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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ANJOS CAIDOS / Asa Schwarz
ANJOS CAIDOS / Asa Schwarz

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ANJOS CAIDOS

 

                   Estocolmo, dias atuais

Vinham monitorando o apartamento havia três semanas. Chegara o momento certo.

Ninguém tinha sido visto entrando ou saindo durante toda a noite. O relógio marcava 23h. Estava escuro e as luzes das janelas permaneciam apagadas. O apartamento de cin­co quartos na rua Drottninggatan, no centro de Estocolmo, estava vazio. E assim permaneceria, era o que esperava Nova, que, de onde estava, tinha uma boa visão da fachada. Nas noites anteriores uma regra havia se estabelecido: se os proprietá­rios do apartamento não estivessem em casa naquele horário, ficariam fora durante a noite. Iriam dormir em sua bela casa de campo no meio do arquipélago, ela supôs. Se durante onze anos ganharam 155 milhões de euros, poderiam se dar a esse luxo, pensou ela irritada. Cento e cinquenta e cinco milhões para vomitar dióxido de carbono das quatro fábricas de carvão mais sujas da Alemanha. Estavam entre as trinta usinas mais destruidoras do meio ambiente na Europa e eram filiais da em­presa sueca Vattenfall. Todas estavam na lista "Dirty Thirty" do World Wildlife Fund.

Nova tentava se acalmar para afastar a crescente preocupa­ção com o que viria. "Dirty Thirty" - murmurou baixinho para si como um mantra. Isso ajudou. A adrenalina corria. Ela tomou um gole de café do copo descartável que tinha à sua frente e fez uma careta. O café estava gelado. Quente já era ruim e agora era ainda pior. Amargo e aguado.

O celular vibrou. Nova sabia qual era a mensagem que ti­nha chegado. Com força, colocou o copo sobre o balcão da lanchonete e se levantou. Pôs na boca seu último chiclete para tirar o gosto amargo do café. O funcionário com a cara cheia de espi­nhas olhou distraído, mas depois continuou a ler a última edição de uma revista qualquer. Uma mecha de cabelo caiu-lhe no olho e ele puxou-a para trás da orelha com um gesto automático. Nova teve o cuidado de não o encarar, mas mesmo assim perce­beu que tinham mais ou menos a mesma idade. Na terça-feira, ela faria dezenove anos.

Ela não se preocupava com o fato de que ele pudesse identificá-la mais tarde. O macacão que ela usava era largo, cor de la­ranja, sujo, e tinha a marca da Televerket escrita nas costas, com letras grandes e claras. Os dreads de Nova estavam amarrados e escondidos no boné que ela conseguira da mesma forma que o macacão. A aba do boné cobria toda a testa, o piercing no nariz fora retirado, e a maquiagem era inexistente. Sua mãe não seria capaz de reconhecê-la, alguém teria dito que ela saiu atrasada de casa, pela manhã. Ela não protestaria, mas diria: "vocês não co­nhecem a minha mãe".

Fora da lanchonete, ela verificou o conteúdo da sua mo­chila preta, pela quinta vez naquela última hora. Conferiu o que havia ali: um spray de tinta vermelho sangue, uma lanterna para prender na cabeça e um conjunto de chaves falsas, do tipo gazua, que Nova comprou pela Internet, em um site americano. A loja se chamava Self Defense Products, e o conjunto fora empaco­tado numa discreta caixa de papelão, de cor parda. No início, ela achara graça da idéia de usar uma gazua para sua defesa, mas logo percebeu que não teria grandes problemas com isso.

Se o planeta fosse destruído, ela também morreria.

Portanto, o seu plano era pura autodefesa. Essa conclusão lhe dava uma grande segurança e fez com que aceitasse a ação daquela noite.

No pacote que encomendou havia um manual de instruções para iniciantes, que ensinava como abrir fechaduras com uma ga­zua. Nova tinha comprado duas fechaduras da mesma marca das que abriria essa noite, e tinha treinado várias vezes. No entanto, mesmo assim, se sentiu insegura. Sempre ficava nervosa quando ia fazer algo pela primeira vez. E não era todo dia que praticava um assalto. "Dirty Thirty" - repetia em sua mente para ganhar forças. "Dirty Thirty."

A rua Drottninggatan ficou vazia depois que uma multi­dão barulhenta desapareceu em direção ao metrô. Ninguém reparou na jovem de macacão laranja que cruzava a rua, embora ela, a todo momento, olhasse à sua volta, preocupada. A entrada do prédio estava iluminada pelas inúmeras luzes da rua. Ela de­corara o código da entrada. Duas semanas antes, tinha ajudado uma senhora idosa a entrar pela porta com o seu andador e me­morizou os números. Em poucos segundos, Nova estava dentro do prédio.

A poeira e um cheiro de óleo de elevador velho pairavam no ar. Piso de mármore, pilastra de madeira e um anjo doura­do sobre um pedestal evidenciavam a prosperidade e o gosto dos moradores. Nova não pegou o elevador, apesar de seu destino ser o último andar do prédio. De um elevador ela não conseguiria fugir. Embora até agora não tivesse feito nada de ilegal, se sentia culpada.

Chegando, finalmente, lá em cima, respirou fundo e deixou essa retomada de fôlego acalmá-la um pouco, enquanto estudava a disposição do andar. Havia apenas duas portas, ambas altas e cercadas por painéis de madeira. Debaixo de uma porta saía uma luz fraca. O som de uma televisão podia ser ouvido ao fundo. Nova olhou pelo olho mágico da porta, preocupada. A vizinha estava acordada. Isso não estava nos seus planos.

Ficou paralisada por alguns segundos. As mãos tremiam de medo de estar sendo observada. Pouco depois, achou a solução. Mastigou uma última vez o chiclete que ainda tinha na boca, tirou-o e modelou-o no formato de uma moeda. Pisando na pon­ta dos pés com os tênis macios, Nova caminhou furtivamente até o olho mágico e grudou o chiclete. Agora teria pelo menos um alerta, alguém precisaria destrancar e abrir a porta antes de vê-la. A vizinha com certeza não chamaria a polícia sem antes verificar o que, na verdade, estava acontecendo no corredor.

Nova voltou para a porta; ela estava arranhada, pesada e gasta, mas fora reformada e envernizada recentemente. Nova leu mais de uma vez a placa de identificação da porta, "Josef F. Larsson". Fora gravado com letras elegantes em metal dourado. Embora tudo estivesse planejado em detalhes, queria ter a cer­teza de ter ido ao lugar certo. Mesmo que o risco de estar no an­dar errado fosse pequeno.

Nova respirou fundo, abriu a bolsa e retirou as gazuas. "Dirty Thirty" - repetia ela várias vezes em sua mente. A fechadura superior abriu-se tão facilmente como quando ela praticou em casa, mas, em seguida, ouviu um barulho atrás da porta vizinha: um ruído de patas vinha do chão de taco.

O ruído agora já era de arranhões na porta. Nova começou a ficar ofegante. Ela ouvia seu coração pulsar mais alto. Pensou em fugir. Mas, em vez disso, começou a mexer na segunda fechadura, tremendo. Estava faltando concentração, e precisou recomeçar. Uma voz tremida gritou com o cão, mas, em vez de atender ao dono, ele latia com um furor que chamava a atenção. Ouviu-se um arrastar de pés se aproximando da porta.

Nova falhou de novo, seu dedo escorregou e quebrou uma de suas unhas pintadas de preto dentro da luva. Cão e dono faziam um enorme estardalhaço do outro lado da porta, e, através de um pigarrear insatisfeito, Nova percebeu que o bloqueio do chiclete tinha sido descoberto.

Ouviu o barulho da corrente de segurança.

Então a fechadura que ela estava tentando abrir fez um cli­que e a porta abriu. Nova pegou a mochila e entrou sorrateiramente. Silenciosamente, fechou a porta atrás de si. Ao mesmo tempo em que a escuridão do apartamento a envolvia, a porta da vizinha se abriu. Ela se esforçava para não respirar muito alto, mas seu coração batia com força.

Agora era a vez dela de espiar através do olho mágico. Viu a senhora com o andador sondando de um lado para outro, e em seguida olhar ceticamente para baixo em direção ao seu pequeno poodle cinzento. Tirou a corrente de segurança e abriu a porta cautelosamente. O poodle deu um salto e começou a latir na di­reção de Nova. A senhora parecia apavorada. Arrastando os pés, saiu direto para o vão da escada e abaixou-se com dificuldade para pegar o cão. No caminho de volta para seu apartamento, sus­surrou no ouvido do animal:

- Gudrun, pare de latir para os vizinhos.

Quando fechou a porta, fez uma pausa pensativa e se virou. Olhou a parte externa da porta e descobriu o chiclete. De seu ca­saquinho de malha puxou um lenço, embrulhou a goma de mas­car e retirou a massa grudenta.

"Crianças sem modos", resmungou e fechou a porta atrás de si.

Nova virou-se para a escuridão do apartamento. Lá no fundo, as luzes da Drottninggatan e das vitrines das lojas brilha­vam através da janela. Pegou a lanterna na mochila, acendeu-a e colocou-a na testa. O hall estava arrumado e decorado classicamente com tapete, espelhos dourados e um mancebo com alguns ganchos vazios. Um único casaco marrom estava pen­durado lá. "As roupas do casal devem estar no armário ao lado", imaginou Nova. Dois pares de sapato estavam embaixo do ca­saco pendurado, um par era masculino, de couro marrom, e o outro era um par feminino com salto moderado. Nova cons­tatou que eram sapatos de uma idosa. Um leve cheiro de lixo pairava no ar. "Não se deve deixar lixo em casa durante o alto verão", ouvia a recomendação da mãe em algum lugar distante da sua memória.

Havia uma pasta jogada no chão. Era como se alguém ti­vesse chegado em casa e a largado para atender o telefone. A metade do mais recente relatório anual da Vattenfall estava do lado de fora, e isso preocupava Nova, mesmo que soubesse que nin­guém estava vindo para o apartamento. Fugia aos padrões estéti­cos da casa e criava uma desarmonia. Ela fitou a pasta por um tempo, mas, em seguida, observou que a desarmonia ia se espa­lhar logo pelo apartamento inteiro. Agora era a vez do spray. Nova sempre tivera uma veia dramática, e slogans escritos em vermelho sangue faziam mais efeito do que outros.

O espelho do hall foi a primeira vítima. "Assassino", escreveu em letras grandes. "A próxima pessoa que se olhar nesse espelho verá seu verdadeiro eu", pensou ela, e sorriu de sua própria pers­picácia. Foi então para a sala de estar, que estava escura, mas era espaçosa, com o assoalho escondido pelos tapetes orientais. Nos cantos havia caixas feitas de madeira fina que Nova imaginou se­rem caixas de som; uma estátua africana esculpida na forma de uma mulher com crianças nuas penduradas pelo corpo todo.

Numa parede havia um sofá de couro preto. Nova foi até lá decididamente e escreveu "Dinheiro de sangue" em todo o encos­to. Satisfeita, deu um passo para trás e admirou o seu trabalho.

Quando escreveu "Dirty Thirty" na parede oposta descobriu que tinha derramado tinta no chão. Verificou o frasco de spray, mas não encontrou qualquer vazamento, e se tranquilizou. Não teria momento pior do que esse para ficar sem tinta. Abaixou-se e direcionou o foco da lanterna para a mancha e notou que estava um pouco mais marrom ferrugem do que as palavras que havia acabado de escrever. Tinha também um aspecto seco. E passando o facho de luz pelo chão descobriu mais duas manchas, também secas, e tão marrom ferrugem quanto as outras.

Uma preocupação tomou conta de Nova, sem que ela ousas­se formular o pensamento. Quando se aproximou das outras duas manchas, percebeu que era o começo de uma trilha. Uma longa fila de manchas vermelhas seguia até a sala de estar na direção de um dos quartos próximos. Algumas manchas tinham escorrido nas rachaduras do chão de taco e vestígios iriam permanecer ali por muito tempo.

Havia algo de irresistível no mistério das manchas que fa­zia com que Nova as seguisse. Mas a marca no portal fez com que parasse repentinamente, era a impressão clara de uma mão que ti­nha deslizado pela madeira e, em seguida, se soltado.

Uma impressão em vermelho.

Só que agora Nova percebia de um modo consciente que poderia ser sangue verdadeiro. Hesitante, deu mais ura passo e ilu­minou todo o quarto com a lanterna. Parou no meio do passo, incapaz de se mover ou tirar o olhar da cena montada na cama de casal. Era dali que se originava o mau cheiro. Os três corpos tinham, aparentemente, deixado essa vida, mas, mesmo assim, davam a impressão de estar era movimento. Uma grotesca insta­lação pornográfica se amontoava na cama, o que levou o pen­samento de Nova às profecias do Juízo Final. A dona, o dono e o pastor alemão, num último abraço na morte. Na cabeceira da cama, números e letras escritos com fezes: Gênesis 6:4. Eram cla­ramente visíveis contra a parede de trás, dourada e prateada. O brilho da lâmpada vermelha ao lado da cama reforçava a cor do tapete de sangue que rodeava o móvel. As franjas da colcha e o espelho do teto faziam lembrar um bordel.

Um bordel no Inferno.

Deu tempo de Nova ver, através do espelho, que os intesti­nos do cão estavam em volta do pescoço da mulher, como uma coleira. Em seguida, Nova se virou e vomitou café amargo mis­turado com torta de brócolis. A massa granulada dissolveu-se e misturou-se às manchas de sangue do chão.

Nova tropeçou na sala enquanto, automaticamente, limpava os restos de comida ao redor da boca com a manga do macacão. Agarrou a mochila, saiu do apartamento e bateu a porta. No final da escada, tropeçou e caiu de quatro. A dor que sentiu quando bateu os joelhos no chão de pedra foi contida pela sensação de pânico em seu estômago, e Nova, ainda descontrolada, foi descen­do as escadas. No alto do prédio, o poodle latia insistentemente. Nova se atirou contra a porta de entrada, abriu-a e saiu correndo pela Drottninggatan com um olhar enlouquecido. Seu único pen­samento era ir para o mais longe possível do apartamento e do prédio. Correu cambaleando como uma bêbada na rua. Um par de olhos seguia sua fuga.

 

                   Honolulu, 9 de setembro de 2003

O verão de 2003 tinha sido o mais quente da Europa desde o século XV. No começo, isso só preocupava os especialistas ambientais, mas a mensagem chegou rapidamente aos lobistas, políticos e, finalmente, à população de ura modo geral. Uma pes­soa que não se preocupava absolutamente com isso era George McAlley. Alegria era palavra fraca demais para descrever seu es­tado emocional. Felicidade e êxtase estavam mais próximos da­quilo que sentia. Graças ao aquecimento global, George McAlley atingira o momento mais importante dos seus setenta anos de vida. Logo sairiam matérias nos maiores jornais do mundo. E o retorno seria enorme. Ele tinha certeza disso. A excitação ilumi­nava com um brilho fanático seus olhos umedecidos. A mão di­reita tremia um pouco quando ele a passava sobre seus milimétricos fios de cabelo branco como giz. Ter o cabelo muito curto era um hábito que adquirira quando era oficial da Força Aérea. Apesar de isso ter sido décadas atrás, ele o havia mantido, junto com as costas eretas e o andar rítmico e firme.

George McAlley estava sentado em seu escritório com vista para um jardim que era tão bem aparado quanto seu cabelo. As paredes estavam cobertas de fotos da época de oficial e seus sapatos bem polidos afundavam no carpete branco. Numa re­doma de vidro sobre um pedestal havia uma medalha de prata; tinha a forma de cruz com uma águia de asas abertas no meio. Uma fita vermelha, branca e azul mantinha-a no lugar. A meda­lha dada a George McAlley pelas extraordinárias ações de heroís­mo praticadas durante a Guerra do Vietnã era a que tinha mais valor para ele.

Na mesa à sua frente ficavam duas fotografias. Uma fora re­tirada em 1949 da US Air Force e tinha sido mantida no arquivo secreto Ararat Anomaly até 1997, quando fora publicada. A outra era uma imagem recente, de satélite, sobre a mesma área.

A razão da excitação de George McAlley era o contorno em formato de lança, no chão coberto de neve, que podia ser discer­nido em ambas as imagens. Ficava entre os dois picos do monte Ararat. Na foto antiga, em preto e branco, era apenas uma supo­sição, mas, na outra, os cantos eram visíveis e a neve tinha caído em buracos escuros que salientavam que algo grande e oco esta­va escondido ali embaixo. O clima quente havia encolhido a ge­leira significativamente. Não podiam mais esconder o objeto. Para George McAlley, essa era a prova final necessária para que desse o grande passo na organização de uma expedição à monta­nha com mais de 5 mil metros de altura, na Turquia. Custaria quase 1 milhão de dólares, mas a quantia já tinha sido coberta, uma parte pela sua própria igreja e a outra pelas outras organi­zações cristãs que compartilhavam o mesmo objetivo: provar que a Arca de Noé existe e está enterrada nas geleiras do monte Ararat, como diz a Bíblia.

 

"Graças a Deus", murmurou George McAlley, e o orgulho lhe encheu o peito.

Deus o havia escolhido para encontrar a relíquia mais procurada do mundo. Seria ele quem iria revelar a todos os pagãos, incrédulos e pecadores que Deus era tão grande quanto a Bíblia afirmara ao longo dos tempos. O orgulho se misturava à sensação de triunfo: ele tinha razão.

Mas precisava sentar-se e digerir a informação antes de fa­zer a primeira ligação telefônica. Para que a sua aparente calma não fosse abalada, ele precisava se concentrar e avaliar detalha­damente de que forma se expressaria. Apesar de ter fantasiado milhares de vezes esse momento, não tinha total clareza de qual seria o próximo passo. George McAlley começou a organizar seus pensamentos.

 

                   Estocolmo, dias atuais

Nova correu em direção ao escritório: rua Drottninggatan, Gamla Stan e rua Gätagatan. Por um momento, ela havia pensado em passar pela Gamla Stan, abrir a porta daquilo que chamava de lar e puxar a coberta sobre sua cabeça. Mas se fizesse isso ficaria sozinha com aquele segredo. Sozinha no escuro.

Quando Nova passou por Slussen, região central de Estocolmo, haviam transcorrido só doze minutos; normalmente, ela fa­zia esse trecho em meia hora. Uma larga mancha de suor corria ao longo de suas costas e era claramente visível no macacão de tecido berrante. O ar do verão estava quente e persistia mesmo durante a noite. Nova tinha lido no dia anterior que a umidade de lá era a mesma da floresta. Mas agora não prestava atenção a todos os sinais de mudança de clima como tinha o hábito de fazer. A ima­gem que estava gravada em sua retina afastava todo o restante.

O pânico fluía-lhe pelo corpo.

Sua respiração era dolorosa e ofegante.

Não tinha olhado por cima do seu ombro nenhuma vez, como se isso fosse ajudá-la a esquecer, mas não conseguia. Sua atitude, entretanto, contribuía para que a figura escura que es­tava atrás dela e que corria rapidamente não fosse descoberta.

A figura se aproximou devagar.

Tinha um condicionamento físico bem melhor do que o de Nova, mas a velocidade dela aumentava com a adrenalina e o medo. Ela se esforçou para subir parte da rua Götagatan, que era chamada de Fyllebacken pelos moradores mais antigos. O nome se encaixaria até hoje, mas, num final de noite de segunda-feira, os bares estavam vazios, e as ruas, desertas. As casas centenárias eram as únicas testemunhas da fuga de Nova. Ficavam em silên­cio ao longo da rua de pedestres, com suas placas de ferro for­jado e grandes vitrines.

A mochila, que pulava para a frente e para trás, estava jo­gada em um dos ombros de Nova e era segurada por uma das mãos. Segundos antes de o homem agarrar a mochila para que ela parasse, Nova ouviu os passos e atirou-se à frente para evitar ser presa.

Mas tropeçou e caiu.

As palmas de suas mãos ardiam.

Ela se enrolou como uma bola e tentou se proteger com os braços, agitando-os sobre sua cabeça. O homem, muito mais forte, juntou os braços em uma firme pegada, mas mesmo assim recebeu alguns golpes. Quando Nova percebeu que seus pulsos estavam imóveis, começou a gritar, eliminando toda a angústia que tinha acumulado.

- Nova, quieta, pare - alguém falou enquanto a sacudia.

Só então ela percebeu quem era.

A voz suave pertencia a Arvid. Seus óculos estavam tortos no rosto, e a fina barba castanha, encharcada de suor. Arvid tinha a incumbência de vigiar a portaria enquanto Nova estava dentro do apartamento. Ela havia esquecido completamente de sua exis­tência. A única coisa em que pensou foi conseguir chegar segura dentro do escritório. O grito se transformou em um pranto in­controlável.

-              O que aconteceu? - perguntou Arvid, ansiosamente. - Descobriram você?

Quando percebeu que todas as tentativas de Nova de for­mular qualquer frase eram cortadas por soluços, ele ajudou-a a se pôr em pé. Duas mulheres de uns trinta anos apareceram na esquina e olharam furiosas para Arvid, acreditando que ele fosse o culpado por Nova estar chorando. Uma delas até perguntou a Nova, na hora em que passou:

-              Você está precisando de ajuda?

Nova respondeu balançando a cabeça e deixou-se levar por Arvid. Sua mochila agora repousava nas costas dele. Andaram os últimos metros até a Gõtgatsbacken; Arvid mais carregava do que apoiava Nova. Em sua companhia, ela se sentia mais calma. Ele era uma das poucas pessoas que tinham essa influência sobre ela.

Antes de entrarem, Arvid verificou se ninguém os estava vendo. Finalmente, conseguiram fechar a porta atrás de si.

Nova e Arvid andaram alguns passos e entraram no prédio do Greenpeace. Em vez de ir pelo corredor que dava na sala coletiva do escritório e na cozinha, foram diretamente à direita para uma sala de conferência que era chamada cie "cela". Eles não que­riam arriscar acordar Stefan Holmgren, que era responsável pelos ativistas do Greenpeace na Suécia. Ele cochilava com frequência no escritório, por não ter onde morar. A última coisa que deseja­vam era que ele descobrisse o que haviam feito.

A sala era completamente quadrada e parecia uma sala de interrogatório de um seriado americano. As fortes luzes fluores­centes oscilavam de vez em quando. A decoração era mínima, com uma mesa de plástico surrada e quatro cadeiras. O homem alto que esperava ali ficou surpreso e preocupado com a forma como Nova desabou sobre uma cadeira. O boné caiu ao chão e soltou seus longos dreads. Dois deles caíram direto no rosto de Nova, que não se incomodou em removê-los de volta. Atrás dela havia um grande cartaz de uma fotografia tirada na Groenlândia. Era um retrato do navio do Greenpeace Rainbow Warrior, que documentou os efeitos das mudanças climáticas dos campos de gelo e das geleiras na Groenlândia.

Normalmente, quando chegava perto da espetacular fotografia, Arvid não conseguia deixar de lembrar que participara da expedição. Muitos ficavam impressionados por ele ter estado a bordo do navio declarado cult que tinha grande valor simbólico para o Greenpeace. Mas agora ninguém se lembrava disso. Nova procurou se recompor e disse:

-              Foi ali. No apartamento.

-              O quê, estavam em casa? - perguntou Eddie, que espera­va na sala. - Mas nós estávamos vigiando o apartamento desde à tarde. Também ninguém atendeu ao telefone.

Ele era louro ruivo, com sardas, e durante os meses de verão ganhava um brilho acobreado graças ao seu hábito de viver ao ar livre a maior parte das horas do dia, tanto dormindo quanto acor­dado. Os amigos mais próximos o chamavam de Stocken, depois de um incidente em que demonstrou entusiasmo demais duran­te um dos exercícios que ocorrem regularmente no Greenpeace. Ele preferiu esse a seu nome de batismo: Eddie, em homenagem ao anti-herói inglês que chegou em último lugar no salto de es­qui no mesmo dia em que Eddie nasceu. "Meus pais não podiam ter grandes expectativas", costumava declarar, "já que me deram o nome de um saltador de esqui com medo de altura." Eddie the Eagle foi o primeiro e último a disputar sob a bandeira da Ingla­terra essa modalidade nas Olimpíadas. O irmão caçula de Eddie era muito grato por isso.

- Não... sim, eles estavam em casa - respondeu Nova. - Estavam mortos.

Agora era a vez de os dois jovens se assustarem.

Como assim, mortos? - disseram em coro.

Eles estavam ali no quarto e...

Nova teve dificuldade de se expressar pelo fato de não conseguir encontrar palavras que pudessem descrever o horror que ela tinha visto:

-              Era de alguma forma arranjado. O assassino deve ser realmente doente.

-              O assassino? Eles foram assassinados? - gritou Eddie. Nova deu um pulo assustada com o som alto e se encolheu na cadeira.

Arvid colocou o braço em volta dela. Com uma voz baixa, perguntou a mesma coisa e conseguiu a resposta:

-              Estou totalmente certa de que eles foram assassinados -disse Nova. - Não morreram de forma natural. É impossível.

Ela continuou, então, a contar o que aconteceu, as manchas de sangue, as impressões de mão e finalmente o que descobriu na cama.

Eu lhe disse que teria sido melhor se Ar vid tivesse feito o arrombamento - queixou-se Eddie.

Nem por isso haveria menos cadáveres ali - disse Nova com um pouco mais de sutileza na voz do que tinha antes.

Não, mas pelo menos você não teria passado por isso -constatou Arvid.

Nova não poderia argumentar contra o fato de quererem cuidar dela. Em geral, ela achava isso extremamente irritante, mas agora se sentia bem. O acontecimento da noite fora o ponto cul­minante no pior mês de sua vida até então.

-              Temos que chamar a polícia — constatou Eddie, tamborilando nervosamente o canto da mesa.

Ele parecia um cachorrinho perdido que precisava de ajuda. Apesar de se sentir muito agitada, Nova teve um impulso de con­fortar Eddie e dizer-lhe que tudo ficaria bem.

Não podemos fazer isso - disse Arvid, segurando um telefone fictício na orelha: "Oi, quando nós arrombamos a casa do diretor executivo da Vattenfall, encontramos ele e sua esposa assassinados...".

Mas não podemos simplesmente deixar que fiquem ali - protestou Nova.

E se a polícia pensar que nós o fizemos? - disse Arvid.

-Você não quer dizer que... - começou Nova. Seus pensamentos migraram para o arrombamento e as palavras que ela es­creveu com spray no apartamento. Sem dúvida, ela seria suspeita.

Um silêncio tenso caiu sobre a sala. Nova não terminou a frase.

Os três amigos saíram da sala trinta minutos depois. Nova estava com o laptop debaixo do braço. Ele andava dando defeito de vez em quando nos últimos tempos, mas ela esperava que resistisse até que o projeto da noite fosse concluído. Caminharam ao longo da rua Hökens, cuja parte inferior estava coberta com um asfalto irregular. Quando o trio se aproximou da ladeira Mosebacke, os paralelepípedos apareceram. Ficou claro que a rua era uma relí­quia medieval de Estocolmo. De longe, se ouviam gritos esporá­dicos dos poucos clientes que acabavam de ser expulsos dos bares, para dentro da noite de segunda-feira.

Era uma e pouco da madrugada. O e-mail tinha sido escrito, mas não enviado. Quando chegaram à Mosebacke, Nova sentou--se num dos bancos. As estrelas e a estátua branca se refletiam na fonte, cujo nível de água estava abaixo do normal. Por trás de Nova ficava o pomposo portal em cinza e amarelo que era a en­trada do terraço da Mosebacke. Cento e trinta anos atrás, Strind-berg passou por ela para sentar e escrever o primeiro capítulo de seu romance Roda Rummet (O quarto vermelho).

Nova abriu o computador.

- Redes Classeponkens soa bem? - perguntou aos outros. Os dois balançaram a cabeça; soava suficientemente anônimo. Nova enviou o e-mail à policia através de uma das milhares de redes sem criptografia e sem fio de Estocolmo. Ninguém poderia detectar de onde viera a dica do assassinato.

 

                   Honolulú, 12 de setembro de 2003

O piloto automático estava ajustado para 110 km/h. O Chrysler encontrou, praticamente por si mesmo, o cami­nho para o local onde George McAlley logo teria uma coletiva de imprensa. Ele chegaria com muita antecedência. O risco de che­gar atrasado para um encontro com a imprensa mundial era mí­nimo. Poderia até dar tempo de trocar o pneu na estrada, se fu­rasse. Além de anunciar que a arca existiu, ele tinha outro objetivo com a reunião: conseguir ajuda para superar o último obstáculo para chegar lá.

A parte do Monte Ararat, onde a arca estava era conhecida como uma área militar da Turquia. A atenção da mídia seria, na pior das hipóteses, um instrumento de pressão para poder entrar. Se tivesse êxito, nada seria capaz de detê-lo. George McAlley tinha o dinheiro, o conhecimento e a oportunidade para o empreen­dimento. Para não falar da fé. Deu uma respirada profunda e satisfeita.

Pouco antes de o Chrysler virar em direção ao mar, McAl­ley viu um carro na beira da estrada. De pé, uma mulher loira, de aproximadamente quarenta anos, olhava ansiosamente para o motor dentro do capo aberto. Parecia uma cena de filme: ao fun­do, montanhas altas e palmeiras em verde brilhante. A mulher olhou para cima e começou a acenar logo que McAlley se aproxi­mou. Embora isso o contrariasse, não poderia deixar de socorrer uma mulher numa hora de necessidade. Especialmente uma que fosse bonita, branca, e, ao que parecia, respeitável. Ele diminuiu a velocidade e parou o carro.

A mulher sorriu feliz.

Mas logo mudou a sua expressão facial.

A postura se tornou dura e fria. Ela pegou uma arma na bol­sa e apontou-a para o rosto dele.

-              Saia do carro e coloque as mãos no teto - disse ela, com um sotaque que McAlley não conseguiu identificar de onde vinha.

Ela revistou-o, esvaziou os bolsos dele e deixou cair o que havia dentro. Celular, recibos e um clipe quebrado caíram no chão. McAlley começou a se preocupar com o fato de não conse­guir chegar a tempo para a coletiva de imprensa e negociou:

-              Estou com pressa. Se você me deixar ir, posso tirar 3 mil dólares num caixa eletrônico no caminho e te dar. Isso é tudo o que tenho na minha conta.

A mulher bufou furiosa e abriu a porta do banco do passageiro, sem tirar os olhos de McAlley. Retirou a pasta dele, colocou-a sobre o capo e a abriu. Os mapas e as informações que seriam distribuídos na coletiva estavam arrumados. Depois de folhear o material rapidamente, ela fechou a pasta e colocou-a debaixo do braço.

Foi então que George McAlley cometeu o maior erro de sua vida.

Deu um passo em direção à mulher e levantou a mão para arrancar a sua arma; afinal, ela era uma mulher, e ele, um militar veterano, em ótima forma física. Ela não iria destruir o mais im­portante momento da sua vida.

No entanto, ele não conseguiu continuar.

Em vez de atirar no rosto, ela bateu-lhe com o cabo da arma, com uma força totalmente inesperada por McAlley. O estouro ecoou em sua cabeça. Ele perdeu o equilíbrio.

Cambaleou e caiu no chão.

Seu rosto estava bem machucado. Os tecidos apareciam nos cantos das feridas. O sangue escorreu, desceu até as orelhas e tingiu de vermelho os cabelos brancos. Sua cabeça rodopiou, os pensamentos deram uma guinada em si mesmos. Diante dos olhos de George McAlley, tudo parecia girar. Inclusive um par de pernas abertas calçando botas. A mulher olhou para baixo e in­clinou a cabeça para que ficasse na mesma posição que a dele.

Ele encontrou o olhar dela.

Apavorou-se.

Esse não era um assalto comum. Não era uma situação em que poderia conversar para se livrar. Mas tentou: - Quem é você, afinal? - gaguejou.

Em resposta, recebeu apenas uma palavra. Mas foi o suficiente. "Oh, meu Deus, não, não", teve tempo para pensar.

Ela se debruçou sobre ele, que tentou rastejar para se afastar dali.

"Saia. Saia."

Queria pôr uma distância entre ele e essa criatura.

Mas suas mãos e seus pés não colaboravam.

Ela segurou firme o seu ombro e atirou entre os olhos dele.

A cabeça de George McAlley afundou no chão. O corpo fi­cou parado. Do buraco discreto na sua testa, um fio de sangue escorreu até o asfalto quente e se misturou com os restos da par­te de trás da cabeça.

"Execução pura", a polícia constataria algumas horas de­pois, quando o encontrasse na vala, atrás do seu carro. E teria toda razão.

 

                 Estocolmo, dias atuais

Finalmente, Nova se sentiu obrigada a se separar de seus amigos. Várias horas de discussão tomando café frio e com os nervos tensos os tinham esgotado. Tanto Arvid quanto Eddie a haviam convidado para dormir na casa deles, mas ela recusou. Não porque não quisesse, mas porque tinha medo de perturbar a sensível dinâmica de sua amizade. Ambos tinham um interesse mais do que amigável por ela, e Nova não queria criar uma situa­ção na qual isso viesse à tona.

Ela se sentia bem com a constante proximidade e estima dos dois. Curtia a admiração deles. Mas, acima de tudo, queria manter os seus dois amigos mais próximos. Principalmente ago­ra. Agora que tudo estava dando tão errado. Eles eram a rede de proteção que a acolheria. Eram a família que nunca teve. Sempre estariam dispostos a ajudar quando ela telefonasse precisando de ajuda. Mesmo que soubesse internamente que esse sensível triân­gulo não poderia ser mantido, preferiu não pensar nisso. Preci­sava deles para muita coisa agora.

Nova aproximou-se da rua Prästgatan. Bem-vindos ao inferno, costumava dizer aos poucos amigos que levava para casa. A de­claração tinha duplo sentido, em parte, porque, na Idade Média, ali se chamava "o beco do Inferno"; em parte, como um comentário que não estava muito longe da realidade da sua infância. Nova saiu da rua Stora Nygatan, seguiu até a subida da Igreja Storkyrkan, perto do Palácio Real, e viu a empena da igreja e o castelo marrom do rei ao fundo. Panelas, bules de chá e fôrmas de cobre refletiam a luz do amanhecer na vitrine de uma loja de curiosidades.

Nova continuou na rua Prästgatan e passou a loja Modern Dog, que vendia tudo que é supérfluo para cachorros. Na vitrine, havia uma caixa com quatro sapatos minúsculos de couro ama­relo, um casaco de tricô e uma cama para cães de flanela bege com almofada, teto e um laço.

A porta da casa de Nova era verde e sólida, como as moldu­ras nas janelas e a base da construção. O resto da casa era pintado de castanho-claro. Aqui e ali, apareciam alguns tijolos. "Casa mal-cuidada", diriam alguns; a mãe de Nova chamaria de "pitoresca". Um único nome estava escrito com letras ornamentadas: "Advo­gada Elisabeth Barakel". Nova não tinha mexido na placa. Estivera ali durante toda a sua infância, e retirá-la seria um gesto bastante definitivo. Não era algo que ela quisesse resolver agora.

Nova abriu a porta, relutante. As dobradiças rangiam. No hall, quatro pinturas horríveis olhavam para ela. Fechou a porta e tentou ignorá-las, como havia feito em toda a sua vida, mas não conseguiu. As pinturas de William Hogarth, que mostravam as quatro etapas da crueldade, a lembravam muito daquilo que ela tinha visto durante a noite: intestinos, olhos salientes, cães e ossos. Os corpos espancados de olhares mortos queimavam a sua nuca.

A fúria lhe subiu pelo estômago.

Ela se virou com um grito.

Os quadros pendurados na parede demonstravam a cruel­dade e as deficiências do ser humano. Nova não suportava olhar para eles. "Nem mais um dia com esse comitê de recepção", deci­diu. Pegou a quarta pintura da coleção, que representava a disse­cação de um assassino. Com toda a força que lhe restava, puxou-o para baixo e com as duas mãos jogou-o no chão. O vidro rachou e se espatifou. Ainda assim, o buraco do olho do cadáver a fixava. Nova atirou-se sobre a tela exposta e a rasgou em pedaços. Um caco de vidro cortou a palma da sua mão, mas ela não tomou conhecimento do sangue que jorrava do corte. Os outros três quadros tiveram o mesmo destino. O hall ficou cheio de quadros quebrados; fragmentos e pequenos pedaços do que fora a obra de um dos pintores satíricos mais conhecidos da Inglaterra.

Parou ofegante e inclinou-se contra a parede.

Só então viu o sangue que pingava de sua mão. Olhou para as palmas das mãos vermelhas como se não tivesse percebido que eram dela. Apertou a outra mão para tentar parar o fluxo. Fecha­ria e iria curar rapidamente, ela sabia. Sua mãe sempre disse que ela herdara uma pele que tinha boa cicatrização, não precisava ter cuidados especiais quando se feria.

Quando Nova se acalmou um pouco, ficou surpreendida com a devastação que fizera. Sua raiva tinha sido substituída por uma sensação de vazio e tranquilidade. Não se arrependia de nada. Quando era pequena, tivera medo das pinturas e sonhara com elas numa noite. O medo foi tanto que fez xixi na cama, por­que não teve coragem de sair de seu quarto e dar de cara com elas.

Depois, quando cresceu, aprendeu a odiá-las e a tudo o que representavam. Agora não restava ninguém, constatou, que pu­desse impedi-la de viver como queria. Ninguém poderia criticá-la e forçá-la a um padrão que nunca escolhera. Os quadros eram apenas um começo.

Nova se sentia livre.

A não ser pelos acontecimentos daquela noite. Aquilo lhe ataria mãos e pés. As imagens em sua cabeça estavam tão claras e cheias de detalhes como os quadros que destruíra. E logo a po­lícia acharia vestígios de Nova no apartamento, mas será que a encontrariam?

Subiu a escada com passos pesados até o quarto de dormir. O caos foi deixado intacto no hall. O sol da manhã penetrava o beco e iluminava parcialmente a casa. Nova se jogou na cama e nem viu a luz substituir as sombras. Adormeceu imediatamente.

 

Amanda era conhecida como a inspetora que praticava tiro de pistola de salto alto. Agora, porém, sua imagem estava muito longe daquela que tinha construído com sucesso em quinze anos na polícia. Apoiando-se sobre a pia, pendurada num banheiro público, vomitou todo o café da manhã. Mingau de aveia e purê de maçã misturados com o ácido do estômago jorraram e espir­raram nas bordas da pia branca. O leite desnatado tinha acabado pela manhã, assim não precisou sentir o sabor do leite azedo.

Ela viu que havia uma rachadura ao longo da borda supe­rior do banheiro. As paredes estavam cobertas por um papel de parede com pintas sem cor. Na parede acima da pia estava escrito "Fuck the police". Eram nove e meia, e a única coisa que Amanda queria era ir para a cama. Não tinha alternativa.

"Droga de gripe, droga de trabalho, droga de tudo", balbuciava para si enquanto lavava o rosto com água fria.

Sentiu-se melhor quando as náuseas diminuíram, mas não deixou de reparar na aparência que tinha agora, consequência de sete anos difíceis: olhos vermelhos, pálida, e os cabelos castanhos espetados e sem vida. Ela deveria estar sentada no carro há muito tempo, mas não podia vomitar na entrada da delegacia de polícia. Como fazer isso?

A água fria da torneira lavava seu rosto e tirava um pouco mais das náuseas e quase toda a maquiagem. Amanda não sabia se a impressão geral era pior ou melhor, mas acreditou que poderia sair do banheiro sem precisar entrar correndo de novo. Normal­mente, ela se recusava a sair sem maquiagem, mas a necessidade era mais forte. Limpou as mãos na calça jeans. Depois, ajeitou a jaqueta clara, respirou profundamente e saiu.

O calor de agosto batia em cheio nela, quando deixou o lo­cal de trabalho na rua Bergsgatan, 37. As roupas grudavam no corpo, e ela se sentia a ponto de desmaiar. O sol queimava na grande calçada da delegacia em Kungsholmen e o salto alto de Amanda levantou um pó fino e seco que grudou na panturrilha da calça e pintou uma listra de sujeira. O Golf vermelho estava a poucos metros de distância, e a mudança de temperatura a salvou num dia angustiante. Tão logo ligou o motor, a voz de Madonna começou a jorrar dos alto-falantes, numa versão dos anos 1980. Amanda tinha acabado de comprar o álbum Like a Virgin pela segunda vez em sua vida. O primeiro fora um LP que há muito ficara arranhado e não tinha mais como tocar.

Quando o problema da temperatura foi resolvido, apareceu o outro problema de Amanda: o que ela diria para a filha da mu­lher que bateu o carro ao entrar no posto de gasolina e que o in­quérito concluiu que ela tinha adormecido ao volante. Por que aceitara o trabalho extra no plantão de Homicídios naquela noi­te? Se não tivesse feito isso, teria escapado desse caso. "Mas di­nheiro não cresce em árvores", pensou Amanda, e suspirou alto quando imaginou o confronto que provavelmente iria ter. A filha recusou de modo veemente a teoria de que a mãe teria adorme­cido, e, mais ainda, de que teria se suicidado. "Provavelmente porque não conseguia conviver com o pensamento de que a mãe tivesse causado a morte de outros", pensou Amanda. Mas não havia qualquer sinal de que outra coisa houvesse acontecido. O médico-legista não podia fazer nada além de identificar o corpo dilacerado da mulher com a ajuda de sinais elementares que a filha havia fornecido: um sinal de nascimento em forma de as­pargos na coxa, uma tatuagem retirada no braço e o dente inci­sivo quebrado e reparado. Nenhum parente próximo precisaria ver o cadáver nesse estado. O médico-legista também constatara que a mãe não estava embriagada ou envenenada. A pesquisa nos destroços do carro também não dera resultado. Vinte por cento de todos os acidentes nas estradas são devidos ao cansaço, então não era uma suposição fora da realidade, já que o acidente ocorrera à noite, após um longo dia de trabalho. Mas, para um parente próximo, talvez não fosse fácil digerir isso.

Os becos da Gamla Stan eram um completo caos de ruas em sentido único. Amanda procurava na memória o caminho da casa da filha. As náuseas tinham lentamente reaparecido e blo­queavam o fluxo do seu pensamento. Isso fez com que o pequeno carro rodasse duas vezes a mais ao redor da ilha antes que Aman­da encontrasse o local e estacionasse o veículo na calçada, virando a esquina. A rua Prästgatan era muito estreita para estacionar sem bloqueá-la completamente. Uma senhora com uma bolsa xadrez de rodinhas protestou irritada. Amanda resmungou algo sobre resolver um problema de polícia. A senhora cedeu e saiu de lado, não queria atrapalhar o poder da ordem.

O nome da mãe permanecia na porta, observou Amanda. "Barakel, de onde será que vem esse nome?", continuou em seus pensamentos. Não havia nenhuma campainha. Ela bateu com força na porta. Nem um som se ouvia lá de dentro. Amanda ten­tou olhar pela janela ao lado da porta, mas não deu tempo de ver pela fresta entre as cortinas fechadas. Sem aviso, a porta da frente se abriu e Nova ficou olhando para ela...

Havia algo diferente com ela. Na outra vez em que se encontraram, Amanda tinha imaginado por que ela escondia sua beleza atrás de uma maquiagem preta e pesada, botas grossas e piercing no nariz. Agora ela estava sem maquiagem e vestindo um macacão laranja. Mas ainda tinha maxilares salientes e olhos azuis intensos que muitas mulheres pagariam caro para ter. Seu rosto estava inchado, recém-acordado e cansado. Amanda se forçou a não olhar para uma cicatriz branca que contornava sua garganta. Nova provavelmente costumava maquiá-la, por isso Amanda não tinha notado antes.

Um cheiro azedo de suor atingiu as narinas de Amanda. O estômago respondeu imediatamente, e o conteúdo existente ten­tou sair.

-              Posso usar seu banheiro? - perguntou, forçando um pouco.

-              Sério? - disse Nova, cética. - Você veio aqui só para pedir para usar o banheiro?

-              Não, mas seria bom se eu pudesse fazê-lo. Agora.

Nova olhou para ela hesitante. Olhou para o hall e depois para Amanda. Ergueu os ombros e se afastou. Amanda foi, com passos rápidos, direto para dentro da casa, e acabou no meio de um amontoado de cacos de vidro, papel e molduras. "Nova deve ter sido roubada", teve tempo para pensar, antes de correr para o banheiro.

Apesar da pouca quantidade, os vômitos fizeram com que a náusea parasse. Amanda enxaguou a boca completamente e en­controu o seu próprio olhar avermelhado. "Preciso de uma licen­ça médica", pensou, antes de sair para conversar com Nova.

-              Talvez eu tenha comido algo que me fez mal - explicou para a jovem, vinte anos mais nova.

Nova não disse nada, mas olhava compreensiva para Aman­da. No entanto, havia algo de defensivo nos modos dela.

-              O que aconteceu aqui? - perguntou Amanda, balançando a cabeça em direção à devastação do chão e mexendo com o pé em uma moldura quebrada.

-              Faxina geral - respondeu Nova secamente.

-              Provavelmente, eu chamaria de algo contrário à faxina.

Nova deixou o comentário pairar no ar e permaneceu em silêncio. Enquanto isso, Amanda observava o hall; as paredes ir­regulares, com cavidades e relevos, revelavam centenas de anos de reformas e mudanças. Não havia quadros pendurados, mas os buracos dos ganchos mostravam que nem sempre fora assim. Sob seus pés havia um bonito chão de mosaico. Recolocado, apesar de estar no estilo antigo, adivinhou, e se voltou para Nova, porque percebeu que ela não iria conseguir uma explicação para o crime.

-              Eu estou aqui para falar de sua mãe - explicou.

A linguagem do corpo de Nova mudou, e seus olhos brilhavam interessados.

Decidimos interromper a investigação preliminar. Simplesmente não existe qualquer evidência de que poderia haver algo diferente de um trágico acidente.

Mas vocês não entendem que minha mãe nunca iria cometer suicídio? Não há nenhuma chance!

Mas a sua mamãe... mãe... pode ter dormido ou se distraí­do ou algo assim. Isso já aconteceu muito com outros, antes.

Nunca iria acontecer com ela. Você não a conhecia. Simplesmente não se conseguia distraí-la.

Eu entendo que você se sinta assim, mas não temos nada para nos apoiar.

Então, o que eu digo não serve?

Amanda fez um gesto de desculpas com as mãos.

Nova deu um passo para o lado para mostrar a Amanda que ela poderia deixar a casa. Seus olhos estavam mais escuros do que de costume, e as sobrancelhas, juntas.

Na saída, uma câmera de vigilância estava virada para baixo, para Amanda, num dos cantos do hall. "Sábio, mas incomum", ela pensou. "Se eles têm condições de morar na Gamla Stan, com certeza possuem bens cobiçados para roubo também."

A última coisa que Amanda viu antes que Nova fechasse a porta foi a parte interna de sua mão. Estava manchada de sangue e inchada. Amanda não podia agora bater à porta novamente e perguntar. Algo estava muito errado, constatou, mas ela se per­guntava se algum dia iria descobrir o quê.

 

O acidente de carro tinha ocorrido em uma quarta-feira, tarde da noite.

A polícia bateu à porta algumas horas depois. A placa do carro tinha sobrevivido ao fogo intenso, mas o corpo estava des­truído, parcialmente queimado e impossível de ser reconhecido. "Bem típico dela", pensou Nova, "deixar esta vida fazendo um ba­rulho enorme e incluir outros na mesma leva."

Os dois funcionários do posto de gasolina tinham entrado nessa leva, além de vários pombos, atraídos pelo mau cheiro do lixo que transbordava da caçamba que ficava na esquina. Eles tinham voado como tochas de luz e, em seguida, caído após pou­cos metros de voo desesperado. O cheiro de carne queimada per­manecera em todo o lugar, mesmo no dia seguinte, quando Nova esteve lá. Ela não queria saber nada sobre as vítimas inocentes. Não aguentava isso. Por outro lado, queria saber como a sua mãe poderia ter entrado direto no posto de gasolina a 140 quilôme­tros por hora. Deprimida e suicida, tinha sugerido a polícia. "Nunca", fora a resposta de Nova. Mas, aparentemente, eles não a tinham ouvido.

A investigação técnica não resultou em pistas, e a decisão estabelecida agora era a de que ela tinha adormecido ao volante. Nova definitivamente não estava convencida, mas concluiu que devia ter sido um defeito não detectado no carro. Quem sabe se não foram os atos de sua mãe que a alcançaram, de uma vez por todas? Foram muitos os cadáveres que tinham passado por ela.

Agora, ela própria era um deles.

Pela janela, Nova viu a policial feminina desaparecer na esquina. Ela estava sentada na frente da escrivaninha de sua mãe, na cadeira de couro rachada que nunca havia usado antes. A proi­bição jamais fora dita expressamente, mas, claro, o escritório era particular, e nenhum intruso poderia permanecer ali. Nem mes­mo Nova. Apesar de ser dona da casa na Gamla Stan por apenas duas semanas, sentiu-se desconfortável ao sentar-se ali. Como se dois olhos ardessem em suas costas. Nova sacudiu a sensação e ligou o computador. Na verdade, tinha primeiro pensado em jogar fora a máquina moderna. Desse modo, ninguém poderia obrigá-la a lidar com os negócios de sua mãe. Mas o computador portátil de Nova começara a encrencar e ela sentia que não havia necessidade de jogar fora os dois.

A janela do login apareceu. É verdade que Nova sabia que poderia encontrar um programa na Internet que resolveria o pro­blema, mas levaria tempo. Por outro lado, ela poderia chamar Arvid e pedir ajuda. Ele era fenomenal em tudo que era relacio­nado a computadores, mas seriam necessárias explicações. Ela parou um instante para pensar. Seria tão agradável ter Arvid ao seu lado. Dividir as preocupações. Mas seria tão complicado. Tão difícil de contar. Ela evitou discar o número dele e decidiu, como em muitas outras vezes, se virar sozinha.

Nova testou primeiro alguns números de senhas: o telefone da casa, número de registro do carro e o código de endereçamento postal. Sem resultado. Deu uma olhada no quarto; uma estante cheia de livros grossos cobria uma das paredes; e as outras eram decoradas com quadros de pinturas do gosto mórbido de sua mãe; diretamente à frente do computador havia uma passagem bíblica emoldurada:

 

Gênesis 6:17

Sabe que tenho determinado mandar sobre a Terra um dilúvio de águas e fazer perecer nele todos os animais viventes que houver debaixo do céu; e tudo o que houver sobre a Terra será consumido.

 

Aquilo sempre estivera ali; Nova nunca tinha pensado sobre o porquê. Ela não acreditava que sua mãe fosse religiosa, mas a citação deve ter sido uma lembrança que ela guardou. Ou talvez uma lembrança da única coisa que Nova e sua mãe tinham em comum: o interesse pelas mudanças climáticas.

Isso tinha deixado Nova muito surpresa, que sua mãe, uma profissional ambiciosa, tivesse alguma opinião sobre a questão do efeito estufa e da elevação do nível de água na Terra. Um pen­samento pressionava seu subconsciente: Nova tinha visto recente­mente outra referência ao Gênesis. Mas ela não queria se obrigar a pensar sobre o que vivenciara.

Em vez disso, Nova tentou fazer o login com a senha: Gêne­sis 6:17. O computador reagiu favoravelmente e deixou-a entrar. Ela estava se preparando para limpar todos os documentos, por­que não tinha vontade de remexer nas coisas particulares de sua mãe. Se houvesse algo referente a seus clientes, ignoraria. "Que me processem", pensou Nova, "mas eu me recuso a me aprofun­dar nesses restos." Clicou em "Meus Documentos" e o programa mostrou uma tela em branco. Nenhum nome de arquivo apare­ceu. Nova tentou novamente, com o mesmo resultado. Em segui­da, sentou-se por um minuto e pensou: "Ela deve ter guardado em outro lugar", imaginou, e começou a procurar. Mas nem um único documento pôde ser encontrado. Nada além do programa de instalação básica da Microsoft.

"Algum imbecil deve ter limpado o computador", constatou.

Após a conclusão, olhou ansiosamente ao redor. Alguém tinha estado dentro da sua casa e apagado tudo que existia no com­putador, tudo que sua mãe havia guardado...

"Quem diabos fizera aquilo?", pensou.

Então, de repente, fechou o computador e se levantou rapidamente. "Não suporto mais", pensou. Deixou o quarto e desceu um andar.

A cozinha era o cômodo favorito de Nova, mas ao mesmo tempo, um mistério. Foi até o fogão a gás e colocou uma panela com água. As coisas não só eram de estilo antigo, mas ela estava também convicta de que muita coisa era tão velha quanto parecia; as panelas eram de metal fundido, e a mesa de jantar, de carvalho maciço, estava marcada, por gerações, com facas e panelas quen­tes. Era especialmente a respeito dos potes, das fôrmas e dos rolos de macarrão que Nova se perguntava: quem os tinha utilizado e por que eles estavam em sua cozinha? Nem ela nem sua mãe tinham interesse em culinária. A cozinha tinha sido muitas vezes um refúgio para Nova, por ser extremamente raro que sua mãe aparecesse por lá.

Enquanto a água fervia, Nova encheu o coador com chá Chai e o colocou sobre um copo grande e florido de estilo inglês. Encheu até a borda com água quente e saiu da sala para entrar no mundo imaginário. No porão havia um sofá empoeirado na frente de uma grande e monstruosa televisão da década de 1980. Nova escolheu cuidadosamente entre os seus DVDs; Buffy, a caça-vampiros, Mais velozes e mais furiosos e X-Men deixou de lado. Escolheu Missão Impossível III. Tom Cruise não poderia com cer­teza confortá-la, mas conseguiria fazer com que se esquecesse de tudo por duas horas; filmes de ação eram o seu grande vício.

Depois, seria forçada a lidar com sua vida.

Mas nesse momento não tinha força para pensar num pla­no. Tomou um gole grande de chá e apertou a tecla play. Em seguida, se atirou no sofá.

 

Amanda pegou o celular pra ligar para seu chefe no Väldsroteln (Departamento de Homicídio) e pedir licença médica, mas a cha­mada do plantão criminal chegou na frente.

-Você pode ir até a Drottninggatan? Um carro de polícia encontrou no local um homicídio duplo.

Os pensamentos de ir para casa dormir foram substituídos por adrenalina. "Mais um pouco, eu consigo", pensou Amanda, e dirigiu em alta velocidade para fora de Gamla Stan. Viu imedia­tamente onde iria parar: dois carros da polícia estavam esta­cionados fora da portaria e alguém de uniforme estava na porta. Curiosos passavam em frente e olhavam, mas ainda não se for­mara qualquer aglomerado de pessoas. A uma quadra adiante estava um vendedor de cachorro-quente de mais ou menos vinte anos que parecia mais interessado no que os policiais faziam do que em seus clientes.

Amanda puxou para si a sua mais recente aquisição, uma bolsa Dior, que custou tudo o que ela havia conseguido guardar no último mês. Era um luxo que ela se dava uma vez por ano, uma bolsa de marca.

Com um rápido apertar na fechadura, Amanda trancou o carro e caminhou em direção à porta. Ela não conhecia o jovem que estava ali, mas sorriu simpaticamente e perguntou, enquanto se identificava:

- Sabemos quem são eles?

-A resposta é "talvez". Há dois... ou três corpos no apartamento de Josef F. Larsson, diretor executivo da Vattenfall. Amanda deu um assobio.

Ah, sim, gente da alta. Três corpos? Eu pensei que fossem dois homicídios.

O terceiro é um cão. Na parte superior - disse o homem, depois de evitar olhar Amanda nos olhos e indicar com a cabeça. Ele parecia extremamente relutante em definir com mais precisão como estava a cena do crime.

Amanda continuou seu caminho até o prédio. O elevador era velho e lento. Pensando no problema do estômago que tivera hoje, não era uma boa subir as escadas. Lentamente, foi transportada até o piso superior. Ali, Amanda encontrou mais um policial e um blo­queio. Da porta da frente, uma velha senhora olhou para fora. Em­baixo do braço, tinha um poodle de cor cinza de aspecto sujo. Ela sorriu interessada para Amanda, que balançou a cabeça e entrou. Amanda sabia por experiência que as vizinhas poderiam tanto in­comodar como ser úteis. O melhor era comportar-se bem com elas.

A investigação técnica estava em pleno andamento. Um homem por volta de trinta anos e com marcas profundas de acne cumprimentou-a, reconhecendo Amanda pelo nome. "Todos me conhecem e eu não conheço ninguém", pensou ela e cumprimen­tou de volta. Qual era o nome dele? Ela não tinha a menor idéia. Logo depois, no entanto, chegou uma pessoa que ela conhecia muito bem: Moses Hammar, uma rara combinação de lutador e médico-legista. "Nós dois somos macacos", continuou Amanda em sua linha de pensamento.

Os dois recém-chegados foram instruídos a ir direto para o quarto de dormir; os técnicos ainda estavam analisando o resto do apartamento. Amanda avaliou rapidamente o ambiente - móveis caros e pesados, mas que revelavam certo bom gosto. "Não é um trabalho de profissional, mas criado pelos moradores", constatou.

Um de seus maiores vícios eram os programas de design de inte­riores que ultimamente infestavam as grades de programação da TV. Percebeu facilmente a diferença entre as soluções avançadas criadas pela obrigatoriedade de demonstrar uma imaginação fér­til, que é exigida dos designers de interiores de hoje, e o bom gosto antigo. Quando passou pelo espelho, viu a palavra "assas­sino", escrita em vermelho sangue.

-              Tenho sido chamada de muita coisa na vida, mas, disso, nunca - comentou, quando se deparou com a palavra se sobre­pondo à sua própria imagem no espelho.

Moses estudou a inscrição mais de perto. Antes que ele ti­vesse tempo de analisá-la, o homem com as marcas no rosto disse:

-              É tinta spray normal.

Moses balançou a cabeça agradecendo e continuou até a sala de estar. Estava arrumada, exceto pelo sofá de couro onde estava pintado com spray "Dinheiro de sangue" e a parede com "Dirty Thirty". O sol da manhã brincou com as pequenas par­tículas de poeira que dançavam na frente da tela da TV. Um li­geiro vestígio de fracas manchas vermelhas aparecia no chão de taco. O homem com as marcas de acne se mostrou prestativo mais uma vez:

-              Aquilo ali é produto verdadeiro. É sangue.

-Aparentemente, alguém deixou algo ao lado da vítima, como se fosse um alto-falante para divulgar o assassinato - constatou Amanda.

Sim, parece que o agressor queria anunciar o motivo -acrescentou Moses e balançou a cabeça em direção ao texto na parede.

O que é "Dirty Thirty?" - perguntou o homem com as marcas.

É uma lista de usinas perigosas para o meio ambiente, explicou Moses. - E o proprietário do apartamento era diretor executivo de várias delas.

Ou se trata apenas de alguém gravemente perturbado - disse Amanda.

Perturbado ele é, com certeza - se intrometeu o outro homem enquanto apontava a cabeça na direção da abertura da por­ta para onde as manchas de sangue estavam. - Raios o partam, totalmente doente da cabeça.

Amanda analisou as pegadas vermelhas mais de perto. Quando ela se inclinou, sentiu como se o estômago tentasse sair para fora da garganta. Levantou rapidamente e engoliu em seco. A tensão que experimentava diante de uma nova cena de crime a impedia de manter a náusea sob controle. O rápido movimento fez com que o sangue lhe fugisse da cabeça e ela se encostou na parede. Tão logo o escurecimento da vista passou, ela se soltou e se esticou. Mas era tarde demais. Moses olhou preocupado para ela e disse:

-              Como está se sentindo? Você está completamente pálida.

-              Estou bem. Me levantei depressa demais - frisou Amanda, escondendo a verdade.

Moses olhou-a com ceticismo, mas depois balançou os om­bros e continuou em direção ao terrível segredo do apartamento. Amanda estava muito doente para admirar o seu pescoço de tou­ro, que ela costumava olhar fixamente. As mãos dele e o pescoço eram seus grandes pontos fracos, mas tudo o que ela pudesse sen­tir nesse momento estava prejudicado pelos sinais que seu orga­nismo estava emitindo.

Antes que entrassem na sala para onde o sangue os levava, viram uma substância viscosa, marcada pelos técnicos, no chão.

O cheiro difuso de morte foi substituído por um odor forte e pe­netrante. Antes que Amanda tivesse tempo de defini-lo, o estô­mago reagiu. Os ácidos do estômago que tinham se acumulado ao longo das últimas horas forçavam uma saída para cima; uma ânsia de vômito desencadeava outra.

Amanda olhou em volta desesperadamente. O pior que poderia lhe acontecer era vomitar no local do crime - em parte por­que, como mulher, isso poderia rapidamente desqualificar a sua posição, revelando fraqueza, e em parte porque poderia destruir vestígios valiosos. E ela que nem tinha visto ainda os cadáveres. Não havia tempo de correr para fora do apartamento. Amanda agiu instintivamente; abriu a sua bolsa nova e vomitou dentro. Moses olhou surpreso. Quando Amanda terminou, ele disse:

-              Levantou-se rápido, só isso, você disse. Não deveria estar em casa, na cama? Gripe?

Para evitar que ele visse a sujeira, Amanda fechou cuidadosamente a bolsa, como se fosse a coisa mais natural do mundo, e pendurou-a sobre o ombro. Então, ela balançou a cabeça e disse:

Começou ontem. Eu não sei se foi algo que comi ou se é outra coisa.

Então, agora você resolveu contaminar seus colegas? -perguntou Moses irritado, mas seus olhos demonstravam preo­cupação, com o costumeiro olhar de médico.

Amanda se sentiu culpada e cobriu sua boca, como se qui­sesse proteger o ambiente de seus germes.

 

No caminho até o sótão, Nova pensou que ter tido uma mãe pa­ranóica tinha suas vantagens. A casa inteira era cuidadosamente protegida por alarmes contra roubo e câmeras de vigilância. Se alguém havia conseguido passar pelo alarme, ele ou ela devem ter tido pelo menos sua imagem captada. Além da câmera na en­trada, havia mais três que vigiavam o cômodo onde estavam os itens mais valiosos da coleção de arte de sua mãe. A filha retomara de onde sua mãe havia parado e continuou a gravar os filmes de vigilância em DVD, uma vez por semana.

Abriu a escotilha do teto e puxou para baixo a escada que era o único caminho até o sótão. Quando chegou lá em cima, olhou ao redor. Um lado do sótão estava cheio de coisas sem valor dei­xadas por inúmeras gerações; caixas empoeiradas estavam empi­lhadas, tapetes enrolados, debaixo de uma mesa com três pernas. Um elegante lustre de cristal iluminava o caos. Era o melhor lugar para guardar as preciosidades que não tinham lugar adequado nos andares de baixo. A luz das peças brilhantes do lustre brin­cava sobre o equipamento que estava na outra ponta da sala. Ha­via um computador com placa DVR que servia como central de monitoramento. Atrás ficava uma estante, onde séculos de livros antigos eram armazenados juntamente com os últimos DVDs de informação sobre vigilância.

Nova sentou-se junto ao computador. A poeira saía da ve­lha cadeira de escritório com forro sujo. Antes que ela colocasse o foco na máquina que estava na sua frente, os olhos fitaram o banquinho no canto.

Cantinho do castigo.

Ela havia passado várias horas ali, olhando para a parede.

Uma vez, ao olhar para cima, Nova elaborou um plano que resultou em várias semanas sem poder sair e palmas das mãos fe­ridas. Acima de sua cabeça havia uma portinha. Ela, que tinha en­tão doze anos, subiu ao longo da estante até o telhado da casa. O vento da primavera gelara seu rosto, e a vista sobre os telhados de Ga mia Stan fizera seu coração bater com um forte sentimento de liberdade. Sobre o teto havia uma escada de incêndio que con­duzia à casa vizinha. Sua fuga tinha lhe custado mais caro do que o prazer que teve com ela.

Nova voltou ao presente. Ao movimentar o mouse, apareceu a janela do login na tela, antes completamente preta. Ela recebera aquela senha há dois anos, quando sua mãe percebeu que não po­deria gravar DVDs durante as várias semanas em que estava tra­balhando no exterior. A mãe voltara para casa bronzeada e ficara satisfeita porque Nova conseguira resolver a tarefa. Depois disso, lidara, esporadicamente, com o monitoramento. No final de cada mês, todos os vídeos desapareciam. "Eu os guardo no banco por questão de segurança", sua mãe lhe dissera. Nova teve a sensação de que ela também queria limitar a capacidade de Nova de acompanhar o que estava fazendo.

Os quatro vídeos de vigilância foram salvos diretamente na área de trabalho do seu computador. Eles eram os únicos arqui­vos regularmente usados. Nova passava filme após filme rapida­mente e viu como a sua própria imagem andava pela casa como o coelho do comercial da Duracell. Sentia medo, apesar de sua mente estar cansada e desanimada. Em sua imaginação, lhe pa­receu ver um vulto escuro rastejando ao redor, em cômodos vi­zinhos, mas na realidade não havia ninguém lá. Constatou que nenhuma outra pessoa tinha estado na casa, na última semana. Na estante, três DVDs aguardavam para ser analisados. Nova estendeu uma mão para tirá-los e dar uma passada no seu con­teúdo da mesma forma que fez com os filmes que já estavam no disco rígido do seu computador.

A mão parou no meio do movimento.

"Não deveria haver quatro discos?", pensou Nova, franzido as sobrancelhas. Ela puxou pela memória e constatou que era isso mesmo. Pegou os discos e analisou as datas.

Faltava um disco.

Era aquele com os filmes daqueles dias em torno da morte de sua mãe.

Nova tinha certeza de que os marcara cuidadosamente com data e os colocara na prateleira. Na época, ela ainda estava ator­doada pela notícia da morte de sua mãe e agira como se estivesse ligada no piloto automático. Mas estava completamente certa de que havia feito isso. Lembrava-se de cada minuto que se passara depois do aviso da morte.

Mas o disco sumira.

Uma pessoa estranha tinha entrado na casa.

Alguém que sabia o que estava procurando. Alguém tinha encontrado o disco ali, onde Nova estava agora. Alguém tinha es­tado ali.

Bem ali.

Nova estremeceu e ficou olhando ansiosamente para a enor­me quantidade de móveis que poderiam facilmente esconder um assaltante. As sombras estavam paradas nos cantos. Ela desligou o computador e desceu a escada rapidamente.

 

A cena no quarto de dormir era o local de crime mais repugnante que Amanda vira em todos os seus quinze anos como policial. Não era a podridão ou a quantidade de sangue que fizera isso. Os cadáveres estavam em estado relativamente bom e há pouco tempo aquelas pessoas estavam vivas, com corações batendo e os cérebros funcionando. Apesar do calor opressivo, a deterioração não era significativa. Era a profanação elaborada dos corpos e suas aparências que davam arrepios em Amanda. "Se o inferno existe, se parece com isso", pensou, olhando nos olhos arregalados da mulher. O que será que viram por último?

Mesmo sabendo que a boca aberta do cadáver fazia parte do processo de deterioração, Amanda não conseguia deixar de pensar que um último grito de morte tinha ficado preso nela. Suas mandíbulas estavam imobilizadas em uma posição totalmente aberta.

Amanda havia se recusado a sair do apartamento até que o seu trabalho estivesse pronto. "Você deve ir para casa", insistiu Moses, sem conseguir convencê-la. Ele estava diante dela, exami­nando as vítimas.

-              Estão mortos há, no mínimo, doze horas - constatou. - O rigor mortis se espalhou por todos os corpos.

Ele se movimentava em torno da cama com grande dificuldade. Poucas partes do piso estavam secas, o resto estava pintado com o vermelho-escuro do sangue das vítimas.

-              Provavelmente foi aqui que eles morreram - continuou com um gesto sobre o quarto.

Você tem certeza? - perguntou Amanda.

Volto com uma resposta definitiva depois da autópsia.

Amanda estudou a cena grotesca de conotação doentia e sexual. A mulher estava nua, deitada de bruços, com as pernas afastadas e um travesseiro sob sua barriga que fazia com que seu traseiro se curvasse para cima. O pastor alemão estava deitado em cima dela, com o intestino enrolado em suas costas e ao redor do pescoço. O homem vestia camisa e gravata na parte superior, mas o resto do corpo estava nu. Estava deitado ao lado do animal e da mulher. Parecia que estava prestes a inserir seu órgão genital cortado na boca da mulher. O espelho do teto duplicava o horror e revelava os detalhes.

Profanação era a palavra que para Amanda parecia mais adequada para descrever o que tinha ocorrido na sala. Profanação grosseira.

-              Que ódio se precisa ter para fazer algo assim? - disse Amanda.

Moses levantou o olhar da cena e disse:

-              Ou então ele é frio. De certa forma, parece muito bem pensado. Como uma obra de arte.

Amanda não conseguia ver semelhança com a arte, mas pensou: "Com certeza, tem a ver com o humor mórbido e incompreen­sível do legista." Ao mesmo tempo, seu olhar se fixou nos sinais na parede - "Gênesis 6:4" - e ela se esqueceu completamente do que Moses tinha acabado de dizer.

Você, que se chama Moses, tem uma idéia do que isso significa? — perguntou Amanda, apontando a cabeça em direção à parede.

Só porque me chamo Moses não tenho que saber a Bíblia de cor. Mas eu realmente já li essa passagem em algum momento, há muito tempo. Acho que o capítulo 6 tem alguma coisa a ver com a Arca de Noé. Mas não estou muito certo.

Posso verificar, quando voltar ao escritório.

Não deveria ir para sua casa e se tratar?

Ah, procurar na Internet é rápido - disse Amanda, animada.

 

Quando Amanda saiu da portaria da rua Drottninggatan, sentiu um forte desejo de tomar Coca-Cola. "Com certeza, acabará com a minha náusea", pensou, e imaginou uma taça da bebida gelada e borbulhante. O sol batia em sua cabeça e fazia com que a imagem ficasse mais atraente. Do outro lado da rua, havia uma loja da Seven-Eleven. Apressou-se naquela direção, entrou e pediu uma Coca-Cola. Não era light, como tinha costume de beber; afinal, ela precisava de todas as calorias que seu corpo fosse capaz de ab­sorver. No bolso, encontrou uma cédula de 20 euros para pagar; abrir a bolsa e ver a sujeira era a última coisa que desejava.

Pegou o copo de plástico, sentou-se à janela para descansar e coordenar os pensamentos. O estômago recebeu a bebida sem protestar. Funcionou, ela constatou depois de alguns minutos. Os pensamentos clarearam e as náuseas diminuíram significativamente.

Ao mesmo tempo em que percebia como estava se sentindo, olhava para fora através da grande vitrine da loja. Seus olhos va­gavam sem rumo ao longo da fachada da frente. Então, fixaram-se em uma silhueta familiar. Era a silhueta do tórax largo de Moses, que aparecia na janela do quinto andar. "Daqui se tem uma boa visão do local do crime", pensou Amanda. Alguns segundos depois, percebeu o que significava. Ali poderia haver alguém que tivesse vislumbrado o que aconteceu. Dali, era possível ver a portaria.

Amanda se aproximou do rapaz com espinhas que estava sentado atrás do balcão lendo um gibi do Pato Donald. Depois de mostrar a sua identificação, perguntou:

- Quem trabalhou aqui, ontem?

Ele parecia nervoso e imediatamente fechou o gibi, que caiu no chão quando tentou colocá-lo no balcão. Amanda tinha per­cebido muitas vezes que as pessoas ficavam nervosas quando sa­biam que ela era uma policial e fazia o possível para não demons­trar que percebia que estavam com as mãos trêmulas.

-              Eu - ele disse - estava no plantão da noite. Por que você pergunta?

-Você por acaso não percebeu alguma coisa acontecendo na casa da frente? Mais precisamente no último andar?

-              Hum, não. Daqui só vejo o andar de baixo - disse, apontando a cabeça em direção a janela.

Amanda seguiu seu olhar e viu que ele estava certo.

-              Você nunca vai até à janela?

O espinhento funcionário balançou a cabeça.

Sento sempre aqui - continuou, apontando para uma ca­deira atrás do balcão.

E como foi com os clientes? As pessoas estavam sentadas na janela ontem? - perguntou Amanda.

Ele pensou por um instante, tirou uma mecha de cabelo gorduroso da testa e disse:

-              Sim, uma garota da empresa telefônica Televerket esteve aqui por um tempo. Até bastante tempo.

-Você quer dizer a empresa telefônica Telia - corrigiu Amanda.

-              Hum, sim, talvez estivesse escrito Telia no macacão. Em todo caso, era de cor laranja.

"Macacão laranja", pensou Amanda. "Onde eu vi um assim recentemente?"

Continuou perguntando:

-              Ela pagou com cartão?

-              Não, em dinheiro, ela tomou um café e comeu uma fatia de torta como aquela - disse o balconista, e apontou a cabeça em direção ao balcão onde havia uma torta vegetariana.

Você já a tinha visto antes?

Não. Aliás, ela usava um boné.

Com a palavra boné, Amanda se lembrou de onde tinha vis­to recentemente um macacão laranja. "Nova", ela pensou, "pela manhã, tinha um macacão de cor laranja."

 

Nova olhou fixamente para a parede. A parede estava completa­mente nua, apenas com um pôster similar ao que enfeitava a pa­rede na chamada cela: a fotografia do navio Rainbow Warrior, do Greenpeace. Arvid tinha providenciado especialmente para que Nova tivesse uma cópia do cartaz e, na falta de outro, ela o colo­cou na parede. A porta do quarto de dormir estava trancada e ela estava sentada em sua cama desarrumada. O quarto era pouco mobiliado, com móveis que Nova tinha desde que era pequena. A colcha desbotada estava amontoada no chão. Um bolo de poeira se acumulava nas dobras. Do aparelho de som, Marilyn Manson pregava:

 

I am not a slave to a God that doesn’t exist.

I am not a slave to a world that doesn't give a shit

(Não sou um escravo de um Deus que não existe

Não sou um escravo de um mundo que não liga a mínima).

 

Nova não havia tomado banho ou trocado de roupa. Do macacão vinha um cheiro de suor velho. Para Nova, era o menor dos problemas. Ela nem sequer tinha consciência disso.

"Eu não posso só ficar aqui", pensou, "preciso ter um pla­no." Não era fácil resolver a situação. Não entendia o que estava acontecendo. As poucas horas de sono faziam com que os pensa­mentos rodassem, rodassem. Não se atrevia a colocar a cabeça no travesseiro e descansar. "Não posso ficar aqui", retomou seu pen­samento. Não conseguiu ir adiante porque o celular tocou.

-              Nova Barakel? - perguntou a voz grossa de um homem idoso.

-              Hum-hum - respondeu Nova, com reserva.

-              Meu nome é Nils Vetman. Eu era o advogado de sua mãe. Nova achou, a princípio, que o homem estava mentindo.

Então ela percebeu que até mesmo os advogados têm advogados.

-              Eu tenho o testamento de sua mãe - continuou ele.

-              Eu nem sabia que ela tinha um testamento - disse Nova, questionando.

Nova tinha dado como certo que sua mãe não tinha escrito um testamento. Sempre lhe parecera que ela acreditava ser imortal.

Ela não te contou? - perguntou Nils, automaticamente.

O que diz nele? - continuou Nova.

-              De acordo com o testamento, preciso passá-lo pessoal­mente para você juntamente com os outros beneficiários.

Demorou um pouco para Nova assimilar o que o advogado havia dito. Sua mãe não tinha, que ela soubesse, outros parentes próximos.

Quem são? - perguntou.

É uma fundação, FON.

Por que isso? O que eles fazem?

-              Desculpe-me, eu não sei. Mas tenho um tempo amanhã, se você puder.

Nova sentou-se e ficou observando o celular depois que a conversa terminou. O relacionamento entre ela e sua mãe tinha sido tudo, menos descomplicado. Seria essa uma última forma de castigá-la? Mostrar a partir do túmulo que ainda é ela quem manda? Uma faísca de raiva se acendeu dentro de Nova. Deu-lhe combustível suficiente para começar a agir, mas sem muita pressa. Ela juntou uma pilha de roupas, destrancou a porta e espiou o corredor. Estava vazio e tranquilo como nas últimas semanas. De­pois, Nova espiou o outro lado do corredor, entrou no banheiro e trancou a porta rapidamente atrás de si.

Os azulejos em tons de cinza e a pia quadrada davam ao ambiente uma atmosfera asiática. Ao contrário do resto da casa, havia sido reformado e ficou consideravelmente maior do que a maioria dos banheiros das outras casas na Gamla Stan. Um vaza­mento de água obrigou a mãe de Nova a tomar as devidas provi­dências no cômodo inteiro, e quando fazia alguma coisa ela fazia bem-feito. Acabou colocando um chuveiro e uma banheira de hi­dromassagem. Nova havia se questionado várias vezes por que, afinal, tinham uma banheira. Nenhuma delas gostava de tomar banho. No fundo, Nova tinha medo de água, embora raramente admitisse isso para si mesma. Tomar banho e manter-se limpa não era o problema, mas diante de jatos d'água ela logo recuava. E nem ao menos tinha um biquíni.

Nova tirou o macacão e jogou-o no saco de lixo. Amarrou os dreads em um coque esticado. Ligou o chuveiro e deixou a água correr até ficar um pouco morna, mas não quente. O sol já ia alto e prometia um dia tão quente quanto o anterior. Ela não queria começar esse dia se sentindo cheia de calor e sem energia. Entrou no chuveiro e deixou a água limpar o suor e a ansiedade. Um plano tomou forma em sua mente; ela precisava retomar o con­trole da casa. Ela queria se sentir segura em algum lugar. Mas lhe veio um pensamento: amanhã, talvez a casa não lhe pertencesse mais. Ou melhor: talvez nunca devesse ter sido dela.

Quando baixou a temperatura da água para gelada, já havia decidido. Antes de visitar o advogado, agiria como se a casa fosse sua. Tinha uma vaga lembrança de uma aula no colégio na qual aprendera que a parte que lhe cabia legalmente era a metade do que sua mãe possuía. Significava, então, que havia grandes chances de manter a casa quitada. Ela saiu do chuveiro, fresca e com um fluxo de energia positiva por todo o corpo. Vestiu ra­pidamente as roupas. O t-shirt preto brilhava no espelho com a frase impressa: "Who the fuck is Armani?". Nova deixou o ca­belo preso. Com um corretivo grosso, camuflou a cicatriz que corria ao longo do pescoço. Era como se a memória do incidente que dera esse resultado fosse apagada pela massa grossa. Ela fazia disso uma rotina, manter a cicatriz sempre coberta. Assim, evi­tava olhares e perguntas, poupava os comentários piedosos e não precisava pensar no que acontecera. Aliás, era a última coisa que ela queria.

Agora que a cicatriz sumira, Nova estava pronta. A casa seria dela novamente.

Armada com um taco de golfe de ferro número quatro, de sua mãe, subiu de novo ao sótão. Montou rapidamente o computador e soltou os fios que conduziam até as câmeras. Nos anda­res de baixo, os fios passavam pelas paredes, mas, no sótão, cor­riam pelo chão. O que mais demorou foi fazer os fios passarem do modo mais invisível possível. Felizmente, havia cabo suficiente para alcançar o quarto de Nova. Faria a sua própria central de monitoramento; não era o lugar mais estratégico da casa, mas ela se sentia segura ali. Quando o computador estava no lugar e em funcionamento, Nova desceu para a biblioteca, que ficava ao lado do hall e tinha uma janela voltada para a rua. Puxou uma cadeira, subiu nela e esticou a mão para a câmara que focalizava a parede com os quadros. Girou-a noventa graus para que apontasse para fora da janela em direção a um ponto fora da porta externa. Nova tinha lido que era ilegal controlar os locais públicos. "Vão ter que me processar", pensou pela segunda vez e balançou os ombros. Deixou o taco de golfe de ferro número quatro na porta e subiu para a segurança do seu quarto.

 

Quando destrancou a porta do apartamento de um quarto no bairro de Södermalm, Amanda se sentia quase normal. Uma ca­mada de suor cobria sua testa, mas a náusea tinha dado um descanso. Sem tirar os sapatos, atravessou o quarto e abriu as ja­nelas. Duas respirações profundas fizeram com que relaxasse. As janelas davam para um frondoso jardim interno, com um cara­manchão. Grande parte da vegetação de Estocolmo era amarela e seca, mas os raios do sol só alcançavam o jardim à noite e, com isso, o gramado não chegara a secar. Samambaias se contorciam pelos cantos e o musgo avançava. O ar parecia quase fresco.

Amanda virou-se e tirou os sapatos, jogando-os. Um deles voou sobre os 26 metros quadrados para dentro do hall, como se fosse calculado.

O segundo atingiu as prateleiras, pulou para trás e pousou no teclado do computador, com um barulho forte. Amanda não se preocupou em tirá-lo de lá, mas esticou os dedos, que também tinham se livrado das meias de náilon empoeiradas.

Nisso, olhou para o computador novamente: "A citação bíblica", pensou. Foi até a máquina e clicou em "bibeln.se". O que viu na tela não esclareceu-a nem um pouco:

 

Gênesis 6:4

Ora, naquele tempo (e também depois), quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e estas lhe davam filhos, os Nefilim habitavam sobre a Terra; estes homens famosos foram os heróis dos tempos antigos.

 

"O que isso tem a ver com um diretor executivo da Bolsa de Valo­res morto?" pensou Amanda. Seu pensamento foi interrompido por uma pontada no estômago. Dureza.

Ela se encostou, com a mão contra a mesa, e gemeu.

 

Nova foi despertada de um sono agitado por uma batida na porta. A primeira coisa que viu foram as imagens captadas pela câmera de vigilância na biblioteca. Arvid e Eddie se movimentavam len­tamente na tela do computador. Nova respirou fundo. Seus jeans grudaram nas coxas por causa do calor e ela sentiu que seu rosto estava inchado e empapuçado. O efeito da ducha tinha desapa­recido há muito. O relógio do celular marcava 18h15min e ela lentamente se levantou da cama. As batidas ficaram mais fortes e insistentes. Nova suspirou e desceu para abrir.

Ela puxou os seus amigos para dentro, fechou a porta atrás deles e colocou a trava de segurança. Arvid e Eddie olharam para ela questionando. Mais surpreendidos ainda ficaram quando en­traram no hall e viram um amontoado de escombros no lugar onde, uma vez, haviam estado alguns quadros.

- Que diabos aconteceu aqui? - perguntou Arvid.

Eu me cansei daqueles quadros - disse Nova, com fran­queza.

Estou vendo isso - sorriu Eddie -, ninguém pode acusar você de ser comedida.

Os cantos dos lábios de Arvid começaram a ensaiar um sorriso, e logo ele começou a rir abertamente. Os outros o acompanharam.

-              Francamente, eu também nunca gostei deles - conseguiu falar depois de algum tempo.

Nova não conseguia parar de rir histericamente. Os dois homens olharam para ela, que tentou explicar:

É tão bom ter vocês aqui. Têm acontecido coisas demais.

Nós entendemos isso - disse Arvid -, por isso viemos, para saber como você está se sentindo.

Arvid pôs a mão de forma protetora no ombro de Nova; ela sentiu um calor que a acalmava.

-              Não é só o que aconteceu na noite passada - disse Nova, movendo a cabeça em direção à escada.

Eddie e Arvid a seguiram até seu quarto sem perguntar mais nada; sabiam por experiência que a explicação viria quando Nova quisesse contar. Nem um segundo mais cedo. Mas, quando viu o computador que mostrava as informações do monitoramento contínuo, Eddie não se conteve.

-              Não, agora você precisa me dizer o que aconteceu.

E Nova assim o fez.

Você está absolutamente certa? - perguntou Arvid. - Sua mãe talvez tenha armazenado seus registros em um servidor cen­tral. E talvez você, por engano, tenha levado o DVD para baixo, para o seu quarto ou algo assim.

Estou totalmente certa - respondeu Nova, primeiro, irri­tada, depois, pensativa. - Pelo menos, eu acho.

O olhar de Nova passava de um para outro, mas não conseguia confirmação de que estava certa ou errada. Voltou-se, então, para a tela do computador.

Por fim, sentados na cama de Nova, os três agora fixavam os seus olhares no vídeo de vigilância. Nenhum movimento aparecia nas telas que representavam a câmera.

Mas o que você vai fazer? - perguntou Arvid, mexendo na barba rala.

Não sei - disse Nova. - Na verdade, não sei se há alguma coisa que eu possa fazer. O que vocês acham?

Os três permaneceram em silêncio, tentando avaliar a situação. Nova não recebeu a resposta que esperava. Depois que ninguém dis­se mais nada, Eddie lembrou do que tinha consigo na bolsa.

-              Aliás, eles os encontraram - contou ele, e abriu o vespertino Aftonbladet.

Na primeira página, estava escrito: "O diretor executivo da Vattenfall foi brutalmente assassinado por ativistas ambientais".

Falando em ação errada... - disse Nova. - E nós, que queríamos publicidade e foco na Vattenfall?

Não, isso aqui acabou indo para o lado oposto - consta­tou Arvid. - É claro que tivemos publicidade, mas a mensagem ficou totalmente errada. Agora, nós é que somos maus, e eles, os bonzinhos.

Raios, a gente não devia ter feito isso - suspirou Eddie. - Deveríamos ter seguido as regras.

Mas você sabe que tudo é muito lento. Nós já conversamos demais sobre isso. A Terra vai se extinguir antes que os políticos tenham tempo de sair do banheiro.

Quando Nova pegou o jornal para ler a matéria, deu para ver a parte interna de uma de suas mãos. Uma crosta da ferida que começava a descascar atravessava a mão. Arvid pegou a mão de Nova e examinou-a mais de perto.

-              O que você fez aqui? - perguntou. Nova puxou rapidamente a mão.

-              Eu me cortei com uma faca de pão, alguns dias atrás -mentiu.

Uma sombra de decepção passou pelo rosto de Arvid com a reação dela. Mas Nova sabia que nunca iriam acreditar que tinha se ferido pela manhã e ela não aguentaria uma discussão. Era o que havia aprendido ao longo dos anos. Em vez disso, mudou de assunto, folheou o jornal e começou a ler em voz alta.

-              Eles acham então que a mesma pessoa que espalhou os slogans matou essas pessoas - resumiu Eddie, que fez questão de amenizar a irritabilidade de Nova.

-              Há algo que possa ligar você ao lugar? - perguntou Arvid. Nova ficou, primeiro, em silêncio e fechada. Depois, respondeu defensivamente:

-              Eu vomitei. Sério, e foi bem nojento.

-              Nós certamente teríamos feito a mesma coisa - confortou-a Eddie.

 

Amanda sentou-se na única poltrona do apartamento e estudou a figura de Moses. Ele estava ocupado picando legumes e frango. Com seu corpanzil, enchia sua cozinha muito bem. Quando, pela terceira vez, bateu a cabeça num armário saliente, soltou um palavrão. Amanda tentou assumir, mas foi convidada a sair.

-              Você precisa descansar - afirmou de modo decidido.

Amanda desistiu e deixou que Moses brigasse com as fa­cas cegas e com a decoração pouco funcional. Lá no fundo, ela lhe dava razão. Sem admitir plenamente para si, começou a ficar preocupada. Um pouco de náusea qualquer pessoa poderia sentir, mas essa pontada no estômago era algo que não tinha sentido antes. Ela não contou isso a Moses para evitar ser forçada a sair para o pronto-socorro. Estava sendo muito agradável ser mimada em casa.

A sopa de frango está curando a maioria das doenças do estômago - disse Moses, segurando duas cenouras.

Isso tem comprovação científica? - perguntou Amanda, sorrindo.

Tem, sim, da minha avó materna.

Moses colocou os legumes picados na maior panela que encontrou e cortou o frango com grande habilidade. "Para ser um médico-legista é necessário ter habilidades inesperadas", pensou Amanda. Interrompeu a ideia para poder tomar a sopa sem mui­tas associações desagradáveis. De qualquer forma, tentou não pensar muito no trabalho de Moses. Apesar de eles se encontra­rem frequentemente numa mesma cena de crime, ela nunca con­seguiria se imaginar cortando cadáveres o tempo todo. "Minhas vítimas são, na maioria das vezes, vivas", ele costumava dizer, mas, para Amanda, ainda assim sua profissão era incompreensível.

-              Agora deve ferver por meia hora - informou Moses, secando as mãos em uma toalha de cozinha.

 

Arvid soltou um palavrão quando abriu a caixa de comida do restaurante chinês que ficava lá embaixo, na esquina. A primeira coisa que viu foi aquilo que mais detestava na vida. Pequenas e cinzentas fatias olhando desafiadoramente para ele. Cogumelos.

Suspirou profundamente e começou a retirá-los. Não esta­vam no cardápio, senão nunca teria feito o pedido. Um após ou­tro foram transportados, cuidadosamente, para a lixeira. Arvid tinha cuidado ao tocá-los. Desde pequeno não tolerava cogumelos. Um medo de pisar neles na floresta tinha se transforma­do em nojo. A parte lógica do seu cérebro percebera que aquilo era uma fobia. O resto justificava os seus impulsos dizendo que cogumelo era a coisa mais repugnante que existia. Como as pes­soas normais podiam comer cogumelos ou, de um modo geral, tocar neles?

Quando todos os pedaços visíveis de cogumelos foram removidos, Arvid pegou a comida e sentou-se à mesa da sua es­crivaninha bem organizada; a tela do computador estava limpa e brilhante, as canetas, separadas por cores, e o papel, em um sistema de pastas nas gavetas da escrivaninha. Na prateleira de cima ficava a literatura sobre dados, colocada em ordem alfa­bética. Ele a limpava todos os dias, criara esse hábito desde os meses no Rainbow Warrior II. Toda manhã, às 8h, a tripulação inteira já havia inspecionado o interior do navio; banheiros, pi­sos, molduras de portas e paredes haviam sido cuidadosamente limpos. Era uma necessidade manter a higiene, que, do contrá­rio, decai rapidamente em um navio. Arvid também era respon­sável pelo sino do navio, por mantê-lo em perfeitas condições. Era originário do antecessor afundado, o Rainbow I, e tinha um grande valor sentimental. Quando saiu do navio e veio para a terra, Arvid manteve os hábitos rigorosos de limpeza e se sentia bem com isso.

Começou a comer o jantar devagar, ao mesmo tempo em que olhava o único documento que havia à sua frente. Era uma lista na qual a Vattenfall aparecia no topo. Depois, vinha a em­presa de aviação SAS. Era a sua própria lista "Dirty Thirty". Ins­pirados pelo World Wildlife Fund, Arvid, Eddie e Nova tinham feito uma relação com os maiores culpados ambientais da Suécia. Depois, tinham declarado guerra contra eles. Ações judiciais não seriam suficientes para deter a degradação ambiental a tempo. Antes que fosse tarde demais. Juntos, eles decidiram tomar as ré­deas. Para intensificar e acelerar as ações, tinham ido muito além dos limites do Greenpeace.

Mas tinha dado errado, muito errado. Embora Arvid esti­vesse preocupado com Nova, no fundo, ele achava que o resultado final não tinha sido tão ruim.

Joseph E Larsson teve o que merecia.

No amor e na guerra, tudo é permitido.

Agora Arvid pensava em fazer algo justamente com o amor. Ele queria deixar Nova feliz outra vez. O que poderia lhe dar mais alegria do que ele retomar os projetos em comum?

"Dirty SAS, here I come", disse em voz alta e com forte sotaque sueco ecoando no seu apartamento bem arrumado em Ârsta.

 

Nova não teve que andar muitos metros para chegar ao escritório de Nils Vetman. "Será que minha mãe o escolheu apenas pela como­didade?", perguntou-se. Stora Gramunkegränd[1] era, apesar do nome, um beco pequeno que ia da rua Västerlanggatan até o mar. A mãe de Nova tinha contado, em um de seus momentos mais comunicativos, que o beco antigamente dava para uma ponte pequena que os monges usavam para chegar à sua ilha. Fazia muito tempo que a ponte desaparecera, e a ilha fora rebatizada depois que cavaleiros e nobres se mudaram para lá, ocupando o lugar dos homens de Deus.

A casa cor de vinho era uma das mais antigas de Gamla Stan, mas fora pintada e rebocada. Na porta, várias placas mostravam que a casa tinha um punhado de advogados como inquilinos. Nils Vetman era um deles. Antes que Nova tocasse o interfone, olhou seu reflexo na sua placa brilhosa de bronze. Constatou que a ci­catriz ainda estava cuidadosamente camuflada. Nenhum rímel ti­nha escorrido no calor e os dreads estavam no lugar.

Nova apertou devagar a campainha. A porta se abriu logo que ela disse o seu nome a pedido de uma voz que saía do alto- falante. Quando Nova entrou, viu a dona da voz. A mulher esta­va sentada digitando freneticamente no teclado enquanto olhava para cima e encontrava o olhar de Nova. Tinha cerca de cinquenta anos e parecia uma paródia da secretária de escritório de advoca­cia, com um terno cinza apertado, um coque na nuca e óculos no nariz. Quando viu Nova, disse:

-              Café ou chá?

-              Tem um copo de água? - respondeu Nova, mas, quando a mulher pegou uma garrafa de água mineral, ela esclareceu: - De preferência, água da torneira.

Normalmente, Nova não teria deixado de comentar que a produção de água engarrafada na Suécia gera 15 mil transportes de caminhões e 33 mil toneladas de carbono por ano, mas deixou passar, dessa vez. Ela tinha a impressão de que aquela senhora iria servir o que os clientes quisessem, independentemente da degra­dação ambiental ou de guerra nuclear. Não valeria a pena gastar energia para tentar mudá-la.

Provida de um copo de água, foi conduzida ao escritório de Nils Vetman. O teto era baixo como em muitos dos edifícios setecentistas da cidade, mas o cômodo era grande, uma prova de sucesso e dinheiro; quadros pintados originais adornavam as paredes, os livros encapados com couro enchiam as estantes. Nils Vetman estava sentado atrás de uma maciça escrivaninha de carvalho. "Um prolongador de pênis", pensou Nova, quan­do viu o homem com rosto em formato de pera. Mas a grande mesa ressaltava mais a sua pequenez do que inspirava respeito. Seu cabelo cor de linho era acinzentado. Os olhos eram vivos e curiosos. Ele apontou com a mão para uma cadeira vazia. A segunda cadeira para visitantes já estava ocupada. Nova de­morou o olhar um segundo a mais em seu ocupante. Era loiro, mas não sem cor. Os olhos eram bem separados e tinham uma tonalidade azul-escura. A idade era difícil determinar, mas o terno alinhado revelava alguém que tinha ido bem longe em sua carreira. "Bonito", pensou Nova, "mas não atraente. Será que ele é gay."

Antes que ela alcançasse a cadeira, o homem estendeu a mão.

- Meu nome é Peter Dagon. Eu represento a FON.

Seus olhos examinavam Nova de cima a baixo. Era como se sugasse informações sobre ela. Ela se sentia desconfortável, mas, mesmo assim, lisonjeada pelo seu interesse evidente. Automati­camente, colocou a mão sob o queixo para esconder a cicatriz.

Havia algo de familiar na expressão facial de Peter Dagon. "Devo tê-lo visto em algum jornal", imaginou Nova. Tinha certe­za de que nunca o tinha visto pessoalmente.

-              Bem-vindos — começou Nils Vetman. - Como sabem, estamos aqui para examinar o testamento de Elisabeth Barakel.

Ele viu a reação de Nova e, em seguida, continuou:

-              Ela optou por dividir os bens entre a sua filha, quer dizer, você, Nova, e a Fundação FON, aqui representada por Peter.

Nova ia perguntar o que a FON fazia quando Nils Vetman continuou:

-              Gira em torno de, no total, 53 milhões de euros, distribuídos entre uma propriedade na Gamla Stan e ações. O montante é baseado na cotação de ações de ontem. Serão divididas fifty-fifty.

Os pensamentos de Nova foram interrompidos e substituí­dos pelo número: cinquenta e três.

-Você disse 53 milhões? - perguntou Nova, depois de um momento de silêncio.

-              Sim, tenho tudo documentado aqui. As ações são principalmente divididas entre o mercado sueco e o asiático.

O advogado entregou duas cópias da compilação para Nova e Peter. Nova folheou e fingiu ler. Em vez disso, seus pensamentos giravam. Cinquenta milhões. Ela ainda não conseguira raciocinar para descobrir quanto representavam cinquenta e três divididos por dois. Mas sabia que se tratava de muito dinheiro. É verdade que elas nunca tiveram problemas financeiros durante a sua in­fância, mas Nova sempre imaginou que fosse o resultado das extenuantes semanas de trabalho de sua mãe. "Cinquenta e três milhões", pensou Nova outra vez.

Fora da sua mente, Nils Vetman recomeçou a falar:

-              Era desejo de Elisabeth que Nova mantivesse a casa. É avaliada em 13 milhões de coroas, incluindo arte e mobiliário. O resultado é que Nova herda a casa e 13,5 milhões em ações, en­quanto a FON recebe 26,5 milhões em ações. Para onde vocês querem que sejam transferidos?

Nova nunca tinha tido mais do que a bolsa de estudos que recebia todo mês para cursar filosofia na universidade. Lugar para a transferência das ações ela não tinha. "Porque é de um depósito que eu preciso, não?", pensou ela.

-              Tenho que entrar em contato com o meu banco primeiro - ela disse, para não revelar demais. - Dou meus dados amanhã.

A reunião não passou disso. Peter Dagon deu a informação de que o advogado precisava. Depois, se despediu educada e aten­ciosamente como quando começou a reunião. Nova, sem perce­ber, continuou no local.

-              Você tem mais alguma pergunta? - questionou Nils Vetman.

-              Provavelmente, mas nenhuma de que me lembre agora -disse Nova, sincera, e se levantou da cadeira.

-              É só ligar, se precisar saber algo.

Nova balançou a cabeça agradecendo e ia justamente deixar a sala quando lembrou do que estava pensando antes:

-              O que faz a FON?

-              Peter disse algo sobre organizações sem fins lucrativos. Mais do que isso, eu não sei.

-              Poderia me dar seu número de telefone?

-              Infelizmente, as informações de contato dele são confidenciais.

Nova saiu correndo da sala e passou por uma secretária surpresa. Lá fora, na rua, ela viu um Mercedes estacionado de­baixo da placa do clube de jazz Stampen. Nos séculos XVIII e XIX, o clube tinha sido uma igreja. Os calvinistas franceses, que mantinham rituais austeros, se virariam no túmulo se soubes­sem que as instalações tinham sido transformadas num clube noturno.

O Mercedes, que estava com duas rodas sobre a calçada e as outras duas nos paralelepípedos, começou a andar. Ela encontrou o olhar de Peter Dagon no retrovisor. Ele o manteve enquanto acelerava através do beco. Os gestos de Nova foram em vão.

O carro desapareceu na esquina.

"Diabos, que coisa suspeita", pensou Nova.

Acima de sua cabeça, a placa com um pássaro de fraque tocando saxofone balançava.

 

Amanda acordou à tarde, em sua cama. Algumas horas mais cedo, chegara a pensar em ir para o trabalho, mas foi impossível. Assim que saiu porta afora, teve que voltar e correr para o banheiro. "Eu espirro vômito como um gato macho marca seu território", pen­sou. Por fim, desistiu e pediu a licença médica para um chefe sur­preso. Desde a última vez em que fizera isso, haviam se passado cinco anos, três mudanças na organização e uma troca de chefe. A inspetora que praticava tiro de pistola de salto alto nunca ficava doente. Não combinava com a sua imagem.

Mas agora ela estava entregue, na cama, olhando para um pôster de Mare Chagall. Moses o tinha dado a ela, porque a pin­tura original tinha o mesmo nome que ele. "Isso é para que você pense em mim assim que acordar", tinha dito ele, justificando o presente. Amanda não achava que a imagem tivesse qualquer se­melhança com Moses: mostrava um corpo frágil, com as pernas dobradas para cima e um penteado parecido com um chifre. "O que será que Chagall pensou quando colocou chifre em Moisés?", os pensamentos de Amanda viajavam.

As náuseas não eram mais tão insistentes, mas o cansaço era notável. O som do telefone agrediu seus ouvidos. Ela atendeu e foi capaz de delegar mais algumas de suas funções. "Se não posso ficar em pé, posso, pelo menos, trabalhar deitada", pensou. Len­tamente, conseguiu recapitular os acontecimentos dos últimos dias. Rememorou, para si mesma, as pistas soltas. E, para poder descartar o absolutamente mais improvável, o macacão laranja, Amanda se arrastou da cama e pegou o laptop.

Ela se recostou nos travesseiros empilhados. "Está ótimo assim", constatou Amanda e procurou por Nova Barakel na In­ternet. Achou só uma página que a fez ficar completamente ereta na cama:

 

Estocolmo, Suécia - Cerca de vinte ativistas do Greenpeace protestaram hoje na reunião anual da Vattenfall, no centro de Estocolmo, contra os investimentos contínuos da empre­sa em energia suja. Os participantes da Assembléia Geral re­ceberam, cada um, um bonito pacote verde com um pedaço de carvão vegetal e a mensagem: "É difícil ter as mãos limpas quando se manuseia carvão".

- Estamos insistindo para que a Vattenfall mude para energia limpa. A empresa planeja continuar a investir signi­ficativamente mais em carvão e energia nuclear do que em energias renováveis, apesar de a grande maioria da popu­lação sueca, que na verdade é a dona da Vattenfall, prefe­rir investir em energia verde - diz Nova Barakel, ativista do Greenpeace.

 

As palavras fizeram com que Amanda se arrastasse para fora da cama e para dentro do banheiro. Era, na verdade, um banheiro onde tinha sido instalado um chuveirinho depois. Sentou-se no vaso e deixou a água morna escorrer sobre o cabe­lo e o corpo. A limpeza fez com que se sentisse melhor. Amanda se obrigou a fechar a água e secou o vapor no espelho do armá­rio do banheiro. Um rosto cansado e com olheiras olhava de volta para ela. "Com um pouco de maquiagem, você também deve ficar apresentável", pensou Amanda, e correu ao seu quar­to para se vestir. Ela precisava encontrar Nova, o mais rapida­mente possível.

 

"Como poderei destruir da melhor maneira as atividades da SAS?" questionou Arvid, enquanto separava suas canetas por ta­manho, em vez de pela cor. "Devo entrar no site deles?"

"Não, não faz tanto efeito, porque a maior parte pode ser resolvida por telefone. Além disso, é fácil tomar providências. O telefone...", pensou. "É a central telefônica que devo atingir." Arvid sentia a excitação subir no estômago. Ele tinha brincado muitas vezes com a ideia de criar um vírus no celular, com conse­quências devastadoras, mas não havia tido coragem. Agora tinha o motivo perfeito e sabia como prosseguir.

"De uma vez por todas, aquele sapo irá mostrar o seu verdadeiro eu", pensou Arvid, referindo-se àquela campanha pu­blicitária que havia sido a mais popular do ano, chamada Crazy Frog. Um sapo bobo que cantava uma canção mais boba ainda: era assim que Arvid costumava descrevê-la para os poucos na Suécia que não a conheciam. Após o primeiro sucesso, um monte de variações surgiu em seu rastro. Arvid verificou qual era a mais popular agora e se fixou naquela que estava em terceiro lugar na lista top de um dos grandes fornecedores. Ele não conseguia pen­sar em nada mais adequado para acompanhar o primeiro grande vírus de celular da Suécia do que a música The Final Countdown[2]

Arvid procurou, em seguida, o código para reproduzir justamente o toque de sapo em um site russo que costumava visitar quando queria coisas que, na verdade, não devia querer. Enquan­to isso, ele cantarolava a canção, mas excluía o "beep-beep" ridí­culo do sapo, que não fora incluído na versão original com o Eu-rope. Quando terminou, baixou também o código para o cavalo de troia Pdstealer. Era conhecido entre os hackers e os especia­listas em segurança na Internet porque fingia com sucesso ser um software criado para telefones móveis que comprimia seu banco de dados de contatos. Em vez disso, usava o banco de dados para coisa completamente diferente. E agora também seria usado como base para o trabalho de Arvid.

Quando Arvid navegou no site da SAS, encontrou vários números interessantes por meio dos quais a empresa poderia ser alcançada: vendas de telefone na Suécia, no exterior, e o atalho privilegiado do número da empresa. "Qual deles devo escolher? Ah, por que escolher se posso usar os três?"

Poucas horas depois, estava tudo pronto e ele tinha um vírus que fazia três coisas: se auto-enviava via MMS para todos os que estavam na agenda telefônica do telefone infectado, também repassava o telefone celular aleatoriamente para um dos três números de telefone da SAS e instalava a campainha The Final Countdown. Infelizmente, era necessário que o beneficiário tives­se um telefone celular realmente moderno, mas seriam suficientes algumas centenas de vítimas para sobrecarregar completamente a SAS com chamadas disparatadas. O fato de as pessoas precisarem clicar em "Ok" para instalar o toque, que parecia ser enviado por um amigo, não preocupava Arvid nem um pouco. Se as pessoas respondem a cartas da Nigéria e abrem anexos de e-mails, possí­veis e impossíveis, seria surpreendente se todos refletissem sobre o que estariam instalando no telefone. "Até agora, o jornal Expressen nunca escreveu sobre vírus de celular", pensou Arvid, "por isso, a maioria não vai saber do que se trata."

Após o recente alvoroço na imprensa sobre o The Pirate Bay, a escolha do ponto de distribuição era lógica. O site informa aos usuários como podem abastecer o software de uma forma mais ou menos legal. Arvid colocou o toque em um servidor involun­tário, que tinha um grande número de falhas na segurança, e em seguida um link para o The Pirate Bay. Entrou imediatamente nos links novos e, horas mais tarde, viu que ele subira na lista dos mais populares links baixados.

 

Uma batida forte soou na porta da frente. Nova se assustou e fixou o olhar na tela de monitoramento. Era o carteiro que tinha jo­gado uma grande carta na caixa de correio. Seguiu-se uma chuva de cartas menores. "Estou começando a ficar paranóica como a minha mãe", pensou Nova. Antes mesmo que tivesse terminado de formular a ideia, ela percebeu que talvez houvesse algum sen­tido nisso. Teria sua mãe algo a temer? Havia alguma ligação entre sua morte e as coisas que estavam acontecendo com Nova? "O acidente da minha mãe pode não ter sido um acidente", foi a con­clusão a que chegou. "Mas, nesse caso, será que também vou pas­sar por isso?", pensou ela. Alguém tinha estado na casa delas. Ela se arrepiou.

Nova espantou a continuação do pensamento desagradável. "Preciso ter cuidado", concluiu, e desceu as escadas para ir buscar a correspondência.

Por cima de tudo havia uma pilha de contas - de luz, de telefone e de TV a cabo -, Nova percebeu pelos envelopes. Ficou preocupada só de olhar para elas e juntou-as rapidamente em um monte. Nova não tinha ideia de como iria administrar a parte econômica. Sua mãe sempre havia cuidado de tudo isso. "Eles que esperem", decidiu, e colocou a pilha dentro da gaveta sob a mesa do hall. Quinze outras contas já tinham sido colocadas lá.

Nova dirigiu sua atenção para o envelope grosso que tinha o logotipo de Nils Vetman. O nome dela estava cuidadosamente escrito na frente. Era a letra da secretária, adivinhou Nova. Abriu a carta e fisgou uma espessa pilha de papéis. O testamento, que vinha primeiro, era de meia página e não continha surpresas. As outras noventa e três páginas do inventário de bens, ela folheou insegura. Não estava habituada a esse tipo de papel. Mas o que iria perguntar? Seria impossível para ela contar para os seus ami­gos que era multimilionária. Simplesmente não dava. Finalmente, chegou à conclusão de que a pilha de papel consistia principal­mente de verificações de transferência de ações para sua conta e da FON. "Por que eles usaram uma folha de papel por ação?", pensou Nova, e se perguntou o quanto da floresta sueca, de valor inestimável, havia sido usado para atender o setor financeiro. Com apenas 5% restantes da floresta antiga, a silvicultura sus­tentável nada mais era que um mito, costumava ressaltar Nova. Como podemos apontar o dedo para outros países?

Por último, na pilha de papéis estava uma lista dos objetos de arte e dos outros móveis da casa. Os olhos da Nova se fixaram na avaliação dos quadros de William Hogarth que retratavam as quatro etapas da crueldade. Quinze mil coroas. A primeira coisa em que pensou foi no que poderia ter feito com o dinheiro: com­prar 45 cabras para mulheres carentes na África, 500 metros qua­drados de floresta tropical em Bornéu ou enfermeiras parteiras para trinta partos em Serra Leoa. Depois ela descobriu por que tinha uma pilha de papel tão grande na mão. "Vinte e seis milhões e meio", ela pensou. Então 15 mil é uma soma relativamente pe­quena. "Mas valeu a pena", decidiu Nova.

Olhou para a pilha de papel em sua mão e pensou nas con­tas que se acumulavam na gaveta da mesa do hall. Era desagradável sentir que não tinha controle. Era como se a sua ignorância se tornasse mais visível à medida que cresciam as pilhas de papel. Fez uma careta. Isso com certeza era algo com que ela aprenderia a lidar. Era só se decidir por isso. Um problema isolado era possí­vel resolver. Com o inventário em uma mão e as contas na outra, ela subiu até o escritório. Deu uma olhada rápida na estante e encontrou exatamente o que estava procurando. Quatro títulos iriam ajudá-la: Princípios de contabilidade; Herança e seus direi­tos; Comércio com negociação financeira; e Gerenciamento efetivo de capital.

Nova sentou-se no chão com as pernas cruzadas em tesoura e começou a organizar papéis e livros à sua frente. Começou por ler o sumário dos livros. Delimitava consideravelmente o traba­lho. Depois, folheou página por página. Nunca havia precisado fazer um curso de leitura rápida. Já na escola primária havia fica­do claro que ela tinha um talento reservado para poucos. Conse­guia ler uma página enquanto os outros liam uma frase.

Quarenta minutos depois, estava pronta e folheou o inventário novamente. Agora entendia de uma forma completamente diferente o que lia. Comissão de corretagem, recurso líquido e valor de portfólio tinham agora significado para ela. Dessa vez, demorou-se mais para ter uma ideia das ações que possuía. Da metade das empresas, ela nem sequer conhecia o nome, mas decidiu pedir seu relatório anual. Quando leu dois terços da ve­rificação, o olhar dela se fixou em três palavras. Em vez de o des­tinatário ser FON, o nome completo impresso da instituição era: Friends of Nefilim. Nova sentiu a palavra com a língua: Ne-fi-lim. Parecia-lhe familiar, mas ela não conseguia achar na memória onde tinha ouvido isso antes. Talvez sua mãe o tivesse mencio­nado. Com os olhos na palavra, andou lentamente até o escritório e ligou o computador.

A busca inicial no Google deu como resultado uma banda de rock gótico. "Não acredito que minha mãe tenha dado 26 milhões para o seu fã-clube", pensou Nova. "Ela mal sabia como ligar o som." Então Nova tentou pesquisar só em "Nefilim". Clicou em um artigo na Wikipedia e leu:

 

Nefilim são seres ou criaturas mencionados na Bíblia. No livro de Gênesis pode-se ler: "Naquele tempo (e também de­pois), quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos ho­mens e estas lhe davam filhos, os Nefilim habitavam sobre a Terra; estes homens famosos foram os heróis dos tempos antigos". Nefilim ou Nephilim significa "os caídos". A quem realmente se referem esses Nefilim ou "Deus" ou "filhos de Deus" que são mencionados, ninguém realmente sabe. Se­gundo várias obras judaicas não canônicas, o resultado é o cruzamento entre "Deus" e homens.

 

"Que diabos isso tem a ver com a minha mãe?" pensou Nova, e olhou para a tela.

Fortes batidas ecoavam na porta.

Nova entrou em seu quarto para ver quem martelava a por­ta. Era aquela policial, Amanda. "Ela está com uma cara péssima", pensou Nova, e olhou para a mulher que tinha os olhos inchados. O rosto branco de Amanda contrastava fortemente com o resto da população bronzeada e descansada de Estocolmo. Nova ficou preocupada. Não era um bom sinal ser visitada pela polí­cia novamente.

Eu pensei que vocês tivessem terminado o inquérito - dis­se Nova quando abriu.

Aquela investigação está concluída - disse Amanda. - Eu estou aqui por outro caso.

Uma preocupação foi crescendo em volta do estômago de Nova. Mesmo a situação exigindo que ela convidasse Amanda para entrar, não o fez. "Quanto menos conversa, melhor", racioci­nou ela. A mão que segurava a porta começou a tremer.

-              O que está escrito nas costas do seu macacão laranja? -continuou Amanda.

Os pensamentos de Nova procuravam freneticamente uma resposta. Era como se agarrasse o ar, mas não conseguisse pegar. "Negar tudo", concluiu. "Eu nego tudo."

A que macacão laranja você se refere? - respondeu Nova, e fez a expressão facial mais neutra possível.

Aquele que você usou na última vez em que abriu esta porta e eu estava aqui - disse Amanda, impaciente.

Ah, sim, aquele eu joguei fora. Eu usava para fazer faxina.

Eu não perguntei se você o jogou, mas o que estava escrito nas costas dele.

Nada.

Então, não tinha nada escrito nas costas dele?

Exatamente.

Amanda suspirou profundamente e esfregou a sua testa, cansada.

-              Você sabe quem foi Josef Larsson?

O coração de Nova começou a disparar. Ela usou toda a sua força para manter a aparência.

-              Não - ela disse, enquanto pensava: "negar, negar, negar". Amanda pegou um papel do bolso e o desdobrou. Era a matéria em que Nova falava sobre a Vattenfall.

Você reconhece isto? - perguntou Amanda, irritada.

Sim, eu vi isso - admitiu Nova.

Onde você estava no dia 15 de agosto?

Nos escritórios do Greenpeace, na Götagatan.

O dia todo?

Sim.

E à noite?

Sim, estava lá também. Eu tinha o deadline de um relatório.

Alguém pode confirmar isso?

Sim, os meus colegas Arvid e Eddie.

Amanda não conseguia pensar em mais nada que quisesse saber naquele momento, mas notou algo que Nova não tinha fei­to: em nenhum momento ela questionou por que Amanda viera lhe fazer perguntas.

 

Lilian Torstensson entrou, exatamente às sete horas, na sala que compartilhava com suas duas colegas. Era um desafio para ela se sentar ao telefone no mesmo segundo em que a central telefô­nica abria, e esse foi um dos dias em que conseguiu. As outras duas mulheres na sala sorriram e acenaram para ela, mas não deu tempo de trocar qualquer frase de cumprimento antes que todos os três telefones tocassem, ao mesmo tempo. "Hoje é um dia da­queles", suspirou Lilian, pegou o telefone e atendeu.

Oi! A Linnea está aí? - perguntou uma voz clara de meni­na, um pouco hesitante.

Você deve ter ligado errado - disse Lilian -, aqui é o departamento de venda de telefones da SAS.

-              Desculpe - ela ouviu baixo, do outro lado da linha.

A chamada terminou.

Dois segundos depois, o telefone tocou novamente. Dessa vez, ela ouviu uma mulher falando em francês, língua da qual Lilian não entendia uma palavra sequer.

-              Ce n’est pas chez Jean-Pierre?

-I am sorry, I don’t understand French - respondeu Lilian.

-              Qui est à Vappareil?

-              Do you speak English? - perguntou Lilian, em uma nova tentativa de se comunicar, mas recebeu um clique em seu ouvido como recompensa.

Quando olhou para o outro lado da sala, percebeu que suas colegas estavam envolvidas em conversas semelhantes. Em algum lugar mais distante no corredor se ouvia uma versão idiota de The Final Countdown. "Beep-Beep", ecoava o refrão. "Ufa, e são adul­tos que fazem isso...", pensou Lilian.

 

Nova parou e olhou para um monte de rosquinhas empilhadas ao lado do caixa no Café Cinnamon. Um cheiro forte de pão recém-assado rodeava os clientes no pequeno café. Pão em todas as suas formas, escuros e claros, pequenos pães franceses e pães grandes estavam empilhados nas prateleiras. Sobre o balcão, doces aos montes. Tortas de framboesa, biscoitos de chocolate e muffins de mirtilo, à espera de serem comprados e comidos. "Canela ou cardamomo, canela ou cardamomo, canela, cardamomo?", deu tempo de Nova pensar, antes que a mulher atrás do balcão per­guntasse, num cantante finlandês-sueco:

-              O que deseja?

Nova, que até então só tinha a palavra "cardamomo" em mente, respondeu:

-              Uma rosca de cardamomo e um chá Chai.

Depois se sentiu satisfeita com sua resposta. Uma rosca de cardamomo era exatamente o que ela queria. Enquanto o chá era preparado, ela se virou e cumprimentou Arvid e Eddie, que já tinham ocupado dois lugares dos vinte do café. Esse era o ponto de encontro deles: Nova morava na Gamla Stan, Arvid, no bairro Ârsta, e Eddie, no Málarhôjden. O Cinnamon não só ficava no centro, mas também tinha a melhor e a mais barata rosca de Estocolmo.

Nova reparou que Arvid estava de óculos novos. Ela não conseguia explicar o porquê, mas dava a ele uma aparência mais masculina. A escassa barba estava recém-aparada. Nova sentiu que um cheiro bom vinha dele. Sua blusa grande tinha um padrão de vestimenta tribal. Nova olhou-o mais uma vez. Havia algo de diferente em Arvid, mas definitivamente não era nada ruim. Afas­tou os olhos dele e tentou ser irreverente de um modo geral na mesa onde Eddie e Arvid estavam sentados.

Quando já estava com o copo da bebida quente em sua mão, Nova se atirou em um dos sofás presos na parede. Antes de co­meçar, olhou à sua volta. O local estava vazio, exceto por dois homens tatuados sentados em uma mesa distante."Claro", pensou Nova, "Hells Angels, a rede de tatuagem Ho use of Pain fica na mesma casa." Ela tinha certeza de que, se eles ouvissem algo, não iriam fofocar para a polícia.

-              A polícia veio me ver de novo - disse Nova, em voz bai­xa -, e perguntou pelo meu macacão.

Seus amigos se inclinaram para ouvir.

Como eles podem saber alguma coisa sobre o macacão? -perguntou Eddie enquanto cutucava nervosamente uma espinha escondida entre suas sardas.

Eu o estava usando quando abri a porta. A coroa apertou a campainha da porta logo de manhã cedo - defendeu-se Nova -ela me acordou.

Mas como ela poderia saber que eles deviam procurar um macacão? - perguntou Arvid.

Nova balançou os ombros.

Mas o que você disse? - perguntou Eddie.

Eu disse que o joguei fora.

Nova lembrou-se de que realmente jogara o macacão den­tro de um saco de lixo no banheiro, mas não havia jogado o saco. "Tenho de fazer isso assim que chegar em casa", pensou.

-              Devemos estar bem por baixo - constatou Eddie. - Isso não está nada bom.

Sua espinha tinha se tornado uma pequena ferida bem vermelha. E agora ele mexia na sua xícara branca de café.

-              Ela perguntou o que eu estava fazendo naquela noite e eu mencionei vocês. Se ela procurá-los, mantenham a nossa história original. Neguem qualquer outra coisa.

Os dois homens balançaram a cabeça concordando, como resposta.

Arvid, que normalmente costumava ser o responsável pela maior parte da conversa, estava excepcionalmente quieto. Nem ele nem os outros dois falaram uma palavra sequer durante um tempo. Bebericavam suas bebidas quentes e Nova servia a parte externa da rosca para os dois. Em seguida, Arvid foi obrigado a reconhecer o seu erro:

Eu não sabia que a polícia tinha encontrado a pista - dis­se, se desculpando -, então enviei um vírus para a SAS.

Você fez o quê? - questionou Eddie, indignado. Uma cha­ma vermelha começava a florescer sob as sardas.

Eu apenas pensei que nós iríamos continuar como plane­jado na lista e tive uma ideia muito boa, que eu queria testar. Toda a central telefônica deles vai quebrar no pior ataque "denial-of-service".

O que exatamente você fez? - Nova não podia deixar de perguntar, ainda que achasse que ele deveria ter falado com eles antes de começar.

Se ela pudesse escolher, teria posto uma tampa em cima e esquecido a lista. Mas o que está feito está feito, e Arvid sabia o que fazia em matéria de computadores, de modo que ela não es­tava tão preocupada quanto Eddie. "Como a polícia seria capaz de ligar o ataque de vírus com o assassinato do diretor executivo da Vattenfall?" pensou. A SAS teve certamente o que merecia.

Embora a empresa aérea respondesse por "apenas" cerca de 10% das emissões de dióxido de carbono no setor dos transportes na Suécia, estava crescendo rapidamente, Nova costumava ressaltar.

As emissões ocorriam em altitudes elevadas, que afetavam o clima muito mais do que na superfície da Terra. Além disso, a SAS era, dentro da indústria de turismo sueca, provavelmente a em­presa responsável pela maioria das emissões de dióxido de carbo­no. Suas aeronaves eram velhas, e sua estratégia era a de aumentar os voos e, inclusive, na comunicação com o mercado, minimizar o papel da aviação nas alterações climáticas. "Uns merdas", pensou Nova, e escutou com grande interesse sobre como o vírus de celu­lar de Arvid iria atacá-los.

 

Como de costume, Amanda não estava em seu apartamento. Ela evitava, sempre que possível, ficar lá por muito tempo. Isso, du­rante anos, fora alvo de uma série de piadas. Recentemente, sua chefe lhe sugeriu que tivesse sempre um transmissor de GPS em sua bolsa para que fosse possível achá-la quando quisesse. Amanda não entendia essa necessidade de presença física. Ela tinha um telefone celular e quase sempre atendia. Era o suficiente. Agora, em vez disso, estava inclinada sobre o Kent, um dos seus maiores colegas, tanto em termos de tamanho corporal como de inteligência. Olhavam a tela dele. Ela se amaldiçoou por não ter feito uma batida na casa de Nova Barakel antes.

- Diabos - foi a única coisa que saiu de seus lábios quando terminou de ler.

- Que diacho - concordou Kent.

Nova já havia assassinado antes.

Aos quinze anos de idade, ela havia tirado uma vida. A estatística dizia duas coisas: uma é que assassina em série quase não existe; a segunda, é que assassinato reincidente é extrema­mente raro. Mas Nova poderia comprovadamente matar e o ti­nha feito antes.

Além disso, brutalmente.

Era o suficiente para Amanda, por enquanto. Ela não podia tirar Nova Barakel da investigação em primeira instância. O olhar decisivo de Kent dizia a mesma coisa.

A partir de agora, Nova seria colocada sob uma lupa.

 

Não foi difícil para Nova encontrar roupas pretas em seu armário. O problema era encontrar alguma que lhe servisse. Mesmo que não acreditasse que muitos iriam ao funeral de sua mãe, não queria estar malvestida. Apesar de tudo o que tinha acontecido, existia respeito, no limite do medo, por sua mãe, profundamente gravado na sua mente. Nova afastou imediatamente o pensa­mento sobre o crânio da mãe que chegava de mansinho.

Finalmente, escolheu um par de calças retas e pretas e um pulôver, que era muito quente para a época. "Usa-se o que se tem", pensou Nova e pegou uma garrafa com água da torneira para se refrescar.

Antes de sair, olhou-se no espelho. Depois de examinar a sua aparência, tirou os piercings da língua, do nariz e da sobrancelha. Manteve apenas dois dos brincos. "Afinal de contas, é a última vez que vejo a minha mãe", pensou Nova, "e se havia algo de que ela não gostava, eram as minhas jóias." Fez em seguida um lembrete mental para colocar o piercing na língua de novo, logo que vol­tasse. Não era um buraco que ela quisesse assumir. Colocou os dreads em um coque respeitável na nuca. A última coisa que fez foi verificar cuidadosamente para que a cicatriz no pescoço não aparecesse. Por precaução, puxou a blusa para cima do pescoço.

Logo que abriu a porta, se arrependeu da escolha da roupa, mas já era tarde demais para mudar. Os raios de sol queimavam forte e sem piedade. "Vai ser uma merda", constatou, enquanto pe­gava a sua garrafa de água ainda fria. "Espero que a igreja seja fresca."

Levou um minuto para Nova chegar à Catedral Storkyrkan, que ficava a um quarteirão de distância. A escolha dos arranjos fúnebres estava mais para o gosto de Nova do que o que de sua mãe. No testamento não havia nada sobre o funeral em si, en­tão Nova escolheu a sua igreja favorita. Ela não tinha conseguido pensar em outra coisa durante a reunião com o agente funerá­rio. Somente quando tudo estava pronto foi que refletiu sobre sua mãe, que provavelmente não teria escolhido uma igreja, mas um funeral civil. Porém, já era tarde demais para mudar.

Nova entrou na rua chamada Trangsund e viu a torre da Storkyrkan, com o seu sino na frente. As partes mais antigas da igreja eram do tempo de Birger Jarl,[3] mas ela havia sido ampliada e recebido tantos acréscimos que as suas partes originais só exis­tiam no setor norte do muro da torre. Não era nem a magnífica fachada barroca ou sua proximidade com a casa que fazia dessa igreja a favorita de Nova, mas o seu interior gótico. "Se igrejas devem existir, que sejam pelo menos legais", achava ela.

Durante a infância de Nova, a Storkyrkan tivera para ela uma finalidade diferente de apoio religioso. Nos dias em que não queria ir para casa, ela ficava horas na igreja e sonhava, entre pin­turas e esculturas. Sua favorita era o São Jorge e o Dragão, do sé­culo XV. No interior da imagem havia relíquias do próprio São Jorge e de outros dois santos. Foram mandadas pelo próprio papa, no século XV.

Nova costumava sentar-se sobre a laje elevada de um túmu­lo para olhar a estátua.

Às vezes, ela era o cavaleiro com veste dourada, às vezes, o dragão, e, às vezes, com armadura e língua, um ser dividido, mas nunca uma princesa. Esta, com sua ovelha mansa, era apenas algo que ficava no caminho da visão de Nova.

Às vezes, a menina imaginava quem eram as pessoas enterradas no túmulo debaixo dela. Na pedra estava gravado: "Este tú­mulo pertence ao comerciante sr. Anders Rothstein, à querida es­posa de Anders e aos seus herdeiros diretos, 1754". Ela nunca en­tendera a expressão "herdeiro direto". "Imagine terminar a sua vida apenas intitulado herdeiro direto." A própria Nova era agora uma, mas esperava que isso nunca fosse ser escrito em seu túmulo.

Entrou pela entrada principal e caminhou com passos rápi­dos através da sala de armas, onde os homens, antigamente, guardavam seu armamento. Depois, abriu as portas internas, que eram em violeta brilhante, com detalhes de ouro. Acima, brilhavam os sinais em hebraico para a palavra Deus - "JHVH" - sobre um sol.

Em seguida, parou espantada.

A igreja estava cheia de gente.

Todos vestidos de preto em respeito à sua mãe.

A princípio, Nova não reconheceu ninguém entre as numerosas faces. Mas logo começou a discernir alguns. O advogado Nils Vetman sentou-se na extremidade de uma fila. Ela ficou sur­presa ao ver que o médico-legista, Moses Hammar, estava sen­tado em um dos bancos da frente. O que Nova sabia era que ele nunca tinha conhecido Elisabeth Barakel em vida e a ela, Nova; apenas durante alguns minutos, quando ela descrevera como era sua mãe, para a identificação. Um anfitrião da igreja abordou-a com a pergunta:

- Você é a filha?

Nova balançou a cabeça e se deixou ser conduzida ao longo do caminho do altar. Sobre ela levantou-se um candelabro com mais de quatro metros de altura, de latão, que estava na capela-mor sobre um pedestal de mármore. Ela foi conduzida para o primeiro banco. Ali estavam alguns parentes distantes que a olha­vam atentamente. Nunca havia convivido com alguns deles antes, então não tinha a menor vontade de fazê-lo agora; sorriu de volta, mas não disse nada. Eles pareciam satisfeitos com isso.

Quando ia se sentar, viu outra pessoa que ela conhecia. Peter Dagon estava na parte de trás e encostava-se em uma das espessas pilastras de tijolo da igreja. Seu terno impecável tinha um toque inglês. Ele acenou para Nova em reconhecimento. Ela não estava surpresa em vê-lo. "Para receber 26 milhões, deve-se pelo menos aparecer no enterro", pensou. Dessa vez, ela estava decidida a falar com ele.

Nova chegara no último momento. O padre começou a fa­lar. Ela não tomou conhecimento do que ele disse, mas estava fascinada pela grande massa humana que via. Ela torcia o pescoço e se virava na tentativa de obter pistas sobre quem eram eles. Final­mente, desistiu e deixou seu olhar se fixar no caixão. Era feito de carvalho besuntado, com um design completamente liso. "Mamãe com certeza teria achado muito moderno", pensou Nova, "mas é bonito." Tinha custado 13 mil coroas. Nova não havia olhado a etiqueta de preço, mas tinha sido cuidadosa no sentido de que fosse bom para o meio ambiente. Todo o produto era fabricado em conformidade com a ISO 14001[4], garantira o agente funerá­rio. Em cima, uma coroa de rosas cultivadas na região.

A única coisa que a mãe de Nova tinha escrito em seu testamento sobre o funeral era que ela queria ser cremada. Se Nova pudesse ter decidido, sua mãe não desapareceria em uma bolha gigante de dióxido de carbono. Cinquenta quilos de dióxido de carbono são liberados durante uma cremação normal, ela havia lido no diário Svenska Dagbladet. O mais ecológico seria ser en­terrado em uma caixa de papelão sob uma árvore, e, assim, retor­nar ao ciclo. Essa ideia agradava Nova: entrar lentamente em fu­são com a natureza em vez de sofrer um armazenamento, a longo prazo, sob uma cruz, num cemitério. Pensando não só no meio ambiente, mas também na paz de espírito.

O padre tinha acabado de falar. Alguém tocou-a no braço. Ela olhou para cima e percebeu que, como parente mais próximo, teria que iniciar o cortejo do adeus dos participantes da cerimô­nia. Com uma única rosa na mão, foi até o caixão. Nova sabia que teria que dizer adeus no pensamento, mas não conseguia formu­lar nada. Em vez disso, ficou silenciosa e vazia, com o olhar baixo, e depois colocou a rosa no caixão. Vinte minutos depois, Peter Dagon colocou a última flor no alto da montanha de plantas mu­tiladas. Era um cravo branco.

Quando a cerimônia terminou, Nova logo foi conduzida até a porta da igreja para receber os cumprimentos de pêsames. Ela não tinha previsto nenhum café para depois do funeral, porque não acreditava que fosse haver um comparecimento que jus­tificasse isso. Pensando a esse respeito, Nova se sentiu mesquinha, mas logo afastou esse sentimento em favor da concentração em dar atenção a todos que passavam. Por fim, a igreja estava vazia, e Nova, totalmente exausta. Quando agradeceu ao padre, ela per­cebeu que Peter Dagon não havia saído por aquela porta.

Ela murmurou algo sobre um brinco perdido e entrou na igreja para procurar. Mas Peter Dagon estava muito longe dali. A igreja estava completamente vazia, exceto pelo corpo de sua mãe.

 

Nova bebeu grandes goles da água que agora estava morna. Ape­sar de a temperatura na igreja estar suportável, ela estava total­mente suada depois de andar algumas centenas de metros, no sol. O pulôver parecia colado nas costas. Sentia-se mal colocada entre os shorts e t-shirts coloridos dos turistas. No último trecho para casa, aumentou o ritmo para reduzir rapidamente a distância até uma ducha fria e para aumentar a distância do funeral. A multi­dão a tinha deixado perplexa e confusa. Ela queria ir para casa, para a sua solidão, e digerir a experiência.

Um grupo de garotas de batom rosa e bolsas caras passou por Nova. Falavam em coro sobre a festa daquela noite. Até parecia que iam para um baile à fantasia com roupas que combinavam muito mais com a carteira das mães do que com as posses de uma adolescente. Normalmente, Nova as olharia com desprezo. Como podem construir toda a sua vida em cima do consumo, quando há tantas outras coisas mais importantes? Eram estúpidas, mima­das e andavam sempre em bandos. Costumavam ser conhecidas como "as frequentadoras de Stureplan*". Mas agora Nova estava bastante perturbada; mantinha a mão discretamente na garganta e se apressou para casa.

Uma vez do lado de dentro, verificou cuidadosamente se a porta estava trancada. Depois, subiu diretamente a escada e en­trou no banheiro. Quando tirou a blusa, viu o macacão laranja, todo embolado. "Tenho que me livrar dele", pensou Nova, fe­chando o saco de lixo. Para não se esquecer do macacão, ela des­ceu a escada e o colocou na porta da frente.

Voltou rapidamente para o banheiro e entrou no chuveiro. Os jatos frios ao longo das costas foram um alívio. Nova sentiu o suor ser substituído pela água fria e clara. Ao mesmo tempo em que a temperatura do corpo diminuía, um pensamento se avizi­nhava: ela estava só.

Sua mãe fora embora para sempre. Todas as suas raízes haviam sido retiradas. Agora só existia ela e uma casa velha. De seu pai, ela não tinha nenhuma lembrança. "Ele morreu antes de você nascer", a mãe havia contado. Depois, não tinha dito mais nada, apesar de todas as perguntas e orações de Nova.

Quando criança, Nova tinha fantasias sobre ele: era um gerente de circo, policial ou bombeiro. Tudo dependia da brinca­deira ou do sonho. Num momento sentimental, sua mãe tinha revelado que Nova tinha os olhos do pai. Nova às vezes ficava se olhando no espelho imaginando como ele seria, olhava para os seus olhos e tentava imaginar. Por mais que procurasse, não encontrava qualquer fotografia. "Eu queimei para evitar de me lem­brar", sua mãe tinha dito.

Muitas vezes, Nova a tinha amaldiçoado por isso.

Agora, nenhum dos dois existia mais.

Mas quem eram aquelas pessoas que estavam no funeral? Nova tentou perguntar discretamente quando recebeu os cum­primentos, mas teve como resposta: "Nós somos velhos amigos e convivemos muito, numa época." Isso não acrescentava nada. A mãe de Nova quase nunca havia convidado alguém para jantar ou conversado com muitas pessoas, durante a infância de Nova. Ela balançou a cabeça para si mesma e se esticou para pegar o sabo­nete. Nunca tinha sido fácil entender sua mãe.

E, agora que ela estava morta, era um mistério maior ainda.

Nova se sentiu pequena diante de todas as questões importantes. Suas raízes foram cortadas e a única coisa que lhe restou foi uma casa na Gamla Stan. Uma lágrima que se transformou em duas foi encoberta pelos jatos do chuveiro. Ela se abaixou perto da parede e deixou a água correr sobre o seu corpo encolhido.

Sozinha.

 

"Vou jogar isso no lixo", pensou Amanda ao chutar a copiadora que ficava localizada no terceiro andar. O símbolo vermelho que indicava um atolamento de papel piscava desafiadoramente para ela. Era a terceira vez, em cinco minutos.

Em meio à sua raiva, Amanda não percebeu que estava sen­do observada.

Arrancou o inquérito parcialmente copiado e depois o dei­xou cair direto no chão. As folhas escorregaram pelo tapete de plástico. Se o material não fosse confidencial, ela teria saído dali. Mas teve que se abaixar e ficar de quatro para recolher os papéis que estavam em total desordem. Quando se levantou, fingiu que jogava tudo na caixa de documentos que precisam ser queimados para não cair em mãos erradas. "É o que vocês merecem", pensou, e voltou-se para sair da sala.

Mas parou repentinamente, olho no olho com Moses. Ele sorriu divertido. Suas respirações se misturavam. A raiva de Amanda cessou. Sem pronunciar uma palavra, ele procurou no bolso das calças, pegou uma placa de plástico e entregou para Amanda. Um número de três dígitos dourados estava impresso nela. Ela sabia muito bem o que era.

-              Nos vemos às oito horas - disse Moses.

Sem esperar por uma resposta, ele se virou e saiu dali. Amanda ouviu seus passos no corredor.

-              Seu merda autoconfiante - disse ela, depois, em voz alta, com um sorriso satisfeito nos lábios.

 

Passaram-se dois dias antes que Arvid visse algum rastro de seu vírus nos jornais. Foi no Dagens Nyheter, que tinha uma matéria sobre a SAS dizendo que a central telefônica não funcionava como deveria. Os clientes ficaram furiosos por não conseguir ser atendidos. O técnico da SAS alegou que a ligação que o operador de rede fazia puxava chamadas erradas. Não parecia existir à vista nenhuma solução para o problema; a SAS disse que não tinha nada a ver com o dimensionamento de sua central telefônica ou o número de vendedores de telefone. O operador de rede re­jeitava todas as críticas e salientava que dificilmente poderia ser de sua responsabilidade o fato de haver muitas chamadas para a SAS.

À tarde, o Expressen deu isso como uma das suas principais notícias, com reportagem sobre os viajantes ansiosos por não conseguirem entrar cm contato com a SAS. Clientes fiéis, decep­cionados, tinham sido entrevistados no aeroporto. Eles também foram informados de que os voos saíam vazios, e, ao mesmo tem­po, ninguém conseguia comprar passagens.

Enquanto isso, as ações caíam 11% na bolsa de valores.

Uma série de reportagens foi feita durante a noite com assinantes irritados que tinham ido até a SAS, onde operadores de rede insistiam que não poderiam assumir o fato de seus clientes ligarem errado. "Que idiotas", pensou Arvid, "eles têm todos os fatos na frente do nariz, mas não entendem nada."

Só bem mais tarde, a mídia começou a ter ideia da verdadeira causa do que agora era chamado de "affair SAS". O site Aftonbladet.se entrevistou Per Hellqvist, um especialista da empresa fabri­cante de antivírus Symantec, que eles sempre chamavam quando se tratava de segurança de TI. Ele foi o primeiro que mencionou o motivo real. "Um vírus de celular como esse é infelizmente cada vez mais comum", disse a Aftonbladet.se. "Com a evolução dos telefones móveis, vamos ter de nos habituar com eles sendo ata­cados. O autor dessa máscara, obviamente, quer prejudicar a em­presa em questão. Utilizar os telefones móveis de pessoas inocen­tes é realmente muito baixo."

Seguiu-se a recomendação habitual de que os usuários de­vem atualizar o software, ter programas antivírus e não clicar em arquivos desconhecidos. "É claro que eles querem que as pessoas comprem os produtos deles", pensou Arvid. "Quem é baixo aqui é ele mesmo."

 

O tapete vermelho era coberto com folhas de trevos dourados. Os degraus da escadaria eram de mármore desgastado. Amanda se apoiou no corrimão de ferro quando subiu para o segundo andar do Grand Hotel. A primeira vez em que estivera ali, ela se sentira perdida. Como policial, tinha acesso aos lugares mais exclusivos, mas nunca como pessoa física. Até conseguia se habituar com o luxo, mas era mais difícil entender por que ela e Moses tinham que se encontrar em um hotel. Primeiro, ela suspeitava de que ele fosse casado. Suas amigas tinham absoluta certeza. Mas depois, verificando nos arquivos da Receita Federal, descartou isso. Ele era solteiro, não tinha filhos e morava sozinho, em um endereço na Gamla Stan. "Namorada! Ele tem uma namorada", suas amigas haviam dito em coro. Mas Amanda tinha feito uma pergunta di­reta a Moses e recebeu a resposta:

- Não, absolutamente, não. Eu sinto vergonha do meu apartamento. É um apartamento de solteiro inveterado. A mim parece impossível fazer uma faxina ali.

Depois de alguns meses, Amanda havia aceitado que eles só se encontrassem na casa dela ou em um hotel. Ela concordava com essas medidas, contanto que Moses pagasse a conta. E ele nunca era mesquinho com dinheiro. Amanda suspeitava de que a família Hammar fosse rica, mas nunca perguntava. A genero­sidade de Moses era uma prova suficiente.

Amanda chegou ao último degrau da escada. O cansaço era marcante, seu condicionamento físico sumira. Teve de parar e respirar profundamente. Não queria bater na porta do quarto ofegante como um cão São Bernardo no deserto. Seria frustrar a primeira visão que ele teria e reduzir o impacto que ela queria causar com sua nova lingerie.

Moses abriu a porta vestindo um roupão com o emblema do hotel. Um cheiro de homem que acabou de tomar banho chegou às narinas de Amanda. Uma gota descia do seu cabelo es­curo pelo pescoço. Era mais do que Amanda poderia suportar. Sem cumprimentar, ela se aconchegou em seu abraço. Sobre seu ombro, ela viu que as pesadas cortinas brancas estavam fechadas nas janelas. Os encostos dourados das cadeiras exclusivas tinham animais com asas. Um veludo sóbrio, em verde-musgo, cobria os assentos das cadeiras. Era o quarto predileto de Amanda, e Moses sabia disso. Ela fechou os olhos e apreciou a situação. Sentiu que as palmas das mãos de Moses passavam por suas costas.

Ela se desvencilhou de repente. Tirou o roupão dele e admirou seu corpo. Cada músculo parecia ter um propósito e uma utilidade. Apesar de ser um físico amplo, não era excessivo ou exagerado. O corpo de Moses fora feito para lutar. Cada pequeno detalhe era importante no ringue. Era forte, funcional e bonito.

E agora ele estava nu na frente dela.

 

Jan Mattson tinha sido foiçado a interromper antecipadamente uma semana de férias com a esposa e as quatro filhas. Como de costume, tinha passado a maior parte da viagem de volta das Ilhas Maurício conversando com a tripulação da cabine. O restante do tempo, ele havia usado para pensar em como solucionaria o pro­blema do congestionamento da central telefônica. Só perto do aeroporto de Estocolmo, Arlanda, é que ele havia recebido algunsrelatórios e entendido o motivo. O primeiro grande vírus móvel da Suécia, obviamente, afetaria a SAS, a empresa da qual ele era diretor executivo há um ano e meio. Ele havia sido avisado de que seria difícil, mas nunca imaginara o que estava por vir: três aci­dentes com aviões Dash 8Q400 e quatro greves. O resultado eram clientes irritados e uma tremenda pressão negativa.

Dessa vez, aparentemente, não se podia nem ao menos ligar para a empresa, e as únicas vendas tinham de ser feitas através da Internet. Embora o dinheiro não fosse a sua força motriz, Jan Mattson costumava, nos momentos difíceis, se consolar pensando em seu salário anual, de 10 milhões de coroas. Mas agora não tinha tempo para isso, precisava fazer aquilo para o que era pago: resol­ver problemas. Sua primeira atitude era divulgar um novo número que seria comunicado na mídia a partir de uma entrevista coletiva que começaria em uma hora. Estava agora sentado em sua mesa, lendo nos e-mails que os técnicos já tinham resolvido as coisas práticas. Mas, primeiro, iria para casa, tomar o elevador até o apartamento na praça Östermalmstorg, se lavar e colocar um terno limpo. Já sentia falta das praias das Ilhas Maurício.

Antes que tivesse tempo de levantar de sua mesa, ouviu uma batida na porta, que depois foi aberta por um rapaz alto, com cabelo escuro e esticado. Na sua t-shirt preta estava escrito "Undecimber"[5] com letras angulosas. Jan olhou para o intruso e sua roupa inadequada e, em seguida, perguntou:

-Sim?

- Eu sou o rapaz do TI.

Jan se lembrou em seguida do problema que havia discutido com a secretária antes de sair de férias e disse:

Eu entendo. Foi você quem instalou o telefone?

Sim, fui eu, tem algum problema?

Eu sou canhoto.

Sim? - disse o homem na porta franzindo a testa interrogativamente.

Você não recebeu informações sobre isso? Então eu falo com a minha secretária.

O técnico parecia confuso, mas continuou:

Ok, eu não compreendi bem, o que isso tem a ver com o telefone?

Não posso, evidentemente, usar o telefone do lado direito do computador, certo?

Ah, o cabo é curto demais ou o quê?

Eu não tenho idéia. Eu só quero o telefone no lado esquerdo.

O rapaz foi até onde estava Jan, pegou o telefone, colocou-o do lado esquerdo do seu computador e perguntou:

Foi alguma coisa nesse estilo que você pensou?

Obrigado, ficou muito melhor - disse Jan demonstrando que a conversa estava concluída, pegando a pasta e saindo rapidamente da sala.

Fora da casa, o Volvo preto já o esperava.

 

Distraído por muitos pensamentos, Jan Mattson segurou a porta para uma pessoa que o seguiu até a portaria. Jan pegou o elevador até sua casa, mas ninguém o acompanhou. Ouviram-se passos rá­pidos na escadaria. Normalmente, Jan os teria notado e se lem­braria dos tempos em que o seu físico permitia fazer o mesmo. Hoje em dia, ele só treinava o seu cérebro com xadrez. O corpo, tinha deixado pra lá. "Quando eu me aposentar, vai ser diferente", costumava prometer a si mesmo.

Mas agora estava muito preocupado com os problemas no trabalho para pensar em algo diferente. A imprensa precisava ser recebida e acalmada. Ele devia agir com determinação e incutir confiança. Isso era o alfa e o ômega de todos os cursos que fre­quentou sobre "Formação em Gestão de Crise e Comunicação". Além disso, precisaria da imprensa para que todos tivessem aces­so ao novo número. Tudo agora estava sobre os seus ombros.

O elevador parou. Jan Mattson saiu e pegou o chaveiro do bolso da calça. A porta de segurança tinha três fechaduras, que ele destrancava na ordem certa. No meio da porta, inclinou-se para a frente, para não ativar o detector de movimento, e digitou o có­digo do alarme. Antes que pudesse se virar para colocar dentro do apartamento a sua pequena bagagem, foi empurrado para a fren­te, de cabeça, e caiu violentamente no chão do hall.

A porta atrás dele foi fechada com estrondo.

Ele nem teve tempo de ter medo.

 

A sala em que Nils Vetman estava sentado não tinha janelas. Elas tinham sido fechadas havia décadas. Por que, ele não sabia, mas era perfeitamente adequado ao seu objetivo. As paredes do porão eram do século XV, grossas, mas sustentáveis. Elas tinham permanecido assim por 600 anos e estavam preparadas para outros tantos. Pou­cas coisas poderiam penetrar essa alvenaria. Nils Vetman tinha cer­teza de que não estava sendo interceptado ou monitorado. Após uma série de experimentos e testes, ele se sentia seguro. Não gos­tava de surpresas e sempre tivera o cuidado de se assegurar de que estaria livre delas. Segredos são para ser preservados.

Na frente dele havia um Mac com uma ampla tela plana. Ao contrário do computador que tinha em seu escritório, esse era um dos mais rápidos em Estocolmo. Ambos haviam sido adqui­ridos recentemente e atualizados com a maior velocidade do pro­cessador que o chassis permitia. Na tela, ele passava um filme para a frente e para trás. Queria ter certeza de que o filme seria cortado no lugar certo. Em câmera lenta, viu como Nova abriu a sua boca delicada e disse com uma voz que era monstruosamente distorci­da pela velocidade:

- Deixe aqueles diabos ter o que merecem, nós pegaremos o diretor executivo. Os diretores são os piores.

Poucos segundos depois, cortou o filme. Mais informação do que isso não seria necessário.

Enquanto ele embalava o DVD com as mãos enluvadas, se perguntou o que estava fazendo. "Estamos assim tão desespera­dos que temos de recorrer a este tipo de atitude?" Sim, foi a res­posta que encontrou, agora não há escolha. Todos os meios são admissíveis.

"Não que já não houvesse retrocedido para coisas semelhantes", ele pensou e sorriu para si mesmo, "e nem para coisa muito pior." Em seguida, escreveu o nome do inspetor de polícia no envelope com letras bem desenhadas.

 

A única coisa em que Amanda conseguia pensar era mozarela; quei­jo quente, pegajoso, derramando-se do pão branco, e tomate. Tinha passado por cinco restaurantes sem conseguir o que queria, mas es­perava que a placa bem vermelha com a propaganda de expresso não só prometesse um bom café, mas também sanduíches grelhados. Vi­rou no bar Expresso, na rua Hornsgatan. "Bingo", pensou, quando viu a vitrine não só contendo diversas variações defoccacia, mas tam­bém massas frescas em forma de tortelloni em molho de sálvia, nho­que recheado com cogumelos selvagens e rigatoni com filé de frango.

"Não é tão estranho que eu esteja com fome", pensou, "eu mal tenho comido há vários dias." Amanda podia literalmente sentir a saliva fluir da boca. O sinal do celular a fez tomar cons­ciência de que o resto do mundo existia.

Em busca de comida, havia esquecido que estava de plantão. Fez rapidamente uma atualização sobre os últimos crimes violentos na capital: Jan Mattson, diretor executivo da SAS, fora encontrado assassinado. Ele não tinha aparecido na entrevista co­letiva aonde iria na parte da manhã. Quando o seu cada vez mais desesperado chefe de marketing tentou localizá-lo, soube que, na­quela manhã, ele tinha descido de um avião em Arlanda e bus­cado alguns papéis em seu escritório. Em seguida, respondera ao telefone várias vezes no trajeto do seu apartamento até a praça Östermalmstorg. E depois tinha desaparecido.

O diretor de marketing conseguira encontrar sua esposa preocupada nas Ilhas Maurício e soube que um vizinho tinha o código de alarme e as chaves do apartamento. A porta estava tran­cada, mas o alarme, desligado.

Ali encontraram Jan Mattson.

Como disse o diretor de marketing, o corpo de Jan "não es­tava inteiro". Ele não conseguiu relatar nada mais do que isso an­tes de desmoronar. Um carro com dois policiais já estava a caminho do lugar. "Dois crimes dessa dimensão em uma semana não podem ser por acaso", Amanda pensou.

Em circunstâncias normais, ela teria se virado e saído, mas hoje simplesmente não dava. Perguntou à balconista:

- Quanto tempo leva para aquecer uma foccacia com mozarela e presunto de Parma?

 

A impressionante fachada do edifício se erguia acima da cabeça de Nova, quando ela subia a escadaria para a biblioteca da cidade. Continuou passando pelas portas giratórias e seguiu adiante, ao longo da pomposa escadaria de mármore. Um andar após outro de estantes de livros. Finalmente, chegou à rotunda, o co­ração do prédio. As paredes circulares estavam cobertas de livros, mas no meio da sala havia apenas mesas com computadores e balcões de informação. Um fenômeno antigo que está entrando no novo milênio; a informação em todas as suas formas.

Dessa vez, Nova não fora usar os computadores, mas tentar conseguir ajuda para se orientar entre os livros e papéis. Durante o curso "Ciência e pesquisa ética" na universidade, tinha descoberto que era possível pedir ajuda a um bibliotecário durante meia hora, sem custo. Agora, tinha decidido que ia fazer isso. Um dia antes, havia enviado um e-mail perguntando tudo sobre Nefilim.

O bibliotecário, um homem com seus cinquenta anos, com uma barba grande, esperava na copiadora, que ficava debaixo da escadaria de madeira. Nova seguia os degraus da escada olhando para cima e ao longo das paredes. Havia galerias no sótão e estan­tes cheias de livros. Ela voltou o olhar e se apresentou. O biblio­tecário olhou para ela, pediu para que ela o acompanhasse e lhe mostrou uma sala.

Era pequena e abarrotada. Uma mesa com duas cadeiras de plástico tomava grande parte do espaço. Quando o bibliotecário pegou um carrinho de livros, o espaço ficou cheio. Ninguém po­dia se mexer sem quase tocar no bibliotecário ou em Nova. Antes que ela tivesse tempo de se sentar, o homem barbudo começou, feliz, a informá-la sobre o que havia encontrado enquanto empi­lhava à sua frente um livro depois do outro. Ela mal teve tempo de registrar tudo o que ele dizia: tinha sido difícil encontrar in­formações sobre Nefilim, mas isso era tudo o que a biblioteca po­dia oferecer. Era claramente visível que ele estava satisfeito com o seu esforço.

Após ter terminado a apresentação dos vários livros, o bi­bliotecário deixou-a sozinha. Ela respirou fundo e retirou o livro que estava em cima, no topo da pilha. Era uma grande enciclo­pédia, a Encyclopaedia Judaica, volume 12. Nova folheou-a até a palavra Nefilim e leu:

 

Em Gênesis 6:1-2 é relatado que os "filhos de Deus", ou seja, seres divinos ou angelicais, tomaram esposas mortais. Foi então, e mais tarde também, que o Nefilim apareceu sobre a Terra. Nos escritos apócrifos no período do Segundo Tem­plo, essa narrativa fragmentária foi elaborada e reinterpre­tada. Os anjos foram, então, descritos como rebeldes contra Deus, atraídos pelos encantos das mulheres, que "caíram" e introduziram todo tipo de pecado na Terra. Seus descen­dentes gigantes eram maus e violentos; o Dilúvio foi ocasio­nado por seus pecados.

 

Nova leu o texto de novo, a fim de compreendê-lo melhor. A descendência dos anjos caídos fora a causa do dilúvio, resumiu para si mesma. Eles eram os Nefilins. "Não, isso parece completa­mente sem sentido", pensou Nova. "Embora seja estúpido batizar uma instituição de caridade com um nome que poderia estar re­lacionado com os anjos caídos, provavelmente é apenas isso." Mas alguma coisa mais vinha à memória de Nova. Onde havia lido so­bre o dilúvio, recentemente? O que era tão familiar? Mastigou um pouco a caneta que tinha na mão até que voltou a si. A caneta era da biblioteca municipal e mostrava sinais de ter sido mastigada antes. Com nojo, Nova colocou-a a uma distância adequada para não repetir o erro.

A pequena pausa fez com que o cérebro de Nova fizesse a ligação certa: na parede de sua casa estava pendurada uma cita­ção da Bíblia sobre o dilúvio. "Não pode ser coincidência", pensou Nova, "mas que diabos isso significa?"

 

A primeira coisa que Amanda viu quando entrou no apartamento foi uma pilha de folhetos. Colocou ura par de luvas e folheou-os. Eles iam se mudar e vender o apartamento de oito quartos, em cujo hall ela estava agora, constatou. O preço não fora estipulado. Seus olhos varreram a planta do apartamento e ela ficou presa em uma palavra: "Herrum" pensou Amanda, "que é um herrum?" Em sua mente surgiu a imagem de Churchill e de outros velhos semelhantes que fumavam charuto nas poltronas de couro preto, na frente de uma lareira. "Onde será que fica o banheiro femi­nino?" Seu pensamento seguia, enquanto passava os olhos pela planta. "Deve ser a cozinha", afirmou.

Amanda colocou os folhetos no lugar e olhou em volta. Um vaso com flores frescas estava diante do espelho do hall. Logo ha­veria uma visita ao apartamento, ou então acontecera alguma havia pouco tempo, constatou. Como a família estava de férias, outra pessoa deve tê-las colocado lá. "Entrar em contato com o corretor"; anotou Amanda. Na parede estava pendurada uma foto de boas-vindas da família, na qual o próprio Jan Mattson exibia um braço protetor em volta da sua pequena mulher. Na frente deles estavam sentadas quatro meninas, com idades entre cinco e doze anos. "As crianças que, em breve, vão saber que seu pai foi assassinado", pensou Amanda. Era sempre mais difícil. Ela evi­tava crianças na medida do possível, no caso de estarem em suas investigações. Ao mesmo tempo em que sentia muito mais por elas do que pelos adultos atingidos, Amanda não tinha capaci­dade para se comunicar com crianças. Pelo fato de não ter irmãos nem filhos, nunca havia aprendido a falar com elas. Passava isso de bom grado para o seu colega Kent, que, por alguma razão, parecia ser aceito por crianças de todas as idades.

Nisso, Amanda viu as marcas no chão.

Eram traços vermelhos que desapareciam no interior do apartamento. Um par de óculos de armação quadrada estava ao lado da porta de entrada, com uma das lentes rachada. Amanda se sentiu desconfortável e perguntou-se o que o diretor de marke­ting, que estava sentado, chorando, em um apartamento vizinho, queria dizer com a vítima não estava "inteira". Ela queria pedir que um dos policiais que estava lá fora lhe fizesse companhia, mas não era possível. Nem a sua própria imagem nem a visão dos outros sobre ela ficariam bem com isso. Respirou fundo e seguiu as pis­tas. Elas a conduziam através da sala, que no folheto era chamada de sala de jantar; uma grande mesa de carvalho maciço cercada por oito cadeiras com estofamento de couro; na parede estava pen­durado um quadro onde vários navios fortemente armados es­tavam a caminho de uma batalha no mar agitado. Um aparador com uma sopeira vazia de prata ficava em um canto.

Os traços vermelhos faziam como que um bordado ao redor da mesa e saíam pela porta, no lado oposto. Amanda seguiu-os e deu um cauteloso passo para a sala, que era denominada "herrum". De fato, havia ali poltronas estofadas ao redor de uma lareira feita de tijolos. Mas não havia homens com charutos, sentados, fuman­do. Por outro lado, o dono do apartamento estava nu, pendurado por uma corda no teto. Demorou um pouco para Amanda assimi­lar, justamente, que se tratava de um enforcamento. Ela tinha, em várias ocasiões, se deparado com pessoas que, com ou sem ajuda, tinham sido enforcadas, mas esse era diferente: um enorme para­fuso com uma argola estava encravado no crânio e preso a uma corda. Uma faca estava enfiada profundamente no olho esquerdo, e o olho direito olhava fixamente para Amanda. O estômago do homem estava aberto por um corte, e os intestinos estavam pen­durados, formando um bolo no chão. Junto às bordas das feridas aparecia uma espessa camada de gordura avermelhada.

Embora a cena que se apresentava na frente dela fosse completamente diferente da que Amanda testemunhara com o diretor executivo da Vattenfall, tinha certeza de que a mesma pessoa tinha feito a execução. Era uma assinatura de crueldade e humilhação incomuns. Moses tinha dito na última vez algo sobre a cena do cri­me parecer uma obra de arte, agora Amanda lhe dava razão. To­dos os detalhes eram diferentes, mas, no geral, a mesma coisa. Tal como Picasso ou Monet, o estilo do criminoso era significativo; tudo se resumia em profanar o corpo e lidar com ele sem respeito.

"A palavra-chave é profanar", pensou Amanda novamente.

Então, ouviu um assobio atrás dela.

Amanda estremeceu, mas conseguiu se controlar e se vi­rou calmamente. Ali estava Moses. Depois que o susto diminuiu, Amanda se sentiu significativamente mais aliviada pelo fato de não precisar estar a sós com o cadáver. Especialmente por ter sido Moses quem aparecera.

-              Caramba - disse ele -, o que temos no pescoço, afinal?

Ele parecia quase impressionado.

-              Eu não sei - respondeu Amanda -, mas temos de encon­trar esse maldito para que isso não torne a acontecer.

-              Está certa de que é a mesma pessoa?

-              Sim, embora não tenha nenhuma prova disso. Ainda. Espero que você ou os técnicos encontrem algo.

Moses balançou a cabeça seriamente. Depois examinou a cena macabra.

-              Ei, há algo familiar nisso aqui - ele disse.

-              Sim, com certeza, se parece com o apartamento de Josef Larsson, de alguma forma.

Eu não queria dizer isso. Eu vi isto aqui em outro lugar.

Em outra cena de crime?

Não, não acho que seja isso. É outra coisa.

Moses aproximou-se cautelosamente do cadáver. Lenta­mente, andou em torno do corpo pendurado, sem tocá-lo. Quan­do chegou à metade do caminho, declarou:

-              Você está certa. É o mesmo assassino.

Amanda seguiu os passos de Moses e percebeu o que ele ti­nha visto. Nas costas de Jan Mattson estava gravado "Gênesis 6:4". Era a mesma referência bíblica encontrada na cena do crime do diretor executivo da Vattenfall. O sangue das feridas começava a se solidificar.

 

Depois que Amanda circulou por dez minutos, finalmente um motorista decidiu deixar sua preciosa vaga na rua Folkskolegatan. Ela ajeitou rapidamente o carro no espaço apertado e desligou o motor. Antes que saísse do Golf, olhou com expectativa para o visor do celular. O relógio mostrava oito, mas ninguém tinha ligado.

O cheiro do restaurante indiano chegou às suas narinas. Ela fez uma careta e começou a respirar pela boca; o mau cheiro do óleo de fritura velho tinha se misturado ao cheiro dos fortes temperos.

Quando já estava a uma distância segura e respirava o ar fresco do verão, Amanda constatou que precisava jantar. Não ti­nha sensação de fome, mas a lógica vencia, e Amanda mudou a direção: em vez de ir para casa, foi para uma pizzaria. O calor dos fornos vinha em sua direção. Estava quente lá fora, mas o interior do restaurante fumegava. O primeiro pensamento de Amanda foi de fugir, mas ela forçou-se a ficar. O cardápio era o de sempre - pizzas, kebabs e saladas enfileiradas. De costume, ela pedia uma salada de camarão para levar. Hoje, seus olhos estavam nas pizzas do cardápio.

-              Ciao, bella, o que deseja? - perguntou o homem do caixa.

Depois de onze anos vivendo no bairro, Amanda sabia que os donos do lugar eram iugoslavos. "Por que eles fingem ser italia­nos?", pensou. "Será que se vende pizza melhor?" Em voz alta, disse:

-              Quattro formaggio.

Quando percebeu o que havia pedido, era tarde demais para se arrepender; a pizza com quatro diferentes queijos italianos fora paga e o pizzaiolo já tinha começado a bater a massa. Em vez disso, ela verificou no celular que não havia nenhuma cha­mada perdida. Ninguém havia ligado. A expectativa começou a se transformar em irritação. "Eu ligo mais tarde", Moses tinha dito. Amanda entendera com isso que iriam se ver hoje à noite. E agora eram oito e meia.

No caminho, subindo a escada, o seu celular começou a api­tar o refrão do sucesso dos anos 1980 de Cindy Lauper, Girls just want to have fun. Com a caixa de pizza equilibrada sobre uma mão, pegou rápido o telefone celular do bolso do blazer. Aman­da teve dificuldade para esconder a sua decepção quando soube quem estava na outra extremidade. Era Kent, que contava que ti­nha uma pasta na escrivaninha com tudo o que era importante para anotar sobre o apartamento de Jan Mattson. Ao fundo havia uma criança gritando.

- Droga, a baixinha acordou. Preciso ir - disse ele rapidamente, e desligou.

Amanda olhou para o telefone na sua mão. Depois pensou: "Que diabos, nós somos adultos e estivemos realmente juntos por muitos anos." Então, ela enviou uma tentativa de mensagem de texto para Moses que continha apenas uma palavra: "Abraço." Embora olhasse para ele, o celular não mostrava nenhum relató­rio de entrega. O portão se fechou abaixo dela, e Amanda olhou sobre a grade da escada. O movimento foi suficiente para balançar a caixa de pizza suspensa, que deu um volta no ar e desceu rapida­mente escada abaixo. Finalmente, foi parada por uma porta. "Está de cabeça para baixo", constatou Amanda, e suspirou. Olhou para o celular novamente. Ainda nenhum relatório de entrega. Pegou a caixa de pizza e apertou-a entre o braço e o corpo. Nos últimos passos até o apartamento, ela bateu os pés com força, irritada.

Amanda foi despertada pelo silêncio e pelo vazio. Em seu traves­seiro, o celular. O relógio mostrava 3h05min. Ninguém tinha li­gado, nenhuma mensagem de texto tinha chegado. No chão, uma caixa de pizza aberta. Pedaços gordurosos de queijo endurecido ainda estavam presos na tampa.

 

Nova foi lentamente conduzida para a escuridão do outono pela escada rolante do metrô. Estava gelado. Ela estremeceu e puxou o casaco firmemente em torno de si. Sem olhar sobre o ombro, sabia que estava sendo seguida. A escada subia lentamente. Nova começou a andar pela escada. Depois, aumentou o ritmo. As esca­das pareciam intermináveis, mas finalmente ela estava lá em cima. Ninguém estava sentado perto da roleta. Não havia ninguém a quem ela pudesse pedir ajuda.

O homem se aproximou.

Nova correu.

Deixou cair a bolsa que arrastava e correu. O pânico percorria todo o seu corpo. O medo explodia.

A noite estava escura. As casas, trancadas e apagadas. O grito de Nova por ajuda era afogado pela chuva torrencial que caía. As folhas molhadas do outono a fizeram escorregar. Ela caiu e arra­nhou os joelhos e as palmas das mãos.

Ele estava logo atrás.

Nova não conseguia se levantar, só se arrastar de quatro. Então, ele chegou sobre ela e começou a puxar as suas rou­pas. Ela sentiu um estilete contra seu pescoço e se contraiu. - Quieta, prostituta - ele gritou no ouvido de Nova.

Ela fez como ele disse. Sem protestar, deixou-se virar e olhou fixamente para um par de olhos frios e negros. Como uma presa, ficou paralisada pelo seu olhar. O rosto dele estava distorcido por uma meia que apertava o nariz e escondia suas feições. Isso fazia com que seu exterior fosse tão deformado como o seu interior. Ele puxava suas roupas. O seu corpo pesado a prendia ao chão. Suas costas ficaram ensopadas pela poça d'água onde estava deitada. O frio se espalhava até a alma.

As mãos dele apertavam os seios nus dela e fizeram uma marca que seria visível durante semanas. Então algo profundo despertou dentro de Nova. Subia perto da região do estômago até atravessar a garganta.

- Seu demônio - gritou Nova, tão alto que o homem parou de repente.

Ela aproveitou o segundo de surpresa e colocou dois dedos em seus olhos com toda força. Era como se alguém assumisse seu corpo, enquanto ela observava. O tempo passava devagar e ela percebia todos os detalhes. O homem gritava de dor e pressionava mais forte a faca contra o pescoço de Nova. Cortou um pouco da pele e entrou um pouco na garganta. Em seguida, levou as mãos aos olhos e soltou-a, tomado pela sua própria dor.

Nova não estava satisfeita em apenas fugir.

Em vez disso, ela se levantou com a mão na ferida do pesco­ço. O sangue descia até suas roupas. A raiva tinha apenas recebido combustível. O homem estava agachado com as mãos na cabeça. O primeiro chute acertou a mandíbula, o outro, o estômago. Ago­ra ele estava deitado. Isso não fez com que Nova parasse. Chute após chute desciam sobre o corpo do homem. Ela batia com raiva e não parou até que ela própria oscilou e caiu.

A queda parecia interminável.

O asfalto se aproximava em alta velocidade.

Nova não conseguia parar com as mãos.

Quando atingiu o chão, ela abriu os olhos e os fixou no teto de seu quarto. Sua respiração ainda estava rápida. Tinha sido um pesadelo. Um de uma série. No começo, tinha acreditado que iriam parar depois de um tempo. O tempo cura todas as feridas, costumavam dizer, mas nesse caso estavam errados. Embora Nova tivesse sido capaz de sair do hospital andando, dois dias depois, sob protestos e espanto dos médicos. Mas as cicatrizes psicológi­cas não estavam curadas. Não era a tentativa de estupro em si que pesava para Nova, mas saber que ela tinha assassinado um homem. O tribunal distrital chegou à conclusão de que fora em autodefesa, quando absolveu a menina de quinze anos de idade que estava em pé na frente deles. Mas Nova sabia que ela poderia ter terminado muito mais cedo.

Ela havia assassinado um homem. Embora ele fizesse parte da escória da Terra, não era fácil viver sabendo disso.

Passaram-se duas horas antes que conseguisse adormecer de novo.

 

Amanda estava sentada em sua escrivaninha, na rua Bergsgatan, 37. A sala tinha o tom amarelado típico da década de 1970. Era pequena e cúbica, com teto baixo. Por mais que tivesse tentado, não havia conseguido torná-la aconchegante. O quadro com os gráficos que tinha trazido com ela parecia estar fora de lugar. A colcha vermelha que fora jogada sobre o sofá de visitante fazia a cadeira parecer dura e desconfortável, em contraste com o tecido macio. O retrato da família de sua prima salientava que ela havia trabalhado demais e não tinha uma vida familiar.

Em suma, Amanda não gostava de seu escritório, embora trabalhasse sessenta horas por semana. Mas tinha desistido há mui­to tempo e descobriu que faria parte de seu trabalho permanecer nesse formigueiro que era a delegacia de polícia em Kungsholmen. Amanda não tinha se tornado policial por causa da arquitetura. Por outro lado, não ficava lá mais do que precisava.

Na escrivaninha estavam relatórios e fotografias das duas cenas dos crimes. Tinha examinado tudo cuidadosamente. As únicas coisas que faltavam eram algumas das respostas do labora­tório, do Laboratório Nacional de Medicina Legal, e os protocolos de necropsia. Moses estava até o pescoço de trabalho.

Agora, ela estava sentada, pensando sobre o que lera. Eles tinham conseguido o DNA da primeira cena do crime através do vômito. Além disso, não haviam encontrado cabelo algum ou impressão digital que não pudessem ser explicados. A família toda de Jan Mattson tinha estado nas Ilhas Maurício e a esposa de J. F. Larsson estava tão morta como ele. "Será que poderia ser a esposa o verdadeiro alvo?", Amanda pensou. "Provavelmente não", continuou ela pensando, "mas não se deve descartar to­talmente. Talvez fosse uma espécie de triângulo dramático. Mas por que essas referências bíblicas? E por que só existiam palavras de ordem ambiental na casa de J. F. Larsson e não na de Jan Mattson? Será que Nova realmente tem algo a ver com tudo isso?"

Amanda não estava totalmente certa de que Nova fosse uma assassina em série. Que ela fora capaz de matar era óbvio, mas o fizera em autodefesa. Amanda tinha aprendido a ver através das atitudes e dos piercings. Mas a jovem escondia algo e ela tinha um macacão, disso Amanda tinha absoluta certeza. Nova não parecia disposta a ajudar, e Amanda não tinha como se aproximar dela melhor. Com certeza, não conseguiria permissão para um man­dato de busca domiciliar por causa de um macacão laranja e por­que, quatro anos atrás, a moça havia usado força excessiva. Nova se defendera de um estuprador, o que era compreensível. Nos ta­bloides, ela até fora apontada como um exemplo, embora usas­sem, então, um nome fictício. Seu verdadeiro nome nunca vazara para o público.

"Preciso ligar para Klas Granquist, o policial que cuidou do caso da tentativa de estupro", decidiu Amanda. Pegou o telefone e discou o número, mas foi logo transferida para uma secretária eletrônica. Amanda suspirou e deixou uma mensagem.

"O que devo fazer agora?" pensou e folheou as pilhas em sua escrivaninha. Foi então que viu uma anotação sobre a batida na porta e a esposa do vizinho de J. F. Larsson ter ouvido algo. Isto é, se Amanda tinha entendido certo, seu poodle tinha ouvido al­guma coisa. "Procurar num palheiro", pensou Amanda, "mas vou ter que ir e interrogar o poodle, então."

Quando saiu, passou pela caixa de correio. Havia uma carta grossa que ela pegou e examinou. Era feita de um papel marrom, ecológico, e não tinha remetente ou logotipo. O seu nome e en­dereço estavam muito bem escritos à mão. Amanda abriu o enve­lope cuidadosamente. Cartas anônimas a policiais tendiam a ter conteúdos não desejados. Nessa havia apenas uma coisa dentro, um DVD.

Amanda andou poucos passos até o computador do corre­dor, que não estava conectado à sua rede e que não era usado para navegar na Internet. Ela achava que as regras de segurança eram demasiadamente rígidas na polícia. Ele nem sequer era ligado à Internet, mas tinha, apesar de tudo, programas antivírus. Contu­do, ela seguiu as regras, porque teria que aguentar chateação do departamento de segurança se fosse pega.

Quando colocou o DVD no computador, o Windows Me­dia Player iniciou automaticamente. Uma imagem instável foi exibida. Amanda soube, imediatamente, que era gravação de uma câmera de vigilância. Tinha visto muitas nos últimos dias. Por outro lado, ficou mais surpresa com o que aparecia. Era Nova, com dois homens da mesma idade, um, sardento e ruivo, o outro, com uma barba rala. Eles estavam sentados no que pa­recia uma biblioteca particular e bebiam chá. O vídeo tinha ape­nas cinco minutos de duração, mas foram suficientes para transmitir a sua mensagem.

Nós pegaremos a Vattenfall primeiro - disse o barbudo.

Isso não é imitar o World Wildlife Fund demais? - questionou o ruivo.

Deixe aqueles diabos terem o que merecem - disse Nova. - Nós pegaremos o diretor executivo. Os diretores são os piores.

Depois pegaremos a SAS. Eles, sem dúvida, são os piores no ramo de turismo - continuou o barbudo.

Não teremos nenhum problema em conseguir juntar trin­ta para a lista - riu Nova.

A discussão continuou por um tempo, mas Amanda tinha ouvido o suficiente. Foi para a sua sala e ligou para o procurador. Então, olhou para as anotações de sua conversa com Nova:

"Arvid e Eddie, Greenpeace", leu em voz alta para si mesma.

"Então, no fim das contas, foi Nova quem fez isso", pensou Amanda.

 

Arvid estava sentado, sonhando, e olhou um pequeno golfinho de madeira polido. Os pensamentos iam até outra escultura, a ori­ginal, que tinha mais de um metro de comprimento e apontava sobre a proa do Rainbow Warrior II. "Amanhã vou me inscrever na lista de voluntários", pensou. "Preciso ir de novo."

Um carro parou cantando pneus no lado de fora do prédio, sete andares abaixo. Arvid levantou-se do computador e foi até a janela. Passaram-se alguns segundos até que entendesse o que es­tava vendo. A casa estava cercada por carros de polícia. Arvid se jogou de volta para a sala e em frente ao computador. Com alguns toques rápidos no teclado, formatou todo o disco rígido.

Depois, pegou o celular e ligou para Nova.

Ouviu dois toques na campainha.

Bateram meio abafado na porta de Arvid.

Mais um toque, e alguém gritou que ele deveria abrir.

"Responda, responda, responda", pensou Arvid.

- A polícia está aqui - sussurrou Arvid, e desligou.

Ele andou calmamente até a porta e a abriu.

 

Nova correu para a janela tão logo a chamada foi desligada com um clique. Na frente da casa dela estavam parados dois carros de polícia e um Golf vermelho. A rua, que tinha largura suficiente para apenas um carro, ficara totalmente ocupada, e era impossível o tráfego passar. Pela câmera de vigilância, viu Amanda ir até a porta e bater.

Foram necessários cinco segundos para Nova decidir.

Depois, foi tudo muito rápido.

Ela desceu correndo as escadas e gritou:

- Estou indo.

Mas, em vez de abrir a porta, pegou seu tênis usado e a mochila preta no hall e deu meia-volta. Quando subiu os degraus e atravessou o quarto, viu na tela do monitor que um chaveiro estava a caminho da sua porta. Nova não ficou para ver o que aconteceria, continuou até a porta que levava ao sótão. Puxou a escada para baixo e subiu rapidamente.

Percebeu que a polícia tinha conseguido entrar e começado a procurá-la.

A porta do sótão bateu novamente atrás dela.

Nova soltou um palavrão silenciosamente.

Em seguida, continuou sua fuga.

Calçou o tênis, pendurou a mochila no ombro e subiu pela estante, que rangia sob o seu peso. Sua camiseta preta e a calça jeans ficaram cinza, por causa da poeira. Nova se pressionava contra a estante de livros para que não tombasse. Embora fosse magra, pesava significativamente mais do que da última vez em que subira lá, quando tinha doze anos. Derrubou dois livros, que caíram no chão com estrondo. Mas isso era irrelevante. A polícia já havia descoberto que ela estava no sótão. Eles abriram a porta.

Ao mesmo tempo em que o primeiro policial se levantava no chão do sótão, Nova saía pela porta que dava para o telha­do. Ouviu o apelo para permanecer. Mas não o fez. Em vez disso, olhou para fora com os olhos semicerrados. O sótão era escuro e triste. Agora, ela estava sob o sol do ardente verão sueco, em cima dos telhados. Bem próximo, via o campanário da Storkyrkan, er­guido no meio de telhados e chaminés. Sua parte superior de co­bre verde parecia mais perto do que nunca e estava sobre a cabeça de Nova.

Havia muito tempo que ela sabia que tinha uma escada de incêndio que dava para o prédio vizinho. De quatro, ela se arras­tou o mais rápido que podia. "Estou parecendo o Gollum",[6] teve tempo para pensar antes de chegar.

A porta do telhado do prédio vizinho estava trancada.

Nova soltou um palavrão novamente. Indecisa, olhou à sua volta.

Uma cabeça já aparecia na porta de onde ela viera.

Nova puxou a mochila, remexeu dentro dela e encontrou uma lanterna de metal. Depois de quatro batidas, a janela se estilhaçou. Ela se jogou para dentro. No caminho, fez uns cortes nos braços e nas pernas. Agora estava de quatro em uma escadaria. A dor era intensa, mas controlável. Ela não tinha tempo para sentir; desceu apressadamente.

Quando chegou ao térreo, seu primeiro pensamento foi o de correr para a rua, mas parou no último segundo. Os carros de polícia estavam lá, esperando. Ela nem acreditou que havia tido tanta sorte, todos os policiais estavam dentro do prédio.

Passos desciam a escadaria.

Nova não tinha escolha.

Ela continuou descendo.

A única porta que não estava fechada, quando desceu para o porão, era a da lavanderia. Nova entrou apressada. Olhou em volta. O quarto era pequeno e úmido. Duas máquinas velhas de lavar roupa, grandes, ficavam ao longo de uma parede, e um mo­derno armário para secar roupas, na outra parede. Havia apenas uma porta. No outro lado, tinha duas pequenas janelas no nível do chão, em frente ao pátio. Mas não abriam.

Nova bateu com raiva em uma delas com a palma da mão. Sem resultado.

Pegou a lanterna novamente. Também esse vidro quebrou, mas cacos afiados ficaram presos na moldura da janela. Não hou­ve tempo para removê-los. Ouviu-se um grito na escadaria. Os perseguidores de Nova perceberam que ela não havia saído pela portaria e tiveram de procurar por ela no prédio.

Seus passos estavam se aproximando da lavanderia.

Logo a descobririam.

 

A primeira coisa que Amanda viu quando o chaveiro acabou seu trabalho foi o saco no hall. Dentro desse saco havia um pe­daço de tecido laranja. "Bingo", pensou Amanda. Ouviu-se uma queda no andar de cima. "O que aquela garota está fazendo?" perguntou a si mesma. Normalmente, ela retomaria a busca, mas ainda não estava se sentindo bem. Algo estava errado com o seu corpo. A infecção no estômago se recusava a deixá-la. Acenou para os dois policiais que estavam com ela para re­tomar a busca de Nova. "Como pode ser tão difícil", pensou Amanda, "pegar uma garota de dezenove anos num prédio?" Então se lembrou da aparência das vítimas e gritou na direção dos policiais:

- Tenham cuidado, ela é mais perigosa do que parece.

Amanda colocou um par de luvas de plástico. Depois pegou o saco e puxou o tecido. Era um macacão com "Televerket" impresso nas costas. "Então, o rapaz que trabalhava no Seven-Eleven tinha razão", pensou Amanda. Era "Televerket" e não "Telia". Ela pôs o macacão de volta no saco e o colocou na porta.

- Os técnicos irão verificar isso ela disse em voz alta para os policiais restantes e continuou entrando na casa.

O monte de entulho no chão ainda estava lá, desde a última visita de Amanda. De início, pensou em dar dois passos largos sobre os pedaços de madeira, cacos de vidro e papel. Mas algo chamou a sua atenção. Abaixou-se e olhou. Tinham sido quadros um dia, ela pensou. Os pedaços de madeira pareciam molduras e o papel estava cheio de imagens. Era um desses que tinha chama­do a sua atenção: um pequeno pedaço arrancado de uma imagem maior. Mas foi o suficiente para que Amanda entendesse que es­tava na casa certa.

A imagem mostrava a cabeça de um homem careca.

Em volta do pescoço passava um laço.

Em um dos olhos havia uma faca fincada.

Saindo do crânio, um parafuso gigante com uma argola.

O destino de Jan Mattson era idêntico ao desse homem.

"Diabos, como isso é doentio", pensou Amanda.

 

O sangue jorrava do corte de Nova. O pior era o corte profundo na coxa. Ela tinha sido forçada a sair pela janela. O preço tinha sido alto, mas ainda não estava presa. Os fragmentos de vidro atrasaram a polícia. Ela ouviu quando eles os arrancaram e jo­garam longe, mas isso lhe dava vantagem. Correu atravessando o pátio, abaixou-se sob a barra de metal que era utilizada para lim­par tapetes e continuou correndo em direção à portaria oposta.

Depois, continuou em alta velocidade até a rua Trangsund e virou à direita. Sangrando, corria pelas apertadas ruas turísticas da Gamla Stan. Era inevitável que atraísse olhares para si. "Isto não vai dar certo", pensou. "Logo, um policial vai me parar pela minha aparência." Passou por uma das muitas lojas de sorvete. Um carrinho de bebê estava do lado de fora da janela. Um casaco bege estava pendurado sobre ele para protegê-lo, enquanto dor­mia, dos fortes raios solares.

Quando Nova passou, apanhou o casaco. Ouviu atrás dela um grito indignado. A mãe da criança, que vestia uma saia e uma blusa de amarrar, correu para fora do bar e depois atrás de Nova. Após uns cinquenta metros, ela desistiu: não podia deixar a crian­ça sozinha. Frustrada, jogou o sorvete cremoso que tinha na mão na direção de Nova. Errou por trinta metros.

Depois de três quadras, Nova diminuiu a velocidade e vestiu o casaco. Respirou fundo duas vezes, andou com passos lentos, virando a esquina, e desapareceu entre o denso fluxo de turistas da rua Nygatan.

Debaixo do casaco, seu coração batia forte.

Ao longo da coxa, o sangue escorria.

 

Amanda estava satisfeita com a busca feita na casa de Nova. É ver­dade que a moça tinha conseguido escapar, mas toda a casa estava cheia de evidências que apontavam para ela. Além do macacão e do quadro, Amanda encontrou uma referência bíblica emol­durada, do Gênesis. Não era a mesma das cenas dos crimes, mas ainda assim era um indício de que os moradores da casa se inte­ressavam pelo Gênesis. "Mais cedo ou mais tarde, nós vamos cap­turá-la", pensou Amanda, "não tem como se esconder na Suécia por muito tempo. Assim que ela usar um dos seus cartões, vamos saber onde está." A única coisa que preocupava Amanda era que Nova fizesse algo desesperado; ela não queria ter mais mortes sobre os seus ombros.

Não encontraram muita coisa interessante no apartamento dos seus cúmplices. Amanda ainda não tinha conseguido enten­der em que grau eles estavam envolvidos. Será que deram apenas um álibi falso ou estavam também envolvidos na cena do homicí­dio em si? Amanda resolveria isso agora. Ela estava entrando em uma sala de interrogatório onde Arvid esperava. Nada de interes­sante havia sido encontrado no apartamento dele. Mas é óbvio que ele escondia algo, porque seu computador estava completamente vazio. Nesse momento, ele era analisado pela divisão de crimes de TI do Departamento Nacional de Investigação Criminal.

"Como ele parece jovem", pensou Amanda quando entrou. Embora ela estivesse se aproximando dos quarenta, não conse­guia se acostumar com a ideia de que vinte anos era a metade de sua idade.

Arvid estava evidentemente nervoso. E com razão: tinha sido pego por cumplicidade de assassinato. No máximo, tinha imaginado que estavam atrás do vírus do celular. Mas essa também não tinha sido uma história divertida. Ele havia lido recente­mente sobre o hacker Ancheta, que fora condenado a cinco anos de prisão nos Estados Unidos por ter produzido e vendido vírus. O rapaz, como ele, só tinha vinte anos. Arvid tinha esperança de que ninguém fosse dar uma olhada mais minuciosa em seu computador.

Como você conheceu Nova Barakel? - foi a primeira pergunta de Amanda.

Nós trabalhamos juntos no Greenpeace.

O que você fez no dia 15 de agosto?

Dei plantão com Eddie e Nova.

Nós temos uma testemunha que viu Nova em outro lugar bem diferente.

Arvid pensou sobre o que Nova disse: mantenha a nossa história original.

É impossível. Ela estava com a gente.

Você sabe quem era Joseph F. Larsson?

Não faço ideia - disse Arvid.

"Ele mente como um cavalo trota", pensou Amanda. Ela já havia visto Arvid antes. Ele estava na foto que ilustrava a matéria sobre o protesto do Greenpeace contra Vattenfall.

 

Nova entrou na loja Ahléns da praça Sergei. As manchas escu­ras tinham começado a aumentar em seu casaco. Ela precisava fazer alguma coisa. Na carteira, havia 350 coroas, e em um balcão de promoção ela encontrou um par de calças jeans sem formas e uma blusa de manga comprida dois tamanhos acima do seu, com listras coloridas. Isso serve, pensou Nova enquanto pagava as 200 coroas pelas peças.

Um plano começou a tomar forma em sua cabeça.

Continuou pela rua e foi para a Estação Central. No cami­nho, entrou numa farmácia e comprou esparadrapo e ataduras. A parada seguinte foi no banheiro do McDonald's. Franziu o nariz quando abriu o banheiro. O uso por centenas de pessoas durante o dia todo tinha deixado a sua marca. O pessoal não parecia ter tido tempo para limpá-lo.

A lixeira estava cheia de absorventes sujos de sangue, papel úmido e outros detritos que saíam das bordas até o chão. Em um canto, havia uma camisinha usada. Sobre o vaso sanitário, respingos. Nova não queria nem pensar se era água ou qualquer outra coisa.

Pendurou a sacola da Ahléns em um gancho e tirou o ca­saco. Todo o forro estava cheio de sangue. Foi jogado no chão. Seguiram-se os jeans e a camiseta. Nova começou a se examinar cuidadosamente. Nas feridas superficiais, o sangue havia coagu­lado, e as bordas já estavam se unindo. A ferida profunda na coxa já estava quase parando de sangrar. Ela só usou uma das ataduras que comprou. O resto ficou em sua mochila.

Nova vestiu a roupa recém-comprada. Alguma coisa esta­va muito errada com as calças. Quando olhou para elas mais de perto, percebeu que eram feitas para mulheres grávidas. Pegou o cinto nos jeans descartados e o pôs sobre as novas calças. Ficaram sofrivelmente ajustadas. A blusa colorida parecia uma barraca, mas escondia a parte de cima das calças sem forma. De um dos bolsos dos esfarrapados jeans jogados no chão, pegou um corre­tivo. Então, melhorou a maquiagem da cicatriz abaixo do queixo. Nova se analisou cuidadosamente no espelho. "Estou uma mer­da", constatou, balançou os ombros e saiu apressada, deixando as roupas ensanguentadas atrás de si.

Quando Nova saiu do banheiro, percebeu que estava com fome. Ela precisava comer alguma coisa, logo. Mas não conseguia ficar na fila do McDonald's. Era contra todos os seus princípios. O McDonald's constituía a maior cadeia do mundo de fast-food, o maior comprador do mundo de carne bovina e um dos maiores compradores de carne de porco e frango. O metano emitido pelo gado criado para a indústria de carne bovina era um importante fator na produção do aquecimento global.

E apesar de o McDonald's, em seus documentos oficiais, declarar que não comprava qualquer carne que contribuísse para a destruição da floresta tropical, ainda conseguia ser um dos maiores culpados pelo desmatamento da Amazônia. Eles se es­queciam de mencionar o fato de que os frangos adquiridos co­miam grandes quantidades de feijão de soja, que contribuía para o desmatamento da floresta. Setenta e cinco por cento da pro­dução do dióxido de carbono no Brasil e o consequente aque­cimento global eram causados pelas queimadas feitas para dar lugar às plantações. "Uma superfície de floresta equivalente a um campo de futebol é derrubada a cada oito segundos", costumava dizer Nova, toda hora e fora de hora.

"Além disso, a alternativa vegetariana do hambúrguer deles, o McBean, era pastosa e com gosto de blusa de tricô temperada", pensou Nova, correndo para fora do restaurante.

 

Olhou atentamente para a Estação Central; as pessoas esperavam amigos e parentes encostadas à grade que contornava o buraco redondo que levava ao nível subterrâneo; uma armação leve de metal descia do teto em forma de arco. O lugar onde os trilhos antigamente passavam e traziam os trens até a grande plataforma agora era piso de pedra; estava repleto de pessoas com roupas cla­ras que arrastavam as malas e pastas; um ou dois pombos esvoa­çavam no local.

Não havia polícia à vista.

O que Nova iria fazer agora teria de ser feito rapidamente. Tinha planejado correr o máximo possível entre os vários objetivos. Teria de ser de estômago vazio. Nova pegou uma senha e aguardou a sua vez. Um vigia andando com um pastor alemão mantinha um olhar atento sobre os viajantes. Nova virou de costas.

Depois de seis minutos, chegou a sua vez.

- Uma passagem de ida para Copenhague - ela pediu e pa­gou com o seu cartão.

O trem sairia dentro de trinta minutos.

Tão logo pegou o bilhete na mão, virou as costas e saiu correndo. O vigia olhou nos olhos da funcionária da bilheteria para ver se havia motivo para correr atrás. Mas aparentemente não ha­via. Ela apenas balançou os ombros, questionando.

O ar úmido misturado ao suor foi absorvido pelas roupas de Nova. Grandes manchas se formaram embaixo do braço, quando ela correu para cima, até a rua Klarabergsgatan. Logo deixou para trás o cheiro de urina na escada. Ao longe, ouviu as sirenes se aproximando. Passou novamente o prédio maciço da Ãhléns com seus banners de anúncios da L’Oréal ocupando vá­rios andares. Um guarda de trânsito rebocava um Volvo preto da estação rodoviária.

Na Praça Sergel, ela cruzou com a multidão passeando. Uma nuvem de gotículas de água da fonte foi parar no seu rosto. Ao fundo, ficava a alta estátua de vidro e a fachada moderna da Casa de Cultura.

Sua jornada terminou no escritório da sede do Banco SE. Ofegante e suada, ela preencheu um formulário. Havia muitos números antes da sua senha e Nova logo começou a tremer com o frio do ar-condicionado. A adrenalina de seu corpo ajudava a afastar o frio.

Quando chegou a sua vez, atirou-se para a frente do caixa com um formulário de retirada em sua mão. A funcionária do caixa, uma senhora idosa, pegou o formulário, primeiro, com paciência. Ela estremeceu e olhou mais de perto para o formulá­rio. Então, analisou Nova e o formulário novamente.

-              Você precisa avisar com antecedência se vai retirar mais de 30 mil coroas - ela disse.

-              Por quê? - perguntou Nova.

-              Por razões de segurança, nós não temos tanto dinheiro aqui na agência. Pelo menos não...

A caixa olhou para baixo e leu.

... Cento e cinquenta mil coroas.

Quanto vocês têm, então? - perguntou Nova.

A mulher olhou para ela com ar de reprovação e começou a teclar no computador.

-              Primeiro, vou verificar se você tem cobertura - falou ela.

Nova podia sentir a irritação chegando de mansinho. "Que­ria saber se seria tratada dessa forma se eu fosse um homem de meia-idade", pensou.

A caixa olhou para a tela. Depois, se inclinou e olhou um pouco mais de perto. Finalmente, virou-se para Nova:

-              Vou procurar saber imediatamente.

A mulher se dirigiu ao interior do banco. Um homem com um alinhado terno preto olhou para fora da mesma porta que ela tinha entrado. Ele examinou Nova de cima a baixo. Depois, sua ca­beça desapareceu novamente. Cinco minutos depois, a funcioná­ria voltava com um envelope branco A4, com o logotipo do banco.

-              Com um pouco de esforço, conseguimos juntar 150 mil -desculpou-se, movendo a cabeça na direção do envelope.

Nova olhou para o envelope branco, quase brilhante. Então, viu nas prateleiras ao lado do caixa que havia uma pilha de enve­lopes marrons, feitos de papel reciclado.

-              Eu gostaria de tê-los em um desses - disse Nova, apontan­do para os envelopes.

A caixa olhou interrogativamente para Nova, pegou um dos envelopes marrons e olhou para ele.

Eles têm o nosso logotipo antigo. Na verdade, serão joga­dos fora.

Sinceramente, eu não me importo com o logotipo de vocês - disse.

Dava para perceber que a mulher relutava, mas ela pegou o dinheiro do envelope branco, contou de modo que Nova pudesse ver e colocou-o no envelope marrom. Nova recebeu o dinheiro e o colocou em sua mochila.

Em seguida, correu para fora da agência.

A caixa olhou para ela preocupada.

A primeira etapa estava concluída.

 

O celular tocou exatamente quando Amanda se preparava para atacar Arvid com uma série de novas perguntas. Valeu a interrup­ção pelo resultado da conversa. Nova tinha usado o cartão Visa na Estação Central. Amanda puxou a sua bolsa do ano anterior - a bolsa nova estava jogada em um canto do seu apartamento, com mau cheiro, e nunca seria a mesma novamente. Ela não tinha coragem de jogá-la fora, mas no fundo sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria de fazer isso.

Dois minutos depois, Amanda estava sentada no banco do motorista. Um carro já estava a caminho do local. Foram mais cinco minutos até que ela parasse na rua Vasagatan, em frente à entrada principal da Central. Amanda atravessou várias portas até chegar às bilheterias. Ali já havia dois colegas seus, Kent e Mor­gan, conversando com uma das funcionárias. Amanda mostrou a ela uma foto de Nova.

-              Sim, foi ela quem usou o cartão - confirmou a funcioná­ria, balançando a cabeça.

O que ela comprou? - perguntou Amanda, meio forçando.

Uma passagem para Copenhague.

Quando sai o trem?

A funcionária olhou para o relógio grande na parede e disse:

-              Em quinze minutos.

Amanda recebeu o número do vagão e do assento e conti­nuou correndo com os colegas até a plataforma. Quando che­garam lá fora, ao ar livre, o estômago de Amanda começou a doer. "Terei de ir a um médico, se continuar assim", pensou, apertando o abdome e respirando fundo. Enquanto isso, observava à sua volta. A plataforma estava cheia de passageiros aguardando, mas o trem ainda não havia chegado. Nova não estava visível.

Amanda acenava para que seus colegas ficassem mais para trás. Eles esperariam por Nova. Em quinze minutos, ela seria presa.

Nova diminuiu a velocidade após duzentos metros e dobrou entre os arranha-céus da praça Hötorget. Ninguém tomara co­nhecimento dela. Ela olhava por cima dos ombros o tempo todo. Ninguém a tinha seguido. Em todo caso, ninguém que ela tivesse percebido. A rua se abriu para uma praça. No início da Idade Média, havia uma vila grande e influente chamada Vásby que fi­cava ali. Agora era um mercado, com um comércio animado. Os vendedores da Hötorget gritavam para Nova, quando ela passava na banca deles:

- Uvas doces, prove aqui, venha saborear, tão doces como a senhorita!

Nova se contraiu como se estivesse nadando em meio a um cardume de piranhas e fingiu não ouvir. Com passos largos, continuou atravessando a praça e logo havia deixado as barracas superlotadas de frutas, verduras e flores. De vez em quando, ela puxava as calças e ajeitava o cinto. "Pareço uma moradora de rua", pensou ela.

Nova diminuiu a marcha quando entrou na rua Drottninggatan. Um formigueiro de gente se espalhava sobre as pedras em preto e branco da rua de pedestres. Bandeiras das cores do arco-íris estavam estendidas entre os prédios. Mas não era a multidão que impedia a continuação da caminhada de Nova. Aquela era a primeira vez em que passava por lá, desde a noite em que estive­ra no apartamento do diretor executivo da Vattenfall. Ela queria virar e fugir. Mas não tinha como. Uma luta se travava em sua cabeça. Por fim, decidiu, engoliu em seco e correu em alta veloci­dade, passando pelo apartamento e pela Seven-Eleven, sem olhar para nada.

Logo atingiu seu objetivo: Playground, uma loja para os adeptos da vida ao ar livre. Ela tinha estado lá muitas vezes an­tes, mas havia apenas comprado pequenas coisas. Agora iria comprar metade da loja. Nova abriu a porta e caminhou até o primeiro balconista que encontrou. Ele não era apenas o que estava mais perto, mas parecia ser verdadeiramente interessado em esportes, com cabelos longos despenteados, uma camiseta Houdini e um par de calças da mesma marca. O corpo magro, mas musculoso, fez com que Nova imaginasse que ele escalava com frequência.

Você poderia me ajudar a escolher um equipamento de camping? - ela perguntou.

Onde e quando você vai usá-lo? - perguntou o balconista.

Em Estocolmo, agora.

Nova foi encaminhada para dentro da loja, a uma barraca montada, em laranja e vermelho.

Marmot Earlylight, barraca que serve para dois tipos de clima, para duas pessoas. Duas portas. Dois arcos. Dois quilos e meio.

Tem alguma para uma pessoa?

A Marmot tem também uma que se chama Eos, para uma pessoa. Um quilo e meio.

Então, vou levá-la.

O vendedor olhou surpreso para Nova pela decisão rápida, mas logo se compôs e foi buscar uma barraca empacotada. Quan­do ele voltou, perguntou:

-              Colchonete?

Nova balançou a cabeça e foi levada a uma série de colchonetes que estavam pendurados ao longo de uma parede. O vende­dor apontou para um e disse:

-              O melhor é Exped Downmat 9, colchonete forrado com plumas que você infla com um dispositivo. Um quilo.

-              Vou levá-lo - disse Nova.

Dessa vez, ele não segurou um sorriso:

Está com pressa? - perguntou.

Você nem imagina - disse Nova.

Ela saiu da loja com menos 21 mil coroas e uma mochila cheia, jogada nos ombros. As roupas que foram compradas na Ahléns estavam em um dos sacos de lixo do Playground. Agora, ela usava uma camiseta da loja Haglöfs, um par de calças esportivas macias e bem ajustadas e um boné. Na bagagem, tinha também uma muda de roupa e um casaco fino. O tênis usado, ela manteve. Sabia, por experiência que, quando se tratava de sapatos, ela não mudaria o conceito comprovado, quando a situação era séria.

Nunca fora tão séria como agora.

Puxou o boné cobrindo a testa e empurrou um rebelde dread para dentro. Depois, entrou em uma das diversas agências de viagens da rua Sveavágen e comprou um pacote turístico para Londres, com seu cartão Visa. Normalmente, Nova evitava com­prar passagens de avião. Para amenizar a sua consciência, também pegou uma chamada "compensação de carbono". A ida e volta a Londres produzia 0,62 toneladas de dióxido de carbono, e Nova pagou 175 coroas para patrocinar projetos correspondentes. "Será que é uma onda?" pensou, mas não tinha tempo para dissecar os fatos como habitualmente fazia. Pela primeira vez em sua vida, Nova tinha mais dinheiro do que tempo. "Isso eu faço em outra oportunidade", decidiu e apressou-se.

A segunda etapa estava concluída.

Quando o trem saiu, Amanda e seus dois colegas não tinham visto nem sombra de Nova. Decidiram embarcar - Amanda em uma extremidade, e os outros, na outra. Trabalharam sistemati­camente ao longo do trem: abriram banheiros, olharam instala­ções dos funcionários e controlaram passageiro após passageiro. Amanda conseguiu irritar até uma pequena senhora que tinha colocado seu casaco sobre o rosto para dormir.

-              Nunca se pode ficar em paz - a senhora murmurou.

O trem passava por Flemingsberg quando o telefone tocou. Dessa vez, Amanda ficou mais irritada do que exaltada. Nova ti­nha usado seu cartão na rua Sveavágen após o trem já ter partido. Deve ter mudado de opinião, porque dessa vez havia comprado um bilhete de avião e, além disso, tirara uma grande soma de dinheiro no Banco SE, na praça Sergel. O voo de Nova sairia ama­nhã. Amanda chutou com suas sandálias de salto alto a parede do vagão e gritou:

-              Diabos!

Uma dor aguda se espalhou de seu dedão do pé até a parte superior da perna.

Do lado de fora, o bairro Södertälje se aproximava.

O sol batia impiedosamente nos telhados da cidade.

 

A escada até o porão estava parcialmente coberta por um tapete de plástico rasgado. Moses andou de pernas abertas, passo a passo. O cheiro característico do suor de gerações estava impregnado nas paredes. A união era sem palavras, mas compacta. Cada dia, se ligava, pegadas em cruz, conexões principais, quedas, giro de nuca e posições horizontais. O contato com o corpo físico cria amizades para a vida. Ali, Moses se sentia em casa. A luta era a sua vida.

Sobre o ombro, ele tinha uma mochila grande, malhas e xampu, lado a lado com bebida energética e calçados. A adrenalina pulsava. Ele estava na expectativa de duas horas de treinamento duro. O corpo ansiava pela sensação de estar com­pletamente esgotado.

No caminho até o vestiário, Moses atravessou a prateleira da fama, onde o sucesso do clube era apresentado na forma de medalhas e taças. Seu olhar procurou um deles: Klippan Cup, em 1988. Moses tinha conseguido a prata na classe 130 quilos, depois de ter chegado à final.

Thomas Johansson o superou com 3-2 após a prorrogação, depois que Moses saiu do tapetão durante a aplicação da chave de braço.

Às vezes, ele se perguntava o que teria acontecido se não ti­vesse feito o que era exigido dele: minimizar o seu físico superior e reduzir sua exposição à mídia. Em momentos de fraqueza, sonha­va que havia aproveitado a oportunidade e não tinha ouvido a re­preensão que recebera. Já pensou se tivesse vencido a Klippan Cup e, em seguida, continuado o ano, no mesmo estilo? Moses tivera a oportunidade de se tornar mundialmente famoso. Agora, tinha de se contentar com a certeza da sua própria capacidade.

Afastou os olhos da medalha e foi para o vestiário.

Os músculos pediam por esforço.

Logo estariam endurecidos de ácido láctico.

Amanda odiava reuniões. Apesar de entender a sua importância, ela as evitava na medida do possível. Muitas vezes, havia recebido críticas por não ser boa no trabalho em equipe. Tentara explicar que não tinha nada contra trabalhar com os outros, desde que isso não significasse horas a fio em uma sala de reuniões. Agora, apesar de tudo, estava sentada em uma e se segurando para não se levantar e sair correndo. Ela queria fazer o trabalho, não falar sobre o trabalho.

"Você deve ser um jogador de equipe", o chefe lhe dissera, e agora ela se esforçava para deixar que os outros falassem até o fim, por mais disparatada e sem objetividade que fosse, segundo ela, a forma pela qual as pessoas se expressavam. Amanda tinha um dos melhores resultados da corporação em crimes resolvidos, mas também havia percebido, nos últimos anos, que, se mantives­se o chefe feliz, a vida se tornaria mais fácil.

Um psicólogo havia sugerido cinco anos antes que ela fizesse uma pesquisa para ver se tinha deficit de atenção. Mas Amanda se negara. Pra que serviria? Ela se dava bem consigo mesma, in­dependentemente de rótulo ou diagnóstico. Amanda achou que, por ser policial e ter quase quarenta anos de idade, poderia ser considerada uma cidadã bem ajustada. Ponto.

Eles eram apenas três no grupo de trabalho para investigar o homicídio do diretor executivo, além do procurador e de Moses. Isso porque Amanda não contava com a unidade de interrogató­rio, que andava fazendo visitas. Logo que surgisse algo interes­sante, seriam Amanda e outros dois que faziam parte da unidade operacional que tomariam conta. Amanda sabia que essa forma de trabalhar não a fazia muito popular, mas não queria perder o controle das coisas mais importantes em um inquérito: as testemunhas.

Seus colaboradores mais próximos eram apelidados de O Gordo e o Magro. Kent era alto e acima do peso, enquanto Mor­gan era pequeno, magro e tinha um olhar inseguro e arregalado. Em seus momentos de maldade, Amanda costumava pensar que Morgan não era apenas a metade do tamanho, mas também tinha metade da capacidade cerebral de Kent.

Ela vinha trabalhando com eles havia anos, mas ainda se sentia como um peixe fora d'água. Eles eram pais de família de meia-idade, ela não tinha filhos e era oficialmente solteira; Moses era um segredo bem guardado. Apesar de serem poucos os anos que os separavam, Amanda se sentia muito mais jovem do que os dois.

Enquanto ela falava sobre restaurantes e roupas de grife, eles se interessavam mais em saber qual seria a mesada que dariam a seus filhos ou qual era o melhor supermercado. Só design de in­teriores e reforma eram assuntos capazes de mobilizar o interesse dos três, e sobre isso às vezes conversavam em volta da cafetei­ra. Caso contrário, só falavam sobre o trabalho e o último caso. Apesar de alguns convites para aniversários e cerimônias, nunca haviam se encontrado fora do trabalho.

Enquanto a conversa era empurrada lentamente para a fren­te, Amanda se divertia juntando os diferentes fragmentos dos quadros do apartamento de Nova. Isso fazia com que a situação ficasse mais suportável, mesmo sendo difícil; as peças estavam quebradas, emboladas e eram muitas. Ela tinha conseguido uma série de ilhas com motivos coerentes, mas não sabia ainda quan­tos quadros existiam. A única conclusão a que chegara até agora era de que nenhuma pessoa normal poderia ter tais imagens em sua parede; cavalos e ovelhas feridos de uma forma que as vísceras caíam para fora; uma mulher assassinada e, finalmente, a imagem que ela primeiro viu no chão da casa de Nova. Depois de ter uni­do algumas peças para o primeiro quadro, Amanda viu que repre­sentava uma autópsia de um homem nu. "Diabos, isso é doentio", pensou. "Só há uma palavra para isto: profanação."

Morgan tinha feito um longo e, na visão de Amanda, insig­nificante discurso. Eram a procura do dia seguinte e a captura no Arlanda que estavam sendo planejadas nos menores detalhes. Ouviram-se fortes batidas na porta. O rosto de Moses espiou para dentro, sem pedir permissão. Ele deu o seu recado e acenou com uma folha de papel:

-              Recebi as respostas do teste de SKL nesta manhã. Agora temos mais provas de que Nova é a pessoa que estamos procurando pelos assassinatos. Aquele vômito que encontramos na casa do diretor executivo da Vattenfall coincide com o DNA dos fios de cabelo que pegamos na cama dela.

Amanda balançou a cabeça aprovando. Depois, lembrou-se de uma coisa em que não tinha pensado antes:

-              Se Nova assassinou essas pessoas, por que então ela vomitou?

Antes que houvesse tempo de alguém refletir sobre a pergunta, o olhar de Moses se fixou na mesa de conferência.

O que vocês estão fazendo?

Nós encontramos estes pedaços de quadros no chão da casa de Nova - disse Amanda.

Ela obviamente gosta de sátira inglesa do século XVIII.

O quê? - questionou Amanda, olhando para Moses.

Sim, este aqui é do William Hogarth, Os quatro estágios da crueldade - disse Moses e, em seguida, corrigiu:

... Ou pelo menos parte deles.

Depois, ele assobiou, como tinha costume de fazer quando se lembrava de alguma coisa:

- Por que não pensei nisso antes? As cenas dos crimes parecem com as pinturas. Foi por isso que as reconheci.

 

O metrô corria ao longo da linha verde e cruzava Kärrtorp e Bagarmossen para finalmente parar em Skarpnäck. Nova saiu para a plataforma, colocou a sua mochila e ajustou as tiras com cuidado. Estava pesada, e ela ia andar para muito longe. Na plataforma, passaram por ela três mulheres de mais ou menos trinta anos. Cada uma com um carrinho de bebê na sua frente, andavam lado a lado. "Elas são as piores, essas mães", pensou Nova. "Três novos indivíduos, cada um deles irá liberar uma média de seis tonela­das de dióxido de carbono por ano." Fez uma rápida estimativa: seis vezes setenta vezes três. "Mil duzentos e sessenta toneladas de dióxido de carbono é o que eles vão acrescentar ao meio am­biente", pensou Nova. "Ainda bem que não são americanos." Nova fez outro cálculo. Dessa vez, estimou vinte toneladas per capita. Quatro mil e duzentas toneladas de dióxido de carbono seriam produzidas durante as suas vidas se vivessem nos Estados Unidos. "Sorte terem nascido na Suécia", pensou.

Nova começou a andar, espremida entre as mães com carrinhos e finalmente saiu da estação de metrô. Sua jornada come­çou em Skarpnäck, bairro que outrora fora um vale verdejante. Durante a Idade Média, uma família se mudou pra lá para culti­var a terra. Agora, o terreno estava asfaltado e cheio de casas da cor de tijolo.

Logo Nova estava fora do sistema de ruas, em uma trilha na floresta. Parecia estranho, libertador e muito longe do desenvol­vimento maluco de hoje. Nova era livre, mas estava sendo pro­curada. Continuava a caminhar mais para o interior da reserva de Nacka. Era ali, entre os montes e as depressões profundas, que ela pensava em sumir. Quem pensaria em procurá-la nos mais de oitocentos hectares de floresta e terra?

Num gesto automático, pegou o seu celular para ver a hora, mas se lembrou do último capítulo do seriado Navy CIS. Lá, o hacker gótico nerd Abby Sciuto tinha conseguido seguir o rastro de um serial killer através do seu celular. Nova jogou fora seu te­lefone celular como se estivesse queimando, e ele caiu suave­mente no chão a três metros de distância e parou perto de uma flor murcha.

A primeira reação de Nova foi a de dar meia-volta e sair dali em ritmo apressado. Depois de dois passos, ela se virou para trás, inclinou-se e pegou o telefone. "Até arranjar um novo, posso mantê-lo como solução de emergência", decidiu. Desligou cuida­dosamente o celular e tirou a bateria. As peças foram colocadas em um bolso interno da mochila. Nova continuava a caminhar para dentro da floresta.

Faltavam apenas dois quilômetros de distância para o alvo, uma fenda na rocha perto do lago Söderby que Nova conhecia havia muito tempo. Amanhã, tomaria o mesmo caminho de vol­ta. Ela simplesmente não conseguia resistir.

 

No Arlanda, passavam em média 49 mil turistas todos os dias. De­pois de Copenhague, Londres era o destino mais popular. Apesar de Amanda saber qual o voo que Nova iria pegar para Londres, era preocupante a grande massa de pessoas. Se Nova conseguisse embarcar, o fato de prendê-la não seria coisa muito simples, com mais de duzentos passageiros sentados em torno dela. Na rua, haveria o mesmo tanto esperando. Após consultar a polícia do Arlanda, Amanda decidiu que Morgan iria vigiar o balcão de in­formação da British Airways, Kent iria verificar o portão de em­barque, e Amanda, a rua. A polícia do Arlanda colaborava com guardas de segurança nas saídas. A polícia do passaporte foi in­formada e daria o alerta imediatamente se o passaporte de Nova aparecesse. Amanda tinha dividido os recursos conforme a pro­babilidade de que Nova aparecesse em cada local. Se ela lhes desse o prazer de aparecer.

Logo se mostrou ser errado dividir a qualidade dos recursos conforme a probabilidade.

Eram 14h30min quando Morgan viu uma mulher loira, de vinte anos, mais ou menos, aproximar-se do balcão de informa­ções. Ela combinava com a descrição e se assemelhava ao retrato de Nova que ele tinha em mãos. Os olhos de Morgan ficaram presos à beira da saia que balançava era torno de suas bem torne­adas pernas. Então, começou a pensar na cena do crime, nas víti­mas e em seus sobreviventes. O coração começou a bater forte. "Eles são perigosos", pensou ele, "aqueles que não se parecem com assassinos." Ele conseguia entender como alguém havia libe­rado aquela mulher loira sem se preocupar. Ela era magra, com lindos olhos azuis. Morgan teria, com prazer, a deixado entrar. Quando a mulher deu o bilhete para o homem por trás do bal­cão, esse, estranhamente, estremeceu. "Que diabo de amador", pensou Morgan sobre o funcionário da alfândega que havia substituído o homem que normalmente trabalhava para a Bri­tish Airways.

O homem atrás do balcão puxou o lóbulo da orelha es­querda.

Era o sinal combinado.

Ele tinha o bilhete de Nova na mão.

Era ela quem estava diante deles.

Morgan viu quando Nova enfiou a mão no bolso e a man­teve ali enquanto mexia em alguma coisa. "Ela é a primeira assassina em série na Suécia em muitos anos", dissera Amanda. O fun­cionário estava visivelmente assustado. Então, Morgan percebeu o que estava acontecendo.

Nova estava ameaçando o funcionário com uma arma no bolso.

Morgan começou a respirar rápido. A moça inclinou-se e deu uma piscada com um olho para o funcionário. "Diaba", Morgan pensou e tomou uma decisão rápida. Pegou do bolso a arma que usava em serviço.

- Polícia! Fique parada! - exclamou Morgan, com uma voz grave que não se encaixava em seu corpo magro.

Antes que a mulher tivesse tempo de se virar, ele atirou.

Ela gritou.

O caos se espalhou entre os passageiros que fugiam.

A mulher desabou no chão. Morgan havia sido o melhor atirador de alvo do seu curso na Academia de Polícia: foi a única matéria em que brilhou.

 

Do lado de fora do crematório de Racksta, Moses estava sentado em seu Audi cinza. "É hoje que ela será queimada", pensou ele. "Hoje, as evidências se tornarão cinzas e fuligem."

Moses queria estar lá dentro quando fosse a vez do caixão de número 543, mas seria muito suspeito. Ele não tinha qualquer ra­zão para visitar o crematório, hoje. Em vez disso, imaginou como a porta de metal subiria lentamente e uma luz brilhante aparece­ria atrás da porta. Não era um brilho cintilante do fogo, mas, sim, faíscas que giravam em uma luz laranja forte.

- Oitocentos graus, você pode confiar em mim, você pode confiar em mim - cantarolava Moses o velho sucesso da banda Ebba Grön, e continuava o macabro exercício de imaginação.

O caixão foi puxado lentamente na fornalha de mecânica avançada. O crematório era moderno, polido, e o trabalho manual pesado, substituído por máquinas. O processo para transformar o corpo em um pó branco que era projetado para baixo, formando um monte na medida certa para uma urna, fora iniciado. A porta fechou, e ele podia respirar. Dentro de noventa minutos, ninguém seria capaz de descobrir o que ele havia feito.

Era tranquilo para Moses ver a fumaça sair da chaminé do crematório e se espalhar por todo o céu. Ele imaginava que era o cadáver com todos os seus componentes, se espalhando pelo vento. Seu pensamento se dirigiu para a proposta do setor de inspeção química que tinha recebido em sua mesa, pela manhã. Eles queriam arrancar todos os dentes dos mortos para reduzir as emissões de mercúrio provenientes de crematórios. Gira em tor­no de dezenas de toneladas por ano. Muito sábio, ele escreveria na resposta de seu relatório. Leif Eriksson, diretor do Skogskrematoriet, em Estocolmo, já tinha se pronunciado no Aftonbladet e cha­mado isso de antiético. "Covarde", pensou Moses, "devemos ousar tomar decisões desconfortáveis para salvar o meio ambiente."

 

Nova havia tomado o ônibus 401 da Hellgarden até Slussen. De­pois, seriam cinco minutos com a linha vermelha para Hornstull. Ela olhou para o relógio da estação. Em breve sairia o voo, e ela não queria perder. Subiu a escada rolante e passou por uma ven­dedora de Situação Estocolmo. A mulher estava na faixa dos trinta anos e usava um boné. Fazia um mês que Nova tinha lido uma reportagem contando uma história de sucesso sobre ela; a mu­lher havia conseguido obter o seu próprio apartamento e tinha deixado as drogas. "Preciso patrocinar", pensou Nova, e comprou um exemplar.

Logo que Nova chegou à rua Langholmsgatan, virou à esquerda e passou por uma das muitas figuras originais da região de Knivsöder, um homem com um cabelo amarelo-escuro, es­petado, grandes fones de ouvido e um cão igualmente amarelo-escuro, com dreadlocks. Ela entrou na loja Seven-Eleven, que fi­cava na esquina, pediu um sorvete de iogurte com morango e uma hora de Internet. Mais, ela não precisaria. Sorriu quando ouviu The Final Countdown atrás dela, na fila, com o "Beep-Beep" ecoando no refrão.

Nova subiu a escada correndo para os computadores e pe­gou uma vaga livre. Com uma das mãos, clicou no site do aeroporto de Arlanda. O sorvete derretia no calor e ela tinha de lambê-lo constantemente para evitar ficar toda pegajosa. Nova não conseguiu apreciar o sabor e o gelo.

Depois de dois minutos, encontrou o que procurava: as webcams. Uma monitorava o terminal cinco e, fora dele, ela viu os carros de polícia e um Golf vermelho. Nova deu uma gargalhada. Ninguém olhou em sua direção, mas todos na Seven-Eleven a ou­viram. Ela terminou com lambidas rápidas o seu sorvete e mor­discou por fim a casquinha. O estômago estava frio e com uma sensação boa, mas na tela nada acontecia. Só depois de vinte mi­nutos algo inesperado aconteceu. Uma ambulância chegou.

Duas pessoas empurraram uma maca até o hall de saída. Cinco minutos se passaram.

Uma mulher loira estava deitada na maca, quando eles saíram pelas portas. O equipamento estava cercado por policiais. Nova sentiu uma pontada de consciência pesada. Depois, veio o medo, ela poderia estar deitada ali. Podia até ser que ela devesse estar ali.

Quando comprara a passagem para Londres, destruíra o cartão Visa em pedaços e o jogara no lixo. Na escada rolante até a praça Sergel, ela vira uma garota loira, de mais ou menos vinte anos, subindo. Nova havia gritado:

-              Pegue - e jogou o pacote com os dois bilhetes e o folheto para ela.

Num reflexo, a jovem pegara o pacote e a olhara surpresa.

-              Olhe no pacote. É um presente - dissera Nova, enquanto a escada rolante a levava embora.

"Isso deve manter a polícia ocupada por um tempo", havia pensado. Lá embaixo, na bilheteria do metrô, comprara uma tira de tíquetes com o cartão de descontos SL.

Nova não sabia quais seriam as consequências, quando envolvera uma inocente. Agora, a jovem mulher estava desfalecida, em uma maca.

 

Os gerânios oscilavam entre o branco e o rosa antigo nas florei­ras do restaurante Gyldene Freden. Botões surgiam um atrás do outro, nesse verão de calor intenso. Folhas e caules eram fortese viçosos. Eram os detalhes que faziam com que o rico restau­rante parecesse acolhedor e bem cuidado. Uma lâmpada de ferro forjado brilhava sobre a porta e dissipava a cada vez mais densa escuridão de agosto. Poderia muito bem ter sido no século XVIII, como no início do século XXI. Pouco mudara desde o período gustaviano, quando o trovador Bellman e seus amigos visitavam e cantavam nos bares. Era desse tipo de ambiente que Peter Dagon mais gostava. Ele queria ouvir a história do passado. Logo, ele entenderia.

Habituado, Peter Dagon abriu a pesada porta de madeira e entrou. O verão quente fazia com que fosse desnecessário usar roupas de frio e ele foi direto para a escada que levava para a ade­ga. As paredes eram emassadas em branco, e o piso era feito de lajes de pedras esculpidas. Na descida, passou por uma pintura de Anders Zorn[7] vestindo um grande casaco felpudo e com um ci­garro pendurado irreverentemente entre os dedos. "Naquela épo­ca, havia homens de verdade", pensou Peter Dagon, e mandou em pensamento um agradecimento ao artista por ter resgatado o bar tanto da falência quanto da demolição.

Na adega inferior, Moses Hammar estava sentado, esperan­do. A lareira não estava acesa, mas uma luz de vela tremulava sobre a mesa. No cômodo, não havia um único ângulo reto; o teto se curvava como uma meia-lua até o chão irregular feito de pe­daços de tijolo. Toalhas brancas cobriam as mesas. Moses beberi­cava um copo de uísque no ambiente aconchegante. Os clientes tinham começado a chegar, mas a adega ainda não estava cheia. Eles poderiam falar sem ser perturbados.

Os homens balançaram a cabeça entre si e Peter Dagon se acomodou. Com um sinal, ambos pegaram o cardápio. Era total­mente desnecessário; sabiam o que estava escrito lá, mas era parte do ritual deles.

-              Galo novo, deve ser bom - disse Moses.

Peter Dagon concordou com a cabeça e disse depois:

-              As ovas de peixe estavam deliciosas, no sábado.

Em seguida, pediram, como sempre, ovas de Kalix, galo novo sueco tostado e terrina de chocolate de quatro sabores, com avelãs. Deixaram o garçom escolher os vinhos.

Então? - disse Peter Dagon, desafiando.

Eu fiz como combinamos.

E então?

Deu certo.

Peter Dagon fez uma marcação mental em mais uma parte do plano. Ele não esperava outra coisa; Moses Hammar vinha de uma das famílias mais confiáveis. Ele tinha a mesma motivação e o mesmo impulso que Peter Dagon. Unidos na luta contra o tem­po, faziam tudo que podiam.

Iriam sobreviver a qualquer preço.

 

Fora da barraca, Nova acendeu um fogareiro Primus e pequenas bolhas subiam na panela de água. Na mochila, havia uma série de pacotes de alimentos congelados. Macarrão com molho de ervas, ensopado de legumes e sobremesa de baunilha e framboesa, Nova leu nas embalagens. Ela tinha limpado o depósito da loja Play-ground com as opções vegetarianas, mas não dedicou muito tem­po para escolher o que iria comer. "Vai ser cuscuz." Mais cedo ou mais tarde, tudo iria acabar. Nova jogou água quente no conteúdo do pacote. Levaria cinco minutos, de acordo com as instruções.

Os pensamentos de Nova giravam em torno de um assunto completamente diferente, enquanto ela estava esperando que o alimento ficasse pronto: "O que devo fazer agora?". O plano ti­nha se esticado até o seu desaparecimento e, enquanto isso, dei­xara pistas falsas para a polícia. Agora, ela estava sentada, sozinha, na floresta, sem que ninguém soubesse onde estava. Mas não era sustentável, a longo prazo. Viver em uma barraca na reserva de Nacka era no mínimo limitado, e os policiais certamente iriam encontrá-la depois de algum tempo. Aí, ela não teria oportuni­dade de esclarecer o que tinha acontecido. "Tenho que descobrir a verdade, antes que seja tarde demais", decidiu.

"A verdade sobre o quê?" questionou, então.

Essa era uma pergunta que até então não quisera fazer, porque seria obrigada a avaliar os fatos. Lá no fundo, ela sabia em que direção iria apontar. Agora, precisava pegar o touro pelos chifres e analisar o que acontecera com ela.

Na casa do diretor executivo da Vattenfall, ela tinha visto uma citação de um verso do Gênesis rabiscado sobre a cama. Al­guém tinha vazado para o Aftonbladet que a mesma citação estava inscrita nas costas do diretor executivo da SAS, assassinado. Que ela era suspeita desse assassinato também, já tinha percebido. Mas não havia entendido como a polícia a tinha ligado com o primeiro assassinato, e agora com certeza tinham encontrado o macacão. "Que diabo de negligência", pensava Nova de si mesma.

Mas rapidamente conseguiu evitar se prender a uma crise de auto-recriminação. Sacudiu as reflexões sobre sua deficiência, comeu uma colher grande de cuscuz e continuou em sua reflexão: na parede da sua casa estava pendurada uma citação de passa­gem da Bíblia relacionada com o Gênesis. Todas tinham origem na história de Noé e no dilúvio. Como se isso não bastasse, a mãe dela tinha deixado metade da riqueza para Friends of Nefilim. Nefilim, uma mistura de anjos caídos e seres humanos que foram afastados pelo dilúvio. "Não pode ser coincidência", pensou Nova. "De alguma forma, a minha mãe deve ter sido envolvida. Quem sabe, ela foi assassinada pela mesma pessoa?"

Agora, Nova tinha uma tese para trabalhar, mesmo que fos­se meio forçada. Ela reconhecia, até para si mesma, que era um palheiro. Mas ela precisava fazer algo. Tinha de sair dessa enrosca­da em que, de alguma forma, fora envolvida. Como, ela não tinha a menor ideia. Pela primeira vez desde a morte de sua mãe, Nova desejou que ela estivesse viva. Havia tantas questões que precisa­vam ser respondidas...

A comida acabara, e Nova estava satisfeita. Antes de se deitar, deu uma olhada em suas feridas. Estrias brancas cobriam boa par­te dos braços e das pernas. As bordas das feridas estavam fechadas e curadas. Uma ou outra crosta estava pendurada, mas, até o dia seguinte, teria caído. Até mesmo o corte na coxa estava quase cu­rado. Uma crosta seca, com pele rosada em volta, foi o que restou.

Era um problema a menos para Nova. Ela não teria de ir a um médico. "Eu posso pelo menos confiar no meu corpo", pensou.

 

Amanda não conseguia dormir, embora estivesse se sentindo es­gotada. O lençol estava quente e úmido; a cama era dura. Mas não foram as circunstâncias físicas que a fizeram ficar bem acordada; seu cérebro tinha entrado em parafuso. Os pensamentos giravam, giravam, e ela tentava construir um discurso de defesa sobre o porquê de uma jovem inocente ser baleada por um policial do grupo de Amanda. É certo que a ferida fora só de raspão, no braço, mas a moça havia desmaiado pelo choque e ficara extremamente revoltada. O jornal Expressen tinha se regalado na ânsia da jovem em contar o que acontecera, e o fato ocupou as manchetes durante a noite.

No dia seguinte, às 7h30min, Amanda estava sendo convocada para uma reunião com a chefe de polícia do distrito, e colocar a culpa nos funcionários incompetentes não ficaria bem. Expor os seus colegas simplesmente iria refletir em si mesma. Ela não podia fazer mais do que dizer o que acontecera, decidiu. Morgan se enganou. Não era numa arma que a mulher mexia no bolso da saia, mas uma escova de cabelo, e ela só estava tentando transferir a passagem para o seu nome. A pressão para perseguir um assas­sino em série tinha estressado os nervos de Morgan. Era humano. A partir de agora, sempre trabalharão de dois em dois para evitar incidentes similares. Amanda repetia tudo isso várias vezes para si própria. No final, até estava acreditando.

Em vez de dormir tranquilamente, logo depois que concluiu as táticas para a reunião do dia seguinte, começou a ver imagens escuras. No cinema e na televisão, os policiais eram com frequên­cia heróis de ação, duros na queda, que deixavam tudo para trás logo que haviam feito o seu trabalho. Era mentira. Os policiais eram pessoas normais como todo mundo. Amanda se sentia muito pequena e humana, deitada ali em sua cama. Um mons­truoso assassino em série estava solto e ela era responsável por apanhá-lo. Pensou nas famílias das vítimas e na sua necessidade de encerrarem aqueles episódios e receberem explicações. Pensou no risco de que outras famílias viessem a ter seus entes queridos brutalmente retalhados e abatidos. Seria sua culpa. Imagens da cena do crime piscavam à sua frente: intestinos, sangue e fezes. Será que alguém ainda vai vivenciar o horror antes de ser, ele próprio, cortado em pedaços? Outros corpos mutilados ainda iriam aparecer?

A responsabilidade era muito pesada. Amanda começou a chorar pela primeira vez, em muito tempo.

Ela estava sozinha, no escuro. O celular tocou.

O visor mostrava que era uma e meia da manhã e que ela recebera uma nova mensagem de Moses. "Sim, com prazer", ela respondeu à pergunta: se ele poderia dar uma passada na casa dela. Talvez pudesse dissipar os seus pensamentos. Dormir não era uma opção naquele momento.

E ela não queria ficar sozinha nem mais um segundo.

Amanda acendeu o abajur do lado da cama e saiu nua para o banheiro, sem fazer barulho, como se alguém pudesse ouvir. De­sembaraçou o cabelo com a escova. Depois, despenteou o cabelo novamente. As lágrimas salgadas foram substituídas por um ruge discreto. Curvou os cílios com rímel marrom. Escovou os dentes rapidamente com creme dental.

Na gaveta de cima estava a sua lingerie mais cara, da loja Agent Provocateur. Amanda colocou a calcinha preta e o sutiã de renda e fez uma rápida inspeção visual no apartamento. Jogou as roupas que havia usado durante o dia - e que estavam no chão ­no cesto de roupa. Depois, se jogou na cama, puxou o cobertor até o nariz e desligou a luz.

Rígida como uma tábua, olhava fixamente para a escuridão. Os ouvidos registravam os sons da noite: o silvo suave de um ôni­bus parando no ponto; um homem super feliz cantando, numa interpretação semelhante à do cantor dr. Alban, "Sing it, Hallelujah, sing it Hallelujah"; um barco que apitava na baía Riddarfjärden. Então, Amanda ouviu a portaria abrir. Passos pesados, mas rápidos, se apressavam pelas escadas. O toque da campainha ecoou em todo o apartamento.

Ela esperou dois segundos e então se levantou lentamente da cama. Os passos se arrastavam pelo chão. Abriu a porta e esfregou os olhos. O sabor de café e licor se espalhou pela boca de Amanda quando Moses a beijou. O terno estava com cheiro de charuto aromático. A porta bateu atrás dele, e a escuridão agora escondia a sua imagem. As roupas de Moses pareciam duras con­tra a pele de Amanda. A gravata estava atrapalhando.

Ela precisava tomar uma providência.

 

O encontro com a chefe de polícia do distrito tinha sido acima das expectativas. Amanda respirava de uma forma audível quando fe­chou a porta da sala de reunião atrás de si. A chefe permaneceu na sala. O encontro fora apenas o primeiro de uma série. Amanda admirava a sua eficiência e a recepção agradável. "Outros chefes deveriam ser como ela", pensou Amanda.

A reunião resultara em duas coisas: uma, que Morgan seria desligado do caso; outra, que Amanda teria suporte para o seu trabalho futuro e ganharia três novos recursos, alem de Andreas Fahlén, assessor de imprensa da chefe de polícia. Ele iria, até se­gunda ordem, manter todo o contato com a mídia. Amanda não tinha nada contra. Agora ela poderia continuar trabalhando des­preocupada e, ainda, com mais ajuda, que, de preferência, não ati­rasse de forma descontrolada.

O próximo passo deles era entrar em contato com o grupo dentro da polícia que cooperava com o Transporte Público de Es­tocolmo (SL) para saber sobre as imagens de vigilância.

Em 2007, o Transporte Público de Estocolmo (SL) instalara 3600 câmeras e unira-as em uma rede chamada Tubnet 3. Elas subs­tituíram as câmeras que a polícia tinha instalado em dez estações, nos anos 1960. O gigantesco projeto de vigilância, denominado Projeto de Segurança, fora feito em cooperação com os serviços de emergência da polícia e da prefeitura de Estocolmo. O SL tinha um interesse financeiro significativo, pois gastava um quarto de bilhão de coroas por ano para a remoção de pichações, e a polícia queria tanto evitar delitos como obter provas. Uma vez que Amanda esta­va na lista de referência, era bastante familiarizada com o projeto e esperava muito do que as câmeras poderiam mostrar sobre o lugar para onde Nova fora, após a retirada da grande quantia de dinheiro.

A mulher baleada contara que Nova estava descendo a caminho da praça Sergel, quando ela ganhara as passagens. Havia uma grande chance de que Nova tivesse continuado até o metrô. Amanda pegou o celular e ligou para Kent, para que ele assumisse as fotos do metrô e solicitasse a retirada delas com ajuda do grupo de imagem. A própria Amanda iria dar uma olhada no passado de Nova. Hoje seria um bom dia de trabalho. Amanda tinha se for­talecido com o apoio superior. Talvez até tivesse tempo para uma reunião com o novo grupo de trabalho.

Na saída da delegacia, o celular de Amanda tocou e uma mensagem de Moses apareceu no visor. "Estranho", pensou Aman­da, "nunca nos comunicamos de forma pessoal durante o dia." Ela clicou na mensagem e recebeu uma pergunta sobre baixar um ringtone. "Não é do feitio dele", pensou Amanda, mas mesmo as­sim clicou "Sim". Quando chegou à rua, o download tinha sido finalizado e Amanda ouviu "The Final Countdown" à la Crazy Frog. "Moses deve ter batido a cabeça na parede", sorriu Amanda para si mesma, e entrou no Golf.

 

Em uma mesa na janela do Wayne's Coffee, Klas Granquist já es­tava esperando. Em contraste com os lattar, frapinos e chai-tea dos outros fregueses do café, ele bebia um copo de café puro. Miga­lhas no prato ao lado denunciavam uma rosca de canela. Amanda soube imediatamente quem ele era. Depois de trabalhar por quinze anos na polícia, podia reconhecer um policial assim que pusesse os olhos nele. Embora dessa vez não tivesse sido difícil. Ele era o único homem com mais de quarenta anos, com muito mais, na verdade. "Eu vou me aposentar no ano-novo", ele contara ao telefone.

Quando Amanda brincava com os amigos, costumava dizer que existem dois tipos de policiais que se aposentam - aqueles que morrem um ano depois e aqueles que arrumam um cachorro e se mudam com a esposa para Málaga. Klas parecia ser do segundo tipo, com um sorriso jovial e olhos cintilantes.

A barba grisalha era curta e bem aparada. O indício de bar­riga podia ser imaginado só pelo gosto alimentar. "Ele é do tipo que pode fazer com que o criminoso mais cruel se sinta confortá­vel", pensou Amanda.

Klas Granquist levantou-se logo que viu Amanda e estendeu uma mão seca, mas quente. Ela o cumprimentou, mas se descul­pou com um aceno esclarecedor para o balcão. O plano dela era comer uma salada leve, mas, quando viu as foccacias enfileiradas na prateleira de cima, não conseguiu se conter. O desejo no estô­mago era irresistível.

-              Uma foccacia com presunto de Parma e queijo mussarela - ela pediu e pagou.

Em seguida, voltou para Klas Granquist na mesa perto da janela.

-              Tenho ouvido falar de você - foi a primeira coisa que ele disse.

Todo mundo me conhece, mas eu não - disse Amanda, rindo.

Desculpe, não foi isso que eu quis dizer - disse Klas Granquist, parecendo sincero.

Oh, eu entendo - disse Amanda, e foi diretamente ao assunto para passar por cima da observação dele. Não era, também, intenção dela criar um clima tenso. Ela estava acostumada a ser reconhecida. Quando começou na Academia de Polícia, era uma raridade. Na época, não havia nenhuma chefe de polícia feminina distrital, e poucas mulheres patrulhavam a cidade. Agora, um ter­ço dos candidatos à Academia de Polícia era composto de mulhe­res, e as recém-formadas, muitas vezes, eram mais estimadas do que questionadas. Hoje, ela considerava um elogio ser reconhecida, coisa que facilitava o seu trabalho significativamente. "Melhor ser reconhecida do que ter má fama", raciocinou.

Conte-me sobre Nova Barakel - ela disse.

Como você sabe, ela partiu pra cima do seu estuprador. Naquela época, eu não sabia se deveria admirá-la ou se deveria ter medo. Ela tinha apenas quinze anos, mas conseguiu fazer picadi­nho de um homem adulto.

Como ela conseguiu?

Nós realmente nunca tivemos um esclarecimento sobre o que aconteceu exatamente, mas o relatório da autópsia mostrou hemorragias múltiplas, tanto na cabeça como no estômago. O crânio estava até afundado em uma parte. Examinaram o cérebro para ver se tinha ficado inchado, mas não houve tempo para os médicos fazerem qualquer coisa antes que fosse tarde demais. Um dia, trabalhamos com a teoria de que ela tinha sido ajudada por alguém e que protegera essa pessoa.

Será que ela fez isso?

Nós não pudemos provar.

Mas o que Nova disse de tudo isso?

No início, ela não disse nada. Tinha recebido um ferimen­to grave no pescoço. E, depois, disse apenas que estava com raiva porque ele tinha mexido em seus seios.

Não foi apenas nos seios que ele mexeu...

Não, mas, de certa forma, foi quando ela se ligou. Garota corajosa. Eu não gostaria que ela tivesse raiva de mim.

Amanda pensou sobre a cicatriz que marcava a garganta de Nova e perguntou:

Mas ela não estava gravemente ferida? Como conseguiu matar o rapaz?

Tenho tantas dúvidas quanto você. Paramédicos da ambulância recolheram-na a cinco metros de distância do rapaz. To­talmente fora de si. Tinha perdido um bocado de sangue. Se eles tivessem vindo meia hora depois, ela poderia não resistir.

Pelo que entendo, ela não foi condenada por nada? - questionou Amanda.

Não, o promotor recorreu, mas tinha um diabo de uma advogada. Sua própria mãe, Elisabeth Barakel.

Você acha que ela poderia matar de novo? - perguntou Amanda.

Klas Granquist pensou por um longo tempo. Dava para perceber que suas palavras pesavam. Então, disse:

Sim, se for colocada contra a parede, ela se defende.

Só então?

Klas Granquist sacudiu os ombros, num gesto de interro­gação.

 

Nova não conseguia ver sua própria mão à sua frente. Estava to­talmente escuro. O ar era quente, agradável e a envolvia. Uma brisa calma brincava com as copas das árvores. Além disso, não se ouvia nenhum som, exceto o da sua própria respiração. Apesar do calor, o outono estava se aproximando a passos rápidos. Seu reló­gio tinha avisado que eram 23h, depois de algumas horas de so­nolência. O último metrô saía à meia-noite e meia, e ela pensava em pegá-lo. Eram vários quilômetros de floresta escura como breu, até lá. Mas Nova não via isso como um problema - orienta­ção, mapas e bússolas eram alguns de seus grandes talentos e hobbies. Aquele era o seu elemento certo, e, após as compras exa­geradas na loja Playground, ela tinha o que precisava: Suunto X9, um relógio com GPS e algo chamado "função find home". "Tra­paça", pensou Nova, e ignorou a função. Em geral, um mapa e uma bússola eram suficientes para ela.

À luz da lanterna, ela desmontou a barraca e guardou minuciosamente todas as suas coisas na mochila grande. Depois, es­condeu a mochila entre uma rocha e um pinheiro com galhos secos. Os sacos plásticos das refeições do dia, ela os levou consigo, debaixo do braço. Lembrava-se de imagens recentes de uma cam­panha inglesa contra as sacolas plásticas. Especialmente uma tinha se fixado em sua memória: uma cegonha que estava com­pletamente coberta por um saco plástico transparente. A única coisa que aparecia era o bico.

Em uma reunião, eles haviam discutido se o Greenpeace usaria a mesma campanha na Suécia, mas decidiram se concentrar em transporte, em vez disso. Os suecos não costumam jogar tanto os sacos na natureza, e as emissões de dióxido de carbono seriam significativamente reduzidas se o transporte de alimentos fosse modificado, mais do que se o número de sacos de plástico fosse re­duzido. Agora essa discussão parecia muito distante para Nova, embora tivesse acontecido havia apenas uma semana.

Ela começou sua jornada na escuridão.

A lanterna formava um estreito caminho de luz.

Se fosse dia, ela teria ido direto através dos bosques e cam­pos, mas, no escuro, o risco de tropeçar e torcer o pé era muito grande. Ela não podia permitir que lhe acontecesse isso. Então, escolheu um dos principais caminhos, que, durante o dia, ficava cheio de corredores, ciclistas e pedestres. Agora estava completa­mente vazio. Mas o cheiro de musgo e árvores velhas estava por toda parte. Em outras circunstâncias, Nova teria apreciado o pas­seio rápido, mas agora se sentia pressionada e nervosa.

Ela chegou vinte minutos antes de o metrô sair. Pelo fato de ser o último trem da noite, ela se preocupara em chegar com uma boa margem de tempo. Um grupo de jovens barulhentos que tinham bebido muito estava no outro extremo da platafor­ma. Nova percebeu que ela pensava "como são infantis" quando dois rapazes estufaram o peito e começaram a empurrar um ao outro, como galos. Mas, provavelmente, a diferença de idade em relação a ela era de apenas dois ou três anos. "Droga, como es­tou me sentindo velha", pensou Nova. Ela sentou-se em um banco e esperou.

Enquanto isso, seus pensamentos viajaram até a visita que fizera à biblioteca da cidade. Em uma hora, conseguira ler a maior parte do que o bibliotecário encontrara sobre Nefilim e perce­beu que era difícil saber o que estava certo e o que estava errado. Também havia entendido que era quase impossível saber a ori­gem tanto dos textos quanto das histórias. O mesmo verso sobre Nefilim havia sido interpretado de várias maneiras, através dos milênios. Graças a um erro de tradução, a palavra, em uma ver­são do grego, vinha sendo interpretada como "gigantes". Isso ti­vera impacto sobre uma série de traduções europeias. Nas lendas da Idade Média, havia até relatos de que um gigante teria acompanhado a Arca de Noé. Se o tronco da palavra fosse analisado, os Nefilins seriam, em vez disso, conhecidos como "os caídos" ou "os expulsos".

Nova então pensou que talvez fosse algum tipo de máfia que tivesse pegado o nome Nefilim e que sua mãe estava envolvida até as orelhas com eles. Nova sabia que alguns dos clientes dela eram mais que obscuros. Lucrativo, mas arriscado. "Será que minha mãe foi assassinada pela máfia", pensou Nova, "e agora eles estão tentando me envolver também?"

O metrô chegou chacoalhando na estação, e ela entrou.

 

Amanda olhou com desgosto a bolsa que estava jogada em um canto do apartamento. Duas semanas antes, havia olhado para ela com enorme prazer. Agora, a situação era bem diferente. Sua conta de salário estava vazia, o pote de moedas, limpo, e a solução só chegaria em alguns dias. Só tinha dinheiro em um lugar onde ela não queria olhar. Na bolsa.

Inspirou profundamente e segurou a respiração. Então, pe­gou a bolsa e levou-a para o seu minúsculo banheiro. Ela a abriu rapidamente. Alguns de seus antigos conteúdos estomacais tinham secado, outros estavam mofados. Então ela percebeu seu erro de cálculo. O cérebro começou a sinalizar falta de oxigênio. Ela não conseguiria prender a respiração por mais tempo. Todo o conteúdo foi jogado na pia. Carteira, maquiagem e recibos mis­turados com os restos do estômago de Amanda. Mas agora ela precisava tomar novo fôlego.

Ela não deveria ter ficado dentro do espaço apertado. O cheiro acentuado entrou em suas narinas. Tinha que se virar e deixar o jantar parar no vaso. Quando o corpo se acalmou, ela saiu para o canto de sua cozinha e buscou um saco. Dessa vez, respirou fundo antes de entrar no banheiro de novo. Rapidamente, pegou tudo e colocou no saco, exceto a carteira. Essa ela abriu com nojo e deixou as notas voarem dentro da pia junta­mente com a carteira de motorista e o cartão de aluna da acade­mia Sats. O resto foi jogado no saco, que ela cuidadosamente amarrou.

Amanda enfiou a cabeça para fora da porta, tomou novo fôlego e abriu a torneira para que caísse água em cima das notas e dos cartões. Agora, o ar estava bem melhor e ela era capaz de respirar normalmente. Cédula por cédula foram lavadas e pen­duradas no varal de toalha. Os tubos de aquecimento as secavam rapidamente.

As náuseas novamente se faziam presente.

"Eu já tive dias melhores", pensou Amanda.

 

Nova espreitou cautelosamente ao virar a esquina.

A casa parecia calma e sem luz. Olhava hostil para Nova, com seu vidro escuro e vazio.

Ela se sentia desconfortável. Não havia polícia à vista, mas Nova sentiu que estava com medo de entrar. Não parecia mais ser a sua casa, apesar de ela ter dormido lá duas noites antes, pela última vez. Olhou para os dois lados da rua, atravessou-a em dire­ção à casa e colocou a chave na fechadura. A chave deu duas voltas sem dificuldade.

Nova abriu a porta e entrou. Parou repentinamente. Havia algo diferente no cheiro e na atmosfera. Algo que não deveria estar lá.

Nova estava prestes a se virar e sair, mas se conteve. Claro que algo estava diferente.

"A casa toda estava cheia de policiais", pensou ela. Quando fechou a porta, viu a câmera de vigilância. Continuava funcionan­do. "Tenho que apagar o filme", observou, e continuou até o hall.

"Não sabia que a polícia fazia faxina para as pessoas", pen­sou Nova quando descobriu que a pilha de molduras e telas ti­nha sumido. Tentou sorrir do seu próprio comentário, mas não conseguiu.

Algo definitivamente não estava como deveria.

Nova se obrigou a continuar. Ela não poderia justificar para si mesma o fato de simplesmente desistir. Seu objetivo era o escri­torio. Era para que iria. Aqui e ali existiam traços da presença da polícia: um tapete estava jogado para um lado, uma cadeira fora movida e os livros na biblioteca estavam empilhados no chão.

Por duas vezes, Nova se virou na escada. Era como se alguém estivesse olhando para ela, por trás. Mas quando a luz da lanter­na penetrou a escuridão, ela percebeu que não havia ninguém lá. "Vou vender esta casa maldita", decidiu.

Evitou se sentar na cadeira da escrivaninha e em vez disso pegou um banquinho para colocar o vaso de flor que estava perto da janela. A planta já estava no chão. Era óbvio que a polícia tinha feito um cuidadoso trabalho no escritório. Não tinha ficado mui­ta coisa do trabalho meticuloso da mãe. Cada papel fora virado. Nova puxou para fora da escrivaninha gaveta por gaveta. A pri­meira tinha a etiqueta "Economia" e continha as contas da última década e as declarações ordenadas por ano.

Ela deixou de explorar essa gaveta. A segunda tinha sido trancada uma vez e continha informações sobre os clientes da mãe de Nova. Agora estava arrombada e vazia. "A polícia deve tê-la levado", constatou Nova. Na terceira gaveta havia uma pilha de fotografias.

A maioria, Nova já havia visto. Elas mostravam uma mãe aparentemente feliz com sua pequena filha; Nova aos cinco anos, sentada em um cavalo no parque Skansen; Nova e sua mãe to­mando sorvete na Ilha Djurgarden; uma foto recente de Nova, na formatura do ensino médio. Quando a segurou, viu um rosto ao fundo. Era pequeno e embaçado e estava fora de foco. Mas Nova o reconheceu: Peter Dagon olhava diretamente para a lente. Nova colocou rapidamente a foto dentro da pequena mochila preta e continuou olhando outras fotos, porque não tinha tempo nem conseguia pensar no que aquela foto significava.

Finalmente, Nova alcançou a gaveta que estava marcada com "Outros" e continha um monte de pastas. Algumas pastas se relacionavam à casa, outras, com a bolsa de valores ou a escola­ridade de Nova. Havia duas pastas que ela não entendia por que sua mãe as guardava. Uma delas estava marcada como "Anomalia do Ararat" e continha anotações e imagens de satélite e a outra era chamada de "O fornecimento de energia na Suécia" e consis­tia basicamente de mapas. Nova também colocou-as na mochila. Não encontrou nada mais que fosse interessante.

Em seguida, deu uma passada rápida no seu quarto e pegou para si algumas peças de roupa. O sentimento de não ser bem-vinda foi aumentando, apesar de estar cercada por suas coisas. Contraindo os músculos, foi até o corredor. Usava a lanterna para iluminar à frente e atrás. Não se via nada de estranho.

A escada rangeu alto quando ela a puxou para baixo e continuou a protestar quando ela subiu. Era como se a casa não qui­sesse deixá-la entrar nas partes mais internas. A escuridão se dis­persou relutantemente quando ela deixou a luz da lanterna tocar o canto do sótão. Muito pouco fora mudado, mas notou que os CDs com informações de vigilância tinham sumido. O computa­dor ainda estava ligado, e Nova sentou-se e se conectou. Parecia que os técnicos da polícia haviam decifrado a senha, pois só havia filmes do último dia. Por curiosidade, ela apertou o play e rodou todos os filmes de todas as câmeras simultaneamente, cada um numa janela.

Quando o filme começou, havia poucos policiais ainda na casa, mas eles pareciam juntar suas coisas. Nova pressionou o bo­tão avançar e viu como eles remexiam nas coisas particulares dela e, em seguida, um por um, se deslocavam até a porta. O último, um homem alto e gordo de seus cinquenta anos, trancou a porta quando saiu. Nova pensou em apagar o arquivo, mas parou no último minuto. Um vulto passou em uma das câmeras. "Acho que estou imaginando", pensou. Não porque achasse que não tivesse visto algo, mas porque não queria ter visto algo. O último policial tinha saído meia hora antes, e a casa estava escura e vazia. Quem então ainda estava na casa?

A atmosfera no sótão era agressiva e desconfortável. Nova lançou mais uma vez um olhar por cima do ombro. Nada além de móveis velhos e sombras.

Ela retrocedeu hesitante o filme e o passou na velocidade original. Não sabia se teria coragem de olhar, mas não conseguiu apagar o filme e ignorar o que tinha visto. Três das câmeras mos­travam só a escuridão como breu que havia na casa, mas a câmera do escritório tinha gravado contornos fracos do mobiliário e da arte. A luz da rua penetrava moderadamente. Nova estremeceu quando viu uma sombra passando pela tela.

Alguém se sentou na escrivaninha.

Contornos de uma mulher eram claramente visíveis.

Ela virou a cabeça e olhou pela janela.

O poste da rua iluminava o rosto dela.

Era a mãe de Nova.

Era o seu perfume que pesava sobre o apartamento.

Amanda sentou-se pálida no toalete. "Não dá mais", ela decidiu. Não apenas o jantar, mas também o café da manhã tinha ido pelo caminho errado e desaparecido no vaso sanitário. O almoço de ontem tinha percorrido o sistema digestivo com tanta pressa que Amanda não tinha certeza de que havia dado tempo de absor­ver algum nutriente. "Eu preciso de toda força possível para este caso", pensou, levantou-se e lavou as mãos. Saiu diretamente do banheiro para onde estava seu celular. O auxílio à lista lhe deu o número do posto de saúde mais próximo. Depois de esperar dez minutos, conseguiu marcar ura horário para dali a dois dias.

Amanda olhou o relógio. Em quarenta minutos, tinha uma reunião que ela havia marcado. Suspirou alto e, lentamente, cal­çou um par de tênis superbrancos. Hoje, ela não tinha como sair de salto alto.

 

Quando Amanda entrou, a sala estava vazia. O relógio mostrava que faltava um minuto para as oito. Ela olhou para o corredor, mas ninguém estava a caminho. Tinha algo que não encaixava, mas o quê, ela não sabia. Sem pegar o caderno de anotações, Amanda se sentou para esperar. "Dou-lhes um minuto", ela decidiu.

Um minuto passou.

A sala continuava vazia como antes.

Amanda pegou seu celular e ligou para Kent.

-              Onde estão todos? - perguntou.

-              Eu tentei ligar para você. Estou preso no trânsito. Um caminhão de lixo deu ré na via E4 e causou uma série de colisões.

-              Deu ré?

Sim, deu ré. Parece que o motorista culpou sua confusão mental pelo acidente.

A reunião que convoquei então foi cancelada porque um lixeiro teve uma confusão mental? - perguntou Amanda, irritada.

-              Calma, nós remarcamos para meia hora mais tarde.

Por que não fui informada?

Tentamos ligar para você, mas você não para de falar no telefone o tempo todo.

Kent começou a ficar irritado.

Eu não falei um segundo sequer no telefone a manhã toda. Ficou silencioso a manhã inteira - respondeu Amanda.

Eu, pelo menos, tenho ligado e ligado. Deve haver algo de errado.

Pelo visto, está funcionando agora.

Depois de terminar a chamada, Amanda olhou para seu celular com uma expressão de dúvida, sacudiu os ombros e colocou-o sobre a mesa. Decidiu então permanecer na sala; ela tinha ali tudo de que precisava, e com isso não tinha que ir para sua sala e levar vários minutos andando ao longo do corredor.

Kent foi o primeiro a chegar, examinou Amanda com um olhar interrogativo e disse:

-              Ei, me desculpe se eu pareci aborrecido por telefone. Realmente, eu fiz com que a reunião começasse atrasada.

Foram alguns segundos até que Amanda se ligasse no que Kent dizia. Ela havia se esquecido completamente da conversa irritante e muito menos esperava um pedido de desculpas. Vez por outra, ele a surpreendia com uma sensibilidade maior do que o seu tamanho. Mas ela se sentia contente com a sua preocupação em saber dos seus sentimentos. Ele demonstrava uma preocupa­ção verdadeira.

-              Está tudo bem - disse Amanda, separando seus papéis so­bre a mesa.

Não demorou muito para que os outros integrantes da reu­nião começassem a chegar. Havia três novos - e todos tinham se dedicado, no dia anterior, a se familiarizar com o caso - e mais um técnico em cena de crime que participara da busca domici­liar na casa de Nova. Era o mesmo homem - de mais ou menos trinta anos e cicatrizes profundas de acne - que havia investiga­do o apartamento do diretor executivo da Vattenfall. Dessa vez, Amanda sabia o seu nome: Emil Ekenkrona. A palavra foi dada primeiro à ele:

-Houve duas coisas importantes encontradas na casa de Nova Barakel. Primeira, o macacão, que agora ligamos ao local do crime. O fato de a análise do vômito de Nova já ter sido feita torna esse item supérfluo, mas entendo que lhes dá uma noção de tempo.

-              Sim, conforme disse o rapaz da Seven-Eleven, a mulher de macacão laranja saiu à meia-noite e meia - acrescentou Amanda -, ou seja, os assassinatos aconteceram depois. Estou esperando o relatório da autópsia para ter a confirmação.

-A segunda coisa importante é que a caixa em que Eli­sabeth Barakel guardava informações sobre seus clientes estava aberta e vazia.

Alguém tem uma teoria sobre o motivo?

Pode ser Nova? - questionou Kent.

-              É o mais provável, mas por que ela teria feito isso? - perguntou Amanda, olhando ao redor.

Emil Ekenkrona lançou:

Nova mesma era uma cliente? Ela pode não ter tido tempo para procurar o que queria esconder e levou toda a merda?

Ou sua mãe lhe pediu para fazê-lo se ela um dia fosse embora - acrescentou Kent.

Mas e aquele Greenpeace, o que faz? - questionou Emil Ekenkrona. - Eles são ativistas e explodem os navios e tal?

-              Não, agora você está viajando — disse Kent com uma voz que fez com que todos ao redor da mesa estremecessem. - Foi o navio Rainbow Warrior do Greenpeace que foi explodido pelo serviço secreto francês quando eles protestaram contra os testes de armas atômicas em recifes de corais.

Já tem algum tempo, certo? - disse Amanda, procurando na memória.

Em alguma época no meio da década de 1980 - disse Kent. - O caso todo foi julgado em tribunal, e o Greenpeace rece­beu por danos e pôde comprar um barco novo.

Como você se lembra de tudo? - perguntou Amanda, que, mais de uma vez, ficara impressionada com a quantidade de fatos que cabiam na cabeça de Kent.

-              Eu sou um defensor do Greenpeace. Pago 100 coroas por mês.

Mas, em todo caso, pode não ser totalmente errado dar uma verificada no Greenpeace - insistiu Emil Ekenkrona, evitan­do olhar para Kent. — De qualquer maneira, eles são ativistas.

Eu vou bater um papo com o pessoal do Greenpeace - finalizou Amanda -, mas temos realmente que nos concentrar em pegar Nova. A propósito, como vão indo as imagens do metrô, Kent?

Eu vou me encontrar com o grupo de imagem nesta tarde. Retorno depois disso. Por outro lado, consegui a lista das ligações do celular de Nova e achei uma coisa interessante.

Todos os olhares se voltaram para Kent.

-              Nils Vetman a chamou.

-              Merda, o que vocês acham que isso significa? — perguntou Amanda, porque ela sabia que Nils Vetman não precisava de apre­sentação.

Nils Vetman era conhecido como um advogado do crime econômico. Oficialmente, ele representava os criminosos apenas nos tribunais, mas, não oficialmente, a polícia sabia que muitas vezes ele os ajudava a fazer com que o dinheiro desaparecesse e fosse escondido em todos os cantos do mundo. Vetman havia es­tudado na Escola Superior de Comércio e ao mesmo tempo ti­nha feito Direito, para depois ter uma brilhante carreira nas áreas cinzentas da lei. Amanda sabia que ele estava no topo da lista de pessoas a serem investigadas pelo Órgão de Crimes Econômicos. O procurador da câmara, Hans Ihrman, que era responsável pelo órgão e tinha a tarefa de localizar o dinheiro do crime organizado, havia especificamente mencionado o nome dele durante as reu­niões internas de que Amanda participara.

Ninguém ao redor da mesa sabia o que Nils Vetman e Nova tinham em comum. "Vou ter de simplesmente perguntar a ele", pensou Amanda.

 

Eddie andou com dificuldade até sua casa no morro Bradstup, número 21, em Mälarhöjden. O sol brilhava nas gotas de suor em sua testa. Estava de calça jeans e um pulôver de manga longa quando a polícia o prendeu. Continuava a usá-los. Ele destrancou a portaria e seguiu se arrastando três andares para cima. Suspeita de homicídio.

Era muita coisa para Eddie. Ainda que tivesse sido solto por não terem conseguido encontrar nada que o ligasse ao crime ou ao lugar. Ele havia sido preso uma vez, antes, quando protestara contra a Vattenfall por construir novas usinas de carvão, na Ale­manha. Mas aquele era um assunto totalmente diferente e fazia parte dos cálculos.

Junto com alguns colegas alemães, ele havia colocado um dinossauro pesado de aço e três toneladas de carvão do lado de fora do escritório da Vattenfall, na Alemanha. Em seguida, distri­buíram panfletos. Para cada pessoa que quisesse ouvir, eles con­tavam que a Vattenfall expelia, com seus 90 milhões de toneladas de dióxido de carbono, mais do que a Suécia inteira. Não era ab­surdo, então, que o diretor executivo deles fosse um conselheiro da chanceler alemã Angela Merkel em questões ambientais? Mas agora o diretor executivo aparentemente estava morto. E a polícia acreditava que ele estava envolvido. E Nova. Que ideia ridícula. Nova nunca iria arrancar um fio de cabelo sequer, nem de um ser humano nem de um animal.

"Não a minha Nova."

Eddie pegou o celular do bolso e ligou para o número dela pela oitava vez. Apesar de haver apenas uma breve mensagem gra­vada na secretária eletrônica, ele revivia ouvindo sua voz. Deixou uma mensagem e destrancou a porta de seu apartamento. A luz o iluminava. Todas as janelas do apartamento davam de frente para o rio Málaren. Numa encosta, três andares abaixo ficava Klubbenborg, onde os ricos chegavam para as suas temporadas de verão em barcos a vapor, no final do século XIX.

O apartamento de um quarto era dividido em duas partes. Em um lado ficava uma cama com noventa centímetros de largu­ra e uma escrivaninha com um computador. A outra parte mais parecia um armazém do que um apartamento e era dedicada ao grande interesse de Eddie - mergulho. Em uma estante, parte de sua roupa seca de mergulho; um macacão fino, de borracha, esta­va pendurado com as botas encaixadas nele; outro macacão, com enchimento, em formato gigante, ficava em um cabide; um par de pé-de-pato militar, pesado, estava embaixo.

Na parede, dois cilindros presos a uma asa. Ao lado, mais dois cilindros auxiliares utilizados para mistura de outros gases. Na prateleira em frente, luvas grossas, ceroulas, tops de lã, gorro e tudo que um mergulhador dedicado precisa. O relógio estava em cima do computador.

Na esperança de ter recebido um e-mail de Nova, Eddie se sentou imediatamente ao computador. Enquanto a máquina ini­ciava, ele pegou um biscoito orgânico e chocolate amargo da gela­deira. "Setenta por cento de cacau", estava escrito no pacote. Eddie deu uma mordida grande e deixou o chocolate derreter na boca.

Decepcionado, leu os remetentes das dez novas mensagens que tinha. Nenhuma delas era de Nova, e a metade era spam. Para desviar os pensamentos, ele clicou em um e-mail interno do Greenpeace. Primeiro, ele o leu superficialmente, sem se dar conta. Quando terminou, perguntou-se se tinha lido direito. Na segunda vez, ele leu com atenção e interesse. Vinte e seis milhões e meio de coroas. Nunca, em sua história sueca, o Greenpeace havia recebido uma doação tão grande. Por trás, existia um fun­do que trabalhava em questões ambientais, FON. "Estranho", pen­sou Eddie, "eu nunca ouvi falar de FON antes. Preciso ligar para Nova." Como sempre, essa era a conclusão a que chegava. Quan­do ouviu a secretária eletrônica do outro lado da linha, ele se lembrou: ninguém sabia onde Nova estava.

 

A água estava muito calma e brilhava como um espelho. Às vezes, se formavam pequenos anéis criados por algum inseto que mor­ria ou peixes que tocavam a superfície em busca dos insetos. A floresta ficara vazia desde quando a cidade retomara o ritmo diá­rio e voltara a funcionar após as férias de verão. Nova estava sen­tada em uma pedra e deixava seus pés serem refrescados pela água morna. Seus pensamentos estavam longe e tinham dado uma es­pécie de nó.

Ela mal se lembrava de como conseguira voltar para a bar­raca depois de visitar a casa; um táxi ilegal a havia deixado na esquina e ela gritara:

- Ande! Ande!

Quando foi deixada no local, hesitou em entrar na escuri­dão da reserva de Nacka. O que antes havia sido agradável agora era apavorante. Por fim, sentou-se na calçada e esperou debaixo de um poste até a primeira luz da manhã dissolver a escuridão. Cada sombra foi preocupante e terrível. Ela ficou segurando o celular com força, apertando-o na mão. Isso havia acabado com toda a sua disposição para colocar a bateria e ligar para Arvid. O que ela mais queria era que ele estivesse ali.

Nova temia pelo crepúsculo que chegaria dentro de poucas horas. Por várias vezes, o vídeo com a imagem da mãe surgiu em sua mente. Por que Nova tinha visto o que viu? Essa era mais uma forma de punição? Mostrar que era ela, sua mãe, quem ainda de­cidia? Nova não sabia mais o que pensar.

No final, ódio e raiva brotaram dentro dela.

"Você não vai estragar mais nada em minha vida. Nem viva, nem morta."

A mão de Nova encontrou uma pedra, e ela a atirou com raiva dentro da água, o mais longe que pôde. Depois se levantou abruptamente e marchou de volta até a barraca. A pequena mo­chila estava jogada no canto de trás, e Nova precisou engatinhar para buscá-la. Do lado de fora da barraca, ela colocou as duas pastas e a fotografia que havia encontrado na casa. Começou pela fotografia e a examinou cuidadosamente. Não existia dúvida hoje também: era Peter Dagon quem olhava para ela. "O que ele estava fazendo na minha formatura?", perguntou Nova. Ela não se lem­brava de tê-lo visto na escola, mas também tinha certeza de que ele não havia falado com sua mãe, nem a cumprimentado. "Por que ele não falou com a minha mãe?", indagou. Um ano depois, ela deixara milhões para o seu fundo.

Eles não queriam mostrar que se conheciam.

Nova pôs a fotografia de lado e pegou a pasta que tinha o título "O Fornecimento de Energia na Suécia". Por cima, havia um mapa com uma visão geral do país, com linhas vermelhas e setas que cobriam todo o território. "A rede nacional de eletricidade", leu Nova. Logo abaixo, mapas detalhados das maiores cidades da Suécia: Estocolmo, Gotemburgo, Malmõ e Uppsala. Ali também havia algumas linhas. No fundo, algo que se assemelhava a um esboço, mas primeiro Nova não conseguiu entender o que era. Então viu uma grande nuvem com a indicação "Internet". Deve ser um mapa de uma rede, foi a conclusão a que chegou. No canto inferior direito havia uma pequena nota escrita com a letra da mãe: "Rede de Energia Sueca 1/3".

Em seu trabalho no Greenpeace, ela tinha lido atentamente o que a Rede de Energia Sueca fazia. Ela cuidava da rede nacional de eletricidade na Suécia e era responsável pelo fornecimento de eletricidade. Devia garantir que a entrega de eletricidade, tanto para organizações como para particulares, funcionasse. Mas ela não tinha a menor ideia de por que sua mãe tinha um mapa da rede de TI. "Deve ser secreto", pensou.

A segunda pasta estava identificada como "The Ararat Anomaly" e deixou Nova ainda mais intrigada. Continha duas foto­grafias. Uma era nitidamente velha e em preto e branco. A outra era nova e estava marcada com: 39°42'10" N, 44°16' 30" E. Nova concluiu que devia estar em algum lugar a leste do Mediterrâneo. Ambas mostravam a mesma coisa, mas em épocas diferentes, ela adivinhou. Uma sombra escura aparecia em uma manta branca de neve. Na foto mais recente, o objeto era maior e tinha contor­nos mais nítidos. Parecia mais ou menos com um barco, pensou Nova, ou melhor, uma sepultura viking em forma de navio. O último item na pasta era uma apresentação em PowerPoint de alguém chamado George McAlley e estava datada: 12 de setem­bro de 2003. O título era "Remains of the Ark of Noah" e parecia conter uma apresentação da história por trás da Arca de Noé e um argumento sobre a razão de estar em uma montanha chama­da Ararat.

Nova se prendeu a uma página com fatos históricos sob a forma de pontos:

 

Berossus, historiador da Babilônia, escreveu em 275 a.C. sobre um "navio" que estava na montanha.

Ao escrever no primeiro século d.C., o historiador judeu Flá­vio Josefo afirmou que parte dessa "embarcação" estava na montanha.

Nicolau de Damasco, outro historiador do primeiro século, relatou que a "madeira de um navio" descansava perto da cúpula.

E até mesmo o famoso explorador Marco Polo, no final do século XIII, a caminho da China, mencionou em sua Via­gens de Marco Polo que a Arca de Noé continua visível no "topo" de Ararat.

 

Existe uma ligação entre a busca pela Arca de Noé, Nefilim e o Pentateuco, pensou Nova. O que isso significa? E o que os clientes da minha mãe têm a ver com isso e com todo esse dinheiro? Ela olhou a fotografia com Peter Dagon.

-              Você com certeza sabe - disse Nova em voz alta, e olhou diretamente nos olhos dele.

 

Amanda virou a esquina da rua Götgatan e andou trinta metros até a rua Höken. Quando parou na portaria número 2, viu um cartaz aparentemente velho, em preto e branco, com um navio. "Procura-se: Pescador ilegal - Recompensa 10 mil euros." "Estou no lugar certo", pensou Amanda, e tocou a campainha. Uma mu­lher de mais ou menos trinta anos abriu.

-              Procuro Stefan Holmgren - explicou Amanda.

-              Bem, eu o vi aqui hoje. Espere aí - ela disse, apontando para uma mesa redonda repleta de panfletos espalhados.

Depois de um minuto, a mulher retornou:

-              Desculpe-me, mas não consigo encontrá-lo. Sei que ele está aqui hoje. Provavelmente está no banheiro ou saiu para comprar o almoço ou algo assim.

Amanda balançou a cabeça e começou a mexer nos panfle­tos. A maioria parecia tratar da questão climática. "A evolução da

Energia [R]", Amanda leu em voz alta. Na ausência de outra coisa, continuou a ler páginas e páginas sobre como a energia alterna­tiva pode substituir os combustíveis fósseis. Quando chegou ao fim, cinco pessoas tinham perguntado se ela precisava de ajuda, mas ninguém havia encontrado Stefan Holmgren.

Ela então pegou o telefone e ligou para o número dele. De­pois de dois toques, ele respondeu:

Ah, você já está aqui. Eu estava apenas no banheiro, tomando um banho.

Eu durmo aqui, às vezes - explicou, ao cumprimentá-la, um minuto depois. - Então, aproveitei a oportunidade para to­mar uma ducha, já que estava livre.

A primeira coisa que Amanda notou foram as jóias de me­tal nos lábios de Stefan Holmgren. Depois, pôde sentir a intensa energia que somente as pessoas que se dedicam a algo de coração conseguem irradiar. Ele andou na frente de Amanda em um cor­redor longo, e ela constatou que tinham a mesma altura, agora que ela estava de salto. Um cinto de rebites pretos prendia as suas calças.

Quando se sentaram, ele perguntou como poderia ajudar a polícia.

Estou investigando dois assassinatos. Você deve ter lido sobre eles no jornal.

Você quer dizer aquelas bobagens de que os ativistas ambientais estariam envolvidos nos assassinatos dos diretores execu­tivos? Foram feitas dezenas de ligações para o nosso departamen­to de imprensa por jornalistas perguntando sobre isso.

E por que você acha que é bobagem?

Eu não posso falar por outras organizações, mas temos uma política rigorosa - disse Stefan Holmgren. E ao enumerar uma lista, percebia-se que ele já tinha dito aquilo muitas vezes, antes. - Nós não temos a sabotagem como objetivo ou como mé­todo. Nunca escondemos nossas identidades. Sempre pagamos as multas. Se tivermos de quebrar uma fechadura, deixaremos sem­pre uma nova. Simplesmente lidamos com a desobediência civil. Até o assassinato, é uma longa distância.

-              Você conhece uma moça chamada Nova Barakel?

Stefan Holmgren inclinou-se e olhou atentamente para Amanda:

-Você quer dizer que Nova estaria envolvida de alguma forma?

-Ela está sendo procurada agora. O que ela faz aqui no Greenpeace?

-              Ela é uma ativista - disse Stefan Holmgren, pensativo -, ela participa de nossas ações e trabalha aqui como voluntária.

-              Ela tem algum interesse particular na Vattenfall?

-              Espere - disse Stefan Holmgren, deixando a sala rapidamente.

Um minuto depois, voltou com um grande cartaz e o colo­cou sobre a mesa: geleiras brancas desciam dos Alpes. O quadro todo irradiava ar fresco e natureza saudável.

-Você vê essa neve? - disse Stefan Holmgren, apontando para o quadro. - A Vattenfall coleta assinaturas que depois for­mam essa cobertura de neve. Assinaturas em favor do meio ambiente, como eles dizem. Uma grande bobagem, é como eu chamo isso.

Amanda focou nas figuras que desciam pela montanha e parecia conseguir discernir uma letra ou outra. Em seguida, ela perguntou:

Mas o abaixo-assinado é para quê?

Se assina, por exemplo, pelo preço global do dióxido de carbono. Não parece bom?

Sim, sim - respondeu Amanda incerta.

Veja! Se você não arranhar a superfície, soa como se eles fossem defensores do meio ambiente. O caso é que eles querem ter um preço global nos direitos de emissões, porque a alterna­tiva é que eles devem pagar mais pelas emissões dos países em desenvolvimento. Em outras palavras, eles ganham grandes somas para fazer lobby por um preço global. A Vattenfall também usa essa campanha para parecer que é uma opção ambiental, en­quanto colocam 80% dos seus investimentos em energia não re­novável. Seu plano de investimentos para os próximos cinco anos é sombrio: 70% do dinheiro irá para a energia nuclear e de car­vão. Se você perguntar ao povo sueco, que é dono da Vattenfall, ele quer grandes investimentos em energia renovável. Em vez disso, a Vattenfall constrói usinas de carvão.

Amanda começou a se cansar da palestra e conseguiu interrompê-la:

-              Mas o que isso tem a ver com a Nova?

Stefan Holmgren tirou uma foto que estava embaixo do pôster com a montanha: Nova carregava um cartaz amarelo e laranja. Em letras grandes, estava escrito "Atenção! Hipocrisia cli­mática acontecendo." Ao fundo se via a logomarca da Vattenfall, em uma barraca.

-              Ela participou dessa operação há apenas algumas se­manas. A Vattenfall tinha feito algum tipo de encerramento de campanha. Eles tinham distribuído 100 mil pequenos bonecos de plástico amarelos. Um para cada pessoa que havia assinado. A ideia era de que, aquele que assinasse ali, poderia colocar um bo­neco próprio. Não foram muitos, porque estávamos lá, infor­mando sobre o que realmente estava acontecendo.

 

O corpo pesado de Kent não se sentia bem no calor de agosto. O fato de ter que parecer respeitável não tornava as coisas mais fá­ceis. Embora tivesse tentado minimizar o problema, vestindo calças compridas e camisa de algodão, ele suava copiosamente. Na pasta, ele tinha uma troca extra de roupas caso manchas muito constrangedoras aparecessem sob os braços ou em outras partes comprometedor as. "Eu não preciso ter mau gosto porque peso alguns quilos a mais", costumava pensar. No fundo, não tinha mais os músculos que um dia haviam sido bem trabalhados e bonitos. Agora, eles eram fracos e envolvidos em gordura. Foi du­rante a gravidez da sua mulher que ele saiu da linha. Tornara-se um grávido imaginário. Quando ela deu à luz, a barriga dela desa­pareceu, mas a dele ficou.

Kent olhou irritado para uma suja camionete de entrega que estava estacionada atravessada na calçada. Depois de ter trabalha­do na polícia de trânsito por vários anos, era alérgico a esse tipo de comportamento. Logo em seguida, olhou as palavras escritas na janela traseira, toda suja: "Eu gostaria que minha namorada fosse suja assim". Kent não pôde deixar de sorrir e então entrou pela portaria. Em cerca de dois minutos, começaria a reunião.

Ele limpou a testa com um lenço antes de bater à porta do escritório de Eva Gren. No caminho, atirou o lenço no cesto de lixo dela. Era o terceiro hoje. Eva Gren era uma mulher extrema­mente magra, de mais ou menos cinquenta anos. O calor parecia não a incomodar, onde ela estava sentada, com uma camisa de manga comprida e calça jeans. Kent sabia que ela tinha cinco fi­lhos, mas se perguntou como eles poderiam ter sido gerados den­tro dela. Ela parecia tão magra, de alguma forma, estéril. "Mas quem sabe se não foram os cinco filhos que a deixaram assim?" Os pensamentos de Kent vagavam.

Eva Gren viu o homem gordo que entrou em sua sala e evi­tou olhar para o queixo duplo. O resultado foi que os seus olhos brilhavam, inseguros. Kent a fez se sentir incomodada. Todo o seu ser era um sinal evidente de um ataque cardíaco iminente, e ela não queria estar por perto. Esforçou-se para não ser preconcei­tuosa, mas estava sentindo que ele devia ter algo errado, em algum lugar. Que pessoa normal, com conhecimento de causa, encurta a sua vida com tantos quilos a mais? Às vezes, ela se pegava articu­lando com mais clareza em sua presença. Ela não tinha pensado nisso hoje.

-              Nova está em três câmeras - ela disse claramente.

"Será que ela tem um problema de fala? Coitada", pensou Kent, mas balançou a cabeça, encorajando-a para que continuasse.

Eu tenho as fotos aqui - ela disse enquanto colocava uma por uma em cima da sua escrivaninha e falava sobre elas.

Aqui ela compra um bilhete em carteia; aqui ela está descendo a escada rolante e aqui ela está esperando o metrô.

Kent pegou o celular para ligar para Amanda, mas estava ocupado novamente. "É possível se esquecer de desligar quando se acaba de falar em um celular?" pensou Kent, e guardou o celu­lar novamente. Em seguida, perguntou a Eva Gren:

-              O que a câmera mostrou no vagão do metrô em que ela entrou?

Essa falta. Ou melhor, o disco rígido que pedi para o Transporte Público de Estocolmo, em que todos os dados foram salvos, sumiu.

O quê? Alguém o pegou?

Sim, nós. Alguém na polícia solicitou por duas semanas como prova em um processo de estupro.

E não foi substituído?

A irritação começou a ferver em Kent.

- Não, parece que não.

Puta merda - disse Kent, batendo com a palma da mão na escrivaninha de Eva Gren.

Ela saltou e parecia assustada. Kent se arrependeu de sua explosão logo que percebeu a reação dela, porque sabia que alguns achavam que o tamanho de seu corpo era assustador. Aparente­mente, Eva Gren era uma dessas.

"Espero que ele não tenha um ataque cardíaco agora", ela pensou.

 

Durante décadas, Nor Boström tinha perseguido criminosos e com o passar do tempo se especializara em crimes de TI. Era um policial de corpo e alma. No começo de 2000, tinha feito uma parada de dois anos em sua carreira na Polícia Nacional de In­vestigação Criminal para trabalhar como chefe de segurança da empresa de segurança TI Defcom. Sua função era manter os hackers que eram funcionários no lado certo da lei e dar à em­presa uma aparência respeitável. Quando a bolha da TI estourou e a Defcom foi à falência, ele voltou para casa novamente. Agora, era chefe operacional do Departamento de TI da Polícia Nacional de Investigação Criminal. Amanda tinha grande respeito por ele e esperava atentamente para saber o que ele iria dizer sobre o que encontrara no computador de Arvid. Nor Boström coçou a cabeça, pigarreou e disse:

-              Sim...

Então, folheou as páginas dos documentos que estavam sobre a mesa, olhou pensativo e finalmente se virou para Amanda e disse:

-... nós encontramos uma série de coisas no computador. Acho que tanto você quanto a SAS estão interessados no que en­contramos.

Existe algo que pode ligá-las ao assassinato do diretor executivo da SAS? — perguntou Amanda.

Não, não diretamente. Ou melhor, nada. No entanto, encontramos o código-fonte do vírus móvel que atacou a mesa tele­fônica da SAS. Havia várias versões em seu computador, por isso é bastante óbvio que foi construído nesse computador. Era apenas uma pessoa que tinha acesso ao aparelho?

Ele estava em uma quitinete onde só o Arvid morava. Não sabemos mais do que isso.

Então é muito provável que ele o tenha feito, mas cabe a vocês provarem que só ele tinha acesso ao computador.

Amanda tinha apenas lido no jornal que um vírus destruíra a rede telefônica da SAS e só agora percebia que poderia ter algo a ver com o caso dela. "Embora pareça exagerado, não faz mal saber mais", ela pensou e disse interrogativamente:

-              Eu não estou totalmente atualizada sobre o que aconteceu com a mesa telefônica da SAS...

Nor Boström primeiro ficou surpreso porque pensava que todo mundo tivesse acompanhado a evolução do caso e, especial­mente, os investigadores que estavam acompanhando o assassi­nato na empresa. Confrontado com a realidade, ele logo se recu­perou e falou, com calma e de modo didático:

O vírus faz com que o telefone seja desviado para a mesa telefônica da SAS.

Então, não é na mesa telefônica que o vírus está localiza­do? - perguntou Amanda.

Não, a mesa telefônica fica sobrecarregada com mui­tas chamadas. Ataque Denial-of-Service, ataque DoS, é assim que é conhecido na linguagem de computador. A transmissão é feita quando o vírus se auto-envia para todas as pessoas na lista de um telefone celular e o usuário é levado a acreditar que é ape­nas um toque que ele instalou. Nesse caso, uma versão de "The Final Countdown".

Uma sombra passou pelo rosto de Amanda, mas ela se con­teve e rapidamente fez uma pergunta de controle:

-              Se eu, apenas hipoteticamente, recebi um MMS com um toque chamado "The Final Countdown" e o instalei, em seguida todas as minhas chamadas são desviadas para a mesa telefônica da SAS?

Agora ela entendia por que ninguém conseguia ligar para o seu telefone nas últimas vinte e quatro horas; todas as chamadas foram desviadas pelo vírus que devastou o seu celular. Ela agra­deceu a informação c apressou-se rapidamente para fora da sala. Nor Boström olhou surpreso para ela, porque não tinha tido tem­po de entregar cópias e provas. Ele pegou o telefone e ligou para o número de Amanda. Depois de dois toques, ouviu-se uma voz masculina:

-              Bem-vindo à SAS. Você é o número 186 na fila de espera.

 

Amanda sentou-se à frente de Arvid e olhou em seus olhos. De­pois de uma pequena pausa, ela disse:

-              Encontramos um vírus em seu computador.

Arvid ficou visivelmente incomodado com a constatação, mas perguntou mesmo assim:

-              De que vírus você está falando?

Não diga merda. Você sabe do que estou falando. Lembre-se de que também é suspeito de homicídio, e o vírus é prova da sua aversão pela SAS.

Mas que diabos... Eu não assassinei ninguém. Um peque­no vírus não significa que eu ando por aí assassinando pessoas.

-              Então você reconhece que criou o vírus?

Arvid respirou fundo e suspirou:

Sim, está bem, reconheço. Mas eles merecem. Você sabe quanto dióxido de carbono eles expelem por ano?

O diretor executivo Jan Mattson merecia morrer, também?

Pela centésima vez, não tenho nada a ver com sua morte.

O diretor executivo da Vattenfall, Joseph F. Larsson, merecia morrer?

Merecer é uma coisa, mas eu não o fiz.

Mas você deu à Nova um álibi.

Não, ou sim, mas eu sei que ela não o fez.

Agora você está mentindo. Ela tem motivo, e temos a pro­va de que ela esteve no local.

Arvid ficou em silêncio por um longo tempo, enquanto Amanda olhava para ele atentamente. Ela sabia que ele estava ponderando as alternativas e ela o deixou fazê-lo. Mais pressão provavelmente iria colocá-lo no rumo errado. Arvid finalmente abriu a boca. Dessa vez, ele contou, do princípio ao fim, o que acontecera no dia 15 de agosto. Com o desenrolar da história, Amanda começou a ficar cada vez mais cética. Quando ele ter­minou, ela disse:

-              Então você acha que foi uma coincidência vocês arrombarem o apartamento na mesma noite em que Josef E. Larsson e sua esposa foram assassinados? Foi uma coincidência que os diretores executivos das duas empresas que estavam no topo da lista cha­mada Dirty Thirty tenham sido assassinados?

-              Sim, não tivemos absolutamente nada a ver com isso.

-              Você só faz arrombamento e produz vírus, então? - perguntou Amanda sarcasticamente.

Evidências demais apontavam Nova como culpada. Aman­da não acreditou em Arvid, mas percebeu que ele estava mais en­volvido do que ela imaginara no começo. Ele admitiu que tinha estado perto de pelo menos um dos locais do crime. Seria o sufi­ciente para incriminar Amanda por um bom tempo.

Então, o que vocês pretendiam fazer com a terceira empre­sa da sua lista? Explodir toda a equipe administrativa ou o quê?

Não era uma empresa que estava em terceiro lugar, mas uma pessoa - disse Arvid.

Um alarme soou em algum lugar no interior de Amanda. Uma pessoa estava na lista e seria a próxima vítima, e Nova ainda estava solta. Por que ela não fizera essa pergunta antes? Ela sabia que ficaria remoendo sobre isso, muito tempo depois. Um erro que não podia ter sido cometido.

-              Quem é? - perguntou Amanda, forçando.

A porta da sala do interrogatório foi aberta repentinamente. Nils Vetman entrou com passos firmes.

-              Esta entrevista termina aqui e agora - ele informou. - Pre­ciso de tempo para conversar com meu cliente. A partir de agora, eu represento Arvid Fredriksson.

Ele virou-se para Arvid e perguntou:

-              Se estiver bom para você.

Arvid, que parecia tão surpreso quanto Amanda, balançou a cabeça em silêncio.

 

"A chave é Peter Dagon", foi a conclusão a que Nova chegou. "Se eu conseguir achá-lo, ele vai poder responder muitas perguntas. Se ele quiser."

Nova, que queria evitar a solidão na floresta escura, se preparava novamente para mais uma excursão à cidade. Ela preferia andar nas ruas iluminadas de Estocolmo durante a noite do que se sentar no breu da barraca, onde tudo era escuro e havia sons que vinham de fora. Seria impossível dormir, apesar de estar can­sada até a alma. Cada sombra iria persegui-la e acionar sua imagi­nação. Ou seriam apenas fantasias? Será que sua mãe iria visitá-la, e não apenas a casa delas? Nova apressou-se em arrumar suas coisas. Como de costume, ela escondia tudo de que não precisava.

Dessa vez, pegou um trem que saiu muito antes de o sol se pôr, em parte, para ter a certeza de evitar a escuridão, e para ter a oportunidade de se encontrar com Peter Dagon. Ela pensou em fazer mais uma tentativa na casa de Nils Vetman.

 

A caneta batia como um tambor contra a escrivaninha gasta. Amanda estava irritada e perplexa.

Por que um grande magnata como Nils Vetman entrara por conta própria e se oferecera para representar Arvid? Já sabiam que ele tinha algum tipo de contato com Nova. "Talvez ele seja um ve­lho amigo da família", pensou Amanda. A mãe de Nova também era advogada.

A caneta de repente quebrou e algo voou através do escritó­rio de Amanda como uma catapulta. Ela olhou surpresa com os restos na mão. A parte de plástico tinha quebrado e pousado ao lado da porta. Com a mais pura irritação, Amanda jogou o resto da caneta na direção do pedaço de plástico. O objeto saltou duas vezes em cima do tapete de plástico dos anos 1980, cinza e man­chado, e rolou em seguida até o corredor.

O telefone fixo na escrivaninha tocou.

Amanda Nilsson - respondeu irritada.

Aqui é Nils Vetman, liguei na hora errada?

Não, que bom que você ligou, eu queria trocar algumas palavras com você - ela disse com um tom mais calmo, porque não queria que ele percebesse que era o objeto de sua frustração.

Que coincidência, meu cliente tem algo a dizer a você an­tes de ser liberado.

-              Como liberado?

- Depois de ter contado o que ele tem no coração, eu não acho que haverá base para a detenção.

- Cabe ao procurador, e não a você - disse Amanda, com toda a objetividade que pôde demonstrar.

Nils Vetman a estava deixando irritada ao extremo.

-              Vamos ver, vamos ver - disse o advogado e, em seguida continuou: — No meu escritório, às 18h? Pode ser?

- Sim, mas...

- Ótimo, combinamos assim - finalizou Nils Vetman desligando o telefone sem que Amanda terminasse de falar.

Amanda ficou um segundo com a boca aberta e o telefone no ouvido. Ela odiava quando a mandavam fazer algo. Especialmente um homem pequeno, com cabeça de pêra, que é advogado e tem um ego imenso.

Então ela desligou e gritou para fora da porta:

-              Raios de advogado!

Kent olhou pela porta com a caneta quebrada entre o pole­gar e o indicador e disse:

-              Está tendo um dia ruim hoje?

 

Na praça Mälartorget, um feirante solitário vendia flores de todas as cores do verão. Ao fundo, um trem azul passava sobre a ponte, até o bairro Södermalm. Os postes na rua, de ferro forjado preto, estavam colocados em intervalos periódicos ao calor do sol da tarde. Há duzentos anos, o local era cercado por um muro alto e se chamava "O Encontro das Moscas", porque barris de latrina da cidade eram esvaziados ali. Agora, tanto a rua para pedestres quanto o parque estavam limpos, com exceção de algumas folhas secas que caíam das árvores enfileiradas.

Nova saiu do metrô pelo único canto da praça e continuou em frente, ao longo do beco Schonfeldt, pavimentado, e, como de costume, virou na rua Lilla Nygatan. Ali ficava sua loja favorita, Van Asch, que era especializada em moda medieval. Na vitrine da loja viu umas pulseiras com grandes pedras vermelhas e cachos de pérolas, colares com medalhões e vestidos com a cintura estrei­ta e mangas largas. Seus olhos pousavam nas mercadorias da loja, mas, mentalmente, ela não estava lá.

Seus pensamentos giravam em torno do que ela diria a Nils Vetman e de como iria convencê-lo a liberar o número do tele­fone de Peter Dagon. Depois, ela se lembrou de outra coisa. Não era mais um segredo que a polícia a procurava pela ligação com os assassinatos: estava nas manchetes dos jornais. "Um advogado não chamaria a polícia?", questionou ela. "Espero que não," ela concluiu.

Arrastando os pés, Nova seguiu o seu caminho até o escritó­rio de Nils Vetman. Acima de sua cabeça, ela cruzou com os banners do Museu Postal que anunciavam a recente exposição "Selma Lagerlöf - E todas estas cartas". Com a Ilha Riddarholmen atrás de si, ela dobrou até o beco Stora Grâmunkegrànd. À medida que o beco ficava mais estreito, mais ela se aproximava do seu objeti­vo. No final, estava em frente à porta do escritório do advogado. Antes que tocasse a campainha, um pensamento lhe veio: por que as abóbadas no piso térreo estavam muradas?

 

Amanda passou pelas abóbadas do Riksdagen e continuou, irritada, através da ponte larga até a Mynttorget e a Gamla Stan. Estava relutando em ir ao encontro de Nils Vetman. Não se sen­tia bem em ser convocada por um advogado, especialmente um com uma reputação como a dele. "Eu não sou nenhum fantoche, certo?", murmurou Amanda para si mesma.

Sua boca encheu-se de saliva quando ela passou por uma vitrina cheia de bolos com cobertura de chocolate escorrendo, strudel de maçã crocante e torta de pão salgada com camarão su­culento e salada. Olhou para o relógio. Estava na hora do jantar e faltavam dez minutos para o encontro. Não havia tempo nem para uma fatia dos produtos calóricos do café.

A rua Västerlanggatan, que setecentos anos antes fora uma praia, fora dos muros da cidade, e agora era uma rua da Gamla Stan, a principal para os turistas, mostrava para Amanda sua ver­dadeira face. Ela passava pelas lojas que vendiam os cavalinhos rosa de madeira da região de Dalarna, bonés escritos "Sweden" e macacões em amarelo e azul. A rua sempre fora movimentada, mas agora estava pior do que nunca; passaram um monte de ja­poneses, um casal de russos de mãos dadas, estressados homens suecos de gravata que corriam e um e outro cãozinho que tinham de estar atentos para não serem pisoteados.

Quando virou no beco Stora Gramunkegränd, viu uma mulher com o capuz de um conjunto esportivo sobre sua cabeça. Sob o capuz, deu para ver a aba de um boné. Deixaram-na entrar na portaria de Nils Vetman. "A clientela de Nils Vetman sempre me surpreende", pensou Amanda. "Cantores de rap..."

A porta se fechou antes de Amanda chegar.

 

A secretária do advogado ergueu uma das sobrancelhas e olhou-a interrogativamente. Em resposta, Nova disse:

- Eu preciso falar com Nils Vetman. Não marquei encontro, mas isto é realmente importante.

A campainha tocou novamente. Em um alto-falante ruido­so, ouviu-se a voz de Amanda:

-              Tenho um encontro marcado com Nils Vetman.

"Fuja", foi o primeiro pensamento de Nova quando o medo explodiu em seu peito. Mas para onde?

Ela se sentia como um animal encurralado.

Seus olhos procuravam desesperadamente a sala para encontrar um refúgio.

A secretária levantou a mão para pressionar o botão que abria a porta.

A porta de Nils Vetman abriu repentinamente, e ele mesmo saiu e gritou:

-              Pare!

A secretária olhou o patrão com surpresa, mas não conse­guiu segurar a sua mão. O botão foi pressionado.

Nils Vetman agiu com a velocidade de um relâmpago.

Agarrou o braço de Nova e jogou-a na frente dele para den­tro de sua sala. Ela se surpreendeu com a força que tinha o homenzinho. Ao mesmo tempo em que a porta de fora foi aberta para Amanda, a porta do escritório se fechou atrás de Nils Vet­man e de Nova. Sem dizer uma palavra, ele arrastou Nova e me­xeu em ura quadro de uma parede de espelho com moldura de ouro maciço. Para surpresa de Nova, uma porta se abriu com um clique. Ela foi empurrada para dentro da estreita abertura e em um armário cheio de equipamentos. Com um estrondo, o espelho bateu atrás dela novamente. Ela ouvia os passos do advogado ao longe, do outro lado.

Quando Nova se virou, percebeu que tinha total visão do escritório, mas imaginou que estava completamente invisível para quem estava lá. Não era só ela que observava o que estava acon­tecendo na sala; ao seu lado havia uma câmera de vídeo montada em um tripé. Uma luz verde mostrava que estava ligada e gravan­do. Em um canto havia um cofre, com design antigo. Em cima, uma arma. Além disso, a sala estava equipada com objetos eletrô­nicos dos quais Nova nem sabia o nome ou a função.

Nova viu como Nils Vetman ajeitou o paletó e a gravata vermelha. Ele virou-se para Nova e, com o indicador contra os lá­bios, fez um sinal de que ela teria de ficar quieta. Nova tentava controlar sua respiração agitada para não revelar seu esconderijo. Estava salva.

Por enquanto.

A porta se abriu, e Amanda foi recebida com o firme aper­to de mão de Nils Vetman. Sentaram-se cada um de um lado da escrivaninha e Nova podia ouvir claramente o que diziam. Pelos gestos de Amanda, parecia que ela estava irritada e tentou forçar a conversa:

-              Você tem alguma coisa no seu coração.

Sim - disse Nils Vetman -, você prendeu um homem inocente.

Inocente é provavelmente a palavra errada. É óbvio que ele está envolvido tanto no vandalismo como na sabotagem da mesa telefônica da SAS. Provavelmente, ele também serviu como cúmplice do assassinato.

O advogado olhou para o seu relógio caro.

-              O rapaz é inocente, mas sabe algo em que você está interessada.

-              Como o quê?

-              Você sabe muito bem. Quem é o número três na lista de­les, chamada "Dirty Thirty". Pelo que entendo, o número três não estava no filme de vídeo que você recebeu. Eu tive uma longa con­versa com Arvid sobre isso.

Talvez seja a hora de você dizer quem é o número três - disse Amanda irritada -, antes de também se tornar cúmplice de assassinato.

Você está um tanto enganada. É você quem é responsável pela investigação e é a você que os meios de comunicação vão atingir. Não a mim.

A mídia que se dane - respondeu Amanda rispidamente -, você pretende anunciar isso?

-              Se você tirar Arvid da prisão preventiva... Amanda suspirou profundamente:

-              Isso não é um filme de gângsteres americanos. Na Suécia, não fazemos esse tipo de acordo. Você sabe muito bem disso. Além do mais, é o promotor e não eu quem toma esse tipo de decisão.

-              Se existir vontade, isso pode ser feito.

-              Vou falar com o promotor - disse Amanda rapidamente e se levantou.

Na saída da sala, ela se lembrou de uma coisa que não tinha perguntado:

Por que o seu número de telefone foi parar na lista de chamadas de Nova?

Eu cuido do testamento da mãe dela - disse Nils Vetman. - Nova é uma das beneficiárias.

-              E quais são os outros?

-              Eu não posso dizer, infelizmente - lamentou o advogado. Amanda saiu da sala sem se despedir. Atrás do espelho, Nova

estava com o cérebro agitadíssimo. "A terceira pessoa na lista", ela pensou, "por que a polícia está tão interessada nela?" Nova até agora não tinha entendido totalmente como os assassinatos esta­vam relacionados com a sua própria lista dos Dirty Thirty. Mas, obviamente, fora extraviada e um louco se apoderou dela e fez algum tipo de vídeo.

"Preciso avisar Waldemar Göransson", pensou Nova. Era ele o terceiro nome da lista, professor de oceanografia e professor adjunto de física teórica. Eram títulos de peso, que o tornavam muito perigoso. Argumentando que todas as análises que mos­tram o aumento da temperatura são baseadas em uma meto­dologia errônea, que o efeito estufa é o resultado de histeria em massa e o dióxido de carbono é bom para a vegetação, Waldemar Göransson tinha recebido ampla divulgação na imprensa. Seus artigos deram combustível para o fogo de céticos. "Mas ele não merece morrer", pensou Nova. Ninguém merece morrer por suas crenças, não importa o quão perversas sejam.

Quando Nils Vetman se certificou de que Amanda havia deixado a casa, abriu a porta do esconderijo de Nova. Viu o olhar interrogativo da moça e apontou para a câmera de vídeo:

-              Isso aqui é o meu seguro de vida. Você não tem ideia de como me foi útil.

Depois se concentrou no olhar de Nova e continuou:

-              Não foi uma boa ideia sua vir até aqui. Sugiro que você deixe o meu escritório imediatamente.

-              Mas preciso encontrar Peter Dagon.

-              Você não precisa, não — disse Nils Vetman. - O que deve fazer é manter-se afastada.

Nova o olhou perplexa. Depois, continuou:

-              Na verdade, tenho um monte de perguntas para ele. E depois, acho que você deve informar imediatamente à polícia que Waldemar Göransson é o número três da lista. Ele precisa ser avi­sado, será que você não entende?

-              Oportunamente, a polícia será informada - disse Nils Vetman. - Será que você pode ir antes que Amanda ou qualquer ou­tro policial apareça?

-              Então eu mesma o aviso - disse Nova desafiadoramente. Nils Vetman respirou fundo e sugeriu:

-              Nós fazemos assim: você escreve um bilhete e eu prometo encaminhá-lo para Peter Dagon e prometo informar a polícia...

Ele olhou para o relógio novamente.

-              ... no mais tardar, amanhã, às 11h. Como você pode imaginar, é meu trabalho cuidar para que seu amigo Arvid não vá parar atrás das grades.

Com isso, Nils Vetman conseguiu criar uma ponta de culpa em Nova, por não pensar em Arvid tanto quanto deveria. Estava tão acostumada a achar que ele sempre se virava sozinho que não pensou no problema dele. Preocupada com o amigo, assentiu com a cabeça, concordando, após um momento de negociação consigo mesma. Nils Vetman lhe entregou um papel branco e uma caneta. Primeiro, Nova olhou interrogativamente para o papel, mas, de­pois de uma pausa, rabiscou o seguinte:

 

           Peter Dagon,

Preciso te encontrar. Agora eu sei o que você está fazendo. Amanhã, às 10h, estarei esperando por você, na Storkyrkan. Atenciosamente,

                                     Nova

 

Nova escolhera a catedral como local de encontro pela simples razão de haver sido o primeiro lugar que lhe veio à mente. Nils Vetman leu o bilhete quando ela o entregou. Olhou para ela com ar divertido e o colocou no bolso interno.

-              Garanto que ele vai recebê-lo - e, com isso, encerrou a conversa.

A carne moída estava fritando num fogo bem alto, em uma fri­gideira pesada. Kent pôs cebolas em tiras, sal, pimenta e tomilho, que colhera do jardim. Três dentes de alho amassados e um pouco de cerveja foram adicionados. A carne deveria cozinhar por um tempo. A família começou a chegar à cozinha à medida que o cheiro se espalhava pela casa geminada, no bairro Hässelby. Kent tomou alguns goles caprichados da cerveja gelada e, em seguida, limpou o suor da testa. O ar úmido de verão tinha esquentado mais alguns graus por causa do fogão. A filhinha pequena estava pendurada nas suas calças e apontava para o fogão enquanto choramingava:

-              Lá! Lá!

Kent sorriu e lhe deu uma fatia de cogumelo fresco. O res­to ele colocou na panela. Por trás dele vinha um emaranhado de sons familiares; cadeiras sendo afastadas da mesa; uma discussão sobre quem iria sentar-se onde; a filhinha insistindo que queria mais fatias de cogumelo, lá da cadeira infantil onde alguém a ha­via sentado. Kent fazia de conta que estava concentrado em mexer na frigideira. Tinha que pensar um pouco antes do jantar, que, para a família, era uma hora sagrada. O inquérito o preocupava.

Havia muitos fios soltos e toda a investigação parecia incon­sistente. Tinha algo que não estava se encaixando. Um assassino em massa, que era literalmente uma bomba-relógio, estava solto. Eles não avançavam com rapidez suficiente. Quando a próxima vítima seria encontrada? Kent esfregou a testa com força, enquan­to continuava a remoer seus pensamentos. O problema não era apenas o inquérito em si. Amanda não parecia ser a de sempre. Ela não só andava pálida e descorada, mas não estava tão eficien­te como costumava ser. "Devem ser problemas em casa", pensou. Seriam problemas amorosos? Havia anos que ela não mencionava nada sobre um namorado, mas isso não significava necessaria­mente que não tivesse um. Enfim, dava para perceber claramente que ela não estava se sentindo bem. Mas é claro que ele não pode­ria perguntar-lhe diretamente qual era o problema. Não tinham esse tipo de relação. "Estranho..." pensou, "eu a conheço há dez anos e não posso nem mesmo perguntar como ela se sente." Não seria a hora de mudar isso?

Um leve cheiro de queimado chegou às narinas de Kent. Olhou rapidamente para a panela e tirou-a do fogo. Não parecia sério demais. Quando ele a mexeu, não subiram pedaços quei­mados. Kent se virou para a família com uma grande vasilha de macarrão em uma mão e a frigideira na outra. Em cima da mesa já estava uma tigela de salada com tomate, pepino e rúcula. O jan­tar podia começar.

 

Nova olhou cuidadosamente antes de sair da portaria da casa de Nils Vetman. Não havia policiais até onde seus olhos podiam alcançar. Ela estava novamente nas ruas e eram apenas 19h. Toda a noite e mais um pouco era o tempo que tinha à sua disposição. Sentia falta do seu computador. Estava há poucas quadras dali, mas era totalmente inacessível. Nova não queria nunca mais pôr os pés lá - não sozinha e com a polícia inteira no seu calcanhar. Seria tão estúpido quanto o pavor que sentia de ir lá. O primeiro pensamento de Nova era de ir se sentar na Seven-Eleven ou num cibercafé. Mas passar várias horas em um único lugar seria provavelmente imprudente. Se alguém a reconhecesse, ela seria presa. "Preciso de um computador", decidiu, e de repente per­cebeu que tinha dinheiro no bolso que dava para comprar um monte de laptops.

A maioria das lojas de computador estava fechada depois das 19h, mas Nova se lembrou de que a loja PC City, em Sickla, estaria aberta. "Eu vou lá", decidiu e começou a caminhar ao lon­go da rua Nygatan em direção a Slussen. Na última hora, desis­tiu de entrar na Padaria Natural e comprar um croissant de tofu e azeitona. Se alguém fosse reconhecê-la em algum lugar, seria ali. Nova continuou andando até o restaurante Slingerbulten, que sempre a fazia pensar em peixe gorduroso, o que existia apenas na sua imaginação. Do outro lado da janela, pratos muito bem servidos com comida típica e caseira sueca, consumida pelos tu­ristas. Nova sabia que eles tinham um gâteau de abobrinha, berin­jela e pimentão com queijo Chèvre. Estava definitivamente com fome. Dobrou a esquina na rua Västerlanggatan e comprou uma casquinha com bolas de sorvete italiano dos sabores limão, me­lão e menta e depois continuou apressada. Não tinha tempo para pensar em comida. A loja PC City iria fechar em 45 minutos.

 

O jovem vendedor ficara nitidamente surpreso quando Nova desprezara o elegante Mac com o argumento de que tinha uma posição muito baixa no ranking eletrônico do Greenpeace. Depois, pegou um Toshiba com design compacto. O vendedor ficou mais surpreso ainda quando ela pegou um rolo e contou 16 mil co­roas. Mas ele se recuperou, passou a mão pelo cabelo já penteado para trás e tentou lhe vender também uma impressora. Nova ti­nha agora um novo laptop com tudo o que precisava já instalado. A única coisa que faltava era Internet. Eram mais de 20h. O sol avermelhado havia descido atrás das casas da cidade. Mas o calor intenso ainda pairava no ar.

Nova estava indo para o local onde já sabia que havia uma rede de Internet não muito segura: a rede Classeponken, que fica na ladeira Mosebacke. Com o capuz puxado para baixo cobrin­do grande parte de seu rosto, ela foi até a estação de metrô de Slussen, subiu as escadas até o Ryssgarden, que tinha esse nome por causa das setenta lojas russas que ficavam lá, no século XVII. Quando saiu, viu os poucos degraus que levavam até a praça mais antiga de Estocolmo, Södermalmstorg. Durante o século XVII, ela fora pavimentada com pedras e utilizada como local de execução. Agora a praça era retangular, com os prédios redondos de Slussen à direita. Nova viu uma pequena fila formada em fren­te a uma carrocinha de salsicha. Virou para o lado esquerdo e chegou até a Götagatan. Demorou apenas cinco minutos para chegar à Mosebacke. Uma onda de sons fluía do Terrassen. Risos misturados com o som de copos e de vozes. Agora, como no sé­culo XVIII, Mosebacke era um centro de diversão. As pessoas saíam do Teatro Sul e se espalhavam pela noite de verão. Nova olhou em volta. No meio da praça, havia um banco vazio que ela ocupou e onde abriu seu novo computador. O vendedor tinha prometido uma bateria para muito tempo. Ela esperava que ele tivesse razão. A noite seria muito longa.

Nova agradeceu ao Classeponken em pensamento quando entrou na rede de Internet deles. Era lenta, mas funcionava. Agora Nova podia descobrir mais sobre as pastas de sua mãe. A primeira que ela procurou foi o "Ararat Anomaly" e imediatamente encon­trou duas notícias no site da revista cristã www.dagen.se:

 

                   Multimilionário envia equipes ao Ararat

                   para encontrar a Arca de Noé

                 Publicado em: 10-9-2003 - 6h00

 

A Arca de Noé está debaixo da neve no topo do monte Ararat, na Turquia? Para descobrir a resposta, um multimi­lionário americano está equipando uma expedição de dez pesquisadores que no verão irão escalar a montanha com mais de 5 mil metros de altura.

Não é a primeira vez que cientistas acreditam ter encon­trado evidências físicas de que uma embarcação se manteve flutuando no Dilúvio, exatamente como descrito no Gêne­sis. As discussões começaram ainda em 1949, quando um satélite espião norte-americano, que, na verdade, iria moni­torar pontos da ex-União Soviética, captou algo que se as­semelhava a uma forma com estrutura de barco no topo da montanha. Em 1957, aconteceu de novo; pilotos turcos de caça viram "o barco" na província de Agri, na Turquia. Na década de 1970, foi captado pelas cameras de um satélite o que os pesquisadores chamaram de "Anomalia do Ararat", em várias ocasiões. Mas até agora não fora concluída ne­nhuma investigação substancial no local. Durante a Guerra Fria, isso era impossível, pois a área era proibida para es­trangeiros. O regime soviético acusou os pesquisadores de serem espiões americanos. O interesse é grande diante des­sa expedição turco-americana neste verão, com dez pessoas que planejam subir essa região montanhosa a fim de exa­minar a estrutura do que se parece com um barco e que há muito tempo confunde os pesquisadores. A formação é, se­gundo os cálculos, de mais de 130 metros de comprimento e 25 metros de largura. Algo que poderia estar de acordo com as dimensões citadas na Bíblia: 147 x 23 metros. O financiamento é garantido por George McAlley, um empresário multimilionário do Havaí que se apresentou como ativista católico em questões relacionadas ao aborto e à eutanásia assistida por médico, relatam os jornais americanos.

 

                  Assassinado multimilionário que

                   buscava, a Arca de Noé

                         Publicado em: 13-9-2003 - 9h15min

 

Ontem, o multimilionário americano George McAlley foi assassinado brutalmente. Será que o crime está relacionado com a expedição que estava sendo montada para encontrar a Arca de Noé? Uma fonte dentro da polícia relata que todos os documentos da expedição de McAlley estão desapareci­dos. George McAlley, católico e principal motor por trás da próxima expedição ao monte Ararat, foi brutalmente assas­sinado ontem a caminho da sua paróquia. Ali seria realizada uma entrevista coletiva de imprensa e seria apresentada uma descoberta a respeito da "Anomalia do Ararat". Nenhum documento relacionado ao misterioso tema foi encontra­do na casa de McAlley. Uma fonte da polícia informa que estão trabalhando com a teoria de que terroristas queriam impedi-lo de subir a montanha. McAlley disse recentemen­te, num comunicado à imprensa, o que o levava a concluir o projeto:

- Todas as três religiões monoteístas do mundo acredi­tam que a nossa origem vem de Noé e seus três filhos. Neste momento, é bom que haja algo que una judeus, cristãos e muçulmanos.

 

Nova leu as matérias duas vezes. Depois, pegou a pasta chamada "Ararat Anomaly" que encontrou em sua casa e a folheou. Embora não conseguisse entender por que ela os tinha em suas mãos, era óbvio que se tratava dos documentos perdidos de George McAlley. Nova fechou o computador e olhou para a está­tua das duas mulheres nuas no meio da Mosebacke. "Em que, na verdade, minha mãe estava envolvida?", pensou.

 

Na sala de reunião mal cabiam uma mesa e quatro cadeiras. A al­tura do teto era tão baixa que a sala parecia um cubo. O ar pesava opressivamente sobre Moses e Amanda, que estavam sentados um em frente ao outro. Ela fixou os olhos com raiva nele e levantou-se tão abruptamente que a cadeira tombou para trás.

-              Por que você fez isso? - ela gritou diretamente no rosto de Moses.

Na fronte de Amanda, uma veia pulsava. Moses afundou-se mais na cadeira, fitou a mesa com os olhos inquietos e disse calmamente:

Ela merecia isso.

Raios, não se pode merecer morrer! - gritou Amanda.

Em resposta, Moses mexia nervosamente na mesa.

Onde você escondeu o corpo?

Ele sumiu - sussurrou Moses.

-              Fale de uma forma que dê para ouvir - ordenou Amanda, inclinando-se sobre ele.

Sumiu na fumaça - Moses gaguejou um pouco mais alto.

Como sumiu na fumaça? Que diabo! Um corpo não pode simplesmente sumir na fumaça.

Pode, se você o cremar.

Uma insinuação de sorriso passou pelos lábios de Moses, mas desapareceu rapidamente. Agora, ele olhava para seus sapa­tos e parecia envergonhado.

Amanda empurrou a mesa e gritou:

-              Você não pode simplesmente sair por aí e cremar pesso­as de qualquer maneira. Nós, da polícia, precisamos interromper isso imediatamente.

O tampo da mesa bateu no chão e reforçou suas palavras. O impacto liberou uma pequena nuvem de poeira e cascalho. Amanda agarrou o braço de Moses e o tirou da cadeira com força, pressionando o seu rosto contra a parede. Em um segundo, ela prendeu suas mãos com algemas atrás das costas.

Repita comigo - ordenou Amanda com a boca a dois centímetros da orelha de Moses —, eu nunca mais vou cremar.

Eu nunca mais vou cremar - sussurrou Moses.

Eu não estou ouvindo.

Eu nunca mais vou cremar - disse Moses, em tom de conversação.

Mais alto - gritou Amanda.

Eu nunca mais vou cremar - gritou Moses.

Os lábios de Amanda procuraram a ponta da orelha de Moses e a chuparam. Depois, ela aspirou o cheiro dele ruidosa­mente e segurou com firmeza as algemas. Com uma pegada firme, ela o puxou para baixo, em uma cadeira, sentou-se montada nele e fixou diretamente seus olhos. Sem deixar o olhar descer, ela co­meçou a desabotoar-lhe a camisa. Em seguida, seus lábios des­ceram até o peito, a barriga e, finalmente, até o cinto. Logo ela o arrancou e jogou em um canto. Quando abriu o zíper, Moses gemia com os lábios cerrados:

- Eu nunca mais vou cremar...

 

A fachada cor de areia da catedral Storkyrkan recebia um brilho quente do sol da manhã. Nova subiu os sete degraus em quatro passos. Os altos lustres da igreja estavam acesos e iluminavam os pilares de tijolo e as laterais em azul violeta e dourado.

No caminho para o altar, ficavam as duas imponentes cadei­ras reais do século XVII, cobertas com uma capa que, aparentemente, voava numa corrente de ar em direção ao altar. Ninguém estava sentado nelas. A igreja estava completamente vazia e seus passos ecoavam. Nova não via ninguém. A parte de trás de sua cabeça latejava, e pontos de luz surgiam diante dos seus olhos. A noite sem dormir deixara marcas e se fazia constantemente lem­brada. As pernas doíam, em protesto por nunca terem o merecido descanso. Os pés de Nova passaram por cima de uma lápide es­culpida no formato de ura homem e uma mulher. As roupas deles e os traços de sua fisionomia estavam agora desgastados por mi­lhões de pés, formando uma superfície lisa. O que restou tinha a forma de dois corpos de barro criados pelas mãos de uma criança. Nunca mais seria possível recriá-los. Sua aparência há muito fora esquecida e moída pelo tempo. Do mesmo modo, a memória de quem eles haviam sido.

Nova viu uma sombra por trás de um dos pilares. Ela estremeceu. Em seguida, seguiu o caminho que levava até a capela Olaus Petri. Em uma placa, estava escrito: "Reservado para oração individual - não é permitido fazer visita turística". Na parede oeste da capela estava pendurada a gigantesca pintura de David Klöcker

Ehrenstrahl, uma montanha escura, com dois picos cobertos de neve que aparecem no fundo do quadro. Um homem solitário anda ao longo de um caminho, descendo a montanha. O cabelo é longo, e a postura, orgulhosa. Uma luz em torno do homem lem­bra um par de asas. "Um arcanjo", deduziu Nova. Baixou o olhar. Lá estava Peter Dagon encostado no balcão do altar medieval. Ele começou a falar:

-              Local de encontro interessante - e indicou com a mão o interior da igreja.

Nova não podia deixar de assentir com a cabeça, envergonhada por sua proposta inusitada. Dagon continuou:

-              Recebi um bilhete do meu querido amigo Vetman. Ele diz que você sabe o que eu estou fazendo. O que eu estou fazendo, exatamente?

Um sorriso provocante brincava nos lábios de Peter Dagon. Seus olhos examinavam Nova de forma intensa. Ela havia ensaia­do a noite toda o que iria falar. "Ou vai ou racha", pensou.

-              Eu sei que você, George McAlley e minha mãe estão envolvidos no assassinato de um pastor americano - disse Nova.

Dagon se assustou sensivelmente. O sorriso desapareceu e ele perguntou com a voz mais baixa do que antes:

-              O que te faz pensar assim?

Eu encontrei em nossa casa uns papéis dele que desapareceram quando foi assassinado. Sei também que há algo duvidoso com o seu fundo, a FON.

A FON não é um fundo. É uma associação que trabalha contra o aquecimento global. Você, mais do que ninguém, deveria achar isso bom.

Não havia nada que Nova pudesse argumentar contra, en­tão ela perguntou, a fim de ganhar tempo:

Mas por que vocês se chamam Friends of Nefilim?

Porque nós somos isso. Não queremos ser levados por um novo Dilúvio. Estamos realmente fazendo de tudo para que não ocorra um novo Dilúvio. No momento, as emissões de dióxido de carbono estão no topo da nossa agenda.

Um pensamento que não tinha surgido antes era o de que Peter Dagon e a FON tivessem alguma coisa a ver com a morte de sua mãe. Existia um motivo melhor e mais clássico do que vinte e seis milhões e meio de coroas? Ela talvez estivesse ali, com o as­sassino de sua mãe, em uma igreja vazia. Nova tentou mascarar o seu medo, mas se afastou cautelosamente. Dagon a olhou in­terrogativamente. Quando estava a alguns metros da margem de segurança, sentiu que devia perguntar:

- E minha mãe, você a matou?

- Não, absolutamente não - disse Peter erguendo as mãos como para mostrar que ele era inofensivo. - Ela era uma de nós.

- Uma de vocês?

- Sim, uma Nefilim. E uma amiga próxima.

- Você quer dizer que ela era um membro da associação?

- Eu quero dizer que ela era descendente direta do Nefilim original.

Nova examinou o rosto de Peter para ver se ele estava certo daquilo que estava afirmando. Toda a sua postura corporal demonstrava que ele tentava convencê-la. Então ela entendeu.

-Você está louco - gritou, virando-se e correndo pelo chão de pedra.

Atrás dela, as palavras de Peter Dagon ecoavam na amplidão da igreja:

-              E se eu estiver certo? E se você for uma de nós?

 

"Eu deveria ter dito não para isso há muito tempo", pensou Amanda a caminho do prédio na rua Drottninggatan. Um anjo dourado sobre um pedestal olhava hostil para ela. Ela fez um gesto obsceno para a estátua e pegou o elevador que rangia, para o piso superior. Ali, dirigiu-se à porta que ficava em frente ao apartamento de Joseph F. Larsson. "Kerstin e Gudrun Liljencrona", leu na porta. Não havia nada sobre duas tias no relatório de interrogatório, que Amanda se lembrasse. Talvez fosse apenas uma que estivesse em casa naquela noite. Será que elas são irmãs ou lésbicas? "Muito velhas para ser lésbicas", concluiu, enquanto tocava a campainha.

Imediatamente se ouviu o latido claro de um cachorro. Pou­co depois, o animal começou a arranhar a porta com as patas. Palavras de advertência foram ouvidas de dentro do apartamento. A corrente de segurança impediu que a porta se abrisse comple­tamente. Um rosto enrugado olhou para fora. Meio metro mais abaixo, bufava o nariz molhado de um cão agitado.

-              Polícia - disse Amanda -, eu sou da polícia. - E estendeu a identificação.

A porta foi fechada imediatamente e as correntes de segurança foram retiradas. Quando a porta se abriu de novo, um pequeno poodle manchado de cinza voou para fora e ficou sobre as patas traseiras, com as dianteiras encostadas em Amanda. Ela olhou educadamente o animal, mas não o tocou. "Quem sabe onde esse focinho andou?" Os olhos da senhora brilhavam com a novidade.

-              Entre, entre - ela pediu, virou-se e começou a caminhar com o andador sem esperar a resposta de Amanda.

Amanda a seguiu, mas esperava que não fosse muito demorado. Em diversas ocasiões, tinha sido forçada a ouvir his­tórias de vida que eram completamente desinteressantes, tanto para ela pessoalmente quanto para o caso. Muitas vezes, as duas coisas coincidiam. A mesa da cozinha já estava preparada para duas pessoas. "Como ela sabia que eu viria?", Amanda pensou. Sentou-se e ignorou o cão, que, mais uma vez, tentou cum­primentá-la.

-              Desce, Gudrun - comandou a senhora com uma voz estridente, mas o cão nem tomou conhecimento. "Ah", pensou Aman­da, "ela é a Gudrun." Depois que a senhora, tateando, começou a fazer o café, ela desapareceu. Amanda ouviu o andador batendo na borda da porta um pouco mais para dentro do apartamento. A cafeteira borbulhava aconchegante. A bancada da cozinha estava gasta e as portas dos armários pareciam ser originais dos anos 1950. Alguns anos atrás, tinham ficado fora de moda, agora eram declarados cult. Amanda pensou em como o apartamento seria anunciado:

"Alguma reforma é necessária." "Grande potencial para você que quer ter uma moradia a seu gosto." "Possibilidade de se tornar uma joia rara."

A senhora se arrastava apoiada em uma só mão. A outra estava fechada. Quando chegou até Amanda, abriu a mão e mos­trou um lenço todo amassado com um monograma. Amanda o pegou e olhou mais de perto. Quando abriu as pontas, ela olhou enojada para o conteúdo: uma goma de mascar. Colocou o em­brulho sobre a mesa da cozinha e olhou interrogativamente.

-              Foi o assassino que deixou esse chiclete. Ele cobriu o olho mágico da minha porta. Amanda olhou com um novo interesse o embrulho sobre a mesa e em seguida perguntou:

- Você sabe quando foi colocado lá?

-Às 23h30min. Gudrun tinha estado muito barulhenta a noite toda e eu já tinha verificado várias vezes que nada havia acontecido na escadaria. Às 23h30min, já não era possível olhar para fora.

"23h30min", Amanda tomou nota e pensou: "espero que eu receba o relatório da autópsia logo, para que possamos determinar que a vítima morreu exatamente nessa hora. Moses deve estar realmente muito sobrecarregado de trabalho para demorar tanto..."

 

"E se eu for uma deles? O que ele quis dizer com isso?" Os pen­samentos de Nova giravam quando virou rapidamente a esquina entrando na rua Själagardsgatan. Estava diante de duas caixas de correio pintadas como mini-casas. "No mundo distorcido dele, eu sou a filha da minha mãe e descendente daquele Nefilim. Ele está totalmente perturbado." Chegara a essa conclusão enquanto respirava fortemente com as costas apoiadas na parede grossa e vermelha. Com essa convicção, deu uma olhadela na virada da esquina. Peter Dagon não a havia seguido. Mas ela não tinha cer­teza. Lutava contra o pânico que a invadia quando chegou à se­guinte conclusão: "Se Peter Dagon não está no seu juízo perfeito e se está envolvido no assassinato do pastor americano, é também provável que esteja envolvido nos outros dois assassinatos."

"E talvez no da minha mãe", pensou Nova. Ela olhou para a esquina novamente. "O desgraçado talvez tenha matado minha mãe."

Nova pensou nas suas alternativas, enquanto continuava pe­los paralelepípedos da Själagardsgatan. No lado direito, pendiam os galhos de um carvalho cheio de nós que dava sombra para os raios intensos da manhã. "Devo chamar a polícia?", pensou. "Não, eles não acreditariam em mim." Nova passou a casa de número 13 que era uma fundação monástica para velhos e doentes, no sécu­lo XV. No mesmo local vivem agora aposentados, só que em uma nova casa. "Preciso avisar Waldemar Göransson", foi a conclusão de Nova. Era a única coisa certa. Ela caminhava com passos rápidos para a estação de metrô de Slussen. Ela não tinha coragem de usar o metrô de Gamla Stan. E se Peter Dagon a estivesse esperando lá?

 

Eram três na sala de interrogatório. No ar, pairava uma mistura de expectativa, medo e raiva. O relógio mostrava que faltavam cinco minutos para as onze. Estavam esperando fazia vinte e cinco minutos. Suas vozes tinham soado nos primeiros vinte minutos, mas agora estavam em silêncio. Arvid se sentia mal. Tinha a mesma sensação de quando percebia o cheiro de óleo, gás e os vapores da cozinha se misturando no casco estreito do Rainbow Warrior II. A cabeça estava vazia. Ele tinha dificuldade para se concentrar. Com os olhos cansados, olhou para Amanda, que es­tava sentada inclinada para trás, batendo com uma caneta contra a borda da mesa: Toe. Toe. Toe.

Kent sentou-se calmamente com os olhos fechados. O telefone de Nils Vetman havia tocado e ele desaparecera da sala. Fal­tando um minuto para as onze, o advogado retornou com um sorriso de desculpas.

-              Voltando à agenda - disse ele -, porque parece que esta­mos de acordo com as condições. Então você, Arvid, pode contar quem é o terceiro da lista.

As palavras jorraram para fora da boca de Arvid:

- É Waldemar Göransson. Ele é professor na Universidade Real de Tecnologia.

- Por que ele está em sua lista? - perguntou Amanda.

- Ele é um especialista em varrer os problemas do aquecimento global para baixo do tapete.

- Como assim? - disse Kent, que só agora abrira os olhos.

- Ele escreve artigos polêmicos em que, por exemplo, argumenta que o dióxido de carbono só faz bem para a vegetação e que a Terra se regula por si mesma. Se há muito dióxido de carbo­no, as novas plantas o absorvem.

- E isso não é verdade? - perguntou Amanda.

- É verdade que as plantas crescem mais e precisam de me­nos água, se tiverem acesso a mais dióxido de carbono. E tam­bém que absorvem o dióxido de carbono. O que ele se esquece de mencionar é que um campo de futebol após outro, de floresta, é derrubado a cada minuto.

- Mas qual é o problema desse tal dióxido de carbono? -perguntou Amanda.

- É um dos vários gases do efeito estufa que se coloca como uma tampa sobre a Terra e interrompe, parcialmente, a radiação cie calor natural. A Terra fica mais aquecida. As geleiras derretem. O mar se eleva. Os recifes de coral morrem.

Agora Arvid tinha se empolgado e continuou:

-              Waldemar Göransson alega também que não são as emis­sões do ser humano que têm afetado o aquecimento. Embora a análise de amostras de gelo do Ártico e da Groenlândia, onde as bolhas de ar de até 200 mil anos de idade têm sido investigadas, mostrem que a concentração de dióxido de carbono na atmos­fera fora quase inalterada durante 25 mil anos, até a industria­lização. O Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas da ONU...

Amanda olhou para o relógio e interrompeu Arvid:

-              Muito interessante, mas agora temos que achar esse tal Göransson. Você sabe onde ele está?

Justamente quando Arvid ia responder, Nils Vetman interferiu:

-              Meu cliente não sabe, é claro. Ele já lhe deu o nome. Procure na lista telefônica no site da Eniro.

Ele deixou claro que a reunião havia terminado, se levantando e guardando na pasta o seu caderno de anotações encadernado em couro. Amanda não se preocupou em esperar até que ele dei­xasse o local, pegou o telefone celular, ligou e disse:

-              Ligue para o departamento de pessoal da Universidade Real de Tecnologia.

 

O bairro Fältöversten era antigamente conhecido como o Buraco por causa de todos os barracos e depósitos de sucata que fica­vam lá. A década de 1970 trouxera novos valores e ideais. Um serviço integrado de quadras residenciais fora construído, com mais de quinhentos apartamentos, dos quais cinquenta foram especialmente projetados para os aposentados, e catorze, para os deficientes. Tudo teria um acesso aos serviços municipais e co­merciais. Mas nenhuma dessas havia sido a razão pela qual Wal­demar Göransson aceitara o apartamento de dois quartos que lhe fora oferecido há vinte e quatro anos, quando seus dois filhos e sua esposa tinham saído de casa. O que havia sido importante para ele era que podia ir a pé até o seu escritório na Universidade Tecnológica. Dez anos antes, tinha perdido até isso.

A unidade de planejamento local da administração da uni­versidade tinha justificado que defendia os interesses dos mais necessitados. Waldemar Göransson tomara isso como uma afron­ta pessoal e lutara com unhas e dentes. Como professor emérito, acreditava que tinha direito a ura quarto. Mas perdera e agora administrava a sua luta pela razão e contra a histeria em massa a partir do seu apartamento. Isso ocupava todas as suas forças e o seu espaço. O resto era irrelevante. O computador estava cercado de livros empilhados, relatórios expostos e três recipientes plásti­cos com resíduos secos de comida congelada. Havia mais quatro embalagens de plástico jogadas no piso. O professor estava revol­tado. Ele digitava com força no teclado e estava tão concentrado em escrever que nem ouviu o clique em sua porta da frente. Um cigarro brilhava no cinzeiro cheio.

- Porra, moleque - reclamou, ao mesmo tempo em que respondia a um post do fórum Flashback. A versão sueca do site havia, após ameaça de pena de 400 mil coroas e custas judi­ciais de um quarto de um bilhão, sido forçada a encerrar suas atividades. Ali as opiniões eram muito desagradáveis para se poder defender a liberdade de expressão. Agora era operado do exterior.

Somente quando o aço frio foi pressionado contra a sua garganta, Waldemar Göransson percebeu que não estava sozinho.

Os seus dedos deixaram de bater no teclado. Ele estava sentado, completamente parado. Com medo que a faca lhe cortasse a pele ao menor movimento. Não era a morte propriamente dita que o assustava, mas que não desse tempo de fazer tudo o que ele queria antes disso. Ele queria salvar a humanidade, que agora estava prestes a cometer um grande erro. Em vez de se desenvolver, gritava pela estagnação e pelo declínio. Tudo em consideração ao chamado aquecimento global. "Bobagem", pensou Waldemar ransson. Ninguém disse nada, mas ele podia ouvir a respiração tranquila de uma pessoa e sentiu a pressão de leve de uma mão em seu ombro. Depois, sentiu o corte da faca através do tecido. "Es­tranho", ele pensou, "eu não sinto nenhuma dor."

 

Nova sabia onde Waldemar Göransson morava. Tinham pesqui­sado seus hábitos, o que evidentemente não era difícil, mas havia sido um problema para eles. Um dia sim e outro não, ele se ar­rastava, apoiado em uma bengala branca, até o mercado Sabis, no shopping center de Fältöversten. Fora isso, estava sempre em casa. Imaginavam como poderiam fazer o arrombamento na casa dele sem ser descobertos. Por fim, tinham optado por destruir sua credibilidade, forjando a sua identidade e seu endereço e, em se­guida, mandando para as revistas e os fóruns posts loucos em seu nome. Mais loucos do que o que ele escrevia. Se parecesse radical demais e sem consistência, ninguém mais iria ouvi-lo. Mas não chegaram a ir além na discussão.

Nova correu em direção à estação de metrô Karlaplan e continuou atravessando a praça até Fältöversten. À direita da en­trada do centro comercial, correu até uma escada rolante parada. Sons de crianças brincando ecoavam entre as paredes do pátio interno do shopping center. Havia grama nas rachaduras. O ideal da década de 1970 tinha se deteriorado. Nova não tinha tranqui­lidade para pegar o elevador até o terceiro andar; em vez disso, usou as estreitas escadas de concreto. Quando chegou à porta com o nome "Waldemar Göransson", parou repentinamente. Ela tinha pensado até ali, mas não mais. "O que vou dizer?", pensou e tentou reunir seus pensamentos. Ouviu-se um forte estrondo vindo de dentro do apartamento. "Pelo menos, ele está em casa. Vou ter que improvisar", pensou Nova, e tocou a campainha.

O sinal foi recebido com total silêncio. Nova encostou o ouvido à porta. Não havia nenhum som. Fez outra tentativa com dois toques longos. Ainda sem nenhuma resposta. Nova tinha certeza de ter ouvido alguma coisa antes. "O raio do velho talvez não queira abrir", ela pensou, "mas eu preciso encontrá-lo." En­quanto avaliava suas opções, mexeu na porta. Estava destrancada. Abriu com cuidado e gritou pela porta entreaberta:

- Olá? Tem alguém aí? Waldemar? Eu preciso falar com você.

Silêncio. Nova deu uma olhada lá dentro. O cheiro de coisa estragada, homem velho e fumo chegou até ela. O hall era pequeno e apertado. Casacos diferentes, de várias décadas, estavam pendurados em ganchos meio caídos. Na porta, havia cinco sacos de lixo empilhados um em cima do outro. Ela deu um salto muito grande sobre eles e prendeu a sua respiração. O papel de parede em marrom-escuro combinava com o tapete verde, ambos na sua forma original. Mas Nova não conseguia ver porque o chão es­tava coberto com jornais, folhetos de publicidade e envelopes de contas fechados. Em um canto, havia um gerânio seco, num vaso jogado. Nova gritou outra vez:

-              Olá? Olá?

Nenhuma resposta. O hall tinha duas portas. Nova começou espreitando pela porta da direita. A cozinha era comprida e estrei­ta, com uma mesa para dois, mais distante, perto da janela. O mar­rom e o amarelo estavam escurecidos pela fumaça de cigarro e pe­los resíduos de fritura. No chão, mais sacos de lixo e uma ou outra embalagem plástica. O sol iluminava pouco a fuligem no vidro da janela. "Nojento", Nova pensou e voltou sua atenção para a outra porta. A sala estava, se fosse possível, numa situação ainda pior. No fundo dos cantos, havia bolas e mais bolas de poeira. As lâmpadas no lustre de cristal tinham queimado havia muito tempo. Estantes transbordavam. Revistas, livros e outras coisas estavam em gran­des montes no chão. O resultado era um corredor da altura da cin­tura que passava pela sala até a escrivaninha. Venezianas estavam abaixadas e um abajur sem a cúpula iluminava o quarto.

Quando Nova baixou os olhos, ela estremeceu: por trás de uma das pilhas apareceu um dedo de pé de dentro de um sapato velho de homem. O pulso de Nova aumentou.

-              Olá? - ela disse hesitante novamente.

Nem um som. Nem um movimento.

Nova andou insegura para a frente; o dedo do pé virou um sapato, que virou um osso. Respingos de sangue apareciam nas coxas. Nova respirava de forma irregular. Seu pulso bateu forte. Ela hesitou. Queria fugir. Não queria ver o que estava vendo. Mas continuou devagar a se inclinar para a frente e espreitou o canto. Então, ela gritou.

O corpo de Waldemar Göransson acabava no pescoço. A cabeça fora completamente separada do corpo e estava ao lado. A expressão facial era tranquila, mas o fato de estar sem o corpo tornava tudo mais macabro e cheio de contrastes, muito mais do que se tivesse uma expressão de horror. O sangue ainda corria nas veias. O coração tinha recentemente diminuído o ritmo e parado de bater. A faca estava ao lado. Parecia uma faca de caça, com uma ponta afiada, polida. Nova virou-se para fugir. Ela não queria ver mais. Não queria ficar nem mais um segundo. Mas o caminho fora bloqueado por uma figura: ela não conseguiu sair pela porta. Quando viu quem era, parou repentinamente; o impossível era possível. O pavor ficou grande demais. O medo e o terror toma­ram conta dela. Tudo cintilava na frente dos olhos de Nova. A rea­lidade parecia distante. Desmoronou e caiu no chão. Seu cérebro não tinha suportado a carga e se desligara.

Ela estava inconsciente, no meio da poeira e do papel. Na porta, sua mãe morta olhava para ela.

 

Amanda e Kent foram tão rápido quanto era possível pelas ruas de Estocolmo: Kungsgatan, Sturegatan e Karlavágen. O departa­mento pessoal da Universidade Real de Tecnologia tinha infor­mado que Waldemar Göransson estava aposentado havia quinze anos e morava em um apartamento em Faltöversten. Eles acredi­tavam que ele ficava em casa na maior parte do tempo, por conta de uma lesão no joelho que o fazia dependente de uma bengala. "Teimoso, quadrado, mas inteligente", a voz do outro lado da linha o tinha descrito. Waldemar Göransson não atendia o tele­fone. Apesar das luzes azuis e dos pedágios, o tráfego estava lento e o trânsito da cidade estava contra eles. "Eu só não posso chegar atrasada", pensou Amanda.

 

Quando Nova acordou, encontrou um par de olhos que acredi­tava que nunca mais iria ver. Sua mãe. No início, tivera certeza de que era um pesadelo. Então ela se lembrou: Waldemar Göransson. Sangue. Faca. A sua mãe. Nova começou a respirar com di­ficuldade e tentou rastejar para trás. A mãe de Nova inclinou-se e acariciou-lhe a perna, como se tranquiliza uma criança. Teve efeito contrário. Nova gritou e chutou.

-              Desculpe - disse sua mãe -, não era para você ver isto.

Sua voz estava presente, aqui e agora. Havia algo na voz que era possível tocar. Nova sentia que era real. Só então a ideia surgiu na sua cabeça: a minha mãe está viva, a minha mãe está viva. Ela se acalmou e olhou diretamente para ela.

-              Como... - Nova começou falando, mas parou. Depois formulou claramente a pergunta: - Você não está morta?

-              Não, como você pode ver.

Atrás da sua aparência séria surgia um sorriso orgulhoso. Nova analisava sua mãe. Ela parecia quase como de costume, com o cabelo louro bem penteado em corte chanel e olhos azuis pene­trantes. A rede fina de rugas sob os olhos dela estava mais visível do que antes. Nova não tinha visto antes o conjunto esportivo escuro. A expressão interrogativa exigia uma resposta.

Eu arranjei a minha própria morte - explicou a mãe.

Como assim?

Eu tive ajuda do médico-legista.

Nova se lembrou de que ela se perguntava por que ele estava ali no funeral. Agora entendia que ele já conhecia sua mãe havia muito tempo.

Mas por quê?

É uma longa história.

A mãe de Nova suspirou.

Na verdade, não era para você saber agora, só depois que fizesse vinte e um anos.

Por que? Do que você está falando?

É só aí que se sabe se o ser humano que está dentro de você é dominante ou não. Infelizmente, parece que sim.

Do que você está falando?

Você vem de uma antiga comunidade chamada Nefilim. Estamos na Terra desde tempos imemoriais.

Nova quase não captava o que ela estava falando, mas olhou para as mãos de sua mãe. "Por que as mãos dela estão sangrentas?" pensou. "E o que diabos ela está fazendo aqui?"

A mãe seguiu o olhar dela e tentou explicar:

-              Precisamos parar o aquecimento global. Algumas víti­mas são necessárias. Caso contrário, vamos ser levados pela água quando estiver subindo.

Então Nova gritou o que não tinha sido capaz de pensar antes:

Você os matou. Foi você que os assassinou.

Sim, mas era necessário. Você mesma sabe o que essas pessoas estavam fazendo.

À distância, foram ouvidas sirenes se aproximando. A mãe de Nova olhou em volta, preocupada.

Mais tarde, conversamos mais sobre isso. Tente entender. Não é só a minha, mas também a sua luta pela sobrevivência que estou combatendo.

Você não pode dizer que é uma maldita assassina por mi­nha causa! - gritou Nova.

- Por favor, Nova, tente entender - disse a mãe, e se levan­tou silenciosamente.

Saiu da sala olhando para Nova, com um olhar apelatório. Nova tinha tal tumulto de emoções dentro de si que só conseguia fixar o olhar para a frente. Ódio e raiva se misturavam com triste­za e medo. Seus braços pendiam soltos nas laterais.

Um telefone tocava insistentemente na sala ao lado.

 

Amanda ligou para o número de Waldemar Göransson pela sexta vez. Sem resposta. Os sinais ressoavam no vazio. Seu Golf ver­melho foi acompanhado por um carro de polícia até as últimas quadras da rua Karlavägen. Diminuíram a velocidade quando passaram pelo prédio de tijolo da escola Ostra Real. Amanda não queria mais inocentes feridos envolvidos em sua investigação, so­bretudo crianças ou adolescentes. Os carros subiram até o calça­mento em frente ao shopping e pararam na ilha de trânsito que protegia a entrada. Curiosos olhavam para os carros enquanto seus passageiros saíam correndo.

Amanda localizou as escadas rolantes e assumiu a lideran­ça. Kent chegou imediatamente depois; apesar do tamanho do seu corpo, ele ainda era bom em distâncias curtas. Subiram as escadas em poucos passos e continuaram pelo pátio. Um monitor de creche colocou-se entre o grupo de crianças e os policiais que corriam. A brincadeira fora interrompida e as crianças olhavam para o acontecimento inesperado que ocorria em seu pátio. Kent tinha ficado para trás, quando Amanda chegou à porta da casa de Waldemar Göransson. Estava escancarada. Amanda esperou por Kent com a arma em punho. Ele tinha pegado o elevador e olhou cautelosamente para o lado de fora da porta quando chegou ao andar. Seus olhos se encontraram.

-              Waldemar Göransson. É a polícia - gritou Amanda.

Quando ninguém respondeu, avançaram para dentro do apartamento. Em primeiro lugar, sentiram o mau cheiro na sala. Depois, na cozinha. A primeira coisa que Amanda viu, quando virou, no canto da sala, foi Nova. Estava sentada, apática e olhava para a frente. Ela não saiu do lugar quando Amanda gritou:

-              Deite-se no chão com as mãos estendidas.

Amanda aproximou-se cautelosamente. Por fim, teve que ajudar Nova a se deitar no chão e prender-lhe as mãos atrás das costas, com algemas. O corpo de Nova era como um saco pesado, indolente. Era como se ela não estivesse mais lá. Enquanto isso, Kent avançava pela sala.

-              Inferno - foi a única coisa que disse quando encontrou Waldemar Göransson com o corpo mutilado.

Amanda deixou Nova no chão e foi ver o que Kent encontrara. Quando viu a cabeça de Waldemar Göransson por trás da pilha de livros, demorou um pouco antes de entender a cena: o pescoço sem cabeça e a faca que estava numa poça de sangue. Apesar de o corpo não estar tão desrespeitosamente arrumado como os corpos das outras vítimas, era mais do que suficiente para ela entender que se tratava do mesmo assassino: a mulher que estava presa no chão, bem ali. Tinham falhado. Outro inocen­te havia sido morto antes de conseguirem deter Nova. Isso ofusca­va o triunfo de ter encontrado um assassino em série. A incompetência de Amanda se transformou em raiva. Ela virou-se, colocou Nova em pé e a sacudiu.

-              Por que você fez isso? Por quê? ela gritou, direto no ros­to de Nova.

Quando não recebeu nenhuma resposta, ela empurrou Nova para trás no batente e jogou-a com força contra a parede descamada. Amanda se acalmou um pouco quando sentiu a mão de Kent em seu ombro e soltou os braços de Nova; uma equimose aparecera. Então, Nova encontrou o olhar de Amanda pela pri­meira vez e disse:

- Não fui eu. Foi a minha mãe.

- Diga isso ao juiz - disse Amanda sarcasticamente.

Ela pensou para si mesma: "A garota está totalmente perturbada. Pena que provavelmente irá para um hospital psiquiátrico e não para a cadeia." Em seguida, guiou Nova com força na sua frente até o carro de polícia. Kent assumiu o comando dos prepa­rativos para a investigação da cena do crime.

 

O prédio na rua Svartmangatan,[8] 24, fora construído em 1624, mas ficava sobre os restos do mosteiro dominicano que já estava lá no século XV. Tinha esse nome por causa da ordem dos dominicanos, que usavam roupas pretas, em contraste com os franciscanos que habitaram o bairro de Riddarholmen,[9] que vestem cinza. A fachada era bege-escura com alvenaria visível ao redor da base. Peter Dagon sabia o código da portaria de cor. A porta de madeira resistiu em abrir, mas ele entrou.

Moses morava no andar térreo. O apartamento de cinco cômodos no andar de cima revelava muito pouco do que ficava embaixo. Era mobiliado como um apartamento clássico, com o teto um pouco baixo. Na parede, uma série de grandes pintu­ras do pintor Zorn, com exuberantes corpos femininos. Moses deu as boas-vindas a Peter Dagon com um tapa nas costas. Ele recebeu de volta um aperto firme de mão. Os homens entra­ram na cozinha.

Na bancada de mármore preto havia uma adega de madeira escura. Moses balançou a cabeça em aprovação para Peter, que tomou a liberdade de escolher. Ele pegou uma garrafa após outra. Admirava e comentava. A escolha recaiu sobre uma de Penfolds Grange, de 2002. Moses pegou a garrafa, puxou a rolha e encheu as duas pesadas taças de cristal. Enquanto Peter Dagon pesquisava profundamente sua bebida vermelha, Moses pegou um pedaço de gorgonzola curado e cortou uma pera. Virou-se para o painel de madeira entre a mesa da cozinha e a geladeira cor de metal. Com um dedo, já acostumado, ele puxou ao longo de um trilho. O painel virou uma porta que se abriu lentamente. O ar frio da Idade Média penetrava através da abertura. Moses precisou se abaixar para conseguir entrar. Peter o seguiu com as duas taças de vinho na mão. A escada era íngreme e escura. Na metade do caminho, Moses acendeu lamparinas de óleo que estavam mon­tadas na parede. A luz brincava com as sombras. Percorreram o mesmo caminho de muitos dos seus antepassados. As escadarias mudavam de aparência e se ampliavam. Mais luzes foram acesas, mas não conseguiam iluminar o grande salão. Em tempos passa­dos, ali tinha sido a sala de jantar dos monges, agora, era a sala do conselho dos Nefilim. Os irmãos negros, os monges dominicanos, se virariam no túmulo se soubessem quem estava agora usando a sua morada.

Paredes de pedra tinham sido parcialmente cobertas com painéis. Um projeto engenhoso que os monges usavam para as­sar porcos inteiros ainda estava montado na lareira gigante. Ha­via uma série de retratos pendurada nas paredes. Toda a história dos Nefilim fora retratada em pinturas a óleo. Todos os que se destacaram foram representados por uma pintura. Peter Dagon esperava ter seu retrato pendurado lá, um dia. A pintura da es­querda mostrava um homem com os dois picos da montanha de Ararat ao fundo. Ele estava descendo do lugar onde a Arca de Noé teria ancorado. Peter se orgulhava de ver as semelhanças entre os traços do seu rosto e os do seu antepassado da família paterna, o único Nefilim que sobrevivera ao Dilúvio. Ele deixou por um tempo seus olhos se fixarem no homem.

Com grande esperteza, ele conseguira embarcar na Arca de Noé, apesar de o objetivo e a finalidade do Dilúvio ser o de acabar com os Nefilim na superfície da Terra. Sua integração com o povo tivera tanto sucesso que a família de Noé fora a única de puros que havia se mantido. "Se for possível as palavras 'homem' e 'puro' existirem numa mesma frase", pensou Peter. Dessa vez, o Dilúvio não ia conseguir eliminar os Nefilim. Que eles tivessem de tomar providências em relação a isso era um grande retro­cesso em seus planos, mas um mal necessário, que devia ser en­frentado. Peter Dagon dirigiu sua atenção para Moses Hammar e perguntou:

-              O que está acontecendo na polícia?

-              Eles têm toda a lista. Mas, por enquanto, Nova os mantém ocupados. E o Greenpeace também está fazendo um bom traba­lho em relação a esse assunto. Vi no jornal Dagens Nyheter que a polícia fez uma busca em suas instalações, e o resultado foi um grande protesto. A polícia tem trabalho até o pescoço.

-              Pena que Nova demonstre ter tendências tão humanas. Pensei que não fôssemos ter esse tipo de problema com ela -queixou-se Peter.

- Parece ser completamente aleatório - consolou-se Moses.

- Sim, nós pagamos caro pelo plano original.

-              Ninguém sabia que o resultado da adulteração teria essas consequências.

Os homens meditaram sobre o problema por algum tempo. Então, Peter disse:

-              Recebi uma ordem de que precisamos intensificar o trabalho.

-              Eu entendo - disse Moses.

 

Amanda tirou a manhã para dormir até mais tarde. Embora o resultado do inquérito ainda não fosse muito claro, Nova estava atrás das grades. Nove horas, ela tinha uma consulta com o médico. Dez minutos antes, trancou a porta atrás cie si e desceu as escadas. O pior endereço para entrega da cidade; o entrega­dor da loja Ikea tinha dito isso quando veio com sua cama nova. E talvez ele tivesse toda razão. Amanda caminhava em volta do prédio sobre os paralelepípedos, descendo as escadas para a rua Hõgalidsgatan. Ali, virou à direita e passou pelo oásis verde, o res­taurante Lasse i Parken. Nessa casinha se servia comida desde o século XVIII. Um homem de meia-idade, com os cabelos amar­rados em um tufo, fazia faxina no terraço do restaurante, depois de um jogo de futebol que fora exibido ontem, no telão. Amanda não sabia quais eram as equipes que haviam jogado, mas ouvira os gritos, do parque, na hora do gol.

Quando virou na rua Langholmsgatan, ela entrou na loja de iguarias italianas. Presunto com alecrim estava lado a lado com queijo fresco e gorgonzola, no balcão de frios. Nas prateleiras de trás havia massas alimentícias em todas as suas formas, azeite com trufa e pasta de alcaparras e azeitonas das cores do outono. Amanda pediu um café com leite ao pequeno e excessivamente humilde homem atrás do balcão. Antes de pagar, fez uma com­pra impulsiva de cem gramas de ricota sem pensar em como iria comê-la. O Posto de Saúde Curera ficava a três quarteirões de dis­tância. Amanda entrou pelas suas portas exatamente no horário programado. O café com leite na sua mão estava na metade. A fila para o guiché era pequena, e, antes que ela se sentasse, veio um homem musculoso, de mais ou menos trinta anos, saindo de uma porta com passos rápidos.

-              Amanda? - ele perguntou e estendeu a mão. - Meu nome é Pär Säberg.

Amanda foi conduzida para dentro de uma pequena sala com espaço para duas cadeiras, um computador e uma mesa para exame. Ela explicou os seus sintomas e o médico ouviu atenta­mente e fez perguntas complementares. Finalmente, pediu-lhe que se deitasse na mesa de exame, apertou sua barriga e usou o estetoscópio para ouvir.

-              Quando foi a sua última menstruação? - perguntou.

-              Eu entendo por que você pergunta, mas eu tomo pílula anticoncepcional - disse Amanda, sem pensar.

-              Isso já aconteceu antes, de alguém engravidar mesmo tomando pílula anticoncepcional.

Só então Amanda começou a perceber que não era apenas uma pergunta de rotina:

- Você está falando sério? Estou grávida?

Sim, parece que sim. No terceiro mês, acredito. Se eu fosse você, marcaria uma consulta no posto para fazer um pré-natal.

Mas eu não posso ter filhos - protestou Amanda.

Nesse caso, provavelmente você vai ter que se apressar. Em breve, estará passando do limite para fazer um aborto,

Mas também não quero fazer aborto.

Pär Säberg sorriu por causa da confusão de Amanda e perguntou:

-              Em geral, há bons psicólogos ligados aos grupos de pré- natal. Você gostaria que eu fizesse o encaminhamento?

Ficou claro que Par Säberg não achava que o seu campo de trabalho fosse a alma humana. Amanda balançou a cabeça.

-              Vou ver o que faço - ela disse, saindo da sala.

Assim que saiu do posto, virou à esquerda. Ali havia um banco de jardim que a esperava. Sentou-se e olhou para o bosque Tantolunden; crianças do jardim de infância tinham começado a aparecer no parquinho, alguns corredores matinais estavam a ca­minho de casa, um golden retriever brincava na margem da água. Ao fundo, algumas casas de colônia de férias, subindo a colina. Amanda pegou a sacola com ricota e abriu-a. Com o dedo indi­cador, escavou a massa do queijo macio tipo cottage e encheu a boca. "Grávida", ela pensou. "O que devo fazer?" Moses e Aman­da nunca haviam falado sobre o futuro. Ela queria muito, mas também teria o risco de perder a magia que os unia. Sem falar em promessas. Não tinham bens em comum. Planos por mais de dois dias nunca haviam sido feitos. Era como se a relação tivesse parado no tempo; era sempre o primeiro mês, ainda que eles esti­vessem convivendo por dois anos.

Mas agora ela estava grávida. Tudo seria colocado no lugar. Será que ela perderia Moses ou iria conquistá-lo? Tinha mais uma opção: fazer um aborto e fingir que nada havia acontecido; nada mudaria e tudo seria como antes. Ou seria? Mesmo que Moses não mudasse, Amanda saberia o que teria feito. O fato de ela ter 39 anos e fazer um aborto seria o mesmo que jogar fora a última chance. Talvez nunca pudesse engravidar novamente. Nunca mais teria a chance de formar uma família. Nunca mais. Era tão de­finitivo. "Moses tem o direito de saber", pensou Amanda, "porque é seu filho também." Mas os princípios são fáceis quando se trata dos outros. É outra coisa quando é a sua vida que está sendo virada de cabeça para baixo. Era difícil. Difícil. Difícil. Amanda olhou surpresa para dentro da sacola. A ricota tinha acabado e nenhuma decisão fora tomada.

 

Peter Dagon estava sentado no bar, no Grand Hotel, e observava as duas alas do castelo em direção à água. "Como algo tão grande assim pode ser tão insignificante?" pensou Peter. Seiscen­tas salas mascaradas em cor de rato. Ele pertencia ao grupo dos que acreditavam que o castelo deveria ser pintado de amarelo solene. Acima de tudo, achava que o velho castelo Três Coroas deveria ser reconstruído com suas muralhas e torres medievais, mesmo compreendendo que isso não era realista. Moses estava na frente de Peter, sentado em um bar de cadeiras macias com um tecido bordado com grandes flores marrons. Segurava um canapé de salmão com batata-baroa e gengibre. Ele o colocou na boca, mastigou e engoliu. Seguiu-se um bolinho recém-assado, com creme de limão. Os homens haviam optado pelo chá da tarde tradicional do hotel, em silêncio. Ambos tinham escolhido a opção com chá por ser muito cedo ainda para tomar champanhe. Quando os pratos com bolinhos, canapés e doces foram esvaziados, Moses disse:

-              Nova foi capturada.

-              É um problema? - perguntou Peter enquanto limpava um pouco de chantilly da boca.

Não, a polícia não acredita nela.

Então ela está falando?

-              Sim, mas ela sabe de pouquíssimos fatos e não tem nenhu­ma prova.

-              Tem certeza de que a situação está sob controle?

-              Não se preocupe, eu tenho um investigador numa peque­na caixa - disse Moses, erguendo o dedo indicador contra o polegar, como se segurasse uma caixa entre eles.

Peter Dagon balançou a cabeça, tranquilizado, e procurou o garçom com o olhar para pedir a conta.

 

Nova estava sentada no estrado fixado na parede, com os braços em volta dos joelhos, e olhava para o nada. Os ombros estavam inclinados, e o rosto, sombrio. Ela não se importava de estar na prisão. Os pensamentos eram uma prisão maior do que isso.

Sentia-se como uma planta com raízes podres. Antes, ela queria obter respostas para todas as suas perguntas. Agora, desejava nunca ter ficado sabendo. "Minha mãe é uma assassina", pensou. "Mas e eu, sou melhor?"

"Eu também matei um homem." Nova, inconscientemente, começou a balançar para lá e para cá com a parte superior do cor­po. Sua mãe sempre fora rigorosa. Mas havia certa lógica. Quando Nova tinha cinco anos e pegara um biscoito sem pedir, ela ficara sem jantar. Quando tinha doze anos e fugira pelo teto, levou chico­tadas sobre as mãos que abriram a escotilha do sótão e ficara tran­cada em seu quarto durante várias semanas. Quando experimen­tara a roupa de sua mãe, sem autorização, teve que andar nua, um dia inteiro. Elas viviam sob o lema: olho por olho, dente por dente.

Agora que tinha a resposta nas mãos, percebia como aquilo era doentio. A lógica perversa de sua mãe havia também justifi­cado o tormento e o assassinato de outras pessoas. Elas fizeram mal à natureza e contribuíram para que um novo Dilúvio viesse a ocorrer na Terra. Dessa forma, arriscaram a vida e o bem-estar de Nova e de sua mãe. De acordo com sua mãe, mereciam morrer. Mas ela estava louca. A mãe de Nova era uma assassina. A própria Nova era uma assassina. "Também sou louca?" pensou ela.

Uma lágrima desceu ao longo do rosto de Nova. Outras a seguiram. Ela começou a soluçar. Depois chorou descontroladamente e abraçou os joelhos fortemente. A alma estava vazia e cansada. Nova se deitou no estrado sem se segurar com as mãos. Ela queria se castigar. Queria punir sua mãe. Elas não tinham ne­nhum valor. Deviam morrer. Nova tinha nojo de si mesma. Genes podres. Raízes podres. Tudo nela era podre. Podre. Podre. Podre. Alguém bateu à porta. Uma portinha se abriu e um rosto esprei­tou lá dentro. Uma vez a cada quinze minutos faziam o mesmo. "Eles não podem simplesmente me deixar só?", pensou Nova, en­fiando a cabeça no travesseiro.

 

Amanda tinha tomado o ônibus número 4 até Fridhemsplan. Pre­cisava dos dez minutos de caminhada até a delegacia. Seus pen­samentos estavam focalizados em tudo, menos no trabalho. A colina íngreme até o Kronobergsparken estava mais cansativa do que o habitual. Ela começou a respirar mais rápido. Agora sabia o porquê. Dentro do seu ventre brotava uma pequena vida, que su­gava sua energia e sua força. O pensamento fez com que Amanda começasse a andar mais calma e mais cautelosa.

Debaixo das árvores altas na frente dela, uma mulher empurrava lentamente um carrinho de bebê. "Poderia ser eu, em poucos meses", pensou Amanda. Quando se aproximou, Amanda procurou ver o rosto da mulher como se fosse para perceber se ela estava feliz. Ela tinha um nariz pequeno, coberto de sardas. Sua boca era estreita e decidida. "Será que vou ser feliz?", indagou-se Amanda. A mulher respondeu aos olhares de Amanda com um sorriso. "Talvez eu possa ser feliz", o pensamento de Amanda con­tinuou. Era, apesar de tudo, sua última chance de se tornar mãe. Encontrar outro homem para ter filhos, ela não teria mais tem­po, antes que fosse tarde demais. "Talvez eu subestime o Moses", pensou Amanda. "Talvez ele tenha pensado o mesmo sobre mim. Eu sempre quero manter as coisas como são. Não quero nunca mudar nada. Mal posso culpá-lo por não querer ter filhos comigo, sem eu ter perguntado ou mencionado algo assim para ele. Os homens não têm a mesma urgência que as mulheres que estão se aproximando dos quarenta. Eles também não sabem como é difícil para as mulheres mais velhas terem filhos." À sua frente, a fachada em tom amarelo alaranjado do prédio da polícia come­çava a ficar visível através da ramagem.

Amanda se sentia mais à vontade. Virou-se e olhou para a mulher com o carrinho de bebê. "Daqui a seis meses, talvez seja eu, Moses e o bebê que estaremos aí", pensou Amanda encos­tando inconscientemente a mão na barriga. A sensação de calor tomou conta de seu coração. Agora, sabia o que queria. Ela iria ficar com o bebê. Amanda queria ser mãe. Queria uma família. Queria andar debaixo das copas das árvores com um carrinho de bebê. Queria responder às pessoas que passavam com um sorriso. Amanda foi com alegria para o seu trabalho. Falaria com Moses à noite. A vida iria tomar um novo rumo. Nada seria como antes.

 

Seu cabelo mais parecia um despenteado tapete de lã pisoteado do que dreads separados. Nova baixou a cabeça. Olheiras escuras eram bem visíveis abaixo de seus olhos. Amanda não conseguia decidir se Nova parecia uma velha ou uma menina. Ela parecia fina, delicada e aniquilada. Amanda estava feliz por isso. "Ela está ali sentada, sentindo pena de si mesma", pensou, "coitada." A tor­tura fora realmente abolida na Suécia, mas, em situações como essa, Amanda desejava que não fosse assim. Nova merecia sofrer. Muitas vezes, faltava empatia aos assassinos a sangue-frio, mas não tinham problemas em infligir dor a eles mesmos. Se o seu sofrimento fizesse com que os parentes das vítimas tivessem pelo menos uma pequena sensação de satisfação e que a vida fosse um pouco mais justa, já valeria a pena, achava Amanda.

Kent sentou-se na sala ao lado de Nova, estudando sua linguagem corporal em detalhes, através de uma tela, enquanto tinha toda a documentação do inquérito na frente dele. Desse modo, ele era capaz de verificar rapidamente as informações que Nova fornecia. Tudo fora gravado e seria mais tarde analisado, segun­do por segundo. Como de costume, Kent era o responsável pelo inquérito interno, mesmo que, ocasionalmente, acompanhasse o trabalho em campo, Amanda não queria que ele se empoeirasse totalmente entre pastas e papéis. Kent trabalhava com a meto­dologia Investigação de Crimes Graves. Apesar de seu novo nome, Amanda sempre pensava nela com o nome antigo, Bíblia do Ho­micídio. Embora não fosse tão severa como Kent, ela apreciava muito a sua ordem, que complementava o seu caos criativo.

Nova tinha recusado os serviços de Nils Vetman e não que­ria nenhum outro advogado. "Não confio no Vetman e não tenho nada a esconder", era como havia justificado sua opção. Amanda não sabia se era bom ou ruim. Estaria ela tão doente psiquicamen­te que se encontrava num estado de total negação ou era apenas uma estratégia para tentar sair fora da situação, mentindo? "Ela deve ser muito boa nessas coisas", pensou Amanda. Eles a tinham prendido em flagrante, no local do crime, e tinham a prova técni­ca que a unia a um dos outros crimes. Ou, então, ela era só estú­pida. Não era qualquer um que tinha a possibilidade de conseguir um advogado como Vetman, independentemente da sua ética.

Amanda começou com uma longa lista de perguntas de ro­tina para que Nova se sentisse segura. Nos primeiros momentos, não mencionou a razão pela qual Nova estava sentada à sua fren­te. Então, ela surpreendeu Nova com a pergunta que sempre fazia em investigações de crimes graves e violentos:

-              Por que você fez isso?

Nova afastou o olhar da mesa e olhou para Amanda.

Não fui eu. Foi a minha mãe.

O que você estava fazendo na cena do crime?

Eu ia alertar o professor. Mas não sabia que era ela. Não, naquele momento.

Amanda suspirou para si mesma e decidiu entrar no jogo da loucura de Nova. Às vezes, um pequeno traço de realidade podia ser extraído da fantasia.

Quando você percebeu que tinha sido ela? - perguntou Amanda.

Só quando a vi.

Amanda se questionou, talvez Nova tivesse duas personalidades e acreditasse que uma seria a sua mãe morta. Decidiu manter isso na mente ao continuar o interrogatório. Mais cedo ou mais tarde, Nova iria se encontrar com um psiquiatra que poderia fazer um diagnóstico.

Mas você, mesmo assim, ia avisar o professor - disse Amanda.

Sim, eu tinha encontrado Peter Dagon no início do dia e entendi que eles estavam trabalhando pela nossa lista Dirty Thirty - disse Nova.

Se eu entendi certo, a sua mãe cooperava com alguém chamado Peter Dagon?

Nova balançou a cabeça e continuou:

Sim, eles querem impedir um novo Dilúvio, tentando pa­rar o efeito estufa.

Então, é aí que o Dilúvio e a Bíblia entram - constatou Amanda e anotou para si a razão de existir citação da Bíblia nas paredes. - Quem é esse Peter Dagon?

Amanda anotou o nome de Peter Dagon para ser verificado.

- Um velho amigo da minha mãe. Eles acreditam que descendem dos Nefilim.

- E os Nefilim são os anjos caídos?

Nova, primeiro, olhou surpresa, por Amanda saber quem eles eram, mas concordou. "Não, agora eu já não suporto mais essas idiotices", pensou Amanda, e disse:

- Só existe um problema com a sua história: sua mãe está morta.

- Não, ela não está - Nova apressou-se a dizer -, ela forjou sua própria morte.

- Como? - perguntou Amanda. - O médico-legista Moses Hammar a identificou. - Amanda tocou em sua barriga quando falou o nome de Moses.

- Ele está junto nisso - disse Nova, séria. - É um grande complô. Ele também está entre aqueles que pensam que são os Nefilim.

- Então, você também é descendente de um anjo caído? Quero dizer, se sua mãe é, você deve ser, também?

- Não sou eu quem pensa assim. São eles que acreditam nis­so. Nils Vetman também está envolvido.

Amanda respirou fundo e disse:

-              Então, a sua mãe morta, o médico-legista, um homem chamado Peter Dagon e Nils Vetman acreditam que são anjos - disse Amanda cansada. - Por favor, vê se você se emenda e diz o que aconteceu.

 

O Café Muren, na rua Västerlanggatan, ficava a algumas centenas de metros da casa onde Elisabeth Barakel morara durante toda a sua vida. O lugar tinha toda a condição de ser verdadeiramente charmoso. Ao fundo, o antigo muro da cidade, com grandes pe­dregulhos embaixo e alvenaria em cima. Um arco branco dividia o café em duas partes. Grandes vigas de madeira eram fixadas com pregos grossos. Mas algo tinha dado errado. As bancadas fixadas na parede com pano rasgado, as almofadas em cores berrantes e as portas brancas da cozinha da loja Ikea pareciam ter sido tiradas de um restaurante de comida árabe. A porta do banheiro, nem sempre tão limpo, estava aberta com frequência, o que ajudava a dar um toque de banheiro público. A impressão geral era decente, mas colorida demais.

Em sua vida anterior, Elisabeth Barakel nunca havia ido lá, e isso fazia também com que o pessoal não a reconhecesse. O café era suficientemente perto de sua antiga casa para que ela sentisse certa proximidade e ligação. Sentia falta do ponto fixo que a casa representara em sua vida. Agora, Elisabeth vivia numa mala. As coisas que não queria deixar para trás foram guardadas no depó­sito Shurgard. Voltou a pensar no dilema da informação sobre os clientes. Se não a tivesse deixado para trás, alguém suspeitaria de que ela mesma tivesse planejado a sua morte. Se a tivesse manti­do, a situação se tornaria grave. Muitos dos clientes eram Nefilim, outros eram lucrativos ou bons contatos. O problema, em todo caso, agora estava resolvido: ela havia arrombado a gaveta da sua própria escrivaninha. Pouco depois, percebera que tinha esqueci­do aqueles mapas do pastor maluco sobre o Ararat. Com sorte, ninguém iria ligá-los a uma morte de muitos anos atrás, nos Es­tados Unidos. Se ela conhecia bem Nova, a pasta iria, com certe­za, permanecer na gaveta por tempos infinitos. Ela não tinha muito bom conceito sobre a capacidade de conclusão da polícia. Como poderiam pensar que um grupo de poluidores teria o mes­mo assassino que um fanático pastor dos Estados Unidos?

Os Nefilim exploravam com frequência o fato de que o ser humano tinha uma abordagem territorial e uma falta de coopera­ção além-fronteiras. As diferentes famílias e os clãs davam e toma­vam. Todos tinham vantagem nisso, pelo fato de trabalharem por objetivos comuns. A Arca não podia ser encontrada. Simplesmen­te não podia acontecer. Os Nefilim não tinham outra maneira de lidar com pessoas que sabiam demais. Fora assim que eles haviam se tornado fortes.

Os Nefilim dos Estados Unidos haviam tomado empresta­do os serviços de Elisabeth, que depois desaparecera sem deixar qualquer pista no país. Logo, ela precisaria da ajuda deles. Seus pensamentos vagavam de volta para a casa. Havia percebido que não só sentia falta de casa, mas também de Nova. Agora que Nova era adulta e podia se virar sozinha, Elisabeth pensara que era só deixá-la. Como uma pintura que estivesse pronta para a venda. Mas ela sentia falta da sua filha subindo a escada, das perguntas tímidas sobre tarefas domésticas e dos traços do rosto que havia herdado de seu pai. Elisabeth sentia falta até dos condenáveis roli­nhos que tinha no cabelo.

Pensou no olhar de acusação e decepção que recebera de Nova quando a filha entendeu que sua mãe estava por trás dos assassinatos. Houve muito pouco tempo para explicar a necessidade das atitudes. O tempo era curto para quase tudo. Havia encolhido e desaparecido. Elisabeth tinha entendido pelas man­chetes que Nova havia sido presa pelo assassinato. Havia até um vídeo como prova. De onde viera, Elisabeth Barakel não tinha a menor ideia. Não havia tempo para descobrir. Em primeiro lugar, a continuação da existência delas teria de ser assegurada. Depois, iria cuidar de Nova e certificar-se de que a filha voltaria a ficar em pé. Elisabeth ainda tinha o conhecimento e os contatos necessá­rios no Judiciário. Se acontecesse alguma coisa depois. Se o tempo não terminasse. Agora a vida de Elisabeth Barakel precisava ter apenas um objetivo e um sentido. O que estava valendo era ter firmeza contra os impulsos que a fariam se desviar do alvo. Ten­tou esquecer a filha na prisão. Esquecer o seu olhar. Ela não podia ser fraca. Não agora. O mundo precisava dela. Nefilim precisava dela. Nova teria de esperar. Pensar nela era um luxo que Elisabeth não podia ter agora.

Em vez disso, começou a folhear o exemplar do Aftonbladet que estava à sua frente. Não poderia mais usar a lista Dirty Thirty, porque a polícia tinha acesso a ela. Seu olhar se fixou em uma matéria:

 

O plano de Perrelli - um vilão do meio ambiente

Se pensássemos no meio ambiente, teríamos ficado em casa. A turnê promocional de Charlotte Perrelli vai ajudá-la na vitória do Festival da Canção da Eurovision. Mas há um perde­dor - o meio ambiente.

"Se fôssemos pensar no meio ambiente, teríamos ficado em casa", diz o empresário da cantora.

Hoje, a cantora Charlotte Perrelli aterissa na Letônia. Ali ela inicia a sua turnê promocional para o Festival de Canção da Eurovision. Partes da turnê podem ser feitas em um jato particular alugado. Uma opção de transporte que pode emi­tir 2,75 toneladas de dióxido de carbono por pessoa. O empresário Staffan Jordansson salienta que Charlotte Perrelli e sua equipe investem em voos regulares durante a turnê.

 

                   Investem no Concurso

"Contrataremos avião particular quando for preciso", ele diz.

Vocês já pensaram sobre as emissões decorrentes de vôos feitos por avião particular?

"Se fôssemos pensar no meio ambiente, teríamos ficado em casa. Agora, tudo depende de que resultado final se quer alcançar no concurso", diz Staffan Jordansson. Vocês pensam em compensar pelas emissões? "Mais uma vez, teríamos ficado em casa, se pensássemos assim."

 

                   Deveria pagar extra

"Quanto menor o número de pessoas, mais emissões para se dividir", disse Ingvar Jundén, do Departamento de Proteção Ambiental. Ele acha que Charlotte Perrelli, por fazer uso de avião particular, deveria compensar as emissões e, portanto, pagar a mais.

"Teria sido mais bem-visto", diz Ingvar Jundén.

 

                   O avião emite onze toneladas de gases poluentes

As emissões de dióxido de carbono para os voos em jatos particulares totalizam cerca de onze toneladas. Divididas entre os quatro passageiros, são 2,75 toneladas para cada um. A distância total para os vôos de jatos particulares: 6375 km. Isso corresponde, aproximadamente, à distância entre Estocolmo e Nova York. Um voo regular entre Estocolmo e Nova York gera 440 kg de dióxido de carbono por pas­sageiro. Magnus Swahn, da Rede de Transportes e do Meio ambiente, NTM, fez o cálculo para os voos de Charlotte Perrelli. O tipo de aeronave que se pensa usar para transpor­tar a rainha do pop por toda a Europa consome, em média, 427 litros de combustível por hora, a uma velocidade de 845 quilômetros horários.

 

"Sim, por que não? Onze toneladas são onze toneladas!", pensou Elisabeth Barakel. Fechando o jornal, colocou-o debaixo do braço e deixou a xícara com a bebida até a metade sobre a mesa. Quando saiu do café, respirou profundamente o ar abafado do verão. Era como se deixasse a última coisa de sua vida antiga para trás. Todos os resquícios do seu comportamento anterior fi­caram entre migalhas de roscas e poeira no chão. Agora, havia apenas um objetivo. Uma coisa para se concentrar. Finalmente Elisabeth se livrara da teia de condições sociais com as quais as pessoas viviam. A vida se tornara simples e bonita. Elisabeth havia finalmente encontrado o seu verdadeiro eu.

 

Torrada com ovas de peixe. Amanda tinha comprado ovas de pei­xe sueco, pela primeira vez em sua vida, no mercado Vi, que ficava no nível subterrâneo do metrô. A única razão que a levou a fazer isso foi uma vez ter ouvido Moses dizer que era seu prato favorito. O pão deveria ser frito na manteiga. Dois pedaços de pão francês fritavam na frigideira. Nadavam na gordura amarela. Moses em breve apertaria a campainha. Ele enviou um SMS quando desceu do metrô, na estação de Hornstull. Amanda ajeitou as folhas de alface no prato, verificou pela segunda vez o seu cabelo no espe­lho do hall e voltou para a cozinha. Os pedaços do pão tinham ficado com uma cor marrom dourada em ambos os lados. "Estão prontos", decidiu Amanda, e os colocou no prato.

Ela abriu a lata com as ovas, olhou-as desconfiada, mas de­pois colocou a massa com os pequenos grãos sobre os pães. Pe­gou uma garrafa de vinho branco gelado. Para si, tinha compra­do água mineral Ramlõsa com sabor de limão. Mas colocou um copo de vinho para ela também, para que Moses não suspeitasse de nada. Amanda queria escolher o momento certo para contar. Mas era preciso que fosse antes que ela bebesse uma quantidade maior. "O primeiro gole, eu posso fingir que bebo, sem que ele perceba algo", foi a conclusão a que Amanda chegou. A campai­nha tocou.

O rosto largo de Moses brilhou quando Amanda abriu. Ela encontrou nervosa o olhar dele. Quando ele viu o que estava so­bre a mesa, riu e perguntou:

-              O que estamos comemorando? Você foi promovida? -Amanda percebeu que deveria pegar o touro pelo chifre de uma vez e se fez de forte. Séria, ela disse:

-              Precisamos conversar.

O sorriso morreu nos lábios de Moses e os seus olhos tentavam ler o rosto de Amanda. Ela se sentou à mesa, e ele, na sua frente.

-              Não há nenhuma maneira fácil de dizer o seguinte: eu es­tou grávida.

Uma sombra de compaixão passou pelo rosto de Moses e, solidário, ele disse:

-              Entendo que deve ser um sentimento realmente difícil.

Um grande alívio tomou conta de Amanda. Moses compreendera. Eles iriam resolver isso juntos.

-              Passei o dia todo pensando sobre isso.

Moses acariciou seu rosto com a mão grande e disse:

Minha pobre menina, para quando você marcou hora? Eu vou com você, é claro, se você quiser.

Marcou hora? — Amanda perguntou intrigada.

Sim, para o aborto.

Depois, Moses viu o rosto chocado de Amanda e continuou, quase ordenando:

- Porque você pretende fazer aborto, não?

Não, eu não pensei nisso - disse Amanda receosa. - Eu queria ouvir o que você pensa primeiro, antes de decidirmos alguma coisa.

Mas, por favor, Amanda, eu pensei que era óbvio para você que o nosso caso não seria nada mais do que um caso. Nós trabalhamos juntos...

Agora eu é que não estou entendendo o que você quer di­zer. Não é tão raro assim que policiais fiquem junto com policiais.

Sim, mas não neste caso - cortou Moses. - Nunca prometi nada, e agora, por favor, não me faça sentir a consciência pesada.

Amanda ficou em silêncio e tentou avaliar seus sentimentos revoltos. Com as últimas palavras de Moses, a raiva ficou maior do que a decepção e a tristeza.

Eu não devo fazer você sentir a consciência pesada? - gri­tou Amanda. - Consciência pesada pelo quê? Porque eu quero que você assuma a responsabilidade por seus atos? Eu não fiquei grávida sozinha.

Por favor, Amanda, não seja tão vulgar.

-              Vulgar? É isso que eu sou agora? Não sirvo mais?

Amanda pegou o copo de vinho e jogou-o contra a cabeça de Moses. Passou a cinco centímetros da orelha dele e aterrissou na parede, quebrando-se. Vinho e estilhaços de vidro ficaram es­palhados pelo chão. Moses levantou-se e colocou na mesa o guar­danapo que tinha em cima dos joelhos.

-Você pode me ligar quando estiver mais calma. Minha proposta continua em pé.

-              Sua proposta de quê? Tirar a vida do nosso filho? Amanda gritou a última frase contra uma porta fechada.

Moses já havia deixado o apartamento. Seus passos ecoaram na escadaria. Amanda caiu chorando na cadeira. O prato de torradas com ovas estava intacto sobre a mesa.

 

A cadeira de madeira era dura e desconfortável, mas Nova a acei­tou. Sentou-se e ficou olhando para fora através da janela fe­chada. O ar estava pesado e sufocante. As paredes a oprimiam. Lá fora, as folhas e os botões estavam secando. A natureza lutava até o fim contra o calor. Nova não lutava mais. Seus pensamen­tos estavam indo no sentido oposto. "Eu mereço isso", pensou. Se tivesse agido de modo diferente, nem todas essas pessoas teriam morrido. Nova olhou com ódio para a própria mão em seu colo. Ali ao lado via-se o canto pontiagudo da prateleira que ficava na janela. A voz sombria do cantor Trent Reznor se misturava com os seus pensamentos que vagueavam:

 

         I hurt my self today

         to see if I still feel.

         I focus on the pain

         the only thing that’s real[10]

 

Nova pressionou o seu pulso de veias macias contra a borda. Funcionou. Parecia real. Toda a dor foi canalizada para o seu bra­ço. Afastava qualquer outra coisa. Pressionou mais e mais forte. Agora não havia espaço para arrependimento. Tudo era apenas uma sensação de pulsação no punho. As palavras de Trent Reznor ecoavam na cabeça de Nova:

 

         What have I become?[11]

 

Nova fez a pergunta para si mesma. Fixou-se nela. Repetia de novo e de novo. Quem ela se tornou? O que ela se tornou? De repente, era como se estivesse fora de seu corpo. Olhava o aposen­to onde estava presa, as suas calças sujas e os dedos que cada vez tinham uma cor mais branca. Do pulso saía um filete de sangue. À sua frente estava uma mulher covarde, que preferia fazer uma tentativa patética de se matar a ter de lidar com os problemas. Havia ainda um assassino em massa solto e Nova precisava tentar impedi-lo. Era seu dever. Só ela poderia fazê-lo. Nova retirou o braço da borda afiada e estancou o fluxo de sangue com a outra mão. Em poucas horas, a ferida estaria curada.

Era obrigação de Nova viver.

 

Peter Dagon estava sentado em uma cadeira, a 33 metros acima do nível do mar, e admirava o anoitecer em Estocolmo. Ao fundo, a iluminação da Câmara Municipal penetrava o crepúsculo e se refletia nas águas calmas de Mälaren. Na frente da pequena Ilha Kungsholmen, via-se a outra ilha, Riddarholmen. Peter sabia que ainda existiam restos do mosteiro Gramunkeklostret debaixo da igreja feita de tijolos. Na ilha, viviam apenas duas pessoas, e Peter era uma delas. Os palácios antigos, os arquivos e o edifício do Par­lamento estavam vazios à noite. Mas ele não estava lá, mas, sim, sentado em uma das cadeiras do bar Gondolen, e esperava por Moses. Nas mãos, um Cosmopolitan Ginger que o barman tinha feito logo que o viu se aproximando do local, de piso forrado de madeira clara e escura.

Em cadeiras um pouco mais distantes estavam duas loi­ras que, embora parecessem ser grandes clientes de shoppings, vestiam-se praticamente iguais. Peter tinha a certeza de que am­bas viviam em algum lugar entre as ruas Karlavägen, Narvavãgen, Strandvägen e Sturegatan. "As filhas do homem podem ser boni­tas", pensou ele, "mas muito simplórias." As loiras olharam para o lado dele. Peter virou a cabeça. Essa noite, não, ele não estava interessado. Tinha coisas mais importantes para pensar. Em vez disso, olhou para baixo sobre o Slussen e amaldiçoou o entediante concreto. Ele queria que o velho Slussenplan ainda estivesse lá, onde o bonde sempre fazia o retorno e as árvores verdes se alinhavam no balão em paralelepípedos. Agora era cinzento e triste, com um balão incompreensível que ele nunca dominara comple­tamente. Ele viu uma figura forte, que se sentou ao seu lado. Peter não precisou virar a cabeça para saber que era Moses. Ele havia ligado, duas horas mais cedo, e pedido para ter uma reunião ur­gente. Sem cumprimentar, Moses começou:

-              Temos um problema.

Peter virou a cabeça e ergueu a sobrancelha em vez de perguntar.

Amanda, a chefe da investigação, está grávida.

E você tem certeza absoluta de que é seu? - perguntou.

Talvez.

Pensei que você tivesse o cuidado de se proteger - disse Peter, em tom acusatório.

Eu pensei que ela tomasse pílula anticoncepcional - desculpou-se Moses.

Sem esperar pelo que Peter falaria, continuou:

-              Sim, eu sei. Fui descuidado.

-              Independentemente de quem é a culpa, precisa-se tomar uma providência - disse Peter -, a linha de sangue não pode ser enfraquecida demais.

Moses balançou a cabeça como resposta. Tinham cometi­do esse erro uma vez antes e aprenderam. Antes do Dilúvio, os Nefilim tinham se misturado com êxito aos homens e, com isso, estavam prestes a ter sucesso na obtenção de um reino a seu gosto. Se não fosse o Dilúvio... Depois da inundação, tentaram fazer a mesma coisa, mas com um resultado muito pior. Seus genes esta­vam muito fracos e adulterados. Em muitos casos, o resultado foi que pessoas excepcionalmente inteligentes e bem-sucedidas não seguiam suas regras. Em vez de cúmplices adequados, concebiam adversários fortes. Por mais que Moses quisesse um filho, esse não era o caminho certo. Ele devia ser forte e seguir o que era melhor para a geração. Enquanto tomava um gole grande de seu drinque, olhava a noite. Os últimos raios solares haviam desaparecido atrás da silhueta de Estocolmo. Milhares de luzes elétricas iluminavam as ruas da cidade.

 

Amanda olhava fixamente a escuridão. Na parede oposta, o pôster de Mare Chagall lhe sorria. O cabelo de Moisés se parecia mais do que nunca com ura chifre.

"Agora eu entendo", pensou Amanda, "esse é o verdadeiro Moses. Um escroto." Ela não conseguia dormir. Os pensamentos giravam como uma centrífuga. A raiva pela traição de Moses se misturava com a decisão - ela iria ficar com a criança, ou não? Na verdade, já havia decidido, estava apenas procurando argumentos. Amanda iria ficar com a criança, independente­mente da posição de Moses. Ou melhor, ainda mais por causa disso. Seu comportamento frio havia criado uma obstinação dentro de Amanda que, por si, justificava a decisão. Amanda se­ria mãe. Custasse o que custasse. "Moses pode ir à merda", pen­sou Amanda.

Alimentou a ira para evitar de ter que trabalhar com a tris­teza e o sonho destruído de formar uma família. Seus pensamen­tos amargos a levaram ao que Nova dissera sobre Moses: ele ha­via feito uma identificação incorreta, conscientemente. Amanda tinha afastado a ideia, achando um disparate, mas agora Moses mostrara um lado completamente diferente. Será que havia ou­tros lados mais escuros? Ele, obviamente, não era o que ela ima­ginava. Amanda começou a pensar sobre a história de Nova mais seriamente. A história, como um todo, parecia muito fora da rea­lidade para ser verdadeira, mas será que existiam partes que po­diam ser investigadas? Será que Nova entendeu tudo completa­mente errado? Então Amanda se lembrou de que ela dissera que sua mãe estava no filme de monitoramento que rolava na casa. Primeiro, Amanda havia descartado isso, mas agora a situação era outra. Jogou os pés para fora da cama. De qualquer forma, não ia conseguir dormir.

 

Amanda adormecera com a cabeça apoiada sobre uma pilha de papel em cima da escrivaninha. Passos no hall fizeram com que ela acordasse. O relógio mostrava 6h15min. A maioria de seus colegas era de madrugadores. Madrugadores irritantes. Um rosto surpreso surgiu e entrou na sala de Amanda. Kent cumpri­mentou-a com um sorriso. Era a primeira vez em que ele via Amanda no trabalho antes das oito horas. "Precisei buscar meu filho na creche, hoje", ela disse, justificando sua chegada antecipa­da. Mas não recebeu nenhuma explicação para a presença de Amanda; ela apenas concordou com a cabeça. Depois, fingiu estar preocupada com a tela do computador. Viu mais uma vez a se­quência do filme que tinha visto várias vezes durante a noite. Ao lado dela, uma fotografia de Elisabeth Barakel. Não havia dúvida de que era a mesma pessoa. A mãe de Nova estava viva. Ela foi vista em uma imagem bem depois de sua pretensa morte. Data e hora brilhavam reveladoramente no canto do filme.

Normalmente, Amanda teria corrido para a sala de Kent e mostrado o que havia encontrado. Mas agora a situação era dife­rente. "O que isso significa para mim?" perguntava-se pela pri­meira vez em uma investigação criminal. Ao que parecia, Nova estava certa em um ponto: sua mãe fora erroneamente declarada morta. Será que era verdade que Moses estava envolvido? Grande parte da história de Nova era tão incrível que era óbvio que se tratava de fantasia. Amanda precisava descobrir onde estava a fronteira entre a poesia e a realidade. Na noite anterior, ela fora à casa de Nova buscar o filme. Ele continha o que Nova tinha des­crito. Amanda apertou o play novamente. O rosto da mulher refle­tido pelas lâmpadas dos postes da rua não lhe dava nenhuma res­posta. Amanda balançou a cabeça lentamente. Havia apenas uma coisa a fazer: confrontar Moses. Ela teria, então, um motivo para fazer contato. Mesmo com toda a raiva, existia um fiapo de espe­rança de um final feliz. O sonho de uma família permanecia. Tal­vez ele tenha se arrependido. Moses teria que implorar e pedir, mas depois Amanda cederia. Ela sacudiu seus devaneios e procu­rou a raiva dentro de si. Precisaria dela para suportar encontrar Moses. "O merda", pensou Amanda, puxando para si a bolsa de couro do ano passado.

 

Quanto mais perto Amanda chegava do Instituto Karolinska de Medicina Legal, mais insegura ficava. O carro andava cada vez mais lentamente. Por fim, ela desacelerou e parou em frente ao trabalho de Moses. Saiu hesitante. Subiu as escadas se arrastando até a porta do prédio de tijolos. Não havia janelas na lateral. "Na verdade, o que estou fazendo aqui?" se perguntou, e decidiu vol­tar atrás. Mas era tarde demais; Moses subia as escadas, olhando para ela.

-              Que bom que você veio - ele cumprimentou. - Precisa­mos conversar.

Amanda concordou:

-              Realmente, precisamos.

Sem tocar em Amanda, Moses segurou a porta aberta e, em seguida, mostrou-lhe a sua sala. Ela nunca havia estado lá. Ao contrário do seu escritório, o ambiente era claro. Apesar de um toque profissional, era também convidativo. Ambos se sen­taram, cada um de um lado da escrivaninha. "Como nos torna­mos formais", pensou Amanda, "há poucos dias, eu estaria sen­tada no seu colo."

-              Para começar, quero pedir desculpas - disse Moses.

"Ele se arrependeu", Amanda pensou e não pôde conter um sorriso.

-              Eu sei que não é uma desculpa, mas gostaria de te dizer por que não devo ter filhos.

A esperança de Amanda afundou, mas ela manteve o sorriso e balançou a cabeça para Moses continuar.

Eu tenho uma doença herdada geneticamente e é muito provável que a criança que você está carregando também tenha.

Que tipo de doença? - Amanda perguntou ansiosamente.

Fibrose cística do pâncreas. Existem cinquenta por cento de chance de que a criança vá herdá-la.

Mas hoje deve haver remédio que cure, não? - questio­nou Amanda, que tinha visto um programa na Televisão Nacional Sueca, dois anos antes, sobre essa doença.

Não há cura, mas medicamentos que permitem viver com a doença por um tempo.

Sim, mas então existe esperança. E, além disso, há cin­quenta por cento de chance de que a criança nem esteja doente.

Eu vi a minha mãe ser sufocada lentamente pela mucosa de seus próprios pulmões. Você gostaria de ver o seu filho passar por isso?

Não, claro que não, mas há exames que podem ser feitos?

Amanda percebeu que ele estava pensando. Ela estava dividida entre a raiva por Moses não ter contado e a compaixão pelo que ele passou. "Ver sua mãe morrer lentamente deve ser in­suportável", pensou. Os pais de Amanda eram duas pessoas na faixa dos sessenta anos, muito ativos, e no ano passado haviam se mudado para a Riviera Francesa. Amanda só os via no Natal e em Midsommar, a festa do solstício de verão, na Suécia, e nas ve­zes em que ela viajava para visitá-los, entre essas datas. Eles eram aposentados e estavam muito longe da morte.

Sim, existe um teste que pode ser feito - disse Moses, de­pois de muita consideração -, mas isso significa que, de qualquer maneira, a criança poderia ser portadora, como eu sou. Não dese­jo isso para nenhum ser humano.

Você gostaria que estivesse morto? - perguntou Amanda.

Claro que não, disse Moses, mas...

Quando... vamos dizer assim: o que é preciso para fazer esse teste?

Eu poderia fazê-lo - confessou Moses, hesitante. - Preciso apenas de um dia para encontrar o equipamento.

Moses educadamente levou-a para fora da sala, sem falar muito. Ela lhe deu um beijo na boca meio sem jeito e saiu. Quan­do ele se sentou à mesa, olhou para o jornal que estava aberto. O título da página era: Novos medicamentos da fibrose cística do pân­creas. Ele se parabenizou pela mentira necessária e bem-sucedida. Tinha dado uma ligeira olhada na matéria antes do almoço, mas a ideia surgira quando Amanda apareceu. Então ele se virou para o computador e abriu o arquivo "aborto medicinal".

O feto não duraria muito.

 

O olhar de Nova havia assumido um novo brilho. Seu rosto estava lavado e ela se inclinou para a frente em cima da mesa. Era como se houvesse encontrado um fio de esperança e o tivesse agarrado com toda a intensidade.

-              Você viu o vídeo?

Amanda concordou com a cabeça.

-              Então você a viu? - continuou Nova, com os olhos fixos em Amanda.

"Como são azuis", pensou Amanda. Então ela disse:

-              Sim, eu a vi.

-              E você viu a data em que foi gravado? Você entende que ela não pode estar morta?

É totalmente claro que você está certa, mas...

Você precisa acreditar em mim.

-              Só porque a sua mãe está viva não significa que tudo o que você disse é verdadeiro ou que você é inocente pelos assassinatos.

Um tom avermelhado surgiu no rosto de Nova. A irritação brilhava em seus olhos.

Vocês estão juntos, não é? - desafiou.

O que você quer dizer?

-              Como eu já disse que aquele Moses está envolvido, você não quer acreditar em mim?

Amanda não entendeu nada. Como Nova soubera que ela e Moses estavam juntos? Estaria tão claro? Amanda começou a mexer nervosamente na caneta.

-              Vocês se mantêm unidos para não perder a importância, não cair no ostracismo? Eu li sobre isso. Vocês chamam isso de espírito de equipe, certo?

Então, Amanda entendeu ao que Nova estava se referindo, mas a sensação de desconforto não a deixou totalmente.

Não, com certeza, não. Claro que revemos todas as alegações, independentemente de para onde estejam direcionadas.

Então, você verificou isso com Moses Hammar?

Ainda não - disse Amanda, se esquivando.

Quando se encontrou com Moses no começo do dia, ela evitara o assunto. "Porra, por que tudo acontece de uma vez?" pen­sou Amanda. Ela precisava falar sobre o assunto da próxima vez. Por mais fora de hora que pudesse ser.

O que vocês estão fazendo para encontrar minha mãe?

Nós não começamos a procura - reconheceu Amanda, que estava começando a perder o controle do interrogatório.

Era como se ela estivesse sendo interrogada, e não Nova. Ela não podia deixar de sentir culpa por não ter progredido mais na investigação. Para voltar ao comando, Amanda falou logo:

Você por acaso não sabe onde ela pode estar?

Não faço a menor ideia, eu também pensei que ela esti­vesse morta - disse Nova -, mas acho que sei como vocês podem encontrá-la.

Como?

Ela tem um endereço de e-mail.

E então?

O que eu sei é que é possível rastrear correio eletrônico.

 

Na caixa de correio, havia um envelope com o seu nome. Ela co­nhecia muito bem aquela a letra, eram os garranchos médicos de Moses. O envelope era formal e de trabalho, mas Amanda espe­rava que o conteúdo fosse pessoal e que a lacuna que se criara entre eles estivesse chegando ao fim. Olhou ao redor do corredor como se tivesse recebido uma mensagem secreta. Em seguida, en­trou em sua sala e fechou a porta. Rasgou o envelope e retirou o conteúdo. Demorou um pouco até que entendesse o que tinha em mãos. Virou e revirou o formulário. O peito parecia vazio, quando ela percebeu. Era o relatório da autópsia de Joseph E Larsson e de sua esposa.

Quando se recompôs, deu uma lida por cima, em tudo. Nada de inesperado fora encontrado, a não ser a hora da morte. "Entre duas e quatro da tarde", ela leu. "O que isso significa?" Amanda foi obrigada a reconstituir tudo o que tinha ouvido. Nova estive­ra no apartamento bem depois. Todas as provas técnicas e todo o interrogatório de testemunhas apontavam para isso. Mesmo a análise da goma de mascar havia mostrado que era de Nova. Afi­nal, talvez ela estivesse dizendo a verdade. Ou ela estivera ali em diversas ocasiões?

O que Nova afirmou está de acordo, e o que ela disse sobre Moses? Que ele fez um relatório de autópsia falso. Apesar de ter sido ele também quem fez esse outro relatório. Amanda não con­seguia colocar o raciocínio em ordem. Os pensamentos vagavam para a criança que crescia em sua barriga. O filho de Moses, que talvez tivesse uma doença fatal. Ela acariciou a barriga, como se para proteger o feto contra todo mal. O pensamento de que po­deria se sufocar no muco dos seus próprios pulmões era demais. Uma lágrima desceu por seu rosto. Várias outras se seguiram. Amanda chorava sem conseguir parar. A vida indefesa de seu fi­lho estava em perigo. E ela não podia fazer nada para protegê-lo.

 

Kent olhou com raiva para o sol antes de entrar na delegacia de Kungsholmen. "Será que esse calor não vai acabar?", pensou, en­quanto abria a porta. "Se eu quisesse viver no Saara, não teria me mudado para Hasselby." Uma faixa escura de suor escorria ao longo das costas da camisa de linho. Ele já havia se trocado uma vez hoje, e não tinha mais camisas limpas. Com uma das mãos, retirou o suor do rosto e caminhou lentamente para a sua sala. Os pensamentos giravam em sua cabeça. Havia também muitos pontos de interrogação na investigação em curso. Eram tantos os fatos que não dera tempo de verificar e parecia que Amanda não percebia que na investigação preliminar havia mais buracos do que em uma peneira. Ultimamente, ela não era a mesma. Como se estivesse sem forças. "Deve ser esse calor", pensou.

No caminho para a sala, ele planejou uma longa lista de tarefas. Quando passou pela porta fechada da sala de Amanda, de­cidiu discutir os critérios de priorização do trabalho. Pensando nisso, abriu a porta repentinamente e entrou sem bater. Então, parou na soleira. Amanda olhou para ele com ar acusador e lágri­mas nos olhos. Kent nunca a tinha visto chorar antes e não sabia o que fazer.

-              Desculpe-me - conseguiu falar e pensou em voltar para a porta.

Depois se deu conta de que se conheciam há mais de dez anos e que era o momento de uma pergunta complementar, tanto para fazê-la se sentir melhor quanto para satisfazer sua própria curiosidade.

Aconteceu alguma coisa? - perguntou Kent. Amanda pareceu amolecer

Não, sim, é, aconteceu. Algo particular.

Você quer falar sobre isso? - Kent disse hesitante.

-              Não... sim... ou talvez.

Amanda viu como Kent fechou cuidadosamente a porta, se sentou e se ajeitou na frente dela com um ar de compreensão. Ela já estava arrependida de ter pedido para ele entrar. Como poderia lhe dizer que estava grávida? Eles eram colegas, e era grande o risco de que alguma informação escapasse antes que ela quisesse. E se não fosse ficar com a criança? "Sim, eu quero ficar com o bebê", pensou. Um novo ataque de choro tomou conta dela. Não conseguia controlar o sentimento. As lágrimas fluíam. Ela solu­çava. Kent esperou pacientemente. Parecia preocupado. Naquele momento de sofrimento, ela sentia afinidade com o homem do outro lado da mesa. Tinham trabalhado lado a lado por muitos anos, com respeito um pelo outro. Ela precisava falar com alguém e compreendeu. Kent era a pessoa certa.

-              Estou grávida - ela disse.

-              Parabéns é a palavra certa? - perguntou Kent, examinan­do Amanda.

Sim e não. A criança pode ter uma doença hereditária.

Posso perguntar qual é?

Fibrose cística do pâncreas.

Kent parecia realmente triste quando soube do que se tratava.

-              Eu entendo como se sente. Meu pai tinha o gene, mas eu, por sorte, não o adquiri.

-              Você não foi afetado?

Não, minha mãe não tinha a predisposição, e estou feliz porque meus filhos não correm o risco de ter a doença. O que tenho lido é que não é nada divertido tê-la.

Mas não existia a possibilidade de você ter? Se o seu pai carregava o gene?

-              Não, ambos os pais devem ter a predisposição.

O coração de Amanda começou a bater mais rápido pelo vislumbre do fio de esperança que percebeu existir.

Você quer dizer que a criança pode ser portadora, mas não doente, se eu for perfeitamente saudável?

E não carregue o gene errado. Mas, e aí, quem contou isso para você? Esse médico não parece ter muito domínio do assunto.

O rosto de Moses surgiu na mente de Amanda. Ela saltou da cadeira.

-              Desculpe-me, preciso esclarecer uma coisa.

Kent olhou-a interrogativamente quando ela saiu correndo da sala.

 

Moses tinha na mão quatro comprimidos - três Mifegyne, que iriam nocautear o hormônio progesterona, protetor da gravidez, e um Cytotec, que induzia cólicas uterinas e sangramento. Não havia sido difícil obtê-los. Com uma receita assinada por ele mesmo, comprou-os na farmácia. Havia muitas vantagens em ser médico, pensou Moses. Os comprimidos teriam que ser tomados com dois dias de intervalo, mas isso ele ignorou. Ele só teria uma chance. Devagar, Moses colocou-os num pequeno pilão, quebrou-os e os desintegrou até virarem um pó branco. Pegou a caneca das suas visitas à Associação do Coração e Pul­mão. Num grande coração vermelho estava impresso o endereço de um site: helahjartat.se. Moses derramou o pó e o deixou co­brir o fundo da caneca. O resultado ficou bom. Era quase invisí­vel contra as paredes brancas da caneca. De repente, poderia até se tornar um substituto do açúcar. Moses mal conseguiu se afundar na cadeira, satisfeito, quando a porta foi aberta por Amanda.

Instintivamente, ele olhou para a caneca. Não parecia diferente de antes. Sem perguntar por que ela viera muito antes do combi­nado, ele disse:

Eu ia justamente tomar uma xícara de café. Eu posso bus­car uma para você também.

Preciso falar com você agora - disse Amanda, decidida.

Mas eu estou realmente com muita vontade de tomar uma xícara de café - insistiu Moses.

Chega, eu preciso falar com você agora.

Daqui a pouco - disse Moses, e saiu da sala com uma xí­cara em cada mão. Amanda olhou irritada ele saindo e se sentou. Moses voltou com duas xícaras fumegantes. A xícara com o cora­ção vermelho ele estendeu a Amanda, como se fosse uma declara­ção de amor. Amanda recebeu a caneca com um suspiro.

O que você tem no coração? - Moses perguntou com um sorriso.

Por dentro, ele pensava: "beba, beba, beba".

Eu tenho um monte de perguntas sobre a fibrose cística do pâncreas.

Eu respondo com prazer - disse Moses, com uma insinua­ção que fez com que Amanda levantasse uma das sobrancelhas. "Beba, beba, beba", pensou.

Se eu não tiver o gene que leva à doença, o nosso filho pode adquirir mesmo assim?

Moses repentinamente ficou sério:

- Sim, infelizmente é assim.

Mas ouvi dizer que não é verdade. Que a criança não contrai a doença se eu for saudável.

De quem você ouviu isso? - Moses perguntou preocupado.

Kent, meu colega.

O policial gordo? Você contou para ele sobre nós? - disse Moses, bravo. "Diabos, beba", pensou. Os lábios de Amanda toca­ram a caneca, mas ela começou a falar em vez de beber.

Não se preocupe. Eu não mencionei nomes.

Eu sou médico, e ele é um policial. Quem você acha que está certo? - questionou Moses ironicamente.

Amanda parecia pensar sobre o que ele dissera.

Eu apenas achei muito estranho. Ele parecia tão certo.

Moses não se conteve:

Você não vai beber um pouco de café?

-              Que insistência irritante por causa do café - constatou Amanda.

Então ela olhou para o copo como se fosse pela primeira vez.

Não, eu não quero café - ela disse, afastando a caneca firmemente. - Não é bom para a criança.

Mas você não sabe se vai ficar com o bebê... — disse Moses.

-              Não, por isso mesmo é mais seguro que eu não beba café. Com o apoio de sua irritação, Amanda fez a pergunta meio embaraçosa:

-              A mãe de Nova está viva. Você cuidou da identificação do seu corpo. Como uma coisa dessas pôde ter saído tão errado?

Moses levou um tempo para acompanhar a mudança rápida de raciocínio. Seu olhar permanecia na caneca de Amanda. De­pois, ele entendeu o que ela disse e gritou:

-              Você me acusa de não saber fazer o meu trabalho?

-              Não, mas algo deu errado, obviamente. A mãe de Nova está viva e Nova diz que você fez propositalmente uma identificação falsa.

- E você acredita nela? Você não pensou em quem foi que me deu as descrições? Sim, Nova mesmo.

Mas eu precisava perguntar.

"O ataque é a melhor forma de defesa", pensou Moses, e continuou com um ar de superioridade:

Eu sabia que as mulheres desprezadas poderiam ser amar­gas, mas isso é ridículo. Me acusar de ser um criminoso.

Eu nem sabia que era desprezada - disse Amanda, examinando Moses criticamente.

Não, não foi isso que eu quis dizer - Moses tentou emen­dar, mas Amanda insistiu:

-              Agora você tem que decidir, estamos juntos ou não? Moses ponderou as palavras por alguns segundos a mais.

-              Está tudo terminado, portanto - constatou Amanda, sain­do pela porta.

Quando ela saiu da sala, o semblante de Moses apagou.

"Eu tenho que me livrar dela", pensou.

A xícara de café ficara na mesa à sua frente. Nem uma gota havia passado pelos lábios de Amanda. Moses pegou o telefone e ligou. Muitas coisas tinham sido descobertas. Agora eles deviam agir rapidamente.

 

Nova olhava para Nor Boström e Amanda. Nor vestia uma camiseta preta, estava sentado, recostado e mascava chiclete. Aman­da, ligeiramente inclinada para a frente, parecia cansada e es­tressada. Seus olhos estavam vermelhos e abatidos. Eles estavam sentados em volta de uma mesa de reunião. O fato de ser re­donda lhe pareceu um bom sinal. Em audiências anteriores, ela sempre se sentava sozinha, em um dos lados da mesa. Eles já não eram mais forças opostas, cada um de seu lado, mas trabalha­vam juntos.

Nova tem um endereço de e-mail de Elisabeth Barakel. Se conseguir que ela responda, você pode então rastrear para saber em que lugar ela está? -perguntou Amanda.

Nesse caso, não é um desvio - disse Nor, e começou a balançar a cadeira. - Por que não perguntamos ao operador qual é o endereço de IP do qual ela normalmente manda o seu e-mail?

-              É possível se fazer isso? - perguntou Amanda.

-              Sim, ou é assim que vocês devem conversar com o promo­tor antes de pedirem isso.

Há um pequeno problema. Nós não temos nenhuma prova. Nova não pôde deixar de protestar.

Como assim nenhuma prova? Vocês têm o filme com ela.

-              Sim, ela está no filme - explicou Amanda -, mas não te­mos prova de que ela é culpada de nada. No máximo, é uma indicação de que ela arranjou a sua própria morte, mas não temos nenhuma prova disso também.

-              Mas ela me disse que foi ela quem fez isso - disse Nova.

-              Foi só você que ouviu - disse Amanda -, não é suficiente.

Nova sentiu a frustração crescer. Queria falar, protestar, porque sua credibilidade não era suficiente. Mas sua situação era muito delicada. Ela se contentou com um suspiro de protesto.

-              Você acha que pode fazer com que ela te mande um e-mail hoje? - interrompeu Nor.

- Eu não sei, mas acredito que sim - disse Nova.

- Tenho uma sugestão de estrutura - disse Nor.

Ele inclinou-se e contou. Amanda e Nova ouviram interessadas.

 

A tensão no pescoço evoluíra para o início de uma dor de cabeça. A pele embaixo dos olhos doía pela falta de sono. A náusea permanecia ao fundo, mas Amanda fez o possível para acalmá-la. Tinha medo de que os soluços fossem prejudicar o pequeno feto e resistiu ao impulso de colocar os dedos em sua garganta. Alguém havia pintado sobre as palavras "Fuck the police" que es­tavam escritas há muito tempo no banheiro, mas Amanda notou que as letras eram claramente visíveis, apesar de tudo. Ela apoiava as mãos sobre a pia e olhava para sua própria imagem no espe­lho. Olheiras escuras eram facilmente notadas sob os olhos ver­melhos. Novas lágrimas escorriam pelo seu rosto, estragando os últimos restos da maquiagem feita pela manhã. O corpo inteiro estava pesado de tristeza. Amanda tinha perdido o sonho de ter uma família. Não era apenas um homem na sua lista que ela teria que deixar para trás. Era o pai do seu filho. E só agora ela percebia o peso de ficar sozinha nesse momento. Era diferente. Não eram alguns meses de tristeza e depois ficaria tudo bem. Nunca mais ficaria tudo bem.

Ela se lembraria, por todos os dias do resto de sua vida, de que ele não quisera ficar com ela e o bebê. Com uma das mãos, sentiu sua barriga e pensou: "Agora somos só eu e você, meu bi­chinho." As lágrimas fluíam mais rápido e, em seguida, explodi­ram em um choro total; ela continuou: "Se você puder viver." Amanda se entregou à dor e à angústia. A fachada dura desmoro­nou na solidão de um banheiro de delegacia. Ao final, assoou o nariz com um pedaço de papel higiênico e se encostou na parede. Estava tão cansada. Tão terrivelmente cansada. O tendão entre os ombros e a nuca doía. A única coisa que Amanda queria era ir para casa. Para não fazer nada. Para não ter que pensar. Mas nada disso era possível.

Amanda prenderia uma serial killer. Toda a responsabilida­de estava sobre ela. Ela se inclinou e fixou o olhar. Depois, se esti­cou, encheu os pulmões de ar e disse em voz alta:

- Raios, faça o favor de reagir!

Para enfatizar suas palavras, bateu a testa no espelho. Enxugou as lágrimas com as mãos e saiu do banheiro.

 

O Hotel Clarion, na rua Ringvägen, não era do gosto de Elisabeth Barakel, mas servia aos seus propósitos. A atmosfera anô­nima fazia com que ela pudesse viver lá por vários dias, sem que ninguém a percebesse. Com terninho impecável e jeito de mulher de negócios, ela era um na multidão de consultores, contadores e gerentes de projeto que passavam o tempo ali, entre reuniões e missões. Eles poderiam todos fazer parte do clip-art da Microsoft, ilustrando executivos em movimento. Elisabeth Barakel também tinha intenção de se colocar em movimento. Muito em breve. Foi até o bar no piso térreo e pediu uma taça de vinho branco. En­quanto o barman a servia, ela olhou para o lobby. Tudo tinha de­sign, mas ainda assim era medíocre.

As poltronas eram em vinho berrante, as cadeiras do bar eram altas e o tapete amarelo-amarronzado. Nenhuma arte interessante estava pendurada nas paredes. Na verdade, Elisabeth não viu nada de interessante. Pegou a taça de vinho frio e sentou-se numa poltrona tão longe da janela quanto possível. Mane­quim de vitrina era a última coisa que ela queria ser. Da bolsa a tiracolo, ela pegou o seu único contato com o mundo exterior: um laptop da Dell. Quando se conectou à rede do hotel, che­garam quatro novos e-mails. O de Peter Dagon era interessan­te: Moses Hammar viria com novas diretivas. Elisabeth Barakel sentia muito que sempre houvesse um intermediário entre ela e Peter Dagon. Tempos atrás trabalharam juntos, próximos, muito próximos.

O e-mail de Nova foi um choque.

Só o fato de Nova ter mandando um e-mail já era surpreen­dente. Elisabeth não tinha ideia de que ela possuía o seu endere­ço de e-mail secreto. Mas, depois de um tempo, ela lembrou que havia ligado para Nova e lhe pedido para enviar um documento há três anos, quando não conseguiu resolver uma situação que havia surgido. "E ela se lembrou", pensou Elizabeth. Ela precisava pensar um pouco sobre o e-mail. Será que tinha lido certo? Ela esperava verdadeiramente que Nova acreditasse no que escreve­ra. Esses últimos dias tinham sido solitários. Elisabeth fantasiava cada vez mais sobre ter a filha ao seu lado e parecia que agora to­dos os seus desejos se realizariam. Nova havia chegado à conclu­são e compreensão de tudo o que sua mãe fizera por ela. Ela havia sido solta da prisão e queria se juntar à mãe. No último segundo, Elisabeth conseguiu se controlar. Independente do que Nova pen­sava ou achava, ela tinha, com certeza, uma força policial atrás dela. Mesmo que Nova tivesse sido liberada, provavelmente o fora por falta de provas. Não, era demasiadamente arriscado. Elisabeth escreveu, portanto, apenas uma resposta breve:

 

             Querida Nova,

Foi com prazer que li a sua carta. Infelizmente, nós não podemos nos encontrar nas atuais circunstâncias.

                                 Sua mãe

 

Elisabeth Barakel conseguiu se manter firme contra mais uma tentação. O contato com Nova ela retomaria quando a ba­talha estivesse ganha. Apesar de tudo, ela seria sempre a sua filha.

 

Nova não estava se sentindo bem. A esperança de tornar-se livre e a ansiedade de tentar prender sua mãe se misturavam. Já havia feito sua escolha, mas a reavaliava constantemente. Objetiva­mente, fora fácil. Sua mãe estava obviamente doente e precisava de tratamento, antes que ferisse mais pessoas. Emocionalmente, era outra questão. Sua mãe sentiria isso como uma traição mais do que qualquer outra coisa. Nunca iria entender. No mundo de Eli­sabeth Barakel, tudo era preto ou branco. Ou se estava a favor, ou contra. Nova tentou se livrar das dúvidas no caminho para a sala de reuniões. Pelo que entendia, ela ainda estava presa, mas tinha mais liberdade do que antes porque estava colaborando. Quando entrou na sala, Nor Boström estava debruçado sobre o computa­dor portátil. Amanda estava ao lado, mas não parecia empenhada no trabalho da tela. Quando Nor a viu entrar, ele disse: - You got mail.

Nova quase desejara que não houvesse resposta. Porque, assim, não teria que tomar uma posição. Mas também permanece­ria presa. As provas técnicas apontavam contra ela. Muitos anos de prisão ou tratamento psiquiátrico fechado não eram opções as quais Nova pensava em aceitar. Não era uma lealdade equivoca­da para com uma mãe merecedora. Mas fora só a confiança de Amanda que fizera com que ela investigasse Elisabeth. Nova preci­sava se concentrar. Aproveitar a pequena chance que lhe fora dada.

-              Ela não usou um servidor de e-mail anônimo - continuou Nor. - Há aqueles que despersonalizam o e-mail, mas dessa nós escapamos. Eu consigo um endereço de IP aqui.

Amanda pareceu acordar e acenou para a guarda que dei­xara Nova, demonstrando que ela podia sair. Nova se aproximou do computador. Todos estavam com a atenção dirigida para a tela. Nor escreveu www.ripe.net no navegador de rede e copiou o en­dereço de IP em um campo. Nova não teve tempo de ver o que estava acontecendo, mas Nor resumiu:

-              Ela está sentada, navegando no Hotel Clarion, em Estocolmo. O e-mail foi enviado há quinze minutos.

Amanda virou-se para Nova e a examinou seriamente.

-              Você está preparada? - perguntou ela.

Nova balançou positivamente a cabeça como resposta, mas pensou:

"Eu nunca vou estar preparada para isso."

 

"Velha coroa", pensou Moses irritado quando entrou em seu Audi cinza. Ele já estava cansado de fazer limpeza após a passagem de Elisabeth Barakel. Por vezes, a sua criatividade mórbida era, no mínimo, exagerada. "Por que ela não pode simplesmente atirar neles, limpo e bonito?" perguntou-se Moses.

Peter Dagon o tinha enviado para guiá-la. Elisabeth Barakel era um milagre de eficiência quando corria em direção ao alvo certo, mas agora ela tinha começado a escolher as suas próprias vítimas. Charlotte Perrelli? Como descobrira que ela seria um bom alvo? Moses balançou a cabeça e apertou o acelerador. Os pneus cantaram na saída. Em poucos minutos, ele estava na via Klarastrandsleden.

Havia barcos atracados em fila que se espelhavam na baía de Barnhusviken atrás das árvores acumuladas e do recém-construído conjunto residencial Sankt Erik. O ar-condicionado lu­tava contra os trinta graus de calor. No interior do carro, o ter­mômetro mostrava 25 graus. Moses olhava fixamente para a frente. A irritação se misturava com um sentimento de descon­forto. Ele evitava sempre que possível encontrar Elisabeth Barakel. Ela era uma das mais perigosas e imprevisíveis. Era o seu puro sangue que fazia dela tanto uma arma letal quanto um risco. Moses concordava com Peter Dagon na questão. Eles pre­cisavam jogar com todos os trunfos que tinham. O tempo era curto. Pessoas como Elisabeth eram necessárias na batalha.

Em anos anteriores, ela havia sido uma bomba-relógio, um perigo que poderia ser desmascarado. Agora, era um recurso que iriam explorar ao máximo. Ela estava ativa e preparada. Era como se as suas características humanas tivessem sido totalmente retiradas, como uma casca, pelo fato de sua morte ter sido simulada. A parte humana desaparecera no grande incêndio provocado no posto de gasolina. Embora ela não tivesse chegado nem perto, isso contribu­íra para que perdesse a sua identidade. O ser humano de Elizabeth Barakel havia desaparecido, e restara apenas o ancestral Nefilim.

Mas era necessário um comando rigoroso. "Charlotte Perrelli", pensou Moses, e balançou a cabeça. No bolso, ele tinha uma lista de nomes mais bem escolhidos, cuja morte provocaria o efeito desejado e teria repercussão. E faria com que os Nefilim tivessem uma chance de sobrevivência. Se o efeito não fosse tão significati­vo quanto esperavam, partiriam para o plano B. Durante muitos anos, haviam estudado em detalhe a rede de energia na Suécia. Tinham todas as informações necessárias. É certo que seria difícil viver totalmente sem energia, mas os Nefilim estariam prepara­dos. Haviam vivido dessa forma por milhares de anos. Ao contrário dos homens, eles se lembravam de como era e se adaptaram a essa possibilidade. Era preferível ficar sem energia a se afogar na grande massa de água. Iriam sobreviver a qualquer custo. Moses apertou o acelerador como se fosse para dizer adeus à vida confor­tável que estava acostumado a ter. Se as medidas radicais fossem necessárias, seu Audi seria desligado e destruído pela ferrugem.

 

Nova estava no banco do passageiro no Golf vermelho de Amanda. Nervosa, ela tentou falar:

Você investigou Moses Hammar?

Estamos investigando - cortou Amanda.

O carro virou na rua Götgatan. Nova se concentrou no ambiente à sua volta em vez de pensar sobre o que ela, em breve, precisaria fazer. Do lado esquerdo passavam, em grande forma­to, as faces animadas de Tommy Nilsson e Pernilla Wahlgren. A noviça rebelde, ela leu no cartaz publicitário do Teatro Gota Lejon. Protegido sob o teto do teatro, um morador de rua, com um saco de dormir sujo, se escondia dos raios solares. O carro seguiu em frente até a rua mais antiga do distrito de Södermalm, passou o arranha-céu Skatteskrapan, onde funcionava parte da Receita Federal, com o seu logotipo ingênuo, e por fim virou a esquina do jardim de Sven Persson, o destilador de aguardente do século

XVII. Agora era o centro comercial Ring, com traços arquitetôni­cos característicos do início dos anos 1980.0 Hotel Clarion ficava do lado esquerdo.

Nova congelou quando viu a fachada de vidro. Encolheu-se atrás de Amanda para não ser vista por quem estivesse olhando lá de dentro. O carro parou a um quarteirão de distância. As mãos de Nova tremiam, mas ela respondia afirmativamente às pergun­tas de Amanda. Sim, ela prometeu que não correriam riscos. Cla­ro, ela sabia o que dizer. Nenhum problema, mas com certeza era muito difícil. Sim, ela iria apenas dar um sinal e eles iriam entrar e interromper. Nova saiu direto na rua. Ouviram-se pneus can­tando e, em seguida, uma buzina. Ela havia se esquecido de olhar para os lados. Mas chegou com segurança até a calçada de pedra. Os dedos da mão esquerda tremiam tanto que ela foi obrigada a colocá-los dentro do bolso da calça jeans. Nova olhou ao redor do lobby. Um cabelo chanel loiro-acinzentado chamou sua atenção. Ela soube imediatamente quem era. Elisabeth Barakel estava sen­tada a poucos metros de distância dela, debruçada sobre um com­putador portátil. Seria agora que Nova iria desiludir a sua mãe.

Respirou fundo e entrou na sala como se não estivesse ven­do ninguém. Seu olhar se fixou no fundo do lounge, onde ela sabia que ficava o banheiro. Seria o seu pretexto. Nova não era do tipo que tomava um caríssimo café com leite no salão do Hotel Clarion. Por outro lado, com certeza, pegaria carona nos banhei­ros do hotel. Eram grandes, frescos e relativamente pouco utili­zados. Nova passou muito perto de sua mãe, mas parou, como se acabasse de vê-la ali.

- Oi - exclamou.

Elisabeth Barakel olhou rapidamente. Primeiro, um sorriso se espalhou nos seus lábios, mas depois ela quase berrou:

-              Você não pode deixar que percebam que eu estou sentada aqui. Siga adiante.

-              Mas por quê?

-              Por favor, Nova, faça o que eu digo, eu explico depois.

Mostrando-se decidida, Nova sentou-se defronte de sua mãe, sem tocá-la. Elas nunca foram de se abraçar.

-              Não, mãe, você tem que me explicar. Simplesmente, está tudo de cabeça para baixo. Eu não entendo nada.

Agora não, Nova - disse a mãe, estressada.

Acho que agora eu entendo melhor.

Elisabeth Barakel suavizou um pouco a expressão do rosto.

-              Está bem, Nova. Eu estava com medo de que você não fos­se entender.

Nova se abaixou perto de sua mãe e sussurrou:

Mas por que você precisa matar pessoas? Não há uma for­ma melhor?

Nova, temos muito pouco tempo. Pense que foram eles que começaram. São eles que tentam nos matar a todos. Temos de lutar usando todos os recursos que podemos.

 

Amanda sentou-se discretamente reclinada em seu Golf e ficou de olho no Hotel Clarion. Um ponto no ouvido permitia que ela ouvisse cada palavra que Nova trocava com sua mãe. "Garota es­perta", pensou Amanda, quando ouviu como ela fizera a mãe cair na armadilha. Logo teriam provas comprometedoras. Uma pes­soa de ombros largos passou pelo seu carro e atravessou a rua. Havia algo familiar na figura e no seu andar. Algo familiar demais. Amanda rapidamente segurou a respiração.

Moses.

Caminhava com passos rápidos pela calçada e entrou no hotel. Amanda não pôde deixar de prestar atenção quando ele foi até Nova e sua mãe. "Nova estava certa", pensou. Mas Amanda não aguentava refletir sobre as consequências que isso traria para si mesma. Sua mão procurou a barriga, como para proteger a criança.

 

Foi Nova quem viu Moses Hammar primeiro. Seus olhares se en­contraram. Ela não podia fingir que não o tinha visto. Não podia olhar para o chão com a esperança de que ele fosse embora. Em seguida, ela pensou que talvez ele tivesse o mesmo objetivo que ela no Hotel Clarion. Encontrar Elisabeth Barakel? Isso fez com que ficasse mais assustada.

Agora eram dois contra um. Ela estava tentada a puxar a corda de salvamento. Mas percebeu que destruiria tudo. A polícia precisa de mais provas para pegar esses dois. Moses era, certamen­te, tão perigoso quanto a mãe dela. Suas mãos de lutador se fe­charam quando ele se aproximou das duas mulheres. Os lábios se contraíram. A raiva irradiava de seus olhos. Eram azuis, observou Nova. Azuis brilhantes, como os olhos dela. Seus cabelos escuros os destacavam ainda mais. Automaticamente, ela se encostou à cadeira. Elisabeth Barakel seguiu o olhar dela. Quando percebeu quem estava a caminho, ela abriu um sorriso e disse:

-              Esta é Nova Barakel, minha filha, ela é confiável.

-              Ela não é nem um pouco confiável - respondeu Moses com uma voz dura. Ela contou tudo para a polícia.

Elisabeth Barakel se virou preocupada para a filha:

É verdade o que ele diz?

Sim, eu contei antes de entender. Sinto muito.

-              Ela não sente nada - interferiu Moses -, ela nos denun­ciou a todos. Bela filha que você tem. Precisamos tomar medidas contra ela.

Elisabeth Barakel se colocou entre Moses e Nova.

-              Saia da frente - disse Moses, ameaçadoramente. Discretamente, ele mostrou o bocal de uma arma que saía do bolso de seu blazer.

Elisabeth Barakel não saiu do lugar.

-              Não toque na minha filha - disse com firmeza.

Um tumulto foi ouvido na entrada. Moses se virou. Dois policiais penetraram o salão. Ele deu um passo para o lado de Eli­sabeth e a empurrou do caminho. Mas recebeu um pontapé entre as pernas e, gritando, se dobrou. Um tiro foi disparado.

No bolso do blazer havia um furo. Elisabeth Barakel caiu para trás, sobre Nova. Seus olhos olhavam fixamente para o teto. Do nariz, só restara uma abertura. Fragmentos ósseos apareciam em volta das bordas. Moses deu dois passos rápidos para o lado, sem ao menos olhar para o corpo de Elisabeth. A dor no músculo perto do peito fora superada pelo reflexo de fuga. O corpo bem treinado de lutador obedecia ao seu menor comando. Moses pe­gou o revólver do bolso, enquanto continuou em alta velocidade na direção da porta. O bocal do revólver estava direcionado para o primeiro policial que estava na frente. Era uma curta distância. Não havia dúvida de que a bala iria encontrar o seu alvo. Moses era um atirador disciplinado. O estresse não afetava a sua habili­dade. Sua única chance de escapar era pressionar o gatilho.

Agora.

 

Peter Dagon conhecia todos os poros da casa, mesmo tendo saído de lá vinte anos antes. Não teve dificuldade para entrar, ele havia ficado com as chaves. Poucas coisas tinham mudado de lugar, mas a impressão de decadência estava presente. "Elisabeth nunca foi muito ligada em decoração", ele pensou. Pena que ela não conse­guira conservar melhor seus bens de herança. Ele passou a mão ao longo do velho papel de parede. Aspirou o ar do ambiente de que tinha sentido falta. Muitas memórias estavam presas entre aquelas paredes. Peter passara grande parte de sua infância lá. Junto com sua prima, ele tinha brincado em todos os cantos, comido lanche na mesa enorme da cozinha e dormido em uma cabana no sótão. Eram tempos de despreocupação, antes que compreendessem o que estava acontecendo. Eram jovens, inocentes e não sabiam o que estava por vir.

Outro Dilúvio iria devastar a Terra. Outra tentativa seria fei­ta para eliminá-los da sua superfície. Uma vez mais, teriam que lutar por sua sobrevivência. Foi o pai de Peter quem captou os primeiro sinais alarmantes. Quando não havia qualquer dúvida sobre isso, ele fez soar o alarme. O sinal muito antigo de aviso ti­nha corrido como fogo sobre a Terra. Todas as células foram mo­bilizadas e prontificadas. A falha do homem não seria a morte de Nefilim. A luta contra a água fora um grande revés no seu plano original: criar ura mundo adequado para eles. Um mundo onde os Nefilim governam e o homem se sujeita aos seus ideais. Mas tinham de esperar. E, quem sabe, pensou Peter, talvez a água que estava subindo poderia tocar as mãos de Nefilim?

Entrou na biblioteca. Uma das paredes estava forrada com pinturas caras que ele não tinha visto antes. "Elisabeth, em poucas palavras", pensou Peter, "completamente desinteressada por de­coração, mas obcecada por arte." Ela priorizava o pequeno e o limitado, em vez de ver o todo. Era isso que a fazia ser a pessoa ideal para a missão. Não existia pessoa mais direcionada para o objetivo. Ela corria em direção ao alvo como se tivesse antolhos e em velocidade máxima. Era só apontar para a direção certa.

Peter sorriu se lembrando de quando ele, com dez anos de idade, concluíra que precisavam de uma reserva de alimento em sua cabana. Elisabeth tinha seguido em frente, sem um centavo no bolso. Meia hora depois, ela chegara com orgulho e os olhos brilhando. Na frente dele, virou o bolso da roupa para fora. Cara­melos, goma de mascar e balas despencaram no chão. Ela, como sempre, tinha conseguido fazer o trabalho. Peter se lembrou de que ela não existia mais. "Infelizmente", pensou, "mas um sacri­fício necessário." A saudade o inundou. Ele e Elisabeth tinham trabalhado lado a lado desde a idade escolar. Às vezes, ele pensava que, juntos, eram como o Nefilim original. Ele tinha a capacida­de mental deles, e Elisabeth, a física e a crueldade. Juntos, eram imbatíveis. Sua prole teria sido invencível, uma homenagem ao Nefilim dos velhos tempos. Peter sorriu para o pensamento. Mas teve de voltar ao presente. As coisas não tinham ocorrido como fora planejado. Elisabeth não estava mais ali.

Seria preciso tempo para ele se acostumar. Antes, ele só pegava o telefone e ligava. Agora, tinha de fazer a merda do trabalho sozinho. Ele se sentou em uma poltrona e apagou a lâmpada em cima da mesa ao lado.

Era ali que ele iria esperar pela chegada de Nova.

 

Os movimentos de Nova demonstravam cansaço. A alma estava cansada. O corpo estava cansado. Até o fundo da alma, ela es­tava completamente exausta. Saber que entregara sua mãe dre­nava toda sua energia. Ela se acusava pela sua morte. Se Nova não tivesse aparecido com a polícia em seu encalço, sua mãe ainda estaria viva. Se Nova tivesse pedido ajuda antes, ela ainda estaria viva. Se Nova não tivesse denunciado a mãe, ela ainda estaria viva. Havia muitas coisas de que Nova era culpada. Ela era a razão pela qual sua mãe havia morrido. Ou era sua mãe a culpada? Além disso, Nova não conseguia pensar. Haveria muitas noites de vigí­lia. Precisava descansar, se desligar. Como um autômato, foi para casa. Relutava, mas não tinha escolha. Sua moradia, ela resolve­ria quando tivesse condições. Agora, precisava se deitar e dormir. Profundamente e por longo tempo. Se conseguisse.

Apesar dos protestos de Amanda, ela estava saindo da delegacia. Havia provas demais apontando em outra direção. A con­fissão de Elisabeth Barakel tinha sido captada pelo microfone de Nova e estava gravada. Eles não podiam mantê-la detida por mais tempo.

- Abra um processo contra mim - Nova disse e foi embora.

Ela não conseguiria suportar mais um interrogatório. Nem mais uma pergunta. Nenhuma obrigação a mais. Ela só queria ser deixada sozinha, organizar seus pensamentos e, acima de tudo, voltar para sua própria cama. "Eu errei?", pensou Nova, mas não conseguia responder à própria pergunta. Seus pensamentos não lhe obedeciam. "Nós trabalhamos pelo mesmo ob­jetivo. Quem sou eu para julgar? Por que acho certo arrombar, mas não matar? Eu mesma assassinei. Por que estou livre, e mi­nha mãe, morta?" Postes de luz de ferro fundido iluminavam osduzentos metros da ponte Vasabron. Em Strõmsborg, passava um carro Volvo XC 90. Automaticamente, a questão veio até a mente de Nova: "Eu queria saber por que se dirige um jipe ur­bano com uma emissão de 266 gramas de dióxido de carbono por quilômetro, no centro de Estocolmo. Aliás, por que existem jipes urbanos?".

A interrupção do pensamento fez com que Nova tivesse uma melhor noção do problema. O núcleo tinha sido a filosofia de sua mãe: "olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé".[12] Não tinha como refazer, não era possível colar um novo olho. É certo que hoje se fazem boas próteses, mas nunca se poderia subs­tituir a mão de alguém. Uma vida não podia ser substituída por outra. Por outro lado, um papel de parede com tinta spray é pos­sível de se lavar, e uma central telefônica é possível de se consertar. Objetos e pessoas não podem ser comparados. A vida é insubsti­tuível, já as coisas podem ser trocadas. "Um homem não merece morrer por causa de suas opiniões", pensou Nova. Um homem nunca merece morrer. Nova havia assassinado e não conseguia se perdoar, mesmo que a justiça a tivesse absolvido. Antes de chegar em casa, prometeu a si mesma uma coisa: pelo resto de sua vida, tentaria compensar isso.

Para sua mãe, já era tarde.

 

A casa na rua Prástgatan não transmitia mais a ameaça que Nova sentira na sua última visita. Era simplesmente uma casa vazia e velha, onde ela crescera. Agora que sabia que a mãe não era um fantasma, ela não estava mais com medo de entrar. Só de pensar que ela estava morta, Nova sentia outra vez a pontada de remorso de que tentava se livrar. As ações da mãe não eram culpa sua. Mas a mãe a havia salvado. Não tinha como negar. Isso a enternecia. De alguma forma, a mãe a havia amado. Fora capaz de morrer por ela, embora, quando viva, se recusasse a mostrar o seu ca­rinho. "Até que enfim", afirmou, mas desejava que nunca tivesse acontecido. Quando abriu a porta, ela percebeu que algo estava errado. A chave não virava. A porta estava destrancada. - Alô - ela gritou para a escuridão.

Nenhuma resposta. "Raios de policiais", pensou Nova, "eles deixaram a porta destrancada por vários dias." Tirou os tênis es­tragados e entrou na casa. Era tão estranhamente normal chegar em casa após os recentes acontecimentos. O ar parou. Nada fora mudado. Nova foi para a cozinha e acendeu a luz do teto. O fogão a gás era rápido. A chama na panela a acariciava como um assobio silencioso. Soava como uma respiração. Nova se virou. Não havia ninguém na entrada da porta. Ela balançou a cabeça censurando seu medo e pegou saquinhos de chá no armário. A água começou a ferver. Nova se virou novamente. As sombras brincavam no hall. Fixou o olhar, mas não viu nada além dos casacos pendurados nos ganchos. Sem querer, começou a pensar no tempo em que o cemitério da Catedral Storkyrkan se estendia por debaixo da casa. Depressa, colocou água na xícara.

Pegou a xícara com a bebida quente e saiu para o hall. Acendeu cuidadosamente as duas lâmpadas. Imediatamente, se sen­tiu melhor. A luz penetrou e removeu as ameaças. As sombras se transformaram em coisas e fatos. Nova decidiu acender mais luzes e entrou na biblioteca. Primeiro, acendeu a luz do teto, depois foi até a lâmpada pequena na mesa perto da poltrona para acendé-la.

Parou no meio do passo. Peter Dagon estava sentado na poltrona. Ela não conseguiu falar nada. Uma combinação de medo e sur­presa a fez ficar paralisada.

-              Boa noite - cumprimentou-a de forma educada, apon­tando uma arma para uma cadeira. - Por favor, sente-se.

Os olhos de Nova estavam fixos na pequena arma enquanto ela se movia de lado e se sentava.

Ouvi dizer que você entregou sua própria mãe, e agora ela está morta. Não foi amável - continuou ele, apontando incisivo com o dedo indicador -, mas isso, em si, é um bom sinal.

O que você quer dizer com isso? - Nova perguntou de for­ma defensiva.

Talvez haja um pouco mais de Nefilim em você do que eu pensava. Apesar de sua herança genética, você já mostrou tendên­cias preocupantes.

Nova pareceu entender ainda menos.

Você é o que se pode chegar mais perto, hoje, da raça pura de Nefilim. Tem havido uma mistura alarmante nos últimos dois séculos, mas você conseguiu se manter.

Diabos, você é louco Nova disparou com raiva.

É possível, mas você é... é mesmo. Por que não aproveita a oportunidade para se unir a nós? Você receberá mais recursos do que pode sonhar na luta contra o aquecimento global.

Na realidade, o que é que você pensa? - perguntou Nova. - O efeito estufa é um problema internacional, claro. E o que vo­cês esperam alcançar, matando algumas pessoas na Suécia?

Quem disse que só operamos na Suécia? Nosso orçamento é maior do que você pode sonhar.

Nova estudou Peter Dagon cuidadosamente e se perguntou se ele estava falando sério. Ele continuou:

-              Você poderia trabalhar no Greenpeace de forma inteiramente legal e habitual, mas com recursos muito diferentes. Toda aquela parte da herança de sua mãe que a FON recebeu já foi transferida. Posso lhe prometer que aquilo pode se transformar em muito mais.

Nova pensava no quanto eles poderiam fazer com essa quan­tidade de dinheiro. Que tipo de publicidade poderiam realizar e que ações. Era tentador. Mas então viu os cadáveres em sua frente: a arrumação obscena dos corpos na casa do diretor executivo da Vattenfall e a cabeça decepada de Waldemar Göransson em um lago de sangue. Tudo patrocinado e organizado pelo mesmo dinheiro.

-              Não, eu não posso concordar com isso - disse Nova. - Para mim, tem de haver um limite.

Peter suspirou pesadamente.

-              E essa é sua resposta final?

Nova olhou para trás, sem abrir a boca.

-              É uma pena que eu, que criei você, vou ter de te destruir -falou Peter, levantando a arma. — Você é muito perigosa para que eu te deixe viver.

Nova não entendeu, primeiro, o que ele quis dizer. Então ela viu seus olhos, as maçãs do rosto salientes e o cabelo dourado. Agora ela sabia de onde reconhecera Peter Dagon: do seu próprio reflexo.

 

Fachadas da década de 1930 se acumulavam do lado direito, ao longo da praia de Norr Mälarstrand, onde Amanda estava sentada no carro, a caminho de casa. Pequenas pontes e desembarcadou­ros cruzavam o lado esquerdo. O fluxo de pessoas caminhando ao longo da água tinha sido afugentado pelo começo precoce da noite que anunciava o outono. Um ou outro corredor noturno trilhava o caminho. Amanda tentou resumir os acontecimentos do dia. O tempo todo seu pensamento ia para Moses. O pai de seu filho era um criminoso. Ele a havia decepcionado. Tinha traí­do o filho deles. Havia algo muito, muito errado com ele. Até agora, ninguém além dela sabia quem era o pai de seu filho. Ela não conseguia pensar no que aconteceria se isso fosse divulgado. Por várias vezes, ela via, de novo, as costas largas de Moses a ca­minho do hotel.

Depois, pensou em seu encontro, alguns dias antes. O que havia sido um jogo erótico tinha agora um sabor horrível. Suas per­guntas inventadas tinham obtido respostas verdadeiras. Amanda pisou no freio com toda a força, subiu em cima da calçada e abriu a porta do motorista. No último segundo, teve tempo de se abai­xar e pôr a cabeça para fora da porta. Seu estômago dobrava em convulsões. O conteúdo foi esvaziado na sarjeta. Carros buzi­navam quando tinham que se desviar da porta aberta diretamente na rua. Amanda soltou um palavrão e limpou a boca com as costas da mão. Ela colocou a outra mão na barriga. Não queria prejudicar o bebê, mas não teve como evitar o acesso. Os pensa­mentos pararam. Ela não conseguia pensar em Moses e em como isso afetava sua vida. Não tinha forças para isso. Mas o seu sub­consciente estava trabalhando a toda velocidade. Outra preocu­pação cresceu forte.

Havia muitos fios que precisavam ser ligados, mas algo não se encaixava. Nova não havia falado que sua mãe tinha mais cúm­plices? Amanda tentara fazer com que ela ficasse para contar tudo de novo, mas em vão. Nova estava morta de cansaço, e Amanda tinha entendido o seu apelo para descansar. Ela fora para casa. "Não estou gostando disso", pensou Amanda. "Nova precisa ter proteção até resolvermos todos os detalhes." Amanda deu uma arrancada na saída, fez meia-volta, passou a fachada alta de tijolos da Câmara Municipal e foi em direção à Cidade Velha. Ao mesmo tempo, ligou para Kent e falou sobre as suas preocupações. Ele estava no mercado Ica Maxi fazendo uma compra grande, mas iria para a casa de Nova em uma hora, quando deixasse as compras em casa. Amanda recebeu a incumbência de, enquanto isso, divulgar a idéia de monitorar Nova.

 

A parte térrea da casa estava iluminada, e todo o resto, apagado. Amanda tinha esperança de que isso não significasse que Nova já tivesse ido dormir. Conseguiu perceber um movimento pela janela. Através da persiana se via o contorno da figura de Nova sentada. Ela parecia estar falando com alguém. Amanda ficou curiosa. Instintivamente, abriu a porta destrancada. Ouvia-se uma voz masculina grave e harmoniosa. Eles pareciam falar de um novo emprego para Nova. "Ela merece", pensou Amanda. "Nova merece um novo começo."

De repente, Amanda sentiu vergonha por estar ouvindo a conversa dos outros e pensou em como iria se apresentar, sem que desse para perceber que estava no hall por algum tempo. En­trou rápido para fingir que estava entrando pela porta da fren­te e passou pela porta da biblioteca. Um homem estava sentado na poltrona. Amanda nunca vira alguém mais bonito. O cabelo recém-penteado, olhos intensamente azuis e o terno sob medida impecavelmente passado. Sua aparência a fez ficar sem palavras. A única coisa que conseguiu falar bem baixinho foi:

- Olá.

Ele olhou para ela e respondeu.

Olhe só... olá! Que bom que você apareceu, Amanda, em boa hora.

Você sabe meu nome? - perguntou surpresa.

Parecia um elogio que ele soubesse quem ela era. O seu bra­ço direito se mexeu. Somente então Amanda percebeu o que ele tinha na mão. Uma pistola pequena de baixo calibre. Ele apontou primeiro para sua cabeça. Depois, abaixou em direção a sua bar­riga. Instintivamente, ela tentou protegê-la com as próprias mãos. Mas sem sucesso.

Um tiro foi disparado

A bala passou entre os dedos abertos e entrou em sua barri­ga imediatamente à direita do umbigo, rasgando e estraçalhando o seu interior. Amanda tombou para trás, ainda com as mãos con­vulsivamente segurando a barriga. A cabeça bateu duramente no batente. Sua consciência apagou ali.

 

Enquanto Peter dirigia sua atenção para Amanda, Nova viu a sua chance. Ela fez um último esforço desesperado para sobreviver. Dando um longo passo, alcançou a parede onde deixara o taco de golfe de ferro. Com um rugido, jogou-o contra Peter. Surpreso, ele olhou para ela. O taco de golfe o acertou na têmpora. A força o arremessou da cadeira para o chão. Nova levantou o taco nova­mente. Tomou força para bater no corpo deitado. O taco parou a dez centímetros da cabeça de Peter. Nova estava completamente sem fôlego. O único som na sala era o da sua respiração violenta. Ela olhou para o corpo imóvel de Peter Dagon. "Mais um... não, eu não posso ter feito isso de novo", pensou ela. Então, procurou com os olhos sinais de vida. O sangue pulsava ao sair do ferimento. "Isto significa que o coração está bombeando", pensou Nova. Para seu espanto, viu então que o fluxo de sangue cessou. "Ah, não", ela pensou, "ele não vai sobreviver." Retomando sua capacidade de ação, jogou o taco de golfe em um canto. Com as mãos trêmulas, pegou o celular do bolso e ligou para o número de emergência.

Enquanto esperava, ficou olhando fixamente para Peter. "Tem alguma coisa de errado", ela pensou. Então percebeu o que era. Já havia se criado uma crosta na ferida. Peter Dagon vivia. Mexeu um braço. Nova se moveu para trás, para a porta, mas pa­rou quando ouviu uma voz atrás dela. Ela estava tonta. Lá estava um homem grande e gordo. Era um policial, isso Nova sabia, ela o tinha visto na delegacia. A primeira coisa que o homem fez foi tirar a arma que havia caído da mão de Peter Dagon. Antes de se curvar sobre o corpo de Amanda, ele perguntou:

- Você chamou a ambulância?

Nova balançou a cabeça afirmativamente e depois caiu ao chão.

 

Os sonhos giravam em preto e branco. A dor era como uma linha vermelha que passava através deles. Ocasionalmente, a realidade surgia. Figuras brancas ondulavam acima de Amanda. Quanto mais perto chegavam, mais difícil era entender e focalizar. O tempo não tinha importância. Dias se passaram sem deixar mar­cas. Finalmente, ela acordou.

Lâmpadas fluorescentes, nuas, ofuscavam seus olhos desacostumados. O quarto era claro, mas frio e pequeno. Lá fora, a escuridão se aproximava da janela. Amanda levantou a mão para coçar a testa. Um tubo de borracha estava preso na parte supe­rior. "Eu acordei em um hospital", disse Amanda, enquanto seus olhos vasculhavam o quarto. Depois, seus pensamentos foram até o que tinha acontecido. Uma ponta de ansiedade atingiu seu cor­po. A mão foi até a barriga. Um curativo alongado passava perto do umbigo e ia até a lateral de seu corpo. Seu coração começou a bater apressado. A cabeça reagia à crescente pulsação com uma dor forte na parte de trás.

"O bebê", pensou Amanda, "o bebê!"

Tentou sentir, mas não entendeu os sinais do corpo. Em vez disso, jogou as pernas por cima da borda da cama para se levantar. A dor se espalhava para o diafragma. Amanda teve de se apoiar pesadamente nas mãos. Os joelhos faziam a maior parte do trabalho. Finalmente, conseguiu se levantar. A porta estava a apenas dois metros de distância, mas Amanda tinha de fazer um grande esforço para chegar lá. Os músculos das costas estavam doloridos e não compensavam a dor dos músculos abdominais. O tubo de borracha na mão a deteve. Olhou para o suporte onde a bolsa estava presa. Não pensou, mas agiu. A pontada de dor que sentiu quando retirou a agulha foi intensa, mas curta. Agora poderia andar o último trecho. Amanda caiu fora da porta, num corredor movimentado. Caiu pesadamente no chão, mas conse­guiu se virar para que o quadril e o ombro recebessem o impacto. Ela ainda defendia a barriga a todo custo. Uma enfermeira idosa foi socorrê-la.

- Mas, minha querida, o que você está fazendo aqui no chão? - perguntou, com preocupação.

-              A criança - disse Amanda -, o que aconteceu com meu filho?

-              Oh, pobre menina, eu vou buscar imediatamente o médi­co, mas primeiro precisamos colocá-la na cama.

-Você sabe se ele ainda está aqui? - Amanda perguntou, enquanto, com muito esforço, recebia ajuda até a cama.

-              É melhor que você fale sobre isso com seu médico - disse a enfermeira, lamentando.

Amanda traduziu pela resposta que a criança não tinha sobrevivido. Quando caiu na cama novamente, começou a chorar. Chorou por causa da criança, de Moses e dos sonhos destruídos. Nunca seria mãe, nunca, nunca tornaria a ser parte de uma famí­lia. Nunca. Estava velha demais. Era tarde demais. A criança tinha morrido. O choro aumentou. Os soluços cortavam a respiração. Era tarde demais para tudo.

Ouviu-se uma batida na porta. Sem esperar pela autorização de Amanda, a médica abriu a porta. Ela tinha a idade de Amanda, mas os cabelos brancos já se misturavam com seu cabelo escuro. A mulher esperou pacientemente Amanda se acalmar. Então disse:

-              Tenho más notícias, infelizmente.

"Foi como imaginei", pensou Amanda, "o bebê está mor­to." O choro começou novamente. A médica continuou mesmo assim.

-              A bala passou por um dos ovários e o destruiu em pedaços e mais um pouco. Tivemos que remover os dois ovários. O segun­do também recebeu alguns danos. Você não será capaz de ter mais filhos.

-              Então, eu estou estéril?

-              Sim, infelizmente é assim. Não vai poder ter mais do que um.

Amanda não entendeu: "Não mais do que um. O que ela quis dizer com isso?"

A médica viu seu olhar interrogativo e esclareceu:

- Sim, o menininho que você está gerando não vai poder ter irmãos.

 

Rebeca desempacotou suas caixas pela terceira vez, em dois anos. Com 23 anos de idade, no mercado de habitação de Estocolmo, ela estava destinada ao aluguel de segunda mão. O primeiro apartamento era até de terceira mão, sublocado sem a autorização do dono. Agora lhe tinham prometido que ela pode­ria morar por, pelo menos, um ano. Era um quitinete perto da ponte Lidingöbron. O caminho direto para Stureplan, assim ela o apresentou para as suas amigas. Ficar livre da constante busca por um apartamento era uma pausa bem-vinda após os recentes acontecimentos. Rebeca tinha ainda um grande curativo no bra­ço, mas não sentia o ferimento, a não ser quando coçava, graças ao processo de cura. Os pesadelos diminuíram, e ela não estava mais tão obcecada pela ideia de ter levado um tiro de um policial no aeroporto. Mas sentia falta da atenção. Não era todo dia que os repórteres dos jornais tinham motivos para falar dela. Após os pri­meiros dias do tumulto, isso havia parado completamente. Rebe­ca pensava seriamente em participar, no ano seguinte, do progra­ma "Fazendeiro procura esposa". Embora nenhum dos fazendei­ros lhe agradasse, seria divertido participar. Ela seguia o programa com grande interesse.

Na caixa que abriu havia um espelho com uma moldura dourada embrulhado em três camadas de jornal. Rebeca o tinha herdado de sua avó materna. Cuidadosamente, puxou o papel e saiu para o corredor. Após avaliar onde ficaria melhor, come­çou a colocar um prego na parede. Ganchos seria exagero. Pouco tempo depois, a campainha tocou, bem forte. "Ah, são aque­les vizinhos daqui", suspirou Rebecca para si, e se conteve para não xingar.

Do lado de fora estava uma mulher da sua idade, com a mes­ma altura. Mas seu cabelo era retorcido em dreads e tinha uma pele que Rebeca mataria para ter. A camiseta preta perguntava: "Who would Jesus bomb?" Havia algo de familiar em seu rosto, mas Rebeca não conseguia se lembrar de onde a vira. Baixou a guarda. Aquela garota não era alguém que se queixaria por seus vizinhos martelarem pregos na parede às nove horas da noite.

- Isso aqui é para você - disse a desconhecida e, num movimento brusco, lhe entregou uma caixa com chocolate ao leite Marabou. Depois, disse baixo: - Desculpe-me.

Antes que Rebecca tivesse tempo de perguntar, a mulher desapareceu. Olhou cética para o pacote de chocolate. Recente­mente, havia aprendido que não se deve aceitar presentes de es­tranhos. Fechou a porta e entrou na cozinha apertada do aparta­mento. Sentou-se e fitou o pacote. Seu estômago estava roncando. A boca se enchia de água só de pensar no chocolate ao leite. Rebe­ca tinha se esquecido de jantar. Cuidadosamente, abriu a tampa e olhou para o seu conteúdo. A caixa estava completamente cheia, mas não de doces. Notas e mais notas estavam empilhadas, umas sobre as outras. Notas de mil coroas em cima de mil coroas. Ca­biam quinhentas na caixa.

 

O verão quente havia se transformado num outono úmido. O sol que tinha queimado Estocolmo estava escondido por nuvens. A chuva acariciava lentamente as ruas de Gamla Stan e corria ao longo das calçadas e dos paralelepípedos. Quando o solo tinha oportunidade, sugava com sede as gotas que eram oferecidas. A natureza tinha um descanso antes do próximo inverno. Esse ano ele seria frio e com uma espessa camada de neve persistente, du­rante o Natal e o Ano-Novo. Os gases de efeito estufa ainda não haviam mudado Estocolmo para o Mediterrâneo; ainda existia uma chance para a Terra se recuperar. Era hora de Nova dizer adeus à sua infância. Antes de abrir a porta, virou o rosto para o céu e deixou que as gotas de chuva caíssem sobre a sua pele. Res­pirou profundamente e entrou para o que ela uma vez chamara de lar. Agora era um monumento sobre memórias desagradáveis e uma infância que ela gostaria de poder trocar.

Um cheiro de faxina recém-feita e de limpa-vidro a atin­giu. Na parede do hall estava pendurada uma série de pinturas de Edgar Degas, com bailarinas. O corretor tinha mencionado que eles ficariam ali porque chamariam a atenção de um grupo ligado às artes plásticas, o principal interessado na casa. Mas, agora que Nova via com seus próprios olhos, era um contraste tão grande em comparação com o que estava pendurado antes que ela parou repentinamente. Saias brancas e leves esvoaçavam contra as pernas graciosas. O sol da manhã brincava nas salas de aula, com as meninas em fila. Cadarços amarrados em torno dos finos tornozelos prendiam as sapatilhas das bailarinas. A luz se transformou em escuridão. Em vez dos olhos cintilantes dasmeninas, buracos negros e vazios olhavam fixamente. Intestinos saíam das barrigas abertas. Cordeiros atropelados se espalha­vam pela rua.

Nova fechou os olhos com força e abriu-os novamente. As bailarinas de Degas estavam novamente nas paredes. Os quadros de William Hogarth, que apareceram na memória de Nova, tinham ido embora. As pinturas claras, graciosas, os haviam substituído; na verdade, os quadros de Hogarth estavam quebrados e dentro de sacos de provas na delegacia de polícia e nunca mais voltariam.

Nova continuou e subiu para seu antigo quarto. Uma corti­na clara balançava na frente da janela entreaberta. Lá fora se ouvia a chuva tranquilizadora batendo entre as paredes do beco. Sobre a cama havia uma colcha branca macia e almofadas de cores so­lares. A única coisa que restara do antigo mobiliário era o pôster com o navio no gelo da Groenlândia. Uma moldura estreita de prata corria ao longo de suas bordas. A Home-Staging[13] tinha feito um bom trabalho, pensou Nova. No meio do chão estava uma mala cinza com suas roupas. Nova tinha dado instruções rigo­rosas por telefone sobre o que seria guardado. Podiam fazer o que quisessem com o restante, antes da demonstração, tinha dito. Mas, para ter certeza, abriu a mala.

Suas roupas favoritas estavam cuidadosamente dobradas. Alguns enfeites estavam entre elas. Os contornos de um objeto em formato A4 aparecia através do tecido num compartimento interno. Nova puxou o zíper e tirou o conteúdo. Era uma pasta que ela conhecia muito bem, identificada como "The Ararat Anomaly". "Como veio parar aqui?", pensou. Rapidamente, colocou a pasta de volta, como se estivesse queimando. Para evitar todas as memórias que a invadiam, fechou cuidadosamente o zíper. Pegou a mala e levou-a para o hall.

Antes de deixar a casa, entrou na cozinha para tomar um copo de água. Tachos de cobre e conchas estavam polidos e pendurados em fileiras ao longo da parede. Uma toalha quadriculada adornava a mesa de carvalho maciço. As cortinas estavam recém-lavadas e passadas. Todo o ambiente era aconchegante. Nova co­locou uma panela com água no fogão, pegou sua xícara de flores favorita e só aí percebeu o que fizera. "Ah, eu não tenho tempo para esperar", pensou, enquanto procurava um coador para o chá. Estava onde sempre costumava ficar. Nova deixou os dedos desli­zarem sobre as portas da velha cozinha. Os puxadores e os botões recém-polidos brilhavam. A água na panela borbulhava, e a cha­ma de gás brincava embaixo do seu fundo.

Quando a xícara estava cheia de chá quente, Nova desceu as escadas do porão. O sofá velho ainda estava de pé, mas não levantou poeira quando ela se jogou nos seus braços. Em vez de paredes sujas, de cor cinza, agora eram amarelo-claras. Pinturas com motivos da natureza, de todo o mundo, estavam penduradas em grupos. Ao lado da TV havia alguns vasos com gargalo alto. O celular de Nova tocou, e ela atendeu. O corretor lhe disse que tudo estava pronto para a demonstração no dia seguinte. Cerca de vinte pessoas já haviam avisado que iriam. Mas certamente vá­rias ligariam na última hora. Alguns dos nomes, ele conhecia de exibições anteriores, e sabia que eram ricos e interessados numa peça tão original como a casa de Nova. Não era comum que uma casa do século XV estivesse à venda. Tudo fora planejado para um leilão emocionante. A voz do corretor tremia de orgulho. Ele esperava reconhecimento e uma boa comissão no final do negócio.

Nova olhou para sua coleção de filmes, sua xícara de chá florida e as almofadas do sofá gasto. Pensou nas claras bailarinas, na mesa de carvalho da cozinha e no seu quarto branco. Então disse:

- A casa não está mais à venda.

 

Um ou outro botão já explodira numa cascata verde. A primavera tinha se espalhado ao longo de Estocolmo. O Kronobergsparken oscilava entre cinza e verde. O sol aquecia o solo congelado. O parque estava cheio de moradores da cidade que tinham saído das suas tocas. Rostos pálidos se viravam para o sol e riam na frente da luz. Amanda subia com dificuldade a alta colina. Sentia o corpo cansado e pesado. O sono da noite tinha sido picado em peque­nos pedaços. Os bicos dos seios ardiam por causa das feridas.

Empurrava um carrinho de bebê. O garotinho caíra no sono tranquilamente, com a cabeça encostada no saco de dormir. "Por que ele não dorme assim tão tranquilo quando eu vou dormir?", Amanda se perguntou cansada. Seu humor sumira por causa do assunto que a aguardava. Era a primeira vez em que era chama­da para ser interrogada. Não estava achando isso divertido, espe­cialmente durante a licença-maternidade. As feridas iriam ser re­mexidas. Voltou a pensar naquilo que quase conseguira esquecer. Como ela tinha visto Moses ameaçar Nova e atirar na sua mãe. Depois aquele homenzarrão tentou fugir e apontou a arma para um policial. Kent atirou na perna dele antes que houvesse mais vítimas. Durante a investigação, também descobriram que ele ti­nha enviado para a cremação o corpo de outra mulher, em vez do de Elisabeth Barakel. Ninguém sabia ainda de onde viera o cadá­ver, e Moses não respondia às perguntas. O promotor queria que ele fosse condenado por homicídio, o seu advogado argumentava que ele era mentalmente instável. Aos olhos de muitos, atirar em um assassino em série era compreensível.

Amanda não sabia o que pensar, mas uma coisa era certa: Moses jamais chegaria perto do seu filho. Muito menos a criança chegaria perto de Peter Dagon, que quase tirara a vida de ambos. Amanda se encheu de um ódio intenso. O homem estava preso na cadeia e ela torcia para que continuasse assim. Ao pensar em Peter, Amanda apalpou o lugar em que ficava sua arma de serviço, apesar de fazer muito tempo que não a carregava consigo. Após o tiroteio, havia pedido licença médica, o que a deixara muito feliz. O emaranhado que ela deixou seria difícil de desvendar. Não de­sejava a nenhum policial o que Kent considerava uma das maio­res investigações na Suécia em todos os tempos.

Um movimento agitou o carrinho. O saco de dormir se mexia. A chupeta caiu da boca do bebê. Seus olhos azul-claros olhavam para ela. Uma expressão feliz surgiu no rostinho dele. Os problemas de Amanda desapareceram com o primeiro sorriso de seu filho. Uma mulher jovem, de casaco preto de inverno, vinha na direção deles. "Será que vale a pena?", pareciam perguntar os olhos dela quando olharam para dentro do carrinho. "Sim", pen­sou Amanda, e lhe sorriu.

Mais de mil vezes.

 

         THE NEW YORK TIMES

Lobista do petróleo modificou uma pesquisa ambiental.

WASHINGTON. Um ex-lobista de petróleo do governo Bush modificou documentos oficiais relativos à mudança climá­tica. A ligação entre os gases de efeito estufa e o aqueci­mento global foi atenuada.

 

O chefe do Conselho da Casa Branca sobre questões ambientais, Philip Cooney, modificou os relatórios de pesquisa so­bre a degradação ambiental, atenuando os riscos e acentuando as incertezas nas pesquisas. Philip Cooney é advogado e não tem nem formação nem fez pesquisa nessas questões. Trabalhou ante­riormente no American Petroleum Institute, como lobista para a indústria do petróleo americana, para aumentar a incerteza cres­cente sobre a existência de qualquer impacto sobre o clima que tenha sido provocado pelo homem.

"É óbvio que Cooney ainda está trabalhando para o seu an­tigo empregador", afirmou Kert Davies, diretor de pesquisa do Greenpeace nos Estados Unidos. "É como se o American Petro­leum continuasse trabalhando na Casa Branca."

O New York Times publicou documentos nos quais apare­cem notas manuscritas de Philip Cooney nos relatórios de pesquisas governamentais. Ele inseriu, por exemplo, "significantes e fundamentais" antes da palavra incerteza, num trecho sobre pro­vas da alteração climática. Outro exemplo é que ele inseriu a pa­lavra "extremamente" na frase seguinte: "É extremamente difícil provar a ligação entre as mudanças ecológicas e biológicas e as flutuações no clima."

Philip Cooney também é apontado como um filtro daquilo que podia e do que não podia ser dito sobre a questão do aque­cimento global. A política da administração Bush sobre questões ambientais é uma cópia do que o lobby americano de petróleo tem dito. O foco sempre esteve sobre as incertezas nas questões de pesquisa ambiental e sobre o quanto as pesquisas são necessá­rias para se tomar decisões. Durante seus primeiros meses, como presidente, George W. Bush rejeitou o Protocolo de Kyoto sobre alterações climáticas, no qual as reduções globais de emissão fo­ram especificadas. Na semana passada, durante uma reunião com Tony Blair, Bush sublinhou a necessidade de mais investigação.

"É mais fácil resolver um problema quando você sabe muito sobre ele", disse George Bush.

 

DN.se

(Jornal Dagens Nyheter)

Colaborador próximo de Bush foi encontrado morto.

WASHINGTON. Um colaborador próximo de George Bush foi encontrado morto fora de sua casa. A Agência de Notí­cia AP diz que o corpo tinha vestígios de espancamento e facadas. A caça ao assassino já começou.

 

A mulher de Philip Cooney alertou a polícia quando o ma­rido não voltou do trabalho na quinta-feira. Mais tarde, naquela noite, seu corpo foi encontrado no terreno do casal. Cooney tinha 39 anos. A polícia não tem suspeitos, ainda. Cooney é conhecido como conselheiro de política climática de George Bush. Sua po­sição polêmica sobre alterações climáticas tem sido questionada por organizações ambientais. Ele foi um dos mentores para que George Bush ficasse fora do acordo de Kyoto. Cooney já traba­lhou como lobista no American Petroleum Institute.

"É importante que não cedamos aos terroristas", disse Bush, pela manhã, em um discurso emocionado.

 

[1] Stora Gramunkegränd: Grande Beco dos Monges Franciscanos. (N. T.)

[2] "The Final Countdown" (A contagem regressiva final) é uma música da banda sueca de hardcore europeu que fala sobre viajar ou fugir para Vênus de foguete. (N. T.)

[3] Birger Jarl era o braço direito do rei Erik XI. Nasceu de uma família nobre, provavelmente em 1210. Faleceu em 12 de outubro de 1266. A partir de 1248, foi nomeado conde (Jarl). Fundou a cidade de Estocolmo por volta de 1252. (N. T.)

[4] Norma internacional reconhecida que determina diretrizes sobre gestão ambiental. (N. E.)

[5] "Undecimber" é o nome de uma banda sueca de metal gótico. A palavra Undecimber signi­fica o décimo terceiro mês. A banda tirou o nome da história de Júlio César (800 a.C.), que, com sua mania de grandeza, quis criar um décimo terceiro mês. (N. T.)

[6] Gollum ou Sméagol é um personagem criado pelo escritor, professor e filólogo sul-africano J. R. R. Tolkien, que aparece no livro O Hobbit e na trilogia O Senhor dos Anéis. (N. T.)

[7] Anders Zorn: pintor sueco nascido em Mora, em 1860, que ganhou reputação como um artista de retratos. (N. T.)

8 Estocolmo, fica em Gamla Stan. O nome vem da ordem dos dominicanos.

[9] Riddarholmen significa, em sueco, ilhota do cavaleiro. É uma ilhota situada no centro de Estocolmo, um bairro da cidade desde 1905. Situa-se no lago Málaren, junto ao bairro de Gamla Stan.

[10] Eu hoje me machuquei/ para ver se ainda sinto/ E me concentro na dor/ a única coisa real.

[11] O que eu me tornei?

[12] Êxodo 21:24. (N. T.)

[13] Home-Staging é uma empresa que prepara o imóvel para venda.

 

                                                                                Asa Schwarz  

 

                      

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