agora uns bons setenta e seis anos... - o Dr. Paterna levantou-se, apertou a maleta de médico contra o corpo e não sentiu a menor vontade de continuar no convés. - Advirto-lhe mais uma vez, Sr. Ambert. Quando ela sobe a bordo, um suspiro percorre todo o navio. Só ainda não fofocaram por aí quem foi que dormiu com ela na primeira noite. Até à noite!

 O Dr. Paterna desapareceu rapidamente atrás da porta que dava para a escadaria. Claude Ambert sugou o lábio inferior entre os dentes, estalou os dedos e depois levantou-se do banco. Desceu pelo tombadilho vadiando de modo negligente, foi ultrapassado pela marcha de Moor e depois recostou-se na amurada como quem quer observar o mar tranquilo e os peixes-voadores. Sentiu o olhar da Sra. White na nuca. Milionária, pensou ele. Tem o maior tesão nos homens. Mas um crédito precisamos dar a ela: tem a aparência de uma mulher bem cuidada, no fim dos quarenta. Os cirurgiões plásticos fizeram uma obra-prima. Foram realmente artistas que fizeram o trabalho. E quando se pensa que ela dorme em cima de notas de dólar...

 - E como o mar está azul - disse de repente uma voz gorjeante ao seu lado. Ambert estremeceu. E essa agora... a mulher falava como uma adolescente na hora de dançar. Ele olhou para o lado. A Sra. White estava recostada na amurada ao seu lado, os seios - quantos esticamentos?, pensou Ambert - estavam quase desnudos. Sob a camada de maquilhagem, o rosto tinha um ar felino de cara de boneca. Puxa, como anda avançada a medicina de hoje!

 - Faz até a gente ficar romântico - disse Ambert em inglês.

 - Oh! - a voz de Anne White assumiu um tom de alegria. - Você fala inglês? De onde você é?

 - Da França, madame.

 - Que francês charmoso. Um belo amigo... estou certa?

 - Mais ou menos.

 - Qual a sua profissão?

 - Amestrador de elefante.

- Não! Que emocionante. - O olhar dela pousou sem a menor cerimónia nas calças de Ambert. - Um elefante! Você precisa-me explicar isso.

- Posso convidá-lo para uma taça de champanhe na minha cabina? Elefantes. uma novidade na minha vida. Vem!

 Com o coração aos saltos, Ambert seguiu a Sra. White até a cabina. Quando fechou a porta do corredor, Moor estava fazendo o último trecho e dava uma bizarra meia-volta junto à porta. "Milhões", pensou Ambert, "milhões... ela vai ter seus elefantes. Andar pelo mundo com dois elefantes é uma vidinha bem miserável".

 

Dabrowski tratou de ser o primeiro a chegar no Salão dos Sete Mares para o coquetel de saudação do comandante Teyendorf. Apoiado na bengala branca, já estava esperando havia vinte minutos ao lado de Beate, junto à porta envidraçada que dava para o salão de festas, mas mesmo assim não fora o primeiro. Havia um casal; o homem, de rosto avermelhado, smoking branco e camisa preta fofa e, para combinar, uma gravata-borboleta prateada, olhava imóvel para a frente; a mulher ao seu lado, delicada, intimidada, mas com um vestido da moda e enfeitada com uma jóia de esmeralda caríssima, estava recostada à parede. O longo tempo em que ficara postada sobre os sapatos de salto alto, parecia estar provocando-lhe dores.

 Então, chegou a hora e a porta abriu-se. O comandante Teyendorf estava a postos para o apertar de mãos, trajando um uniforme branco. Laura, sua anfitriã-chefe, usando um vestido de noite longo e ondulante, acenou.

Já estava versada na tarefa de chamar todos os passageiros pelo nome e depois apresentá-los ao comandante.

 Dabrowski bateu com a bengala. O casal à sua frente estremeceu um pouco, o homem encarou o cego, recuou e fez um gesto de "por favor, a preferência é sua". Beate tocou Dabrowski e conduziu-o adiante.

 - Ewald Dabrowski e Beate Schlichter - disse ela para a anfitriã Laura.

 - O Sr. Dabrowski e a Sra. Schlichter! - Laura transmitiu na direcção de Teyendorf.

 Teyendorf pegou e apertou a mão que Dabrowski estendeu no ar à sua frente sem direcção nenhuma.

 - Fico contente com sua presença a bordo - disse ele. - E desejo especialmente ao senhor que tenha uma bela viagem. Estou à sua disposição a qualquer hora para os desejos que tiver.

 - Obrigado - replicou Dabrowski. - Obrigado, Sr. Comandante.

- As lentes escuras dos óculos encararam Teyendorf. - Tenho certeza que será uma bela viagem de cruzeiro.

 Beate deu-lhe o braço e levou-o para a frente. Dabrowski sentou-se numa poltrona funda próxima à porta e recostou-se. Agora podia observar com a maior desenvoltura cada passageiro, avaliando-o e sobretudo observando as jóias das mulheres com toda atenção. No final da marcha de entrada das pessoas, ele quase poderia dizer sobre quem recairia o interesse de Paolo Carducci. Havia jóias que, ao olhá-las, até mesmo o

coração de um perito como Dabrowski batia com mais força.

 

 O comandante Teyendorf suportou com habilidade a marcha dos passageiros a quem cabia o primeiro horário de refeição. Apertou mãos, disse a todos algumas palavras e deixou que brilhassem as mulheres em cujos olhos cintilavam o orgulho e a excitação do momento por terem permissão de apertar a mão do comandante. Contudo, após a saudação do último passageiro desta sessão, ele ficou contente por ter cumprido outra vez este dever. Era um ritual enfadonho, mas fazia parte de toda a viagem de cruzeiro. O aperto de mão do comandante era algo equivalente à confirmação de que se fazia parte da comunidade do cruzeiro. Teyendorf sempre voltava a admirar-se do imenso valor que muitos passageiros davam ao facto de apertar-lhe a mão e ouvir as palavras lapidares: "Eu o cumprimento a bordo!" Ou: "Ah, está de novo a bordo, vai gostar da viagem mais uma vez:.." Nesses momentos, os olhos brilhavam. O comandante nos reconheceu! Fritz, ele ainda nos conhece! Que sujeito magnífico, esse comandante...

 Dabrowski virou-se para o palco do salão quando as portas de vidro foram fechadas.

 - E então?: perguntou Beate em voz baixa. - O que achou, chefe?

 - Pelos meus sentimentos, Carducci não se encontra aqui. Deve fazer parte do segundo horário de refeição. Mas por que ele deixaria escapar o espectáculo dessas jóias? Beate, estou com uma suspeita terrível: e se tratar-se de duas pessoas que trabalham de mãos dadas? Cada uma num horário de refeição? Ninguém ainda pensou nisso! - Dabrowski ficou visivelmente intranquilo. Já na leitura dos protocolos que descreviam todos os roubos de jóias praticados por Carducci, saltou-lhe à vista que este muitas vezes devia encontrar-se em duas cabinas ao mesmo tempo. A polícia e as companhias de seguro supuseram que essas indicações de horário, que afinal de contas nunca foram precisas em casos semelhantes, haviam sido influenciadas pela agitação da pessoa roubada. Além disso, coisa que era decisiva e sem saída, a maioria das pessoas em questão estava dormindo e só na manhã seguinte dava pela falta das jóias. Mas todas as portas das cabinas estavam fechadas. Por conseguinte, Carducci devia possuir uma chave mestra que se adequava a todas as fechaduras, como a que os comissários de cabina utilizam. Mas para todos os navios? Impossível! Esse sujeito é um génio, dissera o chefe da polícia de roubos e furtos de Pireu; no caso dele, nenhum navio tem porta...

 - Em virtude dos requisitos ideais aqui, ele deveria encontrar-se no salão agora - disse Dabrowski em voz baixa. - Ele ou seu cúmplice. Essa possibilidade de ele trabalhar em dupla joga por terra todo o meu plano.

. Nesse momento, a orquestra de bordo começou a tocar no palco. Os Happy Boys. Eram oito músicos que na verdade tocavam alto demais, mas sempre esforçando-se por manter o mesmo ritmo. Em contrapartida, tinham realmente uma boa aparência com seus ternos de fantasia brancos com bordados prateados.

 Depois, enquanto o comandante Teyendorf saudava os passageiros com um rápido discurso e apresentava a equipe de comando do - navio do primeiro-oficial condutor, passando pelo chefe e director de hotel, até o mestre-cuca e os padres das duas confissões - Dabrowski saiu do salão de braço com Beate e deixou-se levar à joalheria. Erika

Treibel estava sozinha, sentada num banquinho atrás do pequeno balcão, estudando um livro especializado em gemas e o jornal da associação. No dia seguinte, após o noticiário diário, ela apresentaria na televisão de bordo uma conferência sobre as diferentes pedras preciosas e convidaria os passageiros a darem uma passada na joalheria. A compra de jóias ali era no mínimo catorze por cento mais barata do que em terra, posto que no navio não se cobrava o imposto sobre circulação de mercadorias. Ainda se podia pechinchar e conseguir um abatimento extra de alguns pontos percentuais adicionais; a bem da verdade, isso já havia sido calculado de antemão, mas todos ficavam contentes em poder arrebanhar algumas centenas de marcos na compra de alguns milhares.

 

 Dabrowski sentou-se na cadeira de estofado vermelho e apoiou-se na bengala branca.

 - Agora eu suspeito que Carducci tenha um cúmplice - disse ele.

 - Oh, Deus! - Erika Treibel ficou pálida. - Com dois homens...

 - Não tenha medo! Você não será assaltada de maneira nenhuma.

 Carducci trabalha em silêncio, como um fantasma. A segunda pessoa podia ser inclusive uma mulher. Portanto, quando entrar aqui um casal, um homem ou uma mulher sozinha pedindo para ver as peças mais valiosas do cofre, tente descobrir o número da cabina deles. Trate de arrancar esse número com um truque. É muito simples. Diga-lhes que ainda tem algumas peças extraordinárias no depósito e que telefonará tão logo as tenha retirado. Se a pessoa não quiser revelar o número da cabina, bem, aí já estará configurado um ponto para suspeitarmos. - Dabrowski pigarreou. - Qual sua peça mais valiosa, que não é colocada na vitrine?

 - Um conjunto de esmeralda com brilhantes. Vale 450 mil marcos.

 - Pelo amor de Deus! As pessoas compram isso por aqui?

 - Desde que me encontro a bordo isso só aconteceu uma vez: Mas sempre devemos ter peças assim em estoque, digamos que com o objectivo de representação. Pode ocorrer ocasionalmente de uma pessoa interessada olhar uma jóia como essa, encomendá-la e pedir para que seja entregue em terra. Então, podemos proceder a mudanças, mandar trabalhar segundo as medidas...

 - Gostaria de pedir emprestado esse conjunto de esmeraldas para a noite - disse Dabrowski com toda a calma.

 - Impossível! - Erika encarou-o espantada.

 - Eu não sou Carducci.

 - Eu sei. Mesmo assim... sem a permissão do chefe... afinal, como posso entrar em contacto com o Sr. Ried agora?

 - Recebi plenos poderes do Sr. Ried.

 - Isso é o que o senhor diz! Claro que não posso emprestar-lhe meu conjunto mais precioso.

 - Beate precisa usá-lo hoje à noite para chamar a atenção de Carducci. No final do baile, eu levo a peça comigo e durmo em cima dela. Amanhã de manhã você a terá novamente no cofre. Nada poderá dar errado. Erika, eu preciso de uma isca que chame a atenção. Todos no salão pensarão: vejam só que velho safado. É cego como uma pedra, mas o resto continua funcionando direitinho. Obriga a sua enfermeira a acompanhá-lo por toda a parte, mas em compensação compra-lhe umas belas pedrinhas.

 - Só que o senhor não consegue pensar que isso pode ser bem desagradável para mim, não é mesmo, chefe? - perguntou Beate em tom amargurado.

 - Beatinha, não faça jogo de palavras com a moral!

 - Mas eu sou moralista. Vou envergonhar-me dos pés à cabeça com esse teatrinho.

 - Isso também passa. - Dabrowski deu uma risada baixa. - Metade da vida é uma questão de habituar-se com as coisas. Erika, abra o cofre e tire o conjunto de esmeralda.

 - Não sei...

 

 - Filhinha, estamos em alto-mar. O que pode acontecer então? Carducci também vai esperar; na maioria das vezes ele só ataca a um ou dois dias do fim da viagem. De preferência após o banquete de despedida. Nesse momento a pele maquilhada das mulheres volta a ostentar todos os milhões em jóias. Para ele, a ocasião de hoje à noite é uma espécie de ensaio geral.

 Dez minutos depois, Beate saiu da joalheria levando no bolso da saia 450 mil marcos em jóias.

 E só para adiantar: foi um duro desapontamento.

 No baile de boas-vindas após o banquete de gala, ninguém tirou a bela e radiante Beate para dançar. Todos respeitaram o desamparo do cego, cuja acompanhante ninguém queria seduzir, mesmo que fosse apenas por três danças. O próprio Paolo Carducci conteve-se; ele apreciou de longe as jóias no pescoço, braço, dedo e orelha de Beate, calculando seu valor com exactidão de especialista. Estava sentado na mesa ao lado dos dois homossexuais, van Bonnerveen e Grashorn, trajava um smoking branco, gravata-borboleta vermelho vinho e bebia um borgonha branco seco. Também examinou as jóias das outras mulheres e sentiu-se muitíssimo bem.

Quando desembarcasse em Sidney, teria ganho o bastante para umas longas férias. No mínimo seis meses... em seguida, entrava na agenda uma viagem de cruzeiro de Hong-Kong para o Japão e o Havai.

 Mais três anos, pensou ele, então estarei com a idade de quarenta e cinco. Uma boa idade para me aposentar e viver dos hobbys. Uma casa nas Bahamas... ali ninguém pergunta pela origem do dinheiro. Uma amante jovem e loura - sim, tem de ser loura, loura natural, não apenas na cabeça -, dois dálmatas alemães manchados no jardim, um trecho de praia particular sob a sombra de palmeiras, um mordomo negro... e depois gozar a vida. Afinal, só se vive uma vez, mesmo o pivete siciliano que se tornou milionário tomando alguma coisa de outros que, de qualquer maneira, tinham bastante. A bem da verdade, isso não era moral nem socialista nem cristã, mas aplacava sua consciência. Pois Carducci era um bom crente católico, que frequentava as igrejas onde quer que se encontrasse, que rezava diante do altar-mor, acendendo todas as vezes uma vela de bom tamanho. Só não se atrevia a ir à confissão, pois jamais mentiria para seu confessor. Portanto, preferia deixar isso de lado. Claro que nunca receberia a absolvição.

 Carducci estava sozinho. A teoria de Dabrowski de que ele trabalhava com um cúmplice era um erro de avaliação. Quando a pista de dança foi liberada, após o conferencista Hanno Holletitz ter contado algumas piadinhas escabrosas porém bem dosadas, Carducci também levantou-se e procurou uma parceira para a dança. A escolhida foi a Sra. Schwarme e, quando o elegante cavalheiro pediu-lhe a permissão, o Dr. Schwarme acenou de modo negligente. Ficou contente por poder tomar seu uísque em paz. Havia muito tempo que já não dançava mais com a mulher; ela sempre estava com a língua de tanto entusiasmo rítmico, coisa que o irritava.

 - Merda! - disse Dabrowski após meia hora, em voz baixa e inclinando-se na direcção de Beate. - Ninguém dança com você.

 - Ninguém quer aproximar-se de você, um pobre doente.

 - Que derrota! Carducci encontra-se no salão, eu sinto.

Minha pele está formigando. Ele já registou sua jóia. Que bosta! Acho que podemos ir para as nossas cabinas...

 

 Beate desfez-se das jóias na cabina 136, de Dabrowski. Este colocou-as em dois saquinhos de veludo negro, enfiou-os debaixo da parte da cabeça do colchão e, após Beate ter ido embora, trancou a porta à chave. Depois depositou sua câmara ao alcance da mão, em cima da mesinha-de-cabeceira.

 Essa câmara, com a aparência de uma máquina fotográfica reflexo bem normal, tinha seus truques. Quando se apertava o obturador, ela disparava um tiro e o projéctil saía pela objectiva, cuja lente se abria. Até então, nenhuma vistoria de segurança dos aeroportos havia reconhecido essa construção especial.

 

No geral, a primeira noite dançante foi um sucesso total. De manhã bem cedo, o grupo da limpeza entregou no escritório de achados e perdidos: duas calcinhas de mulher, um sutiã tamanho 44, uma lente de óculos, uma meia preta de homem e uma liga rasgada. Todos os objectos achados foram expostos para a entrega em cima de uma mesinha no escritório do comissário-chefe. Mas os proprietários jamais se apresentaram.

 Na ponte, o comandante Teyendorf recebeu as últimas notícias do navio. Três aniversários de passageiros - eles recebiam uma garrafa de vinho espumante, nada de champanhe -, o informe da sucursal da companhia de navegação de Acapulco e uma queixa em relação ao passageiro François de Angeli. Ele dançara à noite no Clube do Pescador de rosto colado com a esposa de um dentista, coisa que se chamava de dança de esfrega-esfrega, e o marido exigira do comissário-chefe presente, o Sr. Pfannenstiel, que interrompesse aquilo. Pfannenstiel observara que aquela não era tarefa dele. Houve então uma contenda, na qual monsieur de Angeli fora ameaçado com uma bofetada. E isso tudo já na primeira noite oficial.

 Além disso, a mulher de um industrial perdera o anel de brilhante. De quatro quilates, branco azulado, sem impurezas. Devia ter caído de seu dedo durante a dança. O industrial pedira que a perda fosse tratada de modo confidencial. Afinal, o anel teria de ser encontrado durante a limpeza.

 - É, a coisa está começando muito bem - disse Teyendorf em tom de sarcasmo. - Estou curioso para saber o que vai acontecer nessa viagem, quando as primeiras pessoas tiverem a vertigem do mar. Na última turné, alguém batera tanto na mulher a ponto de mandá-la para o hospital e nove casais desembarcaram prontos para o divórcio. Em contrapartida, tivemos três noivados e dois comissários pegaram gonorreia. Dessa vez a viagem vai demorar mais do que de costume. Vamos nos preparar para o que der e vier, meus senhores. As surpresas não vão demorar!

 

Claude Ambert dormira totalmente extenuado ao lado de suas elefantas.

 Aguentara até as seis da tarde na cabina da Sra. White, melhor dito: Ela não o deixou ir embora. Ambert saiu às apalpadelas da cabina, com a sensação de estar caminhando sobre pernas de borracha e com o crânio cheio de ar. Em contrapartida, Anne foi de uma vitalidade francamente demolidora, beijando-o, acariciando-o e encorajando-o repetidas vezes. Quando quis tirar-lhe o cinto outra vez, após Ambert ter conseguido vestir-se, defendeu-se e gritou desesperado:

 - Anne, minha querida! Deixe um restinho para os outros dias também!

 A querida compreendeu, sentou-se na cama toda coquete com sua beleza moldada pelos melhores cirurgiões plásticos e ficou contemplando Claude Ambert com os olhos brilhando. Graças às plásticas, seus seios eram firmes e redondos, a pele da barriga, cadeiras e coxas bem rígidas e sem nenhuma ruga. Até mesmo o triângulo de cabelos negros tinha uma aparência de tamanho e densidade fora do comum.

 - Você é maravilhoso! - disse Anne balançando as pernas. - Poucos homens têm a resistência que você tem. A causa disso é porque você lida com elefantes?

 - Não sei. - Ambert ansiava por uma cama macia, paz e um bom sono. Poder esticar-se, sem ser beijado da cabeça aos pés; poder deitar-se de costas, sem que um corpo quente e trémulo de tesão se jogasse sobre ele; simplesmente dormir... que pensamento esplêndido. Sua boca estava ressecada, Ambert sentia-se como se tivesse sido moldado em papelão húmido, como se não tivesse ossos. - Você... também foi maravilhosa... - disse ele cansado. Bem, pelo menos ela tem tantos milhões que perde de vista o panorama económico. E se um pequeno domador tem a possibilidade de sugar isso, primeiro deve oferecer-se como vítima.

 - Eu sempre sou maravilhosa. - A voz de Anne White gorjeou como uma pombinha diante de um monte de milho. - Vem dormir hoje à noite aqui comigo.

 - Olha, mal posso ter esperança disso. - Ele encarou-a com olhos embaciados, foi até à porta, levantou a mão e acenou: - Até mais tarde darling!

 Anne assentiu, esperou que Ambert saísse da cabina e depois tornou a deitar-se na cama.

 - Seu miserável caçador de dinheiro - disse ela com desprezo. - O preço quem diz sou eu. E você só vale a metade!

 Apesar disso, Anne foi procurá-lo no baile de boas-vindas no Salão dos Sete Mares e, mais tarde, nos bares. Com postura orgulhosa, parecida à de uma prima-dona famosa, ela andou de modo espalhafatoso pelo navio, cercada por uma nuvem de perfume, e depois retornou desapontada à cabina. Jogou num canto tudo que trazia no corpo, borrifou-se de perfume e deitou-se pelada na cama. Quando finalmente bateram na porta, ela pensou: seu idiota! A porta está aberta, aperte a maçaneta para baixo. Mas gritou:

 - Entre! - escancarando as pernas em forma de cumprimento.

 

 Contudo, quem entrou foi um desconhecido. Um homem baixote, atarracado, de cabeça redonda e uma barba negra que ia de orelha a orelha. Parou no meio da cabina um pouco inibido - podia-se ver que vestira o melhor terno.

 - Madame - disse ele com um inglês áspero. Seu olhar ficou parado nas coxas arreganhadas de Anne, enquanto ela não pensava em mudar de postura. - Eu me chamo Jim e sou mecânico de bordo. Eu queria...

 - Você precisa consertar alguma coisa aqui? - perguntou Anne virando-se nos quadris. Se o patife dos elefantes chegar agora, pensou, boto ele para correr. Minha Nossa Senhora, como as calças desses mecânicos ficam volumosas de repente. - Aproxime-se, meu jovem, venha aqui na cama. Você tinha alguma coisa em mente ao vir aqui.

 - Consertar? - Jim continuava olhando as coxas arreganhadas de Anne com um jeito de quem está encantado. - Madame, tenho a impressão de que precisamos desentupir alguma coisa...

 - E então?! Que está esperando? Você tem cara de quem é bom trabalhador.

 Jim começou a desatar o cinto. Lá embaixo, no alojamento da tripulação, dizia-se que um ano atrás aquela dama pagava quinhentos dólares. Faça-a chegar a setecentos dólares! Mostre-lhe do que é capaz. Setecentos dólares, senão você torna a esconder o bichano! Jim, você é o nosso campeão no melhor sentido da palavra. Se ela lhe der setecentos dólares, nós também vamos conseguir...

 Ele deixou as calças arriarem e, enquanto isso, observou Anne White com toda atenção. O olhar dela ficou um tanto ou quanto paralisado.

 - Madame... eu... eu gostaria de comprar um equipamento fotográfico novo em acapulco - disse ele hesitante. Droga, como é difícil da primeira vez. Nunca antes havia feito algo assim. - Mas o soldo de marinheiro...

 - Você vale mil dólares! - ela bateu com ambas as mãos no colchão e depois estendeu o braço direito na direcção de Jim. - Droga, pare de falar tanto assim! Mil dólares, Jim. Será possível? Mil! Feche os olhos e esqueça-se da idade dela. Mil dólares...

 Ele arrancou a roupa e jogou-se de um só impulso ao lado de Anne na cama de casal.

 Nessa hora, Claude Ambert estava com suas elefantas. Graças aos comprimidos do Dr. Paterna, os dois colossos cinzentos estavam deitados de lado em cima da palha, dormindo com a respiração ofegante. Ambert também sentia a mesma moleza; tirou o estetoscópio da maleta de primeiros socorros e auscultou o batimento dos corações de suas amadas. Os elefantes têm uma circulação sanguínea instável, muito delicada. Ambert sempre levava na maleta algumas ampolas de estimulantes de circulação, a fim de poder aplicar uma injecção na mesma hora, caso Sissy ou Berta perdessem o prumo.

 Isso não foi preciso nesse dia. A respiração delas estava boa, o batimento cardíaco um pouco baixo, porém, regular... as duas curavam o enjoo do mar dormindo.

 Lançando mão das últimas forças, Claude andou cambaleante até a cama e desabou sobre ela. Antes de mergulhar por completo no nada, ele ainda pensou: você precisa aguentar até Acapulco! Só mais dois dias e duas noites. Até lá você deve ter conseguido uma pequena fortuna fazendo amor.

 

 Esse parecia ser um desejo irrealizável, pois já nesse instante Claude Ambert estava tão extenuado que nem ao menos conseguiu sonhar.

 

Erika Treibel esperou com o coração galopando de medo que Dabrowski levasse de volta as jóias. Durante todo o baile de boas-vindas, ela ficara sempre à vista de Beate, sem tirar os olhos das jóias tiradas do esconderijo. Mas foi obrigada a deixar Dabrowski sozinho durante quinze minutos. Fora concluída a ligação telefónica que ela pedira com a Alemanha. Heinrich Ried, seu chefe, o joalheiro, estava muito preocupado, podia-se ouvir em sua voz vinda de milhares de quilómetros de distância.

 - Erika, que está acontecendo? Por que você ligou?

 - Só tenho uma pergunta a fazer, Sr. Ried. - Erika Treibel recostou-se na parede da cabine na ante-sala da estação telefónica. - O senhor conhece Ewald Dabrowski?

 Hesitante, ele respondeu com evidente reserva:

 - Sim. Por quê?

 - Ele está a bordo. .

 - Estou sabendo.

 - Disse que é detective de uma grande companhia de seguro.

 - É verdade. - Heinrich Ried pigarreou. Era boa a compreensão através da gigantesca distância, com a ligação interrompida apenas de vez em quando por rumores e estalidos atmosféricos. - Ele já a informou sobre sua missão?

 - Já. Nesse momento, a acompanhante dele está usando nossa melhor jóia para servir de isca ao ladrão. Eu... eu estou com um pouco de medo, Sr. Ried.

 - Não se preocupe, Erika. Faça tudo que Dabrowski pedir. Que foi que ele lhe contou sobre Carducci?

 - Ele está convencido de que essa pessoa encontra-se a bordo.

 Foi como se Ried tivesse soltado um suspiro.

 - Preste atenção, Erika! - disse ele depois. - Carducci conhece centenas de truques. Apresente somente duas peças de jóias para qualquer cliente, depois retire-as de imediato se outras pessoas quiserem ver. Nunca dê as costas aos clientes! Numa joalheria de Genebra, Carducci trocou com a velocidade do raio três anéis por duplicatas sem nenhum valor, no momento em que o vendedor foi até o cofre. Só notaram a diferença três dias depois, quando um outro freguês examinou os anéis. Que

vergonha! Portanto, Erika: fique sempre de olho no cliente...

 Por conseguinte, a conversa colaborou muito pouco para tranquilizar Erika. Quando Dabrowski apareceu na joalheria após o desjejum para devolver as jóias, a vendedora trancou-as na mesma hora no cofre.

 - O senhor notou alguma coisa? - perguntou ela.

 - Nada. Eu receava isso. Primeiro o sujeito dá uma olhada, avalia tudo que possa ter valor e elabora seu plano. Só se torna activo na última parte da viagem. - Dabrowski apoiava-se na bengala branca de cego e olhava o vazio. Havia três casais diante da vitrine admirando as peças de jóias.

 - De repente, toda a pessoa torna-se suspeita - disse Erika Treibel em voz baixa. - Que sensação mais pavorosa! Que fará o senhor quando as primeiras jóias começarem a desaparecer das cabinas?

 - Ainda não sei.

 - Isso não soa muito reconfortante.

 

 - Carducci só pode ser desmascarado em flagrante. - Dabrowski ergueu-se. - Deve ser atraído a uma armadilha, caso contrário jamais o agarraremos. Só que eu ainda não sei como essa armadilha deve ser montada.

 Dabrowski saiu da joalheria, subiu às apalpadelas a escada que levava ao tombadilho e, ali chegando, sentou-se num dos banquinhos junto à parede. Ludwig Moor estava percorrendo de novo seus mil metros com postura erecta, queixo para a frente, espinha recta, os braços perambulando ao ritmo dos passos, sem olhar à direita ou à esquerda. Para levar a cabo uma tarefa, é preciso que a pessoa consiga concentrar-se nela. Dez minutos depois, o Dr. Paterna apareceu no tombadilho, olhou em volta e sentou-se ao lado de Dabrowski. O cego virou o rosto com os óculos de lentes escuras na sua direcção.

 - Eu sou o médico do navio - disse Paterna. - Posso ajudá-lo nalguma coisa?

 - Eu soube logo que o senhor devia ser médico ou algo parecido. O senhor exala um leve odor de desinfectante.

 - Óptimo! - o Dr. Paterna arreganhou um sorriso largo. - Você disse com uma convicção espantosa. Tem um grande talento para o teatro.

 - Como devo entender isso? - perguntou Dabrowski rígido.

 - Você banca o cego de um modo primoroso.

 - Banca...?

 - Até agora já o encontrei três vezes a bordo. Da primeira vez também fui iludido. Contudo, já no segundo encontro teve uma coisa que me chamou a atenção. Bem, ele deve enxergar um pouco, pensei comigo. Mas desde ontem à noite, desde o baile, eu sei que você não é nem um pouco cego.

 - Você já falou com alguém sobre isso?

 - Não. Queria dizê-lo primeiro a você .

 - Doutor, que faço de errado? Pelo amor de Deus, eu treinei tanto!

- Dabrowski recostou-se na parede. Moor, o zeloso caminhante, passou por ele pela sexta vez, sem virar a cabeça um centímetro sequer. - Onde foi que me traí?

 - Só um médico consegue ver... digo para sua tranquilidade.

São pequenas coisas. Apesar de bater coro a bengala, você sobe e desce a escada com muita rapidez. No baile de boas-vindas, você seguiu uma mulher com os olhos... algum cego faz isso? - Paterna soltou um sorriso baixo. - Eu me recordo de uma experiência que meu pai contou muitas vezes.

Ele caiu numa prisão russa e, entre os prisioneiros alemães, também havia um ferido com uma venda nos olhos. Ele tentava deixar claro para os russos que era cego. Que havia ficado cego por uma explosão. Isso significava: hospital militar e nada de campo de prisioneiros. Mas havia uma médica bem refinada no campo de concentração. Ela mandou chamar o alemão cego, tirou a venda dos olhos dele e ordenou: "Dispa-se! Tire tudo!" E esperou que ficasse nu diante dela. Em seguida, também tirou toda a roupa e, posto que era realmente uma bela mulher, o pobre "cego" reagiu na mesma hora quando, depois do sutiã, a calcinha caiu no chão. "Mas que grande porco!", disse a médica satisfeita. Ela tornou a vestir-se e mandou o "cego" para a pior coluna de trabalho. - O Dr. Paterna deu um tapinha na coxa de Dabrowski. - No caso das mulheres bonitas, não dá para aguentar com a cegueira fingida.

 - Eu não estava interessado naquela dama, mas sim em suas jóias.

 

- Dabrowski riu da expressão de assombro do Dr. Paterna. - Os médicos e sacerdotes são obrigados ao silêncio. Portanto, você também. O que vou lhe contar não é nenhum romance de capa e espada, mas sim a pura verdade. E você vai me ajudar a virar um cego completo.

 

O último dia antes de Acapulco.

Constava no programa do dia do NM Atlantis: "às 21 horas e 45 minutos noite das surpresas no Salão dos Sete Mares. O mestre-de-cerimónias Hanno Holletitz os levará de uma surpresa a outra com muito humor e música."

 O ponto culminante do espectáculo devia ser a apresentação das elefantas de Claude Ambert. Contudo, até à tarde ninguém ainda sabia como os dois colossos cinzentos seriam levados do convés C até o salão de festas. De elevador seria impossível. Em primeiro lugar, era pequeno demais e, em segundo lugar, cada elefanta ultrapassava o peso permitido. De escada também parecia impossível. Eram catorze escadas até o salão, todas revestidas de tapete e calculadas para o tamanho do pé de um ser humano. A grosseira pata de um elefante devia escorregar o tempo todo.

 O comandante Teyendorf assumiu pessoalmente o problema. Mandou chamar Claude Ambert. O director de hotel Riemke já se encontrava na suíte do comandante bebendo um conhaque para acalmar-se. Holletitz tragava um cigarro, nervoso...

 - Suas elefantas, Sr. Ambert, morreram! - disse Teyendorf em tom abrupto.

 - Como assim? Acabo de deixá-las.

 - Elas não vão poder se apresentar.

 - Mas... Claro, fui contratado...

 - O senhor foi imposto a mim. E antes ninguém pensou, confesso que eu também não, no enorme tamanho das elefantas. É bem verdade que seus bichinhos puderam subir a bordo através da escotilha do porão, mas no interior do navio não existe nenhuma possibilidade de transportá-las do porão de depósito aos conveses. Portanto, tão-pouco podem ser transportadas ao salão. Não existe porta alguma que tenha altura e largura suficientes. As elefantas não passam em nenhuma escota. Além disso, são catorze escadas entre o convés C e o salão de festas.

 - E daí? - Claude Ambert desabou abalado sobre uma cadeira.

 - Vamos desembarcá-lo em acapulco. Pode dar-se por satisfeito por ter podido fazer essa viagem de graça.

 Ambert bebeu dois conhaques e, em seguida, saiu cabisbaixo da cabina do comandante Teyendorf. Que grande merda tudo isso! E também não conseguira pôr as mãos num dinheiro muito alto com Anne White. A bem da verdade, ela deixou que Ambert entrasse em sua suíte, mas depois disse em tom frio:

 - Vamos tomar mais um uísque juntos e depois você vai desaparecer.

 - Mas Anne, querida! - balbuciou ele desconcertado. - Afinal, que está acontecendo?

 Anne White contemplou-o com um imenso escárnio estampado nos lábios e depois fez um gesto negativo:

 - É bem verdade que você é um anão, mas eu não sou Branca de Neve. Vá embora antes que eu tenha um ataque de riso. - Mas depois parece que teve compaixão do contrito Claude Ambert e perguntou:

- Está precisando de dinheiro?

 

 - Estou. Quando se fica sem contrato com frequência, duas elefantas são capazes de levar qualquer um à miséria de tanto comer.

 - Quanto?

 - Não sei... - Ambert não se atreveu a encará-la. Sentia-se como um prostituto com o qual se regateia o preço. Por acaso lá sou alguma outra coisa?, pensou amargurado. Eu quis vender minha masculinidade, por que deu errado?

- Mil dólares?

- Seria... seria uma grande ajuda...

- Abra a gaveta da escrivaninha e retire as notas - disse a Sra. White de modo frio e indolente. - E depois suma! - Estava vestida com uma diáfana combinação de renda rosada e, sob a maquilhagem, tinha a aparência de florescente mulher aos quarenta anos.

 Ele foi até a escrivaninha, tirou dez notas de cem dólares do maço de dinheiro e enfiou-as no bolso. Todo esse macinho, foi o pensamento que teve, e eu estaria salvo. Amanhã atracaremos às sete da manhã em acapulco, as elefantas serão desembarcadas primeiro, haverá um carro de transporte esperando no píer. Até o comissário de cabina encontrar Anne White, podem ser onze horas. A essa hora, já estaremos no estábulo do circo. Além disso, por que a suspeita cairia sobre mim?

Justamente sobre mim, quando todo mundo sabe que estou sempre ao lado de minhas elefantas? Há mais de novecentas pessoas a bordo; como poderão descobrir quem apertou a garganta dessa senhora?

 Claude Ambert foi até a porta, parou e tornou a olhar para trás. Anne White estava no barzinho servindo-se de outra dose de uísque.

 - Adieu! - sua voz soou áspera. - Você me deu uma grande ajuda.

 Ela não respondeu, apenas estalou os dedos e esvaziou o copo.

 Quando Claude Ambert saiu da suíte, pensou furioso: hoje à noite! Vou ter o maior prazer em apertar-lhe a garganta.

 Agora, depois da notícia que não poderia apresentar-se no salão, sua raiva ficou mais impetuosa e seu álibi mais seguro ainda. Um mestre e dois comissários poderiam testemunhar que na última noite ele dormira de novo na cama dobrável ao lado das elefantas. Há no mínimo vinte mil dólares naquela gaveta, pensou ele já emocionado. E quem pode saber o quanto ela tem dentro do armário. Mas só esses vinte mil já seriam uma base só lida para uma nova vida. Até mais tarde, Anne, darling! Ele desceu a escada até o convés C, sentou-se diante das elefantas, deixou-se acariciar pelas delicadas trombas e disse:

 - Minhas queridas pequenas, a partir de amanhã o mundo vai ficar diferente para vocês também. Só não tenham um colapso cardíaco no último trecho!

 

 Sylvia de Jongh ficou um pouco desconcertada. O cavalheiro louro, impertinente, porém, simpático, que sabia chamar a atenção sobre si com muito charme, mudara por completo.

 

 Claro que seu marido comportara-se de modo impossível, mas seria isso razão para bancar o insultado na mesma hora e agir como se nunca tivessem se visto? Ela passou rebolando algumas vezes para ele, mas o cavalheiro não esboçara nenhuma reacção. Ficou recostado na amurada olhando o encarniçado jogo de shovelboard e só uma vez lançara um rápido olhar aos seus seios que o biquini quase não ocultava.

 Herbert Fehringer era o mais sóbrio dos dois, coisa que também ocorre com os gémeos. Era o pensador, o calculista, o planeador. Ele determinava a vida do irmão Hans e este aquiescia com tudo, desde que lhe dessem a alegria de gozar a vida. Assim, Herbert Fehringer também mostrou-se frio quando Sylvia pavoneou-se no convés provocando-o; nada de aventuras imbecis, havia repetido várias vezes ao irmão Hans, nada de chamar a atenção. Nós queremos ver o mundo e não uma cela cheia de grades! Não podemos sobressair no meio da multidão. Estamos presentes, mas somos quase invisíveis e silenciosos. As pessoas não devem reparar em nós, essa é a melhor protecção. A coisa fica perigosa tão logo alguém comece a falar sobre nós!

 Também não reagiu quando Sylvia postou-se ao seu lado na amurada e, como ele, ficou olhando a coroa de espuma formada no mar pela gigantesca hélice.

 - Quando se pensa que estamos sobre mais de mil e quinhentos metros de água... - disse Sylvia olhando Herbert Fehringer de soslaio. - A gente até fica tonta...

 - Nesse caso você não deve ir nunca a Guam. Ao sul de Guam o mar tem 12 mil metros de profundidade.

 - Não dá nem para imaginar.

 - A maior profundidade oceânica do mundo. - Fehringer esboçou uma leve vénia. - Meu nome é Fehringer...

 Sylvia de Jongh encarou-o com olhos arregalados e com uma expressão quase de horror.

 - Mas... mas que significa isso? Claro que sei como você se chama.

 - Ah! - nesse momento, Fehringer examinou-a com mais atenção. Uma mulher digna de uma aventura. Um flerte de férias bem quente... mas não para um Fehringer. Quem quiser viajar grátis de São Francisco a Hong-Kong, bem que pode renunciar às mulheres por um par de semanas. Depois, em Hong-Kong é só botar para dançar as bonecas até rachar as paredes. Lá existe uma série de salões, onde moças lindas como uma imagem irreal de sonho fazem qualquer homem esquecer que há um mundo impiedoso fora da cama de seda. - Nós nos conhecemos?

 - Sei que meu marido comportou-se de modo impossível em relação a você . Mas por acaso isso lá é motivo para fazer com que me sinta mal? Da última vez você foi tão simpático comigo. Por favor, trate de esquecer o estúpido incidente!

 Hans, foi o pensamento de Herbert Fehringer. Claro que tinha de ser meu irmão Hans de novo! Quando aparece uma saia, ele sai logo correndo atrás. Quantas vezes eu o avisei: tire as mãos das fêmeas quando estivermos viajando! Se alguma vez formos descobertos, a causa só poderá ser alguma mulher! E agora ele está caçando outra vez. Irmãozinho, nós ainda vamos conversar sobre isso e não vai ser com muita delicadeza não!

 - Já esqueci. - Fehringer abriu um sorriso largo, do jeito que Hans teria feito. - Vamos até o bar tomar um drinque?

 - Com prazer.

 - E onde está seu marido grosseiro?

 - Está lá embaixo, no centro de musculação, pedalando numa bicicleta de exercícios. Ele tem a ambição de completar cem anos.

 - Será que ele chega lá?

 

 - Se continuar bebendo... Jamais!

 Os dois foram ao interior do bar e sentaram-se num banquinho junto ao balcão espelhado. Muitos olhares seguiram-nos, sem sombra de dúvida Sylvia de Jongh era uma das mulheres mais bonitas a bordo.

 - O que vamos beber? - perguntou Herbert Fehringer.

 - O mesmo de ontem.

 Cuidado, pensou Fehringer na mesma hora. Uma perguntinha dessas pode provocar o maior aperto. É preciso reagir com muita habilidade.

 - Vamos experimentar algo diferente hoje. De acordo? Que tal um coquetel? Chama-se Lagoa Azul.

 - O nome é sedutor. - Sylvia soltou um sorriso gorjeante e inclinou-se para trás no banquinho. Seus seios cresceram na direcção dele. Hans, vou te matar mais tarde, pensou Fehringer, só que sorrindo para ela.

 - E ele é mesmo. Qualquer mulher perde a vontade após "três Lagoas Azuis".

 - Deve ser uma sensação incrível. Eu nunca perdi a vontade... assim, do jeito que você quis dizer.

 Fehringer pediu dois Lagoas Azuis e, em seguida, ficou procurando desesperado algum tema de conversa inofensivo, que o desviasse das insinuações inequívocas de Sylvia. Afinal, ele ainda não sabia seu nome.

 - O Lagoa Azul faz-me lembrar de uma aventura na África - disse ele. Sempre é produtivo e gostoso se falar de viagens.

Sobretudo quando se constata por acaso que o parceiro de conversa também já esteve no mesmo país e que depois poderá relatar sua própria aventura. No fundo, cada pessoa vê um lugar de modo diferente; pode-se descrever o fausto do Rio, a praia de Copacabana com suas moças mestiças de incrível beleza, o Copacabana Palace, a visão do Pão de Açúcar sobre a cidade e o mar, a estátua de Cristo que abençoa um mundo inteiro... mas pode-se ver também apenas as favelas que pululam nas montanhas qual cogumelos na cidade; as crianças que, por necessidade e para Alimentar as famílias, se transformaram em prostitutas e os assaltos e assassinatos diários em plena rua, contra os quais ninguém vem em socorro mesmo que se peça ajuda a plenos pulmões.

 - Você está falando sobre a coisa com os massai no Quénia? - Sylvia sorriu e sorveu o coquetel com os lábios pintados de vermelho vivo através de um canudinho. - Você já contou ontem.

 - Dessa vez eu me referia à visita a Lambarene, ao hospital na selva fundado pelo Dr. Schweitzer - disse Fehringer rapidamente.

 - Ah, por favor... não! - Sylvia pousou a cabeça em seu ombro.

- Nada de doenças nem doentes. Eu gostaria só ver e ouvir coisas bonitas... pelo menos enquanto encontrar-me neste navio. Onde foi que você já teve alguma experiência divertida?

 - No Amazonas. Tinha um crocodilo perseguindo um nadador numa praia pública fechada.

 - Meu Deus! E chama isso de divertido?!

 - Sim, pois logo constatou-se que o terrível crocodilo não passava de um bicho de borracha insuflável que dois garotos empurravam para provocar o pânico entre os banhistas.

 - Meu marido morreria de rir... aliás, só se se encontrasse na praia a uma distância segura. Você também riu?

 

 - Achei divertido - replicou Fehringer com todo cuidado.

 - Também estava na areia?

 - Não, dentro d'água. Mas logo reconheci que aquele não era um crocodilo de verdade. Todos gritaram para mim: "Saia nadando logo daí! Para a esquerda!" Foi para lá que os outros banhistas fugiram, pois à esquerda havia um barco balançando no mar. - Fehringer lançou um rápido olhar para Sylvia. Sentia a proximidade dela como uma irradiação de calor. - Seu marido não teria entrado logo na água para salvá-la?

 - Knut? Que idéia essa sua. Ele teria gritado: "Sylvia, ele não vai fazer nada com você, sua maquilhagem vai assustá-lo!" Ele é assim.

 Portanto, ela se chamava Sylvia. Uma mulherzinha à procura de aventuras. E meu irmão Hans, esse cabeça-de-bagre, caiu cego nos braços dela.

Fehringer pediu mais dois Lagoas Azuis e depois retomou a conversa:

 - Nas grandes viagens, poucas vezes podemos ter experiências divertidas. Na maioria das vezes nos aborrecemos com os companheiros de viagem. Com o jeito deles para com os povos estrangeiros, com seu comportamento como se fossem os deuses brancos, com a ignorância deles quanto à própria educação, da qual em geral são tão orgulhosos. Muitas vezes eu seria capaz de sair distribuindo bofetadas por todos os lados. Isso é divertido?

 - Vejo que hoje você está num péssimo dia. - Sylvia bebeu o segundo coquetel com extrema rapidez. Rápido demais, notou ela ao deslizar do banquinho do bar. - Ontem você estava confiado e alegre. Meu marido está pesando tanto assim em seu ombro?

 - Também. Eu preferiria que você estivesse sozinha a bordo. Mas esses desejos raramente se realizam.

 - Não devíamos nos desfazer dos sonhos com tanta rapidez. Existem fadas às quais devemos recorrer com frequência antes que elas realizem os famosos três pedidos. - Ela abriu um sorriso largo e provocante, deu um tapinha no ombro de Fehringer e, em seguida, voltou ao convés andando com passinhos miúdos.

 Fehringer continuou sentado no bar, sem fazer a Sylvia o favor de segui-la. Viu apenas a maneira como ela estremeceu de repente, quando um sujeito maciço e com cara de touro surgiu atrás dela. O marido, pensou Fehringer respirando fundo. Alguns minutos atrás e ele teria visto a mulher no bar, com a cabeça recostada no ombro do homem com o qual já teve uma altercação ontem. E Hans não contara coisa alguma. Eles chegariam a uma situação explosiva.

 Fehringer assinou rapidamente a conta e saiu do bar. Agora, irmãozinho, vou te pegar pelo colarinho, tenho tanta certeza disso quanto sou o mais velho de nós dois.

 - Knut! - disse Sylvia desnorteada. - De onde você saiu? Pensei que estivesse na bicicleta de exercícios.

. - Tudo merda! Eu me sento, regulo a coisa para a resistência máxima e começo a pedalar. Aí vem o salva-vidas, aquele sujeito meio pirado, e tem o desplante de me dizer: não vá quebrar a bicicleta. Você está pedalando como um touro... Aí eu perdi a vontade. Esses caras aqui a bordo parecem estar acostumados apenas com gente com atrofia muscular. - Knut respirou fundo, franziu o nariz e encarou-a com olhos furiosos. - Mas você andou enchendo a cara!

 

 - Encher a cara é privilégio seu.

 - Deus do céu, pare de falar com essa jactância!

 - Só bebi um coquetel. Tive vontade.

 - Sozinha?

 - Não. Havia sete cavalheiros sentados à minha volta e três comissários atrás do balcão. Pode ir lá bater neles todos. Knut, o ferreiro...

 - Seu escárnio me dá nojo! - Knut de Jongh olhou para o lado, descobriu suas espreguiçadeiras ainda livres e apontou para elas. - Lá. Vamos nos deitar lá até a hora do almoço. E cara senhora, permita-me que depois eu peça uma cerveja.

 - Por mim você pode beber um barril inteiro... - Sylvia andou com passos acentuadamente provocantes até a espreguiçadeira livre, enquanto Knut a seguia com olhos estreitados. Que mulher maldita, pensou ele. Maldita e linda! A gente é obrigado a repetir: isso me pertence! Dos pés à cabeça. Na cama ela é uma deusa e uma fria. Quando eu lhe acariciei a pele lisa, os seios, .as coxas, a barriga... Knut apertou um pouco mais o cinto do roupão de banho e ficou contente por ninguém poder ver sua excitação. Nós devíamos estar agora na cabina, pensou... a cama estalaria como a explosão de uma granada.

 Seguiu-a com passos lentos... não era nem um pouco fácil andar sem chamar a atenção com uma poderosa erecção, vestido com um apertado calção de banho e um roupão pequeno. Sentou-se na espreguiçadeira ao lado da mulher e não conseguiu impedir que o roupão se abrisse. Sylvia viu na hora o estado dele.

 - Você devia ter pedalado mais na bicicleta de exercício - sussurrou ela em voz baixa -, peça água gelada e jogue em cima.

 - Sylvia! - Knut de Jongh respirou pesado. - Não posso fazer nada. Eu a amo, apesar de tudo o que você me joga na cara durante o dia. Sempre que eu a olho com essa sua bunda tesuda e infernal... você é a maior patife que a natureza já criou.

 - Você sempre foi e continuará sendo ordinário, mesmo tornando-se um novo Krupp - disse ela. - Trate de deitar-se e fechar o roupão. Não fique pensando que esse tipo de visão deixa alguém excitado.

 - Antigamente você via isso como um sinal para pular na cama, era como se estivessem soando as trombetas de Jerico. - Knut deitou-se para trás, fechou o roupão de banho e ficou contente já que sua excitação estava cedendo. Bem, agora basta que eu não olhe para ela. Esse corpo celestial e quase pelado. Devo dizer para mim mesmo: eu a odeio! Eu a odeio! Só isso ajuda.

 Com a testa enrugada, Knut examinou os homens que passavam pelas espreguiçadeiras e, sem a menor cerimónia, olhavam o corpo quase desnudo de Sylvia. Também, ela estava deitada de modo tão provocante que não era milagre nenhum... as longas pernas um pouco dobradas e inclusive com a parte de cima do diminuto biquini um tanto puxada para baixo.

Um irrefreável chamado ao pecado.

 - Precisa isso? - vociferou ele para o lado.

 - O quê? - a voz de Sylvia ostentou um tom de defesa negligente.

 - Essa maneira como está deitada!

 - Fico tão confortável. Afinal, o que é que o está incomodando? Quer começar outra briga?

 

 Knut murmurou qualquer coisa, deitou-se e fechou os olhos. às vezes eu gostaria de bater nela, pensou, até ela não conseguir mais ficar de pé. Mas depois vêm as noites nas quais Sylvia me leva ao delírio. Estou à mercê dela, simplesmente à mercê, é isso. O forte Knut de Jongh é um macaquinho ao qual se dão torrões de açúcar!

 Suspirou fundo e depois sentiu-se entediado. Faltava-lhe o jornal diário com as notícias esportivas e as pequenas sensações do mundo inteiro. Ele já sabia de cor as revistas que levara a bordo. Disseram-lhe que em acapulco subiria a bordo uma revista alemã. A selecção de livros da loja não era de seu gosto, não tinha Jerry Cotton, bem como nenhum romance policial de Goldmann. Apenas três Konsaliks velhíssimos, que já havia lido há muito tempo atrás. Em compensação, havia alguma "literatura pesada" que ninguém iria querer ler numa viagem de cruzeiro tão repousante.

 Tudo está começando muito bem, pensou ele furioso. Sylvia deixa loucos esses sujeitos lascivos a bordo, não existe nada para ler fora as notícias matinais do rádio escritas à máquina e que são distribuídas junto com o programa do dia; eu apenas faço ridículo no shovelboard, no ténis de mesa e outros jogos de bordo, também falho no tiro ao alvo... sei disso, embora tenha tirado a licença para caçar graças aos dois bons amigos que tinha na comissão de prova. No jogo de xadrez eu só fico irritado porque os outros são muito burros para jogar. Portanto, o que nos resta a não ser encher a cara? E isso durante várias semanas! A longo prazo a idéia das viagens de barco não foi tão boa assim. Espreguiçou-se, descobriu que o baixo-ventre voltara ao normal e tirou o roupão de banho. O comissário de convés passou e deu uma parada.

 - Algum desejo, meu senhor?

 - Um barril de cerveja - sussurrou de Jongh.

 - Serve um copo grande? - o comissário sorriu. Já conhecia aquilo. Existem pessoas que ficam de cabeça virada, nos primeiros dias a bordo até encontrarem o ritmo certo. Depois vem outro momento crítico mais ou menos na segunda semana, os dias da vertigem do mar, mas depois todos se apaixonam tanto pelo navio que preferem permanecer nele e acham que o tempo voa rápido demais.

 - Para começar basta um copo. Mas rápido! Estou com uma coisa que preciso engolir.

 Ele olhou Sylvia de soslaio. Ela estava deitada na espreguiçadeira com as pernas dobradas, lendo um livro de bolso. Napoleão em Santa Helena era o título. Knut de Jongh voltou a fechar os olhos. Que teatro, pensou ele. Você não entende coisa alguma disso que está lendo, sua cabeça-de-vento. Bancar a intelectual... meu Deus, quando é que o comissário voltará com a cerveja?

 

Hans Fehringer estava deitado na cama ouvindo a música do rádio, quando seu irmão Herbert precipitou-se na cabina, .fechou a porta atrás de si, tirou a jaqueta leve e cerrou os punhos.

 - Levante-se para que eu possa dar-lhe um soco no focinho! - disse contido. - Você é um idiota completo! Seu cabeça-de-bagre!

 Hans Fehringer examinou o irmão gémeo com um ar inquisidor, preparado para defender-se. Deitado, tencionou os músculos.

 - Que está acontecendo?

 

 - Quem é Sylvia?

 - Nossa Senhora! - Hans Fehringer desligou o rádio. - Ela topou com você ?

 - Mais ou menos. Eu fui obrigado a interpretar seu papel sem ter a menor idéia de como. Por que você não me disse que havia ido à caça de novo?

 - Esqueci. Simplesmente esqueci, irmãozinho.

 - E ainda por cima ela é casada!

 - Com um sujeito nojento e primitivo. - Hans sentou-se. - Mas ela não é um avião? Que corpo! E excitante como... Como... bem, não existe comparação. Trinta e dois anos cheios de dinamite!

 - E você vai querer explodir isso?! - Herbert Fehringer foi até o banco junto à janela da cabina e sentou-se. - Você sabe o que pode acontecer se ela descobrir nosso truque?

 - Você já me recitou isso milhares de vezes.

 - E sempre deu certo. Está querendo fazer uma cagada agora? Hans, você sabe que eu confio muito no meu sexto sentido. Isto é um verdadeiro perigo. Quanto tempo essa Sylvia ficará a bordo?

 - Até Sidney.

 - E você vai querer carregá-la nas costas o tempo todo?

 - Se for possível... sim. - Hans Fehringer saiu da cama. - E na verdade, vai ser aqui! Aqui na cabina. Irmãozinho, não tem como dar errado.

Você fica lá em cima no convés, o marido lê e se tranquiliza. Enquanto isso, eu e Sylvia estamos nos roçando aqui no lençol.

 - E você acha mesmo que vou participar disso?

 - Por que não? Por amor fraternal.

 - Esqueça! - Herbert Fehringer pôs o punho cerrado sobre a mesa.

- Eu juro que essa vai ser a última viagem que fazemos juntos. Prefiro ficar deambulando quatorze dias no nosso quarteirão.

 - Por isso mesmo devo gozar ao máximo essa última viagem. - Hans Fehringer vestiu a mesma jaqueta que o irmão acabara de tirar.

 - Aonde você pensa que vai? - perguntou Herbert erguendo o tom de voz.

 - Ao convés. Tomar ar. Agora você vai ficar aqui para se acalmar. Será sua vez de novo após o almoço. E a minha à noite. Depois deixo para você o alegre baile de bordo. Pode ser que eu já precise da cabina.

 - Pois vai ser exactamente ao contrário, irmão!

 - Engano seu. - Hans já havia chegado à porta da cabina e a abria de novo. - Como vai me deter? Então vem junto comigo, vai ser uma sensação!

 - Você pirou por completo?! - gritou Herbert Fehringer.

 - Veja, irmãozinho; alguém deve ser o mais esperto e este sempre foi e será você . Reconheço esse facto e, por isso, permito-me certas burrices. Portanto... até a troca do almoço! Ligue o rádio na estação dois, estão apresentando uma ópera. Divirta-se!

 

 Saiu da cabina e desceu assobiando pelo corredor que levava ao foyer principal. Herbert ficou para trás possuído por uma fúria impotente. Ficou olhando o infinito oceano Pacífico pela janela, meditando como se poderia dar um fim a essa brincadeira perigosa. O jeito seria ele, no lugar de Hans, tratar essa Sylvia de um modo tão miserável que acabassem tendo uma briga séria. Mas podia-se pensar também numa outra versão: ele continuava fazendo o papel de Hans, indo para a cama com Sylvia. Esse seria o jogo do qual Hans teria de participar a fim de preservar o segredo.

 Esse pensamento não saiu mais da cabeça de Herbert Fehringer. Ele viu o corpo excitante de Sylvia à sua frente, tornou a sentir seu intenso magnetismo erótico que o envolvera qualquer manto de calor e, de repente, teve inveja de Hans pela posse exclusiva daquela mulher diabólica.

 Portanto, vai ser assim, pensou Herbert Fehringer satisfeito, porém, cheio de angústia. Vamos fazer como no almoço e no jantar, uma troca rápida na mesa e na cama. Assim, o problema dos gémeos entrará nos eixos de novo.

 Enquanto isso, Hans Fehringer deambulou pelos conveses até encontrar Sylvia e seu marido. Ela estava deitada numa pose excitante lendo um livro de bolso, Knut estava sentado na beirada da espreguiçadeira bebendo cerveja. Hans aproximou-se com passos negligentes.

 - Saúde! - disse ao ficar de frente para Knut de Jongh.

 Na mesma hora, Sylvia deixou cair o livro que estava realmente lendo. Para ela era novidade o facto de Napoleão ter sido assassinado; meu Deus, parecia um romance policial!

- Obrigado - vociferou de Jongh em resposta. - Tem um sabor melhor sem a sua presença.

 - Perdão - Sylvia sentou-se pousando o livro no colo de tal modo que o olhar dele foi desviado para a minúscula parte de baixo do biquini.

- Sou obrigada a pedir desculpas outra vez pelo meu marido. O ar marinho sempre o deixa agressivo. Você não está sentindo calor de jaqueta e calça?

 - Tive uma conversa sobre negócios no bar Olympia.

 - Que pena. Eu estava querendo ir nadar na piscina.

 - Mas isso não é problema, cara senhora. - Hans Fehringer ostentou um sorriso largo e desafiante. - Estou sempre de calção por baixo. Só uns minutinhos... e eu me livro rapidamente de meu traje.

 Hans correu até uma das cabinas do vestiário, despiu-se e colocou terno, sapatos e meias sobre uma espreguiçadeira desocupada ao lado dos passageiros que tomavam banho de sol.

 - Só uns minutinhos... - Knut de Jongh imitou-o quando Fehringer saiu correndo. - Eu me dispo rapidamente... Que macaco! E você se comporta...

 - Eu quero nadar, mais nada.

 - Você o encorajou!

 - Mas você não entra na água. E quando entra, fica grudado na borda da piscina! Por acaso até a minha natação o deixa irritado?

 

 - Idiotice! - ele olhou para Hans Fehringer que, com uma toalha vermelha jogada no ombro, vinha trotando pelo convés com seu corpo musculoso, desportivo, trabalhado. Esse sujeito tem uma óptima aparência, sobretudo dá para se avaliar que deve ser vinte anos mais jovem. Sylvia levantou-se e espreguiçou-se. Seu corpo erótico e insolente brilhou ao sol. Knut de Jongh depositou o copo de cerveja ao lado da espreguiçadeira e lançou um olhar sombrio para Fehringer que primeiro entrou debaixo da ducha, depois entrou na piscina e ficou esperando que Sylvia o seguisse. Em seguida, ficaram nadando juntos, lado a lado, em círculos. A água apresentava o mesmo movimento do navio quando este mergulhava no mar e depois se erguia. Era como estar nadando de facto nas ondas do oceano.

 - Por que você voltou? - perguntou Sylvia enquanto, por baixo d'água, tocava-lhe a coxa com uma das pernas.

 - Já não aguentava mais. Precisava vê-la. Sylvia, quando você me viu antes...

 - Que foi, Hans?

 - Tive vontade de beijá-la:.. mas graças a Deus não estávamos sozinhos.

 - Porquê graças a Deus?

 - Porque me conheço.

 - Eu também a mim. - Ela sorriu para ele, mergulhou, passou deslizando por Hans tocando-lhe o baixo-ventre com o corpo. Qual peixe prateado, tornou a emergir do outro lado.

- Seu marido está desconfiado, Sylvia - disse Hans com a voz um tanto abafada pela excitação.

 - Ele sempre está.

 - Fica nos observando como um caçador à espreita da caça.

 - E o que vê? Nada. Somos duas pessoas decentes, não é verdade, Hans?

 - Eu não. Nesse momento estou pensando em outra coisa...

 - Por favor, não diga.

 - Gostaria de estar sozinho com você durante o baile de hoje. É possível?

 - Não sei. Isso vai depender de como meu marido passar o dia. Se continuar bebendo, depois do almoço terá chegado a um ponto em que cairá na cama e dormirá como um urso. Mas pode ser que ocorra exactamente o contrário... Vamos esperar, Hans.

 - Estou tão contente que poderia gritar hurra...

 Sylvia tornou a sorrir, mergulhou, roçou de novo o baixo-ventre de Hans e emergiu ofegando. Com a ondulação não dava para ver o que acontecia debaixo d'água. Ela nadou até a escada, subiu, banhou-se no chuveiro para tirar a água salgada e depois vestiu o roupão de banho. Fehringer continuou na piscina nadando de um lado para o outro com elegantes movimentos de pernas e braços e pensando na noite que estava por vir. Vou levá-la à cabina... Mesmo que Herbert bata com a cabeça na parede! Nunca possuí uma mulher assim. Uma maravilha de corpo e tesão. Por ela sou capaz de brigar até mesmo com meu irmão. Aqui simplesmente acaba o mundo real. Aqui eu entro numa nova vida. Knut de Jongh pegou o copo de cerveja quando Sylvia saiu da piscina, mas nesse momento a bebida teve um gosto insípido. A mulher parou diante dele e encarou-o de cima com o lábio inferior esticado num jeito sarcástico.

 - E então? Satisfeito? Ou será que você viu algum coito submarino?

 - Você fala como uma puta - disse ele num tom abafado.

 - Talvez eu seja uma, não? Devem existir donas-de-casa honestas que ganham a vida como callgirls enquanto o marido está trabalhando.

 - Hoje você não vai me fazer perder a paciência! - de Jongh ergueu o tom de voz. - Comissário, mais uma cerveja! - berrou convés afora antes de o comissário parar à sua frente. - Vocês conversaram enquanto nadavam?

 - Ele me contou que é negociante de carros.

 - Que marca?

 - Isso ele não disse.

 

 - Um péssimo vendedor! O mais importante é sempre dizer a marca. E Mesmo quando se está mijando ao lado de um outro: "Já conhece o novo "Tubarão de..."

 Sylvia virou-se e foi até o vestiário trocar de biquini. Pouco depois, Fehringer saiu da piscina e foi tomar uma ducha. Quando ia passando por de Jongh, este dirigiu-lhe a palavra: - Você é representante de uma fábrica de automóveis?

 - De várias. Mas em geral fabricações especiais. Por exemplo, motor de BMW, chassi de Mercedes, carroceria de um lanterneiro italiano. Se se quiser, até mesmo um carro de sonhos. Realizamos qualquer desejo. Um cliente... não temos permissão para citar nomes, bem, um cliente encomendou um carro com uma jaula dourada montada no assento de trás para seu tigre de estimação.

 - Mas que piadinha mais boba! - disse de Jongh furioso.

 - Não é não. Fazemos qualquer coisa, desde que paguem. Você nem acreditaria o tipo de desejo que aparece. Está interessado numa fabricação especial, meu senhor?

 - Meu nome é de Jongh.

 - Sr. de Jongh. Se quiser...

 - Não preciso de nenhuma jaula dourada para tigre no meu carro. Só estava curioso em saber a marca que você representava, pois minha mulher disse que você vende carros. Onde é o seu negócio?

 - Com essas fabricações extravagantes, claro que nos EUA. Em Minnesota.

 - Claro. No nosso país você iria à falência.

 - Com toda a certeza. - Hans Fehringer arreganhou um sorriso largo e afastou-se no momento em que o comissário trouxe outra cerveja gelada. Knut de Jongh sorveu um longo gole e arrotou discretamente. Sujeito esperto, pensou ele. Faz das loucuras dos outros o seu negócio. Até mesmo a bordo, como ele insinuou antes.

 Seguiu Fehringer com a vista, até este desaparecer no vestiário, sem notar que Sylvia ainda não havia saído de lá. Recostou-se e ocupou-se deliciado com a cerveja gelada.

 Quando Fehringer entrou no vestiário, Sylvia estava nua atrás da porta. Ela caiu-lhe imediatamente no pescoço e beijou-o como louca, esfregando seu corpo contra o dele, ainda húmido. Sem dizer nenhuma palavra, Fehringer agarrou os seios de Sylvia, depois dobrou-a para trás e quis livrar-se do calção de banho... mas ela afastou-se de seus braços, vestiu a calcinha do biquini com a velocidade dum raio e enrolou-se no roupão de banho.

 - Sua malandra! - disse Hans Fehringer com a respiração ofegante.

 - Até hoje à noite - deu-lhe um sorriso claro e estreitou o roupão no corpo. - Um bom jantar começa com um aperitivo... tchau...

 Sylvia saiu da cabina, Fehringer passou o ferrolho atrás dela e sentou-se num banco dobrável montado na parede. Tinha plena consciência de que estava entregue a essa mulher, que a partir daquele minuto ela podia fazer com ele o que quisesse.

 E Fehringer ansiava tudo que pudesse vir dela...

 

 

O dia passou tranquilo. O almoço e o jantar deram certo para os gémeos Fehringer, como de modo habitual. Sylvia de Jongh foi ao cabeleireiro e depois descansou na cabina pensando na noite que viria.

 Para espanto de Hans, não houve nenhuma outra altercação entre os irmãos. Herbert concordou com a proposta e só colocou uma condição: que tudo transcorresse na base da troca como sempre.

 - Quer dizer - disse ele - que você pode ficar com a sua Sylvia noite sim, noite não. As outras noites me pertencem. E é problema meu o que eu fizer então. Talvez eu também consiga abocanhar alguma coisa...

 - Tem uma excitante cabeleireira a bordo - propôs Hans de bom humor, estalando com a língua. - Não no salão, mas como passageira! Cabelos louros longos... em geral fica na piscina...

 Herbert Fehringer arreganhou um sorriso largo.

 - Vamos ver se dá certo... - ao dizer isso, estava pensando em Sylvia, em seu papel como "Hans" Fehringer, e então esfregou as mãos.

- Alguma novidade da parte de Sylvia? - perguntou.

 - Sim. O marido dela falou comigo. Eu disse a ele que tínhamos um negócio de carros de fabricação especial em Minnesota.

 - Você ficou maluco? Que outra mentira disse?

 Hans contou a história do carro com a gaiola dourada do tigre. Então, os dois riram juntos.

 à tarde, enquanto nos conveses serviam-se café e bolinhos e a orquestra de bordo tocava músicas da jarrinha, tomava-se na cabina do comandante a decisão definitiva sobre a apresentação das elefantas. Manni Flesch, o director de cruzeiro, o director de hotel Gerhard Riemke e o comissário-chefe Rudi Pfannenstiel discutiram mais uma vez se e como as duas elefantas poderiam ser levadas até o Salão dos Sete Mares. Mas não havia solução. Riemke redigiu um protocolo, a fim de mais tarde poder comprovar a impossibilidade da apresentação perante a companhia de navegação. E o comandante Teyendorf assinou-o junto com Riemke e o tristonho Claude Ambert.

 - Bem, nós realmente tentamos de tudo, meu caro Claude - disse Teyendorf servindo-lhe uma dose de conhaque. - O que não tem solução, solucionado está. Você compreende, não? Estamos num navio e não num circo onde se pode abrir uma cortina para os elefantes entrarem marchando. Quando você subiu a bordo, apesar de meus escrúpulos e somente através do insistente pedido da companhia de navegação, nós pensamos em tudo... só não pensamos na maneira como você podia subir até o salão de festa com seus dois gigantes cinzentos. Mas no final das contas isso vai dar no mesmo... Você receberá seu "cache especial" como se tivesse feito a apresentação.

 - O dinheiro não é tudo, senhor comandante - disse Ambert erguendo o tom de voz. - Trata-se da incorruptível honra do artista...

 - Comunique isso à companhia de navegação. - O comandante Teyendorf deu uma tragada no cigarro. Quando o velho fuma com essa pressa, pensou Pfannenstiel em expectativa, é porque está fervendo por dentro. Já conhecemos isso. Nesses casos, ou ele fica irónico ou berra à boa e velha maneira dos marinheiros. - Minha honra de comandante também foi arranhada. Eu o aceitei a bordo contra as minhas convicções. Terei de superar isso, assim como você terá de superar a suspensão da apresentação de suas elefantas. Devia reflectir sobre isso.

 

 - Perdão, comandante. - Claude Ambert assentiu e bebeu o segundo conhaque. Ia precisar dele, não apenas por causa do desapontamento, mas sobretudo para tomar coragem de realizar seu plano de pôr as mãos no dinheiro da devoradora de homens Anne White, nessa última noite a bordo. Claro que era preciso coragem, mas Ambert jamais voltaria a ter outra oportunidade daquelas, que mudaria sua vida por completo. Depois entregaria seus amores gigantescos, Sissy e Berta, a mãos caridosas; Claude Ambert estava pensando no jardim zoológico de Puebla.

 Deixou que lhe servissem um terceiro conhaque, depois agradeceu ao comandante Teyendorf, despediu-se e saiu da ala dos oficiais acompanhado de Pfannenstiel.

 - Bem, isso já liquidamos - disse Teyendorf para o director de cruzeiro Flesch e para Riemke. - Holletitz tem algum número para substituir as elefantas?

 - Ele tencionava convencer o cantor da câmara Rieti e a cantora Reilingen a apresentar dois duetos.

 - E eles não quiseram?

 - Parece que não podem. Rieti ainda está sentindo-se rouco e só quer cantar quando puder pronunciar o "r" de modo correcto e a cantora de câmara está deitada na cabina com enjoo do mar.

 - Mas para que temos médicos a bordo? - Teyendorf acendeu outro cigarro. Acabara de esmagar o anterior no cinzeiro. - O que diz o Dr. Paterna?

 - Deu comprimidos para ela e jura que a mulher poderia cantar se quisesse. Mas ela continua deitada na cama revirando os olhos quando alguém chega na cabina. Holletitz já quase ajoelhou-se diante dela... a mulher simplesmente não pode.

 - Estamos fritos! - Teyendorf olhou pela janela em direcção ao bote salva-vidas pendurado nos cabos abaixo. - E fora isso?

 - O mágico poderia apresentar-se por mais dez minutos. Mas depois seu número fica longo demais e o público perde o interesse. Tão-pouco podemos cobrir o tempo das elefantas com as piadas de Holletitz. Temos um tremendo problema, senhor comandante.

 - Falarei pessoalmente com essa cantora sensível. - O comandante Teyendorf pós o quepe e esvaziou o copo de suco de laranja que bebia em lugar do conhaque. Nada de álcool até a noite... isso era algo evidente para ele, bem como para seus oficiais. O comandante e os oficiais estão sempre de serviço. Somente na hora do jantar é que todos, com a excepção dos que estavam de serviço, eram "liberados do fronte".

 No início, quando Teyendorf assumiu o comando do navio, houve acirradas discussões a esse respeito. A conversa girara em torno da intromissão na esfera privada, do pensamento do empregado, de ordens de garrote.

Afinal de contas, as pessoas não se encontravam na marinha de guerra, mas sim num alegre navio de cruzeiro. Mas Teyendorf continuou firme e, no princípio, bronqueava com todos os oficiais que cheiravam a álcool. Agora, após quatro anos sob seu comando, a coisa tornara-se natural.

 

 Mais tarde, Holletitz não saberia explicar como o comandante Teyendorf conseguira convencer a cantora de música de câmara Sra. Margarete Reilingen e o cantor de câmara Sr. Franco Rietti que não estavam nem com enjoo do mar nem roucos. Uma hora antes do início da alegre noitada que incluiria uma dança, os dois ensaiavam dois duetos, enquanto o pianista Prof. Helmut Dragger fazia o acompanhamento e, além disso, declarava-se disposto a tocar um potpourri de A Viúva Alegre. A noite estava salva.

 - O velho é impressionante! - Holletitz disse entusiasmado para o director de cruzeiro Manni Flesch. - Ele simplesmente vai e ressuscita os moribundos. Como é que ele consegue?

 - É preciso ser comandante, Hanno - riu Flesch. Ele também estava feliz, afinal cabia-lhe toda a direcção do entretenimento a bordo. - Quem consegue declinar alguma coisa a um comandante como Teyendorf?

 Enquanto isso, Claude Ambert montava um álibi. Na presença dos comissários Piet e Volker, ele conversava com suas elefantas como se estas fossem seres humanos, explicando o motivo pelo qual não poderiam se apresentar.

 - Vocês são grandes e gordas demais, minhas pequenas - disse acariciando delicadamente a extremidade das trombas de Sissy e Berta. - Mas podem esperar, vamos ser aplaudidos de novo em acapulco. Ficarei com vocês duas aqui embaixo de modo que não se sintam tão tristes.

 - Esse cara está gozando - disse o comissário Piet quando voltaram para cima. - Só está faltando cantar uma canção de ninar para as feras.

 - Talvez ele cante. - O comissário Volker cheirou a manga do terno branco que exalava um odor de transpiração de animal. - Merda, vamos precisar trocar de roupa. Está cheirando a mijo de elefante. No fundo, esse tal de Ambert tem um parafuso frouxo. Ontem eu vi quando ele saía escondido da suíte de Anne White.

 - Bem, ele está acostumado com elefantes.

 Os dois deram uma gargalhada estrondosa e depois foram de elevador para suas estações.

 Na hora do jantar - a vez era primeiro de Herbert Fehringer -, Sylvia de Jongh estava com uma aparência encantadora. O modelo de seu vestido de coquetel era tão refinado que nada se via, mas tudo se adivinhava. Nessas situações, Knut de Jongh banhava-se no brilho de sua mulher: vejam, caras, essa mulher me pertence! Só a mim! Podem arregalar os olhos com toda a calma; Sylvia é minha deusa e é assim que eu a trato.

 Ao entrar no restaurante, Herbert Fehringer fez um leve aceno da mesa 136 na direcção da mesa A 9. Sylvia respondeu com um aceno contido. O marido, que nesse instante examinava o fantástico cardápio, que em terra poucos hotéis cinco estrelas poderiam oferecer, não notou a troca de acenos. E mesmo mais tarde, quando Hans Fehringer se sentou no lugar de Herbert, que desaparecera, de Jongh não percebeu... nesse momento ele negociava uma deliciosa sobremesa com o comissário de mesa.

 Menos afortunado era o comissário a cujo serviço pertencia a mesa de Fehringer. Ele foi até o serviço contíguo e apontou furtivamente para Hans:

 - Aquele ali, o louro alto, deve ter um estômago de baleia. Agora está comendo um jantar completo pela segunda vez e derrubando sozinho a segunda garrafa de borgonha. Mas está firme como um dois de paus. Dá para compreender?

 - Tem gente que é assim. - O outro comissário arreganhou um sorriso encolhendo os ombros com desdém. - Vão até o alojamento, dão uma cagadinha e depois começam tudo de novo.

 - É verdade. Ele acabou de ir lá fora...

 

 - Aí está! Não fique aí de boca aberta, sirva! Afinal, não é você quem paga. Por quase quatrocentos marcos ao dia você podia comer até três vezes.

 Quando Hans Fehringer retornou à cabina, Herbert estava deitado na cama tendo ao seu lado uma garrafa de vodca, uma de soda limonada, bem como uma cuba de gelo. Na televisão passava um policial de Hitchcock transmitido por videocassete pelo estúdio de bordo. Nesse momento, acabava de ser achado um cadáver sem olhos.

 - E então, ela não é magnífica? - perguntou Hans tirando o paletó de seda para poder lavar a mão.

 - Quem, o cadáver? Não sei dizer...

 - Sylvia, seu bundão! Dá para compreender agora que se perca a cabeça com ela?

 - Pode ser. Só que nós ainda precisamos de nossa cabeça. Ou será que você está querendo ir parar numa prisão de alguma ilha dos mares do Sul? Comparada com elas a penitenciária de Stuttgart é um hotel de luxo. Esses buracos deviam ser mostrados a esses terroristas mimados.

 Nesse momento, o cadáver sem olhos do filme da televisão era levado embora. Hans lavou as mãos e depois voltou para a cama.

 - Quando é que você vai dar o fora da cabina, irmão?

 - Quando você quer vir? - Herbert bebeu um gole da vodca com limonada. - E quanto tempo vai ficar?

 - Digamos que até as quatro da manhã. Tudo bem? Enquanto isso você pode ficar no Clube do Pescador. Sua cama estará livre quando o cartaz "Favor não incomodar" não estiver mais pendurado na maçaneta. - Ele arreganhou um sorriso largo e tornou a vestir o paletó de seda. - Cruze os dedos para que o marido dela tome um porre.

 - Suma daqui!

 Hans Fehringer pegou o cartaz "Favor não incomodar", saiu da cabina e pendurou-o na maçaneta. A partir desse instante nenhum comissário iria incomodar. Ele subiu os dois lances de escada até o Salão dos Sete Mares onde já se encontravam os passageiros do primeiro horário de refeição ouvindo a orquestra de bordo tocar músicas que não saíam da moda.

Agora chegavam os passageiros do segundo horário e, entre os primeiros, estava o casal de Jongh. Hans Fehringer esperou até que os dois encontrassem uma mesa e depois procurou um lugar nas proximidades, onde ele e Sylvia pudessem trocar olhares e sinais. Knut de Jongh ainda dava uma impressão de vivacidade, mas que era enganosa. Quem o conhecesse tão bem quanto Sylvia, veria que a bebedeira já se apossara de seus olhos, mesmo que ainda reprimida por sua força de vontade. Faltavam apenas alguns copos para derrubá-lo definitivamente.

 - Champanhe - disse de Jongh quando a comissária Helmi passou por sua mesa. - Taitting seco. Só uma taça para minha mulher. Para mim um uísque duplo com gelo. O champanhe bem gelado!

 Deu um sorriso apaixonado para sua linda mulher, pegou um estojo de couro no bolso interno do paletó e tirou um charuto.

 - O Dr. Peters disse que você não devia fumar mais. Seu coração, meu querido... - os lábios de Sylvia pronunciaram essa frase com carinho especial.

 

 - Em primeiro lugar, o Dr. Peters não se encontra nas proximidades; em segundo lugar, estou aqui para descansar; em terceiro lugar, há muito tempo que gosto dos charutos e, em quarto lugar, por mim todos podiam... - de Jongh mordeu a ponta do charuto e acendeu-o. Depois recostou-se comodamente no assento. - Isso é que é prazer! - disse depois da primeira tragada. - Sylvia, hoje eu me sinto bem como um porco. - Soltou lufadas de fumaça no ar, coisa que Hans Fehringer aproveitou para esticar os lábios mandando beijos na direcção de Sylvia. Ela respondeu com um leve aceno de cabeça.

 O casal von Haller, na realidade príncipe e princesa von Marxen, estava sentado não muito longe dos de Jonghs. Haviam acabado de pedir um vinho branco à comissária Helmi.

 - Era ela a quem eu estava me referindo - disse a princesa em voz baixa, quando Helmi passou à mesa seguinte. - Que achou?

 - Uma moça robusta, Juliane Herbitina. - O príncipe contemplou por trás a figura exuberante de Helmi. - Será que ela participa?

 - Deixe isso por minha conta, meu querido. Por acaso eu sempre não tive sucesso até agora?

 - Você é quem manda, meu amor. - O príncipe olhou para o palco. Entrou em cena Hanno Holletitz, o mestre-de-cerimónias e conferencista, vestido com um paletó de quadrados grandes e calças pretas. A orquestra deu um toque de clarins. Começava a grande e alegre noitada.

 

Claude Ambert esperou ao lado de suas elefantas até mais ou menos duas horas da madrugada. Então, disse a si mesmo que havia chegado a hora de começar uma nova vida.

 - Dentro de dez minutos - disse para as elefantas adormecidas - estaremos ricos! Aí não vamos precisar mais nos apresentar para esses babacas estúpidos.

 Saiu do porão de depósito, andou em silêncio até a escada e subiu-a cauteloso como um animal de rapina. Depois foi de elevador para o solário e deslizou na pontinha dos pés até a suíte 004 com o nome de Goethe.

 Baixou a maçaneta bem devagar, a porta cedeu. Como sempre, não estava fechada. Silencioso como um gato penetrou na ante-sala da cabina.

 

Claude Ambert ficou à espreita durante alguns segundos junto à porta da cabina, para ver se alguma coisa se mexia no quarto de dormir separado da imensa sala de estar. Seu coração batia com tanta força e o sangue pulsava com tanto barulho nas veias de sua cabeça, que a princípio ele não ouviu coisa alguma. Somente quando conseguiu controlar a respiração foi que percebeu suaves barulhos de roncos, longos e regulares. Eram mais profundos do que se poderia supor no caso das mulheres.

 Ambert ficou perplexo e lutou consigo mesmo. As pernas queriam dar uma meia-volta e sair correndo, mas o cérebro ordenava: fique, procure, pegue o dinheiro! Tudo que um homem faz tem seus riscos. Neste caso vale a pena ter coragem e dominar-se.

 Claude Ambert seguiu deslizando para dentro da cabina, tornou a parar à espreita diante da parede divisória do quarto de dormir, já acostumado com a pálida luz da lua que entrava na enorme cabina através das janelas abertas. Conseguia distinguir cada objecto e via sobretudo a escrivaninha em cuja gaveta encontrava-se a fortuna. Anne White explicara ao director de hotel Riemke o motivo pelo qual não depositava essa soma gigantesca no cofre do navio, bem como suas jóias valiosas que ela simplesmente guardava na gaveta fechada à chave da mesinha-de-cabeceira, que um profissional arrombaria sem a menor dificuldade.

 - Não tenho filhos. Meus filhos são o dinheiro e as jóias. E, como qualquer mãe, quero ter meus filhos ao meu lado, dia e noite.

Por acaso isso é alguma extravagância?

 Ao qual Riemke respondera do modo mais amável:

 - Mas de maneira nenhuma, Sra. White - embora estivesse pensando: quanto mais rico, mais pirado! Se alguma coisa fosse roubada, ela teria uma bela dor de cabeça com sua companhia de seguro...

 Nesse momento, Claude Ambert deu a volta na parede divisória e olhou para a cama. Quase jogou-se para trás e fugiu, mas o terror deixou-o paralisado. Um homem estava deitado na cama. Um homem de barba negra, musculoso, robusto. Podia-se ver, pois ele só estava coberto até o umbigo. Deitado de costas, em sono profundo, era ele quem produzia os roncos.

Somente depois de uma segunda olhada foi que Ambert reconheceu Anne White ao lado dele, virada para a direita e coberta até o queixo. Também dormia respirando fundo, mas quase sem fazer barulho.

 

 Ambert ficou parado durante alguns momentos como que enraizado no chão, depois recuperou o raciocínio frio. O destino jogava a seu favor. Dava-lhe não apenas uma fortuna, mas também o suspeito ideal do assassinato... aquele homem ao lado da vítima na cama. Vai ser muito difícil provar sua inocência, já que era a última pessoa que estivera com Anne White. E assim, Ambert não suspeitou em nenhum momento que a pessoa que ali dormia completamente extenuada pelo apetite sexual inesgotável de Anne fosse um membro da tripulação do Atlantis, justamente o maquinista Jim, que possuía a força de um urso. No dia seguinte, após a descoberta do crime, quando fosse interrogado pelo comandante Teyendorf, a coisa seria ainda mais terrível para ele, posto que não poderia provar coisa alguma.

 Ambert olhou mais uma vez em volta, descobriu no divã da sala de estar um enorme travesseiro com uma fronha colorida que mostrava o pôr-do-sol junto a uma ilha dos mares do Sul, foi até à sala na pontinha dos pés, pressionou o travesseiro contra o peito e voltou ao quarto. Inclinou-se sobre Anne White e viu que seria impossível sufocá-la com o travesseiro na posição em que o corpo da mulher estava deitado. Anne White precisava ficar de barriga para cima, com o rosto desimpedido, somente assim Ambert poderia sufocá-la com o travesseiro.

 Ele pousou o travesseiro no tapete do chão, virou Anne White com todo cuidado e bem devagar pondo-a de barriga para cima e, então, esperou um pouco para ver se ela acordava. Mas a Sra. White também estava tão esgotada pela capacidade de resistência de Jim, que simplesmente continuou dormindo. Estava sorrindo no sono como se estivesse sonhando com algo maravilhoso e, sob a camada de maquilhagem um pouco lambuzada, seu rosto apresentava uma aparência francamente jovial.

 Claude Ambert hesitou mais uma vez. Não sou um assassino sanguinário, pensou. E tão-pouco sou louco; mas lá dentro, numa simples gaveta, está minha vida nova. Então o que sou? Um zero à esquerda com duas elefantas que querem sua comida todos os dias. Sou obrigado a suplicar cada contrato, afinal o público está farto de sensações. Isso não pode continuar assim... preciso fazer... Nem sequer lhe ocorreu que se todos agissem dessa maneira só haveria assassinos no mundo... que ele não passava de um criminoso ordinário.

 Ambert abaixou-se, pegou o travesseiro no tapete e pressionou-o com toda a força no rosto sorridente de Anne White. Constatou espantado que a mulher quase não esboçou resistência, que não se debateu, que apenas estremeceu dando algumas pernadas... depois ficou quieta e ele apertou-lhe o travesseiro no rosto com mais força pondo o peso de seu dorso em cima, enquanto olhava para o homem barbudo que roncava ao lado.

 Aconteceu com muita rapidez; mais rápido do que ele esperava. O corpo de Anne distendeu-se, Ambert retirou o travesseiro de seu rosto e constatou que nesse momento estava desfigurado. Ela não respirava mais.

Ele pousou o ouvido no peito da mulher e não ouviu nenhum batimento cardíaco. Anne White estava morta.

 Ele foi à escrivaninha com passos rápidos, abriu a gaveta e viu o grosso maço de notas. Apressado, enfiou tudo nos bolsos, tornou a fechar a escrivaninha e deslizou em direcção à porta.

 No corredor reinava a mais pura calma. àquela hora, ninguém mais deambulava pelo navio, à excepção da guarda dos bombeiros. Só havia movimentos ainda na boate, que Claude Ambert ouviu ao sair do elevador e desaparecer rapidamente atrás da porta de ferro na qual estava escrito de maneira bem clara: "Entrada Proibida - Alta Tensão!" Mas tratava-se de um engano consciente para iludir os passageiros, para reprimir-lhes a curiosidade; atrás da porta havia um longo corredor que, passando pelo porão de depósito, levava à escada que ia dar no ponto mais fundo do navio, no imenso porão onde as elefantas dormiam nesse instante.

 

 Respirando aliviado, Claude Ambert jogou-se na palha ao lado de suas queridas de coloração acinzentada e fechou os olhos. Estaremos em acapulco amanhã de manhã bem cedo. Quando encontrarem o cadáver da Sra. White, com toda certeza ninguém pensará no domador de elefantes. E também por que haveriam de pensar? O que ele tinha a ver com a Sra. White?

 Claude Ambert guardou o maço de notas sem contar no baú de roupa, na parte mais funda, embaixo do toucado de elefante com o qual as duas se apresentavam no picadeiro. Ele sabia que ali nem mesmo os funcionários da alfândega mexicana iriam procurar. Pelo contrário!

Quando suas elefantas passassem de tromba erguida e soltando gritinhos pelos empregados da aduana, estes iriam rir e acenar: está tudo em ordem, camarada! Sorte com seus ratinhos cinzentos! As pessoas ainda tinham bom humor no México. E ele seria um homem rico do outro lado da fronteira e da barreira...

 Ficou acordado ao lado das elefantas até ouvir as máquinas do navio operarem com meia força e depois de um modo quase imperceptível. Haviam chegado na entrada do porto de Acapulco.

 Ambert saiu do subterrâneo e subiu ao convés principal. Ali encontrou Rainer Steger, o segundo quartel-mestre. O dia anunciava-se belo, o sol nascia com uma cor vermelho sangue, o céu estava banhado de dourado.

 - Serei o primeiro a desembarcar? - perguntou Ambert.

 - Claro. Está tudo certo com você ?

 - Tudo.

 - Então fique preparado!

 Ambert foi de elevador até o solário, chegou ao tombadilho e olhou para a ponte. O comandante Teyendorf e o primeiro-oficial Willi Kempen comandavam a manobra de atracação. O colosso branco deslizava aproximando-se do cais centímetro por centímetro, conduzido, como sempre, pelo próprio Teyendorf com a ajuda do moderno raio de orientação de proa.

 Ambert deslocou-se outra vez para o porão indo encontrar ali dois marinheiros e o segundo-barqueiro que já estava à sua espera. As elefantas perceberam que a viagem chegara ao fim; levantaram-se na palha, fizeram barulho com as correntes e ficaram balançando as enormes cabeças de um lado para o outro. Sua incrível e refinada sensibilidade reagia a cada barulho.

 - Logo estará tudo acabado, monsieur Ambert - disse o segundo-barqueiro. - Assim que atracarmos, a grande escotilha do depósito será logo aberta para você.

 - Graças a Deus essa viagem chegou ao fim! - Claude Ambert postou-se entre as duas elefantas. - Foi tudo à toa! De trem eu já teria chegado há muito tempo a Acapulco, sem que minhas pequenas tivessem padecido de enjoo do mar. Essa foi a nossa primeira e última viagem por mar, eu juro.

 Claude Ambert e as elefantas desembarcaram do Atlantis às seis horas e vinte e dois minutos. Com mudo espanto, os passageiros que se encontravam na amurada para fotografar e filmar a manobra de tracção viram que o navio levava elefantes a bordo. Os gigantes cinzentos chegaram em terra andando com dificuldade por uma rampa de madeira improvisada. Os dois marinheiros levaram a bagagem e os baús de roupas ao cais. Já havia uma empilhadeira esperando ali para colocar as coisas numa plataforma de transporte.

 

 Assim que as elefantas chegaram em terra, Claude Ambert virou-se e acenou para Teyendorf. O comandante bateu continência e chegou a mandar um aceno em resposta. Em seguida desapareceu para estar pronto para as autoridades portuárias que subiriam a bordo dentro de alguns minutos. Os controladores de passaporte da repartição de imigração também estavam esperando, pois qualquer passeio que os passageiros fizessem em terra era uma espécie de imigração. Por conseguinte, cada passaporte teria de ser carimbado e, além disso, cada um desses documentos pessoais permaneceria a bordo sob a guarda da comissária. Portanto, ninguém poderia desaparecer de bordo e entrar na clandestinidade em território mexicano.

 Bem à vontade, Claude Ambert seguiu a empilhadeira acompanhado das duas elefantas, indo em direcção à alfândega e à saída do porto. E como era de se esperar, as elefantas trombetearam com um som ensurdecedor. O passaporte e os documentos de artista de Ambert estavam em ordem, o atestado de vacina estava certo. O certificado de apresentação em acapulco, a permissão do Ministério do Interior, tudo estava de acordo com o regulamento. Sorte, camarada! Esses seus bichinhos cinzentos são mesmo belos exemplares...

 Respirando aliviado, Ambert ultrapassou o portão do México acompanhado de suas elefantas. Não tornou a olhar para trás em direcção ao navio, mas pensou no homem barbudo que com toda a certeza estaria acordando agora para ver que havia dormido ao lado de uma morta. Que iria fazer então? Esquivar-se às escondidas? Impossível! Nesse momento havia movimento em todos os corredores, coisa que fechava os caminhos de fuga.

 

E como Hans Fehringer havia passado a noite anterior? Pouco se interessou pelas atracções do colorido programa no palco do Salão dos Sete Mares. Quando Sylvia de Jongh levantou-se da mesa deixando seu marido sozinho para dar uma rápida saída da sala, ela passou pela mesa de Fehringer e sussurrou:

 - Dentro de meia hora no máximo!

 Fehringer fez um leve aceno. Nesse momento, um mágico apresentava-se no palco tirando uma bola de golfe do nariz de uma passageira que sorria encabulada. Os membros de um clube de golfe que se encontravam a bordo na qualidade de passageiros aplaudiram freneticamente.

 Hans Fehringer só se levantou quando Sylvia retornou e foi sentar-se ao lado do marido. Nesse instante, os cantores de câmara Rieti e Reilingen começavam o grande dueto de Madame Butterfty. Knut de Jongh deu um longo bocejo e entupiu-se de uísque. Dava para se prever quando Sylvia o rebocaria. Hans afastou-se sem fazer nenhum ruído, seguido por olhares irritados. Rieti e Reilingen cantavam realmente de um modo extraordinário. Ouvi-los era uma experiência inesquecível. Holletitz ficou contente; o número não realizado das elefantas não poderia ter sido melhor.

 Herbert Fehringer já estava sentado na cama da cabina esperando.

 - Onde é que você se meteu? - vociferou para o irmão. - Ela não estava com vontade?

 - Ela vai chegar dentro de meia hora. Some daqui, irmãozinho do coração. Mais tarde, você pode dar um pulo no Clube do Pescador até o salão, para que todos o vejam e ninguém sinta a minha falta. E trate de não ser visto aqui de manhã. Você só pode entrar realmente quando o cartaz "Favor não incomodar" não estiver mais pendurado na maçaneta.

 

 - Você já disse isso pela quarta vez. Divirta-se, irmãozinho.

 - Obrigado, meu irmão meia hora mais velho.

 Herbert Fehringer saiu da cabina e foi até o Clube do Pescador. Ali chegando, encontrou os dois homossexuais Jens van Bonnerveen e Eduard Grashorn, os quais, com os braços pousados um no ombro do outro, bebericavam exóticos coquetéis em copos compridos. Alguns casais dançavam na pequena pista de dança redonda. Num dos sofás de canto estavam sentados o advogado Dr. Schwarme e Arturo Tatarani, o italiano proprietário da vinícola.

Os dois conversavam sobre o vinho piemontês. A cabeleireira Bárbara Steinberg, uma beldade loura de vinte e oito anos, mantinha-se inacessível apesar dos olhares cobiçosos dos homens, embora, de sua mesa de dois lugares, estivesse flertando com o médico de bordo, o Dr. Paterna, que se encontrava sentado no bar ao lado do cego. É uma pena que o doutor não esteja sozinho, pensou ela.

 Herbert Fehringer olhou à sua volta, descobriu outra mesa desocupada e dirigiu-se até ela. Ao fazê-lo, passou por Bárbara Steinberg e cumprimentou-a à maneira como se cumprimentam os conhecidos de convés. Ela ignorou o cumprimento e continuou de olhos fixos no Dr. Paterna. Vaca maldita, pensou Fehringer irritado. É sempre a mesma coisa: por fora, é bela como uma Vénus, mas no cérebro apenas o vazio. Por que são justamente as mulheres bonitas as mais burras? aí está uma questão com a qual os antropólogos deviam ocupar-se um dia.

 Ewald Dabrowski inclinou-se em direcção ao Dr. Paterna. Agora ele podia falar de modo bastante aberto, pois a música estava bem alta, abafando a conversa.

 - Doutor, acho que como cego vejo melhor do que você. Lá atrás está sentada uma linda donzela loura que só tem olhos para você.

 - A cabeleireira Steinberg, de Bochum.

 - Ah! Já lançou o laço para pegar?

 - Ainda como. - O Dr. Paterna ostentou um sorriso largo.

- A enfermeira Erna deixou escrito um bilhete. A senhorita Steinberg pegou alguns comprimidos para enxaqueca na farmácia do hospital. E perguntou por você.

 - Todas fazem isso. Afinal, eu sou o médico.

 - E quanto tempo você ficará a bordo?

 - Durante toda a viagem. Em seguida entrarei de férias. Quero aguentar o emprego por mais três anos.

 - E depois?

 - Penso em montar um consultório nalgum lugar na Baviera. Junto a algum lago. Com uma pequena clínica incutida, na qual se praticará tudo que está em voga hoje em dia, terapia de oxigénio puro, injecções de átrio e xenério, cura pelo Aslan H3, troca de oxigénio do sangue, treinamento autageno, diferentes formas de dieta, infusões de quilato, jejuns recuperadores, aplicações de camada de óxido, bioregeneração, terapia celular...

 - Digamos, tudo que da muito dinheiro.

 - É isso aí.

 - Você quer ser um médico moderno. Um médico que esteja sempre por dentro. Do jet-set. Um médico que paparica tudo que é chique.

 

 - Bem, se você quer chamar assim... quase que não tenho o que replicar. só que eu gostaria de insistir que trato todo o paciente segundo meus melhores conhecimentos médicos e consciência. - O Dr. Paterna sacudiu a cabeça. - Por que estou lhe contando tudo isso? como cheguei a esse ponto? Faz apenas algumas horas que lhe conheço.

 - Porque sentimos simpatia à primeira vista. Você descobriu logo o meu truque de cego.

 - Como já lhe expliquei, isso foi muito simples para um médico. Um cego comporta-se de modo diferente.

 - E eu disse que a partir de Amanhã você me daria um belo treinamento! Continua de pé?

 - Será um prazer para mim. - O Dr. Paterna pediu mais duas pilsens de barril. - A hora mais adequada será quando os passageiros estiverem dando seu passeio. Então, noventa por cento dos viajantes se encontrarão a bordo e ninguém nos incomodará. Poderei ensinar-lhe inclusive a subir escada. Caso alguém nos veja... bem,

então vai pensar que o bom Dr. Paterna está dando uma aula extra para o pobre cego.

 - Você se tornará a bordo a imagem de um homem meio santo!

 - Coisa que qualquer médico de navio é desde o início, pelo menos para as mulheres. A gente precisa acostumar-se com isso e encarar a coisa com coragem. - O Dr. Paterna deu um sorriso jovial. - Agora, em viagens tão longas como esta, até que não é muito ruim. Mas quando estamos navegando durante o verão de um lado para o outro no Mediterrâneo, sempre em viagens de dez ou catorze dias, portanto com uma rápida troca de passageiros... então, posso assegurar-lhe que há uma grande confusão.

Ambas mulheres acham que reservaram também o médico de bordo. Catorze dias de fuga do quotidiano e depois a volta à brava vida de dona-de-casa ou de honrada solteirona...

 - E isso o espanta?

 - Como. Devemos gozar a vida antes de criar mofo, coisa que infelizmente acontece com incrível rapidez! como é que acontece com você?

 - Como devo entender a pergunta?

 - Você é casado?

 - Bem, dizendo com toda a franqueza e honestidade... ainda não tive tempo. Além disso, minha vida é agitada demais.

 - Você está acompanhado por uma "enfermeira" encantadora, Sr. Dabrowski.

 - Beate? Sim, é uma linda moça. Tem vinte e três anos e honesta. Coisa que raramente encontramos. Vem de uma boa família; o pai promotor público, promotor-chefe.

 - E ela ainda aceita esse tipo de trabalho?

 - Foi o próprio pai que a colocou em minhas mãos. Foi dela essa idéia do cego, para que finalmente a companhia de seguros possa agarrar Paolo Carducci, o invisível com vários nomes.

 - E esse mestre dos ladrões encontra-se a bordo?

 - Sim.

 - Tem certeza disso?

 - Como. Apenas sinto.

 - Portanto, trata-se de facto de um cego que sai às apalpadelas. - Paterna deu outra risada e lançou um olhar na direcção de Barbara Steinberg. A mulher respondeu no ato com um sorriso irradiante. Tinha uma aparência esplêndida. Seus cabelos louros brilhavam como ouro polido.

 

Barbara recostou-se no assento estofado mostrando ao Dr. Paterna os seios de desenho notável, que apareceram de modo indistinto no vestido apertado. No convés, vestida de traje de banho, ela era tida como concorrente loura da morena Sylvia de Jongh. A vantagem que apresentava era que, ao contrário de Sylvia, Barbara não tinha marido ao lado.

 Os olhos de Dabrowski seguiram aparentemente por acaso o olhar de Paterna. Para qualquer estranho foi como se o cego estivesse olhando no vazio.

 - Pode ir lá agora, doutor - disse ele em voz baixa.

- Eu lhe concedo férias. Daqui a pouco essa beldade vai ficar com cobras de tanta ânsia. Posso subir sozinho às apalpadelas.

- Você acha que eu teria alguma chance com sua Beate?

 Essa pergunta directa e repentina deixou Dabrowski mudo de espanto por alguns segundos.

 - Você... e Beate? - perguntou depois, hesitante.

 - Ela me agrada.

 - É melhor você ir logo tirando isso da cabeça.

Beate não é do tipo de moça que sai por aí agradando.

 - Com ciúmes?

 - Sou dezassete anos mais velho do que Beate.

 - E por acaso isso lá é algum obstáculo? Muitas garotas apaixonam-se por homens mais velhos.

 - Que idade tem, doutor?

 - Tenho a idade exacta para ela: trinta e cinco anos.

- O Dr. Paterna ficou sério. - Falando sério, Sr. Dabrowski. Gostaria de pedir-lhe para apresentar-me a Beate.

 - Eu sou detective e não casamenteiro.

 - Pense no seu treinamento de cego...

 - Isso é chantagem, doutor!

 - Você quer desmascarar um ladrão de mulheres e eu vou ajudá-lo. Afinal de contas, eu bem que poderia agir de outra maneira e simplesmente apresentar-me a Beate como médico. Em vez disso, estou quase pedindo sua permissão. Se isso não for prova do quão distante estou de uma aventura fugaz!

 - Por hoje você vai ficar com sua doce cabeleireira, doutor. E se continuar assim pelo resto da viagem, sinto muito por Beate. Você acabou de dizer algo a respeito de mais três anos de viagens marítimas. Será que Beate deve esperar três anos ou você passará três anos na companhia de outras mulheres? Você não está falando sério! Claro que não pode exigir isso de mim! O pai de Beate confiou-me sua filha e, por isso mesmo, ninguém vai me passar a perna. Nem mesmo você, doutor, com toda a nossa amizade repentina. - Dabrowski deslizou para fora do banquinho do bar e o Dr. Paterna fingiu que o ajudava. - Agora tactearei meu caminho para a cama.

 Pode ficar e apagar o incêndio da cabeleireira. Ela é muito mais bonita do que Beate, é provável que seja a mulher mais linda a bordo.

 - Amanhã conversaremos mais a esse respeito. - O Dr. Paterna conduziu Dabrowski, o cego, até a porta do Clube do Pescador e então retornou, após esperar que Dabrowski entrasse no elevador. E, como se fosse a coisa mais natural, foi sentar-se diante de Barbara Steinberg à mesinha redonda. Ela encarou-o com olhos imensos, redondos e azuis e um ar francamente medroso. A surpresa fez sua respiração oscilar... de repente tornava-se realidade aquilo que ela desejara em seu íntimo.

 

 - Posso? - perguntou o Dr. Paterna com um modo descuidado embora jovial, ostentando um sorriso encantador.

 - Você... você já está sentado, doutor - balbuciou Barbara.

 - Eu estava pensando: essa linda criatura está sozinha e isso é uma vergonha! Pela experiência que tenho, dá para compreender como é difícil para uma mulher que viaja sozinha encontrar a companhia certa. Não daria para ser com nenhum casal, pois a mulher explodiria de ciúme... e, no seu caso, com toda a razão! Não existe nenhum homem nesse navio que você não impressione. Claro que com a excepção do nosso pobre cego...

 - Você me deixa embaraçada, doutor. - Barbara Steinberg conseguia corar e ficar desconcertada de um modo encantador.

 O Dr. Paterna foi pegado de surpresa. Teria se equivocado? Seria verdadeiro aquele embaraço? Seria aquela mágica linda talvez apenas um pequeno passarinho que se atrevia a entrar excepcionalmente e por uma única vez numa gaiola dourada, após um longo tempo de privações e economias?

 Ele acenou para o comissário, pediu uma garrafa de champanhe e colocou os cigarros sobre a mesa.

 - Posso fumar?

 - Mas claro... eu lhe pego, não precisa perguntar.

 - Quer um também?

 - Obrigada. Eu não fumo.

 Paterna tornou a encará-la admirado. Apesar de sua experiência várias vezes comprovada com as mulheres, dessa vez ele se sentia inseguro e reflectia. Essa mulher fica aí, sentada como uma vampira; está com um vestido que deixa ver tudo, sua própria entrada em cena é uma só provocação ao sexo masculino, uma sedução aberta... mas em compensação ela cora e fica encabulada como uma escolar. Que devo achar disso? Refinamento em sua forma mais completa? Ou o sonho de um dia tornar-se a grande dama admirada por todo mundo?

 - Você tem um salão de cabeleireiro em Bochum? - perguntou Paterna.

 Barbara olhou o comissário que colocara uma garrafa de champanhe e uma cuba de gelo sobre a mesa e depois, como num passe de mágica, fizera aparecer duas taças finas na forma clássica de tulipa.

 - Você já sabia?

 - Através de um recado da enfermeira Erna. Você foi pegar comprimidos.

 - Essa... essa é minha primeira viagem marítima - Barbara sorriu encabulada.

 - Ah! E eu que acreditava que você fosse uma viajante experimentada.

 - Oh, não! Economizei durante três anos para fazer essa viagem. O México, a América do Sul pela costa do oceano Pacífico, os mares do Sul com suas ilhas de contos de fada... sempre tive esse anseio. Eu pensava com meus botões, o dia em que você for dona de um salão, então trate de economizar e economizar até poder fazer uma viagem como essa. Há três anos eu pude assumir o controle de um salão de cabeleireiro que estava indo à falência. O banco me emprestou o dinheiro. E consegui fazer com que o negócio passasse a andar de um modo magnífico. Nesse momento eu emprego quatro cabeleireiros e três aprendizes.

 

 - Muito bem! Meus parabéns! - o Dr. Paterna quase sentiu vergonha por ter suposto que fosse uma dessas jovens que saem viajando pelo mundo inteiro atrás de aventuras amorosas, usando a designação profissional de dona de salão apenas como disfarce.

 Nesse meio tempo, o comissário tirara a rolha do champanhe. Encheu as taças com cuidado e disse dando uma olhada significativa para o Dr. Paterna:

 - Aproveite!

 Paterna ergueu a taça e brindou a Barbara.

 - A que devemos brindar, Sra. Steinberg?

 - Ao meu primeiro champanhe... De facto, ele é o meu primeiro...

 - Então está bem! - o médico acenou a ela. - à sua primeira taça de Taitting seco!

 Os dois bateram as taças e beberam. Barbara Steinberg sorveu o primeiro gole e, ao fazê-lo, encarou o Dr. Paterna por cima da beira da taça.

 Os olhos inquisidores do médico deixaram-na intranquila.

 - Essa viagem está me custando 28.290 marcos, fora os custos adicionais. E nem ao menos tenho uma cabina externa. Tenho uma interna, sem janela, só com ar-condicionado e ar puro. Mas ao menos uma vez eu queria entrar nesse navio!

 - Uma vez na vida. Alguma vez você já economizou cerca de 35 mil marcos?

 - Já...

 - Verdade?

 - Quero montar mais tarde uma clínica particular e para isso é preciso algum capital inicial. Sem uma certa segurança, nenhum banco dá sem mais nem menos crédito a um médico. - O Dr. Paterna levantou-se. - Quer dançar?

- Com todo prazer. Tenho uma verdadeira paixão pela dança. Mas raramente eu consigo. à noite, quando fecho meu salão, quase desmaio de cansaço. Muitas vezes eu adormeço diante da televisão. - Ela riu, acompanhou Paterna até à pista de dança redonda e disse jovial, enquanto ele passava o braço em sua cintura: - Vamos parar de falar sobre isso! Amanhã verei Acapulco, a praia dos milionários. Torna-se realidade um pedacinho do sonho e, a cada dia, um pedacinho mais... Como me arrependo do dinheiro gasto!

 Nessa noite, o Dr. Paterna desistiu de ir cedo para a cama... sozinho ou acompanhado. Mesmo quando outras solteiras entraram no bar, Paterna como reparou nos olhares das mulheres, por mais que quisessem atrasá-lo e, ao mesmo tempo, matar Barbara em pensamento... essa sirigaita loura, como ela era chamada em segredo.

 Herbert Fehringer aguentou até quase às cinco horas da manhã; depois, cansado e bem alcoolizado, subiu ao convés principal. O cartaz "Favor não incomodar" havia desaparecido da maçaneta, portanto a cabina encontrava-se desocupada. Ele entrou, foi recebido por uma nuvem de perfume adocicado e viu o irmão Hans dormindo bem aventurado na cama Pullman arriada.

 Herbert Fehringer aumentou para todo volume o ar-condicionado, tirou a roupa e, ao deitar-se, deu um pontapé na cama de cima. Hans acordou.

 - Seu bundão! - disse sonolento. - O que foi?

 - E você consegue dormir com esse fedor, hem?

 - Consigo. Deixe-me em paz.

 - Foi gostoso?

 

 - Amanhã lhe escreverei um relatório a esse respeito. Meu Deus, quer fazer o favor de me deixar dormir agora?

 Mas como conseguiu dormir tão rápido assim. Foi obrigado a pensar em Sylvia de Jongh. Sylvia retornara após ter rebocado o marido para a cabina e lhe ter despejado mais três vodcas goela abaixo. Já no primeiro beijo Hans abrira o fecho do decotado vestido de noite, sob o qual ela estava nua. Os dois caíram na cama beijando-se num abraço ofegante e assim começaram algumas horas que Hans Fehringer nunca antes tivera. Sylvia mordeu e arranhou-o em êxtase e Hans cobriu-lhe o corpo sedutor com manchas de beijos chupando-a com firmeza. E, por volta das quatro horas da manhã, antes de deixá-lo, Sylvia retornou cinco vezes da porta para beijar o corpo desnudo de Hans. Era como se ela precisasse arrancar-se dele; foi uma despedida frenética, desenfreada, arrebatadora. Que mulher!

 Hans Fehringer levantou um pouco a cabeça. Alguma coisa estava diferente; depois de algum tempo ele registou: as máquinas do Atlantis estavam caladas; de repente, o gigantesco navio branco apenas deslizava silenciosamente pelo mar. Os ponteiros luminosos do relógio digital montado na cómoda indicavam cinco e meia da manhã. Acapulco, pensou Fehringer. Estamos entrando no porto de Acapulco. Não verei Sylvia durante o dia inteiro, pois seu marido fez a reserva para um passeio de bote a Roqueta, uma pequena ilha situada fora da imensa baía. Ali ela tomara banho de mar e almoçara no elegante restaurante Palão. E Knut de Jongh tornara a encharcar-se de drinques, de tequila. Que vida! Mas que mais lhe poderia oferecer um Hans Fehringer? só amor? Nada mais além do amor.

O único capital que posso apresentar é o elegante guarda-roupa... as roupas profissionais minhas. Que vidinha de merda a nossa!

 Ele tornou a adormecer, despertando por alguns segundos ao ser arriada a âncora do Atlantis. Ah, Sylvia, pensou ele, que noite!

Herbert vai me achar um maluco completo, mas eu te amo. Eu te amo mesmo, com tudo a que tenho direito... que... que podemos fazer.

 Tornou a adormecer e dessa vez caiu num sono profundo.

Herbert saiu da número 213 e desceu o corredor em direcção ao restaurante, ao bufé do desjejum.

 Esse dia lhe pertencia, pertencia a Herbert Fehringer e ele queria gozá-lo da maneira mais completa.

 Jim, o mecânico, colocara o relógio para as quatro da manhã, a fim de poder sair da suíte 004, a Goethe, de Anne White, antes da chegada a Acapulco.

 Despertou quando o relógio começou a soar, bocejou com força, coçou o peito peludo, desligou o despertador e lançou um olhar para o lado.

 Anne White ainda dormia profundamente sem perturbar-se com o barulho do despertador, a coberta puxada até quase ao pescoço. Jim saiu da cama em silêncio, apalpou o abajur acendendo-o na luz do alvorecer, foi até suas roupas e vestiu-se apressado sentindo uma sede mortal. Antes de sair da cabina, tornou a lançar um olhar para Anne White.

 

 Do jeito que estava deitada, ela se parece com uma moça, pensou ele. Não tem ruga nenhuma no rosto, os cílios são longos e curvos, a boca não apresentava a traiçoeira pele puxada para o lado. Claro que isso vem das muitas plásticas; um bom cirurgião plástico é capaz de, num passe de mágica, dar a um rosto velho o semblante de uma rainha da beleza. Tudo não passa de uma questão de dinheiro e paciência. E quando se pensa nalgumas horas atrás... ela é realmente uma mulher magnífica.

 Ele voltou à cama, para dar-lhe um beijo de despedida nos olhos.

 Inclinou-se com todo cuidado sobre ela e, sem querer, ficou aterrorizado.

 Alguma coisa na expressão de Anne White não o agradou; Jim não saberia dizer o que o incomodara. Nesse momento, o rosto ostentava uma acentuada palidez, como se não estivesse sendo bombeado de sangue. Anne também parecia não estar respirando; ou sua respiração estava tão fraca que não se via movimento algum.

 Jim puxou a coberta um pouco para baixo, tocou o braço de Anne White com a ponta dos dedos, depois rogou seu rosto. A frieza e rigidez sob seus dedos fizeram-no estremecer.

Horrorizado, deu dois passos para traz com movimentos tão rápidos como se estivesse fugindo de Anne e, em seguida, foi possuído por uma paralisia. "Não pode ser", pensou ele sentindo o coração começar a martelar. "É claro que isso não é possível!" Ela aninhou-se em mim, deu-me um beijo no peito e disse: "Agora vamos dormir como dois príncipes. Oh, querido, que homem você é!"

 E depois ela adormeceu bem rápido. Por que agora esta água fria? Que aconteceu? Será que a noite foi demais para ela? Será que mais tarde seu coração falhou, simplesmente parou de bater? Será que a matei com minha força?

 Ele tornou a cobri-la, apagou a lâmpada e caminhou quase cambaleando até à porta. Demorou a encontrar a maçaneta por causa da agitação e penumbra e depois saiu. No corredor, precisou primeiro recostar-se na parede, bombeou-se de ar fresco, sentiu brisas de vento e então, com pernas inseguras, correu até a escada de emergência que somente a tripulação tinha permissão para usar. só quando chegou ao convés B e viu seu rosto espantado no espelho da cabina, foi que teve clareza que ninguém aceitaria sua história. Para os outros, ele teria matado Anne White.

 O comissário de cabina Josef deu o alarme às onze horas. Posto que Anne White não pedira o desjejum como de costume, ele batera na porta 004, depois entrara admirando-se de a porta estar aberta e encontrara a vizinha milionária morta em cima da cama.

 Gerhard Riemke, o director de hotel, primeira pessoa a ser informada, apareceu na suíte Goethe indo pelo caminho mais rápido. Bastou-lhe uma rápida olhada... telefonou de imediato para o hospital e mandou chamar o Dr. Paterna, médico de bordo, no consultório.

 - Mas isso não é possível!- o Dr. Paterna, que nesse momento preparava-se para desembarcar, gritou ao telefone. Ele vestira roupas à paisana, um terno de seda crua sobre uma camisa de listras amarelas aberta no peito. Estava com a aparência exacta do homem que se imagina que as mulheres corram atrás. - Anne White morta? Ataque do coração?

 - Bem, isso quem deve verificar é o senhor, doutor. Vem cá imediatamente. Mandei avisar o comandante também. Em todo o caso, ela está deitada como se estivesse dormindo.

 

 Paterna, com a maleta de médico na mão, chegou à porta da suíte 004 quase ao mesmo tempo que o comandante Teyendorf. O primeiro-oficial Willi Kempen apareceu logo depois.

 - Era só o que nos faltava! - disse Teyendorf. - Primeiro o teatro com os elefantes, agora essa pessoa proeminente morta na cama. Vai ser uma falação danada quando o caixão for retirado de bordo... isso sem falar da papelada. Alguém sabe onde ela pode ser enterrada? O melhor é deixar que o consulado americano de Acapulco se ocupe disso. Claro que ela deve ter deixado um testamento com seu advogado...

 Estranhamente, o Dr. Paterna contemplou a morta durante um longo tempo, sem tocá-la. O director de hotel Riemke tragava nervoso seu cigarro; fumar ali já não incomodava mais ninguém.

 - há alguma coisa? - perguntou Teyendorf preocupado. - Ela está deitada como se estivesse dormindo. O coração simplesmente parou de bater... não é de se admirar, com essa idade e a vida que levava!

 - Peça a Deus para que seja verdade.

 - Que significa isso, doutor?

 - Quer estar presente quando do exame, senhor comandante?

 - Foi para isso que eu vim aqui. O delegado de saúde mexicano já foi informado por causa do atestado de súbito oficial.

 O Dr. Paterna retirou a coberta. Anne White estava deitada nua. Suas mãos fechavam-se em punho e pressionavam o tórax. Tudo tinha a aparência de ela ter sido surpreendida por um infracto durante o sono e, ao sofrer a morte instantânea, ter pressionado os punhos contra o peito num movimento de reflexo inconsciente.

 O Dr. Paterna curvou-se sobre ela, levantou as pálpebras sobre os olhos embaçados e depois apalpou o rosto petrificado. Em seguida, endireitou-se soltando um longo suspiro.

 - Não dá para lhe poupar, senhor comandante - disse ele com voz estudada. - Chame a polícia e o médico-legal.

 - O que... o que significa isso? - balbuciou Riemke espantado. Teyendorf e Kempen também não compreenderam de imediato. Somente Josef, o comissário, compreendeu.

 - Mas que grande merda! - disse ele em voz alta. - Agora nunca mais vamos sair daqui.

 O comandante Teyendorf encarou o Dr. Paterna com um ar desconcertado.

 - Assassinato...? - disse ele depois de algum tempo. Ninguém se havia atrevido a pronunciar a palavra antes dele. - Doutor, diga que pode estar enganado...

 - Bem, qualquer ser humano pode se enganar. Mas dê uma olhada no rosto de Anne. Lábios azulados. Claras marcas de pressão em ambos os lados do nariz. Os punhos pressionando o peito na premência de respirar... Ela precisa ser autopsiada. Em todo o caso, como posso diagnosticar paragem cardíaca. Ela sufocou... foi sufocada.

 - Neste caso... neste caso temos um assassino a bordo? - perguntou Willi Kempen em voz baixa.

 - Pelo amor de Deus! Isso não deve chegar ao conhecimento público de maneira nenhuma! - Teyendorf encarou a morta como se a tivesse surpreendido no momento em que queria afundar seu navio. - Sabe o que significa isso, doutor? Vamos ficar presos aqui até a polícia mexicana ter interrogado todos os passageiros. Consegue imaginar isso? Seiscentos passageiros e trezentos membros da tripulação! Vamos ficar acorrentados o tempo que os mexicanos quiserem. Toda a viagem foi por água abaixo!

 - Mas há um assassino a bordo! - o Dr. Paterna sentou-se na beira da cama ao lado da morta. - E o assassino dormiu com ela; afinal de contas, a segunda cama foi utilizada. A polícia verá isso de caras e partirá em busca de pistas. O criminoso deixou alguma coisa por aí, os próprios cabelos, manchas de esperma...

 - Pare com isso, doutor! - Teyendorf enxugou o suor do rosto. - Chamarei a companhia de navegação pelo rádio e perguntarei que medidas tomar. Está fora de cogitação a viagem terminar em acapulco! Isso custaria milhões. .

 - O que propõe, senhor comandante? - perguntou o Dr. Paterna com toda a calma:

 - Será o delegado de saúde e não a polícia que virá a bordo. Ele constatará a morte da Sra. White e, se não notar coisa alguma, Nós passaremos o cadáver às autoridades mexicanas e informaremos o consulado americano. Afinal você só tem suspeitas...

 - E o assassino fica livre, andando por aí?!

 - Ninguém sairá do navio em acapulco. Se tivermos um assassino a bordo, ele permanecerá no navio. A próxima troca de passageiros só ocorrerá em Valparaíso. Dentro de dezasseis dias! Portanto, temos dezasseis dias de prazo para encontrar o sujeito a bordo: Caso seu diagnóstico esteja certo, doutor; pois está faltando uma coisa: o motivo!

 - Nós ainda vamos descobrir. - Paterna ostentou um sorriso fraco.

- Temos um especialista no navio. Um detective.

- Como pode ser! - o director de hotel Riemke sacudiu a cabeça. - Não há ninguém na lista de passageiros com essa profissão.

 - Claro que não. Ele está a serviço.

 - Pelo amor de Deus! - Kempen, o primeiro-oficial, ergueu os braços. - Quer dizer então que aconteceu mais alguma coisa a bordo?

 - E por que não fiquei sabendo disso? - a voz de Teyendorf soou furiosa. - Doutor, você sabe bem que como médico de bordo está subordinado a mim. E está escondendo um tremendo segredo.

 - Mas como médico que sou também tenho o dever do silêncio. O sujeito veio a mim na qualidade de paciente.

 - Mas que grande merda é isso tudo! - Teyendorf desviou o olhar na direcção do comissário Kraxler que, sem o menor sentido, esfregava a escrivaninha com um pano de pó. - Josef, vá chamar o padre...

 - Quem, senhor comandante?

 - O assistente espiritual católico de bordo, cara! O padre Brause!

 - Na cabina 410 - disse o director de hotel Riemke. - Ele deve trazer tudo que seja necessário para os últimos sacramentos.

 

 - Meus senhores, suponho que, num caso assim, o detective que até agora manteve-se desconhecido, saia de seu anonimato e nos ajude a descobrir o assassino a bordo. Dezasseis dias é um longo tempo e ninguém poderá sair do navio. Devemos conseguir até Valparaíso... - o Dr. Paterna foi até a cama e tornou a cobrir a morta, Anne White. Puxou a coberta também por cima da cabeça do cadáver. - Senhor comandante, estamos numa situação maldita.

 - Quer dizer que vai ficar calado, doutor?

 - Vou... Caso o delegado de saúde mexicano não note coisa alguma.

 - Obrigado. Com isso, assim salva as fúrias dos passageiros, os milhões da companhia de navegação e os meus nervos. - Teyendorf respirou fundo. - Creiam-me - disse com voz estudada - que eu próprio condeno a decisão que estou tomando. Nunca antes estive metido numa situação assim. E se fosse de facto um infracto cardíaco?

 - Uma autópsia da medicina legal poderia prová-lo com toda a exactidão.

 - Doutor, passe o cadáver para a delegacia de saúde mexicana e, com isso, estava liberado do resto. Tudo ficara por conta das autoridades mexicanas...

 - Vou esforçar-me para ver a coisa dessa maneira, senhor comandante.

 - Mas sobretudo preste atenção: silêncio total sobre este caso! - ao dizê-lo, Teyendorf olhou para o comissário Kraxler. - Você também, Josef... você é conhecido por ter a língua comprida.

 - Eu não vi nem ouvi nada, senhor comandante! - gritou Kraxler ficando em posição de sentido. Seu corpo redondo como um globo, me tido em calças pretas e paletó branco, tremia. - Eu só digo: encontrei a mulher. Afinal, como posso negar...

 - Pode acender uma vela a Deus se vazar alguma coisa.

 - Sim, senhor comandante!

 Uma hora depois - um verdadeiro recorde - o delegado de saúde apareceu no NM Atlantis. O Dr. Paterna e o primeiro-oficial Kempen levaram-no à suíte 004. Teyendorf estava postado na ponte, nervoso e impaciente, olhando a Acapulco que reluzia ao sol e a barra com o balneário mais lindo do mundo. Os especialistas colocam-no acima da famosa Copacabana de Rio de Janeiro.

 O médico da delegacia de saúde mexicana trabalhou de modo rápido e rotineiro. Deu uma olhada na Sra. White, colocou o estetoscópio em seu coração, não ouviu coisa alguma e levantou-lhe as pálpebras.

 - Qual a idade dela, senhor colega?

 - Setenta e sete... - o Dr. Paterna continuou bem calmo. - O que o senhor diagnostica?

 - Paragem cardíaca. Infracto. Claro... - o médico tornou a cobrir a morta. - Onde posso lavrar o atestado de súbito?

 - Ali na escrivaninha.

 - Devemos notificar o consulado americano. - O médico da delegacia de saúde de Acapulco pegou um formulário em sua pasta e preencheu-o. Depois deu sua assinatura enfática embaixo. - Sempre que um estrangeiro morre, ocorre uma tremenda maratona

burocrática. O papel de um lado para o outro. As pessoas deviam fazer força para só morrerem no próprio lar...

 Apenas alguns passageiros notaram a saída de um caixão do Atlantis.

 

 A maioria partira para passeios em terra, os outros encontravam-se no restaurante. Jim, o mecânico, fazia parte daqueles que viram o caixão e soube com exactidão quem estava sendo transportado. Os passageiros que perguntaram aos oficiais ou ao director de hotel Riemke foram informados de que um trabalhador mexicano tivera morte repentina por infracto na região do porto e que, a pedido das autoridades portuárias, eles haviam colocado o caixão à disposição.

 O comandante Teyendorf respirou aliviado ao ver a partida do carro com o caixão, sem que o tivessem chamado. Portanto, tudo dera certo. Enquanto isso, Willi Kempen, o primeiro-oficial, conduzia o médico mexicano pelo navio e o convidava para comer na cantina dos oficiais. Permaneceram na suíte 004 apenas o Dr. Paterna e o padre Brause, o assistente espiritual de bordo. Ele dera a última bênção à Sra. White, antes de ser colocada no caixão.

 - Não vai comer, doutor? - perguntou o padre Brause.

 - Não. Não conseguiria engolir coisa alguma.

 - Puxa, um médico? Os mortos sempre lhe afectam tanto assim o estado de espírito?

 - Essa morta... sim. - O Dr. Paterna inclinou-se para a frente. Os dois estavam sentados frente a frente nas fundas poltronas do salão da suíte. - Eu lhe pedi para ficar aqui, padre, pois gostaria de me confessar.

 - Confessar? - o padre Brause levantou as sobrancelhas. - O senhor?

 - Olha, mesmo não parecendo, eu sou um bom cristão.

 - E está mesmo querendo confessar-se? Aqui? Doutor, o tempo é limitado num lugar desses.

 - Trata-se apenas de uma aflição da qual quero livrar-me. Estamos sozinhos aqui nesse momento, ninguém nos incomodará. Posso falar?

 - Mas é claro, doutor. - O padre Brause assumiu um ar bem sério.

De repente, entendeu que o Dr. Paterna estava sofrendo com um problema evidentemente grave.

 - Eu... - a voz de Paterna baixou ao nível quase de um sussurro. - ... bem, para salvar o navio e a viagem, eu encobri um assassinato.

 - Oh, meu Deus! - o padre Brause cruzou as mãos. - Doutor, diga ao Senhor tudo que lhe está afligindo...

 

Enquanto as pessoas que haviam permanecido a bordo ainda encontravam-se na mesa do almoço e os oficiais enchiam de uísque o médico da delegacia de saúde mexicana - o comandante Teyendorf permitiu excepcionalmente o álcool nesse dia - o "cego" Ewald Dabrowski estava na suíte Goethe contemplando a cama desarrumada. O Dr. Paterna e o padre Brause estavam atrás dele.

 - As coisas que a gente vê por aí - disse o padre quando Dabrowski começou seu trabalho. - Primeiro uma morte secreta e agora até os cegos enxergam. há mais alguma surpresa a bordo?

 - Ha. Um ladrão de jóias internacional, cuja pista estou seguindo - respondeu Dabrowski. - Ele está aqui, só que ainda não conheço sua máscara.

 - há alguma possibilidade de ele ter participado do assassinato? - o Dr. Paterna ficou intranquilo. - Anne White tinha tantas jóias como nunca antes vi em parte alguma. Isso seria um motivo.

 - A maneira de Carducci operar não é sair matando a fim de poder pôr as mãos nas jóias. Além do que, claro que elas estão no cofre. E as jóias que a Sra. White usou durante o dia ainda estão ali em cima da cómoda.

 

 Tem uns belos exemplares no meio. Nenhum ladrão de jóias iria esquecer esse tipo de coisa.

 Paterna telefonou para a comissária. Dali Informaram-no que Anne White não havia alugado nenhum cofre. As jóias e o dinheiro deviam estar ali na suíte.

 - Na mesinha-de-cabeceira, na gaveta fechada à chave - disse Riemke ao telefone. - Quer que eu vá até aí?

 Paterna transmitiu a pergunta a Dabrowski. Este sacudiu a cabeça.

 - Não será necessário, Gerhard - o médico respondeu.

- Além disso, o padre Brause está aqui como testemunha...

 Após rápida revista, eles encontraram a chave da gaveta na bolsa de noite adornada com fios de ouro da Sra. White e abriram a divisão da mesinha-de-cabeceira. O que viram, deixou-os mudos por alguns instantes. O próprio Dabrowski precisou de alguns segundos antes de dizer:

 - Incrível. E isso aí ela simplesmente trancava na gaveta! Deve haver aí uns bons dois milhões. - Ele retirou um colar de brilhantes, levou-o contra a luz e observou-o através de uma lupa que levara consigo. - Como se trata de uma imitação... é tão verdadeiro quanto a sede que estou sentindo! - Dabrowski fechou a gaveta, foi até o armário-bar,

pegou uma garrafinha de vodca e uma de soda limonada, misturou as duas bebidas e esvaziou o copo num gole só. - Ah, como isso faz bem!

 - Portanto, está descartada a hipótese de assassinato por roubo - disse o padre Brause de modo insípido. - Agora a coisa fica difícil.

 - O sujeito que esteve com Anne por último pode tê-la sufocado numa vertigem sexual. - O Dr. Paterna também dirigiu-se ao armário-bar e serviu-se de um conhaque. O Padre Brause declinou quando Paterna ergueu uma garrafinha. - não há dúvida nenhuma de que um homem passou a noite com ela. A segunda cama desarrumada...

 - Vamos descobrir isso logo. - Dabrowski ajoelhou-se

diante da segunda cama e revistou o lençol centímetro por centímetro com a lupa. Sacudiu a cabeça um par de vezes, depois deu a volta na cama e com a mesma exactidão examinou a cama onde Anne White estivera deitada. Ali, ele também deu várias sacudidelas de cabeça. O Dr. Paterna teve alguns tremores espasmódicos.

 - Ewald, esse seu balançar de cabeça mudo ainda vai acabar me matando! - disse Paterna com voz roufenha. - Trate de ir falando logo! Você tem alguma pista?

 - O homem que esteve com Anne White tem cabelos pretos.

 - Bem, já é alguma coisa. - O padre Brause pegou o copo de conhaque do Dr. Paterna e então tomou um gole. - Mas dê só uma contadela nas pessoas que têm cabelos pretos a bordo! Quem dentre elas deixou-se pescar pela Sra. White? Eu quase seria capaz de afirmar: nenhum dos passageiros. Fiquei sabendo por intermédio dos oficiais que Anne White comprava seus amantes entre os membros da tripulação... a cada ano alguns dólares a mais para o equilíbrio do orçamento.

 

 - Mas padre! Uma coisa dessas dita por uma boca sagrada?! - Dabrowski abriu um sorriso largo. Em seguida, tornou a ficar sério com a mesma rapidez. - Mas o pensamento está certo, padre Brause. Também sou de opinião que neste caso o amante secreto de Anne de maneira nenhuma seria um dos passageiros. aí a rede já fica um pouco mais apertada! Quem da tripulação tem cabelos e barba negros?

 - Barba, como assim? - perguntou o Dr. Paterna desconcertado.

 - Tem dois tipos diferentes de cabelos nas duas camas. Uns mais longos da cabeça, outros curtos de uma barba. Além disso... perdoe-me, padre, alguns pequenos pentelhos encrespados... Sabe, esse tipo de coisa as pessoas sempre perdem no ímpeto do amor! Muitos crimes sexuais já foram comprovados através disso!

 - Quer dizer então que se trata de assassinato por vertigem sexual?! - gritou o Dr. Paterna. - Como eu estava supondo!

 - Não seja tão apressado, doutor. - Dabrowski deu uma olhada pela suíte. - Onde está o monte de dinheiro?

 - Que dinheiro?

 - O Sr. Riemke acabou de dizer que Anne White não tinha coisa alguma no cofre; portanto, nem seu dinheiro vivo. Por conseguinte, ele deve estar aqui na cabina. E na verdade não deve ser pouca coisa. Já que ela comprava seus amantes...

 - Qual era o montante do cache pago ultimamente? - perguntou ninguém mais que o padre Brause.

 O Dr. Paterna arreganhou um sorriso largo.

 - Essa Igreja moderna! Bem, no ano passado eram quinhentos dólares.

 - Por... por uma vez? - perguntou Dabrowski quase horrorizado.

 - É.

 - E ela estava querendo permanecer a bordo até...

 - Até voltar a São Francisco. Portanto, América do Sul, os mares do Sul, Nova Zelândia, Austrália, Nova Guiné, Filipinas, China, Japão, Havai... no caso dela o dinheiro não queria dizer coisa alguma.

 - Neste caso, ela devia guardar aqui uma fortuna em dólares.

- Dabrowski ficou um pouco mais intranquilo. - Precisamos achá-la.

 Os três fizeram uma revista na suíte inteira, empurraram as camas para o lado, levantaram os colchões... a coisa não durou muito tempo, pois a suíte de um navio é um ambiente desimpedido e quase não oferece possibilidades de esconderijo.

 - Nada! - disse o padre Brause. Sua voz tornara-se mais sombria. - Aí temos o motivo.

 - É isso aí - Dabrowski retirou as gavetas da mesinha-de-cabeceira e virou-as de ponta-cabeça. Caíram duas notas de cem dólares no tapete.

- Elas estavam bem embaixo. O assassino não deu por elas ao recolher o dinheiro na gaveta. Uma gaveta não trancada à chave... Não dá para acreditar que seja possível!

 - Mas típico da Sra. White. - O Dr. Paterna levantou as notas.

- Anne dava preferência a três navios, os quais via como uma espécie de lar, como sua segunda casa. o NM Atlantis estava entre eles. Aqui ela se sentia segura; portanto, por que fechar as gavetas? só por causa do dinheiro? Ela achava isso simplesmente ridículo.

 - Monstruoso! - Dabrowski sentou-se na beira da cama da Sra. White. - Ter tanto dinheiro assim... ora bolas, bastam dez por cento!

 - E depois ser assassinada! - o padre Brause sacudiu a cabeça. - Não era à toa que Cristo pregava a modéstia.

 

 - E que aconteceu a ele? Também foi assassinado! - Dabrowski levantou-se e foi ao telefone. - Vou chamar o comandante agora. Quero ver todos os membros da tripulação que tenham barba preta.

 Teyendorf ficou como que petrificado quando Dabrowski comunicou-lhe o resultado de suas investigações.

 - Você é o detective? - perguntou ele. - Qual seu nome?

 - Ewald Dabrowski, senhor comandante. Cabina 136.

 - Pelo amor de Deus! é a cabina do cego! - sussurrou o director de hotel Riemke, que se encontrava ao lado de Teyendorf ouvindo a conversa.

Teyendorf encarou-o como se ele acabasse de dizer: senhor comandante, estamos naufragando!

 - Irei imediatamente à suíte 004! - Teyendorf acenou para Riemke.

- Você também. Faz vinte e seis anos que navego pelos mares e nunca antes vivenciei uma coisa assim. E, creia-me, já vi muita coisa por aí. Um detective cego... que Loucura!

 Mais tarde então, Ewald Dabrowski esclareceu na suíte Goethe o segredo de sua cegueira. O comandante Teyendorf ostentou uma expressão visivelmente insultada e ficou mudo.

 - Um ladrão de jóias internacional a bordo e o comandante não fica sabendo de nada! Investiga-se por conta própria. Como num filme de Hollywood de segunda classe! Se a Sra. White não fosse assassinada, eu tão-pouco ficaria sabendo que você não é cego, mas sim, pelo contrário, tem uma visão bem aguçada.

 - É isso aí, senhor comandante.

 - Acho isso inaudito.

 - Eu não queria sobrecarregá-lo com esse problema.

 - Sobrecarregar! Este navio é meu, eu sou responsável por tudo... e não apenas por navegar na rota certa. Um navio tão grande como este é uma pequena cidade flutuante e, quando ela está no mar, eu sou o legislativo e o executivo numa só pessoa! Se houver criminosos a bordo...

 - Bem, a princípio trata-se apenas de uma suposição, senhor comandante. - Dabrowski estava longe de ver a ira de. Teyendorf e rogou um insulto. - Espero que ele esteja a bordo.

 - Você espera? Eu gostaria de ter esse seu estado de espírito!

- Parece-me bem pior que um assassino esteja deambulando nessa sua pequena cidade. De cabelos e barba pretos.

 - A tripulação se apresentará numa hora. Isso se já não estiverem de folga em terra. Mas isso não será um obstáculo; os outros sabem quem está em terra e quem usa barba. - Teyendorf bateu nos bolsos, mas não encontrou o que procurava. Riemke ajudou-o estendendo-lhe a cigarreira.

- E como você pensa descobrir o criminoso... Caso haja dois, três ou mesmo cinco homens de barba preta?

 

 - Com um blefe. Direi que o Dr. Paterna está examinando os cabelos no laboratório do hospital; em seguida, tirarei de cada um fios de barba e cabelo para prova. O Dr. Paterna se ocupará da falsa análise de cabelo. Caso alguém se oponha à realização do teste, ele já será o suspeito. Claro que vocês não têm a menor possibilidade de analisar realmente as provas de cabelo no laboratório e nem de compará-las com os cabelos encontrados na cama de um modo que possa servir de índice... mas quem sabe disso? Confio que a média das pessoas julgue um laboratório médico capaz de tudo. O assassino, intranquilizado pelo anúncio desses exames, cometerá algum erro que o trairá. Um ser humano pode ser um assassino frio, mas o medo está à espreita em seu íntimo mais profundo. Além disso, ele precisa esconder uma fortuna em notas de dólar e estar sempre controlando esse esconderijo por pura preocupação de que alguém possa roubar seu tesouro. Tudo isso lhe corroerá os nervos.

 - Supondo que se trate dum membro da tripulação. Essa é a sua teoria, Sr. Dabrowski... aliás, uma teoria bem vaga! - Teyendorf fumava apressado. - E se for um passageiro?

 - Olha, não consigo imaginar que um passageiro que possa dar-se ao luxo de fazer uma viagem como essa, vá para a cama com uma Sra. White.

 - Por no mínimo quinhentos dólares por noite e com uma soma incalculável na escrivaninha? - o director de hotel Riemke encolheu os ombros. - só podemos conhecer uma pessoa pelo rosto. Pense em seu ladrão de jóias. E como devemos reconhecê-lo?

 - Ah, existe uma série de tipos a bordo que poderia ser ele. Carducci, seja lá a máscara que estiver usando, é um homem muito elegante. Um cavalheiro! O tipo das mulheres. E, nesta viagem, temos a bordo uma grande quantidade de homens que se encaixam nessa descrição. - Dabrowski sacudiu a cabeça. - Senhor comandante, vamos tratar de investigar a tripulação primeiro. Se eu estiver enganado, pode me chamar de cabeça-de-bagre em público.

 - Com todo prazer! - Teyendorf ostentou um sorriso enviesado. Um assassino entre sua tripulação, pensou enquanto sorria. Conheço cada um dos rapazes. Parte deles já viaja comigo pelos mares há vários anos. Contudo, claro que pode haver um entre eles, cuja cabeça fique virada ao ver uma pilha de notas de dólar. - Farei com que a tripulação se apresente agora mesmo. Na cabina dos homens. Mandarei que cada um deles passe marchando à sua frente, Sr. Dabrowski. só que uma coisa deve ficar clara: para você: terminou sua brincadeira de cego para a tripulação! E como posso afirmar com segurança que esse seu "disfarce", chamemo-lo assim, não seja espalhado a bordo. Então, o seu ladrão de jóias vai mijar-se de tanto rir.

 - Esse é meu ponto vulnerável. Tem razão, senhor comandante. Por isso mesmo, proponho que oficialmente a investigação seja levada a cabo pelo Sr. Kempen, pelo Dr. Paterna e pelo Sr. Riemke... e pelo senhor também, comandante, claro... na qualidade de executivo. - Dabrowski arreganhou um sorriso largo, coisa que Teyendorf encarou como um tanto insolente e arrogante. - Ficarei em segundo plano examinando cada homem. Afinal, vocês têm uma câmara portátil no estúdio de tevê; os rapazes devem passar diante dela e, enquanto isso, estarei vendo-os na tela do quarto contíguo. Uma câmara é algo incorruptível, ela vê mais coisas do que nossos olhos preguiçosos. só preciso de que haja uma tomada em close da cabeça de cada um. Então, o menor tremor ou vibração será visível.

 - Vivendo e aprendendo. - Teyendorf esmagou o cigarro num pires, pois não encontrara nenhum cinzeiro. - Eu jamais acreditaria que um dia iria fazer parte de um filme policial...

 - De um assassinato de verdade!

 

 Dabrowski passou os minutos seguintes recolhendo com uma pinça os cabelos nos lençóis e colchas das camas e depositando-os numa taça de vidro redonda com tampa, que o Dr. Paterna mandara pegar com a enfermeira Erna no hospital. Teyendorf e Riemke encararam-no mudos. Quando Dabrowski terminou a busca e levantou-se, Riemke torceu os lábios de leve para fazer a pergunta sarcástica:

 - E isso é tudo? Esses cabelinhos aí? É com eles que você vai querer pegar um assassino?

 - Esses cabelinhos valem ouro. Por acaso você sabia que se descobrem criminosos através de manchas de cuspe e de esperma deixadas para trás? Em compensação, a comparação de cabelos é uma coisa bem simples. Nos laboratórios da delegacia de homicídios...

 - Sr. Dabrowski, Nós nos encontramos num navio! - Teyendorf interrompeu-o.

 - É por isso mesmo que seremos obrigados a blefar! Estamos lidando com um caso em que não foi nenhum profissional que operou, mas sim um homem que de repente ficou de cabeça virada ao ver a pilha de dinheiro. E um amador assim pensa logo no pior ao ouvir a palavra "laboratório".

- Dabrowski equilibrou na palma da mão a tacinha de vidro contendo os cabelos. - Vamos nos desejar muita sorte para os próximos dias, meus senhores!

 

O Dr. Peter Schwarme estava sentado no balcão do bar Atlantis tomando um daiquiri. Não porque essa bebida feita de rum, suco de limão e açúcar e servida sobre gelo picado, tivesse sido consumida literalmente por Hemingway, mas sim por de repente estar defrontado com um problema com o qual jamais contara.

 Sua mulher, a sempre elegante e distante, fora à terra e ele observara da amurada quando o bem-apessoado François de Angeli não apenas entrara no mesmo autocarro que ela, mas também pousara o braço em seu ombro de uma maneira confiada. Em geral, ela não suportaria esse tipo de coisa; mas a mulher reagira com um sorriso irradiante, depois inclinou a cabeça na direcção do francos e encarou-o com uma expressão de felicidade. Não que o Dr. Schwarme fosse ciumento! Não existia razão para isso, posto que ele era bem íntimo de sua segunda secretária, tendo apenas contactos conjugais muito esporádicos com sua mulher. O que mais o incomodou foi o facto de ela flertar em público e ostentar uma jovialidade artificial.

 Tenha mais respeito, Erna!, pensou ele mexendo no daiquiri, coisa que Hemingway teria punido com uma bofetada. Não sou eu apenas que estou vendo, os outros também estão. E devem estar pensando: agora essa aí vai botar uns chifres no Schwarme, enquanto o babaquara fica a bordo jogando shovelboard. E justamente com esse sujeitinho pilantra, que já na primeira noite deixou dois maridos encolerizados com seu comportamento descarado.

 Depois o autocarro partiu. Schwarme viu através do imenso vidro que sua mulher e de Angeli estavam sentados lado a lado rindo. De facto, Erna estava com uma jovial aparência de moça; era quase inconcebível que dentro de três meses ela fosse comemorar seu quinquagésimo aniversário.

 

 - Mais um! - o Dr. Schwarme disse ao comissário de bar e deu uma olhada no ambiente quase vazio. Arturo Tatarani, o dono da vinícola, estava sentado sozinho numa das mesas redondas bebendo um negroni - uma infernal mistura de bebidas, feita de campari, vodca, vermute doce, soda e cubos de gelo. Um verdadeiro consolo para os solitários.

 O Dr. Schwarme pegou o outro copo de daiquiri e foi equilibrando-o na direcção do signore Tatarani.

 - Posso fazer-lhe companhia? - perguntou ele. - Nós, "dois abandonados"..

 - Por que não foi à terra, doutor? - Tatarani não pareceu ter ficado contente com a presença do Dr. Schwarme. - Acapulco fantástico! Um pouco fora da barra, sobre um rochedo, está situada a gigantesca manção de Johnny Weissmiller, o famoso nadador e Tarzam. Quando eu era jovem, assistia seus filmes de Tarzam com o rosto corado de entusiasmo. Quando ele dava aquele grito selvagem... inesquecível, não é verdade? Agora ele está morto. No final, apesar de sua fama ele era uma pessoa solitária.

 - No fundo, todos Nós somos. - O Dr. Schwarme fez um gesto de negação com um ar tristonho. Erna levou seu biquini, pensou. Nunca gostei dessa coisa minúscula nela, embora Erna ainda tenha um bom corpo. Mas provocante demais para a Sra. Schwarme! Agora ela vai usar aquele pedacinho de pano na frente do maldito de Angeli e ele vai elogiá-la e ficará ciscando em volta dela como um galo. - Você conhece muito

o mundo, não é verdade?

 - Quase tudo. Mas existem regiões que a gente sempre quer rever. Bora Bora, por exemplo, ou Ladainha em Maui, uma das ilhas havaianas. Fiji também é magnífica e Samoa mais ainda. - Tatarani examinou o Dr. Schwarme com olhos compadecidos. - Você também devia ir à terra agora, doutore. em acapulco, nos morros circunvizinhos existem moças nativas de beleza inacreditável. Por um par de dólares você conhecerá o fogo mexicano...

 - E como despedida a gente pega uma gonorreia bem picante, ou então uma sífilis tropical incurável.

 Tatarani riu; contudo, dava para se ver que ele queria livrar-se do Dr. Schwarme. Mas como este continuou sentado, Tatarani levantou-se, esvaziou o copo de negroni de pé e acenou para o Dr. Schwarme.

 - Preciso escrever algumas cartas antes que venham recolher o correio de bordo. Queira desculpar-me, doutore.

 - Mas é claro!

 

 O Dr. Schwarme lançou um olhar mal-humorado para seu daiquiri. No fundo ele tem razão, pensou. Erna está se divertindo com aquele sujeito, enquanto eu fico sentado aqui, sem saber o que fazer. Eu devia mesmo ter tomado parte do passeio, mas aí Erna teria me irritado de novo com esse seu jeito de querer ficar em primeiro plano. Ela quer ser admirada sempre e em todo o lugar... e especialmente agora que essa esplêndida mulher, Sylvia de Jongh, está participando do passeio. As viagens marítimas feitas até aqui sempre transcorreram da mesma maneira; ele podia dizer com exactidão o que ocorreria em seguida; Erna divertia-se como cabia a uma mulher na metade da casa dos quarenta, como ela fazia questão de parecer, ficava de olhos arregalados e ridícula depois de alguns copinhos e, no final, se alegrava em poder ir para a cama e besuntar seu rosto com aquele fedorento creme nutritivo esverdeado. Grande parte da culpa por sua vida conjugal tornar-se cada vez mais insípida cabia a esse creme verde. O galante de Angeli também se desapontaria quando, bem de repente, Erna ficasse sonolenta na volta do passeio. Esse pensamento deixou o Dr. Schwarme reconciliado com a vida. E então ele pensou na proposta de Tatarani.

 Moças nativas. Nos morros de Acapulco. Fogo mexicano no corpo! Esse tipo de coisa deixa qualquer um excitado. Com cinquenta e dois anos de idade, ainda se pode fazer coisas sem cair no ridículo. Vamos tentar, Peter?

 O Dr. Schwarme tomou mais coragem enchendo o tanque com um pacman - vodca com conhaque de damasco, suco de limão e soda limonada com gelo - e então, ao pensar nas moças dos morros de Acapulco, sentiu um formigamento nas veias. Qualquer motorista de taxi saberia aonde levá-lo, quando ele dissesse com um piscar de olhos: "Para as cabanas, senhor."

 

  O Dr. Schwarme saiu do bar, foi até o tombadilho e depois, atravessando uma das portas de vidro, chegou à sua cabina 018, uma das mais caras do NM Atlantis. Nela, tinha-se como paisagem o tombadilho, a amurada e o mar. Podia-se ver muitas coisas, sem ser visto.

 O Dr. Schwarme abriu a porta da cabina, foi até o armário e procurou uma camisa alegre e colorida que pudesse ser usada por fora das calças. Ao fazê-lo, seu olhar pousou na mesinha-de-cabeceira de Erna. A gaveta estava entreaberta... Coisa que não era costume de Erna! Sobretudo quando ela havia guardado ali as jóias usadas na noite anterior.

 O Dr. Schwarme puxou toda a gaveta para fora e olhou no vazio. Nenhuma jóia mais... nem o colar com as safiras, a pulseira com os brincos que combinavam e o broche. Estranho, pensou ele fechando a gaveta de novo. Não vi se ela estava usando as jóias. Afinal, quem é que vai fazer um passeio na praia ostentando essas bugigangas? Erna tão-pouco, por mais excêntrica que seja. Mas a gaveta está vazia; portanto, claro que ela ainda deve estar com as jóias. Na bolsa de praia... que idiotice! Vai banhar-se no mar de Acapulco e sai toda pendurada de brilhantes e safiras, só para impressionar essa tal de Sylvia de Jongh. Ela pirou de vez agora... O Dr. Schwarme estava enganado.

 Carducci havia atacado. Erna Schwarme retornou à tarde de seu passeio a Palão, na ilha de Roqueta.

 Estava cheia de experiências e, por alguns instantes, ficou desapontada por seu marido não encontrar-se na cabina.

 Quantas coisas havia visto! As magníficas enseadas de Acapulco. Os hotéis de luxo e as grandiosas mansões sobre os rochedos. Os mergulhadores da morte, rapazes morenos e musculosos que se atiravam ao mar de ponta-cabeça abaixo saltando dos altos recifes. Um bote com fundo de vidro, debaixo do qual se podia ver os cardumes de peixe passarem. Mas sobretudo ela tivera uma experiência com um homem que cobriu-a de carícias amorosas, beijou-a apaixonadamente atrás de uma parede de flores de malvas silvestres, enquanto alisava-lhe os seios. Havia muitos anos que Peter,

 

 o marido que se acomodara de modo criminoso, não a beijava daquela maneira. Antes sim, antes ele ainda era o homem corajoso que ela conhecera e sobre o qual amigos preocupados a preveniram. Ela gostara disso. Ficara incrivelmente excitada por saber que as outras garotas sentiam inveja por causa do Dr. Schwarme e que estas teriam ido com o maior prazer com ele para a cama. Mas depois, sua paixão diminuiu lentamente como uma calcificação interna. Após vinte anos de casamento, ela podia contar nos dedos as noites nas quais ele se dava conta que havia uma mulher atraente deitada ao seu lado na cama. Isso sem se falar do comum das noites; havia alguns beijos, um cumprimento de obrigação, um rápido eco com conversas banais e, em seguida, ele se virava de lado e adormecia.

 Depois aconteceu mais uma vez nas bodas de prata; ele foi para a cama levando uma garrafa de champanhe, tirou por conta própria a camisola da mulher e comportou-se como se tivesse se economizado um longo tempo para aquela noite. Erna ficou feliz até a medula dos ossos, fez amor com toda a ânsia que sua idade permitia e transportou-se para a frenética noite de seu casamento. Mas pelos vistos o Dr. Schwarme gastou seus últimos cartuchos nessa noite. Após essa noitada das bodas de prata, ele comportou-se como se lhe tivessem apagado a luz.

 Erna reagira com espanto e desamparo. Correra à esteticista e submetera-se a cataplasmas, drenagens fantásticas, massagens e peelings. Frequentara uma estância de embelezamento durante três semanas, tendo ali se submetido inclusive a um tratamento à base de células frescas. Ela chegou até mesmo a ter uma conversa particular com seu ginecologista a esse respeito. Este foi de opinião que se devia ter uma conversa franca com o Dr. Schwarme, coisa que Erna declinou como sendo impossível.

Resumindo: nada deu certo! era bem verdade que ela podia comprar as roupas mais caras e mais modernas, vivia pendurada de jóias - afinal de contas, ele ganhava muito bem com suas muitas actividades jurídicas -, os dois faziam viagens, viam meio mundo e bancavam o casal feliz... mas tudo não passava de um jogo ou, como Erna chamara um dia ao gritar-lhe numa explosão de raiva, um teatro barato.

 E agora esse François! Um homem para ser mordido! Um homem que a apertava logo no primeiro beijo. Ela podia sentir a excitação dele de modo bem claro; estava usando apenas um minúsculo biquini e uma pequena bermuda de praia. E quando ele acariciou-lhe os seios, Erna precisou de toda a sua força interior para sacudir a cabeça e poder afastar-lhe as mãos.

 - Agora você não pode dizer não - François sussurrou-lhe ao ouvido com seu alemão de lindo sotaque francês. - é como se o destino nos tivesse juntado.

 Mas ela dissera não, escapara de seus braços e correra para junto dos outros passageiros que se encontravam no terraço coberto do restaurante Palão construído ao estilo polinésio, servindo-se do fantástico bufé. Apesar do blecaute matrimonial de Schwarme, até ali Erna ainda não havia saído do casamento, nunca tivera um amante e de algum modo preservara o casamento como algo sagrado. Até que a morte os separe... mas Peter ainda estava vivo! No entanto, agora ela percebia uma coisa: que ainda podia ser uma mulher desejada e que um homem como François representava um tremendo perigo para ela.

 

 Ela trouxera outro triunfo adicional da ilha Roqueta: Sylvia de Jongh, em geral tão excitante, agiu nesse dia como um "camundongo cinzento"; isolou-se dos outros, deitou-se na pequena enseada sob uma barraca afastada feita de folhas de palmeiras trançadas e que pertencia ao restaurante e dormiu até ser chamada para a partida. Enquanto isso, seu marido nadava na enseada ostentando os músculos, xingava no restaurante o garçom mexicano que não encherá todo o copo com uma bebida exótica e importunava os companheiros de passeio com piadas velhas, das quais apenas ele ria com vontade.

 Nesse dia, Erna Schwarme foi a mais bela de todas. Coisa Que lhe fez bem; sobretudo porque poderia contar a Peter: Mesmo que você esteja cego... eu ainda tenho um bocado de chances! Existem homens de sobra que me admiram e desejam; só preciso estalar os dedos.

 O Dr. Schwarme só voltou de seu passeio sexual secreto por volta do anoitecer, com a cara um pouco derrubada e amarrotada. Quando já se passou dos cinquenta anos, um pulinho às cabanas dos morros de Acapulco torna-se uma aventura espinhosa. Uma coisa que ele não teria acreditado, mas que agora ele sabia: o corpo mais belo, liso e apaixonante de uma excitante mestiça de pele morena exauria sua masculinidade com mais rapidez do que ele achava possível. Sua vontade estava presente, mas seu corpo não acompanhava mais. Essa foi uma constatação amarga que Schwarme teve de engolir nesse dia. Por cinquenta dólares, a beldade de olhos dos Korta esforçara-se de facto mexendo-se debaixo dele e fazendo com que Schwarme sentisse sua perícia, mas depois do primeiro orgasmo sentiu-se completamente exaurido, bebeu uma cerveja um tanto choca e depois rum com coca-cola e encarou como um eunuco os últimos esforços da linda e delicada moça.

 Desse modo, espantado consigo próprio, ele retornou ao navio, entrou na cabina às apalpadelas e encontrou sua mulher Erna, nua, de banho recém-tomado, antes mesmo de sentir o perfume do sal de banho aromático que pairava em todo o ambiente. Ela estava deitada com o corpo borrifado com um novo perfume, as mãos cruzadas atrás da cabeça, as coxas um pouco abertas... uma verdadeira atmosfera de porteiro, como ele resmungou em pensamento. E isso depois de uma experiência tão ridícula!

 - Ah, finalmente você chegou Peterzinho - Erna Schwarme tentou seduzi-lo com voz anelante. Ela esticou o corpo desnudo e bateu com a palma da mão na cama ao seu lado. - Vem cá!

 - É, sou eu mesmo. - Schwarme tirou o paletó de linho fino. - Quem mais podia ser?

 - Você foi até à terra?

 - Fui. Ao Museu Asteca. Muitíssimo interessante! Puxa que cultura que esses caras já tinham naquela época! Mas também cruel, é o que lhe digo, faziam sacrifícios humanos para os deuses! é bem verdade que a gente aprende isso no ginásio, mas como dá para se ter uma idéia exacta. Agora eu vi com meus próprios olhos... Como foi seu dia?

 - Maravilhoso! - ela tornou a se esticar. - Vem cá, Peterzinho.

 - Aonde?

 - Para a cama. até mim...

 - Escuta aqui, você está gozando, não? - ele tirou a camisa a fim de também refrescar-se e encarou-a perplexo. - Que significa isso? Você está deitada aí como... Como...

 - E então, como o quê?

 - Você já sabe como!

 - É isso mesmo que quero. Estou explodindo de tesão. Vem logo!

 - Você já devia ter em mente o que fazer no passeio.

 

- A lembrança da cabana no morro com aquele esplêndido corpinho moreno deixou-o exaltado. - Deixa de idiotice, Erna! Vista-se! Dentro de meia hora começa o coquetel no bar Atlantis e depois vem o jantar. Vou tomar um rápido banho de chuveiro.

 - Vem cá! Agora!

 - Droga! O dia foi bem quente e ficar andando dentro de um museu hora após hora deixa qualquer um cansado. Claro que você entende! - ele foi até o banheiro, tirou as calças e a cueca e jogou por cima o roupão de banho branco que pertencia ao navio. Estava com a sensação de que o doce aroma da mestiça ainda estava grudado nele. Esse perfume do corpo moreno e cheio de curvas que teria feito qualquer outro homem perder a cabeça. Menos ele. O Dr. Peter Schwarme, o eunuco. O impotente. Aquele que afrouxava depois de dar uma. De repente, pôde compreender que havia homens que se enforcavam ou metiam uma bala na cabeça porque a vida chegara ao fim abaixo do umbigo.

 Erna lançou-lhe um olhar cintilante quando ele retornou do banheiro. Ela dobrara e recostara as pernas, uma posição que antes o teria deixado animado por sua frivolidade.

 - Qualquer outro homem ficaria feliz se estivesse diante de mim agora - disse Erna com tom agressivo. - Qualquer outro homem!

 - Principalmente o cego que temos a bordo.

 - Você é ordinário, um cínico, um cínico beberrão, não passa disso! Se você visse quantas chances eu ainda tenho...

 - Sobretudo com o marquês comprometido.

 - Isso mesmo! Com François! Ele está ardendo de paixão. está louco por mim.

 - É verdade. O cara precisa Mesmo estar doido para ser atraído pelo seu canto de sereia.

 - Seu nojento! Seu nojento repugnante! Seu egoísta presunçoso! - Erna esticou as pernas e pousou as mãos sobre o triângulo de cabelos louros. - Vá logo para a banheira! Não fique aí me olhando! Quando você me encara, sinto-me como se estivesse coberta de esterco. E depois vá beber sozinho seu coquetel! Ficarei aqui e telefonarei para a cabina de François. Sim, ele virá! Deixarei que ele me coma... está ouvindo, compreende... me coma... me coma... me coma!

 Ela saiu da cama possuída pela fúria, jogou-lhe os travesseiros no rosto e teria lhe dado uma surra se Schwarme não fugisse para o banheiro trancando a porta com o ferrolho atrás de si.

 A que ponto chegamos, pensou ele cheio de amargura. Bem-sucedido na profissão, invejado por muitas pessoas, com boas contas bancárias na Suíça e em Liechtenstein, com investimentos nos EUA, Canadá e Japão, com uma mansão na Alemanha e uma casa de veraneio em Ischia, no momento num navio de luxo para ver meio mundo... e agora a derrota no ventre caído de uma mestiça de Acapulco e uma mulher com quem estou casado há mais de vinte e cinco anos e que agora quer dar uma trepada com um playboy. E é assim que essa vida vai seguir adiante, com recepções, noitadas de espera, matinés no clube, viagens e homenagens sociais, ganhando e gastando dinheiro, com uma felicidade conjugal fingida e uma importância incurável, até que um dia, num momento qualquer, a coisa termine com um infracto ou um câncer. E então farão discursos junto ao túmulo e escreverão necrológios, mas ninguém dirá com toda honestidade: tudo foi uma confusão, foi simplesmente uma merda, pura e simplesmente uma grande merda!

 

 O Dr. Schwarme entrou no banheiro, regulou a temperatura da água para 40 graus e deixou a ducha jorrar. O jacto quente lhe fez bem, Schwarme sentiu-se feliz. Sim, sob o tamborilar do jacto d'água ele chegou a ter uma meia erecção... apenas meia erecção, mas de qualquer modo... ainda não estava completamente morto na parte de baixo e isso deixou-o tranquilo e eufórico. O Dr. Schwarme cantou debaixo da ducha.

 Depois de secar-se e esfregar-se um perfume masculino de aroma acre - retornou à cabina metido no roupão de banho e viu que Erna se vestia. Nesse momento, ela estava colocando um vestido de noite vermelho por cima do sutiã e calcinha.

 - Como é, o senhor marquês não podia hoje? - perguntou dando vazão ao seu escárnio. - Também estava de pernas bambas por causa do passeio? Os passarinhos cantam, mesmo quando caem do galho...

 - Ainda ficaremos a bordo algumas semanas, elas bastarão para os mais de vinte anos perdidos. Como precisa cantar vitória antes do tempo!

 Os dois entraram pontualmente no bar Atlantis às 19 horas e 45 minutos, para a pequena hora do coquetel antes do jantar. Uma banda tocava ritmos sul-americanos decentes. Entraram no bar de braços dados; um belo casal cuja felicidade era evidente. Deviam sentir inveja deles... ainda tão apaixonados após tantos anos de casamento.

 Tomaram assento nos banquinhos do bar e o Dr. Schwarme, alegre como um adolescente, pediu um Red Dragon para si e outro para Erna.

 Trata-se de um coquetel infernal com alta percentagem de álcool, feito com um rum escuro da Jamaica, rum claro de Barbados, conhaque de pêssego, suco de limão e de abacaxi. E claro que com cubos de gelo. Aquele que continuar de pé após tomar três copos de estômago vazio granjeia a admiração de todos.

 - Oh, meu Deus! - disse Erna num rompante levando a mão ao pescoço. - Você me deixou tão nervosa... que acabei não colocando as jóias. Preciso voltar à cabina.

 - Por que você levou as jóias para ir nadar? Uma loucura!

 - O que foi que eu fiz? - Erna encarou-o como se ele estivesse delirando. - As jóias estão na mesinha-de-cabeceira.

 - Engano seu. A gaveta estava aberta e não havia nada dentro.

 - Impossível. Eu sei muito bem...

 - E eu também sei! Dei uma olhada dentro da gaveta e depois tornei a fechá-la.

 - Peter... - seus olhos arregalaram-se de espanto. - Peter, é verdade? A gaveta estava aberta e vazia?

 - Mas claro que sim! Levar jóias como essas para nadar! Você está ficando cada vez mais histórica.

 - Eu não as levei, Peter. - A voz de Erna ficou um pouco estridente.

 - Peter, será que você não compreende? As... as jóias desapareceram. Alguém pegou as jóias...

 Quase que como obedecendo a uma voz de comando, os dois deslizaram para fora do banquinho, abandonaram os copos e saíram correndo do bar Atlantis. Chocaram-se com o primeiro-oficial Willi Kempen na porta dupla do vidro. Este queria tomar uma pilsen espumante o mais rápido possível, após a agitação provocada pela morte da Sra. White.

- O bar está pegando fogo? - perguntou ele piscando os olhos.

 

- O bar não, a nossa cabina. A 018! Meu nome é Dr. Schwarme. - Ele parou enquanto Erna continuava correndo. - Pelo que parece, alguém invadiu a nossa cabina. As jóias da minha mulher desapareceram.

 

Um leigo em viagens marítimas tem a tendência de invejar o comandante de um navio de cruzeiro, um vapor musical como as pessoas chamam sem o menor respeito. Ele vê o mundo inteiro, vive cercado de lindas mulheres, usa um belo uniforme branco com galões dourados nas mangas e folhas douradas de carvalho na aba do quepe, é um reizinho em seu navio, recebe uma bela pilha de dinheiro como salário e acima de tudo: ser comandante é uma bela coisa.

 Ninguém fala, posto que ninguém vê, sobre a montanha de preocupações quotidianas, sobre a responsabilidade de se conduzir com segurança novecentas pessoas através dos mares, sobre os pequenos e grandes enguiços a bordo. Nenhuma permissão para se ver! Essa é a lei básica a bordo.

Os passageiros pagaram muito dinheiro para ficarem felizes e alegres durante um par de semanas, para vivenciarem o mundo lindo sem nenhuma preocupação, a fim de poderem retornar à vida quotidiana com a alegria duradoura de ter esse navio e sua tripulação guardados no coração. Ali, o até a vista não é mais uma imagem de retórica, as pessoas o dizem com sinceridade. Voltarão no ano seguinte ou mais tarde para fazer uma outra magnífica viagem. As pessoas o querem de facto, posto que tudo deu tão certo, tudo foi organizado de maneira primorosa, deixando-as completamente satisfeitas. Muitíssimo obrigado ao comandante e à sua tripulação! É assim que deve ser e uma das missões mais fatigantes e extenuantes do comandante é lutar para que assim seja. Proteger os passageiros... Mesmo quando a bordo ocorreu um assassinato e um ladrão de jóias levou a cabo seu trabalho e continuará roubando. Willi Kempen telefonou imediatamente para Teyendorf ao constatar de facto que as jóias de brilhante e safira da Sra. Schwarme haviam sido roubadas da cabina 018. As outras jóias encontravam-se, graças a Deus, no cofre do navio.

 Quando o comandante Teyendorf entrou na cabina, Erna Schwarme estava chorando sentada na cama. A gaveta vazia estava aberta, o Dr. Schwarme fumava um cigarro e segurava um copo de conhaque que o comissário levara para ele. Por causa da outra coisa, o assassinato de Anne White, terminara havia pouco mais de meia hora o desfile da tripulação diante da câmara de televisão na cantina dos marujos, sem que os oficiais tivessem dito o motivo daquele teatro. Na manhã seguinte seria a vez dos camaradas que estivessem passeando em terra, de folga até o amanhecer. Isso significava: às seis horas todos se encontrariam a bordo.

 - Portanto, a senhora tem plena certeza de ter colocado as jóias na gaveta? - perguntou Teyendorf. Sua voz tremeu de leve por causa da agitação.

 - Plena certeza. Em que outro lugar teria colocado?

 - Por que a senhora não tornou a depositá-las no cofre?

 - Por quê? Por quê? Não se trata disso aqui. - O Dr. Schwarme assumiu o tom de advogado de defesa. - Nós fomos roubados! Fomos roubados no seu navio! Esses são os factos inequívocos.

 

 - Já era tarde demais ontem à noite - explicou Erna chorando, enquanto olhava para a gaveta vazia. - A gente sempre pensa: Amanhã de manhã dá tempo, afinal estarei deitada bem ao lado durante a noite. Mas quando a manhã chega, a gente já esqueceu. Toma-se o café e depois parte-se para o passeio, tudo na maior azáfama. Além do que, a gente pensa: está trancada, é uma gaveta de segurança, não pode acontecer nada durante o dia. E o comissário vai prestar atenção, agora ele já conhece os passageiros e sabe quais são suas cabinas. Qualquer estranho chama a atenção. Mas mesmo assim...

 Ela soltou um soluço de romper o coração e recostou-se na barriga do marido. Nesse instante, o Dr. Schwarme era pura e simplesmente um jurista.

 - O que o senhor propõe, comandante? Informar a polícia...

 - Eu lhe pego! Nada de escândalos a bordo!

 - Foram roubadas jóias no valor de mais de cem mil dólares, isso é um escândalo! O senhor vai querer jogar essa sujeira para debaixo do tapete? Sua companhia de navegação será...

 - Ela não será coisa nenhuma, Dr. Schwarme. Nós nos responsabilizamos apenas quando alguma coisa desaparece do cofre. Temos seguro contra isso. Mas quando alguma coisa é roubada nas cabinas, sobretudo jóias que ficam jogadas por aí...

 - Elas não estavam jogadas por aí - vociferou o Dr. Schwarme. - Estavam trancadas!

 - Na cabina! Isso é o decisivo! - Teyendorf deu uma olhadela na gaveta, sem tocá-la. Por fora não dava para se ver que havia sido aberta com violência. A fechadura não fora arrombada, a madeira não sofrera danos.

- Por acaso a chave da gaveta não ficou jogada por aí nalgum lugar?

 - Aqui nada fica jogado por aí, senhor comandante, eu já lhe disse! - a voz do Dr. Schwarme ergueu-se num tom funesto.

- Faça o favor de não tentar nos fazer culpados! E então, o que vai acontecer agora?

 - Os senhores irão para a mesa e Nós examinaremos a cabina.

 - Eu gostaria de estar presente, senhor comandante.

 - Por favor, compreenda que devemos fazer isso sozinhos.

 - Como compreendo coisa nenhuma!

 - Não vou conseguir engolir nada - disse Erna nesse momento. Como chorava mais, em compensação Seu corpo estremecia em soluços silenciosos. - Estou enjoada.

 - O senhor está vendo e ouvindo, comandante! - Schwarme tremia de ódio. - Minha mulher vai ter um colapso nervoso. Eu gostaria de ter essa sua calma!

 - O senhor queria que eu também vociferasse? A quem serviria isso? - o comandante Teyendorf amparou Erna Schwarme quando esta levantou-se da cama. Ela foi até o banheiro para recompor a maquilhagem.

- Mas talvez avançássemos se agora o senhor nos deixasse fazer a investigação em paz. Como jurista que é, o senhor sabe muito bem que as pessoas podem borrar provas por pura desatenção. Impressões digitais, por exemplo.

 - Ninguém precisa me dizer isso. - O Dr. Schwarme sentiu-se muito insultado. Quando a mulher retornou do banheiro, ele deu o braço a ela e os dois saíram da cabina. Teyendorf respirou aliviado e olhou à procura de Willi Kempen.

 - Traga-me o Sr. Dabrowski aqui. Ele deve estar na cabina. Com toda a certeza deve estar trocando de roupa para o jantar. Este é o caso dele. Seu misterioso Carducci encontra-se de facto a bordo. Ora, então saúde!

 

Essa será uma viagem cheia de aventuras! já nos primeiros dias um assassinato, um roubo de jóias... que mais pode acontecer, Kempen?

 - Bem, aí só falta o nosso navio naufragar, comandante.

 - Pelo amor de Deus, não me venha com essas conversas sobre catástrofes. Traga-me esse Dabrowski

 Teyendorf sentou-se à mesa, olhou pela janela o mar que quase não se mexia e sentiu-se feliz por poder ficar alguns minutos sozinho. Seria conveniente, perguntou-se ele, informar os passageiros que entre eles encontrava-se um perigoso e refinado ladrão? Será que isso não levaria a uma grande intranquilidade e desconfiança mútua? Um navio onde não se podia ficar em segurança, mesmo que a causa fosse apenas um ladrão de jóias, já não era mais um lugar para se passarem férias. A serenidade interior que se ansiava nessa viagem seria destruída no acto. Dabrowski chegou rapidamente, vestido pela metade num roupão. De facto, quando Willi Kempen foi buscá-lo, ele estava trocando de roupa.

 - Tão rápido assim? - disse ele dando uma olhada na cabina.

 Teyendorf deu um sorriso zangado.

 - Que significa esse "tão rápido"?

 - Eu achava que Carducci era mais esperto. Estava achando que ele daria o primeiro golpe no máximo pouco antes de Valparaíso, quando mais de trezentos passageiros partirão e outros subirão a bordo. É perigoso ficar andando por aí agora com jóias roubadas.

 - Você quer dizer que esse seu maldito Carducci sairá do navio em Valparaíso? Puxa, seria uma bênção para todos nós.

 - Ledo engano! O Atlantis permanecerá três dias em Valparaíso. Então Carducci levará confortavelmente seu roubo para a terra e o depositará no cofre de um banco. Nós supomos que ele disponha de cofres em bancos situados em todos os lugares onde os grandes navios de cruzeiro passem mais de dois dias. Valparaíso, Rio, Cairo, Hong-Kong, Singapura, São Francisco, Pireu, Génova, aí pode estar sua central!, Veneza, Bremerhaven, Líbeck, Oslo...

- Inconcebível!

- E mais tarde ele vende as jóias roubadas directamente do cofre do banco para seus receptadores. Ele deve gozar de toda a confiança desses sujeitos, pois nunca enganou nenhum deles. Os caras confiam plenamente em sua palavra e aceitam o roubo sem fazer nenhum controle anterior. Um ladrão de jóias é um zero à esquerda quando não possui um bom receptador. Afinal de contas, ele não sai roubando por aí, para chocar as jóias.

 - Muito engraçado - Teyendorf apontou para a gaveta. - Nada foi arrombado... mas mesmo assim desapareceu.

 - Uma fechadurinha como essa é brincadeira para um profissional.

Eu abro em dez segundos.

 - Que tranquilizador! Mas não fique falando isso em voz alta.

 - Alguém tocou na gaveta?

 - Claro que com toda certeza a Sra. e o Sr. Schwarme.

 

 - Carducci não deixa impressões digitais, ele opera de luvas. Luvas de pelica; aristocrático como seria de se esperar dele. Uma vez ele foi obrigado a fugir no Stella Pacific e deixou uma luva para trás. Apesar do trabalho de laboratório mais refinado possível e dos exames em microscópio, não se achou nenhuma pista traiçoeira no interior da luva. Coisa que levou à suposição de que Carducci toma duplo cuidado: por baixo das luvas de pelica, ele ainda usa luvas de borracha, dessas que os cirurgiões utilizam. - Dabrowski arreganhou um sorriso largo. - Digamos que ele opera com esterilização total.

 Sentou-se na beira da cama, abriu a gaveta tirando-a do suporte interno e examinou-a centímetro por centímetro com sua lupa que, ao que parecia, sempre levava consigo. Teyendorf e Kempen observaram-no em silêncio.

 - Naturalmente, nada. - Tornou a colocar a gaveta no entalhe de correr e fechou-a. - Ele abriu essa ridícula fechadura e, bem à vontade, retirou as jóias. O único problema foi entrar e depois sair da cabina sem ser notado. Mas aqui na 018 isso não representa problema algum. Basta virar à direita na curva e a pessoa terá ido embora. A cabina tem uma posição bem favorável ao lado da volta.

 - E que podemos fazer?

 - Nada.

 - Puxa, quanta coisa! - Teyendorf levantou-se. - Devo dizer isso ao Dr. Schwarme? Ele teria um acesso de fúria. Nada! Claro que devemos fazer alguma coisa!

 - O quê, senhor comandante?

 - Espero uma proposta sua. Se eu mandar uma circular a todos os passageiros avisando-os para só guardar suas jóias nos cofres por causa do perigo de roubo e se o Dr. Schwarme sair por aí contando o arrombamento, o que você acha... vai haver a maior intranquilidade entre nossos hóspedes. Todo mundo suspeitará de todo mundo, cada pessoa desconfiará da outra. E assim se formará uma atmosfera bem explosiva.

 Dabrowski sacudiu a cabeça.

 - O Dr. Schwarme deve guardar o mais absoluto segredo sobre o roubo. Precisamos arrancar-lhe essa promessa. Carducci não deve ser prevenido. só teremos uma chance para desmascará-lo, caso ele se sinta seguro e ataque outra vez. Mas tem uma coisa que me deixa perplexo: Carducci é um profissional experiente e deve estar contando com que reine agora uma tremenda confusão a bordo impossibilitando um segundo roubo. Por outro lado, ele não deve dar-se por satisfeito com uma única presa tendo tantas jóias a bordo. Essa conduta não é típica dele.

 - Um... um outro roubo? - perguntou Willi Kempen hesitante.

 - era só o que nos faltava! - Teyendorf pôs o quepe de comandante e foi até à porta. - Vamos tentar, Sr. Dabrowski. O Dr. Schwarme e sua mulher não saem por aí batendo com a língua nos dentes para as pessoas e o senhor terá tempo, como no caso da Sra. White, até Valparaíso para encontrar o ou os criminosos. Enquanto você fazia a tripulação desfilar diante da câmara de televisão, eu telefonei ao nosso representante em acapulco para a companhia de navegação. Os caras ficaram fora de si e deixaram as providências por nossa conta. Bem simples. Mas repetiram uma coisa várias vezes: nada de cena, nada de escândalo, proteja a reputação do NN Atlantis. - Nesse momento a voz de Teyendorf soou mais amarga:

- Agora o senhor está metido com um assassinato e com um ladrão de jóias internacional! Garanto-lhe uma coisa: quando eu ainda navegava num navio de transporte de containers, vivia com mais tranquilidade e sem preocupações. era uma verdadeira brincadeira comparada com a missão de ser comandante de um vapor musical!

 

 Pela primeira vez Teyendorf usou essa expressão para seu lindo navio... uma prova de quanto o haviam abalado os acontecimentos dos últimos dias.

 

Essa noite pertencia a Herbert Fehringer, havia sido combinado assim.

 Depois do jantar com a conhecida troca a jacto no banheiro, Hans permaneceu na cabina assistindo à programação da televisão de bordo, um filme velho, e depois foi para a cama ler um romance policial. De vez em quando ele pensava em Sylvia e sentia tremendas saudades dela, tanto que teve vontade de se levantar, vestir-se e sair à sua procura... mas isso teria posto tudo a perder, trairia o "jogo dos gémeos" e, muito provavelmente, os levaria à cadeia.

 - Até depois de amanhã - dissera ele na despedida. - não devemos chamar a atenção...

 Nesse momento, como havia prometido, Herbert estaria sentado no elegante bar Olympia, ouvindo o show-man ao piano branco, bebendo uma garrafa de vinho seco e evitando tudo que pudesse ocasionar um encontro com Sylvia. E sobretudo, tomaria todo o cuidado para manter-se longe da noite dançante que estava anunciada para essa noite no Salão dos Sete Mares, tendo como convidado um grupo folclórico de Acapulco; pois era de se supor com segurança que Sylvia comparecesse. Desde muito tempo havia uma lei não escrita: os gémeos jamais se enfrentaram como rivais por causa de uma mulher.

 Contudo, nesse dia Herbert Fehringer, dessa vez o segundo no jantar, fez exactamente o contrário. Através de pequenos sinais secretos, deu a entender a Sylvia que se veriam mais tarde no salão. Ela compreendeu-o no acto, assentiu de modo imperceptível e imediatamente ficou mais animada e contente. O marido, Knut de Jongh, ocupava-se nesse momento com um excelente bordeux.

 - De repente você ficou tão contente, querida - disse ele.

 - Estou feliz por causa da noite dançante. Adoro ver essas danças exóticas. E nos intervalos e mais tarde vamos para a pista, não vamos?

 - Se você quiser. - De Jongh assentiu. Ele não gostava de sacudir o esqueleto, como ele dizia. era um péssimo dançarino, na juventude não frequentara nenhuma escola de dança. "Tive de manejar o martelo de ferreiro", dizia ele quando se falava sobre isso, "e depois limpar a oficina".

Aprender a dançar! Meu pai me daria um soco no focinho se eu aparecesse com essa moda. O trabalho, isso era importante. E dá para se ver: consegui alguma coisa! Agora possuo uma ferraria artística considerada uma das maiores e melhores da República Federal da Alemanha. Agora posso falhar tranquilamente ao dançar um tango..."

 Quando os de Jongh saíram do restaurante, Herbert Fehringer também levantou-se e subiu a escadaria que dava para o Salão dos Sete Mares. Ali chegando, ficou parado junto à porta alguns momentos, viu onde Sylvia e o marido se sentaram é escolheu um assento ao lado de uma coluna atrás da qual podia observar Sylvia, inclinando-se um pouco.

 

 No primeiro intervalo da apresentação do grupo folclórico, Herbert Fehringer ficou sentado e deixou que Sylvia dançasse com o marido. Este saiu dando patadas como um urso pela pista de dança, chocando-se com todo mundo - Claro que sem pedir desculpas - Com uma cara de quem estivesse sendo prensado num torno. Mas suportou a situação com bravura e depois conduziu a suada Sylvia de volta à mesa. Ali, ele afundou no assento estofado, enxugou o suor com um lenço branco e, na mesma hora, recompensou a perda de líquido com o vinho. Sylvia lançou um olhar furtivo na direcção de Herbert, que acenou para ela e depois tirou as mãos. O sinal significava: no próximo intervalo; nós dançaremos juntos. Ela fez uns olhos de espanto e sacudiu a cabeça.

 De facto, no segundo intervalo, Herbert Fehringer levantou-se e foi à mesa dos de Jongh. Fez uma vénia diante de Sylvia, que encarou com olhos arregaçados de espanto, e depois diante de Knut de Jongh.

 - O senhor me permite que eu tire sua mulher para dançar? - perguntou Herbert.

 De Jongh encarou-o de cima a baixo com um ar de zangado. Sujeito repugnante, pensou ele. Mas agora ele está chegando na hora certa. Mais uma vez na pista de danças... negas! Além disso estou de olho em Sylvia. Se ela gosta tanto assim de dançar, que dance! Mas tinha de ser justo com esse patife presunçoso?

 Sylvia hesitou, lançou um olhar indeciso ao marido, mas Knut de Jongh assentiu, mesmo que um pouco mordido.

 - Tenha a bondade! - disse ele com voz rangente. - Agora vêm as danças ondulantes das quais não gosto mesmo.

 Sylvia levantou-se e caminhou à frente até a pista de dança. Herbert seguiu-a bem-educado, à distância. Somente quando estavam no meio dos outros pares, foi que ele envolveu-a com o braço puxando-a um pouco contra seu corpo.

 - Você é maluco - sussurrou Sylvia com a respiração ofegante.

 - Tudo foi feito de maneira oficial. Pedi a permissão de seu marido com toda a educação.

 - Você disse que não viria hoje.

 - Eu simplesmente tive de vir. não estava em condições de ficar muito tempo sem a sua presença. Eu te amo, Sylvia...

 - não me aperte tanto! Devemos dançar de um modo sensato. Ele está nos observando com toda a atenção. Estão tocando um boogie, podemos dançar separados. Você sabe dançar boogie?

 - E você ainda pergunta? ! - Herbert Fehringer deu uma risada, deixou as pernas soltas como borracha e meteu-se a dançar um boogie digno de ser visto. Knut de Jongh observava-o com a testa anuviada e achou a coisa toda uma macaquice, parecendo saltos de selvagens. Aquele torce e torce, como ele mesmo chamou, deixou-o mais desconcertado. Bem, vinte anos de diferença na idade são uma grande quantidade, pensou ele.

 como Sylvia parece jovem agora! não é elástica! Knut de Jongh recordou-se de tantas noites na cama com ela e bufou pelo nariz. Hoje à noite vai ser sua vez de novo, meu docinho, alegrou-se e lambeu os lábios. Há quatro dias que o óleo não é trocado, é tempo demais para você! Fica aí mexendo com essa bunda de um jeito que qualquer um fica abafado. Vá se esquentando com esse vigarista louro, mais tarde sou eu que darei umas bombadas na cabina.

 - Quando nos vemos? - perguntou Herbert Fehringer ao voltar a dançar um fox lento agarrado em Sylvia.

 - Hoje, não dá mesmo, Hans...

 - Claro que dá! Estou explodindo de saudade. Você tem de escapulir de alguma maneira. Mesmo que seja apenas por meia hora... por uma vez, Sylvia. Preciso senti-la ainda hoje!

 

 - Você enlouqueceu por completo, Hans.

 - Por todos os deuses do amor... enlouqueci mesmo. Estou incuravelmente louco por você. Você precisa inventar alguma coisa para vir até mim.

 - Hoje. Knut não desgrudará os olhos de mim, sobretudo agora que você está dançando comigo. Eu lhe suplico, querido, espere até amanhã!

 Herbert Fehringer sacudiu a cabeça. Amanhã o sortudo será Hans de novo, pensou ele. E a coisa vai continuar assim. A cada dois dias eu deverei fazer a pausa. não pode ser mesmo, meu irmãozinho!

 - Mais tarde estarei no bar Atlantis - disse ele. - Telefone para lá se você puder ir. Então nos encontraremos lá fora, no solário.

 - Impossível, querido! Impossível! não vai ficar esperando. - Sylvia distanciou-se um pouco dele ao ver como o marido os observava com as sobrancelhas fechadas. - Afinal, eu não posso matá-lo.

 - Essa, por exemplo, seria uma solução definitiva para todos os problemas. - Fehringer riu dessa piada que não era nem um pouco divertida.

 - Mas talvez exista outra possibilidade menos dramática.

 - não conheço nenhuma. - Depois do fox, os dois ficaram aplaudindo como os outros pares. Bis. Bis. A orquestra do navio, que se chamava Happy Boys, tocou mais uma valsa lenta. Aí estava uma dança na qual as pessoas tinham de abraçar-se de um modo bem sentimental. Herbert puxou Sylvia contra seu corpo.

 - Meu marido... você enlouqueceu mesmo... - sussurrou ela.

 Herbert sentiu seu tremor e arreganhou um sorriso largo.

 - Ele tão-pouco poderá mudar a cara de uma valsa lenta. Pelo amor de Deus, não tenha tanto medo assim, meu anjo. Daqui a pouco teremos uma idéia de como poderemos ficar juntos hoje. Preciso possuí-la de qualquer maneira!

 Depois dessa última dança, Herbert levou Sylvia de volta à mesa e tornou a fazer uma vénia para Knut de Jongh.

 - Agradeço, meu senhor - disse ele em tom educado.

 De Jongh assentiu sem dizer nenhuma palavra e esperou até que Herbert Fehringer fosse embora. Em seguida, lançou um olhar inquisidor para Sylvia.

 - E então, foi divertido?

 - não dança tão bem assim. No entanto você deve compreender que ele dança melhor do que você.

 - No boogie ele estava parecendo um macaco mordido por uma abelha. não sou tão imbecil para esse tipo de coisa. Isso já não é mais dança.

 No final, a valsa lenta, isso sim é que é dança! Aí vocês formaram um bom par. - Ele tragou o grosso charuto e jogou a fumaça para o teto por cima da cabeça de Sylvia. - Quando vamos para a cama?

 - O que íamos fazer? - a voz dela ficou um pouco estridente. Isso não, pensou Sylvia como que entrando numa espécie de pânico. Isso não, não hoje à noite.

- Ora, voltar para a cabina. - Knut de Jongh esticou as pernas gordas. - O show já acabou, agora só tem sacudidela de esqueleto, para mim não é nenhuma diversão mais.

- Podíamos dar um pulinho lá embaixo no Clube do Pescador.

 

- Lá também tem sacudidela de esqueleto. Música de discoteca, uma nojeira!

- Então no bar Olympia. Bebemos mais uma garrafa de champanhe juntos ouvindo o sujeito ao piano branco.

 - Uma bela porcaria de piano. De qualquer maneira, sempre é melhor do que a música de tumulto. Tudo bem então, vamos até o piano branco. Você vai ter o seu champanhe. O porre sempre a deixa bastante divertida. Talvez eu precise disso hoje à noite.

 Knut de Jongh piscou o olho para ela e acenou à comissária para trazer a conta. Sylvia sentiu ânsias de vómito ao pensar no que ele faria com ela. Viu Fehringer sair do salão e, de repente, sentiu-se abandonada a um destino terrível. Pensou nas mãos largas e duras de Knut, em seu corpo húmido e forte e em sua masculinidade extraordinária que antes a deixava com a respiração paralisada, mas da qual agora sentia quase medo e nojo.

 Tem de acontecer alguma coisa, pensou ela com a respiração mais apressada. não posso dormir com ele, não hoje à noite. Eu iria vomitar se ele começasse a dançar em cima de mim soltando esses seus ofegos e bufadas.

 Knut de Jongh assinou a conta, dando nome e número da cabina e levantou-se.

 Ao chegar ao elegante e bem comportado bar Olympia, uma peça de luxo do navio apreciada sobretudo pelos passageiros mais velhos, posto que ali, à excepção da música baixa e inimista do piano, reinava um silêncio agradável, Knut de Jongh procurou uma mesa junto à curva panorâmica, que agora à noite estava com as cortinas cerradas. O homem estava tocando ao piano branco músicas de My Fair Lady.

 - Isso sim é que é música - disse de Jongh satisfeito. - Tem melodia. Mas esse berreiro aí de fora... não compreendo como é que você gosta dele!

 Sylvia manteve um silêncio encarniçado. Que devo fazer, pensou. Tenho na bolsinha um tubinho de Celibran, um forte comprimido para dormir. Trago sempre comigo, pois também serve para enxaqueca. Será que Knut vai notar alguma coisa se eu dissolver no champanhe? Ela estremeceu em seu íntimo, quando Knut pediu champanhe e um uísque triplo on the rocks. Aí estava a solução! Ele não sente gosto de nada no uísque.

 - não vai me acompanhar no champanhe? - perguntou Sylvia com evidente inocência.

 - Você sabe muito bem que só bebo essa agua espumante em caso de necessidade! Um uísque de verdade é insubstituível. é o que compete a uma verdadeira garganta masculina.

 Knut de Jongh aguardou a chegada das bebidas, fez um brinde à mulher e depois levantou-se.

 - Pardon, madame - disse ele amável, bancando um homem galante. - só alguns minutinhos. Preciso ir dar uma mijada...

 Sylvia seguiu-o com a vista até ele desaparecer pela porta de vidro, abriu rapidamente a bolsa e despejou cinco comprimidos de Celibran do tubinho directamente no uísque. Misturou tudo com o palito de plástico, os comprimidos dissolveram-se bem rápido, sem ao menos apresentar nenhuma turvação na bebida. O ideal, pensou ela. Uma idéia brilhante. Cinco comprimidos... dá para derrubar até mesmo ele. Sobretudo porque o álcool acentua o efeito, está escrito na bula. Agora, se ele beber mais um ou dois uísques, dentro de uma hora estará dormindo como um anestesiado. Hans, meu querido, podemos nos encontrar!

 

 Knut de Jongh permaneceu afastado um tempo bem longo, mas ao retornar estava bem-humorado. Virou o copo de uísque como se fosse água e depois arrotou atrás da mão aberta em concha.

 - O primeiro é sempre o melhor - disse ele. - Com ele vem o apetite. Igual ao caso de vocês, mulheres. - Ele acenou para o comissário no bar. - Mais um, Johnny.

 Onde quer que ele estivesse, tinha sempre por princípio chamar todos os barman de Johnny. Ninguém saberia dizer como ele chegara a isso. Ele próprio não contava que havia lido isso num romance, cujo herói o entusiasmara a ponto de desde então ele passar a copiá-lo. Além disso, até então nenhum barman se queixara, eles pareciam estar acostumados com esses nomes.

 Enquanto Sylvia bebia seu champanhe com todo cuidado, de Jongh virou mais dois uísques super grandes. Ela contemplou-o com atenção, viu que suas pálpebras começaram a bater e que em pouco tempo ele teria trabalho para manter o globo ocular erguido. De Jongh também perdeu o controle da linguagem.

 - Ah, droga - disse com a língua pesada. - não estou cansado! A causa é esse ar marinho, meu tesouro. Vamos para a cama. Ainda consigo dar uma com você. há quatro dias que nós não... Para a caminha!

 Knut de Jongh já não pôde assinar a conta. Sylvia rubricou por ele, deu-lhe o braço e levou-o embora do bar Olympia. De olhos fechados, ele andou às apalpadelas ao lado dela, desceu de elevador até a tolda e, ao chegar na cabina, desabou na cama quase que em posição de sentido.

 Sylvia tirou-lhe os sapatos, empurrou-o do jeito que estava para o meio da cama e cobriu-o. De Jongh dormia como se de facto estivesse narcotizado. Ela sacudiu-o para testá-lo, gritou seu nome no ouvido, esmurrou-o e socou-o com os punhos... ele não esboçou a menor reacção. Ficou dormindo de boca aberta e começou a soltar roncos horripilantes.

 Sylvia foi tranquila ao telefone e chamou o bar Atlantis. Fehringer chegou ao aparelho após alguns segundos. Parecia estar esperando ao lado do telefone.

 - Tudo em ordem, querido - disse ela sentindo-se como que engolfada por uma onda de calor. - Ele está dormindo como se estivesse anestesiado. Aliás, está mesmo. Eu misturei cinco Celibran no uísque dele.

 - Genial! Estou indo...

 - Eu vou à sua cabina!

 - Vamos fazer ao contrário. Meu docinho, dispa-se já; chegarei aí dentro de alguns minutos. Cabina 147, não é mesmo?

 - Sim. Mas Hans, não pode ser, seria uma loucura completa... aqui, na cabina... e Knut está deitado por perto... Claro que nós não podemos fazer aqui...

- Nós podemos qualquer coisa, querida. Vou voando!

 

 Sylvia despiu-se com dedos trémulos e cobriu-se com o roupão de banho. Em seguida, abriu o ferrolho da porta... na hora exacta, pois Herbert Fehringer já se encontrava lá. Ele meteu-se na cabina, puxou imediatamente Sylvia contra seu corpo, arrancou o roupão de banho de seu corpo, beijou-a como um louco, tocou-lhe com os lábios o rosto, seios e dorso, levou-a para a cama, virou-a, pressionou-lhe o dorso para a frente e possuiu-a por trás com um único impulso quase brutal. Sylvia soltou um gritinho baixo, cravou os dedos na colcha e então começou a choramingar de prazer à medida que ele mexia cada vez mais rápido, sem dizer uma palavra sequer.

 - Oh, Deus... - balbuciou Sylvia. - Ohhhhh... você está tão diferente, Hans, mas tão diferente, querido... melhor, muitíssimo melhor do que ontem... Oh, deus... você está tão gostoso... tão gostoso...

 Mas é que eu sou o mais velho, pensou Herbert Fehringer com ar triunfante, gozando aquele corpo trémulo.

 Os dois caíram na cama soltando um grito baixo e simultâneo, sempre enganchados, e então olharam para Knut de Jongh que nesse momento roncava com a cabeça bem na frente deles. Cobertos de suor, Herbert e Sylvia separaram-se.

 - Nós somos dois malucos totais - disse Sylvia. Sua respiração estertorava de excitação. - Hans, querido... ninguém pode nos salvar mais...

 - Ninguém! - ele estava deitado de costas e estremeceu quando Sylvia pousou a mão delicadamente no seu baixo-ventre.

 - E quanto a Knut?

 - Falarei com ele.

 - Com dois socos ele o derrubará no chão como se você fosse um pedaço de pau. Você nem imagina como ele é forte. Já brandiu o martelo de ferreiro mais pesado como se fosse de papel. Falar com ele... fora de cogitação! Ele não vai correr atrás, pois é muito orgulhoso para isso. Mas se alguém quiser tomar-lhe a mulher na cara dele, aí então ele sai batendo. Sim, eu vou fugir. Tenho dinheiro suficiente para ir atrás de você na América. Tenho minha própria conta bancária, muitas jóias... não vai ser problema!

 O problema vai ser o irmãozinho Hans, pensou Herbert Fehringer. Um problema insolúvel. Sylvia, vamos passar juntos um par de semanas maravilhosas e depois vocês voltam de avião de Sidney para a Alemanha e nunca mais nos veremos. Oxalá Hans pense o mesmo. Aí está o grande perigo para todos nós! E eu nem ao menos posso levá-lo a mal, pois Sylvia é o tipo de mulher na qual os homens ficam pendurados, para se falar de um modo bem profano. Uma mulher que suga qualquer homem. Os dois ainda se juntaram, mais uma vez de um modo frenético e desenfreado. Depois então, tomaram um banho de chuveiro juntos, Herbert Fehringer tornou a vestir-se e saiu da cabina. O corredor estava vazio. Fehringer só viu os primeiros passageiros ao chegar à escadaria. Subiu a escada, entrou no bar Atlantis, pediu uma cerveja, virou-a quase que de um só gole e disse ofegante ao comissário do bar:

 - Bah, como isso faz bem! Eu estava ressecado.

 - O ar marinho, meu senhor.

 - É isso aí! Mais uma cerveja e um Doppelkorn para completar...

 Pela manhã, Knut de Jongh acordou com a cabeça cheia de chumbo e os membros pesando toneladas. A mulher dormia ao seu lado; parecia um anjinho com sua camisola de renda. Knut deu-lhe um beijo acanhado nos olhos e depois deixou-se cair para trás.

 - O que é? - perguntou Sylvia sonolenta virando a cabeça para ele.

 - É o que eu gostaria de saber. Afinal, o que aconteceu ontem à noite. De repente, eu tive um branco...

 

 - São esses seus uísques duplos e triplos! - ela virou-se de costas e ficou de olhos fixos no teto. - Você está de novo nessa sua maldita turma de porre. está mal. Fico tão envergonhada.

 Ele calou-se sentindo-se culpado e propôs-se comprar alguma coisa muito bela e valiosa na joalheria de bordo para presenteá-la... Como um pedido de desculpa e como indemnização.

 

Depois do jantar, no qual o casal Schwarme ficou remexendo os pratos sem nenhum apetite, os dois não ficaram muito tempo no restaurante. Tão-pouco mostraram interesse pelo grupo folclórico e pela noite dançante no Salão dos Sete Mares, embora Erna Schwarme tivesse marcado um encontro com François de Angeli e ansiasse por seu abraço na dança. Os dois só pensavam nas jóias roubadas.

 Riemke, o director de hotel, foi de encontro a eles no caminho para a cabina.

 - Que bom tê-los encontrado aqui - disse ele. - O comandante quer informá-los sobre a situação.

 - Pegaram o ladrão?

 - Ainda não.

 - O que significa esse "ainda"? Será que ele vai ser descoberto?

 - É sobre isso que o comandante quer conversar com os senhores.

 - Estou ansioso.

 Teyendorf aguardava o casal Schwarme na sua cabina. Ele preparara um bom vinho branco de Lorena e duas bandejas de pastéis misturados, coisa que pareceu suspeita ao Dr. Schwarme. Em geral, era assim que ele era recebido na qualidade de advogado na casa dos clientes que se achavam culpados, mas que queriam que ele os apresentasse como inocentes perante o tribunal.

 - O Sr. Riemke já me disse: nada! - o Dr. Schwarme aceitou a luta.

 - Bem, eu não diria isso de modo tão crasso...

 - Minhas belas jóias - sussurrou Erna pressionando um lenço nos olhos e sentando-se no banquinho estofado do canto.

 - De qualquer modo, agora sabemos que se tratou de um profissional, um gatuno com muita experiência.

 - Tranquilizador! - o Dr. Schwarme ostentou um sorriso irónico. - Já vale alguma coisa.

 - A fechadura da gaveta foi aberta com perícia. Mas não vamos conversar agora sobre a responsabilidade da companhia de navegação; falaremos sobre a presença de um criminoso a bordo. Todos ficamos espantados, creiam-me. Pelo que se verificou posteriormente, ele esteve em actividade já no baile de saudação. Depois de uma dança, a mulher de um passageiro deu pela falta de um valioso anel de brilhante de vários quilates. Acreditávamos até aqui que ela havia perdido durante a dança, mas o anel não foi encontrado. A propósito, a companhia de navegação também não se responsabiliza pelos danos nesse caso. Tememos que o ladrão de jóias prossiga com sua actividade.

 - Que emocionante! Neste navio esquisito, as pessoas recebem o romance policial fornecido à própria custa! é o que podemos chamar realmente, não está escrito no prospecto, de plenitude em termos de entretenimento.

 

 O Dr. Schwarme, irónico, estava possuído por completo pela arte do escárnio mordaz. Em muitos processos, ele tirara os adversários da reserva e atraíra-os para o campo dos perdedores com essa técnica.

 - Posso compreender sua amargura, Dr. Schwarme. - O comandante Teyendorf encheu os copos. - Apesar disso, agora devemos conversar sem emoção.

 - O senhor consegue?

 - Eu devo. No interesse dos passageiros e do navio. O que estou falando e propondo ao senhor, já discuti em detalhes.

 - Com quem?

 - Com os oficiais e o Sr. Dabrowski.

 - Dabrowski? O cego? Com ele, como assim?

 O comandante hesitou por um segundo.

 - Vou confiar-lhe uma coisa que deve ficar entre nós - disse depois de algum tempo. - Apelo para a sua discrição... O Sr. Dabrowski é detective e sua cegueira, apenas um disfarce. E também precisa continuar incógnito perante os passageiros daqui por diante.

 - Ora, mas por quê? Estamos falando de uma jóia muito valiosa.

 - Eu sei disso. E é justamente por isso. O roubo também não deve ser tornado público. não devemos de maneira alguma prevenir o ladrão antes do tempo, isso é o mais importante. Portanto, silêncio total, nenhuma palavra aos outros passageiros! A mínima insinuação poderá pôr tudo a perder. Devemos comportar-nos como se nada tivesse ocorrido. Vocês simplesmente não deram pela falta de nada...

 - É realmente uma impertinência aceitar isso, senhor comandante.

 - Será para o seu bem. Nenhum passageiro sairá de bordo até Valparaíso. Esperamos ter descoberto o ladrão até lá. Mas na opinião do detective, isso só será possível se o senhor e sua honrada esposa ignorarem por completo o roubo. Talvez isso faça com que ele fique descuidado.

 - E se não ficar? Como você disse, ele é um profissional. Um profissional não fica nervoso... ora, não me venha com essa conversa, comandante! já defendi muitos profissionais cujos nervos muitas vezes eram melhores do que os meus.

 - O silêncio é a melhor armadilha, creiam-me. O ladrão será obrigado a conviver com uma tremenda desvantagem: ele não poderá sair do navio. não antes de Valparaíso. Dr. Schwarme, minha cara e honrada senhora... Contamos com sua colaboração.

 Eles beberam o vinho de Lorena e, durante algum tempo, encararam-se sem dizer palavra nenhuma. No final, o Dr. Schwarme recomeçou a conversa.

 - Devo reconhecer que quase não existe uma possibilidade. - Ele olhou para Erna, sua mulher. esta renunciara a ficar passando o lenço pelos olhos e lábios. - O que você diz disso, querida?

 - Sou de sua opinião, Peter - sussurrou ela. Enquanto criatura desamparada, Erna parecia ainda mais jovem e bela; as pessoas sentiam um impulso constante de acariciá-la. - não direi uma palavra.

 - Minha velha pergunta ainda está valendo: o que acontecerá quando ocorrer a troca de passageiros em Valparaíso, sem que tenhamos encontrado o ladrão?

 - Neste caso estaremos numa situação na qual ainda não ouso pensar. Mas isso só acontecerá quando estivermos a um dia da chegada a Valparaíso. - O comandante Teyendorf brindou ao casal Schwarme: - Bebamos ao nosso sucesso!

 

 Bateram os copos, um pouco aflitos, mas Já não mais tão desesperançados. Pelo contrário: nesse momento, Erna Schwarme meditava com toda a atenção sobre de quem seria a vez, caso o ladrão atacasse outra vez. Seria, em primeira linha, a Sra. White. Depois as jóias de Sylvia de Jongh, a arrogante. No mínimo setenta mulheres haviam levado as fortunas de seus maridos para passear a bordo... um verdadeiro paraíso para um ladrão de jóias!

 O comandante Teyendorf ficou satisfeito com esse acordo do silêncio. Agora o detective podia continuar bancando o cego. Então, alguns minutos depois, Dabrowski telefonou chamando o comandante com urgência.

 Teyendorf fingiu que necessitavam de sua

presença na ponte. Despediu-se do casal Schwarme, esperou mais alguns minutos até estar seguro de que ambos estavam fora do campo de visão e então desceu ao cinema de bordo.

 Dabrowski, Riemke, Willi Kempen e o comissário-chefe Pfannenstiel estavam sentados diante de um projector de tevê a cores, cuja tela era espantosamente grande. Levantaram-se quando Teyendorf entrou no cinema.

 - não sejamos tão formais, cavalheiros! - disse o comandante. Foi apenas uma exortação retórica, pois a disciplina, a ordem e a boa conduta faziam parte das regras básicas de sua vida. Jamais alguém se atreveria, por exemplo, a chamá-lo apenas de "com"... essa pessoa seria enquadrada no acto. Em toda parte e em qualquer momento

chamavam-no apenas de "senhor comandante". Qualquer negligência era, aos olhos de

Teyendorf, o começo do caos.

 Ele sentou-se junto aos outros e Riemke gritou para o operador de filme de tevê:

 - Pode rodar, Raffael!

 Raffael, o operador de cinema e técnico de tevê de Catânia, que não se abalava diante de nenhum problema relacionado com a electricidade, apagou parte da iluminação da sala por intermédio do regulador de luz. Em seguida, apareceu na gigantesca tela de tevê uma tomada total da cabina da tripulação. A câmara fez uma evolução e enfocou o primeiro marinheiro que se dirigiu à porta. Com um movimento bem rápido, ela aproximou-se da cabeça, de tal modo que a partir desse instante só se viam rostos em close.

Os marinheiros, em tamanho gigante, lançavam sorrisos para a câmara.

 - Eu nunca vi os rapazes com tanta exactidão - disse Willi

Kempen.

 Após seis tomadas, Dabrowski disse entre as imagens:

 Agora vem o primeiro barbudo. Mas sua barba é louro

avermelhado. Ele sempre foi assim? Ou será que pintou rapidamente?

 - Esse aí é Franz Stickerich. - O comissário-chefe Pfannenstiel deu uma gargalhada, pois Stickerich olhou para a câmara como um pateta. - Eu só o conheço de barba vermelha.

 

 O desfile dos rostos durou quase duas horas. Foram, no total, cento e setenta homens. Os outros estavam de licença em terra e seriam filmados de manhã cedo. Havia quatorze homens de barba escura no primeiro desfile, mas de cada um deles dizia ou Pfannenstiel ou Riemke: "Tenho cem por cento de certeza que este é inocente!" Entre eles tão-pouco havia alguém que antes usasse barba e que, de repente, a tivesse cortado.

 - Ninguém é inocente - disse entretanto Dabrowski. - Eu não gostaria de saber quantos deles têm a consciência pesada. Mas trata-se de um assassinato... ou de alguém que tenha algo a ver com a morte.

 - Quem dentre os passageiros usa barba escura? - perguntou o comandante Teyendorf.

 O director de hotel Riemke pegou numa lista no bolso do paletó.

 - Nove senhores. Anotei os nomes e suas profissões. Nenhum deles precisaria dos dólares da Sra. White.

 - Mas é oportuno que tenhamos uma saudável suspeita em qualquer situação. - Dabrowski continuou de olhos fixos no desfile de rostos que enchiam toda a tela de linho. - Uma vez eu tive um caso no qual estava implicado um multimilionário. não era um milionário em termos de propriedades, mas sim de conta bancária. Coisa que de facto é importante! Existe uma grande quantidade de milionários em propriedades; mas milionários em conta corrente, que podem ter imediatamente seus milhões em notas quando bem entenderem... são pouquíssimos. E esse distinto cavalheiro, ele tinha um nome fulgurante, havia assaltado,, de máscara de meia, nove joalharias em toda a Europa, no total. Ele roubava milhões nesses assaltos; contudo, no máximo dentro de três dias ele sempre mandava as jóias apreendidas de volta para o joalheiro. até que nós o agarramos em flagrante. Quando tinha quatorze anos, um dia esse sujeito viu um filme sobre ladrões de jóias, coisa que provocou um contacto frouxo em seu ciclo. Ele ficava possuído por uma compulsão, de um modo bem irregular. Você tem de roubar uma loja! O sujeito foi para tratamento psiquiátrico, não houve nenhum processo judicial. Hoje em dia ele está curado numa gigantesca mansão junto ao lago de Genebra e não consegue compreender sua vida anterior. - Dabrowski pigarreou. - Com isso só estou querendo dizer que devemos incluir no rol dos suspeitos esses nove honrados passageiros que usam barba. Claro que com a maior discrição e reserva.

 As duas horas de apresentação não renderam nada de essencial: nenhum daqueles que desfilou diante da câmara mostrou o menor sinal de medo no rosto. Somente curiosidade, espanto e inclusive humor. Para muitos, aquela aparição na tevê foi uma verdadeira diversão.

 - Portanto, para começar um fracasso! - o comandante Teyendorf resumiu o resultado do primeiro controle de rostos. - E se for assim também com a outra parte da tripulação?

 - Então colocarei os nove passageiros debaixo de minha lupa. Mas não creio que seja necessário. Tenho a sensação de que o acharemos entre a tripulação. Temos muito tempo até Valparaíso.

 - É o que você diz! - Teyendorf levantou-se. - Estamos numa situação bem desagradável, meus senhores, para não dizer directamente: numa situação de merda!

 Foi a primeira vez que os oficiais ouviram seu comandante falar dessa maneira.

 

 

Barbara Steinberg, a bela cabeleireira de Bochum, estava radiante; sua grande paixão, o Dr. Paterna, o médico de bordo, a convidara para a noite folclórica e dançante no Salão dos Sete Mares. Ela apareceu num vestido branco e simples, mas com um decote tão refinado que o Dr. Paterna perguntou-se de novo: não é possível? Como ela é na verdade? Será que só está bancando a ingénua que economizou anos para fazer essa viagem... ou o é de facto?

 Ele fez um pequeno teste. Na dança, apertou-a contra seu corpo, mas sentiu na mesma hora o enriquecimento de seus músculos; uma contracção que fez com que o corpo de Barbara ficasse rígido. Uma vigarista que sai em busca de aventuras teria reagido de outra maneira.

 - está bem quente aqui, apesar do ar-condicionado - disse ele após o fim da rodada de dança. - Vamos dar um pulo ao convés? No tombadilho? Lá fora está uma noite magnífica. Um céu estrelado que parece de sonho. E, em compensação, um vento quente soprado das montanhas. E depois o mar de luzes de Acapulco... Você não devia perder. Vamos? Ela assentiu, ainda um pouco rígida, e seguiu o Dr. Paterna até o elevador. Quando saíram no tombadilho e viram à sua frente a iluminada Acapulco e acima o céu amplo, estrelado e cintilante, deram mais alguns passos e encostaram-se na amurada.

 - Parece uma magia - disse Barbara em voz baixa, após um longo tempo de silêncio entre os dois. - não é linda a nossa terra...

 - Você ainda vai ver muitas coisas que a deixarão com o coração latejando. O canal do Panamá. A ilha de San Blas com os índios cunas. Guaiaquil, a cidade construída na selva, com um esplêndido cemitério de mármore, o mais bonito do mundo. Cuzão, a antiga capital dos incas. Machu Pichu, a cidade perdida dos incas no meio de um macio de rochedos cobertos pela selva. E muitas, muitas coisas mais. - Ele pousou o braço no ombro de Barbara e tornou a sentir o endurecimento. - Sempre que for possível, vou acompanhá-la a todas as partes... Caso você queira. Mas com certeza a Cuzão e Machu Pichu; como médico, preciso acompanhá-los no voo, por causa da altitude extrema: 3.500 metros de altura. Todas as vezes, alguns passageiros sentem vertigens, pois o ar é muito rarefeito.

 - Será que eu também vou sentir?

 - Nunca se sabe de antemão.

 - Sou muito saudável.

 Ela tornou a olhar para o céu estrelado e estremeceu ao ouvir passos no convés atrás. Um outro casal passou por eles e depois foi sentar-se num dos banquinhos de plástico branco instalados ao longo da parede do convés entre as janelas das cabinas do solário. O jovem de calças brancas e blazer azul pareceu muito encabulado e, de repente, levantou-se.

 Vejam só, pensou o Dr. Paterna, quem poderia imaginar: O parceiro bicha de Jens van Bonnerveen está rompendo. Está-se iniciando outra tragédia clandestina.

 O jovem foi até o Dr. Paterna e pigarreou:

 - Posso falar com o senhor um minuto a sós, doutor? - perguntou ele. Sua voz traía uma grande tensão íntima. Paterna assentiu.

 - Queira desculpar-me, Barbara - disse ele. - Volto daqui a pouquinho.

 Ele afastou-se um pouco com o jovem encabulado chegando junto à parede e, assim, os dois ficaram fora do alcance.

 - está sentindo alguma coisa?

 

 - Meu nome é Grashorn. Eduard Grashorn. - O jovem hesitou outra vez. - Antes de continuar falando, doutor... preciso confessar-lhe uma coisa...

 - Eu sei. Você subiu a bordo com um amigo e agora tem uma jovem dama ao seu lado.

 - O senhor... o senhor sabe o que está acontecendo connosco?

 - Olha, quase não daria para se deixar de notar, Sr. Grashorn. Seu parceiro não faz o menor esforço para esconder suas inclinações. Parece que você é o grande amor dele.

 - É isso. - Grashorn soluçou algumas vezes. - Eu... eu gostaria de pedir-lhe que o senhor não dissesse a ninguém que me viu hoje aqui.

 - Mas isso é claro.

 Ele viu Eduard Grashorn respirar aliviado. O rapaz tinha vinte e três anos de idade, era pedreiro desempregado. Por acaso, há algum tempo atrás ele chegara a um bar frequentado por homossexuais. Foi visto por Jens van Bonnerveen, um rico arquitecto, que se apaixonou por ele à primeira vista. Grashorn era o que se podia chamar de belo adolescente: de estatura mediana e magro, gracioso como uma moça e com imensos olhos azuis. Antes de entrar naquele bar, jamais lhe passara pela cabeça afeiçoar-se por um homem. Ele não teria a menor inclinação para isso. Mas quando van Bonnerveen convidou-o para um champanhe e caviar e levou-o para sua mansão, quando ele viu toda a riqueza e pensou em sua própria situação, então foi possuído por uma espécie de indiferença para com seu destino. Seu pai bebera até morrer quando Grashorn tinha nove anos, ganhava honestamente seu dinheiro como passadeira numa lavanderia e ele tornara-se servente da construção civil, sendo mais tarde nomeado pedreiro, posto que dissera a si próprio: as construções estão sempre em ordem e do que mais precisa um ser humano para viver Além de comida, bebida, amor e um teto sobre a cabeça? Depois veio a conjuntura de depressão, a firma construtora abriu falência e ele não encontrou outro emprego em lugar nenhum, pois todas as empresas de construção queixavam-se da falta de obras.

 Agora ele estava na mansão do arquitecto, cercado de quadros e tapetes, mármore e vidro, bebendo champanhe e tolerando que van Bonnerveen o acariciasse e inclusive o beijasse e o apalpasse de mãos trémulas.

 Aqui está o dinheiro, pensara ele. Aqui, o dinheiro jorra na fonte. Se você colaborar, não vai ter mais preocupações. O sujeito está louco por você... Colabore, Eduard!

 Nessa noite, ele dormiu com van Bonnerveen. Foi duas vezes ao banheiro para vomitar; mas quando teve nas mãos sua primeira nota de mil dólares, ficou sabendo como seria seu futuro. Nesse meio tempo, já estavam juntos havia quase um ano e van Bonnerveen continuava tão apaixonado como no primeiro dia. O corpo gracioso e curvilíneo de Grashorn o deixava maluco. não havia nenhum desejo que van Bonnerveen não realizasse. Assim também fora com essa viagem por meio mundo. E agora Eduard Grashorn vira uma jovem no navio e sentira que ela não estava inclinada só para uma aventura de viagem.

 - Eu Agradeço, doutor - disse ele nesse momento.

 - O que será se seu parceiro notar? - perguntou o Dr. Paterna.

 - Ainda não sei. Pode acontecer um tremendo dramalhão. Mas espero que ele não note.

 - Onde está ele nesse momento?

 

 - No Clube do Pescador. Provoquei uma briga e saí furioso. Para ir ao encontro de Annemarie...

 - E não tem medo que ele venha atrás procurá-lo?

 - não. Jens sabe ser cabeçudo como um touro... Mais uma vez: muito obrigado, doutor.

 Grashorn voltou ao banco e sentou-se ao lado da jovem. No mesmo instante, ela pousou a cabeça em seu ombro e pareceu sussurrar-lhe alguma coisa. O Dr. Paterna voltou pensativo à amurada.

 - Eu gostaria de lhe dar um beijo agora - disse ele súbita e directamente para Barbara Steinberg.

 - Oh! Por quê? - os olhos de Barbara ficaram arregalados. - E o senhor sempre pede...

 - não. Nunca! Mas com você é diferente.

 Ele puxou-a, envolveu-a com os braços e beijou-a. De repente, estava pouco ligando se era visto ou não.

 E ele foi visto!

 

O Atlantis partiu do píer de Acapulco às 14 horas em ponto e, acompanhado por dois rebocadores, saiu lentamente da ampla e magnífica baía retornando ao Pacífico. como sempre, o comandante Teyendorf permaneceu na ponte dirigindo com segurança o gigantesco navio branco através do porto.

 Embora tudo ainda continuasse escuro, ele respirou aliviado à medida que Acapulco foi ficando cada vez mais longe, até que, no final, desapareceu no sol brilhante.

 Haviam escapado de uma baldeação mais longa graças à constatação do médico da delegacia de saúde mexicana, segundo o qual a Sra. White teria morrido de paragem cardíaca. Como antes, Teyendorf achava correcto ter-se calado sobre a suspeita de assassinato em interesse dos passageiros. Afinal de contas, nada havia sido provado e o próprio médico de bordo, o Dr. Paterna, confessara que podia estar enganado. Mas por que sumira todo o dinheiro da Sra. White?

 Willi Kempen, o primeiro-oficial, recostou-se na balaustrada ao lado de Teyendorf e, como este, ficou olhando para a magnífica cidade. De longe ela parecia mais encantadora ainda, posto que não se via a sujeira que, lenta porém constantemente, descia das encostas, onde os nativos viviam, em direcção à cidade. Mas era assim por toda a parte. Seja em Caracas ou no Rio, em Lima ou Cartagena: a partir das favelas, a miséria espraiava-se cada vez mais nos centros urbanos. Ela crescia como uma colina de cogumelos.

 - Graças a Deus, senhor comandante! - disse Willi Kempen.

Com isso, ele expressou o que Teyendorf estava pensando.

 - Acabou-se.

 - Por enquanto, meu caro.

 - Que mais pode acontecer?

 - Uma baita duma acusação por encobrimento de um assassinato.

 - E quem faria? Quem pode saber Além de nós... um punhado de pessoas?

 

 - Quando Dabrowski descobrir o criminoso, este terá de ser entregue à polícia. E então vai ser o diabo! - Teyendorf suspirou. - Mas não vamos pensar hoje no que poderá acontecer em Valparaíso. - Nesse momento, eles haviam chegado à larga saída da baía e despediram-se de Acapulco com três potentes tocões de sirene. Os dois rebocadores responderam com suas sirenes claras. - Dabrowski está avaliando o videocassete da manhã. Se tão-pouco ele descobrir alguma coisa suspeita na segunda parte da tripulação, então será a vez dos passageiros. A coisa ainda pode ficar mais pesada!

 Na parte de fora da extremidade da ponte, onde havia uma plataforma de vista para os passageiros, Ludwig Moor, o homem que andava um quilómetro pela manhã, estava olhando de binóculos a cidade que se desvanecia. Ele a achara muito interessante, embora muitas vezes o caos das ruas o deixasse perturbado. Na verdade, não gostaria de passar suas férias ali, mesmo que possuísse o dinheiro necessário para hospedar-se num dos hotéis-pálacio protegidos contra tudo, um gueto dos ricos. Sentia-se melhor em Norderney, onde as pessoas ainda podiam unir-se à natureza e ao mar. em acapulco era-se apenas parte integrante de um barulho organizado, uma formiga entre formigas. No Rio a coisa não seria diferente; ele já havia visto muitas fotos de Copacabana com o formigueiro humano diante da estação do Pão de Açúcar. Moor preferia as coisas mais tranquilas da vida, assim como se acostumara ao seu trabalho no tribunal da comarca: a repartição de cadastro era um oásis de tranquilidade.

 - A Sra. White ficou em terra? - perguntou ele a Teyendorf.

 O comandante virou o rosto para Moor e encarou-o com um ar inquisidor.

 - Hoje de manhã eu vi quando limpavam a suíte dela. Então eu fui dar uma espiada... sabe, as pessoas são curiosas e eu nunca tinha visto uma suíte de luxo. Tudo parecia tão abandonado.

 - Sim, a Sra. White ficou em terra: Ela esteve no consulado americano e quer viajar por todo o México. Mudou de idéia. Aliás, nós já conhecíamos as excentricidades dessa dama, não foi nenhuma novidade para nós...

 Ludwig Moor assentiu e saiu da plataforma da ponte. Teyendorf seguiu-o com a vista, pensativo.

 - Por que é que ele pergunta tanto? - disse ele a Willi Kempen. - Viu alguma coisa?

 - Talvez o desembarque do caixão...

 - Mas alguns outros passageiros também viram e Nós tínhamos uma explicação para o facto.

 - Podemos supor também que ele saiba de mais coisas. Devíamos informar o Sr. Dabrowski sobre essa rápida conversa.

 Enquanto o Atlantis desaparecia no brilho do sol da entrada da baía, Claude Ambert estava na janela de seu hotel um tanto ou quanto vagabundo, situado na metade da encosta de Acapulco, no lugar onde já começam as favelas. Ele acenava para o navio branco. A despedida de três tocões da sirene ecoou até ele e, igual ao comandante Teyendorf, Claude Ambert também respirou aliviado.

 Consegui. Acabou. Esse continuará sendo o assassinato perfeito. não havia a menor suspeita sobre o domador de elefantes. Todos a bordo sabiam que ele sempre ficara ao lado de seus queridos animais, aqueles gigantes com enjoo do mar. Nesse momento, eles encontravam-se no estábulo do circo México Glória, que era um meio-termo entre variedades, circo e cabaré, onde tanto apresentavam-se cantores cheios de esperanças, quanto panteras negras, ou inclusive elefantes.

 

 Claude Ambert fez a caixa em seu quarto de hotel, cuja única beleza era um balcão de onde se tinha uma vista da cidade - uma verdadeira cena de cartão-postal. Empilhou as notas de dólar sobre a mesa à sua frente e contou-as; uma sensação arrebatadora para um homem que, em geral, beijava agradecido qualquer nota de cem dólares que possuía. O dinheiro deslizou nota após nota entre seus dedos com um tremor cada vez mais potente e, quando terminou de contar as pilhas da esquerda para a direita, ficou sabendo que encontrara exactamente 63.450 marcos na gaveta de Anne White. Ele cruzou as mãos no peito, recostou-se para trás e cravou os olhos no tecto de gesso de coloração marrom de tanta fumaça de cigarro: 63.450 marcos! já se podia fazer algo com isso. Aos trinta e seis anos ainda não se é velho para começar alguma coisa nova. Vivendo-se de modo sensato e caso não ocorra nenhuma desgraça, ainda se têm uns bons quarenta anos de vida pela frente. Quarenta anos sem preocupações, desde que o dinheiro seja aplicado de maneira correcta e passe a se multiplicar.

 Para começar, ele se separaria das elefantas. Partia-lhe o coração abandonar Sissy e Berta, mas não seria possível começar uma nova vida com duas elefantas ao lado. Terminara sua existência de domador. Claro que ele cumpriria seu contrato com o circo apresentando-se com Sissy e Berta durante duas semanas; mas depois teria o caminho livre para uma nova vida.

 Nessa tarde, ele deu consecutivos telefonemas para os zoológicos da cidade do México, de Guadalajara, Puebla e Cidade Juarez, oferecendo suas elefantas à venda. Descreveu com palavras emocionadas suas habilidades, fidelidade, mansidão, força e saúde. Infelizmente, encontrou pouca correspondência no amor dos directores dos zoológicos.

 Já tinham elefantes de sobra nos jardins zoológicos e o facto de os animais de Ambert dominarem uma série de pequenas habilidades não induziu os directores a comprar Sissy e Berta. Mesmo quando Ambert ofereceu, com imensa dor íntima, suas queridas de presente, os directores declinaram. Dois elefantes crescidos e mimados custavam milhares de pesos por semana. Já estavam lotados com os exemplares exibidos nos zoológicos.

 - Mas eu não posso matá-las! - Ambert gritou ao telefone, quando o director da Cidade Juarez recusou as duas com toda a amabilidade. - Elas são carne de minha carne!

 - Bem, se é assim - respondeu o director com um certo escárnio - o senhor só precisa continuar carregando esse fardo...

 Depois dessas conversas, Claude Ambert foi sentar-se muito deprimido no balcão do quarto de hotel e ficou olhando a cidade que dali oferecia uma vista magnífica. Rejeitou no acto a idéia de simplesmente abandonar Sissy e Berta no estábulo do circo e pôr o pé na estrada, justamente porque seu coração estava preso aos dois gigantes cinzentos. Elas o haviam servido com fidelidade, o haviam sustentado com suas artes. Bastara para que os três tivessem comida e bebida. Seria uma crueldade infame simplesmente abandonar agora as elefantas a um destino inseguro. Parecia uma loucura, mas era assim: Claude Ambert, o assassino frio de Anne White, ficava com os olhos marejados de lágrimas ao imaginar como Sissy e Berta trombeteariam de saudades dele e passariam a não comer mais nada de puro desgosto.

 

 Ele ficou sentado no balcão o dia inteiro até o crepúsculo, sem encontrar nenhuma saída. só sabia de uma coisa: a velha vida teria de ficar para trás de uma vez por todas; e as elefantas faziam parte dela. Quando o céu tingiu-se de dourado, Ambert retornou ao quarto, trocou de roupa e desceu a encosta do morro indo em direcção ao circo na cidade. No minúsculo camarim, vestiu seu traje, o hábito de um marajá hindu, cobriu os cabelos com o turbante e depois entrou no estábulo. Sissy e Berta cumprimentaram-no com o matraquear de correntes e gritos ensurdecedores.

 - Meus docinhos! - disse Ambert comovido acariciando as trombas que o tocaram. - Que farei de vocês? Ninguém quer ficar com vocês. Os seres humanos não têm coração, é o que lhes digo. Eu também sou um egoísta, quero livrar-me de vocês para começar vida nova. Mas antes disso tratarei de que vocês passem bem até o fim da vida, mesmo que ainda não saiba de que maneira.

 

Após o jantar do segundo horário de refeição, ao qual Ewald Dabrowski não compareceu - sua "enfermeira" Beate sentou-se sozinha à mesa C 8 - o comandante Teyendorf recebeu por telefone a notícia de que devia fazer o favor de comparecer à sala de cinema; era provável que o assassino de Anne White tivesse sido encontrado.

 Depois desse comunicado, Teyendorf bebeu rápido um copo de conhaque, pôs o quepe e desceu de elevador ao convés principal. Dabrowski, o director de Hotel Riemke e o Dr. Paterna já se encontravam sentados diante do projector de tevê, fumando nervosos, embora fosse expressamente proibido fumar ali.

 - Mas é claro que isso não pode ser verdade! - Teyendorf foi logo gritando ao entrar.

 O Dr. Paterna levantou as mãos num gesto de defesa.

- Quando assistir ao quadro, o senhor também vai fumar, comandante.

- não sou da mesma opinião. Fico maluco ao pensar que haja um assassino na minha tripulação. Quem é ele, então?

 Dabrowski apontou para o assento livre ao seu lado. Lá na frente, a tela fosca já estava brilhando. Eles tornaram a ver rostos curiosos, espantados, divertidos, risos e piscar de olhos... e então apareceu uma cabeça com barba negra e densa, cabelos pretos encaracolados e olhos ainda turvos da noite anterior. O sujeito lançou um olhar um tanto tímido para a câmara, o canto dos olhos tremeu, sua boca manteve-se firmemente fechada, nos olhos pairava uma espécie de sorriso. Quanto mais a câmara retardava-se nele, mais evidente tornava-se o tremor contido de seu rosto.

 O próximo. Outra vez um rosto alegre, bem diferente do homem barbudo. Dabrowski mandou parar o filme, voltar atrás e parar no momento em que o conhecido barbudo olhava para a câmara. Essa imagem fixa traía ainda mais: uma contorção do rosto que, como era evidente, o sujeito não conseguia controlar mais.

 - O que lhe ocorre, senhor comandante? - perguntou Dabrowski com toda a calma.

 - Esse cara passou a noite inteira bebendo e trepando em acapulco. - Teyendorf olhou a imagem fixamente. - Uma grande quantidade de meus homens fez o mesmo. Os marinheiros em terra são como touros soltos num curral de vacas.

 - Esse homem está com medo, senhor comandante!

 - Quem é ele?

 

 - Ele se chama Jim Hendriksen e é mecânico da casa de máquinas do navio. Já me informei com o chefe; ele o acha um de seus melhores homens.

 - Que o chefe venha até aqui!

 num navio, o chefe é sempre o engenheiro-chefe, a quem está sempre subordinada toda a maquinaria dessa cidade flutuante. Sem ele simplesmente nada anda. De que serve o melhor comandante ou o melhor oficial-navegador se as máquinas não funcionarem? Devem ser dominados e cuidados mais de 28 mil cavalos-vapor, os goniómetros e estabilizadores, os geradores e toda a instalação técnica. Quando ocorre

alguma falha técnica no bojo do navio... o chefe é sempre chamado.

 O chefe do Atlantis chamava-se Ludwig Wurzer, era originário da Floresta Negra, havia vinte e quatro anos que estava no mar e, no próximo ano, comemoraria seu jubileu de prata não engenheiro-chefe. O dia já estava marcado: a festa seria no mar, na viagem de Mogadiscio a Aden. era de se esperar uma grande bebedeira, pois Ludwig Wurzer era uma pessoa alegre, sempre muito querido entre as passageiras, um verdadeiro dançarino deslumbrante e infatigável e homem charmoso. Sobre ele corria a lenda de que quanto mais lubrificadas funcionassem suas máquinas, mais atencioso e activo ele era na cama. não se dava lá muito bem com Teyendorf, que para ele era austero demais e por demais furioso com a disciplina, como ele mesmo dizia, Além de ser inatingível enquanto pessoa. Tinha um contacto melhor com o outro comandante do Atlantis, o mais jovem e enérgico Erik Holter, embora este também desse prosseguimento à tradição: um comandante em viagem tem de ser uma pessoa de autoridade!

 O chefe Ludwig Wurzer levou uns dez minutos para chegar à sala de cinema. Parou na porta. No ambiente de iluminação exígua e contra o pálido brilho da tela da tevê, conseguiu reconhecer Teyendorf e Riemke, depois o Dr. Paterna também. não conhecia o sujeito do meio, mas supôs tratar-se do detective sobre quem Riemke lhe contara sob o juramento de silêncio.

 - Quem é esse aí na tela, chefe? - perguntou Teyendorf com um tom de voz oficial.

 - O mecânico Jim, senhor comandante. Um de meus melhores homens. há três anos que viaja com o Atlantis... mas é claro que o senhor o conhece, comandante.

 - Naturalmente. - Teyendorf olhou fixo para o rosto de Jim.

- Você acha que Jim seria capaz de cometer um assassinato?

 - Um... o quê? Nunca, jamais! - a voz de Wurzer elevou-se um pouco. - O cara que pensar isso, deve estar com um parafuso frouxo na cabeça. não conhece Jim. Desculpe-me, senhor comandante... mas fiquei com raiva. Quem, quando e onde Jim matou?

 - Quem? A Sra. White. Quando? Anteontem à noite. E onde? Aqui a bordo.

 - Impossível! Jim esteve na casa de máquinas de manhã bem cedo e depois teve folga em terra até hoje de manhã.

 - E na noite anterior?

 - Ficou na cama, é o que eu suponho.

 - Você supõe, chefe! é disso que estamos tratando: ele ficou deitado na sua cama ou na da Sra. White? E depois assassinou-a? E por quê?

 

 - Porque uma grande quantidade de dólares cujo montante não sabemos, atrai qualquer pessoa. Mas segundo a nossa opinião deve tratar-se de uma fortuna. não foram roubadas jóias, estas ainda se encontravam na suíte. só estava faltando o dinheiro vivo. Mas não faria o menor sentido procurá-lo agora com Jim. Em primeiro lugar, ele não poderia escondê-lo em sua cabina, pois não vive sozinho. Em segundo lugar, justamente para ele que conhece cada cantinho do navio, existem outros esconderijos mais seguros. E em terceiro lugar, não temos nada nas mãos, trata-se apenas de uma suspeita. - Teyendorf apontou para a imagem na televisão. - Dê só uma olhada no rosto dele, chefe.

 - Bem, Jim teve uma noite intranquila. Além disso, ele tem de facto uma bela barba...

 - Esses fios de barba negros foram encontrados na cama da morta Anne White - replicou Dabrowski tranquilo. - Claro que isso não é nenhuma prova contra Jim, mas ele foi o único que olhou para a câmara com medo durante o desfile da tripulação. Seu rosto está dizendo que ele tem alguma coisa a esconder.

 - Bem, se se trata de uma barba... eu também uso uma! - disse o chefe Wurzer em tom agressivo.

 Dabrowski não desistiu:

 - é verdade. Você também está na fila, Sr. Wurzer.

 - Mas isso é uma insolência! - o chefe Wurzer olhou insultado para Teyendorf. - Senhor comandante, afinal quem é esse sujeito? Na qualidade de oficial do Atlantis sinto-me agredido sem nenhuma justificação.

 - Tomarei nota disso, chefe. - A voz do comandante estava estranhamente serena. - Mas não saia por aí batendo com a língua nos dentes. Os outros passageiros barbudos também são suspeitos. Trata-se de um assassinato; num caso como esse, todos Nós, inclusive eu, devemos agir com bravura e não fazer barulho. - Teyendorf levantou-se. Os outros seguiram-no. - E agora, Sr. Dabrowski?

 - Vamos interrogar Jim, senhor comandante.

 - Sem provas?

 - Agiremos como se tivéssemos alguma. Olha, e eu chego ao ponto de afirmar que existem provas. Aqui no navio estão algumas centenas de olhos. Deve existir uma testemunha ocular. Aposto!

 - Uma testemunha do assassinato?

 - Mas claro que não! Algum que tenha visto Jim entrando ou saindo da cabina, caso tenha sido ele realmente quem esteve deitado na cama da Sra. White. num navio nada fica em segredo; de qualquer modo, ,nunca soube que ficasse.

 

O interrogatório de Jim foi feito na cantina. O chefe Wurzer ficou mascando a ponta do cachimbo, quando o mecânico entrou, devagar, olhando em volta qual animal acossado, com um tremor no canto dos olhos. O olhar de seu comandante parecia perturbá-lo ao extremo. Tomou assento numa cadeira que o chefe lhe apontou e enganchou as mãos entre os joelhos. Seu olhar deambulou de homem a homem, seus lábios estavam cerrados. Dabrowski andou em volta dele bem devagar, coisa que evidentemente deixou Jim intranquilo.

 

 - Eu sou Ewald Dabrowski - disse ao encontrar-se de novo frente a frente com Jim. - Detective profissional. E você é Jim Hendriksen, mecânico de bordo do Atlantis. O chefe deu as melhores recomendações sobre você, Jim. Mesmo assim tem um ponto obscuro em sua vida. Quer falar sobre isso?

 - Eu... eu não sei o que você quer dizer, Sr...

 -... Dabrowski. Pense direito! não muito atrás no passado, mais para o presente. Para sermos precisos: anteontem à noite. O que houve então?

 - Aí eu estava com a bunda metida no beliche...

 - Mário, seu companheiro de quarto, pode confirmar isso?

 - não. Afinal, ele estava de serviço no bufé da meia-noite e depois no bar. Deve ter chegado à nossa cabina, quando eu já estava de novo na sala das máquinas.

 - Portanto, você não tem testemunhas?

 - Disso... não.

 - O que você diria se Nós lhe confessássemos: temos uma testemunha que informou tê-lo visto saindo furtivamente da suíte da Sra. White?

 - Eu digo: idiotice! Quem é a Sra. White? Que suíte? - sua voz saiu abespinhada, mas o canto de sua boca tremeu. E também os dedos que ele enganchara entre os joelhos, começaram a ficar intranquilos. - Afinal ao que imputa, o que é que está vendo-me? Eu gostaria de ser confrontado com essa Sra. White.

 - Você sabe muito bem que isso não é mais possível, Jim. E agora trate de prestar atenção: daqui a pouco Nós vamos cortar-lhe alguns pêlos da barba, da cabeça e da pélvis e o Dr. Paterna examinará esses cabelos no laboratório, para compará-los com os cabelos que foram encontrados na cama da Sra. White. Esse teste trará à luz sua culpa ou inocência. - Dabrowski aguardou o efeito de suas palavras, mas Jim era um osso duro de roer.

 - E se eu me recusar a deixar que alguém corte os cabelos do meu saco? Ninguém tem esse direito, ninguém!

 - Se você não tiver nada a ocultar, então por que iria recusar-se a deixar?

 - E não foi que você chegou justamente a mim? Muitos usam barba. Até o chefe. Também vai cortar os cabelos do saco dele?

 - Se for preciso, sim!

 - É verdade, chefe?

 Wurzer hesitou durante alguns minutos. Depois respondeu:

 - É, Jim. Trata-se duma coisa séria pra diabo.

 Jim Hendriksen cravou os olhos no chão à sua frente, tamborilou com a ponta dos dedos na parte interna dos joelhos, com expressão de quem estava travando uma luta mortal consigo mesmo. Teyendorf encarava-o com a respiração presa; Riemke também mordia o lábio inferior. Reinava um silêncio total no ambiente... Qualquer palavra supérfula nesse momento teria posto tudo a perder. era uma difícil decisão que Jim devia tomar.

 - Eu... eu sei, chefe, disse ele no final, hesitante, deixando a cabeça pender enquanto falava. - A Sra. White está morta.

 Teyendorf respirou aliviado e acendeu um cigarro. Riemke ficou arrancando os cabelos., o Dr. Paterna recostou-se serenamente.

Apenas Wurzer disse em voz alta:

 - Jim, seu arrombado! Por causa de um punhado de dólares... um assassinato...

 

 - Assassinato?! - a cabeça de Jim levantou-se de supetão. - Assassinato, como assim?! Ela teve um ataque do coração. Estava morta como quem dorme, quando acordei pela manhã e me levantei da cama. Só notei que ela estava morta quando a toquei. Já estava fria como gelo. Aí eu saí da cabina e dei no pé. A velha não aguentou mais, foi o que pensei... você trepou com ela até matá-la; cara, isso vai dar o maior alvoroço!

- Jim desviou o olhar de um para o outro balançando a cabeça. - Portanto, que assassinato? Eu também fui surpreendido. não notei nada.

 - Porque estava bêbado e cansado, seu bobão - disse o chefe de modo rude. - Ir para a cama com a velha!

 - Ela ainda tinha um corpo fenomenal e pimenta na bunda. Realmente, chefe. E Além disso eu ganhava mil dólares por cada vez.

 - Por cada vez?! - a voz de Teyendorf elevou-se. - Com que frequência você esteve com a Sra. White?

 - Foi a segunda vez, senhor comandante. - Jim piscou os olhos.

- Ela me chamava de "meu tourinho forte".

 - Quer dizer então que ela já estava morta quando você acordou? - perguntou Dabrowski sem entrar nos detalhes eróticos.

- Foi o que eu disse. Fria e morta! Ataque do coração.

- Assassinato! - Dabrowski lançou um olhar duro sobre Jim.

- Assassinato por causa de um monte de dólares que se encontrava na escrivaninha. Onde você guardou o dinheiro, Jim?

 - não fui eu.. - Jim levantou-se e esticou os braços na direcção de Wurzer num gesto súplice. - Chefe, me ajude! Você me conhece muito bem... acha que sou capaz de matar alguém? Acha que sou capaz disso?!

 - O negócio está muito triste, Jim. - O chefe Wurzer enxugou o suor da testa. não foi ele, pensou. não pode ser ele, senão existe um gigantesco buraco no meu conhecimento do ser humano. - Você foi a última pessoa que a viu com vida e depois o primeiro a dar pela morte dela. Nenhuma pista, nenhum ruído, nada sobre um assassino... você nem ao menos acordou quando uma mulher era morta ao seu lado. Quem pode acreditar nisso?

 - Eu desabei como um saco de batatas e dormi profundamente. Vá trepar cinco horas sem parar com uma mulher como Anne. Você também desmaiaria, chefe...

 - Por favor, modere-se, Jim! - disse Teyendorf de modo cortante.

 - Mas a verdade é essa, senhor comandante! - Jim ergueu ambas as mãos. - Por que ninguém acredita em mim? Eu dormi e uma outra pessoa deve tê-la assassinado. Afinal de contas, como é que ela foi morta?

 - Ela foi sufocada.

 - Sufocada?

 

 - Talvez com um travesseiro. não podemos provar... mas tudo indica que tenha sido assim. - Dabrowski tornou a andar em volta de Jim. Hendriksen afundou a enorme cabeça entre os ombros. - Estou Quase inclinado a acreditar em você, Jim... mas só quase! Já esclarecemos o motivo pelo qual seus cabelos estavam na cama da senhora. E no que tange aos dois mil marcos, bem, a minha opinião é de que nossa tarefa não é fazer julgamentos morais. Mas mesmo assim resta a pergunta: quem, além de você, pode ser apresentado como assassino? Uma coisa é incontestável: o crime ocorreu apenas pelo dinheiro. E você viu muito bem onde estava a grana, quando a Sra. White pagou seus... seus serviços com o pacote de notas de marcos da gaveta. A ganância pelo dinheiro que estava diante de seus olhos de um modo tão aberto e sedutor... se isso não for um tremendo motivo para o assassinato!

 - Eu juro, não fui eu! Eu juro pela vida da minha mãe!

 Jim levou as mãos ao rosto e, de repente, começou a chorar.

Era uma cena estranha ouvir o choro daquele homem forte e taurino e ver o tremor de seu corpo. O chefe Wurzer fez alguns sinais com a mão e sacudiu a cabeça. não havia sido ele, esse era o significado desses sinais.

 - Pela vida de minha mãe... é o juramento mais forte dele. Ele adora a mãe como se fosse uma santa. Já me contou muitas coisas sobre ela. A mãe o educou sem a presença do pai. Este parece que era um caixeiro-viajante de artigos têxteis e coisas do género; viajava pelo país indo até os camponeses pobres que viviam à margem das grandes cidades e impingiu uma blusa à camponesa Else e cobrou com uma trepadinha no celeiro. Jim nasceu disso.

 - está bem, Jim. Você pode ir embora! - disse Dabrowski recostando-se no balcão da cantina. - Você está mesmo ao nosso alcance... a não ser que pule na água.

 - Jogar-me aos tubarões? - Jim levantou-se da cadeira e deu um sorriso fraco. - não sou maluco.

 Teyendorf esperou até que a porta se fechasse atrás de Hendriksen. Nesse momento, ele já havia fumado três cigarros consecutivos.

 - Foi ele ou não foi? - perguntou rompendo o silêncio. - E eu digo: não! não foi ele!

 - Então quem foi? - Dabrowski pegou uma garrafa de gim na prateleira e encheu um copo pela metade.

 - Portanto, a coisa dos cabelos está esclarecida. - O Dr. Paterna tomou o copo de Dabrowski e bebeu um longo gole. - Não se pode deduzir uma prova de assassinato a partir daí. Uma terceira pessoa pode ter entrado na suíte e ter morto Anne sem fazer nenhum barulho, enquanto esta e Jim dormiam lado a lado. Sr. Dabrowski, quando pensamos que mais de novecentas pessoas encontram-se a bordo, não é que você pensa em descobrir a famosa agulha no palheiro?

 - Com sorte. Eu confio em minha sorte.

 - não é muita coisa. - Assim, o chefe Wurzer expressou o que todos estavam pensando. E prosseguiu: - Jim está limpo como uma camisa nova. Eu seria capaz de jurar! Que droga... então quem matou a Sra. White? Que sensação mais esquisita, temos um assassino desconhecido a bordo!

 Até o anoitecer, aqueles que sabiam do segredo tiveram realmente a sensação de estar impotentes nas mãos de um criminoso frio. Somente pouco antes do jantar do primeiro horário de refeição, foi que o comissário de cabina Piet, que havia sido informado nesse meio tempo, apresentou-se a Pfannenstiel. Após escutá-lo, o comissário-chefe gritou-lhe dizendo que ele era o maior arrombado que havia no mundo e depois arrastou-o até Dabrowski.

 Dabrowski, que agora voltara a bancar o cego de modo consequente, estava sentado no sofá junto à janela e encarou Piet com seus óculos de lentes escuras.

 - Quem está aí? - perguntou assustado, como se tivesse escutado alguém sem poder enxergar.

 Pfannenstiel fez um gesto de negação.

 

 - Pode deixar a máscara cair. Esse aqui é Piet, o comissário de cabina do solário. Ele viu uma coisa tremendamente importante. O comandante e Riemke já estão vindo para cá.

 como se fosse uma deixa de teatro, bateram na porta e Teyendorf entrou na cabina. Foi seguido pelo director de hotel, o rosto avermelhado de agitação.

 - Piet! - gritou ele na mesma hora. - Que foi que o senhor viu?

 O facto de Riemke tê-lo chamado de senhor e não de você, não era de hábito, fez com que Piet reconhecesse a gravidade da situação. Seu olhar vagou entre o comandante e o director de hotel e, em seguida, ele relatou hesitante:

 - Foi assim: o Jim, que é meu chapa, chegou no escritório do meu andar com uma cara de quem estava na maior fossa e se jogou numa cadeira. "Mas que merda", ele disse. "Estão querendo botar um assassinato no meu prontuário. Imagine só, mataram a velha, a Sra. White. E eu fui o último que esteve com ela. Dei uma transada com ela por mil marcos... você também teria transado. Mil marcos! Dinheiro ganho fácil só com uma trepada..."

 - Vá directamente ao assunto, Piet! - Teyendorf interrompeu-o furioso.

- Será que vocês são caras que só têm mulheres na cabeça? E o que mais?

 - "Então, eu adormeci", disse Jim, "e quando acordei a mulher estava morta ao meu lado. Mas eu dei no pé como se não tivesse acontecido nada!" - Piet olhou na direcção de Dabrowski. - "Só que tem um detective secreto a bordo", disse Jim, "e o cara descobriu uns cabelos na cama e com isso me deixou na maior encrenca..." Mas Jim é um sujeito boa gente. E eu disse a ele: "Cara, tem uma coisa aí que não está certa. Quando foi que você trepou com a velha?" "Anteontem à noite", disse Jim. "E quando foi que você dormiu?", eu perguntei. "Sei lá", disse Jim, "lá pela madrugada." E aí temos a solução, comandante. Quando saí do Clube do Pescador, parado no escuro na porta aberta do quarto de passar roupa, vi por acaso quando alguém saiu correndo rápido como um raio da suíte da Sra. White. Dabrowski tirou os óculos. Teyendorf e Riemke encararam Piet como se este fosse um fantasma.

 - Você o reconheceu, Piet? - perguntou Teyendorf após o curto silêncio.

 - Reconheci. Com toda a clareza. era aquele domador de elefantes esquisito...

 - Claude Ambert! - Dabrowski enxugou o suor do rosto com ambas as mãos. - Foi o único passageiro a abandonar o navio em acapulco. Claro! Pelo amor de Deus, o que seria se não o tivéssemos como testemunha ocular, Piet! Você seria capaz de jurar isso?

 - Tudo! - Piet lançou um olhar um pouco medroso para seu comandante. Ele sabia muito bem o que viria a seguir. à noite, a tripulação que não está de serviço não tem nada a fazer nos ambientes dos passageiros, coisa que também compreende os bares, o salão, a piscina e os conveses de banho de sol. Muito menos vestidos à paisana. Ele, no entanto, estivera à paisana e de noite no Clube do Pescador!

 - Sim, senhor comandante - disse ele rápido, antes que Teyendorf o interpelasse - estive à paisana no bar.

 

 - Bem, pelo menos dessa vez deu nalguma coisa. - Teyendorf preferiu não admoestar Piet. Caso se acumulassem as admoestações, a referida pessoa seria transferida para os navios de transporte de containers ou, em casos especiais de quebra grave da disciplina, seria inclusive despedida. Assim, só no ano anterior cinco comissários de bar haviam sido despedidos sem aviso prévio por terem não apenas tirado notas falsas na caixa, mas também por terem misturado uísque, conhaque, vodca e outras bebidas: dois quintos de bebida de qualidade e três quintos de mercadoria barata. As bebidas baptizadas foram vendidas no bar, mas como se fossem mercadorias de boa qualidade. Como os barmen compravam as garrafas no depósito do Atlantis, eles guardavam uma diferença considerável no próprio bolso. Sobretudo quando anotavam as contas com cifras falsas ou nem sequer anotavam.

 - Claude Ambert! - Dabrowski repetiu o nome mais uma vez. - Ele está confiando que o assassinato jamais seja esclarecido. Precisamos informar a polícia de Acapulco.

 - Mas será que não vamos ter problemas com as autoridades mexicanas, problemas esses que queríamos evitar?

 O comandante sacudiu a cabeça.

 - Como já saímos do México e tanto o assassino como sua vítima não se encontram mais no navio, mas sim ao alcance da polícia mexicana, a minha opinião é que não teremos nenhuma dificuldade... sobretudo se Ambert confessar o crime.

 Dez minutos mais tarde foi enviado o cabograma para Acapulco: Claude Ambert, domador, passageiro do NN Atlantis até o dia 14 deste mês, viajando com dois elefantes, é o suspeito do assassino da Sra. White passageira do NN Atlantis. Solicito investigação policial e outras providências. Teyendorf, comandante.

 O cabograma foi lido em acapulco com perplexidade. Três polícias quiseram ir de qualquer maneira no circo México Glória, que teria lugar nessa noite.

 - Somente depois da apresentação! - disse com ar satisfeito o chefe do departamento de homicídios. - Antes nós ainda vamos ver do que são capazes os elefantes. Esse tal de Claude Ambert não vai fugir de nossas mãos.

 E assim foi que, nessa noite, dez polícias foram ao circo México Glória, parte deles com bigodes falsos, pois o director do circo, o senhor Adelfança, era bem conhecido nos meios policiais e, por conseguinte, também conhecia a maioria dos polícias.

 A apresentação começou às 21 horas... a última de Claude Ambert, Sissy e Berta.

 

A estreia foi um sucesso total. só que não foram as duas elefantas que levaram o público ao delírio e a um coro de aplausos, mas sim a dançarina desnuda Saida Jorges que executou uma dança tão erótica no picadeiro que até mesmo os homens mais pândegos e experientes sentiram um pulsar de vida no baixo-ventre. Saida foi obrigada a fazer três repetições; a terceira, a mais extraordinária, foi um coito transformado em dança.

 O público entrou em delírio.

 

 Em compensação, o número das elefantas transcorreu como sempre no picadeiro, alguns aplausos e chega. Mas Ambert ficou satisfeito. Seus queridos gigantes cinzentos haviam suportado a viagem de navio com bravura e era evidente que se sentiam bem em solo firme. Os comprimidos do Dr. Paterna também não provocaram efeitos secundários. Somente o senhor Adelfança ficou um tanto insatisfeito.

 - Isso é tudo que seus elefantes sabem fazer? - perguntou ele atrás dos bastidores após a apresentação. - Você Mesmo viu, o número não tira ninguém das cadeiras.

 - Quem pode ser bem recebido depois de Saida Jorges? - Ambert ostentou um sorriso amargurado. - Eu nunca vi um número em que elefantes fodessem no picadeiro. Além disso, as duas aí são fêmeas; está querendo que eu ensine a elas umas brincadeirinhas lésbicas?

 Adelfança simplesmente deixou Ambert plantado e voltou à Sala de espectáculos. Isso também vai passar, pensou ele. só esse mês. Depois escrevo uma carta de apresentação entusiasmada para ele. Os colegas das outras cidades que caiam na mesma esparrela em que caí. Quem foi que me recomendou esse cara? Juan Hernandez, de São Francisco. Esse cretino!

 Ambert ainda fez mais uma visita às suas queridas cinzentas, antes de subir a montanha em direcção ao hotel. Ao entrar no estábulo de paredes de concreto armado, quatro senhores já se encontravam lá observando as elefantas a uma distância respeitosa. Sissy e Berta estavam em cima da palha, quietas e acorrentadas, apenas balançando as trombas de um lado para o outro qual pêndulo de relógio.

 - É proibida a entrada de estranhos no estábulo! - disse Ambert com cara de poucos amigos. - como foi que vocês conseguiram entrar?

 - Nós conseguimos entrar em toda a parte. - O chefe da delegacia de homicídios de Acapulco estava numa noite alegre. Também fora esquentado por Saida Jorges. Tirou a credencial e levou-a aos olhos de Ambert.

- Delegacia de homicídios. Então, estamos querendo...

 - O quê? - a voz de Ambert estava firme, mas um tanto ou quanto empestada. - O que estão querendo?

 - Ter uma conversinha. Vamos até o distrito, quer dizer, nós vamos levá-lo.

 - Sou um cidadão francês.

 - E daí?

 - não pode levar-me assim sem mais nem menos!

 - Olha aqui, Nós podemos qualquer coisa!

 - não sem dizer as razões. Além disso, exijo que meu consulado seja informado.

 - Você terá direito a tudo. Mas uma coisa depois da outra. E mesmo assim vai depender de nossa vontade! - o chefe da delegacia de homicídios estava de facto com seu melhor humor. Ele discutia, coisa que em geral não era seu forte. Aqueles que eram levados à sua frente, primeiro recebiam um "tratamento preliminar" e confessavam tudo. A taxa de sucesso da delegacia de homicídios era incrivelmente alta em comparação com a de outras cidades do México. - Uma razão? Ora, por favor: Nós somos da delegacia de homicídios!

 Ninguém viu como Ambert petrificou-se por dentro. Não é possível, foi o pensamento que lhe percorreu a cabeça. não pode ser! Claro que eles acharam o cadáver e esse interrogatório é apenas uma questão de rotina.

 Afinal de contas, sou a única pessoa que não se encontra mais no navio.

 

 Vamos esclarecer e superar isso bem rápido. Nada de pânico, Claude. Fique sempre tranquilo e amável. A polícia mexicana é muito sensível.

 - Homicídio? Mas claro que isso é uma piada, não?! Mas por favor, se os senhores querem. Vamos. O senhor vai ter de se desculpar no máximo dentro de uma hora, comissário.

 - Com certeza. - Os quatro colocaram-no no meio, levaram-no até um enorme carro americano que estava aguardando na saída dos fundos do circo e partiram em direcção à delegacia policial. Não se falou nenhuma palavra durante a viagem. Coisa que deixou Ambert inseguro; e este era o objectivo do silêncio.

Reinava um opressivo ar abafado e quente no gabinete do comissário. Eles ligaram os ventiladores de pés, abriram os correctos Nós das gravatas, desabotoaram o colarinho e tiraram o paletó. Todos os quatro polícias usavam coldres de ombro com pistolas. Ambert respirou fundo algumas vezes. Sentiu o perigo como uma coisa quase física.

 - cá estamos Nós - disse o chefe bem à vontade. Sentou-se atrás da escrivaninha e cruzou as mãos sobre o tampo da mesa. - Portanto, você confessa...

 - O quê?

 - O assassinato da cidadã americana Anne White.

 - não conheço nenhuma Sra. White...

 Um violento pontapé dado por trás em seu traseiro atirou-o contra o canto da escrivaninha, deixando-lhe claro que, sob certas condições, um interrogatório mexicano podia ser bem efectivo.

 - Você foi passageiro do NM Atlantis junto com seus elefantes. Nós recebemos um cabograma do navio afirmando que você matou a Sra. White. Confiscamos o cadáver da Sra. White que, originalmente, devia ser transportado Amanhã para sua cidade natal, Nova Orleans, e, com o consentimento da embaixada americana, vamos autopsiá-lo. Você vai nos poupar muito trabalho se confessar...

 - Mas isso é uma loucura! - a voz de Ambert cresceu contra sua vontade; o medo que havia nele procurava um escape. - Eu vivi no porão junto com minhas elefantas, não conheci nenhuma Sra. White... eu...

 Ele não pôde prosseguir. Dois polícias agarraram-no, pressionaram-lhe o dorso contra o tampo da escrivaninha, arriaram suas calças e cuecas deixando o traseiro à mostra. Tudo aconteceu com tanta rapidez e destreza que Ambert só protestou quando suas nádegas desnudas já estavam sendo levantadas. Ao mesmo tempo, algo sibilou no ar e chocou-se contra seu traseiro e Ambert sentiu como se lhe estivessem dilacerando os músculos. As finas varas de marmelo - só os atingidos conheciam sua existência, mas mantinham-se calados - eram mal-afamadas.

 Ambert soltou um grito estridente quando o primeiro golpe cortou-lhe a carne. Tentou sair de sobre a mesa, quis retroceder, mas quatro mãos fortes pressionaram-no contra o tampo qual pinças de aço.

 - Mas que bunda mais linda ele tem! - disse um dos polícias.

- Um verdadeiro cú de tambor! Isso é quase um prazer.

 Ambert foi atingido por outro golpe, uivou e fechou os olhos. Ouviu a voz do comissário como que vinda de uma longa distância.

 

- Vamos, conte como você a matou. não faça cerimónia, meu chapinha, Nós vamos arrancar a história de qualquer jeito. Já na autópsia: Mas será mais fácil se você confessar.

 - não posso confessar uma coisa que não fiz! - gritou Ambert desesperado. - Quero falar com meu cônsul. Sou um cidadão francês!

 - Uma coisa depois da outra. - O comissário assentiu com um ar sereno. - Na sua França os assassinatos também são punidos. E já há algum tempo inclusive com pena de morte! E na América você pode escolher, depende de em qual Estado você será executado: cadeira eléctrica, injecção de veneno ou câmara de gás. Aqui no nosso país você só recebe pena de prisão perpétua. Nós somos muito humanos.

 Ele acenou e outra vez seu traseiro foi cortado por golpes. Agora, quatro vezes... quatro vezes cortado como que por uma faca. era uma dor que ultrapassava a fronteira do suportável, que quase arrebentava os nervos. Ambert uivava a plenos pulmões... os polícias deixavam-no gritar. Depois, quando ficou um pouco mais calmo, o comissário inclinou-se um pouco em direcção a ele.

 - não faz sentido, meu chapa - disse em tom amigável. - Vê se entende. - O telefone ao seu lado tocou, ele atendeu, escutou a voz e tornou a pôr o auscultador no gancho. - era Júlio. Esteve com Álvaro fazendo uma revista no seu quarto de hotel. Escute só o que ele encontrou ali: 63 mil marcos! Com toda a certeza o dinheiro caiu do céu directamente em seu quartinho. Que milagre! A gente devia comunicar ao bispo... talvez você seja canonizado, não?

 Um aceno... outra vez as varas de marmelo estalaram no traseiro de Ambert. A pele estava toda cortada; Ambert sentia o sangue escorrer quente por suas coxas e pernas. Sua cabeça estava explodindo de dor.

 - Sim! - gritou ele de repente. - Sim. Fui eu. Eu sufoquei-a com uma almofada! Sim! Sim! Sim! Eu conto tudo... tudo... - ele fechou os olhos, arriou o rosto no tampo da mesa e começou a uivar como um filhote de lobo.

 Satisfeito, o comissário pegou o telefone e piscou para seus colaboradores. Outro caso solucionado! só é preciso despertar os obstinados, esse é todo o segredo do sucesso.

 - Por favor, dois telefonemas - disse ele para a central telefónica. - Um para o consulado francês, outro para o americano. Sim, a essa hora mesmo, senhorita! E depois um telegrama para o NM Atlantis em alto-mar.

 Monsieur Claude Ambert confessou o assassinato da Sra. White. Foi asfixiada com uma almofada. Foi recuperado o produto do roubo no montante de cerca de 63 mil dólares. Sem mais, boa viagem. Comissário I, policia de Acapulco.

 O comissário desviou o olhar para Ambert que jazia em cima da escrivaninha, quase inconsciente. Seu traseiro estava coberto de vergões ensanguentados.

 - Eu lhe Agradeço, senhor - disse ele em tom amigável. - Foi um prazer conhecê-lo... Levem-no!

 Na manhã seguinte, Berta e Sissy foram levadas para o jardim zoológico de Acapulco. De nada adiantou que o director protestasse e se lamentasse. Tratava-se de um internamento público, quer dizer, oficial... nada se podia fazer. não apenas em nosso país, no México o indivíduo também é quase impotente perante as autoridades.

 

O caso da Sra. White, como se diz por aí, podia ser arquivado. O comandante Teyendorf e o director de hotel Riemke deram os parabéns a Dabrowski pelo sucesso.

 - Só falta esse seu misterioso ladrão de jóias, Paolo Carducci - disse Teyendorf tomando um copo de vinho em sua cabina. - Será que você terá a mesma sorte com ele? Uma testemunha ocular casual? Quando seu ladrão de jóias desembarcar em Valparaíso, poderemos esquecê-lo.

 - Um Carducci não desembarca sem antes embolsar uma bolada. - Dabrowski seguiu com a vista o anel de fumaça de um grosso charuto Havana. - O que roubou até aqui é igual a um zero para ele. Nunca, jamais, ele se daria por satisfeito com isso. O grande golpe ainda está por vir. Nós sabemos disso. E se ele não atacar até Valparaíso, seguirá viagem até Sidney. Então, ele terá mais alguns dias para recolher seus carneirinhos. Suponho que as jóias realmente da pesada só subam a bordo em Valparaíso.

- É verdade. Somente os bem-sucedidos na vida podem dar-se ao luxo de fazer uma viagem como essa. Paga-se de 14.950 a 37.500 marcos por uma suíte, Por pessoa! - Riemke deu uma tragada no charuto. Ele era um fumante de cigarros que não gostava de charutos. só para agradar o comandante é que estava tragando essa haste em brasas.

- Tem um bocado de milionários com suas esposas cintilantes a bordo! Mas que significa prolongar a viagem? Se esse seu Carducci prolongar ainda mais a viagem, vai acabar sendo notado. Pelo menos fará parte de um pequeno círculo que poderemos abranger.

 - Mas ele pode ter feito a reserva desde o início até Sidney.

 - Neste caso não poderá escapulir em Valparaíso... isso chamaria ainda mais a atenção. Além disso ele também precisa do lugar no avião especial. Portanto, terá de apresentar-se a tempo à direcção da viagem. E aí nós o pegávamos!

- É verdade. - Dabrowski encarou Riemke, pensativo. - Suas conclusões são muito esclarecedoras. Portanto, vamos partir do princípio de que Carducci é nosso hóspede até Sidney.

 - Por conseguinte, mais vinte e seis dias! - Teyendorf ergueu seu copo. - Nunca antes esperei tão ansioso quanto agora pelo fim de uma viagem de cruzeiro.

 A noitada no Salão dos Sete Mares pertencia ao Conferencista. Hanno Holletitz e à cantora de rock Evi Stein. "Ritmos da América do Sul" era o nome da apresentação. Em cada pessoa que entrava colocavam um sombreio feito de papelão prensado - Claro que também nas senhoras, cujos chapéus de aba larga da moda actual eram imediatamente retorcidos.

Parecia estar programado um estado de espírito bombástico. Oliver Brandes, o oculista tímido e medroso, já se havia acostumado ao navio e ao facto de este não poder naufragar ou virar com tanta rapidez.

 

Suportara muitíssimo bem o mar encapelado entre São Francisco e Acapulco, claro que com a ajuda do assistente espiritual evangélico Günter Wangenheim. O pastor Wangenheim, um velho marinheiro, afundara duas vezes com um submarino na Segunda Guerra Mundial e nas duas vezes fora salvo - Coisa que foi o motivo para, mais tarde, ele estudar teologia; Günter quis agradecer a Deus pelo resto da vida. No Atlantis, ele tirou todo o medo de Brandes demonstrando com base em dados que uma viagem numa auto-estrada era uma verdadeira tentativa de suicídio em comparação com um cruzeiro marítimo pelo mundo. Quando naufragara o último navio de passageiros? Ora... nem dava para se lembrar. Mas todos os dias e todas as noites havia desastres com mortes nas estradas. Uma viagem num navio como o Atlantis é a coisa mais segura do mundo.

 Oliver Brandes compreendeu isso, perdeu o medo, presenteou o pastor com uma garrafa de Chablis e, na noite do grupo folclórico, dançou pela primeira vez no Salão dos Sete Mares. Ao fazê-lo, conheceu a comissária Marianne, uma alegre moça de Colónia, com vinte e dois anos de idade e cabelos ruivos e encaracolados. Ela estava servindo sua mesa, ele piscou para ela e, posto que Oliver Brandes era um homem de boa aparência, Marianne respondeu com um piscar de olhos. Um flerte sem maiores compromissos... mas que atingiu o coração de Brandes. Seu problema era só saber não poderia conhecer Marianne mais intimamente. Quando terminava seu serviço no restaurante, ela desaparecia em sua cabina no convés B, ao qual nenhum passageiro tinha acesso. "Somente para a tripulação" estava escrito na porta do corredor que dava na ala proibida. De vez em quando, Marianne ainda ia servir num dos bares após o jantar, ou então no Salão dos Sete Mares. Em suma, ela não dispunha de tempo. Muitas vezes, tomava banho de sol no convés da tripulação, entre o almoço e o jantar, usando um biquini diminuto. Podia-se vê-la da tolda a uma distância quase palpável, mas como se podia chegar até ela. não existia nenhuma escada da tolda para o convés da tripulação. Muitos homens mais idosos que tomavam banho de sol na amurada e olhavam o belo corpo da moça lá embaixo eram obrigados a capitular, mesmo sentindo-se terrivelmente rejuvenescidos. Marianne de Colónia continuava sendo um sonho.

 Nessa noite de ritmos sul-americanos, François de Angeli sentiu-se em seu habitat. Riu por obrigação das piadas de Holletitz, mostrando a todos sua deslumbrante dentadura - um viva para safe dentista! - e quando foi aberto o baile para os passageiros, investiu sobre as mulheres mais belas do salão. A maioria dos maridos ficava tão perplexa, que logo dava sua permissão com um acenar de cabeça.

 - Você é uma mulher magnífica - de Angeli sussurrava no ouvido de todas ao estreitá-las contra seu corpo na dança. - Por que esconde seu temdeamento ardente? Porque seu marido está vendo? Tem medo de que ele possa dizer alguma coisa? Por acaso seu marido sabe que se casou com uma jóia? Alguma vez ele compreendeu seu calor interno? - Não havia nenhuma mulher que duvidasse do próprio valor especial, isso enquanto de Angeli a mantinha abraçada. Mais tarde, ao voltar para a mesa do marido resmungão, elas ficavam lançando olhares ardentes para o lado de François. Sim, ele tem razão: esse cabeçudo ao seu lado, que há mais de duas décadas é seu marido, nunca teve o magnetismo que ela ânseia. Será que ela havia perdido alguma coisa da vida que pudesse recuperar ali?

 Erna Schwarme também foi tirada para dançar por François. E, no tumulto da pista de dança, de Angeli apertou-a contra seu corpo..

 - Quando nos veremos? - ele sussurrou-lhe. - A sós. Completamente a sós! Eu preciso finalmente senti-la! já não consigo mais dormir... só penso em você, em seu corpo, em seu calor...

 

 - Você ficou maluco?! - Erna Schwarme sibilou para ele e lançou um olhar ao marido. - Ele é bonachão, mas não é idiota! Se notar alguma coisa...

 - Eu preciso vê-la, Erna!

 - Ainda temos tantos dias pela frente.

 - Cada dia sem você é um dia perdido! - uma frase muito malhada e sentimental, mas que ainda causava efeito, por incrível que pareça. - Essa espera é cruel, Erna. Meu amor já virou loucura!

 - Meu Deus! Contenha-se, François! Meu marido está nos observando! - ela se afastou um pouco dos braços dele e começou a dançar em círculos rígidos. No entanto, essa postura só deixou mais evidente a ondulação de seus seios. De Angeli notou na hora.

 - Eu gostaria de dar uma mordida nos seus seios agora! - ele sussurrou-lhe com voz roufenha. - como um vampiro! Ah, que belo momento seria...

 Erna Schwarme sentiu seu corpo sendo possuído por ondas após ondas de calor. Nunca ninguém havia falado assim com ela, com tamanha desambição, destruindo qualquer resistência.

 - Se você continuar falando assim, deixo-o plantado aqui - ela sussurrou em resposta. Sua respiração estava ofegante, o sangue a inundava como ondas de calor. Peter nunca se comportara assim com ela, nunca, em todos esses anos... nem mesmo antes, quando ele ainda era jovem e não possuía um grande escritório que quase não lhe deixava tempo para a vida privada. E quando tão-pouco sofria de gota, que sempre o atacava se ele comesse aspargo, espinafre ou fígado frito. Hoje em dia, só com um prato de sopa de lentilha Peter ficava com o dedo do pé inchado e vítreo e trincava os dentes de dor. Não, Peter jamais deixara-se arrebatar por tamanha paixão. Em vez de champanhe, água mineral... para se dizer usando uma linguagem figurada. E agora aparecia de Angeli e injectava champanhe directo em seu sangue. - Vamos encontrar uma maneira - disse ela, já entregando-se a ele em pensamento. - Dentro em breve, François. Eu também te amo... só que não devemos provocar nenhum escândalo! Não devemos deixar Peter desconfiado, pois aí estaria tudo acabado...

 O Dr. Schwarme seguiu de Angeli com a vista, quando este levou Erna de volta à mesa. Enquanto isso; sacudiu a cabeça de um modo inquisidor.

 - Não sei o que vocês, as fêmeas, vêem nesse macaco engomado! Claro que ele só tem fachada para apresentar.

 - Talvez porque ele não nos trate como "fêmeas", como você disse, senão que nos respeita enquanto mulheres. Fêmeas... típico de você! De vocês todos! Afinal, o que é que nós somos para vocês? Um cabide no qual penduram a moda mais recente. Uma cabeça oca enfeitada com jóias. Na cama, a puta necessária porque vocês estão com comichão entre as pernas! Mas fora isso... um zero à esquerda. Apenas um zero! Nós somos mostradas para demonstrar: Vejam, posso me dar a esse luxo! Modelos de Lagerfeld e Saint Laurent, jóias de Cartier e Bulgari... e olhem só o corpinho dela... tudo isso me pertence! Aí vocês estofam o peito, coisa que, aliás, é a única coisa que ainda dá para vocês estofarem.

 

 - Eu gostaria realmente de saber onde você conseguiu essa sua linguagem ordinária. - O Dr. Schwarme olhou à sua volta. Graças a Deus ninguém ouvira as palavras de Erna, pois a cantora Evi Stein se esgoelava no microfone. Ela dobrava o corpo na frente da banda em cima do palco e tentava entoar ritmos sul-americanos. - Isso mesmo, você é ordinária!

 - Se minhas palavras o incomodam, desvie os ouvidos!

 - Sim, me incomodam muito.

 - Que transformação! há vinte anos você dizia: você fala como uma puta e isso me deixa maluco. E agora?!

 - Pelo amor de Deus! Agora nós somos mais velhos! há vinte anos...

 - Naquela época você ainda conseguia todas as noites. Duas e até três vezes...

Mas será que você não tem outras preocupações?! - disse o Dr. Schwarme ferido.

 - Talvez... talvez não. Afinal de contas, o que é que você entende das mulheres?

 - Mas esse macaco engomado entende, não?

 - Pode ser. - Ela ficou cautelosa. - Preciso perguntar a ele.

 - Como! Monsieur, o senhor ainda dá duas por noite? - como sempre, o sarcasmo do Dr. Schwarme foi mordaz. - não vá deixá-lo com medo, Erna!

 Ele deu uma estrondosa gargalhada, esvaziou o copo de uísque e sentiu-se vitorioso de novo, pois Erna manteve-se calada. Seu nojento porco, pensou ela achando bom que ele não suspeitasse de nada. Sim, vou traí-lo com François, agora com toda a razão. Vamos trepar até as tripas saírem pela garganta, enquanto você fica sentado aí com esse ar autocrático bebendo uma pilsen. Agora nada mais vai me segurar. Oh, mas como você é babaca!

 Logo depois da apresentação, o casal Schwarme levantou-se e saiu do salão, embora o director de cruzeiro Manni Flesch tivesse anunciado uma longa noite dançante.

 - Vamos até o bar Atlantis? - perguntou o Dr. Schwarme na escada externa.

 - Não. Se quiser, pode ir sozinho. Vou deitar-me. Estou cansada.

 - Ao Clube do Pescador?

 - Também não. Quero ficar sozinha, portanto trate de deixar-me em paz. No momento, você me dá nojo.

 - Óptimo! - o Dr. Schwarme inclinou-se numa profunda vénia cheia de ironia. - Quando a veneranda senhora tiver digerido seu humor, traga-me de volta à memória. Eu me chamo Dr. Peter Schwarme... só para sua orientação...

 - Idiota! - ela deixou-o plantado e subiu a escada para o solário.

 O Dr. Schwarme seguiu-a com a vista. Realmente, ela ainda é uma bela mulher, pensou ele, mas a cada mês que passa fica mais rabugenta. às vezes

fica insuportável, como hoje. Deve ser a menopausa. Muitas mulheres piram nos anos de mudança e transformam-se por completo. esta natureza sabia que nos poupa aos homens de algo assim! Essa história da crise da meia-idade não passa de conversa fiada. São as mulheres que nos empurram para fora. só que ninguém fala isso com sinceridade, pois a gritaria seria mais insuportável ainda. Bem, e daí? Vamos beber uma cerveja, Peter Schwarme!

 

 Sylvia de Jongh também estava nervosa. Agora, depois da última noite de loucura de amor ao lado do adormecido Knut de Jongh, Hans Fehringer estava com um comportamento bem esquisito. Hans agia como se ela não passasse de um conhecimento de bordo sem maiores compromissos, dançava com outras mulheres, acenava-lhe com um ar amigável e depois parava de notá-la.

 Quando ele foi ao banheiro, Sylvia seguiu-o e esperou que ele saísse.

 - Que está acontecendo? - perguntou ela rapidamente. - O que há com você, Hans?

 - Nada.

 - Você está tão diferente... tão distante...

 - Pense naquilo que combinamos: nada de chamar a atenção. Seu marido está me observando com uns olhos de quem gostaria de me apunhalar. Ele notou alguma coisa?

 - Mas claro que não! - Sylvia pensou na noite anterior e suspirou fundo. - Eu gostaria de ficar com você para sempre.

 - Em terra tudo será diferente, querida! - a frase tinha duplo sentido, mas Sylvia entendeu como um acordo, assentiu com ar de felicidade e precisou fazer força para não jogar-se aos braços dele.

 - Quase não consigo esperar! Vamos nos encontrar hoje de novo?

 - Se você puder ir, telefone para mim...

 - Dessa vez vai ser de novo na sua cabina!

 Hans Fehringer não notou o "dessa vez"; afinal de contas, não sabia o que acontecera na noite anterior entre Sylvia e seu irmão Herbert.

 - Sim, na minha cabina. Quando?

 - Isso vai depender do que Knut fizer. Se eu não telefonar até à meia-noite é porque alguma coisa se meteu no meio.

 - Só por meia hora, querida!

 - Verei o que é possível fazer.

 Ela fez um biquinho com os lábios, jogou-lhe um beijo e voltou correndo para o salão. Hans Fehringer desceu rapidamente até sua cabina 213 e deu um susto em Herbert, que estava sentado diante da tevê.

 - Levanta, levanta! Some daqui, irmãozinho! Desapareça do campo de batalha, vem por aí um outro tremendo combate! - ele riu, desligou o aparelho de tevê e jogou o paletó branco para Herbert. - Passe outra vez pelo salão, dê um aceno para Knut de Jongh, depois desapareça na multidão e dê um pulo ao Clube do Pescador. Outra vez até às quatro da manhã. Pense no cartaz pendurado na cabina da porta! Vai, desgruda!

 Herbert vestiu-se e saiu da cabina sem dizer uma palavra. Seu coração estava apertado por um sentimento parecido ao ciúme. Ele ficara intranquilo ao pensar que, em duas horas, seu irmão iria possuir aquele corpo magnífico e experimentaria a paixão de Sylvia. era bem verdade que, como gémeos, os dois sempre haviam feito tudo juntos, mas devia existir uma fronteira. No caso de Sylvia, essa fronteira fora ultrapassada e não vinha ao caso saber quem a ultrapassara, pois aqui era ele, Herbert, quem se sentia culpado de maneira insofismável.

 Entrou no salão dos Sete Mares com a testa toda enrugada, passou pela mesa dos de Jongh, lançou um aceno frio e não olhou para Sylvia de propósito. Sylvia também passou os olhos por Herbert como se este não existisse.

 - Ui, ele não te tira para dançar de novo? - perguntou de Jongh espantado.

 - É como você vê. - Ela fez um beicinho. - Um pateta presunçoso!

 

 - Ele te importunou de alguma forma durante o dia de hoje? - Knut de Jongh pousou os punhos em cima da mesa. Punhos grossos e redondos de ferreiro. - Vamos, conte... meto-lhe um soco na fuga!

 - Não. Foi sempre assim. Ele não me nota.

 - Mas isso já é um insulto. Uma mulher como você tem de ser notada!

 - Acho que você só está procurando um motivo para começar uma briga com ele.

 - É isso mesmo, meu tesourinho. - Knut de Jongh arreganhou um sorriso largo e agressivo. -Gostaria de dar-lhe uma porrada tão potente que ele ficasse rodando como um pico.

 

Erna Schwarme trancou a porta da cabina 018, acendeu a luz... e petrificou-se: seu conjunto de brilhantes e safiras estava em cima da cama, exposto lado a lado como numa vitrine. Os brincos, a pulseira e o colar. Havia uma carta ao lado. O texto fora composto por letras coladas de um jornal e depois coladas nos lugares correspondentes. A maneira preferida embora infantil de se esconder, de permanecer anónimo.

 - Mas... mas isso não é possível... - balbuciou Erna: Ela parou junto ao armário embutido, sem ousar aproximar-se... como se estivesse com medo. não havia dúvida, eram suas jóias roubadas. Todo o seu orgulho e aplicação de capital de Peter, como ele sempre enfatizava.

 Finalmente, ela aproximou-se da cama com passos cautelosos, pegou a carta, correu ao assento do canto, acendeu a lâmpada da mesinha-de-cabeceira e desabou no banquinho estofado. No início, as letras recortadas apenas emaranharam-se diante de seus olhos de tão agitada que Erna estava, mas depois a escrita ficou clara. E Erna leu:

 Deixe-me realmente dizer que, durante um dia inteiro, você se sentiu roubada. Sim, foi um roubo, mas eu devolvo-lhe as jóias. As safiras são de péssima qualidade em cor e claridade e, junto com os brilhantes levemente amarelados, as inclusões claramente visíveis na lente de aumento diminuem seu brilho. Uma jóia assim é barata e ordinária demais para mim. Não poderia vendê-la em parte alguma. Mas você deve sentir-se consolada, pois elas ficam maravilhosas em seu pescoço, braço e orelhas aumentando ainda mais sua beleza. Pardon! - Um admirador ardoroso que infelizmente precisa continuar anónimo.

Erna Schwarme leu a carta três vezes, depois foi até o telefone com uma postura bem rígida, telefonou para o bar Atlantis e pediu ao comissário que dissesse ao seu marido para ir à cabina imediatamente.

- Agora mesmo! é urgente.

 O Dr. Schwarme chegou mais ou menos dez minutos depois. como se pode deixar de lado uma pilsen bem gelada, ela deve ser bebida. Sempre se podia dispor desse tempinho, nada era tão urgente assim!

 Ele também ficou parado na entrada da cabina como que plantado no chão. As jóias continuavam em cima da cama cintilando à luz. Erna estava sentada no banquinho segurando a carta com ambas as mãos.

 - Tuas jóias! - O Dr. Schwarme inclinou-se sobre elas, sem tocá-las.

- De facto, são as tuas jóias! Ora, que coisa!

 - Teu capital aplicado!

 

 O tom de voz de Erna deixou-o desconcertado. Ela não estava contente, o que havia?

 - Tinha também uma carta junto - disse Erna estendendo-lhe a folha. - Uma carta de gangster com letras recortadas Interessante o que está escrito... Tenha a bondade...

 Entregou-lhe a carta. O Dr. Schwarme leu e, sem querer, ficou com o rosto vermelho. Ela observou-o com atenção e fez ouvir um leve sorriso de triunfo.

 - Interessante, não é mesmo?

 - Você acabou de dizer, é uma carta de gangster. - Sua voz saiu um pouco contida. - Será que você não notou que ele está querendo gozá-la?

 - Mas claro que sim, meu querido. - A voz de Erna transbordava de ironia. - está querendo me gozar, tanto que devolveu as jóias! As valiosas, a sua aplicação de capital! As "peças únicas". E no final não passam de mercadoria ordinária. Rebotalho! não valem nada... porcaria com brilho!

 - Erna, ouça-me...

 - Olha aqui, falando com toda a clareza: você me enrolou! - ela arrancou-lhe a carta com um safanão e enfiou-a entre os seios por dentro do decote. - Durante seis anos eu acreditei possuir uma coisa única. Sim, é única: brilhantes levemente amarelados e com inclusões visíveis, safiras de péssima qualidade! não têm valor nem para serem roubadas... são tão insignificantes a ponto de um ladrão devolver. Ah, seu sujeitinho de merda...

 - Erna, controle-se! - o Dr. Schwarme apontou para a parede. - Pode ter alguém escutando aí do lado.

 - Mesmo que tenha! Todo mundo deve ficar sabendo o safado que você é. O trapaceiro. Andei por aí durante seis anos com esse traste pendurado no pescoço, esse... essa merda!

 - Mas como é que alguém consegue ser tão ordinário! - disse o Dr. Schwarme com visível desgosto. - Qualquer outra mulher ficaria feliz, se...

 - Qualquer outra mulher te cuspiria no rosto agora! - a voz de Erna ergueu-se histérica e estridente. Quando Schwarme foi na direcção dela, Erna levantou-se do banco, passou correndo por ele e foi para a porta, com tanta rapidez que ele não pôde detê-la. - Não me segure! Quanto custaram as jóias? Hem, provavelmente nada. Você mesmo teve uma cliente dona de joalheria? Conheço inclusive o nome dela. Hanna Stolzer. Não é verdade que você não pagou nada por elas? Foi o prémio por você ter dado uma trepada com ela. Uma coroa que de repente tem um robusto advogado entre as pernas! Já é uma coisa que vale um conjunto de jóias... Não muito caro, nem de primeira qualidade, aposto que você, pelo que conheço, também não foi lá de primeira qualidade na cama. Seu bosta, há seis anos que trago sua trepada nas orelhas, pescoço e braço e ainda por cima sentindo orgulho disso!

 - Você é uma lambisca bem ordinária, ingrata e vil! - disse o Dr. Schwarme com voz roufenha. - Se estivesse em casa agora, você podia ir tratando de fazer as malas...

 - Ah, quer dizer que também vai acontecer uma coisa dessas?! - ela pousara a mão na maçaneta. - Eu irei agora até François de Angeli... e como se atreva a deter-me. Isso mesmo, irei à cabina dele e treparei a noite inteira. Se você soubesse o quanto tenho a recuperar!

 

 - Erna! - o Dr. Schwarme respirava fundo. Seus dedos contorciam-se. - Meus nervos também têm limites. Se você for agora até esse macaco engomado, eu te mato! está entendendo? Eu te mato!

 - Você é covarde demais para isso! - ela deu uma risada histérica e pressionou a maçaneta para baixo. - Seu aplicador de capital! Você não vale nem o meu cuspe...

 Erna abriu a porta da cabina, saiu e bateu-a atrás de si. O Dr. Schwarme ficou parado como que petrificado. Ainda estava parado nessa posição quando Erna tornou a abrir a porta, jogou a carta aos seus pés e depois foi definitivamente embora. Após um longo tempo, Schwarme sacudiu-se como um cão que estivesse saindo da água, foi até o telefone com passos pesados e discou o número da cabina 136. Ewald Dabrowski atendeu no acto, como se estivesse sentado ao lado do aparelho.

 - Aqui fala Schwarme, cabine 018. Sr. Dabrowski, por favor dê um pulinho aqui. As jóias da minha mulher apareceram de novo.

 - Mas isso não é possível... - dava para se perceber o espanto de Dabrowski.

 - Claro que é! - o Dr. Schwarme sentou-se na cama. - As jóias reapareceram... mas eu perdi minha mulher... - e depois, com a voz mais baixa e um tanto lamuriosa: - Por favor, venha!

 

É necessário que se seja um sujeito muito escaldado para superar a impertinência de um Paolo Carducci sem se enfurecer. Apesar de toda sua experiência profissional, Ewald Dabrowski continuava sendo apenas um ser humano capaz de se alterar. Ao ver as jóias de Erna Schwarme tão bem arrumadas em cima da cama, ele cerrou os punhos e gritou alto:

 - Mas isso é o cúmulo!

 O director de hotel Riemke e o comissário-chefe Pfannenstiel, a quem Dabrowski já havia dado o alarme - ter sempre uma ou duas testemunhas ao lado -, olharam para as jóias como se estas fossem uma bomba-relógio. E, de facto, nesse momento eram algo no estilo.

 Sem dizer uma palavra, o Dr. Schwarme entregou a carta composta de letras recortadas para Dabrowski. Este leu-a rapidamente, passou-a para Riemke e inclinou-se sobre as jóias, sem tocá-las.

 - É verdade! - disse ele ao levantar-se de novo.

 - O que é que é verdade? - a voz do Dr. Schwarme saiu uma oitava acima do normal.

 - As jóias são de qualidade inferior. Se ele as conservasse, sua fama de ladrão de jóias internacional ficaria manchada.

 - Mas isso é inaudito! - o Dr. Schwarme sentou-se no banquinho junto à janela. - não pode constatar isso a olho nu?

 - não preciso de nenhuma lupa para isso. Suponho que, na pressa, Carducci não tenha reconhecido o que estava pegando. Somente mais tarde foi que ele, como se diz por aí, mordeu a língua.

 - Mas a coisa não pode ser tão ruim assim. Afinal de contas, as jóias são verdadeiras!

 - Claro que são. Mas... - Dabrowski fez um gesto de desdém. - Vamos parar com essa conversa de especialista. Você pode comprar vinho a três marcos e cinquenta centavos a garrafa, mas também por quatrocentos e cinquenta. Ambos são vinhos verdadeiros e, no entanto, existe um universo de diferença entre os dois. Tanto maior é a diferença no caso dos brilhantes e das pedras preciosas! Onde você conseguiu as jóias?

 O Dr. Schwarme hesitou durante algum tempo, mas finalmente disse:

 - Foi uma oferta de acaso. De um homem que era meu cliente.

 - Cara?

 - É, devemos ver a coisa relativamente assim.

 - Típica resposta de jurista! Seja como for, você foi ludibriado, Dr. Schwarme. - Dabrowski tornou a pegar a carta que Pfannenstiel lhe estendeu. - E agora a casa está pegando fogo, não é mesmo? Sua mulher está indignada! aliás, onde está ela nesse momento?

 

 - Não sei. - O Dr. Schwarme sentiu vergonha de dizer que Erna encontrava-se com de Angeli e que talvez estivesse na cama com ele. Para sua grande surpresa, isso lhe doía bastante, ele o sentia com toda a clareza, o ciúme o atormentava. Afinal, ela continua sendo minha mulher, pensou ele, e é claro que me importo com quem ela Esteja trepando nesse momento! Na próxima oportunidade que tiver, darei um soco no focinho desse almofadinha do François. Isso mesmo, darei um soco. No convés, na frente de todos os passageiros! Já faz trinta anos, mas na época de estudante fui durante um longo tempo o campeão universitário de boxe de peso-leve. Ainda sei como se dá um gancho no estômago e como se acerta a ponta do queixo. De Angeli vai cair como um saco de batatas. Esse pensamento deixou-o com o estado de espírito um pouco mais ameno. O Dr. Schwarme chegou a sorrir.

 - Suponho que ela esteja sentada num banquinho de bar bebendo champanhe. Isso a tranquiliza - disse ele. - E depois, quando estiver farta, ela vai voltar aqui e aprontar o maior drama. Aí, a única coisa que ajuda é dar uma resfolegada na cama e depois dormir. - Schwarme estava mentindo para si mesmo, mas foi gostoso proteger-se com essa mentira como se fosse um tanque.

 Dabrowski ficou andando de um lado para o outro na cabina, seguido dos olhares de Riemke e Pfannenstiel. O Dr. Schwarme olhava fixo para o abajur.

 - Essa devolução é um indício - disse Dabrowski com ar pensativo.

- Ele não está zombando de nós, mas sim assinalando que tenciona dar golpes maiores. Ah, como esse cara deve estar sentindo-se seguro! - Dabrowski parou na frente de Riemke e sacudiu a cabeça várias vezes. - Uma coisa você deve acreditar agora, caro director: Carducci vai continuar ao nosso alcance! não tem a intenção de ir à terra em Valparaíso e desaparecer do navio. Quantos passageiros fizeram a reserva até Sidney?

 - Bem, eu precisaria dar uma olhada. Mas calculo que sejam umas duzentas e trinta pessoas.

 - Necessito de uma lista desses passageiros. Com os dados exactos: nome, nacionalidade, local de nascimento, endereço, idade, profissão.

 - Só tenho permissão para fazer isso se o senhor comandante me autorizar.

 - Então vamos perguntar agora mesmo. - Dabrowski apontou para as jóias de Erna Schwarme que continuavam intocadas na cama. - Não vou engolir essa insolência, Dr. Schwarme!

 - Estou ouvindo.

 - Essa surpreendente devolução das jóias pelo ladrão não o desobriga do silêncio que combinamos.

 - Mas é claro que não. Como antes, eu continuo muito interessado em conhecer esse vagabundo! Ele está tentando destruir minha honra. E não poderei explicar à minha mulher que comprei esse traste?

 - A melhor maneira é com uma abnegação total.

 - não assim?

 - Você confessa ser um leigo completo em questão de jóias.

 - Mas isso eu sou mesmo.

 - E confessa também, embora a coisa não tenha ocorrido dessa maneira, ter sido violentamente ludibriado. Que pagou um prego que o fez crer que as jóias eram uma verdadeira fortuna aplicada só pelo aumento do valor das pedras preciosas de ano para ano. Você só precisa bancar a pessoa que foi ludibriada no dobro; qualquer pessoa acreditaria nisso, inclusive sua mulher. A compra de jóias sempre é uma questão de confiança. Se você soubesse quantas coisas já presenciei em relação a isso!

 Dabrowski juntou as jóias e colocou-as sobre a mesinha-de-cabeceira. O Dr. Schwarme encarou-o espantado.

 - Mas você está sujando todas as pistas! - gritou ele.

 

 - Pistas? Carducci usa luvas de pelica, não deixa nenhuma impressão digital. Ele opera como um fantasma, em silêncio, invisível, sem deixar vestígios. é um mestre em sua especialidade.

 - Parece até que você admira esse sujeito! - disse o Dr. Schwarme em tom irónico.

 - Adivinhou! - Dabrowski tirou um cigarro do bolso do paletó e acendeu-o. - Tenho respeito por cada virtuoso, mesmo que ele seja um gangster. E é esse reconhecimento que me granjeou grande parte de meu sucesso. Eu me ponho na situação de meu adversário em termos de sentimentos e me pergunto: o que você faria no lugar dele agora? E veja, muitas vezes eu consegui prever suas ações e reacções.

 - Só no caso desse Carducci é que não - intrometeu-se Riemke.

- Já faz três anos que você o persegue.

 - Ele é um sujeito esperto com uma enorme imaginação e uma tremenda energia para o crime. Dabrowski apontou para a pilha de jóias. - Mas dessa vez ele exagerou. Isso vai lhe custar a cabeça.

 O Dr. Schwarme só contorceu a boca num esgar zombeteiro, mas manteve-se calado. Ficou contente quando Dabrowski, Riemke e Pfannenstiel saíram da cabina deixando-o só de novo. Ele pensava em Erna que, nesse momento, estava com de Angeli, recordava-se de seu belo corpo com os seios pontudos e a boca entreaberta soltando gritos claros, agudos. às vezes, ela gritava palavras e frases de total grosseria, para excitar o parceiro às raias do êxtase. Depois do orgasmo, ela desabava como um castelo de cartas derrubado com um sopro. Minha Nossa Senhora, quanto tempo fazia que ele não experimentava isso com Erna! Em compensação, ele conhecerá outras mulheres e cada uma tinha sua maneira peculiar de vivência do gozo. Mas apesar disso, era monstruoso que, nesse momento, Erna estivesse resfolegando-se na cama com esse tal de François, botando uns belos chifres nele, seu marido.

 Sua mulher retornou por volta das duas da manhã. Mal-humorada, bêbada, visivelmente desapontada. Schwarme continuava sentado no banquinho junto à janela. Erna jogou os sapatos de salto alto no meio do quarto e tirou o vestido pela cabeça. Sem dizer uma palavra, ela desabotoou o sutiã e tirou a calcinha. De Angeli dera-lhe um desgosto. não havia esperado por ela, senão que dirigira-se a uma outra mulher que, na dança no Clube do Pescador, caíra em seus braços de olhos revirados. Erna a conhecia de vista no convés; ela também era casada, tinha um marido de pernas compridas e bem seco, que passava a maior parte do tempo cochilando nas espreguiçadeiras, lendo romances de ficção científica ou jogando xadrez na varanda envidraçada. Claro que comparado com de Angeli, ele não passava de um zero à esquerda; era compreensível que a mulher fizesse olhos de vaca nos braços de Angeli - como Erna dizia - e jogasse com todos os seus encantos. Portanto, nada acontecerá com de Angeli nesse dia.

 De péssimo humor, Erna embebedara-se no bar e agora, carregada de irritação, retornara à cabina. Nesse momento, ela lançou um olhar para o marido, como se este fosse uma lata de lixo.

 - E então? - disse o Dr. Schwarme malicioso. - Saciada como uma gata depois de uma panela cheia de leite?

 

 - Seu idiota! - sibilou Erna em resposta, desvencilhando-se dos brincos. - Vai tomar no cú!

 - É você quem vai! - o Dr. Schwarme levantou-se.

 Nessa noite, o Dr. Schwarme estuprou a própria mulher.

 às dez da manhã, o Dr. Schwarme foi o primeiro a chegar à sala de espera do hospital para o horário oficial de consulta do médico de bordo. Depois dele chegaram quatro mulheres, como de hábito, posto que o hospital e o Dr. Paterna eram mais procurados pelas passageiras. Quando a enfermeira Erna encontrava-se sozinha no consultório, apenas as pessoas realmente enfermas ficavam na sala de espera.

 O Dr. Paterna, conhecido por sua pontualidade prussiana, deixou o Dr. Schwarme entrar às dez em ponto no consultório.

 - Você? - perguntou esticando-se ao recebê-lo. - Sim, qual o seu problema? aliás, você está com uma aparência esplêndida!

 - Trata-se... trata-se... - o Dr. Schwarme sentou-se numa poltrona com estofamento de plástico e pousou as palmas das mãos nos joelhos. - Estou vindo aqui de homem para homem, quer dizer de homem para médico também...

 - não devo entender isso, Sr. Schwarme? - o Dr. Paterna sentou-se num banquinho de frente para o outro.

 - Bem, trata-se de um assunto delicado. Mas entre homens...

 - Solte logo a língua.

 - Bem, eu fui dar um passeiozinho em acapulco. Seguindo um conselho... lá em cima nos morros. Bem, você compreende...

 - Ah! Quer dizer que você fez uma visita a um puteiro de moças nativas...

 - É... podemos chamar assim. Umas moças lindíssimas, é o que lhe digo. Mas só que...

- Agora você está com medo de ter pegado uma gonorreia. - O Dr. Paterna arreganhou um sorriso largo. - Os gonococos estão sentados espiando a passagem da urina...

 - Por favor, doutor, pare com essas piadinhas de estudante.

Eu gostaria de saber se fui contaminado.

 - Você sente arder ao urinar?

 - não.

 - Tem alguma secreção aquosa ou com cor de pus?

 - não...

 - E por que está pensando que pegou uma gonorreia?

 - Bem, eu gostaria de ter certeza. Ontem à noite tive relações conjugais com minha esposa.

 - Se estava com medo, devia ter vindo aqui antes.

 - não. Quer dizer, sim. Mas eu gostaria de saber agora. Depois, quero saber se infectei minha mulher. Doutor, se você constatar alguma gonorreia em mim e que eu infectei minha mulher, dou-lhe um beijo agora!

 - Você já andou bebendo a essa hora, Dr. Schwarme? - o Dr. Paterna sentiu o cheiro do outro. Nenhum fedor de álcool. - O que você disse é um despropósito.

 - Para você. Mas não para mim. Minha mulher me trai, doutor, e se eu a infectei, ela também vai contaminar o amante. É o que eu desejo, a vingança dos indefesos! Dá para você constatar uma infecção?

 - Posso fazer-lhe um teste de gono-reação de Neisser, mas faria mais sentido aplicar-lhe uma injecção profilática.

 - Não. Eu quero saber!

 - Bem, a maneira mais rápida é provocar com uma radiação de ondas curtas. O estímulo fará com que as bactérias fluam, se...

 

 - Então, vamos directamente para essas ondas curtas!

 - E se der negativo?

 - Nesse caso, serei o perdedor de novo! - o Dr. Schwarme encolheu os ombros. - Aí só me restará uma coisa a fazer, dar uma porrada na fuga daquele macaco engomado. Eu preferiria o método mais silencioso de uma blenorragia.

 -. Sr. Schwarme, na verdade eu deveria expulsá-lo daqui agora! - disse o Dr. Paterna com ar bem sério.

 - Mas você é médico e tem um paciente à sua frente, o qual gostaria muito de saber se está infeccionado. Um paciente que depois também gostaria de ser tratado... e que precisaria! Portanto, doutor, você deve exercer seu ofício.

 - Sim, eu devo. - O Dr. Paterna levantou-se e saiu.

 Foi até uma caixa cromada e esterilizada e retirou algumas borrachas. Satisfeito, o Dr. Schwarme deitou para o exame e tirou a roupa.

 

Três dias e noites no mar. Ao redor apenas água, num céu sem nuvens e de um profundo azul e, em toda a parte, o marulhar das ondas e da espuma branca quando a quilha do navio mergulhava e cortava o oceano. Navegavam ao longo da costa não conseguindo ver a terra a bombordo, mas sendo esta anunciada por alguns albatrozes que seguiam o navio, cercando o Atlantis com seu voo elegante. Peixes-voadores, em cujas barbatanas voadoras o sol se reflectia, eram avidamente fotografados pelos passageiros, embora mais tarde apenas se pudesse ver uma espécie de sombra nas fotos. De qualquer modo, quantas pessoas podem servir o círculo de conhecidos com peixes-voadores fotografados de próprio punho? Sim senhor, eles eram capazes de deslizar quase duzentos metros pelo ar como se fossem asas deltas. Aqueles que podem mostrar fotos assim, asseguram-se da inveja de seus semelhantes. só isso já vale o dinheiro pago!

 Três dias ininterruptos de vida a bordo podem ser magníficos, entediantes, enervantes, perigosos ou desmascaradores. De qualquer modo, os seres humanos aparecem como são. Dabrowski utilizou sua máscara de cego para observar cada pessoa com toda atenção. Receberá das mãos do director de hotel a relação dos duzentos e trinta passageiros que não desembarcariam em Valparaíso, mas que seguiriam até Sidney. Havia entre eles nomes que Dabrowski já conhecia. O casal de Jongh estava na lista, assim como o casal Schwarme, o casal von Haller, o príncipe e a princesa von Marxen, o milionário dono da vinícola Tatarani, a mulher do joalheiro Sassenholtz, Ludwig Moor que todas as manhãs fazia sua caminhada de mil metros no tombadilho, os dois homossexuais van Bonnerveen e Grashorn, o negociante de imóveis François de Angeli, o oculista Brandes, o vendedor de carros Herbert Fehringer, a dona do salão de cabeleireiro Barbara Steinberg e muitos outros, os quais todos tinham em comum uma característica: eram totalmente insuspeitos. Mas Paolo Carducci devia encontrar-se entre eles, sob a máscara de inofensivo homem de bem.

 

 O próximo porto que alcançariam e do qual se poderiam fazer passeios magníficos era Balboa, na extremidade pacífica do canal do Panamá. Desde ali, se podia sobrevoar com aviões pequenos toda a zona do canal indo até o lado do Caribe para visitar o arquipélago de San Blas composto de mais de 360 ilhas, onde ainda hoje os índios cunas viviam em choupanas de bambu, os últimos índios insulares da América Central, cujas mulheres adornavam-se com cavilhas de orelha douradas e brincos de nariz. Seu artesanato típico, chamado de molas, feito de gravuras de tecido colorido, faz parte das lembranças mais procuradas. Mas até lá ainda faltavam três dias e noites no mar, três dias de vida a bordo extremamente despreocupada, mas que muitas vezes desmascaram as fraquezas humanas. O comandante Teyendorf se referira sobre a situação com Dabrowski da seguinte maneira:

 - Enquanto as pessoas fazem escala num porto podendo fazer passeios em terra, então o mundo está em ordem... mas três dias só em alto-mar, tendo à volta apenas água e sendo forçado a suportar os outros, bem, para muitos passageiros isso é muito duro. é nesses momentos que a pessoa passa a conhecer seu vizinho! O mais difícil é de Tóquio a Honolulu; durante seis dias apenas o oceano, tendo abaixo profundidades de até quatro mil metros e, no cruzamento de 165 leste com 30 norte, num dos pontos mais solitários do planeta, com apenas água num perímetro de três dias e noites... ali já vi muita gente ter a cólera do mar. Para sermos mais exactos, todo ser humano fica estérico. O que você espera, Dabrowski?

 - Nada.

 - Mas isso é assustador.

 - Carducci tem tempo. Todos os escaravelhos de ouro ficarão a bordo até Sidney e, pelo que o Sr. Riemke me disse, em Valparaíso virão mais alguns bem gorduchos. Portanto, até Sidney ele tem um enorme campo no qual fazer a colheita. Vale a pena. A viagem até Valparaíso é, para ele, mais um descanso e um reconhecimento de suas vítimas. Ele dá tempo ao tempo. Afinal, já sabe muito bem que dessa vez trata-se de milhões. Na verdade, a maior pescaria de sua vida. Essa viagem de sonho que você está comandando agora, é tão única que atrai todos aqueles que cobrem suas mulheres de jóias. Aliás, não é à toa que a joalheria de Heinrich Ried de bordo está abarrotada com as melhores criações. E a coisa já vai começar. Eu soube por Erika Treibel que ontem à noite Knut de Jongh foi sozinho e às escondidas dar uma olhada num anel de três quilates com as mais finas esmeraldas. Um carocinho no valor de cerca de cem mil marcos. Livre de imposto sobre circulação de mercadorias, não .tudo mais a bordo! Só o pensamento de privar o imposto de renda desses catorze por cento, já deixa muitos maridos de água na boca.

 - A velha cantilena. - Teyendorf deu uma risada curta. - Aqueles que conseguem engrupir o imposto de renda viram heróis nacionais. Dá para eu compreender. Você acha que esse seu Carducci também tem a butique de jóias de bordo na alga da mira? Apesar da ronda da guarda e do equipamento de alarme?

 - Acho pouco provável. O risco seria grande demais para ele. Mas Carducci vai observar com toda atenção qualquer pessoa que comprar alguma coisa na joalheria Ried. Se de Jongh sair rebocando esse anel de cem mil marcos para sua mulher, aí já estará correndo um sério perigo. - Dabrowski sacudiu a cabeça como se obstasse alguma coisa de Teyendorf.

- Não, senhor comandante. Não devemos prevenir de Jongh. Sei que deve ser uma tortura para você deixar que os passageiros sejam usados como isca. Mas aí reside a nossa única chance. Sem isca, jamais chegaremos a Carducci. Jamais! Devemos fazer todo o jogo dele.

 - Não terei culpa alguma. - Teyendorf coçou o rosto e encarou Dabrowski com um ar muito pensativo. - A propósito, vai haver um tremendo barulho se de facto Carducci afanar alguma coisa aqui e depois escapar. Como você vai responder por isso? Uma advertência aos passageiros impediria muitas coisas.

 - Talvez. - Dabrowski encolheu os ombros com desdém. - Mas se isso tranquiliza sua consciência, não terei nenhuma obsessão se você mandar imprimir uma clara referência nas costas do programa do dia: "Pedimos que devolvam suas jóias ao cofre da Comissária após cada apresentação. Os senhores sabem que o escritório presta atendimento dia e noite e sabem também que a companhia de navegação somente indemnizará as perdas do cofre!" Isso basta.

 - E é assim que será feito. - Teyendorf respirou aliviado.

- Sr. Dabrowski, muito obrigado. Isso o tranquiliza e à minha consciência. Aqueles que apesar disso guardarem as jóias na cabina, serão culpados se acontecer algo.

 Três dias de água, três dias de sol escaldante, três dias em comum no convés e três noites de ânsias platónicas e paixões realizadas.

 Os cantores de câmara Franco Rieti e Margarete Reilingen deram um concerto com várias horas de espera, cuja apresentação foi magnífica e coberta de aplausos, mesmo com Rieti tendo desafinado duas vezes num dó agudo - quer dizer, ele não cantou as notas, senão que, no momento em que precisava subir, ele cantou mais baixo ainda. Deu para ser bem ouvido, só que aqueles que conheciam as esperas sentiram a falta da brilhante finalização das várias e ficaram um pouco irritados. Mas as pessoas concordaram, claro que em comentários à boca pequena, que a voz de Rieti soava melhor na tevê ou mesmo nos discos do que ao vivo. A propósito, o navio não dispunha de nenhuma aparelhagem técnica refinada, com a qual se pudesse transformar uma vozinha qualquer na de um tenor dramático na mesa de mixagem, embora Rieti não visse a necessidade disso. De qualquer modo, poderiam ter-lhe aumentado a voz um pouco. Em contrapartida, Reilingen soltou-se com uma eufonia e uma respiração capaz de fazer com que as pessoas prendessem a própria. Pelo menos Sylvia de Jongh sentiu assim; ela estava sentada numa poltrona funda amassando o lencinho de tanta emoção. Knut de Jongh aboletou-se no assento estofado com as pernas escarranchadas, bocejando de vez em quando como um rinoceronte, e ficou muito contente quando finalmente o programa foi encerrado com o último dueto da A iria. E também achou o bis uma coisa de uma superfluidade total.

 - não sei o que as pessoas acham de tão bonito nisso - disse ele tão logo pôde levantar-se sem passar por inculto. A entusiástica plateia continuava aplaudindo. Knut olhou para a mulher e notou que seus olhos estavam avermelhados. Sylvia ostentava inclusive algumas lágrimas nos cantos dos olhos. - E ainda por cima uivam só para abrirem a boca e as pessoas poderem ver que o dentista fez um bom trabalho.

 - Você é e continuará sendo um bárbaro! - disse Sylvia de modo ríspido.

 - Mas tenho o dinheiro suficiente para comprar uma espera inteira por uma noite e fazer esse sujeitinho cantar só para mim, quando eu bem entender.

 - E sente orgulho disso, não é mesmo?

 

 - Isso me tranquiliza. Afinal, eu consegui alguma coisa com o martelo de ferreiro.

 - Nesse caso, Siegfried deve ser sua espera predilecta. A canção do brilho e da forja...

 - Lá vem você com mais idiotice! Se você estivesse diante da bigorna segurando um pedaço de ferro em brasa, aí você não cantaria, mas trincaria os dentes e pensaria: só mais uma porretada! E então não empregaria toda a sua força na garganta, mas sim nos músculos do braço e malharia. Isso é que é vida! E quando se solta o martelo direito, com toda a força de cima para baixo, com a pressão dos músculos da barriga, aí a pessoa fica contente só em conseguir peidar. Você já ouviu esse Siegfried peidar alguma vez no palco? E ele quer ser um ferreiro? Pura babaquice!

Após o concerto, Knut de Jongh dirigiu-se ávido ao bar Atlantis, subiu num banquinho e, ao fazê-lo, gritou por cima do balcão.

 - Garçom! Uma pilsen gelada! E meia garrafa de champanhe para minha mulher. O que foi mesmo que o cantor disse com sua voz esganiçada durante o bis? Amigos, vale a pena viver a vida. Foi a única frase inteligente a noite inteira.

 - Você devia envergonhar-se! - disse Sylvia em voz baixa. Ela aboletou-se no banquinho ao lado de Knut e estava olhando para o outro lado do balcão redondo. Herbert Fehringer já se encontrava lá - era a sua noite - esperando por ela. Fehringer fez um sinal dissimulado, mas Sylvia balançou a cabeça. - Comporte-se!

 - Paguei e pagarei - disse de Jongh em voz alta -, eles estão pouco ligando para o resto. - Deu uma olhada em volta, reconheceu Fehringer e fez uma careta. - O sujeito de olhos azuis da cor do mar também está aí.

 - E por que não haveria de estar? Ele é tão passageiro quanto você.

 - Ele está atrás de você, não está?

 - Você está gozando de novo, Knut.

 - O cara está sempre nas proximidades, onde quer que estejamos. No restaurante, no convés, no salão, nos bares... está sempre presente paquerando e paquerando, de olhos arregalados. Com toda certeza deve estar sentindo falta de uma porrada nos olhos! Mas isso ele pode ter...

 - Se você não parar com isso, volto agora mesmo para a cabina - Sylvia sibilou entre os dentes. - Está todo mundo olhando para nós.

 - Estou cagando e andando. Aliás, estou morrendo de vontade de fazer um barulho. - De Jongh ergueu as mãos e girou-as no ar. Deu a impressão de que iria esbofetear a mulher; alguns homens sentados mais longe empurraram as cadeiras para trás. Mesmo sendo directores-gerais, ainda sentiam-se protectores das mulheres. - Mas não! Não! Não tenha medo, minha querida, estou bem pacífico. Mas primeiro preciso engolir essa gritaria de antes... E tudo em italiano! Para quê isso? Esse navio aqui é alemão.

 - Mas as esperas eram de Verdi, Puccini, Leoncavallo, Mascagni e Bonito.

 - E por acaso não existem esperas alegas? Gostaria de ter beijado as mulheres...

 

 - Isso é uma ópera de Lehar e se chama Paganini. - Sylvia deu uma risada de escárnio. - Lehar era húngaro e Paganini um dos maiores violinistas... um italiano.

 - Foi o que eu disse: só tem merda no palco. - Knut recebeu sua pilsen, esvaziou o copo quase que de um só gole e abafou um poderoso arroto. - Esse é o nosso mal: Nós sofremos a invasão estrangeira. Isso mesmo! - virou-se e deu um tapinha no ombro do cavalheiro sentado à sua esquerda. - Meu caro vizinho, o senhor é industrial?

 - Sim... - respondeu o passageiro numa postura rígida e antipática.

 - E qual a percentagem de trabalhadores estrangeiros na sua fábrica?

 - Mais ou menos trinta por cento.

 - E isso é normal, hem?

 - Bem, todos são homens e mulheres muito diferentes - disse o homem com atitude de reserva. - Eu não gostaria de perdê-los. Se na sua empresa for diferente, talvez o problema esteja na administração.

 - Aí o cachorro morde a própria cauda! - Knut de Jongh inclinou-se para a frente. - Escute aqui, meu caro senhor, a administração sou eu. Eu sozinho. está querendo dizer com isso que administro mal a minha empresa?

 - Vou embora agora! - disse Sylvia em tom mordaz. - Afinal, você não precisa mais de mim.

 Deslizou para fora do banquinho, lançou um olhar para Herbert Fehringer e saiu para o convés.

 Na acirrada discussão sobre trabalhadores estrangeiros que se ampliou, na qual outros passageiros se intrometeram, sobretudo um turrão chamado Afim Uxikill, que havia trabalhado como mestre de oficina numa grande fábrica de automóveis de Munique, que economizara duro para fazer aquela viagem até Valparaíso e que agora precisava ouvir Knut de Jongh dizer que nem três turrões podiam substituir um alemão; nessa irritada troca de palavras, de Jongh não percebeu que Fehringer também se afastou do bar após algum tempo indo para o solário. Knut de Jongh estava a pleno vapor e sentia-se bem assim. Uma verdadeira bagunça de homens sempre o animava.

 Sylvia estava esperando na amurada ao lado da escada que levava para o convés de descanso, em cima. Como em toda a parte das vastidões do sul, ali as noites também eram muito mais frias do que os dias; por isso mesmo, Sylvia jogara sobre os ombros uma estola larga de seda, com bordados de penas de ave-do-paraíso, uma pega de valor inestimável que Knut comprara em Paris, só porque ela parara diante da vitrine com um ar arrebatado e dissera: "Que sonho!"

 Fehringer recostou-se ao seu lado na amurada e ficou olhando para a espuma branca abaixo, provocada pela gigantesca hélice do navio.

 - Eu te amo - disse ele em voz bem baixa, posto que alguns metros adiante um outro casal também desfrutava da noite clara.

 - Você deixa isso nítido demais, Hans. - O sussurro de Sylvia também saiu quase inaudível.

 Herbert Fehringer encolheu os ombros.

 - Eu só vivo com você. Não vejo outras pessoas, não vejo a terra, não vejo o mar, nem o barão... nada existe à minha volta a não ser você... É terrível... terrível de bonito... Quanto tempo você tem?

 

 - Só alguns minutos, Hans. Preciso voltar ao bar antes que Knut comece uma pancadaria. Com ele é sempre assim; depois de alguns dias em alto-mar, ele fica com uma espécie de cólera, mas esta cede após uma semana. Já sei como é. - Sylvia encarou-o em cheio com os enormes olhos cintilantes. - Devemos ter cuidado, querido.

 Herbert Fehringer olhou em volta, descobriu a porta da cabina do vestiário e respirou fundo.

 - Vá ao vestiário - disse em voz baixa - irei logo depois.

 - Você ficou maluco, Hans!

 - Ninguém verá você. A porta está situada num ângulo morto. Eu lhe suplico: vá lá dentro. Caso contrário, perderei as estribeiras e lhe dou um beijo aqui no convés!

 Sylvia engoliu em seco algumas vezes, depois virou-se, passou pela piscina andando como quem não quer nada, chegou à cabina do vestiário e desapareceu na sombra. Fehringer ouviu a dobadeira da porta soltar um leve rangido no momento em que Sylvia entrou. O casal ao seu lado voltou de braço dado para o bar Atlantis. Herbert Fehringer ficou sozinho no convés.

 Com passos rápidos, ele deu a volta na escada que levava ao convés principal, aproximou-se da cabina pelo outro lado e entrou. Quando quis levar a mão ao interruptor de luz, Sylvia segurou-lhe a mão.

 - Não! - disse ela. Sua voz vibrava. - A luz sai por baixo da porta e se um comissário a vir...

 Fehringer respirou fundo, excitado. Agarrou-a, puxou-a contra seu corpo, levantou-lhe o vestido, arriou a calcinha e pressionou-a contra a parede da cabina. O ventre quente e as coxas de Sylvia sob o toque de suas mãos deixaram-no ofegante e ávido ao mesmo tempo. Ela cedia a ele, todo o seu corpo exalava um perfume doce e erótico; na escuridão total, Fehringer anteviu a proximidade de seus seios, abaixou-se um pouco e tocou-lhe os mamilos com os lábios. Foi cercado por suspiros e gemidos e então possuiu-a como um sedento, sempre pressionando-a contra a parede da cabina, mexendo-se para a frente e para trás, para a frente e para trás, num ritmo cada vez mais rápido., sem pensar que aquilo podia ressoar lá fora com um barulho de batidas abafadas.

 O orgasmo foi como uma explosão conjunta. Os dois abraçaram-se, morderam-se os ombros e depois ficaram parados durante um longo tempo, como que soldados, em silêncio. Até que finalmente separaram-se e encararam-se. A escuridão completa não deixava que nada fosse visto, mas os dois sabiam que estavam encarando-se.

 - Eu... agora eu preciso ir... - Sylvia disse em voz baixa, como se os dois ainda estivessem na amurada. - Amanhã devemos agir como se fossemos estranhos. Não faz sentido nenhum deixar que Knut fique desconfiado. Caso contrário, ele não me perderia de vista. Vamos parar por alguns dias... Mesmo que nos seja muito difícil.

 - Por um dia. Amanhã. - Esse é o dia de Hans, pensou Herbert Fehringer satisfeito. Se mantivermos essa sequência, nunca mais meu querido irmão vai aproximar-se dela. No início, ele ficará espantado, depois perplexo e, no final, recalcitrante. Afinal, conheço meu irmãozinho gémeo.

 

Nesse ponto somos completamente diferentes; ele desiste com facilidade, mas eu me torno mais activo quanto maiores forem as dificuldades. Por maior que seja nossa semelhança externa, mais diferentes e separadas com as nossas naturezas interiores. Terei Sylvia só para mim!

 - Óptimo. Amanhã não nos vemos. - Sylvia deu-lhe um beijo após apalpar à procura de seu rosto e puxá-lo contra si.

 - E ficamos assim. - Herbert Fehringer estreitou-a contra seu corpo, abraçou-a. - Nós nos veremos a cada dois dias nalgum lugar. Um navio como este tem muitos cantos onde podemos ficar a sós.

 Sylvia assentiu, libertou-se de seus braços e abriu a porta. O brilho da iluminação do convés entrou na cabina, Sylvia saiu ao ar livre e tornou a fechar a porta. Fehringer esperou algum tempo sentado no banquinho da parede dos fundos. Depois também saiu no convés. Três homens que estavam sentados na piscina, não notaram Fehringer quando este passou deslizando por eles e voltou ao bar Atlantis. Ao chegar ali, ainda viu Sylvia empurrando o irritado Knut de Jongh pela porta envidraçada, enquanto ouvia um passageiro dizer em voz alta:

 - É incrível que a gente seja obrigado a passar o tempo junto com um malcriado como esse! Um cara como esse devia ser desembarcado... Ah, se eu fosse o comandante!

 Fehringer sentou-se num banquinhho do bar, pediu um Pear Plum Rickey - trata-se de um forte drinque feito de licor de pêra, licor de abrunho, aguardente de ameixa e suco de limão, completado com soda e guarnecido com pedacinhos de pêra - e gozou as reminiscências dos minutos de amor.

 Já havia tomado a metade do copo, quando o advogado Dr. Schwarme juntou-se a ele subindo no banquinho ao seu lado. Schwarme estava com cara de poucos amigos, com uma expressão francamente rabugenta, e era assim que se sentia. O Dr. Paterna acabara de comunicar-lhe que não daria para ser feita a vingança silenciosa contra Erna. não havia nada que indicasse uma contaminação, não tivera consequências o passeio ao puteiro nos morros de Acapulco. O Dr. Schwarme estava muito desapontado... mais uma vez o perdedor era ele.

 - É, agora é assim - dissera o Dr. Paterna em tom sarcástico. - Nada é mais como antes. até alguns anos atrás, todos os marinheiros que iam em terra precisavam desfilar diante do médico ou do enfermeiro para tomar uma injecção contra gonorreia. Até mesmo os chatos morriam devagar. Sinto muito, Dr. Schwarme, mas saiu saudável do puteiro.

 - Uísque! - o advogado gritou para o barman. - Um triplo, sem gelo, puro. - Ele acenou na direcção de Fehringer; afinal, eram conhecidos do jogo de shovelboard e da natação e, Além disso, Fehringer - aliás, havia sido Hans - uma vez tirara Erna para dançar na pista. - O que é que você está bebendo aí?

 - Pear Plum Rickey...

 - Parece forte.

 - E é! como uma pequena cacetada no cérebro. é disso que estou precisando agora - o Dr. Schwarme estalou os dedos. - Garçom, depois do uísque, uma cacetada como essa que meu vizinho está bebendo.

 - Eu me chamo Fehringer. - Herbert fez uma pequena vénia.

 - Dr. Schwarme. Encantado. Você viaja sozinho?

 - Sim. Para relaxar de verdade. Fugindo de tudo que se chama quotidiano. Sonhar um pouco... nada mais indicado do que os mares do Sul!

 

 - Eu o invejo. - O Dr. Schwarme virou o uísque triplo como se fosse água. É bem verdade que tossiu um pouco depois, mas fora isso pareceu estar acostumado a esse tipo de gole. Fehringer encarou-o quase que com respeito. - Estou com minha mulher pendurada no pescoço.

 - Uma mulher encantadora, se me permite dizer.

 - Por fora. A fachada está sempre bem limpinha. - O Dr. Schwarme esperou o drinque forte e fisgou um cigarro no bolso do casaco. - Você deixou sua mulher em casa, Sr. Fehringer?

 - Sou solteiro.

 - Seu felizardo! Então é por isso que tem essa fraqueza pela Sra. De Jongh.

 - Droga! - Herbert Fehringer sentiu uma pontada no peito. - Dá para se notar?

 - Mas quem menos nota é o marido. - O Dr. Schwarme arreganhou um sorriso enviesado, olhou para o copo de Pear Plum Rickey que o garçom empurrou na sua direcção e depois mexeu-o com a colher de cabo comprido. - Antes eu era procurado como advogado de divórcio, antes de montar o esquema de aconselhamento e alocução de pessoal. Somente força de trabalho para a direcção! Mas vivenciei muitas coisas como advogado das mulheres ou maridos traídos, posso assegurar-lhe. é por causa disso que me permito uma palavrinha honesta de homem para homem: a Sra. de Jongh é uma verdadeira beldade, confesso... mas aquele que se meter com ela, é um idiota.

 - Obrigado, doutor.

 - Conheço bem esse tipo de mulher. São como as aranhas que devoram os machos depois do coito. só que Nós, os machos humanos, não percebemos. Continuamos vivendo como sombras dessas mulheres. E isso é o fatal: Nós somos felizes com a nossa burrice.

 - Parece que hoje o senhor está vivendo um momento de horror, doutor. - Fehringer deu uma risada um pouco áspera. - Alguma briga com a esposa?

 - Uma briga permanente. - O Dr. Schwarme sorveu um longo gole através do canudinho de palha. - Ah! Que coisa infernal... mas boa! A gente sente até na pontinha do dedo do pé. Minha mulher realmente é uma beldade como você observou correctamente há poucos momentos. Eu mimeia muito, até onde minhas possibilidades financeiras permitiram. E olhe que não são poucas. Mas quanto mais eu me afeiçoava a ela, mais a mulher me chutava o traseiro. Eu fui o aranha-macho devorado. - O Dr. Schwarme fez um gesto de desdém. - Vamos deixar isso para lá, Sr. Fehringer! Afinal, o que você tem com isso, não é mesmo? Por que é que estou conversando sobre isso? Sinto simpatia por você, é isso. Você é um ser humano e um ser humano é sempre melhor do que o espelho a quem contamos tudo.

- Tornou a sugar no canudinho piscando com olhos que, pouco a pouco, ficavam viciados pelo álcool. - Eu também não tenho porcaria nenhuma a ver com essa sua fraqueza pela Sra. de Jongh, eu sei. Um flerte das férias... tudo bem. A coisa só ficará ruim se você se apaixonar. Olha só para mim! Eu conheci minha mulher num passeio de esqui em Voralberg, nessa época ela era uma linda esquiadora... meu cérebro parou de funcionar por completo... - Schwarme fez um gesto de desdém, bebeu o resto do drinque, deslizou para fora do banquinho e balançou a cabeça perigosamente.

- O que você tem a ver com isso, não? Esqueça essa nossa conversa, meu jovem. Boa noite!

 O Dr. Schwarme saiu do bar Atlantis com passos bem tropeços. O garçom seguiu-o com a vista.

 

- Quem era ele? - perguntou. - O sujeito não assinou a nota.

- Ponha na minha conta. Cabina 213. Fehringer. - Herbert olhou para o balcão de vidro e, de repente, começou a sentir-se mal. As pessoas podem ver que amo Sylvia; dá para se ver, só precisa ter olhos. era justamente isso que não devia acontecer. Não sei como Hans reagiria se alguém falasse assim com ele. Sylvia tem razão, devemos ter mais cuidado ainda. E não seria se um dia Sylvia descobrisse que havia amado dois homens ao mesmo tempo, gémeos?

 

Fehringer pensou nas palavras do Dr. Schwarme; nas aranhas que devoram os machos. E então encolheu os ombros sentindo incómodo. Nem mesmo um segundo copo de Pear Plum Rickey pode dissipar essa sensação.

 No dia seguinte, na manhã irradiante, dois marinheiros montaram a instalação de tiro ao alvo na tolda, às onze horas, quando todos tomavam banho de sol, à excepção do caminhante Ludwig Moor, que hoje dormira até mais tarde e que nesse momento marchava em posição de sentido seus mil metros no tombadilho.

 O tiro ao alvo era um dos tipos de desporto mais exclusivos a bordo, não por ser muito caro - afinal, todos tinham dinheiro de sobra -, mas sim porque centenas de olhos assistiam e a pessoa podia ridicularizar-se caso acertasse duas vezes em dez tiros. Até mesmo carregadores experientes, que dispunham de um sítio de caça próprio na terra natal e que viviam orgulhosos entre trofeus empalhados, ficavam com um ar bem estúpido quando os discos lançados ao alto eram mais rápidos do que suas reacções. Assim, só apareciam pequenos grupos de atiradores corajosos o bastante para demonstrarem sua perícia ou fracasso aos olhos dos outros passageiros.

 Knut de Jongh fazia parte desse grupo de valentes. Ele era ímpar no tiro ao alvo; ele próprio Não sabia como nem por quê. Quatro anos atrás, numa pequena viagem de cruzeiro pelo Mediterrâneo Oriental, provara só por diversão e ganhara logo de cara; nove acertos em dez tiros! Depois disso, ele sempre voltou a experimentar e, para seu próprio espanto, sempre ganhou. Quando ele gritava "solta!" e os discos eram atirados ao céu pela máquina de lançamento, Knut levantava o fuzil e dava o tiro no momento exacto em que o disco encontrava-se no ponto culminante. Pai... e o disco se espatifava. A maioria dos atiradores apertava o gatilho um momento antes, enquanto o disco ainda estava voando; ou então um momento depois, quando ele começava a descer. Knut de Jongh tinha um sentido infernal para saber quando o disco encontrava-se no ângulo certo para ele. era o tipo de coisa que Como se aprendia, era puro talento. Knut de Jongh constatara isso orgulhoso, após ter sido derrotado apenas uma vez em dezanove competições. Numa caçada a coisa era completamente diferente, por mais estranho e incompreensível que pareça: em geral ele errava o tiro em cabras com renas, faisões e patos, a tal ponto que ele ainda convidava os amigos para caçar, mas quase Não participava mais.

 - Isso é por causa dos porres e trepadas! - berravam seis amigos.

- Quem acerta numa mulher como Sylvia, não acerta mais em veado nenhum!

 Nessa manhã, o tiro ao alvo era uma espécie de exercício preliminar no Atlantis. O grande concurso de tiro devia ter lugar entre África e Valparaíso, nos dois últimos dias de mar antes da partida de cerca de trezentos passageiros que, do Chile, retornariam para Frankfurt. Até lá ainda se tinha muito tempo para os exercícios, para conhecer as armas e para corrigir a mira. O especialista sabe que cada arma tem vida própria e "característica de tiro" individual.

 

 Portanto, era mais que natural que Knut de Jongh se apresentasse para o tiro ao alvo. Com enorme suspense, ele esperou para ver que passageiros julgavam-se capazes de arrebentar os discos lançados no céu azul.

Com calças e camisa brancas deixando aparecer seus enormes músculos, um quepe de aba larga contra a claridade, de Jongh recostou-se na amurada, depois segurou cada um dos quatro rifles, deu uma olhada no cano, pesou-os nas mãos e olhou o céu de horizonte a horizonte. Desconcertado, Knut depositou o último rifle em cima de uma mesa dobrável quando os outros participantes desceram a escada.

 Na ponta ia o príncipe que se dizia chamar Sr. von Haller; de camisa branca, calças azuis, sapatos brancos e um boné em cuja parte da frente estava bordado um brasão. Apesar de seus setenta e três anos e uma certa imbecilidade expressa em seu andar cambaleante, o príncipe tinha necessidade de demonstrar sua pontaria. Além disso, Helmi, a Comissária, sua eleita secreta que nesse dia estava de serviço no convés, assistia do solário e ele devia mostrar que seus olhos ainda eram bons e que suas mãos não tremiam. Enquanto isso, Juliane Herbitina, a princesa, participava na varanda envidraçada de um curso de hobby para pintores, ministrado pela anfitriã Bianca. A aquarela iniciada mostrava um enorme talento da princesa na direcção de Franz Marc. Ela utilizava muitas tonalidades do azul.

 Ao príncipe seguiram-se o oculista Brandes, o vinicultor Tatarani, dois outros senhores que de Jongh só havia visto uma vez, pois ambos sempre mantinham-se à parte, os dois amigos homossexuais e, claro, também François de Angeli. Caso ele ganhasse, podia estar certo de receber os aplausos de algumas damas, mas também aumentaria o ódio dos maridos. Hans Fehringer foi o último a descer a escada. Knut de Jongh estreitou os olhos e foi até ele.

 - Tem certeza de que não se enganou? - disse ele contido. - Os discos são disparados um lance de escada abaixo. Você deve estar querendo ser fuzilado, não é mesmo?

 - Muito engraçado! - Hans Fehringer arreganhou um sorriso largo.

- Se você tiver cinco acertos, eu pago uma rodada.

 - E se eu acertar dez, posso dar-lhe um pontapé na bunda?!

 - Apostado! E o que me oferece se eu vencer?

 De Jongh hesitou por alguns momentos, depois tornou a Piscar os olhos.

 - O que propõe? Não importa, seja o que for... eu concordo.

 - Se você soubesse no que estou pensando agora, retiraria imediatamente sua oferta. - Hans lançou um olhar para o solário, mas Sylvia não estava à vista. Ela entrara na piscina quando Hans passara ao seu lado e lhe sussurrara: "Agora eu vou esmigalhar seu marido! Ninguém me passa para trás no tiro ao alvo" . Sylvia ficara com medo... agora o duelo dos homens já se tornara público. A situação agravara-se. Na noite anterior, ela recusara-se pela primeira vez, quando Knut tentou acariciar-lhe. Chegara ao ponto de repeli-lo usando as mãos. "Deixe-me em paz!", dissera Sylvia. "Não me toque! Eu grito chamando todo mundo. Hoje estou com nojo de você. Deixe-me em paz, seu..." Ainda estava excitada com a paixão de Fehringer e não podia suportar ter de enfrentar o desejo do marido.

 

 De facto, de Jongh capitulara, mas antes de adormecer ainda dissera: "Se eu pegá-la com essa belezinha loura, você vai ter. E se ele tirá-la outra vez para dançar, sairei dando porrada nele pelo salão! Estamos entendidos?"

 Sylvia assentira sem dizer uma palavra; nessa situação, não fazia o menor sentido conversar com ele.

 - No que está pensando? - grunhiu de Jongh examinando Hans Fehringer como se este fosse um disco pronto para ser lançado.

- Vamos, desembuche! O que está procurando lá em cima na amurada?

 - Deixa para lá! - Fehringer fez um gesto de desdém e, passando por de Jongh, foi na direcção dos rifles e dos outros rivais no tiro ao alvo. Os homens cumprimentaram-se com batidas de mão como se fossem pugilistas entrando no ringue. Knut de Jongh respirou fundo e seguiu atrás dele. Deve ter sido ele quem causou tamanha transformação em Sylvia, pensou Knut com um ar sombrio. Quem mais poderia ser? Mas que provas tenho contra ele? Nenhuma. Absolutamente nenhuma. Eu apenas sinto que ele é o perigo. Sou como um animal que fareja o adversário. E é ele, aposto minha cabeça como é ele!

 O tiro ao alvo durou mais de uma hora.

 Foram saindo um após o outro; primeiro os dois amigos, em seguida os dois senhores reservados, Tatarani seguiu-os, depois Brandes e François de Angeli, que de qualquer modo foi muito bem-sucedido com sete acertos. Ele subiu a escada com pose de toureiro, enquanto algumas mulheres aplaudiam. Foi uma cena quase dolorosa, posto que cada uma das damas lançava um olhar hostil para as outras. Restaram para a revanche o príncipe, de Jongh e Hans Fehringer, cada qual com oito acertos.

 Nesse momento, as pessoas chegaram-se à amurada dos diferentes conveses e ficaram olhando para baixo. Havia corrido à boca pequena que ali travava-se um duelo muito interessante. Queriam vê-lo, era uma distracção excitante.

 Knut de Jongh recostou-se na amurada, enquanto o príncipe era o primeiro a escolher sua arma. era o mais velho e tinha a preferência. Fehringer estava postado junto à mesa dobrável de olhos fixos no solário. Sylvia também chegara. Estava parada na amurada, impossível de não ser vista, um sonho de mulher de roupão de banho vermelho bordado com imensas orquídeas. O mesmo pensou de Jongh, mordendo o lábio inferior, quando Fehringer retrocedeu e recostou-se ao seu lado.

 - Se eu vencer, dou-lhe um pontapé na bunda aqui, na frente de todo mundo! - disse de Jongh contido.

 - Claro. A aposta foi essa. Infelizmente não poderei fazer em público o que gostaria, caso eu vença...

 - Seu babaca! - de Jongh grunhiu entre os dentes. - Sei muito bem no que está pensando.

 - Você não sabe coisa alguma, de Jongh! E é por isso que está explodindo. Devia dar uma passada no Dr. Paterna para ele medir-lhe a pressão sanguínea. Ele podia também fazer-lhe um elétro. O hospital tem as melhores instalações.

 - Inclusive para operações de emergência! - de Jongh respirou fundo.

 O príncipe cantou "lança" e o primeiro disco foi atirado ao céu azul e desanuviado. Passou. Nas folhagens, como dizem os atiradores. Outros três tiros passaram ao largo. Enervado, o príncipe depôs o rifle e fez um gesto de desdém. Estava de fora. Não tinha mais chance.

 

 - Agora você! - disse Fehringer fazendo uma pequena vénia. - Tenha um bom tiro, caro colega...

 - Pode mostrar-me o caminho! - de Jongh foi à mesa, escolheu um rifle e chegou-se à amurada. Sem esperar muito tempo, ele gritou "lança!", ergueu a arma e atirou. No alvo. O disco espatifou-se. Soaram as primeiras palmas.

 - Lança!

 No alvo.

 - Lança!

 No alvo.

 No último acerto aumentaram as palmas. De Jongh olhou de soslaio para cima. Sylvia também aplaudia; facto inóspito, mas que deixou de Jongh muito contente. Espere só, minha querida, para ver o que virá agora! Tenho na mão os últimos três cartuchos. Vai ser golpe atrás de golpe... o marinheiro nunca carregou a máquina com tanta rapidez... Oito. No alvo. Nove. No alvo. Nesse momento, alguns passageiros já estavam gritando "bravo". Knut de Jongh enfiou o último cartucho no rifle. Mas então hesitou, apenas um segundo, mas hesitou. Dar a volta e meter o último cartucho na cabeça desse macaco louro, pensou ele. Vai ficar com uma cara que Ninguém o reconhecerá depois. Uma única massa ensanguentada de carne, ossos e cérebro. Ah, com que prazer eu faria isso!

 Ele virou-se, ergueu o rifle e gritou a plenos pulmões:

 - Lança!

 O disco rebolou no céu; de facto, não voou, rebolou como se estivesse bêbado e saiu do alcance do senso de tiro de Knut de Jongh. Então, ele pensou rápido como um raio: depor a arma e exigir um tiro extra, era seu direito; ou atirar mesmo assim?

 Knut de Jongh apertou o gatilho. Nunca em sua vida tivera Medo de assumir um risco e sempre ganhara. E agora também ele ganhou... o disco espatifou-se ao terminar seu voo caindo directamente na direcção do tiro.

 O aplauso dos passageiros tornou a ecoar pelo navio. De Jongh respirou aliviado, recuou, depositou o rifle na mesa dobrável e foi para a amurada. Hans Fehringer avançou. Havia visto como Sylvia aplaudira o marido em cada acerto no alvo, por obrigação, supôs ele. E agora estava curioso em saber se ela também aplaudiria seus acertos. Um pouco mais à esquerda, o Dr. Schwarme estava recostado na amurada ao lado da mulher e, quando Fehringer olhou nessa direcção, ele ergueu os dois polegares. Hans fez um aceno de cabeça, pegou o rifle e chegou-se à amurada.

 - Lança!

 Nove tiros e nove acertos no alvo. O silêncio espalhou-se pelo navio. Sylvia, ele notara ao carregar a arma, não aplaudira. Fehringer estava pouco ligando para os gritos de bravo que lhe vinham de três conveses. Agora ele só poderia perder. Seria impossível vencer; só havia dez tiros. A aposta terminaria empatada. Não dava tempo para o tiro de definição... em pouco tempo começaria o primeiro horário de almoço.

 Hans Fehringer gritou "lança!" e prendeu a respiração . O disco saiu exemplar do lançador, alçou-se sibilando e brilhando ao sol.

 Tiro! O espatifar-se do disco, o júbilo dos passageiros, os gritos de bravo e os aplausos unindo-se num grito de redenção.

 

 Respirando aliviado como antes de Jongh fizera, Hans Fehringer depôs o rifle sobre a mesa. Ergueu os olhos para o convés do solário. Sylvia comportava-se como uma louca, aplaudindo e dando pulos seguidos, parecia uma dança. E ela gritava com sua voz clara:

 - Vitória! Vitória! Vitória!

 Knut de Jongh aproximou-se de Fehringer.

 - Revanche? - perguntou em tom duro.

 - Quando quiser.

 - Tem uma burra gritando ali: vitória! Você não venceu, a competição terminou empatada. está tudo empatado. Estamos entendidos?

 - Em tudo, Sr. de Jongh.

 - Mas vamos ter uma decisão.

 - É o que espero.

 - E aí você será derrotado!

 - Vamos esperar para ver! - Hans Fehringer acenou para todos os lados qual matador glorioso. Nesse momento, os passageiros do primeiro horário de refeição saíram correndo, a fim de chegarem a tempo aos seus lugares. - O negócio foi que hoje tivemos sorte. Mas nem sempre é assim.

 - Que bom que você perceba isso. Você devia mandar aparafusar essa frase na sua cabeça.

 De Jongh empurrou o quepe para trás, subiu a escada para o convés do solário e foi na direcção de Sylvia. Ela ainda estava ofegante de tanta excitação .

 - Você devia beber champanhe agora - disse Knut com uma expressão sombria. - Quem grita vitória, deve comemorá-la.

 

E então Balboa também ficou para trás, a cidade portuária na extremidade do canal do Panamá na costa do Pacífico, a porta para a capital Panamá com seu suntuoso palácio presidencial e a imponente catedral, assim como a Velha Panamá, agora só ruínas, fundada em 1519 por Pedrarias Devitla e destruída em 1671 pelo pirata Morgan. Portentosos muros de cantaria, colunas e uma resistente torre construída como que para a eternidade desafiando as forças da natureza e a moderna poluição do ar.

 Parte dos passageiros fora visitar as imensas represas, uma outra parte voara para a San Blas dos índios cunas e todos voltaram cheios de entusiasmo, carregados de lembranças e impressões, com fotos, filmes e cartões-postais. Afinal, qual o ser humano normal que chega aos últimos índios insulares do Panamá?

 O único que ficara irritado foi Ludwig Moor. Nada mudara em sua mente de funcionário público alemão, mesmo após ter herdado a viagem e uma gorda conta bancária do tio.

 Ele se expressara assim:

 

 - É uma insolência insólita que esses índios passem logo a gritar tão logo alguém levante a máquina fotográfica: "Um dólar, por favor! Um dólar!',' E quando não se paga esse dólar, eles chegam a ameaçar com os punhos. Sim, a que ponto chegamos. Essa comercialização dos povos primitivos! E os pregos dos bolas, os lenços de remendos coloridos! Uma coisinha assim, de 40 por 50 centímetros, custa doze dólares! Doze dólares! É uma usura! I uma exploração aos visitantes! Mas a gente já conhece isso da Europa: lá um mendigo fica o dia inteiro numa esquina e à noite, após fechar a loja, ele vai ao estacionamento e entra em seu Mercedes. Em toda a parte a mesma coisa! Não, comigo não, violão.

 Na manhã seguinte, ele tornou a fazer sua encarniçada caminhada no tombadilho às oito horas.

 Até mesmo Ewald Dabrowski saíra para passear no Panamá. Conduzido pela enfermeira Beate, com a bengala branca sempre um pouco avançada, às apalpadelas e inseguro em solo desconhecido, ele andou lento acompanhando o grupo do autocarro, enquanto Beate explicava o que estavam vendo. Ninguém saberia dizer que imagem ele fazia dessas impressões, mas todos os passageiros do autocarro acharam notável a intensidade com que um cego participava da vida quotidiana.

 Dabrowski mais do que os outros. Ninguém precisa esconder-se de um cego. Foi o que pensaram Erna Schwarme e François de Angeli, que se separaram do grupo, desapareceram nas ruínas da Velha Panamá, sentaram-se em duas enormes pedras de cantaria e; cobertos por arbustos, beijaram-se com toda a paixão. O Dr. Schwarme permanecera a bordo; Não se dava bem com o ar quente e húmido do Panamá. Preferiu ficar sentado à sombra no convés do solário, segurando um drinque bem gelado e observando as mulheres que também ficaram a bordo e que patinhavam na piscina. Tatarani, o italiano dono da vinícola, lhe fazia companhia. Já conhecia o Panamá e estava contando quantos milhares de trabalhadores haviam morrido naquele inferno de febre durante a construção do canal. Havia um monumento em sua memória.

 Dabrowski também assistiu aos dois homossexuais brigando aparentemente às raias da loucura. Jens van Bonnerveen levantou o punho algumas vezes num gesto ameaçador, enquanto Eduard Grashorn gritava com a cara desfigurada. Estavam um pouco afastados no muro do cais e davam a impressão de que iriam investir um sobre o outro a qualquer momento.

Van Bonnerveen tomara conhecimento de alguma maneira que o seu amante o "traía" com a assistente do fotógrafo de bordo e não era tanto a traição em si que o deixara tão irritado, mas sim o facto repugnante de isso acontecer com uma moça.

 Um grupo de médicos de Hamburgo, que participavam da viagem de cruzeiro acompanhados de suas mulheres, formou um clube à parte. Estavam sempre um pouco separados da "gente comum", encaravam-se como se fossem uma equipa absoluta, ministravam ensinamentos a cada pessoa no convés ou nos passeios, reclamavam uma atenção reverente, reivindicavam direitos especiais e irritavam-se com soberba académica, mas com as vozes elevadas, quando os outros passageiros Não compartilhavam de suas opiniões. Ludwig Moor, o funcionário público correcto e de olhar incorruptível, já no segundo dia baptizara o grupo com o nome de "a máfia dos médicos de Hamburgo"; na verdade, isso era um tanto duro e exagerado, mas agora, no passeio pelo Panamá, ficara demonstrado o quanto ele estava certo. Os médicos voaram a San Blas, tendo reservado um aviso particular na agência de viagem de bordo; eles reivindicaram um barão especial para a ilha principal dos índios cunas e nas fotos postaram-se atrás dos passageiros que haviam pago "Um dólar, por favor". Ao serem exorados a pagar esse dólar, eles respondiam a impertinência com um franzir de sobrancelhas e ríspidos olhares de médico-chefe.

 Coberto de suor e sedento, Dabrowski sentou-se à sombra do parque no qual haviam transformado as ruínas da Velha Panamá e estremeceu sem querer quando uma voz disse às suas costas:

 

 - Como é que um cego imagina a paisagem que explicam para ele?

 - Dr. Paterna! - Dabrowski virou a cabeça. O médico de bordo, vestido com um terno tropical branco, elegante como um manequim de revista de moda, arreganhou-lhe um sorriso largo. - Não o vi desembarcar.

 - Saí mais tarde, depois da partida do autocarro, e segui atrás de taxi. - Ele olhou para Beate que, a alguns metros de distância do banco, fotografava um arbusto de buganvília em flor. - Agora você poderá demonstrar sua gratidão por eu ter protegido seu disfarce, Sr. Dabrowski. Apresente-me à jovem.

 - A Beate?

 - Sim, por favor.

 - Doutor! - Dabrowski tirou os óculos de lentes escuras, não havia ninguém nas proximidades, à excepção do casal François e Erna Schwarme que tirava um sarro escondido atrás dos arbustos. - já lhe deixei claro uma vez que ela Não está à disposição para um flerte de férias.

 - Não quero flertar, só quero ser apresentado. Além do que, ela já deve ser maior de idade.

 - Sou responsável por ela, doutor. Ah, vocês, os malditos médicos de navio! Não é à toa que têm fama de garanhões! - Dabrowski tornou a deslizar os óculos no nariz e apoiou-se na bengala branca. - Beate! Podia vir aqui um instantinho? - e, quando Beate aproximou-se, disse: - Este é o Dr. Paterna, o homem mais perigoso a bordo! Beate Schlichter...

 - Ele está exagerando muito. - O Dr. Paterna apertou a mão de Beate fazendo uma leve vénia.

 Beate deu um sorriso contido, sem se impressionar.

 - Quem Não o conhece a bordo? - disse ela. - Então, que está achando do Panamá?

 - Já passou há muito tempo o primeiro encanto. Essa é a nona vez que venho aqui. Todas as vezes eu descubro algumas mudanças e nem sempre para melhor... Posso convidá-la e ao Sr. Dabrowski para tomar um drinque refrescante? Conheço um bar aqui onde os estrangeiros não são enganados. Chama-se Na Casa de Pedro, fica na cidade velha e, do terraço, tem-se uma linda vista para a baía. Bela Vista com suas praias está situada bem nas proximidades.

 Foi um lindo dia. O Dr. Paterna desfez a reserva de Dabrowski e Beate Schlichter com a guia do passeio que tomava conta do autocarro, chamou outro táxi e os três deram uma volta pela esplêndida costa. não seria de se esperar, Paterna era uma pessoa de conversa cativante. Contou sobre sua vida e os planos para o futuro, nos quais a clínica para as pessoas que ganhavam acima de dez mil desempenhava um papel importante, segundo o lema: as pessoas que têm muito dinheiro, podem dar-se ao luxo de ter uma doença cara, porém, inofensiva.

 Quando viajaram de volta ao porto, Beate parecia outra pessoa dando sorrisos de pérola e com gestos mais coquetes do que nunca. Dabrowski chamou-a com ar sério à sua cabina.

 

 - Minha filha, você vai me fazer o favor de não se apaixonar pelo Dr. Paterna - disse ele em paternal advertência. - Ele é um doidivanas. Tenho observado que pelo menos cinco mulheres a bordo reviram Os olhos quando ele aparece. Sobretudo essa encantadora cabeleireira, Barbara Steinberg. O número de suas admiradoras vai aumentar continuamente até Sidney; isso Não vai deixar de acontecer, especialmente após a troca de passageiros em Valparaíso. Filhinha, tenha juízo!

 Beate concordou, deu um beijo na testa de Dabrowski e saiu dançando. Ele seguiu-a com a vista de mãos cruzadas.

 - É, a coisa pode esquentar! - disse ele para si mesmo. - E na qualidade de cego eu nem posso enxergar nada...

 Portanto, agora haviam deixado para trás essas vinte e quatro horas de Balboa e Panamá, assim como o baile folclórico que tivera lugar à noite no Salão dos Sete Mares, animada por Hanno Holletitz e cuja concepção artística fora do director de cruzeiro Manni Flesch, que depois apresentou gigantescos buques de flores, desses que se podem comprar em qualquer esquina. O Atlantis zarpou às oito da noite, a orquestra de bordo tocou a infalível Comandante, leve-nos junto na viagem... e ali à vista, até à vista; coisa que pouco interessou às pessoas do porto, pois todos os dias os navios brancos de cruzeiro de todas as nações chegavam a Balboa e despejavam passageiros loucos para tirarem fotos, Os mais impressionantes eram os viajantes japoneses... o consumo de filme deles era francamente ilimitado.

 O comandante Teyendorf seguiu com a vista a costa do Panamá que desaparecia no brilho do sol. Como de hábito, estava postado na ponte com seu uniforme de comandante, branco com galões dourados, e ficou contente por deixar aquele porto para trás. Ele não gostava de Balboa, desde há três anos atrás quando dois de seus oficiais foram espancados, coisa que quase provocou uma guerrinha diplomática, pois os atacantes pertenciam a uma organização da esquerda radical e gritavam "Fora com os estrangeiros!". Em contrapartida, o Panamá vive das taxas do canal e do tráfego de estrangeiros. Contudo, o pior porto, que seria alcançado dentro de seis dias, era Callão, no Peru, o porto da capital Lima com suas gigantescas favelas e seus assaltos à luz do dia; e quando se gritava por socorro. Ninguém dava importância, as pessoas simplesmente preferiam desviar o olhar. Ali, até a própria polícia uniformizada assaltava os estrangeiros ultrapassando os taxis que transportavam passageiros de navios, detendo-os e exigindo dez dólares por cabeça sob a ameaça de levá-los para a prisão. Posto que a libertação podia demorar semanas, os assustados estrangeiros preferiam pagar.

 

 Nesse momento, dois novos acontecimentos abalaram a direcção do navio, sem que os passageiros dele tomassem conhecimento: lady Evelyn Cumberiand, mulher sempre tranquila, distinta e que viajava sozinha, que ocupava uma mesa de uma só pessoa bem no fundo junto à parede, a mesa G1, comunicou com comoção contida ao chocado director de hotel Riemke - sempre conservando seu temdeamento britânico frio - o roubo de sua pulseira de brilhantes. Valor: 70 mil dólares; comprado de Bulgari, no hotel St. Pierre, em Nova York.

 Riemke deu o alarme na mesma hora informando o comandante Teyendorf e Ewald Dabrowski. Agora ficava claro que o invisível Paolo Carducci começara a roubar as melhores pegas. Não havia dúvida alguma que a jóia de lady Cumberiand fazia parte dos modelos mais exclusivos. O nome Bulgari atestava este facto.

 

 - Nada de pânico - disse Dabrowski após ter conversado com lady Evelyn. - A senhora receberá a pulseira de volta. só lhe peço que tenha um pouco mais de paciência. Vamos averiguar primeiro quais as pessoas que não saíram para passear em terra. Carducci encontra-se entre aqueles que permaneceram a bordo, pois ele Não pode ter deambulado pelo Panamá ao mesmo tempo em que roubava a bordo.

 - Sempre que se parta da suposição que esse seu mestre dos ladrões trabalha sozinho. - Teyendorf viu espantado quando lady Evelyn, para tranquilizar-se, levou aos lábios um copo cheio de uísque e esvaziou-o até a metade com um potente gole digno de homem. - Afinal; ele também poderia ter deixado um "assistente" a bordo...

 - Também já tive esse pensamento, mas logo depois o rejeitei. Carducci é um solitário fanático.

 - Bem, seja lá como for. - Teyendorf tornou a admirar-se quando lady Evelyn esvaziou o copo de uísque com um segundo gole. Um copo desse de se beber água, cheio de uísque puro, esvaziado com dois goles!

- Começamos a contagem regressiva.

 A segunda péssima notícia chegou pelo rádio transmitida de terra: o departamento de imigração da polícia do Panamá comunicou que uma passageira do NM Atlantis não chegara na hora de tomar o navio, senão que entrou no cais quando este já se encontrava em alto-mar. Havia participado de uma festa na casa de conhecidos em Cristobal e simplesmente acordara atrasada para a partida.

 Seu nome era Thea Sassenholtz. Tinha sessenta anos, era casada com um joalheiro de Munique. A polícia panamenha perguntava o que se podia fazer. Do ponto de vista jurídico, aquilo era encarado como imigração ilegal.

 - Chame de volta, Mehrkatz - disse Teyendorf ao primeiro-oficial da estação de rádio, que levara por escrito a conversa tida através do rádio. - Diga que a Sra. Sassenholtz deve dirigir-se ao consulado alemão para pedir ajuda. Nosso próximo porto é Guaiaquil, no Equador. Ela pode viajar para lá com toda a calma. só chegaremos a esse porto daqui a três dias. O consulado sabe todo o resto, refiro-me aos documentos e coisas assim.

 - Sim, senhor comandante - o oficial de radio Mehrkatz encarou Teyendorf com uma expressão pensativa. Ele já estava no mar e na cabina de rádio o tempo suficiente para saber que um passageiro perdido sempre representava um problema. - Comunicar ao consulado alemão... Ninguém podia imaginar o que se causava com isso.

 

Agora o barão navegava desaparecendo com imersível rapidez no brilho do sol e no mar cheio de reflexos. Havia passado a andar a pleno vapor e seria impossível alguém alcançá-lo de bote. Thea Sassenholtz ficou parada no cais, sem ter nada consigo, à excepção de uma bolsinha de mão e um saco de plástico com lembranças do canal do Panamá, compradas no dia anterior. Seus amigos de Cristobal não a acompanharam, pois deviam seguir para seu trabalho. Haviam-se despedido de Thea com muitos beijinhos e a promessa de voltar um dia e agora, pelos vistos, parecia que isso iria acontecer mais rápido do que esperavam.

 

 O motorista de taxi que a levara ao porto parecia estar acostumado com esse tipo de situação . Enquanto Thea Sassenholtz andava agitada de um lado para o outro no píer, sem saber o que estaria por vir, ele primeiro fumou um cigarro com toda indolência e depois disse bem-humorado:

 - Não perca a cabeça, madame. Este é o nono caso em minha vida, em que alguém perde o navio.

 - E o que os outros fizeram? - perguntou Thea desesperada.

 - Três ficaram aqui para sempre.

 - Pelo amor de Deus, mas que proposta! - ela gritou horrorizada.

 - Quatro voaram atrás do navio até o porto seguinte.

 - Isso seria em Guaiaquil, no Equador.

 - É, um trajetinho bem pesado. Bem, dois morreram.

 Thea olhou fixo para o motorista de taxi e engoliu várias vezes em seco.

 - Morreram? Aqui? Como assim?

 - Um bebeu até morrer, quer dizer, serviram-lhe álcool impuro, que tinha metal na fórmula, não teve salvação ao chegar à clínica. E o outro recebeu uma facada entre as costelas quando tentou passar o tempo com uma moça daqui. - O chofer de taxi jogou fora a guimba do cigarro, amassou-a com a ponta da bota e apontou para seu carro:

- Vamos até o aeroporto, madame, e a senhora toma um aviso para Guaiaquil. Lá terá bastante tempo até seu navio chegar. Poderá inclusive voar até Quito para fazer uma visita ao monumento do Equador. - Ele deu uma risada jovial mostrando os dentes reluzentes, um mestiço com sangue de índios, espanhóis e ingleses. Seu inglês era fluente, mas com um certo sotaque do idioma gutural dos índios. - Não é uma boa idéia, madame?

- Primorosa. - Thea Sassenholtz deu uma batidinha em sua bolsa de mão. - Isso é tudo que tenho comigo.

 - Pode-se comprar qualquer coisa no Panamá.

- Dispondo-se de dinheiro. Ainda sou proprietária de cerca de trinta dólares.

 O motorista de taxi, que já havia recebido seu pagamento, fez uma careta e forçou um bico com o lábio inferior.

 - É, a senhora Não vai chegar muito longe com isso.

 - é isso mesmo. Estou completamente lisa aqui.

 - Não tem cartão de crédito?

 - Ficou a bordo.

 - Talão de cheque?

 - Também a bordo.

 - É realmente descuidada, madame; vir passear em terra assim, sem nada.

 - Afinal, quem iria pensar que perderia o navio? - disse Thea Sassenholtz em tom de queixa.

 - Vamos primeiro até a polícia.

 - E por quê? Como a polícia poderia ajudar?

 - A senhora está com seu passaporte?

 Thea Sassenholtz baixou a cabeça.

 - . A bordo. Com a comissária.. Todos viemos à terra com um documento especial. Válido por um dia.

 - era isso que eu estava imaginando. Sem passaporte a senhora é uma imigrante clandestina e primeiro devemos ir à polícia para esclarecer a situação . O que acha que lhe acontecerá se cair num controle e nada tiver além desses trinta dólares? Nenhum documento! Vai na mesma hora para a prisão.

 - Nesse caso, vamos... Qual o seu nome, chofer?

 

 - Manuel Jacky. Manuel foi o nome que meu pai me deu e Jacky minha mãe americana. - Ele abriu a porta do carro, esperou que Thea Sassenholtz entrasse e depois meteu-se atrás do volante. - Mostre-me esse seu documento do navio.

 Thea revirou a bolsa de mão, sacudiu a sacola de plástico despejando as lembranças no assento e procurou: Seus dedos começaram a tremer.

 - Nada... - balbuciou ela encarando Manuel Jacky com uns olhos de criança arregalados. - Devo ter esquecido o cartãozinho em Cristobal. Afinal, era só um cartãozinho estreito. Ou então devo tê-lo tirado da bolsa e perdido no momento de pagar.

 - era só o que faltava!

 - Mas podem passar um rádio para o navio. Ali eles confirmarão que sou passageira do Atlantis. E meus conhecidos de Cristobal também podem confirmar que eu...

 - E não é que a senhora quer chegar a Cristobal com trinta dólares no bolso? Dê um telefonema para que lhe enviem dinheiro.

 - Meus conhecidos Não têm telefone.

 - Parece que a senhora é uma pessoa que tem tudo a zero! É, existe esse tipo de coisa. - O chofer ligou o motor. - Portanto, vamos embora, para a polícia.

 

 A polícia do Panamá está acostumada com o possível e o impossível. Havia muito tempo que o país era o Eldorado dos aventureiros, não somente desde a construção do canal do Panamá, mas já desde antes e, sobretudo, depois. Se antes havia a luta contra o inferno verde, contra os pântanos e miríades de mosquitos venenosos e aranhas, na carga ao ouro com o qual os índios se adornavam, hoje em dia especulava-se tentando a sorte no comércio no estreito país do Caribe ao Pacífico - aliás, comércio era a expressão educada para o contrabando. Assim, a criminalidade no Panamá representava um enorme problema; sobretudo a luta contra as drogas e a prostituição.

 Por isso mesmo, Thea Sassenholtz foi uma mudança quase

agradável

no escritório central da imigração . Fizeram um protocolo do interrogatório, tiraram-lhe as impressões digitais, anotaram o endereço de seus conhecidos em Cristobal, asseguraram à dama que estava a ponto de chorar que, claro, acreditavam em tudo, fizeram a ligação por rádio com o NM Atlantis e informaram por rádio o consulado alemão.

 - está tudo em ordem, madame - disse o chefe do departamento da repartição de imigração escrevendo no documento apresentado um novo prazo de permanência. - A senhora deve tomar o navio em Guaiaquil.

 - E não chegarei lá sem dinheiro? E também precisarei de um passaporte de emergência para entrar no Equador.

 - O consulado alemão vai cuidar de tudo - disse o amável funcionário num tom de voz amigável. - Não se preocupe, dentro de três dias a senhora estará navegando de novo pelo Pacífico.

 Mas a coisa não foi tão fácil assim como viam os funcionários panamenhos. Haviam esquecido que o consulado-geral alemão era ocupado por funcionários alemães. Assim, um empregado público alemão não acha que seja a coisa mais natural do mundo que alguém perca seu navio. Antes de mais nada, a primeira coisa que se deve fazer com essa pessoa - segundo a velha e boa maneira alemã - é dar-lhe uma lição e adverti-la.

 

 Thea Sassenholtz caiu nas mãos de um funcionário do consulado que ouviu sua história com um rosto rabugento e amarelado como consequência de uma doença hepática e que depois passou os olhos com todo cuidado no protocolo do departamento de imigração, assim como nos apontamentos sobre a conversa por rádio com o comandante Teyendorf do NM Atlantis.

 - Mas não pôde acontecer isso? - ele perguntou com cara de poucos amigos.

 - Eu simplesmente dormi Além da hora. - Thea Sassenholtz esboçou um sorriso estimulante. - Só cheguei quinze minutos atrasada.

 - Só quinze minutos? Que quer dizer com só? A senhora chegou tarde demais, o navio tinha ido embora e agora estamos com esse lodaçal aqui.

 - Que quer dizer com lodaçal?

 - Se a senhora me permite: permissão de saída do Panamá, permissão para entrada no Equador, pagamento da passagem aérea, a senhora ainda quer dinheiro e nós devemos emitir um passaporte de emergência... será que isso Não é nenhum lodaçal?

 - Mas é para esse tipo de coisas que o senhor está aqui - opinou Thea Sassenholtz.

 Não devia ter dito tal coisa. Nunca se deve dizer a um funcionário público o motivo pelo qual ele se encontra ali! Só ele sabe disso. Atirar-lhe isso na cara significa sujar um santuário. Nada é pior na repartição de uma autoridade do que fazê-la reconhecer que se tem direito a alguma prestação de serviço.

 O funcionário consular de rosto amarelado empurrou seus óculos um pouco para a ponta do nariz, contemplou Thea Sassenholtz por cima da armação como se esta fosse um insecto zumbidor e depois recostou-se na cadeira.

 - Não seja insolente! - ele disse em tom cortante. - Primeiro a senhora dorme e perde o navio... deve ter bebido um bocado em Cristobal, não é mesmo?. . depois esquece a bordo tudo que se deve levar para um país estrangeiro, perde seu documento de bordo, não traz dinheiro nos bolsos... um pouquinho demais, não?! E agora começa também a cuspir no nosso prato, gente que só lhe quer ajudar! Minha cara, sabemos muito melhor do que a senhora para que estamos aqui! - ele assumiu uma postura bem formal e funcional e procurou um formulário na gaveta. - A senhora dispõe dos meios necessários para nos pagar na Alemanha o dinheiro que lhe emprestaremos?

 - Se me permite! - Thea Sassenholtz encarou atónita o sujeito rabugento. - Sou mulher de um conhecido joalheiro de Munique.

 - Não perguntei quem a senhora é nem com quem é casada; perguntei por sua situação financeira. Por favor, dê uma resposta precisa!

 - Eu disponho de uma fortuna, minhas finanças estão excelentes - disse Thea já um pouco nervosa nesse instante.

 - E por que seu marido Não está viajando junto?

 - E o que o senhor tem a ver com isso?

 - Temos a ver com tudo se for para ajudá-la! - a voz do sujeito de rosto amarelado ergueu-se. - Não seja mais insolente...

 - O senhor já disse isso.

 

 Erro após erro! Thea Sassenholtz, que nesse momento fora recalcitrante, não compreendeu porque devia ser interrogada ali sobre sua vida privada. Sentia-se com todo direito, mas quem é que tem algum direito diante de um funcionário público alemão? Quando um cidadão tem alguma coisa a dar a uma autoridade, é exortado de maneira amável mas decisiva a fazê-lo com a maior rapidez... no caso inverso, aí temos tempo de sobra.

 - Vou dizer-lhe uma coisa - o doente da vesícula biliar, ou seria do estômago? - inclinou-se por cima da escrivaninha. - Nós temos tempo de sobra. Não estamos correndo atrás de nenhum navio. Poderíamos primeiro perguntar à Alemanha se é mesmo verdade isso que a senhora declarou no protocolo. Isso pode durar uma, duas semanas...

 - Aí o navio já estará a caminho da ilha de Páscoa. Então, não chegarei lá? - disse Thea horrorizada.

 - Fomos nós que perdemos o navio? Portanto, seria muito bom para a senhora se respondesse a todas as perguntas de modo correcto. A senhora poderia, por exemplo, ter fugido de seu marido... aí não seria sua situação financeira?

 - Mas isso é incrível! - Thea Sassenholtz soltou um grito. - Vou queixar-me ao Ministério do Exterior na Alemanha.

 Não existe nada pior para um funcionário público do que ser ameaçado de queixa numa instância superior à dele. Não que ele tenha medo disso - a autoridade superior agirá sempre em favor do denunciado -, mas sim porque ele encara essa ameaça como um ataque. Por isso mesmo, os funcionários públicos ameaçados tornam-se mais perigosos do que um tigre ferido.

 Então, o sujeito de rosto amarelado bateu com a palma da mão no tampo da escrivaninha, respirou fundo, mas não seguiu-se nenhuma explosão e sim apenas a frase:

 - Podemos fazer a coisa de outra maneira, minha senhora! - então, ele pegou o telefone, ligou para o departamento de imigração e disse em inglês: - Vocês nos enviaram uma certa Sra. Sassenholtz. Sim, essa, essa que supostamente teria perdido o navio...

 - Eu perdi! - Thea intrometeu-se com um grito. - Eu perdi!

 - Quieta! - a mão tornou a bater no tampo da mesa. - Sim, surgiram algumas dificuldades. Vocês receberão notícias nossas. Obrigado. - pôs o auscultador no gancho e tornou a recostar-se. - Com que então, a senhora quer queixar-se ao Ministério do Exterior, Sra. Sassenholtz. Faça isso! A propósito, em Bonn eles têm coisas mais importantes a fazer do que estar dando ouvidos a reclamações estúpidas. Não somos nós que queremos alguma coisa da senhora, mas sim a senhora é que quer de nós! Portanto, deve concordar que busquemos informações. é a nossa obrigação!

 Thea Sassenholtz percebeu que Não fazia sentido continuar brigando com aquele homem. Ela assentiu sem dizer uma palavra, pegou o formulário que lhe foi empurrado e preencheu-o.

 - Quando poderei voar para Guaiaquil? - perguntou no fim.

 - Isso somos nós que decidimos.

 - Claro. Afinal, são os senhores que pagarão o voo.

 - Justamente! - o impiedoso homem puxou de novo o formulário e correu os olhos por ele. - Quando alguma coisa não vem ao caso, não se deve simplesmente fazer um traço, mas sim escrever: Não vem ao caso.

 - Eu Não sabia, perdão - disse Thea com um ar atencioso. - Em geral é o meu marido quem lida com as autoridades.

 

 era evidente que o sujeito rabugento ficou ponderando se a resposta era outro insulto, ou apenas uma inofensiva informação, mas depois de algum tempo enfiou o formulário numa pasta. Thea Sassenholtz respirou aliviada.

 - E agora? - perguntou ela.

 - Volte à tarde. Seus trinta dólares bastam. Afinal, a senhora não precisa comer num hotel de luxo. Teremos mais informações por volta das 15 horas. Tenha um bom dia!

 Resumindo: Thea Sassenholtz recebeu uma passagem de avião para Guaiaquil, um passaporte de emergência, a permissão de entrada no Equador e um cheque de viagem de quinhentos dólares americanos. Foi obrigada a declarar o número de sua conta bancária na Alemanha e a assinar um pedido de remessa, a fim de que o dinheiro emprestado fosse devolvido o mais rápido possível. Além disso, foi aberta - era preciso manter-se a ordem - uma ficha com seus dados.

 à noite, Thea foi a um pequeno hotel em Balboa e alugou um quarto com varanda dando para o mar, muito limpo, barato para as condições do Panamá (cinquenta dólares por noite) e com um serviço bem amável. Seu avião decolaria no dia seguinte às oito da manhã. E ali; no pequeno restaurante do hotel, sob as pás de um ventilador, Thea conheceu Juan de Garcia, um fazendeiro de café da Costa Rica, de cinquenta e cinco anos de idade e maneiras educadas.

 

No NM Atlantis havia um lugar que apenas uns poucos corajosos visitavam: o convés CFL, escondido de todos os olhos, situado atrás da chaminé e tendo apenas um rótulo numa porta com a indicação clara de sua função de convés para fanáticos absolutos do sol. Nele as pessoas deitavam-se desnudas lado a lado nas espreguiçadeiras, bronzeavam-se sem marcas e em pouco tempo formavam uma comunidade, uma espécie de tropa de conspiradores.

 Os voyeurs não eram permitidos, essa era uma lei férrea.

Quem atravessava a porta com o cartaz "Atenção, convés CFL", logo depois dessa porta tirava o traje ou calção de banho; e reconhecia-se o profissional, que em geral tomava banho de sol sem nenhuma roupa, pela maneira como o fazia. Os novatos a princípio sempre hesitavam um pouco, olhando em volta e depois fazendo uma cara como se estivessem pensando: em todo caso sou mais bonito do que aquele ou aquela lá. Portanto, nada de inibição, garoto, estamos entrando no paraíso, trate de comportar-se de acordo!

 Na segunda vez a pessoa ficava mais despreocupada e não gaguejava quando uma exuberante mulher pelada deitava-se ao seu lado e batia um papo sobre suas experiências num clube de nudismo do Quénia.

 Sylvia de Jongh também descobrira esse convés especial. Quando apareceu pela primeira vez, tirou o biquini junto à porta e saiu rebolando sua nudez francamente provocante pelas pranchas em busca de uma espreguiçadeira desocupada, algumas senhoras mais velhas acharam que aquilo poderia perturbar a paz da comunidade. Mas Sylvia de Jongh foi um agradável desapontamento. Ocupou uma espreguiçadeira bem afastada, comportou-se com toda a tranquilidade e, enquanto entregava-se ao calor, ao vento e ao barulho do mar, leu um romance de Harold Robbins. era um romance erótico, coisa que combinava com ela.

 

 Em compensação, Hans Fehringer estava um pouco perturbado. Como não sabia o que Herbert combinara com Sylvia - ou seja o encontro apenas a cada dois dias -, Hans achava o comportamento de Sylvia totalmente incompreensível. No convés, ela passava por ele como se não o conhecesse, não esboçava nenhuma reacção aos seus sussurros quando ele se aproximava, olhava-o sem vê-lo, procurava seu marido rabugento e se afastava de tudo que pudesse levar a uma troca de palavras.

 Fehringer andava de um lado para o outro no navio como um louco e, no final, foi queixar sua magoa com o irmão gémeo Herbert.

 - Não consigo explicar o porquê disso! - balbuciou ele, enquanto ambos vestiam-se para o jantar: os mesmos smokings azul-ferrete, as mesmas camisas, as mesmas gravatas, as mesmas meias e sapatos. Inclusive as cuecas, que de facto ninguém podia ver, eram "gémeas". nulí, sua cidade natal, os dois também saíam juntos para as compras e, em toda a parte, os vendedores tinham o maior prazer quando os dois fregueses chegavam diante do espelho vestidos com ternos iguais e se comparavam. Até mesmo o nó da gravata eles davam da mesma maneira. só podiam ser diferenciados em seu negócio, o comércio de carros usados com um ano de garantia: Hans, o mecânico de automóveis, de macacão e todo sujo de óleo, ficava debaixo dos carros ou no buraco de montagem - o dinheiro nunca sobrou para um mecânico hidráulico; em contrapartida, Herbert era o vendedor sempre elegante e com um talento extraordinário para as conversas de venda; era bem o tipo do empresário que parecia destinado a missões mais elevadas do que a venda, com um sorriso radiante de carros sucateados e depois reparados.

 - Que está acontecendo? - perguntou Herbert nesse momento com ar inofensivo.

 - Sylvia está tão esquisita...

 - Ah, não. não assim?

 - Ela age como se fôssemos dois estranhos.

 - O velho dela deve estar vigiando-a com olhos de lince.

 - Não pode ser só isso. Deve ter outra coisa metida no meio.

 Herbert Fehringer ficou satisfeito. Sylvia iria pertencer somente a ele, pelo menos durante os próximos dias. Não queria pensar agora no momento da verdade - era possível que esse fosse o fim da fraternidade dos gémeos. Ele tinha a intenção de desaparecer com Sylvia em Sidney e recomeçar a vida nalgum lugar do vasto mundo. Não pensou que uma mulher como Sylvia de Jongh em pouco tempo sentiria a falta do luxo com que se habituara e que então se transformaria numa tortura permanente, não pensou que não se pode viver apenas de um amor tempestuoso e que a cama não é nenhuma base para a vida. Mas quem é que pensa nessas coisas, quando cada poro de seu corpo arde de febre, por outra pessoa?

 - Bem, talvez existam outros homens a bordo dos quais ela goste mais, não? - observou Herbert de passagem.

 Hans Fehringer, que nesse momento estava dando o nó da gravata, deu um salto para o lado.

 - Impossível! - gritou ele.

 

 - Como assim? Posso apontar-lhe uma dúzia de homens por aqui, com os quais quase não podemos competir. Aí está esse tal de Tatarani, tão rico que nem consegue contar seu dinheiro. Depois vem de Angeli, o playboy que deixa todas as mulheres de olhos marejados. O médico de bordo, o Dr. Paterna, um galã do tipo cinematográfico. O primeiro-oficial Willi Kempen. O chefe Ludwig Wurzer, o lutador baixo. Sem esquecer Pfannenstiel, capaz de devorar uma mulher como outros devoram um bolo. E assim por diante, Hans. - Agora Herbert também estava dando o nó na gravata. Os dois pararam lado a lado diante do espelho e cada qual olhou para o outro. era incrível como se assemelhavam. - Uma mulher como Sylvia é como uma borboleta. Qualquer flor colorida atrai. Ela provou o seu néctar... e agora vai embora batendo asas.

 - Eu simplesmente Não acredito nisso. Ela me disse que ama só a mim.

 - No abraço se dizem muitas coisas que depois do afrouxamento parecem diferentes.

 - Essas suas malditas lições irritam-me. - Hans vestiu o smoking de seda. Os gémeos davam muita importância às roupas, gastavam quase todo o dinheiro em ternos novos que, Além disso, faziam parte do "traje de trabalho". Quem cruza o mundo em dupla, mas só paga por um, precisa pelo menos ter uma aparência que inspire confiança. "A roupa faz o homem" Não é um ditado antiquado, pelo contrário, especialmente em nosso mundo moderno a pessoa bem vestida é vista como digna de crédito. Em compensação, são justamente os maiores gangsters que usam as melhores roupas feitas sob medida. - Você nem ao menos sabe como Sylvia pode ser.

 - E tão-pouco estou interessado em saber. - Herbert Fehringer recuou do espelho. Passou mais uma vez um pano macio sobre o brilho dos sapatos pretos. - Mas faça-me o favor, Hans: Não vá correr atrás dela como um cachorrinho! Mostre que tem orgulho.

 - E se isso for o fim?

 - Então, a coisa terá acabado mesmo.

 - Seria insuportável para mim. Herbert, eu a amo com todas as fibras do meu coração .

 - O coração Não tem fibra nenhuma, é um músculo compacto.

 - Ora, vai tomar no cú! - Hans Fehringer, a quem tocava jantar por primeiro, saiu da cabina. Herbert fechou logo depois de ter pendurado o cartaz de "Favor Não incomodar" na maçaneta.

 Isso ocorrera no dia anterior. Agora, nesse magnífico Domingo de vento quente que soprava agradável sobre os corpos, mas com o navio navegando num acentuado movimento deslizante, Sylvia de Jongh foi deitar-se pela primeira vez no convés CFL, uma Vénus de cabelos pretos a qual só poderia ser observada por olhos invejosos, desde que o fosse por uma outra mulher. Três cavalheiros, todos em idade avançada, esforçavam-se para não olhar em sua direcção. De repente, sentiram-se miseráveis na condição de sua nudez enrugada. Voltar a ter trinta anos outra vez, pensaram... ah, cara, quantas coisas iríamos fazer! Eles viraram a cabeça, olharam para as respectivas mulheres deitadas ao seu lado também desnudas e soltaram suspiros secretos. Como a vida é curta e quantas coisas são perdidas!

 Hans Fehringer, que procurava Sylvia em todos os conveses, ficou perplexo ao vê-la subir a escada, dirigindo-se bem para cima, onde em geral não haveria nenhuma possibilidade de se deitar em espreguiçadeiras. Ele observou-a até perdê-la de vista e depois deteve um comissário de convés que ia passando.

 - Pode-se deitar lá em cima também? - perguntou.

 - Não, meu senhor.

 - Mas uma senhora acabou de subir para lá.

 O comissário olhou ao longo da lateral do navio e, com um gesto enviesado, apontou para cima.

 

 - O senhor quer dizer, lá em cima?

 - Sim, foi o que eu disse.

 - Por lá se vai ao convés CFL, meu senhor.

 - Ao CFL... obrigado!

 Hans Fehringer esperou até que o comissário desaparecesse entre as espreguiçadeiras do convés do solário e então andou com passos lentos até à primeira escada. Sylvia deslocava-se para lá? Estaria aí a solução para explicar sua mudança? Será que ela se encontrava com outro homem lá em cima, deitada pelada ao seu lado, flertava com ele? Hans foi possuída por uma sensação indómita. Prendeu a respiração; o ciúme ameaçava rachá-lo ao meio.

 Seu primeiro impulso foi: Herbert tem razão, ela não vale nada. Uma magnífica puta, mais nada. Você não poderá segurá-la por longo tempo. Ela vai traí-lo com o mesmo descaramento como trai o marido agora. Esqueça-a, passe por ela como ela faz com você . Claro que isso vai doer, mas essa dor também pode ser superada. Só não corra atrás dela! Não faça isso, cara!

 Contudo, em geral existe um imenso abismo entre o querer e o poder. Hans Fehringer subiu a escada que levava ao convés CFL. Ali chegando, deteve-se por alguns momentos e tomou consciência de que deveria tirar o calção de banho atrás da porta. Até então, ele só havia tomado banho desnudo junto com seu irmão em enseadas isoladas da Jugoslávia e do sul da França. Não sabia como seria sua reacção no meio a tanta nudez feminina, mas logo convenceu-se de que já havia visto Sylvia em situações bem diferentes e que um aglomerado de pessoas desnudas era qualquer coisa menos algo erótico.

 Hans abriu a pesada porta de ferro, entrou no convés CFL, tirou o calção de banho, mas por precaução jogou o roupão no ombro para, em caso de emergência, podê-lo fechar com o cinto.

 As duas primeiras pessoas peladas, duas senhoras mais idosas, desiludiram-no. Estavam deitadas qual dois leões-marinhos largados em terra, com grossos tampões de algodão em cima dos olhos, reluzentes de óleo de bronzear; uma cena que fazia com que qualquer um desviasse os olhos rapidamente. Mas depois, Hans viu bem lá atrás e isolado por completo o fantástico corpo de Sylvia e seu coração começou a bater com toda a força. Sozinha! E não com um outro homem! Afastada de todos os outros. Herbert, seu idiota, claro que ela é uma mulher fantástica. Meu Deus, como eu a amo!

 Aproximou-se sem fazer barulho, deitou-se na espreguiçadeira ao lado de Sylvia e viu que ela adormecera lendo o livro. O romance de Robbins estava caído sobre seus joelhos, os dedos finos continuavam segurando a capa do livro. Com todo o cuidado, Hans inclinou-se para a frente e deu-lhe um beijo na ponta do nariz.

 - Meu amor - disse ele em voz baixa. - Se estivéssemos sozinhos agora, com toda certeza você não estaria dormindo.

 Sylvia assustou-se, encarou-o perplexa e, sem querer, por reflexo empurrou o livro para cima da vulva.

 - Mas você pirou por completo? - sussurrou horrorizada.

 - Você já sabe... Claro que sim!

 - Quem foi que lhe disse que eu estava aqui?

 - Meu instinto. O seu magnetismo que sempre me atrai para perto de você.

 - Se Knut nos vê aqui!

 

 - Você acha que seu marido iria perder-se por aqui? Querida, eu nem cheguei a pensar nisso. Claro que o convés CFL é o nosso ponto de encontro mais seguro! simplesmente fantástico! - ele pousou a mão sobre o seio direito de Sylvia, acariciou a firme ondulação e depois deitou-se bem à vontade. Sem dizer uma palavra, Sylvia pegou a mão e afastou-a.

 - Não estamos sozinhos, Hans.

 - Que pena. Sinto-me como um sedento que se encontra diante de uma fonte e não tem permissão para beber. - Hans Fehringer tomou o livro do colo de Sylvia, folheou-o e sorriu. - A verdadeira leitura para a sensualidade reprimida. Com que frequência eles transam no livro?

 - Pare com isso! - ela arrancou-lhe o romance das mãos e jogou-o nas pranchas do outro lado. - Saia deste convés agora mesmo!

 - Ora, por quê? Estou começando a me sentir bem. Esse calor no corpo, essa carícia do vento... podiam ser suas mãos. Quando penso nisso, sou obrigado a fechar o roupão.

 Sylvia levantou-se, olhou para o ventre de Hans e depois para os outros veneradores do sol.

 - Não me venha fazer um escândalo aqui! - sussurrou ela. - Comporte-se!

 - Se você me prometer que hoje à noite... - ele hesitou, pois a noite pertenceria a Herbert, depois corrigiu-se. - Não, amanhã à noite... ou hoje mesmo. Nos encontraremos aqui.

 - A porta é fechada após o pôr-do-sol.

 - Subornarei o comissário encarregado para deixá-la aberta hoje. Puxa, por que não pensei nisso antes?! Não existe esconderijo melhor, claro que ninguém vem aqui à noite! Para nós, querida, o lugar mais seguro de todo o navio. - Ele espreguiçou-se com uma sensação de bem-estar, seu corpo musculoso valia um longo olhar, Sylvia também pensou o mesmo e jogou-se de volta à espreguiçadeira para escapar àquela visão.

 - Acho que não será possível, Hans.

 - Por quê?

 - O tiro ao alvo de vocês. O empate deixou-o terrivelmente irritado. Ele não tira mais os olhos de mim.

 - E agora? Você está aqui... onde se encontra ele?

 - Eu disse que viria ao convés CFL.

 - E ele não veio junto?

 - Não. Por mais estranho que possa parecer, ele sente vergonha.

 - Mas isso é fantástico! Quer dizer então que vamos poder nos encontrar sempre aqui?! - Hans acariciou-lhe a coxa com a ponta dos dedos. - Para mim já é uma glória poder ficar deitado aqui com você vendo esse seu corpo maravilhoso. E então sonhar que poderei tê-la em meus braços à noite. Que sensação mais maluca!

 Enquanto isso, Knut de Jongh deambulava pelos conveses. Assistiu aos jogadores de ténis de mesa, viu os entusiastas do shovelboard, a competição de mergulho na piscina, dirigida pela anfitriã Bárbara - ela atirou doze colheres na água e aquele que recolhesse mais, ganharia uma garrafa de champanhe - e depois seguiu até os "artesãos", que era como os passageiros chamavam àqueles que pintavam na varanda,

faziam gravações em vidros, faziam bonecas ou modelavam estatuetas de massa. Não existia tédio a bordo, oferecia-se alguma coisa a cada pessoa.

 

Até mesmo os mais preguiçosos não de Jongh tinham seu quinhão: abriu-se um barril de cerveja para eles no bar externo do convés do solário.

Como acompanhamento, a orquestra de bordo tocava músicas sobre a filosofia do beber, algo como O melhor lugar é sempre no balcão... Assim, todos sentiam-se muito à vontade em toda a parte.

 A única excepção era o Dr. Schwarme. O advogado brigava com Seu destino. Sua mulher Erna frequentara um curso de dança dado no Atlantis pelo casal de professores Raimondi.

 - Quero finalmente aprender a dançar direito! - dissera Erna com um jeito impertinente. - As danças modernas! Afinal de contas, você só sabe sair batendo os pés como um urso. Não pertenço ao ferro-velho. Só tenho quarenta e sete anos. Ainda dá para sacudir num boogie.

 Mas claro que o factor decisivo foi François de Angeli ter participado do curso. Para ele, essa era a melhor oportunidade para conhecer as senhoras mais elásticas e alegres, mesmo que ali elas dançassem honestamente com seus maridos. Os contactos visuais resultariam mais tarde em encontros secretos. O facto de ele frequentar o curso com Erna Schwarme só fez aumentar o interesse das mulheres exortando-as à competição.

 Os Raimondis dançavam de um jeito maravilhoso; eram professores bem-humorados e cuidadosos. Corria o boato de que os dois teriam ganho uma grande quantidade de prémios internacionais de dança e que seriam originários da Sicília. Na realidade, ambos vinham de Witoen, na região do Ruhr, chamavam-se Ramynovsky e dirigiam uma escola de dança em Essensteele. Mas claro que Sicília soava melhor, assim como Raimondi: uma aura de máfia os cercava.

 O Dr. Schwarme assistira à primeira aula, examinara de Angeli com um olhar sombrio e achara tudo muito idiota. Os Raimondis dançaram um passo doble, seguiram-se os aplausos estrondosos, depois os alunos tentaram os primeiros passos, no que já se constatou quem era dotado ou não de senso de ritmo. Erna Schwarme tinha ritmo, todo seu belo corpo acompanhou a dança. O Dr. Schwarme saiu furioso do Salão dos Sete Mares e foi procurar um companheiro de conversa. não o comandante Ludwig Moor também estava participando da dança - sua parceira era uma dama seca e um tanto agitada que de vez em quando caía numa risada sem o menor motivo - e o Dr. Paterna encontrava-se no consultório do hospital, Schwarme encontrou Knut de Jongh que, carregando uma caneca de vidro cheio de cerveja, procurava um lugar numa das mesas do solário.

 - Ah, isso é a única coisa certa! - disse o Dr. Schwarme. - Construíram monumentos para tanta gente, só não construíram para o inventor da cerveja. - Ele foi no barril buscar um copo e depois voltou à mesa de Knut de Jongh. - Posso?

 - Por favor, a cadeira está desocupada.

 O Dr. Schwarme sentou-se, mergulhou num longo gole e depois respirou aliviado.

 - Sua mulher também o deixou sozinho?

 De Jongh lançou um olhar desconfiado para o Dr. Schwarme.

 - Por quê?

 - A minha está na aula de dança pulando como uma dançarina Lulu. Ah, como essas viagens marítimas transforma as mulheres! A gente passa a conhecer novas facetas delas. como um poeta já disse: "Então as mulheres tornam-se hienas e fazem gracejos com o horror..." E então, onde está a sua mulher?

 

 - No convés CFL.

 - E você fica sentado aqui bebendo cerveja com essa tranquilidade?

 - E por que não? - De Jongh sentiu que o canto do olho começava a tremer. Que significaria essa maldita conversa fiada? Será que o Dr. Schwarme sabia de alguma coisa a mais sobre Sylvia? Será que ela não se encontrava no convés bloqueado?

 - Se fosse a minha mulher, eu não ficaria tão tranquilo assim. Sua esposa é uma verdadeira beldade. Eu não a deixaria sozinha entre aqueles pelados. Suponho que o convés CFL está à disposição de qualquer um.

 - Claro.

 - Portanto, também para os homens charmosos. - O Dr. Schwarme deu uma risada um tanto irónica. - Não se faz mais nada junto quando já se é um velho aleijão casado. Mas em cada ser humano esconde-se a curiosidade e o impulso à descoberta. A terra nova sempre excita. Knut de Jongh ficou calado, perplexo. Somente agora ocorreu-lhe não ter visto o macaco louro, aquele tal de Fehringer, em parte alguma. Ele tão-pouco estava nos bares. De Jongh bebeu a cerveja e levantou-se. O Dr. Schwarme olhou para ele.

 - Tenha um bom-dia! - disse Knut de Jongh.

 - Aonde você vai agora? - perguntou o Dr. Schwarme com ar inocente.

 - Você não tem merda nenhuma a ver com isso!

 - Obrigado.

 - Não tem de quê.

 Com o queixo esticado para a frente qual pugilista que avança para o adversário, Knut de Jongh foi até à escada e subiu. Também parou e hesitou diante da porta de ferro do dividido convés Nelson. Sentiu uma sensação desagradável ao pensar que dentro em pouco teria de passar desnudo diante dos muitos olhares curiosos. Não que ele tivesse um corpo que devesse ser escondido, ah, não, mas era justamente isso que o fazia hesitar.

Havia uma coisa que degradava os homens ao nível de crianças, tão logo era feita a comparação. era um grande sacrifício andar com essa coisa à solta.

 De Jongh bufou pelo nariz, superou a inibição e entrou no convés CFL. Tirou o calção de banho atrás da porta, colocou-o debaixo do braço, e em seguida, deu de caras com as duas rechonchudas senhoras. Elas levantaram a cabeça tão logo de Jongh entrou e um espanto visível cobriu-lhes os rostos que reluziam a óleo. Justo na velhice que se viva de certas recordações.

 De Jongh seguiu encarniçado em frente... e então viu Sylvia deitada bem lá atrás com sua nudez exuberante, tranquila e bem comportada, o belo corpo exposto ao sol e ao vento quente. Teria sido uma cena agradável, caso o repugnante macaco louro não estivesse deitado ao seu lado também desnudo.

 Knut de Jongh pediu perdão em pensamento ao Dr. Schwarme por sua grosseria, segurou o calção com a mão direita e atravessou o convés. Parou e ficou calado diante de Sylvia e Hans Fehringer. Os dois haviam fechado os olhos e entregavam-se por completo ao calor.

 

 De Jongh contemplou os dois corpos sem dizer uma palavra. Formavam um par ideal e Knut imaginou como se uniriam com a selvajaria da qual Sylvia era capaz. Com os dentes trincados e as maçãs do rosto contraídas, de Jongh reprimiu o impulso de enrolar o calção na mão e de dar umas bofetadas em Hans Fehringer e Sylvia. Seria melhor ainda arrancá-lo da espreguiçadeira, jogá-lo contra a parede e aniquilá-lo com alguns socos. Destro, dá-los-ia como um pedaço do ferro sob o martelo do ferreiro! Pouco se importaria se Sylvia gritasse e grunhisse. Ela também merecia uma bofetada que a atirasse para o outro lado desse maldito convés CFL.

Ah, mas que grande puta!

 Mas na realidade, de Jongh retornou à porta da mesma maneira silenciosa como entrara, tornou a vestir o calção e saiu do convés Nelson. Mais uma vez, deu ensejo a que as damas rechonchudas junto à porta o admirassem e ficou contente quando desceu a escada. O Dr. Schwarme continuava sentado na mesa do convés do solário. De Jongh sentou-se ao seu lado.

 - E então? - perguntou Schwarme. - Encontrou?

 - Sim. Pode enfiar no rabo essas suas observações estúpidas. Se Sylvia não estivesse deitada lá, aquilo seria uma grelha para mamais.

 - Puxa, que magnífica comparação! - o Dr. Schwarme aplaudiu. - Está com uma imaginação aguada, Sr. de Jongh!

 - E vou aguçá-la ainda mais! - disse de Jongh em tom de ameaça sombria. - Ficarei contente quando chegarmos a Sidney e voarmos de volta para casa.

 - Até lá faltam exactamente catorze dias.

 - Mas que droga, claro! Vão ser os catorze dias mais longos da minha vida.

 Ele devia ter razão, mas nesse momento ninguém supunha isso.

 Sylvia apareceu no bar Atlantis usando um vestido largo de flores imensas, para tirar Knut de Jongh do banquinho e levá-lo ao segundo horário de refeição.

 - Mas é claro que você não vai comer assim, não - perguntou ela. - De calção de banho!

 - Comerei aqui, no bufé do convés!

 - E porquê isso? Dei uma lida no cardápio; é genial tudo que há para se comer hoje. Um assado dourado ao álcool, sorvete de rum com frutas frescas de sobremesas...

 - Então, tudo bem!

 De Jongh deslizou do banquinho, foi até à cabina, vestiu calças e camisa e subiu até o convés principal. Sylvia o estava esperando diante da porta de vidro do restaurante, com uma pose de esposa bem honesta. Ah, sua vagabunda, pensou de Jongh. Sua mulherzinha maldita! Se você soubesse como me sinto por dentro! Sairia correndo e se esconderia. Mas veja, estou sorrindo para você do jeito que só os malditos e estúpidos maridos traídos são capazes de sorrir quando não têm a menor idéia do que se passa. Agora vou dar-lhe inclusive um beijo na testa, embora você mereça que eu parta sua cabeça. Você jamais notará o que estou pensando.

 Bom apetite, minha putinha enfeitada!

 Deu-lhe um beijo, deu o braço à espantada Sylvia e entrou no restaurante. Claro que o repugnante cabeça loura já estava sentado à mesa.

 Mas dessa vez era Herbert Fehringer.

 

A tarde, finalmente, Bárbara Steinberg conseguiu pegar o Dr. Paterna. Os dois se encontraram no corredor do convés Pacífico. Paterna estava voltando de uma paciente acamada, que sofria de enxaqueca e que acabara de tomar uma injecção. O médico de bordo depositou a pequena maleta no chão do corredor e piscou o olho para Bárbara.

 - Mas você quase não aparece - disse ele com ar jovial. era a melhor maneira de superar o grande embaraço.

 - Eu mais do que ninguém poderia dizer isso de você. - Bárbara Steinberg fez um biquinho com a boca um tanto maquilhada demais e fingiu estar muito ofendida. Fica bem nela, pensou Paterna. - Pensei que você fosse mostrar-me o Panamá. Está lembrado do que disse? "Voaremos juntos até San Blas, a ilha dos cunas." Fiz a reserva no voo, mas quem não estava no grupo? Você !

 . - Tive plantão no grupo da cidade do Panamá. A enfermeira Erna ficou com o seu grupo.

 Paterna mentiu de modo brilhante e incrível.

 - Se eu soubesse, podia ter cancelado a reserva - disse Bárbara, agora fazendo-se de apenas um pouco insultada. - Mas Mário não foi encontrado em parte alguma. Eu não quis ir ao hospital... justamente por causa da enfermeira Erna. Acho que ela vê, escuta e prevê tudo que acontece no navio.

 - Isso mesmo. Todos os canais de informações passam por ela. É fenomenal a maneira como ela, fica por dentro de tudo... melhor do que as cabeleireiras! - Paterna deu uma risada jovial. - Ah, mas a quem estou dizendo isso! Você já sabe disso pelo seu salão. Pintar os cabelos e fofocar são o mesmo ritual. Vocês ficam sabendo mais das mulheres do que um padre.

 - É verdade. - Bárbara Steinberg respirou fundo. - Você não esteve no grupo da cidade do Panamá, mas partiu de táxi sozinho.

 - Os tambores da selva estão certos! - Paterna bancou o engraçado.

- Que mais disseram os tambores?

 - Que você encontrou o cego e flertou com a enfermeira dele.

 - Absurdo! Flertou! A tarefa dela é acompanhar o cego Dabrowski por toda a parte e, quando me dirijo a ele, é claro que não posso mandá-la embora!

 - Ela é muito bonita, não é verdade? Chama-se Beate. Enfermeira e médico, até que combina bem.

 - Pare com isso agora! - disse Paterna num tom um tanto irado.

 - Em todo o caso, é melhor do que médico e cabeleireira.

 - A conversa vai continuar nesse tom?

 - Você disse que me amava.

 - E estava falando sério.

 - Você me beijou no convés...

 - E beijaria de novo.

 - Mesmo na presença de Beate?

 - Mas é claro que não vai ser necessário isso.

 - Tem medo de que ela ficasse chocada? Para mim isso não tem a menor importância.

 - Minha Nossa Senhora, há três dias que nos conhecemos e estamos conversando como um casal velhíssimo! Que significa esse absurdo, Bárbara?

 

 - Só estou querendo dizer que não sou o tipo de moça com quem se possa brincar. - Bárbara Steinberg recostou-se na parede. Calou-se porque dois passageiros passaram por eles em direcção às suas cabinas e esperou até que as portas fossem fechadas. - Tem uma coisa que você não sabe, eu já fui noiva. De um dono de salsicharia. A especialidade dele eram bufés frios para festas particulares. Só que eu não sabia de uma coisa. Ele mantinha relacionamentos com a maioria das empregadas das casas finas. Elas iam inclusive ao meu salão e eu era obrigada a servi-las. Sem saber de nada, como era o meu caso. Até que uma contou tudo, por ciúme. Então, dei um pontapé no meu noivo. Nunca mais outro homem, foi o que jurei para mim mesma nessa época. Trate de passar a vida bem sozinha. Nunca mais acredite num sujeito quando ele sussurrar coisas lindas e lisonjeiras que a gente gosta de escutar. Seja desconfiada, eles não prestam. - Ela encarou o Dr. Paterna com um ar pensativo. Ele esquivou-se de seu olhar inquisidor inclinando-se para a frente e tirando a maleta de médico do chão. - Foi com esse tipo de cabeça que eu o conheci. Você não sussurrou nenhuma lisonja, não flertou, apenas me ouviu e simplesmente me beijou. Assim, como se fosse a coisa mais natural. E eu joguei todos os meus preconceitos por terra... Fui precipitada demais? Teria sido um outro erro?

 - Precisamos conversar isso aqui no corredor? - disse o Dr. Paterna com um ar meigo. Nesse momento, a meiguice era a única coisa que poderia deter uma explosão.